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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PURA SEDUÇÃO / Cathy Williams
PURA SEDUÇÃO / Cathy Williams

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PURA SEDUÇÃO

 

Ele gosta da sinceridade dela. Mas será que aprecia sua impetuosidade?

Theo Miquel não tem tempo para o amor, seu trabalho é sua vida. Ele sai com mulheres perfeitas, mas pula fora assim que elas mencionam a palavra "compromisso".

Heather é bem diferente das vítimas típicas deste magnata: ela não tem estilo e fala demais, além de ser a faxineira de seu escritório. Apesar de lhe faltar elegância, há algo de apaixonante naquele jeito meio ranzinza. Theo achou que ela seria perfeita para um caso passageiro. Mas ele não conhecia Heather...

 

 

Theo estava no meio de um relatório financeiro quando ouviu a batida. O barulho adentrou os corre­dores vazios com uma intensidade de doer o ouvido. Qualquer um teria reagido com choque, talvez medo. Afinal, estava tarde e, apesar dos seguranças, não ha­via nenhum prédio cem por cento seguro em Lon­dres. Mas Theo Miquel não era de sentir medo. Sem se dar ao trabalho de pegar sua arma, ele saiu de seu escritório com as sobrancelhas negras franzidas e acendeu a luz do corredor, que foi iluminado por uma claridade fluorescente.

Theo Miquel não era homem de correr de nada, menos ainda de um intruso desajeitado a ponto de fa­zer aquele barulho todo.

Não custou muito para que ele descobrisse a origem do estrondo, pois havia um carrinho de mão caído, com vários produtos espalhados no chão de mármore. De­tergentes, vassoura, esfregão — e um balde de água que estava lentamente se espalhando em direção aos escritórios acarpetados de ambos os lados.

Ele ouviu passos de alguém subindo as escadas. Era o segurança, esbaforido e já se desculpando. Eles chegaram à cena do crime quase ao mesmo tempo, mas foi Theo quem viu primeiro o corpo da moça desmaiada no chão.

— Desculpe, senhor — Sid gaguejou, observando enquanto Theo tomava o pulso da moça. — Vim o mais rápido que pude, assim que ouvi o barulho. Pos­so resolver tudo.

— Arrume essa bagunça.

— Claro, senhor. Peço mil desculpas... Ela estava meio pálida quando chegou para trabalhar esta noite, mas eu não fazia idéia...

— Pare de falar e arrume esta bagunça — Theo or­denou incisivamente.

Ele mal percebeu o aturdido segurança limpar o chão para conter a água antes que ela chegasse aos caríssimos escritórios, piorando a situação.

Ao menos a menina não cometeu a indelicadeza de morrer em suas dependências. O pulso estava nor­mal, e ela podia estar pálida como a neve, mas estava respirando. Havia desmaiado — devia estar grávida. Sinal dos tempos. Controlando sua irritação, ele a le­vantou, sem olhar para o rosto preocupado do segu­rança. Ele tinha uma vaga noção da subserviência que lhe dedicavam os empregados, a despeito da hie­rarquia. Não sabia que esta subserviência estava pró­xima do medo puro, de modo que ficou muito irritado quando viu que Sid estava quase arrancando a moça de seus braços.

— Eu posso cuidar dela, senhor... Não precisa se incomodar... Não tem problema...

— Só quero que você limpe isto tudo e volte ao trabalho. Se eu precisar, lhe chamo.

Ele realmente não estava precisando de uma inter­rupção daquelas. Era sexta-feira. Passava das nove da noite e ainda faltava ler metade do relatório para poder mandar uma cópia por e-mail para o outro lado do mundo antes da reunião decisiva que teria na se­gunda-feira.

Abriu a porta do escritório com o pé e pôs a moça que agora começava a recobrar a consciência no sofá vinho que ocupava uma parede inteira do am­plo recinto. Theo não tinha nada a ver com a decora­ção do escritório. Se tivesse, teria escolhido tudo o mais neutro possível — afinal, escritório é lugar de trabalho, aquilo não era para ser nenhuma sala de es­tar aconchegante. Mas com o passar dos anos ele veio a descobrir, para sua grande surpresa, que a pesada grandiosidade da sala acabava ajudando na concen­tração. As paredes revestidas de madeira de carvalho ficariam mais apropriadas em um clube masculino, mas, mesmo assim, havia algo de caloroso nelas, re­pletas de livros de economia e documentos de conta­bilidade do vasto império naval que era a base da enorme fortuna herdada do pai. Sua escrivaninha, projetada na era pré-computador, não tinha lugares próprios para impressora e fax como as atuais, mas era boa de olhar e cumpria sua função. As janelas iam do chão ao teto e os vidros não eram fume, ao contrá­rio dos edifícios mais altos e mais modernos. Em meio à loucura da cidade, seus escritórios, situados em uma imponente casa de estilo vitoriano, eram como um toque de sanidade dos velhos tempos.

Olhou para a moça, que começou a revirar os olhos enquanto retomava a consciência.

Seu corpo robusto estava coberto pelo macacão azul e branco de serviço e as roupas próprias que usava por baixo — roupas que ele consideraria ofensivas para qualquer mulher: um casaco de malha marrom comum e calça jeans de bainhas gastas cujo único mérito era esconder parcialmente os sapatos que combinariam mais com um operário.

Ele esperou, de braços cruzados ao lado dela, in­formando-a através de uma inequívoca linguagem corporal que, apesar de tê-la acudido, não estava dis­posto a prolongar seu ato de caridade.

E enquanto ele esperava, cada vez mais impacien­te, seus olhos percorreram o rosto dela, observando o nariz pequeno ereto, a boca ampla e as sobrancelhas surpreendentemente definidas em comparação aos cabelos cacheados que escapavam da touca que ela usava.

Quando ela abriu os olhos ele achou que havia sido pego de surpresa, pois por alguns segundos ficou meio sem graça. Ela tinha olhos impressionantes. Do azul mais puro e mais profundo. Ela então piscou, de­sorientada, e o momento de constrangimento se per­deu quando a realidade voltou a imperar. A realidade do trabalho que tinha pela frente ao ser interrompido quando estava correndo contra o tempo.

— Parece que você desmaiou — Theo informou a ela, que tentava se sentar.

Heather levantou os olhos para o homem que a en­carava e sentiu um aperto na garganta. Nos últimos seis meses ela vinha trabalhando nos escritórios dele, começando o expediente às seis e meia, quando a maioria dos empregados já tinha ido embora e ela po­dia começar a limpar. Já o vira do canto do olho, a distância, enquanto ele trabalhava em sua escrivani­nha com a porta da sala aberta — apesar de saber, a partir de trechos de conversas que ouvia aqui e ali, que poucos se arriscariam a puxar assunto com ele. Ela ficava arrepiada ao ouvir sua voz profunda e gra­ve quando ele falava com algum funcionário. Ele in­timidava todos, mas para ela se tratava do homem mais bonito que já vira em toda a vida.

As linhas de seu rosto eram fortes — ásperas, até —, mas ele possuía uma beleza clássica que ainda era agressiva e vigorosamente masculina. Cabelos ne­gros como o céu da meia-noite emolduravam seu ros­to, e apesar de nunca ter tido coragem de encará-lo, já vira o suficiente para saber que ele tinha olhos escu­ros e insondáveis, ornados com cílios que muitas mu­lheres dariam tudo para ter. Ela achava que, tendo trabalhado para ele, devia considerá-lo tão fora de al­cance quanto tudo mais, mas ele não tinha nenhuma influência sobre o curso de sua vida, de modo que ela podia apreciá-lo sem medo.

Não que ela fosse do tipo que mulher que se aco­vardava na presença de alguém. Sua natureza era ale­gre e bem disposta, e ela se considerava igual a todos, independentemente de posição social e do fato de não ter dinheiro. O que importava era o que havia por dentro, e não a embalagem do produto.

Enquanto ela divagava sobre o fato de ter ido parar no sofá do escritório do chefe, Theo foi até o bar do escritório e voltou com um copo cheio de um líquido marrom.

— Beba um pouco disto.

Heather piscou e tentou não encará-lo demais.

— O que é isso?

— Conhaque.

— Não posso.

— Como?

— Não posso. É contra as regras da empresa beber em serviço. Posso acabar demitida, e preciso do em­prego.

Para Theo aquilo já era informação demais. Ele só queria que ela desse um gole no conhaque para se le­vantar e ir embora logo e ele pudesse enfim terminar seu trabalho. Isso se ele estivesse disposto a evitar uma discussão com a mulher com quem andava sain­do, a qual já tivera sua paciência testada ao limite por seus freqüentes cancelamentos.

— Beba — ele ordenou, segurando o copo perto de seus lábios, e Heather obedeceu nervosamente, dan­do um golinho mínimo e corando de culpa.

— Ah, pelo amor de Deus! Você acabou de des­maiar. Um gole de conhaque não significa vender a alma ao diabo.

— Jamais desmaiei antes. Minha mãe dizia que eu não era do tipo que desmaiava. Desmaiar é para garo­tas magras, não gorduchas como eu. Claire desmaia­va à beca quando estávamos em fase de crescimento. Bem, não à beca, mas algumas vezes. O que já é bas­tante para a maioria das pessoas...

Theo se sentiu bombardeado de todos os lados. Por alguns segundos ele literalmente perdeu o dom da fala.

— Talvez eu esteja ficando doente — Heather dis­se, franzindo a testa. Esperava realmente que não fosse o caso. Não podia ficar sem trabalhar por causa de doença. Seu trabalho naquela companhia era tempo­rário. Ela não tinha direito a licença por doença. E de dia trabalhava como assistente em uma escola perto de casa, tudo para conseguir pagar as contas no final do mês. Ela sentiu a cor desaparecendo do rosto.

Theo observou, fascinado por esta mostra transpa­rente de emoção, e levou novamente o copo aos lá­bios dela. A última coisa que ele precisava era de um novo ataque de depressão.

— Você precisa tomar mais do que um gole disso aqui. Vai lhe ajudar a recobrar as energias.

Heather deu um gole mais generoso e sentiu o ál­cool lhe queimar prazerosamente o estômago.

— Você não me reconhece, não é?

— Reconhecer você? Por que diabos eu a reconhe­ceria? Escute — Theo disse, com um tom decidido —, eu tenho muito trabalho para fazer antes de você en­cerrar o expediente por hoje. Pode ficar aqui no sofá descansando até se sentir melhor para ir embora. Mas me dê licença, pois preciso voltar ao trabalho. —- Ele teve então uma idéia brilhante. — Se quiser, posso pedir para aquele segurança levar você lá para baixo.

— Sid.

— Desculpe?

— O nome dele é Sid. O segurança. Você não de­via saber seu nome? Ele trabalha para você há mais de três anos! — Mas, como no caso dela, ele prova­velmente o via sem registrar seu nome. Para um ho­mem como Theo Miquel, Sid era literalmente invi­sível.

Theo não gostou nada do tom acusatório e chegou a esquecer momentaneamente o relatório financeiro que lhe aguardava em sua escrivaninha.

— Não sei por que eu teria de saber o nome de um segurança.

— Você o empregou!

— Eu dou emprego a um monte de gente. Além do mais, esta conversa é ridícula. Tenho que trabalhar e...

— Estou atrapalhando. Desculpe. — Heather sus­pirou e sentiu as lágrimas brotarem ao contemplar a perda do emprego se estivesse doente. Estavam no meio de janeiro. Havia milhares de vírus no ar, a maioria deles vindo do Extremo Oriente, loucos para fazer novas vítimas.

— Você não vai chorar, não é? — Theo perguntou, pegando um lenço no bolso da calça e já arrependido de sua boa vontade em trazer a moça para dentro do escritório. Uma estranha que agora parecia disposta a conversar com ele como se ele não fosse um homem muito importante — um homem cujo valioso tempo representava dinheiro!

— Desculpe. — Heather pegou o lenço e assoou com vontade, sentindo-se enfim um pouco melhor. — Quem sabe eu esteja apenas com fome.

Theo, já olhando com desespero para o relatório na escrivaninha, passou a mão nos cabelos. — Fome?

— Fome às vezes não causa desmaios?

— Ainda não cheguei nesta parte do meu curso de nutrição — Theo disse com sarcasmo, e ela sorriu. Foi um sorriso que lhe iluminou a face. Poderia ter iluminado uma sala inteira. Ele ficou muito contente por ter-lhe causado esta reação. Resignado, resolveu deixar o trabalho de lado por alguns minutos.

— Tenho de fazer uma ligação — ele disse, afas­tando-se enquanto pegava o celular no bolso. — Vou lhe dar o telefone fixo para que você peça comida.

— Ah, não! Não posso simplesmente mandar tra­zer comida. — Ela tremeu de pensar na conta.

— Pode e vai. — Passou a ela o telefone. — Se está com fome precisa comer algo, e não tem comida na geladeira do escritório. Portanto, peça o que qui­ser. Ligue para o Savoy. Diga a eles quem eu sou. Eles vão mandar entregar o que você quiser.

— O Savoy! — Heather ficou consternada.

— Pode pôr na minha conta, senhorita... senhorita... Não sei seu nome.

— Heather. Heather Ross. — Ela sorriu timida­mente, maravilhada com sua paciência e considera­ção, principalmente considerando que a maioria das pessoas morria de medo dele.

Ela percebeu que Theo não se deu ao trabalho de dizer seu nome a ela, mas talvez imaginasse que ela já sabia — e sabia mesmo. Ela via o nome dele todos os dia na placa dourada em sua porta. Mais animada depois do gole de conhaque e percebendo que estava fraca de fome, Heather ligou para o Savoy, apesar de seu lado prático saber que aquilo era besteira, pois precisava mesmo era de um sanduíche de queijo e uma garrafa de água. Percebeu vagamente a conversa ao fundo, e estava claro que Theo não queria que ela ouvisse. Assim que ele desligou, ela se virou para ele com olhos abatidos.

— Eu estraguei seus planos para esta noite, não é?

Ela imaginava que este tipo de conversa não ren­deria muito, mas sua tendência a dizer o que lhe vi­nha à cabeça ia de encontro ao silêncio que ele espe­rava. Ele podia deixar que ela pedisse comida, mas não queria muito papo.

— Não tem problema. — Ele deu de ombros. — Eu não ia conseguir mesmo. — Não que Claudia achasse que estava tudo bem. Na verdade, os ouvidos dele ainda estavam doendo do som do telefone baten­do do outro lado da linha. E ele nem podia culpá-la. Ele teve como consolo o fato absoluto de que, quan­do uma mulher começava a fazer exigências, estava na hora de se livrar dela. Neste caso, a mulher foi quem tomou a iniciativa.

— Era importante? — Heather perguntou, ansiosa.

— O que importa realmente está me esperando em minha escrivaninha, portanto, se me dá licença... — Ele meio que esperou que ela puxasse assunto de novo. Mas, para seu alívio, ela manteve um silêncio obediente, apesar de que seus olhos não conseguirem se desviar dela, distraindo-o das tarefas.

Quando a comida chegou Theo já tinha perdido as esperanças de terminar o trabalho, ao menos até con­seguir levar aquela moça para fora do edifício.

— Por que você não tem se alimentado? — ele perguntou, enquanto a observava devorar o sanduí­che como quem acabou de ser liberada de uma dieta rígida.

— Não precisa conversar por educação — Heather disse, já comendo o segundo sanduíche. — Eu sei que você tem muito trabalho a fazer. Aliás, estes san­duíches são fantásticos.

— Vou voltar ao trabalho assim que você for em­bora.

— Ah, eu estou ótima agora. Vou terminar o que estava fazendo.

— Para que, para desmaiar de novo? Não é boa idéia.

— Quer dizer que está com medo que eu dê mais trabalho?

Theo não respondeu de pronto. Estava boquiaber­to pela visão daquela mulher comendo tanto. A julgar pelas mulheres que conhecia, comer era uma arte em desuso. Elas beliscavam saladas como se uma única caloria as fosse tornar obesas.

— Estou com fome — Heather disse, na defensi­va. — Normalmente como muito pouco, na verdade. Era para eu ser macérrima. Mas tenho um metabo­lismo muito teimoso que se recusa a fazer o que deve.

— Qual é o nome da firma para a qual você traba­lha? Vou ligar para eles e dizer que você não tem condições de continuar a trabalhar esta noite. — Ele pegou o telefone, mas foi detido pelo súbito ataque de pânico de Heather.

— Você não pode fazer isso!

— Por que não? Presumo que você esteja legal­mente registrada na companhia, e que não esteja en­volvida em nenhum esquema para não pagar impos­tos...

— É claro que não! — ela negou, enfática.

— Então, qual é o problema?


— O problema é que preciso terminar meu expe­diente, pois preciso que meu ponto seja assinado lá embaixo. Não posso ir para casa só porque me senti mal. — A consciência de sua situação a tomou por in­teiro. De repente, agora que já não estava mais tão constrangida pela presença de Theo e já se sentia me­lhor, ela se apercebeu que certamente sua figura não estava nada bonita. Descabelada e com seu corpo ro­busto revestido pela vestimenta menos atraente de to­dos os tempos. Não lembrava em nada uma senhorita estressada e frágil. Passou os dedos pelos cabelos e sentiu que o elástico que os prendia estava frouxo, e seus cachos se espalhavam para todo lado.

— Me dê um minuto e já vou embora. — Levan­tou-se e sentou-se de novo. — Talvez eu precise de alguns minutos. Não me importo de esperar lá fora, sentada no chão, até me recompor. Sinceramente, não sei o que me deu...

— Está grávida? — Theo perguntou abruptamen­te.

Heather olhou para ele horrorizada.

— Grávida? Claro que não! Por que diabos você pensou nisso? Ah... Eu sei por quê. Sou jovem. Des­maiei e estou fazendo trabalho manual... portanto devo ser uma desmiolada que caiu na besteira de en­gravidar.

— Não foi por isso que achei que você estava grá­vida — Theo mentiu, desconcertado com a precisão do julgamento de Heather.

— Bem, então... — Outro pensamento lhe veio à cabeça e ela corou. — É porque sou gorda, não é?

Theo não queria alongar aquela conversa, e estava seriamente preocupado em se livrar dela antes que as coisas ficassem mais difíceis. Mudou de assunto abruptamente.

— Você não pode ficar desmaiando no meu terri­tório. — Ele foi até ela e olhou para o nome na eti­queta discretamente bordada em seu uniforme. Pen­sou vagamente que ela com certeza era gordinha. Seus seios, pressionados contra o tecido duro do ma­cacão, pareciam volumosos. Ela era a antítese das mulheres com quem ele gostava de sair, sempre com pernas longas e esguias, cabelos castanhos, seios pe­quenos e muito glamourosas. — Serviços de Limpeza Hills — ele murmurou. — Qual é o número do tele­fone?

Heather deu o número, relutantemente, e ficou aguardando com o coração apertado enquanto ele li­gava para o empregador dela.

— Fui demitida, não fui? — ela perguntou, preo­cupada, assim que ele desligou o telefone.

— Parece que houve dois incidentes recentemen­te...

— Ah, não foram desmaios — ela se apressou a explicar antes que ele pensasse que ela era uma da­quelas mulheres patéticas que não sabiam cuidar de si mesmas. — Você não me disse o que eles fala­ram...

— Acho que disse, sim, de maneira indireta. — O que não era típico dele, dizer as coisas de maneira in­direta. Mas o fato é que estava, relutantemente, com pena da moça. Acima do peso, insegura e evidentemente sem preparo para nenhum outro trabalho. Sen­tiu uma culpa que não lhe era típica. — Parece que eles lhe consideram um peso morto...

— isso é bobagem — Heather disse, muito infeliz. — Não sou um peso morto. Admito que por duas ve­zes eu fui para casa depois do meu outro trabalho e caí no sono. Eu só queria pôr os pés para cima por cinco minutos e tomai- uma xícara de chá, mas sabe como é. Eu caí no sono, e quando acordei já era tarde para fazer a faxina.

— Você tem dois empregos? — Theo perguntou, atônito.

— Desculpe. Sei que você pensou estar fazendo o que era correto, e sei que você não vai querer que eu desmaie de novo aqui. O que, aliás, provavelmente não aconteceria. Eles não devem nem me pagar a hora e meia que trabalhei hoje. — Ela então contem­plou o abismo da pobreza iminente. Claro que havia outros trabalhos noturnos. Podia arrumar emprego em algum pub. Tom a aceitaria na hora. Mas traba­lhar em bar era exaustivo. Ao menos no trabalho de limpeza ela podia ligar o automático e fazer seu tra­balho com a mente fantasiando coisas boas, como o dia em que conseguiria completar seu curso de ilustradora e ficar famosa desenhando capas de livros in­fantis.

— Em que você trabalha durante o dia? — Theo perguntou, curioso. Agora ela já estava recuperada o suficiente para se sentar. Ele não estava realmente in­teressado em ficar ouvindo as aventuras e desventu­ras da vida dela, mas cinco minutos de papo não importariam ninguém e a ajudariam a se recompor. Heather descansava as mãos sobre o colo enquanto seus olhos miravam algum ponto distante, sem dúvida contem­plando o horror de não receber o salário ínfimo pelo trabalho que lhe drenava toda a energia. Até então ele só havia saído com duas mulheres que trabalhavam, e ambas delas encaravam seus empregos como uma in­terrupção das horas de lazer — algo como uma dis­tração das horas de compras, mimos diversos e almoços com as amigas.

— Ah. O trabalho diurno. — Heather prestou aten­ção no homem que estava lá, olhando para ela, e foi golpeada pela consciência de que provavelmente aquela era a última vez que ela o via. Sentiu um oco desconfortável no estômago. — Sou professora as­sistente na escola na esquina da minha casa.

— Você é professora assistente!

O choque que ele demonstrou conseguiu fazê-la sor­rir. Ela bem que podia ter ficado ofendida com o insul­to subjacente, mas sabia que do alto do Olimpo que ele ocupava devia ser difícil imaginar que ela, sendo faxi­neira, tivesse capacidade de conseguir algo melhor. Assim como supôs que ela estava grávida ao desmaiar.

— Eu sei. É incrível, não é? — ela respondeu, sor­rindo. Agora ela só queria estender a conversa pelo máximo de tempo possível, já que não o veria nova­mente.

— Por que faz faxina em escritórios se tem um emprego diurno perfeitamente viável?

— Porque meu “emprego diurno perfeitamente viável" só dá para pagar o aluguel do meu quarto e as contas, e preciso guardar dinheiro para poder pagar meus estudos. — Ele agora pareceu completamente aturdido ao perceber que ela tinha um cérebro. — Sabe — ela continuou, aproveitando enquanto conse­guia ter a atenção dele —, saí da escola bem jovem. Aos 16 anos. Não sei por quê, mas todos os meus amigos estavam fazendo isso, largar a escola para trabalhar. Não que tivesse muito trabalho à disposi­ção de quem abandonava a escola em Yorkshire, o povoado de onde venho. Mas, seja como for, pareceu boa idéia na época, e ganhar dinheiro era muito bom. Assim pude ajudar minha mãe. Claire não podia aju­dar.

— Claire?

— Minha irmã. Ela é linda, magrinha, longos ca­belos louros... — Ela falava com orgulho da irmã. — Ela precisava de todo dinheiro que minha mãe pudes­se juntar para começar sua carreira...

Aquela mulher era um livro aberto, Theo pensou. Será que ninguém nunca disse a ela que o encanto do sexo feminino reside na capacidade de criar mistério? Na capacidade de estimular a perseguição soltando pe­quenas informações aqui e ali? Sua franqueza era difí­cil de acreditar. Agora ela estava lhe contando tudo so­bre a irmã e sua carreira fabulosa do outro lado do Atlântico, onde agora era modelo e atriz de novelas.

Theo levantou a mão para pôr um ponto final na­quela conversa.

Ela ficou imediatamente corada.

— Você já parece totalmente recuperada — ele disse. — Lamento que tenha perdido seu emprego na firma de limpeza, mas deve ser melhor assim, já que você não está fisicamente habilitada. — Ele se levan­tou na intenção evidente de encerrar a presença dela em seu escritório. Os cabelos dela ainda estavam ba­gunçados, e agora que ela estava de pé ele pôde per­ceber que era mais baixinha do que ele pensava — no máximo, 1,64m. Ela ajeitou seu nada lisonjeiro ma­cacão e ele resistiu ao impulso de lhe dar uns bons conselhos. Como dizer que ela poderia conseguir um emprego melhor se desse um pouquinho mais de atenção à sua aparência. Por mais injusto que fosse, os empregadores sempre levavam em consideração a aparência de seus empregados.

— Você deve ter razão. Acho que devo trabalhar com Tom. Ele não vai se importar se eu cochilar de vez em quando. Ele gosta de mim, e vai me pagar se eu fizer o que ele quer...

Theo parou, segurando a porta semi-aberta en­quanto Heather passou por ele, sem perceber o horror no rosto dele. Sempre otimista, ela já estava pensan­do nos prós do trabalho que tinha recusado. Para co­meçar, o pub ficava perto de casa, de modo que não teria que pegar condução nenhuma — o que sempre era uma preocupação quando parava para pensar no que se lia nos jornais. Além do que, Tom seria bem mais tolerante do que a companhia de limpeza se ela acidentalmente perdesse uma noite de trabalho. E tal­vez, quem sabe, se ela dissesse o nome do pub como quem não quer nada, talvez Theo um dia resolvesse tomar uma bebida por lá.

Ela abriu a boca para dizer o nome do pub, fazen­do-se de casual, e notou que estava caminhando até o elevador sozinha. Ele ainda estava parado à porta, olhando para ela como se ela tivesse se transformado em outro tipo de criatura que não fosse humana.

— Ah! — Heather piscou os olhos, confusa e de­cepcionada de ver que ele nem a acompanhou até o elevador, mas depois se censurou por ser tão boba. O homem nem sabia da existência dela até hoje, apesar de que ele deve ter ao menos passado os olhos por ela vez ou outra nos últimos meses! Ele foi bom a ponto de cuidar dela em seu escritório, interrompendo sua enlouquecida agenda de trabalho, e não tinha a menor obrigação de fazer nada disso. Ela estava lou­ca de pensar que ele a acompanharia até a saída! Ela acenou de modo contido para ele. — Obrigada por ser tão gentil e por me ajudar — ela disse, aumentan­do a voz por causa da distância entre eles. — Eu já vou!

Theo não fazia idéia de como foi se envolver com os problemas de uma completa estranha, mas por ter tido participação na demissão dela, sentia-se moral­mente obrigado a questionar sua decisão de aceitar um trabalho que parecia bastante insalubre. Ficou pensando quem seria este Tom. Devia ser algum ve­lho que julgava poder pagar pelos serviços de uma jo­vem ingênua precisando desesperadamente de di­nheiro. E ela era muito ingênua. Theo não se lembra­va de jamais ter conhecido ninguém tão pueril.

— Espere um minuto. — Ele voltou ao escritório, hesitou por alguns segundos em frente ao computa­dor antes de desligá-lo, pegou seu casaco, seu laptop e sua pasta e saiu, apagando a luz atrás de si antes de fechar e trancar a porta.

Heather ainda estava em frente ao elevador, e pa­recia completamente pasma. Uma revelação de seus próprios sentimentos, ele pensou ironicamente. Não tinha tempo de cumprir o compromisso com Claudia, mas agora estava sendo acometido de um ímpeto per­verso de acompanhar aquela estranha até em casa, tudo isso porque ela tinha conseguido despertar nele um senso de dever. Para ele era algo parecido com o que se sente ao dar de cara com um animal indefeso e atropelado, precisando de um veterinário.

— Você não vai mais trabalhar? — Heather per­guntou, surpresa, e olhou para ele desejando, mais uma vez, não ser tão baixinha. Baixinha, atarracada e estupidamente emocionada só de pegar o elevador com ele. — É que você não costuma sair tão cedo.

Theo olhou para ela.

— Você sabe a que horas eu saio para trabalhar? — Ele apertou o botão e a porta do elevador se abriu suavemente, como se o elevador estivesse o tempo todo esperando por ele.

Heather corou.

— Não! Quer dizer, eu sei que você costuma sair depois que eu já terminei de limpar quase todo o an­dar da diretoria. — Ela riu levemente quando a porta do elevador se fechou, deixando-a com uma sensação de intimidade imposta. — Quando a gente faz coisas monótonas como faxina, começa a prestar atenção nos detalhes mais bobos. Acho que ajuda a passar o tempo mais rápido! Sei que você costuma ser o último a sair, além de Jimmy e uns outros dois que traba­lham no andar de baixo. — Melhor mudar de assun­to, ela pensou. Estava começando a soar triste. — Sa­bia — ela confidenciou — que aquele sanduíche fez eu me sentir muito bem? Estou ótima. Costuma sem­pre pedir comida no Savoy? — Ela olhou para ele de relance e percebeu que ele a encarava de maneira muito estranha. — Desculpe. Estou falando como uma tagarela. Tem algum plano para esta noite?

— Apenas deixar você em casa, seja lá onde for... O queixo de Heather caiu.

— O gato comeu sua língua? — Theo disse, seca­mente. — Deve ser a primeira vez que lhe acontece.

— Você vai me deixar em casa? — Heather grunhiu. Agora estava realmente se sentindo culpada. — Por favor, não faça isso. Não precisa. — Ela pôs a mão hesitante no braço dele quando a porta do eleva­dor se abriu e eles saíram. O contato com seu braço, mesmo que por sobre o tecido, lhe causou uma quentura tamanha que ela logo tirou a mão. — Não sou tão fraca quanto você parece achar. Não dá para ver pelo meu tamanho que sou dura na queda? — Ela riu de modo autodepreciativo, mas ele não deu risada. Nem mostrou os dentes.

Theo não era um homem acostumado a mergulhar na psique feminina. Ele sempre se orgulhou de saber como funcionam as mulheres. Elas expressavam seus interesses de determinada maneira — olhares de sos­laio, sorrisos sedutores, ligeiras inclinações de cabe­ça — e então começava o jogo da sedução; aliás, uma brincadeira que ele adorava. Só depois que as coisas começavam a se deteriorar, ou seja, quando chegava a inevitável hora da mulher questionar o tempo que ele dedicava ao trabalho, insinuando que ele se diver­tiria bem mais se lhe desse mais atenção, afinal um relacionamento era para isso, e toda aquela história. Todas elas queriam ter um relacionamento com ele, queriam agarrá-lo. Não se sentiam inseguras. Na ver­dade, nenhuma delas teria mesmo razão para insegu­rança.

Agora lhe ocorria que aquela moça era insegura por causa do peso e sabe Deus por que mais. Sua insegu­rança a tornara o tipo de mulher ingênua que se deixa tentar por um homem pelas razões mais erradas.

— Tome seu casaco — ele disse. — Antes de lhe deixar em casa, vou lhe levar para jantar.

 

 

CAPÍTULO DOIS

 

Como não havia estacionamento subterrâneo no edifício, a maioria dos funcionários deixava seus carros no edifício-garagem que havia perto.

Mas Theo tinha um motorista à disposição, bastava ligar e uma Mercedes prateada parava em frente. ao edifício e o aguardava com o motor ligado vibran­do suavemente.

Heather parou de ficar dizendo que ele não precisava levá-la para jantar, pois ela havia acabado de co­mer os sanduíches do Savoy.

Quando viu, ela estava entrando no banco traseira; do carro e se acomodando perto da janela para dar espaço a ele.

— É muita gentileza de sua parte, senhor Miquel...

— Considerando-se que você desmaiou na minha porta, por assim dizer, acho que você já pode me cha­mar pelo meu primeiro nome, Theo.

— Tudo bem, então. Mas não precisa me levar a parte alguma. Não precisa se sentir responsável por mim. Apesar de que agradeço muito sua ajuda.

Theo relaxou seu corpo sólido, encostando-se indolentemente à porta do carro e olhou para ela.

— Não me lembro da última vez que uma mulher recusou-se a jantar comigo de forma tão eloqüente.

Heather cruzou as pernas e as mãos, e começou a pensar em como poderia abrandar sua recusa para que ele não se sentisse ofendido e ficasse achando que ela era ingrata depois de tudo que ele havia feito. E ela tinha de reconhecer que a idéia de jantar com ele era desconcertante, mas também excitante.

— Não se pode dizer que eu esteja vestida para jantar fora — ela disse, olhando para seus sapatos masculinizados e seu casaco preto que era bem quen­te e confortável, mas fazia ela parecer um navio na­vegando em velocidade máxima.

— Não, não está — Theo concordou. — Mas te­nho certeza que Henri não vai ligar.

— Henri? — Então ele achava mesmo que ela es­tava com péssima aparência. Bem, ela nunca fez grande sucesso mesmo com o sexo oposto. Ao menos não no sentido sexual. Crescera à sombra da irmã lin­da, resignando-se desde cedo a um inevitável segun­do lugar. Os meninos eram sempre grandes amigos dela, mas se apaixonavam por Claire. Ela achava que a vida simplesmente era assim mesmo, e jamais se deixou abater por isso.

Mas no momento ela estava sim se deixando aba­ter por isso.

— O proprietário de um pequeno bistrô francês que costumo freqüentar. Eu o conheço há muito tempo.

— Ah, é? E como foi? — Ela estava pensando se daria para arrumar os cabelos no toalete do "pequeno bistrô francês".

— Eu o ajudei muito tempo atrás, financiando o restaurante que ele queria abrir.

— Sabia que você tinha um lado sensível! — Heather exclamou impulsivamente, sorrindo para ele.

Santo Deus, Theo pensou, aquela mulher precisa­va de proteção contra a própria boa índole!

— Foi um acordo de negócios sensato — Theo corrigiu, não gostando muito daquela idéia de ter um lado sensível. Se tivesse, jamais percebera maiores evidências deste lado, e tinha certeza que os reis da economia que o obedeciam no minuto em que ele abria a boca para mandar também nunca o viram sob este ângulo. — Para desfazer o mito, devo dizer que ganhei dinheiro com o negócio.

— Mas tenho certeza que teria investido nele mes­mo que não achasse que fosse fazer dinheiro. Acho que amigos são para isso, não é?

— Eu na verdade não pensei muito nisso. Bem, chegamos.

Heather olhou ao redor e viu que o pequeno bistrô era na verdade um restaurante chique, o tipo de lugar que atraía gente estilosa que ficava bebendo vinho branco e olhando para todo mundo.

Ela olhou para ele em desespero.

— Não posso entrar aí.

— Por que não? — Theo perguntou, com um traço de irritação. Ele estava começando a imaginar que tipo de impulso demoníaco era aquele que o impelira a levar aquela biruta para jantar. Sim, claro que ele estava preocupado com o que ela disse sobre este tra­balho insalubre no bar que estava para aceitar. Mas o que ele tinha a ver com isso? Pessoas adultas podiam fazer o que quisessem de suas vidas.

— Olhe para mim! — Heather disse, o rosto trans­parecendo seu pânico.

Theo olhou.

— Ninguém vai dar a mínima para você. — Aquilo era o máximo que ele podia dizer sem ter de mentir.

— Todo mundo vai olhar! — Heather rebateu, le­vantando a voz. — Olhe só para o pessoal que está lá dentro. — Dava para ver as pessoas dentro do restau­rante, todas muito bem vestidas e à vontade naquela atmosfera de auto-adulação. Pareciam todos dizer " somos lindos, graças a Deus".

Após estacionar, o motorista de Theo saiu para abrir a porta de Heather.

Ao lado de Theo, ela se sentia ainda mais sem jei­to. Ela olhou para ele, dizendo "não" com os olhos, mas ele apenas sacudiu a cabeça, impaciente.

— Você se preocupa demais com sua aparência.

— Para você é fácil falar. Você foi abençoado com toda esta beleza.

— Você sempre fala o que lhe dá na telha? — Theo perguntou, um pouco chocado com o que ela havia acabado de dizer.

Heather ignorou. Estava ocupada demais com suas incertezas. Ele teve de impeli-la a entrar pela porta, e ele podia até não ter reparado em nada, mas ela repa­rou. Todos os rostos se viraram em direção a ela. Ela tinha certeza que as mulheres estavam disfarçando o riso.

Os homens lhe lançaram rápidos olhares de des­prezo, e depois olharam para Theo, tentando reco­nhecê-lo. Heather se sentiu pior do que invisível. Na verdade, se ela fosse invisível seria infinitamente melhor. Então ela baixou os olhos para o assoalho re­luzente de madeira que parecia enfatizar ainda mais seus calçados brutos.

— Nossa mesa é aquela ali — Theo murmurou, abaixando-se. — Quer que eu a conduza ou está pre­parada para levantar os olhos e caminhar sozinha?

— Muito engraçado — Heather murmurou de volta. — Você reparou como está todo mundo olhando para mim, pensando que diabos eu estou fazendo aqui?

— Ninguém está olhando para você.

— Bem, estavam — Heather disse, e para seu alí­vio chegou enfim à mesa e se sentou na cadeira.

— Sua mãe não devia ter deixado seus complexos em relação à sua irmã chegarem a esse ponto. — Ele pegou o cardápio, mas deu uma olhada rápida; estava óbvio que já sabia o que queria pedir.

Heather se inclinou e olhou para ele com uma cara bem séria.

— Não foi culpa da minha mãe ter dado à luz um cisne e um patinho feio.

— Até aí, tudo bem. Mas ela sabe que você costu­ma ficar se comparando com sua irmã?

— Minha mãe faleceu faz sete anos. — Ela espe­rou por alguma expressão de pesar que não veio. Theo apenas olhou para ela e balançou a cabeça leve­mente. — Ela ficou doente por cerca de dois anos an­tes de acabar falecendo. Por isso não terminei meus estudos. Precisei trabalhar.

— E o que sua irmã estava fazendo na época?

— Claire estava em Londres, fazendo um curso de interpretação e trabalhando como garçonete.

— E você ficou sem dinheiro nenhum para correr atrás de suas próprias ambições? — Contra sua von­tade, ele estava ficando curioso sobre a dinâmica da família de Heather. Sem tirar os olhos dela, pediu uma garrafa de vinho e o peixe do dia, e ela pediu a mesma coisa.

Heather corou.

— Claire precisava mais do que eu do pouco que havia na época. Ela promete que me pagaria assim que ela estourasse. Não que eu me importasse com o dinheiro. Mamãe já não estava aqui e eu não fazia questão de dividir o que ela nos deixou, e nem era muito mesmo.

— E ela estourou?

Theo perguntou casualmente, sabendo qual seria a resposta. Claro que não ficou nem um pouco surpreso ao saber que os sonhos de estrelato do outro lado do Atlântico não estavam dando certo. Menos surpreen­dente ainda era o fato de o dinheiro jamais ter sido devolvido à dona, que parecia achar tudo muito bom.

— Então você gosta de se comparar desfavoravelmente a uma pessoa cujo único predicado para a fama é a beleza? — Theo perguntou.

— Ela também é uma pessoa muito calorosa — Heather defendeu apaixonadamente. Costuma ser, ela corrigiu em pensamento, quando as coisas são do jeito que ela quer. O egoísmo da irmã sempre fora algo entre irritante e terno. Dificilmente ela perdia a paciência com a irmã, mas nas poucas vezes que isto aconteceu, Heather se deparou com um muro de la­múrias e choramingos. — De mais a mais, eu não me comparo com Claire. Apenas admiro sua beleza.

Você não tem irmãos com os quais às vezes se com­para? — A idéia soou tão ridícula que ela não pôde conter um sorriso. — Não. Não consigo imaginar você se comparando desfavoravelmente com nin­guém. Você é autoconfiante demais para isso. Acho que você deve esperar que as pessoas se comparem com você.

— Não tenho irmãos nem irmãs — Theo a infor­mou sem mais nenhuma simpatia, com um tom de voz proibitivo, como quem não quer falar de sua vida pessoal, mas Heather o encarou pensativamente.

— É muito triste para você. Sei que Claire não mora aqui, mas é bom saber que ela está comigo em espírito, por assim dizer. E seus pais? Onde moram? Aqui? Devem ter muito orgulho de você, ainda mais você sendo tão bem-sucedido...

As mulheres não costumavam ficar perguntando sobre a vida de Theo. Na verdade, as mulheres sa­biam quando recuar sem que ele precisasse dizer. Algo em sua expressão sempre deixou os limites muito claros. Ele as levava para jantar, tratava-as com capricho e luxo além das posses da maioria das pessoas. Esperava em troca relacionamentos sem complicações. Sua vida já era agitada demais sem ele precisar fazer exigências ao sexo oposto.

Heather parecia não ter os instintos corretos a avi­sando para mudar de assunto. Na verdade, ela estava olhando para ele com o entusiasmo de um filhote de cão à espera de um mimo.

E ela não o interessava sexualmente. Theo estava convencido que quando se dá informação demais às mulheres, elas criam ilusões de estabilidade.

Como Heather não era do tipo de mulher que fica­va jogando verde para colher maduro, ele não sucum­biu imediatamente ao instinto automático de se fe­char e não dizer nada. Ao contrário, olhou para ela e deu de ombros.

— Meu pai morreu quando eu era garoto e minha mãe não mora aqui, mora na Grécia.

— E você é de lá, claro.

Theo se permitiu um discreto sorriso.

— Por que " claro" ?

— Ah, são aqueles estereótipos de homens gregos altos, morenos e belos. — Heather sorriu quando ele fez uma expressão de estupor. Ela estava apenas brincando, mas pensou em quantas vezes na vida já haviam brincado com ela. — Sua mãe costuma vir lhe visitar muito?

— Você faz muitas perguntas.

A comida chegou e foi posta em frente a eles. Ser­viram mais vinho em suas taças, e desta vez Heather não se incomodou de beber, já que não estava mais trabalhando.

— As pessoas têm histórias interessantes. Como .conhecer as pessoas a não ser fazendo perguntas? — Seu apetite, que devia estar satisfeito após os sanduí­ches, deu sinal de vida novamente. É claro que ela não ia comer tudo, mas não se sentava em um restau­rante daquele calibre toda hora. Pareceria até rudeza não tocar na comida.

— E então, ela vem?

— Do que está falando?

— Da sua mãe. Ela costuma vir lhe visitar?

Theo balançou a cabeça, exasperado.

— Ocasionalmente. Costuma vir para ficar na mi­nha casa de campo. Ela odeia a cidade. Na verdade, nunca vem para cá. Pronto. Satisfeita?

Heather fez que sim. Por enquanto, quis dizer, mas lembrou que não haveria nada além do momento presente, de modo que por enquanto era na verdade o fim. Ele só estava fazendo aquilo tudo para livrar sua consciência da culpa de tê-la feito perder o emprego de faxineira. E pensar nisto a fez voltar à realidade e lembrar que havia perdido um emprego do qual pre­cisava, por pouco que ganhasse. Cruzou o garfo e a faca no prato, do qual comera a metade da comida, e apoiou o queixo na mão.

— Terminou? — Theo perguntou, surpreso. Heather sentiu uma pequena dor por dentro. Apesar de sua aparência animada e bem disposta, de repente teve uma visão de realidade. A realidade que lhe mos­trava friamente que, apesar de haver fantasiado sobre aquele homem alto e agressivamente lindo enquanto limpava o chão quando ele estava por perto, ele jamais sequer olhara para ela. E apesar de ela se deleitar com a emoção de estar acompanhada por ele agora, sabia que esta emoção não era recíproca. Para ele Heather não passava de uma gordinha de quem ele mal esperava po­der se livrar.

— Você achou que eu ia continuar comendo até explodir? — Heather perguntou, mais rispidamente do que tinha intenção. Então procurou amainar aque­la resposta sarcástica que não fazia seu estilo com um sorriso triste. — Desculpe, é que eu estava pensando no que vou fazer agora que não tenho mais meu tra­balho noturno.

— Não acredito que você tenha mesmo que man­ter dois empregos para sobreviver. Com certeza você pode cortar uma ou duas coisas supérfluas.

Heather riu. Uma risada calorosa que fez algumas cabeças se voltarem na direção de sua mesa.

— Senhor Miquel, você não vive no mundo real...

— Theo...

— Bem, não vive mesmo. Eu não tenho nada de supérfluo para cortar. Algumas amigas às vezes jan­tam comigo e nós assistimos tevê, às vezes bebendo umas duas garrafas de vinho no sábado à noite, e no verão fazemos piquenique no parque. Não freqüento teatros, nem cinemas, nem restaurantes, não com fre­qüência. Até porque não tenho muito tempo livre mesmo, o que deve ser bom para economizar. — A cara de horrorizado que ele fez só piorou à medida que ela foi falando. Claro que ele não era capaz de en­tender o mundo em que ela vivia. Por que entenderia? Ela também só devia fazer uma vaga idéia de como seria o mundo dele. — Prefiro guardar dinheiro para o meu curso a torrar em roupas e diversão.

— E eu que achava que não ligar para nada fazia parte da juventude — ele disse, surpreso ao perceber que estava até se divertindo. Não do jeito que costu­mava se divertir em companhia feminina, mas estava se sentindo revigorado. Talvez ele precisasse mesmo de mais novidades na vida.

Heather deu de ombros.

— Talvez seja, para quem pode bancar. Mas eu não sou do tipo de pessoa que não está nem aí para nada, nunca fui.

— Se você não é deste tipo de pessoa, talvez deva pensar duas vezes antes de aceitar o emprego com este homem...

— Tom? — Ela olhou para ele, surpresa. — O que há de tão terrível em trabalhar detrás do balcão de um bar algumas noites por semana? Se eu ficar só rindo e conversando com os apostadores, Tom fica mais do que satisfeito.

— Muitas horas? — ele perguntou, e ela assentiu.

— Muitas, e bem cansativas. Foi por isso que eu recusei a oferta dele antes. Mas necessidade é neces­sidade. Não tem muitos empregos noturnos para mo­ças dando sopa por aí, e não tenho como assumir mais compromisso nenhum durante o dia. — Ela sus­pirou. Como ajudaria se Claire cumprisse sua palavra e pagasse ao menos parte do dinheiro que ela tomou emprestado tanto tempo atrás. Mas fazia dois meses que não falava com a irmã, e muito mais tempo que não a encontrava pessoalmente. Seria estranho, após tanto tempo, entrar em contato só para pedir que pa­gasse o empréstimo.

— De qualquer forma, não adianta ficar me lamen­tando. — Ela sorriu. — A comida estava deliciosa. Muito obrigada. Gostei de vir aqui.

— Apesar de não agüentar a idéia de ficarem olhando para você? — Ele serviu mais vinho a ela, terminando a garrafa, e pensou se deveria pedir outra. Se estava procurando novidade, certamente a encon­trara nesta mulher que se dispunha a comer e beber sem medo das conseqüências. Também percebeu que não seria nenhum sacrifício prolongar um pouco mais a noite. Afinal, sua namorada atual não estava por perto e só resolveria questões de trabalho na ma­nhã seguinte, quando chegasse ao escritório.

— Mais vinho? — ele perguntou, fazendo um si­nal ao garçom.

Heather corou. Na verdade, sentia-se bem quente e gostaria de tirar o casaco, mas estava usando uma ca­miseta horrorosa, pior do que o casaco cinza.

— Eu não estou tomando seu tempo? — ela per­guntou, preocupada.

— Como assim?

— Ah, sei lá. Você não tem algo para fazer? Não tem uma namorada para encontrar, ou algo do tipo?

— Sim, mas ela cancelou tudo quando eu disse que teria de me atrasar.

Então foi este o telefonema que ele deu no mo­mento em que pegou o celular e se afastou dela no es­critório. Heather se sentiu culpada e corou mais ain­da.

— Que horror! — Ela fez menção de levantar, mas ele pediu que ela sentasse com um gesto de mão. O garçom chegou e serviu mais vinho. — Não posso ser pivô de uma briga entre você e sua namorada. La­mento muito.

— Sente-se — Theo ordenou, rindo de sua crise de consciência. — Você só deu um empurrãozinho fi­nal, se isto lhe serve de consolo. Sente-se! As pessoas vão olhar. Você não quer que as pessoas fiquem olhando para você, quer?

Heather se sentou na cadeira de má vontade, mas seus olhos continuavam ansiosamente focados nos dele.

— O que quer dizer? — Ela tomou um gole de vinho.

— Quero dizer — aproximou-se dela — que estou percebendo que tem um grupo ali atrás que parece es­tar apenas esperando para ver se você vai cometer suicídio social e fazer uma cena.

— Não era minha intenção!

— Eu sei.

— Então o que quis dizer quando falou que eu só dei um empurrãozinho final? Você ia dar o fora nela?

—Mais cedo ou mais tarde.—Ele voltou a se recostar à cadeira, cruzou os braços e observou a expressão conturbada em seu rosto. Quem diria que a faxineira de seu escritório seria uma companhia tão agradável? Ele mal podia acreditar no que estava fazendo.

— Ah. E por que ela iria terminar com você só por causa de um atraso? — Ela franziu o cenho, confusa. Sim, relacionamentos podiam ser transitórios, mas aquilo não era um pouco demais? Ela mesma já tivera um relacionamento estável, e quando chegaram a ponto de reconhecer que não chegariam a lugar ne­nhum daquele jeito, levaram várias noites até enfim terminar. — E por que você daria o fora nela mais cedo ou mais tarde? Você a estava enrolando?

Aquela pergunta já passava um pouco dos limites, Theo pensou. Ele pediu a conta e apoiou os cotovelos na mesa.

— Acho que agora você começou a fazer pergun­tas sobre assuntos que não são da sua conta.

Por alguns momentos Heather apenas olhou para aquele homem temido por todos. O homem da mão de ferro na luva de veludo. Deu de ombros.

— OK. Peço desculpas. Às vezes falo demais.

— Às vezes fala mesmo — Theo concordou, sem sorrir. Pagou a conta e então Heather sorriu, tentando melhorar o clima.

— Eu pagaria minha parte, se tivesse dinheiro...

— Eu sei. — Ele se levantou e pensou mais uma vez por que diabos ela tinha de usar roupas que a fa­ziam parecer mais gorda do que era.

Heather se levantou rapidamente, rápido demais até, pois naquele instante sentiu os efeitos do vinho branco gelado e muito saboroso e cambaleou ligeira­mente.

O chão estava com certeza mais firme quando ela estava sentada.

E agora ela tinha que passar por aquele salão re­pleto de gente.

— Esse é o problema de um bom vinho — Theo disse. — A gente bebe sem perceber. — Ele foi até ela, que estava imóvel em sua indecisão apavorada, e passou a mão por sua cintura.

Aquele contato pareceu emitir ondas de eletricida­de a cada centímetro de seu corpo, eliminando qual­quer traço de bom senso que lhe restava.

Uma vaga paixonite imatura... Uma noite de con­versa, e um toque mínimo que nada representava para ele... Bastou para ela sentir sua cabeça girar como uma mulher apaixonada.

Ela mal o ouviu falar enquanto a conduzia pela porta do restaurante, parando rapidamente para tro­car gentilezas com Henri, que apareceu do nada.

Santo Deus, ela queria sentir o corpo dele mais perto! Será que já havia se sentindo assim com John-ny antes? Não lembrava. Mas provavelmente, não.

Quando estavam fora do restaurante ele tirou a mão e ela deu uns dois passos para trás para se recu­perar daquela sensação vertiginosa. O ar frio estava agradável.

O motorista dele estava parado a poucos metros, mas antes que ele começasse a conduzi-la em direção ao carro Heather olhou para ele e deu-lhe um sorriso franco.

— Posso voltar para casa daqui sem problema.

— Não seja ridícula. Onde você mora?

— Verdade, estou bem. Você já fez demais. — Ela sabia que mal estava conseguindo pronunciar as pa­lavras direito. Quando ele pôs a mão em seu cotovelo ela sabia que teria de ceder.

— Você ficou quieta de repente...

— Estou um pouco cansada... — Assim que entra­ram no carro ela recostou a cabeça ao banco e fechou os olhos. Lembrava vagamente de dar seu endereço a Theo, e ao abrir os olhos novamente já estava em frente ao edifício onde dividia um apartamento com mais quatro moças. Nenhuma delas estava em casa. Pela primeira vez ela percebeu que devia ser a única pessoa em Londres menor de 25 anos e solteira que estava sozinha em casa naquela sexta-feira à noite. Mas ela havia, sim feito algo.

Ele a acompanhou até a porta, pegou a bolsa dela ao ver que ela não conseguia achar as chaves e as achou para ela. Quando ele entrou em casa com ela, Heather não fez objeção. Sim, ele cumprira seu dever e estava pronto para partir. Mas não, ela não queria que ele partisse. Agora, não. Afinal, não o veria nun­ca mais de novo.

— Gostaria de um café? — Heather perguntou de modo um tanto estranho.

— Quantas pessoas moram aqui?

