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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


RITOS DE ADEUS / Hannah Kent
RITOS DE ADEUS / Hannah Kent

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

RITOS DE ADEUS

 

Disseram que eu devo morrer. Disseram que roubei o fôlego dos homens, e agora eles devem roubar o meu. Então imagino que todos sejamos chamas de velas, brilhantes e untuosas, tremulando na escuridão e no vento que uiva; e na imobilidade do quarto eu ouço passos, passos medonhos que se aproximam, que se aproximam para me soprar e retirar a vida de mim em uma espiral de fumaça cinza. Vou desaparecer no ar e na noite. Eles nos soprarão a todos, um por um, até que só vejam sua própria luz. Onde estarei então?

Algumas vezes acho que a vejo novamente, a fazenda, queimando na escuridão. Algumas vezes posso sentir a dor do inverno em meus pulmões, e acho que vejo as chamas espelhadas no oceano, a água tão estranha, tão trêmula de luz. Houve um momento naquela noite em que olhei para trás. Olhei para trás para ver o fogo, e se lambo minha pele ainda posso sentir o gosto de sal. A fumaça.

Não era sempre tão frio.

Eu ouço passos.

 

                   Aviso público

Haverá um leilão no dia 24 de março de 1828, em Illugastadir, dos valores que o fazendeiro Natan Ketilsson deixou para trás. Há uma vaca, alguns cavalos, um volume considerável de ovelhas, feno, móveis, sela, arreio e muitos pratos e panelas. Tudo isso será vendido caso uma oferta à altura seja feita. Todos os bens serão dados ao lance mais alto. Se o leilão não for possível devido ao mau tempo, será cancelado e realizado no dia seguinte, desde que o clima permita.

 

Comissário distrital

Björn Blöndal

20 de março de 1828

Ao respeitável reverendo Jóhann Tómasson,

Obrigado por sua distinta carta do dia 14, na qual desejou ser informado de como cuidamos do enterro de Pétur Jónsson, de Geitaskard, de quem se diz ter sido assassinado e queimado na noite entre os dias 13 e 14 deste mês, com Natan Ketilsson. Como o reverendo tem conhecimento, houve algum debate sobre se seus ossos deveriam ser enterrados em solo consagrado. Sua condenação e punição por assalto, roubo e receptação de propriedade roubada iria se seguir ao processo na Corte Suprema. Contudo, não recebemos nenhuma correspondência da Dinamarca. O juiz do Tribunal Regional condenou Pétur no dia 5 de fevereiro do ano passado e o sentenciou a quatro anos de trabalhos forçados em Rasphus, Copenhague, mas na época de seu assassinato ele ainda estava "livre". Portanto, em resposta à sua pergunta, seus ossos foram enterrados segundo os ritos cristãos, junto a Natan, já que ele não poderia ainda ser considerado um dos que abandonaram o caminho cristão. Essas pessoas são expressamente indicadas na carta de Sua Majestade o rei, de 30 de dezembro de 1740, que relaciona todos aqueles que não deverão merecer ritos fúnebres cristãos.

Comissário distrital, Björn Blöndal

 

30 de maio de 1829

Rev. T. Jónsson

Breidabólstadur, Vesturhóp

Ao reverendo assistente Thorvardur Jónsson,

Espero que esta carta o encontre bem e com sucesso em sua realização da obra do Senhor em Vesturhóp.

 

Em primeiro lugar, gostaria de lhe transmitir minhas congratulações, embora atrasadas, pela conclusão bem-sucedida de seus estudos no Sul da Islândia. Seus paroquianos dizem que é um jovem diligente, e aprovo sua decisão de retornar ao Norte para começar sua capelania sob a supervisão de seu pai. É para mim considerável alegria saber que restam homens justos dispostos a cumprir com suas obrigações para com o homem e Deus.

 

Em segundo lugar, em minha posição de Comissário Distrital, escrevo para lhe pedir préstimos. Como deve saber, nossa comunidade foi recentemente obscurecida pela sombra do crime. Os assassinatos de Illugastadir, cometidos no ano passado, simbolizaram em sua hediondez a corrupção e a impiedade deste país. Como comissário distrital de Húnavatn, não posso permitir desvios sociais e, após a esperada autorização da Corte Suprema de Copenhague, pretendo executar os assassinos de Illugastadir. É com isso em mente que peço sua ajuda, reverendo assistente Thorvardur.

 

Como se lembra, relatei o caso dos assassinatos em carta enviada ao clero há quase dez meses, com ordens de que sermões de censura fossem feitos. Permita-me repetir o que aconteceu, dessa vez para lhe dar uma compreensão mais ampla do crime.

 

No ano passado, na noite entre os dias 13 e 14 de março, três pessoas cometeram um ato grave e execrável contra dois homens que talvez conheça: Natan Ketilsson e Pétur Jónsson. Pétur e Natan foram encontrados nas ruínas calcinadas na fazenda de Natan, Illugastadir, e um exame atento dos cadáveres revelou ferimentos de natureza intencional. Essa descoberta levou a uma investigação, à qual se seguiu um julgamento. No dia 2 de julho do ano passado, as três pessoas acusadas dos assassinatos - um homem e duas mulheres - foram consideradas culpadas no Tribunal Distrital, presidido por mim mesmo, e condenadas à decapitação: "Aquele que agride um homem de modo que ele morra certamente deve ser condenado à morte". As sentenças de morte foram mantidas em 27 de outubro do ano passado no Tribunal Regional, que se reuniu em Reykjavík. O caso está sendo atualmente julgado na Corte Suprema em Copenhague, e é provável que meu julgamento original também seja mantido ali. O nome do homem condenado é Fridrik Sigurdsson, filho do fazendeiro de Katadalur. As mulheres são criadas, chamadas Sigrídur Gudmundsdóttir e Agnes Magnúsdóttir.

 

Esses condenados estão sendo mantidos atualmente sob custódia aqui no Norte e assim permanecerão até o momento de sua execução. Fridrik Sigurdsson foi levado para Thingeyrar pelo reverendo Jóhann Tómasson, e Sigrídur Gudmundsdóttir foi transferida para Midhóp. Agnes Magnúsdóttir seria mantida em Stóra-Borg até sua execução, mas, por razões que não tenho liberdade para revelar, será transferida para um novo local em Kornsá, no vale de Vatnsdalur, no mês que vem. Ela está insatisfeita com seu atual assistente espiritual, e usou um de seus poucos direitos restantes para solicitar outro padre. Ela o requisitou, reverendo assistente Thorvardur.

 

É com alguma insegurança que o procuro para a tarefa. Estou consciente de que até o momento suas responsabilidades se limitaram à educação espiritual dos membros mais jovens de sua paróquia, o que sem dúvida alguma é valoroso, mas isso tem pouca importância política. Você mesmo pode admitir que tem muito pouca experiência para saber como levar essa mulher condenada ao Senhor e Sua infinita misericórdia, e nesse caso eu não questionaria seu desinteresse. É um peso que eu hesitaria em depositar sobre os ombros de um clérigo experiente.

 

Contudo, caso aceite a responsabilidade de preparar Agnes Magnúsdóttir para seu encontro com nosso Senhor, estará obrigado a visitar Kornsá regularmente quando o tempo o permitir. Deve transmitir a palavra de Deus e inspirar arrependimento e reconhecimento da justiça. Por favor, não permita que lisonjas influenciem sua decisão, nem parentesco, caso haja algum entre você e a condenada. Em todo o caso, reverendo, se não conseguir chegar às suas próprias conclusões, busque as minhas.

 

Vou esperar sua resposta. Por favor, transmita-a a meu mensageiro.

Comissário distrital, Björn Blöndal

 

O reverendo assistente Thorvardur Jónsson estava dentro da pequena casa de fazenda, adjacente à igreja de Breidabólstadur, consertando o braseiro com pedras novas quando ouviu o pai pigarrear no umbral.

 

- Há um mensageiro de Hvammur lá fora, Tóti. Está perguntando por você.

 

- Por mim? - perguntou, surpreso, deixando cair uma pedra. Ela tombou no chão de terra batida, por pouco não acertando seu pé. O reverendo Jón mordeu os lábios incomodado, encolheu a cabeça sob a moldura da porta e tirou Tóti do caminho gentilmente.

 

- Sim, por você. Ele está esperando.

 

O mensageiro era um criado, vestindo um casaco gasto. Olhou demoradamente para Tóti antes de falar.

 

- Reverendo Thorvardur Jónsson?

 

- Sou eu. Saudações. Bem, sou reverendo assistente.

 

O criado deu de ombros.

 

- Tenho uma carta para o senhor do comissário distrital, o honorável Björn Blöndal - disse, tirando uma pequena folha de papel do lado de dentro do casaco e entregando-a a Tóti. - Tenho ordens de esperar enquanto a lê.

 

A carta, guardada em meio às roupas do criado, estava quente e úmida. Tóti rompeu o lacre e, percebendo que havia sido escrita naquele mesmo dia, sentou-se no cepo junto à porta e começou a ler.

 

Quando terminou a carta de Blöndal, ergueu os olhos e percebeu o criado a observá-lo.

 

- E então? - perguntou o criado com uma sobrancelha erguida.

 

- Perdão?

 

- Sua resposta para o comissário distrital? Não tenho o dia todo.

 

- Posso conversar com meu pai?

 

O criado suspirou.

 

- Então vá.

 

Ele encontrou o pai no badstofa, a sala comum, alisando lentamente os cobertores em sua cama.

 

- Sim?

 

- É do comissário distrital - disse Tóti, oferecendo ao pai a carta desdobrada e esperando que a lesse, inseguro quanto ao que fazer.

 

O rosto do pai estava impassível quando dobrou a carta e a devolveu. Não disse nada.

 

- O que devo dizer? - perguntou Tóti finalmente.

 

- A escolha é sua.

 

- Eu não a conheço.

 

- Não.

 

- Ela não é de nossa paróquia?

 

- Não.

 

- Por que ela me escolheu? Sou apenas um reverendo assistente.

 

O pai se virou de novo para a cama.

 

- Talvez você devesse fazer essa pergunta a ela.

 

O criado estava sentado no cepo de partir madeira, limpando as unhas com uma faca.

 

- Bem, qual resposta do reverendo assistente devo dar ao comissário distrital?

 

Tóti respondeu antes de se decidir.

 

- Diga a Blöndal que vou me encontrar com Agnes Magnúsdóttir.

 

O criado arregalou os olhos.

 

- Então é esse o assunto?

 

- Serei o conselheiro espiritual dela.

 

O criado o encarou e deu uma risada repentina.

 

- Bom Deus - murmurou. - Eles escolhem um rato para domar um gato.

 

E com isso montou em seu cavalo e desapareceu atrás das colinas, deixando Tóti em pé, imóvel, segurando a carta afastada do corpo como se estivesse prestes a pegar fogo.

 

Steina Jónsdóttir estava empilhando estrume seco no pátio diante da casa de turfa da família quando ouviu o ligeiro estalido de cascos de cavalo. Esfregando a lama da saia, ela se levantou e olhou pela lateral da pequena cabana para ver melhor a trilha que percorria o vale. Um homem em um lustroso casaco vermelho se aproximava. Ela o viu virar na direção da fazenda e, lutando contra um instante de pânico ao se dar conta de que teria de cumprimentá-lo, contornou a cabana até os fundos, onde cuspiu apressadamente nas mãos para limpá-las e enxugou o nariz na manga. Quando voltou ao pátio, o cavaleiro esperava.

 

- Olá, jovem - disse o homem, baixando os olhos com ar de incerteza para Steina e sua saia suja. - Vejo que a interrompi em suas tarefas.

 

Steina o viu desmontar, passando a perna graciosamente sobre o cavalo. Para um homem grande, ele pisava com leveza.

 

- Sabe quem eu sou? - perguntou, olhando para ela e esperando um brilho de reconhecimento.

 

Steina balançou a cabeça.

 

- Sou o comissário distrital, Björn Audunsson Blöndal - disse, anuindo levemente e ajeitando o casaco que, Steina percebeu, era decorado com botões de prata.

 

- O senhor é de Hvammur - murmurou ela.

 

Blöndal sorriu pacientemente.

 

- Sim. Sou o supervisor de seu pai. Vim falar com ele.

 

- Ele não está em casa.

 

Blöndal franziu o cenho.

 

- E sua mãe, Margrét?

 

- Eles estão visitando pessoas ao sul do vale.

 

- Entendo.

 

Ele olhou para a jovem, que se contorceu e voltou os olhos para os campos, nervosa. Um punhado de sardas no nariz e na testa interrompia o que era, afora isso, uma pele branca. Seus olhos eram castanhos e separados, e os dentes da frente muito espaçados. Havia algo desajeitado nela, Blöndal decidiu. Ele notou grossas crostas de terra sob suas unhas.

 

- O senhor terá de voltar mais tarde - sugeriu Steina finalmente.

 

Blöndal ficou tenso.

 

- Posso pelo menos entrar?

 

- Ah. Se quiser... Pode amarrar seu cavalo ali.

 

Steina mordeu o lábio enquanto Blöndal prendia as rédeas em um poste no pátio, depois se virou e quase correu para dentro.

 

Blöndal a seguiu, curvando-se sob a entrada baixa da cabana.

 

- Seu pai voltará hoje?

 

- Não - foi a resposta seca.

 

- Lastimável! - reclamou Blöndal, tropeçando no corredor escuro enquanto Steina o levava ao badstofa. Ele ficara corpulento desde que fora nomeado comissário distrital e estava acostumado à moradia mais espaçosa dada a ele e à sua família em Hvammur, feita de madeira importada. Os barracos dos camponeses e fazendeiros haviam começado a incomodá-lo com seus aposentos lotados feitos de placas de turfa que liberavam nuvens de poeira no verão, irritando seus pulmões.

 

- Comissário...

 

- Comissário distrital.

 

- Desculpe-me, comissário distrital. Mamãe e papai, quero dizer, Margrét e Jón, voltam amanhã. Ou depois de amanhã. Vai depender do clima - disse Steina, apontando para o canto mais próximo do aposento estreito, onde uma cortina de lã cinza servia de divisória entre o badstofa e uma pequena sala. - Sente-se, caso queira. Vou procurar minha irmã.

 

Lauga Jónsdóttir, irmã mais moça de Steina, estava limpando a pobre horta de vegetais a uma pequena distância da cabana. Curvada e mergulhada na tarefa, não vira o comissário distrital chegar, mas ouviu a irmã chamá-la muito antes que aparecesse.

 

- Lauga! Onde você está? Lauga!

 

Lauga se levantou e limpou as mãos sujas no avental. Não gritou para a irmã, esperando pacientemente até que Steina, correndo e tropeçando na saia comprida, a visse.

 

- Procurei você por toda parte! - gritou Steina, sem fôlego.

 

- O que há de errado com você?

 

- O comissário está aqui!

 

- Quem?

 

- Blöndal!

 

Lauga encarou a irmã.

 

- O comissário distrital Björn Blöndal? Limpe o nariz, Steina, está escorrendo.

 

- Ele está sentado na sala de estar.

 

- Onde?

 

- Você sabe, atrás da cortina.

 

- Você o deixou lá sozinho? - perguntou Lauga, arregalando os olhos.

 

Steina fez uma careta.

 

- Por favor, entre e converse com ele.

 

Lauga olhou feio para a irmã, depois soltou rapidamente o avental sujo e o jogou ao pé do levístico.

 

- Às vezes não consigo entender o que passa pela sua cabeça, Steina - murmurou enquanto andavam rapidamente na direção da cabana. - Deixar um homem como Blöndal brincando com os polegares em nosso badstofa.

 

- Na sala de estar.

 

- Que diferença faz? Imagino que também tenha lhe dado o soro de leite dos criados para beber.

 

Steina virou-se para a irmã com uma expressão de pânico.

 

- Não dei nada a ele.

 

- Steina! - disse Lauga, começando a correr. - Ele vai achar que somos camponeses!

 

Steina viu a irmã abrir caminho por entre os tufos de relva.

 

- Nós somos camponeses - murmurou.

 

Lauga lavou rapidamente o rosto e as mãos e pegou um novo avental de Kristín, a criada da família, que se escondera na cozinha ao ouvir a voz de um estranho. Lauga encontrou o comissário distrital sentado à pequena mesa de madeira na sala, lendo um pedaço de papel. Desculpou-se pela recepção pouco educada da irmã e ofereceu um prato de carneiro frio picado, que ele aceitou alegremente, embora com um ar levemente ofendido. Ela se colocou de lado em silêncio enquanto ele comia, vendo seus lábios carnudos envolverem a carne. Talvez seu pai fosse promovido de oficial distrital para um título ainda superior. Talvez recebesse um uniforme ou um estipêndio da Coroa dinamarquesa. Talvez pudessem ter novos vestidos. Uma nova casa. Mais criados.

 

Blöndal raspou a faca no prato.

 

- Gostaria de um pouco de skyr[1] e creme, comissário distrital? - ofereceu, pegando o prato vazio.

 

Blöndal gesticulou diante do peito como se fosse recusar, então parou.

 

- Sim, por favor. Obrigado.

 

Lauga corou e se virou para pegar o queijo macio.

 

- E não recusaria um café - disse a ela, que enfiava a cabeça do outro lado da cortina.

 

- O que ele quer? - perguntou Steina, encolhida junto ao fogo na cozinha. - Não consigo ouvir nada além de você batendo os pés de um lado para o outro no corredor.

 

Lauga empurrou o prato sujo para ela.

 

- Ainda não disse nada. Quer skyr e café.

 

Steina trocou olhares com Kristín, que olhou para o teto.

 

- Não temos café - disse Steina em voz baixa.

 

- Sim, temos. Vi um pouco na despensa semana passada.

 

Steina hesitou.

 

- Eu... Eu bebi.

 

- Steina! O café não é para nós! Nós o guardamos para ocasiões especiais!

 

- Ocasiões especiais? O comissário nunca nos visita!

 

- Comissário distrital, Steina!

 

- Os empregados logo voltarão de Reykjavík. Então teremos mais.

 

- Isso será depois. O que vamos fazer agora?

 

Exasperada, Lauga empurrou Kristín na direção da despensa.

 

- Skyr e creme! Rápido.

 

- Eu queria saber qual era o gosto - explicou Steina.

 

- Agora é tarde. Em vez disso leve um pouco de leite fresco para ele. Leve tudo quando estiver pronto. Na verdade, não; deixe Kristín. Você parece ter rolado na terra com os cavalos - disse Lauga, lançando um olhar crítico para o estrume na roupa de Steina, depois voltando pelo corredor.

 

Blöndal esperava por ela.

 

- Minha jovem. Acredito que esteja imaginando o que me levou a fazer uma visita à sua família.

 

- Meu nome é Sigurlaug. Ou Lauga, se preferir.

 

- Certo. Sigurlaug.

 

- É algum assunto com meu pai? Ele está...

 

- No Sul, sim, eu sei. Sua irmã me disse, e... Ah, veja, aí está ela.

 

Lauga se virou e viu Steina sair do outro lado da divisória carregando o queijo macio, creme e frutas com uma mão suja, e o leite com outra. Lauga lançou um olhar irritado para a irmã quando Steina acidentalmente arrastou a beirada da cortina sobre o skyr. Felizmente o comissário distrital pareceu não perceber.

 

- Senhor - grunhiu Steina. Ela colocou a tigela e a xícara na mesa diante dele, depois fez uma mesura desajeitada. - Espero que esteja bom.

 

- Obrigado - respondeu Blöndal. Ele avaliou o skyr, depois ergueu os olhos para as duas irmãs e deu um leve sorriso. - Quem é a mais velha?

 

Lauga empurrou Steina em estímulo, mas ela permaneceu calada, olhando boquiaberta para o vermelho brilhante do uniforme do homem.

 

- Sou a mais moça, comissário distrital - disse Lauga finalmente, sorrindo para revelar as covinhas. - Por um ano. Steinvör faz vinte e um este mês.

 

- Todos me chamam de Steina.

 

- Ambas são muito bonitas - disse Blöndal.

 

- Obrigada, senhor - disse Lauga, empurrando Steina novamente.

 

- Obrigada - disse Steina entredentes.

 

- Ambas têm os cabelos claros do pai, embora eu veja que você tem os olhos azuis de sua mãe - ele disse, fazendo um gesto de cabeça para Lauga. Empurrou a tigela intocada na direção dela e pegou o leite. Cheirou-o e o recolocou na mesa.

 

- Por favor, senhor, coma - disse Lauga, fazendo um gesto para a tigela.

 

- Obrigado, mas de repente me sinto saciado - disse Blöndal, enfiando a mão no bolso do casaco. - Bem, eu teria preferido discutir isto com o senhor da casa, mas, como o oficial distrital Jón não está aqui e isto não pode esperar seu retorno, entendo que tenho de contar às filhas dele.

 

Ele sacou sua folha de papel e a desdobrou na mesa para que lessem.

 

- Creio que têm conhecimento dos acontecimentos em Illugastadir no ano passado? - perguntou ele.

 

Steina se encolheu.

 

- Refere-se aos assassinatos?

 

Lauga anuiu, seus olhos azuis arregalados com uma repentina solenidade.

 

- O julgamento aconteceu em sua casa.

 

Blöndal anuiu.

 

- Sim. Os assassinatos do herborista Natan Ketilsson e de Pétur Jónsson. Como essa infeliz e hedionda tragédia aconteceu no distrito de Húnavatn, que como devem saber está sob minha jurisdição, era minha responsabilidade trabalhar com o magistrado e o Tribunal Regional em Reykjavík para chegar a algum acerto relativo às pessoas acusadas.

 

Lauga pegou o papel e caminhou até a janela para ler sob a claridade.

 

- Então está tudo acabado.

 

- Ao contrário. Em outubro, os três acusados foram considerados culpados de assassinato e incêndio criminoso no tribunal deste país. O caso agora seguiu para a Corte Suprema em Copenhague, Dinamarca. - O rei... - disse Blöndal, fazendo uma pausa dramática - ...o próprio rei precisa tomar conhecimento do crime e concordar com minha sentença de execução. Como vocês mesmas podem ler, todos receberam pena capital. É uma vitória para a justiça, estou certo de que concordarão.

 

Lauga anuiu, distante, ainda lendo.

 

- Eles não serão mandados para a Dinamarca?

 

Blöndal sorriu e reclinou na cadeira de madeira, erguendo do chão o calcanhar das botas.

 

- Não.

 

Lauga olhou para ele, confusa.

 

- Então, senhor, desculpe minha ignorância, mas onde eles vão ficar... - disse, a voz murchando.

 

Blöndal devolveu a cadeira à posição e se levantou, colocando-se ao lado dela à janela, ignorando Steina. Olhou através da bexiga de ovelha seca que havia sido esticada para servir como vidro, percebendo uma pequena veia retorcida em sua superfície fosca. Ele estremeceu. A casa dele tinha janelas de vidro.

 

- Eles serão executados aqui - disse ele finalmente. - Na Islândia. No Norte da Islândia, para ser mais preciso. Eu e o magistrado que presidiu em Reykjavík decidimos que seria... - disse e fez uma pausa, refletindo. - Mais econômico.

 

- É mesmo?

 

Blöndal franziu o cenho para Steina, que o olhava desconfiada. Ela esticou a mão e tirou a folha de papel da mão de Lauga.

 

- Sim, embora não negue que a execução seja uma oportunidade para nossa comunidade testemunhar as consequências de delitos graves. Como deve saber, inteligente Sigurlaug, criminosos desse porte normalmente são levados para ser punidos no exterior, onde há cadeias e coisas assim. Como foi decidido que os três serão executados na Islândia, no mesmo distrito onde cometeram o crime, necessitamos de uma espécie de casa de custódia, até que sejam definidos data e local da execução.

 

- Como bem sabem, não temos fábricas nem prédios públicos em Húnavatn que possamos usar para acomodar prisioneiros - disse Blöndal, virando e acomodando-se novamente na cadeira. - Por isso decidi que eles devem ser colocados em fazendas, na casa de cristãos honrados que lhes inspirem arrependimento pelo bom exemplo e que possam se beneficiar do trabalho desses prisioneiros enquanto aguardam o julgamento.

 

Blöndal se inclinou sobre a mesa na direção de Steina, que olhava para ele, uma das mãos sobre a boca e a outra agarrando a carta.

 

- Islandeses capazes de cumprir seus deveres como funcionários do governo fornecendo essa acomodação.

 

Lauga olhou perturbada para o comissário distrital.

 

- Eles não podem ser colocados em propriedades de Reykjavík? - ela sussurrou.

 

- Não. Há custos - disse, fazendo um gesto de mão no ar.

 

Steina apertou os olhos.

 

- O senhor vai colocá-los aqui? Conosco? Por que o tribunal em Reykjavík quer evitar o custo de mandá-los ao exterior?

 

- Steina! - alertou Lauga.

 

- Sua família será compensada - disse Blöndal, franzindo o cenho.

 

- O que devemos fazer? Acorrentá-los ao pé das camas?

 

Blöndal ergueu-se lentamente, empertigando-se.

 

- Não tenho escolha - ele disse, a voz de repente baixa e amedrontadora. - O título de seu pai implica certas responsabilidades. Estou certo de que ele não me questionaria. Kornsá tem muito poucas mãos para trabalhar nela, e há a questão do estado financeiro de sua família.

 

Ele se aproximou de Steina, baixando os olhos para seu pequeno rosto sujo sob a luz fraca.

 

- Ademais, Steinvör, não farei você e sua família sofrer abrigando a todos os três condenados. É apenas uma das mulheres - disse, colocando a mão pesada sobre seu ombro e ignorando o modo como ela se encolheu. - Você não está com medo de outra mulher, está?

 

Depois que Blöndal partiu, Steina retornou à sala e pegou a tigela de skyr não consumido. O creme solidificara na beirada. Ela tremeu de frustração e raiva e apertou a tigela com força na mesa, mordendo o lábio inferior. Gritou em silêncio, desejando que a tigela se quebrasse, até a onda de raiva passar. Então voltou à cozinha.

 

Há momentos em que penso se já não estou morta. Isto não é vida; esperar na escuridão, no silêncio, em um lugar tão imundo que esqueci o cheiro do ar fresco. O urinol está de tal maneira cheio de meus excrementos que ameaça transbordar caso alguém não venha e o esvazie logo.

 

Quando eles vieram pela última vez? Tudo agora é uma longa noite.

 

No inverno era melhor. No inverno, as pessoas em Stóra-Borg estavam tão presas quanto eu; todos dividíamos o badstofa quando a neve açoitava o campo. Eles tinham lamparinas para as horas de vigília, e, quando o óleo terminava, velas para afastar a escuridão. Então a primavera chegou, e eles me transferiram para o depósito. Eles me deixaram sem luz, e não havia como contar as horas, como diferenciar o dia da noite. Agora só tenho a companhia dos grilhões em meus pulsos, do chão de terra, um tear desmontado abandonado no canto e uma velha roca de fiar.

 

Talvez já seja verão. Posso ouvir os passos dos criados pelo corredor, o rangido de uma porta enquanto eles vão de um lado para o outro. Algumas vezes ouço o riso alto e agudo de criadas conversando do lado de fora e sei que o clima melhorou, que o vento perdeu força. Fecho os olhos e imagino o vale durante os longos dias de verão, o sol aquecendo os ossos da terra até os cisnes se reunirem no lago, e as nuvens se dissipando para revelar o céu lá no alto: brilhante, azul brilhante, tão brilhante que você poderia chorar.

 

Três dias após Björn Blöndal ter visitado as filhas de Kornsá, o pai delas, oficial distrital de Vatnsdalur, Jón Jónsson, e sua esposa Margrét retornaram para casa.

 

Jón, um homem musculoso ligeiramente curvado de cinquenta e cinco invernos, com cabelos louro-neve e grandes orelhas que o faziam parecer pouco inteligente, caminhava à frente do cavalo deles, conduzindo-o pelas rédeas e passando pelo terreno irregular com experiência e habilidade. Sua esposa, montada na égua preta, sentia-se cansada da viagem, embora nunca fosse admitir isso. Estava sentada com o queixo ligeiramente levantado, a cabeça sustentada por um pescoço fino e trêmulo. Seus olhos pesados se moviam de fazenda em fazenda enquanto passavam pelas pequenas propriedades do vale de Vatnsdalur, fechando-os apenas quando tinha acessos de tosse. Quando terminavam, ela se curvava sobre o cavalo para cuspir, depois limpava a boca com a ponta do xale, murmurando uma breve prece. O marido, quando ela fazia isso, eventualmente inclinava a cabeça em sua direção, parecendo preocupado que ela pudesse cair do cavalo, mas afora isso eles continuavam a viajar sem interrupções.

 

Margrét, exausta com outra tosse arrasadora, cuspiu na grama e pressionou a palma das mãos sobre o peito até recuperar o fôlego. Quando falou, sua voz era rouca.

 

- Olhe agora, Jón, o pessoal de Ás tem outra vaca.

 

- Ahn? - reagiu o marido, perdido em pensamentos.

 

- Eu disse que o pessoal de Ás tem outra vaca - observou Margrét, pigarreando.

 

- É mesmo?

 

- Fico surpresa que você não tenha notado.

 

- Certo.

 

Margrét piscou sob a luz poeirenta e percebeu a forma indefinida da cabana de Kornsá a distância.

 

- Quase em casa.

 

O marido concordou com um resmungo.

 

- Isso faz pensar, não é, Jón? Poderíamos ter outra vaca.

 

- Poderíamos ter muitas coisas mais.

 

- Mas outra vaca seria bom. Manteiga extra. Poderíamos ter outro ajudante para a colheita.

 

- Na hora certa, Margrét, meu amor.

 

- Na hora certa eu estarei morta.

 

As palavras soaram mais amargas do que ela pretendia. Jón não respondeu; apenas murmurou para o cavalo deles, estimulando-o a avançar, e Margrét franziu o cenho para as costas do chapéu de montaria dele, esperando que se virasse. Quando ele continuou a avançar, respirou fundo e novamente olhou para Kornsá.

 

Era final de tarde, e a luz diminuía sobre os campos de feno, apagada do céu por nuvens baixas que se formavam a leste. Trechos com neve velha na cordilheira pareciam alternadamente cinzentos e foscos e, quando as nuvens se deslocavam, chocantemente brancos. Pássaros de verão disparavam sobre os campos de feno para apanhar os insetos que zumbiam acima deles, e os balidos queixosos das ovelhas podiam ser ouvidos enquanto garotos as conduziam vale abaixo na direção das propriedades.

 

Em Kornsá, Lauga e Steina saíram da cabana para pegar água no córrego das montanhas, Lauga esfregando os olhos ao sol e Steina distraidamente balançando o balde ao lado do corpo no ritmo dos passos. Elas não diziam nada.

 

As duas irmãs haviam trabalhado durante os últimos dias em silêncio completo, só se dirigindo uma à outra para pedir a pá ou perguntar qual barril de bacalhau salgado devia ser aberto primeiro. O silêncio, que começara após uma discussão que se seguiu à visita do comissário distrital, enchia o ar de raiva e ansiedade. O esforço de falar o mínimo possível uma com a outra esgotara as duas. Lauga, frustrada com a teimosia e a falta de jeito da irmã mais velha, não conseguia deixar de pensar no que os pais iriam dizer sobre a visita de Blöndal. A reação antipática de Steina à notícia dada por Blöndal poderia afetar a posição social da família. Björn Blöndal era um homem poderoso e não toleraria ser desafiado por uma adolescente. Steina não sabia o quanto sua família dependia de Blöndal? Que eles estariam apenas cumprindo o seu dever?

 

Steina tentava não pensar na assassina. O crime a deixara nauseada, e lembrar o modo rude como o comissário empurrara a criminosa para elas fazia sua garganta travar de fúria. Lauga era a mais jovem; não seria ela a lhe dizer o que devia ou não fazer. Como poderia saber os caminhos das gentilezas sociais que a pessoa era obrigada a cumprir para com homens gordos de casaco vermelho? Não. Era melhor nem pensar nisso.

 

Steina deixou que o peso do balde puxasse seu ombro para baixo e deu um grande bocejo. Ao seu lado, Lauga não conseguiu evitar bocejar também, e por um breve instante seus olhos se encontraram e uma consciência de fadiga compartilhada se passou entre elas, até o lembrete seco de Lauga para cobrir a boca fez Steina olhar para o chão com raiva.

 

Os fachos suaves da luz da tarde aqueciam o rosto de ambas enquanto seguiam na direção do riacho. Não havia vento, e o vale estava tão parado que as duas jovens involuntariamente começaram a andar mais devagar. Estavam quase chegando à projeção rochosa que cercava o córrego quando Lauga, virando-se para puxar a saia que prendera em um arbusto espinhoso, notou um cavalo a distância.

 

- Ah! - engasgou.

 

Steina virou-se.

 

- O que é agora?

 

Lauga fez um gesto de cabeça na direção do cavalo.

 

- Mamãe e papai - disse, sem fôlego. - Eles voltaram.

 

Ela apertou os olhos para ver através da luz enevoada sobre os campos.

 

- Sim, são eles - disse, como para si mesma. Repentinamente agitada, Lauga empurrou seu balde para Steina e acenou para que continuasse a avançar na direção do riacho. - Encha os dois. Você dá conta dos dois, não? Será melhor se eu... Eu vou. Para acender o fogo.

 

Ela empurrou Steina pelo ombro com mais força do que pretendia, depois deu meia-volta.

 

Os arbustos ao longo da trilha se agarravam às meias de Lauga enquanto ela voltava apressada para a cabana, tomada de alívio. Agora papai poderia lidar com Agnes Magnúsdóttir e o comissário distrital.

 

Abrindo a porta da casa da fazenda, Lauga percorreu o corredor escuro e virou à esquerda para a cozinha. Kristín, na ausência da senhora, tirara a tarde para visitar a família, mas o braseiro ainda soltava fumaça do fogo da manhã. Lauga o encheu rapidamente com esterco seco, com tanta pressa que quase sufocou as chamas, que se ergueram. Como seu pai iria reagir à notícia da visita do comissário distrital? Quanto tempo Agnes seria mantida em Kornsá? Ela nem sequer tinha a carta que ele lhes mostrara; Steina a jogara no fogo durante a discussão.

 

Ainda assim, pensou Lauga, colocando uma panela no gancho acima das chamas, tão logo papai soubesse, assumiria o comando.

 

Ela mexeu no braseiro para que o ar pudesse entrar por baixo e, depois, passou rapidamente pelo corredor e enfiou a cabeça para fora da porta. Outro surto de pânico percorreu sua coluna. O que ele iria fazer? Ela recuou a cabeça e foi à despensa ver o que poderia reunir para uma sopa. Só restava um pouco de cevada. Eles ainda esperavam que os ajudantes voltassem dos comerciantes do Sul.

 

Lauga passou pelo umbral, quase tropeçando no degrau, e entrou no depósito para pegar um pouco de cordeiro. Não fazia sentido cortar cordeiro defumado naquela época do ano, porém restavam uma ou duas fatias de chouriço do inverno, muito azedas, mas boas.

 

Vamos comer juntos no badstofa e eu contarei a eles, Lauga decidiu. Ela ouviu o som dos cascos do cavalo na terra do pátio do lado de fora.

 

- Komið þið sæl! - disse Lauga saindo da cabana, espanando o pó de esterco das mãos e rapidamente recolocando os cabelos sob a touca. - Bom vê-los de volta em segurança.

 

Jón, seu pai, fez o cavalo parar e sorriu para ela sob o chapéu de montaria. Ergueu a mão nua em saudação e avançou para dar um beijo rápido e formal na filha.

 

- Pequena Lauga. Como se saiu? - perguntou, virando-se para o cavalo de modo a descarregar alguns pacotes presos no dorso.

 

- Olá, mamãe.

 

Margrét lançou um olhar rápido e caloroso para Lauga, embora seus lábios mal se movessem.

 

- Olá, Sigurlaug - disse.

 

- A senhora parece bem.

 

- Ainda estou viva - retrucou.

 

- Está cansada?

 

Margrét ignorou a pergunta e deslizou desajeitadamente em direção ao chão. Lauga abraçou a mãe de maneira contida, depois passou a mão sobre o focinho da égua e sentiu as narinas tremendo, o hálito quente e úmido na palma.

 

- Onde está sua irmã?

 

Lauga olhou para a projeção onde ficava o córrego, mas não conseguiu ver movimento.

 

- Pegando água para o jantar.

 

Margrét ergueu as sobrancelhas.

 

- Achei que ela estaria aqui para nos receber.

 

Lauga virou-se novamente para o pai, que colocava no chão os pequenos pacotes da sela. Respirou fundo.

 

- Papai, há uma coisa que tenho de lhe contar depois.

 

Ele começou a soltar a corda dura da égua.

 

- Uma morte?

 

- Como?

 

- Perdemos algum animal?

 

- Ah. Ah, não, nada assim - respondeu, acrescentando depois: - Graças ao Senhor.

 

Ela se aproximou do pai e falou em voz baixa:

 

- Preciso lhe contar isso a sós.

 

A mãe a ouviu.

 

- O que você tem a dizer pode ser dito a nós dois, Lauga.

 

- Não quero perturbá-la, mamãe.

 

- Ah, eu estou sempre perturbada - disse Margrét, de repente sorrindo. - É o resultado de ter de cuidar de filhos e criados.

 

Depois, dizendo ao marido para ter o cuidado de não depositar os pacotes restantes nas poças, Margrét pegou alguns dos embrulhos e foi para dentro, seguida por Lauga.

 

Jón havia entrado no badstofa e se acomodado junto à esposa quando Lauga trouxe as tigelas de sopa.

 

- Achei que uma refeição quente poderia ser reconfortante - disse ela.

 

Jón olhou para Lauga, que estava em pé diante dele, segurando a bandeja.

 

- Posso trocar de roupa primeiro?

 

Lauga hesitou e, colocando a bandeja na cama ao lado da mãe, ajoelhou-se e começou a tirar as botas de Jón.

 

- Há algo que tenho de contar a ambos.

 

- Onde está Kristín? - perguntou Margrét secamente, enquanto Jón reclinava sobre os cotovelos e deixava a filha tirar a meia molhada de seu pé.

 

- Steina deu a ela meio dia de folga - respondeu Lauga.

 

- E onde está Steina?

 

- Ah, não sei. Em algum lugar por aí - disse Lauga, sentindo o estômago revirar de pânico, consciente do escrutínio dos pais.

 

- Papai, o comissário distrital Blöndal fez uma visita quando estavam fora - sussurrou.

 

Jón sentou-se e baixou os olhos para a filha.

 

- O comissário distrital? - repetiu.

 

Margrét cerrou os punhos.

 

- O que ele queria? - perguntou.

 

- Ele tinha uma carta para você, papai.

 

Margrét olhou para Lauga.

 

- Por que ele não mandou um criado? Tem certeza de que era Blöndal?

 

- Mamãe, por favor!

 

Jón estava em silêncio.

 

- Onde está a carta? - perguntou.

 

Lauga arrancou a bota do outro pé e a deixou cair no chão. Lama desgrudou do couro.

 

- Steina a queimou.

 

- Por quê? Deus do céu!

 

- Mamãe! Está tudo bem. Eu sei o que dizia. Papai, fomos obrigados a...

 

- Papai! - soou a voz de Steina no corredor. - Você não pode adivinhar quem teremos de trancar em nossa casa!

 

- Trancar? - perguntou Margrét, virando-se para questionar a filha mais velha, que acabara de entrar no aposento. - Ah, Steina, você está encharcada.

 

Steina baixou os olhos para o avental encharcado e deu de ombros.

 

- Eu derrubei os baldes e tive de voltar e enchê-los novamente. Papai, Blöndal nos obrigará a ficar com Agnes Magnúsdóttir em nossa casa!

 

- Agnes Magnúsdóttir? - perguntou Margrét, virando-se para Lauga, horrorizada.

 

- Sim, a assassina, mamãe! - exclamou Steina, desamarrando o avental molhado e jogando-o na cama ao lado. - A que matou Natan Ketilsson!

 

- Steina! Eu estava prestes a explicar a papai...

 

- E Pétur Jónsson, mamãe.

 

- Steina!

 

- Ah, Lauga, só porque você queria contar a eles.

 

- Você não devia interromper...

 

- Garotas! - exclamou Jón levantando-se, os braços esticados. - Chega. Comece do começo, Lauga. O que aconteceu?

 

Lauga respirou fundo e contou aos pais tudo de que se lembrava da visita do comissário distrital, o rosto ficando afogueado enquanto repetia o que recordava ter lido na carta.

 

Antes que tivesse terminado, Jón se levantou e começou a se vestir novamente.

 

- Nós certamente não seremos obrigados a fazer isso!

 

Margrét puxou a manga do marido, mas Jón se soltou, recusando-se a olhar para o rosto perturbado da esposa.

 

- Jón - sussurrou Margrét. Ela olhou para as filhas, sentadas com as mãos no colo, observando os pais em silêncio.

 

Jón calçou as botas novamente, dando os laços no tornozelo. O couro rangeu quando ele apertou.

 

- Está muito tarde, Jón - disse Margrét. - Você vai a Hvammur? Eles estarão dormindo.

 

- Então os acordarei - disse, pegando o chapéu de montaria no prego, tomando a esposa pelos ombros e gentilmente tirando-a do caminho. Deu adeus às filhas com um gesto de cabeça, saiu a passos largos do aposento, desceu o corredor e fechou a porta atrás de si.

 

- O que vamos fazer, mamãe? - veio a voz pequena de Lauga de um canto escuro do aposento.

 

Margrét fechou os olhos e respirou fundo.

 

Jón voltou a Kornsá algumas horas depois. Kristín, que voltara tarde da folga e recebera uma áspera censura de Margrét, olhava feio para Steina. Margrét parou seu tricô e estava pensando se deveria ou não promover as pazes entre as garotas quando ouviu a porta da cabana abrir com um rangido e o som dos passos pesados do marido no corredor.

 

Jón entrou e imediatamente olhou para a esposa. Ela trincou os dentes.

 

- Está tudo bem? - inquiriu Margrét, levando o marido para a cama.

 

Jón se atrapalhou com os laços das botas.

 

- Por favor, papai - disse Lauga, ajoelhando-se. - O que Blöndal disse? Ela ainda virá para cá? - perguntou, jogando-se para trás enquanto arrancava as botas dele.

 

Jón confirmou.

 

- É como Steina disse. Agnes Magnúsdóttir será transferida de sua detenção em Stóra-Borg e trazida para nós.

 

- Mas por quê, papai? O que fizemos de errado? - perguntou Lauga em voz baixa.

 

- Não fizemos nada errado. Sou um oficial distrital. Ela não pode ser colocada com qualquer família. Ela é responsabilidade das autoridades, e eu sou uma delas.

 

- Há muitas autoridades em Stóra-Borg - disse Margrét em tom amargo.

 

- Ainda assim ela será transferida. Houve um incidente.

 

- O que aconteceu? - perguntou Lauga.

 

Jón baixou os olhos para o rosto suave da filha mais nova.

 

- Tenho certeza de que não é nada com que se preocupar.

 

Margrét deu um breve sorriso.

 

- E vamos simplesmente aceitar isso? Ser tratados como um cachorro? - reagiu, a voz tornando-se um sibilo. - Essa Agnes é uma assassina, Jón! Temos nossas meninas, nossos trabalhadores. Mesmo Kristín! Somos responsáveis por outras pessoas!

 

Jón dirigiu um olhar significativo para a esposa.

 

- Blöndal pretende nos compensar, Margrét. Há uma remuneração pela custódia dela.

 

Margrét parou e olhou para ele. Quando falou, a voz era contida.

 

- Talvez devêssemos mandar as meninas embora.

 

- Não, mamãe! Não quero ir embora! - gritou Steina.

 

- Seria para sua própria segurança.

 

Jón pigarreou.

 

- As meninas ficarão bastante seguras com você, Margrét - disse, suspirando. - Há outra coisa. Björn Blöndal pediu minha presença em Hvammur na noite em que a mulher chega aqui.

 

Margrét abriu a boca, desalentada.

 

- Você quer que eu a receba?

 

- Papai, você não pode deixar mamãe sozinha com ela! - gritou Lauga.

 

- Ela não estará sozinha. Todas vocês estarão aqui. Haverá oficiais de Stóra-Borg. E um reverendo. Blöndal organizou isso.

 

- E o que há de tão importante em Hvammur que Blöndal o quer lá exatamente na noite em que vai enfiar uma criminosa em nossa casa?

 

- Margrét...

 

- Não, eu insisto. Isso é injusto!

 

- Vamos discutir quem será o carrasco.

 

- Carrasco!

 

- Todos os oficiais distritais estarão presentes, incluindo os de Vatnsnes, que viajarão com os cavaleiros de Stóra-Borg. Passaremos a noite lá e voltaremos no dia seguinte.

 

- E nesse meio-tempo sou deixada sozinha com a mulher que matou Natan Ketilsson?

 

Jón olhou calmamente para a esposa.

 

- Você terá suas filhas.

 

Margrét abriu a boca como se fosse dizer mais alguma coisa, mas mudou de ideia. Olhou duro para o marido, pegou seu tricô e começou a trabalhar furiosamente com as agulhas.

 

Steina observou a mãe e o pai sob o cenho franzido e pegou seu jantar, sentindo náuseas. Segurou a tigela de madeira com as mãos e olhou para os nacos de cordeiro nadando no caldo gorduroso. Pegando a colher lentamente, levou um bocado aos lábios e começou a mastigar, a língua encontrando um pedaço de cartilagem dentro da carne. Ela lutou contra o instinto de cuspir e a esmagou com os dentes, engolindo silenciosamente.

