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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


RENÚNCIA / Chico Xavier
RENÚNCIA / Chico Xavier

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

RENÚNCIA

ROMANCE DITADO PELO ESPÍRITO EMMANUEL

 

VELHAS RECORDAÇÕES

       Quem poderá deter as velhas recordações que iluminam os caminhos da eternidade?

       Lembramo-nos de Alcione, desde os dias de sua infância. Muitas vezes a vi, com o Padre Damiano, num velho adro de Espanha, passeando ao pôr do Sol.

       Não raro, levantava o semblante infantil para o céu e perguntava, atenciosa:

       — Padre Damiano, quem terá feito as nuvens, que parecem flores grandes e pesadas, que nunca chegam a cair no chão?

       Deus minha filha — dizia o sacerdote.

       Mas, como se no coração pequenino não devesse existir esquecimento das coisas simples e humildes, voltava ela a interrogar:

       E as pedras? — quem teria criado as pedras que seguram o chão?

       — Foi Deus também.

       Então, após meditar de olhos mergulhados no grande crepúsculo, a pequenina exclamava:

       — Ah! como Deus é bom! Ninguém ficou es­quecido!

       E era de ver-se a sua bondade singular, o inte­resse pelo dever cumprido, dedicação à verdade e ao bem.

Cedo compreendi que a família afetuosa de Ávila se constituía de amizades vigorosas, cujas ori­gens se perdiam no tempo.

Os anos — minutos do relógio da eternidade —correram sempre movimentados e cheios de amor. A criança de outros tempos tornara-se na benfeitora cheia de sabedoria. Sua vida não representava um feixe de atos comuns, mas um testemunho perma­nente de sacrifícios santificantes. Desde a primeira juventude, Alcione transformara-se em centro de afeições, em fonte de luz viva, onde se podiam vis­lumbrar as claridades augustas do Céu. Sua condu­ta, na alegria e na dor, na facilidade e no obstáculo, era um ensinamento generoso, em tõdas as circuns­tâncias.

Creio mesmo que ela nunca satisfez a um desejo próprio, mas nunca foi encontrada em desatenção aos desígnios de Deus. Jamais a vi preocupada com a felicidade pessoal; entretanto, interessava-se com ardor pela paz e pelo bem de todos. Demonstrava cuidado singular em subtrair, aos olhos alheios, seus gestos de perfeição espiritual, porém queria sempre revelar as idéias nobres de quantos a ro­deavam, a fim de os ver amados, otimistas, felizes.

Minhas experiências rolaram deva garinho para os arcanos do Tempo, a morte do corpo arrastou-me a novos caminhos e, no entanto, jamais pude es que­cer a meiga figura de anjo, em trânsito pela Terra.

Mais tarde, pude beijar-lhe os pés e com preen­der-lhe a história divina. O resultado dêsse conhe­cimento vibra neste esfôrço singelo, que não tem pretensões a obra literária.

Este é um livro de sentimento, para quem apre­cie a experiência humana através do coração. Em particular, falará a todos os que se encontrem en­carcerados, sentenciados, esquecidos daquele amor que cobre a multidão dos pecados, consoante os ensinamentos de Jesus. A maioria dos aprendizes do Evangelho deixa-se tomar, em sentido absoluto, pelas idéias de resgate escabroso, de olho por olho, ou, então, pela preocupação de recompensas na Terra ou no Céu. Aqui, comentam-se reencarna­ções criminosas; ali, esperam-se tão só prantos amargos; além, existem corações anelantes de re­mansado e ocioso pousio. A esperança e a respon­sabilidade parecem tesouros esquecidos. É razoável que se não possa negar o caráter incorruptível da Justiça, porém, não se deverá esquecer o otimismo, a confiança, a dedicação e tôdas as energias que o amor procura despertar no âmago das consciências.

Para as almas sinceras, que ainda solucem nos laços do desânimo e desalento, a história de Alcione é um bálsamo reconfortador. Naturalmente que ela própria, qual amorosa visão da Espiritualidade eter­na, emergirá das páginas luminosas da sua expe­riência, perguntando ao leitor que se sinta oprimido e exausto:

— Por que reténs a noção dos castigos implacá­veis, quando Nosso Pai nos oferece o manancial inexaurível do seu amor? Por que atribuis tamanha importância ao sofrimento? Levanta-te! Esqueces­te Jesus? Já que o Mestre padeceu por todos, sem culpa, onde estás que não sentes prazer em traba­lhar, de qualquer forma, por amor ao seu nome?

A psicologia de Alcione é bem mais complexa do que se possa imaginar ao primeiro exame. Na grandeza da sua dedicação, vemos o amor renun­ciando à glória da luz, a fim de se mergulhar no mundo da morte. Com seu gesto divino, a Terra não é apenas um lugar de expiação destinado a exílio amarguroso, mas, também, uma escola sublime, dig­na de ser visitada pelos gênios celestes. Dentro dos horizontes do Planêta, ainda vigem a sombra, a morte, a lágrima... Isso é incontestável. Mas, quem seguir nas estradas que Alcione trilhou, converterá todo esse patrimônio em tesouros opinos para a vida imortal.

Aqui, pois, oferecemos-te, leitor amigo, tão ve­lhas recordações.

Crê, no entanto, que, por velhas, não são menos preciosas. São heranças sagradas do escrínio do co­ração, jóias de subido valor que espalharemos a êsmo, recordando que, se muita gente presume ha­ver alcançado os êxitos retumbantes e a felicidade ilusória no campo vasto do mundo, em verdade ainda não aprendeu nem mesmo a estabelecer a vitória da paz, na experiência sagrada que se veri­fica entre as paredes de um lar.

Pedro Leopoldo, 11 de janeiro de 1942

EMMANUEL

 

 

Sacrifícios do amor

A paisagem era formada de sombras, numa região indefinível na linguagem humana. Substâncias diferentes das que compõem o solo terrestre constituíam a sua crosta sulcada de caminhos tor­tuosos entre arbustos mirrados, à semelhança dos cactos próprios das zonas áridas. Os horizontes perdiam-se ao longe, nas linhas escuras do quadro melancólico, como se aquela hora assinalasse pe­sado crepúsculo.

Fazia frio, agravado pelas rajadas fortes do vento úmido, que soprava rijo, deixando no espaço vaga expressão de doloroso lamento. O lugar dava a impressão de triste país de exílio, destinado a criminosos condenados a penas ingratas.

Entretanto, ouviam-se vozes que a ventania quase abafava, como de prisioneiros cheios de expectação e de esperança.

Em singular e sombrio recôncavo, pequeno grupo de espíritos culposos comentava largos projetos de atividades futuras. Suas túnicas exóticas e grandes capuzes pareciam identificá-los como es­tranhos ministros de um culto ignorado na Terra. Alguns se revelavam inquietos, taciturnos, outros deixavam transparecer nos olhos enorme desalento.

—        Agora — dizia um que evidenciava posi­ção de relêvo — necessitamos renovar ideais, imprimir novo impulso à nossa voliçâo enfraquecida. O passado vai longe e faz-se imprescindível arregi­mentar tôdas as fôrças para as lutas que vêm perto. A providência misericordiosa do Todo-Poderoso nos concede ensanchas de novas experiências na Terra. Meditemos em nossas quedas dolorosas no redemoi­nho das paixões do mundo e firmemo-nos nos santos propósitos de triunfo. Quantos anos temos perdido em amarissimos sofrimentos, no plano dos remôrsos devastadores?... Recordemos as angústias da via expiatória e agradeçamos a Deus o ensejo de voltar às tarefas purificadoras. Esqueçamos a vaidade que nos envileceu o coração; a ambição e o egoísmo que nos torturam a alma ingrata, e preparemo-nos para as experiências justas e necessárias.

A voz do locutor, porém, embargava-se afogada em lágrimas. A lembrança dolorosa do passado em­polgava o grupo de antigos sacerdotes desviados do nobre caminho que o Senhor lhes havia traçado.

Iniciara-se a troca de impressões entre todos. Alguns expunham dificuldades íntimas, outros co­mentavam a intenção de trabalhar devotadamente, até à vitória.

—        O que mais me impressiona — proclamava um companheiro — é o fantasma do esquecimento que nos obscurece o espirito, lá na Terra. Antes da experiência, arquitetamos mil projetos de esfôrço, dedicação, perseverança; somos nababos de precio­sas intenções, mas, chegado o momento de as exe­cutar, revelamos as mesmas fraquezas ou incidimos nas mesmas faltas que nos compeliram aos desfila­deiros do crime e das reparações acerbas.

       — Mas, onde estaria o mérito — explicava o amigo a quem eram dirigidas aquelas observações — se o Criador não nos felicitasse com êsse olvido temporário? Quem poderia aguardar o êxito desejável, defrontando velhos inimigos, sem o bál­samo dessa bênção celestial sôbre a chaga da lembrança? Sem a paz do esquecimento transitório, talvez a Terra deixasse de ser escola abençoada para ser ninho abominável de ódios perpétuos.

—        Entretanto — objetava o interlocutor — se­melhante situação me atemoriza. Sinto enorme an­gústia só em pensar que perderei novamente a memória, que ficarei quase inconsciente de meu patrimônio espiritual, ao palmilhar as estradas ter­restres, qual enterrado vivo a quem fôsse subtraida a faculdade de respirar.

—        Mas, como aprenderias a humildade com as reminiscências ativas do orgulho? Poderias, acaso, beijar um filho, sentindo nele a presença de um inimigo figadal? Conseguirias, de pronto, a força precisa para santificar, pelos elos conjugais, a mu­lher que manchaste noutros tempos, induzindo-a ao meretrício e às aventuras infames? Não percebes, no olvido terreno uma das mais poderosas mani­festações da bondade divina para com as criaturas criminosas e transviadas? Concordo em que a expe­riencia humana para quem observou, mesmo de lon­ge, como aconteceu a nós outros, as resplendências da vida espiritual, significa, de fato, a reparação laboriosa no seio de um sepulcro; mas nós, meu caro Menandro, estamos desde há muito mumifica­dos no crime. Nossa consciência necessita do toque das expiações salvadoras. A morte mais terrível é a da queda, mas a Terra nos oferece a medicação justa, proporcionando-nos a santa possibilidade de nos reerguermos. Renasceremos em suas formas perecíveis e, em cada dia da experiência humana, morreremos um pouco, até que tenhamos eliminado, com o auxílio da poeira do mundo, os monstros infernais que habitam em nós mesmos...

O         amigo pareceu meditar aquêles conceitos profundos e, dando a entender que se convencera, interrogou com atenção, encaminhando a palestra para outros rumos:

       - Quando se verificará nossa localização defi­nitiva nos fluidos terrestres, com vistas à nova expe­riência?

— A qualquer momento. Como sabes, muitos dos nossos já partiram. Os benfeitores de nosso destino, que advogaram a concessão de novas opor­tunidades ao nosso esfôrço remissor, já nos envia­ram a mensagem derradeira, desejando-nos realiza­ções felizes nos trabalhos futuros.

 

Nesse instante, sucedeu qualquer coisa que o grupo de almas sofredoras e esperançosas não con­seguiu perceber. Uma forma luminosa descia do plano constelado, semelhante a uma estréia des­prendida do imenso colar dos astros da noite, que agora se caracterizava pela sombra mais envolvente e profunda. Quase ao tocar no centro da paisagem escura, tomou a forma humana, embora não se lhe pudesse determinar os traços fisionômicos, tal a sua auréola de ofuscante esplendor. No entanto, como acontece no círculo das impressões humanas condicionadas às necessidades de cada criatura, nenhum dos circunstantes lhe registrou, de maneira absoluta, a presença generosa, senão mediante uma íntima alegria, permeada de santas esperanças. Ninguém poderia definir o sentimento de bom ânimo que se estabelecera, de modo geral. Elevada perspectiva de vitória no porvir palpitava, agora, nas conversações. Alguém declarou que naquele instante, por certo, estavam descendo novas bên­çãos de Deus sôbre o grupo antes receoso e abatido.

Menandro e Pólux, os dois amigos cuja palestra foi particularmente registrada, salientaram a subli­me alegria que lhes inundava o coração e o mais santo entusiasmo perdurou, entre todos, até que a pequena assembléia se dissolveu em meio de como­vedoras despedidas e compromissos sagrados.

Pólux, todavia, ainda ali ficou longos minutos a meditar na magnanimidade do Altíssimo e na magnitude do porvir. Não percebia a presença da sublime entidade envôlta em luz, que se conservava a seu lado, em atitude carinhosa, mas profundas emoções se lhe apoderaram do espírito, conduzin­do-o às reminiscências do pretérito remoto. Naquele instante, sentia-se tocado por sentimentos intra­duzíveis. Por que razão havia caído tantas vêzes ao longo dos caminhos humanos? Numerosas lutas sustentara, a fim de unir-se a Deus para sempre, através do amor purificado e divino. Experiências laboriosas havia empreendido no Evangelho de Jesus, para servi-lo em espírito e verdade, e contudo, na luta consigo mesmo, as paixões subalternas sem­pre saíam vencedoras, em sinistros triunfos. Em que constelação permaneceria Alcione, a alma de sua alma, vida de sua vida? E recordava as renún­cias e sacrifícios dela, em prol da sua redenção, lem­brando que, se a sua alma de santa estava sempre repleta de abnegação, êle, por si, fôra quase invariàvelmente frágil e vacilante, agravando os pró­prios fracassos. Principiara, de alguns séculos, a tarefa de resgate e aperfeiçoamento sob as clari­dades do Evangelho de Jesus-Cristo; procedera nobremente até certo ponto, mas, no instante de coroar a obra para a vida eterna, caíra miseràvelmente, como criminoso comum. Desesperara-se. Chafurdara-se no lodo cruel. A revolta, porém, agravara-lhe as penas íntimas, compelindo-o a ceder ante o cêrco apertado de novas tentações. Reme-morava, agora, a figura da alma bem amada, com lágrimas de amarguroso enternecimento. Sua me­mória parecia mais lúcida. À sua retina espiritual, desenhavam-se os séculos transcorridos. Alcione sempre pura e devotada, êle sempre incorrigível e cruel. Nas últimas experiências havia pedido o há­bito de sacerdote do catolicismo romano, desejoso de entregar-se ao ascetismo regenerador. Preferira ten­tar o esfôrço de abster-se das comodidades santas de um lar, a fim de sofrer o insulamento e as neces­sidades profundas do coração, buscando gravar no espírito, com o ferrete de padecimentos íntimos, o amor acrisolado e fiel. Mas, nas recapitulações pe­rigosas, tal propósito falhara sempre. Conspurcara os santuários, traira os deveres santos, esquecera os compromissos sagrados e saíra novamente do mun­do como criminoso revel. Pólux considerou os erros do passado execrável e, premido pelas angústias da consciência, começou a chorar.

Onde estava Alcione que parecia estranha às suas desventuras? Muitos anos haviam decorrido sôbre as suas peregrinações, como espírito desolado, entre remorsos acerbos, e nunca obtivera a dita de lhe beijar as mãos carinhosas e benfeitoras. De quando em quando, recebia-lhe as mensagens de in­citamento e confôrto sagrado; no entanto, não con­seguia saciar a saudade torturante, nem evitar o próprio desalento do espírito caído no resvaladouro das amarguras crueis.

Em palestra com os amigos. Pólux encontrava sempre poderosos argumentos para convencer os mais rebeldes ou consolar os mais tristes. Suas vastas reservas de conhecimento conferiam-lhe re­cursos espirituais que os demais não possuiam.

E contudo, naquela hora da sua eternidade, sentia-se profundamente só e desventurado.

Sob o jugo de atrozes recordações, sentindo que o instante de retôrno ao orbe terráqueo estava próximo, procurou o refúgio caricioso da oração e murmurou baixinho, de olhos erguidos para o alto:

— Jesus, Mestre querido e generoso, conce­dei-me fôrças ao coração enfêrmo e perverso!... Dignai-vos cerrar os olhos para as minhas fraque­zas e vêde, Senhor, quanto sofro!... Fortalecei minha vontade vacilante e, se possível, meu Sal­vador, dai-me a graça de ouvir Alcione, antes de partir!.

       Mas, a essa evocação direta da bem-amada, o pranto lhe embargou a prece comovedora e dolo­rosa. Em atitude humilde, baixou os olhos nevoa­dos de lágrimas e soluçou, discretamente, como se estivesse envergonhado da própria dor.

Nesse instante, a entidade amorosa que o assis­tia pareceu orar intensamente, despendendo notável esfõrço para se lhe tornar visível. Gradualmente, extinguiram-Se os raios de luz que a envolviam em reflexos divinos. A sombra da paisagem cercou-a inteiramente, e uma jovem de singular beleza tocou o penitente nos ombros, num gesto de ternura en­cantadora.

—        Pólux! — murmurou com indizível doçura. Êle ergueu a fronte e soltou um grito de ine­fável surprêsa.

—        Alcione!... Alcione!... — respondeu com júbilo incoercível, postando-se de joelhos ao mesmo tempo que lhe osculava as mãos reconhecidamente.

       — Há quanto tempo me vejo privado dos teus cari­nhos! Meus dias são milênios de inenarráveis an­gústias. Vieste atender ao mísero que sou?. .. Ah! sim, Deus sempre envia seus anjos aos desgraçados, como enviou Jesus aos pecadores...

—        Levanta-te para o testemunho de amor ao Altíssimo — disse ela com angélica ternura —; não te julgues abandonado nos caminhos da regenera­ção. O Senhor está conosco, como estou sempre contigo. Anima-te para novas experiências! Jesus não desampara nossos propósitos elevados. Sofre e trabalha, Pólux, e, um dia, nos reuniremos para sempre na radiosa eternidade. Deus é a fonte da alegria imortal, e quando houvermos triunfado de tôda a imperfeição, banhar-nos-emos nessa fonte de júbilos infinitos.

—        Ai de mim! — replicou revelando amargu­rosa desesperança.

Não lamentes! — tornou a entidade generosa — não perseveres em lastimar, quando o Todo Poderoso nos faculta o direito de renovar o esfôrço para as divinas conquistas. Novas tarefas te aguar­dam no seio amigo da Terra generosa. Solicitaste uma oportunidade nova de consagração a Deus, e a Providência te concedeu êsse precioso ensejo.

Sim — esclareceu Pólux desfeito em lágri­mas roguei a recapituLação do esfôrço dos sacer­dotes devotados ao labor divino. Uma vez mais, quero tentar as provas da abnegação e do ascetis­mo, na exemplificação do amor ao próximo. Mobi­lizarei tôdas as minhas energias para avançar al­guns graus na distância imensa que nos separa na escala evolutiva. Quero viver sem lar e sem filhos carinhosos, quero conhecer a solidão que muitas vêzes já experimentaste no mundo, nos estrênuos sacrifícios por mim. Minhas noites hão de ser desertas e tristes, caminharei junto dos que caem e padecem sôbre a Terra, no propósito de servir a Jesus, através da sua seara de amor e perdão.

Alcione contemplou-o embevecidamente, olhos mareados de pranto, numa doce emoção de júbilo e reconhecimento. As afirmativas e promessas do amado penetravam-lhe o coração como brandas ca­rícias. De há muito trabalhava com fervor pela obtenção daquele minuto divino, em que Pólux con­seguisse compreender e sentir o Mestre no coração antes de interpretá-lo intelectualmente, apenas.

—        Jesus abençoará nossas esperanças — ex­clamou afetuosa. — Nós que saímos juntos do mes­mo sôpro de vida, chegaremos juntos aos braços amoráveis do Eterno.

Pólux soluçou convulsivamente.

Esperar-te-ei — disse ela — através dos caminhos do Infinito. Lutarei ao teu lado nos dias mais ásperos, dar-te-ei as mãos sôbre os abismos tenebrosos.

Perdoaste-me, como sempre? interrogou Pólux, voz entrecortada pela emoção do encontro.

—        Os que se amam fundem as almas no en­tendimento recíproco. Deus perdoa, concedendo-nos a oportunidade da redenção, e nós nos compreende­mos uns aos outros.

E, evidenciando o desejo de restaurar as ener­gias do amado, continuou:

—        Quantas vêzes também caí nas estradas longas e ríspidas. Acaso tenho um passado sem mácula?... Não és o único a padecer nos resgates justos e penosos. Milhões de almas, neste mesmo instante, clamam as desventuras do remorso e in­vocam as bênçãos do Altíssimo para o trabalho retificador. E não será razão de infinita alegria a certeza da concessão divina para recomeçar? Já recebeste a permissão do Senhor para o reinício da luta, avizinha-se o instante bendito do retôrno à tarefa e pensaste, acaso, nas torturas imensas de quantos, neste minuto, se sentem oprimidos e amar­gurados, na expectativa ansiosa de alcançar a dá­diva que já obtiveste?.

Pólux contemplou-a reconfortado, mas, objetou melancolicamente

—        Ah! sinto que poderia atingir culminânciaS nas necessárias reparações; entretanto, Alcione, precisava para isso da tua constante assistência. Sei que preciso recorrer a provas difíceis de abnegação e de ascetismo, mas... se pudesse, ao menos, ver-te na Terra... Serias, para a minha tarefa, a radiosa estrêla d’Alva e, à noite, quando fluíssem do céu as bênçãos da paz, lembrar-me-ia de ti e encontraria nessa recordação o manancial da cora­gem e dos estímulos santos!.

Ela pareceu meditar profundamente e re­dargüiu:

—        Implorarei a Jesus me conceda a alegria de voltar à Terra a fim de atender ao meu ideal, que se constitui, aos meus olhos, de sacrossantos deveres.

—        Tu! Voltares? — perguntou o precito, ébrio de esperança.

—        Por que não? — explicou Alcione com mei­guice. — O planêta terrestre não será um local situado igualmente no Céu? Esqueceste o que a Terra nos tem ensinado qual mãe carinhosa, na grandeza de suas experiências? Muitas vêzes, nós, na qualidade de filhos dela, manchamos-lhe a face generosa com delitos execráveis e, entretanto, foi em seu seio que o Mestre surgiu na manjedoura singela e levantou a cruz divina, encaminhando-nos ao serviço da remissão.

—        Ah! se Deus permitisse ao mísero penitente que sou — disse Pólux dominado por indisfarçável alegria — a ventura de ouvir-te no estreito circulo terrestre, acredito que nada teria a temer na senda reparadora...

Alcione notou-lhe o surto de alegria transbor­dante e, ponderando-lhe as observações, palavra por palavra, obtemperou:

- Antes da minha, precisarás ouvir a voz do Cristo, e se Ele com sua infinita bondade permitir minha volta à Terra, jamais olvidemos que vamos lá regressar, não para auferir gozos prematuros, mas para sofrer juntos no caminho redentor, até podermos desferir o vôo supremo de felicidade e união, em demanda de esferas mais altas. Na obra de Deus, a paz sem trabalho é ociosidade com usur­pação. Não afastes os olhos do quadro de sacrifí­cios que nos compete fazer a favor de nós mesmos!

—        Sim, Alcione, tu és o meu anjo bom — mur­murou êle entre lágrimas. — Ensina-me a percorrer as estradas depuradoras. Não me desam pares. Dize-me como devo proceder na Terra. Repete que te não afastarás do meu caminho. Inspira-me o desejo santo de resgatar meus pesados débitos, até ao fim...

Sentado, em atitude humilde, o mísero sofredor guardava a cabeça entre as mãos, enxugando as lágrimas copiosas.

Alcione afagou-lhe os cabelos com ternura e falou docemente:

—        Não temas a prova de purificação que te conduzirá ao júbilo na senda eterna, O cálice do remédio deve ser estimado por sua virtude cura­tiva, não pelo travo do conteúdo, que apenas produz a penosa sensação de alguns segundos. Sê reconhe­cido a Deus nos sacrifícios, Pólux! Não desejes, nem esperes regalias na escola de edificação, onde o próprio Mestre encontrou a bofetada e a cruz do martírio. Não escutes as falsas promessas nem atendas aos caprichos perniciosos que nascem do coração. Obedece ao Pai e toma Jesus por cireneu de tôdas as horas. A porta estreita, ainda e sempre, é o maravilhoso símbolo para a divina iluminação. Foge das fantasias envenenadas que trabalham contra as santificantes aspirações do espírito. Re­corda as angustiosas experiências que tantas vêzes empreendemos na Terra, para a conquista de nossa perpétua união. Não temos sêde de enganosas sa­tisfações. Temos sêde de Deus, Pólux! O infinito amor que nos transfunde as almas tem sua origem sagrada em sua misericórdia paternal. Quero-te eternamente, como sei que a união comigo é a tua sublime aspiração: entretanto, seria justo encerrar nosso júbilo num círculo egoístico, tão somente? Amamo-nos para sempre, a eternidade nos santifica os destinos, mas o Pai está acima de nós. Entre­guemo-nos ao seu amor, no santo trabalho de suas obras. Em suas mãos augustas, meu querido, pal­pita a luz que enche os abismos. Haverá maior glória que praticar-lhe a divina vontade, que se traduz em amor, dedicação e alegria? Nos cami­nhos novos a percorrer, lembra o Pai Amado e atende-o em tôdas as circunstâncias. Não acalentes no coração os germes da vaidade e do egoísmo. Sacrifica-te. Dá combate a ti mesmo. Os triunfos exteriores são aparentes e podem ser mentirosos. A vitória espiritual pertence à alma heróica que soube unir-se ao céu, através de tôdas as tempes­tades do mundo, trabalhando por burilar-se a si própria.

Pólux chorava, compungidamente, mas rogou com expressão comovedora:

—        Compreendo-te as palavras sábias e afetuo­sas! Farei tudo por unir-me a Deus e a ti, eternamente.­ Pede por mim a Jesus para que eu tenha reflexão e bondade no mundo...

No entanto, como se experimentasse um cho­que inesperado, levou as mãos ao peito, calou-se por momentos, para depois retomar a palavra, espan­tado e hesitante:

—        Alcione, querida, não sei se a emoção desta hora divina abalou minhas energias mais profun­das; contudo, sinto que algo me envolve a fronte, uma fôrça incoercível parece ameaçar o cérebro vacilante: experimento penosas sensações, como quando perdemos as fôrças devagarinho, antes de cair...

E, após outra pausa ligeira, voltava a excla­mar, revelando amarga estranheza:

—        Chamam por mim... ouço vozes que me chegam de longe... que vem a ser isto?...

O         rosto se lhe cobrira de intenso livor, de pro­funda palidez, e, deixando perceber que escutava interpelações de um mundo diferente, interrogou entre atemorizado e surpreendido:

—        Como interpretar êstes apelos? É êste o triste momento? Ah! não, não pode ser!...

Mas, nesse instante, a jovem sentou-se a seu lado; carinhosa, tomou-lhe a fronte cansada no re­gaço generoso e, afagando-lhe os cabelos com extre­ma ternura, esclareceu:

—        Acalma-te. Chamam-te da Terra. Vais ador­mecer para despertar na experiência nova, nos círculos da vida humana. Partirás de meus braços para o seio da afetuosa mãezinha que Jesus te des­tinou.

Pólux experimentava estranhas sensações, ca­racterizadas por súbito abatimento; mas, sentindo-se conchegado ao amoroso regaço de Alcione, tinha a impressão de ser a mais venturosa das criaturas. Impressões dominadoras de sono senhoreavam-no e, no entanto, lutava desesperadamente contra elas, tentando dilatar a ventura daqueles momentos su­blimes, obtemperando carinhosamente:

—        Não desejaria outra mãe, senão tu mesma. Reúnes, para mim, todos os sagrados requisitos de mãe, de irmã, de companheira e noiva bem-amada...

Ela, que também demonstrava grande emoção nos olhos rasos d’água, acrescentou com meiguice:

—        Sim, somos dois corações numa só alma, sob os desígnios do Altíssimo!

Pólux, agora, evidenciava intraduzível angús­tia. Os olhos moviam-se inquietos, obedecendo às ansiosas expectativas do seu mundo interior. O peito arfava dolorosamente, como se o coração ten­tasse romper o tórax, causando-lhe indefinível an­gústia. Seu estado geral dava a impressão de um moribundo na Terra, nas vascas da morte. Fixou os olhos inquietos na bem-amada, tal qual criança necessitada de carinho, e falou com dificuldade:

—        Alcione, não será êste padecimento igual ao da morte que conhecemos no mundo?... (1)

—        Sim, meu querido, tua angústia de agora éoutra crise periódica.

—        Reconheço — disse êle completando o ra­ciocínio — e estou certo de que terei crises seme­lhantes na Terra, ou noutros planos, até que me liberte da morte no pecado... Um dia encontrarei a ressurreição eterna, a harmonia sem fim... Per­manecerei a teu lado para sempre!...

A jovem aconchegou-o ao coração, com mais ternura.

—        Alcione — murmurou dificilmente —, não sei se me perdoaste a ponto de permitir ao meu espírito miserável a solicitação de uma dádiva ce­lestial...

 

(1) Os fenômenos da reencarnação, como aque­les que assinalam o desprendimento do espírito no mundo, abrangem as mais variadas formas e se veri­ficam de acôrdo com as necessidades de cada um. — Nota de Emmanuel

 

Ela adivinhou-lhe os pensamentos mais secre­tos e, todavia, com a delicadeza de quem não deseja parecer superior, retrucou carinhosamente:

—        Dize, Pólux! Que não farei por tua feli­cidade?

—        Desejava... que me beijasses... ao menos uma só vez, antes de partir...

Lágrimas ardentes repontaram nos olhos da noiva espiritual, que, estreitando-o ternamente de encontro ao coração, como se atendesse a tenra criança, replicou cheia de brandura:

—        Antes disso, elevemos a Jesus nosso beijo de amor e reconhecimento. Roguemos ao seu cora­ção magnânimo proteção e amparo ao nosso ideal divino,

O         interlocutor fixou no seu rosto angélico os grandes olhos atormentados e murmurou:

—        Acompanharei tuas preces...

Alcione ergueu o olhar lúcido ao céu conste-lado, que esplendia além das sombras que envolviam aquela região de amargura, e orou fervorosamente:

—        Mestre amado...

 

Depois da pausa natural, Pólux repetiu comovedoramente:

—        Mestre amado...

 

A jovem sentiu que o pranto quase lhe embar­gava a voz, mas, seguida por êle, continuou:

—        Com veneração e carinho, nós, meu Jesus, desejamos oscular vossos pés. Recebei no santuá­rio de vossas glórias divinas a pobre lembrança dos servos humildes e necessitados, Nossas almas estão cheias de gratidão à vossa bondade, Permiti, meu Salvador, que Possamos honrar O vosso nome traba­lhando na seara de perdão, de verdade e de amor, com a vossa doutrina, Abençoai nossas lutas sal­vadoras, dai-nos a fôrça para vos testemunhar eterna fidelidade, amparai nossos espíritos até ao dia em que nos possamos unir em vosso seio, na claridade sem fim da eternidade luminosa!...

Alcione interrompeu a oração, que se asseme­lhava a um cântico divino fragmentado por doce estacato. Na paisagem desolada, fizera-se luz in­tensa, que Pólux não conseguia perceber. Generosos emissários acercaram-se dos dois filhos de Deus, que imploravam, de todo o coração, o amparo de Jesus.

A jovem, nesse momento, inclinou-se para o bem-amado e, na compostura de mãe carinhosa e desvelada, beijou-o longamente nos lábios com in­finita ternura.

Pólux desejou proclamar seu precioso júbilo, dizer da suave emoção que lhe banhava o espírito, suplicar a dilação daquela hora gloriosa do caminho eterno, mas não conseguiu articular palavra. As lágrimas ardentes, porém, que lhe rolavam dos olhos qual lúcido colar de pérolas divinas, diziam bem alto da sua comoção indefinível. Olhar fixo em Alcione, qual agonizante na Terra que desejasse guardar para sempre o quadro mais querido, cerrou as pálpebras cansadas e rendeu-se ao grande sono.

Foi aí que os mensageiros do Cristo se apro­ximaram da comovida jovem, que lhes entregou o bem-amado com profundo desvêlo, falando-lhes brandamente:

—        Irmãos, não esqueçais de que vos confio um tesouro!...

Em seguida, tomou sua roupagem de luz e afastou-se da paisagem nevoenta, dando a impres­são de uma estrêla solitária que regressava ao paraíso.

Pouco depois, ei-la que aporta em portentosa esfera, inconfundível em magnificência e grandeza. O espetáculo maravilhoso de suas perspectivas ex­cedia a tudo que pudesse caracterizar a beleza no sentido humano. A sagrada visão do conjunto per­manecia muito além da famosa cidade dos santos, idealizada pelos pensadores do Cristianismo. Três sóis rutilantes despejavam no solo arminhoso ocea­nos de luz inirífica, em cambiâncias inéditas, como lampadários celestes acesos para edênico festim de gênios imortais. Primorosas construções, engala­nadas de flores indescritiveis, tomavam a forma de castelos talhados em filigrana dourada, com irra­diações de efeitos policromos. Sêres alados iam e vinham, obedecendo a objetivos santificados, num trabalho de natureza superior, inacessível à com­preensão dos terrícolas.

Alcione penetrou num templo de majestosas proporções, dominada por pensamentos intraduzí­veis. Muito acima da nave radiosa, elevava-se uma tôrre translúcida, trabalhada em substância sólida e transparente, semelhante ao cristal, de cujo in­terior jorravam melodias harmoniosas.

O         santuário augusto era uma vasta colmeia de trabalho e oração.

Alcione passou por companheiros muito ama­dos, atravessou compartimentos repletos de luz ni­tente e, aproximando-se de Antênio — a entidade angelical que, por sua excelsa posição hierárquica, ali cumpria as ordenações de Jesus, falou com hu­mildade:

—        Anjo amigo, deliberei suplicar ao Senhor a permissão de voltar temporariamente às tarefas terrenas.

—        Como assim? — inquiriu Antênio admirado —.           acaso todos nós permanecemos aqui impossibi­litados de auxiliar o planêta terreno? Não estamos a serviço do Cristo, no afã espiritual de reerguer êsse orbe?

—        Explico-me — disse a recém-chegada timi­damente —: rogo a concessão de um corpo carnal, caso Jesus me conceda essa dádiva.

O         generoso mentor contemplou-a com amoroso respeito, compreendeu-lhe as intenções mais ínti­mas, esboçou um sorriso de bondade e perguntou:

—        Mas, teus trabalhos no sistema de Sírius? Não estás cooperando com os benfeitores da Arte terreal? Acredito não vir longe a época de serem levados ao mundo terreno os necessários elementos de inspiração, depois do resultado de tantos esfor­ços para a solução de certos problemas do ritmo e da harmonia.

—        Se possível — acrescentou a jovem com emoção — desejaria interromper essas pesquisas que me falam gratamente à alma, para retomá-las no porvir.

—        Mas, Alcione — obtemperou o orientador dando fôrça às palavras —, porque um novo e arris­cado compromisso? Compreendo as razões que inter­ferem na tua súplica; entretanto, pondero que podes trabalhar aqui mesmo, a favor daqueles a quem amas, encorajando-os e assistindo-os da esfera em que te encontras.

—        Confesso-te, porém, bondoso Antênio, que profundas saudades me lancinam rudemente o co­ração. Será condenável o desejo firme de alcançar a felicidade através das renúncias do amor e nos propósitos de semear o bem? Perdoa-me se a pre­sente rogativa causa estranheza à tua alma cari­nhosa, que tanto me tem amado no glorioso cami­nho para Deus. Releva-a, recordando que o próprio Jesus teve saudade de Lázaro e, ainda agora, na ma­jestade da sua glória divina, experimenta cuidados pelos discípulos caídos, que padecem e choram!...

A bondosa e sábia entidade ouviu-a comovida, em afetuoso silêncio.

— Além disso — prosseguiu mais animada —não desejo regressar à forma estruturada em poeira, tão sômente para seguir o amado Pólux, a quem me permitiste advertir e consolar. Quase todos os meus companheiros bem-amados, no esfôrço evolu­tivo de outras eras, estão atualmente no Planêta, mas, em sua generalidade, envenenados por conse­qüências sinistras de oportunidades menosprezadas e perdidas. As vêzes, suas queixas dolorosas e afli­tivas me repercutem penosamente nalma, ouço-lhes as preces ansiosas e nossos cooperadores nos fluidos pesados do orbe me enviam mensagens que são verdadeiros brados de socorro, aos quais não pOSSO ficar insensível, por mais que me procure confugir à perfeita confiança no Todo-Poderoso.

—        Sim — atalhou Antênio, sensibilizado —, co­nheço os teus motivos sacrossantos.

E, como quem desejava ministrar todos os es­clarecimentos possíveis ao seu alcance, continuou:

—        Apesar de nossos bons desejos, querida Alcione, não creio que Pólux obtenha desta vez o êxito imprescindível. Seu esfôrço de agora será uma experiência proveitosa, mas, possivelmente, ainda não logrará a coroa da vida. Embora a dedi­cação que me compele a falar-te em têrmos tão sinceros, devo acrescentar que essa é a verdade clara aos nossos olhos. Entretanto, também sei que outros velhos amigos teus caíram em tenebro­sos desvios de impiedade, traindo sagradas obriga­ções. Os que te foram pais, algumas vêzes, per­deram-se na embriaguez da autoridade e nas fan­tasias da fortuna; os que te foram irmãos e fami­liares tombaram vencidos no despotismo e na des­vairada ambição. E o mais lamentável é que se complicaram mütuamente, alimentando a fornalha do ódio com a lenha do egoísmo, carbonizando in­tenções generosas e anulando estrênuos esforços de quantos os auxiliam com abnegação e nobreza. Nenhum cedeu em caprichos, ninguém perdoou nem esqueceu o mal. As ervas daninhas invadiram o campo de tuas esperanças divinas. Teus compro­missos com o Senhor sofrem pesadas ameaças. Justifico, dêsse modo, as tuas razões, embora não possa aplaudir a extensão dos sacrifícios que pre­tendes fazer.

A jovem demonstrou, no olhar, sincero reconhe­cimento por semelhantes palavras de compreensão e exclamou:

       — Anjo amigo, tenho tanto desejo de acariciar aquela que me foi mãe desvelada em outros tempos!... Não será justo procurar assistir aos que, noutras eras, me auxiliaram a penetrar as sendas da redenção?

—        Ouve, porém, Alcione observou Antênio solenemente —, tuas rogativas são louváveis e tuas aspirações são mais que justas; mas, assim como te aconselhei advertir Pólux, devo também exor­tar-te por minha vez. Deves saber o volume dos trabalhos e responsabilidades que solicitas do Mestre.

—        Sim, replicou a jovem sem hesitação, estou disposta a procurar minhas dracmas perdidas, se mo permitires em nome do Senhor.

—        Já ponderaste nos obstáculos imensos? Lembra que o próprio Jesus, penetrando na região terrena, foi compelido a se aniquilar em sacrifí­cios pungentes. Recorda que as leis planetárias não afetam sômente os espíritos em aprendizado ou reparação, mas, também, os missionários da mais elevada estirpe. Experimentarás, igualmente, o olvido transitório e, embora não tanto agravados em virtude das tuas conquistas, sentirás o mesmo desejo de compreensão e a mesma sêde de afeto que palpitam nos outros mortais. Para esclareci­mento dêsses problemas, minha querida, o Mestre deixou à comunidade dos discípulos profundos ensi­namentos no Evangelho. O mundo, representado por maus sacerdotes e falsos doutores, buscou ten­tar o próprio Jesus. Já meditaste na tua aproxi­mação de Pólux, investida num corpo de carne? Sabemos que Pólux parte com deveres de suma im­portância, em função de coletividade; e tu te sentes preparada para neutralizar a poderosa lei da atra­ção das almas? Não o digo no sentido de preocupa­ções subalternas, mas ponderando a grandeza dos teus sentimentos afetivos, em relação à grandeza mais sublime das obrigações assumidas para com Deus. Terás ânimo para lhe ouvir no mundo os rogos amorosos, mantendo-o no seu pôsto, incó­lume e sobranceiro à solidão de si mesmo? Sem dúvida, a lei terrestre te encherá de desejos e te induzirá a considerar a possibilidade de proporcionar-lhe filhos afetuosos, em obediência aos seus princípios naturais. Além disso, teus afetos de outras épocas, como, por exemplo, os que te foram pais amorosos, receberão a palma de lutas ásperas e agudas provações. A senda de quase todos os teus amigos está semeada de espinhos, que êles próprios plantaram no seu desapêgo à misericórdia do Todo-Poderoso. Sentes-te bastante forte para assumir tão grave compromisso? Conheço nume­rosos irmãos que, depois de pedirem missões arris­cadas como esta, voltaram onerados de mil proble­mas a resolver, retardando assim preciosas aqui­sições.

—        Conheço a gravidade da minha decisão —esclareceu a jovem com muita humildade — mas, sa­bendo-me fraca pelo muito que amo, espero que o Senhor me fortaleça nos dias de sombra e aflição. Pela cruz que sua magnanimidade aceitou em nosso benefício na Terra, rendo-me à sua augusta vonta­de, mantendo, contudo, minha sincera rogativa!...

Antênio contemplou-a tomado de nobre admi­ração e sentenciou:

—        Louvo os teus propósitos firmes e sei que tua poderosa confiança no Cristo é penhor sagrado de vitória; mas, devo ainda lembrar-te que a si­tuação terrena dos que se propÕem ao serviço legí­timo da virtude — ainda e sempre — é inçada de sofrimentos atrozes. Não desconheces que, nessas missões sublimes, a criatura disputa o direito de acompanhar o Mestre em seus passos divinos, O discípulo da verdade e do amor, no mundo, é alguma coisa de Jesus e de Deus, e a massa vulgar não lhe perdoa tal condição, sobrecarregando-o de pesados amargores, porque seus sentimentos não são aná­logos àqueles que a conduzem a incoerências e de­satinos. Não poderá haver acôrdo entre a virtude e o pecado. E como o pecado ainda domina o mun­do, a tarefa apostólica em seus trâmites será sempre um doloroso espetáculo de sacrifício para as almas comuns. Todos os que seguiram Jesus foram obrigados a identificar o destino com o sinal do martírio. Os que se não desprendem da Terra, crucificados nas dores públicas, retiram-se ao de­samparo, esmagados pelos opróbrios humanos, calu­niados, humilhados, encarcerados, feridos. Raros triunfaram conservando a serenidade e o amor ima­culado, até ao fim!... Ponderaste semelhantes experiências em que tua alma peregrinará por al­gum tempo, retalhada de angústias!...

Sim, querido amigo, refleti em tudo isso e estou resolvida ao testemunho, por mais cruel que seja o meu roteiro.

—        Venturosa serás se puderes aceitar o sofri­mento na Terra, dentro dêsse conceito — exclamou o mentor com grande tranqüilidade. — O homem comum, nos seus interêsses mesquinhos, não con­sidera a dor senão como resgate e pagamento, des­conhecendo o gôzo de padecer por cooperar sincera-mente na edificação do Reino do Cristo.

—        Jesus, que vê o meu coração, ensinar-me-áa transformar a tortura em cântico de graças e me auxiliará a esquecer as cogitações menos dignas, de que me possam cercar os espíritos vulgares, rela­tivamente ao trabalho porfiado e difícil da reden­ção e do engrandecimento da vida.

Antênio comoveu-se profundamente em face de tão valorosa resolução e respondeu, afinal:

—        Pois bem, já que te firmas em propósitos tão altos e guardas todos os preceitos justos e im­prescindíveis à situação, permito o teu regresso àTerra, em nome do Senhor.

Alcione transbordava de júbilo santo. A suave emoção daquela hora abria-lhe portas resplande­centes de esperança e alegria inexcedíveis.

—        Considerando — disse o amoroso instrutor — que partirás não mais ocasionalmente e sim para uma transformação sacrificial, que exigirá muito trabalho e renúncia, ficas desde já desligada de tuas obrigações nesta esfera, a fim de te adapta­res, vencendo as situações adversas das regiões inferiores que nos separam do mundo, no que, pressinto-o, deverás gastar quase dez anos ter­restres.

Alcione, vertendo lágrimas de alegria e gra­tidão, aproximou-se, tomou a destra de Antênio e murmurou:

—        Deus te recompense!...

—        Que a sua misericórdia te abençoe! — ex­clamou o instrutor acariciando-lhe os cabelos. —Seguir-te-ei daqui com as minhas preces e espe­rar-te-ei confiante na vitória futura!.

A criatura amada de Pólux ainda se conservou no templo, até ao fim do dia.

Ao crepúsculo, quando se despediam no espaço os raios dos três sóis diferentes, em deslumbra­mento de côres, Alcione reuniu-se a numeroso grupo de amigos e orou com fervor, suplicando as bênçãos do Pai misericordioso.

O         firmamento enchia-se de claridades policrômi­cas e deslumbrantes. Satélites de prodigiosa beleza começavam a surgir na imensidade, envolvendo a paisagem divina num oceano de luz.

A carinhosa benfeitora osculou a fronte dos companheiros de serviço divino e partiu...

Daí a instantes, chegava ao templo pequena caravana de entidades jubilosas. Era a reduzida expedição que operava nas esferas de Sírius. Um dos seus componentes, depois de fitar a vastidão do céu, entrou no templo e dirigiu-se a Antênio, in­terrogando:

—        Quem é o viajor que vai seguindo na direção das Faixas Negras?

—        É Alcione, que se propôs novo trabalho entre os espíritos encarnados na Terra.

—        Que dizes? — indagou tomado de espanto

       — Alcione beberá novamente o cálice amargo de tamanha renúncia?

—        São os sacrifícios do amor, meu filho! —respondeu o preposto do Cristo, evidenciando com­preensão e serenidade. — Só o amor poderia com­peli-la a permanecer ausente do nosso Amado Lar.

Então, saíram todos para o jardim resplen­dente que rodeava o santuário, e, contemplando a figura luminosa que se afastava rumo às zonas obscuras, enviaram à abnegada companheira, que partia para tão longa e perigosa viagem, seus votos de confiança e amor, em preces sinceras.

 

Anseios da mocidade

No dia 7 de junho de 1662, Paris em pêso não comentava outro assunto senão as esplêndidas fes­tas populares do Carrousel, que Luís 14 havia improvisado em frente às Tulherias. Dizia-se que o rei estava perdidamente apaixonado por Louise de La Valliêre, e a festividade não obedecera a outro motivo senão homenagear a favorita, não obstante a reserva com que ambos se entregavam ao culto das relações afetivas.

As duas noites precedentes haviam assinalado ruidosas alegrias populares e animadas reuniões elegantes nos salões mais ricos da Côrte. Grande massa de forasteiros invadia os hotéis, principalmente as famílias abastadas procedentes do Norte e das cidades vizinhas, atraidas pelo espetáculo inédito do grande feito.

Dizia-se que o soberano mostrava-se agora mais acessível e generoso. Paris estava farta de guerras externas e recordava-se, com temor, das gigantescas lutas internas pelas atividades da Fron­da. Terminara o período de influência do Cardeal Mazarini e o espírito popular banhava-se nos boatos de elevadas perspectivas e supremas esperanças. A cidade inteira aguardava, ansiosamente, largos benefícios públicos e novas instituições.

Na tarde dêsse dia, compartilhando a alegria geral, dois jovens passeavam de carro, nas imedia­ções da Porta de São Dinis, entre os enormes movi­mentos da antiga Ville, comentando as deliciosas emoções da véspera.

A viatura, muito leve, seguia harmoniosamente o trote de soberbo cavalo normando, cujas rédeas eram manejadas com mestria por Cirilo Daven­port, tendo ao lado a jovem Susana Duchesne, sua prima, graciosamente trajada ao sabor da época. O pequeno veículo tinha o interior ornado de sober­bas azáleas, colhidas pela jovem num jardim de Montmartre. O jovem par havia empreendido a excursão desde o meio-dia. Susana visitara duas famílias importantes, de suas relações, buscando rever antigas amizades. Entregara-se às mais ale­gres expansões junto do primo, que, embora cor­respondesse fraternalmente às suas manifestações afetivas, denotava agora preocupação inabitual, enquanto a jovem tagarelava, obedecendo aos cos­tumes e caprichos de futilidade de todos os tempos:

—        Não concordei com os adornos escolhidos para os salões de Madame de Choisy. A festa per­deu muito com aquêles enfeites coloridos e esvoa­çantes.

—        Não reparei bem — respondeu Cirilo, mer­gulhado noutras reflexões.

—        Fiquei cansadíssima de tanto ouvir confa­bulações atinentes à vida alheia. Sou avêssa à maledicência, mas, como sempre acontece, não po­demos ficar indiferentes aos eventos do ambiente social. Por isso mesmo, estou ansiosa de regressar à nossa paz de Blois.

E como o primo não respondesse, muito vivaz e palradora, continuou:

—        Já sabes como se processou a aventura amorosa do rei?

—        Não.

—        Luís (1) não havia destacado a humilde descendente dos Le Blanc entre as mulheres que freqüentam a Côrte, mas o fato é que começou a dispensar muitas simpatias a Henriqueta (2). Iniciaram-se os idílios carinhosos, mas a cunhada tratou de salvaguardar, quanto antes, a sua reputação de honestidade e começou a encontrar-se com o rei em companhia de Mademoiselle de La Valliêre, que era, então, do grupo de damas do seu séquito. Dêsse modo, afastava qualquer suspeita direta. Contra qualquer impressão menos digna, poder-se-ia dizer que Luís lhe freqüentava o ambiente domés­tico, não com o propósito de avistá-la, mas para encontrar-se com a pobre menina. Foi nesse jôgo que apareceu a mortificante situação que Henri­queta não poderia esperar.

Depois de breve gargalhada irônica, Susana rematava o comentário impiedoso:

Luís apaixonou-se desvairadamente e temos agora o escândalo, que constitui o prato do dia para a voracidade das más línguas. Não conheces todos êsses detalhes, porventura?

—        Ah! — exclamou o jovem Davenport reve­lando propósito de modificar os rumos da conversa­ção — o que não ignoro é que o soberano é casado com a rainhã.

—        Ora! ora! — a pobre dona do cetro é ape­nas uma vítima da política espanhola.

Observando, todavia, que o rapaz se calava, Susana timbrou outra tecla das críticas sociais para chamar-lhe a atenção, dizendo:

—        Reparaste a Henriqueta lá no baile? As suas convidadas estavam escandalosamente vestidas...

O         moço fêz um gesto de enfado e replicou:

—        Quase não me detive no exame dos trajes.

 

(1) Luis XIV.

(2) Henriqueta Anna, de Inglaterra. — Nota de Emmanuel.

 

—        Entretanto dançaste todos os números.

Renovando a apreciação acerada, prosseguiu:

—        Henriqueta coloca em dificuldade a todos nós que temos alguma ligação com as ilhas. O que posso afirmar é que seu temperamento seria outro, se tivesse alguns princípios da educação irlandesa.

—        Mas a pobre princesa muito sofreu na in­fância — atalhou Cirilo advogando-lhe a causa.

—        Essa circunstância, contudo, não deveria ser uma razão para conduzi-la a tantas leviandades. Julgo que o sofrimento deve servir para temperar o caráter de outro modo...

—        Todavia — observou o rapaz —, ela é atual­mente casada. A análise de suas atitudes deve ser tarefa privativa do marido.

—        Ora essa! E supões, acaso, que Monsieur Filipe (1) está aparelhado para impor-lhe a edu­cação espiritual de que precisa?

—        Quem sabe?

Esta resposta, dada em tom de profundo de­sinterêsse, desautorizava qualquer discussão nesse particular. Reconhecendo-o, Susana fêz longa pau­sa e absteve-se de novos comentários.

A elegante viatura voltou do seu longo trajeto, dirigiu-se para a rua Barillerie, na Ilha, onde esta­cionou por minutos à frente de uma casa comercial, e depois tomou rumo da antiga rua de São Dinis, levada ao trote do magnífico animal.

Decorrido algum tempo, a moça retomou a pa­lavra, dando conta da sua inquietação feminina:

—        Não desejarias ir conosco, mais logo, ao Teatro de Petit-Bourbon?

—        Não, não; hoje não me sinto disposto a aderir ao programa do sr. Moliêre.

A carruagem aproximara-se da velha ponte de São Miguel, sôbre um braço do Sena.

 

(1) Filipe de Orléans, irmão de Luis XIV. —Nota de Emmanuel.

 

O         crepúsculo ia um tanto adiantado, mas es­tava embalsamado de perfumes primaveris. Ventos suaves farfalhavam a copa florida de duas grandes árvores próximas. Impressionado, talvez, com a sugestiva beleza da tarde que se vestia no imenso anil do céu, o jovem Davenport fitou a companheira com expressão diferente, e falou:

—        Susana, tenho a alma de tal modo repleta de sensações ignoradas para mim, que muito dese­jaria abrir o coração a quem me compreendesse. Não quero, porém, comentar os assuntos da Côrte nem do Teatro. Necessito de palestra espiritual, que traduza o que sinto, encontrando quem me entenda. Que me interessa o desvio do rei ou a comédia que conquista a atenção dos mais fúteis?

A companheira ruborizou-se. Apertou, disfar­çadamente o seio, onde o coração batia descompas­sado. Há quanto tempo esperava aquêle minuto adorável, que lhe permitisse examinar com Cirilo a intensidade do seu afeto? De muito cedo habitua­ra-se a admirá-lo como a personagem dos seus sonhos de mulher, e não era segrêdo, em família, o projeto de uma união pelos elos conjugais. Ambos haviam nascido na Irlanda, mas sua mãe, que era francesa, obrigara o genitor a transferir-se para o país de origem, havia muitos anos. Susana, porém, nunca perdera o contato com a terra do seu berço. Não obstante as dificuldades naturais da época, visitava, periodicamente, a terra que a vira nascer.

Acabava de atingir os vinte anos, enquanto Cirilo orçava pelos vinte e cinco. Não seria, então, o momento azado para realizar o sublime ideal? É verdade que sempre aguardara, ansiosamente, do primo as primeiras declarações de amor, a fim de entreter, com mais segura esperança, os seus deli­ciosos projetos de ventura. Cirilo, todavia, jamais se manifestara a tal respeito. Ela sabia, contudo, justificar-lhe as reservas expansivas, pelas singu­laridades de temperamento que o caracterizavam. Embora jovial e sincero, enérgico e impulsivo, era muito discreto nas questões da palavra. Raramente prometia, porque, após o compromisso, materiali­zava as declarações fôsse como fôsse, pelo mal ou pelo bem.

Susana passou em revista tôdas as conjeturas e julgou-se dona de uma situação favorável. Aliás, estava certa de que o primo, após desligar-se dos serviços que o retinham na Sorbone, demandaria a Irlanda, onde a família o aguardava cheia de espe­rança, para os enormes trabalhos da propriedade rural, de que seus pais e irmãos se mantinham.

De olhos fulgurantes, a jovem respondeu entre satisfeita e comovida:

—        Acaso poderias supor que te não com­preendo? Fala, Cirilo!... Não desejarias gozar um pouco desta amenidade vespertina? Paremos o carro. Sentemo-nos ali perto da ponte, alguns minutos, vendo deslizar as águas mansas...

O         rapaz obedeceu sorridente e satisfeito. Abri­gou a carruagem num pôsto próximo e, dando o braço à companheira graciosa, dirigiu-se para os bancos de pedra que se localizavam nas extremidades da construção muito antiga. Tinha os olhos escuros mergulhados numa onda de paixão domi­nadora.

—        Susana — disse tomando-lhe a destra em atitude fraternal, como quem busca um refúgio -, nunca experimentei no coração o que sinto agora. Minha alma está cheia de sonhos e esperanças su­blimes. Ah! o amor é o generoso vinho da vida!...

A jovem fizera-se muito pálida. Deveria ser aquêle o minuto decisivo do seu destino. Certamente, Cirilo lhe revelaria os propósitos mais ínti­mos, falaria do sonho dourado de suas esperanças de moça. Casar-se-iam muito breve... Buscariam a felicidade, abandonariam a França pela Irlanda, a fim de cultivarem a ventura conjugal no âmbito de cariciosas tradições familiares. Mergulhada em formosas visões, seus olhos brilhavam de intenso júbilo, enquanto o jovem Davenport continuava:

— Edificar um ninho doméstico, ter filhos que nos acariciem e garantam a ventura, não será o ideal mais nobre da vida?

Susana Duchesne apertou-lhe a mão com mais carinho, desejou, com ânsia, enlaçar-lhe o busto no impulso de sua afeição desvairada, beijar-lhe re­petidamente a formosa cabeleira. Sentia-se eston­teada de alegria e de esperança, mas ainda não havia acordado de sua visão fantástica, quando êle perguntou, fraternalmente, depois de uma pausa mais longa:

— No entanto, dar-se-á que ela me corres­ponda com igual paixão?

Ela? A pergunta vibrou estranhamente aos ouvidos da jovem, que se esforçou por dominar as primeiras impressões de assombro. Outra mulher, então, disputava com ela o mesmo sonho de amor? Monstruoso ciúme corrompeu-lhe as emoções mais gratas. O coração fechara-se-lhe de súbito. Não suportaria semelhante afronta. Lutaria pela posse de Cirilo, até ao crime ou até à morte. Para isso, seguira-lhe os passos como sentinela fiel, desde a infância, e, aos seus olhos, o titulo de espôsa de­veria pertencer-lhe como patrimônio inconteste. Verificando, contudo, que o primo observava com estranheza a demora da resposta, cobrou alento em situação tão difícil e replicou:

Ela? Ignoro a quem te referes, querido. Ex­plica melhor para que te possa compreender.

— Madalena Vilamil — esclareceu o rapaz, arroubadamente.

Ah! agora tinha na modulação daquelas duas palavras a chave da questão que se lhe figurava aos olhos um profundo enigma. Identificara a gran­de e natural inimiga. Não lhe perdoaria nunca. Subjugada por enorme desespêro íntimo, recordava que fôra ela própria quem apresentara ao primo a jovem amiga, em vésperas das famosas festivi­dades parisienses. Notou que ambos haviam demonstrado recíproco interêsse; que, desde então, palestravam animadamente em tôdas as oportu­nidades e, contudo, jamais pudera imaginar a pos­sibilidade de uma aproximação afetiva de tamanhas conseqüências. Sômente aí percebeu o interêsse de Cirilo pela companhia de Madalena, nos bailados da véspera. Tinha a impressão de ainda a estar vendo com aquela atraente fantasia espanhola, que chamara a atenção de pessoas eminentes da Côrte. No quadro da imaginação superexcitada, não mais a considerava associada fraternal de passeios e diversões, mas adversária perigosa que urgia afas­tar do caminho... Conhecera-a numa visita que Madalena fizera, em companhia do pai, velho fi­dalgo espanhol arruinado, ao formoso e tradicional palácio da antiga Côrte francesa, em Blois. Sim­patizara com os seus dotes de inteligência e com as maneiras simples que lhe assinalavam as atitu­des; e seu genitor, Jaques Duchesne Davenport, manifestara pela jovem espontânea admiração e sincera amizade. Não sômente pelas afinidades naturais, mas também no intuito de agradar o coração paterno, dedicado e carinhoso, Susana afei­çoara-se a Madalena com singular interêsse. Ela e sua irmã Carolina, nas constantes viagens a Paris, visitavam-na freqüentemente em sua residência de Santo Honorato, e sentiam prazer na sua compa­nhia alegre e inteligente. Desde aquêle instante, porém, a moça Vilamil estava condenada à sua aversão cruel. A amizade nobre convertia-se em ódio instantâneo e perigoso. É verdade que Mada­lena não podia saber das cogitações do seu íntimo, mas Susana não conseguia deter a onda de pensa­mentos ultrizes que, num instante, lhe invadiam a mente, apossando-se impiedosamente do seu coração.

       Não toleraria tal preferência do primo, mesmo por­que lhe doía na alma como insulto feroz.

       — Recordas, acaso, daquela derradeira melo­dia aragonesa que Mademoiselle Vilamil executou ao cravo com tanta graça? — perguntou o jovem, alimentando as próprias reminiscências.

Excessivamente pálida, esforçando-se por dis­farçar a intensa emoção que a dominava, a moça fixou em Cirilo o olhar enérgico, orgulhoso e re­plicou:

—        Mas isso é infantilidade da tua parte. Francamente, sempre considerei refinado o teu senso artístico; Madalena, de maneira alguma, pode corresponder às exigências do teu nome e da tua posição.

—        Exigências do nome? — respondeu o rapaz mostrando-se agitado. Julgas, então, que me case em obediência aos outros, em desacôrdo com as minhas inclinações?

—        Não é bem isso — retrucou a moça com­preendendo a firmeza de resolução que defrontava —; não quero dizer que ela desmereça inclinações afetuosas; mas não concordo que seja a criatura indicada a tomar-te a mão de espôso.

—        Por quê? — perguntou o jovem, mal-hu­morado.

—        Desejarias, porventura, que te aprovassem o casamento com uma pobretona espanhola, nas­cida nos confins de Granada?

—        E se alguém afirmasse que somos irlande­ses dos confins de Belfast, seríamos por isso menos respeitáveis?

Susana mordeu os lábios, revelando cólera pro­funda e respondeu:

—        Cirilo, onde colocas o altar sagrado da família? Que há para te mostrares tão desinteressado em face de nossas tradições familiares? Apre­sentei-te Madalena, há poucos dias, mas não podia acreditar se engendrassem em teu espírito laços tão perigosos e detestáveis. Adotei-a como amiga ín­tima, em vista da profunda simpatia do papai, a quem nunca cessarei de agradar, em obediência ao amor e gratidão que lhe consagro. Nossas afini­dades, no entanto, não vão além disso, porqüanto não lhe reconheço qualquer destaque justo para o quadro de nossas relações. Como afirmei, trata-se de uma predileção de papai e...

Mas não terminou, porque o rapaz, emitindo um olhar mais duro, cortou-lhe a palavra nestes têrmos:

—        Não acuses, Susana. Sempre atendi a meu tio, antes que a meus próprios pais. Conheço-lhe o bom senso e não posso permitir...

Desta vez, no entanto, foi a jovem que, pon­derando a inconveniência da discussão acalorada, aproveitou-se da pausa espontânea, sentenciando contrafeita:

—        Ora, Cirilo, acalma-te. A irritação impede qualquer entendimento mútuo.

Fixou-o com disfarçada angústia. Agora que sentia tão profundamente ameaçados os seus sonhos de felicidade, achava-o mais belo que nunca. Em outras ocasiões, conservava a esperança, mas não experimentava tantos zelos. Não era Cirilo o seu ideal? Que poderosa atração a retinha encarcerada no seu sonho de ventura, sem energias para renun­ciar a favor da outra que lhe ocupava o coração sincero? Sentiu que forte emoção lhe afetava as fibras mais íntimas e com dificuldade afogava o pranto no peito opresso, receando chorar diante do primo engolfado em graves pensamentos.

—        Cirilo — disse com entono mais delicado na voz —, não te agastes comigo. Quero auxiliar-te fraternalmente.

O         rapaz comoveu-se com a mudança súbita e respondeu:

—        Sim, conto com a tua boa vontade de sem­pre. Ajuda-me a refletir. Necessito orientar e fortalecer meu espírito.

       — Não posso dizer que esteja absolutamente certa nas minhas apreciações — exclamou funda­mente modificada em sua primeira atitude —, mas precisarás refletir com mais calma, O pai de Ma­dalena é um nobre espanhol arruinado, que se incompatibilizou com os elementos mais influentes da Côrte de França. Aqui está, em Paris, há muito tempo, em sérias dificuldades financeiras, não obs­tante ter vindo no séquito da rainha.

—        Já conheço D. Inácio Ortegas Vilamil —esclareceu o rapaz, solicito —; estivemos juntos no Carrousel anteontem, à noite. Não duvido que se trate de um homem pobre, mas é bastante simpá­tico e portador de temperamento expansivo, que me agradou muitíssimo.

—        Mas é um fidalgo sem fortuna, cuja situa­ção é francamente condenável, pois perdeu-a nas dissipações da vaidade e do jôgo, segundo consta em nossas rodas mais íntimas.

—        Quanto a isso, precisamos ampliar nossa compreensão da vida — obtemperou o rapaz con­victamente. — Meu pai, como não ignoras, não fêz excessos nem arriscou dinheiro em aventuras; en­tretanto, conta hoje com reduzidíssimos recursos, devido a perseguições religiosas desencadeadas na Irlanda.

Susana compreendeu que tôda argumentação naquele momento lhe desfavorecia as pretensões e propósitos mais ardentes.

—        D. Inácio — acrescentou com velada ironia — não poderia nem mesmo cogitar da concessão de um dote à filha...

—        Nunca me casarei visando a um dote, Su­sana!...

A moça escondia a muito custo o seu rancor, mas ponderou ainda:

—        Pois trata-se de questão muito importante, e talvez venha a ser por isso mesmo que Madalena recuse aceder aos teus caprichos juvenis...

—        Como assim? — interrogou, impressionado pela maneira como foram pronunciadas tais palavras.

—        Talvez ignores — disse ela resoluta, como quem guarda os trunfos do jôgo para o fim — que a tua eleita está prometida, por decisão dos pais, ao seu primo Antero de Oviedo Vilamil, que cresceu a seu lado, como irmão.

Desta vez foi Cirilo a esboçar atitude de entra­nhado assombro. Sem poder dominar-se, profundo rancor se apossou dêle. O ciúme que devastava a jovem Duchesne apuava-ihe agora o coração.

—        Será crível? — perguntou lívido.

—        Sim — disse a moça, gozando com a sua amargura íntima —, D. Inácio, dizem, há quase dois anos vive à custa do rapaz, que não se entregou a tal sacrifício sem um propósito deliberado. É sabido que a prima constitui o seu sonho de amor, não obstante Madalena pareça insensível a êsse afeto, O fato incontestável, todavia, é que a fa­mília Vilamil está totalmente empenhada nesse dé­bito de graves proporções.

       Cirilo Davenport submergiu-se num mar de re­flexões profundas. Não cederia a qualquer obstáculo. Madalena lhe tocara o coração como nenhuma outra mulher. Guardava nos ouvidos o som das suas últimas palavras. Aspirava ainda o perfume da sua mão muito leve, entre as harmoniosas vibra­ções do último bailado. Ouvia, enlevado, as músicas aragonesas que ela havia dedilhado no cravo, ainda na véspera. Seus sentimentos mergulhavam na mesma ansiedade experimentada ao ouvi-la falar da Espanha distante. Os temas castelhanos jamais o haviam preocupado a qualquer tempo e, no entan­to, aquela afeição imensa despertava-lhe interêsses novos, abrasava-lhe a alma, qual vulcão ardente. Estava convicto de que Madalena fôra igualmente sensível ao seu amor. Apertara-lhe a mão, apaixo­nadamente, nos bailados. Seus olhos fulgiam de sublime afeto. Onde estava êle, que não houvesse de lutar com o rival até nos confins da Terra? Era indispensável afastar Antero de Oviedo a qualquer preço. Sua presença tornava-se indesejável no caminho.­ De olhos fixos no espaço, desvairado pela emoção que o dominava, o jovem Davenport parecia não mais ver a prima ao lado, nem mesmo a beleza silenciosa do crepúsculo, que se despedia com o fulgir das primeiras estrêlas.

— Não desistirei! — bradou em voz alta, como se dialogasse com uma sombra importuna.

Ouvindo-lhe a exclamação estranha e inespe­rada, Susana experimentou intenso choque. Aquela sentença, em voz estridente, assustou-a. Tomou-se de justificado receio e exclamou:

— Vamos, Cirilo. É noite quase fechada e esperam-me para o espetáculo.

O moço Davenport, seguido da jovem que lhe acompanhava o profundo silêncio, procurou o veí­culo, tomou as rédeas quase maquinalmente e deu o sinal de partir. Susana atirou ao solo algumas azáleas murchas, em atitude de enfado e, enquanto ambos se engolfavam em penoso mutismo, a viatura rodou cêleremente na direção de uma casa residen­cial de nobre aspecto, em frente da ponte do Câm­bio, onde a prima se hospedava.

Em vão, a jovem Duchesne insistiu para que Cirilo fôsse ao teatro; debalde rogou que a acompanhasse até ao interior doméstico. Ele recusou todos os convites afetuosos e, imprimindo ao carro nova direção, seguiu a galope para o seu hotel em São Germano.

De quando em quando o chicote estalava no dorso do belo animal que, então, parecia sofrer a mesma inquietação do dono.

Depois de recolher o veículo a enorme galpão destinado às carruagens da época e conduzir o cavalo à estrebaria próxima, Cirilo Davenport, sufo­cado por angustiosos pensamentos, saiu à rua, an­sioso por banhar a fronte atormentada nos cari­nhosos ventos da noite. Atravessou ruas e praças engolfado em vastas meditações, alheio ao grande movimento de pedestres e viaturas ao longo dos caminhos. Não se deteve senão no mundo íntimo, inquieto por conchavar e resolver os problemas tor­turantes.

Chegara à conclusão de que a existência se lhe transformaria em breve tempo. Não podia supor­tar, sem graves danos, a continuidade das estroini­ces da juventude, e o conhecimento de Mademoiselle Vilamil induzia-o a pensar sêriamente no matri­mônio. No entanto, como encontrar a equação justa? Depois de certo período de estudos em Paris, prosseguia em serviço na Sorbone, onde a sua re­muneração era regular, sem contudo permitir quais­quer perspectivas de futuro financeiro. Seu pai, Samuel Davenport, chamara-o mais de uma vez, aguardando-lhe a presença na Irlanda do norte, onde possuía valiosa propriedade rural, apesar dos golpes sofridos. Como resolver a situação? Deveria casar e partir para as ilhas, ou visitar antes o lar paterno, para consorciar-se depois? Na primeira hipótese, sua atitude poderia ocasionar sérios atri­tos com a família; na segunda, o intruso Antero poderia sair vencedor e anular-lhe os planos de felicidade. Recordou a simpática figura do tio, que sempre lhe entendera e amparara o coração, nos momentos difíceis, e considerou a possibilidade de ir a Blois, a fim de ouvi-lo. Concluiu consigo mesmo que, tendo combinado com Madalena um encontro junto à igreja de Nossa Senhora, na noite seguinte, faria a viagem logo após o novo entendimento com a jovem, que lhe enchera o coração de sonhos mi­ríficos.

Após atravessar imenso labirinto de reflexões, voltou ao hotel, muito depois da meia noite, reco­lhendo-se ao quarto extremamente nervoso, só con­seguindo dormir alta madrugada.

No dia seguinte, atirou-se ao trabalho comum, de alma inquieta, pensamento voltado para a noite, quando teria o júbilo de rever a bem-amada e reno­var as doces emoções do espírito.

Muito antes da hora marcada, Cirilo posta­va-se à frente da majestosa catedral, andando de um lado para outro. A fim de evitar a curiosidade de transeuntes audaciosos, penetrou no santuário, em cujo interior magnífico permaneceu por ins­tantes. Seus olhos eram indiferentes aos tesouros artísticos que o cercavam. Os capitéis preciosos, os arabescos dourados, os baixo-relevos, as estátuas maravilhosas, diluíam-se numa atmosfera de sonho. Os sacerdotes e os nichos, as flores e os objetos do culto não lhe falavam ao coração. Quando surgíam no alto os primeiros astros da noite, Davenport regressou ao adro, passeando nervosamente ao lado dos belos degraus que davam acesso ao interior do templo, e que o progresso de Paris fêz desapareces­sem com a elevação do solo.

Entre aflições singulares, observou, atento, uma carrruagem que parou nas proximidades, dela saltando três galantes criaturas em demanda ao santuário.

Madalena Vilamil, com efeito, junto de Colete e Cecilia, duas amigas da juventude, chegara com o pretexto de participar dos ofícios religiosos da noite, mas, em breves minutos, favorecida pela co­nivência das companheiras, insulou-se da romaria devocional, em companhia do jovem Davenport, an­siosos ambos pela permuta de impressões afetivas.

Enquanto a viatura permanecia à espera, e ciente de que as amigas se entregavam às práticas religiosas, Mademoiselle Vilamil tomava prazerosa o braço que o rapaz lhe oferecia, afastando-se al­guns passos ao longo da praça extensa que se rodeava, então, de casas velhas.

Cirilo sentia-se o mais ditoso dos homens. Por surpreendente e misterioso mecanismo que seu espí­rito não conseguia compreender, resumia, agora, na jovem todos os sonhos centrais da existência. Falou-lhe, com desembaraço, dos seus ideais mais íntimos, revelando-lhe profundas impressões de sua alma ardente. Ele próprio estava surpreendido com o manancial de espontânea confiança que lhe bro­tava do espírito pouco afeito a grandes expansões.

