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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


POSSESSÃO SOMBRIA / Christine Feehan
POSSESSÃO SOMBRIA / Christine Feehan

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Manolito da Cruz despertou sob a terra escura com o coração palpitando no peito e com lágrimas de sangue sulcando o rosto, afligido pelo pesar. O grito desesperado de uma mulher fazia eco em sua alma, rasgando-o, lhe repreendendo, lhe afastando da beira de um grande precipício e estava morrendo de fome.

Cada célula de seu corpo implorava sangue. A fome lhe roia com garras desumanas, até que uma vermelha neblina lhe cobriu a visão e sua pulsação bateu forte pela necessidade de conseguir alimento imediatamente. Desesperado, explodiu as cercanias de seu lugar de descanso, procurando a presença de inimigos sem encontrar nenhum, então atravessou como um foguete às ricas camadas de terra, para o ar. O coração trovejava nos ouvidos enquanto sua mente gritava.

Aterrissou em meio a densos arbustos e espessa vegetação e lançou um lento e cuidadoso olhar ao redor. Por um momento tudo pareceu equivocado... macacos estavam em algazarra, pássaros em alvoroço numa advertência, a exalação de um predador maior, inclusive o arrastar dos lagartos através da vegetação. Supunha que não deveria estar ali. Na selva tropical. Seu lar.

Sacudiu a cabeça, tentando esclarecer sua fragmentada mente. Do que recordava com claridade era interpor diante de uma mulher grávida dos Cárpatos, protegendo tanto a mãe quanto o filho em seu ventre, de um assassino. Shea Dubrinsky, a companheira de Jacques, cujo irmão era o príncipe dos Cárpatos. Naquele momento estava nas Montanhas dos Cárpatos, não na América do Sul, que agora chamava de seu lar.

Repassou as imagens em sua cabeça. Shea entrara em trabalho de parto na festa. Ridículo! Como podiam manter as mulheres e crianças a salvo em meio a semelhante loucura? Manolito tinha pressentido o perigo, o inimigo movendo entre a multidão, espreitando Shea. Distraiu, deslumbrado por cores, sons e emoções que se vertiam sobre ele chegando de todas as direções. Como era possível? Os antigos caçadores Cárpatos não sentiam emoções e viam tudo em tons de cinza, branco e negro… ainda assim... recordava claramente que o cabelo de Shea era vermelho. De um brilhante vermelho.

 

 

 

 

As lembranças se dispersaram quando a dor explodiu atravessando-o, fazendo com que se dobrasse sobre si mesmo, enquanto ondas de debilidade o golpeavam. Encontrou no solo sobre as mãos e os joelhos, com o estômago encolhido em duros nós e as vísceras pesadas. Um fogo queimava em seu interior como veneno. As enfermidades não atacavam a raça dos Cárpatos. Não podia haver contagiado com enfermidade humana. Isto era provocado por um inimigo.

Quem teria me feito isto? Apertou os brancos dentes numa amostra de agressividade, com os incisivos e caninos afiados e letais enquanto olhava com ferocidade a seu redor. Como tinha chegado aqui? Ajoelhando na terra fértil, tentou decidir o que fazer.

Outro raio de dor fustigou suas têmporas, enegrecendo a verdade. Por que estava na selva quando deveria estar nas montanhas dos Cárpatos? por que tinha sido abandonado por sua gente? Por seus irmãos? Sacudiu a cabeça em negação, embora lhe custou muitíssimo, já que sua dor se incrementou e parecia que estavam cravando pregos na cabeça.

Estremeceu quando as sombras se arrastaram aproximando, rodeando-o, tomando forma. As folhas rangeram e os arbustos se moveram, como tocados por mãos invisíveis. Os lagartos saíram disparados sob a vegetação podre e se afastaram correndo assustados.

Manolito se ergueu para trás e novamente olhou cautelosamente a seu redor, desta vez examinando sobre e clandestinamente, esmiuçando a região. Havia somente sombras. Nada de carne e sangue que indicasse que havia um inimigo perto. Tinha que se controlar e averiguar o que estava acontecendo antes que se fechasse a armadilha… E estava seguro de que havia uma armadilha e de que estava a ponto de ficar completamente preso.

Em tudo o tempo que caçara ao vampiro, Manolito tinha saído ferido e envenenado em muitas ocasiões, mas tinha sobrevivido porque sempre usava o cérebro. Era hábil, sagaz e muito inteligente. Nenhum vampiro ou mago ia superar-lhe, estivesse doente ou não. Se estava se alucinando, tinha que encontrar a maneira de romper o feitiço para proteger -se.

As sombras se moveram em sua mente, escuras e malignas. Olhou a seu redor, ao nascimento da selva e em vez de ver um lar acolhedor, viu as mesmas sombras movendo… Tentando alcançá-lo… tratando de apanhá-lo com suas ambiciosas garras. As coisas se moviam, gemiam e criaturas desconhecidas se reuniam entre os arbustos, no passar do terreno.

Não tinha sentido, não para um de sua espécie. À noite lhe deveria ter lhe dado boas vindas… reconfortando-o. Envolvendo-o em seu rico manto de paz. À noite sempre lhe tinha pertencido, a ele… A sua gente. Deveria ter lhe enchido de informação a cada respiração que tomava em seu corpo, mas na vez disso, sua mente lhe jogava coisas passadas, via coisas que não deveriam estar ali. Podia ouvir uma escura sinfonia de vozes que o chamavam, os sons aumentaram de volume até que sua cabeça palpitou com gemidos e lastimosos gritos. Dedos ossudos roçaram sua pele, patas de aranha se arrastaram sobre ele, fazendo com que se retorcesse, sacudindo os braços, golpeando o peito e esfregando-a costas vigorosamente num esforço em afastar as invisíveis teias de aranha que pareciam grudadas em sua pele.

Estremeceu novamente e forçou ao ar a entrar em seus pulmões. Tinha que estar se alucinando, cativo na armadilha de um professor vampiro. Se esse fosse o caso, não podia chamar seus irmãos pedindo ajuda até que soubesse se ele era o chamariz que os atrairia também a teia da aranha.

Segurou a cabeça com força e forçou a sua mente a acalmar. Recordaria. Era um antigo Cárpato enviado longe pelo anterior Príncipe, Vlad, a caçar o vampiro. Fazia séculos que o filho de Vlad, Mikhail, tinha assumido o governo de seu povo. Manolito sentiu uma das peças encaixar enquanto uma parte de sua memória voltava para seu lugar. Estivera longe de seu lar na América do Sul. Havia sido convocado pelo para uma reunião nas Montanhas dos Cárpatos, uma celebração da vida já que a companheira de Jacques ia dar a luz a um menino. Embora agora parecia estar de retorno à selva tropical, num lugar que lhe resultava familiar. Poderia estar sonhando? Nunca tinha sonhado antes, não que recordasse. Quando um homem dos Cárpatos ia para a terra, fechava seu coração, seus pulmões e dormia como se estivesse morto. Como podia estar sonhando?

Uma vez mais se arriscou a um olhar pelos arredores. Seu estômago se revolveu quando as brilhantes cores o deslumbraram, fazendo com que lhe doesse à cabeça e sentisse náuseas. Depois de séculos de ver em branco e negro com sombras de cinza, agora a selva circundante luzia numa raivosa cor, tons de vívidos verdes, num desenfreio de flores de cores derramando pelos troncos das árvores junto com as trepadeiras. Sua cabeça pulsava e lhe ardiam os olhos. Escapavam gotas de sangue como lágrimas, percorrendo seu rosto, tanto que entortava os olhos na tentativa de controlar a sensação de vertigem, enquanto examinava a selva tropical.

As emoções o alagaram. Saboreou o medo, algo que não tinha conhecido desde que era menino. O que estava acontecendo? Manolito lutou por concentrar sobre o amontoado de pensamentos em sua mente. Esforçou em manter a raia o lixo e em concentrar no que sabia de seu passado. Colocou diante de uma senhora idosa, possuída por um mago justo quando ela empurrava uma arma envenenada para Jacques e o filho nonato de Shea. Sentiu a comoção quando a arma entrou em sua carne, a torção e o rasgo que provocou a lamina serrada ao cortar através de seus órgãos, lhe rasgando o estômago. O fogo ardeu em seu interior, estendendo rapidamente enquanto o veneno abria passo por seu sistema nervoso.

O sangue tinha deslocado em rios e a luz se desvaneceu rapidamente. Ouvira vozes chamando-o, cantarolando e tinha sentido seus irmãos estendendo para ele para tratar de retê-lo neste mundo. Recordava tudo muito claramente, o som das vozes de seus irmãos lhe implorando… Não… Lhe exigindo que ficasse com eles. Encontrou -se num reino tenebroso, com sombras flutuando e estirando. Esqueletos. Ameaçadores dentes pontiagudos. Garras. Aranhas e baratas. Víboras vaiando. Os esqueletos aproximando cada vez mais até que…

Fechou sua mente ao que lhe rodeava, A todos os caminhos mentais compartilhados, para não dar oportunidade a ninguém de alimentar de seus próprios medos. Tinha que ser uma alucinação provocada pelo veneno que recobria a lamina da faca. Não importava que tivesse conseguido evitar que entrasse em seu cérebro… Algo malicioso já estava presente.

O fogo o rodeou, as chamas crepitaram estirando avidamente para o céu e estendendo para ele como línguas obscenas. Saindo da conflagração, emergiram mulheres. As mulheres que tinha utilizado para alimentar durante os séculos passados, há muito mortas para o mundo. Começaram a amontoar a seu redor, com os braços estirados, as bocas abertas desmesuradamente, enquanto se inclinavam para ele, mostrando seus atributos através de vestidos que aderiam a seus corpos. Sorriam e lhe faziam gestos, com os olhos totalmente abertos, sangue correndo pelo flanco de seus pescoços… Tentando-o... Tentando-lhe. A fome ardeu, rabiou. Cresceu até converter num monstro.

Enquanto olhava, elas o chamavam sedutoramente, gemendo e retorcendo como em êxtase sexual. Tinha muitos pecados pelos quais responder, muitos atos escuros que manchavam sua alma, mas este não. Não deste, do quais estas mulheres sensuais e de bocas ambiciosas o acusavam. Grunhiu-lhes, levantou a cabeça com orgulho e enfrentou diretamente seus frios olhos. Sua honra estava intacta. poderiam dizer muitas coisas dele. Poderiam julgá-lo por outras mil coisas distintas e lhe encontrar culpa, mas nunca havia meio tocado uma inocente. Nunca tinha permitido que uma mulher pensasse que talvez poderia apaixonar por ela. Tinha esperado fielmente sua companheira, ainda sabendo que as possibilidades de encontrá-la alguma vez eram muito pequenas. Não tinha havido nenhuma outra mulher Apesar do que pensava tudo mundo. E não haveria nunca. Sem importar suas outras faltas, não trairia sua mulher. Nem de palavra, nem de fato e nem sequer com o pensamento.

Apesar de que duvidasse que ela nasceria algum dia.

- Manolito. Elevaste logo. Devia ter permanecido na terra umas semanas mais. Gregori disse que nos assegurássemos que não se elevasse muito cedo.

Os olhos de Manolito se abriram de repente e olhou cautelosamente ao seu redor. A voz tinha o mesmo timbre que a de seu irmão mais jovem, Riordan, mas estava distorcida e lenta, cada palavra se alongava de modo que a voz, em vez de ressonar com familiaridade, parecia demoníaca. Manolito sacudiu a cabeça e tratou de levantar. Seu corpo, normalmente elegante e poderoso, sentia fraco e estranho enquanto caía outra vez sobre seus joelhos, muito fraco para se levantar. Seu estômago se contraiu, revolveu. O ardor se estendeu por seu sistema.

- Riordan. Não sei o que me está acontecendo. - Utilizou o atalho mental que só usavam seu irmão mais jovem e ele. Tomou cuidado de evitar que sua energia mostrasse por esse atalho. Se isto fosse uma elaborada armadilha, não atrairia Riordan a ela. Queria a seu irmão demais, para isso.

A idéia fez com que seu coração se detivesse.

Amor.

Sentia amor por seus irmãos. Irrefreável e real. Tão intenso que lhe deixou sem fôlego, como se a emoção esteve acumulando através dos longos séculos, ganhando força atrás de uma sólida barreira onde não podia acessar. Havia só uma pessoa no mundo que poderia ter restaurado as emoções para ele. Aquela a qual estava esperando há séculos.

Sua companheira.

Pressionou a mão firmemente contra o peito. Não cabia nenhuma dúvida de que era real. A capacidade de ver cores, de sentir emoções, Todos os sentidos que tinha perdido nos primeiros duzentos anos de sua vida haviam sido restaurados por causa dela.

Então por que não podia recordar a mulher mais importante de sua vida? por que não podia visualizá-la? E por que estavam separados? Onde estava ela?

- Você deve voltar para a terra, Manolito. Não pode te elevar. Viajaste longe, no reino das almas. Sua viagem não se completou. Deve te dar mais tempo.

Manolito se retirou imediatamente ante o toque de seu irmão. Era o atalho correto. A voz seria a mesma se não a ouvisse em câmara lenta. Mas as palavras... A explicação estava errada. Tinha que estar. Não podia ir até o reino das almas A menos que estivesse morto. E ele não estava morto. Seu coração batia forte, ruidosamente... Muito ruidosamente. A dor de seu corpo era real. Tinha sido envenenado. Sabia que o veneno ardia ainda Através de seu sistema. E como podia ser, se tinha sido curado apropiadamente? Gregori era o maior curador que os Cárpatos já tiveram. Não teria permitido que o veneno permanecesse em seu corpo, sem importar o risco par-se.

Manolito arrancou a camisa do corpo e baixou o olhar para as cicatrizes de seu peito. Os Cárpatos raramente luziam cicatrizes. A ferimento estava sobre seu coração, uma cicatriz trincada e feia, que dizia tudo. Um golpe mortal.

Poderia ser verdade? Tinha morrido e haviam lhe trazido de volta ao mundo dos vivos? Nunca tinha ouvido falar de uma proeza semelhante. Corriam rumores é obvio, mas não sabia que fosse possível. E sua companheira? Deveria ter viajado com ele. O pânico afiou sua confusão. A dor lhe pressionou com força.

- Manolito.

A voz de Riordan era exigente em sua cabeça, mas estava ainda distorcida e lenta. Manolito levantou a cabeça de uma vez e seu corpo tremia. As sombras se moveram outra vez, deslizando através de árvores e arbustos. Cada músculo de seu corpo se contraiu. E agora? Desta vez sentiu o perigo quando as formas começaram a perfilar num círculo a seu redor. Dúzias deles, centenas, milhares inclusive, não havia nenhuma possibilidade de escapar. Olhos vermelhos ardendo com ódio e maliciosa intenção. Oscilavam como se seus corpos fossem muito transparentes e finos para resistir a leve brisa que açoitava as folhas da canopia sobre deles. Vampiros cada um deles.

Reconheceu-os. Alguns eram relativamente jovens para os padrões Cárpatos, e alguns muito velhos. Alguns eram amigos da infância e outros professores ou mentores. Tinha matado a cada um deles sem compaixão ou remorso. Fizera-o rápida e brutalmente, de qualquer maneira que pôde.

Alguém o assinalou com um dedo acusador. Outro vaiou e cuspiu com raiva. Seus olhos, profundamente nas conchas. Não eram olhos absolutamente, mas charcos resplandecentes de ódio, envoltas em sangue vermelho.

- É como nós. Pertence-nos. Una-te a nossas filas. - Gritou um.

- Acha-se melhor que nós. Nos olhe. Matou uma e outra vez. Como uma máquina, sem nenhum pensamento para o que deixava para trás.

- Tão seguro de ti mesmo. Tudo enquanto matava seus próprios irmãos.

Por um momento o coração de Manolito palpitou tão forte em seu peito que temeu que pudesse lhe explodir através da pele. A dor o afligia. A culpa lhe carcomia. Tinha matado. E não havia sentido nada enquanto o fazia, caçando cada vampiro, de um num e lutando com seu intelecto e habilidade superior. Caçar e matar eram necessário. O que ele pensava sobre o tema não importava o mínimo. Tinha que fazer.

Ficou em pé em toda sua estatura, forçando seu corpo a permanecer reto enquanto suas vísceras se contraiam. Sentia o corpo diferente, pesado e fraco, inclusive. Enquanto se apoiava sobre as pontas dos pés, sentiu que os tremores começavam.

- Escolheu seu destino, morto. Eu somente fui o instrumento de justiça.

As cabeças se inclinaram para trás sobre os longos e finos pescoços, e os uivos rasgaram o ar. Sobre eles, os pássaros se elevaram da canopia, elevando o vôo ante a horrível cacofonia de chiados que aumentavam de volume. O som sacudiu seu corpo, fazendo com que seu interior amolecesse. Uma artimanha de vampiro, estava seguro. Sabia em seu coração que estava acabado... Havia muitos para matar... Mas levaria com ele, tantos como fosse possível, liberando o mundo de criaturas tão perigosas e imorais.

- O mago deve ter encontrado um modo de ressuscitar os mortos. - Sussurrou a informação em sua cabeça. Precisava que Riordan contasse a seus irmãos mais velhos. Zacharias enviaria uma advertência ao príncipe anunciando que exércitos de mortos estavam elevando-se uma vez mais contra eles.

- Está seguro disso?

- Matei estes séculos passados, mas me rodeiam com seus olhos acusadores, atraindo-me como se eu fosse um deles.

De uma grande distancia, Riordan ofegou e pela primeira vez, soou como o amado irmão de Manolito.

- Não pode escolher lhes entregar sua alma. Estamos perto, Manolito. Encontrei minha companheira e Rafael encontrou a dele. É só questão de tempo para ti. Deve agüentar. Estou chegando.

Manolito grunhiu, jogando a cabeça para trás com um rugido de raiva.

- Impostor. Não é meu irmão.

- Manolito! O que diz? É obvio que sou seu irmão. Você está doente. Estou indo para ti a toda pressa. Se os vampiros estão jogando contigo...

- Como faz você? Cometeste um terrível engano, maligno. Tenho companheira. Vejo suas imundas abominações em cor. Rodeiam-me com seus dentes vis manchados de sangue e seus corações enegrecidos, ressecados e enrugados.

- Não tem companheira. - Negou Riordan. - Só tnum sonho sobre ela.

- Não pode me confundir com tal engano. Vá com seu professor de marionetes e lhe diga que não sou tão fácil de apanhar.

Ele rompeu a conexão mental imediatamente e fechou todos os caminhos, particulars e comuns a sua mente.

Girando, concentrou em seu inimigo, que tinha tomado a forma de tantas faces de seu passado que soube que se estava enfrentando a morte.

- Vamos lá então, dançem comigo como tem feito tantas vezes. - Ordenou e lhes fez gestos com os dedos.

A primeira linha de vampiros, mais próxima a ele riu, a saliva corria por suas faces e os buracos que eram seus olhos resplandeciam com ódio.

- Uma-se a nós, irmão. É um dos nossos.

Cambalearam, seus pés levavam a cabo o estranho e hipnótico padrão do não morto. Ouviu-os lhe chamando, mas o som estava mais em sua mente que fora dela. Sussurros. Zumbidos. Tecendo um véu sobre sua mente. Sacudiu a cabeça para esclarecê-la, mas os sons persistiam.

Os vampiros se aproximaram mais e agora podia sentir a ondulação das andrajosas roupas, rasgadas e puídas pela idade, roçando contra sua pele. Uma vez, mais a sensação de insetos arrastando sobre a pele o alarmou. girou, tentando manter o inimigo a vista, enquanto as vozes cresciam em intensidade, mais claras.

- Una-se a nós. Sinta. Tem fome. Morre de fome. Podemos sentir como gagueja seu coração. Necessita de sangue fresco. A adrenalina no sangue é o melhor. Pode senti-la.

- Una-se a nós! – Clamavam. A súplica ganhou volume até converter numa onda que se chocou contra ele.

- Sangue fresco. Tem que sobreviver. Só uma prova. Uma única prova e o medo. Deixa que o vejam. Permita-lhes sentir medo e o poder não se parecerá com nada que haja sentido antes.

A tentação fez com que sua fome crescesse até que não pôde pensar além da vermelha neblina de sua mente.

- Olhe-se, irmão, observe sua face.

Manolito encontrou sobre o chão, sobre as mãos e joelhos como se o tivessem empurrado, mas não havia sentido o empurrão. Ficou olhando fixamente para a enorme quantia de água que se estendia ante ele. A pele de sua face estava colada sobre seus ossos. Sua boca se em protesto e não só seus incisivos mas também também seus caninos se alongaram e afiaram com espera.

Ouviu o batimento de um coração. Forte e firme. Atraindo-lhe. Chamando-lhe. Fez-lhe a boca água. Estava desesperado... Tão faminto que não havia nada a fazer exceto caçar. Tinha que encontrar uma presa. Tinha que morder um suave e quente pescoço de modo que o sangue quente entrasse em sua boca, enchesse cada célula e se espalhasse através de seus órgãos e tecidos e alimentasse a tremenda força e poder dos de sua raça. Não podia pensar em nada que não fosse a terrível fome inflamando, elevando igual à maré para lhe consumir.

O batimento do coração aumentou em intensidade e lentamente ele girou a cabeça enquanto uma mulher era empurrada para ele. Parecia assustada... E inocente. Seus olhos escuros eram poços de terror. Podia sentir a adrenalina correndo através de sua corrente sangüínea.

- Una-se a nós. Una-se a nós - Sussurravam eles e o som se elevava num hipnótico canto.

Necessitava do escuro e rico sangue para viver. Merecia viver. O que era ela afinal? Débil e assustada, ela podia salvar a raça humana dos monstros? Os humanos não acreditavam em sua existência. E se tivessem conhecide Manolito, haveriam…

- Mate-a. - Vaiou um.

- Torture-a. - Vaiou outro- . Olhe o que lhe têm feito. Está morto de fome. Quem o ajudou? Seus irmãos? Os humanos? Nós lhe trouxemos sangue quente para te alimentar... Para te manter com vida.

- Tome-a, irmão. Una-se a nós.

Empurraram a mulher para diante. Ela gritou, tropeçou e caiu contra Manolito. Sentiu-a cálida e viva contra seu frio corpo. Seu coração pulsava freneticamente, lhe chamando como nada o fizera antes. Sua pulsação em seu pescoço saltou rapidamente e ele cheirou seu medo. Podia ouvir o sangue correr por suas veias, quente, doce e vivo, lhe dando a vida.

Não podia falar para tranqüilizá-la, sua boca estava preenchida com seus alongados dentes e a necessidade de arrastar os lábios contra a calidez do pescoço feminino. Ainda a aproximou mais, até que o pequeno corpo foi quase tragado pelo seu. Seu coraçãsua pulsaçãou ao ritmo do dele. O ar escapava de seus pulmões em aterrorizados ofegos.

A seu redor, Manolito era consciente de que os vampiros estavam se aproximando, do arrastar de seus pés, de suas bocas cavernosas amplamente abertas com espera, fios de saliva gotejavam de suas bocas enquanto seus desumanos olhos brilhavam com selvagem regozijo. A noite se tornou silenciosa, só o som da garota lutando por tomar ar e o trovejar de seu coração enchiam o ar. Baixou a cabeça, atraído pelo aroma do sangue.

Estava morto de fome. Sem sangue seria incapaz de se defender. Precisava disto. Merecia. Tinha passado séculos defendendo os humanos... Humanos que desprezavam o que ele era, humanos que temiam os de sua tipo

Manolito fechou seus olhos e bloqueou o som desse doce e tentador batimento de coração. Os sussurros em sua cabeça. Em sua mente. voltou-se, empurrando a garota pata trás dele.

- Não o farei! É uma inocente e não será utilizada desta maneira. - Porque tinha chegado muito longe e talvez não pudesse se deter. Teria que lutar com todos eles, mas talvez ainda poderia salvá-la.

Atrás dele, a mulher envolveu os braços ao redor de seu pescoço, pressionando o luxurioso e feminino corpo firmemente contra o seu, as mãos deslizaram por seu peito, seu estômago, baixando mais ainda, até lhe acariciar, acrescentando luxúria a sua fome.

- Não sou tão inocente, Manolito. Sou tua, em corpo e alma. Sou tua. Só tem que me saborear. Posso fazer com que tudo isso se acabe.

Manolito grunhiu, girando, afastando a mulher de seu corpo.

- Sai daqui! Vá com seus amigos e fique longe de mim.

Ela riu e se retorceu, tocando -se.

- Necessita-me.

- Necessito de minha companheira. Ela virá a mim e se ocupará de minhas necessidades.

A face da mulher mudou, a risada se desvaneceu e ela jogou o cabelo para trás com frustração.

- Não pode escapar deste lugar. É um de nós. Você a traiu e merece ficar aqui.

Não sabia... Não se recordava. Mas todas as tentações do mundo não poderiam lhe fazer mudar de opinião. Se tivesse que permanecer com vida, sem se alimentar durante séculos, suportando a tortura, que assim fosse, mas não trairia sua companheira.

- Teria que fazer algo melhor que me tentar a traí-la. - Disse- . Só ela pode me julgar indigno. Assim está escrito em nossas leis. Só minha companheira pode me condenar.

Devia ter feito algo terrível. Era a segunda acusação deste tipo e o fato de que ela não estivesse lutando a seu lado falava por si só. Não podia chamá-la, porque recordava muito pouco dela... Certamente nenhum pecado teria cometido contra ela. Recordava sua voz, suave e melodiosa, como a de um anjo cantando aos céus,... Só que ela dizia que não queria ter nada a ver com um homem Cárpato.

Seu coração deu um salto. Havia ela negado sua reclamação? Teria unido-a a ele sem seu consentimento? Isto era aceitável em sua sociedade, um amparo para o macho quando a fêmea era arisca. Isso não era uma traição. O que podia ter feito? Nunca havia tocado outra mulher. A teria protegido como teria feito com a companheira de Jacques, com sua vida e mais além, se fosse possível.

Estavam lhe julgando e até agora não parecia estar indo muito bem e talvez era por isso que não recordava. Levantou a cabeça e mostrou os dentes a centenas de homens dos Cárpatos que tinham escolhido renunciar suas almas, dizimando sua própria espécie, arruinando uma sociedade e um estilo de vida, pelo golpe de sentimentos, em vez que suportar com honra... Em vez de suportar com a lembrança da esperança de uma companheira.

- Renego seu julgamento. Nunca permanecerei com vocês. Posso ter manchado minha alma, talvez além de toda redenção, mas nunca a entregaria por gosto ou renunciaria minha honra como fizeram vocês. Pode ser que seja tudo o que dizem, mas darei a face a minha companheira, não a vocês e deixarei que ela dite se meus pecados podem ser perdoados.

Os vampiros vaiaram, dedos ossudos lhe assinalaram em tom acusador, Mas não atacaram. Não tinha sentido... Com sua superioridade numérica teriam conseguido destruí-lo facilmente... Entretanto, suas formas se faziam menos sólidas e pareceram titubear, fazendo com que fosse difícil distinguir entre os não mortos e as sombras na escuridão da selva tropical.

Sentiu um formigamento na nuca e se voltou. Os vampiros retrocederam mais entre os arbustos, as enormes e frondosas plantas pareciam tragá-los. Seu estômago ardia e seu corpo gritava pedindo alimento, mas estava mais confuso que nunca. Os vampiros o pegaram. O perigo o rodeava. Podia sentir na calma total. Todo sussurro de vida cessou a seu redor. Não havia revoadas de asas, nem roçar.

O instinto, mais que o autêntico som o alertou e Manolito se virou. Ainda de joelhos, elevou as mãos quando o enorme jaguar saltava para ele.

 

A depressão clínica era um monstro insidioso que se aproximava sigilosamente e deslizava sobre e dentro de uma pessoa antes que esta tivesse oportunidade de ser consciente dela e ficar em guarda. MaryAnn Delaney limpou as lágrimas que pareciam não ter fim e que corriam por sua face enquanto repassava a lista de sintomas. Tristeza não era a palavra que utilizaria para descrever o horrível e enorme vazio ao qual não parecia poder sobrepor, mas estava no livro e tinha que acrescentá-la a crescente lista de indicadores. Estava tão incrivelmente triste que não podia parar de chorar. E podia colocar uma marca em falta de apetite, porque a mera idéia de comer a deixava doente. Não era capaz de dormir desde…

Fechou os olhos e gemeu. Manolito da Cruz era um desconhecido. Nunca havia conversado com esse homem, embora quando presenciara sua morte... Seu assassinato... Seu coração havia sido quebrado silenciosamente em pedaços. Parecia estar mais aflita que sua família. Sabia que eles estavam desolados, mas não mostraram grande emoção e certamente não falavam dele. Levaram seu corpo de volta no mesmo jato particular que tinham utilizado para voltar para seu rancho no Brasil, mas não o levaram para a fazenda.

O avião tinha aterrissado... E com ela dentro... Numa ilha tropical em algum lugar em meio ao rio Amazonas. E em vez de dar a Manolito um enterro adequado, seus irmãos tinham levado o corpo para algum lugar sem revelar, na selva tropical. Nem sequer podia sair às escondidas e visitar seu tumulo. Que ridículo e desesperado soava isso? Visitar o túmulo de um desconhecido em altas horas da noite porque não podia superar sua morte.

Era a paranóia entrando também sigilosamente em sua mente ou estava certa ao se preocupar por ter sido levada a uma ilha que ninguém havia mencionado quando estava sua melhor amiga, Destiny, nas Montanhas dos Cárpatos? Juliette e Riordan lhe tinham pedido que fosse com eles, para aconselhar a irmã caçula de Juliete, vítima de violência sexual e tinham mencionado com freqüência o rancho, mas nunca uma casa de veraneio numa ilha particular. A casa estava rodeada pela espessa selva. Duvidava que pudesse encontrar o caminho de volta a pista de aterrissagem snum mapa e um guia blandendo um facão.

Era conselheira, pelamor de Deus! Mas não podia encontrar a disciplina necessária para sobrepor ao crescente desespero e desconfiança, ou a horrível e inexplicável angustia pela morte de Manolito. Necessitava de ajuda. Como conselheira que era, sabia, mas a dor estava crescendo e enchendo sua mente de perigosas e atemorizanteas idéias. Não queria se levantar da cama. Não queria explrar a opulenta casa ou a exuberante selva. Nem sequer queria voltar para avião e ir para casa, A sua amada cidade de Seattle. Queria encontrar o túmulo de Manolito da Cruz e se aconchegar nela, junto a ele.

Que demônios estava acontecendo com ela? Normalmente era uma pessoa que acreditava na filosofia do copo meio cheio. Sem importar as circunstâncias, sempre podia olhar a seu redor e encontrar algo gracioso, formoso ou divertido do qual desfrutar, mas desde noite em que tinha ido a celebração dos Cárpatos com Destiny, estava tão deprimida que não podia funcionar para nada.

Conseguira ocultar a princípio. Todos estavam tão ocupados se preparando para deixar as Montanhas dos Cárpatos e voar para casa, que não tinham notado seu silêncio. Ou se o notaram, tinham-no atribuído ao acanhamento. MaryAnn concordara em ir para o Brasil com a esperança de ajudar a irmã de Juliete antes que se desse conta do problema emocional no qual estava. Deveria haver dito algo, mas seguiu pensando que a tristeza remeteria. Tinha viajado com a família Da Cruz em seu jato particular. E o ataúde. Eles tinham dormido no avião, enquanto viajavam durante o dia, mas ela se sentou sozinha junto ao ataúde e tinha chorado. Chorara tanto que sua garganta estava em carne viva e lhe ardiam os olhos. Não tinha sentido, mas não parecia poder parar.

Um golpe na porta a sobressaltou, fazendo com que seu coração saltasse e começasse a bater forte. Tinha um trabalho a fazer e a família Da Cruz esperava que o fizesse. A idéia de tentar ajudar os outros, quando não podia suportar a idéia de sair da cama, era atemorizantea.

MaryAnn. —A voz de Juliete parecia desconcertada e um pouco alarmada—. Abra a porta. Riordan está comigo e temos que falar contigo.

Não queria falar com ninguém. Provavelmente Juliette tinha localizado sua irmã, que por certo devia ainda estava escondida na selva. Cárpatos, vampiros e jaguares... Às vezes se sentia como Dorothy no Mago de Oz.

—Ainda estou com sono. - Mentiu. Não poderia dormir embora sua vida dependesse disso. Tudo o que podia fazer era chorar. E estar assustada. Sem importar o muito que tentasse expulsar seu medo e seu receio, as emoções não desapareciam.

Juliette sacudiu o trinco da porta.

—Sinto interromper seu descanso, MaryAnn, mas isto é importante. Precisamos falar contigo.

MaryAnn deixou escapar o fôlego. Era a segunda vez que Juliette tinha utilizado a palavra “necessitar”. Definitivamente algo estava acontecendo. Tinha que se acalmar, lavar o rosto e escovar os dentes. Tentar dominar seu cabelo. endireitou, uma vez mais limpando as lágrimas que corriam por sua face. Riordan e Juliette eram ambos os Cárpatos e poderiam lhe ler a mente se quisessem, mas ela sabia que isso se considerava de educação quando se estava sob o amparo dos Cárpatos, e agradecia tal consideração.

—Um momento, Juliette, estava dormindo.

Saberiam que era uma mentira. Poderiam não lhe ler a mente, mas não podiam evitar sentir as ondas de aflição que emanavam dela e enchiam a casa.

Cambaleou para o espelho e se olhou fixamente, com horror. Não havia modo de esconder a evidência das lágrimas. E sem dúvida alguma não havia remedio para seu cabelo. Era longo, se o deixasse solto, podia lhe chegar até a cintura, mas não tinha pensado em fazer tranças e a umidade tinha trabalhado em seu cabelo além de toda ajuda. Estava ridícula, com seu cabelo indomável e seus olhos de um vermelho brilhante.

MaryAnn. —Juliette manipulou o trinco. - O sinto, mas vamos entrar. De verdade... É é uma emergência.

MaryAnn inspirou profundamente e voltou A sentar no beirada da cama, desviando a face enquanto eles atravessavam a porta. Não ajudava que Juliette fosse formosa, com seus olhos felinos e seu cabelo perfeito, ou que Riordan, como seus irmãos, fosse alto, de ombros longos e pecaminosamente arrumado. Estava tão envergonhada, não só pelo fato de que seu cabelo tivesse crescido até converter numa massa do tamanho de uma bola de praia, mas também porque não podia controlar a dor que estava ameaçando sua vida mesma. Era uma mulher forte, e nada tinha sentido desde que tinha presenciado a morte de Manolito.

Juliette deslizou Através do aposento até a cama, seu corpo compacto e gracioso, seu olhar concentrado e alerta, recordando em MaryAnn sua linhagem jaguar.

MaryAnn, você não está bem.

MaryAnn tentou um sorriso.

—É só por que estou foara de casa muito tempo. Sou mais uma garota de cidade e tudo isto é novo para mim.

—Quando estávamos nas Montanhas dos Cárpatos, conheceu meu irmão Manolito? —Riordan olhou a MaryAnn com olhos frios e calculadores.

MaryAnn sentiu o impulso de sua pergunta na mente. Tinha-lhe dado um empurrão mental. Suas suspeitas estavam bem sustentadas. Algo não ia bem. Sentiu o sangue abandonar sua face. Tinha crédulo nesta gente, e agora estava presa e era vulnerável. Eles tinham poderes que poucos humanos podiam compreender. Sua boca se secou e apertou os lábios, uma mão revoou para seu peito onde um ponto pulsava e ardia, enquanto permanecia obstinadamente em silêncio.

Juliette lançou a seu companheiro um olhar represora.

—É importante, MaryAnn. Manolito está em apuros e necessitamos de informação rápidamente. Riordan ama seu irmão e está usando um atalho, algo que resulta automático para nossa espécie, mas não muito resseioso. Lamento-o.

MaryAnn piscou diante dela, as lágrimas a tomavam novamente, apesar de sua resolução.

—Ele está morto. Vi-o morrer. E senti o veneno estendendo através dele, o último fôlego que tomou. Sei que está morto. Ouvi as pessoas dizerem que sequer Gregori podia lhe trazer de volta da morte. E trouxeram seu corpo conosco no avião. —Só dizer em voz alta já era difícil. Não podia acrescentar, num ataúde. Não enquanto sentia o coração como uma pesada pedra no peito.

Somos Cárpatos, MaryAnn e não tão fáceis de matar.

—Vi-o morrer. Senti-o morrer. —Tinha gritado. Profundamente em seu interior, onde ninguém podia ouvi-la, tinha gritado seu protesto, tentando lhe manter neste mundo. Não sabia por que um desconhecido lhe importava tanto, só que tinha sido tão nobre, tão absolutamente heróico ao inserir seu corpo entre o perigo e uma mulher grávida. Mais ainda, tinha ouvido o rumor de que tinha feito o mesmo pelo príncipe dos Cárpatos. Sem lhe importar seu próprio amparo, sacrificou pelo Mikhail Dubrinsky também. E A nenhum deles parecia sse importar. Apressaram-se para a mulher grávida, abandonando o guerreiro caído.

Juliette lançou a seu companheiro outro longo e eloqüente olhar.

—Sentiu morrer Manolito?

—Sim. —Sua mão se moveu para a garganta, e por um momento foi difícil respirar—. Seu último fôlego. —Tinha estado em sua garganta, em seus pulmões—. E então seu coração deixou de pulsar. —Seu próprio coração tinha vacilado em resposta como se não pudesse pulsar sem que o dele marcasse o ritmo. umedeceu os lábios com a língua—. Morreu e todos estavam mais preocupados com a mulher grávida. Ela parecia muito importante, mas ele morreu. Não os entendo A nenhum de vocês e nem a este lugar. —Ela jogou para trás a selvagem massa de cabelo e se balançou brandamente—. Tenho que ir para casa. Sei que prometi que trabalharia com sua irmã, mas o calor está me deixando doente.

—Não acredito que seja o calor, MaryAnn. - Objetou Juliette—. Acredito que está tendo uma reação ao que aconteceu com Manolito. Está deprimida e aflita, embora apenas o conhecesse.

—Isso não tem sentido.

Juliette suspirou.

Sei que não parece, mas esteve alguma vez a sós com ele?

MaryAnn negou com a cabeça.

—Vi-o poucas vezes entre a multidão. —Era tão belo que teria sido impossível não notá-lo. Considerava -se uma mulher muito sensível, mas esse homem lhe tinha roubado o fôlego. Inclusive tinha se repreendido l quando se deu conta de que lhe estava olhando embevecida como uma adolescente. Sabia que os Cárpatos só tinham um companheiro. Ele podia tê-la utilizado para alimentar, mas além disso, não havia esperança de nada mais.

Em qualquer caso, ela não poderia viver com um homem como Manolito da Cruz. Era despótico e arrogante, um antigo macho Cárpato influenciado do pior modo Neandertal possível por séculos de viver na América do Sul. Ela, por outro lado, era uma mulher muito independente criada numa família do tipo média-alta nos Estados Unidos. E tinha visto muitas mulheres maltratadas para considerar sequer estar com um homem que tinha uma atitude dominador com as mulheres. Mas até sabendo tudo isso, mesmo sabendo que Manolito da Cruz era o último homem no mundo com o qual alguma vez pudesse ter uma relação, ainda lhe tinha admirado.

—Alguma vez esteve a sós com ele? Nem sequer por um curto período de tempo?— Perguntou Juliette, esta vez olhando-a nos olhos.

MaryAnn podia ver diminutas chamas nas profundezas daqueles olhos turquesa. Olhos de gata. Uma caçadora dentro do corpo de uma formosa mulher. Atrás de Juliete estava seu companheiro, e nada absolutamente podia ocultar o predador nele.

MaryAnn sentiu um duro empurrão, não de Juliete, mas de Riordan, uma vez mais pressionando para conseguir transpassar suas barreiras naturais e encontrar suas lembranças.

—Pare! — Disse, com voz agudizada por uma súbita ira. - Quero ir para casa. —Não confiava em nenhum deles.

Olhou a seu redor, para a opulenta riqueza, e soube que se encontrava numa armadilha de seda. Não podia funcionar pelo terror.

—Não posso respirar. —Passou junto a Juliette e foi cambaleando para o banheiro. Podia ver o assassino em ambos, monstros à espreita sob a fachada tranqüila e civilizada. Tinham jurado protegê-la, mas haviam a trazido para um lugar de calor e opressão, longe de toda ajuda possível, e agora estavam acossando-a. Precisava de ajuda e tudo mundo estava muito longe.

Juliette levantou a mão, um cenho se acomodou em sua face.

- Estamos assustando-a, Riordan. Deixa de empurrá-la. Ouça seu coração. Está muito assustada, além do que seria normal. É possível que o que queira que esteja afetande Manolito, esteja afetand-a também?

Riordan guardou silêncio um momento. MaryAnn sempre lhe tinha parecido uma mulher forte e valente. Embora não a conhecia muito bem, agora parecia estar atuando de um modo nada típico nela.

- Se for sua companheira, pode ser. Mas, como ela pode ser sua companheira? Por que ele não fez sua reclamação e a colocou sob o amparo de nossa família? Não tem sentido, Juliette. Não deveria haver se elevado. Gregori o imobilizou na terra, e quando o trouxemos para casa, levamos-o ao terreno mais rico da selva e Zacharías se assegurou de que permanecesse na terra. Não conheço ninguém mais poderoso. Como é possível que Manolito se elevasse antes de sua hora?

- Pode o vínculo entre companheiros anular uma ordem do curador ou do cabeça de nossa família?

Riordan esfregou o queixo. A verdade era que não sabia.

- Bom, ela está assustada demais e nós temos que fazer algo.

Juliette respirou fundo para acalmar.

MaryAnn, posso ver que está muito alterada. Vou pedir a Riordan que saia e nós podemos conversar sobre o que te está incomodando.

MaryAnn a ignorou e correu os últimos poucos passos até o enorme banheiro, fechando a porta, bloqueando-a. Foi a toda velocidade para o lavabo e abriu a água, esperando que o barulho da água dissuadisse Juliette de segui-la. Molhando a face com água fria esperava esclarecer sua mente, embora estivesse tremendo, assustada ante a idéia do que tinha que fazer. Não seria fácil escapar dos Cárpatos. Tinha pouca defesa contra eles, mas Gregori, o segundo ao comando e guardião do príncipe, fora quem a colocara sob seu amparo e lhe tinha proporcionado algumas salvaguardas. Só tinha que usá-las e evitar ceder ao pânico até que pudesse encontrar o caminho de volta a pista de aterrissagem.

Sempre tivera um sexto sentido para o perigo, mesmo assim isto não o tinha visto vir. Agora o medo estava crescendo em seu interior, florescendo até converter num terror absoluto. Não podia confiar nestas pessoas. Não eram absolutamente o que pareciam. Tudo estava errado. A enorme fazenda, com sua beleza, era para atrair os incautos às mãos dos monstros. Deveria ter visto Através de todos eles. Gregori deveria ter visto através de todos eles. Era uma enorme conspiração? Estariam todos implicados?

Não, nunca acreditaria nisso, de seu melhor amiga, Destiny ou do companheiro de Destiny, Nicolae. Tinham que ser advertidos. Talvez já estavam em problemas, ou talvez somente era a família Da Cruz a qual se aliara aos vampiros. Espiões em terreno Cárpato. Do primeiro momento tinha havido algo diferente neles. Não deveria ter acreditado neles.

Olhou-se no espelho. Estava com os olhos vermelhos inchados, os sinais da dor fazendo estragos em sua face. A marca no peito que nunca se curara, pulsava e ardia. Estiverasegura de que fosse uma picada de algum tipo de inseto do qual era alérgica. Tinha-a desde que tinha estado nas Montanhas dos Cárpatos, mas agora temia que fosse muito mais. Talvez Juliette ou Riordan ou Rafael Da Cruz a tinham marcado de algum modo.

Desejava ir para casa, desesperada por afastar da violência do mundo Cárpato, mas Juliette tinha ido a ela com uma história sobre sua irmã pequena, que MaryAnn tinha sido incapaz de deixar de lado, embora sua dor e desespero tinham sido entristecedoras. Seria Jasmine real? MaryAnn duvidava. Acreditava que estariam num enorme rancho de gado no Brasil, um lugar onde durante o dia muita gente lhes rodearia, mas Colby e Rafael, o cunhado de Juliete e sua companheira, junto com o irmão e a irmã de Colby, desceram do avião num aeroporto particular e MaryAnn tinha contínuado com o Riordan e Juliette para uma ilha.

Estava presa. MaryAnn aspirou e deixou escapar o ar lentamente. Não morreria neste lugar. Era uma lutadora, e de algum modo conseguiria avisar Destiny e Nicolae de que neste ramo de Cárpatos eram traidores. O medo se puxou velozmente por sua coluna quando se deu conta do que tinha que fazer. Escapar para a selva, encontrar o caminho de volta a pista de aterrissagem e de algum modo conseguir que o piloto a levasse a um aeroporto onde pudesse pegar um vôo para casa. Percorreu apressadamente a enorme habitação com o olhar, tentando imaginar o que podia levar com ela.

Nada. Não havia nada. Teria que improvisar. Foi para a janela e olhou para fora. Os jardins eram muitos selvagens, a selva tropical se arrastava até a casa como um insidioso invasor, com trepadeiras e arbustos estendendo-se para o pátio. Seria uma carreira curta. Segurou-se na beirada da janela e tentou elevá-la.

MaryAnn.

Gemeu, quase saltando fora de sua própria pele, pressionando a mão contra o palpitante coração enquanto se voltava. Um vapor entrou por debaixo da porta e através do pequeno buraco da fechadura. Juliette e Riordan resplandeceram até sua forma humana, Riordan junto à janela, Juliette junto à porta.

—Aonde acredita que vai? — Exigiu Riordan, seus olhos negros brilhavam de fúria- Estaria morta em cinco minutos ao entrar na selva. Somos responsáveis por sua segurança.

Sua voz parecia lenta A seus ouvidos, um som reverberante que recordava os demônios que tinha visto nos filmes, como se o som estivesse sendo reproduzido muito lento. O medo a golpeou, a fúria a alagou e reinou a confusão. A conselheira que havia nela deu um passo atrás para tentar dar sentido à torrente de emoções que chegavam em avalanche.

MaryAnn, —disse Juliette brandamente, - sei que está confusa pelas coisas que está sentindo, mas acreditamos ter uma explicação. Acreditamos que Manolito a vinculou a ele a maneira de nossa gente. Riordan se estendeu para ele por seu vínculo comum e mesmo assim Manolito lhe resistiu, temendo que seja um vampiro, tal como você nos teme . Ele reclama ter uma companheira e aqui está você, desesperada, aflita por um homem ao qual diz que não ter conhecido. Tem isso sentido para você? Algo está acontecendo aqui, e pelo bem de ambos temos que averiguar o que é.

Riordan esfregou as têmporas como se lhe doessem. Havia preocupação em seus olhos.

Temo pela segurança de meu irmão assim como por sua vida. Ele parecia confuso e ninguém pode estar confuso na selva tropical. Temos inimigos poderosos. Ele está num perigo terrível. Não confia em ninguém salvo em sua companheira. Se você for essa mulher é a única que pode lhe salvar.

Ele olhou-a com os olhos imperturbáveis de animal selvagens, ardilosos, matreiros e atemorizantees. MaryAnn tremeu e retrocedeu até que ficou contra o parapeito da janela. Uma parte dela acreditava que estavam loucos, tentando deliberadamente desconcertá-la, mas a conselheira que havia nela estava sempre reunindo informação e lhe buscando sentido. Sabia bastante sobre companheiros, por Destiny. Estava já a algum tempo ao redor dos Cárpatos, e embora não entendesse o vínculo, sabia que era forte e inquebrável.

Juliette lhe tendeu a mão.

—Volte para o quarto e tentemos solucionar isto. Não se recorda mesmo de ter ficado a sós com o Manolito?

Recordaria-o, verto? Tinha sonhado com ele viera a ela. Um sonho, uma vez... Só um sonho. Ele atraiu-a em seus braços e sua boca deslizou por sua pele, até seu seio. A marca pulsou e ardeu. Sem pensar, colocou sua palma sobre a marca pulsante, que não se curava e reteve a calidez com ela.

Negou com um gesto de cabeça.

—Não foi real. Ele estava do outro lado, na estalagem nas Montanhas dos Cárpatos, mas na realidade nunca falei com ele. Ela tinha esperado que seus olhos estivessem apagados, frios e vazios como os de tantos caçadores, mas parecia… Perigoso, como se pudesse estar caçando-a. Em vez de se assustar como ocorria agora, havia se sentido secretamente encantada, porque, afinal era uma fantasia.

MaryAnn seguiu Juliette para fora, consciente de que Riordan rondava atrás dela como um grande felino. Movia-se em silêncio, como tinha movido seu irmão. Precisava de ar e o quarto parecia quente e opressivo como a selva tropical. Isso tampouco tinha sentido. A casa estava bem isolada e o ar condicionado estava deixando tudo num agradável frescor.

—Não vejo como posso ser sua companheira. Sequer o conheci. Eu não saberia? Ele não saberia?

—Ele saberia. - Disse Riordan. — Se sentiria atraído por sua companheira, e se você for a escolhida, no momento em que falou, ele veria em cores e suas emoções teriam sido restituídas. Não teria sido capaz de permanecer muito longe de ti. —Franziu o cenho. - Mas nos teria dito e teria sido colocada imediatamente sob o amparo de nossa família.

— Ela já estava sob o amparo do Gregori assim como de Nicolae e Destiny. - Lhe recordou Juliette.—.Pôde ter pensado que não era necessário.

- Teria acreditado que era imperativo… A menos… - Riordan interrompeu seu pensamento e estudou a face de MaryAnn.

—Disse que não foi real. O que quis dizer com isso?

A cor se puxou sob sua perfeita pele.

—Sonhei com ele.

Juliette inspirou profundamente.

—Oh! Riordan. O que está acontecendo? Algo horrível está ocorrendo ou ele estaria aqui.

Riordan foi imediatamente para seu lado, deslizando tão rapidamente que pareceu um borrão, e passou o braço ao redor de sua cintura enquanto lhe beijava a têmpora.

MaryAnn está aqui. Entre nós três podemos resolver isto e o encontraremos.

Por alguma razão, o fato de que Riordan a tivesse incluído, como se pudesse ajudar a encontrar a solução, aliviou algo da tensão que havia em MaryAnn. Piscou várias vezes, inspirando profundamente para tentar ver além da estranha imagem do vampiro superposta sobre o casal. Os incisivos retrocederam um pouco, deixando-os com dentes brancos normais.

—Ele está realmente vivo? —perguntou, sem se atrever a acreditar.

Riordan assentiu.

—Todos nós tentamos mante-lo conosco, mas estava morto, segundo nossos parâmetros, igual aos humanos. Sua alma já tinha abandonado seu corpo. Ninguém acreditava que pudéssemos trazê-lo de volta, inclusive com o curador, a rica terra e todo mundo trabalhando para lhe manter neste mundo, quando de repente ele estava de volta conosco. Se você for sua companheira, pode ser a explicação. Pode ter retido um pedaço de sua alma a salva, sem saber.

MaryAnn abriu a boca para protestar e depois a fechou bruscamente. Sabia que os Cárpatos não eram humanos. As mesmas regras não se aplicavam a suas espécies. Tinha visto coisas que teria acreditado impossíveis somente há algumas semanas antes.

—Mas por que não sei se sou sua companheira?

São nossos homens que têm as palavras rituais vinculantes gravadas. - Explicou Juliette. - Como uma precaução para que a espécie continue.

—Assim quer dizer que a mulher não pode lhe rechaçar.

—Dá no mesmo. - Disse Riordan. — E duvido que te tenha vinculado com as palavras rituais. É mais provável que a tenha prendido através de um intercâmbio de sangue.

Seu coração saltou novamente, depois voltou para a normalidade com um bater constante. Tinha permitido a Nicolae tomar seu sangue para proteger melhor Destiny, mas nunca, nunca, tinha considerado o intercâmbio de sangue. Negou com a cabeça.

—Não o fez. Não foi real. Eu não teria feito isso. Ainda estou lutando por entender e acreditar em seu mundo. Nunca teria tomado voluntariamente seu sangue.

Juliette e Riordan intercambiaram outro longo olhar.

—Utilizou as palavras, não foi real. Como foi esse sonho de que falou?—Perguntou Riordan.

MaryAnn pressionou a mão firmemente contra o seio. Ainda podia sentir a boca contra a pele. Estava fora e estava nevando. Depois mais tarde, quando voltaram para a casa e ficou sozinha… Sentiu frio e ele tinha afastado sua roupa... Seus lábios tinham sido quentes, suaves e sensuais. Não pensara em afastá-lo, mas em embalar sua cabeça enquanto ele bebia e então… E então…

MaryAnn soltou um grito afogado e cobriu a face com ambas as mãos, sacudindo a cabeça.

—Não foi real. Eu não teria feito algo assim. Foi só um sonho.

—Tem sua marca em ti? — Perguntou-lhe Juliette, com voz amável.

—Não. Não é isso. Não é sua marca. Eu não teria intercambiado sangue com ele. Nem o teria induzido a acreditar que sou algo que não sou. Eu não namoro e não faço promessas que não posso manter. —É por isso, pelo que estou aqui quando deveria estar… Em algum outro lugar. Qualquer outro lugar.

—Não fez nada errado, sabe disso. Deixe-me ver a marca.

MaryAnn engoliu com força, suas mãos foram com relutância para a blusa. Não queria mostrar Juliette. A marca era dela. Agora pulsava com calor. Umedeceu os lábios e reuniu toda sua coragem, afastando o tecido para revelar a grande mancha em forma de morango, muito parecida com uma mordida de amor, mas mais intensa e crua. Duas reveladoras punções debruadas de vermelho.

—Ele mordeu-me, não é? Não foi um sonho. —E se o tinha feito, por que se sentia mais excitada que traída?

—Você é quem mantém meu irmão vivo. - Disse Riordan, com seus olhos negros fixos na marca.— Como sua companheira está sob o amparo de minha família. Uma irmã tem que ser amada e cuidada. Você fez o que nenhum outro podia ter feito.

—Não vamos tirar conclusões preciptadas. - Protestou MaryAnn—. Nem sequer cheguei a falar com esse homem.

—Esta marca indica que é sua companheira. - Reiterou Riordan.

Ela negou com a cabeça.

—Pode significar que tomou meu sangue e eu era alérgica ao anticoagulante. Poderia ser a picada de algum inseto... — Ela quase grunhiu ante a desesperada e absurda sugestão, mas isto não podia estar ocorrendo, não era real.

—É óbvio... É atemorizante. - Disse Juliette. - É inesperado para todos nós, mas pelo menos agora sabe porquê estiveste tão afetada. Os companheiros não podem ficar longe um do outro muito tempo sem tocar suas mentes. Estenda-te para ele.

—Não sou a companheira de ninguém, Juliette! - Disse MaryAnn. - Sequer gosto muito dos homens. Os únicos vi e dos quais ouvi falar diariamente não são muito agradáveis. Não sou companheira, e por favor não levem isso para o lado errado, mas particularmente, não por um dos irmãos Da Cruz. São muito difíceis.

Riordan lhe lançou um breve sorriso.

—Compensamos o fato de outras maneiras.

MaryAnn não pôde devolver o sorriso. Toda a idéia era absurda, mas estava começando a acreditar. - Para que estejamos sentindo as mesmas emoções, não teria que ser o vínculo incrivelmente forte? Seu irmão nunca falou em comigo. Se fosse sua companheira, não teria se apresentado, pelo menos?

—Não se acreditasse que você recusaria sua reclamação. - Disse Riordan, ignorando o olhar de advertência de Juliete. - Pôde ocultar suas intenções.

MaryAnn franziu o cenho.

—Teria me negado. Tenho uma vida em Seattle que é importante para mim. Este não é meu ambiente, obviamente tampouco gostaria estar com um homem tão exigente como é seu irmão. Naturalmente teria me negado.

—O que explica porque não disse nada. Manolito nunca teria aceitado seu rechaço, mas está sob o amparo do príncipe e de Gregori. Também é a melhor amiga de Destiny. Não só Mikhail e Gregori a teria apoiado, mas também o companheiro de Destiny, Nicolae e seu irmão Vikirnoff assim como sua companheira, Natalia. Manolito teria esperado o momento adequado, permanecendo perto e esperando até que já não estivesse rodeada por seus protetores.

MaryAnn esfregou as palpitantes têmporas.

—Sinto-me doente e enjoada. Tudo arde. É ele? Ou sou eu?

Acredito que é ele que está sentindo-se doente. Ainda sente os efeitos do ferimento e o veneno. Necessita de ajuda e rápido. Toquei sua mente e ele está muito confuso. Não sabe onde está ou o que é real ou não. Não acredita que eu seja seu irmão porque não sei nada de sua companheira. Isso quer dizer que não recorda o que fez ou como os prendeu sem seu consentimento. Provavelmente esteja se perguntando o que te ocorreu e por que não foste lhe ajudar.

MaryAnn se afundou no colchão e inspirou profundamente. Era uma mulher prática. Bem, pelo pelo menos gostava de pensar que era. Tudo era um enorme desastre, mas se fosse verdade, então Manolito da Cruz estava vivo e com problemas. Necessitava dela. Companheiros à parte, não podia deix-lo e ferido na selva, assim como não teria podido abandonar a irmã de Juliete.

—Diga o que devo fazer.

Se estenda para ele. – Disse Juliette

Se estenda para ele? — Ela repetiu. - Está louco? Não tenho nenhuma capacidade telepática. Nenhuma, absolutamente. Nem sequer sou psíquica. Você terá que tentar falar com ele.

Juliette sacudiu a cabeça.

—Não pode ser uma companheira sem ser psíquica, MaryAnn. Gregori e Destiny reconheceram seu potencial. Com o intercâmbio de sangue, Manolito terá estabelecido um vínculo particular de comunicação.

—Capaz... O que quer dizer com meu potencial? — De repente ela estava furiosa. Tremendo. A traição era amarga em sua boca. - Está dizendo que me manipularam para que fosse com eles as Montanhas dos Cárpatos porque pensaram que provavelmente fosse a companheira de um dos homens? Destiny? Gregori?

Juliette enviou a seu companheiro uma prece silenciosa de ajuda. Sentia como se estivesse caminhando por um campo minado e tropeçando freqüentemente.

Ele encolheu os ombros de forma prática.

- Duvido que Destiny tivesse a mais ligeira idéia, mas Gregori compartilhou o sangue de MaryAnn. Ele teria sabido. Não podemos permitir perder a nenhum mais de nossos homens. Sabe que a situação é desesperadora. Naturalmente Gregori a levaria a uma reunião esperando que fosse a salvação de alguém.

Juliette resistiu o impulso de ofende-lo, ante sua despreocupada admissão.

- Ela desenvolverá amor por ele se está destinada a estar com ele. Esse é nosso modo de vida. Você resistiu a estar comigo. Que eu recorde, que se escondeu profundamente dentro de seu jaguar e tentou escapar de seu destino? É feliz comigo, Juliette, como ela será com Manolito. O tempo se encarrega de muitas coisas.

- Ainda assim é injusto que um homem possa ditar o destino de uma mulher.

- É igual de injusto para o homem. Ele tampouco tem escolha lhe recordou Riordan. E se muito mais que perder.

—Sinto-me tão traída —disse MaryAnn—. Acreditei que Destiny me conhecia, que me entendia. Não lhes faz isto Aos amigos. —A dor coloria sua voz, mas não pôde evitá-lo. Tinha crédulo no Destiny, tinha-a ajudado A superar seu passado de modo que pudesse encontrar uma nova vida com seu companheiro escolhido. Inclusive tinha abandonado a excitação e sofisticação de sua amada cidade de Seattle e se dirigira aos remotos e bárbaros bosques das Montanhas dos Cárpatos só para se assegurar de que Destiny encontrasse a felicidade.

Juliette negou com a cabeça.

Destiny é nova na sociedade Cárpato. Duvido que soubesse e muito menos que tivesse permitido que você fosse colocada em semelhante posição. Gregori haverá sentido que seu amparo asseguraria de que não fosse incomodada contra sua vontade. A maioria dos homens acredita que uma mulher se apaixonará por seu companheiro. O elo entre ambos é forte e a atração física formidável.

—Houve alguma mulher ou homem que não se apaixonasse por seu companheiro? —Porque se Manolito era o seu, podia se ver indo para a cama com ele, mas viver com ele era um assunto totalmente distinto.

—Como em qualquer espécie, temos alguns que não nascem de todo bem. Ninguém sabe por que ou como ocorre, mas sim, já houve aberrações. - Admitiu Riordan. - Manolito está dedicado a sua companheira. Nunca a desonraria com outra mulher. Espegalhos muito mais tempo do que possa alguma vez compreender por nossas mulheres e, embora possa nos acreditar despóticos e prepotentes, apreciamos e colocamos nossas mulheres acima de tudo o resto.

A sinceridade em sua voz a fez sentir-se um pouco melhor. E Juliette não era um boneco de pano. Era somente que MaryAnn achava toda essa testosterona um pouco irritante. Os irmãos Da Cruz exigiam completa submissão em todos os aspectos. Não podia vê-los se comprometendo tanto. Até o tom de suas vozes a colocava no limite. Não podia se imaginar com nenhum deles como marido. Podiam ser bonitos, mas ela provavelmente desenvolveria úlceras tentando viver com um deles.

—Isso é admirável, Riordan, de verdade. - Ela também podia ser sincera, - mas não estou segura de que seja certo o que significo para seu irmão. Se colocou sua marca em mim, - ela lutou por não se ruborizar, recordando o calor de sua boca e a reação de seu corpo ante ele, - então o fez sem meu consentimento. Não sei por que sua sociedade acreditaria que isso é certo, mas na minha está errado.

—Já não vive em sua sociedade. - Disse ele sem rastro de remorsos. - Nossas regras são de sobrevivência. Só temos uma oportunidade de sobreviver após séculos vivendo tão honradamente como nos é possível. Essa oportunidade jaz em encontrar nossas companheiras. Sem nossas mulheres, nossa espécie não pode existir e nossos homens devem se suicidar ou converter-se em vampiros. Não há outra escolha para nós.

MaryAnn suspirou. Sem a dor e o desespero corroendo-a, deveria ter sido capaz de pensar mais claramente, mas agora a confusão reinava sobre todo o resto. Devia culpar suas próprias emoções ou era Manolito? E se fosse Manolito, como poderia ele sobreviver na selva tropical sem saber o que estava lhe acontecendo?

—Como me estendo até ele? Nunca tentei nada como isto antes.

Riordan e Juliette intercambiaram um longo e surpreendido olhar. Nunca tinham tido que explicar o que parecia lhes vir naturalmente.

—Imagine-o em sua mente. Utilize detalhes, até a mínima coisa que dele a recorde, incluindo aroma e sentimento. - Aconselhou Riordan.

Genial. Ela recordou a sensação de que ele era o homem mais sensual que já havia visto em sua vida. O calor se estendeu através de seu corpo. Sentia os lábios dele viajando realmente por sua garganta até seu seio? Sentia seus dentes se cravando na pele para introduzir seu sangue vital nele? A idéia lhe deveria ser repulsiva. Qualquer mulher cordata teria achado repulsivo. Fechou os olhos e pensou nele.

Seus ombros eram longos, seus braços poderosos. Sua cintura e seus quadris eram estreitos e seu peito musculoso. Os músculos se ondulavam sob a pele como um grande felino predador quando se movia. E se movia absolutamente silêncio. Sua face… MaryAnn respirou fundo. Sua fisionomia era... Belíssima. Ele era o homem mais bonito que tinha visto. Escuros e misteriosos olhos, brilhantes cabelos negros acentuando os fortes ângulos e planos de sua face, um nariz reto e masculino que qualquer modelo invejaria, seu queixo forte, com apenas uma sombra ligeira sobre ela. Mas era sua boca a qual não tinha sido capaz de deixar de olhar. Sensual, com um indício de perigo, mas justo para deixar louca uma mulher.

Estendeu-se para ele e para seu assombro sentiu sua mente expandir, como se somente estivesse esperando, como se o caminho já fosse familiar. Sentiu-lhe, só por um momento, tocando-a, estendendo-se para ela, mas então… Seus olhos se abriram com terror e suas mãos se dispararam defensivamente. Um enorme e feroz felino saltou entre eles com intenções assassinas. Os dentes explodiram fora do focinho, dirigindo-se para a garganta de Manolito. Ela gritou e jogou seu corpo na frente do dele, sentindo o hálito quente em sua face. Era um Jaguar.

 

Manolito se voltou, ainda de joelhos, levantando as mãos instintivamente para o enorme e pesado felino, enquanto este se lançava A sua cabeça. A força e o poder do jaguar eram tremendos, derrubou-o e fez com que caísse sobre de costas. Era real ou uma ilusão como tinham sido os vampiros das sombras?

Seus dedos se afundaram na espessa pelagem. Garras arranharam seu estômago, rasgando pele e músculos. Um hálito quente e fétido golpeou sua face, e dentes maliciosos arranharam seu braço quando utilizou a força bruta para evitar que a fera chegasse a sua garganta e cabeça. Por um momento, enquanto jazia sob o felino, mantendo a enorme cabeça longe dele, sentiu alguém... Ela... Sua companheira... Movendo-se em sua mente.

Ela gritou de terror e o grito ressoou em sua mente, substituindo a fome e a confusão por uma concentração que não poderia ter encontrado de outro modo. Viu-a estender-se para o felino, tentando lhe ajudar. Não desejando arriscar sua vida, rompeu o contato telepático entre eles e se dissolveu. Seu corpo se converteu em vapor, sobrevoando e rodeando o felino para retomar a forma de um jaguar macho de ampla e pesada cabeça e corpo grande e musculoso da cor das sombras mais escuras. Gotas de sangue caíram como névoa, salpicando as folhas e raízes enquanto tomava a forma de um estranho jaguar negro.

Grunhiu um desafio e saltou. Os dois felinos colidiram pesadamente, rodando através de raízes e galhos, enquanto os sons da batalha perturbavam a noite.

Muitos felinos utilizavam o estrangulamento para matar, mas o jaguar, com mua mandíbula excepcionalmente poderosa, mordia diretamente na cabeça entre os ossos temporários, matando a presa instantaneamente. Como o Amazonas tinha sido seu lar durante muitos anos, os irmãos Da Cruz viviam em contato contínuo com os felinos.

Os jaguares eram extraordinariamente fortes, com corpos musculosos e compactos e amplas cabeças. Sigilosos e quase invisíveis, viviam uma vida solitária num mundo sombrio de crepúsculos e amanhecer. Com sua incrível visão noturna, letais garras retráteis, caninos pontiagudos e corpos bem musculosos, eram feitos para a emboscada e o sigilo reinavam na selva, mas se mostravam suspicazes na hora de brigar. A úmida espessura era um perfeito campo abonado para as infecções.

O primeiro pensamento de Manolito foi matar em defesa própria. Estava fraco pela fome e já perdendo um sangue precioso. O curso de ação mais sábio e seguro era terminar com a batalha rapidamente, mas o respeito pelo predador mais forte da selva o conteve. Seus irmãos e ele sempre tinham vivido em harmonia com as criaturas da selva. Não tomaria a vida deste animal se tinha alternativa.

Grunhiu uma advertência, indicando claramente ao macho que retrocedesse. Provando o ar, não pôde encontrar o aroma remanescente de uma fêmea que pudesse ter dado ao felino um incentivo para lutar.

O jaguar rodeou o poderoso corpo coberto de pelagem de Manolito, mostrando os dentes e grunhindo brandamente com desafio. Esperando dobrar ao animal, Manolito saltou. O jaguar se apressou a ir a seu encontro, esfaqueando-o com garras como estiletes, enquanto Manolito se estendia procurando a mente da fera. A selva estalou com uma explosão de som quando os dois felinos se encontraram.

Os pássaros no alto da canopia chiaram e elevaram o vôo. Os macacos gritaram e lançaram galhos e folhas nos dois jaguares enquanto estes rodavam sobre a vegetação. Os galhos se quebraram sob os pesados corpos, pulverizando escombros numa densa nuvem a seu redor. Manolito passou através da raiva vermelha da mente do felino e tentou encontrar o espírito do animal enquanto evitava que as presas letais se afundassem nele.

