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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PRELÚDIO DA FUNDAÇÃO / Isaac Asimov
PRELÚDIO DA FUNDAÇÃO / Isaac Asimov

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PRELÚDIO DA FUNDAÇÃO

 

            O ano é 12.020 da Era Galáctica e Cleon I ocupa o instável trono imperial. Em Trantor, capital do Império Galáctico, quarenta bilhões de pessoas compõem uma civilização de imensa complexidade tecnológica e cultural, formando uma malha de relações tão intrincadamente tecida que a retirada de um único fio pode desfazer toda aquela complexa estrutura. O imperador está inquieto, pois sabe que há muitas pessoas interessadas em sua queda e que a única saída para continuar detendo o controle do Império está nas mãos de um jovem matemático...

            Ao desembarcar em Trantor, o heliconiano Hari Seldon não tem a menor consciência das conspirações políticas em curso. Mas, ao apresentar na Convenção Decenal uma monografia sobre psico-história, sua notável teoria da previsão, ele sela seu destino e determina o futuro da humanidade. Tendo em mãos o poder profético tão ambicionado pelo imperador, o matemático se transforma, de uma hora para outra, no homem mais procurado do Império.

            Seldon é obrigado a lutar desesperadamente para evitar que sua teoria caia em mãos erradas, enquanto forja sua poderosa arma para o futuro: uma força que se tornará conhecida pelo nome de Fundação.

 

            CLEON I -... 0 último imperador galáctico pertencente à dinastia Eutun. Nasceu no ano 11.988 da Era Galáctica, o mesmo ano em que nasceu Hari Seldon. (Existe a versão de que a data de nascimento de Seldon, que alguns consideram duvidosa, pode ter sido alterada para coincidir com a de Cleon, com quem Seldon, segundo se supõe, teria se encontrado logo após chegar a Trantor.)

            Tendo subido ao trono imperial em 12.010, com a idade de 22 anos, Cleon I teve um reinado invulgarmente pacífico para aquela época turbulenta. Isso se deveu, sem dúvida, à habilidade de seu chefe do Estado-Maior, Eto Demerzel, o qual obscureceu tão habilmente os registros oficiais sobre si próprio que muito pouco se sabe hoje a seu respeito.

            Quanto ao próprio Cleon...

 

                        Enciclopédia Galáctica*

 [*Todas as citações extraídas da Enciclopédia Galáctica aqui reproduzidas são de sua 116ª edição publicada no ano 1.020 E.F. pela Companhia Editora Enciclopédia Galáctica, Terminus, com a autorização dos editores].

 

            Cleon reprimiu um pequeno bocejo enquanto perguntava:

            - Demerzel, você por acaso já terá ouvido falar alguma coisa sobre um homem chamado Hari Seldon?

            Cleon era imperador há exatamente dez anos, e algumas vezes, em cerimônias oficiais, usando as vestimentas e os adornos protocolares, conseguia adquirir um ar majestoso. O mesmo ar que ostentava na holografia que aparecia num nicho da parede, às suas costas, colocada de forma a dominar os outros nichos, onde luziam as holografias de seus antepassados.

            Não era uma holografia totalmente honesta. Nela, o cabelo do imperador era mais cheio do que no original, apesar de ser da mesma cor castanho-claro. Havia também uma certa assimetria no rosto do monarca, que a holografia disfarçava com habilidade: uma ligeira contração que fazia o lado esquerdo de seu lábio superior se erguer um pouco mais que o direito. E se Cleon ficasse de pé ao lado da imagem holográfica, ficaria visível que ela, com seu 1,83m, estava uns dois centímetros acima da estatura real do imperador - e que ele era um pouco mais corpulento.

            É claro que aquela holografia era o seu retrato oficial da época da coroação, quando ele era bem mais moço. Mesmo assim, ainda era jovem e razoavelmente bonito, e quando não estava mergulhado na impiedosa roda-viva das cerimônias oficiais seu rosto podia até mesmo assumir uma expressão de afabilidade.

            - Hari Seldon? - repetiu Demerzel, no tom respeitoso que cultivava com toda a atenção. - O nome não me é familiar, Sire. Deveria tê-lo ouvido?

            - O ministro da Ciência o mencionou ontem à noite, e achei que você saberia quem é.

            Demerzel franziu levemente a testa; muito levemente, porque não convém franzir a testa em demasia diante de um imperador. - Sire, o ministro da Ciência deveria ter mencionado esse nome a mim, como chefe do Estado-Maior. Vossa Majestade não pode ser bombardeado por todos os lados com...

            Cleon ergueu a mão e Demerzel parou no mesmo instante. - Por favor, Demerzel. Não podemos nos apegar o tempo todo às formalidades. Parei para cumprimentar o ministro na recepção de ontem à noite, e quando trocamos algumas frases ele disse algo a esse respeito. Não pude deixar de prestar atenção, e ainda bem, porque achei interessante o que ouvi.

            - Interessante em que sentido, Sire?

            - Bem, não estamos mais naquela época antiga em que ciência e matemática eram o assunto do dia. Esse tipo de coisa parece estar um pouco superado...

            talvez porque todas as descobertas já tenham sido feitas, não é mesmo? Parece, no entanto, que alguma coisa interessante ainda pode surgir. Pelo menos foi o que me disseram.

            - Quem, sire? O ministro?

            - Sim. Segundo ele, esse Hari Seldon tomou parte numa convenção de matemáticos que teve lugar aqui em Trantor... Fazem isso de dez em dez anos, por alguma razão; e esse Seldon diz ter provado que é possível predizer matematicamente o futuro.

            Demerzel permitiu-se um ligeiro sorriso.

            - Sire, ou o ministro da Ciência, que não é um homem muito perspicaz, está equivocado... ou esse matemático está. A predição do futuro é um tipo de mágica com que as crianças sonham, e mais nada. - Será, Demerzel? O povo acredita nessas coisas.

            - O povo acredita em muitas coisas, Sire.

            - Sim, mas o fato é que acredita nisso. Portanto, não interessa se a profecia é verdadeira ou não. Se um matemático profetizar que terei um reinado longo e feliz, uma época de paz e prosperidade para o Império... hem? Que tal lhe parece?

            - Seria algo bom de ouvir, Sire, mas chegaria a se concretizar?

            - Se o povo acredita em algo, age em função dessa crença. Muitas profecias já se transformaram em fatos pela mera força da fé daqueles que as aceitaram.

            São profecias que se impõem por si mesmas. Aliás, agora que estamos falando nesse assunto, lembro-me de que foi você mesmo que me explicou isso certa vez.

            - Creio que sim, Sire. - Os olhos de Demerzel estudavam o imperador cuidadosamente, como se querendo avaliar até que ponto ele poderia prosseguir sem ajuda. - Mas, se é assim, qualquer pessoa pode fazer a profecia.

            - Mas nem todas seriam igualmente levadas a sério, Demerzel. Um matemático, no entanto, que pode revestir sua profecia com fórmulas matemáticas e termos científicos, pode não ser entendido por ninguém e mesmo assim todos acreditarem nele.

            - Como sempre, Sire, Vossa Majestade tem razão. Vivemos numa época turbulenta, e valeria a pena manter a tranquilidade no Império de um modo tal que não fosse preciso empregar dinheiro nem ação militar. Esses recursos, na história recente, causaram mais prejuízos do que bons resultados.

            - Exatamente, Demerzel - apoiou o imperador, com entusiasmo. - Traga-me esse Hari Seldon. Você me diz que tem cordéis espalhados por este mundo inteiro, mesmo onde as minhas forças não alcançam. Puxe um desses cordéis, e traga-me o matemático. Quero uma audiência com ele.

            - Eu o farei, Sire.

            Demerzel já tinha localizado Hari Seldon. Fez uma anotação mental para elogiar o ministro da Ciência pelo bom trabalho.

 

            Nessa época, a aparência pessoal de Hari Seldon não tinha nada de magnífica.

            Tinha a mesma idade de Cleon, 32 anos, mas apenas 1,73m de altura. O rosto imberbe tinha uma expressão jovial, e o cabelo era castanho-escuro, quase negro; as roupas que usava tinham um ar inconfundivelmente provinciano.

            Para todos aqueles que no futuro veriam em Seldon apenas a figura lendária de um semideus, pareceria quase um sacrilégio o fato de ele não ter cabelos brancos, um rosto envelhecido e vincado de rugas, um sorriso sereno que irradiava sabedoria - e não estar sentado numa cadeira de rodas. Mas mesmo então, em plena velhice, seus olhos iriam manter aquele brilho jovial. Isso nunca iria mudar.

            E naquele instante seus olhos estavam mais bem-humorados do que nunca, porque tinha acabado de apresentar sua monografia aos participantes da Convenção Decenal. Sua comunicação verbal tinha mesmo despertado um certo interesse na platéia, e o próprio Osterfith fizera um aceno de cabeça em sua direção, dizendo: "Muito engenhoso, meu rapaz. Muito engenhoso." O que, vindo da parte de Osterfith, era satisfatório... muito satisfatório.

            Mas agora os fatos tomavam um rumo diferente - e inesperado; Seldon já começava a ter motivos para crer que toda a sua satisfação, talvez não chegasse a durar muito tempo.

            Encarou o homem alto e de uniforme parado à sua frente, e observou o emblema da espaçonave e do sol, no lado esquerdo de sua túnica.

            - Tenente Alban Wellis - disse o oficial da Guarda do Imperador, e voltou a guardar sua identificação. - Pode acompanhar-me agora, senhor?

            Wellis estava armado, naturalmente, e havia dois outros guardas à espera do lado de fora. Seldon sabia que não tinha escolha, apesar da polidez meramente formal do outro; mas achou que poderia pelo menos extrair mais algumas informações.

            - Para ver o imperador?

            - Para ser conduzido ao Palácio, senhor. É o que dizem minhas instruções.

            - Mas por quê?

            - Não estou informado, senhor. Recebi ordens para levá-lo até lá, de um modo ou de outro.

            - Isso quer dizer que estou sendo preso? Não fiz nada que possa justificar esse tipo de...

            - Digamos, senhor, que é uma guarda de honra que se apresentou para escoltá-lo. E devo pedir-lhe que se apresse.

            Seldon obedeceu. Apertando os lábios, como que para reprimir novas perguntas, fez um sinal afirmativo com a cabeça e pôs-se a caminho. Mesmo que tudo aquilo resultasse numa audiência com o imperador e no recebimento de uma condecoração, ele não via nisso nenhum motivo para ficar alegre.

            Considerava-se um partidário do Império - ou seja, da manutenção da união e da paz entre os mundos habitados pela humanidade -, não um partidário do imperador.

            O tenente Wellis caminhava à frente, os outros dois guardas às suas costas.

            Seldon procurou sorrir e aparentar despreocupação diante das pessoas com quem cruzava. Ao saírem do hotel, os guardas o introduziram num carro oficial.

            (Seldon correu a mão de leve sobre o estofado que recobria o assento; nunca vira nada tão luxuoso.)

            Estavam num dos setores mais nobres de Trantor. A cúpula que o recobria era alta o bastante para dar a impressão de que estavam a céu aberto, e qualquer pessoa - mesmo Hari Seldon, nascido e criado num mundo sem redomas - poderia jurar que estavam à luz do sol. Não se via nenhum sol, nem sombras, mas o ar era leve e perfumado.

            E então aquilo acabou: a parede da cúpula curvou-se até o solo e se abriu à sua frente; logo estavam se movendo ao longo de um túnel onde Seldon avistou a intervalos regulares o símbolo da espaçonave e do sol, deduzindo que aquela era uma passagem reservada aos veículos oficiais.

            Uma porta se abriu e o carro cruzou a abertura; quando ela voltou a se fechar às suas costas, estavam do lado de fora - o verdadeiro lado de fora. Aquela área, com 250 quilômetros quadrados, era o único trecho de espaço aberto em Trantor, e ali ficava o Palácio Imperial. Seldon pensou que gostaria de ter a chance de passear um pouco naquelas imediações - não por causa do Palácio, mas porque ali também ficava a Universidade Galáctica e, o que mais o atraía, a Biblioteca Galáctica.

            Mas, ao passar da parte fechada de Trantor para aquele trecho coberto de bosques e gramados, eles tinham penetrado num mundo onde as nuvens obscureciam o céu e um vento gélido agitava suas roupas. Seldon pressionou o botão que fechava a janela do carro. O tempo ali fora estava escuro, tempestuoso.

 

            Seldon não tinha certeza de estar sendo levado ao imperador. Na melhor das hipóteses iria ser recebido por um oficial de quarto ou quinto escalão que se diria porta-voz de Cleon.

            E quantas pessoas, de fato, já tinham chegado a vê-lo? A vê-lo em carne e osso, e não na holovisão? Quantas pessoas já tinham avistado o imperador tangível e real, que nunca abandonava aquele trecho do planeta onde Seldon penetrava?

            Um número de pessoas extremamente reduzido, por certo. Vinte e cinco milhões de mundos habitados, cada qual com um bilhão ou mais de habitantes - e entre todos esses quatrilhões de seres humanos, quantos deles já teriam posto seus olhos (ou poderiam fazê-lo um dia) na pessoa viva do imperador? Mil pessoas, talvez?

            E na verdade, quem se importava com isso? O imperador não passava de um dos símbolos do Império, semelhante ao da espaçonave e do sol, só que menos onipresente, e até menos real. Eram seus soldados e seus oficiais que na verdade representavam o Império - um império que já se tinha tornado um peso morto nos ombros do povo.

            Tanto era assim que, quando Seldon foi introduzido num aposento amplo e luxuosamente mobiliado e se deparou com um indivíduo jovem sentado sobre a beira de uma mesinha próxima a uma janela, com um dos pés pousado no chão e o outro balançando distraidamente, surpreendeu-se ao ver um oficial do Império com uma aparência tão bem-humorada. Já tinha constatado, repetidas vezes, que os oficiais do governo - especialmente os que estavam no serviço direto do imperador - tinham sempre uma aparência grave, como se estivessem carregando nos ombros o peso da Galáxia inteira. E parecia que quanto mais subalternos fossem seus cargos mais séria e mais ameaçadora era sua aparência.

            Aquele ali, portanto, tinha que ser um funcionário de escalão tão alto, e tão próximo ao sol do poder, que não via necessidade de cercá-lo com nuvens de preocupação.

            Seldon não sabia se devia mostrar-se muito impressionado. Decidiu que era melhor ficar em silêncio e esperar que o outro falasse primeiro.

            O oficial disse:

            - Você é Hari Seldon, creio eu. O matemático.

            Seldon murmurou um minúsculo "sim, senhor", e permaneceu à espera.

            O outro fez um gesto descuidado.

            - A resposta seria sim, Sire, mas não gosto de muita cerimônia. Estou saturado dela. Estamos aqui a sós, portanto posso me dar o luxo de mandar a cerimônia às favas. Sente-se, professor.

            Antes que o homem acabasse de falar, Seldon percebeu que estava diante do imperador Cleon, Primeiro desse Nome, e sentiu que as forças lhe faltavam.

            Havia uma certa semelhança (agora ele reparava melhor) com a holografia oficial que aparecia nos noticiários, mas nessa holografia Cleon estava sempre vestido de forma imponente, e parecia mais alto, mais nobre, mais impessoal.

            Agora o original daquela holografia estava ali à frente de Seldon, e tinha uma aparência decididamente comum.

            Seldon permaneceu imóvel.

            O imperador franziu de leve a testa. Não lhe era fácil abandonar, mesmo temporariamente, o hábito do comando. Disse, em tom peremptório:

            - Eu disse sente-se, senhor. Nessa cadeira aí. Rápido. Seldon apressou-se a obedecer, sem emitir um som. Não conseguiu sequer dizer sim, Sire.

            Cleon sorriu.

            - Assim é melhor. Agora podemos falar como dois simples seres humanos, e afinal de contas, é o que todos nós somos, quando se abre mão da cerimônia.

            Não é assim, meu caro?

            Cheio de cautela, Seldon respondeu:

            - Se Vossa Majestade Imperial o diz, então é assim.

           - Ora, vamos, por que tanto receio? Quero conversar com você de igual para igual. Isso me agrada, certo? Então, faça como eu digo. - Está bem, Sire.

            - Basta dizer está bem, rapaz. Será que não estou me fazendo entender?

            O imperador fitou Seldon com intensidade, com evidente interesse. Por fim falou:

            - Você não parece um matemático. Seldon conseguiu sorrir.

            - Infelizmente não sei qual deve ser a aparência de um matemático, majest...

            Cleon ergueu a mão e Seldon cortou o título pela metade. O imperador disse:

            - De cabelos brancos, imagino. Talvez de barba. E idoso, com certeza.

            - Mas mesmo os matemáticos devem ter sido jovens um dia.

            - Sim, mas quando ainda não são famosos. Quando se tornam notícia na Galáxia já estão do jeito que descrevi.

            - Receio não ser tão famoso assim.

            - Você não participou da convenção que houve aqui?

            - Sim, mas havia muitos participantes, alguns deles até mais jovens do que eu.

            E muito poucos chegaram a despertar alguma atenção.

            - Sua palestra, ao que parece, atraiu a atenção de alguns dos meus representantes. Pelo que fui informado, você acredita que é possível prever o futuro.

            De repente, um imenso cansaço apoderou-se de Seldon. Tudo levava a crer que aquele tipo de interpretação simplista de suas teorias nunca o deixaria em paz. Talvez tivesse sido melhor não fazer aquela palestra.

            - Não é bem assim - disse ele. - Meu trabalho é algo mais limitado. Em muitos sistemas existe uma situação tal que, dadas certas condições, eventos caóticos passam a acontecer. Isso significa que, dado um certo ponto de partida, fica impossível prever os seus desdobramentos futuros. Isso é verdadeiro mesmo em sistemas relativamente simples, mas quanto mais complexo um sistema mais possibilidades ele tem de se tornar caótico. Há um consenso geral em torno da idéia de que um sistema tão complicado quanto uma sociedade humana tende a se tornar caótico e, consequentemente, imprevisível. O que demonstrei, no entanto, foi que no estudo das sociedades humanas é possível escolher um ponto de partida qualquer e, através das hipóteses adequadas, evitar o caos.

            Isso equivale a prever o futuro, não nos mínimos detalhes, é claro, mas em seus traços mais amplos; não com exatidão, mas definindo probabilidades.

            O imperador ouviu atentamente, e perguntou:

            - E então? Isso não significa que você pode prever o futuro?

            - Não é bem assim. Demonstrei que é teoricamente possível, e só. Para obter algo mais além disso teríamos em primeiro lugar que escolher o ponto de partida correto; depois, fazer as hipóteses corretas; e depois descobrir um modo de efetuar os cálculos necessários num lapso finito de tempo. A teoria que apresentei aqui em Trantor não diz como fazer tudo isso. E mesmo que tivéssemos como fazê-lo, o máximo que teríamos em mãos seria uma avaliação de probabilidades. Não é o mesmo que predizer o futuro, é apenas uma suposição sobre o que é mais provável de acontecer. Todo político ou homem de negócios faz isso o tempo inteiro. Qualquer pessoa dotada de razoável discernimento tem que fazer isso, para obter um mínimo de sucesso no que planeja.

            - Fazem isso sem o auxílio da matemática.

            - Exatamente. Fazem por intuição.

            - Mas com o auxílio da matemática qualquer pessoa seria capaz de fazer uma avaliação correta de probabilidades, e não apenas aqueles poucos indivíduos dotados de uma intuição fora do comum.

            - Correto. Mas demonstrei apenas que esse tipo de análise matemática é possível. Isso não quer dizer que seja realizável do ponto de vista prático.

            - Como pode uma coisa ser possível e não poder ser realizada na prática?

            - Teoricamente é possível, para mim, visitar cada mundo da Galáxia e cumprimentar cada um de seus habitantes. No entanto, isso iria exigir muito mais tempo do que os anos de vida que me restam. Mesmo que eu fosse imortal, os seres humanos se multiplicam muito rapidamente, e seu número total aumentaria mais depressa do que o número dos entrevistados por mim... E mais ainda: um grande número de pessoas morreria antes que eu pudesse chegar até elas.

            - Isso vale também para a sua matemática do futuro? Seldon hesitou um pouco, mas continuou.

            - Talvez os cálculos exigissem um tempo longo demais para poderem ser úteis, mesmo que se usasse um computador do tamanho do universo, funcionando a uma velocidade hiperespacial, Quando a resposta fosse formulada já teria perdido o sentido, porque nesse intervalo de tempo a situação inicial já se teria modificado por completo.

            - Esse processo não pode ser modificado? - indagou Cleon com vivacidade.

            Seldon percebeu que o imperador assumia uma atitude cada vez mais formal à medida que as respostas que ouvia iam no sentido contrário às suas expectativas. Respondeu, num tom igualmente impessoal.

            - Vossa Majestade Imperial deve ter em mente o modo como os cientistas lidam com as partículas subatômicas. Há um número enorme delas, cada uma se movendo ou vibrando de um modo imprevisível e aparentemente aleatório; mas esse caos aparente possui padrões de ordem subjacentes, que nos permitem, através da mecânica quântica, responder às perguntas que formulamos. Algo semelhante se dá no estudo das sociedades, com os seres humanos individuais fazendo o papel dessas partículas; mas aí entra um novo fator, que é a mente humana. As partículas se movem sem consciência de si mesmas; os seres humanos não. Tentar computar todas as atitudes e todos os impulsos potenciais da mente humana iria tornar todo o processo tão incrivelmente complexo que seria preciso um tempo infinito para levar a cabo os cálculos necessários.

            - Talvez os pensamentos humanos tenham um padrão de ordem subjacente, assim como o movimento das partículas.

            - Talvez. Minha análise matemática pressupõe a existência de uma harmonia subjacente a todas as coisas, por mais desordenadas que possam parecer; mas não nos dá nenhuma indicação de como essa harmonia pode vir a ser descoberta. Pense bem, Sire. Vinte e cinco milhões de planetas, cada um com características próprias e com sua própria cultura, cada um substancialmente diferente dos demais, cada um contendo mais de um bilhão de seres humanos dotados de mentes individuais, e todos esses mundos interagindo entre si das mais diversas formas, gerando uma quantidade incalculável de combinações! Por mais que uma análise psico-histórica possa ser possível em teoria, é altamente improvável que seja um dia viável em termos práticos.

            - O que quer dizer você com "análise psico-histórica"?

            - Denomino psico-história à avaliação teórica de probabilidades relativas ao futuro.

           O imperador ficou de pé subitamente e pôs-se a caminhar; foi até a outra extremidade do aposento, fez meia-volta, retomou, e parou diante da cadeira onde Seldon permanecia sentado.

            - De pé! - ordenou.

            Seldon levantou-se e teve que erguer um pouco os olhos para encarar o imperador. Esforçou-se para manter o olhar firme.

            Cleon finalmente quebrou o silêncio.

            - Essa sua psico-história... se pudesse ser posta em prática, seria algo de enorme utilidade, não acha?

            - Sem dúvida alguma. Saber em que direção marcha o futuro, mesmo de um modo geral e probabilístico, serviria como uma nova orientação para os nossos atos, um instrumento maravilhoso, algo que a humanidade nunca experimentou antes. Mas é claro que..

            Interrompeu-se. Cleon o interpelou, impaciente: - Sim?..

            - Bem, tudo indica que os resultados da análise psico-histórica teriam que permanecer desconhecidos da população, com exceção de um número reduzido de líderes e planejadores.

            - Permanecer desconhecidos?! - exclamou Cleon com surpresa.

            - Evidentemente. Tentarei explicar. Se os resultados da análise psico-histórica fossem levados ao conhecimento do público, as reações e as emoções das pessoas sofreriam uma distorção imediata.

            A análise psico-histórica se baseia em emoções e reações que se produzem sem o conhecimento do futuro, senão, não tem sentido.

            Os olhos do imperador brilharam e ele riu alto.

            - Maravilhoso! - Desferiu um tapa no ombro de Seldon que fez o cientista vacilar. - Não percebe? Aí está para que serve tudo isso. Não precisamos prever o futuro. Basta escolher um futuro (um futuro bom, útil) e fazer previsões que alterem as emoções e reações humanas de tal modo que elas resultarão naquele futuro escolhido. É melhor criar um futuro positivo do que meramente predizer um negativo.

            Seldon franziu a testa.

            - Entendo o que quer dizer, Sire, mas isso é igualmente, impossível..

            - Impossível?

            - Ou pelo menos impraticável. Não percebe? Se não podemos partir das reações e emoções humanas para predizer o futuro que elas irão forjar, também não podemos fazer o inverso. Não podemos estabelecer um futuro e predizer as emoções e reações humanas que conduzirão a ele.

            Cleon apertou os lábios. Parecia frustrado.

            - E essa sua monografia... é assim que se diz, não é? Para que serve?

            - É uma simples demonstração matemática. Tem aspectos que interessam aos matemáticos, mas nunca me passou pela cabeça que pudesse vir a ter alguma utilidade prática.

            - Isso é irritante - disse Cleon, carrancudo.

            Seldon encolheu os ombros de leve. Lamentava cada vez mais ter pronunciado aquela palestra. O que seria dele, caso o imperador começasse a achar que tinha feito papel de tolo?

            A julgar pela expressão do seu rosto, Cleon não estava muito longe dessa idéia.

            - Mesmo assim - disse ele -, você poderia fazer previsões relativas ao futuro, matematicamente justificadas ou não. Previsões que produziriam na população as reações adequadas, de acordo com a avaliação dos oficiais do governo, que são especialistas em saber o que a população está propensa afazer.

            - Então para que precisariam de mim? Os próprios funcionários do governo poderiam fazer as previsões, sem nenhum intermediário.

            - Mas não com a mesma credibilidade. Funcionários do governo estão sempre fazendo previsões desse tipo, e o público não acredita necessariamente no que eles dizem.

            - Por que acreditariam em mim?

            - Você é um matemático. Você estaria calculando o futuro e não simplesmente intuindo, se é esse o termo. - Mas eu não poderia calcular o futuro.

            - Sim, mas quem saberia disso?

            Os olhos de Cleon se estreitaram, e houve uma pausa no diálogo. Seldon sentiu-se preso numa armadilha. Seria prudente recusar-se a obedecer uma ordem dada diretamente pelo imperador? Isso poderia lhe valer a prisão, talvez a pena de morte. Não sem um julgamento, é claro, mas seria muito difícil conduzir esse tipo de processo de modo a contrariar a vontade de uma corte impiedosa, especialmente uma sob o comando do soberano do Império Galáctico.

            Não daria certo - disse ele, por fim. - Por que não?

            - Daria certo apenas se me pedissem para fazer previsões muito vagas, de caráter geral, coisas que talvez não tivessem que ser verificadas senão quando esta geração, e talvez a próxima, já tivessem morrido. A desvantagem nesse caso é que o público iria prestar muito pouca atenção. Ninguém iria se entusiasmar muito com alguma eventual maravilha prevista para dali a um século.

            - Para obter resultados palpáveis eu teria que fazer previsões de consequências mais definidas, sobre acontecimentos mais imediatos. Somente isso poderia ter alguma repercussão junto ao povo. O problema é que mais cedo ou mais tarde... provavelmente bem cedo... uma dessas previsões acabaria não se confirmando, e minha credibilidade cairia por terra. Em conseqüência, a popularidade de Vossa Imperial Majestade sofreria um sério abalo, e o pior de tudo é que não haveria mais condições para o desenvolvimento da psico-história, mesmo que surgissem artifícios matemáticos que pudessem tornar mais possível a sua aplicação prática.

            Cleon deixou-se cair numa cadeira e fitou Seldon, a testa franzida.

            - É só isso que vocês matemáticos sabem fazer? Provar que as coisas são impossíveis?

            Numa voz suave mas inflexível, Seldon respondeu:

            - É Vossa Majestade, Sire, que insiste em coisas impossíveis.

            - Deixe-me fazer um teste com você. Suponhamos que eu lhe pedisse para usar suas fórmulas matemáticas e avaliar se eu serei assassinado um dia. Qual seria sua resposta?

            - A matemática não pode responder uma pergunta tão específica como essa, Sire, e não poderia, mesmo que a psico-história fosse suscetível de aplicação prática. Todo aparato da mecânica quântica não é capaz de predizer o comportamento de um elétron isolado: ela apenas indica o comportamento médio de uma grande quantidade deles.

            - Você entende de matemática muito mais do que eu. Faça apenas uma suposição, com base em sua experiência. Há chance de que eu seja assassinado um dia?

            Com a mesma suavidade, Seldon retrucou:

            - Vossa Majestade me coloca numa posição difícil, Sire. Se me disser antes qual a resposta que deseja ouvir, eu a darei; senão, preciso ter certeza de que posso dar minha própria resposta sem incorrer no risco de uma punição.

            Fale o que quiser.

            - Tenho sua palavra de honra?

            - Prefere tê-la por escrito? - A voz de Cleon veio carregada de sarcasmo.

            - Sua palavra de honra, dada verbalmente, será o bastante - disse Seldon com um aperto no coração, pois não tinha certeza disso.

            - Tem minha palavra de honra.

            - Então, posso dizer-lhe que nos últimos quatro séculos quase a metade dos imperadores morreu assassinada. Isso me leva à conclusão de que as chances de Vossa Majestade ter a mesma sorte são de uma em duas ...

            aproximadamente.

            - Qualquer idiota pode dar essa resposta - queixou-se Cleon.

            - Para isso não é preciso ser matemático.

            - Falei a Vossa Majestade que minha matemática é inútil para problemas de ordem prática.

            - Você não leva em conta a possibilidade de que eu tenha aprendido alguma lição, vendo o destino que tiveram meus antepassados?

            Seldon respirou fundo e foi em frente.

            - Não, Sire. A História prova que nunca aprendemos lições com o passado. Por exemplo... Vossa Majestade está me concedendo uma audiência privada. E se eu tivesse vindo até aqui com o propósito de assassiná-lo? - E aduziu rapidamente: - Evidentemente não é esse o caso.

            Cleon sorriu, mas sem demonstrar bom humor.

            - Meu rapaz, você não está levando em conta a nossa eficiência, e os avanços de nossa tecnologia. Nós estudamos sua história, sua vida, seu dossiê completo.

            Quando você chegou aqui, foi esquadrinhado por nossos instrumentos. Sua expressão facial e suas inflexões de voz foram analisadas. Ficamos com uma avaliação detalhada de seu estado emocional; sabíamos, praticamente, em que você estava pensando. Se houvesse algo de potencialmente perigoso em sua pessoa, você não teria sido trazido à minha presença. Para falar a verdade, provavelmente nem estaria vivo a esta altura.

            Seldon sentiu-se atravessado por uma sensação de náusea, mas conseguiu falar:

            - É claro que intrusos sempre tiveram dificuldade para chegar até um imperador, mesmo quando a tecnologia não era tão avançada. Mas a maioria dos assassinatos reais foi na verdade um golpe palaciano. O maior perigo para um imperador são as pessoas que o cercam. Contra esse tipo de perigo, de nada adianta esquadrinhar os visitantes. E Vossa Majestade não pode tratar os funcionários, os guardas, os seus assessores mais próximos, do mesmo jeito que me trataria.

            - Sei disso - replicou Cleon. - Sei disso tão bem quanto você. A resposta é que trato bem aqueles que me cercam, e não lhes dou motivos para qualquer tipo de ressentimento.

            - Isso é uma bobag... - Seldon interrompeu-se, confuso.

            - Vá, vá, continue - disse Cleon, impaciente. - Dei-lhe permissão para falar livremente. Por que é uma bobagem?

            - Minha expressão foi infeliz, Sire. Eu queria dizer que essa questão do modo como Vossa Majestade trata as outras pessoas é irrelevante. Vossa Majestade deve alimentar suspeitas; não seria humano se não fizesse. Se alguém usa uma palavra pouco apropriada, como foi meu caso agora, ou faz um gesto rude, ou usa uma expressão estranha... Vossa Majestade reagirá a isso com um movimento instintivo de recuo, de desconfiança. E isso põe em ação um círculo vicioso. A outra pessoa perceberá essa suspeita; e passará a se comportar de uma maneira artificial, tentando evitar que ela volte a se produzir. Vossa Majestade perceberá isso e ficará mais desconfiado ainda; no final desse processo, ou a outra pessoa será executada. ou Vossa Majestade morrerá às suas mãos. É um mecanismo que nenhum imperador nos últimos quatro séculos conseguiu evitar. Este é apenas um dos indícios de como se torna cada vez mais difícil administrar os negócios do Império.

            Então, nada que eu faça pode evitar que eu seja assassinado.

            Não, Sire - disse Seldon. - Mas talvez Vossa Majestade tenha um pouco de sorte.

            Os dedos de Cleon estavam tamborilando no braço da cadeira, e ele disse, num tom rude:

            - Você não tem nenhuma utilidade para mim, rapaz, e a sua psico-história muito menos. Pode retirar-se. - Com essas palavras, o imperador afastou os olhos, e de súbito pareceu muito mais velho do que seus 32 anos.

            - Eu havia dito que minha matemática não poderia ser-lhe útil, Sire. Minhas mais profundas desculpas.

            Seldon esboçou uma reverência mas, atendendo a algum sinal que lhe passou despercebido, dois guardas entraram no aposento e o conduziram para fora.

            Tudo o que ele ouviu foi a voz de Cleon às suas costas:

            Levem esse homem de volta ao lugar de onde o trouxeram.

 

            Eto Demerzel surgiu no aposento e relanceou os olhos na direção do imperador, com uma afetada expressão de respeito.

           - Sire - disse ele -, Vossa Majestade quase perdeu a calma. Cleon o encarou e, com algum esforço, conseguiu sorrir.

            - É, tem razão. Esse indivíduo me decepcionou.

            - De qualquer modo, ele não prometeu nada mais do que podia dar.

            - Ele não me deu nada.

            - E nada prometeu, Sire.

            - Foi uma decepção.

            - Talvez mais do que isso - disse Demerzel. - Esse homem é um canhão desregulado, Sire.

            - Um... um o quê desregulado? Você é cheio de expressões estranhas, Demerzel. O que é um canhão?

            - Isso é apenas uma expressão que aprendi na juventude, Sire - respondeu Demerzel, com gravidade. - O Império é cheio de estranhos modos de falar, muitos dos quais desconhecidos em Trantor, assim como os de Trantor às vezes soam estranhos em outra parte.

            - Está querendo me ensinar que o Império é grande? Enfim... o que é um canhão desregulado?

            - Isso quer dizer, Sire, que esse homem pode causar mal a muitas pessoas, mesmo que não seja essa a sua intenção. Ele não tem idéia da sua própria força, ou da sua própria importância.

            - Isso é uma dedução sua, Demerzel?

            - Sim, Sire. Esse homem é um provinciano. Não conhece Trantor, nem seus costumes. Nunca esteve antes em nosso planeta, e não sabe se comportar como alguém de sangue nobre, alguém da corte. E no entanto lidou com Vossa Majestade de igual para igual.

            - E por que não? Eu lhe dei permissão para falar. Abri mão das formalidades.

            Eu o tratei de igual para igual.

            - Não totalmente, Sire. Vossa Majestade não tem o hábito de tratar assim as outras pessoas. Vossa Majestade tem o hábito do comando. E mesmo quando procura deixar o interlocutor à vontade, são poucas as pessoas que o conseguem. A maioria perde a fala, ou, pior ainda, torna-se subserviente, recorre à bajulação. Esse homem comportou-se à altura.

            - Muito bem, Demerzel, você pode achar isso admirável, mas não gostei dele. - Cleon parecia pensativo e pouco satisfeito. - Você percebeu que ele não fez nenhum esforço para me explicar suas teorias matemáticas? É como se tivesse certeza de que eu seria incapaz de entender uma só palavra.

            - E provavelmente não entenderia, Sire. Vossa Majestade não é um matemático, nem cientista, nem artista. Há muitas áreas do conhecimento em que outras pessoas sabem mais do que Vossa Majestade. Mas a obrigação dessas pessoas é usar esses conhecimentos para servi-lo. Vossa Majestade é o imperador, e isso vale mais do que todas essas especializações juntas.

            - Será? Eu não me incomodaria de passar por ignorante diante de um homem idoso, que tivesse levado anos e anos para acumular seus conhecimentos. Mas esse tal Seldon tem a minha idade. Como pode saber de tanta coisa?

            - Ele não teve que aprender o hábito do comando, Sire, a arte de tomar decisões que irão afetar a vida de todas as pessoas.

            - Às vezes, Demerzel, tenho a impressão de que você está rindo de mim.

            - Sire?! - A expressão de Demerzel era de censura e respeito ao mesmo tempo.

            - Não importa. Vamos falar do seu canhão desregulado. Que razões você tem para considerá-lo perigoso? A mim não parece mais do que um provinciano, um simplório.

            - Também o é. Mas há essa teoria matemática que ele desenvolveu.

            - Diz ele que não serve para nada.

            - Vossa Majestade achou que serviria. Eu também achei, depois que Vossa Majestade me falou a respeito. Outras pessoas também poderão pensar assim. O próprio matemático pode acabar se convencendo disso, agora que alguém despertou sua atenção. Quem sabe? Talvez ele acabe descobrindo um meio de tornar útil sua descoberta. Se isso acontecer, a pessoa que conseguir antever o futuro, mesmo sem exatidão, estará numa posição de imenso poder. Mesmo que Seldon não ambicione esse poder para si mesmo, e esse tipo de abnegação sempre me parece uma hipótese remota, ainda assim ele pode ser usado por alguém mais.

            - Eu tentei convencê-lo. Não consegui.

            - Ele não teve tempo suficiente para pensar, mas talvez tenha, na próxima vez. E talvez ele não estivesse interessado em servir a Vossa Majestade, mas pudesse ser persuadido a trabalhar para... digamos, o prefeito de Wye.

            - Por que trabalharia para Wye, e não para nós?

            - Como ele sempre explicou, é sempre difícil prever as emoções e o comportamento de indivíduos isolados.

            Cleon assumiu um ar carrancudo e ficou algum tempo em silêncio. Depois voltou à carga:

            - Acha mesmo que ele pode desenvolver essa tal de psico-história a ponto de dar-lhe alguma utilidade? Ele parece tão seguro de que isso é impossível...

            - Talvez, com o passar do tempo, ele perceba que estava errrado ao negar essa possibilidade.

            Então, suponho que teria sido melhor mantê-lo aqui conosco.

            - Não, Sire. O instinto de Vossa Majestade estava certo, quando deixou Seldon partir. Prendê-lo, ou coagi-lo de qualquer forma, iria produzir nele ressentimento e ansiedade, e isso não o ajudaria a desenvolver suas ideias, nem o tornaria mais propenso a trabalhar para nós. Melhor deixá-lo partir, como Vossa Majestade fez, mas mantê-lo sob vigilância. Assim poderemos saber se ele não está a serviço de nenhum dos inimigos de Vossa Majestade; e podemos estar certos de que, quando seus instrumentos científicos estiverem prontos, ele será trazido de volta até nós... e aí poderemos ser mais persuasivos.

            - Mas, e se ele for apanhado por algum dos meus inimigos... ou melhor, por algum dos inimigos do Império, porque eu sou o Império? E se ele resolver, por sua própria iniciativa, servir a um desses inimigos? Como vê, essa possibilidade não está fora das minhas cogitações.

            - Nem deveria. Farei o possível, Sire, para que tal coisa não aconteça, mas se apesar dos nossos esforços acabar sucedendo, então é melhor Seldon não trabalhar para ninguém do que trabalhar para a pessoa errada.

            Cleon pareceu pouco à vontade.

            - Deixo isso em suas mãos, Demerzel, mas vá com cuidado. Esse Seldon pode ser, no final das contas, apenas o proprietário de uma ciência teórica que não serve para nada.

            - É bem possível, Sire. Mas é mais seguro admitir que esse homem é, ou pode tornar-se, alguém importante. Se comprovarmos que ele é um joão-ninguém, teremos perdido apenas um pouco do nosso tempo, e nada mais. Mas se descobrirmos um dia que o subestimamos, poderemos perder a Galáxia.

            - Então está resolvido - disse Cleon. - Mas se acontecer algo desagradável, poupe-me os detalhes.

            - Esperemos que não seja esse o caso - disse Demerzel.

 

            Seldon teve uma noite inteira e o início de uma manhã para refletir sobre seu encontro com o imperador. Ou, pelo menos, a variação de luminosidade nas passarelas, nos corredores móveis, nas praças e nos parques de Trantor indicava que havia transcorrido toda uma noite e parte da manhã.

            Agora ele estava num pequeno parque, sentado num banco de plástico que se amoldava ao seu corpo e o fazia sentir-se com conforto. A julgar pela luz, seriam umas nove da manhã; o ar estava fresco, agradável, nem um pouco cortante...

            Seria assim o tempo todo? Seldon lembrou-se do céu ameaçador e cinzento do dia anterior, quando estava indo ao encontro de Cleon. Pensou também nos dias cinzentos, nos dias gelados, nos dias quentes e chuvosos de Helicon, seu planeta natal, e imaginou se alguém seria capaz de sentir falta daquilo. Seria possível sentar-se num parque de Trantor, desfrutando dia após dia de um clima ideal, a ponto de ter a impressão de estar boiando no nada... e começar a ter saudade do uivo de uma ventania, ou de um frio cortante, ou de uma umidade irrespirável?

            Talvez. Mas não no primeiro dia ou no segundo, nem na primeira semana. Ele tinha apenas aquele dia em Trantor; partiria na manhã seguinte, e tinha a intenção de aproveitar aquelas horas da melhor maneira possível. Quem sabe - talvez nunca mais retornasse a Trantor.

            Ainda se sentia inquieto pelo fato de na véspera ter falado de um modo tão desassombrado diante de um homem que podia, a seu bel-prazer, ordenar o encarceramento ou a execução de quem quer que fosse - ou pelo menos podia decretar sua perda de status profissional, sua morte social e econômica.

            Antes de se deitar, Seldon tinha consultado o arquivo enciclopédico no terminal de computador em seu quarto de hotel, à procura de informações sobre Cleon. O texto era altamente elogioso em relação ao imperador, como sem dúvida tinha sido em relação a todos os anteriores durante seus reinados, independentemente de seus feitos. Seldon não levou em conta esses elogios, mas seu interesse foi despertado pela informação de que Cleon tinha nascido no Palácio e jamais deixara suas dependências. Jamais estivera em Trantor propriamente dito, jamais pusera os pés no interior de qualquer uma das incontáveis cúpulas que recobriam o planeta. Uma questão de segurança, talvez, mas isso queria dizer que o imperador era um prisioneiro, e não fazia muita diferença se ele admitia esse fato ou não. Era talvez a mais luxuosa prisão de toda a Galáxia, mas era uma prisão.

            Embora Cleon tivesse se mostrado cortês e não parecesse ser um autocrata sanguinário à maneira de muitos de seus antecessores, Seldon lamentava ter atraído sua atenção, e achava reconfortante a idéia de que no dia seguinte estaria partindo rumo a Helicon, mesmo lembrando que lá era inverno, e um inverno bem rigoroso.

            Olhou para o alto, para aquela luminosidade difusa. Embora a chuva fosse algo impossível ali, o ar estava longe de ser seco. Não muito longe de Seldon, ouvia-se o murmúrio de uma fonte; as plantas eram verdes e provavelmente nunca tinham sentido falta de umidade. De tempos em tempos, os arbustos próximos farfalhavam, como se animais miúdos estivessem correndo por baixo de suas folhas. E era possível escutar o zumbido das abelhas.

            Na verdade, embora Trantor fosse considerado em toda a Galáxia um mundo artificial feito em metal e cerâmica, pelo menos naquele trecho tinha uma aparência decididamente primitiva.

            Havia algumas outras pessoas desfrutando do clima ameno do parque, todas usando chapéus leves, alguns deles bem pequenos. Uma moça aparentemente bonita estava bem próxima dele, mas inclinada sobre um visor e Seldon não podia ver direito seu rosto. Um homem vinha se aproximando; seus olhos cruzaram distraidamente com os de Seldon, sem parecerem percebê-lo, e em seguida ele se sentou num banco próximo, mergulhando sua atenção num maço de telecópias; cruzou as pernas. Trajava uma espécie de calça muito justa, cor-de-rosa.

            Seldon já tinha observado que os homens em Trantor davam preferência a roupas em tons pastéis (o que ele achava pouco comum), enquanto que as mulheres, em sua maioria, vestiam-se de branco. Mas num ambiente claro e reluzente como aquele, fazia sentido usar cores leves. Ele baixou os olhos, divertido, para seus trajes heliconianos, em que predominava o marrom-escuro.

            Se tivesse que permanecer mais algum tempo em Trantor (o que não era o caso) teria que comprar novas roupas, ou passaria a ser objeto de curiosidade, de riso ou de desagrado. O homem que folheava as telecópias, por exemplo, tinha voltado a olhar em sua direção, sem dúvida intrigado com aquelas vestimentas típicas de alguém de outro planeta.

            Bem, pelo menos não estava rindo. Seldon podia encarar filosoficamente o fato de alguém ver nele uma figura extravagante, mas em hipótese alguma isso o deixava contente.

            Continuou observando discretamente o outro homem, que parecia agora travar uma discussão interna consigo mesmo: em dado momento deu a impressão de que ia dirigir a palavra a Seldon, depois pareceu mudar de idéia, em seguida fez menção de falar, mais uma vez. Seldon permaneceu onde estava, aguardando o resultado final.

            Observou o outro com mais atenção. Era um homem alto, de ombros largos, e sem nenhum sinal de obesidade; seu cabelo era escuro com alguns reflexos dourados, o rosto bem barbeado, fisionomia séria; transmitia uma impressão de força, embora não fosse musculoso, e suas feições tinham traços bem acentuados - um rosto agradável, sem ser propriamente bonito.

            No momento em que o homem pareceu perder (ou ganhar) a luta que travava consigo, e falou em sua direção, Seldon concluiu que simpatizava com ele.

            - Desculpe-me - disse o outro -, mas creio que o vi participando da Convenção Decenal. Na área de matemática, não é isso? - Exatamente - respondeu Seldon - Ah, eu bem sabia. Achei que o tinha reconhecido e sentei-me aqui até ter certeza. Desculpe se estou atrapalhando a sua privacidade...

            - Oh, não. Estou apenas passando o tempo.

            - Deixe-me ver se me lembro bem. Você é o professor Seldon. Seldon.

            - Hari Seldon. Chegou perto. E você?

            - Chetter Hummin. - O homem pareceu algo embaraçado. - É um desses nomes inventados em casa, creio eu.

            - Nunca encontrei ninguém chamado Chetter - disse Seldon.

            - Nem Hummin, para falar a verdade. Isso o torna uma pessoa única, a meu ver. Talvez seja melhor do que viver sendo confundido com uma infinidade de Haris que existem por aí, sem falar nos Seldons.

           Chegou seu banco mais para perto do outro, arrastando-o sobre os ladrilhos de cerâmica aparente.

            - Por falar em coisas feitas em casa - continuou -, o que me diz desta roupa que estou usando? Não me tinha ocorrido a idéia de que talvez precisasse usar roupas trantorianas.

            - Talvez precise comprar algumas - disse Hummin, tentando disfarçar o ar de reprovação com que fitou o traje de Seldon.

            - Estou indo embora amanhã, e mesmo assim creio que não teria dinheiro. Os matemáticos costumam manejar números muito grandes, mas nunca em seu orçamento pessoal. Aliás, devo supor que você é matemático.

            - Oh, não. Sou um zero nesse departamento.

            - Oh - fez Seldon, desapontado. - Mas você me viu na Convenção.

            - Estive lá como espectador. Sou jornalista. - Exibiu o maço de telecópias e só então pareceu perceber que ainda as segurava; guardou-as no bolso do casaco.

            - Fui lá para colher material para as holo-transmissões - Ficou pensativo um instante e depois comentou: - Aliás, estou cansado disso.

            - Desse trabalho? Hummin assentiu.

            - Estou cansado de passar a vida recolhendo fatos absurdos que nos chegam de todos os planetas. Estou numa espiral descendente, e detesto isso. - Lançou um olhar especulativo na direção de Seldon. - Mesmo assim, de vez em quando surge uma novidade realmente interessante. Ouvi dizer que você foi visto na companhia de um guarda imperial, indo na direção do Palácio. Por acaso terá sido recebido pelo imperador?

            O sorriso apagou-se do rosto de Seldon, e ele respondeu devagar:

            - Se isso tivesse acontecido, dificilmente eu poderia dar declarações públicas a respeito.

            - Não, não tem nada a ver com publicação. Se você ainda não sabe, Seldon, deixe-me ser o primeiro a dizer-lhe: a primeira regra para os homens de imprensa daqui é que nada pode ser dito sobre o imperador, ou sobre seus círculos mais próximos, além do que é oficialmente divulgado. Claro que é uma bobagem, porque a quantidade de boatos que circula acaba sendo algo mais prejudicial do que a verdade. Mas é assim que a coisa funciona.

            - Se você não pode publicar nada, meu caro, então por que pergunta?

            - Curiosidade pessoal. Em minha profissão, acabo sabendo de muitas coisas além do que é transmitido para o público. Deixe-me arriscar uma suposição. Não vi sua conferência, mas houve rumores de que você falou sobre a possibilidade de se prever o futuro.

            Seldon abanou a cabeça e murmurou: - Meu maior erro.

            - O quê?

            - Nada.

            - Bem, qualquer tipo de previsão, desde que acurada, deve interessar ao imperador, como deve interessar a qualquer governante. Portanto, tenho o palpite de que Cleon, Primeiro desse Nome, deu-se ao trabalho de fazer conduzir o professor Seldon ao Palácio e pediu-lhe para fazer uma ou duas previsões.

            Seldon respondeu, bastante empertigado:

            - Não tenho a intenção de falar a esse respeito. Hummin encolheu os ombros.

            - Suponho que Eto Demerzel estava presente.

            - Quem?

            - Eto Demerzel. Nunca ouviu falar nele?

            - Nunca.

            O alter ego de Cleon. Seu cérebro, sua eminência parda.. ele tem sido chamado de todas essas coisas, se nos limitarmos ao que não tem caráter pejorativo. Demerzel certamente estava lá. - Hummin percebeu a expressão confusa de Seldon. - Ora, não importa. Talvez você não o tenha visto, mas ele estava lá. E se ele imagina que você pode prever o futuro...

            - Eu não posso prever o futuro - exclamou Seldon, abanando a cabeça com força. - Quem tiver assistido à minha conferência sabe que eu falei apenas numa possibilidade teórica.

            - É a mesma coisa. Se ele pensa que você pode prever o futuro, não vai deixá- lo livre.

            - Já deixou. Estou aqui, não estou?

            - Isso não quer dizer nada. Ele sabe onde você está, e saberá o tempo inteiro.

            E quando ele quiser apanhá-lo ele o fará, não importa onde você esteja. Se ele decidir que você tem algo que lhe interessa, ele saberá arrancar isso de você. E se ele achar que você é perigoso, ele se livrará de você.

            Seldon o encarou.

            - O que está pretendendo com isso? Me amedrontar?

            - Quero apenas preveni-lo.

            - Não acredito numa palavra do que você diz.

            - Não? Há alguns instantes atrás você se referiu a alguma coisa como seu maior erro. Talvez esteja imaginando que sua conferência foi um erro, porque ela o meteu numa enrascada, num tipo de situação em que você não gostaria de se ver envolvido.

            Seldon mordeu o lábio inferior, preocupado. O palpite de Hummin estava muito próximo da verdade...

            Foi nesse momento que Seldon percebeu a presença dos intrusos.

            Não projetaram nenhuma sombra sobre eles, porque a luz do dia era suave e uniformemente distribuída; foi apenas um movimento que Seldon percebeu com o canto do olho, e que no mesmo instante se interrompeu.

 

            TRANTOR -... A capital do Primeiro Império Galáctico... Sob o reinado de Cleon, ela atingiu o seu crepúsculo. Aos olhos de todos, entretanto, estava no auge de seu esplendor. Sua superfície continental de duzentos milhões de quilômetros quadrados estava inteiramente recoberta por cúpulas (com exceção da área do Palácio Imperial) formando uma única e ilimitada megalópole que se estendia até mesmo para baixo das plataformas continentais. A população era de quarenta bilhões de habitantes, e embora houvesse indícios numerosos (e claramente visíveis, numa análise retrospectiva) de que os seus problemas estavam se multiplicando, aqueles que viviam em Trantor ainda tinham o planeta na conta do Mundo Eterno referido pelas lendas, e não imaginavam que ele um dia...

                        Enciclopédia Galáctica

 

            Seldon ergueu os olhos. Um rapaz bastante jovem estava parado à sua frente, olhando-o com uma expressão que era um misto de divertimento e menosprezo.

            Ao seu lado outro rapaz, talvez um pouco mais jovem. Ambos eram de boa estatura e davam a impressão de fisicamente fortes.

            Vestiam-se à moda trantoriana, mas com exagero, pelo que Seldon pôde avaliar: cores fortes e agressivas, cintos largos ornados com franjas, chapéus redondos com abas muito largas, e uma fita cor-de-rosa indo da aba do chapéu até a nuca.

            Aos olhos de Seldon aquilo era cômico, e ele sorriu.

            - Qual é a graça, meu camarada? - inquiriu o rapaz, em tom de desafio.

            Seldon ignorou a atitude do outro e respondeu com polidez: - Desculpe meu sorriso, por favor. Apenas achei a sua roupa interessante.

            - Ah, é? É a minha roupa, que é interessante? E o que me diz desses molambos de segunda-mão que você está usando?

            Ele estendeu a mão e roçou com o dedo a lapela do casaco de Seldon - cuja cor, pensou ele, era lamentavelmente fosca e sombria, em comparação com as cores vivas do traje do outro.

            - Minhas roupas são de outro planeta - disse ele -, mas infelizmente são as únicas de que disponho.

            Naquele instante, não pôde deixar de perceber que as poucas pessoas que havia no parque estavam ficando de pé e se encaminhando para longe dali, como se pressentissem algum tipo de complicação e preferissem ficar a salvo.

            Seldon se perguntou se Hummin estaria a ponto de fazer o mesmo; mas preferiu não afastar os olhos do intruso à sua frente, e recostou-se um pouco mais à cadeira, para encará-lo.

            Então, você é um forasteiro - disse o rapaz. - Sim. Daí a minha indumentária.