Madalena Vilamil, em identidade de circuns­tâncias, tocava-se de sublimes emoções. Não era temperamento que confiasse sentimentos íntimos, ao primeiro sinal de afeição. Sua mãe, descendente de nobres famílias no sul da França, e seu pai, antigo fidalgo espanhol, haviam educado a filha única habituando-a a rigoroso critério no capítulo da vida social. Pela primeira vez a jovem atendia a um apêlo afetivo, em lugar público, consagrado, no seu modo de entender, às exteriorizações das criaturas vulgares e sem títulos de maior nobreza moral. O convite de Cirilo fôra um tanto chocante para a sua vaidade feminina; entretanto, obedecen­do a indefiníveis anseios do coração, acedera em palestrar com o jovem num recanto da via pública, desejando um entendimento recíproco, longe da multidão maliciosa. Além disso, sentia-se receosa de recebê-lo na própria casa, dado o rigorismo da genitora, há muito enferma, e às ruidosas expansões do pai, desligado de qualquer encargo nas esferas políticas e por isso mesmo sempre pródigo de afirmativas chocantes para os costumes franceses.

Mademoiselle Vilamil julgou imprescindível ex­plicar ao jovem Davenport suas dificuldades domés­ticas, antes que o rapaz pudesse agasalhar conje­turas menos dignas a respeito dos pais, a quem amava de todo o coração. Sômente por isso, e in­capaz de resistir ao suave magnetismo que sôbre ela exercia o moço irlandês, encontrava-se ali sob o céu estrelado às primeiras horas da noite, tro­cando confidências.

Cirilo começou por comentar a beleza das me­lodias que ela arrancara do cravo, tôdo sentimento e vibração, e Madalena relatava ao jovem, muito admirado, os encantadores costumes da sua terra natal, assinalando as palavras com as interessantes características de quem se não achava absoluta­mente senhora da língua francesa.

Tudo, porém, que constituía alguma coisa de sua personalidade, era graça e leveza aos olhos e aos ouvidos do moço Davenport, que se sentia trans­portado a um plano de felicidade divina, em sua companhia.

A certa altura do amoroso colóquio, Cirilo ex­clamou, algo perturbado por trazer à tona a súmula de suas cogitações mais intimas:

—        Madalena, ocioso é dizer-te da minha infi­nita afeição. Saberás entender o sentido de minhas palavras. Nunca me conformei com as atitudes superficiais, nem posso aprovar os desvarios da juventude contemporânea. Digo-o, a fim de que não vejas laivos de leviandade nas minhas palavras. Amo-te muito e êstes poucos dias de convi­vência bastam para que reconheça tua suserania no meu coração, onde ocupas lugar insubstituível. Mas, poderei contar com o teu amor para sempre?

A essa pergunta direta, a jovem respondeu ex­tremamente confundida:

—        Sim!...

—        Sempre idealizei uma criatura que me com­preendesse inteiramente e, agora que nos encontramos, tenho a esperança de poder edificar um castelo de suprema ventura. Desde a noite em que nos vimos pela primeira vez, sonho contigo e ante­vejo as alegrias de um lar povoado de flores e de filhinhos.

Ela, tôda ruborizada, elevava-se nas asas do amor, de emoção em emoção, aos páramos do sonho. Aquelas palavras representavam a deliciosa música que os seus ouvidos esperavam de há muito. O moço Davenport era o cavalheiro do seu ideal. Sua voz cariciosa e dominadora penetrava-lhe o íntimo, como perfumado sôpro de vida. Queria falar expri­mindo seus sentimentos mais nobres; a emoção, contudo, embargava-lhe a voz, enquanto o coração desejava prolongar ao infinito aquêle instante di­vino. Compreendendo-lhe o silêncio, o rapaz re­cordou as advertências de Susana, fêz um gesto significativo e acentuou:

—        No entanto, Madalena, tenho o coração repleto de presságios tristes!... Dizem que o sofrimento é comum aos que se amam; trago o espírito ansioso por esclarecimentos mais amplos.

—        Como? — indagou a jovem no impulso ins­tintivo de anular qualquer dúvida.

Revelando funda preocupação, êle acrescentou como que medindo a responsabilidade de cada pa­lavra:

—        Ninguém disputa comigo o tesouro do teu coração?

—        Que dizes? — retrucou a moça com grande surpresa.

—        Sinto que tua alma se dirige ao meu cora­ção como fonte cristalina de verdade — acrescentou Davenport acentuando as palavras —, acredito na tua sinceridade e nem seria lícito duvidar dos teus sentimentos; mas, quem sabe, Madalena, teus pais te destinam a outrem que te mereça pela fortuna que não possuo, ou por títulos que também me faltam?

A essa altura, sua voz tornou-se enternecida e comovedora, qual a de uma criança disposta a resignar-se com os obstáculos, não obstante seu vio­lento desejo.

A jovem, por sua vez, como se despertasse de um sonho, começou a chorar convulsivamente. A imagem do primo torturava-lhe agora o pensamen­to, como se recordasse um verdugo cruel. Lembrava as lutas domésticas, os enormes débitos do genitor para com Antero de Oviedo, as combinações de ambos para o futuro matrimônio, com sacrifício dos seus ideais, e não conseguia dissimular a imensa dor que lhe avassalava o coração sensível, ante a possibilidade de perder Cirilo, compelida pelas hu­manas convenções a renunciar à sua união com o jovem em cujo espírito adivinhava a fonte de tõdas as sublimes compreensões de que sua alma neces­sitava para ser feliz.

Entregava-se assim a copioso pranto, enquanto o moço irlandês, comovidíssimo, tomava-lhe a ce­tínea mão, cobrindo-a de beijos.

— Não chores, Madalena! O amor confia sem­pre e acreditas, acaso, que sou de todo inútil?

Recordando as palavras impiedosas de Susana, que aquelas lágrimas confirmavam, assumiu atitu­des decisivas e acrescentou:

— Ninguém poderá impor-te um casamento contra os teus desígnios. Se me amas, saberei de­fender-te até os confins do mundo. Não pertencerás a qualquer miserável truão, apenas por circunstân­cias mesquinhas de mil francos a mais, ou a menos. O dinheiro jamais entrará em nossos planos de felicidade!...

       A filha de D. Inácio enxugou as lágrimas depois de ouvir-lhe as ponderações consoladoras e afetuosas, e atendendo-lhe aos apelos relatou mi­nuciosamente as dificuldades da família desde os tempos de Granada, assinalados por grandes lutas. Nascera nessa famosa cidade espanhola, onde o pai desempenhava cargos políticos de certa rele­vância. Tivera uma infância risonha, mas, desde a fase dos primeiros estudos, vivera quase que absolutamente reclusa num convento de Ávila, onde o genitor procurava enriquecer-lhe os dotes in­telectuais. Nos poucos dias do ano, quando feriava no ambiente doméstico, seguia de perto os sofri­mentos da genitora, que recrudesciam de tem­pos a tempos, em vista das extravagâncias pater­nas. Quando abandonou definitivamente o educan­dário religioso, seus pais já se encontravam em Madrid, para onde se mudaram com enorme difi­culdade. No vórtice de acerbos tormentos morais, sua mãe encontrara arrimo único em Antero — so­brinho do marido, criado com tôda a dedicação e ternura maternais. Seus pais haviam adotado o rapaz, de pequeno, como próprio filho. Antero era um homem de psicologia difícil, em virtude dos sentimentos condenáveis que sabia dissimular com habilidade, mas que, em sua ausência nos estudos e nos desvios constantes de seu pai, apresentava dotes apreciáveis aos olhos de sua mãe, de quem se fizera sustentáculo e consolação. Permaneciam em Madrid, completamente arruinados, quando o ca­samento da filha de Filipe 4º com Luís 14 deu ensejo a que o genitor e o primo se colocassem ôtimamente, em funções de natureza política. Des­de 1660, estavam em Paris cheios de esperança numa vida nova. D. Inácio, no entanto, não conse­guira permanecer no cargo senão por alguns meses, porque se incompatibilizara com a Côrte, em vista da sua crítica franca aos atos de Sua Majestade. Leal amigo da infanta espanhola, não conseguia suportar calado as humilhações penosas infligidas à rainha, que se socorria da religião, com santifi­cada paciência, de modo a tolerar e esquecer os desvarios amorosos do real espôso. Ciente dos seus firmes protestos, o soberano demitira-o do cargo e Antero de Oviedo só foi conservado em suas obri­gações remuneradas por influência dos amigos de Maria Teresa, que lhe mantiveram os proventos com alguma dificuldade. Havia quase dois anos, a família vivia a expensas do rapaz, não obstante a tristeza que semelhante situação lhe causava.

Seu pai, continuava Madalena de olhos molha­dos, era um generoso coração, mas alimentava in­veterada paixão pelo jôgo. Tal obsessão acarretara o desbarate de todos os bens que possuíam e, após lamentáveis aventuras, nada lhes ficara do passado feliz. A genitora resistira herôicamente aos reve­ses da vida, mas sofria agora do coração, passando os dias na expectativa angustiosa da existência que se extingue, e da morte que se aproxima.

Mademoiselle Vilamil fêz longa pausa a fim de enxugar as lágrimas abundantes, enquanto Cirilo acariciava-lhe a mão, comovidamente.

Em seguida, evidenciando grande embaraço por ver-se constrangida a versar tão delicado assunto, começou a falar com mais enleio dos propósitos paternos de casá-la com o primo e contou que êste, por vêzes, já lhe havia falado de amor, ao que se esquivava ela, sempre com enorme repugnân­cia. Alimentava o desejo ardente de lançar-lhe em rosto a negativa formal, com o desprêzo que essa união lhe inspirava, mas, continha-se a custo, con­siderando o reconhecimento da mãe enfêrma e a situação do pai, que devia ao pretendente alguns milhares de francos.

Nesse ínterim, o jovem Davenport, mal disfar­çando o ciúme que o devorava, interpelou-a excla­mando:

—        Mas teu pai, a quem consagras tão grande veneração, teria coragem de vender a felicidade da filha por um punhado de miseráveis escudos?

—        Não creio — disse a moça convictamente, demonstrando a sinceridade de sua confiança filial nos grandes olhos, onde esplendia a candura das suas dezenove primaveras —; meu pai, apesar das estroinices, tem sido o meu maior e melhor amigo.

Cirilo guardou-lhe a destra entre as mãos, com infinito carinho, ansioso por confortá-la. Depois de alguns instantes em que o silêncio de ambos era mais eloqüente que as expressões verbais, a jovem Vilamil, como se fôsse arrebatada a longínqua im­pressão do passado, perguntou inesperadamente:

—        Cirilo, acreditas nos adivinhos?

—        Ora essa! por que perguntas? — exclamou intrigado.

       — É que, ainda em Granada — disse Mada­lena com muita simplicidade —, numa de minhas rápidas visitas ao lar, estava à porta do Alhambra com algumas colegas de estudo, quando fomos atraídas por um ancião que lia o destino dos tran­seuntes interessados em sua estranha ciência. Atendendo à brincadeira geral, aproximei-me e dei-lhe a mão. Ele pareceu meditar um momento e falou: — “A menina é bem nascida, mas não ébem fadada.” E depois de fixar-me nos olhos com expressão inesquecível, não mais sorriu e continuou aconselhando-me: — “Prepara-te, minha filha, e une-te à fé em Deus, porque teu cálice, no mundo, transbordará de amargura. Não vivemos apenas esta vida. Temos existências várias e a tua existência atual é promissora de tempos afanosos, para a redenção.” Suas palavras me impressionaram a ponto de me fazerem chorar copiosamente. Senti enorme abalo e foi preciso que as amigas me re­conduzissem à casa, onde fui compellda a aca­mar-me.

—        E onde estava D. Inácio que não repeliu o estúpido? — indagou o jovem Davenport bruscamente, cortando-lhe a palavra.

—        Meu pai ficou furioso, e, depois de repreen­der-me severamente, tomou as providências devi­das, mandando que o feiticeiro fôsse levada ao Tribunal da Inquisição, que lhe aplicou disciplinas por uma semana e o deteve encarcerado mais de três meses. Mais tarde, o Geral dos Jesuítas cien­tificou ao papai que se tratava de um peregrino demente, de origem egípcia, que penetrara no reino através do Marrocos.

—        E admitiste suas afirmativas? — interro­gou Cirilo, evidenciando ansiedade por apagar qual­quer resquício de impressão dolorosa no espírito da jovem.

—        Apesar de muito impressionada — escla­receu Mademoiselle Vilamil — não acreditei nos sombrios vaticínios, mas, não posso deixar de reco­nhecer que, até hoje, Cirilo, minha vida tem sido tormentoso mar de preocupações infinitas. Tenho a impressão de que atingirei os vinte anos com um pêso sufocante de velhice prematura.

Depois de ligeira pausa, acrescentava:

            — Não desejo fraquejar, deixar-me vencer pelos presságios de um peregrino desconhecido. Sinto-me forte na fé em Deus e estou convicta de que o poder celestial me auxiliará nas lutas huma­nas; entretanto, um detalhe houve, na conversação do velhinho, que nunca poderei esquecer; é o que se refere a outras vidas, O destino está cheio de cir­cunstâncias misteriosas. Nossa vida não terá come­çado no instante de nascermos no mundo. Devemos ter existido em outra parte. Creio que temos amado e odiado, e o esfôrço em que nos achamos se destina ao trabalho de redenção das nossas culpas. Não me detenho em tais idéias tão só por haver ouvido as advertências do adivinho errante, mas tenho tido sonhos significativos...

O         companheiro, que lhe seguia as palavras com indisfarçável mal-estar, apertou-lhe a mão e sen­tenciou:

—        Que é isso, Madalena? Desvairas? Não te quero ver entregue a filosofias abstrusas. Se encon­trasse êsse feiticeiro infame, reforçaria as penas que lhe foram impostas pelos inquisidores.

Ansioso por libertá-la dos pensamentos amar­gurosos, Continuava:

—        Casar-nos-emos e encontraremos a ventura sem fim. Ficaremos em Paris ou onde quiseres. Lutarei por ti, tenho braços laboriosos e enérgicos. Futuramente, rir-nos-emos dêsses temores infãntis, provocados por um mendigo irresponsável. Os egíp­cios, como os orientais, foram sempre grandes imbecis. Caso seja do teu agrado, fixaremos resi­dência na Irlanda, junto dos meus. Levar-te-ei, mais tarde, a Londres; excursionaremos até à Es­cócia e hás de ver que, em tôda parte, o amor sincero será a chave de nossa ventura imortal. As almas que se adoram movimentam-se nos caminhos resplandecentes de luz.

A jovem, que o ouvia dominada pela emoção, pareceu olvidar as idéias transcendentes e profun­das, e respondeu enlevada:

—        Sim, seremos felizes para sempre. Seguir-te-ei para onde fôres. Anseio por conhecer terras novas, onde possamos sentir a felicidade unida a nós!...

—        Terras novas? — perguntou Cirilo reve­lando-se iluminado por idéia súbita — não será bom experimentarmos os largos horizontes da Amé­rica?

— Ah! isso tem sido um longo sonho meu —disse a jovem de olhos coruscantes. — Tenho sêde inexplicável do mundo novo que nos acena a dis­tância. Nossas grandes cidades, corrompidas, cons­ternam e sufocam! Granada, Ávila, Madrid e Paris não diferem o bastante umas das outras. Em tôdas vejo os homens como loucos, disputando realiza­ções que lhes agravam os padecimentos espirituais. Tenho sonhado sempre com as enormes florestas escuras, com os rios caudalosos, com as campinas verdes e sem fim..

— Edificaremos por lá o nosso ninho de amor —        rematava o rapaz apaixonadamente.

E falaram longamente da América, como duas crianças ansiosas, permutando compromissos sa­grados.

Ao têrmo da palestra, o moço Davenport. ciente de tôdas as preocupações intimas da sua amada, prometeu visitar-lhe os pais na noite seguinte, na casa de Santo Honorato. de maneira a criar o ambiente propício ao culto de suas esperanças em flor.

Depois que Colete e Cecilia procuraram a com­panheira para a volta, Cirilo fixou o olhar no vulto da carruagem até que se confundisse de todo com as sombras espêssas. Largo tempo levou ainda a me­ditar, sentado junto aos nichos externos, escassa­mente iluminados no bôjo silente da noite.

No dia imediato, ao entardecer, tomou o seu carro ligeiro, dirigindo-se à residência dos Vilamil e fazendo o possível por apagar os receios que lhe tumultuavam na alma inquieta. Como se compor­taria na hipótese de lá encontrar Antero de Oviedo? Teria fôrça bastante para tratá-lo fraternalmente? Como o compreenderiam, por sua vez, os pais de Madalena? Engolfado em vastas cismas íntimas, parou à porta da casa indicada. Tratava-se de antigo edifício, dos que comumente eram alugados a famílias de tratamento, mas de reduzidos recur­sos financeiros. Extenso gradil, no centro um grande portão pintado de azul, cercava gracioso jardim onde as flores disputavam o beijo da primavera; ao fundo, a residência de aspecto antiquado, com as características exteriores da época de Luis XIII.

Cirilo bateu discretamente, sendo atendido com presteza por um lacaio que lhe deu acesso ao inte­rior, onde era aguardado com certa curiosidade.

D.        Inácio trajava corretamente, como se fôra convocado a assistir a uma cerimônia solene, en­quanto a espôsa, muito pálida, acomodava-se em espaçosa poltrona de repouso, dando a impressão de que ali se conservava não por impulso espon­tâneo, mas por inevitável obrigação da vida em família. Ambos estavam envelhecidos e alquebra­dos prematuramente; êle, talvez por extravagâncias de tôda sorte; ela, por certo devido aos constantes desgostos. Junto aos dois, na sala que se caracte­rizava por linhas monótonas, Madalena com a sua radiosa juventude parecia um raio de claridade afu­gentando as impressões tristes.

D.        Inácio acolheu o rapaz com ruidosas ma­nifestações de simpatia.

—        Não terá, nesta casa, as designações devi­das aos moços de tratamento, em Paris — disse satisfeito —; chamá-lo-emos Dom Cirilo, em home­nagem à nossa Espanha distante.

—        Dêsse modo ficará mais íntimo — acres­centava D. Margarida Fourcroy de Saint-Megrin e Vilamil com um sorriso. — Desejamos que êste lar seja também seu.

Enquanto os jovens se alegravam, experimen­tando a certeza da condescendência dos velhos ge­nerosos, D. Inácio acrescentava:

—        E pode estar certo, D. Cirilo, de que sua estréia deve ser muito brilhante, porque minha espôsa não acolhe a qualquer, na primeira visita.

Riso geral coroou essas afirmativas, ao mesmo tempo que a palestra descambava para as recordações das pátrias distantes. O jovem Davenport falou de suas lembranças da Irlanda e, depois de bordar inúmeros comentários em tôrno das relações entre espanhóis e irlandeses, D. Inácio acentuou:

Nossas afinidades religiosas com a Irlanda sempre foram estimáveis e confortadoras. Aliás, fui eu quem teve a honra de acender a primeira vela enviada pelos devotos do santo arcebispo de Armagh, em Dublim, na fogueira em que foram castigados, em Granada, alguns hereges do Longford, num de nossos maiores autos-de-fé.

Cirilo franziu o cenho como quem se desa­gradava do assunto, e acrescentou:

—        A psicologia da gente irlandesa é muito difícil e complicada.

—        Tal como a nossa, na Península — atalhou o velho fidalgo —; é impossível esqueçamos nossas tradições para acompanhar o surto de loucuras e novidades que terminará projetando os povos no abismo. Não podemos confundir liberdade com licenciosidade e seria falta grave aplaudir essa onda de tolerância criminosa que varre atualmente o mundo. Temos de ser exóticos em qualquer parte da Terra. Será licito estabelecer a desordem e dizer que se progride? Então, a Espanha toleraria o chamado Edito de Nantes? Nunca! Julgo que a fogueira deve cercar os herejes e os apóstatas onde quer que estejam. Pelo menos, isso constitui ele­vada instrução de nossos santos padres. Se o traidor da pátria deve ser condenado, muito mais criminoso é o traidor da fé.

O         rapaz esboçou um gesto de leve desacôrdo, obtemperando delicadamente:

—        De acôrdo, no que se refere à política. A administração desordenada é sintoma de desagre­gação e ruína. O mesmo, porém, não ocorre quanto a crenças. Considero que, em matéria de manifes­tações religiosas, outras seriam as circunstâncias se todos entendêssemos o valor do perdão.

—        O senhor é muito moço — replicou D. Iná­cio, sereno —, só mais tarde poderá compreender que o perdão dissolve a família.

O         jovem fêz menção de espanto e respondeu instintivamente:

—        Mas Jesus perdoou sempre, D. Inácio.

O         velho fidalgo, entretanto, como quem se habituara a interpretar os textos evangélicos, prodomo sua, esclareceu sem qualquer preocupação de espírito:

—        Esse problema foi estudado por mim, junto ao Inquisidor-Mor de Granada. Depois de algum tempo chegamos à conclusão de que se o Cristo suportou os algozes, mandou também que o homem orasse e vigiasse, incessantemente. E o senhor já observou alguém vigiando sem armas? Em que lugar do mundo a sentinela pode abraçar o ini­migo?

Cirilo não estava acostumado a discussões re­ligiosas e, ouvindo tal argumento, silenciou com profunda estranheza, ao passo que o interlocutor. observando a desaprovação que lhe transparecia dos olhos, tratou de mudar de assunto acrescen­tando:

—        Não poderíamos nunca aplaudir uma Côrte desordenada e indiferente, como a de França.

Neste ponto da conversação D Margarida, considerando que as expansões do marido poderiam melindrar o rapaz, advertiu calmamente:

—        Ora, Inácio, não generalizes. Suponho que, na tua idade, qualquer pessoa deve examinar acon­tecimentos e fatos sem a paixão que sói envenenar as melhores fontes do caminho. Por que acusar a Côrte, quando a culpa não pode cair indistinta­mente? Todos os governos são ótimos, quando Somos Jovens.

O         velho fidalgo empertigou-se, cofiou os bi­godes, fitou a espôsa sobranceiramente, e sentenciou:

—        A senhora acha, então, que falo por ouvir dizer? Há três anos, com a mesma velhice de hoje, assisti à assinatura do nosso tratado com a França, na Ilha dos Faisões, acompanhando D. Luis de Haro e não sentia qualquer desalento. Aos meus olhos, as águas do Bidassoa estavam belas como nunca. Mas não posso repetir semelhantes emoções nesta terra de polifrontes.

—        Consideras, então, que os franceses devem pagar pelo teu abatimento de agora? — perguntou a nobre senhora serenamente. — Há tanta gente sem juízo em Paris, como em qualquer grande cidade espanhola. Além do mais, cada região tem seus costumes próprios e, naturalmente, um francês não se sentiria tão bem se fôsse compelido a viver sob o ritmo das tradições espanholas.

—        Ah! sim — replicou D. Inácio sem conse­guir disfarçar a irritação —, para os franceses todos os descalabros podem ficar bem; mas eu sou um homem antigo e é preciso não esquecer que minha família descende de parentes colaterais da rainha católica.

E depois de um gesto significativo, rematava orgulhoso:

—        Minha filha e eu não fomos nascidos nas margens do Garona, tampouco ao pé das águas sujas do Sena.

Nesse instante, contudo, antes que Cirilo pu­desse interferir com alguma observação afetuosa e conciliadora, ouviu-se o ruído de um carro que pa­recia trazido por cavalos resfolegantes.

D.        Margarida, como se já estivesse alheada do pequeno atrito doméstico, fêz um sinal à filha, revelando maternal preocupação, e falou:

—        Madalena, previne lá dentro. Antero deve estar regressando de Versalhes.

Enquanto a jovem se dirigia para a sala da copa, o moço Davenport prestou atenção, a fim de observar o recém-vindo, cujas passadas fortes se faziam ouvir quase junto à porta da entrada.

Ia, finalmente, conhecer o rival. A presença do sobrinho de D. Inácio, em plena sala, não lhe deu oportunidade a mais vastas considerações In­timas.

Antero exibia dotes singulares de beleza física, nos seus trinta anos bem formados. Alto, elegante, cabelos negros e ondulados, tez levemente amore­nada, peninsular, olhos argutos e indefiníveis, dei­xava transparecer nas maneiras polidas um quê de intencional. Dir-se-ia que suas atitudes delica­das não eram sinceras, mas oriundas do profundo artificialismo de quem não se deixa conhecer tal qual é. Apresentado ao rapaz irlandês, cumpri­mentou-o cordialmente, embora seus olhos pareces­sem interrogar a razão de sua presença ali, e, de­pois de se encaminhar para o interior, enquanto a palestra prosseguia suavemente, regressou à sala, onde prestou singular atenção aos olhares signifi­cativos trocados entre a prima e o visitante ines­perado, compreendendo que o seu campo afetivo fôra invadido por influências estranhas. Embora não manifestasse o mal-estar que, aos poucos, se lhe apossava do espírito, de quando em vez dirigia o olhar indagador para a tia e mãe adotiva, como a interrogar sôbre as pretensões desconhecidas do intruso.

A uma pergunta direta do velho fidalgo, quan­to à marcha dos trabalhos que lhe competiam, res­pondeu cortesmente:

—        Tôdas as obrigações obedecem ao ritmo normal e o senhor pode crer que, em breves dias, Versalhes reunirá tôda a Côrte e será o centro da vida política da nação francesa.

—        E o rei? — perguntou D. Inácio expri­mindo certa inquietação nos olhos — expediu a ordem de pagamento da minha disponibilidade?

       — Por enquanto, não — esclareceu o inter­pelado. — Ainda hoje, porém, pude avistar-me com Sua Majestade quando procurei o Sr. Colbert, trazendo-lhe hoje a boa notícia de que o soberano pede o seu comparecimento em palácio.

—        Para quê? rosnou o nobre espanhol quase colérico — amanhã, farás o favor de dizer ao rei dos franceses que, se me chama para me despojar de algum bem, os seus ministros já me usurparam as dignidades; se pretende conferir-me honras, agradeço-as; e se me oferece algum favor, não necessito de suas esmolas.

Após uma pausa que ninguém ousava inter­romper, rematava com esta afirmativa:

—        E, se Sua Majestade manda buscar-me vi­sando a fins mais ásperos, podes afirmar-lhe que não será necessária minha presença em palácio, para que me mande ao pelourinho. Bastará uma ordem...

Madalena, muito acanhada, observava Cirilo, que acompanhava o diálogo do tio e do sobrinho com alguma estranheza.

Esperava-se que D. Margarida viesse à dis­cussão com interferência conciliatória, mas foi Antero que desfez o silêncio, ponderando com calma:

—        No entanto, meu tio, é possível que as coisas sejam conciliadas em seu favor. Como sabemos, o Sr. Fouquet já não permanece à testa dos negócios públicos.

—        E achas porventura que o soberano é me­lhor do que o ex-ministro? Um remendado não poderá condenar um andrajoso. Fouquet não se retirou do cargo pela sua prodigalidade nas despesas. A causa de tudo, no capítulo da sua demis­são, foi o escândalo dos ciúmes por Mademoiselle La Valliêre.

Antero ia exprimir um gesto de desacôrdo, mas o fidalgo continuou:

—        Não permito que me contradigas. Acaso, não estás farto de saber que aqui, em França, são as mulheres que fazem os ministros?

D.        Margarida, desejosa de imprimir novo rumo à conversação, a fim de que o espôso não incidisse nos comentários apaixonados, aventurou:

—        Suponho, Inácio, que deves ir. Ainda que não conseguisses um acôrdo para o recebimento do que te é devido, essa visita dar-te-á ensejo a qualquer combinação com a rainha.

—        Eu? — bradou êle com energia — que me poderia dar a desventurada infanta, necessitada de quase tudo em seu ambiente doméstico? Poderei procurar a filha do meu soberano para chorar as desditas, mas nunca alimentando o propósito de pedir qualquer coisa.

—        Em todo o caso, seria útil alguma tenta­tiva — exclamou Cirilo Davenport timidamente, receoso de ser tomado como indesejável nas com­binações familiares.

D.        Inácio Vilamil, porém, carregou mais ex­pressivamente o semblante e sentenciou:

—        Mas eu sou um homem da velha têmpera.

O rapaz, compreendendo-lhe a resistência inque­brantável, baixou os olhos e calou-se.

A palestra chegou ao fim, com as expressões conciliatórias de todos, ante a intransigência do velho fidalgo. Nenhum argumento lhe modificou a atitude.

Nas despedidas, notando a ternura dos olhares e gestos da prima e do jovem Cirilo, Antero sentiu que mortal ciúme lhe envenenava para sempre o coração.

Duas semanas passaram, repetindo-se diária-mente a visita de Davenport, as idéias intransigen­tes de D. Inácio e a perplexidade do sobrinho dos Vilamil, que vinha de Versalhes a Paris, de três em três dias.

O par venturoso continuou tecendo, carinho­samente, os fios dourados de seus sonhos de felicidade, enquanto Antero dissimulava hàbilmente o profundo rancor que lhe dilacerava o espírito. Ape­sar da mágoa odiosa, tratava Cirilo com maneiras cativantes. No íntimo, detestava o rival, que lhe triturava devagarinho as esperanças; no entanto, buscava conquistar-lhe a confiança, intencionalmente maquinando projetos sutis e terríveis de vingança, a seu tempo. O próprio Cirilo estava surprêso. A amizade que Antero de Oviedo lhe demonstrava era mais um obstáculo transposto. A certeza de que o companheiro da infância de Mada­lena lhe compreendera os propósitos sinceros, cons­tituía fonte de tranqüilidade para o seu coração. Andava, por isso mesmo, plenamente satisfeito. Respirava os ares de Paris a longos haustos. O serviço diuturno fizera-se-lhe leve e doce, o novo estado de espírito descortinava-lhe profundos hori­zontes no entendimento justo da vida. Aguardava a noite, ansiosamente, e, quando em companhia da jovem amada, renovavam, os dois, os votos afetuo­sos, os juramentos sublimes, as promessas de eterno amor.

Surgiu a ocasião em que Madalena se pre­ocupou com a atitude da família Davenport e insis­tiu para que o rapaz comunicasse aos parentes de Belfast o projeto de casamento. Cirilo prometeu escrever, mas alegou que, antes mesmo da con­sulta aos pais, procuraria ouvir o tio Jaques, em Blois, que lhe consagrava paternal afeição desde os primeiros dias da sua vida. Mademoiselle Vilamil demonstrava cuidados justos e, contudo, no espírito de resolução que lhe era característico, Cirilo considerava semelhante zêlo de somenos im­portância, pois, ao seu ver, casar-se-ia ainda que não obtivesse para isso a aprovação da família. Todavia, dada a insistência da jovem nas conversações confidenciais, Davenport dirigiu-se, certo dia, a Blois, com o fim de aconselhar-se com o tio, antes de assumir o compromisso desejado.

Durante tôda a viagem, Cirilo entregou-se a singulares devaneios. Susana, havia muitos dias, voltara de Paris para o ninho doméstico e o rapaz lembrava o seu olhar inesquecível, quando se despediram.­ Sua expressão traduzia um misto de frieza e dor, de ressentimento e crueldade. Por quê? Ignorava a violência das suas intenções, procurava, em vão, atinar com a causa da sua tristeza. De­balde procurava aproximá-la de Madalena, convi­dando-a a segui-lo em alguma de suas habituais visitas ao bairro de Santo Honorato. A prima re­cusara sempre, em têrmos ásperos que lhe feriam o coração. Além disso, emagrecera, tornara-se iras­cível. Nunca mais se aproximou da sua eleita, nem mesmo para as cortesias comuns. Em suas cogita­ções íntimas ponderou mais seriamente aquele pro­cedimento da prima. Certo, ela dera ouvidos, na infância, a possíveis projetos familiares, de casar-se com êle.

Relacionou, em suas reminiscências, os peque­ninos detalhes dos planos paternos e compadeceu-se da companheira de infância. Contudo, em breves instantes, buscou desvencilhar-se de semelhantes impressões. Afinal de contas, refletia, as inclina­ções da prima não passariam, por certo, de anseios transitórios da mocidade. Ela encontraria afetos novos. Era senhora de vultoso dote, não lhe seria difícil encontrar um partido rico, que lhe pudesse satisfazer os caprichos de moça. Se possível, falar-lhe-ia pessoalmente, assegurando-lhe o penhor da sua amizade constante.

Buscando desfazer-se das preocupações que não coadunavam com os seus propósitos do mo­mento, Cirilo penetrou nas ruas da velha cidade, ansioso agora por atirar-se nos braços do fiel amigo e confiar-lhe as mais íntimas esperanças.

O professor Jaques Duchesne Davenport resi­em antigo parque, que adquirira para a localização da sua escola, de proporções vastas, des­tinada à preparação de crianças de ambos os sexos, antes do acesso aos monastérios do tempo, consa­grados ao serviço educativo. Viúvo já de alguns anos, o bondoso amigo da infância, com a coopera­ção de dois professores dedicados, ali vivia entre os meninos de Blois como se estivesse esquecido das cogitações mais fortes do mundo. Não era pró­priamente um velho, na expressão justa do têrmo; entretanto, os fios grisalhos destacavam-se na ca­beleira e as rugas povoavam-lhe o rosto, embora estivesse tão sômente próximo dos sessenta anos. Muito raramente dispensava a bengala, que lhe completava a feição de patriarca junto dos petizes, e as crianças adoravam-no como a um pai. Não obstante as profundas experiências da vida, que suas atitudes demonstravam, seus olhos eram vi­vazes e amorosos, dando a impressão de que no peito palpitava um coração de grande criança, afetuosa e compreendedora.

As famílias de Blois encontravam nêle um arrimo forte para solução de todos os problemas relativos à infância. “Mestre” Jaques era um ponto de referência de magna importância, entre tôdas as classes sociais, Os brasonados amavam-no pelo seu nobre entendimento das coisas práticas, e os des­favorecidos da fortuna encontravam no seu carinho fraternal a proteção prestigiosa de um benfeitor. Os padres católicos estimavam-lhe as preciosas qua­lidades de cooperação e os protestantes admira­vam-lhe o respeito às crenças e opiniões alheias. E no seu pequeno mundo de amigos leais e crianças amadas, Jaques Duchesne Davenport sentia-se con­fortado e quase feliz.

Anoitecia, quando Círio bateu num largo por­tão cercado de trepadeiras e madressilvas. As árvores vetustas e acolhedoras do grande jardim faziam da paisagem um trecho de paraíso, pela sua paz ao sussurro do vento leve. A casa, muito antiga, dava idéia de vasta mansão de repouso, no seio da tarde amiga.

Susana veio atender, prestemente, e não pôde disfarçar a surprêsa com a chegada do primo, sem aviso prévio. Entretanto, longe de perder sua fei­ção voluntariosa, cumprimentou-o quase friamente, conduzindo-o ao interior e abstendo-se das expan­sões afetivas com que o recebia de outras vêzes.

O         mesmo não aconteceu, porém, lá dentro, onde Jaques abraçou o sobrinho, transbordante de ale­gria. O velho educador quase carregou Cirilo nos braços, como se recebesse a mais adorada de suas crianças no caminho da vida.

—        Como te demoraste, meu filho! Há muitos dias te procuro, debalde, entre todos os cavaleiros que passam por Blois.

Cirilo sensibilizava-se fundamente com tais ex­pressões de carinho.

Em doce aconchego familiar, jantaram juntos.

Depois de trocadas as primeiras impressões e quando a noite amortalhara a paisagem, de manso, o estimado educador, notando que Susana e Caro­lina se afastavam deliberadamente, chamou o sobri­nho ao gabinete particular e exclamou batendo-lhe carinhosamente no ombro:

—        Vamos Cirilo, acendamos o velho candela­bro. Teus olhos indicam que tens alguma coisa im­portante a dizer-me.

O         rapaz acompanhou-o enternecidamente e res­pondeu hesitante:

—        É verdade, meu tio...

Sentados em poltronas confortáveis, junto de ampla janela que lhes descortinava o céu pontilhado de estrêlas, foi Jaques quem iniciou a palestra dizendo ao rapaz das novas impressões que nutria a seu respeito.

Atendendo a uma interrogação direta, o moço esclareceu:

—        Sim, encontrei uma jovem que resume as minhas esperanças.

—        Conheço-a? — interrogou, afetuoso.

—       É Madalena Vilamil.

—     Ah! muito bem! Ainda nisso as nossas afi­nidades se manifestam e as tuas inclinações me alegram a alma. Conheci-a quando de sua visita ao antigo palácio de Luís 12º, e isso bastou para que a estimasse infinitamente. Como tudo isso é inte­ressante, meu filho! Não mais me esqueci dessa jovem, tanto que, quando Carolina e Susana vão a Paris, recomendo-lhes que não regressem sem notícias dela.

—        Essa circunstância constitui enorme alegria para mim — disse o rapaz assaz comovido.

—        Não podias fazer melhor escolha — concluiu Jaques, convicto. — Quando pretendem casar-se? Não seria lógico adiar tão feliz evento. Além disso, quando amamos, é natural que o coração seja atendido.

Amparado por semelhante compreensão, Ci­ruo Davenport não conseguiria definir o júbilo que lhe inundou a alma.

—        Seu parecer, meu tio, nobilita os meus pro­pósitos; entretanto, estou francamente indeciso, quanto à data dos esponsais, visto não ter ainda comunicado a meus pais os meus desígnios.

—        E pretendes ir a Belfast, com êsse fim?

—        Se fôsse possível...

Jaques meditou alguns instantes e, como pes­soa habilitada a aconselhar com perfeito conheci­mento de causa, voltou a dizer:

—        Não vás à Irlanda antes do casamento.

       - Por quê? indagou Cirilo um tanto sur­prêso.

       — Não estou fazendo apologia da desobediên­cia ou da anarquia familiar, mas recordo o meu casamento e não posso deixar-te ao desamparo. Em nossa ilha costuma-se colocar o interêsse acima das inclinações naturais. Quando conheci Felícia — a santa companheira que me aguarda no céu nossos parentes moveram-me guerra permanente e foi-me indispensável um ato de fôrça para des­posá-la. Se fôres a Belfast, começarão a malsinar tua escolha e cada amigo envenenará teu espírito com superstições descabidas. Serás flechado de tan­tos apelos estranhos, entre missas e promessas, que talvez fiques por lá, carregando para sempre um sonho morto. Samuel permanece distante de nossa compreensão da vida. Tua mãe é sensível e amorosa, mas está presa aos excessos devocio­nais. Teus irmãos são afetuosos, mas são espíritos muito irrequietos. Talvez a isso devam a difícil situação em que se encontram.

—        Como proceder, então?

—       Escreverei a teu pai dizendo que, de há muito, me incumbiste de pleitear a devida permis­são, mas, devido a trabalhos imperiosos, protelei o assunto, obrigando-o a assumir comigo o com­promisso de anuir a teus desejos e explicando que a futura nora é minha filha de coração. Sa­muel, naturalmente, ficará preocupado, a princípio, mas cederá satisfeito, estou certo. Quanto à adesão de tua mãe, sabemos, por antecipação, que estará de acôrdo conosco, em todos os sentidos.

Cirilo estava tão contente que não sabia como agradecer.

—        E não te detenhas em conjeturas inúteis — continuou o bondoso educador. — Madalena é digna de teus carinhos e ambos serão meus filhos, com a obrigação de povoar de netos a minha estrada, para que não me falte um raio de luz na noite da decrepitude, que todos os homens devem esperar.

No gabinete que se atulhava de cadernos e livros esparsos, havia uma atmosfera de felicidade indefinível. Ondas de perfume do jardim próximo penetravam pela janela aberta, como se a natureza incensasse o entendimento afetuoso de duas almas afinadas no mesmo idealismo.

Observando que o sobrinho prosseguia calado, Jaques interrogou:

—        Sentes alguma dificuldade para executar meus conselhos?

—        Reconheço, meu tio, que os meus ordena­dos mensais são exíguos — explicou o jovem algo tímido.

—        Não digas isso. Os melhores tempos da minha vida conjugal foram justamente quando Felícia e eu lutávamos contra todos os obstáculos para assegurar nossa felicidade. Minha família, na Irlanda, contrariava os nossos sonhos, enquanto os parentes de Blois hostilizavam as minhas pre­tensões. Casamo-nos sem apoio de ninguém. Meu salário, como professor, era irrisório, mas as bar­reiras, aparentemente intransponíveis, pareciam va­lorizar nossa união. Com as lutas intensas de cada dia, as horas de convivência doméstica tornavam-se mais preciosas. No entanto, meu filho, quando Felicia me compeliu a vir para êste país, onde nos esperava a valiosa herança deixada por sua mãe, o júbilo perfeito pareceu fugir do alcance de nossas mãos. A vida de Blois tornou-se muito diferente da de Belfast. Na Irlanda possuíamos um ninho; na França encontramos uma casa. No ninho, vi­víamos de amor e paz; na casa, a existência obe­deceu às imposições dos cuidados numerosos pelas muitas convenções sociais. Não quero dizer com isso que as casas sejam organizações dispensáveis, e sim que devem ser ninhos simples e acolhedores, onde cada membro da família experimente a tran­qüilidade devida. Minha pobre Fellcia, porém, não soube resistir ao pêso do bem-estar e fomos, final­mente, menos felizes, desde que as posses de Blois nos compeliram a numerosos esforços de manuten­ção e defesa. Minhas filhas, habituadas de início à simplicidade, cresceram entre exigências de tôda sorte. Susana é um coração inquieto, insatis­feito, resistindo sempre aos meus paternais con­selhos e Carolina, contra as minhas tendências, vai casar-se por simples questão de dinheiro com o Sr. de Nemours. Mas, que fazer? Minha inolvi­dável companheira acreditou mais na sociedade humana que nas leis simples da vida, e a sua ansie­dade segregou as pequenas do nosso antigo ideal.

       Jaques Davenport pareceu meditar um minuto, deixando perceber que voltava, em espírito, aos tempos da sua mocidade distante. Depois de pro­longado silêncio, como que despertando de profun­da divagação, interrogou:

—        Compreendeste?

—        Sim, meu tio, e agradeço a preciosidade dos seus ensinamentos; no entanto, há considerar que Madalena descende de fidalgos, enquanto que eu sou muito pobre.

—        Pobre? — tornou o educador, sorridente e otimista — convém manter acima da classificação comum, de pobres e ricos, a tábua de valores reais, que define os homens como trabalhadores ou ocio­sos. Há indigentes no seio de tesouros inapreciáveis e pessoas há de reduzidos recursos financeiros, sin­gularmente ricas de esperanças e de ideal. Por isso, meu filho, o perigo está em que o homem seja ocioso. Quem trabalha deve esperar sempre o melhor; mas quem perde o tempo, alcançará a miséria.

Os ensinamentos do bondoso velho caiam na alma do rapaz como um bálsamo.

Atentando no efeito benéfico dos seus concei­tos, Jaques continuou:

—        O trabalhador possui o tesouro da paz de cada dia, o ocioso encontra em cada noite o pade­cimento da insatisfação; um vive na claridade da esperança, outro na tormenta da ambição. Uma casa sem lacaios é um refúgio de repouso espiritual, nestes tempos de devassidão. Muitas vêzes, o ho­mem que dispõe de muitos servos paga-lhes por supostos serviços, mas o que recebe, em verdade, é calúnia e ingratidão.

Cirilo, radiante ao ouvir tão sábios conceitos, exclamou:

       - Suas palavras, meu tio, confortam-me pro­fundamente. Sendo assim...

—        Declaremos guerra às reticências — atalhou êle bondosamente —; já que não és ocioso, podes casar quando bem quiseres.

E como se fizesse uma conta mental, após pequena pausa, acentuou:

—        Os esponsais de Carolina estão marcados para novembro próximo. Debalde tentei induzi-la a fixá-los para o Natal. Dêsse modo, Cirilo, de­signaremos tuas núpcias para o futuro 25 de dezembro.

—        Tão perto? — perguntou o moço assaz admirado. — Isso é quase impossível, pois nem mesmo solicitei aos pais de Madalena o necessário consentimento.

—        Estou convencido de que hão de ceder para felicidade da filha.

—        Mas, as providências indispensáveis?

—        Serão atendidas — murmurou o tio com significativo contentamento. — Guardo-te dois mil escudos, a título de cooperação afetuosa no teu sonho de amor.

O         jovem Davenport estava repleto de júbilo, mas, depois de pensar alguns momentos, advertiu:

—        Meu tio, tanta generosidade é demais. Con­tento-me com o seu apoio moral, porque, relativa­mente ao auxílio material, minhas primas seriam capazes de opor alguma objeção.

—        Não dês guarida a tais desconfianças. Deus me livre de contender com a família por questões de dinheiro. Quando Felícia morreu, renunciei espon­tâneamente a todos os direitos que me competiam, em favor das filhas, que dividiram entre si a legi­tima materna. Apenas desejei ficar com a minha liberdade e com a minha escola. A contribuição, portanto, é de meu próprio pecúlio e não temos nenhuma satisfação que dar a Susana ou Carolina.

O         jovem não cabia em si de contente... A oferta preciosa vinha solucionar o melindroso problema econômico que o perturbava. Não queria casar-se sem uma base de recursos a cultivar. Supinamente reconhecido, tomou a destra do tio, apertou-a com carinho e exclamou:

—        Não sei como traduzir minha gratidão.

—        Ora essa! nem eu desejo que te perturbes por manifestar reconhecimento. Acreditas, acaso, que o dinheiro seja definitiva propriedade nossa? Todo o cabedal financeiro é de Deus, que o distribui consoante as necessidades de cada um, por inter­médio dos próprios homens.

A palestra afetuosa entrou pela noite a dentro, até que um velho relógio bateu as onze horas. Ja­ques lembrou que necessitava da sua beberagem habitual para o estômago, e o sobrinho se despediu agradecido e venturoso.

—        Meu tio, dormirei hoje um dos sonos mais tranqüilos de minha vida.

—        E devê-lo-ás só a Deus — exclamou o gene­roso amigo, afastando-se ao toque-toque da bengala, como a dispensar o rapaz de novos agradecimentos.

Enquanto Cirilo se recolhia, ditoso, ao quarto de dormir, Jaques foi abordado por Susana em copioso pranto, quando buscava o remédio da noite no velho armário da copa.

—        Ouvi tudo, meu pai! — exclamou debulhada em lágrimas, evidenciando fundo rancor.

—        Mas, de que se trata? Que ouviste?

—        Suas combinações com Cirilo.

—        E por que não fôste participar da nossa con­versação no gabinete? — indagou o genitor muito admirado. — Tratávamos, porventura, de assuntos secretos que justificassem a curiosidade de alguém atrás das portas?

A moça não respondeu, limitando-se a soluçar convulsivamente.

—        Mas, que significa tudo isso, minha filha? — obtemperou o bondoso velho abraçando-a.

—        Meu pai, amo Cirilo e não me conformo com a sua decisão.

Jaques Davenport inclinou-se para a jovem profundamente preocupado. Agora chegava a com­preender suas amarguras secretas, suas inquieta­ções aparentemente injustificáveis, dos últimos dias. Sentou-se pausadamente, contendo a custo a pró­pria aflição e fê-la aquietar-se a seu lado, murmu­rando depois:

—        Filhinha, tem calma e fortaleza, porque êste é um desejo que teu velho pai não pode satisfazer.

E o amoroso Jaques, com o seu espírito emi­nentemente conciliador, fêz-lhe ver a necessidade de retificar as inclinações afetuosas, falando lon­gamente da delicadeza da situação, salientando a escolha do sobrinho e os méritos inegáveis de Ma­dalena Vilamil.

Desenganada em seus dissabores cruéis, Susana reprimia com dificuldade as expressões de ironia e ciúme que lhe explodiam no coração. Diante do amoroso pai, a cujo espírito se sentia ligada por irresistível magnetismo, não fazia mais que chorar comovedoramente, ansiosa por desabafar o misto de cólera e angústia que lhe empolgava a alma caprichosa.

O         genitor carinhoso, reconhecendo que a filha lhe ponderava as palavras em silêncio, prosseguiu nos conselhos:

—        Não desesperes. O coração tem mil cami­nhos para a felicidade, quando procuramos aceitar a vontade de Deus. E por tudo que temos de sa­grado, não demonstres rancor à escolhida de teu primo. Precisas compreender que a resolução de Cirilo é respeitável, e que Madalena é também mi­nha filha pelos laços divinos do espírito. Natural­mente que em seu noivado estarão nesta casa, quando se verificarem as solenidades do próximo consórcio de tua irmã, e eu espero, Susana, que a educação recebida no lar te confira comedimento às atitudes. Há ocasiões em que precisamos esma­gar os sentimentos cultivados com excessivo cari­nho, na precipitação das expectativas injustas.

       A jovem desejava apresentar furiosas objeções, desacatar o pai muito amigo, pela primeira vez; continha-se, todavia, com esfôrço imenso, mordendo os lábios em fúria e dando a impressão de que solu­çava de dor infinita, sem qualquer outro sentimento menos digno. Sinceramente condoído daquelas lá­grimas, Jaques considerou:

—        Avalio tua mágoa e, contudo, seria falta grave aplaudir-te. Procura afagar outros sonhos, renova os pensamentos. Acredito que tuas inclina­ções não podem obedecer senão a caprichos proce­dentes da infância.

—        Meu pai, não mais poderei ser feliz — disse no auge da desesperação.

—        Só os criminosos podem assim falar —acrescentou o genitor sempre melífluo.

—        Não tenho fôrças para assistir às núpcias de Cirilo — continuava Susana, enxugando as lágrimas.

O velho professor contemplou-a compungidamen­te e redargüiu depois de um minuto de meditação:

—        Fortalece tua vontade enfraquecida. Após o casamento de Carolina poderás espairecer na Irlanda por alguns meses. Retemperarás as ener­gias na paisagem da tua infância e acredito que a providência ser-te-á imensamente benéfica ao cora­ção. A época será imprópria para a viagem, mas eu permito que satisfaças semelhante desejo. En­contraremos embarcação e companhia adequada. Por hoje, minha filha, recolhe-te à paz da noite e não chores mais. Tua desesperação não é justa e deves rogar a Deus te conceda a cura da enfermi­dade espiritual que te atormenta a alma inquieta.

Susana quis revidar asperamente, declarar que semelhantes afirmativas a humilhavam em excesso, mas dissimulou a cólera, calou-se e obedeceu em silêncio.

Quando a viu retirar-se, o pai carinhoso levou a destra ao peito, tentando aliviar o sofrimento íntimo, em face da angustiosa revelação da filha; e demandou a alcova silenciosa, sem conseguir explicar o triste pressentimento que lhe travava o coração.

No dia seguinte Cirilo regressou a Paris, trans­bordando esperanças. Se o tio bem lhe orientara o espírito quanto ao que lhe competia fazer, êle melhor executou seus conselhos. Depois de dividir com Madalena o júbilo que o empolgava, dirigiu cerimoniosa carta a D. Inácio Vilamil e espôsa, expondo as suas pretensões.

A nova produziu grande sensação na vivenda de Santo Honorato. Os pais de Madalena não espe­ravam semelhante surprêsa. Cuidadosamente, son­daram o espírito da filha, verificando-lhe a aquies­cência e a resolução, no cometimento que condizia com a sua felicidade futura. Entretanto, havia alguma coisa a considerar e que representava amar­go aborrecimento para os velhos fidalgos. Era o implícito compromisso familiar com Antero de Ovie­do. D. Margarida e D. Inácio sentiam, sincera-mente, o fato de serem compelidos a apresentar ao sobrinho uma negativa inesperada e demolidora de todos os seus sonhos de rapaz. Ambos o conside­ravam qual outro filho adotivo. No entanto, não seria possível contrariar as inclinações de Mada­lena, que nunca lhes causara o menor pesar. Alta­mente preocupados, os bondosos velhos esperaram a primeira oportunidade para conversarem a sós com o sobrinho, o que se verificou dois dias após o recebimento da carta de Cirilo. Madalena ausen­tara-se e essa circunstância dava ensejo a entendi­mentos desejáveis e justos.

D.        Inácio, nessa noite, tratou o rapaz com maior compreensão, não sabendo como abordar o assunto. D. Margarida, muito carinhosa, obser­vando que o marido titubeava e vacilava, fixou os olhos serenos no sobrinho e falou:

—        Meu filho, hoje temos uma notícia a dar-te:

       — Madalena foi pedida em casamento por D. Cirilo Davenport.

Antcro fez-se pálido e respondeu rudemente:

—        Coisa estranhável, na verdade, porque es­pero minha prima desde a infância.

—        No entanto — continuou D. Margarida com voz pausada — Madalena está de acôrdo e não podemos nem devemos contrariá-la.

Antero levantou-se, passeou nervosamente pela sala e observou exaltado:

—        É uma ingratidão! Onde está meu tio que não lhe faz sentir a sua autoridade, capaz de varrer do seu caminho êsse irlandês audacioso, sem títulos e sem dinheiro?

Nominalmente citado, D. Inácio respondeu:

—        Madalena nunca me deu o mais leve abor­recimento e a autoridade apenas se exerce com aquêles que a desrespeitam.

—        Esse casamento, porém, é um absurdo —exclamou Antero fora de si.

—        Quem poderá decifrar os mistérios do co­ração, meu filho? — atalhou D. Margarida afetuo­samente.

E a discussão acendeu-se. A custo o rapaz sentou-se ao lado da velha tia, atendendo-lhe aos apelos carinhosos. Mas tanto manifestou seus pen­samentos de inconformação e de ironia, que D. Inácio foi dominado por violenta irritação. Ouvindo certas palavras mais ásperas do tio, o rapaz re­trucou com acrimônia:

—        Não posso conferir tamanho direito às suas opiniões. Afinal de contas, o senhor tem débitos bem pesados para comigo, antes de considerar qual­quer privilégio ao irlandês miserável que me anula as esperanças.

D.        Inácio Vilamil esboçou um gesto de justa indignação e revidou:

—       Sei que te devo dinheiro, mas não desco­nheces que nos deves os cuidados da educação. Supões, acaso, que te criaste em nossa casa a poder de brisas e votos brilhantes? Se reclamas aquilo que te devo em escudos, como te poderia pagar com as coisas privativas do coração de mi­nha filha?

O         rapaz recebeu a reprimenda ríspida, mal se contendo para não agredir o velho tutor, que lhe falava e gesticulava grandemente irritado.

A boa senhora, todavia, interveio amorosa, e como o sobrinho chorasse de raiva, tomou-lhe as mãos com muito carinho e procurou consolá-lo:

—        Não te encolerizes, Antero! És nosso filho pelo coração, antes de tudo! Considera, pois, que Madalena é tua irmã. Poderias estimá-la, tão só-mente a título de espôsa? Recorda que não podemos dispensar tua afetuosa companhia... Quem nos há confortado o coração, em tempos tão duros de pro­vação e de esperanças desfeitas? Não guardes rancor, modifica os sentimentos a respeito de tua irmã. Há de surgir, por certo, em teu caminho, um matrimônio feliz. És moço, ativo, trabalhador. Não te faltará uma noiva carinhosa, que encha o teu caminho de luzes novas. Tudo será uma ques­tão de tempo e boa vontade...

O         rapaz, apesar da paixão doentia que lhe enchia o cérebro de odiosas preocupações, amava singularmente a velha tia — a única alma que lhe havia proporcionado na orfandade carinhos e afagos maternais. Ouvindo-a, desabafou. Não podia saber se chorava de amargura ou de despeito, mas, fôsse como fôsse, aquêle pranto convulsivo aliviava-lhe o coração.

D.        Inácio lançou ao sobrinho um olhar de ironia e, depois de um gesto de enfado, abandonou a sala, enquanto D. Margarida continuava, olhos também marejados de pranto:

—        Desanuvia o espírito, meu filho! Insisto para que continues junto de nós. Pediremos a

D.        Cirilo resida nesta casa, após o consórcio e, quando te resolvas a organizar tua casa, permanecerás, igualmente, em nossa companhia, até que me feches os olhos para sempre. Se Deus me der vida, Antero, consagrarei minha velhice aos teus filhinhos, que serão meus netos pelo coração. Acos­tuma-te, pois, a encarar Madalena de outro modo.

Não odeies D. Cirilo, a quem seus sonhos de moça elegeram noivo amado, neste mundo. Não será melhor que se unam e vivam junto de mim, como irmãos carinhosos e dedicados? Além do mais, é indispensável consideres, em tudo, a execução dos desígnios santos de Deus. Naturalmente que a tua felicidade não será esquecida pelo Céu. Rogarei ao Altíssimo te conceda uma espôsa devotada e afe­tuosa, a fim de que, mais tarde, possa eu acariciar os teus filhinhos, em cada dia.

Ante aquelas manifestações carinhosas, Antero pareceu lavar o coração, expulsando para longe do espírito as mágoas mais fortes; contudo, no recesso do ser guardava rancor indefinível e profundo, que lhe arruinaria a existência. Sentia-se sem fôrças para alijar a figura da prima do quadro das idea­lizações mais íntimas. Conformar-se-ia com o ine­vitável, mas não renunciaria aos seus desejos.

       D. Margarida repetia os conceitos carinhosos, que lhe caíam nalma como anestésicos suaves, mas, a medida que enxugava os olhos, êle recolhia, no âma­go do espírito, propósitos de vingança, como venenos sutis. Depois de largos minutos de meditação, tinha os olhos fixos, como alucinado por idéia terrível. Permaneceria, sim, junto da velha tia, cuja afeição o preparara na vida com infinita ternura; mas, sentia-se inclinado a disputar Madalena até ao fim de seus dias. Recordava, rancorosamente, as obser­vações frias e ásperas do tio, e refletiu que D. Iná­cio lhe pagaria as objeções, a seu ver, audaciosas e ingratas. Não lhe cobraria os débitos contraídos com êle próprio, mas o velho fidalgo tinha outros credores, cujos títulos êle endossara, confiada-mente. Buscaria, dêsse modo, retirar as garantias dadas, logo que julgasse a medida oportuna. Quan­to ao atrevido Davenport, êsse teria de experimen­tar, cedo ou tarde, o pêso de sua vindita cruel, O tortuoso caminho do mundo estava cheio de surprê­sas. Conservar-se-ia ao lado da prima, qual sentinela, nela, sem repouso. O afeto que lhe votava, a seu ver, não admitia condenáveis substituições. Continuaria amando-a por tôda a vida. Não podia pensar noutra mulher que lhe tomasse o lugar no coração. Quem adivinharia o futuro? Madalena poderia não casar e, se o fizesse, era possível que sobreviesse o desencanto conjugal, ou que enviuvasse algum dia. Se tal acontecesse, estaria, pois, a seu lado, a fim de lhe atender ao primeiro sinal.

Após o incidente doméstico, dissimulou com habilidade o odioso rancor que lhe anuviava o espírito, pareceu resignado com a marcha dos acon­tecimentos.

Cirilo e Madalena estavam longe de pensar nas maquinações sombrias do primo, que lhes presen­ciava o romance de amor, entre sorrisos indefiní­veis e complacentes.

E as semanas corriam formosas e calmas, en­feitadas de projetos deliciosos para o porvir.

Susana, por sua vez, em virtude da influência paterna, ocultou o ódio mortal que lhe intoxicava o coração e, nas festividades com que foi solenizado o casamento de Carolina, na pacata cidade de Blois, procurou reaproximar-se de Madalena, com hipo­crisia surpreendente. No baile, exibira preciosa fantasia, tranqüilizando o velho Jaques pelo ruidoso prazer e acolhimento carinhoso que dispensava aos noivos, vindos de Paris.

Tudo, afinal, parecia concorrer para a felici­dade dos jovens, que não cabiam em si de contentamento e esperança.

Longa carta dos pais de Cirilo dava conta de seu assentimento ao matrimônio, em vista das afe­tuosas observações de Jaques. Endereçavam ao filho e à futura nora votos de felicidade e paz e lamentavam a impossibilidade de uma excursão àFrança, para abraçá-los pelo auspicioso aconteci­mento. Madalena sentiu-se mais tranqüila após essa carta, desvanecendo os derradeiros resquícios de inquietação.

O         jovem Davenport, plenamente identificado com os futuros sogros, sem maior experiência do mundo, concordou, satisfeito, com a solicitação para morarem todos juntos. D. Inácio Vilamil foi o primeiro a tanger o assunto, alegando a moléstia da espôsa e o seu demasiado apêgo à filha. A jovem sempre constituíra o amparo de sua casa e o confôrto de seus dias. Filha única, Madalena resumia para os genitores amorosos o ponto central de seus interêsses afetivos. D. Margarida andava sempre enfêrma, e quanto a êle, de há muito não se sentia menos abatido. A ausência da filha sepul­taria o ambiente doméstico em tristeza irreparável. Consentindo em casá-la, não desejavam pensar no seu afastamento, e sim na aquisição de mais um filho, que seria o genro, a dilatar-lhes o patrimônio de santas esperanças. Não sômente os aspectos espirituais foram lembrados. Semelhante decisão pouparia aos cônjuges a laboriosa montagem de uma casa com todos os requisitos da vida comum.

D.        Inácio ponderou as mínimas conveniências de fundo econômico, imprimindo às palavras a fôrça poderosa de suas convicções íntimas. Cirilo ouviu-lhe os pareceres com atenção, acedendo, comovido, aos seus pedidos e, compreendendo as dificuldades de ordem material, procurou aplanar todos os obstá­culos defrontados pela família da noiva.

E foi assim que, numa atmosfera de profunda simplicidade e simpatia, realizaram-se as núpcias de Madalena com o rapaz irlandês, no modesto templo consagrado à memória de Santa Genoveva, em Paris. (1)

Carolina e o espôso, que passaram a residir em remoto vilarejo do norte, não se abalançaram a viajar com o frio intenso, e Susana, depois de

 

(1) Não nos referimos à Abadia de Santa Geno­veva, que se localizava, antigamente, ao sul de Paris. Nota de Emmanuel.

 

ligeiras providências na capital francesa, partira, dias antes, para a Irlanda, em companhia de uma família amiga, de Alençon; mas o generoso Jaques tomara um carro em Blois, a fim de assistir à ceri­mônia modesta, trazendo carinhosas lembranças do seu velho parque para os noivos queridos.

Com exceção de três amigas dedicadas da jovem, inclusive Colete e Cecília, a solenidade foi apenas acompanhada pelo tio de Blois, pelos pais da noiva e por Antero de Oviedo, que dissimulava dificilmente o ódio que lhe corroía a alma ardente.

Cirilo e Madalena, porém, naquele instante, ignoravam que houvesse perversidade na Terra e não queriam saber de homenagens mundanas. Uni­dos no seu imenso amor, perante o altar dedicado à padroeira de Paris, foi com sublime enlêvo que receberam a bênção do sacerdote, em nome de Deus. Contemplaram-se reciprocamente, em seus votos de imperecível aliança, como se estivessem atravessando, naquela hora, as portas brilhantes do Paraíso, e, entre os amplexos afetuosos que os cercaram em doce vibração de carinho, o jovem par, fremente de alegria, acreditou haver encontrado o ninho da felicidade perpétua.

 

A caminho da América

A chegada de Susana à herdade dos Davenport, nos primeiros dias de dezembro, em Belfast, assi­nalou acontecimentos de importância no ambiente doméstico.

Samuel e Constância, sua espôsa, receberam a sobrinha com satisfação inexcedível.

A moça, no entanto, não conseguiu disfarçar a surpresa que lhe causavam as modificações ali ha­vidas. A propriedade ia em franca decadência. Os apartamentos da casa haviam perdido a formosa ornamentação de outros tempos. Samuel dava a impressão de profundo desalento, enquanto a es­pôsa, de olhos encovados, parecia refugiar-se na paciência, ao torvelinho de amarguras que lhe feriam o coração. Guilherme, Patrício, Jaques, Car­los, Dorotéia e Helena, os seis irmãos menores de Cirilo, estavam pálidos e mal nutridos.

Susana percebeu que os golpes do infortúnio continuavam vibrando naquele lar amoroso, que vinha arrastando as perseguições religiosas durante muitos anos. Procurou, contudo, dissimular a de­cepção e passou o primeiro dia de permanência na graciosa vivenda próxima de Belfast, em doce relembrança de episódios familiares, cumulando a bondosa Constância de cariciosas consolações.

Mas, após o jantar muito simples, procurou isolar-se com os tios na varanda ampla que dava para um trato de terra empobrecida, buscando son­dar-lhes os pensamentos relativamente à penosa situação que atravessavam.

—        Infelizmente — declarava Samuel eviden­ciando enorme desânimo — nada mais temos a esperar do torrão que nos viu nascer. As crueldades iniciadas aqui pelos mensageiros de Cromwell fo­ram completadas pela criminosa ambição de Law­rence Morrison, que nos arrebatou as derradeiras migalhas, apenas por uma questão de inflexibilidade religiosa.

—        É horrível — disse a moça, impressionada —, mas sinto aqui um esquecimento lastimável. Acredito que Cirilo não está informado dêste qua­dro de tamanhas necessidades.

—        Ah! sim — disse Constância resignada —, nosso filho tem seus ideais, Susana, e não nos parece justo arrancá-lo de suas esperanças e ativi­dades em Paris, apenas por egoísmo do lar.

—        Aqui, porém, não se trata de egoísmo — re­vidou a jovem. — Francamente, não esperava en­contrá-los em pobreza tão crua. E dizer-se que Cirilo casará ignorando tudo isso!

—        Não seria razoável incomodá-lo, minha filha — atalhou Samuel conformado. — A carta de Jaques notificava-nos o acontecimento com profunda cer­teza de sua felicidade. Constituiria falta grave, de nossa parte, desviá-lo do destino venturoso junto da jovem escolhida.

A moça esboçou um gesto de ciúme que passou despercebido, e voltou a insistir:

—        Considero, entretanto, que, para tôdas as coisas há tempo adequado. Cirilo precisa conhecer esta angustiosa situação.

Constância, muito carinhosa, lembrou comovi­damente:

—        Ora, Susana, creio não devermos perturbar nosso filho senão em circunstâncias extremas. Quem sabe terás algum meio de nos socorrer, sem que tenhamos de mandar a Paris qualquer notícia tor­turante? Muito poderíamos obter de tuas valiosas relações na Inglaterra.

Muito sensibilizada com o apêlo comovente, a jovem acrescentou com afetuoso interêsse:

—        Sem dúvida que não voltarei a Blois sem haver atendido às vossas necessidades. Tenho recados de Henriqueta para Londres e espero que as coisas seriam conciliadas a nosso favor. Não me conformo com essas crianças quase ao desamparo, no quadro de infortúnio que estou a ver.

E, num gesto expressivo para Constância, per­guntou com o seu orgulho ferido:

—        Onde está o cravo que tanto a distraía nas noites de inverno? Que é feito das tapeçarias, da baixela de prata?

A bondosa senhora explicou num sorriso hu­milde:

—        Foram vendidos ao Sr. Gottfried, quando Patrício e Dorotéia estiveram atacados pela febre.

—        O Sítio do Linho foi alugado? — interro­gou a moça com decisão.

—        Lawrence Morrison moveu uma ação contra nós e fomos despojados dêsse terreno — explicou Samuel contristado.

—        E os rebanhos?

—        Não temos mais recursos em pastagens. Conservamos apenas alguns bois de serviço e algu­mas cabras.

—        Isso é insuportável — exclamou a jovem assaz irritada.

Em seguida a uma pausa mais longa, em que os três se sentiam em face de sério problema, Su­sana inquiriu com firmeza:

—        Que sugerem para que eu possa começar o trabalho de reivindicação de tantas injustiças?

Samuel Davenport parou os olhos no horizonte embaciado do crepúsculo, meditou longamente e respondeu:

—        Minha filha, não desejaria acabar minha existência aqui, onde a lembrança da mocidade ven­turosa me agrava os terríveis desgostos. Nossa ilha está dilacerada pelas perseguições e nossa fé religiosa é irredutível. Não me sinto capaz de baju­lar os protestantes impiedosos e, por êste motivo, devo contar com as humilhações de tôda sorte, en­quanto viver. Não suporto os ímpios inglêses e morrerei no seio de nossa amada Igreja. Neste caso, venho sonhando ultimamente com uma vida nova, na grande colônia da América, para onde se trans­feriram muitos dos nossos amigos espoliados.

E, como experimentando outro ânimo, imagi­nando a soberba visão do novo mundo, continuou:

—        Lá se encontram os Taylor, os Dalton, os Harrison, os Richmond. Todos prosperam vertigi­nosamente e acreditam em Deus como entendem. Erguem capelas nos montes, criam rebanhos fortes, à margem de rios fartos e de pastagens sempre verdes. Dizem, Suzana, que, por lá, o céu é muito azul e que as flores povoam as estradas, quase a todo tempo, favorecidas pela bênção constante de um sol ardente e amigo. Arquimedes Taylor, que voltou a Belfast o mês passado, a fim de procurar alguns documentos importantes, visitou nossa gran­ja e muito me animou a partir com a família. In­formou-nos de que na América protestantes e cató­licos se unem, fraternalmente, na faina dos traba­lhos comuns, em atitude muito diversa da adotada por velhos companheiros irlandeses que se ban­dearam para a política dos senhores poderosos e aos deixaram em abandono. Com exceção do velho Gordon, que pretende transferir-se também para a colônia, no ano próximo, ninguém mais nos pro­cura. Por ocasião da grave moléstia das crianças, eu e Constância lutamos com a enfermidade com­pletamente desamparados. Estamos cansados de sofrer injustiças. O padre Bernardo, que nos con­fortava nas fadigas diárias, foi banido há duas semanas. Por tudo isso, venho afagando a idéia de buscar outras terras.

A moça anotava, em silêncio, as alegações do tio, procurando tirar as suas conclusões a respeito das providências sugeridas. À medida que Samuel Davenport expunha seus planos e sofrimentos, ela considerava o assunto, calculando por antecipação as conseqüências.

A seu ver, a partida para a colônia era idéia aproveitável. Buscaria envolver Cirilo no projeto. Não seria interessante vingar-se de Madalena Vi­lamil, obrigando o marido a partir para regiões tão distantes? Se pudesse, compeliria o primo a partir só, sem a companheira. Detestava a filha de D. Inácio, que lhe arrebatara o sonho da juventude. Ainda, porém, que não conseguisse o principal obje­tivo com a ausência só do primo, de qualquer modo gozaria vendo-os partir como exilados da Europa, deixando-a livre da visão de sua felicidade.

Obcecada pela recordação de Cirilo, de quem não conseguia esquecer-se, ponderou com atenção no socorro indispensável aos tios de Belfast, con­cluindo mentalmente que seria fácil ir a Londres e obter as providências políticas para que se lhes fizesse justiça na própria terra que os vira nascer; mas, segundo suas convicções íntimas, não encon­traria oportunidade mais adequada para vingar-se. Madalena conheceria o pêso da sua fôrça cruel. Dominada por semelhantes sentimentos, a jovem de Blois sentenciou:

— Seus planos, meu tio, são louváveis e las­timo sinceramente não poder acompanhá-los à colônia distante. As terras novas sempre me em­polgaram a imaginação por sua riqueza e grandiosidade, de acôrdo com as notícias trazidas pelos corajosos conquistadores.

Após um momento, em que Constância e o espôso lhe seguiam atentamente os mínimos gestos, continuou:

—        Quais as providências iniciais para realizar nossos propósitos?

—        Bastaria que alguém se interessasse por nós, na Côrte — acentuou o tio com imensa esperança a rebrilhar nos olhos. — Lord Arlington é hoje uma autoridade incontestável na política nova e, com a sua influência, poderá facultar-nos um título de propriedade agrícola na colônia. Isso con­seguindo, venderíamos o que nos resta e escolhería­mos a chamada região de Connecticut, onde pretende fixar-se o nosso generoso Gordon, no próximo ano.

—        Pois irei a Londres para êsse fim — excla­mou a jovem resolutamente. — Não existe também um auxílio financeiro aos que partem? O govêrno da França costuma amparar as famílias que se dirigem para as regiões inexploradas.

—        Na Inglaterra, os prestigiados por pessoas influentes também conseguem, às vêzes, idêntico auxílio.

—        Insistirei com as autoridades competentes para que recebamos o benefício. Se Lord Arlington não dispuser de elementos com que me possa aten­der, recorrerei à própria Coroa.

Os tios carinhosos entreolharam-se com viva satisfação, como quem recebia o socorro longamente esperado.

—        Resta saber — prosseguia a sobrinha, reso­luta — como e quando se dará a partida de Abraão Gordon com os seus.

Visivelmente confortado, Samuel Davenport ex­plicou:

—        Creio que a viagem se fará na segunda quinzena de julho do ano próximo, e o Capitão Clinton fornecerá passagem nos seus barcos a preços módicos; entretanto, em suas experiências do mar, êle exige que cada família apresente três homens válidos para cooperar nos trabalhos da travessia. Acredito, pois, que encontraremos certas dificuldades tão só para atender a essa exigência, porque não me Sinto muito bem de saúde, e o Guilherme agora é que vai completar os dezoito anos.

—        E Cirilo? — interrogou Susana, admirada — naturalmente não será possível isentá-lo do cum­primento dêsse dever.