Os jaguares possuíam uma espinha dorsal extremamente flexível que lhes permitia girar e se retorcer, mover suas patas lateralmente e inclusive mudar de direção no meio do ar. Os músculos de seus corpos lhes davam uma força tremenda. Manolito recebeu outro arranhão cruel no flanco enquanto tentava concentrar em tranqüilizar o felino.

Empurrou com força, rompendo o muro de raiva e encontrou... Um homem! Não era um jaguar. Era um dos estranhos e solitários homens jaguar que ainda tinham seu lar na selva. Os Cárpatos e a gente do jaguar sempre tinham vivido em harmonia, evitando uns aos outros, mas este o tinha atacado deliberadamente.

Manolito se dissolveu e tomou sua forma humana, desta vez da relativa segurança de uma certa distância. Os felinos podiam cobrir distâncias assombrosas de um só salto e a gente do jaguar tinha uma astúcia e força além do normal. Ficou em pé, respirando com dificuldade, procurando sinais de agressão no felino que lhe enfrentava com os lados em movimento e um grunhido na face.

Sei que é um homem. Morrerá se continuar. Não pode utilizar meu respeito pelo jaguar para me derrotar. Por que tem quebrado nosso pacto tácito?— Deliberadamente deu a sua voz um tom suave, tranqüilizador e hipnotizante para ajudar a serenar o temperamento do felino.

O jaguar despiu os dentes, mas se manteve firme, seus olhos abandonaram a face de Manolito, como se só estivesse esperando um momento de debilidade que lhe desse vantagem. E Manolito estava débil. Manteve a dor de seus ferimentos a raia e ignorou a fome raivosa que quase o consumia. O aroma do sangue era pesado no ar. Ambos os animais saíram feridos, e as gotas salpicavam as folhas como brilhantes pontos carmesim. O jaguar lambeu deliberadamente as gotas de sangue, para recordar a Manolito o tanto que apontou.

Manolito entrou em ação, uma fúria gelada lhe alagou ante a insultante burla. Saltou sobre as costas do animal, afundando profundamente os joelhos nos músculos dos lados, as pernas quase esmagaram o animal enquanto cruzava os tornozelos sob a barriga. Envolveu um braço ao redor do grosso pescoço numa meia chave, para lhe jogar a cabeça para trás. Cravou os dentes profundamente na jugular e bebeu. O animal se contraiu, resistindo, mas o homem dentro do felino forçou sua imobilidade, compreendendo que Manolito podia... E faria... Rasgar-lhe a garganta.

O sangue quente bombeou em seu corpo faminto, empapando os tecidos e células, rejuvenescendo seus músculos. Por um momento ele ficou flutuando na euforia, o sangue era cheio da tão rica e aditiva adrenalina, tendo passado tanto tempo sem ela, estando tão perto de converter.

- Está boa. Não pare. Sinta o poder. Não pare. Não há nada como isto no mundo. Una-se a nós, irmão. Vêem conosco. Tome-o todo. Cada gota.

Manolito ouviu várias vozes sussurrando a tentação. O zumbido de sua cabeça se fez mais forte até que foi quase doloroso. Era proibido tomar uma vida.

- É só um felino. Nada para alguém como você. Ele atacou-o. Por que lhe perdoar a vida quando ele teria te matado?

A tentação era forte. Cálido e rico sangue e ele estava faminto. O felino tinha atacado primeiro. Ainda estava disposto a matar, de ter a oportunidade, inclusive agora, quando lhe tinha perdoado a vida.

Mas sentiu a diferença em seu corpo, sentia-se doente novamente, como se seu estômago tivesse com cãibras, o qual não tinha sentido. Zumbiam insetos em seus ouvidos, ruidosos e irritados, mas quando desejou que se afastassem, o ruído não diminuiu. A seu redor o chão se ondeou, como se um terremoto estivesse acontecendo. Seu estômago se revolveu com ele.

- Necessita de força. O felino está ferido e você necessita de sangue para se curar . Beba, irmão. Bebe-o todo. - Os sussurros persuasivos continuaram.

Sob ele, o felino começou a estremecer. O homem se revolvia dentro do animal gritando algo ininteligível, algo humano.

Humano. Não podia matar enquanto se alimentava.

- Humano não. Um felino. Rasgue-lhe a garganta. Goze do poder. Sinta-o, irmão, sinta o poder absoluto de uma vida desvanecendo sob suas mãos. Sei o que sempre deveria ser... O que é.

O que era? Um assassino? Sim. Não havia dúvida de que tinha matado tantas vezes que já não se recordava de todas os rostos. Onde estava? Olhou ao redor e por um momento a selva desapareceu e esteve rodeado de formas escuras, com dedos estirados dos mortos que assinalavam acusadoramente. Os galhos golpeavam como ossos brancos e quebradiços, provocando estremecimentos em sua espinha dorsal.

Tinha matado... sim. Mas não assim. Estava errado. Autodefesa era uma coisa e havia justiça e honra em despachar um irmão cansado quando este tinha entregado sua alma ao mal, mas matar enquanto se alimentava ia contra tudo no qual ele acreditava. Não. Fosse o que fosse, fosse quem fosse, que estava tentando conseguir que matasse, não era um amigo.

Requereu disciplina tomar só o que necessitava para sobreviver, só o que necessitava para transpassar as barreiras da fera e acessar a mente do homem que havia dentro. Passou a língua sobre as espetadas para selá-los e se dissolveu em vapor, para reaparecer a certa distancia, cuidando em examinar as sombras a seu redor. Estavam entre as sombras, aparecendo através das folhas e saindo do chão? Havia vampiros à espreita? Ficou nas pontas dos pés, preparado para tudo. O jaguar rugiu, atraindo sua atenção para o perigo mais iminente.

Manolito forçou um sorriso despreocupado.

—Tem o sabor de meu sangue em sua boca. E eu tenho o sabor do teu. Tem a informação que procuro. Tentou me matar e não te devo nada.

O felino permaneceu imóvel, nenhum músculo se movia, com os olhos intensamente enfocados em Manolito.

As pessoas do jaguar era tão elusiva e sigilosa como os grandes felinos, e como sua parte animal... Ou por causa dela... Preferiam a selva densa perto de riachos e ribanceiras. Eram dificeis de encontrar e, com toda probabilidade, o suficientemente sigilosos e muito familiarizados com a selva parmasem vistos, se assim o desejavam. Os homens, como o animal, eram de constituição musculosa e enormemente fortes. Tinha uma tremenda visão noturna e excelente audição. Eram bons escalando árvores e eram fortes nadadores. Pouco se sabia de sua sociedade, embora Manolito soubesse que tinham mau gênio quando despertava.

Antes de explorar profundamente a mente do jaguar, o caçador lançou outra lento e cauteloso olhar ao redor, escaneando. As vozes não se sossegaram de todo, mas sussurravam em seu ouvido, urgindo-o a matar. As sombras nas quais sua visão não penetrava de todo, pareciam conter milhares de segredos. Algo reptou pelo chão, sob a superfície, deslocando terra enquanto se movia. Sua boca lhe secou.

O jaguar se moveu, agachando um pouco mais, esticando os músculos e atraindo a atenção instantânea de Manolito. Séculos de caçar em situações perigosas mantiveram sua face inexpressiva, os olhos duros e frios e a boca um pouco cruel.

Se atreva a atacar, homem-gato e não terei piedade de ti. —E não a teria. Não com vampiros lhe cercando. Não tinha tempo para a piedade, não se quisesse viver.

O sangue que Manolito tinha tirado do homem-jaguar o capacitou para seguir o padrão cerebral, empurrando Através dos últimos escudos para extrair informação. Ódio, profundo e violento contra os Cárpatos. A necessidade de encontrá-los e destrui-los. Uma sensação de traição e justa cólera. Assombrado, Manolito se introduziu mais fundo. As duas espécies nunca tinham sido grandes amigos, mas tampouco inimigos. Defendiam diferentes valores, mas sempre as tinham conseguido respeitar a sociedade dos outros.

Havia um toque ali nas lembranças, uma mancha escura, algo estranho. Examinou-o cuidadosamente. O ponto era muito escuro no centro, mas se formavam anéis ao redor, de uma cor mais leve, estendendo-se para abranger o cérebro inteiro do homem-jaguar. Quanto mais se aproximava Manolito mais se estendeu à descoloração e mais agitado e irritado ficava o jaguar.

No momento em que Manolito se fundiu, apesar da suavidade do toque utilizado, sentiu ao mal remover e tornar consciente dele. A seu redor as sombras se incharam e tomaram forma. Dentro do cérebro do jaguar a mancha se removeu, perturbada. Ele retrocedeu, não queria provocar ainda mais a ira do felino. O animal estava tremendo, com a pele úmida e escura enquanto os lados se moviam pesadamente. O homem estava começando a perder a batalha por controlar a fera.

—Foste tocado pelo vampiro. - Disse Manolito, sua voz era baixa e carregava um traço de verdade. - Posso tentar te ajudar a te liberar da venenosa influência, mas ela lutará por se manter em ti. — E isso o deixaria vulnerável a um ataque, inclusive do jaguar. Era um risco, nem sequer necessário, mas Manolito se sentia compelido a ajudar. A espécie do jaguar, ambas, homem e fera, estava perdendo a batalha pela existência igual à dos Cárpatos. E Manolito temia que os irmãos Da Cruz involuntariamente tinham tido grande parte de culpa na destruição da gente jaguar.

O homem permaneceu calado dentro do jaguar. Preso a ele por sangue, Manolito pôde sentir seu alarme. Não era um homem jovem, arrogante e imprudente. Era o bastante para conhecer o perigo que supunha o vampiro, e estava questionando o que era o que estava ocorrendo a sua raça há algum tempo. O felino se abaixou mais e assentiu com a ampla cabeça, o olhar passou de Manolito aos arredores, tão atento ao perigo como o Cárpato.

Na canopia, sobre eles, as folhas sussurravam amenazadoramente. As nuvens se moviam pelo céu escuro trazendo a promessa de mais chuva. O ar estava espesso pela umidade e os rios e riachos estavam inchados além das margens. A água vertia sobre rochas saindo pelas margens e formava quebradas onde nunca antes tinha havido. A maior parte da água era branca e borbulhante, mas nas beiradas das pedras, a água estava manchada de ácido tánico e parecia uma beberagem marrom avermelhada.

Manolito respirou fundo e afastou seu olhar da água da cor do sangue, e deixou escapar o ar, exalando com ele tudo exceto a tarefa que tinha entre as mãos. Tinha que abandonar seu corpo físico, tornando-se incrivelmente vulnerável a um inimigo potencial e tomado pelo vampiro. Foi muito mais difícil do que esperava, agora que podia sentir emoção e lhe importava seguir vivo.

A mancha escura no cérebro do homem-jaguar recuou como se fosse feita de vermes se retorcendo, quando seu espírito entrou no corpo banhando o cérebro de uma branca e ardente energia. Manolito ouviu o jaguar rugir e ao homem vaiar uma advertência. Duvidou, temendo ferir o guerreiro.

- Faça-o. Não quero essa coisa dentro de mim.

Manolito atacou a mancha, abrindo uma brecha nos anéis exteriores e limpando-os com luz curadora. Os diminutos parasitas tentaram entrar mais fundo no cérebro, num esforço por escapar. Enquanto se dispersavam, Manolito pôde ver o núcleo do homem-jaguar. Os parasitas tentavam manter a luz fora das lembranças do homem-jaguar e ocultar o que o vampiro tinha feito, mas inesperadamente, o homem-jaguar uniu suas forças as de Manolito, utilizando suas bem desenvolvidas habilidades telepáticas e o recente e estabelecido vínculo de sangue.

Abriu suas lembranças para Manolito e o alagou com tanta informação como foi possível. Seu nome era Luiz. Durante muitos anos tinha trabalhado em restaurar a força minguante de sua espécie. Muitas de suas mulheres partiram, procurando companheirismo e amor com os humanos em vez do descuidado abandono de seus próprios machos. Havia tentando convencer os outros de que seguissem o caminho dos Cárpatos e se unissem por vida, proporcionando um lar e uma família, uma razão para qual as mulheres ficassem com eles. Ao princípio, muitos concordaram com suas idéias e tinham começado a abandonar sua forma de vida solitária, mas recentemente, tinham mudado a forma de pensar, enquanto se produzia uma mudança lenta e sutil.

Grupos de homens tinham começado a cometer crímenes terríveis contra as mulheres. Uma nova ordem de jaguares tinha começado a procurar mulheres de sua raça para violá-las num esforço de gerar filhos de sangue puro. Luiz só soube desses horrores através de rumores sem confirmar durante os primeiros anos, mas cada vez mais e mais homens se uniam aaos bandos de rebeldes. Temia não só pelas mulheres, mas também pela raça inteira. Que mulher gostaria de estar com um homem que tivesse feito coisas tão terríveis? Tinha ouvido que algumas mulheres estavam agora resgatando as que estavam em cativeiro. Seu mundo se tornou ao reverso, e Luiz nunca tinha considerado a idéia de que um vampiro pudesse estar por trás disso. Agora tudo tinha sentido.

Vampiro. A criatura mais vil na face da terra. Desde quando tentavam matar toda uma raça? Manolito sabia. Ele e seus irmãos tinham conhecido os irmãos Malinov. A tristeza o alagou pouco a pouco. Os cinco irmãos Malinov tinham sido os melhores amigos de sua família. Agora parecia que todos eles se converteram em vampiros. A idéia de tê-los perdido era inquietante. Agora que podia sentir emoções. Com os irmãos Malinov, tinha passado muitas horas discutindo como tomar o controle dos Cárpatos. A possibilidade de destruir espécies inteiras, aliados do príncipe, tinha sido um tópico recorrente nas conversas. No debate intelectual, tinham ideado muitas formas, e uma tinha sido os influenciar para um comportamento autodestructivo, capitalizar as debilidades da espécie. Tal e como tinha feito a sociedade jaguar.

Quando seu príncipe os enviara ao mundo exterior, longe de sua terra natal para proteger os humanos, o tema tinha surgido outra vez. Afinal, Os da Cruz tinham jurado servir o príncipe e sua gente. Uma vez dada sua palavra, nenhum Da Cruz nunca voltaria atrás, resolvendo assim a questão. Os irmãos Malinov faziam o mesmo.

Manolito guardou cuidadosamente a informação par-se. Somente em falar de trair ao príncipe já tinha sido bastante ruim e estava envergonhado disso. Nunca antes havia se sentido culpado e era uma emoção incômoda.

Você tinha razão hoa anos atrás. - As vozes sussurravam novamente em sua cabeça. - Você e seus irmãos deveriam ter seguido seu próprio caminho. Permitiu que um homem mais fraco reinasse, que conduzisse nossa gente por um caminho de destruição. Zacarías teria reinado e o povo Cárpato teria prosperado, não teriam se afundado no ódio e no medo, sendo caçados pela mesma gente que protegem.

Manolito deixou escapar o fôlego num longo vaio de desafio. – Mostrem-se. Não se escondam entre as sombras. Saiam onde eu possa ve-los. - Não podia manter a energia para ficar muito tempo dentro do corpo do homem-jaguar. Tinha que liberar o homem da mancha do vampiro e voltar para seu próprio corpo desprotegido.

- Não há necessidade de sentir culpado. Era um plano brilhante.

Manolito respirou fundo novamente e bloqueou tudo exceto a tarefa que tinha nas mãos. As vozes do mundo das sombras teriam que esperar. O homem-jaguar estava cansado de sujeitar a fera, de evitar que saltasse sobre Manolito e rasgasse seu corpo desprotegido.

A ardente luz branca, pura energia, derramou-se sobre o centro da escura mancha com terrível decisão. Manolito concentrou toda sua atenção na tarefa, arriscando tudo, não só porque era o que devia fazer, mas porque queria compensar, deste pequeno modo, sua parte no complô idealizado tantos anos atrás. O que somente havia sido um debate intelectual uma vez, instalara-se com furiosas possibilidades, mas Manolito acreditava que tinham descartado toda noção de traição e sabotagem. Obviamente um ou mais dos irmãos Malinov tinham decidido em algum momento colocar em prática o plano. Manolito tinha presenciado de primeira mão as tentativas de assassinar o príncipe, e depois de matar as mulheres e crianças dos Cárpatos. Agora, ao que parecia, o inimigo também tinha colocado em marcha um plano para acabar com a raça do jaguar.

Manolito utilizou cada onça de energia para lutar com os pequenos fluxos contorneantes de parasitas, queimando-os em seus esconderijos, seguindo-os enquanto corriam através do cérebro do homem-jaguar na tentativa de fugir do ataque. Foi um trabalho árduo e exaustivo.

Quando voltou para seu próprio corpo, Manolito cambaleou e quase caiu. Sua anterior necessidade de sangue se viu satisfeita, e utilizar tanta energia o tinha drenado. Só uma disciplina férrea o manteve sobre seus pés.

A seu lado, o jaguar se desfigurou. A pelagem ondeou e os músculos se estiraram e alongaram. A mudança na raça do jaguar era diferente da dos Cárpatos. Pele e músculos apareceram, longo cabelo escuro com nervuras douradas cobriam uma nobre cabeça. Havia um homem abaixado no chão onde antes estivera o felino.

Luiz se endireitou lentamente até que ficou em diante de Manolito. Como todos os homens-jaguar, sentia cômodo com sua nudez, com o corpo musculoso e o cabelo alvoroçado.

—Desculpe-me por tentar tomar sua vida. — Ele falava com grande dignidade, seus olhos se encontraram com os de Manolito sem piscar, inclusive enquanto gesticulava para o sangue que gotejava sem parar pelo corpo do caçador.

Manolito se inclinou ligeiramente em reconhecimento, enquanto mantinha todos os sentidos alerta em prevenção a outro ataque.

—Nenhum homem é responsável pelo que faz sob a influência do vampiro.

—Tenho uma grande dívida contigo por ajudar a me liberar dele.

Manolito sabia que era melhor não negar. O homem-jaguar estava rígido de orgulho e sua face mostrava culpa e preocupação.

—Deve ser difícil viver com algo assim quando trabalhaste tão duro para salvar sua gente da mesma coisa que o infectou.

—Conheço a diferença entre o bem e o mal. A maioria dos homens que restam também, mas o vampiro é como uma enfermidade. Não podemos deter o que não podemos ver. Se voltasse e tentasse falar com outros sobre isto, não teria provas. Não tenho a capacidade, como você, de encontrar a mancha do vampiro e extrai-la.

—Se não o fizer, não há esperança para sua espécie. - Assinalou Manolito. - Suas mulheres fogem, por necessidade e o vampiro lhes destrói de dentro.

Luiz assentiu em sinal de acordo.

—Sabia que algo estava errado e o ódio para com sua raça se inflamava. O vampiro deve ter plantado a semente entre nós. Os homens dos Cárpatos roubam nossas mulheres. Não recordo haver encontrado com um vampiro, ou que alguém dissesse tal coisa, mas sabia há algum tempo que não estava pensando com claridade.

—Subestimou sua força. Ele deve te ter escolhido porque é um líder.

—Num tempo fui, hoje já não. Os homens estão disseminados, correndo em grupos, procurando mulheres de nosso sangue. —Luiz franziu o cenho, esfregando as têmporas enquanto tentava evocar o que lhe haviam dito. - Acredito que o vampiro quer uma mulher específica, um de sangue puro que pode mudar rapidamente e lutar tão dura e incansavelmente como um homem. Insistiu em que se a encontrávamos, levássemos ao Instituto Morrison para suas investigações de duplicação do DNA. – Ele suspirou. - Nesse momento pareceu ter muito sentido, mas agora não o tem, absolutamente.

As folhas sussurraram e ambos os homens se viraram para o som. O homem-jaguar deslizou para Manolito com movimento fluido e sigiloso, tão silenciosamente como qualquer felino enquanto ficavam costas contra costas. - Há olhos na selva. E ouvidos. Minha gente já não é de confiar agora que o vampiro chegou a eles.

Manolito procurou em suas lembranças a informação que evitava. Não podia mostrar vulnerabilidade, ou deixar ver que estava procurando em dois níveis distintos, sem saber qual era real ou imaginário. Nem que sequer sabia se o mundo de sombras era uma ilusão. Podia estar caminhando em dois mundos de uma só vez?

- Você eliminou a mancha do vampiro de mim. É possível fazer o mesmo com meus irmãos?

Manolito podia sentir o homem-jaguar estendendo para sua mente, procurando o perigo com todos os seus sentidos. Olisqueaba o ar, ouvia, seus olhos se moviam inquieta e incessantemente.

—O que seja que há aí fora, está longe de nós. - Disse Luiz. - Embora outros entraram na selva.

O coração de Manolito saltou. Sua companheira. Estava seguro disso. Ela ia a ele. Tinha que ser ela. Nenhum companheiro podia estar separado muito tempo do outro e sobreviver. Eram metades do mesmo todo e necessitavam que o outro o completasse.

- Vêem a mim...

Era uma ordem. Uma súplica. Mas não conhecia seu nome. Não podia evocar uma imagem completa dela. Fechou os olhos para reter suas lembranças... Pele. Recordava sua incrível pele, mais suave que nenhuma outra coisa que houvesse tocado jamais, como seda sob seus lábios. Seu sabor, selvagem e especial como a mulher mesma. Sua pulsação se acelerou e seu fôlego se tornou rouco, seu corpo se contraiu inesperadamente. Tinha esquecido o que era o desejo, a luxúria. Pensar numa mulher e desejar afundar seu corpo para sempre no dela, torná-los um só. Ou talvez nunca tinha conhecido realmente a sensação. Talvez tinha explorado tantos outros homens que simplesmente tinha sido uma ilusão até este mesmo instante. Agora seu corpo reconhecia a mulher que necessitava e era exigente quanto a ser satisfeito em todos os sentidos.

Cárpato. Você cambaleia de cansaço. O que fez, tirar o vampiro de meu corpo, foi difícil para ti. —Luiz fez uma declaração.

—Sim. - Mas era mais difícil olhar as folhas dos arbustos e samambaias, Aos galhos que jaziam rotas na terra e ver as faces sombrias do mal o olhando. Nas numerosas cascatas havia olhos como se tratasse de um túmulo aquoso. Tudo parecia ser translúcido, um véu cinza e insalubre que caía sobre as brilhantes cores da selva.

O homem-jaguar relaxou, a tensão se afrouxou nele, mas Manolito estava mais alerta que nunca. Na distância, outros tinham entrado na selva, isso era certo, mas fosse o que fosse o que se enfrentava no mundo de sombras, estava ainda ali, esperando e observando. O homem-jaguar não podia ver nem sentir o outro mundo, mas Manolito sabia que ainda estava em perigo. Ou talvez o mundo de sombras era na realidade uma ilusão e estava perdendo a cabeça, já que suas pernas se negavam a lhe sustentar muito mais. Manolito se abaixou lentamente, cuidando em aparentar manter o controle. Lançou outro olhar ao redor, com um pequeno cenho na face. Por que estava vendo tudo através de um véu, como se estivesse metade em seu mundo e metade no outro? Enterrou a mão na terra, na qual tinha dormido, esperando que isso o ancorasse e o mantivera longe das sombras.

Justo como esperara, a terra era terra preta. Fértil terra negra que se encontrava entre a argila mais pobre e a areia branca da selva. Ao contrário de outras terras da selva, a terra preta mantinha sua fertilidade. Encontrar a preciosa terra tinha sido um fator decisivo na decisão de sua família de comprar a ilha.

Os irmãos Da Cruz tinham compreendido que a terra era a chave para a sobrevivência e a esperança. longe de sua terra natal. Sem sua terra nativa, procuraram na selva brasileira durante os primeiros séculos, algum terreno rico e rejuvenescedor que os ajudasse, não só a curar seus ferimentos e dormir, mas que tambem lhes desse a força que necessitavam para manter a honra, tão longe do príncipe e sua gente e sem companheiras que os sustentassem. Pegou punhados da preciosa terra e tapou com ela os ferimentos de seu estômago e os lados, para evitar perder mais sangue.

Ainda com a terra em suas mãos, as grandes folhagens que pareciam de renda estavam escurecidas, de um vívido verde a um cinza apagado. O fôlego ficou preso na garganta quando lhe ocorreu uma idéia. E se sua companheira estivesse morta? Deixaria de ver em cor?

A selva era capaz de afligir os recém chegados com a pura intensidade de suas vívidas e brilhantes cores e de sua crua beleza. Manolito se sentia em casa num lugar que muitos consideravam ameaçador e opressivo. Agora, com sua companheira tendo restaurado suas emoções e sua capacidade de ver em cor, deveria estar cego pelas vívidas cores, mas quanto o rodeava, flutuava entre cor e sombras. Podia isso significar que ela estava morta? Era por isso que não estava com ele? Por um momento o tempo pareceu parar. O coração trovejou em seus ouvidos, num lamento frenético por sua outra metade.

Não. Deixou escapar o fôlego. Ela estava viva. Sentia-a. Havia-a tocado mente a mente. Fora breve, mas sua mente tinha tocado a dele. Perto dele, o homem-jaguar se moveu, atraindo para si a atenção de Manolito novamente. Sentindo-se vulnerável, sem saber o que era real ou ilusão, forçou seu corpo a ficar novamente em pé, enfrentando o homem.

—Me deixe te ajudar. - Ofereceu Luiz, franzindo o cenho enquanto observava o brilho da pele de Manolito. Manteve a voz baixa e amigável, vendo a súbita labareda de calor nos olhos do caçador Cárpato. - São terríveis seus ferimentos?

Manolito sacudiu a cabeça. Não podia permitir vagar entre os dois mundos. Não quando não distinguia amigo de inimigo. Isso só o colocava em mais perigo que nunca, mas não parecia poder evitar. Num momento a selva parecia vívida com brilhantes cores e os sons familiares e reconfortantes da noite e ao seguinte estava numa versão apagada, com as cores amortecidas e nebulosas, a sombra viva um pouco, mas tampouco morto. Fez um esforço em obrigar sua mente a voltar para a situação atual, a extrair tanta informação como fosse possível enquanto tivesse oportunidade.

—Conhece a mulher, a qual busca o vampiro?

Imediatamente a expressão do homem-jaguar se tornou cautelosa.

—Não estou seguro. Resta poucos puro-sangue entre nossos homens. E inclusive menos mulheres e só um ou dois de sangue nobre.

—Meu irmão caçula encontrou sua companheira. Ela é jaguar. E de linhagem aristocrática. Está se referindo A ela? —Manolito queria colocar as cartas sobre a mesa de uma vez. Se isto fosse algum plano elaborado para recapturar Juliette, a companheira de Riordan, os homens-jaguar teriam uma guerra nas mãos. Os irmãos Da Cruz protegeriam Juliette com suas vidas, e todo Cárpato faria o mesmo.

—Ninguém seria tão estúpido, Cárpato.

Manolito.

Luiz inclinou a cabeça em reconhecimento da cortesia.

Os Cárpatos não estavam acostumados a revelar seus nomes aos inimigos. Manolito não lhe tinha dado seu sobrenome porque se mostrava cuidadoso, mas Luiz não precisava saber isso.

—Essa outra mulher está em perigo. Talvez minha gente possa ajudar.

Luiz respirou fundo, vacilou e depois assentiu.

—Peço-te ajuda para assistir meus irmãos. Se trouxer um deles , consideraria o eliminar a mancha do vampiro?

Fez um silêncio cheio, manchado somente pelos insetos noturnos. Manolito sabia o que ele lhe pedia... Um tremendo favor... Mas também uma enorme demonstração de confiança.

—Teria que tomar sangue dele para fazer tal coisa. – Admitiu. - Este é um professor vampiro, dificil de derrotar. Poderia tentar curar sem o vínculo, mas se for tão difícil como foi contigo, não estou seguro de que possa fazer. —Tinha reconhecido o toque do vampiro. Um dos irmãos Malinov sem dúvida. Havia crescido com eles, se deslocado com eles, rido com eles e lutado a seu lado. Tinham sido amigos.

Talvez se o fazemos discretamente, não alertemos o vampiro do que está fazendo para nos ajudar.

—Se desejas que ajude sua gente, tem que me dizer quem é a mulher para que possamos colocá-la sob nosso amparo. Você e eu sabemos que seus homens chegaram muito longe para entregá-la sem mais, ao Laboratório Morrison. A tratarão brutalmente, forçando sua submissão e finalmente a quebrarão. E se por algum milagre não o fazem e a entregam ao vampiro, estará morta de qualquer modo.

—Eu a protegerei.

—O vampiro já se aproximou de ti uma vez e você não o notou. Caminha entre vós sem ser visto. Dê-me seu nome.

—Ela não se renderá tão facilmente a ti.

—Não procuro sua rendição, somente sua segurança. —Manolito lançou outro olhar ao redor. As sombras estavam aproximando-se mais e mais. Podia ve-las entre as folhas. Pele estirada firmemente sobre ossos. Buracos negros em lugar de olhos. Dentes manchados e pontiagudos. Manolito trocou o peso ligeiramente sobre as pontas dos pés, preparando -se para o inevitável ataque. Piscou e as imagens desvaneceram.

—Faz muito tempo que ela resgata mulheres de nossa raça e luta contra nossos guerreiros. Detesta os homens. Não se contentará sendo protegida. Esse não é seu estilo.

— Você fala d Solange , prima de Juliete.

Luiz assentiu.

—Não há outra como ela que nós saibamos. É quase tão forte como qualquer de nossos guerreiros e igualmente boa lutadora. Provém de uma linhagem antiga e pura que pode ser rastreada para trás, há centenas de anos. Cuidamos dela como o que é, o futuro de nossa espécie. Não gostará nada de ter algo a ver conosco. Tentei convencer os outros para falar com ela, de forjar uma amizade e obter que nos aconselhe sobre o que terá que fazer para trazer as mulheres de volta a nós. As mulheres a ouvem, mas agora não tenho mais possibilidades. Não a menos que possa destruir a influência do vampiro entre nós.

Manolito sabia que Solange e a irmã caçula de Juliete, Jasmine, negavam em ir ao rancho Da Cruz para visitar Juliette, mas concordaram em permanecer na casa dos Da Cruz na retirada ilha. A ilha era selvagem e três lados da casa estavam protegidos pela selva. Perguntou-se por que Muiz estava em sua propriedade, não que a raça do jaguar não considerasse a selva inteira como seu domínio. Tinham assombrosas capacidades para nadar, e o leito dos rios nunca era impedimento.

—Vieste aqui a procurando.

Luiz desviou o olhar por um momento.

—Sim. Acreditamos que havia uma possibilidade de que pudesse estar aqui. Sabíamos que não iria a seu rancho.

—E sabiam que a mulher mais jovem estava com ela. A que Juliette e Solange recuperaram das garras de seus homens.

—Não são meus homens. Não posso controlá-los. Esperava encontrá-la antes que os outros.

—E o que teria feito com ela? — Exigiu Manolito, seus olhos negros brilhavam perigosamente.

Luiz sacudiu a cabeça.

—Não sei. Acreditei que devia conversar com ela, mas então te cheirei e fiquei muito confuso. – Ele esfregou a testa. - Comecei a pensar que estava aqui para tomar nossas mulheres e quis vê-lo morto.

—Veio a ilha controlado, mas então aconteceu algo. Você deve te-lo encontrado aqui. - Disse Manolito com alarme. Isso significava que o professor vampiro estava perto, em algum lugar da ilha e ninguém sabia. Solange, Jasmine e Juliette, sequer seu irmão Riordan estava a salvo. - Com quem se encontrou?

—Com nenhum vampiro. Somente com um velho amigo. Tinha vindo aqui em busca de refúgio e partia ao compreender que a casa estava ocupada pela família Da Cruz.

Manolito manteve sua expressão em branco, mas seu coração saltou e palpitou. O medo era uma emoção incrível e agora que o sentia, sabia que era por aqueles a quem amava e não por si mesmo.

—Seu amigo há muito despareceu, Luiz. Evite-o de todo jeito. Ele encontrou-se com um professor vampiro e porque tinha um plano e precisava de você, escapou ileso.

—Acha que meu amigo está morto?

—Se não morto, indubitavelmente poluído.

—Obrigade Manolito, por sua ajuda. - Disse Luiz, e pela primeira vez pareceu derrotado. Seu corpo se encurvou, num movimento rápido e gracioso, a pelagem ondeou enquanto seu focinho se alongava para acomodar uma boca cheia de dentes. Em absoluto silencio deslizou entre a folhagem e desapareceu.

para estar seguro, Manolito se dissolveu em névoa e se uniu ao vapor baixo e cinza que vagava entre os troncos das árvores a alguns centímetros do chão. Era muito melhor errar a favor da cautela com o homem-jaguar.

Tomou forma novamente sobre uma grande pedra em frente a uma barulhenta cascata branca que vertia sobre as rochas e caía, transformando-se num rio caudaloso. Necessitava de sua companheira. Precisava tocá-la, abraçá-la. Saboreá-la. Sua fome havia retornado, trazendo com ela confusão. Precisava advertir sua família do perigo que os espreitava na ilha, mas sobretudo, precisava que sua companheira o ancorasse.

- Onde você está?

O lamento ressoou em sua mente, perdido e solitário.

 

MaryAnn colocou um pé com cuidado fora do veículo e suas amadas botas de couro afundaram profundamente no barro. Ofegou com horror. As botas tinham sido um querido achado. De couro marrom escuro e envelhecido e de bico fino, eram elegantes com seus saltos altos e grossos, mas confortáveis para a selva tropical. Mais ainda, faziam jogo com a jaqueta de couro da mesma cor, suave como a manteiga. Última moda. Inclusive os tinha impermeabilizado cuidadosamente para qualquer ocasião, como um passeio pela selva. Tinha vindo totalmente preparada, mas ainda não tinha saído do veículo e já estava afundada no barro, até os tornozelos. Adorava suas botas.

Quando tirou a bota, ouviu um som de sucção acompanhado pelo desagradável aroma adocicado de flores misturado com vegetação podre. Tornou para trás no assento para examinar o dano, franzindo o nariz com repugnância. Que estava fazendo nesse lugar? Teria que estar numa cafeteria, com a música das ruas cantando para ela e o burburinho de pessoas por toda parte, não neste estranho e silencioso mundo de… Natureza.

—Depressa, MaryAnn. Temos que andar a partir daqui. - Disse Juliette.

MaryAnn pegou com cautela sua mochila e apareceu pela porta aberta, para o interior estranhamente tranqüilo do bosque.

—Está bastante enlameado, Juliette. - Disse, apegando-se a qualquer razão para permanecer na relativa segurança do Jipe. A selva a aterrorizava de tal forma que nunca poderia explicar a ninguém. Seus medos estavam profundamente enraizados e nunca tinha sido capaz de se sobrepor a eles. Não podia concordar a idéia de andar tranqüilamente dentro dessa opressiva escuridão, como um cordeiro para o sacrifício.

—Talvem posssam chamá-lo e lhe dizer que estamos aqui. Fazem esse tipo de coisas, não fazem?

—Ele não responderá. - Lhe recordou Riordan. - Acredita que queremos lhe fazer mal

—Mencionei que alguma vez acampei, certo? —Disse MaryAnn, esquadrinhando o chão em busca de um lugar seco.

—Três vezes. - Disse Riordan, sua boca era um conjunto de linhas cruéis.

Depente estava diante dela, segurou-a pela cintura e a depositou a curta distancia do veículo. Havia um pouco de impaciência no toque de seus dedos. MaryAnn não se afundou no chão, mas os insetos se agruparam a seu redor. Ela mordeu o lábio e se absteve heroicamente de dizer algo enquanto dava um cauteloso olhar ao redor. Agitando o frasco de repelente, orvalhou os insetos de forma metódica e acidentalmente, o pescoço de Riordan.

Ops... Sinto muito.

Colocou pulcramente o frasco numa das reentrancias do cinturão, ignorando o fulminante olhar. Ceder ao impulso infantil lhe tinha proporcionado uma pequena onda de satisfação. Sabia que estava lerda, mas conseguiria por si mesmo, não deixaria que ninguém lhe apressasse.

A selva não era como esperara. Era escura e um pouco atemorizantea. O ar era pesado pela umidade, embora imóvel, com espera, como se milhares de olhos a observassem. O zumbido dos insetos e os incessantes gritos dos pássaros eram o único som que se ouvia.

MaryAnn engoliu com força e permaneceu imóvel, temerosa de se mover em qualquer direção. Por alguma razão tinha pensado que a selva seria ruidosa, com os milhões de sons bonitos, não só de pássaros e o sussurro dos insetos. Seu coração começou a palpitar. Em algum lugar na distância um jaguar rugiu. Um calafrio desceu por suas costas e MaryAnn limpou a garganta.

—Devo ter esquecido de lhes falar de minha estranha ojeriza com gatos. Gatos domésticos. Não sei se é tambem com os de qualquer outro tipo, mas os gatos domésticos me assustam. Eles têm o olhar fixo e cravam suas garras na gente. – Ela estava balbuciando e não podia parar. Era patético e um pouco embaraçoso. – Então já sabem, não se convertam num enorme gato ou algo assim. E se resultar que alguém esteja nos espreitando, provavelmente o melhor é não me dizer. Prefiro permanecer completamente ignorante.

—Manteremos-lhe a salvo. - Assegurou Juliette.

—Acreditava que sabia que vínhamos para a selva. - Disse Riordan, tentando não soar irritado. Seria realmente a companheira de seu irmão? Não encaixava em nada com seu estilo de vida. Manolito a comeria viva.

—Rancho de gado. - Corrigiu MaryAnn. - Disseram uma fazenda de gado nos perto da selva tropical. —E isso já era bastante quando bem pensava em um luxuoso hotel de cinco estrelas. - Não disseram uma palavra sobre uma ilha ou de estar em meio à selva. Acreditei que levariam a irmã de Juliete até lá. Deixei muito claro. Sou uma garota de cidade. Me dê um assaltante e um beco em qualquer dia da semana.

Procurando tranqüilidade, tocou os dois pequenos spray de pimenta enganchados junto ao frasco de repelente de insetos em seu cinturão sob a jaqueta. Vinha preparada para os homens-jaguar, não para os jaguares. E podia ler a expressão de Riordan, que não se incomodava em ocultar. Sua opinião sobre ela batia todo o tempo num ponto baixo, mas não lhe preocupava. Não era a razão pela qual se obrigava a ir A um lugar que sabia ser extremamente perigoso para ela. Não tinha nada que provar a ninguém, nunca tivera.

Riordan fez um gesto com os dedos e MaryAnn forçou um pé diante do outro, seguindo contra vontade seu guia. Juliette ia atrás dela e parecia pequena, compacta e alerta. Movia com graça e facilidade através do surpreendentemente e espaçoso solo da selva. A selva era úmida e implacavelmente escura, mas podia ver cores que não deveria ser capaz de ver. MaryAnn estava um pouco impressionada pela vasta variedade de tons. Enquanto caminhava, surpreendeu-a a ausência de animais. Sempre tinha acreditado que as criaturas estavam por toda parte na selva, esperando para cair sobre os imprudentes visitantes, mas enquanto andavam em fila, houve somente uma ondulação ocasional de asas acima de suas cabeças.

Esperava também, que o solo fosse uma impenetrável selva, mas era espaçoso e fácil de andar por ele. As árvores se elevavam por toda parte a seu redor em gigantescos ou suaves troncos elevando-se sem galhos, quase até a canopia. As raízes estalavam fora das bases como serpentes, retorcendo-se através do chão. Algumas árvores pareciam se sustentar no alto por uma miríade de pernas de pau. Penduravam-se cipós por toda parte, unindo as árvores e formando um caminho na canopia. As cepas se arrastavam pelos troncos, tecendo seu caminho através de orquídeas e sobre os arbustos, samambaias e musgo brotavam dos galhos. Passou sobre folhas mortas, sementes, galhos caídos e raízes retorcidas que se estendiam em todas as direções como tentáculos através do chão do bosque.

MaryAnn estava muito assustada, aterrorizada de fato. Não ficava assim tão assustada desde que um homem tinha irrompido em sua casa e quase a tinha matado. Se sua melhor amiga, Destiny, tivesse ali, teria admitido em voz alta, falado disso e talvez teria rido de si mesma. Mas não conhecia esta gente e estava totalmente fora de seu elemento e era só sua intensa necessidade de ajudar os outros que a empurrava para frente.

Vestiu-se com suas roupas mais confortáveis, tentando se valorizar. A jaqueta bordada era curta e estava na moda, em couro marrom envelhecido, fazia jogo com as botas e lhe dava confiança. O bordado das costas era muito entranhado para descrevê-lo e as linhas franzidas proporcionavam um elegante aspecto renascentista. Combinando a jaqueta com seu jeans, de cós abaixo do umbigo e sua camisa favorita, com decote baixo e bordada com intrincadas miçangas em turquesa, dourados e transparentes. Não podia ter melhor aspecto. Bem, não devia levar em conta seu cabelo. Ergueu a mão para apalpá-lo. Com desespero, tentou recolhê-lo numa grossa tranca. Não se tinha incomodado em ficar nada mais que uns pendentes de incrustações porque se figurava que algo mais seria um estorvo. Enquanto seus saltos se afundavam na vegetação, deu-se conta de que nadava desesperada em águas muito profundas e estava vestida de forma totalmente inapropriada. Piscou para conter as lágrimas e seguiu caminhando.

Se Manolito estava vivo, onde estaria? Por que não pudera alcançá-lo depois do momento horrível quando a tinha golpeado o conhecimento de que um jaguar estava lhe atacando? Tinha tentado detê-lo, estirando as mãos para pegá-lo, para interpor em seu caminho, gritando uma advertência, mas ninguém tinha entendido e como podia explicar sem parecer uma louca, que por um momento estivera ali... Na selva... Em pé entre o Manolito e uma morte segura.

Riordan e Juliette pareciam sombrios, mas não tinham proporcionado respostas a suas temerosas perguntas. Tinham virtualmente a jogado na caminhonete, Riordan quase rudamente. Sempre lhe parecera intimidante, como seus irmãos, mas nunca realmente rude, não até agora.

Como se lesse seus pensamentos, Juliette se aproximou a seu lado.

—Sinto muito. Isto deve ser difícil para ti.

—Não é o meu mundo. - Admitiu MaryAnn, desejando dar a volta e correr para a segurança da caminhonete. Seguiu caminhando atrás de Riordan. - Mas podia se ajeitar, porque era o que fazia quando alguém precisava ajuda. E não ia abandonar Manolito da Cruz na selva tropical com um jaguar lhe atacando. Não podia respirar pelo desejo de lhe ver vivo e bem.

Doía-lhe o peito, sentia o coração como uma pedra e seus olhos ardiam constantemente pela necessidade chorar sua morte. Precisava vê-lo. Ouvir-lhe. Tocar-lhe. Não tinha sentido, mas o correto não importava. Tinha que estar com ele ou não ia sobreviver. Embora tentasse duramente manter seu rosto afastado de Juliete, era consciente dos olhares ansiosos que esta lhe lançava.

—Ele está vivo. - Disse Juliette silenciosamente.

—Isso você não sabe .—MaryAnn respondeu. - O jaguar… — Deteve-se tratando de recuperar o controle antes de falar. - Estava atacando-o. Senti as garras rasgando sua carne. —Pressionou a mão sobre seu estômago como se estivesse ferida.

Riordan saberia. —Juliette lançou um olhar rápido e preocupado a seu companheiro enquanto mantinha o passo com MaryAnn. Não sabia por que, mas estava começando a ter dúvidas sobre se Manolito estava vivo ou não. Era uma loucura, porque os irmãos Da Cruz saberiam se estivesse morto e através deles, ela saberia. - Minha gente é da raça do jaguar. Se um deles atacou Manolito, temo que Riordan e seus irmãos se vinguem. A raça do jaguar sempre deixou os Cárpatos estritamente em paz. Aqui fora, a gente escolhe as batalhas. Um simples arranhão pode resultar numa infecção mortal.

- Riordan, está seguro que Manolito está vivo? Sinto dor e uma terrível sensação de opressão e terror. - Juliette precisava que seu companheiro a tranqüilizasse, já não podia discernir a verdade.

Riordan respirou fundo. Ele também sentia dor e um irracional temor pela vida de seu irmão. Estendeu para Zacarias seu irmão mais velho, a única pessoa em quem sempre podiam confiar. - Sente Manolito? Pode me dizer se ainda vive?

Passou-se um momento enquanto Zacarias tocava Manolito. – Ele está vivo, mas se protege. Tem necessidade de mim?

Zacarias estava no rancho com o resto da família e Riordan desejava que ele ficasse por lá. Zacarias não permitiria a liberdade da irmã de Juliete e sua prima. Insistiria em levá-las de volta ao rancho para protegê-las e nenhuma delas iria de boa vontade e o isso não deteria Zacarias. Ele governava com um vislumbre de seus dentes nus e seu enorme poder e esperava e conseguia imediata obediência de qualquer um.

- É melhor que ninguém esteja aqui quando contatarmos Jasmine e Solange. Jasmine necessita da ajuda de MaryAnn e nem ela e nem sua prima irão voluntariamente se você ou Nicolas estiverem aqui.

- Não atenda a estupidez, Riordan. Dou-me conta de que deve fazer feliz sua companheira, mas não a custo de colocar em perigo as mulheres, especialmente companheiras potenciais.

Com isso, Zacarias desapareceu, depois de dar sua opinião e esperando que Riordan seguisse seu conselho, o que não era tão fácil se tinha companheira. Solange lutaria com ele até a morte por sua liberdade e se levasse um só arranhão, Juliette nunca o perdoaria.

Riordan suspirou e tratou uma vez mais de alcançar Manolito. O homem se escondia. Ele elevara-se e estava provavelmente mais perto da fértil cama de terra rica. Ferido gravemente como estava, necessitaria da rica terra negra para sobreviver.

MaryAnn era bem consciente do escrutínio de Riordan. Não se voltou para olhar Juliette, mas sabia que eles estavam conversando telepaticamente sobre ela. Não confiava o bastante neles, afinal, realmente o que sabia sobre eles?

Juliette aguilhoou Riordan. - Por que me sinto como se tivesse dor?

- Acredito que é a mulher transmitindo. Deve ser uma psíquica muito mais poderosa do que nos fizeram acreditar. Também estou sentindo suas emoções. É possível que seja jaguar?

Juliette inalou o aroma de MaryAnn e observou os movimentos de seu corpo atentamente. MaryAnn quase corria, com suas botas de saltos altos e não tocava o solo do bosque. Parecia totalmente desconjurada mas… - Não há nenhum ruído, Riordan. Não faz nenhum som quando se move. Nenhuma folha range, nenhum ramo estala. Deveria ser fraca, sente-se fraca, mas se move como alguém nascido e criado aqui. Mas não é jaguar.

Riordan conteve o fôlego, afrouxando o passo só um pouco para que MaryAnn não se desse conta. Seria a mulher parte da armadilha? O que sabiam dela afinal? Manolito nunca a reclamara abertamente, como qualquer companheiro faria. Não havia dito a seus irmãos que a protegessem, como faria um autêntico companheiro. Riordan mediu-a gentilmente, mantendo o toque ligeiro e tranqüilo.

MaryAnn roçou a cabeça com a mão enquanto continuava caminhando e Riordan sentiu o golpe psíquico, como se ela tivesse golpeado-o, realmente. Retirou bruscamente e lançou um rápido olhar a sua companheira, sinceramente surpreso.

- Com o que estamos lidando, Juliette?

MaryAnn tinha sido protegida por não menos que três poderosos caçadores Cárpatos. Se fosse vampira, certamente a teriam detectado. Deliberadamente, somente para se sentir seguro, virou pelo caminho errado, afastando-se de onde sabia que seu irmão havia sido enterrado.

MaryAnn deu três passos e imediatamente tudo nela mudou e se estirou na outra direção. A sensação era tão forte que ela se deteve.

Este é o caminho errado. Não é aqui. Ele… — Ela gesticulou, seu coração palpitava.

- O que estava fazendo Riordan, Guiando-a pelo caminho errado? -        Não queria encontrá-lo? Por que a mantinham a distancia? As sementes da suspeita estavam crescendo e não podia suprim-las. Virou longe da direção aonde Riordan se dirigia, de repente confusa. Não podia entender porque acreditava saber onde estava Manolito. Tentava repetidamente alcançá-lo, roçar a mente dele com a sua, mas não podia, não podia lhe encontrar. Por mais que tentasse, por mais que soubesse que não era psíquica, não tinha nenhum talento e nenhuma habilidade para ser a companheira de ninguém. Mesmo assim, temia que o homem estivesse em problemas e tinha que chegar até ele.

Confusa, deu outro passo longe dos Cárpatos e tropeçou com as raízes de apoio de um das emergentes árvores mais alta. Uma árvore de enorme altura que estalava através da canopia, para dominar outras. As raízes estavam retorcidas de forma elaborada e ardilosa, vagando pela superfície do solo, as pontas sondando em busca de nutrientes. Uma pequena rã arbórea, de cor verde brilhante, saltou de um ramo particularmente grosso para aterrissar sobre o ombro de MaryAnn.

Ela conteve um grito e ficou congelada.

—Vá... Saia de mim, agora mesmo. - Ordenou, sua mão fechando ao redor do pequeno spray de pimenta.

- Onde está você? Preciso de você. Por favor que esteja vivo. - Porque não era uma mulher feita para rãs arbóreas e mosquitos, mas não ia sair da selva até que encontrasse o homem ou seu corpo. Podia se arrumar com a escuridão de um beco da cidade em qualquer dia da semana, mas detestava andar entre o barro e folhas podres, com a opressiva escuridão e o silêncio fechando a seu redor. Sentia olhos observando cada passo que dava.

Juliette sussurrou brandamente, embora era com sua mente com a qual se estendia, para pedir à rã que deixasse MaryAnn. Juliette tinha uma afinidade com animais, e mesmo os répteis e anfíbios respondiam as vezes, mas neste caso, a rã se moveu para mais perto do pescoço de MaryAnn, grudando nela com suas patas pegajosas.

- Afaste-se de mim! – Gemeu MaryAnn em sua mente, incapaz de esperar a que a rã obedecesse à ordem de Juliete. - Agora mesmo!

—Vá! — Gritou em voz alta.

Evidentemente a criatura já tivera bastante dos humanos, e saltou para o tronco da árvore mais próxima, aterrissando perto de outras duas pequenas rãs. Na canopia, um pequeno macaco jogou folhas no trio de anfíbios.

MaryAnn fechou os olhos, respirou fundo e começou a caminhar outra vez. Desta vez, apesar dos altos saltos de suas botas, pegou o ritmo até que se viu virtualmente correndo. Passou junto a Riordan, que parecia atônito. Quando começou a segui-la, Juliette lhe segurou por braço e gesticulou para as árvores que os rodeavam. Pequenas rãs dedilhavam os troncos e os galhos, saltando de uma árvore a seguinte, seguindo o progresso de MaryAnn. No alto, na canopia, os macacos utilizavam trepadeiras para convergir e seguir a mulher enquanto esta avançava pela selva

- Acha que o vampiro está aqui? - Perguntou Juliette.

Riordan fez um bem mais cuidadoso e completo escaneio do bosque circundante. - Se for assim, é um professor em ocultar sua presença. Sei que são muito ardilosos em tais situações, então teremos que estar alertas a todos os perigos para ela. Ela sente-se atraída para Manolito e provavelmente possa lhe encontrar mais rápido que nós, já que defende sua presença de mim.

Juliette franziu o cenho enquanto começavam a seguir MaryAnn. - Seu laço de sangue deveria te manter informado de seu paradeiro.

Riordan lhe lançou um pequeno sorriso. - Somos antigos, Juliette e estudamos muitas coisas ao longo dos séculos. Manolito pode ocultar sua presença até mesmo a nossos melhores caçadores e não há maneira de detectar Zacarias, quando ele não quer que se saiba que está perto.

MaryAnn se deu conta de que lhe corriam lágrimas por sua face. A sensação de terror e medo era esmagante. - Onde você está? Encontre-me. - Continuava tentando chamar Manolito mentalmente, embora claramente não tinha os dons psíquicos que todos acreditavam que possuía.

Quando entrou mais fundo na selva, deu-se conta de que o verde já não eram tão vívido. As folhas e os arbustos pareciam ter um véu de névoa sobre eles, mudando a vibrante cor, a um lânguido cinza. As sombras cresciam onde antes não havia nenhuma. Primeiro havia visto brilhantes cores na escuridão, e agora estava vendo sombras quando não deveria. O terror moveu através dela, mas não podia parar. Sua mente se infestou de sussurros enquanto começava a correr. Ela não fazia cooper. Não corria ou fazia qualquer atividade física, mas se encontrava apressando-se pelo bosque num esforço por chegar a Manolito.

Algo a empurrava para frente enquanto por toda parte o bosque obscurecia e o sussurro sobre sua cabeça se tornava mais pronunciado. Uma vez, arriscou a olhar para cima, mas havia pequenas coisas peludas balançando-se sobre sua cabeça e isso a fez sentir-se enjoada e ligeiramente doente. Tropeçou e quase caiu, apoiando a mão para evitar a queda. Sua unha alongada, com uma formosa manicure, cravou no úmido musgo. Uma unha quebrada. Uma dúzia de rãs verdes saltou em seu braço e se aderiram com suas pegajosas patas.

Ela se congelou. As rãs a olhavam fixamente com imensos olhos negros e verdes, parpados. Eram brilhantes, com lunares no ventre e unhas verdes, como se estivessem polidas. As línguas saíram como uma flecha, provando o couro de sua jaqueta. MaryAnn estremeceu e olhou atrás, para Juliette.

—Por que fazem isso?

Juliette não tinha uma resposta para ela. Nunca tinha visto as rãs se congregam em semelhante número antes e tinha passado a maior parte de sua vida na selva.

—Não sei. – Ela admitiu. - É uma conduta incomum. - Riordan, elas ignoram até o mais forte dos toques. - Havia alarme em sua voz e em sua mente.

Riordan colocou Juliette atrás dele, avaliando Às rãs com suspeita.

—Quando as criaturas não atuam como devem, é melhor destruí-las.

O fôlego de MaryAnn ficou pereso na garganta. Sacudiu a cabeça.

—Não. Não quero que as mate. provavelmente sentem curiosidade por minha jaqueta. – Ela fez um gesto com sua mão livre, para que fossem embora. - Vão embora. Depressa antes que o grande Cárpato mau as frite. Estou falando sério, têm que se mover. - Silenciosamente insistiu para elas cooperarem, enquanto mentalmente erguia os olhos num gesto de enfado. – Pelamor de Deus, quanto mal podiam fazer umas diminutas e inocentes rãs arbóreas? Não queria ver Riordan fazer algo como lançar uma chuva de fogo sobre essas indefesas criaturas. - Voltem para suas casas.

As rãs voltaram para as árvores, o movimento enviou uma estranha onda de verde sobre as raízes enredadas, como se dúzias de rãs saltassem para a segurança dos galhos mais altos. MaryAnn lançou a Riordan um pequeno sinal.

O que ia fazer? Convertê-las em carvão? Pobres coisinhas. Provavelmente estivam tão assustadas como eu.

- Sentiu, Juliette, essa onda de poder? Ela fez com que as rãs fossem embora. E está zombando de mim. – Ele teria que revisar suas idéias sobre da companheira de seu irmão.

—Essas rãs são venenosas. Os nativos as usaram durante anos para envenenar as flechas. – Ele não pôde resistir de acrescentar.

MaryAnn se endireitou lentamente, olhando automaticamente para sua unha quebrada. Suas unhas cresciam anormalmente rápidas, sempre acontecia assim, mas agora o esmalte ia ficar danificado! E doía como o inferno. Sempre acontecia isto quando quebrava uma unha. Seu dedo pulsava, ardia e sentia um formigamento enquanto a unha se regenerava.

Franziu- o cenho para Riordan.

—Não trate de me assustar com as rãs. Eu não gosto, mas não sou mais essa garota da grande cidade. —Era sim, mas ele não precisava saber.

—São venenosas de verdade. - Confirmou Juliette. - Riordan está dizendo a verdade. Não é normal ver tantas rãs num só lugar e certamente não deveriam nos seguir.

MaryAnn deu um olhar para as rãs que os rodeavam.

—Estão-nos seguindo? -A idéia a deixou nervosa. Não queria matá-las, mas queria que fossem embora. Fora de sua vista. É obvio que então estariam ocultas na folhagem, olhando fixamente com seus olhos gigantescos como todo o resto na selva pareciam estar fazendo.

—Sim e além disso, olhe os macacos! - Disse Riordan, cruzando os braços sobre seu peito e assinalando a canopia com um gesto do queixo.

MaryAnn tinha medo de olhar. As rãs eram uma coisa... E ela escolheu omitir a parte do veneno... Mas macacos eram pequenas feras peludas com mãos quase humanas e dentes grandes. Sabia disso porque uma vez, só uma vez, tinha ido ao zoológico e os macacos se tornaram loucos, gritando e saltando ao redor, despindo enormes dentes para ela, que pensou parecer sorrisos. Tinha sido um dia horrível, não tão ruim como este, mas se prometera não voltar nunca mais ao zoológico.

MaryAnn quadrou os ombros e elevou o queixo.

—Tem alguma idéia do por que estas criaturas não se comportam com normalidade?

—Acreditava ter, - admitiu Riordan. - Acreditei que talvez um vampiro estava utilizando seus olhos e ouvidos para reunir informação, mas agora não estou tão seguro.

Seu coração saltou quando ouviu a palavra “vampiro”. – Estivera esperando desde que tinha entrado na escura opressão da selva, mas ainda assim não estava preparada. Desejava a normalidade das pessoas alavancadas nas esquinas de uma cidade. Podia intimidar tipos duros da rua com um olhar, mas uma manada de rãs ou macacos dirigidos por vampiros… Dizia-se manada? Sequer sabia como dizia, pois não pertencia ao reino animal. Queria desesperadamente voltar para casa.

Logo que o pensamento foi completado, a dor emanou, alagando-a. Mais que dor, sentia a necessidade, a compulsão de seguir movendo-se depressa. Girou para longe de Riordan e Juliette, para a direção onde à compulsão era mais forte. Não podia abandonar este terrível lugar até que encontrasse Manolito.

Virou a cabeça de um lado a outro, sem ver nada, só pensando nele, nas linhas de dor e fadiga gravadas profundamente em seus atraentes traços. Seus ombros largos e em seu peito. Ele era alto, muito mais alto que ela, que não era exatamente pequena. Onde ele estava?

Podia ouvir o agudo som de morcegos chamando uns aos outros, e em algum lugar no furioso rio, uma ariranha era atraída por outra. O mundo pareceu se estreitar ou provavelmente se expandiram seus sentidos, tornando seu ouvido mais agudo, de forma que seu cérebro processasse cada som individual. O sussurro nas folhas eram insetos, a ondulação de asas eram pássaros assentando-se na noite, os macacos sobre sua cabeça perturbavam as folhas enquanto mantinham seu passo. Ouvia o som de vozes, de dois homens, a umas seis milhas de distância e reconheceu o sensual tom de Manolito. A voz brilhou tenuemente em sua mente, arrepiou-lhe e fez com que seu estômago se apertasse de excitação, por vê-lo.

MaryAnn caminhava rápido, a urgência a dirigia. Ele tinha problemas. Sabia. Sentia-lhe agora, perto, quando antes não podia alcançá-lo. Não tentou conectar mente a mente, não era psíquica, mas isso não importava. Ouvia sua ordem sussurrada flutuando no ar. “Vêem a mim”. Sabia que ele estava ferido e confuso. Precisando dela. Os aromas explodiram através de seu cérebro, o rastro de uma anta sobre a vegetação. A uma milha a sua esquerda, muitas criaturas, inclusive… Um jaguar. Seu fôlego se fez mais agudo e ela acelerou o passo.

Atalhou por uma série de trilhas que margeavam um riacho de bom tamanho, indiferente aos galhos mais baixos que se enganchavam em seu cabelo. A água e vertia por cada saída concebível, criando cascatas em toda parte. O som era alto na imobilidade da selva. Com pouca lua e a grossa canopia em cima, o interior era escuro e misterioso. A névoa baixa tecia um rastro de vapor cinza entre as árvores, cobrindo o enredo de raízes de apoio, quando se aproximou delas, os grossos nós e galhos como serpentes pareceram escuras fortalezas que escondiam segredos. Os imensos trocos se elevavam além da névoa, aparentemente alheios às raízes que os mantinham no chão.

As unhas de Juliete se cravaram no braço de Riordan enquanto caminhavam. – Olhe MaryAnn! Olhe-a. Corre tão brandamente. Não é um jaguar, mas não sei o que é. Nunca vi nada como ela. E você?

Riordan lutou com suas lembranças, tentando recordar se tinha visto alguma vez semelhante transformação. Era difícil ver MaryAnn como algo mais que o bonito manqeuim de moda que sempre lhe parecia.

Ela era inteligente e valente para um humano, sempre lhe tinha concedido isso, mas sua valia não era do tipo necessário para ser a companheira de um caçador Cárpato como Manolito. O irmão de Riordan era dominador e duro, sem ranhuras suaves que o toanasse mais aceitável para uma mulher como MaryAnn. Embora havia um coração de aço nela. E havia muito mais que o que entrava pela visão. Ela esgrimia poder e energia sem deliberação consciente, mais ao que parecia, no momento em que pensava nisso, tornava-se inepta e temerosa.

- A questão principal é se for ou não um perigo para Manolito.

- Acredito que ela esteja muito confusa a respeito de tudo isto, Riordan. Compadeço-me dela. O laço de sangue com Manolito é forte. Se foi só um intercâmbio, por que a conexão é tão forte que ela sabe melhor que você onde está seu irmão? Porque, sem dúvida nenhuma, ela sabe exatamente onde ele está e se dirige diretamente para ele. Ele está umas boas seis milhas, mas ela se move com rapidez para quem nunca esteve numa selva em toda sua vida.

MaryAnn sentia um zumbido na cabeça, como se revoassem insetos em torno dela. Os Cárpatos falavam entre si outra vez. Detestava isso. Estavam utilizando-a para chegar a Manolito? Se Riordan queria realmente encontrar seu irmão, por que não se aproximava dele diretamente, chamava-lhe, se estendia para ele? Por que não haviam simplesmente enterrado seu corpo na fazenda, onde Manolito se elevasse entre os membros da família que o ajudariam? Por que não tinham mencionado uma segunda casa? E por que a irmã e a prima de Juliete muito medo de ir à casa dos Da Cruz? Algo estava muito errado.

O fato deveria tê-la assustado... E talvez o teria feito... Mas a voz de Manolito deslizou outra vez em sua mente.

- Onde você está?

Ela soava tão perdido e solitário. Seu coração se retorceu em resposta, dolorido por ele.

Não era uma atleta, mas segurou o ritmo facilmente, saltando por cima dos troncos de árvores caídas como se tivesse nascido com reflexos, algo em seu interior a urgia a se apressar. Enquanto corria, sua mente estava silenciosa, calada e certamente avaliando tudo o que a rodeava com anormal velocidade.

Sua visão era estranha, como se seus outros sentidos estivessem tão desenvolvidos que lhe tivessem roubado a visão normal. O vibrante verde e vermelho das folhas e flores se misturou, embotou que foi difícil distinguir cores, apesar do cinza apagado, captou o movimento de insetos e lagartos, o brilho das rãs arbóreas e os macacos enquanto corriam no alto. Sua visão noturna sempre fora excelente, mas agora parecia bem melhor, sem cores que deslumbrassem e cegassem, podia identificar um espectro mais longo das coisas, enquanto corria.

Era estimulante ter todos os sentidos tão agudizados. Sua visão era definitivamente mais aguda. Podia ouvir sair precipitadamente o ar dos pulmões de Juliete. O fluxo vazante do sangue em suas veias. Profundamente em seu interior algo selvagem se desdobrou e se estirou.

MaryAnn conteve o fôlego, assustada. Tropeçou. Riordan e Juliette quase a atropelaram. Retrocedeu para longe deles, sua palma cobrindo a marca sobre o seio que pulsava e ardia.

O que me fez? — Sussurrou. - Estou mudando em algo mais...

Juliette segurou a mão de Riordan e apertou fortemente para evitar que dissesse algo errado. Ele não via MaryAnn frágil e perdida, mas ela sim. Havia algo diferente, um medo muito real em seus olhos e cautela, como um animal encurralado. Não sabiam como reagiria MaryAnn, mas mais importante ainda, ela mesma não sabia e isso assustava Juliette.

—Não sabemos exatamente o que fez Manolito, o mais provável é que fez um intercâmbio de sangue. —Juliette inspirou profundamente, tentando ser honesta. - provavelmente dois. Você não é Cárpato, assim não se converteu.

—Mas Nicolae tomou meu sangue para proteger melhor Destiny.

E ela não teve medo dele. Riordan reconheceu em sua mente. Não como tem agora. Por que não teve medo de que Nicolae tomasse seu sangue, quando temê-lo seria algo mais do que natural?

MaryAnn colocou uma mão na cabeça, tentando afastar os insetos, dando outro passo atrás, para longe deles. O medo crescia a cada fôlego que tomava. Algo estava terrivelmente errado, sabia. Podia sentir profundamente em seu interior. Fechando o punho, cravou as unhas profundamente na palma, para provar -se. Estava começando a duvidar do que era real e o que ilusão.

- Ela sabe que estamos falando em particular. - Advertiu Riordan. - E isso a irritou.

- E se perguntaste como ela sabe? Não deveria. Nem sequer acredita que ser psíquica.

- Ela é mais que psíquica, Juliette. Esgrime poder sem esforço.

- Ou o conhecimento de que o está fazendo.

—Isto é uma loucura, MaryAnn. - Acrescentou Juliette em voz alta. - Nem Riordan nem eu sabemos o que te fez.

—Quero ir para casa. —Mesmo enquanto dizia, MaryAnn sabia que não podia, não até que encontrasse Manolito da Cruz e se assegurasse de que estava vivo e bem e não em algum tipo terrível de problema. Maldita sua natureza, que sempre precisava ajudar e consolar os outros. Elevou sua mão trêmula. A unha já havia crescido, bem mais rápido inclusive do que o normal a sua velocidade acelerada. - O que acham que ele me fez? Devem ter uma idéia. E é reversível? Porque sou humana e minha família é humana e eu gosto de ser humana. Isto é o que acontece por ter uma garota branca, frágil e que toma sangue, como melhor amiga. —E teria algumas palavras com Destiny quando a voltasse a vê-la... Se voltasse a vê-la.

Juliette lançou a Riordan outro olhar ansioso.

—Sinto muito, MaryAnn. Se soubesse o que acontece, diria-lhe. O caso é… Os humanos viveram durante séculos lado a lado com outras espécies. Em todos esses anos, ambas sabemos, que as espécies finalmente se misturaram. Talvez há séculos, passou algo que não sabemos. Eu tenho sangue jaguar. Igual a várias mulheres que são psíquicas.

MaryAnn sacudiu a cabeça.

—Eu não. —Isto soava errado. Conhecia sua mãe, seu pai, avós e bisavôs. Não havia nenhuma mancha em sua família e nenhuma pessoa que vivia de sangue.

- Ela poderia ser maga? - Aventurou Juliette.

- Os magos retêm o poder, isso é seguro e a maioria são boa gente, mas teria que tecer feitiços. Não parece que ela esteja fazendo isso. Reúne energia como fazemos nós e a utiliza, mas nela é inconsciente. Essa é a razão da qual é tão boa conselheira. Sem querer insiste a se sentirem melhor. Quer que sejam felizes, então eles são. Pressente o que cada pessoa quer ouvir e diz.

O coração de MaryAnn estava acelerado. Outra vez estavam falando claramente um com o outro. Girou sobre os saltos muito altos e correu entre a árvores, pensando que poderia deixá-los para trás, esquecendo-se que eles podiam voar se quisessem. E eles quiseram.

Sentiu a rajada de ar deslocado ao redor dela, e Riordan se deixou cair do céu, interceptando-a.

MaryAnn gritou e se afastou para trás, os saltos se engancharam numa das muitas raízes que serpenteavam no solo. Caiu duramente sobre o traseiro, olhando-o enquanto ele se erguia sobre ela.

Este caminho é perigoso. - Explicou Riordan, estendendo sua mão para ela.

