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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ROBÔS DO AMANHECER / Isaac Asimov
ROBÔS DO AMANHECER / Isaac Asimov

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ROBÔS DO AMANHECER

 

Baley

      Elijah Baley abrigou-se à sombra de uma árvore e murmurou para si mesmo:

      - Eu previa. Estou suando.

      Parou, empertigou-se, enxugou o suor da testa com as costas da mão e depois olhou, sorumbático, a umidade que a cobria.

      - Detesto suar - disse para ninguém, lançando as palavras como se fossem uma lei cósmica.

      E novamente sentiu-se aborrecido com o Universo por ter feito aquela coisa tão essencial e ao mesmo tempo desagradável.

      Ninguém jamais suava (a menos que desejasse, é claro) em City, onde a temperatura e a umidade eram totalmente controladas e nunca era absolutamente necessário para o corpo usar recursos que faziam a produção de calor que a sua remoção.

      Ora, isso era civilização.

      Olhou para o campo, onde o errar de homens e mulheres estava mais ou menos aos seus cuidados. Eram, na maioria, jovens no fim da adolescência, mas havia também os de meia-idade, como ele. Cavavam desajeitadamente e faziam uma quantidade de outras coisas a cargo dos robôs e que estes podiam fazer com muito mais eficiência, não tivessem recebido ordem de se manterem afastados e esperando, enquanto os seres humanos teimosamente trabalhavam.

      Havia nuvens no céu e o sol, naquele instante, estava se escondendo atrás de uma delas. Ergueu os olhos, indeciso. Por um lado, significava que o calor direto do sol (e o suor) seriam eliminados. Por outro, haveria uma possibilidade de chover?

      Era esse o problema com o Exterior. Oscilava-se eternamente entre alternativas desagradáveis.

      Baley sempre sentiu-se espantado porque uma nuvem relativamente pequena conseguia cobrir completamente o sol, escurecendo a Terra de um horizonte ao outro, mas deixando a maior parte do azul do céu.

      Permaneceu sob a copa da árvore (uma espécie de parede e teto primitivos, com a solidez da casca, confortável ao toque) e tornou a olhar o grupo, observando-o. Eles saíam uma vez por semana, qualquer que fosse o tempo.

      Estavam também, recrutando. Eles eram sem dúvida mais numerosos que os poucos corajosos que tinham partido. O governo de City, embora não fosse um verdadeiro sócio no empreendimento, tinha sido bastante bondoso para não criar obstáculos. No horizonte, à direita de Baley - a leste, como era possível dizer pela posição do sol de fim de tarde - viu as volumosas cúpulas, cheias de pontas de City, incluindo tudo o que tornava a vida valiosa. Viu, também, uma pequena mancha móvel, muito afastada para ser claramente observada.

      Pela sua maneira de se mover e por indícios muito sutis para serem descritos, Baley tinha a certeza de que se tratava de um robô, o que não o surpreendeu. A superfície da Terra, no exterior das Cidades, era domínio dos robôs e não de seres humanos, com exceção dos poucos, como ele, que sonhavam com as estrelas.

      Mecanicamente, seus olhos viraram-se para os que cavavam, passando de um ao outro. Podia identificar e chamar cada um pelo nome. Estavam todos trabalhando, aprendendo como suportar o Exterior e...

      Franziu o cenho e murmurou em voz baixa:

      - Onde está Bentley?

      E outra voz, detrás dele, com uma exuberância um tanto afoita, respondeu:

      - Estou aqui, papai. - Baley virou-se.

      - Não faça isso, Ben.

      - Fazer o quê?

      - Se aproximar dessa maneira furtiva. Já é duro tentar manter meu equilíbrio no Exterior sem ter de me preocupar com surpresas.

      - Eu não tive intenção de assustá-lo. É difícil fazer muito barulho andando na relva. Não tem jeito... Mas não acha que deve entrar, papai? Você está fora há duas horas e acho que já é bastante.

      - Por quê? Porque tenho quarenta e cinco anos e você é um garoto vagabundo de dezenove? Você pensa que precisa cuidar do seu pai decrépito, não é?

      - Sim - respondeu Ben - acho que sim. E um pedaço de um bom detetive também trabalha em você. Você acerta exatamente na mosca.

      Ben abriu-se num sorriso. Tinha o rosto redondo e os olhos faiscantes. Havia muito de Jessie nele, pensou Baley, muito de sua mãe. E pouco do comprimento e solenidade do rosto de Baley.

      Contudo, Ben possuía a maneira de pensar do pai. Podia, às vezes, mergulhar numa grave solenidade que determinava muito claramente sua origem perfeitamente legítima.

      - Vou me saindo muito bem - disse Baley.

      - Vai mesmo, papai. Você é o melhor de nós, considerando...

      - Considerando o quê?

      - Sua idade, claro. E não posso esquecer que você foi quem começou tudo. No entanto, vi que você se abrigou sob a árvore e pensei: bem, talvez o velho já tenha o suficiente.

      - Você vai ver quem é "velho". - O robô que tinha notado, para o lado de City, estava agora bastante perto para ser visto claramente, porém Baley não deu importância. Acrescentou: - É compreensível meter-se sob uma árvore de vez em quando, quando o sol está muito quente. Aprendemos a usar as vantagens do Exterior, bem como a suportar suas desvantagens... E lá vem o sol saindo detrás daquelas nuvens.

      - Sim, é verdade... E então, não quer entrar?

      - Posso agüentá-lo aqui fora. Uma vez por semana, tenho uma tarde livre e passo-a aqui. É uma vantagem decorrente da minha classificação C-7.

      - Não é uma questão de vantagem, papai. É uma questão de estar exausto.

      - Garanto-lhe que estou ótimo.

      - Claro. E quando chega em casa, vai direto para a cama e fica deitado no escuro.

      - Antídoto natural para o excesso de claridade.

      - E mamãe fica preocupada.

      - Ora, deixe-a preocupar-se. Vai lhe fazer bem. Além disso, qual o mal em ficar aqui fora? A parte pior é que eu suo, mas já estou acostumado. Não posso escapar. Quando comecei, não podia andar nem mesmo até esta distância de City sem precisar voltar... e você era o único comigo. Veja agora quantos estão aqui e até onde posso vir sem problemas. Posso também trabalhar muito. Posso ficar ainda uma hora. Fácil. Garanto-lhe, Ben, que seria bom para sua mãe vir aqui também.

      - Quem? Mamãe? Você está brincando, é claro.

      - Mais ou menos. Quando chegar a hora de ir embora, não serei capaz de fazê-lo... porque ela não vai querer.

      - E você ficará contente. Não se iluda, papai. Não demorará muito... e você atualmente não é muito velho, mas será então. Vai ser uma brincadeira para os jovens.

      - Você sabe - retrucou Baley semicerrando o punho - você está bancando o esperto, com isso de "jovem". Alguma vez já saiu da Terra? Alguns desses que estão aí no campo já saíram? Eu já. Há dois anos. Foi antes de ter esta aclimatação... e sobrevivi.

      - Eu sei, pai, mas foi rapidamente, no cumprimento do dever, e você foi cuidado numa sociedade em desenvolvimento. Agora não é a mesma coisa.

      - Foi a mesma coisa - afirmou Baley, teimoso, sabendo, no íntimo, que não tinha sido. - E não nos levará muito tempo estarmos aptos para partir. Se pudermos obter permissão para ir a Aurora, podemos fazer com que atue fora do solo.

      - Esqueça. Não vai ser tão facilmente.

      - Precisamos tentar. O governo não nos deixará partir sem que a Aurora dê permissão. É o maior e mais forte dos mundos Espaciais, o que significa...

      - Prossiga! Eu sei. Já falamos nisso um milhão de vezes. Mas não precisamos ir lá para obter permissão. Há coisas como hiperrelés. Pode falar com eles daqui. Já disse isso inúmeras vezes.

      - Não é o mesmo. Precisamos de um contato frente a frente., e já disse isso inúmeras vezes.

      - Seja como for - afirmou Ben - ainda não estamos prontos.

      - Não estamos porque a Terra não nos cede as naves. Mas os Espaciais sim, com toda a ajuda técnica necessária.

      - Que fé! Por que os Espaciais fariam isso? Quando começaram a ser generosos conosco, terráqueos de vida curta?

      - Se eu pudesse falar com eles...

     

Daniel

      - Ora, papai - disse Ben, rindo. - Você só quer ir a Aurora para ver aquela mulher outra vez.

      Baley franziu a testa e suas sobrancelhas juntaram-se sobre os olhos encovados.

      - Mulher? Jehoshaphat, Ben, de quem está falando?

      - Ora, papai, cá entre nós, sem que mamãe saiba, o que aconteceu com aquela mulher em Solaria? Já estou grandinho. Pode me contar.

      - Que mulher em Solaria?

      - Como pode me olhar nos olhos e negar qualquer conhecimento sobre a mulher que todos, na Terra, viram naquela dramatização em hiperonda? Gladia Delmarre. É essa a mulher!

      - Nada aconteceu. Aquela coisa da hiperonda era bobagem. Já lhe disse milhares de vezes. Ela não parecia daquela maneira. Nem eu parecia. Foi tudo preparado e você sabe que foi produzido contra minha vontade, apenas porque o governo pensou que isso apresentaria a Terra sob uma luz favorável aos Espaciais. E pode ficar certo de que isso não implicou em coisa diferente para sua mãe.

      - Não sonhe com isso. Contudo, essa tal Gladia foi para Aurora e você continua desejando ir lá.

      - Você está querendo me dizer que, honestamente, está pensando que o motivo para minha ida a Aurora... Ah, Jehoshaphatl

      O filho ergueu as sobrancelhas.

      - Que foi?

      - O robô. É R. Geronimo.

      - Quem?

      - Um dos robôs mensageiros do nosso departamento. E está cá fora! Hoje é  minha folga e deliberadamente deixei meu receptor em casa porque não queria que eles me contatassem. É uma prerrogativa da minha categoria C-7 e assim mesmo mandaram meu robô me procurar.

      - Como sabe que está à sua procura?

      - Por uma dedução muito inteligente. Primeiro: não há mais ninguém aqui que tenha alguma ligação com o Departamento de Polícia, segundo: aquela pobre criatura está se dirigindo diretamente a mim. Deduzo daí que veio à minha procura. Eu posso passar para o outro lado da árvore e ficar lá.

      - A árvore não é um muro, papai. O robô pode rodeá-la. Nesse instante, o robô gritou:

       - Patrão Baley, tenho um recado para o senhor. Precisam da sua presença na sede.

      - Ouvi e compreendi - replicou Baley, com voz modulada. Se não retrucasse assim, o robô ficaria repetindo.

      Baley franziu levemente a testa enquanto examinava o robô. Era um modelo novo, um pouco mais humaniforme que os antigos. Tinha sido desembalado e entrado em atividade havia apenas um mês, com alguma pompa. O governo estava sempre procurando, por isto ou por aquilo, alguma coisa que levasse a uma aceitação maior dos robôs.

      Ele tinha uma superfície cinza fosco e um tanto elástica ao toque (parecido com couro macio). A expressão facial, embora amplamente imutável, não era tão estúpida como a da maioria dos robôs. Era, porém, na realidade, mentalmente tão estúpido como o resto.

      Durante um momento, Baley pensou em R. Daneel Olivaw, o robô Espacial, com quem tivera dois encontros: um na Terra e outro em Solaria, e a quem tinha finalmente encontrado quando Daneel o consultou na caixa de espelho-imagem. Daneel era um robô tão humano que Baley tratou-o como amigo e ainda sentia saudades dele. Se todos os robôs fossem iguais a ele...

      - Rapaz, hoje é meu dia de folga - disse Baley. - Não preciso ir à sede do Departamento.

      R. Geronimo parou. Havia uma pequena vibração em suas mãos. Baley percebeu e ficou convencido de que aquilo significava uma certa quantidade de conflito nas conexões positrônicas do robô. Tinha de obedecer aos seres humanos, mas era bastante comum dois seres humanos quererem dois tipos diferentes de obediência.

      O robô fez uma escolha.

      - É seu dia de folga, patrão. O senhor está sendo precisado na sede.

      Ben interveio, preocupado:

      - Se estão precisando de você, papai...

      - Não se preocupe, Ben - respondeu, encolhendo os ombros. - Se estivessem realmente precisando muito de mim, teriam enviado junto um carro e provavelmente usado um voluntário humano, em vez de ordenar a um robô essa caminhada... e me irritado com um dos seus recados.

      Ben balançou a cabeça.

      - Acho que não, papai. Não sabiam onde você estava e quanto tempo levariam a encontrá-lo. Não acredito que mandassem um ser humano numa busca duvidosa.

      - Acha? Bem, vejamos a força da ordem: R. Geronimo, volte à sede e diga-lhes que estarei de serviço às nove. - E depois, secamente: - Volte! É uma ordem!

      O robô hesitou perceptivelmente, virou-se, afastou-se, voltou-se, fez uma tentativa de se aproximar novamente de Baley e por fim ficou parado, com o corpo todo vibrando.

      Baley percebeu o que estava acontecendo e murmurou para Ben:

      - Preciso ir, Jehoshaphat!

      O que estava perturbando o robô era o que os roboticistas chamavam de contradição equipotêncial de segundo grau. A obediência era a Segunda Lei e R. Geronimo estava agora sofrendo os efeitos de duas ordens contraditórias igualmente fortes. Bloqueio robótico, era o que a população em geral chamava aquilo, ou com mais freqüência, pela abreviação, robloqueio.

      O robô virou-se devagar. A ordem original era a mais forte, mas não decisivamente, e por isso sua voz ficou indistinta.

      - Patrão, me disseram que o senhor ia dizer isso. Se assim fosse, eu devia completar... - Fez uma pausa e depois acrescentou, com voz rouca: - se o senhor estiver só.

      Baley acenou concisamente para o filho, que não esperou. Sabia quando o pai era papai e quando era um policial. Ben retirou-se depressa.

      Durante um momento, Baley estudou irritadamente a possibilidade de fortalecer sua própria ordem e tornar o robloqueio mais completo, mas iria certamente causar o tipo de estrago que exigiria análise positrônica e reprogramação. O custo seria deduzido do seu salário e podia facilmente chegar a um ano de pagamento.

      - Retiro minha ordem - falou. - Que estava dizendo? A voz de R. Geronimo ficou imediatamente clara.

      - Me mandaram dizer que o senhor é esperado por causa de um assunto referente a Aurora.

      Baley virou para onde Ben tinha se afastado e gritou:

      - Dê-lhes mais meia hora e depois diga-lhes que quero que entrem. Agora, preciso ir.

      Enquanto andava em passadas largas, disse insolentemente ao robô:

      - Por que não mandaram você dizer logo isso? E por que não podem programá-lo para trazer um carro, a fim de eu não precisar andar?

      Sabia muito bem por que não tinham feito aquilo. Qualquer acidente envolvendo um carro guiado por robô, podia provocar outro distúrbio anti-robô.

      Não diminuiu o passo. Precisavam caminhar dois quilômetros antes de chegarem aos muros de City e, a partir daí, chegar à sede enfrentando um trânsito pesado.

      Aurora? Que espécie de crise estava em marcha?

 

      Baley levou meia hora para chegar às portas de City e inteiriçou-se à suspeita do que estava para acontecer. Talvez - talvez - não acontecesse ainda.

      Chegou ao plano divisório entre o Exterior e Cidade, o muro que separava o caos da civilização. Colocou a mão sobre a mancha sinalizadora e apareceu uma abertura.

      Como de costume, não esperou que a abertura se completasse, deslizando por ela assim que ficou bastante larga. R. Geronimo o acompanhou.

      O sentinela policial de serviço olhou sobressaltado, como habitualmente fazia, quando alguém vinha do Exterior. Tinha sempre o mesmo olhar incrédulo, a mesma atenção, a mesma súbita colocação da mão sobre o explosor, o mesmo franzir de hesitação.

      Baley mostrou a identidade com uma careta e o sentinela fez continência. A porta fechou-se às suas costas... e aconteceu.

      Baley estava dentro de City. As paredes fecharam-se em torno dele e a City tornou-se o Universo. Estava novamente imerso no infindável, eterno zumbido e cheiro de gente e maquinaria que logo desapareceriam sob o limiar da consciência: sob a luz artificial suave e direta que não se parecia, em absoluto, com o resplendor parcial e variado do Exterior, com seu verde, castanho, azul e branco, com intervalos de vermelho e amarelo. Ali não havia ventos erráticos, calor, frio, nem ameaça de chuva, ao contrário, havia a calma permanência de correntes de ar não sentidas, que mantinham tudo fresco. Ali havia uma combinação determinada de temperatura e umidade tão perfeitamente ajustadas aos humanos, que permanecia insensível.

      Baley sentiu a respiração tornar-se mais trêmula e ficou feliz ao perceber que estava em casa, a salvo, entre o conhecido e o reconhecível.

      Era o que sempre acontecia. Tinha novamente aceito a City como o útero e tornava a ele com grande alívio. Ele sabia que o útero era o lugar de onde a humanidade devia emergir e nascer. Por que sentia ele sempre mergulhar assim de volta?

      E iria ser sempre assim? Iria realmente ser assim, embora ele pudesse chefiar grandes quantidades fora de City e da Terra, até às estrelas, e não teria condições, finalmente, de ir ele mesmo? Só iria sentir-se sempre em casa em City?

      Rangeu os dentes... mas não adiantava pensar nisso.

      Virou-se para o robô:

      - Você foi trazido de carro até aqui, rapaz?

      - Sim, patrão.

      - E onde está ele?

      - Não sei, patrão.

      Baley virou-se para o sentinela:

      - Guarda, este robô foi trazido aqui há duas horas. Que aconteceu com o carro que o trouxe?

      - Senhor, estou de serviço a menos de uma hora. Realmente, era bobagem perguntar.  O  condutor não sabia quanto tempo o robô ia levar para achá-lo e por isso não esperou. Baley teve vontade de pedir um, mas lhe diriam que pegasse o expresso, seria mais rápido.

      O único motivo de sua hesitação foi a presença de R. Geronimo. Ele não queria sua companhia no expresso, mas não podia esperar que o robô andasse até à sede, entre multidões hostis.

      Não que tivesse escolha. Indubitavelmente, o Comissário não ansiava por facilitar-lhe as coisas. Devia estar aborrecido por não tê-lo à mão, de folga ou não.

      - Por aqui, rapaz - disse Baley.

      City tinha mais de 5 mil quilômetros quadrados e possuía 400 quilômetros de expresso, além de centenas de quilômetros de ramais, para atender a bem mais de 20 milhões de pessoas. A intricada rede viária desenvolvia-se em oito níveis e havia centenas de correspondências com vários graus de complexidade.

      Como um homem comum, Baley devia conhecer todas e conhecia. Se fosse colocado, vendado, em qualquer esquina de City, ao ser-lhe retirada a venda, podia facilmente dirigir-se a qualquer setor que lhe fosse indicado.

      Não havia, portanto, dúvida de que ele soubesse como chegar à sede. Havia oito caminhos possíveis a seguir, porém, durante um instante hesitou sobre qual estaria menos cheio àquela hora. Apenas por um instante. Depois resolveu-se e disse: - Venha comigo, rapaz. O robô seguiu-lhe docilmente as pegadas. Viraram-se para um alimentador que passava e Baley agarrou-se a um dos balaústres verticais: branco, quente e preparado para oferecer um bom apoio. Baley não queria sentar, não iriam demorar muito.

      O robô tinha esperado pelo gesto rápido de Baley antes de colocar a mão no mesmo balaústre. Ele podia perfeitamente ficar em pé sem agarrar - não era difícil manter o equilíbrio - porém Baley não queria proporcionar uma oportunidade de ficarem separados. Era responsável pelo robô e não desejava arriscar-se a ser convidado a repor a perda financeira de City se alguma coisa acontecesse a R. Geronimo.

      O alimentador tinha algumas outras pessoas a bordo e todos os olhos viraram-se com curiosidade - e inevitavelmente - para o robô. Baley percebeu cada um desses olhares.

      Baley tinha ar de autoridade e os olhos que se encontravam com os dele afastavam-se, preocupados.

      Baley tornou a gesticular quando pulou do alimentador. Tinha atingido as faixas e estavam movendo-se à mesma velocidade da faixa ao lado e por isso não lhe foi preciso diminuir a sua. Baley pulou para essa faixa ao lado e sentiu o golpe de ar tão logo ficaram fora da proteção do envoltório de plástico.

      Inclinou-se ao vento com a facilidade da longa prática, erguendo um braço para quebrar sua força na altura dos olhos. Passou pelas faixas na direção do cruzamento com o Caminho Expresso e depois começou a subir pela faixa veloz que o bordejava.

      Ouviu o grito adolescente de "Robô!" (ele também já tinha sido adolescente) e sabia exatamente o que ia acontecer. Um grupo deles (dois, três ou meia dúzia) enxamearia pelas faixas, acima e abaixo do robô, e dariam um jeito do robô tropeçar e cair, ressoando. Depois, se fossem levados perante a lei, qualquer dos adolescentes detidos afirmaria que o robô tinha se chocado com ele e era uma ameaça nas faixas... sendo indubitavelmente libertado.

      O robô não podia se defender no primeiro caso, nem testemunhar no segundo.

      Baley agiu rapidamente e ficou entre o primeiro adolescente e o robô. Pulou para uma faixa mais veloz, ergueu mais o braço como que para se adaptar à crescente rapidez do vento e, dessa forma, o rapaz foi empurrado para uma faixa mais lenta, para a qual não estava preparado.

      - Ei! - berrou o rapaz, quando perdeu o equilíbrio.

      Os outros pararam, avaliaram rapidamente a situação e desistiram.

      - Para o Caminho Expresso, rapaz - disse Baley.

      O robô teve uma ligeira hesitação. Não era permitido robôs desacompanhados no Expresso. A ordem de Baley tinha sido firme, porém, e ele entrou no veículo. Baley o seguiu, aliviando assim a pressão no robô.

      Baley moveu-se bruscamente entre os que estavam em pé, empurrando R. Geronimo à sua frente, dirigindo-se ao nível superior, menos cheio. Segurou-se a um suporte e manteve um pé firmemente pousado no do robô, novamente mantendo abaixado o contato visual.

      Quinze e meio quilômetros depois, estava na parada mais próxima da sede da Polícia e R. Geronimo saltou com ele. Não tinha sido molestado, Baley entregou-o na porta, onde lhe foi dado um recibo. Examinou cuidadosamente a data, a hora e o número de série do robô, colocando depois o recibo na carteira. Antes do fim do dia, iria conferi-lo, para ter certeza de que a transação tinha sido computo-registrada.

      Agora estava indo ver o Comissário, ao qual conhecia bem. Qualquer falha da parte de Baley era passível de rebaixamento. Era um homem duro. Considerava as vitórias passadas de Baley como uma ofensa pessoal.

 

      O Comissário chamava-se Wilson Roth. Estava no cargo havia dois anos e meio, desde que Julius Enderby tinha se demitido, logo que a fúria provocada pelo assassinato de um Espacial tinha diminuído e a demissão pôde ser oferecida sem perigo.

      Baley jamais se conformou com a mudança. Julius, com todos os seus defeitos, apesar de superior, era amigo, Roth não passava de superior. Nem mesmo era nativo de City. Não daquela City. Fora trazido de fora.

      Roth não era invulgarmente alto nem gordo. Tinha, no entanto, a cabeça grande, que estava plantada num pescoço ligeiramente inclinado para a frente. Isso o tornava pesado: corpulento e cabeçudo. Tinha também as pálpebras caídas, sombreando os olhos.

      Parecia estar sempre sonolento, porém jamais perdia alguma coisa. Baley percebeu isso logo que Roth ocupou o cargo. Não tinha a menor ilusão de que Roth gostasse dele. E muito menos ainda de que gostasse de Roth.

      Roth não se mostrou insolente - jamais era - mas suas palavras também não transpiravam satisfação.

      - Baley, por que é tão difícil encontrá-lo? - perguntou. com voz cuidadosamente respeitosa, respondeu:

      - É minha tarde de folga, Comissário.

      - Sim, sua prerrogativa C-7. Ouviu falar em um ondulante, não? Uma coisa que recebe mensagens oficiais? Você é obrigado a manter contato, mesmo em sua folga.

      - Sei muito bem disso, Comissário, porém não mais existem regulamentos referentes ao uso de ondulantes. Podemos ser contatados sem sua utilização.

      - Dentro de City, é verdade, mas você se encontrava no Exterior... ou me enganei?

      - Não se enganou. Comissário. Eu estava no Exterior. Os regulamentos não estabelecem que em tais casos eu deva usar um ondulante.

      - Está se abrigando sob a letra do estatuto, não é?

      - É, Comissário - respondeu Baley calmamente.

      O Comissário levantou-se, um homem poderoso e vagamente ameaçador, indo sentar-se sobre a mesa. A janela para o Exterior, instalada por Enderby, havia muito tinha sido obstruída e recebido uma camada de tinta. Na sala sem janela (mais quente e confortável por causa disso), o Comissário parecia maior.

      Sem levantar a voz, o Comissário disse:

      - Acho que você confia na gratidão da Terra, Baley.

      - Confio em realizar meu trabalho. Comissário, da melhor forma possível e de acordo com os regulamentos.

      - E na gratidão da Terra, quando infringe o espírito desses regulamentos.

      Baley não respondeu. O Comissário prosseguiu:

      - Seu trabalho foi muito bom no caso do assassinato de Sarton, há três anos.

      - Obrigado, Comissário - respondeu Bailey. - Acho que o arrasamento da Cidade Espacial foi conseqüência disso.

      - Foi... coisa, aliás, aplaudida por toda a Terra. Você também foi considerado como tendo feito um bom trabalho em Solaria há dois anos, e antes que você me lembre, resultou na revisão dos termos dos tratados comerciais com os mundos Espaciais, com enorme vantagem para a Terra.

      - Acredito que isso esteja registrado, senhor.

      - E como decorrência, você virou um grande herói.

      - Nunca reivindiquei isso.

      - Você teve duas promoções, cada uma em conseqüência de cada caso. Houve até um drama na hiperonda, baseado nos acontecimentos de Solaria.

      - Produção feita sem minha permissão e contra a minha vontade. Comissário.

      - O que, não obstante, transformou-o numa espécie de herói. Baley encolheu os ombros.

      O Comissário, tendo esperado alguns segundos por um comentário, prosseguiu:

      - Mas você nada fez de importante em quase dois anos.

      - É natural que a Terra pergunte o que fiz por ela ultimamente.

      - Exatamente. Ela provavelmente perguntará. Ela sabe que você é o cabeça dessa nova moda de aventurar-se no Exterior, de brincar com o solo e fingir ser robô.

      - Isso é permitido.

      - Não só permitido como admirado. É possível que mais pessoas o considerem tanto excêntrico quanto heróico.

      - Isso talvez esteja de acordo com minha própria opinião de mim mesmo - disse Baley.

      - O público tem sabidamente má memória. No seu caso, o heroísmo vai desaparecer rapidamente por detrás da excentricidade e assim, se cometer um engano, estará numa séria enrascada. A reputação sobre a qual você se apóia...

      - Com o devido respeito, Comissário, não me apóio nela.

      - A reputação sobre a qual o Departamento de Polícia acha que você se apóia não vai salvá-lo e eu não tenho condições de fazê-lo.

      A sombra de um sorriso perpassou momentaneamente pelas feições teimosas de Baley.

      - Não desejo, Comissário, que o senhor arrisque sua posição numa desesperada tentativa de me salvar.

      O Comissário encolheu os ombros e exibiu um sorriso igualmente sombrio e fugaz.

      - Não se preocupe com isso.

      - Então por que está me dizendo tudo isso, Comissário?

      - Para preveni-lo. A minha intenção não é destruí-lo, acredite, mas apenas fazer-lhe uma advertência. Você está sendo envolvido num assunto muito delicado, onde poderá facilmente cometer um engano, daí eu o prevenir para que não o cometa.

      Ao terminar, seu rosto distendeu-se num inequívoco sorriso, ao qual Baley não correspondeu, mas perguntou:

      - Pode me informar que assunto tão delicado é esse?

      - Não sei.

      - Envolve Aurora?

      - R. Geronimo foi instruído para lhe dizer que sim, se precisasse, mas nada sei a respeito.

      - Então, Comissário, como pode dizer que é um assunto muito delicado?

      - Ora, Baley, você é um investigador de mistérios. O que faz um membro do Departamento de Justiça da Terra vir a City, quando você poderia mais facilmente ser chamado a Washington, como há dois anos, por causa do incidente de Solaria? E o que faz a pessoa da Justiça fechar o semblante e ficar irritada e impaciente por você não ter sido encontrado imediatamente? Sua decisão de não estar disponível foi um erro, do qual não tenho a menor responsabilidade. Talvez não seja fatal em si, mas acho que você deu um passo em falso.

      - No entanto, o senhor está me atrasando - disse Baley, enrugando a testa.

      - De fato, não. O funcionário da Justiça está se arrumando... você sabe como os Telurianos são vaidosos. Vamos encontrá-lo assim que ele terminar. A notícia da sua chegada foi-lhe comunicada e portanto continue esperando, como eu.

      Baley esperou. Ele soube, na época, que o drama da hiperonda, exibido contra sua vontade, embora pudesse ter ajudado a posição da Terra, o tinha arruinado no Departamento. Ele fora atirado, em relevo tridimensional, contra a chatice bidimensional da organização, tornando-se a partir daí um homem marcado.