Constância careteou como quem não desejava perturbar o filho, mas Samuel obtemperou:

—        Pensei mesmo em convidá-lo a partir co­nosco, mas o casamento talvez lhe haja impôsto outros projetos definitivos para o futuro.

Susana refletiu um instante, ocultou os ver­dadeiros sentimentos que nutria sôbre a rival e murmurou:

—        Madalena Vilamil é boa moça e compreen­derá as nossas necessidades prementes. Sem dú­vida, acompanhará o marido, e dado que o não possa fazer, nem por isso o impedirá de cumprir o dever filial. Tenho absoluta certeza de que conse­guirei os títulos de posse, em Londres, e, enquanto iniciamos as providências, poderão escrever a Cirilo expondo-lhe a situação com franqueza, dizendo-lhe convir aqui esteja em abril, para inteirar-se do assunto e preparar-se convenientemente para a via­gem, em julho. Até à primavera, terá gozado bas­tante a sua lua de mel e não é muito se lhe peça o comparecimento em Belfast daqui a três ou qua­tro meses.

Depois de ligeira pausa, acentuava:

—        E é justo não esqueçamos de escrever igual­mente para Blois.

Em seu profundo potencial psicológico, estava certa de que Cirilo não deixaria de aconselhar-se com o tio e concluía:

—        Conhecemos o ascendente de papai sobre a índole caprichosa do primo e faz-se necessário que ambos conheçam o caráter urgente das decisões a tomar.

Constância, jubilosa, admirava o poder de re­solução da sobrinha, e falou satisfeita:

— Deus nos ouça, porque já comentamos o assunto como se tudo estivesse providenciado com inteira segurança.

— A senhora não duvide — esclareceu a jovem —, não descansaremos até que tôdas as coisas se resolvam. Estas crianças — e designou com um gesto o interior da casa, onde os meninos brinca­vam em alvorôço — hão de crescer numa vida nova. É impossível que dobremos a cerviz ante o cêrco da miséria. Em muitos casos a resignação deixa de ser virtude para tornar-se inimigo cruel.

Em seguida, quando o véu da noite se fechara de todo, transferiram a conversação para a sala espaçosa do fogão de inverno, onde Samuel, muito depois de se haverem recolhido a sobrinha e a espôsa, ainda permaneceu largo tempo a meditar, como se conversasse com as achas ardentes daquela amada lenha do Ulster, que encerrava para o seu espírito um escrínio sagrado de inesquecíveis tra­dições.

 

Somente após o Ano-Bom Susana se dirigiu para Dublin, onde tomou uma embarcação que saía do Canal de São Jorge com destino aos portos da Mancha. Partia em busca das concessões de Lon­dres, interessada e esperançosa, depois de haver orientado os tios com relação às missivas endere­çadas a Paris e Blois.

E, assim, em fevereiro de 1663 as cartas de Belfast mudavam as perspectivas entre os cônjuges venturosos.

Cirilo leu, emocionado, a carta paterna que lhe falava dos enormes prejuízos e infortúnios experi­mentados e da resolução de partir para a América, em procura de valores novos, suplicando o seu am­paro filial em tão graves circunstâncias. Insistia para que o acompanhasse na viagem, ainda que não pudesse transferir-se definitivamente com a jovem espôsa para o Novo Mundo. Calculava que bas­tariam alguns meses de cooperação e poderia voltar a reassumir as obrigações que o retinham na capi­tal da França. Samuel sugeria, carinhosamente, que a espôsa o acompanhasse na longa viagem, em­preendida para tranqüilidade de todos. Quanto aos encargos de ordem material, esperava compensá-lo, doando-lhe parte do produto da venda do resto de sua propriedade rural na Irlanda do Norte.

Madalena, por sua vez, mostrava-se funda­mente sensibilizada. Constância enviou-lhe carinhosa carta na qual lhe rogava assistência e auxilio moral para a transferência desejada, destacando o obséquio que a nora lhes prestaria favorecendo a partida de Cirilo, de maneira a lhes atenuar o rigor dos inúmeros trabalhos. Enviava-lhe, com afagos maternais, delicada fôlha de trêvo como lembrança da missa a que assistira em intenção da sua ventura conjugal, na véspera das núpcias; relatava — mãe afetuosa — as enxaquecas do marido, as neces­sidades dos filhinhos. Procurava, enfim, conven­cer a nora de que deveria partir também com êles e fazia-lhe sentir que sua casa era igualmente da nora, a qualquer tempo.

A jovem espôsa de Cirilo chorou, emocionada, ao receber as confidências da sogra. Se fôsse pos­sível, teria partido para Belfast naquele mesmo dia, a fim de confortá-la, mas não podia considerar se­quer a possibilidade de uma visita ao Ulster nos meses próximos, porque D. Margarida piorara mui­to do seu velho mal cardíaco. Prostrada, pali­díssima, não arredava pé da cama, reclamando assistência carinhosa e constante... Por vêzes, as dispnéias sobrevinham noites seguidas, agravando-lhe os padecimentos atrozes.

Que fazer em face de tão angustiosos obstá­culos?

Ao crepúsculo dêsse dia de notícias singulares, em que as emoções agradáveis se haviam misturado largamente com a dor, Cirilo e Madalena encaminharam-se ao templo de Nossa Senhora (Notre-Dame), ansiosos por uma inspiração que lhes ali­viasse a alma inquieta.

Madalena desejava sinceramente ir a Belfast. atendendo aos apelos afetuosos da sogra, mas a precária saúde de sua mãe a impedia de formular qualquer projeto a respeito.

—        Afinal de contas — dizia a Cirilo sob o manto estrelado do céu, que sempre lhe enchia de encantamento o espírito sonhador — não devemos sofrer tanto, antecedendo fatos que se desdobrarão segundo a vontade do Pai Celestial. Sômente par­tirás em março e, até lá, quem sabe?

Ele, porém, não lhe acatava os argumentos afetuosos, com o habitual bom humor. Sem poder explicar o que lhe ocorria no íntimo, permanecia taciturno, alheio às suas costumeiras característi­cas de resolução.

—        Não posso compreender, Madalena, por que essa viagem forçada a Belfast me ensombra o espírito, enchendo-me de preocupações.

—        Viagem forçada? Não digas — redargüia a espôsa com bondade. — Para nossos pais todos os trabalhos constituem motivos de satisfação espon­tânea. Não tens feito o possível pela tranqüilidade do papai e pela saúde da mamãe? É indispensável não esquecer que temos igualmente dois velhos amorosos à espera de nosso auxílio na Irlanda do Norte.

Visivelmente nervoso, o rapaz obtemperou:

—        Sim, mas os meus trabalhos em Paris? E se não me puderes acompanhar a Belfast? E se

D. Margarida piorar a ponto de ser forçado a assumir compromissos com os meus, partindo sozinho para êsse longo itinerário até à América?

—        Quantas interrogações prematuras! — opug­nou ela esforçando-se por manter um sorriso menos pessimista — se nos acontecesse o pior não deve­ríamos, ainda assim, inclinar o coração à vontade de Deus? Se nos separarmos por alguns dias, não será por motivos frivolos, mas por atender a ne­cessidades imperiosas de nossos amoráveis “velhinhos”.

Procurando desfazer as penosas impressões do espôso, a filha de D. Inácio continuou:

— Relativamente aos teus trabalhos comuns, acredito não seja difícil obter uma licença sem remuneração; e se mamãe piorar, impedindo minha partida, estaremos juntos nas preces sinceras ao Céu para que tôdas as dificuldades cessem logo. Além disso, não devemos contar com a assistência do tio Jaques? De Blois a Paris não é longa a distância. Precisamos coragem, Cirilo, pois Jesus não nos deu a felicidade sômente para a satisfação pessoal e sim para que aprendamos a estendê-la a outros sêres. Nossos pais estão cansados e doentes, é justo lhes ofereçamos nossa disposição para o trabalho e o socorro de nossa mocidade sadia.

O moço ponderou aquelas palavras deixando perceber que havia encontrado a desejada solução e enlaçou-a com mais ternura.

Embebidos na cariciosa contemplação da noite amiga, falaram ainda longo tempo de suas espe­ranças e projetos de futuro, regressando ao ninho doméstico, cada qual fazendo o possível por se mostrar mais otimista, visando o confôrto recí­proco, mas, quando foi atender a genitora doente, Madalena contemplou o crucifixo de madeira que

D.        Margarida conservava no quarto, pendente do leito e, fixando o olhar na imagem de Jesus, pediu-lhe com fervor lhe desse paz ao coração ator­mentado por infindos receios. Depois de verificar que a matrona repousava em profundo sono, ajoe­lhou-se, beijou aquêle símbolo de sua fé e limpou uma lágrima, cuidadosamente, para que o espôso não lhe surpreendesse os amargos presságios.

As semanas voavam ao ritmo das renovadas preocupações.

Após uma consulta ao tio Jaques, que fôra igualmente informado da precária situação de Samuel em Belfast, Cirilo Davenport decidiu-se àviagem, a fim de auxiliar os pais no que fôsse pos­sível. Preparou seu desligamento temporário dos serviços, tomou as providências necessárias, mas D. Margarida piorava devagarinho, impossibilitan­do, de qualquer modo, a ausência da filha.

A vista disso, o rapaz foi obrigado a partir sozinho para a Irlanda, em fins de março.

Informado de que Susana permanecia no tor­rão natal, Madalena dirigiu-lhe carinhosa carta, junto da que escrevera, com muito afeto, à bondosa sogra, explicando a impossibilidade de visitá-la e solicitando-lhe que, como prima devotada, a repre­sentasse na família, orientando Cirilo em suas ne­cessárias decisões de auxílio aos pais.

Dêsse modo, o filho de Samuel partiu deixando a espôsa no circulo habitual, constituído por D. Inácio, sempre nervoso, D. Margarida, gravemente en­fêrma, e Antero, que rodava de Paris a Versalhes e vice-versa, como quem perseverava nos mesmos propósitos, esperando as oportunidades.

A chegada de Cirilo foi um acontecimento de larga repercussão no lar paterno.

Susana, dias antes, havia regressado da capital inglêsa com todos os documentos legais, concer­nentes à emigração de Samuel e família para a colônia longínqua. Depois de uma visita pessoal a Carlos 2º, em que fizera questão de alardear o valor de suas relações prestigiosas na Côrte de França, tôdas as portas se lhe abriram com faci­lidade surpreendente. Além de conseguir as dota­ções necessárias, inclusive sementes e outras utili­dades, solicitou também um auxílio financeiro para o velho Gordon, que lhe recebeu a gentileza pro­fundamente sensibilizado. Ao júbilo das concessões obtidas, acrescentava-se, agora, a alegria da vinda do rapaz, reforçando as esperanças dos perseguidos irlandeses.

Constância não sabia como exprimir seu con­tentamento maternal. Reuniu todos os recursos humildes da despensa doméstica e ofereceu um jantar muito simples, nesse dia em que, acima de tudo, falava o sincero carinho do coração. A noite, reuniu a família em preces a Deus, agra­decendo à Providência os favores da sua miseri­córdia e, após as orações comuns, expressou um voto de reconhecimento a São Patrício, pela feliz chegada do filho, o que, feito em voz alta na espontaneidade do seu afeto, arrancou muitas lá­grimas ao rapaz, que permanecia igualmente de joelhos, em obediência à tradição familiar.

Conforme acontecera à prima, Cirilo impres­sionara-se fortemente com os quadros de infortúnio resignado e de velada pobreza que viera encontrar na paisagem querida de sua infância, e fazia o possível por não repetir as expressões de espanto, quando procurava êsse ou aquêle local, em busca de velhas impressões da sua meninice. Não conseguiria explicar a emotividade que lhe envolvia a alma inteira. A humildade com que Samuel patenteava a necessidade da sua proteção, os olhares amorosos da mãe, a doce delicadeza dos manos, penetravam-lhe o espírito com indefinível intensidade. Lêra à Constância a terna missiva de Madalena e reparara, emocionadíssimo, como a genitora enxugava as lágrimas copiosas com as dobras do avental muito branco. Guardava a im­pressão de haver ingressado num sonho bom, em que, no maravilhoso tapête das lembranças suaves, voltava a ser menino.

Quanto à Susana, recebera as letras delicadas de Madalena, lendo-as a sós, depois de cerrar cuida­dosamente a porta do quarto e reprimindo intensa cólera. Frase alguma daquela mensagem fraternal conseguira modificar suas disposições. Não cons­tituía atrevimento da rival endereçar-lhe seme­lhante apêlo? Num ímpeto de ciúme e despeito, fêz menção de estraçalhar o documento carinhoso, mas, como se fôra advertido pelas idéias criminosas que lhe passavam, por vêzes, na imaginação sobreexci­tada, exclamou consigo mesma: — “Não será me­lhor conservar esta carta para algum dia da vida? Quem poderá saber o futuro?“ E modificando a primitiva atitude, guardou a missiva com cuidado, na bolsa reservada aos objetos mais íntimos.

Abraão Gordon, à noite, viera participar das alegrias familiares, abraçando jubiloso o recém-che­gado de Paris, a quem amava como próprio filho, desde o dia em que Samuel e Constância o haviam chamado para levá-lo à pia batismal.

Às ocultas, o pai de Cirilo, acanhado por ter de incomodar diretamente o rapaz, solicitara ao antigo companheiro de lutas endereçasse ao filho o apêlo final, para os acompanhar no longo cruzeiro transoceânico.

Gordon aproveitou o encanto do momento, cheio de intimidades cariciosas e, quando terminaram as preces de louvor a Deus, dispôs o grupo familiar em tôrno da larga mesa dos Davenport, que recordava os antepassados numerosos, devota­dos a tradições domésticas. Aplaudido com calor por Susana, que entrava na conversação com apar­tes sagazes e inteligentes, o notável ancião depois de exaltar as grandiosidades do Novo Mundo, que conhecia pessoalmente, em virtude duma visita aos parentes exilados na Virgínia, notificou ao rapaz a necessidade do seu apoio ao grande cometimento.

— Contamos contigo, Cirilo — afirmava o velho irlandês bondosamente — e nem poderia ser de outro modo. Samuel e Constância esperam o teu amparo imprescindível. Somos velhos e o capitão Clínton necessita de moços para a travessia, que não é tão fácil como parece à primeira vista. Já enviei instruções a Oxford para que Carlos e João estejam em Belfast, no mês de junho. Não podemos dispensar o esfôrço dos filhos, na execução da emprêsa.

— Entretanto — murmurou Cirilo um tanto esquivo, dado o seu problema de natureza sentimen­tal, refletindo na espôsa e nas suas fadigas domés­ticas —, ignoro se poderei partir na época prevista.

—        Não há mais tempo para hesitações —obtemperou o velho Gordon, depois de bater com o cachimbo na mesa, num gesto muito seu —; a questão não é de possibilidade, é de imperiosa neces­sidade. Entre pais e filhos não há consultas, há compromissos. O capitão Clínton exige a contri­buição dos mais fortes e não será razoável dispen­sar teus esforços.

O         rapaz corou em face da observação direta que lhe era dirigida, e ocultando súas recônditas preocupações sentimentais, receando ser tido àconta de covarde, considerou:

—        Não me furto ao que constitui para mim um grato dever, más, como sabem, meus serviços intelectuais, em Paris, são bastante expressivos e não sei se me permitirão uma ausência prolongada.

—        Meu filho — exclamou Abraão, convicto —, não guardes ilusão sôbre pretensas realizações intelectuais dos nossos tempos. Isso é um miserável engano, Cirilo. Os espíritos vulgares alardeiam conquistas mentirosas, enquanto escondem a cons­ciência vestida de andrajos. Semelhantes fantasias vão conduzindo os homens mais sábios à confusão e à ruína total. As lutas religiosas, que nos expul­sam do berço, não serão resultantes da desordem do pensamento? Por que motivo os protestantes, e mesmo os católicos eminentes, se empenham em lutas de morte? Será porque trabalharam com as mãos, ou porque se desviaram do caminho de Deus pelo abuso de raciocínios? As mãos não se equili­bram sem o impulso orientador das idéias, como. as idéias não se materializam sem o concurso das mãos; no entanto, suponho que os homens vão esquecendo o dom do serviço pelos excessos do pen­samento em desvario.

       Todos acompanhavam com atenção os argu­mentos profundos, enquanto o rapaz fixava os olhos brilhantes no rosto simpático do bondoso velhinho. Estava tocado nas fibras mais sensíveis e contemplava o antigo mentor, em respeitoso silêncio, an­sioso por não perder um só de seus elevados conceitos.

—        Em diversas regiões do sul — continuava Gordon, percebendo o poderoso efeito de suas pala­vras — existem católicos que assassinam os here­ges, bàrbaramente; e aqui no Ulster os partidários da chamada Reforma nos invadem as terras e de­sonram os lares. Enviados prepotentes da política de Londres nos insultam e assaltam nossas proprie­dades laboriosas e honestas. Se tôda essa gente trabalhasse mais e discutisse menos, não acabaria estabelecendo a certeza de que todos somos filhos do mesmo Deus? As legítimas renovações, Cirilo, não se destinam apenas à operosidade e aos feitos da inteligência, mas também ao esfôrço de arrotear com amor a terra dadivosa. Que tem sido a exis­tência da Europa senão uma guerra incessante? Todos os povos progridem para dominar os mais fracos, prosperam, a fim de ganhar a fôrça e exercer a opressão. Tudo isso significa que o homem não necessita ser mais arguto para explorar o próximo, e sim que compreenda e ame a vida. E ninguém, meu filho, entenderá o próprio caminho sem tra­balho intenso por concretizar um ideal de virtude, na marcha para Deus.

       Susana reparava o velho amigo de sua infância, manifestando a transbordante satisfação que suas alegações lhe causavam, e o marido de Madalena, seduzido pelos argumentos, sentia a renovação de antigo idealismo. Aquelas palavras vibravam es­tranhamente em sua alma, tinha a impressão de que lhe ressurgira no imo alguma coisa ofuscada e quase perdida, que era o imenso amor à gleba, a dedicação ao solo a que se acostumara a querer todo o bem, pelas lições vigorosas recebidas na infância. Por disposições maravilhosas do pensa­mento, sentia-se transportado à meninice distante, atravessava descalço as pastagens orvalhadas em busca dos bois que mugiam longe. Revia as gran­des árvores tratadas amorosamente e desejava tos­quiar, de novo, os carneiros gordos e mansos, O ambiente social de Paris eclipsara-lhe o gôsto pelas manhãs chuvosas, com o ruído da charrua sulcando a terra macia. Sübitamente, experimentava a ansie­dade de tornar a beber a luz das paisagens cam­pestres, na companhia dos cavalos árdegos e resis­tentes. A inclinação do homem consagrado ao esfôrço da terra triunfava de tôdas as preocupações de ordem puramente intelectual. Agora, lembrava que a França estava repleta de silogismos inúteis. Padres e filósofos disputavam estêrilmente, redun­dando as suas cogitações numa comédia ridícula, em que cada qual permanecia mais vaidoso, ao lado das aflições dos mais fracos, no seio do povo prejudicado e iludido. A guerra constituía, inva­riàvelmente, o produto sutil dêsses excessos dos condutores da multidão. Eram raros os propósitos sérios, os impulsos enobrecedores, isentos de vaidade ou egoísmo. Cirilo estava magnetizado pela gran­deza dos conceitos emitidos: Abraão Gordon tinha razão. Era necessário voltar à terra e escolher a flor da paz em seu seio acolhedor.

—        Compreendo agora — exclamou, deixando entrever que descobrira a equação indispensável. — Não posso perceber como andava tão esquecido...

—        Vendo-o passar a mão pela fronte, os pre­sentes entreolharam-se satisfeitos. A rendição de Cirilo, com respeito ao assunto, causava-lhes enor­me prazer.

—        Ainda bem — continuava Gordon encora­jado — estávamos certos de que não falharias na inclinação justa.

—        As suas opiniões são incontestáveis.

—        E já chegou a refletir nesse Novo Mundo que os navegadores nos trouxeram?

       — Sem dúvida — exclamou o filho de Samuel, assaz impressionado — terá uma finalidade muito mais importante que a de simples colônia, que lhe possamos atribuir.

Abraão Gordon sorriu e continuou:

— Eu, que lhe conheço a grandeza insondável, posso afirmar que a América é uma região desti­nada por Deus aos flagelados e desiludidos da Europa. Suas florestas assemelham-se a um oceano de verdura. Seus rios fartos chamam as criaturas para trabalhos promissores de paz e esperança, seus horizontes iluminados prometem a coroa da liber­dade e da vida. Estou convencido de que o novo continente representa uma dádiva de Deus aos homens trabalhadores e corajosos. Deve ser a rea­lização da promessa aos corações de boa vontade. Acredito que, lá, os nossos descendentes hão de amar os valores legítimos da vida e farão cessar a cadeia de ruína e destruição, que ameaça sempre a prosperidade européia, nas guerras famulentas. Aos que se encontram cansados de tolerar a cri­minosa influência do demônio insaciável, que do­mina os nossos príncipes, a Providência enseja a possibilidade de um lar entre as flores de uma natureza diferente e livre, cuja paz é garantida pelos abismos das águas.

       Cirilo, ouvindo as palavras ardentes do velho amigo, sentia-se transformado. Começava a admi­tir que, por certo, sua felicidade residia do outro lado do grande mar. Num minuto, chegava a esquecer os livros, os pergaminhos, as controvér­sias infindáveis dos filósofos do tempo, os princípios expostos pelos teólogos da universidade. Ima­ginava o futuro lar, onde Madalena e êle cuidariam da ventura de filhinhos amados, no país maravi­lhoso cuja grandeza parecia contemplar, através das descríções vivas do ancião de Belfast. Recor­dou que seus ideais eram idênticos aos da espôsa, relativamente à América distante. Madalena tam­bém tinha sêde daqueles horizontes largos, daquela terra fecunda e perfumada. Sentindo que podia falar igualmente em seu nome naquela assembléia familiar, assumiu o compromisso de transferir-se definitivamente para o Novo Mundo.

Depois de afirmar sua decisão, que despertou enorme e geral contentamento, a paléstra se des­dobrou em tôrno das realizações futuras. Susana e Constância emprestavam à conversação a mais vibrante alegria, terminando as combinações ini­ciais da viagem com expressivas demonstrações de júbilos sinceros.

Diàriamente, agora, repetiam-se as reuniões afetuosas na casa acolhedora, delineando-se todos os projetos em lide.

Para que Cirilo partisse justamente tranqüilo, ficou assentado que ainda voltaria a Paris, não obstante as dificuldades das viagens de então, a fim de consultar a espôsa, quanto à possibilidade de sua partida. Na hipótese de ela continuar impedida pela moléstia da genitora, êle acompanharia os pais até à América, cuidaria das instalações iniciais e voltaria à França para buscar a companheira. Estava certo de que a espôsa lhe aprovaria as decisões e compartilharia das suas esperanças. Ela também amava, de longe, aquelas florestas desco­nhecidas, onde haveriam de fundar a casa ventu­rosa e farta para a sua prole.

No curso de uma quinzena, tôdas as delibera­ções estavam assentadas. Abraão Gordon fêz a Sa­muel espontâneo empréstimo de dinheiro, para que o filho pudesse deixar à espôsa alguns recursos, uma vez verificada a impossibilidade de sua par­tida. Dentro de algumas semanas, Constância e o marido venderiam a parte restante da propriedade e resgatariam o compromisso.

Dêsse modo, nadando em esperança de mara­vilhoso porvir, Cirilo regressou à França com a promessa de tornar a Belfast no fim de junho.

Seu regresso ao lar foi acolhido entre cari­nhosos contentamentos da espôsa, e, contudo, os planos traçados na Irlanda causaram a Madalena certa estranheza, sem que ela mesma pudesse explicar o motivo das dolorosas angústias que lhe assaltavam o Coração.

O         marido tratou de organizàr numerosas pro­vidências, à pressa, destacando-se a do seu desligamento da universidade, em caráter definitivo, com as veladas preocupações da espôsa. Deliberou ir a Blois, sem que a companheira pudesse parti­cipar da excursão, dado o estado grave da sogra.

Estava ansioso por abraçar o velho Jaques. O tio amigo o acolheu com a satisfação habitual, ouviu com interêsse o relatório verbal da visita ao Ulster e concordava, em tese, com as alegações de Abraão Gordon, sôbre a mudança para regiões tão distantes. O rapaz inteirava-o, entusiasmado, das menores decisões tomadas, ao mesmo passo que o professor de Blois o considerava um tanto mudado. Cirilo referia-se com muito calor a terras vastas, a fazendas prósperas, comentando, por antecipação, o valor dos rebanhos e das lavouras que manteriam o equilíbrio econômico das organizações rurais e das ricas plantações de fumo, que garantiriam o dinheiro do exterior, na dilatação do patrimônio futuro. Em tôda a sua conversação, não havia uma referência aos religiosos inteligentes, como se verificava de outras vêzes. Não mais comentava os autores romanos e gregos ou a, sabedoria dêsse ou daquele documento antigo, enriquecendo a palestra de observações elevadas e úteis. Jaques escutava-o admirado, disfarçando a custo a impres­são de estranheza. Concordava com a ida do sobri­nho para o novo continente, mesmo porque Cirilo estava muito moço e à sua frente desdobrava-se radioso porvir; mas não podia aplaudir-lhe a ati­tude centralizando todos os interêsses em problemas de absoluta feição material.

Depois de ouvi-lo por algum tempo em silêncio, o austero professor, como quem não pode omitir as coisas essenciais, perguntou:

—        Como ficam teus trabalhos na Sorbone?

        — Desliguei-me definitivamente da universi­dade.

—        E Madalena?

—        Dentro de um ano voltarei a buscá-la, após instalar nossa nova casa. A saúde precária de D. Margarida, presentemente, não nos permite partir juntos.

Em vista da resposta formal, o velho educa­dor compreendeu, hábil psicólogo, que era inutil tentar demover o rapaz das decisões tomadas; to­davia, como advertênCia velada, limitou-se a dizer:

—        Nunca me separei de Felícia senão quando o poder de Deus nos fêz curvar diante da morte.

Cirilo, porém, dominado pela visão dos inte­rêsses imediatos, não pôde perceber a sutileza do aviso e passou a fundamentar os motivos de sua resolução, recordando os apontamentos de Abraão Gordon relativamente ao panorama das lutas esté­reis da Europa, acusando os gabinetes políticos como focos de chacina e destruição. Jaques es­cutou-O novamente mergulhado em silêncio, domi­nado por singular impressão. Por fim, insistido por seus pareceres mais claros, Cirilo manifestou-se desejoso de que o tio os acompanhasse a breve tempo, de maneira a se reunirem todos na Amé­rica, para a continuação feliz dos empreendimentos sadios e realistas.

O         bondoso professor fixou o olhar no velho parque que se vestia com a roupagem deliciosa da primavera, escutou o rumor das crianças que brin­cavam sob as grandes árvores e respondeu:

—        Não conheço o futuro, meu filho, mas, por enquanto, não me seria possível examinar seme­lhante hipótese. Quem sabe pensarei nisso amanhã? Ao presente, sinto que não devo abandonar meus velhos livros e meus alunos novos.

—        Contudo — insistiu o rapaz — estou certo de que o senhor se reunirá a nós, mais tarde ou mais cedo. Não é possível continue suportando o ambiente europeu, envenenado de lutas odiosas e seculares. Daqui a um ano, ao regressar para levar Madalena, é bem possível o encontre modificado.

Enquanto fazia uma pausa, o tio esclareceu:

—        Concordo contigo, mesmo porque ignoro se residirei em Blois até ao fim dos meus dias.

—        Mas por que não assume conosco o com­promisso de partir? Não posso esquecer as obser­vações do fosso velho amigo de Belfast, com rela­ção às lutas desta nossa Europa, em cujo seio tudo é ilusão precedendo ruínas.

—        Não posso desaprovar a argumentação de Gordon, mas por agora ficarei, como alguém que deseja permanecer numa casa incendiada, nutrindo a intenção de salvar alguma coisa.

O         sobrinho, que se referira insistentemente às dificuldades do Velho Mundo, experimentou certo choque ao ouvir aquela afirmativa e, contudo, não respondeu, preferindo calar, de modo a não alterar os fundamentos do seu compromisso.

Entretanto, apesar da manifesta divergência entre ambos, despediramse de olhos molhados, como pai e filho obrigados a suportar as amaritudes de uma longa separação.

As contrariedades penosas do educador de Blois eram Iguais às de Madalena, que as experimentava com muito maior intensidade, no ambiente domés­tico. Em casa, tudo se resumia a movimento célere de providências precipitadas. D. Inácio encorajava o genro, estimulando-lhe o espírito empreendedor e chegando mesmo a declarar que, não fôra a grave moléstia da velha companheira, partiriam todos para o Novo Mundo, em busca das experiências mais elevadas. Discutia às vêzes, acaloradamente por demonstrar que a humanidade devia o beneficio aos corajosos navegadores espanhóis, e comentava com inveja a Possibilidade conferida aos católicos irlandeses. Antero, igualmente, mantinha uma ati­tude de alegre aprovação aos projetos de Cirilo, e expunha seus desejos de procurar, mais tarde, diversos versos parentes castelhanos localizados no sul do continente novo.

A única pessoa a compreender as angustiosas preocupações de Madalena era justamente a enfér­ma, que trocava significativos olhares com a filha, acusando-se intimamente como empecilho de sua partida em companhia do marido.

A jovem companheira de Cirilo, contudo, bus­cava não trair sua amargura, nos menores gestos, e beijava a genitora com mais carinho, ansiosa por fazer-lhe sentir a satisfação com que ficada a seu lado, no desempenho de sublime dever.

Decorrido um mês, chegou a véspera da via­gem para a Irlanda, consoante as obrigações assu­midas.

Nesse dia, Cirilo e a espôsa entreolhavam-se como duas crianças extremamente afetuosas, des­pertadas de um sonho encantador para realidades dolorosas.

À noite, não obstante a dispnéia de D. Mar­garida, ambos saíram para a contemplação da Natureza, ansiosos por alguns minutos de plena soli­dão, que lhes facultasse permutar as impressões mais íntimas.

O céu de Paris fulgurava como nunca, pintal­gado de estrêlas e cada jardim exalava os perfumes doces da primavera.

Os jovens esposos recordaram que havia de­corrido justamente um ano do seu primeiro encontro. Falaram no Carrousel de junho de 1662. entre cariciosas evocações. Certamente, a maioria dos amigos não mais se recordava dos folguedos populares, mas os pequeninos encantos da festivi­dade representavam para êles poderosos motivos de reminiscências gratíssimas. Um ano passara com a rapidez de uma semana breve. A certa altura da palestra, amorosa e confidencial, Cirilo tomou com mais vivacidade as mãos da espôsa e considerou:

 —       Querida, não sei o que tenho — minha coragem parece diminuir à medida que se aproxima o instante da separação.

—        Não te deixes abater por emoções contrá­rias aos teus compromissos, Cirilo — murmurou ela esforçando-se por manter atitude de extrema fortaleza moral, de modo a encorajá-lo, sem lhe demonstrar a própria dor —; mais um ano, apenas, estaremos juntos, acima de tôdas as contingências materiais. Até lá, mamãe terá melhorado e parti­remos todos. Em primeiro lugar, seguirá nossa família de Belfast e, depois, nós, os de Paris.

—        Reconheço tudo isso e não me faltam espe­ranças, disse o rapaz; entretanto, mortificantes pensamentos me dilaceram o coração.

Ela, que lhe falava de alma opressa, não con­seguiu esconder por mais tempo a emoção e deixou cair uma lágrima, embora fizesse o possível por ocultá-la.

—        Choras, Madalena? — perguntou o rapaz pe­nosamente surpreendido. — Sofres também, assim?

—        Não, Cirilo, minha lágrima é de esperança, pois que a saudade significa a própria esperança chorando de ansiedade e alegria.

O         filho de Samuel compreendeu que necessi­tava controlar as próprias fôrças, a fim de levantar o ânimo da companheira abatida por graves pro­vações domésticas e, enlaçando-a com muito carinho, procurou consolá-la:

—        Não chores, Madalena... Breve regressarei a buscar-te e seremos venturosos para sempre. Edificarei nossa casa nalguma encosta cheia de verdura, de onde possamos. tôdas as noites, contemplar o céu. Abraão Gordon me esclareceu os detalhes da paisagem do nosso futuro “habitat” e creio saber de antemão o local em que teceremos o nosso ninho. Havemos de admirar a beleza e a imensidade dos horizontes. Um grande rio banha nossas terras. Logo que conclua a casa, rodeá-la-ei de jardins. Quando lá chegares, tudo há de ser primavera, vida e alegria. E mais tarde, querida, criaremos nossos filhinhos sob a umbela de um firmamento luminoso e livre.

A filha de D. Inácio enxugou as lágrimas com sincera conformação, e falou comovida:

—        Cirilo, não desejo que partas sem me ou­vires...

Essas palavras eram ditas com inflexão de voz indefinível e, no entanto, como que se perdiam em tímidas reticências.

—        Dize, Madalena! De que se trata?

—        É que, nestes últimos dias, venho sentindo comoções estranhas e mamãe acredita que se pren­dam ao nosso primeiro sonho...

Ele abraçou-a sensibilizado.

—        Como sou feliz! — murmurou, transbor­dante de júbilo.

—        Não ficarei tão sozinha — concluiu com resignado sorriso.

E assim permaneceram longas horas, na con­templação da noite, permutando promessas de infinito amor e mútua compreensão. Cirilo arquite­tava mil castelos para o porvir, enquanto a espôsa escutava-o enlevada, olhos luzindo de esperança, acompanhando-lhe o idealismo ardente. Discutiram os detalhes da futura residência na América; falaram dos filhinhos que Deus lhes mandaria ao lar e que seriam educados distante dos centros do despotismo e da ambição. Em dados momentos, a voz da jovem embargava-se de lágrimas, mas fazia o possível por demonstrar paciência e energia, em tão amargosas circunstâncias. Ante a nova perspectiva, o rapaz prometia esforçar-se para vol­tar antes de um ano. Assim, afagando mútuas es­peranças, passaram a última noite, ansiosos por dilatá-la ao infinito.

No dia seguinte, de manhã, a família Vilamil, exceto D. Margarida, estava congregada em pequeno conselho. Antero, com a sua expressão arti­ficial, justificava a preocupação de Cirilo quanto à construção do lar, no seio agreste da natureza, pois também êle, Segundo afirmava, a qualquer situação destacada em Paris preferiria o recanto simples e calmo de Versalhes; e enquanto D. Inácio fazia ao genro as suas alegres e derradeiras reco­mendações, Madalena contemplava angustiadamente o espôso, desejando repetir-lhe as observações do amor infinito. Tinha sêde de redizer-lhe no ouvido os mil pequeninos cuidados do coração; mas a presença de Antero e do genitor lhe tolhia as cari­nhosas expansões, O velho fidalgo encarava o seu estado de espírito com vereditos ruidosos, que a filha era obrigada a receber com humildade e complacência, esforçando-se por ocultar a amar­gura indefinível que lhe cortava o coração.

Nesse momento, Cirilo fêz a D. Inâcio a en­trega de dez mil francos para que fôssem atendidas as despesas de ordem imediata, em sua ausência, prometendo trazer quantia mais vultosa, no seu regresso. O sogro agradeceu e guardou a dádiva com carinho, sem que ninguém notasse a expressão diferente que se fizera no olhar de Antero de Oviedo.

Em seguida, o viajante buscou um pretexto para falar a sós com o primo da espôsa e, com tôda a sua ingenuidade e boa fé, recomendou-lhe com interêsse:

— Antero, pode crer que parto absolutamente confiado no seu espírito de iniciativa e generosi­dade. Espero que sua dedicação vele por Madalena e por nossos velhos amados, com a mesma dispo­sição sincera de auxílio que me há dispensado desde que nos abraçamos pela primeira vez.

O         moço espanhol detestava-o bastante para não gozar com os seus sofrimentos, mas esboçou uma atitude exterior de fraternidade, concordando:

— Podes partir tranqüilamente, Compreendo as contingêncías imperiosas que te obrigam a tama­nho sacrifício. Para mim, Madalena é qual irmã a quem Consagro minha melhor estima; quanto aos tios, são êles, de fato, os pais que encontrei na vida.

Depois de outras considerações afetivas, Cirilo apertou-lhe a mão confiante e agradeceu o com­promisso, de olhos úmidos. Recomendações finais, derradeiros abraços e, sob o olhar despeitado de Antero, o filho de Samuel beijou a espõsa pela última vez. Madalena enxugou as lágrimas que não pôde conter e Cirilo, de alma torturada, abo­letou-se no pequeno carro de um amigo, que deveria conduzi-lo até ao pôrto de Brest.

O casal Vilamil-Davenport tinha o espírito angustiado por perspectivas atrozes. Madalena, porém, elevava orações ardentes ao Céu, suplicando à Mãe de Jesus lhe balsamizasse o cérebro tor­turado por martirizantes presságios.

Na Irlanda, desde a chegada de Cirilo, tudo constituiu um torvelinho de providências e decisões de últimos dias. Naturalmente, a maioria dos reti­rantes mantinham-se em expectação amargurosa, considerando o momento de abandonar a paisagem que os vira nascer; mas cada qual trabalhava por de­monstrar contentamento e coragem, com esfôrço heróico. Susana, que aguardava a partida dos pa­rentes para voltar à França, cooperou nos mínimos problemas, proporcionando-lhes solução justa.

A nau do capitão Clinton era de construção reforçada e largas proporções, mas não podia con­ter tudo que Constância desejava levar como re­cordação do Ulster; entretanto, a boa senhora organizou pequenos pacotes com sementes de árvo­res e flores ao seu alcance, no intuito de cultivar as lembranças irlandesas nas terras fecundas da América. No dia do embarque, Susana chegou a afirmar, de cara alegre, que o navio de Clinton assemelhava-se à Arca de Noé, em miniatura.

Na praia, a jovem de Blois contemplou a em­barcação até que desaparecessem, ao longe, as velas enfunadas. Recolhida em sua imaginação doentia, Susana pensava consigo mesma: — “Estou satis­feita, a vitória me pertence.”

Enquanto a embarcação atravessava o Canal do Norte, tudo foi um desdobrar de adeuses e en­tretenimentos caridosos. Aqui e acolá, sinais da costa acenando ao ânimo patriótico dos viajores; mas, quando o navio se afastou no segundo dia, a situação tornou-se muito diversa. Chegada a noite, com o vento favorável, a embarcação achava-se em pleno mar, O dia havia mergulhado num manto de indefinível tristeza. O próprio Abraão, segurando calmamente o cachimbo fixava, olhos nevoados de lágrimas, o rumo da costa que ficava a distância. Em todos os espiritos a saudade eclipsando a espe­rança. Quando a escuridão noturna se fêz de todo sôbre a imensidade móvel das águas, o ancião de Belfast acendeu um archote e abriu o Novo Tes­tamento.

—        Esta noite — disse êle com voz grave e pausada ‘— leremos o Livro ajoelhados.

Os presentes O acompanharam com Singular interesse, genuflexos•

O         velho Gordon, abrindo as páginas amarela­das sôbre mesinha tôsca, onde se espalhava a luz bruxuleante, leu em voz alta todo o Capítulo 27 dos Atos, que relaciona as notícias da viagem de Paulo de Tarso para Roma. Isso feito, voltou às páginas, deteve-se no Versículo 15 e repetiu em solene atitude: — “E sendo o navio arrebatado e não podendo navegar contra o vento, dando de mão a tudo, nos deixamos ir à tôa.” Depois da pe­quena repetição, o velhinho bondoso Olhou para o alto e exclamou:

—        Senhor! o navio de nossos bens foi arre­batado às nossas mãos, na terra em que nascemos. Nossa existência na Irlanda sofria inütilmente o golpe dos ventos contrários ao VOSSO amor e sabe­doria. É por isso, ó Divino Salvador, que aqui nos encontramos nesta casca de noz, esperando que se Cumpram os vossos insondáveis desígnios!

O         capitão Clínton, antigo corsário habituado a espoliar para não ser espoliado e a matar para não morrer, ao ritmo das leis rudes que imperavam no oceano, cercado por homens numerosos, arma­dos de mosquetes, sabres e punhais, murmurou compungidamente:

—        Louvado seja Nosso Senhor Jesus-Cristo!...

Terminaram as orações e a luz foi apagada, a fim de evitar qualquer desperdício. Foi então que Cirilo, mais altamente tocado no coração, abraçou a velha genitora no seio das sombras, como a única pessoa indicada a lhe compreender a alma ferida. Constância percebeu a angústia do rapaz e falou-lhe com brandura:

—        Deus sabe, meu filho, que é por seu amor que enfrentamos os abismos oceânicos.

Cirilo, contudo, não conseguia suportar por mais tempo as ondas de dor que se lhe represavam no peito. Afastando-se para um recanto escuro, onde sopravam as brisas favoráveis da noite, con­templou o céu estrelado e chorou amargamente...

 

A varíola

Regressando à França, Susana demorou-se em Paris duas semanas, preenchidas com pequenas ex­cursões e passeios ociosos.

Podia notar-se-lhe, agora, certa mudanca de atitudes, tanto que se aproximou da casa de Mada­lena, a pretexto de lhe ser útil, de alguma sorte, nos dias aziagos da enfermidade de sua mãe.

A espôsa de Cirilo, enfrentando herõicamente as dificuldades da situação, recebeu a visita com afeto e reconhecimento. A filha de Jaques lhe satisfez às mínimas perguntas sôbre o embarque, o navio, as disposições do companheiro. Susana tinha uma resposta pronta a cada pergunta, em sua afabilidade artificiosa. A nota mais interes­sante, contudo, é que Antero de Oviedo, incumbido de trabalhar algum tempo em Paris, na transfe­rência de importantes documentos para Versalhes, aproximou-se da moça de Blois, de maneira sur­preendente. A própria prima notou com simpatia semelhante atração, encorajando-lhes os sentimen­tos afetivos, pois Madalena sempre se preocupara com a sorte do rapaz, que crescera a seu lado, como irmão. A noite saíam, por vêzes, a sós, freqüen­tando o teatro ou excursionando ao luar, sôbre as àguas do Sena.

A filha de D. Inácio enganava-se, porém. An­tero de Oviedo deleitava-se na sua companhia, porque Susana parecia possuir a chave que lhe abria o coração onusto de paixões secretas e violen­tas. Ela começou a conquistar-lhe o espírito, reve­lando suas inclinações pelo filho de Samuel Daven­port, discretamente, sondando-lhe os pensamentos. Retribuindo essas provas de confiança, o rapaz iniciou igualmente as suas palestras confidenciais, compreendendo que defrontava a primeira inimiga do venturoso casal. Na quinta noite de conversa­ção solitária, entendiam-se francamente. Ambos estavam satisfeitos com o ensejo de um desabafo. Suas observações convergiam, invariàvelmente, para os caprichos do destino. Antero teimava em afir­mar que não conseguiria esquecer a prima, enquan­to a jovem irlandesa confessava abertamente que não renunciaria aos seus propósitos e continuaria aguardando o ensejo de provar a Cirilo a intensi­dade do seu amor. Aquilo que a família Vilamil apreciava como afeição, entre os dois, era um desvairamento sem limites, oriundo do ódiõ que ambos alimentavam.

Afinal, Susana regressou a Blois, deixando na casa de Santo Honorato alegres e confortadoras impressões sôbre o futuro do sobrinho de D. Inácio. Ao despedir-se, Madalena abraçou-a confiante e lhe pediu rogasse a Deus pela paz e saúde de Cirilo na América. Enviou ainda, por seu intermédio, breve mensagem a Jaques Davenport, lembrando-lhe que teria imenso consôlo e justo prazer com a sua visita a D. Margarida, a quem parecia restar poucas semanas de vida, concluíndo com votos afe­tuosos e protestos de nímia dedicação e desvelado carinho.

Dois meses decorridos sôbre a partida de Cirilo e a vida na casa dos Vilamil seguia monótona e repassada de expectativas amargurosas. Antero sentia-se quase feliz, achando-se como dantes, na qualidade de único rapaz a conviver com Madalena, sob o mesmo teto, entre as vibrações fraternais do ambiente doméstico. Horas a fio, mirava-lhe o semblante que a dor espiritualizava, seguia-lhe o movimento das mãos, como se atendesse a determinação de poderoso ímã. Experimentava imensos desvelos pela prima e, no entanto, não se furtava ao ciúme violento, à paixão rude que o torturava de rijo, desde o dia em que ela se lhe escapara dos braços esperançosos. Alimentava o secreto de­sejo de que Cirilo se perdesse para sempre nos caminhos desconhecidos das terras inexploradas, a fim de conquistá-la devagarinho, entre amarguras, tormentos, dificuldades. Confiava em que o rival não tornaria à Europa e que a prima, fatigada na luta, se lhe rendesse aos caprichos, aceitando-lhe o amparo, mais tarde ou mais cedo, nas reviravoltas do destino.

Atendendo a tais desígníos, depois de pro­curado certo dia por um dos credores mais exi­gentes de D. Inácio, recordou a soma que o marido de Madalena confiara ao fidalgo e recomendou-lhe consultasse o devedor em sua própria casa, quanto às possibilidades do pagamento. Ouvindo-lhe o pa­recer, o inflexível Sr. de Aurincourt dirigiu-se ao bairro de Santo Honorato, onde o antigo fidalgo lhe recebeu a visita, em companhia da filha.

Sem mais preâmbulos, o credor atacou dire­tamente o assunto, em presença da jovem senhora, acrescentando com alguma aspereza:

—        Como o senhor não ignora, seu título ven­cido há muitos meses tem-me esgotado a paciência.

O         tio de Antero corou, não sômente em virtude da cobrança, como pelo modo por que era tratado naquela sala, diante da filha, que êle desejava manter alheia às suas dificuldades e que acompa­nhava o desdobramento do assunto, vexada e com­pungida.

—        Compreendo a exigência, Sr. Aurincourt — retrucou o velho espanhol, perdendo o bom humor natural —, no entanto, continuo em disponibilidade, aguardando apenas uma determinação de Sua Majestade para me serem pagos os devidos vencimentos.

—        Sinto muito — tornou o credor —, mas nada combinei com o soberano e sim convosco. Não lhe podia emprestar dinheiro confiando em pessoas alheias. Confiei meus recursos à sua honra de fidalgo e não posso aceitar êstes seus argu­mentos. Além do mais, espero as suas oportuni­dades há quanto tempo?

A última frase, pronunciada em tom sarcás­tico, pairou no ar enquanto D. Inácio, confuso, buscava em vão um novo motivo para justificar-se. Muito pálida, reconhecendo a perturbação do ge­nitor, Madalena interrogou com serenidade e no­breza:

—        Qual é a importância do titulo?

—        Oito mil francos — respondeu o visitante.

E a jovem senhora, com a expressão confor­tada de quem se achava em condições de atender à dignidade ferida, acentuou:

—        Será razoável, meu pai, que o senhor res­gate o título hoje mesmo.

—        Entretanto... — resmungou D. Inácio in­deciso, refletindo se devia aceitar o oferecimento da filha.

—        Cirilo e eu — continuou Madalena solícita — teremos prazer em que o senhor se utilize dos nossos recursos.

D.        Inácio, que sempre encontrava um dito chistoso no seu proverbial bom humor, para enfrentar as situações mais difíceis, não sabia como dissimular a inquietação do sentimento paternal, mas, ante as palavras resolutas da filha e obser­vando o cúpido olhar do credor, demandou o interior doméstico, extremamente desapontado, e trouxe a quantia, recebendo o título, de mãos trêmulas, depois de lançar à filha um olhar de sincero reco­nhecimento.

Ao fim de quatro meses após a partida de Cirilo, a situação doméstica era das mais penosas. Cresciam as obrigações forçadas, dos aluguéis do velho prédio, as despesas com o lacaio e duas servas, os dispêndios com o tratamento da en­fêrma, as inadiáveis aquisições de gêneros e utili­dades domésticas. Não obstante o auxílio de An­tero, o quadro íntimo era formado de amargas apreensões. A saúde de D. Margarida ia de mal a pior, impondo à filha profundos desgostos e dolo­rosas vigílias.

Certa vez em que mãe e filha comentavam as aperturas do lar, D. Margarida lembrou duas velhas amigas da infância, em ótima situação finan­ceira. Eram as senhoras Josefina Fourcroy de Falguiêre e Alexandrina de Saint-Medard, que lhe haviam sido companheiras de meninice, nos dias formosos do pretérito, em Toulouse. Quem sabe estariam dispostas a auxiliá-las com o empréstimo de algumas centenas de francos? Essa idéia acen­deu muitas esperanças no cérebro cansado da enfêrma. Certo, ouvir-lhe-iam o apêlo, ajudando-a naquelas angustiosas circunstâncias, com a dese­jável discrição. Madalena ouviu as sugestões da genitora, que lhe pediu as procurasse em parti­cular, consultando-as em seu nome, para que fôssem atendidas as necessidades mais urgentes. A espôsa de Cirilo, no intimo, revoltava-se contra os propó­sitos maternais; todavia, como proceder ante a insistência da enfêrma querida, de cuja ternura sempre havia recebido os mais doces carinhos?

D. Margarida não desejava importunar o sobrinho em coisas mínimas e supunha que o expediente seria bem sucedido. Madalena não podia desatender aos seus desejos afetuosos.

Um dia, pela manhã, demandou a rua das Non­nains-d’Hyéres e parou diante da Abadia dos Ce­lestinos, em cuja vizinhança se levantava a residên­cia aristocrática de Madame Falguiêre, que a recebeu depois de largo movimento de criados, arrogantes em face dos seus trajes modestos. Expôs, humi­lhada e receosa, o motivo da visita e, no entanto, as maneiras tímidas e sinceras não comoveram a dona da casa, que respondeu altivamente:

—        Lamento muito não poder servi-la, pois há de reconhecer que sua mãe é apenas minha conhe­cida de tempos remotos e não existe entre nós credenciais de intimidade que justifiquem qualquer apêlo a meu marido, em seu favor.

—        Ah! sim! compreendo... — murmurou Ma­dalena, afogando as lágrimas no peito.

—        Diga a Margarida — prosseguiu a velha dama com rigorosa austeridade — que se resigne com a situação. Quanto a mim, é preciso que ela saiba que, se fui bafejada por um casamento feliz, tenho a vida repleta de grandes dissabores. Se os pobres padecem com as necessidades, os abastados sofrem muito mais com as obrigações.

E depois de um olhar impiedoso e severo para com a visitante humilhada, acentuou:

—        Além disso, você está moça e não será di­fícil arranjar trabalho. Que quer, minha filha? São as contingências da sorte. Há muitas casas nobres a procura de governantas.

A moça ruborizou-se. Não saberia dizer se a emoção lhe provinha da dignidade ofendida, se da extrema vergonha que lhe cobriu o coração. Quis lançar-lhe em rosto a repugnância que sua des­caridosa atitude lhe causava, mas, limitou-se a responder:

—        De qualquer modo, senhora, minha mãe e eu lhe ficamos reconhecidas. Deus permita que nunca venha a experimentar nossa angústia.

A senhora Falguiêre esboçou um sorriso intra­duzível e Madalena saiu, tomada de repulsa, quase em desesperação. Em plena rua enxugou as lágri­mas e refletiu se deveria procurar a Senhora de Saint-Medard, à vista do insucesso da primeira ten­tativa. Experimentou sincero desejo de furtar-se a nova humilhação, mas recordou as lágrimas da mãezinha doente, quando rememorava os antigos tempos de alegria com as inolvidáveis companheiras da infância, em Toulouse. D. Margarida estava tão confiada na sua afeição sincera, que a espôsa de Cirilo considerou praticar uma falta se deixasse de ir até ao fim. Mergulhada em profundas cismas, concluiu que tudo deveria fazer por amor à genitora. Possivelmente, a outra amiga seria mais condes­cendente e razoável. Nessa esperança, procurou outra casa elegante nas proximidades do mesmo local. Anunciada por lacaios solícitos, foi recebida numa ante-sala luxuosa, por velha senhora que, pelos modos, parecia mais rígida e protocolar que a primeira. Só então a filha de D. Inácio pres­sentiu que a experiência, ali, talvez lhe fôsse mais dolorosa. -

No seu natural acanhamento, expôs o motivo da visita, mas a Senhora de Saint-Medard, fixan­do-a com estranheza, falou com ar escarninho:

—        Ah! recordo-me sim, você é Madalena, pois não?

—        Para servi-la, minha senhora.

—        Você já leu, porventura, uns versos do Sr. La Fontaine (1) sôbre a cigarra e a formiga?

Madalena estranhou a pergunta, mas, na in­genuidade de quem repousa com boa fé, guardando

no coração sinceridade cristalina, retrucou sem a

menor preocupação           -

—        Sim, mas que deseja dizer com isso?

—        Pois diga a D. Margarida — continuou a

Senhora de Saint-Medard com profunda ironia —que ela e D. Inácio muito cantaram em Granada

e que é justo dançarem agora em Paris. -

 

(1) As Fábulas de La Fontaine, em seu conjunto, surgiram entre 1668 e 1693, mas, como trabalhos iso­lados, algumas já eram conhecidas em Paris no ano de 1663, que assinalou justamente a entrada do poeta para a Academia. — Nota de Emmanuel.

 

Madalena ficou lívida. Na primeira porta, en­contrara fria altivez; na segunda, escárnio cruel. Contemplou a interlocutora com o pranto a lhe sal­tar dos olhos e exclamou:

—        Passe bem, senhora.

Desceu a escada, à pressa, com as idéias em torvelinho. Atravessou o jardim e viu-se em plena rua, sem se deter na observação de coisa alguma. As lágrimas molhavam-lhe o rosto, ao passo que, em seu coração, furiosa tempestade de revolta aba­fava-lhe os sentimentos. Onde guardara as fôrças morais para não revidar o insulto execrável? Per­corria ruas e praças, a pé, automàticamente, engol­fada na repulsa que lhe dominava o espírito. Na imaginação exacerbada via a velha genitora quase agonizante, a confiar nas afeições falazes, e o pai decrépito, sem energias para defender o lar da ironia dos ingratos. Se as suas lágrimas eram de amargura, originavam-se muito mais na humi­lhação dos melindres filiais.

Ao dobrar uma esquina, porém, num recanto solitário, deparou-se-lhe um nicho da tradicional devoção popular, que lhe chamou a atenção. Inexplicavelmente, sentiu súbita necessidade de orar, de maneira a afugentar os pensamentos de revolta e amargor. Encaminhou-se ao oratório da fé pública e viu a imagem de Jesus Crucificado, simples, sem adornos, apenas encimada por minúsculo teto de madeira, que resguardava a obra de arte das intempéries. Contemplou, enlevada como nunca, a relíquia do povo e orou, através do véu de lágri­mas, pelas chagas sangrentas e pela coroa de espi­nhos que pendia da fronte dilacerada. Como sim­ples criatura anônima, ajoelhou-se no pó da via pública, invocando a proteção do “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Nesse momento em que se humilhava, qual jamais fizera em ato de contrição religiosa, a filha de D. Inácio expe­rimentou uma sensação de consôlo que jamais conhecera, em tempo algum. Dir-se-ia que sua alma sofredora assinalava a presença de um anjo, invisível aos olhos mortais, a passar-lhe as mãos pela fronte com suavidade cariciosa. Doces emo­ções da maternidade elevaram-se-lhe do coração ao cérebro. A consciência parecia dilatada a uma esfera de compreensão divina. Ao bafejo da energia desconhecida, chegava a conclusões rápidas e pro­fundas. A dor não mais a humilhava, antes lhe engrandecia o coração. Sentia algo semelhante a uma voz falando-lhe no imo da alma, em vibrações de suave mistério. Teve a impressão indefinivel de que alguém lhe tomava o braço com afagos bran­dos, convidando-a a erguer-se. Nunca soubera pen­sar em Cristo como naquela hora inesquecível. Em poucos momentos, os olhos estavam enxutos. O profundo e carinhoso nome de mãe ressoava-lhe no peito como incompreensível e sublime esperança. Quem era o homem da Terra, e quem era Jesus? Essa pergunta que se lhe apoderara da mente, como se fôra sugerida por alguém, de plano mais alto, proporcionava-lhe infinita consolação à alma ferida. As angústias do dia se desvaneceram como inci­dente fugaz. Os algozes do Cristo deviam ter sido muito mais cruéis que as senhoras de Falguière e Saint-Medard, que não passavam, aliás, a ajuizar por sua conduta, de duas mulheres ignorantes e or­gulhosas, a abusarem das possibilidades do mundo. E que era a sua mágoa comparada à do Mestre que se imolara pelos pecadores? Sofria muito naquela hora, em retribuição aos carinhos e dedicações ma­teriais; mas Jesus aceitara o madeiro por amor aos bons e aos maus, aos justos e aos injustos. Beijou então, comovidamente, a pequena cruz e encaminhou-se para casa, sentindo-se amparada por uma fôrça invisível que jamais conseguiria definir.

       Abraçando a mãezinha doente, sentiu que era indispensável mentir para confortar; esconder a verdade dura, de modo a não abrir chagas mais cruéis. Sentindo-se forte e bem disposta ao influxo das fôrças desconhecidas que a amparavam, beijou a enfêrma com muito carinho, enquanto esta a in­terrogava com um sorriso de confiança:

—        Chegaste a obter pelo menos mil francos, minha filha?

—        Infelizmente, minha mãe, as nossas amigas não estavam em casa.

—        Oh!... exclamou a doente sem disfarçar a tristeza súbita.

E começou a lembrar outros nomes, desejosa de encontrar um recurso pronto para a situação. Mas a filha percebendo que seu espírito, cheio de boa fé, voltaria a renovar as solicitações afetuosas, procurou confortá-la dizendo:

—        O essencial, mamãe, é que a senhora fique tranqüila, sem preocupações. De outro modo, não alcançará as melhoras desejadas. Jesus não nos esquecerá. Além disso, o tio Jaques não tardará a chegar. Amigo de nossa confiança, sentir-nos-emos mais à vontade para tratar dêsse emprés­timo.

—        Ah! sim, será mais prático... Esperaremos — disse D. Margarida, resignada.

E Madalena tinha razão, porque Jaques Da­venport daí a três dias batia-lhe à porta em visita afetuosa. A sobrinha sentiu imensa alegria aper­tando-lhe as mãos benfazejas. Depois de palestra cordial com D. Inácio Vilamil, o bondoso amigo entrou a ver a querida enfêrma, considerando muito grave a situação, pelo seu penoso abatimento.

Psicólogo profundo, o educador de Blois leu no semblante de Madalena a expressão do velado martírio doméstico.

D. Margarida, altamente confortada com a vi­sita, contava, em detalhes, seus padecimentos diuturnos. Dormia pouquissimo em vista das aflições ininterruptas; alimentava-se com extrema dificul­dade, por ter o estômago ferido, intoxicado pela multiplicidade das drogas em uso; as pernas muito inchadas impediam-lhe os movimentos livres, for­çando a filha a exaustivos esforços. Jaques reanimou-a, sinceramente comovido, comentando a si­tuação de outros doentes em situação mais precária, afirmava ter visto casos idênticos. com sintomas mais graves e que, no entanto, não passavam de fenômenos orgânicos passageiros, em certas fases de desequilíbrio físico. A doente sorria, quase satisfeita, a demonstrar novo ânimo no semblante abatido, mas, na intimidade, quando se retirou do aposento, Jaques chamou a sobrinha de parte, mudou de semblante e falou penalizado:

—        Minha filha, Deus te conceda fôrças para a luta, porque tua mãe está vivendo os derradeiros dias.

—        Compreendo... — murmurou ela enxugan­do uma lágrima.

—        Apega-te à fé, Madalena. Em tais instan­tes, o socorro humano, por mais eficiente que o consideremos, é sempre precário. Devemos estar certos, porém, de que Deus tem um bálsamo para tôdas as angústias do coração.

A sobrinha não conseguiu responder, sentindo que a emoção lhe constringia a garganta, mas, pe­netrando as necessidades mais sutis, e, longe de ferir o coração da filha, com expressões menos ge­nerosas, o carinhoso amigo acrescentou:

—        Madalena, Cirilo me recomendou, no último encontro em Blois, te trouxesse mil e quinhentos francos que representam velha dívida minha para com êle. Guarda-os. Neste transe, não faltará en­sejo de os empregar utilmente. E na hipótese de ne­cessitares mais alguma coisa, não te esqueças, fi­lha, que me encontro a teu lado para tôdas as pro­vidências que se façam precisas.

A filha de D. Inácio recebeu os mil e qui­nhentos francos da lembrança generosa, imensa­mente comovida. Consoladora satisfação inundou­-lhe a alma, porqüanto era possível atender agora aos pequenos caprichos da enfêrma, a quem encheu de mimos, entre doces ternuras do coração.

Jaques esperou no dia seguinte o Dr. Dupont, com quem se manteve em demorada conferência. Aquelas manchas violáceas, que a doente apresen­tava à flor da pele, não o enganavam. O médico reafirmou-lhe a convicção, declarando, discreta­mente, que D. Margarida não podia viver mais de uma semana. À vista do prognóstico, o educador de Blois adiou o regresso, na intenção de ser útil aos Vilamil, em alguma coisa.

Com efeito, a matrona piorava dia a dia, dando a todos impressão dolorosa de lenta agonia. Não permitia que a filha se afastasse, um minuto sequer. Falava-lhe, comovedoramente, do futuro e pedia-lhe que embarcasse para a América, a reunir-se ao espôso, tão logo lhe fechassem a cova. Nada obstante, rogava-lhe igualmente por Antero, por quem sempre experimentara desvelos maternais. A situação de D. Inácio era também objeto de suas conversações “in extremis”. A pobre senhora não sabia como alvitrar soluções a Madalena, que a ouvia, olhos marejados de pranto. O velho fidalgo acompanhava os sofrimentos físicos da espôsa, com o coração angustiado, enquanto o sobrinho, que lhe consagrava imensa afeição, desdobrava-se em atenções e sacrifícios para que fossem satisfeitos os seus menores desejos. Jaques Davenport ali estava cabisbaixo e silencioso, aguardando o fim daqueles padecimentos, que parecia muito próximo.

Na derradeira noite, D. Margarida confessa­va-se aliviada e mais lúcida. Tal circunstância alegrava a todos, enchendo os parentes de sinceras esperanças. Os homens e as servas recolheram-se mais cedo; Madalena, porém, conservando no espí­rito sombrios presságios, manteve-se vigilante ao lado da genitora, que parecia mais calma e re­pousada.

Sentindo-se só com a filha, D. Margarida mirou as unhas roxeadas, levou a mão ao peito como a examinar o próprio coração e falou com­passadamente:

—        Madalena, esta melhora é a primeira visita da morte. Não nos devemos iludir.

—        Ora, mamãe — turturinou a espôsa de Cirilo depois de um beijo afetuoso —, não fales assim. O médico retirou-se hoje muito satisfeito e papai ficou tão contente!...

A enfêrma ouviu-a atenta, patenteando grande comoção nos olhos rasos de lágrimas.

—        O Dr. Dupont poderá ter falado com oti­mismo a Inácio, mas também ouço uma voz que me fala aqui dentro do coração. Minhas horas estão contadas. Dou graças a Deus por levar-me dêste mundo sem ódio a ninguém. Levo comigo tão só-mente as mágoas justas de mãe, por deixar-te na Terra, à mercê de lutas bem ásperas, mas rogarei a Jesus para que te reúnas a Cirilo em breves dias. Penso, também, em Antero que criei como filho querido. Quanto a Inácio, espero em Deus nos possamos reunir brevemente, na eternidade!...

Sua voz tinha entonações lúgubres, e Madale­na soluçava baixinho, angustiada, incapaz de res­ponder.

—        Não chores, filha. Curvemo-nos resignados aos sagrados desígnios de Deus. Certamente, o futuro ainda te reservará muitos dissabores. Vais ser mãe, também, e compreenderás a montanha de sacrifícios que importa escalar por amor aos filhos; no afã das lutas e sofrimentos, não te esqueças da confiança sincera no Todo-Poderoso. Tôda mulher, e mormente tôdas as mães, precisam compreender o valor da renúncia, da caridade, do perdão. O caminho do mundo está cheio de malfeitores. Aqui ou ali, a ingratidão insulta e o egoísmo calunia. Sômente a fé pode proporcionar o escudo indis­pensável à alma ansiosa e ferida. Nunca percas a fé, minha filha, ainda que os padecimentos sejam os mais duros. Recorda a Mãe de Jesus em seus martírios e resiste às tentações.

Depois de longa pausa para tomar fôlego, con­tinuou com visível emoção:

—        Deus é testemunha de que eu muito dese­java recuperar a saúde para esperar o fruto do teu amor, envolvendo-o nos meus carinhos de avó, mas o Senhor, certamente, tem outros desígnios.

Ouvindo a terna observação, Madalena mur­murou entre lágrimas:

—        O céu nos restituirá a alegria, minha mãe. Ficarás junto de mim por todo o sempre.

—        Ainda esta noite — prosseguiu D. Margarida com ternura — sonhei que minha mãe vinha bus­car-me. Apareceu como nos meus tempos de crian­ça, a brincar descuidada às margens do Garona. Ela chegou, muito meiga, tomou-me nos braços e perguntou, depois de um beijo, por que me havia demorado tanto, longe dos seus carinhos. Ah! deve haver uma estância além desta, onde nos encontre­mos com os mortos bem-amados. A vida é mais bela e infinita do que supomos. Deus, que nos uniu nas estradas do mundo, não poderá separar-nos para sempre...

A voz tornava-se melancólica, arquejante. A evocação do sonho pareceu transportá-la a divagações diferentes. Nos olhos muito brilhantes pairavam reflexos de luz extraterrena. A filha acompanhava-lhe a mutação fisionômica, com um misto de ternura e dor indescritíveis. Recordava-lhe os sacrifícios domésticos e o heroismo maternal, que o mundo não conhecera. Lembrava suas cartas afáveis e consoladoras, ao tempo do internato. Ela, que conhecia as leviandades do pai e as dificuldades em que viviam, sempre notava que a genitora nunca tivera uma palavra de blasfêmia ou falsa virtude, em tôda a sua vida.

Madalena — continuou D. Margarida, com a mesma emotividade —, se Deus te mandar uma pequenina, dá-lhe o nome de Alcione, em memória de minha mãe. Não sei por que mistério a sinto aqui ao nosso lado, esperando-me talvez no limiar do sepulcro. Desde ontem, sinto-me impressionada por deixar-te sem recursos monetários que te ga­rantam a tranqüilidade, até te reunires definitiva­mente a teu marido. À noite passada, muito refleti sôbre isso, porque nem mesmo as minhas velhas jóias puderam escapar no sorvedouro de nossas economias domésticas. Mas, agora, minha filha, ouço no intimo a voz de minha mãe, que me sugere deixar-te nosso velho crucifixo de madeira, confi­dente de nossas lágrimas.

Apontou para o pequenino oratório e acentuou:

— Guarda-o bem contigo, porque não haverá maior tesouro que o do coração unido ao Cristo.

Madalena chorava discretamente. D. Marga­rida, porém, continuou falando, mas, agora, parecia responder a interpelações de uma sombra. Debalde, a filha tentou desviar-lhe a atenção para outro assunto. Seus olhos, imensamente lúcidos, davam a impressão de contemplar outros horizon­tes, muito além das quatro paredes do quarto lúgu­bre. Madalena alarmou-se, mas procurou manter-se calma, sem chamar os que repousavam de longa vigília. Todavia, de manhã despertou as criadas e chamou D. Inácio para comunicar o agravamento da situação. D. Margarida, após a última conver­sação, caíra em coma. Raiara a manhã em dolo­rosas perspectivas. Enquanto Antero segurava as mãos da agonizante, D. Inácio buscou um sacer­dote que lhe ministrou os últimos sacramentos. O professor de Blois assistiu ao traspasse, em silêncio, procurando confortar a cada qual.

À tarde, sem mais palavra, D. Margarida en­tregara a alma a Deus, perfeitamente tranqüila. A espôsa de Cirilo não saberia definir a própria dor, mas, amparada na fé, amortalhou o cadáver entre flores e orações tão doridas quão fervorosas.

No dia seguinte, Jaques acompanhou o fune­ral e, após as cerimônias lutuosas, insistiu com Madalena para que o acompanhasse a Blois, de modo a descansar alguns dias. A jovem, entretanto, reconhecendo o extremo abatimento do pai, recusou o oferecimento carinhoso, apresentando delicadas escusas. D. Inácio, de fato, mostrava-se profun­damente acabrunhado. Não seria razoável deixá-lo em Paris, em tal estado. O tio de Cirilo estendeu o convite aos demais. Partiriam todos em sua com­panhia e, depois de algum repouso em seu velho parque, voltariam à capital, retomando as preocupa­ções e os misteres. Intimamente, Madalena desejou aceitar a proposta generosa, mas D. Inácio se opôs. Alegava que seria muito mais difícil consolar-se da perda que acabava de sofrer se partisse com a obrigação de regressar mais dia, menos dia. A seu ver, deveria enfrentar as impressões amargas, com­batê-las até ao fim, mesmo porque, depois da volta de Cirilo, pretendia tornar a Granada, a fim de aguardar a morte, já que a viuvez nunca lhe per­mitiria completa felicidade na colônia distante. Nem os pareceres de Antero, nem as propostas afetuosas da filha, conseguiram modificar-lhe as intenções.

Foi assim que Jaques Davenport regressou ao lar, daí a dois dias, com a promessa de Antero, de conduzir a prima a Blois, tão logo chegassem a um acôrdo com D. Inácio. O velho educador, na inti­midade, foi mais explícito com o rapaz. Insistia nos seus propósitos, porque desejava que Madalena tivesse a criança em casa dêle. Antero demonstrou acatar-lhe o desejo, nada obstante o ciúme feroz que lhe rola o coração, e assumiu o compromisso de acompanhá-la dai a dois meses.

Sentindo-se profundamente só, após o faleci­mento da mãe, Madalena Vilamil repartia a existência entre os deveres domésticos e as orações, na casa enlutada e silenciosa.

Entretanto, não havia decorrido um mês sôbre o triste desenlace, quando a residência de Santo Honorato passou a partilhar das angústias imensas que começavam a pesar sôbre a população pari­siense.

Reboara na cidade a noticia alarmante. Alas­trava-se um surto variólico de enormes proporções. Tôda a cidade esfervilhava em reboliço. Segredava-se à surdina que a moléstia irrompera entre os imundos prisioneiros da Bastilha, conquanto alguém afiançasse que o boato fôra lançado adrede pelas personalidades eminentes, de modo a desviar a atenção pública de alguns fidalgos recém-chegados da Espanha, atacados do mal, e que haviam pro­curado socorro em Paris, sem qualquer preocupação pela saúde do povo.

A terrível moléstia, trazida à Europa pelos sarracenos no século 6º, era, então, o terror das cidades populosas. A capital francesa já conhecia as suas características execráveis e, por isso mes­mo, suas colméias humanas permaneciam desoladas e inquietas. Enquanto a moléstia circunscrevia-se às moradas confortáveis dos mais abastados, houve meios de ocultar os quadros mais tristes. Em pou­cos dias, no entanto, a população experimentava os penosos efeitos da epidemia fulminante.

Ninguém mais se preocupava com os jogos da péla, da malha ou da argola. Véu espêsso de sinis­tras apreensões cobriu a coletividade, de um dia para outro. Os casos positivos e dolorosos não mais ficavam ocultos pelo insulamento nos pala­cetes de luxo das ruas aristocráticas. As habitações burguesas da Cité e da Ville povoavam-se de cenas angustiosas. A Universidade tomava medidas extremas, em face dos imprevistos. Os doentes nu­merosos surgiam da rua São Dinis, da Plâterie, da Tixanderie. Criaturas míseras tombavam, sem re­cursos, junto do antigo local da Cruz Faubin. Arrabaldes como Santa Genoveva, Santo Honorato e Montmartre, começaram a exibir quadros doloro­sos. No bairro de São Dinis, ao longo da região tradicional da cêrca de São Ladres, davam-se óbitos numerosos. As aldeias que se erguiam nos arre­dores não eram menos devastadas; Issy, Montrouge, Vincennes, participavam em larga escala dos pade­cimentos em curso. Improvisavam-se cemitérios nas grandes planícies, embora a autoridade ecle­siástica ordenasse a abertura de um local isolado, no velho cemitério dos Inocentes, para os mortos cujas famílias pudessem custear as despesas do sepultamento.

Ninguém mais se atrevia aos passeios de barca no Sena, cujas águas inspiravam temor.

Em Courtille e Vanvres, organizavam-se so­corros apressados, mas eram raras, as pessoas dis­postas aos serviços de assistência.

O êxodo foi iniciado com penosas caracterís­ticas.