            - Indumentária? a que diabo é isso? É a linguagem do seu planeta?

            - Não é bem isso. Estou me referindo às minhas roupas. Elas são do mundo de onde venho, por isso parecem estranhas.

            - Você vem de onde?

            - Helicon.

            As sobrancelhas do rapaz convergiram uma para a outra.

            - Nunca ouvi falar.

            - Não é um planeta muito grande.

            - Por que não vai embora para lá?

            - Estou indo. Amanhã.

            - Amanhã não. Vai hoje. Agora. O rapaz olhou para seu companheiro; Seldon acompanhou seu olhar e teve uma rápida visão de Hummin, ainda sentado. Mas o parque àquela altura estava deserto, a não ser pelos quatro.

            - Não posso ir hoje - disse Seldon. - Ainda pretendo dar um passeio.

            - Não pretende nada, cara. Você vai é embora. Seldon sorriu.

            - Sinto muito, mas não vou. O rapaz voltou a olhar seu colega. - Gosta das roupas dele, Marbie? Marbie falou pela primeira vez.

            - Não. São nojentas. Dá vontade de vomitar.

            - A gente não pode deixar que ele saia por aí, fazendo as pessoas vomitarem.

            Não é, Marbie? Faz mal à saúde.

            - Isso mesmo, Alem. Alem sorriu.

            - Está vendo? Ouviu o que Marbie disse? Então Seldon ouviu a voz de Hummin.

            - Olha aqui, pessoal. Alem, Marbie, seja qual for o nome de vocês. Já se divertiram. Por que não vão embora?

            Alem, que se tinha inclinado ligeiramente na direção de Seldon, voltou a se endireitar e retrucou:

            - Quem é você?

            - Não é da sua conta - disse Hummin.

            - É trantoriano?

            - Também não lhe interessa.

            Alem franziu a testa.

           - Você veste roupas trantorianas. A gente não quer nada com você. Não se meta em complicações.

            - Já estou metido. Isso quer dizer que nós somos dois. Dois contra dois não parece ser o tipo de briga que vocês gostam. Por que não dão uma volta e chamam alguns amigos? Aí talvez possam brigar conosco.

            Seldon interveio:

            - Fique afastado disso, Hummin. Agradeço a sua ajuda, mas não quero que lhe aconteça alguma coisa.

            - Esses caras não são perigosos, Seldon. São apenas dois lacaios baratos.

            - Lacaios!

            O termo pareceu enfurecer Alem, e Seldon imaginou que em Trantor ele devia ser considerado mais ofensivo do que em Helicon. - Olha aqui, Marbie - rosnou Alem. - Você toma conta desse filho de uma lacaia, e eu vou rasgar as roupas desse Seldon, que é o que nos interessa. Agora...

            Ele abaixou as mãos para agarrar Seldon pela lapela e fazê-lo ficar de pé.

            Seldon jogou o corpo para trás, num reflexo aparentemente instintivo, fazendo o banco inclinar-se; agarrou as mãos de Alem com força, e jogou o pé direito para cima, entre as pernas do outro, no instante em que o banco caía para trás. Alem pareceu voar sobre ele, aterrissando com violência sobre as costas e a nuca.

            Seldon rolou de lado rapidamente no instante em que tocou o chão, olhou para Alem caído a pouca distância, e em seguida virou-se para localizar Marbie. Alem continuou caído, o rosto contorcido de dor: seus polegares estavam torcidos, as costas machucadas, e uma dor aguda subia pelo seu baixo-ventre.

            O braço esquerdo de Hummin tinha agarrado por trás o pescoço de Marbie, e com a mão direita ele torcia o braço do outro até um ângulo doloroso. O rosto de Marbie estava vermelho, e ele respirava com dificuldade. Aos seus pés, caído no chão, brilhava um punhal-laser.

            Hummin afrouxou um pouco o aperto e disse a Seldon, numa voz que demonstrava preocupação:

            - Você o machucou.

            - Acho que sim - disse Seldon. - Se ele tivesse caído em outra posição poderia ter quebrado o pescoço.

            - Que raio de matemático é você? - perguntou Hummin.

            - Um matemático heliconiano - disse Seldon. Abaixou-se, apanhou o punhal- laser e o examinou. - Uma coisa feia... e perigosa.

            - Um punhal comum faria o mesmo efeito - disse Hummin -, sem necessitar de uma fonte de energia. Mas vamos deixar esses dois irem embora. Duvido que queiram continuar.

            - Largou Marbie, que se afastou, arquejante. Esfregando o ombro e depois o pescoço, lançou um olhar cheio de ódio para os dois.

            - É melhor que vocês caiam fora daqui - disse Hummin, asperamente. - Senão vamos dar queixa por assalto e tentativa de homicídio. Não será difícil provar que esse punhal pertence a vocês.

            Ficaram observando enquanto Marbie ajudava Alem a ficar de pé e o conduzia, cambaleando, curvado de dor. Ainda olharam para trás uma ou duas vezes, mas Seldon e Hummin se mantiveram impassíveis.

            Seldon estendeu a mão.

            - Não sei como agradecer a alguém que ajuda um quase desconhecido contra dois assaltantes. Duvido que eu tivesse conseguido enfrentá-los sozinho.

            Hummin fez um gesto de desdém.

            - Esses caras não me metem medo. São dois lacaios, desordeiros de rua. Tudo o que eu tinha a fazer era pôr minhas mãos em cima deles... e você também, claro.

            - Você é bom de briga - comentou Seldon. Hummin encolheu os ombros.

            - Você também. - Sem mudar o tom de voz, continuou: - E vamos cair fora daqui. Estamos perdendo tempo.

            - Por que ir embora? Está com medo de que aqueles dois voltem?

            - Eles nunca voltarão aqui enquanto estiverem vivos. Mas você viu aqueles valentes que bateram em retirada daqui para não presenciar uma cena desagradável. Talvez algum deles tenha alertado a polícia.

            - Melhor. Temos os nomes dos assaltantes. E podemos descrevê-los com razoável exatidão.

            - Descrevê-los? Para a polícia? E por que motivo ela se interessaria?

            - Eles praticaram uma agressão, e...

            - Não seja bobo. Não sofremos um arranhão. Eles dois é que devem estar indo para um hospital, principalmente Alem. Nós é que seríamos acusados de agressão.

            - Mas isso é impossível. Aquelas pessoas viram que...

            - Nenhuma delas vai ser convocada a depor. Seldon, meta isso na sua cabeça.

            Aqueles dois vieram especificamente à sua procura. Sabiam que você estava usando roupas heliconianas, sabiam sua descrição. Talvez tenham visto até uma holografia sua. A minha suspeita é de que foram mandados aqui pelas pessoas que controlam a polícia, de modo que é melhor irmos embora o quanto antes.

            Hummin pôs-se a caminho, arrastando Seldon pelo braço. O. matemático não teve como resistir e o acompanhou, como uma criança tentando acompanhar o passo de uma governanta apressada.

            Entraram por uma galeria e, antes mesmo que os olhos de Seldon se acostumassem à meia-luz reinante ali no interior, ouviram o ruído estridente dos freios de um carro.

            - Chegaram - murmurou Hummin. - Mais depressa! Seguiram a passos largos até atingir um corredor-móvel, e ali se misturaram à multidão.

 

            Seldon ainda tentou persuadir Hummin a levá-lo a seu hotel, mas o outro não lhe deu ouvidos.

            - Está maluco? - disse em voz baixa. - Claro que estarão lá, à sua espera.

            - Bem, minha bagagem também está lá, à minha espera.

            - Então, que continue esperando.

            Estavam agora num quarto não muito espaçoso, num edifício de apartamentos cuja localização exata Seldon não tinha a menor condição de avaliar. Olhou ao redor. Era um aposento único, quase totalmente ocupado por uma cama, uma escrivaninha com cadeira e um terminal de computador. Não havia cozinha, pia ou lavatórios. Antes de subirem até ali, Hummin conduzira Seldon até um banheiro coletivo no andar térreo. Pouco antes de Seldon terminar seu banho, um homem entrou no banheiro e, sem lhe dar muita atenção, lançou apenas um olhar de curiosidade para suas roupas.

            Seldon mencionou o fato a Hummin quando saiu, e o jornalista sacudiu a cabeça, preocupado.

            - Temos que nos livrar dessas suas roupas. É uma pena que Helicon seja um planeta tão distanciado da moda...

            Seldon o interrompeu, impaciente: '

            - Não acha que boa parte disso tudo é apenas imaginação, Hummin? Não nego que estou meio convencido, mas mesmo assim pode ser que isso não passe de uma espécie de... de...

            - Acho que a palavra que você procura é paranoia - Digamos que seja. Tudo isso pode não passar de paranoia de sua parte.

            - Está bem, então pense um pouco mais a respeito. Não posso demonstrar isso matematicamente; mas você esteve com o imperador. Não o negue. Ele queria algo de você, algo que você se recusou a fornecer. Não adianta negar.

            Meu palpite é que ele queria informações sobre o futuro, e você se esquivou.

            Talvez Demerzel esteja pensando que você apenas fingiu não estar de posse de todas as informações, e que as estava guardando para exigir depois um preço mais alto, ou que há mais alguém interessado nelas. Quem pode saber? Já lhe disse que se Demerzel estiver interessado em você pode encontrá-lo onde quer que você esteja. Eu estava lhe dizendo isso quando aqueles dois malucos apareceram. Olhe, eu sou jornalista, e sou trantoriano. Sei como essas coisas funcionam. Houve um momento em que o tal Alem disse: "esse Seldon é o que nos interessa. " Lembra disso?

            - Agora que você falou, acho que sim.

            - Para ele eu era apenas um intrometido que devia ser mantido à distância enquanto ele cumpria a sua missão, que era agredir você.

            Hummin sentou-se, e fez um gesto na direção da cama.

            - Deite aí, Seldon. Descanse um pouco, e fique à vontade.

            - Quem quer que tenha mandado aqueles dois (e na minha opinião foi Demerzel) pode mandar outros, portanto temos que nos livrar dessas suas roupas. Estou achando que qualquer heliconiano que for encontrado neste setor usando esse tipo de traje vai ter muitos problemas até conseguir provar que não é Hari Seldon.

            - Ora, o que é isso?!

            - Estou falando sério. Tire essas roupas. Vamos ter que atomizá-las. Espero poder levá-las até uma unidade de eliminação sem ser percebido, mas antes disso temos que conseguir trajes trantorianos para você. Tenho que levar em conta que você é um pouco mais baixo que eu, mas não faz mal se houver uma pequena diferença.

            Seldon abanou negativamente a cabeça.

            - Não posso pagar. Os poucos créditos que me restam estão no cofre do hotel.

            Aqui, comigo, não tenho quase nada.

            - Acertaremos isso mais tarde. Por enquanto, você fica aqui uma ou duas horas, e eu vou pegar as roupas.

            Seldon abriu os braços e suspirou resignado.

            - Está bem. Já que a coisa é tão séria, ficarei aqui.

            - Promete que não volta para o hotel? Palavra de honra?

            - Palavra de matemático Mas estou meio constrangido por estar dando todo esse trabalho, sem falar nas despesas. Afinal de contas, a despeito de toda e sa sua história sobre Demerzel, aqueles caras não iam me ferir, nem me sequestrar No máximo iriam estragar minhas roupas.

            - Mais do que isso. Iam levá-lo ao espaçoporto e enfiá-lo numa hiper-nave para Helicon.

            - Era só uma ameaça boba. ão era para ser levada a sério.

            - Por que não?

            - Eu estou indo amanhã para Helicon. Disse isso a eles. E ainda pretende ir?

            - Claro. Por que não?

            - Por inúmeros motivos.

            Seldon não conseguiu esconder sua momentânea irritação, - Olhe aqui, Hummin, já estou me cansando desta brincadeira. Não tenho mais o que fazer aqui e quero ir para casa. Minha passagem ficou no hotel, senão eu iria agora mesmo trocá-la para viajar hoje. Não estou brincando.

            - Você não pode voltar para Helicon.

            O rosto de Seldon enrubesceu de impaciência.

            - Não posso? Por que não posso? Será que eles vão estar lá a minha espera?

            Hummin assentiu.

            - Não fique zangado, Seldon. Eles vão estar lá à sua espera.

            Ouça o que eu digo: se você voltar para Helicon, estará praticamente nas mãos de Demerzel. Helicon é um lugar de confiança para o Império. Você já soube de alguma rebelião de Helicon, ou de alguma vez em que Helicon tenha tomado o partido de um anti-imperador?

            - Isso nunca aconteceu, e por boas razões. Helicon é cercado por planetas muito maiores. Sua segurança depende da paz interna do Império.

            - Exatamente. Portanto, as forças imperiais em Helicon podem sempre contar com a cooperação do governo local. Lá, você estaria o tempo inteiro sob vigilância cerrada. Quando Demerzel quisesse apanhá-lo, bastaria estender a mão. E se eu não estivesse agora a preveni-lo você não estaria sabendo de nada: continuaria trabalhando às claras, cercado por uma falsa sensação de segurança.

            - Mas isso é ridículo. Se ele me queria em Helicon, porque não esperou simplesmente que eu voltasse para lá? Eu ia voltar amanhã. Por que mandar aqueles dois desordeiros para me apressar, correndo o risco de despertar minha desconfiança?

            - Ele não imaginou que isso aconteceria. Não sabia que eu ia estar por perto, e que arrastaria você para esta minha... paranoia - Está bem. Mas por que apressar minha partida, por uma questão de poucas horas?

            - Talvez ele temesse que você mudasse de idéia.

            - E para onde eu iria, senão para meu planeta? Se ele pode me apanhar em Helicon, pode fazê-lo em qualquer outro mundo. Pode me apanhar em... em Anacreon, digamos, a dez parsecs de distância, se eu tivesse a idéia de fugir para lá. Para uma nave hiperespacial, a distância não importa. E mesmo que eu encontrasse um mundo menos subserviente ao Império do que Helicon, não poderia encontrar um que estivesse em rebelião frontal. O Império está em paz.

            Alguns planetas ainda se ressentem de injustiças do passado, mas nenhum deles iria desafiar as forças imperiais só para me proteger. Além disso, em qualquer lugar fora de Helicon eu não seria um cidadão local, e não haveria nem mesmo essa questão de princípios para fazê-los ficar a meu lado.

            Hummin escutou com paciência, concordando com movimentos leves de cabeça, mas sua expressão continuava tão séria e impassível quanto antes.

            - Tudo isso está correto - disse ele -, mas há um planeta que não está nas mãos do imperador. E deve ser isso que preocupa Demerzel.

            Seldon hesitou. Passou em revista a história recente, e não conseguiu lembrar nenhum planeta onde as forças imperiais não exercessem seu domínio. Acabou indagando:

            - Que planeta é esse?

            - Você já está nele - disse Hummin -, e é isso, creio eu, que deixa Demerzel tão preocupado. Não é que ele esteja ansioso para vê-lo em Helicon: ele está ansioso para vê-lo longe de Trantor, antes que por algum motivo qualquer, até mesmo por curiosidade turística, você resolva ficar.

            Os dois homens ficaram em silêncio por algum tempo até que Seldon falou, com voz sardônica:

            - Trantor, capital do Império, com o quartel-general da frota numa estação orbital, e com as melhores unidades do exército aquarteladas em seu território.

            Se você acha que Trantor é um lugar seguro para mim, você está derivando da paranoia para a fantasia delirante.

            - Não. Você não é deste mundo, Seldon. Não conhece Trantor. Aqui há quarenta bilhões de pessoas, e há poucos planetas que tenham sequer um décimo dessa população. A complexidade cultural e tecnológica deste mundo é inimaginável. Este lugar onde estamos agora é o Setor Imperial... com o nível de vida mais alto da Galáxia, e habitado apenas por funcionários do Império.

            Mas no restante do planeta há mais de oitocentos diferentes setores, alguns dos quais com subculturas totalmente diversas da que temos aqui, e alguns deles inatingíveis às forças imperiais.

            - Por que inatingíveis?

            - O Império não pode exercer toda sua pressão aqui dentro de Trantor. Se o fizer, pode abalar este ou aquele aspecto de uma tecnologia da qual o planeta inteiro depende. Essa tecnologia se baseia em conexões tão numerosas e intrincadas que prejudicar uma única delas poderia provocar uma pane geral.

            Acredite em mim, Seldon. Você não faz idéia do que acontece em Trantor quando não se consegue amortecer um terremoto, ou quando uma erupção vulcânica não é desafogada a tempo, ou não se consegue dissipar uma tempestade, ou mesmo quando algum erro humano foge ao nosso controle. O planeta inteiro vacila, e todos os esforços se voltam no sentido de restaurar seu equilíbrio.

            - Nunca ouvi falar nisso.

            - Claro que não. - Um sorriso contido surgiu no rosto de Hummin. - Acha que o Império iria fazer propaganda de sua principal fraqueza? O que há é que eu sou um jornalista, e fico sabendo de fatos que não chegam ao conhecimento dos estrangeiros ou da própria população de Trantor, mesmo quando o Império pressiona para que esses fatos permaneçam ocultos. Pode acreditar no que digo.

            O imperador sabe, e Eto Demerzel também, que qualquer perturbação em Trantor pode destruir o Império.

            - Por isso você me aconselha a permanecer aqui?

            - Sim. Posso levá-lo para algum lugar em Trantor onde você estará totalmente fora do alcance de Demerzel. Não terá que mudar de nome e poderá prosseguir abertamente em seu trabalho, e ainda assim ele não poderá pôr as mãos em você. É por essa razão que ele queria forçá-lo a se afastar daqui, e se não fosse pelo golpe de sorte que nos aproximou (e pela sua habilidade em termos de defesa pessoal) tudo teria dado certo.

            - Sim, mas terei que ficar aqui em Trantor durante quanto tempo?

            - Durante o tempo que for necessário para sua própria segurança. Quem sabe? Talvez pelo resto da vida.

 

            Seldon olhou para sua própria holografia que brilhava no projetor doméstico de Hummin. Era algo mais realista e impressionante do que um espelho. Na verdade, parecia que havia dois dele parados no aposento.

            Examinou a manga do casaco. Sua educação heliconiana o fazia desejar que sua cor fosse mais discreta, mas sentia-se grato a Hummin por ter escolhido cores mais suaves do que as que eram habituais naquele planeta. (Pensou nas roupas que seus dois assaltantes usavam, e sentiu um calafrio).

            - Suponho - disse ele - que devo usar este chapéu aqui.

            - No Setor Imperial, sim - disse Hummin. - Andar de cabeça descoberta aqui é considerado hábito plebeu. Nos demais setores, as regras são outras.

            Seldon suspirou. O chapéu era redondo, e feito de um material suave que se amoldava à cabeça. A aba era de largura uniforme em toda a volta, embora não tão larga quanto a dos chapéus de Alem e Marbie. Seldon consolou-se um pouco ao perceber que, no momento em que punha o chapéu na cabeça, a aba se curvava sozinha, de um modo gracioso.

            - Está faltando a correia sob o queixo - disse ele.

            É assim mesmo - respondeu Hummin. - Quem usa essa correia são os jovens magricelas.

            - Os jovens o quê?

            - Um magricela é alguém que usa roupas com O propósito de escandalizar.

            Tenho certeza de que em Helicon também há disso. - Oh, sim - grunhiu Seldon. - Há uma rapaziada que usa o cabelo longo, até o ombro, mas só de um lado... e raspa o outro.

            Deu uma gargalhada ao evocar a figura, e Hummin fez um trejeito divertido com a boca, antes de comentar:

            - Deve ser uma coisa muito feia.

            - Mas é pior ainda. Ao que parece há duas facções: uns deixam crescer o cabelo do lado direito, e outros do lado esquerdo; e cada grupo acha o estilo do outro tremendamente ofensivo. De vez em quando se cruzam na rua e há uma verdadeira batalha campal.

            - Já que em Helicon é assim, imagino que você vai conseguir usar o chapéu, ainda mais sem a correia.

            - Irei me acostumando - disse Seldon.

            - De qualquer modo, vai chamar um pouco de atenção. É um modelo excessivamente discreto, e vai dar a impressão de que você está de luto. Além disso, não está perfeitamente ajustado... você não parece muito à vontade.

            Mas, já que não vamos ficar muito tempo no Setor Imperial... Já viu o bastante?

            - E Hummin desligou a holografia.

            - Quanto custou isto tudo? - inquiriu Seldon.

            - Que diferença faz?

            - Não gosto de ficar lhe devendo.

            - Não se preocupe. Entrei nesta história porque quis. Mas estamos nos demorando demais por aqui. Tenho certeza de que minha descrição já circulou, e mais cedo ou mais tarde eles me identificarão e virão até aqui.

            - Nesse caso a questão do dinheiro é realmente um problema menor - disse Seldon. - Você está correndo um risco pessoal por minha causa. Está correndo perigo.

            - Sei disso. Mas foi uma decisão minha, e sei tomar conta de mim mesmo.

            - Sim, mas por que...

            - Podemos discutir o aspecto filosófico mais tarde. Bem, já atomizei suas roupas, e não creio que alguém me tenha visto. Houve um dispêndio extra de energia, que ficou registrado, e alguém pode acabar adivinhando o que aconteceu. É muito difícil dissimular as coisas por aqui, quando se é vigiado por olhos rápidos e mentes espertas. Mas antes que eles consigam somar dois e dois, estaremos em lugar seguro.

 

            Caminharam ao longo de passarelas onde brilhava uma luz amarela e muito suave. Os olhos de Hummin se moviam numa e noutra direção, atentos, e ele procurava manter o passo de acordo com o fluxo da multidão, sem ultrapassar ninguém e sem ser ultrapassado.

            Durante o trajeto, iam conversando descuidadamente sobre assuntos sem importância. Seldon, inquieto e com dificuldade para proceder do mesmo modo, comentou:

            - Parece que se anda muito a pé por aqui. Há filas imensas em todas as direções, nas passarelas, nas calçadas...

            - E por que não? Andar ainda é o melhor meio de transporte a curta distância.

            É o mais conveniente, o mais barato, e o mais saudável. Séculos e mais séculos de avanço tecnológico não foram capazes de alterar isto. A propósito, Seldon, você sofre de acrofobia?

            Seldon olhou sobre o parapeito à sua direita: havia um abismo escancarado entre as duas passarelas por onde as pessoas seguiam em direções opostas, e que eram cortadas a intervalos regulares por passadiços transversais. Ele estremeceu de leve.

            - Se você se refere a medo das alturas, normalmente não. Mas não é muito agradável olhar daqui para baixo. A que altura estamos?

            - Neste local, a uns quarenta ou cinquenta andares, creio eu. Isto é muito comum no Setor Imperial e em outras regiões mais desenvolvidas. Na maioria dos lugares, caminha-se praticamente ao nível do solo.

            - Isto não estimula tentativas de suicídio?

            - Raramente. Há métodos mais práticos. Além do mais, suicídio não é um problema social em Trantor. Se alguém está pretendendo acabar com a própria vida, temos centros especializados para isto, com vários métodos à escolha...

            desde que o indivíduo se submeta antes a uma psicoterapia. O que acontece de vez em quando são acidentes, mas não me refiro a isto quando falo em acrofobia. Temos que ir agora a uma locadora de táxis onde sou conhecido... já lhes prestei favores como jornalista e eles me retribuem isso de vez em quando.

            Lá posso ter certeza de que não registrarão minha ida nem o fato de que eu estava acompanhado. Terei que pagar um adicional, é claro; e se os homens de Demerzel os apertarem bastante eles terão que dizer a verdade e pôr a culpa em algum funcionário descuidado. Mas isso nos fará ganhar tempo.

            - E onde entra a acrofobia?

            - Para chegar lá temos que usar um elevador gravitacional; é mais rápido. É algo que pouca gente usa, e eu mesmo não o acho muito agradável, mas se você topar, será bem mais prático.

            - E o que é isso?

            - Ainda está em fase experimental. Talvez um dia seu uso esteja espalhado por todo o planeta, desde que se torne psicologicamente aceitável para um número razoável de pessoas. Depois disso, pode até mesmo ser adotado em outros mundos. É, por assim dizer, um poço de elevador sem cabine. Você dá um passo para dentro do espaço vazio e desce devagar (ou sobe devagar) pela ação de antigravidade. É a única aplicação prática da antigravidade que foi possível estabelecer até agora. Talvez porque seja a mais simples.

            - E o que acontece se houver uma falha de energia quando estivermos em pleno trajeto?

            - ... Exatamente o que você está pensando. A gente cai e morre, a menos que esteja a pouca altura. Não ouvi falar que tivesse acontecido até hoje, e pode acreditar que, se acontecesse, eu ficaria sabendo. Talvez não pudesse ser noticiado por motivos de segurança, que é o pretexto das autoridades para esconder más notícias, mas eu saberia. Bem, já estamos chegando. Se não lhe agradar, então podemos ir pelo corredor móvel; mas é muito mais lento, e a maioria das pessoas costuma enjoar depois de certo tempo.

            Pegaram uma passarela lateral e chegaram por fim a um amplo terraço onde havia uma fila de homens e mulheres, alguns com crianças. Seldon falou em voz baixa:

            - Nunca ouvi nada sobre isso em Helicon. É claro que nossos noticiários são acima de tudo locais, mas é de supor que teríamos ouvido falar nesse tipo de coisa.

            - Como já falei, ainda é algo experimental, e restrito ao Setor Imperial de Trantor. O governo não está interessado em dar muita publicidade ao projeto, pois o excessivo consumo de energia o torna pouco rentável. Foi tudo uma idéia do velho imperador, Stanel VI... o que surpreendeu a todo mundo morrendo pacificamente em sua cama. Antes de deixar o trono para Cleon, ele insistiu em instalar alguns desses elevadores; queria deixar o seu nome associado à antigravidade, pois, como acontece freqüentemente aos velhos governantes que não fizeram nada de importante, estava preocupado com seu lugar na História.

            Ainda não sabemos se esse tipo de tecnologia poderá ter aplicações generalizadas; talvez seu único uso continue sendo esse tipo de elevador.

            - Que outros usos poderia ter?

            - Eles estão pensando em vôo espacial. Mas isso iria requerer uma série de descobertas revolucionárias, e a maioria dos físicos acha que isso está fora de cogitações. Mas também diziam o mesmo do elevador.

            A fila estava se tornando cada vez menor, e daí a pouco Seldon se viu, juntamente com Hummin, de pé na borda da abertura, com um poço vazio adiante. O ar à sua frente parecia emitir uma fraca cintilação. Num gesto instintivo, ele estendeu a mão - e sentiu uma espécie de choque. Não sentiu dor, mas sua mão foi instantaneamente repelida.

            - É só uma precaução - disse Hummin. - Para que ninguém cruze o limiar sem que os controles tenham sido ativados.

            Acionou algumas teclas no painel de controle e a cintilação desapareceu.

            Seldon curvou-se e olhou para o fundo do poço. Hummin advertiu:

            - Será mais fácil se você fechar os olhos e deixar que eu o conduza. Não vai durar mais que alguns segundos.

            O fato é que ele não deu muita chance de escolha a Seldon: agarrou-lhe o braço e mais uma vez Seldon não conseguiu resistir à contundência daquele comando; deram um passo para dentro do poço, e Seldon (que para seu próprio embaraço ouviu-se emitindo um débil gemido) pisou no vazio.

            Fechou os olhos. Não experimentou qualquer sensação de queda, nenhum deslocamento do ar. Passaram-se alguns segundos, e Hummin o impeliu para a frente. Ele tropeçou, recuperou o equilíbrio, e percebeu que pisava solo firme novamente. Abriu os olhos.

            - Conseguimos?

            - Não morremos - disse Hummin secamente, e, sem relaxar o aperto no braço de Seldon, obrigou-o a caminhar.

            - Estou perguntando - insistiu Seldon - se chegamos ao andar certo.

            - Claro.

            - O que teria acontecido se estivéssemos descendo e viesse alguém subindo?

            - Há dois poços. Num deles todas as pessoas descem à mesma velocidade; no outro, sobem. O poço só permite a entrada de alguém quando não há outra pessoa a dez metros de distância. Se tudo funcionar direito, não há chance de colisão.

            - Não senti absolutamente nada.

            - E por que deveria sentir? Não há aceleração.·Depois do primeiro décimo de segundo você está se movendo a uma velocidade constante, e o ar à sua volta se desloca com a mesma velocidade.

            - É maravilhoso.

            - É mesmo, mas é antieconômico. E parece que não há muito esforço no sentido de aumentar a eficiência disso, ou torná-lo rentável. Por toda parte se escuta o mesmo refrão: "não vamos conseguir, é impossível". Aliás, esse refrão se aplica a tudo. - Hummin sacudiu os ombros com evidente irritação.

            - Mas estamos chegando à locadora de táxis. Vamos resolver logo essa questão.

 

            Seldon procurou manter-se despercebido no terminal dos aerotáxis, mas não foi fácil. Tentar parecer excessivamente discreto - afastar-se, evitar encarar os transeuntes, examinar com atenção excessiva um veículo estacionado - seria a melhor maneira de atrair as atenções. Teria que se comportar com a normalidade dos que não têm o que temer.

            Mas o que era normalidade? Ele não se sentia à vontade naquelas roupas sem bolsos, em que não tinha onde pôr as mãos. As duas bolsinhas penduradas ao cinto, de ambos os lados, batiam de leve contra seus quadris quando caminhava, dando-lhe a impressão constante de que alguém roçara nele.

            Fitou as mulheres que passavam. Não conduziam bolsas, pelo menos não naquele modelo: a maioria conduzia nas mãos algo como caixinhas, ocasionalmente presas aos quadris com a ajuda de algum artifício que Seldon não chegou a identificar mas imaginou ser pseudo-magnético As vestes femininas (ele reparou com pesar) não revelavam muito as formas do corpo, nem eram decotadas. Alguns vestidos, no entanto, pareciam desenhados propositadamente para realçar as nádegas.

            Enquanto Seldon observava os transeuntes, Hummin estava ocupado pagando os créditos necessários, e logo retomou com a ficha em cerâmica supercondutora que ativava um determinado aerotáxi.

            - Entre aí, Seldon - disse ele, indicando um veículo pequeno, de dois assentos.

            - E então? Teve que assinar seu nome?

            - Claro que não. Sou conhecido aqui, e posso dispensar as formalidades.

            - Eles sabem o que está se passando?

            - Não perguntaram nada, e não dei qualquer informação. Hummin inseriu a ficha na ranhura e Seldon sentiu uma ligeira vibração quando o aerotáxi entrou em funcionamento.

            - Estamos indo para a 0-7 - disse Hummin.

            Seldon não tinha a menor idéia do que fosse a 0-7, mas imaginou que se tratasse de alguma via expressa.

            O aerotáxi foi deslizando inicialmente pelo solo, abrindo caminho por entre os carros; finalmente alcançou uma rampa de curva ascendente, ganhou velocidade e, com uma pequena sacudidela, projetou-se no espaço.

            Seldon, que ao sentar-se tinha sido automaticamente envolto numa espécie de malha de segurança, sentiu as costas pressionadas de encontro ao assento, e logo a seguir para a frente, sendo retido pela malha.

            - Não é o mesmo que a antigravidade - comentou.

            - Não - concordou Hummin. - Uma tênue propulsão a jato, o bastante para nos conduzir até os túneis lá no alto.

           O que agora surgia diante deles era uma espécie de paredão monumental pontilhado de aberturas, num padrão regular que lembrava um tabuleiro de damas. Hummin manobrou o veículo na direção da abertura 0-7, evitando os aerotáxis que rumavam para outros túneis.

            - Dá a impressão de que vamos bater - disse Seldon, depois de pigarrear.

            - E bateríamos, se tudo dependesse de meus reflexos. Mas o táxi é computadorizado, e é o computador o que na realidade o manobra. O mesmo vale para os outros. Prepare-se... lá vamos nós.

            Penetraram na abertura 0-7 como se tivessem sido aspirados para dentro dela, e a luminosidade brilhante do espaço aberto foi substituída por uma luz amarela e difusa.

            Hummin largou os controles e recostou-se, com um suspiro de satisfação.

            - Bem, o primeiro estágio foi cumprido sem problemas. Poderíamos ter sido detidos na estação. Aqui, estamos razoavelmente seguros.

            O deslocamento do táxi era suave, e as paredes do túnel passavam com rapidez. Não se ouvia quase nada além de um zumbido aveludado, à medida que o veículo se projetava à frente.

            - A que velocidade estamos indo? - perguntou Seldon. Hummin lançou um olhar ao painel de controle.

            - Trezentos e cinquenta quilômetros por hora - respondeu.

            - Propulsão magnética?

            - Sim. Imagino que vocês têm isso em Helicon.

            - Temos uma linha, apenas. Nunca viajei nela, embora sempre tivesse a intenção. Mas não creio que se compare a isto.

            - Certamente que não. Trantor tem muitos milhares de quilômetros destes túneis perfurando a camada superior do solo, e uma boa quantidade que penetra em trechos de mar com pouca profundidade. É o nosso principal meio de transporte a longa distância.

            - Quanto tempo levaremos?

            - Até chegarmos ao nosso destino? Um pouco mais de cinco horas.

            - Cinco horas! - Seldon ficou boquiaberto.

            - Não se preocupe. A cada vinte minutos, mais ou menos, há pequenas estações onde poderemos sair do túnel, parar, esticar as pernas, fazer um lanche ... Claro que prefiro fazer isso tão poucas vezes quanto for possível.

            Ficaram calados durante algum tempo, e Seldon teve um sobressalto quando, pouco depois, um clarão relampejou à sua direita e, por alguns segundos, ele teve a visão de dois aerotáxis.

            - Uma das tais estações - disse Hummin, respondendo à pergunta que Seldon não chegou a fazer.

            O heliconiano estava pensativo, e voltou a falar logo em seguida.

            - Hummin, estarei mesmo em segurança nesse lugar para onde estamos indo, seja ele onde for?

            - Estará a salvo de qualquer ação explícita da parte do imperador. Mas sempre é preciso se precaver contra ações isoladas: um espião, um delator, um assassino profissional... Em todo caso, arranjarei uma guarda pessoal para você.

            Seldon inquietou-se:

            - Assassino profissional? Está falando sério? Acha mesmo que querem me matar?

            - Demerzel, com certeza, não o quer. Acho que ele pretende usá-lo, não liquidá-lo. Contudo, podem surgir outros inimigos, ou pode haver uma combinação inesperada de circunstâncias, e você não pode seguir pelo mundo afora como um sonâmbulo.

            Seldon abanou a cabeça e olhou para fora. Pensou que há apenas 48 horas atrás era um matemático insignificante e praticamente desconhecido, vindo de outro mundo e contente com a oportunidade de passar uns poucos dias em Trantor como turista, deleitando seus olhos provincianos com os prodígios daquele enorme planeta. E agora, não havia como fugir à realidade: era um homem perseguido, caçado pelos agentes do Império. O insólito da situação o esmagava, e ele sentiu um tremor.

            E quanto a você? - perguntou. - E quanto a isto que está fazendo agora?

            Hummin fez uma expressão meditativa.

            - Bem, imagino que eles não vão ter ideias muito agradáveis a meu respeito.

            Posso acabar com a cabeça esmigalhada, ou meu tórax pode explodir pela ação de algum assaltante misterioso que jamais será identificado.

            Não havia qualquer tremor em sua voz e sua expressão permaneceu inalterada, mas Seldon encolheu-se.

            - Achei desde o começo que você sabia estar correndo esse tipo de risco - disse ele. - Mas não parece muito preocupado.

            - Sou trantoriano, e há muito tempo. Conheço este mundo tão bem quanto qualquer outra pessoa. Conheço uma porção de gente, e muitos me devem favores. Gosto de me considerar um sujeito esperto, um sujeito difícil de enganar. Em outras palavras, Seldon, tenho certeza de que sei cuidar bem de mim mesmo.

            - Isso me deixa satisfeito, e espero que você tenha razão, Hummin, mas ainda não entendi por que motivo está se metendo nisto. O que represento para você, afinal? Por que está se arriscando tanto por causa de alguém que é praticamente um estranho?

            Hummin fez uns pequenos ajustes nos controles, com ar distraído, e depois virou o corpo para encarar Seldon. Seu olhar era firme, e totalmente sério.

            - Quero salvá-lo do imperador pela mesma razão por que ele está à sua procura: pelos seus poderes de previsão do futuro.

            Seldon sentiu uma funda pontada de desapontamento. Então no fim das contas não estava sendo salvo de coisa alguma: era apenas a presa disputada por dois antagonistas e incapaz de se defender. Murmurou com amargura:

            - Nunca mais conseguirei viver minha própria vida, depois desta Convenção.

            Acho que arruinei meu futuro.

            - Não, meu caro matemático, não salte direto para as conclusões. O imperador e seus funcionários precisam de você por uma única razão: tornar suas vidas mais seguras. Estão interessados em suas habilidades, mas só até o ponto em que elas possam servir para preservar a autoridade do imperador e de seu descendente, e manter a posição, o status, e o poder dos seus assessores. Mas eu preciso dos seus poderes para o bem da Galáxia.

            - Há alguma diferença? - foi a pergunta ácida de Seldon. Hummin retrucou, o rosto carregado de preocupação:

            - Se você não enxerga a diferença, é lamentável da sua parte.

            Os seres humanos que ocupam a Galáxia já existiam muito antes de o imperador nascer; existiam antes de surgir a dinastia que ele representa; existiam antes mesmo do surgimento do Império. A humanidade é muito mais antiga do que o Império. Talvez seja até mais antiga do que os 25 milhões de mundos habitados. Há lendas que falam de um tempo em que a humanidade habitava em um único planeta.

            - Lendas! - Seldon encolheu os ombros.

            - Sim, lendas, mas nada impede que isso tenha de fato ocorrido, há vinte mil anos ou mais. Imagino que a humanidade não tenha nascido já de posse dos conhecimentos que tornam possível o vôo hiperespacial. Certamente houve uma época em que o homem não podia viajar a velocidades maiores que a da luz, e seu domínio estava restrito a um único sistema planetário.

            - E se olharmos adiante, para o futuro, temos que concordar em que os habitantes da Galáxia continuarão a existir depois que você e o imperador tiverem morrido, depois que sua linha de sucessão esteja extinta e as próprias instituições do Império se tenham dissolvido. Nesse caso, não podemos nos preocupar em demasia com o destino de meros indivíduos, mesmo com o do imperador e o do jovem príncipe. Não podemos nos preocupar nem mesmo com a estrutura do Império. O que acontecerá, no futuro, com os quatrilhões de pessoas que habitam a Galáxia? O que será feito delas?

            - Os planetas e as pessoas continuarão existindo, julgo eu.

            - Você não sente nenhum impulso no sentido de investigar as condições dessa futura existência?

            - Acho que podemos supor que continuarão existindo do mesmo jeito que agora.

            - Podemos supor. Mas não poderíamos saber, com o auxílio dessa ciência da previsão de que você fala?

            - Eu a chamo de psico-história. Sim, teoricamente poderíamos saber.

            - E você não tem nenhuma ânsia de transformar essa teoria em prática?

            - Eu gostaria muito, Hummin, mas a vontade de fazê-lo é uma coisa, e a possibilidade de fazê-lo é outra. Eu disse ao imperador que a psico-história não poderia ser transformada numa técnica suscetível de aplicações práticas, e agora me vejo forçado a dizer-lhe o mesmo.

            - E você não tem nem sequer a intenção de tentar descobrir essa técnica?

            - Não, não tenho, do mesmo modo que não tenho a intenção de empilhar um monte de pedras do tamanho de Trantor, contá-las de uma em uma e depois enfileirá-las por ordem decrescente de massa. Eu sei que é algo que eu jamais poderia concluir no espaço de uma vida inteira, e não seria idiota a ponto de tentar.

            - Mas tentaria, se soubesse a verdade a respeito da situação da espécie humana?

            - Isso não faz sentido. Qual é a verdade sobre a situação da espécie humana?

            Você sabe, por acaso?

            - Sei. E posso dizê-la em cinco palavras. Os olhos de Hummin voltaram a fitar o túnel à sua frente, aquela paisagem branca e imutável de paredes brilhantes que se alargavam ao vir ao seu encontro, envolviam o veículo durante um breve e vertiginoso instante, e voltavam a se afunilar e desaparecer lá atrás. Hummin falou devagar, escandindo as sílabas, e sua voz estava mais sombria do que nunca.

            Ele disse:

            - O Império Galáctico está morrendo.

 

            UNIVERSIDADE DE STREELING - Uma instituição de estudos avançados no Setor Streeling da antiga Trantor... Apesar de ser considerada famosa tanto no campo das ciências exatas quanto no das humanidades, não foi devido a isso que o nome da Universidade se impregnou tão fortemente na consciência contemporânea.

            Gerações inteiras de pesquisadores teriam provavelmente uma enorme surpresa se soubessem que nos tempos futuros a Universidade de Streeling seria lembrada, principalmente, porque um certo Hari Seldon teve ali um curto período de residência, durante a fase de sua vida que ficou conhecida como “A Fuga”.

            ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA

 

            Hari Seldon mergulhou num incômodo silêncio após a frase calmamente articulada por Hummin. Sentiu-se encolhido, minúsculo, ao constatar assim de súbito suas próprias deficiências.

            Tinha inventado uma nova ciência, a psico-história. Tinha sutilmente expandido as leis da probabilidade, levando em conta novas complexidades e incertezas, até estar de posse de um elegante sistema de equações com incontáveis incógnitas - talvez um número infinito delas, embora ele ainda não pudesse afirmá-lo com segurança.

            Mas era um quebra-cabeça matemático, e nada mais.

            Ele dispunha da psico-história (ou pelo menos das bases da psico-história), mas somente a título de curiosidade matemática. Onde estava o conhecimento histórico que poderia, quem sabe, infundir algum sentido àquelas equações abstratas?

            Seldon não o possuía. Nunca se tinha interessado por História.

            Conhecia apenas as linhas gerais da história de Helicon; cursos a respeito desse pequeno fragmento da história humana eram, naturalmente, obrigatórios nas escolas heliconianas. Mas o que poderia haver por trás disso? Com certeza, os conhecimentos que ele tinha assimilado não continham mais do que esqueletos nus de uma porção de fatos, recolhidos por mãos alheias - metade lenda, metade informações distorcidas.

            Ainda assim, como era possível alguém afirmar que o Império Galáctico estava morrendo? Ele existia enquanto império há dez mil anos; mesmo antes disso, Trantor, já como a capital do reino dominante, era a sede de um império virtual há mais de dois milênios. O Império tinha sobrevivido durante aqueles séculos iniciais em que setores inteiros da Galáxia, vez por outra, se recusavam a abrir mão de sua independência local. Tinha sobrevivido às vicissitudes das eventuais sublevações, das guerras dinásticas, dos períodos de depressão. A maioria dos planetas pouco se deixara afetar por tudo isso, e Trantor tinha crescido, sem sofrer maiores abalos, até se tornar o planeta-cidade que agora se autodenominava "O Mundo Eterno".

            Era bem verdade que nos últimos quatro séculos a turbulência política se tinha acentuado ligeiramente, dando lugar a um surto de assassinatos de imperadores e golpes de Estado. Mas mesmo isso já parecia ser coisa do passado, e naquele momento a Galáxia parecia atravessar um de seus períodos de maior tranquilidade Sob o reinado de Cleon I (bem como sob o de seu pai, Stanel VI) os mundos do Império desfrutavam de prosperidade, e o próprio Cleon não era considerado tirano. Mesmo aqueles que contestavam o Império como instituição não tinham nenhuma queixa mais séria contra Cleon, ainda que nutrissem antipatia contra Eto Demerzel.

            Então, por que motivo Hummin era capaz de dizer que o Império estava morrendo - e dizê-lo com tamanha convicção?

            Hummin era um jornalista. Provavelmente tinha conhecimentos detalhados sobre a história da Galáxia, assim como também devia conhecer em detalhe sua atual situação. Talvez estivesse de posse de informações que poderiam fundamentar sua afirmativa, mas que informações seriam essas?

            Por várias vezes Seldon esteve a ponto de abrir a boca para perguntar algo, mas a expressão sombria de Hummin o detinha. E havia um outro fator que o fazia temer a possível resposta: sua crença profundamente arraigada de que o Império Galáctico era um axioma, um ponto pacífico, a pedra fundamental sobre a qual repousavam todas as certezas. Talvez essa crença estivesse equivocada, mas nesse caso ele preferia nem tomar conhecimento disso.

            Não, ele não podia estar enganado. O fim do Império Galáctico era algo tão inconcebível quanto o fim do próprio Universo, ou melhor: somente o fim do próprio Universo era uma razão admissível para que o Império, por sua vez, deixasse de existir.

            Seldon fechou os olhos e tentou cochilar, mas não conseguiu, E agora? Teria que se dedicar ao estudo da história do Universo, para poder desenvolver sua teoria da psico-história?

            E como o faria? Havia 25 milhões de mundos, cada qual com sua própria história, num tecido de infinita complexidade. Como poderia estudar tudo aquilo?

            Sabia da existência de filmes-livros, em muitos volumes, que abordavam a história da Galáxia. Chegara mesmo a consultar um deles certa vez, por alguma razão de que nem se lembrava mais; lembrava apenas tê-lo achado maçante, e não chegara a vê-lo nem pela metade.

            Esses filmes-livros estudavam os mundos mais importantes. Alguns eram estudados ao longo de quase toda sua história; outros eram mencionados à medida que ganhavam importância, e até o ponto em que mergulhavam no esquecimento. Seldon lembrava que certa vez tinha procurado o nome de Helicon no índice, para constatar que havia uma única citação a respeito de seu mundo. Digitando o código que dava acesso a essa citação, ele constatou que Helicon estava incluído numa relação de planetas que, em certa ocasião, tinham apoiado temporariamente um pretendente ao trono imperial que acabou não sendo bem-sucedido em suas aspirações. Helicon não chegou a sofrer represálias; talvez porque não fosse suficientemente importante.

            Qual a utilidade que poderia ter esse tipo de história? Era evidente que a psico-história teria que levar em conta as ações, reações e interações de todos os planetas; de cada um com todos os restantes. Como poderia alguém estudar a história de 25 milhões de mundos e computar todas as suas interações? Uma tarefa impossível, e isso era apenas mais um argumento em favor de sua conclusão de que a psico-história tinha interesse teórico mas jamais poderia ser destinada a fins práticos.

            Seldon sentiu-se levemente impelido para diante, e percebeu que o aerotáxi reduzia a velocidade.

            - O que houve? - perguntou.

            - Já nos distanciamos um bocado - disse Hummm. - Podemos correr o risco de parar um instante, ir ao banheiro, fazer um lanche rápido.

            Durante os quinze minutos seguintes, a velocidade do aerotáxi foi reduzindo aos poucos, até que surgiu diante deles uma ampla reentrância, brilhantemente iluminada. Hummin manobrou-naquela direção, e logo eles estacionavam numa área já ocupada por meia dúzia de outros veículos.

 

            O olhar experimentado de Hummin pareceu avaliar, de um só relance, a área de estacionamento, os outros táxis, o restaurante, as passarelas, os homens e mulheres que por ali circulavam. Seldon, mais uma vez tentando não chamar a atenção de ninguém e sem saber como consegui-lo, examinava Hummin para registrar suas reações. Quando se sentaram à mesa e fizeram seus pedidos, ele perguntou, tentando parecer despreocupado:

            - Tudo em ordem?

            - Parece que sim - disse Hummin.

            - Como sabe?

            Os olhos negros de Hummin o fitaram de frente.

            - Instinto - respondeu. - Anos e anos indo de um lado a outro à procura de notícias. Você olha ao redor e pensa: nada de interessante por aqui.

            Seldon assentiu e sentiu-se aliviado. O tom de voz de Hummin tinha uma certa carga de ironia, mas no fundo ele estava dizendo a verdade.

            Sua satisfação só durou até a primeira mordida que deu no sanduíche. Com a boca cheia, ele encarou Hummin, enquanto uma expressão de dolorosa surpresa se espalhava em sua face.

            - É um restaurante de estrada, meu caro - disse Hummin.

            - Comida rápida, barata, e não muito boa. É feita em casa, e contém um fermento de sabor muito forte; mas o paladar dos trantorianos já está acostumado.

            Seldon engoliu com dificuldade, e protestou: - Mas, lá no hotel...

            - Você estava no Setor Imperial, Seldon. Ali a comida é importada, e quando eles empregam micro-alimentação, é da melhor qualidade. E é algo muito caro, também.

            Seldon avaliou se teria coragem de dar outra mordida.

            - Quer dizer então que, durante o tempo em que eu ficar em Trantor...

            Hummin fez um sinal de cautela.

            - Não deixe ninguém perceber que você está acostumado a pratos mais refinados. Há lugares em Trantor onde é pior ser identificado como um aristocrata do que como alguém de outro planeta. Mas posso lhe garantir que a comida não é assim em toda parte; estes restaurantes de beira de estrada são famosos pela má qualidade da comida. Se você for capaz de comer esse sanduíche poderá comer qualquer outra coisa em Trantor. E não precisa se preocupar: não vai lhe fazer mal, não é comida estragada ou coisa desse tipo. É um tempero forte, grosseiro, pode-se dizer; e você irá se acostumando. Conheço trantorianos incapazes de comer qualquer coisa que não apresente esse tipo de sabor.

            - Como é a produção de comida em Trantor? - perguntou Seldon, depois de verificar que não havia ninguém sentado nas proximidades. - Sempre ouvi dizer que são necessários vinte planetas próximos e centenas de naves cargueiras para alimentar Trantor durante um único dia.

            - E é assim. Também são necessárias centenas de naves para retirar o lixo do planeta. E se você quiser tornar essa história ainda mais interessante pode dizer que as naves que chegam trazendo comida vão embora do planeta carregadas de lixo. Nós importamos grandes quantidades de alimentos, mas a maior parte são artigos de luxo. E exportamos lixo, depois de dar-lhe um tratamento que o torna inofensivo e de muita utilidade como fertilizante orgânico, coisa tão fundamental para outros mundos quanto a sua produção agrícola é para nós.

            Mas isso é apenas uma pequena parte do total.

            - É mesmo?

            - Claro. Além da pesca nos oceanos, temos hortas e fazendas por toda parte. E árvores frutíferas, granjas, criação de coelhos, e fazendas onde são cultivados micro-organismos... geralmente são chamadas "fazendas de fermento", embora o fermento seja apenas pequena parte das suas culturas. E a maior parte do nosso lixo é reaplicada aqui mesmo, como fertilizante. O fato é que, sob vários pontos de vista, Trantor se assemelha a uma gigantesca colônia espacial. Já visitou uma delas?.

            - Sem dúvida.

            - Colônias espaciais são cidades auto-suficientes, onde tudo é artificialmente reciclado, onde há ventilação artificial, dias e noites artificiais, e assim por diante.

            A única diferença é que mesmo a maior dessas colônias tem apenas uns dez milhões de habitantes, e Trantor tem quatro mil vezes esse número. E, é claro, aqui dispomos de gravidade natural; e nenhuma colônia do espaço pode se rivalizar conosco em matéria de micro-alimentação Temos nossos reservatórios de fermento, criação de fungos, tanques de algas mais vastos do que qualquer coisa que você já tenha imaginado. E o sabor artificial é uma tecnologia muito avançada entre nós, usada sem a menor parcimônia. É daí que vem esse sabor que você está experimentando.

            Seldon já estava quase terminando o sanduíche, e já não achava o sabor tão agressivo quanto na primeira dentada.

            - Isso não vai me fazer mal?

            - Pode afetar sua flora intestinal. De vez em quando algum desafortunado visitante de outro planeta é acometido de diarréia, mas isso é raro, e as pessoas rapidamente se acostumam. Em todo caso é melhor terminar seu milk-shake, mesmo que não esteja muito gostoso: ele contém um antidiarreico que o deixará tranquilo mesmo que você tenha o organismo sensível a essas coisas.

            - Não fale assim - queixou-se Seldon. - Tem gente que é muito sugestionável.

            - Esqueça isso e tome o milk-shake.

            Terminaram a refeição em silêncio, e logo estavam novamente a caminho.

 

            Quando estavam mais uma vez em pleno vôo ao longo daquele infindável túnel, Seldon resolveu formular a pergunta que vinha inquietando sua mente durante a última hora.

            - Por que você diz que o Império está morrendo? Hummin o encarou:

            - Como jornalista, vivo absorvendo estatísticas por todos os lados, até ter a impressão de que elas começam a me transbordar pelos ouvidos. E só tenho autorização para publicar pequena parte delas. A população de Trantor está diminuindo. Há 25 anos atrás, era de quase 45 bilhões.

            - Esse declínio é, em parte, conseqüência da queda na taxa de natalidade. Em Trantor, essa taxa nunca foi muito elevada. Se você prestar atenção, quando andar em Trantor. vai ver um número muito pequeno de crianças, comparado à população total. Mas mesmo esse índice está diminuindo cada vez mais. E há também a emigração. Há mais gente indo embora de Trantor do que vindo morar nela.

            - Considerando o tamanho da população - disse Seldon -, não é de admirar.

            - Mas mesmo assim é inquietante, porque nunca aconteceu antes. Além do mais, a dinâmica interna da Galáxia começa a dar sinais de estagnação. As pessoas acham que, só porque não há nenhuma rebelião séria no momento e tudo parece em paz, as dificuldades dos últimos séculos foram superadas. Mas o fato é que as lutas políticas, as sublevações, as agitações... tudo isso são sinais de uma certa vitalidade. O que existe agora, ao contrário, é um tédio generalizado. As coisas estão calmas, não porque as pessoas estejam prósperas e satisfeitas, mas porque estão cansadas e sem motivação.

            - Não estou muito certo disso - disse Seldon, em dúvida.

            - Eu estou. Outro sintoma disso é a tecnologia antigravitacional que você conheceu hoje. Temos um pequeno número de elevadores desse tipo em operação, mas nenhum outro está sendo construído. No momento é um empreendimento não-lucrativo, e ninguém parece interessado em inverter essa situação. O nosso índice de evolução tecnológica vem há séculos se tornando cada vez mais lento, e pode-se dizer que no momento atual ele mal se arrasta.

            Em algumas áreas, já estacionou por completo. Nunca reparou nisso, Seldon?

            Afinal, você é um matemático.