 

Após decidirem que tenho de partir, os homens de Stóra-Borg amarram algumas vezes minhas pernas juntas à noite, como fazem com as patas dianteiras de cavalos, para garantir que não fujam. Parece que cada dia que passa eu me torno um animal para eles, outra fera de olhos embotados a ser alimentada com o que puder ser misturado, e a ser mantida ao abrigo do clima. Eles me deixam no escuro, me negam luz e ar, e quando preciso ser deslocada, me amarram e levam para onde querem.

 

Eles nunca falam comigo. No inverno no badstofa, eu podia ouvir minha própria respiração, e temia engolir por medo de que o aposento inteiro escutasse. Os únicos sons que faziam companhia ao meu corpo eram o virar das páginas da Bíblia e sussurros. Eu percebia meu nome nos lábios dos outros e sabia que não era em bênção. Agora, quando são forçados por lei a ler as palavras de algum decreto, falam por cima de mim, como se dirigindo a alguém atrás de meu ombro. Eles se recusam a me olhar nos olhos.

 

Você, Agnes Magnúsdóttir, foi considerada culpada de cumplicidade em assassinato. Você, Agnes Magnúsdóttir, foi considerada culpada de incêndio criminoso e conspiração de assassinato. Você, Agnes Magnúsdóttir, foi sentenciada à morte. Você, Agnes. Agnes.

 

Eles não me conhecem.

 

Eu permaneço em silêncio. Estou determinada a me fechar para o mundo, apertar o coração e me aferrar ao que ainda não foi tomado de mim. Não posso me permitir sumir. Vou manter o que sou por dentro e manter as mãos apertadas em todas as coisas que vi, ouvi e senti. Os poemas compostos enquanto eu lavava, ceifava e cozinhava até minhas mãos estarem em carne viva. As sagas que conheço de cor. Afundo tudo o que me resta e vou para debaixo d'água. Se eu falar, as palavras sairão como bolhas de ar. Eles não conseguirão ficar com minhas palavras. Eles verão a prostituta, a louca, a assassina, a fêmea pingando sangue na grama e rindo com a boca cheia de terra. Eles dirão "Agnes" e verão a aranha, a bruxa apanhada na teia de sua própria trama fatal. Poderão ver o carneiro cercado por corvos, balindo por uma mãe perdida. Mas não me verão. Eu não estarei lá.

 

O reverendo Thorvardur Jónsson suspirou ao deixar a igreja e penetrar o frio ar úmido da tarde. Pouco mais de um mês se passara desde que aceitara a oferta de Blöndal de visitar a mulher condenada, e por todo esse tempo questionara sua decisão. A cada manhã ele se sentia perturbado, como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo. Mesmo em sua caminhada diária até a pequena igreja de Breidabólstadur para rezar e se sentar no silêncio, seu estômago revirava e o corpo tremia, como se exausto pela incerteza de sua mente. Não era diferente naquele dia. O tempo que permaneceu sentado no banco duro, olhando para as mãos, viu-se desejando estar doente, gravemente doente, para ser dispensado e não ter de cavalgar até Kornsá. A relutância e a disposição de sacrificar sua abençoada saúde o horrorizavam.

 

Agora é tarde demais, pensou consigo mesmo enquanto caminhava pelo deplorável jardim do cemitério da igreja. Você deu sua palavra ao homem e a Deus, e não há como voltar atrás.

 

Quando sua mãe era viva, o cemitério da igreja era cheio de plantinhas que davam botões roxos nas beiradas dos túmulos no verão. Ela dizia que os mortos faziam as flores balançar para receber os fiéis depois do inverno. Mas quando ela morreu, seu pai arrancara as flores silvestres, e os túmulos haviam ficado nus desde então.

 

A porta da cabana de Breidabólstadur estava entreaberta. Quando Tóti entrou, o calor pesado da cozinha e o cheiro da gordura derretendo na vela no corredor o deixaram enjoado.

 

O pai dele estava curvado sobre a panela fervente, testando algo com uma faca.

 

- Tenho de partir agora, acho - anunciou Tóti.

 

O pai ergueu os olhos do peixe fervendo e anuiu.

 

- Esperam minha chegada no começo da noite para conhecer a família de Kornsá e estar presente quando... Bem, quando a criminosa chegar.

 

O pai franziu o cenho.

 

- Então vá, filho.

 

Tóti hesitou.

 

- Acha que estou pronto?

 

O reverendo Jón suspirou e ergueu a panela de seu gancho acima do carvão.

 

- Você conhece seu próprio coração.

 

- Estava rezando na igreja. Fico pensando no que mamãe teria achado de tudo isso.

 

O pai de Tóti piscou lentamente e desviou os olhos.

 

- O que o senhor acha, pai?

 

- Um homem deve manter sua palavra.

 

- Mas será que é a decisão certa? Eu... Eu não quero descontentá-lo.

 

- Você deveria buscar contentar o Senhor - murmurou o reverendo Jón, tentando pegar o peixe na água quente com a faca.

 

- Vai rezar por mim, pai?

 

Tóti esperou uma resposta, mas não recebeu nenhuma. Talvez ele se ache mais preparado para encontrar assassinas, Tóti pensou. Talvez esteja com inveja por ela ter me escolhido. Ele observou o pai lamber um fragmento de peixe que grudara na lâmina. Ela escolheu a mim, repetiu para si mesmo.

 

- Não me acorde quando voltar - disse o reverendo Jón, enquanto o filho se virava e deixava o aposento.

 

Tóti deslizou uma sela sobre o cavalo e montou.

 

- Então é isso - sussurrou. Apertou os joelhos suavemente para fazer o cavalo avançar e olhou para a cabana. Uma fina espiral de fumaça vinda da cozinha dissipava-se na brisa suave da tarde.

 

Viajando por entre o mato alto do vale que cercava a igreja, o reverendo assistente tentou pensar no que deveria dizer. Deveria ser gentil e simpático, ou rígido e impenetrável, como Blöndal? Enquanto cavalgava, ensaiou vários tons de voz, bem como diferentes cumprimentos. Talvez fosse melhor esperar até ver a mulher. De súbito, um pequeno arrepio percorreu seu corpo. Ela era apenas uma criada, mas era uma assassina. Havia matado dois homens. Abatera-os como animais. Ele disse a palavra para si mesmo silenciosamente. Assassina. Morðingi. Escorregou por sua boca como leite.

 

Enquanto atravessava a península norte com sua fina faixa de oceano no horizonte, as nuvens começaram a se abrir, e a suave luz vermelha do sol de fim de junho banhou a passagem. Gotas de água cintilaram no chão, e as colinas pareciam rosadas e calmas, com sombras movendo-se lentamente através delas à medida que as nuvens se deslocavam. Pequenos insetos abriam caminho pelo ar, acesos como partículas de poeira ao passar pelos raios de sol, e o cheiro doce e úmido de capim, quase pronto para ser colhido, pairava no ar frio dos vales. O forte temor que Tóti sentira até então cobrindo seu estômago deixou-o em paz quando mergulhou na silenciosa contemplação da paisagem.

 

Somos todos filhos de Deus, pensou. Essa mulher é minha irmã em Jesus, e eu, como seu irmão espiritual, devo guiá-la para casa. Ele sorriu e levou seu cavalo a um tölt.

 

- Vou salvá-la - sussurrou.

 

3 de maio de 1828

Undirfell, Vatnsdalur

A condenada Agnes Magnúsdóttir nasceu em Flaga, na paróquia de Undirfell, em 1795. Foi crismada em 1809 e, nessa idade, registrada como tendo "um excelente intelecto e forte conhecimento e compreensão do cristianismo".

Isso é o que está anotado no livro de registros de Undirfell.

  1. Bjarnason

 

Eles me tiraram do aposento e me amarraram a ferros novamente. Dessa vez enviaram um funcionário do tribunal, um jovem com pele marcada de varíola e um sorriso nervoso. É um criado de Hvammur, reconheci o rosto dele. Quando os lábios se abriram, pude ver que os dentes apodreciam na boca. Seu hálito é medonho, mas não pior do que o meu; sei que estou fedendo. Estou coberta de terra e do choro acumulado em meu corpo: sangue, suor, gordura. Não consigo lembrar quando me lavei pela última vez. Meus cabelos parecem uma corda engordurada; tentei mantê-los trançados, mas eles não me permitem fitas, e imagino que ao funcionário eu pareça uma criatura monstruosa. Talvez por isso tenha sorrido.

 

Ele me tirou daquele lugar medonho, e outros homens se juntaram a nós enquanto me conduzia pelo corredor escuro. Estavam em silêncio, mas eu os sentia atrás de mim; sentia seus olhares como se fossem apertos frios em meu pescoço. Então, após meses reclusa em um aposento tendo como companhia apenas o meu próprio hálito fétido e o fedor do urinol, fui levada pelos corredores de Stóra-Borg até o pátio enlameado. E chovia.

 

Como posso descrever a sensação de respirar novamente? Eu me senti recém-nascida. Cambaleei à luz do mundo e respirei fundo o ar marinho fresco. Era tarde: a boca molhada da tarde estava toda em meu rosto. Minha alma floresceu naquele breve momento em que eles me levavam para fora. Eu caí, a saia na lama, e virei o rosto para cima como em prece. Poderia ter chorado pelo alívio da luz.

 

Um homem estendeu a mão e me puxou do chão como quem arranca um cardo que enraizou no lugar errado. Foi então que notei a multidão reunida. Inicialmente não sabia por que aquelas pessoas estavam ali, homens e mulheres, criados e crianças da vizinhança, todas imóveis e olhando em silêncio. Depois entendi que não era para mim que elas olhavam. Entendi que aquelas pessoas não me viam. Eu era dois homens mortos. Era uma fazenda em chamas. Era uma faca. Eu era sangue.

 

Não sabia o que fazer diante daquelas pessoas. Então vi Rósa, olhando a distância, agarrando a mão da filhinha. Foi um alívio ver alguém conhecido e eu sorri. Mas o sorriso caiu mal. Libertou a fúria da multidão. Os rostos das criadas ficaram distorcidos, e o silêncio foi rompido por um repentino e breve grito agudo de uma criança: Fjandi! Demônio! A palavra reverberou no ar como a explosão de água de um gêiser. O sorriso sumiu do meu rosto.

 

Ao som do insulto, a multidão pareceu despertar. Alguém deu um riso nervoso, e a criança foi silenciada e levada embora por uma mulher mais velha. Todos voltaram para dentro de casa ou para suas obrigações, até que eu ficasse só com os oficiais no chuvisco, em pé, as meias duras de suor seco, o coração queimando sob a pele imunda. Quando olhei novamente, Rósa havia desaparecido.

 

Agora estamos cavalgando pelo norte da Islândia, cruzando esta ilha negra que se banha em suas águas, soturna em seu oceano. Caçando nossas sombras através das montanhas.

 

Eles me amarraram à sela como um cadáver sendo levado ao local do enterro. Aos seus olhos, eu já sou uma mulher morta, destinada ao túmulo. Meus braços estão presos à frente do corpo. Enquanto seguimos nesse desfile medonho, os ferros apertam minha pele até ela escurecer diante de meus olhos. Agora passei a esperar agressão. Alguns dos vigias de Stóra-Borg envolveram meu corpo com pequenas violências, fizeram a crônica de seu ódio a mim, uma marca aqui, hematomas desabrochando como aglomerados de estrelas sob a pele, fumaça preta e amarela presa sob a membrana. Imagino que alguns deles tenham conhecido Natan.

 

Mas agora eles me levam para o leste, e, embora esteja amarrada como uma ovelha conduzida ao matadouro, sou grata por retornar aos vales onde pedras dão lugar a grama, mesmo que seja para morrer.

 

Enquanto os cavalos se embrenham pelo mato, fico pensando em quando vão me matar. Fico imaginando onde vão me guardar, estocar como manteiga, como carne defumada. Como um cadáver, esperando que o solo descongele antes que possam me colocar dentro da terra como uma pedra.

 

Eles não me contam essas coisas. Em vez disso, me colocam grilhões de ferro e andam comigo, e como uma vaca eu vou para onde sou levada, e não há como reagir, ou é a faca. É a corda e um triste fim. Abaixo a cabeça, vou para onde me levam e espero que não seja a cova - não ainda.

 

As moscas são ruins. Elas rastejam pelo meu rosto e entram em meus olhos, e sinto as cócegas de suas pernas e asas. É o suor que as atrai. Esses ferros são pesados demais para que eu as afaste. Foram feitos para um homem, embora apertem com bastante força a minha pele.

 

É um alívio ter movimento, ter o calor de um cavalo sob minhas pernas: sentir a vida em algo que não está tão frio. Eu quase congelei por tanto tempo que é como se o inverno tivesse feito moradia em minha medula. Aqueles dias intermináveis de interiores escuros e olhares de ódio seriam capazes de produzir uma camada de gelo nos ossos de qualquer um. Então, sim, é melhor estar do lado de fora. Mesmo com o ar infestado de moscas é melhor ir para algum lugar do que apodrecer lentamente em um aposento como um corpo em um caixão.

 

Além do zumbido dos insetos e do ritmo dos passos dos cavalos, ouço um rugido distante. Talvez seja o oceano - o ribombar constante de ondas quebrando na areia de Thingeyrar. Ou talvez eu esteja imaginando coisas. O mar entra na cabeça da gente. Como Natan costumava dizer, assim que você o deixa entrar, ele não o deixa só. - Como uma mulher - ele disse. O mar é uma megera.

 

Foi naquela primeira primavera em Illugastadir. A luz chegara como uma caça, olhos arregalados e tremendo. O mar estava impassível - Natan empurrou o barco sobre sua tez prateada, enfiou os remos nas laterais.

 

- Quieto como um cemitério - ele dissera sorrindo, os braços inchando com o peso da água. Eu ouvi o ranger de madeira e o praguejar sussurrado dos remos estapeando a superfície do lago. - Seja boa quando eu tiver partido.

 

Não pense nele.

 

Há quanto tempo estamos cavalgando? Uma hora? Duas? O tempo escorrega como óleo. Mas não pode ter sido mais do que duas horas. Eu conheço a região. Sei que estamos indo para o sul, talvez na direção de Vatnsdalur. Estranho como meu coração agarra minhas costelas em um instante. Quanto tempo se passou desde que vi pela última vez essa região do país? Alguns anos? Mais? Nada mudou.

 

Isso é o mais perto de casa que jamais estarei.

 

Estamos passando pelas montanhas estranhas na boca do vale, e ouço o crocitar dos corvos. Suas formas escuras parecem presságios destacados contra o azul brilhante do céu. Durante todas aquelas noites em Stóra-Borg, naquela cama escura infeliz, imaginei estar do lado de fora, alimentando os corvos em Flaga. Pássaros cruéis, os corvos, mas sábios. As criaturas deviam ser amadas por sua sabedoria se não podem ser amadas pela gentileza. Quando criança, observava os corvos reunindo-se no telhado da igreja de Undirfell, tentando descobrir quem ia morrer. Eu sentava no muro, esperando que um deles soltasse suas penas, esperando para ver em qual direção o bico se virava. Aconteceu uma vez. Um corvo se acomodou no frontão de madeira e apontou o bico na direção de Bakki, e um garotinho se afogou naquela semana, o corpo inchado e cinzento encontrado tempos depois rio abaixo. O corvo sabia.

 

Sigga não sabia de pesadelos e fantasmas. Certa noite, tricotando juntas em Illugastadir, ouvimos vir do mar o guincho de um corvo que nos deu arrepios. Disse a ela para nunca chamar nem alimentar um corvo à noite. - Pássaros crocitando no escuro são espíritos - disse -, e eles o matam assim que olham para você. - Eu a assustei, tenho certeza, ou ela não teria dito as coisas que disse depois.

 

Fico pensando em onde Sigga poderia estar agora. Por que eles se recusaram a deixá-la comigo em Stóra-Borg. Eles a levaram embora certa manhã quando eu estava presa a ferros, sem me contar onde ela era mantida, embora eu tenha perguntado mais de uma vez. - Longe de você, e isso é suficiente - disseram.

 

- Agnes Magnúsdóttir!

 

O homem cavalgando ao meu lado tinha uma expressão dura no rosto.

 

- Agnes Magnúsdóttir. Eu a estou informando de que será mantida em Kornsá até o momento de sua execução - disse, lendo algo, os olhos baixando para as luvas. - Como criminosa condenada pelo tribunal desta região, você perdeu seu direito à liberdade.

 

Ele dobra o pedaço de papel e o enfia na luva.

 

- Melhor tirar essa expressão de raiva do rosto. São pessoas gentis em Kornsá.

 

Aqui, homem. Eis aqui seu sorriso. É um bom sorriso? Você vê meus lábios esticando? Vê meus dentes?

 

Ele passa pela minha égua, e as costas da camisa dele estão encharcadas de suor. Eles fizeram isso de propósito? Entre tantos lugares, escolheram Kornsá.

 

Ontem, quando eu estava no depósito escuro de Stóra-Borg, Kornsá teria parecido o céu. Um lugar da infância, o rio, a grama brilhante, os montes de turfa suando água na primavera. Mas agora vejo que será uma humilhação. As pessoas no vale me reconhecerão. Elas se lembrarão de como eu era - quando bebê, quando criança, como mulher correndo de uma fazenda para outra - e então pensarão nos assassinatos, e aquela criança, aquela mulher, será esquecida. Não suporto olhar para mim. Olho para a crina do cavalo, para os piolhos se arrastando pela crina, e não sei se são da égua ou meus.

 

O reverendo Tóti se curvou no umbral baixo e apertou os olhos para o tom rosado do sol da meia-noite. Podia ver, no ponto mais baixo do campo norte da fazenda, uma tropa de cavalos se aproximando. Procurou a mulher entre os cavaleiros. Contra o mar de feno dourado que as cercava, as figuras pareciam pequenas e escuras.

 

Margrét passou pela porta e ficou em pé atrás dele.

 

- Espero que deixem alguns homens para trás, para garantir que ela não nos mate enquanto dormimos.

 

Tóti se virou e olhou para o rosto duro de Margrét. Ela também apertava os olhos para ver os cavaleiros, e a testa estava marcada por rugas. Os cabelos grisalhos haviam sido presos em duas tranças firmes e enroladas, e ela usava sua melhor touca preta. Tóti percebeu que tirara o avental sujo com o qual o recebera mais cedo naquela noite.

 

- Suas filhas vão se juntar a nós aqui fora?

 

- Estão cansadas demais para ficar em pé. Eu as mandei para a cama. Não vejo por que a criminosa tem de ser trazida no meio da noite.

 

- Imagino que para evitar perturbar seus vizinhos - observou o reverendo com tato.

 

Margrét mordeu o lábio inferior, e um rubor se espalhou pelas bochechas.

 

- Não gosto de partilhar minha casa com os filhos do Diabo - ela disse, a voz tornando-se quase um sussurro. - Reverendo Tóti, devemos deixar claro que não queremos a companhia dela. Que a mulher seja transferida para uma ilha se não quiserem mantê-la em Stóra-Borg.

 

- Todos temos de cumprir nossas obrigações - murmurou Tóti, observando a tropa virar e seguir na direção do campo da família. Ele pegou um chifre de rapé no bolso do peito e tomou uma pitada. Colocando-o com cuidado na depressão ao lado do nó do polegar esquerdo, ele curvou a cabeça e fungou.

 

Margrét tossiu e cuspiu.

 

- Mesmo que isso signifique que estamos presos como porcos na noite, reverendo Tóti? O senhor é homem, um homem jovem, sim, mas um homem de Deus. Não acho que ela o mataria. Mas nós? Minhas filhas? Senhor, como vamos dormir em paz?

 

- Eles deixarão um oficial com vocês - murmurou Tóti, voltando sua atenção para um cavaleiro destacado que agora corria na direção deles.

 

- Eles precisam. Do contrário eu a levarei pessoalmente de volta a Stóra-Borg.

 

Margrét retorceu as mãos sobre a barriga e voltou o olhar para um bando de corvos voando silenciosamente sobre a cordilheira de Vatnsdalsfjall. Pareciam cinzas negras rodopiando no céu.

 

- É um homem de tradições, reverendo Tóti? - perguntou Margrét.

 

Tóti virou-se para ela, pensando na pergunta.

 

- Se elas forem nobres e cristãs.

 

Margrét apertou os lábios.

 

- Sabe o nome certo para um bando de corvos?

 

Tóti balançou a cabeça.

 

- Uma conspiração, reverendo. Uma conspiração - disse, erguendo uma sobrancelha, desafiando-o a discordar.

 

Tóti viu os corvos pousando nos beirais do estábulo.

 

- É mesmo, senhora Margrét. Pensei que podiam ser chamados de crueldade.

 

Antes que Margrét tivesse tempo para responder, o cavaleiro que corria até eles chegou ao limite do campo.

 

- Komið þið sæl og blessuð - gritou.

 

- Drottin blessi yður. E que o Senhor o abençoe - responderam em uníssono. Margrét e Tóti esperaram o homem desmontar antes de se aproximar dele. Trocaram beijos formais habituais. O homem estava encharcado de suor e cheirava fortemente a cavalo.

 

- Ela está aqui - disse sem fôlego. - Acredito que a achará cansada da viagem. Não creio que dará problemas - disse, fazendo uma pausa para tirar o chapéu e correr a mão pelos cabelos suados.

 

Margrét bufou.

 

O homem deu um sorriso frio.

 

- Recebemos ordens de ficar aqui esta noite para garantir isso. Vamos nos instalar no campo.

 

Margrét anuiu solenemente.

 

- Desde que não destruam a relva. Querem um pouco de leite? Soro e água?

 

- Obrigado - respondeu o homem. - Nós a reembolsaremos por sua gentileza.

 

- Não é necessário - disse Margrét apertando os lábios. - Apenas garanta que a vadia fique longe das facas na minha cozinha.

 

O homem deu uma risada e se virou para acompanhar Margrét até a casa de turfa. Tóti agarrou o braço dele ao passar.

 

- A prisioneira pediu que eu falasse com ela. Onde está?

 

O homem apontou para o cavalo mais distante da cabana.

 

- É aquela com a boca azeda. A criada mais jovem permaneceu em Midhóp. Dizem que está esperando o resultado de uma apelação.

 

- Uma apelação? Achei que elas estavam condenadas...

 

- Muita gente em Vatnsnes tem esperança de que Sigga receba o perdão do rei. Jovem e doce demais para morrer - disse o homem, fazendo uma careta. - Não é como esta. Ela fica temperamental quando quer.

 

- Ela está esperando uma apelação?

 

O homem riu.

 

- Não acho que tenha chances. Blöndal está atrás da mais moça. Dizem que ela o faz lembrar da esposa. Esta... Bem, Blöndal quer que sirva de exemplo.

 

Tóti olhou para os cavalos reunidos no limite do campo. Os homens haviam começado a desmontar e a cuidar de suas coisas. Só uma figura permanecia montada. Ele se inclinou mais perto do homem.

 

- Ela tem um nome? Como devo chamá-la?

 

- Apenas Agnes - interrompeu o homem. - Ela atende por Agnes.

 

Chegamos. Os homens de Stóra-Borg estão desmontando a pouca distância da casa torta de Kornsá. Há duas figuras em pé fora da cabana, uma mulher e um homem, e o cavaleiro que anunciou o confisco de meus direitos está caminhando até eles. Ninguém vem soltar meus ferros. Talvez tenham se esquecido de mim. A mulher inclina a cabeça para voltar para dentro, tossindo e cuspindo como uma bruxa, mas o homem fica para falar com o oficial de Stóra-Borg.

 

À minha esquerda ouço risos - dois oficiais estão urinando no chão. Posso sentir o cheiro no ar quente. Como de hábito, ninguém percebeu que não comi nem tomei um gole de água o dia todo; meus lábios estão rachados como lenha de fogo. A mesma sensação de quando era pequena e tinha fome, como se meus ossos estivessem aumentando dentro do corpo, como se meu esqueleto estivesse prestes a se livrar de mim. Parei de sangrar. Não sou mais uma mulher.

 

Um dos homens caminha em minha direção, dando longos passos rápidos sobre o campo. Não olhe para ele.

 

- Olá, Agnes. Meu... Meu nome é reverendo Thorvardur Jónsson. Sou o reverendo assistente de Breidabólstadur, em Vesturhóp. - Ele está sem fôlego.

 

Não erga os olhos. É ele. A mesma voz.

 

Ele tosse, depois se curva, como para me beijar seguindo o costume, mas hesita, recuando e quase tropeçando em uma touceira de capim. Ele certamente sente o cheiro de urina seca em minhas meias.

 

- Você me chamou? - pergunta, com incerteza na voz.

 

Ergo os olhos.

 

Ele não me reconhece. Não sei se fico aliviada ou desapontada. Os cabelos dele são tão vermelhos quanto antes, vermelhos como o sol da meia-noite. É como se seus cachos tivessem absorvido a luz tal qual um novelo de lã absorve a tinta. Mas seu rosto está mais velho. E ele emagreceu.

 

- Você me chamou? - pergunta novamente.

 

Quando o olho nos olhos, ele desvia o olhar, depois limpa o suor do lábio superior com nervosismo, deixando uma trilha de pontos escuros. Rapé? Ele não quer estar aqui.

 

Minha língua incha na boca e não consegue se movimentar para formar palavras. De qualquer forma, o que eu lhe diria, agora que cheguei a este ponto? Brinco com as escaras em meus pulsos onde os ferros feriram a pele, e o sangue sobe à superfície. Ele percebe.

 

- Bem. Eu preciso... Estou contente de conhecê-la, mas... Está tarde. Você deve estar... Ahn, voltarei em breve.

 

Ele se curva desajeitado, vira-se e parte, tropeçando na pressa. Sai antes que eu possa dizer que compreendo. Esfrego o sangue fresco sobre meu braço enquanto o vejo cambalear até seu cavalo.

 

Agora estou sozinha. Observo os corvos e ouço os cavalos pastarem.

 

Assim que os homens de Stóra-Borg comeram e se recolheram às suas barracas para dormir, Margrét pegou as tigelas de madeira sujas e voltou para dentro. Alisou os cobertores sobre as filhas adormecidas e caminhou lentamente pelo pequeno aposento, curvando-se para pegar os tufos de grama seca que haviam caído das placas dispostas entre as vigas. Ela ficava desesperada com a poeira no aposento. Um dia as paredes haviam sido revestidas de madeira norueguesa, mas Jón havia retirado as tábuas para pagar uma dívida com um fazendeiro do outro lado do vale. Agora as paredes feitas de forragem derrubavam terra e grama sobre as camas no verão e ficavam encharcadas no inverno, produzindo um mofo que se alastrava pelos cobertores de lã e infestava os pulmões dos moradores. No ano anterior, dois criados haviam morrido de doenças causadas pela umidade.

 

Margrét pensou em sua própria tosse e instintivamente levou a mão à boca. Desde a novidade levada pelo comissário distrital seus pulmões haviam produzido putrefação com regularidade crescente. Toda manhã ela se levantava com um peso no peito. Margrét não sabia dizer se era medo da chegada da criminosa ou o refugo que se acumulara nos pulmões durante a noite, mas o peso a fazia pensar no túmulo. Está tudo desmoronando por dentro, pensou.

 

Um dos oficiais fora pegar Agnes onde a haviam deixado amarrada com os cavalos. Margrét só tivera um vislumbre distante da mulher quando saíra dos aposentos escuros da fazenda para levar o jantar dos homens - uma leve mancha azul, uma saia borrada sendo tirada de um cavalo. Agora seu coração batia forte. Logo a assassina estaria diante dela. Veria o rosto da mulher, sentiria seu calor no espaço apertado. O que fazer? Como se comportar diante de tal mulher?

 

Se ao menos Jón estivesse aqui, pensou. Ele poderia me dizer o que lhe falar. É necessário um homem, um bom homem, para saber lidar com uma mulher que fez sua cama entre pedras.

 

Margrét sentou e ficou brincando distraída com a grama em sua mão. Ela lidara com os criados que haviam passado pela casa do marido por quase quatro décadas, por outras tantas fazendas, porém agora se sentia sem vigor, tomada pela incerteza e apreensão. Aquela mulher, aquela Agnes, não era uma criada, certamente não uma convidada, tampouco uma indigente. Ela não merecia caridade, mas ainda assim estava condenada a morrer. Margrét estremeceu. A luz da lamparina projetava sua sombra sobre as tábuas do piso.

 

Passos abafados soaram à porta. Margrét se levantou rapidamente, os pedaços de grama caindo no chão quando ela abriu os punhos cerrados. A voz do oficial ribombou na escuridão do corredor:

 

- Senhora Margrét de Kornsá? Estou com a prisioneira. Podemos entrar?

 

Margrét respirou fundo e se empertigou.

 

- Por aqui! - ordenou.

 

O oficial entrou na frente no badstofa, abrindo um largo sorriso para Margrét, que estava em pé, rígida, as mãos agarradas ao tecido do avental. Olhou para onde suas filhas dormiam e sentiu o sangue latejar na garganta.

 

Houve um momento de silêncio enquanto o oficial piscava para acostumar os olhos à luz fraca, e então, de repente, ele puxou a mulher para o quarto.

 

Margrét não estava preparada para a sujeira e o estado lamentável da mulher. A criminosa trajava o que parecia ser o vestido de trabalho comum de uma criada, de lã tecida grosseiramente, porém tão sujo e enlameado que o tingimento azul original mal podia ser visto sob a gordura escura que se espalhava por colarinho e braços. Um torrão grosso de lama seca afastava o tecido desajeitadamente do corpo da mulher. Margrét não via nenhuma muda de roupa, e a mulher não tinha um avental. As meias azul-escuras estavam encharcadas, caídas nos tornozelos, uma delas rasgada, expondo um pedaço de pele branca. Os sapatos, aparentemente de pele de foca, haviam se partido na costura, mas tão cobertos de lama que era impossível ver quão danificados estavam. Os cabelos não eram cobertos por touca e estavam emaranhados de gordura. Pendiam em duas tranças escuras às costas. Vários cachos haviam se soltado e caíam sem firmeza sobre o pescoço da mulher. A Margrét ela parecia ter sido arrastada desde Stóra-Borg. O rosto da mulher estava oculto; ela olhava para o chão.

 

- Olhe para mim.

 

Agnes levantou a cabeça lentamente. Margrét se encolheu com a mancha de sangue seco sobre a boca da mulher e a sujeira entranhada em faixas sobre a testa. Havia uma contusão amarelada que ia do queixo até o lado do pescoço. Os olhos de Agnes passaram do piso para os de Margrét, e ela ficou assombrada com a intensidade deles, sua cor tornada mais clara e distinta pela sujeira no rosto. Margrét virou-se para o oficial.

 

- Esta mulher foi agredida.

 

O oficial buscou deleite no rosto de Margrét e, não encontrando nenhum, baixou os olhos.

 

- Onde estão as coisas dela?

 

- Apenas as roupas que veste - disse o oficial. - Os meirinhos tomaram o que ela tinha para pagar suas provisões.

 

Revigorada por um súbito surto de raiva, Margrét apontou para os ferros nos pulsos da mulher.

 

- É necessário mantê-la presa como uma ovelha pronta para o abate? - perguntou a ele.

 

O oficial deu de ombros e procurou uma chave. Com alguns giros hábeis, ele libertou Agnes das algemas. Os braços dela caíram ao lado do corpo.

 

- Você pode ir agora - Margrét disse ao oficial. - Um de vocês poderá entrar quando eu me recolher para dormir, mas quero um tempo a sós com ela.

 

O oficial arregalou os olhos.

 

- Tem certeza? Não é seguro.

 

- Como disse, eu o avisarei quando me recolher. Pode esperar do lado de fora da porta, e chamarei caso seja necessário.

 

O oficial hesitou, depois aquiesceu e saiu com um cumprimento. Margrét voltou-se para Agnes, que estava em pé, imóvel, no centro do aposento.

 

- Siga-me - disse.

 

Margrét não queria tocar na mulher, mas a falta de luz do lado de dentro a obrigou a agarrar o braço de Agnes de modo a levá-la ao lugar certo. Ela podia sentir os ossos em seu punho, sangue seco sob a ponta dos dedos. A mulher cheirava a urina azeda.

 

- Por aqui - disse Margrét, entrando lentamente na cozinha, curvando a cabeça sob o umbral baixo.

 

A cozinha era iluminada pelas brasas do fogo que morriam no braseiro elevado de pedra e por um pequeno buraco no teto de palha que servia de chaminé. Ele lançava uma fraca luz rosada sobre o piso de terra batida e iluminava a fumaça que pairava no aposento. Margrét conduziu Agnes para dentro, depois virou-se e encarou-a.

 

- Tire suas roupas. Você precisa de um banho se vai dormir nos meus cobertores. Não quero que infeste esta casa com mais carrapatos além dos que já vivem neste lugar.

 

O rosto de Agnes estava impassível.

 

- Onde está a água? - grunhiu ela.

 

Margrét hesitou, depois se virou para uma grande chaleira sobre o carvão. Tirou a louça que havia sido deixada de molho e depois a colocou no chão.

 

- Ali - disse. - E está quente. Agora rápido, já passa da meia-noite.

 

Agnes olhou para a chaleira e, de repente, jogou-se no chão. A princípio Margrét pensou que tivesse desmaiado, mas percebeu o equívoco rapidamente. Agnes curvava a cabeça acima da beirada da chaleira e levava água gordurosa à boca com as mãos, engasgando e bebendo com a mesma urgência de um animal em um cocho. Água escorria por queixo e pescoço, pingando nas dobras rígidas de seu vestido. Sem pensar, Margrét se curvou e afastou a testa de Agnes da chaleira.

 

A mulher caiu sobre os cotovelos e soltou um grito, a água gorgolejando em sua boca. O coração de Margrét deu um pulo com o som. Os olhos de Agnes estavam semicerrados, a boca estava aberta. Ela parecia aquelas pessoas que Margrét vira perdendo a cabeça pela bebida, ou pelo medo ou pela dor que se instala quando a morte se abate pesadamente em uma casa.

 

Agnes gemeu e esfregou as costas da mão sobre a boca, depois sobre o vestido. Ela se levantou do chão e tentou ficar em pé.

 

- Estou com sede.

 

Margrét anuiu, o coração ainda acelerado no peito. Engoliu em seco.

 

- Da próxima vez peça um copo - disse.

 

Quando o reverendo Tóti voltou à cabana de seu pai perto da igreja de Breidabólstadur, estava encharcado de suor. Havia cavalgado vigorosamente desde Kornsá, enfiando os calcanhares nos flancos do cavalo enquanto o vento batia em seu rosto deixando suas bochechas afogueadas.

 

Diminuindo o ritmo, guiou seu animal atarracado, espuma pingando da boca, até um degrau perto da entrada da cabana. Desmontou com as pernas trêmulas. O vento aumentara, e, enquanto penetrava na malha apertada de suas roupas, ele sentiu a pele encharcada de suor ficar fria e começar a coçar. Tinha o maxilar trincado. As mãos tremiam enquanto prendia as rédeas no degrau.

 

Nuvens pesadas haviam chegado do mar, e a luz sumia rapidamente, apesar de não ter se passado muito tempo desde o solstício de verão. Tóti ergueu mais seu colarinho molhado junto ao pescoço e enfiou o chapéu com firmeza na cabeça. Dando um tapinha nas ancas do cavalo, começou a subir a pequena rampa até a igreja. Ele se sentia como um trapo molhado torcido e deixado estendido a secar no chão. Aqueles dias do Norte, com seus dedos de luz resistentes, o crepúsculo constante, o perturbavam. Ele não conseguia adivinhar a hora do dia como fazia na escola no Sul.

 

Começou a chover, e o vento ficou mais forte. Ele açoitava o capim alto, colando-o no chão antes de jogá-lo para cima novamente. O capim parecia prateado à luz fraca.

 

Tóti subiu a colina a passos largos, estendendo os músculos ao caminhar, pensando em seu encontro com a mulher. A mulher. A criminosa. Agnes.

 

Ele inicialmente percebera como, amarrada à sela, ela esticara as pernas sobre o cavalo para não escorregar. Depois sentira seu cheiro; a pungência de um corpo negligenciado, de roupas sujas e suor fresco, sangue seco e algo mais que vinha daquelas pernas abertas. Um fedor específico das mulheres. Ele corou ao pensar.

 

Mas não fora seu cheiro que o enojara. Ela parecia um cadáver novo, recém-retirado da cova. Cabelos negros desgrenhados e ensebados, e a terra marrom acinzentada cobrindo os poros da pele. Cores leprosas.

 

Ele quisera dar as costas, fugir ao vê-la. Como um covarde.

 

Encolhido para se proteger da chuva e do vento, Tóti censurou-se internamente. Que tipo de homem é você se quer correr à visão de carne ferida? Que tipo de padre você será se não puder suportar a aparência de sofrimento?

 

Havia sido um hematoma particularmente vívido sobre o queixo que mais o perturbara. Uma cor amarela madura, como gema de ovo seca. Tóti ficou pensando na força que o teria produzido. A mão grossa de um homem, agarrando-a pela garganta. Uma corda prendendo-a a travas. Uma queda.

 

Havia muitas formas pelas quais uma pessoa podia se ferir, Tóti pensou. Ele chegou ao cemitério e se atrapalhou com o portão.

 

Poderia ter sido um acidente. Ela poderia ter se ferido sozinha.

 

O reverendo desceu apressado o passeio de pedra até a igreja, tentando não olhar para os túmulos escuros e suas cruzes de madeira. Tirando do bolso uma chave simples, ele entrou. Ficou aliviado ao fechar a porta de madeira e deixar do lado de fora o uivo baixo do vento. Do lado de dentro, tudo estava completamente imóvel. O único som era o tamborilar leve da chuva na única janela da igreja, um buraco coberto com pele de peixe.

 

Tóti tirou o chapéu e passou a mão pelos cabelos. As tábuas do piso rangeram quando ele caminhou até o púlpito. Ficou parado um momento, apertando os olhos para o mural pintado atrás do altar. A última ceia.

 

O mural era feio: uma mesa enorme com um Jesus acocorado. Judas, nas sombras, parecia um anão, cômico. O artista era filho de um comerciante local que tinha uma esposa dinamarquesa e ligações no governo. Certo domingo, após a cerimônia, Tóti ouvira o comerciante conversar com o reverendo Jón, reclamando da tinta descascada do mural anterior. O comerciante mencionara o filho, o talento artístico que garantira ao garoto uma bolsa em Copenhague. Se o reverendo Jón permitisse que ele expressasse sua singular devoção à paróquia, ficaria contente de comprar todo o material necessário e doar o trabalho do filho sem que a igreja tivesse nenhuma despesa. Naturalmente, o pai de Tóti, sendo um homem com preocupações econômicas, permitira que a velha pintura fosse coberta.

 

Tóti sentia falta dela. Era uma bela ilustração do Velho Testamento de Jacó lutando com o anjo, o rosto do homem enfiado no ombro do anjo, seu punho cheio de penas sagradas.

 

Tóti suspirou e colocou-se de joelhos lentamente. Pousou o chapéu no chão, levando as mãos ao peito com força, e começou a rezar em voz alta.

 

- Ó, Pai Celestial, perdoe meus pecados. Perdoe minha fraqueza e meu medo. Ajude-me a combater minha covardia. Fortaleça minha capacidade de suportar a visão do sofrimento, para que possa fazer Sua obra e dar alívio aos que padecem.

 

- Senhor, rezo pela alma dessa mulher que cometeu um terrível pecado. Por favor, me dê palavras para que consiga inspirá-la a se arrepender.

 

- Confesso ter medo. Não sei o que dizer a ela. Não me sinto à vontade, Senhor. Por favor, proteja meu coração do... Do horror que essa mulher me inspira.

 

Tóti permaneceu de joelhos por algum tempo. Somente a ideia de seu cavalo em pé arreado na chuva e no vento o levou a finalmente se levantar e trancar a porta da igreja atrás de si.

 

Margrét acordou cedo no dia seguinte. O oficial que dormira na cama oposta para protegê-la da criminosa estava roncando. A respiração gargarejada penetrara em seus sonhos e a despertara.

 

Margrét se virou na cama na direção da parede e enfiou as pontas do cobertor nas orelhas, mas o ronco entrecortado do homem enchia sua cabeça. Ela perdera o sono. Ficou deitada de costas e olhou para onde o oficial estava, do outro lado do quarto escuro. Os cabelos louros descuidados projetavam-se em cachos ensebados, e a boca estava aberta sobre o travesseiro. Margrét notou espinhas no maxilar do homem.

 

Então é assim que eles me protegem de uma assassina, pensou. Mandam um garoto que dorme pesado.

 

Ela olhou para a prisioneira, deitada em uma das camas reservadas aos criados no final do aposento. A mulher estava imóvel, adormecida. Suas filhas também dormiam. Margrét se apoiou nos cotovelos para ver melhor.

 

Agnes.

 

Margrét pronunciou a palavra em silêncio.

 

Parece errado chamá-la pelo nome cristão, Margrét pensou. Como eles a teriam chamado em Stóra-Borg? Prisioneira? Acusada? Condenada? Talvez fosse pela ausência de um nome, o silêncio onde deveria haver um nome, que eles a convocassem.

 

Margrét estremeceu e ajeitou o cobertor. Os olhos de Agnes estavam fechados, assim como a boca. A touca que Margrét lhe dera soltara-se durante a noite, e os cabelos escuros caíam livres, cobrindo o travesseiro como uma mancha.

 

Estranho finalmente ver a mulher após um mês de espera, Margrét pensou. Também um mês de medo. Um medo esticado, como uma linha de pesca, enganchado em algo que inevitavelmente teria de ser arrastado das profundezas.

 

Nos dias e noites depois de Jón ter retornado de sua reunião com Blöndal, Margrét tentara imaginar como se comportaria com a assassina e qual seria sua aparência.

 

Que tipo de mulher mata homens?

 

As únicas assassinas que Margrét conhecera eram as mulheres das sagas, e mesmo então era apenas com palavras que haviam matado homens; ordens dadas a criados para assassinar amantes ou vingar a morte de um parente. Aquelas mulheres matavam a distância e mantinham as mãos limpas.

 

Mas estes não eram tempos de saga, Margrét pensara. Esta mulher não é a personagem de uma saga. Ela é uma criada sem terras que cresceu em um mingau de musgo e pobreza.

 

Deitada de costas na cama, Margrét pensou em Hjördis, sua criada preferida, agora morta e enterrada no cemitério de Undirfell. Tentou imaginar Hjördis como assassina. Tentou imaginar Hjördis esfaqueando-a durante o sono, assim como Natan Ketilsson e Pétur Jónsson haviam sido mortos. Aqueles dedos esguios fechados com força sobre uma empunhadura, os passos silenciosos na noite.

 

Era impossível.

 

Lauga perguntara a Margrét se achava que haveria um indício exterior do mal que leva uma pessoa ao assassinato. Uma evidência da maldade: um lábio leporino, um dente desalinhado, uma marca de nascença, algum pequeno defeito externo. Devia haver um alerta, algum modo de descobrir, para que as pessoas honestas pudessem ficar de guarda. Margrét dissera que não, achava tudo isso superstição, mas Lauga não se convencera.

 

Em vez disso, Margrét pensava se a mulher seria bonita. Ela sabia, como todo mundo no Norte, que Natan Ketilsson tinha talento para descobrir a beleza. As pessoas o consideravam um feiticeiro.

 

A vizinha de Margrét, Ingibjörg, ouvira que fora Agnes que levara Natan a encerrar seu caso com Poet-Rósa. Elas se perguntavam se isso significava que a criada seria mais bonita que ela. Para Margrét, não era tão difícil acreditar que uma mulher bonita fosse capaz de assassinar. Como é dito nas sagas, Opt er flagð í fögru skinni. Uma bruxa muitas vezes tem pele clara.

 

Mas aquela mulher não era nem feia nem bela. Talvez impressionante, porém não do tipo que provoca olhares de cobiça dos moços. Era muito magra, magra como um elfo, como diriam os sulistas, e com altura mediana. Na cozinha, na noite anterior, Margrét achara o rosto da mulher bastante comprido, notara os malares altos e o nariz reto. Afora os hematomas, sua pele era clara, ainda mais realçada pelos cabelos escuros. Cabelos incomuns. Raro uma mulher ter cabelos assim por ali, pensou Margrét. Tão compridos, tão escuros: um marrom-escuro, quase preto.

 

Margrét levou as cobertas ao queixo enquanto os roncos do oficial continuavam sem parar. Parecia que uma avalanche se aproximava, pensou, aborrecida. Ela se sentia cansada, e seu peito estava pesado de muco.

 

Imagens da mulher se sobrepunham atrás das pálpebras fechadas de Margrét. O modo animal como Agnes bebera a água da chaleira. Sua incapacidade de se despir sozinha. As mãos atrapalhando-se com os laços; os dedos estavam inchados e não se dobravam. Margrét fora obrigada a ajudá-la, usando a ponta dos dedos para esmagar a lama do vestido de modo que os laços pudessem ser soltos. No interior da pequena cozinha, por mais enfumaçada que fosse, o fedor das roupas e do corpo azedo de Agnes havia sido suficiente para dar ânsia de vômito em Margrét. Ela prendera a respiração enquanto tirava a lã fétida da pele de Agnes, e virara a cabeça quando o vestido escorregou dos ombros magros e caiu no chão, levantando nuvens de lama seca.