A Côrte de Luiz 14, desde os princípios da epidemia, recolhera-se ao confôrto de Versalhes, rodeada de sentinelas alertas. As correntes de retirantes, porém, marchavam com enorme dificul­dade nas estradas de Ëvreux, de Compiêgne, de Auxerre, de Blois, assomadas de contagioso pavor.

É que o surto epidêmico não se constituía de simples sintomas passageiros, com características benignas. Tratava-se da varíola negra, hemorrá­gica, com um coeficiente de mortalidade apavorante. Quem escapasse da morte, não fugiria àhorrível deformação do rosto.

Numerosas casas religiosas abriram, caridosa­mente, suas portas aos enfermos. Havia postos de socorro junto aos templos de Nossa Senhora, de São Jaques do Passo, de São Germano dos Prados. Abrigos generosos foram instalados pelas “Filhas de Deus”, na rua Montorgueil. As autoridades con­centravam a maior parte dos trabalhos de provi­dência. O Preboste desenvolvia medidas enérgicas, com a colaboração da Universidade, mas, dado o terror que se instalara no ânimo popular, agra­vavam-se o descuido e a indiferença pelos doentes, o que fazia aumentar o obituário para vinte e trinta per cento, em vez de dez, como de outras vêzes, em epidemias anteriores. Ninguém, todavia, dese­java arriscar a pele ou a vida. Eram bexigas negras e, por detrás das pústulas repelentes, esta­va a deformação ou a morte. Não se encontravam médicos, nem outros serventuários de enfermagem. Apenas alguns sacerdotes abnegados visitavam os lares cheios de pranto e luto, levando o confôrto de suas experiências ou as palavras carinhosas da extrema-unção.

Cada casa atingida era marcada com um gran­de sinal vermelho, na porta de entrada, por ordem dos superintendentes do serviço.

O povo fazia oferendas espetaculosas nos alta­res dos templos. A igreja de Santa Oportuna estava repleta de devotos, dia e noite, a reclamarem milagres. A plebe parecia alucinada, Os homens de idéias liberais eram acusados de provocadores da peste, então havida como castigo do Céu, e a mul­tidão pedia que êles fôssem queimados no forno do Mercado dos Porcos. Sucediam-se procissões e exorcismos. Numerosas famílias dispunham dos bens a qualquer preço e dirigiam-se para os portos do Atlântico, a caminho da América do Norte.

Nas ruas, tôdas as cenas de funerais eram pungentes e dolorosas. De quando em quando surgiam mulheres loucas, em penosa algazarra, obri­gando os gendarmes a medidas mais violentas.

Entretanto, o mais monstruoso, em tudo isso, é que alguns agonizantes estavam sendo sepultados antes do derradeiro sôpro de vida. Quase tôdas as atividades da ordem pública, nessas lamentáveis circunstâncias, estavam afetas a homens indignos, que assalariavam o esforço de truões sem escrúpulos. Não eram poucas as casas nobres de­predadas em seus tesouros. Valia-se, então, do terror para extorquir e abusar. Muitos crimes, nessas condições, foram perpetrados na sombra, com plena segurança de impunidade.

Nos cemitérios improvisados nas planícies e nas aldeias próximas, não era difícil ver um que outro moribundo atirado à vala comum, entre ge­midos.

O         soberano dera ordens para que fôssem con­tratados homens honestos para os serviços, mas os operários mais honrados não haviam acorrido, per­manecendo na tarefa gigantesca de salvação da própria família. Trabalhadores boçais e embriaga­dos tinham permissão de invadir as residências marcadas com o sinal fatídico, a fim de remover cadáveres ou doentes graves para os núcleos da rua do Forno.

Essa vaga imensa de provações coletivas abran­geu a residência de Santo Honorato num véu de tristezas e preocupações infinitas. Madalena, mal se refizera do golpe sofrido com a perda de sua mãe, mantinha-se em atitude quase indiferente, incapaz de ponderar a gravidade do perigo que os ameaçava; mas D. Inácio e Antero estavam afli­tíssimos.

Como acontecera ao grosso da população, os Vilamil só vieram a conhecer a terrível realidade quando já sitiados por numerosos casos na vizi­nhança. Depois de muito confabular, tio e sobrinho resolveram a mudança para os subúrbios de Ver­salhes, sem perda de tempo. Era inútil procurar a zona de arrabaldes parisienses. A moléstia espa­lhara-se por todos os recantos. Apenas Versalhes poderia oferecer alguma segurança, pelo grande nú­mero de guardas que obrigavam os retirantes a tomar o rumo de Evreux, para não infestar a zona destinada às figuras mais importantes da Côrte. Antero poderia obter concessões, em vista de suas ligações com os funcionários de relêvo. Não havia como hesitar nas medidas urgentes.

O         sobrinho de D. Inácio saiu à tentativa, mas tamanhos eram os obstáculos, que só conseguiu o que pretendia após esfalfantes trabalhos de cinco longos dias. Conseguida a casinha môdesta que os poria a salvo, o rapaz voltou a Paris para conduzir os familiares, mas, a primeira surpresa dolorosa esperava-o qual espectro de amarguras inevitáveis.

Na véspera, uma das antigas servas de D. Mar­garida, de nome Fabiana, caíra de cama, com febre alta e todos os sintomas graves da epidemia.

D.        Inácio sentiu imenso alívio com o regresso do sobrinho, a fim de assentarem as medidas sal­vadoras, indispensáveis.

Em vão Madalena rogou que encarassem a situação sem pavor, insistindo mesmo para que Fabiana fôsse guardada, discretamente, sob seus cuidados. D. Inácio divergiu da filha, ao mesmo tempo que Antero retrucava:

—        É impossível, Madalena. A situação e o momento não comportam tergiversações e condescendências, a título de generosidade. Chamarei os encarregados do serviço de saúde pública a fim de remover a rapariga para os centros de socorro, mesmo porque só nos falta o carro para Ver­salhes.

Ela esboçou um gesto de mágoa e sentenciou:

—        Mas êsses funcionários são homens insen­síveis e cruéis -

—        Que fazer, filha? — atalhou D. Inácio ten­tando convencê-la de vez. — Antero tem razão e, além de tudo, se êsses homens são, por vêzes, grosseiros e intratáveis, representam o contingente único de que dispomos e não seria lícito despre­zá-los.

—        E se fôsse um de nós o necessitado? — in­terrogou sübitamente a jovem, num ímpeto de sal­var a antiga serva de sua mãe.

Os dois perceberam o alcance e significação da pergunta, entreolharam-se admirados, mas D. Iná­cio, dando a entender que não podia aprovar qual­quer indecisão naquele momento, exclamou para o sobrinho, resolutamente:

—        Não podemos divagar. Vai chamar os ho­mens para a remoção da enfêrma e, se possível, traze contigo a carruagem que nos leve -

O         rapaz não vacilou. O velho fidalgo, agora só com a filha, fazia-lhe sentir a gravidade do perigo e frisava a nobreza da sua intenção. Madalena con­cordou. Era o genitor que falava e não seria justo menosprezar suas afirmativas e determinações. En­tretanto, não podia conter as lágrimas copiosas.

Antero não se demorou muito, O serviço de assistência mandaria os homens naquela mesma tarde. A carruagem, essa é que não foi possível encontrar. Depois de leve refeição, saiu novamente num esfôrço supremo. Necessitava de um veículo que comportasse quatro a cinco pessoas. Todavia, a condução desejada não foi obtida em parte al­guma.

Quase à tardinha, voltou profundamente des­coroçoado. O tio, que se contaminara de lastimável pavor, procurou confortá-lo, mas alvitrou que se retirassem a cavalo, no dia seguinte. D. Inácio, profundamente impressionado com as cenas tristes da rua, suspirava por um meio de abandonar a cidade, de qualquer modo. A princípio, refletiu mesmo na possibilidade de partirem a pé, mas isso seria muito arriscar. Os caminhos estavam cheios de doentes sem lar, de fisionomias deformadas, es­tendendo as mãos horrendas e sujas à caridade dos fugitivos sãos.

Antero aceitou a nova sugestão. Arranjaria cavalos para o dia imediato. Mal terminavam as combinações, chegaram os assalariados da assistên­cia, a fim de removerem Fabiana para a rua do Forno. A primeira medida foi lançar o tremendo sinal vermelho na porta. D. Inácio sentiu-se mal com o atrevimento dos rudes enfermeiros, mas, por outro lado, considerou que partiriam no dia seguinte para Versalhes.

— Por que essa identificação na porta quando vamos afastar daqui a única doente? — interrogou Antero sem disfarçar a contrariedade que o assal­tara.

— Sim — foi-lhe respondido —, retiramos a enfêrma, mas não sabemos se estamos afastando a enfermidade.

D. Inácio acolheu a resposta ao sobrinho, com irreprimível espanto, mas, calou-se na suposição de que, em breves horas, estaria respirando outros ares.

Foi muito comovedora a despedida entre a es pôsa de Cirilo e a velha serva, que a havia acalen­tado quando menina, O genitor e o primo impedi­ram Madalena de abraçá-la pela última vez, quando passava pela sala, carregada por grosseiros condu­tores. A filha de D. Inácio, no entanto, confortou-a com palavras amorosas, ditas em voz alta. Sensibi­lizada com aquela manifestação de carinho, Fabiana fêz um esfôrço e falou com doloroso acento:

— Não chore, minha menina. Se eu sarar vol­tarei da rua do Forno para seguir seus passos; e, se morrer, hei de encontrar minha senhora na eter­nidade.

A jovem Madalena mal podia conter o pranto, apesar das observações quase ásperas do pai.

 

A noite caiu, pesada e angustiosa.

Logo depois de sair a serva, o velho fidalgo começou a queixar-se de prostração geral com sen­sações dolorosas em todo o corpo. Daí a horas, explodia a febre devoradora, do período de incuba­ção da enfermidade. Madalena e o primo rodea­ram-lhe o leito penosamente surpreendidos. Ante as lágrimas da filha e as preocupações do rapaz,

D.        Inácio ponderava com firmeza:

— Fiquem tranqüilos, filhos! Êstes sintomas não podem ser os da moléstia execranda. Acredito que a modificação do nosso alimento habitual, im­posta pelas circunstâncias, tenha-me prejudicado o estômago. Esta febre é natural.

Mas os gemidos abafados, a transformação fi­sionômica devido à febre, não podiam enganar.

A filha não conseguira dormir. O doente não conseguia acalmar a sêde abrasadora. Em vão recorrera a calmantes e tisanas outras, próprias da época. A manhã surgiu com alarmantes perspectivas.­

Depois de ouvir a prima, Antero procurou o quarto do enfêrmo, notando-lhe o profundo abati­mento.

—        Não te impressiones comigo — dizia D. Inácio num esfôrço heróico para conseguir a retirada de Paris. — Creio que não poderei sair a cavalo, mas é possível que encontremos algum carro, ainda hoje...

O         sobrinho, comovido, procurou confortá-lo, prometendo acelerar as providências.

Retirando-se, tratou de trocar idéias com a prima sôbre o que poderiam fazer. Madalena não conseguia ocultar o pessimismo. Para ela não havia dúvidas. Era positivamente a varíola em fase de incubação. E para que D. Inácio não fôsse trans­portado aos grandes centros de socorro, onde a promiscuidade parecia convocar a morte mais de­pressa, era imprescindível o máximo cuidado, em vista da identificação da porta. Aquêle sinal ver­melho era inexorável. Preocupadíssimo, Antero voltou novamente a procurar condução para Ver­salhes. Tinha a impressão de que a moléstia seria benigna, uma vez tratada noutro ambiente, longe da pesada atmosfera de Paris. Todos os esforços foram vãos. Ansioso por atenuar os rigores da si­tuação doméstica, procurou um médico que se devotasse ao tratamento do velho tio, mas debalde buscou valer-se dos seus conhecimentos e relações. Os que não estavam foragidos, estavam prostrados, sem esperança. Disposto a alcançar qualquer re­curso, demandou o templo Magloire, onde antigo sacerdote atendia aos pobrezinhos.

O         padre Bourget recebeu-lhe a solicitação com muito carinho. Já tivera bexigas, noutros tempos, sentindo-se à vontade entre os doentes numerosos.

Antero respirou. Era a primeira pessoa que lhe falava com sincera tranqüilidade. O abnegado irmão dos sofredores acompanhou-o à casa cheia de inquietação, examinou detidamente o enfêrmo que lhe seguia os menores movimentos com angustiosa desconfiança, e acabou dirigindo-lhe palavras confortadoras, filhas do seu hábito de consolar a todos os aflitos. Em particular, contudo, dirigiu-se à jovem senhora e ao rapaz, dizendo-lhes:

— Em casos como êste há que encarar os acontecimentos com o máximo de resignação e fé em Deus. Não devo ocultar-lhes que o doente ins­pira sérios cuidados. Além da varíola, perfeita­mente caracterizada, há outros sintomas graves.

Madalena quis inteirar-se de tudo, conhecer os pormenores, mas sentia-se impossibilitada de falar como desejava.

— Aqui virei duas vêzes por semana — con­cluiu o bondoso sacerdote.

Antero e a prima queriam implorar que viesse mais vêzes, que ficasse em sua companhia, mas, considerando que a cidade quase inteira estava ao abandono, calaram-se comovidos, certos de que se­ria pedir muito.

A situação doméstica prosseguiu torturante. Quando menos se esperava, surgiam os rudes auxi­liares do serviço de saúde, compelindo Ântero a maior vigilância, para que D. Inácio continuasse em casa, às ocultas. Madalena desdobrava-se em sacrifícios silenciosos. Desvelada e carinhosa, quase não arredava pé do leito do genitor, que piorava a olhos vistos, O velho fidalgo passava longas noites em franco delírio. Tinha frases estranhas, desconexas, induzindo a filha e o sobrinho a graves reflexões.

Ao fim de uma semana, caiu a outra serva dos Vilamil e, no dia seguinte, o lacaio apresentou os mesmos sintomas. Ântero não vacilou e mandou remover ambos.

Agora, como acontecia em grande número de casas nobres, êle e a prima eram obrigados a exe­cutar os mínimos serviços caseiros.

Durante quatro dias, os problemas domésticos foram solucionados satisfatoriamente, apesar dos sacrifícios que se impunham; no quinto dia porém, Madalena experimentou os primeiros sintomas do mal devastador. Aflitíssima, comunicou ao primo o seu penoso mal-estar, O rapaz inquietou-se viva-mente. Dispôs o apartamento contíguo ao do en­fêrmo, buscou tranqüilizá-la, afiançando que, sôzi­nho, se incumbiria dos trabalhos da casa. Ela aceitou o oferecimento, de olhos molhados. Havia dois dias que experimentava impressões orgânicas muito angustiosas e desejava repousar; todavia, abstivera-se de falar-lhe a respeito, obediente ao imperativo de suas tarefas pesadíssimas. O rapaz, entretanto, não só por cavalheirismo como pelo muito amor que lhe consagrava, consolou-a com as melhores mostras de carinho, que ela levou àconta de fraternidade sem mácula.

—        Antero — disse preocupada —, não ignora­mos a gravidade do estado de papai e não sei se chegarei ao mesmo estado...

—        Não te acabrunhes — murmurou o rapaz solícito —, havemos de vencer a batalha. Tenhamos esperança nos dias que hão de vir.

—        Tenho orado com fervor e não perderei a fé em Deus — acentuou a espôsa de Cirilo, convicta.

       — A Providência Divina saberá a razão de nossas provas agudas, e somos bastante pequeninos para discutir os designios do Pai Celestial. Duas coisas, porém, te peço...

Nesse ínterim, a voz se lhe embargara em soluços.

—        Dize, Madalena! que não faria por ti? —exclamou o primo ansiando por confortá-la com tôda a ternura que lhe vibrava nalma.

—        Não me deixes à mercê dos carregadores de doentes caso a febre me transtorne os sentidos —disse comovidamente —, pois ignoro o que seria de mim na confusão das casas de assistência pú­blica; e o outro favor é que mandes um emissário a Blois, chamando o tio Jaques, de minha parte.

       — Nunca te levarão para a rua do Forno —disse o rapaz com firmeza. — Ainda que eu também venha a adoecer, haveremos de encontrar um recurso. Quanto ao portador para Blois, é possível que não encontremos um mensageiro que vá e volte a. Paris, mas poderei enviar uma carta ao profes­sor Jaques, por algum fugitivo conhecido.

Madalena enxugou as lágrimas num gesto tris­te e sentenciou:

—        Deus recompensará teus sacrifícios frater­nais. Quanto a despesas, espero que Cirilo regresse da América, mais breve do que penso, e então...

O         rapaz cortou-lhe a palavra, murmurando:

—        Não fales em despesas. O dinheiro não deve entrar nos problemas condizentes à nossa paz e saúde.

Naquele mesmo dia, Ântero de Oviedo encon­trou alguém que abandonava a cidade, rumo de Blois, e a carta a Jaques Davenport foi encami­nhada com boa remuneração e especial carinho.

Dai por diante o sobrinho de D. Inácio multi­plicou as energias próprias para atender as necessidades dos dois enfermos, que lhe recebiam as demonstrações afetivas com profundo reconheci­mento no olhar enternecido.

O         padre Bourget, em suas visitas periódicas, meneava negativamente a cabeça diante do velho fidalgo, cujo estado se agravava com prenúncios de morte. Na segunda visita à Madalena, o generoso sacerdote chamou o rapaz, ao despedir-se, e disse:

—        Meu filho, todos os meus deveres nesta ca­lamidade pública têm sido amargos e dolorosos. Eis que devo, agora, cumprir mais um.

Antero fêz-se lívido. A solidão angustiava-lhe o espírito. A princípio, esperou que Jaques ou Su­sana aparecessem dispostos a conduzir a enfêrma para Blois, mas oito dias já haviam passado da expedição da carta. Atormentado, procurou inutil­mente as palavras com que pudesse alinhavar uma resposta ao sacerdote, quando êste, notando-lhe a palidez, prosseguiu:

—        Não te deixes abater pelo desânimo. Deus conhece os filhos que o amam na tempestade de amarguras e é preciso amar o Todo-Poderoso, aca­tando-lhe a vontade justa. Apesar de nossos esfor­ços, meu filho, não creio que teu velho tio possa viver mais de dois dias. Quanto à jovem, somente se salvará porque Deus concede fôrças, que não compreendemos, aos corações maternos; seu estado, porém, é melindroso e difícil. Tenho quase certeza de que ela se curará da moléstia terrível, mas não sabemos quando poderá levantar-se da cama.

Antero de Oviedo sentiu funda revolta naquele penoso instante da vida. Embora reconhecido à boa vontade do sacerdote, experimentou um desejo forte de enxotá-lo com violência. Não haveria outras novas senão aquelas de angustiados vaticínios? Em outra ocasião, se estivesse diante de um médico, dir-lhe-ia pesados impropérios; mas a verdade é que ali estava rodeado pela varíola sinistra, sem ami­gos, sem ninguém. Mesmo assim, não disfarçou um gesto de profundo rancor e falou revoltado:

—        Está bem, padre Bourget. Fico ciente de que o senhor nada mais tem a fazer aqui.

O         velho ministro da Igreja contemplou o rapaz, compadecidamente, e saiu.

Quando se viu novamente só, o moço espa­nhol entrou em funda meditação e chorou de­sesperado. Tinha dinheiro, dispunha de relações prestigiosas, no entanto, via-se privado das coisas mínimas da vida. De um lado, o velho tio, a quem considerava como pai, a franquear os umbrais da morte, sem o confôrto de um médico à cabeceira; de outro lado, a prima muito amada, a eleita da sua juventude, na febre intensa que a fazia de­lirar, delindo-lhe o coração. D. Margarida, ami­ga maternal de sua infância risonha, partira para sempre. Os servos da casa haviam saído, um a um, aos golpes da impiedosa enfermidade. D. Inácio estava moribundo, conforme o afirmava o pa­dre Bourget. E se Madalena também partisse para as regiões ignoradas do sepulcro? A êsse pensa­mento, um frio cortante lhe dominou o coração. Ela era sua derradeira esperança. Por que suportar a permanência na França, senão por ela? A Espanha tinha outros muitos encantos que o chamavam com insistência. Entretanto, sentia quase prazer nos trabalhos pesados de Paris e Versalhes, porque isso lhe dava a oportunidade de vê-la todos os dias. Não fôsse a ternura da mãe adotiva e teria aniqui­lado Cirilo Davenport, antes que êle a desposasse. Tolerara o ato de suas núpcias com o rapaz irlan­dês, mas nunca renunciaria aos seus propósitos. Por último, perseverava em afrontar a situação perigosa da capital francesa, tão somente por seu amor. No íntimo reconhecia-se capaz de todos os sacrifícios por D. Inácio; entretanto, verificava que ainda isso seria por causa de Madalena. A idéia de que ela pudesse sucumbir no torvelinho das pro­vações amargas, amedrontava-o tenazmente. O co­ração, ferido pelos cuidados, começou a perturbar-lhe os raciocínios. Passou a pensar fortemente na situação de Cirilo. Era possível que o rival nunca mais regressasse da América distante. Se tal acon­tecesse, consagrar-se-ia ao único tesouro da sua vida. Buscaria cativar a prima pelas maneiras ge­nerosas. Acolheria o fruto do seu enlace ao outro com desvelos paternais. E, quem sabe? Talvez Madalena lhe reconhecesse a dedicação e cedesse aos seus rogos. Os maus pensamentos rondaram-lhe a mente. E se fugisse com ela para a colônia do sul, seduzindo-a com a promessa de encontrarem o marido na América do Norte? Não faltariam pretextos para isso, principalmente depois que Dom Inácio Vilamil expirasse. O único empecilho a con­siderar, na realização do execrando projeto, seria a presença de Jaques Davenport, mas quem podia saber o que acontecia lá em Blois? Antero de Oviedo passou as mãos pela fronte como se quisesse expulsar os planos criminosos que o assediavam.

Diàriamente quase, atendia aos carregadores de variolosos, que vinham à cata de informações, atraidos pelo sinal fatídico:

— Aqui não há mais enfermos — declarava invariàvelmente.

Certa ocasião, todavia, um deles interrogou:

— Por que, então, teima em permanecer numa casa tão triste?

— Tenho razões para proceder assim sen­tenciou sem se dar por achado.

As lutas prosseguiam acesas, mas, na segunda noite após as declarações do padre Bourget, Antero tinha confirmados os dolorosos prognósticos. Cor­rido o dia de longos sofrimentos, o velho tio caiu em funda prostração, agonizando aos poucos. De quando em quando, Ântero corria ao quarto de Madalena e voltava para junto do moribundo, que, ao romper dalva, entregou a alma ao Criador. Absolutamente só, tomou as providências imedia­tas, aguardando o clarear do dia para atender a outras que se tornavam imprescindíveis. Doloroso pensamento acudiu-lhe ao cérebro cansado. Dei­xaria Madalena sôzinha, febril, qUase inconsciente de si própria? E os enfermeiros abomináveis? Consolou-se com a idéia de que sempre vinham àtarde, e que sairia a providenciar sepultura mais ou menos condigna para D. Inácio, pela manhã, no Cemitério dos Inocentes. Deixaria a porta bem fechada. Tomaria providências à pressa e, antes do crepúsculo, tudo estaria liquidado para que con­tinuasse enfrentando a nova fase, da penosa si­tuação.

Mergulhado nessas dolorosas cogitações, Ân­tero repousou alguns minutos.

 

A carta do sobrinho de D. Inácio chegou às mãos do destinatário, em Blois, três dias depois de escrita. O boníssimo educador alarmou-se, em­bora estivesse igualmente de cama, atacado pela mesma enfermidade, pôsto que, de forma assaz benigna. Impossibilitado de atender ao chamado, consultou Susana a propósito e a jovem acedeu corajosamente:

—        Logo que o senhor esteja melhor — disse resoluta — irei a Paris para atender às ocorrências.

— Mas não tens qualquer receio? — pergun­tou o genitor bondosamente — porque, nessa hipó­tese, poderei enviar algum amigo daqui, já provado pela moléstia e indene de contágio.

— Não, meu pai — insistiu a jovem, afetando generosidade —, êstes casos devem ser resolvidos pelos próprios parentes. Levarei Pierre comigo e é quanto basta. Nossa vizinha conhece remédios pre­ventivos de primeira ordem e não devo temer.

Jaques Davenport endereçou à filha um olhar de agradecimento sincero.

Logo que se acentuaram as melhoras do pai, Susana tomou as providências, chamou Pierre, em­pregado de sua inteira confiança e encaminhou-se a Paris, conduzindo no pequeno veículo todos os reduzidos objetos de socorro de que poderia pre­cisar, tanto em remédios como em armas.

À medida que avançava nos caminhos, mais se espantava com a mendicância e a desolação de morte espalhadas por tôda parte. Não obstante o esfôrço despendido, foi obrigada a pernoitar num dos postos de muda, próximo da cidade, para chegar às portas parisienses apenas no dia seguinte de manhã.

Em frente à casa dos Vilamil, em Santo Hono­rato, Susana entregou as rédeas ao companheiro e encaminhou-se à porta assinalada, algo comovida. Bateu inutilmente. Que teria acontecido? Forcejou debalde a porta, que parecia hermeticamente fe­chada. Não se conformou com isso. Deu alguns passos buscando o ângulo lateral da casa, que dava para o jardim. Preocupada, empregou tôda a fôrça na janela mais próxima, até que esta cedeu, ofere­cendo fácil passagem. Logo de entrada, pareceu-lhe tudo deserto e tomou-se de assombro, embora a coragem de que dava testemunho. Conhecia o pe­rigo que enfrentava, mas não vacilou. Depois de alguns passos, entrou no quarto onde o cadáver do velho fidalgo jazia deformado sôbre o leito. Não pôde evitar um gesto de espanto. Tinha a impres­são de haver ingressado num túmulo. Conteve as emoções mais fortes e avançou para o quarto con­tíguo, ocupado por Madalena. A situação da espôsa de Cirilo impressionou-a fundamente. A filha de D. Inâcio repousava num sono cheio de abatimento singular. Não obstante a fase eruptiva, quando se atenuam os dolorosos fenômenos do período de incubação, Madalena Vilamil estava prostradíssima, sob a pressão de altíssima febre. As môscas terrí­veis pousavam-lhe no rosto lacerado, sem que ela reagisse, de leve. Susana inclinou-se para a rival, profundamente impressionada. Onde estaria Ântero de Oviedo? Intuitivamente, chegou à conclusão de que o rapaz estaria no Cemitério dos Inocentes, providenciando sepultura digna para D. Inácio. A desolação da casa inquietava-lhe o espírito. Sentia necessidade de alguém para repartir a aflição pró­pria. Voltou à janela e dirigiu-se à rua, desejosa de consultar a vizinhança.

—        Pierre — disse ao servo, resoluta —, tenho necesidade de colhêr informes nas casas próximas e recomendo-te muito cuidado na vigilância do ani­mal e também desta morada. Logo que chegue alguém, busca-me sem tardança.

Enquanto o serviçal fazia um sinal de obe­diência, Susana bateu os arredores, mas tôdas as portas estavam silenciosas e impenetráveis. A epi­demia alastrara o terror, despovoara os lares e, além disso, os moradores de Paris não conheciam a camaradagem fraternal da pacata Blois. A moça, porém, não desanimava: esmurrava portas, cha­mava, insistia. Ao parar à porta de uma casa mais distante, prosseguindo na diligência inútil, eis que surge Pierre, ofegante, chamando-a:

— Apressai-vos porque um grupo de cinco ho­mens, depois de observar o sinal vermelho, arrom­bou a porta, penetrando na casa.

Susana retrocedeu aos saltos. Algumas car­riolas fechadas permaneciam na via pública. Num ápice compreendeu que os execráveis veículos cole­tavam os mortos da manhã.

Grandemente revoltada pela desenvoltura com que agia a turma de socorro, a prima de Cirilo penetrou afoitamente no interior.

Dois homens musculosos começavam a deslo­car o cadáver de D. Inácio Vilamil, enquanto três outros tentavam erguer Madalena, desalojando-a do leito.

— Que é isto? — bradou enérgica e estridente.

Os invasores tremeram ouvindo-lhe a voz im­pulsiva. Imediatamente se detiveram na lúgubre tarefa e acercaram-se da jovem, como se atendes­sem a uma voz de comando. Num relance d’olhos, Susana percebeu que eram operários rudes e avi­nhados.

—        Senhora — exclamou um que parecia o chefe da turma —, por ordem do Preboste, auxilia­mos a remoção e sepultamento dos cadáveres...

—        Mas estão enterrando pessoas vivas em Paris?

A essa pergunta formulada em tom enérgico, os míseros encarregados dos serviços fúnebres en­treolharam-se receosos.

—        Mas aqui há dois mortos — respondeu o interpelado timidamente -

Susana nesse instante foi assaltada por um pensamento sinistro. E se permitisse que a rival detestada seguisse como cadáver nas miseráveis ambulâncias? Não seria um modo prático de se desvencilhar de tão odiada inimiga? Madalena es­tava coberta de môscas, sem a mais leve reação. Seu corpo, abrasado pela febre, parecia insensível. Não teria testemunhas do ato trágico do seu negro atentado. Mas a idéia do crime lhe repugnou.

Lutou contra a tentação dos instintos inferio­res e bradou em voz alta, estentórica, como se quisesse afugentar o gênio perverso que pretendia empolgá-la.

— Para trás, corvos malvados! Não vêdes, então, que esta mulher está viva?

Essa exprobração foi gritada de maneira tão violenta que os infelizes tremeram, humilhados.

— Cumpríamos ordens, senhora — aventurou o chefe titubeante —; já que reagis contra nós...

— Rua! todos... — bradou Susana indignada — esta casa tem dono. Não arredarão daqui uma palha. Se retirarem um objeto, mandarei encer­rá-los na Bastilha.

Quando ouviram falar no cárcere e diante da­quela resistência imprevista, ainda não encontrada em outros lares, onde as famílias pareciam ansiosas por se libertarem dos cadáveres e dos doentes gra­ves, a qualquer preço, os cinco trabalhadores re­gressaram à via pública, retomando com timidez a lúgubre tarefa.

Uma vez só, a filha de Jaques entendeu que não devia ficar inativa. A idéia de que poderia ter afastado Madalena do seu caminho, perseguia-a agora, horrivelmente. Se a filha de D. Inácio ti­vesse morrido, estaria livre para conquistar Cirilo, na América. Convenceria o pai de que deveriam partir para a colônia distante e buscaria substituir a rival junto do primo, que não conseguiu esquecer. Experimentando imenso receio das idéias que lhe surgiam no cérebro com fortes apelos ao crime, refletiu que era preciso encontrar Antero para as­sentar as providências que a situação exigia. Se o rapaz não tivesse fugido de Paris, estaria, por certo, no Cemitério dos Inocentes. Era a única explicação que lhe ocorria para justificar sua ausência naquele ambiente de dor infinita. Urgia encontrá-lo. Poderia enviar Pierre ao seu encalço, mas o servo não o conhecia. Deliberou procurá-lo pessoalmente.

Ordenando ao rude auxiliar se conservasse de guarda à porta dos Vilamil, de arma em punho, Susana concluiu:

— Não te afastes daqui para coisa alguma.

E depois de dar os sinais de Antero como a única pessoa autorizada a transpor aquela porta, tomou a viatura e fustigou o animal a galope, em direção ao Cemitério dos Inocentes.

A prima de Cirilo não se enganava. Logo na portaria encontrou o sobrinho de D. Inácio, que esperava a vez de ser atendido por gordo abade, chegado de poucos instantes.

Antero acolheu a jovem com infinita alegria. Era alguém que chegava para compartilhar de seus trabalhos e angústias. Susana contou-lhe o feito terrível da manhã e, observando-lhe a inquietação justa, informou que a porta de entrada estava agora sob a guarda de um servidor fiel. O rapaz relatava as lutas e amarguras experimentadas, até que o eclesiástico, velhinho amável e bonacheirão, de rosto marcado pela varíola impiedosa, o chamou para anotar as devidas declarações.

Aproximara-se.

— Muito trabalho, reverendo? — perguntou a moça desejando amenizar a triste situação.

— Ah! sim, minha filha — aqui estou a postos há três longos dias, sem companheiros que me subs­tituam. Ainda bem que já sofri a pérfida enfer­midade que nos tem castigado com tanto rigor.

E o abade Montreuil abriu um caderno de notas provisórias. Susana contemplou curiosamen­te a nominata das últimas pessoas sepultadas. En­tre os mortos da véspera, leu um nome que cons­tituía a seus olhos impressionante coincidência:

“Madalena Villar, espanhola, proceden­te do arrabalde de Santo Honorato, com vinte anos de idade.”

Susana não mais ouviu as declarações de An­tero ao superintendente do grande estabelecimento funerário, para só pensar nas idéias extravagantes que lhe acudiam ao cérebro atormentado. Defen­dera a rival contra os carregadores infames, mas também não queria perder a sua oportunidade em renovar a grande tentativa de suas paixões inferio­res. Reagira ao impulso criminoso de incluir a espôsa de Cirilo entre os cadáveres destinados a vala comum e agora estava Considerando que se o plano constituísse uma falta, esta não seria tão grave aos seus olhos, O nome da morta, ali regis­trado fortuitamente, sugeria-lhe um rol de projetos nefandos. A rival poderia passar, doravante, por morta, se Antero de Oviedo aderisse aos seus pro­positos. Bastaria modificar o nome Villar para Vilamil. Além disso, a seu ver, no quadro da sua paixão mesquinha, a providência seria uma retifi­cação do destino. Jamais poderia amar outro ho­mem a não ser Cirilo Davenport. O sobrinho de D. Inácio Vilamil, por sua vez, segundo lhe con­fessara, jamais se uniria a outra mulher que não fôsse Madalena. A idéia a estonteava. O veneno sutil da tentação empolgou-a por completo. Esperou, ansiosa, que o rapaz terminasse o diálogo com o abade Montreuil e, quando êle se dispunha a regressar, pediu-lhe um minuto de atenção para assunto de grande importância para ambos, O moço atendeu, curioso e solícito.

Afastando-se alguns passos, até à sombra de velho muro, Susana começou discretamente:

- Nunca pensei tanto na sua situação, como agora: D. Margarida já não é dêste mundo, seu tio acaba igualmente de partir e Madalena exige os seus cuidados. Não considera, porventura, as lutas que o esperam? Desde que me confiou seus padecimentos íntimos em troca da minha con­fiança fraternal, reflito na insatisfação da sua alma generosa.

—        Sim, tudo isso é verdade — confirmou êle num suspiro.

—        Esta situação me impressiona e comove, porque suas aspirações irrealizadas são gêmeas das minhas. Sofro, ainda mais, porque estou certa de que Cirilo se casou com Madalena mais por um capricho. Meu primo não poderá amá-la, nunca, e reconhecendo tudo isso vejo-o, por outro lado, in­capaz de eleger outra mulher.

A jovem de Blois ia percebendo o profundo efeito das suas palavras. Mostrando-se sumamente reconhecido ao seu cuidado, o sobrinho de D. má-cio acrescentou:

—        Estamos de perfeito acôrdo.

      - Ela aproveitou a brecha e lançou a grande interrogação:

—        Não será justo retificar tão avaro destino por nossas próprias mãos?

O        rapaz que, há dois dias, vinha refletindo no melhor meio de subtrair Madalena ao marido emigrado, embora a luta íntima por se desembara­çar de semelhante sugestão, perguntou atônito:

—        Retificar... mas como?

—        Não será tão difícil — murmurou ofegante, a jovem.

      E passou a expor o plano que lhe acudia ao cérebro apaixonado. Pagariam ao abade Montreuil o trabalho de emendar a grafia do nome da enter­rada da véspera. Madalena Vilamil e não Villar, para todos os efeitos. Identificariam o sepulcro com adornos preciosos, antes que eventuais interes­sados pretendessem descobrir qualquer engano. Em casa, contudo, tratariam a enfêrma com desvelado carinho e logo que melhorasse notificá-la-iam por carta, que ela, Susana, se incumbiria de expedir em Blois, que Cirilo havia perecido em naufrágio, antes de chegar às terras americanas. Natural­mente, grande desgôsto lhe adviria, mas Antero buscaria distraí-la levando-a para a Espanha, ou mesmo para a colônia sul-americana, onde já tinha parentes. Ela, Susana, compeliria o velho pai a partir e procuraria renovar seus ideais amorosos junto do homem amado, enquanto êle, Ântero, con­quistaria a prima acenando-lhe com risonho porvir.

O         moço castelhano estava enlevado. Afinal de contas, não era isso mesmo que tentara, em vão, descobrir? Procurara ardentemente uma fórmula sutil, que sômente agora lhe aparecia por inspira­ção de Susana, ali, junto dos sepulcros, onde não havia olhos nem ouvidos humanos capazes de reco­lher o segrêdo terrível. Olhar fixo, abstraído de quaisquer outras cogitações, êle experimentava a renovação dos recalcados impulsos. A sugestão dava-lhe a vitória. Sentiria prazer em comunicar a Madalena que o marido se abismara no torvelinho das águas insondáveis. Levá-la-ia à Espanha e, de lá, se possível, demandariam a América do Sul, cheia de lendas fantásticas. Daria largas ao espí­rito aventureiro que lhe palpitava nas veias. A prima, em breve, se escapasse à varíola, teria uma criancinha necessitada de proteção paternal. Dar-lhe-ia essa proteção. E aos seus olhos afigurava-se incrível que Madalena lhe repelisse a afeição em tão duras circunstâncias. A filha de Jaques acom­panhava-lhe a expressão fisionômica, visivelmente satisfeita.

Como a despertar de um sonho, o moço acentuou:

—        Magnífica inspiração! Há dois dias buscava, em vão, um meio de reconstituir minha tranqüili­dade. Realizando êsse plano já não serei o mais desgraçado dos homens.

—        Ainda bem! — retrucou a jovem em tom de alegria.

—        Mas... os detalhes? — volveu Ântero an­sioso. — E o servo que te acompanha e lá está à nossa porta?

— Não te incomodes — esclareceu resoluta.

— A titulo de preservar-lhe a saúde, mandarei que me espere no pôsto de muda, próximo de Paris. Quanto ao resto, é muito fácil para nós ambos. Amanhã mesmo aqui voltarei para providenciar um mausoléu adequado a D. Inácio e filha. Logo que Madalena melhore, regressarei a Blois, onde cientificarei a meu pai, do seu falecimento. Sa­bendo quanto êle a estima, convirá que te mudes para algum bairro distante, ou para Versalhes, porque naturalmente desejará visitar-lhe o túmulo e rever a casa onde ela se finou. Um mês depois do meu regresso, escreverei de Blois comunican­do-te, bem como à tua prima, o naufrágio de Círio e a nossa resolução (minha e de papai) de seguir para a América. Dêste modo, a meu ver, tudo ficará bem concluído.

Antero mal escondia a grande surprêsa. A jovem arrazoava tão clara e naturalmente, que as providências mais se assemelhavam a velho projeto apenas dependente de oportuna aplicação. De qual­quer modo, entretanto, a satisfação do moço es­panhol era enorme e intraduzível. Depois do solene juramento de sigilo perpétuo, dirigiram-se ao ora­tório do abade superintendente, a quem Susana falou nestes têrmos:

—        Reverendo Montreuil, desejamos um grande obséquio da sua parte.

—        Dizei sem receio — respondeu o interpelado com benevolente sorriso.

Antero parecia hesitante, a jovem prosseguiu:

—        Por nossa infelicidade, perdemos ao mesmo tempo um tio e uma prima e desejaríamos que seus túmulos ficassem fronteiros.

—        Isso não é difícil — retrucou o eclesiástico —, mas, como talvez não ignorem, as autoridades religiosas ordenaram a abertura de certa zona do cemitério aos que possam concorrer para as nossas obras pias com os óbolos mais vultosos. Assim sendo, poderemos atender ao vosso desejo, mas, isso custará mais cinqüenta francos.

—.       Pagaremos de bom grado — declarou o sobrinho de D. Inácio, mais animado.

—        Agora, reverendo, ainda um outro favor —acrescentou a filha de Jaques resolutamente —, pre­cisamos ver o local em que foi sepultada Madalena Vilamil, nossa prima, na data de ontem.

O         abade tomou maquinalmente o caderno e perguntou:

—        Madalena Vilar?

—        Há evidente equívoco — interpôs a moça acompanhando a leitura —; o nome de família é Vilamil. Rogo-lhe o obséquio de uma corrigenda.

O         superintendente esboçou um sorriso e ex­plicou:

—        A retificação, porém, custa mais cinqüenta francos. Não vos admireis, filhos, a caridade da Igreja assim exige.

—        Do melhor grado — redargüiu Susana sem vacilação.

O         abade Montreuil retificou o nome, mas Su­sana ainda não se dava por satisfeita.

—        Agora — disse ela com naturalidade — de­sejo uma certidão, ou cópia dos registros.

O         reverendo não teve dificuldade em atender ao novo pedido, depois de exigir mais umas dezenas de francos.

A prima de Cirilo, não obstante a paisagem fú­nebre do momento, não dissimulava a satisfação que lhe ia nalma. Ao retirar-se, depôs nas mãos do superintendente surprêso a quantia de cem escudos, assim dobrando as exigências da sua tabela.

O         sepulcro destinado ao fidalgo espanhol foi escolhido junto ao presumido túmulo da filha. Con­sumara-se o passo decisivo para a dolorosa modi­ficação do destino de nossas personagens.

Com energia incrível, Susana cooperou em tôdas as providências necessárias ao sepultamento de D. Inácio, valendo-se de Pierre nesse sentido. Em seguida, mandou que o servo a esperasse no pôsto de muda, a poucos quilômetros de Paris e auxiliou Antero até que Madalena convalescesse. Para o sobrinho dos Vilamil, essa colaboração foi preciosa, permitindo-lhe reparar a fadiga imensa. Desejosa de captar-lhe uma simpatia cada vez mais profunda, a jovem irlandesa tudo fêz pelas melho­ras da enfêrma, esforços êsses que Antero acom­panhava com um sorriso de sincero reconheci­mento.

Ao fim de uma semana, Madalena estava em vias de franca convalescença. A morte do genitor causara-lhe profunda consternação, mas a espe­rança de reunir-se, em breve, ao espôso, renovava-lhe as energias.

Ante suas perguntas afetuosas, Susana expli­cava que o pai não pudera vir a Paris, por ter sido igualmente empestado, mas haveria de o fazer, tão logo lhe permitissem as fôrças restauradas.

—        E Cirilo? — perguntou, logo que voltara a si do estado delirante — não há em Blois notícias de sua chegada à América?

—        Por enquanto, nada de positivo — escla­recia a outra.

Mas, ensaiando a trama do criminoso drama, acentuava:

—        Amigos recentemente chegados do Ulster afirmaram-nos que duas embarcações do capitão Clínton haviam naufragado no litoral da colônia distante, mas, até agora, temos esperado, ansiosa­mente, informes detalhados do sinistrô.

A pobre senhora considerou, muito pálida:

—        Como isso me assusta! Espero em Deus nada haja acontecido de mal, pois de há muitos meses venho entregando Cirilo à proteção da Vir­gem Santíssima.

—        Também eu — ajuntou a jovem — estou certa de que a Providência Divina não nos esque­cera.

 

Decorrida a semana que assinalara as melhoras promissoras de Madalena Vilamil, entre conversa­ções afetuosas no domínio das palavras, Susana Duchesne Davenport regressou ao lar, levando ao pai a noticia das dolorosas ocorrências.

O         generoso Jaques teve um profundo abalo. Ao saber que os Vilamil haviam desaparecido em circunstâncias tão trágicas, sentiu-se inconsolável. Revia ainda, na imaginação, a resignação silenciosa de Madalena por ocasião da morte de D. Margarida e lembrava, com espanto, o modo pelo qual insistira para que ela o acompanhasse a Blois. Tinha a im­pressão de ouvir as negativas reiteradas de D. Inácio e sua oposição irredutível ao convite afetuoso. Concluía, então, que, certamente, interferiram nos fatos os ascendentes da Vontade Divina, que lhe não eram dado conhecer ou investigar. Durante um mês, não deixou um só dia de confugir-se em dolo­rosas recordações. E estava, na verdade, exausto. Enfraquecido pela enfermidade cruel, a convales­cença parecia prolongar-se indefinidamente, pela sua invariável tristeza. À retina dos olhos fatiga­dos, desdobrava-se a fila dos alunos mortos. Muitas crianças de Blois haviam sucumbido, nada obstante a relativa benignidade do mal, nos ambientes cam­pesinos. O bondoso educador pensava na reaber­tura das aulas, grandemente apreensivo. Um dia a filha se aproximou do seu banco, entre as árvo­res farfalhantes do parque, e dirigiu-lhe a palavra comovidamente:

—        Papai, tudo tenho feito para que seus sofri­mentos sejam atenuados e suas lágrimas menos abundantes.

—        Ah! minha filha, não te incomodes por mim — exclamou em tom de suprema resignação -; as lágrimas que menos dilaceram a alma devem ser as que nos caem dos olhos aliviando o coração.

—        Hoje, porém, noto que o senhor está mais triste — acrescentou afetiva.

—        A resposta do Sr. Ântero de Oviedo, des­crevendo-me os derradeiros sofrimentos de Mada­lena, muito me comoveu. A pobrezinha deveria ter padecido muito, antes de entregar a alma a Deus. De qualquer modo, porém, essa carta veio encerrar o capítulo das minhas preocupações, pois nutria certas dúvidas relativamente à criança. Agora, fico sabendo que a primeira flor do matrimônio de Cirilo não chegou a desabrochar. E enquanto êle enxugava uma lágrima, Susana acrescentava:

— Meu pai, nunca experimentei tanta angústia em França, como agora. Em cada canto tenho a impressão de contemplar fantasmas de amarguras a perseguirem-nos sem tréguas. Não lhe parece razoável a idéia de nos juntarmos aos nossos pa­rentes lá na América? Aqui, em Blois, desapare­ceram com a peste devastadora os alunos que mais o compreendiam. Carolina parece não se lembrar mais de nós, e quanto aos laços que prendiam Cirilo a Paris, restam apenas dois túmulos tristes no Cemitério dos Inocentes.

Jaques Davenport fitou a filha lacrimosa e exclamou:

— Tens razão.

Olhou o recinto enorme e silencioso, pareceu escutar atento o sussurro das frondes balouçadas pelo vento e falou:

— Quando Cirilo partiu, outros eram meus planos, mas agora meu velho parque também está morto. O frio mais doloroso é o da desilusão e da saudade, minha filha...

Susana não insistiu. Compreendeu que aquelas palavras equivaliam a compromisso firmado para o futuro. Dai a dois meses, pai e filha realizavam uma romaria ao túmulo de Madalena. Providenciaram para que fôssem as sepulturas assinaladas por lousas preciosas. Sôbre a de D. Inácio o professor de Blois mandou colocar uma cruz; mas, identifi­cando a campa onde supunha descansar aquela a quem amara como filha, elegeu para ornamentá-la formosa figura de anjo trazendo na destra um róseo coração atravessado por um punhal, igno­rando a extensão do grandioso símbolo. Também mandaram gravar epitáfios de saudade e fé, em frases afetuosas. Jaques fêz ainda questão de vi­sitar a casa de Santo Honorato, onde se haviam desenrolado os lutuosos acontecimentos. Encon­trando-a fechada, indagou da vizinhança relativa­mente aos criados, de vez que Antero de Oviedo, na missiva que lhe enviara para Blois, datada de Versalhes, participava a decisão de regressar à Espanha dentro de poucos dias. Fabiana havia falecido, mas a outra serva e o lacaio haviam con­seguido escapar à morte. O professor também procurou visitá-los na residência de Santa Genoveva, onde trabalhavam, sendo que ambos se diziam infor­mados, por Antero, do falecimento da jovem senhora e do velho patrão, cuja perda recordavam chorosos.

 

Em Paris, após o regresso de Susana para Blois, a situação continuou muito mais triste e estranha para Madalena, incapaz de avaliar tôda a trama dolorosa que lhe negrejava o destino.

Seu estado geral melhorou e, no entanto, se­gundo previra o padre Bourget, os pés lhe ficaram inertes, quase paralíticos. Enquanto se mantinha imóvel, as dores se atreguavam; mas, tentasse soerguer-se e andar, logo reapareciam as sensações estranhas, forçando-a a sentar-se no leito, O primo, porém, desfazia-se em atenções e desvelos. Tão logo voltou Susana à casa paterna, êle providenciou a mudança para Versalhes, com assentimento da enfêrma, ela mesma ansiosa por outro ambiente e crente de que isso lhe atenuaria o mal-estar orgânico. O sobrinho de D. Inácio ainda notificou às relações mais íntimas dos Vilamil — como, por exemplo, as famílias de Colete e Cecília — o passa­mento do velho fidalgo e da filha, acrescentando informações sôbre a situação dos respectivos tú­mulos no Cemitério dos Inocentes. Aos vizinhos fêz constar os mesmos informes com mensagens ver­bais aos velhos servos, caso escapassem dos mar­tírios da rua do Forno.

Asseguradas tôdas as providências de confor­midade com a sua argúcia psicológica, tratou da mudança para Versalhes, efetuando-a alta noite e valendo-se da confusão ainda reinante no bairro desorganizado pelas conseqüências da epidemia de­vastadora. Ao raiar de um lindo dia, Antero chegou com a convalescente à pequena cidade da Côrte, onde se instalou numa casa confortável dos arre­dores.

A necessidade de uma serviçal de confiança era o que mais se impunha. Um amigo indicou-lhe uma órfã castelhana, de nome Dolores, que havia perdido a mãe, única pessoa de família que lhe restava na vida, entre os mortos de Vincennes. A pobre criatura fôra apanhada semimorta, na estrada de Evreux, quando tentava fugir dos tristes quadros parisienses. Estava quase restabelecida e podia prestar ótimos serviços. O sobrinho de Dom Inácio procurou-a e de fato encontrou nessa jovem de vinte anos, de tez amorenada — pois descendia de pai outrora escravo —, uma companheira abne­gada para Madalena, que a recebeu de braços aber­tos, num verdadeiro transporte de consolação e de alegria.

Sob o guante das provações que a sitiavam, a espôsa de Cirilo não conseguia dissimular a estra­nheza que lhe causava a falta de notícias do pro­fessor de Blois. Debalde escrevera-lhe duas longas cartas, mal podendo imaginar que haviam de ser consumidas pelo primo, encarregado de as expedir, e assim se mantinha de coração pressago.

Ao fim de algum tempo, nasceu-lhe a filhinha sob a assistência carinhosa de Dolores, que se re­velou irmã dedicada e fiel, nas mínimas circuns­tâncias, O advento encheu a casa de brando confôrto e Madalena, guardando a recém-nascida nos braços, com infinito carinho, chamou-lhe Alcione pela primeira vez. Longa missiva foi escrita a Jaques e entregue ao primo, mas êste, que a reduziria a cinzas instantes depois, já se encontrava sumamente preocupado com a demora da mensa­gem de Blois, anunciando o suposto desaparecimento de Cirilo.

Sômente um mês depois do nascimento da me­nina, chegava a Versalhes longa carta de Susana, participando, em nome de Jaques, o suposto falecimento de Cirilo Davenport. A missiva des­dobrava-se em considerações dolorosas, ao mesmo tempo que procurava confortar a viúva na sua grande dor. A jovem comunicava igualmente que havia resolvido mudar-se para a Irlanda, onde o pai desejava juntar-se a alguns parentes e lá esperar o seu têrmo de vida. Prometia escrever-lhe futuramente, dando informes mais minuciosos da nova situação.

Antero, fingidamente comovido, leu a carta àpobre moça — que não desejava outra coisa senão morrer, ali mesmo, na imensidade da sua desdita. Quase paralítica, Madalena Vilamil era obrigada a chorar diante do primo e de Dolores, que, em vão, procuravam consolá-la.

Sentia-se só e desamparada no mundo. Cirilo era a sua derradeira esperança na Terra. Coração sufocado de angústia, rememorou a infância, a pri­meira juventude cheia de cuidados por sua mãe e lembrou a figura do mendigo de Granada, que lhe predissera dissabores e amarguras no porvir. Es­tava doente, sem o arrimo afetuoso de ninguém, sentia-se a mais desditosa das criaturas. Debalde a nova serva rodeou-a de gentilezas carinhosas.

À noite, Antero aproximou-se fundamente sen­sibilizado e falou-lhe com brandura:

—        Madalena, nem tudo está perdido.

—        Nada mais me resta — murmurou entre lágrimas. — Tenho lutado corajosamente contra a adversidade, mas agora...

O         primo sentou-se ao seu lado e continuou:

— És moça e Deus não te negará saúde para reconquistares a felicidade que parece destruída. Poderás contar comigo em tôdas as circunstâncias. Também sou um homem e não me faltam energias para vencer nas lutas mais ásperas.

A prima contemplou-o através do véu de pran­to, para verificar a diferença de expressão magné­tica daquelas palavras em confronto com as vivas recordações do espôso. Cirilo também lhe falava assim, nas horas tristes, mas seus gestos e mesmo a entonação da voz eram profundamente diversos. Num instante, compreendeu até onde Antero dese­java chegar, reconhecendo que poderia estimá-lo como a um irmão; jamais, porém, poderia aceitar-lhe o velho sonho conjugal, de outros tempos.

—        Não duvido da sua amizade valiosa — es­clareceu a suposta viúva com delicadeza fraternal

—, mas a morte de Cirilo deixa-me aniquilada para sempre.

—        Mas tens uma filha a exigir teus desvelos — advertiu algo enciumado, apelando para os seus sentimentos de mãe.

Madalena tomou Alcione ao colo, como a bus­car o derradeiro motivo do seu apêgo ao mundo, enquanto o rapaz continuava:

—        Não te deixes abater por impressões transi­tórias. A luz volta do céu, diàriamente, a alegria se renova sempre. A ventura tornará depois dos dias amargosos de adaptação aos novos hábitos. Tenho pensado nas muitas dores que nos provaram na França e também estou ansioso por mudar de vida. Dize uma palavra e levar-te-ei aonde quise­res. Não desejarias ir à nossa Espanha muito amada? Se te prouver, tornaremos a Granada, a fim de recordar nossa infância feliz e descuidosa. Veremos de novo o céu da pátria e Alcione crescerá à sombra do nosso afeto.

       A tais palavras comovedoras, Madalena quis dizer que desejava ir para Blois imediatamente, a fim de ajoelhar-se aos pés de Jaques, imploran­do-lhe não a abandonasse com a criancinha. Suplicar-lhe-ia que a levasse consigo para a Irlanda, depois de confiar-lhe suas grandes mágoas. Pode­ria, então, esperar tranqüilamente a morte, confiando-lhe Alcione como sua própria filha. No en­tanto, lembrou que o educador e Susana haviam sido muito reservados na sua mensagem dolorosa. Ambos deviam conhecer a enormidade da sua an­gústia, os apuros em que se via e, nada obstante, não Lhe haviam mandado sequer um convite para acompanhá-los na Irlanda. Não seria justo per­turbá-los. Além disso, guardava nítidas as remi­niscências da fase difícil, enfrentada por ocasião da longa moléstia de sua mãe. Possivelmente, o tio de Cirilo havia de acolher-lhe as súplicas com a sua bondade inata, mas, ponderou que Susana talvez lhe respondesse como a senhora de Saint­-Medard. Depois de muito refletir, voltou a dizer:

—        Compreendo que minha filha necessita da minha assistência constante e que não devo desa­nimar, mas a verdade é que me sinto desorientada e doente. Como encarar a possibilidade de mudan­ças se nem me posso locomover?

—        E para que servem os carros? — disse êle enternecido — poderemos partir quando quiseres. Alcione terá minha afeição paternal, e quando te restabeleceres hás de reconhecer que a ventura tem modalidades infinitas.

Madalena concentrou-se um instante e de­clarou:

—        De nada valem as mudanças quando pade­cemos de males incuráveis; mas, se fôsse possível, partiria para Connecticut, a fim de colhêr as der­radeiras notícias de Cirilo. A carta de Blois conta que o naufrágio ocorreu nas costas da colônia. Quem sabe se foram salvos alguns náufragos? A família Davenport compunha-se de várias pessoas. Minha sogra parecia uma criatura virtuosa e santa. É bem possível que lá esteja e me receba com carinho. É verdade que não me conhecem, mas tenho as cartas afetuosas que me escreveram de Belfast, elas me identificariam.

Assim discorrendo, tinha os olhos brilhantes nessas evocações.

—        Quem sabe os sobreviventes foram recolhi­dos por mãos piedosas? — prosseguia mais ani­mada — talvez ainda encontre o túmulo de Cirilo para cobri-lo de flores.

Antero, que a ouvia atencioso, obtemperou:

—        De pronto não podemos cogitar de viagem tão longa, mas poderemos regressar à Espanha e lá tentá-la a qualquer tempo. Não faltam por lá embarcações seguras e confortáveis.

—        Rogarei a Deus nos conceda essa graça.

—        E eu não descansarei enquanto não tiveres essa alegria — concluiu o rapaz, revelando extrema dedicação.

Mais algumas palavras fraternais e Madalena ficou só, novamente entregue às suas penosas re­cordações. Apagado o candelabro, a sombra como que lhe aumentava a angústia. Não obstante as afirmativas animadoras do primo, fazia questão de examinar a extensão de sua mágoa inconsolável. Ainda que atingisse a América, que encontrasse o túmulo do marido e conhecesse todos os porme­nores da catástrofe, não deixaria de padecer com a sua viuvez e a orfandade da filha. Se chegasse a abraçar Constância, seria para chorar, sem espe­rança de júbilos novos. Sentia-se doente, abatida, desesperançosa. E se não mais conseguisse cami­nhar com agilidade? Não seria um espectro acorren­tado à cama, um fardo sacrificante para outrem? Em vão, tentava coordenar planos. Por outro lado, não acreditava no absoluto desinterêsse do primo. Cedo ou tarde, êle talvez lhe viesse falar de amor. Não seria temeridade aumentar sua dívida de gra­tidão? Poderia receber-lhe os favores, aceitar-lhe a dedicação, mas, se um dia êle resolvesse exigir o impossível?

A filha de D. Inácio sentia-se morrer. En­quanto se debulhav~ em lágrimas silenciosas, si­nistra idéia se lhe embutiu no cérebro atormentado. Não era preferível morrer? Acariciou a sugestão, alucinada. Viúva, reconhecia-se desamparada e inú­til. Sabia de mulheres que haviam procurado a morte por motivos fúteis. A intenção sinistra avolumava-se-lhe no cérebro. Recordou o vidro minúsculo, no qual o pai sempre guardara um tóxico fulminante. Bastariam algumas gôtas num cálice d’água. Se não fôsse possível arrastar-se alguns passos, pediria a Dolores que lho trouxes­se como simples calmante para conciliar o sono. Dessarte, não seria pesada a ninguém, não preci­saria temer a influência indefinível de Ântero, nem suplicar a piedade dos Davenport.

Prêsa da tentação que a empolgava sutilmente, ia chamar a serva em voz alta a fim de consumar o sinistro desejo, quando Alcione chorou de man­sinho reclamando-lhe os cuidados.

Assustou-se como a despertar de um pesadelo. Fêz um movimento instintivo com os braços para atender a criancinha, mas a destra que se movia na sombra esbarrou no crucifixo que lhe fôra dado por sua mãe, na véspera de morrer. A pequena cruz caiu-lhe sôbre o coração, como se valesse advertência indireta e profunda. Pareceu compreen­der a magnitude do apêlo, pensou sinceramente em Jesus tal como fizera um dia na via pública de Paris, e dispôs-se a confortar a filhinha. Nesse gesto, porém, aguardava-a uma surprêsa ainda mais singular. Alcione tinha os bracinhos em movi­mento, como se a buscasse com ânsia, e tão logo se viu envolvida na sua ternura, agarrou-se-lhe ao pescoço comprimindo-o com as delicadas mãozinhas. A pobre mãe teve a impressão de que a recem­-nascida lhe pedia socorro e buscava um doce refú­gio no seu seio de mãe. Compreendeu a silenciosa mensagem de Deus, no imo do coração. A emoção que lhe timbrava nas fibras mais íntimas, fê-la dobrar-se em lágrimas e beijos sôbre a pequenina.

Assim foi que a filha de D. Inácio, singular-mente comovida, murmurou aos ouvidos de Alcione:

— Não chores mais, filhinha! Jesus compade­ceu-se da minha alma atormentada... Ficarei con­tigo até ao fim!...

 

Na infância de Alcione

Estabelecido o acôrdo de transferência para a Espanha, na expectativa de possível viagem à América do Norte, Antero de Oviedo resolveu os negócios pendentes, conseguindo apurar considerá­veis recursos para encetar vida nova.

Madalena Vilamil, mantendo rigoroso luto, aguardava paciente o curso dos acontecimentos. A dedicação de um médico da Côrte restituira-lhe, em parte, o movimento dos pés, sem poder, contudo, caminhar muitos passos. Mesmo em casa, era, não raro, obrigada a se arrimar em Dolores, sempre que teimava em permanecer de pé por mais tempo. A dor constante dos tornozelos havia desa­parecido e isto já representava grande consôlo. Continuava usando as fomentações receitadas, com enorme esperança de completa cura e encarava a partida, resignadamente, como providência inevi­tável na sua condição de viuvez. Interpelada por Antero, relativamente à cidade espanhola em que preferia residir e tratar-se, até que pudessem visitar a América distante, escolheu Ávila pelo doce atra­tivo que essa Cidade sempre exercera em seu espírito. O sobrinho de D. Inácio concordou, satis­feito, alegando que a região de Castela Velha lhe facultaria bom emprêgo de capitais; e, mais por temor de conhecidos que por conveniência, deliberou que a jornada não se faria pelos portos do Atlântico, mas pelo Mediterrâneo, obrigando-se os viajantes a verdadeira excursão por terra, até ao sul da França.

A viagem na direção de Marselha foi difícil e penosa, não obstante Antero de Oviedo fazer o possível por demorar-se com as três companheiras nas cidades mais interessantes, a título de entre­tenimento e repouso.

Da janela dos carros, sempre trocados em cada pôsto de muda, Madalena contemplava os campos de França, tomada de imensa saudade e dando a impressão de que regressava ao berço natal como alguém que se sentisse perseguido pela realidade cruel, depois de um sonho bom.

Depois de muitos dias de jornada, defronta­ram o antigo pôrto, vizinho da Catalunha. AI des­cansaram duas semanas, tomando em seguida um navio confortável, para a época, que os conduziria a Valência. Uma vez acomodados, com imensos sa­crifícios para Madalena, que se amparava em Dolo­res sustentando a filhinha ao colo, eis que Ântero reencontra velho amigo da infância, abraçando-se ambos com ruidosa alegria.

Federigo Izaza e o sobrinho de D. Inácio, de­pois de muito conversarem sôbre inúmeros proble­mas, como só acontecer a conhecidos que se não vêem de há longos anos, passaram a tratar do regresso do fidalgo à Espanha. Ântero confessou o intuito de mobilizar os capitais trazidos da Fran­ça, na perspectiva de bons negócios. Izaza, sem que êle percebesse, tem estranho brilho nos olhos argutos e exclama: — Pois veja que feliz acaso nos aproxima! É que tenho justamente em mãos o melhor negócio dos últimos tempos.

— Como assim? — interroga o rapaz, curioso.

— Conheces o mercado de escravos para as colônias estrangeiras?

Em face da atitude de estranheza do interlo­cutor, Federigo prosseguiu animadamente:

            - É a negociação mais rendosa nos tempos que correm. Como não ignoras, o novo Continente necessita do braço escravo. Os emigrantes da Europa não poderiam atacar, sozinhos, o desbravamento do solo. As epidemias, as dificuldades, as florestas inóspitas, destruiriam os organismos delicados e, com alguns navios e poucos homens de confiança, é possível obter uma fonte de lucros opimos, com esfôrço quase insignificante.

        - Mas... como? — inquiriu o outro.

—        Bastam algumas naus corajosas que visi­tem periodicamente a Costa d’África.

        - Apenas isso?

— Nada mais. A trôco de pequeninas bugi­gangas, conseguimos elevado número de selvagens que, sem embargo do cativeiro, passam a gozar os benefícios da civilização. De modo que — explicava Izaza na atitude egoísta do homem que deseja mascarar propósitos execráveis — além de vin­garmos transações lucrativas, ainda espalhamos numerosos benefícios entre os negros bárbaros, de costumes primitivos.

Depois de uma pausa, entrava em outros por­menores:

— Acredito que chegas à Espanha em mo­mento azado aos teus interêsses, porqüanto eu e meus irmãos necessitamos de um sócio capitalista para incremento de grandes iniciativas. Dispondo apenas de um navio, temos perdido ótimas oportu­nidades nos mercados mais rendosos. As colônias inglêsas, francesas e portuguesas são grandes cen­tros de consumo.

E o astuto amigo passava a minudenciar e encarecer a importância de lucros tão fáceis, seduzindo o companheiro para o risco das largas aven­turas.

As palestras renovavam-se durante tôda a via­gem, e, quando desembarcaram em Valência, Antero de Oviedo já estava convencido das vantagens do tráfico negro, decidido a entrar na emprêsa com todos os recursos disponíveis. Obrigado a conduzir o pequeno séquito até Ávila, despediu-se do amigo com a promessa de se encontrarem no mês seguin­te, para tomar as providências definitivas.

A reduzida caravana descansou alguns dias antes de atravessar o Aragão, em demanda das regiões de Castela antiga; mas, no fim da segunda semana de permanência na Espanha, instalava-Se em modesta vivenda a três quilômetros das portas da cidade onde Madalena recebera a melhor edu­cação, num estabelecimento religioso das Carme­litas.

A paisagem não era bela. As águas do Adaja vinham fertilizar a terra empedrada, com minúscula corrente roubada ao leito do rio, e algumas árvores frutíferas mitigavam a aridez do solo. Não fôra uma casa-grande, próxima, em que o pode­roso senhor D. Diego Estigarríbia movimentava grande patrimônio rural, e o modesto sítio mais se assemelharia a lugar malsinado, em abandono. Antero, porém, adquirira-o em definitivo, ofere­cendo-o à prima, que recebera a dádiva com satis­fação justa e sincera.

Ao fundo da paisagem repontavam as tôrres das velhas muralhas da cidade famosa e os bronzes dos seus templos românticos enchiam o ambiente com dobres impregnados de dolorosas evocações.

Nos primeiros dias, Madalena Vilamil não sa­beria explicar a sensação de tristeza que intimamente a empolgava. Observava o casario a dis­tância, experimentando impressões indefiníveis. Aquelas muralhas antigas, com as suas oitenta e seis torres originallssimas, falavam-lhe à alma sensível. Sentia-se encarcerada, prêsa de receios es­tranhos, num conjunto de sensações amargas que a desolação da terra empobrecida mais acentuava.

Uma vez terminados os serviços da instalação, Ântero viajou para Madrid, a cuidar dos novos interêsses. O rapaz, entretanto, fora das discipli­nas a que o submetiam os protocolos franceses de Versalhes e Paris, e sem a assistência afetiva de D. Margarida, que maternalmente se deevelara pela sua pureza de hábitos e de caráter, entregou-se, logo no primeiro contato com a capital espanhola, a perigosas dissipações, com lamentável ausência de escrúpulos. Federigo Izaza, de posse da prêsa fácil, conduzia-o dia a dia ao total esquecimento de suas obrigações. Assim, empregou a maior parte da fortuna nas aventuras do tráfico negreiro, assi­nando compromissos de vulto com agiotas e finan­cistas astuciosos e inflexíveis. Como se desejasse desforrar os dias lúgubres da epidemia parisiense, lançou-se a noitadas alegres, cheias de prazeres e de vinhos caros. A princípio, recordava a prima e o ardor da paixão que o levara a participar de um crime; mas, com o egoísmo próprio da criatura humana, lembrava que Madalena continuava doente, incapaz de algo deliberar em consciência. Tentar impor-se à prima enferma, figurava-se-lhe extrema covardia. Era mais nobre aguardar ensejo ade­quado, e, até que o ensejo chegasse, ei-lo entregue à volúpia de gozos fáceis e aventuras perigosas.

Havia um mês que se ausentara. A filha de D. Inácio, no entanto, apesar da monotonia do seu pedaço de campo, procurava encarar as dificuldades com o heroismo das almas crentes.

O         primo não lhe havia deixado maiores recur­sos, mas, ainda assim, estava satisfeita. No íntimo, chegava a estimar aquela ausência. Compreendia bem os olhares que o rapaz lhe dirigira, em todo o percurso da longa viagem. Concluía mesmo, con­siderando as suas silenciosas atitudes, que a molés­tia era, para ela, o maior escudo e o melhor antí­doto contra aqueles propósitos inferiores. Subjuga­da pelo mal-estar da extrema dependência em que se encontrava, certo dia dirigiu-se a Dolores, encare­cendo o valor de um trabalho mais intenso na viven­da empobrecida. Poderiam enriquecer o pomar de novas plantas, cultivar legumes para vender. A serva entusiasmou-se. Organizaram projetos de nu­merosos serviços. O terreno não era fértil, mas possuía bastante água. O trabalho e o adubo fa­riam o resto. A idéia conferiu a Madalena Vilamil novas fôrças. Andava com dificuldade, mas o de­sejo intenso de resolver o problema das despesas domésticas triplicava-lhe as energias. Na casa vi­zinha, a família Estigarríbia podia dispor de servos numerosos, mas a corajosa espôsa de Cirilo não queria considerar a diversidade dos destinos e sim que havia trabalho a reclamar-lhe atenção. As ati­vidades iniciais custaram-lhe esforços dolorosos. Às vêzes, era tanta a dor nos pés que necessitava interromper a tarefa para repousar; todavia, auxiliada pela serva fiel, preparou e adubou o quintal, libertando as árvores frutíferas dos parasitas que as sufocavam. Faltavam sementes e mudas de plan­tas, mas Dolores, que tinha um gênio alegre e comunicativo, prometeu que as pediria a um dos servos da casa vizinha, na primeira oportunidade. Entre os rapazes de côr bronzeada que trabalha­vam, invariàvelmente, no campo próximo, a jovem desde muito havia fixado um, que sempre a obser­vava com atenção. Valeu-se dessa circunstância e, no primeiro ensejo, entabulou ligeira conversa com o simpático desconhecido, junto à tapada que divi­dia as propriedades. Tratava-se de um semiliberto da família Estigarríbia, que chefiava os compa­nheiros de serviço. Ele e os subordinados não eram escravos, propriamente, mas haviam nascido cativos em colônia portuguesa. D. Diego e o filho, D. Al­fonso, tinham grandes interesses no tráfico de homens livres e haviam selecionado os melhores operários para os labôres da grande fazenda de Castela-a-Velha.

João de Deus, o servo que narrava a Dolores as suas lutas na vizinhança, contemplava a criada de Madalena com expressão de enorme alegria e grande bondade. Atendendo-lhe ao pedido, prome­teu as sementes e mudas, e, como dispusesse de folga nos domingos, depois da missa, ofereceu-se para cooperar semanalmente na horta que preten­diam plantar.

       Com pleno assentimento da filha de D. Inácio, que lhe notou, de pronto, as qualidades apreciá­veis, o servo dos Estigarríbia passou a freqüentar a casa aos domingos, contribuindo decididamente para enriquecimento do quintal.

Horas a fio, João de Deus historiava às duas mulheres o martírio dos cativos nas colônias remotas. Elas mal continham o seu assombro. Pa­recia-lhes incrível houvesse cidades no mundo, onde os filhos eram separados dos pais amorosos e ven­didos a senhores bárbaros e execráveis, O rapaz contava-lhes as cenas bárbaras do tronco, do chi­cote a lanhar carnes vivas, das pesadas correntes atadas aos pés dos que tentavam fugir. Aquelas narrativas levavam ao coração da espôsa de Cirilo indefiníveis consolos. Considerava que havia terras onde mourejavam criaturas muito mais sacrificadas e sofredoras do que ela própria. Confidencialmente, João lhes explicava sua condição pessoal. Em ver­dade, não havia cativeiro ali na fazenda, cumprin­do-lhe todavia proceder e agir como escravo dos Estigarríbia, se não quisesse voltar à colônia, para ser talvez pôsto a ferros. Nada valeriam reclama­ções, pois D. Diego era irmão de um bispo assaz poderoso. Conquistara-lhe simpatia e, por isso, aprendera a ler e contar, assumindo então o cargo de feitor.

Para Madalena, essas confidências acarretavam sempre veladas consolações e foi com bons olhos que notou a crescente afeição do jovem par.