            - Nunca me preocupei com essas coisas.

            - Ninguém se preocupa. É algo que as pessoas simplesmente constatam, e aceitam. Os cientistas de hoje não param de falar que isto ou aquilo é impossível, é impraticável, é inútil. Qualquer tipo de especulação criativa é logo alvo de críticas. Veja o seu caso. O que você me diz da psico-história? É teoricamente interessante, mas inútil do ponto de vista prático. Não é isso?

            - Sim e não - retrucou Seldon, aborrecido. - Ela é inútil em termos práticos, mas não porque o meu senso de aventura esteja em declínio, posso lhe assegurar. Ela é de fato inútil.

            - Ou pelo menos - disse Hummin, com sarcasmo - essa é a sua impressão, dentro da atmosfera geral de decadência que envolve o Império.

            - Essa atmosfera de decadência é impressão sua - tornou Seldon. - Não lhe ocorre que talvez esteja equivocado?

            Hummin ficou pensativo durante alguns instantes e disse:

            - Sim. Posso estar estar equivocado. Digo essas coisas baseado apenas na intuição, em palpites. O que realmente preciso é de uma técnica de psico-história que possa ser aplicada...

            Seldon encolheu os ombros, pouco disposto a engolir a isca.

            - Não disponho de tal técnica - disse. - Mas, suponhamos que você esteja certo. Suponhamos que o Império esteja decadente, e que em dado momento vá desmoronar e fazer-se em pedaços. Ainda assim a humanidade prosseguirá sua existência.

            - Sim, mas em que condições? Durante quase doze mil anos Trantor e seus governantes têm garantido a paz. Há interferências ocasionais: rebeliões, guerras localizadas, tragédias; mas no cômputo geral, e em áreas mais amplas, tem predominado a paz. Veja o caso de seu planeta, Helicon: por que ele é pró- Império? Porque é um planeta pequeno e, se o Império não estivesse presente para manter a ordem, seria absorvido pelos seus vizinhos.

            - Quer dizer que se o Império vacilar o resultado será a guerra, a anarquia?

            - Por certo. Não tenho muita simpatia nem pelo imperador nem pelas instituições do Império de modo geral, mas não disponho de nenhum substituto à altura. Não sei quem mais seria capaz de manter a paz na Galáxia, e não quero permitir a queda do Império, a menos que eu tenha em mãos algo mais.

            - Você fala como se fosse o comandante da Galáxia - disse Seldon. - Você não quer permitir a queda do Império? Você quer ter alguma coisa em mãos? Quem é você para falar assim?

            - Estou falando em termos genéricos, figuradamente - disse Hummin. - Não me preocupo com o destino individual de Chetter Hummin. Posso supor que o Império permanecerá de pé durante meu tempo de vida, e que pode até apresentar sinais de recuperação nesse intervalo. A decadência histórica não se dá em linha reta. Talvez a crise final ainda demore uns mil anos, quando eu já estiver morto. Também não penso em deixar descendentes: no que diz respeito às mulheres, tenho apenas relacionamentos ocasionais, e não tenho planos de ter filhos. Não vou deixar nenhum refém nas mãos do destino. Colhi informações sobre você após a Convenção, Seldon. Você também não tem filhos.

            - Tenho meus pais e dois irmãos, mas nada de filhos. - Seldon esboçou um sorriso. - Já cheguei a gostar muito de uma mulher, certa vez, mas ela chegou à conclusão de que eu gostava muito mais da matemática.

            - Era verdade?

            - Eu achava que não, mas ela achava que sim, e foi embora.

            - Nenhuma outra, depois disso?

            - Não. Ainda dói muito quando lembro.

            - Bem, como você pode ver, não nos custaria nada adiar essa questão e deixar que outras pessoas, no futuro, sofram com o que vier a acontecer. Em outros tempos, eu procederia assim, mas não agora, porque agora tenho um instrumento de ação, e de certa forma estou no comando.

            - Qual é esse instrumento? - perguntou Seldon, antevendo a resposta.

            - Você.

            Seldon não perdeu tempo tentando mostrar-se chocado ou surpreso. Apenas abanou negativamente a cabeça e disse: - Está errado. Sou imprestável como instrumento.

            - Por quê?

            Seldon suspirou.

            - Quantas vezes terei que repetir? A psico-história não é um estudo de natureza prática. Existe uma dificuldade fundamental. Todo o espaço e todo o tempo do Universo não bastariam para que fossem resolvidos os principais empecilhos.

            - Tem certeza disso?

            - Infelizmente, sim.

            - A questão que se apresenta não é a de delinear todo o futuro do Universo, você sabe. Não é necessário levar em conta o comportamento individual de cada pessoa em cada planeta. Há apenas algumas questões que você terá de responder: o Império vai cair? Quando? Como ficarão as condições de vida da humanidade depois disso? Alguma coisa pode ser feita para evitar essa queda, ou para suavizar suas consequências? São perguntas bastante simples, parece- me.

            Seldon voltou a abanar a cabeça, e exibiu um sorriso triste. - A história da matemática está repleta de perguntas simples que receberam as mais complicadas respostas, ou não receberam nenhuma.

            - Então não há nada que se possa fazer? Eu posso sentir que o Império está em declínio, mas não posso prová-lo. Todas as minhas conclusões são subjetivas, e não tenho como convencer alguém de que não estou equivocado. É uma perspectiva inquietante, a que estou expondo; as pessoas acham mais cômodo duvidar de minhas conclusões subjetivas, e o resultado é que nada vai ser feito para evitar a queda do Império ou para atenuá-la. Mas você podia provar a iminência dessa queda... ou provar a sua impossibilidade, se fosse esse o caso.

            - Mas é exatamente isso o que eu não posso fazer! Não posso achar provas onde elas não existem. Não posso tornar prático um sistema matemático que não possui aplicabilidade prática. Não posso fornecer' a você dois números pares que somados produzam um número ímpar, mesmo que isso seja de importância vital para você ou para toda a Galáxia.

            - Você já faz parte da decadência - disse Hummin. - Está pronto a aceitar o fracasso.

            - Qual a outra opção?

            - Ora, não se pode tentar? Mesmo que isso lhe pareça um esforço inútil, será que você tem algo melhor a que dedicar sua vida? Tem algum objetivo mais nobre? Tem algum empreendimento que de algum modo possa justificar sua existência, aos seus próprios olhos?

            Os olhos de Seldon piscaram.

            - Milhões de planetas - disse ele. - Bilhões de culturas. Quatrilhões de pessoas.

            Decilhões de relacionamentos... e você quer que eu reduza isso a fórmulas.

            - Não, eu quero que você tente. Pelo amor desses milhões de mundos, bilhões de culturas, quatrilhões de indivíduos. Não pelo imperador, não por Demerzel.

            Pela humanidade.

            - Não vou conseguir - disse Seldon.

            - Nesse caso não estaremos em pior situação do que já estamos. Vai tentar?

            E, contra sua própria vontade, e sem mesmo entender por que dizia aquilo, Seldon ouviu sua voz responder:

            - Sim, vou tentar.

            E o destino de sua vida foi traçado.

 

            A viagem chegou ao fim e o aerotáxi penetrou numa área muito mais ampla do que aquela onde tinham parado anteriormente (o gosto do sanduíche retomou à boca de Seldon, e ele fez uma careta).

            Hummin entregou o táxi e retomou até onde ele estava, enquanto guardava num bolso interno da camisa a carteira com créditos.

            - Aqui você está completamente a salvo - disse. - Este é o Setor Streeling.

            - Streeling?

            - Foi batizado assim em homenagem a algum sujeito que deu início à colonização desta área, imagino. A maior parte dos setores de Trantor recebe seus nomes dessa forma, o que faz com que alguns desses nomes sejam ou não muito bonitos, ou difíceis de pronunciar. Por outro lado, haveria veementes protestos se você tentasse convencer os habitantes daqui a mudar o nome de Streeling para Alamedas Perfumadas, ou algo parecido.

            - E aliás não é bem esse o caso - disse Seldon, aspirando fortemente o ar.

            - Em qualquer parte de Trantor o ar não é propriamente perfumado, mas você irá se acostumando.

            - Ainda bem que chegamos - disse Seldon. - Não que este lugar seja uma maravilha, mas eu já estava cansado de ficar sentado naquele táxi. Viajar através de Trantor deve ser horrível. Em Helicon podemos fazer viagens aéreas de um ponto a outro, em muito menos tempo do que levamos para percorrer estes dois mil quilômetros.

            - Temos aerojatos também.

            - Então, por que...

            - Tenho condições de conseguir um aerotáxi de um modo mais ou menos anônimo, mas com um aerojato a coisa seria muito diferente. E, mesmo que isto aqui seja um lugar seguro para você, é preferível que Demerzel não tenha nenhum indício concreto de sua localização. E aliás, ainda não chegamos, propriamente. Temos que tomar o expressway para percorrer o trecho final.

            Seldon já tinha ouvido esta expressão.

            - Sei o que é. Aqueles trens em monotrilho, movidos por um campo eletromagnético.

            - Isso mesmo.

            - Não existem em Helicon. Até porque deles não precisamos.

            Mas andei num deles em meu primeiro dia em Trantor, fui do aeroporto até o hotel. Para mim era novidade, mas se tivesse que utilizá-lo diariamente acho que o barulho e a multidão se tornariam insuportáveis.

            - Você chegou a se perder? - perguntou Hummin, divertido.

            - Não, a sinalização é bem eficaz. Tive certa dificuldade na hora de entrar e de sair, mas as pessoas me ajudaram. Agora estou percebendo que minhas roupas mostravam que eu vinha de outro planeta. Em todo caso, sempre aparecia alguém para me ajudar; acho que era divertido para eles, quando me viam hesitar ou tropeçar.

            - Em todo caso, você agora é um veterano no expressway, e não vai sofrer nenhuma hesitação ou tropeço. - A voz de Hummin tinha um tom de simpatia, mas os cantos de sua boca estavam levemente contraídos. - Vamos lá.

            Caminharam descontraidamente ao longo da passarela; o ar era claro, reproduzindo exatamente o tom de luz que seria de se esperar num dia nublado, e de vez em quando a luminosidade aumentava, como se o sol tivesse surgido por entre as nuvens. Automaticamente Seldon ergueu os olhos para verificar se isto de fato acontecia, mas o "céu" sobre suas cabeças era apenas um brilho leitoso.

            Hummin percebeu o olhar de Seldon e comentou:

            - Essas mudanças de luminosidade são programadas para atender a uma necessidade psicológica. Há dias em que as ruas parecem banhadas por uma luz do sol bastante intensa, e dias mais escuros e nublados do que hoje.

            - Mas sem chuva, ou neve, não é verdade?

            - E sem granizo, ou geada. Nada disso. Nada de excesso de umidade ou frio muito intenso. Trantor tem seus pontos positivos, Seldon, mesmo hoje em dia.

            Pessoas caminhavam em ambas as direções; havia um número considerável de jovens e também algumas crianças acompanhando os adultos, a despeito do que Hummin dissera sobre a taxa de natalidade. Tudo parecia razoavelmente próspero e respeitável. Ambos os sexos estavam igualmente representados, e as roupas eram visivelmente mais discretas do que no Setor Imperial. As roupas que Seldon usava, escolhidas por Hummin, pareciam perfeitamente adequadas àquele ambiente. Poucas pessoas estavam usando chapéus; com um suspiro agradecido, Seldon retirou o seu e o pendurou de lado.

            Não havia qualquer abismo separando as duas pistas da passarela; como Hummin dissera antes, estavam andando praticamente ao nível do solo.

            Também não se via nenhum veículo, e Seldon chamou a atenção de Hummin para o fato - São numerosos no Setor Imperial- disse Hummin - porque são usados pelos funcionários. Em outros lugares, os veículos privados não são numerosos, e os poucos que existem trafegam em túneis especiais, reservados para eles. O fato é que não são necessários, porque temos o expressway e, para distâncias menores, os corredores móveis. Para distâncias menores ainda, temos as passarelas, e aí podemos esticar as pernas um pouco.

            Seldon estava escutando, a intervalos, uma série de rangidos e chiados; e avistou, a certa distância, os carros do expressway que passavam sem cessar.

            - Lá está - apontou ele.

            - Sim, mas temos que caminhar até a estação. Lá o número de carros é maior, e fica mais fácil subir num deles Logo que se acomodaram num carro do expressway, Seldon virou-se para Hummin e disse:

            - O que me impressiona é o quanto isto aqui é silencioso. Tudo o que sei é que a massa dos carros é impeli da por um campo eletromagnético, mas mesmo assim tudo me parece extremamente macio.

            A intervalos, ele podia escutar um rangido mais forte, quando o carro em que estavam se comprimia de encontro aos outros.

            - É um meio de transporte maravilhoso - concordou Hummin -, mas já ultrapassou seu clímax. Quando eu era mais jovem, isto era muito mais silencioso, e pessoas garantem que há cinquenta anos atrás o único ruído que se ouvia era um leve sussurro. É claro que se deve dar a esses depoimentos um certo desconto, em função da nostalgia de quem fala.

            - Por que não continua assim, então?

            - Porque a manutenção é deficiente. Já lhe falei. É a decadência.

            Seldon franziu a testa.

            - Ora, as pessoas não se sentam lado a lado e dizem: Oh, o Império está em declínio, vamos relaxar a manutenção do expressway.

            - Claro que não é assim. Não é nada proposital. Os pontos fracos sofrem reparos, os vagões recebem nova pintura, os magnetos são trocados de vez em quando. Mas isso é feito de um modo cada vez mais negligente, mais descuidado, e a intervalos cada vez maiores. Não há muitos créditos disponíveis.

            - Onde estão os créditos?

            - Em outros setores. Tivemos séculos de agitação política. A armada é hoje muito maior do que era no passado, e muitas vezes mais cara. Os oficiais são muito mais bem remunerados, a fim de mantê-la sob controle. Conflitos, rebeliões, conflagrações menores de guerras civis, tudo isso acarreta mais despesas.

            - Mas o Império está em paz sob Cleon. Temos tido cinquenta anos de paz.

            - Sim, mas militares bem remunerados não acham justo que se rebaixem os seus salários só porque não estão em guerra. Os almirantes não querem deixar suas naves inativas e não querem ser rebaixados de patente só porque não há muito trabalho para eles. Desse modo, os créditos são destinados de forma improdutiva para as forças armadas, e áreas vitais da administração vão se deteriorando. É a isso que chamo decadência. E você? Não acha que eventualmente poderia enquadrar esse tipo de análise em suas noções de psico- história?

            Seldon mudou de posição, sentindo-se de repente meio desconfortável. Então perguntou:

            - Por falar nisso, para onde estamos indo?

            - Para a Universidade de Streeling.

            - Ah, é por isso que o nome do setor me pareceu familiar.

            Já ouvi falar nessa Universidade.

            - Não me surpreende. Trantor tem aproximadamente umas cem mil instituições de estudos avançados, e Streeling é uma das mil que estão no topo dessa faixa.

            - Vou permanecer aqui?

           - Por algum tempo. Um compus universitário é, em qualquer circunstância, um santuário inviolável. Você estará seguro aqui.

            - Mas serei bem-vindo?

            - Por que não? É difícil se achar um bom matemático nos dias de hoje. Você pode ser útil aqui. E eles lhe podem ser úteis também... Para algo mais do que um simples esconderijo.

            - Você quer dizer que num lugar como este eu poderei desenvolver minhas teorias.

            - Você prometeu - disse Hummin, sério.

            - Prometi tentar - replicou Seldon, e pensou consigo mesmo que era como prometer tentar fabricar uma corda de areia.

 

            A conversa foi morrendo aos poucos, e Seldon passou a observar as edificações do Setor Streeling, à medida que iam passando. Havia edifícios de estruturas baixas, enquanto que outros pareciam atingir o "céu". Havia largas passagens transversais interrompendo a sucessão de blocos, e numerosas alamedas.

            A certa altura, Seldon percebeu que embora os edifícios se elevassem para o alto eles também tinham sua extensão subterrânea, e era bem possível que sua profundidade fosse ainda maior que a altura; mal a idéia lhe ocorreu, Seldon teve a certeza intuitiva de que isso de fato acontecia.

            Ocasionalmente, ele podia avistar largas faixas verdes ao longe, bem afastadas do expressway, e mesmo algumas árvores.

            Após certo tempo de contemplação, começou a perceber que a luminosidade lá fora diminuía. Virou-se para olhar em outras direções e em seguida para encarar Hummin, que a essa altura já tinha adivinhado a pergunta.

            - A tarde está acabando - disse ele - e a noite vem aí. As sobrancelhas de Seldon se ergueram, e os cantos de sua boca descaíram um pouco.

            - Oh, é impressionante. Posso imaginar o planeta inteiro ficando às escuras e, algumas horas depois, sendo iluminado novamente.

            Hummin voltou a exibir seu sorriso contido, cuidadoso.

            - Não é bem assim, Seldon. Trantor não anoitece todo ao mesmo tempo, nem amanhece. O anoitecer avança gradualmente ao longo do planeta, e é seguido, metade de um dia depois; pelo aumento de luz que indica a aurora. Na realidade, esse efeito segue muito de perto a sucessão natural de dia e noite acima das cúpulas, e de tal forma que em latitudes mais elevadas o dia e a noite mudam de extensão, de acordo com a estação do ano.

            Seldon sacudiu a cabeça.

            - Então, por que trancar-se embaixo de domos, e depois imitar o que aconteceria se se estivesse do lado de fora?

            - Presumo que as pessoas prefiram assim. Os trantorianos apreciam as vantagens de viver num ambiente fechado, mas não querem ser lembrados desse fato o tempo inteiro. Você ainda não sabe muito sobre psicologia trantoriana, Seldon.

            Seldon sentiu-se enrubescer de leve. Era apenas um heliconiano, e sabia muito pouco a respeito dos milhões de mundos que existiam em redor de Helicon.

            Trantor não era o único mundo que ele desconhecia; como poderia, então, ter esperanças de descobrir alguma aplicação prática para a psico-história?

            Seria possível a qualquer número de pessoas, reunidas, manipular esses conhecimentos?

            Isso lembrou a Seldon um problema que lhe havia sido proposto na juventude.

            Seria possível existir um bloco de platina relativamente pequeno, munido de alças de segurar, que não pudesse ser erguido pela força humana, não importa de quantas pessoas, sem ajuda mecânica?

            A resposta era sim. Um metro cúbico de platina pesaria 22.420 quilos, em condições de gravidade padrão. Supondo que cada pessoa era capaz de erguer do chão um peso correspondente a 120 quilos, seriam necessárias 188 pessoas para erguer o cubo de platina. Só que não seria possível comprimir 188 pessoas ao redor de um metro cúbico de tal forma que cada uma pudesse segurar uma das alças. Talvez não se pudesse juntar mais do que nove pessoas num tal espaço; e alavancas, bem como outros artifícios, não poderiam ser utilizados, já que se tratava da "força humana, sem ajuda mecânica".

            Do mesmo modo era possível argumentar a impossibilidade de reunir um número suficiente de pessoas para armazenar as informações necessárias à psico-história - mesmo que os fatos estivessem codificados em computadores, em vez de numa mente individual. Apenas um número limitado de pessoas poderia "se comprimir" em torno dessas informações, por assim dizer, e transmiti-las.

            A voz de Hummin soou ao seu lado.

            Você está pensativo, Seldon.

            - Estou considerando minha própria ignorância.

            - Uma tarefa bastante útil. Há quatrilhões de pessoas que só teriam a ganhar fazendo o mesmo. Mas estamos quase chegando. - Como sabe? - perguntou Seldon, olhando ao redor.

            - Do mesmo modo que você soube quando andou no expressway pela primeira vez: olhando a sinalização.

            Seldon avistou um dos sinais quando este passou, logo em seguida:

            UNIVERSIDADE DE STREELlNG - 3 MINUTOS - Descemos na próxima estação - avisou Hummin. - Cuidado, veja bem onde pisa.

            Seldon seguiu Hummin à saída do vagão; observou que o céu tinha agora um tom carregado de púrpura, enquanto que por toda parte os prédios, os corredores móveis e as passarelas começavam a ser envolvidos por uma difusa luminosidade amarela.

            Aquilo poderia muito bem passar por um anoitecer heliconiano Se ele tivesse sido trazido vendado até ali, e a venda fosse removida, não seria difícil convencê-lo de que estava em algum setor particularmente moderno de uma das maiores metrópoles de Helicon.

            - Durante quanto tempo deverei ficar aqui na Universidade, Hummin? - perguntou ele.

            A voz calma de Hummin não se alterou nem um pouco quando ele disse:

            - É difícil dizer, Seldon. Talvez a vida inteira.

            - O quê?!

            - Talvez não. Mas sua vida deixou de lhe pertencer desde que você proferiu aquela palestra sobre psico-história. O imperador e Demerzel reconheceram no mesmo instante a sua importância. Eu também. Pelo que posso supor, também outras pessoas. Isso significa apenas que você não é mais o dono de si próprio.

 

            VENABILI, DORS -... Historiadora, nascida em Cinna... Sua vida poderia ter continuado a transcorrer sem nenhum acontecimento excepcional, não fosse pelo fato de que, depois que ela passou dois anos na faculdade da Universidade de Streeling, envolveu-se com o jovem Hari Seldon, durante “A Fuga”...

            ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA

 

            O quarto em que Hari Seldon se encontrava era maior do que o de Hummin no Setor Imperial. Era um quarto de dormir com um dos cantos sendo usado para o banheiro, e sem nenhum sinal de copa ou de cozinha. Não havia janelas; no teto via-se um ventilador protegido por uma grade, que produzia um ruído contínuo e sussurrante.

            Seldon correu um olhar desgostoso pelo recinto.

            Hummin interpretou esse olhar com sua agudeza habitual e disse:

            - É só por essa noite, Seldon. Amanhã pela manhã virá alguém para levá-lo até a Universidade, e lá você estará mais à vontade.

            - Não me leve a mal, Hummin, mas como pode ter certeza?

            - Tomarei minhas providências. Conheço uma ou duas pessoas aqui. - Ele sorriu, sem muito humor. - Há alguns favores pelos quais posso esperar retribuição. Agora, vamos aos detalhes. - Seu olhar se fixou em Seldon. - O que você deixou em seu quarto de hotel está perdido. Alguma coisa insubstituível?

            - Na verdade, não. Havia alguns objetos pessoais, coisas a que dou um valor afetivo por estarem associadas a minha vida, mas se estão de fato perdidas, tanto faz. Há também algumas anotações a respeito de minha conferência, alguns cálculos. Sem falar no texto da conferência propriamente dita.

            - Esse texto já é do conhecimento público, pelo menos até ser considerado perigoso e retirado de circulação, o que certamente acontecerá. Mas posso conseguir uma cópia, sem dúvida. Em todo caso, creio que você seria capaz de reconstituí-lo, não?

            - Sim, por isso falei que nada era de fato insubstituível. Deixei lá também alguns livros, uma quantia de aproximadamente mil créditos, roupas, minha passagem de volta para Helicon, esse tipo de coisas.

            - Nada essencial, então. Darei um jeito para que você tenha uma ficha de crédito em meu nome, para que suas despesas sejam debitadas em minha conta. Isso resolverá seus problemas imediatos, por enquanto.

            - É algo extremamente generoso de sua parte. Não posso aceitar.

            - Não há generosidade envolvida nisso, uma vez que estou trabalhando para salvar o Império. Você tem que aceitar.

            - Mas até que ponto posso me valer disso, Hummin? Na melhor das hipóteses, estarei o tempo todo com a consciência pesada.

            - Gaste o que precisar para sua sobrevivência e para ter um razoável conforto, Seldon. Evidentemente não o aconselho a comprar o ginásio de esportes da Universidade, ou gastar um milhão de créditos com bugigangas.

            - Você não devia se preocupar com isso, mas de fato, se meu nome for registrado...

            - Tanto faz. O governo imperial é formalmente impedido de exercer qualquer tipo de controle sobre a Universidade ou seus membros. Existe completa liberdade aqui, tudo pode ser discutido, tudo pode ser falado.

            - E quando há um crime?

            - As autoridades universitárias se encarregam dele, com rigor, com imparcialidade. Mas os crimes violentos são praticamente inexistentes aqui. Os estudantes e os membros da Universidade valorizam a liberdade que têm, e conhecem os seus limites. Caso haja tumulto excessivo, motins, quebra-quebras e derramamento de sangue, o governo pode se achar no direito de romper esse "acordo de cavalheiros" e mandar as tropas invadirem o campus. Acontece que isso não interessa a ninguém, nem mesmo ao governo, de modo que o equilíbrio, mesmo delicado, se mantém. Em outras palavras: Demerzel não pode arrancá-lo do interior da Universidade, a menos que você lhe dê um motivo muito forte, coisa que não acontece por aqui há pelo menos uns 150 anos. Por outro lado, você não deve se deixar atrair para fora dos limites da Universidade, caso algum aiuno-espião consiga convencê-lo a...

            - Existem alunos-espiões?

            - Como posso saber? É possível que sim. Qualquer indivíduo pode se tornar um agente a serviço de alguém, através de ameaças, de manipulações ou de dinheiro; pode haver pessoas a serviço de Demerzel, ou de muitos outros, se você quer saber. Resumindo: aqui, você vai estar razoavelmente seguro, mas ninguém está absolutamente a salvo. É preciso ter cuidado. Mas não é preciso viver amedrontado. No cômputo geral, você estará mais seguro aqui do que se tivesse retomado a Helicon ou ido para qualquer outro planeta da Galáxia que não Trantor.

            - Espero que sim - disse Seldon, em voz lúgubre.

            Tenho certeza - disse Hummin. - Senão, não o deixaria aqui.

           Vai me deixar? - O olhar de Seldon acendeu-se instantaneamente. - Não pode fazer isso, Hummin. Você conhece este mundo, eu não.

            - Você ficará entre pessoas que conhecem este mundo, e que conhecem esta parte do mundo muito melhor do que eu. Mas tenho que ir. Passei o dia inteiro com você e não posso abandonar meus afazeres por tanto tempo assim. Por outro lado, não posso atrair as atenções sobre mim; tenho as minhas dificuldades, assim como você tem as suas.

            Seldon ruborizou-se.

            - Tem razão. Não posso exigir que você fique se expondo ao perigo o tempo inteiro por minha causa. Espero que já não esteja irremediavelmente comprometido.

            - Quem pode saber? - disse Hummin, calmamente. - Vivemos numa época perigosa. Quero apenas que você se lembre de uma coisa: se há alguém que pode tornar este mundo mais seguro, se não para nós pelo menos para os que vierem depois, esse alguém é você. Pense nisto, Seldon, e deixe que esta idéia seja sua motivação.

 

            O sono se esquivava à mente de Seldon. Ele se virava e revirava na cama, no meio da escuridão, pensando. Nunca se sentira tão sozinho e desamparado quanto depois que Hummin apertou rapidamente sua mão e partiu, deixando-o ali. Estava agora num mundo estranho, e numa parte desse mundo mais estranha ainda. Estava sem o único ser humano que podia considerar amigo, e mesmo este era alguém que ele só conhecera há um dia; não tinha idéia de para onde iria ou do que lhe poderia acontecer, fosse na manhã seguinte ou no futuro mais distante.

            Nenhum desses pensamentos o ajudava a adormecer, é claro, mas quando, sem esperanças, ele começou a admitir que não poderia conciliar o sono naquela noite, e talvez até pelo resto da vida, o cansaço foi tomando conta dele, e acabou por vencê-lo.

            Quando acordou ainda estava escuro, embora não totalmente, porque do lado oposto do quarto ele podia ver uma luz vermelha piscando repetidamente, acompanhada por um zumbido intermitente e incômodo que, sem dúvida, devia tê-lo despertado.

            Seldon tentou recordar onde estava e atribuir algum significado a estas escassas mensagens captadas pelos seus sentidos; mas logo a luz parou de piscar, o zumbido cessou, e fortes pancadas começaram a soar à porta.

            Ele deduziu que era à porta que alguém estava batendo, mas agora, novamente em plena escuridão, não conseguia adivinhar sua localização exata.

            Devia haver um interruptor de luz nas proximidades, mas ele não tinha como encontrá-lo.

            Sentou-se na cama e tateou ao longo da parede à sua esquerda, quase em desespero, enquanto dizia:

            - Um momento, por favor!

            Seus dedos tocaram um contato e o quarto se encheu de uma luz suave. Ele saiu engatinhando da cama, contraindo os olhos, localizou a porta e, ao estender a mão para abri-la, foi contido por um pensamento de alerta. Numa voz subitamente desperta, cautelosa, perguntou:

            - Quem está aí?

            Uma voz suave, de mulher, respondeu:

            - Meu nome é Dors Venabili, e quero falar com o Dr. Hari Seldon.

            E no momento em que essa voz soou uma mulher surgiu ali, do lado de dentro da porta, a porta ainda trancada.

            Por um breve momento, Seldon a fitou, estupefato, e depois percebeu que estava à frente dela apenas de cuecas. Soltou um grunhido e recuou na direção da cama, e só então compreendeu que o que tinha diante de si era uma holografia: a imagem não tinha contornos muito nítidos, e a mulher parecia não enxergá-lo. Estava simplesmente enviando a própria imagem, para ser identificada.

            Seldon se deteve, a respiração ainda acelerada, e ergueu a voz, para ser ouvido através da porta:

            - Espere um pouco, e já conversaremos. Dê-me... uma meia hora, por favor.

            A mulher, ou a holografia, respondeu: - Estou à espera. E sumiu.

            No canto do quarto reservado ao banho não havia chuveiro, apenas uma esponja com que Seldon se esfregou. Havia pasta de dentes, mas nenhuma escova, de modo que ele utilizou os dedos. Depois, não teve escolha senão vestir as roupas que usava na véspera. Foi até a porta. No momento em que a abria, pensou que a mulher, na realidade, não se identificara: apenas fornecera um nome, e Hummin não lhe tinha dito o nome da pessoa que viria ao seu encontro, fosse essa Dors Não-sei-das-quantas ou alguém mais. Ele se sentira seguro porque a holografia mostrava uma mulher jovem e simpática, mas bem que poderia haver meia-dúzia de rapazes antipáticos em sua companhia.

            Abriu apenas uma estreita fresta; a mulher estava sozinha, e Seldon abriu mais a porta, apenas o suficiente para deixá-la entrar, e a trancou por dentro em seguida.

            - Desculpe - disse ele. - Que horas são?

            - Nove - respondeu a mulher. - O dia já começou há algum tempo.

            Em termos de tempo oficial, Trantor obedecia ao Padrão Galáctico, uma vez que somente assim seriam possíveis os contatos governamentais e o comércio interestelar. Cada planeta, entretanto, mantinha também um sistema cronológico local, e Seldon ainda não se tinha habituado às referências casuais dos trantorianos a respeito das horas.

            Estamos no meio da manhã? - perguntou. Claro.

            Oh. Não há janelas neste quarto - disse ele, em tom de desculpa.

            Dors caminhou até a cama, estendeu o braço e tocou um círculo negro que havia na parede. No teto, mesmo por cima da cabeceira da cama, apareceram algarismos vermelhos; Seldon leu: 0903.

            Ela deu um sorriso de superioridade.

            - Desculpe, mas pensei que Chetter Hummin o tinha avisado de que eu viria às nove. O problema com ele é que está tão acostumado a saber de tudo que geralmente não lhe ocorre que de vez em quando as outras pessoas não saibam de algo. E eu não devia ter usado minha identificação rádio-holográfica, Acho que vocês não têm isso em Helicon, e talvez eu o tenha assustado.

            Seldon sentiu-se relaxar. O tom de voz dela era natural, amistoso; e a casual referência a Hummin deu-lhe mais segurança.

            - Acho - disse ele - que está um pouco enganada a respeito de Helicon, Srta...

            - Chame-me Dors.

            - Está enganada sobre Helicon, Dors. Nós conhecemos a rádio-holografia, embora eu nunca tenha podido comprar esse tipo de instrumento; o mesmo se dá com todas as pessoas do meu círculo de relações, daí eu ainda não ter presenciado o seu funcionamento. Mas logo percebi o que estava acontecendo.

            Enquanto falava, Seldon a examinou. Ela não era muito alta; estatura média para uma mulher, pelo que ele pôde julgar. Seu cabelo era dourado com um leve tom de ruivo, embora não muito brilhante, e estava arranjado em minúsculos cachos em volta da cabeça. (Seldon tinha avistado inúmeras mulheres trantorianas usando aquele tipo de penteado; devia ser uma moda local, se bem que em Helicon aquilo provavelmente provocasse gargalhadas). Não era particularmente bela, mas tinha um rosto agradável de se olhar; para isso contribuíam os lábios, cheios e parecendo sempre recurvados num semi-sorriso cheio de humor. Era esguia, de corpo firme, e parecia bastante jovem - talvez jovem demais para ser de alguma utilidade, pensou ele, meio constrangido.

            - Passei no exame?

            Ela parecia ter o mesmo talento de Hummin para adivinhar os pensamentos.

            Ou talvez, pensou Seldon, faltasse a ele próprio o talento de ocultá-los.

            - Desculpe - falou. - Não quis ser indiscreto, estava apenas tentando avaliar você. Estou num planeta estranho, onde não conheço ninguém e não tenho nenhum amigo.

            - Por favor, Dr. Seldon, pode me considerar sua amiga. O Sr. Hummin me pediu para cuidar do senhor.

            Seldon deu um sorriso melancólico. - Você é um pouco jovem para isso.

            - Vai descobrir que não sou.

            - Tentarei dar o mínimo de trabalho possível. Poderia repetir seu nome?

            - Dors Venabili - disse ela, com ênfase na tônica da segunda sílaba. - Mas pode me chamar de Dors, e se não fizer nenhuma objeção vou chamá-lo de Hari. Aqui na Universidade as pessoas se tratam de um modo muito informal, e todos se esforçam para não evidenciar sinais de status... tanto familiar quanto profissional.

            - Chame-me de Hari, por favor.

            - Ótimo. Sejamos informais, então. Por exemplo: o instinto de formalidade, se é que existe tal coisa, me levaria a pedir permissão para sentar-me. Mas como já chegamos a um acordo, eu simplesmente me sentarei aqui.

            Dors sentou-se na única cadeira do quarto, enquanto Seldon pigarreava, novamente constrangido.

            - É, eu realmente não estou de posse de minhas faculdades... Devia ter-lhe pedido desde logo para sentar-se.

            Ele se sentou na cama ainda desarrumada e pensou que devia ter lembrado de ajeitá-la, mas... ora, afinal de contas fora pegado de surpresa.

            - Vamos trabalhar assim, Hari - disse ela, com simpatia. - Primeiro vamos tomar o café da manhã num dos cafés da Universidade. Depois eu lhe conseguirei um quarto num dos alojamentos, um quarto bem melhor que este aqui. Com direito inclusive a uma janela. Hummin me deu instruções para lhe dar uma ficha de crédito em nome dele, mas a burocracia da Universidade vai retardar isto por um ou dois dias. Até então, pagarei suas despesas, e você me reembolsa mais tarde. Enquanto isso, creio que podemos usá-lo. Chetter Hummin me disse que você é um matemático, e por alguma razão a Universidade é carente de bons matemáticos.

            - Hummin disse também que sou um bom matemático?

            - Na verdade, sim. Disse-me que você era um indivíduo notável.

            Bem... - Seldon contemplou as próprias unhas. - Eu ficaria honrado de ser considerado assim, mas Hummin me conhece há menos de um dia; antes disso, ele me viu fazer uma conferência sobre um assunto cujo mérito ele não tinha condições de avaliar. Acho que ele estava apenas tentando ser gentil.

            - Não concordo - disse Dors. - Ele próprio é um homem notável, e tem uma grande experiência no trato com as pessoas. Posso confiar no julgamento dele.

            Em todo caso, você terá oportunidades para mostrar quem é. Suponho que saiba trabalhar com computadores.

            - Claro.

            - Refiro-me à programação de computadores didáticos. Quero saber se você é capaz de elaborar programas para ensinar fases diversas da matemática contemporânea.

            - Sim. É parte do meu trabalho como professor-assistente de matemática na Universidade de Helicon.

            - Hummin me tinha falado a respeito. Você deve ter em mente, também, que todo mundo aqui vai saber que você é um não-trantoriano, mas isso não lhe deve acarretar nenhum problema sério. A maior parte das pessoas aqui é composta de trantorianos, mas as pessoas de outros planetas são geralmente aceitas. Ocasionalmente você vai se defrontar com algum tipo de gracejo ou de preconceito, mas isso é mais frequente entre os estrangeiros do que entre os próprios trantorianos. Aliás, eu também sou estrangeira aqui.

            - Ah, é? - Seldon hesitou um pouco, e concluiu que seria conveniente fazer a pergunta. - De onde você vem?

            - De Cinna. Já ouviu falar?

            Ele achou que se mentisse para ser gentil acabaria sendo descoberto, e confessou:

            - Nunca.

            - Não me surpreende. É provavelmente um mundo ainda menos importante do que Helicon. Mas, vamos voltar aos computadores didáticos. Essa programação de que falei pode ser feita, suponho, com maior ou menor precisão.

            - Certo.

            - E você o faria com uma precisão maior.

            - Julgo que sim. - Então está resolvido. A Universidade lhe pagará um salário para isso, portanto já podemos sair e comer alguma coisa. A propósito, você dormiu bem?

            - Para minha surpresa, sim.

            - Está com fome?

            - Sim, mas... - Ele hesitou.

            - Ah, já sei - disse ela, com desembaraço. - Está preocupado com a qualidade da comida, não é? Descanse. Também sou estrangeira e posso entender como outras pessoas se sentem a respeito desse uso de micro-alimentação em todos os pratos de Trantor, mas o cardápio da Universidade não é mau, pelo menos no restaurante dos professores. Os estudantes é que sofrem um pouco... mas isto lhes serve como experiência de vida.

            Ela se ergueu e foi até a porta, mas se deteve quando Seldon perguntou:

            - Você ensina na Universidade?

            Ela virou-se, com um sorriso travesso nos lábios.

            - Acha que não tenho idade para isso? Concluí meu doutorado em Cinna, há dois anos atrás, antes de vir morar aqui. Farei trinta anos daqui a duas semanas.

            - Desculpe - sorriu Seldon. - Mas é impossível alguém aparentar vinte e quatro anos e não gerar dúvidas quanto ao seu status acadêmico.

            - Como ele é gentil! - exclamou Dors, e Seldon deixou-se percorrer por uma agradável e reconfortante sensação. Apesar de tudo, pensou ele, você não consegue trocar galanteios com uma mulher bonita e se sentir totalmente estrangeiro.

 

            Dors tinha razão: o café da manhã não foi desagradável. Havia um prato que era sem dúvida feito com ovos, e a carne era saborosamente defumada. Havia uma bebida à base de chocolate (Trantor era famosa pela sua produção de chocolate, e isso não incomodava nem um pouco a Seldon) provavelmente sintética, mas deliciosa; e os pãezinhos eram muito bons.

            Seldon sentiu-se na obrigação de dizer:

            Foi uma refeição muito agradável: a comida, o ambiente...tudo.

            Que bom que você gostou - disse Dors.

            Seldon olhou em volta. Havia largas janelas ao longo de uma das paredes, e, embora nenhuma luz solar entrasse ali (Seldon imaginou se chegaria a se acostumar àquela luminosidade difusa e cessaria de procurar por faixas de luz do sol nas paredes), o recinto estava bastante claro. Aparentemente, o computador que estabelecia as condições do tempo tinha decidido que era ocasião para um dia mais luminoso do que o usual.

            As mesas eram para quatro pessoas, e a maioria estava totalmente ocupada; mas Dors e Seldon permaneciam sozinhos na sua. Dors tinha chamado até ali alguns dos homens e mulheres, apresentando-os a Seldon; nenhum se tinha reunido a eles, apesar de terem sido todos bastante polidos. Seldon percebeu que fora esta a intenção de Dors, embora não chegasse a descobrir sua tática.

            Você não me apresentou a nenhum matemático, Dors - disse.

            - Ainda não avistei nenhum que eu conheça. A maioria deles começa a trabalhar cedo; às oito já têm aulas. Tenho a impressão de que o aluno que é temerário a ponto de estudar matemática faz questão de se ver livre dessas aulas o mais cedo possível.

            - Estou percebendo que você não trabalha com matemática.

            - Nem de longe - riu Dors. - Nada a ver. Minha área é História. Publiquei alguns estudos sobre a ascensão de Trantor... não este planeta, mas o primitivo reino trantoriano. Suponho que este deverá ser o objeto de minha especialização: O Reinado de Trantor.

            - Maravilha - disse Seldon.

            - Maravilha? - Dors o olhou com estranheza. - Está interessado em história trantoriana, também?

            - De certo modo, sim. Isso e outras coisas semelhantes. Nunca estudei história a sério, e acho que isso foi um erro.

           - Por quê? Se você tivesse estudado história não lhe teria sobrado muito tempo para a matemática, e a necessidade de matemáticos é muito grande, principalmente nesta Universidade. Estamos até aqui com historiadores. - Ela ilustrou a frase erguendo a mão espalmada até a testa. - Para não falar em economistas, e cientistas sociais. Mas temos carência nas áreas de matemática e ciências exatas. Chetter Hummin chamou minha atenção para isto, certa vez.

            Chamou a esse fenômeno' 'declínio científico", e parecia acreditar que era algo generalizado.

            - Quando digo que devia ter estudado história - respondeu Seldon -, não estou sugerindo que devia ter feito disso minha carreira. Mas devia conhecer o bastante para que me fosse útil no estudo da matemática. Meu campo de especialização é a análise matemática das estruturas sociais.

            - Não soa muito atraente.

            - E de um certo modo não é mesmo. É algo muito complicado, e torna-se inútil, caso eu não aprenda muito mais coisas sobre o modo como as sociedades evoluem. Minha visão dessas coisas ainda é muito estática... você me entende.

            - Não sei se entendo, porque não sei nada sobre esse assunto. Chetter me disse que você estava desenvolvendo algo chamado "psico-história", algo muito importante. É isso mesmo? Psico-história?

            - Certo. Eu devia tê-la batizado "psicossociologia", mas me pareceu uma palavra horrível. Ou talvez eu instintivamente pressentisse que um certo conhecimento de história iria ser necessário, e não pensei mais no resto.

            - Psico-história soa bem melhor, mas ainda não sei do que se trata.

            - Não pense que sei muito mais do que você - disse Seldon.

            Ficou pensativo durante alguns minutos, fitando a mulher do lado oposto da mesa e começando a sentir que ela podia tornar seu exílio naquele planeta menos semelhante a um exílio. Pensou naquela outra mulher que tinha conhecido há poucos anos atrás, mas logo afastou sua imagem da mente, com um esforço deliberado. Se tivesse de escolher uma companheira, algum dia, teria de ser alguém que entendesse a carreira científica e as exigências que ela impõe a um indivíduo.

            Resolveu mudar de assunto.

            - Chetter Hummin me disse que a Universidade não tem problemas com o governo - disse ele.

            - Isso mesmo.

            Seldon abanou a cabeça.

            - Isso é uma generosidade incrível, vindo da parte de um governo imperial. O sistema educacional de Helicon não é nem um pouco independente de pressões oficiais.

            - O de Cinna também não é, nem o de nenhum outro planeta, com exceção talvez de um ou dois mundos mais importantes. Mas Trantor é outra realidade.

            - Sim, mas por quê?

            - Porque é o centro do Império. As universidades daqui têm enorme prestígio.

            Qualquer outra universidade pode formar profissionais, mas os administradores do Império... os altos funcionários, e os incontáveis milhões de pessoas que compõem os tentáculos do Império em todos os recantos da Galáxia... são todos educados em Trantor.

            - Nunca vi as estatísticas... - começou Seldon.

            - Aceite minha palavra. É da maior importância que os funcionários e agentes imperiais tenham todos alguma base em comum, algum sentimento especial com relação ao Império. Por outro lado, eles não podem ser todos trantorianos de nascimento, senão os outros mundos iriam se sentir desconfortáveis. Por isso, Trantor deve atrair milhões de estrangeiros para serem educados aqui. Não importa de onde venham, qual o seu sotaque, qual a sua cultura nativa: o que interessa é que todos recebam um verniz trantoriano, e que possam todos se identificar uns com os outros por meio da educação que receberam em Trantor.

            É isso que mantém a coesão do Império. E os outros mundos se tornam mais fáceis de governar quando uma porção considerável dos representantes do governo imperial é nascida e criada no próprio planeta.

            Seldon voltou a sentir-se embaraçado. Nunca tinha parado para pensar em questões desse tipo, e começou a imaginar se alguém poderia ser um grande matemático se se dedicasse apenas à matemática e nada mais.

            - Todo mundo tem consciência disso? - perguntou.

            - Suponho que não - disse Dors, após pensar um pouco. - Existe tanto conhecimento para ser absorvido que os especialistas usam suas respectivas especializações como uma espécie de escudo protetor, para não se sentirem obrigados a absorver ainda mais informações, e acabarem soterrados por elas.

            - Em todo caso, você sabe.

            - Sim, mas esta é a minha especialidade. Sou uma historiadora que estuda a ascensão do Reinado de Trantor, e essa técnica administrativa foi uma das armas que possibilitaram a Trantor expandir sua influência e fazer a transição de reinado para império.

            Seldon murmurou baixinho, quase que falando para si mesmo: - Que coisa prejudicial é a superespecialização. Secciona o conhecimento em milhares de pontos, e o deixa sangrando.

            Dors encolheu os ombros.

            - O que se pode fazer? Por outro lado, se Trantor pretende atrair estrangeiros para suas universidades, tem que lhes dar algo em troca, algo que compense o fato de que eles estão cortando os laços com sua cultura de origem e indo morar num mundo estranho, com uma estrutura incrivelmente artificial, e costumes um tanto exóticos. Moro em Trantor há dois anos e ainda não me acostumei totalmente. Acho que nunca me acostumarei. Mas como não estou aqui para ser funcionária do Império, não preciso me esforçar demais para ser trantoriana.

            "O que Trantor oferece aos estrangeiros não é apenas a promessa de ascensão para um status social superior, com dinheiro e poder: é também a liberdade. Quem estuda aqui tem toda a liberdade para criticar o governo, organizar manifestações pacíficas contra ele, desenvolver suas próprias teorias e pontos de vista. Isso é importante para eles, e muitos vêm para cá a fim de experimentar essa sensação de liberdade.

            - Imagino que também deve servir para aliviar as tensões sociais - disse Seldon. - Os estudantes dão rédeas soltas ao seu inconformismo, saboreiam a vaidade de se sentir revolucionários, e quando assumem seus postos na hierarquia imperial estão prontos para se instalar no conformismo e na obediência.

            Dors assentiu com um gesto.

            - Tem razão. Em todo caso, o governo tem todas estas razões para preservar a autonomia interna das universidades. Não é uma questão de generosidade, e sim de habilidade política.

            - E quanto a você? Se não vai ser funcionária do Império, o que pretende ser, então?

            - Historiadora. Vou ensinar, vou inserir nos currículos os meus próprios filmes- livros.

            - Isso não parece dar muito status - Nem muito dinheiro, Hari, o que é mais importante. No que se refere a status, é o tipo do jogo em que não faço questão de entrar: já vi muitas pessoas cheias de status social e profissional, mas não conheço uma só pessoa que pareça feliz. Status não é algo em que você pode pisar com firmeza: você tem que ficar lutando o tempo inteiro para não afundar. Até mesmo os imperadores acabam mal, na maioria das vezes. Tudo o que pretendo é retomar a Cinna algum dia e me tornar professora.

            - E desfrutar do status de quem teve uma educação trantoriana.

            Dors soltou uma risada.

            - Imagino que sim, mas que utilidade tem isso... em Cinna?

            É um planeta insípido, cheio de fazendas e de gado, tanto do tipo quadrúpede quanto do bípede.

            - Não vai ser monótono, depois de ter vivido em Trantor?

            - Estou contando com isso. Se se tornar maçante demais, posso conseguir uma autorização e viajar para qualquer parte, fazendo pesquisas. É uma das vantagens da minha área.

            Seldon começou a experimentar uma sensação amarga que até então lhe era desconhecida. Murmurou:

            - Com um matemático é diferente. Tudo o que se espera dele é que se sente diante de um computador e se ponha a pensar. Aliás, por falar em computadores ... Interrompeu-se. A refeição já tinha terminado, e ele considerou que ela certamente tinha seus próprios afazeres. Mas Dors não parecia apressada.

            - Sim? - disse ela. - Por falar em computadores...

            - Como posso conseguir permissão para frequentar a biblioteca de História?

            Foi a vez de ela hesitar um pouco.

            - Vou ver o que se pode fazer. Se você trabalhar com programação matemática, poderá ser considerado quase um membro do corpo docente, e eu poderei encaminhar esse pedido. O problema é que...

            - O que há?

            - Não quero ferir seu orgulho; mas você é matemático, e disse que não conhece muita coisa sobre História. Como vai poder usar a biblioteca?

            - Seldon sorriu.

            - Suponho que seus computadores devem ser semelhantes aos de uma biblioteca especializada em matemática.

            - Sim, mas cada área de especialização tem suas peculiaridades. Você não conhece os filmes-livros básicos de referência; não conhece as técnicas de filtrar informações e de saltar de um ponto de interesse para outro. Talvez você seja capaz de achar um intervalo hiperbólico no escuro, mas...

            - Você quer dizer uma integral hiperbólica - corrigiu Seldon com suavidade.

            Dors ignorou.

            - Mas provavelmente você não será capaz de localizar o texto do Tratado de Poldark em menos de um dia e meio de esforço. - Acho que posso aprender.

            - Bem... caso você... - Ela parecia insegura. - Caso você se disponha a isso, posso fazer uma sugestão. Costumo dar cursos para estudantes não-graduados, cursos de uma semana, uma hora por dia, sem contagem de créditos: são cursos que ensinam a utilizar uma biblioteca de História. Um desses cursos deverá começar dentro de três semanas. Se você não se sentir constrangido no meio de estudantes não-graduados...

            - E quanto a umas aulas particulares? - Seldon ficou um pouco surpreso ao escutar o tom levemente malicioso que se insinuou em sua voz, e que também não passou despercebido por Dors.

            - Bem que eu poderia - disse ela. - Mas acho que um treinamento formal lhe seria mais útil. Estaremos trabalhando na biblioteca, e no final da semana você será incumbido de localizar determinadas informações de interesse histórico. O fato de estar competindo com outros alunos ajudará seu aprendizado, e neste sentido aulas particulares serão menos eficazes, posso garantir. Talvez o fato de estar competindo com não-graduados o incomode, se você vier a perceber que não está tendo o mesmo rendimento que eles. Mas tenha em mente que eles já estudaram história elementar, e você provavelmente não.

            - Não se trata de "provavelmente" - disse Seldon. - Não estudei. Mas não me importo em competir com quem quer que seja, e não vou me sentir humilhado.

            A única coisa que me interessa é aprender os truques necessários para se trabalhar em pesquisa histórica.

            Naquele momento já estava bastante claro, na mente de Seldon, o quanto aquela mulher lhe agradava, e o quanto ele estava disposto a aproveitar essa oportunidade de tomar umas aulas com ela. Também já percebia com clareza que tinha chegado a um momento decisivo de sua vida.

            Ele tinha prometido a Hummin que tentaria elaborar um sistema prático para a psico-história; mas tinha sido uma promessa puramente do intelecto, sem motivação emocional. Agora, ele estava determinado a agarrar a psico-história pela garganta, caso fosse preciso, e transformá-la em algo útil. E isso talvez se devesse à influência de Dors Venabili.

            Teria Hummin previsto justamente isto? Seldon chegou à conclusão de que Chetter Hummin era, com toda certeza, um indivíduo formidável.

 

            Cleon I tinha acabado de jantar, e a refeição, infelizmente, não tinha passado de uma cerimônia formal. Isso significava que ele se limitara a conversar com diversos funcionários, todos igualmente desconhecidos aos seus olhos; um diálogo composto de frases feitas cuja finalidade era provocar em cada um deles uma reação específica, reafirmando sua lealdade ao Império. A comida chegara morna ao seu prato, e já estava fria antes mesmo que ele chegasse a tocá-la.

            Devia haver algum modo de evitar isso. Jantar logo, talvez: sozinho, ou na companhia de uma ou duas pessoas mais íntimas, e só depois, já descontraído, marcar presença num jantar formal, durante o qual comeria apenas uma pêra importada. Cleon adorava peras. Mas talvez isso pudesse ofender os convidados, que veriam, nessa recusa do imperador em comer na sua companhia, um insulto calculado.

            Sua esposa, é claro, em nada podia ajudá-lo; a bem da verdade, a mera presença dela apenas contribuiria para aumentar seu mal-estar. Cleon a tinha desposado apenas porque ela pertencia a uma família poderosa em conflito com a Coroa, e a união dos dois tinha como único propósito neutralizar essa dissidência. Quanto a ela própria, Cleon esperava, fervorosamente, que nada mudasse em suas relações. Permitia que ela vivesse uma vida independente, em seus aposentos; seus únicos contatos pessoais tinham se resumido às tentativas de produzir um herdeiro, pois Cleon não se sentia nem um pouco atraído por ela.

            E agora que o herdeiro tinha chegado ele podia, com alívio, ignorá-la por completo Tinha recolhido um punhado de nozes ao se retirar da mesa e começou a mastigar uma. De repente chamou, em voz alta: - Demerzel!

            - Sire?..

            Demerzel sempre aparecia no instante exato em que era chamado. Talvez porque se mantivesse o tempo todo ao alcance da voz, do outro lado da porta; talvez porque seu instinto de subserviência o ajudasse a pressentir o instante em que seria chamado - mas o importante é que ele aparecia, e isso (pensou Cleon, preguiçosamente) era o que importava. É claro que em certas ocasiões Demerzel estava ausente, em missão oficial; mas o imperador detestava essas ausências.

            Elas o deixavam inseguro.

            - O que aconteceu com aquele matemático? - perguntou Cleon. - Esqueço seu nome.

            Demerzel certamente sabia a quem o imperador estava se referindo, mas talvez pretendesse submeter a um teste a memória de Cleon.

            - A que matemático se refere, Sire? Cleon fez um gesto impaciente com a mão.