— Quatro. — Ela soluçou, e cobriu a boca com a mão.

— Acho que você precisa do café mais do que eu. Sente-se que eu preparo.

Bem, Theo pensou, sua noite estava toda errada desde o momento em que ouviu aquele barulho infer­nal no corredor de seu andar no edifício de escritó­rios, então por que não terminar tudo fazendo algo que ele raramente fazia, ou seja, cuidar de uma mu­lher que usava roupas terríveis e que havia pratica­mente caído dura no sofá?

Theo não era nenhum porco chauvinista. Mas esta­va acostumado a ser mimado pelas mulheres que se derramavam todas por sua beleza, seu charme e seu magnetismo. Na verdade não se lembrava de jamais ter cuidado de mulher nenhuma como estava fazendo agora com aquela mulher que caíra no sono ao seu lado no carro enquanto ele estava falando com ela.

Ele foi até a parte de trás do apartamento, obser­vando o caos em que quatro pessoas viviam sem se preocupar muito em organizar nada. Na cozinha ain­da havia restos de louça do café da manhã. Havia sa­patos jogados em lugares improváveis e no peitoril da janela havia cartões de aniversário recentes.

Quando o café estava pronto, ele foi até a sala e viu que Heather caíra no sono de novo. Tirara os sapatos, deixando à vista as meias cinzas, e também o casaco.

Theo ficou parado por alguns segundos, perceben­do que aquela figura roliça não era tão roliça quanto parecia com aquele casaco que estava usando. Seus seios eram grandes, suculentos e fartos, mas seu cor­po era bem feito e o pedaço de cintura que dava para ver pela camiseta ligeiramente levantada revelava uma pele surpreendentemente firme.

Ele esfregou os olhos para dispersar a sensação in­cômoda de ficar olhando para ela com vontade de chegar mais perto e apreciar aquelas curvas um pou­co mais.

Sem acordá-la, ele pôs o café na mesa perto do sofá e, após alguns segundos de hesitação, pegou a caneta e procurou um pedaço de papel. Não pretendia acordá-la, mas não seria certo sair sem se despedir. Então ele escreveu um bilhete lhe desejando sorte no novo trabalho e saiu, resistindo à enorme tentação de olhar por sobre o ombro para vê-la mais uma vez, dormindo como um bebê.

Ao chegar lá fora, ele riu da insanidade que tomou conta de si. Chegou a ficar excitado ao olhar para ela! Quase ligou para Claudia, ciente que poderia dobrá-la com uma conversinha mole, mas em vez disso des­ligou o celular e se forçou a se concentrar no trabalho que tinha a fazer na manhã seguinte.

Heather acordou na manhã seguinte com o barulho de uma de suas amigas mexendo nas louças da cozi­nha achando que era Theo fazendo café.

A xícara de café estava na mesa ao lado dela, junto a um bilhete no qual ele escrevera qualquer coisa, certamente feliz de poder se livrar dela, finalmente.

Heather se sentou e cobriu a cabeça com as mãos. Ele não a acordou! Ela dormiu e perdeu a chance de passar mais alguns minutos com ele.

O sol parecia ter sumido de sua vida.

— Será que eu sou louca? — ela perguntou a si mesma, se encarando no espelho. — Porque só uma louca cai no sono ao lado de um homem como Theo!

Ela se recompôs e aceitou o trabalho no pub de Tom. Como esperava, era um trabalho duro, mas tinha um lado divertido, o que a agradava. Ao menos ela estava comendo com regularidade e tirara as sextas-feiras de folga. Não conseguia parar de pensar no que Theo dis­sera quanto a ser jovem e aproveitar a vida. Passadas seis semanas, ainda não esquecera daquilo.

E a imagem dele continuava vivida em sua mente. Não havia nada que ela pudesse fazer quanto a isso. Num minuto ela estava rindo de alguma coisa, mas no minuto seguinte lá estava ele em sua mente de novo. Ela se deitava com ele à noite e acordava com ele na cabeça. Era involuntário, não podia fazer nada. Aquele homem a estava assombrando.

Claro que uma hora aquilo tinha de passar. Nada como o tempo para esquecer. Ela estava contando realmente com isso. Tanto que quando, dois meses depois, atendeu ao telefone e ouviu a voz dele, quase não reconheceu.

Sentou-se, agitando o braço nervosamente para que Beth abaixasse o volume da tevê — o que a outra fez, parando para prestar atenção na conversa. Heather sentiu o coração começando a disparar. Ele consegui­ra seu telefone com a empresa de limpeza para a qual ela trabalhava, o que não era difícil, sendo ele quem era.

— Tenho uma proposta a lhe fazer.

— É mesmo? — Ela tentou soar o menos nervosa possível, apesar do estômago dando voltas.

— Minha governanta foi para a Escócia ficar com a irmã que adoeceu e precisa de seus cuidados. Pen­sei se você não gostaria de ocupar a vaga. — Ele ex­plicou para ela qual era o trabalho, e disse que ela po­deria morar lá. Seu apartamento tinha uma ala sepa­rada e ele pouco parava em casa. Gostava de passar a maioria dos finais de semana no interior. Ele disse qual seria o salário e ela quase engasgou. Era muito mais do que ela ganhava nos dois empregos juntos. Ela poderia economizar e, se resolvesse dormir no trabalho, poderia pagar seu curso dentro de poucos meses, não dali a anos, como previa.

Não que o dinheiro importasse muito naquele caso.

— Aceito — disse prontamente, fazendo-o sorrir do outro lado da linha. — É só dizer quando devo co­meçar...

 

 

CAPÍTULO TRÊS

 

— E então — Beth perguntou, séria —, e agora?

Dezoito meses depois estavam as duas sentadas no lugar em que costumavam se encontrar, um bar e res­taurante francês onde não pareciam se importar em servir cappuccinos para clientes que pareciam não ter intenção de comer nada e ficavam ocupando as me­sas por horas.

Heather mordiscou o lábio. Sabia exatamente o que a esperava. Tomou um gole de café para ganhar tempo, mas a pergunta ainda estava lá quando enca­rou os olhos castanhos inquisidores de Beth.

— Como assim? — Heather tentou se esquivar.

Para começar, Beth estava muito feliz com a súbi­ta mudança de sorte da amiga. Nada mal tomar conta de uma casa que estaria sempre limpa mesmo, já que seu dono não parava nela, e ainda por cima com um salário muito acima da média.

Para Beth, uma mulher podia ser definida por sua carreira. Ela mesma queria ter sido advogada desde os cinco anos de idade — ao menos, era o que dizia — e conseguiu realizar seu sonho sem jamais se des­viar da rota.

Heather admirava profundamente a determinação da amiga. Tanto que tentou disfarçar para a verdadei­ra razão de aceitar a generosa oferta de Theo, ou seja, aquele desejo irresistível que sentia de ficar perto dele. Mas como não era de sua natureza guardar se­gredo, ela acabou fazendo confidencias e depois teve de agüentar a amiga volta e meia dizendo que ela es­tava sendo usada.

— O que eu quero dizer — disse Beth, franzindo a testa — que agora que seu curso terminou, você vai se mudar e arrumar um emprego naquela empresa de publicidade para a qual você respondeu ao anúncio? Aliás, você respondeu ao anúncio, não é?

Heather ficou sem graça com a pergunta tão direta e objetiva e murmurou qualquer coisa sobre ainda precisar dar uns retoques no seu currículo. Na verda­de, o envelope estava ainda em sua bolsa enquanto ela tentava lutar contra sua resistência a abandonar uma situação que não lhe daria futuro nenhum, mas que estava funcionando muito bem para ela.

Na verdade, seus deveres como governanta eram quase nada. Ela fazia limpezas superficiais, cozinha eventualmente quando ele jantava em casa, mas no geral ela se tornou uma mistura curiosa de secretária 24 horas e faz-tudo.

Ele conversava com ela sobre o trabalho, sem se importar de avisar que era tudo estritamente confi­dencial. Ela costumava dar risada quando ele franzia a testa, muito sério, informando-o gentilmente que não conhecia ninguém que pudesse estar remota­mente interessado em transações internacionais en­tre empresas das quais jamais ouvira falar. Ele fica­va com ela na cozinha, enquanto ela fazia uma coisinha ou outra, conversando sobre suas amigas e con­tando casos.

Ele ficava à vontade com ela, achava-a divertida e, mais importante, ela não fazia exigências. Ao contrá­rio das mulheres com quem ele continuava saindo, ela não ficava pegando no pé dele e jamais nutriu ambições além de seu alcance. Aos olhos de Theo, eles tinham uma relação perfeita. Ele pagava Heather muito bem, e aumentava seu já generoso salário a cada três meses. Por sua vez, ela o ajudava em fun­ções muito além do que ele esperava da própria se­cretária que tinha no escritório.

Ela nunca se importou de ajudá-lo com os e-mails, nem de digitar cartas tarde da noite, quando ele volta­va do escritório. Tampouco se negava a comprar no lugar dele jóias caras para suas namoradas, nem a en­comendar buquês de rosas vermelhas que sinaliza­vam o fim próximo destes relacionamentos.

Apenas em duas ocasiões, quando ele estava fora do país e ocupado demais para fazer compras, ela chegou a comprar presentes para sua mãe e enviá-los para a Grécia. Ele confiava que ela sempre escolheria a coisa certa. Os presentes sempre agradavam.

Não havia nada que Beth fosse dizer que Heather já não soubesse. Mas dessa vez era diferente. Ela já havia terminado seu curso de ilustração, e era a pri­meira da turma. Já não precisava mais ficar economi­zando dinheiro como louca. Com o salário generoso que Theo lhe pagava, além do fato de não ter de pagar aluguel — ele fazia questão que não pagasse —, ela conseguiu pagar o curso todo, comprar material e até participar de excursões para exposições interessan­tes, e ainda assim ter dinheiro no banco. Não era o suficiente para comprar seu próprio imóvel, mas era mais do que o necessário para alugar um apartamen­to.

Tudo que Beth estava lhe dizendo fazia sentido. Totalmente confrontada pela verdade, Heather se re­fugiou em respostas vagas.

— Eu sei de um apartamento... — Beth disse ca­sualmente, olhando para o relógio no pulso e vendo que a hora de almoço já havia acabado e tinha de vol­tar ao trabalho. — Fica no quarteirão onde moro. Não é tão grande quanto o meu, só tem um quarto, mas você vai adorar, e não vai ter ninguém batendo na sua porta no meio da noite para que você vá digitar cartas de roupão e camisola.

Mas eu nunca me importei de fazer isso, Heather quis dizer. Porém, sabia que não devia. Então, assentiu vagamente e tentou demonstrar entusiasmo.

— Posso dar uma olhada...

Beth entendeu a resposta como um claro sim e se levantou, pegando sua pasta.

— Ótimo. Quando estiver livre, me diga e eu mar­co uma hora para você ver o imóvel. Mas vou logo lhe dizendo que você não pode ficar pensando muito, senão alguém vai alugar o apartamento logo, logo. — Ciente do tom rígido de sua voz, Beth sorriu e deu um abraço carinhoso em Heather. — Eu gosto de você.

— Eu sei.

— E odeio pensar que você fica padecendo na casa daquele homem, desesperadamente esperando que ele repare em você enquanto ele vive ocupado com seus casos sujos.

— Eu não...

— Não venha com essa! — Beth a interrompeu sem maiores delongas. Já concluíra que Heather ti­nha um vasto repertório de justificativas para os maus hábitos de Theo e para a maneira que ela lidava com eles. Ela já o havia encontrado antes e sabia, com toda certeza, que não havia chance da amiga ser nada para Theo além de uma ótima governanta que estava o tempo todo à disposição. Ele gostava de mu­lheres altas, magras e vazias. Heather não se encaixa­va em nenhum desses quesitos, e Beth tinha para si que no fundo Heather ficava alimentando fantasias de Theo um dia olhar para ela com outros olhos.

— Tenho que ir, querida. Cuide-se, ouviu? E me ligue.

— OK — Heather logo concordou, sem descartar totalmente a idéia de se mudar, mas sem dar muita importância.

O destino lhe trouxera Theo, por assim dizer, mas não parecia pronto para levá-la embora.

Porém, o pequeno sermão de Beth e a possibilidade de ter um emprego e um apartamento a fizeram pensar no assunto enquanto voltava para a casa de Theo.

Parou no caminho para comprar algumas coisas para comer que sabia que Theo gostava. Ele ia passar o fim de semana fora, mas estaria em casa à noite. Ela pretendia preparar espaguete à bolonhesa, pois ele não resistia a este prato.

Quando chegou ao edifício tentou não pensar no que ele iria fazer no fim de semana. Ele estava saindo com mais uma daquelas morenas. O nome dessa era Venetia, e o nome lhe caía bem. Quando estava de saltos altos ela ficava quase da altura dele. Só usava roupas de grife, e quando ia ao apartamento tratava Heather com um leve desdém de superioridade.

Heather jamais revelaria a Theo o ciúme que sen­tia.

Mas no final das contas, o ciúme acabava entrando em seu sangue como se fosse veneno.

Já não bastava para ela ficar fantasiando. Sim, ele era infinitamente fascinante com sua arrogância ter­na, seu jeito esquentado e seus momentos de atenção e gentileza. Mas será que isto era suficiente?

Fazia duas semanas que completara seu curso, e o tempo estava passando, lembrando-lhe que ela tinha uma vida pela frente — sua própria vida, não uma vida voltada para um homem que não lhe dava a me­nor atenção apesar de saber, por alguma razão, que ela era quase indispensável para ele.

Mas será que é mesmo? Perguntou uma vozinha maldosa vinda do fundo de sua mente. Você gosta de acreditar que é, mas as pessoas acreditam no que querem.

Heather subiu as escadas até o apartamento dele com o coração pesado. Usava as escadas para tentar compensar seu amor por chocolates e doces em geral.

Theo morava em uma cobertura em um condomí­nio para poucos no coração de Knightsbridge. Como era de se esperar, era o maior apartamento do edifí­cio, abrangendo um andar inteiro. Era tão grande quanto uma casa e ele não tinha nada a ver com a de­coração. No primeiro dia de trabalho de Heather ele disse que simplesmente contratou o melhor decora­dor de Londres para cuidar de tudo. Só opinou na cor — ou seja, o mínimo possível — e pediu para que não tivesse planta nenhuma que precisasse de cuidados.

Com o passar dos meses, Heather trouxe algumas plantas, apesar de não mexer nas cores.

Também pendurara alguns de seus desenhos nas paredes, sem se importar com os resmungos iniciais de Theo, que depois virariam elogios ocasionais.

Entrou no apartamento, pôs a comida na geladeira e foi para o chuveiro, ainda pensando no que Beth dissera.

O banho foi uma verdadeira maravilha refrescante. O verão estava bem no final, mas o dia foi bem quente e ela havia suado muito ao subir as escadas.

O som insistente da campainha conseguiu se fazer ouvir apesar do barulho da água caindo do chuveiro e interrompeu seus pensamentos.

Não podia ser Theo. Ele nunca, jamais voltava para casa antes das sete da noite. Além do que, tinha suas chaves e não era típico dele esquecê-las em lu­gar nenhum. Mesmo assim... quem mais poderia ser? O porteiro no térreo jamais deixaria nenhum vende­dor ou coisa assim subir sem anunciar. Gente rica fa­zia questão de segurança e privacidade, e aquelas pessoas ficavam horrorizadas de ter algum desconhe­cido batendo à porta.

Sentiu o coração disparar ao pensar que poderia abrir a porta para Theo.

Mas não era Theo. Não era nenhum vendedor. Era urna mulher baixinha, morena, de seus sessenta anos de idade.

Heather não sabia dizer qual das duas estava mais surpresa. Quebraram o silêncio ao mesmo tempo, uma falando em grego, e a outra gaguejando um pe­dido de identificação. Depois, ambas se calaram, até que Heather perguntou, com seu jeitinho simpático:

— Desculpe, mas se importa de me dizer quem é a senhora? É que... bem... Não é todo mundo que dei­xam subir sem avisar pelo interfone. — Ela ajeitou a corda do roupão que vestira na pressa de sair debaixo do chuveiro e sentiu os olhos perscrutadores da outra.

— Quem é você! — perguntou a senhora. — Onde está meu filho? Ele está aqui? O porteiro disse que haveria alguém para abrir a porta para mim. Achei que Theo estava. Onde ele está? Quem é você?

Heather quase engasgou. Theo mencionara sua mãe aqui e ali — a mãe pela qual tinha o maior res­peito e admiração, a mãe que nunca ia a Londres por­que não gostava da cidade grande.

— Queira entrar, por favor, senhora Miquel. — Deu um sorriso acanhado. — É um prazer conhecê-la. Sou Heather...

— Heather? Heather de quê? Theo nunca falou co­migo sobre nenhuma Heather, mas também ele nunca fala das namoradas mesmo. Estava começando a achar que ele não tinha namorada nenhuma! Ou tal­vez que tivesse namoradas demais... — Entrou no apartamento e logo se acomodou no sofá. — Venha cá, minha filha. Deixe-me vê-la.

— Ah, mas a senhora entendeu errado...

— Shhh! — A mãe de Theo pôs o dedo sobre os lábios, ordenando-a que se calasse. — Faça a vontade desta velha que quer ver o filho bem casado. Aliás, não poderia haver hora melhor para isto acontecer, minha filha. Sim, você me parece forte e bem alimen­tada.

— Eu estou de dieta... — Heather murmurou, per­plexa com a confusão que a outra estava fazendo e determinada a pôr os pingos nos “is” — Sabe... eu... Eu sinto muito em decepcioná-la, mas...

— Decepcionar? Claro que não estou decepciona­da, minha filha! — O rosto da velha então se ilumi­nou com um sorriso e Heather sorriu também. — Theo me acha antiquada... talvez por isto ele não te­nha me falado sobre você... ele deve achar que eu iria desaprovar o fato de vocês viverem juntos.

— Não, senhora Miquel — Heather se aprumou e ajeitou o roupão mais uma vez, ciente que seus trajes haviam originado a confusão toda. — Quer dizer, nós moramos juntos, tecnicamente falando.

— E apesar de eu ser velha, não sou tão velha as­sim a ponto de não perceber que os tempos mudaram. No meu tempo... bem, a gente fazia tudo diferente. Mas isso não quer dizer que eu não entendo o jeito dos jovens... — Ela então subitamente levou a mão ao rosto de Heather. — Fico muito fez que meu ama­do Theo tenha encontrado alguém, e dá para ver que você é boa pessoa. Está em seus olhos.

Heather pensou como o pânico podia passar por gentileza através do meu olhar.

— E você não deve me chamar de senhora Miquel, minha filha. Meu nome é Litsa.

— Theo não me disse que a senhora vinha...

— Eu quis... — E fez-se uma expressão de preocu­pação no rosto dela. — E melhor explicar a ele pes­soalmente... Agora estou cansada... quem sabe você não pode ligar para Theo e dizer a ele que estou aqui?

— E claro! — Litsa já estava com os olhos caídos de sono. Heather achou que não seria bom explicar por que ela morava no apartamento de Theo e aten­deu a porta de roupão de banho, e quem ela era real­mente. Achou melhor deixar Theo ser o portador das más notícias.

Felizmente, o apartamento tinha vários quartos vagos, sendo duas suítes, e Heather a conduziu a uma delas. Como ela chegara a Londres era um mistério, pois de repente ela lhe pareceu tão frágil, como se fosse feita de porcelana. Já havia pegado no sono quando Heather terminou de tirar seus sapatos e o ca­saco. Heather então fechou a cortina e cobriu a velha senhora na cama.

Ligou então para Theo, com os dedos trêmulos. Ele atendeu de imediato, e seu tom de voz deixava claro que estava sendo interrompido no meio de algu­ma coisa importante. Ela respirou fundo e falou rapi­damente para evitar que ele desligasse sem ouvi-la. Theo não tinha o menor senso de humor quando esta­va trabalhando.

— O que você está dizendo? Não entendi uma pa­lavra.

— Estou dizendo que sua mãe está aqui, Theo.

— Espere. — Houve alguns segundos de silêncio, e então ele voltou. — Fale.

Heather sentiu que estava falando rápido demais, pois ele pediu mais de uma vez que ela falasse mais devagar. Não, ela não sabia por que Litsa estava lá. Agora ela estava dormindo, mas ele tinha de cance­lar o que estava fazendo e vir imediatamente ao apartamento.

Não havia nada que Theo odiasse mais do que qualquer coisa que interrompesse seu trabalho, e no momento ele estava em uma conferência de alto ní­vel. Mas pela primeira vez na vida ele sentiu algo mais poderoso do que o magnetismo que o atraía ao trabalho. Ele sentiu medo. Sentiu o medo na corrente sangüínea enquanto ele dizia para o motorista esperar por ele com o carro estacionado em frente ao edifício.

Heather, que nunca foi econômica no discurso, atropelou as palavras de modo confuso, dizendo que era preciso dar um jeito de explicar a verdade à sua mãe. Mas ele não estava conseguindo raciocinar so­bre nada daquilo.

Sua mãe jamais vinha a Londres. Menos ainda sem avisar. Era impensável que ela fosse viajar sem avisá-lo.

Quando chegou em casa encontrou Heather à sua espera, já usando seus trajes de sempre, ou seja, cal­ças de moletom e camiseta larga.

— Ela está dormindo — Heather disse baixinho, e puxou Theo para a cozinha. — Vou fazer um café para você. Precisamos conversar.

Heather preparou um cappuccino e entregou a Theo.

— O que houve? — Theo perguntou. — Minha mãe nunca vem sem avisar. O que foi que ela disse?

— Você está perguntando se ela me disse por que veio?

— Isso mesmo. Ela disse?

Heather fez que não balançando lentamente a ca­beça, tentando encontrar as palavras para explicar a ele que sua mãe havia tomado algumas conclusões bem precipitadas.

— Theo, ela está bem de saúde? Ela me pareceu um pouquinho... fraca.

— Como assim? — ele perguntou, parecendo preocupado.

— Ela me pareceu frágil.

— E você percebeu isto em meia hora? Então quer dizer que você não estava estudando desenho e sim medicina? — Ele deu uma risada, e Heather ficou mais aliviada.

Theo se levantou repentinamente e olhou para ela com frieza.

— E me poupe de sua compaixão. Não estou no clima para isso.

— OK. — Ela sentiu o fundo dos olhos esquentar por causa das lágrimas que ameaçaram surgir.

Theo percebeu que tinha sido desnecessariamente cruel, mas não conseguiu pedir desculpas. Será que ela tinha idéia de que as palavras dela estavam con­firmando os medos que lhe corroeram enquanto esta­va a caminho de casa? Ele deu um soco na mesa e Heather quase pulou da cadeira.

— Sinto muito — ela murmurou.

— Sente muito pelo quê? Por você dar opinião quando ninguém lhe perguntou nada?

— Sinto muito por você estar com medo. — Ela o encarou corajosamente e ficou aliviada quando ele então se sentou de novo. Ela jamais o vira com medo antes, nem perto disso. Se ele queria descontar nela, tudo bem. Isso é amor, não é? E ela o amava, não amava?

Todavia, ela instintivamente; sabia que não adian­tava continuar martelando aquele assunto, então deu um sorriso sem graça e suspirou.

— Tem outra coisa. Eu tentei explicar ao telefone, mas acho que você não entendeu o que eu estava que­rendo dizer. Sabe, às vezes eu quero dizer uma coisa e acabo dizendo outra...

Theo relaxou um pouco ao ouvir aquela prosaica minimização de um fato e deu um meio sorriso.

— Já reparei.

— Bem... Quando sua mãe tocou a campainha eu estava debaixo do chuveiro...

Theo franziu o cenho, tentando entender o porquê daquela informação, mas foi paciente e esperou ela continuar.

— Sei que você deve estar pensando que era uma hora esquisita para se tomar banho, mas resolvi subir as escadas depois de fazer as compras. Bem, sim, eu estava debaixo do chuveiro e abri a porta de roupão...

— Você pretende chegar ao ponto em questão ain­da este ano?

— Esqueça o roupão... não importa. O ponto é que... eu sei que você vai ficar aborrecido, mas não tive culpa... sua mãe não esperava me encontrar aqui.

— Por que ela subiria se achasse que não tinha ninguém em casa?

— Porque o porteiro disse que tinha gente em casa, e ela presumiu que você estivesse.

— Às quatro e meia da tarde? Heather ignorou a retórica.

— Acho que ela entendeu errado e...

— Entendeu errado o quê?

— Ela acha que... que eu e você temos alguma coisa.

— Nós temos alguma coisa. Você é minha gover­nanta, entre outras coisas.

— Não este tipo de coisa, Theo. Ela acha que te­mos alguma coisa, alguma coisa, entende? No sentin­do romântico. Ela acha que eu sou sua namorada.

Theo reagiu de modo inesperado. Caiu na risada.

— Eu sei que é incrível — Heather disse. — Sei que sou o tipo de mulher para a qual você jamais olharia duas vezes...

Theo parou de rir e olhou para ela de modo incisi­vo, levemente incomodado com o tom de voz dela, mas ela continuou a contar o resto da história.

Ele jamais contara à mãe sobre seus casos fortuitos. Em parte para poupá-la, em parte para poupar a si mesmo da inevitável decepção que sabia que veria no rosto dela. Mas agora ela deu de cara com uma mu­lher de roupão em sua casa e entendeu tudo errado...

— Bem, então você explicou tudo a ela, não foi? — ele a interrompeu.

— Não consegui.

— Não conseguiu? Conta outra, Heather. Minha mãe começa a lhe dizer que está muito feliz que eu te­nha encontrado uma boa mulher e você não consegue explicar a ela que não é nada disso!

— Ela não me deixou falar, Theo, e depois acabou... ficando sem energia. Começou a cochilar sentada e eu não tive chance de explicar a ela que estava enganada...

— Bem, eu resolvo isto. — Ele tomou um gole do café e olhou para ela de rabo de olho. Heather, sua namorada? Que idéia ridícula. Ele observou seu rosto de traços definidos e olhos expressivos, e baixou os olhos para a camiseta que não a embelezava nem um pouquinho.

Sim, ela tinha personalidade, quanto a isto não res­tava dúvida. Mas personalidade não era o que ele buscava nas mulheres.

— Não será problema nenhum — ele continuou.

— Você quer dizer que ninguém em seu juízo per­feito jamais me acharia atraente? — Heather ouviu as palavras saírem de sua boca e levou um susto consigo mesma. Mudou de assunto rapidamente. — Quem sabe você não pode ir vê-la na suíte... Ela já deve es­tar dormindo faz um tempinho.

— De onde saiu isso? — Theo perguntou, franzin­do a testa. Heather podia não ser nenhuma candidata a modelo, mas ele jamais a vira manifestar insegu­rança por causa de sua aparência. Ela fazia piada de sua figura de vez em quando, parecia viver de dieta, mas era só isso. — Algum homem a insultou? — Ele sentiu uma raiva nascer dentro de si.

— Pare de bobagem, Theo. É só que eu... estou meio esquisita. Deve ter sido a chegada repentina de sua mãe...

O que fez com que ele lembrasse que não sabia o que a mãe estava fazendo em Londres.

— Bem, vou dar uma olhada em minha mãe.

— Não a acorde se ainda estiver dormindo — Heather pediu. — Ela parecia estar precisando des­cansar. Talvez tenha vindo para cá para relaxar um pouco. — Aquilo não fazia o menor sentido, mas ela não agüentou ver as súbitas linhas de preocupação em seu belo rosto. Era engraçado como ele sempre conseguiu comprovar a própria invencibilidade. Vê-lo vulnerável a feria de um jeito indefinível. E nem adiantava tentar dizer nada quanto a isso, porque ele rejeitaria sua compaixão tão rispidamente quanto fi­zera pouco antes.

— Não precisa ficar me consolando — Theo disse secamente, e Heather pensou que ao menos não esta­va aborrecido, e sorriu.

— Mas fico, se ajudar você a se preocupar menos.

— Porquê?

— Porque... — Ela sentiu o chão se abrindo sob seus pés. — Porque eu faria isto por qualquer um. — O que não deixava de ser em parte verdade. — Não agüento a idéia de fazer mal a ninguém.

— Então quer dizer que você faz o estilo "boa samaritana" ? Bem, agora vou ver minha mãe, e vou fa­zer o papel de mau samaritano ao dizer que ela se en­ganou redondamente. — Ele deu risada e balançou a cabeça como quem não acredita que alguém possa ter se enganado daquela maneira.

Aquilo fez Heather pensar que agora era muito im­portante ela ir embora de lá. Não podia culpar Theo por ele achar uma piada a mera idéia de terem qual­quer ligação romântica. Ela havia nutrido fantasias ridículas com ele desde a primeira vez que o viu. E acabou ali, no apartamento dele, presa a sentimentos não-correspondidos. Beth estava certa. Ela precisava tomar as rédeas de sua vida, precisava deixar de ser controlada por seu lado emotivo.

Tudo ficou muito claro para ela durante os 45 mi­nutos que ficou na cozinha esperando Theo voltar, pensando se deveria ficar ali ou não.

Quando ele afinal voltou, ela logo percebeu pela expressão em seu rosto que as notícias não eram boas.

— Preciso de algo mais forte que café — foi a pri­meira coisa que ele disse ao sentar-se à mesa. Ele en­tão esfregou os olhos e disse — E sugiro que você beba também.

Às vezes Heather bebia vinho com Theo, mas no momento estava fazendo uma dieta que excluía ál­cool. Mas a cara de Theo a fez deixar esse detalhe para lá. Serviu duas taças de vinho.

— Ela não quis me preocupar. As dores no peito começaram faz pouco tempo, mas ela não deu impor­tância, achando que era coisa da idade. Até que ela foi ao médico, que a recomendou um especialista em cirurgia cardíaca aqui de Londres.

Heather ficou chocada.

— E você não sabia de nada?

— Se eu soubesse, você acha que eu a teria deixado vir sozinha? Ela pegou o jatinho para cá, foi ao médico, fez os exames e então disseram a ela que voltar à Gré­cia não era boa idéia. E ela resolveu vir para cá.

 

 

CAPÍTULO QUATRO

 

Heather esperou que ele dissesse algo de mais con­creto, mas nada ocorreu.

— Escute — ela disse após respirar fundo. — Te­nho pensado ultimamente e... Agora sua mãe está aqui... e, bem... especialmente levando em conta que ela teve uma idéia errada sobre mim... Acho que não seria muito correto... continuar aqui. Agora já termi­nei meu curso e chegou minha hora de tomar um rumo, arrumar um emprego. Não que não tenha sido ótimo trabalhar aqui, mas... Beth me indicou um apartamento perto do dela. Pequeno, é claro, eu não poderia pagar nada muito caro no começo... — Como sempre, ela se pegou fazendo mil adendos e então re­solveu se calar e sorrir.

— É natural que você queira se mudar — Theo deu de ombros.

— Acho que é o melhor.

— Que seja. Mas não agora.

Por alguns segundos ela sentiu o coração parar de bater.

— Deixe-me explicar. Como já disse, minha mãe tem um problema cardíaco. Ela tentou me explicar o que era, e parece que ela não corre risco de vida. Cla­ro que vou conversar com o médico depois. Bem, mas o fato é que ela não pode se aborrecer.

— Naturalmente — Heather concordou.

— E é aí que entra você. Minha mãe, como você disse, acha que nós estamos juntos e que eu finalmen­te encontrei a mulher ideal. Como você mora aqui ela acha que é uma relação séria...

— Quer dizer que você não contou a verdade?

— Não deu para contar — Theo disse, deixando Heather consternada. — Ela está muito frágil no mo­mento. Se eu contar a verdade, pode ser que ela se aborreça e acabe afetando sua saúde.

— Mas você precisa contar a verdade!

— Não necessariamente.

— Não necessariamente? Eu pretendo me mudar, Theo! Você não acha que ela vai pensar que tem algo errado com nosso relacionamento supostamente sé­rio se eu sair daqui para alugar um apartamento do outro lado da cidade? E de mais a mais, não é correto enganar uma senhora idosa.

— O que não seria correto é aborrecê-la fora de hora. Ela não está podendo se estressar.

— Como pode achar que sua mãe não seria capaz de agüentar a verdade, Theo? — Ela pôs a mão sobre a mesa, debruçando-se. — Você não está pensando coisa com coisa.

— Sei que não estou. Mas estou com medo de cor­rer o risco.

Isso bastou para deixá-la balançada. Theo olhou para ela, percebendo sua indecisão e suspirou, alivia­do.

— Não é por muito tempo — ele prometeu. — Umas duas semanas, só isso. Só até ela ficar mais for­te e voltar para a Grécia.

— E depois você conta tudo a ela?

— Vou contar pouco a pouco, devagar. Mas logo você estará liberada e poderá seguir em frente comi sua vida. — Engraçado, mas ao pensar naquilo ele ficou ligeiramente aborrecido. Não sabia por quê, mas ficou. Mas como Theo não se dava ao trabalho de analisar seus sentimentos, ele deixou para lá. Tinha coisas muito mais importantes para pensar.

Como era fácil para ele dizer aquilo, Heather pen­sou, triste. Ela podia ser substituída facilmente. Ha­via muitas candidatas a um emprego onde se ganha bem e se trabalha pouco.

— Acho que vou para meu quarto agora — disse Heather, e se levantou. — Volto um pouco mais tar­de, caso sua mãe acorde, mas eu mesma não estou com muita fome.

— Outra de suas dietas malucas? — Theo pergun­tou, e ela respondeu com um sorriso que não foi nem simpático, nem hostil. Antes que ela se retirasse ele falou outra vez, e disse que a mãe esperaria que dor­missem no mesmo quarto. E ele disse aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Heather virou-se e olhou para ele, perplexa.

— Dormir no mesmo quarto? — ela disse, se apro­ximando dele. — Dormir no mesmo quarto que você?

— O quarto é bem, grande, e tem um sofá.

— Fora de questão!

— Por quê? — Ele arqueou as sobrancelhas como primeira indicação de estar se divertindo desde que chegara ao apartamento duas horas atrás. — O que acha que eu vou fazer?

— Não acho nada.

— Então por que este ataque súbito? A não ser que você ache que eu vá ficar tentado a tocar... — Então lhe veio à mente a imagem dela deitada no sofá, tem­pos atrás, quando ele a deixou no apartamento que então dividia com as amigas. Lembrou do jeito que os seios fartos dela subiam e desciam enquanto respi­rava adormecida.

— Simplesmente porque não é certo — Heather murmurou, corando furiosamente. Ela percebeu que ele estava rindo dela e ficou com muita raiva e muita mágoa.

A voz de Theo saiu mais brusca do que ele preten­dia.

— Sei que não é o ideal, mas não seria por muito tempo. Agora você precisa levar suas coisas para o meu quarto, ou ao menos parte delas. O bastante para...

— Para parecer de verdade? — Heather se ouviu dizer rispidamente. Não se lembrava de jamais ter fa­lado com ele neste tom antes, com raiva mesmo, nem nas poucas vezes em que sentiu raiva por dentro. Era como se pela primeira vez ela estivesse olhando para si mesma e vendo outra pessoa. Não mais aquela que costumava estar sempre pronta a fazer o que ele pe­dia, como um cachorrinho de estimação seguindo seu dono, pelo puro prazer de ter a chance de estar perto dele. Ela se transformado completamente.

Agora o destino estava brincando com ela, punindo-a da maneira mais cruel possível.

— Por que você não pede para Venetia ficar aqui com você? — Heather perguntou em um tom de voz mais normal. — Assim, ao menos você não vai ter de mentir. — E aquilo, mais que tudo, a forçaria a tomar a decisão de se mudar, porque ficar lá sabendo que ele estava no quarto com a namorada já era um pouco demais para Heather.

Theo jamais trouxera mulher alguma para casa. Heather entendeu a mensagem. Nenhuma mulher pu­nha os pés naquela casa para que não começasse a nu­trir idéias impossíveis de permanência. Ele não se importava que ela morasse debaixo do mesmo teto porque, até onde Theo sabia, Heather não repre­sentava nenhuma ameaça à sua preciosa inde­pendência. Ela imaginou o que ele teria feito se um dia suspeitasse que ela era viciada nele. Certamente a mandaria embora sem pensar duas vezes, Heather pensou.

— Venetia não é o tipo de mulher que minha mãe aprovaria — disse Theo, arqueando a sobrancelha com uma expressão engraçada ao pensar na idéia. — Além do mais... — Fez uma pausa pensativa. — Eu não gostaria que Venetia alimentasse idéias erradas. Mas com você é totalmente diferente. Você sabe os limites e não seria idiota de ultrapassá-los. E, além disso, minha mãe está encantada com você. Achou você uma menina muito doce e alegre.

Heather não podia imaginar dois adjetivos mais ofensivos, apesar de saber que a última coisa que Theo desejava era ofendê-la. Ele estava apenas di­zendo um fato.

— É claro que eu vou lhe compensar financeira­mente por isto, Heather. Até mesmo eu sei que este favor está muito além de suas obrigações.

Uma hora depois, Heather ainda estava perplexa com o rumo dos acontecimentos. Ela levou parte de seus pertences para o quarto dele.

Ela se sentia doente só de estar lá e olhar ao redor. Sempre achou a suíte dele enorme, grande demais para uma só pessoa. Tinha uma entrada com um pe­queno sofá e um amplo banheiro. Dava para uma pe­quena família. Mas de repente a suíte lhe pareceu di­minuta ao pensar que a dividiria com ele. Pareceu en­colher e ficar do tamanho de um quarto de casa de bo­neca.

Mas também não teria que ficar lá para sempre, pensou. Era estranho mas de certa forma ele conse­guira colocá-la em seu lugar com seus insultos invo­luntários, a oferta de pagamento e com o fato de espe­rar que ela soubesse se comportar. Quando a mãe dele fosse embora ela finalmente partiria de vez.

O fato de a mãe de Theo ser ótima pessoa não aju­dou muito. Depois do jantar leve que comeram, ela informou rapidamente o que seu médico na Grécia a aconselhara, mas estava na cara que ela queria mes­mo era ouvir do filho sobre sua nova paixão.

— Eu andava preocupada com ele. Sair-se bem de­mais com as mulheres quando se é muito novo nem sempre é um bom negócio para um jovem! Ele pode acabar virando um playboy, não é assim que vocês dizem?

Heather sorriu e olhou para Theo, que pareceu bastante desconfortável e sem graça.

— Theo? Não, Theo jamais foi de tratar as mulhe­res como objetos descartáveis, não é, Theo?

O olhar que ele lançou a Heather foi absolutamen­te impagável. Fingindo inocência, ele grunhiu qual­quer cosia e começou a tirar a mesa.

— É muito importante para o homem se aquietar com uma boa mulher — Litsa estava dizendo, obser­vando com aprovação enquanto o filho dava a im­pressão totalmente falsa de que costuma ajudar com o serviço da cozinha. — Uma boa esposa é funda­mental para tornar o homem verdadeiramente civili­zado! — Ela riu e olhou para o filho com afeição, en­quanto Heather riu por dentro da ridícula idéia de que alguma mulher fosse capaz de educar Theo Miquel.

— Você parece cansada, mãe — ele disse, fuzilan­do Heather com o olhar, mas ela fez que não viu. — Talvez esteja na hora de você se deitar. Amanhã será um longo dia. Eu vou levar a senhora ao médico, por isso não precisa se preocupar com nada.

Ele conseguiu enfim mudar o rumo da prosa, mas sua trégua não durou muito. Litsa Miquel passou os 45 minutos seguintes contemplando prazerosamen­te a vida amorosa tranqüila do filho, visivelmente aliviada por não ter de se preocupar mais com ele. Heather teve prazer em manter a conversa sempre

animada.

Para ele foi uma experiência única tornar-se o alvo das brincadeiras e provocações de uma mulher. Até que ele se levantou e insistiu que a mãe fosse se reco­lher.

Quando ele foi levar a mãe à sua suíte, Heather sentiu sua ebulição interna desaparecer sob o balde de água fria da realidade. E a realidade era aquela outra suíte enorme esperando por ela. Não sabia bem quanto tempo ele levaria para acomodar a mãe, mas devia vestir seu pijama logo e entrar debaixo das co­bertas.

Para quem não costumava se exercitar muito, até que Heather foi bem ágil. Entrou voando na suíte de Theo, tomou um rápido banho — com a porta do ba­nheiro devidamente trancada — e vestiu seu pijama, que consistia em calças curtas e camiseta. Não ouviu barulho nenhum, então imaginou que ele estava dan­do um tempo com a mãe para que ela pudesse se pre­parar para dormir. Então ela foi para a cama, se en­fiou debaixo das cobertas e apagou o abajur na cabe­ceira.

Heather desejou ter se lembrado de pegar alguns lençóis para ele dormir no sofá, mas ele mesmo podia pegar.

Após uma hora na cama, encolhida e tensa, espe­rando ouvir o barulho da porta se abrindo, ela come­çou a pegar no sono. Quando Theo entrou, ela já esta­va adormecida.

Teve de ligar para Venetia, e foi uma conversa bem desagradável, pois ele precisava cancelar seus planos com ela.

Depois de tudo isso, trabalhar era a única coisa que lhe distrairia, então se pôs a responder e-mails que poderiam perfeitamente aguardar hora mais apro­priada.

A visão de Heather em sua cama lhe deixou mo­mentaneamente desconcertado. Ela estava deitada exatamente do mesmo jeito que daquela vez, no apartamento que divida com as amigas, com o braço joga­do para o lado.

Theo entrou no banheiro fazendo o mínimo ruído possível, acostumando os olhos à escuridão enquanto caminhava tateando e tirava a camisa.

Quando ele falou do sofá, quis dizer que ela dor­miria nele. Não teve como conter um sorriso de canto de boca ao olhar para Heather mais uma vez. Ele pra­ticamente a forçou a entrar naquela história, então não podia dizer nada. Por ela, ele podia ficar com o sofá — ou, a julgar pela profunda relutância que ela demonstrou em participar do plano, até mesmo o chão, com ou sem lençóis.

Ele tomou um banho rápido, e viu que estava mais preocupado do que gostaria com aquela mulher deita­da em sua cama.

Heather se remexeu quando ele voltou do banhei­ro, totalmente nu. Agora ele viu sua perna bem dese­nhada descoberta. Pelo jeito ela não estava muito vestida. Seria ela aquele tipo de mulher que vive co­berta como uma freira de dia, mas de noite dormia quase nua? Aquele pensamento lhe ricocheteou por dentro, como se ele tivesse passado o dia reprimindo, alguma coisa em si. E Theo se pegou sexualmente ex­citado, algo que absolutamente não esperava. Ao menos não conscientemente.

Quando olhou para o sofá, sentiu um desânimo.

Ela estava dormindo um sono pesado, a cama era muito mais confortável do que qualquer sofá — especialmente um sofá que ainda precisava ser forrado Além do mais, Theo não fazia a menor idéia de onde poderia encontrar a roupa de cama.

Ele entrou debaixo das cobertas sem fazer o míni­mo ruído e se deitou, completamente imóvel, tentan­do conter o ímpeto de sua virilidade.

Quando ela se virou em direção a ele, Theo quase grunhiu. A camiseta que ela estava usando deixava sobrar pouco para a imaginação, revelando parte dos fartos seios que ele estava acostumado a ver cobertos pelo seu uniforme de trabalho.

E ele estava realmente excitado.

Deus sabe quanto tempo ele ficou lá, sentindo algo totalmente novo: desejo por uma mulher que não po­dia ter.

Até que ela se revirou uma vez mais, jogando o braço por sobre o peito dele, onde sua mão pousou.

Ele se retesou todo ao ver que ela abriu os olhos e deu um quase-grito, retirando a mão, horrorizada.

— Calma!

— O que você está fazendo aqui?

— Este é meu quarto, esqueceu? O quarto que você concordou em dividir comigo.

— Eu não concordei em dividir a cama! — Heather ficou apavorada ao realizar que ele não estava usando camiseta. E embaixo? Será que ele também não estava usando nada da cintura para baixo? Ela sentiu seu cor­po arder ao começar a imaginar coisas.

— O sofá não está forrado — ele disse. Longe de esfriar seu arroubo de paixão, as sombras e ângulos do rosto exasperado de Heather só o deixaram mais excitado ainda.

— Então vá forrar! Você não pode ficar na cama comigo. Você prometeu...

— Eu não prometi nada — Theo disse, curto e grosso. — E pare de fazer escândalo à toa. A cama é bem grande. — O que não explicava por que eles es­tavam deitados tão pertinho um do outro. Ele não se afastou. Ela bem que tentou, mas se afastar mais a fa­ria cair da cama.

— Você não está vestindo nada, não é? — Heather disse, quase gaguejando. — Não está, não é?

— Eu não tenho pijama. Nunca usei.

— Como você pode ser tão... tão desrespeitoso?

— Desrespeitoso? — Theo pareceu realmente pasmo. — Não sei do que está falando.

— Ah, sabe, sim! Você me acha tão pavorosa que não faz diferença se estou na mesma cama que você. Você nem se importa de estar sem roupa! Porque para você, eu sou a mesma coisa que um saco de ba­tatas !

Seguiu-se um silêncio tenso, e então Theo pegou a mão dela.

— Só que um saco de batatas não me deixa assim — ele disse, fazendo-a sentir sua excitação.

Heather sentiu seu membro rígido e pulsante e por alguns segundos o tempo pareceu parar. A tensão se­xual que estava reprimida fazia tanto tempo agora crescia como uma onda gigantesca, um maremoto.

Ela escutou sua própria respiração atravessada, como quem acabou de correr uma maratona. Todos os seus músculos estavam se contorcendo.

— E agora? Ainda acha que eu lhe considero pa­vorosa?

— Você precisa... precisa arrumar um lugar para dormir...

— E então amanhã de manhã nós vamos fingir que nada disso aconteceu? Por que fazer isso? — Ele sol­tou a mão dela, e então tocou sua cintura e a curva de seu seio.

Theo soltou um gemido. Ao despir aquela indu­mentária enganadora ela se tornava totalmente mu­lher, uma mulher curvilínea, com seios nos quais um homem se perde. Ele então levantou o corpo de uma só vez para olhar para ela.

Ele estava diabolicamente sensual à meia luz. Seus braços eram musculosos e sua boca era linda... e estava se aproximando dela.

Heather fechou os olhos e se deixou perder naque­le beijo urgente, devorador. Então seus braços, já do­tados de vontade própria, envolveram o corpo dele e subiram até o pescoço, puxando-o para si. Seu corpo se retorceu, pedindo para ser aquietado.

Theo enfim interrompeu o beijo, mas só para pas­sar a beijar seu pescoço.

Será que ele a desejou este tempo todo? Será que ele a desejava sem saber? Será que ele tinha fantasias com ela? Ele não conseguia lembrar de ter fantasias eróticas com Heather, mas então por que agora seu corpo reagia como se estivesse prestes a saciar um desejo longamente sufocado?

Ele puxou a camiseta dela de uma só vez e sentou sobre os joelhos para apreciar o que já imaginava. Ela não tinha a compleição daquelas magrelas com quem ele costumava sair. Como bom conhecedor da anato­mia feminina ele podia jurar com a mão sobre o peito que jamais vira seios tão gloriosamente fartos antes na vida. Ele tomou aqueles seios nas mãos e então roçou os polegares sobre seus mamilos, tudo muito lentamente, aproveitando cada fração de segundo. Os mamilos estavam duros e ele ficou olhando, fas­cinado e loucamente excitado, para o modo com que ela se contorcia a cada toque, com os olhos fe­chados.

— Você tem seios impressionantes — ele sussur­rou com a voz trêmula, e os olhos dela se entreabriram.

— Ou seja, grandes? — Ela jamais associou a pa­lavra grande a nada de bom, pelo menos no que dizia respeito a seu corpo. Mas o jeito que ele olhava para ela agora a fazia se sentir muito, muito sensual, cheia de orgulho daqueles seios que ela se acostumou a es­conder.

— Impressionantes — ele corrigiu. Então abaixou a cabeça e começou a lamber um dos mamilos com ternura, e depois o outro, dividindo a atenção entre os dois mamilos, e Heather achou que fosse desmaiar de êxtase. Quantas noites ela ficou sonhando acordada, imaginando como seria fazer amor com ele, ser olha­da por ele com desejo... Em nenhuma destas noites ela chegou a achar que algum dia nada daquilo pu­desse se tornar realidade. Muito menos que a realida­de fosse ainda melhor do que o sonho.

Cada partícula de seu corpo reagia às carícias de Theo.

Ela então quis tocá-lo, senti-lo, e quando tocou em seu membro ele gemeu de um modo que fez o corpo de Heather estremecer por inteiro em espasmos de prazer.

Então era assim ter nos braços aquele homem lin­do, maravilhoso e sagaz... Esta era a sensação de vê-lo sair do comando e compartilhar o poder. Ela então tirou a parte de baixo de seu pijama.

Heather retesou o corpo ao sentir a mão de Theo chegando entre suas coxas, com seus dedos ávidos explorando seu poço de umidade e receptividade, es­fregando, pressionando, sentindo seu botão pulsante emitindo ondas de prazer que a tomavam por inteiro.

As mãos de Theo percorreram o ventre de Heather — aquele mesmo ventre que ela tantas vezes compa­rara de modo desfavorável ao da irmã; o ventre que ele não parecia estar rejeitando — até deslizar em di­reção à penugem que velava a essência da feminilida­de de Heather.

— Não pode! — Heather disse, arfando, e ele en­tão a olhou nos olhos com um sorriso divertido.

— Você nunca foi tocada lá antes?

— Não desse jeito.

— Que jeito? — Os olhos de Heather transmitiam uma mistura de inocência e excitação que o atingiu de modo certeiro, fazendo seu corpo incendiar de de­sejo. Por um breve momento, Theo ficou imaginando de onde vinha toda aquela tensão sexual. Para um ho­mem que se orgulhava de ser um amante experiente, um amante que fazia as coisas devagarzinho, um ver­dadeiro mestre da finesse, ele parecia reduzido a um animal selvagem com uma idéia fixa: possuí-la.

Submetendo-se a impulsos que ele pensava já ter aprendido a dominar muito tempo atrás, Theo foi tra­çando com a cabeça o mesmo caminho percorrido pe­las mãos, até inalar o aroma almiscarado e erótico de Heather, e adentrá-la com a língua.

Foi preciso muito autocontrole e força de vontade para não partir com tudo de uma vez. A umidade de Heather o deixava louco, e ela se contorcia de modo quase descontrolado enquanto ele sentia seu gosto. Era o gosto mais doce que ele jamais provara. Ele sentiu que ela estava chegando ao ápice, e antes dis­so, tomou as devidas precauções.

Quando o sentiu dentro de si, Heather já estava su­bindo ao mais alto dos cumes e bastaram algumas poucas investidas profundas para ela ser enviada a um mundo de sensações totalmente novo. Seu corpo inteiro estremeceu e ela se rendeu às ondas de prazer que tomaram conta de si, transformando-se enfim em uma onda cálida de puro contentamento.

Após um descanso inquieto, seu corpo agora se acendia mais uma vez. Na verdade, seu corpo estava energizado de uma forma diferente. Pensar que che­gara a tamanho prazer através de um homem espeta­cular como Theo era difícil de acreditar de tão bom.

Ela olhou para e ele e suspirou.

— Foi maravilhoso! — Um pequeno vinco se for­mou em sua testa. — Foi bom para você? É que... eu não tenho muita experiência.

— Você me atrai do jeito que é — Theo disse com a voz rouca, trazendo-a para si e passando a perna por sobre o corpo dela em uma demonstração de posse.

— Você fez tudo de propósito? — Heather per­guntou. — Não, claro que não. Mas então por que fez amor comigo? — Theo não sabia o que dizer. — Quer dizer, isso aconteceu só porque eu vim parar na sua cama? Sei que você deve achar que isto é maluquice, mas preciso mesmo saber, Theo.

— Por quê? Você não gostou? — Ele afastou uma mecha de cabelos que lhe caiu sobre a face, sentindo-se tocado pela ansiedade que ela demonstrava.

— Posso dizer que foi a experiência mais maravi­lhosa que já tive — ela respondeu com toda sinceri­dade, o que bastou para inflar em Theo seu orgulho de macho.

— A experiência mais maravilhosa que você já teve? — ele brincou, e sorriu quando ela fez que sim. — Isto é uma pressão e tanto para mim — ele disse gravemente.

Em uma fração de segundo Heather percebeu seu erro. Ela sucumbiu a ele sem resistir. Relutou um pouquinho, mas logo cedeu. Claro que ele tinha de fi­car assustado.