Sômente depois de três meses de boêmia e aventuras em Madrid, na perniciosa comparsaria de Federigo Izaza, voltou Antero a casa, comple­tamente modificado em seus hábitos e atitudes. Não comentava senão as vantagens do ouro fácil e explanava largos projetos para aquisição de minas em Potosi. A transformação da humilde her­dade surpreendeu-o. Em todos os recantos havia alguma coisa diferente. Ali, a água multiplicara benefícios ao solo; aqui, surgia um canteiro de legumes; acolá, as árvores pareciam mais verdes e vigorosas. Miraculosas mãos haviam tratado a terra empobrecida. Acentuando o quadro agradável,­ Madalena estava mais bela, embora lhe pairasse no rosto, invariàvelmente, um véu sutil de invencível tristeza. Sua saúde melhorara, de modo geral. Já podia permanecer de pé mais de uma hora, sem necessidade de repousar. Consagrava-se ao lar e à filha com heróico devotamento. Antero de Oviedo, contemplando-lhe a feição de madona, sentiu reavivar-se a paixão que o atormentava desde a infância.

No segundo dia de sua chegada, procurou entreter com ela afetuosa palestra, minudenciando o êxito superficial das suas transações em Madrid.

Enquanto a conversação não se desviava dos moldes fraternais, a prima lhe correspondia de boa­mente, despreocupada em defender-se; mas, a certa altura, o rapaz fixou nela os olhos brilhantes e disse:

—        Sinto que não devo ocultar, por mais tempo, as minhas intenções; suponho poder agora falar do meu imenso amor.

A noite já se fechara de todo, desdobrando seu manto de sombras pela paisagem ambiente.

—        Mas, que queres dizer com isso? — inter­rogou a prima, adivinhando-lhe os propósitos íntimos.

—        Ofereço-te meu braço forte nas lutas da vida. Seremos felizes, podes crer. Espero consolidar minha fortuna a breve trecho. Meus negócios atuais auspicianl lucros fabulosos. Construiremos um lar repleto de ventura. Não importa o passado, as amarguras vividas. Compreendo como o sôpro da adversidade desfez teus sonhos de moça; entre­tanto, não julgues ser a única a sofrer. Sigo-te os passos, silenciosamente, desde os primeiros albo­res da nossa juventude. E quando surgiu o intruso Davenport, só eu sei do ódio que me envenenou a alma. Agora, porém, a estrada da nossa ventura apresenta-se plana e livre.

Ela ouvia-o sem dissimular a profunda sur­prêsa que lhe assaltava o coração. Depois de refle­tir um minuto, respondeu delicada e firmemente:

—        Tua confissão me sensibiliza e, no entanto, essa realidade é impossível, de vez que o verdadeiro amor transcende a tôdas as contingências do mun­do. Minha escolha foi e permanece única, irredu­tível.

O         rapaz demonstrou a contrariedade num gesto espontâneo e insistiu:

—        Mas não te consideras liberta pela viuvez? Não seria loucura consagrar o resto da vida ao luto e às lembranças da morte?

—        Para mim — respondeu revelando profunda serenidade — a viuvez significa pesar inconsolável e não disponibilidade do coração.

O         moço espanhol mordeu os lábios e exclamou desapontado:

—        É quase incrível te proponhas tão absurdo sacrifício por um homem que se ausentou para uma aventura arriscada, quase na lua de mel.

—        Mas Cirilo assim procedeu em obediência a circunstâncias imperiosas.

—        Não creio.

—        No entanto, não podes negar a enorme di­ferença de vantagens entre a Côrte de Versalhes e a Sorbone.

—        Mas, no caso — tentava explicar o sobri­nho de D. Inácio, colérico — não poderás invocar os salários franceses e sim examinar o problema da dedicação e do amor.

       — Esqueces, entretanto — esclareceu a supos­ta viúva —, que Cirilo tinha pais carinhosos e necessitados, além de irmãos mais novos e caren­tes do seu auxílio. Fôra um crime seqüestrá-lo à mãe desvelada, que o acariciara nos braços, muito antes da minha afeição. Aliás, êle tudo fêz para que o acompanhasse ao continente distante e tu não ignoras que a enfermidade de mamãe me forçou a ficar em Paris, bem a meu pesar. Cirilo nunca me exprobrou essa conduta involuntária, e também eu não podia recriminar-lhe o impulso generoso de socorrer os seus.

Reconhecendo que as armas do seu despeito eram inúteis, Antero ensaiou outros argumentos, murmurando com certa ansiedade:

—        Afinal de contas, suponho que devas ser mais cordata e razoável...

É-me impossível transigir no que representa, para mim, sagrados deveres, apenas.

—        Não te apegues a recordações doentias. És jovem e posso fazer-te feliz. Tenho trabalhado a vida tôda para realizar o ideal de nossa união. Sonho com um lar ridente, um ditoso porvir.

—        E nem deves perder a esperança de um fu­turo venturoso — mas há que reformular o objetivo de tuas aspirações. Minha prova conjugal está encerrada: a tua, porém, ainda não começou. A Espanha está cheia de nobres raparigas e não será difícil encontrares uma companheira dedicada e digna do teu destino. É verdade que jamais nos poderíamos unir pelos laços do matrimônio, mas eu serei tua irmã reconhecida, enquanto me restar um sôpro de vida. Conheço a extensão dos teus sacrifícios por mim e beijo-te as mãos. Nada pos­suindo, entretanto, com que te demonstre minha sincera gratidão, feliz me julgaria em poder, a qualquer tempo, dar meus carinhos de mãe aos filhinhos de tua espôsa. Deus te ajudará, conce­dendo-te alguma jovem rica de sentimentos, digna, enfim, do teu coração.

Essas palavras, ditas em tom de carinhosa e fraternal sinceridade, desarmavam o rapaz, que se sentia enleado nos mais contraditórios pensamentos.

—        Ainda ontem, Madalena — dizia insistente nos mesmos propósitos —, adquiri uma casa con­fortável, junto à igreja de S. Tomás, a fim de lá te instalar com Dolores e Alcione.

       — Agradeço, Antero — mas a verdade é que não pretendo sair desta chácara. Jesus me facultará, um dia. os meios de retribuir teus benefícios, pois reconheço que não podemos exigir novos gastos de tua parte. Já temos plantas a cuidar, os peque­nos proventos da horta atendem às nossas modestas necessidades caseiras. Como vês, é ocasião de pensar em ti mesmo, na administração dos teus negócios.

Ele compreendeu que a prima preferia renun­ciar a qualquer nova expressão de confôrto, para emancipar-se do seu ascendente, e manifestou-se prêsa de incontido despeito. A expressão de ternura foi substituída pela de cólera extrema. No íntimo, experimentou diabólico prazer ao recordar o pacto com Susana. Tomava a resistência de Ma­dalena à conta de orgulho feminino, mas essa resis­tencia aguçava-lhe os intentos Criminosos de per­seguição e de posse.

Aproximou-se mais e teimou, ardentemente:

— Deste-me tuas razões, defendeste o irlandês intruso, induzes-me a procurar alhures a ventura conjugal, mas eu não renuncio. Consente que me aproxime do teu coração, a fim de te reanimar para a vida. Somos jovens, o futuro nos chama...

Entretanto, a um gesto mais significativo, a pobre senhora retraiu-se e falou nobremente:

— É impossível e espero te contenhas nos limites devidos. Ainda que a lembrança de meu marido não chegue a demover-te, recorda que a som­bra de minha mãe se levanta entre nós.

A recordação de D. Margarida produzira ex­traordinário efeito. Ântero, muito pálido, retrocedeu, como se obedecesse a uma imposição do plano invisível.

A filha de D. Inácio, assumindo atitude serena, valeu-se da circunstância e prosseguiu:

— Concordo em que os nossos antepassados tenham tido numerosos defeitos, mas não me consta que um Vilamil, algum dia, houvesse abusado de uma irmã viúva e enfêrma.

Ouvindo a objurgatória formulada com enér­gica inflexão de voz, o rapaz corou e retirou-Se para o seu quarto, não sem dizer:

— Mudarás de opinião, mais cedo ou mais tarde.

Desde essa noite, não voltou a falar dos seus propósitos malsãos, e, embora esperasse a opor­tunidade de uma capitulação ditada pelos extremos de uma vida mísera quão desolada, pareceu desin­teressar-se completamente do assunto. Não perma­necia na chácara de Ávila mais que uma semana, de três em três meses. Agora fazia questão de cor­responder à resistência de Madalena com frieza fraternal. Além disso, os prazeres madrilenos mo­dificavam-lhe os rumos da sorte. As más com­panhias arruinavam-lhe o caráter. Havia muito dinheiro para os divertimentos licenciosos, mas, começava-se a indagar das suas origens.

 

Três anos são passados.

Madalena Vilamil lutava herôicamente. A po­breza dos terrenos de Castela-a-Velha exigia muitos sacrifícios a qualquer cultura agrícola, mas, por isso mesmo, suas plantações regulares tornaram-se utilíssimas. Dolores voltava, tôdas as manhãs, do mercado de legumes com diminutos, mas, ainda assim, suficientes recursos à provisão doméstica. A dona da casa tudo atribuia e agradecia a Deus, e a vida continuava. As ausências prolongadas do primo eram consideradas como tréguas, para seu alívio. Desde aquela noite inolvidável, êle parecia contemplá-la com expressão de rancor. Sempre que vinha, era para sobressaltar-lhe o coração. Além dis­so, ela preferia criar a filhinha sem caprichos satis­feitos. Aquêle sítio avaro devia ser a sua primeira escola. Mais tarde, então, pediria às freiras Car­melitas que se incumbissem da sua educação in­telectual; mas, como mãe, estava resolvida a tudo fazer para que Alcione se habituasse mais cedo aos deveres laboriosos.

Assim corriam os dias, quando se espalha­ram em Ávila estranhos boatos sôbre a situação de Antero, em Madrid. Dizia-se que os Izaza esta­vam denunciados ao Santo Ofício pelo rapto de crianças libertas, nas colônias da América e da África, e que o sócio responderia com os criminosos pela ação nefanda. Em suas visitas periódicas àgranja, Madalena o informou das versões correntes, mas Antero ouviu-a risonho e displicente, alegando que se tratava, naturalmente, de puras baleias, fruto da inveja e despeito humanos.

Os meses corriam céleres e os boatos também cresciam de vulto.

Madalena preocupava-se. Dia houve em que procurou conhecer o que João de Deus sabia e pen­sava a tal respeito.

— Ah! senhora — replicou o pretendente de Dolores, em tom confidencial —, os Estigarríbias são senhores poderosos e não toleram quem lhes faça concorrência no tráfico dos cativos. Em Se­góvia, não há muito, dois navegantes corajosos foram assassinados por ordem dêles. Em Valia­dolid havia um grupo de homens operosos, que cuidavam do mesmo negócio, e um belo dia o Santo Ofício lhes confiscou os bens, sem justificativa, encarcerando-os para o resto da vida. D. Diego e D. Alfonso dispõem da autoridade do clero. Dizem que eles cedem aos inquisidores algo dos patrimô­nios conquistados, mantendo-lhes a simpatia cons­tante. O bispo D. Leôncio Molina faz parte da família e não é fácil escapar-lhe à perseguição, com o auxílio dos missionários.

— Mas acreditas que tenham formulado alguma acusação contra Antero? —. perguntou a filha de D. Inácio, naturalmente preocupada.

João de Deus alongou o olhar para além da porta, como a certificar-se de estarem realmente sozinhos e respondeu à surdina:

— Já ouvi qualquer coisa nesse sentido. Uma noite D. Alfonso participava ao pai que tôdas as providências estavam dadas em Madrid; que os santos padres em missão nas selvas remotas haviam representado à autoridade eclesiástica para que os Izaza e seus colaboradores fôssem punidos sem mercê, por subtrairem crianças indefesas nas aldeias do litoral, e que os credores de D. Antero iam todos reclamar o pagamento de suas dividas, a um só tempo.

A jovem Madalena, muito impressionada, re­dargüiu:

— Será possível que haja pessoas capazes de raptar crianças inocentes?

— Nas colônias — esclareceu o servo — pode crer que existem homens cruéis a êsse ponto; mas, neste caso, é possível que a acusação tenha partido daqui mesmo, dos Estigarríbia. Já ouvi dizer que, quando D. Diego era mais moço, mandou prender o próprio pai.

Madalena Vilamil anotou mentalmente as tris­tes novas e procurou mudar o curso da conversa.

Nos dias imediatos, muito desejou comunicar-se com o primo, tentando salvar-lhe a reputação de homem digno, mas, reconhecendo a impossibilidade de o fazer, contentou-se em orar, encomendando-o a Deus, em preces fervorosas.

Ela, de si mesma, pouco a pouco habituara-se ao severo regime do contato direto com a natureza. A fisionomia, porém, denotava grande abati­mento. Dividia as horas entre os labôres domés­ticos e as meditações. Recordava, sempre, que seu primeiro projeto, em regressando à Espanha, fôra encaminhar-se à América, à cata de notícias exatas da morte do marido. A atitude ulterior do primo adiara a realização dos propósitos que lhe anima­vam o espírito resoluto, mas não extinguira, de todo, o seu primeiro desígnio. É verdade que con­tinuava doente dos pés, impossibilitada de agir como necessário, mas esperava no Altíssimo a recuperação da saúde para tentar, em companhia da filha, a grande aventura, tão logo se verificasse o casamento de Dolores. Nunca mais pudera ale­grar-se, como nos dias risonhos da juventude distante, mas a filhinha resumia, agora, as suas divi­nas consolações.

Alcione já se revelava uma criaturinha ado­rável nos seus quatro anos. Sentada, de rosto apoiado nas mãos, como “gente grande”, permanecia muitas horas ao lado da genitora, a ouvir histo­netas de fundo educativo. Madalena repetia-lhe, comovida, as lendas guardadas da sua própria in­fância. A pequena encarecia notícias dos príncipes encantados, dos gênios ocultos nos bosques; mas, quando escutava a palavra maternal sôbre Jesus, seus olhos tornavam-se mais brilhantes e pergun­tava a razão por que os homens inventaram a cruz para o Salvador que Deus mandara à Terra.

Por vêzes, na sua condição de criança isolada, sem companhias infantis, abandonava sübitamente os brinquedos pobres e ia interrogar à mãe o que estaria fazendo Jesus. E ante as hesitações mater­nas, ela própria explicava mil coisas, nas suas reflexões ingênuas e puras. Se fazia frio, afirmava que Cristo estava socorrendo os peregrinos que não tinham teto, e, nos dias de excessivo calor, supunha que suas mãos divinas estivessem acari­ciando as aves aflitas.

Madalena surpreendia-se. Aquelas idéias su­blimes eram sempre espontâneas naquela boquinha mimosa.

A genitora ensinava-lhe a ser reconhecida a todos, a estimar as plantas da horta e a ser generosa para as árvores do quintal. Mandava-a em auxílio de Dolores, sempre que havia maior quan­tidade de frutos e legumes, destinados à feira da cidade vizinha. Alcione era amável com a serva e conduzia um cêsto minúsculo, muito convicta de contribuir eficazmente na solução dos problemas domésticos. E nos instantes em que Dolores se sentia cansada pelo sol ardente, supunha que lhe atenuava as fadigas beijando-a, porque sua mãe sempre dizia que o carinho era o único remédio que podia aliviar os corações sofredores. A criada era muito sensível a tais mostras de afeto e, às vêzes, só para receber as carícias da criaturinha adorável, declarava-se exausta, junto à Porta de São Vicente, ao terminar a parte mais afanosa da tarefa. E era quando Alcione lhe tomava as mãos, em ósculos carinhosos.

Para Madalena e os dois únicos amigos que possuía na intimidade do lar, a pequenina se tornara em fonte de inefáveis alegrias.

De quando em vez, surgia com observações su­tilíssimas, que suscitavam profundos pensamentos.

Certa feita, a canícula era quase insupor­tável e todos, ansiosos, desejavam chuva. Alcione partilhava da inquietação geral e, instada por Dolo­res, fêz de mãos postas as preces que sua mãe lhe ensinava, pedindo a Deus não esquecesse as plantas ressequidas. O crepúsculo sobreveio carregado de pesadas nuvens e a criança, de minuto a minuto, ia à porta espiar o céu, como se aguardasse com certeza alguma coisa. Alta noite desabou torren­cial aguaceiro. Cessada a borrasca, Madalena abriu a janela, ansiosa pela frescura da noite. A peque­nina seguiu-lhe os movimentos, de olhos muitos vivos e pediu que a deixassem na velha cadeira para contemplar o firmamento, onde haviam ressurgido os astros faiscantes. Depois de aspirar o ar puro que enchia o ambiente, exclamou, olhos fitos na altura, em solene atitude infantil:

—        Agradeço muito.

—        A quem falas, filha? Viste alguém ali na estrada? — perguntou Madalena com certa curiosidade.

—        Estou falando com Deus, mamãe: a senhora não me disse que devo ser agradecida? Não pedimos hoje a água do céu?

A genitora não pôde disfarçar um gesto de admiração ao lhe observar a expressão de sincera confiança na Providência Divina.

Em seguida, Alcione pareceu devassar a som­bra da noite com os olhinhos indagadores e brilhantes, permanecendo em encantadora atitude de meditação. Depois, como se estivesse regressando de um oceano de reflexões, interrogou:

—        Mamãe, onde é que a chuva trabalha?

—        No seio da terra, filhinha. A água que desce do alto alimenta a raiz das árvores, lava as estradas por onde caminhamos, renova as fontes para que não soframos sêde e, em todos os lugares por onde passa, espalha e entretém a vida.

—        E quando tem chuva nos olhos? — conti­nuou perguntando com sincera atenção.

—        Mas que desejas dizer com isso, Alcione? — tornou Madalena impressionada.

—        É porque, às vêzes, mamãe, quando é de noite, os olhos da senhora estão cheios de chuva.

A pobre mãe compreendeu a alusão e explicou, assaz comovida:

Ah! sim, filhinha, essa é a chuva das lágrimas e também desce do céu para nutrir e purificar o coração.

A pequenina pareceu refletir na resposta, vol­tou a contemplar as fôlhas gotejantes das árvores e inquiriu:

—        Mamãe, quando é que vai chover nos meus olhos?

—        Não penses nisso, filhinha!

E Madalena Vilamil torceu a palestra, distrain­do-lhe a atenção.

De outra feita, Dolores trabalhava na chácara, acompanhada por Alcione, que cavava o solo com minúsculo instrumento. Em dado instante, surge o “Lôbo” — grande cão de D. Diego —, que tentava perturbar, todos os dias, os trabalhos da rapariga.

Dolores toma prestes de longa vara e, valen­do-se da oportunidade, espanca o animal que debalde procura uma saída.

—        Não batas assim no “Lôbo”! — exclama Alcione perturbada e aflita.

E como começasse a gritar, a serva falou baixinho:

—        Sossega, minha filha! Vamos aproveitar enquanto estamos sem vigias no outro lado.

A menina, entretanto, esboçou um gesto signi­ficativo e lembrou:

—        Mas nós não estamos aqui sôzinhas. Jesus está Conosco.

Anotando a advertência, a criada permitiu que o animal se safasse do círculo apertado em que se achava, e esclareceu, como quem se via obri­gada a dar uma satisfação do seu ato:

—        Este cão, Alcione, é vagabundo e ladrão. A pequena não respondeu de pronto, mas, dirigiu-se ao interior da casa a passos vagarosos, tomou o crucifixo de D . Margarida, sempre guar­dado à cabeceira da cama e encaminhou-se nova­mente ao quintal. Aproximando-se de Dolores que a observava, muito admirada, apontou, com muito carinho, para a escultura e esclareceu na sua lin­guagem infantil:

—        Estás vendo, Dolores? Mamãe contou que, quando Jesus morreu, estava entre dois homens que roubavam.

—        Pois bem — disse a empregada sorrindo em face da profunda advertência —, depois falare­mos com D. Madalena sôbre o caso dêsse cão.

E Alcione voltou a guardar o crucifixo, com a impressão de que havia cumprido uma grande tarefa.

 

A vida na chácara continuava cheia da poesia que sempre adorna a pobreza resignada.

Outro tanto, porem, não acontecia ao sobri­nho de D. Inácio. Parecia êle cada vez mais desorientado, desde o dia sinistro em que consentira no criminoso pacto com Susana Davenport. O des­tino não correspondera às suas expectativas de homem do mundo. A mentira sombria apenas espalhara remorsos terríveis no seu caminho, dos quais buscava evadir-se, pelos desregramentos de tôda sorte. Seu projeto mesquinho sofrera o pri­meiro abalo no dia em que Madalena Vilamil não mais pudera erguer-se da cama, em Versalhes. Assediar a prima enfêrma, representava muita co­vardia a seus olhos. A moléstia, entretanto, não fôra incidente simples, persistira semanas e sema­nas. Nesse ínterim, ela, Madalena, pela paciência demonstrada e pela maternal dedicação para com a filhinha recém-nada, crescera muito aos seus olhos, impedindo-lhe os ímpetos de suprema violência. E, desde a noite em que fizera alusão à sombra de D. Margarida, êle não mais a contemplava sem ver no seu rosto o da veneranda mãe adotiva, que o acariciara dos primeiros dias da infância. Passou, então, a freqüentar raramente a chácara e, no ín­timo, chegava mesmo a pensar em uma viagem à América, para desfazer o engano terrível, de modo a esperar a velhice, sem a recordação de um crime na consciência. A nobre resistência da prima doente e sacrificada parecia impor-lhe a lembrança de D. Margarida, nos seus tempos de intraduzíveis amarguras. O moço espanhol, no entanto, desejava reparar a falta, com a devida prudência. Afinal de contas, no mais fundo d’alma, não obstante a si­tuação que o sensibilizava, nunca deixara de con­siderar Madalena excessivamente orgulhosa. Além disso, receava desfazer a trama odiosa, sem ouvir antes a prima de Cirilo. Que teria acontecido na América durante aquêles longos quatro anos? Era preciso esperar para não incidir em novos desa­tinos.

No entanto, agora entregue à idéia reparadora, via-se prêsa dos Izaza, que o arrastavam a conde­náveis desregramentos. Envolvido em negócios sus­peitos e desmandado nos prazeres que lhe exau­riam as fôrças, não pôde perceber a trama cavilosa que o colhia na sombra, devagarinho.

Quando menos se esperava, estalou em Ávila a triste nova: condenado pelo Santo Ofício à prisão e confisco de todos os bens, Antero de Oviedo apa­recera morto, em Madrid, junto à Porta de Toledo. Falava-se à meia voz que êle havia preferido o suicídio à ignomínia do cárcere. Noutras rodas, porém, afirmavam que tudo não passava de mais um crime odioso da família Estigarríbia. O pro­cesso, como tôdas as peças em exame no tribunal do Santo Oficio, correra os trâmites no mais rigo­roso sigilo. A condenação atingira Antero e com­panheiros, mas sômente Gaspar Izaza fôra reco­lhido à prisão, pois Federigo e Domingos haviam desaparecido misteriosamente.

O         sobrinho de D. Inácio assim baixava ao túmulo com o grande segrêdo da sua vida, tão cedo crestada por sua incontinência e leviandade.

Madalena ainda não conseguira aliviar a an­gustiosa aflição que a atormentava, quando João de Deus bateu-lhe à porta, antes da alvorada. A pobre senhora assustou-se, mas o rapaz tinha motivos para apressar-se.

—        Senhora — disse amedrontado —, fugi para trazer-lhe graves notícias. Esta noite ouvi a com­binação de D. Diego e do filho, relativamente a esta casa.

—        Como assim? — interrogou Madalena muito pálida.

—        Sei que o Santo Ofício vai ocupar as pro­priedades do Sr. de Oviedo e que os Estigarribias desejam incluir esta chácara no espólio do extinto.

—        Mas esta casa me pertence — interrompeu a filha de D. Inácio com energia.

—        Queira, então, providenciar como convém.

A essa altura, o semiliberto mastigou as pala­vras, como que receoso de prosseguir:

—        Mas é uma iniqüidade — exclamou Mada­lena, convictamente.

—        E não é só... — obtemperou o rapaz, reti­cencioso.

—        Que maior infortúnio poderia sobrevir-nos?

—        D. Alfonso — explicou o servo dedicado em palestra confidencial com o pai, ponderou que, não sendo Alcione filha do finado, pode ser arrolada no patrimônio, como escrava; e sei que tomou essa atitude, pela atração que a mesma sempre exerceu sôbre êle.

—        Horrível! — exclamou a viúva tornando-se lívida — não haverá justiça para semelhantes ban­didos?

—        A justiça, por certo, não autoriza êsses crimes, mas os meus senhores estão com os padres e será útil que a senhora tome as providências pos­síveis, para defesa do seu lar.

Enquanto o rapaz se retirava apressado, de maneira a não despertar suspeitas na casa a que servia, Madalena levou as mãos à cabeça, tentando conter o vulcão de idéias que a incendiavam. Ne­nhuma preocupação na sua vida continha o travo desta que ora a excruciava. Separar-se da filha, quando a viuvez já lhe havia mortificado o coração, seria condenar-se a perpétuo martírio. Reagiria contra os criminosos sem consciência. No torve­linho de suas dores, entretanto, procurou enco­mendar-se a Deus com sincera compunção. Que Jesus se dignasse velar por sua fraqueza de mulher, defendendo-lhe a filhinha dos lôbos desalmados.

O Sol já fulgurava no horizonte e o coração ma­terno continuava em súplica silenciosa, invocando a misericordiosa proteção do Crucificado. Pro­curando ocultar sua aflição à serva e à filhinha, resolveu bater à porta das freiras Carmelitas, no intuito de solicitar-lhes fraternal amparo.

Em todo o tempo de sua permanência em Ávila, freqüentara os ofícios religiosos na Igreja de São Tomás apenas duas vêzes, pela dificuldade de se locomover; mas isso fôra o bastante para abraçar velhas mestras, entre as quais se desta­cava Madre Conceição do Santíssimo Sacramento, generosa diretora do educandário onde ela, Mada­lena, recebera as primeiras letras.

Essa veneranda criatura, pensava a filha de D. Inácio consigo mesma, não a deixaria sem assis­tência.

Com enorme dificuldade, dada a atrofia dos pés, encaminhou-se à cidade, em companhia de Alcione, pela manhã. Desde a indelicada recusa das amigas de sua mãe, em Paris, fizera o propósito de nada pedir em seu benefício; mas, naquela hora grave em que lhe faltava o amparo do primo, tinha necessidade de mão amiga para fazer res­peitados os seus direitos. Não dispunha de outras relações, além dos laços afetivos com as religiosas que tanto a beneficiaram e acarinharam na in­fância.

Assaz inquieta, pediu para falar à Superiora do Convento de São José.

A velha monja, em cujo rosto as rugas mar­cavam invernos e padecimentos longos, recebeu-a com afabilidade e doçura, visivelmente satisfeita com a inesperada visita.

— Madre Conceição — começou dizendo aca­nhada e aflita —, esperava socorrer-me de vossa bondade mais tarde, quando minha filha estivesse em idade de iniciar os estudos, mas, circunstâncias imperiosas, quão imprevistas, na minha vida, obri­gam-me a incomodar-vos mais cedo.

       — Dize, Madalena — respondeu a religiosa com bondade natural —, não te perturbes, confia em nossa velha amizade. Desde que nos revimos, muito tenho pensado em ti, nas tuas penas angustiosas; contudo, filha, são numerosas as antigas alunas que se encontram nos sofrimentos da viuvez.

—        Não venho aqui trazida por dificuldades materiais, minha boa Madre.

E passou a relatar as suas amarguras em face do desaparecimento do primo, que a deixava em penosa situação moral, por motivo das perseguições que o vitimaram. Pausadamente, imprimindo em cada palavra a fôrça da sua emoção, explicou quan­to sabia a respeito da sentença do Santo Ofício, que levara Antero de Oviedo à suprema ruína. Em seguida, falou da maternal angústia, devido às pretensões odiosas da família Estigarríbia, em lhe extorquirem a propriedade rural e, além do mais, seqüestrar-lhe a própria filha.

A velha religiosa acompanhava-lhe as palavras, tomada de singular admiração. Viu-a terminar, exausta, pálida, cabisbaixa, consternadíssima. Des­tacando as últimas assertivas, exclamou inquieta:

—        Mas o país não está em regime de cativeiro! Como poder alguém escravizar uma criança ino­cente?

—        Os que têm bastante dinheiro para demover os juizes — disse Madalena convictamente — certo poderão gozar o beneficio das leis; mas eu sou paupérrima e minha Alcione poderá ser levada por mãos criminosas, à revelia da justiça. Não ignora­mos que se fala bastante, na atualidade, em mes­tiços que de nada servem, no conceito dos grandes senhores de terras, senão para os serviços rudes do Novo Mundo. E se D. Diego Estigarríbia pretender que minha filhinha seja dessa espécie de criaturas? Ele tem as arcas abarrotadas de pesetas para com­prar os homens indignos. Suas violências talvez nem cheguem a constar nos processos escritos.

Madre Conceição tinha uma grossa lágrima nos olhos. Maternalmente, tomou as mãos da interlo­cutora e falou:

— Compreendo tuas angústias, entretanto...

       — Será possível que não possa contar com o vosso auxílio? — perguntou Madalena atemorizada.

—        É que, minha filha, trata-se de uma ques­tão com o Santo Oficio. Nesta casa, somos muito indigentes para te auxiliar com êxito, contra inimigo tão poderoso.

E, depois de levantar-se e sondar a porta vizinha, declarou à Madalena, em voz muito baixa:

—        Por buscarmos defender dois homens caluniados perante os Inquisidores, duas irmãs e eu, no mês passado, fomos açoitadas cinco vêzes.

—        Ah! como se permite semelhante tribunal no seio da Igreja? — indagou a filha de D. Inácio penosamente surpreendida.

A monja enxugou as lágrimas com a manga do hábito rafado e murmurou:

—        Talvez, minha filha, Deus haja permitido o funcionamento dessa instituição impiedosa para que sejamos experimentados em nossa fé. Hoje em dia, considero que não existe maior cilício que o supor­tar a evidência de tantos crimes em nome do pró­prio Deus.

A jovem viúva começou a chorar em silêncio, mas a respeitável amiga ponderou com solicitude:

—        Não te desesperes: Jesus não está pobre de misericórdia. Faze o possível por aliciar algum homem de mérito, que propugne os teus direitos. Estou certa de que o céu nos oferecerá os meios precisos.

Madalena Vilamil despediu-se com palavras de sincero reconhecimento, mas não pôde disfarçar o desânimo quase invencível. Ao vencer a distância que a separava do teto humilde, sentia que as pernas tornavam-se mais trôpegas. Mesmo assim, quis socorrer-se das autoridades civis ou religiosas, mas a falta de dinheiro amortecia-lhe os impulsos. Os juizes, de um e de outro lado, não trabalhavam de graça. Os processos não se movimentavam sem as molas reais.

Alcione seguia-lhe os passos muito admirada das suas lágrimas e do seu mutismo. Conduzida pela mão, a delicada criança parecia ansiosa por uma oportunidade que lhe permitisse confortar o espírito materno. Assim que atravessaram as mu­ralhas, já no caminho empedrado, de regresso ao lar, perguntou com a sua curiosidade infantil:

—        A senhora não disse que íamos a outra casa?

—        Não é possível, minha filha.

—        Por quê?

—        Não temos a chave de ouro com que pode­ríamos abrir a porta, concluía Madalena, como a falar consigo mesma.

E passou o resto do dia mergulhada em dolo­rosas cismas. Via-se, na imaginação, atirada no vórtice do destino. O Santo Oficio tudo lhe arran­caria, tudo... A granja pequenina, cultivada com tantos sacrifícios, seria arrebatada por verdugos cruéis. Mas, quando meditava na eventualidade de separação da filha, profunda revolta dominava-lhe o coração. Seria a derradeira prova da sua dedi­cação maternal, porque a morte, indubitàvelmente, viria nesse instante enregelar-lhe as veias.

Enquanto Dolores trabalhava no quintal, in­trigada com o pranto copioso da ama, Alcione permanecia no aposento materno, procurando confor­tar Madalena, com suas observações piedosas, em­bora infantis.

O         crepúsculo desceu, pesadamente e, à noite, João de Deus reapareceu. Depois de se informar do resultado da visita ao convento de São José, falou à desolada senhora, deixando-lhe entrever novas esperanças:

—        D. Madalena, conheço um padre que talvez nos possa valer.

—        Quem é? — indagou ansiosamente a inter­pelada.

—        É o padre Damiano, que oficia na igreja de São Vicente. Ele tem sido meu amigo nas ocasiões difíceis, é bem possível que resolva satisfa­toriamente o caso. Se a senhora quiser, chamá-lo-ei ainda hoje mesmo, porque D. Alfonso deverá vir aqui amanhã, depois do meio dia, para lhe dar conhecimento do odioso mandato.

—        Oh! sim! — exclamou reconhecida vai sem demora, conversarei com êsse homem de Deus.

O         rapaz saiu, e, quando o relógio marcava nove horas, regressava em companhia do eclesiástico, recebido por Madalena com inequívocas demonstra­ções de reconhecimento e aprêço.

Padre Damiano era homem dos seus cinqüenta anos e pela expressão do olhar, como pelas cãs prematuras, dava conta de suas penosas lutas.

Em breves instantes, estabelecera-se entre êle e os presentes os laços cariciosos da intimidade e da simpatia. Ouviu com atenção os informes da viúva Davenport, entendendo-lhe as razões afetuo­sas, como se ouvisse uma filha. A narrativa dos seus sofrimentos infundia-lhe respeito paternal. Em breve, trocavam impressões e já pareciam velhos conhecidos. Também estivera em Paris por ocasião da varíola de 63 e, por sinal, também so­frera a enfermidade dolorosa, num estabelecimento religioso. Madalena Vilamil estava igualmente sa­tisfeita. A palavra do interlocutor parecia-lhe de um amigo sincero, que tardara a aparecer. Histo­riando os incidentes da sua viuvez, o Padre pres­tou maior atenção ao caso e sentenciou:

—        É muito estranhável que a senhora tenha lutado com tão infausto destino, mediante uma sim­ples notícia. Nunca recebeu informações mais posi­tivas da América?

— Nunca.

—        Também — continuou —, é preciso conside­rar a soledade em que ficou, lá na França. A morte dos pais, a enfermidade rebelde, a necessidade im­periosa de atender à recém-nascida...

       — Sim — explicou Madalena agradecida ao seu afetuoso interêsse —, mas não renuncio ao meu velho ideal de uma excursão à colônia do norte. Não desejo morrer sem obter as últimas notícias de Cirilo.

O         religioso fêz um sinal de aprovação e acen­tuou:

—        Sempre acalentei o desejo de compartilhar dos trabalhos missionários na América e, se algum dia o conseguir, ofereço-me a levá-la, com a sua filhinha.

Madalena Vilamil agradeceu com um grande sorriso. A palestra prosseguiu, animadamente, até que a hora avançada determinava as despedidas. Padre Damiano referiu-se à sua disposição sincera de enfrentar a ousadia criminosa dos Esti­garríbias e prometeu que ali estaria no dia seguinte às doze horas. E como a viúva quisesse reiterar os agradecimentos, muito comovida, êle a interrompeu, dizendo:

—        Não se dê ao trabalho de manifestar gra­tidão. Neste mundo, somos devedores uns dos outros e, neste momento, tenho a impressão de estar resgatando uma dívida.

E retirou-se acompanhado por João de Deus, enquanto a pobre senhora experimentava um gran­de alívio e desafôgo à mente atormentada.

No dia seguinte, à hora aprazada, o eclesiás­tico franqueava a porta e aguardava os acontecimentos.

Nas primeiras horas da tarde, D. Alfonso Es­tigarríbia aproximou-se acompanhado por seus ho­mens, a fim de imprimir certo aparato ao feito. Notando a presença de um sacerdote na casa su­posta indefesa, não pôde esconder o desaponta­mento; mas Damiano, querendo conhecer todo o ardil da encenação cruel, tomou atitude humilde, fêz um gesto de extremo desinterêsse pela causa e exclamou, após a primeira saudação:

—        Entrai, meus filhos! Viva Deus e abençoado seja o nosso Santo Padre.

Encorajados com semelhante acolhida, D. Al­fonso e os asseclas cobraram alento e passaram a ler o torpe mandato, com ares de triunfo. O filho de D. Diego fêz a leitura solene, pausada, enquanto Madalena e Dolores ouviam a sentença, excessiva­mente pálidas. Terminada a intimação, o moço Estigarríbia passou a explicar que a granja deveria ser desocupada dentro de três dias e que, havendo ali uma criança mestiça, trazida por Antero de Oviedo, competia ao Santo Ofício decidir do seu destino, pelo que exigia a sua entrega imediata.

De posse de todos os fios da perversa meada, Padre Damiano fechou o semblante e declarou com enérgica serenidade:

—        Conhecemos a fôrça do Tribunal que assim ordena, mas somos obrigados a declarar que existe lamentável engano a corrigir. A Inquisição terá tido motivos para condenar nosso parente Antero de Oviedo, coisa que não pretendemos discutir; consideramos, porém, que a sentença de confisco já foi executada com a ocupação de suas casas em Ávila, e de outras propriedades em Madrid. Jul­gamos, ainda, que se isso não bastasse, o conde­nado já pagou duramente as suas faltas com a morte.

D.        Alfonso ficou lívido.

—        A que engano vos referis? — indagou.

—        Esta chácara não pertencia ao réu.

—        As provas? — acudiu o chefe da expedição, contrafeito.

A um gesto do religioso, Madalena Vilamil trouxe o documento da doação, firmado pelo extinto.

—        Mas, evidentemente — exclamou D. Al­fonso — esta declaração não tem efeito legal. É simples transação entre parentes. O sangue é o mesmo.

       — Julgais, então — continuou Damiano —‘ que as pessoas honestas possam responder por delitos dos irmãos consangüíneos? Jesus era o Salvador e não impediu que Judas aparecesse na reduzida fa­mília dos seus discípulos.

Ante a inesperada opugnação, o filho de Dom Diego mordeu os lábios, encolerizado:

—        Deveis saber que a condenação do Santo Ofício engloba a parentela.

—        Não ignoro — explicou o padre — que o Santo Ofício muito cruelmente persegue o conde­nado na pessoa dos descendentes, mas nós não somos da estirpe de Antero de Oviedo.

Incapaz de rebater os argumentos do interlo­cutor, o chefe da diligência acentuou:

—        Consultaremos o bispo D. Leôncio Molina.

Compreendendo que o rapaz aludia ao parente, cheio de influência política, Damiano acrescentou:

—        E nós indagaremos a razão pela qual a família Estigarríbia anda requisitando crianças li­vres nas cidades independentes da Espanha. A Côrte nos informará, quanto a isso.

O         vizinho fêz menção de retirar-se com os com­panheiros, mas, antes de o fazer, o sacerdote con­cluiu:

—        D. Alfonso, voltai na paz de Jesus. Esta casa está disposta a viver cristãmente na vossa vizinhança, mas não esqueçais que tendes uma alma para prestar contas a Deus.

A expedição partiu cabisbaixa, enquanto Ma­dalena se retirava para o interior e beijava o cru­cifixo que sua mãe lhe havia dado, agradecendo a Jesus aquelas inefáveis consolações.

 

Novos rumos

A família Estigarríbia não voltou a renovar suas absurdas exigências e o próprio D. Alfonso fêz o possível por demonstrar atitudes novas e mudança de propósitos, de sorte que a torpe ex­torsão não chegou a consumar-se. Ciente do fato, o bispo Molina desautorizou os criminosos intuitos e providenciou para que o confisco não ultrapas­sasse os limites indicados pelos inquisidores.

Encerrado o incidente, a vida na granja pros­seguia em adorável simplicidade.

Alcione fizera-se amiguinha fiel do Padre Da­miano e Madalena parecia regozijar-se com a nova companhia.

O eclesiástico revelava idéias diferentes de sua época. Embebido nas veneráveis tradições do passado, não podia compreender os crimes trama­dos na sombra, em nome de Deus. Apreciava a filosofia antiga, desprezava os exageros do fana­tismo e não concordava com a tirania do Santo Ofício. Quase diàriamente, à noite, ia à vivenda modesta da viúva Davenport, a cuja porta a pequenina Alcione se postava para saudar graciosamente o cavalo paciente e manso, que o servia no pequeno trajeto.

As conversações interessantes desdobravam-se, animadoras. Madalena Vilamil parecia encontrar nas interpretações do religioso mais duradouras consolações.

— Padre Damiano — dizia —, a Igreja pare­ce despreocupar-se de nossas amarguras. Em tôda parte preponderam as injunções políticas, ao passo que Jesus foi bem claro nos ensinamentos relativos ao seu Reino, que ainda não é dêste mundo. To­davia, em vez de cuidar da redenção das almas, a maioria dos clérigos permanece em disputas vãs. Vivemos uma época de trevas espêssas. A Inquisi­ção é muito mais poderosa que os reis sem coração. A que atribuir tais desmandos? Não considerais que temos sido escravos antes que devotos?

—        Sim, minha filha — esclarecia o amigo com a sua madura experiência da vida —, suas observa­ções são justas. Deus cria a vida, não o cativeiro. Entretanto, êsses clamorosos desvios são das ins­tituições humanas. Os padres ambiciosos de poder temporal constituem fileira quase interminável nos tempos atuais, mas não poderão nunca destruir o Cristianismo na sua essência eterna, divina. A misericórdia de Deus lhes tolera os insultos, mas há de chegar o tempo de se restabelecer a verdade. Sou de opinião que tôdas as iniqüidades da Terra são impotentes para aniquilar uma centelha de nossa fé.

A última frase despertou em Madalena pensa­mentos novos. Num belo minuto de meditação, es­quecia as vicissitudes da Terra e as angústias do Tempo, para alcandorar-se nos sublimes problemas da alma.

—        A fé? — obtemperou — como adquiri-la, — padre? De mim a entendo como um estado superior, conseguido na oração. Tudo tenho feito por en­contrar alívio e refúgio na confiança em Deus. No entanto, sinto-me bem longe da paz íntima que tanto ambiciono.

O         eclesiástico lançou-lhe um olhar significa­tivo, como a dizer que lhe era impossível resolver definitivamente a questão e explicou:

—        Não poderemos criar os valores da fé, en­quanto nos sobeje a inquietação, e acredito que nossas relações com a Divindade devem ser as mais simples possíveis. Quanto a mim, considero que cada dia é uma oportunidade renovada para o labor de nossa redenção. Resumo as minhas preces à vigília da manhã, na qual procuro a ins­piração do Evangelho ou dos livros que nos suscitam desejos de perfeita união com o Cristo, e ao louvor da noite, quando busco examinar os ensejos de serviço ou testemunhos que o Senhor me fa­cultou.

Ela não compreendeu a contento e interrogou:

—        Mas... como?

—        Tôda a leitura edificante derivou da Pro­vidência por intermédio dos seus mensageiros, em nosso socorro; com as suas advertências e concei­tos, sábios e preciosos, faço a vigília matinal e à noite rendo graças ao Pai, em consciência, pelos favores que me foram dispensados. Na vigília, estabeleço propósitos redentores; e no exame da noite julgo-me a mim mesmo, para verificar onde se cristalizaram minhas maiores fraquezas, a fim de emendá-las no dia imediato. O mundo, a meus olhos, é uma vasta oficina, onde poderemos con­sertar muita coisa, mas reconhecendo que os primeiros reparos são intrínsecos a nós mesmos.

Grandemente interessada, a suposta viúva de Cirilo insistiu:

—        Se dais tanto valor ao esfôrço espiritual da manhã e às meditações da noite, como encarar o dia?

Creio que entre a vigília e o louvor está

o          trabalho que o Senhor nos deferiu, O dia cons­titui •o ensejo de concretizar as intenções que a matinal vigília nos sugere e que à noite balan­ceamos.

O         reduzido auditório, isto é: Madalena, Al­cione e Dolores, bebia-lhe os conceitos com profunda atenção.

A serva, talvez impressionada pelas suas defi­nições de trabalho, indagou:

—        Padre Damiano, como proceder, então, nos dias em que as circunstâncias nos impeçam de trabalhar? Estaremos fugindo ao ensejo que Deus nos concedeu?

O         religioso compreendeu o móvel da pergunta e tentou explicar:

—        Acreditas, então, que só aos braços foram conferidas as atribuições de serviço? Os ouvidos trabalham quando ouvem, os pés quando cami­nham. A língua esforça-se, a inteligência atua. Quando cessam as possibilidades de ação no exte­rior, há no íntimo da criatura todo um mundo a desbravar. Chego a refletir que, às vêzes, a enfer­midade atormenta a criatura para que ela se volte para dentro de si e aproveite a oportunidade, no esfôrço laborioso de sua renovação.

Para a filha de D. Inácio, aquelas conclusões sôbre a prece eram novas e surpreendentes. Tal como acontecia em tôdas as esferas religiosas do seu tempo, supunha que orar equivalia a pedir. As cerimônias da igreja, quase sempre, resumiam-se em longas súplicas, apenas. Os livros devocionais englobavam rogativas, da primeira à última página. Os ex-votos, as procissões, os sermões públicos, representavam pedidos insistentes. Por isso mes­mo, a viúva inquiriu com certa indecisão:

—        Vossos esclarecimentos quanto à oração me surpreendem; contudo, necessito expor minhas dú­vidas mais íntimas. Não teria Deus concedido ao mundo a faculdade de rezar, a fim de que a alma humana aprendesse a pedir? Sempre conheci essa manifestação do sentimento como rogativa. Con­sidero, entretanto, que, se tôda a nossa atividade re­ligiosa estivesse circunscrita aos atos precatórios, não passaríamos, neste mundo, de uma assembléia de mendigos. Que dizer do homem que reclamasse, de mãos postas, o manjar do céu, sômente por reter o suor na semeadura do seu quintal? Poderá alguém insistir na obtenção da verdadeira paz, quando ainda disputa a ferro e fogo a posse de bens perecíveis? Chegará alguém à esfera dos anjos, quando ainda não chegou a ser homem?

Reconhecendo o interêsse despertado por suas palavras, Damiano sentiu-se encorajado e conti­nuou:

Naturalmente que deveremos apelar para o Céu, mas, no interpretar a prece como rogativa, suponho que não devemos ir além do “Pai Nosso”, porque, acima de tudo, julgo que a oração deve ser um esfôrço para nos melhorarmos. Deus nos pro­cura a todo momento e o ato devocional será, então, tarefa incessante do espírito, apagando as imper­feições, para que o Pai nos encontre.

—        Mas, criaturas há que maldizem o destino —acrescentou Madalena sumamente interessada. —Como não importunar o Céu, quando padecemos necessidades angustiosas? Para muita gente, a Terra não passa de odioso degrêdo e o corpo re­presenta escuro cárcere.

—        Não creio. Só há mendicidade em nossa alma. E no que se refere a paisagens do mundo, o próprio deserto tem a sua beleza. As estradas que pisamos estão repletas de perspectivas encantadoras. Uma fôlha da primavera ou um punhado de areia são documentos da glória de Deus em nossos caminhos. Quando nos referimos a regiões sombrias ou desoladas, geralmente esquecemos que elas se localizam em nosso mundo íntimo. A noção de cárcere, como a dor do remorso, nunca foram observadas no horizonte azul nem no canto dos pássaros, simplesmente porque residem dentro de nós mesmos.

—        E o sofrimento, padre Damiano? — per­guntou Madalena Vilamil, já tocada por aquêles altos conceitos. — Que me dizeis do problema do destino e da dor? Nosso futuro espiritual, após a morte, não está encerrado no céu, no purgatório ou no inferno, sem remissão?

O         interpelado sorriu e esclareceu:

— Esta palavra, ouvida pela Inquisição, repre­sentaria um crime de traição para o fanatismo de nossa época e nos levaria à fogueira. Esta circunstância nos leva a refletir na magnitude da tarefa a realizar, mas, se eu disser que minha interpretação é diferente? A morte não existe como a entendemos. O que se verifica, apenas, é uma transmutação de vida. Os teólogos suprimiram a chave simples das nossas crenças. Quando o corpo é reclamado pelo sepulcro, o Espírito volta à pátria de origem, e como a Natureza não dá saltos, as almas que alimentam aspirações puramente ter­restres continuam no ambiente do mundo, embora sem o revestimento do corpo carnal. Desde a mais remota antigüidade, os homens se comunicaram com os seus semelhantes já mortos.

E, ante o olhar admirativo da jovem senhora, Damiano passou a recordar:

— Eneias fêz consultas a Anquises, por meio dos estranhos poderes da feiticeira de Cumas; Plutarco afirmava que os sêres de outro mundo se manifestavam nos Mistérios; Sócrates tinha seu gênio familiar; Apolônio de Tiana sentia-se auxi­liado por entidades invisíveis; os imperadores ro­manos buscavam os pareceres dos habitantes de Além-Túmulo, com a cooperação dos Oráculos; Ves­pasiano procurou a palavra dos numes tutelares no Oráculo de Geryon; Tito fêz o mesmo na Ilha de Chipre; Trajano imitava-os, sondando as revela­ções do Oráculo de Heliópolis, na Síria; os cronistas do tempo antigo declaram que Augusto, depois de iniciado no culto de Elêusis, tinha contato com os fantasmas; nas páginas sagradas da Bíblia vemos Saul procurando o falecido Samuel por intermédio da pitonisa de Endor, e contemplamos os discípulos de Jesus bafejados pelo Espírito-Santo, no glorioso dia do Pentecostes...

É extraordinário! — exclamou a espôsa de Cirilo felicitada por novas luzes. — Quer dizer que os entes queridos, que nos antecedem no túmulo, nos esperam no limiar da outra vida, para as alegrias do reencontro?...

Damiano esboçou um gesto altamente signifi­cativo e acrescentou:

—        Nem sempre será indispensável partir para reencontrar...

       - Por quê? — interrogou admirada.

—        Nossa época não comporta a divulgação das supremas verdades, mas nós nascemos e renasce­mos. A vida é uma só; entretanto, as experiências são diversas. O próprio Jesus declarou aos mento­res de Israel que não era possível atingir o Reino de Deus sem renascer de novo. Inferno ou purgatório são estados do espírito em tribulação por faltas graves, ou em vias de penitência regene­radora.

A “viúva” Davenport teve a sensação de haver sido levada a um pôrto de grandiosas revelações. Recordou, súbitamente, seu primeiro colóquio com o rapaz irlandês que elegera para seu companheiro de existência, quando lhe confiara as predições do velhinho de Granada. A figura quase apagada do egipciano erradio ressurgia-lhe nos arcanos da me­mória, com os mínimos contornos. Assim, reviu na tela imaginada as portas do Alhambra e as amigui­nhas bem-amadas, destacando-se de tôdas as recor­dações as palavras conselheiras do desconhecido:

“Prepara-te, minha filha, e une-te à fé em Deus, porque teu cálice, no mundo, transbordará de sofri­mentos. Não vivemos apenas esta vida. Temos vá­rias existências e a tua existência atual é promis­sora de tributos afanosos para a redenção.” Since­ramente impressionada, relatou o incidente, que o religioso acolheu com singular carinho.

—        Podes crer — afirmou convicto — que êsse ancião deveria ser um grande inspirado.

—        Mas será possível que se troque de corpo como se muda de vestes?

       — Justamente. Só isso, minha filha, explica as profundas diferenças do caminho. Nas estradas em que buscamos a luz da salvação, encontramos os sêres humanos mais díspares. Ali, depara-se-nos um homem impiedoso, detentor de sólida fortuna; acolá, debate-se um justo entre a fome e a enfermidade, que parecem intermináveis. Num mesmo lar nascem santos e ladrões. Há pais excelentes cujos filhos são indesejáveis, monstruosos. Uma via pública exibe jovens elegantes e miseráveis cria­turas que se arrastam entre a lepra e a cegueira. Poderias admitir que o Criador, magnânimo e sábio, deixasse de ser pai para ser um experimentador desalmado? Não admitamos êsse absurdo teológico, mas ponderemos na verdade de que se cumpre, des­de agora, o — “a cada um segundo suas obras”, dos ensinamentos de Jesus. Na obra divina, infi­nita e eterna, cada filho tem responsabilidade pró­pria. A criatura se engrandecerá ou submeter-se-áao rebaixamento, conforme utilize as possibilidades recebidas. No caminhar de cada dia, podemos obser­var os que ascendem, apesar dos dolorosos teste­munhos; os que estacionam em receios inúteis; os que resgatam e os que contraem novas dívidas.

Madalena Vilamil, depois de apurar ainda mais as impressões próprias, considerou sensibilizada:

—        Vossas razões me suscitam mais vastos ra­ciocínios. Às vêzes, padre, sonho com assembléias que me forçam a decisões prejudiciais, com praças armadas e onde minha voz ordena ações cruéis... Vejo-me, então, detentora de poderes, rodeada de súditos numerosos... Em seguida, acordo exausta, com a impressão de haver regressado de uma re­gião de reminiscências indesejáveis.

—        Ah! sim? — murmurou Damiano com um sorriso — quem sabe a nossa permanência em Ávila constitui uma repetição de circunstâncias do passado ominoso? É possível que tenhamos tido riqueza e autoridade, exercendo tirania. A casa. de Deus é cheia de justiça com misericórdia.

A viúva Davenport meditou alguns minutos nas provações sofridas, considerou a razoabilidade dos conceitos expendidos e concordou:

—        É verdade. Minha existência parece obe­decer a êsse plano de tributos expiatórios. Desde criança, venho observando que nas situações deci­sivas sou obrigada a curvar-me às circunstâncias. Nos grandes lances, tenho a impressão de que minha vontade é anulada por misterioso poder...

—        E és muito feliz em não desobedecer.

—        Entretanto, padre, as mágoas são muitas e rudes.

—        Mas se o esfôrço divino de Jesus foi aureo­lado no Calvário, quem poderá pensar na glória celeste sem a coroa de espinhos? As pessoas felizes costumam não ter história, e, quando a possuem, nem sempre registram episódios mais dignos. Com essa idéia, não quero dizer que devamos andar no mundo como aventureiros do sofrimento, em farra­gem de trapos e lamentos, mas desejo realçar o valor das lutas incruentas do coração, que tem­peram o caráter e iluminam a vida. A maioria dos santos esteve indecisa, até que o testemunho reden­tor, pela dilaceração de si mesmos, lhes abriu os horizontes infinitos da Eternidade. Nascemos e renascemos, até que possamos encontrar asas de sabedoria e de amor para os vôos supremos.

—        Vossas idéias a respeito da pluralidade de existências — disse Madalena — traduzem imensas consolações. Depois que voltei da França, já fui duas vêzes à igreja de São Tomás assistir aos ofí­cios religiosos, mas nunca poderei definir as emo­ções que me assaltaram ao contemplar-lhe as ima­gens antigas. Ao ajoelhar-me próximo do púlpito, a grandeza do velho templo parecia revocar-me a lem­branças imprecisas de outras eras, que eu não conseguiria definir. Terminada a missa, visitei todos os altares e extasiei-me na contemplação do velho claustro... Poderosas impressões domina­ram-me o pensamento... Fiquei convencida de que cada coisa, ali, me era familiar e, contudo, quando menina, no internato, raras vêzes visitei êsse templo e nunca experimentei tais sensações.

— Sim — considerou Damiano em atitude de funda reflexão —, a igreja e o claustro de São To­más têm sua história longa e estranha. Ali foram tomadas muitas deliberações importantes, nas reu­niões dos reis católicos com os membros do Santo Ofício.

Houve uma pausa e logo a moça interrompeu:

—        Já que essas teorias tanto edificam, por que não cuida a Igreja de as divulgar?

—        Por enquanto não devemos pensar nisso. Estas revelações espirituais nos chegam da mais remota antigüidade, mas a Igreja Católica não po­derá tão cedo espalhar o clarão dessas verdades confortadoras. A noite que desceu sôbre nós ainda não terminou.

—        Mas, acaso não se trata de consolações di­vinas?

—        Sim, mas nossa crença atual tem sua base no terror da tirania religiosa e não na liberdade sublime do Evangelho. Se Jesus voltasse agora, à Terra, seria perseguido como impostor, com suplí­cios talvez maiores que os da cruz. A barca de Roma é diferente da barca da Galiléia. Na primeira, temos sacerdotes ambiciosos e insaciáveis; na segunda, tínhamos pescadores. Em Roma, es­plendem palácios; enquanto que em Belém fulgia a manjedoura. No Vaticano, faiscam gemas preciosas da tiara pontifícia; em Jerusalém o cálice era de vinagre e a coroa tecida de espinhos.

Madalena recolhia as citações com indisfarçá­vel interêsse, enquanto o eclesiástico rematava:

—        Compreendes as diferenças?

—        Abraçais então a Reforma? — arriscou, re­ferindo-se ao movimento religioso iniciado por Mar­tinho Lutero.

       — Aceito a necessidade da reforma intima. Se os protestantes puderem alcançar semelhante renovação, por certo serão bem-aventurados. Quan­to ao mais, se ainda me encontrasse sem respon­sabilidades definidas, seria justo empunhar uma espada de batalhador ativo em prol do restabeleci­mento da verdade; contudo, se Deus me chamou ao labor do ministério católico, devo obedecer, com­preendendo que o meu combate é no silêncio e na meditação, longe dos olhos indiscretos do mundo.

 

Aquelas conversações construtivas repetiam-se diàriamente. Quando o sacerdote não comparecia, a viúva Davenport, Dolores e João de Deus, segui-dos de Alcione, prosseguiam nos mesmos comen­tários. Eram passagens evangélicas, livrinhos de meditações, contos educativos, o material de luz das palestras fraternais do grupo modesto. Padre Damiano, de vez em quando, contava a história dos primeiros mártires do Cristianismo, e a recordação dos sacrifícios provocava um manancial de lágri­mas benéficas. A lembrança de sua resistência he­róica, de sua exemplificação de coragem, bondade e fé, acendia, em todos, novas claridades confor­tadoras.

Os meses corriam céleres para aquela reduzida assembléia de corações, que não desejava outra coisa senão a paz perfeita em Jesus.

A pequena Alcione encontrava singular en­canto nas descrições dos tempos remotos, em que os cristãos perseguidos se reuniam nas catacumbas abandonadas. A narrativa das festividades bárbaras da época de Nero marejava-lhe os olhos, mas, quan­do ouvia a leitura das respostas firmes dos mártires aos algozes, exultava de entusiasmo. Denunciando vocação para o sacrifício, certa vez interrogou:

— Padre Damiano, onde é agora o circo? E as feras? Ainda podemos sofrer para mostrar a Jesus que não estamos de acôrdo com os que o crucificaram?

O religioso achou muita graça na lembrança e explicou:

       — Sem dúvida, poderemos testemunhar nos­sa fé a todo tempo, em tôdas as circunstâncias.

E observando que a criança aguardava res­posta completa, concluiu sorrindo:

- Agora o circo é o mundo e, na maioria dos casos, as feras são os homens.

 

       Dois anos, relativamente tranqüilos, assim pas­saram, O religioso amigo vivia sempre na expecta­tiva de uma surtida à América. Quando todos os planos pareciam ajustar-se ao cometimento, surgia um imprevisto dominante. Adiavam-se então as esperanças, indefinidamente. Madalena Vilamil, to­davia, gozava melhor saúde, com exceção dos pés, que a obrigavam a se contentar com a pequenina paisagem da sua pobre granja. Movimentava-se, porém, sem maiores torturas, dentro de casa e no âmbito do quintal, e isso era motivo de enorme satisfação. As palestras e reflexões diárias, sôbre a vida espiritual, renovavam-lhe as fôrças psíquicas. Tinha ilimitada confiança no futuro de além-tú­mulo. No trato das idéias novas, chegava à con­clusão de que a viuvez e a pobreza material repre­sentavam condições do testemunho e em tudo havia possibilidades de honrar os decretos divinos. Re­cordava o passado, detinha-se nas reminiscências dos dias mais tormentosos e refletia que as piores situações haviam passado. Além do mais, a Provi­dência lhe concedera um bálsamo celestial nas carícias da filhinha, cuja companhia representava o alfa e o ômega da sua vida. Sua fé religiosa, ao influxo dos novos conhecimentos, ganhara mara­vilhosos poderes de resistência. Estava certa de que encontraria novamente o espôso e os pais, quan­do entregasse o corpo material às sombras do tú­mulo. Essa crença proporcionava-lhe constante re­novação de energias morais, e chegada a noite, na hora das preces, sentia doce tranqüilidade de consciência e infinita esperança a encher-lhe o ferido coração.

Por essa época, verificou-se memorável evento no sítio. Atendendo à generosa interferência de amigos, os EstigarríbiaS consentiram no casamento de João com a Dolores; e Madalena muito se rego­zijou com o feito. A cerimônia, muito simples, foi celebrada na residência da noiva, pelo padre Da­miano, com a presença de D. Alfonso, que via no feito um elo a unir a fazenda poderosa à humilde chácara confinante.

João de Deus, no entanto, casara-se sob con­dição de continuar na mesma situação de semi-liberto, da qual a espôsa teria de compartilhar. Dolores, todavia, ficou livre para prosseguir coope­rando com a ex-senhora, como lhe aprouveSse, apesar de Madalena ter agenciado outra serva, indispensável aos trabalhos da horta e do pomar.

A família Estigarríbia, desejando talvez apa­gar as más impressões do passado, mandou cons­truir uma casinha modesta para o casal, justamente na divisa da chácara, para que a senhora Vilamil não ficasse afastada dos seus amigos prestimosos.

Dessarte, o casamento da serva não alterou o regime doméstico de Madalena, de maneira es­sencial.

E, como a interpenetração de planos constitui fenômeno inelutável no curso da vida, vejamos o que ocorria a Antero de Oviedo no plano espiritual.

 

Em região de sombras compactas, seu espírito reparava com lágrimas de compunção a inconsciên­cia de outrora. Azorragado pelo remorso, tinha a impressão de estar mergulhado em noite infinda, no bôjo imenso de insondável abismo. Dois anos lhe pareciam dois séculos de amargor inconcebível. De quando em quando, tentava erguer-se do abati­mento que o prostrava, para logo recair em ma­rasmo de agonias, como se lhe não fôra possível intentar, sequer, desprender-se daquela geena.

A princípio, tinha fome e sêde, mas, aos pou­cos, tais sensações cediam a padecimentos mais atrozes. As últimas impressões da morte trágica subsistiam e até se requintavam, esmagando-o, qual catadupa de indefiníveis angústias. Terrifico si­lêncio envolvia-o, uniforme, invariável. Quando an­siava por ouvir vozes humanas, chegavam-lhe ruí­dos confusos de gargalhadas escarninhas, deixan­do-o quase convicto de estar sendo espreitado por inimigos intangíveis que, embora igualmente mer­gulhados no manto de trevas espêssas, zombavam de Deus e das noções santificantes da vida.

Lágrimas dolorosas lavavam-lhe o rosto, in­cessantemente Apesar de convencido do seu desprendimento do corpo carnal, guardava a impres­são nítida de sua personalidade humana.

Precito impenitente recompunha os mínimos elos das experiencias em que fracassara. A infância na Espanha, os desvelos maternais de D. Mar­garida, as preciosas oportunidades perdidas, tudo, tudo o atormentava e transformava o coração em fonte de pranto inestancável As Possibilidades de Paris apareciam-lhe agora como largos caminhos que o teriam Conduzido ao dever mais nobre, e, no en­tanto, cruel e egoisticamente desprezado. A lem­brança do crime praticado com a prima, enfêrma e indefesa, era uma úlcera envenenada que lhe agra­vava a desventura. Era como se ali a tivesse, rece­bendo a falsa notícia da morte do marido, acari­nhando a recém-nascida, desfeita em pranto. De­pois, era o moço irlandês viajando cheio de con­fiança nos seus préstimos fraternos, e — coisa extraordinária! — no pandemônio das recordações como que lhe ouvia as últimas palavras na véspera da partida.

Apuado pelo remorso, voltava às ruas parisien­ses devastadas pela varíola ascorosa, e debalde tentava regredir no tempo, a fim de corrigir o êrro clamoroso. Nos pesadelos que o assediavam, revia a casa de Santo Honorato, ansioso por defender Madalena até ao fim, mas, simultâneamente, a lem­brança do cemitério, com as aleivosas sugestões de Susana, passava-lhe no cérebro entontecido, qual nuvem de fogo. Uma azenha ao estridor de remi­niscências amargas que pareciam não ter fim. A recordação do regresso à terra natal com propó­sitos ignóbeis e a insistência brutal por satisfazê-los com a prima, que deveria respeitar, levavam-no às raias da loucura. Federigo Izaza surgia-lhe como verdugo de cuja influência aviltante era preciso fugir, mesmo de longe.

Atemorizavam-no as reminiscências concernen­tes ao comércio e tráfico escravista. Revia as cenas torpes das embarcações negreiras, nas raras vêzes que as visitara ao largo da costa africana. E ouvia as lamentações e o praguedo dos que se viam obri­gados à separação dos entes queridos. Tudo lhe aflorava à mente dolorida, com prodigiosa viva­cidade e nitidez.

Como não conseguira entrever a verdade na Terra? Que venda estranha lhe cegara os olhos? Por que não amparara Madalena nas vicissitudes da sorte, em vez de arruinar-lhe o porvir de espôsa e mãe? Por que anuíra à criminosa sugestão de abusar das criaturas ignorantes, conduzindo-as a imerecido cativeiro, quando lhe competia auxiliá-las fraternalmente, por comezinho dever de huma­nidade?

Rememorando o passado, Antero de Oviedo cho­rava convulsivamente, azorragado na consciência.

O veneno fulminante, com que se suicidara, parecia corroer-lhe ainda as vísceras, num suplício sem fim.

Tremia, chorava, aniquilava-se dentro da sua imensa dor.

Todavia, o fato que mais o impressionava era ter a destra mirrada e um dos pés ressequido! A treva impedia-lhe a visão, mas, de quando em quando, pelo tato, com sensações dolorosas, ia com­preendendo a singular anomalia.

Escoados mais de setecentos dias de incomen­surável amargura, certa vez rogou a Deus, com tôdas as veras do coração, lhe permitisse uma es­mola de luz no seio das trevas que o envolviam. Recordou a figura do Cristo, que jamais procurara entender na Terra, e chorou como nunca. Implorou, então, compungidamente, que o Salvador se apie­dasse da sua angústia infinita. Em voz baixa, qual criança imbele, pediu com sinceridade, embora re­conhecendo o demérito próprio, que o auxiliasse, permitindo que sua mãe adotiva viesse trazer-lhe uma palavra de coragem e reconfôrto.

Depois de assim recorrer com a humildade de quem suplica saturado de inútil desespêro, viu, pela primeira vez, destacar-se na treva um círculo de claridades confortadoras. Tomado de assombro, sentiu que alguém se aproximava em seu socorro. Mais alguns instantes e o Espírito de D. Marga­rida tornava-se-lhe visível.

—        Ah! minha mãe!... — exclamou, arrastan­do-se para beijar-lhe os pés — há quantos séculos me separei do seu coração afetuoso?

A espôsa de D. Inácio, cercada por um halo de luz, tinha os olhos nevoados de lágrimas. Inclinou-se e murmurou docemente:

—        Oh! meu filho, como te encontro!... Onde puseste o amor que te dei? Por que te chafurdaste no tremedal das paixões humanas, quando te en­sinei a elevar o pensamento a Deus, desde os pri­meiros dias da tua infância?

Em atitude maternal, sentou-se ao seu lado e acariciou-lhe a cabeça, que o rapaz conservava sôbre a mão esquerda, a chorar convulsivamente.

—        Como te venho encontrar, Antero! Os men­sageiros de Jesus permitiram viesse trazer-te alguma consolação. Reanima-te, filho!...

—        Perdi tudo — exclamou o desventurado

não me resta da experiência humana senão um mar de tormentos e lágrimas. E, por fim, minha mãe, Deus me atirou neste abismo nefando!...

Mas ã nobre entidade lhe cortou a palavra, asseverando:

—        Não blasfemes! Deus é Nosso Pai e nos criou para a luz eterna. Somos os responsáveis pela queda nos desfiladeiros cruciais. A Providên­cia nos cerca de todos os carinhos, traça as sendas de amor que devemos trilhar e, no entanto, meu filho, no círculo da liberdade humana, relativa, a paixão nos aniquila, o orgulho nos cega, o egoismo nos encarcera em suas prisões malsãs. Como po­derias afiançar que o Senhor te conduziu a êste lugar tenebroso, se desprezaste o roteiro da sua infinita misericórdia?

Antero, entretanto, tocado pelas angustiosas recordações terrenas, obtemperou amargurado:

—        Mas tudo no mundo conspirou contra mim!

—        Não seria mais acertado dizeres que cons­piraste contra tudo? Combateste os sentimentos nobres que te infundi na infância; guerreaste a paz do nosso lar; tramaste contra os sêres nascidos em liberdade. Onde pus, em teu coração, os ensinos do Cristo, entronaste a indiferença; no caminho de duas almas em união santificada por Jesus, se­measte a mentira e o sofrimento; nas regiões por Deus destinadas à vida livre, plantaste os espinhos da escravidão. Não teria sido misericórdia arran­car-te aos sorvedouros do mal, trazendo-te a esta noite desolada para que pudesses meditar? Abençoa as dores que te ferem o espírito e estraçalham o coração. Essas amarguras atrozes obrigam-te a calar, para que a verdade te fale à consciência. Ainda para os mais broncos criminosos, endureci­dos no mal, sempre surge um momento em que, premidos pela dor, são forçados a ouvir a voz de Deus.

O         réprobo soluçava nos braços da interlocutora, qual filho ansioso por desabafar tôdas as mágoas no regaço materno. Aquelas palavras deram-lhe grande alento ao coração delido.

— Reconheço a enormidade das minhas faltas concordou humildemente —, no entanto, mãe, fui órfão de tôdas as alegrias!

— Não o fôste tal, e sim, e só, um ser incon­tentável.

— Aspirações cortadas por um destino cruel...

— Ninguém pode alcançar felicidade quando transforma as aspirações em caprichos inferiores.

Traduzindo num gesto relutância e desacôrdo, ei-lo a insistir:

—        Tôdas as lutas terrestres ser-me-iam favo­ráveis se Madalena me houvesse atendido ao cora­ção. Ao seu lado eu cultivaria a virtude, fugiria do mal, teria vencido as mais rudes batalhas, mas...

A nobre entidade, aproveitando a pausa reti­cenciosa, redargüiu com energia e serenidade:

—        Não acuses tua irmã por faltas oriundas de tuas próprias fraquezas. Madalena jamais te faltou com a exemplificação fraternal. Assediada por ne­cessidades cruéis, foi tua amiga desvelada; nas horas de incerteza, sempre teve uma palavra de inspiração para os teus desígnios. Que mais pode­rias desejar?

Êle abanou a cabeça e respondeu:

—        Mas, de coração foi sempre inflexível. Tal­vez um gesto de ternura, um beijo, uma esperan­ça... me salvassem...

       — Como nunca te lembraste de lhe oferecer o carinho com desinterêsse de coração? Por que não recordaste o beijo fraternal, com cuja essência po­derias retificar a mentira execrável que lhe agravou os padecimentos no mundo? Viveste, meu filho, aproveitando as situações críticas para forjar ações criminosas; acompanhaste-lhe as lágrimas com ati­tudes frias e gozaste intimamente com a separação de duas almas que Jesus havia unido em suas bênçãos de amor. Que seria de ti se Madalena houvesse atendido aos teus arrastamentos inferio­res, esquecendo os deveres sagrados de espôsa e mãe? Terias uma noite mais densa, dores mais cruéis. Caíste, é verdade; mas, ainda podes orar, ainda tens a dádiva do pranto remissor!...

O         sobrinho de D. Inácio, agora, parecia fla­gelado por uma tempestade de lágrimas. Tinha a impressão de recuperar a razão, mediante aquelas recriminações lançadas face a face pela lealdade da mãe adotiva. Nada obstante os sofrimentos ex­perimentados, ainda não havia tudo aprendido. Sômente agora conseguia esmar a extensão da sua cegueira criminosa no mundo. Esmagado pelo justo reconhecimento das faltas clamorosas, sentiu-se in­capaz de algo mais objetar, permanecendo à mercê dos remorsos pungentes.

D.        Margarida, depois de longa pausa, acari­ciou-lhe a mão mirrada e falou:

—        Já refletiste nos resultados da emprêsa que tentaste no mundo? O menosprêzo da oportunidade reparadora fere-te agora com amargas conseqüên­cias. A mão que assinou documentos condenáveis, aí a tens mirrada; o pé que se moveu no rumo dos feitos delituosos está ressequido; os olhos que pro­curaram o mal repletam-se de sombras espêssas...

Ao ouvir tais coisas, o rapaz mostrou reconhe­cer num gesto a sua penosa situação, mas, lembrando-se sübitamente da presteza com que sua prece fôra atendida, no caso da vinda de sua mãe pelos laços espirituais, asseverou humildemente:

—        Rogarei a Jesus me socorra com a liberdade de movimentos.