            - Aquele que adivinha o futuro. O que veio falar comigo.

            - Aquele que mandamos buscar?

            - Sim, sim, o que mandamos buscar, mas ele veio falar comigo, não veio?

            Você estava encarregado desse assunto, se bem me lembro. Não é assim? Em que pé estamos?

            Demerzel pigarreou.

            - Fazendo o possível, Sire.

            - Aha! Isso significa que você falhou, não é?

            De certo modo, isso trouxe a Cleon uma sensação de satisfação.

           Entre todos os seus ministros, Demerzel era o único que não procurava esconder os próprios erros. Os outros nunca admitiam ter errado, e, como o erro era algo muito comum, esse tipo de atitude tornava extremamente trabalhoso corrigir qualquer tipo de falha. Talvez Demerzel pudesse se dar o luxo de ser honesto porque errava muito raramente. Não fosse por Demerzel (pensou Cleon, com melancolia) ele talvez nunca tivesse chegado a conhecer a sinceridade.

            Talvez nenhum imperador jamais a tivesse conhecido; talvez fosse essa a razão por que os impérios...

            Cleon afastou esses pensamentos e, subitamente irritado pelo silêncio aquiescente do outro (afinal, tinha acabado de enaltecer mentalmente a honestidade de Demerzel), inquiriu, com acidez:

            - E então? Falhou, não foi?

            Demerzel não tergiversou - Sire, creio que falhei parcialmente. Achei que teríamos problemas se o deixássemos ficar aqui em Trantor, onde as coisas nem sempre são fáceis de manipular. A conclusão lógica era a de que o lugar mais adequado para ele seria seu planeta natal. Sua viagem de volta estava marcada para o dia seguinte, mas sempre havia a possibilidade de que alguma circunstância imprevista o induzisse a permanecer em Trantor, portanto contratei dois marginais para que o forçassem a embarcar naquele mesmo dia.

            Cleon pareceu divertir-se.

            - Você conhece marginais, Demerzel?

            - É importante ter contatos entre todo tipo de gente, Sire, porque cada um deles pode ter alguma utilidade; e os marginais não são os menos importantes.

            Infelizmente, nosso objetivo não foi alcançado.

            - E por que não?

            - Por incrível que pareça, Seldon os enfrentou e conseguiu derrotá-los.

            - Ora, ora... O matemático sabia brigar?

            - Aparentemente, Sire, a matemática e as artes marciais nem sempre são atividades incompatíveis. Acabei descobrindo, ainda que tarde demais, que o tal planeta Helicon não é famoso por sua contribuição à matemática, mas pelo seu desenvolvimento nas artes marciais. Não ter sabido a esse respeito desde logo foi sem dúvida uma falha, Sire, e só posso rogar que me perdoe.

            - Em todo caso, o tal matemático deve ter viajado de volta ao seu planeta no dia seguinte, como era sua intenção.

            - Infelizmente, Sire, o episódio inteiro entrou em curto-circuito. Alertado pelos acontecimentos, o matemático abriu mão de retomar a Helicon, e resolveu permanecer em Trantor. Talvez tenha sido aconselhado neste sentido por um transeunte que estava presente no momento da luta; esta complicação adicional era impossível de prever.

            O imperador franziu a testa.

            - Está bem. Isso quer dizer que o nosso matemático... como é mesmo o nome dele?

            - Seldon, Sire. Hari Seldon.

            - Isso quer dizer que o tal Seldon está fora de alcance.

            - Num certo sentido, Sire. Seguimos seus passos, e no momento ele está na Universidade de Streeling. Enquanto se mantiver ali, ele é intocável.

            O imperador fez uma carranca, e seu rosto enrubesceu visivelmente.

            - Detesto essa palavra, intocável - disse ele. - Não deveria haver nenhum ponto do Império que minha mão não pudesse alcançar. Mas aqui, em meu próprio planeta, existe alguém que você me diz ser intocável. Isso é mais do que eu posso agüentar!

            - Sua mão pode alcançar a Universidade, Sire. Basta dar uma ordem, e um exército inteiro estará lá dentro, para trazer Seldon à sua presença. Uma tal medida, no entanto, é... indesejável.

            - Diga logo que é impraticável, Demerzel. Você parece o tal matemático quando fala do seu truque de adivinhar o futuro. Não é que seja impossível...

            Mas é impraticável. Eu sou um imperador rodeado de coisas que são totalmente possíveis, o problema é que poucas delas podem ser postas em prática. Não se esqueça, Demerzel... alcançar esse tal Seldon pode ser difícil, mas você está ao alcance da minha mão.

            Eto Demerzel deixou passar em brancas nuvens esta última ameaça. Sendo uma eminência parda, sabia da sua própria importância no Império, e já tinha ouvido ameaças semelhantes. Esperou em silêncio enquanto Cleon lançava olhares fulminantes numa e noutra direção, tamborilando os dedos no braço da poltrona. Por fim, O imperador perguntou:

            - Afinal, de que nos serve esse matemático, se ele está na Universidade de Streeling?

            - Talvez toda esta complicação tenha resultado positivo, Sire.

            Ao permanecer na Universidade, ele pode ser compelido a elaborar melhor a sua psico-história.

            - Mas ele não disse que ela é impraticável?

            - Talvez ele esteja errado. Talvez acabe descobrindo que estava errado. E se isso acontecer nós podemos dar um jeito de arrancá-lo de dentro da Universidade. Quem sabe até ele se junte a nós voluntariamente, de acordo com as circunstâncias?

            O imperador permaneceu pensativo durante algum tempo, e depois perguntou:

            - E se alguém o arrancar de lá, antes de nós?

            - Quem poderia pensar tal coisa, Sire? - perguntou Demerzel, com suavidade.

            - O prefeito de Wye, por exemplo! - gritou Cleon, num impulso repentino. - Ele ainda sonha em se apossar do Império.

            - Está velho, Sire, e seus dentes não são mais tão afiados.

            - Não esteja tão seguro disso, Demerzel.

            - Além do mais, não temos razão para supor que ele saiba alguma coisa a respeito de Seldon, Sire.

            - Ora, vamos, Demerzel Se a conferência de Seldon chegou aos nossos ouvidos, por que não aos de Wye? Se nós percebemos a possível importância de Seldon, por que não Wye?

            - Se tal coisa acontecesse - disse Demerzel-, ou se pelo menos tivesse uma chance razoável de acontecer, talvez isso fosse razão suficiente para tomarmos medidas radicais.

            - Que tipo de medidas?

            - Pode-se considerar - disse Demerzel com cautela - que é preferível ver Seldon nas mãos de ninguém do que nas mãos de Wye. Ou seja: anular sua existência, Sire Você quer dizer: matá-lo.

            - Se Vossa Majestade prefere assim. - disse Demerzel

 

            Hari Seldon deixou-se afundar na cadeira, no apartamento que tinha sido posto à sua disposição através de Dors Venabili. Não estava nem um pouco satisfeito.

            Para falar a verdade, embora fosse esta a expressão que ele usava mentalmente, sabia que ela subestimava em muito seus verdadeiros sentimentos. Não, não estava pouco satisfeito: estava furioso; e ainda mais porque não sabia qual o motivo que o punha furioso. A História? Os historiadores e os pesquisadores da História? Os planetas e as pessoas que criavam essa História?

            Qualquer que fosse o alvo de sua fúria, isso fazia pouca diferença. O fato é que suas anotações eram inúteis, seus conhecimentos recém-adquiridos eram inúteis, tudo era inútil Já fazia quase seis semanas que ele estava na Universidade. Tinha conseguido um terminal de computador desde o início, e ali tinha começado a trabalhar - sem instruções, usando apenas os instintos que tinha desenvolvido ao longo de anos de pesquisa matemática. Era um trabalho vagaroso e cheio de interrupções, mas havia um certo prazer em ir descobrindo pouco a pouco o caminho certo na direção das respostas que procurava.

            Então, começou o curso ministrado por Dors, o qual lhe ensinou boa quantidade de truques operacionais, e lhe trouxe dois constrangimentos.

            Primeiro foram os olhares de soslaio que os alunos do curso começaram a lançar em sua direção; pareciam incomodamente cônscios da diferença de idade de Seldon em relação a eles, e franziam a testa cada vez que Dors o tratava por "doutor".

            - Apenas não quero que eles fiquem pensando - justificou-se Dors - que você é algum tipo de estudante profissional que resolveu agora dedicar-se à História.

            - Penso que isso já ficou claro desde o início - retrucou ele.

            - Basta me tratar apenas por "Seldon", agora.

            - Não - disse Dors; e de repente sorriu. - Além do mais, gosto de chamá-lo "Dr. Seldon". Gosto de ver a cara que você faz.

            - Você cultiva um humor sádico muito peculiar.

            - Vai me negar esse direito?

            A resposta provocou uma gargalhada em Seldon, A resposta mais óbvia da parte dela teria sido na linha do "não, nada disso" , o fato de que ela aceitasse sua brincadeira e a respondesse à altura causou-lhe prazer. Era como um jogo; e esse pensamento o conduziu a uma mudança de assunto.

            - Vocês jogam tênis aqui na Universidade?

            - Existem quadras, sim, mas eu não jogo.

            - Ótimo. Posso ensinar-lhe, e faço questão de chamá-la professora Venabili.

            - Você já me chama assim durante as aulas.

            - Vai ficar surpresa ao ver como isso soa ridículo numa quadra de tênis.

            - Posso até gostar - Nesse caso, posso tentar descobrir alguma outra coisa de que você goste.

            - Você cultiva um humor lúbrico muito peculiar Ela havia colocado propositalmente a bola no ponto certo, e ele rebateu:

            - Vai me negar esse direito?

            Ela sorriu. Depois, saiu-se surpreendentemente bem na quadra de tênis.

            - Tem certeza de que nunca jogou tênis antes? - perguntou ele, arquejante, após uma partida.

            - Absoluta - respondeu Dors.

            O outro constrangimento por que ele passou foi de ordem mais íntima. Depois de aprender as técnicas básicas de pesquisa histórica, ele sentiu-se enfurecer quando reavaliou suas primeiras tentativas de usar a memória do computador. A atitude mental requerida para isso era totalmente diversa da que se adotava ao estudar matemática. Algo igualmente lógico, uma vez que podia ser usado, de modo consistente e seguro, para se mover em qualquer direção que ele desejasse; mas era um ramo da lógica totalmente distinto daquele ao qual ele estava habituado.

            Mas, com ou sem instruções, movendo-se aos saltos ou se arrastando, ele não conseguia chegar a resultado algum.

            Seu aborrecimento começou a se refletir na quadra de tênis.

            Dors atingiu muito rapidamente um ponto em que ele não precisava mais levantar bolas fáceis para que ela tivesse tempo de avaliar a distância e a trajetória. Isso o levou a esquecer que ela era ainda uma principiante, e ele passou a desabafar suas irritações em golpes violentos, rebatendo a bola na direção de Dors como se estivesse disparando um facho sólido de raio laser.

            Dors veio caminhando até a rede e disse:

            - Posso entender o motivo pelo qual você quer me assassinar... deve ser irritante ver alguém perder tantas bolas seguidas. Mas desta vez você errou minha cabeça por mais de três centímetros, nem sequer me tocou. Não pode fazer melhor do que isto?

            Seldon, alarmado, tentou explicar-se, mas conseguiu apenas balbuciar algumas frases incoerentes.

            - Olhe aqui - continuou Dors -, não estou pronta para agüentar devoluções desse tipo. Acho melhor tomarmos um banho de chuveiro, e depois irmos para um lugar qualquer, tomar um chá... e aí talvez você concorde em me dizer o que estava tentando assassinar. Já que não era eu, precisamos descobrir a verdadeira vítima, do contrário você será um parceiro perigoso demais para se ter do outro lado da rede.

            Durante o chá ele disse:

            - Dors, tenho examinado todo o material histórico possível; ainda não tive tempo para nenhuma análise mais profunda, estou apenas checando, examinando por alto. Mesmo assim, uma coisa me parece óbvia. Todos os filmes-livros abordam apenas um pequeno número de eventos.

            - Eventos de importância fundamental. Eventos que fizeram a História.

            - Isso é apenas desculpa. Eles copiam uns aos outros. Existem 25 milhões de mundos, e essas obras só mencionam de forma significativa uns 25, se tanto.

            - Você está examinando História Galáctica em geral. Consulte a história específica de cada mundo. Em cada um deles, as crianças aprendem primeiro sua história local, antes mesmo de saber que estão cercados por uma grande Galáxia. Você mesmo deve saber mais sobre Helicon, hoje, do que provavelmente sabe sobre a ascensão de Trantor ou sobre a Grande Guerra Interestelar.

            - Esse tipo de conhecimento também é limitado - disse Seldon, com desalento.

            - Conheço a geografia de Helicon, os relatos de sua colonização, as narrativas das malfeitorias e das violências do planeta Jennisek... nosso inimigo tradicional, embora nossos professores tivessem o cuidado de recomendar o uso do termo "nosso antigo rival". Mas nunca aprendi nada sobre as contribuições prestadas por Helicon à História Galáctica.

            - Talvez porque não haja nenhuma.

            - Não seja tola. É claro que deve haver. O que talvez não tenha havido seja alguma grandiosa batalha espacial em que Helicon esteve envolvido, ou alguma revolução importante, ou tratados de paz. Talvez nenhum adversário do Império tenha chegado a montar uma base em Helicon. Mas tem que haver algum tipo de influência sutil. Nada pode acontecer, seja em que parte for, sem afetar todas as coisas restantes. No entanto, não consigo localizar nada que me seja útil. Veja bem, Dors. Em matemática, tudo pode ser achado no computador; tudo o que descobrimos ou que viemos a saber, em vinte mil anos. Mas em História não sucede assim. Os historiadores selecionam o que consideram importante, mas o fato é que todos acabam considerando importantes exatamente as mesmas coisas.

            - Mas, Hari - disse Dors -, a matemática é uma invenção ordenada da mente humana. Cada passo é a decorrência lógica de outro. Existem definições e axiomas, e todos são conhecidos. É... é como se tudo fosse formado numa única peça. Já a História é diferente, é o resultado inconsciente dos atos e pensamentos de quatrilhões de seres humanos. Os historiadores têm que determinar o que é ou não relevante.

            - Justamente - concordou Seldon -, mas preciso conhecer tudo o que constitui a História, se quiser formular as leis da psico-história.

            - Nesse caso, você nunca vai poder formular essas tais leis.

            Isso tinha sido na véspera. Agora, Seldon estava sentado na poltrona, em seu quarto, depois de mais um dia de esforço inútil, com as palavras de Dors ainda ecoando em seus ouvidos: "Nesse caso, você nunca vai poder formular essas tais leis."

            Afinal, era isso mesmo que tinha pensado desde o princípio, e ainda estaria pensando da mesma forma, se não fosse pela convicção de Hummin de que ele estava errado, e do poder de persuasão de seu entusiasmo, que tinha acabado por contagiar Seldon.

            Ele ainda não estava disposto a desistir, apesar de tudo. Tinha que haver uma saída.

            O problema é que não conseguia pensar em nenhuma.

 

            TRANTOR -... Quase nunca é representado visualmente como se visto do espaço. Há muito tempo, se impôs às mentes de toda a humanidade como um mundo fechado, e sua imagem típica é a da colmeia humana que existe por baixo das cúpulas. No entanto, há uma parte exterior, e ainda se conservam algumas holografias tiradas do espaço que nos fornecem visões em vários graus de detalhe (ver figuras nºs 14 e 15). Deve-se notar que a parte externa das cúpulas, por sobre a vasta cidade e a atmosfera que a envolve, é uma região referida naquela época como "a Superfície", e que...

            ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA

 

            Em todo caso, no dia seguinte Hari Seldon estava de volta à biblioteca. Por um lado, havia a promessa feita a Hummin. Prometera tentar, e não estava disposto a se envolver de modo apenas parcial nessa tentativa. Por outro, sentia-se devedor de alguma coisa a si mesmo. Detestaria admitir que tinha fracassado, ao menos enquanto podia convencer a si mesmo de que estava seguindo alguma pista promissora.

            Assim, ele voltou a fitar a lista dos filmes-livros de referência que ainda não tinha examinado, tentando adivinhar naquele menu pouco apetitoso qual o título que poderia ter alguma remota possibilidade de lhe ser útil em alguma coisa.

            Estava prestes a decidir que a resposta era "nenhuma das alternativas", e já se resignava a escolher amostras de cada um, aleatoriamente, quando ouviu uma batidinha na parede do compartimento onde estava.

            Erguendo os olhos, deu de cara com o rosto embaraçado de Lisung Randa a observá-lo através da abertura. Seldon o conhecia: tinham sido apresentados por Dors, e já haviam jantado juntos, em companhia de outras pessoas, diversas vezes.

            Randa era professor-assistente de psicologia: um homem baixinho e roliço, com um rosto redondo e jovial, e um sorriso quase perpétuo. Tinha a pele pálida e os olhos estreitos, traços que podiam ser encontrados nos habitantes de milhões de mundos. Seldon conhecia bem aquela aparência física, que era também a de muitos matemáticos ilustres, cujas holografias ele vira repetidas vezes; mas em Helicon jamais tinha encontrado pessoalmente um desses orientais. (Assim eram tradicionalmente chamados, embora ninguém soubesse por quê; e também se dizia que os próprios orientais não apreciavam essa denominação, embora também não se soubesse o motivo disso.)

            "Existem milhões de nós aqui em Trantor", dissera Randa, sorrindo com desembaraço, quando Seldon, ao encontrá-lo pela primeira vez, não conseguira ocultar totalmente sua surpresa. "Você também vai encontrar uma grande quantidade de meridionais, que têm pele escura e o cabelo fortemente encaracolado. Já viu algum?"

            "Não em Helicon", respondera Seldon.

            "São todos ocidentais em Helicon, hem? Que coisa mais sem graça! Bem, não importa. Há lugar para todo mundo". (Seldon perguntou-se a si próprio por que, diabos, havia meridionais, orientais e ocidentais, mas nenhum tipo que fosse chamado "os setentrionais". Tinha até mesmo procurado resposta para isso durante as suas pesquisas bibliográficas, mas sem sucesso.)

            Agora, o rosto bem-humorado de Randa o espreitava com um olhar cômico de preocupação. - Você está bem, Seldon?

            - Claro. - Seldon o encarou. - Por que não estaria?

            - Estou julgando a partir dos sons que ouvi, meu caro. Você estava gritando.

            - Gritando?! - Seldon o fitou com uma expressão que ia de ofendida a incrédula.

            - Não muito alto... algo assim. - Randa rangeu os dentes e emitiu um som agudo e gutural que vinha do fundo da garganta. - Se eu estiver enganado, perdoe-me essa intrusão. Sinto muito.

            Seldon abanou a cabeça.

            - Não há o que perdoar, Lisung. Eu costumo fazer esse tipo de barulho de vez em quando, mas posso lhe assegurar que é algo totalmente inconsciente. Nunca chego a perceber.

            - Mas ao menos sabe o motivo.

            - Claro que sei. Frustração.

            Randa chamou Seldon para perto de si e abaixou a voz.

            - Estamos incomodando as pessoas. Vamos até o saguão antes que nos ponham para fora.

            No saguão, enquanto tomavam drinques leves, Randa disse: - Posso indagar, só por uma questão de interesse profissional, o que o faz sentir-se frustrado?

            Seldon encolheu os ombros.

            - Por que motivo as pessoas se sentem frustradas, geralmente? Estou enfrentando um problema, e não tenho feito nenhum progresso.

            - Mas você é um matemático, Hari. Por que motivo alguma coisa na biblioteca de História iria deixá-lo assim?

            - E quanto a você? O que estava fazendo lá?

           - Passei pela biblioteca para encurtar caminho, mas ia em outra direção... até que o ouvi gemendo. - Ele sorriu. - Como pode ver, o caminho agora ficou muito mais longo, mas em todo caso este é um encontro agradável.

            - Eu bem gostaria de estar apenas passando por aquela biblioteca, mas o fato é que estou tentando resolver um problema matemático que requer alguns conhecimentos de História, e temo não estar me saindo muito bem.

            Randa olhou para Seldon com uma expressão insolitamente séria, e disse:

            - Peço-lhe mil perdões, mas vou correr o risco de ofendê-lo agora. Estive investigando a seu respeito nos computadores.

            - Investigando a meu respeito! - Os olhos de Seldon se dilataram de surpresa, e ele sentiu uma imediata irritação invadi-lo.

            - É, acho que o ofendi. Mas, sabe, tenho um tio que também é matemático.

            Você deve ter ouvido falar dele. Kiangtow Randa.

            Seldon ficou sem fôlego.

            - Você é parente desse Randa?

            - Sim. Ele é o irmão mais velho de meu pai, e ficou um tanto decepcionado porque eu não lhe segui os passos, uma vez que ele não tinha filhos. Achei que ele talvez gostasse de saber que eu tinha feito amizade com um matemático, e de certa forma eu queria me gabar sobre você, se fosse possível, de modo que fui checar as informações que a biblioteca de matemática tinha a seu respeito.

            - Ah, então era isto que você andava fazendo por aqui. Bem, não creio que tenha encontrado muito do que se gabar.

            - Você se engana. Fiquei impressionado. Não entendi coisíssima alguma do tema de seus escritos, mas as referências a respeito deles me pareceram muito favoráveis. E quando chequei os arquivos mais recentes descobri que você esteve presente à Convenção Decenal este ano. Portanto... poderia me explicar o que é "psico-história"? Não preciso dizer que as duas primeiras sílabas excitam minha curiosidade.

            - Vejo que foi lá que você pescou essa palavra.

            - A menos que eu esteja totalmente equivocado, pareceu-me que você é capaz de prefigurar o rumo da história futura.

            Seldon assentiu com um gesto fatigado da cabeça.

            - É mais ou menos isso que é a psico-história, ou pelo menos o que ela deveria ser.

            - Mas é um estudo sério? - Randa estava outra vez sorridente. - Você não está apenas jogando varetas?

            - Jogando varetas?

            - Estou me referindo a um jogo das crianças em meu planeta natal, Hopara. O objetivo do jogo é, supostamente, prever o futuro, e se você é um garoto esperto pode conseguir bons resultados. Diga a uma mãe que a filha dela vai crescer, tornar-se uma linda moça e casar com um homem rico, e há grande probabilidade de você ganhar no mesmo instante uma fatia de bolo ou um meio- crédito. Ela não vai esperar para ver se a previsão se confirma; você é recompensado unicamente por ter dito o que disse.

            - Sei como é. Mas não, não jogo varetas. A psico-história é apenas um estudo abstrato. Estritamente abstrato. Não tem nenhuma aplicação prática, exceto...

            - Ah, era aí que eu queria chegar. As exceções são sempre a parte mais interessante.

            - Exceto que eu gostaria muitíssimo de descobrir essa aplicação. Talvez, se eu conhecesse mais um pouco de História...

            - Então é por isso que está pesquisando História?

            - Sim, mas isso não tem adiantado muito - disse Seldon com tristeza. - Existe História demais, e muito pouco dela chega a ser contado.

            - E é isso o que o deixa frustrado? Seldon assentiu.

            - Mas Hari, você só está aqui há algumas semanas.

            - É verdade, mas já dá para perceber que...

            - Você não pode perceber coisa alguma em umas poucas semanas. Talvez você tenha que dedicar sua vida inteira para poder conquistar um pequeno avanço. Pode ser que sejam necessárias muitas gerações de matemáticos para poder abrir uma trilha nesse problema.

            - Sei disso, Lisung, mas nem por isso me sinto melhor. Quero fazer eu mesmo algum progresso visível.

            - Deixar-se perturbar por isso também não vai ajudá-lo nem um pouco. Mas, se isso pode fazê-lo sentir-se melhor, posso dar-lhe o exemplo de um assunto muito menos complexo do que a história humana, e um assunto que vem sendo estudado, sem resultado, há um tempo tão longo que nem sei como avaliar. Sei disso porque há um grupo trabalhando com isso aqui na Universidade, e um de meus amigos mais próximos está envolvido com ele. Você fala de frustração?

            Você não tem a menor idéia do que é sentir-se frustrado.

            - Mas que assunto é esse? - Seldon começou a sentir a curiosidade a espicaçá- lo.

            - Meteorologia.

            - Meteorologia! - A resposta foi um anticlímax tão grande que Seldon ficou aborrecido.

            - Não faça essa cara. Preste atenção. Todos os mundos habitados possuem uma atmosfera. Cada mundo possui sua própria composição atmosférica, sua própria escala de temperatura, sua própria relação entre rotação e translação, sua própria inclinação axial, sua própria distribuição de oceanos e massas continentais. O resultado é que temos 25 milhões de problemas diferentes, e ninguém até agora conseguiu encontrar uma generalização satisfatória.

            - Isso é porque o comportamento de uma atmosfera entra com facilidade numa fase caótica. Todo mundo sabe disso.

            - É o que diz meu amigo, Jenarr Leggen. Você o conheceu. Seldon procurou lembrar-se.

            - Um sujeito alto? Nariz longo? Um que fala pouco?

            - É esse mesmo. Bem, Trantor constitui um problema maior do que qualquer outro mundo. De acordo com os relatos, seu padrão meteorológico era bastante simples no início de sua colonização. Depois, com o crescimento populacional e o aumento de industrialização, passou a se consumir cada vez mais energia, e a se descarregar cada vez mais calor na atmosfera. As calotas polares começaram a diminuir, as camadas de nuvens foram se tornando mais espessas, e o tempo começou a ficar cada vez pior. Isso encorajou as pessoas a desenvolver habitações subterrâneas, e pôs em movimento um círculo vicioso. Quanto mais o tempo piorava, mais eles escavavam a terra e construíam cúpulas, e o tempo ficava ainda pior. Agora, Trantor é um planeta quase constantemente nublado, e onde as chuvas são frequentes... ou a neve, na época mais fria. O problema é que ninguém consegue encontrar uma racionalização satisfatória para esses fenômenos. Ninguém produziu ainda algum tipo de análise que explique por que a atmosfera se deteriorou exatamente dessa forma, ou que possa nos ajudar a predizer as suas f1utuações cotidianas.

            Seldon encolheu os ombros. - Será isso tão importante?

            - Para um meteorologista, sim. Então só você tem o direito de se sentir frustrado em seus projetos? Não seja chauvinista.

            Seldon recordou o céu nublado e o vento gélido, no caminho para o Palácio Imperial. Perguntou:

            - E o que está sendo feito a esse respeito?

            - Há um grande projeto sendo desenvolvido aqui na Universidade, e Jenarr Leggen faz parte dele. Eles acham que se chegarem a compreender as mudanças atmosféricas de Trantor terão aprendido muita coisa sobre leis básicas de meteorologia geral. Leggen sonha com isso, tanto quanto você sonha com sua psico-história; e instalou uma incrível parafernália de instrumentos na Superfície... você sabe, na parte superior das cúpulas. Até agora não tem adiantado muito. Mas o fato é que se já faz tanto tempo que se pesquisa a atmosfera e não se obtém resultado, como é que você pode se queixar de não ter conseguido nada com a história da humanidade em umas poucas semanas?

            Seldon pensou que Randa tinha razão, e que era ele próprio que estava sendo pouco razoável. E no entanto... no entanto... Hummin diria que esse fracasso na abordagem dos problemas científicos era mais um sinal dos tempos de decadência que viviam. Talvez ele tivesse razão, mas o caso é que estava se referindo a uma decadência generalizada, e a uma avaliação média de seus efeitos. Seldon não sentia nenhum tipo de degenerescência mental em si próprio.

            Perguntou, movido por um real interesse:

            - Quer dizer que as pessoas caminham sobre as cúpulas, no espaço aberto lá de cima?

           - Sim, na Superfície. É uma coisa engraçada... a maior parte dos trantorianos nativos jamais o faria. Eles não gostam de ver a Superfície. Sentem vertigens, ou coisa semelhante. A maior parte dos que trabalham nos projetos de meteorologia é de estrangeiros.

            Seldon olhou pela janela, viu os gramados e o jardinzinho do campus, brilhantemente iluminados, sem sombras, sem calor excessivo, e disse, pensativo:

            - Acho que não posso censurar os trantorianos por gostarem tanto deste conforto que se desfruta aqui dentro, mas não é possível que alguns deles não sintam curiosidade de subir à Superfície. Eu já estou sentindo.

            - Gostaria de ver uma equipe de meteorologia em ação?

            - Creio que sim. Como se vai à Superfície?

            - Sem problema algum. Um elevador leva você até o alto, uma porta se abre, e pronto. Já estive lá. É... diferente.

            - Isso me ajudaria a me distrair um pouco da psico-história - suspirou Seldon.

            - Seria agradável.

            - Por outro lado - disse Randa -, meu tio costuma dizer que todos os conhecimentos são em última análise um só, e talvez ele tenha razão. Talvez você aprenda algo sobre meteorologia que possa lhe ser útil na sua psico- história. Não é possível?

            Seldon deu um sorriso débil.

            - Oh, sim, existe muita coisa possível. E completou consigo mesmo: mas nem todas são praticáveis.

 

            Dors pareceu divertir-se. - Meteorologia?!

            - Sim - disse Seldon. - Há uma missão marcada para amanhã, e vou subir com eles.

            - Cansou-se da História? Seldon assentiu, carrancudo.

            - Cansei. Uma mudança vai me fazer bem. Além disso, Randa diz que esse é um outro problema onde os dados são tão numerosos que não há como manipulá-los matematicamente, e talvez me faça algum bem ver que não sou o único a ter esse tipo de problema.

            - Espero que você não sofra de agorafobia. Seldon sorriu.

            - Não, não sofro, mas sei por que pergunta. Randa me disse que os trantorianos são freqüentemente agoráfobos e se recusam a subir à Superfície.

            Imagino que se sintam inseguros sem uma cobertura que os proteja.

            Dors concordou.

            - É uma explicação bem natural, mas também existem muitos trantorianos espalhados pelos outros mundos da Galáxia... turistas, administradores, soldados. E a agorafobia também não é particularmente rara entre os estrangeiros.

            - Está bem, Dors, mas eu não sofro de agorafobia. Sou um sujeito curioso, gosto de coisas diferentes, e amanhã estarei me juntando à equipe deles.

            Dors hesitou.

            - Eu devia ir com você, mas tenho uma agenda cheia amanhã. Em todo caso, já que você não tem agorafobia, não deve haver nenhum problema, e provavelmente vai divertir-se. Ah, sim. Mantenha-se perto dos meteorologistas.

            Já ouvi falar sobre pessoas que se perderam lá em cima.

            - Terei cuidado. E já faz muito tempo que não me perco, seja onde for.

 

            Jenarr Leggen era um homem sombrio. Não tanto pela cor de sua pele, que era bastante clara, nem mesmo pelas sobrancelhas, que eram escuras e espessas. Era mais pelo fato de que essas sobrancelhas se arqueavam sobre olhos profundamente encovados e um nariz longo e protuberante, o que lhe dava um ar de perpétua infelicidade. Seus olhos não sorriam, e quando ele falava, o que não acontecia com frequência, sua voz era grave e forte, com uma ressonância surpreendente para um corpo tão magro.

            - Você vai precisar de roupas mais quentes do que essa aí, Seldon - disse ele.

            - Oh - fez Seldon, olhando ao redor:

            Havia dois homens e duas mulheres que se preparavam para subir juntamente com eles e, a exemplo de Leggen, suas finas vestes trantorianas estavam cobertas com grossos suéteres em cores vivas. Os desenhos eram ousados, e não havia dois modelos semelhantes.

            Seldon olhou para si próprio e disse:

            - Sinto muito, mas não sabia. Além do mais, acho que não tenho nenhuma roupa apropriada para isso.

            - Posso lhe conseguir uma, se não me engano tenho aqui uma de reserva. Um pouco velha, mas é melhor do que nada. Aqui está. - Muito quentes esses suéteres - comentou Seldon. - Podem se tornar desconfortáveis.

            - Aqui, sim - concordou Leggen. - Mas na Superfície as coisas são diferentes.

            Muito frio, muito vento. É pena que eu não tenha perneiras e botas sobrando, pode ser que você venha a precisar.

            Estavam levando consigo um carrinho repleto de instrumentos, e naquele instante os outros membros do grupo os estavam testando de um em um, com uma meticulosidade que aos olhos de Seldon pareceu exagerada.

            - Seu planeta é frio? - perguntou Leggen.

            - Em algumas regiões - disse Seldon. - O lugar de onde venho tem um clima ameno, mas chove com frequência - É pena. Talvez você estranhe um pouco a Superfície.

            - Acho que posso agüentar durante o tempo que vamos passar lá.

            Quando terminaram os preparativos, encaminharam-se para um elevador que ostentava a indicação: SOMENTE PARA USO OFICIAL.

            - É porque ele conduz à Superfície - explicou uma das mulheres - e quem sobe até lá deve fazê-lo por alguma boa razão.

            Seldon não a conhecia, mas tinha ouvido um dos homens do grupo chamá-la de Clowzia. Não sabia se se tratava de nome, sobrenome ou apelido.

            O elevador não era diferente dos que Seldon conhecia, em Helicon ou em Trantor (à exceção, claro, do elevador gravitacional que tinha usado com Hummin); mas o fato de saber que ele o estava levando para uma das partes mais inacessíveis do planeta, no espaço vazio sobre suas cabeças, deu a Seldon a impressão de estar entrando numa espaçonave.

            Sorriu consigo mesmo. Uma fantasia boba.

            O elevador sacolejava um pouco, e isso trouxe mais uma vez à mente de Seldon os prognósticos de Hummin sobre a decadência do Império. Leggen, juntamente com os outros homens e uma das mulheres, mantinha-se imóvel, à espera; era como se todos se tivessem desligado momentaneamente durante o trajeto. Clowzia, por outro lado, olhava para Seldon com evidente interesse.

            Seldon inclinou-se e falou baixinho para ela (não queria perturbar o silêncio reinante):

            - Estamos indo muito alto?

            - Alto? - repetiu ela. Falou num tom de voz normal, como se não se sentisse constrangida em quebrar o silêncio. Parecia muito jovem, e Seldon pensou que era provavelmente uma estudante não graduada. Uma estagiária, talvez.

            - Estamos demorando muito - disse ele. - Pelo que vejo, a Superfície deve ficar a uma altura de muitos andares.

            Durante um instante, ela pareceu confusa, mas logo respondeu: - Oh, não.

            Não é que fique muito alto. Nós é que estamos saindo de uma região muito profunda. A Universidade fica a uma profundidade muito grande. Nosso consumo de energia é imenso, e a essa profundidade os custos energéticos são menores.

            - Chegamos - disse Leggen. - Vamos retirar o equipamento. O elevador parou com uma ligeira oscilação, e a larga porta deslizou para o lado. A temperatura caiu bruscamente, fazendo Seldon enfiar as mãos nos bolsos e sentir-se grato por estar vestindo aquele suéter. Um vento gelado agitava seus cabelos, e ele pensou que um chapéu seria algo bem-vindo; como se estivesse lendo seus pensamentos, Leggen puxou algo de dentro do suéter, desdobrou-o e o colocou na cabeça. Os outros fizeram o mesmo.

            Somente Clowzia hesitou, antes de colocar o seu, e o ofereceu a Seldon Ele recusou com um gesto.

            - Não posso ficar com seu chapéu, Clowzia.

            - Ora, o que é isso. Meu cabelo é longo, e muito espesso. Muito mais do que o seu, o seu é um pouco... escasso.

            Em outras circunstâncias Seldon reagiria com firmeza àquele adjetivo; mas naquele momento tudo O que pôde fazer foi pegar o chapéu e grunhir:

            - Obrigado. Se sentir frio, pode pedi-lo.

            Talvez ela não fosse tão jovem assim, talvez fosse apenas o seu rosto arredondado que lembrava o de uma criança. E agora que tinha chamado a atenção para seu cabelo, Seldon reparou que ele tinha uma tonalidade avermelhada, algo que ele jamais vira em Helicon.

            Do lado de fora, o céu estava carregado, lembrando a Seldon o dia em que tinha sido conduzido ao Palácio Imperial. O ar estava mais frio, mas Seldon pensou que isso se devia ao fato de que seis semanas se tinham passado, e o inverno estava muito mais próximo. As nuvens eram mais espessas do que da outra vez, o céu estava mais escuro, com ar ameaçador - ou talvez fosse porque faltasse pouco tempo para anoitecer. Certamente alguém não subiria à Superfície para fazer um trabalho importante sem dispor de luz do dia por tempo suficiente; mas talvez eles esperassem se desincumbir rapidamente de suas tarefas.

            Seldon considerou que devia ter perguntado antes, mas agora não era o momento mais adequado: os meteorologistas estavam todos ocupados, e suas reações variavam de excitação a aborrecimento.

            Seldon examinou os arredores.

            Estava de pé sobre o que lhe pareceu uma superfície de metal fosco, a julgar pelo som que se produziu quando ele discretamente bateu com os pés sobre ela.

            Não era metal descoberto, no entanto, pois ao caminhar ele deixava pegadas. A superfície estava visivelmente recoberta pelo que parecia poeira, areia, argila fina.

            E por que não? Ninguém iria subir diariamente até ali para passar um aspirador de pó. Seldon abaixou-se e tomou aquela poeira entre os dedos, cheio de curiosidade.

            Clowzia aproximou-se e, notando o que ele fazia, disse, com o tom de voz de uma dona-de-casa que pede desculpas:

            - Limpamos esta parte aqui, por causa dos instrumentos. No restante da Superfície é muito pior, mas não tem importância. Vira uma camada isolante, entende?

            Seldon respondeu com um grunhido e continuou olhando ao redor. O chão estava coberto de instrumentos incompreensíveis, que pareciam ter brotado como plantas no solo raso (se é que aquilo podia receber este nome). Seldon não tinha a menor idéia do que eram ou para que serviam.

            Leggen vinha andando em sua direção. Erguia os pés e os pousava de novo no chão com todo cuidado, certamente para não perturbar os instrumentos. Seldon fez uma anotação mental para caminhar da mesma forma.

            - Você aí! Seldon!

            O tom de voz não era muito agradável, e ele replicou com frieza:

            - Sim, Dr. Leggen?

            - Oh, está bem. Dr. Seldon. - A voz era impaciente.

            Aquele sujeito, o Randa, disse que você é um matemático. - Isso mesmo.

            - Um bom matemático?

            - Gostaria de dizer que sim, mas isso é algo difícil de garantir.

            - E está interessado em problemas insolúveis?

            - Estou mergulhado num - respondeu Seldon com fervor.

            - Eu também. Bem, você está livre para examinar o que quiser por aí. Se tiver alguma pergunta, a nossa estagiária, Clowzia, pode ajudá-lo. E talvez você possa também nos ajudar.

            - Gostaria muito, mas não entendo nada de meteorologia.

            - Não há problema, Seldon. Quero apenas que você observe as coisas com atenção, e depois podemos conversar a respeito da matemática que eu emprego neste trabalho.

            - Estou à sua disposição.

            Leggen virou-se para ir embora, mas ainda encarou Seldon mais uma vez, o rosto sempre carrancudo.

            - Se você ficar com muito frio, a porta do elevador está aberta.

            Basta entrar e apertar o botão que diz UNIVERSIDADE. Ele o levará até embaixo e depois retomará automaticamente até aqui. Se esquecer, Clowzia pode ajudá-lo.

            - Não vou esquecer.

            Desta vez Leggen partiu e Seldon ficou vendo-o afastar-se sentindo as rajadas gélidas do vento atravessarem como lâminas o tecido do suéter. Clowzia veio andando na sua direção, o rosto avermelhado pelo vento.

            - O Dr. Leggen parece aborrecido - disse Seldon. - Ou ele é assim o tempo todo?

            Ela deu uma risada.

            - Ele parece aborrecido a maior parte do tempo, mas agora está aborrecido mesmo.

            - Por quê? - indagou Seldon com naturalidade.

            Clowzia olhou por sobre o ombro, e esse gesto fez ondular seu cabelo.

            - Não é nada que me diga respeito, mas mesmo assim sei do que se trata. O Dr. Leggen tinha previsto que hoje, exatamente a esta hora, as nuvens iriam se dissipar, e ele contava com isso para fazer umas medições à luz do sol. Só que... bem, olhe como está o céu.

            Seldon assentiu com um gesto, e ela continuou:

            - Temos um circuito de holovisão aqui em cima portanto ele sabia que o tempo estava nublado, mais do que o habitual; mas imagino que ele estava atribuindo isso a alguma falha dos instrumentos, e não a um erro em suas previsões. Mas até agora não acharam nada com defeito.

            - Então é por isso que ele está com essa cara infeliz.

            - Feliz ela não é nunca.

            Seldon deu uma olhada de soslaio ao redor. A despeito das nuvens, a luminosidade era intensa. Ele percebeu que a superfície sob seus pés não era horizontal: estava de pé sobre uma cúpula achatada, e quando olhou à distância vislumbrou outras cúpulas em todas as direções, cada uma com altura e largura diferentes.

            - A Superfície parece bem irregular - comentou ele.

            - Em sua maior parte, eu acho. É assim que foi feito.

            - Alguma razão especial para isso?

            - Creio que não. O que me explicaram (quando vim até aqui e fiz a mesma pergunta que você acabou de fazer) foi que originalmente o povo de Trantor costumava recobrir de cúpulas as suas arenas de esportes, centros de comércio, praças, coisas desse tipo; depois passaram a fazer isso com cidades inteiras, de modo que logo havia um grande número de cúpulas lado a lado, com alturas e formatos diferentes. Quando foram todas se unindo, as pessoas decidiram que estava bem assim, e assim ficou.

            - Quer dizer que algo que se deu de um modo assim, totalmente acidental, pode chegar a ser encarado como tradição?

            - Bem, se é assim que você vê a coisa, sim, acho que sim. (Se algo que se formou acidentalmente pode chegar a ser encarado como uma tradição quase inviolável, pensou Seldon, então isso pode ser considerado como uma das leis da psico-história? Parecia algo trivial, mas quantas outras leis assim, igualmente triviais, poderia haver? Um milhão? Um bilhão? Haveria um pequeno número de leis gerais a partir das quais essas leis triviais pudessem ser derivadas, como corolários? Como era possível saber? Por alguns minutos, perdido em pensamentos, ele quase esqueceu o vento cortante que o fustigava.)

            Clowzia, no entanto, não esquecera o vento, porque num dado momento estremeceu e disse:

            - Tempo horrível. Lá embaixo é muito melhor.

            - Você é trantoriana?

            - Sim.

            Seldon recordou O comentário de Randa sobre a agorafobia dos trantorianos, e perguntou:

            - Não se sente mal aqui em cima?

            - Detesto isto aqui - disse Clowzia. - Mas preciso terminar meu curso, conseguir minha especialização e um bom trabalho; e o Dr. Leggen diz que sem pesquisa de campo isso será impossível. E aqui estou eu, odiando isto, principalmente quando está frio como agora. Com um frio assim, ninguém poderia supor que existe algum tipo de vegetação aqui no alto, não é?

            - Vegetação? Está brincando.

            Seldon lançou um olhar penetrante para Clowzia, suspeitando de algum tipo de piada à custa de um estrangeiro; tinha ela uma expressão totalmente inocente, mas até que ponto isso correspondia à realidade, ou era apenas causado pelo seu rosto de criança?

            - Falo sério - disse ela. - Até mesmo aqui por perto, quando a temperatura está mais quente. Já reparou no solo? Nós limpamos esta área ao redor por causa dos instrumentos, como já expliquei, mas em outros pontos a terra se acumula, e chega a ser particularmente profunda nas depressões que se formam quando duas cúpulas se unem. E ali crescem plantas.

            - Mas de onde vem a terra?

            - Quando as cúpulas cobriam apenas partes do planeta, o vento depositava poeira sobre elas, aos poucos. Depois, quando Trantor já estava todo coberto e se expandia cada vez mais para o subsolo, a terra escavada era trazida aqui para cima, quando era adequada para isso, e espalhada sobre as cúpulas.

            - O peso não as afetaria?

            - Oh, não, as cúpulas são muito fortes, e têm apoios internos por toda parte.

           De acordo com um filme-livro que vi certa vez, a intenção inicial era fazer plantações na Superfície, mas acabaram descobrindo que seria muito mais prático fazê-lo no interior das cúpulas. O fermento e as algas também poderiam ser cultivados embaixo, aliviando um pouco as colheitas convencionais, de modo que acabaram deixando a Superfície entregue a si mesma. Há animais na Superfície, também... borboletas, abelhas, ratos, coelhos. Uma porção deles.

            - As raízes das plantas não danificam as cúpulas?

            - Até agora não, e estão aí há milhares de anos. As cúpulas recebem um tratamento especial para repelir as raízes. A maior parte da vegetação é composta de relva, mas também existem árvores. Você poderia vê-las se estivéssemos no verão, ou um pouco mais ao sul, ou a bordo de uma espaço nave. - Clowzia lançou para ele um rapidíssimo olhar oblíquo. - Você não viu Trantor, quando vinha descendo do espaço?

            - Tenho que confessar que não, Clowzia. A hiper-nave nunca parecia estar na posição ideal para isso. E você? Já viu Trantor do espaço?

            Ela deu um sorriso débil. - Nunca fui ao espaço.

            Seldon voltou a olhar em torno. Tudo cinzento até onde a vista alcançava.

            - Ainda não consigo acreditar - disse ele. - Estou me referindo à vegetação, claro.

            - É verdade, no entanto. Já ouvi pessoas dizerem... estou me referindo a estrangeiros, como você, que viram Trantor do espaço... que o planeta é verde, porque é coberto por relva e arbustos rasteiros. Também existem árvores, conforme já lhe disse. Existe um pequeno bosque, não muito longe daqui. Jó o vi uma vez. Árvores com seis metros de altura.

            - Onde?

            - Não dá para ver daqui. É do lado oposto de uma das cúpulas, acho que...

            Ouviu-se um chamado à distância; Seldon só então reparou que eles vinham caminhando enquanto conversavam, e estavam agora a uma certa distância dos demais.

            - Clowzia! - chamou alguém. - Venha aqui, estamos precisando de você.

            - Estou indo! - respondeu ela. - Com licença, Dr. Seldon, mas preciso ir agora.

            Ela correu de volta, tentando pisar com suavidade apesar do peso de suas botas forradas.

            Seria tudo piada?, pensou Seldon. Estaria ela apenas se divertindo à custa de um forasteiro, com uma porção de histórias fantasiosas? Coisas desse tipo sempre aconteciam, em qualquer mundo, em qualquer tempo. Seu ar de transparente honestidade também não servia como garantia: especialistas em pregar peças costumavam cultivar exatamente esse tipo de imagem.

            Árvores com seis metros de altura... ali, na Superfície? Sem pensar duas vezes, Seldon caminhou na direção da cúpula mais alta que se via no horizonte.

            Balançou os braços ao caminhar, para ativar a circulação, mas seus pés já estavam bastante frios.

            Clowzia não tinha apontado em nenhuma direção; bem que poderia tê-lo feito, para dar-lhe alguma pista sobre a localização do tal bosque. Por que não o fizera? Bem, talvez porque não tivesse tido tempo.

            As cúpulas eram bem mais largas do que altas, o que era um alívio, pois de outro modo a caminhada ali seria muito mais difícil. Por outro lado, a suave inclinação significava que ele teria que andar um bom pedaço antes de atingir o topo de uma cúpula e poder olhar ao redor.

            Por fim ele atingiu o alto, e pôde avistar o lado oposto da cúpula que estivera escalando. Olhou para trás a fim de certificar-se quanto à posição dos meteorologistas e de seus instrumentos. Estavam a boa distância, num vale afastado, mas Seldon podia avistá-los com clareza. Tudo bem, então.

            Dali não podia avistar nenhum bosque, nem árvores, mas havia uma depressão que serpenteava entre duas cúpulas. De ambos os lados dessa espécie de desfiladeiro, o solo era mais compacto, e havia ocasionais manchas verdes que poderiam ser de musgo. Se ele seguisse ao longo daquela fenda, e ela se tornasse mais profunda, e o solo suficientemente espesso, talvez pudesse encontrar árvores mais adiante.

            Olhou para trás, tentando estabelecer mentalmente alguns pontos de referência, mas tudo o que se avistava eram as curvas das cúpulas a subir e descer. Hesitou um pouco, lembrando-se da advertência de Dors sobre o risco de se perder; o que tinha parecido naquele instante um conselho supérfluo fazia muito sentido agora. Em todo caso, parecia-lhe claro que o tal desfiladeiro podia ter a mesma utilidade de uma estrada; se ele o seguisse até uma certa distância, tudo o que tinha de fazer depois era refazer o trajeto, e estaria de volta ao ponto onde se achava.

            Caminhou a passos largos e decididos, seguindo a curvatura descendente da cúpula. Um rumor surdo vinha do céu, mas ele não lhe deu maior atenção. Tinha decidido que queria avistar aquelas árvores, e essa era a única coisa importante para ele naquele momento.

            O musgo ia se tornando cada vez mais espesso, e se espalhava pelo chão como um verdadeiro tapete; havia tufos de relva aqui e ali. Apesar da desolação que reinava na Superfície, o musgo era de um verde brilhante, e ocorreu a Seldon que num planeta nublado como aquele a quantidade de chuva devia ser considerável.

            A fenda continuava seguindo numa curva suave, e de repente, exatamente sobre outra cúpula, Seldon avistou uma mancha escura de encontro a superfície cinza, e percebeu que tinha achado as árvores.

            Nesse instante, como se a visão das árvores tivesse liberado sua mente para prestar atenção em outras coisas, ele voltou a perceber o rumor surdo que vinha escutando há algum tempo, e que distraidamente tinha atribuído a algum tipo de maquinaria. Só então pensou: mas, que maquinaria?

            Ora, por que não havia de ser? Ele estava de pé sobre uma das milhares de cúpulas que recobriam centenas de milhões de quilômetros quadrados do planeta-cidade. Havia todos os tipos imagináveis de máquinas sob aquelas cúpulas - motores de ventilação, para dar só um exemplo. Talvez seu ruído pudesse ser escutado, num lugar e num momento em que não houvesse outro tipo de ruído.

            Só que o ruído não parecia vir do chão. Seldon ergueu os olhos para o céu lúgubre e indistinto. Nada.

            Continuou a esquadrinhar o espaço com a vista, enquanto rugas se formavam entre seus olhos, e então, lá, ao longe...

            Era apenas um pequeno ponto negro destacando-se de encontro ao céu cinzento. Fosse o que fosse, movia-se como se estivesse procurando se orientar; e um instante depois foi novamente oculto pelas nuvens.

            Nesse instante, sem nem saber por quê, Seldon pensou: estão à minha procura.

            E antes mesmo de poder avaliar qual devia ser sua atitude, ele escolheu uma.

            Correu, correu desesperadamente ao longo da fenda, na direção das árvores, e na tentativa de atingi-las mais rapidamente virou para a esquerda e escalou uma cúpula menor, embarafustando através do mato rasteiro, fetos ressequidos, arbustos espinhosos e pequenos frutos avermelhados.

 

            Seldon arquejou de encontro a uma árvore, agarrando-se a ela, colando a ela o seu corpo. Olhou o céu à procura do objeto voador, para saber sua posição exata e poder ocultar-se do lado oposto do tronco, como um esquilo.

            A árvore estava gelada, sua casca era áspera e desagradável ao toque - mas podia servir de abrigo. Claro que não seria suficiente, caso eles o estivessem procurando com o auxílio de um sensor térmico, mas Seldon teve esperança de que aquele tronco gelado pudesse ajudar a confundir os sinais.

            Sob os seus pés, o solo era duro e espesso. Mesmo num momento como aquele, em que tentava avistar seus perseguidores ao mesmo tempo em que evitava ser visto por eles, Seldon não pôde deixar de pensar na profundidade que aquele solo devia ter, no imenso tempo que devia ter levado para se acumular, e em quantas cúpulas nas regiões mais quentes de Trantor deviam suportar florestas inteiras sobre si; pensou também se as árvores cresciam de preferência nas fendas por entre as cúpulas, deixando a parte superior destas para o musgo, a relva e os arbustos menores.

            Conseguiu avistá-lo novamente. Não era uma hiper-nave, nem mesmo um aerojato: era um íon-jato. Ele podia ver o débil clarão dos íons que brotavam dos vértices de um hexágono, neutralizando a atração gravitacional e permitindo que as asas mantivessem o veículo pairando no ar como um enorme pássaro. Era um veículo capaz de planar e de efetuar a exploração de um território.

            Seldon notou que tinha sido salvo pelas nuvens. Mesmo se as pessoas a bordo estivessem usando sensores térmicos, estes indicariam apenas que havia alguém lá embaixo. O íon-jato teria que arriscar um mergulho abaixo da camada de nuvens para poder verificar quantas pessoas havia, e se alguma delas seria o indivíduo que estavam procurando.

            O íon-jato estava mais próximo agora, e não podia permanecer oculto a Seldon. O ruído dos motores denunciava sua posição e os tripulantes não podiam desligá-los enquanto prosseguissem na sua busca. Seldon conhecia bem os íon- jatos: em Helicon ou em outros mundos abertos, onde o céu ficava limpo com frequência, eles eram um meio de transporte bastante comum, inclusive para uso particular.

            Qual poderia ser a utilidade de um íon-jato em Trantor, onde toda a vida humana transcorria abaixo das cúpulas, e onde o céu era eternamente coberto por um colchão de nuvens? Qual, senão a de funcionar como veículos privativos dos órgãos de segurança do governo, com a função de localizar pessoas extraviadas na Superfície... ou atraídas para lá?

            Por que não? As forças do governo não podiam ter acesso ao território da Universidade, mas o lugar onde estava Seldon não pertencia a esse território. Ele estava na parte externa das cúpulas, uma região que devia estar fora da jurisdição de qualquer autoridade meramente local. Um veículo imperial podia ter o direito de pousar em qualquer trecho da Superfície e inquirir ou deter qualquer pessoa que fosse localizada ali. Hummin não lhe dissera nada a respeito, mas talvez essa idéia não lhe tivesse ocorrido.

            O íon-jato estava cada vez mais próximo, esquadrinhando o terreno feito fera farejando sua presa. Iriam examinar mais de perto aquele grupo de árvores?

            Iriam aterrissar, e mandar até ali um ou dois guardas armados, para vasculhar cada moita e cada arbusto?