Ela chutou-lhe, furiosa com ele, mas principalmente zangada consigo mesma por estar numa posição tão vulnerável. Quantas vezes havia aconselhado mulheres a não falar ou andar com desconhecidos... Pessoas que conheciam pela Internet ou através de amigos, mas que não conheciam elas mesmas. Fechou os dedos ao redor do pequeno spray de pimenta. Funcionaria com Cárpatos? Ou com vampiros? Ninguém lhe mencionara tipos de autodefesa.

MaryAnn, —advertiu Riordan, franzindo o cenho. - Não seja tola. Permita-me ajudá-la a se levantar. Está sentada no chão. Sabia que há um milhão e meio de formigas por meio acre na selva tropical?

MaryAnn suprimiu um uivo de medo e ficou de pé sem ajuda, retrocedendo outra vez, sacudindo-a roupa, sentindo o enxame de insetos em seus braços e pernas. – Odeio isto! - Chiou tão forte em sua cabeça que sentiu o eco através dos dentes cerrados. Seus olhos ardiam pelas lágrimas contidas.

O ar ao redor deles se carregou de eletricidade, que fez com que o pêlo de seus braços se arrepiasse.

Proteja-se! - Gritou Riordan e saltou para trás.

O trovão ressoou. O solo tremeu. Os macacos gritaram. Os pássaros fizeram algazarra e se elevaram das árvores. O relâmpago crepitou e estalou, golpeando a terra num desdobramento de energia cegadora. A névoa formou redemoinhos ao redor dela. MaryAnn sentiu braços fortes deslizar ao redor de seu corpo e uma mão pressionou sua face contra um peito largo e musculoso. Seus pés abandonaram o solo e ela se encontrou voando através das copas das árvores tão rapidamente, que se sentiu enjoada.

Riordan soltou uma imprecação e segurou o braço de Juliette.

—Era Manolito e nos lançou uma clara advertência para que retrocedamos. Não temos mais escolha que fazê-lo. Ela é sua companheira e não temos direito de interferir.

—Mas… —Juliette se interrompeu impotentemente. - Não podemos abandoná-la.

—Não temos escolha. Não a menos que queigalhos lhe provocar a entrar em batalha. Ele cuidará dela, —assegurou Riordan. - Não podemos fazer nada mais aqui.

 

MaryAnn rodeou o pescoço de Manolito com os braços e escondeu o rosto em seu ombro. O vento açoitava com força sua face e pescoço, atirando malévolamente seu cabelo, e infiltrando-se sob a jaqueta de couro, para fechar seus frios dedos ao redor de sua pele. Se acreditara que a selva tropical era má, voar sobre a canopia era mil vezes pior. Sentia-se enjoada e doente, e seu estômago dava curiosos movimentos. Faria frente a um milhão de formigas e rãs arbóreas antes de fazer isto outra vez.

- Quando menina, desejara aprender a voar?

Estava segura de que ele estava lendo sua mente com facilidade e podia sentir a superioridade e diversão, que lhe recordava por que não lhe interessavam o mínimo os homens. E já que não tinha a menor capacidade telepática ou psíquica, respondeu-lhe em voz alta, pressionando os lábios contra sua garganta.

—Nunca. Nenhuma vez. Eu gosto de meus pés firmemente na terra. —A pele dele cheirava tão bem. Era difícil não olisquear e introduzi-lo em seus pulmões. Manolito os pousou numa área relativamente protegida, o que agradeceu porque começou a chover imediatamente. Não uma garoa suave, ou sequer uma constante, mas um aguaceiro forte e duro, como se os céus se abrissem sem mais, para descarregar um oceano neles.

MaryAnn se afastou dele no momento em que seus pés começaram a funcionar. O estômago ainda lhe revolvia e ela juraria que seu nariz enrugou desejando outro bom olfato, mas se refreou e lhe dirigiu um longo cenho. O problema era que ele estava olhando-a. Não simplesmente, mas olhando-a fixamente. Seu coração voltou a se acelerar, seu útero se contraiu e seus mamilos…

Apertou a jaqueta contra o corpo e convocou um olhar a ele. Quem possuía esse aspecto? Honestamente, os homens não ficavam de verdade, com um aspecto tão magnífico e ardente no meio de uma selva. Não só ardente, mas abrasador. Ele era a coisa mais sexy em que já havia pousado os olhos, e a estava olhando como se pudesse devorá-la de uma só absoluta e deliciosa mordida. Seus olhos ardiam com uma sensualidade escura, fazendo-a esquecer de tudo... De rãs e formigas e tornando-a totalmente consciente de ser mulher. Não se sentia assim há muito... Se é que havia se sentido assim alguma vez... O pensamento a fez ruborizar.

—Então, —disse Manolito. - Seus olhos negros ardiam com tão puro pecado que ela quase se derreteu. – Afinal, vieste.

Oh! Deus. Seu estômago se contraiu juntamente com seu coração e ela saboreou o aroma e o gostp de sexo em sua boca. Ele exalava.

—Vim te resgatar. —Resmungou as palavras antes de pensar. Não podia pensar com claridade com ele olhando-a fixamente e seu cérebro em curto circuito, por mais real, por mais estúpida que tivesse sido a observação, não era nem a metade, sob a pressente circunstância.

Ele sorriu. Um sorriso lento e sensual que arrepiou, e apertou as espirais de seu cabelo já encaracolado. Talvez fosse arma secreta dos Cárpatos contra as mulheres, porque estava funcionando com ela. Este homem era uma ameaça. Certamente. Tinha que se controlar. Apertou os dedos.

Considere-se salvo e vamos embora daqui. —Porque o desejo de saltar sobre ele era provavelmente um efeito por estar na selva abafada e o suor. Tinha lido muitos livros do Tarzán em sua juventude. Provavelmente estava programada para o sexo na selva e quanto antes saísse dali, mais rapidamente voltaria para a normalidade.

Ele acenou com um dedo para ela.

—Vêem aqui.

Ela ficou com a boca seca.

—Estou perfeitamente bem aqui, obrigado.

Com suas botas favoritas fundas no barro, não poderia ter se movido nem se quisesse. Seu coração palpitava e o medo entrou silenciosamente em seu intimo. Não medo dele, mas sim de si mesma. Por si mesma.

O olhar dele a percorreu e ela notou uma posse escura brilhando nas negras profundezas. Nãamor. Posse. Propriedade e crua sensualidade. Seu corpo respondeu, mas o cérebro gritou-lhe uma advertência. Não estava lidando com um homem humano que vivia sob as regras da sociedade. Estava sozinha com um Cárpato que acreditava ter todo o direito sobre ela. Que podia controlar sua mente e persuadi-la a fazer o que ele quisesse. Este homem exigiria submissão e entrega absoluta de sua companheira. E ela não era uma mulher comum, nem total e entregue. Como demônios se colocara em semelhante apuro?

Eu a chamei, disse que venha aqui comigo. —Ele não elevou a voz, sequer a endureceu, mas baixou o tom da ordem fazendo com que sua voz parecesse o toque aveludado de uma língua deslizando sobre sua pele. Seus olhos negros a compeliam a obedecer.

Aproximou-se um passo antes de poder se conter e braços firmes a rodearam, apertando seu corpo contra o dele. Encaixava-se a ele como uma luva. Ele era duro e musculoso e ela toda curvas suaves, consciente de cada uma delas. Ele sussurrou algo em seu próprio idioma, algo suave e absolutamente sensual. - Avio-te päläfertülam. - Repetiu as palavras enquanto sua língua acariciava um ponto que lhe pulsava freneticamente no pescoço.

—É minha companheira.

Não podia ser verdade, porque sabia que não era psíquica, mas agora, nesse preciso momento, desejou que assim fosse. Queria sentir a sensação de pertencer a este homem. Nunca tivera uma reação física semelhante a outro ser humano em sua vida.

- Entolam kuulua, avio päläfertülam. - Os lábios sussurravam sobre sua pulsação enquanto os dentes beliscavam gentilmente sua pele e a língua fazia outra carícia. Pensou que seu corpo lhe arderia em chamas.

—Reclamo-te como minha companheira.

Elevou a cabeça, abrindo a boca para protestar, mas a dele tomou- lhe tirando seu fôlego, intercambiando-o pelo seu. Seuas pernas amoleceram e se ancorou a ele, rodeando-lhe as coxas com uma perna enquanto enredava a língua com a dele numa dança lenta, pelo puro prazer erótico. A sensação estalou através dela fazendo com que o sangue palpitasse em seu coração e lhe trovejasse nos ouvidos. Quase perdeu as palavras suaves que roçaram as paredes de sua mente e ficaram encaixadas ali.

- Ted kuuluak, kacad, kojed. Elidamet andam. Pesamet andam. Uskolfertülamet andam. Sivamet andam. Sielamt andam. Ainamet andam. Sivamet kuuluak kaik etta A Ted.

—Pertenço a você. Ofereço-te minha vida. Dou-te meu amparo, minha lealdade, meu coração, minha alma e meu corpo. Tomo em mim os teus para protegê-los.

E o beijo se aprofundou e ela desabou queimando para dentro de Manolito da Cruz. Sentiu como seu coração e sua alma se estendiam para os dele. Combinados. Seus seios doíam e incharam. Sentiu a impaciente umidade em seu sexo e sua mente nublou com a ardente paixão.

Uma ínfima parte de sua mente tentou salvá-la, uma pequena porção não afetada de seu cérebro que ondeou uma bandeira vermelha, mas esses lábios não pareciam com nada que tivesse experimentanto antes. O sabor era aditivo. A mão se deslizou dentro de sua jaqueta, puxando a barra de sua camisa e se fechou sobre seu seio, fazendo com que ofegasse e atraísse a cabeça dele para ela. Desejando-o. Não, necessitando-o.

Os lábios dele desceram por sua garganta enquanto a mão se hospedava no cabelo, apegando-se a grossa tranca no puho, ancorando-a a ele enquanto explorava a pele acetinada. Encontrou a elevação em seu seio, o sinal que havia deixado ali, marcando-a como dele.

- Ainaak olenszal sivambin.

—Sua vida será sempre apreciada.

As palavras vibraram através dela, fazendo com que se pressionasse mais contra ele, empurrando-se contra sua coxa firme, aliviando o terrível vazio, desejando encher-se com ele.

Gritou quando sua boca pousou sobre seu seio, atraindo o sensível mamilo a sua boca, através da renda dourada do soutien. Sugou-o com vontade, sua língua acariciando e seus dentes mordiscando. Tudo enquanto ouvia sua voz lhe murmurando na mente.

- Você elidet ainaak pede minam.

—Sua vida estará acima de tudo, sempre.

Sua língua dançava. Ele elevou a cabeça e seu olhar mostrava uma hipnótica posse.

Uma vez mais lhe capturou os lábios, roubando seu fôlego à vontade, insuflando fogo em suas veias.

Sua boca deixava um rastro de chamas da garganta ao seio e seus dentes acariciavam com pequenas e minúsculas mordidas, cada uma provocando uma onda de ardente e que sua humidade se intensificasse. Estava quase desmaiada de desejo. Quase choramingando, quando os lábios dele encontrou o outro seio, acaricianco-o até que já não pôde mais pensar com claridade. Arqueou para ele, enredando a pernas a seu redor, alinhando seus corpos de forma que pudesse pressionar-se firmemente contra ele.

- Avio-te päläfertülam. Ainaak sivamet jutta oleny. Ainaak terad vigyazak.

—É minha companheira e está unida a mim por toda a eternidade e sempre a meus cuidados.

Levantou a cabeça e uma vez mais encontrou o ponto onde a tinha marcado. Seus dentes cravaram-se profundamente nele. O fogo queimou, a dor relampejou através dela como uma tormenta, depois o prazer a seguiu tão doce, tão erótico, que se moveu com abandono contra ele, envolvendo-lhe a cabeça, lhe sujeitando contra ela enquanto o longo cabelo negro se espalhava sobre os braços e ela enterrava a face em seus sedosos fios. Sentia deslizar-se mais e mais longe da mulher que conhecia, para o interior de outro reino completamente distinto.

Ele murmurou algo mais em seu idioma, com uma voz tão sensual, que jogou de um lado a pequena advertência que lhe surgiu na mente e manteve a face enterrada em seu cabelo, porque nada na vida a tinha feito sentir-se tão bem. Pertencia-lhe. Tinha encontrado o que sempre procurara. Satisfeita com sua vida, sempre tinha assumido que envelheceria e morreria com a comodidade que tinha alcançado, mas agora o que estava acontecendo era um presente. Paixão e excitação. A sensação de pertencer a alguém. Era toda dele.

Não havia nada de timidez em MaryAnn. Tinha escolhido abster do sexo simplesmente porque não queria compartilhar seu corpo com um homem em quem não confiasse ou amasse. Um homem com o qual não ia passar o resto de sua vida, mas neste momento, soube que Manolito da Cruz era sua outra metade. Compartilharia tudo com ele, estava impaciente por fazê-lo.

Sua língua lhe percorria o seio, fazendo-a tremer de desejo, sua voz sussurrava novamente e aconteceu algo incrivelmente estranho. Econtrou -se de pé ao lado, observando como passava as mãos sob a camisa de Manolito e a levantava, revelando os músculos definidos que fluíam sob a pele e os ferimentos em seu ventre onde o jaguar o havia arranhado. Sua mão deslizou sobre as terríveis marca das garras, cobrindo-as com a palma, insuflando-lhes calor. Viu a si mesmo lhe pressionar o ventre e o peito num ponto sob o coração.

Sua língua encontrou a pulsação que estava procurando, o batimento firme e forte do coração. Seu corpo se contraiu em espera, pulsando e gemendo de desejo. A mão deslizou sobre a pulsação e ela olhou fixamente a unha que havia quebrado antes. Esta se alongou até formar uma garra afiada. Para sua surpresa, abriu a pele de Manolitoe pressionou voluntariamente a boca contra seu peito. Ele gemeu e jogou a cabeça para trás, em êxtase misturado a paixão. Elevou a mão para sujeitá-la, urgindo-a a tomar mais. E ela o fez. Não parecia ter repulsão ou dúvida. Seu corpo se arquava contra o dele, num sensual deslizamento de curvas, num convite a muito mais.

E ele a aceitou. Suas mãos eram ágeis, íntimas e possessivas. Afastou A suas roupas, desejando a pele nua contra a sua. Quando ela esfregou seu corpo pelo volume grosso e duro que estava pressionado contra seu ventre, ele estremeceu e murmurou sua aprovação. Segurou-lhe o traseiro e a levantou para alinhar seus corpos de modo que ficasse pressionado contra seu ponto mais íntimo.

Como se soubesse exatamente o que fazer, quanto a aceitar o ardente e aditivo intercâmbio, MaryAnn passou a língua sobre o pequeno corte e elevou a cabeça para olhar os hipnotizadores olhos negros.

Se via diferente, os olhos escuros e excitados, os lábios curvados e voluptuosos, tão sexy que não podia acreditar que fosse ela, disposta a fazer tudo o que Manolito lhe pedisse. Desejava agradá-lo e que ele fizesse o mesmo por ela.

Ele sorriu-lhe e seu coração se tornou louco, reagindo tão poderosamente como seu corpo.

- Päläfertül.

Esposa. —Beijou-a na ponta do nariz, no canto da boca, revoando a A um fôlego de distância, olhando-a nos olhos. - Diga-me seu nome para que seu Koje, seu marido, possa se dirigir a você.

MaryAnn ofegou quando as palavras impregnaram em sua mente. Ele não teria feito pior se lhe tivesse atirado um jorro de água fria. Piscou e sacudiu a cabeça, tentando esclarecer idéias. Que estava fazendo, enroscada ao redor de um homem do que sequer sabia seu nome, mas que afirmava ser seu marido? E que demônios havia lhe acontecido para se deixar hipnotizar até o ponto de fazer coisas que eram totalmente contra suas crenças? Manolito a tornava vulnerável. Tinha tomado controle total dela e ela simplesmente se deixou levar como se ele pudesse controlar sua vida com sexo.

A fúria estalou através dela. Uma fúria que só havia sentido uma vez antes, quando um homem tinha irrompido em seu lar e ameaçado mata-la. Ele jogara-a fora da cama, golpeando-a viciosamente antes que pudesse se defender, atirando-a ao chão e chutando-a. Quando a lâmina da faca entrara na carne, algo selvagem, feio e fora de controle se elevara. Sentira como se seus músculos lhe encolhiam e se atavam e uma força descomunal a tomou. . Neste momento Destiny chegara matara o homem, salvando a vida de MaryAnn e talvez sua alma. Porque fosse o que fosse o que havia em seu interior, assustara-a mais que seu atacante.

MaryAnn era uma mulher que aborrecia a violência e nunca poderia perdoar-se, embora agora sentisse um indescritível desejo de dar uma bofetada tão forte como pudesse nessa face atraente. Mas se afastou de um salto, ao mesmo tempo em que gritava em sua mente. Colocou cada grama de medo e ódio em suas próprias ações no grito, porque ninguém poderia ouvi-la e ninguém conhecia o terror com o qual vivia, tentando manter adormecida a fera que morava profundamente em seu interior.

- Afaste-te de mim. - Por um terrível momento não soube se estava gritando com Manolito ou com o que vivia dentro dela.

Manolito cambaleou, tropeçando contra o tronco de uma árvore, entre surpreso e sobressaltado. Nunca ninguém o esbofeteara psíquicamente antes, mas era o que fizera sua companheira. E não qualquer bofetada, mas uma o suficientemente forte para lhe derrubar. Ninguém havia se atrevido a lhe tratar dessa maneira em todos os seus séculos de sua existência.

Uma cólera escura o tomou. Ela não tinha nenhum direito de negar ou de desafiá-lo. Tinha direito à distração de seu corpo sempre que desejasse. Ela era dele. Seu corpo era dele. O sangue palpitava e corria através de suas veias. Estava a ponto de explodir. Tinha esperado fielmente por centenas de anos... Mais inclusive... Esta mulher que agora o renegava.

—Poderia fazer com que se arrasta até mim e suplicasse perdão por isso. - Exclamou, os olhos negros ardiam com uma fúria escura, que dizia tudo. Podia sentir a atração para ela, tão forte que não podia evitar o frenesi no qual estava. Sentia-se duro, ardente e louco de desejo... A sensação era pior, muito pior que qualquer fome por alimento. Embebeu-se com sua imagem, por sua beleza. Sua pele era suave ao toque, que lhe doíam os dedos da necessidade de percorrê-la, de deslizar seu corpo sobre o dela. Ela era toda curvas cheias e luxuriosas e uma boca que não podia deixar de olhar, pecaminosa, maliciosa e tão tentadora que seu corpo endureceu dolorosamente. Imaginou seus dedos nela, sua boca, seu corpo o envolvendo firme e ardente, lhe matando de prazer.

Precisava esconder o rosto nos abundantes cachos negros, inalar sua fragrância e mantê-la para sempre em seus pulmões. Precisava do calor de seus braços e do som de sua risada. Mas primeiro seu corpo precisava ser saciado. Não podia olhar para ela e não desejar estar dentro dela, não querer arrasá-la, preenchê-la, fazer com que gritasse seu nome. Desejava-a ajoelhada perante ele, queria que admitisse que pertencia a ele e a ninguém mais, que admitisse que lhe desejava... Que precisava dele, que lhe proporcionasse o prazer último de seu corpo.

MaryAnn não sabia exatamente o que tinha acontecido. Ele tinha caído, mas somente havia gritado, asno arrogante. Em qualquer caso, se arrastar não figurava em seus planos. E pedir perdão não era exatamente seu estilo. Ele parecia furioso,e perigoso e em conjunto muito atraente para seu próprio bem. Um homem malcriado e arrogante, A quem obviamente tudo mundo tinha agradado em tudo na vida. As mulheres deviam ter feito tudo que dissesse, quando ordenava. E ele devia ter dado muitas ordens.

Mordeu o lábio com força para evitar lhe dizer que se fosse para o inferno, porque… MaryAnn estendeu as mãos para frente, de repente.

Olhe, sou tão culpada como você. Tenho algo a dizer sobre isso. —Não ia culpar somente ele. Ela era uma mulher adulta e acreditava na responsabilidade, embora nada do que lhe tinha acontecido desde que entrara na selva havia sido normal. – Sobre todo esse assunto de companheira... Está… Bem… Muito bom. Que mulher não gostaria? —E ela tinha alcançado o ponto de estar endemoniadamente segura de que nunca iria experimentar um sexo tão ardente como o inferno. Sexo inesquecível, que a faria voar as alturas com Manolito. Sem dúvida, ele parecia um homem que poderia... E o faria... Proporcionaria. Oh! Sim, declarava-o culpado, mas já esquecer da parte que se arrastasse lhe pedindo perdão.

Manolito estudava a face de sua companheira, ao mesmo tempo sondando gentilmente seu cérebro para fazer uma idéia de como tinha sido sua relação. Obviamente tormentosa. E seu nome era MaryAnn. MaryAnn Delaney. Estava confuso com os detalhes, por exemplo quando e onde haviam estado juntos pela primeira vez, mas conhecia o sabor aditivo dela. Sentia uma urgente necessidade de dominar, de ouvir suas suplicas sem fôlego e de ver seus olhos nublados de êxtase.

Havia tornado a confirmar a união de suas almas com o antigo ritual porque sua mente tinha insistido nisso. Mas ela era uma mulher que precisava uma mão dura de despi-la, colocá-la sobre os joelhos e dar a esse incrivelmente formoso traseiro uma lição. Era algo que teria o maior prazer de fazer. E depois a deitaria e a saborearia, bebendo cada gota dela, memorizando cada curva deliciosa, descobrindo o que a levava a loucura até que ela lhe suplicasse perdão. E depois a levaria uma e outra vez ao limite do prazer, até que ela soubesse realmente quem era seu companheiro.

Manolito deu um passo para ela e algo se mostrou em sua face, medo talvez. Não queria que ela tivesse medo dele, não de verdade, embora um pouco de saudável medo poderia lhe brindar um pouco de cooperação. Confusão. Deteve-se quando ela retrocedeu afastand-se dele e olhou ao redor como se fosse correr.

—Eu nunca faria mal a minha companheira, deveria saber. Mas encontraria um castigo prazeroso, um que pudesse me assegurar de que a última instância gostaria.

MaryAnn franziu o cenho.

—Seja do que está falando, pode esquecer. Sou grandinha para ser castigada. Olhe, cometemos um engano. Nós dois. Vim aqui com a intenção de aconselhar a irmã de Juliete e Riordan me disse que você estava com problemas. Na realidade nunca nos apresentaram. Nunca nos tínhamos visto antes. Vi-o nas Montanhas dos Cárpatos na festa de Natal, antes que o atacassem e várias vezes quando estava ao longe, mas nunca fomos apresentados. Não tenho habilidades psíquicas. Sou um ser humano normal que aconselha mulheres necessitadas.

Manolito sacudiu a cabeça. Podia ser certo?

—Impossível. Você não é uma estranha para mim. É minha outra metade. Minha alma reconhece a tua. Estamos selados como um só ser. Você me pertence e eu a ovce. – Ele levou a mão impaciente através do longo e sedoso cabelo e depois o jogou para trás, para atá-lo com uma tira de couro que tirou de seu bolso.

Uma risada maníaca deslizou no interior de sua mente, fazendo com que se voltasse, olhando em todas as direções. Sua linguagem corporal mudou para um gesto protetor. Saltou a distância que os separava, colocando-a atrás dele.

O que acontece?

—Não ouviu nada? — Ele sabia o que havia ali fora. Os vampiros emergiam lentamente das sombras para olhar fixamente com olhos desumanos, assinalando com seus dedos ossudos e acusadores.

MaryAnn ouvia mas só ouvia a irritante chamada das cigarras e outros insetos. Quem sabia o que diziam tão ruidosamente. Sacudiu a cabeça, sentindo que seu coração rompia por ele.

—Conte-me, Manolito. Parece tão triste. Não deveria nunca... — Queria que ele fosse feliz. Que voltasse a ficar furioso e ardendo em vez de parecer tão perdido e sozinho.

Então ele se voltou, segurando-a pelos antebraços, aproximando-a, baixando o olhar para a inocente durante um longo e interminável minuto. Levantou uma mão até sua face. A ponta do polegar deslizou ao longo das maçãs do rosto com pesar, gravando-a nas profundas rugas de seus olhos e lábios.

—Acabo de te encontrar, MaryAnn, mas se você não ouve a vozes, significa que não estou de tudo bem. Não recordo dascoisas. Não tenho idéia de em quem confiar. Pensava que você… — Ele se interrompeu, gemendo brandamente e cobrindo-a face com as mãos. - É verdade então. Estou perdendo a cabeça.

—Sou humana, Manolito, não Cárpato. Não vejo e ouço coisas que você é capaz de ver.

Manolito desejava que fosse certo, mas a terra ondulava sob seus pés e ela não via os rostos entre as folhas nem a perturbação do solo. Ficou em pé quieto um momento antes de elevar a cabeça, enquanto a chuva caía firmemente.

—Deve me deixar. Retorne aonde se sinta mais segura. Afaste-te de mim. Não sei porque acredito que me pertence, mas temo por minha prudência... E por sua segurança. Vá logo, rapidamente, antes que eu perca minha resolução.

Porque não podia suportar a idéia de que estivesse fora de sua vista? Até esse momento não se deu conta de quanto precisava dela. Suas necessidades já não importavam. Ela tinha que estar a salvo... Inclusive dele... Especialmente dele.

Ali estava... Sua liberdade. Olhou a seu redor. A selva tropical era escura e sombria, mas por causa da chuva, da água. Estava por tudos lados, formando grandes e pequenas cachoeiras, encontrando novos caminhos e convergindo em riachos amplos e precipitados. A água se espalhava, implacável e constante, adicionando as quebradas que se vertiam das pedras e o lodo. Estava fora de seu elemento na selva, sem a mínima idéia do que fazer.

Manolito parecia o oposto, até se fosse verdade que estava perdendo a cabeça. Estava cômodo neste mundo. Crédulo e poderoso, seus olhos uma vez mais fiscalizando ao redor, tentando avaliar o perigo para eles... Não... Não era isso... Ele estava tentando avaliar o perigo para ela.

Respirou fundo e deslizou sua mão na dele.

Podemos resolver isto juntos. Estas ouvindo vozes agora?

—Sim, risadas zombeteiras. E vejo vampiros na terra, nas árvores, nos arbustos. Estão-nos rodeando.

MaryAnn fechou os olhos brevemente. Simplesmente genial. E ela estava reocupada com o jaguar. Os vampiros eram muito pior. Estendendo a mão livre, fechou os dedos ao redor do spray de pimenta.

— Mostre-me o que vê. Pode fazê-lo, não é? Abrir sua mente à minha.

Manolito sentiu-a mover-se dentro de sua mente, já se fundindo, estirando-se a encontro. Parecia inconsciente para ela, mas a fusão tinha sido iniciada por ela. A mente feminina deslizou fácil e rapidamente dentro da sua. Seus dedos se fecharam ao redor dos dela e um tremor percorreu seu corpo.

- Vê-os.

MaryAnn olhou fixamente os rostos horríveis que os rodeavam. Não se surpreendia que Manolito não distinguisse entre realidade e ilusão. Os vampiros eram muito reais ali em sua mente. Pelo menos acreditava que estavam em sua mente.

—Confia em mim? — Perguntou.

—Com minha alma, — ele respondeu prontamente. Acreditava que ela era sua companheira e não poderia haver traição, nem mentiras entre eles. E se estivesse equivocado, que assim fosse, morreria protegendo-a.

—Saia de minha mente e eu conseguirei que saiamos daqui. —Ela tentou se colocar diante dele, segurando firme o frasco de spray de pimenta, preparada para a batalha com o que fosse se interpor em seu caminho, assim poderia lhe manter a salvo.

Ele a segurou pelo queixo e a obrigou a erguer olhar.

—Eu não sou o que mantém a união. É você. Não posso te liberar. Só você pode fazê-lo.

MaryAnn se aproximou mais dele, para lhe proteger.

—Eu não posso estar sustentando a união. Não sou psíquica.

—Tudo estará bem, ainaak enyem. Para sempre minha. – Ele traduziu. - Não permitirei que lhe façam mal enquanto vivamos em lamti ból jüti, kinta, ja szelem.

—Não falo seu idioma. —E fosse o que fosse que ele havia dito não podia ser muito bom. Soava demoníaco. Preparou-se para ouvir a tradução.

—O significado literal é prado de noites, trevas e fantasmas. Parecemos estar parcialmente em nosso mundo e de certa medida entre dois mundos. Não estou seguro como ocorreu ou do por que, mas temos que encontrar a saída.

—Temia que pudesse ser algo assim. —E tanto que não pertencia a este mundo. Nem sequer via filmes de terror. - Bem, me diga o que faremos, porque esse horrível vampiro a nossa esquerda se está aproximando.

O mundo era cinza. De um cinza fosco e velado com fios de névoa pendurando-se como musgo, cobrindo os galhos das árvores. E havia insetos por toda parte, voando ao redor de sua face e de cada polegada de pele exposta. Tirou o spray de insetos e os orvalhou com uma explosão do jato. A mistura saiu do injetor como um estranho vapor verde cinzento, flutuando lentamente e espessando-se. Seu som foi um assobio lento, como um animal, excessivamente ruidoso na repentina quietude do mundo.

—Não fazem nenhum ruído, —murmurou para Manolito. - Os insetos. Há tanto silêncio aqui.

Imediatamente as cabeças dos ghouls se viraram e olhos brilhantes pousaram nela, registrando surpresa. Os vampiros se olharam uns aos outros, e depois outra vez para ela. Um murmúrio de júbilo se elevou e um dos vampiros se aproximou. Sua horrível boca se abriu de par em par expondo dentes manchados e afiados como navalhas.

—Estamos encantados de te-la entre nós, —vaiou o vampiro. Seu pestilento hálito chegou a pele de MaryAnn. - Faz muito tempo desde meu último jantar.

Um vapor se elevou ao redor deles, envolvendo-os numa espessa névoa. Manolito a puxou para seus braços, escondendo a cabeça dela, para evitar que ela visse os monstros enquanto se aproximavam, com olhos desumanos e olhavam golosamente seu pescoço.

Este seria um bom momento para voar. - Urgiu MaryAnn.

—Não posso neste mundo. Estou limitado pelas leis da terra da névoa.

A terra se movia e mais rostos olhavam fixamente para eles. O vampiro se aproximou, com movimento laborioso. MaryAnn se contraiu quando um longo dedo ossudo a assinalou e a criatura encolheu os dedos, chamando-a. Um sopro asqueroso de ar tão frio como o gelo soprou para ela. Antes que este tocasse seu rosto, Manolito girou, de forma que se estrelou contra suas costas, em vez de deixar que o vampiro lhe golpeasse a face com sua respiração venenosa. Apesar disso, MaryAnn sentiu os afiados filetes de gelo perfurar o corpo de Manolito, diretos para ela.

—Ao inferno com isto, —explodiu MaryAnn. – Você voou antes. Coloque seu traseiro em marcha e nos tire daqui. —Urgiu-o para o ar, ordenando-lhe. Fechou os braços ao redor de seu pescoço, enterrado a face contra seu peito e aconchegando seu corpo contra o dele.

Manolito podia ter que seguir os ditos do prado das noites, mas evidentemente que MaryAnn não. Ele estava preso no mundo de sombras, um habitante pela metade, mas ela era mortal e estava caminhando por um lugar ao qual não pertencia, atraída e retida por sua alma compartilhada. Só teria que desejar ir embora sem ele e ficaria livre, mas ela se negava a considerar a ideia. Estava começando a conhecer sua mente e compreender que sua companheira possuia nervos de açoE encontrou-se no ar com ela, movendo-se rapidamente longe dos rostos que olhavam para cima, longe do lamento e rilhar de mil dentes.

Encontrou um pequeno refúgio de pedras e baixou até pousá-los em terra, esperando que estivessem a salvo, mas como não sabia nada do reino antinatural em que estava parcialmente, temia que nenhum lugar fosse seguro. MaryAnn se aferrava a ele e seu corpo tremia quando seus pés tocaram a pedra. Deslizou para baixo, por seu corpo, como se não tivesse ossos e se sentou, com os joelhos encolhidos e balançando-se.

—Você pode abandonar este mundo, MaryAnn, —disse gentilmente. - Sei que pode.

—Como?

Levantou o olhar para ele e o coração lhe encolheu dolorosamente no peito. Ela estava a ponto de chorar. Com as pontas dos dedos jogou para trás os fios de cabelo enfacaracolado, atrasando-se contra a quente maciez de sua pele.

—Só tem que tomar a decisão, consciente de me deixar aqui. Condenar-me por qualquer que seja o mal que tenha te feito.

Ela pareceu genuinamente desconcertada.

—Que mal me fez? —Agitou a mão. - Além de ser bonito e me deixar um pouco louca, não fez nada para me ferir. Sou a responsável por meus próprios hormônios estarem excitados, não você. Não pode evitar ter o aspecto que tem.

Ele se sentou a seu lado, suas coxas tocando-se e estendeu uma mão procurando a dela, levando-a ao peito, sobre o coração.

—Pelo menos você gosta de meu aspecto. É um começo.

Ela lançou-lhe um pequeno sorriso travesso.

Todas as mulheres gostam de seu aspecto. Não tem problemas nesse sentido.

—Então é minha personalidade a qual objeta.

Era difícil pensar no que objetava exatamente, quando o polegar dele deslizava sobre o dorso de sua mão numa carícia hipnótica e sua coxa produzia calor suficiente para esquentar meio mundo. Seus dentes brancos eram deslumbrantes e seu sorriso tão sensual que seu corpo se se excitou antes de dar conta. Parecia não lhe custar muito estar a seu redor. Deveria ser embaraçoso, mas no meio da neblina do estranho mundo no qual se encontrava, esta potente química era o menos que a preocupava.

—Ainda vive na idade média —disse, lhe acariciando o joelho, tentando sentir como uma mulher sábia. Mas seu coração estava disparado, seu estômago se agitava e em tudo o que podia pensar era em pressionar seus lábios contra os dele para ver se voltavam a explodirem foguetes. Porque estava segura de não querer pensar em estar sozinha quando saísse o sol e ele ia tocar no assunto a qualquer momento.

Manolito levou sua mão aos lábios e mordisco seus dedos. Seus dentes enviaram pequenas descargas através de seu sangue.

—Idade média? Eu acreditava que tinha me adaptado este século bastante bem.

MaryAnn sorriu. Não pôde evitar, quando ele soou tão surpreso.

Acredito que para alguém tão antigo como você, adaptaste-se. —E talvez fosse certo. Ela havia nascido numa raça e um tempo no qual os homens protegiam e dominavam as mulheres. Vivia num país onde se conservavam as mesmas normas sociais. É obvio que sentiria que tinha direito a ela, se acreditava que era sua companheira.

Marido. Saboreou a palavra, consciente de cada respiração que percorria os pulmões de Manolito. Ele era muito bonito para ela, muito selvagem e muito dominador, mas podia sonhar e fantasiar. Não podia imaginar o que seria pertencer realmente a este homem, não como Destiny pertencia a Nicolae. Mas ele continuava olhando-a com os negros e cheios de desejo puro, que poderia esquecer sem mais de todas as suas dúvidas e tentar uma gloriosa noite com ele.

—Só sei o que é correto para minha mulher, como protegê-la, agradá-la e ela deveria ter fé o bastante em que me ocuparei de suas necessidades igual a cada prazer que ela... Ou eu... Possa imaginar.

Seus dentes lhe mordiscavam a sensível ponta dos dedos. Não deveria ser erótico, mas era. Ele fazia com que tudo soasse assim, mesmo sua ridícula sugestão de castigo. Era a aveludada aspereza de sua voz, a forma em que podia fazer com que se deslizasse sobre sua pele como uma carícia. Se qualquer outro falasse dessa maneira, ela riria, se não em voz alta, pelo menos interiormente, mas com Manolito se sentia tentada a colocar em prática algumas de suas mais escandalosas fantasias.

—Estou lendo sua mente - Disse ele brandamente— e temos que nos concentrar em como sair daqui.

—Bem... São somente fantasias. —Não ia se ruborizar. Ser despida e atormentada até suplicar era francamente sexy, embora a realidade poderia ser igual à imaginação.

—Posso te prometer que desfrutará de cada momento comigo, —assegurou-lhe ele, lhe mordendo ligeiramente o dedo antes de levá-lo ao calor de sua boca.

Sua língua brincou até que ela desejou gritar sua rendição. E ele só estava lhe beijando os dedos. Abanou-se. Talvez subestimasse a realidade, afinal.

—Reconsideraria os términos? Como não ficar me dando ordens? Poderia me esforçar em ser aventureira.

—Para ser aventureira, tem que estar disposta a se entregar aos meus cuidados, —rebateu ele.

Outra vez, o lento e sexy sorriso que a queimava através da pele e encontrava seus selvagens desejos ocultos que não deveria estar considerando, com um homem que estava empurrando-a a absoluta e completa rendição.

—Tentador. Mas não. Não sou do tipo de mulher que entregaria sua vida a um completo desconhecido.

O queixo dele se esfregou contra o dorso de sua mão. Os seios lhe doíam, como se o sombreado queixo tivesse lhe roçado a pele.

—Mas se entregar na cama não é o mesmo que entregar fora dela.

—Isso é uma opção contigo?

—Não há opção. É a única que há. É minha companheira. Encontraremos a forma porque e assim que funcionam com os companheiros. —O sorriso decaiu em sua face. Beijou-lhe os dedos e levou sua mão uma vez mais ao coração- Não pode ficar aqui comigo, MaryAnn. É muito perigoso. Não posso diferenciar o que é real ou ilusão e com nossos corpos num mundo e nossos espíritos em outro somos vulneráveis em ambos os lugares.

—Não sei como partir e não sei se poderia. Não sem ti. Não posso te perdoar por algo que possa ter me feito? — Ela olhou ao redor para o cinza fosco daquele mundo. Pareciam estar na selva tropical, mas sem as vibrantes cores e sons. A água surgia dentre as rochas e baixava a costa, mas em vez de correr clara e límpida, corria escura.

—Não acredito que seja tão simples. Primeiro tenho que averiguar como cheguei a este lugar de fantasmas e sombras.

 

       Fantasmas e sombras. Não gostava muito como soava isso. MaryAnn esfregou o queixo com a parte superior dos joelhos. Sempre havia uma resposta, somente teria que utilizar o cérebro.

       Manolito se aproximou inclinando-se... O bastante para envolvê-la com seu aroma puramente masculino, com a calidez de seu corpo e fazê-la sentir feminina e protegida. Lançou-lhe um olhar ligeiramente irritado. Estava tentando pensar e não necessitava que seu cérebro se entrasse em parafuso. O sorriso dele fazia com que um pulso elétrico estalasse através de seu corpo.

       -Me diga que o que está errado e o arrumarei para ti. Não faria mal a você por nada do mundo. Sei que nunca fui infiel. Diga-me päläfertül, e farei o que for, o que falta para te desagravar. Não posso sair daqui por mim mesmo, mas nunca iria ofender minha companheira.

       Havia tanto dor e preocupação em sua voz que o coração de MaryAnn bateu forte no peito.

       -Manolito, honestamente, não sei que está acontecendo, mas você não teve oportunidade de me ofender. Apenas te conheço. Não sou Cárpato. Vivo em Seattle e aconselho mulheres maltratadas. É como conheci Destiny. Tornamos-nos amigas e através dela, terminei viajando para as Montanhas dos Cárpatos.

       Ele franziu o cenho.

       -Isso não pode ser. Diz que é humana, mas pode fazer coisas que só um Cárpato pode fazer. Você tem muito poder, MaryAnn. Sinto-o emanar de ti, mesmo enquanto conversa comigo. Está se estendendo tão consoladora para mim, fazendo-me sentir melhor.

       Ela negou com um meneio de cabeça.

-Sou humana. Minha família é humana. Tudo em mim é. De verdade, honestamente, acaba de me conhecer hoje. Vi você... – “E pensei que foi tão bonito que doía”. Fechou os olhos e apoiou a cabeça contra o ombro dele. - Assustou-me demais. Tudo em ti é atemorizante, em certos aspectos, na maioria, no bom sentido.

       O beijo dele foi o mais ligeiro toque de lábios sobre sua face, mas ela o sentiu alojar-se diretamente em seu coração.

       - Por que te daria medo? É a outra metade de minha alma. – Ele parecia assombrado.

       MaryAnn sentiu o amalucado impulso de apagar as linhas de expressão que marcavam os traços dele, mas resistiu fechando os dedos com força.

       - Você não entenderia. - Porque ela não se sentia atraída pelos homens, não assim. Nem tanto que desejasse fazer tudo que lhe pedisse. Não tanto que não pudesse respirar ou pensar de tanto desejá-lo. Gostava de sua vida tranqüila e controlada. Não era aventureira, nem dentro e nem fora da cama. Era... Bem... Simplesmente MaryAnn, com os pés firmemente plantados no chão. Não se permitia fantasias selvagens e nem obsessões, e Manolito indubitavelmente estava catalogado como obsessão.

       Manolito deslizou os braços A seu redor.

       - Só tem que me falar de seus medos, ainaak sivamet jutta e eu encontrarei a forma de te tranqüilizar. Tirarei você daqui. Temos que ser rápidos, já que o sol se eleva. Quando nossos corpos estão no reino dos vivos e nossas almas no vale das trevas é difícil nos proteger em plena selva.

       -Então, nos leve a sua casa. Se estivermos lá, não teremos que nos preocupar tanto de que algo ataque nossos corpos.

       -Devemos ir para a terra. A terra mais rica é a terra preta. É melhor ficar aqui onde a terra tem possibilidade de nos rejuvenescer.

       Seu coração bateu ruidosamente no peito.

       -Não sou Cárpato. Não vou a terra. Morrerei se a terra me cobrir. Meu coração não se detém como o seu. Por favor, acredite em mim! Não sou Cárpato.

       Manolito a avaliou através de seus longos cílios.

       -Sei que sente nossa conexão. Posso ler seus pensamentos a maior parte do tempo, não porque invada sua privacidade, mas porque você está projetando-os para mim. – Ele lançou-lhe um pequeno sorriso enviesado. - Tenta me reconfortar. Posso sentir sua energia me envolvendo como braços quentes, me acariciando, me assegurando que tudo ficará bem.

       Ele estava tão perto, tudo o que tinha que fazer era inclinar-se e beijar essa boca pecaminosamente sensual. Ele era pura tentação sentado ali, no meio do perigo e do mistério. Uma malvada e surpreendente tentação. E ela não pôde resistir. MaryAnn se pressionou contra ele, cruzando os escassos centímetros que os separavam até que seus lábios se toçaram. Só uma vez. Um lento saborear. Porque se ia morrer ou ficar no inferno, bem podia saborear o céu já que estava tão perto.

       Ele envolveu-a em seus braços e a terra estremeceu, girou junto com seu estômago. A boca dele simplesmente tomou a sua. Não imaginava que alguém pudesse beijar assim. Saboreou o vício e o desejo. Saboreou a fome e a mordida crua e carnal do sexo. Por um momento de terrível e puro êxtase, pensou que poderia estar a ponto de ter um orgasmo só por seu beijo.

       - Não posso respirar. - Não se importava que ele soubesse o quanto o desejava. Tudo lhe doía, estava ofegante. Não havia nenhuma só célula de seu corpo que não fosse consciente dele, consciente de desejaá-lo... Não... De precisar dele. Nesse momento soube que nenhum outro poderia satisfazê-la. Desejaria o sabor deste homem, seu tato, seu rosto e seu corpo, mesmo seu sorriso malicioso, sempre. Sonharia com ele e ficaria acordada a noite, lhe desejando. Era uma aterrorizante certeza de que sua vida já não lhe pertencia e de que com ele, tinha muito pouco controle.

       -Calma, sivamet, está em boas mãos.

       Sua voz era hipnotizadora, sexy como sua boca. Extranhamente, ele não estava aproveitando-se dela, mas abraçava-a e as sustentava protetoramente como se soubesse que sua reação desinibida para com ele a assustasse.

-Estou totalmente perdida contigo, -admitiu MaryAnn. Tentava respirar, mas não podia fazer com que seus pulmões funcionassem. Se fosse possível, acreditaria estar realmente experimentando um ataque de pânico, por um beijo. A tranqüila e imperturbável MaryAnn estava perdendo o controle por um homem,e nem sequer havia uma irmã por perto com quem conversar. Estava totalmente fora de seu mundo.

       -Não, não é você, -disse ele. A gentileza de sua voz sussurrou sobre sua pele. Ele beijou-a de novo, exalando ar a seus pulmões. – Nós dois estamos numa situação pouco habitual.

       Ela desejou rir ante a declaração, mas estava bem perto das lágrimas. Não pelo perigo, mas por este homem que deveria estar com alguma glamourosa estrela de cinema ou uma modelo e que estava olhando-a como se só tivesse olhos para ela. Não se atreveu a voltar a conversar sobre o assunto.

       Elevando o queixo, roçou sua boca sensual uma última vez e respirou fundo

       -Tentemos voltar para a casa. Deveríamos estar a salvo lá. Riordan e Juliette têm que ir para a terra como você, mas Juliette me disse que sua irmã e sua prima usam a casa durante o dia quando não há ninguém. Nós três juntas, devemos ficar a salvo. Os vampiros não podem sair de dia, podem?

-Não, mas com freqüência utilizam marionetes que fazem o trabalho sujo por eles. Os homens jaguar foram poluídos por ele.

       -Como sabe? -MaryAnn lançou um cauteloso olhar ao redor, consciente de que todo o momento em que Manolito estivera beijando-a, abraçando, reconfortando e acalmando-a, também estava escaneando a área em busca de inimigos. Não ia ser capaz de resistir que ele lhe fizesse amor se ficasse a sério, mas realmente desejava ter a oportunidade de tentar.

       -Conheci um deles hoje, Luiz, não muito longe daqui. Atacou-me. Quando me estendi para sua mente para acalmá-lo, soube que o vampiro estava lhe influenciando. Na realidade não era um homem ruim. Em outras circunstâncias, talvez poderíamos ter sido amigos.

       -Senti quando ele te atacava. Tentei detê-lo, -admitiu ela-. O que ele te fez? – Ela franziu o cenho. - Queria te matar.

       -Foi muito valente de sua parte tentar intervir, embora nunca deva se colocar em perigo. Confie em que eu cuide de nós. - Havia sentido-a por um momento, em pé entre o felino que saltava e ele e havia fechado a mente de repente para evitar nenhum dano a ela, mas se sentira orgulhoso dela e sobre tudo, da parte dela. - Uns poucos arranhões foi tudo o que pôde conseguir. - Ele elevou a camisa para mostrar o estômago absolutamente musculoso. MaryAnn se umedeceu os lábios.

       -Não acredito que os homens sejam, na realidade, constituídos como você, - resmungou e depois cobriu o rosto com uma das mãos. Ele estava segurando a outra ou teria usado-a também.

       Era muito superficial. Superficial. Porque tinha uma fixação com seus ondulantes músculos e como podia não notar o impressionante vulto que marcava a frente de sua calça jeans? Ele nem sequer tentava ocultá-lo. Deveria estar pensando em ferimentos e em “Oh, não... E Você está bem?”. Mas não, estava pensando em lhe arrancar a roupa e dar... Não sempre tinha sido superficial ou provavelmente era a estranha terra de sombras em que pareciam estar. Mas já que estava nisso, bem podia chegar até o final. Baixou o olhar mais uma vez, para suas formosas botas. Talvez necessitasse de saltos mais altos e um bom chicote para controlar-se... Ou a ele.

       -Estou lendo sua mente outra vez. - Havia diversão na voz de Manolito.

       -Muito bem. Tente encontrar algum sentido nisto, porque a mim não está muito bem. Está? - Aí estava. Isso era indubitavelmente apropriado. Um pouco lento em chegar, mas tinha soltado.

       A selva os rodeava, a água ainda emanava das pedrase fluía em rios. Tudo parecia igual, mas diferente. Mais pútrido. Muito mais atemorizante e estranhamente imóvel. Antes, quando entrara pela primeira vez na selva, notara que era mais silenciosa do que acreditara que seria, mas ao caminhar, começara a ouvir as cigarras e outros insetos, os sons dos pássaros, o vento e a chuva na canopia. Depois de um tempo, a selva tinha parecido ruidosa e cheia de ocupantes, então não havia se sentido tão sozinha. Agora parecia menos vívida, apagada e escura, e amenazadoramente tranqüila.

       As serpentes reptavan pelo solo da selva e se enroscavam sobre os galhos retorcidos. Vermes, sanguessugas e aranhas faziam com que a vegetação se contorsionasse e movesse como se estivesse viva. Os escaravelhos eram grandes, com grossos e duras carapaças e os mosquitos sempre presente, em sua busca interminável de sangue. As flores emitiam uma fragrância pútrida e o aroma de morte parecia aferrar-se a tudo. Mas algumas vezes, quando piscava rapidamente ou pensava em Manolito e em o quanto era bonito, a selva voltava a mostrar vibrantes cores. Não tinha sentido, mas lhe dava esperança de que só com um pouco de tempo, poderia desentranhar o segredo que tiraria ambos das sombras.

       - Leme-me de volta para casa. Pode encontrar o caminho?

       -Não quero atrair o perigo para os outros.

       -Se um vampiro anda rondando, suponho que sabe tudo sobre os outros. No número há segurança, especialmente se você não vais estar conosco. -A idéia de que ele a deixasse sozinha provocou um pânico instantâneo. Sua garganta se inchou até que o ar mal pôde chegar a seus pulmões, mas se negou a ceder ao medo. Ele era Cárpato e ela humana...

       MaryAnn ficou rígida.

       -Espere um minuto... Espere um minuto. - Elevou as às mãos, com as palmas para fora como se pudesse bloquear a informação que fluía para ela. - Você tomou meu sangue?

       -É obvio.

       Aí estava outra vez o assombro, como se talvez ela não fosse tão brilhante como ele tinha esperado.

       -E acredita que sou a outra metade de sua alma. Destiny me disse que em sua sociedade o homem pode casar-se com a mulher sem seu consentimento e uni-los. É isso, certo? Você fez isso conosco?

       -É obvio.

       MaryAnn esfregou a mão no rosto. Sentia uma sensação pesada no fundo do estômago.

       -Quantas vezes terá que fazer isso... Tomar o sangue para converter uma pessoa em Cárpato?

       - Requerem-se três intercâmbios de sangue se não já forem Cárpatos.

       MaryAnn mordeu-se com força a ponta do dedo. A memória voltava para ela. Baixou o olhar para sua unha... A que havia se quebrado antes na selva. Tinha crescido até alcançar a longitude das outras e pouco mais. Todas as suas unhas haviam crescido. Algumas vezes era um problema. Cortava-as com freqüência, mas não diariamente. Talvez o sangue Cárpato acelerasse o crescimento.

       -Quantas vezes intercambiou sangue comigo? – MaryAnn perguntou e deslizou a mão sobre a marca do peito. Ainda pulsava e ardia como se sua boca estivesse sobre ela. Por que podia imaginar-lhe de repente? Por que estava tão segura de que a boca dele estivera ali? Por que podia sentir seus lábios queimando como fogo contra sua pele, se alguma vez seus lábios estiveram ali? Não pele com pele. Ele havia beijado-a, deslizado sua boca sobre a dela e ainda possuía uma marca quente e úmida sobre o seio. Por mais sexy que tivesse sido, não tinha sido sua boca sobre a pele, então por que a lembrança era de repente tão forte?

       -Imagino que muitas vezes.

       Ela inalou bruscamente.

       -Na realidade não sabe, não é? Manolito, se você não souber e eu também não, poderemos ter um autêntico problema. Eu não sou Cárpato. Nasci em Seatle. Fui a escola lá e depois a Berkeley, na Califórnia. Se for certo que intercambiaste sangue comigo, sei que não passei pela conversão. Saberia se tivesse dormido na terra. Ainda sou só eu.

       -Isso não pode ser. Lembro-me de ter tomado seu sangue, de ter nos unido. É parte de mim. Não pode haver engano.

       MaryAnn abriu sua mente e as lembranças que tinha dele.

       -Dizia-te a verdade quando disse que não nos conhecíamos. É certo que te vi em uma festa nas Montanhas dos Cárpatos, mas nunca nos apresentaram formalmente. Sinto-me fisicamente atraída, mas não te conheço, absolutamente. – Está verto que sinto uma atração física selvagem, mas isto ela podia superar... Esperava que sim. Tudo estava se encaixando em seu lugar. As coisas que Riordan e Juliette haviam lhe dito começavam a ter sentido. Seu coração bateu firme.

       Manolito guardou silêncio, avaliando suas lembranças, atrasando-se um pouco no que encontrou de um homem irrompendo a casa dela e atacando-a. Sentiu como se alongavam seus dentes e o demônio de seu interior rugia procurando liberar-se. Cuidadosamente, ocultou sua reação. Ela já tinha o suficiente e se de algum modo havia trazido-a para este estilo de vida sem seu conhecimento... Ou como desejava, porque nem sempre tinha estado a salvo só pioraria as coisas.

       -Se o que diz é certo MaryAnn, como é que somos companheiros? Pronunciar as palavras rituais não pode conectar duas pessoas que não estão se afinam. Poderia dizer a cada mulher que conhecesse, mas isso não me faria nenhum bem.

       -Talvez cometeu um engano, -aventurou-se ela. – Talvez não estamos realmente conectados.

       -Vejo tudo em cores. Sinto emoções. Não posso pensar em nenhuma outra mulher exceto em ti. Não desejo nenhuma outra mulher. Reconheço sua alma. Somos companheiros. - Sua voz era firme e não admitia discussão.

       MaryAnn não tinha argumentos. Embora era verdade que não sabia tudo da forma de vida dos Cárpatos. Sabia o bastante para ver que a possibilidade era forte, a julgar por sua reação a ele somente. Tinha que admitir que era provável.

       -Certo. Digamos que somos companheiros, Manolito. Disse que me tinha ofendido de alguma forma e que por isso estava preso aqui. Por que acredita nisso?

       O polegar dele deslizava pelo dorso de sua mão, deixando pequenas carícias sobre sua pele. Ele inclinou a cabeça para mordiscar-lhe a ponta do polegar enquanto pensava no que ouvia. O gesto foi automático e sexy, esquentando-a com facilidade.

       -Sentia como se estivesse sendo julgado por algo que tinha feito a você. Deveria saber se te fiz algo errado.

       -Eu deveria sabê-lo também, - concedeu ela tentando não reagir a sensação de seus dentes arranhando eróticamente seu polegar. Como um gesto tão pequeno podia fazê-la sentir no fundo de seu estômago? Não havia forma de que pudesse deixar nunca que este homem a tocasse entre quatro paredes. Não sobreviveria.

       -Estou lendo sua mente novamente.

       -Faz muito. - Não ia desculpar se. - Deixe de ser tão sexy. Estou tentando pensar. Um de nós tem que nos tirar daqui. - Lançou-lhe um olhar fulminante sob as pálpebras, mas ele somente lhe sorriu. Um sorriso que provocou que látegos de desejo percorressem seu corpo tão facilmente como sua mão acariciante provocava. Estava em problemas. Grandes problemas. Soprando por baixo, afastou seu olhar do dele, decidida a encontrar uma forma de liberá-los.

       -Essa poderia ser a ofensa, Manolito. Que nos uniu e tomou meu sangue sem meu conhecimento, não deve ser certo segundo os padrões de ninguém. Talvez tenha que sentir remorsos para nos tirar daqui.

       -Posso dizer que lamento ter reclamado minha companheira, mas não seria certo.

       Ela suspirou.

       -Não está colocando muito espírito nisso, exatamente. Se quisermos sair deste mundo de sombras e você me ofendeu de algum modo, não deveríamos averiguar o que fez?

       -O equívoco não pôde ser nos unir. É um ato natural para os homens dos Cárpatos. O ruim seria não unir nossas almas. Que eu tivesse me convertido em vampiro e você cedo ou tarde tivesse morrido de dor.

       MaryAnn respirou fundo.

       -De dor? Sequer o conheço. - Mas ficara muito triste por ele. Havia chorado por ele. Estivera clinicamente depressiva e agora se sentia quente e ardente apesar do fato de estar rodeada de ghouls, insetos e aranhas do tamanho de pratos. Tentou de novo lhe fazer entrar na razão. - E se eu fosse casada? Sequer esperou para averiguar. Eu poderia ser casada. - Porque vários homens acreditavam que não era nada errada.

       Os dedos dele se fecharam ao redor dos dela e diminutas chamas brilharam em seus olhos.

       -Só há um homem para ti.

       -Bem, talvez chegasse tarde. A questão é, que eu poderia ser casada. Tinha uma vida antes que você chegasse e eu gostava dela. Ninguém tem direito de colocar vida de outro de pernas para o ar sem o consentimento dessa pessoa.      - Ela obrigou-se a fitar os olhos dele. - Não te amo.

       Os olhos dele eram muito negros, calor líquido, tornando-a do reverso e roubando-lhe a razão e a capacidade de respirar.

       -Pode ser, ainaak enyem, mas isso pode mudar. É minha companheira, a outra metade de minha alma, como eu sou a tua. Estamos destinados a estar juntos. Devo encontrar uma forma de fazer com que se apaixone por mim. –Ele inclinou-se para mais perto, fazendo com que ela sentisse a calidez de seu hálito sobre a pele. Quando lhe sussurrou, sentiu o toque de seus lábios, suaves, firmes e tentadores, sobre os dela. – Pode ter certeza, päläfertül. Concentrarei toda minha atenção nessa direção.

       Seu coração enlouqueceu, palpitando e batendo tão forte que ela pensou que sofreria um ataque.

       -Você é letal. E além disso, certo? Houve outras mulheres? Talvez seja esse seu grande engano. - E a idéia a fez rilhar os dentes, embora fosse uma tolice. Ele não a conhecia, ainda não, mas a razão não parecia ter nada a ver com suas emoções. Essa estranha e selvagem “coisa” oculta profundamente em seu interior começava a despertar e estirar-se, arranhando-a com afiadas garras.

       Horrorizada, MaryAnn se levantou de um salto, recuperando rapidamente sua mão. Estava aceitando tudo isto, sem mais. O inexistente mundo de sombras. Ser a companheira de um homem que não conhecia. Uma espécie que lidava com vampiros e magos. Nada tinha sentido neste mundo e não queria estar nele. Queria estar em Seattle, onde a chuva caía para limpar o ar e o mundo estava bem.

       MaryAnn sentiu os dedos deManolito rodear sua mão, surpreendendo-se quando baixou o olhar para a mão dele, estava cinza. Piscou forte. A seu redor, a selva era vívida e luminosa, as cores eram tão brilhantes que quase danificavam os olhos. O som a golpeou então, o zumbido contínuo de insetos, o roçar de folhas e o movimento de animais através da densa folhagem, igual na canopia acima. Engoliu a saliva com força e olhou ao redor. A água era pura e fresca e se precipitavam com suficiente força para soar como um trovão.

       Estendeu a mão para Manolito, segurando-o, temendo perdê-lo. Sua figura parecia bastante sólida, mas algo não estava bem com sua resposta, como se parte dele estivesse ocupada em outra coisa.

       -Acredito que acabo de fazer algo.

       - Tornaste completamente aonde pertence, -disse Manolito com alivio na voz. - Temos que te colocar a salvo antes que saia o sol. Pode ser que não seja Cárpato MaryAnn, mas com pelo menos dois intercâmbios de sangue, sofreria os efeitos do sol.

       - Me diga o que está acontecendo. - Não havia gostado do outro mundo, mas estar sozinha neste era atemorizante. - Não quero me separar de ti.

       A ansiedade em sua voz fez com que Manolito sentisse o coração acelerar.

       -Nunca te abandonaria, especialmente quando o perigo nos rodeia. Posso te proteger completamente mesmo com meu espírito preso neste mundo.

       -E se eu não posso te proteger? - Pperguntou ela. Seus olhos escuros estavam cheios de ansiedade.

       Manolito a aproximou de seu corpo, para tentar consolá-la. Quando o fez, a terra sob ele se inchou e uma enorme planta estalou através do solo, perto de seus pés. Tentáculos reptaron pela terra, procurando-o enquanto a vulva no meio se abria e uma boca totalmente aberta revelava um grupo de tentáculos coroados de estigmas venenosos e ventosas pegajosas ondeavam para ele, tentando tocar sua pele.

       -Cuide o chão MaryAnn. – Advertiu ele, abraçando-a e saltando para trás. Aterrissou a três metros da ansiosa planta, explorando rapidamente em volta para captar sinais do inimigo. Seus sentidos não funcionavam muito bem no mundo das sombras, mas temia que o que fosse que lhe ocorresse aqui, pudesse ser um reflexo do que aconteceria no outro mundo.

       -O que está acontecendo? –Ela examinou o chão com olhos atentos. Sua visão agudizou tanto que quase sentiu como se estivesse vendo de uma forma completamente distinta. Podia ver Manolito, mas o que o atacava nesse outro mundo ela não podia enfocá-lo. Via-o como uma sombra nebulosa, um pouco de pesadelo, insubstancial e estranho. Os braços dele desvaneciam, como se ele estivesse sendo empurrado mais para o interior do outro mundo.

       -Não me deixe! -Tentou segurar sua camisa, mas o sentiu soltar sua mente. Nem sequer tinha sabido que ele estava ali, mas já não estava mais. Sua figura se tornou quase transparente.

       -Não posso permitir que fique em perigo. Não sabemos o que pode acontecer neste reino. Estará mais a salvo onde está enquanto me ocupo disto.

-O que é isto? – Ela gritou, chamando-o, implorando, mas ele já desaparecia. Não era mais que uma sombra vacilante que entrava e saía dentre os arbustos, até que desapareceu e ela ficou sozinha.

       Temerosa, com a boca seca e o coração palpitante, MaryAnn olhou a seu redor. Não importava o quanto desejasse que desaparecesse, a selva a rodeava. Engoliu com força e retrocedeu alguns passos, seus saltos afundaram na água enlodada. Folhas e vegetação aquática ocultavam um canal superficial que acidentalmente tinha pisado. Havia água e barro por toda parte.

       A chuva caía forte através da canopia. As folhas sussurravam e algo se movia na água. Fechou os dedos firmemente ao redor do frasco de spray de pimenta e o tirou de um puxão do cinturão.

       -Grande momento para desaparecer. - Sussurrou em voz alta, girando em círculos, tentando olhar a seu redor.

       O galho acima se sacudiu e ela inclinou a cabeça para olhar. Pôde ver uma serpente lhe devolvendo o olhar através das folhas. Juraria que o sangue congelou em suas veias. Por um momento não pôde se mover, olhando fixamente aquela coisa, hipnotizada. Um forte puxão no tornozelo a devolveu à realidade. Dentes a mordiam através da bota, chegando a sua pele. Ofegou, tentando instintivamente tirar a bota da água, mas uma serpente com uma cabeça enorme a retinha enquanto seu longo e roliço corpo se enroscava ao redor de seu tornozelo, impedindo que se movesse.

       Gritou de puro terror, numa ação irrefletida que não teria conseguido evitar nem se quisesse. Nem em seus sonhos mais selvagens havia sido nunca atacada por uma sucuri. Tentou freneticamente chegar a cabeça do réptil, esperando ter uma oportunidade de orvalhar o spray de pimenta, mas o corpo parecia interminável, sem cabeça ou cauda.

       Já podia senti-la esmagando seus ossos. O pânico não estava muito longe e profundamente em seu interior, a selvageria que mantinha tão firmemente contida em seu intimo começava uma vez mais a desdobrar-se.

       -Agüente firme! Não lute. - A ordem foi aguda, mas a voz desconhecida.

       MaryAnn aferrou o spray de pimenta e obrigou seu corpo a abandonar a luta. Uma mão segurando uma faca de aspecto ruim surgiu no raio de sua visão. A dor a atravessou como uma lança, quando os dentes apertaram procurando um melhor agarre em seu tornozelo. As sucuris não mastigavam, mas sujeitava sua presa enquanto seus musculosos corpos a esmagavam e esta não ia se render com facilidade.

       Viu a mão esfaquear seguidamente a serpente. MaryAnn saiu engatinhando da água, arrastando-se de lado para que a perna se soltasse enquanto fugia para longe da serpente. Segurou-se ao tronco de uma árvore, abraçando-o com força, respirando profundamente para tentar acalmar o pânico.

       -O que está fazendo aqui? Está perdida?

       Ela virou-se para encontrar um homem tirando tranqüilamente uma calça jeans de uma pequena mochila que levava ao redor do pescoço. Ele estava totalmente nu. Seu corpo era forte, musculoso e cheio de cicatrizes aqui e ali. MaryAnn mordeu o lábio com força. A urgência de rir ou de chorar era muito forte.

       -Poderia dizer que sim. - Para variar era musculoso. Possuía um rosto forte e apesar ter vestido o jeans, podia ver que era bem dotado. - E você costuma caminhar nu pela selva?

       -Algumas vezes, - admitiu ele. Seus olhos sérios a estudavam ela e o frasco de spray que tinha na mão. - Sugiro-te que fique longe de rios e canais. As sucuris, os jaguares e outros predadores patrulham por aí.

       -Obrigado pelo conselho. Não tinha notado. Essas serpentes não são venenosas, são? Porque ela me mordeu.

       -Não, o perigo é a infecção. Deixe-me dar uma olhada.

       MaryAnn inalou agudamente, tudo nela se rebelava contra a idéia de que o homem a tocasse. Sacudindo a cabeça, retrocedeu.

       -Obrigado, mas não. Tenho uma pomada antibiótica que posso usar.

       Ele estudou sua face por um longo tempo, tão cauteloso quanto ela.

       -Esta ilha é propriedade privada. Quem a trouxe aqui?

       -Hospedo-me com a família Da Cruz. Manolito está por aqui em alguma parte.-Não queria que ele pensasse que estava sozinha.

       As sobrancelhas dele se arquearam.

       -Não tem sentido que ele tenha deixado-a, sequer durante um minuto.

       A preocupação em sua voz lhe provocou uma pequena sensação de tranqüilidade.

       -Conhece Manolito?

       -Conheci-o antes, esta noite. O amanhecer se aproxima e muitos animais caçam junto às ribeiras ao amanhecer. Deixe-me te levar de volta para casa e Manolito nos seguirá quando puder.

       MaryAnn procurou Manolito nas sombras. Não podia tocar sua mente nem lhe sentir e muito menos vê-lo. - Onde está? Não quero te deixar.- Estendeu-se para ele, mas só encontrou um negro vazio.

       Se ele corria nu pela selva e tinha conhecide Manolito essa noite, havia muitas possibilidades de que fosse um homem jaguar e a irmã de Juliette tinha sido capturada e atacada brutalmente pelos homens da raça jaguar. MaryAnn aferrou firmemente o frasco de spray de pimenta. Nunca encontraria o caminho de saída da selva e a aterrorizava ficar sozinha, mas não podia abandonar Manolito, especialmente quando sabia que algo estava acontecendo e temia confiar neste homem.

       -Sou Luiz, - ele disse simplesmente, obviamente lendo sua intranqüilidade. - Manolito me prestou um grande favor hoje. Simplesmente estou lhe devolvendo o favor.

       -Não quero que ele volte e veja que já fui. Ele se preocuparia. - Não queria que a única pessoa que havia ali... Humano ou não... Deixasse-a sozinha. Não podia olhar para o corpo da serpente. Não quiz lhe fazer danifico, mas tampouco morrer ali. Ser consumida por uma sucuri não estava em sua lista de formas favoritas de passar para outro mundo.

       -Os homens dos Cárpatos se preocupam com muito pouco, -disse Luiz. - Vêem comigo. Não pode ficar sozinha. Se quiser, pode levar a faca com você.

       MaryAnn suspirou. Levar a faca significava aproximá-lo suficiente dele como para que a pegasse. Também significava que poderia apunhalá-lo, se fisse um movimento falso e definitivamente se opunha a essa idéia. -Fique com ela. - Tinha o spray de pimenta e não temia usá-lo.

       Ele sorriu-lhe.

       -É uma mulher muito valente.

       MaryAnn conseguiu dar uma risadinha.