      Fora elevado à mais alta posição e obteve os maiores privilégios, o que fez crescer a hostilidade do Departamento contra ele. E quanto mais subissse, mais facilmente seria esfacelado em caso de queda.

      Se ele cometesse um engano...

 

      O funcionário da Justiça entrou, olhou em volta distraidamente, caminhou até o outro lado da escrivaninha de Roth e sentou-se. Como membro do mais alto escalão, o funcionário comportou-se adequadamente. Roth, calmamente, ocupou uma cadeira em segundo plano.

      Baley permaneceu em pé, esforçando-se para que o rosto não revelasse surpresa.

      Roth poderia tê-lo avisado, mas não o fizera. Havia escolhido clara e deliberadamente suas palavras, para não dar uma pista.

      O funcionário era mulher.

      Não havia motivo para não ser. Qualquer mulher podia ser funcionária. O Secretário-Geral podia ser mulher. Havia mulheres na força policial, até uma no posto de capitão.

      Assim, era compreensível que, sem ser avisado, alguém não esperasse aquilo. Houve ocasiões na história em que as mulheres ocuparam em grande número postos na administração.

      Baley sabia disso, era um bom conhecedor da história. Mas agora não era uma daquelas ocasiões.

      Ela era bastante alta e sentou-se empertigada na poltrona. com seu uniforme não muito diferente do de um homem, a mulher não usava maquilagem ou sequer estava penteada na moda. O que revelava seu sexo imediatamente eram os seios, cuja proeminência não procurou esconder.

      Era quarentona, de feições regulares e bem delineadas. Atraente em sua meia-idade, sem fios brancos visíveis no cabelo preto.

      - Você é o Detetive Elijah Baley, Classificação C-7. Era uma afirmação e não uma pergunta.

      - Sim, senhora - respondeu Baley, apesar disso.

      - Sou a Subsecretária Lavinia Demachek. Você não se parece muito com o daquele drama da hiperonda a seu respeito.

      Baley ouvia isso com freqüência.

      - Eles poderiam muito bem me retratar como eu sou e conseguir uma audiência maior, senhora - retrucou Baley secamente.

      - Não tenho certeza disso. Você é mais forte que o ator usado e não tem aquele rosto de criança.

      Baley hesitou um instante e resolveu aproveitar a oportunidade... ou talvez sentiu que não podia resistir a aproveitá-la. com ar grave, disse:

      - A senhora tem bom gosto.

      Ela riu e Baley soltou a respiração bem devagar. Ela respondeu:

      - Gosto de pensar que tenho. Bem, o que pretendia, fazendo-me esperar?

      - Não sabia da sua vinda, senhora, e eu estava de folga.

      - Que passa no Exterior, segundo me disseram.

      - É verdade, senhora.

      - Você é um desses excêntricos a respeito dos quais meu gosto não é tão bom. Quero perguntar-lhe se é um desses entusiastas.

      - Sou, senhora.

      - Pensa emigrar um dia e descobrir novos mundos no deserto da Galáxia?

      - Talvez eu não, senhora. Talvez seja velho demais, mas...

      - Que idade tem?

      - Quarenta e cinco, senhora.

      - Bem, parece ter. Acontece que eu também tenho quarenta e cinco.

      - Não parece, senhora.

      - Mais velha ou mais moça? - Deu uma gargalhada e depois disse: - Bem, vamos parar de brincadeiras. Acha que sou velha demais para ser pioneira?

      - Ninguém pode ser pioneiro em nossa sociedade sem treinar no Exterior. O treino funciona melhor nos jovens. Meu filho, espero, irá um dia para algum outro mundo.

      - Realmente? O senhor sabe, é claro, que a Galáxia pertence aos mundos dos Espaciais.

      - Só há cinqüenta deles, senhora. Existem milhões de mundos na Galáxia que são habitáveis, ou podem vir a sê-lo, e que provavelmente não possuem vida nativa inteligente.

      - Sim, mas nenhuma nave pode deixar a Terra sem a permissão dos Espaciais.

      - Isso pode ser conseguido, senhora.

      - Não partilho do seu otimismo, Sr. Baley.

      - Conversei com Espaciais que...

      - Sei disso - retrucou Demachek. -  Meu superior é Albert Minnim, que há dois anos enviou-o a Solaria. - Ela se permitiu um ligeiro arquear de lábios. - Um ator fez o pequeno papel dele naquele drama de hiperonda, ficando muito parecido com ele, como lembro. Minnim não gostou, coisa que também lembro.

      Baley mudou de assunto.

      - Pedi ao Subsecretário Minnim...

      - Ele foi promovido, como sabe.

      Baley compreendeu totalmente a importância dos graus de classificação.

      - Qual seu novo título, senhora?

      - Vice-Secretário.

      - Obrigado. Pedi ao Vice-Secretário Minnim que obtivesse permissão para que eu visite Aurora, para me ocupar desse assunto.

      - Quando?

      - Não muito depois da minha volta de Solaria. Desde então, renovei o pedido por duas vezes.

      - Mas não recebeu resposta favorável?

      - Não, senhora.

      - Está surpreso?

      - Desapontado, senhora.

      - Não diga isso. - Recostou-se ligeiramente na poltrona. - Nossas relações com os mundos dos Espaciais são muito delicadas. O senhor pode sentir que suas duas façanhas detetivescas facilitaram a situação... o que de fato aconteceu. Aquele horrível drama da hiperonda também ajudou. A distensão total, porém, foi deste tamanho – aproximou o polegar do indicador - em vez de ser deste tamanho - completou afastando bastante as mãos.

      - Nessas circunstâncias - prosseguiu - mal podemos correr o risco de enviá-lo a Aurora, o principal mundo dos Espaciais, tendo você feito, talvez, alguma coisa que possa ter criado uma tensão interestelar.

      Os olhos de Baley fixaram os dela.

      - Estive em Solaria e não causei problemas. Pelo contrário...

      - Sim, eu sei, mas esteve lá a pedido dos Espaciais, o que é muito diferente de ir lá a nosso pedido. Você não pode deixar de ver isto.

      Baley permaneceu em silêncio.

      A Subsecretária resmungou baixinho por ele não ter ficado surpreendido e disse:

      - A situação piorou desde que seus pedidos foram encaminhados pelo Vice-Secretário e muito corretamente ignorados. Piorou consideravelmente no último mês.

      - Essa é a causa desta conferência, senhora?

       - Está ficando impaciente, senhor? - Dirigiu-se a ele com ironia, com a entonação de um superior. - Está me forçando a chegar ao ponto?

      - Não, senhora.

      - Claro que sim. E por que não? Começo a me tornar tediosa. Bem, Vou chegar ao ponto perguntando-lhe se conhece o Dr. Han Fastolfe.

      Baley respondeu cautelosamente:

      - Encontrei-o uma vez, há quase três anos, na que era então Spacetown.

      - Acho que o senhor gosta dele.

      - Foi amistoso... tratando-se de um Espacial.

      Ela tornou a resmungar baixinho.

      - Imagino que sim. Sabe que ele desfruta de um importante poder político em Aurora, nos últimos dois anos?

      - Soube que ele estava no governo por um... um velho companheiro.

      - R. Daneel Olivaw, seu amigo robô espacial?

      - Meu ex-associado, senhora.

      - Na ocasião em que o senhor resolveu um pequeno problema relativo a dois matemáticos a bordo de uma nave Espacial?

      Baley confirmou de cabeça.

      - Sim, senhora.

      - Nós nos mantemos informados, como sabe. O Dr. Han Fastolfe tem sido mais ou menos o farol-guia do governo auroreano nestes dois anos, uma figura importante noLegislativo Mundial e está sendo mesmo falado como o possível futuro Presidente. O Presidente, compreende, é o cargo mais próximo de um chefe executivo que os auroreanos têm.

      - Sim, senhora - respondeu Baley, imaginando quando ela ia tocar no assunto verdadeiramente delicado a que o Comissário tinha se referido.

      Demachek não parecia ter pressa.

      - Fastolfe é um moderador - disse. - É assim que ele mesmo se denomina. Acha que Aurora e os mundos Espaciais em geral foram muito longe em sua direção, como você talvez ache que nós, na Terra, fomos na nossa. Ele deseja dar um passo atrás no campo da robótica e uma modificação mais rápida de gerações, e de aliança e amizade com a Terra. Naturalmente, nós o apoiamos, porém sem barulho. Se formos muito exuberantes em nosso afeto, isso poderá ser muito bem o beijo da morte para ele.

      - Acredito - retrucou Baley - que ele deseja apoiar a exploração e colonização de outros mundos pela Terra.

      - Também acredito. Na minha opinião ele lhe disse o mesmo.

      - De fato, senhora, quando fomos apresentados. Demachek juntou as mãos e colocou as pontas dos dedos sob o queixo.

      - Acha que ele representa a opinião pública nos mundos Espaciais?

      - Não sei dizer, senhora.

      - Temo que não. Os que estão ao seu lado são indiferentes. Os contra são uma ardente legião. Apenas sua habilidade política e seu entusiasmo pessoal mantêm-no tão perto do poder como se encontra. Sua maior fraqueza, é claro, é sua simpatia pela Terra. Isso é constantemente usado contra ele e influencia muitos dos que partilham seus pontos de vista a respeito de outras coisas. Se for mandado a Aurora, qualquer engano que cometer ajudará a fortalecer os sentimentos antiterrestres e, conseqüentemente, enfraquecerá Fastolfe, talvez fatalmente. A Terra não pode de maneira alguma correr esse risco.

      - Compreendo - murmurou Baley.

      - Fastolfe está querendo correr o risco. Foi ele quem providenciou sua ida a Solaria quando seu poderio político mal estava começando e quando ainda era muito vulnerável.

      Mas agora ele só tem a perder seu poder pessoal, enquanto que nós temos de nos preocupar com o bem-estar de mais de oito bilhões de terráqueos. É isso o que torna a atual situação política quase insuportavelmente delicada.

      Fez uma pausa e finalmente Baley foi forçado a fazer a pergunta.

      - A que situação a senhora está se referindo?

      - Parece - disse Demachek - que Fastolfe está metido num escândalo grave e sem precedentes. Se estiver enrascado, há possibilidade de caminhar para a destruição política, numa questão de semanas. Se ele for sobre-humanamente inteligente, talvez se mantenha por alguns meses. Um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, poderá ser destruído como poder político em Aurora: e isso será um verdadeiro desastre para a Terra, como pode imaginar.

      - Posso saber de que ele é acusado? Corrupção? Traição?

      - Nenhuma coisa tão pequena assim. Sua integridade pessoal em qualquer desses casos é indiscutível, mesmo para seus inimigos.

      - Então um crime passional? Assassinato?

      - Não exatamente assassinato.

      - Não compreendo, senhora.

      - Há seres humanos em Aurora, Sr. Baley. E também há robôs, a maioria parecido com os nossos, embora não muito mais avançados na maior parte. Contudo, há alguns poucos robôs humaniformes, tão humaniformes que podem ser tomados por humanos.

      Baley balançou a cabeça.

      - Sei disso muito bem.

      - Suponho que destruir um robô humaniforme não seja exatamente um assassinato, no estrito sentido da palavra.

      Baley inclinou-se para a frente, e arregalando os olhos, gritou:

      - Jehoshaphat, mulher! Pare de brincar. Está me dizendo que o Dr. Fastolfe matou R. Daneel?

      Roth pulou em pé com a intenção de avançar para Baley, mas foi contido por um gesto da Subsecretária Demachek, que não pareceu zangada.

      - Nestas circunstâncias - disse ela - perdôo seu desrespeito, Baley. Não, R. Daneel não foi morto. Ele não é o único robô humaniforme em Aurora. Outro robô semelhante, e não R. Daneel, foi assassinado, se deseja usar a expressão amplamente. Para ser mais precisa, sua mente foi totalmente destruída, ele foi colocado num permanente e irreversível robloqueio.

      - E acusaram o Dr. Fastolfe de fazer isso? - perguntou Baley.

      - É o que afirmam os inimigos dele. Os extremistas, que desejam que apenas os Espaciais se espalhem pela Galáxia e querem a extinção dos terráqueos no Universo, estão dizendo isso. Se esses extremistas puderem manipular outra eleição dentro das próximas semanas, terão certamente o controle total do governo, com resultados incalculáveis.

      - Por que esse robloqueio é tão importante politicamente? Não compreendo.

      - Pessoalmente, não sei bem - disse Demachek. - Não pretendo compreender a política de Aurora. Sei que os humaniformes estão de certa forma envolvidos nos planos extremistas e que a destruição os enfureceu. - Franziu o nariz. - Acho a política deles muito confusa e apenas o enganaria, se tentasse interpretá-la.

      Baley esforçou-se e tratou de se controlar diante do olhar fixo da Subsecretária. Em voz baixa, disse:

      - Por que estou aqui?

      - Por causa de Fastolfe. Já uma vez o senhor foi ao espaço para solucionar um assassinato e conseguiu. Fastolfe deseja que o senhor tente novamente. O senhor deve ir a Aurora descobrir o que provocou o robloqueio. Ele acha que é sua última possibilidade de derrotar os extremistas.

      - Não sou roboticista e nada conheço de Aurora...

      - O senhor também nada conhecia de Solaria e no entanto deu um jeito. O ponto é, Baley, que estamos ansiosos para descobrir o que realmente aconteceu. Não queremos Fastolfe liquidado. Se acontecer, a Terra será objeto de uma espécie de hostilidade desses extremistas Espaciais, provavelmente maior que tudo o que já sofremos. Não queremos que isso aconteça.

      - Não posso assumir essa responsabilidade, senhora. A tarefa é...

      - Vizinha do impossível. Sabemos disso, mas não temos escolha. Fastolfe insiste... e por detrás dele, no momento, está o governo auroreano. Se se recusar a ir ou se recusarmos a deixá-lo ir, teremos de enfrentar a fúria de Aurora. Se concordar em ir e tiver sucesso, estaremos salvos e o senhor será devidamente recompensado.

      - E se eu for... e falhar?

      - Faremos o possível para considerar ser sua a culpa e não da Terra.

      - Em outras palavras, a pele do funcionalismo estará salva.

      - Uma forma mais bondosa de apresentar o problema - retrucou Demachek - e atirá-lo aos lobos na esperança de que a Terra não sofra muito. Um homem não é um mau preço a pagar pelo nosso planeta.

      - Parece-me que uma vez que estou certo de falhar, posso muito bem não ir.

      - Você sabe muito bem - disse Demachek suavemente - que Aurora mandou chamá-lo e você não pode recusar. E por que recusaria? Há dois anos vem tentando ir a Aurora e tem amargurado seu fracasso em obter permissão.

      - Eu queria ir em paz, para conseguir ajuda para a colonização de outros mundos, e não para...

      - Você ainda pode tentar encontrar ajuda para seu sonho de colonização de outros mundos, Baley. Afinal de contas, imagine que consiga. É possível, enfim. Nesse caso, Fastolfe lhe ficará muito grato e poderá fazer bem mais por você que por qualquer outro. E nós ficaremos pessoalmente agradecidos pela sua ajuda. Não vale a pena o risco e até um maior? Por menores que sejam suas possibilidades de sucesso se for, elas serão zero se não for. Pense nisso, Baley, mas, por favor... não demore muito.

      Baley comprimiu os lábios e finalmente, percebendo que não havia alternativa, perguntou:

      - De quanto tempo disponho para...

      Demachek respondeu, calmamente:

      - Ora. Não lhe expliquei que não temos escolha... nem tempo? Você parte - olhou o relógio de pulso - dentro de exatamente seis horas.

 

      O espaçoporto ficava no extremo oriental de City, num setor completamente vazio que era, estritamente falando, Exterior. O que aliviava um pouco o desconforto era o fato de os balcões de passagens e as salas de espera serem realmente em City e a chegada à nave se processar utilizando-se um veículo que percorria uma trilha coberta. Tradicionalmente, todas as decolagens eram feitas à noite, de forma a que o manto da escuridão diminuísse o efeito do Exterior.

      O espaçoporto não era muito freqüentado, considerando-se o caráter populoso da Terra. Os terráqueos raramente deixavam o planeta e o trânsito consistia quase inteiramente de atividade comercial organizada por robôs e Espaciais.

      Elijah Baley, esperando a nave ficar pronta para ser ocupada, sentiu-se já separado da Terra.

      Bentley sentou-se ao seu lado, fazendo-se um silêncio pesado entre eles. Finalmente, Ben falou:

      - Acho que mamãe não vai querer vir. Baley balançou a cabeça.

      - Também acho. Lembro de como sua mãe ficou quando fui a Solaria. Isto não é diferente.

      - Você tratou de deixá-la calma?

      - Fiz o que pude, Ben. Ela pensa que Vou me arrebentar num desastre espacial ou que os Espaciais me matarão assim que eu chegar a Aurora.

      - Você voltou de Solaria.

      - O que não a torna menos desejosa de que eu me arrisque uma segunda vez. Ela acha que a sorte pode sumir. Contudo, ela se contém... Fique por perto, Ben. Passe algum tempo com ela e trate de não falar sobre partir para a colonização de um novo planeta. É isso o que realmente a aflige, você sabe. Ela pressente que você vai deixá-la num destes anos. Ela sabe que não poderá ir e assim nunca mais o verá.

      - É verdade - concordou Ben. - Talvez a coisa se passe desse modo.

      - Você talvez possa enfrentar isso facilmente, porém ela não, e assim não discuta o assunto na minha ausência. Concorda?

      - Sim. Acho que mamãe está um tanto preocupada com Gladia.

      Baley encarou-o com firmeza.

      - Você esteve...

      - Eu não disse uma palavra a respeito. Porém ela viu aquele espetáculo de hiperonda e sabe que Gladia está em Aurora.

      - E daí? É um planeta enorme. Você acha que Gladia Delmarre estará me esperando no espaçoporto?... Jehoshaphat, Ben, sua mãe não sabe que aquela reconstituição em

      hiperonda é noventa por cento ficção?

      Ben mudou de assunto com evidente esforço.

      - Gozado, você aqui sentado sem nenhuma bagagem.

      - Estou sentado aqui com muita coisa. Estou vestindo roupas, não é verdade? Eles se livrarão delas assim que eu estiver a bordo. Tão logo tiradas, para serem quimicamente tratadas, serão jogadas no espaço. Depois, me darão um guarda-roupa totalmente novo, assim que eu tiver sido fumigado pessoalmente, lavado e esfregado, por dentro e por fora. Já passei por isso antes.

      Houve um novo silêncio e depois Ben disse:

      - Sabe, papai... - e parou repentinamente. Fez nova tentativa: - Sabe, papai... - sem sucesso.

      Baley encarou-o com firmeza.

      - Que está querendo dizer, Ben?

      - Papai, sinto-me como um completo idiota, dizendo isto, mas acho que me sentirei melhor falando. Você não é o tipo heróico. De fato, nunca pensei que fosse. Você é um sujeito agradável e o melhor pai que possa existir, mas não o tipo heróico.

      Baley resmungou.

      - No entanto - disse Ben - quando se deixa de pensar assim, foi você quem tirou Spacetown do mapa, foi você quem colocou Aurora do nosso lado, foi você quem começou todo esse projeto de colonizar outros mundos. Papai, você fez mais pela Terra que todos os membros do governo juntos. Então por que não é mais apreciado?

      - Porque - respondeu Baley - não sou o tipo heróico, além de me terem impingido aquele estúpido drama da hiperonda, que fez de cada homem do Departamento um inimigo meu, alterou sua mãe e me deu uma reputação que não posso sustentar. - A luz piscou no seu receptor de pulso e ele levantou-se. Ben, preciso ir.

      - Eu sei. Mas quero dizer-lhe, papai, que é isso que aprecio em você. E desta vez, quando voltar, será apreciado por todos e não apenas por mim.

      Baley ficou emocionado. Balançou rapidamente a cabeça, colocou a mão no ombro do filho e murmurou:

      - Obrigado. Cuide-se e também cuide de sua mãe enquanto eu estiver fora.

      Afastou-se sem olhar para trás. Tinha dito a Ben que estava indo a Aurora para discutir o projeto de colonização. Se fosse verdade, poderia voltar vitorioso. Se fosse...

      Pensou: voltarei em desgraça... se conseguir voltar.

 

Daneel

      Aquela era a terceira viagem de Baley numa espaçonave e os dois anos decorridos em nada obscureceram sua lembrança das duas primeiras vezes. Sabia exatamente o que esperar.

      Haveria o isolamento: o fato de ninguém vê-lo ou ter contato com ele, exceto (talvez) um robô. Haveria o constante tratamento médico: a fumigação e esterilização (não havia outra maneira de se expressar). Haveria a tentativa de prepará-lo para o contato com os Espaciais, que pensavam que os terráqueos eram sacos ambulantes de infecções variadas.

      Contudo, também haveria diferenças. Não iria, desta vez, ficar muito temeroso com o processo. Certamente, a sensação de perda ao sair do útero seria menos apavorante.

      Deveria ficar melhor preparado para ambientes mais amplos. Desta vez, pensou corajosamente (mas com um pequeno bolo no estômago por causa de tudo), podia ter mesmo condições para insistir em dar uma olhada no espaço.

      Teria um aspecto diferente das fotografias do céu noturno, tomadas do Exterior? Pensou.

      Lembrou de sua primeira vista da cúpula de um planetário (a salvo, dentro de City, claro). Não lhe deu a menor sensação de estar no Exterior, não sentiu nenhum desconforto.

      Depois, houve as duas vezes - não, três - em que estivera fora, de noite, e viu as estrelas verdadeiras na verdadeira abóbada do céu. Tinha sido muito menos impressionante que a cúpula do planetário, mas houve um vento frio e uma sensação de distância, que tornou a experiência mais apavorante que a vivida na cúpula... porém menos assustadora, já que a escuridão era um reconfortante muro em torno dele.

      Mas a visão das estrelas, da janela de uma espaçonave, seria mais parecida com a de um planetário ou com a do céu noturno da Terra? Ou seria uma sensação diferente de tudo?

      Concentrou-se nisso, para afastar o pensamento de ter deixado Jessie, Ben e City.

      Num gesto de quase bravata, recusou o carro e insistiu em andar a pequena distância do portão à nave, em companhia do robô que viera buscá-lo. Afinal de contas, não passava de uma arcada coberta.

      A passagem fazia uma ligeira curva e ficou olhando para trás enquanto pôde ver Ben do outro lado. Ergueu a mão, negligente, como se estivesse tomando o Caminho Expresso para Trenton, e Ben balançou vigorosamente ambos os braços, mantendo levantados dois dedos de cada mão no antigo símbolo de vitória.

      Vitória? Baley tinha certeza de que era um gesto inútil.

      Mudou para outra idéia, que poderia servir para preencher seu pensamento e mantê-lo ocupado. Como seria embarcar numa espaçonave de dia, com o sol brilhando no seu casco metálico e com ele e todos os outros que estavam embarcando, expostos ao Exterior?

      Como seria sentir-se totalmente consciente de um minúsculo mundo cilíndrico, que iria se separar de outro infinitamente maior, ao qual estava temporariamente ligado e que iria então se soltar num Exterior muito maior que qualquer Exterior na Terra, até que depois de um infindável período de Nada iria encontrar outro?...

      Manteve-se tristonho num passo firme, não deixando aparecer nenhuma mudança de expressão... ou pelo menos pensando não ter deixado. Contudo, o robô ao seu lado fê-lo parar.

      - Está doente, senhor? (Não "patrão", apenas "senhor". Era um robô auroreano).

      - Estou bem, rapaz - disse Baley, com voz embargada. - Continuemos.

      Manteve os olhos no chão e não tornou a erguê-los até sentir a nave projetando-se sobre ele.

      Uma nave auroreana!

      Tinha certeza. Delineada por um refletor quente, pairava enorme, mais graciosa e ainda mais poderosa que as naves solarianas.

      Baley entrou e a comparação beneficiou Aurora. Sua cabina era mais espaçosa que as de dois anos antes: mais luxuosa, mais confortável.

      Sabia exatamente o que estava para acontecer e despiu-se sem hesitação (Talvez as roupas fossem desintegradas por tochas de plasma. com certeza não as teria de volta quando retornasse à Terra... se retornasse. Não as recebera da primeira vez).

      Não usaria outras roupas até ter sido banhado, examinado, medicado e tomado uma injeção. Quase saudou os humilhantes processos que lhe foram impostos. Afinal de contas, serviriam para alienar sua mente do que ia ter lugar. Mal tomou conhecimento da aceleração inicial e mal teve tempo para pensar no instante da saída da Terra e entrada no espaço.

      Novamente vestido, observou os resultados, olhando-se, infeliz, num espelho. O tecido, fosse qual fosse, era macio, refletia e mudava de cor com qualquer alteração de ângulo. As pernas das calças eram justas nos tornozelos, sendo, por sua vez, cobertas pela parte de cima do calçado, que se adaptava maciamente aos pés. As mangas da blusa apertavam os pulsos e as mãos estavam cobertas por luvas finas e transparentes. A gola da blusa envolvia seu pescoço e tinha um capuz preso a ela que, se Baley quisesse, podia cobrir-lhe a cabeça. Estava sendo assim coberto não para seu próprio conforto, pensou, mas para reduzir o perigo que representava para os Espaciais.

      Pensou, logo que olhou para a indumentária, que iria sentir-se desconfortavelmente encerrado, aquecido e suado. Mas não. Para seu enorme alívio, não sentiu nem mesmo suor.

      Fez uma dedução compreensível. Virou-se para o robô que tinha caminhado com ele até à nave e ainda permanecia ali:

      - Rapaz, estas roupas são termocontroladas?

      - De fato são, senhor - respondeu o robô. - É um tecido para todas as estações e considerado muito aceitável. É também caríssimo. Poucos auroreanos têm condições de usá-lo.

      - É mesmo? Jehoshaphat!

      Olhou para o robô. Era um modelo bastante primitivo, não muito diferente dos da Terra, na verdade. Contudo, havia uma certa sutileza na expressão, que faltava aos robôs terráqueos. Por exemplo, aquele podia mudar de expressão, de uma forma limitada. Tinha esboçado um sorriso quando comunicou a Baley que este recebeu o que poucos em Aurora podiam se permitir.

      A estrutura do seu corpo parecia de metal e no entanto tinha a aparência de uma coisa tecida, que se modificava levemente com o movimento, uma coisa com cores que combinavam e contrastavam agradavelmente. Em suma, a menos que fosse examinado cuidadosamente e muito de perto, o robô, embora decididamente não-humaniforme, parecia estar usando roupas.

      - Como devo chamá-lo, rapaz? - perguntou Baley.

      - Sou Giskard, senhor.

      - R. Giskard?

      - Se quiser, senhor.

      - Há uma biblioteca nesta nave?

      - Sim, senhor.

      - Pode me arranjar livros-filmes sobre Aurora?

      - De que espécie, senhor?

      - Político-históricos, geográfico-científicos... tudo o que me facilite o conhecimento do planeta.

      - Sim, senhor.

      - E um visor.

      - Sim, senhor.

      O robô saiu pela porta de dois batentes e Baley balançou a cabeça, triste. Em sua viagem a Solaria, nunca lhe ocorreu passar o tempo disponível de travessia do espaço aprendendo alguma coisa útil. Tinha progredido um pouco nos últimos dois anos.

      Experimentou a porta pela qual o robô tinha acabado de sair. Estava trancada e firme. Qualquer outra coisa o teria deixado espantadíssimo.

      Examinou a cabina. Havia uma tela de hiperonda. Mexeu nos botões ao acaso, recebeu uma explosão de música, procurou finalmente abaixar o volume e ouviu, com ar desaprovador.

      Confusa e dissonante. Os instrumentos da orquestra pareciam vagamente desafinados.

      Tocou em outros botões e finalmente procurou mudar a imagem. Viu um jogo de futebol espacial, que se desenrolava evidentemente sob condições de gravidade zero. A bola voava em linha reta e os jogadores (muitos deles, de cada lado, com barbatanas nas costas, cotovelos e joelhos, que deviam servir para dirigir os movimentos) pairavam em volteios graciosos. Os movimentos estranhos fizeram Baley ficar tonto. Inclinou-se para a frente e tinha acabado de descobrir o interruptor quando ouviu a porta abrir-se às suas costas. Virou-se e, uma vez que só esperava ver R. Giskard, percebeu apenas tratar-se de alguém que não era o robô. Levou um pouco mais de um momento para perceber que estava vendo uma figura completamente humana, com um rosto largo e de maçãs salientes e cabelos castanhos curtos, penteados para trás, alguém vestido com roupas de padrões e cores convencionais.

      - Jehoshaphat! - disse, com voz meio estrangulada.

      - Colega Elijah - respondeu o outro, entrando, com um sorriso grave no rosto.

      - Daneel! - gritou Baley, abraçando fortemente o robô. - Daneel!

 

      Baley continuou a abraçar Daneel, a única coisa familiar inesperada na espaçonave, a única forte ligação com o passado. Manteve-se agarrado em Daneel, numa efusão de alívio e afeto.

      Então, pouco a pouco, reuniu seus pensamentos e viu que abraçava não Daneel, mas R. Daneel, o Robô Daneel Olivaw. Apertava contra si um robô que lhe correspondia, permitindo ser abraçado, considerando que esse comportamento dava prazer a um ser humano e suportava esse gesto porque os potenciais positrônicos do seu cérebro

      tornavam impossível repelir o abraço e assim desapontar e embaraçar o ser humano.

      A insuperável Primeira Lei da Robótica estabelece: "Um robô não pode causar dano a um ser humano"... e repelir um gesto amistoso causaria dano.