            Se isso acontecesse, o que poderia ele fazer? Estava desarmado, e toda a sua técnica de luta corporal seria inócua diante da dor lancinante provocada por um neuro-chicote O veículo, no entanto, não fazia menção de pousar. Ou não tinham considerado seriamente aquele pequeno bosque, ou...

            Uma nova idéia assaltou a mente de Seldon. E se aquilo, afinal de contas, não fosse um veículo patrulha? E se ele fizesse parte das experiências dos meteorologistas? Era mais do que admissível que experiências meteorológicas também envolvessem testes realizados nas camadas mais altas da atmosfera.

            Estaria fazendo papel de idiota?

            O céu estava mais escuro. As nuvens se adensavam ou, o que era mais provável, a noite começava a cair.

            Estava cada vez mais frio, e tudo indicava que a temperatura continuaria a baixar. Devia ele permanecer ali, congelando, só porque um inofensivo íon-jato tinha passado por perto e ativado um sentimento paranoico que ele jamais experimentara antes? Teve um súbito impulso de abandonar o bosque e retornar à estação meteorológica.

            Pensando bem, como poderia o homem que Hummin tanto temia - Eto Demerzel - adivinhar que Seldon estaria vagando pela Superfície justamente naquela hora, pronto para ser apanhado?

            Durante alguns instantes, esses argumentos pareceram irrefutáveis e, tremendo de frio, Seldon começou a afastar-se das árvores.

            Mas voltou correndo para lá, quando o veículo reapareceu, muito mais próximo do que antes. Seldon não o tinha visto fazer nada que se assemelhasse a alguma atividade meteorológica, que certamente envolveria tarefas como testes, medições, coleta de amostras. E, se essas coisas estivessem sendo feitas, seriam visíveis a um observador externo? Ele não tinha idéia do tipo de instrumentos que poderia haver lá dentro, ou de como funcionavam. Se aquele veículo estivesse de fato efetuando pesquisas, ele nunca teria como se certificar; em vista disso, como poderia se arriscar a ser visto em campo aberto?

            E se Demerzel soubesse de sua ida à Superfície pelo simples fato de que agentes seus, infiltrados na Universidade, o tinham prevenido dos planos de Seldon? Lisung Randa, o simpático e sorridente oriental, tinha sugerido sua ida até lá. Para falar a verdade, tinha sugerido com uma certa insistência, e além disso o assunto não tinha surgido naturalmente na conversa, ou pelo menos não com bastante naturalidade. Seria Randa o agente imperial que teria dado o aviso a Demerzel?

            E também havia Leggen, que lhe dera aquele suéter para vestir. Por que não lhe dissera nada a respeito com antecedência, para que ele pudesse providenciar as próprias roupas? Havia algo de especial no suéter que ele agora estava usando? Era totalmente de cor púrpura, enquanto que os dos outros membros da equipe seguiam o estilo trantoriano de padrões entrecruzados em diferentes cores. Quem quer que olhasse para o solo, de uma altura razoável, veria uma mancha avermelhada em movimento, misturada a outras de cores mais claras, e saberia imediatamente a quem perseguir.

            E quanto a Clowzia? Para todos os efeitos, ela estava ali na Superfície para cumprir um estágio e ajudar os meteorologistas; como explicar a sua atitude, dirigindo-se espontaneamente a ele, um estranho, puxar conversa, e depois afastá-lo habilmente do lugar onde estavam os outros, de forma a que ele pudesse ser caçado com mais facilidade?

            E, pensando bem, o que dizer de Dors Venabili? Ela sabia de sua ida à Superfície. Não tinha feito nada para dissuadi-lo. Devia tê-lo acompanhado, mas por coincidência estava cheia de compromissos.

            Era uma conspiração. Claro que era uma conspiração. Àquela altura já estava plenamente convencido, e nem pensava mais em abandonar seu refúgio sob as árvores. (Seus pés já pareciam dois blocos de gelo, de nada adiantava sapatear no chão). Aquele íon-jato nunca mais iria embora?

            No momento em que pensou isso o zumbido dos motores se tornou mais intenso e agudo, e o veículo elevou-se até as nuvens, sumindo logo em seguida.

            Seldon apurou o ouvido, atento para captar o menor barulho, até ter certeza de que o íon-jato tinha de fato sumido. Mesmo depois de ter certeza ainda pensou que talvez aquilo não passasse de um estratagema para fazê-lo deixar seu esconderijo, e permaneceu onde estava, enquanto os minutos se arrastavam lentamente e a noite continuava a cair Finalmente, quando percebeu que se não abandonasse seu abrigo acabaria congelando começou a caminhar, afastando-se pouco a pouco da proteção fornecida pelas árvores.

            Pensando bem, era um crepúsculo particularmente sombrio; eles não seriam capazes de localizá-lo senão com a ajuda de um sensor-térmico, mas em todo caso ele ouviria o motor do íon-jato se aproximando. Parou a certa distância do bosque, contando os segundos, pronto para ocultar-se novamente ao escutar o menor ruído - embora não soubesse de que poderia adiantar isso, caso sua presença fosse detectada.

            Olhou ao redor. Se fosse ao encontro dos meteorologistas poderia ver as luzes artificiais que eles certamente tinham, mas a não ser por elas não devia haver nenhum outro tipo de luz. Sua vista ainda alcançava uma certa distância, mas dentro de uns quinze minutos, meia hora no máximo, seria impossível. Sem uma lanterna, e com aquele céu de chumbo sobre sua cabeça, estaria numa total escuridão.

            Amedrontado pela perspectiva de se perder do meio das trevas, Seldon percebeu que teria de encontrar o caminho de volta para a fenda por onde viera, e refazer seu trajeto, o mais rapidamente possível. Com os braços fortemente apertados ao peito para resguardar o calor do corpo, ele partiu na direção de onde supunha ter vindo.

            É claro que devia haver uma certa quantidade de fendas semelhantes entre as cúpulas que se erguiam nas proximidades; mas de um modo ou de outro ele julgou reconhecer alguns arbustos de frutos rasteiros pelos quais tinha passado, e que agora pareciam negros, em vez de vermelhos. Não podia perder tempo.

            Tinha de acreditar que estava certo. Quando a fenda no terreno surgiu diante de seus olhos ele penetrou por ela, caminhando o mais rápido que podia, orientando-se pela pouca luz que restava e pela vegetação que se enroscava em seus pés.

            Mas não iria permanecer Indefinidamente no interior daquela abertura.

            Quando viera, ele tinha descido a encosta da mais alta das cúpulas que havia nos arredores, e tinha chegado à fenda seguindo um trajeto que ficava em ângulo reto em relação a ela. Pelo seu raciocínio, teria agora que virar à direita, depois virar de vez à esquerda, e isso o colocaria na direção da cúpula onde estavam os meteorologistas.

            Depois que virou à esquerda, Seldon ergueu a cabeça e, com dificuldade, vislumbrou a curva de uma cúpula que se delineava à sua frente, de encontro aos derradeiros vestígios de luz que havia no céu. Tinha de ser aquela!

            Ou ele estaria apenas se forçando a acreditar?

            Não lhe restava outra alternativa senão achar que estava no caminho certo.

            Mantendo os olhos fitos no topo da cúpula, para não se desviar de um trajeto razoavelmente reto, ele começou a escalada, caminhando com determinação e rapidez. À medida que se aproximava, a silhueta da cúpula contra o céu se tornava mais e mais indistinta. Se não estivesse errado, dali a pouco ele terminaria de subir a suave inclinação e começaria a andar sobre uma superfície praticamente achatada, de onde poderia avistar o lado oposto e ver as luzes dos meteorologistas.

            Já estava escuro como breu, e ele já não conseguia avistar o que havia à sua frente. Desejou que houvesse ao menos algumas estrelas para fornecer um pouco de luz, e imaginou que aquela devia ser a sensação de ser cego. Agitou os braços à frente do rosto, como um inseto agita suas antenas.

            O frio aumentava a cada minuto, e de quando em quando ele bafejava sobre as mãos para aquecê-las, e depois as enfiava sob as axilas. Lamentou não poder fazer o mesmo com os pés. Começou a pensar que poderia começar a chover; mas se houvesse precipitação seria com certeza de neve; ou, pior ainda, de geada.

            Para a frente... para a frente... era tudo o que ele podia fazer. Num dado momento, começou a ter a sensação de estar caminhando numa descida. Ou a ansiedade o estava enganando ou já tinha ultrapassado a parte mais alta da cúpula.

            Parou. Se tinha chegado ao alto da cúpula, já devia ser capaz de enxergar as luzes da estação de meteorologia. Haveria as lanternas conduzidas pelos cientistas, cintilando, movendo-se em várias direções como vaga-lumes.

            Seldon cerrou com força os olhos para acostumá-los ainda mais à escuridão, e depois tentou novamente, sem sucesso. Fechar os olhos não tornava a treva mais intensa do que com eles abertos; abri-los não lhes trazia a menor quantidade de luz.

            Talvez Leggen e os outros já tivessem ido embora, levado consigo as lanternas, desligado os instrumentos. Talvez ele tivesse galgado a cúpula errada.

            Ou talvez seu trajeto ao escalar a cúpula tivesse descrito uma curva, de modo que estaria agora olhando numa direção equivocada. Ou talvez tivesse escolhido uma outra fenda no terreno, e durante todo o tempo não fizera mais do que se afastar do local para onde pretendia seguir.

            O que fazer, então?

            Se estivesse olhando na direção errada, então havia uma chance de avistar alguma luz caso olhasse à direita ou à esquerda: mas não havia nenhuma. Se tivesse entrado por uma fenda diferente daquela que percorrera antes, então não havia a menor possibilidade de retomar agora ao bosque e localizar a fenda correta.

            Sua única chance estava em pressupor que estava olhando na direção certa, e que a estação meteorológica ficava mais ou menos à sua frente - só que àquela altura os cientistas já a teriam abandonado e ela estaria às escuras.

            A solução era seguir em frente. Suas chances eram poucas, mas não havia outra escolha.

            Ele avaliou que teria gasto cerca de meia hora para caminhar da estação meteorológica até o topo da cúpula, tendo ido em companhia de Clowzia até uma certa altura, mais perambulando do que caminhando a passo regular.

            Agora, ia a passos largos, apesar da esmagadora escuridão.

            Continuou seguindo adiante, e em dado momento ocorreu-lhe que gostaria de saber que horas seriam, mas ali, na escuridão...

            Ele estacou. Ora, estava usando no pulso um crono-visor trantoriano, que informava o Tempo-Padrão Galáctico (como todos os crono-visores), bem como a hora local de Trantor. Os crono-visores heliconianos eram fosforescentes, e podiam ser consultados na escuridão de um quarto de dormir; por que não os trantorianos?

            Com uma relutante apreensão ele tocou o ponto de contato que acionaria a fonte de luz do crono-visor O mostrador deste emitiu um brilho fraco, mas suficiente para mostrar o tempo: 18:47. Para que já fosse noite fechada, pensou Seldon, deviam estar em pleno inverno. Mas... há quanto tempo teria ocorrido o solstício? Qual seria o grau de inclinação do eixo do planeta? Qual a duração do ano? A que distância do equador estava ele naquele instante? Seldon não tinha a menor condição de responder, no momento, aquelas perguntas; mas o que importava era que aquele débil cintilar de luz era visível.

            Ele não estava cego! De algum modo, o brilho do mostrador de seu crono- visor lhe trouxe uma esperança renovada.

            Seu ânimo se fortaleceu. Decidiu continuar marchando na mesma direção, durante uma meia hora. Se nada encontrasse, prosseguiria durante cinco minutos, não mais do que isso. Se não obtivesse nenhum resultado, pararia para pensar. Se isso acontecesse, em todo caso, seria daí a 35 minutos. Até então ele se concentraria unicamente no ato de caminhar e de fazer o possível para manter o corpo aquecido. (Ele agitou vigorosamente os dedos dos pés, e verificou que ainda os sentia.)

            Caminhou para a frente, com dificuldade. Meia hora se passou. Ele fez uma pausa e depois, vacilante, prosseguiu durante mais cinco minutos.

            Agora, teria que tomar uma decisão. Não tinha encontrado coisa alguma. Ele podia estar em qualquer parte, muito, muito distante de qualquer passagem para o interior das cúpulas. Ou então poderia estar a apenas três metros à esquerda (ou à direita... ou atrás) da estação meteorológica. Podia estar à distância de dois braços estendidos da própria abertura do elevador... a qual, no entanto, certamente estaria fechada naquele momento.

            E agora?

            Valeria a pena gritar? Ele estava rodeado por um silêncio que, não fosse pelo silvar do vento, seria total. Se na vegetação que recobria as cúpulas havia de fato pássaros, pequenos animais ou insetos, então eles não se achavam ali àquela altura da estação, ou àquela hora da noite, naquele local específico.

            Havia apenas o vento, que continuava a enregelar aos poucos o corpo de Seldon.

            Talvez ele devesse ter vindo gritando enquanto caminhava.

            Aquele ar frio poderia conduzir o som a uma distância razoável. Mas haveria alguém para ouvi-lo?

            Poderiam ouvi-lo do interior da cúpula? Haveria ali algum instrumento que pudesse detectar seus movimentos? Haveria algum sentinela de sobreaviso, pelo lado de dentro, nas proximidades?..

            Isso soava ridículo. Teriam ouvido seus passos, não é mesmo? No entanto...

            Ele gritou.

            - Socorro! Socorro! Alguém pode me ouvir?!...

            Seu grito soou gutural, contrafeito. Parecia algo idiota, gritar no meio daquela vastidão mergulhada nas trevas.

            No entanto, ele sentiu que mais idiota ainda seria hesitar, numa situação tão grave. O pânico estava começando a dominá-lo. Encheu os pulmões com o ar gelado e voltou a gritar, o mais alto que pôde. Inspirou novamente e novamente gritou, projetando a voz bem para o alto. E outra vez, e outra.

            Fez uma pausa, já sem fôlego, virando a cabeça em todas as direções, mesmo que não conseguisse avistar coisa alguma. Não podia nem sequer detectar algum tipo de eco. Parecia que não lhe restava outra escolha senão esperar o amanhecer. Só que... quanto tempo durava a noite naquela época do ano? E até que ponto poderia cair a temperatura?

            Sentiu algo minúsculo e gelado tocar seu rosto. Algum tempo depois, voltou a senti-lo..

            Começava a gear em meio à escuridão... e não havia como procurar algum tipo de abrigo.

            Pensou: teria sido bem melhor que aquele íon-jato tivesse me avistado e recolhido. Talvez eu estivesse prisioneiro neste instante, mas pelo menos estaria mais aquecido e aliviado.

            Ou, se Hummin nunca tivesse aparecido em sua vida, ele estaria de volta a Helicon há muito, muito tempo. Sob vigilância, mas aquecido e aliviado. Naquele instante, era tudo em que sua mente era capaz de pensar - calor e bem-estar Tudo o que lhe restava era esperar. Deitou-se ao chão, enroscando-se sobre si mesmo, e pensando que, por mais longa que fosse a noite, não devia se permitir adormecer. Tirou os sapatos e esfregou com força os pés enregelados; voltou a calçá-los depressa.

            Sabia que iria ter de repetir esse gesto a noite inteira, bem como esfregar as mãos e as orelhas, para manter o sangue circulando. Mas o mais importante de tudo era ter em mente que não podia adormecer: isso poderia significar a morte.

            E, depois de pensar nisso com intensidade e determinação, ele sentiu que seus olhos começavam a se fechar e sua cabeça descaía, adormecida, enquanto a geada continuava a cair sobre seu corpo.

 

            LEGGEN, JENARR -... Embora suas contribuições à meteorologia sejam consideráveis, elas perdem importância diante daquilo que ficou conhecido como a "Controvérsia Leggen". É ponto pacífico que suas ações contribuíram para pôr em perigo a vida de Hari Seldon, mas existe uma acalorada discussão, há longo tempo, entre os que atribuem essas suas ações a circunstâncias fortuitas e os que as vêem como parte de uma conspiração deliberada. Ambos os lados defendem apaixonadamente seus pontos de vista, e mesmo os estudos mais confiáveis não oferecem nenhuma conclusão definitiva. Entretanto, as suspeitas associadas ao seu nome contribuíram para arruinar a carreira e a vida pessoal de Leggen nos anos que se seguiram a...

            ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA

 

            Ainda não tinha anoitecido quando Dors Venabili conseguiu localizar Jenarr Leggen. Ele respondeu ao seu cumprimento ansioso com um grunhido e um breve aceno de cabeça.

            - E então? - perguntou ele, com certa impaciência. - Como foi que ele se saiu?

            Leggen, que estava alimentando com dados seu computador, replicou:

            - Como se saiu quem?

            - Meu aluno de pesquisa histórica, Hari. Dr. Hari Seldon. Ele subiu com você à Superfície. E então? Foi de alguma utilidade?

            Leggen ergueu as mãos do teclado do computador e fez um gesto vago no ar.

            - Aquele sujeito heliconiano? Não nos serviu para nada. Não demonstrou nenhum interesse. Ficou o tempo todo olhando a paisagem, mesmo sem nenhuma paisagem para olhar. Um sujeito esquisito... Por que você o mandou até lá?

            - Não foi idéia minha, foi idéia dele. Mas, não compreendo...ele estava muito interessado. Onde está ele agora?

            Leggen encolheu os ombros. - Como vou saber? Por aí.

            - Para onde ele foi depois que vocês desceram? Não lhe disse para onde ia?

            - Ele não desceu conosco. Já lhe falei que não estava interessado.

            - E quando desceu, então?

            - Não sei, não lhe dei muita atenção. Tinha muitíssimo trabalho para fazer.

            Deve ter havido um vendaval e depois uma chuva fortíssima, há dois dias atrás, e nenhum dos dois estava previsto. Nenhum dos nossos instrumentos fornecia indicações que explicassem isso, ou a ausência do sol que, segundo nossos cálculos, deveria aparecer hoje. Agora estou revendo todos os modelos, e lá vem você me atrapalhar.

            - Então você não viu Seldon descer?

            - Escute bem: eu não estava preocupado com ele. O idiota nem sequer estava adequadamente vestido, e vi logo que dali a meia hora ele não iria suportar o frio. Dei-lhe um suéter, mas isso não adiantava de nada para suas pernas e seus pés, de modo que mostrei-lhe o elevador, expliquei como funcionava, e falei que depois de trazê-lo para baixo ele retomaria automaticamente lá para a Superfície. Tudo muito simples. Ele não suportou o frio, desceu, o elevador voltou a subir, e quando terminamos viemos todos embora.

            - Mas você não sabe exatamente quando ele desceu?

            - Não, não sei, já lhe disse que estava ocupado. Ele não estava entre nós quando nos preparamos para voltar; já estava escurecendo e tudo indicava que haveria geada, portanto ele deve ter vindo embora desde antes.

            - Alguém o viu descer?

            - Não sei. Clowzia, talvez. Estiveram juntos algum tempo. Por que não pergunta a ela?

            Dors encontrou Clowzia em seus alojamentos, acabando de sair de um chuveiro quente.

            - Estava gelado lá em cima - comentou ela.

            - Você esteve com Hari Seldon na Superfície?

            - Sim, durante algum tempo - respondeu Clowzia, erguendo as sobrancelhas. - Ele queria passear um pouco nas imediações, e andou me fazendo perguntas sobre a vegetação. É um homem inteligente, Dors. Parecia se interessar por tudo, e eu expliquei-lhe tudo o que podia, até que Leggen me chamou. Estava num daqueles seus dias insuportáveis. O tempo não estava muito bom, de modo que...

            Dors a interrompeu.

            - Então você não viu Hari descer pelo elevador?

            - Não, não o vi mais desde o instante em que Leggen me chamou. Bem, ele tem que ter descido, não é mesmo? Não estava mais lá quando descemos.

            - Só que não consigo encontrá-lo em parte alguma. Clowzia pareceu perturbada.

            - É mesmo? Ora, mas ele tem que estar em algum lugar.

            - Sim, é claro que está em algum lugar. - A voz de Dors demonstrava uma ansiedade crescente. - E se estiver lá em cima?

            - É impossível. Não estava. Claro que nós o procuramos por lá na hora de descermos, mas Leggen tinha-lhe ensinado como voltar, e ele não estava adequadamente vestido para um clima péssimo como o de hoje. Leggen disse- lhe que se sentisse muito frio voltasse antes de nós, e ele estava com frio, eu sei. O que mais podia ter feito, senão descer?

            - Mas ninguém o viu descer. Aconteceu alguma coisa errada com ele, enquanto você o viu por lá?

            - Enquanto estivemos juntos, não. Ele estava perfeitamente bem, só se queixava um pouco do frio, naturalmente.

            A essa altura, Dors estava dominada pela inquietação.

            - Já que ninguém o viu descer, pode ser que ele ainda esteja lá. Não devíamos subir para verificar?

            - Já lhe disse que demos uma olhada antes de descer - retrucou Clowzia com nervosismo. - Ainda estava claro, e não havia ninguém à vista.

            - Vamos verificar, mesmo assim.

            - Mas não posso levar você até lá. Sou uma estagiária, e não tenho a combinação que abre a porta de saída para a Superfície. Você tem que pedir isso ao Dr. Leggen.

 

            Dors sabia que Leggen não subiria com ela à Superfície por vontade própria; seria preciso obrigá-lo a-isso.

            Mas antes ela checou novamente a biblioteca e os refeitórios, e em seguida ligou para o quarto de Seldon. Por fim, foi pessoalmente até lá e chamou à porta. Como Seldon não respondeu, ela foi até o zelador e conseguiu fazer com que este abrisse a porta. Seldon não estava lá. Dors entrou em contato com várias pessoas que ela vira na companhia de Seldon durante as últimas semanas; nenhuma delas o tinha visto.

            Muito bem: ela obrigaria Leggen a levá-la até a Superfície. Mas àquela altura já tinha anoitecido; Leggen se recusaria obstinadamente a fazer o que ela queria, e durante quanto tempo poderiam ficar discutindo, se Seldon estava perdido lá no alto, numa noite sujeita a geada e a neve?

            Uma idéia ocorreu-lhe de repente, e Dors correu até um terminal do computador da faculdade que dispunha de informações permanentes sobre o paradeiro de estudantes, professores e pessoal administrativo.

            Seus dedos voaram sobre o teclado e pouco depois ela achou o que procurava.

            Havia três; três deles, num outro setor do compus universitário.

            Dors requisitou um aeroplanador e foi na direção do alojamento que o computador indicara. Com toda a certeza, pelo menos um deles poderia ser localizado e poderia ficar à sua disposição.

            Teve sorte. Na primeira porta em que tocou, acendeu-se de imediato a luz que solicitava identificação. Ela digitou seu número de identidade, que incluía a indicação sobre o departamento a que ela pertencia. A porta se abriu, e um homenzinho corpulento, de meia-idade, a encarou. Era evidente que tinha acabado de tomar um banho para ir jantar; seu cabelo louro-escuro estava ainda úmido, e ele estava sem camisa.

            - Desculpe estar assim - disse ele. - Pegou-me desprevenido, Ora. Venabili. Em que lhe posso ser útil?

            Quase sem fôlego, ela indagou:

            - O senhor é Rogen Benastra, sismólogo-chefe, não é isso?

            - Sim.

            - Trata-se de uma emergência. Preciso examinar os registros sismológicos da Superfície nas últimas horas.

            Benastra a encarou.

            - Mas por quê? Nada aconteceu. Se tivesse acontecido eu já o saberia. O sismógrafo teria enviado um alerta.

            - Não me refiro a impacto de meteoros.

            - Nem eu. Não precisamos de sismógrafos para isso. Estou falando de granizo, de avarias minúsculas. Não houve nada hoje.

            - Também não é disso que estou falando. Por favor, leve-me ao sismógrafo e leia os registros para mim. É uma questão de vida ou morte.

            Tenho um encontro para jantar, e...

            - Eu disse vida ou morte, e estou falando sério.

            - Não entendo por que... - começou Benastra, mas a voz lhe foi morrendo, ante o olhar imperioso de Dors. Ele entrou, terminou de se enxugar, deixou um recado na secretária eletrônica, e enfiou uma camisa.

            Sob o comando insistente de Dors, os dois meio andaram, meio correram, até chegarem ao prédio da Sismologia, um edifício baixo e achatado. Dors, que nada entendia de sismologia, perguntou: - Para baixo?! Estamos indo para o subsolo?!

            - Claro, abaixo dos níveis habitados. O sismógrafo tem que estar fixado ao leito rochoso, distante da agitação e das vibrações que predominam aqui em cima..

            - Então, como é que ele pode, daqui, captar o que sucede na Superfície?

            - É conectado a um conjunto de transdutores de pressão localizados no interior da própria espessura da cúpula. O impacto de qualquer partícula sólida faz o indicador oscilar na tela. Podemos detectar até mesmo o achatamento da cúpula causado por ventos mais fortes. Podemos inclusive...

            - Sim, sim - disse Dors, sem paciência para escutar louvores à sofisticação dos instrumentos. - Pode detectar passos de um ser humano?

            - Passos? - Benastra pareceu desconcertado. - Não é algo que se espere registrar lá em cima.

            - Claro que é. Um grupo de meteorologistas estava lá no alto hoje à tarde.

            - Oh... bem, passos seria algo muito difícil de distinguir.

            - Pode-se distingui-los se se examinarem os dados com atenção suficiente, e é isso o que quero que faça.

            O firme tom de comando em sua voz talvez tivesse desagradado ao cientista, mas se isso aconteceu ele preferiu deixar passar em branco. Tocou um contato, e a tela do computador iluminou-se.

            Na extremidade direita da tela havia um ponto de luz arredondado, do qual partia uma finíssima linha horizontal que ia desaparecer na extremidade oposta.

            Essa linha parecia tremular ligeiramente, como se sofresse uma série de pequenos soluços a intervalos irregulares, os quais se moviam continuamente da direita para a esquerda. Seu efeito sobre os olhos de Dors era quase hipnótico.

            - Está tudo tão quieto quanto possível - disse Benastra. - Tudo o que se vê aí é o resultado das mudanças de pressão atmosférica, talvez algumas gotas de chuva, a trepidação distante das máquinas. Não há mais nada lá em cima.

            - Está bem, mas, e há algumas horas atrás? Verifique os registros relativos à tarde de hoje. Certamente está tudo gravado.

            Benastra deu as instruções necessárias ao computador e por um ou dois segundos houve uma turbulência caótica na tela; em seguida tudo se aquietou e mais uma vez a linha horizontal surgiu.

            - Vou aumentar a sensibilidade ao máximo - murmurou ele.

            Logo começaram a se produzir variações mais acentuadas na linha, e à medida que se deslocavam para a esquerda seu padrão se alterava visivelmente.

            - O que é isso? - perguntou Dors.

            - Já que me informou da presença de pessoas lá em cima hoje, doutora, posso supor que são passos... a transferência de peso de um pé para o outro, o impacto das botas. Eu não teria conseguido adivinhá-lo se não soubesse que havia pessoas lá em cima. São aquilo que chamamos de "vibrações benignas", vibrações não associadas com nada que consideramos potencialmente perigoso.

            - É possível dizer quantas pessoas estão caminhando aí?

            - Assim, num golpe de vista, não. Entenda: o que estamos vendo é a resultante de todos os impactos em determinado instante. - O senhor disse que "não, num golpe de vista". Mas os componentes dessa resultante podem ser analisados no computador? - Duvido. Esses efeitos são muito tênues, e temos que levar em conta os inevitáveis "ruídos". Os resultados não seriam dignos de confiança.

            - Então está bem. Corra os registros para diante, até os passos cessarem.

            Pode fazer isso em fast-forward, por assim dizer?

            - Se o fizer, os sinais irão todos se confundir e superpor, e veremos apenas uma linha horizontal com faixas menos nítidas acima e abaixo. O que posso fazer é saltar para diante de quinze em quinze minutos e em cada parada examinar normalmente os sinais.

            - Ótimo. Faça isto, então.

            Ficaram observando a tela até que Benastra falou: - Veja. Nada aqui, novamente.

            Via-se na tela, mais uma vez, a linha horizontal sendo agitada pelos pequenos estremecimentos irregulares.

            - Quando pararam os passos? - perguntou Dors.

            - Há duas horas atrás, ou um pouquinho mais.

            - E quando pararam, eram em menor quantidade do que no início?

            Benastra exibiu uma expressão levemente ofendida.

            - Não tenho como dizer. E não creio que a análise mais sofisticada possa lhe dar essa resposta.

            Dors comprimiu os lábios, e logo voltou à carga:

            - Esse... esse transdutor, como o senhor o chama, é o que está nas vizinhanças da estação meteorológica?

            - Justamente; no local onde estão instalados os instrumentos, e onde os cientistas devem ter estado hoje. - E então ele perguntou, num tom cautelosamente incrédulo: - Quer que eu experimente os que ficam ao redor? De um em um?

            - Não é preciso. Concentre-se nesse aí, mas continue adiantando os registros de quinze em quinze minutos. Talvez uma das pessoas tenha sido deixada para trás e tenha retomado até o ponto onde ficam os instrumentos.

            Benastra abanou a cabeça e resmungou algo ininteligível.

            A imagem na tela deu um novo salto, e Dors fez o mesmo. - O que foi isso? - perguntou ela, apontando.

            - Não sei. Ruído.

            - Não, é algo periódico. Podem ser os passos de uma única pessoa?

            - Sim, como também podem ser dúzias de outras coisas.

            - Estão surgindo num ritmo que lembra o de uma pessoa caminhando - retrucou ela. E depois: - Adiante um pouco.

            Benastra obedeceu, e quando a imagem voltou a se instalar Dors observou:

            - As oscilações estão maiores.

            - Talvez. Podemos medi-las, se for o caso.

            - Não é preciso. Estão visivelmente maiores. Os passos estão se aproximando do transdutor. Adiante mais um pouco. Veja quando eles cessam.

            Daí a instantes Benastra falou:

            - Parou há vinte ou 25 minutos atrás. - E complementou, prudentemente: - Seja lá o que for.

            - São passos - retrucou Dors, com uma convicção capaz de mover montanhas.

            - Existe um homem lá em cima, e enquanto nós dois perdemos tempo aqui ele parou de caminhar e está a ponto de morrer congelado. Agora não venha me dizer seja lá o que for. Chame a Meteorologia e me ponha em contato com Jenarr Leggen. Eu lhe falei que era uma questão de vida ou morte. Vamos!

            Benastra, com os lábios ligeiramente trêmulos já tinha ultrapassado há muito o ponto em que podia tentar resistir às ordens daquela mulher estranha e dominadora.

            Menos de três minutos depois o holograma de Leggen reluzia na plataforma de comunicação. Ele tinha sido arrancado da mesa de jantar; trazia um guardanapo na mão, e sob seu lábio inferior havia uma mancha de aparência suspeita. Seu rosto alongado exibia uma carranca de meter medo.

            - Vida ou morte? - disse ele. - O que quer dizer isto? E quem é você? - Só então seus olhos perceberam Dors, que tinha dado um passo mais para perto de Benastra, de modo a que sua imagem aparecesse no visor de Leggen. - Ah, é você de novo. Mais aborrecimentos.

           - Não, não é - disse Dors. - Acabo de consultar Rogen Benastra, sismólogo- chefe da Universidade. Depois que você e sua equipe deixaram a Superfície, o sismógrafo mostra sinais claros dos passos de alguém que lá permaneceu. É meu aluno Hari Seldon, que foi até lá sob sua responsabilidade e que agora, quase certamente, está sem sentidos sob a geada e pode morrer a qualquer momento.

            - Portanto, você vai me conduzir à Superfície agora mesmo, de posse de todo o equipamento que venha a ser necessário. Se não fizer imediatamente, recorrerei à segurança universitária... irei até próprio presidente, se necessário.

            De um modo ou de outro irei até lá em cima, e se algo acontecer a Hari devido a um único minuto de demora de sua parte, farei com que seja processado por negligência, incompetência, tudo o que for possível; farei com que perca todos os seus cargos e privilégios, e seja expulso da vida acadêmica. E se Seldon morrer, é claro que farei com que você seja condenado por homicídio culposo, ou pior ainda, uma vez que acabo de adverti-lo de que ele está correndo risco de vida."

            Furioso, Jenarr voltou-se para Benastra: - Você detectou...

            Mas Dors o interrompeu:

            - Ele me disse o que detectou, e acabei de dizer a você. Não venha com sua tática de rolo compressor para intimidá-lo. E então, vai ou não vai subir?

            - Já lhe passou pela cabeça que pode estar enganada? - perguntou Jenarr, com a boca contraída. - Sabe o que posso fazer a você se isso não passar de um maldito rebate falso? Perda de cargos e privilégios é algo que pode suceder a qualquer um.

            - Não quando o que está em jogo é assassinato - disse Dors.

            - Estou pronta para responder um processo por injúria. Você está pronto a responder a um por homicídio?

            O rosto de Jenarr se avermelhou de fúria, talvez mais por estar sendo coagido do que pela ameaça feita por Dors.

            - Está bem, vamos lá - disse ele. - Mas não vou ter pena de você, minha cara doutora, se depois for verificado que seu aluno estava são e salvo no interior da cúpula durante as últimas horas.

 

            Os três entraram no elevador num silêncio carregado de hostilidade. Leggen tinha interrompido seu jantar pela metade, abandonando sua esposa no restaurante sem maiores explicações. Benastra não tinha jantado, e provavelmente tinha faltado a um compromisso com alguma companhia feminina, também sem dar satisfações. Quanto a Dors Venabili, também estava sem comer, e parecia mais tensa e sombria do que os outros dois. Conduzia consigo um cobertor térmico e dois emissores fotônicos.

            Quando alcançaram a câmara de acesso à Superfície, Leggen, com a mandíbula contraída, digitou seu número de identificação, e a porta se abriu. Um vento gelado os envolveu, fazendo Benastra emitir um grunhido. Nenhum dos três estava adequadamente vestido, mas os dois homens, pelo menos, pretendiam demorar-se ali o mínimo possível.

            - Está nevando - disse Dors, a voz tensa.

            - Neve úmida - falou Leggen. - A temperatura está mais ou menos em torno do ponto de congelamento. Não chega a ser uma nevasca mortífera.

            - Depende do tempo que se fica exposto a ela - replicou Dors. - Ficar mergulhado em neve derretida não deve fazer nenhum bem.

            - Muito bem, mas onde está ele? - resmungou Leggen, percorrendo com o olhar a compacta escuridão que os cercava, e que se tornava ainda mais cerrada em contraste com a luz da câmara de acesso às suas costas.

            - Por favor, Dr. Benastra - disse Dors -, segure esse cobertor para mim. Dr.

            Leggen, por favor, encoste a porta do elevador, sem trancá-la.

            - Ela não tem tranca automática. Pensa que somos loucos? - Imagino que não, mas é possível fechá-la pelo lado de dentro, fazendo com que alguém fique do lado de fora impossibilitado de retomar para o interior da cúpula.

            - Se existe alguém do lado de fora - disse Leggen -, mostre-me. Aponte onde está.

            - Pode estar em qualquer parte.

            Dors ergueu os braços; um emissor fotônico estava afixado a cada um dos seus pulsos.

            - Não podemos procurar por toda parte - disse Benastra, em tom lamentoso.

            Os emissores começaram a brilhar, espalhando raios de luz em todas as direções. Os flocos de neve cintilavam como nuvens de pirilampos, tornando ainda mais difícil enxergar a uma grande distância.

            - Os passos dele estavam cada vez mais fortes - disse Dors.

            - Era evidente que ele estava se aproximando do transdutor. Onde é que se localiza o transdutor?

            - Não tenho a menor idéia - disse Leggen, em voz cortante.

            - Não pertence a minha área, nem é da minha responsabilidade.

            - Dr. Benastra?..

            A resposta de Benastra foi hesitante.

            - Não sei ao certo. Para falar a verdade, nunca estive aqui antes. Esse equipamento foi instalado há muito tempo. O computador deve saber sua localização exata, mas nunca nos ocorreu fazer essa pergunta. Olhem, estou morrendo de frio, e não sei qual a utilidade de minha presença aqui.

            - Vai ter que ficar mais um pouco - disse Dors com firmeza.

            - Siga-me. Vou descrever uma espiral de dentro para fora, a partir desta porta.

            - Não dá para ver muita coisa, com esta neve - disse Leggen.

            - Sei disso. Se não estivesse nevando, talvez já o tivéssemos descoberto, tenho certeza. Do jeito que está, deve levar alguns minutos, e isso nós podemos suportar. - Mas ela não estava tão confiante quanto suas palavras levavam a crer.

            Começou a caminhar, balançando os braços, projetando a luz numa área tão vasta quanto lhe era possível, contraindo os olhos na esperança de distinguir uma mancha escura de encontro à neve.

            E foi Benastra quem disse:

            - O que é aquilo? - E apontou.

            Dors fez as duas fontes de luz em seus pulsos convergirem, formando um brilhante cone de luz na direção que o sismólogo indicava. Então partiu a correr para lá, seguida pelos dois homens.

            Lá estava ele - enrodilhado sobre si próprio, encharcado pela chuva e pela neve, a uns dez metros de distância da porta, e a uns cinco metros do instrumento meteorológico mais próximo. Dors apalpou-lhe o peito à procura das pulsações, mas não era necessário, pois ao primeiro toque Seldon agitou-se e soltou um gemido.

            - Dê-me o cobertor térmico, Dr. Benastra - pediu Dors, numa voz que soou fraca, de tanto alívio. Ela o desdobrou num gesto hábil e o espalhou sobre a neve. - Ajude-me a erguê-lo... vamos embrulhá-lo nisto, e carregá-lo lá para baixo.

            No elevador, vapor d'água começou a se elevar do corpo enrolado de Seldon, à medida que o cobertor se ajustava à temperatura do sangue. Dors disse:

            - Quando o colocarmos no quarto, Dr. Leggen, quero que consiga um médico, e estou dizendo um bom médico, para vir vê-lo imediatamente. Se nada acontecer ao Dr. Seldon, tudo isto ficará entre nós, mas apenas se nada lhe acontecer. Lembre-se bem...

            - Não precisa me dar aulas - disse Leggen com frieza. - Lamento o que houve e farei o possível, mas o único erro que cometi foi permitir que este homem nos acompanhasse até a Superfície.

            O cobertor agitou-se e uma voz fraca e muito baixa se fez ouvir. Benastra teve um sobressalto, pois a cabeça de Seldon estava encaixada em seu antebraço.

            - Ele está tentando dizer algo - falou o sismólogo. Dors disse:

            - Eu sei. Ele disse: o que está havendo?

            - Ela não pôde deixar de dar uma gargalhada, ainda que curta. Parecia algo tão natural para se dizer..

 

            O médico estava satisfeitíssimo.

            - Nunca tinha visto um caso de exposição ao mau tempo - explicou ele. - Não há muita chance de se ver isto em Trantor. - Pode ser - disse Dors, friamente - e fico muito feliz em lhe proporcionar a chance dessa nova experiência, mas será que isso implica o senhor não saber como tratar do Dr. Seldon?

            O médico, um homem idoso, calvo, com um bigodinho grisalho, pareceu encrespar-se um pouco.

            - Claro que sei como tratar dele. Casos semelhantes em outros planetas são muito frequentes, chegam mesmo a ser fato corriqueiro, e já li muita coisa a respeito.

            O tratamento consistia na aplicação de um soro antivirótico, e num banho de micro-ondas - Isto deve bastar - disse o médico. - Nos outros planetas, os hospitais dispõem de equipamentos muito mais sofisticados, mas não temos isto aqui em Trantor. Este é um tratamento para casos sem maior gravidade, e estou certo de que resolverá o problema.

            Dors concluiu mais tarde, enquanto Seldon ia se recuperando sem sofrer maiores sequelas, que ele só tinha sobrevivido por ser um estrangeiro. A treva, o frio, até mesmo a neve não eram elementos estranhos para ele. Um trantoriano provavelmente teria morrido em circunstâncias idênticas, se não pelo desgaste físico, pelo choque psicológico. Em todo caso ela não tinha certeza disso, uma vez que também não era natural de Trantor.

            Afastando de sua mente esses pensamentos, ela puxou uma cadeira mais para perto da cama onde Seldon repousava, e preparou-se para esperar.

 

            Passou-se um dia inteiro, e na manhã do dia seguinte Seldon agitou-se na cama, abriu os olhos e encontrou Dors sentada ao lado de sua cama, examinando um filme-livro e tomando notas. Numa voz quase normal, ele perguntou:

            - Ainda está aí, Dors?

            Ela pôs de lado o filme-livro.

            - Não posso deixar você sozinho, e não tenho confiança em mais ninguém.

            - Estou com a impressão de que vi você aí todas as vezes que acordei. Esteve aí esse tempo todo? - Sim. Dormindo, ou acordada.

            - E suas aulas?

            - Tenho um assistente que está me substituindo por enquanto.

            Dors inclinou-se e tomou a mão de Hari. Notando que ele ficava embaraçado (afinal, estava ainda na cama) ela a retirou.

            - Hari, o que aconteceu? Tive tanto medo... - Tenho algo a confessar - disse Seldon.

            - O que é?

            - Pensei que você talvez estivesse fazendo parte de uma conspiração...

            - Uma conspiração?

            - Sim, para fazer-me subir à Superfície, onde eu estaria fora da jurisdição da Universidade e poderia ser capturado pelas forças do Império.

            - Mas a Superfície não está fora da jurisdição da Universidade. A jurisdição setorial em Trantor vigora do centro do planeta até o céu.

            - Ah, bom, mas eu não sabia. Entretanto, você disse que não me acompanharia até lá porque estava muito atarefada, e quando comecei a entrar em paranoia pensei que você me tinha abandonado deliberadamente. Por favor, me perdoe. Foi você que me salvou daquilo ali. Quem mais se incomodou comigo?

            - São indivíduos ocupados - disse Dors, com tato. - Pensaram que você já tinha descido. Quer dizer: é uma desculpa mais do que compreensível.

            - Clowzia disse o mesmo? - A jovem estagiária? Sim.

            - Mesmo assim pode ter sido uma conspiração. Sem a sua participação, claro.

            - Não, Hari, o que houve foi negligência de minha parte. Eu não devia em hipótese alguma ter permitido que você fosse sozinho à Superfície. Assumi o compromisso de protegê-lo, e não posso deixar de me sentir culpada pelo que aconteceu, pelo fato de você se ter perdido.

            - Calma, espere aí - disse Seldon, irritado. - Eu não me perdi. O que você pensa que sou?

            - Então, como você chama o que aconteceu? Você não estava lá quando os outros retomaram, e não voltou até a porta de acesso, ou perto dela, senão depois que já estava escuro.

            - Mas isso não é tudo o que aconteceu. Eu não me perdi apenas porque comecei a andar sem direção e não consegui achar o caminho de volta. Já disse:

            suspeitei de uma conspiração, e tinha razões para isso. Não sou completamente paranoico - Está bem. E o que houve, realmente?

            Seldon contou-lhe tudo. Não lhe foi difícil recordar os mínimos detalhes: tudo aquilo tinha ficado remoendo em sua mente durante o dia anterior, como um pesadelo.

            Dors ouviu tudo com o sobrecenho franzido.

            - Isso é impossível. Um íon-jato? Tem certeza?

            - Claro que tenho. Acha que andei tendo alucinações?

            - Mas os agentes do Império não podiam estar à sua procura.

            Não poderiam prendê-lo na Superfície sem provocar a mesma onda de protestos que causariam invadindo o campus universitário.

            - Então que explicação você tem?

            - Não sei ainda - disse Dors. - Mas talvez as consequências deste meu erro, não acompanhando você à Superfície, possam ser muito mais graves. Hummin vai ficar furioso comigo.

            - Não precisamos contar-lhe - disse Seldon, - Acabou tudo bem.

            - Temos que contar-lhe - retrucou Dors, muito séria. - Talvez não tenha acabado ainda.

 

            Naquela noite, Jenarr Leggen apareceu para uma visita, logo após o jantar.

            Ficou olhando de Dors para Seldon durante um bom tempo, como se escolhendo o que dizer. Nenhum dos dois fez menção de vir a seu auxílio, limitando-se a esperar pacientemente. Leggen não lhes tinha causado a menor impressão de ser um especialista em bate-papos amenos.

            Finalmente ele disse a Seldon: - Vim ver como você está.

            - Perfeitamente bem - disse Seldon -, exceto que ando um tanto sonolento. A Dra. Venabili me explicou que este tratamento me provocará uma sensação de cansaço durante alguns dias, de modo que terei todo o repouso de que preciso. - Sorriu. - E não posso dizer que a idéia não me agrada.

            Leggen aspirou profundamente o ar, soltou-o, hesitou e, quase como se estivesse forçando a saída das palavras, falou:

            - Não vou tomar muito do seu tempo. Entendo que precise de repouso, mas quero dizer apenas que lamento muito o que aconteceu. Eu não devia ter deduzido tão apressadamente que você tinha voltado à Universidade por conta própria. Já que você era um novato, eu devia ter-me sentido mais responsável pela sua segurança, afinal de contas permiti que nos acompanhasse. Espero que tenha a bondade de... me perdoar. É tudo o que tenho a dizer.

            Seldon bocejou, cobrindo a boca com a mão.

            - Oh, perdão... Já que tudo terminou bem, não há motivo para ninguém ficar magoado. E de certo modo não foi culpa sua. Eu não devia ter saído caminhando à toa, e além disso o que de fato aconteceu foi...

            Dors o interrompeu.

            - Está bem, Hari, chega de falar. Relaxe um pouco. Gostaria de conversar um pouco com o Dr. Leggen antes de ele se retirar. Em primeiro lugar, Dr. Leggen, sei perfeitamente que deve estar preocupado quanto às possíveis consequências desse caso sobre sua pessoa. Eu lhe garanti que nada de grave lhe aconteceria se o Dr. Seldon conseguisse se recuperar normalmente. Isso parece estar acontecendo, de modo que pode ficar tranquilo... por enquanto. Mas há algo mais que gostaria de perguntar-lhe, e desta vez espero contar com sua cooperação espontânea.

            - Tentarei, Dra. Venabili - disse Leggen, muito empertigado.

            - Alguma coisa fora do comum aconteceu durante esta sua missão à Superfície?

            - Claro que sim. Perdemos o contato com o Dr. Seldon, e acabei de pedir desculpas por isto.

            - É evidente que não é a isso que me refiro. Aconteceu algum outro fato pouco usual?

            - Não. Nada, absolutamente.

            Dors olhou para Seldon, que franziu a testa. Parecia-lhe que Dors estava querendo verificar a veracidade de sua versão, confrontando-a com outra.

            Estaria pensando que ele imaginara a nave de patrulha? Seldon teve o impulso de protestar com veemência, mas ela o conteve com um gesto, como se já adivinhasse o que ele iria dizer. Ele cedeu, em parte por causa dela, em parte porque estava mesmo com sono. Fez votos para que Leggen não demorasse muito.

            - Tem certeza? - prosseguiu Dors. - Não tiveram nenhuma interferência externa?

            - Claro que não. Oh... bem.. - Sim, Dr. Leggen?... - Avistamos um íon-jato.

            - Isso lhe pareceu estranho?

            - Não, certamente que não. Por quê? - Isto está me parecendo um interrogatório, Dra. Venabili, e não me está agradando nem um pouco.

            - Entendo como se sente, Dr. Leggen, mas estas questões estão ligadas aos problemas que o Dr. Seldon andou enfrentando. Talvez essa história toda seja algo mais complicado do que me pareceu de início.

            - Em que sentido? - Houve uma sutil mudança no tom da voz de Leggen. - Quer aprofundar mais o assunto, para me exigir novas desculpas? Sinto muito, mas não sei se estou disposto a isto.

            - Talvez não, se não se incomodar de dizer por que considerou normal a presença de um íon-jato planando sobre aquela área.

            - Porque, minha cara doutora, um bom número de estações meteorológicas em Trantor possui íon-jatos para o estudo direto das nuvens e das camadas superiores da atmosfera. A nossa estação, contudo, não os possui.

            - Por que não? Isto lhes seria útil.

            - De fato. Mas não competimos com as outras estações, e não mantemos informações sob segredo. Relatamos nossas descobertas e eles nos relatam as deles. Desse modo, é razoável que haja certa diversificação de atividades especializadas: seria uma bobagem se duplicássemos totalmente nossos recursos e nossos procedimentos. O dinheiro e a mão-de-obra que empregaríamos em íon-jatos podem ser destinados a refratômetros de mésons, enquanto que outras estações podem fazer o inverso. É evidente que existe um alto grau de competitividade e rivalidade em nosso meio, mas a ciência é algo (aliás a única coisa) que nos mantém unidos. - E acrescentou com ironia: - Creio que a doutora é capaz de compreender isto.

            - Compreendo; mas não é uma grande coincidência que alguém tenha enviado um íon-jato para sobrevoar sua estação justamente no dia em que vocês faziam uma missão externa?

            - De modo algum. Tínhamos anunciado que iríamos fazer umas medições naquele dia, e é bastante natural que alguma outra estação tenha tido a idéia de fazer, simultaneamente, medições nefelométricas ... ou seja, das nuvens.

            Avaliados em conjunto, esses resultados seriam mais significativos e mais úteis do que estudados separadamente.

            Numa voz semi-indistinta, Seldon murmurou, de repente: - Então eles estavam fazendo medições, hem?

            - Sim - disse Leggen. - O que mais poderiam estar fazendo?

            Dors piscou os olhos como geralmente fazia quando estava tentando pensar depressa.

            - Está bem - disse ela -, tudo isso faz sentido. A que estação pertencia o íon- jato?

            Leggen balançou a cabeça.

            - Dra. Venabili, como pode imaginar que eu saiba disso?

            - Estou supondo que cada íon-jato meteorológico deva ter as insígnias de sua estação.

            - E tem, mas lembre-se: eu não estava olhando na direção dele, nem lhe dei muita atenção. Tinha o meu próprio trabalho para fazer. Quando receber algum comunicado, ficarei sabendo de que estação era.

            - E se não houver nenhum comunicado?

            - Então é por que seus instrumentos falharam. Acontece de vez em quando. - O punho direito de Leggen estava cerrado.- É só isto?

            - Espere um momento. A que estações poderia pertencer, em tese, aquele íon- jato?

            - A qualquer estação que possua um. Avisados com uma antecedência de um dia (e nossa missão foi divulgada com antecedência bem maior) eles poderiam vir de qualquer parte do planeta com uma dessas naves.

            - Mas quem seriam os mais prováveis?

            - É difícil dizer. Talvez Hestelonia, Wye, Ziggoreth, Norte Damiano. Uma dessas quatro estações seria mais provável, mas podem ser umas quarenta mais.

            - Só mais uma pergunta, Dr. Leggen, uma só. Quando foi anunciado que seu grupo subiria à Superfície, por acaso terá sido mencionado que um matemático chamado Dr. Hari Seldon estaria fazendo parte do grupo?

            Uma expressão de genuína surpresa cruzou o rosto de Leggen, para logo se transformar em irritação.

            - Por que motivo eu iria divulgar nomes? - perguntou. - Que interesse haveria nisso?

            - Está bem - disse Dors. - Permanece o fato de que o Dr. Seldon viu um íon- jato, e que isso o inquietou. Não sei bem por quê, e aparentemente ele próprio não se recorda dos fatos com muita clareza. Ele fugiu correndo do íon-jato, perdeu-se, e não pensou em retomar à estação, ou não se atreveu, senão quando a noite já caía; e quando lá já havia escurecido por completo. O senhor não tem nenhuma culpa nisso, Dr. Leggen, de modo que podemos esquecer o incidente. De acordo?

            - De acordo - disse Leggen. Despediu-se, pôs-se de pé e deixou o quarto.

            Depois que saiu, Dors ergueu-se, retirou os chinelos que Seldon trazia nos pés, ajeitou-lhe o corpo na cama e puxou os lençóis sobre ele. Seldon já dormia profundamente.

            Ela voltou a sentar-se, imersa em pensamentos. Até que ponto Leggen tinha falado a verdade, e exatamente o que poderia estar oculto por trás de suas palavras? Ela não sabia.

 

            MYCOGEN -... Um setor da antiga Trantor... Mergulhado em antigas lendas sobre seu próprio passado, Mycogen exercia pouca influência no planeta. Auto- suficiente, vivia praticamente isolado do restante...

            ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA

 

            Quando Seldon acordou, havia outro rosto debruçado sobre ele, olhando-o com gravidade. Ele franziu o rosto e depois murmurou: - Hummin?..

            Hummin sorriu de leve.

            - Lembra-se de mim?

            - Foi um dia apenas, e já faz alguns meses, mas eu me lembro. Então você não foi preso, hem? Ou...

            - Como você está vendo estou aqui, são e salvo. Mas - e os olhos de Hummin se voltaram para Dors, que estava de pé ao lado - não foi fácil chegar até aqui.

            - Estou feliz em vê-lo - disse Seldon. Dá-me licença? - E fez um gesto com o polegar indicando o banheiro.

            - Fique à vontade - disse Hummin. - E tome seu café. Hummin não o acompanhou na ligeira refeição que ele fez em seguida; ele e Dors ficaram em silêncio o tempo inteiro. Hummin consultava um filme-livro numa atitude absorta. Dors examinava as próprias unhas. Depois, servindo-se de um microcomputador, começou a tomar notas.

            Seldon os observou com atenção e não fez nenhuma tentativa de puxar conversa. O silêncio deles talvez se devesse a algum costume trantoriano em relação a pessoas doentes. A verdade é que ele já se sentia perfeitamente restabelecido, mas os outros talvez não o percebessem.

            Foi somente depois que ele engoliu o último bocado e tomou o último gole de leite (devia estar ficando acostumado, porque o sabor já lhe parecia perfeitamente normal) que Hummin quebrou o silêncio.

            - Como se sente, Seldon? - disse ele.

            - Muito bem. O bastante para poder ficar de pé e voltar à ativa.

            - É bom ouvir isso - disse Hummin, secamente. - Dors Venabili não devia ter permitido que tudo isto sucedesse.

            Seldon franziu a testa.

            - Nada disso. Eu insisti em ir à Superfície.

            - Sei disso, mas ela devia tê-lo acompanhado, em quaisquer circunstâncias.