 

Margrét se lembrou das omoplatas de Agnes. Afiadas, elas se projetavam do tecido grosseiro de suas roupas de baixo, amareladas no colarinho e com uma mancha de sujeira marrom sob as axilas.

 

Margrét teria de queimar todas as roupas da mulher antes do café da manhã. Ela as deixara em um canto da cozinha na noite anterior, não querendo levá-las para o badstofa. Pulgas se arrastavam pela trama.

 

De algum modo, ela conseguira lavar a maior parte da sujeira e da terra do corpo da criminosa. Agnes tentara se lavar sozinha, passando o trapo encharcado pelos membros fracamente, mas a sujeira tinha tanto tempo em sua pele que parecera ter se cravado nos poros. No final, Margrét, arregaçando as mangas e trincando os dentes, arrancara dela os trapos e a esfregara até o tecido ficar preto. Enquanto a lavava, Margrét havia - contra a vontade - procurado os sinais que Lauga achava que seriam evidentes, um sinal da assassina. Apenas os olhos da mulher davam algum indício. Pareciam diferentes, pensou Margrét. Muito azuis e cristalinos, mas um tanto claros demais para ser considerados bonitos.

 

O corpo da mulher era um campo de agressões. Mesmo Margrét, acostumada a ferimentos, aos males causados por trabalho duro e acidentes, ficara chocada.

 

Talvez tivesse esfregado a pele de Agnes com força demais, pensou Margrét, e enfiou a cabeça sob o travesseiro em um esforço de apagar o ronco intermitente do oficial. Alguns dos ferimentos da mulher se abriram e purgaram. A visão de sangue fresco dera a Margrét uma satisfação secreta.

 

Ela também fizera Agnes molhar os cabelos. A água da chaleira estava cheia demais de lama e espuma, então Margrét pedira que um oficial pegasse mais no córrego da montanha. Enquanto esperavam, ela cobrira os ferimentos da mulher com um unguento de enxofre e banha.

 

- Esse é o remédio do próprio Natan Ketilsson - dissera ela, olhando para ver a reação da mulher. Agnes não dissera nada, mas Margrét achou ter visto os músculos do pescoço dela se contraindo.

 

- Deus tenha piedade de sua alma - murmurara.

 

Com os cabelos de Agnes lavados o melhor possível na água gelada e a maior parte dos ferimentos abertos coberta com banha, Margrét lhe dera a roupa de baixo e de cama de Hjördis. Ao morrer, Hjördis vestia os trajes de baixo com os quais Agnes agora dormia. Margrét suspeitava que não fazia diferença se restasse algum ácaro contagioso. Sua nova dona também logo estaria morta.

 

Estranho imaginar que em pouco tempo a mulher que dormia em uma cama a menos de três metros dela estaria debaixo da terra.

 

Margrét suspirou e voltou a sentar-se na cama. Agnes ainda não se movera. O oficial roncava. Margrét o viu levar uma mão à virilha e coçá-la sonoramente. Desviou os olhos, divertida e um pouco incomodada por aquele homem ser sua única proteção.

 

Ela pensou que poderia muito bem se levantar e começar a preparar algo para o café da manhã dos oficiais. Talvez skyr. Ou peixe seco. Ficou pensando se teriam manteiga suficiente para desperdiçar e quando os criados voltariam de Reykjavík com suprimentos.

 

Depois de soltar o gorro noturno, Margrét deu uma última espiada na mulher adormecida.

 

Seu coração foi parar na boca. No canto escuro do badstofa, Agnes estava deitada de lado, observando Margrét calmamente.

 

Foi dito sobre o crime que Fridrik Sigurdsson, com a ajuda de Agnes Magnúsdóttir e Sigrídur Gudmundsdóttir, entrou na casa de Natan Ketilsson perto da meia-noite e esfaqueou e levou à morte Natan e Pétur Jónsson, que era um convidado lá, com uma faca e um martelo. Depois, por causa dos cortes e da sujeira nos corpos, que eram evidentes, queimou-os incendiando a fazenda de modo que seu trabalho malévolo não ficasse evidente. Fridrik cometeu essa maldade por ódio a Natan e desejo de roubar. O assassinato acabou revelado. O comissário distrital desconfiou e, quando os corpos parcialmente incinerados foram encontrados, concluiu que aqueles três formavam uma gangue.

 

Dos julgamentos da Corte Suprema de 1829.

 

Eu não sonhei no depósito de Stóra-Borg. Encolhida sobre as placas de madeira, tendo um couro de cavalo mofado para me aquecer, o sono chegava a mim como uma fina corrente de água. Batia em meu corpo, mas nunca me submergia no esquecimento. Havia algo para me despertar - sons de passos, ou o urinol raspando no chão quando uma criada entrava para esvaziá-lo, o fedor intoxicante de urina. Algumas vezes, se ficasse deitada imóvel com os olhos bem fechados e expulsasse todos os pensamentos da cabeça, o sono retornava. Minha mente entrava e saía da consciência, até que a menor luz penetrasse no aposento e os criados me jogassem um pedaço de peixe seco. Acho que não dormi de verdade desde o incêndio e, talvez, a falta de sono seja uma punição de Deus. Ou mesmo de Blöndal: meus sonhos tomados junto com meus bens para pagar minha custódia.

 

Mas na noite passada, aqui em Kornsá, sonhei com Natan. Ele estava fervendo ervas para um remédio, e eu o observava e passava as mãos sobre a parede de turfa da oficina. Era verão, e a luz tinha um tom rosa. As ervas para o remédio tinham um perfume forte, que me cercava enquanto eu estava ali em pé. Respirei o cheiro agridoce, sentindo uma lenta onda de alegria lançar-se sobre mim. Eu finalmente estava fora do vale. Natan se virou e sorriu. Segurava uma pipeta cheia da espuma que recolhera das ervas ferventes, e um vapor se erguia dela. Ele parecia um feiticeiro em suas meias pretas grossas e em meio à fumaça que lhe subia da mão. Natan passou pelo facho de luz solar, e abri os braços para ele, rindo, sentindo como se pudesse morrer de amor, mas quando fiz isso a pipeta escorregou da mão dele, quebrou-se no chão, e a escuridão tomou o aposento como óleo.

 

Não tenho certeza de que cheguei a dormir desde esse sonho.

 

Natan está morto.

 

Eu acordo toda manhã com uma angústia no coração.

 

A única coisa a fazer é empurrar minha mente de volta para debaixo da água, de volta para o sonho, de volta para o momento dourado que me envolveu antes que a pipeta quebrasse. Ou imaginar Brekkukot, quando mamãe estava comigo. Se me concentrar, consigo vê-la dormindo na cama em frente à minha, e Jóas, o pequeno Jóas, coçando as picadas de pulga. Vou usar a unha para esmagá-las contra o polegar.

 

Mas as lembranças que eu desperto são frias. Sei o que vem depois de Brekkukot. Sei o que acontece com mamãe e com Jóas.

 

Quando abro os olhos, vejo Margrét deitada na cama, porém acordada. Ela se revira e brinca distraída com o cobertor. A touca de dormir está um pouco solta, e posso ver seus cabelos grisalhos esticados sobre a cabeça numa trança apertada, mesmo enquanto descansa. Quase posso ver os contornos de seu crânio.

 

Seu rosto é uma mancha, semiescondido pelo cobertor que puxou sobre ele. Está virada para olhar para o oficial dormindo no catre em frente.

 

O oficial ronca, e a senhora da fazenda estala a língua, em desaprovação. Eu ouço você, velha. Já está farta? Tente um ano deles e de suas mãos duras, seus olhares duros.

 

A alga seca no travesseiro chacoalha quando ela vira a cabeça. Ela me vê. Dá um suspiro e leva a mão ao coração.

 

Eu deveria ter mais cuidado. Nunca ser apanhada encarando ninguém. Eles vão pensar que você quer algo deles.

 

- Você está acordada. Bom.

 

A senhora da fazenda alisa os cabelos sobre o crânio e me encara por um momento, talvez insegura sobre quanto tempo passei olhando para ela.

 

- Levante-se - diz.

 

Eu obedeço. As tábuas estão frias sob meus pés.

 

Margrét me dá um traje de criada de lã azul, e nos vestimos em silêncio. Ela continua a olhar nervosamente para o oficial roncando. Passo o tecido grosseiro sobre a cabeça e olho ao redor do aposento. Há duas outras pessoas adormecidas nas camas. Criados, talvez. Não há tempo para descobrir quem podem ser - Margrét me leva pelo corredor úmido da cabana, parando apenas para puxar um pedaço de turfa que se soltou e pende em farrapos por sobre uma viga.

 

- Caindo aos pedaços - murmura.

 

Ela anda rápido demais para que eu possa olhar dentro dos outros cômodos da cabana. Não é uma moradia grande, mas lembro, de minha primeira vez aqui, que tinha um depósito para barris, e aquele quartinho ali com baldes, panelas e bandeja de ordenha deve ser a queijaria, ou talvez o tenham transformado em despensa. Passamos pela cozinha. Minhas roupas de Stóra-Borg estão em uma pilha no canto.

 

Já faz um belo dia do lado de fora. A grama está molhada da chuva noturna, e as folhas parecem brilhar à luz do sol nascente. Um vento forte produz ondas nas poças do pátio. Agora noto as pequenas coisas.

 

- Como você pode ver - começa Margrét, parando ao tropeçar em um pedaço de madeira que caiu da pilha do lado de fora da cabana. - Como você pode ver, há muito trabalho a fazer neste lugar.

 

Foi a primeira coisa que ela disse desde que mandou me vestir. Não digo nada e mantenho os olhos baixos. Percebo que a barra da saia dela tem uma mancha escura de anos raspando no chão.

 

Margrét se empertiga e coloca as mãos no quadril, como se tentasse parecer maior. As unhas estão roídas até o sabugo.

 

- Não vou esconder meu desprazer com você. Não a quero na minha casa. Não a quero perto de minhas filhas.

 

Aqueles corpos adormecidos eram as filhas dela.

 

- Fui obrigada a mantê-la aqui, e você... - diz, falhando um pouco. - Você é obrigada a ficar aqui.

 

Nossos ombros estão contraídos contra o vento da manhã, que empurra nossos vestidos sobre as pernas. Quando eu era pequena minha mãe adotiva, Inga, me mostrou como esticar o tecido de minha saia ao vento e fingir que tinha asas. Era uma sensação de voar. Ela me disse que um dia o vento iria me erguer e eu seria soprada pelo caminho, e todos no vale iriam olhar para cima e ver meus movimentos. Eu costumava rir disso.

 

- Meu marido Jón está em Hvammur, mas voltará agora de manhã. Os criados da fazenda voltarão a qualquer momento para começar a produzir feno. Não será suficiente. Não sei o que você fazia em Stóra-Borg, mas vou lhe dizer: você não terá oportunidade de tirar vantagem de nós aqui.

 

Ela não sabe de nada.

 

- Agora - diz, apertando as mãos com força sobre a cintura. - Pelo que entendo, você ocupava uma posição de criada antes... - diz, e se interrompe.

 

Antes de quê? Antes de Natan Ketilsson e Pétur Jónsson terem seus crânios martelados?

 

- Sim, senhora.

 

Fico assustada de ouvir minha voz. Parece ter passado uma vida desde que falei livremente.

 

- Uma criada?

 

Ela não me ouviu em meio ao vento.

 

- Sim, uma criada. Desde que tinha quinze anos. Antes disso prestava serviços.

 

Ela está aliviada.

 

- Sabe fiar e tricotar, cozinhar e cuidar dos animais?

 

Poderia fazer isso dormindo.

 

- Sabe usar uma faca?

 

Meu estômago se revira.

 

- Perdão, senhora?

 

- Sabe cortar feno? Sabe usar uma foice? Deus sabe que muitos empregados nunca cortaram capim em toda a vida; sei que atualmente não é prática comum mulheres ceifando, mas somos uma fazenda com poucas pessoas, e...

 

- Eu sei usar uma foice.

 

- Bom. No que me diz respeito, você vai trabalhar para se manter. Sim, você vai pagar pela minha inconveniência. Não tenho emprego para uma criminosa, só para uma criada.

 

Criminosa. A palavra paira no ar. Pesada, inabalável até para o sopro do vento.

 

Quero balançar a cabeça. Quero dizer que aquela palavra não pertence a mim. Não se encaixa em mim ou naquilo que sou. É outra palavra e pertence a outra pessoa.

 

Mas de que adianta protestar contra a linguagem?

 

Margrét pigarreia.

 

- Não vou tolerar violência. Não aceitarei corpo mole. Qualquer atrevimento, qualquer desvio, qualquer preguiça, qualquer roubo ou qualquer trama e eu a expulsarei. Eu a arrastarei para fora desta fazenda pelos cabelos caso precise. Estamos entendidas?

 

Ela não espera uma resposta. Sabe que não tenho escolha.

 

- Vou lhe mostrar a criação - diz, respirando fundo. - Vou ordenhar as ovelhas e a vaca, enquanto você...

 

Os olhos dela desviam dos meus para a fazenda seguinte no vale. Algo chamou sua atenção.

 

Snæbjörn, o fazendeiro de Gilsstadir, subia a colina do vale. Ao lado dele estava um de seus sete filhos, Páll, naquele verão responsável por pastorear as ovelhas de Kornsá. Lutando para acompanhá-los vinha a esposa de Snæbjörn, Róslín, puxando duas das filhas mais moças.

 

- Que Deus me ajude. Aí vem a horda - murmurou Margrét. Ela despertou de repente e agarrou o braço de Agnes. - Vá para dentro - sussurrou. Ela levou Agnes de volta para a cabana e a empurrou com urgência na direção da porta. - Para dentro! Agora.

 

Agnes hesitou à porta, olhando para Margrét antes de desaparecer na escuridão da casa.

 

- Sæl og blessuð! - gritou Snæbjörn. Era um homem corpulento e alto, com bochechas vermelhas e cabelos louros sem brilho caídos sobre os olhos. - Tempo bom!

 

- Não é mesmo? - retrucou Margrét, tensa. Esperou que ele chegasse mais perto. - Vejo que você e Páll me trouxeram visitas.

 

Snæbjörn deu um sorriso constrangido.

 

- Róslín insistiu em vir. É que ela ouviu falar sobre sua, ahn, situação infeliz. Disse que gostaria de ter certeza de que estavam bem.

 

- Gentil da parte dela - murmurou entredentes trincados.

 

Róslín chegou perto.

 

- Que belo tempo! - gritou, como uma criança, lançando um braço no ar. - Vamos torcer para que continue assim para o feno. Bom dia, Margrét!

 

A esposa de Snæbjörn estava em adiantada fase de gravidez do décimo primeiro filho; sua barriga se projetava adiante, erguendo a frente do vestido e revelando tornozelos inchados, molhados de sereno. Seu rosto redondo estava vermelho pelo esforço de andar, e ela ofegava, os seios subindo e descendo sobre a barriga rotunda.

 

- Pensei em vir com Snæbjörn e Páll fazer uma visita - disse, a filha de cinco anos tropeçando em um pequeno monte de grama e oferecendo um prato coberto a Margrét. - Pão de centeio. Achei que poderia gostar - disse ela.

 

- Obrigada.

 

- Ah, Deus, estou sem fôlego. Velha demais para estar neste estado, mas eles continuam vindo - disse Róslín, alegremente dando tapinhas na barriga.

 

- De fato - observou Margrét, amarga.

 

Snæbjörn tossiu e desviou o olhar de Róslín para Margrét.

 

- Bem, nós, homens, temos o que fazer. Jón está por aí, Margrét?

 

- Em Hvammur.

 

- Está certo. Bem, colocarei Páll para trabalhar e darei uma olhada naquela foice, se não se incomoda que eu remexa na oficina - disse, virando-se para esposa e filhas. - Não afaste Margrét de suas tarefas por muito tempo, hein, Róslín?

 

Ele lançou um breve sorriso para elas, deu meia-volta e começou a se afastar a passos longos e suaves, empurrando o garoto delicadamente para a frente.

 

Róslín riu assim que ele se afastou.

 

- Homens, hein? Não conseguem ficar parados. Vá brincar com sua irmã, Sibba. Não se afaste. Fique por perto.

 

Róslín tirou as filhas do caminho e olhou ao redor da fazenda enquanto falava, como se procurasse alguém. Margrét apoiou o prato de pão de centeio no quadril. A fragrância doce combinada com o cheiro quente e úmido de Róslín a deixou enjoada. Teve um acesso de tosse que sacudiu seu corpo de tal forma que Róslín teve de agarrar o prato de pão antes que caísse na grama.

 

- Calma, Margrét. Respire devagar. Ainda não melhorou?

 

Margrét esperou que o acesso passasse, depois cuspiu uma massa viscosa na grama.

 

- Já estou bem. É só uma tosse de inverno.

 

Róslín deu um risinho nervoso.

 

- Mas estamos no auge do verão.

 

- Estou bem - cortou Margrét.

 

Róslín olhou para ela com pena exagerada.

 

- Claro, se você diz. Mas na verdade foi por isso que vim hoje. Estou um pouco preocupada com você.

 

- Mesmo? - murmurou Margrét. - Por quê?

 

- Bem, seu peito ruim, claro, mas também ouvi alguns rumores nas últimas semanas. Tudo absurdo, tenho certeza, mas ainda assim... - disse Róslín, a cabeça inclinada para o lado e o rosto gordo se abrindo em um sorriso com covinhas. - Mas aqui estou eu me adiantando sem sequer pensar em perguntar se está ocupada.

 

Ela olhou por sobre o ombro de Margrét na direção da cabana, levando a mão à testa para proteger os olhos do sol.

 

- Espero não estar interrompendo. Você parecia estar aqui com alguém. Uma mulher de cabelos escuros. Visitante? - perguntou Róslín, fazendo uma expressão de educada indiferença.

 

Margrét suspirou, incomodada.

 

- Você tem olhos bons, Róslín.

 

- Ah. Ingibjörg, talvez? - perguntou Róslín, erguendo uma sobrancelha. - Então vou embora e deixarei as duas amigas em paz.

 

Margrét lutou contra a vontade de erguer os olhos para o céu.

 

- Não.

 

- Claro que não, cedo demais para uma visita dela - disse Róslín, piscando. - Uma nova criada? Você precisa de toda ajuda que conseguir para o feno.

 

- Bem, não exatamente...

 

- Uma parenta, então? - continuou Róslín, avançando um passo.

 

Margrét suspirou. Pigarreou, percebendo que não havia como evitar o interrogatório de Róslín.

 

- A mulher que você viu foi instalada comigo pelo comissário distrital Björn Audunsson Blöndal.

 

- Mesmo? Que estranho. Para quê?

 

- A mulher se chama Agnes Magnúsdóttir. É uma das criadas condenadas pelo assassinato de Natan Ketilsson e Pétur Jónsson e foi colocada sob custódia conosco até a data de sua execução - contou Margrét, cruzando os braços firmemente sobre o peito e olhando de maneira desafiadora para Róslín.

 

Róslín colocou o pão no chão de modo a poder demonstrar melhor seu horror e exclamou:

 

- Agnes! Você está se referindo a Agnes e Fridrik? Os assassinos de Natan Ketilsson! - disse, levando as mãos às bochechas coradas e fitando Margrét com olhos arregalados. - Mas Margrét! Essa é exatamente a razão pela qual vim. Ósk Jóhannsdóttir disse que esteve com Soffia Jónsdóttir, cujo irmão Jóhann é ajudante em Hvammur, e ela contou que Blöndal decidiu tirar Agnes de Stóra-Borg por não poder se arriscar a ter uma família importante sendo massacrada...

 

Róslín parou, percebendo o equívoco. Margrét apertou os lábios e olhou com raiva para ela.

 

- Ah, Margrét, eu não quis... - disse, as bochechas redondas enrubecendo.

 

- Sim, Róslín. É verdade que Blöndal colocou a assassina conosco e que nem eu nem Jón pudemos dar nossa opinião sobre isso. Mas as razões para a decisão só são conhecidas pelo próprio Blöndal.

 

Róslín anuiu enfaticamente.

 

- Claro. Ósk é uma terrível fofoqueira.

 

- Sim.

 

Róslín continuou a anuir, depois deu um passo à frente e colocou a mão no ombro de Margrét.

 

- Lamento muito por você, Margrét.

 

- Por quê?

 

- Por quê? Por ter de manter uma assassina sob o teto de sua família! Por ser obrigada a olhar para seu rosto medonho todos os dias! Pelo medo que deve inspirar em você, por si mesma e por seu marido e suas pobres filhas!

 

Margrét fungou.

 

- O rosto dela não é tão medonho - disse, mas Róslín não estava escutando.

 

- Na verdade, eu sei muito sobre o caso, Margrét, e deixe-me alertá-la: ouvi coisas diabólicas sobre os três indecentes que tiraram a vida dos bons Natan Ketilsson e Pétur Jónsson!

 

- Acho que "bons" não é uma palavra que muitos escolheriam para Natan e Pétur.

 

- Ah! Mas eles eram bons! Cometeram erros, claro...

 

- Pétur cortou a garganta de trinta ovelhas, Róslín. Ele era um ladrão.

 

- Mas ainda assim eram nobres islandeses. Ah, e pensar na família de Natan! Seu irmão Gudmundur, a esposa e os filhinhos. Você sabe que eles foram para Illugastadir consertar a cabana e a oficina de Natan.

 

- Róslín, se ouvi bem, Natan passava mais tempo na cama de mulheres casadas que em sua oficina em Illugastadir!

 

Róslín ficou chocada.

 

- Margrét?

 

- É só que... - começou Margrét, hesitando e virando-se para olhar em direção à entrada escura da cabana. - Nada é simples - murmurou finalmente.

 

- Você acredita que eles mereciam morrer?

 

Margrét bufou.

 

- Claro que não.

 

Róslín a olhou com cautela.

 

- Você sabe que ela é culpada, não sabe?

 

- Sim, eu sei que ela é culpada.

 

- Bom. Então deixe-me dizer, é melhor ficar atenta... Como é mesmo o nome dela?

 

- Agnes - respondeu Margrét suavemente. - Você sabe disso, Róslín.

 

- Sim. Agnes Magnúsdóttir, é ela. Tome cuidado. Sei que não há muito que possa fazer, mas peça ao comissário distrital um guarda para vigiá-la. Mantenha as mãos dela amarradas! As pessoas dizem que Agnes é a pior dos três condenados. O garoto, Fridrik, estava sob o encanto dela, e ela obrigou a outra garota a ficar vigiando e a amarrou ao batente da porta para ter certeza de que não escaparia! - disse Róslín, dando um passo à frente e colando seu rosto no de Margrét. - Ouvi que foi ela quem esfaqueou Natan dezoito vezes. Uma depois da outra.

 

- Dezoito vezes, tudo isso? - murmurou Margrét. Ela queria desesperadamente que Snæbjörn voltasse para pegar a esposa.

 

- No estômago e na garganta - disse Róslín, o rosto corado de excitação. - E... Ah, e o Senhor nos abençoe, até no rosto! Ouvi que ela cravou a faca na órbita dele. Furou-a como uma gema de ovo.

 

Róslín agarrou o ombro de Margrét com força.

 

- Se eu fosse você, não iria nem cochilar com ela no mesmo aposento! Preferiria dormir no estábulo a correr esse risco. Ah, Margrét, não consigo acreditar que os rumores eram verdadeiros! Assassinos na nossa porta! A paróquia degenerou. Pior do que as coisas que você ouve falar sobre Reykjavík. E ela, agora há pouco, em pé no mesmo lugar em que minhas filhas brincam. Isso me dá arrepios. Olhe meus braços, estou toda arrepiada! Minha pobre Margrét, como você vai dar conta?

 

- Eu dou um jeito - disse Margrét secamente, pegando o prato de pão de centeio de Róslín.

 

- Mas como? E onde está Jón para protegê-la?

 

- Em Hvammur, com Blöndal. Como eu já disse.

 

- Margrét! - exclamou Róslín, lançando as mãos no ar. - É maldade de Blöndal deixar você e as meninas sozinhas com essa mulher! Vou lhe dizer, eu devia ficar com você.

 

- Você não fará tal coisa, Róslín, mas obrigada por sua preocupação - disse Margrét com firmeza. - Agora, detesto deixá-la, porém as ovelhas não vão se ordenhar sozinhas.

 

- Posso ajudá-la? - perguntou Róslín. - Aqui, deixe que eu pegue o pão e o leve para dentro para você.

 

- Adeus, Róslín.

 

- Talvez se eu pudesse vê-la, conseguiria avaliar seu risco. Nosso risco! O que fazer para impedir que ela espreite à noite?

 

Margrét pegou Róslín pelo cotovelo e virou-a na direção de onde viera.

 

- Obrigada por sua visita, Róslín, e obrigada pelo pão de centeio. Cuidado com o terreno.

 

- Mas...

 

- Adeus, Róslín.

 

Róslín deu um olhar em direção à cabana, ensaiou um sorriso e se arrastou pesadamente colina abaixo, na direção de Gilsstadir. Suas garotinhas a seguiram. Margrét ficou em pé, braços cruzados sobre o peito, e as observou partir até que não fossem mais do que pontos a distância, depois se agachou e tossiu até a língua ficar escorregadia. Cuspiu na grama. Em seguida levantou devagar, virou-se e caminhou de volta à cabana.

 

Quando entro no badstofa vejo que o oficial que dormia partiu. Deve ter se reunido aos amigos; posso ouvir homens conversando em uma mistura de dinamarquês e islandês do lado de fora da janela. Eles não devem ter visto a senhora da fazenda me empurrar de volta para dentro. As duas filhas adormecidas também partiram. Estou só.

 

Estou só.

 

Não há olho vigilante, nenhum guarda à porta, nada de corda, algemas, trancas, e estou sozinha e solta. Fico paralisada com a ideia. Certamente alguém está olhando pelo buraco da fechadura. Certamente alguém se escondeu em uma rachadura na parede e está esperando para ver o que farei, esperando para invadir o aposento com um dedo apontando para minha garganta como uma faca.

 

Mas não há ninguém. Nem uma alma.

 

Estou em pé no centro do aposento e deixo que meus olhos se acostumem ao escuro. Sim, estou sozinha, e um tremor de empolgação percorre minha pele, como o tremer na superfície de uma panela de água prestes a ferver. Nesse minuto posso fazer qualquer coisa: posso examinar a cabana, deitar, falar em voz alta ou cantar. Posso dançar, praguejar ou rir, e ninguém saberá.

 

Eu poderia escapar.

 

Uma bolha de medo percorre minha coluna. É a mesma sensação de ficar em pé no gelo e de repente ouvi-lo rachar sob seu peso - ao mesmo tempo excitante e aterrorizante. Em Stóra-Borg eu sonhava em escapar. Em encontrar a chave de meus ferros e fugir - nunca pensava para onde poderia ir. Nunca havia uma oportunidade. Mas aqui, agora, poderia sair para o pátio e descer correndo até o final do vale, para longe das fazendas, esperar e escapar à noite para as montanhas, onde o céu me cobriria com sua mão cinzenta e áspera. Poderia fugir para os campos. Mostrar a eles que não podem me manter trancada, que sou uma ladra do tempo e vou roubar as horas negadas a mim!

 

Partículas de poeira vagam à luz do sol que penetra pela membrana seca presa à janela. Enquanto olho para elas, a excitação da fuga é sugada, como água descendo por um gêiser. Eu estaria apenas trocando uma sentença de morte por outra. Nas montanhas, nevascas uivam como viúvas de pescadores, e o vento queima a pele de seu rosto. O inverno surge como um soco no escuro. Os lugares desabitados são tão cruéis quanto qualquer carrasco.

 

Meus joelhos fraquejam quando cambaleio até minha cama. De olhos fechados, o silêncio do aposento me pressiona como uma mão pesada.

 

Quando meu coração desacelera, olho para onde o oficial dormiu, o lençol retorcido e o colchão gasto exposto. Talvez, se a cama ainda estiver quente, ele esteja por perto. Parece invasivo tocar no colchão nu, mas está frio. Ele partiu. Minha cama está feita. Passo as mãos sobre o cobertor fino que o uso deixou liso. Quantos outros corpos deitaram aqui antes de mim? Quantos pesadelos foram produzidos sob esse tecido?

 

O piso é coberto de tábuas, mas as paredes e o teto, não, e a turfa precisa de conserto. Placas de vegetação seca desgastadas caíram, deixando fissuras na parede e o aposento exposto a correntes de ar. Será frio no inverno.

 

Mas eu poderei estar morta antes disso.

 

Rápido! Afaste esse pensamento.

 

Grama morta pende sinistramente do teto inclinado, como cabelos sujos. Alguns poucos ornamentos esculpidos foram dispostos nas vigas, e há uma cruz pregada no frontão acima da entrada.

 

Será que eles cantam hinos no inverno aqui? Talvez em vez disso recitem sagas - eu prefiro uma história a uma prece. Eles me açoitaram por isso uma vez nesta fazenda, Kornsá, quando era jovem e responsável por cuidar do campo. O fazendeiro Björn não gostou que eu conhecesse as sagas melhor que ele. Você fica melhor na companhia das ovelhas, Agnes. Livros escritos pelo homem e não por Deus são amigos traiçoeiros, não é coisa para você.

 

Eu teria acreditado nele, não fosse por minha mãe adotiva Inga e as lições que ela me dava aos sussurros enquanto ele cochilava à noite.

 

Perto da entrada, junto à cama da senhora, há uma cortina de lã cinza que foi pregada em um beiral. Suponho que sirva de porta para o cômodo adiante. A cortina é curta, e no espaço acima do piso é possível ver as pernas de uma mesa. Estão levemente lascadas, como se alguém as tivesse mastigado.

 

O badstofa está quase tão nu quanto era anos atrás, embora pequenas tábuas tenham sido pregadas entre as vigas inclinadas e os apoios de parede que servem de prateleiras. Elas guardam as coisas habituais - potes de madeira, chifres de carneiro, um cachimbo, ossos de peixe, luvas e agulhas de tricô. Há uma pequena arca pintada sob uma das camas. Um chinelo abandonado aguarda conserto. A familiaridade das coisas cotidianas pode ser reconfortante. Eu um dia tive coisas assim. Meu saco branco com as flores secas. A pedra que mamãe me deu antes de partir. Isso lhe dará sorte, Agnes. É uma pedra mágica. Coloque embaixo da língua e conseguirá falar com os pássaros.

 

Aquela pedra passou dias em minha boca. Se os pássaros entenderam minhas perguntas, nunca se importaram em responder.

 

Kornsá, do distrito de Húnavatn. Fui deixada nesta porta com um beijo e uma pedra da mamãe e agora, vinte e três invernos depois, sou arrastada novamente para cá por causa de dois homens mortos e um incêndio. Trabalhei em mais fazendas do Norte do que seria a minha cota. Mas a pobreza desgasta essas casas até que pareçam todas iguais, e todas têm em comum a ausência de coisas que deveriam estar ali. Eu poderia muito bem ter passado a vida toda em um lugar só.

 

Então é isso. Kornsá, meu último canto escuro. A última cama, o último teto, o último piso. O último de tudo causa dor, como se não restasse mais nada além da fumaça de fogueiras abandonadas. Devo fingir que ainda sou uma criada e que estes são meus novos alojamentos, e devo pensar em todas as tarefas que executarei e como farei minha senhora comentar a destreza de meus dedos. Eu costumava pensar que se trabalhasse duro poderia um dia ser a senhora. Mas não aqui. Não em Kornsá.

 

Kornsá. A palavra fica revirando em minha cabeça, de modo que preciso dizê-la em voz alta discretamente e sentir o som. Digo a mim mesma que é apenas outra fazenda e canto suavemente o nome de todos os lugares onde vivi. É como um encanto: Flaga, Beinakelda, Litla-Giljá, Brekkukot, Kornsá, Gudrúnarstadir, Gilsstadir, Gafl, Fannlaugarstadir, Búrfell, Geitaskard, Illugastadir.

 

De todos os nomes, um é um equívoco. Um é um pesadelo. O degrau que você não percebe na escuridão.

 

O nome é tudo o que deu errado. Illugastadir, a fazenda junto ao mar, onde o ar suave soa com o clangor da oficina de ferreiro, as gaivotas gritam, e focas rolam sobre sua gordura. Illugastadir, onde a noite é iluminada por fogo, onde a fumaça surge no começo da manhã para engolir as estrelas, e em ruínas, sempre Illugastadir, embalando corpos mortos em sua gaiola de vigas queimadas.

 

Do lado de fora os oficiais caem na gargalhada. Um deles fala sobre seu primo rico de Helgavatn.

 

- Temos de ir até lá ajudá-lo a se livrar de todo aquele brandy! - sugere um.

 

- Sim! E de sua esposa e filhos! - grita outro. Eles riem novamente.

 

Alguém vai ficar para garantir que eu não fuja? Para garantir que eu não acenda as lamparinas, caso queira espalhar a chama pelo chão? Para garantir que eu tenha as mãos limpas e a língua parada, e as pernas juntas, e os olhos baixos?

 

Agora sou propriedade da Coroa.

 

Espero que todos partam hoje.

 

Enquanto me esforço para escutar a conversa dos oficiais, percebo que algo foi escondido sob a cama à minha frente, algo brilhante. É um broche de prata, uma coisa estranha em um aposento tão despido de luxos. Teria sido roubado? Não seria tão estranho neste vale, onde as pessoas pegam ovelhas e cortam as marcas de suas orelhas antes que o rebanho se espalhe e homens deixam crescer as unhas para pegar moedas. Há muitos fazendeiros e empregados ladrões que sentiram o açoite da lei nesta região. Mesmo Natan tinha as cicatrizes de seu encontro juvenil com a vara de bétula.

 

Pego o broche. É inesperadamente pesado.

 

- Largue isso! - Uma jovem esguia está em pé com as pernas separadas, os braços levantados ao lado do corpo. - Isso é meu!

 

Largo o broche, e ambas nos encolhemos quando ele cai no chão. A garota tem ossos pequenos e é baixa, com cílios claros destacando-se contra o azul-escuro dos olhos. A cabeça está coberta com um lenço. Há um pequeno calombo no nariz.

 

- Steina!

 

A garota não se move, apenas olha do umbral para mim. Está com medo de mim, acho.

 

Outra garota passa pela porta. Deve ser a irmã, mas é mais alta, com olhos escuros, e a pele do nariz é salpicada de sardas.

 

- Róslín e sua cria estão...

 

Ela para quando me vê.

 

- Ela estava tocando no meu presente de crisma.

 

- Achei que mamãe a tivesse levado para fora.

 

- Eu também.

 

Elas me encaram.

 

- Mamãe! Mamãe! Venha aqui!

 

Margrét entra com dificuldade, limpando a boca. Vê o broche de prata no chão junto aos meus pés, e o sangue some do seu rosto. A boca se abre.

 

- Ela estava tocando nele, mamãe. Eu a flagrei.

 

Margrét fecha os olhos e passa a mão sobre os lábios, como se sentisse dor. Quero tocar o braço dela. Quero tranquilizá-la. Ela vem na minha direção, agora furiosa, e ouço o tapa antes de senti-lo. Um estalo seco. Uma onda de dor ardente.

 

- O que eu lhe disse? - grita ela. - Você não vai tocar em nada nesta casa! - diz, respirando pesado e apontando com a mão para meu rosto. - Considere-se com sorte por eu não relatar esse incidente.

 

- Não sou ladra - digo.

 

- Não, é uma assassina.

 

A garota de olhos azuis cospe as palavras, e covinhas surgem em suas bochechas. O lenço escorregou, e um cacho de cabelos muito louros cai sobre a testa. O rosto está afogueado.

 

- Lauga, pegue Steina e vão para a cozinha.

 

Elas partem. Margrét agarra minha manga.

 

- Siga-me! - diz, arrastando-me para fora do aposento. - Você pode provar que se penitencia trabalhando como um cão.

 

O reverendo Tóti acordou bem cedo e não conseguiu voltar a dormir. Era esperado novamente em Kornsá. Levantou-se e vestiu-se com relutância, saindo para o ar fresco revigorante da manhã, e começou a fazer as tarefas da fazenda e da igreja. Reuniu o pequeno rebanho de ovelhas do pai e as ordenhou com cuidado exagerado, sussurrando o nome delas e passando os dedos pelas orelhas peludas.

 

O meio da manhã chegou e passou, e o sol avermelhou o céu. Tóti deu comida e água para a vaca, Ýsa, depois começou a tirar a roupa do muro de pedra da igreja onde o pai a colocara para secar.

 

- Você não precisa fazer isso - disse o reverendo Jón, caminhando da cabana em sua direção.

 

- Eu não me importo - disse Tóti sorrindo. Tirou uma semente de grama de uma meia.

 

Seu pai deu de ombros.

 

- Achei que estivesse a caminho de Vatnsdalur.

 

Tóti fez uma careta.

 

- Por que está mexendo com a roupa quando tem de ir vê-la?

 

Tóti parou e olhou para Jón, que sacudia uma calça ao vento.

 

- Não sei o que dizer - falou, fazendo uma pausa antes de continuar. - O que o senhor lhe diria?

 

Seu pai deu um tapa em seu ombro com a mão grossa e olhou feio para ele.

 

- Vá - falou. - Quem disse que você terá de dizer algo? Vá.

 

Margrét me leva através do pátio para me mostrar o pequeno canteiro de levísticos e angélicas, depois vou ajudá-la a ordenhar as ovelhas. Imagino que ela não confie em me deixar sozinha de novo. O garotinho que chegou mais cedo já havia reunido os animais. Margrét o identifica como Páll, mas não nos apresenta, e ele não chega perto de mim, embora me encare, boquiaberto.

 

Depois queimamos meu vestido.

 

Eu o fiz há dois anos. Sigga e eu fizemos um cada uma - um vestido de trabalho, azul e simples -, com o tecido que Natan nos dera.

 

Ah, se soubesse que o vestido que fizera seria meu único aquecimento em um aposento que fedia a pele azeda. Se soubesse que o vestido seria um dia colocado no escuro, apressadamente, para ser encharcado de suor enquanto eu corria na hora das bruxas[2] até Stapar, com berros de acordar os mortos.

 

Margrét me dá um pouco de leite quente do balde para beber, e então entramos na cozinha, onde as filhas estão preparando o fogo com estrume. Elas se encolhem junto à parede quando entro.

 

- Tire a chaleira do gancho, Steina - diz Margrét para a garota sem graça. Depois pega minhas roupas imundas do canto e as joga no fogo sem cerimônia. - Isso - diz, soando satisfeita.

 

Observamos o vestido de lã queimar lentamente até nossos olhos se encherem de água por causa da fumaça e Margrét tossir, então somos obrigadas a sair e trabalhar em outro lugar enquanto minhas roupas queimam. As filhas entram na despensa.

 

Aquele vestido era meu último bem. Agora não há nada no mundo que eu possua; mesmo o calor que meu corpo produz é tomado pela brisa de verão.

 

O canteiro de ervas em Kornsá está descuidado e cheio de mato, cercado por um muro de pedra grosseiro que desabou em uma das pontas. A maioria das plantas deu sementes, as raízes queimadas pelo gelo apodrecem no clima mais quente, mas há tanacetos e pequenas ervas amargas de que me lembro da oficina de Natan em Illugastadir, e a angélica tem um cheiro doce.

 

Retiramos ervas daninhas e, ao encontrarmos os tufos de mato que crescem ao redor das plantas mais saudáveis, os arrancamos da terra. Gosto de sentir as raízes cedendo e a goma em meus dedos quando os caules estalam, embora meus pulmões queimem. Eu enfraqueci. Mas não me rendo.

 

Há um prazer em estar acocorada com a saia embolada ao redor de mim e o cheiro da fumaça do fogo de estrume em meus cabelos. Margrét trabalha furiosamente e respira pesado. No que estará pensando? Suas unhas estão pretas de terra, e ela mexe no solo com urgência. Os olhos estão vermelhos por causa da fumaça na cozinha; quando ela pigarreia, ouço barulho de catarro.

 

- Volte à cabana e peça a minhas filhas que venham aqui - diz ela de repente. - Depois tire as cinzas do braseiro e as enterre.

 

Os oficiais estão selando os cavalos no pátio quando retorno à casa desacompanhada. Eles estão em silêncio.

 

- Está tudo bem? - pergunta um deles a Margrét, que o tranquiliza com um gesto da mão suja.

 

A porta da cabana está aberta, provavelmente para deixar sair a fumaça fedorenta. Passo o pé sobre a soleira.

 

Encontro as filhas na despensa, tirando a nata do leite do dia anterior. A mais jovem me vê primeiro e avisa a irmã. As duas recuam alguns passos.

 

- Sua mãe quer que se juntem a ela - digo com um aceno, ficando de lado para que passem. A mais jovem sai do aposento imediatamente, sem desviar os olhos de mim.

 

A mais velha hesita. Qual o apelido dela? Steina. Pedra.[3] Ela me lança um olhar peculiar e abaixa o rodo lentamente.

 

- Acho que conheço você - diz ela.

 

Não falo nada.

 

- Você trabalhou neste vale antes, não foi?

 

Confirmo num gesto.

 

- Conheço você. Quero dizer, nos vimos uma vez. Você estava saindo de Gudrúnarstadir exatamente quando vínhamos para cá assumir a propriedade. Nós nos encontramos na estrada.

 

Quando teria sido isso? Maio de 1819. Que idade ela teria então? Não mais de dez.

 

- Tínhamos um cachorro conosco. Um preto e branco. Lembro-me de você porque ele começou a latir e a pular, e papai o afastou de você, depois dividimos nosso jantar.

 

A garota examina meu rosto atentamente.

 

- Você era a mulher que encontramos no caminho para Gudrúnarstadir. Lembra-se de mim? Você trançou os cabelos da minha irmã e deu um ovo a cada uma de nós.

 

Duas garotinhas chupando ovos na estrada, bainhas encharcadas de lama. A mancha de um cachorro magro caçando seu reflexo na água e o céu azul irregular e imenso. Três corvos voando em linha. Um bom presságio.

 

- Steina!

 

A caminhada de Gudrúnarstadir para Gilsstadir em uma primavera gelada. 1819. Cem pequenas baleias encalharam perto de Thingeyrar. Um mau presságio.

 

- Steina!

 

- Já vou, mamãe - diz Steina, virando-se para mim. - Estou certa, não estou? Era você.

 

Dou um passo na direção dela.

 

A senhora da fazenda entra apressada.

 

- Steina! - diz, olhando para mim, depois para a filha. - Fora!

 

Ela agarra o braço da garota e a arranca da sala.

 

- As cinzas. Agora!

 

Do lado de fora, a brisa levanta da pá um punhado de cinzas do meu vestido e as joga contra o azul do céu. Os flocos cinzentos flutuam e mergulham, dissolvendo-se no ar. Isso é alegria, esse calor em meu peito? Como a mão de alguém colocada ali?

 

Talvez consiga fingir que meu antigo eu está aqui.

 

- Vamos começar com uma prece? - perguntou o reverendo assistente Thorvardur Jónsson.

 

Ele e Agnes estavam sentados do lado de fora da entrada da cabana, em um pequeno monte de turfa cortada que havia sido preparada e estocada para restaurações. O reverendo tinha o Novo Testamento em uma das mãos e uma fatia de pão de centeio bastante murcho com manteiga na outra, que Margrét lhe dera. Pelo de cavalo caíra de suas roupas no pão.

 

Agnes não respondeu à pergunta do reverendo. Ficou sentada com os dedos no colo, levemente curvada, olhando a fila de oficiais de partida. Havia cinzas em seus cabelos. O vento diminuíra, e de vez em quando um grito ou risada dos oficiais podiam ser ouvidos, interrompendo os sons suaves produzidos por Margrét e as filhas arrancando ervas daninhas do canteiro. A mais velha erguia a cabeça para espiar o pastor e a criminosa.

 

Tóti olhou para o livro que tinha nas mãos e pigarreou.

 

- Acha que devemos começar com uma prece? - perguntou novamente, mais alto, achando que Agnes não havia escutado.

 

- Começar o que com uma prece? - retrucou ela em voz baixa.

 

- Be-bem - gaguejou Tóti, apanhado desprevenidamente. - Sua absolvição.

 

- Minha absolvição? - repetiu Agnes. Balançou a cabeça levemente.

 

Tóti enfiou o pão na boca depressa e o mastigou, engolindo-o ruidosamente. Limpou as mãos na camisa, depois folheou as páginas de seu Novo Testamento, acomodando-se nas placas de turfa. Ainda estavam molhadas da noite anterior, e ele podia sentir a umidade penetrando em sua calça. Um lugar idiota para sentar, pensou. Ele deveria ter permanecido do lado de dentro.

 

- Recebi uma carta do comissário distrital Blöndal há pouco mais de um mês, Agnes - disse ele, fazendo uma pausa. - Posso chamá-la de Agnes?

 

- É meu nome.

 

- Ele me informou que você estava infeliz com o reverendo em Stóra-Borg e desejava que outro religioso passasse o tempo com você antes... Antes, bem, antes... - disse Tóti, a voz murchando.

 

- Antes de eu morrer? - sugeriu Agnes.

 

Tóti anuiu levemente.

 

- Ele disse que você me escolheu.

 

Agnes respirou fundo.

 

- Reverendo Thorvardur...

 

- Pode me chamar de Tóti. Todo mundo chama - interrompeu ele, corando, imediatamente lamentando a intimidade.

 

Agnes fez uma pausa, incerta.

 

- Reverendo Tóti, então. Por que acha que o comissário distrital quer que eu passe tempo com um religioso?