      Devagar, a fim de não revelar nenhum sinal da sua tristeza, Baley afastou-se. Chegou até a apertar os braços do robô para que não parecesse envergonhado disso.

      - Não o vejo, Daneel - disse Baley - desde que levou aquela nave para a Terra, junto com aqueles dois matemáticos. Lembra?

      - Lembro muito bem. Colega Elijah. É um prazer vê-lo.

      - Você sente emoção, não é? - perguntou Baley, despreocupadamente.

      - Não sei dizer o que sinto, Colega Elijah. Contudo, posso dizer que vê-lo faz com que meus pensamentos fluam com mais facilidade e que a pressão gravitacional no meu corpo parece atacar meus sentidos com menos insistência, além de outras mudanças que posso identificar. Imagino que o que sinto corresponde de certa forma ao que você sente quando tem prazer. Baley balançou a cabeça.

      - O que quer que experimente quando me vê, velho colega, é preferível ao que sente quando não me vê, e isso me convém bastante... se acompanha meu pensamento. Mas como está aqui?

      - Giskard Reventlov, tendo comunicado que você... - disse R. Daneel, fazendo uma pausa.

      - Estava purificado? - perguntou Baley, irônico.

      - Desinfetado - retrucou R. Daneel. - Então achei que podia entrar.

      - No entanto, você certamente não teme infecções?

      - De fato, Colega Elijah, mas outros nesta nave poderiam, do contrário, sentir-se mal com a minha aproximação. Os habitantes de Aurora são sensíveis à possibilidade de infecções, às vezes muito além de uma estimativa racional de probabilidades.

      - Compreendo, mas a minha pergunta não é por que você está aqui neste momento, mas sim, por que você está aqui.

      - O Dr. Fastolfe, de cujo estabelecimento faço parte, colocou-me a bordo da nave que foi buscá-lo, por vários motivos. Ele achou aconselhável que você ficasse logo à vontade no que ia ser certamente uma difícil missão para você.

      - Foi muito gentil da parte dele. Agradeço-lhe. R. Daneel inclinou-se gravemente, em retribuição.

      - O Dr. Fastolfe também achou que o encontro me daria... - o robô fez uma pausa - sensações adequadas.

      - Você quer dizer prazer, Daneel.

      - Desde que me seja permitido usar a expressão, sim. E como terceiro motivo, e o mais importante...

      A porta tornou a abrir-se nesse instante e R. Giskard entrou.

      Baley virou a cabeça e sentiu uma onda de aborrecimento. Não havia dúvida de que R. Giskard, com sua presença, acentuava de certa forma o robotismo de Daneel.

      Daneel, tornou Baley a pensar subitamente, embora este fosse muito superior ao outro. Baley não queria que a condição robótica de Daneel fosse acentuada, ele não queria humilhar-se por sua incapacidade de olhar Daneel de outra forma que não a de um ser humano com uma linguagem um tanto afetada.

      - Que é, rapaz? - perguntou, com impaciência.

      - Eu trouxe os livros-filmes que pediu - respondeu R. Giskard - e também o visor, senhor.

      - Bem. deixe-os aí. Deixe-os aí... e não precisa ficar. Daneel estará aqui comigo.

      - Sim, senhor.

      Os olhos do robô - brilhando levemente, como notou Baley, mas Daneel não. - viraram-se rapidamente para R. Daneel, como que esperando ordens de um superior.

      - Será apropriado, amigo Giskard, ficar do lado de fora da porta - disse Daneel, calmamente.

      - Ficarei, amigo Daneel - falou R. Giskard. Saiu e Baley disse, meio aborrecido:

      - Por que ele deve ficar do outro lado da porta? Estou preso?

      - No sentido de que não lhe é permitido misturar-se com a tripulação da nave no decorrer desta viagem, lamento ser forçado a dizer que é de fato prisioneiro - respondeu

      R. Daneel. - Contudo, este não é o motivo da presença de Giskard... E agora devo dizerlhe que será aconselhável não se dirigir, Colega Elijah, a Giskard, ou a qualquer robô, como rapaz.

      - Ele ofende-se com a palavra? - perguntou Baley, com ar de espanto.

      - Giskard não se ofende com nenhuma ação de um ser humano. Simplesmente, "rapaz" não é um termo usado habitualmente em Aurora para se falar com robôs e seria desaconselhável criar atrito com os auroreanos, salientando sem intenção sem lugar de origem com hábitos de linguagem não essenciais.

      - Como devo então chamá-lo?

      - Como se dirige a mim, usando seu nome habitual de identificação. Que significa, afinal de contas, um simples som que identifica a pessoa a quem está se dirigindo e por que um som deve ser preferível a outro? Trata-se meramente de uma convenção. E também é hábito em Aurora referir-se a um robô como "ele", ou eventualmente "ela", em vez de "coisa". Também não é costume em Aurora usar a inicial "R.", exceto em condições formais, quando o nome todo do robô é apropriado... e mesmo assim, atualmente, é com freqüência omitida.

      - Nesse caso... Daneel - Baley reprimiu o súbito impulso de dizer "R. Daneel" - como você distingue entre robôs e seres humanos?

      - A distinção é normalmente evidente, Colega Elijah. Não parece haver necessidade de acentuá-la desnecessariamente. É pelo menos o ponto de vista auroreano, e já que pediu a Giskard filmes sobre Aurora, presumo que deseja familiarizar-se com as coisas auroreanas, como uma ajuda à tarefa que empreendeu.

      - A tarefa que me foi imposta, sim. E se a diferença entre robô e ser humano não for evidente, Daneel? Como no seu caso?

      - Então, para que fazer a distinção, a menos que a situação seja tal que se torne essencial fazê-la?

      Baley respirou fundo. Ia ser difícil adaptar-se àquele fingimento auroreano de que os robôs não existem.

      - Mas então - comentou - se Giskard não está aqui para me conservar prisioneiro, por que fica aí fora da porta?

      - Ele cumpre ordens do Dr. Fastolfe, Colega Elijah. Giskard foi incumbido de protegê-lo.

      - Me proteger? Contra o quê?... Ou contra quem?

      - O Dr. Fastolfe não foi claro nesse ponto, Colega Elijah. Contudo, como as paixões humanas estão exacerbadas no caso de Jander Panell...

      - Jander Panell?

      - O robô cuja utilidade foi terminada.

      - Em outras palavras, o robô que foi morto?

      - Morto, Colega Elijah, é uma palavra normalmente aplicada a seres humanos.

      - Mas em Aurora, as diferenças entre robôs e seres humanos são evitadas, não?

      - Claro que sim! Não obstante, a possibilidade de diferença ou não no caso particular do término de funcionamento nunca foi levantada... que eu saiba. Não sei quais as regras.

      Baley meditou sobre o assunto. Era um ponto sem importância, apenas uma questão de semântica. Todavia, queria experimentar a forma de pensar dos auroreanos. De outro modo, não chegaria a lugar nenhum.

      - Um ser humano funcionando está vivo - ponderou calmamente. - Se essa vida for violentamente interrompida pela ação deliberada de outro ser humano, chamamos a isso "assassinato" ou "homicídio". "Assassinato" é uma palavra forte demais. Ao testemunhar subitamente uma violenta tentativa de pôr fim à vida de um ser humano, pode-se gritar "Assassinato"! Não é absolutamente a mesma coisa que gritar "Homicídio"! É uma palavra mais formal, menos emocional.

      - Não compreendo a distinção que procura fazer, Colega Elijah - retrucou R. Daneel. - Uma vez que "assassinato" e "homicídio" são palavras usadas para significar o fim violento da vida de um ser humano, as duas podem ser permutáveis. Onde então a diferença?

      - Das duas, Daneel, uma, gritada, gelará mais eficientemente o sangue de um ser humano que a outra.

      - Por quê?

      - Conotações e associações, o efeito sutil, não o significado no dicionário, mas anos de uso, a natureza das frases, condições e acontecimentos em que alguém experimentou o emprego de uma palavra, comparada com o da outra.

      - Nada disso consta de minha programação - respondeu Daneel, com um curioso tom de desânimo pairando sobre a evidente falta de emoção com que se exprimiu (a mesma com que dizia tudo).

      - Você aceita meu argumento, Daneel? - perguntou Baley. Daneel retrucou rapidamente, quase como se acabasse de estar diante da solução de um quebra-cabeça.

      - Sem dúvida.

      - Bem, então podemos dizer que um robô que está funcionando está vivo - falou Baley. - Muitos recusarão dar um sentido tão lato à palavra, mas estamos à vontade para procurar definições que nos convenham, se forem úteis. É fácil tratar um robô funcionando como vivo e será desnecessariamente complicado procurar inventar uma palavra nova para a condição ou evitar o uso de uma familiar. Por exemplo, você está vivo, Daneel?

      Sem pressa e pausadamente, Daneel respondeu:

      - Estou funcionando!

      - Ora, se um esquilo, um besouro, uma árvore ou uma folha de relva estão vivos, por que você não estará? Nunca me ocorreria dizer, ou pensar, que estou vivo, mas que você está apenas funcionando, especialmente se devo passar um tempo em Aurora, onde deverei procurar tornar desnecessária as distinções entre um robô e eu mesmo.

      Portanto, digo-lhe que estamos ambos vivos e peço-lhe que aceite minha palavra como verdadeira.

      - Assim farei. Colega Elijah.

      - E também podemos dizer que o término da vida robótica pela deliberada ação violenta de um ser humano é também "assassinato"? Podemos hesitar. Se o crime é o mesmo, o castigo também deve ser, porém estaria certo? Se o castigo pelo assassinato de um ser humano é a morte, pode-se realmente executar um ser humano que pôs fim a um robô?

      - O castigo de um assassino é a psicossondagem, Colega Elijah, seguida da construção de uma nova personalidade. Foi a estrutura pessoal da mente quem cometeu o crime, não a vida do corpo.

      - E qual é o castigo em Aurora por dar um fim violento ao funcionamento de um robô?

      - Não sei, Colega Elijah. Tal incidente jamais aconteceu em Aurora, até onde posso saber.

      - Desconfio que o castigo não será psicossondagem - disse Baley. - Que tal "roboticídio"?

      - Roboticídio?

      - Como a palavra usada para descrever o assassinato de um robô.

      - Mas que tal o verbo derivado do substantivo, Colega Elijah? , Ninguém jamais diz "homicidar" e portanto não seria próprio dizer - "roboticidar".

      - Tem razão. Teria de dizer "assassinar" em cada caso.

      - Mas assassinar aplica-se especificamente a seres humanos. Por exemplo, ninguém assassina um animal.

      - É verdade - retrucou Baley. - Como também ninguém assassina um ser humano acidentalmente e sim deliberadamente. O termo mais generalizado é "matar". Ele é tanto aplicado para morte acidental como para assassinato deliberado... e aplica-se a animais e seres humanos. Mesmo uma árvore pode ser morta por doença, e assim, por que um robô não pode ser morto, hem, Daneel?

      - Os seres humanos e outros animais e plantas também, Colega Elijah, são todos coisas vivas - respondeu Daneel. - O robô é um artefato humano, tanto quanto este visor. Um artefato é "destruído", "estragado", "demolido", etc. Nunca é "morto".

      - Mesmo assim, Daneel, direi "morto". Jander Panell foi morto.

      - Por que deve uma diferença num vocábulo fazer diferença à coisa descrita? - retrucou Daneel.

      - Qualquer nome que se dê a uma rosa, seu bom perfume continua sendo o mesmo. Não é isso, Daneel?

      O robô fez uma pausa e depois disse:

      - Não sei bem o que é o perfume de uma rosa, porém se esta, na Terra, é a flor comum assim chamada em Aurora e por seu "perfume" você quer se referir a uma propriedade  dela que pode ser detectada, sentida ou medida por seres humanos, então certamente chamar uma rosa por outra combinação de sons e conservando o resto igual, não afetará o perfume ou qualquer de suas outras propriedades intrínsecas.

      - É verdade. No entanto, mudanças de nome resultam em modificações da percepção no que toca aos seres humanos.

      - Não vejo como, Colega Elijah.

      - Porque os seres humanos são freqüentemente ilógicos, Daneel. Não é uma característica que mereça admiração.

      Baley acomodou-se melhor em sua cadeira, manipulando o visor e permitindo que sua mente, durante uns minutos, se concentrasse em pensamentos particulares. A discussão  com Daneel era em si útil, pois enquanto Baley brincava com um jogo de palavras, procurava esquecer que estava no espaço, que a nave prosseguia viagem até ficar  bastante afastada dos centros habitados do Sistema Solar para dar o Salto no hiperespaço, para esquecer que, breve, estaria a milhões de quilômetros de distância  da Terra, e não muito depois a vários anos-luz.

      Ainda mais importante, havia conclusões positivas a serem tiradas. Era claro que a conversa de Daneel sobre os auroreanos não fazerem diferença entre robôs e seres  humanos era enganadora. Os auroreanos podiam virtuosamente retirar a inicial "R.", abolir o uso de "rapaz" como forma de se dirigir aos robôs e de "coisa" costumeiramente,  mas da resistência de Daneel a usar a mesma palavra para os fins violentos de um robô e de um ser humano (resistência inerente à sua programação, que era, por sua  vez, a conseqüência natural das pretensões auroreanas de como Daneel devia se comportar), devia-se concluir que tudo não passava de mudanças superficiais. Em essência,  os auroreanos eram tão decididos quanto os terráqueos na sua crença de que os robôs eram máquinas infinitamente inferiores aos seres humanos.  Esse aspecto significava que sua formidável tarefa de encontrar uma útil resolução da crise (se isso afinal fosse possível), não seria dificultada por, pelo menos,  uma incompreensão especial da sociedade auroreana.

      Baley pensou se devia interrogar Giskard, para confirmar as conclusões que tirou dessa conversa com Daneel... mas, sem grande hesitação, resolveu que não. A mente  simples e pouco sutil de Giskard não seria útil. No fim, se limitaria a "Sim, senhor", "Não, senhor". Era como interrogar um gravador.

      Pois muito bem, resolveu Baley, continuaria com Daneel, que pelo menos era capaz de reagir favoravelmente a um toque sutil. Dirigiu-se ao robô:

      - Daneel, examinemos o caso de Jander Panell que presumo ser, pelo que você expôs até agora, a primeira ocorrência de roboticídio na história de Aurora. O ser humano responsável, o matador, até agora não foi descoberto.

      - Se considerarmos que foi um ser humano o responsável, sua identidade é desconhecida. Nisso você tem razão, Colega Elijah.

      - E quanto ao motivo? Por que Jander Panell foi morto?

      - Isso também não é sabido.

      - Mas Jander Panell era um robô humaniforme, alguém como você e não como, por exemplo, R. Gis... quero dizer, Giskard.

      - Isso é verdade. Jander era tão humaniforme quanto eu.

      - Não pode ser então que tenha sido tentado um roboticídio?

      - Não compreendo, Colega Elijah. Baley prosseguiu, meio impaciente:

      - O matador não pode ter pensado que Jander era um ser humano, sendo a intenção um homicídio e não roboticídio?

      Daneel sacudiu a cabeça devagar.

      - Os robôs humaniformes são em aparência semelhante aos seres humanos, Colega Elijah, nos cabelos e poros da pele. Nossas vozes são inteiramente naturais, podemos  fazer os gestos de mastigação e tudo o mais. Porém, há diferenças perceptíveis em nosso comportamento. Essas diferenças poderão diminuir com o tempo e com o aprimoramento  técnico, mas por enquanto são muitas. Você e outros terráqueos não habituados com robôs humaniformes podem não notar facilmente essas diferenças, mas os auroreanos  distinguem. Nenhum auroreano confundiria Jander, ou a mim, com um ser humano em momento algum.

      - Poderia um outro Espacial não auroreano cometer um engano?

      Daneel hesitou.

      - Acho que não. Não estou falando em conseqüência de observação pessoal ou por conhecimento programado diretamente, mas estou programado para saber que todos os  mundos dos Espaciais estão tão intimamente familiarizados com os robôs quanto Aurora. Alguns, como Solaria, até mais, e portanto deduzo que nenhum Espacial deixaria  de ver a diferença entre humanos e robôs.

      - Há robôs humaniformes nos outros mundos Espaciais?

      - Não, Colega Elijah, até agora só existem em Aurora.

      - Então outros Espaciais não estão intimamente familiarizados com robôs humaniformes e podem muito bem não perceber as diferenças e confundi-los com seres humanos.

      - Não creio que isso seja provável. Mesmo os robôs humaniformes se portariam de maneira robótica em certos momentos, que qualquer Espacial reconheceria.

      - E com certeza há Espaciais que não são tão inteligentes, experientes nem maduros como a maioria. Há crianças Espaciais, quando mais não seja, que não fariam a distinção.

      - Certamente, Colega Elijah, que o... roboticídio... não foi cometido por alguém não-inteligente, inexperiente nem jovem. Absolutamente.

      - Estamos procedendo a exclusões. ótimo. Se nenhum Espacial deixasse de ver a diferença, que tal um terráqueo? É possível que...

      - Colega Elijah, quando chegar em Aurora, você será o primeiro terráqueo a pôr o pé no planeta, desde que terminou o período original de colonização. Todos os auroreanos  vivos atualmente nasceram em Aurora ou, em alguns poucos casos, em outros mundos Espaciais.

      - O primeiro terráqueo - murmurou Baley. - Estou honrado. Um terráqueo pode estar presente em Aurora sem o conhecimento dos auroreanos?

      - Não! - respondeu Daneel, com tranqüila convicção.

      - Você pode não ter, Daneel, conhecimento absoluto.

      - Não! - reafirmou o robô, no mesmo tom da primeira negativa.

      - Conclui-se, portanto - disse Bailey, com um encolher de ombros - que o roboticídio foi tentado para ser roboticídio e nada mais.

      - Foi essa a conclusão, desde o início.

      - Os auroreanos que concluíram assim desde o princípio - disse Baley - tinham todas as informações para começar. Eu as estou obtendo agora pela primeira vez.

      - Meu comentário, Colega Elijah, não teve propósito pejorativo. Seria não reconhecer sua capacidade.

      - Obrigado, Daneel. Sei que não houve menosprezo em seu comentário... Você disse há pouco que o roboticídio não foi cometido  por alguém não inteligente, inexperiente ou jovem e isso está absolutamente certo. Examinemos seu comentário...  Baley sabia que estava indo pelo caminho mais longo. Precisava. Considerando sua falta de compreensão dos métodos e maneiras de pensar dos auroreanos, não podia  permitir-se tirar conclusões precipitadas. Se estivesse às voltas com um ser humano inteligente, essa pessoa provavelmente ficaria impaciente e deixaria escapar  informações... além de considerar Baley um idiota na troca. Daneel, contudo, como robô, acompanharia Baley pacientemente pela estrada sinuosa.

      Esse era um tipo de comportamento que identificava Daneel como robô, por mais humaniforme que fosse. Um auroreano podia ser capaz de considerá-lo robô pela simples resposta a uma pergunta banal. Daneel tinha razão quanto às diferenças sutis.

      - Podemos - disse Baley - eliminar crianças, a maioria das mulheres e também muitos homens adultos, pela presunção de que o método do roboticídio exigiu grande força: que a cabeça de Jander foi talvez esmagada por um golpe violento ou que seu peito foi arrebentado. Imagino que isso não seria fácil para alguém que não fosse um ser humano especialmente grande e forte.

      Pelo que Demachek tinha dito na Terra, Baley sabia que o roboticídio não tinha sido cometido dessa forma, mas como poderia ele dizer que a própria Demachek não tinha se enganado?

      - Não seria absolutamente possível para nenhum ser humano - afirmou Daneel.

      - Por quê?

      - Certamente, Colega Elijah, você sabe que o esqueleto robótico é de natureza metálica e muito mais forte que os ossos humanos. Nossos movimentos são mais fortemente motorizados, rápidos e mais delicadamente comandados. A Terceira Lei da Robótica estabelece: "Um robô deve proteger sua própria existência." O ataque de um ser humano pode facilmente ser rechaçado. O humano mais forte pode ser imobilizado. Nem é provável que um robô seja apanhado desprevenido. Estamos sempre conscientes da presença dos seres humanos. De outra forma, não poderíamos preencher nossas funções.

      - Ora, vamos, Daneel - disse Baley. - A Terceira Lei estabelece: "Um robô deve proteger sua própria existência, desde que essa proteção não entre em conflito com  a Primeira Lei." E esta determina: "Um robô não pode causar dano a um ser humano ou, pela inação, permitir que um ser humano seja ferido." Um ser humano  pode ordenar a um robô que se destrua... e o robô terá então de usar toda a sua vontade para esmagar o próprio crânio. E se um ser humano atacar um robô, este  não pode rechaçar o ataque sem causar dano ao ser humano, o que violaria a Primeira Lei.

      - Você, suponho, está pensando nos robôs da Terra - replicou Daneel. - Em Aurora, ou em quaisquer dos mundos Espaciais, os robôs são olhados com mais consideração  que na Terra, e em geral são mais complexos, versáteis e valiosos. A Terceira Lei é evidentemente mais forte em comparação com a Segunda nos Mundos Espaciais do  que na Terra. Uma ordem de autodestruição será discutida e precisaria haver um motivo realmente legítimo para ser executada: um perigo claro e imediato. E rechaçando  um ataque, a Primeira Lei não seria violada, pois os robôs auroreanos são bastante ágeis para imobilizar um ser humano sem machucá-lo.

      - Suponha porém que um ser humano considere que, a menos que o robô não se destrua, ele, o ser humano, será destruído? O robô então não se destruiria?

      - Um robô auroreano certamente poria em dúvida uma simples declaração com esse efeito. Teria de haver uma prova clara da possibilidade de destruição do ser humano.

      - Um ser humano não poderia ser bastante sutil para conseguir provas de modo a levar um robô a pensar que aquele ser humano estava mesmo em perigo? É essa espécie  de esperteza que seria necessária para levar você a eliminar os inexperientes, não-inteligentes e jovens?

      Mas Daneel respondeu:

      - Não, Colega Elijah, não é.

      - Há algum erro no meu raciocínio?

      - Nenhum.

      - Então o erro pode estar na minha suposição de que ele foi fisicamente afetado. E isso, na realidade, não aconteceu. Não é?

      - É, Colega Elijah.

      Isso significava, pensou Baley, que Demachek tinha ido direto aos fatos.

      - Nesse caso, Daneel, Jander foi mentalmente estragado. Robloqueio! Total e irreversível!

      - Robloqueio?

      - Abreviação para bloqueio-robótico, a queda permanente do funcionamento das vias positrônicas.

      - Em Aurora não usamos a palavra "rebloqueio", Colega Elijah.

      - Usam o quê?

      - Dizemos "congelamento mental".

      - Em outras palavras, é a descrição do mesmo fenômeno.

      - Será melhor, Colega Elijah, que use nossa expressão ou os auroreanos poderão não entendê-lo e a conversa se tornará impossível. Você afirmou há pouco que palavras diferentes fazem diferença.

      - Muito bem. Direi "congelamento mental"... Esse fenômeno pode ocorrer espontaneamente?

      - Pode, mas as possibilidades são infinitamente pequenas, dizem os roboticistas. Como robô humaniforme, posso declarar que jamais experimentei algum efeito que se aproximasse do congelamento mental.

      - Então pode-se concluir que um ser humano criou deliberadamente uma situação na qual ocorreu uma congelamento mental.

      - É isso precisamente o que a oposição ao Dr. Fastolfe sustenta, Colega Elijah.

      - E visto que isso exige treino robótico, experiência e habilidade, os não-inteligentes, inexperientes e jovens não podem ser responsáveis.

      - É esse o raciocínio natural, Colega Elijah.

      - Será possível relacionar o número de humanos em Aurora com suficiente capacidade e assim reunir um grupo de suspeitos não muito numerosos?

      - Isso na realidade já foi feito, Colega Elijah.

      - E qual a extensão da lista?

      - A mais extensa contém apenas um nome.

      Foi a vez de Baley fazer uma pausa. Suas sobrancelhas juntaram-se num franzir zangado e ele perguntou, arrebatadamente:

      - Apenas um nome?

      - Apenas um, Colega Elijah - reafirmou Daneel calmamente. - É essa a opinião do Dr. Fastolfe, o maior teórico roboticista de Aurora.

      - Mas então onde está o mistério? Que nome é esse?

      - Ora, o do Dr. Han Fastolfe, claro - retrucou R. Daneel. - Acabo de afirmar que ele é o maior roboticista teórico de Aurora, e na sua opinião como profissional,  ele é o único que possivelmente teria levado Jander Panell a um completo congelamento mental sem  deixar vestígio de como o fez. Contudo, o Dr. Fastolfe também afirma que não foi ele.

      - Mas que também ninguém mais podia ter feito?

      - De fato, Colega Elijah. Aí repousa o mistério.

      - E se o Dr. Fastolfe... - Baley fez uma pausa.

      Não ia adiantar perguntar a Daneel se o Dr. Fastolfe estava mentindo ou tinha-se enganado, uma vez que em sua própria opinião só ele podia ter sido o autor ou, segundo  sua própria declaração, não foi ele. Daneel tinha sido programado por Fastolfe e não havia possibilidade de que na programação estivesse incluída a capacidade de  duvidar do programador.

      Baley prosseguiu, contudo, usando um tom o mais humilde possível:

      - Vou pensar a respeito, Daneel, e depois conversaremos.

      - Isso é bom, Colega Elijah. Além do mais, está na hora de dormir. Já que é possível a pressão dos acontecimentos em Aurora forçá-lo a um horário irregular, será  de bom aviso aproveitar a oportunidade e dormir agora. Vou lhe mostrar como se arranja uma cama e como as cobertas são usadas.

      - Obrigado, Daneel - murmurou Baley.

      Não tinha a menor dúvida de que o sono viria facilmente. Estava sendo enviado a Aurora para o fim específico de demonstrar que Fastolfe era inocente do roboticídio  - e seu sucesso era exigido para que continuasse a segurança da Terra e (muito menos importante, mas igualmente caro ao coração de Baley) para o prosseguimento em  ascensão da carreira dele - porém, mesmo antes de chegar a Aurora, já havia descoberto que Fastolfe tinha virtualmente confessado o crime.

 

      Baley dormiu... finalmente, depois de Daneel lhe ter mostrado como reduzir a intensidade do campo que servia como uma forma de pseudogravidade. Não era uma verdadeira  antigravidade e consumia tanta energia que o processo só podia ser usado em horas restritas e sob condições extraordinárias.

      Daneel não estava programado para ser capaz de explicar como aquilo funcionava, mas se estivesse, Baley tinha certeza de que não o teria entendido. Felizmente, os  comandos podiam ser operados sem nenhum conhecimento de explicações científicas.

      - A intensidade do campo - disse Daneel - não pode ser reduzida a zero... pelo menos com esses comandos. Em todo caso, dormir sob gravidade zero não é confortável,  principalmente para os não habituados às viagens espaciais. O que se precisa é uma intensidade bastante baixa para se ter a sensação de liberdade da pressão do próprio  peso, porém suficientemente alta para manter uma orientação alto-baixo. O nível varia de acordo com o indivíduo. A maioria das pessoas irá sentir-se mais confortável  na intensidade mínima permitida pelo comando, mas você descobrirá que, da primeira vez, desejaria uma intensidade maior, de forma a poder manter a familiaridade  da sensação de peso numa extensão relativamente maior. Experimente apenas os diversos níveis e descubra o que serve.  Perdido na novidade da sensação, a mente de Baley começou a se afastar do problema da afirmação/negação de Fastolfe, como se seu corpo se afastasse da insônia. Talvez  os dois fossem parte do mesmo processo.

      Sonhou que estava de volta à Terra (claro), dentro de um Caminho Expresso, mas não sentado. Em vez disso, flutuava ao lado da faixa de alta velocidade, logo acima  da cabeça dos passageiros, um pouco mais rápido que eles. Ninguém na faixa ficou surpreso nem olhou para ele. Era uma sensação bem agradável e sentiu falta ao acordar.

      Depois do desjejum, na manhã seguinte... Era mesmo manhã? Podia haver manhã - ou outra hora do dia - no espaço?

      Era evidente que não. Pensou um momento e resolveu que chamaria manhã a hora de levantar e o desjejum como a refeição comida após acordar, abandonando os horários  convencionais como objetivamente não importantes. Se não para a nave, para ele, pelo menos.

      Depois do desjejum, portanto, na manhã seguinte, examinou as folhas de notícias que lhe eram oferecidas apenas o tempo suficiente para ver que nada diziam do roboticídio  em Aurora e depois passou a ocupar-se dos livros-filmes que lhe foram levados no dia anterior ("período acordado"?) por Giskard.  Escolheu os que pareciam históricos pelos títulos, e depois de vê-los com vários graus de pressa, compreendeu que Giskard lhe levara livros para adolescentes. Eram  profusamente ilustrados e escritos com simplicidade. Ficou imaginando se aquilo era o que Giskard pensava de sua inteligência... ou talvez de suas necessidades.

      Após considerar um pouco, Baley achou que Giskard, em sua inocência robótica, tinha escolhido bem e não fazia sentido meditar sobre um possível insulto.

      Acomodou-se para ver com a maior concentração e reparou imediatamente que Daneel estava olhando o livro-filme com ele. Curiosidade real? Ou apenas para manter os olhos ocupados?

      Daneel nenhuma vez deteve-se para repetir a página. Nem parou para fazer perguntas. Presumivelmente, apenas aceitou o que lia com confiança robótica e não se permitiu  o luxo da dúvida ou da  curiosidade.  Baley não fez perguntas a Daneel sobre o que estava lendo, embora tenha pedido instruções sobre o funcionamento do mecanismo de reprodução do visor auroreano, que  não lhe era familiar.