Theo não gostava de mulheres pegajosas. E ela imaginou que ele também não iria gostar de mulheres que se comportavam como adolescentes inexperien­tes. Ele devia gostar de mulheres confiantes e dota­das de autocontrole.

— Desculpe.

— Desculpe o quê? Nós acabamos de passar por uma experiência arrebatadora juntos. — E do nada, Theo pensou, rindo por dentro. O que só provava que a vida é cheia de surpresas. Quem diria que uma mu­lher que ele achava totalmente sem graça podia es­conder tanto fogo? — E é por isso — ele acrescentou — que eu sinto tanta pressão. Ou seja, como vou po­der superar minha primeira performance, então?

Pensamentos de seguir em frente com a própria vida sumiram de sua cabeça num piscar de olhos. Ela amava aquele homem. Eles fizeram amor e foi, em suas próprias palavras, uma experiência arrebatado­ra juntos. Ela de repente se sentiu como se estivesse caminhando nas nuvens. Tonta de alegria, ela se ani­nhou junto a ele.

— Você tem um corpo muito sexy — Theo mur­murou, abarcando um de seus seios com a mão. — Por que você fica usando roupas que lhe cobrem tanto?

— Você devia saber bem, Theo — disse Heather, tímida, mal conseguindo olhar nos olhos dele. — Você não conhece as mulheres tão bem? Ora... Eu não sou exatamente uma modelo.

Theo não respondeu nada. Ele estava achando di­fícil entender como sentira atração por aquelas mu­lheres com quem costumava sair. Ele passou as mãos por ela, sentindo o prazer de tocar aquele corpo de generosa feminilidade.

— Você não imagina o que é passar a adolescência querendo ser magra. — Principalmente, Heather pensou, tendo uma irmã como a que tinha. — Os rapazes gozavam de mim e minhas colegas sentiam pena. Não era legal ter o meu corpo, então fui aprendendo a me cobrir.

Pela primeira vez ela se sentiu verdadeiramente orgulhosa de suas curvas, especialmente porque era ele quem gostava tanto delas. Então ele afundou o rosto naqueles seios magníficos. Dava para se perder naqueles seios!

Heather suspirou de prazer e languidamente se contorceu ao sentir os lábios dele percorrendo seus seios.

Desejo, vontade, necessidade e completa satisfa­ção foram tomando conta dela, que mergulhou os de­dos nos cabelos de Theo, entregando-se àquela sen­sação.

 

 

CAPÍTULO CINCO

 

Ao observar sua situação com distanciamento — algo que Theo sabia fazer muito bem — ele percebeu que era para estar se sentindo imobilizado e preso. Afinal, estava vivendo aquilo que costumava imaginar como um verdadeiro inferno. Estava desperdiçando várias horas de trabalho. A última quinzena se passara entre o hospital, onde sua mãe estava se recuperando de uma cirurgia de coração, e seu apartamento, onde ele insistiu que ela permanecesse por mais duas sema­nas, até ficar forte o bastante para voltar à Grécia.

Ela primeiramente se fez de rogada, mas depois cedeu sem muita resistência.

Theo suspeitava que sua mãe estava na verdade gostando de ser paparicada. Heather passava parte do dia trabalhando em seu portfólio, mas parecia sacrifi­car seu tempo de bom grado para dar pequenos pas­seios com a mãe dele, além de se aventurar com ela nos mistérios da cozinha grega.

Heather fazia muito bem a Litsa, que ficava reconfortada ao pensar que o filho estava finalmente enca­minhado.

E, para surpresa de Theo, as coisas estavam fun­cionando muito bem, apesar da intromissão em seu ritmo normal de trabalho.

Theo fechou seu laptop e foi pegar o casaco pen­durado na entrada de seu escritório.

Jackie, sua assistente pessoal, olhou em direção à porta e conferiu as horas no relógio de pulso como quem não quer nada. Ela sabia que a mãe de Theo es­tava em seu apartamento, que havia passado por al­guns problemas de saúde, mas que estava tudo sob controle. O fato é que a assistente ainda ficava choca­da ao vê-lo sair do escritório às cinco e meia.

— Jackie, estou de saída. Se houver alguma coisa, seja o que for, cancele.

— Sim, mas...

— Sem mas nem meio mas. Até minha mãe se re­cuperar e voltar para a Grécia, estarei encerrando o expediente às cinco e meia. — Ele pôs o laptop em sua pasta de couro. Podia usar a mãe como desculpa para sair cedo. Sim, sabia que tinha de estar com ela, que não podia chegar em casa depois que ela já tives­se se recolhido, mas o que o animava realmente era a idéia de encontrar Heather.

E por que ele não poderia curtir sua folga, Theo se perguntou com certa irritação ao ver que Jackie ainda o estava rodeando.

— Por que você também não vai para casa, Jackie? — ele perguntou gentilmente. — Os relatórios po­dem esperar até amanhã.

Jackie sorriu.

— Acho que vou marcar o dia de hoje em meu diá­rio — ela disse, sarcástica. — É a primeira vez que o ouço dizer que algo pode esperar até o dia seguinte.

— Manter diários é um passatempo triste para uma mulher de seus quarenta anos de idade — Theo disse gravemente.

— Bem, espero que você tenha conseguido anotar no seu diário uma certa data. A de amanhã. É o encon­tro anual da empresa. — Ela lhe passou o convite pa­dronizado. — Todos esperam que você compareça.

Theo sabia como seria aquele evento. Seus funcio­nários estariam esperando para ver a beldade que o acompanharia, todos beberiam muito álcool, a comi­da seria boa, e a auto-estima de todos estaria incom­paravelmente alta. Ele faria um discurso curto sobre os lucros e bônus da empresa e ficaria um bom tempo na festa de confraternização, apesar de entediado.

— Não perderia isto por nada — Theo murmurou, guardando o convite no bolso.

— E você vai levar uma de suas lindas namoradas?

— Espere para ver, Jackie. Agora, com licença. Você tem seus diários para escrever, um marido para alimentar e crianças para cuidar.

— Eu sei. Minha vida não é uma aventura e tanto? A caminho de casa, Theo achou graça de sua vida nada aventureira. Em circunstâncias normais ele ja­mais sairia do escritório antes das oito da noite, e en­tão muito provavelmente jantaria com uma das cria­turas lindíssimas de sempre, e terminaria a noite fa­zendo bastante sexo.

As circunstâncias normais estavam à sua espera, bastava ele querer. Mas enquanto isso...

Quando chegou ao apartamento sua cabeça estava cheia de imagens de Heather, que já devia ter cozi­nhado alguma coisa para ele, supervisionada por sua mãe, que por sua vez devia estar assistindo a mais um daqueles reality shows insuportáveis que viraram uma praga em todas as línguas.

E ele se pegou assoviando ao entrar em casa.

Heather levantou da cadeira para saudá-lo, toda sorridente.

— Sua mãe está muito melhor hoje, Theo. — Ela foi beijá-lo, e sentiu o prazer daqueles lábios tocando os seus. — Nós fomos dar uma caminhada e paramos naquela loja na esquina para comprar umas coisinhas. Andei mostrando a ela como se faz uma comida tipicamente inglesa. — Ela olhou para Litsa por so­bre o ombro, e a velhinha estava sorrindo. — Você quer beber alguma coisa?

— Mais tarde eu digo a você o que eu quero, quan­do estivermos a sós. — Ele esbarrou a mão casual­mente nos seios dela, que corou imediatamente.

Heather imaginou, feliz, a noite que a esperava. A vida agora era tão maravilhosa! Mais uma noite de ca­rinhos mágicos e quentes vindos daquele homem sen­sível que fazia amor de modo espetacular. Além disso, ela adorava a mãe dele, uma senhora forte, gentil e sá­bia. O que era uma coisa e tanto, afinal, quantas mulhe­res realmente gostavam de suas sogras?

Heather era namorada de Theo, pensou. Namora­da. Sim, começou como uma armação, mas agora já não era mais armação nenhuma. Era real.

A vida não podia ser melhor!

Ela pôs sua carreira de lado provisoriamente e conseguiu acalmar os ânimos de sua amiga Beth, que dizia que o apartamento ainda estava para alugar. Mas Heather não estava nem um pouco interessada..

Estava ocupada demais curtindo a dádiva de um sonho tornado realidade.

Quando, mais tarde, já a sós, Theo a convidou para acompanhá-lo à festa da empresa, Heather fechou os olhos de pura felicidade e disse que sim.

Theo achou engraçada aquela expressão no rosto dela e disse que ela devia se preparar para um evento bastante prosaico. Muita comida e bebida, além das piadinhas cretinas de sempre dos funcionários mais jovens.

Heather mal ouviu.

— O que eu devo vestir?

— Vá comprar uma roupa — Theo disse, rapida­mente perdendo o interesse no assunto. Ele estava louco para ficar na cama com ela a noite inteira, e não tinha a menor intenção de perder tempo com aquele papo feminino sobre roupas.

Ele então a beijou apaixonadamente e sem pressa. Naquela noite ele pretendia levá-la ao limite. Então, quando ela já tivesse descido os píncaros do prazer, a faria subir tudo de novo. Deu-lhe beijinhos delicados pelo pescoço, e quando se ajoelhou para se perder na­queles seios maravilhosos ela afagou levemente seus cabelos.

— Você bem que podia sair para comprar uma roupa comigo...

— Hummm... Por que não? — Theo murmurou, parando com os beijos para sorrir daquele seu jeito tão sedutor.

Heather suspirou de prazer e se entregou por com­pleto aos prazeres daquela noite de sonhos.

Theo acordou e a viu olhando para ele cheia de más intenções do outro lado da cama, e sorriu. Nunca conheceu antes mulher mais honesta quanto ao pró­prio desejo sexual. E isto o agradava muito.

— Que horas são? — Ele puxou as cobertas e Heather admirou, como não se cansava de fazer, seu corpo nu. A luz matinal iluminava generosamente os movimentos de cada músculo de seu corpo. — Ainda não está tão tarde — ele murmurou, e Heather repa­rou em seus mamilos rosados, cheia de vontade de sugá-los.

— Hã-hã. — Ela o cobriu novamente, um pouco tentada em trocar as compras por mais uma hora de prazeres na cama com o homem de seus sonhos. — E as compras, está lembrado?

— Lembrado de quê?

— Você disse que ia me acompanhar nas compras hoje. Não tenho roupa nenhuma para usar hoje à noi­te, e não sou muito boa para comprar roupas sozinha, sempre acabo comprando as roupas erradas.

— Eu prometi isto? — Theo franziu a testa, per­plexo. — Sinceramente, não me lembro. — Ele então teve que declinar. Odiava decepcioná-la, mas sair para fazer compras com uma mulher, por mais sexy que ela fosse, já era um pouco demais para ele. — Bem, eu sinto muito, Heather, mas não vai dar. Real­mente não posso.

Heather sorriu. Ou ao menos se esforçou para sor­rir. Ele nem mesmo se lembrava! Estava tão entretido em seu desejo por ela que nem mesmo lembrava de ter dito aquilo, de ter feito uma promessa. Ela fora dormir reconfortada pela perspectiva de sair com ele no dia seguinte, quem sabe até almoçarem juntos, mas ele apenas caiu no sono, já sexualmente saciado e sem pensar nela.

— OK. Tudo bem. — Ela então saiu da cama e foi ao banheiro, automaticamente, já sentindo lágrimas quentes nascendo em seus olhos.

Quando ela saiu do banheiro, vinte minutos depois, eleja havia se vestido e estava esperando por ela.

Por uma fração de segundo ela desejou que ele ti­vesse mudado de idéia, apesar de saber que nutrir esse tipo de esperança era. mais um sinal de fraqueza de sua parte. Mas o que ele fez foi lhe dar um cartão de crédito, dizendo para que ela fosse à Harrods, uma loja muito chique e cara, comprar o que quisesse e debitar em sua conta. Ele ia ligar para avisá-los antes que ela chegasse.

— Certo. — Heather pegou o cartão, apesar de não ter a menor intenção de usá-lo. Ela já não tinha bas­tante dinheiro em sua conta bancária, e graças a ele?

— Quem sabe a gente não se encontra para almo­çar? — Theo sugeriu. Ele estava com a consciência um pouco pesada, apesar de Heather parecer bem no momento. Ele teve a impressão de que ela estava com vontade de chorar quando saiu da cama, mas feliz­mente pelo jeito ele estava errado.

— Não — Heather deu um de seus sorrisos lumi­nosos. — Vou ver se encontro Beth na hora do almo­ço. Gostaria de levar sua mãe para comprar umas coisinhas antes de voltar para a Grécia no domingo que vem, mas acho que as multidões não vão fazer bem a ela.

Litsa estava voltando para casa e Heather ficou pensando o que iria acontecer agora. Eleja não preci­saria mais ficar fingindo nada. Será que ela seria no­vamente rebaixada ao seu posto de "pau para toda obra" ? Uma hora atrás ela teria descartado esta pos­sibilidade, mas agora a dúvida começava a nascer em seu coração, maculando seus sonhos dourados e trazendo-a de volta à realidade.

Ela se levantou, no fundo esperando que ele fizes­se algo para dissipar suas dúvidas. Ele então foi beijá-la na boca e ela deu um gemido patético de rendi­ção e o puxou para si.

Theo sorriu, satisfeito, e ficou pensando de onde ele teria tirado aquela impressão errônea de que ela estaria triste.

Três horas depois, Heather saiu do apartamento e foi encontrar Beth, que a cobriu de censuras e avisos.

— Isso vai acabar mal — ela avisou, e aquilo era a última coisa que Heather queria ouvir. — Se você ti­vesse o mínimo de bom senso jamais teria aceitado entrar nesta armação ridícula com este homem. Está na cara que Theo significa problema à vista.

— Mas agora não é mais uma armação — Heather se defendeu. — Eu o amo, e sei que ele sente algo por mim...

— Por que você foi idiota o bastante para ir para a cama com ele? — Beth riu. — Escute, Heather, você precisa voltar à realidade e entender que este relaciona­mento não é mais real do que todos os relacionamentos passageiros que ele teve antes com aquelas mulheres glamourosas. Você se lembra delas? Aquelas mulheres esguias e com QI de criança? Devia lembrar. Foi você mesma quem comprou os buquês de flores com os quais ele anunciava o fim do namoro...

— É, eu sei, mas... — Mas ela era diferente. Não era? Passava as noites na mesma cama que ele, no apartamento dele... conhecera sua mãe... será que nada disso contava? Ela então lembrou de como ele a dispensou pela manhã e a dúvida novamente surgiu.

— Só estou dizendo que você tem que ser realista, Heather — disse Beth, determinada a carregar a to­cha do senso prático, mesmo que a amiga relutasse. Heather era muito ingênua, mas Beth tinha experiência com homens como Theo e sabia que eles podiam ser muito perigosos para as mulheres.

A versão de Beth da realidade seria largar mão de qualquer idéia estúpida de viver para sempre com Theo em sua casa de campo — para a qual, Beth en­fatizou, Heather jamais fora convidada —, cheia de filhos correndo para lá e para cá. Para ser realista, Heather tinha que parar de alimentar aquelas fanta­sias e considerar a idéia de que a partida de Litsa po­deria representar o fim de sua história com Theo.

— Do jeito que você fala, parece até que ele é al­gum monstro — Heather reclamou, consternada por saber que o homem por quem se apaixonara podia ser muito engraçado e atencioso quando queria. Na ver­dade até se arrependeu um pouco de ter chamado a amiga para ajudá-la a escolher as roupas que precisa­va comprar. Esperava conselhos sobre cores e estilos, esperava que ela concordasse que talvez aquele rela­cionamento significasse sim algo importante para Theo. O fato é que ela acabou confessando que Theo havia prometido fazer compras com ela, mas esque­ceu e declinou.

Beth havia tirado a tarde de folga para ajudar a ami­ga, uma deferência e tanto, já que vivia ocupada. Heat­her poderia até se irritar com os insistentes " choques de realidade" da amiga, mas para ela se irritar era pre­ciso muito. Ademais, sabia que a amiga estava apenas preocupada com seu bem-estar e felicidade.

Assim, depois que o almoço e as lições de moral ter­minaram, ficou aliviada com a mudança de assunto.

— Primeiro de tudo — disse Beth, insistindo em pagar a conta — quero saber que tipo de roupa você tem em mente, então poderei sugerir alguma coisa.

Heather pensou bem. Uma cor escura lhe cairia bem. Algo elegante e discreto. Estaria conhecendo gente nova e preferia não se destacar, como estava acostumada a fazer. Ela disse à amiga o que pensava com um pouco de hesitação, tentando justificar cada palavra como quem quer provar que não é nenhuma boba.

— Errado, errado, tudo errado! — disse Beth, sa­tisfeita, e Heather começou a sentir que havia caído numa armadilha.

Certo, certo, tudo certo se revelou na forma de uma descolada coleção de roupas que Heather resistiu a ex­perimentar, que dirá usar de verdade. Os sapatos foram escolhidos pelo estilo e pelo impacto que causam, não pelo conforto. Seus cabelos estariam presos, talvez até com algum enfeite, e a maquiagem seria especial. O objetivo era não deixar pedra sobre pedra. Ou seja, Heather pensou, sentindo um aperto no coração: Beth queria que ela tomasse um banho de loja.

— Sabe o que mais? — Beth anunciou, chamando um táxi com um movimento imperativo da mão. — Você vai surpreender este desgraçado. Ele só vai lhe ver quando já estiver na festa. Você vai se trocar na minha casa e eu a deixo lá.

— Theo não é nenhum desgraçado — Heather dis­se, e filtrou lentamente o resto do que a amiga estava dizendo.

Beth estava dizendo que ela precisava mostrar a Theo que ela se bastava, que ela tinha orgulho e não era o capacho que ele sempre pensou que ela fosse. Ela tinha de quebrar aquele hábito de anos de sempre, sempre se vestir mal. Afinal, Heather precisava entender que, depois que aquilo tudo terminasse, ela não poderia ficar trancada dentro de'seu apartamento com aquelas roupas horrorosas. Tinha de se fazer bela, se fazer interessante e atraente para arrumar um parceiro à altura.

Heather levou um susto com o que viu.

— Eu não fico bem em cores claras. E não posso ficar na sua casa até a hora da festa.

— E por que não?

— Por que... — Porque a idéia de entrar sozinha numa festa onde não conhecia ninguém a aterroriza­va, pensou, sem ousar dizer em voz alta. Se chegasse ao lado de Theo seria bem mais fácil.

— Vai dar tudo certo — Beth disse, encorajando a amiga. — Confie em mim. Vamos lá. Ligue para Theo agora, antes que você dê para trás.

Beth estava falando com uma voz melosa, e Heather olhou para ela com ceticismo, mas sabia que tudo que a amiga dissera fazia muito sentido. Assim que a ne­cessidade de fingir acabasse, ele veria o que era real e o que não era. Pois Theo não era apaixonado por ela. Apenas resolveram fingir uma relação que aca­bou incluindo sexo. Pelo jeito ele sentia muita atra­ção por ela, e disso Heather não podia reclamar. Como Beth observou com muito tato, Theo se atraía por qualquer tipo de mulher e não via nada de errado em manter uma relação sexual completamente des­provida de maiores significados.

Heather queria significados. Queria conseguir fin­gir que o fato de manterem relações sexuais queria dizer que estavam chegando a algo especial juntos.

Mas provavelmente estava errada, o que era uma ra­zão a mais para Heather surpreendê-lo como sugeriu Beth. Heather passou então a fantasiar sua reação e acordou quando Beth lhe passou o celular.

Ligar para Theo só aumentou sua força de vonta­de. O que antes pareceu uma idéia pavorosa agora pa­recia oferecer certas vantagens. Quando Theo aten­deu, ela sentiu que não era uma boa hora para conver­sar. Heather teve a impressão que ele não estava nem aí para ela. Ele estava em uma reunião e não tinha tempo para conversar.

— Provavelmente não vou estar de volta ao apar­tamento a tempo de sair com você...

Ela chegou a ficar nervosa de pensar que ele podia não gostar da idéia. Mas que nada.

— Tudo bem, você me encontra lá. Você já é bem grandinha mesmo.

Uma montanha de decepção caiu sobre os ombros de Heather como se fosse chumbo. Ele estava ocupa­do. Literalmente não tinha tempo para falar com ela. E não era culpa dele. Ela sabia que o trabalho era uma força que o consumia totalmente. Ela então desligou o telefone, lutando para não cair em lágrimas.

— E então? — perguntou Beth.

— Estou em suas mãos — respondeu Heather. Beth deu um largo sorriso.

— Ótimo. Vamos lá.

Primeiro foram as roupas. Claro que com restri­ções no preço, pois Heather não estava disposta a usar o cartão Harrods que estava em sua bolsa. Mas Beth não estava preocupada com o preço de nada, afi­nal, de acordo com ela, dava para ver quando uma peça é barata.

Heather passou por uma série infinita de lojas e, apesar de suas reclamações, experimentou roupas de todas as cores e tipos.

Depois do terceiro vestido, Heather desistiu de ficar dando gritinhos histéricos, reclamando da quantidade de pele exposta e resolveu se permitir uma nova expe­riência. Lá para o sexto vestido ela já estava achando que não ficava tão mal com menos pano sobre o corpo. Os seios que ela sempre escondeu, cheia de acanha-mento, pareciam ótimos envolvidos por vestidos de decotes generosos. Sim, ela tinha corpo de violão, mas isso não era necessariamente mau. Claire fazia o estilo modelo, mas Heather tinha seu charme.

Ela perdeu a contas de quantos vestidos experi­mentou antes de finalmente se decidir. O tecido era suave e se encaixava perfeitamente às curvas de seu corpo, e o corte valorizava seu pescoço. Aliás, Beth disse que qualquer mulher daria tudo para ter um pes­coço como o dela.

Heather se permitiu acreditar.

O vestido era em um tom vibrante de turquesa, e o contraste daquela cor intensa com sua pele branca lhe dava um aspecto saudável e enfatizava o tom de seus cabelos.

Achar os sapatos ideais levou menos tempo.

— Nunca que eu vou conseguir caminhar com es­tes sapatos — Heather disse, olhando para os sapatos com ceticismo. Eram sapatos altos em tom creme, lembravam muito o tipo de coisinhas delicadas que Claire usava quando adolescente — sapatos para os quais sempre se considerou pesada demais.

— Não precisa caminhar. Basta deslizar suave­mente.

Heather pensou que só deslizando mesmo conse­guiria se locomover calçando aqueles sapatos. Rezou para que não houvesse nenhuma emergência e ela ti­vesse que sair correndo.

Já estava começando a se sentir transformada, e apesar de sequer sonhar em confessar a Beth, espera­va que Theo se surpreendesse com ela. Heather se entreteve com suas fantasias enquanto cuidavam de seus cabelos no salão.

Seus cabelos foram descoloridos e ela estava impossivelmente loura. Simon, o cabeleireiro, era mui­to teatral e afeminado, e decidiu junto com Beth que alguns cachos rebeldes soltos dariam o toque de ma­lícia necessário para contrastar com seus olhos de ex­pressão inocente.

Ela riu quando ele perguntou-se ela não tinha ne­nhum irmão, mas o fato é que a maquiagem deu um impulso e tanto em sua auto-estima.

Três horas antes, Beth dissera a ela para desligar o celular. Agora ela estava louca para ligar o aparelho novamente e repartir sua felicidade com Theo. Mas não ligou. Foi para o apartamento de Beth, cuidado­samente evitando tocar no assunto do apartamento para alugar ao lado. A depressão que começara a sen­tir desaparecera como nuvens de verão. As horas fo­ram passando e nem mesmo aquele formigamento no estômago que indicava nervosismo e expectativa fez sombra ao bem-estar de Heather. Ela estava se sen­tindo muito bem com seu novo visual.

Beth deu um assovio longo enquanto Heather se olhava no espelho de corpo inteiro. Ela estava espetacular. O oposto de invisível. Sua maquiagem estava ousada sem ser exagerada. Sombra cinzenta, rimel, blush, batom e delineador. Ela estava... sexy!

Aquele visual todo vinha com uma lista de "nãos": não ande rápido, não fique bêbada, não fale demais, não fale pouco, não flerte com os mais jovens e, acima de tudo, não durma com o chefe!

— Foi mesmo boa idéia—ela disse a Beth quando a amiga estacionou o carro em frente ao hotel. — Quer dizer, eu estou aterrorizada de entrar sozinha, mas...

— Mas você precisa fazer este tipo de coisa de vez em quando. O nome disso é independência. Agora vá!

Heather entrou no hotel dando passos bem peque­nos para não tropeçar nos sapatos de salto alto e es­tragar seu novo visual, e pela primeira vez na vida sentiu olhos se voltando para ela. ' Então era esta a sensação de entrar em um lugar e ser o centro das atenções! Era assim não ter vergo­nha de não ser magra, era assim não querer sair cor­rendo e se esconder.

As pessoas presentes se encaixavam bem no clichê da festa de empresa. Todos pareciam mesmo traba­lhar nos escritórios. Heather deu uma olhada e não custou a achar Theo. Ele estava conversando com al­guns funcionários mais jovens.

Ela caminhou por entre os convidados, sem parar de sentir olhares de admiração em sua direção, até que en­trou diretamente no campo de visão de Theo.

Quando ele registrou sua presença Heather só pôde se sentir muito grata à amiga por não ter dado ouvidos às suas negativas e ter insistido em lhe dar aquele banho de loja, cabeleireiro e maquiagem.

Tudo valera a pena, cada segundo. O jeito que ele es­tava olhando para ela fez tudo valer a pena.

Então ele a apresentou ao grupo de rapazes, depois aos membros da diretoria, e para Jackie, sua assisten­te pessoal, que sorriu e, mais tarde, quando a bebida estava começando a fazer efeito, confessou que era a primeira vez que ela conhecia alguma namorada de Theo que tinha algo a dizer.

Heather estava totalmente à vontade. Nem se lem­brava mais da angústia que a perturbara de tarde. No fim da noite Heather achou que fosse morrer quando ele sussurrou no ouvido dela que era melhor irem para casa, senão teriam de arrumar algum vestiário para ele saciar seu desejo.

Ela fez tudo exatamente como Beth disse, e tomou cuidado para não beber demais, mas o pouco de vi­nho que bebeu bastou para deixá-la desinibida e li­geiramente alta.

Eles saíram bem no fim da festa, depois da meia-noite. O motorista estava esperando por eles.

— Você foi perfeita — ele murmurou, massageando a nuca de Heather com o dedo.

— Por causa do vestido?

— Você fez tudo de maneira impecável. As rou­pas, o perfume. — E passou a mão pela cintura dela, descendo até a fenda das nádegas e acariciando-a sensualmente.

Heather estremeceu de prazer com aquele toque —jamais fizera nada assim no banco de trás do carro.

Ele então passou o dedo pelo seu colo e murmurou que havia pedido ao motorista para pegar o caminho mais longo para casa. O mais longo possível.

Theo fez tudo de modo lento e lânguido, mas na verdade não chegaram a fazer amor completamente. Quis deixar o melhor para quando estivessem em casa. Até porque ele era um homem grande demais para conseguir fazer tudo confortavelmente dentro de um carro, por maior que fosse o carro, e o dele era com certeza dos maiores.

Não chegaram a tirar a roupa, mas foram 45 minu­tos de enorme erotismo, e no final Heather estava quase desmaiando de tanto prazer.

Ele conseguiu tocá-la de forma insuspeita por so­bre o tecido do vestido. Ela se contorceu toda, tentan­do conter seu desejo sem fim, mas ele continuou a ex­citá-la de modo quase cruel.

Ainda bem que Litsa não tinha sono muito leve e não estava em uma suíte muito próxima à de Theo, pois quando chegaram em casa foram direto para o quarto arrancando as roupas pelo caminho, ambos se­dentos e acesos de desejo.

 

 

CAPITULO SEIS

 

Heather fez de tudo para enterrar as dúvidas que nas­ceram após sair para as compras com Beth. Litsa es­tava prestes a voltar para a Grécia, e as dúvidas vol­taram com força total. Mas em breve ela iria pensar nisso, decidiu, só que não agora.

Parte de si nutria a expectativa de que Litsa se ar­riscasse a perguntar a Theo quais eram suas reais intenções, o que daria a Heather a oportunidade de sentir o terreno. Mas ela não teve esta sorte. Parecia que Litsa já estava levantando as mãos para o céu de ver o filho em uma relação séria e tranqüila.

E também não havia nenhuma sala de espera no aeroporto onde este tipo de conversa pudesse surgir. Ela estava voltando para casa em um jatinho da famí­lia.

Heather ficou de coração apertado quando Theo começou a perguntar à mãe se ela estava realmente bem, se queria mesmo voltar para a Grécia, se não queria ficar em Londres mais tempo. Mas Litsa, como tantas outras pessoas de idade, sentia falta de sua própria casa, de estar em seu ambiente. Queria voltar à paz do interior da Grécia e à sua rotina de amigos e velhos familiares.

Theo providenciou toda a assistência possível para a mãe, que estaria sob cuidados diários, mas mesmo assim ainda estava preocupado. Heather teve vontade de segurar sua mão, só para que ele se sentisse mais seguro, mas não estava muito certa se este simples gesto seria bem recebido ou não.

O que representava mais uma confirmação de suas dúvidas e inseguranças.

Eles não haviam passado dias maravilhosos, espe­cialmente os últimos?

Agora, observando Theo ajudar a mãe a sair do carro, Heather tentou se convencer novamente que a paixão entre eles dois encobria emoções ainda não descobertas. Ela sorriu docemente para Litsa, feliz por ela parecer tão melhor do que semanas atrás, e la­mentou sua partida.

Abraçaram-se com sincera afeição.

— Cuide bem do meu filho por mim — Litsa mur­murou, e os olhos de Heather voaram ao encontro dos de Theo, que a encarou com certo divertimento.

— Acho que dá para dizer que sei cuidar de mim mesmo, mamãe.

— Todo homem precisa de uma mulher — Litsa disse, com um tom de quem sabe o que diz. — Ele pode até não saber, mas precisa. E eu estou muito fe­liz por você ter encontrado uma mulher para você.

Heather observou bem o rosto de Theo para tentar perceber o efeito daquelas palavras sobre ele. Mas ele não transpareceu nada; se sentiu alguma coisa, guardou para si mesmo.

— Vamos nos falar ao telefone todos os dias, ma­mãe, e não pense em mentir sobre seu estado de saúde para mim, porque eu também vou falar todos os dias com a enfermeira que contratei, e vou sempre fa­lar com meus tios também.

— Me espionando como se eu não fosse capaz de cuidar de mim mesma! —- Litsa resmungou enquanto aceitava ajuda para entrar no avião. Ela olhou mais uma vez para Heather. — E quando verei vocês dois novamente? — Litsa perguntou. Heather soltou um suspiro, aliviada por finalmente surgir alguma per­gunta daquele tipo.

— Cada coisa a seu tempo — Theo murmurou. — Primeiro quero que você se recupere totalmente, de­pois você começa a fazer convites. — Ele quebrou sua não-resposta com um sorriso. — Já estou cansado de saber que a senhora, quando recebe visita, não sos­sega um minuto, fica sempre paparicando seus hós­pedes e acaba se cansando muito.

Ela e ele ficaram observando o avião levantar vôo, e quando ele finalmente desapareceu entre as nuvens do céu vasto e azul, Heather sentiu uma tensão nervo­sa que a pegou de jeito. Ela estava vivendo debaixo do mesmo teto que ele já fazia bastante tempo, pri­meiro o adorando a uma distância respeitável, mas sempre com aquela intensa consciência de sua pre­sença e de sua proximidade. Naquelas circunstâncias era mais fácil exercitar um certo controle sobre suas emoções.

Mesmo quando eles se tornaram amantes por cir­cunstâncias alheias a suas vontades havia a imagem da mãe dele para ela se apoiar.

Mas agora não havia mãe alguma, portanto não ha­via segurança para um relacionamento de limitações evidentes. Ela estava em território desconhecido e morrendo de medo.

— Espero que sua mãe fique bem lá na Grécia — ela disse, para quebrar o sufocante silêncio.

Theo, concentrado na estrada, franziu a testa.

— Por que não ficaria? — Olhou rapidamente para ela. — Eu cuidei de tudo. Um de meus tios vai apa­nhá-la no aeroporto com a enfermeira e ela não vai precisar levantar um dedo sequer para coisa alguma.

— Acho que ela deve sentir a sua falta.

— Mas ela entende que eu trabalho aqui e que é muito difícil ficar viajando.

Heather mordeu o lábio e começou a pensar em algo leve para puxar assunto. Era uma loucura pensar como eles dois haviam compartilhado tantas coisas juntos e...

O silêncio entre eles era pesado. Ela respirou fun­do e começou a falar qualquer coisa sobre a Grécia, perguntando como era a casa de Litsa. Quando lhe ocorreu que poderia soar como se ela estivesse se convidando para a casa de sua mãe, Heather mudou de assunto e passou a falar de viagens em geral.

Enquanto isso, por trás daquela conversa toda, Heather estava perfeitamente consciente da tensão que se formava dentro de si. E ela não fazia idéia se ele sentia o mesmo, mas tinha lá suas dúvidas. Ele parecia um tanto distraído, mas só isso, o que era per­feitamente compreensível considerando que havia acabado de deixar a mãe nó avião para a Grécia e de­via estar pensando nela — a despeito do que ele havia dito sobre as providências que tomara.

Entrar no apartamento só fez a tensão subir subs­tancialmente.

O quarto que dividiram pelas últimas semanas es­tava lá, à sua direita. Ela sentia a entrada do quarto mesmo sem olhar em sua direção.

Com o tempo suas roupas foram sendo levadas para aquele quarto — uma migração natural, pois era muito mais fácil trocar de roupa lá, principalmente não havendo mais razão para ser diferente. Ela então pensou no grau de intimidade que era sua escova jun­to à dele e se sentiu mal ao pensar no que teria de fa­zer.

— Quer beber algo? — Theo perguntou, já cami­nhando até a cozinha, enquanto Heather o seguia si­lenciosa e pensativa.

Passava um pouquinho das seis e meia. Cedo de­mais para ela pensar em tomar vinho. Mas estava pre­cisando. Ela assentiu e se sentou em um dos bancos do bar da cozinha.

Heather esperou ele lhe dar a taça de vinho e então resolveu abrir o verbo — sem preparação, sem pensar em como iria dizer o que queria dizer.

— E agora, Theo?

Theo parou por uma fração de segundo e olhou para ela.

— O que você quer que aconteça? — ele pergun­tou suavemente.

Quando Heather olhou nos olhos dele, fez força para não fenecer diante da beleza do que via.

— Agora sua mãe foi embora, Theo. Não precisa­mos mais...

— Continuar como amantes?

Colocando a coisa daquele jeito, a relação deles, que significava tanto para ela, parecia reduzida a dois adultos dormindo juntos de comum acordo apenas por diversão. Mas sabia que palavras carinhosas não fluíam com facilidade da boca de Theo. Ele também estava deprimido com todo o problema de sua mãe, apesar de não demonstrar a ela.

Ela tinha que se controlar.

— Você me ofende se pensa que a única razão pela qual dormi com você foi para perpetrar aquela histó­ria para agradar a minha mãe. E ofende a si mesma também ao dar a entender isso.

Heather sorriu, aliviada.

— Que bom que você está dizendo isso, Theo. Pensei que talvez...

— Que talvez nossa história fosse terminar antes da hora? — Um daqueles seus sorrisos devastadores se formou em seus lábios, fazendo Heather tremer nas bases. Ela então deu um gole no vinho para se concentrar. Era muito fácil perder a concentração quando começava a olhar para ele.

Ele gentilmente tirou a taça de vinho das mãos dela e pôs no balcão do bar para poder beijá-la. Não foi outro de seus beijos quentes e urgentes. Havia algo tocante e terno naquele beijo, e Heather se per­deu naquela boca afetuosa, esquecendo um pouco de seus pensamentos incessantes.

Quando ele se afastou enfim, os olhos dela trans­bordavam compaixão.

— Eu sei que você ficou chocado com o que houve com sua mãe, Theo. A gente nunca espera que essas coisas aconteçam com nossos pais, e mesmo quando se espera, nunca se está realmente pronto para essas coisas. Mas ela vai ficar bem. Eu sei que vai.

Vinda de qualquer outra pessoa, aquela demons­tração de empatia seria inaceitável e provocaria uma reação inflamada por parte de Theo, que, entretanto, olhou para os olhos enormes e azuis dela e ficou toca­do pelo que viu neles.

— Fico muito feliz de ter você para prever o futuro para mim — ele murmurou, longe de ser ríspido. — Você não quer demonstrar sua empatia de uma maneira mais profunda do que apenas verbalmente? — Ele se afastou um pouco, terminou o vinho em sua taça com um gole dos bons e sorriu para ela languidamente.

A determinação de Heather esmoreceu. Quando ele começou a caminhar em direção ao quarto, ela se pegou indo atrás, como se suas pernas tivessem de­senvolvido vontade própria.

— Parece estranho... — ela disse, olhando ao re­dor do quarto que tinha pequenos traços dela por toda a parte. Seu despertador, que estava na mesinha de cabeceira do seu lado da cama, o vaso de flores que ela pôs na janela, seus chinelos felpudos.

— O que parece estranho?

— Estar aqui sem sua mãe por perto... Ele riu.

— A maioria das mulheres acharia estranho o con­trário.

Theo começou a tirar a camisa. Só quando estava seminu percebeu que ela ainda estava na porta, com as mãos para trás, quando devia estar chegando perto dele e revelando aquele corpo espetacular, mais uma vez encoberto por suas roupas largas.

— Quer que eu faça um strip-tease para você? — ele perguntou suavemente. Ele só pensava em pos­suí-la, o que aliviava a tensão dos problemas relacio­nados à mãe. Jamais admitiria isso verbalmente, mas ficou terrivelmente preocupado por achar que ela ti­nha ido embora cedo demais, que talvez fosse melhor ficar em Londres. Ele queria encontrar refúgio de seus pensamentos ansiosos nos braços daquela mu­lher em frente a ele — totalmente vestida, e parecen­do hesitante.

Cheio da arrogância que só têm os homens muito seguros de si, Theo nem pensou na possibilidade de Heather não querer ir para a cama com ele. Ele abriu o cinto.

Heather lambeu os lábios nervosamente. Ela sabia que se aproximar dele significaria ser tragada pelo desejo. Theo tinha a capacidade impressionante de lhe hipnotizar. Era como se ele fosse um mágico.

Heather lutou contra seus impulsos. Não podia deixar acontecer desta vez. Aquela era uma oportuni­dade de ouro para descobrir o que significava para ele, e não estava disposta a perder esta chance.

— Na verdade, Theo, eu gostaria de conversar... Theo apertou os olhos.

— Conversar? Conversar sobre o quê? Você já de­monstrou que se importa comigo. Não precisa mais.

Juro que não estou a ponto de ter um colapso por es­tar apreensivo pela saúde da minha mãe. Falarei com ela por telefone todos os dias, e, qualquer coisa, eu pego um avião e vou à Grécia.

— Eu sei — Heather disse, ainda na porta. Sentia-se mais segura ali. Assim podia manter a ilusão de poder sair correndo se não agüentasse mais aquela conversa. — Mas na verdade eu não ia falar sobre sua mãe.

— Ah. — Ele pareceu compreender tudo. — Você quer continuar de onde paramos mais cedo, não é? Você quer ter certeza que eu a quero, que não durmo com você apenas por causa de uma situação involun­tária. — Ele sorriu lentamente e caminhou até ela. — Eu não imaginava que precisava provar meu desejo por você. Você sabe muito bem que eu não poderia fingir as reações do meu corpo... Não mesmo...

Heather estava respirando com dificuldade. Ele estava bem em frente a ela. Ela fechou os olhos para se segurar. Estava a ponto de perder o controle.

— Eu só quero saber... o que vai ser... o que vai ser de nós dois.

Aquelas palavras caíram sobre Theo como um ba­nho de água gelada. Ou como um mergulho no mar Ártico. Todas as manifestações de paixão em seu cor­po se desfizeram.

— Acho que você já fez esta pergunta hoje.

— Eu sei. Mas você não respondeu. — Ela arris­cou olhar para o rosto dele e sentiu um bolo no estô­mago ao ver o olhar gelado que ele lhe dirigia.

Theo não respondeu de imediato. O que ele fez foi caminhar até onde havia jogado a camisa, pegá-la e vesti-la. Melhor assim, ela pensou. Assim ela se dis­traía menos.

Agora ao menos ela conseguia respirar.

— OK. — Theo deu de ombros. — A verdade é que, sim, nós devemos nosso envolvimento a uma si­tuação circunstancial. Se minha mãe não tivesse che­gado, pegado você de roupão e tirado as conclusões que tirou, nada disso teria acontecido. Mas, agora que já aconteceu, não vejo razão para mudar nada.

Heather ficou profundamente magoada de saber que sem a intervenção do destino ele jamais teria olhado para ela com outros olhos. Ela passou dois anos sonhando com o dia em que ele olharia para ela como mulher. Agora ela sabia que era um sonho.

Irritado com o prolongado silêncio dela, Theo franziu o cenho.

— E então? Acho que eu mereço que você diga al­guma coisa.

— Dizer o quê, Theo? — Os sentimentos nebulo­sos que lhe assombravam desde a conversa com Beth se cristalizaram e ela entendeu algo terrível.

Ela ficou atrás dele por anos, invisível debaixo de suas roupas largas, e então, por uma armadilha do destino, acabou nua na cama dele. Ele gostou do que viu, e usou.

Mas não era culpa dele. Afinal, ela aceitou sem pestanejar.

— Este papo está começando a me encher o saco — Theo disse, e foi saindo do quarto.

Heather só queria encontrar um lugar escuro para se esconder. Mas sabia que não podia deixar as coisas daquele jeito.

— Desculpe se te aborreci, Theo. Sei que você não gosta de aprofundar as coisas com as mulheres...

— Não existe nada de superficial com sexo! — ele gritou.

— Bem, não... não quando o sexo é parte de um re­lacionamento sério.

Ele a encarou.

— Não quando é parte de um relacionamento pra­zeroso. É aí que está, Heather. Um relacionamento pode ser prazeroso sem ser sério.

Ambos estavam pisando em ovos, sem tocar no ponto principal. Ela podia concordar com ele e re­cuar, aceitando o pouco que ele oferecia, que, aliás, era bem mais do que ela estava acostumada a ter, ou então podia marcar posição e acabar perdendo tudo.

— Só quero saber para onde estamos indo, Theo. Quer dizer, nós temos algum futuro juntos?

Theo mal conseguiu acreditar no que estava ouvin­do. Ele havia acabado de oferecer a ela o que jamais oferecera a nenhuma mulher antes — ou seja, a chance de viver na mesma casa que ele — e o que ela fazia? Começava a perguntar sobre futuro. Aliás, parecia que as mulheres só pensavam neste tal de futuro.

— Acho que você se deixou influenciar um pou­quinho demais por minha mãe. — Ele bebeu mais um pouco e encheu a taça. — Você deixou o mito se tor­nar realidade. Deixe-me esclarecer a situação para você, Heather...

Ela não queria que ele esclarecesse nada. E tam­pouco queria que ele ficasse olhando para ela com aqueles olhos frios, como se fosse um estranho. Ela o queria de volta, o homem que ela conhecia e amava. Mas no espaço de um segundo ficou totalmente claro que jamais o teria de volta, pois a natureza do relacio­namento se alterara.

Sentiu as pernas fraquejarem e se sentou em um banco.

— Toda esta idéia de permanência e compromisso foi só para deixar minha mãe contente. Ela estava fra­ca e eu não queria entrar em detalhes quanto ao que você fazia antes de vir morar comigo. Faz muito tem­po que ela quer que eu case, muito tempo mesmo, e quando conheceu você, pensou o que quis pensar... Ela é de uma época em que duas pessoas morando juntas implicava um relacionamento...

— Mas nós temos um relacionamento, Theo... — Heather disse, e ficou pensando se seu tom suplicante soou tão gritante aos ouvidos dele quanto aos dela mesma.

— Temos — ele concordou engenhosamente. — Mas é um relacionamento de natureza puramente se­xual. É uma coisa que eu não estava esperando, e es­tou querendo que continue, mas não vai passar disso.

— E quando você vai dizer a verdade à sua mãe? — Uma sensação de enorme carência tomou conta de Heather e lhe tapou a garganta. Ela odiou isso. Não sabia por quê, mas nunca viveu sem estar sob o con­trole de algo ou de alguém. Sim, sempre precisou tra­balhar, mas nunca perdeu o sono com medo de ficar desempregada. E tinha amigas, sim, gostava delas, mas carência... Não. Agora, enquanto era atropela­da pela definição sumária que Theo lhe apresentava para o relacionamento que vinham mantendo, Heat­her sentiu sua carência crescer, levando-a a dizer o que não devia.

— Isso é algo com que você não precisa se preocu­par — Theo respondeu com um tom indiferente. — Quando minha mãe tiver se recuperado totalmente eu vou dizer que você não faz mais parte da minha vida... que as coisas simplesmente não funciona­ram... que nós somos incompatíveis...

Heather balançou a cabeça, assentindo como uma idiota, lutando contra o desejo insano de rebater o que ele estava dizendo, de dizer a ele que eles eram compatíveis, sim. Ela já não morou com ele por me­ses e meses? Ela já não o conhecia tanto nos bons quanto nos maus momentos? Mas, felizmente, o bom senso prevaleceu e ela ficou calada.

— Ela vai ficar decepcionada, mas vai se recupe­rar — Theo continuou, cheio de segurança.

— E você um dia vai se casar, Theo? Ou o mundo tem mulheres demais para conhecer?

Theo não ligava para isso. O fato de não querer compromisso não significava que ele era superficial em seus relacionamentos com as mulheres. Ele a en­carou bem e pensou consigo mesmo que no fundo era bom que aquilo estivesse acontecendo. Foi tolice dele sugerir que continuassem dormindo juntos. Lá estava ela, já querendo que ele entrasse a seu lado ao som de sinos em alguma igreja.

— Acredite você ou não, minha ambição na vida não é dormir com o máximo de mulheres possível.

— Não, você só dorme com elas se elas lhe derem uma garantia oficial de não envolvimento. Não tem muitas mulheres assim por aí.

Theo estava perplexo. O que estava acontecendo? Se ele pudesse, teria apostado que Heather era uma das poucas mulheres imunes a esta idéia de casamen­to. Ela não havia trabalhado para ele por quase dois anos? Ela não sabia bem como ele era?

— Não posso crer que você, logo você, esteja me dizendo essas coisas. — Como a própria Heather também não estava acreditando, não disse nada. — Eu não estou à procura de uma companheira para a vida toda porque preciso de liberdade para investir em minha carreira. Eu não seria injusto de me casar com mulher alguma escondendo o fato de que ela não seria prioridade em minha vida, e mulher nenhuma quer isso.

Heather quase deu risada. Então agora ela devia acreditar que o pobre Theo agia dessa maneira por pensar muito nas mulheres, que ele fazia um favor em não lhes prometer mais do que poderia cumprir.

Ela não pretendia ficar debatendo aquilo com ele. Ele era tão hábil com as palavras quando com tudo mais, e ela sabia que qualquer argumento que ela usasse seria destruído, simplesmente porque ele que­ria permanecer em sua torre de marfim.

— Tem razão. Mulher nenhuma quer isso.

Theo teve um ímpeto de raiva, mas conseguiu con­trolar. Ficou surpreso com sua reação irracional.

— Você nunca se cansa, Theo? — Heather per­guntou, curiosa.

— Cansar de quê?

— Ah, sei lá... das caras diferentes, de viver paquerando... namoros diferentes, mulheres diferentes, conversas diferentes...

— Eu gosto de variedade — Theo se levantou abruptamente e foi em direção ao sofá. Não estava gostando nada daquele papo, assim como não gostou da insinuação de que ele era superficial em seus rela­cionamentos com o sexo oposto.

Heather continuou sentada no banco, tentando conter as lágrimas que lhe ardiam no fundo dos olhos. Até que ela se levantou e olhou em direção ao quarto.

— Está reconsiderando minha oferta? — Theo perguntou casualmente, e ela se voltou para ele sen­tindo a fúria substituir a tristeza.

— Não estou, não! — Depois de tudo que ele ha­via dito, sua arrogância de pensar que ela sequer con­sideraria a possibilidade de viver com ele como sua concubina provisória era simplesmente inaceitável. — Eu jamais pensaria em dormir na sua cama saben­do que a qualquer minuto posso ser chutada porque você ficou enjoado e resolveu variar.

— Então porque você dormiu comigo pela primei­ra vez?

— Sua mãe achou...

— Minha mãe achou que nós tínhamos um rela­cionamento, o que não responde minha pergunta... Ah... Sei...

— Sabe o quê? — Heather sentiu que havia caído em uma armadilha. Agora ele sabia o que estava acontecendo. Sabia que ela era apaixonada por ele. Bem, nada poderia ser mais assustador para ele. Amor é algo que o fazia sair correndo! Ela queria partir preservando ao menos a dignidade intacta, mas agora seria impossível.

— Sei de uma pessoa que viu uma oportunidade e agarrou com ambas as mãos. — Ele estava falando com um tom que Heather jamais ouviu antes vindo dele. Frio, duro, agressivo. Ela ficou olhando para ele, atônita e sem palavras.

Theo se movimentava e sua voz soava mais e mais fria à medida que ela contemplava o tamanho de seu engano.

— Eu fiquei pensando agora há pouco como as coisas podiam mudar tanto entre nós. Você demons­trou ser confiável por todo este tempo. Você tomava conta da casa, me ajudava no trabalho quando eu pre­cisava, e nunca reclamava de nada. Agora você está aí, exigindo promessas de futuro...

— Eu não estava exigindo... Eu estava...

— Cale a boca! — A voz dele era como um chico­te, deixando-a mais uma vez muda e chocada. No passado ela já o vira expressar raiva por questões de trabalho, mas agora ele estava aparentemente tran­qüilo e parecendo muito mais ameaçador.

— Você começou a pensar que eu era um partido e tanto quando supostamente se permitiu ceder à tenta­ção de ir para a cama comigo? Começou a pensar que talvez, quem sabe, se você jogasse as cartas certas, teria uma chance?

Heather ficou mortalmente pálida e arregalou os olhos, horrorizada com o que estava ouvindo.

— O... o q-quê? — ela gaguejou.

— Você pensou que amolecendo minha mãe con­seguiria chegar aonde as outras não conseguiram? Afinal, você sabia que nenhuma outra mulher chegou tão longe a ponto de morar na mesma casa e dormir na mesma cama. Você deve ter achado que as cir­cunstâncias lhe favoreciam. O destino a ajudou, tra­zendo minha mãe para cá.

— Não! Nada do que você está dizendo é verdade! — Heather disse, arrasada.

Theo, parecendo um trem descarilhado, ignorou as negativas de Heather.

— Dormir comigo, sabendo que me atraía, deve ter sido a cereja do bolo! — Ele lembrou de como an­siava pela chegada das noites para fazer amor com ela, louco para sentir cada curva de seu corpo, e se odiou por sua fraqueza. — Você devia saber que eu sou um homem como qualquer outro que tenha san­gue quente correndo nas veias. Fica difícil resistir a uma mulher nua e atraente deitada na mesma cama.

Cada palavra dele era um massacre sobre as mais frágeis esperanças que ela nutria. Ele tinha razão ao dizer que ela considerou a visita de sua mãe um sinal do destino. Afinal, ela estava seriamente pensando em se mudar de lá. Claro que ela esperava, sim, sig­nificar algo a mais para ele depois que dormiram juntos. Eram esperanças ingênuas que encontraram solo fértil em seu coração romântico, e o tempo cuidou do resto.

— Quando você começou a achar que talvez va­lesse a pena tentar me agarrar? Foi quando pisou aqui pela primeira vez? — Ele lembrou dos olhos arrega­lados de Heather ao ver seu apartamento e ficou irri­tado consigo mesmo por não ter percebido que foi na­quele momento, ao ver todo aquele luxo e riqueza, que as ambições de Heather começaram a se mani­festar. Na ocasião ele chegou até a achar graça da cara que ela fez!

— Eu não sei como você pode ser capaz de me di­zer estas coisas, Theo.

— Porque eu sou um homem muito prático. E tam­bém muito rico. E homens práticos e ricos têm men­tes desconfiadas. Você devia ter levado isso em con­ta.

— Isso parece um pesadelo — Heather murmurou. Sentia-se como quem pensa que mora em uma casa forte e segura, mas que de repente descobre que a casa é de palhoça.