       -Estou tremendo em meu par favorito de botas. Não acredito que valente seja a palavra que eu usaria. Estúpida, sim. Estaria a salvo em Seattle se não fosse o tipo de idiota salvadora do mundo que estou acostumado a ser.

       O homem começou a descer por um atalho quase inexistente. Podia se notar que tinha sido utilizado por um animal. Respirando fundo, ela seguiu adiante, elevando uma silenciosa prece para que Manolito a encontrasse logo. Provavelmente iria onde estavam Riordan e Juliette, eles poderia encontrar Manolito e ajudá-lo.

       Luiz se voltou para ela.

       -Pode caminhar com o salto do sapato quebrado? Posso cortar fora.      Isso era um sacrilégio. Ela havia salvado-a da serpente, mas merecia o spray de pimenta por contemplar sequer cortar os saltos de suas botas favoritas. Não era muito tarde para resgatá-las.

       -Não, obrigado. -Manteve-se cortês, porque devia estar meio doido da cabeça para que lhe ocorresse uma ação tão escura.

       Caminharam em silencio durante alguns minutos, MaryAnn tentando evitar que sua mente se desviasse para Manolito. Era difícil. Parte dela queria apressar-se a voltar onde o tinha deixado e esperar até que voltasse. Parte dela estava zangada com ele por abandoná-la e outra parte... A que estava contando mais... Estava aterrada por ele.

       - |Por que nos seguem as rãs? - Perguntou Luiz.

       -Rãs arbóreas? - MaryAnn se mordeu o lábio e olhou ao redor, esperando que o homem jaguar estivesse equivocado. - Não tenho idéia. -Lançou um rápido olhar as árvores. Era certo. As rãs saltavam das raízes e galhos, de tronco em tronco.

       -Parecem estar te seguindo.

       -Verdade? – Ela tentou soar inocente enquanto vaiava para as rãs, gesticulando com os braços para que voltassem para trás. - Deve estar equivocado. Provavelmente estejam emigrando na mesma direção em que vamos nós. -As rãs emigravan? Talvez fossem como os gansos. As criaturas da selva eram complicadas. Ela olhou fixamente para os anfíbios brilhantemente coloridos. Continuavam saltando alegremente junto a ela.

       -Congregam uma multidão. -Ele soava divertido enquanto afastava cortesmente os arbustos para trás, para que ela pudesse avançar livremente pelo atalho. Elevava continuamente o rosto para olisquear o ar em todas as direções.

       -Talvez se sentem atraídos por meu perfume. - Que parte de mandar que vão emvora, elas não entendem? Estão me fazendo ficar mal. - Tentou a telepatia mente a mente, esperando que algumas das habilidades psíquicas de Juliette e Riordan realmente tivessem com ela, mas as rãs ignoraram suas queixas.

       -Pode caminhar mais rápido? - Perguntou Luiz.

       Não parecia nervoso. De fato parecia muito firme, mas ela tinha o pressentimento de que ele estava esperando problemas, explorando a canopia acima e observando o caminho por trás. Os macacos começaram a gritar e lançar folhas e galhos. Luiz elevou a mão e lhe fez sinal que ficasse calada.

Os mosquitos zumbiam junto a sua face e ela e tirou tranqüilamente o spray para insetos e orvalhou o ar a seu redor.

       Luiz se virou, seu nariz se enrugou.

       -Não faça isso.

       -Os mosquitos me picam por toda parte.

       -Esse pestilento fedor entorpece minha capacidade de captar aromas. Preciso saber o que é provável que estejamos enfrentando.

       Certo. Isso soava ameaçador e francamente, estava cansada de ter medo. Já havia bastante do que se assustar sem que um amigo aumentasse seu medo. Suspirou e devolveu a seu lugar o spray para insetos, recorrendo a golpear os insetos com a mão e manter a posse do spray de pimenta com a outra.

       Sairia dali no momento em que pudesse conseguir um telefone. Bem, depois de assegurar-se de que Manolito estava bem. Estava começando a sentir-se doente de preocupação e isso só fazia com que se enchesse com ele. As lágrimas rabiscaram sua visão e ela e tropeçou numa raiz retorcida em forma de serpente, quase caindo, estendeu ambos os braços para sustentar-se antes de acabar com a cara plantada no barro... E isso lhe salvou a vida.

       O enorme jaguar falhou e golpeou o solo a escassos centímetros de sua cabeça. Grunhindo, Voltou-se, tentando arranhá-la, mas Luiz chegou primeiro, já mudando, sua face e o focinho alargando-se para acomodar os dentes. Os dois felinos chocaram, arranhando e rasgando-se. A selva explodiu num frenesi de ruídos.

       Empurrada além de sua resistência, MaryAnn se levantou de um salto, deu duas longas passadas para o felino atacante e dirigiu um jorro de spray de pimenta diretamente nos olhos e narinas do jaguar em várias rajadas curtas. A fúria fazia tremer sua mão, mas sua pontaria foi perfeita.

       -Já basta. Já tive o bastante desta tolice da selva. Talvez seja uma mulher urbana, demônios, mas posso com tudo o que este horrível lugar me lance. Saia daqui agora mesmo! – Gritou a plenos pulmões, enviando outro jorro diretamente na cara do jaguar, para assegurar-se. A ordem atravessou seu cérebro e se espalhou no ar enquanto disparava vários jorros curtos.

       O jaguar se afastou correndo como se o tivesse mordido. Luiz caiu sobre seu traseiro, com a calça jeans meio rasgada.

       -Que demônios foi isso?

       -Spray de pimenta, - ela disse e se sentou junto a ele, pondo-se a chorar.

 

       Manolito evitou os tentáculos que o procuravam, enquanto estudava o bulbo fibroso. Seu corpo estava na selva com MaryAnn. Se estive preso no mundo dos espíritos, tal como estava seguro agora, só um espírito poderia residir neste lugar. Seu corpo não estava ali, então o ataque era simplesmente uma distração. Isto devia ter a ver com MaryAnn. Ela não só havia trazido até ali seu espírito, mas também também seu calor e vitalidade. Os vampiros haviam sentido o sangue quente e a luz em sua alma. Tinha que conduzir o ataque para longe dela, no caso de que sem querer voltasse a entrar no mundo de sombras onde ele estava preso.

       Afastou-se dela devagar. As vagas figuras que o atraíam, que o acusavam e queriam ajuizá-lo, não pareciam ser capazes de ver através do véu até o mundo dos vivos. Talvez se pudesse afastá-los o suficiente para que não pudessem senti-la, ela estaria a salvo. Podia deixar um rastro falso, retornar e escoltá-la a segurança antes da alvorada. Não deveria ter sido capaz de sentir a sensação, mas quanto mais se afastava de MaryAnn, mais frio sentia.

—Vamos nos unir. Compartilhe-a. Ela já o condenou a meia vida.

A voz brilhou tenuemente no ar, suave e persuasiva, tornando-se mais forte quanto mais ele se afastava de MaryAnn.

—Seu lugar sempre foi entre nós, não com os cordeiros, seguindo a um mentiroso.

Maxim Malinov, morto na batalha nas Montanhas dos Cárpatos, assassinado pelo próprio príncipe, saiu dentre as sombras e se aproximou de Manolito.

—Por que foi dar sua vida pelo príncipe quando ele não se preocupa absolutamente por você ou os teus? Sabe que você está no prado das névoas, e vigia sua companheira? Protege seu corpo enquanto vagas por este mundo? É egoísta e pensa só em si mesmo, não em sua gente.

Manolito conteve o fôlego. Havia passado muito tempo desde que tinha visto seu amigo de infância. Parecia jovem e forte, como sempre, com inteligência brilhando em seus olhos. Haviam crescido juntos, desfrutado de debates e conscienciosas discussões pelas noites, falando do que acreditavam ser melhor para sua gente. Seguir a Mikhail, o atual príncipe, não tinha sido o que nenhum deles considerava melhor ideia.

—Equivocamo-nos, Maxim. Mikhail afastou A nossa gente da raias da extinção. Os Cárpatos começam a serem poderosos outra vez, mas o que é mais importante, convertemo-nos numa sociedade cheia de esperança em vez de desespero.

Outra planta estalou pela da superfície, largas heras se estenderam como braços para ele. Ele saltou à árvore mais próxima, mais por reflexo que por necessidade. Pôde sentir o penetrante frio quando uma chuva de lanças de gelo começou a cair, mas o ferimento agudo das punhaladas que lhe atravessavam não era mais autêntico que a planta. Concedeu-se um momento para forçar sua mente a aceitar que se tratava de uma ilusão. A planta deslizou sob o chão, mas o gelo agudo seguiu caindo.

Quando saltou ao chão outra vez, Maxim sacudiu a cabeça.

—Nos velhos tempos não teria se conformado olhando um pedaço tão pequeno da imagem real. Ocultamos-nos das pessoas que deveriam nos servir. Escondemo-nos com medo, quando são eles que deveriam tremer ante nós.

—E por que deveriam tremer, Maxim?

—Não são nada mais que ganho.

—Por isso você não nos lidera e eu não te seguiria se o fizesse. São pessoas com esperanças e sonhos. Gente boa e trabalhadora que luta cada dia para fazer todo o possível por suas famílias. Não são diferentes de nós.

Maxim respondeu, com ironia.

—Têm-lhe feito uma lavagem cerebral. Tomaste uma humana por companheira e já corrompeu sua capacidade de julgar. Somos nobres, a melhor raça, os merecedores desta terra. Poderíamos governar, Manolito. Nosso plano era certo. Cedo ou tarde dominaremos e os humanos se inclinarão ante nós. - Seu sorriso era totalmente perverso e chamas vermelhas brilhavam em seus olhos com ardor demoníaco.

Manolito negou com um gesto de cabeça.

—Não os quero inclinados ante nós. Como todas as espécies, muitos deles se misturaram com nossos antepassados. É mais que provável que Cárpatos, magos, homens-jaguar e inclusive homens lobo se integraram na sociedade humana.

As chamas vermelhas ondularam e o vampiro vaiou sua incredulidade.

—Os homens-jaguar corromperam sua linhagem, é certo. Desprezaram sua herança e sua grandeza porque rechaçaram cuidar de suas mulheres e crianças. Merecem ser varridos da terra. Foi você quem disse. Você e Zacarías.

Manolito se manteve imóvel quando outro grande pedaço de gelo lhe atravessou o ombro. A sensação foi feroz, mas desapareceu quando rechaçou dar-lhe crédito.

—Eu era jovem e estúpido, Maxim. E me equivoquei. Todos nós o fizemos.

—Não, tínhamos razão.

—Os homens-jaguar cometeram enganos e esses enganos tiveram um custo, mas eles não são Cárpatos e suas necessidades são diferentes dasnossas. Decidiu não esperar sua companheira, Maxim. Ao fazê-lo, perdeste toda possibilidade de ter uma esposa e filhos e ajudar a criar uma sociedade duradoura. Já viu o poder da linhagem do príncipe. Ele é a liderança e a guia para toda nossa gente.

—Seu poder é falso, um engodo. Olhe a cicatriz de sua garganta, Manolito. Quantas vezes estará disposto a morrer por ele? Sacrificaste a vida duas vezes por ele e uma vez pela companheira de seu irmão. Está aqui, neste mundo de sombras, para ser julgado por seus atos escuros. Que atos escuros? Viveu com honra e serviu a sua gente, ainda assim está aqui. - A voz se tornou fantasmagóricamente formosa, cheia de verdade e entusiasmo, hipnotizante. - Todas as antigas raças são mitos agora, esquecidos pelo mundo. A raça do jaguar, uma vez poderosa, encontra-se agora só nos livros. Cobrem-se a si mesmos de vergonha. Tratam brutalmente suas mulheres. Quer que aconteça o mesmo a nossa espécie?

—Se realmente acredita no que diz Maxim, deveria escolher outro caminho. Por que se converter em vampiro? Por que assassinar por poder? Por que não reunir seu exército e partir contra Mikhail abertamente?

—Não era esse o plano.

—Converter-se em não-mortos não era parte do plano tampouco. Nossas famílias viveram com honra, Maxim. Caçamos o vampiro, não o abraçamos.

Maxim o ignorou.

—Meus irmãos e eu estudamos como fazê-lo. Se nos acercagalhos do príncipe diretamente, seríamos derrotados. Sabe que a maioria dos Cárpatos acredita nos velhos costumes. É ganho.

Manolito curvou os lábios.

—Humanos e jaguares são ganho para ti. Agora os Cárpatos. Certamente se elevaste em sua própria estima. Contradiz-se repetidamente.

Maxim cruzou os braços.

—Tenta me enfurecer Manolito, mas não pode. Uma vez foi um grande Cárpato, de uma família poderosa, mas entregou sua lealdade a pessoa equivocada. Deveria ter se unido a nós. Ainda pode fazê-lo. Já está perdido para o outro mundo.

Pela primeira vez a pulsação de Manolito se acelerou em resposta a lógica retorcida do vampiro. Os vampiros eram enganosos, mas freqüentemente entreteciam verdade em seu discurso. O que tinha feito a sua companheira? Por que não podia recordar seu crime? MaryAnn não parecia zangada com ele. De fato o tinha protegido ou ao menos o tinha tentado.

Pensar em sua companheira o esquentou, expulsando os fragmentos de gelo que haviam perfurado seu corpo e congelado seu sangue. Piscou e olhou suas mãos. Elas estiveram quase transparentes, mas agora uma sombra mais profunda crescia, como se seu corpo recuperasse a substância e a forma.

—Vejo que há perigo aqui depois de tudo. - Disse. —Maxim, você sempre foi ardiloso, mas nunca acreditou em companheiras ou sequer no conceito delas. Equivocou-se então e mais ainda agora. Não estou perdido enquanto tenha minha companheira.

—E o que acha que faz sua companheira agora, enquanto você mora no mundo das sombras? Acredita que ela vive sem o contato de um homem? Anseia ao homem-jaguar e se deitará com ele.

Manolito sentiu um nó retorcer-se em seu ventre. Não sabia que que o ciúme fossem uma coisa tão escura e feia até que encontrou sua companheira.

—Ela não me trairá. Retém a outra metade de minha alma. Você não pode me atrair totalmente a este mundo, porque ela sempre me ancorará ao outro.

Desta vez Maxim grunhiu e seus olhos brilharam com ferocidade, seus dentes se afiaram enquanto vaiava seu desgosto.

—Realmente, ela retém a outra metade de sua alma. Só temos que consegui-la e então nos pertencerá. Você é um traidor Manolito, a nossa família e a nossa causa. O plano foi idéia tua e de Zacarías, mas na primeira prova nos falhou.

Acordamos, nessa infantil e estúpida conversa de dar procuração e governar o mundo. Seus irmãos, meus irmãos e nós dissemos muitas coisas ridículas que tomaram forma e se converteram num caminho de destruição para muitas espécies. Há companheiras que nos esperam entre os humanos, Maxim. Pense além de seu ódio e compreenda que os humanos aão a salvação de nossa gente.

Sangue misturado. – Zombou Maxim. – É sua salvação?

Manolito suspirou com pesar. Lembrava-se de Maxim como um amigo. Mais que um amigo, como a um querido irmão e agora estava perdido além de qualquer salvação.

—Tenho minhas emoções honra e um futuro, Maxim. Você tem morte e desgraça e nada que te sustente na outra vida. Responderei de bom grado por qualquer engano que tenha cometido, mas não te ajudarei a prejudicar nosso príncipe. Além de minha própria honra, nunca desonraria minha companheira me convertendo em traidor de nossa gente.

—Nós mataremos sua preciosa companheira. Não só a mataremos, seremos brutais com ela. Sofrerá muito antes que lhe demos morte. Esse é o engano que cometeste com sua companheira. Já a traíste ao entregar sua vida pela de seu príncipe.

O medo quase o aturdiu. O terror ao que esse monstro poderia fazer a MaryAnn. Ela era luz e compaixão e nunca entenderia o que um ser tão perverso e horrível como Maxim poderia lhe fazer. O ar abandonou seus pulmões em uma rajada de medo e de pânico. Nunca antes tinha conhecido o pânico, mas este quase o consumiu ante a idéia de MaryAnn nas mãos de seus inimigos.

Havia caído numa armadilha depois de tudo? Maxim o havia afastado de MaryAnn para que um de seus irmãos pudesse matá-la? Ela estava sozinha na selva. Quanto tempo havia passado? O tempo era o mesmo no reino das sombras? Era possível para alguém rasgar o véu e ajudar a tramar um assassinato ou Maxim estava incitando deliberadamente seu medo? O medo conduzia a enganos. E os enganos conduziam a morte. Simplesmente não aceitaria a morte de sua companheira.

Manolito manteve seus traços inexpressivos, seu olhar fixo e cheio de desprezo.

—Não importa o que faça Maxim, não prevalecerá. O mal não triunfará sobre esta terra, não enquanto viva um só caçador. — Dissolveu-se em névoa e correu por entre as torturadas e retorcidas árvores.

Uma vez fora da vista de Maxim, lançou-se através do ar, voltando para lugar onde tinha deixado MaryAnn. Podia sentir o sangue palpitar em suas têmporas e trovejar em seus ouvidos enquanto mudava de forma antes de descer no chão. Ela não estava. O tempo parou. Seu coração pulou um batimento. A fera em seu interior rugiu e tentou se liberar. Os dentes se alongaram em sua boca e suas unhas se converteram em garras afiadas como navalhas.

- Ela trai-te com o homem-jaguar.

As vozes encheram sua mente. A cólera e o ciúme empurravam a razão parde lado.

Manolito levantou a cabeça e cheirou o ar. Sua mulher estivera ali e não estava sozinha. Conhecia aquele aroma. Havia tomado o sangue do jaguar.

- Ela está sob ele, gemendo, retorcendo-se e gritando seu nome. O nome dele, não o teu. Ele a roubou e ela só pensa no toque dele.

Sua boca se retorceu numa linha cruel e seus olhos brilharam ameaçadores. Estudou os rastros, viu a serpente morta e o padrão de rastros. Luiz havia se aproximado dela na forma de jaguar, mas tinha mudado para sua forma humana. Isso significava que havia ficado nu frente a MaryAnn. A fúria quase o cegou. Deveria ter matado esse demônio traidor quando teve oportunidade. Os homens-jaguar eram famosos por suas correrias atrás de mulheres.

Luiz tinha movido um dedo e o havia seguido, como uma marionete hipnotizada. Tanto os jaguares masculinos como os femininos eram seres muito sexuais. MaryAnn assegurava não ser jaguar, mas se uma pequena quantidade de seu sangue corresse por suas veias, a presença de Luiz a ativaria? Poderia entrar em “fase” e então precisaria de um homem para atendê-la.

- Ela partiu com ele. Ele precisa dela para lhe que um filho. Derramará sua semente nela. A encherá. Tomará-a seguidamente até se assegurar de que está grávida.

Manolito permitiu que um rugido de cólera escapasse em sua mente. A idéia de outro homem tocando sua suave pele enfurecia a fera. Ninguém tocaria sua mulher e viveria para contar. Ninguém a separaria dele. Luiz ia atrás de MaryAnn por motivos pessoaisou havia sido enviado pelo vampiro para matá-la. De qualquer modo, o homem-jaguar seria morto.

- Mate-o. Mate-a.

Manolito negou. Mesmo que MaryAnn lhe traísse com outro, nunca podia lhe fazer mal.

Moveu-se rápido, precipitando-se pela selva, evitando golpear-se com as árvores por escassas polegadas. Se Luiz se atrevesse a tocá-la, a lhe danificar um só fio docabelo, despedaçaria-o membro a membro.

Logo os encontrou. MaryAnn estava sentada chão, com lágrimas rolando por sua face e Luiz de pé na frente dela. Ela estava despenteada, zangada e assustada, tanto que lhe doeu. Seu coração se encolheu ao ver sua angústia. Aumentou a velocidade e seu corpo se esfumou, surgindo por entre os arbustos quande Luiz se voltava.

Manolito golpeou o homem-jaguar com força, fazendo-o retroceder, Logo o levantou, lhe jogando com tanta força contra o chão, que se abriu uma fenda na branda terra. Em algum lugar da mente, na distância, ouviu o grito de MaryAnn. Amassou o rosto de Luiz, sem lhe dar tempo para mudar para sua forma felina. Seu braço retrocedeu e dirigiu o punho para a caixa torácica dele, para penetrar e arrancar o negro coração do monstro.

—Pare!!! - MaryAnn gritou a ordem. Novamente, com uma surpreendente fúria silenciosa, enviou Manolito voando para trás pelo ar. – Eu disse pare!

Ele encontrou-se estendido no chão, com os ouvidos zumbindo pela força da ordem psíquica. Ela tinha-lhe arrojado para trás, longe do homem-jaguar, que permanecia imóvel no barro. O golpe telepático tinha sido mais duro que qualquer golpe físico que já recebera. Olhou-a piscando, a fúria mesclada a admiração.

—Está louco? — Exigiu MaryAnn, em pé em frente a ele, com as mãos nos quadris, expressão furiosa e seus olhos brilhavam perigosamente.

Desejava-a. Foi tudo o que pôde pensar naquela fração de segundo. Desejava toda essa paixão e fúria sob ele, lutando com ele, rendendo-se a ele. Ela era assombrosa, com suas exuberantes curvas e seu rosto incrível. Normalmente parecia tranqüila no exterior, apresentava uma imagem elegante, mas em seu interior era toda fúria e garras, tão selvagem como seu entorno.

Levantou-se devagar, com os olhos fixos nela, enfocados e sem piscar. Sem dizer nada, espreitou-a através do acidentado terreno. Ela teve a sensatez de retroceder alguns passos. Cautela e desafio se misturavam a sua fúria. Aproximou-se dela, forçando-a a elevar os olhos para ele, através de seus longos cílios. Com uma mão segurou seus cabelos, inclinando sua cabeça para trás, enquanto a outra a agarrava pelos quadris e a conduzia mais perto dele, sentindo seus seios contra o peito.

Ela abriu a boca para protestar e ele tomou posse da mesma. O beijo foi rude e os restos de seu medo e fúria ainda dominavam. Introduziu a língua profundamente, deslizando-se no interior de sua boca e tomando o controle, utilizando a natureza apaixonada dela a seu favor. Ela tinha obtido o que nenhum homem tinha conseguido. O nocauteara com um pensamento. Com um pensamento!

O desejo o tomou, profundo e quente. A luxúria se elevou aguda, lhe consumindo com o desejo de dominá-la, de lhe dar tanto prazer que nunca pensasse em abandoná-lo, que nunca pensasse em lhe negar nada. Mordeu-lhe brandamente o lábio inferior e segurou-o entre os dentes. Depois acariciou sua pulsação e deixou um rastro de beijos por seu pescoço. Ela inspirou, um som rouco de desejo que provocou em seu corpo uma dor forte e aguda. Uma corrente de sangue quente o encheu e ele fechou os olhos para absorver melhor a sensação e a textura dela. Suave e flexível, movendo-se contra ele como a seda. Enchendo cada lugar vazio de seu coração e sua alma. Beijou outra vez, um milagre chamado mulher.

Seu calor e seu aroma a rodearam. Sua ereção quente e grossa pressionava contra seu estômago. Seus lábios eram firmes e quentes, seu beijo brusco e excitante. Sempre tinha imaginado que o sexo com o homem de seus sonhos seria terno e lento, mas a ardente paixão flamejava quente e ávida em seu interior. Excitação mesclada com temor. O coração lhe pulsava ruidoso e com força, rabiando contra o peito dele. Seus músculos se contraíam e esticavam. Seu corpo se converteu em calor líquido e ardente.

Sofria por ele. A necessidade era tão forte que a fez deslizar a mão sob a camisa para tocar sua pele nua, sentir seu coração palpitando. Seu coração encontrou o ritmo do dele. O sangue correu, palpitou e chamas diminutas lamberam sua pele.

Ele a afastou, olhando-a com seus cintilantes olhos negros.

—Não volte a interferir.

Olhou-o piscando, surpreendida pela facilidade com que ele a controlava.

—Maldito seja por isso. — Limpou a boca, tratando de apagar o desesperado e doloroso desejo, a marca que ele havia deixado, mas o sabor e o toque dele permaneceram. Afastou-se, dando-lhe uma palmada quando tropeçou e ele a segurou. – Você deve uma desculpa a este homem. Uma enorme desculpa. Ele salvou-me a vida duas vezes e não merece ser moído a golpes por me escoltar de volta para casa.

Assombrou-a poder falar. Seu corpo ardia. Olhou-o de soslaio. Seus olhos estavam semicerrados, escuros pela fome e pela excitação. Ele parecia totalmente um predador. Perigoso e faminto do sabor e do toque dela.

—Eu? —Voltou o olhar para aonde Luiz começava a se sentar. - Ele sabia que me pertencia.

—Não pertenço a ninguém mais que a mim mesma. E ele me salvou a vida. Você não estava aqui para brincar de herói. — MaryAnn horrorizou-se ante a acusação de sua voz.

O olhar dele se suavizou.

—Ficou com medo sem mim.

Sentira medo por ele e isso o fazia pior. Engoliu com força e estendeu as mãos.

Olhe. Estou acostumada a ter o controle em minha vida. Não sei o que faço aqui. Não sei o que acontece. Sinto coisas que nunca antes havia sentido.

Era dependente quando nunca tinha sido. Precisava de tempo para pensar, simplesmente estar tranqüila, embora não pudesse suportar a idéia de ficar longe dele. E isso era o mais atemorizante, porque não era mulher de renunciar a sua independência.

Manolito conteve as palavras que ardiam para serem soltas. Realmente Ela lhe pertencia, como ele a ela. Mas a confusão e o cansaço em sua face lhe abrandaram o coração. Ela estava ali em pé, com aspecto suave e desejável e acreditando ser dura e tudo o que ele queria fazer era abraçá-la e consolá-la.

Mas, atravessou o terreno e se abaixou a fim de erguer Luiz, de um puxão. O homem se balançou irregularmente e conseguiu lhe dirigir um meio sorriso.

—Tem um bom gancho.

—Tem sorte de que não o matasse.

Luiz assentiu.

—Sim. Captei-o. — Ele olhou além de Manolito, para o MaryAnn. – Você está bem?

Uma advertência suave retumbou na garganta de Manolito.

—Não é necessário perguntar por seu estado, quando estou aqui.

—Eu acredito que sim. - Disse Luiz.

—É porque tem boas maneiras, —disse MaryAnn bruscamente, - Muito obrigado por sua ajuda, Luiz. Sobretudo por me salvar a vida. —Então ela se voltou e se afastou. O cavernícola podia segui-la ou não, já que estava o bastante perto da casa para reconhecer o rastro de Jipe. Podia segui-lo.

Manolito encolheu de ombros quando a sobrancelha de Luiz se arqueou.

—É muito boa me provocando. — Por um momento, a diversão brilhou em seus olhos.

—Tenho o pressentimento de que precisará ser. - Disse Luiz, esfregando o queixo. - É assombrosa.

A fisionomia de Manolito se obscureceu, desvanecido o breve brilho de humor.

—Não tem que achá-la assombrosa. E mantenha suas calças, jaguar.

O sorriso de Luiz se alargou.

—As mulheres não podem menos que ficar impressionadas.

—Duvido que sente bem que arranquem seu coração do peito, mas se quiser posso dar jeito, para que o averigue.

Luiz riu dele.

—Pode ser que ela seja que te arranque coração, Cárpato. Tome cuidado.

Manolito baixou o olhar para sombra velada de sua mão. Estava ainda entre os mundos, mas via tudo bem mais claramente e sua forma era mais substancial que antes. Luiz não tinha notado e sua gente jaguar não só era observadora, também podia decifrar coisas na selva que outros não podiam. E divisavam outro de sua raça imediatamente…

Alcançou MaryAnn.

—Ele não te reconheceu como jaguar e se tivesse embora só um pequeno rastro de seu sangue, ele saberia.

Os escuros olhos dela eram tempestuosos. Ainda não havia lhe perdoado. Profundamente em seu interior, a luxúria despiu suas garras e o arranhou com dureza.

—Não sou jaguar. Já lhe disse isso.

Ele ficou atrás para dar uma boa admirada em seu seu traseiro revestido ajustadamente pelos jeans. Seu coração quase parou. Esta mulher era constituída como deveria ser, toda curvas e tentação.

—Basta, —vaiou ela e lhe lançou outro olhar provocador sobre o ombro. — Estou muito zangada contigo agora. Nada do que faz é encantador.

Porque sabia que não se tratava de sua falta de maneiras ou seu arrogante e ridículo comportamento. Tratava-se de seu próprio comportamento. Gostasse ou não, ela era diferente. Gostasse ou não... Admitisse-o ou não... Ardia e sofria por este homem, para que a tocasse, para ter em seu interior. Suas desagradáveis maneiras dominadors deveriam lhe provocar rechaço, mas o achava fascinante, inclusive hipnotizante. E não deveria ser aceitável.

—Não posso evitar te achar atraente. - Protestou Manolito. — Olhar para você põe idéias em minha cabeça. Estaria mais que contente em compartilhar contigo.

—Não o faça. O sexo não é o mesmo que amor Manolito e os casais, maridos e noivos ou companheiros, supõe-se estar apaixonados. Assim é como funciona.

—Você aprenderá a me amar. - Respondeu ele, com a confiança impressa em sua formosa face. – Virá com o tempo.

—Não conte com isso. – Ela murmurou, percorrendo com passo firme o caminho sobre seus inseguros saltos. Sim. Porque era assim tudo com ele. Ele acreditava que ela aprenderia a lhe amar. Assim funcionavam as coisas em seu mundo, mas não no dela. Quando tivesse sexo apaixonado e selvagem sexo com este homem, queria que fosse ele que a amasse.

Estava a metade do caminho da porta quando realmente se fixou no impressionante palácio que ele e seus irmãos chamavam de casa de veraneio. Um retiro,sim. Quem se retirava a um lugar do tamanho de um edifício? Parou bruscamente na porta. Era um insólito palácio. Suspirou e esfregou as têmporas. Senhor, precisava estar em casa, de volta ao mundo real.

Manolito se adiantou para abrir a sólida porta e lhe fez um gesto para que entrasse.

—Por favor entre em minha casa.

MaryAnn respirou fundo e deu um passo para trás, negando com a cabeça. Ninguém, mas ninguém, vivia assim. Permaneceu em meio a enorme porta, olhando fixamente o brilhante mármore do saguão. Havia esquecido como era a casa ou talvez não a tinha notado ao chegar à primeira vez porque estava muito aflita. Situado em meio à parte alguma, parecia um palácio de da Idade Média.

—Não colocarei um pé sobre este solo. - Disse, afastando-se da porta. E tinha bons sapatos, além disso, sapatos adequados para andar por um piso assim. Magníficos sapatos. —Bem, usaria-os. Suas formosas botas estavam arruinadas e lamacentas e o salto esquerdo frouxo e cambaleante. Não ia arriscar a riscar o brilhante chão de mármore que se estendia por metros. Sua casa inteira de Seattle poderia caber no saguão.

Atrás dela, Manolito pressionou uma mão em sua cintura e lhe deu um pequeno empurrão para frente.

—Entre.

Certo, Empurrar não funcionava com ela muito mais que sua inclinação a emitir ordens. Além de sublinhar o fato de que era o maior imbecil sobre a face da terra, cada vez que seus dedos a roçavam, cada nervo de seu sistema simplesmente se contorcia. Seu corpo se negava a ouvir seu cérebro que gritava o alerta “macho idiota”.

Embora não pudesse deter o tremor de excitação e o lento ardor que se estendia por suas veias como uma droga cada vez que a tocava, ele não ia ficar dando ordens a seu redor, como obviamente pensava que poderia.

Sei que não acaba de me empurrar. - Disse bruscamente, sacudindo sua larga e grossa tranca, enquanto o olhava airada sobre o ombro.

Foi um engano olhar para ele. Seu olhar fixo ardia sobre ela... Nela. Ninguém podia ter olhos ou uma boca tão pecaminosamente sensual... Ou uma casa como esta. Ela não vivia na opulência e a decadência. Não estava impressionada nem cômoda com isso. E certamente não estava com os homens ardentes e arrogantes que davam ordens com tanta naturalidade como outras pessoas respiram.

—Foi uma gentil ajuda para que ajudasse a entrar em minha casa, já que parecia ter problemas para entrar.

A voz deslizou sob sua pele e encheu cada lugar vazio dentro dela. O profundo e áspero tom a envolveu em veludo e pareceu acariciá-la. Ele tentou-a com o escuro atrativo do sexo.

—Não vou entrar aí. Deve ter outra casa. Uma menor. Algo mais... —Porque ele pensava em abandoná-la... Outra vez. Já havia deixado-a ardente e preocupada, tinha-lhe dado ordens, comportou-se como um idiota, trouxera-a para este… Este… Palácio e ia deixá-la ali. Podia ler em sua cara. Que se danasse. Não entraria. Ficaria só em meio à selva em uma ilha, palácio ou não palácio, não era algo que fosse passar outra vez.

Retrocedeu empurrando a mão de Manolito. Talvez se encontrasse Luiz outra vez, ele poderia ajudar a localizar a pista de aterrissagem e poderia enrolar o piloto para que a devolvesse a civilização. Se houvesse um piloto e um avião. Ainda não sabia como, mas Luiz poderia.

Uma piscada de fúria floresceu nos negros olhos de Manolito e ele a segurou e a lançou sobre o ombro, entrando no frescor da casa, além da entrada e das escadas duplas, para um enorme aposento de mármore e cristal.

A comoção sumiu no silêncio e depois pura cólera correu por suas veias. MaryAnn, que nunca recorria a violência, que não acreditava na violência, que na realidade advogava contra a violência, desejou golpear aquele homem até reduzi-lo a uma mancha sanguinolienta no chão.

Era absolutamente humilhante ser transportada sobre seu ombro, com os braços e pernas penduradas como espaguete. Golpeou suas costas só para enfurecer-se mais quando ele nem sequer se sobressaltou.

—Desça-me agora mesmo. – Gritou aferrando as costas de sua camisa. – Estou falando sério, Manolito. Se alguém me vir assim, vou me zangar muito. - A ideia era completamente mortificante.

—Não há ninguém na casa. - Ele assegurou, aborrecido pela angústia de sua voz. A fúria era uma coisa, mas não a angústia. - Riordan e Juliette devem estar com sua prima e irmã na selva. E já que me pede isso tão amavelmente. —Manolito a depositou no chão e se afastou com um suave e fluido movimento no caso dela o golpear.

MaryAnn endireitou a jaqueta e a blusa com grande dignidade.

—Esta demonstração de machismo era realmente necessária? —Disse destilando sarcasmo. Se não podia golpeá-lo como merecia, podia derrubá-lo com palavras. Era muito boa no cruzamento de espadas verbais.

Manolito a olhou de cima a baixo, até o rosto furioso. Ela era dolorosamente formosa com sua perfeita pele cor de café e tão suave que se encontrava acariciando-a sempre que tinha possibilidade. Dele. Saboreou a palavra. Deixou-a aprofundar em sua mente. Ela pertencia-lhe. Nacera para ele. E ele era somente dela e a teria para sempre.

Ela havia lhe devolvido as cores e as emoções depois de centenas de anos. E não tinha nem idéia do que representava para ele. Estava ali em pé a sua frente, uma pequena fera de mulher com seus brilhantes cachos negros e seus olhos cor chocolate, inocentes e vulneráveis. O desejo avançou lentamente por seu corpo como garras selvagens, desumanas e perigosas, mas algo mais se arrastava até seu coração. Algo suave e aprazível, quando fazia muito tempo que havia esquecido a ternura.

—Pareceu-me um modo certo de sair do sol do amanhecer.

—Sua mãe não te ensinou nada sobre boas maneiras, não é? — MaryAnn tentou manter seu aborrecimento, mas era quase impossível quando ele a olhava de modo tão estranho... Como se ela fosse tudo. E o medo estava começando a invadi-la, a necessidade de gritar, porque podia sentir a resolução de partir em sua mente, de ir para a terra. Não podia ir com ele e isso queria dizer que ficaria sozinha.

Ele deu um passo para ela, obviamente lendo sua aflição.

MaryAnn levantou uma mão para detê-lo, porque se ele a tocasse, não sabia como reagiria. Nunca, nunca tinha considerado entregar seu corpo a um homem e lhe permitir fazer o que quisesse com ele, mas Manolito podia fazer facilmente o que desejasse. Podia fazê-la desejar coisas que nunca tinha sonhado e isso a assustava quase tanto quanto a idéia de ficar ali sozinha.

Olhe minhas botas. – Disse para evitar chorar e sentou-se na cadeira para tirá-las. - Eu adorava estas botas. Sempre foram minhas favoritas.

Ele se ajoelhou diante dela e com cuidado afastou suas mãos para lhe tirar as botas ele mesmo. Ela olhou sua cabeça, seu cabelo sedoso e negro como a meia noite caindo em desordem ao redor de sua face, até os ombros. Não pôde evitar tocá-lo quando os dedos dele deslizaram por sua pantorrilha e enviaram tremores por sua perna.

E ele só a ajudava a tirar as botas, mas de algum modo o pequeno gesto lhe pareceu sexual. Tentou afastar o pé, mas ele rodeou seu tornozelo com fortes dedos e a reteve.

—Não, MaryAnn. Não tenho outra escolha que ir a terra. Não quero te deixar sozinha. É a última coisa que desejo. Se continuar tão aflita, não me deixará mais opção que te converter agora e te levar comigo.

Ele elevou a cabeça e seu escuro olhar se encontrou com o dela.

O coração de MaryAnn saltou quando ele tocou os lábios com a língua e dirigiu o olhar para sua boca.

—Nem pense nisso. —Porque ela pensava nisso e se assustava demais.

—Vá tomar um banho. Cuidarei das botas para você. – Ele ordenou. —A água quente te relaxará e te ajudará a dormir.

MaryAnn engoliu um protesto e o deixou ali ajoelhando no chão, com suas botas na mão. Não olhou para trás, não se permitiria olhar atrás, mesmo que estivesse segura de que ele teria partido quando saísse.

Deixou a água tão quente como pôde suportar, deixando-a fluir sobre seus doloridos e cansados músculos enquanto chorava. Era tolo, certo. Mas não podia evitar depois de tudo o que tinha passado. Uma válvula de escape, mas de todos os modos seu coração se sentia triste. O xampu acabou com o encrespado de seu cabelo e o aparelho de ar condicionado o alisou outra vez. Saiu sentindo-se cansada e perdida, desejando que Manolito mais do que nunca tinha, mas estava decidida a não chorar mais.

Envolveu-se numa toalha e entrou no quarto para encontrar onde dormir. Manolito estava sentado na cadeira junto à janela sujeitando suas botas. Estavam limpas e brilhantes, pareciam novas. Durante um momento, só pôde olhar para ele emocionada, segurando a toalha enquanto explodia de alegria. Novas lágrimas arderam. Lágrimas de alegria desta vez, mas as engoliu e tentou dirigir um assentimento indiferente para as botas.

—Arrumou-as.

—É obvio. Você as adora. —Ele deixou as botas e levantou um par de brilhantes sapatos vermelhos de salto alto, que combinariam com um vestido que aderisse como uma segunda pele a cada curva. - Adoro estes.

—Tem bom gosto.

—Coloque-os para mim.

Ela elevou uma sobrancelha.

—Agora? Estou envolvida numa toalha e meu cabelo está molhado.

Era consciente de estar com uma toalha nos cabelos.

—Parecem perfeitos para um vestido que tenho, mas não estou muito segura do efeito que terão com uma toalha.

—Agora—. Sua voz era baixa e convincente, um hipnótico e erótico tom áspero que endureceu seus mamilos e os fizeram doer de necessidade.

Colocou a mão sobre o ombro dele e deslizou o pé em um sapato, olhando seu rosto. Ele a olhava hipnotizado. Faminto. Calçou o outro sapato e retrocedeu um passo com confiança. Os saltos faziam que suas pernas parecessem magníficas. Como não poderiam? Com toalha ou sem ela, tinha uma boa estampa e ele definitivamente a apreciava. Ele a fazia se a mulher mais sexy do mundo.

Ele se levantou, numa fácil e casual ondulação de músculos. Num andar felino até alcançá-la, quase fazendo com que lhe detivera o coração. Sua mão segurou seu rosto e seu polegar deslizou sobre ele.

—Você é linda. Não tenho nem ideia do que fiz para te merecer, mas você me deixa sem fôlego.

Inclinou-lhe a cabeça e a beijou. Foi um beijo doce e lento, com hálito quente e a boca persuasiva. Traçou um caminho de beijos por sua face até seu pescoço, acariciando-a, beliscando-a com os dentes e provocando-a com sua língua. O sangue trovejou em seus ouvidos quando a boca quente e sedutora vagou para a curva de seu seio. Calor líquidsua pulsaçãou entre suas coxas.

Manolito tirou a toalha e esta caiu, deixando cada polegada dela nua ante seu faminto olhar. Afastou-se para admirá-la. Admirar a extensão de pele acetinada e as curvas cheias e exuberantes, brandamente tentadoras. Seu polegar acariciou o sensível mamilo e ela ofegou em resposta. Ele traçou uma linha desde seu queixo até o umbigo.

—Juro MaryAnn, que nunca tive uma visão mais formosa em todos meus séculos de vida. —A luxúria tornava áspera sua voz, mas a sinceridade a convertia em veludo. Retrocedeu, deslizou-lhe a mão pelo braço até que seus dedos se entrelaçaram com os dela. Puxou-a, para que desse um passo para ele.

 

Manolito deslizou a mão sobre a curva de seu quadril. As pontas de seus dedos se atrasaram ligeiramente na pele. Os músculos do estômago de MaryAnn se contraíram. Pequenas chamas de excitação avançaram tremulamente por suas coxas, estendendo-se por seu estômago e brincando com seus seios. Os olhos dele se tornaram ardentes e possessivos, sua boca sensual, com uma fome afiada. Mal podia conter o fôlego, seu corpo desejava o dele. Em qualquer lugar que tocasse seu olhar, sentia uma espécie de marca.

Estava lhe seduzindo? Ou ele a ela? Não podia dizer e não importava. Tudo o que importava era que não podia afastar os olhos dele. Seu corpo estava duro e tenso, o vulto de seu membro sob a calça jeans era impressionante. O calor emanava dele em ondas. E seu toque era pura magia, as pontas de seus dedos brincavam com alguma criatura selvagem de seu interior. A que exigia ser liberada... A que respondia fisicamente A toda tudo nele.

—Esperei-te por várias vidas, —confessou ele, com o olhar ardente enquanto inclinava a cabeça para seu pescoço. Sua língua brincou com o lóbulo da orelha, sobre sua pulsação. - Pensava em ti. No que faria contigo. Em que quantas formas te daria prazer.

Manolito inalou sua fragrância amadurecida. Ela era toda mulher. Sua mulher.

Ansiava-a, sua ereção estava tão dura, tão grossa, que sabia que nunca encontraria paz até que se introduzisse profundamente dentro dela. Pouco lhe importava que o amanhecer se aproximava e de que fosse incapaz a algum tempo de tolerar a luz da manhã. Arriscaria-se a tudo para ficar com ela, dentro dela, reclamando-a para si. Sua respiração se acelerou, atraindo a atenção a seus seios cheios e firmes. Dele. Iria aproveitar cada segundo que tivesse com ela e vivê-lo.

Obrigou-se adeixar que sua mão deslizasse para longe do braço dela. Caminhou para a cama que havia e se deixou cair sobre a grossa colcha.

—Quero olhar para você.

Ali em pé, com a mão no quadril e o cabelo fluindo por suas costas, sua beleza lhe roubava o fôlego. Ela deu um passo com os sexys sapatos vermelhod de salto altos e o desejo se abateu sobre ele com um golpe brutal, de necessidade que poderia colocá-lo de joelhos estivesse em pé. Respirou fundo e permitiu que a intensidade da luxúria o tomasse. Sentia o corpo ardente, tenso e estalando pela necessidade de entrar nela. Corriam imagens por sua mente, dela estendida ante ele como um presente.

A cada passo que ela dava, a fome incrementava, até que o sangue palpitou em seu corpo e cada célula rabiou por ela. O duro prazer de desejá-la sacudiu os alicerces de sua existência. Nunca tinha desejado nada como a desejava. Nunca tinha necessitado de nada, mas de repente o corpo dela era tudo. A forma e textura. Seus pés incitantes. Cada suave centímetro dela desejando ser explorado, ser tocado. Dele. Ela era toda para ele. Quando nada em seus longos séculos de existência tinha sido para ele, a visão dela era demais para acreditar. Olhar não era suficiente. Teria que tocá-la... Possui-la... Ou nada disto seria real.

Pela primeira vez em sua vida, MaryAnn se sentia total e absolutamente sensual e sem inibições, movendo-se pelo aposento com seus saltos altos, sabendo que cada passo que dava a levava a Manolito da Cruz, mais perto do limite de seu controle. Era revigorante vê-lo respirar com dificuldade, vê-lo como seus olhos se tornavam escuros, ver o escuro desejo esculpido profundamente em sua face. Ele era tão bonito que não podia respirar ao lhe olhar. E a desejava. Oh, sim. Ele desejava-a. A luxúria estava profundamente esculpida em sua fisionomia. A fome iluminava seus olhos escuros, a intensidade alimentava suas próprias necessidades.

Seu corpo estava vivo pelas sensações, sua respiração chegava em ofegos. Era consciente do doloroso formigamento de seus seios, da forma em que seus mamilos endureciam. Um calor úmido se acumulava em seu sexo. Tudo porque ele a olhava com feroz e possessivo desejo. Desejava esfregar seu corpo pelo dele, acaricia-lo, agradá-lo e fazer o que fosse necessário para satisfazer essas chamas bailarinas de fome nas profundezas de seus olhos.

Ele a chamou, mostrando a cama a seu lado.

—Vêem aqui.

-É realmente formosa, MaryAnn.

Sua voz era era aveludada mas com um pequeno grunhido se acrescentava a ela. A nota parecia dançar sobre sua pele e acariciar como dedos. Seu útero se contraiu. Os pés dele penetraram entre suas pernas, percorrendo-a de cima a baixo sua pantorrilha e depois as afastando gentilmente até que ela ficou com as pernas abertas para ele.

Manolito semoveu, inclinando para frente para lhe rodear o tornozelo nu com os dedos. Lentamente passou a palma da mão por sua perna. Quando ela ia se mover, ele apertou sua garra como advertência.

—Não.

Ela tentou ficar quieta, mas seu toque enviava correntes elétricas por sua corrente sangüínea e não podia evitar tremer. Uma das mãos traçou a forma da perna, subiu para o joelho, acariciando, roçando, fazendo com que diminutas chamas a lambessem e subissem pelas coxas e mais ainda, seus dedos se introduziram, imprimindo a forma e textura dela em sua mente.

—Não estou segura de que possa suportar muito mais. —Era essa sua voz, com essa nota sensual recobrindo cada nota? Por que era tão sexy estar de pé completamente nua enquanto ele estava totalmente vestido? Que cada centímetro de sua pele estivesse sendo explorado por suas mãos vagabundas? - Não sou um brinquedo, Manolito. —Mas assim se sentia. Seu brinquedo. Sua mulher. Seu corpo para tocar, brincar e adorar com suas grandes e cálidas mãos. E por que a excitava? Por que gostava de se mostrar a ele, ver a reação de seu corpo a ela e sentir-se mais poderosa a cada momento?

—É obvio que é. Seu corpo é um formoso lugar de diversão e eu quero conhecer cada centímetro dele. Quero saber exatamente que te faz responder e te dá mais prazer. —Ele esfregou o polegar sobre sua escorregadia e úmida entrada e observou seus olhos ficarem amolecidos. - Quero saber o que te faz gritar e quero fazer com que suplique. —Suas mãos traçavam círculos ao longo da parte interna de suas coxas, subindo até seus quadris e depois baixando para acariciar as nádegas. - Quero te comer viva, te ouvir gemer e choramingar por mais. Isso é exatamente o que tenho intenção de fazer, MaryAnn, me banquetear contigo.

Manolito se inclinou e com a língua, lhe deu uma longa e lenta caricia, lhe arrancando um gemido.

—Muito, muito mais.

—Mais? Acredita que há muito mais? —Não estava segura de poder suportar lhe desejar mais do que já o desejava.

Suas mãos lhe moldaram as nádegas e os dedos deslizaram habilmente para seu centro, como plumas acariciando-a, deixando pequenas labaredas de fogo por seu corpo.

—Sempre há mais, MaryAnn. E tudo isso te agradará mais do que nunca imaginou.

Nesse momento, ela podia imaginar muito. Conteve o fôlego, surpreendida pelas coisas que desejava que ele lhe fizesse, surpreendida pelo muito que lhe importava que ele a tocasse e a saboreasse. A selvageria nela cresceu e todas as suas inibições normais desapareceram rapidamente.

Manolito teve que resistir contra o desejo de atirá-la ao chão e tomá-la como seu corpo exigia, duro e rapidamente, tomando-a até se sentir satisfeito. Seu membro pulsava e ardia, rijo além de seus limites, mas não iria se apressar. Era formosa com seu corpo luxurioso e seus olhos de gama brilhavam com uma mistura de medo e excitação. Ela era uma mulher que gostava pelo menos de ter a ilusão do controle. Queria conduzi-la além de sua zona de conforto e levá-la a um lugar de puras sensações.

Atraiu-a para seus braços, de forma que seu corpo encaixasse firmemente contra o dele. O tecido de suas calças esfregou contra sua pele quando a aproximou dele, lhe inclinando o rosto para que seus olhos se encontrassem. Inalou-a, atraindo sua fragrância feminina os pulmões, ouvindo seu coração trovejar nos ouvidos, sentindo a suave pele, sua luxuriosa textura sedosa e teve que resistir a urgência de colocá-la sob ele. A necessidade de cobri-la, de dominá-la, de cravar os dentes nela se fazia mais forte a cada momento que se passava.

Ela relaxou a seu lado, seu corpo confiava nele. Sentia-a pequena e suave, e pequenos arrepios a percorriam, assim que se aconchegou mais contra ele. Seus olhos pareciam escuros e cheios de mistérios.

Tomou sua boca, gentil a princípio, saboreando o sabor especial enquanto sua língua se entrelaçava com a dela. Ouviu-a suspirar e seu corpo se tornou flexível, movendo-se contra ele, convidativo.

—Tentação, —sussurrou enquanto a movia em seus braços, estendendo-a sobre seu colo, com o corpo estirado e os seios empinados, as coxas abertas e a umidade cintilando. - Está molhada e disposta para mim, sivamet.

Segurou-lhe com os dentes o lábio inferior, brincando e mordiscando-o, adorando sua curva, memorizando sua forma.

—Adoro sua boca. —Adorava tudo nela. E esse era o problema. Quanto mais tentava encontrar um modo de atá-la a ele, de se assegurar que ela nunca desejasse deixá-lo, mais a desejava. Nunca teria o bastante de seu corpo. E seu corpo nunca teria bastante do dele. Queria que seus olhos brilhassem com emoção maior que luxúria e desejo.

Manolito a beijou novamente, num lento ataque a seus sentidos, desejando seu coração e alma, sabendo que somente poderia ter uma parte dela. Isso o deixava estar mais decidido que nunca a prendê-la a ele sexualmente. Ela não era consciente do quanto era atraente, do fato de que era sexy como o inferno, ela pensava que isso se referia somente a ele. Seus beijos eram longos e embriagadores, sacudindo-a deliberadamente, sem lhe dar oportunidade de pensar, somente de sentir. Seus gemidos eram suaves e ele tragava cada um deles, aceitando-os em seu corpo para sempre.

Estava amando observar como crescia sua excitação, saber que era por ele. Saber que ele tinha colocado esse aturdido e absoluto desejo em seus olhos. Ela virou a face, esfregando o nariz em seu queixo, sua língua deslizou com um calor áspero sobre sua pele antes de sussurrar seu nome.

Manolito.

A suave chamada ofegante endureceu seu corpo ainda mais. Mordiscou seu caminho pelo queixo até a garganta. Sua pele era cálida e doce como mel. Não pôde resistir a uma pequena mordida. Seus dentes arranharam gentilmente sua pulsação, sua língua consolou a pequena ardência com uma caricia gentil. Ela reagiu com outro gemido quase ofegante, inclinando a cabeça para lhe proporcionar um melhor acesso a sua garganta. O cabelo caía como uma cascata a seu redor e ele desejou a sensação de senti-lo contra sua pele. Seus seios se elevavam e baixavam com sua respiração que se tornava mais dificultosa.

—Você gosta disto, não é? — Sussurrou, seus dentes lhe mordiscaram novamente a pele. Notou que elevava sua pulsação, como se aparentemente o chamasse, amadurecida e pronta. O calor emanava dela. – Oh, sim, carinho. Definitivamente você gosta.

Sua fisionomia franziu com concentração e suas roupas se dissolveram em redemoinhos de névoa, deixando seu corpo nu, de forma que ficassem pele a pele. A cascata do cabelo dela caía sobre ele com um roçar sensual, fazendo com que sua ereção, tão grossa, dura e dolorida pressionasse firmemente contra o curvilíneo corpo feminino.

MaryAnn se inseria entre ele e o monstro no qual poderia se converter... O não morto. Somente ela tinha o poder de lhe salvar, e o milagre era, que estava oferecendo seu corpo a ele. Não havia nada mais poderoso ou erótico.

Sua boca se moveu sobre ela com fome. Sobre a pele de cor café com leite, ardente. Podia ouvir e sentir como seu sangue o chamava, percorrendo suas veias num fluxo vazante de vida. Seu coração seguia o ritmo do dele, pulsar a pulsar, sob seus seios. Seus lábios traçaram um caminho ao longo das suaves e eróticas colinas e baixando ao vale, sua língua acariciou a pulsação. Seus dentes brincaram enquanto dava total atenção aos tensos mamilos.

Arqueou o corpo e acariciou com o hálito, os tensos brotos. Ela tentou se mover, ergueu os braços, mas ele a deteve elevando a cabeça, observando a excitação que ardia em seus olhos.

Quédata quieta, sivamet. Quieta. Quero que sinta cada toque de minha língua, cada toque de meus dedos e lábios.

—Não posso suportar, — ofegou ela, enterrando os dedos na colcha, tentado desesperadamente encontrar algo a que se apegar. – Você tem que parar. —Porque lhe acabava o controle.

Mas a língua dele já se pressionava contra seus clitóris e seu corpo se derreteu. O prazer estalou através dela com a força de um vulcão em erupção, estendendo-se como lava ardente, até que seus músculos se apertaram cruelmente, seu corpo se contraiu e lanças de fogo percorreram sua coluna e seus seios. Empurrou-se com força contra sua boca, incapaz de se deter quando o prazer entumecedor a tinha girando completamente fora de controle.

Antes de poder recuperar o fôlego, ele voltou-a, colocando a de joelhos enquanto seu corpo tremia sob ondas de puro prazer.

Manolito ergueu-se sobre ela,capturando seus quadris e empinando seu traseiro para ele, pressionando com a mão suas costas, para mante-la no lugar e encostou a cabeça de seu membro contra a apertada entrada.

—É isto o que necessita, sivamet? — Sussurrou roucamente.

MaryAnn se deu conta de que estava cantarolando, numa aguda súplica. Um relâmpago lhe atravessou o corpo quando ele começou a invadi-la. Ele era muito grande e grosso, tão duro como uma lança de aço invandindo suas suaves dobras, estirando-as e queimando.

—Você é muito grande... —ofegou, temendo pela primeira vez não poder acomodar seu corpo. Não quando ele a segurava pelos quadris e puxava seu traseiro para ele, enquanto se conduzia incessante e implacavelmente em seu canal apertado. Mesmo protestando, arqueava os quadris desejando mais, precisando de mais, quase chorando quando o prazer se estendeu sobre ela, juntamente com a apertada invasão e o ardor que a acompanhava. Não podia deter as ondas de êxtase, que ele provocava.

Na posição dominador, Manolito a mantinha completamente sob seu controle, sem pressa, enquanto penetrava o ardente e estreito canal, suave como o veludo, que o rodeava como paredes vivas formadas da mais pura seda.

—Você é apertada, MaryAnn. —Sua voz era rouca, o gemido retumbava em sua garganta. Inclinou mais sobre ela, aprofundando sua invasão, enchendo-a e estirando-a. - Não se mova, meu amor. Não faça isso.

Mas MaruAnn não podia evitar a forma em que seus músculos se fechavam ao redor dele, apegando-se. A ação lançava dardos de fogo por seu corpo. Sentiu-o penetrá-la mais profundo. Os quadris o conduzindo através das suaves dobras, o atrito quente e selvagem, enviando vibrações através de seu corpo inteiro, fazendo com que inclusive seus seios sentissem as ferozes chamas que a lambiam e seu corpo pulsasse, saturando-o do fluido de boas vindas.

Os dedos dele se afirmavam com força em seus quadris, mantendo-a imóvel. Seu sussurro era um som gutural, enquanto se cravava nela seguidamente, arrancando gritos de surpresa a cada investida. Sentiu o fio da dor quando ele cresceu, encaixando-se dentro dela e começou a tomá-la num ritmo forte, enviando relâmpagos que se estenderam por cada parte de seu corpo, mas não aliviavam a tortuosa dor.

Ele levou-a além de qualquer limite que houvesse conhecido, levando-a ao desejo de sair engatinhando dele, aterrada em perder-se. Assustada de que fosse muito, mas de repente ele gemeu, num som animale se inclinou para frente, seu longo corpo -se sobre o dela, mantendo-a sob ele com um braço sob seus quadris enquanto crava os dentes profundamente em seu ombro.

Uma dor inesperada a alagou, fundindo com as raias deslumbrantes de prazer enquanto ele a tomava. Mesmo respirando ofegante, sua força era enorme, enquanto se inundava nela uma e outra vez. Ouviu seus próprios gritos, o som de seus corpos se encontrando e sentiu seu escroto, encostado contra seu corpo numa arruda carícia enquanto ele continuava penetrando furiosamente seu sexo. Sentiu uma tempestade de fogo, crescendo ardente e rora de controle e se retorceu acochegando-se ele, precisando de mais, embora assuatada do que ele poderia lhe dar.

Seu braço a apertou mais, lhe puxando os quadris de forma que seu traseiro encostasse firmemente contra ele e investiu tão profundamente que quase se alojou em seu útero. Sentiu-o inchar. Sentiu como seus próprios músculos se estiravam para recebê-lo, até que temeu explodir num milhão de pedaços.

Manolito ouviu sua respiração ofegante, ouviu suas súplicas e soube que estava onde queria, no limite. - Isso, sivamet. Chegue a mim. Queime por mim.

Múltiplos orgasmos rasgaram seu corpo, entrando através de cada parte dela numa onda gigantesca, cada uma mais forte que a última. As sensações a rasgaram num espasmo poderoso. Seu corpo arqueou e seus quadris se empurravam mais para trás. Oos gritos roucos dele ressoavam com os dela.

A liberação dele foi brutal. O fogo tomou seu corpo, enquanto o sexo incrivelmente apertado dela se contraía, sugando os disparos do sêmen quente de seu corpo. Sentiu a explosão da raiz dos cabelos as pontas dos pés. Deveria estar satisfeito, mas seu corpo se negava a sentir-se completo.

Sujeitava-a contra ele o corpo menor e suave, aberto e vulnerável a ele. Sua ereção continuava grossa e dolorosa, o prazer pulsado continuava enquanto as apertadas paredes a seu redor estremeciam, sujeitando-a a ela. Não podia se mover, respirava com força, tentando controlar o selvagem tamborilar de seu coração, tentando evitar que seus incisivos se alongassem. Surpreendentemente, seus caninos já o tinham feito e ele cravara os dentes no ombro dela, mantendo-a imóvel.

A urgência de tomar seu sangue, de trazê-la completamente a seu mundo, estava nele, mas lutou por contê-la, temendo prendê-la junto a ele no prado de fantasmas e sombras. Ainda assim, desejava seu sabor, então a reteve sob ele, de joelhos, seu corpo cobrindo-a enquanto deixava que a urgência passasse. Passou a língua sobre os caninos, saboreando o selvagem sabor dela, lhe acariciando os seios, desfrutando do ardente líquido que umidecia seu dolorido membro, cada vez que roçava os sensíveis mamilos.

—Poderia te manter assim para sempre, —sussurrou, passando a língua ao longo de sua coluna vertebral.

MaryAnn mordeu o lábio e tentou conter o selvagem palpitar de seu coração. Nunca em sua vida tinha imaginado que poderia entregar seu corpo tão completamente a outra pessoa. Quando ele a tocava, quando estava perto dela, não tinha inibições de nenhum tipo... Medo talvez, mas não do que ele pudesse fazer, somente de poder perder-se na absoluta loucura do prazer físico.

Não havia volta atrás. Nem sequer podia culpar Manolito. Ela se aplicara tanto na sedução como ele e isto era puramente físico. Fechou os olhos e tentou não sentir o palpitar em seu sangue. Era aditivo. Ele era aditivo, desejaria seu toque durante o resto de sua vida. Ninguém poderia lhe fazer sentir as coisas que ele podia. Nada voltaria a lhe parecer bom com qualquer outro. Mas isto não era amor.

—Como sabe, sivamet? Como sabe que não é amor para mim?

—Você está em minha mente.

—Você fundiu-se comigo. — Ele beijou-lhe a linha suave das costa- Tranqüilize-se cstri, vou deixar-te sobre a colcha. - Estava tremendo tanto que temia cair se seu corpo abandonasse o dela.

No momento em que se moveu, os músculos dela se fecharam sobre ele, enviando novas sensações a ambos. Manteve o braço firmemente ao redor de sua cintura e deixou que seu corpo abandonasse-a contra vontade o dela. Muito gentilmente a deixou sobre a cama antes de se virar, levando-a com ele de forma que seu corpo lhe servisse de travesseiro.

—Não acredito que possa me mover. —A verdade era que não queria fazê-lo.

—Eu sei que não posso, —sussurrou MaryAnn, incapaz de fazer muito mais que elevar a cabeça. Seu corpo ainda estremecia tomado de pequenos tremores. Era impossível conseguir ar, ardiam-lhe os pulmões e ardia seu corpo. Ficou junto a ele, ouvindo os batimentos de seus corações. - O que quis dizer com o que não saberei se é amor para você?

—Como poderia não amar a mulher que enfrenta todos seus medos para me salvar do desconhecido? Como poderia não te amar quando te coloca entre a escuridão e eu? Como poderia não te amar quando me agrada mais do que alguma vez tinha sonhado que fosse possível? — Não disse que lhe dava paz. No momento em que estava em sua companhia tudo em seu interior simplesmente se hospedava, se acalmava e ele voltava a estar bem. - É você quem não sabe ainda se me ama, mas aprenderá.

Envolveu os braços ao redor de seu corpo trêmulo e a abraçou com força, esfregando o nariz contra seu pescoço, o quente hálito contra a orelha. Não havia censura em sua voz, mas somente uma declaração prática.

O corpo de MaryAnn pulsava, ardia e o desejava outra vez e isso era simplesmente, categoricamente atemorizante. Ele tinha confiança em si mesmo, estava seguro de que poderia fazer com que ela se apaixonasse por ele. Inclusive se não o fizesse, sabia que seria quase impossível não desejar estar com ele, não quando poderia fazê-la queimar.

—Não acha que isto é um pouco assustador?

—Está a salvo comigo. —Ele escondeu a face na riqueza de seu cabelo. - Quero ficar aqui contigo e dormir o sono dos humanos. - Nunca, nenhuma vez vez em toda sua existência, acreditou que desejaria um prazer tão simples, mas agora não havia nada que desejasse mais, que enroscar seu corpo e dormir com ela em seus braços.

—Por que o sono dos humanos? —Perguntou ela, aconchegando-se contra ele. - É estranho que diga isso.

—Quero sonhar contigo. Ficar dormindo e despertar contigo a meu lado.

MaryAnn esfregou-se contra ele como um gato.

—Não dormiremos. Você tem que ir para a terra, Manolito. Inclusive eu sei isso.

Ele percorreu o quarto com o olhar. A luz já se arrastava através das janelas. Deveria estar lhequeimado os olhos, mas desejava banhar-se no brilho cedo da manhã.

Talvez fique aqui. Podemos cobrir as janelas.

O coração de MaryAnn deu um salto.

—Não é seguro. Não. Você tem que partir.

Ele apoiou a cabeça numa mão e baixou o olhar para ela. Seus olhos novamente estavam totalmente negros.

—Não quer que fique, não é? — Ele disse com súbita inspiração. - Quer que eu vá.

MaryAnnengoliu a urgência de negar sua acusação. Seria uma mentira.

—Não posso pensar com claridade contigo ao redor.

—Não? —A tensa agressão em sua voz se atenuou pelo ronronar gutural de satisfação. Sua mão lhe segurou um peito e seu polegar deslizou sobre o mamilo fazendo com que ela estremecesse sob seu toque.

—Não. Acha que sempre atuo de forma tão... Tão total? —Quase cuspiu a palavra. - Não com submissão.

Talvez eu saiba mais de você, que você mesma, —disse ele. - Estou em sua mente e procuro as coisas que lhe agradam.

Ela fechou os olhos brevemente, perguntando se era certo. Tinham gostado das coisas que ele havia feito. Gostar de era uma palavra suave para o que havia sentido. Não podia lhe culpar por suas próprias ações. Desejara-o rápido e duro, quase brutal em sua posse sobre ela. Tinha desejado... Ainda desejava... Pertencer-lhe completamente. Fazer tudo o que ele lhe pedisse. E isso a assustava a um nível totalmente diferente. Era uma mudança de personalidade muito grande e precisava que a considerasse.

Manolito estudou seu rosto. Ela estava assombrada com o próprio comportamento, mas ele se perguntou por que tinha necessitado ser tão dominador com ela. Era um homem dominador, tanto que não tinha que provar nada a ninguém, mas algo nele tinha necessitado marcá-la, deixar seu aroma, a prova de seu emparelhamento. Afastou o cabelo do ombro dela e tocou o pequeno ferimento dali. Os homens dos Cárpatos deixavam pequenas marcas, talvez uma mancha e ele tinha deixado uma marcha em seu peito na primeira vez que tinha tomado seu sangue. O ferimento do ombro era algo totalmente diferente. Assombrado, concentrou o olhar nela. Devia ter sido feita por seus caninos.

MaryAnn virou a cabeça para olhar também a pequena marca, com um pequeno cenho na face. Por que a achava tão sexy quando a sustentava assim?

Acredito de deve ter me feito um feitiço.

Acredito que é ao contrário.

—Fez? —Perguntou suspicaz. - Porque Destiny pode fazer esse tipo de coisas. Entrar nas mentes e influenciá-las.

Funda-se comigo novamente e olhe o tipo de influência que tenho. Desta vez, acredito que farei com que se ajoelhe a meus pés, tomando meu sexo em sua ardente e sexy boca. —Sua mão lhe acariciou a garganta, com as pontas de seus dedos acariciadores. Seu corpo endureceu novamente ante a idéia, pressionando firmemente contra o dela, tomado pela fantasia erótica. - Poderia não sobreviver isso, mas estou mais que disposto a me sacrificar pela experiência.

MaryAnn deveria se sentir alarmada, mas a idéia de explorar seu corpo, de conduzi-lo ao limite, de que lhe ordenasse a lhe dar aula de prazer e lhe roubasse o controle, provocou uma excitação em seu corpo. Sua língua já estava lambendo-lhe o ombro, mordiscando-o com os dentes, e seu corpo respondia com ligeiros tremores que se estendiam por seus seios.

Talvez seja eu que influencio você, —disse. - Sempre está dizendo que me fundo contigo.

—É obvio que me influencia. Estou lendo cada uma de suas fantasias e compartilho as minhas contigo. — Suas mãos lhe seguraram os seios e brincaram com os mamilos antes de deslizar pelas curvas de seu corpo, para suas nádegas. Começou uma lenta e rítmica massagem. - Quando eu vier amanhã a noite, coloque algo feminino.

Ela ofegou, ultrajada.

—Eu sempre uso roupas femininas. Tenho o melhor dos gostos em questão de roupa. Não posso acreditar que me insulte assim.

A diversão brilhou em seus olhos.