      De vez em quando, Baley parava para usar o quartinho ligado ao seu, que podia ser usado para várias funções fisiológicas privadas, tão privadas que era denominado  "o Pessoal", com a letra maiúscula indicativa tanto na Terra como - Baley descobriu quando Daneel se referiu a ele - em Aurora. Dava exatamente para uma pessoa... o que espantaria um habitante de City, acostumado a fileiras de mictórios, latrinas, banheiras e chuveiros.

      Ao ver os livros-filmes. Baley não procurou decorar detalhes. Não tinha a intenção de se tornar especialista na sociedade auroreana, nem mesmo de submeter-se a uma  prova numa escola superior sobre o assunto. Em vez, queria sentir.  Notou, por exemplo, mesmo através da atitude hagiográfica de historiadores escrevendo para jovens, que os pioneiros auroreanos - os fundadores, os terráqueos que  foram os primeiros a colonizar Aurora, nos dias primitivos das viagens estelares - se caracterizavam por serem muito terráqueos. Sua política, seus conflitos, cada  faceta do seu comportamento tinham sido terrestres, o que aconteceu em Aurora lembrava, de certa forma, o que ocorreu quando setores relativamente vazios da Terra  foram colonizados havia alguns milhares de anos.

      Claro, os auroreanos não encontraram vida inteligente para combater, nem organismos para confundir os invasores terráqueos com problemas de tratamento, humano ou  cruel. Na verdade, havia uma pequena vida preciosa de toda espécie. Portanto, o planeta foi rapidamente colonizado por seres humanos, por suas plantas e animais  domésticos, e pelos parasitas e outros organismos que tinham viajado juntos, por acaso. E, claro, os colonizadores levaram robôs.

      Os primeiros auroreanos rapidamente sentiram que o planeta seria deles, uma vez que caíra em seu colo sem luta e denominaram o planeta Terra Nova, inicialmente.

      Era natural, visto ser o primeiro planeta extra-solar - o primeiro mundo Espacial - a ser colonizado. Foi o primeiro fruto da viagem interestelar, a primeira aurora  de uma imensa nova era. Rapidamente, cortaram o cordão umbilical e rebatizaram o planeta de Aurora, nome da deusa romana do alvorecer.

      Tornou-se o Mundo do Amanhecer. E os colonizadores declararam-se conscientemente desde o começo antepassados de uma nova espécie. Toda a história anterior da humanidade  foi uma Noite negra e só para os auroreanos desse mundo novo o Dia finalmente surgiu.

      Foi esse grande fato, esse grande auto-elogio que se impôs sobre todos os detalhes: todos os nomes, datas, vencedores, perdedores. Era o essencial.  Outros mundos foram colonizados, alguns pela Terra, alguns por Aurora, porém Baley não prestou atenção a isso nem a nenhum dos detalhes. Procurou a largas pinceladas  e reparou nas duas mudanças maciças que ocorreram, fazendo os auroreanos se afastarem cada vez mais das suas origens terráqueas. Foram: primeiro, a crescente integração  dos robôs a cada faceta da vida e, segundo, a extensão da expansão da vida.

      A medida que os robôs ficavam mais avançados e versáteis, os auroreanos se tornavam mais dependentes deles. Mas não irremediavelmente desamparados. Não como o mundo  de Solaria, lembrou Baley, onde um pequeno número de seres humanos estava no útero coletivo de grande quantidade de robôs. Aurora não era assim.  E no entanto ficou mais dependente.

      Olhando como fazia, de maneira intuitiva - por inclinação e generalidade - cada passo no curso da interação homem/robô, parecia entregar-se à dependência. Mesmo  a forma de atingir um consenso de direitos robóticos - a queda gradual de que Daneel chamaria "distinções desnecessárias" - era um sinal de dependência. Para Baley  não parecia que os auroreanos se estivessem tornando mais humanos na sua atitude de uma preferência pelo humano, mas que estava negando a natureza robótica dos objetos,  visando a eliminar o incômodo de serem obrigados a reconhecer o fato de que os seres humanos eram dependentes de objetos de inteligência artificial.

      No que respeitava à extensão da vida, esta era acompanhada de  uma diminuição do passo da história. Os ápices e depressões se nivelavam. Havia uma continuidade e consenso crescentes.

      Não havia dúvida de que a história que estava examinando tornava-se menos interessante à medida que avançava, tornou-se quase soporífica. Para os que a viviam, devia  ser boa. A história era interessante, na medida em que era catastrófica, e apesar de poder ser uma observação absorvente, tornava horrível viver. Sem dúvida, as  vidas individuais continuavam a ser interessantes para a grande maioria de auroreanos, e se a interação coletiva de vidas crescesse tranqüila, quem se incomodaria?

      Se o Mundo do Amanhecer tinha um calmo Dia ensolarado, quem, nele clamaria pela tempestade?

      Em certo instante do decorrer da sua observação, Baley experimentou uma sensação indescritível. Se fosse forçado a tentar uma descrição, diria que tinha havido uma  inversão momentânea. Foi como se tivesse sido virado pelo avesso - e depois voltado ao normal  - no decorrer de uma pequena fração de segundo.

      Foi tão momentâneo que quase não percebeu, ignorando-o apesar de ter sentido um tênue soluço interior.

      Foi talvez apenas um minuto depois, pensando subitamente na sensação, que lembrou ser ela a mesma que sentira duas vezes antes: quando viajou para Solaria e quando  retornou desse planeta para a Terra.

      Foi o "Salto", a passagem pelo hiperespaço, que, num intervalo infinito e ilimitado, envia a nave através dos parsecs e vence o limite de velocidade da luz do Universo.

       Unidade de medida do espaço interestelar, igual a 3,26 anos-luz ou 9.457.702.000.000.000 quilômetros. (N. do T.)

      (Não há mistério nessas palavras, uma vez que a nave apenas deixa o Universo e atravessa uma coisa que não envolve o limite de velocidade. Contudo, é um mistério  total de conceito, pois não há como descrever o que é o hiperespaço, a menos que se use símbolos matemáticos, que, em hipótese alguma, podem ser exprimidos numa  linguagem compreensível).

      Se for aceito o fato de que os seres humanos aprenderam a manipular o hiperespaço sem compreender o que estão manipulando, então o efeito fica claro. Num momento,  um instante, a nave está dentro de microparsecs da Terra e, no instante seguinte, dentro de microparsecs de Aurora.

      Imaginariamente, o Salto leva zero tempo - literalmente zero  - e se for executado com perfeita suavidade, não haverá, não poderá  haver absolutamente, nenhuma sensação biológica. Há físicos, contudo, que afirmam que a suavidade perfeita requer energia infinita e por isso sempre houve  um "tempo efetivo", que não é exatamente zero, embora possa se tornar tão curto quanto o desejado. Foi isso o que provocou aquela estranha e essencialmente inócua  sensação de inversão.

      A súbita percepção de que estava muito longe da Terra e nas vizinhanças de Aurora encheu Baley do desejo de ver o mundo Espacial.

      Em parte, era o desejo de ver o lugar onde as pessoas moravam. Em parte, era a curiosidade natural de ver uma coisa que tinha dominado seus pensamentos, como resultado  dos livros-filmes que estivera vendo.

      Giskard entrou exatamente nessa hora, com a refeição intermediária de acordar e dormir (chame "almoço") e disse:

      - Começamos a nos aproximar de Aurora, senhor, porém não lhe é possível observar essa chegada da ponte. Em todo caso, nada haveria para ver. O sol de Aurora não  é mais que uma estrela brilhante, e ainda se passarão dias antes que estejamos bastante perto do planeta para vermos algum detalhe. - Depois acrescentou, com malícia:

      - Também nessa hora não lhe será permitido ficar na ponte.

      Baley sentiu-se estranhamente envergonhado. Evidentemente, julgaram que ele queria ver e isso foi simplesmente proibido. Sua presença como observador não era desejada.

      - Muito bem, Giskard - retrucou e o robô saiu.

      Baley ficou olhando a saída dele com ar sombrio. Que outras restrições lhe seriam feitas? A improbabilidade de sua tarefa ser completada com sucesso fê-lo imaginar  de quantas maneiras mais os auroreanos iam conspirar para torná-la impossível.

 

Giskard

      Baley virou-se para Daneel e disse:

      - Aborrece-me, Daneel, ter de permanecer aqui como prisioneiro porque os auroreanos a bordo desta nave me temem como uma fonte de infecção. É pura superstição. Fui convidado.

      - Não é por causa do medo auroreano que lhe pedem que fique em sua cabina, Colega Elijah - respondeu Daneel

      - Não? Qual então o motivo?

      - Talvez se lembre que quando nos encontramos pela primeira vez nesta nave você me perguntou os motivos da minha vinda para acompanhá-lo. Respondi que foi para dar-lhe  uma coisa familiar como apoio e para me agradar. Eu ia apresentar-lhe o terceiro motivo, quando Giskard interrompeu-nos trazendo o visor e o material para exame...  depois nos empenhamos numa discussão sobre roboticídio.

      - E nunca me falou do terceiro motivo. Qual é?

      - Ora, Colega Elijah, apenas que eu posso ajudar a protegê-lo.

      - De quê?

      - Surgiram paixões exarcebadas com o incidente que concordamos em chamar roboticídio. Você foi trazido a Aurora para ajudar a demonstrar a inocência do Dr. Fastolfe.

      E o drama da hiperonda...

      - Jehoshaphat, Daneel - disse Baley, ofendido. - Também viram aquela coisa em Aurora?

      - Foi vista em todos os mundos Espaciais, Colega Elijah. Foi o  programa com mais audiência e tornou muito claro que você é o mais extraordinário investigador.

      - Assim, quem estiver por detrás do roboticídio pode ter exagerado os temores do que eu possa conseguir e, conseqüentemente, correr um grande risco para evitar minha chegada... ou matar-me.

      - O Dr. Fastolfe - retrucou Daneel calmamente - está plenamente convencido de que não há ninguém por trás do roboticídio, uma vez que nenhum outro ser humano, além dele, poderia tê-lo executado. Foi um acontecimento puramente fortuito, segundo o Dr. Fastolfe. Contudo, há os que estão procurando tirar proveito da ocorrência, sendo do interesse deles que você não possa prová-lo. É por isso que você tem de ser protegido.

      Baley andou, apressado, de uma ponta a outra da sala, como se pudesse acelerar seus processos mentais com um exemplo físico. De qualquer maneira, não tinha nenhuma sensação de perigo pessoal.

      - Daneel - perguntou - qual o total de robôs humaniformes existentes em Aurora?

      - Quer dizer, agora que Jander não está mais funcionando?

      - Sim, agora que Jander está morto.

      - Um, Colega Elijah.

      Baley olhou, espantado, para Daneel. Sem emitir um som, sua boca formou a palavra: Um? Finalmente, disse:

      - Vamos deixar claro, Daneel. Você é o único robô humaniforme em Aurora?

      - Ou em qualquer mundo, Colega Elijah. Pensei que soubesse disso. Fui o protótipo e em seguida construíram Jander. Depois disso, o Dr. Fastolfe recusou-se a criar mais e ninguém tem competência para isso.

      - Mas nesse caso, uma vez que, de dois robôs humaniformes, um foi morto, não ocorreu ao Dr. Fastolfe que o humaniforme restante - você, Daneel - possa estar em perigo?

      - Ele reconheceu ser isso possível. Mas é remota a possibilidade de que essa ocorrência fantasticamente improvável de congelamento mental aconteça pela segunda vez.

      Não a levou em consideração. Ele sente, todavia, que pode haver a ocorrência de outro infortúnio. O que, suponho, desempenhou um pequeno papel no meu envio à Terra para buscá-lo. A viagem me tira de Aurora por mais ou menos uma semana.

      - E você agora é tão prisioneiro quanto eu,  hem,  Daneel?

      - Sou prisioneiro - retrucou gravemente Daneel - apenas no sentido de que esperam que eu não saia deste recinto, Colega Elijah.

      - E em que outro sentido se é prisioneiro?

      - No sentido de que a pessoa reprimida em seus movimentos ofende-se com a repressão. Uma verdadeira prisão implica ser involuntária. Compreendo perfeitamente o motivo de estar aqui e concordo com sua necessidade.

      - Você concorda - resmungou Baley. - Eu não. Sou prisioneiro no sentido lato da palavra. Afinal de contas, o que nos mantém a salvo aqui?

      - Por alguma coisa, Colega Elijah, Giskard está vigiando lá fora.

      - Ele é bastante inteligente para a tarefa?

      - Ele compreende perfeitamente as ordens que recebe. Ele é inflexível e forte, percebendo bem a importância da tarefa.

      - Quer dizer que ele está preparado para ser destruído a fim de proteger-nos?

      - Claro que sim, como eu estou pronto a ser destruído para proteger você.

      Baley sentiu-se envergonhado.

      - Você não se zanga com uma situação em que talvez seja obrigado a desistir de sua existência por mim?

      - Foi essa a minha programação, Colega Elijah - disse Daneel - numa voz que pareceu muito suave - embora eu ache que, mesmo que não estivesse programado, salvá-lo faz a perda da minha existência ser muito trivial, em comparação.

      Baley não pôde resistir. Estendeu a mão e apertou a de Daneel com força.

      - Obrigado, Colega Daneel, mas, por favor, não permita que isso aconteça. Não quero a perda de sua existência. Tenho certeza de que a preservação da minha não seria uma compensação adequada.

      Baley ficou espantado ao descobrir que realmente sentia aquilo. Ficou meio horrorizado ao perceber que estaria pronto a arriscar a sua vida por um robô... Não, não por um robô. Por Daneel.

 

      Giskard entrou sem bater. Baley já se conformara com isso. O robô, como seu guarda, podia ir e vir à vontade. E Giskard era apenas um robô aos olhos de Baley, por mais que fosse "ele" e seu R. não fosse enunciado. Se Baley se coçasse, pegasse no nariz, ou se entregasse a uma função biológica suja, Giskard ficaria indiferente, parecia-lhe, sem reprová-lo, incapaz de qualquer reação, mas registrando friamente a observação em algum profundo banco de memória.

      Isso tornava Giskard uma simples peça móvel da mobília e Baley não sentia embaraço na presença dele. Não que Giskard se intrometesse num momento inconveniente, pensou Baley preguiçosamente.

      Giskard trazia um objeto com ele.

      - Senhor, julgo que ainda deseja observar Aurora do espaço. Baley teve um sobressalto. Sem dúvida, Daneel tinha reparado  na irritação dele, deduziu a causa e optou por essa forma de lidar com ela. Levar Giskard a assumir a idéia como fruto de sua mente simplória era um toque de delicadeza  da parte de Daneel. Livrava Baley de demonstrar gratidão. Ou era o que Daneel julgava.

      Baley estava, na realidade, muito mais irritado por ficar, segundo pensava, desnecessariamente impedido de ver Aurora, como de ser mantido prisioneiro. Queixou-se  pela falta de visão durante os dois dias desde o Salto. Por isso, virou-se para Daneel e disse:

      - Obrigado, meu amigo.

      - Foi idéia de Giskard - replicou Daneel.

      - Sim, claro - falou Baley, com um rápido sorriso. - Agradeço a ele, também. O que é isso, Giskard?

      - É um astrossimulador, senhor. Funciona basicamente como um receptor tridimensional e está ligado à sala de observação. Se me permite acrescentar...

      - Sim?

      - Não achará a vista especialmente excitante, senhor. Não desejo que fique desnecessariamente desapontado.

      - Procurarei não esperar demais, Giskard. Em todo caso, não o responsabilizarei por qualquer desapontamento que eu venha a sentir.

      - Obrigado, senhor. Preciso voltar ao meu posto, mas Daneel poderá ajudá-lo com o instrumento, se surgir algum problema.

      Saiu e Baley virou-se para Daneel, com ar aprovador.

      - Giskard trabalhou muito bem, acho eu. Pode ser um modelo simples, mas foi muito bem desenhado.

      - Ele também é um robô Fastolfe, Colega Elijah. Este astrossimulador é completo e auto-ajustável. Logo que esteja focalizado em Aurora, basta apertar o comando.

      Ele entrará em operação e você nada mais precisará fazer. Quer pô-lo em funcionamento pessoalmente?

      Baley encolheu os ombros.

      - Não há necessidade. Faça você.

      - Muito bem.

      Daneel tinha colocado o objeto sobre a mesa onde Baley estava vendo seu livro-filme.

      - Isto - explicou, mostrando um pequeno retângulo em sua mão - é o comando, Colega Elijah. Você apenas precisa segurá-lo pela borda desta maneira e depois fazer uma leve pressão para dentro e o mecanismo funciona... e depois outra pressão para desligá-lo.

      Daneel apertou o comando e Baley deu um grito estrangulado.

      Ele tinha esperado que o objeto se iluminasse e mostrasse em seu interior a representação holográfica do campo estelar. Não foi o que aconteceu. Em vez disso, Baley encontrou-se no espaço - no espaço - com brilhantes estrelas fixas em todas as direções.

      Durou apenas um instante e depois tudo voltou ao que era: a cabina e, nela, Baley, Daneel e o aparelho.

      - Desculpe, Colega Elijah - disse Daneel. - Desliguei assim que percebi sua aflição. Não sabia que você estava despreparado para isso.

      - Então me prepare. Que aconteceu?

      - O astrossimulador age diretamente sobre o centro visual do cérebro humano. Não há como distinguir a impressão que deixa da realidade tridimensional. É um invento relativamente recente e até agora só tem sido usado em cenas astronômicas que são, afinal de contas, pouco detalhadas.

      - Você também olhou, Daneel?

      - Sim, porém muito pobremente, sem o realismo experimentado por um ser humano. Vi o vago perfil de uma cena superposta no conteúdo claro da sala, mas me explicaram que os seres humanos só vêm a cena. Indubitavelmente, quando os cérebros dos meus semelhantes estiverem mais acuradamente sintonizados e ajustados...

      Baley tinha recuperado o equilíbrio.

      - O caso, Daneel, é que eu não me achava preparado. Não vi minhas mãos ou senti onde estavam. Foi como se eu me tivesse tornado um espírito desincorporado ou... bem, como imagino que me sentiria se estivesse morto, mas existindo conscientemente numa espécie de pós-vida imaterial.

      - Vejo agora por que achou a experiência um tanto perturbadora.

      - Realmente, achei-a muito perturbadora.

      - Peço-lhe desculpas, Colega Elijah. Mandarei Giskard tirar isso daqui.

      - Não. Agora me sinto preparado. Deixe-o aqui. Serei capaz de desligá-lo, apesar de não estar consciente da existência de minhas mãos?

      - Ele ficará preso em sua mão, de modo a não deixá-lo cair, Colega Elijah. O Dr. Fastolfe, que experimentou esse fenômeno, me disse que a pressão é automaticamente aplicada quando o humano que está segurando deseja interromper. É um fenômeno automático, baseado em manipulação nervosa, exatamente como a visão. Pelo menos, é como funciona com os auroreanos e imagino...

      - Que os terráqueos são suficientemente semelhantes aos auroreanos, fisiologicamente, para que o aparelho funcione de igual modo conosco. Muito bem, passe-me o comando e tentarei.

      Com um leve tremor interno, Baley apertou o comando e tornou a voltar ao espaço. Desta vez, estava esperando, e tão logo viu que podia respirar sem dificuldade,  sem sentir-se de forma alguma imerso no vácuo, lutou para aceitar tudo aquilo como uma ilusão visual. Respirando meio ofegante (talvez para se convencer de que estava  realmente respirando), olhou com curiosidade em todas as direções.  Subitamente consciente de estar ouvindo a respiração áspera saindo pelo nariz, perguntou:

      - Pode me ouvir, Daneel?

      Ouviu a própria voz - um tanto distante, um tanto artificial - mas ouviu-a.

      Depois, ouviu a de Daneel, bastante diferente para ser diferenciável.

      - Sim, posso - respondeu o robô. - E você deve ter condições de ouvir a minha, Colega Elijah.

      Os sentidos visual e cinestésico sofriam interferência por causa de uma ilusão maior da realidade, mas o de audição permanecia intocado. Em linhas gerais, pelo menos.

      - Bem, vi apenas estrelas... estrelas comuns, quero dizer. Aurora tem um sol. Imagino que estamos bastante perto de Aurora  para que a estrela que é seu sol esteja consideravelmente mais brilhante que as outras.

      - Totalmente mais brilhante, Colega Elijah. Deve ser velada ou você poderá sofrer dano na retina.

      - Então, onde está o planeta Aurora?

      - Vê a constelação de Orion?

      - Sim, estou vendo. Quer dizer que continuamos a ver as constelações como no céu da Terra e no planetário de City?

      - Mais ou menos. No que se refere a distâncias estelares, não estamos longe da Terra e do Sistema Solar do qual faz parte, e assim temos uma visão estelar comum.

      O sol de Aurora é conhecido na Terra como Tau Ceti e fica apenas a 3,67 parsecs de lá. Ora, se imaginar uma reta de Betelgeuse à estrela do meio do cinturão de Orion,  continuando-a em igual extensão e um pouco mais, a estrela meio brilhante que vê é realmente o planeta Aurora. Ele se tornará, nos próximos dias, cada vez maior,  à medida que nos aproximarmos rapidamente.

      Baley olhou com atenção. Não passava de um brilhante objeto estelar. Não tinha uma flecha luminosa, entrando e saindo, apontando para ele. Não havia nenhuma inscrição cuidadosamente escrita encimando-o.

      - Onde está o sol? A estrela da Terra, quero dizer.

      - Na constelação de Virgem, como é vista de Aurora. É uma estrela de segunda grandeza. Infelizmente, o astrossimulador que possuímos não foi adequadamente computadorizado e não será fácil mostrá-la a você. Apareceria, em todo caso, como uma estrela muito comum.

      - Não importa - falou Baley. - Vou agora desligar esta coisa. Se eu tiver alguma perturbação... me ajude.

      Não teve. Desligou exatamente quando pensou fazê-lo e ficou piscando na luz subitamente crua da cabina.

      Foi só então, quando voltou ao normal, que lhe ocorreu que, durante alguns minutos, pareceu-lhe ter estado no espaço, sem proteção de qualquer espécie, e apesar disso sua agorafobia terráquea não foi ativada. Sentiu-se perfeitamente confortável assim que aceitou sua própria inexistência.

      O pensamento confundiu-o e afastou-o durante algum tempo do seu livro-filme.

      Voltou periodicamente ao astrossimulador e deu outra olhada no espaço, visto de um ponto vantajoso fora da espaçonave, com ele não presente (aparentemente). Às vezes, era apenas durante um instante, para garantir a si mesmo que ainda não estava apreensivo por causa do vácuo infinito. Às  vezes, perdia-se na configuração das estrelas e começava a contá-las preguiçosamente ou a formar desenhos geométricos, um tanto deliciado por fazer uma coisa que,  na Terra, nunca tinha sido capaz de executar, por causa da crescente agorafobia que rapidamente dominava tudo.

      Por fim, tornou-se evidente que Aurora estava se tornando mais brilhante. Logo ficou fácil distingui-lo entre os outros pontos de luz, a seguir tornar-se inconfundível  e, finalmente, inevitável. Começou como um fio de luz para, logo depois, aumentar rapidamente e começar a mostrar fases.  Era quase um semicírculo de luz quando Baley percebeu a existência de fases.

      O detetive perguntou e Daneel respondeu:

      - Estamos nos aproximando do plano orbital externo, Colega Elijah. O pólo sul de Aurora fica mais ou menos no centro do seu disco, em algum ponto da metade iluminada.

      É primavera no hemisfério sul.

      - De acordo com o material que estive lendo - disse Baley - o eixo de Aurora tem dezesseis graus de inclinação.

      Tinha dado uma olhada na descrição física do planeta com atenção insuficiente, na ansiedade de conhecer os auroreanos, mas lembrou daquilo.

      - Sim, Colega Elijah. Finalmente, vamos orbitar Aurora e as fases mudarão então rapidamente. Aurora gira mais velozmente que a Terra...

      - Sim, tem um dia de 22 horas.

      - Um dia de 22,3 horas tradicionais. O dia auroreano está dividido em 10 horas auroreanas, cada uma dividida em 100 minutos auroreanos que são, por sua vez, divididos  em 100 segundos auroreanos. Um segundo auroreano é, portanto, mais ou menos igual a  0,8 segundos da Terra.  - É o que os livros querem dizer quando se referem a horas métricas, minutos métricos e assim por diante?

      - É. A princípio, foi difícil persuadir os auroreanos a abandonarem as unidades de tempo a que estavam acostumados, e ambos os sistemas, o convencional e o métrico,  ficaram em uso. Finalmente, claro, o métrico venceu. Atualmente, dizemos apenas horas, minutos e segundos, mas a versão decimal é sempre presente. O  mesmo sistema foi adotado em todos os mundos Espaciais, apesar de, neles, não estar ligado à rotação natural do planeta. Claro, cada planeta também usa um sistema  local.

      - Como faz a Terra.

      - Sim, Colega Elijah, mas a Terra só usa o padrão original de unidades de tempo. Os mundos Espaciais preocuparam-se com as inconveniências decorrentes disso, mas permitiram que a Terra não mudasse.

      - Não sem benevolência, imagino. Desconfio que eles desejam acentuar a diferença da Terra. Como a decimalização combina com o ano? Afinal de contas, Aurora deve ter um período natural de revolução em torno do seu sol, que comanda o ciclo de suas estações. Como isso é medido?

      - Aurora gira em torno do seu sol - disse Daneel - em 373,5 dias auroreanos ou em cerca de 0,95 anos da Terra. Isso não é considerado vital na cronologia. Aurora  aceita 30 dos seus dias como perfazendo um mês e 10 meses como um ano métrico. O ano métrico é igual a cerca de 0,8 anos dos intervalos regulares ou cerca de três  quartos do ano terrestre, A relação é diferente em cada mundo, é claro. Dez dias são chamados usualmente decimês. Todos os mundos Espaciais usam este sistema.

      - Certamente, deve haver uma maneira conveniente de acompanhar o ciclo das estações?

      - Cada mundo tem seu ano com estações, também, mas recebe pouca atenção. Pode-se, pelo computador, converter qualquer dia, passado ou presente, em sua posição no ano com estações se, por qualquer motivo, precisa-se dessa informação. E isso é válido para qualquer mundo, onde a conversão de e para os dias locais é também facilmente possível. E, claro, Colega Elijah, qualquer robô pode fazer a mesma coisa e pode orientar a atividade humana onde o ano de estações ou o tempo local é importante.

      A vantagem das unidades metrificadas é que fornece à humanidade uma cronometria unificada, que envolve pouco mais que substituições de pontos decimais.

      Baley ficou aborrecido porque os livros que examinou não esclareciam nada disso. Mas agora, baseado em seu conhecimento da história terrestre, soube que, em certa época, o mês lunar tinha sido a chave do calendário e tinha havido um tempo em que, para facilidade da cronometria, o mês lunar foi ignorado e sua falta nunca sentida.

      No entanto, se ele tivesse, na Terra, dado livros a algum  estrangeiro, este teria provavelmente encontrado a menção ao mês lunar ou a mudanças históricas nos calendários. As datas teriam sido fornecidas, sem explicação.

      Que mais poderia ter sido dado sem explicação?

      Até onde podia ele confiar, portanto, no conhecimento que estava recebendo? Teria de fazer constantes perguntas e não aceitar nada como certo.

      Iria ter muitas oportunidades de não ver o evidente, muitas possibilidades de incompreensão, várias formas de seguir o caminho errado.

 

      Aurora encheu seu campo de visão, agora que usou o astrossimulador, e parecia a Terra (Baley nunca tinha visto a Terra daquela maneira, porém vira fotografias publicadas em livros de Astronomia).

      Bem, o que Baley viu de Aurora eram os mesmos desenhos de nuvens, as mesmas visões de relance de áreas desertas, os mesmos grandes intervalos de dia e noite, a mesma  amostra de luz piscante do hemisfério noturno, como mostravam as fotografias do globo terrestre.

      Baley olhou, extasiado, e pensou: E se por algum motivo estivesse sendo levado para o espaço, dizendo ser para Aurora, e trazido de volta para a Terra por alguma  razão... por alguma razão sutil e insana? Como podia saber a diferença, antes de pousar?

      Havia motivo para desconfiar? Daneel tivera o cuidado de lhe dizer que as constelações eram as mesmas no céu de ambos os planetas, mas não seria naturalmente assim  com os planetas orbitando estrelas vizinhas? Do espaço, a aparência geral de ambos os planetas era a mesma, porém não era de se esperar, uma vez que ambos eram habitáveis  e preparados para receber confortavelmente a vida humana?

      Havia algum motivo para supor que uma decepção preparada tenha sido organizada para ele? com que finalidade? Mas por que não pareceria preparada e inútil? Se houvesse  um motivo evidente para isso, perceberia imediatamente.

      Daneel faria parte dessa conspiração? Certamente não, se fosse humano. Porém não passava de um robô, não poderia haver um meio de mandá-lo comportar-se de acordo?

      Não havia como chegar a uma conclusão. Baley ficou vendo contornos de continentes, que tanto poderiam ser terrestres como não. Aquela devia ser a prova... só que não deu certo.

      As imagens que iam e vinham entre nuvens não lhe eram de nenhuma valia. Baley não tinha conhecimento suficiente da geografia da Terra. O que realmente conhecia eram suas Cidades subterrâneas, suas cavernas de aço.

      Os trechos do litoral que via lhe eram desconhecidos: se de Aurora ou da Terra, não sabia.