— As pessoas acordam de pesadelos, Heather. Isto não é pesadelo. E a realidade.

— Sim. É, sim. — Ela deu as costas para ele. Não agüentava mais encarar aqueles olhos frios. Foi para o quarto e começou a pegar suas coisas freneticamente das gavetas, dos armários e jogou tudo sobre a cama.

O som delicado de música clássica adentrou o quarto, pouco combinando em sua beleza com a situação. Ele já havia realizado sua façanha, então ela imaginou que agora estava relaxando.

Ela não olhou para ele ao passar em direção ao seu antigo quarto. Puxou sua mala debaixo da cama. Ela havia chegado com muito pouco e sairia com menos ainda. Nem ligaria muito se todas as suas roupas de­saparecessem num passe de mágica. Odiava suas roupas, mas se forçou a guardá-las na mala. As pou­cas que estavam em seu quarto antigo e o resto.

Ele acabou sumindo, mas deixou o CD player to­cando Vivaldi. Ela imaginou que ele tivesse ido para o escritório. Para longe dela. Depois de tanto tempo juntos, ele não tinha problema em deixá-la partir sem sequer dizer adeus.

Com a mala já pronta, ela parou em frente à porta, sem saber se devia ir falar com ele ou não.

No final desistiu. Ele disse o que queria dizer e ja­mais acreditaria que ela não era oportunista.

Então ela rabiscou um bilhete, agradecendo pelo emprego e deixando as chaves do apartamento.

Refugiado em seu escritório, Theo ouviu o clique da porta sendo fechada e franziu o cenho com os olhos no laptop em sua frente. Ela deve ter pensado em se despedir dele, mas ficou com medo de pertur­bá-lo, Theo presumiu. Conhecia-a tão bem. O que não era de surpreender após viverem juntos por tanto tempo. Agora via que foi um grande erro.

Afastou-se da escrivaninha e foi até a cozinha. É claro que esta era a conclusão lógica. Não precisava ser assim. Ela podia ter concordado em continuar aquele namorico, Mas não, como toda mulher, Heather queria que ele se derramasse todo pela importância inexistente do que havia entre eles. Ele sentiu um muro de frustração cair. Por que ela não quis conti­nuar do jeito que as coisas estavam era um mistério para ele, mas o fato é que ela não quis, e tinha ido em­bora. Ele não queria nem precisava de interferência feminina em sua vida — interferência de uma mulher que ficava alimentando idéias de futuro.

Deixe passar umas duas semanas, ele pensou, e tudo vai ficar mais fácil Até então sua intenção era mergulhar no trabalho e voltar a sair com o mesmo tipo de mulher de sempre. Tudo de volta ao normal. Como era para ser.

 

 

CAPITULO SETE

 

Ela tinha que sair do apartamento. Beth a aconselha­ra em um tom de voz de quem não queria mais discu­tir o assunto. Havia passado três semanas, alegou, e três semanas era tempo demais para se consumir por um homem que a usara.

— Eu vou sair do apartamento — Heather respon­deu, interpretando o que a amiga disse de modo deliberadamente literal. — Estou deixando meu portfólio em todas as editoras e agências de publicidade da ci­dade. Na verdade tenho uma entrevista na agência MacBride nesta segunda-feira. Quem sabe você me ajuda a procurar algum anúncio no fim de semana?

A resposta de Beth foi contar à amiga que havia ar­rumado um possível pretendente. Heather se sentiu como se fosse uma instituição de caridade necessita­da de ajuda governamental.

— É um colega meu de Dublin — Beth disse. — Eu o encontrei umas duas vezes e posso dizer que ele é perfeito. Alto, louro, viajado...

Heather teria de vestir algo de cair o queixo, algo na linha do que ela usara na festa da empresa do MGC, que era como Beth se referia a Theo, abrevian­do o título Milionário Grego Canalha. E quem sabe fosse uma boa idéia fazer algo no cabelo? Talvez umas luzes?

E, como de costume, Heather se viu meio que re­sistindo e meio que aceitando o que a amiga lhe dizia. E como sempre acabou se dando por vencida.

Razão pela qual estava agora, em uma noite de sá­bado, parada em frente ao espelho de corpo inteiro do quarto de Beth, sendo perscrutada pela amiga como um micróbio estudado no microscópio.

Satisfeita, Beth olhou para ela como se fosse mes­mo um espécime muito bom. Ela deu um passo para trás e soltou um assovio de aprovação. Heather podia achar que estava sendo arrastada contra a vontade para um encontro romântico, mas o fato era que pre­cisava se recuperar. Após quase um mês deprimida ela havia perdido peso e sua natureza normalmente animada e bem disposta fora substituída por uma apatia preocupante. Sim, ela fizera sua parte, fora a várias agências à procura de emprego, assim como também se mudara para o apartamento vizinho ao de Beth. Também estava fingindo leveza de espírito, como manda o figurino. Mas no fundo, estava vazia como uma concha.

Mas Beth achava que a amiga tinha de sair e se di­vertir, querendo ou não.

Beth não acreditava em deixar as coisas se resol­verem por si mesmas. Sim, o tempo sem dúvida cura muita coisa. Mas pode haver um pouquinho de plane­jamento cuidadoso entre os altos e baixos da vida, e Beth abordou o problema da amiga com a mesma precisão lógica que aplicava ao trabalho.

Jantares com amigas não deram resultado. Quando Beth tocava no nome de Theo, Heather escutava mas orgulhosamente declinava em desabafar e conversar sobre o assunto. Simplesmente mudava o rumo da prosa.

Portanto, o primeiro passo seria arrumar uma com­panhia masculina para a amiga, para mostrar que existe vida pós-Theo Miquel, que não valia a pena ficar arra­sada por causa dele. E qual seria a melhor maneira de demonstrar esta verdade suprema senão dando um jei­to para que Heather pudesse se certificar por si mesma?

Com uma naturalidade desconcertante, Beth ar­ranjou tudo para aquela noite com precisão militar.

Londres podia ser como uma pequena vila para quem sabia fazer as conexões certas. Fora relativa­mente fácil descobrir onde Theo Miquel estaria na noite de sábado. Era o horário nobre, e ele já estava de volta ao clima de flerte e paquera, apesar de sua história com Heather mal ter esfriado. Beth já conhe­cia sua nova aquisição — uma morena alta e esguia -— de uma situação profissional, meses atrás. A mo­rena usava diamantes e estava de braço dado a um dos advogados da companhia concorrente. Mas nem lhe passou pela cabeça dizer nada a Heather.

Os fins de semana de Theo com mulheres nada ti­nham de reservados e românticos. Ele preferia fre­qüentar lugares como aquele clube de jazz enfumaça­do, caro e muito seleto em Notting Hill.

E lá estariam também Heather e o bonitão com quem tinha um encontro. Beth cuidou de tudo.

— Você está maravilhosa — Beth disse à amiga, com toda sinceridade. — Muito glamourosa. Scott vai cair duro só de ver.

— Ele é algum desesperado? — Heather perguntou.

— Longe disso. Ele é um partidão.

— Então como é que não foi agarrado ainda? — Não que Heather tivesse intenção de agarrar nin­guém, mas tampouco estava ansiosa por sair com ou­tro conquistador. Pensou em Theo e sentiu seus lá­bios tremerem, mas imediatamente se recompôs.

— Ele apenas não encontrou a mulher certa ainda — Beth disse pacientemente. — Mas ele é ótima companhia, e ótima pessoa.

— Theo também era boa pessoa, sabia? Beth ignorou o comentário.

— As luzes em seus cabelos ficaram ótimas em você. Louro e cobre. Jamais pensaria nesta combina­ção, mas lhe caiu bem. E seus olhos parecem enor­mes com esta maquiagem.

Heather olhou para sua imagem no espelho com cansaço. Três meses atrás ela não teria reconhecido aquela mulher no reflexo. Nada mais de cabelos mal­tratados e presos com elástico, nada da aparência li­geiramente roliça. No lugar disso havia agora uma mulher atraente, curvilínea — graças à depressão que destruiu seu apetite. Sua roupa era discreta, mas colante. Era um vestido preto marcado por um cinto na cintura. Usava sapatos também negros de salto alto. Beth lhe emprestou um casaco de pele artificial abso­lutamente deslumbrante.

Por insistência de Heather, o encontro seria no clu­be, um lugar do qual jamais ouvira falar em Notting Hill, bairro que ela não freqüentava a não ser pela fei­ra de rua. Mas não queria encontrar Scott em casa.

Beth a acompanhou até a porta maternalmente, di­zendo para que ela ligasse assim que acordasse na manhã seguinte para contar como foi.

Foi um alívio entrar no táxi e não se sentir obriga­da a fingir animação. Não estava nem um pouco ani­mada. Nada a animava mais ultimamente. Nem mes­mo a possibilidade de um emprego ótimo que já era praticamente seu, faltava apenas assinar contrato. E pensava em Theo com freqüência. Ficava imaginan­do o que ele andava fazendo, e se pensava nela.

A perspectiva de passar horas na companhia de um desconhecido que esperava que ela fosse simpática e animada lhe parecia uma verdadeira luta.

Nem seria tão mau assim se ela levasse um bolo. Mas ao chegar encontrou Scott lá, esperando por ela do lado de fora, como combinado. Ele era exatamen­te como Beth o descrevera.

Um metro e oitenta e poucos centímetros, cabelo ondulado e farto, sorriso caloroso. Sorriu para Heather e ela relaxou e devolveu o sorriso, já que não havia nada de insolente nem ameaçador naqueles olhos azuis que a encaravam com simpatia.

— Pensei em usar um cravo branco para ficar mais fácil de você me encontrar, mas achei que seria um pouco cafona.

A voz dele era tão agradável quanto a aparência, e ele estava usando um bom perfume masculino.

— Beth me deu uma descrição bastante detalhada. — Heather sorriu mais uma vez. — Ele bem que dese­jou ter uma foto dela, para qualquer eventualidade...

— Faço idéia — ele riu, bem-humorado. — Beth é sempre muito precavida. Por isso ela é tão boa profis­sional. Já esteve aqui antes?

— Não. Lamento dizer, mas não estou muito por dentro da vida noturna de Londres.

Entraram no recinto parcamente iluminado no qual havia um pequeno palco onde uma banda de jazz tocava alguma melodia vagamente familiar.

Após meia garrafa de vinho Heather ficou muito falante. Falou até que estava meio na dúvida quanto àquela noite antes de encontrá-lo. Falou que não ti­nha certeza se estava na hora de voltar a sair com al­guém.

— É um alívio ouvir isso — Scott disse, inclinando-se de modo a ser ouvido em meio à musica —, pois acabo de sair de um relacionamento e também quero ir devagar. Sem envolvimento, sem sofrimen­to.

— Beth não disse nada sobre isso...

— Não? — Ele riu, balançando a cabeça. — Ela realmente está levando muito a sério seu talento de cupido.

— Mas ela tem boas intenções...

— Eu não posso reclamar. Não estou passando por nenhum momento desagradável aqui com você. E você?

— Não, não posso reclamar — Heather disse, para sua própria surpresa.

— Ótimo. Que bom saber que eu não correspondo às suas expectativas negativas. — Ele entrelaçou seus dedos aos dela e apertou sua mão de modo ami­gável, de maneira muito natural e agradável.

Era por um homem desses que ela tinha de se apai­xonar, Heather pensou, levando a mão ao rosto e pen­sando em Theo. Alguém legal. Alguém que estivesse se recuperando de uma decepção amorosa, o que indicava que ele, afinal de contas, tinha um coração ba­tendo dentro do peito.

Quando Heather abriu a boca para dizer algo sobre o que estava pensando no momento, ouviu aquela voz familiar cortar seu raciocínio. Heather retesou o corpo todo, chocada.

— Ora, ora, ora...

Heather olhou para trás e acompanhou Theo com os olhos enquanto ele se posicionou em frente a ela e Scott.

Ela teve de piscar várias vezes de tão surreal que era vê-lo em carne e osso novamente. Algumas sema­nas de ausência não diminuíram em nada o efeito de­vastador que ele tinha sobre ela.

Ela demorou a sentir que Scott ainda estava de mãos dadas e dedos entrelaçados aos dela, mas quan­do ela tentou tirá-los, Scott apertou sua mão com mais força antes de soltar e se levantar, estendendo a mão para cumprimentá-lo.

Theo o ignorou. Estava completamente concentra­do em Heather, que se levantou relutante e conseguiu forçar um sorriso.

Ela estava suando terrivelmente nas palmas das mãos. Esfregou discretamente as mãos nas laterais e sorriu mais ainda.

— Theo! Que surpresa.

— Não é mesmo? — Theo respondeu com cortesia impecável. — Eu não fazia idéia que você costumava freqüentar lugares como esses. Sempre achei que você gostava de ficar em casa, fazendo seus trabalhos de arte e acompanhando novelas.

Heather corou. Se ele queria fazê-la parecer uma idiota, conseguira. Apesar de normalmente ela custar a ficar com raiva, sentiu um ódio borbulhante dentro de si. Respirou fundo, lamentando muito por Scott, que havia sido deliberadamente ignorado por Theo.

— Bem o tipo de mulher que eu gosto — disse Scott, entrando na conversa. Apesar do olhar nada re­ceptivo que recebeu de Theo. — Não sou muito de ir a clubes. Prefiro mil vezes uma noite em frente à tevê, apesar de preferir documentários em vez de no­velas. Aliás, meu nome é Scott.

Aturdida, Heather terminou de apresentar um ao outro, sentindo-se muito desconfortável por Theo não parar de encará-la.

— Que bom revê-lo, Theo. Você está muito bem. Mas não quero lhe prender...

— Você também está ótima... — Percorreu-a com os olhos indolentes. — Belo vestido.

— Obrigada... Você veio com amigos? Deve estar querendo voltar à companhia do seu grupo... — Heather olhou ao redor, mas o clube estava escuro e lotado.

— Ah, não vim com um grupo — Theo respondeu.

— Certo.

— Michelle está esperando em uma mesa lá nos fundos...

Heather involuntariamente seguiu a direção para a qual ele apontou de forma desleixada e, como por mi­lagre, conseguiu ver a morena alta e macérrima sen­tada sozinha com uma taça de champanhe na mão e usando um vestido vermelho que mostrava mais do que escondia.

Heather não pensou que Theo fosse permanecer sozinho por muito tempo depois que terminaram, mas ver com os próprios olhos que ele rapidamente partiu para outra lhe deu uma pontada de melancolia. De repente se sentiu profundamente grata por estar com Scott, e maldosamente satisfeita por Theo ver por si mesmo que ela também estava seguindo com sua vida, não estava na fossa por causa dele. Mesmo que fosse mentira.

— Ela parece solitária, Theo — Heather sorriu calidamente para Scott e depois para Theo. — Sugiro que você volte logo para ela antes que alguém a rapte. Este tipo de lugar atrai muitos homens correndo atrás de mulheres, você sabe.

— Fala por experiência própria? — ele perguntou, e deu uma olhada em direção a Scott.

— Eu não corro atrás de mulheres — Scott disse tranqüilamente, e pôs o braço sobre o ombro de Heather de modo afetuoso. — Sou seletivo demais para isso. — Ele riu. — Meus amigos até me recriminam. Só me contento com... o que há de melhor...

Heather sorriu para ele, muito agradecida e sen­tou-se novamente, e Scott fez o mesmo, deixando Theo de pé em frente a eles.

Em vez de aceitar a indireta e se retirar, Theo se in­clinou e pôs as mãos sobre a mesa.

— Pois eu prefiro variedade. Mas uma de cada vez. Bem, o fato é que eu e Heather não nos vemos faz um certo tempo. Você se importa se eu a roubar de você para dançar um pouquinho? Prometo devol­vê-la inteirinha.

— Acho que Heather pode decidir muito bem com quem deseja dançar — Scott disse, e voltou-se para ela.

Estava na cara que Theo tinha um ponto de vista bem menos cavalheiresco, pois não lhe deu chance de opinar. Ele a tomou pela mão e, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, a puxou para a pista de dança.

— Como ousa? — Heather murmurou, sentindo seu corpo reagir ao contato com aquele corpo firme e másculo tão perto do seu. — Não quero dançar com você! Meu acompanhante está sentado sozinho na mesa e é muita grosseria deixá-lo lá.

— Pelo jeito ele não está ligando muito — Theo disse, fazendo pouco.

Trouxe-a mais para junto de si. E sentiu tudo atra­vés do tecido fino do vestido. A protuberância gene­rosa dos fartos seios, a curva das costas. Sentia-se ul­trajado ao constatar como sentia falta do corpo dela. Sentia falta dela. Apesar de tentar se convencer que era apenas uma questão de hábito. Sim, ele havia mergulhado de cabeça no trabalho, fez até um esfor­ço para sair com Michelle — com quem conversara por meia hora em um coquetel na semana anterior, e viu que ela dava todos os sinais de estar interessada. Esta era a segunda vez que saía com ela, que não o despertava em nada.

Ao contrário daquela mulher pequena e curvilínea que agora dançava com ele relutantemente. Dava para sentir o desejo dela de se afastar e ele pensou se ela es­taria dormindo com o sujeito que a esperava na mesa.

Aquele pensamento o fez ranger os dentes de ódio.;

— E então... como vai você? — ele perguntou, abaixando a voz, perversamente desesperado por sa­ber se ela ainda o queria.

— Você já fez esta pergunta.

— Estou perguntando de novo.

— Muito bem. Já respondi antes. Estou muito bem.

— E o que anda fazendo? — A pergunta soou agressiva devido ao tom imperativo que a deixou ain­da mais tensa. Ele sentiu sua tensão quando ela retesou os músculos. — Estou te deixando nervosa? — ele perguntou suavemente.

Era aquela mesma voz sexy que a fazia perder a cabeça no passado. Será que ele sabia que tinha aquele efeito sobre ela? Heather pensou na nova con­quista de Theo, provavelmente olhando enquanto ele dançava perto dela com outra mulher, e ficou arrepia­da.

— Não seja ridículo. Por que você me deixaria nervosa?

— Você mudou — Theo disse, sorrindo.

— As pessoas mudam. — Ele estremeceu de frio quando ele a girou ao sabor da música, algum tema romântico estúpido.

— Você não era durona desse jeito.

— Se ser durona significa não ficar me derretendo por você como uma pamonha, devo entender isso como um elogio.

— Você ficava se derretendo por mim como uma pamonha"? Eu não sabia disso. Por quanto tempo foi assim?

— Eu quis dizer que eu fazia isso... Passado.

— Ah, é? Sei. Você se derretia por mim antes de ir para a cama comigo?

— Prefiro esquecer.

— Por que você quer esquecer de algo que estava na cara que você gostava muito?

— Esta conversa está tomando um rumo ridículo. Para mim chega.

Theo girou novamente na dança.

— Mas por quê? — ele murmurou no ouvido dela, girando-a com facilidade ao dançar. Seu ego pulsava de orgulho ao pensar no efeito que ele tinha sobre ela... por um tempo satisfatoriamente longo, ao que parecia. Aquela noite, que estava antes tão enfado­nha, se tornava agora bastante interessante.

Quando a música parou e ela tentou se afastar ele a conteve com seus braços fortes.

— Tenho certeza que Stephen...

— O nome dele é Scott!

— Não interessa. Tenho certeza que ele não vai se importar se dançarmos mais uma música. Ele não me parece o tipo de camarada que cria caso por uma coisinha tão inócua. Claro que ele não ia gostar nada se soubesse de nossa história...

Heather sabia quando a faziam de boba. Luto para manter a compostura, se esforçou para lembrar que ele havia deixado claro que não queria nada sério com ela. Ele nem mesmo tentou entrar em contato de­pois, não a procurou para nada. Mas podia ter procu­rado. Ela dissera a ele que havia um apartamento vago no edifício de Beth. Era fácil deduzir que ela es­taria morando lá. Ele não a procurou porque não quis, mesmo. Ele retomou sua vida de antes sem pensar duas vezes. E agora vinha perguntar como ela estava, o que andava fazendo... Parecia até que ele se impor­tava mesmo!

— Nós não temos uma história — Heather repli­cou, retomando o controle de seus pensamentos. — Tivemos um relacionamento de mentira que durou poucas semanas! — De repente ela se sentiu culpada e mudou de assunto. — E como vai sua mãe? Descul­pe não perguntar antes.

— Cada vez mais forte e saudável.

— Você já contou a ela sobre nós?

— Não precisa.

-— Eu realmente pensei muito nela... depois que fui embora. Fiquei pensando em como ela estaria. Ela é uma mulher incrível... tão cheia de entusiasmo, tão astuta... Mais astuta que muita gente da idade dela...

Theo não estava interessado em falar sobre a mãe.

— É claro que nós temos uma história. Não foi só dormir juntos. Nós moramos juntos por mais de um ano... e eu quero agora pedir desculpas por ter acusa­do você de tentar me manipular para casar comigo. Como eu disse antes, homens ricos são desconfiados. Eu não fazia idéia que você me queria muito antes de nós dois acabarmos na mesma cama.

Heather baixou a cabeça. Estava se sentindo in­cendiar por inteiro. Se Scott olhasse agora, não teria a menor dúvida de que aquele era o homem que a dei­xou traumatizada com envolvimentos amorosos. Es­tava na cara dela, não havia como disfarçar.

— E então? — Theo disse.

— A sua namorada não vai ficar aborrecida de você ficar dançando comigo?

— Aborrecida e com ciúmes — ele confirmou, ro­çando os lábios na orelha de Heather. — Se ela sou­besse então o que estou pensando neste exato mo­mento... Você sabe no que eu estou pensando, não sabe? Acho que dá para você sentir o que eu estou pensando, não dá?

Aquela conversa estava deixando Heather tão per­dida e confusa que ela nem havia reparado antes no que agora era impossível ignorar. Theo estava latejando de tão excitado. Ela quase desmaiou ao sentir sua virilidade roçando seu ventre. Sua mente — que ela conseguira até então manter sob controle — foi invadida por imagens vividas, memórias deles dois na cama, fazendo amor, lembranças daquele corpo enorme sobre o dela. Heather fechou os olhos e sen­tiu que estava mesmo a ponto de desmaiar.

— Você está com ciúme? — ele sussurrou junto ao seu ouvido.

— Não, é claro que não — Heather mentiu. — Por que estaria? Nós não nos vemos há semanas. Está tudo acabado entre nós e eu estou tocando minha vida. Tenho meu novo apartamento, meu novo em­prego e meu novo namorado. — Ela sabia que estava aumentando bastante a realidade, mas não resistiu a ficar por cima, para variar.

— Há quanto tempo você está saindo com esse tal de Stephen?

— Scott.

— Três semanas?

— Não é da sua conta, Theo. — Ao escutar o que acabara de dizer, Heather se sentiu vitoriosa e pode­rosa.

Se ele achava que podia dizer o que lhe viesse à mente, pensando que ela era a mesma bobinha de an­tes, estava muito enganado.

— Discordo. Não faz o seu tipo sair correndo atrás de outro logo depois de ir embora do meu apartamento.

Mas foi exatamente o que você fez, ela ficou tenta­da a responder, mas se recusou a passar recibo. Não queria que ele soubesse o quanto tudo que havia acontecido ainda a afetava. De toda forma, estava di­fícil se concentrar naquele momento.

— Então isso quer dizer que ele é novo no pedaço. Acertei? — Theo gostou da conclusão, pois isso que­ria dizer que ela não havia dormido com o sujeito. Não era o estilo de Heather. Ela era... Ele baixou os olhos em direção ao vestido preto é franziu a testa. Não era o tipo de vestido que cobria e ao mesmo tem­po revelava e provocava.

— Você foi para a cama com ele? — ele perguntou com a voz rouca, e então ela riu. Riu! Riu e se recusou a responder! — Responda! — ele grunhiu.

— E por que eu lhe responderia? Você não faz mais parte de minha vida. — Heather nem sabia de onde estava tirando tanta força. Ainda o amava, sem­pre o amaria, mas foi-se o tempo em que ela se deixa­va guiar pelos desejos dele sem pensar duas vezes. Eles haviam dormido juntos, mas mesmo assim ele recuou na primeira vez que sentiu que talvez tivesse de dar mais de si do que pretendia. Nem se deu ao tra­balho de tentar.

O tema jazzístico chegou ao fim melancolicamente e eles então se afastaram. Heather suspirou alivia-

da, pois para ser forte era preciso gastar muita ener­gia. Já Theo arfou, perturbado por aquele distancia­mento.

— Obrigada pela dança — ela disse friamente, e rapidamente virou em direção a Scott, que lhe ace­nou. Ela acenou também. — Acho que está na hora de você voltar para sua namorada. Daqui dá para vê-la, e ela não parece muito satisfeita.

Nem ele, para falar a verdade. Heather sentiu uma injeção de satisfação feminina. Ele estava achando que podia encontrar com ela por acaso e jogar charme na certeza de que ela iria acabar cedendo? Por quê? Por que ele se achava! Será que ele ficava excitado com a idéia de poder tê-la, apesar de haver outra mu­lher esperando por ele logo ali? Será que a pobre Heather de antes, tão atrapalhada, que vivia atrás dele com seus trajes desleixados, com seu jeito fran­co e ingênuo, ainda existia?

— O seu namorado parece estar muito bem — Theo murmurou selvagemente. — Sabe o que isso quer dizer?

— Você sabe? — Ela sorriu educadamente para aquele homem que ainda fazia seu coração disparar, deu as costas e caminhou, indiferente a ele.

Theo tranqüilamente se preparou para o resto da noite. Sua namorada era tudo que um macho de san­gue quente poderia desejar. Linda de morrer, atencio­sa, dava as liberdades que ele queria e não era mais inteligente que o necessário. Não iria se deixar dis­trair por conversa séria nenhuma. Apesar de Heather o ter deixado tremendamente irritado — na verdade, estava mais irritado ainda consigo mesmo por ainda estar procurando com os olhos Heather e aquele lou­ro manso que era seu namorado. Eles estavam rindo e se divertindo, a linguagem corporal de ambos deixa­va tudo claro.

No instante em que Theo viu que eles se levanta­ram para ir embora, virou-se para Michelle, que esta­va falando com ele, e a cortou no meio da frase.

— Vamos embora.

Ela se recuperou rapidamente do arroubo de Theo e deu uma risada.

— Na minha casa ou na sua?

— Na sua. — Ele tinha que estar realmente nas úl­timas se não conseguisse ir para a cama com uma mu­lher espetacular daquelas, e louca por ele. — Mas, me desculpe, querida, sem sexo esta noite.

Ele tinha que voltar para casa e clarear as idéias. Como jamais sentiu o que era ter ciúme, de início Theo não reconheceu o que estava ocorrendo.

Os dias se passaram, e ele não queria procurar Mi­chelle nem mulher nenhuma. Elas eram problema na certa. Então ele se enfiou no escritório, trabalhando furiosamente e assustando todos com seu péssimo humor. Ninguém estava entendendo nada.

Correr atrás do endereço de Heather definitivamen­te não era típico de Theo, mas se convenceu com a des­culpa de que Heather era imatura e inocente, e estava se comportando e se vestindo de modo a atrair os homens e provocar reações com as quais não saberia lidar. Afi­nal, Heather não tinha experiência nas ruas, experiên­cia de vida. E foi assim que Theo se convenceu que es­tava preocupado mesmo era com o bem-estar dela.

Bem, ele pensou, que pessoa com a cabeça no lu­gar não se preocuparia com ela, após esta mudança tão súbita e radical?

Ele pensou naqueles seios suculentos desfilando por Londres. Qualquer homem que não fosse cego iria virar o pescoço. E o que Heather, que não estava acostumada a este tipo de situação, faria se um desses homens não se contentasse em olhar?

Concluir o que precisava fazer foi como um raio de sol penetrando uma massa de nuvens negras.

Quatro horas depois ele estava estacionando em frente ao edifício de Heather. Desligou o motor e pa­rou para pensar um pouco.

Por alguns fugazes instantes ele chegou a pensar que diabo ele estava fazendo lá. Então lembrou de seu senso de dever. Tinha de dar uns conselhos a uma certa mulher que conhecia — que conhecia intima­mente. O relacionamento que tiveram era passado, mas ele se sentia na obrigação de avisá-la por uma questão de humanidade.

Cheio de falsa moral, ele saiu do carro e foi em di­reção à entrada. Apertou o botão do apartamento de Heather.

O edifício era bastante moderno, mas tinha seus atrativos. Havia o que podia ser chamado de tentativa de tornar a fachada mais verde com pequenas mudas crescendo aqui e ali.

Dentro do apartamento, Heather ouviu a campai­nha da portaria e se perguntou quem diabos poderia ser. Esta era a grande vantagem de morar em aparta­mento. Nunca havia visitas surpresa. Lembrou que a última vez que atendeu a uma visita surpresa foi quando a mãe de Theo apareceu sem avisar na casa do filho. Fechou os olhos e tentou banir a lembrança.

— Sim?

— Heather?

A fala lenta de Theo golpeou Heather como se ela tivesse tocado um fio desencapado. Ela ainda não es­tava recuperada após encontrá-lo no clube. Sentiu o ar ser sugado de seus pulmões e sentou no banco mais próximo.

— O que é?

— Precisamos conversar.

— Sobre o quê?

— Não é algo que possamos conversar por interfone. Deixe-me entrar.

Ela deixou.

Quando ele bateu na porta, ela abriu sorrindo.


CAPÍTULO OITO

 

— Olá. O que o traz aqui? — Heather deu um passo para o lado para ele entrar. Ele viera direto do traba­lho e, como sempre, já havia soltado a gravata e aber­to o colarinho da camisa. Sempre fazia isso ao sair da empresa, j á era um hábito.

— Então este é seu novo apartamento — Theo dis­se, parando no meio da sala e olhando ao redor.

— Você gosta? É bem pequeno.

Mas ficava em uma boa área, e dava para ela ban­car o aluguel. Era difícil arrumar lugares decentes em Londres, e apesar de custar bem mais caro do que ela realmente podia bancar, Heather estava muito grata a Beth por ter ajudado a segurar o apartamento para ela, apesar de o proprietário ter várias propostas de aluguel.

— Eu não tive oportunidade de fazer muita coisa ainda — ela continuou. — Pendurei duas de minhas pinturas.

— É, reconheci. — Saíram das paredes dele, dei­xando espaços vazios que lhe incomodavam mais do que ele esperava. Ele já se acostumara a vê-los lá. O que só confirmava o perigo dos hábitos.

Ele foi até ao quarto, deu uma olhada, depois ao banheiro, e então à cozinha, que era pequena, mas tinha espaço suficiente para uma mesinha quadrada com quatro cadeiras. Não havia nenhum sinal de pre­sença masculina, mas também aquele cara, fosse qual fosse seu nome, não teria tido tempo ainda de se ins­talar. Se é que realmente pretendia. Heather podia achar que ele não era aflito a compromissos, mas se pensava que ele era o único homem em Londres a agir assim teria cedo ou tarde uma grande surpresa.

Ele enfim terminou sua inspeção e voltou para onde Heather estava, de pé ao lado de um sofá de dois lugares. Bem como ele pensara, ela não estava mais usando aquelas roupas que pareciam sacos e sim cal­ças jeans e uma camiseta curta que fazia seus olhos involuntariamente mirarem aqueles seios fartos.

Graças a Deus ele estava sendo magnânimo o sufi­ciente para ser amigo dela e ajudá-la com seus conse­lhos sobre o sexo oposto. Ele se sentiu muito satisfei­to consigo mesmo por sua absoluta falta de egoísmo.

— Nada mal — Theo disse, desviando os olhos dos dela. — Pequeno, mas não é o tipo de pocilga na qual a maioria dos solteiros costuma morar.

— Eu não moraria em uma pocilga — Heather re­plicou. Pensou no local que alugava antes de se mu­dar para o apartamento de Theo e corou. Aquilo não era o ápice da elegância, com certeza não, mas depois de uma temporada em um dos apartamentos mais chi­ques que podia conceber, suas expectativas de mora­dia mudaram consideravelmente. — Bem, ao menos não mais. Gostaria de beber alguma coisa? Chá? Café?

— Tem algo mais forte? Um uísque seria bem me­lhor.

— Você sabe que eu não bebo uísque, Theo. Por que teria um em casa? — Como ele não estava se jo­gando em seus braços e se dizendo um tolo por não ter percebido antes como precisava dela, Heather co­meçou a ter dúvidas sobre a razão de sua presença em sua casa.

— E vinho, você tem?

— Acho que sim. Tomei uma taça ontem, e a gar­rafa está na geladeira.

Ela começou a caminhar em direção à cozinha e deixou Theo pensando com quem ela teria tomado aquela taça de vinho.

— Você comeu alguma coisa? — ela perguntou da cozinha, enquanto enchia duas taças de vinho.

— Não precisa se preocupar comigo. Mas não, não comi, vim direto do trabalho.

— Eu também ainda não comi. — Ela sorriu e se sentiu culpada por estar gostando da presença dele. Beth teria uma crise histérica se visse aquilo. Passou a ele uma das taças.

Ele bebericou.

— Se você for cozinhar para si mesma, posso acompanhá-la. Não estou com pressa esta noite.

Heather estava louca para perguntar o que havia acontecido com Michelle. Com certeza ele não esta­ria lá se ainda estivessem juntos.

— Vou fazer um macarrão.

— Me fale de seu novo trabalho.

— Você quer macarrão? — Ela quase se ofereceu para fazer outra coisa, mas o bom senso a deteve. Tudo bem que ele tinha vindo visitá-la e parecia estar satisfeito de estar lá, mas isso não anulava a rejeição que ela sofrerá por parte dele.

— Pode ser.

— Não me faça forçá-lo a comer — Heather disse, com um tom rebelde atípico. — O molho é enlatado, e sei que você não gosta de enlatados.

— Simplesmente porque comida caseira é bem mais saudável, para não dizer mais saborosa, do que qualquer coisa em lata. Enlatados são cheios de conservantes.

— E é claro que você sempre teve o privilégio de jamais precisar comer qualquer coisa rapidamente...

— Eu não vim aqui para uma discussão inútil so­bre as vantagens e desvantagens da comida industria­lizada. Por que não me conta sobre seu trabalho? — Ele se levantou e se serviu de mais uma taça de vinho, e esbarrou nela ao voltar para o sofá, provocando on­das de sensações lascivas em Heather.

Distraída pelo breve contato físico, Heather es­queceu da pergunta que estava na ponta da língua: por que ele a havia procurado. Em vez disso, come­çou a conversar animadamente sobre o novo empre­go enquanto cortava tomates, uma pequena conces­são devido ao horror que ele tinha de comida enlata­da, e socava alho. Acrescentou também umas folhas do manjericão que plantava em um pequeno vaso.

O resultado ficou com uma aparência apetitosa.

— Muito saudável — Theo disse com um olhar aprovador. — É alguma nova dieta para sua vida nova vida? Você perdeu peso.

Heather estava orgulhosa disso. Mas de jeito ne­nhum diria a ele que havia emagrecido de pura infeli­cidade e depressão pelo afastamento entre eles dois.

— Pensei que você não ia reparar — ela disse, fe­liz por ele ter notado. Durante as semanas gloriosas que passaram juntos, ele sempre comentava como gostava da fartura de seu corpo. — Mas jamais serei magrela. Quer dizer, a não ser pela cintura e pela bar­riga, meu corpo continua basicamente o mesmo.

Começaram a comer.

— Também reparei isto. Seus seios continuam atraentes como sempre.

Heather corou e procurou se controlar, mas mes­mo assim sentiu uma esperança renovada crescer dentro de si.

— Não precisa ficar me elogiando. Além do mais, você tem namorada, e tenho certeza que ela não fica­ria muito satisfeita em saber que você está aqui, na minha cozinha, elogiando meus seios.

— Eu não diria que Michelle é uma namorada. Eu apenas saí com ela umas vezes, só isso.

— Ah, meu Deus. Será que ela se tornou possessi­va demais com você?

— Não. É que no momento eu ando muito ocupa­do cortejando outra mulher.

Heather tentou não transparecer que estava fer­vendo por dentro.

— Trabalho inútil...

Theo começou a ficar irritado com aquela nova Heather. Onde estava a Heather de antes, que não re­sistia a ele, que estava sempre às suas ordens, à sua disposição?

— Vem se aconselhando muito com sua amiga?

— Beth? Sim, ela tem muita experiência na vida. Conhece todo tipo de gente nos tribunais, e é claro que acabou ficando mais esperta e durona. É difícil enrolar Beth.

Beth. Nem conhecia a outra, mas já se ressentia profundamente da influência que ela tinha sobre Heather.

— Eu não me lembro de ter enrolado você para que viesse trabalhar comigo. Não a forcei a nada. Na verdade, eu nem precisava ter oferecido aquele em­prego, que, aliás, era bem generoso... moradia de gra­ça... um cheque polpudo no fim do mês... trabalho leve que permitia que você fizesse seu curso... mas você podia ter recusado a oferta. — Theo sabia ven­cer uma discussão. — Eu lhe pedi para fingir ser mi­nha namorada por causa de minha mãe, mas não lhe forcei a nada. — Fez uma pausa. — Bem, não vim aqui para discutir com você.

Heather começou a tirar a mesa, sentindo as lágri­mas ameaçando cair de seus olhos.

— Claro que não. Nem eu quero discutir. Parece perda de tempo, seja nos conhecemos tão... tão bem. — Heather suspirou discretamente. — Bem, você quer um café? Acho que terei de me recolher em bre­ve, estou exausta.

— De quê, de pintar o sete?

Heather sentiu seu tom brincalhão, e sorriu.

— Entre outras coisas. Agora que tenho meu apar­tamento, não vejo sentido em ficar parada sem fazer nada.

—Isso também é conselho de sua amiga?

— Não é legal você ficar implicando com ela sem sequer conhecê-la — Heather disse, e olhou para o relógio de pulso.

— Esqueça. Bem, aceito o café. Ainda preciso lhe falar algo.

Ela fez café apenas para ele, mais uma indireta.

— E então?

— Bem, Heather. Não sei bem como dizer, mas eu a vi naquele clube com aquele tal de Sam...

— Scott.

Ele ignorou a correção.

— ... e vi como você é ingênua.

— Como?

— Por exemplo, veja como está sentada agora.

— O quê? Você veio aqui me dar lições de postu­ra?

— Quando você se inclinou para me dar o café eu vi boa parte de seus seios.

Ela ficou com raiva e vergonha ao mesmo tempo. ■ — Então não olhe.

— Impossível. Das duas uma, ou você não tem no­ção de certas coisas, ou então está deliberadamente me provocando.

Ultrajada, Heather não pôde crer no que ouvia.

— Você acha mesmo que eu estou aqui tentando te seduzir? Isto é a coisa mais arrogante e pretensiosa que já ouvi na vida!

— Sendo assim, você comprova minha tese de não ter noção do efeito que causa nos homens. E o mundo está cheio de predadores...

— Predadores? Predadores! Nem todos os ho­mens são como você!

— Pois eu estou longe de ser um predador — res­pondeu com toda a calma. — Sou mais a presa...

— Está querendo se fazer de inocente para mim?

— Não. Só estou dizendo que as mulheres me ca­çam mais do que eu a elas. Bem, voltando ao tal su­jeito...

— Scott não é nenhum predador.

— Como sabe?

— Você veio aqui me dar lição de moral? — Ela se levantou e estendeu a mão para que ele devolvesse a xícara. — Acho que está na hora de você ir embora. Nem devia ter vindo!

— Calma. Não fique histérica.

Heather começou a rir histericamente e puxou a xícara da mão dele, entornando um pouco de café em suas calças. Ele imediatamente se levantou e come­çou a esfregar o tecido.

— E não peço desculpas. Você merece!

— Por quê? Por ter o caráter de querer lhe prote­ger?

Heather conseguiu não gritar que só precisava ser protegida dele e de mais ninguém.


— Muita gentileza sua. Lamento derramar café em você, mas não vou pagar a conta da lavanderia.

— Dane-se a lavanderia! — Theo explodiu. — Eu vim aqui cheio de boas intenções e você as joga na minha cara!

— Eu sei cuidar de mim mesma.

— Pois ouça: cuidado com as roupas que usa, e cuidado para não se exibir involuntariamente, como fez agora há pouco.

— Não vou esquecer. Obrigada.

Ele caminhou lentamente até a porta, e depois ao carro.

Heather então, já só, liberou as lágrimas que lutou tanto para conter.

Enquanto dirigia, Theo decidiu. Queria Heather de volta. E iria conseguir.

Heather acordou de um sonho bom. O telefone to­cava insistentemente.

Ela relutou em atender, e achou que ainda estava sonhando ao escutar a voz de Theo, pedindo descul­pas por acordá-la, mas pedindo, quase exigindo vê-la imediatamente.

— Mas agora? O que foi desta vez?

— Nada que possa ser discutido por telefone. Ela pensou até que ele tivesse sofrido um acidente

ao sair da casa dela. Já o estava vendo estirado no chão, sangrando.

— Preciso levar algo? — ela perguntou, já se le­vantando.

— Levar o quê?

— Sei lá!

— Bem, em vinte minutos meu motorista estará aí.

— OK.

Ela só teve tempo de lavar o rosto e escovar os dentes.

Ao chegar, Heather não encontrou o que temia ao tocar a campainha.

— Você está bem! — ela disse, surpresa.

— Esperava que eu não estivesse? Entre.

— Não vou entrar antes de você me dizer por que me acordou daquele jeito pedindo para que eu viesse aqui.

— Entre que eu explico. Na verdade, não será pre­ciso palavras. É algo que se explica por si só.

Ela entrou.

— Sente-se. Sinto muito perturbar seu sono.

Heather quase caiu para trás ao dar de cara com Claire.

 

 

CAPITULO NOVE

 

Claire resolvera voltar a Londres, e foi procurar a irmã no endereço que tinha — o endereço de Theo.

— Você mudou — disse Claire ao ver Heather. — Não está mais aquela rolha-de-poço de antes.

Heather corou e lembrou de várias cenas da infân­cia. Claire sempre zombando de seu corpo.

— Bem, Claire, eu não moro mais aqui, mas fico feliz em recebê-la em meu apartamento.

— Que pena. Este apartamento é maravilhoso. Foi o que eu disse a Theo quando cheguei.

A imagem da irmã alta, loura e linda jogando char­me para Theo era de enlouquecer.

— Você pode ficar comigo o tempo necessário — Heather disse, mas sabia que não era verdade. Lem­brou de quando dividia o quarto com Claire, que ocu­pava noventa por cento do espaço. Heather não esta­va disposta a isso novamente.

— Estou tão cansada — Claire disse. — Você pode carregar minhas malas lá para baixo? Vou pegar minhas coisas no banheiro.

— Meu motorista cuida disso — disse Theo, e virou-se para Heather quando a outra se retirou. — Ela tomou banho ao chegar. — Então olhou bem nos olhos dela. — Como você agüenta ela tratar você com essa... essa superioridade toda? Desfazendo de você?

Heather sentiu um nó na garganta. Sentia-se humi­lhada.

— Não que tenha pena de mim.

— Não tenho pena de você. Você é quem tem pena de si mesma.

— Não tenho! E Claire é assim mesmo.

— Você não tem espaço na sua casa para a quanti­dade de coisas que ela trouxe.

— O que você quer? — Heather estava indignada. — Quer uma desculpa para hospedá-la?

Claire voltou e Theo não respondeu nada. Heather já estava com a mão na porta, mas Claire ainda jogou mais charme para Theo antes de saírem.

Assim que ficaram a sós, Claire deixou claro como achava Theo um partidão, como ele era lindo e en­cantador, e que se soubesse que ele era assim, teria se produzido melhor antes.

— Eu sei que você sempre gostou de tipos esquisi­tos, Heather. Mas Theo é o meu tipo!

Aquilo foi o fim da linha para Heather.

— Desde quando eu só gosto de homens enfado­nhos Claire? — Heather perguntou, deixando clara sua irritação. Esperava que Claire desse um de seus faniquitos.

Mas a irmã corou.

— Não é que... você só goste de tipos esquisitos...

— Ah! Mas quer dizer que só homens esquisitos podem gostar de mim, não é?

— Você tem de reconhecer que antigamente ne­nhum homem do tipo dele olharia duas vezes para você!


Heather quis contar tudo o que houve entre ela e Theo, mas preferiu manter silêncio.

— Não que você não esteja linda agora — Claire reconheceu. — Fiquei até chocada. Aliás... aconte­ceu algo entre vocês dois quando moravam juntos?

Heather nem soube o que dizer.

— Eu seria uma tola se...

— Ótimo. Então você não liga se eu entrar em con­tato, não é? Ele é um verdadeiro deus do sexo, e esses caras não costumam gostar de mulheres como você, Heather.

— É verdade — Heather disse, se controlando ao máximo. — Eles gostam de mulheres como você:

A autoconfiança que Heather levara tanto tempo para construir estava sendo arrasada.

Mas não era só isso. Ao chegarem, Claire disse que queria dormir na cama, afinal estava cansada. Heather em outros tempos teria deixado, mas foi fir­me e disse à irmã que dormisse no sofá.

Ao acordar na manhã seguinte, Heather encontrou a sala numa bagunça inexplicável. Roupas jogadas pelo chão. Até a toalha molhada que Claire usara es­tava jogada na mesinha de centro.

Heather teve vontade de gritar. Mas não gritou. Em vez disso, sacudiu a irmã, que estava dormindo no sofá.

— Acorde, Claire. São nove horas, hora de acordar. —-Ahn?

— Vamos lá, pode começar a arrumar esta bagun­ça. Na minha casa você precisa seguir certas regras.

Claire sentou-se no sofá.

— Mamãe ficaria horrorizada de vê-la falar assim comigo.

— Será que ficaria?

Claire, ofendida, foi ao banheiro e supostamente arrumou suas coisas, mas ao sair Heather disse que ela tinha que pôr suas roupas dentro da mala de modo organizado.

Heather nem sabia de onde estava tirando aquele ímpeto.

—Se você vai me tratar assim, vou embora agora mes­mo — disse Claire, revoltada com a falta de mordomia.

— Para onde?

— Ora — ela sorriu com malícia. — Tenho certe­za que um perfeito cavalheiro como Theo iria me abrigar se eu pedisse...

— Você não ouse!

— Ahá! Quer dizer que havia algo entre vocês dois, não é? Ou melhor, você queria que houvesse, pois ele jamais daria bola para você.

Heather estava ficando com muita raiva.

— Quem lhe garante que não?

— Ora...

A campainha soou. Quem seria? Claire não hesitou em abrir a porta. Era Theo, se­gurando um buquê de rosas vermelhas.

— Estávamos falando de você agora mesmo — disse Claire, toda dengosa e sorridente. — Que deli­cadeza sua trazer flores, rosas vermelhas são as mi­nhas favoritas!

Theo tentou esconder o desgosto ao entrar no apar­tamento.

Claire se sentou no sofá.

— Sente aqui ao meu lado — ela disse para ele, que ignorou e foi para junto de Heather.

— Quero lhe pedir um favorzinho — Claire pros­seguiu. — Heather está tendo ataques histéricos co­migo aqui. Acho que não sou bem-vinda. Haveria al­guma possibilidade de você me hospedar em seu apartamento? Na verdade, estou procurando empre­go, e posso fazer qualquer coisa que Heather fazia antes.

Heather rangeu os dentes, mas nada disse. Theo o fez.

— Acho que Heather não iria aprovar isto.

Ele então pôs o braço ao redor dos ombros de Heather, que ficou mais calma, mas sem entender aonde Theo queria chegar com aquela visita.

Claire entendeu menos ainda.

— Não sei o que Heather tem a ver com isto. Na verdade, ela praticamente está me botando para fora.

— Perfeitamente compreensível, considerando-se a bagunça que você fez.

— Mas eu não faria isso no seu apartamento — ela replicou. — E se eu fosse trabalhar com você, não ha­veria o risco de eu nutrir paixonites inconvenientes por você...

Heather quis que o chão se abrisse para ela entrar.

— Claire, acho que você não entendeu. Você não vai ficar no meu apartamento.

A expressão de Claire era puro choque.

— Você não contou a ela, não é, meu amor? — Theo disse, olhando para Heather.

— Disse o quê? — Claire perguntou.

— Sobre nós... que estamos ficando noivos. Heather não conseguia falar. Podia não ser verda­de, mas só a cara de pasmo da irmã valia a pena qualquer coisa, após tantos anos agüentando seu jeito mi­mado e egoísta.

Claire correu para o banheiro. De lá saiu carregando suas coisas. Bateu a porta sem dizer tchau e foi embora.

A sós com Theo, Heather sentou-se no sofá em frente a ele.

— O que lhe deu para dizer aquilo?

— Vai me dizer que não gostou de ver a cara de es­panto dela? — O próprio Theo estava espantado com o que dissera. Não havia planejado dizer aquilo, mas agora que havia dito, não queria desdizer.

— Você ficou com pena de mim, é isso? — Heather perguntou.

Ele nada disse.

— Claire não vai desaparecer do nada. Não pode­mos inventar outra história, pois ela não vai viajar como sua mãe viajou. Ela vai ficar em Londres.

— Que bom. Assim ela pode ir ao nosso casamento. Heather olhou para ele furiosa.

— Você não tem direito de ficar brincando assim comigo.

— Pois eu lhe digo o mesmo.

— Eu tornei sua vida mais fácil.

— Tornou mesmo.

— Pare de ficar concordando comigo! E fique sa­bendo que não preciso que você fique me protegendo de ninguém. Não preciso que você me salve.

— Mas eu preciso que você me salve.

— Não fique me enrolando com suas palavras.

— Não tenho intenção de fazer isso, Heather. E se fiz antes, peço desculpas.

Heather ficou perplexa e confusa.

— Você nunca pede desculpas.

— A verdade é que eu só enrolei a mim mesmo, Heather. Eu te amo. Não posso lutar contra isto.

Heather quase engasgou com a saliva.

— O que está dizendo?

— Você entendeu muito bem. Eu vim aqui para reatar com você. Quero que você volte para meu apartamento. Nosso apartamento. Para sempre.

— Para sempre?

— Sim. Para sempre. Desculpe por ser tão idiota a ponto de só perceber agora como amo você.

Beijaram-se ternamente.

— Eu não tinha intenção de dizer à sua irmã que estávamos noivos, mas saiu na hora. E acho que não é má idéia!

E Theo realmente não perdeu tempo. Em quatro se­manas estavam casados. Na Grécia. Para a felicidade de Litsa, e felicidade maior ainda de Heather e Theo.

Claire foi convidada, e compareceu. Ela e Heather acabaram fazendo as pazes quando Claire reconhe­ceu seus maus atos, atribuindo tudo à desilusão que sofrerá nos Estados Unidos, não só com a carreira frustrada, mas com o envolvimento com um homem casado que a destruirá emocionalmente.

Agora ela estava alugando o apartamento que era de Heather.

E Heather e Theo mudaram para a casa de campo. Um lugar perfeito para criar os filhos...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

PROMESSA DO CORAÇÃO

The Antonakos Marriage

Kate Walk

 


CAPÍTULO UM

 

Theo Antonakos não ficou nem um pouquinho entu­siasmado ao saber que ia ganhar uma nova madrasta.

Nunca aceitou a reputação de seu pai com as mulhe­res. Perdera a conta de quantas amantes passaram pela vida dele após a morte de sua mãe, transformando-se em materas substitutas enquanto ele crescia. Nenhuma delas ficou, apesar de que três delas se tornaram espo­sas de Cyril por um tempo, normalmente muito curto.

Agora, pelo jeito, estava chegando a quinta senho­ra Antonakos. Para ser franco, Theo não nutria muita expectativa que esta durasse mais que as anteriores, mas ela era responsável indireta pela inquietude que o estava consumindo naquela noite.

Pegou sua taça de vinho, bebeu tudo e bateu com a taça na mesa, revelando o turbilhão interno de suas emoções.

Costumava adorar a vibração trepidante de Lon­dres, a sensação de gente indo e vindo, vivendo suas vidas agitadas. As ruas lotadas, as luzes, o zunido dos carros, tudo aquilo lembrava sua casa em Atenas,, a vida que levava na cidade, a batalha pelos negócios que trazia o desafio que ele tanto apreciava.

Mas quando ficava escuro, úmido e frio como ago­ra, naquela noite de outubro, ele preferia estar em qualquer lugar que não em Londres. Tinha saudade

do calor do sol grego em suas costas, o marulho dengoso do oceano batendo nas pedras que cercavam a ilha de sua família. Saudade do som da língua de seu povo. Saudade da família. Droga, como tinha sauda­de de casa!

Tudo começou com a carta que chegou pela manhã.