            - Eu disse-lhe que não precisava de sua companhia. Dors interveio:

            - Não foi assim, Hari. Não venha com mentiras cavalheirescas para me proteger.

            Seldon prosseguiu, zangado:

            - Mas não esqueça que Dors subiu à Superfície à minha procura, enfrentando fortes resistências, e sem dúvida alguma salvou minha vida. Isto não é mais do que a verdade. Já levou isto em conta, Hummin?

            Dors, claramente embaraçada, o interrompeu outra vez.

            - Por favor, Hari. Chetter Hummin tem toda razão em dizer que eu devia tê-lo impedido de ir à Superfície, ou pelo menos devia tê-lo acompanhado. Quanto ao que fiz depois, ele já me elogiou por isso.

            - Em todo caso - disse Hummin -, tudo isso já passou, e podemos deixá-lo de lado. Vamos falar sobre o que aconteceu na Superfície, Seldon.

            Seldon olhou pelo aposento, preocupado. - Podemos falar com segurança aqui? Hummin sorriu de leve.

            - Dors instalou um Campo de Distorção em torno deste quarto. Podemos ter uma razoável certeza de que nenhum agente imperial na Universidade (supondo que exista algum) terá meios de penetrá-lo. Você é um sujeito desconfiado, Seldon.

            - Não é da minha natureza - disse Seldon. - Fiquei assim depois daquela nossa conversa no parque. Você é um sujeito persuasivo, Hummin. Quando você terminou toda aquela sua história, eu estava avistando o rosto de Eto Demerzel em cada sombra.

            - Não é impossível que ele esteja lá.

            - Bem, se estivesse eu não poderia reconhecê-lo. Como é ele?

            - Isso não tem importância nenhuma. Você nunca vai vê-lo, a menos que ele o queira... e a essa altura tudo estará perdido. É isso que precisamos evitar.

            Vamos falar sobre o íon-jato que você avistou.

            - Como já lhe disse, você me deixou amedrontado em relação a Demerzel. No momento em que o íon-jato surgiu, presumi que ele estaria à minha procura, que eu tinha feito papel de idiota ao deixar os limites da Universidade de Streeling e subir à Superfície, e que eu tinha sido atraído até lá com o propósito específico de que alguém me capturasse sem maiores problemas.

            Dors interveio:

            - Por outro lado, Leggen nos disse que...

            - Leggen esteve aqui? - perguntou Seldon, de imediato. - A noite passada?

            - Sim. Não se lembra?

            - Vagamente. Eu estava morto de cansaço. Está tudo confuso em minha memória.

            - Leggen nos disse que o íon-jato era apenas uma nave meteorológica de outra estação. Uma nave perfeitamente normal e inofensiva.

            - O quê? - Seldon fez uma expressão de incredulidade. - Não me convence.

            Hummin falou:

            - A questão agora é saber por que não lhe convence. Alguma coisa no íon-jato o fez pensar que podia ser perigoso? Refiro-me a algo específico, e não a algum tipo de suspeita que eu tenha plantado em seu espírito.

            Seldon pensou um pouco, mordendo o lábio inferior, e depois respondeu:

            - O comportamento dele. Ele parecia enfiar sua parte dianteira entre o lençol de nuvens, como se estivesse espiando, procurando algo lá embaixo; depois aparecia noutro ponto e repetia tudo, depois noutro, e assim por diante. Era como se estivesse esquadrinhando metodicamente a Superfície, seção por seção, e vindo cada vez mais sobre mim.

            - Talvez você esteja personificando as coisas - sugeriu Hummin. - Talvez no momento você estivesse encarando o íon-jato como se este fosse um animal feroz ao seu encalço, mas é claro que não era nada disso. Era apenas um íon- jato, e se era de fato uma na e meteoro lógica , então seu comportamento era inteiramente normal e inofensivo.

            - Não me pareceu assim.

            - Suponho que não, mas ainda não podemos estar certos de nada. Sua idéia de que estava em perigo era apenas suposição. A opinião de Leggen de que era uma nave meteorológica também não passa disso.

            Seldon retrucou, com teimosia:

            - Não posso acreditar que tudo foi apenas um incidente casual.

            - Vamos considerar a pior das hipóteses, então - disse Hummin. - Suponhamos que a nave estava à sua procura. Como essas pessoas poderiam saber que você estava lá, para ser capturado?

            Foi a vez de Dors intervir:

            - Perguntei ao Dr. Leggen se, em seus comunicados anteriores à missão, ele tinha incluído a informação de que Hari estaria fazendo parte do grupo. Em circunstâncias normais, não havia razão para que o fizesse, e ele negou tê-lo feito, demonstrando uma surpresa que me pareceu real. Acredito nele.

            Hummin disse, pensativo:

            - Não esteja tão pronta a confiar nele. Ele negaria isso de qualquer forma, não é mesmo? O que você deve perguntar a si mesma é o motivo que o fez aceitar a presença de Seldon na equipe. Sabemos que de início ele fez objeções, mas logo em seguida cedeu, sem muita resistência. E isso me parece algo em desacordo com seu temperamento.

            Dors ergueu as sobrancelhas:

            - Isso reforça a possibilidade de que ele tenha arquitetado tudo.

            - Talvez tenha aceito a presença de Hari apenas para colocá-lo numa posição onde seria capturado mais facilmente. Talvez tenha recebido ordens expressas para tanto. Podemos imaginar também que tenha induzido a estagiária, Clowzia, a atrair a atenção de Hari e conduzi-lo para longe do grupo, deixando-o isolado.

            Isso explicaria a naturalidade com que encarou a ausência de Hari na hora de retomarem ao elevador. Insistiu em que Hari já havia voltado, e ele próprio já havia preparado terreno para essa versão, tendo-lhe mo trado como o elevador funcionava. Isso pode explicar também sua relutância em subir de novo à Superfície: ele não queria perder seu tempo procurando alguém que, no seu entender, já estaria muito longe dali.

            Hummin, que tinha escutado tudo com muita atenção, falou: - Sua teoria contra Leggen está bem articulada, mas não devemos aceitá-la com tanta facilidade. Lembre-se de que ele acabou por acompanhá-la à superfície, no fim de tudo.

            - Porque o sismólogo-chefe testemunhou que havia detectado passos lá em cima.

            - O que quero saber é: Leggen demonstrou alguma surpresa quando Seldon foi encontrado? Quero dizer, além da surpresa de encontrar alguém sujeito a um extremo risco por causa de uma negligência de sua parte? Terá agido como se não esperasse que Seldon estivesse ali? Teve alguma reação como se pensasse:

            "mas o que é isso, então não pegaram o sujeito?"...

            Dors concentrou-se, e respondeu pouco depois:

            - Ele estava claramente chocado com a presença de Hari ali. Mas não posso dizer que tenha visto em sua reação algo mais além de um justificado horror diante do fato.

            - Tem razão. Eu já esperava isto.

            Naquele instante, Seldon, que tinha acompanhado atentamente o diálogo, olhando de um para o outro, falou: - Não acho que tenha sido Leggen. Hummin voltou sua atenção para Seldon. - Por que diz isso?

            - Como você mesmo referiu, ele era claramente contrário à minha ida. Foi preciso um dia inteiro de conversas, e acho que acabou concordando unicamente porque ficou com a impressão de que eu era um matemático muito competente, e que podia auxiliá-lo em suas teorias meteorológicas. Eu estava ansioso para ir à Superfície, e se ele tivesse recebido ordens para me levar até lá, não havia nenhum motivo para ser tão relutante a esse respeito.

            - Acha razoável presumir que ele se interessou apenas pelo seu talento matemático? Vocês discutiram matemática? Leggen tentou lhe explicar alguma teoria?

            - Não - disse Seldon. - Falou vagamente que trataríamos disso mais tarde. O problema é que ele estava totalmente envolvido com seus instrumentos. Fiquei sabendo que ele tinha previsto sol para aquela tarde, e que o sol não tinha aparecido; ele supôs então que os instrumentos estivessem com defeito, mas ficou comprovado não ser esse o caso. Isso o deixou frustrado. Penso que esse contratempo inesperado o deixou de mau humor, e desviou sua atenção de mim.

            Quanto a Clowzia, desconfiei dela por alguns minutos, mas agora, repassando os fatos, não creio que tenha deliberadamente me afastado da companhia dos demais. A iniciativa foi minha. Eu estava curioso a respeito da vegetação da Superfície, e fui eu que a conduzi naquela direção, e não o contrário. E em vez de Leggen colaborar com isso, o que ele fez foi chamá-la de volta, quando eu ainda estava à vista deles: quando andei até mais longe e os perdi de vista foi inteiramente por minha própria iniciativa.

            - E, no entanto - disse Hummin, que parecia disposto a erguer objeções contra tudo que fosse dito -, se aquela nave estava procurando por você, quem estava a bordo devia saber que você se encontrava por ali. Quem poderia tê-los informado disso, se não Leggen?

            - O homem de quem suspeito - disse Seldon - é um jovem Psicólogo da Universidade. Chama-se Lisung Randa.

            - Randa? - disse Dors. - Não posso acreditar. Eu o conheço. Ele não poderia trabalhar para o imperador, é um sujeito anti-imperialista até a medula.

            - Pode estar fingindo - disse Seldon. - Aliás, ele teria que ser abertamente anti-imperialista, e ao extremo, se quisesse encobrir o fato de ser agente do Império.

            - Pois é justamente isso o que ele não faz - tornou Dors.

            - Não é extremado nem violento em coisa alguma. É um homem calmo, gentil, e seus pontos de vista são sempre expressos de modo delicado, quase tímido.

            Estou convencida de que as ideias dele são genuínas.

            - E mesmo assim, Dors - disse Seldon, com energia -, foi ele a primeira pessoa que me falou do projeto meteorológico, foi ele que me sugeriu ir à Superfície, foi ele quem persuadiu Leggen a aceitar-me na missão, chegando até a exagerar meus talentos matemáticos, no esforço de convencê-lo. Por que estaria tão ansioso para que eu fosse lá? Por que se esforçou tanto?

            - Por sua causa, talvez. Ele estava interessado em você, Hari, e deve ter achado que um pouco de meteorologia lhe seria útil em sua psico-história. Não acha?

            - E ainda há outro ponto a considerar - disse Hummin, com suavidade. - Houve um considerável lapso de tempo entre o momento em que Randa lhe falou sobre o projeto meteorológico e o momento em que vocês foram de fato até a Superfície. Se Randa está inocente de qualquer tipo de conspiração, não teria nenhum motivo para guardar segredo sobre o que vocês falaram. E se ele é um indivíduo extrovertido, gregário...

            - É, sim - disse Dors.

            - ... então é mais do que provável que ele tenha comentado sobre isso com um bom número de pessoas. Nesse caso, ficará quase impossível descobrir quem foi o informante. E há mais outra coisa. Suponhamos que Randa seja de fato anti-imperialista Isso não implica que não seja um agente; a questão seria: um agente de quem? Para que grupo ele trabalha?

            Seldon estava perplexo.

            - E para quem se poderia trabalhar, se não para o próprio Império? Para quem, se não para Demerzel?

            Hummin ergueu a mão.

            - Você ainda está longe ele entender a complexidade da política trantoriana, Seldon. -.Voltou-se para Dors. - Diga-me uma coisa: quais foram mesmo os quatro setores que Leggen citou, como sendo as prováveis estações de origem da nave meteoro lógica?

            - Hestelonia, Wye, Ziggoreth e Norte Damiano.

            - Você não influenciou esta resposta, de nenhuma maneira?

            Não sugeriu nenhum desses nomes como a origem da nave?

           - Positivamente não. Apenas perguntei se ele poderia especular sobre as mais prováveis estações.

            - E quanto a você? - Hummin virou-se para Seldon. - Terá visto alguma marca, alguma insígnia do lado de fora do íon-jato?

            Seldon teve o impulso de responder com rudeza que a nave mal podia ser vista por entre as nuvens, que emergia apenas a breves intervalos, que ele próprio não estava procurando por marcas, mas apenas tentando escapar - porém conteve-se. Sem dúvida, Hummin já sabia daquilo tudo. Respondeu apenas:

            - Creio que não.

            - Se a nave estava numa missão de sequestro - disse Dors -, então é bem provável que sua verdadeira insígnia tenha sido alterada.

            - É a suposição mais lógica - concordou Hummin - e é possível que isso tenha sucedido, mas nesta Galáxia nem sempre é a lógica que comanda as coisas.

            Entretanto, já que Seldon não reparou em nenhum detalhe da nave, tudo o que podemos fazer é especular. O que está na minha mente é: Wye.

            - Por quê? - ecoou Seldon*. - Imagino que queriam me sequestrar, fossem eles quem fossem, pelos meus conhecimentos de psico-história.

[*Trocadilho baseado na semelhança de pronúncia entre Wye e Why ("por que") (NT) ].

            - Não, não. - Hummin ergueu o dedo, como a chamar a atenção de um estudante jovem. - O que eu disse foi W-y-e. É o nome de um setor de Trantor, um setor muito especial. Tem sido governado por uma dinastia de prefeitos há mais ou menos uns três mil anos. É uma linha contínua, uma dinastia familiar ininterrupta. Houve uma época, há uns quinhentos anos atrás, em que dois imperadores e uma imperatriz da Casa de Wye sentaram no trono imperial. Foi um período relativamente curto, e nenhum dos monarcas de Wye se destacou ou foi particularmente bem-sucedido; mas os prefeitos de Wye nunca esquecem seu passado imperial.

            - Eles não têm sido abertamente desleais para com as casas reais que os sucederam, mas também não demonstraram muito entusiasmo em defendê-las.

            Durante os períodos ocasionais de guerra civil eles sempre mantiveram uma espécie de neutralidade, assumindo atitudes que parecem ter sido planejadas no sentido de prolongar a guerra e tornar necessário um apelo à Casa de Wye como uma solução conciliatória. Nunca deu certo: mas eles nunca deixaram de tentar.

            - O atual prefeito de Wye é particularmente hábil. Já está muito idoso, mas sua ambição não arrefeceu. Se acontecer qualquer coisa a Cleon, mesmo morte natural, o prefeito tem alguma chance de aspirar à sua sucessão, uma vez que o filho do imperador ainda é uma criança. A população da Galáxia sempre se inclin- na um pouco em favor de um pretendente ao trono, se este já tem um imperador entres seus antepassados.

            - Desse modo, se o prefeito de Wye já ouviu falar de você, talvez ache que você poderia ser-lhe útil como um profeta em favor de sua casa. Não faltarão motivos ao prefeito para tramar um fim rápido para Cleon, e usar você para profetizar a subida dele ao trono e o advento de uma era de paz e prosperidade que durará milênios. É evidente que, uma vez o prefeito instalado no trono, você não lhe será mais útil, e terá o mesmo destino de Cleon... a sepultura.

            Seguiu-se um silêncio carregado de presságios, que foi quebrado pela voz de Seldon.

            - Mas não sabemos se é esse tal Wye que está tentando me sequestrar - De fato. Ou que alguma pessoa esteja, no momento. Pode ser que o íon-jato fosse apenas uma nave de pesquisa meteorológica, como Leggen sugeriu. No entanto, à medida que se espalhem comentários sobre as potencial idades da psico-história (e isso certamente acontecerá) haverá um número crescente de poderosos e semi-poderosos em Trantor (ou quem sabe até em outros mundos) que poderão querer fazer uso de seus serviços.

            - E o que devemos fazer? - perguntou Dors.

            - Está aí uma boa pergunta. - Hummin ruminou a questão por algum tempo, e então continuou. - Talvez tenha sido um erro trazê-lo para cá. É muito óbvio que um professor escolha para se esconder o interior de uma Universidade. Streeling é apenas uma entre muitas, mas é uma das maiores e que desfrutam de mais liberdade, e já posso ver uma porção de tentáculos muito longos e muito finos entrando aqui, deslizando, tateando às cegas, vindo na direção deste quarto...

            Acho que Seldon precisa ser removido daqui o mais rápido possível. De preferência, hoje. Mas...

            - Mas? - inquiriu Seldon.

            - Não sei para onde.

            - Acione um dicionário geográfico no computador - sugeriu Seldon - e escolha um lugar, ao acaso.

            - Nunca faria isso - retrucou Hummin. - Haveria a probabilidade de encontrarmos um lugar menos seguro do que a média, tanto quanto a de encontrarmos um mais seguro. Não, não: isso é algo que deve ser decidido racionalmente. Seja lá como for.

 

            Os três permaneceram trancados nos aposentos de Seldon até depois do almoço. Durante esse período, Hari e Dors trocaram algumas frases casuais sobre este ou aquele assunto, mas Hummin manteve-se num silêncio quase absoluto: permaneceu muito empertigado em sua cadeira, quase não tocou na comida, e o seu rosto tinha uma expressão grave que o tornava mais velho do que era na realidade; mantinha um ar ausente e concentrado.

            Seldon presumiu que ele estaria repassando mentalmente a imensa geografia de Trantor, em busca de um lugar que pudesse lhe servir de esconderijo. Uma tarefa nada fácil, por certo.

            Helicon, o planeta natal de Seldon, era talvez um ou dois por cento maior do que Trantor, e sua área oceânica era menor. A superfície continental de Helicon era talvez 10% mais vasta do que a de Trantor: mas Helicon tinha uma população esparsa, e seus continentes eram apenas pontilhados de núcleos urbanos, enquanto que Trantor era todo uma única megalópole. Helicon estava dividido em vinte setores administrativos; Trantor tinha mais de oitocentos, cada um deles cheio de complexas subdivisões.

            Por fim Seldon falou, quase em desespero:

            - Talvez a melhor solução, Hummin, fosse escolher, entre esses nobres possivelmente interessados em meus talentos, qual o mais bem-intencionado, e me entregar a ele, para que ele me defendesse dos demais.

            Hummin o fitou com imperturbável seriedade:

            - Não é necessário. Eu conheço o mais bem-intencionado desses pretendentes, e você já está nas mãos dele.

            Seldon sorriu.

            - Você se coloca no mesmo nível do prefeito de Wye e do imperador da Galáxia?

            - Em termos de posição política, não. Em termos de interesses nos seus talentos, sim. A única diferença é que eles querem pôr as mãos em você para aumentar o poder e a riqueza de que já dispõem, enquanto que eu não tenho nenhuma outra ambição senão o bem da Galáxia.

            - Desconfio - disse Seldon, com secura - de que qualquer um desses seus rivais diria a mesma coisa: que está interessado apenas no bem da Galáxia.

            - Estou certo disso - falou Hummin. - Mas até agora o único deles com quem você teve contato pessoal foi o imperador, cujo único interesse era que você fizesse previsões fictícias para garantir a estabilidade de sua dinastia. Eu não lhe pedi nada desse tipo. Pedi-lhe apenas que aperfeiçoasse sua psico-história de modo a poder fazer predições matematicamente válidas, ainda que de natureza meramente estatística.

            - É verdade - disse Seldon. E completou, com um meio-sorriso: - Pelo menos até agora.

            - Já que tocamos no assunto, quero fazer uma pergunta. Como está indo o seu trabalho? Algum progresso?

            Por alguns instantes, Seldon hesitou entre soltar uma gargalhada ou ceder a um acesso de fúria. Depois de um rápido intervalo, reprimiu esses dois impulsos e conseguiu falar com tranquilidade: - Progresso?! Em menos de dois meses?

            Hummin, isto é algo que pode muito bem exigir minha vida inteira, e a vida inteira de doze gerações depois de mim, e ainda assim redundar em fracasso.

            - Não estou me referindo a nada tão conclusivo quanto uma solução, ou mesmo o esboço de uma solução. Acontece que você me repetiu não sei quantas vezes que a utilização da psico-historia seria possível, mas jamais seria praticável. Tudo o que estou perguntando é se existe, agora, alguma esperança de reverter essa situação.

            - Com franqueza, não.

            - Desculpem-me - disse Dors. - Não sou conhecedora de matemática, e espero não estar fazendo nenhuma pergunta idiota. Mas como pode alguma coisa ser ao mesmo tempo possível e impraticável? Você já me disse que, teoricamente, alguém poderia encontrar e cumprimentar pessoalmente todos os habitantes do Império, mas que isso não poderia ser realizado na prática porque ninguém viveria durante o tempo necessário para fazê-lo. Como pode, no entanto, estar tão certo de que a psico-história é algo semelhante?

            Seldon olhou para Dors com alguma incredulidade. - Você quer que eu explique isso?

            - Sim - respondeu ela, e fez um gesto afirmativo com a cabeça, com tanto vigor que seus cabelos cacheados balançaram. - Para falar a verdade, eu também gostaria - disse Hummin.

            - Sem matemática alguma? - perguntou Seldon, ainda com um esboço de sorriso nos lábios.

            - Por favor - concordou Hummin.

            - Bem... - Seldon mergulhou em seus próprios pensamentos, tentando encontrar o método ideal de apresentação das suas ideias Então começou. - Para entender qualquer aspecto do Universo, convém simplificá-lo o máximo possível, deixando incluídas nele apenas aquelas características e propriedades que podem contribuir para esse entendimento. Se queremos analisar a queda de um corpo, por exemplo, não temos que nos preocupar se ele é velho ou novo, se é vermelho ou verde, se tem cheiro ou não. Eliminamos esses detalhes, e assim não temos que lidar com fatores desnecessariamente complexos. Chamamos a essas simplificações de modelos ou simulações, e podemos manipulá-los seja através de uma representação numa tela de computador ou por meio de uma fórmula matemática. Se considerarmos, por exemplo, a teoria primitiva da gravitação não-relativista...

            - Você prometeu que não usaria matemática - interrompeu Dors no mesmo instante. - Não tente recorrer a ela, mesmo chamando-a de "primitiva".

            - Não, não. Uso o termo "primitiva" apenas porque essa teoria é conhecida há muitíssimo tempo, até onde vão os nossos registros; sua descoberta está perdida nas brumas do passado, tanto quanto a descoberta do fogo ou da roda. Em todo caso, as equações dessa teoria abrangem a descrição dos movimentos de um sistema planetário, de uma estrela dupla, das marés, e de várias outras coisas.

            Usando essas equações, é possível montar uma simulação pictórica de um planeta orbitando em torno de uma estrela, ou de duas estrelas girando uma em redor da outra, numa tela bidimensional... ou mesmo montar sistemas mais complexos numa holografia tridimensional. Essas simulações simplificadas tornam mais fácil captar a essência desses fenômenos, muito mais do que se tivéssemos de estudar o fenômeno propriamente dito. De fato, sem as equações gravitacionais, nosso conhecimento dos movimentos planetários e da mecânica celeste em geral seria sem dúvida muito deficiente.

            - No entanto, à medida que procuramos saber mais e mais coisas sobre o fenômeno, ou à medida que ele vai se tornando mais e mais complexo, precisamos de equações cada vez mais complexas, programações cada vez mais detalhadas, e isso nos leva a simulações computadorizadas cada vez mais difíceis de assimilar.

            - Não seria possível criar a simulação de uma simulação? - perguntou Hummin.

            - Voltaríamos a avançar um degrau na direção do mais simples.

            - Nesse caso você teria que eliminar algumas características do fenômeno que teriam de estar incluídas; sua simulação seria inútil. A chamada MSP, ou "Mínima Simulação Possível" torna-se complexa mais rapidamente do que o objeto que está sendo simulado, e num certo ponto a simulação e o fenômeno acabam por se confundir, por se equivaler. Desse modo é que foi estabelecido, há milhares de anos atrás, que o Universo como um todo, em sua imensa complexidade, não pode ser representado por nenhuma simulação mais simples do que ele próprio.

            - Em outras palavras, não se pode traçar uma representação do Universo como um todo sem estudá-lo em sua totalidade. Também já foi demonstrado que não se pode criar simulações para uma pequena parte do Universo, e depois para outra, e para outra, e assim por diante, com o objetivo de reunir todas elas e formar uma representação total do Universo: para isso, seria necessário um número infinito de tais simulações parciais. Portanto, seria necessário um tempo infinito para entender a totalidade do Universo, e isso equivale a dizer que é impossível reunir as informações necessárias a essa tarefa.

            Até agora estou entendendo - disse Dors, um tanto surpresa.

            Então muito bem. Ora, nós sabemos que certas coisas relativamente simples são fáceis de simular, e à medida que essas coisas se tornam mais complexas a simulação vão ficando mais trabalhosa, até tornar-se finalmente impossível. Mas, em que nível de complexidade a simulação se torna impossível? Muito bem: o que demonstrei, usando um artifício matemático inventado no século passado (e difícil de usar mesmo quando se empregar um computador de grande tamanho e velocidade) foi que a nossa Galáxia fica muito aquém desse ponto. Ela pode ser representada por uma simulação mais simples do que ela própria. E fui mais além: demonstrei que isso implicaria a possibilidade de ser predizerem eventos futuros, ainda que estatisticamente... ou seja, estabelecendo o grau de probabilidade de um conjunto específico de eventos, em vez de anunciar taxativamente que um desses eventos irá acontecer.

            - Nesse caso - disse Hummin -, do momento em que você pode criar uma simulação para a sociedade galáctica, é apenas uma questão de pôr mãos à obra. O que o impede de fazê-lo?

            - Tudo o que provei foi que para criar essa simulação não será preciso um tempo infinito. Mas se o tempo finito necessário for, digamos, um bilhão de anos, então a tarefa será impraticável. Em termos humanos, isso seria o mesmo que um tempo infinito.

            - Seria esse, o tempo necessário? Um bilhão de anos?

            - Não consegui estabelecer isso com precisão, mas tenho fortes suspeitas de que seria algo em torno desse número.

            - Mas não tem certeza ainda. Estou tentando descobrir. Sem sucesso?

            - Sem sucesso.

            - A Biblioteca da Universidade não lhe tem servido para nada?

            - Hummin lançou um olhar na direção de Dors ao fazer esta pergunta.

            Seldon sacudiu negativamente a cabeça. - De modo algum - disse.

            - Dors não pode ajudá-lo?

            Dors suspirou. - Não entendo nada desse assunto, Chetter. Tudo o que posso fazer é mostrar a Hari o modo mais fácil de procurar uma informação. Se ele procura e não acha, não posso fazer mais nada.

            Hummin pôs-se de pé.

            - Nesse caso, a permanência de Seldon aqui na Universidade não tem mais razão de ser. Tenho que descobrir um lugar onde colocá-lo...

            Seldon estendeu o braço e tocou no braço de Hummin.

            - Espere aí - disse. - Tenho uma idéia, apesar de tudo. Hummin estreitou os olhos, numa expressão que tanto podia significar surpresa quanto desconfiança.

            - Ah, tem uma idéia? E essa idéia surgiu quando? Agora mesmo?

            - Não, não. É algo que está dando voltas em minha cabeça desde alguns dias antes da minha ida à Superfície. Tudo aquilo que aconteceu acabou fazendo com que eu me esquecesse, mas agora que falamos sobre a biblioteca voltei a me lembrar.

            Hummin sentou-se.

            - Então explique essa sua idéia, desde que não seja algo totalmente matemático.

            - Não, não há nada de matemático nisto. Quando estava pesquisando história na biblioteca ocorreu-me que a sociedade galáctica era muito menos complicada antigamente. Há doze mil anos atrás, quando o Império estava em processo de estruturação, a Galáxia tinha apenas uns dez milhões de mundos habitados. Há vinte mil anos atrás, os reinos pré-imperiais abrangiam, todos juntos, apenas dez mil planetas. Indo ainda mais longe no passado, quem pode saber até que ponto a sociedade iria ficar reduzida? Talvez a um único planeta, como as lendas que você mencionou certa vez, Hummin.

            - Então você acha que seria capaz de desenvolver a psico-história se estivesse lidando com uma sociedade galáctica bem mais simples do que a atual.

            - Parece-me que sim.

            - Então - aduziu Dors, possuída por um súbito entusiasmo -, digamos que você formule a psico-história em relação a uma dessas sociedades mais simples do passado; digamos que você estude a situação pré-imperial e a partir dela faça predições sobre o que iria acontecer mil anos após a formação do Império...

            poderíamos então examinar o que teria acontecido nessa época, e ver até que ponto suas predições estavam corretas.

            Hummin falou com frieza:

            - Isso seria um teste muito pouco confiável, se levarmos em conta que já sabemos por antecipação a situação por volta do ano 1.000 da Era Galáctica.

            Esse conhecimento antecipado iria influenciá-lo inconscientemente: você seria levado a escolher para suas equações valores tais que lhe permitissem chegar aos resultados já sabidos.

            - Não acho - discordou Dors. - Na verdade não sabemos como era a situação da Galáxia no ano 1.000 E.G.; teríamos que pesquisar para sabê-lo. Não se esqueça de que foi há onze milênios atrás.

            O rosto de Seldon exibiu uma expressão de desânimo.

            - O que significa isto, que não sabemos a situação no ano 1.000 E.G.? Havia computadores naquele tempo, não?

            - Claro que sim.

            - E unidades de armazenamento de memória, e registros audiovisuais?

            Imagino que tenhamos do ano 1.000 E.G. material comparável ao que temos do corrente ano de 12.020 E.G.

            - Em teoria, sim, mas na prática... Veja bem, Hari, é como o que você vive nos dizendo. É possível ter registros completos sobre 1.000 E.G., mas do ponto de vista prático eles não existem.

            - O que eu digo se refere a demonstrações matemáticas. Não vejo como pode se aplicar a registros históricos.

            - Registros não duram para sempre - retrucou Dors, em atitude defensiva. - Bancos de memória podem ser destruídos ou danificados pelas guerras ou pela mera ação do tempo. Cada bit de memória, cada gravação que passa muito tempo sem ser consultada pode ir se deteriorando em ruído. Costuma-se dizer que pelo menos um terço da Biblioteca Imperial consta de material ininteligível, mas a tradição impede que seja destruído. Outras bibliotecas são menos conservadoras. Na Universidade de Streeling, a cada dez anos nós eliminamos material inútil.

            - É claro que registros consultados com frequência, e dos quais há cópias em bibliotecas de vários planetas, oficiais ou particulares, podem conservar-se acessíveis por milhares de anos; assim, os fatos essenciais da história galáctica permanecem conhecidos, mesmo que tenham se dado nos tempos pré-imperiais.

            Mas o fato é que quanto mais se recua no tempo mais precária é a conservação desse material.

            - Não posso acreditar - disse Seldon. - Sempre achei que, toda vez que um registro estivesse ameaçado de deterioração, novas cópias seriam feitas. Como é possível deixar que todo esse conhecimento desapareça?

            - Um registro que ninguém jamais consulta é um registro inútil - disse Dors. - Pode imaginar todo o tempo, todo o esforço e a energia que seriam necessários para ficarmos continuamente restaurando gravações que não interessam a ninguém? E esse desperdício iria crescer cada vez mais com a passagem do tempo.

            - Mas seria preciso levar em conta que alguém, algum dia, poderia necessitar desses dados tão negligenciados hoje.

            - Uma informação específica pode ser consultada apenas uma vez em mil anos. Preservá-la todo esse tempo apenas com esse objetivo seria improdutivo.

            Nas ciências exatas também sucede assim. Você ainda há pouco se referiu às equações gravitacionais primitivas, e disse que eram primitivas porque sua descoberta não pode ser localizada no passado. Por que isso acontece? Vocês, matemáticos e cientistas, não têm dados, informações, nada relativo a esse passado remoto quando as tais equações foram inventadas?

            Seldon deu um grunhido e não tentou responder. Disse apenas:

            - Hummin, minha idéia, então, fica por aí. Se analisarmos o passado e lidarmos com sociedades menores, há uma boa possibilidade de desenvolver a psico-história. Mas o conhecimento disponível decresce muito mais rapidamente do que o tamanho das sociedades, de modo que esse aspecto negativo se sobrepõe às vantagens, e a psico-história torna-se mais uma vez impraticável.

            - Oh, claro - disse Dors. - Basta ver o Setor Mycogen. Hummin ergueu o rosto no mesmo instante.

            - Exatamente! - exclamou. - Esse é o lugar ideal para esconder Seldon. Como não tive logo essa idéia?!

            - Setor Mycogen - repetiu Seldon, olhando de um para o outro. - E onde fica esse tal Mycogen?

            - Hari, por favor, mais tarde falaremos sobre isso. Agora temos que fazer nossos preparativos. Você viaja hoje à noite.

 

            Dors tinha insistido para que Seldon dormisse um pouco. Estariam partindo no período intermediário entre o apagar e o acender das luzes do "céu", no meio da noite artificial de Trantor, enquanto o resto da Universidade estaria adormecida.

            Dors insistiu para que ele repousasse o mais possível.

            - E você - perguntou ele. - Vai dormir no chão outra vez? Ela encolheu os ombros.

            - A cama só tem espaço para uma pessoa, e se tentássemos nos acomodar os dois nenhum de nós conseguiria dormir.

            Ele lançou para ela um olhar momentaneamente carregado de desejo; depois disse:

            - Então é minha vez de dormir no chão.

            - Não. Afinal não fui eu que estive a ponto de entrar em coma, dormindo sob a geada.

            O resultado foi que nenhum dos dois dormiu. As luzes do quarto foram apagadas, e o perpétuo zumbido de Trantor era apenas um rumor surdo ao fundo do pesado silêncio que cobria a Universidade" mas Seldon insistiu em continuar conversando.

            - Tenho lhe dado muito trabalho, Dors - disse. - Tenho até mesmo atrapalhado seu trabalho. Ainda assim, lamento que tenhamos de nos separar.

            - Não vamos nos separar - respondeu ela. - Vou com você.

            Hummin vai me conseguir uma dispensa.

            - Não posso lhe pedir isso - disse Seldon, espantado.

            - E não está. Foi Hummin que me pediu. Tenho que tomar conta de você:

            afinal de contas, falhei no episódio de sua ida à Superfície, e preciso me reabilitar.

            - Já lhe disse para não se sentir culpada daquilo, mas não posso negar que ficarei mais tranquilo tendo você comigo. Se ao menos eu pudesse ter certeza de que não estou atrapalhando sua vida... - Não, Hari, não está - disse ela suavemente. - E por favor, durma.

            Seldon ficou em silêncio durante algum tempo e depois perguntou:

            - Tem certeza de que Hummin pode resolver tudo satisfatoriamente, Dors?

            - Ele é um homem notável - disse ela. - É muito influente aqui na Universidade, e em toda parte, pelo que posso ver. Se ele me diz que pode me conseguir uma licença permanente de minhas funções, é porque pode, de fato. É um homem muito persuasivo.

            - Sei disso - concordou Seldon. - Às vezes fico imaginando o que será que ele quer de mim.

            - Exatamente o que ele diz. É um homem idealista, sonhador, e que acredita muito fortemente nas próprias ideias - Você fala como se o conhecesse muito bem. - Oh, conheço, sim.

            - Intimamente?

            Dors fez um ruído esquisito com a garganta.

            - Não sei muito bem o que você está insinuando, Hari, mas, supondo a interpretação mais insolente... a resposta é não, eu não o conheço intimamente.

            Aliás, será que é da sua conta?

            - Desculpe - disse Seldon. - Não tenho a intenção, nem por um descuido, de invadir a...

            - A propriedade alheia? Isso é um insulto ainda pior. É melhor você ir dormir.

            - Desculpe-me novamente, Dors, mas não consigo dormir. Vamos pelo menos mudar de assunto. Você ainda não me explicou o que é esse Setor Mycogen.

            Qual a vantagem para mim de ficar lá? Como é o local?

            - É um pequeno setor, com uma população de uns dois milhões de pessoas, se me lembro bem. O detalhe a seu respeito é que os mycogenianos se apegam a um conjunto muito rígido de tradições sobre a história antiga, e fala-se que dispõem de registros muito remotos, que não estão disponíveis em nenhuma outra parte. Talvez eles lhe sejam mais úteis para estudar os tempos pré- imperiais do que qualquer historiador ortodoxo. Todo aquele nosso diálogo sobre história antiga trouxe Mycogen à minha lembrança.

            - Você já teve acesso aos tais registros?

            - Não, nem conheço ninguém que os tenha visto.

            - Como pode ter certeza de que existem, então?

            - Não tenho certeza, para falar a verdade. Os não-mycogenianos, de um modo geral, os consideram uma horda de malucos, mas talvez esse julgamento seja injusto. Eles dizem que têm esses registros, e é possível que seja verdade. Em todo caso, lá estaremos bem escondidos. Os mycogenianos são um povo muito reservado. E agora, por favor, vá dormir.

            Seldon acabou conseguindo.

 

            Hari Seldon e Dors Venabili deixaram o território da Universidade quando o crono-visor marcava 03:00. Seldon deixou que Dors assumisse a liderança: ela conhecia Trantor melhor do que ele - tinha dois anos de vantagem. Ela e Hummin eram sem dúvida amigos muito próximos (até que ponto? A questão não parava de atormentá-lo) e cabia a ela executar suas instruções.

            Ambos estavam vestindo capas leves que os envolviam por completo e que culminavam em capuzes muito justos. Esse tipo de traje tinha sido uma moda passageira na Universidade (e entre a juventude intelectual, como um todo) há alguns anos atrás, e embora nessa época pudesse provocar risadas tinha a excelente vantagem de recobri-los por completo e torná-los irreconhecíveis, pelo menos a um olhar menos atento.

            Hummin tinha dito:

            - Existe uma possibilidade de que o episódio da Superfície tenha sido casual e não haja nenhum agente no seu encalço, Seldon, mas devemos estar preparados para o pior.

            - Então você não vem conosco? - perguntou Seldon, ansioso.

            - Eu bem que gostaria - respondeu Hummin -, mas não posso ficar afastado do meu trabalho por muito tempo, senão acabarei na mira deles. Compreende?

            Seldon suspirou. Claro que compreendia.

            Entraram num carro do expressway e procuraram um assento que ficasse o mais distante possível daqueles já ocupados por outros passageiros. (Seldon imaginou por quais motivos haveria gente no expressway às três da manhã - mas logo lhe ocorreu que isso era uma vantagem, pois fazia com que os dois passassem despercebidos.)

            Ele ficou a observar o interminável panorama que desfilava através da janela à medida que aquela interminável linha de vagões se deslocava ao longo do também interminável monotrilho magnético.

            O expressway ia deixando para trás blocos e mais blocos de conjuntos habitacionais, poucos dos quais atingiam certa altura, embora alguns, ele sabia, penetrassem profundamente no subsolo. Era evidente que, quando se dispõe de dezenas de milhões de quilômetros quadrados de área urbanizada, mesmo quarenta bilhões de pessoas não irão necessitar de edifícios muito altos ou muito próximos entre si. Seldon viu boa quantidade de áreas abertas, na maioria das quais parecia haver plantações, enquanto que outras serviam visivelmente como parques. E havia bom número de estruturas cuja finalidade ele não conseguia adivinhar. Fábricas? Prédios de escritórios? Quem podia saber? Um imenso cilindro deu-lhe a impressão de ser um reservatório de água. Afinal, Trantor tinha de ter um suprimento constante de água potável, e pareceu evidente a Seldon que eles de algum modo canalizavam a chuva da Superfície, que a seguir seria filtrada e tornada própria para consumo.

            Mas Seldon não teve muito tempo para contemplar a paisagem. Dors murmurou:

            - Temos que sair agora.

            Ficou de pé e seus dedos firmes se cerraram sobre o braço de Seldon.

            Ao saírem do expressway, ficaram durante alguns instantes parados na plataforma enquanto Dors examinava as placas de sinalização.

            A sinalização era discreta, e havia grande número de indicações.

            Seldon sentiu seu coração afundar quando constatou que a maior parte delas se compunha de pictografias e iniciais maiúsculas, códigos certamente compreensíveis para um nativo de Trantor, mas totalmente indecifráveis aos seus olhos.

            Por aqui - disse Dors. - Como sabe?

            - Olhe ali. Duas asas e uma seta.

            - Duas asas? Oh. - Ele tinha interpretado o signo como um W invertido, largo e achatado, mas agora podia admitir que se tratava da representação estilizada das asas de um pássaro. - Por que não usam palavras? - perguntou, mal- humorado.

            - Palavras variam de planeta para planeta - replicou Dors.

            - O que aqui em Trantor é um aerojato, em Cinna pode ser chamado de asa- móvel, e em outros planetas de mergulhador. As duas asas e a seta são o símbolo galáctico para um transporte aéreo, e esse símbolo é usado em toda parte. Não o empregam em Helicon?

            - Não muito. Helicon é um mundo culturalmente muito homogêneo, e temos a tendência de nos apegar aos nossos próprios modos de expressão, uma vez que nossos vizinhos nos deixam de certo modo encurralados.

            - Está vendo? Sua psico-história pode abordar este ponto. Você pode demonstrar que apesar da existência de diferentes dialetos o uso de símbolos padronizados em toda a Galáxia pode funcionar como um fator de unificação.

            - Não adianta de muita coisa - respondeu ele.

            Enquanto seguia Dors em meio a ruas pouco iluminadas, uma parte da mente de Seldon tentava imaginar qual seria a taxa de criminalidade em Trantor, e se aquela seria uma região de alta periculosidade. Depois complementou seu pensamento:

            - Pode-se ter um bilhão de regras, cada uma delas correspondendo a um fenômeno específico, e ainda assim não poder derivar disso nenhuma generalização. É por isso que se diz que alguns sistemas só podem ser interpretados por um modelo se este for tão complexo quanto o sistema propriamente dito. Dors, vamos pegar um aerojato?

            Ela entre parou e voltou-se para ele com uma expressão divertida no rosto.

            - Se estamos seguindo o sinal que indica aerojatos, para onde pensa que estamos indo? Para um campo de golfe? Não me diga que você tem medo de aerojatos, como a maior parte dos trantorianos.

            - Não, não. Em Helicon se voa com toda liberdade, e já viajei muitas vezes de aerojato. Apenas me lembrei de que quando Hummin me levou à Universidade ele comentou que estava evitando um vôo comercial porque isso deixaria um rastro muito fácil de ser seguido.

            - Sim, mas porque naquela ocasião eles sabiam onde você estava, e já o tinham sob vigilância. Agora, não é o caso: provavelmente não sabem onde estamos agora, e além disso estaremos usando um aeroporto secundário, e um aerojato particular.

            Quem vai pilotá-lo?

            Algum amigo de Hummin, imagino. - Será de confiança?

            - Se é um amigo de Hummin, com certeza sim.

           - Você evidentemente tem Hummin em alto conceito - disse Seldon com um laivo de ciúme na voz.

            - E com toda razão - respondeu Dors, sem modéstia. - Ele é o melhor.

            O ciúme de Seldon não diminuiu nem um pouco, e pouco depois Dors apontou:

            - Ali está o aerojato.

            Era uma nave pequena, com asas de formato esquisito. Parado junto dela estava um indivíduo baixinho, vestindo uma roupa de cores berrantes, tipicamente trantoriana - Nós somos psico - disse Dors.

            - Eu sou história - disse o piloto.

            Subiram para o aerojato e Seldon indagou: - De quem foi a idéia desta senha?

            - Hummin - disse Dors.

            Seldon soltou um grunhido.

            - Nunca imaginei que Hummin tivesse senso de humor. Um sujeito tão soturno Dors sorriu.

 

            MESTRE DO SOL 14 -... Um líder do Setor Mycogen da antiga Trantor... Como acontece com todos os líderes desse setor pouco desenvolvido, pouco se sabe a seu respeito. O lugar que ocupa na história deve-se inteiramente a seu relacionamento com Hari Seldon durante A Fuga...

            ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA

 

            Havia apenas duas poltronas por trás do compacto compartimento do piloto, e quando Seldon se instalou numa delas sentiu que seu corpo estava sendo automaticamente envolvido por uma malha que se ajustou às suas pernas, seu peito e sua cintura, enquanto que uma espécie de capacete descia do teto para recobrir sua testa e suas orelhas. Sentiu-se aprisionado, e quando virou com dificuldade o rosto para a esquerda viu que Dors estava igualmente envolta numa malha semelhante.

            O piloto instalou-se em seu assento e, enquanto checava os controles, falou:

            - Sou Endor Levanian, às suas ordens. Essa malha de proteção é necessária durante a decolagem, devido à forte aceleração a que amos ser submetidos.

            Assim que estivermos voando em espaço aberto vocês ficarão livres novamente.

            Não precisam me dizer seus nomes. não é da minha conta. - Virou-se em seu assento e sorriu para eles: seu rosto lembrava o de um gnomo, e o sorriso espalhava uma porção de rugas pela sua face. - Algum problema psicológico crianças?

            - Sou estrangeira, e estou acostumada a voar - disse Dors, descontraidamente.

            - Eu também - disse Seldon, tentando aparentar dignidade.

            - Muito bem, crianças. É evidente que isto aqui não é um aerojato convencional, e talvez vocês não estejam habituados a voos noturnos, mas espero que se divirtam.

            Seu corpo já estava também recoberto pela malha, mas Seldon observou que os braços ficavam livres.

            Um barulho surdo começou a se ouvir no interior da nave, crescendo em intensidade e adquirindo um tom cada vez mais agudo. Embora não chegasse a ser desagradável, Seldon instintivamente tentou esboçar o gesto de sacudir a cabeça para aliviar a pressão sobre os tímpanos, mas isso serviu apenas para apertar ainda mais a rede que o envolvia.

            O barulho aumentou e o aerojato saltou no espaço (Seldon não encontrou nenhuma outra expressão para descrever o fato), fazendo com que os seus corpos fossem violentamente comprimidos de encontro ao assento e ao encosto das poltronas.

            Através do para-brisa que ficava à frente do piloto, Seldon viu, com um estremecimento de pavor, a aproximação inexorável de um paredão monumental, no qual surgiu de repente uma abertura circular. Era semelhante àquela na qual o aerotáxi tinha penetrado no dia em que ele e Hummin tinham deixado o Setor Imperial, mas embora esta fosse larga o bastante para conter o corpo do aerojato, certamente não tinha espaço por onde pudessem passar as asas.

            Seldon virou a cabeça para a direita o melhor que pôde, ainda a tempo de ver a asa direita da nave dobrar-se sobre si própria e ser recolhida no interior de uma abertura na fuselagem.

            O aerojato mergulhou na abertura, sendo imediatamente capturado pelo campo eletromagnético que o impulsionou ao longo de um túnel brilhantemente iluminado. A aceleração era constante, e a intervalos regulares ouviam-se estalidos; Seldon imaginou que o ruído indicasse a passagem de cada um dos magnetos do túnel.

            Em menos de dez minutos o aerojato foi cuspido na atmosfera, penetrando como bala na súbita escuridão que o cercou por todos os lados.

            Ao se ver livre do campo eletromagnético a nave começou a desacelerar, e Seldon desta vez se sentiu impelido para a frente, seu corpo sendo pressionado com força de encontro à malha protetora, fazendo-o perder o fôlego por alguns instantes.

            Então a pressão cessou, e a malha foi automaticamente recolhida de volta aos escaninhos de onde saíra.

            - Como estão, crianças? - soou a voz jovial do piloto.

            - Não sei ao certo - respondeu Seldon. Virou-se para Dors.

            - Você está bem?

            - Com certeza - disse ela. - Acho que o Sr. Levanian estava fazendo um teste conosco para conferir se somos mesmo estrangeiros. Acertei, Sr. Levanian?

            - Algumas pessoas gostam de emoções fortes - disse Levanian. - Vocês não?

            - Dentro de certos limites - disse Dors. E Seldon completou:

            - Como qualquer pessoa de bom senso poderá lhe dizer.- E prosseguiu: - Isto tudo talvez lhe parecesse menos engraçado, senhor, se as asas de sua nave tivessem sido arrancadas à entrada do túnel.

            - Impossível. Já lhes falei que isto não é um aerojato convencional. As asas são controladas por computador. Elas mudam de comprimento, largura, curvatura e formato de modo a corresponder à velocidade do jato, à velocidade e direção do vento, à temperatura, e mais uma meia-dúzia de variáveis. Elas só podem sofrer algum tipo de dano se a própria nave for submetida a pressões que a despedacem por completo.

            Seldon sentiu alguma coisa chocar-se de encontro à janela do seu lado.

            - Está chovendo - falou.

            - Aqui chove o tempo todo - disse o piloto.

            Seldon espiou para fora. Em Helicon ou em qualquer outro planeta haveria luzes visíveis - a face luminosa da civilização, mas em Trantor estava tudo encoberto por uma camada de trevas.

            Não totalmente, no entanto: num determinado ponto ele avistou o piscar intermitente de uma luz-guia. Talvez os pontos mais elevados da Superfície fossem providos de faróis.

            Como de hábito, Dors percebeu a inquietação de Seldon. Dando um tapinha na mão dele, ela disse:

            - Tenho certeza de que o piloto sabe o que faz, Hari.

            - Também acho, Dors, mas ficaria muito agradecido se ele partilhasse os seus conhecimentos conosco.

            Falou em voz alta o bastante para que o piloto o escutasse, e este logo respondeu:

            - Nenhum problema. Para começar, estamos rumando para o alto. Em poucos minutos estaremos acima da camada de nuvens Lá no alto não estará chovendo, e vocês poderão avistar as estrelas.

            O aviso foi bem sincronizado, e alguns instantes depois as primeiras estrelas começaram a cintilar através dos derradeiros farrapos de nuvens, e quando o piloto apagou as luzes internas da cabine eles se viram envoltos em escuridão e rutilância. Ali dentro a única luz era a do painel de controle, e do lado de fora o céu faiscava em constelações.

            Dors falou:

            - É a primeira vez que vejo as estrelas nestes últimos dois anos. Não são maravilhosas? Tão brilhantes... e tantas, tantas.

            O piloto respondeu:

            - Trantor está mais próximo do centro da Galáxia do que a maioria dos outros mundos do Império.

            Seldon estava sem fala. Helicon ficava situado num recanto remoto da Galáxia, e seu firmamento era insignificante comparado àquele.

            - O vôo está muito tranquilo - comentou Dors.

            - É mesmo - disse Seldon. - Que tipo de propulsão tem esta nave, Sr.

            Levanian?

            - Um motor de micro-fusão, e um jorro concentrado de gás superaquecido.

            - Não sabia que já tínhamos desenvolvido aerojatos de micro-fusão Falam muito a respeito, mas...

            - São muito poucos ainda. Até o momento são usados apenas em Trantor, e unicamente pelos funcionários do governo.

            - O custo deste tipo de vôo deve ser muito alto.

            - Tem razão, senhor.

            - Quanto o Sr. Hummin está pagando por esta viagem?

            - Nada, senhor. O Sr. Hummin é um amigo da companhia proprietária dos jatos.

            Seldon soltou um grunhido. Depois perguntou:

            - Por que não há um número maior desses jatos de micro-fusão?

            - Em primeiro lugar, porque são muito caros. E a quantidade que existe já satisfaz a atual demanda.

            - A demanda poderia ser aumentada, se se fabricassem naves maiores.

            - É possível, mas a companhia ainda não conseguiu fabricar motores de micro- fusão fortes o bastante para conduzirem naves maiores do que esta.

            Seldon recordou as queixas de Hummin sobre o baixo nível a que tinha chegado a inovação tecnológica.

            Decadência - murmurou. - O quê? - disse Dors.

           - Nada. Estava pensando em algo que Hummin me disse certa vez. - Olhou para as estrelas lá fora. - Estamos indo na direção do oeste, Sr. Levanian?

            - Sim. Como sabe?

            - Calculei que se estivéssemos indo para o leste já teríamos a esta altura avistado a aurora, uma vez que estaríamos indo em sua direção.

            Mas a aurora acabou por alcançá-los, rodeando o planeta, até que a luz do sol, a luz brilhante e verdadeira de um sol, encheu a cabine. Isso não demorou muito, no entanto, uma vez que o aerojato logo descreveu uma curva descendente e penetrou no colchão de nuvens. O céu azul e a luminosidade dourada foram substituídos por um cinza cor de chumbo, e tanto Dors quanto Seldon soltaram um gemido de desapontamento ao se verem privados daqueles preciosos momentos de verdadeira luz.

            Quando surgiram no espaço abaixo da camada de nuvens, a Superfície estava imediatamente por baixo deles, e seu terreno, pelo menos naquela região, era uma mistura de fundos barrancos cobertos de vegetação, separados uns dos outros por largas áreas de relva rasteira. Era o tipo de solo que, segundo Clowzia, existia em vários pontos da Superfície.

            Mais uma vez houve pouco tempo para observação. Uma abertura apareceu diante deles, rodeada por enormes letras que grafavam o nome MYCOGEN.

            O aerojato foi na direção dela, e mergulhou.

 

            Aterrissaram num aeroporto que aos olhos de Seldon pareceu deserto. O piloto, tendo cumprido sua tarefa, apertou as mãos dos dois e voltou a elevar a nave nos ares, para logo desaparecer numa abertura que surgiu à sua frente.

            Parecia que não tinham nada mais a fazer senão esperar. Havia ali alguns bancos muito longos, onde caberiam talvez umas cem pessoas, mas Seldon e Dors Venabili eram os únicos seres humanos à vista. O aeroporto era retangular, cercado por paredões onde devia haver um bom número de túneis por onde aerojatos podiam chegar e partir; mas não havia nenhuma nave ali após a partida do jato que os trouxera, e nenhum chegou enquanto esperavam.

            Ninguém circulava por ali, e não havia qualquer indicação de moradias humanas nas proximidades. Até mesmo o eterno zumbido de Trantor estava inaudível.

            Aquela solidão começou a parecer opressiva a Seldon. Ele virou-se para Dors e disse:

            - Afinal, o que viemos fazer aqui? Tem alguma idéia? Dors sacudiu a cabeça.

            - Hummin me disse que seríamos procurados aqui por um tal de Mestre do Sol Catorze. Não sei nada além disso.

            - Mestre do Sol Catorze? O que pode ser isso?

            - Um ser humano, suponho. Pelo nome não dá para saber se é homem ou mulher. - Nome estranho.

            - A estranheza está no olho de quem vê. Às vezes, pessoas que me conhecem apenas pelo nome pensam que sou homem. - Pobres-coitados - sorriu Seldon.

            - Nem tanto. A julgar pelo meu nome, têm uma certa razão. Já me disseram que é um nome masculino bastante popular em alguns planetas.

            - Nunca ouvi antes.