 

- Bem... Suponho que, quero dizer, nós queremos, Blöndal e o clero, e eu... Queremos que você retorne a Deus.

 

A expressão de Agnes endureceu.

 

- Acho que estarei retornando a Ele muito em breve. Por intermédio de um golpe de machado.

 

- Isso não é o que eu... Eu não quis dizer nesse sentido... - Tóti suspirou. Estava indo tão mal quanto ele esperara. - Mas você me escolheu? Tive tempo de dar uma olhada no livro de registros de Breidabólstadur, e você não está registrada lá.

 

- Não - respondeu Agnes. - Eu não estaria.

 

- Nunca foi minha paroquiana ou de meu pai?

 

- Não.

 

- Então por que me escolheu, se nunca nos encontramos?

 

Agnes o encarou.

 

- Não se lembra de mim, não é mesmo?

 

Tóti ficou chocado. Certamente havia algo familiar na mulher, mas, enquanto sua mente percorria as imagens das mulheres que havia conhecido ou encontrado - criadas, mães, esposas, crianças -, ele não conseguia localizar Agnes.

 

- Lamento - disse ele.

 

Agnes deu de ombros.

 

- Você me ajudou uma vez.

 

- Ajudei?

 

- A cruzar um rio. No seu cavalo.

 

- Onde foi isso?

 

- Perto de Gönguskörd. Eu trabalhava em Fannlaugarstadir e estava saindo de lá.

 

- Então você é do distrito de Skagafjördur?

 

- Não. Sou deste vale. Vatnsdalur. Distrito de Húnavatn.

 

- E eu a ajudei a cruzar um rio?

 

- Sim. A passagem estava inundada, e você apareceu a cavalo no momento em que eu estava prestes a cruzar a água a pé.

 

Tóti ficou pensando. Ele passara muitas vezes por Gönguskörd, mas não conseguia se lembrar de ter encontrado uma mulher.

 

- Quando foi isso?

 

- Há seis ou sete anos. Você era jovem, mas usava o colarinho de padre.

 

- Sim, já usava - disse Tóti, a seguir ficando um tempo em silêncio. - Foi por causa daquela gentileza que você me escolheu agora?

 

Ele olhou atentamente para o rosto dela. Ela não parece uma criminosa, pensou. Não desde que tomou um banho.

 

Agnes apertou os olhos e fitou o vale. Sua expressão era inescrutável.

 

- Agnes... - disse Tóti, suspirando. - Sou apenas reverendo assistente. Minha formação não foi concluída. Talvez você precise de um clérigo qualificado, ou quem sabe alguém de seu próprio distrito, que a conheça? Com certeza outras pessoas foram gentis com você, não? Quem era seu reverendo aqui?

 

Agnes enfiou um cacho de cabelos escuros atrás da orelha.

 

- Não conheci muitos religiosos com os quais me importe, e certamente nenhum que eu diria que me conhece - falou.

 

Alguns corvos passaram pelo vale, pousando na cerca de pedra, e Tóti e Agnes viram a cabeça de Margrét se erguer por trás deles.

 

- Que estorvo! - gritou ela. Um torrão de terra voou sobre o muro, e os pássaros levantaram voo. Tóti olhou para Agnes e sorriu, mas ela tinha uma expressão pétrea.

 

- Eles não vão gostar disso - murmurou para si mesma.

 

- Bem - disse Tóti, respirando fundo. - Se você precisa de um conselheiro espiritual, vou considerar meu dever visitá-la. Como o comissário distrital Blöndal assim deseja, virei guiá-la em suas orações, para que possa seguir com fé e dignidade em direção ao que a espera. Vou considerar responsabilidade minha dar a você consolo espiritual e esperança.

 

Tóti ficou em silêncio. Ele ensaiara esse discurso enquanto cavalgava para a fazenda, e estava satisfeito por ter conseguido se lembrar de dizer "consolo espiritual". Soava paternalista e arrogante, como se ele estivesse em um estado elevado de certeza espiritual: um estado em que achava que deveria estar, mas tinha uma sensação vaga e desconfortável de que não estava.

 

Ainda assim, não estava acostumado a falar tão formalmente, e suas mãos suavam sobre o papel-bíblia do Testamento. Fechou o livro com cuidado, preocupando-se em não dobrar nenhuma página, e limpou a palma das mãos nas coxas. Agora seria um bom momento para citar as Escrituras, como seu pai tenderia a fazer, mas ele só conseguia pensar no repentino anseio por seu porta-rapé.

 

- Talvez eu tenha cometido um engano, reverendo - disse Agnes, a voz contida, calma.

 

Tóti não sabia o que dizer. Olhou para os hematomas no rosto dela e mordeu o lábio.

 

- Talvez fosse melhor se você tivesse ficado em Breidabólstadur. Eu lhe agradeço, mas... Você realmente acha...

 

Ela cobriu a mão com a boca e balançou a cabeça.

 

- Minha querida criança, não chore! - exclamou ele, levantando-se das placas de turfa.

 

Agnes afastou as mãos.

 

- Não estou chorando - disse secamente. - Eu cometi um engano. Você me chama de criança, reverendo Thorvardur, mas você mesmo é pouco mais que uma criança. Eu me esquecera de quão jovem é.

 

Tóti não tinha resposta para isso. Ele a encarou, anuiu soturnamente e recolocou o chapéu na cabeça com destreza. Desejou-lhe um bom dia.

 

Agnes o viu passar pelo muro de pedra para se despedir de Margrét e das meninas. O pastor e a mulher ficaram juntos alguns minutos, conversando e olhando para ela. Agnes tentou ouvir o que diziam, mas o vento começara a soprar e levava as palavras para longe. Só quando Tóti cumprimentou Margrét com o chapéu e começou a caminhar até o poste de amarração para pegar seu cavalo, Agnes ouviu Margrét dizer:

 

- Mais fácil arrancar sangue de uma pedra, eu diria!

 

Passamos o resto do dia no trabalho, arrancando ervas daninhas e cuidando das plantas em estado lamentável. Escuto o balido distante das ovelhas. As pobres coitadas parecem magras e disformes com a lã do inverno recém-tirada de suas costas. Depois que o padre partiu, as filhas, Margrét e eu jantamos peixe seco e manteiga. Cuidei de mastigar cada pedaço vinte vezes. Depois voltamos ao jardim, e agora tento consertar o muro, retirando as pedras que deslizaram, separando-as no chão e depois fixando-as no lugar certo, gostando da sensação da massa pesada em minhas mãos.

 

A sensação de irrealidade é tão frequente que sentir o peso das pedras é um modo de me lembrar da própria existência.

 

Margrét e eu trabalhamos em silêncio; ela só fala comigo para me dar ordens. É como se nossa mente estivesse em outro lugar, e penso como é estranho que o acaso tenha me levado de volta a Kornsá, onde morei quando criança. Onde pela primeira vez aprendi o que era sofrer. Penso nos caminhos que escolhi e penso no reverendo.

 

Thorvardur Jónsson, que pede para ser chamado de Tóti, como um filho de fazendeiro. Ele parece imaturo demais para essa posição. Tem maciez na voz e nas mãos. Não são compridas nem manchadas de tintura como eram as de Natan, nem carnudas como as mãos de um ajudante de fazenda, mas pequenas, magras e limpas. Ele as pousara na Bíblia enquanto falava comigo.

 

Cometi um equívoco. Eles me condenam à morte, e peço um garoto para me guiar a ela. Um garoto ruivo que engole seu pão com manteiga e caminha para seu cavalo com o fundilho da calça molhado; esse é o jovem que, eles esperam, vai me colocar de joelhos, prenhe de orações. Esse é o jovem que, eu espero, será capaz de me ajudar, embora não consiga pensar em que nem como.

 

A única pessoa que entenderia o que sinto é Natan. Ele me conhecia como se conhecem as estações, as marés, o cheiro de fumaça; conhecia o que eu era, o que eu queria. E agora ele está morto.

 

Talvez eu devesse dizer a ele: pobre garoto, volte para a casa paroquial e seus preciosos livros. Eu estava errada: não há nada que você possa fazer por mim. Deus teve sua oportunidade de me libertar e por razões que apenas Ele conhece, me prendeu à má sorte, e, embora eu tenha lutado, sou marcada pelo infortúnio; e tenho esse destino cravado em mim até o fundo da alma.

 

Ao vice-governador do Nordeste da Islândia,

 

Obrigado pela ilustre missiva de Sua Excelência de 10 de janeiro deste ano referente às acusações de assassinato, incêndio criminoso e outros crimes feitas contra os réus Fridrik, Agnes e Sigrídur, pelas quais eles foram sentenciados à morte. Em resposta à sua carta, permita-me informá-lo de que B. Henriksson, o ferreiro a quem foi encomendada a feitura do machado a ser usado na execução, estimou em cinco dólares do reino o custo de seu trabalho e materiais, após minhas sugestões sobre a produção e o tamanho do machado em 30 de dezembro do ano passado. Contudo, depois de receber a carta de Sua Excelência, eu pensei, concordando com Sua Excelência, que seria melhor comprar um machado maior de Copenhague pelo mesmo preço, e por isso desde então pedi a Simonsen, o comerciante, para fazer isso por mim.

 

Neste verão, o homem citado, Simonsen, veio a mim com o machado, e, embora tenha sido feito exatamente como pedido, fiquei surpreso ao tomar conhecimento por Simonsen de que custou vinte e cinco dólares do reino. Ao examinar a nota, descobri que a quantia estava correta e fui compreensivelmente obrigado a pagar a fatura de Herr Simonsen com os fundos destinados a este caso por Sua Excelência.

 

Agora, ousando explicar o estado depauperado desses fundos, humildemente pergunto se essa despesa na verdade não deveria ser paga com o dinheiro alocado para este caso, que, entre outras coisas, serve para pagar pela custódia dos prisioneiros. Também pergunto humildemente à Sua Excelência o que deveremos fazer com esse machado depois de ter sido usado para as execuções.

 

O humilde e obediente servo de Sua Excelência.

Comissário Distrital de Húnavatn

Björn Blöndal

 

Tóti deixara Kornsá com a clara intenção de escrever a Blöndal e desistir de sua promessa de acompanhar Agnes em seus últimos momentos. Sua segunda conversa com a criminosa fora um fracasso; ele nem mesmo conduzira uma simples oração. Mas a ideia de que precisaria explicar por que voltara atrás após apenas duas visitas o enchia de temor e constrangimento, e, então, abandonou a redação da carta. Farei isso amanhã, prometera a si mesmo a cada novo dia em Breidabólstadur, mas duas semanas haviam se passado, os camponeses estavam se preparando para a colheita de meados de julho, e ele não tomara da pena.

 

Certa noite, Tóti estava sentado com o reverendo Jón, lendo em silêncio, quando o pai ergueu a cabeça grisalha e perguntou:

 

- A assassina reza?

 

Tóti hesitou antes de responder.

 

- Não estou certo.

 

- Hummm - murmurou o reverendo Jón. - Certifique-se disso.

 

Ele olhou para o filho com olhos remelentos, até Tóti sentir um rubor nas bochechas e no pescoço.

 

- Você é um servo do Senhor. Não se desgrace, rapaz - disse, antes de retornar às Escrituras.

 

Na manhã seguinte, Tóti se levantou para ordenhar Ýsa. Ele apoiou a testa no flanco quente da vaca e escutou o ritmo regular do leite caindo no balde de madeira. A imagem de Agnes sentada ao lado dele surgiu em sua mente. Seu pai sabia que ele não estava visitando Agnes. Ficaria envergonhado de saber que seu filho não podia suportar a responsabilidade da redenção de uma mulher. Mas o que ele poderia fazer com uma mulher nada disposta a se redimir? O que Agnes dissera? Não conhecera um religioso com o qual se importasse. Não parecia ser religiosa, e aquele discursinho idiota que ele redigira sobre consolo espiritual, todas aquelas palavras grandiosas, foram ignoradas. O que então ela queria dele? Por que chamá-lo se não queria falar de Deus? De morte e céu e inferno, e da palavra do Senhor? Porque ele a ajudara a cruzar um rio? Era enervante. Por que não requisitar um amigo ou parente que a ajudasse a aceitar o fim de sua vida?

 

O comissário distrital Blöndal provavelmente não aprovaria.

 

Talvez ela não tivesse nenhum amigo no mundo. Talvez quisesse falar de outras coisas. Como cruzar a passagem de Gönguskörd em uma primavera inundada. De como deixara o vale de Vatnsdalur para trabalhar no leste, ou por que não se interessava por clérigos. Tóti fechou os olhos, sentindo Ýsa, inquieta, deslocar seu peso quente de um lado para o outro sob a testa dele. Para acalmá-la, recitou Hallgrímur Pétursson: "O caminho para Tua Paixão desejo tomar, De minha fraqueza um caráter de fogo criar". Ele abriu os olhos e repetiu o último verso.

 

Quando o balde encheu, decidira retornar a Kornsá.

 

Uma névoa cobria o vale, dificultando que Tóti visse as montanhas enquanto cavalgava pelas espirais fantasmagóricas que pairavam sobre a grama. Ele estremeceu com o frio e enfiou as mãos no calor da crina do cavalo. Hoje eu ajeitarei as coisas com Agnes, pensou.

 

Quando Tóti conteve seu cavalo, passando pelas três estranhas colinas de Thrístapar na boca do vale em direção à garganta verde de Vatnsdalur, o sol da manhã perfurava as nuvens. Seria outro dia claro. Logo as famílias e seus criados estariam espalhados pelos campos, foice na mão, colocando o capim cortado para secar e fazendo o cheiro do feno cortado sufocar o vale. Mas agora, no começo da manhã, Tóti só podia ver os pontos mais altos das montanhas, suas formas marrons ainda escondidas pela faixa de névoa que se dissipava lentamente. Ele ouviu um grito repentino e percebeu Páll, o garoto pastor de Kornsá, conduzindo as ovelhas pela encosta da montanha, um pouco escondido pela névoa. Tóti impeliu seu cavalo para a margem do rio que percorria o vale e passou por Kornsá a distância, seguindo para a cabana inclinada de Undirfell.

 

Um grande fazendeiro com barba por fazer apareceu à porta.

 

- Blessuð. Saudações. Sou Haukur Jónsson.

 

- Saell, Haukur. Sou o reverendo Thorvardur Jónsson. O reverendo de Undirfell está aqui?

 

- Pétur Bjarnason? Não, ele não mora aqui. Mas não fica longe. Entre.

 

Tóti seguiu a forma grandiosa do fazendeiro para dentro da cabana. A moradia era maior que muitas que vira. Havia pelo menos oito pessoas no badstofa, vestindo-se e conversando. Uma menina com olhos grandes segurava no colo um bebê de rosto vermelho que chorava, e duas criadas tentavam enfiar roupas em um garoto mais interessado em seu jogo de pedrinhas no chão. Tão logo viram o reverendo, pararam de falar.

 

- Por favor, sente-se aqui - disse Haukur, apontando para um espaço em uma cama ao lado de uma mulher muito velha, cujo rosto enrugado olhava vazio para o de Tóti. - Essa é Gudrún. É cega. Vou buscar o reverendo caso não se importe de esperar.

 

- Obrigado - disse Tóti.

 

O fazendeiro saiu, e uma jovem de rosto saudável logo entrou no badstofa.

 

- Olá! Então é de Breidabólstadur? Posso oferecer algo para beber? Sou Dagga.

 

Tóti balançou a cabeça, e Dagga tirou o bebê dos braços da garotinha e o apoiou sobre o ombro.

 

- Pobrezinha, passou a noite toda gritando a ponto de acordar os mortos.

 

- Não está passando bem?

 

- Meu marido diz que é cólica, mas temo que seja algo mais grave. Conhece alguma coisa de medicina, reverendo?

 

- Eu? Ah, não. Não mais do que você mesma, lamento.

 

- Deixe para lá. Que pena que Natan Ketilsson esteja morto, que Deus abençoe sua alma.

 

Tóti a encarou.

 

- Perdão?

 

A garota no canto falou:

 

- Ele me curou de coqueluche.

 

- Ele era amigo da família? - perguntou Tóti.

 

Dagga retorceu o nariz.

 

- Não. Não um amigo, mas era um homem útil a quem mandávamos buscar quando as crianças estavam doentes ou precisavam de uma sangria. Quando a pequena Gulla - disse, apontando para a garotinha que havia falado - teve coqueluche, ele passou uma ou duas noites misturando suas ervas e olhando livros em uma língua estrangeira. Sujeito estranho.

 

- Ele era um feiticeiro - disse a mulher velha ao lado dele. A família olhou para ela. - Ele era um feiticeiro - repetiu ela. - E sabia o que ia lhe acontecer.

 

- Gudrún... - disse Dagga, sorrindo nervosa na direção de Tóti. - Temos um convidado. Você vai assustar as crianças.

 

- Natan Satã era o nome dele. Nada do que ele fazia vinha de Deus.

 

- Fique quieta, Gudrún. Isso é só uma história.

 

- Qual é a história? - perguntou Tóti.

 

Dagga passou o bebê chorando para o outro lado do quadril.

 

- Nunca ouviu?

 

Tóti balançou a cabeça.

 

- Não, eu estava estudando no Sul. Em Bessastadir.

 

Dagga ergueu as sobrancelhas.

 

- Bem, é só uma coisa que as pessoas falam no vale. Há gente aqui que alega que a mãe de Natan Ketilsson tinha visões; ela sonhava coisas, e elas aconteciam, entende? Quando estava grávida de Natan, sonhou que um homem ia até ela e dizia que teria um menino. O homem no sonho perguntou se daria ao menino seu nome, e quando ela concordou, o homem disse que seu nome era Satã.

 

- Ela entrou em pânico - interrompeu Gudrún, franzindo o cenho. - O padre mudou para Natan, e eles acharam que era decente. Mas todos nós sabíamos que aquele garoto nunca daria nada de bom. Ele era um gêmeo, porém seu irmão nunca viu a luz de Deus: um para cima, um para baixo - disse ela, movendo-se lentamente na cama e levando o rosto para mais perto do de Tóti. - Ele nunca estava sem dinheiro. Ele lidava com o Diabo - sussurrou.

 

- Ou ele era apenas um herborista ganancioso, que cobrava mais do que deveria - Dagga sugeriu alegremente. - Como falei, é apenas algo que as pessoas dizem.

 

Tóti anuiu.

 

- Seja como for, o que o traz a Vatnsdalur, reverendo?

 

- Sou o padre de Agnes Magnúsdóttir.

 

O sorriso sumiu do rosto da mulher.

 

- Ouvi dizer que ela foi levada a Kornsá.

 

- Sim.

 

Tóti viu as duas criadas trocando olhares. Ao seu lado, Gudrún tossiu violentamente. Ele sentiu a saliva respingar em seu pescoço.

 

- O julgamento aconteceu em Hvammur - continuou Dagga.

 

- Sim.

 

- O senhor sabe que ela é deste vale.

 

- Por isso estou aqui - disse Tóti. - Em Undirfell, quero dizer. Quero descobrir no livro de registros algo sobre a vida dela.

 

A expressão da mulher se tornou amarga.

 

- Eu poderia lhe contar algo sobre a vida dela - disse, hesitando e depois ordenando que as criadas levassem as crianças para fora, em seguida esperando que deixassem o aposento antes de voltar a falar. - Ela sempre teve aquilo dentro dela.

 

Dagga falou em voz baixa, lançando um olhar para Gudrún, que recostara na parede e parecia cochilar.

 

- O que quer dizer? - perguntou Tóti.

 

A mulher fez uma careta e se aproximou.

 

- Odeio dizer isso, mas Agnes Magnúsdóttir nunca se importou com ninguém além dela mesma, reverendo. Tinha uma espécie de fixação em subir na vida. Queria ir acima de sua posição.

 

- Ela era pobre?

 

- Era uma bastarda miserável com um espírito conspirativo que você nunca veria em uma verdadeira criada.

 

Tóti estremeceu com as palavras da mulher.

 

- Vocês não tinham boas relações.

 

Dagga riu.

 

- Não exatamente. Agnes era de um tipo diferente.

 

- E que tipo é esse?

 

Dagga hesitou.

 

- Há algumas pessoas que se contentam com seu lugar no mundo, e dou graças a Deus por elas. Porém não ela.

 

- Mas você a conhecia?

 

A mulher transferiu a criança choramingando para o outro lado do quadril.

 

- Nunca partilhamos um badstofa, mas eu a conheço, reverendo. Todo mundo se conhece neste vale. Costumava haver um poema sobre ela por aqui, quando era mais jovem. As pessoas então gostavam dela e a chamavam de Búrfell-Agnes. Mas ela se tornou amarga ao envelhecer. Algo nela não lhe permitia prender um homem. Não conseguia se aquietar. Este vale é pequeno, e ela tinha fama de língua afiada e saia solta.

 

Alguém pigarreou no umbral. O fazendeiro havia voltado com outro homem, que bocejava e coçava a barba por fazer no pescoço.

 

- Reverendo Thorvardur Jónsson, por favor, conheça o reverendo Pétur Bjarnason.

 

A igreja de Undirfell era uma pequena casa de adoração com não mais de seis bancos e um espaço para ficar de pé nos fundos. Não era grande o bastante para todos os fazendeiros do vale, pensou Tóti enquanto o reverendo Pétur distraidamente empurrava os óculos de aro de metal para o alto do nariz.

 

- Ah, eis a chave - disse o padre, curvando-se sobre uma arca no altar e mexendo no cadeado. - Disse que está em Kornsá?

 

- Não, apenas de visita - disse Tóti.

 

- Melhor você do que eu, imagino. Como está a família lá?

 

- Não os conheço bem.

 

- Não, quero dizer, como eles estão aceitando o fato de terem de ficar com a assassina?

 

Tóti pensou nas palavras raivosas de Margrét na noite em que Agnes chegou de Stóra-Borg.

 

- Um pouco aborrecidos, talvez.

 

- Eles cumprirão seu dever. Uma família bastante agradável. A filha mais nova é uma beleza. Aquelas covinhas. Conscienciosa e rápida como um açoite.

 

- Lauga, não é?

 

- Isso. Supera em muito a irmã.

 

O padre levou um grande livro encadernado em couro para o altar.

 

- Aqui estamos. Agora, qual a idade dela?

 

- Da filha? Não saberia dizer.

 

- Não, da assassina, meu garoto.

 

Tóti enrijeceu de desprazer ao ser chamado de garoto.

 

- Não estou certo. Mais de trinta anos, eu diria. Não a conhece?

 

O padre fungou.

 

- Só passei aqui um inverno.

 

- Isso é uma pena. Esperava descobrir com o senhor algo sobre o caráter dela.

 

O padre debochou.

 

- Certamente o corpo morto de Natan Ketilsson é um bom indício do seu caráter.

 

- Talvez. Mas eu gostaria de saber um pouco da vida dela antes do incidente em Illugastadir.

 

O reverendo Pétur Bjarnason baixou os olhos para Tóti.

 

- Você é extremamente jovem para ser o padre dela.

 

Tóti corou.

 

- Ela me chamou.

 

- Bem, se há algo que mereça ser sabido sobre seu caráter, estará no livro de registros - disse o reverendo Pétur, virando cuidadosamente as páginas amarelas com caligrafia quase ilegível. - Aqui está. 1795. Nascida de Ingveldur Rafnsdóttir e Magnús Magnússon, na fazenda de Flaga. Não casados. Filha ilegítima. Nascida em 27 de outubro e batizada no dia seguinte. O que mais gostaria de saber?

 

- Os pais não eram casados?

 

- É o que está escrito aqui. Diz "o pai vive em Stóridalur. Nada mais que seja digno de nota". E agora, o que mais deseja? Quer que olhemos sua crisma? Está aqui. O comissário distrital Blöndal me fez mandar os detalhes para ele há alguns meses - disse o padre, fungando e empurrando os óculos para o alto do nariz. - Eis a notícia. Você mesmo pode ler.

 

Ele saiu do caminho para deixar Tóti se inclinar sobre a página.

 

- Em 22 de maio de 1809 - leu Tóti em voz alta. - Crismada aos catorze com - disse, fazendo uma pausa para contar. - Cinco outros. Mas ela deveria ter treze.

 

- Como é? - perguntou o padre, virando-se da janela pela qual estava olhando.

 

- Aqui diz que ela tinha catorze. Mas em maio ela teria treze.

 

O padre deu de ombros.

 

- Treze, catorze. Que diferença faz?

 

Tóti balançou a cabeça.

 

- Nenhuma. O que diz aqui?

 

O padre se inclinou sobre o livro. Tóti sentiu seu hálito. Cheirava a brandy e peixe.

 

- Vamos ver. Três dessas crianças, Grímur, Sveinbjörn e Agnes, aprenderam todo o Kverið. Depois prossegue. Você sabe, os comentários habituais.

 

- Ela se saiu bem?

 

- Diz que ela tinha "um intelecto excelente e forte conhecimento e compreensão do cristianismo". Uma vergonha não ter seguido esses ensinamentos.

 

Tóti ignorou o último comentário.

 

- Um intelecto excelente - repetiu.

 

- É o que diz. Agora, reverendo Thorvardur, vai nos manter aqui no frio estudando árvores genealógicas por mais algum tempo ou podemos retornar à bela esposinha de Haukur para comida e café da manhã, caso seja possível?

 

- Reverendo Tóti! - exclamou Margrét, abrindo a porta menos de três segundos após o jovem ter batido com força em sua superfície. - Gentileza sua nos visitar. Achamos que poderia ter voltado para o Sul. Entre.

 

Ela tossiu e escancarou a porta, e Tóti percebeu que estava equilibrando um saco pesado no quadril.

 

- Deixe que pego isso para a senhora - ofereceu ele.

 

- Não se preocupe, não se preocupe - grunhiu Margrét, chamando-o para o corredor. - Sou totalmente capaz. Os trabalhadores voltaram de Reykjavík carregados de mercadorias - falou, virando-se para ele com um pequeno sorriso.

 

- Entendo. Dos comerciantes - disse Tóti.

 

Margrét anuiu.

 

- Não foi ruim. Sem carunchos na farinha, diferente do ano passado. Sal, e também açúcar.

 

- Fico contente em saber.

 

- Gostaria de um café?

 

- Você tem café? - reagiu Tóti, surpreso.

 

- Vendemos todas as coisas de lã e um pouco de carne curada. Jón está lá fora, amolando as foices para a colheita. Quer um pouco? - disse, conduzindo o reverendo ao badstofa e puxando a cortina de lado para que entrasse na sala. - Espere aqui - disse, saindo desajeitadamente, o saco ainda no quadril.

 

Tóti sentou-se na cadeira e começou a passar o dedo pelos veios da madeira da mesa. Podia ouvir Margrét ter um acesso de tosse na cozinha.

 

- Reverendo Tóti? - murmurou uma voz do outro lado da cortina. Tóti se levantou e puxou a cortina de lado com cuidado. Agnes espiou pela abertura e acenou para ele.

 

- Agnes. Como está?

 

- Desculpe-me. Eu só precisava pegar... - disse, apontando para um novelo de lã que estava na outra cadeira da sala. Tóti colocou-se de lado e ergueu a cortina para que ela entrasse.

 

- Por favor, fique - disse ele. - Vim para vê-la.

 

Agnes pegou o novelo.

 

- Margrét me pediu para...

 

- Por favor. Sente-se, Agnes.

 

Ela obedeceu e sentou-se bem na beirada da cadeira.

 

- Aqui está! - disse Margrét, voltando animada para a sala com uma bandeja de café e um prato com manteiga e pão de centeio. Até que notou Agnes.

 

- Espero que não se importe de se privar de Agnes por um momento - disse Tóti, levantando-se. - É que eu vim falar com ela. Ordens de Blöndal - brincou ele, dando um pequeno sorriso para Margrét, que o encarava.

 

Margrét apertou os lábios e sinalizou concordância.

 

- Faça o que quiser com ela, reverendo Tóti. Tire-a de minhas mãos.

 

Ela colocou a bandeja na mesa com estrépito, depois virou-se e passou pela cortina. Agnes e Tóti escutaram seus passos pesados no piso de terra do corredor. Uma porta bateu.

 

- E então - disse Tóti, sentando-se à mesa e fazendo uma careta para Agnes. - Gostaria de um pouco de café? Só há uma xícara, mas tenho certeza de que...

 

Agnes balançou a cabeça.

 

- Então coma o pão. Eu acabei de fazer uma visita a Undirfell, e a dona da casa me encheu de skyr.

 

Ele empurrou o prato para Agnes, depois serviu uma xícara de café, colocando um pouco de açúcar. Com o canto do olho, viu Agnes arrancar o canto do pão e enfiá-lo na boca. Ele sorriu.

 

- Pelo visto os criados cuidaram bem dos negócios de seus senhores em Reykjavík.

 

Tóti sentiu o café quente escaldando a língua enquanto bebia. Sua reação automática seria cuspir, mas ele estava consciente dos olhos claros de Agnes vigiando-o e se forçou a engolir o líquido fervente, engasgando um pouco.

 

- O que está achando daqui, Agnes?

 

Agnes engoliu o pão e o encarou. Seu rosto ganhara viço, e o hematoma no pescoço desaparecera quase por completo.

 

- Você parece bem.

 

- Eles me alimentam melhor do que em Stóra-Borg.

 

- E está se dando bem com a família?

 

Ela hesitou.

 

- Eles me toleram.

 

- O que acha de Jón, o oficial distrital?

 

- Ele se recusa a falar comigo.

 

- E as filhas?

 

Agnes não disse nada, e Tóti continuou:

 

- Lauga parece ser a favorita do reverendo de Undirfell. Diz que é extremamente inteligente para uma mulher.

 

- E a irmã?

 

Tóti tomou outro gole do café e fez uma pausa.

 

- É uma boa menina.

 

- Uma boa menina - repetiu Agnes.

 

- Sim. Coma mais.

 

Agnes pegou o resto do pão. Comeu rapidamente, mantendo os dedos perto da boca e lambendo deles a manteiga ao terminar. Tóti não pôde deixar de olhar para o rosa engordurado de seus lábios.

 

Ele se obrigou a olhar para a xícara de café à sua frente.

 

- Suponho que esteja se perguntando por que voltei.

 

Agnes usou a unha do polegar para arrancar uma migalha dos dentes e ficou em silêncio.

 

- Você me chamou de criança - disse Tóti.

 

- Eu o ofendi - disse ela, parecendo desinteressada.

 

- Eu não me ofendi - mentiu Tóti. - Mas você estava errada, Agnes. Sim, eu sou jovem, porém passei três longos anos na escola de Bessastadir, no Sul; falo latim, grego e dinamarquês, e Deus me escolheu para guiá-la à redenção.

 

Agnes o encarou sem piscar.

 

- Não. Eu o escolhi, reverendo.

 

- Então deixe-me ajudá-la!

 

A mulher ficou em silêncio por um momento. Continuou a limpar os dentes, depois enxugou as mãos no avental.

 

- Se você vai falar comigo, fale normalmente. O reverendo em Stóra-Borg falava como se fosse o próprio bispo. Ele esperava que eu chorasse aos seus pés. Não escutava.

 

- O que você queria que ele escutasse?

 

Agnes balançou a cabeça.

 

- Sempre que eu dizia algo, eles mudavam minhas palavras e as devolviam a mim como um insulto ou uma acusação.

 

Tóti assentiu.

 

- Você gostaria que eu lhe falasse normalmente. E talvez gostasse que a escutasse?

 

Agnes o encarou com cuidado, inclinando-se para a frente na cadeira, de modo que Tóti de repente percebeu a curiosa cor de seus olhos. As íris azuis eram claras como gelo, com pintas cinzentas nas pupilas, mas limitadas por um fino círculo preto.

 

- O que você quer ouvir? - perguntou ela.

 

Tóti recostou na cadeira.

 

- Passei esta manhã na igreja de Undirfell. Fui lá procurá-la no livro de registros. Você disse que era deste vale.

 

- E eu estava lá?

 

- Encontrei os registros de nascimento e crisma.

 

- Então sabe qual a minha idade - disse, dando um sorriso frio.

 

- Talvez você pudesse me contar um pouco mais de sua história. Sobre sua família.

 

Agnes respirou fundo e começou a enrolar a lã do novelo nos dedos.

 

- Não tenho família.

 

- Isso é impossível.

 

Ela apertou a lã nos nós dos dedos, e as pontas ficaram arroxeadas com a compressão.

 

- O senhor pode ter visto o nome deles no seu livro, reverendo, mas eu poderia muito bem ter sido registrada como órfã.

 

- Por que isso?

 

Houve uma tossida do outro lado da cortina, e dois sapatos de pele de peixe puderam ser vistos movendo-se sob a bainha.

 

- Entre - disse Tóti. Agnes rapidamente soltou a lã dos dedos, enquanto a cortina era puxada para o lado e o rosto sardento de Steina aparecia.

 

- Lamento incomodar, reverendo, mas mamãe está chamando por ela - disse, fazendo um gesto apressado para Agnes, que começou a se levantar da cadeira.

 

- Estamos conversando - disse Tóti.

 

- Lamento, reverendo. É a colheita. Quero dizer, estamos no meio de julho, então precisamos começar a colher o feno de hoje em diante. Bem, pelo menos enquanto houver sol.

 

- Steina, eu andei toda esta...

 

Agnes pôs a mão de leve no ombro dele e deu um olhar duro que o calou. Ele olhou para a mão dela, os dedos compridos e brancos, a bolha rosa no polegar. Percebendo seu olhar, Agnes retirou a mão tão rapidamente quanto havia colocado ali.

 

- Volte amanhã, reverendo. Caso queira. Podemos conversar enquanto o orvalho seca no feno.

 

Talvez seja uma vergonha que eu tenha jurado manter meu passado trancado dentro de mim. Em Hvammur, durante o julgamento, eles arrancaram minhas palavras como se fossem pássaros. Pássaros assustadores, vestidos de vermelho com botões de prata no peito, cabeças inclinadas e bocas penetrantes, procurando culpa como frutas em um arbusto. Eles não me deixaram contar do meu modo o que havia acontecido, pegaram minhas lembranças de Illugastadir, de Natan, e as teceram em algo sinistro; arrancaram meu depoimento naquela noite e fizeram com que parecesse malvada. Tudo o que eu disse foi tirado de mim e modificado a tal ponto que a história não fosse mais minha.

 

Achei que poderiam acreditar em mim. Quando rufaram o tambor naquela salinha e Blöndal anunciou "culpada", a única coisa em que consegui pensar foi: se você se mover, vai desmoronar. Se respirar, vai desaparecer. Eles querem acabar com você.

 

Depois do julgamento, o padre de Tjörn me disse que eu iria queimar se não repassasse os pecados da minha vida e rezasse por perdão. Como se uma prece pudesse simplesmente eliminar o pecado. Mas qualquer mulher sabe que uma trama, assim que tecida, não se desmancha; a única maneira de reparar um erro é deixar que tudo se desfaça.

 

Natan não acreditava em pecado. Ele dizia que era a falha de caráter que fazia a pessoa, e que até mesmo a natureza desafia suas próprias regras pelo bem da beleza. Pelo bem da criação. Para manter seu próprio sangue quente. Você entende, Agnes.

 

Ele me disse isso depois que a ovelha de duas cabeças nasceu em Stapar. Um dos criados havia corrido até Illugastadir para contar a nova, mas quando Natan e eu chegamos a ovelha estava morta. O fazendeiro a matara, por achar que estava amaldiçoada. Natan pediu para levar o corpo e aprender como havia sido formado, mas, enquanto desenterrava a ovelha, uma das mulheres foi até ele e cuspiu: "Deixe que o Diabo cuide dos seus". Eu vi quando ele riu na cara dela.

 

Nós levamos a coisa estranha para a oficina, e, coberta de sangue e terra e totalmente nauseada, deixei Natan estripá-la sozinho. Sigga e eu não comemos os pedaços de carne que tirou dela, e, embora nos chamasse de ingratas, embora nos lembrasse do número de moedas que havia trocado pelo cadáver disforme, o apetite dele também não era grande. Usamos a carne como isca para raposas. Ele manteve o crânio gêmeo em sua oficina, o osso da cor de creme novo.

 

Fico pensando se o reverendo me vê como aquela ovelha. Uma curiosidade. Amaldiçoada. Como os homens veem mulheres como eu?

 

Mas o padre não é de modo algum um homem. Ele é frágil como uma criança, sem a presunção e a idiotice da juventude. Eu me lembrava dele como sendo mais alto do que é. Mal sei o que pensar dele.

 

Talvez apenas tenha talento para mentir. Deus sabe que conheci homens o suficiente para saber que uma vez desmamados eles começam a mentir.

 

Terei de pensar no que lhe dizer.

 

A névoa se dispersara no azul do dia, e a umidade na grama havia secado quando a família de Kornsá se reuniu na beirada do campo para começar a cortar o feno. O oficial distrital Jón estava de um lado com os dois trabalhadores que haviam acabado de voltar de Reykjavík - Bjarni e Gudmundur -, ambos com barba e cabelos louros compridos, e, do outro, Kristín, Margrét e Lauga. Todos esperavam silenciosamente que Steina e Agnes se juntassem ao círculo. Steina passou cambaleando pelo pátio, seguida por Agnes, que amarrava um lenço sobre os cabelos trançados.

 

- Estamos aqui - disse Steina alegremente. Agnes anuiu para Jón e Margrét. Os empregados olharam para ela e, depois, um para o outro.

 

Jón curvou a cabeça.

 

- Bom Senhor, agradecemos o bom tempo que enviou para nossa colheita. Oramos para que nos considere merecedores dele preservando-o, nos protegendo de perigos e acidentes e nos dando o feno de que necessitamos para viver. Em nome de Jesus, amém.

 

Os empregados murmuraram seus améns e pegaram as foices de cabo longo. Haviam sido recentemente marteladas e amoladas, e as lâminas de ferro brilhavam. Gudmundur, um homem baixo musculoso de vinte e oito anos, testou o gume da foice nos pelos do pulso e então, satisfeito que estivesse suficientemente afiada, colocou-se rapidamente na posição certa e raspou a foice na grama, a seus pés. Ergueu os olhos e notou Agnes a observá-lo.

 

- Gudmundur e Bjarni - dizia o oficial distrital. - Vocês cortarão com Kristín e...

 

Jón hesitou e olhou rapidamente para Agnes. Os trabalhadores acompanharam seu olhar e o encararam.

 

- Você vai dar uma foice a ela? - perguntou descontraidamente Bjarni, um homem de aparência doentia. Riu nervoso.

 

Margrét pigarreou.

 

- Agnes e Kristín cortarão com vocês e Jón. Steina, Lauga e eu vamos juntar e virar a grama.

 

Ela olhou feio para Gudmundur, que sorria para Bjarni, e cuspiu no chão perto dos pés dele.

 

- Dê foices a elas - disse Jón em voz baixa, e Gudmundur largou a dele no chão. Virou-se e pegou duas outras foices, dando uma a Kristín, que fez uma mesura confusa, e depois se esticou para dar a outra a Agnes. Ela estendeu o braço para pegá-la, mas Gudmundur se recusou a soltar. Por um breve momento ambos ficaram ali, segurando juntos o cabo da foice, antes que Gudmundur o soltasse de repente. Agnes tropeçou para trás, e a foice raspou em seu tornozelo. Bjarni conteve o riso.

 

- Vão pegar os ancinhos, garotas - disse Jón, ignorando o riso dos trabalhadores e de Lauga, que não conseguiu evitar o sorriso ao ver Agnes olhar em pânico para a perna.

 

- Está ferida? - Steina sussurrou para Agnes ao passar por ela. Agnes balançou a cabeça, maxilar cerrado.

 

Margrét olhou para a filha e franziu o cenho.

 

Deixo meu corpo entrar no ritmo. Balanço para a frente e para trás e deixo a gravidade levar a foice para baixo e pela grama, até eu balançar com firmeza. Até sentir que não estou me movendo e que o sol me impele. Até ser uma marionete do vento, e da foice, e dos compridos golpes lentos que impelem meu corpo para a frente. Até não conseguir parar, mesmo que quisesse.

 

É uma sensação boa, não estar no controle. De ser suavemente balançada para a frente e para trás, até esquecer o que é estar imóvel. Como estar com Natan naqueles primeiros meses, quando meu coração estremecia através de mim e eu poderia ter morrido, tão feliz estava de ser desejada. Quando o cheiro dele, de enxofre e de ervas esmagadas, de suor de cavalo e da fumaça de sua forja me deixavam tonta de prazer. De possibilidades.

 

Eu me sentia embriagada de verão e luz do sol. Queria apanhar punhados de céu e comê-los. Enquanto as foices passavam seus dedos afiados pelos ramos, a grama cortada fazia um som ofegante.

 

De repente me dou conta de que o criado, o de nome Gudmundur, está me observando. Ele virou a cabeça para me encarar. Talvez ache que não percebo.

 

Eu tinha catorze anos quando os homens começaram a olhar para mim desse jeito. Criada em Gudrúnarstadir, cheguei em março com meus pertences em um saco branco, e minha cabeça doía por causa dos cabelos em tranças apertadas. Meu primeiro emprego de verdade. Também havia um jovem criado. Um homem alto, com pele ruim e um jeito de olhar para as criadas - Ingibjörg, Helga e eu - que nos fazia evitá-lo. Eu o ouvia se tocar no escuro - um farfalhar apressado sob o cobertor, depois um grunhido ou, de vez em quando, um gemido.

 

Deixo meu corpo balançar, deixo os braços cair. Sinto os músculos de meu estômago se contraindo e retorcendo. A foice sobe, desce, sobe, desce, captura o sol em sua lâmina e lança a luz sobre meus olhos - uma piscadela brilhante de Deus. Eu a observo, diz a foice, avançando pelo mar verde, capturando o sol e devolvendo-o para mim. O criado expira, balança sua foice, olha de soslaio para meus braços nus. Eu golpeio a grama e a luz pelo ar. Eu a observo, diz a foice.

 

Como prometido, o reverendo Tóti voltou a Kornsá na manhã seguinte cedo, bem antes de o sol ter se erguido de seu ponto de descanso no horizonte do mar. Seu corpo doía do primeiro dia de colheita em Breidabólstadur, e ele apreciava o ar frio batendo em seu rosto e a névoa fina do hálito de sua égua enquanto seguiam pela trilha para o vale de Vatnsdalur. Todos os assentamentos do distrito haviam começado a colheita do feno no dia anterior, e a visão de campos derrubados pela metade, o capim reunido em cones para impedir que o sereno encharcasse o feno, contribuía para uma sensação de ordem e prosperidade. O Norte opulento, era assim que o chamavam. Por toda parte passarinhos mergulhavam em meio ao restolho, pegando os insetos deixados vulneráveis pela colheita, e espirais de fumaça se erguiam do teto inclinado das cabanas do vale.

 

Na grande fazenda de Hvammur, onde Tóti sabia que Björn Blöndal morava com família e criados do outro lado do rio e que podia ser vista de Kornsá, várias chaminés soltavam fumaça. A fachada de madeira lisa das cabanas de grama anexas exibia janelas de vidro que cintilavam, mesmo à fraca luz amarelada da manhã. Como olhos, pensou Tóti, sentindo-se fantasioso. Ele ouvira falar que grande parte do julgamento de Illugastadir acontecera na sala de visitas da fazenda, que dava para o rio sinuoso e sua beirada de grama dourada do pântano.

 

Fico pensando no que passava pela cabeça dela ao olhar para a fazenda do outro lado do rio, especulou Tóti. Sentada lá naquela sala, quando lhe diziam que tinha de morrer. Será que olhou pela janela e viu o gelo flutuando no rio? Possivelmente o mundo estava escuro demais para ver algo. Possivelmente cobriram as janelas com uma cortina para bloquear a luz.

 

O oficial distrital estava fora de casa com outro homem - algum tipo de funcionário, pensou Tóti -, amolando as foices. Jón ergueu sua pedra de amolar em cumprimento e recolocou o gorro antes de se adiantar.

 

- Reverendo Thorvardur. Deus o abençoe.

 

- E você também - disse Tóti alegremente.

 

- Está aqui para vê-la.

 

Tóti assentiu.

 

- O que acha de Agnes?

 

Jón deu de ombros.

 

- A vida segue.

 

- É boa trabalhadora?

 

- É boa trabalhadora, mas... - começou, interrompendo-se.

 

Tóti sorriu gentilmente.

 

- É apenas temporário, Jón - disse, dando um tapinha tranquilizador nas costas do homem e virando-se para entrar na casa.

 

- Jón Thórdarson se ofereceu para matá-los - disse Jón de repente.

 

Tóti se virou.

 

- Perdão?

 

- Jón Thórdarson. Ele veio a cavalo até Hvammur há algumas semanas e disse que seria o carrasco de Fridrik, Sigga e Agnes. Dispôs-se a brandir o machado por uma libra de tabaco - disse, balançando a cabeça. - Uma libra de tabaco.

 

- O que Blöndal disse?

 

Jón fez uma careta.

 

- O que acha que ele disse? Thórdarson é um ninguém. Ele tem outra pessoa em mente, embora alguns sejam contra isso.

 

Tóti olhou para o trabalhador, que estava apoiado na parede da oficina de ferreiro, escutando.

 

- E quem seria essa pessoa? -perguntou Tóti.

 

Jón balançou a cabeça, incomodado. Foi o trabalhador quem falou:

 

- Gudmundur Ketilsson - disse em voz alta. - Irmão de Natan.