Bastou uma olhada no selo grego para ele ficar an­sioso e inquieto. Nem precisou conferir o remetente, pois já sabia quem era.

O pai havia quebrado o silêncio, enfim.

— Ah, vamos lá, ruiva, relaxe. Sente-se e beba algo conosco!

Após a frase ligeiramente incompreensível vieram risadas em coro do outro lado do bar, fazendo-o olhar naquela direção. Alguns jovens estavam bebendo cerveja sentados à mesa, as garrafas se enfileirando na superfície polida.

Mas foi a mulher que estava com eles que lhe cha­mou a atenção. Cativou-o de verdade.

Não dava para ver seu rosto, ela estava de costas. Mas dava para perceber que ela era espetacular. Físi­ca e sexualmente espetacular, de um jeito que faz o desejo se contorcer e esquentar por dentro em reação imediata.

Cabelos longos de um vermelho glorioso e brilhante caindo pelas costas como uma cascata rubra com refle­xos acobreados que cintilavam apesar da meia-luz do bar. Era alta e bem feita de corpo: ombros estreitos, co­xas bonitas e um traseiro firme, ligeiramente empinado debaixo de sua apertada saia preta.

Saia? Theo quase riu. Aquilo parecia mais um pro­longamento do cinto do que uma saia. Deixava à vista as longas e elegantes pernas cobertas por meias fi­níssimas. Nos pés, saltos impossivelmente altos.

— O que você quiser, meu bem...

Havia algo nela que lhe cativava a atenção.

E já fazia muito tempo que estava sem mulher ne­nhuma. Era por isto que estava interessado. Desde que Eva partiu três meses atrás que ele não se envol­vera com mulher nenhuma.

Podia ter quantas mulheres quisesse. Sabia, sem falsa modéstia, que seu tipo moreno atraía a atenção e o interesse das mulheres. Para completar, tinha a fortuna que vinha da família e do seu próprio traba­lho, garantia de só ficar sozinho à noite se quisesse.

Mas ultimamente saber daquilo não bastava mais. Andava irascível, queria mais.

Mas não com Eva. Foi por isso que eles discutiram e por isso que ela foi embora. Eva achou que tinha conseguido se dar bem. Ouvira sinos soando e vira alianças douradas em seus sonhos, e ele teve que fazê-la acordar à força. Como resultado, ela partiu. Eva não era do tipo de mulher que insistia quando percebia que não ia conseguir o que queria.

E para ser honesto consigo mesmo, não estava realmente com saudades dela.

— Não mesmo, obrigada.

A voz dela se destacou em um daqueles súbitos lapsos de silêncio nos quais até a voz mais baixinha soa clara e audível na quietude do recinto.

E que voz! Grave e sensual, surpreendentemente rouca para uma mulher. Ele começou a imaginar aque­la voz sussurrando coisas para ele em sua enorme e aconchegante cama king-size. Theo ficou com a boca seca e contraiu os músculos do corpo só de pensar. Mas no momento seguinte o clima sexy desapareceu e os pensamentos eróticos foram carregados para longe por uma dramática mudança de tom em sua voz.

— Eu disse que não, obrigada.

Theo se levantou antes de se dar conta. As pala­vras dela soaram de um jeito, como se estivesse cons­trangida, rejeitando a posição em que se encontrava. Era evidente que ela não estava contente.

Após meia dúzia de passos ele parou atrás dela. Nem ela nem os homens com quem ela estava falan­do o notaram.

Skye Marston sabia que estava encrencada.

Na verdade, soube disso logo após cair na besteira de dar conversa àqueles dois. Não devia ter parado, não devia ter respondido ao aceno casual e amigável dos dois quando ela estava entrando.

Ao aparentemente casual e amigável aceno.

Ela entrou no bar por impulso. Pareceu cheio, bem iluminado e quente, enquanto lá fora estava choven­do canivetes e batendo um vento gelado. Ela queria muito ver gente. Passara tempo demais sozinha, o que a deixava vulnerável a pensamentos tristes.

Fazia mesmo menos de um mês que seu pai havia perdido tudo e assumido que seus problemas finan­ceiros eram bem piores do que ele deixava transpare­cer? Ao tentar lidar com estes problemas ele conse­guiu piorar a situação mais ainda desviando dinheiro de seu chefe, o milionário grego Cyril Antonakos, dono da rede de hotéis da qual era gerente. Agora es­tava desaparecido e pegaria um bom tempo na cadeia se Antonakos chamasse a polícia.

— Não posso ir para a cadeia, Skye! — ele disse, chorando. — Não agora que sua mãe está doente. Ela não vai agüentar! Não vai conseguir ficar sem mim. Você precisa me ajudar!

— Vou fazer tudo que puder, pai — disse Skye instintivamente, sabendo que não havia mais nada que pudesse dizer.

O problema no coração da mãe já havia causado muita preocupação antes, mas ultimamente sua saúde estava piorando. Tudo indicava que, se a próxima operação não desse resultado, a única esperança seria um transplante de coração.

— Faço qualquer coisa, pai, apesar de não saber o que posso fazer.

Mas o pai sabia. Cyril Antonakos já havia sugeri­do uma maneira de escapar da terrível armadilha na qual Andrew Marston se metera. E Skye escutou, horrorizada, o pai revelar como ela era vital para o esquema. Cyril queria um herdeiro. Para tanto, evi­dentemente precisava de uma esposa, e como seu úl­timo casamento terminou em divórcio litigioso, ele escolheu Skye para mãe de seu filho. Se ela se casas­se com ele e lhe desse o herdeiro que ele tanto queria, Cyril não diria nada à polícia.

Para salvar Andrew Marston da prisão, ela teria de casar com um homem mais velho que seu próprio pai.

E tinha de dar a resposta amanhã. Por isto estava sozinha, aproveitando sua última noite de liberdade entre as luzes da cidade e os bares agitados de Londres. Tudo o que queria era se distrair e não pensar no que teria de encarar no dia seguinte.

Entrou no bar e foi direto pedir a bebida.

Imediatamente sentiu que havia cometido um erro.

Sim, o bar estava quente e suficientemente ilumi­nado. Também tinha muita gente. E todos pareciam se conhecer. Ninguém estava sozinho, sem ninguém com quem conversar, para quem sorrir.

E mesmo se estivessem sozinhos, ela pensou, nin­guém poderia estar mais sozinho do que ela naquela noite.

Quando estava para sair do bar quando viu outra pessoa que estava, como ela, sem companhia.

Será que ela conseguiria, e será que devia, se le­vantar para ir falar com ele? Esta era a idéia desde o início. Encontrar alguém para conversar, e então, quem sabe, afastar esta sensação de perda e isola­mento, derretendo o bloco cruel de gelo que parecia cercar seu mundo para que ela gozasse alguns mo­mentos de liberdade antes do mundo se fechar sobre ela mais uma vez.

Mas aquele homem não parecia do tipo que faria aquilo por ela. Era grande e moreno demais, parecia perigoso demais com aquele corpo imenso jogado so­bre a cadeira, aparentemente à vontade em sua força cuidadosamente controlada. Havia algo nele que fez o coração dela disparar no peito, ela quase perdeu o fôlego, perplexa. A cabeleira negra dele estava vira­da para o outro lado e seus olhos contraídos miravam a taça de vinho em suas mãos.

Era quase como se ela tivesse flagrado um felino aguçado e sagaz se espreguiçando em alguma clareira na floresta. Ao vê-lo, Skye pensou duas vezes e não saiu do bar.

Foi quando ela ouviu alguém chamá-la de uma mesa próxima.

— Olá, querida. Procurando por alguém?

Se ela não estivesse tão entretida pela visão daque­le moreno, tão desesperada por companhia e distra­ção, Skye teria dado apenas um sorriso automático, murmurado qualquer coisa e se afastado. Mas seus passos já haviam diminuído de ritmo, ela já havia pa­rado ao lado da mesa e não conseguia falar nada para sair da situação.

E eles acharam que ela tinha resolvido passar a noite com eles — e muito mais. Seus sorrisos e o modo lascivo e atrevido com que a olhavam de cima a baixo a fez se sentir mal. Ela podia estar querendo passar uma última noite na condição de mulher sol­teira de 22 anos, mas não era nada disto que tinha em mente.

Ela tentou recusar ofertas de bebida com um sorri­so educado, mas viu que eles não estavam aceitando. O louro estava ficando cada vez mais agressivo, e, quando ela tentou se afastar, o outro, de cabelos escu­ros, agarrou seu braço com força.

— Então, qual é o problema, nós não somos bons o bastante para você?

— Não, nada disso, é que estou esperando uma pessoa.

— Quem? — perguntou, demonstrando não acre­ditar nela.

— Meu... meu namorado. Ele marcou... de me en­contrar aqui.

O louro olhou ao redor teatralmente, como quem procura um sujeito imaginário.

— Então acho que por deram um bolo, ruiva. Ele não vem mais.

O outro a puxou pelo braço com mais força.

— Ele., só está atrasado.

— Sabe o que eu acho, ruiva?

A voz dele era um sussurro irônico, e seus olhos ti­nham um brilho maldoso.

— Acho eu ele não vem. Na verdade, tenho para mim que você está mentindo... que este cara não existe.

— Ah, existe, sim.

Skye quase pulou como uma gata assustada ao es­cutar aquelas palavras vindo detrás de si. Aquela voz masculina, profunda e com um sotaque bonito que era a última coisa que ela podia esperar. Era a fanta­sia que ela podia ter, a do amor de sua vida salvando-a de uma situação horrível.

Mas não se tratava de fantasia nenhuma. O olhar perplexo de seus algozes saiu do foco de sua mente. Eles estavam boquiabertos. O rapaz que apertava seu braço afrouxou a mão e finalmente a soltou, chocado:

— Ah!

O discreto muxoxo de assombro saiu de Skye en­quanto um par de braços musculosos deslizou por sua cintura, vindo de trás. Aquela figura potente e pode­rosa parada atrás de si lhe abrasou a alma com seu ca­lor e sua força.

Ela se sentiu segura, protegida, envolvida por aquele homem desconhecido. Sua afabilidade e seu vigor a cercavam, o som de sua respiração dominava seus ouvidos e o cheiro de sua pele preenchia suas na­rinas.

— Desculpe pelo atraso, querida — murmurou a voz rouca contra seu pescoço. — Você sabe como es­tas reuniões demoram. Mas já cheguei.

— Hummm.

Foi tudo que ela conseguiu dizer, e não se importa­va se soou mais como uma reação sensual do que como uma resposta coerente.

Seu corpo estava latejando por inteiro, ardendo em reação ao mero toque daquele desconhecido. Ela não estava vendo seu rosto, as únicas partes de seu corpo que conseguia ver eram as mãos que ele pôs em sua cintura.

E eram mãos extremamente masculinas. Grandes, quadradas e ágeis. Os dedos dela até diminuíram de tamanho quando ele tomou sua mão. Ele não usava aliança ou anel. Seu único adorno era um relógio de platina no pulso.

— Você me perdoa?

— Sim, claro!

Como ela poderia dizer outra coisa? Ela teria con­cordado com qualquer coisa, aceitado qualquer coisa vinda dele. Era impossível pensar direito.

Ela sentiu o movimento detrás de si, fora do campo de visão. Percebeu o roçar de pêlos sedosos na boche­cha e a pressão daqueles lábios quentes na nuca. Quase perdeu o fôlego, seu coração por pouco não pulou do peito. Reclinou, então, a cabeça com olhos semicerrados sobre aquele ombro protetor e firme.

— Ei!

A voz do estranho soou suave, com tom de leve re­provação, cingida por uma risada perturbadora.

— Aqui, não, querida — ele disse maldosamente. — Melhor esperar chegarmos em casa!

Em casa! Ela não estava indo a lugar nenhum com aquele homem...

Aquilo a fez voltar ao à realidade num piscar de olhos. Aprumou a cabeça incisivamente e abriu a boca para dizer algo. Mas ela não conseguiu dizer nada.

— Vamos, meu bem. Despeça-se de seus amigos. Foi o jeito que ele falou amigos que a alertou. Ela quase entregou a mentira. Se ela reclamasse, deixaria claro que ele estava apenas salvando-a, não era na­morado coisa nenhuma.

— Tchau, pessoal. Obrigada pela companhia! Quem era aquele homem que veio salvá-la tão prontamente? A questão voltava à sua mente enquan­to saiu do bar de mãos dadas com ele.

Ele era alto e de compleição forte, isto ela podia dizer só de olhar de canto de olho. Ela se deixou con­duzir, aliviada por se afastar daqueles homens incon­venientes.

Saíram.

— Agora, espere!

Ela parou como se estivesse freando a si mesma.

— Já está bom!

Desta vez sua voz o alcançou. Ele parou de repen­te, deu meia-volta para encará-la, e ela viu seu rosto pela primeira vez sob a iluminação de um poste.

Ela já vira aquele rosto antes. Aquele rosto anguloso e de expressão arrogante. Os olhos negros como piche, profundos, contrastando com as maçãs do ros­to penetrantes, o nariz retilíneo e os cabelos encorpados e mais negro que as sombras noturnas que o en­volviam.

— Você!

A palavra escapou com estupor ao reconhecer o homem que vira do outro lado do bar. A única outra pessoa que estava sozinha naquele lugar tão agitado.

O homem de quem ela não ousou se aproximar por um medo instintivo que a deteve. Sua intuição aflorou para alertá-la, piscando luzes vermelhas onde se lia "Perigo - Mantenha distância - Não toque". Ela sabia que algo de muito profundo e primitivo estava aconte­cendo dentro dela, o que a fez sentir que ele era alguém que devia tratar com muita cautela, como quem se aproxima de um felino selvagem no meio da caçada.

E visto de perto a impressão redobrava. Mais peri­goso, mais devastador. Mais flagrantemente masculi­no. Mais atraente ainda, e até seu inegável sex-appeal carregava um quê de perigo subjacente.

Não era o tipo de homem que ela costuma encon­trar. Não lembrava em nada o tipo de homem que ela conheceu em casa e no trabalho, os poucos com quem saiu apenas amigavelmente. Este homem estava além de sua experiência e de seu conhecimento. E com toda certeza, muito além de sua capacidade de auto-controle.

Seus instintos estavam gritando mais uma vez que ela estava perdida nas mãos daquele homem.

Estava saltando da frigideira direto para o fogo.

 

 

CAPÍTULO DOIS

 

— Eu?

A reação de Theo à exclamação perplexa de Skye foi da maior calma que ele pôde fingir, embora por dentro estivesse a ponto de perder o controle.

Não devia tê-la tocado.

O corpo dele ainda ardia só de pensar nisto; seu cé­rebro quase derreteu com aquele calor erótico que inundou cada centímetro de seu corpo, deixando-o excitado e cheio de desejo instantaneamente. Ele ain­da estava sentindo os efeitos daquela maré flamejan­te, evidenciando o choque térmico com o ar gelado das ruas.

Ele não devia tê-la tocado, mas também não estava esperando que ela reagisse daquele jeito, deitando a cabeça em seu ombro, encostando-se nele.

Mas agora ela estava agindo como se ele fosse um demônio e não alguém por quem ela estava esperan­do.

— Você estava esperando por outra pessoa?

— Não... Não exatamente. Eu... é que eu não pen­sei que fosse você a vir me ajudar. Eu devo lhe agra­decer — ela disse, já muito tarde para desfazer a con­fusão na cabeça dele.

— Não foi nada.

Theo sabia muito bem que os impulsos frustrados de seu corpo estavam distorcendo seu humor, deixan­do-o irritado e arisco. E o que piorou muito este mau humor foi se certificar, ao encará-la, que era mesmo tão bonita de frente quanto insinuava ser de costas.

Ela era linda. Rosto oval, pele suave. Olhos claros e luminosos com cílios incrivelmente grossos e abun­dantes. Boca delicada de lábios fartos que pareciam feitos para beijar e inspiravam pensamentos alucina­damente eróticos.

— Eu preciso me apresentar.

Ela estendeu a mão de modo estritamente formal.

— Meu nome é... Skye...

A hesitação antes de dizer o nome e o fato de não ter acrescentado nenhum sobrenome transmitiu a mensagem de que ela não queria confiar-lhe maiores detalhes de sua identidade. Muito bem, para ele não tinha problema nenhum.

— Anton — ele grunhiu, sabendo que estava sen­do forçado a lhe apertar a mão, mas tornando o con­tato o mais breve possível.

Não queria ser acometido novamente por aqueles desejos cruelmente impositivos que o tomaram por completo pouco antes. Principalmente porque Skye parecia estar disposta a seguir seu rumo e não havia chance de acontecer nada além entre eles dois.

— Anton.

O jeito que ela repetiu o nome que ele disse o fez suspeitar que ela soubesse, ou suspeitasse, que não era verdadeiro.

Ele não estava nem aí mesmo. Até na Inglaterra o nome Antonakos — e, principalmente, a fortuna da família Antonakos — era tão conhecida que só de sa­ber que ele era um deles bastava para criar interesses vindos do nada e fazer as pessoas o tratarem diferen­te.

E sua experiência lhe dizia que as mulheres eram as mais implacáveis no ataque. Elas viam no nome Antonakos imagens de garantia de boa vida para sempre, um futuro de luxos e conforto, bastando ape­nas jogar as cartas certas.

E ele não sabia bem que tipo de carta esta tal de Skye guardava na manga, de modo que preferia man­ter a discrição quanto à sua identidade verdadeira.

Não que ela parecesse minimamente interessada no momento. Aqueles olhos luminosos estavam vas­culhando a rua de alto a baixo.

— Está à procura de alguém?

Estava desconfiado. Droga, será que ele tinha se enganado? Soltou um palavrão inaudível ao pensar aquilo. Não queria que ela estivesse esperando por ninguém. Ele pensou que o namorado que ela men­cionou fosse de mentira — ou melhor, ele queria que ele não existisse.

A verdade é que ele queria aquela mulher para si, e no momento estava preparado para fazer qualquer coisa para tê-la.

— O namorado que você disse existe mesmo?

— Ah, não.

Ao balançar a cabeça, uma mecha de cabelos ver­melhos esvoaçou sobre seu rosto, e algumas gotas da chuva fininha que caía cintilaram entre os fios rubros e brilhantes.

— Não, eu inventei aquilo para que me deixassem ir embora. Não estava procurando ninguém, só por um táxi.

— Posso lhe dar uma carona para onde quiser.

— Um táxi já estará ótimo. — Em outras palavras, o recado era "mantenha distância". Nenhuma ação física seria mais capaz de aumentar a distância entre os dois.

Um táxi preto estava se aproximando e ela fez si­nal, mas já era tarde demais. O veículo passou sobre uma poça, enlameando-a dos pés à cabeça.

— Posso lhe dar uma carona para onde quiser.

O modo com que ele repetiu exatamente o que disse­ra fez Skye corar. Ao encarar seu olhar negro e aceso e perceber a tensão em seu maxilar, Skye entendeu tudo.

Ela o insultara com sua recusa. Ele também estava com raiva, algo a fez sentir que aquela rejeição o atingira de alguma forma.

— Eu estava apenas tentando ser razoável — ela conseguiu dizer, enfim.

— Um pouco tarde para isto, não?

— O que quer dizer?

— Bem, a situação na qual você se meteu aqui... — Apontou com a cabeça para o bar enfumaçado e ruidoso. — Não sé pode dizer que aquilo é jeito de gente razoável agir.

Skye interpretou a ênfase na palavra razoável como provocação. Empinou o queixo, com os olhos já inflamados.

— Eu não pedi por aquilo. Simplesmente aconte­ceu.

— Só lhe ofereci uma carona.

A resignação no tom de sua voz indicava que ele estava usando as últimas reservas de paciência.

— Descul... — ela começou a dizer, mas ele saiu caminhando, ignorando-a.

— Fui criado para não deixar mulher nenhuma correr riscos se eu puder evitar.

— Então, por favor, consiga um táxi para mim. Ela torceu para ele não discutir mais, pois estava

também no limite do autocontrole.

— Não.

A resposta foi fria, curta e grossa, e ela ficou arre­piada de ouvir.

Saltando da frigideira direto para o fogo. A frase nefasta que lhe veio à mente assim que saíram do bar estava agora girando dentro de sua cabeça, e sua mente pareceu prestes a explodir.

— Você não precisa de táxi. Eu a levo para onde quiser.

Skye fechou os olhos, tremendo de horror ao ten­tar imaginar no que daria aquilo. Não queria nem pensar no que o pai acharia ao vê-la chegar em casa em um carro estranho, com um homem desconheci­do. E queria pensar menos ainda no que seu "noivo" acharia daquilo.

Ah, por que ela foi pensar naquilo? Por que ela foi acreditar que podia se dar ao luxo de uma escapada noturna só para tentar formar uma barreira imaginá­ria entre ela e o futuro que lhe aguardava?

Por que ela foi pensar que tinha direito a uma noite como as de suas amigas, gozando a liberdade da ju­ventude em uma noite de irresponsabilidade, de abandono total antes que os muros de restrição se fe­chassem ao redor dela de uma vez por todas?

Ela nunca conseguiu viver assim, nem quando go­zava sua liberdade — a liberdade da juventude. En­tão por que estava achando que podia viver isto ago­ra, só por esta noite?

— Eu mesma arrumo um táxi, então.

Ela se afastou de um jeito malcriado, sabendo no fundo de seu coração que estava na verdade fugindo de si mesma, não dele. Mas estava mais perto do meio-fio do que pensou, e pisou em falso torcendo o salto. Teria caído direto em uma poça no meio da es­trada se aquele homem não tivesse reagido com velo­cidade instintiva.

— Skye, cuidado!

Num piscar de olhos ele estava atrás dela, segurando-a antes que o tropeço virasse queda e trazendo-a de volta para a segurança da calçada.

Segurança? Ou trazendo de volta para o cerne do perigo?

Skye não teve como saber. Sua cabeça estava ro­dando demais depois do choque da quase queda, não dava para pensar direito.

A posição em que ela se encontrava tampouco aju­dava. Anton a havia agarrado de um jeito que a dei­xou bem junto dele, envolvida por aqueles braços, com a cabeça encostada ao peito dele, o coração ba­tendo direto em seu ouvido.

E foi quando começou de novo.

Do mesmo jeito como quando ele veio por detrás dela no bar, o sangue de Skye começou a esquentar outra vez como reação àquela proximidade. O cora­ção disparado, como o dele. Ela estava em seus bra­ços, sentindo seu calor e sua força fazendo seus pen­samentos derreter em sua mente.

Era como voltar para casa.

Era como se ela sempre tivesse estado ali. Como se aquele fosse o lugar dela de verdade. O lugar onde mais queria estar no mundo. E com o movimento de aconchego típico de uma criatura pequenina queren­do se proteger do mundo duro e frio lá fora, ela se aninhou, afundando o rosto na parte da frente de sua camisa, as mãos deslizando debaixo de seu casaco, agarrando-lhe a cintura com os braços.

Sentiu que ele a segurou com mais força ainda, in­clinando a cabeça morena e aproximando tanto seu rosto do dela que ela pôde sentir aquela barba que co­meçava a crescer roçando na delicada pele de seu ros­to. Ela sentiu — mal conseguindo acreditar — a sua­ve quentura daquela boca em seu pescoço, na base da orelha e escutou o suspiro fundo que ele deu ao sus­surrar com a voz rouca de encontro ao ouvido.

— Skye, não vá, fique! Quero que você fique.

— O quê?

Será que ele havia dito mesmo aquilo que ela acha­va estar ouvindo? Não podia crer. Não podia ser real. Ela só podia estar sofrendo de alguma alucinação au­ditiva, estava escutando o que desejava escutar.

Não era possível. Homens como aquele tal de Anton não ficavam por aí implorando para as mulheres saírem com ele, assim sem mais nem menos.

Será que ele havia mesmo dito...?

Ela tentou olhar para o rosto dele, para ver se con­seguia ler a resposta em sua expressão, mas quando levantou a cabeça ele abaixou o rosto e seus lábios se encontraram num beijo quente e tão inesperado quan­to desejado, que a fez sentir um formigamento pelo corpo todo.

Isto não pode estar acontecendo, foi a única coisa que ela conseguiu pensar antes do curto-circuito que se deu em seu cérebro, que abdicou da razão e virou sentimento puro.

A boca daquele homem era pura sedução, puro pe­cado. Seu beijo lançou-lhe um feitiço que a fez derre­ter em seus braços, perdendo-se na sensação de se tornar parte dele. Os lábios de Skye se entreabriram, encorajando a invasão fervente daquela língua, e ela gemeu baixinho, um som de total entrega e rendição, tornando-se apenas uma mulher reagindo a um ho­mem. Algo de muito sensual se desenrolou dentro do corpo de Skye, e ela sentiu a umidade intensa que se formou entre suas coxas.

Os sons e luzes da rua se tornaram um mero borrão no fundo de sua mente enquanto ele a puxou com seu braço forte, quase a levantando no ar. Suas mãos for­tes seguraram uma mecha que lhe caiu sobre o rosto e então seus dedos adentraram a massa de cabelos e começaram a acariciar vigorosamente o crânio. A chuva começou a cair mais forte, mais gelada, mas

Skye nem prestou atenção, perdida em um mundo onde nada lhe atingia.

Alguém assoviou ao longe e eles começaram a se afastar, lenta e relutantemente, com olhos abertos, arfantes, olhando um para o outro com rostos levemen­te deslumbrados, cientes do fogo primitivo que s acendera entre os dois.

— Eu... — Skye começou a falar, mas sua voz fa­lhou quando ela realizou o que havia acabado de acontecer.

Então era isso. Eram assim as relações entre ho­mens e mulheres. Era daí que vinham palavras como desejo e paixão, era isto que estava por detrás destes termos. Até então ela não sabia o que queriam dizer.

Até então.

Mas agora era tarde demais, ela pensou, sentindo pontadas nos olhos avisando das lágrimas nascentes.

Agora que ela já tinha um destino infeliz à sua es­pera.

Agora que ela sabia que estes prazeres e esta feli­cidade lhe seriam negados para sempre.

A não ser por esta noite, disse uma vozinha em sua mente, trazendo consigo sonhos e esperanças de um tipo que ela jamais se permitiu pensar antes. Sonhos que a faziam estremecer só de pensar.

Sonhos que estavam, naquele momento, ao seu al­cance. Tudo que ela precisava fazer era esticar a mão para tocar este sonho feito realidade. Por aquela noi­te; só por aquela noite.

— Skye? — o homem chamado Anton chamou suavemente, fazendo-a perceber que estava havia muito tempo em silêncio, distante, trancada na som­bria e nefasta escuridão de seus pensamentos.

O calor de seu corpo ainda a envolvia. Já não a se­gurava com tanta força, mas seus corpos ainda se to­cavam e ela sentiu na altura do ventre a pressão firme que vinha dele, demonstrando além de palavras o de­sejo contido naquele beijo. O mesmo desejo que ha­via no beijo dela. Que ainda pulsava em seu sangue e fazia estremecer todos os seus nervos.

Ele a queria tanto quanto ela o queria.

Mas ela acabara de conhecê-lo.

— Não vou lhe fazer mal. — A voz rouca e grave transbordava desejo. Tão rouca e tão grave que ela fi­cou chocada de pensar que podia causar esta reação em um homem, menos ainda naquele homem. Tão alto e imponente, um homem devastador.

— Juro que você vai estar bem ao meu lado, pro­meto...

O coração de Skye parecia prestes a atravessar o peito, batendo descompassado e selvagem, e ela qua­se entrou em pânico ao perceber o que estava pensan­do em fazer. Mas a dor do desejo ainda latejava em seu corpo e não a abandonaria assim, do nada.

Se ao menos isto tivesse acontecido antes, se ela tivesse conhecido Anton antes...

Mas não. Isso seria desejar o impossível. Seu des­tino fora selado e ela não tinha alternativa a não ser seguir o caminho que lhe designaram. O caminho que ela aceitou seguir.

Não tinha escolha senão aceitar.

A partir de amanhã, tudo seria diferente. A partir de amanhã, sua vida não seria mais sua.

Skye mordeu o lábio inferior, deixando marcas ar­redondadas na carne rosada.

Amanhã.

Na semana passada ela chegou a pensar em fugir, mas não tinha como. Sonhou com esta fuga, esperou por ela, torceu para ter uma oportunidade. Mas não haveria oportunidade. Muita gente dependia dela. Se ela tivesse alguma dúvida quanto a isto, a notícia de que o coração de sua mãe estava irreversivelmente debilitado afastou qualquer dúvida possível. Ela não podia fugir e deixá-los desamparados.

Mas ainda tinha a noite de hoje.

Hoje ela podia escapar, ao menos temporariamen­te, de tudo que a detinha. Podia escapar para um mun­do de fantasia e sensualidade. Um mundo tão irreal que ela nem conseguia acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo com ela. Um mundo no qual, ao menos uma vez na vida, pela primeira e última vez, apenas por algumas horas, ela poderia experimentar o ápice da paixão e a sedução incisiva que tinha aca­bado de conhecer agora mesmo.

Uma das coisas mais difíceis de aceitar em relação a este casamento com Cyril Antonakos era o fato de sua indesejada noite de núpcias vir a ser sua primeira vez na vida. Era virgem, pois jamais conhecera antes nenhum homem que lhe despertasse a vontade de mudar esta situação. Até agora.

Agora não conseguia nem pensar na idéia de per­der a virgindade com aquele homem de quase sessen­ta anos, que seria seu primeiro e único homem, pois Anton mal a tocava e ela se consumia em calores.

Ela podia ter aquela noite.

Juro que você vai estar bem ao meu lado, prome­to...

Ele nem precisava saber seu nome. E amanhã o mundo se fecharia para ela novamente, como uma Cinderela moderna.

Mas ela teria aquela noite.

Se ao menos ela conseguisse reunir forças para respondê-lo. Se ao menos tivesse a coragem de di­zer...

— Skye?

Seu nome soou mais áspero em sua língua agora, com aquela impaciência rude e aquele sotaque devas­tador parecendo diferente e estranho. Seu nome tam­bém soou diferente.

— Não vai me responder?

Skye tentou. Engoliu em seco, se esforçou para manter o controle e ganhar forças.

Então ela sentiu aquela mão de dedos longos to­cando seu queixo e puxando seu rosto levemente para cima para fazê-la olhar em seus olhos. E os olhos cin­zentos de Skye mergulharam na escuridão profunda dos olhos dele.

Ele abaixou a cabeça lentamente e sua boca se en­caixou delicadamente à dela. Desta vez o beijo não foi selvagem e derramado como o de momentos an­tes; desta vez foi suave, lento e de uma ternura tocante. Ela sentiu como se sua alma fosse sair do corpo, como se seus ossos fossem derreter, e então recome­çou a tremedeira, fazendo-a se apoiar nele, carente da força que nele sobrava.

— Então diga, minha linda — ele sussurrou em uma voz grave e encorpada como o veludo do céu no­turno sobre suas cabeças. — Você vai ou fica?

Minha linda, Skye pensou, inebriada.

Ninguém jamais a chamara de linda. Ou a fizera sentir algo como aquele beijo.

De repente havia apenas uma resposta possível.

Aquela noite tinha de ser sua. Ela podia até se ar­repender depois, quando tivesse de encarar a realida­de. Mas estava certa de que arrependimento maior ela sentiria se dissesse não a ele.

Então ela levantou a cabeça e o beijou novamente, respondendo com carícias, apesar de ciente da neces­sidade de usar palavras.

— Ah, sim — ela arfou suave e confiantemente. — Sim, claro que fico. Mas com uma condição...

 

 

CAPÍTULO TRÊS

 

Theo clicou no interruptor para acender a luz e deu uma olhada no recinto de modo crítico, formando um vinco na testa.

— Tem certeza que é isto que você quer?

Ele achou que estava bom para um quarto de hotel. Ao menos era limpo e tinha um tamanho razoável, com uma cama aparentemente confortável, mais os móveis de sempre. Um pequeno banheiro fazia parte da suíte, coberto de severos ladrilhos brancos e com toalhas igualmente brancas, além de artigos de toalete sobre a pia.

Tudo sem alma, funcional e impessoal, portanto pouco receptivo. De jeito nenhum o tipo de lugar em que ele esperava acabar a noite.

Mas nada correu como esperado.

Ele com certeza jamais previu que ia acabar em um quarto de hotel com uma mulher que lhe desper­tava os instintos mais primitivos, mas sobre quem sa­bia somente o primeiro nome.

— Somos estranhos — ela disse — e quero que continue assim. Você não me conhece e eu não co­nheço você, é assim que tem de ser.

De jeito nenhum! Foi isto que ele disse de início. Ele começou a se virar para ir embora, mas ela ainda estava muito perto dele, seus braços ainda estavam na cintura dela, e o sangue quente correndo em suas veias, o desejo intenso que clamava aos seus sentidos e lhe embotava os pensamentos.

Ele não podia deixá-la partir.

Ele percebeu que não podia fazer isso no momento em que ela se virou para pegar um táxi e sair de sua vida. E se ela fosse embora agora, não voltaria mais. Ele não teria como localizá-la. Ela desapareceria dentro da noite e ele jamais a veria novamente; não saberia mais nada sobre ela.

— Você está pedindo muito, minha dama — ele disse, com a voz rouca e ríspida.

Ela não indicou reconsiderar. Encarou-o firme­mente com seus olhos claros e cinzentos e os lábios fechados com determinação.

— Ou isto, ou nada — ela disse, e levou a mão ao peito dele, acariciando por sobre a camisa. O movi­mento de seu braço fez ele sentir uma lufada de seu cheiro novamente.

A pele dele ardia ao toque dos dedos de Skye, e seu coração batia em um compasso selvagem.

— Ou isto, ou nada — ele repetiu, sabendo que não poderia viver com " nada". Ele se arrependeria pelo resto da vida se deixasse aquela mulher lhe esca­par agora.

— Como preferir, minha dama — ele disse. — Como preferir.

E era assim que ela preferia. Ao menos por aquela noite. Bem, ele poderia deixá-la ditar as regras por aque­la noite — afinal, ela não era a única ali a ser um tanto... econômica no que diz respeito à verdade. Mas sempre havia o dia de amanhã.

No dia seguinte ele faria um monte de perguntas. E faria questão de respostas claras.

Enquanto isto, passaria aquela noite convencendo-a de que não se tratava de " ou isto, ou nada". Não mesmo.

— Skye? — ele perguntou ao ver que a mulher que entrara no quarto com ele não estava dizendo nada. — Que foi? Mudou de idéia? Que desistir do nosso acordo? Vai voltar atrás? Será que ela queria?

A própria Skye estava se perguntando isto quando subiram para o quarto. A verdade é que sua coragem e convicção estavam fraquejando desde que ela con­cordou em passar a noite com ele.

Claro que ela o chocou ao dizer que só ficaria na condição de não dizer seu nome completo a ele, nem ele a ela.

Ela pensou que ele fosse dar-lhe as costas quando disse isso. Certamente sua expressão foi a de quem queria fazê-la engolir aquela proposta cretina. Ele fe­chou a cara e suas feições de repente pareceram es­culpidas em mármore.

Mas ele então piscou uma vez, e fraquejou. — Não — ela disse agora, miseravelmente ciente de como transpareceu a tensão que sentia em apenas uma palavra. Sua voz soou rígida e dura, fria e distan­te. —- Não, não estou voltando atrás. É só que... É que não tenho experiência nisto. As palavras estavam na ponta da língua, mas Skye as engoliu afobadamente, fechando os olhos para controlar a terrível ansiedade que estava sentindo.

— Só que o quê?

A voz dele estava desconcertantemente próxima, e quando ela abriu os olhos de novo viu que ele tinha chegado ainda mais perto, tão perto que bastava le­vantar a mão para tocá-lo. Não precisa nem esticar os dedos para alcançá-lo.

E ela queria mesmo tocar Anton. As pontas de seus dedos formigavam quando ela pensava no toque da pele daquele homem. Ela sentiu novamente nas palmas das mãos a dureza dos músculos debaixo da camisa. Queria se perder naquela sensação maravi­lhosa e inebriante que lhe inundou os sentidos, impe­dindo-a de pensar, pois ela só conseguia entender a ■ linguagem do desejo.

Ela queria aquele homem.

— Só que o quê? — ele perguntou de novo, mais incisivamente desta vez.

Quero quer você me abrace... que me faça esque­cer...

— Só quero que você me beije outra vez.

—Ah, é isso!

Ele falou com um tom de risada nas entrelinhas, triunfante.

— Era só pedir.

Eleja estava se aproximando, tomando-a nos bra­ços, trazendo para si com a segurança de um homem que sabe o efeito que causa nas mulheres; um homem que sabia mesmo o que queria.

— Então me diga, meu bem...

Acarinhou-a sob o queixo, levantou seu rosto em direção ao dele, mirando com seus olhos negros cintilantes o interior dos olhos dela, cinzentos como um céu nublado. Com os olhares enganchados um no ou­tro, Skye sentiu tudo parar ao seu redor.

— Onde devo beijá-la? Aqui?

A pressão cálida dos lábios dele sobre sua testa foi como o pouso de uma borboleta, leve, delicado, pou­sando e levantando de modo tão diáfano que ela só sentia o toque quando ele cessava. E quando sentia, seus lábios se entreabriam em um suspiro de melan­cólico deleite.

— Ou aqui...?

Desta vez ele acariciou-lhe a bochecha, beijando logo abaixo da têmpora, à esquerda, depois nova­mente à direita, fazendo-a suspirar mais fundo.

— Ou quem sabe aqui... ?

Lenta e deliberadamente, ele beijou suas pálpebras, e Skye se viu jogada em um mundo de sombria sensualidade onde seus sentidos pareciam amplifica­dos e agudamente sensíveis a tudo que vinha daquele homem.

Dava para ela escutar cada respiração dele, grave e constante, combinando com a batida de seu coração. O cheiro dele a envolvia por inteiro, um cheiro mas­culino, limpo, cálido, sutilmente misturado ao odor cítrico de sua colônia. Quando ele abarcou suas mãos entre as dele ela sentiu a transmissão de uma corrente elétrica que a fez encolher os dedos e arfar de prazer.

E então começou tudo de novo.

Ela estava derretendo por dentro, e a tensão gote­java de seu corpo de um modo que ela não se sur­preenderia se uma poça se formasse a seus pés. O doce pulsar da vontade começava a agir em suas veias novamente, enviando ondas de desejo a cada terminação nervosa, alinhando-as no diapasão da atração que se tornava cada vez maior.

— Acho que isto basta para começar — ela conse­guiu dizer, impressionada com a própria ousadia. Uma ousadia reforçada pela penumbra causada por suas pálpebras entreabertas.

Ela não estava vendo o homem que a abraçava, não podia olhar para seus olhos negros e perceber o que ele pensava. Só conseguia sentir, fechada em seu mundo secreto de sensações que jamais conhecera antes, mas que agora queria conhecer cada vez melhor.

Ela quis mergulhar naquelas sensações como uma nadadora mergulhando na piscina mais profunda, abrindo as águas de cabeça e nelas submergindo por completo. Queria conhecer aquilo ao máximo. Que­ria se jogar com ambição e gana, agarrando estas sensações e as engolindo avidamente.

Mas Anton parecia determinado a levar as coisas devagar. Quando ela fez um pequeno movimento de impaciência, ele a aquietou suavemente, fazendo-a se calar com o dedo sobre seus lábios.

— Não, não tão rápido, menina linda. Temos a noite toda.

A noite toda...

Que sonoridade maravilhosa. Uma sonoridade que parecia prometer horas que se prolongariam infinita­mente, levando-a ao máximo de prazer que poderia suportar. Mas, ao mesmo tempo, Skye sabia que as próximas horas passariam rápido. Logo acabariam.

Esta era a única chance que ela tinha de conhecer os deleites sensuais que lhe aguardavam.

E não estava disposta a desperdiçar nada. Seu cor­po já estava inflamado de ansiedade, e ela estava tre­mendo nos braços dele, agradecida pela segurança que sentia ali.

— Anton...

O nome dele saiu dos lábios dela em um gemido de desejo, e ela sentiu e ouviu a leve risada que balançou aquele corpo grande sobre o seu.

— Eu sei, meu bem — e sua voz transparecia sin­ceridade no que dizia —, eu sei como você se sente, mas pode acreditar que vale a pena fazer devagarzinho. Deixe-me continuar, eu vou lhe mostrar...

E beijou-a novamente, percorrendo com a boca uma trilha fervente que começava nas têmporas, des­cia ao maxilar até capturar seus lábios mais uma vez. O toque daquela boca em sua pele e a magia que aquele toque operava estavam ameaçando sua capa­cidade de pensar. Mas havia uma questão prática na qual tinha de pensar, do contrário as conseqüências seriam terríveis demais.

Ela só tinha aquela noite, não podia correr o risco de nenhum resultado posterior, não podia produzir nada naquela noite, o que a destruiria, e à sua família, em um só golpe.

— Você tem...?

Foi uma luta para dizer as palavras sem sucumbir ao deleite que aqueles lábios insistiam em lhe causar. Mas ela tinha de dizer. A mulher que ela acreditava ser jamais deixaria escapar algo tão importante.

— Você tem... preservativos?

— É claro.

Ele não perdia uma. Sua resposta foi tranqüila, e ele continuou a mover os lábios por sua pele, fazen­do-a descobrir pontos prazerosos em si mesma que sequer desconfiava existirem.

— A loja do hotel tem de tudo.

— Ah, sim.

Quisera Skye ter soado mais segura do que soou. Ela quase teve uma crise histérica ao chegar à recep­ção do hotel, e inventou um motivo para ir ao banhei­ro. Quando voltou com as bochechas muito coradas, ele a estava esperando perto do elevador com a chave do quarto na mão.

— Então agora você pode relaxar enquanto eu cui­do de você.

Havia entrelinhas tão sedutoras em sua voz que ela chegou a encolher os dedos dos pés dentro do sapato de couro que os revestia. De repente ela queria se ver livre até de mínimas restrições como os sapatos, en­tão os chutou para longe e se deixou relaxar nos bra­ços de Anton, entregando-se ao momento. Os braços dele quase a levantaram do chão, apertando-a contra si de um jeito que ela estremeceu ao sentir a rigidez que denunciava o desejo pulsante de Anton. E ele não tinha a menor intenção de esconder este desejo.

Ela passou os braços ao redor do pescoço de An­ton, afundando os dedos naquela mata de cabelos ne­gros e entregando-se a outro beijo forte, quente e pas­sional que alimentou ainda mais a ardência crescen­te, fazendo Skye se sentir como quem nada nas águas quentes de um oceano de paixão.

Skye jamais se sentiu tão viva antes. Seu coração trovejava, sua cabeça girava. Seus seios estavam in­chados e tão sensíveis, os mamilos como pequenos botões apontando como setas.

Ele a levantou e carregou pela curta distância até a cama. Deitou-a gentilmente sobre o colchão azul e verde mantendo seus lábios nos dela enquanto suas mãos maliciosas procuravam o caminho em suas cos­tas que levava aos botões do vestido, que abriu com agilidade. Fez o mesmo com o fecho do sutiã.

Tocou-a com mãos que pareciam já conhecer seu corpo.

A sensação do calor das palmas das mãos dele em seus seios, envolvendo docemente seus mamilos intumescidos com aqueles dedos fortes fez Skye abrir os olhos antes cerrados, deparando-se com os olhos negros de Anton.

— An... — ela começou a dizer o nome dele, mas ele a fez calar novamente com um beijo em seus lá­bios trêmulos.

— Feche os olhos — ele disse com os lábios ainda sobre os dela. — Fique de olhos fechados.

Ele percebeu o olhar hesitante de Skye e beijou suas pálpebras outra vez, gentilmente fazendo-a obe­decer e retornar à penumbra aveludada de antes.

— Não olhe, apenas sinta.

Como ela podia fazer outra coisa com aquelas mãos atormentadoras buscando caminhos eróticos por entre seus seios, desenhando círculos nos mami­los e deixando-os ainda mais rijos?

— Sinta isto... — ele murmurou, e fez mais uma carícia diferente na pele sensível de Skye, traçando linhas de fogo que emanavam ondas de sensações pelo corpo inteiro dela.

A delicadeza não bastava. Ela queria, precisava de mais! Numa busca cega, ela envolveu os ombros po­derosos de Anton, puxando-o para si, amassando seus lábios contra os dele.

— Ajude-me... Mostre-me como... — e se calou, vendo que quase se entregara mais uma vez.

Não queria que ele percebesse, sequer suspeitasse de sua virgindade. O que um homem sofisticado e ur­bano como Anton iria querer com uma virgem caipi­ra? Ele acabaria rindo de sua falta de experiência, isso sim.

Aquele homem não queria fazer amor com nenhu­ma inocente. Devia estar acostumado a mulheres tão experientes quanto ele. Ela iria morrer de vergonha se ele notasse como ela estava longe de ser experien­te.

— Mostre-me como lhe dar prazer — ela conser­tou apressadamente, torcendo para ele não perceber.

— Você está indo muito bem sem eu dizer nada — foi o que ele murmurou em resposta.

Quem sabe fechando os olhos ela conseguiria ser a mulher que ele esperava. De olhos fechados ela fica­va menos inibida e podia se permitir tocar e ser toca­da, passar a mão pelos músculos firmes de seus om­bros e braços.

Quando deu por si ele já tinha tirado o casaco.

Mesmo tateando no escuro, seus dedos encontra­ram os botões da camisa dele, e logo ela estava com as mãos naquele peito firme e peludo. Era tão bom de apesar de aquela excitação latejante lhe atormentando, levando-a a deixar suas mãos percorrem caminhos para o deleite de Anton, a julgar pelos gemidos que ele deu.

— Muito bom...

— Você também não está indo nada mal...

Skye não soube como, mas conseguiu achar o tom certo para dizer aquilo. Ficou perplexa ao perceber que ele já havia tirado a roupa dela sem puxar nem ar­rancar nada, como ela estava esperando. O ar superaquecido do quarto de hotel esquentava sua pele ex­posta e ela, ainda de olhos fechados, conseguiu não corar ao pensar naqueles olhos negros e profundos percorrendo seu corpo nu.

Mas não havia como ignorar seu toque. O coração de Skye dava pulos a cada vez que ele arrastava seus dedos firmes em sua pele delicada, e ela sentia vonta­de de se encolher toda e dizer " não", e tentar se es­conder dele.

Mas a sensação durava apenas um momento. Pou­cos segundos depois ela relaxava, imersa nas sensa­ções maravilhosas que seus carinhos lhe traziam. Seus sentidos, sedentos, gritavam, pedindo mais. E os gemidos indóceis que ela soltava eram tudo que ela conseguia comunicar, tornando ainda mais claro seu imenso desejo.

As mãos de Anton começaram a lhe acariciar de maneira mais forte, mais intensa, mais incisiva. Ela se contorceu ao sentir aquelas mãos, ao mesmo tem­po em que ele beijava languidamente seu pescoço, descendo até o contorno dos seios, alcançando enfim um dos mamilos já palpitantes e o sugando com von­tade.

— Por favor...

Isto foi tudo que ela conseguiu dizer, apesar de não fazer idéia se estava pedindo mais carícias sensuais ou para que ele parasse antes de fazê-la desmaiar de tanto prazer. O prazer era tanto que quase doía. Sensações flamejantes de deleite lhe chamuscavam e faziam seu cérebro rodar; ela não conseguia mais pensar.

Aquelas mãos maldosas e atormentadoras come­çaram então a descer, e a acariciar a suave parte inter­na das coxas de Skye, deslizando pela cintura até adentrar a calcinha de seda que era a única peça de roupa que ela ainda tinha no corpo. Mas Anton habil­mente a tirou, deixando seu corpo sem nada.

Toda a vergonha que ela pensou que sentiria de fi­car exposta daquele jeito desapareceu debaixo da onda de desejo. Era aquilo que ela queria; era daquilo que ela precisava. Era aquilo...

Sua mente se despedaçou em uma explosão de de­leite erótico quando sentiu que estava sendo tocada na parte mais sensível do corpo feminino. As carícias irresistíveis a fizeram arfar de um jeito incontrolável, e seu corpo começou a se mover como se estivesse entrando em convulsão. Onda após onda de calor lhe engolfaram, deixando-a fraca e largada, boiando à deriva nos abalos secundários de um prazer que ela jamais pôde conceber antes.

E então Anton cobriu-a com seu corpo. Encaixou suas pernas pesadas e atléticas entre as dela, fazendo-a se abrir mais para ele. A potência quente e firme do desejo de Anton adentrou a deslizante e cálida pe­numbra de sua intimidade mais profunda. Não havia tempo para medos nem hesitações.

O momento em que o fato se consumou foi tão li­geiro, tão certeiro, penetrando tão profundamente na­quele corpo receptivo e desejoso que ela só sentiu unia pontada mínima, uma leve resistência de seus te­cidos mais tenros indicando que era a primeira vez que sentia aquilo. Por um ínfimo momento ela abriu os olhos e viu o estupor naquele rosto moreno perto do seu, e quando seus olhares se encontraram tudo foi lentamente saindo de foco.

Então ele começou a se mexer para frente e para trás, mais profundamente, adentrando-a com mais força, e cada investida fazia acumular mais um de­grau de sensação, um sobre o outro, fogo sobre fogo, até que sua mente começou a derreter naquele infer­no prazeroso que tomou conta de si.

Fechou os olhos novamente para melhor aprovei­tar as sensações alucinantes que percorriam seu cor­po. Jogou a cabeça nos travesseiros com a boca ligei­ramente aberta para arfar em busca do ar que lhe es­capara dos pulmões. Seu corpo inteiro estava a ponto de entrar em colapso, de entrar em um estado primi­tivo de concentração total na essência do ser.

Ela estava galgando degraus novamente, e subin­do mais, e mais, e seguindo na direção do ápice, do cume que jamais soube da existência, mas pelo qual procurava mesmo assim, inconscientemente. E quan­do ela enfim chegou naquele ponto máximo além do máximo, sentiu que não estava mais dentro do pró­prio corpo; estava flutuando, livre, em meio a uma explosão de estrelas que se transformou na escuridão completa de um desligamento absoluto.

Segundos depois foi a vez de Theo soltar um grunhido de quem estava chegando lá também, até que perdeu a consciência do mundo ao redor e tudo que existia agora era o corpo daquela mulher que o abar­cava com tanta paixão, e seus corações batendo ao mesmo tempo.

Foi um estado de inconsciência do qual ele mal acordou ao longo da noite. Às vezes parecia que seus sentidos lutavam para sair do estupor erótico no qual ele estava imerso, quase retomando a consciência real.

Quase.

Porque quando ele tentou se mexer para se levan­tar sentiu o toque acetinado das pernas daquela mu­lher ao seu lado. E junto veio uma espécie de corrente elétrica. A chama mágica se acendeu novamente, puxando-os das profundezas do sono para mais uma vez satisfazer às exigências primitivas de seus corpos.

Até que no fim foram vencidos pela exaustão total que o jogou em um sono tão profundo que ele mal sentiu quando, pela manhã, Skye se levantou da cama.

Ela mal conseguiu olhar em direção àquele ho­mem adormecido enquanto vestia as roupas com mais pressa que graça. Não olhava, mas estava total­mente concentrada naquele rosto másculo no traves­seiro. Não queria ir embora. Lágrimas começaram a brotar de seus olhos ao pensar que, depois de sair da­quele quarto, não o veria mais. Tinha que ir embora, abandonar aquele sonho glorioso de uma noite só e voltar ao mundo frio e cruel lá fora.

À realidade que a cercaria novamente, fazendo da noite anterior apenas uma lembrança querida.

Ela nem ousou em beijá-lo na testa, como seus ins­tintos ordenavam.

Se tivessem se conhecido antes, poderiam ter tido um futuro. Poderiam...

Não!

Ela forçou-se a parar de pensar naquilo, pois sabia que só enfraqueceria sua determinação.

Ela tinha de ir embora já, o mais rápido possível. Calçou os sapatos de qualquer jeito, vestiu a camisa e o casaco às pressas, pegou a bolsa e saiu correndo em direção à porta.

Após um momento de quase pânico, respirou ali­viada ao fechar a porta e alcançar o corredor acarpetado do hotel. Foi pegar o elevador.

Será que havia esquecido alguma coisa? Deixado alguma pista comprometedora?

Conferiu seus pertences rapidamente e viu que es­tava com tudo. Menos com uma coisa.

Sua alma havia ficado naquele quarto.

 

 

CAPÍTULO QUATRO

 

— Aterrissaremos em cinco minutos, senhor.

— Obrigado.