            - É porque você não é um grande viajante. O nome "Hari" é bastante comum por toda parte, embora certa vez eu tenha conhecido uma mulher chamada "Hare", com a pronúncia igual à do seu nome, só que escrito com e. Em Mycogen, pelo que me recordo, nomes específicos ficam restritos a determinadas famílias, e recebem uma numeração.

            - Mas Mestre do Sol me parece um nome meio extravagante.

            - O que há de mal em um pouco de excentricidade? Em Cinna, "Dors" deriva de uma antiga expressão local que significa "dádiva da primavera".

            - Você nasceu na primavera?

            - Não. Abri os olhos pela primeira vez em pleno verão de Cinna, mas meus pais acharam este nome agradável, sem ligar para seu significado, que aliás já está quase esquecido.

            - Nesse caso, então Mestre do Sol..

            E uma voz profunda e grave o interrompeu: - Este é o meu nome, homem da tribo.

            Sobressaltado, Seldon virou-se para a esquerda. Um carro descoberto tinha de algum modo estacionado nas proximidades; era um modelo arcaico que mais lembrava um caixote ou um vagão de cargas. Ao volante estava um homem idoso, de estatura alta e com uma aparência robusta apesar da idade. Com gestos pausados, cheios de majestade, ele se apeou do carro.

            Usava uma longa túnica branca com mangas muito largas e presas com colchetes ao redor dos pulsos. Abaixo da túnica emergiam seus pés com enormes dedos protuberantes, calçados com sandálias leves; seu crânio tinha um belo formato, e era completamente calvo. Fitou os dois com olhos azuis calmos e profundos, e disse - Eu o saúdo, homem da tribo.

            Com uma instintiva polidez, Seldon respondeu:

            - Saudações, senhor. - E depois, sinceramente surpreso, indagou: - Como chegou até aqui?

            - Pelo portão de entrada, que voltou a fechar-se após minha passagem. Vocês não me ouviram.

            - É verdade, mas não sabíamos a quem devíamos esperar. E ainda não sabemos.

            - O homem da tribo Chetter Hummin avisou os Irmãos de que membros de duas tribos estavam para chegar, e pediu-me para que cuidasse deles.

            - Então conhece Hummin.

            - Nós o conhecemos. Ele nos tem prestado ajuda, e porque ele, um homem da tribo valoroso, nos tem prestado ajuda, devemos nós agora retribuir-lhe. Poucas pessoas vêm a Mycogen, e poucas também vão embora daqui. Minha obrigação é levá-los para lugar seguro, dar-lhes teto e abrigo, cuidar para que não os incomodem. Aqui estarão a salvo.

            Dors inclinou a cabeça e disse:

            - Ficamos gratos, Mestre do Sol Catorze.

            Mestre do Sol girou o rosto para ela, exibindo uma expressão de desagrado e frieza.

            - Não desconheço os costumes das outras tribos - disse. - Sei que entre elas é permitido à mulher falar sem que lhe tenha sido dirigida a palavra, e em vista disso não me considero ofendido. Entretanto, devo aconselhar mais cautela quando estiverem em meio a irmãos menos afeitos a tais costumes.

            - Oh, é mesmo? - replicou Dors, claramente ofendida, ainda que Mestre do Sol não o estivesse.

            - Sim - concordou o homem. - Também não se faz necessário empregar minha identificação numérica quando eu for o único da minha coorte a estar na sua presença. "Mestre do Sol" será suficiente. Agora devo pedir-lhes que me acompanhem, para que deixemos o quanto antes este local, que é de natureza excessivamente tribal para que nele eu me sinta à vontade.

            - Sentir-se à vontade é importante para todos nós - disse Seldon, em voz talvez um pouco mais alta do que o necessário. - Mas não deixaremos este lugar sem que nos seja assegurado o direito de não sermos constrangidos a seguir seus costumes em detrimento dos nossos. Entre nós uma mulher tem o direito de falar em qualquer ocasião que lhe pareça oportuna. Se o seu compromisso é de nos fornecer segurança, essa segurança não deve ser apenas física, mas também psicológica Mestre do Sol encarou Seldon de frente e disse:

            - É ousado, jovem homem da tribo. Seu nome?..

            - Sou Hari Seldon, de Helicon. Minha companheira é Dors Venabili, de Cinna.

            Mestre do Sol fez uma leve reverência quando o nome de Seldon foi pronunciado, mas não se moveu ao ouvir o de Dors. Falou:

            - Prometi ao homem da tribo Hummin que manteria a vocês dois em segurança, e isso inclui a mulher que o acompanha, homem da tribo Seldon. Se ela insistir em exercer sua impudência, esforçar-me-ei para que seja considerada inocente. Há, no entanto, um aspecto a que ambos terão que se resignar. - Ele apontou, com uma expressão de infinito desprezo, primeiro para a cabeça de Seldon, depois para a de Dors.

            O que quer dizer? - perguntou Seldon. Seus pelos cefálicos. - O que há com eles?

            - Não devem ser vistos.

            - Está me dizendo que terei de raspar minha cabeça, como a sua? Jamais farei isso.

            - Minha cabeça não está raspada, jovem da tribo. Fui depilado quando alcancei a puberdade, assim como acontece a todos os Irmãos e suas mulheres.

            - Se o caso é depilação, mais do que nunca a minha resposta é negativa.

            Jamais me submeterei.

            - Homem da tribo, não lhe pedimos uma coisa nem outra. Nossa exigência é apenas para que seus pelos permaneçam cobertos enquanto estiver entre nós.

            - Mas de que modo?

            - Trouxe estas carapuças que se amoldarão ao seu crânio, juntamente com faixas que cobrirão as faixas super-ópticas, ou sobrancelhas. Deverão usá-las enquanto permanecerem entre nós. E naturalmente, homem da tribo Seldon, deverá barbear-se diariamente, ou mais, se for necessário.

            - Mas por que temos que fazer isto?

            - Porque entre nós os pelos são considerados obscenos.

            - No entanto, seu povo deve estar informado de que entre os demais povos da Galáxia é normal manter os seus... pelos cefálicos.

            - Sabemos disso. E aqueles entre nós que precisam manter contatos com os homens das tribos, como é o seu caso, têm que avistar esses pêlos. Fazemos o possível, mas não seria justo exigir de todos os Irmãos um tamanho sacriifício.

            - Então está bem, Mestre do Sol- disse Seldon. - Gostaria apenas de fazer uma pergunta: já que todos vocês nascem com pêlos cefálicos, assim como nós, e já que o mantêm até a puberdade, por que é necessário removê-los? É apenas uma questão de hábito, ou existe alguma outra razão que justifique isto?

            Com orgulho, o velho mycogeniano respondeu:

            - Por meio da depilação nós mostramos ao jovem que ele, ou ela, atingiu a idade adulta, e através da depilação Os adultos irão sempre recordar quem são, e nunca esquecerão que os demais são apenas homens da tribo.

            Sem esperar resposta (e Seldon, na verdade, não conseguiu pensar em nenhuma) ele retirou de algum compartimento oculto no interior da túnica um punhado de películas plásticas de diferentes tonalidades, olhou atentamente os dois rostos diante de si, erguendo primeiro uma das películas, depois as outras, diante de cada um.

            - As cores devem ser razoavelmente parecidas - explicou. - Todas as pessoas perceberão que se trata de carapuças, mas elas não precisam ser repulsivamente óbvias.

            Por fim, Mestre do Sol deu a Seldon uma das carapuças e mostrou-lhe como colocá-la.

            - Ponha-a, por favor, homem da tribo Seldon - disse. - Achará isso um pouco desajeitado no início, mas logo se acostumará.

            Seldon enfiou a película na cabeça, mas ela escapuliu por duas vezes quando ele tentou puxá-la por sobre o cabelo.

            - Coloque-a primeiro sobre as sobrancelhas - disse Mestre do Sol. Seus dedos se mexiam nervosamente, como se estivesse ansioso para ajudar.

            Reprimindo um sorriso, Seldon indagou: - Não pode colocá-la para mim?

            Mestre do Sol deu um passo para trás, perturbado, e retrucou: - Não. Não devo. Poderia tocar em seu pêlo cefálico. Com algum trabalho, e contando com as instruções de Mestre do Sol, Seldon enfiou a película sobre o crânio. As faixas que cobriam os supercílios ficaram perfeitamente ajustadas. Dors, que tinha observado tudo atentamente, não demorou em colocar a sua.

            - Como é que isto sai? - perguntou Seldon.

            - Basta puxá-la pela borda e pode-se retirá-la sem problema - disse o mycogeniano. - Ficará mais fácil de tirar e pôr se o seu pêlo cefálico for cortado mais curto.

            - Não faço questão disso - respondeu Seldon. Virando-se para Dors, disse em voz baixa: - Você ainda está bonita, Dors, mas isso deixa seu rosto um pouco sem personalidade.

            - A personalidade continua intacta aqui por baixo - respondeu ela. - E você irá se acostumando a me ver sem cabelo.

            Ainda num sussurro, ele disse:

            - Não espero ficar aqui o tempo bastante para me acostumar a isto.

            Mestre do Sol, que com visível altivez tinha ignorado a troca de cochichos entre um mero casal de homens da tribo, disse:

            - Se quiserem entrar no meu carro, poderei conduzi-I os agora até Mycogen.

 

            - Francamente - cochichou Dors -, mal posso acreditar que estou em Trantor.

            - Isso quer dizer que nunca viu antes nada parecido com isto?

            - Estou em Trantor há apenas dois anos, e passei a maior parte desse tempo na Universidade, portanto não sou uma pessoa viajada neste mundo. Andei aqui e acolá e ouvi falar disso ou daquilo, mas nunca vi nem ouvi falar de algo semelhante a isto... esta uniformidade.

            Mestre do Sol dirigia metodicamente e sem pressa. Na estrada havia outros carros, todos com a mesma aparência de furgões de transporte, e em todos eles viam-se homens calvos ao volante, os crânios lisos brilhando à luz do dia.

            Em cada lado da estrada havia prédios de três andares, sem nenhum tipo de ornamentação; as linhas sóbrias cruzando-se em ângulos retos, a cor de um invariável cinza-escuro.

            - Fúnebre - disse Dors. - Muito fúnebre.

            - Igualitário - sussurrou Seldon. - Imagino que nenhum Irmão pode arrogar para si qualquer tipo de precedência sobre os demais.

            Havia muitos pedestres ao longo da estrada por onde eles seguiam. Não se via nenhum sinal de corredores móveis, e em parte alguma se escutava o rumor de um expressway.

            - As mulheres vestem cinzento - disse Dors.

            - É difícil dizer - falou Seldon. - As túnicas não deixam ver o corpo, e toda cabeça careca se torna parecida com as outras.

            - As pessoas de cinza estão sempre aos pares, ou na companhia de outra de branco - disse ela. - As pessoas de branco podem andar sozinhas, e Mestre do Sol veste branco.

            - É, você deve estar certa. - Seldon ergueu a voz. - Mestre do Sol, estou curioso em...

            - Se tem curiosidade pode formular qualquer pergunta, embora nada me obrigue a respondê-la.

            - Parece que estamos atravessando uma área residencial. Não há sinais de prédios de escritórios, áreas industriais...

            - Somos uma comunidade inteiramente agrícola. De onde vêm vocês, se não sabem disto?!

            - Sabe que sou estrangeiro, Mestre do Sol - disse Seldon, muito empertigado. - Estou em Trantor há apenas dois meses. - Mesmo assim.

            - Mas se são uma comunidade agrícola, Mestre do Sol, como se explica que ainda não tenhamos passado por nenhuma fazenda? - Estão no subsolo. - Foi a breve resposta.

            - Isso quer dizer que, neste nível, Mycogen é totalmente residencial?

            - É em outros níveis também. Somos isto que está a ver. Cada Irmão e sua família vive em instalações equivalentes; cada coorte vive no seio de uma comunidade análoga; todos possuem os mesmos carros e cada um dos irmãos dirige o seu. Não há servos e ninguém se beneficia do trabalho alheio. Nenhum dos Irmãos pode se vangloriar em relação a outro.

            Seldon ergueu seus supercílios cobertos olhando para Dors e disse:

            - Mas algumas pessoas vestem branco, enquanto que outras vestem cinza.

            Isto é porque algumas pessoas são Irmãos e outras são Irmãs. - E quanto a nós?

            - Você é um homem da tribo, e um hóspede. Você e a sua...

            - Fez uma pausa e depois continuou: - Você e a sua companheira não terão que se submeter a todos os aspectos da vida de Mycogen. Não obstante, sua túnica será branca, a de sua companheira será cinza, e ambos viverão em aposentos de hóspedes, que são iguais aos nossos.

            - Igualdade para todos parece um belo ideal, mas o que acontece quando a sua população começa a crescer? Para usar uma expressão comum: o bolo é cortado em fatias mais finas?

            - Não temos aumento de população. Isso faria com que tivéssemos de ampliar nossa área, coisa que não iria agradar aos homens da tribo vizinhos; a outra alternativa seria uma queda em nosso nível de vida.

            - Mas, e se... - começou Seldon.

            - É o bastante, homem da tribo - interrompeu Mestre do Sol.

            - Como já avisei, não estou na obrigação de responder suas perguntas. Nosso dever, conforme foi prometido ao homem da tribo Hummin, é o de abrigá-lo em segurança, na medida em que isso não viole o nosso modo de viver. Faremos isto, mas não faremos nada mais. A curiosidade é permitida, mas a nossa paciência se esgota com facilidade quando alguém pergunta em demasia.

            Algo no seu tom dava a conversa por encerrada, e Seldon emudeceu, irritado.

            Hummin, em sua ânsia de ajudá-lo, tinha aparentemente exagerado em seus cálculos.

            Não era segurança que Seldon procurava, ou pelo menos não era apenas isso.

            Ele procurava informações, também; e sem isso ele não podia (e não queria) permanecer naquele lugar.

 

            Seldon olhou com certa decepção para os seus aposentos. Havia uma cozinha pequena e um banheiro também pequeno, mas ambos privativos; duas camas estreitas, dois armários de roupas, uma mesa e duas cadeiras. Em suma: todo o necessário para duas pessoas dispostas a viver juntas num espaço tão exíguo.

            - Também temos cozinhas e banheiros privativos em Cinna - disse Dors, com ar de resignação.

            - Pois eu não - disse Seldon. - Helicon pode ser um planeta pequeno, mas lá eu vivia numa cidade moderna, com cozinhas e banheiros comunitários. Veja só que desperdício. Pode-se admitir isto num hotel, onde se fica temporariamente, mas se o setor inteiro vive desta forma, imagine a quantidade astronômica de cozinhas e banheiros que deve existir.

            - Deve ser parte da filosofia igualitária deles - comentou Dors. - Ninguém fica brigando por uma mesa mais bem situada, ou para ser atendido mais depressa.

            Todos desfrutam das mesmas condições.

            - E não têm a menor privacidade. Não é que eu me importe em demasia com isso, mas com você talvez seja diferente, e não quero dar a impressão de estar tirando partido das circunstâncias. Devemos explicar a eles que precisamos de quartos separados, ainda que contíguos.

            - Não acredito que dê certo - disse Dors. - O espaço aqui parece ser disputadíssimo, e eles devem estar surpresos com a própria generosidade em nos fornecer hospedagem. Vamos ter que nos conformar, Hari. Já somos adultos o bastante para enfrentar este tipo de situação. Não sou mais uma garotinha tímida, e você não vai querer me convencer de que é um adolescente desajeitado.

            - Você só está aqui por minha causa. - E daí? É uma aventura.

            - Então está bem. Que cama você prefere? Pode ficar com a que está mais próxima do banheiro, se quiser. - Seldon sentou-se na outra cama. - E há uma outra coisa que me incomoda. Durante o tempo em que estivermos aqui seremos considerados gente da tribo, como o próprio Hummin deve ser tido entre eles. Somos de outras tribos, e não das coortes daqui de Mycogen, e a maioria das coisas deles não são de nossa conta. Mas acontece que muitas dessas coisas são de minha conta, afinal de contas foi com esta finalidade que vim para cá. Preciso ter conhecimento de algumas das coisas que estas pessoas sabem.

            - Ou pensam que sabem - disse Dors com um ceticismo de historiadora. - Ouço falar que eles têm lendas cuja origem remonta até os tempos primordiais, mas não creio que isso possa ser levado a sério.

            - Não podemos saber enquanto não descobrirmos que lendas são essas. Não há nenhuma documentação sobre elas, lá fora?

            - Não que eu saiba. Este é um povo terrivelmente fechado em si próprio, é algo quase psicótico. O fato de que Hummin tenha conseguido superar essas barreiras, fazendo com que eles nos recebam aqui, é um feito notável...

            realmente notável.

            Seldon ficou pensativo durante algum tempo.

            - Mas deve haver algum meio de nos aproximarmos deles - falou, por fim. - Mestre do Sol ficou surpreso, e até mesmo zangado, com o fato de eu não saber que Mycogen era uma comunidade agrícola. Parece que a respeito disso, pelo menos, eles não pretendem manter segredo.

            - Acontece que não é um segredo. "Mycogen" é um nome derivado de palavras arcaicas que significam "produtor de fungos, ou de fermentos"; pelo menos foi o que me disseram, não sou uma paleolingüista. Em todo caso, eles cultivam aqui todas as variedades possíveis de microalimentação: cogumelos, fermentos, algas, bactérias, fungos multicelulares etc.

            - Algo bastante comum - disse Seldon. - A maior parte dos mundos tem esse tipo de cultura. Até mesmo Helicon.

            - Mas não na escala que há em Mycogen. É a especialidade deles. Usam métodos que são tão arcaicos quanto o nome de seu setor: fórmulas secretas de fertilização, influências ambientais secretas. Quem pode saber ao certo? É segredo.

            - Uma comunidade fechada.

            - Mas com uma compensação. O detalhe mais importante é que eles fazem uso das proteínas de modo a criar variações de sabor extremamente sutis, de tal modo que a microalimentação deles não tem semelhante em parte alguma. Eles mantêm a produção numa escala relativamente reduzida, e os preços são astronômicos. Nunca provei da comida deles, e estou certa de que você também não, mas ela é vendida em grandes quantidades para a burocracia do Império, e para as classes abastadas de outros planetas. Mycogen depende desse comércio para manter seu equilíbrio econômico, portanto é do interesse deles Que todos conheçam este setor como a origem de um produto tão valorizado. Portanto, isto não é nenhum segredo.

            - Mycogen deve ser um setor muito rico, então.

            - Pobres eles não são, mas desconfio que não é a riqueza material o que procuram, e sim a proteção. O governo imperial os protege porque, sem eles, não haveria esse tipo de microalimentação tão rico em sutilezas de paladar, em especiarias tão aromáticas, em pratos tão variados. Isso quer dizer que Mycogen pode persistir em seu estilo de vida, por excêntrico que seja, e encarar de igual para igual seus vizinhos, que provavelmente os acham insurportáveis. - Dors relanceou os olhos ao redor. - Eles vivem uma vida austera. Já reparei que não têm holovisão, nem filmes-livros.

            - Há um na prateleira de cima do armário. - Seldon levantouse para apanhá-lo, olhou o selo na parte exterior e fez uma expressão de desapontamento. - Um livro de culinária.

            Dors o tomou nas mãos e começou a mexer nos controles. Demorou algum tempo, porque o modelo era diferente dos que ela conhecia, mas ela afinal conseguiu fazer com que a tela se acendesse, e começou a examinar as páginas.

            Disse:

            - Há algumas receitas, mas a maior parte consiste em ensaios filosóficos sobre gastronomia. - Ela revirou o filme-livro nas mãos, olhando-o de um lado e do outro. - Parece ser um modelo único, não vejo por onde ejetar o microcartão e inserir outro. Puxa... um visor para um único livro? Isso sim, é desperdício.

            - Talvez achem que esse livro é o único que é necessário.- Seldon estendeu a mão para a mesinha entre as duas camas e apanhou outro objeto. - Isto aqui pode ser um fone, só que não estou vendo a tela correspondente.

            - Talvez eles achem que a voz seria o bastante.

            - Sim, mas como funciona? - Seldon ergueu o objeto, olhando-o por todos os ângulos. - Já viu algo igual a isto?

            - Certa vez, num museu... se é que é o mesmo objeto. Mycogen parece ter a firme intenção de preservar costumes arcaicos. Suponho que eles vêem nisso outra maneira de se isolar do que eles chamam de homens da tribo, que afinal de contas os cercam por todos os lados e em grande número. O fato de serem antiquados e excêntricos faz com que não possam ser digeridos com facilidade, por assim dizer. Existe uma lógica tortuosa por trás disso tudo.

            Ainda manipulando o objeto, Seldon exclamou:

            - Êpa! Parece que consegui ligá-lo, ou ele se ligou sozinho. Mas não estou escutando nada.

            Dors franziu a testa e apanhou um pequeno cilindro revestido de feltro que continuava pousado sobre a mesinha. Colocou-o no ouvido e exclamou:

            - Espere! Estou ouvindo uma voz aqui. Experimente. - E estendeu o cilindro a Seldon, que o apanhou e tentou ajustá-lo ao ouvido.

            - Ah - disse ele -, tem um prendedor... Machuca um pouco a orelha, mas... - Escutou um instante e disse: - Você pode me ouvir? Sim, este é o nosso quarto... Não, não sei o número. Dors, tem alguma idéia do nosso número?

            Há um número inscrito no fone - disse ela. - Talvez seja isso.

            Vamos ver - disse Seldon, em dúvida. E falou ao fone: O número inscrito neste aparelho é 6LT-3648A. Será isto?... Bem, como posso aprender a usar corretamente este aparelho, e também como usar a cozinha?... O que quer dizer isto, "funcionam do modo habitual"? Isso não me adianta muito... Olhe aqui, eu sou um... um homem da tribo.. um hóspede. Eu não sei qual é o "modo habitual"... Sim, desculpe o meu sotaque, mas ainda bem que você pode reconhecer o sotaque de um homem da tribo... Meu nome é Hari Seldon.

            Houve uma pausa e Seldon olhou para Dors com uma expressão de martírio no rosto.

            - Ele vai verificar os registros - disse. - Sou capaz de apostar como não vai achar meu nome... Espere. Alô? Ah, achou meu nome? Ótimo! Nesse caso, pode me dar a informação que pedi?.. Sim... Sim... Sim... E como posso ligar para alguém fora de Mycogen?.. Oh, não? E como posso entrar em contato com Mestre do Sol Catorze, por exemplo?.. Bem, então seu assistente, ou sua secretária, o que quer que seja... Oh, oh... Muito obrigado.

            Seldon pousou o fone sobre a mesinha, desprendeu o receptor da orelha com uma certa dificuldade, desligou o aparelho e disse:

            - Eles mandarão alguém para nos mostrar tudo o que precisamos aprender aqui, mas não pôde garantir quanto tempo vai demorar. Não é possível fazer chamadas para fora de Mycogen, pelo menos não neste aparelho, de modo que se precisarmos de Hummin não temos como contactá-lo. E para falar com Mestre do Sol Catorze é preciso enfrentar uma porção de formalidades... Isto pode ser uma sociedade igualitária, mas parece haver exceções, embora eles não o queiram admitir facilmente. - Olhou seu relógio. - Em todo caso, Dors, não tenho a menor vontade de ler um livro sobre culinária, e tratados sobre gastronomia menos ainda. Meu relógio ainda está ajustado para o horário de Streeling, de modo que não sei se é dia ou noite aqui: mas o fato é que não me importo, passamos a noite inteira acordados e acho que vou dormir um pouco.

            - Eu também. Estou cansada.

            - Então está bem. E na primeira manhã que se apresentar depois de acordarmos vou pedir-Ihes para fazer uma visita às suas microplantações.

            Dors o olhou surpresa.

            - Você está interessado nisso?

            - Não propriamente, mas se essa é uma coisa da qual eles se orgulham, talvez estejam dispostos a falar sobre ela, e uma vez eu consiga deixá-los em ponto de conversa, usando todo o meu encanto pessoal, posso levá-los a falar sobre as suas lendas. Penso que é uma estratégia bastante hábil.

            - Espero que sim - disse Dors, em tom dúbio. - Mas não sei se os mycogenianos podem ser tapeados com essa facilidade. - Veremos - disse Seldon, carrancudo. - Eu tenho que conhecer essas tais lendas.

 

            A manhã seguinte encontrou Seldon fazendo uso mais uma vez do fone:

            estava faminto, e zangado.

            Sua tentativa de entrar em contato com Mestre do Sol Catorze foi bloqueada por alguém que insistia: Mestre do Sol não podia ser incomodado.

            - Por que não? - indagou Seldon com aspereza.

            - Evidentemente não é necessário responder essa pergunta - disse a voz fria do outro lado.

            - Não viemos até aqui para ficar prisioneiros - tornou Seldon. - Nem para passar fome.

            - Tenho certeza de que há uma cozinha e comida suficiente à sua disposição.

            - Claro que há. Só que não sei como usar os utensílios da cozinha, nem sei como preparar a comida. Vocês a comem crua? Frita? Fervida? Assada?..

            - Não posso crer que ignorem isso.

            Dors, que tinha ficado andando para lá e para cá durante esse diálogo, estendeu a mão para apanhar o fone, mas Seldon a afastou, cochichando:

            - Se uma mulher lhe dirigir a palavra ele desliga na hora.- E depois, para o fone: - O que você crê ou não crê não interessa. Quero que mande alguém aqui, alguém que possa fazer algo a respeito da nossa situação, ou, quando eu entrar em contato com Mestre do Sol Catorze, o que acabará acontecendo, você pagará caro.

            Não obstante, duas horas se passaram antes que aparecesse alguém - e a essa altura Seldon estava num estado verdadeiramente selvagem, e Dors, à beira do desespero, tentava acalmá-lo.

            O recém-chegado era um jovem cujo crânio calvo era coberto de sardas, e que provavelmente seria ruivo, em outras circunstâncias.

            Trazia consigo um certo número de pequenos potes, e parecia estar a ponto de dizer algo quando subitamente assumiu um ar constrangido e virou-se de costas para Seldon.

            - Homem da tribo - disse, tomado de violenta perturbação - sua carapuça não está bem ajustada.

            Seldon, cuja paciência tinha atingido os limites, retrucou: - Isso não me incomoda.

            Dors interveio:

            - Deixe-me ajustá-la, Hari. Está um pouco erguida aqui do lado esquerdo.

            Seldon resmungou:

            - Pode virar-se agora, rapaz. Como se chama?

            - Meu nome é Nuvem Cinzenta Cinco - disse o mycogemano, voltando-se aos poucos e lançando um olhar esquivo na direção de Seldon. - Sou um noviço, e trouxe uma refeição para vocês.- Hesitou. - Vem da minha própria cozinha, e foi preparada pela minha mulher, homem da tribo.

            Ele colocou os potes sobre a mesa; Seldon ergueu uma das tampas e cheirou o que havia dentro, com desconfiança; seu rosto se ergueu surpreso na direção de Dors.

            - Sabe, o cheiro não é nada mau - disse.

            - Tem razão - concordou ela. - Daqui estou sentindo.

            Nuvem Cinzenta disse:

            - Não está tão quente quanto deveria, devido à demora no trajeto. Creio que vocês têm louças e talheres aqui em sua cozinha.

            Dors foi providenciar o necessário; e depois que terminaram de comer, o que fizeram com enorme disposição, Seldon sentiu-se outra vez um homem civilizado.

            Dors tinha percebido que o rapaz não se sentiria à vontade se fosse deixado a sós com uma mulher, e menos ainda se esta lhe dirigisse a palavra; coube-lhe, portanto, a tarefa de levar os pratos sujos para a cozinha e lavá-los, assim que conseguiu decifrar os comandos da máquina de lavar.

            Enquanto isso Seldon perguntou ao mycogeniano qual era a hora pelo tempo local, e ao ouvir a resposta teve um sobressalto. - Quer dizer que estamos no meio da noite?

            - Sim, homem da tribo - disse Nuvem Cinzenta. - Por isso demoramos em satisfazer o seu desejo.

            Seldon compreendeu então por que motivo Mestre do Sol não podia ser incomodado. Quando pensou que a mulher de Nuvem Cinzenta tinha sido acordada para preparar a refeição que ele acabara de comer, sentiu uma pontada de remorso.

            - Desculpe-nos - disse. - Somos apenas gente da tribo, e não tínhamos idéia de como usar a cozinha ou preparar a comida. Poderia nos mandar alguém pela manhã, para nos explicar tudo?

            - Farei o melhor possível, homem da tribo - disse Nuvem Cinzenta, com gentileza. - Vou mandar-Ihes duas Irmãs. Peço-lhe perdão se lhe imponho o distúrbio de uma presença feminina, mas são elas que cuidam dessas coisas.

            Dors, que acabava de retomar da cozinha, disse (antes de recordar seu papel na sociedade mycogeniana):

            - Oh, está bem assim, Nuvem Cinzenta. Teremos muito prazer em receber as Irmãs.

            Nuvem Cinzenta lançou-lhe um olhar de soslaio, pouco à vontade, e nada disse.

            Seldon partiu do princípio de que o jovem mycogeniano se recusaria a escutar o que uma mulher lhe dizia, e repetiu a frase: - Está bem assim, Nuvem Cinzenta. Teremos muito prazer em receber as Irmãs.

            A expressão do rapaz se desanuviou de imediato.

            - Farei com que estejam aqui logo cedo pela manhã. Depois que Nuvem Cinzenta saiu, Seldon comentou, satisfeito:

            - As Irmãs devem ser exatamente o que precisamos.

            - É mesmo, Hari? E de que modo?

            - Ora, é claro que se as tratarmos como seres humanos normais, elas se sentirão gratas o bastante para nos contar suas lendas. - Se é que as conhecem - tornou Dors, com ceticismo. - Não faço muita fé no tipo de educação que os mycogenianos devem proporcionar às suas mulheres.

 

            As Irmãs chegaram umas seis horas depois; Dors e Seldon tinham dormido mais um pouco, tentando ajustar seus relógios biológicos.

            As Irmãs penetraram no aposento com timidez, quase nas pontas dos pés.

            Suas túnicas (kirtles, no dialeto mycogeniano) eram de um cinza suave e aveludado, ornadas com debrum de um cinza mais escuro. Os kirtles tinham um certo atrativo, mas sem dúvida sua função principal era a de ocultar as formas do corpo humano.

            Suas cabeças eram, evidentemente, calvas; os rostos não ostentavam nenhum tipo de pintura ou enfeite. Elas lançaram olhares curiosos para os leves retoques azuis nos cantos dos olhos de Dors, e o batom avermelhado que realçava os cantos de sua boca.

            Durante alguns momentos Seldon ficou imaginando como alguém poderia ter absoluta certeza de que as irmãs eram de fato irmãs.

            A resposta veio de imediato, quando elas lhes endereçaram saudações formais. A voz das duas era uma mistura de chilreio e trinado, e Seldon, lembrando a voz grave de Mestre do Sol e o timbre de barítono de Nuvem Cinzenta, suspeitou de que as mulheres, à falta de outra identificação sexual óbvia, eram forçadas a cultivar determinados tipos de voz e de maneirismos sociais.

            - Sou Gota de Chuva Quarenta e Três - disse uma delas - esta é minha irmã mais nova.

            - Gota de Chuva Quarenta e Cinco - disse a outra. - Existem muitas Gotas de Chuva em nossa coorte. - E deu uma risadinha espremida.

            - Tenho muito prazer em conhecer vocês duas - disse Dors com gravidade -, mas agora tenho de saber como devo chamá-las. Não posso ficar apenas dizendo "Gota de Chuva", não é mesmo? - Não - disse Gota de Chuva Quarenta e Três. - Deverá usar o nome inteiro, se estivermos ambas presentes.

            Seldon perguntou:

            - E o que acham de dizermos apenas Quarenta e Três e Quarenta e Cinco, senhoras?

            As duas lançaram um rápido olhar na direção dele, mas não disseram uma palavra.

            Dors falou com suavidade:

            - Deixe que eu cuido delas, Hari.

            Seldon afastou-se. Não era difícil supor que ambas eram jovens solteiras e, possivelmente, não deveriam conversar com um homem. A mais velha parecia também a mais séria das duas, e era provavelmente a mais puritana. Era difícil de julgar baseando-se num contato tão rápido, mas Seldon teve essa intuição e deixou-se guiar por ela.

            - Sabem, Irmãs - disse Dors -, somos gente da tribo, e não temos idéia de como se opera esta cozinha daqui.

            - Então não sabe cozinhar?! - Gota de Chuva Quarenta e Três lançou-lhe um olhar chocado e cheio de censura. Gota de Chuva Quarenta e Cinco reprimiu mais uma risadinha. (Seldon pensou que sua idéia inicial a respeito das duas estava correta.)

            Dors prosseguiu:

            - Eu já possuí uma cozinha, mas era muito diferente desta aqui. Não conheço bem que tipos de comida são estes, e não sei como prepará-los.

            - É muito simples - disse Gota de Chuva Quarenta e Cinco.

            - Podemos mostrar-lhe.

            - Vamos preparar um almoço gostoso e nutritivo - completou Gota de Chuva Quarenta e Três. - Um bom almoço para... vocês dois.

            Ela hesitou um instante antes das últimas palavras; era-lhe necessário um visível esforço para admitir a existência de um homem.

            - Se não se importam - disse Dors -, gostaria de ir até a cozinha com vocês, e gostaria que me explicassem cada detalhe. Afinal de contas, Irmãs, não posso esperar que venham aqui três vezes por dia para cozinhar para nós.

            - Mostraremos tudo - repetiu Gota de Chuva Quarenta e Três, com um gesto decidido de cabeça. - No entanto, talvez seja difícil para uma mulher da tribo aprender. Talvez ela não tenha... jeito.

            - Eu tentarei - sorriu Dors.

            As três desapareceram no interior da cozinha. Seldon ficou com os olhos postos nelas, e tentou planificar sua próxima estratégia de ação.

 

            MYCOGEN -... As microfazendas de Mycogen são lendárias, embora atualmente subsistam apenas em expressões proverbiais do tipo de "rico como as microfazendas de Mycogen", ou "saboroso como os fermentos de Mycogen". Elogios desse tipo tendem a tornar-se cada vez mais exagerados com a passagem do tempo, por certo, mas Hari Seldon visitou essas microfazendas no transcurso da Fuga, e há referências, em suas memórias, que corroboram a opinião popular...

            ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA

 

            - Mas isto é muito bom! - disse Seldon com entusiasmo. - É muito melhor do que a comida que Nuvem Cinzenta trouxe!

            Atalhou Dors calmamente:

            - Você precisa levar em conta que a mulher de Nuvem Cinzenta preparou aquela refeição às pressas, e no meio da noite. - Fez uma pausa e disse: - Gostaria muito que eles dissessem esposa. Eles fazem a palavra mulher parecer um utensílio, como "minha casa" ou "meu roupão". É aviltante.

            - É de dar raiva. Mas do jeito que eles falam, também a palavra esposa acabaria soando do mesmo modo. É o estilo de vida deles, e as irmãs não parecem se incomodar. Não creio que eu e você possamos modificar isso à base de reprimendas. A propósito, aprendeu a manejar a cozinha?

            - Sim, e as duas fizeram tudo parecer muito simples. Não achei que pudesse guardar na memória tudo quanto elas fizeram, mas ambas insistiram em dizer que não seria necessário. Por mim, me daria por satisfeita em aprender a esquentar os pratos. Mas aprendi que o pão deles tem algum tipo de microderivado que se adiciona antes de levá-lo ao forno, um fermento que aumenta a massa e dá ao pão essa consistência suave, quebradiça... e um leve apimentado, você notou?

            - Não sei definir muito bem, mas seja lá o que for, comeria ainda muito mais.

            E a sopa! Reconheceu aqueles vegetais?

            - Não.

            - E as fatias de carne? Sabe o que era?

            - Não sei nem sequer se eram de fato fatias de carne. Em Cinna temos um prato feito com carneiro que é um pouco semelhante.

            - Aquilo certamente não era carneiro.

            - Eu disse que não sei nem sequer se era carne. Não creio que ninguém, fora de Mycogen, desfrute de uma refeição tão sofisticada. Nem mesmo o imperador, tenho certeza. Os produtos que os rnycogenianos vendem não são os melhores, sou capaz de apostar. Eles guardam o melhor para si próprios. Hari, não podemos passar muito tempo aqui. Se nos acostumarmos a comer assim, nunca mais nos conformaremos àquela comida miserável que nos dão lá fora. - E ela soltou uma gargalhada.

            Seldon riu também. Tomou mais um gole do suco de frutas, que era indescritivelmente mais delicioso do que qualquer suco de frutas que já tivesse provado em sua vida; falou:

            - Quando Hummin me levou para a Universidade, paramos no caminho para fazer um lanche. A comida era fortemente tratada à base de fermento, e o gosto dela... bem, não tenho termos de comparação, mas era algo inconcebível; mas também é inconcebível que algo possa ter este sabor aqui. Gostaria que as Irmãs tivessem permanecido conosco... o mínimo que devíamos fazer era agradecer-lhes.

            - Acho que elas já sabiam qual seria a nossa reação. Falei algo sobre o cheiro delicioso da comida, quando estava sendo preparada, e elas disseram, bem confiantes, que o gosto seria ainda melhor. - A mais velha das duas disse isso, suponho.

            - Sim; a mais nova deu uma risadinha. Aliás, elas voltarão aqui depois.

            Prometeram de trazer um kirtle, para que eu possa acompanhá-las quando forem fazer compras. E também me avisaram de que eu teria de lavar o rosto antes de sair em público. Vão me mostrar onde poderei comprar alguns kirtles de boa qualidade para mim, e também onde é possível comprar algumas refeições já prontas, de todos os tipos, pratos que precisam apenas ser esquentados. Segundo eles, uma Irmã que se respeite não recorre a isso:

            prepara as refeições do começo ao fim. Parte desta refeição foi apenas esquentada, e elas me pediram desculpas por isso, embora dando a entender que gente da tribo como nós não notaria muita diferença, pois não somos capazes de reconhecer uma refeição "artisticamente" preparada. A propósito.

            elas parecem ter como ponto pacífico que eu farei todas as compras e ficarei encarregada das tarefas domésticas.

            - É como dizemos em meu planeta - riu Seldon. - "Em Trantor... como os trantorianos."

            - É, eu sabia que sua atitude seria exatamente esta. - Eu sou humano - disse ele.

            - A desculpa de sempre - disse Dors, com um meio-sorriso.

            Seldon recostou-se na cadeira e espreguiçou-se, invadido por uma sensação de bem-estar físico.

            - Dors, você está em Trantor há dois anos, e deve entender uma porção de coisas que fogem à minha compreensão. Diga-me: você acha que uma ordem social tão esquisita quanto a dos rnycogenianos faz parte de alguma visão sobrenaturalista que eles possuam?

            - Sobrenaturalista?

            Sim. Já ouviu algo que a fizesse pensar assim?

            - Espere. O que quer dizer com "sobrenaturalista"?

            - O óbvio. A crença em entidades que são independentes das leis naturais; que não estão sujeitas à lei da conservação de energia, por exemplo, ou pela existência de uma constante de ação.

            - Sei. Você está querendo saber se Mycogen é uma comunidade religiosa.

            Foi a vez de Seldon. - Religiosa?..

            - Sim. É um termo arcaico, mas os historiadores ainda o empregam; nossa área é repleta de termos arcaicos. "Religioso" não é exatamente a mesma coisa que "sobrenaturalísta", embora o termo seja rico em elementos sobrenaturalistas. Mas não posso responder à pergunta que você fez, contudo, porque nunca estudei Mycogen por esse ângulo. Mesmo assim, pelo pouco que vi até agora, e pelo meu conhecimento das religiões através da História, não me surpreenderia se a sociedade de Mycogen tivesse um fundamento basicamente religioso.

            - Nesse caso, ficaria surpreendida se as lendas de Mycogen também tivessem substância religiosa?

            - Não..

            - E, em conseqüência, não se baseassem em fatos históricos?

            - Uma coisa não acarreta necessariamente a outra. O essencial das lendas pode ser autenticamente histórico, mesmo com distorções e com interferências sobrenaturalistas.

            - Ah - fez Seldon, e pareceu mergulhar em conjeturas. Daí a algum tempo Dors quebrou o silêncio.

            - Não é algo fora do comum. Existem consideráveis elementos religiosos na cultura de vários planetas. Isso tem crescido nos últimos séculos, à medida que o Império foi se tornando mais turbulento. Em Cinna, meu planeta, pelo menos um quarto da população se compõe de triteístas.

            Seldon estava mais uma vez constatando de forma dolorosa sua própria ignorância em assuntos históricos. Disse:

            - Houve algum tempo no passado em que a religião teve uma proeminência maior que a de hoje?

            - Certamente. Ademais, novas formas religiosas continuam brotando constantemente. A religião de Mycogen, qualquer que seja ela, pode ser relativamente nova e por enquanto restrita a este setor. Mas eu não poderia dar uma resposta mais exata sem um estudo considerável.

            - Chegamos agora a um outro ponto, Dors. Você acha que as mulheres são mais propensas à religião do que os homens?

            Dors ergueu os supercílios.

           - Não sei se é possível fazer uma generalização tão simplificada quanto esta - disse ela, pensativa. - Desconfio que aqueles elementos de uma população que têm menor participação no usufruto dos bens materiais tornam-se mais inclinados a procurar conforto naquilo que você chama de sobrenaturalismo: são os pobres, os deserdados, os oprimidos. Na medida em que o sobrenaturalismo se sobrepõe à religião, eles acabam se tornando religiosos. É claro, no entanto, que há exceções, em ambos os sentidos. Muitos oprimidos jamais se tornam religiosos; muitos entre os ricos e os poderosos possuem algum tipo de religião.

            - Mas em Mycogen - disse Seldon -, onde as mulheres parecem ser tratadas de modo subumano... seria possível arriscar a hipótese de que elas seriam mais religiosas do que os homens, mais envolvidas com as lendas que sua sociedade tem preservado?

            - Eu não apostaria minha reputação profissional nisto - disse Dors. - Mas apostaria meu salário de uma semana. - Ótimo - disse Seldon, meditativo.

            Dors sorriu para ele.

            - Aí você já tem um pedaço da sua psico-história, Hari. Regra nº 47.854: os oprimidos são mais religiosos do que os satisfeitos.

            Seldon balançou a cabeça.

            - Não brinque com psico-história, Dors. Você sabe que o que procuro não são pequenas regras, e sim vastas generalizações, e técnicas de manipulação. Não quero estabelecer uma religiosidade comparada como o resultado de cem regras específicas. Quero algo que me permita dizer, depois de tratado por algum sistema de lógica matemática: "Aha! este grupo de pessoas tende a ser mais religioso do que aquele outro grupo, desde que os seguintes critérios sejam observados, e desde que, em conseqüência, quando os indivíduos forem submetidos a tais e tais estímulos reagirão de tal ou tal forma."

            - Que coisa mais horrível- disse Dors. - Você descreve seres humanos como se fossem simples artefatos mecânicos. "Aperte este botão X, e você terá a resposta Y."

            - Nada disso. No caso da psico-história, haverá um número incalculável de botões sendo apertados simultaneamente e em diferentes graus, e defIagrando respostas de natureza tão variada que as previsões relativas ao futuro terão de ser de natureza forçosamente estatística, e o ser humano individual permanecerá um agente dotado de livre-arbítrio.

            - Como pode saber disto?

            - Não sei - disse Seldon. - Sinto que é assim. É dessa forma que, no meu entender, devem funcionar as coisas. Se eu puder formular os axiomas, as Leis Fundamentais da Humanística, por assim dizer, e o tratamento matemático adequado a elas, então terei em mãos minha psico-história. Já provei que, em teoria, isto é possível...

            - Só que impraticável.

            - Continuo pensando assim.

            Um tímido sorriso recurvou os lábios de Dors.

            - É isto que você está fazendo, Hari... tentando encontrar alguma solução para esse problema?

            - Não sei, juro que não sei. Chetter Hummin está ansioso para descobrir uma solução, e por alguma razão estou ansioso para ajudá-lo. Ele é um homem muito persuasivo.

            - É, sei disso.

            Seldon fingiu não ter ouvido o comentário, embora uma levíssima contração cruzasse seu rosto, mas continuou:

            - Hummin afirma que o Império está em decadência, que eventualmente deverá desmoronar, que a psico-história é a nossa única esperança para salvá-lo (ou pelo menos para atenuar a gravidade de sua queda), e que sem ela a humanidade será destruída ou, na melhor das hipóteses, conhecerá um prolongado e tenebroso período de miséria. E ele coloca sobre mim a responsabilidade de evitar tudo isso. Pois bem: o Império certamente terá uma vida bem mais longa que a minha, mas se eu aspirar a uma vida tranqüila preciso tirar essa responsabilidade de cima dos meus ombros. Preciso convencer a mim mesmo (e também a Hummin) de que a psicohistória não é uma solução, e de que, apesar de minhas teorias, ela não pode vir a ser desenvolvida.

            Portanto, tenho que seguir todas as trilhas possíveis, e mostrar que todas elas são falhas.

            - Trilhas? Como, por exemplo, retroceder na história, até um tempo em que a sociedade humana era muito menor do que hoje? - Muitíssimo menor. E bem menos complexa.

            - E mostrar que uma solução continua sendo impraticável?

            - Sim.

            - Mas quem poderá descrever para você esse passado remoto?

            Se os mycogenianos dispõem de algum retrato coerente da Galáxia primordial, Mestre do Sol certamente não estará disposto a revelá-lo a um homem da tribo.

            Nenhum mycogeniano o faria. Esta é uma sociedade fechada em si mesma, quantas vezes teremos que repetir isto? Seus membros suspeitam dos homens das tribos até o ponto de uma verdadeira paranóia. Jamais nos dirão coisa alguma.

            - Então preciso descobrir algum meio de fazê-los falar. As Irmãs, por exemplo.

            Elas não são capazes nem sequer de ouvir um homem, assim como Mestre do Sol não me ouve. E mesmo que falem com você, o que poderão saber, senão uma pequena coleção de frase feitas?

            - Preciso começar por algum lugar.

            - Deixe-me pensar - disse Dors. - Hummin me pediu para protegê-lo, e para mim isso significa que devo ajudá-lo sempre que possa. Então vejamos: o que sei sobre religião? Você sabe que isso não passa nem perto da minha especialidade. Sempre lidei com forças econômicas e não forças filosóficas, mas você não pode dividir a História em unidades básicas que não se interpenetrem.

            Por exemplo, a religião tende a acumular riquezas quando é bem-sucedida, e isso eventualmente tende a distorcer o desenvolvimento econômico de uma sociedade... Existe, a propósito, uma das numerosas regras da História humana que você vai ter que derivar das suas Leis da Humanística ou como lá se chame.

            Mas...

            Nesse ponto a voz de Dors sumiu, e ela quedou-se pensativa.

            Seldon a observava atentamente, e os olhos dela estavam vagos, como se ela estivesse profundamente mergulhada em si mesma. Por fim, ela voltou a falar:

            - Não é uma regra invariável. Mas me parece que na maioria dos casos uma religião possui um livro, ou um conjunto de livros, de significado especial: livros que Ihes fornecem seus rituais, sua visão da história, seus poemas sagrados, e tudo o mais. Em geral, esses livros são acessíveis a todos, e funcionam como um meio de conquistar novas conversões àquela fé. Às vezes são livros secretos.

            - Acha que Mycogen tem algum livro dessa espécie?

            - Para ser franca, nunca ouvi falar em nenhum, e acho que teria ouvido, caso eles existissem abertamente. Isso significa que: ou não existem ou são mantidos em segredo. Seja qual for o caso, não me parece que você vai pôr as mãos neles.

            - Mas pelo menos é um ponto de partida - disse Seldon, sem muito otimismo.

 

            As Irmãs retomaram umas duas horas depois que Hari e Dors acabaram a refeição. Estavam ambas sorridentes, e Gota de Chuva Quarenta e Três, a mais séria das duas, estendeu um kirtle cinzento para que Dors o examinasse.

            - Muito interessante - disse Dors, abrindo um largo sorriso, e balançando a cabeça com uma certa sinceridade. - Gosto deste bordado aqui, é tão bem- feito...

            - Ora, não é nada - chilreou Gota de Chuva Quarenta e Cinco. É apenas uma das minhas roupas velhas, e acho que não vai cair muito bem, porque você é mais alta do que eu. Mas vai lhe servir por algum tempo, e depois nós vamos levá-la à melhor kirtleria para que você mesma escolha alguns mais adequados.

            Você vai ver.

            Gota de Chuva Quarenta e Três tinha um sorriso nervoso nos lábios mas não dizia nada, mantendo os olhos baixos, e por fim estendeu na direção de Dors um kirtle branco, cuidadosamente dobrado. Dors nem fez menção de desdobrá-lo, e o passou direto para as mãos de Seldon.

            - Pela cor posso adivinhar que este é seu, Hari.

            - Provavelmente - disse ele -, mas devolva-o. Ela não o entregou a mim.

            - Oh, Hari... - murmurou Dors, com um leve aceno de cabeça.

            - Não - retrucou Seldon com firmeza. - Ela não o entregou a mim, e vou esperar até que ela o faça.

            Dors hesitou, e fez uma tentativa vacilante de devolver o kirtle a Gota de Chuva Quarenta e Três. A Irmã, no entanto, pôs as mãos às costas e recuou, sem um vestígio de vida no rosto. Gota de Chuva Quarenta e Cinco relanceou apenas um rapidíssimo olhar na direção de Seldon, depois postou-se ao lado da irmã e a rodeou com os braços, num gesto protetor.

            - Por favor, Hari - disse Dors. - Estou certa de que as Irmãs não têm permissão para conversar com homens que não sejam seus parentes. Qual a vantagem em deixá-las assim tão constrangi das? Elas não podem fazer nada.

            - Não creio - tornou Seldon, implacável. - Se existe uma tal regra, ela se aplica apenas aos Irmãos. Duvido muito de que ela já tenha encontrado um homem da tribo antes.

            Com voz suave, Dors dirigiu-se a Gota de Chuva Quarenta e Três: - Já encontrou antes algum homem da tribo, Irmã, ou uma mulher da tribo?

            Houve uma longa hesitação, e depois um vagoroso gesto negativo com a cabeça. Seldon fez um gesto largo com os braços:

            - Está vendo? Se existe regra de silêncio, ela se aplica apenas aos Irmãos.

            Acha que eles teriam enviado essas jovens, estas Irmãs, para nos servirem, se houvesse algum tipo de lei as proibindo de falar comigo?

            - Talvez devessem falar apenas comigo, e eu serviria de intermediária entre você e elas.

            - Bobagem. Não acredito nisso, e você também não. Não sou um mero homem da tribo, sou um hóspede ilustre em Mycogen, cheguei aqui recomendado por Chetter Hummin e fui trazido por Mestre do Sol Catorze em pessoa. Não admito ser tratado corno se não existisse, e se isso acontecer vou me queixar a Mestre do Sol Catorze.

            Gota de Chuva Quarenta e Cinco começou a soluçar, e Gota de Chuva Quarenta e Três, ainda que mantendo-se quase impassível, enrubesceu visivelmente.

            Dors esboçou uma nova tentativa de argumentar com Seldon, mas este a silenciou com um gesto brusco e encarou Gota de Chuva Quarenta e Três com expressão ameaçadora.

            Finalmente ela falou; e desta vez já não chilreava. Sua voz era rouca e trêmula, como se ela tivesse que forçar-se a articular cada palavra na direção daquele homem, e isto fosse algo totalmente contrário ao seu instinto e à sua vontade.

            - Não deve se queixar a nosso respeito, homem da tribo - disse ela. - Seria uma atitude injusta. Está me forçando a infringir os costumes do meu povo. O que deseja de mim?

            Seldon deu um sorriso cativante e no mesmo momento estendeu as mãos para ela:

            - Quero a roupa que trouxe para mim. O kirtle.

            Em silêncio, ela colocou o kirtle nas mãos de Seldon. Ele fez uma ligeira reverência e disse:

            - Obrigado, Irmã. - e relanceou um breve olhar na direção de Dors, como se dissesse: está vendo? Mas Dors, zangada, afastou o olhar.

            Seldon desdobrou o kirtle, que era branco e sem bordados de nenhuma espécie: aparentemente, enfeites e ornamentos eram privativos das roupas femininas. A roupa vinha acompanhada de um cinto cheio de borlas; Seldon achou que não teria dificuldade em descobrir o modo correto de usá-lo.

            - Vou ao banheiro vestir esta coisa - anunciou. - Não demoro mais que um minuto, ou pelo menos assim espero.

            Entrou no minúsculo banheiro e, quando tentou fechar a porta, Dors forçou a passagem para dentro, e só depois de entrar cerrou a porta.

            - O que foi que você fez, Hari? - Você foi de uma grosseria imperdoável. - Por que tratou a pobre moça daquele jeito?

            - Eu tinha que obrigá-la a me dirigir a palavra - retrucou Seldon com impaciência. - Preciso dela para conseguir informações, você sabe disso.

            Lamento ter sido um pouco cruel, mas de que outro modo poderia vencer a inibição dela?

            Fez um gesto para que Dors saísse; e quando saiu do banheiro viu que ela também já tinha vestido seu kirtle. A despeito da carapuça plástica que a tornava praticamente calva, e do desalinho do kirtle, Dors estava bastante atraente. O caimento da veste delineava os contornos de seu corpo, sem exibi-lo totalmente.

            Seu cinto, num tom de cinza ligeiramente diferente do da roupa, mais largo que o de Seldon, era preso na parte da frente por dois colchetes adornados com brilhantes pedras azuis. "As mulheres sempre dão um jeito de ficar mais bonitas, mesmo nas condições mais adversas", pensou Seldon.

            Olhando para ele, Dors comentou:

            - Agora você está parecendo um mycogeniano. Acho que estamos prontos para ser levados às compras pelas Irmãs.

            - Sim - disse Seldon -, mas depois disso quero que Gota de Chuva Quarenta e Três me leve a um passeio nas rnicrofazendas.

            Os olhos de Gota de Chuva Quarenta e Três se dilataram, e ela deu um passo para trás.

            - Sim - prosseguiu Seldon. - Eu gostaria muito de conhecê-las.

            Gota de Chuva Quarenta e Três olhou rapidamente para Dors. - Mulher da tribo... - começou a dizer.

            - Parece que não conhece nada sobre as fazendas, Irmã - interrompeu Seldon.