 

- Podemos nos sentar lá dentro, caso prefira - disse Tóti, quase tropeçando nas pedras próximas ao caudaloso córrego que corria junto à fazenda Kornsá.

 

- Gosto de olhar para a água - retrucou Agnes.

 

- Muito bem - disse Tóti, limpando a umidade de uma grande pedra e acenando para que Agnes se sentasse. Ele se acomodou ao lado dela.

 

O córrego Kornsá tinha uma boa vista para o outro lado do rio. Era bonito, mas Tóti só conseguia pensar no que Jón comentara mais cedo a respeito do carrasco. Ele deu uma espiada no pescoço branco de Agnes em contraste com a pedra cinza e o imaginou cortado.

 

- Como foi a colheita ontem? - perguntou, tentando esvaziar a cabeça.

 

- Muito quente.

 

- Bom - retrucou Tóti.

 

Agnes levou a mão ao xale, tirou um novelo de lã e várias finas agulhas de tricô.

 

- Queria me perguntar sobre minha família?

 

Tóti pigarreou e viu os dedos dela se movendo enquanto começava a tricotar.

 

- Sim. Você nasceu em Flaga.

 

Agnes inclinou a cabeça para a fazenda em questão, uma cabana torta à esquerda do limite de Kornsá. Era suficientemente perto para que as vozes dos criados, chamando uns aos outros do lado de fora, pudessem ser ouvidas com o vento.

 

- Lá mesmo.

 

- Sua mãe não era casada.

 

- Soube disso pelo livro de registros? - perguntou Agnes, dando um pequeno sorriso. - Os padres sempre se preocupam em escrever as coisas importantes.

 

- E seu pai, Magnús?

 

- Magnús também não era casado, se é o que quer dizer.

 

Tóti hesitou.

 

- Então com quem você viveu quando criança?

 

Agnes olhou para o vale.

 

- Eu vivi na maioria dessas fazendas.

 

- Sua família se mudava?

 

- Eu não tenho família. Minha mãe me deixou quando eu tinha seis anos.

 

- Como ela morreu? - perguntou Tóti gentilmente. Ficou chocado quando Agnes riu.

 

- Minha vida parece esse tipo de tragédia? Não, ela me deixou para que outros cuidassem de mim, mas imagino que ainda esteja viva. Não tenho como saber. Alguém me disse que ela havia sumido. Simplesmente se levantou um dia e foi embora. Já faz alguns anos.

 

- O que quer dizer?

 

- Não sei nada sobre minha mãe. Não a reconheceria se a visse.

 

- Porque você só tinha seis invernos quando ela a deixou?

 

Agnes parou de tricotar e olhou diretamente para Tóti.

 

- O senhor precisa compreender, reverendo, que as únicas coisas que sei sobre minha mãe são as que as pessoas me contaram. Principalmente o que ela fez, que, entenderá, elas não aprovaram.

 

- Poderia me dizer o que lhe contaram?

 

Agnes balançou a cabeça.

 

- Saber o que uma pessoa fez e saber quem uma pessoa é são coisas muito diferentes.

 

Tóti insistiu.

 

- Mas, Agnes, ações dizem mais do que palavras.

 

- Ações mentem - retrucou Agnes rapidamente. - Há casos em que as pessoas nunca têm uma chance no começo, ou podem ter cometido um equívoco. Quando os outros começam a dizer coisas sobre como ela devia ser uma mãe ruim por causa daquele equívoco...

 

Quando Tóti não disse nada em resposta, ela continuou:

 

- Não é justo. As pessoas alegam lhe conhecer por intermédio das coisas que você fez, e não por se sentar e escutar você falando de si mesma. Não importa quanto você tente levar uma vida de Deus; se cometer um equívoco neste vale, isso nunca será esquecido. Não importa o quanto tenha tentado fazer o que era melhor. Não importa se seu eu mais interior sussurre "Eu não sou como vocês dizem!"; o que as outras pessoas pensam de você é que determina quem você é.

 

Agnes parou para tomar fôlego. Ela começara a erguer a voz, e Tóti ficou pensando o que teria provocado aquela avalanche de palavras.

 

- Isso foi o que aconteceu à minha mãe, reverendo - continuou Agnes. - Quem ela realmente era? Provavelmente não o que as pessoas dizem que era, mas cometeu erros, e os outros chegaram a conclusões sobre ela. As pessoas aqui não deixam que você esqueça seus erros. Acham que são as únicas coisas que merecem ser escritas.

 

Tóti pensou um momento.

 

- Qual foi o erro de sua mãe?

 

- Disseram que cometeu muitos, reverendo. Mas pelo menos um desses erros fui eu. Ela não teve sorte.

 

- O que quer dizer?

 

- Ela fez o que muitas mulheres fazem sem problemas em segredo - disse Agnes, amarga. - Mas foi uma das poucas infelizes cujo segredo ficou claro para todos.

 

Tóti podia sentir seu rosto corar e queimar. Baixou os olhos para as mãos e tentou pigarrear.

 

Agnes olhou para ele.

 

- Eu o ofendi novamente - disse.

 

Tóti balançou a cabeça.

 

- Fico contente por me falar do seu passado.

 

- Meu passado ofende suas sensibilidades.

 

Tóti se remexeu na pedra.

 

- E quanto ao seu pai? - tentou.

 

Agnes riu.

 

- Qual deles? - disse, parando de tricotar para estudá-lo. - O que seu livro diz sobre meu pai?

 

- Que o nome dele era Magnús Magnússon e que vivia em Stóridalur na época de seu nascimento.

 

Agnes continuou a tricotar, mas Tóti notou que ela contraía o maxilar.

 

- Se conversar com certas pessoas por aqui, poderá ouvir uma história diferente.

 

- Como assim?

 

Agnes olhou para o outro lado do rio, para as fazendas no lado oposto do vale, contando silenciosamente com o dedo os pontos na agulha.

 

- Suponho que não importa se sou honesta com o senhor ou não - disse ela friamente. - Eu poderia lhe dizer qualquer coisa.

 

- Na verdade espero que confie em mim - disse Tóti, sem entender bem. Ele se inclinou mais para perto, esperando o que ela diria.

 

- Seu livro em Undirfell deveria ter dito Jón Bjarnason, o fazendeiro de Brekkukot. Disseram que ele é meu verdadeiro pai, e Magnús Magnússon, um empregado infeliz que não sabia de nada.

 

Tóti estava perplexo.

 

- Por que sua mãe lhe daria o nome de filha de Magnús se isso não fosse verdade?

 

Agnes virou-se para ele com um meio sorriso.

 

- O senhor não tem ideia de como o mundo funciona, reverendo? Jón de Brekkukot é um homem casado, com filhos legítimos o suficiente. Ah, e muitos como eu, pode estar certo. Mas, aparentemente, criar um filho de um homem solteiro é um crime menor que de um já ligado por carne e alma a outra mulher. Então suponho que minha mãe escolheu um cretino diferente para ter a honra de ser meu pai.

 

Tóti pensou nisso por um tempo.

 

- E você acredita nisso porque as pessoas lhe disseram?

 

- Se acreditasse em tudo o que todos me disseram sobre minha família, eu seria um pouco mais infeliz do que sou agora, reverendo. Mas não é necessário estudar em Copenhague ou no Sul para descobrir quais filhos pertencem a que pais por aqui. É difícil manter segredos neste lugar.

 

- Você algum dia perguntou a ele?

 

- Jón Bjarnason? E o que poderia sair de bom disso?

 

- Conseguir a verdade com ele, suponho - sugeriu Tóti. Ele se sentia desapontado com a conversa.

 

- A verdade não existe - disse Agnes, levantando-se.

 

Tóti também se levantou e começou a esfregar os fundilhos da calça.

 

- Há verdade em Deus - disse sinceramente, identificando uma oportunidade de cumprir seu dever espiritual. João, capítulo oito, versículo trinta e dois. - Conheça...

 

- Conheça a verdade, e a verdade o libertará. Sim, eu sei, eu sei - disse Agnes. Ela juntou o material de tricô e começou a voltar para a fazenda. - Não no meu caso, reverendo Thorvardur. Eu contei a verdade, e o senhor pode ver por si próprio de que isso me serviu.

 

Não fará nenhum bem ao reverendo ler livros de registros, ou qualquer outro livro - o que vai aprender neles sobre mim? Apenas as coisas que outros homens consideram importantes a meu respeito.

 

Quando o reverendo viu meu nome e a data de nascimento no livro da igreja, viu apenas a escrita e compreendeu apenas a data? Ou viu a névoa daquele dia e ouviu os corvos crocitando pelo cheiro de sangue? Ele imaginou meu nascimento como eu o imaginei? Minha mãe chorando, me apertando contra o calor grudento de sua pele. Evitando os olhares das mulheres de Flaga para as quais trabalhava, já sabendo que teria de partir e encontrar trabalho em outro lugar. Sabendo que nenhum fazendeiro iria contratar uma criada com um recém-nascido.

 

Se ele quer saber da minha família, terá dificuldades. Dois pais e uma mãe que a mim parecem tão indistintos quanto estranhos partindo em uma tempestade de neve. Tenho poucas lembranças claras dela. Uma é do dia em que me deixou. Outra é de quando eu era nova, observando-a à luz da lamparina em uma noite de inverno. É uma lembrança silenciosa e, como as outras, uma em que não posso confiar muito. Lembranças mudam como neve ao vento, ou são um coral de fantasmas falando um acima do outro. Sempre há uma sensação de que o que é real para mim não é real para os outros, e partilhar uma lembrança com alguém é arriscar escurecer minha crença em algo que realmente aconteceu. O reverendo é a pessoa da minha lembrança ou outro totalmente diferente? Eu fiz aquilo ou foi outro? Magnús ou Jón? É o brilho do gelo sobre a água, frágil demais para confiar.

 

Minha mãe olhou para seu bebê e pensou: Um dia eu a deixarei? Ela olhou para meu rosto amassado esperando que eu morresse ou silenciosamente me impeliu a me aferrar à vida como um carrapicho? Talvez tenha olhado para o vale, a névoa e a imobilidade e pensado no que poderia me dar. Uma mentira como pai. Uma cabeça de cabelos escuros. Uma manjedoura com feno na qual dormir. Um beijo. Uma pedra, para que eu pudesse aprender a compreender os pássaros e nunca ficar sozinha.

 

Poema de Poet-Rósa a Agnes Magnúsdóttir, junho de 1828

 

Undrast þarftu ei, baugabrú

 

þó beiskrar kennir þínu:

 

Hefir burtu hrífsað þú

 

helft af lífi mínu.

 

Não se surpreenda com a tristeza em meus olhos

 

nem com as pontadas amargas de dor que sinto:

 

Pois com seu ardil você roubou

 

aquele que deu sentido à minha vida

 

e jogou sua vida aos cuidados do Diabo.

 

Resposta de Agnes Magnúsdóttir a Rósa, junho de 1828

 

Er mín klára ósk til þín,

 

angurs tárum bundin:

 

Ýfðu ei sárin sollin mín,

 

solar báru hrundin.

 

Sorg ei minnar sálar herð!

 

Seka Drottin náðar,

 

af því Jésus eitt fyrir verð

 

okkur keypti báðar.

 

Este é meu único desejo para você,

 

atado com raiva e angústia:

 

Não esfole minhas feridas abertas,

 

estou cheia de descrença.

 

Minha alma está tomada de sofrimento!

 

Busco a graça do Senhor.

 

Lembre-se, Jesus comprou a ambas

 

e pelo mesmo valor.

 

- Como é tê-la aqui, neste mesmo aposento que você? Eu teria dificuldade de dormir - disse Ingibjörg Pétursdóttir.

 

Margrét olhou para onde os ceifadores de Kornsá cortavam o capim mais perto do rio.

 

- Ah, não acho que ela ousaria fazer algo errado.

 

As duas mulheres descansavam na pilha de madeira do lado de fora da cabana de Kornsá. Ingibjörg, uma mulher pequena e sem graça de uma fazenda próxima, fizera uma visita a Margrét, tendo ouvido que a tosse da amiga a impedia de participar da colheita de feno. Embora Ingibjörg não tivesse nada da acidez ou da franqueza de Margrét, as duas mulheres fizeram amizade logo e, com frequência, se visitavam quando o rio que separava suas fazendas estava baixo o bastante para ser cruzado.

 

- Róslín parece pensar que todos serão estrangulados durante o sono.

 

Margrét deu um sorriso repentino.

 

- Não consigo deixar de pensar que é exatamente o que Róslín deseja.

 

- O que quer dizer?

 

- Isso daria àquela boca nervosa algo mais sobre o que tagarelar.

 

- Margrét... - censurou Ingibjörg.

 

- Ah, Inga. Ambas sabemos que ter todos aqueles filhos mexeu com a cabeça dela.

 

- O menor tem crupe.

 

Margrét ergueu as sobrancelhas.

 

- Então não vai demorar para que todos tenham. Nós os ouviremos gemendo a noite inteira.

 

- Ela também está ficando grande.

 

Margrét hesitou.

 

- Você planeja ajudar no nascimento? Ela teve tantos que seria de crer que poderia fazê-lo sozinha.

 

Ingibjörg suspirou.

 

- Não sei. Estou com uma sensação ruim.

 

Margrét estudou a expressão grave da amiga.

 

- Você teve um sonho?

 

Ingibjörg abriu a boca como se fosse dizer algo, depois estremeceu, mudando de ideia.

 

- Estou certa de que não é nada. De qualquer forma, não vamos ser soturnas. Conte sobre a assassina!

 

Margrét riu a contragosto.

 

- Aí está! Você é tão má quanto Róslín.

 

Ingibjörg sorriu.

 

- Mas como ela realmente é? O caráter. Sente medo dela?

 

Margrét pensou por um momento.

 

- Ela não é nada como eu imaginara uma assassina - disse finalmente. - Ela dorme, trabalha, come. Mas tudo em silêncio. Seus lábios poderiam estar costurados a depender de tudo o que diz a mim. Aquele jovem, o reverendo Thorvardur, começou a visitá-la novamente nas últimas semanas, e sei que ela conversa com ele, mas ele não me conta o que se passa. Talvez nada - falou Margrét, olhando para o campo. - Muitas vezes queria saber o que ela está pensando.

 

Ingibjörg seguiu o olhar de Margrét, e as duas mulheres olharam juntas para a figura curvada de Agnes em meio ao feno, cortando a grama com a foice. A lâmina reluzia quando ela a balançava.

 

- Quem sabe? - murmurou Ingibjörg. - Estremeço ao pensar no que se passa dentro daquela cabeça escura.

 

- O reverendo diz que a mãe dela era Ingveldur Rafnsdóttir.

 

Ingibjörg parou.

 

- Ingveldur Rafnsdóttir. Eu conheci uma Ingveldur. Uma mulher libertina.

 

- Não saem pombos de ovos de corvos - concordou Margrét. - Estranho pensar em Agnes como uma filha. Não consigo imaginar minhas filhas sequer pensando em algo tão sinistro e pecaminoso quanto assassinato.

 

Ingibjörg anuiu.

 

- E como estão suas meninas?

 

Margrét se levantou e limpou a terra da saia.

 

- Ah, você sabe - disse, começando a tossir novamente, e Ingibjörg esfregou suas costas.

 

- Calma.

 

- Estou bem - grunhiu Margrét. - Sabe, Steina acha que a conhece.

 

Ingibjörg lançou um olhar intrigado para a amiga.

 

- Ela acha que a conhecemos quando estávamos a caminho de Gudrúnarstadir.

 

- Steina está inventando histórias novamente.

 

Margrét estremeceu.

 

- Só o bom Senhor sabe. Eu não me lembro. De fato, estou um pouco preocupada com ela. Steina sorri para Agnes.

 

Ingibjörg riu.

 

- Ah, Margrét! Desde quando um sorriso colocou alguém em apuros?

 

- Muitas vezes, eu diria! - cortou Margrét. - Basta olhar para Róslín. Ademais, são outras coisas também. Eu flagrei Steina fazendo perguntas sobre Agnes e notei que ela corre para chamá-la para tarefas e coisas assim. Olhe; ela a está seguindo agora, mesmo quando passa o ancinho - disse, apontando para Steina, que vira o feno perto de Agnes. - Não sei, só fico pensando naquela pobre garota Sigga e temo que o mesmo aconteça a ela.

 

- Sigga? A outra criada de Illugastadir?

 

- E se Agnes tiver o mesmo efeito sobre Steina? Se a fizer passar para o lado ruim. Encher a cabeça dela de impiedades.

 

- Você acabou de dizer que Agnes mal diz uma palavra.

 

- Sim, comigo. Mas não consigo deixar de sentir que é outro caso com... Ah, deixe para lá.

 

- E Lauga? - perguntou Ingibjörg, pensativa.

 

Margrét deu um riso nervoso.

 

- Ah, Lauga detesta tê-la aqui. Todos detestamos, mas Lauga se recusa a dormir na cama ao lado. Ela a vigia como um falcão. Censura Steina por olhar na direção de Agnes.

 

Ingibjörg pensou na filha menor, juntando o feno em linhas arrumadas. Perto das filas de Lauga, as de Steina parecem tão disformes quanto a caligrafia de uma criança.

 

- O que Jón diz?

 

Margrét bufou.

 

- O que Jón sempre diz? Se eu levanto o assunto, ele começa a falar sobre sua obrigação para com Blöndal. Mas percebo que ele está atento. Pediu que mantivesse as garotas afastadas.

 

- Difícil fazer isso em uma fazenda.

 

- Exatamente. Posso mantê-las tão afastadas quanto Kristín mantém o leite do creme.

 

- Ah, querida.

 

- Kristín é uma inútil - disse Margrét, constatando.

 

- Então é bom que você tenha mais um par de mãos femininas no lugar - disse Ingibjörg praticamente. As duas mulheres mergulharam em um silêncio confortável.

 

Sonhei com o cepo do carrasco na noite passada. Sonhei que estava sozinha e me arrastava pela neve na direção do toco escuro. Minhas mãos e meus joelhos estavam dormentes pelo gelo, mas eu não tinha escolha.

 

Em meu sonho eu me arrastei para cima e coloquei a cabeça sobre ele. Começou a nevar, e pensei comigo mesma: Esse é o silêncio antes da queda. Então pensei no toco que estava lá, a árvore que poderia ter sido, quando árvores não crescem aqui. Há silêncio demais, pensei em meu sonho. Pedras demais.

 

Então me dirigi à madeira em voz alta. Eu disse: "Eu a regarei como se você ainda vivesse". E com essa última palavra, acordei.

 

O sonho me assustou. Desde a colheita do feno eu de certa maneira retornei à minha antiga vida aqui e esqueci de sentir raiva. O sonho me lembrou do que vai acontecer, de como os dias passam rápido por mim, e agora, deitada e desperta em uma sala cheia de estranhos, olhando para o padrão de varas e turfa no teto, sinto meu coração revirar sem parar até minhas entranhas se retorcerem.

 

Preciso me aliviar. Tremendo, saio da cama e procuro o urinol no chão. Está sob a cama de um dos trabalhadores e quase cheio, mas não há tempo de esvaziá-lo. Minhas meias estão soltas e deslizam para os tornozelos sem dificuldade, me agacho e aponto um jorro de urina quente para o balde, sentindo-a respingar em minha coxa. Suor brota em minha testa.

 

Espero que ninguém acorde e me veja. Estou tão ansiosa para terminar e tirar o urinol de vista que puxo as meias para cima antes de ter terminado totalmente. Um filete quente escorre pelo lado de dentro da minha perna enquanto empurro o balde para longe.

 

Por que estou tremendo assim? Meus joelhos estão fracos como geleia de mocotó, e é um alívio deitar. Meu coração chacoalha. Natan sempre acreditou que os sonhos significavam algo. Estranho um homem que podia rir tão facilmente da palavra de Deus confiar na escuridão fervente de suas horas de sono. Ele construíra sua igreja com superstições e a linguagem secreta do clima; via o olho de Deus piscando nas ondulações do mar, no ataque das aves de rapina, no ranger dos dentes de suas ovelhas. Quando ele me flagrou tricotando no umbral, me acusou de prolongar o inverno. "Não pense que a natureza não nos vigia", me alertou. "Ela está tão desperta quanto você e eu." Sorriu para mim. Passou a palma suave da mão pela minha testa. "E igualmente cheia de segredos."

 

Pensei que poderia ser uma criada aqui. Mais de um mês se passou em Kornsá, e já esqueci o que será feito de mim. Os dias de trabalho me aplacaram, deram ao meu corpo motivo para descansar, de modo que tenho dormido profundamente, sob a superfície de sonhos tomados por presságios. Até agora.

 

É verdade que não sou um deles. Todos, exceto o reverendo e Steina, se recusam a falar comigo a não ser rapidamente. Mas em que isso é diferente de antes, quando eu era um tipo inferior de criada esvaziando o urinol, como pedirão que eu faça em algumas horas? Comparada com Stóra-Borg, essa família tem sido gentil.

 

Mas logo o inverno chegará, como uma estranha onda quebrando no litoral - de repente, com rapidez, apagando o sol e o calor e deixando a terra congelada até o cerne. Tudo terminará rapidamente. E o reverendo: como ele é jovem e como eu ainda não sei o que dizer a ele. Achei que poderia me ajudar, como me ajudou a cruzar o rio. Mas conversar com ele apenas me lembra de como tudo em minha vida se voltou contra mim e como não fui amada.

 

Esperei que ele me entendesse desde o início. Quero que ele me entenda, mas sou uma tola de achar que falamos a mesma língua. Eu posso muito bem falar com ele com uma pedra na boca, tentando descobrir uma linguagem que ambos possamos entender.

 

O reverendo não chegará de Breidabólstadur nas próximas horas - está cedo demais para se levantar. Cruzo as mãos sobre o cobertor e digo às fibras de meu coração para relaxar, pensando no que vou dizer a ele.

 

Tóti quer ouvir sobre minha família. Mas o que contei a ele não era o que queria ouvir. Ele não deve estar acostumado às árvores genealógicas retorcidas que crescem neste vale, onde os galhos se enrolam uns nos outros, cheios de espinhos.

 

Não contei a ele sobre Jóas, nem Helga. Ele poderia estar interessado em ouvir que tenho irmãos. Posso imaginar as perguntas dele: "Onde estão agora? Por que eles não a visitam, Agnes?".

 

Porque, reverendo, eu diria, o laço de sangue não é forte: cada um tem um pai diferente, e Helga está morta e enterrada. Jóas? Bem, ele não é um homem que pode ser obrigado a algo, mesmo a uma visita a uma irmã condenada.

 

Ah, Jóas. Não consigo ligar o homem de olhos baços com a vaga lembrança do doce garoto que um dia pude amar.

 

Fomos arrastados juntos pelos braços de uma mesma mãe. Para quais fazendas? Inúmeros badstofas pertencentes a outros homens e suas esposas de olhos vermelhos, gentis ou desesperadas o suficiente para contratar uma mulher com três bocas, duas das quais gritavam de fome à noite por não saberem que era inútil.

 

Primeiro, Beinakelda. Até eu ter três anos, eles me dizem. Apenas mamãe e eu. Não me lembro de nada. É tudo escuridão.

 

Depois, Litla-Giljá. Não me lembro da fazenda, mas sim do homem. Illugi, o Negro, como o chamavam, irmão do meu pai. Sentada no chão, esfregando as mãos na terra, e de repente o homem ao meu lado, os olhos revirando para trás na cabeça e o corpo se retorcendo no chão como um peixe na terra, e todas as mulheres gritando ao verem a espuma em sua boca. Então, depois, os gemidos que vinham da cama dele, e sua esposa de pele ruim puxando meu rosto para seu pescoço ossudo e dizendo: "Reze por ele. Reze por ele". Onde estava minha mãe? Sem dúvida, acocorada sobre um urinol procurando o sangue que não viria.

 

Lembro dos gritos. Illugi, novamente saudável, seu grande rosto de urso rugindo com a esposa, que não parava de chorar, e em meio a eles minha mamãe de saias compridas vomitando no chão.

 

Illugi morreu daquela doença de tremer quando estava pescando. Dizem que estava bebendo, teve um ataque, virou o barco e se afogou nas redes. Outros dizem que foi uma punição adequada para um homem que pescava em poços de elfos, mas essas eram pessoas que tinham estado do lado errado da bebedeira e das brigas dele.

 

O que o reverendo pensaria de tudo isso?

 

Jóas Illugason, nascido em Brekkukot, a terceira fazenda. Aos cinco anos, pude levar o trapo encharcado em leite até suas pequenas gengivas cor de salmão. As pessoas casadas de lá queriam ficar com ele e criá-lo com seus próprios dois filhos, e mamãe explicou que eu também ficaria com eles, que isso seria o melhor. Durante o ano seguinte, nós sete fomos uma família e ajudamos a dar vida ao pequeno garoto com cabelos tão claros quanto os meus eram escuros. Ele cheirava a neve derretida e creme fresco.

 

Eles devem ter mudado de ideia. Certa manhã fui acordada às sacudidas por mamãe, que olhava para mim com olhos inchados. Perguntei por que estava chorando, mas ela não disse nada. Subiu na cama com Jóas e eu, e adormeci junto à curva quente de seu corpo até o crocitar dos corvos da casa me acordar e eu ver meus pertences dentro de um saco no chão.

 

Naquela manhã, saímos a pé e retornamos ao vale em um dia feio, cheio de espasmos de neve. Achei que iria desmaiar de fome. Paramos no pátio de Kornsá, e, antes que eu pudesse terminar o soro de leite que a mulher me dera, mamãe sussurrou no meu ouvido, apertou uma pedra em minha luva e partiu com Jóas às costas.

 

Tentei segui-la. Gritei. Não queria ser deixada para trás. Mas enquanto corria, tropecei e caí. Quando consegui me levantar, minha mãe e meu irmão haviam desaparecido, e tudo o que eu podia ver eram dois corvos, suas penas pretas venenosas em contraste com a neve.

 

Durante muito tempo pensei que aqueles dois pássaros eram minha mãe e meu irmão. Mas eles nunca responderam às minhas perguntas, mesmo quando eu punha a pedra debaixo da língua. Anos depois soube que mamãe me deu uma nova meia-irmã, Helga, do fazendeiro de Kringla, e que Jóas agora era um indigente, uma criança da paróquia. Mas naquela época eu havia me convencido de que não os amava mais. Achei ter encontrado uma família melhor, minha família adotiva: Inga e Björn, os inquilinos de Kornsá.

 

- Como você dormiu, Agnes? - perguntou Steina, que encontrara a mulher junto ao canteiro de levístico, onde despejava o conteúdo do urinol no fosso de cinzas.

 

- Você vai ficar molhada aqui fora - disse Agnes sem olhar para ela. Estivera usando uma pedra para retirar o conteúdo mais grudado do urinol, e agora a limpava na grama. - Vai chover.

 

- Não ligo. Pensei em lhe fazer companhia - disse Steina, colocando o xale sobre a cabeça. - Está vendo? Seca como um rato.

 

Agnes olhou para ela e deu um pequeno sorriso.

 

- Olhe, Agnes - disse Steina, apontando para a boca do vale, onde uma massa de nuvens cinzentas baixas chegava do Norte.

 

Agnes ergueu a mão para o céu.

 

- Está piorando. Será ruim para o feno.

 

- Eu sei. Papai está de mau humor. Deu um tapa em Lauga por queimar seu café da manhã, e ele nunca faz isso com ela.

 

Agnes se virou para encarar Steina.

 

- Ele sabe que você está aqui fora comigo?

 

- Acho que sim.

 

- Acho que você deveria entrar - disse Agnes.

 

- E fazer o quê? Deixar Lauga me culpar por fazer um fogo alto demais? Não, obrigada. Fico mais feliz do lado de fora.

 

- Mesmo na chuva?

 

- Mesmo na chuva - disse Steina, bocejando e olhando para o campo, o feno amarrado em fardos para evitar a umidade. - Todo aquele trabalho por nada.

 

- O que quer dizer com "por nada"? No próximo dia bom vamos prosseguir e terminar tudo - disse Agnes, olhando para a cabana. - Acho que você deveria voltar para sua mãe - completou.

 

- Ah, ela não se importa.

 

- Ela se importa. Não gosta que fique sozinha comigo - disse Agnes com cuidado.

 

- Você já está aqui há semanas.

 

- Ainda assim - disse Agnes, começando a seguir lentamente na direção do rio, e Steina se virou para acompanhá-la.

 

- Acha que o reverendo virá hoje?

 

Agnes não respondeu.

 

- Sobre o que ele fala com você?

 

- Isso é da minha conta - disse com rispidez.

 

- O quê?

 

- Eu disse que isso é da minha conta. Não tem nada a ver com você ou sua família.

 

Steina ficou chocada e parou enquanto Agnes marchava colina abaixo, segurando o urinol rigidamente ao lado do corpo.

 

- Eu a irritei? - perguntou.

 

Agnes parou e se virou para Steina.

 

- Como uma jovem como você poderia me irritar?

 

Steina ficou com raiva.

 

- Porque minha família a está mantendo prisioneira e meu pai não quer que ninguém fale com você.

 

- Ele disse isso? - perguntou Agnes.

 

- Ele acha que deveríamos deixar você com suas tarefas.

 

- Ele está certo.

 

Steina foi até Agnes e segurou seu braço gentilmente.

 

- Você sabe que Lauga tem medo de você. Ela escutou Róslín e suas mentiras. Mas não acredito em uma palavra dessas fofocas. Eu me lembro de você de antes. Lembro como foi gentil, nos dando comida daquele jeito - disse Steina, recostando-se nela. - Não acho que você os matou - sussurrou, e o corpo de Agnes ficou rígido sob o aperto dela. Steina sugeriu rapidamente: - Talvez eu possa ajudá-la.

 

- Como? - perguntou Agnes. - Você me ajudaria a fugir?

 

Steina soltou o braço.

 

- Pensei talvez em uma petição - murmurou.

 

- Uma petição?

 

Steina tentou novamente:

 

- Talvez um apelo. Você sabe, como o que conseguiram para Sigga.

 

Os olhos de Agnes brilharam.

 

- Como?

 

- Um apelo. Blöndal conseguiu um para a outra - gaguejou Steina.

 

- A outra quem?

 

- Sigga... Você sabe, a outra criada de Illugastadir. A namorada de Fridrik.

 

O rosto de Agnes ficou pálido. Ela depositou o urinol lentamente na grama molhada, depois foi na direção de Steina.

 

- Blöndal fez um apelo por Sigrídur Gudmundsdóttir? - perguntou seriamente.

 

Steina confirmou, um pouco temerosa. Baixou os olhos para a pedra que Agnes ainda segurava.

 

- Ouvi papai dizer a mamãe - explicou. - Os oficiais distritais estavam discutindo isso em Hvammur, com Blöndal. No mesmo dia em que você chegou.

 

Agnes balançou a cabeça.

 

- Achei que você soubesse - murmurou Steina.

 

Os olhos de Agnes se afastaram dos de Steina, e ela cambaleou sobre os pés.

 

- Blöndal? - murmurou baixo. Steina notou que ela apertava a pedra com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

 

- Lamento ter contado.

 

Agnes cambaleou para trás e depois continuou a caminhar desequilibrada na direção do rio.

 

- Talvez possamos convencê-lo também a apelar ao rei por você! - gritou Steina. - Dizer a eles o que realmente aconteceu em Illugastadir!

 

Agnes caiu ao chão junto à margem do rio, as saias se acumulando ao redor dela. Pensando que tivesse desmaiado, Steina correu até ela, mas ao chegar mais perto viu que Agnes olhava para o rio com olhos vazios. Tremia. Naquele momento as nuvens escuras se abriram, e as duas mulheres foram engolfadas por um repentino temporal gelado.

 

- Agnes! - chamou Steina, apertando mais o xale na cabeça. - Levante! Temos de sair da chuva.

 

O som da chuva afogou suas palavras.

 

Agnes não respondeu. Ela via as gotas caindo no rio que corria com força, rompendo a superfície, de modo que o reflexo das montanhas ficou totalmente distorcido. Ainda segurava a pedra.

 

- Agnes! - gritou Steina. - Lamento! Pensei que você soubesse!

 

O xale estava encharcado, e ela podia sentir o vestido pesado com a água. Ela hesitou junto ao rio, depois se virou e começou a subir a colina, correndo até a cabana. O terreno ficara encharcado, e ela escorregou na lama. Na metade do caminho virou-se e viu que Agnes continuava onde a deixara. Chamou mais uma vez e então continuou a tropeçar na trilha enlameada até a fazenda.

 

- Pelos céus, Steina! Onde na terra de Deus você estava? - disse Margrét, seguindo apressada pelo corredor para censurar a filha mais velha, que batera a porta atrás de si. - Parece que você se afogou!

 

- É Agnes - disse Steina, engasgando e jogando o xale encharcado no chão.

 

- Ela a machucou? Ah, Senhor amado, nos proteja! Eu sabia - disse Margrét, passando os braços em volta da filha, que tremia de frio, e puxando-a para si.

 

- Não, mamãe! - berrou Steina, empurrando a mãe. - Ela precisa de ajuda, está junto ao rio.

 

- O que aconteceu? - perguntou Lauga, saindo da cozinha. - Ah, Steina! Você enlameou meu xale.

 

- Não ligo! - gritou Steina, virando-se para a mãe. - Eu contei a ela sobre o apelo para Sigrídur Gudmundsdóttir, e ela ficou estranha e branca, e agora não se levanta!

 

Margrét se virou para Lauga.

 

- Do que ela está falando?

 

- Agnes! - bradou ela. Limpou a chuva do rosto com a manga e começou a correr pela passagem. - Preciso contar a papai.

 

Jón estava no badstofa, remendando os sapatos.

 

- Steina? - perguntou, erguendo os olhos do trabalho.

 

- Papai! Por favor, você tem de buscar Agnes. Contei-lhe sobre o apelo que Blöndal fez para a outra criada de Illugastadir, e ela enlouqueceu.

 

Jón imediatamente empurrou os sapatos do colo e se levantou.

 

- Onde? - perguntou em voz baixa.

 

- Junto ao rio - disse Steina, tentando conter as lágrimas. Jón pegou as botas de sob a cama e as amarrou grosseiramente.

 

- Lamento, papai, achei que ela soubesse! Eu queria ajudá-la.

 

Jón se levantou e agarrou a filha pelos ombros. A face vermelha de raiva.

 

- Eu lhe disse para ficar longe dela - repreendeu ele, olhando feio para a filha, depois tirando-a do caminho e saindo do aposento, chamando Gudmundur, que estava deitado na cama. O trabalhador levantou com relutância. Steina sentou-se e começou a chorar.

 

Alguns momentos depois, Lauga entrou no badstofa com Kristín ao lado.

 

- O que papai disse? - perguntou em voz baixa, e a seguir, vendo onde Steina se sentara, protestou: - Ah! Levante-se, está molhando minha cama.

 

- Me deixe em paz! - berrou Steina, fazendo Kristín ganir e fugir do aposento. - Me deixe sozinha!

 

Lauga sorriu e balançou a cabeça.

 

- Você está de mau humor, Steina. O que estava tentando fazer lá fora? Amizade?

 

- Vá para o inferno, Lauga!

 

Lauga ficou boquiaberta. Olhou para a irmã como se prestes a chorar, depois apertou os olhos.

 

- Melhor tomar cuidado - sibilou. - Se continuar assim, será tão imoral quanto ela - disse, virando-se para ir embora, em seguida detendo-se. - Rezarei por você - disse fungando, e deixou o aposento. Steina pôs a cabeça nas mãos e chorou.

 

Eu me sento na cama e espero enquanto Margrét, Jón e as filhas conversam sobre mim atrás da cortina cinza da sala. Embora Margrét esteja cochichando, capto as palavras que deslizam pelo espaço entre este aposento e o outro. Minhas mãos tremem, e posso sentir o coração latejar. É como se tivesse corrido para salvar minha vida. A mesma sensação do tribunal, quando me senti alheia a tudo.

 

Eu poderia ter sido uma indigente; poderia ter sido a criada deles, até aquelas palavras! Sigga! Illugastadir! Elas me ancoram a uma lembrança que me tira o fôlego. São as palavras mágicas, a maldição que me transforma em um monstro, e agora sou Agnes de Illugastadir, Agnes do incêndio, Agnes dos corpos mortos com o sangue não queimado ainda grudado nas roupas que fiz para ele. Eles vão libertar Sigga, mas não vão me libertar porque sou Agnes - a sanguinária e astuta Agnes. E estou tão assustada que achei que poderia funcionar, achei que poderia fingir, mas vejo que nunca, jamais, vou escapar disso - não posso escapar.

 

A carta era pequena e escrita com uma letra cursiva apertada em um pedaço de papel minúsculo, as linhas sobrepondo-se na tentativa do autor de poupar espaço. Tóti a levou para ler no badstofa, onde estivera fazendo a refeição do meio-dia.

 

- Blöndal novamente? - perguntou seu pai sem erguer os olhos da carne.

 

- Não - respondeu Tóti, passando os olhos rapidamente pela mensagem. - Venha rápido, é Agnes Magnúsdóttir. Não quero contar a Blöndal. Seu irmão em Cristo, Jón Jónsson. - É de Kornsá.

 

- Eles não sabem que está chovendo? E que é domingo? - murmurou o padre mais velho.

 

Tóti sentou-se à mesa e olhou para o pai. Sua barba tinha restos de mingau seco.

 

- Preciso ir - disse.

 

O reverendo Jón bufou pesado.

 

- É domingo! - repetiu.

 

- Sim, o dia do Senhor - retrucou Tóti, acrescentando. - Para o trabalho do Senhor.

 

O reverendo Jón tirou da boca um pedaço de cartilagem, examinou-o e recomeçou a mastigar.

 

- Pai?

 

- Espero que Blöndal saiba como você é escravo da vontade dele.

 

- Vontade do Senhor - disse Tóti gentilmente. - Obrigado, pai. Voltarei à noite. Ou amanhã, caso o tempo esteja ruim.

 

Tóti estava encharcado até os ossos quando chegou à passagem que leva ao vale de Vatnsdalur. Viu o mensageiro que lhe entregara o bilhete cavalgando à frente e esporeou sua égua para alcançá-lo.

 

- Ei, você! - gritou Tóti, olhando em meio à lâmina de chuva.

 

O homem se virou na sela, e Tóti o reconheceu como sendo um dos criados de Kornsá. Vestia peles de peixe para se manter seco.

 

- Você veio! - gritou ele de volta. - Então são dois de nós cavalgando nesse clima lamentável.

 

- Ruim para o feno - disse Tóti para puxar assunto.

 

- Nem precisa dizer - bufou o homem, erguendo a mão. - Sou Gudmundur. E você é o reverendo que está tentando salvar nossa assassina.

 

- Bem, eu...

 

- Um trabalho medonho - interrompeu o homem. - Ela me dá arrepios.

 

- O que quer dizer?

 

O criado riu.

 

- Ela é selvagem.

 

Tóti esporeou o cavalo para manter o ritmo.

 

- O que aconteceu? Aquele bilhete...

 

- Ah, ela teve um ataque. Lutou contra Jón e eu, arranhou e agarrou, gritando o tempo todo, encharcada, deitada na lama como uma louca. Está vendo isto? - perguntou, apontando para um machucado na testa. - Foi obra dela. Tentei levantá-la, e ela tentou arrancar meus miolos com uma pedra. Berrando coisas sobre Blöndal. A mesma cena que dizem ter feito em Stóra-Borg, que a fez ser transferida.

 

- Tem certeza?

 

A Tóti, Agnes parecia muito contida.

 

- Achei que ela iria me matar ali mesmo.

 

- O que a aborreceu?

 

O homem fungou e limpou o nariz com um dedo enluvado.

 

- O diabo é que não sei. Uma das garotas disse algo. Mencionou a outra garota, a criada que apanharam. Sigga.

 

Tóti se virou e olhou para as poças na trilha diante deles. Ele se sentia doente.

 

- Não tem má aparência - disse Gudmundur, virando-se para Tóti com um brilho no olho.

 

- Perdão?

 

- Agnes. Belos cabelos e tudo o mais - disse o criado. - Mas alta demais para mim. Precisa ser mais ou menos uma cabeça mais baixa, sabe? - falou, piscando para Tóti e rindo.

 

Tóti ajeitou o chapéu de montaria mais apertado na cabeça. A chuva diminuiu por um minuto, depois voltou a cair enquanto eles entravam no vale, lâminas cinzentas lavando a terra curvada à frente e água escorrendo dos precipícios rochosos das montanhas.

 

Agnes estava na cama quando Tóti entrou no badstofa. Kristín, a criada, levou um tamborete para ele, e a filha mais jovem começou a cuidar de suas roupas molhadas. Quando Lauga se curvou para soltar suas botas, Tóti espiou o canto escuro onde Agnes estava sentada, em posição assustadoramente imóvel.

 

Lauga retirou sua segunda bota com um puxão repentino que quase o derrubou do banco.

 

- Eu agora os deixarei - disse ela, e saiu do quarto, segurando as botas à frente com os braços esticados.

 

Tóti foi até Agnes com as meias encharcadas. Ele se apoiou na coluna de madeira junto à cama e, enquanto se aproximava, viu que havia sido algemada.

 

- Agnes?

 

Agnes abriu os olhos e o encarou inexpressiva.

 

Tóti sentou-se na beirada da cama. A pele dela parecia cinza à luz fraca, e seu lábio estava cortado e ensanguentado.

 

- O que aconteceu? - perguntou gentilmente. - Por que a prenderam de novo?

 

Agnes baixou os olhos para os pulsos, como se surpresa de ver os ferros ali. Engoliu em seco.

 

- Sigga vai ter uma apelação. Blöndal está apelando ao rei para reduzir a sentença que deu a ela - disse, a voz falhando. - Sentem pena dela.

 

Tóti sentou-se e aquiesceu.

 

- Eu sabia.

 

Agnes ficou chocada.

 

- Você sabia?

 

- Eles também têm pena de você - acrescentou, tentando consolá-la.

 

- Você está errado - sibilou ela. - Eles não têm pena de mim; eles me odeiam. Todos eles. Especialmente Blöndal. E quanto a Fridrik? Também estão apelando da sentença dele?

 

- Acredito que não.

 

Os olhos de Agnes brilharam nas sombras. Tóti achou que estaria chorando, mas quando se inclinou para a frente viu que os olhos dela estavam secos.

 

- Vou lhe dizer uma coisa, reverendo Tóti. Por toda a minha vida as pessoas acharam que eu era inteligente demais. Astuta, elas diziam. E quer saber, reverendo? É exatamente por isso que não sentem pena de mim. Porque acham que sou esperta demais, sei demais para estar metida nisso por acaso. Mas Sigga é idiota, bonita e jovem, e por isso não querem vê-la morrer - disse, recostando-se na coluna e apertando os olhos.

 

- Tenho certeza de que não é verdade - disse Tóti, tentando acalmá-la.

 

- Acha que se eu fosse jovem e obtusa, todos estariam apontando o dedo para mim? Não. Eles iriam pôr a culpa em Fridrik, diriam que ele nos dominou. Que nos forçou a matar Natan porque queria seu dinheiro. Que Fridrik desejava um pouco do que Natan tinha não é nenhum segredo. Mas eles veem que eu tenho uma cabeça sobre os ombros e acreditam que não é possível confiar em uma mulher que pensa. Acreditam que não há espaço para a inocência. E, goste disso ou não, reverendo, esta é a verdade.

 

- Achei que você não acreditava na verdade - provocou Tóti.

 

Agnes ergueu a cabeça da coluna e o encarou, os olhos mais claros que nunca. Fez uma careta.

 

- Por falar em verdade, tenho uma pergunta para o senhor. Diz que Deus fala a verdade?

 

- Sempre.

 

- E Deus disse "não matarás"?

 

- Sim - respondeu Tóti com cautela.

 

- Então Blöndal e o resto estão indo contra Deus. São hipócritas. Dizem que estão executando a lei de Deus, mas estão apenas fazendo a vontade dos homens!

 

- Agnes...

 

- Eu tento amar a Deus, reverendo. Tento. Mas não posso amar a esses homens. Eu... Eu os odeio.

 

Ela disse as últimas palavras lentamente, entre dentes trincados, agarrando a corrente que ligava os ferros em seus pulsos.

 

Houve uma batida na porta do badstofa, e Margrét entrou com suas filhas e Kristín.

 

- Desculpe-me, reverendo. Não nos dê atenção. Vamos trabalhar e falar entre nós.

 

Tóti assentiu, soturno.

 

- Como vai a colheita?

 

Margrét bufou.

 

- Com todo esse clima úmido de agosto... - respondeu, voltando-se para seu tricô.

 

Tóti olhou para Agnes, que deu um sorriso fraco.

 

- Eles agora sentem ainda mais medo de mim - sussurrou.

 

Tóti pensou. Ele se virou para o grupo de mulheres.

 

- Margrét, não seria possível remover esses ferros?

 

Margrét olhou para os pulsos de Agnes e baixou as agulhas. Saiu do aposento e voltou pouco depois com uma chave. Destrancou os ferros.

 

- Eu vou deixá-los aqui, reverendo - disse ela, rígida, erguendo as algemas para a prateleira acima da cama. - Caso precise.

 

Tóti esperou que Margrét voltasse para o outro lado do aposento e então olhou para Agnes.

 

- Você não deve agir assim novamente - disse em voz baixa.

 

- Não era eu mesma - falou.

 

- Você diz que a odeiam? Não lhes dê mais motivos.

 

Ela anuiu.