Theo acenou com a cabeça ao ouvir as palavras do piloto. Não que precisasse ouvi-las. Já tinha visto com os próprios olhos como estavam perto de Helikos, o pequeno ponto no oceano que era a ilha parti­cular de seu pai.

A ilha que já tinha sido o lar de Theo, onde ele crescera.

Ainda garoto, quando voltava para casa após se­manas na caríssima escola na Inglaterra que freqüen­tava a contragosto, obrigado pelo pai que resolveu que o filho tinha de ser um gentleman, ele sempre re­conhecia cada detalhe da geografia do percurso de Atenas até a ilha. Quase se pendurava para fora da cabine do piloto para apreciar melhor a vista com todas aquelas ilhas diminutas e desabitadas que marcavam a rota para seu amado lar.

E quando via Helikos enfim, primeiro um pequeno ponto no horizonte, ele sempre dava vivas de felici­dade pelo começo das férias.

Mas desta vez ele seu coração não estava dispara­do de excitação nem de seus lábios saía nenhum grito de entusiasmo. Em vez disso, ele apenas olhou para a rota familiar com uma expressão cínica e cética no rosto que encobria uma mistura complicada de emo­ções em sua alma. Estava de volta a Helikos após uma ausência de cinco longos anos, mas a ilha não era mais seu lar. Isto ficou claro após a briga com o pai. E agora ainda tinha essa nova noiva.

Theo fez uma careta ao ouvir o motor se alterar su­bitamente, o que indicava que o piloto estava come­çando a descer. A noiva representava outra complica­ção desnecessária. Mas pelo pouco que sabia sobre ela, a união com toda certeza não era motivada pelo amor. Parecia mais um acordo de negócios.

— Acho que não vai perceber muitas mudanças na ilha.

Era o piloto novamente, interrompendo seus pen­samentos com sua voz que vinha dos fones que am­bos usavam.

— Imagino que não tenha mudado nada.

Theo ficou olhando para a massa de terra cravada no mar brilhante. Ele não estava para conversa; na verdade, nem mesmo queria estar lá. Não estava com a menor vontade de conhecer a nova aproveitadora que o pai arrumou para si e fingir ser educado com ela. Cyril Antonakos não era exatamente famoso por escolher mulheres inteligentes para se relacionar, de modo que, a não ser que a personalidade do pai tenha mudado dramaticamente em cinco anos, o jantar des­ta noite teria como objetivo apresentá-lo à sua futura esposa, ou seja, seria uma longa provação.

Principalmente porque sua mente estava bem lon­ge de Helikos.

Desde o momento em que acordou naquele quarto de hotel e se viu sozinho que não conseguia tirar a misteriosa Skye de seus pensamentos. Passou a últi­ma semana tentando achar alguma pista daquela mu­lher com quem passara uma noite de sonhos, irias como não tinha nenhum ponto de partida, não conse­guira chegar a resultado algum. Sabia que o melhor seria esquecer aquela história e tirá-la da sua cabeça.

Mas em apenas uma noite ela deu um jeito de en­trar na sua mente de modo irreversível. Não conse­guia esquecê-la. Até seus sonhos eram povoados por imagens eróticas da noite que passaram juntos. Ele sonhava que a tinha nos braços, sentindo seu corpo macio junto ao seu e aquele perfume que lhe enlou­quecia.

Então ele acordava com o coração batendo desgo­vernado, arfando, empapado de suor como se estives­se realmente fazendo amor com ela, de verdade, não apenas em sonho. Mas evidentemente não era de ver­dade, a não ser pelo desejo pulsando em seu corpo.

Se pudesse ele teria dado uma desculpa qualquer para não vir. Mas a discórdia entre ele e o pai já tinha ido longe demais, e ele não podia fazer uma desfeita ao gesto de boa vontade que foi o convite.

A casa era bem como ele lembrava mesmo. No alto de um penhasco sobre o mar, a imensa e branca construção se espalhava por dois espaçosos andares, ambos com varandas com vistas estonteantes para o oceano. Uma ampla entrada em forma de arco dava em um terraço enfeitado com bandeiras onde havia uma piscina oval com uma casinha que às vezes aco­modava convidados.

Quando Theo chegou a porta já estava aberta e uma mulher baixinha, gorducha e de cabelos escuros correu até ele.

— Senhor Theo! Bem-vindo! Que maravilha tê-lo de volta!

— Amalthea...

Theo aceitou o abraço entusiasmado da mulher que um dia foi sua babá, e que era a figura mais pró­xima de uma mãe que ele já teve na vida, já que sua mãe de verdade morreu quando ele era muito peque­no.

— Onde eu vou ficar? No meu quarto de antiga­mente?

Amalthea desviou os olhos escuros de modo ambí­guo, balançando a cabeça em negativa.

— Seu pai disse para instalá-lo na casinha da pis­cina.

Então o gesto de boa vontade não era bem como Theo esperava, ele pensou, resignando-se sardonicamente. O pai era um sujeito difícil de se gostar, difícil de se amar. Ofendia-se facilmente e guardava mágoa por muito, muito tempo. Parecia que o convite para o casamento do velho era apenas o começo. Não havia sinais de festa para o retomo do filho pródigo.

— Quem está no meu quarto?

Os convidados ainda não começaram a chegar, com certeza. O casamento só aconteceria no fim do mês.

— A nova kyria Antonakos.

— A noiva de meu pai? Quer dizer que o pai e a noiva não estavam dor­mindo no mesmo quarto. Que surpreendente.

— E que tal ela?

Amalthea revirou os olhos em sinal de desaprova­ção, o que só ousava fazer na frente de Theo.

— Não faz muito o tipo de sempre. Mas é muito bonita.

— Elas sempre são bonitas — Theo comentou ci­nicamente. — É por isto que ele as escolhe. Meu pai está em casa?

— Ele teve de ir ao vilarejo, mas volta para o jan­tar. Mas a noiva está, você quer que...

— Ah, não — Theo dispensou rapidamente. — Logo, logo chega a hora do jantar.

Assim ele podia ter o desprazer de encontrar am­bos de uma vez.

— Acho que vou nadar um pouco.

Ele se espreguiçou um pouco para reavivar os músculos após a viagem.

— É bom estar em casa.

Theo desfez as malas rapidamente. Havia trazido pouca coisa. A tarde estava quente e ele pensou nas águas claras e convidativas da piscina. Levou alguns segundos para vestir o calção de banho preto e ir até a piscina, descalço.

O que ele não esperava era já encontrar alguém na água. O espanto o deteve e ele apertou os olhos con­tra o sol que cintilava sobre a água enquanto observa­va o panorama.

Um corpo esguio deslizava de uma ponta à outra da piscina. Um corpo feminino dentro de um maio branco. A Noiva, se não se enganava redondamente. Não dava para vê-la direito de onde estava. Ela esta­va nadando na direção contrária e a água cobria a maior parte de seu corpo. Ele teve uma impressão embaçada de cabelos escuros compridos, braços lon­gos e esguios deslizando sobre a água, pernas com­pridas e bronzeadas e um corpo bem formado com nádegas firmes...

Que diabo ele estava fazendo? Não podia pensar aquelas coisas da noiva do pai, a mulher que se torna­ria sua madrasta no fim do mês.

Será que era ela mesmo a noiva do pai? Parecia muito mais nova do que ele esperava...

Quem sabe a Noiva já foi casada antes e esta é a fi­lha? Fosse quem fosse, ela o fez lembrar muito da misteriosa Skye.

Era melhor ele se apresentar a ela. Não queria dar a impressão de estar espiando.

— Kalimera.

Ela não o ouviu, ainda devia estar com água nos ouvidos. Ou quem sabe ela não falava grego. Ele deu um sorriso cínico. Isto já indicava como as coisas fi­caram entre ele e o pai, pois nem sequer sabia se a mulher era grega ou não. O último envolvimento amoroso do pai que teve notícia foi com uma mulher do vilarejo.

— Boa tarde — ele disse novamente, com mais clareza desta vez, assim que ela chegou à borda. — Acho que devo me apresentar a você, madrasta.

O jeito que ela parou deu a entender que algo esta­va errado e ele a observou mais de perto.

O que foi que ele disse para deixá-la tão assusta­da?

Mesmo a uma certa distância ele pôde perceber a delicadeza de suas mãos quando ela saiu da piscina.

Aquelas mãos...

Subitamente foi como se ele levasse um chute no estômago.

Uma noite fria e chuvosa em Londres. Um bar en­fumaçado. A risada de dois homens.

— Deus, não!

Ele só podia estar imaginando coisas.

Mas os cabelos que caíam pelas costas dela, os ca­belos que, molhados, ele achou serem escuros, reve­laram-se vermelhos agora que começavam a secar sob o forte sol grego.

— Ochi...

Sentindo-se golpeado na cabeça, Theo voltou ao seu grego natal, sacudindo a cabeça de perplexidade com o que via.

— Não!

Aquilo não podia ser verdade.

Mas se não era verdade, então por que ela ainda es­tava parada lá, como se estivesse congelada, virando a cabeça para o outro lado?

Por que ela não se virava para encará-lo e mostrar que era uma perfeita estranha, desfazendo assim aquela confusão estúpida que acometeu sua mente?

Ela não era... não podia ser...

—Skye?

Desde que ela ouviu a voz dele, Skye ficou parali­sada onde estava, sem conseguir se mexer, nem pen­sar, nem respirar.

— Boa tarde — ele disse, e foi como se uma mão cruel a puxasse e jogasse de volta ao passado, projetando-a em um turbilhão de memórias que paralisou sua mente e lhe partiu a alma.

— Boa tarde.

Estas foram as palavras que ela ouviu com os ou­vidos, mas o que sua mente registrou foi a voz dele dizendo "Ah, existe sim" para aqueles sujeitos que a estavam perturbando no bar, fingindo-se de seu na­morado.

Naquela noite.

Foi quando ela ouviu aquele sotaque e aquele tom rouco. Mas como poderia estar ouvindo aquilo ago­ra?

Estava começando a imaginar coisas! Não podia ter escutado aquilo. Ele não podia estar lá. O destino não podia ser tão cruel assim.

Mas então ele disse "Acho que devo me apresentar a você, madrasta", e o mundo começou a girar na ca­beça de Skye.

Estava com a visão turva e o estômago revirando em pânico. Não conseguia ver nem pensar.

Até que o horror se confirmou.

— Skye?

Ele a chamou pelo nome. Com aquela voz que ela ouviu dezenas de vezes, centenas de vezes, naquela noite. Ela ouvira aquela voz dizer seu nome com paixão, entrega, domínio e satisfação plena após nela se perder. Anton?

Ela não ousou dizer o nome dele em voz alta, te­mendo estar provocando o destino ao fazê-lo. Com medo de tornar realidade o que ela esperava febril­mente que fosse apenas uma ilusão, uma impressão vinda de uma imaginação fértil.

— Que diabo?

Ela então se virou, incapaz de agüentar mais aque­le suspense. Ela tinha que saber.

Ele estava de pé na beira da piscina, com as mãos na cintura, com o sol atrás de si tornando difícil para ela enxergar seu rosto. Mas ela já sabia, e seu coração estava tão disparado que ela podia garantir que ele ia saltar do peito. Estava apavorada, horrorizada.

Skye, que ainda estava com parte do corpo dentro da piscina e apoiada na escada, acabou soltando a mão, escorregando e caindo na água de novo.

De repente tudo era água e bolhas ao seu redor. Então ouviu um barulho de dentro da água. Um corpo delgado entrando na água ao seu lado. Mãos fortes a seguraram, braços poderosos a levaram para a super­fície. Ela nem precisou olhar no rosto dele para reco­nhecer aquele corpo que conhecia tão intimamente, apesar de terem passado apenas uma noite juntos. Re­conhecia os ossos fortes das costelas, os pêlos negros e cacheados que faziam um caminho que começava no meio do peito e desaparecia dentro da sunga de ba­nho. Reconhecia aquela pequena cicatriz em forma de meia-lua perto da clavícula, quase no pescoço. E se ainda restasse alguma dúvida, as narinas dela esta­vam tomadas por aquele cheiro almiscarado, mascu­lino, potencializado pelo sol e misturado ao cloro da água da piscina.

Não sabia se era pelo choque de vê-lo, mas suas pernas começaram a tremer violentamente.

— Obrigada — ela conseguiu dizer, com a voz de quem acabou de correr uma maratona.

— Não é nada — ele disse suavemente, apesar de haver uma carga sombria em sua voz que a fez levan­tar a cabeça rapidamente, fazendo um vinco sobre os olhos cinzentos.

Ele meio que a carregou e meio que a arrastou para fora da piscina até uma espreguiçadeira.

Skye teve que morder o lábio para não reclamar quanto ele a soltou. A vontade que tinha era de se ani­nhar naqueles braços e não sair mais. Mas tinha cons­ciência que aquilo lhe era proibido. Ela perdeu este direito no momento em que fechou aquela porta do quarto do hotel atrás de si e foi embora.

Ele nunca saberia como foi difícil para ela fazer aquilo. Como ela quisera ficar, mas sabia ser impos­sível. E assim que ele descobrisse o porquê de ela es­tar ali, não ia querer nem chegar perto dela, que dirá mantê-la em seus braços.

Ainda segurando-a com uma das mãos, ele pegou uma toalha em outra espreguiçadeira próxima e co­meçou a enxugá-la. Seus movimentos eram bruscos e impessoais, e ao olhar nervosamente para ele sentiu um bolo se formar no estômago de apreensão.

Aquele rosto belíssimo estava plenamente contro­lado. Ao menos até ela se recuperar.

E depois?

Só de pensar ela estremeceu de novo, mais violen­tamente desta vez.

— Sighnomi...

Ele a olhou de cima a baixo, dos cabelos emara­nhados e molhados até as unhas dos pés, pintadas de cor-de-rosa.

Mas quando ele olhou novamente para seu rosto, ela sentiu qualquer reserva de coragem sumir de si.

Agora é que a coisa ia começar, ela pensou, e en­goliu em seco.

A expressão no rosto dele deixava claro que eleja havia esperado o suficiente. Agora queria explica­ções.

 

 

CAPITULO CINCO

 

— Precisamos conversar.

Theo não fazia idéia de como conseguiu manter a voz sob controle. A raiva que lhe queimava como gelo por dentro, fazendo sua voz soar fria como uma espada de gelo.

Tudo o que ele queria saber era que diabo estava acontecendo. Como era possível que aquela mulher com quem estivera em um quarto de hotel em Lon­dres — a mulher que quisera um affair de uma noite só, sem trocar nomes nem números de telefone — fora parar em Helikos, na casa do pai, na piscina da casa do pai.

Ele seria capaz de pensar bem melhor se ela se co­brisse.

— Você não tem uma canga ou algo assim para se cobrir?

— Não estou com frio.

— Não estou pensando na sua temperatura!

Ele sabia que a estava encarando com ferocidade. O jeito que ela retribuiu o olhar e instintivamente re­cuou não deixava dúvidas. Mas ele foi literalmente golpeado por aquela visão na piscina, e ficar tão perto dela só piorava a situação.

Ele costumava pensar que as memórias que guar­dava daquela pele suave e daquele corpo desnudo já eram suficientemente excitantes — na verdade ele tentou até se convencer que tinha exagerado quanto ao sex-appeal de Skye. Nenhuma mulher de verdade, humana, poderia ser tão atraente como ele lembrava dela. Mas o pior é que sua memória correspondia per­feitamente à verdade.

Na verdade, até menos. Pois sua memória não tra­zia o calor da presença física daquela mulher. E ape­sar de o maio que ela usava ser modesto em compara­ção aos biquínis mínimos que as mulheres usavam nas praias gregas, sua sensualidade sutil estava des­truindo sua capacidade de pensar e acelerando seu coração. O tecido elástico contornava as curvas de seus seios e quadris, deixando à mostra o contorno dos ombros e a pele cor de pêssego das pernas infini­tamente longas. Só de pensar naquelas pernas cruza- • das sobre sua cintura, apertando forte ao se entregar aos espasmos do orgasmo, ele ficava tonto e impossi­bilitado de pensar direito.

— Nós vamos conseguir conversar racionalmente se você estiver vestida mais... mais respeitável mente.

A suave curva em sua boca assumiu uma expressão rebelde que não combinou com o fogo que s acendeu nos olhos dela. Não era raiva, mas algo sei vagem e desafiador que foi de encontro ao olhar som brio de Theo, que chegou a sentir as fagulhas no ar geradas por aquela troca de olhares.

— E você acha que sua vestimenta é bem mais decorosa do a minha? — ela devolveu, inesperadamen­te incisiva.

— Está querendo dizer com isso que tem dificul­dade em manter suas mãos longe de mim? — Theo falou com desdém. — Você me desculpe por não acreditar em você, mas você desapareceu da minha cama naquela noite...

— Aquela noite foi um erro do qual me arrependo desde então.

— Não tanto quanto eu me arrependo, minha cara. Eu não sou de ficar com mulheres por uma só noite, e se soubesse que você ia desaparecer deste jeito pen­saria mais do que duas vezes antes de embarcar nesta situação. E agora encontro você nadando na piscina da casa do meu pai...

— Eu jamais tentei lhe enganar. Eu disse exata­mente...

A voz de Skye murchou abruptamente quando ela assimilou o que ele havia dito. Sentiu a cor desapare­cer do rosto, e ficou branca como um fantasma.

— Seu pai...

Ela olhou para a piscina, olhou de volta para o rosto dele com os olhos cinzentos arregalados de estupor.

— Você disse...?

Não podia ser verdade! Aquilo simplesmente não podia estar acontecendo. Começou a pedir a uma for­ça superior que não fosse verdade, que aquilo fosse um sonho, pediu paia acordar daquele pesadelo...

Ele não pode ter dito que aquela era a piscina da casa de seu pai? Porque se fosse assim, ele era filho de Cyril. Filho do homem com quem ela tinha de se casar. Filho do homem que tinha o destino de sua fa­mília nas mãos.

Ela chegou até a se beliscar com força no braço, torcendo para acordar daquele horror. Mas é claro que nada aconteceu. Ela ainda estava lá, banhada pelo sol da Grécia, e o único som que ouvia era o ruí­do do vento na água da piscina.

E Anton estava ao seu lado, alto, moreno e pare­cendo totalmente ameaçador.

— Mas você disse que seu nome era Anton.

Ela jogou-lhe a acusação na cara, mas a expressão dele não mudou em nada, permanecendo tão pétrea quanto antes.

Anton... Antonakos. De repente a verdade se en­caixou.

— Você mentiu!

Ele deu de ombros como quem não se importava a mínima com a acusação.

— Fui econômico com a verdade. Costumo achar melhor fazer assim antes de conhecer as verdadeiras motivações das pessoas.

O jeito frio com que ele a encarava deixava claro que ela estava incluída entre as pessoas que ele con­siderava suspeitas até prova em contrário. O gelo que ele projetava com os olhos parecia afastar o calor do sol, e ela chegou a ficar arrepiada. Skye então foi pe­gar a toalha que deixara na espreguiçadeira antes de entrar na água e se enrolou nela.

Coberta ela se sentia um pouquinho mais segura até resolver falar novamente.

— E, além do que — ele completou — foi você quem insistiu em não dizermos nossos nomes com­pletos.

Ela tinha razão, claro, e saber disto não a fazia se sentir nem um pouco melhor. Santo Deus, que tipo de destino maligno era aquele que foi fazer este homem cruzar seu caminho naquela noite em Londres? Como ela poderia ter a impressionante falta de sorte de entrar no bar em que estava o filho de Cyril?

E o que ele estaria fazendo em Londres? Tudo o que ela sabia sobre Cyril e o filho era que eles não se davam lá muito bem. Será que ele sabia...?

— Ao menos o nome que eu lhe disse era verda­deiro — ela disse, entrando ainda mais na zona de pe­rigo. — Meu nome é Skye Marston.

Ele não se abalou. Será que o pai dele não havia lhe dito nada sobre a futura noiva?

— Theodore Antonakos — ele respondeu na maior cara-de-pau. — Costumam me chamar de Theo.

Ele a estava despindo com os olhos, apesar da toa­lha que agora cobria seu corpo, protegendo-a do es­crutínio gelado daquele homem que ela agora sabia chamar-se Theo.

— E agora — ele perguntou, cheio de sarcasmo. — Vamos apertar as mãos formalmente?

— Acho que podemos pular esta parte do aperto de mãos — Skye respondeu rispidamente. A idéia de tocá-lo a aterrorizava completamente. Ela não conse­guia esquecer do ardor da pele dele sobre a dela, o to­que carinhoso daquelas mãos longas e poderosas que, quando ele queria, se revelavam tão gentis e delica­das quanto as patas de um gatinho. — Já passamos por isto.

— Por isto e muito mais — ele replicou secamen­te, encarando-a com um olhar maldoso como quem diz que lembrava muito bem de tudo.

Como ela lembrava também.

Aquela noite estava cravada em seu cérebro com suas imagens de fogo. Já era suficientemente difícil ter aquelas cenas na memória. Mas agora, ao se deparar com aquele homem em carne e osso, ela se sentiu que seus pensamentos estavam prestes a entrar em com­bustão.

— É melhor esquecer isto.

A tensão em cada centímetro de seu corpo afetou sua boca também, de modo que as palavras saíram densas e forçadas, artificiais. Soou como se fosse uma atriz de segunda categoria tentando falar como uma inglesa de classe alta.

Estava óbvio que Theo pensou o mesmo, pois re­torceu os lábios incontrolavelmente ao ouvi-la dizer aquelas palavras. Mas qualquer mínimo traço de hu­mor foi descartado quando ele falou encarando-a com olhos soturnos e pesados.

— Tenho certeza que você pode esquecer, mas devo dizer que acho que o mesmo não vale para mim.

Theo então passou o dedo provocativamente pelo pescoço dela, descendo até o topo da toalha enrolada em seu corpo logo acima dos seios.

— A verdade é que eu gostaria muito de repetir aquela experiência.

Os dedos bronzeados passearam pelo contorno do ombro dela, depois desceram de novo, e tudo que Skye conseguiu fazer foi controlar suas reações físicas que evidenciariam como ela também queria aqui­lo.

Mas não havia nada que ela pudesse fazer para controlar seus mamilos, que saltaram prontamente. Nem como evitar um calor que sentiu de repente e que não tinha nada a ver com o sol, mas que lambia suas veias. Agora a toalha que usava parecia pesada demais e o maio, restritivo demais. Mas ela não só podia agradecer por ter aquele grosso tecido branco enrolado em seu corpo, do contrário não teria como esconder as involuntárias reações de seu corpo.

— Então lamento informar que você vai ter de es­perar bastante. Eu avisei que aquilo era um caso de uma noite só.

— Você também disse que nós jamais saberíamos nossos nomes completos, nem nos veríamos nova­mente.

A pausa que ele fez foi longa o bastante para que o impacto chocante de suas palavras. Então continuou.

— E eu lhe disse que jamais tenho casos de uma noite só. É uma regra pessoal que tenho.

— Bem, então desta vez você terá que quebrar esta regra, pois eu não tenho a menor intenção de reviver nosso, digamos, conhecimento mútuo, de modo ne­nhum. Uma noite foi mais do que o bastante para mim e é assim que quero que permaneça.

— É mesmo?

Ele cruzou os braços sobre o peito e a encarou com olhos belicosos.

— Bem, vejamos.

Antes que Skye pudesse perceber o que ele tinha em mente, Theo se aproximou e a puxou pelo queixo, trazendo com sua mão poderosa o rosto dela para jun­to ao dele. Em apenas uma fração de segundo Skye assimilou o olhar impiedoso de Theo, mas não conse­guiu dar voz à reação que lhe veio à mente.

Ela abriu a boca para tentar falar algo exatamente quando ele aproximou a dele em um beijo cruel e des­provido de paixão, mas que serviu perfeitamente como punição por sua rejeição peremptória. Não ha­via calor nem afeição naquele beijo, apenas uma de­terminação fria de mostrar a ela quem estava no co­mando.

Mas não foi assim que as coisas permaneceram.

Porque algo aconteceu no momento em que seus lábios se tocaram. Algo que carregou a atmosfera, mudando a verdade daquele beijo para algo inteira­mente diferente. O calor era intenso, o desejo desper­tou, exigindo libertação de todas as amarras.

Skye se aproximou, derretendo-se entre os múscu­los de Theo, cujos braços a abarcaram, aprisionando-a. Pele se misturou a pele, corpos e pernas se emara­nharam. Seus corações batiam compassados, velo­zes, amplificando a pulsação de suas veias. A respira­ção de ambos era uma sinfonia arfante de paixão e desejo imperativo.

— Skye... linda... agape mou...

A voz de Theo estava densa, carregada de luxúria, e as mãos tentavam, desajeitadas, livrar-se do empe­cilho da toalha entre os dois, e conseguiram, fazendo o tecido branco e pesado cair aos pés de Skye.

— Para você aquilo pode ter bastado, mas não para mim. Eu quero assim...

Os lábios de Skye se abriram, arfando entre cho­que e deleite ao sentir a mão dele deslizando por seu corpo, inflamando-lhe o desejo ainda mais.

— E quero assim...

Aquela mão penetrante chegou então ao mamilo protuberante que pulsava sob o tecido do maio bran­co, e seus dedos apertaram o mamilo fazendo-a ge­mer alto, expressando de modo selvagem seu desejo.

— Ah, e assim também.

Ele estava falando aquelas coisas com uma voz ambiguamente sombria, dando risadinhas maliciosa­mente discretas e cada vez mais soturnas à medida que ele puxava a alça do maio de modo a expor a par­te superior do seio.

Primeiro Theo abarcou a carne macia do seio com sua mão quente e firme, depois o abocanhou avida­mente, beijando, lambendo, até beliscando levemen­te, conseguindo enfim que Skye cambaleasse e ge­messe alto.

— É assim que eu quero — ele murmurou grosseira­mente. — E você também quer a mesma coisa. Nós dois queremos. É uma coisa entre nós dois, minha cara. Você não pode fazer nada quanto a isso, nem eu.

A única resposta que Skye conseguiu arrumar foi um som indefinível que podia ser tanto de aceitação quanto de recusa, mas Theo deixou claro que estava interpretando como aceitação.

— Venha comigo, minha linda. Venha comigo agora...

— Não!

Skye não fazia idéia do que a fizera pular da fanta­sia na qual havia caído. Não sabia dizer se aquilo se devia a algum som inesperado e distante que invadiu sua consciência, ou se ao jeito súbito que a boca de Theo saiu de seu seio, deixando a pele exposta ao vento. Só sabia que uma espécie de arrepio lhe inva­diu, extinguindo o calor que lhe acometera e levan­do-a a acordar para o que estava fazendo.

— Eu disse que não!

O desespero lhe trouxe a força que achava não ter para empurrá-lo, de modo que ele foi parar na beira da piscina. Mas ele logo se recuperou e voltou a en­cará-la com seus olhos negros em fúria.

— Como assim...?

— Ah, pare com isso. Como assim, digo eu. Qual parte da palavra "não" que você não entende? Você pode ser grego, Kyrios Antonakos, mas seu inglês não é tão ruim assim. Você entendeu muito bem o que eu quis dizer!

— Eu entendi o que você disse — Theo revidou acidamente. — Mas não foi isso que você quis dizer. E não preciso entender nem um pouco de inglês para saber a diferença entre o que você disse e o que você quis dizer. Tenho outra maneira de saber.

— Outra maneira?

Por um momento Skye simplesmente ficou sem entender, mas então ele olhou de maneira deliberada-mente lasciva para seu seio ainda exposto. O mamilo ereto a denunciava, denotando o desejo que pulsava em si.

Mas ela tinha de pensar. Tinha de parar de sentir e forçar-se a raciocinar para se concentrar naquilo que realmente importava. Ela havia quase arruinado com tudo. Quase destruíra suas chances de salvar sua fa­mília do desastre completo. Aquele homem em frente a ela, alto e forte, com a luz do sol se refletindo ale­gremente sobre seus cabelos negros e sobre sua pele bronzeada, podia ser tudo o que ela mais queria no mundo no momento, mas ela tinha que expulsar aquela emoção indulgente da sua mente e se obrigar & pensar.

E o que tinha de pensar era que aquilo não podia acontecer, de jeito nenhum.

Se ela tinha intenção de salvar sua família, preci­sava entender que Theo Antonakos lhe era totalmen­te proibido.

Ela levantou a alça do maio, fazendo uma careta quando a alça atingiu a parte sensível do mamilo. Forçou-se a encarar o olhar furioso de Theo.

— Não estou nem aí para as suas "outras manei­ras" — ela disse, enfim, soando inflexível e rígida devido ao controle brutal ao qual estava submetendo a própria voz. — Você tem que escutar o que eu estou dizendo? E o que eu estou dizendo é NÃO, entendeu? N, A, O, til: não.

Por um tenebroso segundo uma raiva tão mons­truosa transpareceu na expressão de Theo que ela até temeu que ele fosse agarrá-la à força. Já estava pronta para correr quando viu que ele parecia estar fazendo o máximo para se recompor. Ficou até admirada, além de aliviada.

Mas se Theo havia controlado seus impulsos físi­cos, por outro lado não criara papas na língua.

— Você diz isso agora, meu bem — ele disse com cinismo brutal —, mas é só uma questão de tempo.

Então, minha linda, me diga, o que a forçou a me re­jeitar? Está com medo que alguém nos veja, sua mãe, talvez?

— Mãe? — Skye repetiu, sem expressão, incapaz de acreditar que ele tivesse usado aquela palavra. Será que ele havia mesmo dito aquilo?

— Sim, porque se o problema é esse, meu anjo, te­nho certeza que sua mãe vai ficar feliz por nós dois.

— Feliz?

— Você sabe, fica tudo em família. Sua mãe com meu pai e eu com você...

Sua mãe com meu pai...

Skye mal podia acreditar. Ele estava achando que a noiva de seu pai era sua mãe! Estava achando que ela estava lá com a mãe, que iria se casar com Cyril Antonakos!

— E então?

O silêncio de Skye e o olhar perplexo em seu rosto deixaram Theo intrigado. Ele podia entender qual­quer coisa, mas não aquela cara de estupor. Esperava que ela explodisse, mas não que ficasse daquele jeito.

Aparentemente sem ter o que dizer, ela simples­mente ficou olhando para ele espantada, como se ele tivesse ficado verde de repente.

— E então? O que você me diz? — ele insistiu.

— Eu... — ela começou a falar, mas sua voz desa­pareceu outra vez.

— Skye! — eleja estava perdendo a paciência. Mas ao mesmo tempo em que falou, Theo ouviu uma voz vindo de dentro de casa, cortando o que ele ia dizer.

— Theo! Aí está você! Amalthea me disse que você tinha chegado.

Surpreso, Theo murmurou um palavrão cabeludo. A chegada do pai era a última coisa que ele queria agora.

— Pateras.

Theo desviou os olhos em direção ao pai em um movimento súbito. Skye imediatamente pegou a toa­lha do chão e se enrolou novamente, com uma mo­déstia que surpreendeu Theo, bem como sua palidez repentina. Ela parecia aterrorizada.

— Skye?

O pai falou o nome dela com uma ponta de preocu­pação. Theo sabia que o pai podia ser um homem duro em assuntos gerais, mas para com as mulheres, especialmente as mais novas e belas, seu tom era sempre sedutor e agradável.

Ele ficou pensando se haveria algum tipo de ten­são sexual entre Skye e seu pai da qual ele não tinha ciência. Se fosse o caso, o casamento com a mãe dela já estava começando mal.

 

Após meia garrafa de vinho Heather ficou muito falante. Falou até que estava meio na dúvida quanto àquela noite antes de encontrá-lo. Falou que não ti­nha certeza se estava na hora de voltar a sair com al­guém.

— É um alívio ouvir isso — Scott disse, inclinando-se de modo a ser ouvido em meio à musica —, pois acabo de sair de um relacionamento e também quero ir devagar. Sem envolvimento, sem sofrimen­to.

— Beth não disse nada sobre isso...

— Não? — Ele riu, balançando a cabeça. — Ela realmente está levando muito a sério seu talento de cupido.

— Mas ela tem boas intenções...

— Eu não posso reclamar. Não estou passando por nenhum momento desagradável aqui com você. E você?

— Não, não posso reclamar — Heather disse, para sua própria surpresa.

— Ótimo. Que bom saber que eu não correspondo às suas expectativas negativas. — Ele entrelaçou seus dedos aos dela e apertou sua mão de modo ami­gável, de maneira muito natural e agradável.

Era por um homem desses que ela tinha de se apai­xonar, Heather pensou, levando a mão ao rosto e pen­sando em Theo. Alguém legal. Alguém que estivesse se recuperando de uma decepção amorosa, o que indicava que ele, afinal de contas, tinha um coração ba­tendo dentro do peito.

Quando Heather abriu a boca para dizer algo sobre o que estava pensando no momento, ouviu aquela voz familiar cortar seu raciocínio. Heather retesou o corpo todo, chocada.

— Ora, ora, ora...

Heather olhou para trás e acompanhou Theo com os olhos enquanto ele se posicionou em frente a ela e Scott.

Ela teve de piscar várias vezes de tão surreal que era vê-lo em carne e osso novamente. Algumas sema­nas de ausência não diminuíram em nada o efeito de­vastador que ele tinha sobre ela.

Ela demorou a sentir que Scott ainda estava de mãos dadas e dedos entrelaçados aos dela, mas quan­do ela tentou tirá-los, Scott apertou sua mão com mais força antes de soltar e se levantar, estendendo a mão para cumprimentá-lo.

Theo o ignorou. Estava completamente concentra­do em Heather, que se levantou relutante e conseguiu forçar um sorriso.

Ela estava suando terrivelmente nas palmas das mãos. Esfregou discretamente as mãos nas laterais e sorriu mais ainda.

— Theo! Que surpresa.

— Não é mesmo? — Theo respondeu com cortesia impecável. — Eu não fazia idéia que você costumava freqüentar lugares como esses. Sempre achei que você gostava de ficar em casa, fazendo seus trabalhos de arte e acompanhando novelas.

Heather corou. Se ele queria fazê-la parecer uma idiota, conseguira. Apesar de normalmente ela custar a ficar com raiva, sentiu um ódio borbulhante dentro de si. Respirou fundo, lamentando muito por Scott, que havia sido deliberadamente ignorado por Theo.

— Bem o tipo de mulher que eu gosto — disse Scott, entrando na conversa. Apesar do olhar nada re­ceptivo que recebeu de Theo. — Não sou muito de ir a clubes. Prefiro mil vezes uma noite em frente à tevê, apesar de preferir documentários em vez de no­velas. Aliás, meu nome é Scott.

Aturdida, Heather terminou de apresentar um ao outro, sentindo-se muito desconfortável por Theo não parar de encará-la.

— Que bom revê-lo, Theo. Você está muito bem. Mas não quero lhe prender...

— Você também está ótima... — Percorreu-a com os olhos indolentes. — Belo vestido.

— Obrigada... Você veio com amigos? Deve estar querendo voltar à companhia do seu grupo... — Heather olhou ao redor, mas o clube estava escuro e lotado.

— Ah, não vim com um grupo — Theo respondeu.

— Certo.

— Michelle está esperando em uma mesa lá nos fundos...

Heather involuntariamente seguiu a direção para a qual ele apontou de forma desleixada e, como por mi­lagre, conseguiu ver a morena alta e macérrima sen­tada sozinha com uma taça de champanhe na mão e usando um vestido vermelho que mostrava mais do que escondia.

Heather não pensou que Theo fosse permanecer sozinho por muito tempo depois que terminaram, mas ver com os próprios olhos que ele rapidamente partiu para outra lhe deu uma pontada de melancolia. De repente se sentiu profundamente grata por estar com Scott, e maldosamente satisfeita por Theo ver por si mesmo que ela também estava seguindo com sua vida, não estava na fossa por causa dele. Mesmo que fosse mentira.

— Ela parece solitária, Theo — Heather sorriu calidamente para Scott e depois para Theo. — Sugiro que você volte logo para ela antes que alguém a rapte. Este tipo de lugar atrai muitos homens correndo atrás de mulheres, você sabe.

— Fala por experiência própria? — ele perguntou, e deu uma olhada em direção a Scott.

— Eu não corro atrás de mulheres — Scott disse tranqüilamente, e pôs o braço sobre o ombro de Heather de modo afetuoso. — Sou seletivo demais para isso. — Ele riu. — Meus amigos até me recriminam. Só me contento com... o que há de melhor...

Heather sorriu para ele, muito agradecida e sen­tou-se novamente, e Scott fez o mesmo, deixando Theo de pé em frente a eles.

Em vez de aceitar a indireta e se retirar, Theo se in­clinou e pôs as mãos sobre a mesa.

— Pois eu prefiro variedade. Mas uma de cada vez. Bem, o fato é que eu e Heather não nos vemos faz um certo tempo. Você se importa se eu a roubar de você para dançar um pouquinho? Prometo devol­vê-la inteirinha.

— Acho que Heather pode decidir muito bem com quem deseja dançar — Scott disse, e voltou-se para ela.

Estava na cara que Theo tinha um ponto de vista bem menos cavalheiresco, pois não lhe deu chance de opinar. Ele a tomou pela mão e, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, a puxou para a pista de dança.

— Como ousa? — Heather murmurou, sentindo seu corpo reagir ao contato com aquele corpo firme e másculo tão perto do seu. — Não quero dançar com você! Meu acompanhante está sentado sozinho na mesa e é muita grosseria deixá-lo lá.

— Pelo jeito ele não está ligando muito — Theo disse, fazendo pouco.

Trouxe-a mais para junto de si. E sentiu tudo atra­vés do tecido fino do vestido. A protuberância gene­rosa dos fartos seios, a curva das costas. Sentia-se ul­trajado ao constatar como sentia falta do corpo dela. Sentia falta dela. Apesar de tentar se convencer que era apenas uma questão de hábito. Sim, ele havia mergulhado de cabeça no trabalho, fez até um esfor­ço para sair com Michelle — com quem conversara por meia hora em um coquetel na semana anterior, e viu que ela dava todos os sinais de estar interessada. Esta era a segunda vez que saía com ela, que não o despertava em nada.

Ao contrário daquela mulher pequena e curvilínea que agora dançava com ele relutantemente. Dava para sentir o desejo dela de se afastar e ele pensou se ela es­taria dormindo com o sujeito que a esperava na mesa.

Aquele pensamento o fez ranger os dentes de ódio.;

— E então... como vai você? — ele perguntou, abaixando a voz, perversamente desesperado por sa­ber se ela ainda o queria.

— Você já fez esta pergunta.

— Estou perguntando de novo.

— Muito bem. Já respondi antes. Estou muito bem.

— E o que anda fazendo? — A pergunta soou agressiva devido ao tom imperativo que a deixou ain­da mais tensa. Ele sentiu sua tensão quando ela retesou os músculos. — Estou te deixando nervosa? — ele perguntou suavemente.

Era aquela mesma voz sexy que a fazia perder a cabeça no passado. Será que ele sabia que tinha aquele efeito sobre ela? Heather pensou na nova con­quista de Theo, provavelmente olhando enquanto ele dançava perto dela com outra mulher, e ficou arrepia­da.

— Não seja ridículo. Por que você me deixaria nervosa?

— Você mudou — Theo disse, sorrindo.

— As pessoas mudam. — Ele estremeceu de frio quando ele a girou ao sabor da música, algum tema romântico estúpido.

— Você não era durona desse jeito.

— Se ser durona significa não ficar me derretendo por você como uma pamonha, devo entender isso como um elogio.

— Você ficava se derretendo por mim como uma pamonha"? Eu não sabia disso. Por quanto tempo foi assim?

— Eu quis dizer que eu fazia isso... Passado.

— Ah, é? Sei. Você se derretia por mim antes de ir para a cama comigo?

— Prefiro esquecer.

— Por que você quer esquecer de algo que estava na cara que você gostava muito?

— Esta conversa está tomando um rumo ridículo. Para mim chega.

Theo girou novamente na dança.

— Mas por quê? — ele murmurou no ouvido dela, girando-a com facilidade ao dançar. Seu ego pulsava de orgulho ao pensar no efeito que ele tinha sobre ela... por um tempo satisfatoriamente longo, ao que parecia. Aquela noite, que estava antes tão enfado­nha, se tornava agora bastante interessante.

Quando a música parou e ela tentou se afastar ele a conteve com seus braços fortes.

— Tenho certeza que Stephen...

— O nome dele é Scott!

— Não interessa. Tenho certeza que ele não vai se importar se dançarmos mais uma música. Ele não me parece o tipo de camarada que cria caso por uma coisinha tão inócua. Claro que ele não ia gostar nada se soubesse de nossa história...

Heather sabia quando a faziam de boba. Luto para manter a compostura, se esforçou para lembrar que ele havia deixado claro que não queria nada sério com ela. Ele nem mesmo tentou entrar em contato de­pois, não a procurou para nada. Mas podia ter procu­rado. Ela dissera a ele que havia um apartamento vago no edifício de Beth. Era fácil deduzir que ela es­taria morando lá. Ele não a procurou porque não quis, mesmo. Ele retomou sua vida de antes sem pensar duas vezes. E agora vinha perguntar como ela estava, o que andava fazendo... Parecia até que ele se impor­tava mesmo!

— Nós não temos uma história — Heather repli­cou, retomando o controle de seus pensamentos. — Tivemos um relacionamento de mentira que durou poucas semanas! — De repente ela se sentiu culpada e mudou de assunto. — E como vai sua mãe? Descul­pe não perguntar antes.

— Cada vez mais forte e saudável.

— Você já contou a ela sobre nós?

— Não precisa.

-— Eu realmente pensei muito nela... depois que fui embora. Fiquei pensando em como ela estaria. Ela é uma mulher incrível... tão cheia de entusiasmo, tão astuta... Mais astuta que muita gente da idade dela...

Theo não estava interessado em falar sobre a mãe.

— É claro que nós temos uma história. Não foi só dormir juntos. Nós moramos juntos por mais de um ano... e eu quero agora pedir desculpas por ter acusa­do você de tentar me manipular para casar comigo. Como eu disse antes, homens ricos são desconfiados. Eu não fazia idéia que você me queria muito antes de nós dois acabarmos na mesma cama.

Heather baixou a cabeça. Estava se sentindo in­cendiar por inteiro. Se Scott olhasse agora, não teria a menor dúvida de que aquele era o homem que a dei­xou traumatizada com envolvimentos amorosos. Es­tava na cara dela, não havia como disfarçar.

— E então? — Theo disse.

— A sua namorada não vai ficar aborrecida de você ficar dançando comigo?

— Aborrecida e com ciúmes — ele confirmou, ro­çando os lábios na orelha de Heather. — Se ela sou­besse então o que estou pensando neste exato mo­mento... Você sabe no que eu estou pensando, não sabe? Acho que dá para você sentir o que eu estou pensando, não dá?

Aquela conversa estava deixando Heather tão per­dida e confusa que ela nem havia reparado antes no que agora era impossível ignorar. Theo estava latejando de tão excitado. Ela quase desmaiou ao sentir sua virilidade roçando seu ventre. Sua mente — que ela conseguira até então manter sob controle — foi invadida por imagens vividas, memórias deles dois na cama, fazendo amor, lembranças daquele corpo enorme sobre o dela. Heather fechou os olhos e sen­tiu que estava mesmo a ponto de desmaiar.

— Você está com ciúme? — ele sussurrou junto ao seu ouvido.

— Não, é claro que não — Heather mentiu. — Por que estaria? Nós não nos vemos há semanas. Está tudo acabado entre nós e eu estou tocando minha vida. Tenho meu novo apartamento, meu novo em­prego e meu novo namorado. — Ela sabia que estava aumentando bastante a realidade, mas não resistiu a ficar por cima, para variar.

— Há quanto tempo você está saindo com esse tal de Stephen?

— Scott.

— Três semanas?

— Não é da sua conta, Theo. — Ao escutar o que acabara de dizer, Heather se sentiu vitoriosa e pode­rosa.

Se ele achava que podia dizer o que lhe viesse à mente, pensando que ela era a mesma bobinha de an­tes, estava muito enganado.

— Discordo. Não faz o seu tipo sair correndo atrás de outro logo depois de ir embora do meu apartamento.

Mas foi exatamente o que você fez, ela ficou tenta­da a responder, mas se recusou a passar recibo. Não queria que ele soubesse o quanto tudo que havia acontecido ainda a afetava. De toda forma, estava di­fícil se concentrar naquele momento.

— Então isso quer dizer que ele é novo no pedaço. Acertei? — Theo gostou da conclusão, pois isso que­ria dizer que ela não havia dormido com o sujeito. Não era o estilo de Heather. Ela era... Ele baixou os olhos em direção ao vestido preto é franziu a testa. Não era o tipo de vestido que cobria e ao mesmo tem­po revelava e provocava.

— Você foi para a cama com ele? — ele perguntou com a voz rouca, e então ela riu. Riu! Riu e se recusou a responder! — Responda! — ele grunhiu.

— E por que eu lhe responderia? Você não faz mais parte de minha vida. — Heather nem sabia de onde estava tirando tanta força. Ainda o amava, sem­pre o amaria, mas foi-se o tempo em que ela se deixa­va guiar pelos desejos dele sem pensar duas vezes. Eles haviam dormido juntos, mas mesmo assim ele recuou na primeira vez que sentiu que talvez tivesse de dar mais de si do que pretendia. Nem se deu ao tra­balho de tentar.

O tema jazzístico chegou ao fim melancolicamente e eles então se afastaram. Heather suspirou alivia-

da, pois para ser forte era preciso gastar muita ener­gia. Já Theo arfou, perturbado por aquele distancia­mento.

— Obrigada pela dança — ela disse friamente, e rapidamente virou em direção a Scott, que lhe ace­nou. Ela acenou também. — Acho que está na hora de você voltar para sua namorada. Daqui dá para vê-la, e ela não parece muito satisfeita.

Nem ele, para falar a verdade. Heather sentiu uma injeção de satisfação feminina. Ele estava achando que podia encontrar com ela por acaso e jogar charme na certeza de que ela iria acabar cedendo? Por quê? Por que ele se achava! Será que ele ficava excitado com a idéia de poder tê-la, apesar de haver outra mu­lher esperando por ele logo ali? Será que a pobre Heather de antes, tão atrapalhada, que vivia atrás dele com seus trajes desleixados, com seu jeito fran­co e ingênuo, ainda existia?

— O seu namorado parece estar muito bem — Theo murmurou selvagemente. — Sabe o que isso quer dizer?

— Você sabe? — Ela sorriu educadamente para aquele homem que ainda fazia seu coração disparar, deu as costas e caminhou, indiferente a ele.

Theo tranqüilamente se preparou para o resto da noite. Sua namorada era tudo que um macho de san­gue quente poderia desejar. Linda de morrer, atencio­sa, dava as liberdades que ele queria e não era mais inteligente que o necessário. Não iria se deixar dis­trair por conversa séria nenhuma. Apesar de Heather o ter deixado tremendamente irritado — na verdade, estava mais irritado ainda consigo mesmo por ainda estar procurando com os olhos Heather e aquele lou­ro manso que era seu namorado. Eles estavam rindo e se divertindo, a linguagem corporal de ambos deixa­va tudo claro.

No instante em que Theo viu que eles se levanta­ram para ir embora, virou-se para Michelle, que esta­va falando com ele, e a cortou no meio da frase.

— Vamos embora.

Ela se recuperou rapidamente do arroubo de Theo e deu uma risada.

— Na minha casa ou na sua?

— Na sua. — Ele tinha que estar realmente nas úl­timas se não conseguisse ir para a cama com uma mu­lher espetacular daquelas, e louca por ele. — Mas, me desculpe, querida, sem sexo esta noite.

Ele tinha que voltar para casa e clarear as idéias. Como jamais sentiu o que era ter ciúme, de início Theo não reconheceu o que estava ocorrendo.

Os dias se passaram, e ele não queria procurar Mi­chelle nem mulher nenhuma. Elas eram problema na certa. Então ele se enfiou no escritório, trabalhando furiosamente e assustando todos com seu péssimo humor. Ninguém estava entendendo nada.

Correr atrás do endereço de Heather definitivamen­te não era típico de Theo, mas se convenceu com a des­culpa de que Heather era imatura e inocente, e estava se comportando e se vestindo de modo a atrair os homens e provocar reações com as quais não saberia lidar. Afi­nal, Heather não tinha experiência nas ruas, experiên­cia de vida. E foi assim que Theo se convenceu que es­tava preocupado mesmo era com o bem-estar dela.

Bem, ele pensou, que pessoa com a cabeça no lu­gar não se preocuparia com ela, após esta mudança tão súbita e radical?

Ele pensou naqueles seios suculentos desfilando por Londres. Qualquer homem que não fosse cego iria virar o pescoço. E o que Heather, que não estava acostumada a este tipo de situação, faria se um desses homens não se contentasse em olhar?

Concluir o que precisava fazer foi como um raio de sol penetrando uma massa de nuvens negras.

Quatro horas depois ele estava estacionando em frente ao edifício de Heather. Desligou o motor e pa­rou para pensar um pouco.

Por alguns fugazes instantes ele chegou a pensar que diabo ele estava fazendo lá. Então lembrou de seu senso de dever. Tinha de dar uns conselhos a uma certa mulher que conhecia — que conhecia intima­mente. O relacionamento que tiveram era passado, mas ele se sentia na obrigação de avisá-la por uma questão de humanidade.

Cheio de falsa moral, ele saiu do carro e foi em di­reção à entrada. Apertou o botão do apartamento de Heather.

O edifício era bastante moderno, mas tinha seus atrativos. Havia o que podia ser chamado de tentativa de tornar a fachada mais verde com pequenas mudas crescendo aqui e ali.

Dentro do apartamento, Heather ouviu a campai­nha da portaria e se perguntou quem diabos poderia ser. Esta era a grande vantagem de morar em aparta­mento. Nunca havia visitas surpresa. Lembrou que a última vez que atendeu a uma visita surpresa foi quando a mãe de Theo apareceu sem avisar na casa do filho. Fechou os olhos e tentou banir a lembrança.

— Sim?

— Heather?

A fala lenta de Theo golpeou Heather como se ela tivesse tocado um fio desencapado. Ela ainda não es­tava recuperada após encontrá-lo no clube. Sentiu o ar ser sugado de seus pulmões e sentou no banco mais próximo.

— O que é?

— Precisamos conversar.

— Sobre o quê?

— Não é algo que possamos conversar por interfone. Deixe-me entrar.

Ela deixou.

Quando ele bateu na porta, ela abriu sorrindo.


CAPÍTULO OITO

 

— Olá. O que o traz aqui? — Heather deu um passo para o lado para ele entrar. Ele viera direto do traba­lho e, como sempre, já havia soltado a gravata e aber­to o colarinho da camisa. Sempre fazia isso ao sair da empresa, j á era um hábito.

— Então este é seu novo apartamento — Theo dis­se, parando no meio da sala e olhando ao redor.

— Você gosta? É bem pequeno.

Mas ficava em uma boa área, e dava para ela ban­car o aluguel. Era difícil arrumar lugares decentes em Londres, e apesar de custar bem mais caro do que ela realmente podia bancar, Heather estava muito grata a Beth por ter ajudado a segurar o apartamento para ela, apesar de o proprietário ter várias propostas de aluguel.

— Eu não tive oportunidade de fazer muita coisa ainda — ela continuou. — Pendurei duas de minhas pinturas.

— É, reconheci. — Saíram das paredes dele, dei­xando espaços vazios que lhe incomodavam mais do que ele esperava. Ele já se acostumara a vê-los lá. O que só confirmava o perigo dos hábitos.

Ele foi até ao quarto, deu uma olhada, depois ao banheiro, e então à cozinha, que era pequena, mas tinha espaço suficiente para uma mesinha quadrada com quatro cadeiras. Não havia nenhum sinal de pre­sença masculina, mas também aquele cara, fosse qual fosse seu nome, não teria tido tempo ainda de se ins­talar. Se é que realmente pretendia. Heather podia achar que ele não era aflito a compromissos, mas se pensava que ele era o único homem em Londres a agir assim teria cedo ou tarde uma grande surpresa.

Ele enfim terminou sua inspeção e voltou para onde Heather estava, de pé ao lado de um sofá de dois lugares. Bem como ele pensara, ela não estava mais usando aquelas roupas que pareciam sacos e sim cal­ças jeans e uma camiseta curta que fazia seus olhos involuntariamente mirarem aqueles seios fartos.

Graças a Deus ele estava sendo magnânimo o sufi­ciente para ser amigo dela e ajudá-la com seus conse­lhos sobre o sexo oposto. Ele se sentiu muito satisfei­to consigo mesmo por sua absoluta falta de egoísmo.