—        Sim — explicou D. Margarida —, o Senhor não te negará o quinhão da sua excelsa bondade, mas só ao contato de novas lutas terrenas con­seguirás reintegrar-te nas faculdades sagradas que espezinhaste, esquecendo voluntàriamente os mais nobres deveres.

—        Como assim? — interrogou admirado.

       — Jesus perdoa, não com as fórmulas ver­bais, tão fáceis de enunciar, mas com a renovação do ensejo de purificação, O corpo carnal é tenda preciosa, na qual podemos corrigir ou engrandecer a alma, apagar as nódoas do passado obscuro, ou desenvolver asas divinas, por nos librarmos a pleno espaço em busca dos mundos superiores. Sômente na Terra, meu filho, onde imprimiste tão negro cunho aos próprios erros, encontrarás meios de re­generar a saúde espiritual, pervertida no crime.

—        Mas não bastaria a misericórdia divina a meu favor? — volveu ansioso, por afastar a perspectiva de humilhações no ambiente humano.

—        A misericórdia jamais falta, em tempo al­gum; ela permanece na afeição sincera dos amigos espirituais, que velam por ti, e no próprio remorso que te molga o espírito desolado. Deus tudo con­cede, mas não nos isenta das experiências neces­sárias. O perdão do Pai, ao lavrador ocioso, está na repetição anual da época do plantio. Nessa renovação de possibilidades, o semeador indolente encontra os meios de regenerar-se, ao passo que o trabalhador diligente e ativo defronta condições de engrandecimento sempre maior. Compreendes, agora, o perdão de Deus?

—        Compreendo!

—        Pois bem; se rogaste ao Senhor a minha presença, implorei igualmente a Jesus me permitisse reorganizar as tuas possibilidades de trabalho no orbe terrestre. A bondade infinita do Mestre concedeu-me essa dita. Só assim poderás restabe­lecer o equilíbrio da tua personalidade.

E ante o gesto de espanto do rapaz, que a ouvia mudo, a benfeitora prosseguiu:

—        Ainda poderás aproveitar a missão de Al­cione, que voltou ao nosso núcleo familiar a fim de nos ensinar a todos a humildade, o amor, o perdão recíproco e a obediência a Deus. Não terás a beleza física de outros tempos, nem a liberdade plena de movimentos, mesmo porque regressarás ao mundo para um esfôrço de cura; todavia, se bem souberes renunciar aos teus caprichos, ao terminar as futu­ras provas estarás reintegrado na harmonia espi­ritual, para prosseguimento de novas tarefas evo­lutivas, na carne ou fora dela. Jesus me concedeu a felicidade de trazer-te esta dádiva. De ti, porém, depende agora prolongar teus sofrimentos expiató­rios, ou assumir o compromisso de os abreviar.

Antero temia as angústias da Terra, mas, com­preendendo a generosa intenção da venerável amiga, murmurou:

—        Aceito.

 

Desde o momento em que se revelou absoluta­mente conformado, sentiu que o Espírito maternal o sustinha nos braços fortes e acolhedores.

Por quanto tempo andaram assim, os dois, através de extensas paragens sombrias? De si, não o saberia dizer.

Em dado instante, porém, viu-se, com a ben­feitora, defronte de modesta vivenda cercada de arvoredo. Não teve dificuldade em identificar o teto humilde onde havia instalado Madalena. Aproximaram-se. A espôsa de Cirilo entretinha-se a costurar junto da filha, que parecia muito atenta ao trabalho materno. O rapaz esboçou um gesto e teve uma exclamação de surprêsa, mas logo com­preendeu que ninguém dera pela sua presença na­quele aposento banhado de sol.

D.        Margarida tranquilizou-o com um gesto e acrescentou:

—        Vês? Ela vem lutando herôicamente e apro­veita agora as contingências da pobreza material para elevar-se a Deus.

O         precito entrou a meditar profundamente. Daí a instantes, todavia, a graciosa Alcione, como que tocada no uno do coração, exclamou com es­tranho fulgor nos grandes olhos:

—        Mamãe, a senhora tem-se lembrado do pri­mo Antero?

—        Por que perguntas?

—        É que hoje quero pedir a Deus por êle, quando a senhora fôr rezar.

—        Pois sim — disse a espôsa de Cirilo, comovida.

- Mamãe, há quanto tempo êle foi para o Céu? — interrogou a linda criança, na sua encantadora ingenuidade.

—        Há pouco mais de dois anos.

Mal sabiam que Antero de Oviedo ali estava ajoelhado junto delas e desfeito em lágrimas, ao refletir que aquêles dois anos lhe pareciam dois longos séculos.

 

Caminhos de luta

A chegada dos retirantes irlandeses em ter­ras da América ocorreu sem maiores incidentes, não obstante a demorada travessia, delonga normal naquela época.

O velho Gordon, como guia experimentado, conduziu a caravana com segurança ao pôrto de destino, onde os imigrantes se instalaram na zona mais tarde absorvida pelos subúrbios de Hartford.

Todos os corações estuavam de esperanças novas.

Cirilo estava deslumbrado com a riqueza da terra, impressionando-se com a beleza dos horizon­tes. A paisagem evidenciava, de fato, um mundo diferente, que, no dizer de Abraão Gordon, era a região destinada por Deus aos homens de boa vontade.

A adaptação da pequena comunidade não apre­sentou dificuldades apreciáveis. Em breves dias, identificava-se satisfeita com as mudanças havidas, embalando-se em perspectivas promissoras. A caça e a pesca eram novidades que a todos proporcio­navam não sômente diversões inéditas, senão tam­bém abundante celeiro.

Samuel e Abraão, aportados à nova terra, ad­quiriram uma centena de escravos, e, com o auxílio do braço negro, iniciaram as primeiras culturas. Ao calor de entusiasmos fecundos, desdobravam-se energias para as tarefas imensas, assinalando-se que, ao fim de poucas semanas, todo o trabalho estava normalizado.

Recordando o berço natal, a extensa região que abrangia as duas grandes propriedades rurais foi batizada com o expressivo nome de Nova Ir­landa.

Samuel e Constância não cabiam em si de contentes e, apesar das saudades do Ulster, faziam o possível para reproduzir e conservar as peque­ninas coisas que adornavam as antigas fazendas da Irlanda distante. Movimentavam-se os empre­endimentos, nesse sentido, não apenas no interior doméstico, mas igualmente na divisão das pasta­gens, na localização da lavoura de batatas e legu­mes, nos aviários, estábulos e redis.

Cirilo, ao lado de João e Carlos Gordon, pro­movia importantes iniciativas. Cheios de energia e mocidade, operavam, os três, uma verdadeira revolução agrária, orientando grandes turmas de servos, na transformação benéfica dos patrimônios da natureza. Aqui, eram braços d’água captados a distância de quilômetros, para fertilizar pastagens e acionar moinhos; além, eram os campos de ex­perimentação dos cereais encontrados. Aproveita­vam-se todos os conselhos dos colonos chegados antes dêles. Regiões vastas foram destinadas ao plantio do fumo — base econômica de maior im­portância para o comércio de exportação.

Cirilo, principalmente, não tinha meças de re­pouso, encantado com a grandeza do território que lhe desafiava a mocidade robusta e empreendedora. Atividade posta no trabalho intensivo e pensa­mento voltado para o lar distante, iniciou logo a construção da casa própria, fiel aos desígnios tra­zidos da Europa. A exemplo do que fazem aves providas, escolhia com desvelado carinho o mate­rial mais adequado à construção do ninho de fu­tura tranqüilidade. Lembrava as menores obser­vações da companheira, com referência ao assunto, para que fôssem cuidadosamente desdobrados os serviços iniciais. A paisagem parecia corresponder aos mais íntimos desejos da espôsa, pois de fato encontrara uma pequena zona de cômoros verde­jantes, regada pelas águas claras do Connecticut, tudo a esbater-se em magnífico fundo azul. Cirilo cercara o local com particular cuidado, para que as árvores frutíferas desenrolassem os primeiros ramos.

Ouvindo-lhe os planos de futuro, todos calcados em sonhos de paternal ventura, Constância sorria, embevecida, e, por sua vez, idealizava mil coisas para que a nora só encontrasse bem-estar no am­biente colonial.

Estava a completar-se um ano que haviam emigrado, um ano de esperanças e trabalhos para Cirilo, e também de saudades e expectativas an­siosas de notícias que jamais lhe chegavam, excetuadas as cartas recebidas nos primeiros tempos.

Agora, esperava êle uma embarcação segura para voltar a Paris, em busca da espôsa que tanto o preocupava. Entretanto, êsse navio, que o deveria levar, trazia-lhe dolorosa carta do tio Jaques, na qual, com mão trêmula, comunicava os tristes acon­tecimentos de França. Historiava a epidemia com tôdas as côres negras e, por fim, registrava, pesa­roso, a espantosa notícia do falecimento de Mada­lena e de seu pai, pouco depois da morte de D. Mar­garida, e mais que, de Versalhes, Antero de Oviedo lhe comunicara que seguiria para a América do Sul, sobrecarregado de profundos desgostos.

A leitura da lutuosa carta fizera-se acompa­nhar de efeito fulminante. O rapaz debalde ensaiou um gesto de resignação ante a fatalidade que lhe modificava o destino. As letras baralharam-se-lhe na retina, trêmulo de assombro. Lágrimas arden­tes misturavam-se a soluços de irremediável aflição, apesar das expressões confortadoras de sua mãe. Naquele momento, tudo estava terminado para o seu coração afetuoso. De que lhe servira tamanha bagagem de esperanças se a fatalidade assim anu­lava todos os projetos sublimes? Agora, concluía que a mudança, efetuada com tão grandes aspirações de futuro venturoso, não passava de estranho e miserável exílio. Custava-lhe admitir a realidade das informações inesperadas e exasperantes. En­tretanto, a carta do velho amigo de Blois não dava margem a qualquer dúvida. Além disso, na mesma embarcação que lhe trouxera a infausta nova, che­garam diversos imigrantes franceses, que se decla­ravam involuntàriamente expatriados, diante da epidemia devastadora.

O         pobre rapaz caiu em situação desesperadora. Espantava-o a tremenda impossibilidade de qual­quer lenitivo. Seu intraduzível sofrimento tinha, ao seu ver, o cunho de fatalidade irremediável. Pros­trado em febre alta, foi forçado a acamar-se, movi­mentando tôda a “Nova Irlanda” em tôrno do seu leito. Em vão, porém, sucediam-se os argumentos consoladores. Seu olhar era quase indiferente às exortações evangélicas do ancião de Belfast, e rea­gia, dificilmente, mesmo aos apelos maternais. Ao seu ver, aquela dor era inacessível ao raciocínio de quantos o rodeavam. Nenhum dos seus havia conhecido Madalena e ninguém na colônia podia avaliar sinceramente a sua desgraça irreparável.

Constância, porém, desfazia-se em desvelos, na sua infinita capacidade de afeição. Na véspera da missa que mandara celebrar em intenção da nora supostamente falecida, abeirou-se do leito do filho inconsolável e falou-lhe com carinho:

—        Meu filho, é verdade que o teu sofrimento é indefinível e que longe estamos de imaginar tôda a intensidade do teu desgôsto, mas, peço-te con­siderar minha confiança de mãe!... Acaso terão terminado todos os teus deveres neste mundo? Re­conheço que teu amor conjugal é muito grande; todavia, nós também te amamos muito!...

Quis responder, asseverando que sua ventura estava destruida, que o mundo não lhe oferecia novos ideais; contudo, a voz morria-lhe na gar­ganta opreSsa.

— Não te entregues a êsse abatimento ful­minante de coração — continuava a palavra maternal com profundo desvêlo. — Não te peço êsse sacrifício de teus sentimentos apenas por mim. Há três noites Samuel não dorme, dizendo-se perse­guido de remorsos atrozes, por te haver trazido sem a espôsa! Não sei mais que fazer, meu filho, por demonstrar que em tudo devemos obedecer à von­tade do Pai que está nos ceus

Nesse ínterim, a bondosa senhora interrom­peu-se para enxugar as lágrimas.

— Também sofro com os pensamentos que afligem teu pai, mas que seria de nós, aqui, sem as iniciativas do teu cérebro e o valor dos teus braços? Como vês, a felicidade na colônia não se resume num sonho de quem troca o berço em que nasceu por uma pátria diferente, O equilíbrio do­méstico exige alta soma de esforços e de sacrifícios. Qual a situação se não tivesses vindo? Não podía­mos continuar dependendo tanto dos Gordons, nos­sos velhos amigos. Não acreditas, meu filho, que se hajam cumprido insondáveis desígnios de Deus? Se puderes, tranqüiliza teu pai e a mim também, neste transe tão amargo, revelando conformação e paciência; e se não fôr agravo aos teus padecimen­tos íntimos, acompanha-nos, amanhã, ao ofício re­ligioso em intenção da paz de Madalena no seio de Deus.

As considerações maternas, ditas com inflexão de imenso carinho, atingiam fundo o coração do filho.

— Logo que possas, levanta-te — prosseguiu, passando-lhe a mão pelos cabelos —, recorda as nossas necessidades de trabalho, pensa nos teus irmãos!...

Êle continuou silencioso, não obstante os ines­timáveis resultados da exortação instante e humilde.

Tão logo a genitora volveu ao interior da casa, êle começou a meditar mais sêriamente na sua necessidade de reação. Não seria egoísmo insular-se, de modo absoluto, na dor que o acabrunhava? Cumpria não agravar as tribulações maternas, nem abandonar o genitor, em meio de tantos empreendimentos iniciados. Nada no mundo poderia cicatrizar a úlcera que se lhe abrira na alma e, contudo, era preciso ocultá-la, retomar a charrua cotidiana e renovar as disposi­ções, a fim de não parecer covarde. Com grande esfôrço levantou-se. A contemplação da natureza ambiente não lhe devolveu as alegrias primitivas. A magnífica paisagem americana assumia, agora, a seus olhos, o aspecto de cemitério adornado de árvores esplêndidas, em apoteose de flores.

A missa do dia imediato foi particularmente penosa para o seu espírito afetuoso. Os Gordon e os Davenport ocupavam os lugares mais destacados do interior da capela, enquanto os escravos se con­servavaxn a certa distância, olhando-o com olhos piedosos. O pobre rapaz, entrajado em rigoroso luto, não sabia como disfarçar por mais tempo as emoções que lhe estrangulavam a alma sensível. Ao terminar o ofício, quando recebeu o último abraço de condolências, sentiu um grande alívio.

Agora desejava ardentemente embarcar para a França, ao menos para visitar o túmulo da com­panheira inolvidável e rever os sítios inesquecíveis da sua efêmera ventura conjugal; mas o professor de Blois anunciava sua vinda breve, e definitiva, acompanhado de Susana. Jaques revelara, em todos os trechos da carta, amargurosa desolação. Tam­bém fôra vítima da enfermidade terrível. A escola amada estava extinta. E pretendia embarcar, sem perda de tempo, atendendo aos rogos da filha, aflita para afastar-se do teatro de acontecimentos tão tristes.

Cirilo ponderou que seria conveniente espe­rá-los. Certo lhe trariam pormenores que ansiava por conhecer. Daí por diante, duplicou as próprias tarefas, buscando, no trabalho, lenitivo à mágoa profunda que o devorava. Taciturno e, nada obstan­te, enérgico e resoluto, levantava-se quando ainda as estrêlas luziam no firmamento, compartilhando no esfôrço rude dos escravos. Costumava fazer as refeições no campo e só regressava ao lar quando os astros da noite despontavam.

 

O quadro doméstico prosseguia sem alterações, quando a chegada de Jaques com a filha veio sus­citar assuntos novos. Diàriamente, à noite, reno­vavam-se as palestras animadas, em casa de Samuel, ou na de Abraão, ao ritmo da curiosidade geral pelas notícias do Velho Mundo, O espôso de Mada­lena lograra algum confôrto com a presença do prestimoso amigo e, fumando o seu cachimbo, cala­do, ouvia as dolorosas descrições da epidemia que flagelara as populações francesas do norte. De quando em vez, Susana intervinha no assunto, com sutileza, por dar impressões pessoais. Contara a todos que não pudera abraçar Madalena Vilamil na hora extrema, porém tivera oportunidade de acom­panhar Antero de Oviedo nas derradeiras homena­gens devidas a D. Inácio. Dada a sua presença em Paris, podia descrever os quadros impressionantes da capital francesa — circunstância que frisava com entusiasmo — carregando nas tintas negras para produzir maior efeito no auditório atento e estarrecido.

Cirilo guardou carinhosamente a cópia das ano­tações de sepultamento colhidas pela prima, em Paris. O fúnebre documento, aos seus olhos, era o último capitulo da realidade sem remédio.

A situação em “Nova Irlanda” era muito prós­pera. As duas fazendas realizavam vultosos negócios. Com a vinda dos dois colonos tão importantes, ia resolver-se um grande problema, que era o da escola. Abraão Gordon já havia ponderado o assunto e resolvido procurar um professor para o grande centro rural, O educador de Blois, todavia, atendeu com vantagem a semelhantes necessidades.

 Espírito corajoso e realizador, em poucos dias iniciava o movimento de instrução primária, entusiasticamente aplaudido por todos os companhei­ros. As fazendas vizinhas interessaram-se igual­mente pela iniciativa. Crianças de longe vinham matricular-se nas aulas prestigiosas, dirigidas por professor de reconhecido mérito;

Notava-se em Susana uma transformação sin­gular, parecia outra, ali assim, no ambiente americano. Renunciara aos hábitos frívolos, punha de parte a ociosidade e auxiliava o pai nos trabalhos escolares. O próprio Jaques estava impressionado com aquela transformação. Com alto senso psicoló­gico de mulher, Susana dividiu turmas em classes, estabeleceu melhor aproveitamento dos horários, arregimentou planos surpreendentes. Conhecendo o interêsse de Cirilo pelos escravos, consagrou parte do dia à instrução dos filhos dos cativos, visitava as senzalas pela manhã, ministrando noções de hi­giene e ensinando o melhor meio de lograr har­monia doméstica. Lançou a idéia de um grupo musical formado pelos servos, iniciativa que alcan­çava enorme êxito, após algum tempo de laboriosa preparação.

Tornara-se, enfim, credora da estima geral, esforçava-se por ser útil a grandes e pequenos, sem embargo dos sentimentos menos dignos que lhe moviam o coração. Tornara-se a alma de tôdas as realizações mais intimas, pela afabilidade com que dissimulava as intenções. Não sômente se consa­grava ao trabalho gratuito em benefício das crian­ças necessitadas, como organizava os serviços da capela, cooperava em todos os misteres de assis­tência aos enfermos, prestava auxilio eficiente aos matrimônios improvisados.

Não raro, chegavam a Hartford pequenas tur­mas de jovens órfãs ou de outras candidatas ao matrimônio na colônia, onde o número de homens sobrepujava, de muito, o de mulheres e constituía espetáculo interessante a parada dos rapazes do campo, consultando as qualidades das futuras es­pôsas. Raramente se examinavam os traços de beleza física. Quase todos, porém, se interessavam pela saúde das que reuniam melhores requisitos de capacidade para o trabalho, principalmente rijeza de pulsos e tornozelos. Os serviços da colônia exi­giam pesados esforços físicos, ou então longas ca­minhadas através das lavouras. As concorrentes julgadas incapazes dificilmente conseguiam noivar.

As famílias de tratamento entretinham-se em assistir às interessantes competições, encontrando nelas inesgotável assunto para serões humorísticos. Jaques Davenport chegara mesmo a observar que o novo continente era a primeira região do mundo na qual a mulher deveria vencer, longe da moda, e da faceirice femininas.

Em tal ambiente, era de prever que Susana Duchesne interessasse a todos os rapazes de nobre educação. Inteligente e afável, estimada por tôda a comunidade, dado as suas iniciativas de trabalho, entrou a ser reqüestada com empenho. E, contudo, ela se mostrava insensível às atenções de Carlos Gordon, que a cortejava francamente. No íntimo, Susana recalcava o seu despeito bem feminino, ao verificar que o primo, cuja afeição não hesitara em conquistar mediante um crime, dava-lhe a impres­são de não lhe perceber a presença, senão como irmã desvelada e sincera.

É verdade que o tempo lhe desfizera a sombria catadura, como se se houvesse afeiçoado à própria dor, sem conseguir alijá-la. Nunca mais, contudo, voltou a ser o mesmo homem de alegria sem mácula. A taciturnidade das primeiras semanas de viuvez foi substituida por constante retraimento, e o riso franco e sonoro de outros tempos transformou-se em discreto sorriso, ainda assim, raro. Decorrido o primeiro ano, em que sobrepujara tôdas as ex­pressões individuais em serviço efetuado, a família começou a preocupar-se com a Sua viuvez.

Constância, instigada pela sobrinha, por trás dos bastidores, certa noite em que se achava a sós com o filho, chamou-lhe a atenção para o caso. Muito delicada, evidenciando nobre prudência ma­ternal, começou a dizer, sensibilizada:

—        Na verdade, tua situação de viúvo me pre­ocupa muitíssimo. Não achas acertado refazer o destino, cogitando de um novo lar? Aí já tens a casa que a falecida, de saudosa memória, não lo­grou desfrutar. Quando te vejo a cultivar, sôzinho, as roseiras e fruteiras, sinto que o coração se me aperta no peito!... Mais vale abandonares aquelas plantações, que só teriam significação se tivesses a consorte ao lado.

O         rapaz não podia perceber a intenção materna e ponderou com sinceridade cristalina:

—        Tenho a impressão de que Madalena me acompanha em pensamento. Já em Paris havíamos combinado os dispositivos ornamentais desta vi­venda. As roseiras do portão, o cultivo dos pes­segueiros e mesmo a frente da casa para o rio, são idéias dela, que não poderei esquecer. Se me não ficou ao menos um filhinho para beijar, guardarei essas lembranças em penhor de fidelidade à sua memória.

—        Concordo com a nobreza de tuas recorda­ções, mas não posso aprovar a solidão em que vives. Suponho que poderias aliar as saudades aos impe­rativos da vida real, pois, moço como estás...

Aparando de pronto a mal disfarçada suges­tão, Círio respondeu:

—        Julgo, minha mãe, que ninguém pode amar duas vêzes.

       — Será talvez um engano, pois os afetos da vida não se confundem nunca. Como espôsa e mãe, conheço o amor em formas diferentes e estou habi­litada a dizer que estimo o marido e os filhos com um só coração, mas a cada um de certa maneira. E quando minha experiência fôese particular, há de convir que, se muitas vêzes há consórcios de amor, também não faltam os de conveniência.

—        A senhora não admite que um homem possa viver sôzinho?

—        Não vou tão longe, mas não vejo razão para que um rapaz, na tua idade, se isole totalmente da vida, como vens fazendo.

—        Mas... por quê? — indagou Cirilo intri­gado.

A boa senhora teve certa dificuldade em con­dicionar a resposta, mas, num momento, encontrou boa saída invocando os argumentos religiosos:

—        Ora, meu filho, se Jeová se preocupou com a solidão de Adão no Paraíso, dando-lhe a compa­nhia de Eva, que não sinto eu, na minha maternal fragilidade humana, ao ver-te sempre sozinho e tris­te? E a verdade é que Deus estava no céu e nós estamos no mundo ...

—        Mas o Criador — disse o rapaz, esforçan­do-se por sorrir às delicadas sugestões maternas —não deu a Adão duas Evas...

A genitora também sorriu meio contrafeita e, contudo, prosseguiu firme:

—        Deixemo-nos de humorismos. Eu estou en­carando a sério a situação. Ouve-me, filho: por que não esposas Susana, para que nossa alegria se complete? Tua prima sempre te acompanhou os passos com extrema fidelidade - Desde a infância que se interessa por teu bem-estar e procura o teu coração. Jamais lhe ouvi qualquer censura aos respeitáveis sentimentos que te levaram ao primeiro matrimônio. É um coração afetuoso, dedicado, fiel. Não seria a criatura talhada para te restituir a ventura que bem mereces? E não seria louvável que lhe oferecesses agora o teu braço protetor?

Cirilo esboçou um gesto de quem via confir­madas certas suspeitas mais Intimas e afiançou:

— Desde a chegada do tio Jaques, noto de fato, na prima, umas tantas pretensões, mas a verdade é que não posso esposá-la. Não se deve mentir nem mesmo ao próprio coração.

—        De qualquer maneira, porém — acentuou

D. Constância —, não se justifica a solidão em que vives. A própria Madalena, se estivesse conosco, não concordaria com semelhantes atitudes.

Cirilo deu a entender que os alvitres seriam objeto de acuradas meditações, mas estava longe de pensar que a investida materna representava o início de cerrada ofensiva familiar, a fim de lhe modificarem os pontos de vista.

Daí por diante, entrou a reparar mais detida­mente nas atitudes mínimas de Susana, compreendendo-lhe as razões sutis no tratamento delicado dispensado aos seus homens de serviço. A pretexto de atender às crianças negras, ela percorria fre­qüentemente as zonas de trabalho rude, distri­buindo sorrisos e palavras de confôrto. Cirilo co­meçou a pensar naquelas necessidades do homem moço, insulado no mundo, sem assistência afetuosa de uma alma feminina e sem o estímulo dos filhi­nhos, coisas que sua mãe fazia questão de salientar, quase tôdas as noites, no serão doméstico. Por vê­zes, as idéias batalhavam-lhe no cérebro oprimido. Via-se à frente de caminhos de luta áspera, em que necessitava vigilância para não cair. Assediado por uma torrente de opiniões, chegava a temer que as próprias idéias lhe faltassem no momento opor­tuno. A idéia de segundas núpcias lhe causava tal ou qual repugnância. Sempre considerara o amor como patrimônio intransferível. Era impossível bi­partir a alma, trair os estos espontâneos do co­ração.

 

Os meses corriam em tensas expectativas para a filha de Jaques, quando inesperado acontecimento veio imprimir novo rumo à situação.

Certa manhã de radioso domingo, após o culto, o ancião de Belfast procurou Susana, declarando-se mensageiro de grave assunto, que desejava exami­nar a sós com ela. A jovem atendeu, algo perturbada, visto não contar com a assistência do genitor, que se encontrava ausente.

Logo que se defrontaram a sós, na saleta par­ticular, Abraão Gordon expandiu-se com alegria:

—        Não te vexes — exclamou sorridente, com ares patriarcais —, teu pai não ignora o que te venho dizer. Conversamos ontem à noite, tendo-me êle asseverado que o caso não lhe reclama a auto­ridade paternal e sim o teu coração de filha.

—        Mas, que vem a ser tudo isto, “tio” Abraão? - interrogou a jovem obedecendo aos costumes familiares, com a designação mais íntima.

—        Di-lo-ei sem circunlóquios — respondeu o ancião sorridente: — É que a colônia está preci­sando de gente nova e novos lares, e Carlos me incumbiu de consultar-te quanto à possibilidade de um enlace, que a todos nós se afigura auspicioso.

Susana descorou. Não esperava tal coisa. A presença do velho amigo, que se habituara a respeitar desde menina, impunha-lhe uma resposta leal. Mas a sinceridade e nobreza da consulta causavam-lhe estranha emoção. Admirava Carlos Gordon, como rapaz culto e digno, mas não conse­guiria ir além disso. Pois que se lhe impunha for­mal recusa, procurava, debalde, os recursos da palavra.

—        Diga, Susana — continuou o ancião solícito —, por que te perturbas? Considera que não tens nenhum compromisso.

E vendo que ela não lhe retribuia em satisfaz­ção o que lhe oferecia com tanto júbilo, calculou a luta íntima que lhe ia na alma e procurou socor­rê-la:

—        Teus olhos rasos d’água, tanto quanto a expressão do rosto, são assaz eloqüentes para mim. Já sei que não podes preencher o futuro de Carlos, tal como o imagina êle.

Nesse comenos, sentindo-se fielmente interpre­tada, a jovem Susana prorrompeu em pranto, dando a perceber que nutria velhas mágoas. Abraão, toca­do pelas profundas experiências da vida, inclinou-se. paternalmente e disse:

— Acaso, terás sentimentos que eu não possa conhecer? Não creio que andes indiferente nesta nossa Nova Irlanda. Naturalmente, hás de ter in­clinações que ignoro. Carlos e João são filhos do meu lar; Cirilo é também meu filho, por afinidade. Tuas lágrimas revelam alguma coisa em teu cora­ção, que eu preciso conhecer. Porventura, aguardas o braço de Cirilo para penetrar os mistérios do amor?

A tais palavras, ditas em tom de imenso ca­rinho, a filha de Jaques levantou o olhar e fêz um gesto afirmativo, que não podia deixar margem a qualquer dúvida.

— Pois bem — disse o bondoso velhinho reve­lando carinhosa compreensão —‘ fica descansada, eu mesmo me entenderei com Cirilo.

Ela esboçou um gesto de reconhecimento e falou:

— “Tio” Abraão, tendes sido para mim um segundo pai; entretanto, não desejo ofender os sentimentos nobres de Carlos.

— Ora essa! Não te incomodes com isso. Meu filho não saberá desta nossa palestra. Dir-lhe-ei que, informado da tua preferência, resolvi não tocar no assunto, visando a completa felicidade de Cirilo.

— Como vos agradeço! — murmurou a jovem osculando-lhe ternamente as mãos.

E enquanto o ancião se retirava, Susana expe­rimentava novas esperanças banharem-lhe o coração.

Na noite daquele mesmo dia, Gordon solicitou do filho de Samuel uma entrevista em particular.

Cirilo o acompanhou a um canto da extensa varanda, não isento de alguma inquietação. A influência do velho amigo dos Davenport era sempre decisiva no seu caminho. O que Jaques conseguia dêle por efeito de amor, Abraão igualmente obtinha por fôrça de autoridade moral. Algo perturbado, o filho de Constância seguia-lhe os gestos mínimos, até que o padrinho começou a falar, depois de lon­gas reflexões:

—        Meu filho, venho tratar da solução de pro­blema de importância capital para as nossas famílias; assim, espero que me compreendas a inten­ção, como se exposta fôsse por teu próprio pai!...

—        Sou todo ouvidos, replicou o rapaz, consi­derando a solenidade do preâmbulo.

—        É que — continuou o velho com bondade —não podemos concordar com o teu isolamento, e talvez saibas que Susana te ama desde a adoles­cência.

—        Mas eu já me casei uma vez... — redar­güiu Cirilo, desejando fugir ao assunto.

—        Isso, porém, não impede a recomposição da vida.

—        Não me sinto bem ao pensar nisso. Por vêzes, tio Abraão, quando essas idéias me ocorrem, tenho a impressão de me trair a mim mesmo. O amor conjugal, a meu ver, é único, insubstituível. Sempre encarei o segundo matrimônio como taça vazia. Que teria, então, para oferecer a Susana?

—        Essas idéias, crê, não passam de fantasias, sem fundamento no plano das realidades positivas. Sou casado em segundas núpcias e nem por isso me considero o pior dos homens.

O         rapaz experimentou um leve abalo, visto não ter encarado o problema sob êsse aspecto, firme no propósito de insular-se no seu infortúnio, em culto de eterna saudade.

Gordon continuou:

— Entretanto, compreendo os teus escrúpulos, até certo ponto. A mocidade nos enche o coração de sublimes idealismos. Todavia, as vozes da ex­periência são muito diversas. Sei da saudade que te empolga o espírito afetuoso, mesmo porque, dada a tua conduta presente, parece-me que a espôsa morta resumiu no mundo o conjunto dos teus melhores ideais; no entanto poderás guardá-la na memória como símbolo de inspiração, como pá­gina viva a reler, diàriamente, no imo d’alma, a fim de criar uma nova situação feliz. A primeira mulher foi a jardineira cuidadosa e fiel, que te dei­xou o perfume de lições sacrossantas para tôda a vida, mas não há esquecer que não estás fora do jardim da vida.

Cirilo não respondeu, engolfado em profundo Cismar.

—        Julgas, porventura meu filho, que “Nova Irlanda” poderia progredir sômente a expensas de nobilíssimos ideais? Muita vez tenho Ouvido tuas apologias calorosas à opulência da terra que nos foi confiada. Repara o maciço da vegetação luxu­riante que se perde na noite, observa como o rio vai espalhando a vida, silenciosamente Tôda a extensão vastíssima, que o vosso olhar abrange, espera o braço do homem. Meditemos nesse impe­rativo da natureza. A criatura viverá pelo coração, mas necessita aplicar e multiplicar os braços para colaborar na obra divina. A floresta requer cuida­do, a terra aguarda o intercâmbio das sementes no seio fecundo, o curso d’água reclama retificações para trabalhos proveitosos, os campos mais áridos sonham com um braço do rio!... O mundo mate­rial é uma tenda de esforços infinitos, onde fomos chamados a colaborar com o Criador no aperfei­çoamento de suas obras. É impossível a coopera­ção perfeita, sem lar e sem prole.

       O filho de Samuel desejava confutar, expender argumentosponderosos mas a autoridade patriar­cal de Gordon era sempre sagrada aos olhos de todos. As razões por êle invocadas, frutos de ma­dureza e bom senso, também lhe pareciam dignas de Ponderação e respeito. Afinal, o venerando ancião sempre tinha uma preocupação mais elevada pelo bem coletivo, uma observação sensata, colimando o            supremo alvo da vida — perpetuar a espécie. Sua dedicação aos problemas da gleba, manifestada não apenas teôricamente, mas exemplificada com sacrifícios, era um dos muitos predicados que lhe realçavam a personalidade. Todavia, exami­nando e profundando os mais abscônditos ditames do coração, Cirilo sentia-se estranhamente angus­tiado, quando compelido a conjeturar um segundo matrimônio. Sem dúvida, a prima cumulava-o sem­pre de gentilezas e deferências especiais. Associa­va-se, de bom grado, aos seus planos de serviços, amparava-lhe os empreendimentos com o prestígio pessoal adquirido por sua afabilidade, junto de todos os servidores. A seu ver, ela corresponderia ao papel de uma boa amiga, mas não poderia jamais substituir Madalena, no seu coração. As afirma­ções de Gordon, todavia, eram ponderáveis. Apre­sentavam argumentos mais fortes que os maternais. O ancião de Belfast não se referia apenas a inte­rêsses pessoais, mas à coletividade, ao impessoal, ao mundo, à obra de Deus por intermédio da na­tureza.

Reconhecendo-lhe a necessidade de raciocinar, o tio fizera longa pausa, voltando a insistir:

— Espero, pois, medites o assunto e nos pro­porciones a certeza da breve restauração do lar, para que “Nova Irlanda” se enriqueça, mais tarde, com a tua descendência...

Forçado a tomar atitude decisiva na resposta ao velho amigo, mas querendo adiar um compro­misso formal, o rapaz obtemperou sensatamente:

— Por enquanto, creio que me não devo pro­nunciar em definitivo, reservando qualquer decisão para depois da visita que tenciono fazer ao túmulo de Madalena, em Paris.

Abraão Gordon, porém, considerou que a res­posta equivalia a meio caminho andado.

A situação do restrito ambiente de “Nova Ir­landa” continuava, assim, a ensejar ansiosas expec­tativas em tôrno do caso de Cirilo. A renúncia de Carlos em favor do companheiro, tornando-se arre­dio, sem que o filho de Samuel pudesse atinar com a causa do seu retraimento, imprimia nova fôrça à opinião dos palradores. O rapaz sentia-se cada vez mais apertado no círculo dos comentários fa­miliares, enquanto a filha de Jaques continuava agindo. O generoso professor de Blois não encarava os boatos com simpatia espontânea, mas também não desejava intervir em decisões de tal natureza, não só porque poderia parecer egoísta ao sobrinho, como ingrato e insensível à filha, que já lhe havia confiado seus votos mais íntimos, por ocasião do casamento de Madalena.

Tão logo marcou a viagem para a França, com o fito de visitar o sepulcro da espôsa, Cirio notou que Susana desejava a mesma coisa. A jovem temia, intimamente, que o primo pudesse encontrar algum fio da sombria teia, e dispunha-se a segui-lo em jornada tão penosa, com a intenção de vigiar-lhe os passos. Em face das objeções familiares, alegou que precisava de material escolar para imprimir novo impulso aos seus trabalhos educativos. A fim de não agravar a preocupação dos parentes, deli­berou levar Dorotéia, uma das pequenas irmãs de Cirilo. Declarava-se desejosa de visitar, igualmen­te, a sepultura inesquecível e aproveitar o ensejo para rever antigas relações em Paris.

E não houve como dissuadi-la. Após mais de dois anos de ausência, o marido de Madalena re­gressava à França, assomado de amaríssimas re­cordações. Não estava prôpriamente alquebrado, pois o trabalho contínuo do campo dotara-o de sin­gular robustez; no entanto, o olhar reservado, a comunicabilidade esquiva, davam conta da profunda mudança operada.

A chegada à capital francesa, depois de longos dias de viagem exaustiva, verificou-se sem inciden­tes dignos de menção, a não ser a gentileza cres­cente de Susana.

Cirilo procurou avistar-se com os velhos ami­gos, que o receberam alegremente. Cada paisagem, cada rua, assinaladas pelos antigos hábitos, foram outros tantos espículos de consternação. Os anti­gos companheiros pintavam-lhe ao vivo as cenas tétricas e inesquecíveis da varíola devastadora. Muitos sêres caros haviam partido para sempre. Em companhia de Susana, visitou a casa de Santo Honorato, o recanto adorável de sua primeira ven­tura. Os novos locatários simpatizaram com êle e o convidaram a rever o interior da antiga morada, em atenção aos ascendentes da visita. Penetrou nos aposentos comovido e reverente, dando a im­pressão de ingressar num santuário muito amado. Susana descrevia-lhe o derradeiro quadro, indican­do o local onde repousara D. Inácio Vilamil, pela última vez, junto do sobrinho enlouquecido de dor. Cirilo foi mais longe. Avistou-se com a serva que sobrevivera a tantos infortúnios, vendo confirma­das as reminiscências angustiosas, de que a prima parecia intérprete fiel. Das relações afetivas da extinta encontrou apenas Colete, que se referiu àmorta com lágrimas copiosas. Não conseguira vê-la no extremo instante, mas fôra informada do seu passamento, logo após a nuvem de sofrimento que abafara Paris, por várias semanas, acrescentando que seu túmulo, no cemitério dos Inocentes, era objeto do seu carinho constante.

Onde, porém, as impressões de Cirilo se torna­ram mais dolorosas, foi justamente na silenciosa mansão dos mortos, quando lá chegou ao entarde­cer, em companhia da prima e da irmãzinha.

Aproximou-se das duas campas com respeito infinito e ajoelhou-se junto à lousa que tinha o nome de Madalena. Reparou no róseo coração de mármore, atravessado por um punhal, símbolo pro­fundo que devia à lembrança do tio Jaques e, esmagado pela saudade, soluçou longamente. A presença da prima não lhe impedia o pranto co­pioso. Mergulhado em preces, não reparou que Susana retirava da bôlsa um papelinho. A jovem parecia reler velhas palavras, tocada igualmente por vibrações de indizível tristeza. Tratava-se da carta que a filha de D. Inácio lhe escrevera para a Irlanda. Depois, ela aproximou-se de leve e en­tregou a carta ao primo, dizendo:

—        Veja, é da nossa querida morta.

Ele mergulhou os olhos sôfregos no documento. Entre muitas outras advertências afetuosas, lá es­tavam as recomendações de Madalena: — “Não deixes de amparar... Cirilo, durante minha ausência. Se eu pudesse aí estaria para ajudá-lo a resol­ver com os nossos familiares os problemas emer­gentes, mas circunstâncias imperiosas se opõem aos meus desejos. Confio, entretanto, na tua amizade. Aconselha-o; Auxilia-o como se fôsses eu mesma. O rapaz beijou o papel e falou comovidamente:

—        Ninguém se desvelava tanto por mim.

 

Deixemos agora o filho de Samuel Davenport entregue à sua luta espiritual e voltemos à modesta chácara de Ávila, onde passaremos a examinar um novo acontecimento.

Precisamente um ano depois do auxilio pres­tado ao Espírito de Antero de Oviedo, por aquela que lhe fôra mãe adotiva na Terra, nascia o pri­meiro filhinho de Dolores.

Todos esperavam aquêle advento com alvoro­çada alegria, mas a criança causou a maior decepção. A mâozinha e o pé direito apresentavam-se deformados, e não só isso, como singular defeito do aparelho visual. A mão tinha apenas dois dedos, enquanto que o pé os tinha tortos e retraídos. No primeiro dia, os pais tentaram encobrir o fato, acabrunhados e receosos; mas a velha serva, que servia de parteira na grande propriedade dos Esti­garribias, levou a notícia a D. Alfonso, cujo pai não admitia a existência de aleijados em seus do­mínios.

Na manhã do segundo dia, João de Deus foi chamado pelo amo mais moço, que lhe falou irritado e severo:

—        Hás de reconhecer que fomos bastante cor­datos por ocasião do teu matrimônio, mas a fazen­da não pode sustentar crias anormais.

O         pobre pai não ignorava a sorte reservada aos pobrezinhos que nasciam assinalados por estig­mas dolorosos, incapazes para o trabalho, e res­pondeu humildemente:

—        Já sei, senhor, mas, peço-vos pelo amor de Deus não seja meu filhinho eliminado, pois hoje mesmo dar-lhe-emos novo destino -

D.        Alfonso aquiesceu, enquanto o infeliz ser­vo regressava ao ambiente doméstico. Depois de comunicar à espôsa o ocorrido, misturou com as dela as suas lágrimas, deliberando recorrer à bon­dade de D. Madalena, para que a criança fôsse devidamente socorrida. Ponderaram as dificulda­des extremas da generosa benfeitora e, acanhados de lhe falar diretamente, resolveram chamar a pe­quena Alcione que, de certo, os auxiliaria com a sua ternura infantil.

Atendendo ao chamado, a graciosa menina aproximou-se curiosa do berço improvisado:

Dolores esforçou-se herôicamente para não cho­rar e falou:

- Mandei buscar-te, Alcione, para dizer que o pequenino é teu e de tua mãe!

A menina arregalou os olhos de alegria, en­tremostrando assombro infantil. Sem nada dizer, estendeu os bracinhos com sublime expressão de doçura. João de Deus envolveu o filhinho na cami­sola rendada que Madalena havia dado e ajudou-a a segurar a criança. Alcione exultava de alegria. Com enorme cuidado, voltou a casa, provocando a admiração maternal.

A espôsa de Cirilo surpreendeu-se. Transbor­dante de júbilo, Alcione mostrou-lhe a criancinha, murmurando:

—        Julgo que a cegonha deixou cair o pequenino em lugar errado. Deus não o mandou para Dolores, porque ela me disse que o bebê é meu e da senhora!

—        Não é possível — afirmou Madalena curiosa. A filha fêz um gesto de quem não desejava qual­quer modificação na providência, e sentenciou:

—        Ah! mamãe, não fale assim...

E como que buscando uma defesa prévia, apro­ximou-se mais da mãezinha e continuou a dizer com graciosa expressão:

—        Se a senhora o deixar comigo, nunca mais pedirei brinquedos... e carregá-lo-ei ao colo, para não lhe dar trabalho...

A genitora supunha que tudo aquilo não pas­sasse de capricho infantil e acrescentou:

—        Não podemos separá-lo de Dolores, minha filha! Terias coragem de vê-lo chorando, longe da mamãe?

João de Deus acompanhava o diálogo, afo­gando o coração em lágrimas, mas vendo que Alcione se preparava para responder, pediu a D. Ma­dalena um momento de atenção, em particular, e falou gravemente:

—        Minha senhora, conhecemos as vossas di­ficuldades; entretanto, não temos outra fonte de caridade a que possamos recorrer. Ignorais, talvez, que aleijados ou cegos de nascença, dos escravos de algumas fazendas coloniais, são eliminados ao nascer, Os Estigarríbias adotam êsse regime. É verdade que Dolores não tem o estigma do cati­veiro, mas, tenho-o eu, infelizmente, na qualidade de pai. Hoje de manhã, D. Alfonso me chamou para tratar do caso e acabou por intimar-me a consumir com o desgraçadinho.

—        Mas isso é uma imposição criminosa — ata­lhou a filha de D. Inácio.

—        Ainda assim, é tradicional na colônia, onde os brancos têm filhos, mas os prêtos só têm crias. Seria talvez interessante reclamar e defender meus direitos, mas sei que nada adiantaria, ou antes, que me valeria o ser reconduzido a ferros para os duros trabalhos da minha primeira mocidade.

—        Compreendo...

—        Lembramo-nos, então, Dolores e eu, de so­licitar-vos êste sacrifício. Por quem sois, ajudai-nos a salvar o pequenino.

Madalena considerou os apuros em que se via para manter o exíguo lar, mas, profundamente co­movida, não hesitou um minuto e respondeu:

—        Não julguei que se tratasse de problema tão grave; mas já que assim é, vocês devem contar conosco. Seu filhinho será também meu. Dolores virá amamentá-lo, em minha companhia, e por tudo o mais fiquem descansados, porque o petiz será o irmão mais moço de Alcione.

—        Será vosso servo — murmurou o semili­berto, enxugando uma lágrima.

—        Será meu filho — emendou a filha de D. Inácio, voltando incontinenti à sala, onde a criança choramingava nos braços carinhosos da filha. Tomou-a e conchegou-a ao coração. Não saberia jamais definir as doces comoções que se lhe apossaram da alma generosa. Acariciou a mãozi­nha defeituosa, beijou-a com ternura. O recém-nascido aquietou-se brandamente. E enquanto João de Deus se despedia, para atender ao labor diutur­no, a espôsa enfermiça de Cirilo Davenport mergulhava num abismo de profundas interrogações. Por que mistério o filhinho de Dolores ia reclamar seus carinhos maternais? Contemplou-lhe detida­mente os traços grosseiros, aliados aos defeitos físicos que lhe haviam assinado tão doloroso des­tino. Mergulhada num mar de cismas atrozes, rogou a Deus lhe concedesse fôrças para desem­penhar a tarefa maternal até ao fim. Não ignorava a extensão dos sacrifícios que a decisão lhe impunha nas lides diárias... No entanto, a criança reclinada ao seio parecia falar-lhe intimamente de um infinito reconhecimento. Não podia contar com as próprias fôrças, mas habituara-se a confiar na misericórdia de Deus.

À noite, como de costume, Padre Damiano apareceu para o serão habitual.

Relatou-lhe o fato da manhã, extremamente comovida, comentando o caráter inexplicável das suas comoções e o velho amigo acentuou:

Deus tem numerosos meios de aproximar as almas. Quem poderá saber de onde vem esta pobre criança tão penosamente assinalada do berço? Es­tejamos preparados para cumprir os celestiais de­sígnios e agradeçamos sinceramente a emotividade maternal que bafejou seu coração!

Mal acabava de o dizer, Alcione entrou na sala com a criança ao colo. Depois de saudar afetuosa­mente o sacerdote, apresentou-lhe “o seu bebê”, com requintes de zêlo.

—        Este menino, padre Damiano, foi a cegonha quem trouxe do Céu, para mamãe e para mim. Veja como é bonito!...

O         eclesiástico tomou o petiz, cuidadosamente, enquanto a menina o ajudava a segurá-lo conve­nientemente nos braços, murmurando:

—        Sem dúvida, é um belo rapaz que Deus nos mandou.

Em seguida, fixou nela os olhos e interrogou, após uma pausa:

—        Como se chama?

Alcione lembrou a história que mais admirava, entre as que a mãe costumava respigar das obras irlandesas, que o marido lhe deixara, e voltando-se para a genitora, como a pedir-lhe aprovação, res­pondeu:

—        É Robbie.

—        Um lindo nome das terras de teu pai — dis­se o religioso, revelando interêsse. — E por que o escolheste?

—        O senhor não sabe a história?

—        Não. Conta-a la...

A pequena Alcione assumiu encantadora ati­tude, por coordenar detalhes na mente infantil, e explicou:

—        Robbie era um menino que a cegonha es­queceu numa rua, quando todos dormiam; mas, depois, foi achado por uma senhora de bons sen­timentos, que o criou para as coisas de Deus. Muita gente o julgava insuportável porque era muito feio, mas era tão generoso e tão humilde que recebeu de Jesus uma grande missão.

Lembraste muito bem, Alcione, e estou cer­to de que o Salvador há de amparar êste nosso Robbie.

O         sacerdote examinava a criança com atenção. Depois de lhe observar o defeito dos olhos, exa­minou o pé e a mãozinha mirrados.

—        Parece doentinho — acrescentou um tanto impressionado. Acredito que não poderá trabalhar muito bem quando ficar homem.

Alcione havia-se assentado em atitude expec­tante e, ouvindo a alusão do velho clérigo, acres­centou solícita:

—        Mamãe já falou isso, mas o senhor não acha que o Robbie poderá aprender música?

Damiano comprendeu o alcance da infantil lem­brança e opinou satisfeito:

—        Muito bem lembrado! Estudará em nossas aulas e, quando crescer, dar-lhe-emos um violino de Cremona.

A menina bateu palmas de contentamento, como se houvera resolvido problema de alta relevância e, aproximando-se do sacerdote, retomou o petiz com infinitos cuidados, enquanto a mãe lhe acompanhava os movimentos com um olhar de ternura indefinível.

Assim regressava Antero de Oviedo ao cená­culo do mundo, para as tarefas laboriosas da redenção.

 

O padre Carlos

Estamos no decurso de 1681.

Em Ávila houve algumas modificações. Ma­dalena Vilamil passou a residir na cidade, em casa modesta e confortável, tendo arrendado a chácara aos Estigarríbias. A educação de Alcione exigira a mudança, aliás consumada com grandes dificul­dades.

A pobre senhora estava prematuramente enve­lhecida. Não fôssem os extremos cuidados pelo Robbie e o apêgo à filha dotada de virtudes raras e preciosas, talvez já tivesse atendido aos apelos da saudade, buscando as regiões da morte. Diver­sas vêzes, nas crises periódicas da enfermidade dos pés, abeirava-se do sepulcro; mas a dedicação maternal vencia sempre, dilatando-lhe as fôrças físicas. Assim, oscilava ela entre os dois entes mais amados, como pêndulo afetuoso, sem qual­quer preocupação pelo resto do mundo, exceto o antigo projeto de uma visita à América distante.

Afora os propósitos ardentes do padre Da­miano, relativos a uma possível missão religiosa nas terras do Novo Mundo, suas esperanças esba­tiam-se em planos vagos e indefinidos. E a vida continuava entre esperanças e recordações.

Robbie tem agora sete anos, e Alcione conta dezessete primaveras. O pequeno inicia os estudos primários, enquanto a jovem tem completado o curso escolar nos moldes da época. A filha de Cirilo, protegida por Madre Conceição e sob os desvelos do Padre Damiano, sabe o latim, o inglês e o francês, distinguindo-se igualmente na música por suas formosas e inspiradas composições. No canto é a primeira voz no côro da catedral da cidade famosa. Suas relações mais íntimas expres­sam singular admiração pela delicadeza feminil, aliada a vastos conhecimentos científicos. Nas reu­niões mais seletas é convidada a tocar ao cravo as suas inspiradas composições. Artista por tempe­ramento, nem por isso lhe desfalece, antes avulta e prepondera a flama, o pendor religioso. Lê os textos do Evangelho nos originais latinos e co­menta as suas passagens sob prismas novos. Den­tre os que a estimam, Damiano e Madalena, não obstante a convivência diuturna, são os seus maio­res admiradores. É que a jovem, com tantos dotes de inteligência e coração, nunca teve uma palavra de superioridade jactanciosa, jamais se desinteres­sou do trabalho doméstico em suas mínimas facetas. A filha de D. Inácio, para atender as despesas domésticas, teve que intensificar os trabalhos de agulha, auxiliada pela filha sempre incansável e prestadia. Alcione nunca esqueceu os dias ventu­rosos de lição espiritual, em companhia de Dolores, no mercado de verduras; entregava as costuras da genitora, com a mesma humildade dos primeiros tempos. O prestígio da sua bondade granjeava para a tarefa materna maior aceitação. Como filha, era um modêlo de virtude familiar; como discípula, ti­vera o louvor de todos os preceptores pela aplica­ção irrepreensível aos estudos; como amiga, era sempre companheira afável e carinhosa, pronta a cooperar nas situações mais difíceis, com a sabe­doria do amor fraternal.

Madalena Vilamil e Padre Damiano, em tom confidencial, muitas vêzes analisaram-lhe os atos de exemplar pureza, com votos de sincera alegria e reconhecimento a Deus. A única coisa. que de algum modo os preocupava, era a indefinível atitude de Alcione, com relação ao casamento e ao amor conjugal. Dois nobres rapazes de Ávila já se ha­viam apaixonado por ela, sem lograrem outra retribuição, além de fraternal estima. Ás vêzes, quando a genitora lhe chamava a atenção para os imperativos da vida humana, costumava dizer:

— Ora, mamãe, sempre me pareceu que estes problemas nunca se resolverão pela necessidade e sim pelos sentimentos espontâneos. Uma necessi­dade atendida pode abrir caminho a outras maiores; ao passo que o sentimento é patrimônio de nossa alma eterna. Que me valeria aceitar a pro­posta de um fidalgo, tão só para satisfazer a situa­ções exteriores? Não seria trair o coração que devemos consagrar a Deus?

Madalena Vilamil ouvia-a, entre satisfeita e orgulhosa. Aquêle espírito de trabalho e decisão, de que Alcione dava testemunho, propiciava ine­fável confôrto ao seu coração de mãe. O passado só lhe oferecia tormento e lágrimas. Muita vez, tivera diante dos olhos o cálice da angústia a transbordar; mas a afeição da filha era como bál­samo poderoso que anestesiava a úlcera das recor­dações. Sim! Alcione tinha sempre uma palavra mágica para qualquer dificuldade; um motivo de edificação nos fatos mais insignificantes. Desde que se associara às palestras domésticas, insensi­velmente a levara a esquecer os motivos do aba­timento espiritual, que faziam dela uma prisioneira da melancolia, ensimesmada no seu passado. A intimidade do Evangelho dava-lhe à expressão ver­bal propriedades eufóricas. O exemplo de Jesus era aplicado a preceito, em cada caso, precisa e logicamente. Semelhante atitude, porém, não obe­decia a posições hieráticas, a gestos estudados, a mímica do fanatismo. Tudo era espontâneo, como acontece na vida das grandes almas, que desco­brem a presença permanente do Mestre em seus caminhos, sentindo-lhe a companhia divina, qual Amigo Invisível a lhes medir cada passo, cheios de compreensão e de júbilo.

Nada obstante essa dádiva de Deus à sua alma Sofredora, a filha de D. Inácio não podia forrar-se a umas tantas preocupações mais fortes, O filhinho adotivo trazia-lhe o espírito inquieto, pela sua re­beldia constante. O que se dera com a educação de Alcione estava longe de vingar com a índole capri­chosa de Robbie.

No tempo a que nos reportamos, começara êle a freqüentar as aulas de instrução primária, man­tidas por Damiano na igreja de São Vicente, e todos os dias voltava ao lar com queixas e recla­mações. Interpelado, alegava as fadigas da cami­nhada, atento o pé defeituoso, encarecia as difi­culdades para escrever com a mão esquerda, tinha sempre uma palavra mais áspera a respeito dos colegas.

Certo dia, regressou a casa debulhado em pranto convulsivo.

Madalena chamou-o, afagou-lhe os cabelos mui­to crespos e perguntou carinhosa:

—        Que é isso? por que choras assim?

—        Ah! não vou mais à escola do padre Da­miano...

       - Mas, por que, meu filhinho?

—        Os meninos disseram que a senhora não éminha mãe, que sou escravo dos portugueses!...

—        Mas não deves dar importância a isso, Robbie. O bom menino é obediente, não dá ouvidos a tolices. Talvez não chegasses a observar os com­panheiros vadios, se te entregasses inteiramente às lições.

E vendo que o pobrezinho enxugava as lágri­mas nas saias maternais, Alcione intervinha, dizendo:

— Perdoa, Robbie. Tu tens esquecido nossos conselhos de cada dia. Não viste ontem, na igreja, aquêle menino cego? A irmãzinha guiava-o pela mão. Não tiveste tanta pena da sua cegueira e das suas feridas? Era uma criança tão infeliz e, como não podia ver padre Damiano, pediu-lhe a mão para beijar. Como não te lembras dêsses exemplos, quando os meninos ignorantes provocam a tua có­lera? Quem muito reclama não sabe agradecer

Como o pequeno não respondesse, Madalena perguntou:

—        Quem sabe, meu filho, esqueceste de rezar o “Pai Nosso” pela manhã?

Robbie limpou os olhos ingênuos e fêz um sinal de quem se havia esquecido, ao que a viúva Davenport obtemperou:

—        Pois, então, reza agora. A prece sempre alivia o coração.

Diante das duas — que tinham os olhos úmi­dos por ver a boa vontade da criança em se penitenciar, apesar da revolta que lhe vibrava no espírito —, Robbie ajoelhou-se, cruzou as mãos e começou a oração dominical em tom magoado. Ao terminar, a mãezinha adotiva observou:

—        Estas palavras, meu filho, são um legado de Jesus. Não reparaste na rogativa “perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores”? Trata-se de um pedido que o Salvador nos prescreveu, e, se não perdoas aos teus colegui­nhas malcriados, como poderás viver, mais tarde, enfrentando as dificuldades do mundo?

Entretanto, como acontece a muita gente adul­ta, que repete as. expressões verbais, amorosas e sublimes, nas orações mais significativas, sem lhes penetrar o sentido, conservando intactos a mágoa da ofensa e o impulso de revide, o pequenino acres­centou:

—        Mas os meninos da escola, mamãe, chama­ram-me moleque.

—        Que tem isso — retrucou Madalena sen­sibilizada —, se em casa sei que és meu filho e que Alcione é tua irmã?

       O pequeno pareceu meditar alguns momentos, enquanto mãe e filha ponderavam silenciosas a pre­cocidade das suas objeções. Mas não tardou que êle se aproximasse da jovem que bordava com atenção, e depois de estender o braço, comparando as epidermes, rompesse a chorar abraçando-se à Madalena.

—        A senhora está vendo? A mão de Alcione é branca e a minha é escura; ela tem cinco dedos, eu tenho só dois!

—        Deus quis assim, meu filho! — esclareceu a espôsa de Cirilo fazendo o possível para não chorar também.

—        Então Deus não é tão bom como a senhora falou — advertiu, causando a ambas funda impressão.

Nesse ínterim, Alcione levantou-se e disse, me­líflua:

—        Está bem, Robbie, agora chega de recrimi­nações. Mamãe já te aconselhou, já rezaste, já te pedimos para perdoar. Hás de esquecer estas to­lices. Vamos à aula de música.

O         rapazelho fêz uma expressão de enfado, mas foi ao quarto de dormir e voltou com o delicado instrumento. A irmã ensinou-lhe com ternura a tomar posição adequada e em seguida sentou-se ao cravo e feriu algumas notas. O aprendiz moveu o arco, dificilmente, acentuando logo a seguir:

—        Creio que não vai, O ruído das cordas causa-me mal-estar em todo o corpo.

—        No princípio é assim mesmo — explicou a jovem bondosamente. — É preciso insistir.

E Robbie prosseguia no exercício, vencendo, pesadamente, os obstáculos iniciais. Esgotado o tempo regimental, Alcione tocava antigas músicas da mocidade de sua mãe, enchendo a casa de suaves harmonias.

 

A situação doméstica prosseguia sem alte­rações, quando Damiano trouxe a notícia da pró­xima chegada de um pupilo seu, que acabava de receber ordens num seminário romano. Às pergun­tas curiosas de Madalena e da filha, o velho amigo informava, atencioso:

—        Carlos é o meu único sobrinho e sempre foi credor do meu afeto. Seu pai descendia de antigos espanhóis, domiciliados na Irlanda após o desastre da Invencível Armada. Numa viagem ao conti­nente, simpatizou com a irmã que Deus me havia dado, desposando-a pouco depois. Viveram em plena harmonia conjugal, cinco anos, quando pere­ceu meu cunhado num naufrágio, deixando a com­panheira aturdida e desolada. Por desventura da Emilia, nada houve que lhe restaurasse as energias do espírito. Nem o filhinho de tenra idade, nem a fé religiosa, conseguiram salvá-la da apatia a que se entregou, até à morte. Debalde tentei arrancá-la da perturbação em que se engolfou, sem remédio. A hora da morte, entregou uma carta testamentária aos parentes do marido, na qual exprimia as últi­mas vontades, determinando que o filho único, tão logo atingisse a idade própria, fôsse internado num seminário romano, para consagrar-se ao sacerdó­cio. Para isso, legava-lhe a pequena fortuna, di­zendo não desejar ao seu único descendente a dor incomensurável da viuvez...

—        Uma história bem triste — comentou Mada­lena Vilamil, refletindo no seu caso pessoal.

—        E uma preocupação muito injusta de minha irmã — acentuou Damiano com firmeza. — O pe­queno Carlos esteve em minha companhia durante três anos, em sua primeira infância. Estudando-lhe o temperamento, fiz o possível por afastá-lo do caminho traçado pela determinação materna, mas seus tios irlandeses fizeram tamanha questão de atender ao espírito perturbado de Emilia que não houve meios de subtrair a criança aos seus pro­pósitos. Tive de assumir responsabilidades de tutor no seminário romano, e Carlos foi levado, talvez contra a vontade, a receber a tonsura.

—        Mas sois contra a carreira do rapaz? — in­dagou a espôsa de Cirilo com interêsse.

      — Não é bem isso. Minha irmã, quando pre­tendeu afastar o filho das provações amargas da viuvez, ignorava os sacrifícios que dêle exigia. Considero o sacerdócio tarefa sagrada, mas que ninguém deveria aceitar por imposição e sim por vocação natural, ou determinação firme, depois de grandes sofrimentos. Como Deus não se impõe às criaturas, parece que nunca será possível tiranizar no capítulo dos serviços divinos. O resultado é que, quando abracei o jovem seminarista há dois anos, achei-o singularmente acabrunhado, dando-me a impressão de um homem repleto de batalhas inte­riores. Compadeci-me da sua tremenda luta espi­ritual, mas nada pude fazer em seu favor.

Alcione parecia beber as palavras do caroável ministro de Deus e, enquanto êle tomava fôlego, obtemperou:

—        E como definis a vocação religiosa, padre Damiano?

O         velho sacerdote esclareceu sem rebuços:

— Antes de tudo, considero que a vocação re­ligiosa não será o primeiro impulso para envergar um hábito convencional. Semelhante estado de espírito significará, primeiramente, decisão firme para o trabalho e testemunho com Jesus. Ora, a meu ver, o lar é o primeiro dos estabelecimentos religiosos aqui na Terra. Dentro de suas paredes, nobres ou plebéias, há sempre grandes tarefas a realizar. Que dizer de um filho que procurasse a sombra de um claustro porque seus pais vivem na luta, porque seus germanos não se harmonizaram com o seu modo de pensar? Onde estaria a renúncia num caso como êsse? Certo, a virtude não estaria em retirar-se, em busca de pousos mais cômodos. Se os trabalhos domésticos, porém, deixam de exis­tir, se chegou a viuvez sem filhos, se sobreveio o abandono do coração, em tais circunstâncias admito a oportunidade de maiores sofrimentos, seja na prova rude dos que se encarceram em lágrimas dolorosas, seja nos testemunhos de amor universal, estendendo-se a dedicação fraterna a todos os sêres. Suponho que o ambiente doméstico resume a nossa oficina primacial, segundo os desígnios de Deus. Aí se encontram material e ferramentas adequadas ao serviço da nossa salvação. Entretanto, se essa tenda nos falta, a circunstância significará talvez que fomos chamados, em nossa vocação religiosa, a importantes trabalhos de ordem coletiva.

A jovem, satisfeita com a enunciação do ponto de vista do interlocutor, não insistiu no assunto, mas Madalena perguntou delicadamente:

— E demora ainda a chegar o padre Carlos?

— Creio que não, pois já há meses que está na Irlanda, onde celebrou a primeira missa, em obe­diência ao desejo dos parentes. No entanto, tôdas as providências para sua instalação, aqui em Ávi­la, estão tomadas perante as autoridades que nos regem. Tenciono tê-lo a meu lado, não só porque poderei auxiliá-lo com as minhas velhas expe­riências, como também porque ainda não renunciei ao antigo ideal de uma excursão à América e, nesse cometimento, não posso dispensar companheiros de confiança.

A palestra fixou-se no plano da grande jor­nada, comentando-se as notícias gerais e vagas, obtidas em Castela-a-Velha, dos processos de vida ha colônia.

Não decorrera um mês sôbre esta conversa e o padre Carlos Clenaghan chegava inesperadamente, a fim de cooperar com o tio nos serviços religio­sos da igreja de São Vicente.

Alto, magro, de maneiras excessivamente sim­páticas, pela bondade que evidenciavam, olhos mui­to lúcidos, o novo sacerdote impressionava pelo encanto do trato pessoal, dando a impressão de que se abeirava dos trinta anos. Naturalmente, a pri­meira visita, em companhia do orientador de suas atividades, foi a casa de Madalena Vilamil, que o recebeu com sinceras demonstrações de carinho. Ao ser apresentado, porém, à filha da casa, o sobrinho de Damiano não conseguiu disfarçar a profunda impressão que ela lhe causara. Ambos pareciam perturbados. A jovem, sentindo-se sob o magnetismo do seu olhar, empalidecera de leve.

—        Alcione? — perguntou o padre, com in­flexão carinhosa, não obstante demonstrar na voz a necessidade de readaptação ao castelhano. — Onde teria ouvido êste nome? Tenho vaga idéia de já o ter ouvido.

—        Entretanto, não é comum — acentuou o tio, satisfeito.

A primeira palestra não foi além do comentário familiar de quem inicia novas relações. Carlos Clenaghan relatava as suas emoções ao contato do altar irlandês, que lhe proporcionara o júbilo da missa nova, cantada. Falou-se da missão sacer­dotal, dos serviços da Igreja, das condições gerais da vida em Ávila. Alcione impressionava o recém-chegado, cada vez mais, com a ponderação do seu espírito esclarecido e afetuoso. O rapaz, que vinha repleto da teologia do seminário, de quando em quando ensaiava assunto difícil num quadro de teologia ou de história; no entanto, a filha de Ma­dalena lhe respondia com precisão admirável, em linguagem simples, a espelhar nos olhos a pureza do coração. Ela estava em dia com os clássicos gregos e romanos, enriquecendo a conversação de apontamentos notáveis, pontilhando cada parecer com as luzes de elevada sabedoria, cheia de com­preensão e de amor. Ouvindo-a falar sem vaidade e afetação, o novo sacerdote tinha a impressão de ouvir uma criança adorada, a falar da sua intimi­dade com Sócrates e Cícero, colocando cada filósofo no seu lugar, à face de Jesus, o amado Salvador que lhe enchia a alma de sublimes e ardentes ins­pirações.

Ambos experimentavam singulares idéias. Se não fôsse muito avançar, teriam declarado, num impulso espontâneo, que se haviam conhecido alliu­res, não obstante a filha de Madalena nunca haver saído de Castela-a-Velha.

O         visitante retirou-se daquele primeiro encon­tro sob verdadeiro fascínio.

—        Meu tio, estou maravilhado — confessou, de regresso ao presbitério —; a jovem Vilamil dá a impressão de uma criatura angelical, divinamente inspirada.

Damiano sentiu-se orgulhoso com o conceito, circunstância que o levou a pensar em pedir o auxílio espiritual da jovem, para que o pupilo fir­masse diretrizes seguras na carreira sacerdotal.

No dia seguinte, Damiano chamou a amigui­nha, após a missa, e falou-lhe em tom confidencial.

—        Sei que as tuas orações e pureza devocional são preciosos tesouros, ante o amor de Jesus, sem que minhas palavras envolvam qualquer pensa­mento de lisonja a envenenar-te o coração. Falo como pai espiritual, pedindo o teu fraternal con­curso para um outro filho, pois assim o considero pelos laços do espírito.

—        Conheço minha indigência, padre Damiano — replicou a jovem, com humildade —, mas dis­ponde da minha insignificância como julgardes mais acertado.

—        Trata-se de Carlos, minha filha, para quem desejo o socorro de tuas sugestões fraternais. Não o vejo muito seguro em suas decisões, nos caminhos escolhidos, e temo um futuro desastre espiritual. Mas, ciente da nobre impressão que a tua sadia palestra lhe despertou, muito me agradaria que o orientasses em nossas tertúlias, robustecendo-lhe o ânimo vacilante na estrada sacrificial do sacerdócio cristão.

Ela baixou os olhos, entremostrando a per­turbação do espírito humilde, pela confiança nela depositada, e acrescentou:

—        Não creio possa ter alguma coisa de mim mesma para auxiliá-lo, mas estou certa de que Jesus não nos faltará com o pábulo do seu amor inesgotável.

O         velho eclesiástico não podia avaliar o efeito de suas palavras, mas reparou que a filha de Ma­dalena voltou ao lar bastante impressionada.

Daí em diante, as visitas de Carlos à viúva Davenport repetiam-se tôdas as noites. Renovavam-se as encantadoras alegrias domésticas, multiplica­vam-se as dissertações íntimas e preciosas.

A atração do jovem par tornava-se dia a dia mais forte. O sacerdote tinha a convicção de haurir naquela convivência um salutar estimulo às suas energias morais, à proporção que ela experimentava confortadora emotividade no seu trato. Ambos sen­tiam indefinível facilidade para o entendimento das coisas santas, sempre que se defrontavam no mesmo tema. ele não ocultava o seu deslumbramento ao observar que a interlocutora lhe completava as elucubrações filosóficas, traduzindo em linguagem diserta os mais profundos teoremas. Começava a refletir, francamente, que Alcione constituía a per­sonificação do seu ideal humano, a realidade viva e insofismável dos seus sonhos mais íntimos, mas as algemas da convenção religiosa lhe atavam o espí­rito ao tronco do celibato.

Os dias sucediam-se com o júbilo discreto de duas almas unidas no mundo sublime das idéias e, no entanto, separadas no plano temporal.

Por vêzes, o pupilo de Damiano experimentava enorme desejo de se revelar, mas a conduta irre­preensível da moça paralisava-lhe os impulsos, com­pelindo-o a converter tôda a ansiedade num con­junto de gentilezas sutis.

Carlos interessava-se, afetuosamente, por tôdas as coisas que a ela diziam respeito. Cooperava beneditinamente na educação musical de Robbie, acompanhava-a nas visitas aos deserdados da sorte e aos moribundos desesperados. Desdobrava-se em atenções carinhosas com as crianças que lhe ouviam as lições, simples e puras de moral cristã, e as horas de maior descanso passava-as em casa de Madalena Vilamil, ou na igreja de São Vicente, quando Alcione turturinava os cânticos sacros do ritual. Em tais ocasiões o sacerdote parecia alimentar o cora­ção. O amor Sincero e santo de duas almas tem mistérios profundos e singulares em suas fontes divinas. Basta, às vêzes, um gesto, uma palavra, um olhar, para contentá-lo e transfigurar a ansie­dade em esperança sublime.

Isso dava ao padre irlandês motivo para cui­dar-se com esmêro. A fisionomia ganhava novas expressões de ânimo resoluto, mais fraternal, ex­pansivo, acolhedor no trato. Damiano tudo atribuía ao ambiente de Ávila e louvava-se pela resolução de fixar o sobrinho na Espanha, ignorando o drama silencioso de dois corações.

Alcione, por sua vez, tornara-se mais pensa­tiva, sem nunca disfarçar, porém, a alegria que a felicitava, na convivência diária com o jovem sa­cerdote.

A situação assim prosseguia quando chegou o Natal de 1681. Às vésperas do Ano-Bom, numa esplendorosa manhã de domingo, segundo os cos­tumes da época, diversos rapazes presenteavam as escolhidas com belos ramalhetes de flores, à saída do santuário, ao terminar a missa.

Padre Carlos e Alcione contemplavam curiosa-mente a cena em que se revelavam os impulsos amorosos e espontâneos da juventude. Instintiva-mente, trocaram um olhar que dizia de tôda a afetividade sublime que lhes palpitava na alma. O sobrinho de Damiano não resistiu à interpelação silenciosa da jovem que resumia os sonhos da sua mocidade e, retirando linda fôlha de trevo de um jarrão próximo, ofereceu-a à dlleta do coração, fa­lando-lhe comovidamente, em tom muito discreto:

— Perdoa! Não te posso oferecer o ramalhete da esperança para um noivado venturoso, mas dou-te esta fôlha de trevo que é um símbolo da minha terra!