      Afinal, para que essa incerteza? Quando foi a Solaria, não duvidou do seu destino, jamais suspeitou de que poderia ser levado de volta para a Terra. Ah, mas então  tinha ido numa missão sem segredos, na qual havia uma possibilidade razoável de sucesso. Nesta, sentia que não havia nenhuma.

      Nesse caso, talvez ele quisesse ser mandado de volta à Terra e estivesse inventando uma falsa conspiração, de maneira a achar ser possível.

      A incerteza em sua mente começou a ter vida própria. Não podia deixá-la prosseguir. Ficou examinando Aurora com uma intensidade quase demente, incapaz de voltar  à realidade do camarote. Aurora movia-se, girava lentamente...

      Tinha olhado durante muito tempo para ter dúvida. Enquanto esteve observando o espaço, tudo pareceu imóvel, como um fundo pintado, como um silencioso e estático  desenho de pontos de luz, nele incluído, mais tarde, um semicírculo. Era aquilo a imobilidade que lhe permitiu ser não-agorafóbico?

      Mas agora podia notar Aurora movendo-se e percebeu que a nave estava descendo em espiral, no estágio final anterior ao pouso. As nuvens estavam subindo, inchadas...

      Não, não eram as nuvens, a nave estava espiralando para baixo. A nave estava movendo-se. Ele também estava. Certificou-se, subitamente, da própria existência. De  que estava sendo atirado para baixo, através das nuvens. Estava caindo, desprotegido, através do ar tênue contra o chão sólido.

      Sua garganta contraiu-se. A respiração começava a se tornar difícil.

      Disse para si mesmo, em desespero: Você está encerrado. As Paredes da nave estão à sua volta.

      Porém não sentia paredes.

      Pensou: mesmo sem sentir as paredes, você está cercado. Está envolto em pele.

      Porém não sentia a pele.

      A sensação era pior que a de uma simples nudez: ele era uma personalidade desacompanhada, a essência da identidade totalmente descoberta, um ponto vivo, uma singularidade   rodeada por um mundo aberto e infinito, e estava caindo.

      Quis parar de olhar, contrair o punho sobre a beira do comando, mas nada aconteceu. As pontas dos seus nervos estavam tão fora do normal que a contração automática   num esforço de vontade não produziu efeito. Ele não tinha vontade. Os olhos não queriam fechar, o punho não se contraiu. Estava hipnotizado e nas garras do terror,   apavorado até à imobilidade.

      Só sentia nuvens à sua frente, brancas... não muito brancas - quase - uma sombra levemente alaranjada...

      E tudo tornou-se cinzento... e ele estava se afogando. Não podia respirar. Lutou desesperadamente para abrir sua garganta contraí da, para pedir socorro a Daneel...

      Não conseguiu emitir um som...

 

      Baley respirava como se acabasse de atingir a fita, após uma longa corrida. A cabina parecia torta e havia uma superfície dura sob seu cotovelo esquerdo.

      Percebeu que estava no chão.

      Giskard se encontrava de joelhos a seu lado, com sua mão de robô (firme, porém um tanto fria) fechada sobre o pulso direito de Baley. A porta da cabina, visível  a Baley por cima do ombro de  Giskard estava entreaberta.

      Baley soube, sem perguntar, o que tinha acontecido. Giskard tinha pegado aquela pobre mão humana e prendido no comando para findar a astrossimulação. Caso contrário...

      Daneel também se achava presente, com o rosto junto ao de Giskard, com um olhar que podia ser de aflição.

      - Você nada disse, Colega Elijah. Se eu tivesse percebido mais depressa sua situação...

      Baley esboçou um gesto de compreensão, de que não tinha importância. Continuava incapaz de falar.

      Os dois robôs esperaram até Baley fazer um débil gesto de levantar-se. Foi erguido imediatamente por braços prestativos. Posto numa cadeira, o comando foi gentilmente afastado dele por Giskard. que disse:

      - Breve pousaremos. Creio que não vai precisar mais do astrossimulador.

      Daneel acrescentou, com ar sério:

      - Em todo caso, será melhor tirá-lo daqui.

      - Espere! - replicou Baley. Sua voz era um murmúrio rouco e não tinha certeza de se fazer entender. Respirou fundo, pigarreou com esforço e repetiu: - Espere! -  e acrescentou: - Giskard.

      O robô virou-se:

      - Senhor?

      Baley não falou imediatamente. Agora que Giskard sabia o que ele queria, podia fazer um longo intervalo, talvez indefinidamente. Baley procurava reunir seus sentidos   esparsos. Agorafobia ou não, ainda continuava sua incerteza sobre o destino deles. Já existia antes e podia ter intensificado a agorafobia.

      Precisava descobrir. Giskard não mentiria. Um robô não pode mentir, a menos que tenha sido cuidadosamente instruído para isso. E para que instruir Giskard? Seu acompanhante   era Daneel, que tinha de ficar o tempo todo ao seu lado. Se houvesse uma mentira a dizer, seria tarefa de Daneel. Giskard não passava de um robô de recados, um porteiro.

      Certamente não houve necessidade de se darem ao trabalho de instruir cuidadosamente Giskard, envolvendo-o numa rede de mentiras.

      - Giskard! - falou Baley, agora quase normalmente.

      - Senhor?

      - Estamos quase pousando?

      - Em pouco menos de duas horas, senhor.

      Tratava-se de duas horas métricas, pensou Baley. Mais de duas horas reais? Menos? Não importava. Só faria confundir. Esqueça. Baley falou, o mais rispidamente possível:

      - Diga-me já o nome do planeta onde estamos para pousar. Um ser humano, se fosse responder, o faria somente após uma pausa... e depois com um ar de enorme surpresa.

      Giskard respondeu imediatamente, com uma afirmativa clara e inflexões.

      - Não é Aurora, senhor?

      - Como sabe?

      - É o nosso destino. E também não pode ser a Terra, por exemplo, uma vez que o sol de Aurora, Tau Ceti, tem apenas noventa por cento da massa do sol da Terra. Tau Ceti é ligeiramente mais frio, além disso, e sua luz tem um claro tom laranja, desconhecido dos desacostumados olhos terráqueos. O senhor já pode ver a cor característica do sol de Aurora no reflexo sobre a parte superior do banco de nuvens. E certamente poderá ver, pela aparência da paisagem, assim que seus olhos se acostumarem.

      Baley afastou os olhos do rosto impassível de Giskard. Ele havia reparado na diferença de cor, pensou Baley, e não lhe dera importância. Erro grave.

      - Pode retirar-se. Giskard.

      - Sim, senhor.

      Baley virou-se para Daneel e disse, amargamente:

      - Banquei o bobo, Daneel.

      - Percebi que você imaginou que nós o estávamos enganando e levando-o para outro lugar que não Aurora. Tem algum motivo para desconfiar disso, Colega Elijah?

      - Nenhum. Pode ter sido o resultado da intranqüilidade surgida da agorafobia subliminal. Olhando para o espaço supostamente imóvel, não senti nenhuma doença, que   deve ter ficado subjacente, criando uma crescente intranqüilidade.

      - A culpa foi nossa, Colega Elijah. Sabendo da sua ojeriza por espaços abertos, foi um erro submetê-lo à astrossimulação ou, tendo-o feito, não submetê-lo a um controle mais estreito.

      Baley sacudiu a cabeça, aborrecido.

      - Não diga isso, Daneel. Tenho controle demais. A pergunta que tenho na mente é quão de perto serei controlado em Aurora.

      - Colega Elijah - retrucou Daneel. - Acho que será difícil permitir-lhe acesso livre a Aurora e aos auroreanos.

      - Não obstante, é exatamente isso que eu preciso. Se eu devo chegar à verdade nesse caso de roboticídio, preciso procurar livremente informações diretas no local... e com as pessoas envolvidas.

      Baley ficou, agora, sentindo-se um tanto cansado. Bastante embaraçante, a experiência intensa pela qual passou deixou-lhe um grande desejo de uma cachimbada, coisa que ele pensava ter abandonado completamente havia um ano. Podia sentir o gosto e o cheiro do fumo tomar conta da sua garganta e nariz.

      Sabia que só poderia fazê-lo de memória. Em Aurora, não tinha  como obter licença para fumar. Não havia tabaco em nenhum dos mundos Espaciais e se tivesse algum em seu poder, lhe seria tirado e destruído.

      - Colega Elijah - disse Daneel - precisamos discutir isso com o Dr. Fastolfe, assim que pousarmos. Não tenho autoridade para tomar decisões nesse assunto.

      - Sei disso, Daneel, mas como Vou falar a Fastolfe? Através do equivalente de um astrossimulador? com comandos nas mãos?

      - De jeito nenhum, Colega Elijah. Você lhe falará frente a frente. Ele pretende encontrá-lo no espaçoporto.

 

      Baley prestou atenção aos barulhos do pouso. Não sabia, claro, como seriam. Não conhecia a maquinaria da nave, quantos homens e mulheres havia a bordo, que teriam de fazer no decorrer do pouso, que ruídos decorreriam disso.

      Gritos? Estrondos? Uma vibração leve?

      Nada ouviu.

      - Você parece tenso, Colega Elijah - disse Daneel. - Eu gostaria que você não custasse a me comunicar qualquer incômodo que sentir. Devo ajudá-lo no exato momento  em que, por qualquer motivo, sentir-se mal.

      Havia uma leve tensão na palavra "devo".

      Baley pensou, distraidamente: A Primeira Lei o está dominando. com certeza sofreu à sua maneira tanto quanto eu à minha, quando desmaiei e ele não previu a tempo.

      Um desequilíbrio proibido dos potênciais positrônicos pode não ter significado para mim, porém pode produzir nele o mesmo incômodo e a mesma reação de uma dor aguda em mim.

      Prosseguiu pensando: Como posso saber o que existe dentro da falsa pele e pseudoconsciência de um robô, da mesma forma que Daneel sobre o meu íntimo?

      E a seguir, sentindo remorso de ter pensado em Daneel como sendo robô, Baley procurou os olhos gentis do outro (quando começou a pensar na expressão deles como gentil?) e disse:

      - Teria lhe contado toda a aflição que senti. Não sinto nenhuma. Estou apenas tentando ouvir qualquer ruído que possa me esclarecer sobre o andamento do processo de pouso, Colega Daneel.

      - Obrigado, Colega Elijah - retrucou Daneel, sério. Inclinou ligeiramente a cabeça e prosseguiu: - Não haverá nenhum desconforto no pouso. Você sentirá aceleração,  mas será mínima, pois esta cabina acompanhará, até certo ponto, o rumo da aceleração. A temperatura poderá elevar-se, porém não mais de dois graus centígrados. Quanto  aos efeitos sonoros, talvez haja um sibilo baixo quando passarmos pela atmosfera que se adensa. Algum deles irá perturbá-lo?

      - Não. O que me perturba é não estar livre para participar do pouso. Eu gostaria de saber como é. Não quero ficar preso e longe da experiência.

      - Você já descobriu, Colega Elijah, que a natureza da experiência não se adapta ao seu temperamento.

      - E como conseguirei superá-la, Daneel? - perguntou, com ardor. - Esse não é um bom motivo para minha participação?

      - Colega Elijah, já lhe expliquei que está aqui para sua própria segurança.

      Baley sacudiu a cabeça, claramente aborrecido.

      - Pensei nisso e acho bobagem. Minhas probabilidades de superar essas dificuldades são tão pequenas, com todas as restrições e a dificuldade que terei de compreender   Aurora, que acho que ninguém em seu juízo se daria ao trabalho de tentar me impedir. Se o fizerem, por que se preocupar em atacar logo a mim? Por que não sabotar   a nave? Se imaginamos que estamos enfrentando vilões totalmente inescrupulosos, deverão achar que uma nave e seus tripulantes, você, Giskard e eu, claro, serão um   preço baixo a pagar.

      - Na realidade, isso foi levado em conta, Colega Elijah. A nave foi cuidadosamente examinada. Qualquer sinal de sabotagem será notado.

      - Tem certeza? Cem por cento de certeza?

      - Nada semelhante pode ser considerado como absolutamente certo. Giskard e eu, contudo, estamos satisfeitos com o pensamento de que há muita certeza e que podemos   prosseguir com uma expectativa mínima de desastre.

      - E se estiverem errados?

      Alguma coisa semelhante a um pequeno sinal de espasmo pás sou pelo rosto de Daneel, como se fosse levado a considerar  uma coisa que interferia no suave trabalho dos elementos positrônicos e seu cérebro.

      - Porém não temos errado - comentou.

      - Não pode dizer isso. O pouso está se aproximando e este é com certeza o momento de perigo. De fato, a esta altura, não há necessidade de sabotar a nave. Para mim,  o perigo maior é agora, exatamente agora. Não posso me esconder aqui, se precisar desembarcar em Aurora. Deverei atravessar a nave e ficar ao alcance de todos. Você  já tomou precauções para tornar o pouso seguro? - Ele se mostrava mesquinho, agredindo Daneel desnecessariamente porque sentia-se irritado com a longa segregação  e com a indignidade do desmaio.

      Daneel respondeu calmamente:

      - Já tomamos, Colega Elijah. E por falar nisso, já pousamos. Estamos agora na superfície de Aurora.

      Durante um momento, Baley ficou desconcertado. Olhou ferozmente em torno mas, claro, nada viu a não ser uma cabina fechada. Não sentiu nem ouviu nada do que Daneel  tinha descrito. Nenhuma aceleração, nenhum calor, tampouco qualquer sibilo do vento. Ou Daneel havia deliberadamente provocado mais uma vez o tema do seu perigo  pessoal, para que ele não pensasse em outros assuntos menores, mas inquietantes.

      - Porém ainda há o problema de sair da nave - disse Baley. - Como farei isso sem ficar ao alcance de possíveis inimigos?

      Daneel foi até uma parede e apertou um botão nela. A parede imediatamente dividiu-se em duas partes, que se abriram. Baley viu-se diante de um cilindro comprido, um túnel.

      Nesse momento, Giskard entrou na cabina pelo outro lado e disse:

      - Senhor, nós três usaremos o tubo de saída, que está sendo guardado pelo lado de fora. O Dr. Fastolfe está esperando na extremidade do tubo.

      - Tomamos todas as precauções - disse Daneel.

      - Peço-lhes desculpas, Daneel... Giskard - murmurou Baley. Sombrio, penetrou no tubo de saída. Todo o esforço feito para  tomar aquelas precauções também lhe garantia que elas se tornaram necessárias.  Baley gostava de pensar que não era covarde, mas estava num planeta desconhecido, sem meios de saber quem era amigo ou inimigo, sem poder se consolar com alguma  coisa familiar (com exceção, claro, de Daneel). Nos momentos cruciais, pensou, com um arrepio, iria ficar sem cobertura para aquecê-lo e dar-lhe alívio.

 

Fastolfe

      O Dr. Han Fastolfe estava realmente esperando... e sorrindo. Era algo e magro, cabelos castanho-claros não muito abundantes e lá estavam, evidentemente, suas orelhas.

      Era delas que Baley se lembrava, apesar de terem passado três anos. Orelhas grandes, afastadas da cabeça, dando-lhe um aspecto vagamente divertido, uma agradável  sensação familiar. Foram as orelhas que fizeram Baley sorrir e não a recepção de Fastolfe.

      Baley pensou um instante se a tecnologia médica auroreana não era extensiva à cirurgia plástica menor, requerida para corrigir a deselegância daquelas orelhas. Mas,  afinal, podia ser que Fastolfe gostasse da aparência delas, como o próprio Baley (um tanto surpreso) gostava. Era uma coisa importante de se dizer de um rosto, que  faz alguém sorrir.

      Talvez Fastolfe desse importância a que gostassem dele à primeira vista. Ou achasse interessante e útil ser subestimado? Ou apenas diferente?

      - Detetive Elijah Baley - disse Fastolfe. - Lembro do senhor perfeitamente, apesar de persistir em dar-lhe o rosto do ator que o Personificou.

      O rosto de Baley fechou-se.

      - Aquela dramatização de hiperonda me persegue, Dr. Fastolfe. Se eu soubesse que rumo tomar para fugir dela...

      - Rumo nenhum - retrucou Fastolfe, cordialmente. - Mas  se prefere, eliminaremos o assunto das nossas conversas imediatamente. Nunca mais falarei nisso. De acordo?

      - Obrigado.  com calculada pressa, estendeu a mão a Fastolfe.

      Fastolfe hesitou perceptivelmente. Depois pegou a mão de Baley, apertando-a desajeitadamente - e não por muito tempo - dizendo:

      - Devo supor que o senhor não é um saco andarilho de infecção, Sr. Baley. - A seguir acrescentou, aflito, olhando as próprias mãos: - Devo confessar, porém, que minhas mãos foram tratadas com uma película inerte que não é totalmente confortável. Sou o fruto dos medos irracionais da minha sociedade.

      Baley encolheu os ombros.

      - Somos todos. Não me agrada o pensamento de estar no Exterior: ao ar livre, quero dizer. Por falar nisso, não me agradou ter sido trazido a Aurora nas circunstâncias em que me encontro.

      - Compreendo perfeitamente, Sr. Baley. Trouxe um carro fechado para o senhor, e quando chegarmos na minha instituição, faremos o possível para continuarmos a mantê-lo encerrado.

      - Obrigado, mas no decorrer de minha estada em Aurora, sinto que terei necessidade de permanecer algumas vezes no Exterior. Estou preparado para isso...

      - Compreendo, mas lhe imporemos o Exterior apenas quando necessário. Como não é o caso agora, por favor, consinta em ser encerrado.

      O carro os aguardava à sombra do túnel e mal havia um traço do Exterior na passagem de um para o outro. Às suas costas, Baley sabia da presença de Daneel e Giskard,  de aparências muito diferentes, mas idênticos no ar grave e expectante... e ambos infinitamente pacientes.

      Fastolfe abriu a porta traseira e disse:

      - Entre, por favor.

      Baley entrou. Rápida e suavemente, Daneel entrou atrás, enquanto Giskard, praticamente no mesmo instante, no que pareceu quase um movimento coreografado, entrou pelo outro lado. Baley ficou enquadrado, mas não opressivamente, por eles. Na verdade, gostou de pensar que entre ele e o Exterior, de ambos os lados, havia a espessura de um corpo robótico.

      Mas não houve Exterior. Fastolfe sentou no banco da frente, e assim que a porta fechou-se, as janelas ficaram opacas e uma luz artificial suave espalhou-se no interior.

      - Geralmente não viajo assim, Sr. Baley - disse Fastolfe - mas não me importo e o senhor achará mais confortável. O carro é totalmente computadorizado, sabe para onde está indo e pode resolver qualquer obstrução ou emergência. Não precisamos intervir.

      Baley teve uma levíssima sensação de aceleração e depois outra, mal perceptível, de movimento.

      - Este é um transporte seguro, Sr. Baley - afirmou Fastolfe. - Esforcei-me ao máximo para que apenas pouca gente soubesse que o senhor estaria neste carro e certamente o senhor não será detectado dentro dele. Sua viagem de carro, que se desloca em jatos de ar, por falar nisso, o que o torna aerodinâmico, na verdade não será longa, mas se desejar, o senhor pode aproveitar a oportunidade para repousar. Agora o senhor está em segurança.

      - O senhor fala - retrucou Baley - como se pensasse que estou em perigo. A bordo da nave, fui protegido a ponto de ficar preso... e agora novamente.

      Baley olhou em torno do pequeno espaço fechado do carro, dentro do qual estava cercado de metal e vidro opaco, para não citar a moldura metálica dos dois robôs.

      Fastolfe deu uma risadinha.

      - Sei que estou exagerando, mas a intuição é um apanágio de Aurora. O senhor chegou numa hora de crise para nós e eu prefiro ser considerado bobo por excesso de zelo que correr o risco terrível da subestimação.

      - Creio que compreende, Dr. Fastolfe - disse Baley - que meu fracasso aqui será um golpe para a Terra.

      - Sei muito bem. E estou tão determinado quanto o senhor a evitar seu fracasso. Pode me acreditar.

      - Acredito. Além do mais, meu fracasso aqui, por qualquer motivo, poderá ser também minha ruína pessoal e profissional na Terra.

      Fastolfe virou-se no banco para encarar Baley com expressão chocada.

      - De fato? Isso não será permitido. Baley encolheu os ombros.

      - Acredito, mas acontecerá. Serei o alvo evidente para um desesperado governo terrestre.

      - Não pensei nisso quando pedi sua vinda, Sr. Baley. Pode  ficar certo de que farei o que puder. Embora, com toda honestidade - seus olhos desviaram-se - será pouquíssimo se perdermos.

      - Sei disso - retrucou Baley, sombrio.

      Recostou-se no encosto macio e fechou os olhos. O movimento do carro reduzia-se a um suave balanço entorpecedor, mas Baley não adormeceu. Em vez disso, concentrou-se   no pensamento: qual a valia daquilo?

 

      Baley também não sentiu o Exterior no outro lado da viagem. Quando emergiu do plano aerodinâmico, estava num estacionamento subterrâneo e um pequeno elevador levou-o  ao nível do solo (segundo pareceu).

      Foi introduzido num recinto ensolarado, e ao passar pelos raios diretos do sol (sim, levemente alaranjados), encolheu-se um pouco.

      Fastolfe notou.

      - As janelas não são opacas, embora possam ser escurecidas. Posso fazê-lo, se quiser. Na verdade, eu devia ter pensado nisso...

      - Não precisa - respondeu Baley, asperamente. - Ficarei sentado de costas para elas. Necessito me acostumar.

      - Como queira, mas me informe se em algum instante sentirse muito incomodado... Sr. Baley, nesta parte de Aurora já é manhã alta. Não conheço seu horário na nave.

      Se está acordado há muito e deseja dormir, pode-se dar um jeito. Se está sem sono, mas sem fome, não precisa comer. Contudo, se acha que pode fazer uma refeição,   está convidado a almoçar comigo daqui a pouco.

      - Acontece que combina bem com meu horário.

      - Excelente. Quero lembrar-lhe que seu dia é cerca de sete por cento mais curto que na Terra, o que não lhe produz dificuldades biorrítmicas excessivas, mas se acontecer, procuraremos ajustar-nos às suas necessidades.

      - Obrigado.

      - Finalmente... não conheço bem suas preferências alimentares.

      - Comerei o que me for oferecido.

      - Ainda assim, não quero sentir-me culpado se alguma coisa... se não for gostosa.

      - Obrigado.

      - E não se importará que Daneel e Giskard comam conosco? Baley esboçou um sorriso.

      - Eles também comem?

      Fastolfe não sorriu em resposta. Falou gravemente: "

      - Não, porém eu os quero o tempo todo ao seu lado.

      - Há perigo ainda? Mesmo aqui?

      - Não confio completamente em nada. Mesmo aqui. Um robô entrou.

      - Senhor, o almoço está na mesa. Fastolfe balançou a cabeça.

      - Ótimo, Faber. Já vamos.

      - Quantos robôs o senhor tem? - perguntou Baley.

      - Poucos. Não estamos no nível solariano de dez mil robôs por ser humano, mas tenho mais que a média: cinqüenta e sete. A casa é enorme e também serve de escritório   e laboratório. E também minha mulher, quando tenho uma, necessita de bastante espaço para se isolar do meu trabalho, numa ala separada, precisando ser atendida independentemente.

      - Bem, com cinqüenta e sete robôs, imagino que possa prescindir de dois. Sinto-me menos culpado por ter enviado Giskard e Daneel para trazer-me a Aurora.

      - Não foi uma escolha casual, garanto-lhe, Sr. Baley. Giskard é meu mordomo e minha mão direita. Está comigo desde que me tornei adulto.

      - E apesar disso, enviou-o para apanhar-me. Estou honrado - disse Baley.

      - Isso dá uma idéia da sua importância, Sr. Baley. Giskard é o mais confiável dos meus robôs, forte e encorpado.

      Os olhos de Baley fixaram-se em Daneel e Fastolfe acrescentou:

      - Não incluo meu amigo Daneel nessas considerações. Ele não é meu criado, mas um empreendimento do qual tenho a fraqueza de estar extremamente orgulhoso. É o primeiro do seu tipo, e embora o Dr. Roj Nemennuh Sarton tenha sido seu projetista e modelador, quem...

      Fez uma pausa, delicadamente, mas Baley balançou bruscamente a cabeça, dizendo:

      - Compreendo.

      Não precisava que a frase fosse completada com a referência ao assassinato de Sarton na Terra.

      - Enquanto Sarton supervisionava de fato a construção dele - prosseguiu Fastolfe - foram os meus cálculos teóricos que tornaram Daneel possível.

      Fastolfe sorriu para o robô, que inclinou a cabeça, agradecendo.

      - E Jander também - disse Baley.

      - É verdade. - Fastolfe balançou a cabeça, parecendo triste. - Talvez devesse tê-lo mantido ao meu lado, como fiz com Daneel. Porém ele era meu segundo humaniforme, o que era diferente. Daneel foi meu primogênito, um caso especial... por assim dizer.

      - E agora o senhor não constrói mais humaniformes?

      - Não. Mas venha - disse Fastolfe esfregando as mãos. - Precisamos almoçar... Não sei, Sr. Baley, se na Terra a população está acostumada ao que chamo de comida natural. Teremos salada de camarões, junto com pão e queijo, leite, se desejar, ou qualquer espécie de sucos de frutas. Tudo muito simples. Sorvete de sobremesa.

      - Todos os pratos tradicionais da Terra - retrucou Baley - que existem agora em sua forma original apenas na antiga literatura terrestre.

      - Nenhum deles é inteiramente comum aqui em Aurora, mas não acho certo submetê-lo à nossa versão de refeição de epicurista, com produtos alimentares e temperos das variedades auroreanas. O paladar precisa ser adquirido.

      Levantou-se.

      - Acompanhe-me, por favor, Sr. Baley. Seremos apenas nós dois e não vamos fazer cerimônia nem nos entregarmos aos rituais do jantar.

      - Obrigado - respondeu Baley. - É muita bondade sua. Aliviei o tédio da viagem com o exame bastante intenso do material referente a Aurora e sei que essa polidez envolve muitos aspectos de uma refeição cerimonial que devo recear.

      - Não precisará recear.

      - Podemos - perguntou Baley - interromper a cerimônia até o ponto de falarmos de negócios, Dr. Fastolfe? Não devo perder tempo desnecessariamente.

      - Concordo com esse ponto de vista. Devemos realmente falar de trabalho e imagino que posso confiar em que o senhor nada dirá a ninguém sobre esse lapso. Não quero ser expulso da sociedade educada. - Riu e prosseguiu: - Mas não devo rir. Não há nada risível.

      Perder tempo pode ser mais que unicamente uma inconveniência? Pode ser facilmente fatal.

 

      A sala que Baley deixou era de estar: várias cadeiras, uma cômoda cheia de gavetas, um móvel que parecia um piano, mas tinha pistões no lugar de teclas, desenhos abstratos nas paredes, que pareciam tremular com a luz. O chão era um liso tabuleiro de xadrez, com inúmeros matizes castanhos, desenhados talvez para fazer lembrar a madeira e, no entanto, brilhava esplendorosamente como se tivesse acabado de ser encerado, sem se tornar escorregadio.

      A sala de jantar, apesar de ter o chão semelhante, em nada mais se parecia. Era uma enorme peça retangular, sobrecarregada de enfeites. Havia nela seis enormes mesas quadradas, que eram evidentemente módulos, podendo ser reunidas de várias maneiras. Junto a uma pequena parede, ficava um bar, com reluzentes garrafas de várias cores, colocadas diante de um espelho curvo que emprestava uma extensão quase infinita à sala que refletia. Na outra curta parede, havia quatro reentrâncias, com um robô aguardando em cada uma.

      Ambas as paredes mais extensas eram dotadas de mosaicos, nos quais as cores mudavam lentamente. Uma representava uma cena planetária, que Baley não sabia dizer se de Aurora ou outro planeta, ou ainda uma coisa inteiramente imaginária. Numa extremidade, via-se um campo de trigo (ou algo parecido) com requintada maquinaria agrícola, comandada por robôs. Ao se passear o olhar pela extensão da parede, viam-se habitações humanas esparsas, tornando-se, no outro extremo, o que Baley pensou ser a versão auroreana de City.

      A outra extensa parede era astronômica. Um planeta, brancoazulado iluminado por um sol distante, refletia a luz de tal maneira que nem o exame mais acurado evitava a impressão de que estava girando lentamente. As estrelas que o rodeavam - algumas esmaecidas, outras brilhantes - também davam a impressão de mudar de forma, embora ao se fixar a vista num pequeno grupo delas, parecessem continuar imóveis.

      Baley achou tudo confuso e repulsivo.

      - Certamente uma obra de arte - disse Fastolfe. – Porém cara demais para seu valor, mas Fanya a queria. Fanya é a minha atual companheira.

      - Ela virá ter conosco, Dr. Fastolfe?

      - Não, Sr. Baley. Como lhe disse, apenas nós dois. Pedi a ela que permanecesse nos seus cômodos nesse período. Não quero sobrecarregá-la com o nosso problema. Espero que compreenda.

      - Sim, claro.

      - Venha. Sente-se, por favor.

      Uma das mesas estava posta com pratos, taças e talheres finamente trabalhados, nem todos familiares a Baley. Havia, no centro, um alto cilindro cônico, semelhante a um peão de xadrez gigantesco, feito de pedra cinzenta.

      Baley, ao sentar-se, não resistiu e estendeu o braço, tocando-o com um dedo.

      Fastolfe sorriu.