            Isso pareceu surtir efeito: ela ergueu o queixo com altivez e falou, ainda dirigindo-se a Dors:

            - Eu trabalhei nas microfazendas. Todos os Irmãos e Irmãs o fazem, numa certa altura em suas vidas.

            - Então muito bem, vamos dar esse passeio - disse Seldon.

            - E não vamos recomeçar a discutir. Eu não sou um Irmão com quem você é proibida de conversar e de se relacionar. Sou um homem da tribo e um convidado ilustre. Estou usando este kirtle e esta carapuça para não atrair as atenções desnecessariamente, mas sou um erudito, e vim aqui para pesquisar.

            Não vou ficar trancado neste quarto, olhando as paredes. Quero ver aquilo que apenas vocês possuem, em toda a Galáxia... as suas microfazendas. Pensei que vocês teriam orgulho em mostrá-las.

            - Nós temos orgulho - tornou Gota de Chuva Quarenta e Três, finalmente encarando Seldon enquanto falava. - E eu as mostrarei, e não creio que descobrirá nenhum dos nossos segredos, se é para isso que está aqui, homem da tribo. Mostrar-lhe-ei as microfazendas amanhã pela manhã. Preciso de algum tempo para combinar a visita.

            - Esperarei até amanhã - disse Seldon. - Mas está prometido? Tenho sua palavra de honra?

            Gota de Chuva Quarenta e Três replicou, com visível desprezo: - Eu sou uma Irmã e eu farei conforme o disse. Manterei minha palavra, ainda que dada a um homem da tribo.

            Sua voz adquiriu um tom glacial ao pronunciar estas últimas frases, enquanto seus olhos se dilatavam e pareciam chamejar. Seldon tentou adivinhar o que estaria se passando em sua mente, e começou a sentir-se um tanto desconfortável.

 

            Seldon não teve uma noite tranqüila. Para começar, Dors anunciou que o acompanharia na visita às microfazendas, ao que ele objetou energicamente.

            - Meu propósito - disse - é fazer com que ela fale livremente, colocando-a numa situação inusitada: sozinha com um homem, mesmo se tratando de um estranho. Transgredindo seus hábitos até esse ponto fica fácil ir mais longe ainda. Se você nos acompanhar, no entanto, ela irá se dirigir apenas a você, e eu só pegarei as sobras.

            - E se algo acontecer com você durante minha ausência, como na sua ida à Superfície?

            - Nada vai acontecer. Por favor, Dors. Se quiser me ajudar, mantenha-se afastada, se não, não há mais nada que possamos fazer juntos. Estou falando sério. Isto é algo importante para mim. Por mais que eu me tenha apegado a você, agora quem toma as iniciativas sou eu.

            Ela concordou, ainda que com enorme relutância, e disse: - Está bem, mas prometa que não será muito duro com ela.

            - É a mim ou a ela que você tem que proteger? Garanto que não fui duro com ela para me divertir, e continuarei assim.

            A lembrança dessa sua primeira discussão com Dors contribuiu para mantê-lo acordado durante a maior parte da noite, juntamente com o temor de que as duas Irmãs não aparecessem na manhã seguinte, a despeito da promessa de Gota de Chuva Quarenta e Três.

            Mas elas chegaram, não muito tempo depois de Seldon ter acabado um rápido desjejum (ele tinha tomado a resolução de não se permitir engordar por excesso de autocornplacência). Ele já estava vestido em seu kirtle, que se ajustou perfeitamente, e tinha aprendido o modo correto de prender o cinto.

            Gota de Chuva Quarenta e Três, ainda com um brilho de frieza nos olhos, disse:

            - Se estiver pronto, homem da tribo Seldon, minha irmã ficará aqui em companhia da mulher da tribo Venabili.

            Sua voz não soava mais como um gorjeio, nem estava rouca como quando se dirigira a ele na véspera: era como se ela tivesse passado a noite ensaiando um modo de dirigir a palavra a um homem que não era um dos Irmãos.

            Seldon imaginou se ela teria passado a noite em claro, e disse: - Estou pronto.

            Meia hora depois, Gota de Chuva Quarenta e Três e Seldon desciam rumo ao subsolo. Embora já fosse dia, pelo relógio, o ar tinha uma luminosidade mais mortiça do que Seldon já tinha visto em qualquer parte de Trantor.

            Não havia nenhuma razão óbvia para isto, uma vez que a luz do dia artificial que lentamente percorria o planeta evidentemente abrangia também o Setor Mycogen; mas Seldon supôs que os rnycogenianos talvez preferissem as coisas daquela forma, apegados a algum de seus costumes primitivos. Aos poucos, seus olhos foram se acostumando à penumbra.

            Seldon tentou encarar com naturalidade as pessoas, fossem Irmãos ou Irmãs, com quem cruzavam em seu trajeto. Considerou que ele e Gota de Chuva Quarenta e Três seriam tomados como um Irmão e sua mulher, e não atrairiam nenhuma atenção, desde que nada fizessem de insólito.

            Infelizmente, Gota de Chuva Quarenta e Três parecia querer atrair os olhares.

            Quando falava a Seldon, proferia apenas umas poucas palavras, em voz muito baixa, e pelo canto da boca. Era visível que a companhia de um homem não pertencente à sua cultura a deixava insegura, ainda que só ela soubesse do fato.

            Seldon pressentiu que, se lhe dissesse para ficar tranqüila, isso apenas a deixaria ainda mais tensa do que já estava. (Ele imaginou qual seria a reação dela se por acaso encontrassem alguém que a conhecesse pessoalmente; tranqüilizou-se quando foram chegando aos níveis mais profundos, onde havia um número bem menor de pessoas.)

            A descida não era feita através de elevadores, e sim de rampas móveis dispostas aos pares, uma subindo e a outra descendo; Gota de Chuva Quarenta e Três referia-se a elas como escaladores. Seldon não estava certo de ter ouvido corretamente a palavra, que para ele era totalmente desconhecida.

            Quanto mais se aprofundavam no subsolo, mais apreensivo Seldon ia ficando.

            A maior parte dos planetas possuía microfazendas, e tinha suas próprias variedades de microprodutos. Em Helicon, Seldon havia ocasionalmente freqüentado esses locais para comprar molhos e condimentos, e sempre encontrara o ar invadido por uma intensa mistura de odores, capazes de fazer revirar o estômago.

            As pessoas que trabalhavam nas microfazendas pareciam não se incomodar com isso; mesmo os visitantes casuais, apesar de inicialmente fazerem caretas, pareciam ir-se acostumando depois de um certo tempo. Seldon, no entanto, era particularmente suscetível àquele tipo de cheiro, e nesse instante estava preparado para se deparar com ele mais uma vez; tentou se consolar pensando que fazia um nobre sacrifício, em sua busca incansável de informações - mas isso não impedia que seu estômago se contraísse, de apreensivo que estava.

            Quando já tinha perdido a conta do número de andares que tinham descido, Seldon, vendo que o ar continuava razoavelmente fresco, perguntou:

            - Quando chegaremos aos níveis das microfazendas?

            - Já estam os neles - foi a resposta.

            Ele inalou profundamente. - Não parece, pelo cheiro.

            - Cheiro? O que quer dizer com isso?

            Gota de Chuva Quarenta e Três pareceu ofendida o bastante para erguer a voz.

            - Pela minha experiência, há sempre uma espécie de odor desagradável associado às microfazendas. Você sabe. É algo associado aos fertilizantes necessários aos fungos, bactérias, saprófitas etc.

            - Pela sua experiência? - A voz dela abaixou-se novamente. - Onde foi isso?

            - Em meu planeta.

            O rosto da Irmã se contorceu numa careta de repugnância. - Então o seu povo vive mergulhado na gabelle!

            Seldon nunca tinha escutado a palavra, mas o olhar e a entonação não deixavam dúvidas quanto ao seu significado.

            - É claro que não existe esse cheiro quando os produtos são consumidos - disse ele.

            - Nossos microprodutos não têm esse cheiro em momento algum - retrucou a Irmã. - Nossos biotécnicos desenvolveram espécies perfeitas. As algas crescem na luz mais pura possível, e em soluções eletrolíticas cuidadosamente equilibradas. As saprófitas são nutridas com as melhores combinações de matéria orgânica. As fórmulas e as receitas que utilizamos são algo que os homens da tribo jamais chegarão a conhecer... Venha, chegamos. Pode respirar à vontade, e não vai achar nenhum odor desagradável. Esta é uma das razões pelas quais nossa comida é valorizada em toda a Galáxia, e o próprio imperador não se alimenta de outra coisa... embora ela seja de muito boa qualidade para um homem da tribo, se quer minha opinião, mesmo que esse homem se auto- intitule imperador.

            Havia rancor na voz dela, rancor esse que parecia dirigido contra o próprio Seldon. Em seguida, como se temesse que ele não chegasse a perceber isso, ela completou:

            - Ou mesmo que ele se auto-intitule um hóspede ilustre. Eles penetraram num corredor estreito: de ambos os lados havia enormes tanques com espessas paredes de vidro nos quais se agitava um líquido verde-escuro, cheio de algas que se moviam em redemoinho, impulsionadas por bolhas de gás que brotavam do fundo do tanque; ricas em dióxido de carbono, deduziu Seldon.

            Uma luz forte e de coloração rósea era diretamente projetada sobre os tanques, uma luz mais intensa do que a que brilhava ao longo do corredor.

            Seldon fez um breve comentário a respeito. - Claro - disse a Irmã. - As algas produzem melhor com uma luz na extremidade vermelha do espectro.

            - Presumo - disse Seldon - que tudo aqui é automatizado. Ela encolheu os ombros, sem dizer nada.

            - Não estou vendo um grande número de Irmãos e Irmãs por aqui - insistiu ele.

            - Mesmo assim há trabalho para ser feito, e eles o executam, ainda que não os vejamos. Os detalhes não são de sua conta, homem da tribo. Não perca seu tempo fazendo perguntas.

            - Calma, não se zangue. Não quero ficar sabendo seus segredos de Estado, querida.

            A palavra lhe escapou sem querer, e ele teve que segurar Gota de Chuva Quarenta e Três pelo braço, pois ela pareceu a ponto de sair correndo. Estacou; Seldon percebeu o quanto estava trêmula, e soltou-a, embaraçado. Tentou reatar a conversa:

            - É que tudo isto aqui dá a impressão de ser automático.

            - Tenha a impressão que bem entender, mas o fato é que isto aqui é controlado por mentes humanas e decisões humanas. Todos os Irmãos e as Irmãs têm que trabalhar aqui durante algum tempo. Alguns fazem disto a sua profissão.

            Ela tinha voltado a falar com naturalidade, mas Seldon notou, para aumentar seu embaraço, que a mão de Gota de Chuva Quarenta e Três esfregava disfarçadamente o ponto onde ele a havia tocado, como se a mão dele a tivesse machucado.

            - Isto aqui tem quilômetros de extensão - disse ela -, mas se entrarmos neste ponto você poderá conhecer a seção dos fungos.

            Seguiram em frente, e Seldon não pôde deixar de notar a limpeza que reinava no local. Os vidros reluziam. O chão de ladrilhos parecia úmido, mas quando ele se abaixou durante um breve momento para tocá-lo com a ponta dos dedos constatou que estava seco. Também não era escorregadio - a menos que suas sandálias (que, ao estilo mycogeniano, deixavam aparecer o dedão do pé) tivessem solas aderentes.

            Num detalhe Gota de Chuva Quarenta e Três estava certa: aqui e ali havia um Irmão ou Irmã trabalhando em silêncio, consultando medidores, ajustando controles, às vezes dedicando-se a uma tarefa tão prosaica quanto lustrar instrumentos - mas sempre fazendo seu trabalho com intensa concentração.

            Seldon teve a prudência de não perguntar que trabalho era aquele: não queria causar à Irmã a humilhação de ter de confessar que não sabia, ou o aborrecimento de ser forçada a lembrar-lhe mais uma vez que certas informações estavam vedadas a um estranho.

            Cruzaram uma porta vaivém, e de súbito Seldon sentiu um leve traço do odor que recordava; olhou para Gota de Chuva Quarenta e Três mas ela não parecia tê-lo percebido, e daí a alguns minutos também ele foi se acostumando.

            A qualidade da luz, ali, era bem diferente. O tom róseo desapareceu por completo, e a intensidade era muito menor: tudo estava mergulhado em penumbra, exceto por alguns pontos da maquinaria que eram iluminados por holofotes; nesses pontos, havia invariavelmente um Irmão ou uma Irmã nas proximidades. Alguns deles usavam na testa faixas luminosas que emitiam um brilho leitoso; à distância, Seldon podia discernir, aqui e acolá, manchas luminosas que se moviam em várias direções.

            Enquanto caminhavam, ele observou o perfil de Gota de Chuva Quarenta e Três, que era tudo o que ele tinha para examinar. Em qualquer outra circunstância ele não poderia deixar de estar consciente daquele crânio calvo, os olhos sem pintura, a face pálida. Aquilo diluía a individualidade dela e a tornava quase invisível; mas assim, de perfil, Seldon podia distinguir alguma coisa. O desenho do nariz e do queixo, os lábios cheios, regularidade, beleza. A luz difusa do ambiente deixava os seus contornos mais brandos, e suavizava aquele deserto liso no alto de sua cabeça.

            Seldon pensou, com surpresa: ela poderia ser muito bonita, se deixasse o cabelo crescer e lhe desse um arranjo adequado.

            E depois lembrou-se de que isso era impossível: ela permaneceria calva pelo resto da sua vida.

            Mas por quê? Por que tinham de fazer aquilo? Mestre do Sol tinha dito que daquele modo um mycogeniano se reconheceria como tal pelo resto da vida.

            Que enorme importância teria isso, para que o estigma da cabeça depilada fosse aceito como uma insígnia, um traço de identidade?

            Em seguida (ele tinha o hábito de argumentar em defesa de ambos os lados, ao investigar uma questão) pensou: o hábito torna-se uma segunda natureza. Se alguém se acostumar a que as cabeças sejam raspadas, a visão de um crânio peludo parecerá monstruosa, poderá mesmo provocar náuseas. Ele próprio barbeava o rosto todas as manhãs, removia com cuidado os pelos faciais, sentindo-se mal ao perceber na pele a menor aspereza; e no entanto não considerava seu rosto "calvo" ou, de qualquer maneira, pouco natural.

            É claro que poderia deixar a barba crescer a qualquer momento, se assim quisesse: mas nunca queria.

            Ele sabia que havia planetas onde os homens jamais se barbeavam; em outros, nem sequer prendiam ou penteavam os cabelos, deixavam-nos apenas crescer à vontade. Como reagiriam esses homens diante de seu rosto liso, suas bochechas e seu queixo totalmente raspados?

            Enquanto continuava caminhando ao lado de Gota de Chuva Quarenta e Três (ao longo de um trajeto que parecia interminável) ele notou que de vez em quando ela lhe tocava o cotovelo para indicar uma mudança de direção, e ele teve a impressão de que ela começava a se acostumar à sua presença, pois não se apressava a retirar a mão; às vezes chegava a prolongar o toque por quase um minuto.

            - Venha cá - disse ela - O que é isso? - perguntou Seldon Tinham parado junto a uma bandeja cheia de pequenas esferas, cada qual com uns dois centímetros de diâmetro. Um Irmão que estava trabalhando nas proximidades, e que tinha acabado de colocar ali a bandeja, olhou para eles com alguma curiosidade Gota de Chuva Quarenta e Três sussurrou para Seldorr - Peça algumas.

            Seldon compreendeu que ela não poderia falar a um Irmão sem que este tivesse se dirigido a ela, e perguntou, meio insegura.

            - Posso... posso pegar algumas, Irmão?

            - Sirva-se de um punhado, Irmão - respondeu o outro, amigavelmente.

            Seldon tomou nos dedos uma das esferas e estava a ponto de estendê-la para Gota de Chuva Quarenta e Três quando percebeu que ela tinha considerado o convite como extensivo a ela própria e já se apoderava de dois punhados A esfera era macia, lustrosa. Enquanto se afastavam, Seldon perguntou à Irmã:

            É para comer? - E ergueu a esfera até o nariz. - Não têm cheiro - disse ela - E o que são?

            - Guloseimas, guloseimas cruas. Para o mercado externo elas recebem sabor artificial, mas aqui em Mycogen nós a comemos assim, ao natural... é a melhor maneira. - Ela colocou uma na boca e disse: - Eu nunca me canso de comê-las.

            Seldon levou a esfera à boca: ela se dissolveu e desapareceu rapidamente.

            Durante um breve instante sua boca se encheu de água e logo aquilo tudo deslizou pela sua garganta abaixo Ele parou um instante, deslumbrado. O gosto era levemente doce, e na verdade deixava um travo agradavelmente amargo, mas a sensação principal ainda lhe escapava.

            - Posso pegar outra? - pediu.

            - Pegue meia-dúzia - disse Gota de Chuva Quarenta e Três, estendendo a mão. - Elas nunca têm exatamente o mesmo sabor, e praticamente não contêm calorias, somente sabor.

            Ela tinha razão. Ele tentou conservar a guloseima intacta em sua boca; tentou lambê-la aos poucos; tentou arrancar-lhe um pedaço com os dentes. Mas a mais leve lambida a dissolvia, e acontecia o mesmo quando ele a partia em duas com os dentes. O sabor de cada uma era idefinível, e nunca exatamente igual ao da anterior - O único problema - disse a Irmã, com uma voz deliciada - é que de vez em quando você experimenta uma que é absolutamente fora do comum, e você nunca a esquece, mas também jamais a reencontra. Provei uma, quando eu tinha nove anos... - Logo sua expressão tornou-se mais séria e ela disse: - É uma boa coisa. Ensina a todos nós o quanto as coisas do mundo são efêmeras.

            Para Seldon, aquilo foi como um sinal. Tinham vagueado por ali durante bastante tempo; ela tinha aos poucos se acostumado à presença dele e já estava conversando quase normalmente. Tinham chegado ao ponto que ele pretendia.

            Tinha que ser agora!

 

            - Eu venho de um mundo, Irmã - disse ele - onde as pessoas vivem a céu aberto, como se dá em todos os planetas, com exceção de Trantor. A chuva cai, ou não cai; os rios secam, ou se avolumam, inundando tudo; a temperatura se eleva, ou se abaixa. Isso significa que as colheitas podem ser boas ou más. Aqui, no entanto, o ambiente está sob controle total. As colheitas não têm outra possibilidade, a não ser a de serem boas. Que lugar abençoado é Mycogen.

            E serou. Havia muitas respostas possíveis, e sua linha de ação ia depender de qual delas fosse escolhida pela moça.

            Ela já estava falando com certa liberdade, e parecia não ter mais inibições por estar em companhia de um homem, portanto aquele longo passeio tinha servido aos propósitos de Seldon. Ela disse' - O ambiente não é assim tão fácil de controlar. Surgem infecções viróticas de vez em quando, e às vezes se verificam algumas mutações repentinas e indesejáveis. Há ocasiões em que colheitas inteiras definham, ou ficam imprestáveis - Isso me surpreende. E o que sucede então?

            - Em geral não há outra solução senão inutilizar as colheitas estragadas, mesmo aquelas que estão apenas sob suspeita. Os depósitos e os tanques têm que ser totalmente esterilizados em seguida, e às vezes precisam ser destruídos.

            - É quase uma cirurgia - comentou Seldon. - Vocês cortam fora o tecido estragado. - Sim.

            - E quais são as medidas que tomam para que isso não aconteça?

            - O que podemos fazer? Fazemos testes constantes para detectar qualquer mutação que possa surgir, novos vírus que podem estar aparecendo, alguma contaminação acidental ou mudança no ambiente. Raramente detectamos algo errado, mas quando isso acontece tomamos atitudes drásticas. O resultado disso é que os anos de más colheitas são raros, e mesmo quando acontecem isso só se dá em regiões localizadas. O pior ano que tivemos até hoje ficou apenas 12% abaixo da nossa média, embora isso já tenha sido o suficiente para acarretar dificuldades. O problema é que mesmo o planejamento mais cuidadoso e os programas de computador mais eficientes não podem prever tudo... há sempre fatores imprevisíveis.

            (Seldon sentiu um tremor percorrê-lo. Era quase como se ela estivesse a falar sobre a psico-história - mas ela estava apenas falando sobre a produção nas microfazendas de uma minúscula parte da humanidade, enquanto que ele estava tentando considerar todas as múltiplas atividades que se processavam no interior de um gigantesco Império Galáctico.)

            Um tanto desanimado, ele disse:

            - Nem tudo, entretanto, é imprevisível. Existem forças que nos guiam, e que tomam conta de nós.

            A Irmã empertigou-se, e virou-se para ele, lançando-lhe um olhar penetrante - mas tudo o que disse foi: - O quê?...

            Seldon sentiu-se pouco à vontade.

            - Acho que quando falamos sobre vírus ou mutações estamos nos referindo ao mundo natural, aos fenômenos que estão sujeitos às leis naturais. E isso deixa de fora o sobrenatural, não é mesmo? Deixa de fora tudo quanto não está submetido às leis da natureza e que, em conseqüência, pode controlar essas leis.

            Ela continuou a fitá-lo, como se de um instante para outro ele tivesse começado a falar em algum dialeto remoto e desconhecido do Padrão Galáctico; e mais uma vez disse apenas:

            - O quê?

            Seldon continuou, titubeando de encontro a palavras que lhe eram pouco familiares, e que o embaraçavam:

            - Estou me referindo a alguma essência superior, a algum grande espírito, algum... ora, não sei que nome dar a isso.

            Gota de Chuva Quarenta e Três começou a falar, numa voz cujo registro ia se tornando cada vez mais agudo, embora permanecendo baixa:

            - Eu sabia. Eu sabia que era isso que você queria dizer, mas não acreditei, não podia. Você está nos acusando de ter uma religião. Por que não disse logo? Por que não disse o que era?

            Esperou uma resposta, e Seldon, um tanto confuso diante daquela investida, falou:

            - Porque eu não utilizo essa palavra. Eu chamo a isto de sobrenaturalismo.

            - Chame como quiser! É religião, e nós não temos isso. Religião fica para os homens da tribo, para essa esc...

            A Irmã parou e engoliu em seco, como se estivesse a ponto de sufocar, mas Seldon entendeu que era escória a palavra que ela tinha deixado incompleta.

            Gota de Chuva Quarenta e Três recobrou finalmente o equilíbrio. Falando devagar, e num tom um pouco mais grave do que sua habitual voz de soprano, disse:

            - Não somos um povo religioso. Nosso reino é o desta Galáxia, e foi sempre assim. Se você tem uma religião...

            Seldon se sentiu apanhado numa armadilha; não tinha contado com isto, e ergueu a mão, num gesto de defesa.

            - Calma, não é bem assim. Sou um matemático, e meu reino também é o desta Galáxia. Pensei apenas, devido à rigidez dos costumes daqui, que talvez o seu reino fosse...

            - Não pense isso, homem da tribo. Se os nossos costumes são rígidos é porque somos apenas uns poucos milhões, cercados por bilhões e bilhões de estranhos. Temos que ter a nossa própria marca, seja ela qual for, para que os poucos membros do nosso povo não se percam entre essas multidões, esses formigueiros humanos. Temos que marcar a nós mesmos com nossa ausência de pêlos, nossas roupas, nosso comportamento, nosso modo de vida. Temos que saber com certeza quem somos, e temos que ter certeza de que os homens da tribo saberão quem somos. Trabalhamos em nossas microfazendas para que possamos ter algum tipo de valor aos seus olhos, e com isso ter a certeza de que nos deixarão viver em paz. É tudo que pedimos... que nos deixem viver em paz.

            - Não tenho a menor intenção de fazer mal a você ou ao seu povo. O que busco é o conhecimento, aqui como em toda parte - E por isso nos insulta ao perguntar sobre nossa religião, como se vivêssemos pedindo a algum espírito misterioso e insubstancial para fazer por nós o que nós mesmos não conseguimos.

            - Existem muitos povos, muitos planetas que acreditam em sobrenaturalismo de uma forma ou de outra; religião, se prefere usar esta palavra. Podemos discordar deles, não importa como, mas é tão possível que estejamos errados em nossa descrença quanto eles em sua fé. Em todo caso, não existe vergonha alguma nesse tipo de fé, e minhas perguntas não devem ser encaradas como ofensas Mas ela não se tinha conformado ainda.

            - Religião! - disse, com voz irritada. - Não temos nenhuma necessidade disso.

            A boa disposição de Seldon, que tinha diminuído visivelmente durante toda a altercação, acabou chegando ao fundo. Todo o seu plano, toda essa expedição ao lado de Gota de Chuva Quarenta e Três, tinha resultado em nada.

            Ela não tinha se dado por satisfeita, e continuou:

            - Nós temos algo muito melhor do que religião. Temos História.

            Numa fração de segundo todo o otimismo de Seldon se recompôs por inteiro; e ele sorriu

 

            O CASO DA MÃO SOBRE A COXA -... Uma ocasião citada por Hari Seldon como o primeiro ponto decisivo em sua busca de um método para desenvolver a psico- história. Infelizmente, seus textos publicados não fornecem nenhuma indicação sobre o que teria realmente sido este "caso", e as especulações feitas a este respeito (que têm sido numerosas) são infrutíferas. Este continua sendo um dos mais intrigantes mistérios relativos à carreira de Seldon.

            ENCICLOPÉDIA GALÁCfICA

 

            Gota de Chuva Quarenta e Três encarou Seldon com olhos brilhantes; sua respiração estava acelerada.

            - Não posso continuar aqui - disse ela. Seldon olhou em torno.

            - Ninguém está nos perturbando. Mesmo o Irmão que nos deu as guloseimas não disse nada. Ele pareceu nos considerar uma dupla de pessoas perfeitamente normal.

            - É porque não há nada de estranho em nós dois, se a luz estiver fraca, se você mantiver sua voz baixa o bastante para que seu sotaque de homem da tribo não apareça, e se eu me mantiver calma. Mas agora... - A voz dela estava mais rouca do que nunca.

            O que é que há agora?

            Estou nervosa, e tensa. Estou... transpirando.

            - Quem vai notar? Relaxe. Fique calma.

            - Não posso relaxar, aqui. Não posso ficar calma, num lugar onde possam nos ver.

            - E para onde podemos ir?

            - Aqui perto existem uns aposentos que servem para repouso. Sei onde ficam, já trabalhei aqui.

            Ela partiu a passo rápido e Seldon a acompanhou. Subiram uma pequena rampa e lá no alto havia uma fileira de portas, bem afastadas uma da outra.

            Sozinho ele jamais as teria percebido.

            - Aquela ali no final - disse ela. - Se estiver livre.

            O aposento estava vazio: um pequeno retângulo brilhava com os dizeres NÃO OCUPADO, e a porta estava entreaberta.

            Gota de Chuva Quarenta e Três olhou para todos os lados, empurrou Seldon para dentro, e o seguiu com rapidez. Quando fechou a porta, acendeu-se uma luz no teto, iluminando o recinto. Seldon perguntou:

            - O letreiro na porta indica que isto aqui está ocupado?

            - Sim, automaticamente, quando a porta se fecha e a luz de dentro é acesa.

            Seldon podia sentir o ar que circulava lá dentro, acompanhado de um leve rumor; mas haveria um lugar em Trantor onde aquele som e aquela sensação não estivessem presentes?

            O quarto não era espaçoso, mas tinha um leito com um colchão firme e confortável, e lençóis limpos dobrados à cabeceira. Havia uma mesa e uma cadeira, uma pequena geladeira, e algo que parecia um forno embutido, certamente destinado a aquecer refeições.

            Gota de Chuva Quarenta e Três sentou-se na cadeira, muito empertigada, fazendo um visível esforço para relaxar.

            Seldon, em dúvida ao que devia fazer, ficou de pé até que ela, com um gesto impaciente, o fez sentar-se na cama. Com uma voz suave, como se falasse consigo mesma, Gota de Chuva Quarenta e Três disse:

            - Se um dia ficarem sabendo que eu estive aqui com um homem, mesmo sendo um homem da tribo, serei banida.

            Seldon ficou de pé num salto, dizendo: - Então vamos embora.

            - Sente-se. Não posso sair enquanto estiver me sentindo assim. Você esteve me perguntando sobre religião. Afinal, você está procurando o quê?

            Aos olhos de Seldon, ela estava totalmente transformada. Tinha sumido toda a passividade, toda a subserviência. Não havia mais o menor sinal da timidez, da atitude retraída diante da presença masculina. Os olhos dela o encaravam, estreitos, brilhantes.

            - Já lhe disse - respondeu Seldon. - Procuro o conhecimento. Sou um pesquisador. Minha profissão e meu maior desejo é o de saber. Quero saber o que são as pessoas, e para isso preciso entender a História. Em muitos planetas, os registros históricos mais antigos (estou me referindo aos registros realmente antigos) degeneraram em mitos e lendas, tornando-se, muitas vezes, parte de um conjunto de crenças religiosas ou sobrenaturais. Mas se existe uma religião em Mycogen, então...

            - Eu lhe disse que nós temos História.

            - Sim, já falou isso duas vezes. Mas é antiga? Até onde alcança?

            - Vinte mil anos atrás.

            - É mesmo? Vamos falar com franqueza. É História mesmo, ou é algo que já se diluiu em lenda? - História verdadeira, claro.

            Seldon esteve a ponto de perguntar como ela podia responder com tanta segurança, mas mudou de idéia. Haveria alguma chance de registros históricos autênticos durarem vinte mil anos? Ele não era uma historiador; teria que perguntar a Dors.

            Ao mesmo tempo, era bastante claro para ele que em cada planeta as narrativas históricas mais antigas não passavam de uma colcha de retalhos de heroísmos de encomenda, e minidramas que deviam funcionar apenas como exemplos moralizantes e não deviam ser tomados ao pé da letra. Isso acontecia em Helicon, e ainda assim dificilmente se encontraria um heliconiano que não estivesse disposto a pôr a mão no fogo pela veracidade dessas narrativas e garantir que elas representavam pura História. Eles confirmariam, por exemplo, até mesmo relatos grotescos como o da primeira exploração de Helicon e dos combates com enormes e vorazes répteis voadores - embora em nenhum mundo conhecido e colonizado por seres humanos já tivesse sido registrada a existência de répteis capazes de voar.

            Portanto, ele perguntou apenas:

            - E como começa essa História de vocês?

            Havia algo distante nos olhos da Irmã, que não pareciam estar focalizados em Seldon ou em nada naquele aposento. Ela disse: - Começa com um mundo, o nosso mundo. O único mundo.

            - Um único mundo? - Seldon recordou que Hummin tinha mencionado lendas que falavam de um único planeta de onde toda a humanidade se tinha originado.

            - Sim - disse ela. - Um planeta. Vieram outros depois, mas o nosso foi o primeiro. Um planeta vasto e aberto, com muito ar, com espaço para todas as pessoas, com terras férteis, lares hospitaleiros, pessoas amistosas. Vivemos ali por milhares de anos até que um dia tivemos que partir, e começamos a nos esconder num mundo e em outro, e um dia alguns de nós conseguiram encontrar esta região em Trantor, onde aprenderam a produzir esta comida que hoje nos garante uma certa liberdade. Aqui em Mycogen, temos agora nosso próprio modo de viver, e nossos próprios sonhos.

            - E essas histórias fornecem detalhes sobre esse planeta original, esse planeta único?

            - Oh, sim, está tudo em um livro, e todos nós o possuímos.

            Todos nós o levamos conosco o tempo inteiro, de modo que nunca há um momento em que não possamos parar, abri-lo e ler algum trecho, para que não nos esqueçamos de quem somos, de quem éramos, e de que um dia teremos o nosso mundo de volta.

            - Vocês sabem onde fica esse mundo, e quem vive lá agora? Gota de Chuva Quarenta e Três hesitou, depois sacudiu a cabeça com veemência.

            - Não, não sabemos, mas descobriremos um dia.

            - E você tem esse livro?

            - É claro.

            - Posso vê-lo?

            Um sorriso se espalhou pelo rosto da Irmã.

            - Então é isso o que você quer - disse ela. - Eu sabia que você tinha algo em mente, quando me pediu para que eu o trouxesse sozinho para conhecer as microfazendas. - Ela parecia um pouco embaraçada. - Mas não pensei que fosse o Livro.

            - É só O que quero - disse Seldon, com ardor. - Garanto-lhe que não tinha em mente nada além disso. Se você me trouxe até aqui porque pensou que...

            Ela não deixou que ele terminasse:

            - Já estamos aqui, não é? Você quer ou não quer o Livro?

            - Está se propondo a mostrá-lo?

            - Com uma condição.

            Seldon fez uma pausa, avaliando as possibilidades de se envolver em problemas mais sérios; teria ele superado as inibições da Irmã num grau muito maior do que pretendia de início? Perguntou com cautela:

            - Que condição?

            A língua de Gota de Chuva Quarenta e Três passou nervosamente sobre os lábios, umedecendo-os; e então ela disse, com um visível tremor na voz:

            - Que você retire sua carapuça.

 

            Hari Seldon ficou parado, fitando Gota de Chuva Quarenta e Três com olhos vazios. Houve um perceptível momento em que ele não compreendeu o que ela tinha acabado de dizer: ele tinha esquecido completamente que estava usando uma carapuça na cabeça.

            Um instante depois ele ergueu a mão e, pela primeira vez, teve plena consciência daquela coisa que estava usando. Era uma película lisa, mas ele a sentia ceder de leve à pressão dos dedos, denunciando a presença dos cabelos por baixo; não muito, porque afinal de contas seu cabelo era cortado curto, e não era muito espesso.

            Ele perguntou, ainda apalpando o próprio crânio: - Por quê?

            E ela:

            - Porque eu tenho vontade. E porque é essa a condição para que você veja o Livro.

            - Bem - disse ele -, se você realmente quer...

            Sua mão tateou à procura da borda da carapuça, para retirá-la, mas a moça o interrompeu:

            - Não, por favor, deixe-me...

            O olhar dela era a tal ponto faminto que Seldon abaixou a mão e disse:

            - Está bem... como quiser.

            Ela ergueu-se rápida da cadeira onde estava e sentou ao lado dele na cama.

            Devagar, com muito cuidado, ela despregou a película plástica ao lado de sua orelha. Umedeceu novamente os lábios com a ponta da língua, e estava ofegante quando por fim ergueu toda a carapuça, virando-a pelo avesso e retirando-a do crânio de Seldon; o cabelo dele, libertado daquela pressão, ergueu-se um pouco, revolto, em desalinho.

            Seldon falou, perturbado:

            - Manter o cabelo embaixo disso provavelmente fez o meu couro cabeludo suar. Se for assim, meu cabelo deve estar um pouco úmido.

            Ele ergueu a mão, num gesto instintivo de ajeitar os cabelos, mas ela o deteve, dizendo:

            - Não, não, eu faço isso. É parte das condições.

            Lentos e hesitantes, seus dedos se aproximaram, tocaram o cabelo dele, recuaram, aproximaram-se mais uma vez e, desajeitadamente, começaram a acariciá-lo.

            - Está seco - disse ela. - E é... é bom.

            - Já tocou pêlos cefálicos antes? - perguntou Seldon.

            - Às vezes, em crianças. Mas isto... é diferente. - Seus dedos não paravam.

            - Diferente, como? - Seldon, apesar do embaraço que sentia, continuava curioso.

            - Não sei dizer. É diferente, e só. Um pouco depois ele perguntou: - Está satisfeita?

            - Não. Não me apresse, por favor. Você... pode fazê-lo inclinar-se, ficar do jeito que quiser?

            - Não exatamente. Eles estão naturalmente acostumados a uma posição, mas eu precisaria de um pente para acomodá-los, e não tenho nenhum comigo.

            - Um pente?

            - Um objeto com dentes longos, como um garfo... só que os dentes ficam de lado, e são mais numerosos, e feitos de um material mais suave.

            - Não pode usar os dedos? - Os dedos dela corriam e corriam por entre os cabelos de Seldon.

            - Até um certo ponto sim, mas não é a mesma coisa.

            - Aqui atrás é bem áspero.

            - Os cabelos são mais curtos aí.

            Gota de Chuva Quarenta e Três pareceu lembrar-se de algo. - As sobrancelhas - disse. - Não é assim que se chamam? Ela despregou as faixas que recobriam os supercílios de Seldon e começou a correr as pontas dos dedos sobre eles, no sentido contrário aos pêlos.

            - É tão bom! - disse ela, e deu uma risada aguda que por um momento lembrou a Seldon as risadas da irmã mais nova. - São lindos.

            Já impaciente, Seldon perguntou:

            - Há mais alguma coisa que faça parte das suas condições? Na penumbra, Gota de Chuva Quarenta e Três pareceu começar um gesto afirmativo, mas não o concluiu. Em vez disso, ela levou as mãos ao nariz e começou a cheirar as pontas dos dedos. Seldon imaginou que tipo de odor ela poderia estar sentindo.

            - Como é estranho - disse ela. - Posso... posso fazer isso novamente, outro dia?

            Ainda sentindo-se meio pouco à vontade, Seldon replicou: - Desde que eu tenha o Livro comigo, para poder estudá-lo... talvez eu consinta.

            Gota de Chuva Quarenta e Três enfiou a mão em seu kirtle e, de um recesso que Seldon não tinha percebido, retirou um pequeno livro feito de um material flexível e resistente. Ele o segurou, tentando controlar sua própria excitação.

            Enquanto Seldon recolocava, cheio de cuidados, a sua carapuça sobre o cabelo, Gota de Chuva Quarenta e Três ergueu mais uma vez as mãos até o rosto e, num gesto delicado, começou a lamber as pontas dos dedos.

 

            - Ela tocou seu cabelo?

            Dors Venabili olhou para o cabelo de Seldon como se estivesse também desejosa de tocá-lo, mas Seldon deu um passo de lado, afastando-se dela.

            - Não, por favor - disse ele. - Aquela moça fez com que isso parecesse uma perversão.

            - E provavelmente era, do ponto de vista dela. E quanto a você, que tipo de prazer sentiu?

            - Prazer? Eu tive calafrios. Só quando ela acabou eu pude respirar novamente.

            Fiquei o tempo inteiro pensando: que outras condições ela vai impor?..

            Dors deu uma risada:

            - Você teve medo de que ela quisesse fazer sexo? Teve medo... ou uma certa esperança?

            - Posso lhe assegurar que isso nem me passou pela cabeça. única coisa em que eu conseguia pensar era no Livro.

            Estavam no quarto, e Dors tinha ligado o Campo de Distorção, para se assegurar de que não seriam ouvidos.

            A noite de Mycogen começava a cair. Seldon tinha removido sua carapuça e o kirtle; durante o banho, tinha dado atenção especial ao cabelo, ensaboando-o e enxaguando-o duas vezes. Agora estava sentado na cama, usando uma espécie de roupão leve que tinha encontrado no armário.

            Dors perguntou, com os olhos brilhando de malícia: - Ela sabia que você tem pêlos no peito?

            - Espero sinceramente que isso não lhe tenha ocorrido.

            - Pobre Hari. Você sabe, tudo isso é perfeitamente natural. Eu pro avelmente teria problemas semelhantes se ficasse a sós com um Irmão. Ou talvez pior, uma vez que ele iria acreditar (sendo a sociedade aqui o que é) que uma mulher estaria pronta para obedecer suas ordens sem vacilar.

            - Não, Dors. Você pode achar que foi algo natural, mas não foi com você que aconteceu. A pobre moça estava num alto grau de excitação erótica. Ela tinha todos os seus sentidos envolvidos na coisa... cheirou os dedos, lambeu. Acho que se fosse possível ouvir o cabelo crescendo ela teria escutado com a maior atenção.

            - Mas é justamente isso que estou considerando natural. Qualquer coisa proibida acaba ganhando uma aura de atenção sexual. Você teria algum interesse por seios de mulheres, se vivesse numa sociedade onde eles estivessem à mostra o tempo todo?

            - Creio que sim.

            - Mas não ficaria mais interessado ainda se eles fossem mantidos ocultos, como acontece na maior parte das sociedades? Ouça, deixe-me contar algo que aconteceu comigo certa ez. Foi num acampamento de férias à beira de um lago, em Cinna... Presumo que vocês tenham esse tipo de coisa em Helicon... lagos, praias, coisas assim...

            - Claro - disse Seldon, ligeiramente ofendido.- Está pensando que Helicon é o quê? Um mundo feito de rochas e montanhas, onde a única água é a que se bebe?

            - Desculpe, Hari. Eu só queria ter certeza de que você iria entender o ambiente onde se passa a história. as nossas praias em Cinna nós somos muito liberais quanto ao tipo de traje que as pessoas usam... ou não usam.

            - Praias de nudistas?

            - Nem tanto, se bem que qualquer pessoa poderia tirar toda a roupa sem atrair muita atenção. O normal é usar o minimo de roupa permitido pela decência, mas devo admitir que o nosso conceito de decência deixa pouquíssimo espaço para a imaginação - Em Helicon - disse Seldon - nossos padrões de decência são um pouco mais rigorosos.

            - Sim, já percebi isso pelo modo cerimonioso como você me trata, mas afinal cada pessoa tem seus próprios padrões. Enfim: eu estava certo dia sentada à beira do lago quando se aproximou um rapaz que eu tinha conhecido naquela manhã. Era um rapaz simpático e eu não tinha visto nada de errado a seu respeito; ele sentou no braço da minha cadeira e colocou a mão direita sobre a minha coxa esquerda (que estava nua, é claro) para se apoiar.

            "Depois que conversamos alguns minutos ele falou, com uma certa malícia:

            'Veja como são as coisas. Nós mal nos conhecemos, e no entanto eu considero perfeitamente natural o gesto de colocar minha mão sobre a sua coxa. E mais ainda: também parece natural a você, já que não parece se incomodar muito com o fato de eu a estar tocando."

            "Foi só nesse instante que tomei consciência real de que a mão dele estava sobre minha coxa. A visão pública do corpo nu faz com que ele perca algo de seu apelo sexual. É como eu disse: é a proibição que estimula a vontade de ver.

            "E aquele rapaz sabia disso também, porque continuou: E no entanto, se nos encontrássemos numa ocasião mais formal e você estivesse usando um vestido, você nem por sonhos permitiria que eu erguesse a barra do seu vestido e colocasse minha mão exatamente neste ponto onde ela está agora.'

            "Dei uma risada, e continuamos a conversar sobre outros assuntos. É claro que, depois de ter chamado a atenção sobre a sua mão na minha coxa, o rapaz deve ter começado a se sentir menos à vontade, porque logo a retirou.

            "Naquela noite, ao me vestir para o jantar, tive o cuidado de pôr uma roupa mais formal do que seria necessário, ou do que a que estaria sendo usada pelas outras mulheres. Logo encontrei o tal rapaz, que estava sentado numa das mesas do restaurante. Aproximei-me, trocamos cumprimentos, e eu lhe disse:

            'Estou usando este vestido, mas por baixo dele minha coxa está nua. Dou-lhe permissão para levantar" meu vestido e colocar sua mão na minha coxa, no mesmo ponto onde ela estava hoje cedo.'

            "Bem... ele tentou, tenho que reconhecer, mas todo mundo estava olhando em nossa direção. Eu não teria feito nenhum gesto para detê-lo, assim como nenhum dos presentes; mas ele não conseguiu. O lugar onde estávamos não era mais público do que o outro, e as mesmas pessoas estavam presentes em ambas as ocasiões. Era claro para todos que eu tinha tomado a iniciativa, e de que não faria nenhuma objeção ao seu gesto, mas ele simplesmente não conseguiu quebrar seu condicionamento. As regras estabeleciam que a mão sobre a coxa durante a tarde era diferente da mão sobre a coxa à noite, e isso tinha um significado maior do que qualquer explicação lógica.

            Seldon disse:

            - Eu teria posto minha mão na sua coxa.

            - Tem certeza?

            - Absoluta.

            - Mesmo vindo de um lugar onde os padrões de decência na praia são mais rígidos do que os nossos? - Sim.

            Dors sentou-se em sua própria cama, depois recostou-se, as mãos cruzadas por trás da cabeça.

            - Sendo assim, você não deve estar muito perturbado por eu estar usando um roupão com quase nada por baixo.

            - Eu não estou escandalizado. Quanto a estar perturbado, isso depende da conotação que você queira dar à palavra. Não há dúvida de que estou plenamente consciente de como você está vestida. - Bem, se vamos ficar trancafiados aqui por muito tempo, vamos ter que nos acostumar a esse tipo de coisa.

            - Ou tirar partido delas - sorriu Seldon. - Aliás, gosto muito do seu cabelo.

            Principalmente depois de vê-la careca o dia todo.

            - Ótimo, mas não o toque. Não o lavei ainda. - Ela semicerrou os olhos. - É interessante. Você estabeleceu uma separação entre dois níveis de respeitabilidade... o formal e o informal. O que você está dizendo é que Helicon é mais conservador, no plano informal, do que Cinna; e menos conservador no plano formal. É isso?

            - Na verdade, fiz apenas uma comparação entre mim e o rapaz que colocou a mão na sua coxa. Não sei até que ponto somos representativos dos heliconianos e dos cinnianos. Posso imaginar sem dificuldade, em ambos os planetas, indivíduos perfeitamente conservadores ... bem como outros totalmente malucos.

            - O que estamos discutindo, na verdade, é a diferença entre as pressões sociais. Eu não sou uma viajante com vastos conhecimentos sobre a Galáxia, mas já tive que me envolver muito com o estudo social da História. No planeta de Derowd houve um tempo em que o sexo pré-conjugal era absolutamente livre. Relações sexuais múltiplas eram permitidas a todas as pessoas solteiras, e relações sexuais em público só eram censuradas quando atrapalhavam o trânsito nas ruas. Depois do casamento, no entanto, a monogamia, era absoluta e inviolável. A teoria deles era de que se alguém tivesse a liberdade para realizar todas as suas fantasias antes do casamento poderia depois sossegar e se dedicar a assuntos mais importantes.

            - E funcionava?

            - Funcionou até três séculos atrás; alguns dos meus colegas garantem que a razão para isso foram pressões externas de outros mundos que estavam perdendo muitos turistas atraídos para Derowd. Como vê, também existe uma pressão social a nível galáctico.

            - Pressão econômica, no caso.

            - Pode ser. Mas, continuando: trabalhando na Universidade eu tenho a chance de estudar esse tipo de pressões sociais, mesmo sem viajar pela Galáxia.

            Encontro pessoas de dezenas de lugares, de Trantor ou de outros mundos, e uma das maiores diversões nos departamentos de ciências sociais é comparar as pressões sociais em diferentes lugares.

            "Aqui em Mycogen, por exemplo, tenho a impressão de que o sexo é rigidamente controlado, e só é admitido sob as regras mais severas, e esse controle é ainda mais rígido devido ao fato de o tema jamais ser discutido entre as pessoas. No Setor Streeling, também nunca se fala sobre sexo, mas ele não sofre nenhum tipo de restrição. No Setor Jennat, onde certa vez passei uma semana no curso de uma pesquisa, fala-se em sexo o tempo todo, mas apenas para condenar sua prática. Não creio que haja dois setores em Trantor, ou dois mundos fora de Trantor, que cultivem exatamente as mesmas atitudes em relação ao sexo.

            Seldon comentou:

            - Você faz tudo isso soar de um modo engraçado, até parece que...

            - Vou lhe dizer o que parece - cortou Dors. - Toda esta conversa sobre sexo deixou clara pelo menos uma coisa. Não vou permitir que você fique fora da minha vista nem uma vez mais.

            - O quê?

            - Por duas vezes eu o deixei sair sozinho; a primeira por negligência de minha parte, e a segunda por insistência sua. E em ambas as vezes ficou provado que eu errei. Lembre-se do que lhe aconteceu da primeira vez.

            - Sim - reagiu Seldon, indignado -, mas nada me aconteceu agora.

            - Você esteve a ponto de se envolver em complicações muito sérias. Imagine só se algum mycogeniano tivesse flagrado suas estripolias sexuais com uma das Irmãs.

            - Ora, vamos, não havia nada de sexual...

            - Você mesmo disse que a moça estava tomada de alta excitação erótica.

            - Sim, mas...

            - Foi um erro, Hari. Meta isso na sua cabeça. De agora em diante, você não vai a nenhum lugar sem mim.

            - Olhe aqui - disse Seldon, com frieza -, meu objetivo era fazer alguma descoberta sobre a História de Mycogen; e o resultado disso que você chama de minhas "estripulias sexuais" foi que eu consegui um livro... o Livro.

            - Mas claro! - exclamou Dors. - Claro que sim, o Livro! Ande, onde está ele?!

            Seldon estendeu o livro, que Dors revirou nas mãos, com olhar atento.

            - Não acho que ele nos seja muito útil, Hari - disse ela. - Não acho que isto aqui se ajuste a nenhum tipo de projetor que eu conheça. Isso quer dizer que você vai ter que pedir um projetor mycogeniano, e eles decerto vão lhe perguntar para quê, vão descobrir que você está de posse deste Livro, e vão tomá-lo.

            Seldon sorriu.

            - Se as suas premissas fossem corretas, Dors, suas conclusões seriam infalíveis, mas acontece que esse aí não é o tipo de livro em que você está pensando. Não é um livro para ser projetado. O texto está impresso sobre as páginas, e as páginas são viradas, de uma em uma. Gota de Chuva Quarenta e Três me deu algumas explicações.

            - Um livro impresso! - Era difícil dizer se a expressão de Dors era de pasmo ou de divertimento. - Mas isso é da Idade da Pedra! - É com certeza de uma era pré-imperial - disse Seldon -, mas não inteiramente. Você já deve ter visto um livro impresso, acho. - Sou uma historiadora, Hari. Claro que já vi.

            - Ah, mas igual a este aqui?

            Dors, sorrindo, abriu o livro, depois virou a página, depois outra, e mais outra.

            - Está em branco - disse ela.

            - Parece que está em branco. Os mycogenianos são teimosamente primitivistas, mas não de todo. Eles se apegam à essência do que é primitivo, mas não fazem questão de usar as tecnologias modernas, quando isto lhes convém. Quem sabe?

            - Pode ser, mas ainda não entendi onde você quer chegar.

            - As páginas não estão em branco, estão cobertas com rnicro-impressão. Dê- me o livro. Veja. É só apertar esta pequena saliência na parte interna da capa...

            Veja!

            A página onde o livro estava aberto foi subitamente coberta com linhas de texto que se moviam lentamente de baixo para cima.

            Seldon disse:

            - Pode-se controlar a velocidade do movimento para se ajustar à nossa velocidade de leitura, é só girar o botão numa direção ou na outra. Quando as linhas do texto atingem o limite superior, ou seja, quando você já leu até a derradeira linha, elas voltam para baixo, e se desligam. Você vira a página seguinte, e continua.

            - De onde vem a energia?

            - Uma pequena bateria de microfusão, embutida, e sua duração é a duração do livro.

            - Então, quando ela se descarrega...

            - Você joga o livro fora, o que pode acontecer até mesmo antes de a bateria se esgotar. devido ao desgaste natural; aí você consegue outro exemplar. A bateria nunca é substituída.

            Dors tomou o Livro nas mãos e o olhou por todos os lados, comentando:

            - Devo admitir que nunca vi nada parecido.

            - Nem eu. A Galáxia, como regra geral, entrou para a cultura visual tão rapidamente que acabou saltando esta possibilidade.

            - Mas isto é visual.

            - Sim, mas não do ponto de vista ortodoxo. Este tipo de livro tem as suas vantagens. Ele envolve o leitor muito mais intensamente do que um livro-filme comum.

            - Deixe-me ver se consigo manejá-lo - disse Dors. - Onde está mesmo o botão?.. - Ela abriu uma página ao acaso, e pôs as linhas do texto em movimento. Olhou durante algum tempo e depois disse: - Acho que isto não lhe vai ser muito útil, Hari. Não. me refiro ao livro, e sim à linguagem. Está em pré- galáctico.

            - Você não pode ler? Uma historiadora...

            - Uma historiadora está habituada a lidar com línguas arcaicas, mas dentro de certos limites. Isto aqui é antigo demais para mim. Posso entender palavras isoladas aqui e ali, mas não o bastante para que me seja de alguma utilidade.

            - Então está bom - disse Seldon. - Se é realmente antigo, tem algum valor.

            - Não tem nenhum, se você não puder lê-lo.

            - Eu posso lê-lo - disse ele. - É bilíngüe. Você não acha que Gota de Chuva Quarenta e Três é capaz de ler esse texto arcaico, não é?

            - Se ela tiver recebido a educação adequada, por que não?

            - Porque suspeito de que em Mycogen as mulheres não recebem outro tipo de educação senão aquela que é voltada para as tarefas domésticas. Alguns dos homens mais cultos devem ser capazes de ler isto, mas a maioria precisa de uma tradução em galáctico. - Seldon apertou outro botão. - Aqui está ela.

            As linhas do texto instantaneamente mudaram para palavras em padrão galáctico.

            - Maravilha - disse Dors, admirada.

            - Poderíamos aprender uma porção de coisas com estes mycogenianos, mas não queremos.

            - Não sabíamos nada sobre isto aqui.

            - Não acredito. Eu estou sabendo agora, e você também.

            Algum viajante deve vir a Mycogen de vez em quando, por motivos políticos ou comerciais... de outro modo não haveria carapuças disponíveis com tanta facilidade. Em muitas oportunidades alguém deve ter posto os olhos num destes livros e visto como funciona, mas deve ter achado que era algo apenas curioso, e que não merecia mais atenção... apenas por ser mycogeniano.

            - Será que merece tanta atenção assim?

            - Claro. Tudo merece. Ou pelo menos devia merecer. Se Hummin estivesse aqui provavelmente diria que a falta de interesse a respeito destes livros é mais um sinal da decadência do Império.- Ele ergueu o Livro e prosseguiu, num rompante de entusiasmo: - Mas eu estou interessado, e eu vou ler isto aqui, e isto vai me conduzir na direção da psico-história.

            - Tomara - disse Dors -, mas, se quer meu conselho, é melhor dormir primeiro e começar a estudá-lo de manhã, com a cabeça descansada. Cochilar sobre essas páginas não lhe vai ser muito útil.

            Seldon hesitou, e aí disse:

            - Puxa, como você é maternal.

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