—Desculpe-me meu amor, se entendeu que modo equivocado. Sempre está impecavelmente vestida. - Sou antiquado e preferiria que vestisse um vestido ou uma saia. —Suas mãos deslizaram pelo estômago dela, estendendo os dedos amplamente. Acariciou-a em círculos gentis, enquanto sua voz se tornava rouca. - Além de fazer alarde de seu formoso corpo com uma vantagem extrema, poderia te tocar assim, facilmente.

Seus dedos deslizaram mais abaixo ainda, encontrando uma cálida e acolhedora umidade esperando-o.

—Quero seu corpo disponível a meu toque. Olhar-te e desejar deslizar minha mão sobre sua pele. Não há nada como isto no mundo.

Seus dedos deslizaram sobre seu sexo, fazendo-a ofegar. Suas coxas se apertaram e o ventre se contraiu, e imediatamente ele era dela. Toda ideia de resistir desapareceu. Seus dedos que acariciavam e brincavam começaram uma íntima exploração. Seus roucos sussurros no ouvido aumentaram seus sentidos e terminações nervosas e incrementaram sua necessidade dele.

Os raios do sol da manhã atravessaram a janela e a luz iluminou a sombria excitação na face de Manolito que girou sobre a cama e simplesmente a elevou de forma que ela estivesse sobre ele. Ela ofegou enquanto baixava o olhar para sua ereção. Parecia impossível que pudesse colocá-lo em seu interior, mas seu corpo ardia e pulsava por ele. Colocou as pernas dos lados de seus quadris, guiando o enorme membro para ela. Seu sorriso era genuíno, os dentes brancos que brilhavam para ela e olhos intensamente negros reluziam com algo próximo a alegria enquanto a postava sobre ele.

Manolito penetrou-a diretamente, através das apertadas dobras até que se assentou profundamente em seu interior, aonde pertencia. Levou a mão a seus ombros para que se segurasse a ele, enquanto começava a se mover, enchendo-a, desta vez lento e sem pressa, para que ela pudesse sentir cada investida quando estava tão sensível.

Ela começou a se mover em seu próprio ritmo enquanto as mãos dele a guiavam para lhe montar de forma lenta e sensual. Estirou-a lentamente, aço encapsulado por veludo, movendo-se através dos apertados e tensos músculos até que o atrito a deixou sem fôlego... E sem prudência. Era diferente da selvagem posse de antes, mas não menos prazeroso. E havia algo decadente em sentar-se sobre ele enquanto seu olhar seguia o balanço de seus seios e seus olhos se concentravam nela com tanta luxúria e apreciação.

MaryAnn estava exausta quando Manolito a deixou, mas o sol estava alto. Reconheceu que era perigoso para ele ficar fora tanto tempo. Seu próprio corpo estava tão cansado que não pôde fazer mais que lhe devolver o beijo e ondear uma mão débil enquanto ele a cobria com as mantas e a deixava sozinha. Não registrou sua ordem sussurrada para que dormisse, já fechando os olhos.

 

MaryAnn despertou ao sentir lágrimas deslizando por sua face e o suave som de vozes femininas do outro lado da porta. Gemeu e se virou. Seu corpo lhe doía em lugares que não sabia que existiam.

—Foi só sexo. - Disse em voz alta. - Ele não te quer. Amor é a questão e ele não a quer.

Ele poderia não amá-la, mas era dono de seu corpo. Ela teria feito tudo o que ele tivesse pedido e não sabia que isso era possível. Ardia-lhe entre as coxas, devido à barba dele. Vibrava e palpitava de desejo cada vez que pensava nele. Doíam-lhe os seios e os sentia pesados. Não havia um só centímetro de seu corpo que ele não tivesse reclamado ou que não tivesse dado livremente.

Sua perda de controle tinha sido terrível. Como podia desejar seu corpo a ponto de deixar que a levasse além de qualquer fronteira, real ou imaginária, que acreditaria ter? A única solução segura era partir e já era muito tarde para isso. Ela era uma mulher prática que raciocinava as coisas, e aquilo não tinha lógica.

Sentou-se e secou mais lágrimas. Não havia chorando tanto desde que era uma pequena. Uma ducha só potencializaria as susurrantes sensações de sua pele. As lembranças de seus dedos acariciando e marcando cada parte de seu corpo, cada curva e cada covinha. Sua boca enlouquecendo-a de ânsia.

—Isto não é natural, —disse a seu reflexo no espelho. - Não é normal desejar alguem desta forma e temer que volte ou temer ainda mais que não o faça.

Poderia ir embora? Seria possível voltar para sua vida em Seattle? Manolito ainda estava preso entre dois mundos. Poderia deixá-lo sabendo que era provável que não voltasse, se não o ajudasse?

MaryAnn se vestiu com cuidado, utilizando a roupas como escudo, como fazia freqüentemente quando precisava de segurança e sentir que tinha o controle. Manolito havia dito colocasse um vestido, então vestiu uma calça e uma brusa de seda. Viu-se trêmula, se examinando, desejando ter colocado um vestido porque isso lhe agradaria. Porque ele a contemplaria com aquele olhar de fome obscura, o qual não poderia resistir. Por um momento, suas mãos foram aos pequenos botões em forma de concha da blusa, mas logo se obrigou a baixar as mãos. Não cederia, nem a si mesma e nem a ele. Se não podia deixá-lo, pelo menos poderia lhe fazer frente.

Elevando o queixo, entrou na sala. Uma moça estava sentada no assento da janela. Seu cabelo longo lhe descia em cascata pelas costas. Elevou a vista com um sorriso indeciso que não era autêntico e seus olhos esmeraldas a olhavam cautelosamente.

—Você deve ser Jasmine. Eu sou MaryAnn Delaney. Juliette disse que ia vir?

Aproximou-se da garota lentamente, com movimentos suaves e nada ameaçadores. Ela era a razão pela qual tinha vindo em primeiro lugar. Esta jovem com olhos muito velhos e a dor já gravada em sua face.

Jasmine sorriu e elevou uma mão.

—É um prazer te conhecer, afinal. Juliette fala muito bem de ti.

—Ela se presta a macho Cárpato. - Disse outra voz, com o tom cheio de desdém.

MaryAnn se virou para se encontrar face a face com Solange. Não poderia ser ninguém mais. Ela era formosa de uma forma selvagem e indomável . Possuía olhos de gata, ambarinos, diretos e receosos. Deslizava em lugar de caminhar, seus rápidos e inquietos movimentos eram graciosos e ágeis. MaryAnn podia distinguir a raiva em seu interior, profunda e forte. Ela tinha visto muitos horrores para voltar a ser inocente.

Solange vestia calça folgada de cordões e um cinturão ao redor dos quadris. Enquanto MaryAnn confiava num spray de pimenta, Solange usava facas e armas com familiar desenvoltura. Tinha armas que MaryAnn não tinha visto antes, pequenas e afiadas e na aparência muito eficientes. Estava com o cabelo despenteado, mas ficava bem a forma de sua face. Enquanto Jasmine era etéreamente formosa e magra, com gentis curvas e cabelo solto, Solange era terrestre, com curvas cheias, caráter nos olhos e paixão estampada em sua boca.

—Sério? Tomei uma ducha. —MaryAnn sorriu a mulher, esperando tranqüilizá-la, para ajudá-la a relaxar.

Solange se deteve meio passo, enrugando o nariz.

—Sinto muito. Isso foi uma grosseria. Tenho um acusado sentido de olfato. Não deveria ter dito isso. Estivemos rondando em forma de jaguar e isso me torna ultrasensivel.

—Deixe para lá. Tem direito a dizer o que pensa. —MaryAnn lhe lançou um rápido e apreciativo sorriso. - Embora diga que presto...

—Oh, não —disse Jasmie, ficando em pé. - Solange não queria dizer isso, absolutamente. —Ela lançou a sua prima um olhar de advertência e esticou o braço para dar a mão a MaryAnn. - Tem fome? Estávamos a ponto de jantar. Acabamos de levantar a alguns minutos. Sinto se a despertamos.

—Ela estava chorando nos sonhos, —disse Solange. - Também tenho um ouvido excepcional. Está bem?

MaryAnn manteve um sorriso sereno. Os dedos de Jasmine se apertaram ao redor dos seus, a jovem estava tremendo.

—Sou uma garota de cidade. A chuva e a selva me assustam um pouco. Suponho que nenhuma de vocês se sente assim. Embora tenha usado meu spray de pimenta com um jaguar a noite anterior quando me atacou.

Solange deu voltas ao redor dela, suas sobrancelhas escuras se uniram.

—Foi atacada por um jaguar? Está segura disso?

MaryAnn assentiu.

—Estive bastante perto dele.

—Tinha algum colar no pescoço ou um vulto de algum tipo que pudesse ver? — Prosseguiu Solange. Já estava apressando-se para a janela para escanear o exterior.

—Agora que diz, talvez sim. —MaryAnn sustentava a mão de Jasmine na sua. A garota estremeceu, mas seguiu caminhando pelo amplo salão até a enorme e aberta cozinha. - Não posso recordá-lo. Tudo passou muito rápido.

Solange farejou outra vez o ar, levantando a cabeça e olisqueando.

—Esteve perto de um jaguar macho? Um homem, além do Cárpato?

Jasmine ofegou e cobriu a boca, os olhos lhe alongaram de medo.

—Estão aqui? Na ilha?

—Tudo ficará bem, —lhe assegurou Solange. - Eu posso te proteger. E Juliette tem a casa rodeada de salvaguardas. Enquanto permaneçamos aqui, deveremos estar bem. Só vou olhar escada acima, para me assegurar de que os balcões e as janelas estão fechados. As janelas têm barrotes, Jazz.

Jasmine se apressou para ela, agarrando-a com força pelo braço.

—Não volte a me deixar sozinha. Não quero ficar sozinha.

Sua jovem face pareceu angustiada e só por um momento, Maryann viu angústia nos olhos ambarinos de Solange. Ela colocou os braços ao redor de sua prima e a puxou.

MaryAnn está aqui, carinho. Só vou lá encima. Ela se sentará contigo e eu voltarei em seguida. Por que não consegue um pouco de comida para MaryAnn? Está faminta, recorda-se?

Jasmine engoliu saliva e assentiu.

—Sim. Sinto muito. É obvio que conseguirei algo para comer. Você gosta do chá? — Ela observou Solange abandonar a cozinha. – Ela voltará em seguida, não se preocupe, —acrescentou.

—É obvio que sim, —assentiu MaryAnn brandamente e a envolveu com um braço reconfortante. Jasmine estava pálida sob o dourado de sua pele. - Um chá seria perfeito, obrigado.

As mãos de Jasmine tremiam tanto que as xicaras tamborilavam, mas serve o chá para cada uma, acrescentou leite e se sentou em frente a MaryAnn, com o rosto virado para a porta, esperando sua prima.

—Deve ser difícil ter Solange longe do alcance de sua vista ,— disse MaryAnn brandamente, concentrando-se em relaxar a jovem, tranqüilizá-la e confortá-la, desejando lhe fazer entender que tinha alguém com quem falar.

- Já estou aqui. Tudo ficará bem. Farei com que tudo fique bem. Você é forte e podemos com isto. Jasmine – Ela não tinha saído da adolescência e seu mundo já estava cheio de violência e medo. MaryAnn desejou atrai-la para seus braços e embalá-la como um bebê. Voltar a arrumar sua vida de alguma forma.

Jasmine assentiu.

Tento não ser uma carga para ela, mas não posso dormir a maior parte do tempo e ela tem que sentar comigo.

—Estou segura de que ela não se importa, Jasmine. É óbvio que te quer bem.

Solange podia ser dura como uma pedra, mas era leal e carinhosa com sua família. Lutaria até a morte por esta garota e usaria até seu último fôlego para reconfortá-la. MaryAnn podia ler isto em ambas as mulheres, mas Jasmine estava mais do que assustada por causa de sua terrível experiência. Ela guardava algo mais, algum escuro segredo que não compartilhava com Juliette nem com Solange. MaryAnn acariciou mentalmente a garota como se fosse um bebê, com calidez e preocupação em sua mente. Ansiava fazer com que Jasmine se sentisse bem, ansiava eliminar a dor de seus olhos e afastar o medo e o terror.

Jasmine inspirou profundamente.

—Me alegro tanto de que tenha vindo. Obrigado. Juliette disse que é da cidade e que tudo isto é difícil para ti.

MaryAnne encolheu os ombros, disposta a que a garota deixasse de papos insunstanciais e lhe dissesse o que fosse que estava a ponto de dizer. Algo a assustava e queria contar a Maryann sem que Solange estivesse perto. - Está bem, carinho. Estou aqui e não a trairei. Vim desde muito longe para te ajudar. Confia em mim. Confie-me à carga que leva em cima dos ombros e nós duas a administraremos.

—Já falaste com outras garotas... Garotas como eu, não? — Perguntou Jasmine, baixando a voz, dando uma olhada para a porta para assegurar de que Solange ainda estava lá encima.

—O que aconteceu com ti foi particularmente brutal —disse MaryAnn. - Tem que se dar tempo. —Vamos, carinho. Compartilhe-o. Está se devorando por dentro. Seja o que for, poderemos com isso. Sei o que faço. Pode confiar em mim.

Desejava encontrar a forma de transmitir a Jasmine que a ajudaria, que nunca trairia sua confiança.

—Não tenho tempo, —sussurrou Jasmine que baixou a cabeça e deixou a xícara. - Que saiba o que aconteceu o torna mais fácil. Não disse a ninguém ainda, mas vou ter que fazê-lo logo.

MaryAnn conteve o fôlego. Seu coração palpitava com força. Queria chorar pela garota, pouco mais que uma adolescente e sua vida já estava aos pedaços. Colocou sua mão sobre a de Jasmine, conectando-as, desejando que a garota se acalmasse.

—Está grávida.

Jasmine cobriu a face com as mãos.

—Há uma planta que podemos usar... Já sabe, para se assegurar... Solange me deu, mas não pude... —As palavras morreram em seus lábios e ela olhou MaryAnn através dos dedos. - Já sabia... No momento em que aconteceu. Simplesmente soube e não pude fazer nada...

—Você não fez nada errado, Jasmine. Esses homens a despojaram de toda escolha, fez-lhes frente e tomou sua própria decisão. Teme ter feito algo errado?

—É complicado. Vivemos uma existência difícil e eu a tornei ainda pior. Agora nunca pararão. Esses homens... Virão atrás de nós não importa onde estejamos. — Ela voltou a olhar para a porta— Solange… — Ela se interrompeu. - foi muito difícil para ela.

—Arrepende-se de sua escolha?

—Não sei como me sinto e não posso suportar que Solange se desgoste comigo. Ela já tem feito bastante e seria uma pessoa a mais com quem teria que preocupar.

—Ficará com o bebê?

Os olhos de Jasmine brilharam com algo parecido ao fogo e pela primeira vez, MaryAnn viu a semelhança entre Jasmine e sua prima.

—Nunca lhes entregarei meu bebê . Nunca. Se Solange quiser que eu mevá farei, mas não lhes darei meu bebê, embora seja um menino.

—Não, é obvio que não. O que esses homens fizeram foi criminoso, Jasmine. —MaryAnn tomou um gole de seu chá e olhou para garota. Escolheu suas palavras cuidadosamente.

Manolito me disse que se encontrou com um dos homens jaguar, o mesmo que me salvou a vida ontem quando outro jaguar me atacou. Disse que um vampiro havia os poluído, fazendo com que os homens cometessem crímes contra suas mulheres. Se for assim, de alguma forma, eles também são vítimas.

O que está dizendo? — Exigiu Solange.

MaryAnn se virou quando a mulher entrava na cozinha. Ela se movia absolutamente silêncio, com seu corpo perfeitamente equilibrado. Os pés nus não produziam nenhum som sobre o frio piso de mármore. Atravessou a cozinha até ficar junto a Jasmine e passou um braço ao redor dela, fulminando MaryAnn com o olhar.

Jasmine ficou rígida, o alarme se estendeu por seu rosto. Dirigiu a MaryAnn um rápido e nervoso movimento de cabeça, não querendo que ela revelasse seu segredo.

MaryAnn suspeitava que Solange já sabia. Ela era uma jaguar puro sangue, com tudos os sentidos do animal. A Jasmine não seria possível lhe ocultar algo assim, mas MaryAnn não trairia sua confiança, sem importar o que acreditasse.

que se um vampiro está influenciando aos homens jaguar para caçar suas mulheres. É uma tragédia horrível para todos. — Ela manteve a voz moderada e tranqüila. - Se o que Manolito descobriu é certo, o vampiro está acabando deliberadamente com uma espécie inteira

Solange mordeu o lábio e se serve um chá.

Talvez a idéia do vampiro seja acertada. Se nossos homens forem capazes de fazer as coisas que fazem, a espécie não deveria sobreviver.

Solange, —protestou Jasmine.

MaryAnn captou a dor em seus olhos e desejou poder reconfortá-la. Não pretendia dizer dessa maneira. Ela vira muito, passou por muitas coisas e também estava traumatizada. Ela aceitaria o bebê. Não podia assegurar a Jasmine, embora pensasse que era verdade. Solange nunca daria as costas a Jasmine nem ao bebê.

Solange encolheu os ombros.

—Já sabe o que penso, Jazz. Nunca ocultei meu desprezo pelos homens.

—Alguma vez desejaste uma família? —Perguntou MaryAnn.

—Claro, às vezes. Quando estou só no meio da noite ou quando estou em zelo. — Ela deixou cair uma mão sobre o ombro de Jasmine. - Não há outra forma de dizer. Sofremos necessidades de emparelhamento um pouco mais urgentes que a maioria das mulheres, acredito, mas não estou disposta a viver o tipo de vida de uma mulher para ter uma família.

—Que tipo de vida é essa? — Perguntou MaryAnn, colocando uma colher de mel no chá. Por alguma razão, estava tendo dificuldades para beber-lhe e a comida na mesa lhe revolvia o estômago. Não tinha ingerido nada em mioto tempo e deveria estar morrendo de fome, mas sequer a fruta lhe chamava a atenção.

—Renunciar a liberdade. Estar sob a mão de um homem.

—É assim que acha que são a maioria dos matrimônios? É assim o matrimônio de Juliete? Ela é obrigada a fazer as coisas do modo de Riordan?

Solange abriu a boca, tomou ar e a fechou. Suspirando, deixou cair na cadeira.

—Para ser justa, talvez não. Parece simples a vista, mas a forma em que ele a olha, as coisas que faz para ela não. Acredito que Juliette tem tanto a dizer como ele. Ela quer lhe fazer feliz. —Havia curiosidade em sua voz—. Não posso me imaginar querendo fazer coisas por um homem.

—Surpreendentemente Solange, eu me senti igual durante muito tempo. Por causa de meu trabalho, vejo o pior dos homens, igual a você suponho. Mas vemos só uma pequena parte. Há muitos homens bons aí fora, que têm mulheres que os querem e as que tratam com amor e respeito.

MaryAnn queria fazê-la compreender e ver o que ela via, porque Solange estava amargurada e a amargura arruinava vidas com o tempo. – Você é uma mulher muito boa para viver dessa maneira, carinho. - Desejou poder afastar todas aquelas lembranças horríveis, toda a tragédia que tinha caído na vida das duas. Solange estivera resgatando mulheres cativas dos homens jaguar há algum tempo. Tinha visto muita brutalidade e morte. Não havia policiais a quem chamar. Era uma luta de vida ou morte na selva e Solange conseguiu não só sobreviver, mas também salvar outras mulheres.

Talvez tenha razão, —concordou Solange. - Cheguei a pensar que Jasmine e eu deviamos abandonar este lugar. É meu lar e eu gosto daqui, mas se seguirmos com este combate, matarão-nos finalmente. Já nos conhecem e conhecem nossa reputação.

Era lógico, mas mais que isso, a luta com os homens jaguar marcava cada aspecto de suas vidas.

—Aqui não é o melhor lugar para Jasmine ,—conveio MaryAnn.

Solagen assentiu.

—Eu sei. Sabíamos há algum tempo que teríamos que procurar outro lugar para viver, não é, Jazz? — Ela alvoroçou o cabelo de sua prima.

Havia muito dor em Solange, como se ela sustentasse um grande peso sobre os ombros. Era mais jovem que MaryAnn e isso era chocante. Parecia mais velha com sua face séria e adulta em vez de inocente, mas devia ter somente alguns anos a mais que Jasmine.

—Falamos disso —admitiu Jasmine, - mas aonde podemos ir? Nenhuma de nós duas poderíamos viver na cidade, tão perto de outras pessoas.

Juliette diz que Riordan tem uma casa em seu rancho para nós, —disse Solange com voz casual. —Poderíamos provar.

Jasmine ficou tensa e sacudiu a cabeça sem dizer nada.

MaryAnn era muito hábil em ler as pessoas. Solange não queria ir para o racho. Desconfiava muito dos homens e o lar principal dos Da Cruz era um rancho ativo com homens por toda parte. Mas isso colocaria as duas mulheres sob o amparo e os olhos dos irmãos Da Cruz, os quais tomariam seu papel muito a sério. Solange estava preocupada com Jasmine. Se fosse como MaryAnn suspeitava, ela sabia da gravidez e gostaria levar a Jasmine para a relativa segurança do rancho.

—Conheceste Rafael e Colby? —Perguntou MaryAnn. - Os irmãos mais novos de Colby, Paul e Ginny vivem no racho. Parece que gostam de verdade. Ginny particularmente é louca por cavalos.

Solange lhe lançou um sorriso agradecido.

Ginny ainda é bem jovem não? Ouvi Juliette falar dela. Onze ou doze anos, talvez.

—Não vai funcionar, Solange —disse Jasmine. - Não vou ao rancho sem você.

—Eu iria também, se você o fizesse, —disse Solange. - E está se alimentando como um passarinho. Coma.

Jasmine franziu o cenho.

—Você iria ao racho, Solange, mas não ficaria lá e sabe disso. Deixaria-me com Juliette e voltaria para a selva para tentar trabalhar sozinha.

Solange se reclinou na cadeira e olhou Jasmine com face grave.

Eu disse que iria contigo e o farei. Tentarei ficar. Isso é tudo o que posso prometer. Tentarei ficar. Acredito que estaremos a salvo lá, porque se os homens jaguar conhecem esta casa e sabem que a maior parte do tempo os irmãos Da Cruz não a usam, virão atrás de nós. Talvez devessemos ir com Juliette e Riordan quando voltarem.

MaryAnn captou a ansiedade subjacente. Solange não acreditava nem por um momento ser capaz de permanecer no rancho, mas tentaria por Jasmine.

O que é que tanto teme do rancho? —Ela apoiou o queixo sobre a mão e estudou a face de Solange. Jasmine nunca ficaria se não ela não ficasse.

Solange permaneceu calada tanto tempo que MaryAnn temeu que ela não responderia.

—Não sou boa com pessoas. Especialmente com os homens. Tenho claustrofobia a espaços fechados. Não tive ninguém que me dissesse o que fazer desde que tinha doze anos e não posso imaginar vivendo num lugar com regras. Regras de outra pessoa. Fiz o que quis durante muito tempo e não possome encaixar em nenhuma parte. —Ela olhou para Jasmine. - Não quero ver isso acontecer a ti, Jazz. Merece uma boa vida.

—E você também, —disse MaryAnn brandamente,— estou segura disso.

—Não sou uma boa pessoa, —disse Solange e seus ambarinos olhos se tornaram escuros e duros. - Tenho feito coisas que não posso apagar da mente ou da vida.

Jasmine colocou as mãos sobre as de Solange.

—Você salvou vidas.

—E as tirei, também.

Não havia arrependimento em sua voz nem em sua face, mas MaryAnn pôde sentir a tristeza que emanava dela, em ondas. Era uma caçadora e já não restava nenhum lugar no mundo para uma mulher comSolange.

—Não sinta por mim, —disse Solange. - Fiz minha escolha.

—E eu também fiz a minha, —asseverou Jasmine. - Fico contigo aqui ou no rancho ou onde seja. Somos uma família e ficaremos juntas. Juliette sente o mesmo. Não pode se unir a nós durante o dia, mas está sempre que pode.

- Bem por ti. - MaryAnn o dirigó a Jasmine um sorriso de aprovação. afinal, a garota tinha garra e não ia renunciar a Solange.

Jasmine lhe dirigiu um pequeno e conspirador sorriso, MaryAnn se deu conta de que se alegrava em ter vindo. As duas mulheres precisavam dela. Ela tinha nascido conselheira, ajudava as pessoas a encontrarem seu caminho e era boa nisso, estava orgulhosa de sua habilidade. Solange parecia mais perdida que Jasmine porque tinha renunciado a sua vida as pessoas. A tudo.

De repente, Solange levantou a mão, ficou de pé com o corpo rígido, Jasmine pressionou uma mão contra a boca para suprimir um grito de alarme.

—Está tudo bem carinho, —lhe assegurou Solange.

—Eles estão aqu, —sussurrou Jasmine. – Lá fora. E ainda retam um par de horas para o por-do-sol.

—Leve MaryAnn a um lugar seguro, —ordenou Solange. - Me Esperem lá. .

MaryAnn estará muito bem ajudando aqui fora. - Disse MaryAnn. - Não vou esconder me desses homens. Se atreverem a vir aqui a lhes fazer mal

—Eles nos violarão e matarão. Isso é o que farão, –disse Solange com voz dura. - Aqui vivemos segundo as leis da selva, matar ou morrer. E você tem que se preparar para fazer justamente isso. Vá com o Jasmine.

Jasmine empurrou para trás a cadeira e alongou a mão sob a mesa em busca da arma. MaryAnn abriu os olhos, enormes. Obviamente, elas estavam se preparando para o ataque.

—Irei para cima, —disse Jasmine. - Você defende a parte de baixo, Solange. MaryAnn, eles não poderão abrir nenhuma brecha na casa, mas se e as coisas ficarem feias, lutaremos para abrir caminho para lá, então a deixe sem fechar, o tempo que puder.

—Ficarei com vocês, —disse MaryAnn. - Sei como disparar uma arma.

Riordan e Juliette colocaram salvaguardas na casa, —disse Solange, sem se preocupar em esbanjar tempo discutindo com elas. - Jasmine, comprove as janelas. Mantenha-se oculta. Se a virem e a reconhecerem, pode tentar fazer alguma loucura para entrar, mas se romperem às janelas, dispare para matar. Entende-me? Sem vacilar.

—Não vacilarei, —lhe assegurou Jasmine.

—Irei com ela. - Acrescentou MaryAnn.

Jasmine parecia tão jovem e assustada. Sua gravidez a deixava ainda mais vulnerável.

Solange atraiu Jasmine para ela e a olhou nos olhos.

Mantenha-se a salvo, priminha.

—Você também. —Jasmine deu um ligeiro beijo na fave de Solange e depois se apressou escada acima.

MaryAnn a seguiu, mas fez uma pausa parar observar como se movia Solange pela enorme cozinha, para o salão. A mulher parecia um lince, formoso, poderoso e mortal. Era impossível não admirá-la ou confiar nela.

—Ela nos tirará desta, —lhe assegurou Jasmine.

—Não duvido.

Ainda assim, sempre era bom ter um plano de emergência. Tinham que resistir até que Manolito, Riordan e Juliette pudessem despertar e chegar até eles. Deu uma olhada no relógio. Em pouco menos de duas horas o sol entraria. As salvaguardas deveriam agüentar até então.

—Oh! —Disse Jasmine, olhando pela janela e empurrando-a contra a parede. - Tem alguém aí fora e parece que sabe o que faz.

MaryAnn arriscou um rápido olhar. O homem não era um jaguar, sua compleição não era a adequada. Era baixo e magro, o cabelo era loiro e ele estava de pé em frente à casa, com as mãos no ar, desenhando graciosos padrões com as mãos. Só tinha visto algo assim uma vez e se congelou até os ossos.

—Um mago, —sussurrou a palavra.

—Ele está derrubando as salvaguardas, não é? —disse Jasmine.

—É o que parece.

Solange soltou um palavrão. Havia voltado, para deslizar atrás delas.

—Contei quatro homens-jaguar. Reconheço um deles. É um lutador poderoso, Jazz. Conhece nosso aroma. Nunca tinha visto o que identificaste como feiticeiro. Deve ter sido chamado especificamente para desentranhar as salvaguardas cárpatas.

—O que significa que estão aqui por uma razão, —disse Jasmine, afogando-se no medo, a voz lhe tremia. - Vieram aqui, apropósito de nós não é certo, Solange? Por mim.

Se acalme, carinho. - Disse Solange. - Sabe que eles dão caça a qualquer mulher com sangue jaguar, particularmente aquelas que podem transformar. Nós duas estamos em idade de ter filhos e levamos a linhagem de sangue puro e podemos mudar.

Jasmine negou com a cabeça.

—Eu não... Não posso.

—Não quer fazer. Não é o mesmo. Dê-me a arma, Jasmine. —Solange estendeu a mão.

Jasmine negou com a cabeça, desta vez com mais energia.

—Não. Precido dela.

—Falo sério. Dêe-me isso.

MaryAnn estremeceu ante o aço na voz de Solange.

Jasmine, não há necessidade de se deixar levar pelo pânico. O mago levará algum tempo para desentranhar as salvaguardas. Depois que Juliette e Riordan as pusessem, Manolito veio comigo pela manhã e acrescentou as salvaguardas dele. Dê a Solange a arma e vamos procurar algo frio para beber, esperaremos lá embaixo, perto de um lugar seguro. Se colocarmos algum tipo de alarme nas escadas, não terão que vigiar. Poderemos nos concentrar em defender a parte baixa, uma área menor. Será mais fácil e poderemos deixar um caminho espaçoso até um lugar seguro. Sem importar como, estaremos bem até que cheguem os Cárpatos.

Ela manteve a voz tranqüila e os traços da face serenos, dissolvendo a tensão que se elevara.

Solange lhe sorriu.

—Tem razão. Deixemos que brinquem um pouco sob o ardente sol. Nós estamos aqui dentro, onde temos comida, água e proteção da chuva. Está começando a cair outra vez. O pobre mago parece um cachorro molhado.

O sorriso de Jasmine foi fraco, mas conseguiu sorrir enquanto colocava a arma na mão de sua prima.

O que é exatamente um mago? E por que está aqui?

As duas mulheres olharam para MaryAnn. Ela se mordeu o lábio e encolheu os ombros.

—Não estou totalmente segura. Só posso te dizer que aprendi um pouco daqui e ali quando estava nas montanhas dos Cárpatos. Juliette e Riordan poderão explicá-lo melhor. Por isso eu sei que os magos são parecidos aos humanos, mas com poderes psíquicos e a habilidade de tecer magia. Eram amigos dos Cárpatos e compartilhavam grande parte de seu conhecimento. Algo aconteceu e houve uma guerra entre os Cárpatos e os magos.

—Isso foi há anos, —admitiu Solange. - Ouvi algo sobre o assunto quando era pequena, mas acreditei que há tempo que se foram deste mundo.

—Aparentemente não, —disse MaryAnn.

—E todos estão contra a espécie Cárpato? —perguntou Jasmine. - Isso significa que estão os jaguares também?

—Por isso observei, Jasmine —disse MaryAnn. - Nenhuma raça é por completo boa ou má. Muitos não odeiam simplesmente porque outros o façam. Conheci um homem jaguar que me salvou a vida e estava muito preocupado pelo que estava acontecendo a sua gente. Estou segura de que há magos que não aprovam o que está acontecendo. É provável que muitos nem saibam. Os vampiros são completamente perversos e uma vez se infiltraram e influenciado a todos, alteram o equilíbrio natural.

—Então os vampiros usam as tendências violentas de nossos machos para corrompê-los e terminar com nossa espécie, —disse Solange, com um tom sarcástico na voz.

—Nem todos os machos são maus Solange, e recalcar que o são, influenciando a Jasmine para que tema uma vida normal, não é legal.

—Não viu o que fazem esses homens.

Sou honesta, não é só uma pequena parte? Um grupo pequeno? Acredito que os outros homens-jaguar estiveram tentando detê-los. Se esse for o caso, está condenando os mesmos homens que estão trabalhando para deter tudo isto.

—Nunca conheci nenhum desses míticos homens, —disse Solange, logo olhando para Jasmine, - mas talvez os haja.

—Muitos homens se sacrificam pelo bem comum. Eu mesma vi Manolito ficar diante de uma mulher grávida e receber uma facada envenenada por ela. Ele morreu, q-quase morreu. —As emoções chegaram com rapidez e a afligiram antes que pudesse dete-las. Não estava preparada para a pena e a dor que se precipitaram sobre ela, acabando com toda lógica e razão.

Voltou-se, piscando para conter as lágrimas, olhando o mago pela janela. Suas mãos seguiam um padrão e ele parecia triunfante, como se soubesse exatamente que salvaguarda foi usada e como desentranhá-la.

Se não somente se cansasse de estar de pé sob a chuva. Cansado e molhado, sentindo os braços pesados como chumbo. Tão cansado que não pudesse ver bem ou pensar para recordar as palavras antigas e lhes fluiam movimentos.

MaryAnn observou o mago Através da janela, imaginando sua fadiga, desejando que estivesse exausto de permanecer em pé, com a chuva caindo sobre sua desprotegida cabeça. Ele sentia-se débil e cansado e necessitava desesperadamente sair dali. Se tivesse sorte, estaria um pouco assustado pelos homens-jaguar e imaginaria ele atacando-o, rasgando seu corpo com seus terríveis dentes, devorando sua carcaça com uma única mordida…

O mago cambaleou para trás, levantando uma mão até sua cabeça e lhe devolvendo o olhar através da janela. Assinalou-a, dizendo algo que ela não pôde ouvir, mas estava claro que era uma acusação.

—Ali, nas árvores, —disse Solange. - Os atraíste.

MaryAnn observou a pesada canopia onde o bosque se encontrava com a ampla extensão do pátio. Um jaguar formado pela metade se movia entre os galhos. Era um homem grande e forte, com o cabelo desgrenhado e a crueldade gravada em seu rosto.

Jasmine retrocedeu até pegar o braço de Solange.

—Esse é o que chamam Sergio. É terrível. Todos o escutam.

Solange assentiu.

—Lembro-me dele. É um bom lutador. Poderia ter me matado, mas sabia que eu podia me transformar e não quis correr o risco. – Ela irigiu a Jasmine um pequeno sorriso sem humor. - Isso nos dá uma pequena vantagem.

—Por que disse que eu os atraí? —Perguntou MaryAnn, levando a mão à garganta num gesto defensivo. O mago estava olhando-a e outra vez movia suas mãos em padrões fluídicos. Tinha a sensação de que não estava desembaraçando as salvaguardas mas que tentava fazer algo A ela.

Solange a empurrou fora da janela.

—Sabe que você o deteve. Devemos descer.

—Eu não o detive. Só desejei que se sentisse um pouco cansado.

—Bem, seus desejos o atrasaram, mas não por muito tempo. Quero que Jasmine e você vão a um lugar seguro. – Ela abriu caminho escada abaixo—. Acaba de se etiquetar como objetivo. Sergio saberá que não é jaguar e que é perigosa.

—Não sou perigosa.

—Se pode romper a concentração de um mago, você é perigosa. Ele irá te matar. Fique atrás de Jasmine.

Essa era a última coisa que MaryAnn tinha intenção de fazer. Jasmine parecia decidida, mas muito assustada e MaryAnn queria abraçá-la e consolá-la.

—Eu também tenho um par de armas, - disse, e sustentou no alto o spray de pimenta. - Não o esperarão.

—Não deixarei que me levem desta vez, —disse Jasmine. - Não outra vez, Solange.

—Terão que me matar para chegar até voce, carinho, —assegurou-lhe Solange. Sua voz era tranqüila e controlada. - Acredite-Me, não vou deixar que isso aconteça. Se tivermos sorte, MaryAnn nos terá dado tempo suficiente para que entre o sol e Juliette volte para nos ajudar.

MaryAnn se deu conta de que Solange não tinha renomado nenhum dos homens Cárpatos, como se não pudesse, ou quisesse, contar com seu apoio. Solange estava mais machucada do que parecia estar Jasmine. MaryAnn sorriu para Jasmine.

—Não se preocupe. Manolito se apressará em nos ajudar e Riordan também, embora vocês o conheçam mais que eu e provavelmente são bem conscientes de que ele nunca deixaria que lhes acontecesse nada se pudesse evitar. .

Jasmine baixou o olhar para suas mãos.

—Não perdi tempo em conhecê-lo. Passei uma época de difícil adaptação depois do ataque.

—Agüentaremos sozinhas, —disse Solange. Encontrou o olhar de Mary Ann e entendeu a repreensão, aceitando-a com um lento assentimento de cabeça e uma profunda inspiração. - Entretanto, é provável que não seja a melhor forma de levar as coisas. Acredito que temos que ir ao racho e tentar nos dar uma vida nova e diferente.

—De verdade, é o que pensa, Solange? — |Perguntou Jasmine e pressionou uma mão contra o ventre, com medo nos olhos.

MaryAnn compreendeu que o olhar era de temor em decepcionar Solange com a decisão de ter o bebê, um menino jaguar com sangue quase puro. Solange tinha visto muitas situações horríveis para ser capaz de olhar alguma vez para um homem jaguar sem prejuízos e Jasmine sabia disso. Ainda assim, tinha sido o bastante forte para tomar sua própria decisão, isso era bom sinal.

—Claro que sim. Não podemos viver na selva para sempre, agora que os homens jaguar sabem quem somos e estão nos caçando. Acredito que já é hora de ir.

Solange segurou o braço de Jasmine e lhe deu um pequeno empurrão.

Se mova. Eles vão entrar a qualquer momento. MaryAnn, venha. —Ela deslizou até a janela com passo determinado, a faca numa mão e a pistola na outra.

Logo se virou, amaldiçoando.

—Já vêm. Estejam preparadas!

As portas dianteiras se abriram de repente e entrou uma enorme figura, metade jaguar metade homem, atravessando correndo o frio mármore, direto para elas. Lançou seu corpo no ar, para Solange, grunhindo, com o focinho cheio de dentes, de aspecto perverso e mãos curvadas em garras afiadas.

 

Jasmine gritou e colocou a mão sobre a boca para amortecer o som. Afastou-se para trás, procurando encontrar a porta. Solange se lançou para o jaguar sem vacilação, tirando a arma e disparando enquanto corria para ele. Um segundo jaguar, que Jasmine tinha identificado como Sergio, golpeou Solange pelas costas, de onde a tinha espreitado sem ser visto nem ouvido. Derrubou-a golpeando-a contra o chão, lhe tirando a arma da mão de um golpe. O ruído era estrepitoso enquanto móveis e abajures se chocavam contra o mármore.

Eles rodaram, Solange mudando parcialmente para colocar a força do jaguar em ação, golpeando Sergio com uma garra afiada, enquanto ele utilizava seu tamanho para mantê-la sob ele. O ataque tinha sido obviamente organizado, seus adversários tinham estudado as habilidades de Solange. O primeiro jaguar cambaleou movendo-se pesadamente enquanto o sangue gotejava constantemente pelos dois ferimentos de bala. Foi diretamente a Solange para ajudar Sergio a submetê-la. MaryAnn o orvalhou com o spray de pimenta, utilizando jatos curtos, lhe golpeando nos olhos, na boca e no nariz repetidas vezes. Jasmine a seguiu na luta, atiçando-o, com um abajur na cabeça, jogando-o para trás.

O primeiro homem-jaguar caiu com força, aterrissando entre MaryAnn e Solange. Segurava a cara dando alaridos e rodando de um lado e a outro, deixando marcas de sangue no mármore.

Solange deu um murro na garganta de Sergio, golpeando duramente, usando o peso de seu corpo tanto como a força de seu felino. Arranhou-lhe o focinho e lhe rasgou o ventre. O peso dele a esmagou e os dentes lhe afundaram na garganta. Manteve-a imóvel sob ele, com os olhos ambarinos e desafiantes, o corpo rígido e tenso.

Jasmine saltou através do aposento, atrás arma que se deslizou pelo chão. Antes que pudesse alcançá-la chegou o mago, chutando a arma fora de seu alcance e empurrando-a contra a parede com tanta força que lhe tirou o fôlego.

O salto de Jasmine a tinha mandado sobre o enorme macho, justo quando outro aparecia, completamente transformado e feroz, com os olhos brilhantes. Esquivou Jasmine e golpeou Sergio afastando-o de Solange. Os dois machos se encontraram, chocando-se tão forte que fizeram tremer as paredes.

O jaguar ferido rugiu com raiva, golpeando a perna de MaryAnn que ofegou de dor. Uma garra lhe rasgou a pantorrilha, atravessando suas calças e rasgando pele e músculos quase até o osso. A perna de MaryAnn cedeu sob ela que caiu batendo no duro mármore,. Cravando os saltos, se afastou para trás como os caranguejos tratando de permanecer fora do alcance das garras de ferro que rasgavam. Como afiadas puas, unhas encontraram seu tornozelo e com um vitorioso rugido, o jaguar a atraiu para ele já lenando os dentes para seu crânio. MaryAnn deu um murro na garganta do felino e o frasco de spray na mão tornou mais sólido o golpe, mas o animal continuou avançando. Estalou num frenesi assassino, com as garras de um lado a outro enquanto procurava sua presa cegamente. Seu rosto estava úmido pelas lágrimas, o nariz e o focinho jorravam, mas ainda era perigoso, fustigando pelo aposento caçando seus atacantes.

Solange aterrissou em suas costas, toda felino agora, selvagem e furiosa, os dentes fechando sobre a larga cabeça, com uma mordida enormemente forte. O jaguar se esqueceu completamente de MaryAnn, rodando na tentativa de se livrar de Solange. Sem piedade ela arranhou o ventre do animal enquanto o sujeitava com os dentes.

MaryAnn afastou sua perna da luta. Quatro jaguares rodavam pelo chão, lutando por matar uns aos outros. O grito de Jasmine a tirou de sua neblina de medo e dor. O mago a tinha prendido pelos cabelos e estava tirando-a da casa.

A fúria atravessou MaryAnn. Fúria e um algo mais escuro, selvagem e perigoso. Sentiu-o perto, profundamente dentro dela, arranhando para sair. Os ossos lhe doíam. A boca e os dentes lhe doíam. Suas mãos se apertaram em punhos, mas suas unhas se alongaram e lhe cortavam as Palmas.

—Alto! — Pare agora mesmo! - MaryAnn ficou em pé de um salto. - Já é suficiente.

Para seu assombro, os quatro jaguares deixaram de se mover, cabeças suspensas, ofegantes e com as línguas saindo fora da boca. Só o mago continuou se movendo, apesar de estar suando e tremendo, com o olhar preso em MaryAnn enquanto arrastava Jasmine para fora da casa e fechava a porta.

O som da porta ao fechar provocou os jaguares a voltassem a entrar em ação. Imediatamente, Solange golpeou outra vez, rasgando a garganta do outro jaguar. Os dois machos se estrelaram um contra o outro, todos dentes e garras. MaryAnn ficou em pé, rodeou os felinos lutavam e empurrando a agonia de sua perna, para um canto da mente e cambaleou atrás de Jasmine e o mago.

Profundamente sob a terra, Manolito despertou com uma explosão de dor e medo. Seu coração começou um forte e continúo galope e sua pulsação lhe troava no ouvido. Soube, ao igual a todos os Cárpatos, que o sol, que ainda não se colocara. Que começava lentamente a se ocultar no céu. Não podia esperar. MaryAnn estava num apuro desesperado. Emergiu da rica e escura terra, com um braço sobre os olhos enquanto se convertia em vapor e ao mesmo tempo ordenava as nuvens cobrir o sol. A densa abóbada ajudou, mas ainda assim durante um segundo foi alcançado pelos raios. Deveriam ter deslocado chamas por sua pele, convertendo-a num inferno. Deveria ter se convertido numa massa de bolhas e a fumaça normalmente se misturou ao o vapor enquanto mudava, mas só seus olhos arderam.

Afastou para um lado a dor e atravessou como um raio a canopia, para a casa. - MaryAnn. Conecte-se comigo agora. - Apesar de ter tomado seu sangue e saber exatamente onde estava, ela tinha fortes barreiras em sua mente. Agora que estavam eretas em seu lugar, constituíam uma parede de aço que não podia penetrar. Se conseguisse ter acesso a seus olhos, poderia ajudá-la de longe.

Deixara-a com uma ordem para dormir, mas havia algo, um pequeno bloqueio em sua mente que não podia identificar e que talvez tinha impedido que sua ordem funcionasse como deveria. Tinha que encontrar a forma de se esquivar do escudo para conseguir acesso a sua mente. Não parecia que ela estivesse fechando-a deliberadamente para ele, mas não podia entrar. - MaryAnn. Posso te ajudar. Deixe-me que te ajude.

Estavam e não, conectados. Sua mente devia estar aberta a ele a seu desejo e entretanto não podia penetrar nessa densa paragem sem importar o quanto tentasse. Não tinha sentido esse aceso, agora extinto da conexão. Era um antigo, completamente capaz de colocar seres poderosos sob seu controle, mas não sua própria companheira.

Podia sentir seu medo por Jasmine. Sua sensação de determinação. Estava sofrendo, mas estava ignorando-o, deixando-o de lado enquanto sua mente trabalhava freneticamente num plano para recuperar Jasmine das mãos do mago. Sentiu todas estas emoções e mais. Sentiu as emoções de Jasmine através de MaryAnn, como se sua conexão com a outra mulher fosse inclusive mais forte que a conexão sangüínea entre Cárpatos. Terror, pesar e absoluta convicção de fugir ou morrer... Jasmine não se renderia. MaryAnn era plenamente consciente do firme propósito de Jasmine e redobrou seus esforços em encontrar uma forma de salvar a jovem.

Como Manolito estava tocando a mente de MaryAnn, sentiu a acumulação de energia, numa repentina onda dentro de seu cérebro. O ar ao redor dele se tornou instável. O vento ululou, sacudindo-o e enviando folhas e galhos girando como mísseis através do ar. Os relâmpagos vetearam as nuvens. A eletricidade crepitava e corria. Sob ele, um galho se rompeu numa árvore e se precipitou através da canopia, chocando contra o chão. A energia, incontrolada, instável e muito perigosa, vibrava atravessando a região.

MaryAnn semicerrou os olhos quando o mago se virou para enfrentá-la, colocando Jasmine na frente a ele, com os dedos cravados profundamente nela.

—Alto ou a matarei.

Ela deteve seu avanço, com o estômago revolto, com a fúria fluindo num nó duro e decidido. Tinha vindo à selva tropical para ajudar esta garota e não falharia. Jasmine já tinha suportado o bastante e isto tinha que acabar neste mesmo minuto. MaryAnn desejou ter as habilidades de um Cárpato, uma forma de conseguir que o vento selvagem a elevasse no ar e a subisse ao topo da árvore mais alta. A fúria a abrasou como fogo e a marca sobre seu seio pulsava ao ritmo de seus batimentos. Pressionou a mão sobre o lugar. - Manolito. Eu não posso pará-lo.

Ele se referia ao mago? Ou a algo feroz que se desdobrava em seu interior? Não sabia. As mãos e os pés lhe doíam, seus ossos rangiam e sua mandíbula lhe alongava. Sentia arder sua perna ferida. Ferroadas formigavam de acima a abaixo por seu corpo e milhares de pequenas espetadas que picavam e ardiam. A selva que a rodeava ondulou, perdeu as brilhantes cores, mas seu sentido de olfato se incrementou agudamente. Podia cheirar o medo que exsudava do mago. Mantinha Jasmine firmemente em frente a ele como se seu magro corpo pudesse protege-lo de MaryAnn.

Jasmine lutava desesperadamente. Os dedos do mago se apertaram mais sobre sua garganta, estrangulando-a.

—Detenha Solange, — ele vaiou. – Ela cooperará. —Falou com voz monótona, tecendo um feitiço de sujeição para evitar que ela lutasse contra ele.

MaryAnn sentiu suas palavras como um zumbido lhe pressionando a cabeça.

Detenha-se, —exclamou. Pare já! Estava tão furiosa que estendeu a mão para ele, desejando instintivamente empurrar a intensa força de volta para ele. Se ele atacava com sua mente, era pouco o que ela podia fazer. Ela não sabia nada de magos e seus poderes, mas a enfurecia que ele estrangulasse Jasmine com tão pouca preocupação por sua vida.

O mago cambaleou para trás, arrastando Jasmine com ele, tossindo repetidas vezes como se algo tivesse se agasalhado em sua garganta. Talvez tivessem sorte e seu estúpido feitiço pudesse lhe sair pela culatra e fazer um nó em sua traquéia, que lhe desse dificuldade para respirar.

O mago segurou a garganta com horror como se pudesse ler sua mente. E por que acreditaria ele que ela podia lhe fazer alguma coisa? Tinha seu frasco de spray de pimenta, mas estava quase vazio. Duvidava que o segundo frasco agüentasse muito mais. Mas se ele não afastasse a outra mão da garganta de Jasmine, soube que o despedaçaria membro a membro. Não ficaria nada de seu corpo para os abutres. Olhou para cima e eles estavam ali flutuando em preguiçosos círculos, simplesmente esperando.

O olhar do mago seguiu o seu e ele reconheceu a reunião de pássaros e empalideceu visivelmente.

—Sabe que é homem morto. —MaryAnn estava tremendo, mas não de medo, a adrenalina fluía por seu corpo, sentia a coceira por toda parte, seu couro cabeludo formigava, suas unhas se chocavam contra a o bico de seus sapatos como se estes fossem muito estreitos.

Sua visão se turvou até que o via através de um véu amarelado. Fixou seu olhar nele, querendo que ele se desse conta de que estava disposta a lutar até a morte por Jasmine.

—Deixe-a ir.

Sentiu-o então, a tempestade elevando-se em seu interior, lutando por se liberar. O vento uivava e os relâmpagos cintilavam. O trovão se fez forte e as árvores estremeceram sob a força acumulada. O ar se tornou pesado pela rangente energia. As diminutas faíscas explodiram e rangeram, chamas laranjas e amarelas crepitavam pelo ar, rodeando-os.

—Seus olhos, —engasgou o mago. - Olhe seus olhos.

Jasmine cravou o cotovelo no estômago do mago, chamando seu felino, algo estranho para ela, mas o animal lhe respondeu, prestando-lhe sua enorme força. O ar abandonou os pulmões de seu atacante. Ela se afastou, correndo para MaryAnn, com lágrimas correndo por sua face e turvando sua visão. MaryAnn a segurou pela mão e a empurrou atrás dela, endurecendo-se para enfrentar um ataque.

O mago retrocedeu dois passos e levantou as mãos. Antes que pudesse tecer um feitiço, um grosso galho caiu do alto como uma pedra, jogando o homem ao chão. Jasmine gritou e enterrou a face no ombro de MaryAnn. MaryAnn envolveu-a em seus braços e a sustentou com força.

—Não podemos deixar Solange brigando sozinha contra o jaguar, —sussurrou. - Tenho que retornar e ajudá-la.

Jasmine assentiu seu acordo, endireitando-se e afastando um passo de MaryAnn. Olhou para o imenso galho caído. As folhas ocultavam a maior parte do homem cansado.

—Acha que está realmente morto?

—Agora não me importa muito, —disse MaryAnn, surpreendida de que fosse verdade. Segurou a mão de Jasmine e começaram a retornar para casa, tentando pensar em como manter Jasmine a salvo dos dois homens-jaguar que esperavam dentro. Estava bastante segura de que o felino que tinha atacado Sergio tinha sido Luiz, mas se fosse um engano, Solange estava lutando sozinha por sua vida.

Correram de volta através das árvores, pelo atalho que conduzia a casa. Enquanto elas corriam, saltando por cima dos galhos caídos e raízes enredadas, os macacos começaram a gritar em advertência. Jasmine tentou parar e agitou a cabeça de um lado a outro, registrando a canopia sobre elas. Centenas de macacos lançavam folhas e galhos e saltavam agitadamente, descobrindo os dentes para um grupo de árvores próximas da casa.

—Há outro, —sussurrou Jasmine.

—É obvio que há, porque teria sido muito fácil ter três deles atrás de nós. —MaryAnn respirou fundo. —Estão nos espreitando, não é?

—Sim, —disse Jasmine. - Ali na árvore, posso ver parte da pele. Querem-me viva, assim se nos separarmos virão atrás de mim.

—Pode se esquecer disso, —respondeu MaryAnn. - Se tivemos sorte com o mago, talvez tenhamos sorte novamente, mas façamos o que façamos, não nos separaremos.

Os olhos de Jasmine se rregalaram.

—É isso o que chama de sorte? Eu acredito que sua pontaria foi excelente.

—Eu não fiz. O relâmpago golpeou o galho e o desviou ou o vento o jogou. De qualquer forma, ajudou-nos e isso é tudo o que importa.

O ar se carregou de repente de eletricidade, seus cabelos rangiam. As nuvens buliram obscurecendo-se, bordeadas de uma luz relampejante. MaryAnn segurou Jasmine e a jogou ao chão, cobrindo seu corpo o melhor que pôde com o próprio. O som do trovão ao golpear a árvore foi vibrante, o tronco se partiu e o jaguar uivou. O rugido terminou bruscamente com o aroma de carne e pele queimada.

Jasmine tiritava incessantemente. MaryAnn a abraçou mais forte.

—Esse é Manolito, —sussurrou, tentando tranqüilizar À garota.

—Sabia que tinha que ser um Cárpato, —admitiu Jasmine. – Achei que poderiam ser Riordan e Juliette.

—É algo bom. Temos ajuda. Solange está em problemas, Jasmine. Temos que tirá-la de lá. Ele nos ajudará.

Jasmine engoliu visivelmente e se incorporou devagar, piscando enquanto o alto Cárpato vinha andando rapidamente para elas. A coberta de nuvens ajudava e o sol estava terminando de entrar, o que lhe permitia mover-se com mais liberdade. Parecia um guerreiro da antigüidade, movendo-se rapidamente entre a fumaça e as ruínas de um campo de batalha. Sua face estava cinzelada e marcada. O cabelo longo fluía atrás dele. Os músculos ondulavam sob a dourada pele e seus olhos gelados eram desolados e escuros. Olhos que guardavam muitos segredos.

Seu olhar passou sobre Jasmine para encontrar MaryAnn. O calor colocou um lado o gelo e seus olhos eram ardentes quando MaryAnn se sentou, piscando para ele. Movendo-se rápidamente, ele inclinou para pegá-la nos braços, enquanto segurava o braço de Jasmine e a levantava do chão. Os dedos na pele de Jasmine fossem impessoais e ele nem a olhou, salvo uma rapidamente para se certificar de que estava bem. Seu olhar registrou as marcas de dedos em seu pescoço, mas depois passou a fazer uma inspeção completa de MaryAnn.

As pontas de seus dedos lhe roçaram a pele, absorvendo seu tato e textura. Podia respirar outra vez, sabendo que ela estava viva. Uma tormenta de fúria se reuniu em seus olhos enquanto tocava os ferimentos abertos de sua perna.

MaryAnn, — ele disse seu nome. Respirou. Um mero fluido de som, mas ele o convertia em poesia, como se ela fosse tudo em seu mundo.

Ela tentou não reagir. Era de verdade tão intenso que se tornava difícil não responder a sua atenção absoluta. Engoliu a ardente dor da perna e tentou sorrir.

—Obrigado por vir tão rápido. Solange está lá dentro lutando contra outros mais. Acredito que Luiz está lá também, tentando ajudar.

Ele se inclinou para examinar os arranhões de sua perna.

MaryAnn segurou seu braço.

—Tem que ir ajudar lhes.

—Não posso te deixar assim.

—Eu vou contigo, assim que tudo fiquebem. —MaryAnn não ia discutir, não quando ele tinha essa linha teimosa marcando sua fisionomia. Empurrou-o para passar e começou uma fraca carreira para a casa, segura de que ele a seguiria.

Manolito a segurou nos braços e correu, sustentando-a contra seu peito enquanto cobria a distância a velocidade imprecisa. Afastou-a no último momento, convertendo-se em vapor e passando sob a porta, deixando MaryAnn do outro lado.

Havia sangue e pele por toda parte, móveis derrubados, vidros quebrados e cadeiras reduzidas a pedaços. Uma fêmea jaguar jazia de lado. Sua sua pelagem estava coberta de sangue e saliva. Seus flancos inchavam enquanto tentava fazer entrar ar em seus pulmões e com cada movimento o sangue saía a jorros. Tentava corajosamente ir a ajuda a um macho que lutava contra os outros dois. Este estava num canto, destroçado por marcas de garras e coberto de ferimentos, mas era muito forte para se render e um dos outros machos estava quase cego, com os olhos chorosos e queimados.

Quande Manolito entrou, Sergio segurou Luiz pela garganta, fechando as fortes mandíbulas e rasgando-o. O outro macho saltou nas costas de Luiz, mas antes que pudesse aterrissar, o caçador o segurou pelo pescoço, surpreendendo-o, quando foi arrojado para trás bruscamente. Manolito apertou forte, seus traços marcados com linhas duras e desumanas e os olhos sem emoções. Ouviu-se um rangido audível e o homem-jaguar desabou no chão, com a língua fora da boca. Sua respiração cessou instantaneamente.

Manolito levantou a cabeça e olhou para Sergio, a morte dançava nas profundezas escuras de seu olhar. Sergio deixou Luiz cair e saltando, atravessou a porta com estrépito e correu para a segurança da selva.

Jasmine com muita dificuldade ainda pôde afastar de seu caminho quando ele passou correndo. Ficou na porta, com um braço ao redor da cintura de MaryAnn para lhe oferecer apóio enquanto entravam. Soltou um pequeno grito quando viu Solange e correu para seu lado, deixando-se cair de joelhos para pressionar forte a mão sobre o sangue que saía.

Faça alguma coisa. Ela vai morrer.

Manolito tinha dado dois passos para a porta para seguir Sergio, mas o grito de Jasmine o deteve. Voltou-se. O aroma de sangue estava por toda parte, lhe provocando não só a inevitável fome, mas também a agressividade.

MaryAnn, sente-se antes que caia. Ajudarei-te num minuto. Deixe-me examinar os ferimentos e ver o que posso fazer.

—Onde está Juliette? —perguntou Jasmine. - Acreditei que viria.

—Não sei, mas virão, —disse Manolito. Ajoelhou-se junto ao jaguar e passou as mãos sobre a trêmula felina.

Solange mostrou os dentes e virou a cabeça. O esforço lhe custou as forças que restaram e um geiser de sangue brotou do ferimento de sua garganta.

—Pode fazer alguma coisa? —perguntou Jasmine ansiosamente.

—Teria que selar seus ferimentos e lhe dar meu sangue. Ela resiste ainda a meu tato e muito mais ainda, a minha oferta de sangue. —Manolito sacudiu a cabeça. – Sinto muito irmãzinha, não há nada que possa fazer por ela.

Solange! —Jasmine se deitou no chão junto a felina. - Por favor. Não me deixe sozinha. Deixe-lhe te ajudar.

Manolito suspirou.

—Ela sente que não tem nada pelo que viver, que seus dias na selva terminaram. Não pode se adaptar a viver em outro lugar e não quer ter parte de sangue Cárpato.

O aposento esfriou e as paredes vibraram quando o poder fluiu em seu interior. MaryAnn se deixou cair junto a Luiz, tentando deter sua perda de sangue com as mãos. Estava por toda parte e o jaguar jazia como se já estivesse morto.

- Manolito. Escute-me agora.

Ela escutou a voz claramente. Era áspera e cortante, como se tivesse os dentes a descoberto e apertados. Era uma ordem clara sem opção a discussão. - Curea-a e lhe dê sangue. A companheira de Riordan está angustiada. Não pode haver outra opção.

Havia uma sensação de perigo, de uma força e uma inteligência com a qual ela não havia nunca tropeçado e nem desejava tropeçar. Encontrou contendo a respiração, olhando para Manolito. Ele não pareceu desconcertado pela intensidade do poder e somente encolheu os ombros casualmente

Zacarías deu uma ordem e deve ser cumprida. — Golpeou duro e rápido, que sua mente se afundou na de Solange antes que esta pudesse formar um escudo protetor o bastante forte para detê-lo

- Quem é? - MaryAnn pensou a pergunta para enviar a Manolito, mas para sua surpresa, conectou realmente com ele.

- Agora fala comigo como fazem os companheiros. Não há necessidade de acariciar sua pele. Ele está morrendo. - Havia uma clara reprimenda em sua voz.

MaryAnn ouvia o estertor da morte na garganta do felino.

—Bem, ele não vai morrer. Você o salvará.

Havia absoluta convicção em sua voz. E confiança também. Quando lhe lançou um olhar rápido, seus olhos brilhavam com tal emoção que fez com que seu coração derretesse. Não poderia recordar que ninguém jamais o tivesse olhado assim, nenhuma vez em todos os seus longos séculos de existência. Quis fazê-la sentir orgulhosa dele e queria conservar esse olhar para toda a eternidade.

Mantenha-o vivo então, —disse ele. – Faça com que deseje viver. Parece ser capaz de conseguir que as pessoas façam quase tudo.

MaryAnn lhe devolveu um pequeno e decidido sorriso. A perna lhe doía tanto que acreditava que desmaiar talvez fosse uma boa idéia, mas quando viu a quantia de sangue a seu redor, decidiu que seus ferimentos eram pequenos, em comparação. Manolito tinha que curar Solange e depois Luiz e por último sua perna. Ele acabava de se elevar e se havia uma coisa que sabia dos Cárpatos era que despertavam famintos e que quando usavam energia para curar, precisavam de sangue.

—Estou bem. Faça o que tem que fazer.

Manolito voltou sua atenção para Solange. Ela lutava contra ele com sua mente, tentando lhe expulsar, mas estava muito fraca. Sujeitou-a na terra, negando-se a permitir que seu espírito escapasse enquanto ele abandonava seu corpo físico e se introduzia no dela. Era antigo e poderoso, mas se ela não tivesse tão gravemente ferida, talvez tivesse que recorrer a um métudo mais perigoso e violento para manter sua mente prisioneira. Ela possuía uma vontade de ferro e lutava duramente para afastá-lo.

A princípio pensou que era por causa de sua desconfiança para com os homens, mas quando uniu sua mente firmemente a dela, viu que seu temor era que Juliette e Jasmine se dessem conta de que era uma assassina, além de toda salvação, além de toda esperança. Não restava nenhuma outra forma de vida. Não sabia se poderia parar. Em algum momento, cruzara a linha e não havia como voltar.

E então sentiu uma suave calidez fluindo gentilmente na mente de Solange. Reconheceu o toque de MaryAnn instantaneamente, tão leve que quase como se não estivesse lá, entretanto serenava e acalmava numa sensação de tranqüilidade e esperança, imantando Solange com seu calor e com a crença absoluta de que esta vida era boa, cheia de beleza, de aventuras e de amor.

Quase esqueceu de si mesmo, de onde estava e o que estava fazendo, tomado pela admiração pela mulher que era sua companheira. Branda e correntemente fundida a Solange, de forma que não houvesse modo de saber que tinha penetrado. Ele não teria sabido se não tivesse intercambiado sangue com ela. Seu toque era luz e enchia a mente de Solange de esperança e convicção. Sob a influência de MaryAnn, Solange se tornou mais cooperativa, relaxando no tranqüilizador refúgio de sua calidez. Foi difícil abandonar as reconfortantes ondas de carinho e procurar os quebrados e sangrantos órgãos para repará-los.

Manolito permitiu contra vontade que seu espírito viajasse pelo corpo da felina. Sergio não tinha pretendido matá-la, mas ela lutara duro e quando o segundo jaguar a tinha atacado, não fora tão cuidadoso. A artéria estava quase destroçada e o corpo de jaguar estava cheio de sangue. Sabia o que significava, o que tinha que fazer para salvar sua vida. Soltou tudo o que era e se converteu só em energia curadora, reparando cada ferimento tão rapidamente quanto foi possível, dependendo de MaryAnn para manter a cooperação de Solange.

MaryAnn sustentava a cabeça do jaguar macho em seu colo, acariciando o pelo macio, murmurando brandamente para mantê-lo com ela. Ele lutava para respirar, os pulmões estavam enchendo-se de sangue. Seguiu falando com Solange também, temendo que se a deixasse, a mulher trataria de rasgar o pescoço de Manolito. Era uma situação espantosa, com duas pessoas ao beira da morte e só Manolito para salvá-los. Jasmine sustentava toalhas sobre os ferimentos de Solange e lhe sussurrava, com lágrimas descendo pela face, temerosa de que a tivesse perdendo.

- Fique conosco, Solange. - MaryAnn rezou em silêncio, tentando alcançar a outra mulher, para fazê-la saber que por mais negras que parecessem as coisas neste momento, tudo podia melhorar. Tudo ficaria melhor. MaryAnn faria a missão de sua vida, de ajudar Solange e Jasmine atrás de todos os sacrifícios que elas tinham feito resgatando mulheres, ajudando-as a encontrar um lugar seguro.

Luiz morria. Podia ver como sua vida escapava, via a faísca apagar em seus olhos e tudo o que podia fazer era olhar impotente. O fazia desejar viver, da mesma forma que fazia com que Solange tivesse esperança e vislumbrasse um futuro, mas não poderia fazer o que Manolito fazia, curar. Como abandonar tudo o que alguém era e converter-se num instrumento de cura? Tinha visto Manolito sacrificar sua vida por uma mulher e uma criança que não nascera ainda. Tinha ouvido dizer que tinha uma cicatriz ao redor da garganta, quando os Cárpatos raramente ficavam marcados, para salvar seu príncipe. E agora conseguia abandonar seu ser a fim de salvar uma vida.

Poucos podiam saber o que isso era realmente, mas ela estava com ele, conectada a ele e era consciente exatamente de tudo o que ele tinha que renunciar para chegar a se converter em espírito. O corpo ficara vulnerável a tudos os ataques, mas era muito mais que isso, Manolito tinha abandonado sua personalidade, todo o ego, todas as esperanças e os sonhos, suas próprias necessidades. E o tinha feito com gosto.

Estava em sua mente quando ele abandonou tão rapidamente suas opiniões e idéias, sua verdadeira personalidade e havia se tornado desinteressado em seu esforço em salvar Solange. Não podia mais que admirá-lo. Manolito tinha uma forte personalidade, com crenças firmes sobre as mulheres e apesar de tudo isso, deixara-as imediatamente de lado. Que tipo de autêntico caráter estava escondido sob toda essa arrogância? E eram suas maneiras aparentemente dominadoras com as mulheres, talvez na realidade desejos de protegê-las? Sua espécie, verdadeiramente entesourava mulheres e crianças. A todos eles. Não parecia se importar que Shea fosse a companheira de Jacques. Manolito tinha dado um passo para ficar adiante e assumir o ataque mortal sem vacilação.

- Viva, Luiz. Agüente firme até que ele possa te ajudar. Ele te salvará a vida. - Era positiva. Estava em sua mente e podia ver sua absoluta resolução de manter Solange com vida. Manolito estava tão centrado, tão completamente absorto na cura que não pensava em mais nada. MaryAnn viu a bondade nele, algo que talvez perderia de sentir e ver, se não estivessem conectados pelo intercâmbio de sangue e pela primeira vez se permitiu pensar nesse intercâmbio como algo bom. Talvez tivesse descartado o Cárpato por impossível se não tivesse conhecido seu outro lado bem mais suave.

Afastou para trás o cabelo de Luiz, num gesto absorto enquanto examinava a face de Manolito. O tempo pareceu parar. Tudo a seu redor desvaneceun restou somente ele com seus olhos, escuros ornamentados de cílios absurdamente longos. Deveriam parecer femininos, mas sua fisionomia era muito masculina, com o queixo firme e o nariz reto. Sentiu a respiração dele entrando e saindo de seu corpo. Sentiu o batimento de seu coração, forte e constante. Seu coração, o dele, o de Luiz e o de Solange. Estavam todos unidos num só homem. Em um homem incrível.

Manolito emergiu do corpo de Solange, fraquejando pelo cansaço, procurando sua companheira com o olhar. Mantivera a todos conectados, compartilhando a força, mantendo um constante fluxo de absoluta convicção pela vida. De amor e de integridade. Solange ainda estava viva porque MaryAnn lhe dera uma razão pela qual se aferrar. Luiz vivia ainda porque o mantinha unido a terra, negando-se a considerar sequer lhe permitir partir.