— Nada mal — Theo disse, desviando os olhos dos dela. — Pequeno, mas não é o tipo de pocilga na qual a maioria dos solteiros costuma morar.

— Eu não moraria em uma pocilga — Heather re­plicou. Pensou no local que alugava antes de se mu­dar para o apartamento de Theo e corou. Aquilo não era o ápice da elegância, com certeza não, mas depois de uma temporada em um dos apartamentos mais chi­ques que podia conceber, suas expectativas de mora­dia mudaram consideravelmente. — Bem, ao menos não mais. Gostaria de beber alguma coisa? Chá? Café?

— Tem algo mais forte? Um uísque seria bem me­lhor.

— Você sabe que eu não bebo uísque, Theo. Por que teria um em casa? — Como ele não estava se jo­gando em seus braços e se dizendo um tolo por não ter percebido antes como precisava dela, Heather co­meçou a ter dúvidas sobre a razão de sua presença em sua casa.

— E vinho, você tem?

— Acho que sim. Tomei uma taça ontem, e a gar­rafa está na geladeira.

Ela começou a caminhar em direção à cozinha e deixou Theo pensando com quem ela teria tomado aquela taça de vinho.

— Você comeu alguma coisa? — ela perguntou da cozinha, enquanto enchia duas taças de vinho.

— Não precisa se preocupar comigo. Mas não, não comi, vim direto do trabalho.

— Eu também ainda não comi. — Ela sorriu e se sentiu culpada por estar gostando da presença dele. Beth teria uma crise histérica se visse aquilo. Passou a ele uma das taças.

Ele bebericou.

— Se você for cozinhar para si mesma, posso acompanhá-la. Não estou com pressa esta noite.

Heather estava louca para perguntar o que havia acontecido com Michelle. Com certeza ele não esta­ria lá se ainda estivessem juntos.

— Vou fazer um macarrão.

— Me fale de seu novo trabalho.

— Você quer macarrão? — Ela quase se ofereceu para fazer outra coisa, mas o bom senso a deteve. Tudo bem que ele tinha vindo visitá-la e parecia estar satisfeito de estar lá, mas isso não anulava a rejeição que ela sofrerá por parte dele.

— Pode ser.

— Não me faça forçá-lo a comer — Heather disse, com um tom rebelde atípico. — O molho é enlatado, e sei que você não gosta de enlatados.

— Simplesmente porque comida caseira é bem mais saudável, para não dizer mais saborosa, do que qualquer coisa em lata. Enlatados são cheios de conservantes.

— E é claro que você sempre teve o privilégio de jamais precisar comer qualquer coisa rapidamente...

— Eu não vim aqui para uma discussão inútil so­bre as vantagens e desvantagens da comida industria­lizada. Por que não me conta sobre seu trabalho? — Ele se levantou e se serviu de mais uma taça de vinho, e esbarrou nela ao voltar para o sofá, provocando on­das de sensações lascivas em Heather.

Distraída pelo breve contato físico, Heather es­queceu da pergunta que estava na ponta da língua: por que ele a havia procurado. Em vez disso, come­çou a conversar animadamente sobre o novo empre­go enquanto cortava tomates, uma pequena conces­são devido ao horror que ele tinha de comida enlata­da, e socava alho. Acrescentou também umas folhas do manjericão que plantava em um pequeno vaso.

O resultado ficou com uma aparência apetitosa.

— Muito saudável — Theo disse com um olhar aprovador. — É alguma nova dieta para sua vida nova vida? Você perdeu peso.

Heather estava orgulhosa disso. Mas de jeito ne­nhum diria a ele que havia emagrecido de pura infeli­cidade e depressão pelo afastamento entre eles dois.

— Pensei que você não ia reparar — ela disse, fe­liz por ele ter notado. Durante as semanas gloriosas que passaram juntos, ele sempre comentava como gostava da fartura de seu corpo. — Mas jamais serei magrela. Quer dizer, a não ser pela cintura e pela bar­riga, meu corpo continua basicamente o mesmo.

Começaram a comer.

— Também reparei isto. Seus seios continuam atraentes como sempre.

Heather corou e procurou se controlar, mas mes­mo assim sentiu uma esperança renovada crescer dentro de si.

— Não precisa ficar me elogiando. Além do mais, você tem namorada, e tenho certeza que ela não fica­ria muito satisfeita em saber que você está aqui, na minha cozinha, elogiando meus seios.

— Eu não diria que Michelle é uma namorada. Eu apenas saí com ela umas vezes, só isso.

— Ah, meu Deus. Será que ela se tornou possessi­va demais com você?

— Não. É que no momento eu ando muito ocupa­do cortejando outra mulher.

Heather tentou não transparecer que estava fer­vendo por dentro.

— Trabalho inútil...

Theo começou a ficar irritado com aquela nova Heather. Onde estava a Heather de antes, que não re­sistia a ele, que estava sempre às suas ordens, à sua disposição?

— Vem se aconselhando muito com sua amiga?

— Beth? Sim, ela tem muita experiência na vida. Conhece todo tipo de gente nos tribunais, e é claro que acabou ficando mais esperta e durona. É difícil enrolar Beth.

Beth. Nem conhecia a outra, mas já se ressentia profundamente da influência que ela tinha sobre Heather.

— Eu não me lembro de ter enrolado você para que viesse trabalhar comigo. Não a forcei a nada. Na verdade, eu nem precisava ter oferecido aquele em­prego, que, aliás, era bem generoso... moradia de gra­ça... um cheque polpudo no fim do mês... trabalho leve que permitia que você fizesse seu curso... mas você podia ter recusado a oferta. — Theo sabia ven­cer uma discussão. — Eu lhe pedi para fingir ser mi­nha namorada por causa de minha mãe, mas não lhe forcei a nada. — Fez uma pausa. — Bem, não vim aqui para discutir com você.

Heather começou a tirar a mesa, sentindo as lágri­mas ameaçando cair de seus olhos.

— Claro que não. Nem eu quero discutir. Parece perda de tempo, seja nos conhecemos tão... tão bem. — Heather suspirou discretamente. — Bem, você quer um café? Acho que terei de me recolher em bre­ve, estou exausta.

— De quê, de pintar o sete?

Heather sentiu seu tom brincalhão, e sorriu.

— Entre outras coisas. Agora que tenho meu apar­tamento, não vejo sentido em ficar parada sem fazer nada.

—Isso também é conselho de sua amiga?

— Não é legal você ficar implicando com ela sem sequer conhecê-la — Heather disse, e olhou para o relógio de pulso.

— Esqueça. Bem, aceito o café. Ainda preciso lhe falar algo.

Ela fez café apenas para ele, mais uma indireta.

— E então?

— Bem, Heather. Não sei bem como dizer, mas eu a vi naquele clube com aquele tal de Sam...

— Scott.

Ele ignorou a correção.

— ... e vi como você é ingênua.

— Como?

— Por exemplo, veja como está sentada agora.

— O quê? Você veio aqui me dar lições de postu­ra?

— Quando você se inclinou para me dar o café eu vi boa parte de seus seios.

Ela ficou com raiva e vergonha ao mesmo tempo. ■ — Então não olhe.

— Impossível. Das duas uma, ou você não tem no­ção de certas coisas, ou então está deliberadamente me provocando.

Ultrajada, Heather não pôde crer no que ouvia.

— Você acha mesmo que eu estou aqui tentando te seduzir? Isto é a coisa mais arrogante e pretensiosa que já ouvi na vida!

— Sendo assim, você comprova minha tese de não ter noção do efeito que causa nos homens. E o mundo está cheio de predadores...

— Predadores? Predadores! Nem todos os ho­mens são como você!

— Pois eu estou longe de ser um predador — res­pondeu com toda a calma. — Sou mais a presa...

— Está querendo se fazer de inocente para mim?

— Não. Só estou dizendo que as mulheres me ca­çam mais do que eu a elas. Bem, voltando ao tal su­jeito...

— Scott não é nenhum predador.

— Como sabe?

— Você veio aqui me dar lição de moral? — Ela se levantou e estendeu a mão para que ele devolvesse a xícara. — Acho que está na hora de você ir embora. Nem devia ter vindo!

— Calma. Não fique histérica.

Heather começou a rir histericamente e puxou a xícara da mão dele, entornando um pouco de café em suas calças. Ele imediatamente se levantou e come­çou a esfregar o tecido.

— E não peço desculpas. Você merece!

— Por quê? Por ter o caráter de querer lhe prote­ger?

Heather conseguiu não gritar que só precisava ser protegida dele e de mais ninguém.


— Muita gentileza sua. Lamento derramar café em você, mas não vou pagar a conta da lavanderia.

— Dane-se a lavanderia! — Theo explodiu. — Eu vim aqui cheio de boas intenções e você as joga na minha cara!

— Eu sei cuidar de mim mesma.

— Pois ouça: cuidado com as roupas que usa, e cuidado para não se exibir involuntariamente, como fez agora há pouco.

— Não vou esquecer. Obrigada.

Ele caminhou lentamente até a porta, e depois ao carro.

Heather então, já só, liberou as lágrimas que lutou tanto para conter.

Enquanto dirigia, Theo decidiu. Queria Heather de volta. E iria conseguir.

Heather acordou de um sonho bom. O telefone to­cava insistentemente.

Ela relutou em atender, e achou que ainda estava sonhando ao escutar a voz de Theo, pedindo descul­pas por acordá-la, mas pedindo, quase exigindo vê-la imediatamente.

— Mas agora? O que foi desta vez?

— Nada que possa ser discutido por telefone. Ela pensou até que ele tivesse sofrido um acidente

ao sair da casa dela. Já o estava vendo estirado no chão, sangrando.

— Preciso levar algo? — ela perguntou, já se le­vantando.

— Levar o quê?

— Sei lá!

— Bem, em vinte minutos meu motorista estará aí.

— OK.

Ela só teve tempo de lavar o rosto e escovar os dentes.

Ao chegar, Heather não encontrou o que temia ao tocar a campainha.

— Você está bem! — ela disse, surpresa.

— Esperava que eu não estivesse? Entre.

— Não vou entrar antes de você me dizer por que me acordou daquele jeito pedindo para que eu viesse aqui.

— Entre que eu explico. Na verdade, não será pre­ciso palavras. É algo que se explica por si só.

Ela entrou.

— Sente-se. Sinto muito perturbar seu sono.

Heather quase caiu para trás ao dar de cara com Claire.

 

 

CAPITULO NOVE

 

Claire resolvera voltar a Londres, e foi procurar a irmã no endereço que tinha — o endereço de Theo.

— Você mudou — disse Claire ao ver Heather. — Não está mais aquela rolha-de-poço de antes.

Heather corou e lembrou de várias cenas da infân­cia. Claire sempre zombando de seu corpo.

— Bem, Claire, eu não moro mais aqui, mas fico feliz em recebê-la em meu apartamento.

— Que pena. Este apartamento é maravilhoso. Foi o que eu disse a Theo quando cheguei.

A imagem da irmã alta, loura e linda jogando char­me para Theo era de enlouquecer.

— Você pode ficar comigo o tempo necessário — Heather disse, mas sabia que não era verdade. Lem­brou de quando dividia o quarto com Claire, que ocu­pava noventa por cento do espaço. Heather não esta­va disposta a isso novamente.

— Estou tão cansada — Claire disse. — Você pode carregar minhas malas lá para baixo? Vou pegar minhas coisas no banheiro.

— Meu motorista cuida disso — disse Theo, e virou-se para Heather quando a outra se retirou. — Ela tomou banho ao chegar. — Então olhou bem nos olhos dela. — Como você agüenta ela tratar você com essa... essa superioridade toda? Desfazendo de você?

Heather sentiu um nó na garganta. Sentia-se humi­lhada.

— Não que tenha pena de mim.

— Não tenho pena de você. Você é quem tem pena de si mesma.

— Não tenho! E Claire é assim mesmo.

— Você não tem espaço na sua casa para a quanti­dade de coisas que ela trouxe.

— O que você quer? — Heather estava indignada. — Quer uma desculpa para hospedá-la?

Claire voltou e Theo não respondeu nada. Heather já estava com a mão na porta, mas Claire ainda jogou mais charme para Theo antes de saírem.

Assim que ficaram a sós, Claire deixou claro como achava Theo um partidão, como ele era lindo e en­cantador, e que se soubesse que ele era assim, teria se produzido melhor antes.

— Eu sei que você sempre gostou de tipos esquisi­tos, Heather. Mas Theo é o meu tipo!

Aquilo foi o fim da linha para Heather.

— Desde quando eu só gosto de homens enfado­nhos Claire? — Heather perguntou, deixando clara sua irritação. Esperava que Claire desse um de seus faniquitos.

Mas a irmã corou.

— Não é que... você só goste de tipos esquisitos...

— Ah! Mas quer dizer que só homens esquisitos podem gostar de mim, não é?

— Você tem de reconhecer que antigamente ne­nhum homem do tipo dele olharia duas vezes para você!


Heather quis contar tudo o que houve entre ela e Theo, mas preferiu manter silêncio.

— Não que você não esteja linda agora — Claire reconheceu. — Fiquei até chocada. Aliás... aconte­ceu algo entre vocês dois quando moravam juntos?

Heather nem soube o que dizer.

— Eu seria uma tola se...

— Ótimo. Então você não liga se eu entrar em con­tato, não é? Ele é um verdadeiro deus do sexo, e esses caras não costumam gostar de mulheres como você, Heather.

— É verdade — Heather disse, se controlando ao máximo. — Eles gostam de mulheres como você:

A autoconfiança que Heather levara tanto tempo para construir estava sendo arrasada.

Mas não era só isso. Ao chegarem, Claire disse que queria dormir na cama, afinal estava cansada. Heather em outros tempos teria deixado, mas foi fir­me e disse à irmã que dormisse no sofá.

Ao acordar na manhã seguinte, Heather encontrou a sala numa bagunça inexplicável. Roupas jogadas pelo chão. Até a toalha molhada que Claire usara es­tava jogada na mesinha de centro.

Heather teve vontade de gritar. Mas não gritou. Em vez disso, sacudiu a irmã, que estava dormindo no sofá.

— Acorde, Claire. São nove horas, hora de acordar. —-Ahn?

— Vamos lá, pode começar a arrumar esta bagun­ça. Na minha casa você precisa seguir certas regras.

Claire sentou-se no sofá.

— Mamãe ficaria horrorizada de vê-la falar assim comigo.

— Será que ficaria?

Claire, ofendida, foi ao banheiro e supostamente arrumou suas coisas, mas ao sair Heather disse que ela tinha que pôr suas roupas dentro da mala de modo organizado.

Heather nem sabia de onde estava tirando aquele ímpeto.

—Se você vai me tratar assim, vou embora agora mes­mo — disse Claire, revoltada com a falta de mordomia.

— Para onde?

— Ora — ela sorriu com malícia. — Tenho certe­za que um perfeito cavalheiro como Theo iria me abrigar se eu pedisse...

— Você não ouse!

— Ahá! Quer dizer que havia algo entre vocês dois, não é? Ou melhor, você queria que houvesse, pois ele jamais daria bola para você.

Heather estava ficando com muita raiva.

— Quem lhe garante que não?

— Ora...

A campainha soou. Quem seria? Claire não hesitou em abrir a porta. Era Theo, se­gurando um buquê de rosas vermelhas.

— Estávamos falando de você agora mesmo — disse Claire, toda dengosa e sorridente. — Que deli­cadeza sua trazer flores, rosas vermelhas são as mi­nhas favoritas!

Theo tentou esconder o desgosto ao entrar no apar­tamento.

Claire se sentou no sofá.

— Sente aqui ao meu lado — ela disse para ele, que ignorou e foi para junto de Heather.

— Quero lhe pedir um favorzinho — Claire pros­seguiu. — Heather está tendo ataques histéricos co­migo aqui. Acho que não sou bem-vinda. Haveria al­guma possibilidade de você me hospedar em seu apartamento? Na verdade, estou procurando empre­go, e posso fazer qualquer coisa que Heather fazia antes.

Heather rangeu os dentes, mas nada disse. Theo o fez.

— Acho que Heather não iria aprovar isto.

Ele então pôs o braço ao redor dos ombros de Heather, que ficou mais calma, mas sem entender aonde Theo queria chegar com aquela visita.

Claire entendeu menos ainda.

— Não sei o que Heather tem a ver com isto. Na verdade, ela praticamente está me botando para fora.

— Perfeitamente compreensível, considerando-se a bagunça que você fez.

— Mas eu não faria isso no seu apartamento — ela replicou. — E se eu fosse trabalhar com você, não ha­veria o risco de eu nutrir paixonites inconvenientes por você...

Heather quis que o chão se abrisse para ela entrar.

— Claire, acho que você não entendeu. Você não vai ficar no meu apartamento.

A expressão de Claire era puro choque.

— Você não contou a ela, não é, meu amor? — Theo disse, olhando para Heather.

— Disse o quê? — Claire perguntou.

— Sobre nós... que estamos ficando noivos. Heather não conseguia falar. Podia não ser verda­de, mas só a cara de pasmo da irmã valia a pena qualquer coisa, após tantos anos agüentando seu jeito mi­mado e egoísta.

Claire correu para o banheiro. De lá saiu carregando suas coisas. Bateu a porta sem dizer tchau e foi embora.

A sós com Theo, Heather sentou-se no sofá em frente a ele.

— O que lhe deu para dizer aquilo?

— Vai me dizer que não gostou de ver a cara de es­panto dela? — O próprio Theo estava espantado com o que dissera. Não havia planejado dizer aquilo, mas agora que havia dito, não queria desdizer.

— Você ficou com pena de mim, é isso? — Heather perguntou.

Ele nada disse.

— Claire não vai desaparecer do nada. Não pode­mos inventar outra história, pois ela não vai viajar como sua mãe viajou. Ela vai ficar em Londres.

— Que bom. Assim ela pode ir ao nosso casamento. Heather olhou para ele furiosa.

— Você não tem direito de ficar brincando assim comigo.

— Pois eu lhe digo o mesmo.

— Eu tornei sua vida mais fácil.

— Tornou mesmo.

— Pare de ficar concordando comigo! E fique sa­bendo que não preciso que você fique me protegendo de ninguém. Não preciso que você me salve.

— Mas eu preciso que você me salve.

— Não fique me enrolando com suas palavras.

— Não tenho intenção de fazer isso, Heather. E se fiz antes, peço desculpas.

Heather ficou perplexa e confusa.

— Você nunca pede desculpas.

— A verdade é que eu só enrolei a mim mesmo, Heather. Eu te amo. Não posso lutar contra isto.

Heather quase engasgou com a saliva.

— O que está dizendo?

— Você entendeu muito bem. Eu vim aqui para reatar com você. Quero que você volte para meu apartamento. Nosso apartamento. Para sempre.

— Para sempre?

— Sim. Para sempre. Desculpe por ser tão idiota a ponto de só perceber agora como amo você.

Beijaram-se ternamente.

— Eu não tinha intenção de dizer à sua irmã que estávamos noivos, mas saiu na hora. E acho que não é má idéia!

E Theo realmente não perdeu tempo. Em quatro se­manas estavam casados. Na Grécia. Para a felicidade de Litsa, e felicidade maior ainda de Heather e Theo.

Claire foi convidada, e compareceu. Ela e Heather acabaram fazendo as pazes quando Claire reconhe­ceu seus maus atos, atribuindo tudo à desilusão que sofrerá nos Estados Unidos, não só com a carreira frustrada, mas com o envolvimento com um homem casado que a destruirá emocionalmente.

Agora ela estava alugando o apartamento que era de Heather.

E Heather e Theo mudaram para a casa de campo. Um lugar perfeito para criar os filhos...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

PROMESSA DO CORAÇÃO

The Antonakos Marriage

Kate Walk

 


CAPÍTULO UM

 

Theo Antonakos não ficou nem um pouquinho entu­siasmado ao saber que ia ganhar uma nova madrasta.

Nunca aceitou a reputação de seu pai com as mulhe­res. Perdera a conta de quantas amantes passaram pela vida dele após a morte de sua mãe, transformando-se em materas substitutas enquanto ele crescia. Nenhuma delas ficou, apesar de que três delas se tornaram espo­sas de Cyril por um tempo, normalmente muito curto.

Agora, pelo jeito, estava chegando a quinta senho­ra Antonakos. Para ser franco, Theo não nutria muita expectativa que esta durasse mais que as anteriores, mas ela era responsável indireta pela inquietude que o estava consumindo naquela noite.

Pegou sua taça de vinho, bebeu tudo e bateu com a taça na mesa, revelando o turbilhão interno de suas emoções.

Costumava adorar a vibração trepidante de Lon­dres, a sensação de gente indo e vindo, vivendo suas vidas agitadas. As ruas lotadas, as luzes, o zunido dos carros, tudo aquilo lembrava sua casa em Atenas,, a vida que levava na cidade, a batalha pelos negócios que trazia o desafio que ele tanto apreciava.

Mas quando ficava escuro, úmido e frio como ago­ra, naquela noite de outubro, ele preferia estar em qualquer lugar que não em Londres. Tinha saudade

do calor do sol grego em suas costas, o marulho dengoso do oceano batendo nas pedras que cercavam a ilha de sua família. Saudade do som da língua de seu povo. Saudade da família. Droga, como tinha sauda­de de casa!

Tudo começou com a carta que chegou pela manhã.

Bastou uma olhada no selo grego para ele ficar an­sioso e inquieto. Nem precisou conferir o remetente, pois já sabia quem era.

O pai havia quebrado o silêncio, enfim.

— Ah, vamos lá, ruiva, relaxe. Sente-se e beba algo conosco!

Após a frase ligeiramente incompreensível vieram risadas em coro do outro lado do bar, fazendo-o olhar naquela direção. Alguns jovens estavam bebendo cerveja sentados à mesa, as garrafas se enfileirando na superfície polida.

Mas foi a mulher que estava com eles que lhe cha­mou a atenção. Cativou-o de verdade.

Não dava para ver seu rosto, ela estava de costas. Mas dava para perceber que ela era espetacular. Físi­ca e sexualmente espetacular, de um jeito que faz o desejo se contorcer e esquentar por dentro em reação imediata.

Cabelos longos de um vermelho glorioso e brilhante caindo pelas costas como uma cascata rubra com refle­xos acobreados que cintilavam apesar da meia-luz do bar. Era alta e bem feita de corpo: ombros estreitos, co­xas bonitas e um traseiro firme, ligeiramente empinado debaixo de sua apertada saia preta.

Saia? Theo quase riu. Aquilo parecia mais um pro­longamento do cinto do que uma saia. Deixava à vista as longas e elegantes pernas cobertas por meias fi­níssimas. Nos pés, saltos impossivelmente altos.

— O que você quiser, meu bem...

Havia algo nela que lhe cativava a atenção.

E já fazia muito tempo que estava sem mulher ne­nhuma. Era por isto que estava interessado. Desde que Eva partiu três meses atrás que ele não se envol­vera com mulher nenhuma.

Podia ter quantas mulheres quisesse. Sabia, sem falsa modéstia, que seu tipo moreno atraía a atenção e o interesse das mulheres. Para completar, tinha a fortuna que vinha da família e do seu próprio traba­lho, garantia de só ficar sozinho à noite se quisesse.

Mas ultimamente saber daquilo não bastava mais. Andava irascível, queria mais.

Mas não com Eva. Foi por isso que eles discutiram e por isso que ela foi embora. Eva achou que tinha conseguido se dar bem. Ouvira sinos soando e vira alianças douradas em seus sonhos, e ele teve que fazê-la acordar à força. Como resultado, ela partiu. Eva não era do tipo de mulher que insistia quando percebia que não ia conseguir o que queria.

E para ser honesto consigo mesmo, não estava realmente com saudades dela.

— Não mesmo, obrigada.

A voz dela se destacou em um daqueles súbitos lapsos de silêncio nos quais até a voz mais baixinha soa clara e audível na quietude do recinto.

E que voz! Grave e sensual, surpreendentemente rouca para uma mulher. Ele começou a imaginar aque­la voz sussurrando coisas para ele em sua enorme e aconchegante cama king-size. Theo ficou com a boca seca e contraiu os músculos do corpo só de pensar. Mas no momento seguinte o clima sexy desapareceu e os pensamentos eróticos foram carregados para longe por uma dramática mudança de tom em sua voz.

— Eu disse que não, obrigada.

Theo se levantou antes de se dar conta. As pala­vras dela soaram de um jeito, como se estivesse cons­trangida, rejeitando a posição em que se encontrava. Era evidente que ela não estava contente.

Após meia dúzia de passos ele parou atrás dela. Nem ela nem os homens com quem ela estava falan­do o notaram.

Skye Marston sabia que estava encrencada.

Na verdade, soube disso logo após cair na besteira de dar conversa àqueles dois. Não devia ter parado, não devia ter respondido ao aceno casual e amigável dos dois quando ela estava entrando.

Ao aparentemente casual e amigável aceno.

Ela entrou no bar por impulso. Pareceu cheio, bem iluminado e quente, enquanto lá fora estava choven­do canivetes e batendo um vento gelado. Ela queria muito ver gente. Passara tempo demais sozinha, o que a deixava vulnerável a pensamentos tristes.

Fazia mesmo menos de um mês que seu pai havia perdido tudo e assumido que seus problemas finan­ceiros eram bem piores do que ele deixava transpare­cer? Ao tentar lidar com estes problemas ele conse­guiu piorar a situação mais ainda desviando dinheiro de seu chefe, o milionário grego Cyril Antonakos, dono da rede de hotéis da qual era gerente. Agora es­tava desaparecido e pegaria um bom tempo na cadeia se Antonakos chamasse a polícia.

— Não posso ir para a cadeia, Skye! — ele disse, chorando. — Não agora que sua mãe está doente. Ela não vai agüentar! Não vai conseguir ficar sem mim. Você precisa me ajudar!

— Vou fazer tudo que puder, pai — disse Skye instintivamente, sabendo que não havia mais nada que pudesse dizer.

O problema no coração da mãe já havia causado muita preocupação antes, mas ultimamente sua saúde estava piorando. Tudo indicava que, se a próxima operação não desse resultado, a única esperança seria um transplante de coração.

— Faço qualquer coisa, pai, apesar de não saber o que posso fazer.

Mas o pai sabia. Cyril Antonakos já havia sugeri­do uma maneira de escapar da terrível armadilha na qual Andrew Marston se metera. E Skye escutou, horrorizada, o pai revelar como ela era vital para o esquema. Cyril queria um herdeiro. Para tanto, evi­dentemente precisava de uma esposa, e como seu úl­timo casamento terminou em divórcio litigioso, ele escolheu Skye para mãe de seu filho. Se ela se casas­se com ele e lhe desse o herdeiro que ele tanto queria, Cyril não diria nada à polícia.

Para salvar Andrew Marston da prisão, ela teria de casar com um homem mais velho que seu próprio pai.

E tinha de dar a resposta amanhã. Por isto estava sozinha, aproveitando sua última noite de liberdade entre as luzes da cidade e os bares agitados de Londres. Tudo o que queria era se distrair e não pensar no que teria de encarar no dia seguinte.

Entrou no bar e foi direto pedir a bebida.

Imediatamente sentiu que havia cometido um erro.

Sim, o bar estava quente e suficientemente ilumi­nado. Também tinha muita gente. E todos pareciam se conhecer. Ninguém estava sozinho, sem ninguém com quem conversar, para quem sorrir.

E mesmo se estivessem sozinhos, ela pensou, nin­guém poderia estar mais sozinho do que ela naquela noite.

Quando estava para sair do bar quando viu outra pessoa que estava, como ela, sem companhia.

Será que ela conseguiria, e será que devia, se le­vantar para ir falar com ele? Esta era a idéia desde o início. Encontrar alguém para conversar, e então, quem sabe, afastar esta sensação de perda e isola­mento, derretendo o bloco cruel de gelo que parecia cercar seu mundo para que ela gozasse alguns mo­mentos de liberdade antes do mundo se fechar sobre ela mais uma vez.

Mas aquele homem não parecia do tipo que faria aquilo por ela. Era grande e moreno demais, parecia perigoso demais com aquele corpo imenso jogado so­bre a cadeira, aparentemente à vontade em sua força cuidadosamente controlada. Havia algo nele que fez o coração dela disparar no peito, ela quase perdeu o fôlego, perplexa. A cabeleira negra dele estava vira­da para o outro lado e seus olhos contraídos miravam a taça de vinho em suas mãos.

Era quase como se ela tivesse flagrado um felino aguçado e sagaz se espreguiçando em alguma clareira na floresta. Ao vê-lo, Skye pensou duas vezes e não saiu do bar.

Foi quando ela ouviu alguém chamá-la de uma mesa próxima.

— Olá, querida. Procurando por alguém?

Se ela não estivesse tão entretida pela visão daque­le moreno, tão desesperada por companhia e distra­ção, Skye teria dado apenas um sorriso automático, murmurado qualquer coisa e se afastado. Mas seus passos já haviam diminuído de ritmo, ela já havia pa­rado ao lado da mesa e não conseguia falar nada para sair da situação.

E eles acharam que ela tinha resolvido passar a noite com eles — e muito mais. Seus sorrisos e o modo lascivo e atrevido com que a olhavam de cima a baixo a fez se sentir mal. Ela podia estar querendo passar uma última noite na condição de mulher sol­teira de 22 anos, mas não era nada disto que tinha em mente.

Ela tentou recusar ofertas de bebida com um sorri­so educado, mas viu que eles não estavam aceitando. O louro estava ficando cada vez mais agressivo, e, quando ela tentou se afastar, o outro, de cabelos escu­ros, agarrou seu braço com força.

— Então, qual é o problema, nós não somos bons o bastante para você?

— Não, nada disso, é que estou esperando uma pessoa.

— Quem? — perguntou, demonstrando não acre­ditar nela.

— Meu... meu namorado. Ele marcou... de me en­contrar aqui.

O louro olhou ao redor teatralmente, como quem procura um sujeito imaginário.

— Então acho que por deram um bolo, ruiva. Ele não vem mais.

O outro a puxou pelo braço com mais força.

— Ele., só está atrasado.

— Sabe o que eu acho, ruiva?

A voz dele era um sussurro irônico, e seus olhos ti­nham um brilho maldoso.

— Acho eu ele não vem. Na verdade, tenho para mim que você está mentindo... que este cara não existe.

— Ah, existe, sim.

Skye quase pulou como uma gata assustada ao es­cutar aquelas palavras vindo detrás de si. Aquela voz masculina, profunda e com um sotaque bonito que era a última coisa que ela podia esperar. Era a fanta­sia que ela podia ter, a do amor de sua vida salvando-a de uma situação horrível.

Mas não se tratava de fantasia nenhuma. O olhar perplexo de seus algozes saiu do foco de sua mente. Eles estavam boquiabertos. O rapaz que apertava seu braço afrouxou a mão e finalmente a soltou, chocado:

— Ah!

O discreto muxoxo de assombro saiu de Skye en­quanto um par de braços musculosos deslizou por sua cintura, vindo de trás. Aquela figura potente e pode­rosa parada atrás de si lhe abrasou a alma com seu ca­lor e sua força.

Ela se sentiu segura, protegida, envolvida por aquele homem desconhecido. Sua afabilidade e seu vigor a cercavam, o som de sua respiração dominava seus ouvidos e o cheiro de sua pele preenchia suas na­rinas.

— Desculpe pelo atraso, querida — murmurou a voz rouca contra seu pescoço. — Você sabe como es­tas reuniões demoram. Mas já cheguei.

— Hummm.

Foi tudo que ela conseguiu dizer, e não se importa­va se soou mais como uma reação sensual do que como uma resposta coerente.

Seu corpo estava latejando por inteiro, ardendo em reação ao mero toque daquele desconhecido. Ela não estava vendo seu rosto, as únicas partes de seu corpo que conseguia ver eram as mãos que ele pôs em sua cintura.

E eram mãos extremamente masculinas. Grandes, quadradas e ágeis. Os dedos dela até diminuíram de tamanho quando ele tomou sua mão. Ele não usava aliança ou anel. Seu único adorno era um relógio de platina no pulso.

— Você me perdoa?

— Sim, claro!

Como ela poderia dizer outra coisa? Ela teria con­cordado com qualquer coisa, aceitado qualquer coisa vinda dele. Era impossível pensar direito.

Ela sentiu o movimento detrás de si, fora do campo de visão. Percebeu o roçar de pêlos sedosos na boche­cha e a pressão daqueles lábios quentes na nuca. Quase perdeu o fôlego, seu coração por pouco não pulou do peito. Reclinou, então, a cabeça com olhos semicerrados sobre aquele ombro protetor e firme.

— Ei!

A voz do estranho soou suave, com tom de leve re­provação, cingida por uma risada perturbadora.

— Aqui, não, querida — ele disse maldosamente. — Melhor esperar chegarmos em casa!

Em casa! Ela não estava indo a lugar nenhum com aquele homem...

Aquilo a fez voltar ao à realidade num piscar de olhos. Aprumou a cabeça incisivamente e abriu a boca para dizer algo. Mas ela não conseguiu dizer nada.

— Vamos, meu bem. Despeça-se de seus amigos. Foi o jeito que ele falou amigos que a alertou. Ela quase entregou a mentira. Se ela reclamasse, deixaria claro que ele estava apenas salvando-a, não era na­morado coisa nenhuma.

— Tchau, pessoal. Obrigada pela companhia! Quem era aquele homem que veio salvá-la tão prontamente? A questão voltava à sua mente enquan­to saiu do bar de mãos dadas com ele.

Ele era alto e de compleição forte, isto ela podia dizer só de olhar de canto de olho. Ela se deixou con­duzir, aliviada por se afastar daqueles homens incon­venientes.

Saíram.

— Agora, espere!

Ela parou como se estivesse freando a si mesma.

— Já está bom!

Desta vez sua voz o alcançou. Ele parou de repen­te, deu meia-volta para encará-la, e ela viu seu rosto pela primeira vez sob a iluminação de um poste.

Ela já vira aquele rosto antes. Aquele rosto anguloso e de expressão arrogante. Os olhos negros como piche, profundos, contrastando com as maçãs do ros­to penetrantes, o nariz retilíneo e os cabelos encorpados e mais negro que as sombras noturnas que o en­volviam.

— Você!

A palavra escapou com estupor ao reconhecer o homem que vira do outro lado do bar. A única outra pessoa que estava sozinha naquele lugar tão agitado.

O homem de quem ela não ousou se aproximar por um medo instintivo que a deteve. Sua intuição aflorou para alertá-la, piscando luzes vermelhas onde se lia "Perigo - Mantenha distância - Não toque". Ela sabia que algo de muito profundo e primitivo estava aconte­cendo dentro dela, o que a fez sentir que ele era alguém que devia tratar com muita cautela, como quem se aproxima de um felino selvagem no meio da caçada.

E visto de perto a impressão redobrava. Mais peri­goso, mais devastador. Mais flagrantemente masculi­no. Mais atraente ainda, e até seu inegável sex-appeal carregava um quê de perigo subjacente.

Não era o tipo de homem que ela costuma encon­trar. Não lembrava em nada o tipo de homem que ela conheceu em casa e no trabalho, os poucos com quem saiu apenas amigavelmente. Este homem estava além de sua experiência e de seu conhecimento. E com toda certeza, muito além de sua capacidade de auto-controle.

Seus instintos estavam gritando mais uma vez que ela estava perdida nas mãos daquele homem.

Estava saltando da frigideira direto para o fogo.

 

 

CAPÍTULO DOIS

 

— Eu?

A reação de Theo à exclamação perplexa de Skye foi da maior calma que ele pôde fingir, embora por dentro estivesse a ponto de perder o controle.

Não devia tê-la tocado.

O corpo dele ainda ardia só de pensar nisto; seu cé­rebro quase derreteu com aquele calor erótico que inundou cada centímetro de seu corpo, deixando-o excitado e cheio de desejo instantaneamente. Ele ain­da estava sentindo os efeitos daquela maré flamejan­te, evidenciando o choque térmico com o ar gelado das ruas.

Ele não devia tê-la tocado, mas também não estava esperando que ela reagisse daquele jeito, deitando a cabeça em seu ombro, encostando-se nele.

Mas agora ela estava agindo como se ele fosse um demônio e não alguém por quem ela estava esperan­do.

— Você estava esperando por outra pessoa?

— Não... Não exatamente. Eu... é que eu não pen­sei que fosse você a vir me ajudar. Eu devo lhe agra­decer — ela disse, já muito tarde para desfazer a con­fusão na cabeça dele.

— Não foi nada.

Theo sabia muito bem que os impulsos frustrados de seu corpo estavam distorcendo seu humor, deixan­do-o irritado e arisco. E o que piorou muito este mau humor foi se certificar, ao encará-la, que era mesmo tão bonita de frente quanto insinuava ser de costas.

Ela era linda. Rosto oval, pele suave. Olhos claros e luminosos com cílios incrivelmente grossos e abun­dantes. Boca delicada de lábios fartos que pareciam feitos para beijar e inspiravam pensamentos alucina­damente eróticos.

— Eu preciso me apresentar.

Ela estendeu a mão de modo estritamente formal.

— Meu nome é... Skye...

A hesitação antes de dizer o nome e o fato de não ter acrescentado nenhum sobrenome transmitiu a mensagem de que ela não queria confiar-lhe maiores detalhes de sua identidade. Muito bem, para ele não tinha problema nenhum.

— Anton — ele grunhiu, sabendo que estava sen­do forçado a lhe apertar a mão, mas tornando o con­tato o mais breve possível.

Não queria ser acometido novamente por aqueles desejos cruelmente impositivos que o tomaram por completo pouco antes. Principalmente porque Skye parecia estar disposta a seguir seu rumo e não havia chance de acontecer nada além entre eles dois.

— Anton.

O jeito que ela repetiu o nome que ele disse o fez suspeitar que ela soubesse, ou suspeitasse, que não era verdadeiro.

Ele não estava nem aí mesmo. Até na Inglaterra o nome Antonakos — e, principalmente, a fortuna da família Antonakos — era tão conhecida que só de sa­ber que ele era um deles bastava para criar interesses vindos do nada e fazer as pessoas o tratarem diferen­te.

E sua experiência lhe dizia que as mulheres eram as mais implacáveis no ataque. Elas viam no nome Antonakos imagens de garantia de boa vida para sempre, um futuro de luxos e conforto, bastando ape­nas jogar as cartas certas.

E ele não sabia bem que tipo de carta esta tal de Skye guardava na manga, de modo que preferia man­ter a discrição quanto à sua identidade verdadeira.

Não que ela parecesse minimamente interessada no momento. Aqueles olhos luminosos estavam vas­culhando a rua de alto a baixo.

— Está à procura de alguém?

Estava desconfiado. Droga, será que ele tinha se enganado? Soltou um palavrão inaudível ao pensar aquilo. Não queria que ela estivesse esperando por ninguém. Ele pensou que o namorado que ela men­cionou fosse de mentira — ou melhor, ele queria que ele não existisse.

A verdade é que ele queria aquela mulher para si, e no momento estava preparado para fazer qualquer coisa para tê-la.

— O namorado que você disse existe mesmo?

— Ah, não.

Ao balançar a cabeça, uma mecha de cabelos ver­melhos esvoaçou sobre seu rosto, e algumas gotas da chuva fininha que caía cintilaram entre os fios rubros e brilhantes.

— Não, eu inventei aquilo para que me deixassem ir embora. Não estava procurando ninguém, só por um táxi.

— Posso lhe dar uma carona para onde quiser.

— Um táxi já estará ótimo. — Em outras palavras, o recado era "mantenha distância". Nenhuma ação física seria mais capaz de aumentar a distância entre os dois.

Um táxi preto estava se aproximando e ela fez si­nal, mas já era tarde demais. O veículo passou sobre uma poça, enlameando-a dos pés à cabeça.

— Posso lhe dar uma carona para onde quiser.

O modo com que ele repetiu exatamente o que disse­ra fez Skye corar. Ao encarar seu olhar negro e aceso e perceber a tensão em seu maxilar, Skye entendeu tudo.

Ela o insultara com sua recusa. Ele também estava com raiva, algo a fez sentir que aquela rejeição o atingira de alguma forma.

— Eu estava apenas tentando ser razoável — ela conseguiu dizer, enfim.

— Um pouco tarde para isto, não?

— O que quer dizer?

— Bem, a situação na qual você se meteu aqui... — Apontou com a cabeça para o bar enfumaçado e ruidoso. — Não sé pode dizer que aquilo é jeito de gente razoável agir.

Skye interpretou a ênfase na palavra razoável como provocação. Empinou o queixo, com os olhos já inflamados.

— Eu não pedi por aquilo. Simplesmente aconte­ceu.

— Só lhe ofereci uma carona.

A resignação no tom de sua voz indicava que ele estava usando as últimas reservas de paciência.

— Descul... — ela começou a dizer, mas ele saiu caminhando, ignorando-a.

— Fui criado para não deixar mulher nenhuma correr riscos se eu puder evitar.

— Então, por favor, consiga um táxi para mim. Ela torceu para ele não discutir mais, pois estava

também no limite do autocontrole.

— Não.

A resposta foi fria, curta e grossa, e ela ficou arre­piada de ouvir.

Saltando da frigideira direto para o fogo. A frase nefasta que lhe veio à mente assim que saíram do bar estava agora girando dentro de sua cabeça, e sua mente pareceu prestes a explodir.

— Você não precisa de táxi. Eu a levo para onde quiser.

Skye fechou os olhos, tremendo de horror ao ten­tar imaginar no que daria aquilo. Não queria nem pensar no que o pai acharia ao vê-la chegar em casa em um carro estranho, com um homem desconheci­do. E queria pensar menos ainda no que seu "noivo" acharia daquilo.

Ah, por que ela foi pensar naquilo? Por que ela foi acreditar que podia se dar ao luxo de uma escapada noturna só para tentar formar uma barreira imaginá­ria entre ela e o futuro que lhe aguardava?

Por que ela foi pensar que tinha direito a uma noite como as de suas amigas, gozando a liberdade da ju­ventude em uma noite de irresponsabilidade, de abandono total antes que os muros de restrição se fe­chassem ao redor dela de uma vez por todas?

Ela nunca conseguiu viver assim, nem quando go­zava sua liberdade — a liberdade da juventude. En­tão por que estava achando que podia viver isto ago­ra, só por esta noite?

— Eu mesma arrumo um táxi, então.

Ela se afastou de um jeito malcriado, sabendo no fundo de seu coração que estava na verdade fugindo de si mesma, não dele. Mas estava mais perto do meio-fio do que pensou, e pisou em falso torcendo o salto. Teria caído direto em uma poça no meio da es­trada se aquele homem não tivesse reagido com velo­cidade instintiva.

— Skye, cuidado!

Num piscar de olhos ele estava atrás dela, segurando-a antes que o tropeço virasse queda e trazendo-a de volta para a segurança da calçada.

Segurança? Ou trazendo de volta para o cerne do perigo?

Skye não teve como saber. Sua cabeça estava ro­dando demais depois do choque da quase queda, não dava para pensar direito.

A posição em que ela se encontrava tampouco aju­dava. Anton a havia agarrado de um jeito que a dei­xou bem junto dele, envolvida por aqueles braços, com a cabeça encostada ao peito dele, o coração ba­tendo direto em seu ouvido.

E foi quando começou de novo.

Do mesmo jeito como quando ele veio por detrás dela no bar, o sangue de Skye começou a esquentar outra vez como reação àquela proximidade. O cora­ção disparado, como o dele. Ela estava em seus bra­ços, sentindo seu calor e sua força fazendo seus pen­samentos derreter em sua mente.

Era como voltar para casa.

Era como se ela sempre tivesse estado ali. Como se aquele fosse o lugar dela de verdade. O lugar onde mais queria estar no mundo. E com o movimento de aconchego típico de uma criatura pequenina queren­do se proteger do mundo duro e frio lá fora, ela se aninhou, afundando o rosto na parte da frente de sua camisa, as mãos deslizando debaixo de seu casaco, agarrando-lhe a cintura com os braços.

Sentiu que ele a segurou com mais força ainda, in­clinando a cabeça morena e aproximando tanto seu rosto do dela que ela pôde sentir aquela barba que co­meçava a crescer roçando na delicada pele de seu ros­to. Ela sentiu — mal conseguindo acreditar — a sua­ve quentura daquela boca em seu pescoço, na base da orelha e escutou o suspiro fundo que ele deu ao sus­surrar com a voz rouca de encontro ao ouvido.

— Skye, não vá, fique! Quero que você fique.

— O quê?

Será que ele havia dito mesmo aquilo que ela acha­va estar ouvindo? Não podia crer. Não podia ser real. Ela só podia estar sofrendo de alguma alucinação au­ditiva, estava escutando o que desejava escutar.

Não era possível. Homens como aquele tal de Anton não ficavam por aí implorando para as mulheres saírem com ele, assim sem mais nem menos.

Será que ele havia mesmo dito...?

Ela tentou olhar para o rosto dele, para ver se con­seguia ler a resposta em sua expressão, mas quando levantou a cabeça ele abaixou o rosto e seus lábios se encontraram num beijo quente e tão inesperado quan­to desejado, que a fez sentir um formigamento pelo corpo todo.

Isto não pode estar acontecendo, foi a única coisa que ela conseguiu pensar antes do curto-circuito que se deu em seu cérebro, que abdicou da razão e virou sentimento puro.

A boca daquele homem era pura sedução, puro pe­cado. Seu beijo lançou-lhe um feitiço que a fez derre­ter em seus braços, perdendo-se na sensação de se tornar parte dele. Os lábios de Skye se entreabriram, encorajando a invasão fervente daquela língua, e ela gemeu baixinho, um som de total entrega e rendição, tornando-se apenas uma mulher reagindo a um ho­mem. Algo de muito sensual se desenrolou dentro do corpo de Skye, e ela sentiu a umidade intensa que se formou entre suas coxas.

Os sons e luzes da rua se tornaram um mero borrão no fundo de sua mente enquanto ele a puxou com seu braço forte, quase a levantando no ar. Suas mãos for­tes seguraram uma mecha que lhe caiu sobre o rosto e então seus dedos adentraram a massa de cabelos e começaram a acariciar vigorosamente o crânio. A chuva começou a cair mais forte, mais gelada, mas

Skye nem prestou atenção, perdida em um mundo onde nada lhe atingia.

Alguém assoviou ao longe e eles começaram a se afastar, lenta e relutantemente, com olhos abertos, arfantes, olhando um para o outro com rostos levemen­te deslumbrados, cientes do fogo primitivo que s acendera entre os dois.

— Eu... — Skye começou a falar, mas sua voz fa­lhou quando ela realizou o que havia acabado de acontecer.

Então era isso. Eram assim as relações entre ho­mens e mulheres. Era daí que vinham palavras como desejo e paixão, era isto que estava por detrás destes termos. Até então ela não sabia o que queriam dizer.

Até então.

Mas agora era tarde demais, ela pensou, sentindo pontadas nos olhos avisando das lágrimas nascentes.

Agora que ela já tinha um destino infeliz à sua es­pera.

Agora que ela sabia que estes prazeres e esta feli­cidade lhe seriam negados para sempre.

A não ser por esta noite, disse uma vozinha em sua mente, trazendo consigo sonhos e esperanças de um tipo que ela jamais se permitiu pensar antes. Sonhos que a faziam estremecer só de pensar.

Sonhos que estavam, naquele momento, ao seu al­cance. Tudo que ela precisava fazer era esticar a mão para tocar este sonho feito realidade. Por aquela noi­te; só por aquela noite.

— Skye? — o homem chamado Anton chamou suavemente, fazendo-a perceber que estava havia muito tempo em silêncio, distante, trancada na som­bria e nefasta escuridão de seus pensamentos.

O calor de seu corpo ainda a envolvia. Já não a se­gurava com tanta força, mas seus corpos ainda se to­cavam e ela sentiu na altura do ventre a pressão firme que vinha dele, demonstrando além de palavras o de­sejo contido naquele beijo. O mesmo desejo que ha­via no beijo dela. Que ainda pulsava em seu sangue e fazia estremecer todos os seus nervos.

Ele a queria tanto quanto ela o queria.

Mas ela acabara de conhecê-lo.

— Não vou lhe fazer mal. — A voz rouca e grave transbordava desejo. Tão rouca e tão grave que ela fi­cou chocada de pensar que podia causar esta reação em um homem, menos ainda naquele homem. Tão alto e imponente, um homem devastador.

— Juro que você vai estar bem ao meu lado, pro­meto...

O coração de Skye parecia prestes a atravessar o peito, batendo descompassado e selvagem, e ela qua­se entrou em pânico ao perceber o que estava pensan­do em fazer. Mas a dor do desejo ainda latejava em seu corpo e não a abandonaria assim, do nada.

Se ao menos isto tivesse acontecido antes, se ela tivesse conhecido Anton antes...

Mas não. Isso seria desejar o impossível. Seu des­tino fora selado e ela não tinha alternativa a não ser seguir o caminho que lhe designaram. O caminho que ela aceitou seguir.

Não tinha escolha senão aceitar.

A partir de amanhã, tudo seria diferente. A partir de amanhã, sua vida não seria mais sua.

Skye mordeu o lábio inferior, deixando marcas ar­redondadas na carne rosada.

Amanhã.

Na semana passada ela chegou a pensar em fugir, mas não tinha como. Sonhou com esta fuga, esperou por ela, torceu para ter uma oportunidade. Mas não haveria oportunidade. Muita gente dependia dela. Se ela tivesse alguma dúvida quanto a isto, a notícia de que o coração de sua mãe estava irreversivelmente debilitado afastou qualquer dúvida possível. Ela não podia fugir e deixá-los desamparados.

Mas ainda tinha a noite de hoje.

Hoje ela podia escapar, ao menos temporariamen­te, de tudo que a detinha. Podia escapar para um mun­do de fantasia e sensualidade. Um mundo tão irreal que ela nem conseguia acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo com ela. Um mundo no qual, ao menos uma vez na vida, pela primeira e última vez, apenas por algumas horas, ela poderia experimentar o ápice da paixão e a sedução incisiva que tinha aca­bado de conhecer agora mesmo.

Uma das coisas mais difíceis de aceitar em relação a este casamento com Cyril Antonakos era o fato de sua indesejada noite de núpcias vir a ser sua primeira vez na vida. Era virgem, pois jamais conhecera antes nenhum homem que lhe despertasse a vontade de mudar esta situação. Até agora.

Agora não conseguia nem pensar na idéia de per­der a virgindade com aquele homem de quase sessen­ta anos, que seria seu primeiro e único homem, pois Anton mal a tocava e ela se consumia em calores.

Ela podia ter aquela noite.

Juro que você vai estar bem ao meu lado, prome­to...

Ele nem precisava saber seu nome. E amanhã o mundo se fecharia para ela novamente, como uma Cinderela moderna.

Mas ela teria aquela noite.

Se ao menos ela conseguisse reunir forças para respondê-lo. Se ao menos tivesse a coragem de di­zer...

— Skye?

Seu nome soou mais áspero em sua língua agora, com aquela impaciência rude e aquele sotaque devas­tador parecendo diferente e estranho. Seu nome tam­bém soou diferente.

— Não vai me responder?

Skye tentou. Engoliu em seco, se esforçou para manter o controle e ganhar forças.

Então ela sentiu aquela mão de dedos longos to­cando seu queixo e puxando seu rosto levemente para cima para fazê-la olhar em seus olhos. E os olhos cin­zentos de Skye mergulharam na escuridão profunda dos olhos dele.

Ele abaixou a cabeça lentamente e sua boca se en­caixou delicadamente à dela. Desta vez o beijo não foi selvagem e derramado como o de momentos an­tes; desta vez foi suave, lento e de uma ternura tocante. Ela sentiu como se sua alma fosse sair do corpo, como se seus ossos fossem derreter, e então recome­çou a tremedeira, fazendo-a se apoiar nele, carente da força que nele sobrava.

— Então diga, minha linda — ele sussurrou em uma voz grave e encorpada como o veludo do céu no­turno sobre suas cabeças. — Você vai ou fica?

Minha linda, Skye pensou, inebriada.

Ninguém jamais a chamara de linda. Ou a fizera sentir algo como aquele beijo.

De repente havia apenas uma resposta possível.

Aquela noite tinha de ser sua. Ela podia até se ar­repender depois, quando tivesse de encarar a realida­de. Mas estava certa de que arrependimento maior ela sentiria se dissesse não a ele.

Então ela levantou a cabeça e o beijou novamente, respondendo com carícias, apesar de ciente da neces­sidade de usar palavras.

— Ah, sim — ela arfou suave e confiantemente. — Sim, claro que fico. Mas com uma condição...