      - É um condimentador. Tem comandos simples, que permitem usá-lo como fornecedor de uma quantidade fixada de qualquer dos doze diferentes temperos, em cada porção de comida. Para ser usado adequadamente, é preciso tirá-lo e fazer evoluções um tanto complicadas, que são insignificantes em si, porém muito valorizadas pelos elegantes auroreanos, como símbolos da graça e delicadeza com que as refeições devem ser servidas. Quando eu era mais moço, podia, com o polegar e dois dedos, fazer a tríplice genuflexão e fornecer sal quando o condimentador tocava em minha palma. Hoje, se tentar, correrei o risco de confundir meu convidado. Espero que não se importe se eu não tentar.

      - Insisto para que não tente, Dr. Fastolfe.

      Um robô pôs a salada na mesa, outro chegou com uma bandeja de sucos de frutas, um terceiro trouxe o pão e o queijo, um quarto ajeitou os guardanapos. Os quatro trabalhavam em perfeita coordenação, deslocando-se de um lado para outro sem colidir ou mostrar alguma dificuldade. Baley observou-os espantado.

      Terminaram, sem nenhum sinal aparente de combinação, um de cada lado da mesa. Recuaram ao mesmo tempo, curvaram-se ao mesmo tempo, viraram-se ao mesmo tempo e voltaram para as reentrâncias da parede no fundo da peça. Baley percebeu subitamente a presença, na sala, tanto de Daneel como de Giskard. Não os tinha visto entrar. Esperavam em dois nichos que apareceram não sabia como, na parede com o campo de trigo. Daneel estava mais perto.

      - Agora que eles se foram... - disse Fastolfe. Parou e sacudiu lentamente a cabeça, em pesarosa conclusão. - Mas não foram. Normalmente, é costume os robôs irem embora antes da refeição realmente começar. Robôs não comem, mas os seres humanos sim. portanto, é compreensível que os que comem o façam e os que não comem saiam. E isso acabou por se tornar mais um ritual. Seria incompreensível comer antes dos robôs saírem. Neste caso, porém...

      - Eles não saíram - disse Baley.

      - Não. Acho que a segurança é mais importante que a etiqueta e que, não sendo auroreano, o senhor não se incomodaria.

      Baley esperou que o Dr. Fastolfe começasse. Fastolfe pegou um garfo e Baley fez o mesmo. Fastolfe começou a usá-lo devagar, permitindo ao terráqueo ver claramente o que estava fazendo.

      Baley deu uma mordida cautelosamente num camarão e achou-o delicioso. Reconheceu o sabor, semelhante ao da pasta de camarão produzida na Terra, porém muito mais sutil e rica. Mastigou devagar e, durante um momento, apesar da ansiedade de continuar a investigação enquanto jantava, achou impossível dedicar-se a outra coisa que não à refeição.

      Foi Fastolfe, na verdade, quem deu início à conversa.

      - Não é melhor começarmos, Sr. Baley? Baley sentiu-se meio ruborizado.

      - Sim, por favor. Peço-lhe desculpa. Sua comida auroreana pegou-me de surpresa e por isso me foi impossível pensar em outra coisa... O problema, Dr. Fastolfe, é como foi cometido,  não é?

      - Por que diz isso?

      - Alguém cometeu roboticídio de uma forma que exige grande perícia... segundo me disseram.

      - Roboticídio? Uma expressão divertida. - Fastolfe sorriu. - Claro, compreendo o que quer dizer... O senhor foi corretamente informado, a forma exige enorme perícia.

      - E só o senhor a tem para cometê-lo... segundo me disseram.

      - O senhor foi novamente bem informado.

      - E o senhor mesmo confessa, na verdade insiste, que só o senhor podia colocar Jander em congelamento mental.

      - Sustento o que é, afinal de contas, a verdade, Sr. Baley. De nada me adiantaria mentir, mesmo que eu pudesse me obrigar a isso. E sabido que eu sou o mais importante teórico roboticista de todos os Cinco Mundos.

      - Apesar disso, Dr. Fastolfe, não poderia o segundo melhor roooticista de todos os mundos... ou o terceiro melhor ou mesmo o décimo quinto melhor, possuir a competência necessária para cometer a façanha? Ela realmente exige toda a capacidade do melhor especialista?

      - Na minha opinião - retrucou calmamente Fastolfe - requer de fato toda a capacidade do melhor. Na verdade, ainda na minha opinião, eu próprio só poderia realizar a tarefa num dos meus dias excepcionais. Lembre-se de que os melhores cérebros em robótica,  incluindo o meu, trabalharam especialmente para criar céreros positrônicos, que não pudessem ser mentalmente congelados.

      - Tem certeza absoluta? Tem mesmo?

      - Completamente.

      - E declarou isso publicamente?

      - Claro. Houve um inquérito público, meu caro terráqueo. Fizeram-me perguntas que o senhor está agora repetindo e respondi com a verdade. Responder assim é um costume auroreano.

      - No momento - disse Baley - não duvido de que o senhor esteja convencido de ter falado a verdade. Mas não teria sido levado por um orgulho natural? Isso também pode ser tipicamente auroreano, ou não podia?

      - O senhor está dizendo que minha ansiedade foi considerada como a melhor coisa para me colocar voluntariamente na posição em que todos seriam forçados a concluir que eu congelei Jander mentalmente?

      - Considero o senhor contente, de certa forma, contente por ter sua posição social e política destruída, desde que sua reputação científica permaneça intacta.

      - Compreendo. O senhor tem um modo interessante de pensar. Sr. Baley. Isso não teria me ocorrido. Escolher entre   ser um segundo melhor e ser culpado de, para usar sua definição roboticida, o senhor é de opinião que eu aceitaria conscientemente a última.

      - Não, Dr. Fastolfe. Não desejo colocar a coisa de maneira tão simplista. Pode ser que o senhor não queira se iludir pensando ser o maior dos roboticistas e que é completamente inigualável, agarrando-se a isso a todo custo, porque o senhor, inconscientemente... inconscientemente, Dr. Fastolfe? percebe que na verdade está sendo superado, ou já foi, por outros.

      Fastolfe riu, mas havia uma ponta de aborrecimento no riso.

      - Nada disso, Sr. Baley. Está muito errado.

      - Pense, Dr. Fastolfe! Tem certeza de que nenhum dos seus colegas roboticistas pode se aproximar do senhor em brilho?

      - Há poucos capazes de lidar com robôs humaniformes. A construção de Daneel criou virtualmente uma nova profissão, para a qual nem mesmo há uma designação: talvez humaniformistas. Dos roboticistas teóricos de Aurora, nenhum, exceto eu, compreende o funcionamento do cérebro positrônico de Daneel. O Dr. Sarton compreendia, mas morreu... e assim mesmo não tão bem quanto eu. A teoria básica é minha.

      - Pode ter sido sua no começo, mas certamente não vai querer conservar a propriedade exclusiva. Ninguém aprendeu a teoria?

      Fastolfe fez um firme movimento negativo de cabeça.

      - Ninguém. Não ensinei a ninguém e duvido que qualquer outro roboticista vivo tenha desenvolvido a teoria sozinho.

      Baley disse, com um tom de irritação:

      - Não poderia ser um rapaz inteligente, recém-saído da universidade, com uma capacidade até agora não percebida, quem?...

      - Não, Sr. Baley, não. Eu teria sabido da sua existência. Ele teria passado por meus laboratórios. Teria trabalhado comigo. Esse rapaz não existe, no momento. Finalmente, alguém poderá, talvez até muitos. No momento, nenhuml

      - Então, se o senhor morrer, a nova ciência desaparece?

      - Tenho apenas 165 anos. Anos métricos, é claro, ou seja, apenas 124 dos seus anos terrestres, mais ou menos. Sou ainda muito moço pelos padrões auroreanos e não há motivo médico para que minha vida possa ser considerada como meio decorrida. Não é inteiramente  incomum chegarmos aos quatrocentos  anos...   métricos. Há ainda muito tempo para ensinar.

      Tinham terminado de comer, mas nenhum dos dois fez um gesto para sair da mesa. E nenhum dos robôs se aproximou para retirá-la. Era como se eles tivessem ficado imobilizado pela intensidade do fluxo da conversa.

      Os olhos de Baley franziram-se.

      - Dr. Fastolfe - disse ele - há dois anos eu estive em Solaria. Lá tive a nítida impressão de que os solarianos eram, em conjunto, os mais hábeis roboticistas de todos os mundos.

      - No todo, é provavelmente verdade.

      - E nenhum deles poderia ter realizado a façanha?

      - Nenhum, Sr. Baley. Sua habilidade é com robôs que são, no máximo, não mais adiantados que o meu pobre e confiável Giskard.

      Os solarianos nada sabem sobre a construção de robôs humaniformes.

      - Como tem certeza disso?

      - Já que esteve em Solaria, Sr. Baley, sabe muito bem que os solarianos podem se aproximar uns dos outros só com a maior dificuldade, que se comunicam por interação tridimensional... exceto quando o contacto sexual é imprescindível. O senhor acha que algum deles sonharia em projetar um robô tão humano de aparência, capaz de ativar suas neuroses? Evitariam a possibilidade de sua aproximação por ser tão humano que não poderiam usá-lo convenientemente.

      - Um ou outro solariano não poderia ter uma tolerância surprendente ao corpo humano? Como pode ter certeza?

      - Mesmo que um solariano pudesse, o que não nego, Aurora este ano não recebeu nenhum nativo de Solaria.

      - Nenhum?

      - Nenhum! Eles não gostam de ter contato com auroreanos, e a não ser por algum negócio urgente, nenhum viria aqui... ou a qualquer outro mundo. Mesmo no caso de um negócio urgente, não fariam mais que entrar em órbita e depois fariam o negócio através de comunicações eletrônicas.

      - Nesse caso - disse Baley - se o senhor é literal e realmente a única pessoa em todos os mundos que poderia ter cometido o crime, o senhor matou Jander?

      - Não acredito que Daneel tenha deixado de lhe dizer que neguei - respondeu Fastolfe.

      - Ele me disse, mas queria ouvi-lo do senhor.

      Fastolfe cruzou os braços e fechou o semblante. Entre os dentes cerrados, respondeu:

      - Então Vou dizer-lhe. Mão cometi o crime. Baley sacudiu a cabeça.

      - Acho que o senhor acredita nessa declaração.

      - Acredito. com toda a sinceridade. Estou dizendo a verdade. Não matei Jander.

      - Então se não o matou e se ninguém mais possivelmente o fez, então... Mas espere. Estou talvez fazendo uma suposição sem base. Jander realmente morreu ou foi trazido aqui com uma falsa desculpa?

      - O robô foi mesmo destruído. Poderia mostrá-lo ao senhor se a Legislatura não impedisse meu acesso a ele antes do dia acabar... o que não creio que queiram.

      - Nesse caso, se o senhor não o fez e ninguém mais possivelmente poderia tê-lo feito, e se o robô está realmente morto... quem cometeu o crime?

      Fastolfe deu um suspiro.

      - Tenho a certeza de que Daneel contou-lhe o que sustentei no inquérito: mas o senhor quer ouvi-lo dos meus próprios lábios.

      - É verdade, D r. Fastolfe.

      - Bem, então ninguém cometeu o crime. Foi um acontecimento espontâneo no fluxo positrômico pelos caminhos do cérebro que provocou o congelamento mental em Jander.

      - Isso é possível?

      - Não, não é. Extremamente improvável... mas se não o matei, essa é a única coisa que pode ter acontecido.

      - Ninguém argumentou que há uma possibilidade maior de o senhor estar mentindo, que ter acontecido um congelamento mental espontâneo?

      - Muitos o fizeram. Mas acontece que sei que não matei, o que deixa apenas a espontaneidade como possibilidade.

      - E o senhor me trouxe aqui para demonstrar, ou para provar, que o acontecimento espontâneo houve realmente?

      - Sim.

      - Mas como se pode provar o acontecimento espontâneo? Ao que parece, só provando-o posso salvá-lo, salvar a Terra e a mim mesmo.

      - Na ordem crescente de importância, Sr. Baley? Baley demonstrou aborrecimento.

      - Bem, então o senhor, eu e a Terra.

      - Temo que após demorada reflexão, eu tenha chegado à conclusão de que não há como obter essa prova - disse Fastolfe.

      Baley olhou, horrorizado, para Fastolfe.

      - Não há?

      - Não há. Nenhuma possibilidade. - Depois,  num súbito acesso de evidente abstração, pegou o condimentador e disse: - Sabe, estou curioso para ver se ainda posso fazer a tríplice genuflexão.

      Atirou o condimentador para cima com um calculado movimento de pulso. O objeto deu uma cambalhota e, ao cair, Fastolfe aparou-o pela ponta mais fina nas costas da  mão direita (o polegar dobrou-se por baixo). Tornou a subir, oscilou e foi amparado pelas costas da mão esquerda. Tornou a ser atirado e apanhado pelas costas da   mão direita e depois da esquerda. Após sua terceira genuflexão, foi erguido com força suficiente para ser arremessado. Fastolfe pegou-o no punho direito, com a mão   esquerda perto, de palma para cima. Uma vez apanhado o condimentador, Fastolfe mostrou a mão esquerda e lá estava uma leve pitada de sal.

      - É uma exibição infantil para a mente científica - disse Fastolfe - e o esforço é totalmente desproporcionado em relação ao fim, que é, claro, uma pitada de sal,   mas os bons anfitriões auroreanos ficam orgulhosos ao fazer uma demonstração. Há alguns capazes de manter o condimentador no ar durante um minuto e meio, mexendo  as mãos com velocidade quase maior que a dos olhos.

      Claro, acrescentou, pensativo. Daneel pode realizar isso com mais habilidade e rapidez que qualquer humano. Experimentei-o com o objetivo de examinar o acabamento   dos condutos do seu cérebro, mas seria um erro deixá-lo exibir esse talento em público. Seria humilhar desnecessariamente os condimentadores humanos: uma expressão   popular para eles, compreende, que não encontrará nos dicionários.

      Baley resmungou.

      Fastolfe suspirou.

      - Mas temos de voltar ao trabalho.

      - O senhor me trouxe através de vários parsecs de espaço para esse fim.

      - De fato, trouxe. Vamos continuar!

      - Há um motivo - perguntou Baley - para essa exibição sua, Dr. Fastolfe?

      - Bem, parece que chegamos a um impasse - retrucou Fastolfe. - Trouxe-o aqui para fazer uma coisa que não pode ser feita. Sua fisionomia é bastante eloqüente, e   para falar a verdade, não me sinto melhor. Parece,  todavia,  que podemos usar uma brecha. Assim, continuemos.

      - Na tarefa impossível?

      - Por que seria impossível para o senhor, Sr. Baley? Sua reputação é a de um realizador de impossíveis.

      - O drama da hiperonda? O senhor acredita naquela distorção idiota do que aconteceu em Solaria?

      Fastolfe abriu os braços.

      - É minha única esperança.

      - E eu não tenho escolha - disse Baley. - Devo continuar a tentar. Não posso voltar para a Terra com um fracasso. Me deixaram isso bem claro... Diga-me, Dr. Fastolfe:

      Como Jander foi assassinado? Que espécie de manipulação da sua mente teria sido necessária?

      - Sr. Baley, não tenho idéia de como poderei explicar isso, mesmo para outro roboticista, o que o senhor certamente não é, e ainda que estivesse preparado para publicar  minhas teorias, o que certamente não estou. Contudo, vejamos se posso explicar alguma coisa... O senhor sabe, é claro, que os robôs foram inventados na Terra.

      - A robótica é pouquíssimo considerada na Terra...

      - A forte tendência anti-robótica é muito conhecida nos mundos Espaciais.

      - Mas a origem terráquea dos robôs é evidente para qualquer pessoa na Terra que pense a respeito. Sabem perfeitamente que a viagem hiperespacial foi desenvolvida   com a ajuda de robôs, e uma vez que os mundos Espaciais não poderiam ter sido colonizados sem a viagem hiperespacial, segue-se que os robôs existentes antes da colonização   se ocuparam disso, enquanto a Terra continuou a ser o único planeta habitado. Portanto, os robôs foram inventados na Terra por terráqueos.

      - Mas a Terra não tem orgulho disso, não é?

      - Não discutimos isso - retrucou Baley secamente.

      - E os habitantes da Terra nada sabem sobre Susan Calvin?

      - Vi seu nome em alguns livros antigos. Foi uma das pioneiras da robótica.

      - É só o que sabe dela?

      Baley fez um gesto de pouco caso.

      - Acho que posso saber mais se procurar nos arquivos, mas ainda não tive tempo para isso.

      - Coisa estranha - comentou Fastolfe. - Ela é uma semideusa para todos os Espaciais, a tal ponto que imagino que somente  alguns roboticistas de verdade pensam nela como terráquea. Seria  uma espécie de profanação. Se lhes fosse dito, teriam recusado a acreditar que ela morreu após ter vivido pouco mais de cem anos métricos. E no entanto você a conhece  apenas como pioneira.

      - Ela tem alguma coisa a ver com tudo isto, Dr. Fastolfe?

      - Não diretamente, mas de certa forma. O senhor precisa compreender que seu nome está cercado de numerosas lendas. A maioria é indubitavelmente falsa, mas, apesar  disso, essas lendas estão ligadas ao nome dela. Uma das mais famosas, e das menos prováveis de serem verdadeiras, refere-se a um robô construído naqueles dias primitivos  que, por um acidente de produção, acabou tendo capacidade telepática...

      - O quê!

      - Uma lenda! Eu disse que era uma lenda... e indubitavelmente falsa. Veja só, há algum motivo teórico para supor ser isso possível, embora ninguém jamais tenha apresentado  um projeto plausível que permitisse sequer começar a incluir essa capacidade. Que isto tivesse surgido em cérebros positrônicos tão primitivos e simples como os  da era pré-hiperespacial é completamente impensável. É por isso que temos certeza de que essa história, em particular, é uma invenção. Mas, seja como for, deixe-me  prosseguir, pois leva a uma conclusão.

      - Por favor, continue.

      - O robô, de acordo com aquela lenda, podia ler pensamentos. E quando lhe faziam perguntas, lia a mente do indagador e dava-lhe a resposta que ele queria ouvir.

      Ora, a Primeira Lei da Robótica estatui muito claramente que um robô não pode causar dano a um ser humano ou, pela inação, permitir que uma pessoa seja ferida, mas  para os robôs, em geral, significa ferimento físico. Contudo, um robô capaz de ler pensamentos pode, com certeza, determinar que desapontamento, ira ou qualquer  emoção violenta torna infeliz um ser humano e o robô interpretará o que inspira essas emoções sob a designação de "ferir". Desse modo, se um robô telepático sabia  que a verdade podia desapontar ou enraivecer um indagador ou o levava a sentir inveja ou desgosto, diria uma mentira agradável em vez da verdade. Percebe?

      - Sim, claro.

      - Assim, o robô mentiu mesmo para a própria Susan Calvin. As mentiras não se mantinham durante muito tempo, pois diversas pessoas ouviam coisas diferentes que eram  não apenas inconsistentes entre elas, mas não apoiadas pela realidade. Susan Calvin descobriu  que lhe haviam mentido e percebeu que essas mentiras a levaram a uma posição bastante difícil. O que a tinha deixado um tanto perturbada no começo se transformara  agora, graças a falsas esperanças, num insuportável desapontamento... Nunca ouviu isso?

      - Dou-lhe minha palavra.

      - Espantoso! Porém, não foi certamente inventada em Aurora, pois é conhecida em todos os mundos... Em todo caso, Calvin vingou-se. Susan fez ver ao robô que, falando   a verdade ou a mentira, feria da mesma maneira a pessoa a quem se dirigia. Não podia obedecer à Primeira Lei, dissesse o que dissesse. O robô, compreendendo, viu-se   forçado a se refugiar numa inação total. Se quiser dar colorido, sua textura positrônica queimou-se. Seu cérebro ficou irremediavelmente destruído. Segundo a lenda,   a última palavra que Susan Calvin disse ao robô destruído foi "Mentiroso!"

      - E alguma coisa semelhante, suponho - retrucou Baley - aconteceu com Jander Panell. Foi posto frente a frente com uma contradição e seu cérebro fundiu?

      - Foi o que parece ter acontecido, embora não seja tão fácil de descobrir, como no tempo de Susan Calvin. Possivelmente por causa da lenda, os roboticistas sempre   procuraram dificultar o máximo possível o surgimento de contradições. À medida que a teoria do cérebro positrônico tornou-se mais sutil e a prática da construção   do cérebro positrônico mais complicada, sistemas cada vez mais bem sucedidos foram inventados para resolverem todas as situações que pudessem surgir na desigualdade,   de forma a que uma ação sempre possa ser executada como obedecendo a Primeira Lei.

      - Bem, então não se pode queimar o cérebro de um robô. É isso o que está dizendo? Pois se é, o que aconteceu a Jander?

      - Não é o que estou dizendo. Os sistemas cada vez mais bem sucedidos a que me referi nunca são totalmente bem sucedidos. Não podem ser. Por mais sutil e intricado   que um cérebro possa ser, há sempre um meio de introduzir nele uma contradição. É uma verdade fundamental da matemática. Permanecerá eternamente impossível produzir   um cérebro tão sutil e complicado capaz de reduzir a possibilidade de contradição a zero. Nunca totalmente a zero. Contudo,  os sistemas foram feitos tão próximos  do zero que para se chegar a um congelamento mental pela instalação de uma contradição adequada do cérebro positrônico seria preciso uma profunda compreensão dele...  e isso exigiria um técnico inteligente.

      - Como o senhor, Dr. Fastolfe?

      - Como eu. E no caso de robôs humaniformes, só eu.

      - Ou ninguém mais - retrucou Baley, francamente irônico.

      - Ou ninguém mais. Exatamente - disse Fastolfe, ignorando a ironia. - Os robôs humaniformes têm cérebros e, devo acrescentar, corpos, construídos numa imitação consciente  do ser humano. Os cérebros positrônicos são extraordinariamente delicados e adquirem, naturalmente, um pouco da fragilidade do cérebro humano. Assim como um ser  humano pode ter um ataque, uma possibilidade interna, sem a intervenção de qualquer efeito externo, também o cérebro humaniforme pode, apenas pela possibilidade, a ocasional movimentação sem rumo de positrons, chegar ao congelamento mental.

      - Pode provar, Dr. Fastolfe?

      - Posso demonstrar matematicamente, mas nem todos os que estão familiarizados com a matemática concordarão com a validade do raciocínio. Este implica certas suposições minhas que não combinam com os modos de pensar convencionais sobre a robótica.

      - E como é provavelmente o congelamento mental espontâneo?

      - Considerando o grande número de robôs humaniformes, digamos uns cem mil, há uma boa possibilidade de que um deles possa se submeter espontaneamente ao congelamento mental numa média de vida auroreana. E no entanto isso pode acontecer muito antes, como aconteceu a Jander, embora as possibilidades estejam muito contra ele.

      - Mas olhe, Dr. Fastolfe, mesmo que o senhor chegasse a provar indubitavelmente que um congelamento mental espontâneo pode acontecer aos robôs em geral, não será o mesmo que provar ter isso acontecido a Jander em particular, exatamente agora.

      - Não - admitiu Fastolfe - o senhor tem razão.

      - O senhor, o maior especialista em robótica, não pode provar, no caso específico de Jander.

      - Tem razão novamente.

      - Então, por que espera que eu seja capaz, quando nada sei de robótica?

      - Não há necessidade de provar alguma coisa. Será certamente bastante oferecer uma sugestão engenhosa, que torne o congelamento mental espontâneo plausível ao grande público.

      - Como...

      - Não sei.

      - Tem certeza de que não sabe, Dr. Fastolfe? - perguntou

      Baley, com voz dura.

      - Que quer dizer? Acabo de afirmar que não sei.

      - Deixe-me assinalar uma coisa. Presumo que os auroreanos, em geral, sabem que vim a este planeta com o objetivo de tentar resolver esse problema. Teria sido difícil me fazer entrar secretamente, considerando que sou terráqueo e estamos em Aurora.

      - Sim, é claro, e não tentei fazê-lo. Consultei o Presidente da Legislatura e o persuadi a me dar uma permissão para trazê-lo. Foi como consegui adiar o julgamento.

      O senhor terá a oportunidade de solucionar o mistério antes que eu entre em julgamento. Duvido que me dêem muito tempo.

      - Repito: então os auroreanos, em geral, têm conhecimento de que estou aqui e imagino que sabem exatamente por que... que supõem que sou capaz de resolver o quebra-cabeça da morte de

      Jander.

      - Claro. Que outro motivo haveria?

      - E desde a hora em que desembarquei da nave, o senhor me manteve sob guarda constante e severa por causa do temor de que seus inimigos possam tentar me eliminar... considerando-me uma espécie de homem maravilhoso, capaz de solucionar o problema de maneira a colocá-lo do lado vitorioso, apesar das probabilidades serem contra mim.

      - Sim, temo que seja uma possibilidade.

      - E suponha que alguém, que não quer ver o quebra-cabeça resolvido, e o senhor, Dr. Fastolfe, inocentado, possa realmente conseguir matar-me. Isso não mudará os sentimentos a seu favor? O povo não poderá considerar que seus inimigos sabem que o senhor, de fato, é inocente ou temam tanto a investigação que irão querer matar-me?

      - É um raciocínio meio complicado, Sr. Baley. Suponho que devidamente explorada sua morte pode ser usada com esse fim, mas isso não vai acontecer. Está sendo protegido e não será assassinado.

      - Mas para que me proteger, Dr. Fastolfe? Por que não deixar que me matem e usar minha morte como um caminho para a vitória?

      - Porque prefiro que fique vivo e tenha sucesso, demonstrando realmente minha inocência.

      - Mas o senhor sabe com certeza que não posso demonstrar sua inocência - replicou Baley.

      - Talvez o senhor possa. O senhor tem vários incentivos. O bem-estar da Terra e sua carreira dependem disso, como também me afirmou.

      - De que serve o incentivo? Se me mandar voar batendo os braços e depois me disser que falhei, serei imediatamente morto em tortura lenta, a Terra será explodida e toda sua população destruída. Terei enorme incentivo para bater minhas asas e voar... mas continuarei incapaz de fazê-lo.

      - Sei que as possibilidades são poucas - retrucou Fastolfe, preocupado.

      - Sabe que são inexistentes - disse Baley com violência - e que só a minha morte pode salvá-lo.

      - Então não serei salvo, pois estou tratando de evitar que meus inimigos o peguem.

      - Mas o senhor pode me atingir.

      - Como?

      - Estou pensando, Dr. Fastolfe, que o senhor mesmo pode me matar de maneira a parecer que seus inimigos realizaram a façanha. Irá então usar minha morte contra eles... e foi por isso que me trouxe aqui.

      Durante um momento, Fastolfe olhou Baley meio surpreso e depois, num acesso de ira súbita e extrema, seu rosto ficou rubro e retorcido num resmungo. Erguendo o condimentador da mesa, agrediu Baley com ele.

      E Baley, apanhado inteiramente de surpresa, mal conseguiu encolher-se na cadeira.

 

Daneel e Giskard

      Se Fastolfe tinha agido com rapidez, Daneel tinha reagido com muito maior presteza.

      Para Baley, que tinha esquecido a presença de Daneel, pareceu ter havido um vago avanço rápido, um som confuso, e imediatamente Daneel estava ao lado de Fastolfe, segurando o condimentador e dizendo:

      - Espero, Dr. Fastolfe, que não o tenha machucado de maneira nenhuma.

      Baley reparou, meio aturdido, que Giskard não estava longe de Fastolfe, no outro lado, e que cada um dos quatro robôs na parede do fundo tinha avançado até quase à mesa de jantar.

      Ligeiramente ofegante, com os cabelos meio despenteados, Fastolfe disse:

      - Não, Daneel. Na verdade, você agiu bem. - Ergueu a voz: - Todos procederam muito bem, mas lembrem, não devem permitir que alguma coisa os retarde, mesmo quando estou em causa.

      Riu baixinho e tornou a sentar-se, penteando o cabelo com a mão.

      - Lamento tê-lo assustado tanto, Sr. Baley, mas achei que a demonstração poderia ser mais convincente que as palavras.

      Baley, cujo momento de retração não passara de reflexo, afrouxou o colarinho e disse, com uma leve rouquidão:

      - Acho que esperava palavras, mas concordo em que a demonstração foi convincente. Fico contente por Daneel estar bastante perto para desarmá-lo.

      - Qualquer um deles estava bastante perto, porém Daneel era o mais próximo e me pegou primeiro. E pegou-me com rapidez bastante para não me machucar. Se ele estivesse mais afastado, poderia ter arrancado meu braço ou mesmo me derrubado.

      - Ele chegaria a tanto?

      - Sr. Baley - respondeu Fastolfe - dei instruções para sua proteção e sei como dá-las. Não teriam hesitado em salvá-lo, mesmo que a alternativa fosse me ferir. Teriam, é claro, procurado me atingir o mínimo possível, como Daneel fez. Ele só feriu a minha dignidade e a impecabilidade do meu penteado. E meus dedos tremem um pouco - terminou Fastolfe, flexionando-os pesarosamente.

      Baley respirou fundo, procurando recuperar-se daquele instante de confusão.

      - Daneel não teria me protegido sem suas instruções específicas? - perguntou Baley.

      - Sem dúvida. Teria, sim. Não deve pensar contudo que a reação robótica é um simples sim ou não, suba ou desça, entre ou saia. É um engano freqüente dos leigos.