 

- Fico contente que esteja aqui - disse, fazendo uma pausa antes de continuar. - Tive um sonho na noite passada.

 

- Um bom sonho, espero.

 

Ela balançou a cabeça.

 

- Sonhou com o quê?

 

- Morrer.

 

Tóti engoliu em seco.

 

- Está com medo? Gostaria que eu rezasse por você?

 

- Faça como quiser, reverendo.

 

- Então vamos rezar.

 

Ele olhou para o grupo de mulheres antes de pegar a mão fria e úmida de Agnes.

 

- Senhor Deus, rezamos nesta noite com o coração triste. Dê-nos força para suportar os fardos que devemos carregar e coragem para encarar nosso destino.

 

Tóti parou e olhou para Agnes. Estava consciente de que as outras mulheres o escutavam. Continuou.

 

- Senhor, agradeço pela família de Kornsá, que nos abriu sua casa e seus corações - rezou, e ouviu Margrét pigarrear. - Eu rezo por eles. Rezo para que tenham compaixão e piedade. Esteja sempre conosco, ó Senhor, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

 

Tóti apertou a mão de Agnes. Ela olhou para ele, a expressão impenetrável.

 

- Acha que é meu destino estar aqui?

 

Tóti pensou um momento.

 

- Nós traçamos nosso próprio destino.

 

- Então isso não tem nada a ver com Deus?

 

- Está além de nossa compreensão - disse Tóti. Ele gentilmente colocou a mão dela de volta no cobertor. A sensação de sua pele fria o perturbava.

 

- Estou muito sozinha - disse Agnes em uma constatação.

 

- Deus está com você. Eu estou aqui. Seus pais estão vivos.

 

Agnes balançou a cabeça.

 

- Podem muito bem estar mortos.

 

Tóti lançou um olhar rápido para as mulheres tricotando. Lauga pegara a meia pela metade do colo de Steina e soltava a lã para corrigir um erro.

 

- Tem algum ente querido que eu pudesse convocar? - perguntou a Agnes, sussurrando. - Alguém dos velhos tempos?

 

- Tenho um meio-irmão, mas apenas Jesus sabe em qual badstofa ele está neste momento. Também uma meia-irmã. Helga. Está morta. Uma sobrinha. Morta. Todos estão mortos.

 

- E quanto a amigos? Algum amigo a visitou em Stóra-Borg?

 

Agnes deu um sorriso amargo.

 

- A única visita em Stóra-Borg foi Rósa Gudmundsdóttir de Vatnsendi. E não acho que possa descrevê-la como uma amiga.

 

- Poet-Rósa.

 

- Primeira e única.

 

- Dizem que fala em versos.

 

Agnes respirou fundo.

 

- Ela foi me procurar em Stóra-Borg com um poema.

 

- Um presente?

 

Agnes se empertigou e aproximou.

 

- Não, reverendo. Uma acusação - disse objetivamente.

 

- Do que ela a acusou?

 

- De tornar sua vida sem sentido - disse Agnes, fungando. - Entre outras coisas. Não foi seu melhor poema.

 

- Ela devia estar aborrecida.

 

- Rósa me culpou quando Natan morreu.

 

- Ela amava Natan.

 

Agnes parou e olhou para Tóti.

 

- Ela era uma mulher casada! - exclamou, um tremor de raiva na voz. - Ela não podia amá-lo!

 

Tóti percebeu que as outras mulheres haviam parado de tricotar. Estavam olhando para Agnes, cuja última frase havia chegado nitidamente ao outro lado do aposento. Ele se levantou para pegar o banco extra diante de Kristín.

 

- Temo que estejamos perturbando vocês - disse a elas.

 

- Tem certeza de que não quer usar os ferros? - perguntou Lauga, nervosa.

 

- Acho que estamos melhor sem eles - disse, voltando para junto de Agnes. - Talvez devêssemos falar de outra coisa.

 

Ele estava ansioso para que ela permanecesse calma na frente da família de Kornsá.

 

- Elas ouviram? - sussurrou Agnes.

 

- Vamos falar sobre seu passado - sugeriu Tóti. - Fale mais sobre seus meios-irmãos.

 

- Eu mal os conheci. Tinha cinco anos quando meu irmão nasceu, e nove quando soube de Helga. Ela morreu quando eu tinha vinte e um. Só a vi algumas vezes.

 

- E não é íntima do seu irmão?

 

- Fomos separados quando ele só tinha um inverno.

 

- Quando sua mãe a deixou?

 

- Sim.

 

- Então você se lembra dela de antes?

 

- Ela me deu uma pedra.

 

Tóti lançou um olhar interrogativo para ela.

 

- Para colocar debaixo da língua. É uma superstição - explicou Agnes, franzindo o cenho. - Os funcionários de Blöndal a tomaram.

 

Tóti percebeu Kristín se levantando para acender as velas - o clima ruim deixara o aposento bastante escuro, e o dia terminava rapidamente. Diante dele, só podia ver os brancos braços nus de Agnes acima das cobertas. Seu rosto estava nas sombras.

 

- Acha que elas me deixarão tricotar? - sussurrou Agnes, inclinando a cabeça na direção das mulheres. - Gostaria de fazer algo enquanto converso com você. Não suporto ficar parada.

 

- Margrét? - chamou Tóti. - Tem algum trabalho para Agnes?

 

Margrét parou, depois esticou a mão e pegou o tricô das mãos de Steina.

 

- Aqui. Está cheio de furos. Precisa ser desfeito - disse, ignorando a expressão de constrangimento no rosto de Steina.

 

- Lamento por ela - disse Agnes, lentamente puxando fios de lã retorcida.

 

- Steina?

 

- Disse que queria fazer uma petição por mim.

 

Tóti hesitou. Viu Agnes enrolar a lã solta em uma bola frouxa e não falou nada.

 

- Acha que é possível, reverendo Tóti? Organizar um apelo ao rei?

 

- Não sei, Agnes.

 

- Pediria a Blöndal? Ele o escutaria, e Steina poderia falar com o oficial distrital Jón.

 

Tóti pigarreou, pensando no tom paternalista de Blöndal.

 

- Prometo fazer o possível. Agora, por que não conversa comigo?

 

- Sobre minha infância de novo?

 

- Caso queira.

 

- Bem - disse Agnes, empertigando-se na cama para poder tricotar com mais liberdade. - O que devo lhe dizer?

 

- Fale do que se lembra.

 

- Não iria achar interessante.

 

- Por que pensa assim?

 

- É um padre - respondeu Agnes com firmeza.

 

- Gostaria de ouvir sobre sua vida - retrucou Tóti gentilmente.

 

Agnes se virou para ver se as mulheres estavam escutando.

 

- Eu lhe contei que morei na maioria das fazendas deste vale.

 

- Sim - concordou Tóti, acenando com a cabeça.

 

- Inicialmente como filha adotiva, depois como indigente.

 

- É lastimável.

 

A boca de Agnes tornou-se uma linha fina.

 

- É bastante comum.

 

- Quem a adotou?

 

- Uma família que vivia onde estamos agora. Meus pais adotivos se chamavam Inga e Björn e alugavam a cabana de Kornsá na época. Até Inga morrer.

 

- E você foi deixada com a paróquia?

 

- Sim - anuiu Agnes. - As coisas são assim. A maioria das pessoas boas logo está debaixo da terra.

 

- Lamento ouvir isso.

 

- Não há motivo para lamentar, reverendo, a não ser, claro, que o senhor a tenha matado - disse Agnes olhando para ele, e Tóti percebeu um breve sorriso passar pelo rosto. - Eu tinha oito quando Inga morreu. Seu corpo nunca serviu para produzir crianças. Cinco bebês morreram sem respirar antes que meu irmão adotivo nascesse. O sétimo a levou para o céu.

 

Agnes fungou e começou a refazer cuidadosamente os pontos soltos. Tóti escutou os estalos leves das agulhas de osso e olhou sub-repticiamente para as mãos de Agnes, que se moviam rápido sobre a lã. Seus dedos eram compridos e finos, e ele ficou impressionado com a velocidade com que trabalhavam. Lutou contra um desejo irracional de tocá-los.

 

- Oito invernos - repetiu ele. - E você se lembra bem da morte dela?

 

Agnes parou de tricotar e olhou novamente para as mulheres. Haviam ficado em silêncio e escutavam.

 

- Se eu lembro? - repetiu, um pouco mais alto. - Gostaria de conseguir esquecer.

 

Ela soltou o dedo indicador da trama de lã e o levou à testa.

 

- Aqui dentro. Posso chegar àquele dia como se fosse uma página de um livro. Está escrito tão fundo em minha mente que quase posso sentir o gosto da tinta.

 

Agnes olhou diretamente para Tóti, o dedo ainda na testa. Ele estava nervoso com o brilho nos olhos dela, o lábio ensanguentado, e pensou se a notícia do apelo de Sigga não a havia de fato deixado um pouco louca.

 

- O que aconteceu? - perguntou ele.

 

Neste ano de 1828, em 29 de março, nós, os funcionários lotados em Stapar, Vatnsnes - transcrevendo a descrição oral do comissário distrital Blöndal -, registramos o valor dos bens das prisioneiras Agnes Magnúsdóttir e Sigrídur Gudmundsdóttir, ambas criadas em Illugastadir. São os seguintes os bens, registrados como pertencentes aos indivíduos mencionados, e seus respectivos valores:

 

Agnes Magnúsdóttir

rbl.

rbsk

 

  1. Um xale feminino simples tecido de lã azul.

48

 

  1. Saia azul velha com corpete azul de lã simples, tecido com colarinho vermelho e oito botões de prata.

1

64

 

  1. Camisa azul de lã simples tecida com colarinho verde, com seis ornamentações de estanho.

20

 

  1. Um chapéu azul velho e os restos de outro preto, queimado.

10

 

  1. Duas saias pretas compridas.

20

 

  1. Uma combinação velha e desbotada azul.

80

 

  1. Avental listrado de tecelagem islandesa.

10

 

  1. Uma medida de lã branca simples tecida.

16

 

  1. Um livro evangélico: no 33-38.

16

 

  1. Quatro medidas de tecido verde com borda sarte, danificadas.

10

 

  1. Um copo pequeno e uma xícara.

16

 

  1. Um volume de índigo e aproximadamente duas folhas de papel.

20

 

  1. Duas agulhas de tricô e um par de tesouras velhas.

6

 

  1. Sete botões de cobre e dois de prata, aproximadamente vinte outros botões e alguns ganchos e uma presilha de cobre.

24

 

  1. Um saco branco com objetos inúteis dentro.

20

 

  1. Dois pares de meia, um azul, outro branco, e palmilha amarelada.

12

 

  1. Um estojo de agulhas, dedal e um par de luvas brancas.

8

 

  1. Uma caixa pequena, uma tigela de madeira pequena e várias caixinhas.

20

 

Sigrídur Gudmundsdóttir

rbl.

rbsk

 

  1. Dois xales amarelados danificados.

80

 

  1. Uma saia azul de má qualidade tecida de lã simples.

40

 

  1. Uma saia azul com corpete danificado.

24

 

  1. Um velho tecido listrado fino.

24

 

  1. Um velho chapéu azul com pala de seda verde, danificado.

8

 

  1. Uma pequena camisola com seda verde gêmea.

10

 

  1. Uma ovelha, atualmente em Illugastadir, e feno.

2

 

Selamos e certificamos que os bens acima compõem todos os pertences das prisioneiras mencionadas.

 

Testemunhado por:

  1. Sigurdsson, G. Gudmundsson

 

Isso é o que digo ao reverendo.

 

A morte aconteceu, e da forma habitual que acontece, mas foi diferente de tudo.

 

Começou com as luzes do Norte. Aquele inverno estava tão frio que eu acordava toda manhã com uma fina camada de gelo em meu cobertor formada por meu hálito congelado, que caía enquanto eu dormia. Eu morava então em Kornsá, havia dois ou três anos. Kjartan, meu irmão adotivo, tinha três anos. Eu era apenas cinco anos mais velha.

 

Certa noite, nós dois estávamos trabalhando no badstofa com Inga. Na época, eu a chamava de mamãe, pois é o que era para mim. Ela notou que eu aprendia rápido e me ensinou o que sabia o melhor que pôde. O marido, Björn, eu também tentava chamar de papai, mas ele não gostava. Também não gostava que eu lesse ou escrevesse, e não hesitava em arrancar o estudo de mim a chicotadas se me apanhasse nisso. "Vulgar para uma garota", dizia. Inga era matreira; esperava que ele dormisse e então me acordava, e líamos os salmos juntas. Ela me ensinou as sagas. Durante o kvöldvaka, ela as contava de cor e, quando Björn adormecia, me fazia recitar as histórias para ela. Björn nunca soube que a esposa traía suas ordens em meu benefício, e duvido que tenha entendido por que sua esposa adorava as sagas daquele modo. Ele aceitava suas histórias de sagas com o ar de um homem aceitando o capricho incompreensível de uma criança. Quem sabe como eles acabaram me adotando. Talvez fossem parentes de mamãe. Talvez precisassem de mais duas mãos.

 

Naquela noite Björn saíra para alimentar o gado e quando voltou estava de bom humor.

 

- Vejam vocês, apertando os olhos junto à lamparina quando do lado de fora o céu está em chamas - disse, rindo. - Venham ver as luzes.

 

Então coloquei a roca de lado, peguei a mão de Kjartan e o levei para fora. Mamãe Inga estava grávida e não nos acompanhou. Apenas acenou e continuou a bordar. Fazia uma nova colcha para minha cama, mas nunca a terminou, e até hoje não sei o que aconteceu com ela. Talvez Björn a tenha queimado. Ele queimou muitas das coisas dela mais tarde.

 

Mas naquela noite Kjartan e eu saímos para o ar frio, nossos pés esmagando a neve no chão, e logo entendemos por que Björn tinha nos chamado. O céu inteiro estava tomado por cores como eu nunca tinha visto. Grandes cortinas de luz se moviam como se sopradas por um vento, rolando acima de nós. Björn estava certo - parecia que o céu noturno queimava lentamente. Havia manchas violeta que inchavam na escuridão da noite, e as estrelas se espalhavam sobre ela. As luzes cresciam, como ondas, depois eram subitamente interrompidas por novas faixas de um verde violento que penetravam no céu como se despencando de grande altura.

 

- Veja, Agnes - disse meu pai adotivo, virando-me pelos ombros para que eu pudesse ver como o brilho das luzes do Norte destacava com precisão a cordilheira. Apesar do adiantado da hora, eu podia ver o conhecido horizonte irregular.

 

- Veja se consegue tocar - disse Björn, e joguei meu xale na neve para poder erguer os braços para o céu. - Você sabe o que isso significa - acrescentou. - Significa que haverá uma tempestade. As luzes do Norte sempre anunciam tempo ruim.

 

Ao meio-dia do dia seguinte, o vento começou a açoitar a cabana, levantando a neve que caíra durante a noite e lançando-a contra as peles secas que havíamos esticado sobre as janelas para barrar o frio. Era um som sinistro - o vento arremessando neve sobre nossa casa.

 

Inga não se sentia bem naquela manhã e permaneceu na cama, então preparei nossa refeição. Estava na cozinha, colocando a chaleira no braseiro, quando Björn veio do depósito.

 

- Onde está Inga? - perguntou.

 

- No badstofa - respondi. Vi Björn tirar seu capuz e sacudir o gelo no braseiro. A água caiu nas pedras quentes.

 

- O fogo está soltando fumaça demais - disse, franzindo o cenho, depois me deixou com meus afazeres.

 

Quando havia fervido um pouco de musgo e feito um mingau, levei-o ao badstofa. Estava bastante escuro no aposento, e assim que servi a refeição a Björn corri para o depósito para pegar mais óleo para a lamparina. O depósito ficava perto da porta da cabana, e tão logo me aproximei dela ouvi o vento uivando, cada vez mais alto, e soube que uma tempestade se aproximava rapidamente.

 

Não estou certa de por que abri a porta para olhar do lado de fora. Suponho que estava curiosa. Mas alguma estranha compulsão tomou conta de mim, e soltei a trava para espiar o tempo.

 

Era uma visão sinistra. Nuvens escuras desciam sobre a cordilheira, e, sob seu negror enfumaçado, neve cinza rodopiava até onde era possível ver. O vento era feroz, e uma grande rajada gelada de repente se chocou contra a porta com tal força que me arrancou do chão. A vela na parede do corredor se apagou, e de dentro da cabana Björn perguntou aos berros que diabos eu achava que estava fazendo para deixar a nevasca entrar na casa dele.

 

Joguei o peso contra a porta para fechá-la, mas o vento estava forte demais. Minhas mãos endureceram com a rajada de ar frio. Era como se o vento fosse alguma forma de espírito exigindo entrar. Então, de repente, o vento parou, e a porta se fechou com uma batida. Como se o espírito tivesse finalmente entrado e fechado a porta atrás de si.

 

Voltei ao badstofa com óleo e enchi as lamparinas. Björn estava com raiva de mim por deixar o ar frio entrar com Inga em estado tão delicado.

 

A nevasca se abateu sobre nossa cabana naquela tarde e durou três dias. No segundo, Inga começou a ter seu bebê.

 

Era cedo demais.

 

Mais tarde naquela noite, em meio ao som produzido por vento, neve e gelo, Inga começou a sentir dores terríveis. Ela parecia temer que também aquele bebê chegasse antes da hora.

 

Quando Björn se deu conta de que o bebê estava vindo, mandou Jón, seu criado, à fazenda do irmão buscar sua cunhada e a criada deles. Meu pai adotivo mandou Jón contar às mulheres o que estava acontecendo, para que pudessem pelo menos dar conselhos caso não conseguissem voltar com ele. Jón protestou, dizendo que a nevasca estava tão forte que não se podia esperar que ele fizesse aquilo, porém Björn era um homem exigente. Então Jón vestiu roupas grossas e saiu, mas voltou pouco depois, coberto de gelo e neve, e disse a meu pai adotivo que não conseguia ver dois passos à frente e que não seria obrigado a ir além do curral quando o clima só prometia morte. Mas Björn o obrigou a tentar de novo, e quando Jón voltou, parcialmente congelado de frio, dizendo que mal podia ficar em pé no vento e que não conseguira andar mais de dois metros, meu pai adotivo o pegou pelo colarinho do casaco e o empurrou para fora. Mas acho que ao abrir a porta, viu como o clima estava perigoso, pois quando Jón voltou para dentro alguns minutos depois, tremendo de frio e raiva, Björn não disse nada, permitindo que ele se despisse e entrasse na cama para se recuperar.

 

Tenho certeza de que nesse momento Björn também ficou assustado.

 

Inga permanecera na cama e gemia de dor, branca como leite e tomada por um tremor que a deixava coberta de suor. Björn a carregou do badstofa para o sótão - nessa época havia um sótão nessa cabana -, para que ela pudesse ter alguma privacidade, mas quando a ergueu sua camisola e o lençol da cama estavam encharcados, e gritei de surpresa. Pensei que ela tivesse se urinado.

 

- Não a mova, Björn! - pedi, porém ele me ignorou e carregou minha mãe adotiva escada acima, pedindo que eu fervesse água e levasse um pano grosso para ele. Fiz como foi pedido, levando o novo tecido que eu mesma havia feito. Perguntei se podia ver mamãe, mas ele me mandou cuidar de Kjartan, então retornei ao badstofa.

 

Kjartan deve ter percebido que havia algo errado, pois choramingava quando eu retornei. Enquanto eu me sentava na nossa cama, ele subiu nela com dificuldade, e em meu próprio medo e necessidade de consolo eu o puxei para meu colo, e ficamos sentados, escutando a tempestade e esperando que Björn nos dissesse o que fazer.

 

Esperamos muito tempo. Kjartan adormeceu em meu pescoço, então eu o coloquei na cama e tentei cardar um pouco de lã, separando os emaranhados em finos tufos entre as pás, e selecionando pequenas rebarbas. Mas meus dedos tremiam. O tempo todo eu podia ouvir Inga gritando no sótão. Lembrei a mim mesma que gritar era normal e que logo teria um novo irmão ou irmã adotiva para amar.

 

Após algumas horas Björn desceu do sótão. Entrou no badstofa, e vi que ele segurava um pequeno fardo. Era o bebê. O rosto de Björn estava lívido, e ele estendeu a coisinha e me fez tomá-lo nos braços. Depois saiu do aposento e voltou ao sótão para cuidar da esposa.

 

Eu estava excitada de segurar o bebê. Era muito pequeno e leve e não se mexia muito, mas gemia, franzia olhos e boca, e seu rosto era muito vermelho e de aparência medonha. Eu o desenrolei e vi que era uma menina. A essa altura, Kjartan havia acordado. Ficou gelado ali dentro; o vento penetrava por alguma rachadura, e uma rajada de repente apagou a maioria das velas de sebo que havíamos acendido e colocado na mesa. Restou apenas uma vela, e, em sua luz bruxuleante, nossas sombras dançavam sobre a parede, e Kjartan começou a chorar. Fechou os olhos e enfiou a cabeça em meu ombro.

 

Como ficara muito frio, tentei enfiar o bebê enrolado dentro do meu xale, e usei meu travesseiro para mantê-lo junto ao peito. Mas não tínhamos travesseiros de penas, só de algas, e eles não forneciam muito calor. Então o bebê parou de chorar, e pensei que talvez não estivesse frio demais e tudo ficaria bem. Usei meus dedos para limpar um pouco do fluido grosso da cabeça do bebê, depois Kjartan e eu o beijamos.

 

Ficamos um bom tempo sentados juntos na cama. Horas se passaram. A sensação era de que dias poderiam ter transcorrido. Continuou escuro e frio, e a tempestade rugia sem parar. Pedi a Kjartan que pegasse os cobertores na cama dos pais, e nos enrolamos neles, aninhados para obter calor. Os gemidos de Inga vinham de cima sem parar. Parecia o som de alguém dormindo e tendo um pesadelo terrível: uma linguagem medonha sem palavras, apenas sons, em tom frágil. Enquanto isso, o vento soprava com tanta força que algumas vezes eu não sabia se era Inga gritando ou o vento fazendo a vela tremular em seu castiçal.

 

Eu colocara o braço ao redor de Kjartan e usara o outro para levar o bebê ao meu peito, pedindo que ambos tentassem escutar meu coração para que ignorassem a nevasca.

 

Acho que adormecemos. Digo que acho porque não me lembro de acordar, mas me lembro de, subitamente, ver Björn em pé no badstofa. A última vela morrera, e na escuridão do aposento eu só podia vê-lo em pé imóvel, a cabeça tombada.

 

- Inga está morta - disse, as palavras caindo pesadas no aposento. - Minha esposa está morta.

 

- Björn, o bebê está aqui - disse eu. - Pegue o bebê - pedi, e o tirei de sob os cobertores, oferecendo-o a ele.

 

Ele não quis pegá-lo.

 

- O bebê também está morto - disse.

 

Baixei os olhos para o que tinha nas mãos e vi que o bebê ficara imóvel e não estava mais quente. Os cobertores só estavam quentes porque eu os pressionara em meu corpo. Comecei a chorar. Kjartan viu o pequeno rosto azul do bebê com o sangue ainda grudado na bochecha, viu que não se movia e começou a choramingar. Björn nos observou. Fiquei aborrecida, coloquei o bebê na cama e me joguei no chão com o rosto nas mãos. Lamentando-me, berrei:

 

- Eu também quero morrer!

 

- Talvez morra - retrucou Björn. Foi tudo o que ele disse para me consolar. - Talvez você também morra.

 

Fiquei um longo tempo deitada no chão, aos berros. Lembro que as tábuas - as mesmas aqui agora sob nossos pés - estavam molhadas e sujas das minhas lágrimas e do que escorria do meu nariz. Eu estava com raiva de Björn, sentado na cama no escuro com a cabeça entre as mãos e sem chorar, sem gritar, sem me dizer para acabar com o ataque e me levantar. Ele estava tão congelado quanto o solo do lado de fora. Então gritei e rolei no chão até meus olhos incharem e minhas mãos doerem de socar a madeira. Uivei como a nevasca do lado de fora até lembrar de Inga no sótão, e então me levantei e saí correndo do aposento, tropeçando em minhas saias e caindo de joelhos. Subi a escada e corri para o sótão.

 

Havia uma pequena janela no teto, acima das vigas. Normalmente enchíamos o buraco com tecido para bloquear chuva e neve, mas o tecido caíra e deixava entrar um pouco de luz azul, embora a nevasca continuasse. Estava extremamente frio no quarto. Minha respiração saía flutuando em uma nuvem macia. Muita neve havia sido soprada para dentro e derretera, formando uma grande poça no chão, e primeiro vi essa poça, como ela refletia a luz que entrava pela janela, de modo que o chão brilhava, como um espelho. Depois vi Inga.

 

À luz azul do quarto seu sangue parecia roxo. Estava deitada em um estreito colchão de feno, sobre o tecido que eu dera antes a Björn, com a diferença de que o tecido já não era branco, mas escuro de sangue. Seus olhos estavam abertos e refletiam a luz em cintilações úmidas que me faziam pensar que ainda estava viva. Eu me curvei sobre ela, gritei "mamãe!" e coloquei a mão em seu ombro, mas quando a toquei, soube que estava morta. O corpo endurecera e estava frio ao toque.

 

O sangue dela estava por toda parte. Enegreceu sua camisola, estava sobre suas pernas e a cama, sujava seus ombros nus, e percebi que as mãos, caídas ao lado do corpo com as palmas para cima, também estavam cobertas dele, exatamente como quando ela fazia salsicha, deixando o sangue coagular e passando-o pelo linho. O rosto estava branco, branco demais no quarto escuro, e seus cabelos haviam caído da touca e pendiam duros sobre a testa.

 

Eu nunca me esquecerei do cheiro. Aquele quarto estava tomado pelo cheiro de seu sangue e pelo cheiro seco e limpo da neve nas tábuas do piso. Respirar me deixou nauseada.

 

A camisola de Inga estava enrolada na cintura, então puxei-a sobre as pernas, dura de sangue como estava, para que seu corpo não ficasse tão nu. Então beijei sua boca flácida. Finalmente, tirei a touca e enfiei meu rosto em seus cabelos. Era a única parte dela que ainda cheirava como minha mãe adotiva, e não a sangue. Deitei meu corpo ao lado dela e cobri meu rosto com seus cabelos compridos, respirando, não sei por quantos minutos, até Jón empurrar a cortina do sótão para o lado e me pegar, levando-me de volta para a cama no andar de baixo.

 

E quando acordei novamente a nevasca havia passado.

 

Isso é o que digo ao reverendo. Tento contar a história da melhor forma possível. Deixo que as palavras saiam enquanto tricoto, lançando pequenos olhares para o rosto do reverendo para ver se está comovido.

 

Posso sentir os outros escutando. Posso sentir Steina, Margrét, Kristín e Lauga esticando as orelhas para nós no canto escuro, comendo a história como pão com manteiga fresca. Margrét e Lauga talvez estejam pensando que eu mereci, ou quem sabe sentem pena de mim. Steina deve achar que sou como ela - infeliz, ignorada. Errada.

 

Mas como outros estão escutando, não posso perguntar ao reverendo o que quero. Não posso dizer: "Reverendo, acha que estou aqui porque quando era criança disse que queria morrer? Porque quando disse isso eu falava sério. Proferi como uma prece. Espero morrer. Então escrevi meu próprio destino?".

 

Quero perguntar ao reverendo se acha que matei o bebê. Eu o segurei apertado demais? Mas não há jeito certo de fazer essa pergunta, e não quero colocar mais pensamentos na cabeça daquelas mulheres. Há algumas coisas que elas não devem ouvir.

 

Parece que todas as pessoas que amo são tiradas de mim e enterradas no chão, enquanto eu permaneço só.

 

Então é bom que não reste ninguém para amar. Ninguém para enterrar.

 

- O que aconteceu depois? - perguntou Tóti. Ele se deu conta de que mal havia respirado durante a história de Agnes.

 

- É estranho - disse Agnes, usando o dedinho para enrolar a lã na ponta da agulha. - Na maioria das vezes em que penso no tempo que era mais moça, tudo está enevoado. Como se olhasse para as coisas através de um vidro escurecido. Mas a morte de Inga, e tudo o que aconteceu depois... Quase sinto que foi ontem.

 

Do outro lado do aposento, uma cadeira raspou no chão. Margrét deu uma tossida abafada.

 

- Lembro-me de que depois da morte de Inga, Jón saiu para buscar os parentes de Björn - continuou Agnes. - Lembro-me de estar deitada na minha cama vendo meu pai adotivo sentado no banco que Inga usava para fiar. O traseiro dele mal cabia no assento. Kjartan estava na cama comigo, dormindo quente e pesado em meu ombro. O vento diminuíra, e de repente tudo ficou muito silencioso.

 

- Ouvimos o estalar de arreios no pátio do lado de fora. Então Björn se levantou lentamente e foi na direção de minha cama. Pegou meu irmão com um braço para que eu pudesse sentar e me disse para pegar o bebê morto, enrolar seu rosto em um cobertor e colocá-lo no depósito.

 

- O bebê parecia mais leve morto do que vivo. Eu o mantive longe de mim e segui pelo corredor apenas de meias.

 

- Estava gelado no depósito. Eu podia ver a névoa de meu hálito à minha frente, e minha testa doía com o frio. Cobri o rosto do bebê com uma ponta do pano em que estava enrolado e o coloquei sobre um saco de cabeças de bacalhau secas. Quando voltei para o corredor uma rajada de ar gelado acertou a lateral de meu rosto, e eu me virei para a porta aberta vendo o rosto do irmão e da cunhada de Björn e da criada deles surgindo da escuridão do lado de fora. Suas bochechas estavam molhadas e brilhantes da chuva congelada.

 

- Lembro-me de tio Ragnar e Jón descendo Inga do sótão com cuidado, enquanto Björn permanecia do lado de fora cuidando das ovelhas. Era meu trabalho cuidar para que eles não batessem a cabeça dela nos degraus da escada. Eles a levaram para o badstofa e a colocaram na cama nua. Tia Rósa estava na cozinha esquentando água, e quando perguntei o que fazia, ela disse que iria limpar o corpo de minha pobre mãe adotiva. Ela não me permitiu ver. Deixou que Kjartan ficasse brincando aos pés dela e ordenou que eu subisse ao sótão e ajudasse sua criada, Gudbjörg.

 

- Quando subi a escada, vi Gudbjörg esfregando o chão do piso. O cheiro me deixou nauseada, e comecei a chorar. Gudbjörg me tomou nos braços: Ela agora foi para Deus, Agnes. Está segura.

 

- Eu me sentei no chão com o xale de Gudbjörg ao redor de mim e fiquei observando o sacolejar de seus braços flácidos enquanto ela ajoelhava e esfregava a madeira. Gudbjörg torceu a água rosada do trapo várias vezes. Balançava a cabeça sem parar e algumas vezes fazia uma pausa para secar os olhos.

 

- Contei a Gudbjörg o que Björn dissera quando eu gritara que queria morrer, que dissera que eu talvez fosse a próxima. Gudbjörg me mandou calar e disse que Björn não estava em si e não falara a sério.

 

- Contei a ela sobre como Björn me dera o bebê para cuidar, que eu o segurara apertado e que ele morrera em meus braços e eu nem sequer notara.

 

- Gudbjörg me embalou como se eu mesma fosse um bebê. Disse que a criança não estava destinada a esta terra e que não era culpa minha não ter vivido. Disse que eu era corajosa e que Deus iria tomar conta de mim.

 

- Sabe onde Gudbjörg está hoje? - interrompeu Tóti.

 

Agnes levantou os olhos do tricô.

 

- Morta - disse, inabalável. Puxou o novelo de lã para soltar mais um pouco de fio. - Quando Ragnar, Kjartan e Björn retornaram do estábulo, Rósa chamou Gudbjörg e eu mesma do sótão, e nos sentamos no badstofa ao redor da cama onde Inga estava. Ela parecia limpa, mas imóvel. Assustadoramente imóvel, como quando o vento para e a grama não se move, e você se sente deixado para trás.

 

- Tio Ragnar, silenciosamente, nos passou um frasco de brandy. Era a primeira vez que eu provava álcool, e não gostei muito, mas Jón partira no cavalo de meu pai adotivo para ir buscar o reverendo, e não havia nada a fazer, a não ser esperar e beber. As horas se arrastavam, e me senti enjoada com o brandy, e os ossos de minhas pernas ficaram rígidos de tanto tempo sentada.

 

- Jón só voltou com o padre tarde da noite. Eu os deixei entrar. O reverendo se esqueceu de tirar a neve das botas.

 

- Gudbjörg, tia Rósa e eu servimos comida aos homens, e eles comeram com o prato no colo, Inga na cama diante deles. Tia Rósa havia acendido uma vela e colocou-a perto da cabeça de Inga, e eu verificava para garantir que não tombasse; estava preocupada que seus cabelos pegassem fogo.

 

- Assim que os homens haviam comido, as mulheres levaram a mim e a Kjartan para a cozinha, enquanto o reverendo falava com eles. Tentei escutar o que diziam, mas tia Rósa pegou meu braço, colocou Kjartan no colo e começou a contar uma história para nos distrair. Só parou quando tio Ragnar e Jón passaram pela porta aberta levando o corpo de Inga. Eles haviam coberto seu rosto com um pano. Eu queria saber para onde a estavam levando e me levantei para segui-los, mas tia Rósa apertou mais meu braço e me puxou para ela. Gudbjörg me contou rapidamente que o reverendo dissera que não havia nenhuma chance de fazer um enterro antes da primavera: o solo do cemitério da igreja estava totalmente congelado, e eles iriam manter minha pobre mãe adotiva no depósito até o chão descongelar e alguém poder cavar um túmulo. Fomos até a porta vê-los tirar Inga.

 

- O reverendo seguia meu pai pelo corredor. Eu o ouvi dizer: "Pelo menos isso lhe dá muito tempo para fazer os caixões". Então ele sugeriu que a colocassem no estábulo.

 

- Quente demais - retrucou meu pai adotivo.

 

- Tio Ragnar e Jón baixaram Inga junto ao bebê morto no depósito. Inicialmente a colocaram em um saco de sal, mas tio Ragnar observou que o sal poderia ser necessário antes que conseguíssemos enterrar Inga, então eles trocaram o sal por peixe seco, e pude ouvir os finos ossos secos do bacalhau se partindo no saco sob o peso de seu corpo.

 

- Quando eles a enterraram? - perguntou Tóti. Ele de repente se sentia claustrofóbico no badstofa, cercado pelos estalos abafados das agulhas de tricô e o chiado da lã.

 

- Ah, demorou bastante - disse Agnes. - Inga e o bebê ficaram no depósito até o final do inverno. Sempre que eu tinha de pegar mais óleo para as lamparinas ou ajudar Jón a rolar um barril para a despensa, eu via seus corpos no canto, colocados sobre os sacos de peixe seco.

 

- Kjartan não entendia o que havia acontecido com a mãe. Imagino que tenha se esquecido do bebê, mas sempre gritava chamando por Inga, sentado no chão do badstofa, uivando como um cachorro. Seu pai o ignorava, mas quando tio Ragnar nos visitava, Kjartan recebia um tapa nas orelhas. Logo parou de chorar.

 

- Tio Ragnar parecia estar sempre em Kornsá, conversando com Björn no badstofa ou levando brandy para ele. Björn ficara mais silencioso desde a nevasca. Quando eu servia seu jantar ele já não agradecia, apenas pegava a colher e começava a comer.

 

- E então um dia me disseram que Björn não me queria mais. Deve ter sido no começo da primavera; eu estava de mau humor e me recusara a jantar. Meu pai adotivo não dissera nada, nem mesmo uma palavra dura para me repreender por desperdiçar comida. Ele passava o tempo todo com os animais, que haviam começado a morrer de frio, e eu estava frustrada que ele os amasse e a Kjartan mais que a mim.

 

- O inverno acabara, e naquele dia havia um pouco de luz, então saí da mesa e decidi ir para fora. Ninguém me impediu. Passei rápido pelo corredor, peguei a pá que ficava junto à porta e comecei a cavar uma trilha para sair da cabana, gostando da sensação dos flocos de neve em minhas bochechas quentes. Assim que havia aberto um caminho, joguei a pá de lado e comecei a cavar a neve com as mãos, pegando grandes braçadas e jogando-as o mais longe que conseguia. Trabalhei até ter cavado um buraco bem grande. Quando parei para retomar o fôlego, ergui os olhos e vi uma mancha preta a distância: era tio Ragnar, em mais uma de suas visitas. Ele me cumprimentou e perguntou o que eu fazia coberta de neve. Expliquei que começara a cavar um túmulo para mamãe. Tio Ragnar franziu o cenho e disse que eu não devia chamá-la de mamãe, e perguntou se não me envergonhava de pensar em enterrá-la perto da porta, onde todos iriam pisar nela, e não no solo sagrado de um cemitério de igreja.

 

- Não seria melhor mantê-la aquecida no depósito até que possa repousar em paz em solo sagrado? - ele me perguntou.

 

- Eu balancei a cabeça. - O depósito está tão frio quanto a teta de uma bruxa - disse a ele.

 

- Tio Ragnar disse: "Cuidado com a boca, Agnes. Palavras feias revelam uma mente feia".

 

- Naquela noite, ele me disse que Björn iria desistir do aluguel de Kornsá e partir para Reykjavík, para trabalhar nas estações de pesca. O inverno matara minha mãe adotiva e seu bebê, bem como metade do rebanho de Björn, e sem uma esposa e sem nada para pagar os salários de outro ajudante, Björn não podia me manter. Kjartan foi viver com a tia e o tio, e quando o clima esquentou, fui colocada à misericórdia da paróquia.

 

- E foi assim que você se tornou uma indigente - disse Tóti.

 

Agnes anuiu, fazendo uma pausa no tricô para esticar os dedos. Pousou a meia no colo e ergueu os olhos para ele através da escuridão.

 

- Foi assim que me tornei uma indigente. Deixada à misericórdia dos outros, tenham eles alguma ou não.

 

Acordei cedo, e o badstofa ainda está tomado por sombras. Pensei que alguém estivesse curvado sobre meu ouvido sussurrando "Agnes, Agnes". O sussurro me arrancou dos meus sonhos, mas não há ninguém aqui, e um temor frio de repente invade meu coração.

 

Eu poderia jurar que alguém estava me chamando.

 

Fico deitada imóvel e tento escutar os outros respirando no escuro, para descobrir se alguém está acordado. O reverendo Tóti está na cama mais próxima, tendo decidido dormir em Kornsá por causa do adiantado da hora. Mas sei que não foi ele quem me acordou. Um padre não acordaria uma prisioneira sussurrando em seu ouvido como um amante.

 

Minutos se passam. Por que está tão escuro no aposento? Não consigo ver minhas mãos, embora as coloque acima dos olhos. O negror se entranha em minha mente, e meu coração adeja como um pássaro seguro firmemente na mão. Mesmo quando fecho os olhos com força, a escuridão continua ali, e agora também há tremores medonhos de luz bruxuleante. Meus olhos estão abertos ou fechados? Talvez tenha sido acordada por um fantasma - como posso explicar essas luzes surgindo no breu diante de mim? São como chamas descamando-se de uma parede, e o rosto de Natan está diante de mim, a boca arreganhada em um grito, os dentes ensanguentados e brilhantes, e seu corpo em chamas desprende flocos de carne calcinada em meus cobertores. Tudo cheira a gordura de baleia, a faca de Fridrik está afundada na barriga de Natan, e um grito sai do meu peito como se arrancado de minhas entranhas por uma corda.

 

As luzes desaparecem. Eu estivera sonhando? É como se o tempo tivesse parado.

 

- Reverendo Tóti? - sussurro.

 

Ele se vira no sono.

 

- Reverendo? Posso acender uma lamparina?

 

O reverendo não acorda facilmente - ele resiste, como um homem viciado em bebida. Eu o sacudo com mais força do que gostaria. Acho que está constrangido de acordar e me ver em roupas de baixo.

 

- O que é?

 

- Tive outro sonho.

 

- Como?

 

- Posso acender uma lamparina?

 

- A luz de Jesus é suficiente para qualquer cristão de verdade - disse, a voz arrastada de sono.

 

- Por favor, reverendo.

 

Ele não me ouviu. Começa a roncar.

 

Então volto para minha cama, desconfortável. Sinto cheiro de fumaça.

 

Minha mãe está morta. Inga está morta.

 

Está deitada em trapos no depósito, enquanto a neve e o gelo cravam suas presas sobre a terra e nos impedem de cavar buracos, abrir covas.

 

Tão frio que ela tem de esperar para ser enterrada.

 

Tão solitário que faço amizade com os corvos que espreitam as ovelhas.

 

Fecho meus olhos e me arrasto pela escuridão do corredor com a luz bruxuleante de minha lamparina, e tremo, aterrorizada. Ouço o vento uivar no negror do lado de fora, e parece que ouço minha mãe adotiva arranhar as mãos na porta do depósito onde está enrolada, esperando para ser colocada no caixão e enterrada quando chegar a primavera. Paro de andar e presto atenção, e sob o vento penso escutar algo raspando e depois meu nome sendo chamado - Agnes, Agnes. - É Inga me chamando para deixá-la sair. - Não estou morta, eu voltei, estou viva e preciso ser tirada deste depósito, não mantida como carne abatida, secando no ar estagnado. Guardada com sal e soro e farinha cheia de gorgulhos dinamarqueses.

 

Fico imóvel e tremo, assustada. Então, mamãe, mamãe! Dou um passo na direção do depósito e abro a porta - não há tranca. Abro a porta e estendo a luz fraca de minha lamparina, e vejo a forma escura de seu corpo no chão, a cabeça pousada sobre um saco de cabeças de peixe secas, e choro, porque é pior saber que ela está realmente morta. Ah, minha mãe adotiva está morta, e minha própria mãe partiu. E eu me sento no chão, as pernas fraquejando com a dor lancinante de uma órfã, e o vento grita por mim, porque minha língua não consegue. Ele grita, e eu me sento no chão de terra batida, duro de frio, e sinto o cheiro das cabeças de peixe, nauseantes, misturando ao cheiro insípido do inverno seu fedor de sal e ossos secos.

 

O assassino Fridrik Sigurdsson nasceu em Katadalur, aqui na paróquia de Tjörn, em 6 de maio de 1810, e foi crismado por meu predecessor, o reverendo Sæmundur Oddson, em 1823. Foi descrito então como tendo "um bom intelecto" e um bom conhecimento e compreensão do catecismo. Contudo, seu comportamento não correspondeu a esse conhecimento e essa educação. Ele teve problemas, em desobediência explícita a seus pais, de modo que eles se queixaram a mim no outono de 1825. Foi conversando com eles que soube de seu caráter grandemente inflexível.

 

Como foi sua criação, não posso atestar com certeza suficiente - com exceção de quatro anos, não fui padre nesta paróquia. Contudo, é de minha opinião que ele foi criado com liberdade demais.

 

Depoimento do reverendo Jóhann Tómasson.

 

5 de setembro de 1829

Rev. T. Jónsson

Breidabólstadur, Vesturhóp

Ao reverendo (assistente) Thorvardur Jónsson,

Escrevo para perguntar sobre seu progresso com a criminosa Agnes Magnúsdóttir. Eu me encontrei recentemente com o reverendo Jóhann Tómasson, da paróquia de Tjörn, que foi gentil em me fornecer um relato referente à evolução espiritual e ao comportamento evoluído do criminoso Fridrik Sigurdsson, a quem ele supervisiona. Considero necessário me reunir também com você. Assim que você me der igualmente um relato do que se passou, e continua a se passar, entre você e a criminosa, poderei compreender em que grau a orientação religiosa está coletivamente melhorando os condenados.

 

Por favor, apresente-se a Hvammur na próxima semana, para fazer um relato de sua interação com a criminosa e dos conselhos que lhe ofereceu até o momento.

Comissário distrital

Björn Blöndal

 

- Obrigado por vir, reverendo assistente Thorvardur - disse Björn Blöndal, passando pela porta da fazenda de Hvammur. Usava seus distintivos oficiais, o paletó vermelho aberto para revelar uma camisa creme limpa. Tóti, que só encontrara o comissário distrital em poucas ocasiões, principalmente quando menino viajando com o pai, parou assombrado com o espetáculo do uniforme e sua figura bastante imponente.

 

- Saudações, comissário distrital Blöndal.

 

Tóti desmontou e deu as rédeas do cavalo a um criado. Ele notou que Hvammur estava cheia de gente, todos fazendo suas tarefas no amplo pátio diante da casa. Em uma pedra, à sua esquerda, um homem limpava uma truta, apanhada naquela manhã no rio, e duas mulheres punham roupa para secar no sol minguado que o dia oferecia. Ele notou outra criada, uma jovem vestindo o arranjo de cabeça tradicional de touca e borla, levando quatro ou cinco crianças para fora.

 

- Olá - disseram alegremente, anuindo na direção de Tóti.

 

- O senhor tem uma bela casa - disse Tóti sorrindo, seguindo ao encontro de Blöndal.

 

- De fato. Seja bem-vindo, reverendo. Espero que a viagem não tenha sido árdua demais. Por favor, entre e cuidado com o degrau.

 

Uma criada mais velha conduziu Tóti pelo labirinto de corredores até uma pequena sala de visitas. Blöndal o seguiu, e observou do umbral enquanto ela acomodava Tóti em uma cadeira estofada e habilmente retirava seu chapéu de montaria, casaco e sapatos.