E ela seguia pensando que tudo isso era por causa dele, Manolito. Não soube se sorria ou se simplesmente pegava MaryAnn e saia dali antes que pudesse averiguar que ele era uma fraude. Tinha que dar sangue a Solange e precisaria ter forças para obrigá-la. Já estava faminto. E as brilhantes cores a seu redor se desbotavam em espectros mais apagados, como se não pudesse evitar que sua mente de desviar de volta para a terra das sombras.

O olhar de MaryAnn encontrou o seu e por um momento ele não pôde se mover nem respirar. Ela nunca deixava de olhá-lo assim. A confiança e a crença, a fé absoluta que brilhava em seus olhos era um presente que ele nunca esqueceria. As sombras retrocederam.

—Tenho que dar sangue a Solange. se pode conseguir que ela aceite o que lhe ofereço. Isso a curará mais depressa e a fará mais forte. Não farei um intercâmbio com ela, simplesmente lhe darei o suficiente para sobreviver.

Ele soava cansado. As linhas de sua face estavam profundamente marcadas. Quis envolvê-lo nos braços e sustentá-lo, aliviá-lo, lhe dar o que necessitasse para ajudá-lo a continuar. Leu a determinação nele.

—Apresse-se, Manolito. Sei que está cansado, mas Luiz não pode agüentar muito mais.

O olhar de Manolito revoou à mão que acariciava a cabeça de Luiz. Por um momento um laivo de negro ciúme lhe roeu as vísceras. Teve sabor de cinza na boca e uma vez mais as sombras o chamaram. Fracamente, ouviu vozes que o chamavam. - Una-se a nós. Una-se a nós. - Tremendo, tocou a mente de MaryAnn e descobriu instantaneamente que esses dedos acariciavam na realidade, sua cabeça. Era ele que ocupava seus pensamentos. Dedicou-lhe um rápido sorriso antes de abrir a mão e forçar a fêmea jaguar a engolir sua oferenda.

Jasmine deixou escapar um pequeno som de angústia e afastou a cabeça.

—Está tudo bem, irmãzinha. Ela não se converterá em outra coisa. Uma vez que tenha tomado meu sangue misturado ao dela, Solange sobreviverá e será forte novamente, —assegurou-lhe com voz amável.

Sei. Realmente, eu sei. Só me sinto um pouco doente. Obrigado por fazer isto. Não será fácil, ela não pode te mostrar seu agradecimento, mas o que fez é muito importante, —disse Jasmine.

—Não preciso de agradecimento. Ela está sob o amparo de nossa família, igual a você, pequena. Nunca a deixaríamos morrer se pudermos salvá-la.

Manolito era prático, indiferente ao custo que era para ele. Estava mais preocupado pelo custo para MaryAnn. Ela teria que prover para ele e a fé inocente que lia em seus olhos, talvez decaísse para sempre. Não podia permitir pensar nisso, nem vacilar em sua obrigação de tornar sua própria vida mais fácil.

Solange era um membro da família e como tal seria protegida com todo o esmero, mesmo se ela quisesse ou não. Depois deste fiasco, Zacarías emitiria um decreto para as mulheres e estas seriam obrigadas a obedecer. Gostaria de tê-las por perto, onde todos os irmãos Da Cruz e sua gente pudessem ajudar a protegê-las.

Fechou ele mesmo o corte da mão e desviou sua atenção para Luiz. Levou-lhe um pouco mais de esforço abandonar seu corpo, já que a fome se convertera numa alarmante necessidade. Não podia manter seus dentes sob controle e o aroma de sangue era um tortura constante. O corpo do homem-jaguar parecia pedaços, as poderosas mandíbulas haviam atravessado pelos, tecidos e ossos. O sangue enchia seus pulmões e o homem estava morrendo lentamente. Mesmo se reparasse o dano e lhe desse sangue, não o salvaria.

Manolito retornou a seu próprio corpo e sacudiu a cabeça com pena. Respeitava Luiz.

—Sinto muito, päläfertül, não posso lhe salvar. É uma grande perda para a gente jaguar.

—É obvio que pode lhe salvar. Conversei muito com Gabrielle quando estive nas Montanhas dos Cárpatos. Recorda-se dela? Trabalhava para o príncipe tentando dar com uma solução, uma luz para tantas crianças mortas. Ela era humana. Quando a feriram gravemente, um dos homens salvou sua vida convertendo-a. Teria convertido Solange se tivesse sido necessário. Pude ler em sua mente.

—Isso foi diferente. —Ele estava tão débil, que seu corpo fraquejava. Piscou rapidamente para se manter centrado, mas sua visão se turvava. No momento em que o fez, as cores se empanaram.

—Como diferente? Se Luiz é jaguar, deve ser psíquico. Não é a espécie do jaguar, a origem de muitas habilidades psíquicas?

—Você não entende.

—O que entendo é que se Luiz fosse uma mulher com habilidades psíquicas, você moveria céus e terra para lhe salvar a vida. Mas como é um homem não tem valor para ti.

O jaguar acariciou a mão de MaryAnn com o nariz.

- Está tudo bem. Estou só cansado.

—Não, —disse de repente Jasmine. - Salve-Lhe. Ele salvou Solange. Se não tivesse chegado a tempo, Solange estaria morta ou esses horríveis homens a teriam em seu poder agora. Por favor. Se for meu irmão como diz, peço-lhe isso por favor.

Manolito fechou os olhos brevemente.

—Não conhece o coração deste homem.

—Mas você sim, —disse MaryAnn. - Você tirou o vampiro de sua mente. Viu suas lembranças, viu como ele era. Merece a pena salvá-lo?

 

—Não sabe o que está pedindo, MaryAnn. A longevidade não é sempre algo bom. A vida de um homem dos Cárpatos é extremamente difícil. Pode estar pedindo algo que ele não deseja.

—Então lhe pergunte. Não o deixe morrer simplesmente porque é um homem.

Manolito suspirou. Ela tinha razão, mas mesmo assim, não podia imaginar o que era para um Cárpato conhecer o quanto eram escassas as probabilidades de encontrar sua companheira. Ela não tinha vivido séculos, sozinha.

—Terei que me alimentar, MaryAnn. Ambas estão dispostas a contribuir? Porque não posso fazer isto sem sangue. —Ele estava desesperado para se alimentar. O mundo a seu redor estava se apagando rapidamente. Ele estava se apagando. Quando baixou o olhar para suas mãos, estavam cinzas e tornando-se transparentes.

MaryAnn olhou para os brilhantes olhos de Manolito, vendo as diminutas chamas vermelhas e sentiu seu coração saltar. Sempre esquecia que ele não era humano, mesmo quando lhe pedia que fizesse coisas que não eram absolutamente humanas. Inspirou profundamente e assentiu.

Manolito voltou sua atenção para Jasmine. A garota estava sentada no chão, acariciando a pele salpicada de Solange, mais para se confortar que para mantê-la calma.

Acredito que posso, - adicionou sem lhe olhar. - Diga-Me o que fazer.

— Me dê sua mão.

Jasmine estendeu lentamente seu braço. Os dedos de Manolito se fixaram a seu redor como um grilhão. Os sussurros começaram em sua cabeça. Suaves e insidiosos. Era a tentação lhe mordendo.

Ela engoliu em seco e tentou soltar-se de um puxão.

—Espere. Espere... Esqueci-lhe de dizer ... Estou grávida. Isto fará mal a meu bebê?

Manolito deixou cair sua mão como se o queimasse. Seu olhar se tornou negra obsidiana, sua boca se congelou numa linha firme.

—Não tem direito a oferecer sangue ou lutar com jaguares. Não. Não tomarei seu sangue. Deve ter muito cuidado para proteger a criança.

Antes que Jasmine pudesse replicar, Luiz resfolegou ofegante e o jaguar mudou. Os ossos rangeram e seu corpo se retorceu enquanto a morte o alcançava.

MaryAnn soltou um suave e alarmado soluço e se ajoelhou, apoiando-se sobre o longo peito para ouvir o batimento do coração. Imediatamente começou a RCP.

Faça algo, Manolito. Não pode deixá-lo morrer.

Ela não tinha nem idéia do que estava pedindo. O outro mundo estava tão perto. Ele estava morto de fome. Esgotado. As sombras se moviam por toda parte no aposento. MaryAnn o olhou com seus enormes olhos escuros, confiantes. Tinha muita fé nele. Mais do que ele tinha em si mesmo, com os sussurros empurrando-se no fundo de sua mente e seu próprio corpo debilitando. Piscou e se obrigou a concentrar.

- Escute-me, homem-jaguar, posso te tornar um Cárpato. Nunca mais voltará a ser jaguar, embora viverá e poderá mudar. Deve compreender que este presente é escuro. Se não encontrar a outra metade de sua alma, com o tempo perderá as emoções e as cores e viverá só com as lembranças. Precisará sangue para sobreviver. Terá que viver sob as regras de nosso príncipe e jurará sua lealdade e amparo, mesmo sua vida, a ele e a nossa gente. Terei sua vida em minhas mãos. Serei capaz de tocar sua mente a vontade e te encontrar sem importar onde esteja. Se nos trair, matarei-o sem remorsos tão rápido como é possível. Tem a escolha de ir para outro lugar e procurar a paz ou permanecer neste mundo e continuar sua luta.

Este não era um assunto comum, qualquer. Ele seria responsável para sempre por tudo que Luiz decidisse fazer. Era uma obrigação que poucos homens desejavam. Conheciam os riscos e sabiam o que era caçar e matar antigos amigos. Permitiu o acesso de Luiz a suas lembranças, naquele longo, e aparentemente corredor sem fim de escuridão. Não havia modo de descrever ao homem jaguar como seria, só podia lhe mostrar o desvanecimento das emoções, os séculos de caça e espera dependendo só da honra e logo depois, das lembranças da honra. Foi tão honesto como foi capaz.

- Ainda não acabei com minha luta para salvar minha gente.

Luiz estava muito longe, mas se aferrava À vida. Estranhamente, quanto mais se retraía o espírito de Luiz, mais claro se tornava o mundo de sombras ao redor de Manolito. As vozes se fizeram mais fortes. O aposento silenciou. Sombras de peles tensas e bocas abertas e dentes como pregos afiados, deslizaram pelas paredes e pelo chão. A fome queimou e arranhou, lhe rasgando cada célula e órgão do corpo. Sentiu-se tenso além da resistência.

Manolito fez um esforço para se concentrar só em Luiz.

- Eles já não serão mais sua gente. Seu sangue será dos Cárpatos. Os jaguares o evitarão. Está seguro de que entende no que está se colocando, antes de escolher.

- Não posso permitir que os vampiros continuem acossando e caçando minha gente, tanto se meu sangue for Cárpato, como humana ou jaguar. Somos os mesmos, lutando para encontrar uma vida e vivê-la bem. Escolho a vida.

- Será doloroso. Muito doloroso.

E MaryAnn seria testemunha. Como podia não assustá-la? Tudo nele pedia para parar, pegar sua companheira e ir embora, mas era impossível. Não depois de se fundir tão profundamente com Luiz, sabendo o tipo de homem que era e a dura luta que tinha levado a cabo para salvar sua gente, para honrar suas mulheres. Manolito não podia abandoná-lo ao lamti ból jüti, kinta, ja szelem, o prado da noite, névoas e fantasmas e tampouco podia esperar muito mais ou o homem se tornaria meio vivo, como Manolito tinha a plena certeza que acontecia a ele.

- Escolho a vida.

Manolito colocou uma mão dissuasiva no ombro de MaryAnn para lhe impedir de continuar a RCP. Simplesmente fez cargo com sua mente, mantendo o coração de Luiz pulsando e o ar movendo-se através de seus pulmões.

—Não posso fazer isto sem sangue.

MaryAnn podia ver que Manolito estava fraco e pálido, sua pele quase cinza e cambaleava de debilidade. Era atemorizante estirar o braço e oferecer a mão, mas confiava nele, mesmo com as chamas vermelhas cintilando nas profundezas dos olhos escuros. Confiava nele com sua vida.

Ignorando sua mão, ele a envolveu com seu braço e a aproximou dele.

—Nunca poderia te fazer mal, sivamet.

O modo em que a última palavra fluiu de sua língua resultou sensual e sedutora. Ela mais que isso, captou o significado em sua mente. Meu amor. Era seu amor? Ele já sentia mais que necessidade física por ela? Tendo estado em sua mente, deu-se conta de que compartilhar lembranças e a incapacidade de esconder um do outro tornava a relação muito mais íntima do que poderia ter imaginado. Se ele estava cortejando-a, estava fazendo um bom trabalho simplesmente sendo ele mesmo.

Foi para seus braços de boa vontade e acariciou com o nariz sua garganta. Ele lhe inclinou o rosto de modo que seu olhar se encontrasse com o dele e ela fosse capturada, para ficar hipnotizada e perdida nas escuras profundezas de seus olhos. Perdida na sedução da severa necessidade e a da fome selvagem. Ele não tentou disfarçar ou dissimular o que sentia por ela. O ar se prendeu em sua na garganta. Seu coração amoleceu curiosamente enquanto seu corpo se convulsionava e seu útero se contraía.

Este homem só podia ser dela... e ela era dele. Não o tinha reclamado. Nem sequer sabia se podia viver com ele e com o que era, mas o admirava e respeitava. Podia sentir a fome golpeando-o, sua debilidade. Estava esmagado entre dois mundos e permanecer no dela o consumia. Seu sentido da honra para Solange e para ela, só tinha aumentado sua carga.

—Tome o que necessite. —Seus lábios sussurraram sobre os dele.

Tentação. Oh! Senhor, a tentação que sem querer ela estava lhe oferecendo. Sua língua foi como um toque de seda sobre sua pulsação. Ela era cálida, seda viva em seus braços. Ninguém possuia pele mais suave. Suas emoções estiveram congeladas tanto tempo num profundo lugar em seu interior, estiveram enterradas tão profundamente, que acreditou impossível poder saborear, sentir ou conhecer o prazer que as formas de uma mulher podiam levar ao corpo de um homem. Seu tato, o som de sua voz, cada fôlego, haviam lhe despertado. Tinha-lhe dado vida novamente. Queria-a para sempre. Queria assegurar-se de que estaria sempre a seu lado.

Tentação. Agora sabia como sentia e como era. Sabia que a tentação era uma mulher e que teria que usar cada grama de seu controle para evitar levar-lhe a um lugar onde pudessem ficar sozinhos.

Seus dentes cravaram-se profundamente nela e o sabor e a essência de MaryAnn flutuaram até ele, completando seu corpo e sua alma. Um sensual sabor de MaryAnn. Os braços a aconchegaram e ele fechou os olhos para saboreá-la melhor. Ao mesmo tempo, deixou que uma mão vagasse pelas curvas do corpo dela, até sua perna. Ela estava aninhada em seus braços, com as pernas em seu colo e ele podia encontrar facilmente a dor em sua carne.

Ninguém, homem ou mulher, deveria ser capaz de deixar de lado a dor e atender os outros, não sentada como ela estava agora, mas correndo como tinha feito esta manhã na selva. A dor devia ter enfraquecido seu pensamento e afetado sua capacidade de manipular a energia. A dor estava ali em sua mente. Sentia-a, mas a empurrava para o centro de seu cérebro com o qual ele não estava familiarizado. Nunca tinha visto esse padrão antes e ele era um antigo. Tinha usado magos, jaguares e humanos como sustento uma vez ou outra e como as espécies se misturavam, os padrões eram cada vez menos diferentes com o passar dos séculos. Passou as mãos sobre sua coxa, numa íntima exploração. Ela tremeu em seus braços, seu corpo movendo intranqüilo contra o dele.

Ela era dele

Sim. Era dele, feita para ele. Moldada para ele. Ela era sua outra metade.

- Foi feita para ti.

Naturalmente que sim. Seu corpo se curvava suave e flexível em seus braços de modo que saberia como seria ter seu corpo profundamente no dela e conduzi-los ao limite até o êxtase.

- É seu direito.

Tinha todo o direito sobre seu corpo. Ela pertencia-lhe de corpo e alma, como ela pertencia a ela. Podia desfrutar quando e onde quisesse. Sua mão deslizou ao longo de sua coxa, movendo-se para o calor... Seu calor... Ela lhe pertencia. Sabia exatamente o que a agradaria, o que a levaria a um frenesi febril da necessidade sexual.

- Por que trazer de volta o homem-jaguar? Só se converterá em vampiro e você terá que lhe caçar e matar como tem feito com tantos outros.

Era uma loucura se expor em trazer o outro homem a seu mundo, quando havia tão poucas companheiras. Ele podia tentar lhe roubar MaryAnn.

- Ele esteve a sós com ela. E estava nu. Mostrando-lhe seu corpo para que ela te deixasse. Ele a deseja. Fará tudo para afastá-la de ti.

Tudos os homens-jaguar tinham demonstrado ser embusteiros. Atraíam as mulheres e as mantinham cativas, tratando-as brutalmente.

- Ele a tocou. Tocou sua mulher. Viu sua marca, cheirou sua essência por toda ela e mesmo assim a tocou. Viu-lhe erguendo-se sobre ela. E estava nu.      O que acha que estava tentando obrigá-la a fazer?

- Ele defendeu-lhe. Ela disse que ele tinha salvado sua vida.

- Ele a deseja. Faça-a tua. Tome-a agora. Toma o que te pertence. Prenda-a seu lado por toda a eternidade.

Não podia parar. Precisava isto. Estava faminto, esfomeado. A fome o deixava louco. Nada podia saciá-lo, salvo sua companheira. Rica, quente sangue estalando por seu sistema com a urgência da droga mais poderosa.

Precisava de seu corpo rendido ao dele, todo calor e fogo, saciando o desejo que o deixava tão duro e quente e além de qualquer preocupação, salvo afundar-se profundamente nela. Queria ouvir seu nome gritado numa tormenta de desejo. Queria ver seus olhos se tornarem frágeis pela paixão, queria ouvi-la rogar para que se unissem. Tinha esperado uma eternidade na escuridão e no inferno e agora ela estava ali, em seus braços, com seu corpo preparado para o dele, com seu sangue confundindo com o próprio.

- Tome-a. É seu direito. Ela não pode te rechaçar. Algo que ela lhe deseje deve proporcionar isso. Tome-a antes que o jaguar a tome. Não pode parar agora que está tão perto. Tome o suficiente para convertê-la e ela não poderá te deixar.

Os sussurros cresceram e as vozes se uniram.

Por um momento, seus braços a apertaram possessivamente e seu corpo a empurrou para trás de modo que a inclinou sob ele. Para que? Tomaria ali mesmo com o Luiz a seu lado? Com Jasmine e Solange como testemunhas de sua loucura?

- Sim... Sim. Tome-a agora antes que seja muito tarde e a perca.

O medo cresceu dentro dele, nele. Medo de não poder controlar o vício de seu sabor, de não se deter... De não poder parar. Estava enlouquecendo e ia ferir a única pessoa que tinha jurado cuidar. Não deveria estar ouvindo, mas as vozes eram insidiosas, metendo-se sigilosamente em sua mente e alimentando seus piores medos e seus piores traços.

Seus piores traços. Sua necessidade de dominar. A necessidade de que ela o visse e a ninguém mais. A terrível necessidade de lhe impor sua vontade, de modo que ela não só quisesse mas também necessitasse tudo o que ele desejasse. Queria-a em seus próprios termos e sabia que podia controlá-la através da relação sexual. Conhecia seus desejos e fantasias, e sabia como obter cada resposta erótica. Não por prazer... Dela ou dele... Mas por controle.

Não só se desonraria e a tudo pelo qual havia suportado, se tomava seu sangue e seu corpo, se a levasse completamente a seu mundo, mas também arruinaria qualquer oportunidade que tivesse de ganhar o afeto de MaryAnn. Não era assim que funcionavam os companheiros. Ele era seu companheiro e o seria em todo o sentido da palavra.

As vozes se tornaram mais altas, mais persuasivas. As sombras a seu redor aumentaram, cresceram. Segurou os braços de MaryAnn, preparado-a para afastá-la dele, mas ela se moveu em sua mente, numa tranqüilizadora calidez, numa sensação de bem-estar.

- Não é assim, Manolito. Ouço-lhes e eles falam falsamente. Claro que sente que sou tua. Sou sua companheira. Sou a outra metade de sua alma.

MaryAnn agradecia a Destiny que teve paciência de lhe explicar o laço entre os companheiros Cárpatos.

- Claro que me quer completamente em seu mundo. Eles estão alimentando de seus instintos, mas você é mais forte que eles. Nós somos mais fortes que eles.

- Pode ouvi-los? – Ele estava desesperado por que sabia que caminhava em dois mundos. Parecia inverossímil. E mesmo assim estava rodeado pelas sombras, as vozes e o frio que não podia se sacudir, quando um Cárpato podia controlar a temperatura do corpo.

- Claro que os ouço. - Não deixaria que o levassem. O que fosse que estivesse acontecendo era real, não imaginário. Ela era uma dura garota de cidade e podia dirigir todo o lixo que queriam jogar nela ou a seu homem.

Seu ser se sobressaltou. Já estava pensando nele como seu homem. Como seu. Não ia abandonar lhe até que ele estivesse a salvo na terra dos vivos, sem vampiros e demônios rondando-o.

Manolito tentou acalmar seu acelerado coração e a onda de sangue quente que corria através de seu corpo diretamente a seu membro. O bom era que, com seu corpo quente, sua pele suave e sua total aceitação, ela tinha debilitado as vozes o suficiente para fazer dormir a fera que se elevava para reclamá-la e para deixá-lo raciocinar novamente.

Ela tinha sido consciente de seus pensamentos, mas não tinha lutado contra ele, não tinha lhe afastado. Havia esperado que ele se esclarecesse, acreditando nele ao longo de todo o proceso. Sua fé o aterrava. E se falhasse? E se o homem que ela acreditava que era não existia? Ela sensibiliava-o, humilhava-o com sua confiança nele.

Passou a língua pelas diminutas aberturas, desta vez com cuidado de não deixar marca. Uma vez já era suficiente e se assegurou que ela ainda estivesse ali para lhe recordar em sua ausência, a conexão de suas almas. Sustentou-a por um momento, com o coração palpitando. Tinham sido as vozes algo mais que uma tentação para lhe fazer mal? Haviam sentido aquelas sombras, que ela estava conectada a ele e Maxim tinha tentado atrai-la ao mundo das brumas, onde poderia matá-la?

—Deixe-me te curar perna. —Não podia suportar ver as marcas nela. Ela estava sofrendo muito enquanto ele ajudava outros. Os dedos dele deslizaram sobre os machucados da pantorrilha, dda carne rasgada e o músculo exposto pelo ferimento.

—Mas Luiz…

—Estou mantendo-o vivo. Permita-me fazer isto.

MaryAnn apertou os lábios para não protestar, dando um rápido olhar em Jasmine e Solange, esperando que não fossem testemunhas de sua reação ante a atenção de Manolito. Porque francamente, era sexual. Em meio ao sangue e o caos, seu corpo estava fazendo e pensando coisas que não deveria. Solange jazia sem mover, com os olhos fechados, mantendo a atenção absoluta de Jasmine.

Adiante então, mas apresse-se. —A voz lhe saiu estrangulada. Não podia pensar e muito e menos falar, com os dedos dele passeando abaixo e acima por sua coxa.

Ele inclinou a cabeça para sua pantorrilha, com os dedos rodeando seu tornozelo para mantê-la imóvel. O fôlego ficou preso na garganta de MaryAnn, enquanto via o cabelo negro e sedoso caindo como uma cascata ao redor de seus ombros. Podia ver seu perfil, os longos cílios e o contorno dos lábios. Ele era muito bonito para ser real. Levantou a mão para seu próprio cabelo desgrenhado. Mesmo trançado, tentava se converter numa cabeleira selvagem. A ação atraiu sua atenção para as manchas de sangue de sua blusa de seda.

Examinou com consternação sua elegante calça. Uma perna da calça estava rasgada e a bonita prega talhada em tiras. Sob ela, sua perna tinha profundas marcas. Ttão profundas que o músculo saía pelos cortes. A dor explodiu e roubou-lhe o fôlego. Por um momento acreditou que vomitaria.

Manolito.... —Pronunciou seu nome com voz entrecortada, surpreendida ante a dor que a queimava. As lágrimas encheram seus olhos. - Dói.

Sei, sivamet, mas posso acabar com isso também. —Ele achou interessante, que no momento em que sua mente se tornou consciente do ferimento, havia sentido a carga inteira da dor aguda. Já não estava compartimentada em seu cérebro, isolada de seu consciente.

Manolito carregou a dor e começou a tarefa de curar os ferimentos de dentro para fora. Quando as lacerações estiveram seladas e livres de toda infecção, voltou para seu corpo e se inclinou para inspecionar a perna de MaruAnn. Ela fechou os olhos quando sentiu sua língua passar sobre o ferimento, como uma carícia quente.

Sabia que ele tinha um agente curador na saliva e isso deveria ser fator asqueroso para ela, mas não era. Mas, um milhão de asas de mariposa revoaram em seu estômago e seus músculos se enrijeceram. O calor pulsou entre suas pernas. Ele estava provocando-a com as pontas de seus dedos, no interior de sua coxa. Algo que ameaçava sua prudência. Mas antes que pudesse perder a cabeça, ele levantou a dele, com os olhos semicerrados e embaciados de desejo.

Temos que nos concentrar em Luiz. —A voz rouca estava densa pela emoção.

Ela assentiu, incapaz de falar.

—Diga-me o que fazer para te ajudar.

Os Cárpatos não compartilhavam suas mulheres e Manolito definitivamente era do tipo ciumento, mas seu coração se compadeceu por Luiz ao perceber sua apreensão quando Manolito se inclinou para sua garganta.

- Tente mantê-lo contigo, MaryAnn, para tornar sua transição mais fácil. Temo que seu felino seja forte e não renunciará a ele facilmente. Não foi fácil obrigar-se lhe pedir, mas ele já estava firmemente fundido com o homem jaguar e o sabor do medo era amargo para um homem que tinha lutado tantas batalhas e trabalhado tão duro por sua gente. Manolito não queria que Luiz passasse de uma vida a outra num estado de ansiedade. Permitiu -se unir completamente, para acalmar o homem, mas o felino sentiu o que estava para acontecer e se enfureceu.

- Ainda existirá.

Como poderia ser de outro modo? Foste parte de Luiz durante muitos anos. Os dois são o mesmo. Isto permitirá que ambos vivam. Ele escolheu te salvar de modo que você possa salvar sua gente.

MaryAnn acariciou o cabelo do homem, com dedos persistentes, acariciantes.

- Ela toca outro homem.

- O mesmo homem que estava com ela antes.

As vozes eram demônios horrendos, prontos para escavar sua confiança nela. Escolheu olhar sua mão, sentir sua intenção... Confiar nela e não nas vozes. Seus dedos eram hipnotizantes e Manolito sentia o toque em seu próprio cabelo... Em seu próprio couro cabeludo. Os três estavam fundidos através de MaryAnn, mas ele estava seguro de que ela não tinha nem idéia do que fazia.

Estava começando a figurar que era ela. Suas capacidades eram diferentes das de qualquer pessoa que tivesse conhecido. Reunia energia e a utilizava tão automaticamente como respirar. Estendia para aqueles que estavam a seu redor, qualquer pessoa que sofresse ou sentisse necessidade de consolo, ela os sentia sem sequer saber que o fazia. Depois reunia e processava a informação sobre as pessoas, seus problemas e usava a energia para lhes dar o que precisavam em modo de esperança ou consolo.

E ela dava a Luiz sua compaixão, tranqüilizando e acalmando-o, mas a ele dava algo totalmente diferente. Companheirismo. Não o seguia como ele sentia que uma mulher devia fazer. Estava a seu lado, trabalhando com tanta energia para lhe proteger e lhe salvar do mundo das sombras em que vivia, como a que ele usava para protegê-la. Era simplesmente uma energia diferente. Uma aproximação diferente.

Ele atraiu a vida, sangue e o espírito de Luiz e os tomou em suas mãos. Cortando a mão, deu a ordem de beber e Luiz, submerso tão profundamente, não lutou. O jaguar soltou um rugido de protesto e logo permitiu que MaryAnn o acalmasse.

MaryAnn mordeu o lábio e continuou acariciando o cabelo de Luiz, tentando imaginar como melhorar a situação. Não sabia o que esperar, mas não queria que Jasmine estivesse perto se algo errado acontecesse.

—Pode ajudar Solange a ir para o quarto? — Perguntou, sem estar segura de que o jaguar estava inconsciente ou simplesmente imóvel.

A porta se abriu de repente e Riordan entrou, com o Juliette um passo atrás. Ela estava obviamente nervosa, empurrando-se contra ele para chegar até sua irmã e sua prima. Havia marcas leves no braço e na face esquerda de Riordan. Um talho de sangue. Juliette parecia ilesa, mas agitada. Um pequeno soluço escapou quando viu a quantia de sangue no chão e nas paredes, mas o corpo de Riordan a protegeu de qualquer possível dano enquanto assimilava a cena.

Solange precisa de mais ajuda? — Ele perguntou a Jasmine enquanto se afastava para permitir sua companheira se apressar ao lado de sua prima.

Temos que levá-la ára o quarto e lhe permitir mudar de volta a forma humanam. - Disse Jasmine. - Está tranqüila agora, mas com dor.

—Sinto tanto. —Juliette estava perto das lágrimas. – Tentamos chegar até aqui, mas nossos inimigos estão perto. Devem ter averiguado nosso lugar de descanso e quando tentamos nos elevar, atacaram-nos.

Manolito lançou um rápido e duro olhar a seu irmão, para assegurar-se de que o homem não tinha ferimentos que precisassem de atenção imediata. Riordan negou com a cabeça para lhe tranqüilizar.

Jasmine e eu podemos levar a Solange para o quarto, —disse Juliette, - enquanto você ajuda Manolito.

O que está fazendo? —Perguntou Riordan, embora já soubesse. Só que não queria acreditar que fosse verdade. - Perdeste a cabeça? Não podemos convertê-lo a um homem jaguar.

—Por que? —Desafiou MaryAnn. - Não têm problemas convertendo mulheres. Não era Juliette humana com um pouco de sangue jaguar?

O olhar de Riordan foi rapidamente para sua face e logo baixou até enfocar em sua perna rasgada.

Riordan? —Jasmine atraiu sua atenção de volta a ela.

Nesse momento sua expressão se suavizou.

O que acontece, irmãzinha?

—Eu pedi a Manolito que salvasse o jaguar. Se ele não tivesse vindo em ajuda de Solange, ela teria sido capturada ou assassinada.

—Um mago estava com eles. —Manolito facilitou a informação, sua fisionomia estava congelada em lúgubres linhas enquanto interrompia a alimentação de Luiz. – Ele desentranhou as salvaguardas para permitir entrar o jaguar na casa e logo entrou atrás deles e segurou Jasmine.

Juliette se volrtou, com a face pálida.

—Oh, não, era uma armadilha! Temíamos isso quando pegamos um jaguar observando a batalha. Jasmine. Você está bem?—Jasmine assentiu.

—Mas não estava atrás de mim. Ele acreditou que eu era Solange. Na realidade me chamou por seu nome. Não reagi e nem neguei, mas estava definitivamente atrás dela.

Manolito se sentou afastando-se de Luiz e passou o dorso da mão pela testa, deixando uma mancha de sangue.

—Luiz tinha sido poluído por um vampiro. Os irmãos Malinov estão colocando em marcha o plano para obter o controle. Estão destruindo a raça jaguar de dentro, tal como falávamos quando éramos jovens. Estão procurando o sangue real, mas não sei por que. Acreditei que em Juliette ou Jasmine a princípio, mas Luiz me disse que Solange é o objetivo. Um vampiro colocou uma compulsão nos homens da raça jaguar, para capturá-la e entregá-la. Ele enviou a seu irmão uma rápida recapitulação de tudo o que tinha ocorrido.

Juliette negou com a cabeça.

Solange é de sangue puro e da linha real.

Solange não pode permanecer na ilha, - disse Riordan. - Temos que levá-la ao rancho. Não será capaz de viajar.

—Ela não irá. - Disse Juliette.

—Ela falou de ir, —contou Jasmine. - Acredito que podemos persuadi-la.

—Subam para o querto, —ordenou Riordan. - Vou desfazer-me do desastre aqui e limpar tudo. - Desta vez usaremos só proteções nunca tecidas por magos.

—Queime o jaguar que matei. Estava poluído pelo vampiro e é muito provável que possa ser utilizado novamente, —advertiu Manolito. - Não quero que nossos inimigos o utilizem.

—Que plano? — Perguntou MaryAnn, examinando a face de Manolito atentamente.

Ele permaneceu inexpressivo, mas deu um rápido olhar para seu irmão.

Foi Riordan quem respondeu.

—Éramos muito jovens e nos víamos como intelectuais. Acreditávamos que podíamos fazer do mundo um lugar melhor.

—Acreditávamo-nos superiores a todos os que nos rodeavam,—corrigiu Manolito. – Todos nós tínhamos cérebros velozes e reflexos rápidos. Poucos caçadores eram melhores que nós. Quando nos sentávamos no círculo do conselho, era sempre Zacarías que apresentava estratégias para as batalhas. Sempre era um de nós quem possuía as idéias que evitassem que nossa gente se dirigisse para o desastre.

O que ocorreu? —Animou-o a continuar, MaryAnn.

Manolito suspirou e passou ambas as mãos pelo cabelo.

—Agora me dou conta de que os pensamentos de todo o mundo fluíam juntos, nos enchendo de informação. Nossos dons permitiam nossos cérebros a trabalhar rápido para desenvolver as respostas que necessitávamos. Com isso era com o que contribuíamos ao conselho, igual a todo mundo, que tinha um pouco de valor com que contribuir. Mas naquela época acreditávamos saber a direção que nossa gente podia seguir e não era a mesma que tinha decretado Vlad Dubrinsky. Ele era o príncipe então e nossas mulheres já tão poucas.

Riordan anuiu.

— Já naquela época havia pouca esperança de encontrar uma companheira. Poucas crianças sobreviviam e nenhuma era fêmea. Todos nós podíamos ver que a extinção de nossa espécie estava perto. Era questão de tempo. Muitos se resentían em serem liderados por conversas de velhos e antigos. Estávamos nos tornando um mito junto com todos outros... Os magos, os homens-lobo e os jaguares. Havia várias espécies de cambiantes, mas a maioria se extinguiu e o mesmo estava ocorrendo em todas as partes onde olhávamos.

—Queríamos salvar nossa gente, então nos sentamos com nossos amigos e traçamos planos para tomar o controle. Tínhamos que tirar os Cárpatos das sombras da extinção e de volta ao mundo. Qualquer que seguisse os Dubrinsky e lutasse a seu lado tinha que ir. Então trabalhamos com idéias sobre como poderia ser feito.

—Eram debates intelectualmente estimulantes, —acrescentou Riordan. - Não pensávamos em fazer nada com eles. —Ele estendeu as mãos a sua frente e as olhou, como se pudesse ver o sangue de sua própria gente nelas.

—Fosse o que fosse que pensavamos então, —disse Manolito, os irmãos Malinov estavam implementando esse exato plano.

Quem são os irmãos Malinov? —Interveio MaryAnn.

Luiz se removeu. Seus olhos se abriram de repente e ele deixou escapar um grito afogado. Seu corpo se retorceu, os músculos se contraíram e se contorsionavam.

MaryAnn se inclinou sobre o corpo convulso, com um pequeno som de angústia.

—Não está funcionando, Manolito.

Manolito segurou MaryAnn e a separou do homem-jaguar.

—Isto vai ser duro, aainak enyem. Ele não gostaria que você fosse testemunha de sua conversão.

Ela elevou o queixo, olhando de um irmão a outro.

—Não quer que eu seja testemunha da conversão, porque não quer que eu saiba o que ocorre, —adivinhou.

—Também, —concedeu Manolito. - Seu corpo terá que expulsar as toxinas enquanto o felino luta pela supremacia.

—A conversão de Juliete foi extremamente difícil, —acrescentou Riordan.

MaryAnn manteve o olhar fixo no de Manolito.

—Francamente acredito que posso lhe ajudar com a transição.

Riordan negou com a cabeça.

—Ninguém pode ajudar. Se pudéssemos, suportaríamos a maior parte da dor, mas não podemos. Sequer por nossas avio päläterfül, a outra metade de nossas almas.

MaryAnn estendeu a mão para Manolito. Ele imediatamente a tomou, enlaçando seus dedos aos dela.

—Posso lhe ajudar, Manolito. Reconforto as pessoas. É o que faço.

—Sinto muito, meu amor, —disse o mais brandamente que pôde. - É um risco muito grande. Ele ignora seus dons e se funde com a gente sem sequer saber. Não posso me arriscar a que possa ficar bloqueada com ele e que seu corpo falte antes que a luta esteja completa. Não me arriscarei a isso.

—Não é você quem se arrisca.

Algo escuro e perigoso cintilou nas profundezas de seus olhos. Um músculo tremulou em seu queixo, mas sua face permaneceu absolutamente inexpressiva.

Eu dito que não.

MaryAnn franziu o cenho.

Manolito, você não pode me dizer o que posso ou não posso fazer.

Ele se moveu mais rápido do que esperava. Seu corpo foi um borrão enquanto a envolvia nos braços firmes, tão fortes que não houve oportunidade dela lutar. Antes que pudesse pensar sequer em objetar, ele estava entrando rapidamente na casa. Em toda sua vida, nunca ninguém a tinha dominado fisicamente. Furiosa, MaryAnn lhe deu um chute, mas a força dele era enorme e sua vontade de aço. Não havia modo de detê-lo.

—Sinto muito, ainaak sivamet jutta.

Para sempre unida a meu coração. Ela leu isso em sua mente enquanto deslisavam través da casa para o quarto e a depositava na cama. Seus lábios lhe roçaram o cabelo numa carícia e ele a deixou, fechando a porta firmemente atrás dele.

Manolito permaneceu fora um momento, murmurando um feitiço de sujeição para manter a porta fechada embora ela conseguiria tirar as dobradiças. Ela era absolutamente capaz de tal coisa, se alguma mulher era. Ela ficaria furiosa, mas pelo bem de Luiz e de MaryAnn, preferia que não fosse testemunha do que estava para acontecer. Um sapato ressoou contra a porta, e logo outro. Sim. Ela estava bem zangada.

Manolito, Se apresse, - chamou Riordan. - Isso vai ser ruim.

MaryAnn ouviu o urgente grito de Riordan a seu irmão. Segurou o travesseiro e o sustentou contra seu estômago, sentindo-se doente. Tinha sido ela a exigir que Manolito salvasse Luiz, mas agora os tinha abandonado. Luiz estava sozinho, enfrentando uma horrível ordalía. Não sabia o que era, mas sentia que seria traumático para ele e para os dois Cárpatos.

Alguma vez antes teriam convertido um homem? Se nunca acontecera, talvez houvesse uma razão para isso. Uma boa razão. Havia sido uma imprudente ao empurrá-los a isso. Enterrou a face no travesseiro, sentindo as lágrimas descerem. Luiz ia sofrer e de algum modo sabia que Manolito sofreria junto com ele. Queria reter a fúria ante sua arbitrariedade ao encerrá-la no quarto, proibindo-lhe como se ela fosse uma menina, de ser testemunha da mudança, mas como uma parte dela seguia com Luiz e com Manolito, sentia sua agonia. Não podia conter sua ira.

Entrou no banheiro e abriu a torneira de água quente na banheira, precisando relaxar as cãibras de seus músculos. Seu estômago parecia um nó. Captava impressões de convulsões do corpo de Luiz, retorcendo-se no ar e caindo com força. Podia perceber somente brilhos e se deu conta de que Manolito estava lhe impedindo de fundir-se com ele. Tinha demorado um pouco notar o truque a sua conexão e a maioria do tempo quando tentava simplesmente não era muito boa. Mas agora parecia impossível.

Inspirou profundamente e deixou sair o ar. Não abandonaria Luiz nesta etapa, não quando mais ele precisava. Manolito estava tentando defendê-la e protegê-la, mas soubesse ele ou não, ele precisava dela também. Concentrou nele. Na sensação e textura. Nas camadas de sua mente. Na intimidade do vínculo entre eles... Um presente inesperado. Por mais que o acreditasse arrogante, agora lhe conhecia melhor. A gentileza que ele escondia ao resto do mundo. Ela via sua compaixão enquanto sustentava Luiz, sentia como ele se estendia para lhe acalmar.

Sentiu o felino arranhar e rasgar, lutando para sobreviver e logo a sensação desapareceu. Deixou escapar o ar lentamente e continuou imaginado Manolito sustentando o homem-jaguar. Captou uma pequena onda de compaixão de Riordan e Manolito e logo o felino novamente, o alarme crescendo até se converter em pânico, tentando morder enquanto se defendia do ataque do sangue Cárpato.

Caiu de joelhos, com o estômago revolto. Engatinhou, sobre mãos e joelhos pelo chão do banheiro, ofegando para respirar enquanto a dor a atravessava em ondas. Captou Manolito sobressaltado ao se dar conta de que ela estava com ele e uma vez mais a afastou com firmeza.

Havia uma agonia em estar sozinha, sabendo que Luiz estava sofrendo e Manolito precisava dela seu lado. Sentia a necessidade, mas não podia fazer nada para ajudar a nenhum deles. Manolito tinha sido inflexível, sem dar conta ou talvez sim, de que o que estava pedindo que fosse contra sua natureza. Uma vez mais afastou o medo e se concentrou em Manolito, porque nesse momento em que tinha se conectado com ele, havia sentido sua luta com o mundo das sombras. Podia ser capaz de chegar a Luiz, mas também a Manolito. A conexão entre eles era incrivelmente forte.

E então ficou solidamente em sua mente e na mente de Luiz e viu por si mesma os verdadeiros horrores da conversão. A agonia que retorcia ao homem-jaguar enquanto a morte o chamava, enquanto o felino lutava. Manolito suportava bem, experimentando tanta dor como a natureza permitia. Ambos os homens estavam estóicos, cada um completamente consciente do outro. Luiz tentando suportar tudo com grande dignidade. Manolito esforçando-se em ser compassivo e lhe reconfortar enquanto permitia ao homem-jaguar seu respeito. Nesse momento, com as lágrimas correndo pela face e o corpo retorcendo-se na dor compartilhada dos homens, soube que poderia amar Manolito completamente, com tudo o que havia em seu interior.

A atração podia ter começado com algum antigo ritual. Podia ter estado obcecada fisicamente por ele, mas enfim, tinha visto seu verdadeiro caráter. Ele estava aberto a ela enquanto trabalhava sem descanso para ajudar Luiz a entrar completamente em seu mundo e seu coração respondeu do único modo que MaryAnn conhecia... Completamente.

 

A conversão era a coisa mais espantosa que ela podia imaginar, uma escura morte e renascimento. Sabia o que Manolito pensava, vendo o que Luiz tinha passado e não estava tão seguro antes de querer arriscá-la com ela. Estranhamente, pela primeira vez considerou em arriscar tudo, porque o que tinha aprendido ali era que Manolito da Cruz era muito mais que um homem magnífico com uma atitude muito arrogante e que já estava a mais de meio caminho de se apaixonar por ele.

Fez uma trança francesa, com mãos peritas na tarefa familiar, consolando-se quando na realidade queria chorar pelo que Manolito e Luiz tinham passado. Seus irmãos acreditavam que estava louco. Ele acreditava que talvez estivesse, mas assim tinha dirigido o homem-jaguar com grande cuidado e respeito e tinha sofrido muito por isso. Soubera que ela estava ali, ajudando Luiz, apaziguando-o o melhor que podia e teria tomado alguma atitude para lhe economizar isso, mas só a tinha feito sentir-se mais perto dele.

Colocou a tanga de renda negro azulado, da diminuta argola de ouro em cada quadril que a fazia sentir sexy e valente nas piores circunstâncias. Sua saia chegava até quase o tornozelo e caía em ondas de tecido, numa queda de azul marinho que era dinamite com suas botas azuis até os joelhos. Elas moldavam seus pés como sapatilhas e sussurravam ao andar. A saia ressaltava seu traseiro empinado e arredondado, sua melhor arma e ela ia precisar com o Manolito, de cada arma que pudesse conseguir, quando discutissem os prós e os contra de sua relação. Porque tinha decidido que iria tentar.

Seu soutiem combinava com a tanga, escura e exótica, dando a suas curvas um agradável encanto e realçando a renda de sua curta blusa azul marinho sem mangas, com pequenos botões de pérolas na frente. Os acessórios eram tudo e ela possuia muitos.

Enquanto colocava os braceletes no pulso, evocou sua imagem. A forma em ele que sorria. Seu cabelo negro, ainda mais brilhante e luxurioso do que tinha notado na noite anterior. Os olhos... Oh, senhor! Esses olhos ardentes e exigentes e a boca perversamente sensual e por que demônios estava se vestindo para seduzi-lo? Estava tentando conseguir uma calma para suas emoções e estava definitivamente vestida para conseguir que ele se endireitasse e tomasse nota. Estava brincando com fogo e sabia o bastante sobre a vida para saber que não poderia chorar quando se queimasse.

A tensão na casa havia desaparecido. Deixou escapar o fôlego lentamente e se afundou na cama para esperá-lo. Podia ouvir o barulho do relógio, firme e interminável. Ele viria logo, imediatamente.

Esperou, mas os minutos passavam, o sorriso debilitou em sua face. Seus dentes se chocaram quando o... Não se atreveu a usar a palavra... Gritou. Ele não a deixaria presa no quarto, como uma adolescente voluntariosa. Seria melhor que viesse... E logo. Antes que ela perdesse sua natureza doce que a tudo o perdoava para sempre.

Andou a espreita pelo quarto e bateu na porta, com o punho.

—Vêem, homem da selva. Chega, significa suficiente. Deixe-me sair daqui.

O silêncio respondeu sua demanda. Ia matá-lo com suas mãos nuas. Suas crenças não violentas se esgotaram na selva e definitivamente, ficavam obsoletas com o homem da selva.

—Retrato-me de cada coisa boa que pensei alguma vez de você. - Gritou para a porta e a golpeou com a palma da mão, onde deveria estar o rosto dele. – Você precisa que alguém bata nessa cabeça dura.

E um bom golpe não seria o bastante. Talvez teria que idear outro castigo muito mais selvagem, embora não tinha esse tipo de imaginação. Chicotes e cadeias. Mas isso evocava botas de couro negras, com saltos agulha, meias de renda e um bustier de couro. E isso não ia acontecer, porque ele não merecia. O que precisava era da bofetada de sua vida. Esses horríveis shows de televisão com homens lutando em jaulas e um deles dando murros no outro. Esse seria o caminho a seguir, não couro, chicote e botas.

A porta abriu e os ombros de Manolito encheram o marco. Ele estava em de pé, piscando para ela, esfregando o queixo lastimosamente, com um olhar interrogador na face.

Acredito que será melhor que somente tenha pensamentos agradáveis sobre mim.

Ela abriu a boca para atravessá-lo com palavras, depois a fechou abruptamente. Ele parecia exausto. Totalmente esgotado e fatigado por seu vôo para salvar duas vidas, curá-la e manter separados os dois mundos aonde existia. Sentiu sua fadiga como um grande peso sobre seus ombros... Sobre os próprios. Sabia pelo que ele tinha passado e sabia por que tinha tentado economizar-lhe. Mary Ann colocou as mãos nos quadris e olhou-o da cabeça aos pés.

—Conseguiu se esgotar. Seu irmão lhe mais sangue? — Sentiu valente fazendo a pergunta, forçando-se a enfrentar quem e o que ele era, sem se acovardar por suas necessidades.

Um débil sorriso suavizou a dura boca de Manolito e expulsou as profundas sombras de seus olhos.

—Eu fiquei esgotado e você parece formosa, Mary Ann. Um olhar para voce e todo o resto empalidece. —Levantou uma mão. - Vêem comigo.

Ela desejava seriamente ficar a sós com ele, mas na dúvida, deu um passo atrás.

—Aonde?

—Tenho uma surpresa para você. – Ele manteve o braço estendido para ela, seu olhar fixo em seus olhos.

Deixando escapar o fôlego, ela colocou a mão na dele. Imediatamente ele fechou os dedos e a atraiu para o calor de seu corpo. Podia sentir o calor e o toque de sua conexão espalhando sobre e dentro dela.

— E Luiz?

—Está na terra, bem resguardado. Desta vez usamos salvaguardas que nenhum mago deverá ser capaz de penetrar. Demorou muito desde que tivemos entendimentos com outras espécies e ao longo dos séculos fomos nos descuidando. A recente batalha com eles deveria nos ter ensinado que devemos levá-los em conta sempre quando protegermos nossos lares e câmaras do sono. Tal engano não voltará a acontecer.

—Obrigado pelo que fez por ele.

Ele inclinou-se para lhe roçar os lábios, num toque suave e lento, não agressivo, como se simplesmente a saboreasse.

—De nada. Veremos como se sente Luiz a respeito, quando se elevar.

Manolito teria que controlar os instintos naturais de Luiz de se alimentar. Luiz tinha anos de instintos de jaguar e despertaria faminto. Se cedesse a necessidade de matar sua presa, Manolito teria que despachá-lo rápido e eficientemente, mas não queria pensar nisso agora. Queria encher sua mente só com sua companheira, MaryAnn. Não queria pensar mais no mundo das sombras, ou no mundo real, ou na confusão em que se colocara, por ver o olhar de gratidão na face de uma mulher.

—Não pode sentir dor, certo?

Manolito colocou a mão dela sob seu queixo e seuc polegar deslizou sobre sua pele numa lenta carícia.

—Não. Está a salvo. Permanecerá na terra duas ou três noites antes de se elevar e eu estarei lá para ajudá-lo tanto como possa, quando chegar o momento.

—E Solange?

Juliette e Riordan estão com ela. —Ele esfregou os dedos contra seu queixo. - A casa está limpa e protegida. Tudo está tranqüilo. Quero te levar para longe daqui e te ter somente para mim por algum tempo.

Seu coração deu um curioso salto. Mais que tudo, queria estar com ele. Vestira-se com cuidado e cercionado em parecer mais bonita que nunca para ter o valor de enfrentar a ele e o que fosse que havia entre eles, mas agora que ele estava diante dela, com melhor aspecto do que qualquer homem tinha direito a ter, não estava segura de que estar a sós fosse a idéia mais inteligente. Ele era muito sexy e atraente. Não queria se relacionar só fisicamente e seus novos sentimentos a faziam sentir-se mais vulnerável que nunca.

—Acho minha companheira absolutamente fascinante e eu gostaria muito chegar a te conhecer. – Ele crescentou. Não houve empurrão para que ela o visse a sua maneira. Não houve ordem, nem petição. Sua singela declaração tinha um selo de verdade e atravessou cada defesa que possuía.

—Está seguro de que não deveria comprovar Jasmine e Solange? Vim aqui para tentar ajudá-las e não tenho feito muito.

—Ajudou a lhes salvar a vida, - ele disse, atraindo-a brandamente sob seu ombro. - Solange descansa e Juliette está com sua irmã. – Manolito espirou, levando seu aroma profundamente aos pulmões. – Preciso... - Sua voz resultou áspera pela fome. Seus olhos negros ardiam carregados de luxúria.

Ela assentiu, com o coração palpitando com força. Sua pulsação parecia martelar através de todo o seu corpo, ondulando os músculos e endurecendo seus mamilos, fazendo-a sentir dolorida. Sua boca secou e ela tocou os lábios com a língua, ofegando quando o olhar masculino seguiu atentamente a ação.

—Não estou segura que seja seguro.

—Nenhum dano te sobrevirá, —prometeu ele, com a ponta do polegar traçndo o atalho que sua língua tinha seguido, delineando seus lábios com uma carícia de calor. - Não enquanto esteja comigo.

—Você... —MaryAnn não podia respirar, permitir que saíssem as palavras. – Você... Você não é seguro. Tenho esta louca reação a ti. —Era melhor ser honesta e deixar que ele soubesse. - O caso é que estabeleci regras para mim há muito tempo.

—Regras? —Suas sobrancelhas se arquearam interrogativamente, mas seu olhar estava ainda em seus lábios.

—Para mim e para os homens. Simplesmente não me deito com nenhum. —Não estava se saindo bem porque honestamente não podia pensar com ele olhando-a assim.

—Agradeço suas regras.

Havia uma débil curva em sua boca, que só lhe acrescentava encanto. Como podia explicar que se sentia como se sua dignidade e anos de contenção estivessem a ponto de sair voando pela janela? Se ficasse a sós com ele, ia fazer todo o possível para seduzi-lo ou simplesmente lhe rogar que a empurrasse contra a parede mais próxima e a tomasse.

Nunca tinha desejado uma relação com um homem que fosse cômoda. Gostaria de sentir uma paixão que a consumisse toda ou nada absolutamente. Então, resignou a nada de nada. Fantasiava uma relação com um homem que pudesse lhe inspirar ardentes e eróticos toques de eletricidade, andar com ele em público senada absolutamente sob o vestido ou dançando com ele sob uma neblina sensual numa festa, as mãos movendo sobre sua pele, sabendo e necessitando, que não poderiam chegar em casa antes de sucumbir ao desejo de um pelo outro. E agora aqui estava, cada fantasia com a qual sempre tinha sonhado.

Mary Ann estava quase segura de que Manolito da Cruz era o homem. Ele exudava sensualidade. Em cada olhar e gesto, na postura de seus ombros, na largura de seu peito, na forma em que seus quadris se estreitavam e a evidente e impressionante protuberância de sua calça jeans. Seus olhos estavam semicerrados e nublados de luxúria. E essa fome crua fazia com que seu coração palpitasse e que seu corpo se derretesse. A verdade era, que em cada fantasia, o homem havia sido selvagem com ela e profundamente apaixonado. Uma coisa sem a outra não era aceitável para ela.

—Se for sozinha contigo outra vez Manolito, não estou segura de que possa viver comigo mesma depois.

—Não te farei nada com o qual não possa viver.

Pelo som de sua voz, ele esperava lhe fazer coisas sem as quais não poderia viver e isso era exatamente o que temia. Porque também ela desejava essas coisas. Queria que ele lhe ensinasse todas as coisas com as quais tinha sonhado, queria pertencer a ele, tê-lo amando-a, lhe mostrando que as coisas que havia em sua mente podiam ser reais, não só imaginárias.

—Não está me permitindo entrar em sua mente.

Havia dor em sua voz? A última coisa que queria era lhe ferir.

—Não sei como te deixar entrar ou sair de minha mente. Honestamente não tenho a menor ideia de por que todos vocês acham que sou psíquica. Jasmine acredita que a salvei do mago. O vento era forte demais e um galho rompeu e caiu sobre ele. Eu não fiz aquilo. Como poderia?

De algum jeito estava muito agradecida de que ele não pudesse entrar em sua mente. Nunca entraria se ela tinha algo a dizer a respeito. O que menos precisava era que lesse suas fantasias, então teria mais problemas do que podia imaginar... Possuía uma imaginação muito vívida quando se referia a sexo.

Os olhos escuros de Manolito vagaram possessivamente por sua face.

—Vêem comigo, Mary Ann. Deixe-me te mostrar meu mundo.

Não deveria ir. Estaria pedindo problemas se fosse, mas suspirou. É obvio que iria com ele. Iria porque tinha perdido o juízo, porque ainda podia saboreá-lo em sua boca e sentir suas mãos em seu corpo e lhe doía por dentro, por ele.

—Levarei o spray pimenta.

Um débil sorriso enviou diminutas chamas de excitação a seu corpo, que lamberam seus seios e desceram para seu ventre, dançando pelo interior de suas coxas até que sentiu um calor abrasador queimar seu cantinho mais feminino. Deixou escapar o fôlego, sentindo-se como se acabasse de pular de um precipício.

—Não esperaria nada menos que o spray pimenta, —respondeu ele com a voz matizada de diversão.

A pequena nota de humor, que suspeitava ser estranha nele, só lhe acrescentou encanto. Levantou o olhar e se perdeu na absoluta intensidade do que viu nos olhos dele... Por ela. Nada... Ninguém... Existia para ele, exceto ela nesse momento.

Com deliciosa gentileza, ele envolveu-a nos braços e a atraiu lentamente contra seu corpo. Sua pele estava quente e cheirava. Seu cabelo negro lhe acariciou a face enquanto a levantava, deslizando o corpo contra o dele para que ela pudesse sentir sua ereção pressionando firmemente seu corpo suave.

—Coloque os braços ao redor de meu pescoço e suas pernas ao redor de minha cintura. Se ainda tem medo de voar, pressione sua face contra meu pescoço para que não possa ver nada. Confie em mim para cuidar de você, Mary Ann.

Havia uma nota terrivelmente íntima no tom aveludado de sua voz, prometendo e comovendo-a completamente, como se o pecado vivesse e respirasse nele e a envolvesse com nada mais que paixão. O duplo sentido enviou um tremor de desejo por seu corpo. Mary Ann era toda controle, e este homem iria descontrolá-la. Sua pulsação seguia o ritmo da dele. Seu coração seguia o mesmo pulsar. A tentação de saborear o proibido era tão forte que permitiu que as mãos se enredassem por um momento em seu sedoso cabelo, absorvendo a textura, sentindo sua sacudida.

Fechou os olhos quando seus pés deixaram o chão. Ele tirava-lhe o fôlego tão facilmente, sacudindo-a, que esquecia ser Mary Ann a conselheira e se convertia inteira e completamente na Mary Ann, a mulher. Seu pescoço era quente e convidativo e afastou a camisa dele com o nariz, para poder descansar a face contra sua pele. Seus lábios se moveram contra ele, saboreando-o, porque podia. Porque quando o fazia, um estremecimento de prazer sacudia seu o corpo forte.

A noite era surpreendentemente cálida. Enquanto ele a levava através da selva, podia ouvir que todos os sons cessavam, como se os animais, pássaros e insetos se advertissem de sua presença. Um estremecimento desceu por sua espinha quando compreendeu que eles pressentiam um predador. Era impossível não se sentir viva com ele, que criava energia, sensual e excitante, sobretudo perigosa e a envolvia em seu voraz apetite sexual e sua necessidade elevava suas próprias necessidades e desejos.

Mas tudo isso, olhares e sensualidade, não colocava maior risco para sua virtude, mas por que ele era um bom homem e seu coração respondia com a mesma paixão que seu corpo. O maior risco era lhe permitir entrar em seu coração. Entregaria-o rapidamente, sem pensar nas conseqüências, por que nenhum outro traço num homem poderia atraí-la tanto. Ele era absolutamente honesto em tudo e isto a atraía também. Mostrava-lhe vulnerabilidade quando lhe contava que via e ouvia coisas de outro mundo. Permitia-lhe entrar em seu interior, sem reservas.

- Igual a você, que abre sua mente a minha.

Ela se sentia quente, como se estivesse envolvida em veludo.

—Verdade?

Se abria, não tinha pensado no perigo de expor sua mente. Só seu coração. Manteve a face enterrada no pescoço dee sentindo-se segura enquanto se moviam através do céu.

- Olhe agora, Mary Ann.

—Tenho medo de alturas.

Tinha medo de que se encatasse com o que ele estava lhe mostrando. Medo de amar este homem e mudar sua vida... Uma vida pela qual havia trabalhado duro... Para sempre. Realmente desfrutava de seu pequeno ninho. Sabia que ajudava os outros. Era boa nisso e gostava de sua independência. E esta... Tão espantosa dentro dela, que a aterrorizava e que mantinha fechada. Mas se sentia atraída por este homem. Na cidade, rodeada de pessoas, de pressa e do ciclo da vida, essa “coisa” permanecia calada e sob controle. Aqui, com este homem, podia senti-la estirando e estendendo-se dentro dela, ansiosa por liberdade. E ela não se atrevia a deixá-la livre.

Os lábios dele lhe roçaram a cabeça.

- Não terá medo, prometo-lhe. Verá meu mundo com meus olhos.

MaryAnn fechou os olhos brevemente e se apertou mais contra ele. Era exatamente o que temia. Não queria ver a beleza da selva tropical. Queria ver insetos insetos desagradáveis que picavam e sanguessugas. Tinha sanguessugas também, sabia. Quando olhasse, não poderia deixar de pensar nelas. Era a única forma que lhe ocorria de ficar a salvo. Armada com a imagem de um inseto enorme, gordo e que chupava sangue. Levantou a cabeça cuidadosamente e olhou ao redor.

Estavam na copa de uma enorme árvore. As trepadeiras se cruzavam rapidamente sob eles, para formar uma plataforma sólida. As trepadeiras continuaram retorcendo-se e escalando, acrescentando um sólido corrimão para que pudessem caminhar nas copas das árvores e sentir-se como no telhado de sua casa da cidade. Lentamente ele a deixou sair de seus braços, observando-a virar o rosto para o céu.

Mary Ann recuperou o fôlego e olhou ao redor. A névoa parecia diamantes caindo de um céu de meia-noite. As estrelas se dispersavam e brilhavam, diminutos cristais brilhavam por toda parte aonde olhasse. Voaram tão alto, que sentia como se pudesse tocar a lua. Esta não estava perto de ficar cheia, mas era uma visão mágica. Cruzou o corrimão, apegando-se firmemente com as duas mãos e olhou para baixo. Viu copas de outras árvores, folhas brilhando prateadas em vez de verdes, galhos formando caminhos para animais, ondulação de asas, os raios de lua captando as cores das plumas enquanto os pássaros pousavam para passar a noite. Brincos de névoa dentro e fora dos troncos das árvores, acrescentando mistério e beleza.

Virou-se para ele, descansando contra o corrimão enquanto bebia-o. Ele pertencia à noite. Um senhor ou um príncipe. Os ossos fortes davam a sua face uma aparência nobre, masculina e a boca cinzelada tinha um toque de sensualidade ao mesmo tempo que crueldade. Ele era perigo e paixão. Pressionou a mão contra o estômago para acalmar as sensações de asas de mariposa que a tomava.

—É formoso, Manolito. Obrigado por me trazer aqui.

Não havia aroma de sangue ou morte e nem horror nos olhos de uma jovenzinha. Estavam somente, noite e Manolito.

Sorriu-lhe.

—Sinto a névoa, mas não faz frio e minhas roupas não estão úmidas.

—Sou Cárpato. Posso controlar essas coisas. — Ele ondeou uma mão e as folhas começaram a emaranhar-se com as flores, formando uma sólida, suave e convidativoa cama.

Seu coração bateu forte, com espera.

—Por que está com o cabelo recolhido numa trança tão apertada? É formoso, com todos esses cachos e ondas, com sua cor brilhando a luz da lua. Solte-os.

—Tenho cachos naturais, Manolito. Com este tempo meu cabelo ficaria imenso, encrespado e sem estilo. Ficaria com sérios problemas.

—É selvagem e formoso. —Seus dedos já estavam ocupados soltando-os.

—Você não entende. Selvagem o descreve muito bem. Poderia usar toneladas de produtos para mantê-lo em seu lugar, mas a névoa os faria cair em meu rosto e meus olhos. Formaria uma confusão imensa. Deixe-o. —Tentou soar dura, mas era impossível com a sensação de seus dedos lhe soltando o cabelo da trança. Só conseguiu soar ofegante.

—Eu gosto de sua saia. Obrigado por vestí-la para mim.

E ela havia colocado para ele. Estava revelando muito de si mesmo, mas não podia ser menos honesta do que ele era. A saia e a blusa não eram só bem femininas, mas também a fazia sentir-se sexy e desejável. Queria que ele a visse assim.

—É uma de minhas favoritas. —Era essa sua voz? Soava mais sedutora que ele e não queria isso. Queria conhecê-lo. Queria uma oportunidade para... Tudo.

Seu cabelo estava livre da trança, flutuando ao redor de sua face e ombros. Ele estendeu a mão por baixo do cabelo para lhe alcançar a nuca e seu polegar deslizou sobre a pele, como se saboreasse a sensação. Havia uma inesperada ternura em seu toque. Podia sentir o calor por todo seu corpo. De repente era difícil respirar.

—Dói-te a perna?

A lembrança de sua boca na perna, a sensação de sua língua lhe acariciando a pele, enviou outra onda de excitação a seu corpo. Negou com a cabeça, temerosa de falar, enquanto o polegar dele acariciava sua orelha e provocava um calafrio em sua espinha.

Deite-se comigo. Olhe as estrelas enquanto conversamos.

Não estava segura de que pudesse falar quando se deitou na cama. Não sem balbuciar, sem implorar seu toque.

Deitou-se com cautela na cama de folhas e flores, tentando manter a imagem das sanguessugas em sua mente, mas as flores exalavam um perfume tão maravilhoso e a cama era tão suave como o melhor colchão no qual já se deitara.

Como tinha medo, sentou-se.

Manolito segurou sua perna entre as mãos, baixou o ziper da bota e a tirou.

—Deve também ficar cômoda, Mary Ann.

Havia uma ordem no firme toque de seus dedos, mas gentileza em sua voz. Ela não se opôs. Simplesmente permitiu que lhe tirasse as botas e as colocasse de lado, assim pôde encolher os joelhos. Ele lançou-lhe um sorriso débil e zombeteiro e se estirou na cama, enlaçando os dedos atrás da cabeça.

—Acreditei que teria medo daqui de cima —Ela admitiu, para romper o silêncio. Para encontrar um assunto seguro.

—Tem medo.

—É uma situação incomum. —Olhou-o por cima do ombro.

Ele estava deitado como uma oferenda, casual, preguiçosa e enganosa quando ela podia sentir o calor irradiando de seu corpo, a ondulação de músculos e a protuberância que ele não se incomodava em esconder. Seus traços estavam marcados com um cru desejo, seus olhos a devoravam.

Ele baixou um braço a seu lado, fechando os dedos contra sua coxa, acariciando-a através da fina seda azul marinho.

—Sou seu companheiro Mary Ann, seu marido. Não há necessidade de temer as coisas que quero de ti. Como seu cabelo e sua pele e o que seja que more dentro de ti, o que há entre nós é tão natural como respirar.

—Não o conheço o bastante bem para te dar esse tipo de confiança. Uma mulher como eu precisa confiar num homem completamente para entregar-se a ele como você me está pedindo.

—Não pedi... —Havia um débil sorriso em sua voz.

Por um momento ela pensou que ele ia dizer que não a desejava, mas então se deu conta que queria dizer que exigiria o que queria dela. Esfregou o queixo com os joelhos, contemplando a possibilidade de instruí-lo nas leis humana.

Os dedos ao longo de sua coxa coberta pela saia, continuavam deslizando abaixo e acima, em hipnotizadoras carícias.

—Não sou humano, sivamet e mais que nenhuma outra coisa desejo dar prazer a minha mulher. O que tem de mau nisso? — Ele soava genuinamente desconcertado.

Talvez eu não queira isso.

Sua risada foi baixa e sexy, brincando por seu corpo como acarícia hipnotizadora de seus dedos.

—Mas você quer. É o que mais teme, mas também o que mais deseja. Como sei que está sob meus cuidados, não há razão para negar o que quer... Ou necessita.

—Temo que levará algum tempo. —Seu toque era ligeiro, mas a seda quente contra sua pele fazia com que os músculos reagissem em reação.

—Não acredito, Mary Ann. Quando estiver sob de mim, quando meu corpo estiver dentro do teu, confiará em mim mais que quando estamos separados.

A cor subiu por seu pescoço até sua face antes dela poder controlar. Não podia negar. Faria tudo o que ele lhe pedisse. Isso e mais. Mas isto era muito. Umedeceu os lábios secos com a língua.

—Ainda não estou preparada.

—Bastante justo.

Sua resposta foi tão inesperada que ela virou para olhá-lo. Foi um engano. Seus olhos negros brilhavam com posse, com crua luxúria.

Ele mostrou o colchão de flores.

Deite-se a meu lado. Conversaremos, então.

Não havia nenhuma compulsão em sua voz, pelo menos ela não acreditava, mas se encontrou –deitada a seu lado. Coxa com coxa. Quadril com quadril. Olhou fixamente para o céu e observou a névoa cintilando sobre eles e procurou um assunto que lhes permitisse uma verdadeira conversa, que pudesse revelar mais quem e o que era ele.

—Você gosta de viver aqui?