 

 

CAPÍTULO TRÊS

 

Theo clicou no interruptor para acender a luz e deu uma olhada no recinto de modo crítico, formando um vinco na testa.

— Tem certeza que é isto que você quer?

Ele achou que estava bom para um quarto de hotel. Ao menos era limpo e tinha um tamanho razoável, com uma cama aparentemente confortável, mais os móveis de sempre. Um pequeno banheiro fazia parte da suíte, coberto de severos ladrilhos brancos e com toalhas igualmente brancas, além de artigos de toalete sobre a pia.

Tudo sem alma, funcional e impessoal, portanto pouco receptivo. De jeito nenhum o tipo de lugar em que ele esperava acabar a noite.

Mas nada correu como esperado.

Ele com certeza jamais previu que ia acabar em um quarto de hotel com uma mulher que lhe desper­tava os instintos mais primitivos, mas sobre quem sa­bia somente o primeiro nome.

— Somos estranhos — ela disse — e quero que continue assim. Você não me conhece e eu não co­nheço você, é assim que tem de ser.

De jeito nenhum! Foi isto que ele disse de início. Ele começou a se virar para ir embora, mas ela ainda estava muito perto dele, seus braços ainda estavam na cintura dela, e o sangue quente correndo em suas veias, o desejo intenso que clamava aos seus sentidos e lhe embotava os pensamentos.

Ele não podia deixá-la partir.

Ele percebeu que não podia fazer isso no momento em que ela se virou para pegar um táxi e sair de sua vida. E se ela fosse embora agora, não voltaria mais. Ele não teria como localizá-la. Ela desapareceria dentro da noite e ele jamais a veria novamente; não saberia mais nada sobre ela.

— Você está pedindo muito, minha dama — ele disse, com a voz rouca e ríspida.

Ela não indicou reconsiderar. Encarou-o firme­mente com seus olhos claros e cinzentos e os lábios fechados com determinação.

— Ou isto, ou nada — ela disse, e levou a mão ao peito dele, acariciando por sobre a camisa. O movi­mento de seu braço fez ele sentir uma lufada de seu cheiro novamente.

A pele dele ardia ao toque dos dedos de Skye, e seu coração batia em um compasso selvagem.

— Ou isto, ou nada — ele repetiu, sabendo que não poderia viver com " nada". Ele se arrependeria pelo resto da vida se deixasse aquela mulher lhe esca­par agora.

— Como preferir, minha dama — ele disse. — Como preferir.

E era assim que ela preferia. Ao menos por aquela noite. Bem, ele poderia deixá-la ditar as regras por aque­la noite — afinal, ela não era a única ali a ser um tanto... econômica no que diz respeito à verdade. Mas sempre havia o dia de amanhã.

No dia seguinte ele faria um monte de perguntas. E faria questão de respostas claras.

Enquanto isto, passaria aquela noite convencendo-a de que não se tratava de " ou isto, ou nada". Não mesmo.

— Skye? — ele perguntou ao ver que a mulher que entrara no quarto com ele não estava dizendo nada. — Que foi? Mudou de idéia? Que desistir do nosso acordo? Vai voltar atrás? Será que ela queria?

A própria Skye estava se perguntando isto quando subiram para o quarto. A verdade é que sua coragem e convicção estavam fraquejando desde que ela con­cordou em passar a noite com ele.

Claro que ela o chocou ao dizer que só ficaria na condição de não dizer seu nome completo a ele, nem ele a ela.

Ela pensou que ele fosse dar-lhe as costas quando disse isso. Certamente sua expressão foi a de quem queria fazê-la engolir aquela proposta cretina. Ele fe­chou a cara e suas feições de repente pareceram es­culpidas em mármore.

Mas ele então piscou uma vez, e fraquejou. — Não — ela disse agora, miseravelmente ciente de como transpareceu a tensão que sentia em apenas uma palavra. Sua voz soou rígida e dura, fria e distan­te. —- Não, não estou voltando atrás. É só que... É que não tenho experiência nisto. As palavras estavam na ponta da língua, mas Skye as engoliu afobadamente, fechando os olhos para controlar a terrível ansiedade que estava sentindo.

— Só que o quê?

A voz dele estava desconcertantemente próxima, e quando ela abriu os olhos de novo viu que ele tinha chegado ainda mais perto, tão perto que bastava le­vantar a mão para tocá-lo. Não precisa nem esticar os dedos para alcançá-lo.

E ela queria mesmo tocar Anton. As pontas de seus dedos formigavam quando ela pensava no toque da pele daquele homem. Ela sentiu novamente nas palmas das mãos a dureza dos músculos debaixo da camisa. Queria se perder naquela sensação maravi­lhosa e inebriante que lhe inundou os sentidos, impe­dindo-a de pensar, pois ela só conseguia entender a ■ linguagem do desejo.

Ela queria aquele homem.

— Só que o quê? — ele perguntou de novo, mais incisivamente desta vez.

Quero quer você me abrace... que me faça esque­cer...

— Só quero que você me beije outra vez.

—Ah, é isso!

Ele falou com um tom de risada nas entrelinhas, triunfante.

— Era só pedir.

Eleja estava se aproximando, tomando-a nos bra­ços, trazendo para si com a segurança de um homem que sabe o efeito que causa nas mulheres; um homem que sabia mesmo o que queria.

— Então me diga, meu bem...

Acarinhou-a sob o queixo, levantou seu rosto em direção ao dele, mirando com seus olhos negros cintilantes o interior dos olhos dela, cinzentos como um céu nublado. Com os olhares enganchados um no ou­tro, Skye sentiu tudo parar ao seu redor.

— Onde devo beijá-la? Aqui?

A pressão cálida dos lábios dele sobre sua testa foi como o pouso de uma borboleta, leve, delicado, pou­sando e levantando de modo tão diáfano que ela só sentia o toque quando ele cessava. E quando sentia, seus lábios se entreabriam em um suspiro de melan­cólico deleite.

— Ou aqui...?

Desta vez ele acariciou-lhe a bochecha, beijando logo abaixo da têmpora, à esquerda, depois nova­mente à direita, fazendo-a suspirar mais fundo.

— Ou quem sabe aqui... ?

Lenta e deliberadamente, ele beijou suas pálpebras, e Skye se viu jogada em um mundo de sombria sensualidade onde seus sentidos pareciam amplifica­dos e agudamente sensíveis a tudo que vinha daquele homem.

Dava para ela escutar cada respiração dele, grave e constante, combinando com a batida de seu coração. O cheiro dele a envolvia por inteiro, um cheiro mas­culino, limpo, cálido, sutilmente misturado ao odor cítrico de sua colônia. Quando ele abarcou suas mãos entre as dele ela sentiu a transmissão de uma corrente elétrica que a fez encolher os dedos e arfar de prazer.

E então começou tudo de novo.

Ela estava derretendo por dentro, e a tensão gote­java de seu corpo de um modo que ela não se sur­preenderia se uma poça se formasse a seus pés. O doce pulsar da vontade começava a agir em suas veias novamente, enviando ondas de desejo a cada terminação nervosa, alinhando-as no diapasão da atração que se tornava cada vez maior.

— Acho que isto basta para começar — ela conse­guiu dizer, impressionada com a própria ousadia. Uma ousadia reforçada pela penumbra causada por suas pálpebras entreabertas.

Ela não estava vendo o homem que a abraçava, não podia olhar para seus olhos negros e perceber o que ele pensava. Só conseguia sentir, fechada em seu mundo secreto de sensações que jamais conhecera antes, mas que agora queria conhecer cada vez melhor.

Ela quis mergulhar naquelas sensações como uma nadadora mergulhando na piscina mais profunda, abrindo as águas de cabeça e nelas submergindo por completo. Queria conhecer aquilo ao máximo. Que­ria se jogar com ambição e gana, agarrando estas sensações e as engolindo avidamente.

Mas Anton parecia determinado a levar as coisas devagar. Quando ela fez um pequeno movimento de impaciência, ele a aquietou suavemente, fazendo-a se calar com o dedo sobre seus lábios.

— Não, não tão rápido, menina linda. Temos a noite toda.

A noite toda...

Que sonoridade maravilhosa. Uma sonoridade que parecia prometer horas que se prolongariam infinita­mente, levando-a ao máximo de prazer que poderia suportar. Mas, ao mesmo tempo, Skye sabia que as próximas horas passariam rápido. Logo acabariam.

Esta era a única chance que ela tinha de conhecer os deleites sensuais que lhe aguardavam.

E não estava disposta a desperdiçar nada. Seu cor­po já estava inflamado de ansiedade, e ela estava tre­mendo nos braços dele, agradecida pela segurança que sentia ali.

— Anton...

O nome dele saiu dos lábios dela em um gemido de desejo, e ela sentiu e ouviu a leve risada que balançou aquele corpo grande sobre o seu.

— Eu sei, meu bem — e sua voz transparecia sin­ceridade no que dizia —, eu sei como você se sente, mas pode acreditar que vale a pena fazer devagarzinho. Deixe-me continuar, eu vou lhe mostrar...

E beijou-a novamente, percorrendo com a boca uma trilha fervente que começava nas têmporas, des­cia ao maxilar até capturar seus lábios mais uma vez. O toque daquela boca em sua pele e a magia que aquele toque operava estavam ameaçando sua capa­cidade de pensar. Mas havia uma questão prática na qual tinha de pensar, do contrário as conseqüências seriam terríveis demais.

Ela só tinha aquela noite, não podia correr o risco de nenhum resultado posterior, não podia produzir nada naquela noite, o que a destruiria, e à sua família, em um só golpe.

— Você tem...?

Foi uma luta para dizer as palavras sem sucumbir ao deleite que aqueles lábios insistiam em lhe causar. Mas ela tinha de dizer. A mulher que ela acreditava ser jamais deixaria escapar algo tão importante.

— Você tem... preservativos?

— É claro.

Ele não perdia uma. Sua resposta foi tranqüila, e ele continuou a mover os lábios por sua pele, fazen­do-a descobrir pontos prazerosos em si mesma que sequer desconfiava existirem.

— A loja do hotel tem de tudo.

— Ah, sim.

Quisera Skye ter soado mais segura do que soou. Ela quase teve uma crise histérica ao chegar à recep­ção do hotel, e inventou um motivo para ir ao banhei­ro. Quando voltou com as bochechas muito coradas, ele a estava esperando perto do elevador com a chave do quarto na mão.

— Então agora você pode relaxar enquanto eu cui­do de você.

Havia entrelinhas tão sedutoras em sua voz que ela chegou a encolher os dedos dos pés dentro do sapato de couro que os revestia. De repente ela queria se ver livre até de mínimas restrições como os sapatos, en­tão os chutou para longe e se deixou relaxar nos bra­ços de Anton, entregando-se ao momento. Os braços dele quase a levantaram do chão, apertando-a contra si de um jeito que ela estremeceu ao sentir a rigidez que denunciava o desejo pulsante de Anton. E ele não tinha a menor intenção de esconder este desejo.

Ela passou os braços ao redor do pescoço de An­ton, afundando os dedos naquela mata de cabelos ne­gros e entregando-se a outro beijo forte, quente e pas­sional que alimentou ainda mais a ardência crescen­te, fazendo Skye se sentir como quem nada nas águas quentes de um oceano de paixão.

Skye jamais se sentiu tão viva antes. Seu coração trovejava, sua cabeça girava. Seus seios estavam in­chados e tão sensíveis, os mamilos como pequenos botões apontando como setas.

Ele a levantou e carregou pela curta distância até a cama. Deitou-a gentilmente sobre o colchão azul e verde mantendo seus lábios nos dela enquanto suas mãos maliciosas procuravam o caminho em suas cos­tas que levava aos botões do vestido, que abriu com agilidade. Fez o mesmo com o fecho do sutiã.

Tocou-a com mãos que pareciam já conhecer seu corpo.

A sensação do calor das palmas das mãos dele em seus seios, envolvendo docemente seus mamilos intumescidos com aqueles dedos fortes fez Skye abrir os olhos antes cerrados, deparando-se com os olhos negros de Anton.

— An... — ela começou a dizer o nome dele, mas ele a fez calar novamente com um beijo em seus lá­bios trêmulos.

— Feche os olhos — ele disse com os lábios ainda sobre os dela. — Fique de olhos fechados.

Ele percebeu o olhar hesitante de Skye e beijou suas pálpebras outra vez, gentilmente fazendo-a obe­decer e retornar à penumbra aveludada de antes.

— Não olhe, apenas sinta.

Como ela podia fazer outra coisa com aquelas mãos atormentadoras buscando caminhos eróticos por entre seus seios, desenhando círculos nos mami­los e deixando-os ainda mais rijos?

— Sinta isto... — ele murmurou, e fez mais uma carícia diferente na pele sensível de Skye, traçando linhas de fogo que emanavam ondas de sensações pelo corpo inteiro dela.

A delicadeza não bastava. Ela queria, precisava de mais! Numa busca cega, ela envolveu os ombros po­derosos de Anton, puxando-o para si, amassando seus lábios contra os dele.

— Ajude-me... Mostre-me como... — e se calou, vendo que quase se entregara mais uma vez.

Não queria que ele percebesse, sequer suspeitasse de sua virgindade. O que um homem sofisticado e ur­bano como Anton iria querer com uma virgem caipi­ra? Ele acabaria rindo de sua falta de experiência, isso sim.

Aquele homem não queria fazer amor com nenhu­ma inocente. Devia estar acostumado a mulheres tão experientes quanto ele. Ela iria morrer de vergonha se ele notasse como ela estava longe de ser experien­te.

— Mostre-me como lhe dar prazer — ela conser­tou apressadamente, torcendo para ele não perceber.

— Você está indo muito bem sem eu dizer nada — foi o que ele murmurou em resposta.

Quem sabe fechando os olhos ela conseguiria ser a mulher que ele esperava. De olhos fechados ela fica­va menos inibida e podia se permitir tocar e ser toca­da, passar a mão pelos músculos firmes de seus om­bros e braços.

Quando deu por si ele já tinha tirado o casaco.

Mesmo tateando no escuro, seus dedos encontra­ram os botões da camisa dele, e logo ela estava com as mãos naquele peito firme e peludo. Era tão bom de apesar de aquela excitação latejante lhe atormentando, levando-a a deixar suas mãos percorrem caminhos para o deleite de Anton, a julgar pelos gemidos que ele deu.

— Muito bom...

— Você também não está indo nada mal...

Skye não soube como, mas conseguiu achar o tom certo para dizer aquilo. Ficou perplexa ao perceber que ele já havia tirado a roupa dela sem puxar nem ar­rancar nada, como ela estava esperando. O ar superaquecido do quarto de hotel esquentava sua pele ex­posta e ela, ainda de olhos fechados, conseguiu não corar ao pensar naqueles olhos negros e profundos percorrendo seu corpo nu.

Mas não havia como ignorar seu toque. O coração de Skye dava pulos a cada vez que ele arrastava seus dedos firmes em sua pele delicada, e ela sentia vonta­de de se encolher toda e dizer " não", e tentar se es­conder dele.

Mas a sensação durava apenas um momento. Pou­cos segundos depois ela relaxava, imersa nas sensa­ções maravilhosas que seus carinhos lhe traziam. Seus sentidos, sedentos, gritavam, pedindo mais. E os gemidos indóceis que ela soltava eram tudo que ela conseguia comunicar, tornando ainda mais claro seu imenso desejo.

As mãos de Anton começaram a lhe acariciar de maneira mais forte, mais intensa, mais incisiva. Ela se contorceu ao sentir aquelas mãos, ao mesmo tem­po em que ele beijava languidamente seu pescoço, descendo até o contorno dos seios, alcançando enfim um dos mamilos já palpitantes e o sugando com von­tade.

— Por favor...

Isto foi tudo que ela conseguiu dizer, apesar de não fazer idéia se estava pedindo mais carícias sensuais ou para que ele parasse antes de fazê-la desmaiar de tanto prazer. O prazer era tanto que quase doía. Sensações flamejantes de deleite lhe chamuscavam e faziam seu cérebro rodar; ela não conseguia mais pensar.

Aquelas mãos maldosas e atormentadoras come­çaram então a descer, e a acariciar a suave parte inter­na das coxas de Skye, deslizando pela cintura até adentrar a calcinha de seda que era a única peça de roupa que ela ainda tinha no corpo. Mas Anton habil­mente a tirou, deixando seu corpo sem nada.

Toda a vergonha que ela pensou que sentiria de fi­car exposta daquele jeito desapareceu debaixo da onda de desejo. Era aquilo que ela queria; era daquilo que ela precisava. Era aquilo...

Sua mente se despedaçou em uma explosão de de­leite erótico quando sentiu que estava sendo tocada na parte mais sensível do corpo feminino. As carícias irresistíveis a fizeram arfar de um jeito incontrolável, e seu corpo começou a se mover como se estivesse entrando em convulsão. Onda após onda de calor lhe engolfaram, deixando-a fraca e largada, boiando à deriva nos abalos secundários de um prazer que ela jamais pôde conceber antes.

E então Anton cobriu-a com seu corpo. Encaixou suas pernas pesadas e atléticas entre as dela, fazendo-a se abrir mais para ele. A potência quente e firme do desejo de Anton adentrou a deslizante e cálida pe­numbra de sua intimidade mais profunda. Não havia tempo para medos nem hesitações.

O momento em que o fato se consumou foi tão li­geiro, tão certeiro, penetrando tão profundamente na­quele corpo receptivo e desejoso que ela só sentiu unia pontada mínima, uma leve resistência de seus te­cidos mais tenros indicando que era a primeira vez que sentia aquilo. Por um ínfimo momento ela abriu os olhos e viu o estupor naquele rosto moreno perto do seu, e quando seus olhares se encontraram tudo foi lentamente saindo de foco.

Então ele começou a se mexer para frente e para trás, mais profundamente, adentrando-a com mais força, e cada investida fazia acumular mais um de­grau de sensação, um sobre o outro, fogo sobre fogo, até que sua mente começou a derreter naquele infer­no prazeroso que tomou conta de si.

Fechou os olhos novamente para melhor aprovei­tar as sensações alucinantes que percorriam seu cor­po. Jogou a cabeça nos travesseiros com a boca ligei­ramente aberta para arfar em busca do ar que lhe es­capara dos pulmões. Seu corpo inteiro estava a ponto de entrar em colapso, de entrar em um estado primi­tivo de concentração total na essência do ser.

Ela estava galgando degraus novamente, e subin­do mais, e mais, e seguindo na direção do ápice, do cume que jamais soube da existência, mas pelo qual procurava mesmo assim, inconscientemente. E quan­do ela enfim chegou naquele ponto máximo além do máximo, sentiu que não estava mais dentro do pró­prio corpo; estava flutuando, livre, em meio a uma explosão de estrelas que se transformou na escuridão completa de um desligamento absoluto.

Segundos depois foi a vez de Theo soltar um grunhido de quem estava chegando lá também, até que perdeu a consciência do mundo ao redor e tudo que existia agora era o corpo daquela mulher que o abar­cava com tanta paixão, e seus corações batendo ao mesmo tempo.

Foi um estado de inconsciência do qual ele mal acordou ao longo da noite. Às vezes parecia que seus sentidos lutavam para sair do estupor erótico no qual ele estava imerso, quase retomando a consciência real.

Quase.

Porque quando ele tentou se mexer para se levan­tar sentiu o toque acetinado das pernas daquela mu­lher ao seu lado. E junto veio uma espécie de corrente elétrica. A chama mágica se acendeu novamente, puxando-os das profundezas do sono para mais uma vez satisfazer às exigências primitivas de seus corpos.

Até que no fim foram vencidos pela exaustão total que o jogou em um sono tão profundo que ele mal sentiu quando, pela manhã, Skye se levantou da cama.

Ela mal conseguiu olhar em direção àquele ho­mem adormecido enquanto vestia as roupas com mais pressa que graça. Não olhava, mas estava total­mente concentrada naquele rosto másculo no traves­seiro. Não queria ir embora. Lágrimas começaram a brotar de seus olhos ao pensar que, depois de sair da­quele quarto, não o veria mais. Tinha que ir embora, abandonar aquele sonho glorioso de uma noite só e voltar ao mundo frio e cruel lá fora.

À realidade que a cercaria novamente, fazendo da noite anterior apenas uma lembrança querida.

Ela nem ousou em beijá-lo na testa, como seus ins­tintos ordenavam.

Se tivessem se conhecido antes, poderiam ter tido um futuro. Poderiam...

Não!

Ela forçou-se a parar de pensar naquilo, pois sabia que só enfraqueceria sua determinação.

Ela tinha de ir embora já, o mais rápido possível. Calçou os sapatos de qualquer jeito, vestiu a camisa e o casaco às pressas, pegou a bolsa e saiu correndo em direção à porta.

Após um momento de quase pânico, respirou ali­viada ao fechar a porta e alcançar o corredor acarpetado do hotel. Foi pegar o elevador.

Será que havia esquecido alguma coisa? Deixado alguma pista comprometedora?

Conferiu seus pertences rapidamente e viu que es­tava com tudo. Menos com uma coisa.

Sua alma havia ficado naquele quarto.

 

 

CAPÍTULO QUATRO

 

— Aterrissaremos em cinco minutos, senhor.

— Obrigado.

Theo acenou com a cabeça ao ouvir as palavras do piloto. Não que precisasse ouvi-las. Já tinha visto com os próprios olhos como estavam perto de Helikos, o pequeno ponto no oceano que era a ilha parti­cular de seu pai.

A ilha que já tinha sido o lar de Theo, onde ele crescera.

Ainda garoto, quando voltava para casa após se­manas na caríssima escola na Inglaterra que freqüen­tava a contragosto, obrigado pelo pai que resolveu que o filho tinha de ser um gentleman, ele sempre re­conhecia cada detalhe da geografia do percurso de Atenas até a ilha. Quase se pendurava para fora da cabine do piloto para apreciar melhor a vista com todas aquelas ilhas diminutas e desabitadas que marcavam a rota para seu amado lar.

E quando via Helikos enfim, primeiro um pequeno ponto no horizonte, ele sempre dava vivas de felici­dade pelo começo das férias.

Mas desta vez ele seu coração não estava dispara­do de excitação nem de seus lábios saía nenhum grito de entusiasmo. Em vez disso, ele apenas olhou para a rota familiar com uma expressão cínica e cética no rosto que encobria uma mistura complicada de emo­ções em sua alma. Estava de volta a Helikos após uma ausência de cinco longos anos, mas a ilha não era mais seu lar. Isto ficou claro após a briga com o pai. E agora ainda tinha essa nova noiva.

Theo fez uma careta ao ouvir o motor se alterar su­bitamente, o que indicava que o piloto estava come­çando a descer. A noiva representava outra complica­ção desnecessária. Mas pelo pouco que sabia sobre ela, a união com toda certeza não era motivada pelo amor. Parecia mais um acordo de negócios.

— Acho que não vai perceber muitas mudanças na ilha.

Era o piloto novamente, interrompendo seus pen­samentos com sua voz que vinha dos fones que am­bos usavam.

— Imagino que não tenha mudado nada.

Theo ficou olhando para a massa de terra cravada no mar brilhante. Ele não estava para conversa; na verdade, nem mesmo queria estar lá. Não estava com a menor vontade de conhecer a nova aproveitadora que o pai arrumou para si e fingir ser educado com ela. Cyril Antonakos não era exatamente famoso por escolher mulheres inteligentes para se relacionar, de modo que, a não ser que a personalidade do pai tenha mudado dramaticamente em cinco anos, o jantar des­ta noite teria como objetivo apresentá-lo à sua futura esposa, ou seja, seria uma longa provação.

Principalmente porque sua mente estava bem lon­ge de Helikos.

Desde o momento em que acordou naquele quarto de hotel e se viu sozinho que não conseguia tirar a misteriosa Skye de seus pensamentos. Passou a últi­ma semana tentando achar alguma pista daquela mu­lher com quem passara uma noite de sonhos, irias como não tinha nenhum ponto de partida, não conse­guira chegar a resultado algum. Sabia que o melhor seria esquecer aquela história e tirá-la da sua cabeça.

Mas em apenas uma noite ela deu um jeito de en­trar na sua mente de modo irreversível. Não conse­guia esquecê-la. Até seus sonhos eram povoados por imagens eróticas da noite que passaram juntos. Ele sonhava que a tinha nos braços, sentindo seu corpo macio junto ao seu e aquele perfume que lhe enlou­quecia.

Então ele acordava com o coração batendo desgo­vernado, arfando, empapado de suor como se estives­se realmente fazendo amor com ela, de verdade, não apenas em sonho. Mas evidentemente não era de ver­dade, a não ser pelo desejo pulsando em seu corpo.

Se pudesse ele teria dado uma desculpa qualquer para não vir. Mas a discórdia entre ele e o pai já tinha ido longe demais, e ele não podia fazer uma desfeita ao gesto de boa vontade que foi o convite.

A casa era bem como ele lembrava mesmo. No alto de um penhasco sobre o mar, a imensa e branca construção se espalhava por dois espaçosos andares, ambos com varandas com vistas estonteantes para o oceano. Uma ampla entrada em forma de arco dava em um terraço enfeitado com bandeiras onde havia uma piscina oval com uma casinha que às vezes aco­modava convidados.

Quando Theo chegou a porta já estava aberta e uma mulher baixinha, gorducha e de cabelos escuros correu até ele.

— Senhor Theo! Bem-vindo! Que maravilha tê-lo de volta!

— Amalthea...

Theo aceitou o abraço entusiasmado da mulher que um dia foi sua babá, e que era a figura mais pró­xima de uma mãe que ele já teve na vida, já que sua mãe de verdade morreu quando ele era muito peque­no.

— Onde eu vou ficar? No meu quarto de antiga­mente?

Amalthea desviou os olhos escuros de modo ambí­guo, balançando a cabeça em negativa.

— Seu pai disse para instalá-lo na casinha da pis­cina.

Então o gesto de boa vontade não era bem como Theo esperava, ele pensou, resignando-se sardonicamente. O pai era um sujeito difícil de se gostar, difícil de se amar. Ofendia-se facilmente e guardava mágoa por muito, muito tempo. Parecia que o convite para o casamento do velho era apenas o começo. Não havia sinais de festa para o retomo do filho pródigo.

— Quem está no meu quarto?

Os convidados ainda não começaram a chegar, com certeza. O casamento só aconteceria no fim do mês.

— A nova kyria Antonakos.

— A noiva de meu pai? Quer dizer que o pai e a noiva não estavam dor­mindo no mesmo quarto. Que surpreendente.

— E que tal ela?

Amalthea revirou os olhos em sinal de desaprova­ção, o que só ousava fazer na frente de Theo.

— Não faz muito o tipo de sempre. Mas é muito bonita.

— Elas sempre são bonitas — Theo comentou ci­nicamente. — É por isto que ele as escolhe. Meu pai está em casa?

— Ele teve de ir ao vilarejo, mas volta para o jan­tar. Mas a noiva está, você quer que...

— Ah, não — Theo dispensou rapidamente. — Logo, logo chega a hora do jantar.

Assim ele podia ter o desprazer de encontrar am­bos de uma vez.

— Acho que vou nadar um pouco.

Ele se espreguiçou um pouco para reavivar os músculos após a viagem.

— É bom estar em casa.

Theo desfez as malas rapidamente. Havia trazido pouca coisa. A tarde estava quente e ele pensou nas águas claras e convidativas da piscina. Levou alguns segundos para vestir o calção de banho preto e ir até a piscina, descalço.

O que ele não esperava era já encontrar alguém na água. O espanto o deteve e ele apertou os olhos con­tra o sol que cintilava sobre a água enquanto observa­va o panorama.

Um corpo esguio deslizava de uma ponta à outra da piscina. Um corpo feminino dentro de um maio branco. A Noiva, se não se enganava redondamente. Não dava para vê-la direito de onde estava. Ela esta­va nadando na direção contrária e a água cobria a maior parte de seu corpo. Ele teve uma impressão embaçada de cabelos escuros compridos, braços lon­gos e esguios deslizando sobre a água, pernas com­pridas e bronzeadas e um corpo bem formado com nádegas firmes...

Que diabo ele estava fazendo? Não podia pensar aquelas coisas da noiva do pai, a mulher que se torna­ria sua madrasta no fim do mês.

Será que era ela mesmo a noiva do pai? Parecia muito mais nova do que ele esperava...

Quem sabe a Noiva já foi casada antes e esta é a fi­lha? Fosse quem fosse, ela o fez lembrar muito da misteriosa Skye.

Era melhor ele se apresentar a ela. Não queria dar a impressão de estar espiando.

— Kalimera.

Ela não o ouviu, ainda devia estar com água nos ouvidos. Ou quem sabe ela não falava grego. Ele deu um sorriso cínico. Isto já indicava como as coisas fi­caram entre ele e o pai, pois nem sequer sabia se a mulher era grega ou não. O último envolvimento amoroso do pai que teve notícia foi com uma mulher do vilarejo.

— Boa tarde — ele disse novamente, com mais clareza desta vez, assim que ela chegou à borda. — Acho que devo me apresentar a você, madrasta.

O jeito que ela parou deu a entender que algo esta­va errado e ele a observou mais de perto.

O que foi que ele disse para deixá-la tão assusta­da?

Mesmo a uma certa distância ele pôde perceber a delicadeza de suas mãos quando ela saiu da piscina.

Aquelas mãos...

Subitamente foi como se ele levasse um chute no estômago.

Uma noite fria e chuvosa em Londres. Um bar en­fumaçado. A risada de dois homens.

— Deus, não!

Ele só podia estar imaginando coisas.

Mas os cabelos que caíam pelas costas dela, os ca­belos que, molhados, ele achou serem escuros, reve­laram-se vermelhos agora que começavam a secar sob o forte sol grego.

— Ochi...

Sentindo-se golpeado na cabeça, Theo voltou ao seu grego natal, sacudindo a cabeça de perplexidade com o que via.

— Não!

Aquilo não podia ser verdade.

Mas se não era verdade, então por que ela ainda es­tava parada lá, como se estivesse congelada, virando a cabeça para o outro lado?

Por que ela não se virava para encará-lo e mostrar que era uma perfeita estranha, desfazendo assim aquela confusão estúpida que acometeu sua mente?

Ela não era... não podia ser...

—Skye?

Desde que ela ouviu a voz dele, Skye ficou parali­sada onde estava, sem conseguir se mexer, nem pen­sar, nem respirar.

— Boa tarde — ele disse, e foi como se uma mão cruel a puxasse e jogasse de volta ao passado, projetando-a em um turbilhão de memórias que paralisou sua mente e lhe partiu a alma.

— Boa tarde.

Estas foram as palavras que ela ouviu com os ou­vidos, mas o que sua mente registrou foi a voz dele dizendo "Ah, existe sim" para aqueles sujeitos que a estavam perturbando no bar, fingindo-se de seu na­morado.

Naquela noite.

Foi quando ela ouviu aquele sotaque e aquele tom rouco. Mas como poderia estar ouvindo aquilo ago­ra?

Estava começando a imaginar coisas! Não podia ter escutado aquilo. Ele não podia estar lá. O destino não podia ser tão cruel assim.

Mas então ele disse "Acho que devo me apresentar a você, madrasta", e o mundo começou a girar na ca­beça de Skye.

Estava com a visão turva e o estômago revirando em pânico. Não conseguia ver nem pensar.

Até que o horror se confirmou.

— Skye?

Ele a chamou pelo nome. Com aquela voz que ela ouviu dezenas de vezes, centenas de vezes, naquela noite. Ela ouvira aquela voz dizer seu nome com paixão, entrega, domínio e satisfação plena após nela se perder. Anton?

Ela não ousou dizer o nome dele em voz alta, te­mendo estar provocando o destino ao fazê-lo. Com medo de tornar realidade o que ela esperava febril­mente que fosse apenas uma ilusão, uma impressão vinda de uma imaginação fértil.

— Que diabo?

Ela então se virou, incapaz de agüentar mais aque­le suspense. Ela tinha que saber.

Ele estava de pé na beira da piscina, com as mãos na cintura, com o sol atrás de si tornando difícil para ela enxergar seu rosto. Mas ela já sabia, e seu coração estava tão disparado que ela podia garantir que ele ia saltar do peito. Estava apavorada, horrorizada.

Skye, que ainda estava com parte do corpo dentro da piscina e apoiada na escada, acabou soltando a mão, escorregando e caindo na água de novo.

De repente tudo era água e bolhas ao seu redor. Então ouviu um barulho de dentro da água. Um corpo delgado entrando na água ao seu lado. Mãos fortes a seguraram, braços poderosos a levaram para a super­fície. Ela nem precisou olhar no rosto dele para reco­nhecer aquele corpo que conhecia tão intimamente, apesar de terem passado apenas uma noite juntos. Re­conhecia os ossos fortes das costelas, os pêlos negros e cacheados que faziam um caminho que começava no meio do peito e desaparecia dentro da sunga de ba­nho. Reconhecia aquela pequena cicatriz em forma de meia-lua perto da clavícula, quase no pescoço. E se ainda restasse alguma dúvida, as narinas dela esta­vam tomadas por aquele cheiro almiscarado, mascu­lino, potencializado pelo sol e misturado ao cloro da água da piscina.

Não sabia se era pelo choque de vê-lo, mas suas pernas começaram a tremer violentamente.

— Obrigada — ela conseguiu dizer, com a voz de quem acabou de correr uma maratona.

— Não é nada — ele disse suavemente, apesar de haver uma carga sombria em sua voz que a fez levan­tar a cabeça rapidamente, fazendo um vinco sobre os olhos cinzentos.

Ele meio que a carregou e meio que a arrastou para fora da piscina até uma espreguiçadeira.

Skye teve que morder o lábio para não reclamar quanto ele a soltou. A vontade que tinha era de se ani­nhar naqueles braços e não sair mais. Mas tinha cons­ciência que aquilo lhe era proibido. Ela perdeu este direito no momento em que fechou aquela porta do quarto do hotel atrás de si e foi embora.

Ele nunca saberia como foi difícil para ela fazer aquilo. Como ela quisera ficar, mas sabia ser impos­sível. E assim que ele descobrisse o porquê de ela es­tar ali, não ia querer nem chegar perto dela, que dirá mantê-la em seus braços.

Ainda segurando-a com uma das mãos, ele pegou uma toalha em outra espreguiçadeira próxima e co­meçou a enxugá-la. Seus movimentos eram bruscos e impessoais, e ao olhar nervosamente para ele sentiu um bolo se formar no estômago de apreensão.

Aquele rosto belíssimo estava plenamente contro­lado. Ao menos até ela se recuperar.

E depois?

Só de pensar ela estremeceu de novo, mais violen­tamente desta vez.

— Sighnomi...

Ele a olhou de cima a baixo, dos cabelos emara­nhados e molhados até as unhas dos pés, pintadas de cor-de-rosa.

Mas quando ele olhou novamente para seu rosto, ela sentiu qualquer reserva de coragem sumir de si.

Agora é que a coisa ia começar, ela pensou, e en­goliu em seco.

A expressão no rosto dele deixava claro que eleja havia esperado o suficiente. Agora queria explica­ções.

 

 

CAPITULO CINCO

 

— Precisamos conversar.

Theo não fazia idéia de como conseguiu manter a voz sob controle. A raiva que lhe queimava como gelo por dentro, fazendo sua voz soar fria como uma espada de gelo.

Tudo o que ele queria saber era que diabo estava acontecendo. Como era possível que aquela mulher com quem estivera em um quarto de hotel em Lon­dres — a mulher que quisera um affair de uma noite só, sem trocar nomes nem números de telefone — fora parar em Helikos, na casa do pai, na piscina da casa do pai.

Ele seria capaz de pensar bem melhor se ela se co­brisse.

— Você não tem uma canga ou algo assim para se cobrir?

— Não estou com frio.

— Não estou pensando na sua temperatura!

Ele sabia que a estava encarando com ferocidade. O jeito que ela retribuiu o olhar e instintivamente re­cuou não deixava dúvidas. Mas ele foi literalmente golpeado por aquela visão na piscina, e ficar tão perto dela só piorava a situação.

Ele costumava pensar que as memórias que guar­dava daquela pele suave e daquele corpo desnudo já eram suficientemente excitantes — na verdade ele tentou até se convencer que tinha exagerado quanto ao sex-appeal de Skye. Nenhuma mulher de verdade, humana, poderia ser tão atraente como ele lembrava dela. Mas o pior é que sua memória correspondia per­feitamente à verdade.

Na verdade, até menos. Pois sua memória não tra­zia o calor da presença física daquela mulher. E ape­sar de o maio que ela usava ser modesto em compara­ção aos biquínis mínimos que as mulheres usavam nas praias gregas, sua sensualidade sutil estava des­truindo sua capacidade de pensar e acelerando seu coração. O tecido elástico contornava as curvas de seus seios e quadris, deixando à mostra o contorno dos ombros e a pele cor de pêssego das pernas infini­tamente longas. Só de pensar naquelas pernas cruza- • das sobre sua cintura, apertando forte ao se entregar aos espasmos do orgasmo, ele ficava tonto e impossi­bilitado de pensar direito.

— Nós vamos conseguir conversar racionalmente se você estiver vestida mais... mais respeitável mente.

A suave curva em sua boca assumiu uma expressão rebelde que não combinou com o fogo que s acendeu nos olhos dela. Não era raiva, mas algo sei vagem e desafiador que foi de encontro ao olhar som brio de Theo, que chegou a sentir as fagulhas no ar geradas por aquela troca de olhares.

— E você acha que sua vestimenta é bem mais decorosa do a minha? — ela devolveu, inesperadamen­te incisiva.

— Está querendo dizer com isso que tem dificul­dade em manter suas mãos longe de mim? — Theo falou com desdém. — Você me desculpe por não acreditar em você, mas você desapareceu da minha cama naquela noite...

— Aquela noite foi um erro do qual me arrependo desde então.

— Não tanto quanto eu me arrependo, minha cara. Eu não sou de ficar com mulheres por uma só noite, e se soubesse que você ia desaparecer deste jeito pen­saria mais do que duas vezes antes de embarcar nesta situação. E agora encontro você nadando na piscina da casa do meu pai...

— Eu jamais tentei lhe enganar. Eu disse exata­mente...

A voz de Skye murchou abruptamente quando ela assimilou o que ele havia dito. Sentiu a cor desapare­cer do rosto, e ficou branca como um fantasma.

— Seu pai...

Ela olhou para a piscina, olhou de volta para o rosto dele com os olhos cinzentos arregalados de estupor.

— Você disse...?

Não podia ser verdade! Aquilo simplesmente não podia estar acontecendo. Começou a pedir a uma for­ça superior que não fosse verdade, que aquilo fosse um sonho, pediu paia acordar daquele pesadelo...

Ele não pode ter dito que aquela era a piscina da casa de seu pai? Porque se fosse assim, ele era filho de Cyril. Filho do homem com quem ela tinha de se casar. Filho do homem que tinha o destino de sua fa­mília nas mãos.

Ela chegou até a se beliscar com força no braço, torcendo para acordar daquele horror. Mas é claro que nada aconteceu. Ela ainda estava lá, banhada pelo sol da Grécia, e o único som que ouvia era o ruí­do do vento na água da piscina.

E Anton estava ao seu lado, alto, moreno e pare­cendo totalmente ameaçador.

— Mas você disse que seu nome era Anton.

Ela jogou-lhe a acusação na cara, mas a expressão dele não mudou em nada, permanecendo tão pétrea quanto antes.

Anton... Antonakos. De repente a verdade se en­caixou.

— Você mentiu!

Ele deu de ombros como quem não se importava a mínima com a acusação.

— Fui econômico com a verdade. Costumo achar melhor fazer assim antes de conhecer as verdadeiras motivações das pessoas.

O jeito frio com que ele a encarava deixava claro que ela estava incluída entre as pessoas que ele con­siderava suspeitas até prova em contrário. O gelo que ele projetava com os olhos parecia afastar o calor do sol, e ela chegou a ficar arrepiada. Skye então foi pe­gar a toalha que deixara na espreguiçadeira antes de entrar na água e se enrolou nela.

Coberta ela se sentia um pouquinho mais segura até resolver falar novamente.

— E, além do que — ele completou — foi você quem insistiu em não dizermos nossos nomes com­pletos.

Ela tinha razão, claro, e saber disto não a fazia se sentir nem um pouco melhor. Santo Deus, que tipo de destino maligno era aquele que foi fazer este homem cruzar seu caminho naquela noite em Londres? Como ela poderia ter a impressionante falta de sorte de entrar no bar em que estava o filho de Cyril?

E o que ele estaria fazendo em Londres? Tudo o que ela sabia sobre Cyril e o filho era que eles não se davam lá muito bem. Será que ele sabia...?

— Ao menos o nome que eu lhe disse era verda­deiro — ela disse, entrando ainda mais na zona de pe­rigo. — Meu nome é Skye Marston.

Ele não se abalou. Será que o pai dele não havia lhe dito nada sobre a futura noiva?

— Theodore Antonakos — ele respondeu na maior cara-de-pau. — Costumam me chamar de Theo.

Ele a estava despindo com os olhos, apesar da toa­lha que agora cobria seu corpo, protegendo-a do es­crutínio gelado daquele homem que ela agora sabia chamar-se Theo.

— E agora — ele perguntou, cheio de sarcasmo. — Vamos apertar as mãos formalmente?

— Acho que podemos pular esta parte do aperto de mãos — Skye respondeu rispidamente. A idéia de tocá-lo a aterrorizava completamente. Ela não conse­guia esquecer do ardor da pele dele sobre a dela, o to­que carinhoso daquelas mãos longas e poderosas que, quando ele queria, se revelavam tão gentis e delica­das quanto as patas de um gatinho. — Já passamos por isto.

— Por isto e muito mais — ele replicou secamen­te, encarando-a com um olhar maldoso como quem diz que lembrava muito bem de tudo.

Como ela lembrava também.

Aquela noite estava cravada em seu cérebro com suas imagens de fogo. Já era suficientemente difícil ter aquelas cenas na memória. Mas agora, ao se deparar com aquele homem em carne e osso, ela se sentiu que seus pensamentos estavam prestes a entrar em com­bustão.

— É melhor esquecer isto.

A tensão em cada centímetro de seu corpo afetou sua boca também, de modo que as palavras saíram densas e forçadas, artificiais. Soou como se fosse uma atriz de segunda categoria tentando falar como uma inglesa de classe alta.

Estava óbvio que Theo pensou o mesmo, pois re­torceu os lábios incontrolavelmente ao ouvi-la dizer aquelas palavras. Mas qualquer mínimo traço de hu­mor foi descartado quando ele falou encarando-a com olhos soturnos e pesados.

— Tenho certeza que você pode esquecer, mas devo dizer que acho que o mesmo não vale para mim.

Theo então passou o dedo provocativamente pelo pescoço dela, descendo até o topo da toalha enrolada em seu corpo logo acima dos seios.

— A verdade é que eu gostaria muito de repetir aquela experiência.

Os dedos bronzeados passearam pelo contorno do ombro dela, depois desceram de novo, e tudo que Skye conseguiu fazer foi controlar suas reações físicas que evidenciariam como ela também queria aqui­lo.

Mas não havia nada que ela pudesse fazer para controlar seus mamilos, que saltaram prontamente. Nem como evitar um calor que sentiu de repente e que não tinha nada a ver com o sol, mas que lambia suas veias. Agora a toalha que usava parecia pesada demais e o maio, restritivo demais. Mas ela não só podia agradecer por ter aquele grosso tecido branco enrolado em seu corpo, do contrário não teria como esconder as involuntárias reações de seu corpo.

— Então lamento informar que você vai ter de es­perar bastante. Eu avisei que aquilo era um caso de uma noite só.

— Você também disse que nós jamais saberíamos nossos nomes completos, nem nos veríamos nova­mente.

A pausa que ele fez foi longa o bastante para que o impacto chocante de suas palavras. Então continuou.

— E eu lhe disse que jamais tenho casos de uma noite só. É uma regra pessoal que tenho.

— Bem, então desta vez você terá que quebrar esta regra, pois eu não tenho a menor intenção de reviver nosso, digamos, conhecimento mútuo, de modo ne­nhum. Uma noite foi mais do que o bastante para mim e é assim que quero que permaneça.

— É mesmo?

Ele cruzou os braços sobre o peito e a encarou com olhos belicosos.

— Bem, vejamos.

Antes que Skye pudesse perceber o que ele tinha em mente, Theo se aproximou e a puxou pelo queixo, trazendo com sua mão poderosa o rosto dela para jun­to ao dele. Em apenas uma fração de segundo Skye assimilou o olhar impiedoso de Theo, mas não conse­guiu dar voz à reação que lhe veio à mente.

Ela abriu a boca para tentar falar algo exatamente quando ele aproximou a dele em um beijo cruel e des­provido de paixão, mas que serviu perfeitamente como punição por sua rejeição peremptória. Não ha­via calor nem afeição naquele beijo, apenas uma de­terminação fria de mostrar a ela quem estava no co­mando.

Mas não foi assim que as coisas permaneceram.

Porque algo aconteceu no momento em que seus lábios se tocaram. Algo que carregou a atmosfera, mudando a verdade daquele beijo para algo inteira­mente diferente. O calor era intenso, o desejo desper­tou, exigindo libertação de todas as amarras.

Skye se aproximou, derretendo-se entre os múscu­los de Theo, cujos braços a abarcaram, aprisionando-a. Pele se misturou a pele, corpos e pernas se emara­nharam. Seus corações batiam compassados, velo­zes, amplificando a pulsação de suas veias. A respira­ção de ambos era uma sinfonia arfante de paixão e desejo imperativo.

— Skye... linda... agape mou...

A voz de Theo estava densa, carregada de luxúria, e as mãos tentavam, desajeitadas, livrar-se do empe­cilho da toalha entre os dois, e conseguiram, fazendo o tecido branco e pesado cair aos pés de Skye.

— Para você aquilo pode ter bastado, mas não para mim. Eu quero assim...

Os lábios de Skye se abriram, arfando entre cho­que e deleite ao sentir a mão dele deslizando por seu corpo, inflamando-lhe o desejo ainda mais.

— E quero assim...

Aquela mão penetrante chegou então ao mamilo protuberante que pulsava sob o tecido do maio bran­co, e seus dedos apertaram o mamilo fazendo-a ge­mer alto, expressando de modo selvagem seu desejo.

— Ah, e assim também.

Ele estava falando aquelas coisas com uma voz ambiguamente sombria, dando risadinhas maliciosa­mente discretas e cada vez mais soturnas à medida que ele puxava a alça do maio de modo a expor a par­te superior do seio.

Primeiro Theo abarcou a carne macia do seio com sua mão quente e firme, depois o abocanhou avida­mente, beijando, lambendo, até beliscando levemen­te, conseguindo enfim que Skye cambaleasse e ge­messe alto.

— É assim que eu quero — ele murmurou grosseira­mente. — E você também quer a mesma coisa. Nós dois queremos. É uma coisa entre nós dois, minha cara. Você não pode fazer nada quanto a isso, nem eu.

A única resposta que Skye conseguiu arrumar foi um som indefinível que podia ser tanto de aceitação quanto de recusa, mas Theo deixou claro que estava interpretando como aceitação.

— Venha comigo, minha linda. Venha comigo agora...

— Não!

Skye não fazia idéia do que a fizera pular da fanta­sia na qual havia caído. Não sabia dizer se aquilo se devia a algum som inesperado e distante que invadiu sua consciência, ou se ao jeito súbito que a boca de Theo saiu de seu seio, deixando a pele exposta ao vento. Só sabia que uma espécie de arrepio lhe inva­diu, extinguindo o calor que lhe acometera e levan­do-a a acordar para o que estava fazendo.

— Eu disse que não!

O desespero lhe trouxe a força que achava não ter para empurrá-lo, de modo que ele foi parar na beira da piscina. Mas ele logo se recuperou e voltou a en­cará-la com seus olhos negros em fúria.

— Como assim...?

— Ah, pare com isso. Como assim, digo eu. Qual parte da palavra "não" que você não entende? Você pode ser grego, Kyrios Antonakos, mas seu inglês não é tão ruim assim. Você entendeu muito bem o que eu quis dizer!

— Eu entendi o que você disse — Theo revidou acidamente. — Mas não foi isso que você quis dizer. E não preciso entender nem um pouco de inglês para saber a diferença entre o que você disse e o que você quis dizer. Tenho outra maneira de saber.

— Outra maneira?

Por um momento Skye simplesmente ficou sem entender, mas então ele olhou de maneira deliberada-mente lasciva para seu seio ainda exposto. O mamilo ereto a denunciava, denotando o desejo que pulsava em si.

Mas ela tinha de pensar. Tinha de parar de sentir e forçar-se a raciocinar para se concentrar naquilo que realmente importava. Ela havia quase arruinado com tudo. Quase destruíra suas chances de salvar sua fa­mília do desastre completo. Aquele homem em frente a ela, alto e forte, com a luz do sol se refletindo ale­gremente sobre seus cabelos negros e sobre sua pele bronzeada, podia ser tudo o que ela mais queria no mundo no momento, mas ela tinha que expulsar aquela emoção indulgente da sua mente e se obrigar & pensar.

E o que tinha de pensar era que aquilo não podia acontecer, de jeito nenhum.

Se ela tinha intenção de salvar sua família, preci­sava entender que Theo Antonakos lhe era totalmen­te proibido.

Ela levantou a alça do maio, fazendo uma careta quando a alça atingiu a parte sensível do mamilo. Forçou-se a encarar o olhar furioso de Theo.

— Não estou nem aí para as suas "outras manei­ras" — ela disse, enfim, soando inflexível e rígida devido ao controle brutal ao qual estava submetendo a própria voz. — Você tem que escutar o que eu estou dizendo? E o que eu estou dizendo é NÃO, entendeu? N, A, O, til: não.

Por um tenebroso segundo uma raiva tão mons­truosa transpareceu na expressão de Theo que ela até temeu que ele fosse agarrá-la à força. Já estava pronta para correr quando viu que ele parecia estar fazendo o máximo para se recompor. Ficou até admirada, além de aliviada.

Mas se Theo havia controlado seus impulsos físi­cos, por outro lado não criara papas na língua.

— Você diz isso agora, meu bem — ele disse com cinismo brutal —, mas é só uma questão de tempo.

Então, minha linda, me diga, o que a forçou a me re­jeitar? Está com medo que alguém nos veja, sua mãe, talvez?

— Mãe? — Skye repetiu, sem expressão, incapaz de acreditar que ele tivesse usado aquela palavra. Será que ele havia mesmo dito aquilo?

— Sim, porque se o problema é esse, meu anjo, te­nho certeza que sua mãe vai ficar feliz por nós dois.

— Feliz?

— Você sabe, fica tudo em família. Sua mãe com meu pai e eu com você...

Sua mãe com meu pai...

Skye mal podia acreditar. Ele estava achando que a noiva de seu pai era sua mãe! Estava achando que ela estava lá com a mãe, que iria se casar com Cyril Antonakos!

— E então?

O silêncio de Skye e o olhar perplexo em seu rosto deixaram Theo intrigado. Ele podia entender qual­quer coisa, mas não aquela cara de estupor. Esperava que ela explodisse, mas não que ficasse daquele jeito.

Aparentemente sem ter o que dizer, ela simples­mente ficou olhando para ele espantada, como se ele tivesse ficado verde de repente.

— E então? O que você me diz? — ele insistiu.

— Eu... — ela começou a falar, mas sua voz desa­pareceu outra vez.

— Skye! — eleja estava perdendo a paciência. Mas ao mesmo tempo em que falou, Theo ouviu uma voz vindo de dentro de casa, cortando o que ele ia dizer.

— Theo! Aí está você! Amalthea me disse que você tinha chegado.

Surpreso, Theo murmurou um palavrão cabeludo. A chegada do pai era a última coisa que ele queria agora.

— Pateras.

Theo desviou os olhos em direção ao pai em um movimento súbito. Skye imediatamente pegou a toa­lha do chão e se enrolou novamente, com uma mo­déstia que surpreendeu Theo, bem como sua palidez repentina. Ela parecia aterrorizada.

— Skye?

O pai falou o nome dela com uma ponta de preocu­pação. Theo sabia que o pai podia ser um homem duro em assuntos gerais, mas para com as mulheres, especialmente as mais novas e belas, seu tom era sempre sedutor e agradável.

Ele ficou pensando se haveria algum tipo de ten­são sexual entre Skye e seu pai da qual ele não tinha ciência. Se fosse o caso, o casamento com a mãe dela já estava começando mal.

 

                                                                                Cathy Williams  

 

                      

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