 

- Já esteve aqui antes? - perguntou Blöndal enquanto esperava. Tóti se deu conta de que estava olhando boquiaberto para o que o cercava.

 

- Só quando menino - disse Tóti, corando. - Ótimas acomodações. Vejo que tem várias gravuras.

 

Blöndal fungou e retirou o chapéu emplumado, esfregando distraidamente a pena.

 

- Sim - disse objetivamente. - Somos muito afortunados por desfrutar de luxos normalmente permitidos apenas àqueles no continente. Embora seja meu desejo que, em um século, mais islandeses venham a conhecer as vantagens de janelas de vidro, revestimento de madeira, fornos de ferro e assim por diante. Sou de opinião que uma casa mais seca permite uma circulação de ar mais eficiente, sendo, portanto, melhor para a saúde.

 

- Sei que está certo - disse Tóti, olhando para a criada ocupada em soltar seus laços. Ela o espiou sem sorrir.

 

- Certo, Karitas, agora deixe-o só - disse Blöndal. - Reverendo Thorvardur, por favor, me acompanhe a meu escritório.

 

- Obrigado, Karitas.

 

A criada se levantou, segurando os sapatos dele e olhando como se prestes a dizer algo.

 

- Karitas, saia.

 

Blöndal esperou até que a mulher tivesse saído da sala, antes de fazer um gesto para que Tóti o seguisse.

 

- Por aqui, por favor, reverendo. Meus aposentos são em uma área mais distante do prédio. Isso impede que o barulho dos criados se torne mais que um pequeno incômodo.

 

Tóti seguiu Blöndal por um comprido corredor, pelo qual mais criados e crianças corriam, entrando em outros cômodos. Tóti ficou maravilhado com o tamanho da casa - era diferente de tudo o que já vira.

 

- Por aqui, reverendo, por favor.

 

Blöndal abriu uma porta que dava para um escritório iluminado. As paredes azul-claras eram tomadas por duas estantes sólidas com lombadas encadernadas em couro. Uma grande escrivaninha estava instalada no centro da sala, a superfície brilhando à luz do sol, que penetrava por uma pequena janela com cortina perto do cume do frontão.

 

- É bonito - disse Tóti, engasgando.

 

- Sente-se, reverendo - disse Blöndal, puxando uma cadeira estofada.

 

Tóti fez como ordenado.

 

- Então aqui estamos - disse Blöndal, passando as grandes mãos sobre a superfície lisa da escrivaninha. - Podemos começar?

 

- Claro, comissário distrital - disse Tóti, nervoso. A grandiosidade do escritório o deixava desconfortável. Ele não sabia que pessoas no Norte viviam assim.

 

- Meus homens disseram que a condenada foi levada a Kornsá sem incidentes.

 

- Também foi o que soube - disse Tóti. - E fico contente em relatar que Agnes se acomodou em seu novo local de custódia em Kornsá.

 

- Entendo. Você a chama pelo nome cristão.

 

- Ela prefere assim, comissário distrital.

 

Blöndal recostou na cadeira.

 

- Continue.

 

- Bem, até o momento a prisioneira tem sido incluída em todos os aspectos da produção de feno da casa - continuou Tóti. - E fui informado pelo oficial distrital Jón Jónsson de que ela trabalha com postura humilde, adequada à sua posição inferior.

 

- Eles não a mantêm em ferros?

 

- Não é a prática habitual.

 

- Entendo. E suas obrigações domésticas?

 

- Ela as cumpre com total diligência. A prisioneira parece bastante contente de passar os dias de clima ruim tricotando.

 

- Lembre-os de tomar cuidado ao lhe dar ferramentas.

 

- Eles estão atentos, comissário distrital.

 

- Bom - disse Blöndal, empurrando a cadeira para trás e, abrindo uma gaveta da escrivaninha, tirando cuidadosamente uma folha de papel verde-claro e um canivete. Depois se virou e pegou um pote de vidro cheio de compridas penas brancas de cisne em um canto de uma estante. - Sempre mando as mulheres coletarem estas - disse Blöndal, momentaneamente distraído. - No final do verão. É melhor pegá-las quando os pássaros trocam as penas. Não é preciso arrancá-las.

 

Ele ofereceu a Tóti o pote com as penas.

 

- Ah, não, eu não poderia - disse Tóti, balançando a cabeça.

 

- Eu insisto - disse Blöndal em voz grave. - Um verdadeiro homem se distingue de todos os outros por suas ferramentas de escrita.

 

- Obrigado - disse Tóti, pegando uma pena timidamente.

 

- Um provedor, o cisne - disse Blöndal. - A pele dos pés dá excelentes bolsas.

 

Distraído, Tóti esfregou a beirada leve da pena sobre a mão.

 

- E os ovos são toleráveis. Se cozidos - falou Blöndal, limpando as lascas da pena da mesa, depois destampando uma pequena garrafa de tinta. - Agora, por favor, um breve resumo de suas lições religiosas para a criminosa.

 

- Claro - disse Tóti, consciente do suor brotando na palma das mãos. - Durante a colheita, eu visitei a criminosa intermitentemente, estando, como entenderá, ocupado com a colheita em Breidabólstadur.

 

- De que maneira se preparou para sua comunicação com a condenada?

 

- Eu... Eu estaria mentindo se dissesse que, a princípio, minha responsabilidade para com sua alma imortal não teve grande peso em mim.

 

- Temia isso - disse Blöndal, soturno. Fez uma anotação no papel à sua frente.

 

- Pensei que o único caminho para sua absolvição seria por prece e censura - disse Tóti. - Passei vários dias avaliando os versos, salmos e outros textos que pudessem colocá-la aos pés de Deus.

 

- E o que selecionou?

 

- Passagens do Novo Testamento.

 

- Quais capítulos?

 

- Ahn... - começou Tóti, enervado com a velocidade das perguntas de Blöndal. - João. Coríntios... - gaguejou.

 

Blöndal olhou interrogativo para Tóti e continuou a escrever.

 

- Tentei lhe falar sobre a importância da prece. Ela pediu que eu fosse embora.

 

Blöndal sorriu.

 

- Não estou surpreso. Durante o julgamento, ela me pareceu particularmente ímpia.

 

- Ah, não. Ela parece ser muito versada em literatura cristã.

 

- Assim como o Diabo, estou certo - retrucou Blöndal. - O reverendo Jóhann colocou Fridrik Sigurdsson para ler os hinos da Paixão. Também o Apocalipse. É mais estimulante.

 

- Talvez. Contudo... - disse Tóti, empertigando-se na cadeira. - Ficou evidente para mim que a condenada precisa de outros meios que não a censura religiosa para se acostumar com a morte e se preparar para seu encontro com o Senhor.

 

Blöndal franziu o cenho.

 

- Por quais meios você tem apresentado a condenada a Deus, reverendo?

 

Tóti pigarreou e colocou a pena suavemente na mesa à sua frente.

 

- Temo que possa achar isso heterodoxo.

 

- Por favor, me diga, e então avaliaremos se seu temor é razoável.

 

Tóti fez uma pausa.

 

- Estou certo de que não é a voz dura de um padre fazendo ameaças de danação, mas os tons gentis e perscrutadores de um amigo, que vão abrir as cortinas de sua alma, comissário distrital.

 

Blöndal o encarou.

 

- Os tons gentis de um amigo. Espero estar enganado ao pensar que fala sério.

 

Tóti corou.

 

- Temo que não esteja enganado, senhor. Todas as tentativas de fazer sermões à condenada tiveram efeito adverso. Em vez disso, eu, eu... Eu a encorajei a falar do pecado. Em vez de me dirigir a ela, permito que fale comigo. Eu lhe ofereço uma plateia derradeira para a narrativa de sua vida solitária.

 

- Você reza com ela.

 

- Eu rezo por ela.

 

- Ela reza por si mesma?

 

- Acho impossível acreditar que não o faz na privacidade. Ela vai morrer, senhor.

 

- Sim, reverendo. Ela vai morrer - disse Blöndal, pousando a pena rapidamente e reclinando em sua cadeira. - Ela vai morrer, e por uma boa razão.

 

Ouviu-se uma batida na porta.

 

- Ah - disse Blöndal, erguendo os olhos. - Sæunn. Entre.

 

Uma jovem criada de aparência nervosa entrou na sala trazendo uma bandeja.

 

- Na escrivaninha, por favor - disse Blöndal, observando enquanto a garota colocava café, queijo, manteiga, carne defumada e pão não fermentado diante dele. - Coma se tiver fome.

 

Blöndal imediatamente começou a empilhar fatias de cordeiro no prato.

 

- Obrigado, não tenho - disse Tóti. Ele observou o comissário distrital enfiar na boca um grande bocado de pão e queijo. Mastigou lentamente, engoliu e pegou um lenço para limpar os dedos.

 

- Reverendo assistente Thorvardur. Você pode ser perdoado por achar que amizade colocará essa assassina no caminho da verdade e do arrependimento. Você é jovem e inexperiente. Tenho alguma culpa nisso.

 

O comissário distrital se inclinou lentamente para a frente e apoiou os cotovelos na escrivaninha.

 

- Vou ser direto. No ano passado, em março, Agnes Magnúsdóttir escondeu Fridrik Sigurdsson no estábulo de Illugastadir. Natan Ketilsson havia retornado da fazenda de Geitaskard com um trabalhador de lá, Pétur Jónsson...

 

- Perdoe-me, comissário distrital, mas acredito que sei o que...

 

- Acho que não sabe o suficiente - interrompeu Blöndal. - Natan voltara para casa após visitar Geitaskard para atender Worm Beck, o oficial distrital de lá. Worm estava muito doente. Natan retornou a Illugastadir para consultar seus livros e, pelo que entendi, pegar remédios adicionais, e Pétur o acompanhou. Era tarde, reverendo. Eles decidiram passar a noite na casa de Natan e voltar pela manhã.

 

- Naquela noite Fridrik chegou secretamente de Katadalur, e Agnes o escondeu no estábulo. Eles haviam passado o inverno planejando matar Natan e roubar seu dinheiro, e foi o que fizeram. Agnes esperou que os homens estivessem dormindo antes de chamar Fridrik. Foi um ataque a sangue-frio a dois homens indefesos.

 

Blöndal fez uma pausa para avaliar o impacto de suas palavras em Tóti.

 

- Fridrik confessou o assassinato, reverendo. Confessou que levou um martelo e uma faca recém-amolada para o badstofa e matou primeiro Pétur, esmagando seu crânio com um golpe de martelo. Ou ele acreditou que era Natan ou quis se livrar de uma testemunha, não sei. Mas então certamente tentou matar Natan. Em sua confissão, Fridrik disse que ergueu o martelo e apontou para o crânio de Natan, porém errou. Disse que ouviu osso se partindo, e, reverendo, um exame dos restos revelou que o braço de Natan de fato estava quebrado.

 

- Fridrik me contou que Natan então acordou e pensou, no que provavelmente era um choque de dor, que estava em Geitaskard e que era seu amigo Worm diante dele.

 

- Ele disse: Natan nos viu no aposento, Agnes e eu, e começou a implorar que parássemos, mas continuamos até ele estar morto. Note as palavras dele, reverendo, Agnes e eu. Fridrik disse que Natan foi morto com a faca.

 

- Então Agnes não os matou.

 

- É indiscutível que ela estava no aposento, reverendo.

 

- Mas ela não segurou a arma.

 

Blöndal reclinou em sua cadeira e juntou as pontas dos dedos. Sorriu.

 

- Quando Fridrik confessou os assassinatos, ele não estava arrependido, reverendo. Achava ter feito a vontade de Deus. Achava que fazia justiça por erros passados cometidos por Natan e reivindicou os dois assassinatos como seus. Sou de opinião de que não foi exatamente como ele disse.

 

- Acha que Agnes matou Natan.

 

- Ela tinha motivos para isso, reverendo. Mais motivos que Fridrik. - disse Blöndal, passando o dedo sobre as migalhas em seu prato. - Acredito que Fridrik matou Pétur. O homem foi morto com um golpe, e um martelo é uma ferramenta pesada de brandir.

 

- Fridrik disse que Natan acordou e viu o que estavam fazendo com ele. Acredito que ele perdeu a coragem, reverendo. É fácil esquecer que Fridrik tinha apenas dezessete anos naquela noite. Um menino. Um bandido, certamente, e está bem claro que ele e Natan eram uma espécie de inimigos. Mas pense, reverendo - disse Blöndal, chegando mais perto. - Pense como deve ser matar um homem por seu dinheiro. Imagine que ele implorou por sua vida. E se ele prometeu pagar algum resgate pedido, sem notificar as autoridades, caso o deixasse viver?

 

A garganta de Tóti estava seca.

 

- Não consigo imaginar tal coisa.

 

- Eu preciso - disse Blöndal em voz baixa. - E imaginei. Sou de opinião que, ao ver Natan acordar e implorar por sua vida, Fridrik perdeu a coragem e vacilou. Ele queria dinheiro, e sem dúvida isso lhe teria sido oferecido naquele momento. Sou de opinião que Agnes pegou a faca e matou Natan.

 

- Mas Fridrik não disse isso.

 

- Natan foi esfaqueado até a morte. Fridrik era filho de fazendeiro; ele sabia matar animais com uma faca. A garganta é cortada - disse Blöndal, esticando-se e apontando um dedo para a garganta de Tóti. - Daqui até aqui - falou, arrastando a unha pela pele de Tóti. - Natan não teve a garganta cortada. Ele foi esfaqueado na barriga. Isso indica motivos mais soturnos do que roubo.

 

- Por que não Sigga? - perguntou Tóti em voz engasgada.

 

Blöndal balançou a cabeça.

 

- A criada de dezesseis anos que caiu em lágrimas assim que a convoquei? Sigga nem sequer tentou mentir; ela decididamente é simplória demais, jovem demais para saber como. Ela me contou tudo, como Agnes odiava Natan, como Agnes sentia inveja das atenções dele para com ela. Sigga não é brilhante, porém ela viu isso.

 

- O fato de uma mulher sentir ciúme não faz dela uma assassina, comissário distrital.

 

- Assassinato é incomum, reconheço isso, reverendo. Mas Agnes tinha o dobro da idade de Sigga. Viajou deste vale, onde passou toda a vida, para Illugastadir, uma distância razoável. Por quê? Certamente não por um emprego; ela tinha oportunidades suficientes aqui. Com certeza havia algo mais que a fez ir trabalhar para Natan Ketilsson.

 

- Eu não entendo, comissário distrital - disse Tóti.

 

Blöndal fungou.

 

- Desculpe-me por falar claramente, reverendo. Agnes acreditava merecer mais. Ser pedida em casamento, acho. Natan não era um homem discreto; seus bastardos enchem este vale.

 

- E ele quebrou a promessa?

 

Blöndal deu de ombros.

 

- Quem disse que prometeu algo a ela? Pelo que vejo, Agnes ficara com a impressão de ter tido sucesso em seduzi-lo. Mas Sigga testemunhou que Natan preferia as... atenções dela.

 

- Isso foi dito no tribunal?

 

- Uma questão imoral. Mas julgamentos de assassinato são compostos de questões grosseiras.

 

- Acredita que Agnes planejou matar Natan por ter sido preterida.

 

- Reverendo, temos um ladrão comum de dezessete anos armado com um martelo, uma criada de dezesseis anos temendo pela vida e uma mulher encalhada cujos afetos não correspondidos se transformaram em um ódio amargo. Um deles enfiou uma faca em Natan Ketilsson.

 

A cabeça de Tóti girava. Ele olhou para a pena branca na beirada da escrivaninha diante dele.

 

- Não consigo acreditar nisso - disse finalmente.

 

Blöndal suspirou.

 

- Você não encontrará provas de inocência nas histórias de vida de Agnes, reverendo. Ela é uma mulher emocionalmente desequilibrada e imoral. Como muitas criadas mais velhas, ela é experiente em enganar, e não duvido que tenha inventado uma história de vida capaz de conquistar sua simpatia. Eu não acreditaria em uma palavra do que diz. Ela mentiu na minha cara nesta mesma sala.

 

- Ela parece sincera - disse Tóti.

 

- Posso lhe dizer que não é. Você deve aplicar a palavra do Senhor como um açoite sobre um cavalo teimoso. Não chegará a lugar algum de outra maneira.

 

Tóti engoliu em seco. Pensou em Agnes, seu corpo branco magro nos cantos escuros de Kornsá, descrevendo a morte de sua mãe adotiva.

 

- Investirei minhas energias na redenção dela, comissário distrital.

 

- Permita que eu o reoriente, reverendo. Permita que lhe diga o trabalho que o reverendo Jóhann Tómasson fez com Fridrik.

 

- O padre de Tjörn.

 

- Sim. Eu conheci Fridrik Sigurdsson pessoalmente no dia em que fui prendê-lo. Isso foi em março do ano passado, pouco depois de receber a notícia do incêndio em Illugastadir e de ver pessoalmente os restos de Natan e Pétur.

 

- Cavalguei até a casa da família dele, Katadalur, com alguns dos meus homens, e fomos para os fundos da cabana para surpreendê-lo. Quando bati na porta da fazenda, o próprio Fridrik abriu a portinhola, e imediatamente lancei meus homens sobre ele. Eles o colocaram a ferros. Aquele jovem estava furioso, demonstrando comportamento e linguagem do tipo mais vil e degenerado. Ele lutou com meus homens, e quando o alertei para que não tentasse fugir, ele gritou, para que todos ouvissem, que lamentava não ter levado sua arma para fora, pois seria eu a ter uma bala enfiada na testa.

 

- Fiz meus homens trazerem Fridrik aqui, para Hvammur, e comecei a interrogá-lo, como havia feito antes com Agnes e Sigrídur, que me falou do envolvimento dele. Ele era teimoso e permaneceu em silêncio. Só depois que acertei para que o reverendo Jóhann Tómasson falasse com ele, confessou ter assassinado os homens com a ajuda das duas mulheres. Fridrik não se arrependeu nem sentiu remorso, como seria de esperar de um homem que agiu por impulso. Ele repetidamente declarou sua convicção de que o que fizera a Natan era necessário e justo. O reverendo Jóhann sugeriu que seu comportamento criminoso era consequência direta de ele ter sido criado da maneira errada, e de fato, após ver a mãe de Fridrik histérica quando prendemos o filho, passei a partilhar a opinião dele. Que outro fator poderia fazer um simples garoto de dezessete invernos levar um homem à morte com um martelo?

 

- Fridrik Sigurdsson foi um menino criado em uma casa descuidada da moral e do ensinamento cristão, reverendo. Indolência, ganância, falta de decência e imaturidade produziram nele um espírito fraco e um anseio por ganhos terrenos. Após registrar sua confissão, cheguei à conclusão inabalável de que o caráter dele é intransigente. Sua aparência despertou em mim fortes suspeitas dessa ordem; ele é sardento e, peço seu perdão, reverendo, ruivo, um sinal de natureza traiçoeira. Quando o coloquei em custódia com Birni Olsen, em Thingeyrar, eu tinha pouca esperança de que se reabilitasse. Contudo, o reverendo Jóhann e Olsen felizmente tinham muito mais esperança no rapaz do que eu, e começaram a trabalhar sua alma com o fervor religioso que faz de ambos homens tão necessários para esta comunidade. O reverendo Jóhann me confidenciou que, por intermédio de uma combinação de oração, repreensão religiosa diária e os bons exemplos morais dados por Olsen e sua família, Fridrik se arrependeu de seu crime e viu como agia errado. Ele fala aberta e honestamente de seus erros e reconhece que sua iminente execução é certa, dada a natureza horrenda do crime cometido por suas mãos. Ele reconhece isso como a justiça de Deus. E agora, o que me diz disso?

 

Tóti engoliu em seco.

 

- Eu cumprimento o reverendo Jóhann e herr Birni Olsen por sua conquista.

 

- Assim como eu - disse Blöndal. - Agnes Magnúsdóttir se arrepende de seu crime de modo similar?

 

Tóti hesitou.

 

- Ela não fala dele.

 

- Isso porque ela é reticente, dissimulada e culpada.

 

Tóti ficou em silêncio por um momento. Ele só queria sair correndo da sala e se juntar ao resto das pessoas em Hvammur, cujas conversas podiam ser entreouvidas da porta do escritório de Blöndal.

 

- Não sou um homem cruel, reverendo assistente Thorvardur. Mas sou temente a Deus, e para mim é evidente que este distrito está tomado de criminosos do pior tipo. Ladrões, bandidos e, agora, assassinos. Durante esses anos que se passaram desde minha nomeação como comissário distrital, eu vi os limites morais que haviam mantido as pessoas daqui a salvo da depravação e do vício se desintegrarem. É um constrangimento político e espiritual, e é minha responsabilidade garantir que os criminosos deste distrito, que tanto tempo permaneceram impunes, recebam a justiça aos olhos de seus pares.

 

Tóti anuiu e pegou lentamente a pena de cisne. A penugem da base grudou em seus dedos molhados.

 

- Quer fazer dela um exemplo - disse em voz baixa.

 

- Quero aplicar a justiça de Deus na Terra - disse Blöndal, franzindo o cenho. - Quero honrar as autoridades que me nomearam cumprindo meu dever de manter a lei.

 

Tóti hesitou.

 

- Ouvi falar que nomeou Gudmundur Ketilsson como carrasco - disse ele.

 

Blöndal suspirou e se recostou na cadeira.

 

- Nunca vi línguas tão ligeiras quanto as deste vale.

 

- É verdade que convidou o irmão do homem assassinado?

 

- Não tenho de lhe explicar minhas decisões, reverendo. Não respondo a padres de paróquia. Eu respondo à Dinamarca. Ao rei.

 

- Não disse que desaprovava.

 

- Sua opinião está escrita em seu rosto, reverendo - disse Blöndal, pegando novamente sua pena. - Mas não estamos aqui para discutir meu desempenho. Estamos aqui para discutir o seu, e devo dizer que estou desapontado com ele.

 

- O que quer que eu faça?

 

- Retorne à palavra de Deus. Esqueça a de Agnes, ela não tem nada que você precise ouvir, a não ser que seja uma confissão.

 

O reverendo Tóti deixou o escritório de Björn Blöndal com a cabeça latejando. Não conseguia parar de pensar no rosto pálido de Agnes, em sua voz baixa na escuridão e na imagem do ruivo Fridrik erguendo um martelo acima de um homem adormecido. Ela estivera mentindo para ele? Lutou contra a ânsia de se benzer no corredor diante do bando de criadas ocupadas carregando baldes de leite e urinóis de dejetos. Calçou os sapatos apoiado na parede.

 

Foi um alívio estar do lado de fora. Ficara nublado e escuro, mas o ar frio e o cheiro forte de peixe secando em prateleiras perto do estábulo pareciam combinar com sua confusão. Pensou no dedo engordurado de Blöndal sobre sua garganta. Ossos sendo esmagados. Natan Ketilsson implorando por sua vida. Queria estar doente.

 

- Reverendo! - chamou alguém. Ele se virou e viu Karitas, a criada de Blöndal, correndo em sua direção. - Deixou seu casaco, senhor.

 

Tóti sorriu e estendeu o braço para pegar o traje, mas a mulher não o soltou. Puxou Tóti mais para perto e sussurrou para ele, olhando para o chão:

 

- Preciso falar com o senhor.

 

Tóti ficou surpreso.

 

- Perdão?

 

- Shhh - disse a mulher. Olhou para o criado que limpava o peixe na pedra. - Venha comigo. Ao estábulo.

 

Tóti anuiu e, pegando seu casaco, cambaleou na direção do grande estábulo. Estava escuro do lado de dentro, e havia um cheiro forte de estrume, embora as baias já tivessem sido limpas. Estava vazio - todos os animais haviam sido levados para o pasto. Ele se virou e viu a silhueta de Karitas contra a porta aberta.

 

- Não queria fazer segredo, mas... - disse, aproximando-se, e Tóti viu que estava perturbada. - Não queria agarrá-lo daquele modo, contudo achei que não teria outra oportunidade.

 

Karitas apontou para um banco de ordenha, e Tóti se sentou.

 

- É o reverendo que cuida de Agnes Magnúsdóttir?

 

- Sim - respondeu Tóti, curioso.

 

- Eu trabalhei em Illugastadir. Com Natan Ketilsson. Saí em 1827, pouco antes de Agnes chegar para trabalhar lá. Ela foi assumir minha posição como governanta. Bem, pelo menos foi o que Natan me contou.

 

- Entendo. E o que você queria me dizer?

 

Karitas fez uma pausa, como se tentando encontrar as palavras certas.

 

- A traição de um amigo é pior que a de um inimigo - disse finalmente.

 

- Não entendo.

 

- É da saga de Gisli Sursson - disse Karitas, virando-se para a porta aberta, para conferir se vinha alguém. - Ele não cumpriu a palavra que lhe deu - sussurrou.

 

- Sua palavra?

 

- Natan prometeu a Agnes minha posição, senhor. Só que, antes que ela chegasse, decidiu que Sigga deveria ficar com ela.

 

Tóti estava confuso. Brincou distraído com a pena que Blöndal lhe dera. Ainda a levava na mão.

 

- Sigga era jovem, quinze ou dezesseis, reverendo. Natan sabia que seria um constrangimento para Agnes estar sob a autoridade dela.

 

- Não entendo o que quer dizer, Karitas. Por que Natan iria prometer a Agnes uma posição e depois dá-la a uma garota inexperiente com metade da idade dela?

 

Karitas deu de ombros.

 

- Conheceu Natan, reverendo?

 

- Não, nunca. Embora eu saiba que muitos aqui no vale o conheciam - disse, sorrindo. - Tenho ouvido opiniões muito variadas. Alguns dizem que era um feiticeiro; outros, que era um bom médico.

 

Karitas não devolveu o sorriso.

 

- Mas você acredita que ele enganou Agnes?

 

Karitas esfregou o chinelo na palha do chão.

 

- É só que... As pessoas aqui sujaram o nome dela, e isso não me parece justo.

 

Tóti hesitou.

 

- Por que está me contando isso, Karitas?

 

A mulher se inclinou mais para perto.

 

- Eu saí de Illugastadir porque não suportava mais Natan. Ele... Ele brincava com as pessoas - falou, inclinando-se ainda mais, o lábio tremendo. - Era como se ele fizesse isso para se divertir. Eu nunca sabia como estava em relação a ele. Natan me dizia uma coisa e fazia outra. E se eu tivesse coragem de pedir uma folga para ir à igreja, pronto.

 

A mulher olhou interrogativa para Tóti.

 

- Sou uma boa cristã, reverendo, e juro que nunca ouvi um homem expressar tanta descrença - falou Karitas, fazendo uma careta e olhando para a porta. - Vai dizer a Blöndal que conversei com o senhor?

 

- Claro que não. Mas não vejo que bem faz me dizer isso sobre Natan. Entendo que as opiniões sobre ele são controversas, mas ainda assim, encrenqueiros, mesmo que sejam ímpios, não merecem ser esfaqueados no meio da noite.

 

Karitas ficou atônita.

 

- Encrenqueiro? - perguntou, olhando para ele. - Agnes disse algo sobre Natan?

 

- Não, ela não fala dele.

 

- O que Blöndal disse? - perguntou, apontando com a cabeça para a casa da fazenda.

 

- Ouvi muito pouco em que poderia confiar de qualquer um além de superstições sobre ele ter recebido o nome do Diabo.

 

Karitas deu um sorriso fraco.

 

- Sim, eles dizem isso. Mas Blöndal não falaria mal dele. Natan curou sua esposa.

 

- Não sabia que ela estava doente.

 

- Quase morrendo. Também pagou muito a ele. Mas funcionou. Natan Ketilsson arrancou a esposa dele dos portões do céu.

 

De repente, Tóti sentiu raiva. Levantou e esfregou palha e poeira da calça.

 

- Preciso ir.

 

- Então não vai contar a Blöndal que conversei com o senhor?

 

- Não - disse Tóti, tentando sorrir. - Eu lhe desejo o bem, Karitas. Fique com Deus.

 

- Reverendo, precisa perguntar a Agnes sobre Natan. Acho que eles conheciam melhor um ao outro do que conheciam a si mesmos.

 

Tóti se virou da porta, intrigado.

 

- Você a visitaria pessoalmente?

 

Karitas deu uma risada rouca.

 

- Blöndal me mandaria estripar e penduraria para secar. Ademais, eu já havia partido quando ela chegou a Illugastadir. Estava farta.

 

- Entendo - disse Tóti, olhando para ela por um momento e depois levando a mão rapidamente à aba do chapéu. - Deus a abençoe.

 

Ele parou para pegar seu cavalo no pátio e, uma vez montado, virou-se para dar adeus a Karitas, que estava à entrada do estábulo. Ela não acenou de volta.

 

A colheita foi armazenada e, após tantas semanas de trabalho duro, estão todos ansiosos para finalmente comer, beber e confraternizar. Eu ajudo Margrét na cozinha, preparando carneiro para os convidados que começaram a chegar para a festa da colheita. Não há muito tempo para reflexão pessoal. As filhas não estão aqui - foram enviadas para os campos da montanha para colher frutas silvestres e musgo -, e agora cabe a Margrét e a mim misturar soro de leite e água, bater a manteiga, servir os homens e garantir que toda a roupa colocada para secar seja tirada do pátio antes que algum dos vizinhos veja nossas roupas de baixo. Foi uma surpresa de repente perceber que as meninas não estavam ali; suponho que tenha me acostumado a Lauga revirando os olhos, como um bezerro insatisfeito, e Steina me seguindo como uma sombra. "Eu a conheço", ela me disse antes de partir. "Somos iguais."

 

Eu não sou como Steina. Sim, ela também é infeliz, mas não é como eu. Quando tinha a idade dela, eu trabalhava para ganhar a vida em Gudrúnarstadir, ajudando com as cinco crianças de lá - cada uma mais magra e fraca que a outra - e limpando, cozinhando e servindo até parecer que ia desmaiar. Sempre enfiada em algo - salmoura, leite, fumaça, estrume ou sangue. Quando nasceu Indridi, o mais moço do clã Gudrúnarstadir, eu estava ao lado de sua pobre mãe, segurando sua mão e cortando o cordão enrolado. O que Steina viu do mundo? Quando eu tinha sua idade estava sozinha, de olhos bem abertos durante a noite para impedir que um criado de boca suja erguesse minha roupa de cama achando que eu estava dormindo. Não que ele sempre fosse tão discreto. Certa manhã ele me agarrou junto ao córrego, torceu meus braços às costas e me empurrou para baixo, de modo que meu rosto ficou tão perto da água que tive medo de me afogar enquanto ele se atrapalhava com a calça. Steina teve de lutar sob o peso de um criado como aquele? Teve de decidir se deixava um fazendeiro se meter sob suas saias e enfrentava a ira da esposa, que a obrigaria a fazer trabalhos de bosta, ou recusá-lo e se ver sem teto na neve e no nevoeiro com todas as portas trancadas?

 

Aquele bebê, aquela criança com cabeça de cardo que eu trouxera ao mundo, eles o enterraram alguns anos após eu ter cortado o cordão. Ele tinha idade para falar. Tinha idade para saber que tinha fome. O que Steina sabe sobre crianças mortas? Ela não é como eu. Ela só conhece a árvore da vida. Não viu suas raízes retorcidas agarrando pedras e caixões.

 

Deixei Gudrúnarstadir depois que Indridi morreu, o fazendeiro e a esposa e o restante dos filhos destroçados pela fome. Eles me deram beijos, uma carta de recomendação e dois ovos para a viagem até Gilsstadir. Dei os ovos a uma dupla de garotas de cabelos claros que encontrei no caminho.

 

Eu quase podia rir. Pensar que aquelas meninas de rosto redondo jogando pedaços de terra para que o cachorro pegasse sejam agora minhas carcereiras aqui em Kornsá.

 

Lauga arrumou uma confusão terrível quando Jón disse a elas que iriam perder a festa da colheita para recolher frutas. Ela é uma tremenda ressentida e me lembra um pouco Sigga, embora seja mais inteligente. Jón falou com ela e Steina na noite passada, quando achou que eu estava dormindo. "Ela deve encontrar seu Deus de uma forma feia", disse ele. "O estilo de vida de nossa família deve continuar. Temos de manter vocês em segurança." Ele não quer que tenham pena de mim. Não quer que se aproximem, então mandou-as embora por um tempo, enquanto o clima permite. Um alívio da minha presença.

 

Margrét diz que os convidados comerão do lado de fora hoje, pois é uma bela manhã de setembro, e nos fará bem pegar o que pudermos de luz do sol, porque logo o inverno se lançará sobre nós. A grama da montanha já está ganhando aquela cor de carne defumada, e as noites cheiram a óleo de peixe das lamparinas recém-acesas. Em Illugastadir, logo haverá uma camada de gelo sobre as algas lançadas no litoral. As focas estarão instaladas nas rochas, vendo o inverno descer da montanha. Haverá os gritos dos homens a cavalo reunindo as ovelhas, e então virá o abate.

 

- Saudações a todos em Kornsá! - gritam da entrada da fazenda, e Margrét ergue os olhos, alarmada.

 

- Fique aqui - diz ela.

 

Sai apressada. Há a variação de tom de uma voz feminina, e então uma grande mulher grávida entra no aposento, cercada por um enxame de crianças de cabelos quase brancos com nariz escorrendo. Outra mulher, uma dama magra e grisalha, a acompanha. Ergo os olhos do braseiro, onde estou mexendo a sopa, e vejo que a mulher gorda está me encarando, a mão sobre a boca. As crianças também olham para mim boquiabertas.

 

- Róslín, Ingibjörg, esta é Agnes Magnúsdóttir - diz Margrét, suspirando.

 

Faço uma mesura, sabendo que devo ser uma visão. O vapor fez meus cabelos grudarem em minha testa encharcada, e há sangue de carne em meu avental.

 

- Fora! Crianças, fora agora mesmo!

 

O pequeno rebanho de crianças sai, uma delas dando um espirro violento. Parecem desapontadas. Nem tanto a mãe delas. A mulher, Róslín, se vira para Margrét e a agarra pelo ombro.

 

- Você nos convidou com ela aqui!

 

- Onde mais ela estaria? - retrucou Margrét, olhando para a outra mulher, Ingibjörg, e vejo um brilho de conspiração nos olhos delas.

 

- Passando o dia em Hvammur! Trancada no depósito! - grita Róslín. Seu rosto está corado; ela está gostando do chilique.

 

- Você está histérica, Róslín. Assim vai entrar em trabalho de parto.

 

Eu olho para a barriga inchada da mulher. Parece no fim.

 

- É uma menina - digo sem pensar.

 

As três mulheres me encaram.

 

- O que ela disse? - sussurra Róslín, parecendo horrorizada.

 

Margrét tosse baixo.

 

- O que você disse, Agnes?

 

De repente me sinto desconfortável.

 

- Seu filho será uma menina. Pela forma. O modo como sua barriga se projeta.

 

Ingibjörg me encara interessada.

 

- Bruxa! - grita Róslín. - Mande que ela pare de olhar para mim.

 

Ela sai apressada da cozinha.

 

- Como você adivinhou isso? - pergunta Ingibjörg. Sua voz é gentil.

 

- Rósa Gudmundsdóttir me contou. Ela é parteira no Oeste.

 

Margrét anui lentamente.

 

- Poet-Rósa. Não sabia que eram amigas.

 

A carne está pronta. Eu coloco a colher no tampo de um barril e uso as duas mãos para levantar a panela do gancho.

 

- Não somos - digo.

 

Ingibjörg pega um pequeno prato de manteiga ao meu lado e acena com a cabeça para Margrét.

 

- Espero que sua senhora permita que saia por algum tempo - diz, sorrindo. - Você deve sentir o sol no rosto.

 

Ela e Margrét saem, mas as palavras dela flutuam no ar atrás dela. Você deve sentir o sol no rosto.

 

- Antes de morrer - não consigo deixar de acrescentar em voz alta para as brasas.

 

Os convidados chegam a pé e a cavalo, as mulheres trazendo comida, e os homens timidamente tirando pequenas garrafas de brandy de coletes e casacos. Eu os vejo colocar pratos nas mesas, mas na maior parte do tempo Margrét me mantém ocupada na cozinha, fora da vista dos vizinhos. Eles me encaram e ficam em silêncio quando levo jarras de leite, porções de manteiga fresca.

 

Não quero ficar aqui fora. Haverá pessoas que conheço, talvez fazendeiros para os quais trabalhei, criados com os quais dividi alojamento. Minha testa dói por causa das tranças apertadas, e de repente anseio soltá-las, caminhar com os cabelos soltos, deitar de costas para o sol.

 

Tóti encontrou Agnes na queijaria, batendo a manteiga.

 

- Não vai se juntar à festa, Agnes? - perguntou em voz baixa.

 

Ela não se virou.

 

- Sou mais útil aqui - disse, continuando a levantar o pilão e a empurrá-lo no creme. Tóti achou que era um bom som, o abafado da batida.

 

- Espero que não se importe por interrompê-la.

 

- Não. Mas, caso não se importe, não vou parar até a manteiga ficar no ponto.

 

Tóti se apoiou no umbral, enquanto Agnes continuava a levantar e baixar o batedor. Após um momento, ele tomou consciência da respiração de Agnes, rápida e forte, no pequeno aposento. Parecia algo muito íntimo; o ritmo do batedor e o som da respiração acelerada. Ele se sentiu corar. Finalmente se ouviu um baque dentro do pequeno barril, e Agnes parou e com destreza filtrou a manteiga do soro. Tóti piscou enquanto Agnes a lavava e depois virava e batia com a pá, habilidosamente expulsando o resto do líquido, e pensou no que Blöndal dissera. Alguém enfiou a faca na barriga de Natan Ketilsson.

 

Assim que a manteiga ganhou forma e foi coberta com um pano, Tóti sugeriu que saíssem para tomar ar. Agnes pareceu nervosa, mas, após pegar um tricô no badstofa, seguiu Tóti para fora. Eles se sentaram na pilha de turfa junto à cabana e olharam para o grupo de adultos e crianças, os fazendeiros ficando cada vez mais bêbados de brandy, e as mulheres fofocando em pequenos aglomerados de roupas escuras. Várias se revezavam para segurar um bebê, cacarejando no rosto dele. Ele começou a berrar.

 

- Estive com Blöndal - disse Tóti finalmente.

 

Agnes empalideceu.

 

- O que ele queria?

 

- Ele acha que eu deveria passar mais tempo envolvendo você em preces e sermões, e menos tempo deixando que fale.

 

- Só há uma coisa de que Blöndal gosta mais do que censura religiosa, e é o som de sua própria voz - disse Agnes, a voz irritada.

 

- Verdade que Blöndal contratou Natan para curar a esposa?

 

Agnes olhou desconfiada para ele.

 

- Sim - disse lentamente. - Sim, é verdade. Natan visitou Hvammur há alguns anos, para dar a ela cataplasmas e fazer sangrias.

 

Tóti anuiu.

 

- Blöndal também me falou um pouco sobre Fridrik. Aparentemente ele está indo muito bem sob a proteção de Birni Olsen e os conselhos do reverendo Jóhann.

 

Ele olhou para Agnes para avaliar sua reação. Ela apertou os olhos.

 

- Eles também vão conseguir um apelo para ele? - perguntou.

 

- Ele não disse - falou Tóti, pigarreando. - Agnes, uma criada chamada Karitas manda lembranças. Perguntou se você me falou sobre Natan.

 

Agnes parou de tricotar e contraiu o maxilar.

 

- Karitas? - perguntou, a voz desafinada.

 

- Ela pediu para falar comigo após eu ter me reunido com Blöndal. Queria me contar sobre Natan.

 

- E o que disse sobre ele?

 

Tóti procurou seu chifre de rapé, pôs um pouco na mão e fungou.

 

- Disse que não conseguiu suportar trabalhar para ele. Disse que ele brincava com as pessoas.

 

Agnes não disse nada.

 

- Conheci outros aqui neste vale que dizem que ele era um feiticeiro, que recebeu seu nome de Satã - disse Tóti.

 

- Essa é uma história muito popular. E muitos acreditam nela.

 

- Você acredita?

 

Agnes alisou a meia não terminada sobre os joelhos, depois falou.

 

- Não sei. Natan acreditava em sonhos. A mãe dele tinha antevisões, e seus sonhos com frequência se tornavam realidade. A família é famosa por isso. Ele me fazia contar meus sonhos e lhes dava muito valor.

 

Agnes parou de passar a palma da mão sobre a meia e olhou para a frente.

 

- Reverendo - disse em voz baixa. - Se eu lhe contar algo, promete acreditar em mim?

 

Tóti sentiu o coração dar um pulo no peito.

 

- O que você quer me contar, Agnes?

 

- Lembra-se de quando me visitou aqui pela primeira vez e me perguntou por que o escolhera como meu padre e eu disse que era por causa de um ato de gentileza, porque você me ajudara a cruzar o rio? - falou Agnes, lançando um olhar cauteloso para o grupo de pessoas no limite do campo. - Não estava mentindo. Nós nos encontramos ali. O que não lhe contei foi que havíamos nos encontrado antes.

 

Tóti ergueu as sobrancelhas.

 

- Lamento, Agnes, não me lembro.

 

- Não poderia. Nós nos encontramos em um sonho - disse, encarando Tóti, como se temendo que ele risse.

 

- Um sonho?

 

O reverendo ficou novamente impressionado pelo contraste de seus cílios escuros com os olhos claros. Ela é diferente de todos, pensou.

 

Satisfeita de que ele não iria rir, Agnes retomou o tricô.

 

- Quando eu tinha dezesseis anos, sonhei que caminhava descalça por um campo de lava. Ele estava coberto de neve, e eu estava perdida e com medo; não sabia onde estava e não via ninguém. Em todas as direções só havia pedras e neve, e grandes fissuras e rachaduras no solo. Meus pés sangravam, mas eu tinha de continuar; não sabia para onde, mas caminhava o mais rápido que podia. Quando achei que ia morrer de medo, um jovem apareceu. Tinha a cabeça nua, mas usava um colarinho de padre, e me ofereceu a mão. Continuamos a andar na mesma direção de antes, sem saber para onde mais ir, e, embora eu ainda estivesse aterrorizada, segurava a mão dele, e isso era um consolo.

 

- Então, de repente, no meu sonho, senti o solo ceder sob meus pés, e minha mão foi arrancada da mão do jovem, e caí em uma fissura. Lembro-me de olhar para cima enquanto caía na escuridão e ver o solo se fechar acima de minha cabeça. A luz se apagou, e o rosto do homem sumiu. Fui jogada dentro da terra, enterrada em escuridão e silêncio, e era insuportável, e então acordei.

 

Tóti sentiu a boca seca.

 

- Eu era aquele homem?

 

Agnes anuiu. Tinha lágrimas nos olhos.

 

- Então fiquei aterrorizada quando o vi em Gönguskörd. Eu o reconheci do meu sonho e soube que estava ligado à minha vida de alguma forma, e isso me preocupou - disse Agnes, limpando o nariz na manga. - Depois que nos separamos, eu descobri seu nome. Ouvi que ia ser um padre como seu pai e que seguia rumo ao sul para estudar na escola de lá, e soube então que meu sonho era real e íamos nos encontrar uma terceira vez. Mesmo Natan acreditava que tudo vem em grupos de três.

 

- Mas você não está em uma fissura e ainda não está escuro - disse Tóti.

 

- Ainda não - retrucou Agnes em voz baixa, engolindo em seco. - De qualquer forma, não foi a escuridão da fissura que me assustou. Foi o silêncio.

 

Tóti estava pensativo.

 

- Há muito neste mundo e no outro que não compreendemos. Mas só porque não entendemos, não significa que devamos ter medo. Podemos ter certeza de muito pouco nesta vida, Agnes. E ela é assustadora. Estaria mentindo se dissesse que não fico assustado com o que não conheço. Mas temos Deus, Agnes, e, mais que isso, temos Seu amor, e Ele leva embora nossos medos.

 

- Não tenho tanta certeza assim.

 

Tóti estendeu o braço e pegou a mão dela, incerto.

 

- Confie em mim, Agnes. Estou aqui, como estava em seu sonho. Você pode sentir minha mão na sua - acrescentou.

 

Tóti pressionou os dedos esguios dela, o nó de seus dedos. Tinha consciência de seu cheiro, o cheiro doce de soro fresco, e também um toque azedo. De pele? Da queijaria? Ele lutou contra uma repentina compulsão de levar os dedos dela à boca.

 

Ignorando os pensamentos dele, Agnes sorriu e deu um tapinha no joelho dele com a mão livre.

 

- Tenho certeza de que no final você dará um belo padre.

 

Tóti acariciou a pele das costas da mão dela.

 

- Sabe, Blöndal quase não me deixou voltar a você - falou, sentindo-se um conspirador.

 

- Claro que não.

 

- Quando o vi hoje, temi que me proibisse de vê-la.

 

- E ele fez isso?

 

Tóti balançou a cabeça.

 

- Disse que tenho de rezar para você.

 

Agnes puxou a mão suavemente, e ele a soltou com relutância. Observou-a enquanto voltava a tricotar.

 

- Por que não me fala sobre Natan? - perguntou, um pouco irritado.

 

Agnes passou os olhos pelas pessoas diante deles.

 

- Acha que precisam que traga mais comida?

 

- Margrét a teria chamado - disse Tóti, limpando na calça a palma das mãos suadas. - Vamos lá, Agnes. Blöndal não está aqui.