—Cheguei a chamar esta terra de meu lar. Adoro tudo nela. A selva, a fazenda de gado, as pessoas e inclusive os cavalos. Ele não era o melhor dos cavaleiros quando começam com o rancho. —Riu brandamente ante as lembranças. - Não tinha pensado nesse assunto há anos. Não sabíamos nada de nada, mas queríamos aparentar sermos humanos. Felizmente, tínhamos a família Chavez para nos ajudar. Nós tínhamos dinheiro e eles o conhecimento. Trabalhamos juntos após.

—Eu teria gostado de ver seu primeiro passeio a cavalo.

—Não passei muito tempo na sela. Queria ser todo macho como os irmãos Chavez, então não utilizei minha mente para controlar o cavalo.

Ela relaxou um pouco, a risada borbulhando.

—Oxalá eu tivesse aqui.

As pontas dos dedos dele acariciavam a forma de sua coxa.

Alegra muito que não estivesse. A menos que tivesse controlado o animal para mim.

—Teria sido interessante e muito tentador, embora não tenho idéia de por que pensa que tenho habilidades psíquicas.

—Porque as tem.

—Se as tenho, como é que não sou consciente disso, mas outros sim? O que faço exatamente, psiquicamente?

Os dedos uma vez mais começaram uma carícia tranqüilizadora através da seda da saia.

—É na realidade bastante poderosa. Reúne energia e a usa quando precisa. Acredito que esteve fazendo assim durante toda sua vida, provavelmente desde que era menina, então é normal para ti. Completamente natural. Como seu cabelo. —Sua mão deslizou até os intrigantes cachos. Acariciou brandamente, o bastante para que ela o sentisse em seu couro cabeludo.

Ela sentiu o toque através de seu corpo, um calor que não podia negar ou controlar.

—Eu não faço isso.—Não podia acreditar que fizesse. - Como usaria algo que não conheço? Como funcionaria?

A mão dele deslizou de seu cabelo até seu braço e a mão. Rodeou-a ligeiramente como se seus dedos fossem um bracelete vivo.

—Se soubesse isso, päläfertül, nunca teria que voltar a me preocupar em vê-la jogando-me sobre meu traseiro.

—Não o fiz.

—Fez, sim. – Ele levou sua mão aos lábios e a mordiscou levemente. - Foi uma boa sacudida, além disso. Senti-me orgulhoso de ti, logo que assimilei o fato de que minha mulher tinha me esbofeteado. —A língua dele acariciava a palma de sua mão, aliviando a diminuta mordida.

—É muito oral, verdade? —Disse, tirando sua mão. Ele não a soltou e a sensação da boca dele, quente e úmida, fechada firmemente sobre seu dedo provocou chamas que dançaram sobre sua pele, até chegar a seu sexo já abrasivo.

—Muito. – Admitiu ele e sua voz desceu de tom, seu olhar negro queimava através do fino material de sua blusa, seus seios cheios, enquanto estes subiam e desciam sob ritmo rápido de sua respiração.

Lambeu os lábios e suprimiu um gemido quando a olhou para sua boca.

—Alto aí, Manolito. Realmente quero averiguar como posso ser psíquica. —Porque estava perdendo rapidamente a capacidade de pensar.

—É obvio que você é psíquica. Pode ler as pessoas e sabe exatamente o que lhes dizer para ajudá-las a encontrar seu caminho.

Ela riu.

—Esperava uma autêntica revelação, não uma fantasia. Fui para universidade por muito tempo, para chegar a ser conselheira. Se for ou não boa, não tem nada a ver ser psíquica. Sou treinada e tenho muita experiência.

—É capaz de se introduzir em suas mentes. Você Acha que é instinto e talvez essa seja outra palavra para definir seu talento. Atua com muita intuição. —Ele girou sua mão e lhe mordeu suavemente os dedos. - Poderia usar um pouco de instinto agora mesmo.

—Não acredito que a habilidade psíquica seja boa se não souber como usá-la. - Protestou ela. Se realmente tinha algum talento, seria genial, mas não se não pudesse esgrimi-lo apropriadamente. - Posso me conectar contigo por essa coisa do sangue, mas não posso fazer muito mais, na realidade.

—Faz muito bem com seu poder. Expulsa pessoas de sua mente a vontade. Poucas pessoas podem fazer isso, Mary Ann. É uma habilidade intrigante. —Deixou cair sua mão entre os dois outra vez, os dedos lhe segurando a saia.

—De onde vem?

—De muitas fontes. Acredito que todas as sociedades tinham alguns poucos que possuíam habilidades para manipular energia. Algumas espécies eram mais fortes que outras, mas uma vez que começaram a se misturar, com o passar dos anos, encontra ambos os casos. Ou um talento assombroso ou nenhum absolutamente.

Fazia sentido.

Sentia as pontas acariciadoras de seus dedos que recolhia a saia mais acima para expor a pele da perna próxima a ele. Permanecia junto a ela, olhando as estrelas, mas sua mão deslizava sob o material de seda, para se mover através de sua coxa e quadril, moldando suas curvas.

Tudo nela estava imóvel. Cada músculo se apertava em resposta ao esse toque ligeiro.

O que está fazendo?

Te memorizando. Você tem a pele muito suave. É duro não tocar em você.

Ele não se estava esforçando muito, pelo que podia ver. Umideceu os lábios outra vez e tentou se concentrar na conversa.

—Conheceu a gente do jaguar quando ainda havia muitos deles?

—Os cambiaformas, especialmente os jaguar ou os homens-lobos, foram sempre sociedades reservadas. Mantinham-se por si mesmos. Todos tínhamos uma vida e a vivíamos com a filosofia de viva e deixe viver. Então não nos misturávamos a menos que alguém cometesse crimes em nossos territórios. Cárpatos, magos e humanos estavam muito unidos. Os outros permaneciam longe de nós ou uns dos outros. Os outros cambiaformas desapareceram tão rápido que agora não são mais que uma lembrança. Era óbvio que se a sociedade não cuidava de suas mulheres e crianças, seria impossível a continuação da espécie, mas os jaguares se negaram a reconhecer ou aprender com os enganos que outras espécies cometeram. Queriam manter seus instintos animais e viverem livres.

Ela ficou quieta durante um longo momento, olhando a névoa brilhante e a revoada e o baile dos morcegos enquanto caçavam insetos no céu noturno. Havia uma espécie de beleza e paz no estranho balé que eles realizavam. Deitada ali, podia entender porquê algumas pessoas preferiam a selva, que a cidade, especialmente se estavam com um Cárpato que podia fazer com que os insetos e a chuva jamais os tocassem.

—Foi difícil viver através de tantas mudanças?

Ele devia ter visto tanto. Aprendido e sofrido tanto.

—A longevidade é uma maldição e uma bênção. Você vê pessoas que lhe importam vir e partir enquanto você permanece inalterável. A guerra é igual. Pobreza, ambição e avareza. Mas há tantas maravilhas, Mary Ann. Há maravilhas que fazem que o resto valha a pena. — Ele virou a cabeça e seu escuro olhar era líquido à luz da lua. Ela era para ele, uma maravilha. Um milagre. Não fazia nem idéia. Captou um brilho de seus pensamentos quando ele lhe abriu sua mente. Não entendia porquê um homem como ele podia olhar para ela ou se permitisse desejar passar uma eternidade com ela. Não tinha idéia de sua própria tração, da luz com a qual brilhava.

Tudo nela o chamava. Ela era valente, embora não se visse assim. Possuia mais compaixão que qualquer outra pessoa que conhecera. Freqüentemente e com grande risco ajudava os outros. Havia inocência nela, embora seus olhos fossem velhos. Tinha visto o pior da vida, mas se negava a perder a esperança.

O que está procurando?—Inclinou o queixo para ele.

—Aceitação. —Não pensava esconder. Nunca o faria, não de sua companheira. Precisava isso. Que ela pudesse lhe ver, completo. Queria permanecer de pé diante dela com todos os seus defeitos e saber que ainda assim ela poderia aceitar quem era. Isso nunca antes tinha importado. Agora a aceitação era tudo.

Esfregou a ponta dos dedos pela pele resplandecente. Nunca havia sentido nada tão suave e convidativo. Parecia um milagre... Outra maravilha da vida... Ser capaz de tocá-la como fazia. Ficar a seu lado com as estrelas no alto e conversar tranqüilamente.

—Diga-me seu pior defeito.

Os dentes brancos cintilaram à luz da lua.

Acredito que deveríamos começar com algo bom.

—Se começarmos com o pior acabaremos com isso rápidamente. Saberemos o que é e se podemos nos ocupar disso. Eu sou teimosa. Não só um pouquinho. Sou realmente teimosa. Eu não gosto que me mandem.

—Eu sempre tenho razão.

A suave risada excitou seu membro como uns dedos acariciadores. Tinha esquecido ou talvez nunca o tinha experimentado o perfeito prazer de estar com uma mulher que podia lhe excitar como ela fazia. Podia ouvir sua risada todo o tempo e nunca se cansar.

—Isso é o que você acha.

Sei.

—E esperas que todos façam o que você diz, porque tem razão.

—É obvio.

Ela envolveu uma mecha de seu cabelo ao redor do dedo.

—Já que estamos contando segredos, você se irrita que o chamem Manolito em vez de Manuel? Sei que o diminutivo se usa freqüentemente para jovens em vez de homens, em alguns países.

—É um apelido afetuoso de meus irmãos. Não me importa e nunca me importou o que pensem os outros, somente que aqueles que amo e me aceitam. Incomoda-te?

Manolito em outros países é um nome muito comum, nada mais. Cheguei a pensar que é um grande nome, com um formoso som. É agradável saber que seus irmãos brincam contigo, com afeto.

Moveram sombras nas profundezas dos olhos dele.

Nicolas e Zacarías não encontraram suas companheiras. Só têm lembranças de emoções e é mais difícil mantê-las a cada noite que passa.

—Sinto muito, Manolito. — Ela podia sentir sua preocupação.

—Agüentarão porque devem. —Sua mão lhe acariciou a face—. Diga-Me que acontece, MaryAnn. Posso ver que está incomodada.

Ela pensou, apertando os lábios, depois suspirou.

—O que há dentro de mim me assusta como o inferno.

Galhos se balançaram por algo mais que os pássaros. Podia ver pequenos corpos peludos reunindo-se para passar a noite nas árvores. A maioria deles se congregavam num lado da árvore, em frente dela, enquanto alguns poucos macacos se assentavam em galhos ao lado de Manolito.

—Não pode ser nada mas que o que é, ainaak enyem. Nunca tenha medo do que há dentro de ti. Eu não tenho.

Seus olhos se encontraram.

—Deveria.

 

Manolito sentiu sua repentina tensão. Segurou o queixo com dedos gentis.

—Por teria que ter medo do que há dentro de ti? Posso ver sua luz brilhante, luminosa. Nunca deve temer nenhuma parte de ti.

Ela baixou a cabeça para que a massa de cabelos caísse ao redor de seu rosto.

—Talvez não me veja tão bem como deveria.

—Então me conte.

—Não se o que te dizer. Como explicá-lo. Não posso vê-lo, somente sinto e isso assusta demais.

Manolito ficou em silêncio um momento, tentando encontrar uma forma de ajudá-la a confiar nele. Era seu desejo. Não que o escondesse intencionadamente, mas lutava por encontrar as palavras para algo que sabia ou suspeitava e inclusive, que não estava pronta para isso.

—Me fale de sua infância, —disse Manolito. Seu escuro olhar a sustentou e a voz foi aprazível.

Ela parecia incomoda, separando-se ligeiramente dele.

Tive uma infância normal. Você acreditaria que foi aborrecida, mas a desfrutei. Meus pais eram geniais. Minha mãe era médica e meu pai tinha uma pequena confeitaria. Cresci trabalhando ali e ganhando a maior parte do dinheiro para minha educação. Não tive irmãos nem irmãs, então era um pouco solitária, mas tinha muitos amigos na escola.

O olhar dele vagou por seu rosto, notando seus olhos, a pulsação frenetica em seu pescoço.

—Aconteceram coisas inexplicáveis. Fale-me disso.

O coração começou a trovejar em seus ouvidos. Sentia que o ar ficava preso em seus pulmões. Não queria pensar nesses momentos, e houvera grande quantidade de incidentes inexplicáveis. MaryAnn se afastou para ele não tocar seu corpo, se por acaso podia lê-la. Sentiu que algo mudava em seu interior, algo que se movia e a acotovelava.

- Precisa de mim? O que acontece?

MaryAnn ofegou, mordendo com força o lábio e tratou de empurrar a verdade para o abismo profundo que nunca enfrentou. Fora, na selva, onde tudo era selvagem e era matar ou morrer e enfrentava inimigos que lhe eram desconhecidos em seu mundo seguro, não podia já seguir contendo esse outro ser que se desdobrava em seu interior.

Manolito permaneceu imóvel, sem mover um só músculo, sentindo sua repentina retirada, não só dele, mas tambem de algo que havia estado o bastante perto, como se fosse para que ela o visse. Ela havia voltado a fechar de repente a barreira impenetrável entre eles, para impedir que ele visse. No momento em que ela o retirou de sua mente foi consciente daquele outro mundo no que ainda estava.

As cores a seu redor decaíram significativamente e o ruído da selva desapareceu até que o silêncio lhe rodeou. Seu olfato era agora mais agudo, como seu ouvido. Não só podia detectar a posição dos animais e pássaros a seu redor, mas também conhecia suas posições exatas. Não precisava se conectar com suas mentes para ver o que o rodeava, seus ouvidos e nariz lhe proporcionavam a informação. Quanto mais ficava na terra das sombras, mais agudos se tornavam seus sentidos... Bom, quase tudos. Sua visão parecia diferente, familiar como quando se convertia num animal, mas mesmo assim captava o movimento imediatamente. Simplesmente não gostava dos tons cinzas. Eles lhe recordavam muito os séculos de escuridão.

Fechou seus dedos ao redor dos dela e os sustentou com força. Não tinha sido vagamente consciente da terra, da névoa reptando até sua mente e sua visão desde que tinha enviado a Luiz para a terra, mas ela havia ficado na distância, como se estivesse mais perto do mundo em que MaryAnn vivia. Agora, sem sua mente conectada a dela, onde quer que olhasse o cinza consumia as cores.

Manolito apertou sua mão em gesto consolador, embora não estava seguro de quem pretendia tranqüilizar.

—Está a salvo aqui comigo. Qualquer que seja seu medo compartilhe-o comigo. As cargas pesam menos quando são compartilhadas.

Ela estava pendente de cada seu detalhe nesse momento e ela tinha muito medo. Ouvia seu coração, via o frenético batimento de seu coração e de sua pulsação. Tinha insistido em ficar com ele, negando-o a lhe deixar sozinho no prado de névoa, mesmo insegura a respeito dele. Queria que ela soubesse que não faria menos por ela.

Ela sacudiu a cabeça como se fosse começar a falar, obviamente não desejava recordar o incidente ou falar dele em voz alta, mas quase se sentia compelida a compartilhar, necessitando pelo menos que alguém soubesse que não estava louca.

—Houve uma vez, quando estava no Instituto, fui ao ginásio de esportes. Meus pais queriam que praticasse algum esporte, mas eu não tinha interesse. Era uma garota muito feminina, sempre tinha sido, mas meu pai pensava que se eu me interessasse pelo esporte, me sentiria menos inclinada a seguir as últimas tendências da moda.

Manolito permaneceu em silêncio, observando as sombras cruzar sua face, esperando-a que ordenasse seus pensamentos para que lhe contasse a história completa, não a versão abreviada.

—Cheguei à pista de corridas e me pus a correr. A princípio só podia pensar em que ia cair ou me tropeçar e humilhar mim mesma. Mas então se esqueci de quão incômoda me sentia correndo e me senti… Livre.— Ela deixou escapar o fôlego, obviamente recordando a sensação. - Não era consciente do que fazia, mas deixei para trás todos e corri sem pensar. Não sentia nenhuma dor, só uma espécie de euforia.

Ele levou sua mão aos lábios e beijou as pontas dos dedos.

—Não se detenha, sivamet. O que mais sentiu? Obviamente foi algo que te impressionou.

—A princípio foi maravilhoso, mas então comecei a notar coisas... – Ela retirou sua, como se não suportasse despir sua alma enquanto ele a tocava. – Meus ossos começaram me doer, as articulações a ranger e arrebentar, os dedos me doíam... – Ela esfregou-os recordando claramente a sensação. - Minha mandíbula vibrava e eu tive a sensação de me estirar, mais e mais. Podia ouvir os tendões e ligamentos estalarem. Corria tão rápido que tudo a meu redor se tornou impreciso. Minha visão mudou, o ouvido e o olfato eram muito agudos, podia dizer onde estava cada um dos corredores atrás de mim. Onde estavam exatamente, sem olhar. Podia ouvir suas respirações, o ar sair e entrar de seus pulmões, podia cheirar o suor e ouvir os corações pulsando.

Como poderia lhe explicar o que tinha acontecido esse dia? Como havia sentido algo mudando, crescendo e lutando para sair dela. Por ser conhecido e reconhecido. Desejava sair. Umedeceu os lábios e apertou com mais força sua mão.

—Fui diferente naquele momento, completamente diferente e mesmo assim igual. Podia saltar obstáculos sem me deter. Cada sentido estava vivo em mim. Meu corpo estava… Cantando, como se estivesse vivo pela primeira vez. Não posso explicar como me sentia. Cada sentido bem aberto e recolhendo informação. E depois começaram a fluir em minha mente. Visões que não podia deter ou lhes dar sentido.

Manolito levou a mão dela até o peito num esforço em reconfortá-la. Ela não entendia que se agitava e que seu estado mental afetava os macacos nas árvores circundantes. Asas se deslocavam ar no alto enquanto os pássaros permaneciam nos galhos, gorjeando com ansiedade. Deslizou a ponta do polegar sobre o dorso da mão dela e sentiu os duros nós sob a pele enquanto sua tensão crescia.

O que viu? —Fosse o que fosse a tinha aterrorizado.

Um homem chamando uma mulher, lhe dizendo que pegasse o bebê e corresse. O bebê era… Eu. Estava num berço e ela me agasalhou com uma manta, beijou o homem e o abraçou. Pude ouvir suas vozes e ver as luzes dançando fora das janelas. O homem me beijou também e depois a ela uma ultima vez e abriu uma trampilla no chão. Senti-me assustada e temerosa. Não queria me deixar e tampouco ela. Acredito que sabíamos que era a última vez que nos veríamos.

Ela lambeu os lábios secos.

—A menina estava rodeada pelo bosque enquanto eu corria pela pista, ouvindo meu coração, minhas pegadas, cheirando os outros e lembrando das estrelas estalando ao redor. Mas na realidade não brilhavam a meu redor na escola, as luzes cintilavam ao redor da mulher e de mim, o bebê do bosque. Ouvi como se algo passasse perto, um assobio e então a mulher se encolheu, tropeçando. No momento seguinte soube é que estava correndo sobre a pista ao mesmo tempo em que a mulher corria através das árvores comigo... O bebê.

—A mulher era sua mãe?

—Não! — Gritou MaryAnn mais para negar que para conter-se. Respirava com dificuldade, tentando afogar a comoção do que isso poderia implicar. - Não, não sei quem era, mas não era minha mãe.

Ele estirou a mão e puxou dela até apoiá-la contra ele, colocando sua cabeça no ombro.

—Não se desgoste, sivamet —Sua voz era suave, uma hipnotizante carícia sobre sua pele. - Acalme-Te, é uma bonita noite e estamos simplesmente conversando, tentando nos conhecer. Estou muito interessado. Acha que ocorreu realmente? Que idade acha que tinha quando aconteceu a viajem pelo bosque? E onde estava? Nos Estados Unidos? Na Europa? Que idioma falava?

MaryAnn inspirou e ficou quieta, absorvendo seu calor e fortaleza. Podia sentir como se ele flutuasse sobre e dentro dela, como se Manolito compartilhasse quem e o que era com ela. Não sondava sua mente, mas lhe enviava sua absoluta compreensão e aceitação. Aceitava o que ela mesma não podia aceitar.

—Inglês não. Não sei... Estava assustada, muito assustada- E cada vez que entrava num bosque, esse medo ameaçava afogá-la. - Queriam nos matar, sabia até mesmo sendo uma menina. Quem quer que tenha incendiado a casa, nos queria mortos. A todos, inclusive a mim.

Não era capaz de respirar, o peito lhe oprimia, seu coração palpitava.

—A mulher correu muito, mas eu sabia que algo estava errado. Não tinha ritmo e respirava em ofegos. Nós duas soubemos o momento exato em que o homem que ficou na casa foi assassinado. Ouvi seu lamento silencioso e este ecoou com o meu. A dor a consumiu e depois a mim, quase como se compartilhássemos as mesmas emoções. Sabia que ela estava desesperada para atravessar o bosque até a casa de um vizinho. O lugar normalmente estava vazio, mas eles estavam lá, de férias.

Um arrepiou a percorreu e Manolito a aproximou mais. Sua pele estava fria como o gelo e ele colocou o corpo ao redor do dela.

—Não tem que me contar nada mais, MaryAnn, não se for muito doloroso. —Porque ele estava seguro de que conhecia o resto da história. Queria que ela confiasse nele o suficiente para lhe dar detalhes, mas seu nível de angústia estava subindo e com isso, notou com interesse, que os animais nas árvores circundantes se agitavam mais.

MaryAnn nunca havia contado a ninguém e desejava contar a ele. A pressão de seu peito aumentava, a sensação de ser arrastada era terrível, quase como se sua essência fosse sugada para um pequeno e escuro lugar, para ficar aprisionada em seus pequenos limites. Desejava agitar os braços e espernear para provar-se que ainda estava em seu próprio corpo e não encerrada numa caixa.

—Tentei contar a minha mãe e ela me disse que era um sonho… Um pesadelo que talvez tinha recordado enquanto corria. Não desejava que eu voltasse a correr e eu tampouco. Nunca mais voltei a fazer. E nunca fui ao bosque depois disso. —Havia necessitado de todoa sua coragem, seu valor para vir ajudar Solange e Jasmine, para procurar Manolito e tentar lhe tirar de onde quer que sua mente o tivesse encerrado. Sua coragem estava decaindo e ela desejava o consolo de seu lar.

—Por que isso disparou a lembrança?

—A sensação de terror e ser incapaz de respirar. O medo de estar encerrada e ser incapaz de sair —MaryAnn umedeceu os lábios ressecados, sua mão subiu para pescoço dele e seus dedos fecharam ao redor da nuca. Precisava sentir a força de sua figura forte. O calor de seu corpo e o batimento firme de seu coração.

Manolito permaneceu em silêncio, simplesmente abraçando-a enquanto ela olhava para as estrelas e ignorava os animais os rodeavam. Surpreendentemente, não se sentia ameaçada por eles, mas uma espécie de parentesco, uma corrente de simpatia e preocupação por ela. Respirou fundo e deixou o ar sair. Contaria tudo a ele, por que estava absolutamente segura de que tinha ocorrido e era a única maneira real de encará-lo.

—A mulher abriu caminho através dos arbustos. Estávamos sendo perseguidas e ela soluçava. Eu sabia que estava ferida, mas se aferrava em mim, forçando-se a cobrir as milhas até que chegamos a uma casa. Era a casa de férias de uma senhora e seu marido que eram amigos da mulher que me levava em braços. A senhora saiu. Recordo-me de seu rosto assustado e preocupado. Ela se emocionou quando viu sangue por toda parte. A mulher me ofereceu ela e lhe disse que estavam tentando nos matar, que me matariam. Suplicou a mulher que me salvasse.

Ela teve que parar por que a garganta lhe fechava novamente e havia uma terrível constrição em seu peito que se tornava cada vez mais forte. Escondeu o rosto contra ele e um estremecimento percorreu seu corpo.

MaryAnn. – Ele passou a mão pelo cabelo, e fazendo tranqüilizadores círculos em suas costas. - Reconheceu a senhora? A vizinha? Ela era familiar?

Não sabia. Como poderia conhecê-la? Seu coração pulsava grosseiramente e sua respiração chegava em ofegos desiguais. A admissão saiu dela sem seu consentimento e sem sua permissão. A declaração a comocionou.

—Era minha avó. – Ela se afogou, em busca de ar. As pontas de suas unhas cravaram na pele dele. - A vizinha que me pegou era…É… Minha avó.

Ele envolveu-a nos braços e a aproximou dele, protetoramente. Uma mão embalando sua cabeça, os dedos movendo entre o cabelo gentilmente enquanto lhe massageava a nuca para acalmá-la. Nunca tinha esperado os sentimentos... As emoções... Que o assaltaram. Viu-se sacudido pela aguda intensidade da sensação que corria não através de seu corpo, mas de seu coração e mente. Murmurou-lhe suavemente numa mistura de Cárpato e português, enquanto ela chorava em seus braços.

Sentia-a pequena, perdida e muito vulnerável. MaryAnn era uma mulher confiante, não este suave vulto que se enroscava destroçado em seus braços, enterrando-se nele sem ser sequer consciente de que o fazia. Seu pesar era tão grande que se estrelava contra ele em ondas e se dispersavam através da selva, perturbando todas as criaturas.

—Como puderam me fazer isto?

Esperou. Ela ainda mantinha a barreira firmemente em seu lugar, sem lhe permitir o acesso a sua mente... A sua dor... Ou inclusive a suas lembranças. E suspeitava que havia mais.

—Meus pais deviam me dizer... Essa mulher… Eu a conheço, sinto-a aqui. - MaryAnn pressionou uma trêmula mão sobre seu coração. - Dói-me pensar nela. Sacrificou sua vida para me salvar, igual ao homem.

—Muitos pais sacrificariam voluntariamente suas vidas por seus filhos, MaryAnn. Não há amor maior. — Ele manteve a voz aprazível e hipnótica Apesar de que cuidadosamente evitava empurrá-la ou acrescentar uma compulsão. Mantinha-a agasalhada em calor e segurança da única forma em que podia, quando toda sua inclinação o empurrava a tranqüilizá-la e ajeitar tudo para ela. Foi difícil suprimir o instinto de dominá-la. Ela não era uma mulher que pudesse ser dominada.

Manolito esfregou o queixo contra sua cabeça e deixou pequenos beijos em seu cabelo. Uma mistura de emoções brotava dela. Dor e fúria, sensação de traição. Culpa por pensar sequer por um breve momento que alguém mais podia ter dado a luz a ela.

—Amo meus pais. Somos uma família normal.

Abriu novamente sua mente a ele e imagens de sua infância assaltaram seu cérebro. Desejava provar a ele, que as lembranças de crescer em sua família eram reais e verdadeiras e tudo o resto uma ilusão ou um pesadelo ruim. Ele pôde ver seus pais a abraçando, beijando-a, balançando-a no ar, felizes com ela. Estivera rodeada da felicidade e amor sua vida inteira.

—Eles me amam.

Havia satisfação em sua voz, mas ela aferrava sua mão e as unhas cravavam profundamente em sua carne. Manolito baixou o olhar para seus dedos entrelaçados e pôde ver os duros nós sob a pele dela, a curva de suas unhas, grossas e duras. Uma delas sem esmalte.

—É óbvio que a amavam, - concordou e atraiu a mão dela ao calor de sua boca, pressionando os lábios sobre os nódulos, suavizando-os, tirando cuidadosamente com os dentes até que a unha que perfurava sua pele se levantou e ela relaxou um pouco mais.

—Não sei o que acho que devo pensar, ela disse, soando vulnerável e perdida.

Seu coração alcançou o dela instintivamente.

—Não importa qual for seu passado, MaryAnn. Você é você. Seus pais lhe quiseram e a criaram rodeada por esse amor. Se não são seus pais biológicos, isso não muda absolutamente o fato.

—Sabe que há mais que isso. – Ela arrancou sua mão da dele e se sentou ereta, dando as costas às árvores. Podia ver os cipós na canopia. Os galhos tocando-se, servindo como longos caminhos de árvore em árvore onde inclusive os animais grandes podiam andar rapidamente.

Engoliu o nó da garganta que ameaça afogá-la.

—Minha vida inteira foi construída sobre uma mentira, Manolito. Não tenho a história que meus pais me deram. Não possuo a estabilidade de toda a estrutura que pensei que tinha. Não sei quem sou. Ou o que sou. Ao crescer, às vezes tinha flashs de lembranças e cada vez que acontecia, meus pais o despachavam como banal, quando ma realidade era muito importante.

—Talvez tivessem suas razões, sivamet, Não os julgue tão duramente quando não têm todos os fatos.

—Isto não esta ocorrendo com você. Sua vida inteira não ficou destroçada. — Ela lançou-lhe um olhar fugaz sobre o ombro e se virou novamente. - E então chega você e complica tudo me reclamando, nos atando num ritual no qual eu não tenho opção. E agora, estou me convertendo em algo mais. Como acha que se sentiria se estivesse acontecendo com você?

—Não sei, mas se converter num Cárpato é tão terrível? —Ele passou a mão pelo cabelo, desejando ter suas lembranças completas. - Seria capaz de fazer muitas coisas que não pode fazer agora. Poderá ver, com o tempo, que não há razão para se preocupar. —Sua vida e a de sua companheira seriam perfeitas. Ele a faria perfeita. - Parece pouco razoável estar zangada por algo que não pode mudar.

Sua voz era tão tranqüila que a fez rilhar os dentes. Ele falava como se estivessem tendo uma discussão filosófica, sem contemplar as dramáticas mudanças em sua vida. A fúria ardeu dentro dela

—Razoável? Não deveria me preocupar em ser obrigada Aa sair de meu próprio corpo? Diz-me o que tenho que fazer e eu tenho que te acompanhar somente por que você diz. Que agradável para você viver em sua cômoda pele e saber quem e o que é. Me reclamar não muda sua vida em nada, não é assim?

—Muda tudo. - Sua voz foi aprazível, com emoção... Emoção que podia sentir porque ela lhe tinha dado de presente.

Ele não tinha entendido a enormidade do que tinha feito ao uni-los. Não parecia entender sequer como sua vida se veria tão afetada. Ela teria que ver sua família morrer. Não seria a pessoa que sempre tinha sido. Inclusive a química de seu corpo seria diferente. Todo seu mundo mudaria e ela não teria escolha a respeito. Manolito seguiria sendo o homem que sempre fora, só que teria a cor e as emoções restauradas. Ele podia acreditar que tudo seria perfeito com o tempo, mas as mudanças não ocorreriam a ele.

A adrenalina bombeou por seu corpo e com isso… A fúria. Como podia alguém decidir arbitrariamente sobre sua vida sem seu consentimento? Sem lhe perguntar? Manolito, seus pais. Inclusive seus amados avós. Como tinham decidido o que era o melhor para ela e não só a deixavam fora das decisões, como também sequer tinha conhecimento delas?

Levantou de um salto antes que Manolito tivesse idéia de que ela se moveria. Não houve um leve movimento de seu corpo que indicasse que ela se moveria. Ela se moveu de uma vez, saltando sobre os pés e sobre o corrimão antes que ele soubesse o que tentava. Com o coração na garganta, saltou atrás dela. Estavam a quinze metros do chão. A queda a mataria.

- MaryAnn! - Chamou-a enquanto a seguia, enviando ar para mantê-la flutuando enquanto descia como um raio, mas ela já estava no solo, abaixada numa postura de luta.

Ralentizou sua descida para estudá-la. O cabelo era espesso, longo e ondulado, brilhando negro azulado como se uma cascata descesse por seus ombros e suas costas. As mãos curvadas em garras e a surpreendente estrutura óssea de seu rosto destacando sob a tensa pele. Retrocedeu enquanto se colocava frente a ela.

—Quero ir para casa.

Ela sabia que estava em boas mãos... Em suas mãos e mesmo assim sua voz tremia e ela a via tão assustada que se sentiu fatal.

—Já sei, MaryAnn. Levarei-a para casa assim que possa. —E compreendeu que era certo. Pela primeira vez, compreendeu que ela poderia precisar estar Seattle. Poderia necessitar da fria e chuvosa cidade tanto como ele necessitava da selva. – Prometo a você csitri, que quando puder abandonar completamente a terra das sombras, a escoltarei a seu lar.

MaryAnn tomou um profundo e entrecortado fôlego.

—Promete-me?

— Dou-te minha palavra e nunca a quebrei em tudos os séculos de minha existência. —Ele estendeu a mão. - Sinto não entender o que está acontecendo. —Se lhe abrisse sua mente, poderia sentir suas emoções, não só visualizá-las, mas você seguiria resistindo.

MaryAnn olhou a seu redor.

—Não se como cheguei aqui, —olhou para cima, para a canopia. Não podia nem ver a plataforma que ele tinha construído. - Como fiz isso Manolito?

Ele manteve a mão estendida para ela. As folhas sussurravam a seu redor. As sombras se moviam. Deu um passo para se aproximar. MaryAnn colocou sua mão na dele, que a segurou nos braços e se elevou no ar, levando-os para o amparo da armação que construíra. Ela ficou de pé na plataforma, com as mãos ao redor de seu pescoço, com o rosto enterrado contra seu ombro, tremendo com a verdade.

—A verdade, —murmurou ele brandamente.

MaryAnn se afastou. Sabia qual era a verdade. Ela tinha sido o bebê que alguém tinha perseguido pelo bosque e quase assassinado. Seus pais lhe ocultaram a verdade durante anos. Os alicerces de seu sólido mundo tinham sido sacudidos e e ela devia encontrar a forma de acalmar essa coisa crescente em seu interior, para poder assimilar-se com o que ocorria, mas não queria que Manolito lhe jogasse a verdade de sua vida.

Manolito olhou a seu redor às variadas folhas. Algumas amplas, algumas diáfanas, umas pequenas, outras grandes e todas de um prateado apagado em vez de brilhar como deveriam. As salvaguardas estavam em seu lugar, mantendo fora os inimigos para que pudesse passar tempo com ela, tentando introduzi-la em seu mundo. Tivera a intenção de levá-la completamente a ele, para que também ela fosse completamente Cárpato. Em lugar disso a tinha forçado a despir sua alma, a arriscar tudo por ele. Agora precisava lhe dar algo mais, de igual valor. Ela dera-lhe a verdade, ele não podia doar-lhe menos.

Passeou intranquilamente pelos pequenos limites do lugar.

—Deste-me verdade, MaryAnn, quando isso te custava. Tenho algo a te dizer. Algo que me envergonha e não só a mim, mas também a minha família inteira. O que há dentro de ti é nobre e forte e duvido que deva temê-lo. Eu não tenho segredos que compartilhar contigo, entretanto, desejaria que assim fosse.

Ela piscou afastando as lágrimas e o olhou. Ele parecia nervoso. Essa era a última coisa que esperaria de um homem tão crédulo como Manolito. Sua compaixão natural se precipitou e ela colocou a mão sobre seu ombro alagando-o com sua calidez e valor.

—Não me ajude com isto, —protestou ele, sacudindo a cabeça, mas uma vez que ela lhe abriu sua mente, rodeiou-o com brilhantes cores e sua consoladora personalidade. - Não a mereço.

Não merecia estar tão satisfeito por havê-la reclamado, mas MaryAnn empurrou para longe esse súbito pensamento e lhe dirigiu um olhar de apoio. Manolito continuou andando, assim que ela deitou-se entre as flores, surpreendida novamente quando liberaram sua fragrância, enchendo o ar com sua suave essência. Elevou os joelhos e as rodeou com os braços, apoiando o queixo nelas, esperando que ele continuasse.

Manolito lançou um lento e cuidadoso olhar ao redor e colocou mais salvaguardas, desta vez envolvendo-os dentro de uma barreira de som, para maior privacidade.

—Às vezes, a selva tem ouvidos.

Ela assentiu, sem interrompê-lo, mas em algum lugar em sua mente. começava A acreditar que o que ele ia dizer-lhe era de uma monumental importância para ambos.

Manolito apoiou os cotovelos no corrimão e olhou para o chão da selva sob eles.

—Minha família foi sempre um pouco diferente da maioria dos guerreiros que nos rodeava. Por algum motivo, a maioria das famílias nunca tinham filhos com menos de cinqüenta ou cem anos de distância um de outro. É obvio que ocorria, mas raramente. Meus pais tiveram cinco de nós com não mais que um intervalo de quinze anos, além de Zacarías. Ele é quase cem anos mais velho, mas nos criamos juntos.

MaryAnn pôde ver imediatamente os problemas que conduzia tal proximidade, em particular com moços que sentiam o sabor do poder pela primeira vez.

—Você tem uma mentalidade de turma.

Produziu-se um breve silêncio enquanto ele o assimilava.

Acredito que podia ser. Estávamos acima da média em inteligência e todos sabiam. Ouvimos muitas vezes de nosso pai assim como de outros homens. Éramos velozes e aprendíamos rapidamente e ouvíamos também, enquanto errávamos treinando para o que seria nosso dever.

MaryAnn franziu o cenho. Nunca tinha pensado em Manolito ou seus irmãos sendo crianças, crescendo em tempos incertos.

—Até então já nasciam mais homens que mulheres?

Ele assentiu.

—O príncipe estava preocupado e todos nós sabíamos. Morriam muitas crianças. As mulheres começaram a ter que sair para a superfície para dar a luz e algumas crianças não podiam tolerar a terra na infância, outros sim. Estavam mudando as coisas e a tensão aumentava. Fomos treinados como guerreiros mas nos deram tanta educação como foi possível em outras artes. O ressentimento começou a crescer em nós quando a outros não tão inteligentes, davam mais oportunidades de aprender enquanto nós tínhamos que afiar nossas habilidades no campo de batalha.

—Você acha, olhando para trás, que havia razões para esse ressentimento?— Perguntou.

Ele encolheu os ombros, os músculos em suas costas se ondularam.

—Talvez sim. Naquele momento nos pareceu isso. Agora como guerreiro e vendo o que aconteceu a nossa gente, certamente o príncipe precisava de nós para lutar. Os vampiros cresciam em número e para proteger nossa espécie assim como as demais, talvez eram mais necessárias nossas habilidades para a luta, que nossos cérebros.

Suspirou enquanto olhava para baixo da copa das árvores.

—Quando chegamos aqui pela primeira vez, tem que se lembrar que havia muito pouco ou quase nenhuma pessoa. Estávamos sozinhos. Só ocasionalmente provávamos nossas habilidades contra o inimigo. Cinco de nós com nossas emoções se debilitando e a lembrança de nossa gente e nossa pátria diluindo junto com as cores a nosso redor. Pensamos que isso era errado. E então começamos a enfrentar cada vez mais a velhos amigos que se converteram. As vidas que tínhamos conhecido como Cárpatos se acabara.

MaryAnn mordiscou o lábio inferior.

—O príncipe lhes permitiu escolher abandonar as Montanhas Cárpatos? Ou simplesmente os enviou aqui?

—Deram-nos a escolha. Ele disse a todos os guerreiros aonde tinham que ir e por que era necessário. Poderíamos ter ficado, mas a honra nunca teria permitido isso. Nossa família era considerada como a de mais habilidades na luta.

—Mas escolheu... – Ela disse insistente. - Suas habilidades de luta deviam ser necessárias lá também.

—Considerando o ocorrido, sim. - Concordou Manolito.

Pela primeira vez ele saboreou a amargura em sua boca. Haviam, concordado em partir, quando o príncipe chamou seus guerreiros mais antigos, pensando, acreditando, que o príncipe conhecia o futuro, que sabia o que era melhor para sua gente. Quando suas filas minguaram e os inimigos chegaram, o príncipe se aliou aos humanos. Tudo se perdeu quando tentaram defender seus aliados humanos.

Agora, séculos depois, quando podia sentir novamente, ainda estava zangado por essa decisão, até em desacordo e não entendia como Vlad pôde cometer tal engano. Os sentimentos tinham invalidado sua razão? Se assim fosse, nenhum da Cruz cometeria tal engano.

—Você está zangado, - disse ela, sentindo as ondas de seu antagonismo cair sobre ela.

Ele virou para apoiar os quadris contra o corrimão.

—Sim. Não tinha idéia de que estava zangado com ele, mas sim. Estou. Depois de centenas de anos, ainda culpo o príncipe por ir a uma batalha que não podia ganhar.

—Sabe que não foi isso o que dizimou sua gente, - apontou ela tão gentilmente como foi possível. - O que disse você mesmo, que mesmo jovem, enquanto crescia, notou a carência de mulheres e que os bebês não sobreviviam. As mudanças já estavam se produzindo.

—Ninguém quer pensar que sua espécie está condenada pela natureza, ou Por Deus, a extinção.

—É isso o que pensa?

—Não sei o que pensar, somente no que devia ter sido feito. E não teria levado a nossa gente a batalha.

—Como poderia ter sido diferente o resultado?

Vlad ainda estaria vivo, - disse Manolito. - Não estaria entre os caídos. Não estaríamos abandonados a deriva com tão poucas mulheres e crianças, com tão poucas probabilidades que tornam impossível manter nossa gente viva. Acrescente isso nossos inimigos e estamos perdidos.

—Se acha isso, por que salvou a vida de Mikhail? Ouvi falar disso, é obvio. Tudos falavam do que você fez por ele nas cavernas quando o atacaram. Se não acha que ele seja capaz de liderar o povo Cárpato, por que arriscar sua vida por ele? Por que morrer por ele? Sobretudo, se já me tinha visto e sabia que tinha uma companheira. Por que se incomodar?

Manolito cruzou os braços no peito e a olhou, de sua superior altura, com o rosto carrancudo.

—Era meu dever.

Manolito, isso é ridículo. Você não é um homem que siga as cegas, alguém em quem não acredita. Pode ter duvidado da decisão de seu príncipe, mas acreditava nele e deve acreditar em seu filho ou nunca teria entrado em batalha com ele, nem teria lhe prometido sua lealdade ou dado sua vida pela dele.

Fiz muito mais que questionar as decisões de meu príncipe, - ele disse.

Ela viu as sombras percorrer sua face, o brilho tormentoso nas profundezas de seus olhos. Agora estavam chegando a algum lugar. Agora, ele revelaria-lhe sua mais profunda culpa. Sabia o que ele ia dizer antes mesmo que dissesse, porque a mente dele se misturara profundamente com a dela e ela pôde ver sua culpa, o medo de ter traído o príncipe, que admirava e respeitava profundamente, inclusive amava.

Ele não o via assim e isso a fascinou. Ele não compreendia quanto admirava Vlad Dubrinsky e o quanto estava aborrecido pela última derrota do príncipe e a morte deste nas mãos do inimigo. Mais importante ainda, não compreendia que sua cólera era si mesmo, por decidir lutar numa terra remota por uma gente que não se preocupava com os Cárpatos.

—Traí Vlad, a cada vez que me sentei com meus irmãos e questionei seus julgamentos e decisões. Riordan e eu lhe contamos algo disso antes, mas foi uma versão muito abreviada de nossas conversas. Fizemos uma disso uma arte. Separando cada ordem do príncipe e examinando-a de cada ângulo. Acreditávamos que ele devia nos ouvir, que nós sabíamos mais que ele.

—Você era jovem e até imaturo e ainda capaz de sentir emoções. —Sabia tudo isso porque suas emoções então estavam muito fortes. Ele havia se sentido superior, tanto física como intelectualmente, que muitos outros lutadores. Seus irmãos eram todos iguais e desfrutavam de seus debates sobre como servir melhor a seus compatriotas, sobre como dirigir o povo Cárpato através dos perigos de cada novo século. - Havia traição em seus corações e mentes quando discutiam ou simplesmente tentavam encontrar a forma de melhorar a vida de sua gente?

—Talvez começasse dessa maneira, - ele passou as mãos por seu cabelo. - Sei que vimos claramente o destino de nosso povo quando muito poucos podiam ver o futuro. Não precisamos ter premonições, somente nossos cérebros e era irritante que outros não pudessem ver o que nós víamos.

—Ouviu-o seu príncipe? Deve ter ido a ele.

—Como cabeça de nossa família Zacarías o fez. Certamente, ele ouviu. Vlad ouvia a todos. Liderava-nos, mas sempre animava os guerreiros a falar no conselho. Podíamos ser jovens, mas ele nos respeitava.

MaryAnn observou as cruas emoções em seu rosto. Manolito encarava vampiros e magos, facas envenenadas e facções pétreas. Mesmo assim, agora estava zangado. Seu passado estava muito perto da superfície. Ela queria que ele entendesse que as lembranças de sua juventude não eram uma traição. Procurou as palavras adequadas, os sentimentos corretos…

- Não! - A ordem foi aguda e empurrou para as paredes de sua mente. - Não mereço a calma que me envia. Tampouco mereço os sentimentos que tenta plantar em minhas lembranças.

Ela piscou, sobressaltada por ele poder pensar que se tratava de plantar algo na mente de alguém.

—Tínhamos um plano, MaryAnn. Em nossa arrogância e superioridade, em nossa crença de que sabíamos mais que nenhum outro. Tínhamos um plano não só para destruir a família Dubrinsky, mas a todos os inimigos dos Cárpatos. Os Cárpatos governariam todas as espécies. E o plano não só era brilhante e possível, mas também está sendo utilizado contra nosso príncipe enquanto conversamos.

Sua voz se rompeu na última palavra e ele baixou a cabeça, envergonhado.

 

MaryAnn respirou várias vezes, incapaz de ler sua mente. Não sabia se quem havia se afastado ela ou ele, mas só podia o olhar com incredulidade. Manolito da Cruz era leal a Mikhail Dubrinsky. Vira seu heroísmo. Podia ver a cicatriz na garganta que quase o matara. Era difícil matar um Cárpato, mas alguém tentou, enquanto ele estivera protegendo o príncipe. Não acreditaria nem por um momento que estivesse envolto num complô para destruir a família Dubrinsky.

—Não entendo seus pensamentos, Manolito. Meus amigos e eu conversamos de política todo dia e freqüentemente não estamos de acordo com nosso governo, mas isso não significa que sejamos traidores de nosso país ou de nossa gente.

Encerrada como estava dentro de uma bolha que impedia que o som escapasse, MaryAnn não podia ouvir os pássaros ou os insetos. O silêncio parecia ensurdecedor. Sua desdita era cansativa. Era estranho que não pudesse ler sua mente mas sentia suas emoções, fortes e profundas. A vergonha a ira e a culpa. Inclusive o sentimento de traição.

—Conte-. – Ordenou-o. Se era sua companheira como ele reclamava, então tinha que compartilhar tudo com ela. Surpresa começou a notar, enquanto baixava o olhar para suas mãos, que nesse momento ele estava mais no reino do outro mundo que com ela.

Segurou-lhe da mão e o fez a sentar-se a seu lado no leito de flores.

Manolito. Isto te está destruindo. Tem que resolvê-lo.

—Como resolve umatraição?  

Apertou os dedos dele.

—Ideou um plano para derrocar seu príncipe?

—Não! —Sua negação foi forte e instantânea.

E verdadeira. Pôde ouvir o halo de honestidade em sua voz.

—Nem meus irmãos nem eu, decididamente. Só conversávamos, nos queixando talvez, debatendo certamente. Mas isso era tudo. — Ele colocou a cabeça entre as mãos e esfregou as têmporas como se lhe doessem. - Honestamente não sei como começamos a desenvolver os detalhes. Não sei como nem por que começou a ser um verdadeiro plano para derrocar nosso príncipe, mas mais tarde, quando nos zangávamos, falávamos disso como algo real.

Desde que seu irmão Rafael matara Kirja, tentara se lembrar. Todos eles, seus irmãos haviam tentado se recordar.

A princípio se sentavam em silêncio ao redor do fogo, para debater os prós e os contras de todas as decisões que Vlad havia tomado.

—Havia só outra família com filhos tão... Como nós. Os Malinov. Quando nossa mãe dava a luz a um de nós, também a mãe deles. Crescemos juntos, meus irmãos e os Malinov. Brincamos juntos quando crianças e lutamos juntos como homens. O vínculo entre nossas famílias era muito próximo. Éramos diferentes dos outros Cárpatos. onós. Talvez porque tenhamos nascido muito seguido, uns dos outros. A maioria das crianças Cárpatos nascem pelo menos com cinqüenta anos de diferença. Talvez haja uma razão para isso.

—Diferentes de que forma?

Sacudiu a cabeça.

—Mais escuros, mais rápidos e mais fortes. A habilidade de aprender a matar nos chegou muito rápido, muito antes que abandonássemos nossa infância normal. Fomos rebeldes. —Suspirou e se inclinou para esfregar o queixo contra a riqueza de seu cabelo, precisando sentir sua cercania. - Os irmãos Malinov tiveram sorte. Nasceu um formoso bebê. Uma menina, que nasceu em sua família uns cinqüenta anos depois de Maxim, o caçula das crianças. Desgraçadamente, sua mãe não sobreviveu muito tempo ao nascimento e seu pai a seguiu ao próximo mundo. Nós dez nos convertemos em seus pais.

MaryAnn sentiu a dor nele. Dor que não tinha diminuído através dos séculos apesar do transcurso dos anos nos quais não tinha sentido emoções. Estava ainda ali, corroendo-o, oprimindo-lhe o peito, estrangulando-o. MaryAnn viu uma menina, alta, com brilhantes cabelos negros, liso e espessos, caindo correntemente para uma cintura estreita. Os olhos imensos e brilhantes numa face doce. Uma boca feita para rir. Nobreza em cada linha de seu corpo.

IvoryManolito sussurrou seu nome—. Era tão nossa como nós dela. Ela era brilhante e feliz e aprendia tudo rápidamente. Podia lutar como um guerreiro, embora usasse o cérebro. Não havia um estudante que pudesse superá-la.

O que lhe aconteceu? —Porque isso, era o que tinha levado a amargura que freqüentemente sentia nos confusos sentimentos de Manolito para com seu príncipe.

—Queria ir a escola de magos. Indubitavelmente estava qualificada. Era suficientemente brilhante e poderia urdir feitiços que poucos conseguiam romper. Mas nós, todos nós, seus irmãos e meus, não lhe permitíamos ir sem acompanhante a nenhum lugar. Era jovem e se criara sob o jugo de dez irmãos que lhe diziam o que fazer. Isso não nos importava. Queríamos vê-la a salvo. Deveríamos tê-la mantido a salvo. Era uma beleza pela qual lutávamos e que nos esforçávamos por proteger. Sua risada era tão contagiosa que ainda os caçadores que há muito tinham perdido suas emoções, sorriam quando ela estava perto.

Manolito pressionou a mão de MaryAnn contra o , tão forte que pôde senti-lo bater contra sua palma.

—Proibimos-a de ir a escola e estudar com os magos até que pudéssemos estar com ela e protegê-la. Todos conheciam nossos desejos e nunca deveram ter intervindo. Mas, enquanto estávamos longe numa batalha, ela levou sua súplica ao príncipe.

Um estremecimento atravessou o corpo dele. Na realidade balançou seu corpo, mas MaryAnn o sentiu e soube que a ardência da dor era mais profundo que ela pudesse conceber. O tempo certamente não tinha curado a ferida. Perguntou-se, se a perda de emoções todos esses anos tinha mantido a dor, para que quando os homens pudessem senti-las outra vez, mesmo passadas as emoções elas estivessem incrementadas e intensamente vivas para eles.

—O príncipe não tinha direito de usurpar nossa autoridade, mas o fez. Mesmo sabendo que a tínhamos proibido, disse-lhe que ela podia ir. —Sua voz decaiu até um murmúrio e ele apertou mais a mão dela contra o peito, como se aliviasse a terrível dor que sentia aí.

—Por que ele faria algo assim?

—Acreditam que seu filho mais velho, que não nomearei, já mostrava sinais de sua enfermidade. A família Dubrinsky tem capacidade para esgrimir um grande poder, mas isso suporta a necessidade de controlar um poder tão vasto. A loucura reina se não o faz a disciplina. O filho mais velho de Vlad observara Ivory, embora não fosse seu companheiro. Teríamos matado-o, se a houvesse tocado. A tensão chegava a ser evidente cada vez que ele retornava a nossa aldeia. Eu mesmo esgrimi a espada em duas ocasiões quando ele e abalroou perto do mercado. Era estritamente proibido tocar uma mulher que não fosse sua companheira, mas não havia dúvida do que era o que ele tinha em mente fazer, assim que tivesse oportunidade.

—Eu acreditava que os homens dos Cárpatos não olhavam a outra mulher, que a sua companheira.

—Quando são jovens, alguns olham e há uma enfermidade em outros, uma necessidade de poder sobre o outro sexo, que os corrompe. É um tipo de loucura que freqüentemente afeta aos mais poderosos. Nossa espécie não está livre de anomalias, MaryAnn.

—Por que não o deteve?

—Não acredito que muitos queriam acreditar que o filho do príncipe podia levar a enfermidade em suas veias, mas nós sabíamos. Zacarias, meu irmão mais velho e Ruslan, o mais velhos dos Malinov, foram ver Vlad e lhe falaram do perigo que corria Ivory. O príncipe mandou seu filho para longe, e tivemos paz durante um tempo. O filho de Vlad ia voltar e quando Ivory pediu permissão para ir a escola, para Vlad, foi uma maneira singela dele se desfazer de um problema imediato. Pensou que sem ela ali, seu filho ficaria bem.

Manolito passou uma mão pelo cabelo.

—Na realidade tinha outras razões. Vlad deveria ter assumido a enfermidade de seu filho e ter dado ordem de matá-lo. Sem Ivory ali, tinha mais tempo para estudar o problema e dar talvez com uma solução diferente.

—Assim permitiu que ela se fosse.

—Sim. Enviou-a para longe sem nenhum de nós para protegê-la. Desdenhou nos mandar um recado além disso, já que sabia que teríamos voltado imediatamente.

Ela se moveu, envolvendo-o nos braços, para aproximá-lo.

O que aconteceu?

Por um momento ele deixou cair à cabeça sobre seu ombro, aproximando o rosto contra o calor de sua pele. Ele estava frio e não parecia poder conseguir calor. Com um pequeno suspiro de resignação, forçou-se a levantar a cabeça e olhá-la nos olhos.

—Você é minha companheira. O destino decretou o que há entre nós. Sou muitas coisas, MaryAnn e me conheço bem. Não te deixarei partir. Terá que aprender a viver com meus pecados e devo te confessar o pior de todos.

Ela manteve seu olhar, lendo nod dele mais dor que traição. Seu amor para com Ivory tinha sido forte, como o do resto dos membros das duas famílias. Com tão poucas mulheres, homens tão fortes e protetores deviam ter sentido que era seu dever e seu prazer proteger e servir aquela garotinha. Falhar deve ter sido intolerável.

—Quando nos chegou mensagem de que um vampiro a tinha atacado e matado, todos nós ficamos devastados. Pior, invadiu-nos uma fúria assassina. Ruslan e Zacarias pela primeira vez não tiveram as cabeças frias que sempre tinham tido. Queriam matar o príncipe. Tudos nós queríamos. O culpávamos por revogar nossas ordens e acabar causando a morte de Ivory. — Manolito sacudiu lentamente a cabeça. - Nem sequer pudemos encontrar seu corpo para recuperá-la do mundo das sombras, embora todos e cada um de nós a tivéssemos seguido com gosto, para tentar.

O coração de MaryAnn bateu forte. O mundo das sombras, terra de névoas, o lugar aonde os Cárpatos iam atrás de sua morte. O que Manolito estava parcialmente preso.

—Como podem seguir alguém a um lugar assim?

Seu olhar vacilou.

—Os rumores dizem que só os maiores guerreiros ou curadores têm essa proeza ou um apaixonado, um companheiro, mas qualquer de nós teria ido gosto.

- E obviamente pode fazer. Gregori o fez e depois você.

Ela não se deu conta do que fazia ao entrar nesse outro mundo. Às vezes ainda não queria acreditar que fosse real.

—Não sabia o que fazia.

—Aparentemente é perigoso para qualquer que não esteja morto ainda.

Dedicou-lhe uma pequena reação de sorriso.

—Talvez foi bom que não soubesse. Mas nenhum de vocês pôde seguir seu rastro, porque não tinham seu corpo.

—Se o espírito abandonar o corpo, este deve ser protegido até que o espírito volte e entre novamente. De outro modo nossos inimigos podem nos apanhar no outro mundo para sempre. —Ele encolheu os ombros. – Já basta dizendo que só os mortos vão lá. O motivo deve ser muito importante para que uma pessoa viva tente.

—Foi o que Gregori e seus irmãos fizeram, então. Seguiram-no a terra das névoas e das sombras e trouxeram de volta seu espírito. - Reiterou MaryAnn, tentando entender. Ele estava ainda parcialmente ali. Se assim era, teria que encontrar uma forma de trazê-lo completamente a este mundo novamente. Isso estava muito além de sua experiência.

—Sim, mas não tivemos essa oportunidade com Ivory. A perdemos para sempre e começamos a questionar seriamente o julgamento de Vlad Dubrinsky. Ele não tinha direito de interferir em assuntos de família. Não tinha sentido para nós. Se seu filho estava louco e ele não fazia nada, era possível que a loucura estivesse presente também nele? Quanto mais discutíamos o ele que tinha feito, mais forte se tornava nossa fúria. Começamos a pensar em formas de acabar com seu governo. Uma coisa levou a outra. Demos-nos conta de que outras espécies que eram nossas aliadas lutariam junto a Dubrinsky para mantê-lo como dirigente e os Cárpatos se dividiriam. Então planejamos como nos desfazer de todos os outros. Os homens-jaguar não estavam nunca com suas mulheres. As mulheres já estavam se unindo com humanos e escolhendo permanecer nessa forma. Não seria difícil se voltar para as mulheres que ficavam contra seus homens e enfatizar a brutalidade de sua forma animal.

—Que é o que finalmente aconteceu.

Ele assentiu.

—É pior, MaryAnn. Não há esperança de salvar a raça jaguar. Embora dez casais sobrevivessem, são muito poucos para salvá-los.

—A evolução pode ter jogado seu maior papel do que acredita. Porque falou de um plano, que por certo foi tramado racionalmente observando o que já acontecia, isso não significa que seja responsável pela destruição da espécie. Não é um deus.

—Não, mas não fizemos nada para ajudar o jaguar a ver sua própria destruição. Deixamos-os sozinhos. E enquanto o fazíamos, os irmãos Malinov aplicaram o plano e ajudaram a empurrar os jaguares a sua própria extinção. Se fizeram isso, o que outras partes do plano puseram em marcha?

MaryAnn esperou, vendo como as sombras marcavam sua face, vendo como ele dobrava os dedos como se lhe doessem. Havia uma nova nota em sua voz, o suave retumbar de um gemido, tão sexy como sua hipnótica voz aveludada, talvez até mais. As notas provocaram sua pele, deixando-a nervosa.

—Os humanos temem os Cárpatos, porque temem os vampiros. As lendas saíram de algum lugar. Os cochichos e os rumores de matanças e o ódio e o temor cresceram até que os Cárpatos não voltaram a ser mais os aliados dos humanos. Agora somos caçados e assassinados. E com o homem-lobo, o único aliado que conhecíamos podendo nos deter, seria bastante fácil fazer o mesmo, abrir uma brecha entre as espécies, dividir e conquistar. Os homens-lobo eram evasivos de todos os modos. E levando-os a clandestinidade ou erradicando-os secretamente em matanças organizadas minguaríamos lentamente sua população. Finalmente alguém teria que dar um passo na base do poder para esclarecer a confusão.

MaryAnn se tornou para trás e ua respiração se fez áspera e entrecortada.

—Não fizeram essas coisas, fizeram? —O aroma masculino estava em seus pulmões, rodeando-a em cada respiração que tomava. Talvez fosse a barreira de som que ele tinha erguido, mas não podia evitar a excitação de ter seu aroma no corpo, nem a forma em que seus músculos se esticavam e seu sangue bulia som em se aproximar dele.

Queria reagir com a objetividade de um conselheiro. Era sua segunda natureza, mas algo mais, algo selvagem, estava crescendo fazendo com que observasse o subir e descer de seu peito, a leve mudança em sua expressão, pelas rugas ao redor de seus olhos, a forma que sua boca cinzelada. Desejava… Não, precisava lhe oferecer consolo, sem palavras.

—Não, é claro que não. Sabíamos que o que estávamos fazendo estava errado. Quando a dor decaiu e pudemos raciocinar, soubemos que não era mais culpa de Vlad que nossa, que ela estivesse morta. Deixamos de falar disso e nos lançamos a caça do não-morto. Chegamos ser demônios a tal ponto, que todos nós perdemos nossas emoções bem mais rápido do que devíamos. Fizemos um pacto de proteger uns aos outros, para compartilhar o que podíamos de nossas lembranças de carinho e honra e assim temos feito. Quando nosso príncipe fez uma chamada para viajar para outras terras, respondemos. Os Malinov fizeram o mesmo. Fomos enviados para cá, para a América do Sul e eles fossem enviados a Ásia.

MaryAnn se inclinou aproximando-se a fim de inalar mais dele, prestando todo o tempo seu calor tranqüilizador e tratando de sufocar a crescente onda de desejo. O que era tão diferente nele? Sua confissão de perversidade? Teria-a feito simpatizar mais ainda com ele? Ou o fato de que ainda chorasse pela perda de sua pequena… Irmã…?

Estivera zangada com ele por introduzi-la em sua vida sem seu consentimento, por lhe tirar suas opções e por não entender a enormidade do que tinha feito, mas não podia evitar a força de sua emoção por ele ao ver que ele tentava fazê-la compreender. Confiar-lhe sua maior vergonha. E sabia que era isso o que ele estava lhe dando.

Quande Manolito estendeu a mão para afastar uma mecha de cabelo de sua face, seus dedos acariciando a sensível pele, ela estremeceu.

—Os irmãos Malinov vieram nos ver antes de partir e quiseram conversar. —Sua voz enrouqueceu e o som arranhou suas já sensíveis terminações nervosas, numa sedução que não tinha acreditado possível. Ele inclinou a cabeça, lhe afastando o cabelo do ombro,e sua língua lhe tocou sua pulsação. - Queriam que nós repudiássemos o príncipe.

Diminutas chamas dançaram por seu pescoço e garganta antes de desceram para seus seios. Seus mamilos endureceram sob a fina blusa e seu corpo se sentia suave e flexível, tão dolorido que fazia com que queria entrar dentro dele.

—Mas vocês não o fizeram. —Era positiva. Sabia que ele respeitava Vlad Dubrinsky apesar da terrível tragédia.

—Não, não o fizemos. Não podíamos. —Sua voz continha uma absoluta convicção. - E nesse momento, tampouco podiam os Malinov. Haviam lhe jurado lealdade.

E ela o amava por isso. Por distinguir o bem do mal. Por ter essa forte lealdade apesar de gostar tanto dos irmãos Malinov. Tinham sido sua família, ainda assim sabia, igual a todos os seus irmãos, que trair o príncipe era trair sua gente.

—Não, é claro que. —Deslizou a mão por seu braço, sentindo a definição de seus músculos sob a palma. Duros. Fechou os olhos brevemente, desejando senti-lo pele com pele. Queria seduzi-lo, tê-lo no interior de seu corpo e encher o vazio que sentia dentro dele.

Seus olhos se animaram com a turbulência tão tempestuosa que seu coração acelerou. Às escuras íris negras resplandeceram em âmbar… Quase dourados, lhe roubando o fôlego. Essa ferocidade, essa parte que nunca quis reconhecer, pulsou com força e de forma atrevida em reconhecimento e se inclinou para se aproximar dele, antes de poder pensar, antes de poder se deter, roçando sua boca com a dele, respirando por ele, tomando a adrenalina em seu próprio corpo. Tomando sua necessidade e seus desejos. Tomando-o.

Ele devolveu-lhe o beijo, deslizando a língua na sedosa calidez de sua boca. Cada terminação nervosa voltou para a vida. Qualquer fúria que ainda sentisse contra seu príncipe, contra ele mesmo ou mesmo contra os Malinov desapareceu, deixando seu sangue pulsando por ela.

Seus braços a envolveram e ele a trouxe mais perto, corpo com corpo, sua boca na dela, sua pulsação troando em seus ouvidos. Estavam unidos, mente a mente e MaryAnn sentiu a repentina mudança nele, como cada célula a reconhecia, desejava, necessitava. Os dentes dele seguraram seu lábio, mordiscando e demandando. O calor estalou, afugentando o frio de sua pele, afastando as sombras e a dor das velhas lembranças até que só restou … O sentimento último. Glória absoluta.

—Quero sentir sua pele contra a minha, —sussurrou ele. Sua mão já estava deslizando já por sua perna, subindo por sua coxa e para seu interior onde se sentia dolorida, desejava-o.

Precisava do corpo dela, que lhe oferecia refúgio e asilo. Moveu os dedos em pequenos círculos contra seu úmido sexo, enquanto sua boca consumia a dela.

À volta deles, o mundo empalideceu. Ambos os mundos. As sombras retrocederam, retando somente o leito de flores e o perfume do homem e a mulher que chamavam um ao outro. Ele estendeu as mãos para sujeitá-la nos braços, aconchegando-a contra ele, segurando com uma mão à parte de trás de sua cabeça enquanto a descia. Não foi selvagem desta vez, não queria ser. Tomou-a com muito cuidado, lento e suavemente, desejando provar cada centímetro da pele dela, desejando levá-los a numa viagem de puras sensações.

MaryAnn estendeu uma mão para afastar para trás, o sedoso, longo, luxurioso e espesso cabelo, mais denso inclusive do que recordava. Seu cabelo era bonito, mas agora, talvez porque cada sensação lhe parecia muito mais, parecia mais longo, como um manto denso pelo qual queria passar a mão e acariciar e no qual queria esconder o rosto. Mais que tudo, queria aliviá-lo, lhe fazer sentir completo e vivo. Bem melhor.

Moldou com a mão a forma da nuca dele e elevou os lábios para os dele. O beijo dele igualou o preguiçoso e lento movimento de suas mãos, enquanto deslizavam sob sua camisa para seus seios. Seus polegares acariciando-os com o mesmo ritmo lânguido, criando precisas chamas que irradiavam de seus seios para o ventre, para fundir-se a seu sexo já umedecido. Seu corpo esteve imediatamente escorregadio, quente e já ansioso pelo seu.

Adorava sua boca. A sensação e a forma dos lábios e senti-lo quente e dominador. Não importava quão gentil ele começasse, em instantes sua boca tomava o controle da dela, narcotizando-a com beijos, enviando chamas que a faziam girar num vórtice de necessidade. As mãos dele deslizavam por sua pele, deixando-a suspirando por mais, tão gentil, tão paciente, que a sobressaltou quando de repente ele lhe rasgou a blusa para abri-la, enviando botões em todas direções, baixando a cabeça e cobrindo seus seios com sua boca quente e ambiciosa.

Arqueou para ele, segurando sua cabeça, acariciando seu cabelo, sussurrante, pedindo por mais.

Manolito levantou a cabeça para olhar para ela. Era belissima oferecendo-se a ele para tornar o passado muito mais fácil. Se alguém podia, era ela. Estava excitado além do que acreditava possível. Tanto que se ela sabia ou não, estava em sua mente, aumentando suas necessidades, lhe mostrando sua ânsia em lhe agradar de todas as formas que ele quisesse... Ou necessitasse. Ela era sua, mas desta vez, sua luxúria estava envolta em amor. Sabia categoricamente. Não havia forma de não adorá-la quando ela lhe dava tudo sem reservas, quando tinha coragem para entregar seu corpo a um homem tão dominador como ele.

Afastou a saia de seu corpo, desfez-se de suas roupas, sentindo-as muito pesadas e ajoelhado sobre ela, baixou o olhar para os seios plenos e túmidos. Seus mamilos estavam duros e ansiosos. Suas pernas estavam ligeiramente abertas, deixando ver o umido convite de seu corpo lhe chamando. Com um pequeno gemido que retumbou no fundo de sua garganta, baixou a cabeça uma vez mais para ela, que abriu os lábios para ele, aceitando o duro impulso de sua língua. Seus dentes brincaram com o lábio inferior, mordendo o suave arco enquanto sua língua provocava e abria passo. Sob ele, sua pele se esquentou numa lisa e sensibilizada seda, de forma que cada vez que deslizava seu corpo, ela estremecia e tremia com ânsia.

MaryAnn segurou-lhe os ombros com as mãos, cravando as unhas em sua carne, tentando se sustentar, enquanto ele aprofundava os beijos, exigentes agora, tornando-os cada um mais quente e mais aditivo. Estava afogando-se, sem possibilidade de sobreviver, com essas mãos duras e quentes em seu corpo, com essa língua capturando a sua, arrastando-a para sua própria boca, seus lábios tomando o controle como o faziam suas mãos.