Ela recebeu a dádiva, muito trêmula, emocio­nada, palidíssima. Quis agradecer mas não conseguiu articular palavra. Naquela hora recebia, inesperadamente, a revelação direta do espírito que encarnava os seus mais lindos ideais de mulher. Ele compreendeu a perturbação natural e acrescentou:

—        Não sofras por isso!... Quero apenas lem­brar que, não fôra o compromisso assumido, poderia hoje dizer que, apesar dos meus quase trinta anos, ousaria suplicar a Deus me concedesse a ventura de os conjugar às tuas dezoito primaveras.

Alcione estatelou. No Intimo, obediente à leal­dade, nada tinha a dizer senão que desejava, igual­mente, realizar o sonho comum; que êle era o único homem, no mundo, capaz de lhe proporcionar a doce luz da felicidade conjugal, mas as conven­ções também lhe cerravam pesadamente os lábios. Nesse momento, notou no semblante do interlo­cutor algumas lágrimas que lhe corriam furtiva­mente dos olhos. Não pôde permanecer mais tempo na silente expectação de alma ferida. Dolorosa co­moção empolgou-lhe a alma sensível e, com o pranto ardente a lhe fluir do Intimo, estendeu a mão carinhosa e trêmula, exclamando:

—        Padre Carlos, pode crer que suas palavras me tocam o sacrário do coração!...

—        Alcione — falou o pupilo de Damiano pro­fundamente comovido —, se te fôr possível, dora­vante chama-me Carlos apenas, na intimidade. Dos outros suportarei o título de apóstolo sem o ser.

A jovem pronunciou um monossílabo que tra­duzia aquiescência, enquanto o sacerdote acentuava comovido:

—        Falaremos depois...

Naquela noite, em casa de Madalena, os dois disfarçavam a custo a ansiedade que lhes trabalhava no espírito. Carlos ardia em desejos de arre­batar Alcione da sala, a fim de lhe comunicar suas angústias infinitas, ao passo que ela implorava in­timamente a Jesus lhe concedesse uma oportuni­dade, de modo a se lhe fazer compreendida. O ensejo surgiu, quando, após uma hora de música, o pequeno Robbie pediu ao Padre Damiano que o levasse até às muralhas, passeando ao luar, O velho eclesiástico acedeu, prazeroso. Apesar do frio, a noite ostentava beleza excepcional. Madalena fi­zera questão de ficar, alegando a costura, e os quatro demandaram a Porta de São Vicente, em alegre entretenimento. Enquanto Damiano atendia aos caprichos do petiz, o jovem par encontrava a desejada oportunidade para expandir-se.

—        Alcione — começou o sacerdote comovida­mente —, o destino cercou-me o espírito de altas muralhas e colou-me aos lábios férrea mordaça; entretanto, espero me perdoes esta minha afeição sincera, pelo amor de Jesus, a quem serves com tamanho fervor. Sinto que ainda não o sei atender com o devotamento que te marca os gestos de santa e, por isso mesmo, aguardo a tua compreen­são caridosa, quando me não possas retribuir em espírito...

Nunca a filha de Madalena experimentara ta­manha luta íntima. O primeiro impulso do coração que sina é sempre o de consolar ou defender o objeto amado.

—        Dize-me — prosseguia o rapaz na sua paixão ardente — se de fato me compreendes e desculpas o meu desvario.

—        Pelo muito que tenho chorado em minhas preces — respondeu a jovem suspirando —, Jesus sabe que te entendo o coração.

A inflexão carinhosa dessas palavras não dava margem a dúvidas. Carlos Clenaghan, tão somente em face da declaração afetiva, sentia-se o mais ven­turoso dos homens.

—        Teus olhos falavam-me, Alcione, mas eu esperei, ansioso, que teus lábios confirmassem a minha felicidade. Que longas têm sido as minhas noites de dolorosas vigílias! É verdade que sou prisioneiro de uma convenção poderosa e terrível, mas tua compreensão e teu afeto representam, para mim, a visita e o interêsse de um anjo por desven­turado galé em cárcere sombrio!...

—        Não digas tal, Carlos — tornou a jovem comovidamente, evidenciando embora a suprema luta íntima —, o dever não pode, jamais, tornar-se um fantasma aos nossos olhos. Deus semeou a criação de infinita alegria e nós estamos no divino trabalho de acendramento espiritual. Tôda obriga­ção nobre embeleza o caminho e não devemos andar tristes na tarefa grandiosa ou simples, que nos foi confiada.

O         sacerdote sentia a beleza da concepção, mas, obtemperou:

—        Entretanto, para mim, a existência tem sido madrasta.

—        Acreditas, porém, que a vida se encerre nos dias fugazes do mundo? — revidou Alcione carinhosamente. — Para o nosso conceito de paz e felicidade, são quase mesquinhos os períodos de tempo que assinalam, na Terra, a infância, a ju­ventude e a velhice. Somos espíritos eternos, O mundo, Carlos, deve ser uma grande escola, onde o Senhor nos proporciona possibilidades benditas de trabalho e educação para a vida sem fim...

O        rapaz enternecia-se ao ouvi-la. Sua voz pa­recia vir de longe, da região da verdade e da espe­rança, que lhe embalava os sonhos mais íntimos. Aquêles conceitos caíam-lhe no coração ferido, como bálsamo precioso.

—        Entretanto — disse com inflexão amargu­rosa —, por mais que me acolha ao manto da fé, não me furto de pesar imenso, oriundo do voto de minha mãe, que me escravizou para sempre.

       — Não inculpes tua mãe do círculo de obri­gações e testemunhos que te cabem — advertiu ela criteriosamente —; acima de qualquer decisão hu­mana está Deus, que dispõe de infinitos meios para exercer sua vontade soberana. Além disso, tua mãe, assim alvitrando, obedeceu a propósitos muito dig­nos, oferecendo-te a Deus em doce consagração. E se o Pai aceitou o voto maternal é que existem, certo, no conteúdo da decisão, imperativos da lei inelutável de aperfeiçoamento pela dor.

Reparando que êle a escutava com alguma surprêsa, continuou:

—        Crês, acaso, na afirmativa de muitos teólo­gos de que Deus cria as almas no ato mesmo do nascimento do corpo?

Carlos Clenaghan pareceu meditar longamente e retrucou:

—        Não ignoro que muitos vultos da Igreja antiga desautorizam essa opinião.

—        Apesar das torvas cruezas do Santo Ofí­cio — acentuou, de olhos brilhantes, a filha de Cirilo —, prefiro acompanhar a corrente dos velhos pen­sadores, que admitiam a multiplicidade das exis­tências. É impossível, Carlos, que estejamos na Terra pela primeira vez. Os livros do padre Damiano fizeram-me sentir essa consoladora verdade. Há quanto tempo teremos enfunado as velas do barco de nossa vida, em procura do amor paternal de Deus? Quantas vêzes teremos naufragado em nossas intenções mais santas? Quantas vêzes tere­mos conduzido a embarcação às penedias negras do crime? Há mais de cinco anos, procuro àvidamente os indícios dessa lei poderosa que nos equilibra os destinos. Por vêzes engolfo-me na leitura dos gran­diosos pensamentos de quantos já perlustraram os nossos caminhos. Esses mensageiros da sabedorIa e da paz não teriam sido portadores de mensagens vãs. E, acima dêles, temos a palavra do Cristo nos Evangelhos, dizendo-nos que o homem não atingirá o reino de Deus sem renascer de novo...

Padre Carlos estava muito admirado, como alguém que retomasse velhas idéias abandonadas de há muito tempo. Mas, reconhecendo o efeito de suas asserções confortadoras, a filha de Madalena prosseguiu com serenidade:

— Neste mundo não será possível acordar para os elevados domínios do conhecimento, sem nos voltarmos com atenção para o problema da dor. Desde cedo, habituei-me a rebuscar compara­ções. Por que o leproso, ao lado dos de rosto bri­lhante? Por que se confundem, na mesma rua, os felizes e os desventurados? Seria justiça ministrar o pão a alguns e as pedras a muitos? No quadro da teologia atual, o Criador seria quase cruel. Mas é tão grande a misericórdia divina que o Pai permite aos filhos a enunciação dos mais loucos raciocínios, até que se compenetrem da grandeza acolhedora do seu amor desvelado. Naturalmente, Carlos, somos espíritos integrando a enorme cara­vana da Humanidade. Teremos falido inúmeras vêzes, fugindo aos desígnios do Senhor para aten­der a nossos caprichos misérrimos. No entanto, a Providência nos acolhe de novo na escola terrestre, dando-nos um corpo diferente e renovando-nos a oportunidade sacrossanta...

O        jovem sacerdote tinha a impressão de ouvir um anjo a esclarecer a essência dos mistérios di­vinos.

—        De fato — murmurou comovido —, são idéias que aliviam a alma e nobilitam a vida.

—        Quem poderá afirmar que o voto de tua mãe não signifique apenas uma contribuição para que se cumpram os desígnios de Jesus? É inegável que nossos corações se preparam para suportar as dores rispidas da separação, achando-nos tão perto um do outro nas estradas da vida. Entretanto, estou certa de que nossas lágrimas hão de ser re­cebidas no Céu, enriquecendo nosso patrimônio es­piritual no futuro, O mostrador do Destino marcará a hora de unirmos nossas mãos para sempre... O roteiro doloroso nos descortinará a luz do noivado eterno, mas, até lá, importa saibamos retribuir a bondade de Deus com testemunhos de trabalho, abençoando os sacrifícios.

Nesse momento, de coração aliviado pela cla­ridade do ensinamento, Carlos tomou-lhe a mão entre as dêle, tocando-a no fundo dalma, mas, vendo-a retrair-se num movimento instintivo, não ocultou sua mágoa, murmurando:

—        Alcione, reconhecemos que esta nossa afei­ção é tramada em sentimentos puros. Sei que minha condição sacerdotal acarreta responsabili­dades pesadíssimas; não ignoro que, não só pelo meu título, como pela idade, era a mim que caberia, antes que a ti, exemplificar; mas, perdoa: o padre é também homem, carregado de fraquezas - Agora, que sei corresponderes aos meus mais íntimos senti­mentos, sinto que um fogo abrasador me devasta o espírito abatido. Quero deter o pensamento nas esperanças infinitas que me deixaste entrever, que­ro ampliar meus ideais aqui na Terra, e anseio por fixar os impulsos dalma, na comunhão com Jesus; no entanto, o complexo das tendências, os desejos insatisfeitos, me suscitam maiores inquietações. O amor não é apenas um sol que ilumina, é também vulcão que devasta... Releva-me os impulsos im­pensados, ensina-me, corrige-me. Julgas que nos­sos sentimentos traduzam um pecado aos olhos de Deus?

—        Não o creio — respondeu carinhosa. — O amor é lei universal, que une o Criador ao Infinito de suas obras. Jesus passou pela Terra, amando sempre. Tôdas as nobres almas, vindas ao mundo, não deram testemunhos diferentes, no entanto, Car­los, seria um crime forçar a satisfação do nosso ideal na Terra. Devemos ser duas almas unidas numa só aspiração, mas conscientes de que nunca encontraremos os júbilos da união, sem a arga­massa do sacrifício.

—        Tudo isto — acrescentou o rapaz com tris­teza — porque a Igreja nos acorrenta a compromissos absurdos. Como doutrinei’ a família se não a possuimos?

—        Não te deixes emaranhar em raciocínios revolucionários. No futuro, naturalmente, o ministro do Evangelho, no Catolicismo, a exemplo do que já sucede com a Reforma, participará das alegrias doces de um lar; mas, por enquanto, Jesus não considerou conveniente a supressão dessa esco­la de ascetismo, que a Igreja Romana nos aponta. Se erramos tantas vêzes em nossos misteres míni­mos, de ordem material, quantos crimes chegaría­mos a cometer se invadíssemos o terreno da fé, onde o Mestre é o mesmo para todos? A preocupa­ção de consertar será talvez louvável, mas um cérebro desesperado. ao lado de muitos outros que se acomodam à situação, por necessidade da expe­riência, personifica a rebeldia criminosa. Não será melhor adotar a obediência ativa e operante, como o Cristo? O hábito sacerdotal pode ser, no conceito de nós ambos, em razão de nossos sofrimentos atuais, um instrumento de opressão e desventura; mas, para quantas almas êle tem sido um refúgio de paz entre os infortúnios da vida? Muitos o de­sonram pelos abusos, em nome de Deus, mas quan­tos o glorificaram, na renúncia e na abnegação santificantes? Os missionários generosos salvam os maus padres, como os justos salvam os injustos. O amor, Carlos, é a luz do caminho, mas o egoísmo traz a cegueira. É indispensável guardar o coração contra o seu assédio. Quando enxergamos apenas as nossas conveniências, tornamo-nos cegos des­venturados. Vejamos as vantagens dos outros e a vida nos encherá de suas divinas compensações. Além do mais, o dia de hoje terminará com a noite. É preciso honrá-lo com o trabalho sadio e com a obediência a Deus, para que o amanhã seja o pre­sente glorificado. Ninguém deverá aguardar a claridade no porvir, se se compraz em repouso nas trevas, durante o dia que passa.

       O sacerdote bebia-lhe as palavras profunda­mente enternecido. Nunca ouvira apreciações tão justas, relativamente ao sacerdócio. No seminário, os preceptores eram pródigos de atitudes enfáticas e protocolares, enquanto os alunos permaneciam indecisos ou revoltados. Para uns, a Igreja não passava de instituição humana, ao passo que para outros representava um cárcere do qual era neces­sário fugir por meio de criminosas acomodações. Alcione, na sua inspiração sublime, não pudera cicatrizar-lhe de todo a chaga espiritual, mas en­grandecera a seus olhos a tarefa apostólica, fazen­do-lhe sentir a grandeza de suas responsabilidades no caminho para Deus. Todavia, no mais recôndito da alma, ficara-lhe a êle um pensamento amargu­roso. No fundo, era o egoísmo ferido, a vaidade humana perturbada. As observações sábias da jo­vem pareceram-lhe desinterêsse sentimental. Ela não experimentaria, talvez, a mesma afeição ardente que o excruciava. Suas idéias gerais revelavam enorme desprendimento do mundo. Carlos Cle­naghan, na sua condição de homem, chegava quase a ter ciúmes daquele Jesus tão amado e invocado a todo momento. Dominado por conjeturas tais, obtemperou:

—        Tuas concepções são nobres e elevadas, mas em mim as características sentimentais se apre­sentam de outra forma. Compreendo a sublimidade do idealismo da Igreja, tal como o expões, mas nunca poderei perdoar a iniqüidade do destino, pri­vando-me de um lar e do sorriso das criancinhas. O ideal da paternidade sempre me perseguiu qual tremenda obsessão... Com o teu desprendimento sublime, talvez não possas compreender esta tor­tura espiritual.

       — Enganas-te! Teus ideais são os meus. Es­perei teu olhar, tuas mãos, teu verbo, teus pensamentos, em todos os lugares por onde passei, desde a hora em que despertei para o sentimento. Muitos homens passaram. Em alguns encontrei as possi­bilidades de uma paternal afeição; noutros, apenas liames fraternais. Enquanto aguardei tua vinda, os sonhos de um lar povoaram minhalma, eu pedia ao Sol que me desse seus raios ardentes, como rogava às estrêlas uma gôta de sua formosura para tecer a rêde de alegrias, de modo a solenizar tua presença, quando chegasses. Palpitavas em meu espírito com a primeira melodia saída de minhas mãos, quando tive a impressão de tocar ao compasso do teu caminho... Mas, logo que nos encon­tramos, compreendi que meus primeiros ideais de­veriam ser renovados. Meus desejos evolaram-se em silêncio, porque Jesus havia estabelecido outros desígnios às nossas lutas terrenas. De que me valeria recalcitrar, provocando nossa própria ruína? Reconheci-te no primeiro olhar. Nem me enganaria nunca. A alma é servida por estranhos poderes que o mundo ainda não conhece. Apesar disso, Carlos, senti que meus lábios se calavam sob a pressão de fortes arganéis. As condições em que nos encontramos eram como que uma grande men­sagem. O Senhor recomendava-me adiar o idealis­mo da mulher, abnegando meus caprichos em favor de propósitos mais altos. Compreendes agora?

Havia tamanha inflexão de ternura nessas pa­lavras que Carlos Clenaghan sentiu-se vencido. Acabrunhado nas suas disposições interiores, acen­tuou:

—        Tens razão, Alcione...

—        Quanto ao lar e aos filhinhos — continuou a jovem carinhosamente —, é indispensável não nos perturbarmos com as visões falsas da experiência diuturna. Padre Damiano está valetudinário, alque­brado nos trabalhos intensos da sua amada igreja; minha mãe tem sofrido, incessantemente, desde o primeiro dia de viuvez; Robbie é uma criança necessitada. Por que não ver, não sentir nos três os nossos filhinhos do coração? E sem falar dos mais próximos, onde colocas os pobres velhinhos e os enfermos que te procuram, ao desamparo? O título de sacerdote inculca um pai.

O         pupilo de Damiano enxugou uma lágrima.

—        Pedirás a Deus, por mim — disse entris­tecido —, rogarás ao Céu que mitigue minha dor, por não possuir a família direta.

       — Sim, o lar deve ser uma ilha de suave des­canso no vórtice das lutas terrenas, à feição de um santuário sagrado onde a criatura consiga es­tender seu amor à comunidade universal. Possuí-lo, será receber opima dádiva do Criador; entretanto, Carlos, para nos encorajar a todos nos testemunhos de sofrimento, bastaria recordar que Jesus passou pela Terra sem família direta.

Nesse instante, Damiano aproximou-se, inter­rompendo o colóquio.

Alcione tinha o coração opresso por indefinível angústia. Consultando as tendências da sua sensi­bilidade feminina, experimentava o desejo de se encontrar novamente com o rapaz, tão logo se afas­tasse o velho amigo, para reafirmar o seu afeto, a sua dedicação sem limites. Enquanto trocavam tri­vialidades sôbre a beleza da noite, sua alma cari­nhosa padecia longo anseio. Depois da significativa confissão de Carlos Clenaghan, achava-o mais belo. Os olhos se lhe haviam tornado mais brilhantes, a fisionomia mais expressiva. Alcione chegava a recear pelas comoções que lhe vibravam no espírito sensível. Não havia sonhado tanto? Não era êle o homem esperado ansiosamente? Mas a lição cristã lhe falava, poderosa, no íntimo. Era preciso con­servar-se com o Cristo, ainda que o mundo inteiro lhe fôsse adverso. Lutaria contra si mesma, até ao fim.

Nessa noite, porém, suas preces turvaram-se de lágrimas candentes. As declarações de Carlos não lhe saíam dos ouvidos e a filha de Madalena, pela primeira vez, na Terra, sentia-se cativa de singulares pesadelos.

O pupilo de Damiano, por sua vez, estava impressionado e decidido a cultivar a sublime afeição, acima de tudo. Supunha haver aquilatado o amor sincero da jovem pela inflexão da sua voz, pelo impulso ardente que vislumbrava nas suas pa­lavras de espiritualidade profunda. Experimentava ainda, nas mãos, o calor da mão trêmula que se esquivara ao carinho, qual pássaro assustado. Al­cione estava cheia de uma sabedoria diferente, mas a elevação espiritual, de que dava testemunho, exal­tava-lhe ainda mais os desejos ardentes. Não re­nunciaria aos seus propósitos. Debalde tomava os manuais de oração, no afã de atenuar a inquietude que o atormentava, mas era como se espêsso véu lhe vendasse os olhos dalma. Raciocinava, com­preendia a sublimidade dos textos, mas não con­seguia confeiçoá-los ao coração. A palavra serena e sábia da moça forçava-o a reflexões mais sérias, mas, no curso dos dias, o sobrinho do velho sacer­dote da igreja de São Vicente nada mais fazia que exacerbar os próprios desejos. De quando em vez, voltava a lhe falar no assunto, mas, encontrava-lhe o coração sempre blindado na fé, e sempre inspirada e vigilante.

Decorridas algumas semanas, certa feita en­controu-a sozinha, no santuário, retirando os adornos de antigo altar, após a missa.

Em tôrno, tudo era silêncio naquela manhã ba­nhada de sol.

Damiano, terminada a missa, retirara-se ao presbitério, levemente indisposto. O jovem sacer­dote, inflamado de paixão, achou que a opor­tunidade era ótima para expandir-se mais uma vez, recapitulando os idilios que fazem as delícias dos corações enamorados.

Após a saudação carinhosa, em que os dois manifestavam natural perturbação, o rapaz falou comovido:

— Não te admires de assim falar no recesso de um templo. Esta é a casa que Deus me facultou e não disponho de outro recurso. Há muitos dias, venho espreitando a possibilidade de alguns minu­tos, para confiar-te as minhas infinitas inquie­tações.

O próprio Carlos notava que a jovem se tor­nara mais pálida pela comoção que lhe ia nalma. Contudo, solidamente apegada aos seus princípios de virtude, a moça respondeu, esforçando-se por manter a maior serenidade:

—        Inquietarmo-nos será enorme êrro. Se Deus nos honrou com os trabalhos, não nos esquecerá com os recursos da paz necessária ao cumprimento do dever.

—        Compreendo, replicou êle quase impaciente, mas começo a crer que me não amas bastante. Aproximo-me de ti, sedento o coração, e vejo que as tuas objeções paralisam meus impulsos...

Assim falando, reparou que a jovem se tornara branca de mármore. Pela primeira vez, diante dêle, Alcione chorou. O apêlo era demasiado forte para que se contivesse impassível.

—        Desvairas, Carlos? — perguntou com an­gustiosa inflexão. — Admites minha amorosa dedi­cação estraçalhando os programas do Cristo? Deus conhece minhas vigílias em preces fervorosas. Des­de que nos vimos pela primeira vez, diluo as minhas aspirações mais antigas em lágrimas dolorosas.

Contemplando-a nessa atitude, o rapaz avançou alguns passos visivelmente emocionado. Tomou-lhe a mão, de leve, e, de olhos marejados de pranto, acrescentou:

—        Perdoa-me! O amor me alucina. Tenho feito o possível por descansar a mente, confiante em Jesus e na certeza da vida eterna; entretanto, a paixão me obscurece a razão e caio sempre ven­cido nessas batalhas silenciosas do pensamento... Tua imagem, sempre ela, a me preocupar o cérebro e o coração atormentados! Vejo-te a cada hora, em tudo e em tôda parte, sinto-te nos mínimos episó­dios da vida e creio divisar teu sorriso até no fundo das hóstias consagradas...

—        Não procedas assim — disse a moça extre­mamente conturbada —; tua dedicação afetuosa sensibiliza-me o coração de maneira intraduzível, mas só Jesus é bastante digno do amor supremo. Amo-te também, acima de tôdas as coisas da Terra, mas sou mísera criatura, Carlos. Repletemos nossa alma com a visão sublimada do sacrifício pelo dever. Não creias que eu possa viver sem sonhar com os teus carinhos, mas considera que não será justo colocar tôdas as nossas ânsias nos aspectos exteriores da vida. A felicidade no plano imortal deve ser como a planta que nasce e se desenvolve gradativamente. Por que aniquilar o germe de nossa ventura sublime, por simples inquietação de espí­rito inconformado? E se a primeira vergôntea da nossa união divina tem a profunda beleza de um ideal celeste, como será imensa a sua beleza quando se tomar em dadivosa fronde de amor, nos lumi­nosos paços da eternidade? Estamos no período das almas esperanças, quando as sementes bro­tam... Se é indispensável adubar com lágrimas, não hesitemos um instante!...

O         sobrinho de Damiano ouvia enlevado. Sen­tindo a sutileza delicada dos apelos feminis da religiosa e meiga Alcione, apertou-lhe a mão entre as dêle, mais fortemente, e obtemperou:

—        Concordo com a tua resignação admirável, embora não participe das tuas virtudes celestiais; entretanto, penso que não se nega uma gôta de orvalho à planta tenra! Não me deixes órfão da tua ternura. Ouve, querida! Concede-me a dita de um beijo apenas e serei o mais ditoso dos sêres...

A moça fêz um gesto de doloroso espanto, ao mesmo tempo que pervagava o olhar pela nave si­lenciosa.

—        Não temas — prosseguia Carlos febril-mente —; os santos que nos assistem são mais compreensíveis que os homens criminosos. Sob tetos humanos, envenenariam as nossas atitudes sagradas, mas aqui estamos na morada de Deus, que é Pai amoroso e sábio...

Alcione Vilamil, no entanto, fêz um gesto de recuo e murmurou:

—        Não posso!

—        Por quê? — revidou Cienaghan em tom de mágoa.

Então, envolvida num halo de tristeza indefi­nível, ela explicou:

—        O incêndio devastador começa de uma sim­ples fagulha.

—        Mas nós temos sido deserdados, Alcione...

—        E que dizermos de um homem — continuou com energia e serenidade — que, sentindo o frio do inverno, acendesse um lume imprudente no seio da floresta acolhedora, ameaçando a própria casa e a paz dos seus habitantes, tão só a pretexto de se livrar do frio?

Ante a inesperada resistência, o pupilo de Da­miano sentiu-se envergonhado.

—        Sou bem infeliz — disse amarguradamente entretanto, estou convencido de que nunca trai meus deveres!...

—        Lembremos, Carlos, os antigos apóstolos da Igreja, quando advertiam que, depois de cumpridos todos os deveres, ainda nos deveríamos considerar servos inúteis, porque tudo nos vem da misericórdia divina...

O         rapaz admirava-lhe a energia afetuosa, caíra novamente em si do desvario momentâneo que lhe perturbara os sentidos, mas conservava-se inerte, deixando correr copiosas lágrimas.

Profundamente comovida, a jovem acentuou:

—        Não posso dar o beijo que pediste, mas posso dar-te o ósculo de minh’alma.

Retirou do pequeno altar próximo um crucifixo de prata, sobrepôs no peito do Crucificado minús­cula fôlha de trevo e acrescentou:

—        Abaixo do Céu, Carlos, és o meu maior afeto; entre nós, porém, está Jesus-Cristo. Em nossa consciência, o Senhor ainda não nos permite uma aproximação integral. Pois bem: confio a Jesus o beijo da minh’alma, para que seu miseri­cordioso coração te entregue a minha pobre lembrança.

Em seguida, beijou a fôlha de trevo, passando a pequena relíquia de prata ao escolhido, que os­culou por sua vez a fôlha minúscula, com indizível carinho.

Aquela singular concessão pareceu calmá-lo. Sorriu confortado, agradecendo com palavras afe­tuosas à noiva espiritual, obtemperando em se­guida:

— É preciso suportar o isolamento e cumprir o dever até ao fim...

Alcione, quase satisfeita, completou-lhe a con­cepção nestes têrmos:

— De cidade em cidade, há sempre alguma distância a percorrer. É intuitivo que da imperfeição de nossos espíritos à perfeição do Cristo há a contar uma distância quase imensurável... Por­tanto, qualquer discípulo sincero, para se unir ao Mestre, tem de sobrepor-se à limitação e mesqui­nhez da natureza humana, disposto a tolerar as fadigas da solidão inerente à grande jornada. Se­melhante estado, Carlos, identifica todos os que vão sentindo o tédio do mundo, ansiosos de novas luzes. Jesus nos aponta os caminhos e não seria justo que estacionássemos, alegando temor da sole­dade benéfica que nos ensina a ver o próprio coração como um livro aberto!... Apenas aí, a sós conosco, podemos discernir mais claro o justo do injusto, o bom do mau.

Clenaghan retirou-se plenamente confortado, experimentando o espírito banhado em fôrças novas.

Os dias continuaram a sua marcha, ao mesmo passo que as gentilezas crescentes do novo sacer­dote para com a filha de Madalena Vilamil iam-se tornando pasto da maledicência devota. Espiolha­va-se o assunto em surdina, quando o rapaz deli­berou recorrer à experiência do tio, para resolver a situação. Damiano recebeu-lhe a palavra con­fidencial com alguma surprêsa. Carlos alegava que, dada a falta de vocação sacerdotal, pretendia rejei­tar a batina, ainda que devesse contar com as mais ásperas censuras. Influia nessa deliberação o amor que Alcione lhe inspirava e que êle revelou ao tio pausadamente, na atitude espontânea, própria dos jovens apaixonados. Padre Damiano mostrou-se logo muito preocupado, considerando a gravidade do caso, e aconselhou ao pupilo não resolver tão delicado problema com a precipitação dos espíritos levianos. Sempre fôra contrário à realização do voto da irmã, mas, em tal emergência, era impres­cindível proceder com a maior prudência. Fêz ver ao sobrinho os obstáculos ponderosos, as ameaças dos novos rumos e, por último, já que se consi­deravam quase como familiares de Madalena, su­geria que o assunto fôsse levado à análise da viúva Davenport e da filha, a quem interessaria, maior­mente, tôda e qualquer decisão. Carlos Clenaghan aceitou a idéia visivelmente satisfeito.

Chegados a casa da filha de D. Inácio, encon­traram-na só, à espera da jovem gue havia saído em companhia de Robbie, momentos antes, O velho sacerdote aproveitou a oportunidade para explanar detidamente o assunto. A nobre senhora mostra­va-se muito admirada, sem poder disfarçar a estra­nheza que a resolução de Clenaghan lhe causava. Madalena sentia-se assaz embaraçada para opinar judiciosamente em problema tão melindroso. Quan­do os últimos esclarecimentos do padre Damiano se fizeram ouvir, a viúva Davenport respondeu muito pálida:

—        Tudo isso é muito estranho para o meu coração de mãe, pois ignorava que entre minha filha e o padre Carlos pudessem existir laços afe­tivos de tal natureza...

—        Não será bem assim que devemos dizer —atalhou Clenaghan nobremente. — O que meu tio acaba de expor não passa, por enquanto, de preten­são minha. Não existem laços entre nós, mas sim inclinações; nem Alcione poderia presumir ou saber dos meus desígnios de alijar a batina.

—        Ela ignora, então, as providências em curso? — perguntou a senhora Vilamil bastante surpreendida.

       — Sim — reafirmou Carlos, com sinceridade —, meu tio e eu deliberamos vir a vossa casa, dada a nossa confiança e intimidade. Não desejávamos resolver tão delicado problema por nós mesmos, quando a solução parece que nos afetará a todos.

A viúva teve um gesto expressivo, eviden­ciando o seu embaraço, mas o jovem sacerdote, percebendo-lhe a estranheza, continuou:

— O ambiente convencional em que me en­contro sufoca-me o coração. Temos necessidade de emancipação espiritual. Não quero dizer com isso que abjure a crença que me alimenta o espírito desde a infância, e sim que não concordo com o celibato compulsório, porque, para mim, o padre católico-romano jamais poderá colaborar santamen­te na edificação da família humana, deixando de constituí-la êle mesmo.

A filha de D. Inácio ouvia aquêle desabafo um tanto constrangida. No íntimo, desejaria revidar, defender a missão do sacerdote, neutralizar uma providência que poderia acarretar grandes amargu­ras à filha. A presença do padre Damiano, porém, não lhe consentia maior franqueza. Habituara-se a estimá-lo quase como ao próprio pai. Admitia o seu bom senso, aceitava a superioridade da sua longa experiência da vida. Se êle deliberara afetar-lhe o assunto, é que teria razões ponderáveis para isso. Mal acabava de assim pensar, quando o velho sacerdote ponderou:

— Vejo, Madalena, que o caso te impressiona mais do que poderia supor. É natural, porqüanto o coração materno é sempre uma sentinela vigi­lante. Eu não ignorava que as preocupações de Carlos te magoariam a alma sensível, mas, minha filha, não tive remédio senão informar-te devida-mente, com a devida franqueza. Trata-se da ven­tura de dois corações muito jovens e eu me sinto incapaz de intervir mais decisivamente, mesmo por­que, penso que meu sobrinho nada pode nem deve resolver, sem que Alcione seja ouvida.

A nobre senhora compreendeu os escrúpulos do velho sacerdote e confessou:

—        Também julgo muito arrojadas as preten­sões do padre Carlos, no sentido de enfrentar a sociedade em que vivemos, mas sou a primeira a desejar a felicidade de minha filha. Por ela, sinto que devo recalcar minhas concepções pessoais do dever e da vida. Aliás, devo esclarecer que Alcione nunca me deu a menor preocupação, sendo esta a primeira vez que me vejo compelida a examinar problema tão difícil, condizente ao seu futuro. Por isso mesmo, confio em que ela própria saberá elucidar-nos o que mais convenha...

Nesse comenos, Alcione entrou de surpresa, saudando afàvelmente os amigos.

Mais alguns momentos e padre Damiano lhe pede atenção para o assunto em foco. Enquanto Clenaghan acompanhava as suas palavras visivel­mente emocionado, a jovem recebia a noticia com intranquilidade e amargura.

—        Como vês, Alcione — terminava o velho sacerdote —, as intenções de Carlos preocuparam-me sobremaneira e me senti sem fôrças para resolver só por mim. Já me entendi com tua mãe e agora esperamos que te pronuncies sinceramente.

A moça dirigiu ao amado de sua alma um olhar de exprobração, e, sentindo-se encarcerada num círculo de opiniões, onde a sua deveria pre­valecer mais fortemente, esclareceu:

—        Em consciência, padre Damiano, não posso concordar com tudo isso. Ao que suponho, Carlos está sendo vítima de grande equívoco. Alma al­guma poderá ser feliz olvidando seus deveres. Nossa afeição seria condenável se forçasse um de nós a esquecer as suas obrigações.

Nesse instante, o moço contemplava-a entris­tecido, amargurado com aquela resistência, ao passo que o tutor justificava:

— Compreendemos a delicadeza dos teus sen­timentos, mas, vale advertir que, qual se tem dado com outros muitos, Carlos se desligaria dos votos sacerdotais, continuando ao serviço de Jesus, dentro­ do Evangelho. A resolução, portanto, apenas visaria atenuar as exigências tirânicas da Igreja, com referência à felicidade de dois corações nobres e sinceros.

—        Padre Damiano — tornou a jovem algo conturbada —, acredito na grandeza da sua com­placência para conosco e lamento bastante ser obrigada a contrariar seu generoso coração, pela primeira vez; mas a verdade é que não posso aplau­dir êsse plano. Admito que o celibato obrigatório representa, de fato, uma exigência tirânica, mas nin­guém deverá eximir um homem dos compromissos assumidos conforme os desígnios de Deus. Nós, que aceitamos a pluralidade da existência na Terra, não podemos haver por meramente casuais os acon­tecimentos que levaram Carlos a envergar a batina. Quem sabe esta sua condição atual não seja uma repetição de experiências pregressas? Quem nos dirá que êle não tenha vivido noutra época, cons­purcando o altar, e que eu não tenha cooperado em suas quedas? Não será justo soframos ambos a conseqüência de nossos erros? Ainda que assim não fôra, tínhamos a considerar, necessariamente, os desígnios de Jesus, sublimes e insondáveis. É ver­dade que consagro a Clenaghan uma afeição intensa e divina, que confesso diante de mamãe pela pri­meira vez. Esta circunstância, porém, não será motivo de queda espiritual, mas antes de estímulo para que redobre meus zelos pelo seu nome, O im­perativo eclesiástico pode ser muito duro, mas creio não sermos os únicos a sofrer-lhe as conse­qüências. Outras almas, tão sinceras quanto as nossas, estarão sofrendo e confiando na bondade de Jesus-Cristo.

O         velho sacerdote não esperava da jovem outra atitude senão aquela com que testemunhava a suprema elevação do seu espírito, mas estava sur­preendido pela maneira como se exprimia, pela inflexão da voz, cuja emoção se casava à firmeza dos raciocínios.

Nesse ínterim, Clenaghan interveio, murmu­rando:

—        Teus pareceres, Alcione, evidenciam o acen­dramento de tua bondade; todavia, tenho refletido na renúncia dos meus votos como ato de coragem e fidelidade espiritual.

—        Sim, para o mundo — aparteou Alcione —talvez fôsses uma criatura desassombrada; mas onde estaria a verdadeira coragem? Na decisão escandalosa de um dia? Ou no sagrado cumprimento dos votos empenhados para uma vida inteira?

O         rapaz não pôde dissimular a enorme sur­prêsa que o argumento lhe causava. Sob os olhares perscrutadores de Madalena e do tio, Carlos parecia titubeante, acentuando, porém, como a defender-se:

—        Não sou, contudo, o primeiro a pensar nisso. Outros sacerdotes renovaram suas concepções e mu­daram de roteiro, em vista das absurdas e crimino­sas imposições de que eram vítimas.

Alcione pareceu meditar um momento e res­pondeu:

      — Renovar concepções é um dever nobre de tôda criatura, mas um pai sômente se engrandece quando eleva consigo todos os filhos da sua casa; nunca, porém, deixando a família ao abandono. Um sacerdote do Cristo, Carlos, ainda que incom­preendido no mundo, deve ser sempre um pai... Quanto a mudar de roteiro, é coisa outra que me­rece atenção especial. É justo que um passageiro dessa ou daquela embarcação troque de navio em pleno mar, ou que se deixe ficar à tôa em pôrto diferente, acreditando abreviar a viagem; mas, que dizer de um comandante que assim procedesse com os que nêle confiam? Não será melhor permanecer, tanto nas rotas perigosas como nas ondas mansas? E que é nossa vida neste mundo senão uma viagem para esferas mais altas? Dia virá que chegaremos ao pôrto da verdade e é necessário cumprir o dever até ao fim. Para as almas vulgares, a existência pode representar um conjunto de possibilidades, de levianas experiências, mas nós, que já recebemos algum conhecimento das coisas divinas, não pode­mos interpretar a passagem pela Terra senão como santa oportunidade de trabalho e purificação!... Referimo-nos à organização tirânica da Igreja, mas seria injusto esquecer que um instituto defeituoso apenas se regenerará quando prevaleça a atuação de seus elementos mais dignos. Os maus padres hão de desaparecer quando os sacerdotes inteligentes e devotados tiverem a coragem da renúncia a bene­fício da Igreja, permanecendo na tarefa por amor aos necessitados e ignorantes, que Jesus lhes con­fiou!...

Damiano estava profundamente comovido e impressionado. Aquêles conceitos não pareciam de­rivar de um cérebro humano. Após longa pausa, o ancião, de olhos úmidos, acrescentou solenemente:

— Creio que as explicações de Alcione nos vêm de mais alto. A claridade do dia do Pentecos­tes nunca morreu no mundo.

E, dirigindo-se ao pupilo, frisava:

— Como vês, nada tenho a dizer. Minhas objeções de velho poderiam ser levadas a conta de impertinência. Jesus te envia, contudo, pela pró­pria eleita, a mensagem salvadora. Não hesites, meu filho, entre o capricho e o dever!...

A pequena assembléia familiar dispersou-se friamente. Carlos Clenaghan, comovidíssimo, des­pediu-se de Alcione enxugando uma lágrima. No dia seguinte, de manhã, compareceu à missa de rosto angustioso, demonstrando que as provas da véspera lhe haviam calado fundo no coração.

Damiano também estava mais impressionado do que se poderia supor. As afirmativas da discípula ressoavam-lhe aos ouvidos em poderosas vibrações. Suas experiências da vida eram rudes e longas, mas nunca se lhe deparara uma jovem com tamanha compreensão do sofrimento e do des­tino. Que fôra a sua vida de sacerdote senão aquêle rigoroso programa esboçado pela jovem Alcione? Recordava os tempos difíceis, as horas de tentações mais ásperas, os sacrifícios longos, as dores que pareciam sem têrmo, para concluir que Jesus lhe enviara luzes consoladoras pelos lábios carinhosos daquela criatura que sempre estimara como filha.

Ainda assim, competia-lhe ponderar grave­mente a situação. Era necessário subtrair Alcione ao ambiente de Ávila. Além disso, impunha-se uma alteração de regime, visto que os dois se amavam intensamente e convinha distanciá-los a título pre­ventivo. Madalena Vilamil sempre esperara, pacien­temente, a oportunidade de conhecer a América do Norte. Os acontecimentos pareciam favorecer e reavivar os seus desejos. Como, porém, realizá-los? Muitas vêzes, as ocasiões haviam surgido, mas só-mente para as colônias espanholas e êle as recusara sempre, porque não seria razoável submeter a se­nhora Davenport e os seus a penosas peregrinações.

Damiano lembrou-se do seu espicilégio. Talvez os documentos particulares lhe sugerissem algum empreendimento. Releu a carta de um amigo de Paris. Convidava-o a rever sua comunidade e tra­balhar na capital francesa. Não seria difícil partir da França para o norte da América. Satisfeito com o achado, reteve a idéia durante um mês. Decor­rido êsse prazo, quando as pretensões de Clenaghan já estavam esquecidas na residência de Madalena, o velho sacerdote começou a tratar do assunto.

 

Novamente em Paris

       Madalena Vilamil acolheu o alvitre do velho sacerdote, entre cismas e esperanças. Desejava, sinceramente, poder um dia abraçar os Davenport. Nunca renunciara ao propósito de ouvir algum sobrevivente do naufrágio em que, segundo a carta de Blois, perdera o espôso amado, Os anos haviam corrido entre esforços angustiosos, mas nunca se lhe apagara na mente a figura de Jaques com a sua generosidade paternal. Às vêzes, conjeturava que o carinhoso benfeitor de Blois também já houvera falecido. Ainda assim, seria sempre pos­sível encontrar Susana ou algum dos irmãos de Cirilo, no Connecticut. Ao demais, sentia-se can­sada e doente. Não seria prudente aproximar Alcione dos parentes? Temia morrer deixando a filha sem parentes próximos que lhe velassem pelo futuro. Em tempo, alimentara a esperança de um casamento feliz, mas agora estava certa de que êsse problema, na vida da jovem, era muito mais complexo do que poderia supor. Se a morte lhe sobreviesse, poderia contar com a afeição sincera do padre Damiano, mas também notava que o velho amigo ia-se curvando para a terra, devaga­rinho, ao pêso do intenso trabalho junto das almas. Quanto ao filhinho adotivo, não podia presumir nem esperar dêle outra coisa que não fôsse preocupações e trabalhos ásperos. Alcione não poderia esperar de Robbie o concurso necessário no porvir. Antes, pelo contrário, ele é que não poderia pres­cindir do seu arrimo fraternal. E, nada obstante, a espôsa de Cirilo sentia-se sem coragem para aderir ao projeto. Compreendia as vantagens e o acêrto da emprêsa, mas sentia-se ao mesmo tempo exausta de fôrças para tentar a jornada penosa. Não hesi­taria, se a viagem estivesse definitivamente deci­dida e traçada em seus detalhes; entretanto, a per­manência em Paris, antes da resolução definitiva, infirmava-lhe o ânimo. A capital francesa regur­gitava de recordações doces e amargas para o seu espírito sensível. Rever os lugares onde conhecera a inolvidável ventura da mocidade não significaria abeirar-se do túmulo dos mais lindos sonhos e chorar para sempre? E enquanto ela assim relu­tava, Damiano intervinha solícito, valendo-se das ocasiões em que se encontravam a sós.

—        Reconheço quão amargurosas são as tuas expectativas, mas penso que a felicidade de Alcione e as necessidades de Robbie justificam teu sacri­fício. Creio que o ambiente de Ávila já proporcio­nou às duas crianças o máximo de experiência. E chegados a êste ponto, nutro os meus receios pelo sobrinho. Alcione nos deu vigoroso exemplo de fé e sacrifício, recusando-lhe os planos de rapaz im­petuoso, sacrificado na sua vocação; mas, não será o caso de auxiliarmos agora a generosa menina, prodigalizando-lhe um bálsamo ao coração dilace­rado? É que, não obstante o bom senso e a gran­deza dalma, ela deve ter o coração repleto de amor. Isso é inegável. Considero crueldade expô-la, dià­riamente, ao exame da sua chaga. Em cada por­menor da igreja, como em cada paisagem de Ávila, seus olhos carinhosos hão de ver a figura do amor torturado e insatisfeito. Por outro lado, pressinto em meu sobrinho manifesta incapacidade de renún­cia. A meu ver, êle deu tréguas ao problema, sem o quitar no coração. Quando menos esperarmoS, voltará ao assunto com argumentos novos. Não julgas que mais convém prevenir subtraindo Al­cione às tentações? Confio bastante nela, na sua conduta irrepreensível, mas imagino que a medida lhe beneficiará o espírito impressionável.

—        Vossa opinião é respeitável, padre Damia­no, mas, por mim, penso que Paris fica demasiado longe...

—        E, contudo, a mudança para outra região espanhola pouco adiantaria. Com referência ao caso de meu sobrinho, êle encontraria logo qual­quer pretexto para continuar junto de Alcione, e no que diz com a viagem à América do Norte, àFrança ou à Inglaterra, sômente nos oferecem facilidades.

—        Tendes razão — acentuou a filha de D. Iná­cio, convicta.

—        Pois reflitamos no caso — concluía o velho sacerdote — certos de que, nas feridas do amor, a distância sempre foi remédio de benéficas reações.

A espôsa de Cirilo passou a considerar a con­veniência da iniciativa, comunicando à filha os seus projetos. Alcione exultou de alegria. O ambiente acanhado de Ávila feria-lhe o coração; os comen­tários maliciosos apoquentavam-na. Todavia, ao re­velar-se jubilosa, não se referiu a tais coisas, ale­gando apenas a esperançosa perspectiva de melhor saúde para sua mãe e para a educação de Robbie. Ante a opinião da jovem, Madalena ganhou novo ânimo. As primeiras providências foram dadas, com grande espanto de padre Carlos.

Enquanto Damiano comunicava para Paris a deliberação de partir, a filha de D. Inácio vendia a chácara aos Estigarríbias. Realizou o negócio sem preocupação e sem mágoas, mesmo porque, seus velhos amigos Dolores e João de Deus haviam partido para a colônia, com certas vantagens ma­teriais, de acôrdo com os patrões. Quanto ao mais, Ávila não lhe oferecia motivo a saudades acerbas. Amparada nas esperanças da filha, estava resol­vida a partir, ainda que tivesse de enfrentar maio­res dificuldades na capital francesa. Enquanto per­manecia irresoluta, Alcione incumbira-se de lhe dissipar os últimos receios. Não lhes faltaria tra­balho nas cidades grandes. A costura era serviço remunerativo em qualquer parte. Além disso, Robbie teria ensejo de prosseguir mais firmemente na música. Padre Damiano assevera não ser im­possível conseguir serviço pago ao seu violino, em alguma igreja. Nesse caso, Madalena animava-se, chegando a esperar com visível satisfação o dia da partida.

Clenaghan, no entanto, mantinha-se em ati­tude reservada, O tutor lhe confiara a igreja de São Vicente com severas recomendações. Fizera-lhe sentir maiormente o quadro de responsabilidades que o cercavam e induzia-o a manter o espírito de renúncia e sacrifício no coração, qual fogo sagrado da sua tarefa. Carlos, porém, parecia alheio aos exercícios religiosos. Alcione era sua preocupação máxima. Inúmeras vêzes buscava-lhe a companhia carinhosa para aliviar o coração, mas encontrava sempre a expressiva nobreza da sua alma cristã, adjurando-o a consumir-se inteiramente pelo dever bem cumprido, em face do Eterno.

Na véspera da separação que o deixaria mergu­lhado em saudades angustiosas, buscou-a de manei­ra a lhe falar intimamente, antes de se apartarem definitivamente. Depois de longas considerações afetivas com que traduzia as penas íntimas do co­ração, assim falou:

—        Não sei se poderei suportar para sempre o cativeiro em que me encontro. Sou um pássaro engaiolado, ansioso de liberdade...

—        Somos escravos do Cristo — atalhou ela, resignada.

—        Farei o possível por viver em observância às verdades que me ensinaste; mas, se um dia fôr compelido a modificar meu roteiro, irei buscar-te na França ou na América, a fim de construirmos o castelo de nossa ventura...

Muitíssimo emocionada, Alcione advertiu:

—        Espero que nunca interfiras no que Deus organizou, ainda que se destacassem as razões mais poderosas, porque, acima de tudo, Carlos, suponho que deveremos aguardar nossa ventura entre as luzes do céu.

O         pupilo de Damiano calou-se e a palestra pros­seguiu entre juras e compromissos afetuosos.

No dia seguinte, pela manhã, as últimas des­pedidas lhe provocaram lágrimas copiosas. Abraçou o velho tio comovidamente, dirigindo a todos pala­vras de reconhecimento e amor, com os votos sin­ceros de feliz jornada. Alcione estava sufocada. O dever falava-lhe fortemente ao espírito, mas a separação doía-lhe nas fibras mais recônditas. No último instante, as lágrimas lhe saltaram dos olhos. Damiano dava mostras de forte emoção. A senhora Vilamil permanecia recolhida em si mesma. Apenas Robbie mostrava enorme alegria pela novidade da excursão e quase maravilhado com as suas roupas novas.

Um velho companheiro de lutas, que se conser­vava ao lado de Clenaghan, abraçou os viajantes e, reconhecendo a comoção do antigo sacerdote, fa­lou sensibilizado:

—        Padre Damiano, não nos conformamos com a sua partida, não sômente pela falta de sua pala­vra animadora, como também porque não acredita­mos que se esqueça de Ávila, onde residiu e traba­lhou longos anos!...

—        Sim, meu amigo — respondeu o interpelado sem hesitação —, sem dúvida que não poderei alijar as confortadoras lembranças da igreja de São Vi­cente e das pessoas queridas que aqui ficam; mas, por outro lado, não há esquecer que em tôda parte servimos ao Senhor.

Cada qual fazia por se mostrar mais espe­rançado e confiante no futuro.

Novos adeuses, últimos abraços, e o carro espaçoso partiu aos solavancos e ao trote dos ani­mais pelo caminho empedrado e poeirento.

A viagem em direção ao litoral da Galiza não foi muito fácil; entretanto, com alguns dias de penosa jornada, a pequena caravana atingia Vigo, de onde uma embarcação holandesa a conduziria ao pôrto do Havre. Madalena Vilamil conservava-se melancólica, prêsa de recordações dolorosas da França. Damiano a todos encorajava formulando vastos projetos de futuro. Não seria difícil seguir de Paris para a América, mais tarde ou mais cedo, e essa promessa entretinha e exaltava o otimismo geral. Para distrair Alcione e Robbie, o velho amigo descrevia a beleza dos sítios mais atraentes da capital francesa, falando com entusiasmo da suntuosidade dos templos e dos passeios pitorescos pelas águas do Sena. Madalena ouvia-o atenta, identificando os sítios de suas venturosas excursões em companhia do marido e parecia perder-se num abismo insondavel de saudades ansiosas e lindas recordações.

Afinal, chegaram a Paris, depois de longo tem­po e de experimentarem os maiores incômodos na viagem.

O padre Amâncio Malouzec, da confraria dos Agostinhos e companheiro dedicado de Damiano, esperava-os solícito. Segundo a noticia enviada de Ávila, preparara uma casa modesta no burgo de São Marcelo para Madalena e os seus, reservando um apartamento no presbitério de São Jaques para o velho amigo de muitos anos. A filha de D. Inácio, da caleça em que se encontravam em trânsito, reparava com admiração as ruas e praças do seu conhecimento. Luís 14 reinava ainda e a cidade atestava uma administração vigilante e cuidadosa. Depois de atravessar o burgo de São Vitor, a via­tura penetrava o de São Marcelo e paráva ao lado de modesta casinha. Desceram todos, enquanto padre Amâncio, muito gentil, oferecia a singela residência. A filha de D. Inácio experimentava enorme estranheza pela mudança brusca de ambiente. Procurou, porém, adaptar-se à nova situação. Insistindo pela nota das despesas, fêz questão de pagar tudo, embora Damiano e o amigo fizessem o possível por evitar o feito. Sômente mais tarde, o velho sacerdote retirou-se para São Jaques, quan­do a organização de todos os projetos tranqüilizara Madalena e os seus.

Alcione não conseguia dissimular a surprêsa que lhe causava a extensão de Paris, com as suas expressões de vida intensa. No íntimo, rogava a Deus lhe fortalecesse o espírito para os trabalhos que lhe estivessem ali reservados, pronta à exe­cução dos seus deveres.

A primeira necessidade dos Vilamil foi aten­dida daí a dois dias; padre Amâncio lhes angariou ótima serva, uma velhinha desamparada e dona de nobres sentimentos. Luisa captou logo as simpatias de Madalena e da filha. Há muito que ela se via quase em abandono. As famílias abastadas recusavam os serviços de gente mais idosa e a sua situação era das mais precárias. Tal circunstância aproximou-a mais fortemente da nova patroa, cons­tituindo valioso arrimo para a espôsa de Cirilo, que necessitava incrementar o próprio trabalho remu­nerado, para atender aos gastos domésticos.

Prementes dificuldades, no entanto, esperavam a filha de D. Inácio, que a breve trecho se encon­trou em maiores apuros. Nem sequer pudera sair à via pública, a fim de visitar o túmulo dos pais, como tanto desejava. A mudança de meio trouxe­ra-lhe a revivescência da enfermidade dos pés, com caráter agudíssimo. Padre Damiano, por inexplicá­veis circunstâncias, também adoecera em casa do colega, em São Jaques. Alcione, depois de atender aos encargos caseiros, ia todos os dias de um a outro bairro, grandemente preocupada com os dois enfermos. Em casa, tomava as lições do irmão adotivo, buscava praticar o francês em longas con­versações com Luisa e cuidava, com infinitos des­velos, das melhoras da genitora. Esta, muito im­pressionada com a evasão dos reduzidos recursos que trouxera de Ávila, procurava instruir a filhinha para que a obtenção de trabalho em Paris lhe fôsse facilitada. Em vão, enviou-a em procura de Colete e de outras amizades dos tempos idos. Madalena tinha a impressão de que fôrças impiedosas haviam varrido todos os traços parisienses em que con­centrava as suas lembranças cariciosas. Alcione, apesar da fé que lhe fortalecia o coração, permane­cia igualmente preocupada. Era indispensável aten­der ao tratamento materno, cuidar dos pagamentos à serva, prover as necessidades de Robbie. Em suas visitas a Damiano, abstinha-se de lhe confiar as graves inquietações. O velho sacerdote, con­traindo inesperadamente implacável moléstia dos pulmões, definhava dia a dia. A jovem, porém, criou coragem e solicitou o socorro do padre Aman­cio, a fim de lhe angariar algum trabalho. Costu­rava, bordava, ensinava música e talvez não fôsse difícil obter colocação nalguma oficina honesta, ou em casas abastadas. O novo amigo dos Vilamil pôs-se em campo. Antiga costureira, nas vizinhan­ças da ponte de São Miguel, autorizou padre Amàn­cio a lhe mandar a candidata para lhe conhecer as habilitações.

Alcione apresentou-se. Madame Paulete, que mascarava os péssimos costumes com atitudes bea­tas, não gostou do seu porte nobre e da sua can­dura. Era demasiado pura e simples para servir-lhe aos propósitos obnóxios.

Após observá-la meticulosamente, a costureira esboçou um gesto significativo e sentenciou:

—        Lamento bastante, mas não é possível uti­lizar seus serviços, por enquanto.

—        Por que Madame? — perguntou a filha de Madalena com inflexão de tristeza, por ver aniqui­lada a sua esperança.

A interlocutora procurou ocultar os verdadei­ros sentimentos, acentuando:

—        Sua dificuldade de pronúncia não satisfaz as exigências da freguesia.

—        Mas poderei costurar sem inconveniente e, com o tempo, creio poder satisfazê-la no referente à linguagem.

—        Não posso — disse a outra, inflexível —, a clientela de bom gôsto exige muitos recursos verbais.

Alcione, muito humilde, deixando transparecer grande amargura na voz, insistiu:

—        Madame Paulete, certamente a senhora está com a razão; entretanto, ousaria apelar para sua bondade. Tenho muita necessidade de trabalho!... Minha mãe está gravemente enfêrma e, além disso, tôdas as despesas da casa correm por minha con­ta... Se a senhora pudesse admitir-me em sua oficina de costura, pode crer que praticaria uma ação caridosa e justa, com o nosso eterno reconhe­cimento. Quem sabe terá outros serviços de que me possa ocupar, honestamente, em sua casa? Sem conhecimentos em Paris, estamos em luta com os maiores obstáculos.

Essas palavras, porém, embora denunciassem extrema aflição de uma filha carinhosa, não produziram efeito. Madame Paulete, com expressão algo irônica, voltou a dizer:

—        Infelizmente não estou em condições de atendê-la; mas, minha menina, não será só a costura que lhe poderá valer. Há muitas mulheres da sua idade ganhando a vida em Paris, com menores esforços.

Enquanto Alcione, surpreendida com insinua­ção tão ingrata, sentia-se impossibilitada de responder, a interlocutora concluía impiedosamente:

—        Com seus modos simples e com a sua ju­ventude não seria difícil.

Alcione sufocou as lágrimas dentro do peito e despediu-se. Atordoada com o burburinho das ruas, voltou a casa, submersa em graves cogitações. Madame Paulete fôra cruel, mas cumpria colocá-la em sua posição e esquecê-la. Compreendia a inuti­lidade de se entregar a lamentações estéreis. Certo, Deus não lhe havia concedido as claridades divinas da fé para as horas tranqüilas da existência. Seu coração detinha o depósito sagrado, a fim de apren­der a nortear-se para o mais alto, ainda que desa­bassem as mais violentas tempestades. Êsse pen­samento tranqüilizou-a. Não acreditava em Jesus como Salvador distante, sim como Mestre amado, presente em espírito às lições dos discípulos en­tre os sofrimentos e experiências do mundo. Sen­tia-se em momentos de testemunho. O Senhor não a esqueceria. Da sua inesgotável bondade viriam recursos inesperados. Prosseguiria esforçando-se e estava certa de que a mão de Jesus viria em seu socorro.

Engolfada em profundas meditações, entrou em casa, morta de cansaço. Tal como sucedera um dia a Madalena, Alcione também tivera necessidade de tranqüilizar o espírito materno com palavras que disfarçassem as realidades amargas.

De olhos esperançados, a espôsa de Cirilo in­terrogou ansiosa:

—        E o trabalho?

Esboçando um sorriso de paz espiritual, a jovem acentuou:

—        A oficina me admitirá por êstes dias.

A senhora Vilamil deu um suspiro de alívio e murmurou:

—        Graças a Deus! Que me dizes da Madame Paulete? É pessoa respeitável?

—        Pouco conversamos, mas, ainda assim, me pareceu pessoa muito estimável e digna.

—        Ainda bem — exclamou a mãezinha, des­preocupando-se. — Meu maior receio provém de conhecer alguma coisa dos abusos parisienses. Nem tôdas as costureiras são criaturas dedicadas ao lar.

—        Pode ficar tranqüila, mamãe — declarou a jovem por desfazer os temores maternos —; em quaisquer circunstâncias não esquecerei seus bons exemplos.

Madalena Vilamil envolveu-a num olhar de ca­rinho imenso, no qual transparecia a mágoa de não poder locomover-se e trabalhar. Mais comovida, falou depois de longa pausa:

— Conheço de experiência própria o que signi­fica pleitear umas tantas coisas nesta Paris. Antes de nasceres, minha mãe esteve de cama longo tem­po. As necessidades tornavam-se cada vez mais prementes e tive de sair à cata de recursos, com a diferença que eu rogava favores e tu pedes trabalho.

Em voz pausada, entrou a relatar velhas re­miniscências, pintando ao vivo o quadro das falsas amigas de D. Margarida, quando lhe atiraram era rosto certas observações ingratas e implacáveis.

Quando terminou, chorava copiosamente, mas Alcione tomou-lhe o rosto entre as mãos e beijou-a com enternecimento, dizendo-lhe:

— Esqueçamos, mãezinha! Por que recordar coisas tristes? Deus não esquece os seus filhos. Certo que não nos faltará recurso e amparo!... Breve estarei trabalhando, com vencimentos que nos satisfaçam as necessidades. Além disso, padre Damiano, logo que melhore, arranjará serviço mu­sical para Robbie, na igreja. Depois a senhora melhorará e conseguiremos bordados para fazer em casa. Não é verdade que temos um mundo de boas esperanças à nossa frente?

A enfêrma pareceu adquirir nova expressão de bom ânimo.

— Teu otimismo é contagioso — murmurou mais tranqüila —, no entanto, com referência ao padre Damiano, tenho triste nova a dar-te, O reve­rendo Amâncio esteve aqui, na tua ausência, para certificar-nos do seu estado. O médico já perdeu as esperanças, pois, afirma que o velho amigo está tísico e terá poucos meses de vida.

A moça ouvia os informes sem dissimular a dor que lhe causavam. A genitora, porém, prosseguia em tom pesaroso:

—        Um pormenor muito grave da situação, se­gundo informa padre Amâncio, é que o nosso ben-feitor não dispõe presentemente de qualquer re­curso.

Notei-o muito preocupado com a atual situação do virtuoso sacerdote, que, segundo alega, tem ne­cessidade premente de efetuar certos gastos, entre os quais, por exemplo, os que decorrem da admissão de um servo, além da aquisição de vários utensílios de uso privado, já que terá de isolar-se, lá mesmo no presbitério, por ser portador de mal contagioso.

—        Então o padre Malouzec não pode auxiliá-lo nisso? — perguntou Alcione compungida e aflita.

—        Notei-o pouco disposto a fazê-lo.

—        E que lhe disse a senhora?

—        Fiz-lhe ver que nossas necessidades tam­bém eram duras, nestes seis meses sem trabalho, mas, ainda assim, que esta casinha está à disposição do enfêrmo. Minha declaração desconcertou-lhe um tanto o espírito prático; todavia, tenho preocupa­ções muito justas.

—        Providenciaremos para obter o dinheiro —anunciou a moça, resoluta.

—        Como? — perguntou Madalena, assaz im­pressionada — se precisamos no mínimo de duzentos a trezentos francos para atender às despesas de ins­talação do doente em pequeno pavilhão separado.

—        Estou certa de que não nos faltará a soma precisa — confirmou a jovem. Amanhã cedo irei encorajá-lo e tratar do assunto.

—        Com os nossos sofrimentos atuais, acres­centou Madalena, creio que fica liquidado o projeto de viagem à América.

—        Não diga tal, mamãe! Nas noites mais es­curas a esperança é um raio mais forte.

A palestra continuou entre motivos de mútuas consolações.

Na manhã seguinte, apesar de muito preocupa­da com o insucesso da véspera, a jovem chegava ao quarto do enfêrmo, antes das nove horas. Não se avistava com o amigo havia três dias. Encon­trou-o muito desfigurado, excessivamente pálido, olhos encovados. Empurrou de mansinho a porta entreaberta, a fim de surpreendê-lo. Reparou-lhe na fisionomia cansada e deteve-se na observação deta­lhada de suas características. Com efeito, piorara muito. As mãos, a reterem volumoso livro, cujas páginas lia atentamente, pareciam de cêra. A res­piração revelava-se algo acelerada. Alcione repri­miu a própria amargura, dominou a emoção e excla­mou sorridente:

—        Lendo a Bíblia?

Damiano fêz um gesto de grande alegria, sau­dando-a com ternura. Ela o abraçou e, arrebatando o livro, procurou ver que meditações o preocupavam no momento. Eram as exortações do Eclesiastes:

—        “Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do Céu; há tempo de nascer e tempo de morrer.” (1)

—        Discordo — murmurou solícita — que o senhor, adoentado como se encontra, esteja a ler estas coisas tristes.

O         sacerdote esboçou um sorriso algo desalen­tado, informando:

—        À tua mãe, Alcione, talvez não tivesse cora­gem de falar com esta franqueza sôbre o meu caso. Ela é demasiado sensível e já tem sofrido muito. Não seria razoável aumentar-lhe as amarguras. Eis por que preciso desabafar contigo, não obstante a tua mocidade. Já sei que êste meu mal é incurá­vel e não posso deixar de concluir que, para mim, vem perto a hora da partida. Estejamos, pois, for­talecidos em Jesus, porque, como nos diz a Bíblia, a carne é também um vento que passa e nós somos filhos da eternidade!

A moça escutava-o comovida, olhos marejados de pranto. Desde a infância habituara-se a encon­trar naquela afeição os melhores estímulos de coragem

 

(1) Eclesiastes, 3:1-2. — Nota de Emmanuel.

 

para as lutas da vida. Estimava-o, qual se fôra seu pai. Instintivamente, lembrou-se do tem­po das vigorosas pregações evangélicas em Ávila. Ninguém diria que aquêle homem robusto, insi­nuante e sugestivo pela sua palavra franca, che­garia àquele estado de miséria orgânica. Seus olhos lúcidos denunciavam o desassombro e a serenidade de todos os dias, mas a expressão geral eviden­ciava enorme astenia. Quis responder, consolá-lo com palavras animadoras, mas nada lhe ocorreu. Forte constrição da garganta lhe embargava a voz. A franqueza do velho sacerdote desarmara-lhe o espírito carinhoso. Impossível ensaiar palavras que iludissem a gravidade da situação, quando o próprio Damiano se sentia tranqüilo e conformado. Perce­bendo-lhe o enleio, o religioso continuou:

—        Não falemos de mim, Alcione. Conta-me antes o resultado da diligência de ontem. Conseguiste trabalho?

A pobre menina fêz um gesto triste e sentiu-se no dever de falar francamente ao grande amigo da sua infância.

Quando terminou a exposição amarga, o sacer­dote comentou:

—        Imagino como terás sofrido nesse contato direto com a espurcícia humana; entretanto, não sofras por isso. Agradece a Deus o te haver reve­lado Madame Paulete, tal qual é, antes de assumires qualquer compromisso, pois quando nos compro­metemos com o mal, ainda que inocentemente, ali­ciamos grandes dificuldades por nos libertarmos dos seus odiosos laços. No teu caso, pois, devemos estimar a esmola de uma santa lição. É que, às vêzes, naquilo que denominamos maldade e ingra­tidão do mundo, pode existir um socorro divino em nossa própria defesa.

A jovem enxugou as lágrimas e sorriu concor­dando.

— O trabalho honesto não falta — prosseguiu o religioso, paternalmente —; temos outros amigos em Paris. Espero a visita de um colega a quem pedirei se interesse por ti. O padre Guilherme é um companheiro de lutas que conheceu Carlos e sua mãe, ainda na Irlanda. Estou certo de que nos auxiliará.

A jovem, notando-lhe a preocupação sincera, procurou esquivar-se ao assunto que lhe dizia res­peito. E vendo-lhe os pés descalços, perguntou:

—        Onde está o agasalho de lã? O senhor não pode ficar assim...

Ele sorriu e informou:

—        Guardei-o na mala.

—        Por quê? — insistiu surpreendida.

—        Creio que, para a semana, me recolherei ao pavilhão dos indigentes, na Misericórdia, ou na casa dos pobres de São Ladres.

—        Não pode ser — exclamou a filha de Cirilo, contristada —, não podemos concordar com o seu recolhimento a casas religiosas, como indigente. Nós ainda aqui estamos...

Assim falando, a menina Vilamil tinha o as­pecto mortificado de uma filha angustiada.

—        Que tem isso, Alcione? — tornou o reli­gioso, serenamente — não devo sobrecarregar teu coração, que enfrenta agora tantas lutas em si­lêncio! Além disso, não será útil o meu interna­mento nas instituições piedosas? Atualmente não me poderei ocupar dos ofícios eclesiásticos, mas lá, entre os necessitados, talvez encontre algum serviço nas prédicas evangélicas aos mais desdi­tosos.

A resignação do velho amigo provocava-lhe pranto copioso.

—        O catre da indigência — continuou Da­miano — deve proporcionar meditações sadias. E não será isso um acréscimo de misericórdia? Basta lembrar que o Mestre não o teve. Seu derradeiro pouso foi a cruz; seu último caldo um pou­co de vinagre; sua última lembrança do mundo a coroa de espinhos!...

Alcione esboçou uma atitude de profunda com­preensão e disse:

—        Não rejeito as lições de Jesus e rogo à sua infinita bondade nos proteja o coração para os testemunhos necessários, mas creio que o Mestre atenderá minhas súplicas e entenderá meus rogos filiais!... Diga-me se lhe não falta dinheiro para as despesas imediatas.

E embora convicta de não encontrar recursos com a genitora, asseverou, confiando em Jesus:

—        Pode crer que, não obstante as dificuldades do momento, ainda temos recursos suficientes para cuidar das suas melhoras.

Damiano parecia acanhado, em vista da sua carência absoluta de meios, mas, esforçando-se por confessar a verdade, acabou murmurando:

—        De fato, meus recursos estão esgotados com as despesas que fui obrigado a fazer, aqui em São Jaques, mas não nos preocupemos com o dinheiro, filha...

—        Não, não é o dinheiro que me preocupa, e sim as suas necessidades... Não concordo com a sua transferência para a Misericórdia. Se não puder ficar aqui, ficará em nossa casa.

E como o sacerdote experimentasse certa difi­culdade para redargüir, Alcione continuou:

—        Perdoe-me, se intervenho ousadamente em tal assunto, mas o que reclamo tem prerrogativas de direito — o direito da amizade. Sempre o con­siderei um pai. Diga-me: quanto pede o reverendo Amâncio pelas suas novas acomodações?

De olhos brilhantes no testemunho de humil­dade daquela hora de extremas provações, Damiano respondeu:

—        Duzentos francos para a aquisição de uten­sílios e pagamentos iniciais a um serviçal.

—        Ora essa! — disse a generosa menina reve­lando despreocupação — nunca mais me fale em se reunir aos indigentes por tão infima quantia! Queira assumir o compromisso, porque depois de amanhã trarei o dinheiro. Temos maior quantia lá em casa e não nos fará falta de maneira alguma.

O         velho amigo dirigiu-lhe um olhar de reco­nhecimento.

Ainda trocaram idéias e consolações por algum tempo, ficando ela de voltar dali a dois dias, e o velho sacerdote falou da esperança que tinha na próxima visita do padre Guilherme, que, por certo, não lhes faltaria com prestimosa cooperação.

Alcione despediu-se, mostrando-se confortada, mas tão logo alcançou a rua, sentiu-se prêsa de extrema preocupação. Onde conseguir duzentos francos para socorrer o amigo doente? Debalde excogitava meios de satisfazer a promessa. Os vizinhos eram gente paupérrima. Obter qualquer adiantamento em oficinas de trabalho, era impos­sível, porqüanto não alcançara nem mesmo um trabalho certo. De alma opressa, lembrava que não poderia confiar o assunto à genitora, fazendo-a sofrer mais que ela própria. Entretanto, era indis­pensável conseguir o dinheiro. Andava depressa e, contudo, concentrada em aflitiva meditação. Co­meçou por pedir fervorosamente a Jesus lhe ins­pirasse um meio lícito. Já próximo de casa, notou que alguém cantava à porta de uma velha igreja do bairro de São Marcelo, para ganhar a vida. Era um cego. Aproximou-se e deu-lhe alguma coisa do pouco que tinha consigo. Imediatamente, nasce­ram-lhe novas idéias. Não seria viável um concêrto com o concurso de Robbie, num local bem concor­rido? Poderia cantar ao som do violino do irmão adotivo. Talvez conseguisse dessarte a quantia necessária para socorrer de pronto o padre Damiano. Essa perspectiva alegrou-a. Entrou em casa tão satisfeita que a genitora perguntou interessada:

—        Como vai o padre Damiano? Pelo que leio em teu rosto, êle não está assim tão mal.

—        Seu estado ainda é grave, mas, achei-o calmo e otimista.

A senhora fêz um gesto de admiração e acres­centou:

—        Que há, Alcione? Vejo-te muito mais ani­mada e satisfeita...

—        É que já fui avisada que amanhã poderei comparecer ao serviço.

—        Graças a Deus! Bendita a hora em que aprendeste a costura!...

Em seguida, Alcione chamou Robbie ao peque­no quintal, para cientificá-lo do plano.

—        Um concêrto? — disse o rapazote impres­sionado.

—        Sim, mas é preciso guardar segrêdo. Ma­mãe sofreria muito se viesse a saber. Se não arranjarmos o dinheiro, padre Damiano irá parar na Misericórdia e talvez nunca mais o vejamos. Cantaremos só amanhã, porque depois é possível que eu arranje trabalho para nós.

O         pequeno arregalou os olhos estrábicos e con­cordou:

—        Então vamos.

E passaram logo a trocar idéias e conchavar no tentame para o dia seguinte. Isto feito, entraram em casa de semblante alegre. Justificando o ensaio, Robbie pediu para tocar alguma coisa. Não obstante a hora imprópria, Madalena concordou e Alcione disse que ia cantar para distraí-la. Ambos, tomando posição, recordaram velhas melodias cas­telhanas, canções aragonesas, versos populares da Andaluzia. Apesar do sofrimento dos pés, a senho­ra Vilamil sorria encantada, murmurando:

—        Nossa casa hoje está muito alegre! Que dia adorável!... Foi pena ter deixado em Ávila o meu velho cravo...

Robbie entusiasmava-se ao lhe ouvir as expan­sões e exibia arcadas mais difíceis e mais seguras. Luisa ria e chorava de contentamento e emoção. A jovem cantou quanto lhe veio à lembrança. Repetiu as raras canções francesas que conseguira aprender e recitou numerosas poesias de La Fontaine.