 

- Agradeço ao senhor por isso - disse Agnes, respirando fundo. - O que quer que eu conte sobre Natan? Você sabe que ele era meu empregador em Illugastadir. Obviamente ouviu das pessoas daqui bastante sobre seu caráter. O que mais quer saber?

 

- Quando o conheceu?

 

- Conheci Natan Ketilsson quando trabalhava em Geitaskard.

 

- Onde é isso?

 

- Em Langidalur. Foi minha sexta fazenda como criada. É comandada por Worm Beck. Ele foi bom comigo. Eu trabalhara em Fannlaugarstadir, no Leste, depois Búrfell. Foi quando nos vimos pela primeira vez, reverendo, quando eu estava a caminho de Búrfell e o senhor me ajudou a atravessar o rio. Tinha ido porque ouvira dizer que Magnús Magnússon, o homem identificado como meu pai, estava trabalhando lá, e achei que poderia ficar com ele.

 

- Não fiquei tanto tempo. Magnús foi gentil, mas quando lembrei a ele que meu nome era Magnúsdóttir por sua causa, ficou furioso, disse que minha mãe sujara seu bom nome e nunca veria terminar os problemas que as mulheres haviam lhe causado. Depois disso, eu não quis ficar lá. Magnús me deu uma cama e me deixou ficar com todos ali, mas de tempos em tempos eu o via olhando para mim com uma expressão estranha, e sabia que era porque via semelhanças com minha mãe. Ele me deu algum dinheiro antes que partisse. Foi a primeira vez em minha vida que toquei em dinheiro.

 

- Decidi ir para Geitaskard. Parti de manhã bem cedo a pé, e estava seguindo a corrente do rio Blanda quando vi um grupo de homens vindo de uma passagem na montanha a leste. Eles se juntaram a mim e meus companheiros, a maioria outros criados, nos apresentamos, e não é que um deles era meu irmãozinho, então já crescido? Não havíamos nos reconhecido. Jóas estava emocionado. Apertou minha mão e me chamou de irmã, e os outros debocharam dele quando viram lágrimas em seus olhos. Também fiquei feliz de encontrar Jóas, mas percebi que ele tinha cheiro de brandy e que suas roupas eram desleixadas. Contou que era um criado, porém não levava carta de recomendação, e tinha a expressão nervosa dos vagabundos que se veem por aqui. Algo me disse que as coisas não estavam boas para ele, e isso apertou meu coração. Conversamos o caminho todo até Geitaskard naquela manhã, e soube que a infância de Jóas não havia sido melhor do que a minha. Mamãe o abandonara pouco depois de ter me arrastado para Kornsá, e ele me contou que havia sido jogado de um lado para o outro do vale como carvão quente. Não sabia onde estava Ingveldur, e disse que por ele poderia estar no inferno. Então éramos nós dois, ambos indigentes, só que ele parecia pior. Não sabia ler nem escrever, e quando me ofereci para ensinar, ele ficou irritado e disse que era para eu não me exibir.

 

- Jóas e seus amigos, um bando ensebado sem nenhum rosto limpo entre eles, me disseram que estavam indo a Geitaskard descobrir que tipo de trabalho poderiam conseguir, sendo uma grande fazenda. Jóas não tinha uma posição como eu tinha, mas me responsabilizei por ele perante Worm, e ele também foi aceito. Aqueles foram dias bons, ter uma família perto de mim daquele jeito, embora mal nos conhecêssemos, e uma bela fazenda para trabalhar. Havia muita comida em Geitaskard, não era como Gudrúnarstadir ou Gafl, ou mesmo Gilsstadir. Houve momentos naquelas fazendas em que não havia escolha, a não ser dar aos pequenos velas de sebo para comer, e eu mesma já comi um pedaço de couro fervido. Também os criados de Geitaskard sempre cuidavam de si mesmos. Com todos aqueles cavalos e vacas, manteiga e grama e grossas porções de carne para encher o estômago, não era difícil se sentir bem. Fiz amizade com uma das outras criadas, María Jónsdóttir. Nunca tive muitos amigos, mas ela também havia sido indigente, e imagino que de certo modo nos entendêssemos.

 

- Jóas parecia gostar de Geitaskard, o que me deixava contente. Mas eu não gostava dos amigos dele. Pareciam uma gangue de homens desmazelados e magros, com calças sujas, e tantos piolhos nos cabelos que Jóas chegou a arrancar sangue do couro cabeludo. Worm se livrou de alguns deles em apenas uma semana - ele os flagrara dormindo atrás do estábulo -, e o restante também não durou muito. Não sei se era por ele ser um homem melhor, ou por eu estar ali com ele, mas Jóas deixou que eu o limpasse e tirasse os piolhos dos seus cabelos, e trabalhou duro. À noite, quando tínhamos tempo para nós, conversávamos. Ele me disse que ouvira histórias sobre mim, que fizera perguntas e descobrira que eu fora para Kornsá, e depois Gudrúnarstadir. Disse que tentara me encontrar lá, mas eu havia partido quando ele chegara, e eles não lembravam para onde eu havia ido. Não deixei que ele visse, porém chorei com a ideia de meu irmão tentando me achar. Ele também tivera uma filha. Uma menininha, cuja mãe era uma criada. Mas me contou que o bebê nascera morto e que a criada não ligava para ele. Contei sobre Helga, nossa pobre irmã morta, e ele disse que fora ao funeral dela e que o fazendeiro Jónas, pai de Helga, dera a ele um pouco de dinheiro porque Jóas havia sido abandonado por uma prostituta. Jóas insistiu que nossa mãe não era boa e que poderia ir para o inferno por abandonar dois filhos à misericórdia da paróquia, que de misericordiosa não tinha nada, e a chamou de muitas outras coisas. Falava de mamãe como Magnús havia falado. Certa noite, discutimos por causa disso, e quando acordei Jóas havia sumido. Levara o dinheiro que Magnús me dera. Não o vejo desde então.

 

Veio uma risada alta do grupo no final do campo. Tóti viu que dois dos homens haviam soltado a vaca e os outros tentavam em vão levá-la de volta para o campo.

 

- Eu estava poupando aquele dinheiro - continuou Agnes. - Para quando me casasse; para pagar as licenças e ajudar meu marido a comprar um lote de terra, de forma que pudéssemos ser decentes e independentes.

 

- Você tinha um noivo? - perguntou Tóti.

 

Agnes sorriu.

 

- Ah, havia um criado de Geitaskard, Daníel Gudmundsson. Ele gostava de mim e dizia a todos que íamos ficar noivos e casar. Ele disse isso no julgamento, mas não vejo como poderia falar sério. Nenhum de nós tinha uma só moeda. Eu o deixei pensar o que bem entendesse, desde que continuasse a ser gentil comigo.

 

- Daníel também trabalhou em Illugastadir quando eu estava lá. Ele esteve no julgamento, primeiro como testemunha, depois Blöndal decidiu que ele sabia o que ia acontecer, então foi condenado à prisão em Rasphus, em Copenhague.

 

- E ele sabia o que ia acontecer? - perguntou Tóti.

 

Agnes ergueu os olhos das agulhas e o encarou com frieza.

 

- Se alguém soubesse o que ia acontecer, acha que eu estaria sentada aqui conversando com você? Acha que qualquer um dos outros, Daníel, a família de Fridrik, seria amarrado a um barril e açoitado quase até a morte se soubesse o que ia acontecer?

 

Houve um momento de silêncio.

 

Agnes respirou fundo.

 

- Depois que Jóas partiu, a melhor coisa de trabalhar em Geitaskard era María. Nunca tive muitos amigos enquanto crescia; fui transferida de fazenda em fazenda. Trabalhava para qualquer um na paróquia que precisasse de um serviço ou que quisesse uma garota adolescente para cuidar da grama, das ovelhas ou das panelas. Costumava ficar por conta própria de algum modo. Preferia ler a conversar com os outros. Você gosta de ler? - perguntou Agnes, erguendo os olhos.

 

- Muito.

 

Agnes deu um grande sorriso, e pela primeira vez Tóti se lembrou da criada que ajudara a cruzar o rio. Os olhos eram brilhantes, os lábios abertos revelando dentes alinhados; de repente, ela pareceu mais jovem, diferente. Ele tinha consciência do próprio peito subindo e descendo. É bastante bonita, pensou.

 

- Eu também - disse ela, a voz tornando-se um sussurro. - Gosto mais das sagas. Como eles dizem, blíndur er bóklaus maður. Cego é o homem sem um livro.

 

Tóti sentiu algo crescendo nele, choro ou riso. Olhou para Agnes, o sol da tarde iluminando as pontas de seus cílios, e pensou nas palavras de Blöndal. Agnes matou Natan porque foi rejeitada. Viu a frase escrita em sua mente.

 

- Quando eu era jovem, costumava ser contratada para cuidar dos campos. Algumas vezes as fazendas tinham livros - disse, fazendo um gesto para as colinas rochosas atrás deles. - Eu costumava pegá-los e ler na colina de Kornsá. Podia adormecer ali e ter algum descanso da fazenda e das tarefas. Embora às vezes fosse apanhada e punida.

 

- Seu registro de crisma dizia que você tinha muita leitura.

 

Agnes esticou as costas.

 

- Eu gostei da crisma; a comunhão e todo mundo olhando enquanto você subia a nave e se ajoelhava diante do padre. Os fazendeiros e suas esposas não podiam me proibir de ler, sabendo que eu me preparava para a crisma. Eu podia ir à igreja e estudar com o reverendo lá, caso ele tivesse tempo. Ganhei um vestido branco, e depois houve panquecas.

 

- E quanto à poesia?

 

Agnes pareceu cética.

 

- O que tem ela?

 

- Você gosta? Compõe?

 

- Eu não me vanglorio dos meus poemas. Não como Rósa. Todos conhecem os dela - disse, dando de ombros.

 

- Porque são bonitos.

 

Agnes ficou em silêncio.

 

- Natan adorava isso em Rósa. Adorava o modo como ela sabia construir coisas com palavras. Ela inventou sua própria linguagem para dizer o que os outros só podiam sentir.

 

- Ouvi dizer que Natan também era poeta - falou Tóti, fingindo desinteresse. - Vocês conversavam em poemas, como Rósa e Natan faziam?

 

- Não como Rósa, não. Mas conversávamos um com o outro em uma espécie de poesia - respondeu Agnes, olhando para o campo. - Conheci Natan em um dia como este.

 

- Uma festa da colheita?

 

Ela anuiu.

 

- Em Geitaskard. Eu estava servindo com María. Estávamos levando comida e bebida, e também tendo um tempo para nós. María sabia tudo o que havia para saber sobre uma pessoa, e lembro que ela apontava para a barriga inchada de um dos criados do fazendeiro e dizia coisas que talvez não fossem gentis, mas que me fizeram rir até perder o fôlego. Então me agarrou pelo cotovelo e me arrastou para o estábulo, e disse que acabara de ver Natan Ketilsson chegar a cavalo.

 

- Eu já sabia sobre Natan, claro. Ele era famoso por todo tipo de coisas, dependendo de com quem você falava. Todos sabiam sobre seu caso com Rósa. Todos sabiam que os filhos dela eram de Natan, não de Ólaf. Natan viajara por todo o Norte. Quando jovem, ele circulara fazendo sangrias, e depois fora a Copenhague, e todos disseram que voltou um feiticeiro. Também diziam que fizera amizade com Blöndal, que estudava lá na época, e que por isso nunca foi apanhado pelo que fez depois. Todos achavam que Natan era um ladrão, e é verdade que foi açoitado por isso quando mais novo. Ninguém entendia como tinha tanto dinheiro quando viam pessoalmente quão pouco colocavam nas mãos dele. Alguns juravam que tinha outros que roubavam animais para ele. Tinha muitos inimigos. Mas é difícil dizer se as pessoas estavam erradas ou simplesmente sentiam inveja. As histórias crescem sozinhas, e o próprio Natan gostava de deixar as pessoas na dúvida.

 

- Qual era a sua opinião sobre Natan então?

 

- Ah, eu não tinha nenhuma. Nunca o encontrara antes, embora seu irmão Ketil tivesse tentado me seduzir um dia. No estábulo, María me disse que Natan finalmente deixara Rósa e pegara uma fazenda para ele mesmo. Muitas pessoas falavam sobre isso porque Rósa era estimada, e lamentavam vê-la de coração partido, embora fosse casada. María me contou que Worm era grande amigo de Natan e o ajudara a comprar Illugastadir, uma fazenda junto ao mar com muitas focas, êideres e madeira levada pelo mar, desde que você conseguisse tirar da margem. Ela disse que Natan começara a assumir certos ares, chamando a si mesmo de Lyngdal em vez de Ketilsson, embora nenhuma de nós entendesse por quê; era um nome estranho, nada islandês. María achava que provavelmente era para se fazer passar por dinamarquês, e fiquei pensando como ele havia sido autorizado a mudar de nome. María me disse que os homens podem fazer o que querem e que são todos como Adão, dando o nome a tudo sob o sol.

 

- Nós nos limpamos, e María mordeu os lábios para deixá-los mais vermelhos. Depois saímos do estábulo fingindo ver se os pratos haviam sido esvaziados.

 

- Foi então que vi Natan pela primeira vez. Achava que era um homem grande, um camarada bonito, empertigado, com cabelos compridos, um daqueles homens pelos quais as criadas costumam se empolgar. Mas Natan não era bonito. O homem que vi conversando com Worm não era alto, e tinha um rosto muito fino - ele nunca pareceu forte. Os cabelos eram castanhos avermelhados, e o nariz era grande demais para o rosto. Achei que parecia uma raposa com os cabelos avermelhados e os olhinhos de contas, e disse isso a María. Ela caiu na gargalhada e disse que não era de espantar que alguns no Norte achassem que ele mudava de forma.

 

- Natan então nos notou. Era óbvio que estávamos rindo à custa dele, mas ele não pareceu se importar. Fez algum comentário com Worm e começou a caminhar em nossa direção.

 

- Lembro que sorria, como se já nos conhecesse. Suponho que gostara da atenção. - Boa tarde, meninas - disse. Não era muito mais alto do que eu, mas sua voz era grave. Ele falou: - Posso ter o prazer de saber seu nome? - e respondi por ambas.

 

Natan sorriu e fez uma mesura, e foi então que notei as mãos dele. Eram muito brancas, como as de uma mulher, e os dedos eram finos como ramos de bétula e igualmente compridos. Não é de admirar que o chamassem de dedos longos. Disse que era um prazer nos conhecer, e perguntou se não fazia um belo dia. Começou a nos perguntar se estávamos gostando da festa, mas interrompi e disse que ele ainda não nos dissera seu nome. María debochou, porém Natan sempre gostou daqueles que não tinham medo de falar, como me disse depois. Falou que seu nome era Natan Lyngdal. Havia um brilho em seus olhos.

 

- María perguntou se na verdade não era Ketilsson, e Natan respondeu que sim, de fato ele também era Ketilsson e que tinha muitos outros nomes, embora nem todos fossem adequados a nossos ouvidos delicados. Ele falava com facilidade, reverendo. Sempre soube o que dizer às pessoas, o que as faria se sentir bem. E o que cortaria mais fundo.

 

- Não conversamos muito tempo. Worm convocou Natan, e ele se despediu, não antes de murmurar que esperava nos ver novamente um pouco mais tarde, quando não fosse tão requisitado.

 

O reverendo Tóti correu um dedo pelas gengivas, desalojando um resíduo ou dois de tabaco. Limpou a ponta do dedo na calça e não conseguiu deixar de notar a forma pequena e sem graça de suas próprias mãos rosadas. Sentiu uma pontada de inveja no peito.

 

- Quando viu Natan novamente depois disso?

 

Agnes parou para contar os pontos antes de fazer a última fileira.

 

- Ah, no mesmo dia. María e eu ficamos ocupadas a tarde toda, fazendo coisas para a esposa de Worm e cuidando das crianças, mas ganhamos a noite para festejar a colheita a nosso modo. Era um crepúsculo fino e delicado, e todos os criados se sentaram do lado de fora para ver a noite cair. Um dos trabalhadores contava uma história do povo oculto, quando ouvimos uma tossida e vimos Natan em pé na sombra atrás de nosso grupo. Ele se desculpou por chegar sorrateiro, mas disse que gostava de histórias e perguntou se faríamos uma gentileza com um estranho, permitindo que se juntasse às nossas festividades. Um dos criados disse que Natan Ketilsson não era exatamente um estranho, especialmente entre as mulheres, e a maioria riu. Mas um ou dois dos homens, e também algumas das criadas, desviaram os olhos.

 

- María abriu espaço para Natan ao lado dela. Eu estava mais afastada do grupo, não sendo tão popular por ter certo jeito de falar com as pessoas, mas Natan passou direto por María e sentou perto de mim. - Agora estamos todos prontos - ele disse, e olhou para o homem que falava, convidando-o a continuar com sua história. - Passamos a noite contando histórias e olhando para as estrelas até chegar a hora de dormir, e foi o fim.

 

- Por que acha que Natan escolheu sentar perto de você?

 

Agnes deu de ombros.

 

- Ele me disse depois que passara o dia inteiro me observando e não conseguira me ler. Eu inicialmente não entendi e disse: Bem, isso não me espanta, pois sou uma mulher, não um livro. Ele riu e disse que não, que também podia ler pessoas, embora algumas parecessem estar em uma caligrafia que ele não conseguia compreender.

 

Agnes deu um pequeno sorriso.

 

- Entenda o que quiser disso, reverendo. Mas foi o que ele disse.

 

O reverendo está imaginando o que éramos um para o outro. Eu o observo e sei que pensa em Natan e em mim, deixando o pensamento percorrer sua mente, saboreando, como uma criança sugando o tutano de um osso. Ele poderia muito bem estar sugando uma pedra.

 

Natan.

 

Como posso realmente recordar o momento em que o conheci, quando a mão que senti pressionar a minha era apenas uma mão? Impossível pensar em Natan como o estranho que ele um dia foi para mim. Posso ver como ele parecia, recordar o clima e a luz brincando sobre seu rosto com barba por fazer, mas aquele momento virgem é impossível de recapturar. Não consigo me lembrar de não conhecer Natan. Não consigo pensar em como era não amá-lo. Olhar para ele e reconhecer ter encontrado aquilo que nem sabia que procurava. Uma fome tão profunda, tão capaz de me lançar na noite que me aterrorizava...

 

Não menti para o reverendo. Aquela noite de estrelas e histórias, com a pressão morna da mão dele na minha, aconteceu conforme meu relato. Mas eu não contei o que se seguiu quando os criados foram para a cama. Não contei que María foi com eles também, depois de me lançar um olhar de reprovação. Não disse que fomos deixados a sós e que Natan me incitou a ficar com ele à meia-luz. Para conversar, disse ele. Só para conversar.

 

- Diga-me quem você é, Agnes. Aqui, deixe-me tomar sua mão para que eu possa aprender um pouco sobre você.

 

O calor penetrante de seus dedos traçando o comprimento de minha palma aberta.

 

- São calos, então você é trabalhadora braçal. Mas seus dedos são fortes. Você não apenas trabalha duro, mas faz bem o seu trabalho. Posso ver por que Worm a contratou. Vê isto? Você tem uma palma vazia. Como a minha própria, olhe; sente como não é cheia?

 

A depressão macia, as rugas fantasmas em sua pele, a sugestão de ossos.

 

- Sabe o que significa ter uma palma vazia? Significa que há algo secreto em nós. Este espaço vazio pode se encher de azar se não tomarmos cuidado. Se expusermos a concavidade ao mundo e toda a sua escuridão, todo o seu azar.

 

- Mas como alguém pode esconder a forma da mão? - perguntei, rindo.

 

- Cobrindo-a com a de outra pessoa, Agnes.

 

O peso dos dedos dele nos meus, como um pássaro pousando em um galho. Era o fósforo caindo. Eu não vi que estávamos cercados por combustível até sentir que ele explodia em chamas.

 

Poema de Poet-Rósa para Natan Ketilsson, por volta de 1827

 

Ó, hve sæla eg áleit mig, -

 

engin mun því trúande, -

 

þá fjekk eg líða fyrir þig

 

forsmán vina, en hinna spje.

 

Sá minn þanki sannur er, -

 

þó svik þín banni nýting arðs -

 

Ó, hve hefir orðið þjer

 

eitruð rosin Kiðjaskarðs!

 

Ah, quão feliz eu acreditava ser -

 

ninguém poderia saber quão livre -

 

mesmo quando sofria por você,

 

quando todos debochavam de mim.

 

Traidor, veja sua infelicidade -

 

é o que penso, é verdade -

 

Ah, como essa rosa de Kidjaskard

 

partiu e envenenou você!

 

O outono se abateu sobre o vale num piscar de olhos. Margrét acordada, deitada na penumbra prolongada da manhã de outubro, os pulmões cobertos de muco, pensava em como a luz se tornara tão lenta para chegar; agora a luz parecia cambalear através da janela, como se cansada de viajar distância tão grande. Já parecia uma luta se levantar. Margrét acordava na noite gelada com Jón apertando os dedos dos pés sobre suas pernas para aquecê-los, e os trabalhadores voltavam para dentro, após alimentar a vaca e os cavalos, com nariz e bochechas rosados do gelo no ar. Suas filhas haviam dito que toda manhã encontravam uma camada de gelo em sua jornada para colher frutas, e neve caíra enquanto os animais eram recolhidos. Margrét não fora, não confiando que seus pulmões resistiriam à longa caminhada montanha acima para encontrar e recolher as ovelhas de seu pasto de verão, mas mandara todos os outros. Exceto Agnes. Não podia deixar que ela cruzasse a montanha. Não que fosse fugir. Agnes não era idiota. Ela conhecia aquele vale e sabia que oferecia pouca fuga. Ela seria vista. Todos sabiam quem ela era.

 

O dia do arrebanhamento foi inquieto. Os trabalhadores partiram primeiro, antes do amanhecer, cavalgando para além da montanha de Vididals com outros homens do vale, e algumas das mulheres do distrito haviam seguido a pé pouco depois. Margrét ficara para trás com Agnes, preparando a refeição para o retorno deles. Assim que clareara naquele dia, Margrét se sentiu desconfortável. O céu amanhecera cinzento e sinistro, e ela sabia que algo iria acontecer pelo modo como as nuvens se aproximavam do solo. O cheiro de ferro no ar. Por toda manhã, ela pensou nas pessoas que haviam se perdido na montanha. No ano anterior, uma criada desaparecera em uma nevasca repentina durante o arrebanhamento, e só encontraram seus ossos na primavera seguinte, a quilômetros de onde ela havia sido vista pela última vez. A preocupação dominou Margrét de tal modo que ela se viu conversando com Agnes, simplesmente pelo alívio de poder expressar suas inquietações. Elas relembraram as pessoas que haviam conhecido e que morreram nas montanhas. Uma conversa sinistra, pensou Margrét, mas havia algum consolo em conversar sobre morte em voz alta, como se ao dar nome às coisas fosse possível impedir que elas acontecessem. Talvez por isso Agnes falasse mais com o reverendo do que ele com ela, pensou.

 

Ela estava certa, claro; algo acontecera. Pouco depois do meio-dia, sem que ninguém tivesse retornado da montanha, houve uma batida rápida na porta da fazenda, e Ingibjörg entrara apressada.

 

- É Róslín - dissera.

 

A fazenda em Gilsstadir estava cheia de crianças. Margrét percebera que apesar do caos, da cozinha enfumaçada cheia de panelas e chaleiras de água fervente queimando, a horda de filhos de Róslín parecia entediada com o trabalho de parto da mãe. Depois que as três mulheres entraram, Róslín cambaleara para o badstofa, pálida e suando. Algo está errado, continuava a repetir. Claro que ficou horrorizada ao ver Agnes em pé no umbral, mas como Ingibjörg lhe explicara calmamente, onde Margrét iria deixá-la?

 

O bebê estava se remexendo. Foi Agnes quem disse isso a elas, de repente se adiantando e colocando as mãos na barriga de Róslín. Róslín gritara, exigindo que as outras afastassem Agnes dela, mas nem Margrét nem Ingibjörg se moveram. Mesmo quando Róslín socava suas mãos e arranhava seus braços, Agnes continuou a pressionar gentilmente os dedos magros sobre a protuberância inchada.

 

- Ele está sentado - dissera. Róslín então gemera e parara de lutar. Agnes também não se movera, mas mandara Róslín se deitar no chão, e permaneceu ao lado dela durante todo o suplício. Margrét se lembrava de como Agnes não tirara as mãos da mulher. Durante todo o nascimento, ela acariciara Róslín com suas palmas magras, acalmando-a, mandando que as crianças saíssem do caminho, pegassem panos, fervessem água. Ela mandara uma delas correr até Kornsá para pegar um pouco da angélica que as meninas haviam colhido em sua excursão de coleta de frutas. - Está em uma travessa de areia na despensa - dissera, e Margrét se espantara com quanto Agnes parecia conhecer sua casa. - Não machuque a raiz. Corra de volta com um punhado.

 

Ela pedira a Ingibjörg que preparasse um chá com a raiz, porque faria o bebê sair mais facilmente. Quando o líquido quente foi levado aos seus lábios, Róslín trincou os dentes, recusando-se a beber.

 

- Não é veneno, Róslín - dissera Margrét. - Poupe-nos do teatro.

 

Houve então um momento. Um olhar trocado com Agnes. Um rápido sorriso tenso.

 

O bebê saíra sentado, como Agnes dissera. Primeiro as pernas, os dedos ensanguentados na frente, depois o corpo e finalmente a cabeça, com o cordão enrolado nos braços e no pescoço. Mas estava vivo, e isso era tudo o que Róslín precisava saber.

 

Agnes se recusara a fazer o parto. Pedira a Ingibjörg para ajudá-lo a vir ao mundo, e não o tocou, nem mesmo depois, quando Róslín havia adormecido e o som das ovelhas balindo ao serem conduzidas começou a ecoar pelo vale. Margrét achara isso estranho - o modo como Agnes se recusara a embalar o recém-nascido. O que ela dissera? - Ele merece viver. - Como se fosse morrer, caso Agnes o pegasse nos braços.

 

Houve motivo em dobro para celebrar naquela noite. Snæbjörn estava extasiado, coberto de rum e brandy pelos outros fazendeiros, de modo que, quando subiu no cercado de seleção para arrastar sua ovelha para o curral da família, cambaleou e escorregou na lama, levando uma cabeçada forte de um carneiro. Margrét ouviu Páll contar a história à sua mãe em recuperação, recordando animadamente como Snæbjörn precisara ser arrastado para descansar na grama, enquanto os outros selecionavam o restante dos animais.

 

Elas só comeram bem tarde. As filhas de Margrét haviam resgatado o que era possível da comida negligenciada e servido aos trabalhadores famintos naquela noite.

 

- Estava nevando um pouco - dissera Steina após ouvirem sobre o parto de Róslín. Ela olhara para Agnes. - Deve ter sido um bom sinal.

 

- Eu fiz muito pouco - dissera Agnes. - Ingibjörg fez o parto.

 

- Não - corrigira Margrét. - O chá de raiz de angélica. Onde você aprendeu isso?

 

- É de conhecimento comum - murmurara Agnes.

 

- Provavelmente Natan - sugerira Lauga, amarga.

 

Margrét ficou pensando como, mesmo que só por uma hora, Agnes parecera fazer parte da família. Ela se vira conversando com Agnes no dia seguinte, perguntando-lhe quais tinturas estava acostumada a fazer, e continuaram como senhora e criada até Lauga entrar no aposento e reclamar que estava farta de Agnes olhando para suas roupas e seus pertences. Lauga sabia tão bem quanto Margrét que se Agnes fosse uma ladra, eles já teriam dado falta de alguma coisa. Nem mesmo o broche de prata saíra de seu lugar na poeira de debaixo da cama. Margrét imaginou por um instante se Lauga estaria com inveja de uma mulher que provavelmente estaria morta antes que o clima mudasse novamente. Mas havia uma intensidade em sua repulsa que parecia deflagrada por algo mais que ressentimento.

 

Tirando gentilmente as pernas de sob o grande peso do marido, Margrét saiu da cama, foi em silêncio até a janela e espiou através da pele seca. Havia gelo do lado de fora. Que aborrecimento, pensou. Embora os carneiros e as ovelhas de leite tivessem sido colocados para pastar no campo plantado da família, os carneiros novos ainda estavam presos. Eles iam começar o abate hoje.

 

Margrét voltou o pensamento para a época em que Agnes chegara a Kornsá. Uma parte dela gostara da tensão entre sua família e a criminosa, até ansiara por ela. Isso os unira; fizera-a sentir-se mais próxima das filhas, do marido. Mas agora se dava conta de que o silêncio deles se transformara em algo mais natural e sem problemas. Margrét se preocupava com isso. Estava acostumada demais à presença de Agnes na fazenda. Talvez fosse a utilidade de mais duas mãos para trabalhar. Ter a ajuda de outra mulher já reduzira suas dores nas costas, e sua tosse não parecia perturbar a respiração com a mesma frequência de antes. Evitava pensar no que aconteceria quando fosse anunciado o dia da execução. Não, era melhor não pensar em nada disso, e se ela se sentia mais à vontade com a mulher era por ser mais fácil realizar as tarefas. Não fazia sentido olhar por cima do ombro quando uma tarefa urgente estava diante de você.

 

O abate traz um sentimento de urgência. O clima é ruim, há gelo na chuva, e o vento é como um lobo mordendo seus calcanhares, lembrando a você que o inverno está chegando. Eu me sinto tão para baixo quanto as densas nuvens de neve que se formam.

 

Ninguém quer trabalhar até a noite, então estamos todos envoltos em várias camadas de agasalhos, esperando do lado de fora à meia-luz de outubro que os criados e Jón peguem o primeiro cordeiro. Eles reservaram os animais que acham que vão nos sustentar durante o inverno. Será que fui considerada mais uma boca a alimentar? Contenho um impulso de me oferecer a Jón e sua faca. Por que não me matar aqui e agora, em um dia comum? É a espera que abala. Os cordeiros vasculham a pouca grama que ainda não foi queimada pelo clima. Será que esses animais idiotas conhecem seu destino? Reunidos e separados, eles só precisam esperar com medo uma noite gelada. Eu estou no cercado de abate há meses.

 

Gudmundur pega o primeiro cordeiro, ajoelhando sobre ele para manter a cabeça imóvel. Eu não gosto dele, mas é eficiente - a garganta é cortada até a coluna vertebral, e ele é tão rápido com o balde que quase nenhuma gota é derramada. Alguns poucos minutos, e todo o sangue escorre. Avanço para pegar o balde, mas ele me ignora e o dá a Lauga. Não seja por isso. Também o ignoro. Espero pelo balde de sangue de Jón, que ergueu sua ovelha abatida sobre o cercado para recolher melhor o fluxo vermelho. O sangue sempre transborda e toma direções inesperadas. Uma parte cai no solo enlameado e na carcaça cinza do animal, porque logo o balde está cheio.

 

Volto para dentro, onde Margrét fez o fogo com estrume e turfa. Meus olhos lacrimejam com a fumaça, e Margrét tosse em meio à névoa, mas, como ela me lembra, não teremos motivo de queixa quando comermos a carne defumada que estamos pendurando nos suportes. Deixo meu sangue e volto para fora.

 

Esperamos até que os animais sejam esfolados. A ovelha de Bjarni ainda sangra - ele carece da técnica de um bom magarefe. Mas Gudmundur é hábil com uma faca. Ele me lembra Fridrik, que ia ajudar com os abates em Illugastadir antes que ele e Natan abandonassem qualquer fingimento de amizade. Fridrik sempre pareceu muito ansioso para cortar o animal - um tanto rápido demais com a lâmina. Jón é mais lento, porém mais cuidadoso. Começa a esfolar pelos jarretes traseiros e parte a articulação das patas de trás sem deixar nenhum tendão intacto. Gudmundur esfola o máximo que pode pelos ombros, mas luta para arrancar a pele do peito, e Jón pede a Bjarni que o ajude. Juntos, eles erguem a ovelha sobre o muro, onde o resto da pele é arrancado da carcaça e finalmente tirado. Bjarni fez uma bagunça. Eu gostaria de poder me adiantar e mostrar a ele como se faz. Imagino suas expressões se eu me adiantasse e pedisse uma faca.

 

Pegamos as entranhas com coração, pulmões e esôfago, e depois intestinos e estômago, quando a carcaça é estripada.

 

Naquele outono em Illugastadir, Natan furou a vesícula de uma ovelha. O líquido amargo escorreu sobre a carne, e Fridrik caiu na gargalhada. - E você se diz médico - disse ele a Natan. Estranho como agora esses momentos retornam a minha mente. Com as entranhas em nossos baldes, deixamos os homens cortando a carne em porções e voltamos à cozinha. Parte da fumaça se dissipou, e o fogo é alto. Margrét colocou uma panela com água para ferver no braseiro, e todas começamos a trabalhar no chouriço. Até Lauga ajuda, passando o sangue pelo pano. Ela se encolhe quando gotas acertam seu rosto. Saio para pegar os estômagos para o embutido, e, quando volto, o ar do lado de dentro da cabana está denso com o cheiro animal de gordura e rins fervendo para o café da manhã dos homens. Margrét colocou um pouco de sebo em outra panela e o cobriu de água para cozinhar. Kristín, Margrét, Steina e eu cortamos os estômagos e os costuramos em forma de bolsas, deixando um pequeno buraco para o recheio. Quando Lauga termina de filtrar o sangue, misturo o resto do sebo e da farinha de centeio, e sugiro misturarmos também um pouco de líquen, como costumávamos fazer em Geitaskard. Quando Margrét concorda e manda Lauga pegá-lo no depósito, sinto uma onda de felicidade murmurar em meu coração. É minha vida como costumava ser: enfiada até os cotovelos em entranhas, trabalhando para conseguir alguma espécie de sobrevivência. As garotas tagarelam e riem enquanto enchem as bolsas com a mistura sangrenta. Posso esquecer quem sou.

 

O sebo se dissolve rapidamente. Três de nós arrastam a panela do fogo, para que esfrie até podermos romper a tampa de gordura que esconde o líquido abaixo.

 

Os homens entram para comer os rins fedendo a bosta e lã molhada. Acho que os empregados olham com inveja para nós mulheres jogando sacos de chouriço em uma panela de água fervente na cozinha enfumaçada e quente. Quando sirvo a comida a Jón, ele me olha nos olhos pela primeira vez.

 

- Obrigado, Agnes - diz em voz baixa. É por causa do bebê de Róslín, tenho certeza disso. Ele agora me vê de outro modo.

 

Os homens acabaram de comer e saem para pegar os primeiros pedaços de carne. Começo a medir o salitre e o misturo com sal. Isso me lembra de quando costumava ajudar Natan em sua oficina: medindo enxofre, folhas secas, sementes esmagadas. Eu hoje pensei muito em Illugastadir. O abate no único outono que passei lá. Gostei de reservar provisões para o inverno. Coisas que iríamos comer depois, que sustentariam Natan em suas longas viagens. Naquele dia, ele ficou à porta da cozinha enquanto eu misturava comida com sangue, lendo as sagas para mim e falando sobre seu tempo em Copenhague, onde o blodpølse era fatiado e salpicado com um tipo de fruta seca. Então Fridrik e Sigga entraram na cozinha rindo juntos, com baldes de entranhas do pátio de abate, neve nos cabelos, e Natan me trocou por sua oficina.

 

Meus dedos doem enquanto pressiono camada após camada de carne salgada no tambor de madeira. Uma casca rosa racha entre meus dedos, e minhas costas doem de me curvar dentro do barril. Steina me observa, perguntando quanta água salpicar sobre cada camada, observando o modo como as pontas dos dedos brincam com o sal. Ela lambe a pele e torce o nariz com o gosto.

 

- Não entendo por que não podemos estocar tudo em soro de leite. O sal é muito caro - diz.

 

- Combina com o gosto dos estrangeiros - respondo. Aquele barril será trocado por outros bens. A carne mais gorda será estocada em soro de leite e guardada para a família.

 

- Sal é tirado do mar?

 

- Por que me faz tantas perguntas, Steina?

 

A garota para, as bochechas rosadas.

 

- Porque você me dá respostas - murmura.

 

A seguir são os ossos e as cabeças. Peço a Lauga que esvazie o pote de sebo de cartilagens e água, mas ela finge não me ouvir e continua com os olhos fixos em um ponto à sua frente. Kristín toma o lugar dela. Quando Steina volta para junto de mim, sorrindo timidamente, pensando se haveria algo que eu precisava que fosse feito, peço-lhe que encha a panela com os ossos que não podem ser usados para mais nada. Sal. Cevada. Água. Steina e eu erguemos a panela para perto do chouriço, para que o tutano se dissolva na água fervente, para que o sal e o calor arranquem tudo de macio da carcaça. Ela bate palmas quando prendemos a panela transbordante no gancho e, imediatamente, começa a pôr mais combustível no fogo.

 

- Não tanto, Steina - digo. - Não cubra as brasas.

 

Seguro as cabeças de ovelha perto das chamas do braseiro para queimar pelos e lã. Eles não pegam fogo, mas se retorcem com as labaredas, e sinto minhas narinas queimarem com o fedor.

 

Ah, Deus. Que cheiro...

 

O badstofa em Illugastadir. A gordura de baleia esfregada na madeira e nas camas, depois a chama da lamparina soltando fumaça nos cobertores de lã engordurados. Cabelos queimando.

 

Não posso fazer isso; preciso de ar fresco. Ah, Deus!

 

Não deixe que vejam como isso a perturba. Eu dou as cabeças a Steina, deixo que ela faça. Preciso de ar fresco, e digo a Steina que é a fumaça.

 

Do lado de fora, a garoa cai sobre meu rosto como uma bênção. Mas o fedor de lã chamuscada e pelos queimados permanece em minhas narinas, amargo, nauseando-me até o âmago.

 

É Margrét quem me encontra, agachada no escuro com a cabeça entre os joelhos. Espero que ela me censure. O que está fazendo, Agnes? Volte para dentro. Faça o que mandei. Como ousa deixar Steina fazer tudo sozinha? Ela queimou a carne e a deixou irreconhecível.

 

Mas Margrét fica em silêncio. Ela se agacha junto a mim, e ouço os joelhos dela estalando.

 

- Como a claridade acaba cedo agora.

 

Isso é tudo o que ela vai dizer?

 

Ela está certa. O entardecer azul parece ter se esgueirado do intestino escuro do rio diante de nós.

 

O cheiro das coisas sempre parece mais forte à noite, e sentada ali tenho consciência do odor da cozinha em Margrét. Chouriço. Fumaça. Salmoura. Ela respira pesado, e no silêncio do anoitecer consigo ouvir um chiado em seus pulmões; algo agarrando sua respiração.

 

- Eu precisava de um pouco de ar - digo.

 

Margrét dá um suspiro; pigarreia.

 

- Ninguém nunca morreu de ar fresco.

 

Sentamos e escutamos o rio correndo leve. A garoa para. Começa a nevar.

 

- Vamos ver o que aquelas garotas estão fazendo agora - diz Margrét finalmente. - Não me surpreenderia se Steina tivesse pendurado a si mesma nas varas em vez da carne. Poderíamos encontrá-la defumada.

 

Batidas suaves vêm da oficina. Os homens devem estar esticando as peles de ovelha para secar.

 

- Venha, Agnes. O frio vai matá-la.

 

Baixando os olhos, vejo que Margrét estendeu a mão. Eu a tomo, e sua pele parece papel. Entramos.

 

O fogo na cozinha havia desmoronado em uma pilha de brasas chiando, e a escuridão se abatera pesadamente sobre o sangue derramado nos suportes do lado de fora quando Lauga, dedos inchados, amarrou a última bolsa molhada de chouriço a uma corda para pendurar e secar. Steina, o avental coberto de machas de vísceras e sangue, estava apoiada no batente da porta e observava a irmã.

 

- Está nevando lá fora - disse.

 

Lauga deu de ombros.

 

- Todos foram para a cama - disse ela, fungando. - Está um cheiro bom aqui, não acha?

 

- Não sei desde quando matar tem cheiro bom - disse Lauga, curvando-se e pegando os baldes que haviam recebido as vísceras.

 

- Ah, deixe que sequem. Nós os lavamos de manhã - disse Steina, indo até a irmã e colocando um banco diante do fogo. - Você viu Agnes estocando a carne? Nunca vi ninguém trabalhar tão rápido.

 

Lauga empilhou os baldes junto à parede e sentou-se ao lado de Steina, esticando as mãos sobre as cinzas quentes.

 

- Ela provavelmente envenenou o barril todo.

 

Steina fez uma careta.

 

- Ela não faria tal coisa. Não conosco - disse, molhando uma ponta do avental e começando a limpar a sujeira das mãos. - Queria saber o que a deixou enjoada daquele jeito.

 

- Como, enjoada?

 

- Agnes e eu estávamos sentadas aqui, como estamos agora, cuidando das cabeças, e de repente ela as jogou no meu colo e saiu falando sozinha. Mamãe a seguiu para fora, e eu vi as duas sentadas lá, conversando. Depois elas voltaram para dentro.

 

Lauga franziu o cenho e se levantou.

 

- Engraçado - Steina continuou. - Apesar de tudo o que diz, acho que agora mamãe tem algum afeto por ela.

 

- Steina! - avisou Lauga.

 

- Ela nunca diz isso, mas...

 

- Steina! Em nome dos céus, você tem de falar sempre sobre Agnes?

 

Steina olhou surpresa para a irmã.

 

- O que há de errado em falar sobre Agnes?

 

Lauga debochou.

 

- O que há de errado? Eu sou a única pessoa que a vê como ela é? - perguntou, a voz se reduzindo a um sussurro sibilado. - Você fala dela como se não fosse nada. Como se fosse uma criada.

 

- Ah, Lauga. Gostaria que você...

 

- Gostaria que eu fizesse o quê? O quê? Fizesse amizade, como o restante de vocês?

 

Steina olhou boquiaberta para a irmã. Lauga de repente caminhou até os fundos da cozinha, fechou as mãos em punho e os apertou sobre a testa.

 

- Lauga?

 

A irmã não se virou, pegando lentamente os baldes sujos.

 

- Vou lavar isto - disse, a voz falhando. - Você deveria ir para a cama, Steina.

 

- Lauga? - chamou Steina, levantando-se e dando alguns passos na direção dela. - Qual é o problema?

 

- Nada. Apenas vá para a cama, Steina. Deixe-me sozinha.

 

- Não até me dizer o que fiz para aborrecer você.

 

Lauga balançou a cabeça, o rosto distorcido.

 

- Eu achei que seria diferente - falou por fim. - Quando Blöndal veio, achei que não sofreríamos demais com ela porque haveria oficiais. Achei que iríamos mantê-la trancada! Não pensei que ela estaria sempre conosco, conversando com o reverendo em nosso badstofa. Agora vejo que até mesmo mamãe a está tratando com familiaridade! Ninguém parece se importar que agora todos no vale nos olhem de um modo estranho.

 

- Não olham. Ninguém liga para nós.

 

Lauga apertou os olhos.

 

- Ah, eles olham, Steina. Você não vê, mas agora estamos todos marcados. E não nos faz nenhum bem que nos vejam conversando com ela, dando-lhe de comer em abundância. Nunca vamos nos casar.

 

- Você não sabe isso - falou Steina, acomodando-se no banco junto ao braseiro. - Isto não é para sempre - disse finalmente.

 

- Mal posso esperar que ela parta.

 

- Como pode dizer tal coisa?

 

Lauga respirou fundo, tremendo.

 

- Todos veem o reverendo caminhando em torno de Agnes como um garoto apaixonado, e mesmo papai anui e diz bom-dia a ela, desde que fez o feitiço para o bebê de Róslín. E você, Steina! - disse Lauga virando-se para a irmã, a incredulidade no rosto. - Você a trata mais como irmã do que a mim!

 

- Isso não é verdade.

 

- É. Você anda atrás dela. Você a ajuda. Você quer que ela goste de você.

 

Steina respirou fundo.

 

- Eu... É só que eu me lembro dela de anos atrás. E não consigo deixar de pensar que ela nem sempre foi assim. Ela um dia teve a nossa idade. Ela teve uma mãe e um pai, como nós.

 

- Não - sibilou Lauga. - Não como nós. Ela não é nada como nós. Ela vem para cá, e ninguém sequer vê como tudo mudou. E não foi para melhor.

 

Ela se curvou, pegou os baldes ensanguentados e saiu da cozinha pisando duro.

 

Começara a nevar na maioria dos dias no Norte. Breidabólstadur estava envolta em uma neblina densa e um frio que se recusavam a ir embora, mesmo quando o sol de outubro trouxe ao mundo a pouca luz que podia. A despeito do clima, Tóti relutava em ficar em casa com o pai. Ele sentia que alguma membrana invisível entre Agnes e ele havia sido rompida. Ela finalmente começara a falar de Natan, e a ideia de que poderia se aproximar ainda mais dele, confiar nele o suficiente para falar sobre o que acontecera em Illugastadir, estimulara algo nele.

 

Enquanto envolvia cuidadosamente seu corpo trêmulo no maior número de camadas de roupas de lã que podia encontrar em sua arca, Tóti pensava novamente no primeiro encontro de ambos. Ele conseguia recordar-se vagamente da água correndo em Gönguskörd, do rugido que se ouvia enquanto as águas do degelo da primavera despencavam pela passagem. Podia ver o cascalho molhado brilhando ao sol. E à frente dele, curvando-se à beira da água e desenrolando as meias, uma mulher de cabelos escuros se preparando para cruzar a corrente.