      Trata-se da velocidade da reação. Minhas instruções referentes ao senhor foram tão claras que a potencialidade dos robôs do meu estabelecimento, incluído Daneel, é anormalmente alta, de fato tão alta quando posso torná-la, razoavelmente. A reação, portanto, a um perigo presente e imediato ao senhor é extraordinariamente rápida.

      Eu sabia que seria e foi por esse motivo que pude atacá-lo tão rapidamente como fiz... sabendo que podia dar-lhe a mais convincente demonstração da minha incapacidade de feri-lo.

      - Sim, mas não estou completamente agradecido por isso.

      - Ah, eu estava inteiramente confiante em meus robôs, especialmente em Daneel. Ocorreu-me porém, um pouco tarde demais, que se eu não tivesse largado o condimentador, Daneel poderia muito contra sua vontade, ou o equivalente robótico de vontade, quebrado meu pulso.

      - Ocorre-me que foi um risco tolo tomado pelo senhor - retrucou Baley.

      - Também acho o mesmo... depois do fato. Agora, se o senhor tivesse se preparado para me atirar o condimentador, Daneel teria imediatamente evitado seu movimento, porém não com a mesma velocidade, pois não tinha recebido instruções especiais em relação à minha segurança. Espero que ele tivesse sido bastante rápido para me salvar, mas não tenho certeza... e prefiro não experimentar - terminou Fastolfe, com um sorriso cordial.

      - E se algum explosivo tivesse sido atirado na casa, de um veículo aéreo?

      - Ou se um raio gama for atirado em nós de cima de uma colina próxima... Meus robôs não representam uma proteção infinita, mas tais tentativas terroristas são improváveis ao extremo aqui em Aurora. Sugiro que não nos preocupemos com elas.

      - Não estou desejando me preocupar com elas. Na realidade, não suspeito seriamente que o senhor, Dr. Fastolfe, se constitua um perigo para mim. Porém necessito eliminar todas as possibilidades, se quero prosseguir. Podemos agora continuar.

      - Sim, podemos - confirmou Fastolfe. - Apesar do desvio bastante dramático acrescentado, ainda encaramos o problema de provar que o congelamento mental de Jander foi um acontecimento espontâneo.

      Mas Baley havia percebido a presença de Daneel e virou-se para ele, perguntando, preocupado:

      - Daneel, este assunto que discutimos o perturba?

      Daneel, que depositara o condimentador numa das mesas vazias mais afastadas, retrucou:

      - Colega Elijah, gostaria que o amigo-findo, Jander, ainda fosse operacional, porém uma vez que não é e não pode ser restaurado para funcionar devidamente, o melhor a fazer é que seja iniciada uma ação para evitar incidentes semelhantes no futuro. Visto que a discussão agora encaminha-se para esse fim, o assunto me agrada mais que perturba.

      - Bem, então, para assentar o assunto, Daneel você crê que o Dr. Fastolfe é responsável pelo fim do seu colega-robô Jander?... O senhor desculpa minha pergunta, Dr. Fastolfe?

      Fastolfe fez um gesto de concordância e Daneel respondeu:

      - O Dr. Fastolfe declarou que não foi responsável e portanto, é claro, não foi.

      - Não tem dúvidas a respeito, Daneel?

      - Nenhuma, Colega Elijah. Fastolfe pareceu um tanto divertido.

      - O senhor está interrogando um robô, Sr. Baley.

      - Sei disso, mas não consigo pensar em Daneel como robô e Por isso perguntei.

      - A resposta dele não teria sido aceita em nenhuma Comissão de Inquérito. Ele é obrigado a acreditar em mim por causa dos seus potenciais positrônicos.

      - Não sou uma Comissão de Inquérito, Dr. Fastolfe, e estou limpando o terreno. Permita-me que recomece de onde parei. Ou o senhor queimou o cérebro de Jander ou isso aconteceu por uma circunstância fortuita. O senhor me afirma que não posso provar a última, restando-se apenas a tarefa de refutar uma ação sua. Em outras palavras, se não posso provar que é impossível o senhor ter assassinado Jander, resta-nos a circunstância fortuita como única alternativa.

      - E como pode fazer isso?

      - É uma questão de modo, oportunidade e motivo. O senhor tinha o meio de matar Jander: a capacidade teórica de manipulá-lo tanto, que terminaria num congelamento mental. Mas teve a oportunidade? Ele era seu robô, no sentido em que projetou suas circunvoluções cerebrais e supervisionou sua construção, porém estava ele realmente em seu poder na época do congelamento mental?

      - De fato, não. Pertencia a outro.

      - Havia quanto tempo?

      - Cerca de oito meses... ou pouco mais da metade de um dos seus anos.

      - Ah. É um ponto interessante. O senhor estava com ele, ou perto dele, na data da sua destruição? O senhor podia tê-lo pegado? Em suma, podemos demonstrar que o senhor estava tão longe dele, ou impossível de tocá-lo, que não é lógico supor que poderia ter realizado aquele ato na hora em que supostamente aconteceu?

      - Temo que isso seja impossível - retrucou Fastolfe. - Há um intervalo de tempo bastante grande durante o qual o crime poderia ter acontecido. Não há mudanças robóticas após a destruição, equivalentes ao rigor mortis ou decomposição num ser humano. Podemos apenas dizer que num certo instante Jander estava operando e num outro momento não mais estava em atividade. Entre os dois, houve um lapso de cerca de oito horas. Não tenho álibi para esse período.

      - Nenhum? Dr. Fastolfe, que estava o senhor fazendo nesse período?

      - Eu estava aqui no meu estabelecimento.

      - Com toda a certeza, meus robôs sabiam que estava aqui e podiam testemunhar.

      - Certamente sabiam, mas não podiam testemunhar, sob nenhuma forma legal, e nesse dia Fanya tinha saído para tratar de assuntos pessoais.

      - Por falar nela, Fanya tem acesso aos seus conhecimentos de robótica?

      Fastolfe permitiu-se um sorriso malicioso.

      - Ela sabe menos que o senhor... Além disso, ignora este assunto.

      - Por quê?

      A paciência de Fastolfe começava evidentemente a chegar ao fim.

      Meu caro Sr. Baley, aquilo não foi um caso de ataque físico como o pretenso ataque ao senhor. O que aconteceu a Jander não exigia a minha presença física. Acontece que embora não realmente no meu estabelecimento, Jander não estava longe geograficamente, mas não teria importado se estivesse do outro lado de Aurora. Eu poderia a qualquer instante alcançá-lo eletronicamente e com as ordens que lhe dei e as reações que pude desenvolver nele levá-lo ao congelamento mental. O passo decisivo nem mesmo exigiria muito com relação ao tempo...

      Baley perguntou imediatamente:

      - Então é um processo rápido, que alguém mais pode movimentar por acaso, enquanto pretende uma coisa perfeitamente rotineira?

      - Não! - retrucou Fastolfe. - Terráqueo, deixe-me falar, para o bem de Aurora. Já lhe disse que não é esse o caso. Induzir em Jander o congelamento mental seria um processo longo, complicado e tortuoso, requerendo o maior conhecimento e capacidade, não podendo ser feito por alguém acidentalmente, sem uma coincidência incrível e consecutiva. Haveria muito menos possibilidade de um Progresso acidental nessa estrada enormemente complexa que de um congelamento mental espontâneo, se meu raciocínio matemático fosse aceito.

      Contudo, se eu quisesse provocar o congelamento mental, poderia cautelosamente provocar mudanças e reações, pouco a pouco, durante semanas, meses e mesmo anos, até levar Jander ao ponto e ato de destruição. E em nenhum momento desse processo ele mostraria sinais de estar à beira da catástrofe, exatamente como alguém se  aproxima cada vez mais de um precipício no escuro, sem sentir a Perda de firmeza no andar, mesmo na beirinha. Contudo, uma vez tendo feito chegar até ali, a beira do precipício, um simples comentário meu o faria atirar-se. É esse passo final que é preciso ser dado no momento exato. Compreende?

      Baley apertou os lábios. Não adiantava tentar mascarar seu desapontamento.

      - Então, em suma, o senhor teve a oportunidade.

      - Qualquer um teria tido a oportunidade. Qualquer um em Aurora, desde que, ele ou ela, tivesse a necessária capacidade.

      - E só o senhor tem a necessária capacidade.

      - Temo que sim.

      - O que nos leva ao motivo, Dr. Fastolfe.

      - Ah.

      - E aqui está o que poderá nos tornar capazes de ter um bom caso. Esses robôs humaniformes são seus. São baseados em sua teoria e o senhor participou de sua construção a cada instante, mesmo que o Dr. Sarton tenha supervisado essa construção. Eles existem por sua causa e unicamente por sua causa. O senhor referiu-se a Daneel como seu "primogênito". São criações suas, seus filhos, seu presente à humanidade, sua certeza de imortalidade - Baley começou a ficar eloqüente e, por um instante, imaginou-se falando a uma Comissão de Inquérito. - Por que na Terra, ou melhor, Aurora, por que em Aurora o senhor iria desfazer essa obra? Por que iria destruir uma vida que produziu por um milagre de trabalho mental?

      Fastolfe pareceu meio divertido.

      - Ora, Sr. Baley, o senhor nada sabe a esse respeito. Como poderia saber que minha teoria foi o resultado de um milagre de trabalho mental? Poderia ter sido a completa extensão de uma equação que qualquer um seria capaz de ter realizado, mas não se deu ao trabalho de fazer antes de mim.

      - Não concordo - disse Baley, esforçando-se para ficar calmo. - Se só o senhor compreende o cérebro humaniforme o suficiente para destruí-lo, acho que provavelmente só o senhor pode compreendê-lo o suficiente para tê-lo criado. Nega isso?

      Fastolfe sacudiu a cabeça.

      - Não, não Vou negar. E mais, Sr. Baley - seu rosto ficou mais triste que quando se tinham encontrado - sua análise cuidadosa só tem como conseqüência tornar o caso ainda pior para nós. Já concluímos que sou o único com os meios e a oportunidade. Como se vê, tenho também um motivo, o melhor do mundo, e meus inimigos sabem disso. Como então pela Terra, para citá-lo, ou por Aurora ou qualquer outro lugar, iremos provar que não o fiz?

      O rosto de Baley contraiu-se num franzir furioso. Andou depressa, na direção do canto da sala, como se quisesse trancar-se. Depois virou-se subitamente para Fastolfe, dizendo com firmeza:

      - Dr. Fastolfe, parece que o senhor sente prazer em me frustrar.

      Fastolfe encolheu os ombros.

      - Nenhum prazer. Simplesmente apresento-lhe o problema como ele é. O pobre Jander sucumbiu à morte robótica pela pura incerteza da flutuação positrônica. Uma vez que eu sei que nada tenho a ver com isso, sei como deve ter sido. Contudo, ninguém mais pode ter certeza de que sou inocente e todas as provas indiretas me apontam... e isso precisa ser encarado francamente, resolvendo o que podemos fazer, se pudermos.

      - Bem - disse Baley - nesse caso investiguemos seu motivo. O que parece ser um motivo insuperável para o senhor, pode não ser nada disso.

      - Duvido. Não sou louco, Sr. Baley.

      - Também não é juiz de si mesmo, talvez, e de seus motivos. As pessoas às vezes não são. O senhor pode estar dramatizando por alguma razão.

      - Não acho.

      - Então me conte seu motivo. Qual é? Diga!

      - Calma, Sr. Baley. Não é fácil explicar... Pode ir lá fora comigo?

      Baley olhou depressa para a janela. Lá fora? O sol estava baixo no céu e a sala iluminada por ele. Hesitou e depois respondeu, num tom um pouco mais alto que o necessário:

      - Sim, posso!

      - Excelente - disse Fastolfe. E depois, com uma nota amistosa, acrescentou: - Mas talvez queira visitar o Pessoal antes.

      Baley refletiu um instante. Não sentia urgência, mas não sabia o Que o esperava no Exterior, quanto tempo iria permanecer lá, que facilidades haveria ou não lá.

      Além do mais, não conhecia os costumes auroreanos a esse respeito e não lembrava de ter visto nada, nos livros-filmes que examinara na nave, que servisse para esclarecê-lo a respeito. Talvez fosse mais seguro concordar com tudo o que o anfitrião sugerisse.

      - Obrigado - respondeu - acho que será conveniente. Fastolfe concordou de cabeça.

      - Daneel - disse - leve o Sr. Baley ao Pessoal das Visitas.

      - Colega Elijah, quer me acompanhar? - convidou Daneel. Quando passaram para a sala ao lado, Baley disse:

      - Lamento que você não tenha participado da conversa entre mim e o Dr. Fastolfe.

      - Não seria cabível, Colega Elijah. Quando você me fez uma pergunta direta eu respondi, mas não fui convidado a participar da conversa.

      - Eu teria feito o convite, Daneel, se não me sentisse constrangido pela minha posição de convidado. Pensei que não ficaria bem tomar a iniciativa.

      - Compreendo... Este é o Pessoal das Visitas, Colega Elijah. A porta abrirá ao toque de sua mão, se o local estiver desocupado.

      Baley não entrou. Parou, pensativo, dizendo depois:

      - Se você tivesse sido convidado a falar, Daneel, teria alguma coisa a dizer? Algum comentário que desejasse fazer? Levo sua opinião muito em conta, amigo.

      Daneel respondeu, com seu ar grave habitual:

      - O único comentário que desejo fazer é que a declaração do Dr. Fastolfe de que tinha um excelente motivo para colocar Jander fora de  atividade, foi uma surpresa inesperada para mim. Não sei que motivo possa ser. Contudo, qualquer que seja esse motivo, você pode  perguntar por que não teve motivo semelhante para me colocar  em congelamento mental. Se ele acredita ter tido um motivo para desativar Jander, por que o mesmo motivo não me é aplicado? Estou curioso para saber.

      Baley olhou firmemente para o outro, procurando automaticamente uma expressão num rosto naturalmente impassível.

      - Sente-se inseguro, Daneel? - perguntou. - Acha que Fastolfe é um perigo para você?

      - Pela Terceira Lei - retrucou Daneel - devo proteger minha própria existência, mas não devo resistir ao Dr. Fastolfe ou a outro ser humano se, na abalizada opinião  deles, seja necessário terminar minha existência. Esta é a Segunda Lei. Contudo, sei que valho muito, tanto em termos de investimento de material, trabalho  e tempo, como em termos de importância científica. Portanto, tornase necessário que me seja explicado claramente o motivo da necessidade de terminar minha existência.

      O Dr. Fastolfe nunca me disse nada, nunca, Colega Elijah, que fizesse supor ter ele isso em mente. Não acredito que tenha pensado, mesmo remotamente, em acabar com  minha existência ou com a de Jander. Um desvio positrônico fortuito deve ter acabado com Jander e poderá um dia acabar comigo. Há sempre um elemento de risco no  Universo.

      - Você diz, Fastolfe também diz e eu acredito - falou Baley - mas é difícil persuadir as pessoas em geral a aceitarem isso. - Virou-se com ar sombrio para o Pessoal e acrescentou: - Vai entrar comigo, Daneel?

      A fisionomia de Daneel esforçou-se para ficar divertida.

      - É agradável, Colega Elijah, ser considerado humano até esse ponto. Não é preciso, é claro.

      - Evidente. Mas apesar disso, pode entrar.

      - Não seria apropriado para eu entrar. Não é costume os robôs entrarem no Pessoal. O interior desse recinto é puramente humano... Além disso é um Pessoal individual.

      - Individual!  - Momentaneamente,  Baley ficou  chocado. Contudo, recuperou-se. Outros mundos, outros hábitos! E não lembrava deste ter sido descrito nos livros-filmes.

      Prosseguiu: - Então foi o que quis dizer ao afirmar que a porta só abriria se estivesse desocupado. E se estivesse ocupado, como estará logo?

      - Então não abriria a um toque do exterior, claro, e sua privacidade seria protegida. Naturalmente, abrirá a um toque do interior.

      - E se um visitante desmaiar, tiver um ataque do coração quando no interior e não puder tocar a porta por dentro? Não quer dizer que ninguém poderá entrar para socorrê-lo?

      - Há meios para abrir a porta numa emergência, Colega Elijah, se parecer aconselhável. - Depois, evidentemente perturbado:

      - Você acha que uma coisa assim poderá acontecer?

      - Não, claro que não... Foi apenas curiosidade.

      - Estarei do lado de fora da porta - disse Daneel, preocupado. Se eu ouvir um chamado. Colega Elijah, acudirei correndo.

      - Duvido que precise.

      Baley tocou na porta, leve e descuidadamente, com as costas da mão. e ela abriu-se imediatamente. Esperou um momento ou dois Para ver se fecharia. Não fechou. Entrou e então a porta fechou-se perfeitamente.

      Enquanto a porta estava aberta, o Pessoal parecia um local adequado à sua finalidade. Uma pia, um boxe (presumivelmente com chuveiro), uma banheira, uma meia porta  fosca, sem dúvida, com uma latrina. Havia inúmeros dispositivos que não identificou. Considerou-os como para atendimento de serviços pessoais de uma forma ou outra.

      Tinha pouca possibilidade de examiná-los, pois num instante desapareceram todos e ficou imaginando se o que tinha visto realmente estivera ali ou se pareceram existir  porque eram o que ele esperava ver.

      Assim que a porta fechou-se, o compartimento escureceu, pois não tinha janela. Quando a porta ficou totalmente fechada, tornou a iluminar-se, porém nada do que tinha   visto voltou. Era a luz do sol e ele estava no Exterior... ou assim lhe pareceu.

      Sobre sua cabeça, o céu com nuvens passando, mas de um modo tão uniforme que era evidentemente irreal. De cada lado, igualmente uma extensão de folhagem, movendo-se  da mesma forma repetitiva.

      Sentiu o familiar nó no estômago, que lhe aparecia sempre que estava no Exterior... mas não no Exterior. Tinhg entrado num compartimento sem janelas. Era um truque   de iluminação.

      Olhou para a frente e, devagar, arrastou os pés nessa direção. Estendeu as mãos. Lentamente. com o olhar fixo.  Suas mãos tocaram uma parede lisa. Sentiu seu nivelamento para todos os lados. Tocou o que tinha visto como uma pia naquele instante de visão original e, guiado   pelas mãos, pôde vê-la agora: indistintamente, indistintamente contra a dominante sensação de luz.

      Encontrou a torneira, porém não saía água. Tateou-a e não encontrou o equivalente ao dispositivo conhecido, que fazia a água jorrar. Deu com uma faixa comprida,   meio áspera, que a fazia destacar-se da parede em volta. Quando seus dedos passaram sobre ela, apertou-a levemente, experimentando imediatamente a verdura, que se   estendia muito além do plano ao longo do qual seus dedos lhe disseram que a parede existia, foi dividida por um arroio, caindo velozmente de uma elevação na direção   de seus pés, com um barulho de esguicho.

      Num pânico mecânico, pulou para trás, mas a água sumiu antes de atingir seus pés. Não parou de correr, mas não atingiu o chão. Estendeu a mão. Não era água, mas   uma ilusão luminosa de água  molhou sua mão, nada sentiu. Mas seus olhos teimosamente resistiram à prova. Eles viram água.  Acompanhou o arroio com os olhos até em cima e finalmente chegou a uma coisa que era água: um fio saindo da torneira. Estava  fria.

      Seus dedos tornaram a achar a tira e tatearam, apertando aqui e ali. A temperatura mudava rapidamente e ele achou o ponto que fornecia água de tepidez conveniente.

      Não encontrou sabonete. Meio relutante, começou a esfregar as mãos não ensaboadas sob o que parecia ser uma fonte natural, que deveria encharcá-lo da cabeça aos  pés, mas não o fazia. E como se o mecanismo pudesse ler sua mente ou, mais provavelmente, fosse guiado pelo atrito de suas mãos, sentiu a água ficar ensaboada, enquanto   que a fonte que ele via/não via encheu-se de bolhas que se transformaram em espuma.

      Ainda relutante, curvou-se sob a pia e esfregou o rosto com a mesma água de sabão. Sentiu a aspereza da barba, mas sabia que, sem instruções, não tinha como transformar  o equipamento daquele compartimento num barbeador.

      Terminou e conservou as mãos sob a água, sem saber o que fazer. Como parar o sabonete? Não precisou perguntar. Presumivelmente, suas mãos, não mais se esfregando  ou seu rosto, o fariam. A água perdeu o sabão, que foi lavado de suas mãos. Banhou o rosto com a água - sem esfregar - e ele também foi enxaguado. Sem a ajuda da  visão e com a inabilidade de alguém não habituado ao processo, molhou completamente a camisa.

      Toalhas? Papel?

      Deu um passo atrás, de olhos fechados, mantendo a cabeça inclinada para a fente, evitando pingar mais água em suas roupas. Recuar foi, evidentemente, a chave da   ação, pois sentiu o fluxo quente de uma corrente de ar. Colocou seu rosto dentro dela e depois as mãos.

      Abriu os olhos e viu que a fonte não estava mais correndo. Usou as mãos e viu que não podia sentir água de verdade.

      O nó em seu estômago há muito se transformara em irritação. Reconheceu que Pessoais variavam enormemente de mundo para mundo, mas de certa forma essa bobagem de

      Exterior simulado ia longe demais.

      Na Terra, um Pessoal era um enorme recinto coletivo, restrito a um único sexo, com compartimentos privados, dos quais cada um  tinha uma chave. Em Solaria, entrava-se num Pessoal por um corredor estreito existente ao lado da casa, que os solarianos  esperavam não fosse considerado como parte  do seu lar. Contudo, em ambos mundos, apesar de tão diferentes, os Pessoais eram claramente definidos e a função de tudo neles não podia ser confundida. Por que  em Aurora, havia esse cuidadoso fingimento de rusticidade, quef mascara inteiramente cada parte de um Pessoal?

      Por quê?

      De qualquer forma, seu aborrecimento deu-lhe um pequeno espaço emocional, onde podia sentir-se inquieto com esse falso  exterior. Caminhou na direção de onde lembrava ter visto a meia porta fosca.

      Não foi a direção correta. Encontrou-a somente depois de acompanhar a parede devagar e após ter esfolado várias partes do  corpo em protuberâncias.

      Finalmente, viu-se urinando numa ilusão de pequena poça, que não parecia estar recebendo o jato devidamente. Seus joelhos disseram-lhe que estava apontando corretamente  entre os lados do que ele achou ser um urinol e disse a si mesmo que, se estivesse usando o receptáculo errado ou errando a pontaria, a culpa não era sua.

      Durante um momento, após urinar, pensou em procurar a pia e dar uma lavagem final nas mãos, porém decidiu o contrário. Simplesmente não podia enfrentar a procura  e aquela falsa queda d'água.

      Em vez disso, achou, tateando, a porta pela qual entrara, mas não sabia que a tinha achado até que o toque de sua mão resultou na sua abertura. A luz sumiu imediatamente  e o resplendor não ilusório do dia o cercou.

      Daneel estava à sua espera, com Fastolfe e Giskard.

      - O senhor levou quase vinte minutos - disse Fastolfe. - Começávamos a temer pelo senhor.

      Baley sentiu sua raiva crescer.

      - Tive problemas com suas ilusões idiotas - replicou, de forma contida.

      Fastolfe franziu os lábios e ergueu as sobrancelhas, num silencioso "Ahh!" e depois disse:

      - Há um contato interno junto à porta que controla a ilusão. Pode diminuí-la e permitir-lhe que veja a realidade através dela... ou elimina totalmente a ilusão, se quiser.

      - Ninguém me informou. Todos os seus Pessoais são assim?

      - Não - retrucou Fastolfe. - Os Pessoais de Aurora possuem comumente qualidades ilusórias, porém a natureza da ilusão varia de acordo com o indivíduo. A ilusão de   verdor natural me agrada e modifico seus detalhes de tempos em tempos. Como sabe, a gente se cansa de tudo, após um certo período. Há pessoas que fazem uso de ilusões   eróticas, porém isso não me agrada.

      Claro, quando se está familiarizado com Pessoais, as ilusões não perturbam. Os compartimentos são padronizados e sempre se sabe onde tudo está. Não é pior que mover-se  no quarto escuro bem conhecido... Mas, diga-me, Sr. Baley, por que não procurou a saída e pediu informações?

      - Porque - respondeu Baley - não quis. Confesso que fiquei tremendamente irritado com as ilusões, mas aceitei-as. Afinal de contas, foi Daneel quem me conduziu ao   Pessoal e ele não me deu informações nem me fez advertências. Certamente teria me instruído se lhe deixassem tomar a iniciativa, pois evidentemente teria previsto   que de outra forma eu seria prejudicado. Tenho de concluir, portanto, que o senhor instruiu-o cuidadosamente para não me advertir, e uma vez que eu realmente não   ache que o senhor tenha feito uma brincadeira comigo, tenho de admitir que o senhor tinha um objetivo sério ao fazê-lo.

      - Ah?

      - Afinal de contas, o senhor me convidou para ir ao Exterior, e quando concordei, o senhor imediatamente perguntou-me se eu queria ir ao Pessoal. Achei que a finalidade   de me mandar para dentro de uma ilusão de Exterior era para ver se eu podia suportá-lo... ou se sairia correndo, em pânico. Se pudesse agüentá-lo, teriam confiança em mim no verdadeiro Exterior. Bem, suportei. Estou um pouco molhado, graças ao senhor, porém secará logo.

      - O senhor é uma pessoa lúcida, Sr. Baley - disse Fastolfe. - Peço-lhe desculpa pela natureza da prova e pelo incômodo que lhe causei. Eu estava apenas afastando a possibilidade de um incômodo maior. O senhor ainda deseja sair comigo?

      - Não só desejo, Dr. Fastolfe, como insisto.

 

      Partiram por um corredor, com Daneel e Giskard logo atrás. - Espero que o senhor não se importe que os robôs venham  conosco - disse Fastolfe, em tom de conversa. - Os auroreanos nunca vão a parte alguma sem pelo menos um robô para atendê-los e no seu caso em particular, preciso  insistir que Daneel e Giskard estejam com o senhor o tempo todo.

      Abriu uma porta e Baley procurou manter-se firme contra o sol e o vento, para não falar no estranho e sutil odor emanado do solo auroreano que o rodeava.

      Fastolfe pôs-se de lado e Giskard saiu em primeiro lugar. O robô examinou cuidadosamente os arredores durante um momento. Tinha-se a impressão de que todos os seus  sentidos estavam intensamente aplicados. Olhou para trás e Daneel juntou-se a ele, fazendo o mesmo.

      - Espere um pouco, Sr. Baley - falou Fastolfe - e eles nos dirão se acham seguro que saiamos. Vou usar a oportunidade para mais uma vez pedir desculpas pelo meu  comportamento vil com relação ao Pessoal. Garanto-lhe que teríamos sabido se o senhor estivesse em dificuldades: seus vários sinais vitais estavam sendo registrados.

      Sinto-me muito contente, embora não totalmente surpreso, por ter o senhor percebido minha intenção.

      Sorriu e hesitando quase imperceptivelmente pôs a mão no ombro esquerdo de Baley, apertando-o amigavelmente.

      Baley manteve-se firme.

      - O senhor parece ter esquecido do seu anterior truque vil: sua aparente agressão a mim com o condimentador. Se me garantir que de agora em diante vamos nos tratar franca e honestamente, considerarei esse assunto como boas intenções.

      - De acordo!

      - É seguro sair agora?

      Baley olhou na direção seguida por Giskard e Daneel, que tinham se afastado e separado, um para cada lado, sempre examinando e observando.

      - Ainda não. Eles deverão fazer a volta completa do estabelecimento... Daneel me disse que o senhor o convidou a entrarem juntos no Pessoal. Verdadeiramente, que significava isso?

      - Sim, eu sabia que ele não precisava, mas julguei indelicado deixá-lo fora. Eu não estava certo dos costumes auroreanos a esse respeito, apesar de tudo o que li sobre o assunto.

      - Suponho que não é uma dessas coisas que os auroreanos consideram necessário citar e, é claro, não se pode esperar que os  livros façam qualquer tentativa de preparar o visitante terráqueo para coisas assim...

      - Porque há tão poucos visitantes terráqueos?

      - Exatamente. Trata-se do fato de que, claro, os robôs jamais vão aos Pessoais. Esse é o único local onde os seres humanos ficam livres deles. Suponho que há necessidade   de alguém sentir-se livre deles em certos períodos e lugares.

      - E no entanto - retrucou Baley - quando Daneel esteve na Terra, por ocasião da morte de Sarton, há três anos, procurei afastálo do Pessoal Comunitário, dizendo-lhe que não necessitava. Todavia, ele insistiu em entrar.

      - E com toda razão. Na época, ele foi rigorosamente instruído a não dar algum indício de que não era humano, por motivos dos quais o senhor bem se lembra. Aqui em Aurora, contudo... Ah, já terminaram.

      Os robôs estavam caminhando para a porta e Daneel fez-lhe um gesto para saírem.

      Fastolfe ergueu o braço para barrar o caminho de Baley.

      - Se não se importa, Sr. Baley, sairei primeiro. Conte pacientemente até cem e depois junte-se a nós.

      Baley, ao chegar a cem, saiu e caminhou com firmeza para Fastolfe. Seu rosto estava, talvez, muito duro, seus maxilares fortemente cerrados e as costas empertigadas.

      Olhou em volta. A cena não era muito diferente da que apareceu no Pessoal. Fastolfe tinha provavelmente usado seu próprio terreno como modelo. O verde estendia-se   por toda parte e havia um regato escorrendo de uma encosta. Talvez fosse artificial, mas não era ilusão. A água era real. Sentiu o borrifo quando passou perto.