As palmas dessas mãos deslizaram de forma possessiva sobre seus seios, os dedos acariciando de seus mamilos. Flechas de fogo desceram para seu ventre e se acomodaram entre suas coxas. Gemeu brandamente, o som vibrou descendo por sua espinha e envolveu seu sexo, para atravessar a ereção dele, que colocou o joelho entre suas coxas, abrindo-a ainda mais para ele.

Acendeu um rastro de fogo de seus lábios a seu pescoço, até sua pulsação que batia freneticamente. Os dentes mordiscavam e a língua acariciava, enquanto ouvia a agitação de seu sangue pulsando em suas veias, por ele.

Era música... Uma música completa, que fazia com que seu próprio sangue se agitasse em resposta. Só MaryAnn podia fazer isto por ele... Acalmar cada demônio, elevar sua alma, trazer poesia a sua vida em meio à crua realidade.

Ela começou se esfregar em sua coxa com um pequeno grito de impotência, lutando por aplacar a crescente necessidade. Podia sentir a acumulação da sedutora umidade contra sua pele nua onde ela se esfregava agitadamente e se sentia tão sensual que não pôde manter o controle.

Sugou-lhe o mamilo demoradamente e ela se contorceu sob ele, já tão sensibilizada que quando lhe cobriu o seio, sentindo a carne cremosa no calor ardente de sua boca, ela arqueou o corpo mais completamente para ele. Seus gemidos o conduzindo mais longe ainda num frenesi de desejo.

Seu coração soava ruidoso, palpitando num ritmo que igualava o dele. Ele desceu por seu corpo, deslizando sobre a superfície sedosa até que pôde sujeitá-la com os braços e lhe rodeando as coxas, levantou-a para seus ambiciosos lábios. Despertou desejando seu sabor, quase maior que sua fome de sangue. Cobriu sua intrigante e pequena abertura com a boca e sua língua revoou e acariciou seu ponto mais feminino. A primeira liberação dela foi rápida e dura, os músculos se contrairam até que as sensíveis terminações nervosas arderam, mas não se deteve.

MaryAnn tentou afastar-se dele, mas sua força era muita. Tudo o que ela pôde fazer foi se agitar sob ele num esforço de escapar de sua travessa investida, o qual só o incitou mais.

- Isso, sivamet. Queime por mim. Estale em chamas. Grite. Seja completamente minha.

Sua voz era um áspero sussurro em sua mente. Sua boca a acariciava, enquanto sua língua a assaltava. Era muito, muito rápido e seu corpo estava muito sensível.

- Não posso. Você vai me matar. - Talvez não matá-la, mas certamente destruiria tudo o que ela tinha sido, convertendo-a em alguém distinto, alguém altamente sexual, alguém que necessitaria de suas mãos e sua boca durante toda a eternidade. Era atemorizznte estar fora de controle, que seu corpo tomasse o comando e sentir e ter sensações intermináveis erigindo-se inexoravelmente. O segundo clímax a percorreu ela gritou seu nome numa súplica, para que parasse ou para que seguisse. Honestamente não sabia.

- Não, ainaak enyem, estou-te amando da única maneira que sei. Estou lhe dando e tomando tudo o que você é.

Ele ouviu os gemidos de prazer retumbando em sua garganta e compreendeu que o som vibrava através da apertada entrada de seu sexo, assim como vibrava através dele. O ventre dela se contraiu e ele intensificou sua caricia e exigiu mais. Dsta vez empurrou a língua de forma dura e rápida, apertando-a contra seu sensivel ponto enquanto se deliciava com o doce mel de seu corpo, com a luxúria e amor que o absorviam de forma tão completa, que estremeceu com eles. Sua boca saqueadora a lançou a um terceiro orgasmo. Ela deixou escapar um agudo gemido.

- Manolito, por favor. Por favor... Por favor faz alguma coisa.

Elevou sobre ela, sem ter noção de seus traços endurecidos pela luxúria e de seus olhos cheios de amor. A combinação quase a desfez. O coração pareceu parar por um momento, depois começou a bater tão duramente que o peito lhe doeu. Ele lhe levantou os quadris, puxando-a sobre o grosso leito de flores até que ela pôde descansar as pernas sobre seus ombros. Com a cabeça de seu membro pulsante alojada em sua entrada, provocou-a deliberadamente.

MaryAnn conteve a respiração. Tudo dentro dela estava concentrado completamente nesse ardente lugar. O feixe de nervos pulsou de antecipação. Ele avançou, com seu grosso membro investindo através dos músculos apertados e sedosos, já tão inflamados e inchados que o toque a puxou a uma culminação tão dura que parecia não ter fim.

Ele penetrou-a completamente, sentindo que as paredes de veludo se contraíam e o apertavam, as ondulantes sensações eram tão fortes que gemeu pela necessidade de se controlar.

Não havia nada. Não podia haver nada, que o aroma e a sensação do sexo apertado envolvendo-o, lhe sugando, levando-o além de toda prudência, e ele entrando nela uma e outra vez, investindo-a com demoradas penetrações, permitindo que as abrasadoras sensações o tomassem completamente.

- Manolito. Havia medo na voz em sua mente. Ela se segurou a seus ombros e suas unhas cravaram-se firmes, sua cabeça oscilou para frente e para trás enquanto levantava os quadris para enfrentar seu sensual assalto.

- Está a salvo, sivamet. Deixo-a a salvo. Relaxe-se para mim. Deixe-me levá-la até as nuvens.

Apertou os dentes, tentando segurar-se, quando cada parte dele queria explodir completamente em outra dimensão. Não havia mais vergonha ou dor e nem outros mundos lhe rodeando ou em seu interior. Só existia MaryAnn, sua outra metade e o santuário de prazer que ela proporcionava.

- Vamos, päläfertül. Voe comigo.

MaryAnn o sentiu então, em sua mente, compartilhando o prazer de seu corpo, compartilhando seu próprio prazer, de forma que suas mentes realçassem a experiência ainda mais. Cada profunda investida enviava ondas eletrizantes que os atravessavam, a ela e a ele. Cada profundo impulso enviava relâmpagos que os percorriam. O suor brilhava em suas peles enquanto chegavam juntos, cada um querendo o prazer máximo para o outro.

Manolito investiu profundo e com firmeza no fremente sexo que o estrangulava, sob os músculos apertados e inchados pelos orgasmos anteriores, que enviavam faíscas que atravessava seu corpo como um raio. Incrivelmente, sentiu sua ereção aumentar mais ainda imobilizando-o, enquanto sentia o membro se elevavar e sua semente quente ser lançada em jorros para suas profundezas de sua companheira, em pulsados rítmicos, enquanto seu corpo estremecia com o poder da erupção, com o prazer lhe consumindo, lhe sacudindo.

Sob ele, ela gritou. Sua liberação a rasgava, seus olhos se tornaram amolecidos e sua face se contraiu sob o choque. O orgasmo foi muito intenso para suportar.

As folhas sobre sua cabeça brilhavam como estrelas de prata e os limites de sua visão se estreitaram. Somente via a ele com seus ombros largos que bloquevam tudo que os rodeava, enquanto ele começou a se inclinar para diante com lentidão infinita.

Manolito permitiu que suas presas se alongassem. Seu corpo ainda estava duro e formemente dentro, preso ao dela. O movimento de seu corpo pressionou seu membro contra o ponto mais sensível. Ela tremeu. Permitiu que ela visse o que viria a seguir, querendo que ela soubesse o que iria fazer.

—Fique quieta, —murmurou quando sentiu seu tremor, quando viu seus olhos abrirem e mostrarem uma emoção, que devia ser medo. - Nunca te faria mal, MaryAnn.

Logo, seus dentes cravaram profundamente no mesmo lugar em que ele a havia marcado antes, sobre o seio. Ela gritou enquanto a dor cedia, convertendo ao mais puro e intenso erotismo. Seu corpo pulsava e se umedecia envolvendo-o, apertando-o com um ritmo delicioso. Envolveu-o nos braços enquanto ele tomava seu sangue, mantendo sua cabeça contra ela, dando-lhe tudo o que era.

Quando finalmente ele passou a língua pelo ponto, fechando a diminuta abertura, beijou-a brandamente. Estranhamente, sentiu o desejo de mordê-la novamente, de afundar os dentes no ombro sedoso e envolver-se no sabor doce do líquido da vida. Resistindo, retirou-se lentamente dela, saboreando a sensação da estreira abertura, deixando-a contra vontade. Voltou-se e colocou-a sobre ele, para que o corpo dela o cobrisse como uma manta.

Estava sob ela, sentindo a impressão do corpo feminino sobre o seu, os montículos suaves de seus seios, os mamilos pressionados contra seu peito. Ela era suave e úmida, plácida como a seda, mesmo com suas curvas exuberantes. Podia sentir seu coração pulsando, sentir o calor entre suas pernas, ouvir o som de seu sangue precipitando ardentemente pelas veias. Os dedos enterrados em seu cabelo. Era perfeita. O momento era perfeito.

—Sonhei contigo ontem à noite —murmurou ela, levantando a face para lhe acariciar a garganta com o nariz. Sua língua brincou sobre sua pulsação e seus dentes lhe beliscaram a pele. - Sonhei com seu corpo dentro do meu e eu gritava seu nome. Foi um lindo sonho, durante um momento. —Ela lambeu-lhe outra vez a pele e sua língua se atrasou no pequeno lugar—. Mas então chegaram os lobos… —Sua voz se apagou e ela o beijou na garganta, apertando os lábios sobre esse lugar, querendo mais, muito mais. Estava faminta de seu sabor. A mandíbula lhe doía pela necessidade, sentiu os dentes mais longos e mais pontiagudos quando deslizou a língua pelas pontas. Acariciou-lhe o ombro com o nariz, lhe mordiscando outra vez.

Sob ela, Manolito ficou imóvel. Suas mãos lhe rodearam os braços como grilhões,e a separou dele de um puxão. Os negros olhos continham tal perigo, tal ameaça, que ela se virou, procurando entre as copas das árvores uma razão. Sua quietude fez com que voltasse a atenção para ele.

O que houve?

Lentamente ele a afastou e sentou-se, passando as mãos no cabelo negro. Seu olhar voltou para ela, frio, duro e absolutamente ameaçador. Sua mente se afastou da dela, deixando-a trêmula e esfregando as mãos pelos braços.

Manolito, o que está acontecendo?

—Sonhei contigo ontem à noite, —disse ele num tom que a colocou em alerta. - Sonhei com meu corpo enterrado profundamente no teu, com as coisas que lhe fazia e contigo gritando meu nome com prazer. E então chegaram os lobos… —Tal como acontecera com ela, sua voz decaiu.

Ela se sentou como ele havia feito, levantou os joelhos, desejando poder vestir a roupa tão facilmente como ele estava fazendo agora.

—Compartilhar um sonho te incomoda? Por que? Não acha que possa acontecer, especialmente se estivermos tão conectados?

—Os Cárpatos não sonham. —Ele recolheu o cabelo para trás e o prendeu com uma tira de couro. – Nós dormimos o sono dos mortos. Nossos corações e pulmões se detêm para rejuvenescer. Nossos cérebros fazem o mesmo. Não podemos sonhar.

MaryAnn não estava segura do que ele dizia, mas sua boca secou e seu coração começou um ritmo mais duro e mais rápido.

—Certamente sonhou quando estava despertando ou quando foi dormir.

—Como explica minha tolerância ao sol? Sou incapaz de caminhar sob a luz da manhã há séculos. Mesmo com nuvens e graves tempestades, o sol feria meus olhos e meu corpo tornava-se de chumbo. Entretanto, permaneci contigo até quase meio-dia. Explique-me isso Sua voz era baixa e dura, fustigando-a com uma acusação tácita. - Emergi quando havia sol e ainda assim minha pele não ardeu nem encheu de bolhas.

—Como posso eu explicar algo assim? Sei pouco de Cárpatos e companheiras. Talvez uma vez tenha sua companheira, tudo isso se restaura. —Ele pegou sua blusa e a vestiu. – Você arruinou os botões.

Impaciente, ele ondeou a mão e ela se encontrou, não em suas próprias roupas, mas com uma camiseta de algodão e jeans. Jeans. Não o vestido que ele tinha pedido que vestisse para ele, mas as calças que ele não gostava. Engoliu o medo, tentando não chorar enquanto começava a trançar os cabelos, precisando fazer alguma coisa ara escapar de seu olhar frio. Acabavam de compartilhar algo que poucos, se acaso alguém experimentaria um dia na vida, e agora ele a rechaçava, afastava-a. Sentia-se como se ele tivesse lhe dado um tapa.

—Você me mordeu. - Disse ele. - Vi em sua mente.

Ela afastou-se dele até que suas costas ficou contra o corrimão.

—E o daí? Queria fazê-lo, sim. Mas então vi que você pretendia o mesmo. Você queria tomar meu sangue e queria que eu tomasse o seu. Queria me levar completamente para seu mundo e não veio me perguntar. Tomou a decisão sem meu consentimento.

—Você é minha companheira. Não preciso de seu consentimento. —       Havia uma emoção escura piscando em seus olhos. Pequenas luzes âmbar começaram a brilhar no puro negro obsidiana.

A fúria a percorreu.

—Sabe de uma coisa? Eu não preciso de seu consentimento para nada e vou voltar para a casa. – Ela se levantou, e suas mãos aferraram o corrimão quando ele levantou-se também e ergueu sobre ela, parecendo um predador a cada polegada.

—De fato,você necessita de minha permissão. E ficará aqui e ouvirá o que tenho a dizer. Quero saber a verdade, MaryAnn.

Ela semicerrou o olhar para ele.

—Você não reconheceria a verdade nem que eu te mordesse o traseiro.

—Você me mordeu. E eu tomei seu sangue em várias ocasiões.

Ela inclinou a cabeça.

—E isso é minha culpa? Eu não lhe pedi. De fato, sequer me inteirei a primeira vez que o fez.

O que?

—Sou uma mulher de saco cheio.

Ele deu um passo, aproximando-se mais dela, tão perto que ela podia sentir o calor de sua ira.

—Você é mulher-lobo e está me infectando com seu sangue.

 

MaryAnn lhe olhou fixamente durante vários e longos segundos e depois começou a rir.

—Você está totalmente louco.

Manolito não parecia nada divertido. Pelo contrário, sua expressão se endureceu mais ainda.

—Não estou louco. Cheiro o lobo em você e se fosse honesta contigo mesma, poderia cheirá-lo também sobre mim.

Ela negou com a cabeça, mas sua risada desvaneceu.

—Isto é loucura. Sei que os Cárpatos mudam de formas. Eu não. Vivi toda minha vida como ser humano. Meus pais não são homens-lobos. Duvido que tal coisa exista.

—Por que essa dúvida quando viu homens-jaguar e vampiros se transformarem? Se reconhece a existência da raça dos Cárpatos? Por que tem problemas para aceitar os homens-lobo?

O suor brilhava na testa de Manolito. Lembrou-se que os Cárpatos suavam sangue. Ele limpou as têmporas.

—Então onde estão? E se realmente existem e sou uma deles, por que não me reconheceu antes? —Esse assunto de suar sangue era... Ahggg, e não estava se convertendo em Cárpato. Gostaria muito mais de ser uma loba!.

—Porque não vi ou tenho ouvido falar dos licántropos há séculos.

Ela colocou as mãos nos quadris.

—Deixe-me esclarecer as coisas. Você estava totalmente apaixonado por mim e disposto a me converter em Cárpato quando acreditava que eu era humana, mas agora é diferente porque eu poderia converter você em alguma outra coisa. —Ela elevou o queixo, desafiando-o. - Quer dizer que está perfeitamente bem que eu te entregue quem e o que sou, mas é diferente para você?

Ele a olhou, carrancudo.

—Nasci para ser Cárpato. Isso é quem e o que sou.

Pressionando a mão contra o estômago, com a fisionomia abatida, ela disse:

—Você é um hipócrita macho chauvinista, um estúpido e idiota Neanderthal. Eu devia estar louca para acreditar que poderia viver com alguém como você.

Ele desprezou a opinião dela sobre ele.

Somos companheiros. É obvio que farei o que for necessário para completar a conversão e te trazer para meu lado completamente, mas tenho que estudar este problema de diversos ângulos. Nunca ouvi falar de uma mulher lobo e um Cárpato, juntos. O sangue do lobo é tão forte como o sangue Cárpato.

—Não sou lobo.

—O lobo vive dentro de você e é parte de você. Não é igual quando eu mudo de forma. O lobo é seu guardião e emerge quando você precisa. Deve ter sentido-o perto de ti. Por isso tem flashs de cor. E por isso nós podemos ficar sob luz do sol da manhã. Só meus olhos se vêem afetados pela luz do sol, não todo meu corpo. Você não se queima ao estar sob o sol apesar do fato de que meu sangue flui por suas veias. A mudança já deveria ter começado a surtir efeito.

—Acha que eu soube todo o tempo e que de alguma forma teria podido evadi-lo? Se houver um lobo em mim, agora é o momento de que emerja. Desejo me lançar diretamente em sua garganta. —Furiosa, ela empurrou-o para lhe afastar de seu caminho. - Deveria se ouvir agora. De verdade acredita que quero passar o resto de minha vida com um homem que não tem nenhuma avaliação por meus sentimentos?

—Tenho em conta seus sentimentos.

—Claro! E por isso que me acusou de estar te infectando. – Ela cuspiu a palavra, furiosa. - Como se eu fosse uma mancha, uma enfermidade. Sabe de uma coisa Manolito da Cruz? Você merece que o enviem de uma vez para o inferno. E certamente sou uma idiota em acreditar que uma relação contigo poderia significar algo mais que sexo quente.

Ela foi até a beirada da plataforma e segurando o corrimão, olhou para baixo. Já tinha saltado uma vez, mas agora parecia muito mais alto. A coisa dentro dela, o lobo, conforme ele suspeitava, removeu em seu interior, reconhecendo sua fúria. Engoliu o repentino medo que bloqueava sua garganta, ela e se voltou, com o coração palpitando tão forte, para que ele que pudesse ouvi-lo. A cabeça começava a lhe doer e um zumbido, como milhares de insetos reverberavam através de sua mente. Sentia o crânio muito apertado e seu cérebro começava a pulsar ao mesmo tempo em que uma onda de sangue se apressava por suas veias.

—Você sabia. —Declarou ele. - Foi completamente consciente de que tomei seu sangue. Queria tomar o meu. Desejava meu sabor em sua boca. Quente e doce estalando de vida. Esse não é um comportamento humano.

—Você me fez desejá-lo. —Sua voz saiu num sussurro. Ela pressionou a mão contra o estômago revolto. Entre a fúria e o medo deveria encontrar algum tipo de equilíbrio, mas tudo o que sentia era desorientação, balançando de um lado a outro.

—Não. Não forcei sua conformidade. A chamada do lobo estava em você.

MaryAnn se afastou dele, com o coração palpitando com força. Tudo tinha sentido. Mas não deveria ser assim. Não podia aceitar o que ele dizia. Não queria um lobo dentro dela. Nem sequer sabia o que implicava isso ou como era possível.

—Me leve de volta. —Não o olhou, não podia enfrentá-lo. Sentia-se muito só. - Quero retornar agora. —Sentir-se só a deixava zangada uma vez mais. Quando ele tivera que confrontar seu pior momento, ela lhe tinha dado seu apoio, mas ele a rechaçava. Rechaçava-a.

—Fechaste-se totalmente para mim.

—Idiota! —MaryAnn desejou atravessar de um salto à plataforma e lhe dar uma bofetada. Seria ele de verdade tão obtuso? Respirando profundamente, esforçou por recuperar o controle. - Ouviste-me? Pedi a você que me leve de volta. —Porque quero ir para casa. Retornaria a Seattle, onde a vida era normal e não sentia desejos selvagens por nenhum idiota que vivia há vários séculos.

MaryAnn, nenhum de nós dois tem opção. Temos que resolver isto.

Seu queixo se ergueu, seus olhos escuros brilharam para ele.

—Eu tenho opção. Não permitirei que minha vida me escape das mãos. Você rechaçou-me, quando acreditou que eu o mudaria, que já não seria um precioso Cárpato. Até onde eu sei, perdeste todos os direitos que tinha sobre mim como sua companheira. Pedi que me levasse a casa. E fui muito educada a respeito. —Não se sentia tão educada agora. Suas unhas lhe cravavam nas palmas das mãos. O zumbido em sua cabeça aumentava cada vez mais. O interior de sua boca parecia estar recoberto de cobre.

—Não a rechacei.

—De verdade? Bem, a meu ver você é um covarde. Quer que eu assuma todos os riscos. Quer que me converta em algo desconhecido e aterrorizante e tenho que aceitar só porque de alguma forma o destino decretou que temos que estar juntos. Bem, pois me nego a estar com alguém que exige que eu jogue tudo pelo tudo, mas ele não arriscará nada de nada. Leve-me a casa agora.

Foi uma ordem, uma compulsão e pela primeira vez, ela se deu conta de que não só tinha pensado... Havia dito. Tinha expulsado a ordem do interior de sua mente, furiosa por seu dobro moralidade. Furiosa consigo mesma por ter deixado ele tomá-la. Mais assustada do que nunca tinha estado em sua vida, porque suspeitava que não havia volta atrás e que mesmo se conseguisse voltar para casa, o que havia em seu interior resistiria a sossegar

Era psíquica, tal como todos lhe haviam dito. Estivera usando suas habilidades todo o tempo, sem se dar conta do fato. Examinou-o e o ar parou em sua garganta. Ele olhava para ela e seus escuros olhos brilhavam intensamente ameaçadores. Ele estava tão furioso como ela e era bem mais atemorizante.

Eu disse que não. Você não vai a lugar nenhum.

Ela saltou para ele, tentando arranhar-lhe a face com suas longas unhas, falhou por pouco, pois ele já capturava seus braços e a sacudia duramente.

—Como se atreve a me dar ordens? — ela sacudiu-a outra vez. - A mim? A seu companheiro? Atreve-se a influenciar minha mente? A me atacar?

Com quem ela estava conspirando para tentar lhe prender e matar? Ela o enganara. Mesmo enquanto as palavras saíam sem pensar, mesmo enquanto contemplava a idéia de que ela pudesse lhe fazer mal, rechaçou imediatamente os pensamentos.

O que estava fazendo e pensando? Teria perdido o julgamento? Era um covarde como ela o chamara? Sempre entrou na batalha com o vampiro sem se sobressaltar. Ninguém nunca tinha questionado sua coragem, mas agora intimidava sua companheira quando ela precisava de amor e tranqüilidade. Acusava-a de coisas que a inocência em seus olhos e em sua mente desmentia.

Era esta sua verdadeira personalidade? Ou era alguma manifestação do lobo ao se misturar com seu sangue Cárpato? Ambas as espécies eram dominadoras. Ambas exigiam obediência instantânea, o lobo talvez mais. Quem sabia que tipo de segredos guardava essa elusiva comunidade? Obviamente viviam se ocultando e ainda sobreviviam, mas ele não tinha forma de compreender o que estava acontecendo... A farata cabeleira, a exacerbação de seu sentido do olfato, a aguda audição, a possessiva necessidade de conservar sua companheira a seu lado e impregná-la totalmente com sua essência.

Estava furioso consigo mesmo, não com ela. Deveria ter reconhecido os traços do lobo nela, estaria mais preparado para as conseqüências de tomar seu sangue. Estivera consumido por ela, tanto que quando despertou necessitava seu corpo envolto ao redor do dele, muito mais do que necessitava de sangue para sobreviver. Em todos os séculos de sua existência, isto nunca lhe tinha acontecido. Ela estava presente em cada um de seus pensamentos, hipnotizando-o até que soube que não poderia sobreviver sem ela. Pior ainda, quando a mente dela se retirava da sua, o outro mundo o invadia e ele se via abandonado em sombras de cinza, perambulando, tentando encontrar uma forma para religar totalmente seu espírito e corpo.

Não podia obrigá-la a lhe aceitar. Não podia entrar em sua mente e ser uma presença perene. Nem tampouco podia persuadi-la das conseqüências de que ela rechaçava associar sua mente com a dele. E como ela se retirou, ele já não poderia reter o poder suficiente para manter seu espírito totalmente na terra dos vivos. Ao redor dele, as cores se esmaeceram e tudo perdeu a intensidade, se tornou cinzento e quando olhou para as mãos, pôde ver através delas. Sentia o cérebro como se estivesse lhe estalando dentro do crânio e seus ombros sacudidos pela dor. Normalmente, poderia ter se desligado da dor, mas era impossível. Sentia a língua grossa e com um gosto de cobre.

MaryAnn lutou contra sua natureza, abrindo a boca com intenção de lhe insultar, de tão ferida que desejava entrar num buraco e jogar terra sobre ela, tão furiosa que poderia bater novamente ou arranhá-lo com suas afiadas unhas, mas algo nele chamou sua atenção. Deixou de lado seus sentimentos feridos e forçou sua mente a entrar na razão.

Manolito, dói-te à cabeça?

Ele assentiu, pressionando com força as têmporas.

—Não deveria experimentar uma dor como esta. Não entendo. —A menos que fosse o lobo. A menos que fosse esta mulher, pretendendo fazer-se passar por minha companheira quando na realidade é uma boneca do vampiro, para me conduzir à destruição.

Ela captou tudo e se sobressaltou tanto que esteve a ponto de sair de sua mente, temendo que ele a machucasse ainda mais com seus insultos, mas então captou um som. Um zumbido. Como um milhão de insetos, só que bem pior do ela estava sentindo em seu cérebro. O ar ficou preso na garganta. O instinto lhe dizia que tinha sair dali com rapidez, mas se obrigou a se tranqüilizar. Era psíquica. Tinha a capacidade de ler as mentes, só que não tinha sido consciente do que fazia. Não havia nada a temer. Somente averiguar como fazia.

Exalou com força e se estendeu para ele, enchendo seus pensamentos dele, desejando que ele se sentisse melhor, desejando subtrair sua dor e ver o que... Ou quem... Estava lhe fazendo mal. O zumbido se fez mais forte, muito mais alto em seu cérebro, fazendo-a sentir-se tão doente que correu para o corrimão e se inclinou sobre ele, mas agüentou decidida a empurrar mais à frente. Vozes suaves e insistentes estavam engatinhando pela mente dele. Apunhalando seu cérebro.

Manolito. —Segurou-lhe a mão e a segurou com força. - Estamos sendo atacados. Você está sendo atacado. Posso ouvi-los. Estão tentando fazer você me matar.

Ele não vacilou, sua mão envolveu a dela.

—É o não-morto. Maxim procura de me prender no outro lado. —Tudo fazia sentido agora e de certo modo era um alívio saber que não estava louco. Não havia se voltado contra sua companheira. Não lhe tinha ocorrido que seria vulnerável na terra das sombras, mas agora devia pensar mais nisso. Seu corpo humano estava vivo e uma parte de seu espírito tinha retornado para os vivos, o que queria dizer que os mortos estariam a par de que ele já não pertencia de todo a seu mundo.

—Como pode ser, se está morto?

—O espírito de Maxim ainda está na terra das sombras, onde está meu espírito. Deve estar me atacando do interior. —Ele puxou-a para perto, para seu corpo. - Não quero que as últimas lembranças que tenha de seu companheiro sejam de rechaço e fúria. Não posso acreditar como Maxim pôde alcançar um antigo tão experiente na batalha como se supõe que sou. Caí sob sua influência como um inexperiente pato. – Ele beijou a mão dela. - Perdoe-Me, MaryAnn. Não te teria machucado por nada do mundo. É meu privilégio te proteger, mas na primeira prova, falhei contigo.

—Não, não falhou, —disse ela—. Simplesmente me diga como fazer com que ele pare. —Porque o que fosse que Maxim estivesse fazendo, fazia com que Manolito sofresse. Podia ver em seus olhos, podia senti-lo em sua mente. - Diga-me o que quer que eu faça.

—Tenho que entrar totalmente no mundo dele e meu corpo ficará vulnerável a um ataque. Se o matarem ou destruírem meu corpo, estarei perdido. Devem ter um plano.

Ela elevou o queixo.

—Posso ir lá contigo. Estou bastante segura de saber como fazer.

Ele negou.

—Não. É muito perigoso. Eu posso me transportar ao mundo das sombras, porque meu espírito esta encravado ali, mas você está viva e ali não há lugar para ti. Eles a veriam no momento em que entrasse. Acredito que podem te matar nesse lugar.

—E eu acredito que já estão te matando nesse mundo, agora mesmo.

—Não me matarão. —Ele segurou-lhe o queixo. – Ouça-me, MaryAnn. Isto é importante. Incomodou-me descobrir que estava mudando, me convertendo em lobo, como você está mudando e se convertendo em Cárpato, mas não pelas razões que pensa. Não pelas razões que acredita. Seja qual seja a influência de Maxim em mim, neste momento meus pensamentos são claros. Outras mulheres psíquicas se transformaram exitosamente em Cárpatos. Foi um processo doloroso, mas estão saudáveis e felizes e parecem aceitar suas vidas de bom agrado. Não espero menos para você.

Ele inclinou para depositar um beijo na parte superior de sua cabeça.

—Descobrir o lobo muda a equação. Não há precedentes. Não temos nem ideia do que poderia ocorrer se te converto. Não temos idéia do efeito que o lobo teria em mim. Posso ver que estou mais agressivo e autoritário e você já tinha me indicado que teria problemas comigo nessa área. Não quero correr riscos com sua vida. Até que saibamos mais, temos que ser precavidos. Eu poderia me tornar perigoso ou morrer. Simplesmente não sabemos.

MaryAnn se apoiou nele, precisando tocá-lo, começando a dar asas ao pânico. Havia algo incorreto na forma em que seus olhos enfocavam.

—Fique comigo, —sussurrou-lhe, apegando-se a sua mão. – Fique comigo, Manolito.

—Tenho que retornar lá. O que Maxim está urdindo, faz no prado das névoas e fantasmas, sivamet. Não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo e combatê-lo.

—Então vou contigo.

—Você não pode. Meu corpo humano ainda estará aqui desprotegido. Enviarei uma mensagem a meu irmão para que venha imediatamente e a leve a um lugar seguro. Ele saberá o que fazer com meu corpo. —Embalou-lhe o rosto entre suas mãos, fazendo acariciando a pele sedosa. – Você é a pessoa mais importante em meu mundo, MaryAnn. Não posso te colocar em perigo. Por favor faz o te digo e espere aqui onde estará protegida por Riordan até que eu retorne. Não posso me preocupar com você e combater Maxim ao mesmo tempo.

Ela olhou fixamente para os escuros e brilhantes olhos, compreendendo que não havia nada que pudesse fazer para detê-lo. Ele acreditava que tinha que protegê-la e o faria. Morreria e mataria por ela. Faria tudo por ela, sem importar as conseqüências para ele. Manolito iria aonde o vampiro tinha todas as vantagens.

O sorriso dele foi gentil e a ponta de seu polegar lhe roçou o lábio inferior.

O que te faz pensar que ele tem vantagem, csitri?

—É mais cruel que você e bem mais ardiloso. E teve tempo para planejar.

O sorriso dele se ampliou.

—Não acredito que tenha que se preocupar com quem seja mais cruel ou ardiloso. Ele teve tempo para planejar, mas conta com que eu tentarei permanecer neste mundo. Enviará outros aqui. Eles virão, então não saia até que Riordan esteja aqui para te escoltar.

Ele já estava desaparecendo, seu espírito deslizando-se sigilosamente, para longe dela, longe do mundo dos vivos. MaryAnn tentou apegar-se a ele, mas não tinha sentido. Ele já havia desaparecido e somente restava seu corpo, uma concha vazia, desvanecido e sem vitalidade. Ainda teve força para sentar apoiando as costas contra o corrimão. Então isso também desvaneceu e ela ouviu sua chamada.

- Riordan. Tenho muita necessidade de você. MaryAnn está desprotegida e o vampiro enviará tudo o que disponha para matá-la. Deve chegar até ela.

A resposta na cabeça dele soou distorcida e demoníaca. Não pôde registrar que o falava em outro idioma, que ela não entendia. Abruptamente Manolito se afastou, confuso. A voz estava tão deformada, que não podia distinguir se ele falava com seu irmão ou não.

MaryAnn inalou ar profundamente e o expulsou dos pulmões. Podia se comunicar. Fundira-se com Manolito quando quis e podia fazer o mesmo com Riordan. Tudo o que tinha que fazer era seguir o caminho original que Manolito tinha usado.

- Riordan. – Sua primeira tentativa foi indecisa, mas ela o sentiu mover-se e engastar o caminho imediatamente.

- MaryAnn. O que está acontecendo com Manolito? Juliette e eu transportamos Solange e Jasmine para o rancho. Ninguém está a salvo aqui. Posso ver que está com problemas, mas não posso lhe alcançar.

Ela engoliu a onda de medo. - Quanto tempo levará para voltar aqui? - Seu estômago deu um duro nó, mas cela ravou as unhas no corrimão e esperou

- Estamos voltando agora. Se levarmos Jasmine e Solange para casa com os outros, não poderemos te ajudar a tempo. Estaremos de volta, agüente. Pode alcançar Manolito? Pode chegar até ele e lhe segurar neste mundo?

MaryAnn percorreu com o olhar o corpo de Manolito. Se saísse para lhe buscar na terra das sombras, seu corpo ficaria completamente vulnerável. - Posso ir a ele quando você estiver aqui e sei que posso lhe trazer de volta. - Colocou muito mais confiança em sua voz do que na realidade sentia. Aceitar que era psíquica e que podia falar telepáticamente não era fácil. Seu cérebro insistia em lhe dizer que estava louca. – Se apresse, Riordan. Não acredito que tenhamos muito tempo.

Os macacos nas árvores circundantes gritaram uma advertência. As aves irromperam no céu, batendo as asas com força, batendo o ar de forma que pôde ela cheirar os intrusos. Um jaguar e um humano que ela acreditou ser o mago. Levava em cima a mancha que ela associava com o vampiro. E outro mais. Seu coração trovejou com força enquanto seu nariz se enrugava. O vento lhe levou um aroma de decomposição. Vampiro? Não estava preparada para lidar com um vampiro.

MaryAnn correu para o corrimão. Sim, estava em grandes problemas. Podia ver o jaguar emergindo do bosque de samambaias ao longo do riacho. Sua pelagem estava escurecida pela água e enquanto ela olhava para baixo, ele elevou a cabeça e fixou seu olhar nela. Seus olhos se encontraram. Mostrou-lhe os dentes.

Ela passou a mão pela coxa. Pelo menos Manolito a havia provido de calça jeans, uma de suas roupas favoritas. Poderia morrer com bom aspecto. Respirou fundo e considerou suas opções. Se corresse, eles deviam segui-la, mas duvidava que os três a perseguissem, o que deixaria o corpo de Manolito vulnerável. Certamente o destruiriam e com isso... A ele.

- Você deve ir, MaryAnn. O mago desenredará as salvaguardas e você não poderá enfrentar o jaguar, o mago e o vampiro. vá agora.

A voz de Manolito soava longínqua e muito frágil. Seu espírito estava ainda em outro reino.

- Não deixarei seu corpo aqui para eles. Riordan está a caminho.

- Não pode esperar muito. Não pode enfrentar um vampiro, sozinha.

Indubitavelmente não queria enfrentá-lo, fosse só ou com um exército.

- Não acredito que tenha que se preocupar muito por me aproximar muito deles.

Ele parecia tão longínquo que ela teve que lutar para esconder seu pânico.

Como em tão pouco tempo ele se tornara tão importante para ela? Tinha acreditado que era uma simples atração física e nada mais. Ele ra incrivelmente bonito. Nenhum homem jamais a tinha cuidado como ele. E era o bastante inteligente para se precaver do quanto era perigoso esse matiz machista inerente A sua personalidade, também atraía as mulheres, mas ela era muita lógica para sucumbir um homem por isso. Talvez ao longo de sua vida tinha prescindido da atração porque isso a mantinha a salvo. Amar Manolito da Cruz era o mais parecido a se atirar de um precipicio.

MaryAnn suspirou. Já tinha tomado a decisão de se lançar, em algum momento, até sem dar conta disso. Não lhe importava que ele fosse Cárpato e enquanto ela era… O que fosse. Manolito era sua outra metade e ia manter-lhe com vida. Faria o que fosse preciso para trazê-lo de volta a terra dos vivos, de retorno a ela.

Deixou-se vem pelo jaguar, queria que ele sentisse seu desafio. Queria lutar com ele com as mãos ou… Garras. Porque não conseguiriam o corpo de Manolito. Encontraria a forma de usar tudo que tivesse a seu alcance, qualquer poder que na realidade tivesse, para lhe manter a salvo até que Riordan chegasse para encarregar-se de tudo. E então entraria na terra das névoas e fantasmas ou como é que chamavam o tiraria dali a rastros.

Embaixo, o jaguar grunhiu em resposta, revelando seus cruéis e longos dentes. Prescindiu de qualquer fingimento que ocultasse suas intenções e subiu pelo tronco de uma grande árvore. Usando suas garras, puxando os galhos mais baixos e começou a correr ao longo dos cipós da canopia, formados por grossos galhos superpostos. O felino corria para ela e seus olhos resplandeciam veneno.

MaryAnn observou ao jaguar aproximar, sua pulsação corria a mesma velocidade que as patas do jaguar quando golpeavam cada árvore, rompendo pequenos galhos enquanto se aproximava. Sentia o peito a ponto de explodir. Muito tensa. Sentia como se seu cérebro se inchasse e não coubesse bem dentro da caixa de seu crânio. Os dentes e a mandíbula lhe doíam atrozmente. Os músculos se contraíam. A pele ondeava como se algo estivesse sob ela. As pontas de seus dedos começaram a se separar, dobrando-se numa curvatura. Sentiu como se estivesse confinava num compartimento apertado, diminuto, num lugar estreito sem saída.

O pânico enegreceu sua visão. Podia sentir a essência de quem era, sendo atraída a um vórtice, formando redemoinhos, encolhendo-se, até se tornar pequena.

MaryAnn estendeu as mãos, segurando ao corrimão para se ancorar e com um pequeno e apavorado grito, afastou-se para trás. Suas unhas se afundaram no corrimão da plataforma, deixando atrás de si profundos sulcos, enquanto exalava a sensação de ser tragada viva. O jaguar saltou diretamente para ela, com as garras estendidas e ela saltou para trás, tropeçando com as pernas de Manolito e aterrissando duramente sobre seu traseiro.

Mas ele se estrelou contra uma parede invisível e caiu pesadamente, arranhando desesperadamente, procurando se aferrar a tronco ou galhos, rompendo muitos deles a sua passagem passo.

MaryAnn ficou em pé lentamente e apareceu com cautela. O jaguar golpeou um ramo grande e ficou pendurado, ofegando, com os flancos inchando-se, tentando recuperar o ar. Debaixo do felino, um homem emergiu entre a espessa folhagem e elevou as mãos no ar. Um mago. E um que parecia saber o que fazia. A diferencia do outro mago, que parecia fazer tentativas enquanto trabalhava, este homem não baixou a velocidade enquanto trabalhava em desentranhar as salvaguardas de Manolito. Os invisíveis fios tecidos tão entrelaçadamente começaram a desenredar com tanta rapidez que ela quase pôde senti-los cair diante dela.

Apertou com dureza os lábios e obrigou sua mente a expulsar o pânico. No instante em que o mago vencesse as salvaguardas, o jaguar atacaria. Podia tentar matá-lo, mas não sabia nada sobre combater vampiros, embora fossem novatos. E o mago era perigoso também. O que tinha feito a última vez para matar o mago? Não podia se lembrar. Não havia matado-o de propósito. Só queria que ele se fosse, que partisse.

Os macacos gritavam para o jaguar e faziam cair galhos sobre ele. O jaguar grunhiu e saltou para um dos menores, nos galhos mais baixos. Imediatamente toda população de macacos enlouqueceu. O som era ensurdecedor. MaryAnn compreendeu que o mago já tinha desenredado a barreira de som que Manolito tinha erguido.

- Riordan. Vêem logo. – ela tentou lhe enviar a impressão do mago, o vampiro e o jaguar.

Sentiu sua repentina tensão. - Pode sair daí?

- Teria que deixar o corpo de Manolito desprotegido. Não acredito que tenha muito tempo antes que o mago rompa e atravesse as salvaguardas. Parece saber bem o que está fazendo.

- Manolito terá tecido algumas surpresas, mas o mais provável é que andasse procurando privacidade, não que esperasse um ataque exaustivo contra os dois.

—Ande logo... —Sussurrou, em voz alta.

Tinha que haver uma forma de distrair o mago. Concentrou nele, enfocando totalmente a atenção em seu rosto, sua expressão e na forma em que seus lábios se moviam enquanto pronunciava o desentranhamento das salvaguardas que Manolito tinha estabelecido. Como podia detê-lo? Retardá-lo? O que precisava era uma forma de conseguir que a terra sob seus pés se abrisse, uma enorme greta que seguiria cada um de seus passos se tentasse escapar.

A árvore se sacudiu. O chão ondulou, atirando o mago ao chão. Ele olhou-a fixamente e retrocedeu Engatinhando apressadamente, procurando evitar a greta que se abria na terra.

Ela ficou sem fôlego e imóvel. Ela estava fazendo isso? Era possível? Podia realmente ter quebrado um galho que se localizava sobre o primeiro mago e havê-lo deixado cair sobre ele? Essa idéia de uma vez a deixou doente, mas lhe deu esperança. Mas como estava fazendo? Que mais estava fazendo? Que mais era capaz de fazer?

Por primeira sentiu uma pontada de esperança. O movimento inquieto dos macacos chamou sua atenção. Atiravam folhas e pequenos galhos não só ao jaguar, mas também também no mago, como se estivessem firmemente aliados com ela. Exalou lentamente. Os animais estiveram seguindo-a? Haviam obedecido quando pedira que se fossem? E os homens jaguar, inclusive os cambiaformas, detiveram-se quando ela havia ordenado. Não os controlara durante muito tempo, mas por um instante a tinham obedecido também.

Esfregou a cabeça palpitante. Era como se estivesse partindo. Sentia o peito oprimido, como se tudo em seu interior se expandisse e contraísse, tornando-se cada vez mais e menor. Sentia como se seu corpo não estivesse bem e duros nós apareciam sob sua pele, em cada músculo. Era irritante e francamente horripilante. Por um momento sentiu uma sacudida, o desejo de se por a correr, mas então olhou para Manolito. Ele estava imóvel, seus olhos tão vazios enquanto seu corpo parecia forte e viril. Ele não fraquejava ao tentar protegê-la, e ela não deixaria por menos.

Sua coluna vertebral se contraiu e ela levantou os olhos para os animais na canopia. Havia muitos deles. Seu elevado número era reconfortante. - Na realidade nós não gostamos desse homem mau, não é? Ele está tentando me fazer mal. Lancem-lhe coisas. Coisas grandes. Joguem-lhe o que tiverem. Não deixem que ele mova os braços no ar.

Os macacos ficaram enlouquecidos, saltando e sacudindo os galhos das árvores, correndo de um lado a outro, mostrando dentes e golpeando o peito com crescente agitação. Ela então começou a ser consciente do fluxo de energia. Era pequeno a princípio... Mas somente podia supor o que estava fazendo... Quando os animais responderam e a energia se expandiu a seu redor, tornou-se muito consciente dela. Aspirou profundamente e se conectou ao caldeirão de poder, dirigindo-o desta vez para o rugiente jaguar.

- Esse homem não pertence a seus domínios. Ele tentou vos escravizar. Tiraram-lhe tudo e conduz seu povo a extinção. Olhe-os realmente como que são. O vampiro colocou sua marca em você. Uma vez foi um homem orgulhoso, agora faz o que ele te ordena. Eles não têm lugar aqui.

O jaguar agitava sua larga cabeça continuamente, parecia confuso. Deu alguns passos para a árvore como se fosse atacá-la ela outra vez, mas se deteve, tremendo.

O mago deu uma ordem e agitou uma mão, gesticulando para ela

- Por que este homem tem que te dizer o que deve fazer? É seu amo? Possui-te? Você é jaguar. A selva é sua. Quem quer que caminhe por aqui deveria fazê-lo com sua permissão, não ao contrário.

O jaguar soltou um grunhido e girou a cabeça para o mago, com seus olhos flamejando com fúria. O mago ficou congelado no lugar. Começou a falar quedamente, cantarolando enquanto suas mãos desenhavam padrões rápidos diante dele.

- Cuidado! Ele está tentando usar seu poder contra ti. Olhe-o. Ele te prenderá com um feitiço. Ataque-o antes que termine. – Ela impregnou alarme e urgência em seus pensamentos.

O jaguar grunhiu ao mago e deu vários passos lentos ele, despindo os dentes. O mago cedeu terreno, retrocedendo, desta vez estendendo a mão para deter o grande felino ameaçador.

A grossa cerca de samambaias douradas e murchas retrocederam enquanto um terceiro homem abria passo entre os arbustos. Este era, a seu turno, belo e grotesco. MaryAnn piscou várias vezes, tentando enfocar sua verdadeira forma. Com um movimento casual das mãos para os macacos, estes se aqueitaram num inquieto silêncio. Disse uma palavra ao jaguar e ele se deteve.

MaryAnn tocou com a língua os lábios repentinamente secos. Era um vampiro... O epítome da maldade. Ele levantou o olhar para ela e sorriu. Seus dentes afiados estavam manchados de sangue e sua pele parecia estirar e apertar-se contra o crânio. No momento seguinte era um homem atraente, com um longo e cativante sorriso.

—Desça e se se una a nós, — ele convidou-a suavemente.

MaryAnn sentiu o zumbido em sua cabeça e soube que ele tinha inserido uma compulsão em sua voz. Forçou-se a sorrir, depois esperou vários batimentos do coração para reunir uma quantidade maciça de energia para projetá-la em sua voz e sua mente, para poder lhe devolver sua própria compulsão.

—Encontro-me realmente à vontade aqui. Na verdade, podem ir embora, partir.

O vampiro piscou. Franziu o cenho. Sacudiu a cabeça como se não pudesse recordar o que estava fazendo .

—Sim, você quer ir. Quer abandonar este lugar. — Ela injetou poder em sua voz.

Ele voltou-lhe as costas por um o momento, obedecendo a sua ordem, virando seu corpo para entrar por onde chegara, pelas samambaias.

O ar ficou preso em sua garganta e ela atacou. - Agora! Agora ataque-o. Dê tudo de ti. Apresse-se. Acabe com eles antes que o destruam.

O jaguar se equilibrou sobre as costas do vampiro, cravando os dentes em seu crânio. Ao mesmo tempo, os macacos se equilibraram sobre o mago, mordendo e golpeando-o, caindo sobre ele em grande número. As aves tomaram o ar, com sua asas ondulando enquanto zumbiam ao redor dos combatentes, arranhando-os com suas garras.

O mago caiu sob a enorme massa que o golpeava. MaryAnn desejou voltar às costas, pois a cena lhe revolveu o estômago, quando o jaguar mordeu com força e o sangue emanou, correndo a jorros pela cabeça do vampiro. Ele rugiu sua fúria e capturou o jaguar nas mãos, jogando ao felino longe de seu corpo com sua enorme força e lhe retorcendo a cabeça. O rangido foi audível para ela, até em meio aos chiados e gritos dos macacos e aves.

O vampiro olhou para o mago, enterrado sob uma montanha de corpos, e depois lentamente virou para enfrentá-la. Sua cabeça estava aberta, o crânio feito pedaços pela forte mordida do jaguar, mas isto não parecia desconcertar o não-morto. Seus olhos brilhavam com chamas laranja-avermelhadas, a boca estava totalmente aberta numa careta de ódio.

Ficou em pé um momento simplesmente olhando-a. Nesse instante flexionou os dedos deixando crescer suas unhas até curvarem-se em garras. Ainda sustentando seu olhar, voou pelos ares e aterrissou no tronco da árvore junta ao qual ela estava e começou a reptar. Tinha um aspecto atemorizante. Uma abominação. Algo como os vampiros dos filmes, uma escura aparição antinatural cheia maldade e inclinada a matá-la… A destruir A Manolito.

Por um momento, o terror a paralisou. As salvaguardas não agüentariam muito tempo. Manolito não tinha procurado tanto o amparo, como uma barreira de som. Riordan não estava ali para salvá-la. Se quisesse sobreviver, se quisesse proteger o corpo de Manolito, teria que fazer algo, e rápido.

Já sentia o poder fluindo por seu corpo. Uma vez mais sua cabeça palpitou, desta vez até mais forte e mais rápido. Como se seu corpo já soubesse a forma e só procurasse sua permissão. A idéia de soltar, de liberar sua própria identidade, aterrava-a quase tanto como o vampiro que engatinhava pelo tronco da árvore.

A mandíbula lhe doía, ressoando dolorosamente. Seus tendões e ligamentos estiraram-se enquanto os músculos de seu corpo se retorciam, endurecendo em apertados nós de dor que agora eram visíveis sob sua pele. Seu estômago se revolveu. Lutou para aplacar seu pânico. Se não por si mesma, tinha que fazer por Manolito.

O bombardeio de imagens em sua mente quase a fez vomitar. Aconteciam tão rapidamente que não podia classificá-las ou centrar sua atenção em nenhuma delas, mas a alcatéia de lobos caminhando sobre duas pernas. Uma memória coletiva. Sua pele se estirava tensa, muito apertada. Sua vista se nublou, bordeada de vermelho e negro. Uma vez mais seus dedos se curvaram em garras, uma ação involuntária que não podia parar. A dor estalou através dela.

Tentou respirar, mas sua mente simplesmente não se rendia, não a deixava se entregar. O que aconteceria se ficasse presa nessa forma?

A árvore se sacudiu. O vampiro gritou e o som percorreu sua coluna vertebral e um terror paralizador invadiu seu coração. Ela havia saltado para a beirada da plataforma, do outro lado do corrimão e trabalhava rapidamente desentranhando as salvaguardas. Restava-lhe somente alguns instantes para decidir o que fazer.

MaryAnn colocou uma mão no ombro de Manolito e tocou seu rosto. Ele estava em alguma outra parte, lutando por ela. Tinha contado com que seu irmão viesse para protegê-la e a seu corpo, mas agora ela era tudo o que ele tinha. Respirou fundo.

Imediatamente sentiu a essência de quem era ser sugada, contraindo-se a tornando pequena, como se estivesse rendendo sobre si mesma. Estava plenamente consciente, mas o domínio sobre seu corpo estava minguando rapidamente. Tudo nela gritava que resistisse, mas manteve o olhar fixo em Manolito e a visão dele lhe deu a coragem necessária para se render.

Quande MaryAnn permitiu que sua essência se retraísse, a fúria do lobo brotou. Sentiu o enorme poder deste, a enorme força de corpo e vontade. A sentinela. O guardião. Saltou para tomar seu lugar, para encaixar-se em seu corpo, estirando e moldando cada músculo e osso para que ela estivesse de acordo com sua nova e forte estrutura.

Foi consciente quando sua pele explodiu, mas não houve dor. Não sentia a sensação de seus ossos e seu corpo deformando ou de seus órgãos mudando, somente a sensação de ser protegida e estar a salvo profundamente em seu interior.

Nesse momento o vampiro rasgou e atravessou a barreira e com um vaio de ódio, equilibrou-se sobre o corpo de Manolito. O lobo saltou para interceptá-lo, seu corpo mudando completamente em pleno vôo. Chocaram-se. O lobo grunhindo e o vampiro gritando. Em volta deles a selva inteira estalou em gritos, quando os animais reagiram ao terrível som da batalha.

 

Manolito se moveu rapidamente através do estéril mundo de sombras, procurando os lados mais escuros onde os não-mortos se reuniam para lamentar enquanto esperavam saber seu destino. Tinha a ilusão de estar em seu corpo, andando pelo acidentado terreno, caminhando entre o enredo de enormes raízes, como se ainda estivesse na selva, mas se sentia muito leve, quase flutuando e quando baixou a vista, suas mãos e braços eram transparentes. Podia ver a vegetação apodrecendo na terra, pelo caminho. Às montanhas de pedras que marcavam a entrada do prado de névoas.

Alguns espíritos o olharam com o cenho franzido. Quando passou entre eles, um casal levantou a mão como se pudessem lhe reconhecer, mas logo foi ignorado. Parecia-lhe estranho enquanto se deslizava pelos bosques e colinas, poder ver claramente os dois tipos de pessoas que povoavam a terra, quando antes não havia notado.

O prado parecia separar aqueles que tinham pouco ou nenhum remorso pelas coisas que tinham feito em sua antiga vida, dos que lutavam para entender onde se equivocaram. Poucos haviam ficado perto para recebê-lo.

Quando se aproximou mais do prado, o calor e o vapor se elevaram, o envolveram. Onde antes as névoas eram simplesmente cinzas e úmidas, sem sensação de esperança, agora o ar era até mais opressivo e parecia denso pela tensão, como se a inquietação andasse sobre a terra. Na distância, ouviu sons de risos zombeteiros e sussurro de vozes que o chamam por seu nome. Esperavam-no. Sabiam que ele se aproximava.

Seria possível que um exército de não-mortos encontrasse a forma de retornar a terra dos vivos? Nesse caso, tinha que encontrar uma maneira de detê-los. Tinha que deixar de lado seu medo por MaryAnn e prestar toda sua atenção a este mundo. Não podia estar ao mesmo tempo em dois lugares. Teria que confiar em que Riordan tivesse chegado para proteger MaryAnn do perigo. Não se atrevia a tocar a mente de MaryAnn e acidentalmente levá-la com ele ao mundo dos espíritos. Tinha que mantê-la completamente afastada do perigo a qualquer preço, mesmo com sua vida se fosse necessário. Fechou-se a toda emoção e concentrou sua atenção no problema atual.

Se os vampiros atuavam para invadir a terra dos vivos, teriam alguém muito poderoso os ajudando. Razvan ou Xavier, os dois magos mais poderosos que existiam ou talvez ambos. Nenhum outro poderia esgrimir esse tipo de poder. E se Xavier e Maxim eram aliados e trabalhando juntos para derrotar os Cárpatos, Xavier indubitavelmente teria informado Maxim se estivesse tentando encontrar uma maneira de formar um exército de não-mortos. Todos conheciam os guerreiros de Xavier, chamados das sombras, homens de possuíam a honra morta há tempo, com seus espíritos encarcerados pelo perito mago, para fazer sua vontade. Se Xavier tinha conseguido subjugar os guerreiros das sombras, podia ser que tivesse encontrado uma forma de fazer o mesmo com as legiões de não-mortos que esperavam no prado de névoas.

O caminho parecia muito longo e mais pessoas o receberam vacilantes, o qual o surpreendeu. Antes, a primeira vez que seu espírito tinha chegado, a maioria lhe voltara às costas com um gesto rápido para o prado, mas agora os habitantes pareciam aceitá-lo. Quando se aproximava de seu destino, sentiu propagar a calma e compreendeu que quando tinha chegado a primeira vez, seu espírito tinha sido escuro, próximo a se converter, tão perto que até na terra dos mortos, havia sido considerado mais perto do vampiro que do caçador. A atmosfera ao redor do prado não lhe tinha importado e instintivamente a tinha ignorado. Agora seu espírito devia parecer mais brilhante, mais normal. A mancha crescente de sua alma havia retrocedido devido a MaryAnn. Devia-lhe mais do que pensava.

Chegando ao prado parou, olhando fixamente a extensão de buracos e o cambiante chão. Parecia um pântano esponjoso e quando o pisou para provar, afundou até o tornozelo. Seu corpo não tinha verdadeiro peso ali, por isso a reação não tinha sentido. Vacilou, estudando a estéril terra. Só alguns arbustos dispersos e alguns cardos cresciam no centro do pântano. Canas escuras assinalavam os limites, dobradas como palha velha. O vapor se elevava dos buracos de ventilação, e minerais de todas as cores... Turvos, não brilhantes... bordeaban lagos de barro ferventes. O lodo tremia e arrebentava, salpicando grandes manchas escuras de lama que gotejavam e se acrescentavam ao vapor crescente.

A névoa se estendia pesada sobre o prado, num vapor verde cinzento impregnado de enxofre. Permaneceu um momento estudando as colunas crescentes de gases quentes e perguntando por que lhe tinha sido tão fácil cruzá-lo em sua primeira visita.

—Parece perdido, Manolito. —Saudou-lhe uma voz à suas costas.

Manolito se virou e se encontrou face a face com Vlad Dubrinsky. A emoção emanou aguda e rápida, uma penetrante comoção que ameaçou sacudir sua confiança. Alegria, culpa, vergonha, assombro e orgulho. Vlad Dubrinsky tinha sido mais que um príncipe para ele. Quando seu próprio pai tinha decidido seguir sua companheira na morte, Vlad tinha intervindo para encher o vazio deixado pela morte de seus pais. Havia guiado Manolito e seus irmãos, tinha sido seu mentor e ele respeitara seus conselhos. Entretanto, no final, tinham-no repudiado por tentar salvar seu filho quando sabia que não havia esperança.

—Meu príncipe. Não esperava te encontrar em tal lugar.

Vlad avançou e segurou seus antebraços na eterna saudação de respeito entre guerreiros.

—Me alegro em vê-lo, velho amigo.

—Não entendo como pode estar aqui.

A sobrancelha do Vlad se elevou.

—Não? Aqui é onde esperamos entre mundos, Manolito.

—Esperar o que? Eu vim aqui e encontrei só condenação e acusações. Convites para me unir ao não-morto.

—Você não é do tudo um espírito, embora tampouco um com seu corpo.

—Mataram-me, mas meus irmãos sujeitaram meu espírito a terra. Gregori baixou para me recuperar, mas despertei muito cedo. Meu espírito e meu corpo não tinham tido tempo de se unir, assim caminho entre os dois mundos.

Vlad fez um gesto para o prado.

—Seu lugar não está entre os vampiros. Posso ver por seu espírito que não sucumbiste a nossa mais escura natureza.

—Estive perto. Muito perto.

—Você não quer ir a terra do descanso. Não podem te matar, mas idearam modos de te torturar e enlouquecer seu espírito. Eles não podem abandonar este lugar sem aceitar sua própria culpa, não querem. Culpam todos a seu redor. Suspeito que muitos gostaria de cravar os dentes em voce. Venha comigo ao acampamento dos guerreiros. Conversaremos uma vez mais.

—Meu corpo é vulnerável no outro mundo, Vlad,e há conspirações que tenho que desentranhar para manter a salvo nossa gente. Acredito que Maxim está levantando um exército de mortos e espera encontrar um portal desta terra para a dos vivos.

Vlad parou para olhá-lo com o cenho franzido. Logo negou, meneando a cabeça.

—Deveria ter adivinhado que ele não tramava nada bom. Venha. Estamos perto e poderemos ser úteis para você. E Sarantha gostará de vêlo. Conte-nos as novidades e nos permita te ajudar.

—Ainda não entendo como pode estar aqui, esperando julgamento. Nunca esteve perto de se converter. Serviu nossa gente com honra.

—Acha, afinal de todo esse tempo, que alguma vez não cometi enganos, Manolito? Cometi muitos. Tentei fazer o melhor que pude, mas como qualquer homem, eu tinha meus defeitos. Você deveria saber isso melhor que ninguém. Tentei salvar meu filho masis velho as custas dos outros. Foi uma sábia ou mesmo justa decisão?

—Você não poderia saber o que aconteceria.

—É obvio que sabia. Não quis acreditar, mas tinha o dom da premonição. Sabia sim, e apesar de tudo segui adiante porque não podia suportar destruir meu próprio filho. Quando confessei A Sarantha, ela me suplicou que não o deixasse morrer e néscio como era, escolhi o caminho da destruição para toda nossa gente. Sou responsável por muitas coisas que nunca deveriam ter acontecido. No fim, o trabalho que devia ter sido meu recaiu nos ombros de meu filho Mikhail.

Manolito não podia aceitar o que ouvia. Desde o começo tinha sentido culpa e vergonha por condenar a decisão de Vlad. Amava e respeitava-o e ainda se sentia um traidor por conspirar para lhe derrocar.

—Não foi o melhor para nossa gente. — Engasgou com as palavras, com o nó que crescia em sua garganta. Os irmãos Malinov tinham perdido sua querida irmã, Ivory e também os irmãos da Cruz. Ela tinha sido sua luz, a razão para manter a esperança e a fé em sua gente. Com sua morte, a escuridão havia descido sobre todos eles, acionando uma cadeia de acontecimentos que bem podia conduzir à destruição da espécie inteira.

—Não. – Concordou Vlad, com tom equilibrado. - Não foi. Não sou nenhuma deidade. Nenhum homem dos Cárpatos o é. Somos capazes de grandes males.

Manolito engoliu a apertada bola de condenação que emanava de sua garganta. O que poderia dizer? Fizera coisas em sua vida, muitas das quais lamentava. No momento foram feitas sem emoção, mas podia se lembrar de cada incidente e o pior crime havia sido contra sua própria companheira.

Baixou a cabeça.

—O que diz é certo. Estava perto da mudança quando ouvi a voz de minha companheira. Ela estava sob o amparo de Mikhail e Gregori e de vários Cárpatos mais. Não segui nossas leis e tomei seu sangue sem seu consentimento ou conhecimento, ligando-a a mim.

Vlad assentiu.

—Foi um desafio para você.

—Atravessar suas filas e reclamar o que me pertencia? Sim. Lamento? Não sei a resposta para isso. Sinto não haver me mostrado ou lhe dado minhas razões para lhe tirar a vida das mãos sem seu consentimento, mas não acredito que isso fosse um engano... Somente o modo em que o fiz.

—Nossa gente viveu por muito tempo junto dos humanos e nossas regras são diferentes por algum motivo, Manolito. Deram-nos a capacidade de prender nossa companheira porque sem isso nossa gente teria morrido há muito. Poucos entenderão, mas se fizermos o que pudermos para amar e respeitar nossas mulheres, colocando-as sempre primeiro lugar, uma vez que estão a nossos cuidados, temos mais possibilidades de que outras espécies nos entendam e nos aceitem.

—O mundo mudou muito em sua ausência, Vlad e com isso, nossa gente. Foi difícil aceitar os novos costumes.

Vlad bateu de leve em seu ombro, um toque tão ligeiro que Manolito mal o sentiu. O corpo do Vlad era menos consistente que o seu.

—Todoss nós temos falhas, Manolito e todos têm que trabalhar para superá-las. Não há vergonha nisso. Venha, saúde Sarantha e nos dê notícias de nossos seres queridos.

—Realmente tenho pouco tempo. MaryAnn, minha companheira, protege meu corpo e acredito que será atacada. Tenho que deter Maxim antes que deduza a forma de abandonar este lugar com um exército de não-mortos.

Vlad negou com a cabeça.

—Não pode encontrar uma forma de sair deste mundo.

—Não esteja tão seguro. Maxim trabalha aliado com Xavier.

Vlad virou a cabeça lentamente, o sorriso desapareceu de sua face.

—Xavier ainda vive?

Assim acreditam. E seu neto, Razvan, trabalha com ele para destruir nossa gente. Estamos quase seguros que os irmãos do Maxim estão envoltos num complô para destruir Mikhail. Um complô que eu ajudei a tramar. —Manolito se negou a afastar o olhar de Vlad enquanto confessava. Este era homem que respeitava acima de todos os outros, a exceção de seus irmãos. Era o homem que uma vez tinha considerado seu pai. E era o homem cuja queda tinha ajudado a planejar. Não mentiria nem fugiria da culpa e a vergonha de sua ação.

Vlad permaneceu em silencio por um longo momento. Não houve desilusão nem de repugnância em sua face, simplesmente olhou para Manolito e manteve seu olhar.

—Acha que me surpreende que você e seus irmãos brincassem com a idéia de derrocar o reinado dos Dubrinsky? Sempre fossem inteligentes e viram meu crime. Sabiam o que eu tinha feito. Na tentativa por salvar meu filho, traí nossa gente. Vocês tinham direito de questionar meu julgamento. Não era justo.

—Não tínhamos direito de tramar sua queda ou a destruição de todas as espécies das quais éramos aliados.

—Para me derrotar, teriam tido que derrotar todos eles. —Vlad assentiu. - Tem sentido, certamente. — Ele agitou a mão para um pequeno bosque de árvores. - Por favor, venha conosco um momento. Alguns de nós protegem esta área para impedir os recém chegados de vagar pela terra dos caídos.

Manolito igualou seus passos, embora, por muito que quisesse falar com Vlad e inclusive lhe pedir conselho sobre a evasiva espécie do homem-lobo, estava impaciente por enfrentar Maxim e voltar para MaryAnn. Uma sensação de urgência crescia em seu interior.

Haviaesperado que Vlad o condenasse. Talvez teria sido mais fácil fazer frente ao que tinha feito, se seu príncipe estivesse zangado.

—Sinto muito. – Disse, sinceramente. - Não fazia idéia de que o plano seria colocado em ação. Não tinha idéia de que os Malinovs o odiassem tanto. Conversamos durante horas,e Zacarias e Ruslan convieram em que todos nós continuaríamos fiéis e o serviríamos com honra. Fizemos um juramento de sangue.

—Seus irmãos e você serviram nossa gente fielmente. - Disse Vlad. Mesmo aqui nos chegam notícias, quando chegam guerreiros ou vampiros. —Empurrando uma parede de samambaias, ele chamou: - Ah, aqui está Sarantha. Querida, trouxe um convidado.

Sarantha se voltou, com a face iluminada por um sorriso. Seus olhos iluminando as cores apagadas a seu redor.

Manolito. É maravilhoso vê-lo, embora tenha ouvido rumores de que caminha em dois mundos. Como estão meus filhos e suas companheiras? Como esta minha neta? Soube que é bastante encantadora. Deve-me contar tudo, todas as notícias. —Ela abraçou-o, com seu corpo ligeiro e insubstancial. – Você deve ter uma companheira ou seu espírito não seria tão luminoso. —Me fale dela.

Vlad riu.

—Dê-lhe oportunidade para falar, meu amor. Ele tem muita pressa.

—Me perdoe, Manolito. É que estou tão excitada de vê-lo. —Ela mostrou um lugar junto à fogueira. - Pode me dedicar um momento de seu tempo?

—É obvio. —Ele inclinou-se para lhe beijar a face. - Mikhail é um magnífico líder. Você ficaria orgulhosa dele. Sua companheira é perfeita para ele e o ajuda a conduzir nossa gente para uma sociedade mais coesiva. Jacques e Shea tiveram um filho, um menino. Não estive na cerimônia do nome, por isso não sei como o chamaram. Ouvi dizer que Savannah, sua neta, espera gêmeos.

Sarantha se lançou nos braços de Vlad.

—Desejaria tanto poder vê-los.

—Algum dia, —disse Vlad, abraçando-a, nos reuniremos com nossos seres queridos. Sairemos desta vida para seguinte muito em breve.

Ela assentiu e levantou a face para roçar dar-lue um leve beijo.

—E sua companheira, Manolito? Fale-nos dela.

—É valente e formosa. E me faz desejar ser melhor a cada sublevação. —Manolito franziu o cenho, desejando informação, sem dar muita. - Vlad, me conte o que sabe dos guardiães. Os homens-lobo.

Vlad sentou com as pernas cruzadas, na terra.

—Pouco se sabe de sua sociedade, embora as lendas abundam. Acredito que eles iniciaram a maior parte dos mitos, para manter as pessoas assustadas e longe deles, mas o tiro saiu pela culatra e foram caçados pelos humanos. Vivem na forma humana a maior parte do tempo. Existem em todos os continentes ou o fizeram em épocas passadas. Poucos podem diferenciá-los dos humanos.

—Como podem permanecer ocultos, inclusive de nós?

—Eles não têm o padrão cerebral diferente dos humanos. Simplesmente usam uma maior parte do cérebro, como nós. A maior parte do tempo, o lobo permanece silencioso dentro deles, então parecem totalmente humanos.

—Que aconteceria a um lobo ao se converter em Cárpato?

—Cruzar as espécies? —Vlad deu uma olhada em Sarantha. - Não sei. Nunca ouvi falar de tal coisa.

—Pode acontecer? —Pe