E assim terminou o dia entre cariciosas ale­grias domésticas.

Na manhã seguinte, Alcione beijou a mãe ao despedir-se e preveniu:

— Logo, voltarei para a refeição, e ao tornar ao trabalho quero que me concedas a companhia de Robbie, pois creio que tenho de regressar mais tarde, à noite.

Madalena disse que sim e abençoou-a com as suas blandicias de mãe.

Alcione andou muitos quilômetros de ruas e praças, estudando o local adequado à iniciativa. Algo cansada, parou junto ao templo de Nossa Se­nhora e entrou. Descansou longamente em preces fervorosas, lembrando que não haveria melhor lo­cal para o empreendimento que o adro daquela casa consagrada à Mãe Santíssima. Não vacilou. Voltaria ao bairro de São Marcelo para trazer o irmão adotivo. Começariam o concêrto ao cair da tarde, confiantes no interêsse popular.

Entrou em casa muito esfogueada de sol, to­mou a refeição e saiu com o rapaz. Tiveram o maior cuidado no retirar o instrumento, para não serem percebidos por Madalena e pela criada.

Emocionada, naquela conjuntura de angariar o dinheiro indispensável ao velho amigo, Alcione

penetrou novamente na igreja e orou, implorando o socorro divino.

       As brisas suaves do crepúsculo corriam man­samente quando os dois artistas improvisados tomaram posição e preludiaram as primeiras notas, justamente quando a multidão em massa afluia ao templo. Numerosos carros iam e vinham. No firmamento escampo de nuvens, Vésper cintilava. Alcione começou a cantar, mas, com tanta harmo­nia e sentimento, que dir-se-ia um anjo baixado à Terra para transmitir aos homens as suaves bele­zas do crepúsculo. Em breves instantes,  ranseuntes, clérigos, fidalgos e gente do povo formavam em tôrno compacta assistência. Cada canção era aplaudida frenêticamente. A cantora inspirava pro­funda simpatia apesar da malícia de alguns cavalheiros presentes. E assim transcorreu uma hora de franco êxito. Dois padres generosos mandaram acender tochas, para que o concêrto se prolon­gasse até mais tarde. Alcione cantava sempre. Sentia-se corar de vergonha quando as dádivas lhe caíam na bôlsa, mas vinham-lhe à mente o padre Damiano e a mãezinha, e experimentava enorme consolação, julgando-se quase feliz. E enquanto agradecia as palmas com ademanes graciosos, Robbie arrancava cristalinos acordes do seu violino. Todos se impressionavam com a beleza da jovem, a contrastar os traços grosseiros do pequeno vio­linista. Houve mesmo quem lhe sussurrasse no ouvido:

—        Parece um morcêgo ao lado de uma co­tovia!...

Compreendeu o sentido da frase, mas inter­pelada pelo irmão adotivo, que não entendia muito bem o francês, procurou confortá-lo, dizendo:

—        O auditório está entusiasmado e calculo que já temos quase cem francos. Não desanimemos.

—        Estou bem fatigado — alegou o rapaz...

—        Lembra-te de mamãe e do padre Damiano...

O         menino pareceu refletir e fazia vibrar o instrumento com maior entusiasmo.

Nesse ínterim, surgiu poucos metros distante uma carruagem de família rica. No seu sotaque espanhol, Alcione cantava, no momento, velhas modinhas francesas. Impressionados, talvez, com o quadro inédito, os dois passageiros da viatura deram ordem de parar. Um cavalheiro prematuramente envelhecido, aparentando mais de cin­qüenta anos sem os ter, desceu do coche dando o braço a uma senhora muito magra e abatida. Dominado por estranha emoção, encaminhou-se re­soluto para o grupo, como que forçando a compa­nheira a seguir-lhe o passo lesto e resoluto. A certa distância, podiam ver a cantora, que parecia coroada pela luz das tochas resplandecentes.

—        É o retrato de Madalena! — disse êle, em­palidecendo.

—        Vamo-nos embora — murmurou a compa­nheira num ensaio de recuo —, deve ser alguma vulgar cantora de rua.

—        Não, não — respondeu o desconhecido em voz muito firme, como a indiciar que viviam em constante desacôrdo —, se queres, vai-te e man­da-me o carro depois.

—        Isso não — revidou visivelmente enfadada, deixando-se ficar junto dêle, que se mostrava de mais a mais enlevado e atento à cantora, cuja voz melodiosa enchia o silêncio da noite e lhe falava misteriosamente ao coração.

Quando ela cantou uma velha música espa­nhola, êle não se conteve, levou a mão ao peito e disse à companheira:

—        Lembras-te do Carrousel de junho de 1662? Não foi esta uma das melodias de Madalena?

A senhora, apesar de muito contrariada, re­dargüiu:

—        Sem dúvida... Recordo-me perfeitamente do baile de Madame de Choisy...

Ele aproximou-se mais. Estava tão embeve­cido que se fazia notado dos circunstantes, a des­peito do carrancudo semblante da companheira. O desconhecido, porém, parecia não dar por isso. Entregue à contemplação da cantora, envolvera-se no suave magnetismo da sua personalidade, sem se dar conta de tudo mais.

No momento em que Alcione terminava uma doce cantiga de Castela-a-Velha, êle aproximou-se dos dois artistas e perguntou delicadamente:

—        A Senhorita que conhece tantas músicas da península, conhecerá uma velha melodia espanhola, chamada “A Calhandra Aragonesa”? — perfeitamente, e se faz gôsto posso cantá-la para o senhor.

—        Terei imenso prazer.

Alcione advertiu ao irmão adotivo como devia ensaiar as primeiras notas.

—        Não me recordo bem — acentuou o violi­nista.

—        Ora, Robbie, como é isso? E’ uma daquelas primeiras melodias que mamãe te ensinou.

O         menino fêz grande esfôrço mental e concluiu:

—        Já sei...

Algumas arcadas harmoniosas assinalaram o intróito de inefável beleza e, daí a momentos, a voz límpida e aveludada da jovem se fazia ouvir, em religioso silêncio da assembléia numerosa. Obede­cendo, talvez, a secretos impulsos do coração, Al­cione imprimia novo encantamento espiritual em cada acorde. Dir-se-ia o nenioso gorjeio de um pássaro abandonado, na vastidão da noite.

A música, muito delicada, realçava antiga lenda que traduzia o lirismo popular:

 

No manto da noite amiga,

Ouve esta velha cantiga,

Guarda no peito a canção

Da calhandra do caminho,

Que errava sem ter um ninho

Na verdura de Aragão.

 

A pobrezinha vivia

Numa perene agonia,

Em dolorosa mudez;

Era a Imagem da saUdade,

Nos andrajos da orfandade.

No luto da viuvez.

 

Mas, em certa primavera,

A pobre, que andava à espera,

Reparou, findo o arrebol,

Que chegava de mansinho.

Olhos cheios de carinho.

Seu amado — o rouxinol.

 

Desde essa hora divina,

A calhandra pequenina,

Que errava de déu em déu,

Enfeitou-se na vitória,

Encheu-se de vida e glória,

Cantando no azul do céu.

 

Brincava na paz da fonte,

Ia ao longe, no horizonte,

Sob o sol, sob o luar...

Fôsse noite, fôsse dia,

Transbordava de alegria,

Nas penugens do seu lar!

 

Mas, um dia, o companheiro

Deu-lhe o olhar derradeiro

Da bôlsa de um caçador!...

A calhandra infortunada

Tombou sem vida na estrada,

Na angústia do seu amor.

 

No manto da noite amiga,

Ouve esta velha cantiga,

Guarda no peito a canção

Da calhandra do caminho,

Que errava, sem ter um ninho,

Na verdura de Aragão.

 

Quando terminou, o cavalheiro levou o lenço ao rosto, como se fôra enxugar o suor, mas, na verdade, disfarçando as lágrimas que lhe brotavam dos olhos. Depois de consultar o bôlso, retirou um pacote de moedas e entregou-o à cantora, nestes têrmos:

— Tome lá, senhorita, esta lembrança lhe per­tence. Sua voz me deu emoções que procuro, em vão, há vinte anos.

E, enquanto Alcione hesitava diante de uma espórtula tão vultosa, o desconhecido insistia:

— Isto é nada, comparado ao que lhe fico a dever.

A companheira bem que o fisgava com olhares de censura, mas êle permanecia alheio e indiferente às suas atitudes. A cantora, porém, mostrava-se sumamente reconhecida.

—        Deus o recompense, senhor!

Robbie também lhe mandou um olhar de enor­me satisfação, através do qual transparecia o de­sejo de encerrar o ato. E, como se estivesse apenas esperando o cavalheiro desconhecido para terminar o trabalho da noite, a filha de Madalena agradeceu a todos, comovidamente, e retirou-se com humil­dade, amparando o irmão adotivo que se mostrava exausto pelo esfôrço despendido.

O         casal, por sua vez, retomou o carro, sob forte impressão.

—        Quanto deste à cantora? — perguntou a mulher abruptamente.

—        Trezentos francos.

—        Ainda havemos de acabar indigentes, gra­ças ao teu sentimentalismo — exprobrou, amuada.

—        Se lhe houvesse dado três mil escudos, nem assim pagaria a terna emoção que me despertou nalma saudosa...

E recaíram em penoso silêncio, enquanto a carruagem rompia a escuridão da noite.

Alcione e Robbie regressavam ao lar, tomados de imensa alegria. Quando se viram longe do adro de Nossa Senhora, o pequeno comentou:

—        É bem duro pedir, não achas, Alcione?

—        Não é tanto assim — respondeu-lhe resig­nada. A necessidade, Robbie, às vêzes nos ensina a afabilidade e a doçura com o próximo. Nunca reparaste que as crianças muito independentes cos­tumam ser caprichosas e ásperas? Assim também, já crescidos, é útil que venhamos a precisar do concurso de outrem, por tornarmo-nos mais cari­nhosos, mais sensíveis ao afeto fraternal...

—        Isso é verdade — concordou o pequeno —, são raros os meninos brancos que me tratam bem.

       — É porque ainda não sabem o que é a vida. Se um dia a necessidade lhes bater à porta, com­preenderão, talvez imediatamente, que somos todos irmãos. Suponho que Deus, sendo tão bom, fa­cultou a pobreza e a doença ao mundo para que aprendêssemos a sua divina lei de fraternidade e auxílio mútuo.

Robbie, muito admirado, ponderou:

—        Desejava sentir essas coisas conformado, assim como te vejo, mas a verdade é que, quando me humilham, sofro muito. Faço enorme esfôrço para não reagir com más palavras e confesso que, por vêzes, se não fôsse a mão doente, agrediria alguns meninos.

—        Não agasalhes êsses pensamentos, procura fazer exercícios mentais de tolerância. Reflete, con­tigo mesmo, como tratarias as crianças negras se fôsses branco, imagina qual seria tua atitude com os doentes, se fôsses completamente são.

O         pequeno violinista meditou longamente e res­pondeu muito sério:

—        Tens razão.

—        Sem dúvida, isto que aqui te digo requer muito esfôrço, porque só o pecado oferece portas largas ao nosso espírito. A virtude é mais difícil.

O         menino pareceu refletir algum tempo e perguntou, mudando o rumo do diálogo:

—        Quem será aquêle homem tão bom que nos deu tanto dinheiro?

Alcione fêz um gesto significativo e respondeu:

—        Eu também estou impressionada. Deve ser algum enviado de Deus.

—        Mas parecia tão triste...

—        Também notei isso. Que Jesus o abençoe pelo auxílio que nos deu. Amanhã levarei ao padre Damiano o pacote que parece conter mais de du­zentos francos, e com o restante vou pagar à Luisa o que lhe devemos e chamar um médico para tra­tamento mais sério da saúde de mamãe...

Mal havia terminado as explicações, o pequeno tropeçou, caíndo ao solo, desamparadamente. Ante a fôrça moral que a irmã adotiva exercia sôbre êle, levantou-se com esfôrço, acrescentando:

—        Não te incomodes, não foi nada. Cai por­que precisei resguardar o violino...

A jovem, contudo, inclinou-se comovida.

—        Como vês, Robbie — disse intencionalmente —, não apenas pediste nesta noite. Trabalhaste muito. Estás cansado... Vamos procurar um carro que nos leve a São Marcelo. É um luxo que hoje poderemos pagar.

Ele concordou de bom grado e não tardaram muito a reentrar em casa, onde Madalena já se mostrava inquieta.

No dia seguinte, em vez de sair para o tra­balho, conforme dizia à genitora, Alcione dirigiu-se a São Jaques do Passo Alto, com o socorro desti­nado ao velho sacerdote.

Damiano contou o dinheiro com atenção e advertiu:

—        Trezentos francos, minha filha? Sei que Madalena luta com enormes dificuldades. Onde guardavas esta quantia?

Enfrentando aquêle olhar penetrante, cheio de preocupações afetuosas, Alcione deu-se por vencida e confessou o feito da véspera. Sem dinheiro e sem relações, resolvera dar um concêrto público com Robbie, no adro da igreja de Nossa Senhora. O rendimento fôra muito além da expectativa.

O enfermo abraçou-a, comovidíssimo, cheio de gratidão pelo sacrifício.

Depois de contar os episódios da feliz aventura e dar as impressões do seu contato com a massa popular, Damiano lhe ponderou:

— Sem dúvida Jesus te protegeu nessa aven­tura singular, compadecendo-se das nossas neces­sidades. Entretanto, minha filha, penso que não deves reincidir nessas exibições. Ao lado das pes­soas educadas, há sempre muitos exploradores e numerosos vadios. Temo por tua mocidade e pela inocência de Robbie!...

E enquanto ela concordava, pensativa, o ecle­siástico prosseguia explicando:

—        Tenho o pressentimento de que encontrarás, agora, uma ocupação muito nobre, com ótima re­muneração.

—        Será uma ditosa surprêsa! — exclamou a moça com infinita alegria transbordante dos olhos.

—        Padre Guilherme aqui esteve ontem por duas vêzes. De manhã, falei-lhe a teu respeito e prontificou-se a tomar logo as primeiras providên­cias. À noite, voltou com a notícia auspiciosa. Uma família sua conhecida precisa dos serviços de uma jovem educada, de irrepreensível conduta. Escla­receu que a remuneração é das mais condignas. Trata-se de um casal que há três anos chegou da América do Norte em busca de saúde para a filhi­nha única, que se encontra doente. O chefe da família é um homem abastado, que, além de pro­prietário em Paris, representa vasta zona comer­cial de fumo da colônia, em ligação com o comércio europeu. A dona da casa, de conformidade com as informações do padre Guilherme, é católica prati­cante e rigorosa no culto. Tem uma filhinha que a impressiona, em extremo, por isso que, da mais tenra idade, parece fugir à ternura maternal e, pre­sentemente, com quase treze anos, vive prêsa de grande nervosismo e estranhas preocupações. Os pais deliberaram tomar uma governanta que lhe seja enfermeira e educadora, ao mesmo tempo. E, por coincidência, di-lo ainda o Guilherme, tra­ta-se de gente irlandesa, que passou longos anos na América.

Alcione alegrou-se. Assim entretidos, formu­laram vastos planos. Ao despedir-se com a idéia de chamar um médico para a genitora, Damiano lhe disse:

— Ficamos então combinados. De hoje a três dias, Guilherme te apresentará nessa casa de sua confiança e que fica, creio, nas proximidades de São Landry, na Cité. Farás ver à Madalena as vantagens do cargo. Quem sabe terá soado o mi­nuto da nossa completa tranqüilidade? Não estará aí, talvez, o ensejo para tua mãe realizar o velho sonho de uma viagem ao Connecticut? Por mim, morrerei mais sossegado se puder partir com esta esperança.

A jovem sorriu e observou, resignada:

—        O senhor tem razão. Tudo isso poderá acon­tecer.

Muito animada, a filha de Cirilo Davenport chegou a casa, onde não teve dificuldade em con­vencer a genitora de quanto lhe dissera o velho sacerdote. Madalena Vilamil concordou. O cargo de governanta e educadora seria mais conveniente. A costura, em contato com tanta gente desconhe­cida, não era um penhor de tranqüilidade. A pobre senhora acabou por sentir enorme satisfação, e, quando soube que se tratava de família ligada àAmérica do Norte, não ocultou a velha esperança de conhecer o Novo Mundo.

Nesse dia, à tarde, o Dr. Luciano Thierry, procurado pela jovem Vilamil, por indicação dos vizinhos, visitou a enfêrma, submetendo-a a rigoroso exame. Enquanto permanecia a seu lado, o médico não poupou prognósticos otimistas; mas, ao reti­rar-se, chamou Alcione em particular e disse:

—        Menina, o caso de sua mãe é muito mais complexo do que se pode imaginar. Claro que não pouparei todos os recursos ao meu alcance, mas penso que ela dificilmente se levantará da cama.

—        A moléstia é tão grave assim? — inquiriu a moça, evidenciando aflição.

—        O reumatismo assumiu caráter muito Sério. Os pés e joelhos me parecem definitivamente inu­tilizados, condenados a inanição. Mandarei algu­mas pomadas para fomentações e digo-lhe que sua mamãe ainda poderá viver alguns anos. Da para­lisia, porém, só Deus poderá libertá-la.

A filha de Madalena agradeceu, naturalmente acabrunhada, mas procurando reforçar as energias íntimas. Jesus, que sempre lhes enviava recursos nos grandes momentos da vida, não as deixaria sem amparo.

No dia combinado, lá se foi com o padre Gui­lherme, para estrear o novo emprêgo. E experimentava enorme confôrto em saber que teria, dora­vante, o pão assegurado para si e para os seus, mercê de atividade honesta e digna. Instruiu Luisa na aplicação dos remédios à doente, fêz recomen­dações a Robbie e beijou Madalena, prometendo regressar à noite, conforme ficara previsto e com­binado.

 

Passava de meio dia, quando o padre Guilher­me procurou Damiano para exprimir-lhe o seu reconhecimento.

—        O Sr. Davenport ficou radiante: a senhora Susana não estava em casa no momento, mas o chefe da família, bem como o velho Jaques, ficaram ôtimamente impressionados com a sua pupila. Dei­xei-a, portanto, num ambiente de franca simpatia.

Ouvindo aquêles nomes, Damiano manifestou a mais viva curiosidade. Efetivamente, êle os ouvia amiúde, repetidos nas conversações de Madalena. Cercando-se de grande prudência, perguntou:

—        De que região da América procede essa fa­mília?

—        Do Connecticut.

O         eclesiástico experimentou o primeiro abalo íntimo; todavia, buscou controlar-se e continuou:

—        O nome Davenport não me é estranho. Se me não engano já ouvi um colega referir-se a um tal Samuel, que, há muitos anos, residiu em Belfast.

       — Isso mesmo — confirmou o outro, satisfeito —,           trata-se do pai dêste Cirilo Davenport, rico negociante de fumo, de cuja residência venho neste instante. Há vinte anos, aproximadamente, a famí­lia que se empobrecera com a perseguição dos inglêses, na Irlanda do Norte, retirou-se para a América, onde adquiriu sólida fortuna. Na mocidade, porém, o Sr. Davenport trabalhou, modes­tamente, aqui em Paris...

Ah! — disse Damiano, quase aterrado. Intensa palidez inundara-lhe o semblante vincado de rugas.

—        O Samuel a que se refere — prosseguia Guilherme, loquaz —, pelo que infiro das missas celebradas em sua intenção, deve ter falecido há uns dez anos.

Justificando a expressão fisionômica, o velho sacerdote de Avila observou:

—        Este mal do peito sempre me causa tor­turas momentâneas

E levantou-se para tomar um copo d’água.

- Escuta, Guilherme — continuou a dizer, pausadamente —, o casal Davenport tem uma vida feliz? Naturalmente que êstes assuntos me pre­OCUpam, dado que a minha pupila vai agora con­viver com êles.

Assim se manifestando, visava obter por meios indiretos qualquer informação sôbre o passado con­jugal de Cirilo. Sem cuidar de que versava assunto dehcadíssimo, o interpelado acentuou:

—        O Sr. Davenport é casado em segundas núpcias. A primeira espôsa, ao que estou informado, era espanhola, de Granada. Chamava-se Ma­dalena Vilamil e morreu no surto varjólico de 63.

Damiano não sabia como dissimular a como­ção. Debalde procurava um meio de parecer des­preocupado. O amigo, porém, tudo atribuía ao seu precário estado de saúde.

—        A falecida foi sepultada no cemitério dos Inocentes. Já lhe visitei o túmulo em companhia dos senhores Jaques e Cirilo.

—        Quem é êsse Sr. Jaques? — inquiriu Da­miano, apesar da emoção.

       — É sogro do Sr. Davenport e, ao mesmo tempo, seu tio, pois o negociante de fumo é casado com uma prima, em segundas núpcias. Aliás, o bom velhinho que se encontra hoje beirando o sepulcro, pelos muitos achaques da senectude, foi por muitos anos professor aqui na França.

—        Em Paris?

— Não, em Blois.

Damiano estava satisfeito, não poderia ter mais dúvidas.

—        Deus abençoe Alcione para que saiba servir nessa casa com amor cristão — concluiu serena-mente —, não desejo outra coisa.

Muito hàbilmente desviou depois a palestra noutros rumos, de maneira a não se trair pela in­tensa emoção. Mas, quando Guilherme se retirou, reiterando-lhe agradecimentos, entregou-se a pro­funda e dolorosa meditação. Acabava de palpar o enigma sem poder atinar com a chave. Natural­mente, o drama sinistro que adivinhava, por trás da situação, fôra urdido por alguma inteligência perversa. Recordava as mínimas revelações e con­fidências da senhora Vilamil, nas longas conversa­ções de Ávila e não podia duvidar da inveracidade dos acontecimentos que Madalena aceitara como verdade inconcussa. Sempre lhe parecera estranho o fato de haver Cirilo Davenport desaparecido, sem qualquer noticia direta da América, para a espôsa distante. Considerava, também, que, se Madalena o havia por morto, o mesmo se dava com o marido que lhe venerava a suposta sepultura. Quem havia tramado, assim, contra a felicidade de dois corações? Rememorou as confidências que a filha de D. Inácio lhe fizera a respeito da personalidade de Antero de Oviedo. Seria êle o autor do nefando delito? Depois de laboriosas reflexões, concluía que, se não fôra êle o único criminoso, devia ter sido cúmplice ativo do feito abominável. Em seguida, mente cansada, passava a refletir nos estranhos, insondáveis desígnios da Providência Divina, que haviam conduzido Alcione ao segundo lar paterno. Experimentava profunda ansiedade por se dirigir, mesmo doente, à residência do Sr. Davenport, mas a tarde começava a cair, muito fria, e receava os acessos de tosse. Não descansaria, porém, enquanto não se avistasse com a jovem, de modo a ouvir-lhe as primeiras impressões. Para isso, deu ordens ao criado que mandasse um carro a São Marcelo, para que a menina Vilamil o visitasse nas primeiras horas da noite, depois de regressar ao lar.

Quando a moça entrou em casa, cêrca de de­zenove horas, já encontrou a viatura que a esperava, recomendando-lhe a genitora não se demo­rasse em seguir para São Jaques do Passo Alto, porqüanto o chamado de Damiano lhe dava muito que pensar. Receava que o velho amigo tivesse piorado. A jovem atendeu com presteza. Depois de responder às primeiras argüições maternas sôbre o novo cargo, declarando-se muito satisfeita e bem impressionada, dirigiu-se ao bairro próximo, assaz preocupada.

O         velho sacerdote de Ávila abraçou-a como­vido.

—        Como fôste de serviço, minha filha?

—        Primeiramente, fale-me da sua pessoa. Como vai? Ficamos aflitas com a ida do carro. A saúde piorou?

—        Nada. Vou muito bem. Chamei-te tão só-mente para saber como te deste com o novo emprego.

A moça tranqüilizou-se, exclamando:

—        Ora, graças a Deus!

—        O padre Guilherme — prosseguiu Damiano solícito — aqui esteve e deu-me informações, mas preciso falar-te sêriamente, em particular. Tiveste boa impressão da casa e da gente?

—        É muito interessante o que pude observar, porqüanto o Sr. Davenport e a espôsa não me eram de todo desconhecidos.

—        Como assim? — indagou Damiano, intri­gado.

É que assistiram ao concêrto lá no adro de Nossa Senhora e, por sinal, foi o Sr. Cirilo quem me deu os trezentos francos que eu lhe trouxe.

—        Como tudo isso é significativo! — exclamou o sacerdote, muito emocionado. — E como te rece­beram?

—        O Sr. Davenport e o tio, bem como a pe­quena Beatriz, de quem vou cuidar, trataram-me com excepcional carinho. A meninota parece ner­vosa e acabrunhada, mas tem muito bom coração. Como primícias da tarefa, conversamos quase todo o dia, valendo-me eu da ocasião para falar-lhe dos ensinamentos do Cristo como verdadeiro e legitimo remédio para tôdas as necessidades da vida e do coração. Ela está mocinha e creio que me compre­enderá. Infelizmente, não posso dizer o mesmo da senhora Susana. Esta, quando voltou de uma visita elegante, encontrando-me em casa, não disfarçou a contrariedade. Não sorriu quando o marido lhe falou que eu era a cantora da noite em que haviam estacionado na praça da igreja, afirmando que essa circunstância depunha contra mim. Acrescentou que o padre Guilherme estava, por certo, enganado na escolha, pois solicitara uma governanta mais velha, com maior experiência da vida. Quando me disse que meus serviços não lhe convinham, a pe­quena Beatriz fêz grande bulha, afiançando o con­trário. A enfêrma abraçou-se comigo, a gritar, provocando a intervenção do pai e do avô, que acorreram pressurosos. Esclarecido o motivo de suas lágrimas, o Sr. Davenport cravou na espôsa um olhar muito austero e decidiu que eu ficasse de qualquer maneira. Vendo, porém, o enfado da senhora, pedi permissão para desistir, mas não fui atendida, O Sr. Jaques foi a meu favor, recri­minando a conduta da filha. Reconhecendo-se iso­lada no seu ponto de vista, a senhora Susana pas­sou então a tratar-me com brandura, concordando com a minha permanência ao lado da filha.

Damiano, que a escutava com atenção, valeu-se da pausa e interrogou:

—        E os nomes nessa família irlandesa não te preocuparam?

—        Sem dúvida que me ocorreram pensamentos estranhos, em contacto com as pessoas da casa. Cirilo Davenport é o nome de meu pai, e os nomes de Jaques e Susana parecem muito ligados às re­cordações da mamãe.

—        Porventura não te perguntaram pelo teu nome de família?

—        Sim, mas deu-se um fato muito interes­sante, que me compeliu a permanecer um tanto retraida. Quando cheguei, o Sr. Jaques me con­templou muito admirado e disse ao sobrinho: — “éo retrato de Madalena Vilamil”. Tive um grande susto ao ouvir essa inesperada referência ao nome de mamãe, mas suponho que tratavam de pessoa importante de suas relações. Dentro em pouco, soube que a família é Davenport. E fiquei atrapa­lhada para responder ao Sr. Cirilo, quando pro­curou saber meu nome. Se dissesse Vilamil, ou Davenport, poderiam supor que estava querendo insinuar-me e classificar-me como parente da casa; vendo a senhora Susana tão agastada com a minha presença e para não lhe parecer petulante, disse, então, que me chamo “Alcione da Chácara”. Essa resposta foi boa porque me tranqüilizou a consciên­cia, visto ser êsse o nome com que me tratavam lá em Ávila, na intimidade. Assim, padre, creio que não ofendi à dona da casa, nem faltei à verdade.

Damiano fêz um gesto de quem se tranqüili­zava e sentenciou:

—        Procedeste muito bem. A prudência salva sempre.

E depois de consultar o coração aflito e receoso das amargurosas revelações, disse à interlocutora com inflexão de carinho:

—        Agora, vamos aos motivos da inquietação que me obrigou a chamar-te.

Voz pausada, evidenciando forte emoção, ini­ciou as confidências, reportando-se às afirmativas de Madalena e confrontando-as com as do padre Guilherme.

A filha de Cirilo tudo ouvia com penoso assom­bro. Estupefata, não conseguia responder. Quan­do êle se referiu ao que se passara junto do túmulo da genitora, no cemitério dos Inocentes, as lágrimas lhe rolaram dos olhos.

Sumariando as suas conclusões, Damiano acen­tuava:

—        Não podemos ter qualquer dúvida, mas eu espero que te mantenhas sobranceira à prova que nos visita e precisamos enfrentar. Sei quão amar­gas devem ser tuas lágrimas, mas, estou certo de que Deus te amparará o coração afetuoso.

—        Não choro por mim, padre Damiano, e sim pela mamãe, cujos padecimentos me cortam o co­ração.

Impressionado com o acento comovedor dessas palavras, o velho amigo considerou:

—        Se vês que não podes continuar na casa dos teus parentes irlandeses, poderemos arranjar uma desculpa que justifique a tua desistência. Se qui­seres, dada a complexidade e gravidade do caso que nos defronta, poderemos aconselhar tua mãe a vol­tar para Castela. Estou doente, é verdade, mas isso não é motivo para deixar de acompanhá-las. E assim guardaríamos lá o doloroso segrêdo, para sempre!...

Alcione recordou a figura do genitor quando lhe pôs nas mãos uma bôlsa recheada, lembrou o acolhimento que lhe dispensara no ambiente do­méstico e ponderou:

—        Não podemos fugir. Não seria Deus que me conduziu à casa paterna para que eu aprendesse alguma virtude das que se ligam à divina humildade? Não creio que meus parentes precisem de mim para alguma coisa, mas, sinto que necessito dêles para acendrar meu coração.

O         velho sacerdote acolhia, profundamente co­movido, aquela preciosa lição de renúncia. Obser­var a atitude angélica de Alcione representava enorme confôrto para o seu espírito cansado. Por isso mesmo, caIara-se para que ela, nobre e humil­demente, continuasse a derramar-lhe na alma exaus­ta as sublimes consolações da discípula de Jesus.

—        Além disso — prosseguiu Alcione depois de uma pausa —, se meu pai estendeu-me a cari­nhosa mão na via pública, proporcionando-me tanta alegria sem saber que eu era sua filha, como poderei abandoná-lo agora, ciente de que me deu a vida? Não seria renegar os ensinamentos do Cristo? O Sr. Cirilo Davenport me conquistou pela sua gene­rosidade. A partir de hoje, confiou-me a filhinha como se me conhecesse de há longos anos, obri­gou-me a sentar à mesa da família, ordenou que seu carro particular me trouxesse a São Marcelo. Não posso admitir que meu pai procedesse cons­cientemente contra minha mãe. Atrás de tudo isso deve existir uma trama criminosa.

Muito sensibilizado, o eclesiástico replicou:

—        Tuas razões são sagradas e concordo com o teu parecer, de que Jesus te conduziu ao lar pa­terno com algum objetivo; mas, se sugeri o retôrno à Espanha foi pensando nos teus padecimentos morais, bem como na hipótese de Madalena ter agravados, algum dia, os seus sofrimentos já quase intoleráveis.

Alcione meditou um minuto e redargüiu sere­namente:

—        Sim, por minha mãe todos os sacrifícios serão poucos, mas buscarei ocultar com os meus beijos a realidade dolorosa. Jesus me auxiliará para que ela saia dêste mundo desconhecendo as verdades amargas... Amará meu pai até ao fim, como símbolo da ventura que a espera no Céu e será, para mim, como a santa de um altar, ligada a Deus; mas, estando meu pai ainda no mundo, não será razoável cooperar para que ambos se unam para sempre na eternidade?

—        Mas, e o teu esfôrço penoso? E os sacrifí­cios diários por desenvolver dignamente a tarefa em tal situação?

—        Cinjo-me às próprias lições que me destes desde a infância. Será que Jesus peregrinou pela Terra sõmente para que o admirássemos? Teria sido escrito o Evangelho apenas para que os ho­mens encontrassem nas suas páginas motivos de apologias brilhantes? Sua palavra, padre, não me inculcou, sempre, que permanecemos no mundo com o santo objetivo de purificar o coração? Deus quer que nos amemos uns aos outros. Sua misericórdia, de quando em quando, reúne fortuitamente os pró­prios inimigos, para verificar se já estão prontos à tarefa sacrossanta do amor. Se a Providência Divina me conduz agora aos braços paternos, por que e como contrariar seus insondáveis desígnios?

            - Deus te abençoe os propósitos sublimes —murmurou o sacerdote, sensibilizado até às lágri­mas —; amanhã ou depois, farei uma visita aos Davenport, não obstante o meu precário estado de saúde. Preciso observar de perto as personagens do nosso drama, a fim de legitimar as minhas ilações. Irei como teu tutor, ratificar a apresentação do padre Guilherme e, então, estudarei fisionomias e sondarei corações. Recomendo-te, porém, muita cautela, para que tua mãe permaneça alheia a esta nova amargura do seu caminho. Será mesmo de alta prudência não desceres do carro de teu pai à porta de casa, mas distante e de maneira a evitar­mos qualquer surprêsa dolorosa.

            Ela concordou e conversaram ainda alguns minutos, até que se despediu com as novas recomendações de prudência e votos de tranqüilidade, do velho sacerdote.

       Decorridos dois dias, com enorme dificuldade Damiano tomou um carro em companhia de Gui­lherme, a fim de vingar seus propósitos no elegante palacete das cercanias de São Landry. Prevenida de véspera, a família Davenport aguardava-o com homenagens afetuosas, recebendo-o com excepcional carinho.

Logo às primeiras palavras, notou que Alcione gozava da simpatia geral, embora as atitudes de Susana indiciassem preocupações indefiníveis. De pronto a conversa generalizou-se animada, O pro­fessor de Blois, agora ancião venerando pelos ca­belos de neve, comentava o concurso da Igreja nos planos educacionais da época, destacando a cooperação preciosa dos padres integrados no co­nhecimento de sua missão divina. Damiano sur­preendia-se com a vivacidade intelectual do velho educador. Cirilo, de quando em vez, intervinha com alguma observação, dando impressão de homem ativo e trabalhador, mas de alma envelhecida, em virtude do véu de tristeza inalterável que lhe en­sombrava o rosto. A espôsa parecia amável, em­bora pouco expansiva. A um canto da sala, a filha de Madalena descansava num divã ao lado da jovem Beatriz, em atitude humilde.

Debalde o sacerdote procurara, de inicio, um meio de provocar as recordações do passado e lê-lo na fisionomia de cada um. Depois das primeiras impressões, acentuou intencionalmente:

—        Pois que estou com um pé na sepultura, folgo em ver que Alcione ingressa numa casa nobre, que lhe proporcionará o bem-estar que desejo.

—        Que é isso, reverendo Damiano? — atalhou Jaques, generoso. — Se, revigorado, qual o vejo, nos fala em morrer, que não direi eu com os meus achaques sem remédio? A velhice é uma escola rigorosa de meditação, mas eu ainda me recuso a pensar na morte.

—        Sou, porém, muito mais velho que o senhor.

—        Vê-se logo que é gentileza sua; olhe que a bondade é um dom precioso, mas não pode excluir a verdade.

E mudando o rumo da assertiva, continuava:

—        Quanto à sua pupila, pode ficar descansado. Padre Guilherme andou muito bem inspirado tra­zendo-nos esta amiguinha para Beatriz e para nós mesmos. Ela não será aqui uma serva e sim uma filha. Pode estar certo disso.

—        Sem dúvida — confirmou Cirilo com um gesto franco.

—        O que mais nos impressionou, desde a che­gada — continuou carinhosamente o velhinho —, foi a extraordinária parecença com a primeira mu­lher de meu sobrinho, a quem eu considerava como própria filha. Creio que, se a senhorita fôsse filha de Madalena, talvez não se parecesse tanto com a finada. Os caprichos da Natureza são profundos, porque, na verdade, nunca esquecemos a falecida.

Nesse instante, o olhar do sacerdote de Ávila cruzou casualmente com o da dona da casa, e teve a impressão de que ela se perturbava, assaltada por algum pensamento menos digno. O amigo da se­nhora Vilamil desejou sinceramente conhecer cer­tos detalhes referentes à presumida morta, mas não se sentia com ânimo de abordar de chôfre tão deli­cado assunto. Poderia parecer imprudente e atre­vido aos Davenport, que o recebiam com tanta cordialidade e aprêço. Nessa altura da palestra, o visitante notou que o velho Jaques tinha sinais antigos de varíola, nas rugas do rosto. Não esperou outra inspiração e perguntou, com delicadeza:

—        Pelo que estou vendo, Sr. Jaques, a “be­xiga” também não o poupou, noutros tempos...

—        Ah! sim, na varíola de 63 nossos padeci­mentos foram terríveis.

       — Eu também muito sofri nessa época, aqui em Paris, onde viera a convite de alguns colegas. E estive tão mal — acrescentava sorrindo — que quase me sepultaram vivo, num dos cemitérios im­provisados.

       A filha de Jaques recordou fortemente o mi­nuto em que livrara a rival de semelhante destino e fêz um gesto instintivo de espanto.

       — Nessa ocasião — explicou o professor — re­sidíamos em Blois, mas Susana teve oportunidade de observar muita coisa triste, nesta cidade, pois aqui chegou no dia imediato ao da morte de Madalena.

—        Ah! por favor, senhora Davenport — ex­clamou Damiano, mostrando-se muito impressionado —, conte-nos a sua experiência. Não poderei esquecer o pavoroso instante em que me ameaça­vam com o sepultamento, apesar de me sentir no gôzo de tôdas as faculdades... Foi um minuto terrível...

—        São recordações muito amargas, padre —retrucou Susana aparentemente tranqüila. — Como não ignora, meu marido era casado em primeiras núpcias, aqui em Paris, e tendo êle seguido para a América, a família ficou em dificuldades, quando irrompeu a pavorosa epidemia. Madalena Vilamil era como se fôsse uma irmã. A carta que escreveu a meu pai, para Blois, era um apêlo que não podia ficar sem resposta. Logo que pude, vim até cá, por trazer-lhe os meus préstimos. A pobrezinha, porém, havia sido sepultada na véspera. Todavia. ainda pude encontrar seu pai com vida, assistin­do-lhe os últimos momentos. D. Inácio, velho fi­dalgo espanhol, tinha em sua companhia um sobri­nho chamado Antero de Oviedo, que foi um arrimo para todos, naqueles dias tão amargos! Ajudei-o a providenciar o enterramento do tio ao lado da sepultura da filha, no cemitério dos Inocentes, e, nos poucos dias de minha estada em Paris, pude testemunhar a brutalidade dos carregadores desal­mados, que farejavam cadáveres tôdas as manhãs, nas casas contaminadas.

O         sacerdote de Ávila já conhecia o bastante para inferir a conivência de Susana no drama que negrejava o destino de Madalena, e acrescentou:

—        A senhora deve ter sofrido muito.

—        Foram dias tormentosos, efetivamente; vol­tei a Blois tão impressionada que só melhorei quando me vi no mar, a caminho da colônia. O mesmo deve ter acontecido a Oviedo Vilamil, que nos escreveu de Versalhes comunicando a resolução de partir para a América espanhola.

Damiano não tinha mais dúvidas. A resolução sinistra só poderia caber a Antero e Susana, en­quanto Madalena estava no leito, entre a vida e a morte, O plano perverso obedecera à complicada urdidura. Dificilmente disfarçando a emoção, en­trou a falar de outros assuntos, a fim de tornar o ambiente menos pesado.

Regressando ao seu quarto de enfêrmo, em vão excogitava um meio de aclarar a situação, con­cluindo, por fim, que tôda tentativa, nesse par­ticular, acarretaria mais graves problemas. Que adiantaria restabelecer a verdade com o aniquila­mento de tôda uma família? Pensou na pequena Beatriz, na atitude confiante de Jaques, no sem­blante grave e triste de Cirilo e firmou o propósito de não intervir na marcha dos acontecimentos, para só confiar na Providência divina.

Daí a quatro dias, quando Alcione foi visitá-lo, indagou carinhosamente das suas impressões.

—        Vou bem — disse ela resignada —, estou começando a compreender que, dia a dia, Deus nos chama a determinada situação para que lhe exe­cutemos a vontade santa.

Damiano sorriu, como que desencantado do mundo, e ponderou:

—        Tenho quase certeza de haver descoberto a trama que destruiu a felicidade de tua mãe, mas julgo que nada se pode fazer por deslindá-la. Como discípulos do Evangelho, devemos compreender que não se deve abandonar o combate ao mal, em hipó­tese alguma; entretanto, neste nosso caso, a bata­lha deve desenrolar-se em campo de silencioso sa­crifício.

—        Compreendo e estou pronta para a batalha, como sempre.

—        Não te agastes com o dizer que a senhora Susana participou, a meu ver, da tragédia que mie­licitou tua mãe.

       — Posso lamentar, mas devo reconhecer que, se Deus me pôs no seu caminho, é que tenho de aprender alguma coisa em contacto com ela. Que será? não sei. De qualquer modo, porém, rogo a Jesus não me abandone. Reconheço que minha mãe tem provado infinitos martírios, mas os criminosos, padre, são mais desventurados que os sofredores. Mamãe, no leito da enfermidade pertinaz, goza de mais tranqüilidade que a senhora Susana no seu palácio. Enquanto Robbie nos alegra com o seu afeto, Beatriz parece detestar a genitora, trazendo-a em constante acabrunhamento. Tenho, hoje, gran­diosas lições diante do meu espírito. Antes mil vêzes padecer a calúnia e o abandono, que tisnar a consciência com a nódoa do crime. Este, padre Damiano, o quadro permanente que tenho diante dos olhos.

—        Lembraste bem — murmurou o sacerdote meneando a cabeça encanecida.

—        Meu pai e a segunda espôsa — prosseguiu a jovem — são profundamente infelizes na vida conjugal. Por vêzes, longamente altercam sôbre ninharias da vida social. Não raro, êle se afasta exasperado, enquanto que ela se desfaz em lágri­mas. Tenho a impressão de que Beatriz é o único elo que os mantém presos aos compromissos con­traídos. Tudo isso não será uma lição bem amarga?

O         sacerdote considerou a exposição judiciosa e

Concordou:

—        Tens razão. Contudo, minha filha, não fôs­sem as circunstâncias imperiosas que nos impõem silêncio, haveria que denunciar o crime, para que os autores não ficassem impunes.

—        Pode crer, porém — exclamou Alcione, de­pois de refletir um instante —, que a senhora Da­venport está sendo punida todos os dias. Não pode­remos, por certo, conhecer o grau da sua Conivência no delito, mas tenho podido observar a sua luta expiatória. As meditações dêstes dias têm-me ensi­nado que devemos tratar os pecadores não como criaturas perversas ou indesejáveis, mas como doen­tes necessitados de medicação constante. Não foi assim que Jesus nos tratou em sua missão divina? Tenho, agora, a convicção de que o Mestre encarou os romanos como pessoas atacadas pela moléstia da ambição e da tirania; os judeus, como enfermos da vaidade e do egoísmo destruidores; e, decerto, terá visto em Judas um companheiro dementado, tanto quanto em Pilatos um irmão perseguido pela doença do mêdo.

O         sacerdote estava comovidíssimo. Tais inter­pretações lhe valiam como bálsamo confortador. E mal se recobrava do assombro, quando Alcione continuou:

— Suponho legítima esta presunção, porque a identificamos com a bondade do Cristo, em todos os atos de sua vida e até nos derradeiros instantes da cruz. Conduzido ao madeiro entre dois ladrões, nos quais devemos enxergar dois doentes do mundo, bastou que um dêles mostrasse o desejo sincero de melhorar-se, recobrando a saúde, e o Senhor lhe prometeu o paraíso.

— Sim — disse o religioso emocionado; estas idéias devem fluir do Céu para o teu coração puri­ficado. Deus te proteja nos caminhos longos e escabrosos, porque as almas nobres, qual a tua, surgem na Terra como partícipes das aflições do Cristo. O mundo prepara sempre um calvário para as vidas cristãs, mas o Mestre te reservará a coroa da vida...

— Não diga isso, o senhor me atribui a bon­dade que lhe pertence. Estou muito longe de compreender verdadeiramente o Cristo, mas, não obstante, certa de não ter vindo a êste mundo para descanso e gôzo fictícios. Aliás, nosso raciocínio deve ser claro: se o Salvador veio à Terra provar os testemunhos mais ásperos, vertendo sangue e lá­grimas, por que darmos tanta importância a algu­mas gôtas de suor, vertidas em benefício próprio?

Damiano agradeceu com um olhar de júbilo íntimo.

E, dividindo a mocidade entre o palacete do pai e a humilde casinha materna, Alcione Vilamil, em árdua tarefa, rogava a Jesus não a abandonasse, na dolorosa missão.

 

Testemunhos de fé

       Impressionado com a argumentação do velho Gordon e cedendo à insistência da família, Cirilo Davenport havia desposado a prima, em segundas núpcias, entre caridosas alegrias dos amigos e afei­çoados da Nova Irlanda, passando a residir em com­panhia de Jaques, que assim o exigira, visando a alguma consolação no deserto da sua viuvez. Breve, o nascimento de Beatriz vinha trazer um laço mais forte ao casal, mas o filho de Samuel jamais en­contrara a emoção de ventura haurida no primeiro matrimônio. Parecia-lhe ter a alma mutilada, que o lugar de Madalena era impreenchível. Fugia instintivamente do lar, entregando-se a trabalho in­cessante. Por vêzes, singular estranheza se apossa­va dêle, ao atentar nas atitudes afetivas de Susana, sem eco no seu espírito. O coração palpitava-lhe de sentimentalismo ardente, reconhecia que nada per­dera quanto à possibilidade de amar, e, contudo, parecia que sômente a primeira espôsa era a dona da chave de penetração no seu mundo íntimo. O ambiente doméstico, por mais que ela se esforçasse, reservava-lhe sempre penosas surprêsas. A dispo­sição dos objetos provocava censuras, os pratos nunca estavam a seu gôsto. Continuamente insa­ciado, insatisfeito, de quando em quando impu­nha-se a intervenção conciliadora de Jaques, para que os atritos não degenerassem em conflito. De­pois de longas e acrimoniosas altercações, Susana recolhia-se ao quarto, chorosa e desesperada, en­quanto o marido se retirava a um canto da varanda, distraindo-se com a fumaça de grande cachimbo, e pensando consigo mesmo: — “No tempo de Mada­lena, não era assim... Dada a sua constante aplica­ção ao trabalho, conseguira angariar fortuna só­lida e invejável situação na colônia; no entanto, intraduzível tristeza lhe pairava invariàvelmente no semblante. Apenas a filha, pela profunda afinidade espiritual manifestada, conseguira atenuar os so­frimentos que o atormentavam. Desde que Beatriz atingira os cinco anos, estabelecera-se entre pai e filha um apêgo cada vez mais forte. A menina parecia singularmente distanciada da genitora, que, em vão, se esforçava por insinuar-se à sua estima. As ansiedades e dedicações de Susana se tornavam inúteis. A atitude paternal de Cirilo plasmando a alma da filhinha, absolutamente de acôrdo com os seus pensamentos, dificultava a atuação materna. Sem jamais conseguir uma harmonia perfeita com a segunda espôsa, o filho de Samuel parecia vin­gar-se do destino, subtraindo a pequenina à sua influência e dando ensejo a que Beatriz se desen­volvesse entre caprichos de tôda sorte. Em breve tempo Susana não tinha nenhuma autoridade sôbre a filha, que só obedecia ao pai. No íntimo, a prima de Cirilo sentia-se qual ré, que, não obstante res­guardada da justiça humana, resgatava duramente o crime praticado. Não encontrara a felicidade es­perada em seu criminoso sonho. Os momentos raros de alegria conjugal eram pagos multiplicadamente em angústias martirizantes, pelo que costumava comparar sua ventura a uma gôta de vinho numa taça de fel. Além do mais, os remorsos perse­guiam-na, implacáveis. Se encontrava um doente, recordava-se de Madalena; se entrava num cemi­tério, surgia-lhe o espectro da vitima. Quando al­guém se referia a júbilos domésticos, ela sentia o amargor das suas experiências; se as amigas co­mentavam as esperanças da prole, lembrava a filha de D. Inácio e sentia mais vivo o aguilhão da cons­ciência.

Tamanha era a desdita do casal, que um padre da colônia lhe recomendou mais atenção para o culto doméstico do Evangelho. Duas vêzes por semana, reunia-se a pequena família para leitura e comentário das lições do Cristo. Jaques, porém, era talvez o único que se aproveitava legitimamente dos ensinos de cada noite. Susana via em cada palavra uma acusação, furtando-se ao aproveita­mento. Cirilo considerava as sentenças evangélicas como simples fórmulas convencionais da religião, sem sentido lógico para a vida prática, e a pequena Beatriz ouvia a leitura e interpretação do avô com o devido respeito, sem nada assimilar ao espírito infantil. O velho professor de Blois, todavia, não desanimava.

Quando a pequena manifestou os primeiros sin­tomas da enfermidade nervosa que a acabrunhava, os pais, como loucos, deliberaram transferir-se tem­poràriamente ao Velho Mundo, em busca de recur­sos médicos. Debalde Susana insistiu para se fixarem na Inglaterra. Cirilo foi inflexível. Ficariam em França. Uma vez forçado a viver na Europa, preferia Paris, onde se sentia identificado com as suas antigas recordações. Aí poderia cuidar da saúde da filha e orar no túmulo da primeira espôsa. E não houve como demovê-lo dessa resolução.

Assim, regressou ao Velho Continente o redu­zido grupo familiar, sem prazo prefixado de regresso, sendo que Cirilo, aproveitando a oportuni­dade, poderia centralizar a representação de vasta zona do Connecticut, para o comércio do fumo, flo­rentíssimo então.

Perdurava a mesma angustiosa Situação para os Davenport, em Paris, quando Alcione lhes entrou em casa. Casa rica de recursos financeiros, mas pobre de alegria e de paz.

Jaques e o sobrinho exultavam com a chegada da jovem, tão parecida com a morta inesquecível e pelas suas maneiras carinhosas e catívantes. Beatriz parecia encontrar em sua companhia o medicamento indispensável. As longas conversações com a governanta desvelada pouco a pouco lhe modificavam as atitudes. Susana, entretanto, teve agravado o seu intimo mal-estar com a presença de Alcione. Não conseguia sofrear a onda de ciúme e egoísmo que a empolgava. Muitas circunstâncias cooperavam para isso. Não tolerava a menina sim­ples e amável, pelos seus traços idênticos aos da rival que eliminara do seu caminho. Além de tudo, aquelas atenções que Cirilo lhe dispensava, doíam­-lhe penosamente no coração inculto. Complicando a questão, o velho pai, bem como a filhinha, ado­ravam a jovem serva, manifestando-lhe extremo carinho. Debalde procurava um pretexto para des­pedi-la. A moça estava sempre calma e disposta a ceder aos seus caprichos. Aquela suave humil­dade causava-lhe irritação. Por mais que elevasse a voz, em ordens intempestivas, Alcione tratava-a respeitosamente, em atitude de nobre serenidade.

A princípio, acrescentou-lhe outras ocupações, além dos deveres de governanta e preceptora. A jovem era obrigada a tratar de todos os demais serviços leves da casa, inclusive a costura. Observando, todavia, que a moça a tudo atendia primorosamente, Susana chamou-a certa vez:

—        Alcione!

—        Senhora!...

—        Hoje é necessário que substituas a lava­deira, que se encontra doente.

—        Sim, senhora.

E num momento desdobrava-se em atividades no tanque espaçoso, esforçando-se por cumprir per­feitamente a tarefa insólita. Entretanto, vendo-a entregue a tal mister, não se conformou a pequena Beatriz, que, depois de um olhar reprovativo à ge­nitora, correu ao pai, pedindo-lhe providências.

Cirilo atendeu de pronto. Vendo a governanta da filhinha azafamada na lavandaria, começou a altercar com a espôsa, recriminando-a com aspe­reza. Beatriz, agarrada a êle, reforçava-lhe a censura. Susana justificava-se. Não poderia atender ao ritmo doméstico, exautorada nas suas determinações. O marido, porém, não lhe aceitava as alegações, secundado por Beatriz, que acusava a genitora de perseguir Alcione com os serviços mais grosseiros. A filha de Madalena trabalhava, cabis­baixa e humilde, mas, quando viu a dona da casa em- pranto convulsivo, exasperada com as censuras que lhe eram dirigidas acremente, adiantou-se com delicadeza e acentuou:

—        Sr. Davenport, espero que me desculpe a intromissão na conversa, mas pode crer que a pe­quena Beatriz está enganada. D. Susana não me mandou substituir a lavadeira, fui eu mesma que, sabendo que a lavadeira adoeceu, ofereci minha cooperação no tanque, para aliviar os muitos serviços domésticos.

—        Ah! sim — disse Cirilo, algo desapontado.

—        O senhor não se preocupe — concluiu Al­cione —, eu estou bastante habituada a êstes trabalhos.

Essas palavras eram ditas com tanta sinceri­dade e boa vontade que o chefe da família regressou tranqüilamente às suas atividades, enquanto a es­pôsa olhava para a governanta sem disfarçar a sur­prêsa. Beatriz, muito modificada em sua primeira atitude de revolta contra a decisão materna, apro­ximou-se da jovem, tentando ajudá-la. Muito afe­tuosamente, contemplava Alcione, seduzida pela sua bondade, como a lhe pedir explicações. A filha de Madalena percebeu-lhe o desejo e falou:

—        Então, Beatriz, consideras a limpeza da roupa como serviço pesado? Não penses assim. Deve ser muito sagrado, para nós todos, o asseio das coisas caseiras.

—        Mas há criadas para isso, explicou a menina procurando justificar-se.

—        No entanto, devemos estar habilitadas para qualquer trabalho digno. Se tôdas as servas adoe­cessem, haveríamos de vestir roupa suja? Não admitirás isso, por certo. Além do mais, cuidar da roupa que nos faz tanto bem, deve constituir motivo de satisfação sincera.

A menina, muito sensível, estimava deveras a governanta, mas objetou:

— No entanto, sempre ouvi dizer que cada serviçal deve estar no seu lugar.

— E não erras, pensando assim, mas essa verdade não impede o dever de ampliarmos nossas experiências em todo e qualquer trabalho honesto. Não estimas tanto as lições de Jesus? Pois no Cristo encontramos o verdadeiro ânimo de traba­lho, O Mestre Divino nunca se ausentou do lugar sublime que lhe compete na Criação e, no entanto, carpintejou na modesta oficina de Nazaré; exegeta da Lei, perante os doutores d€ Jerusalém, serviu o vinho da amizade nas bodas de Caná; médico da sogra de São Pedro, enfermeiro dos paralíticos, guia dos cegos, amigo das crianças, mas também lacaio dos discípulos, quando lhes lavou os pés, no cenáculo. E nada obstante o contraste e a diversidade de tantas tarefas, Jesus não deixou de ser o nosso Salvador, em todos os momentos.

A filhinha de Susana, entre admirada e como­vida, observou:

— Tudo isso é verdade... Como não pude compreender antes?

E começou a ajudar no trabalho do tanque.

Esses pequeninos incidentes domésticos come­çaram a impressionar profundamente a segunda es­pôsa de Cirilo. De que fonte poderia Alcione haurir tanta compreensão e tamanha fôrça? Alcione estava sempre pronta a lhe atender as menores exi­gências, sem modificar a atitude de serenidade e dedicação. Chamada aos próprios misteres da cozi­nha, desincumbiu-se dos deveres que lhe eram confiados, a contento geral.

Decorrido quase um ano, Susana adoeceu gra­vemente. A filha de Madalena consagrou-lhe o máximo de seus carinhos. Nessa ocasião, justamente em face dos sofrimentos que a martirizavam, foi que ela se rendeu à bondade da serva, tornando-se-lhe desvelada amiga. A residência de Cirilo experimentava profundas transformações. O chefe da família, bem como Jaques, insistiam para que a jovem se transferisse definitivamente para o palacete da Cité, mas Alcione alegava que a mãe era paralítica, que tinha um irmão adotivo necessitado da sua assistência, e um tutor muito amigo que se abeirava da morte.

Inúmeras vêzes, a filha de Madalena Vilamil era obrigada a desviar, delicadamente, o desejo de Susana e da filha, de lhe visitarem a genitora en­fêrma.

— Mais tarde, senhora Davenport, estaremos preparados para recebê-la; por enquanto, sou eu quem lhe pede para não ir. Quero ter a satisfação de apresentá-la à mamãe quando ela puder sentir o prazer de melhoras mais positivas.

E Susana justificava-lhe a solicitação.

A modificação de Beatriz trouxera grande paz ao coração paterno; Cirilo não cabia em si de con­tentamento, em lhe observando a jovialidade e a saúde. Nunca poderia explicar o fenômeno afetivo que com ele se passava, mas, era tal a estima e admiração que tinha pela moça, que, no Intimo, não sabia a qual das duas queria com mais ternura. Jamais confiara a quem quer que fôsse as suas recônditas impressões, mas desde que Alcione lhe entrou em casa, começara a sentir uma serenidade desconhecida. Ela lhe parecia assim como alguma coisa da morta inolvidável. Por vêzes, quando a governanta acompanhava a família ao cemitério dos Inocentes, tinha ímpetos de afagá-la paternal­mente, enxugando-lhe as lágrimas copiosas. Em tais ocasiões, ela recordava os sofrimentos de cada uma das personagens do drama doloroso e desfa­zia-se em lágrimas. A família Davenport levava tudo à conta de sentimentalismo, temperamento hipersensível, e as suas atitudes passavam desper­cebidas, sem mais comentários.

Às quartas e domingos, praticavam, na intimi­dade, o culto doméstico do Evangelho.

Num sábado, à refeição, foi Jaques a lembrar:

—        Alcione, amanhã faremos nosso estudo e meditação do Novo Testamento e receberíamos, com prazer, a sua cooperação.

—        Ganharei muito em vos ouvir — acentuou plàcidamente.

O         alvitre do amorável velhinho mereceu aplau­so geral. Cirilo fêz ver que seria muito interessante ouvir a governanta de Beatriz no comentário das lições de Jesus. Alcione esquivava-se às provas de aprêço, com extrema humildade. Viria, a fim de aprender, exclamava bondosamente.

Na tarde seguinte, reunidos em tôrno da gran­de mesa aristocrática, o pai de Susana explicou, atencioso:

—        Há algum tempo, minha filha — dirigia-se a Alcione com muito carinho —, aconselhados por um sacerdote americano, deliberamos fundar nossa igreja lareira, por considerar que a família é o nosso primeiro santuário.

—        Resolução louvável — disse a filha de Ma­dalena, entre a ternura e o respeito. — Minha mãe também sempre me disse que o lar é o nosso templo divino.

Magnetizado pela doçura das suas palavras, Cirilo Davenport, ansioso de alcançar a fé que lhe suavizasse as lutas da vida, perguntou:

—        Não discordo, Alcione, dêsse conceito, mas, já o tenho discutido muitas vêzes com meu tio. Por que entreter o culto evangélico no lar, quando temos numerosas igrejas? Só aqui no centro con­tamos mais de vinte. E os outros bairros de Paris? E as instituições religiosas? Por que esta diversi­dade de cultos se os fins são os mesmos? Não seria mais justo reservar as possibilidades da devoção para os ofícios religiosos de caráter público?

O         filho de Samuel assim se manifestava porque nunca pudera compreender a utilidade prática da igreja doméstica. A seu ver, os textos evangélicos constituíam material de análise privativa dos pa­dres, e chegava quase a considerar inútil a leitura isolada das anotações apostólicas. Alcione, atenta e prazerosa, respondeu:

— Neste assunto, Sr. Davenport, como não se trata de opinião nossa, pessoal, mas de ensinos do Mestre, peço-vos relevar a minha franqueza. Tenho a convicção de que, em tôda parte, estamos na casa de Nosso Pai e estou certa de que virá o dia em que tomaremos por templo de Deus o mundo inteiro. Mas, em nossa atual condição, não nos custa reconhecer o proveito das igrejas e o caráter sagrado do culto doméstico, no que concerne aos ensinos de Jesus. Também no confôrto de nossas casas há sempre ótima disposição para atender aos nossos familiares enfermos, mas isso não proscreve a necessidade dos hospitais. Os pais amorosos en­sinam sempre os filhinhos; mas nem por isso dei­xam de ser úteis as escolas. Em matéria de fé, nossa estranheza radica na viciação dos deveres religiosos. Costumamos atribuir ao sacerdote o que nos compete realizar. Um padre poderá fun­cionar como excelente preceptor, indicando os cami­nhos retos, mas nós transitamos para Deus e éimprescindível não parar. O ministro da fé aten­derá ao conjunto, mas, para que as alegrias cristãs vibrem perfeitamente em nossa alma, não há que olvidar a necessidade de estabelecer o culto do Senhor, dentro de nós mesmos. Assim entrevisto, o lar é o templo mais nobre, porque oferece opor­tunidade diária de esfôrço e adoração. Cada cria­tura de nossa convivência, sob o mesmo teto, repre­senta um altar para o culto da bondade, do carinho, da compreensão. Cada borrasca doméstica é um ensejo para a distribuição de esperança e fé. Cada dia afanoso enseja possibilidades de testemunhar confiança em Deus. Enquanto isso ocorre na intimidade,­ as instituições religiosas podem funcionar como hospitais dos espíritos combalidos, como ce­leiros de esfomeados, como fontes de informações sublimes aos ignorantes. Qualquer doente esperará a volta da saúde, mas colimando reintegrar-se no plano de esfôrço diuturno; o faminto se alimentará de modo a prosseguir no seu caminho; e o ignorante será instruído para que se habilite a aplicar o que aprendeu. Por êsse prisma, podemos aquilatar o valor das pequenas realizações domésticas. Acre­dito que o lar seja o ninho onde o espírito humano cria em si mesmo, com o auxílio do Pai Celestial, as asas da sabedoria e do amor, com que há de conhecer, mais tarde, as sendas divinas do Uni­verso.

A reduzida assembléia não podia ocultar a enorme expressão de assombro. Os Davenport esta­vam longe de presumir, naquela jovem de atitudes tão timidas, tais provas de conhecimento espiritual. Pela primeira vez, Cirilo ouvia um argumento que o satisfazia plenamente. Com estupefação geral, Beatriz quebrou o silêncio, dirigindo-se ao avô nestes têrmos:

—        Não te disse, vovô, que ela sabe muita coisa nova sôbre Jesus?

—        Não diga isso, Beatriz — murmurou Al­cione tôda humilde —, eu sou apenas uma curiosa das lições evangélicas. Como tínhamos em Ávila a nossa pequena igreja doméstica, a funcionar quase tôdas as noites, familiarizei-me com o assunto.

—        Sem dúvida — replicou Cirilo, impressio­nado — as tuas explicações, Alcione, falam profundamente à alma. Os negócios materiais da minha vida sempre me criaram certa atmosfera de incompreensão para as lições do Cristo. Sempre considerei o lar fortaleza da nossa felicidade na Terra, mas nunca como base para enriquecimento de dons espirituais.

       — Isso é natural — prosseguiu a moça enter­necida —, as fôrças que nos encarceram o coração nas grades de uns tantos problemas temporais, costumam ser violentas e rudes. Entretanto, Deus não se cansa de nos atrair aos seus braços miseri­cordiosos. As circunstâncias mínimas da existência humana induzem a pensar nisso. Logo que abrimos os olhos neste mundo, encontramos pais carinhosos que nos encaminham para o bem; nossa infância, quase sempre, está cercada de sábias advertências dos preceptores, que nos orientam para a verdade. Uma idéia lógica surge, fatalmente, em nosso cé­rebro: tantos mensageiros de bondade viriam à nossa estrada, tão só para informar-nos o coração, sem utilidades práticas para a nossa própria edifi­cação? Muita gente, nos mais variados credos, depõe nas mãos de seus ministros o que lhes cumpre fazer, mas isso é um êrro grave. Deus nos chama pela maneira como Jesus procurou os discípulos. Para realizar a união divina é preciso marchar, na “terra” de nós mesmos, não obstante os maus dias e as noites tenebrosas!...

Cirilo não podia disfarçar a admiração. Agora, sentia descortinar-se aos olhos dalma um mundo deslumbrante, que até então não conseguira sur­preender. As palavras da jovem modificavam-lhe, num minuto, tôdas as presunções exegéticas. Co­meçava a sentir que a vida, sob qualquer de seus aspectos, revestia-se da mais profunda significação. No seu conceito, o homem deixava de ser um exi­lado em míseras trevas, que se encontraria mais tarde com Deus, ou com a punição eterna. A Terra figurava-se-lhe escola, onde cada homem recebia uma divina oportunidade, entre milhões de possi­bilidades sublimes e infinitas.

—        No templo de pregações públicas — con­cluía a filha de Madalena, sem afetação — podere­mos receber as inspirações externas, ao passo que no culto intimo entramos em contato com o pró­prio eu, recebendo divinas mensagens na cons­ciência, Os diversos ministros religiosos têm fór­mulas convencionais; nós, como sacerdotes da própria iluminação, temos as expressões espontâneas da vida.

Jaques engolfara-se em prolongado silêncio, como se estivesse chegando a um mundo novo de preciosas revelações. E Susana, vendo o compa­nheiro quase extático, considerou, eminentemente comovida:

— Em verdade, Alcione, teus raciocínios abrem novos horizontes ao nosso espírito. Sempre estu­damos o Evangelho, mas, de minha parte, devo confessar a dificuldade em me adaptar aos ensina­mentos... Sinto-me tão pecadora, tão humana, que cada lição me soa como rigorosa censura. Por que experimento, assim, as santas narrativas como dilacerantes acusações?

A jovem fitou-a com olhos muito lúcidos e esclareceu:

— Tais impressões devem ser passageiras. O Evangelho é mensagem de salvação, nunca de tor­mento. Na realidade, conhecemos a extensão da nossa indigência e o grau das nossas fraquezas; mas a misericórdia divina restaria imota sem as nossas quedas e dolorosas necessidades, O Cristianismo jamais será doutrina de regras implacáveis, mas sim a história e a exemplificação das almas transformadas com Jesus, para glória de Deus. Se as lições do Mestre apenas nos oferecessem motivos de condenação, onde estariam as grandes figuras evangélicas de Maria Madalena, Paulo de Tarso e tantas outras? No entanto, a pecadora transformada foi a mensageira da ressurreição; o inflexível e cruel perseguidor convertido recebeu de Jesus a missão de iluminar o gentilismo.

       Susana seguia a exposição, de olhos muito bri­lhantes. Nunca sentira tamanha impressão de bem-estar, no trato das leituras santas. Nas confissões, que nunca chegara a conjugar com a grande falta da sua vida, nada recebia dos sacerdotes, senão amargas recriminações. Os padres lhe ministravam penitências, mas nunca lhe ofereciam roteiro seguro. Sempre dera ao altar valiosas contribuições monetárias, mas agora chegava à conclusão de que era indispensável cooperar, com tôdas as energias espirituais, para o próprio aperfeiçoamento.

—        Tuas interpretações — asseverou a senhora Davenport — são altamente consoladoras. De uns tempos para cá, venho refletindo amargurada na inutilidade de muitos ensinamentos recebidos na infância. Por que terei aprendido a virtude e não a cultivo a rigor? E, com tais dúvidas íntimas, passo a analisar as criaturas com profundo pessi­mismo, chegando a crer que a humanidade, de modo geral, vive negando Jesus a cada momento.

Alcione, que prestava especial atenção aos con­ceitos expendidos, obtemperou:

—        Por infelicidade nossa é, de fato, enorme a bagagem das nossas fraquezas neste mundo; mas, se o Pai não desanimou e nos oferece, diariamente, ensejo de nos levantarmos para o seu amor, por que haveremos de viver em descrença contumaz? Viver sem esperança é o pior de todos os males. Quando nos preocupamos sinceramente com a iluminação espiritual, compreendemos a significação de tôdaa as coisas. A própria miséria humana tem o seu lugar e a sua expressão educativa. Antes de tudo, é essencial refletirmos na extensão da bondade do Mestre. Lembremos que Pedro o negou três vêzes, na hora mais cruel; que Tomé duvidou da sua sabedoria e misericordioso poder, e, nem um nem outro foi jamais expulso da sua divina presença. O mundo tem inúmeros criminosos, ex­ploradores, ociosos e devassos, mas tudo isso deve ser examinado por um prisma diferente. O pe­cado é moléstia do espírito. No excesso da ali­mentação, na falta de higiene, no desregramento dos sentidos, o corpo sofre desequilíbrios que podem ser fatais. O mesmo se dá com a alma, quando não sabemos nortear os desejos, santificar as aspirações, vigiar os pensamentos. Sempre acreditei que as enfermidades dessa natureza são as mais perigosas, porque exigem remédio de mais dolorosa aplicação.

Susana estava eminentemente surpreendida. Aquelas explicações, tão simples, tocavam-lhe o coração nas fibras mais sensíveis. Sômente agora identificava a sua moléstia espiritual. Nos dias mais tristes da vida conjugal, entre remorsos e revoltas, muita vez indagara de si mesma os moti­vos que a levaram a desventurar a filha de D. Inácio. Nas horas acerbas, chegava à penosa conclusão de que um verdadeiro amor jamais sacrifica alguém nos seus impulsos. Em troca da sua violência, nada adquirira senão remorsos para si e insaciedade para o companheiro. Não teria sido melhor cooperar para a felicidade inalterável do primo com Mada­lena? Se lhe não fôsse possível a edificação do lar, alcançaria, pelo menos, a tranqüilidade de cons­ciência. Entretanto, como dizia Alcione, deixara-se empolgar pelo desregramento dos desejos, desvia­ra-se dos sentimentos justos e caíra em terrível enfermidade espiritual. Enfim, comovera-se em de­masia, fora de seus hábitos, tinha os olhos molha­dos de pranto.

Cirilo, por sua vez, muitíssimo impressionado com os esclarecimentos, imitava o velho tio, pare­cendo mergulhado em profundo cismar.

Rompendo o forçado silêncio, o velho educador de Blois tomou a palavra e disse com brandura:

— As interpretações da menina são novas e confortadoras para nós. Pelo visto, muito nos po­derá ela auxiliar no referente aos sagrados ensinos. Não será melhor que todos nós a ouçamos, hoje, no culto? Dessarte, saberemos como funcionava a sua igreja doméstica, em Ávila, e poderemos enri­quecer as nossas experiências.

Alcione sempre humilde e sincera, tentou es­quivar-se, mas Cirilo e Susana reforçaram a pro­posta do bondoso ancião e não houve como exi­mir-se à delicada incumbência.

Jaques entregou-lhe o volume do Novo Testa­mento, mas, antes de o abrir, ela explicou:

—        Em nosso grupo familiar de Castela-a-Ve­lha, meu tutor dizia que o estudo das letras santas é comparável a uma pesca de luzes celestiais, O rio da vida, afirmava, está sempre correndo e é indispensável energia serena e vontade ardente, a fim de mergulharmos na coleta dos valores divi­nos. Enquanto o homem se mantiver tíbio, desen­cantado, indiferente ou pessimista, dificilmente poderá encontrar no Evangelho algo mais que os sublimes apelos do Senhor. Em tais condições negativas, recebemos os convites do Cristo, mas freqüentemente ficamos ignorando a tarefa; somos chamados ao banquete da verdade e da luz, mas comparecemos como comensais bisonhos, mal sa­bendo como iniciar o suculento repasto. O ensina­mento de Jesus é vibração e vida, e como o estudo mais simples demanda o esfôrço de comparação, não podemos versar o Evangelho sem êsse esfôrço. Muitos procuram, nestas páginas, sômente motivos de consolação, esquecendo a essência do ensino. Mas seria um contra-senso vir o Mestre a nós, dos espaços gloriosos da imortalidade, apenas para nos adoçar o coração onusto de perversidades e fra­quezas humanas. Jesus é a fonte do confôrto e da doçura supremos. Isso é inegável. No entanto, re­conhecemos que uma criança, que sômente receba consolações e mimos paternos, arrisca-se a enve­nenar o coração para sempre, na sêde insaciável dos caprichos. Não; não devemos acreditar que o Cristo só haja trazido ao mundo a palavra revi­goradora e afetuosa, senão também um roteiro de trabalho, que é preciso conhecer e seguir, em que pesem às maiores dificuldades. Para isso, é indis­pensável tomar os nossos sentimentos e raciocínios como campo de observação e experiência, traba­lhando diàriamente com Jesus na construção da arca íntima da nossa fé. Naturalmente que essa edificação não prescinde do material adequado, constituído pelas virtudes e conhecimentos nobres que adquirimos no curso da vida. São esses os elementos que procuramos, em nossa pesca das luzes celestiais, para que, recebendo as consolações de Jesus, sejamos igualmente operosos trabalha­