      Havia uma espécie de domesticidade em tudo aquilo. O Exterior na Terra era mais selvagem e mais grandiosamente belo, pelo pouco que Baley vira dele.

      Tocando-lhe levemente o braço e apontando, Fastolfe disse:

      - Venha por aqui. Olhe!

      Uma abertura entre duas árvores mostrava um trecho gramado.

      Pela primeira vez, havia uma sensação de distância e no horizonte podia ser visto um lugar habitado: telhados baixos e extensos, tão verdes que quase se confundiam com a paisagem.

      - Esta é uma área residencial - disse Fastolfe. - Pode não lhe parecer, pois o senhor está acostumado com as tremendas colméias terrestres, mas estamos na cidade auroreana de Eos, que é de fato o centro administrativo do planeta. Ali moram vinte mil seres humanos, o que a torna a maior cidade não apenas de Aurora, mas de todos os mundos Espaciais. Há tantos habitantes em Eos quanto em toda Solaria.

      Era visível o orgulho de Fastolfe ao dizer isso.

      - Quantos robôs, Dr. Fastolfe?

      - Neste setor? Talvez uns cem mil. No planeta como um todo, há cinqüenta robôs para cada ser humano, em média, e não dez mil como em Solaria. A maior parte dos nossos robôs está nas fazendas, nas minas, nas fábricas, no espaço. Na verdade, temos poucos robôs, principalmente domésticos. A maioria dos auroreanos se contenta com dois ou três deles e alguns apenas com um. Contudo, não queremos seguir o exemplo de Solaria.

      - Quantos seres humanos não têm algum robô doméstico?

      - Nenhum. Não seria de interesse público. Se algum ser humano, por qualquer motivo, não puder manter um robô, ele ou ela receberá um que será sustentado, se necessário, pelo serviço público.

      - O que acontece se a população aumenta? Os senhores providenciam mais robôs?

      Fastolfe balançou a cabeça.

      - A população não aumenta. A de Aurora é de duzentos milhões e há três séculos tem permanecido estável. É a quantidade desejada. Certamente o senhor tomou conhecimento disso nos livros que viu.

      - Sim, vi - confessou Baley - mas custei a acreditar.

      - Garanto-lhe que é verdade. Isso dá a cada um de nós um bom pedaço de terra, um amplo espaço, uma grande privacidade e um bom naco dos recursos do mundo. Não há gente em excesso, como na Terra, nem de menos, como em Solaria.

      Estendeu o braço para Baley se apoiar e poderem continuar andando.

      - O que está vendo - prosseguiu Fastolfe - é um mundo domesticado. Trouxe-o cá fora, Sr. Baley, para mostrá-lo ao senhor.

      - E não há perigo nele?

      - Sempre há algum perigo. Temos tempestades, deslizamentos, terremotos, nevascas, avalanchas, um ou dois vulcões... A morte acidental nunca foi inteiramente eliminada. E sempre há o ódio passional ou pessoas invejosas, as asneiras dos imaturos e a loucura dos míopes. Contudo, essas coisas são de menor importância e não afetam muito a tranqüilidade civilizada que paira sobre nosso mundo.

      Fastolfe pareceu refletir durante um momento sobre suas palavras e depois, com um suspiro, continuou:

      - Dificilmente posso querer que seja diferente, mas tenho certas reservas intelectuais. Trouxemos para Aurora apenas as plantas e animais que achávamos seriam úteis, ornamentais ou ambas as coisas. Nos esforçamos para eliminar tudo o que fosse daninho, vermes ou abaixo dos padrões. Selecionamos seres humanos fortes, saudáveis e atraentes, de acordo com a nossa opinião, é claro. Tentamos... Mas o senhor sorri, Sr. Baley.

      Não era verdade. Baley tinha apenas torcido a boca.

      - Não, não - respondeu. - Não há motivo para sorrisos.

      - Há, pois sei tão bem quanto o senhor que eu não sou atraente, pelos padrões auroreanos. O problema é que não podemos dirigir e controlar ao mesmo tempo combinações genéticas e influências intra-uterinas. Atualmente, é claro, com a ectogênese se tornando mais comum, embora eu espere que nunca se torne tão comum como em Solaria, eu seria eliminado no último estágio fetal.

      - Caso em que, Dr. Fastolfe, os mundos teriam perdido um grande roboticista teórico.

      - Perfeitamente correto - retrucou Fastolfe, sem sinal de encabulamento - mas os mundos jamais iriam saber disso, não é?... Em todo caso, tratamos de estabelecer um equilíbrio ecológico muito simples, mas perfeitamente executável, um clima estável, um solo fértil e recursos tão eqüitativamente distribuídos quanto possível.

      O resultado é um mundo que produz tudo o que necessitamos e isso, se posso personificar, levando em conta nossas precisões... Quer conhecer o ideal pelo qual lutamos?

      - Por favor - respondeu Baley.

      - Nos esforçamos para construir um planeta que como um todo obedecesse as Três Leis da Robótica. Ele nada faz para ferir um ser humano, deliberadamente ou por omissão.

      Ele faz o que queremos que faça, desde que não lhe pecamos que fira seres humanos. E ele se protege, exceto quando e em lugares que deva servir-nos ou salvar-nos, mesmo ao preço do seu próprio sacrifício. Em lugar algum, tanto na Terra como nos outros planetas Espaciais, isso está tão próximo da verdade quanto aqui em Aurora.

      - Os terráqueos - suspirou Baley - também anseiam por isso, mas nos tornamos tão numerosos e estragamos de tal forma nosso planeta nos dias da nossa ignorância, que atualmente pouco podemos fazer a esse respeito... Mas e as formas nativas de vida? Certamente, os senhores não chegaram a um planeta morto.

      - O senhor sabe que não, se folheou os livros da nossa história. Aurora tinha vegetação e vida animal quando chegamos... e uma forte atmosfera de oxigênio-hidrogênio.

      O mesmo acontecia em todos os cinco mundos Espaciais. Curiosamente, em cada um, as formas de vida eram escassas e pouco variadas. Nem foram muito especialmente tenazes em defender seu próprio planeta. Nós os ocupamos, por assim dizer, sem luta... e o que restou da vida nativa está em nossos aquários, zoológicos e nas poucas áreas primevas cuidadosamente mantidas.

      Realmente não compreendemos por que os planetas vivos que os humanos encontraram eram tão fracamente vivos, enquanto que a própria Terra foi inundada com variedades furiosamente tenazes de vida, enchendo cada setor, e por que só a Terra desenvolveu qualquer sinal de inteligência.

      - Talvez seja coincidência - replicou Baley - acidente de exploração incompleta. Até agora só conhecemos poucos planetas.

      - Admito que essa é a explicação mais provável - disse Fastolfe. - Em algum lugar talvez haja um equilíbrio ecológico tão complexo quanto o da Terra. Em algum lugar deve haver vida inteligente e uma civilização tecnológica. Contudo, a vida e a inteligência da Terra se espalharam por parsecs em todas as direções. Se há vida e inteligência em outras partes, por que não se espalharam também... e por que não as encontramos?

      - Até onde sabemos, isso pode acontecer amanhã.

      - Pode. E se tal encontro é iminente, mais um motivo para não ficarmos esperando passivamente. Pois estamos nos tornando passivos, Sr. Baley. Nenhum novo mundo Espacial  foi colonizado nos últimos dois séculos e meio. Nossos mundos estão de tal forma acomodados, são tão encantadores, que não desejamos abandoná-los. O senhor sabe que  este mundo foi colonizado porque a Terra se tornou tão desagradável que os riscos e os perigos dos mundos novos e vazios pareciam, por comparação, preferíveis. Na  época do desenvolvimento dos nossos cinco mundo Espaciais - Solaria foi o último  - não houve mais ímpeto, nenhuma necessidade de procurar outros. E a própria Terra recolheu-se às suas cavernas de aço. Fim.

      - O senhor realmente não quer dizer isso.

      - Se ficarmos onde estamos? Se nos mantivermos plácidos, confortáveis e imóveis? Claro, penso assim. A humanidade deve se expandir se quiser continuar a florescer.

      Um método de expansão é através do espaço, através de constantes viagens pioneiras a outros mundos. Se desistirmos, qualquer outra civilização que está empreendendo  essa expansão nos alcançará e não teremos como nos opor ao seu dinamismo.

      - O senhor espera uma guerra espacial... como as das hiperondas.

      - Não, duvido que seja necessária. Uma civilização que está se expandindo no espaço não necessita de nossos pequenos mundos e será provavelmente bastante adiantada  intelectualmente para sentir a necessidade de abrir caminho quebrando nossa hegemonia aqui. Se contudo formos cercados por uma civilização mais vibrante e viva,  definharemos apenas pela comparação, morreremos da certeza do que nos tornamos e do potencial que desperdiçamos. Claro, podemos substituir por outras expansões:  compreensão científica ou vigor cultural, por exemplo. Temo porém que essas expansões não sejam destacáveis. Fracassar numa é fracassar em todas. E certamente estamos  fracassando em todas. Temos a vida muito longa. Estamos confortáveis demais.

      - Na Terra - disse Baley - consideramos os Espaciais todopoderosos e autoconfiantes. Não posso acreditar estar ouvindo isso de um dos senhores.

      - Não ouvirá de nenhum outro Espacial. Minhas opiniões são antiquadas. Outros as achariam intoleráveis e não falo freqüentemente sobre isso com auroreanos. Ao contrário,  simplesmente falo sobre um novo esforço para uma futura colonização, sem exprimir meus temores das catástrofes que resultarão se abandonarmos esse esforço. Nisso,  pelo menos, tenho vencido. Aurora está considerando seriamente, até com entusiasmo, uma nova era de exploração e colonização.

      - O senhor diz isso - comentou Baley - sem nenhum entusiasmo visível. O que é que há?

      - Apenas que estamos nos aproximando do meu motivo para a destruição de Jander Panell.

      Fastolfe parou, sacudiu a cabeça e continuou:

      - Gostaria, Sr. Baley, de entender melhor os seres humanos. Passei seis décadas estudando os meandros do cérebro positrônico e espero passar mais quinze ou vinte.

      Durante esse tempo, mal rocei no problema do cérebro humano, que é tremendamente mais complicado. Haverá Leis Humanísticas como há Leis de Robótica? Quantas Leis   de Humanística podem existir e como podem ser exprimidas matematicamente? Não sei.

      "Talvez, porém chegue um dia em que alguém possa produzir as Leis Humanísticas e então ter condições de prever os grandes ataques do futuro e saber o que pode estar   reservado para a humanidade, no lugar de simplesmente adivinhar, como eu faço, e saber como tornar as coisas melhores, em vez de ficar apenas especulando. Há ocasiões   em que sonho ter fundado uma ciência matemática que denomino de "psico-história", mas sei que não posso e temo que ninguém também possa.

      Fez uma parada. Baley esperou um pouco e depois disse, suavemente:

      - E o seu motivo para a destruição de Jander Panell, Dr. Fastolfe?

      Fastolfe não pareceu ter ouvido a pergunta. De qualquer forma, não respondeu. Mudou de assunto, dizendo:

      - Daneel e Giskard estão acenando que está tudo limpo. Diga-me,  Sr.  Baley,  quer caminhar comigo um  pouco  mais pelo campo?

      - Até onde? - perguntou Baley, cauteloso.

      - Até um estabelecimento vizinho. Nesta direção, do outro lado do gramado. O ar livre o incomoda?

      Baley apertou os lábios e olhou na direção indicada, como que tentando medir seu efeito.

      - Acho que posso suportar. Não percebo nenhum incômodo. Giskard, que estava bastante perto para ouvir, aproximou-se  mais, sem que seus olhos brilhassem ao sol. Se sua voz não tinha nenhuma emoção humana, suas palavras denunciavam sua preocupação.

      - Senhor, permita que lembre que na viagem para cá o senhor sofreu bastante ao descer no planeta?

      Baley virou-se e encarou-o. O que quer que pudesse sentir com relação a Daneel, por mais cordial que tivesse sido sua associação no passado, condicionando sua atitude   com referência aos robôs, agora  não havia nada. Achava o primitivo Giskard inteiramente repelente. Esforçou-se para eliminar a ponta de ira que sentia e disse:

      - Eu estava descuidado na nave, rapaz, porque tinha muita curiosidade. Enfrentei uma visão que nunca experimentara antes e não tive tempo para me adaptar. Isto é diferente.

      - Senhor, sente-se aflito agora? Posso ter certeza disso?

      - O que eu faço ou não - retrucou Baley, incisivo (lembrando que o robô estava irremediavelmente nas garras da Primeira Lei e tentou ser cortês com um pedaço de   metal que, afinal de contas, tinha sob sua responsabilidade o completo bem-estar de Baley) - não importa. Tenho minha obrigação a cumprir e ela não poderá ser executada   se tiver de me enfiar em buracos.

      - Sua obrigação? - perguntou Giskard, como se não tivesse sido programado para compreender a palavra.

      Baley olhou rapidamente para Fastolfe, porém este ficou silencioso em seu lugar e não procurou intervir. Parecia estar ouvindo com um interesse abstrato, como que   pesando a reação de um robô de um certo tipo diante de uma situação nova e comparando-a com relacionamentos, variáveis, constantes e equações diferenciais que só   ele entendesse.

      Ou foi o que Baley pensou. Sentiu-se aborrecido por ser parte de uma observação desse tipo e disse (talvez muito asperamente, reconheceu):

      - Sabe o que significa "dever"?

      - O que deve ser feito, senhor - respondeu Giskard.

      - Seu dever é obedecer às Leis da Robótica. E os seres humanos também têm suas leis - como seu dono, Dr. Fastolfe, acabou de dizer - que devem ser obedecidas. Preciso fazer o que me foi determinado. É importante.

      - Mas sair para o exterior quando o senhor não está...

      - Contudo, precisa ser feito. Meu filho poderá ir um dia para outro planeta, muito menos confortável que este, e expor-se ao Exterior para o resto da vida dele.

      E se eu puder, pretendo ir junto.

      - Mas por que faria isso?

      - Já lhe disse. Considero meu dever.

      - Senhor, não posso desobedecer às Leis. O senhor pode desobedecer às suas? Pois preciso insistir com o senhor...

      - Posso escolher não cumprir meu dever, mas não posso escolher... e esta é, às vezes, a compulsão mais forte, Giskard.

      Houve um momento de silêncio e depois Giskard disse:

      - O senhor ficaria danificado se eu conseguisse convencê-lo a não ir lá fora?

      - Até onde isso me fizesse sentir ter fracassado na minha obrigação, sim.

      - Mais dano que qualquer incômodo que pudesse sentir ao ar livre?

      - Muito mais.

      - Obrigado pela explicação, senhor - disse Giskard.

      Baley imaginou haver um ar de contentamento no grande rosto inexpressivo do robô (a tendência humana a personificar era irreprimível).

      Giskard afastou-se e então o Dr. Fastolfe falou.

      - Foi interessante, Sr. Baley. Giskard precisava receber instruções antes de poder entender como planejar a reação positrônica potencial às Três Leis ou, mesmo, como esses potenciais podem se arrumar diante da situação. Agora ele sabe como se comportar.

      - Reparei que Daneel não fez perguntas - disse Baley.

      - Daneel o conhece - retrucou Fastolfe. - Esteve com o senhor na Terra e em Solaria. Mas venha, vamos passear? Andaremos devagar. Olhe em volta com atenção, e se a qualquer instante quiser descansar, esperar ou mesmo voltar, peço que me comunique.

      - Prometo, mas qual a finalidade desta caminhada? Já que o senhor previu incômodo para mim, não deve ter feito essa sugestão sem motivo.

      - De fato - replicou Fastolfe. - Acho que deseja ver o corpo inerte de Jander.

      - Por forma, sim, mas acho que ele nada me dirá.

      - Tenho certeza, mas o senhor também pode ter a oportunidade de interrogar quem quase foi dono de Jander na época da tragédia. Certamente, gostará de falar com outro ser humano, além de mim, relacionado com o caso.

      Fastolfe começou a andar devagar, arrancou uma folha de um arbusto, dobrou-a e mordeu-a.

      Baley olhou-o com curiosidade, espantando-se com o fato dos Espaciais meterem coisas não tratadas, não cozidas e mesmo não lavadas nas bocas, quando temiam tanto as infecções. Lembrou que Aurora estava livre (completamente livre?) de microrganismos patogênicos mas, de todo modo, achou o gesto repulsivo. A repulsão não precisava ter uma base racional, pensou defensivamente... e de súbito descobriu-se à beira de defender os Espaciais por suas atitudes em relação aos terráqueos.

      Recuou! Isso era diferente! Os seres humanos estavam envolvidos ali!

      Giskard começou a andar na frente e para a direita. Daneel ficou atrás e dirigiu-se à esquerda. O sol alaranjado de Aurora (Baley agora mal notava seu  tom) estava  medianamente quente às suas costas, o calor febril que o sol da Terra tinha no verão (mas então qual era o clima e estação, naquele instante, nessa parte de Aurora?).

      A relva, ou o que quer que fosse (parecia relva), era um pouco mais forte e elástica que a da Terra, e o solo estava duro como se tivesse passado algum tempo sem chover.

      Continuaram andando em direção à casa adiante, presumivelmente pertencente ao quase-dono de Jander.

      Baley ouviu o roçar de um animal na relva à direita, o súbito chilrear de um pássaro numa árvore às suas costas e o barulho de insetos ao redor. Esses, pensou, eram todos animais cujos antepassados tinham vivido na Terra. Não tinham como saber que aquele pedaço de solo em que estavam não havia sido sempre assim: eternamente o mesmo. As árvores e a relva tinham nascido de outras árvores e relva que tinham crescido na Terra.

      Só seres humanos podiam morar naquele mundo e saber que não eram nativos, mas produtos de terráqueos... e de fato os Espaciais sabiam disso realmente ou apenas apagaram isso da memória? Iria chegar o tempo em que, talvez, não soubessem mesmo? Quando não se lembrariam de que mundo vieram ou se houve, de fato, um mundo de origem?

      - Dr. Fastolfe - disse repentinamente, em parte para interromper a cadeia de pensamentos que viu estar se tornando opressiva - o senhor ainda não me disse seu motivo para a destruição de Jander.

      - É verdade! Não disse!... Ora, por que supõe o senhor, Sr. Baley, que eu me esforcei para lançar a base teórica dos cérebros positrônicos dos robôs humaniformes?

      - Não sei dizer.

      - Bem, pense. O objetivo era fabricar um cérebro robótico tão  próximo quanto possível do humano e isso iria requerer, ao que parecia, um certo mergulho no poético... - Parou e seu leve sorriso transformou-se num riso aberto.

      - O senhor sabe que alguns dos meus colegas ficam sempre aborrecidos quando digo-lhes que se a conclusão não é poeticamente equilibrada, não pode ser cientificamente  verdadeira? Respondem-me que não sabem o que isso quer dizer.

      - Temo que eu também não saiba - informou-lhe Baley.

      - Mas eu sei o que significa. Não posso explicar, mas sinto a explicação, embora incapaz de exprimi-la com palavras, sendo talvez por isso que obtive resultados   não alcançados por meus colegas. Contudo, tornei-me pomposo, um sinal certo de que Vou me tornar prosaico. Imitar um cérebro humano, quando quase nada sei sobre   suas atividades, exige um salto intuitivo: uma coisa que para mim parece poesia. E o mesmo salto intuitivo que deveria me dar o cérebro positrônico humaniforme iria   com certeza me propiciar um novo acesso ao conhecimento do próprio cérebro humano. Era no que eu acreditava: que através da humaniformidade, eu poderia dar pelo   menos um pequeno passo na direção da psico-história, sobre a qual lhe falei.

      - Compreendo.

      - E se eu conseguisse apresentar uma estrutura teórica que levasse a um cérebro positrônico humaniforme, iria precisar de um corpo humaniforme para implantá-lo.

      O cérebro não existe independente, como sabe. Há uma interação com o corpo e assim um cérebro humaniforme num corpo não humaniforme iria se tornar, por extensão, ele mesmo não-humano.

      - Tem certeza?

      - Absoluta. Basta comparar Daneel com Giskard.

      - Então Daneel foi construído como um mecanismo experimental para posterior compreensão do cérebro humano?

      - Exatamente. Eu e Sarton nos dedicamos durante duas décadas a essa tarefa. Houve vários fracassos que tiveram de ser jogados fora. Daneel foi o primeiro sucesso  verdadeiro e, claro, conservei-o para um exame posterior... e sorriu de viés, como que confessando uma bobagem - amor. Afinal de contas, Daneel pode pegar a noção  de dever humano, enquanto Giskard, apesar de todas as suas virtudes, tem dificuldade para fazê-lo. O senhor viu.

      - E a primeira estada de Daneel na Terra comigo, há três anos, foi a primeira tarefa que lhe deram?

      - A primeira de alguma importância. Quando Sarton foi assassinado, precisávamos de alguma coisa que fosse um robô e pudesse suportar as moléstias infecciosas da Terra e, ao mesmo tempo, parecesse suficientemente humano para contornar os preconceitos anti-robóticos dos terráqueos.

      - Foi uma espantosa coincidência que Daneel estivesse disponível naquela hora.

      - Ah? O senhor acredita em coincidências? Acho que sempre que uma invenção tão revolucionária quanto o robô humaniforme se concretiza, surge uma tarefa que exige seu uso. Trabalhos semelhantes provavelmente surgiram no decorrer dos anos em que Daneel não existia... e porque ele não existia, foram usados outros mecanismos e soluções.

      - E teve sucesso em seus esforços, Dr. Fastolfe? Conhece agora o cérebro humano melhor que antes?

      Fastolfe estava andando cada vez mais devagar e Baley adaptou seus passos ao dele. Achavam-se agora parados a meio caminho entre o estabelecimento de Fastolfe e a casa do outro. Foi o instante mais difícil para Baley, pois se encontravam igualmente distantes de qualquer proteção em qualquer direção, mas lutou contra a crescente sensação de mal-estar, determinado a não provocar Giskard. Não desejava, com um gesto ou grito - ou mesmo com a fisionomia - ativar o inconveniente desejo de Giskard de salvá-lo. Não queria ser agarrado e carregado para um abrigo.

      Fastolfe não demonstrou ter percebido a dificuldade de Baley.

      - Não há dúvida - disse ele - de que avanços em mentotogia têm sido feitos. Enormes problemas continuam e talvez irão permanecer, porém tem havido progressos. Todavia...

      - Todavia?

      - Todavia, Aurora não está satisfeito com o estudo puramente teórico do cérebro humano. Tem progredido o uso dos robôs humaniformes em certas coisas e eu não aprovo.

      - Como o que foi feito na Terra.

      - Não, aquilo foi uma breve experiência que não só aprovei, mas que também me fascinou. Poderia Daneel enganar os terráqueos? Verificou-se que sim, embora, claro, os olhos deles não fossem muito preparados para reconhecer robôs. Daneel não conseguiria enganar os olhos dos auroreanos, mas ouso dizer que os futuros robôs humaniformes poderão ser melhorados a ponto de poderem. Contudo, foram propostas outras tarefas.

      - Tais como?

       Fastolfe contemplou o horizonte, pensativo.

      - Disse-lhe que este mundo foi domesticado. Quando comecei meu movimento para encorajar um novo período de exploração e colonização não foram os superacomodados auroreanos, ou Espaciais em geral, que pensei para chefiá-los. Em vez deles, pensei que devíamos encorajar os terráqueos a assumir a direção. com seu mundo horrível, desculpe, e pequena extensão de vida, tinham tão pouco a perder que pensei que certamente iriam saudar a oportunidade, especialmente se nós os ajudássemos tecnologicamente.

      Faleilhe sobre isso quando nos encontramos na Terra há três anos. Lembra?

      Olhou de esguelha para Baley. Baley respondeu, impassível:

      - Lembro muito bem. Na verdade, o senhor provocou uma série de raciocínios em mim que teve como resultado um pequeno movimento na Terra nessa direção.

      - De fato? Imagino que não foi fácil. Há a claustrofilia dos seus terráqueos, sua repulsa a abandonar suas paredes.

      - Estamos lutando contra isso, Dr. Fastolfe. Nossa organização está planejando ir ao espaço. Meu filho está na cabeça do movimento e espero que chegue o dia em que ele abandone a Terra à frente de uma expedição para colonizar um novo mundo. Se recebermos realmente a ajuda tecnológica de que falou...

      Baley deixou a conclusão pendente.

      - Quer dizer, se fornecermos as naves?

      - E outros equipamentos. Sim, Dr. Fastolfe.

      - Há dificuldades. Muitos auroreanos não querem que os terráqueos saiam para o espaço e colonizem novos mundos. Temem a rápida expansão da cultura terráquea, suas Cidades como colméias, sua desordem. - Mexeu-se, constrangido, e perguntou: - Que diabo estamos fazendo, parados aqui? Vamos continuar.

      Começou a caminhar devagar e prosseguiu:

      - Argumentei que a coisa não iria ser assim. Mostrei que os colonizadores da Terra não seriam terráqueos, no sentido clássico. Não iriam se encerrar em Cidades.

      Chegando a um novo mundo, iriam ser como os antecessores auroreanos vindo aqui. Desenvolveriam um equilíbrio ecológico controlável e estariam mais próximos dos auroreanos que dos terráqueos, nas altitudes.

      - Não iriam então desenvolver toda a fraqueza que o senhor encontra na cultura Espacial, Dr. Fastolfe?

      - Talvez não. Aprenderão com nossos erros... Mas isso é acadêmico, pois desenvolveu-se uma coisa que torna o argumento discutível.

      - E é?

      - Ora, o robô humaniforme. Veja, há os que consideram o robô humaniforme o colono perfeito. Ele é que deve construir os novos mundos.

      - Vocês sempre possuíram robôs - disse Baley. - Quer dizer que nunca tiveram essa idéia antes?

      - Ah, tivemos, mas sempre foi nitidamente irrealizável. Normalmente, não se pode esperar que robôs não humaniformes, sem supervisão humana imediata,  construindo   um mundo que  deve adaptar às suas próprias mentes não humaniformes, domestiquem e edifiquem um mundo adaptável às mentes e corpos mais delicados e flexíveis de   seres humanos.

      - Sem dúvida, o mundo que construirão servirá como uma primeira aproximação razoável.

      - Claro que sim, Sr. Baley. Contudo, é um sinal da decadência de Aurora que exista uma sensação dominante entre nosso povo de que um primeiro contato razoável seja   muito insuficiente... Um grupo de robôs humaniformes, por outro lado, parecendo o mais intimamente possível com seres humanos física e mentalmente, teria sucesso  em construir um mundo que, sendo conveniente para ele, também o seria inevitavelmente para os auroreanos. Acompanha meu raciocínio?

      - Perfeitamente.

      - Eles construiriam um mundo tão bem, veja, que quando tiverem terminado e os auroreanos finalmente concordarem em partir, nossos seres humanos apenas passarão de  um planeta Aurora para outro. Nunca terão deixado seus lares, apenas ganharão um lar mais novo, exatamente como o velho, onde continuar sua decadência. Está percebendo  também este raciocínio?

      - Compreendo seu ponto de vista, porém acho que os auroreanos não.

      - Talvez não. Acho que posso discutir esse ponto com eficiência se a oposição não me liquidar politicamente, por intermédio do caso da destruição de Jander. Está  vendo o motivo que me é atribuído? Acusam-me de ter preparado um programa de destruição de  robôs humaniformes em vez de permitir-lhes serem usados para colonizar outros planetas. É o que os meus inimigos dizem.

      Agora quem parou foi Baley. Pensativo, encarou Fastolfe e falou:

      - O senhor compreende, Dr. Fastolfe, que é do interesse da Terra que seu ponto de vista seja completamente vencedor.

      - E também do seu próprio interesse, Sr. Baley.

      - E do meu. Porém, deixando-me de lado por um momento, continua vital para meu mundo que seja permitido ao nosso povo, encorajado, mesmo, e ajudado, a explorar a   Galáxia, que conservemos ao máximo nossos meios enquanto estivermos confortáveis, que não queremos ser condenados à prisão eterna na Terra, uma vez que nela só nos   resta perecer.

      - Alguns dos senhores, acho eu, insistirão em permanecer presos - disse Fastolfe.

      - Claro. Talvez a maioria deseje isso. Contudo, pelo menos alguns, o máximo possível, partirão se tiverem permissão... Portanto, é minha obrigação, não apenas como   representante da lei de uma grande parte da humanidade, mas como terráqueo simples e comum, ajudá-lo a limpar seu nome, quer seja culpado ou inocente. Não obstante,   posso dedicar-me inteiramente a isso apenas se tiver certeza de que na realidade a acusação contra o senhor é injustificada.

      - Claro! Compreendo.

      - Em conseqüência, portanto, do que me disse quanto ao motivo que lhe foi atribuído, garanta-me mais uma vez que não fez aquilo.

      - Sr. Baley - replicou Fastolfe - estou plenamente ciente de que o senhor não tem escolha neste caso. Sei muito bem que posso dizer-lhe, com impunidade, que sou   culpado e que continuará sendo obrigado, pela natureza de suas necessidades e das do seu mundo, a trabalhar comigo para ocultar o fato. Na verdade, se eu fosse realmente   culpado, seria obrigado a confessá-lo ao senhor, para que pudesse levar o fato em consideração e, conhecendo a verdade, trabalhar com mais eficiência para me livrar...   e a si mesmo. Mas não posso fazer isso porque sou na verdade inocente. Contudo, por mais que as aparências possam ser contra mim, não destruí Jander. Isso nunca   me passou pela cabeça.

      - Nunca? Fastolfe sorriu, triste.

      - Ah, posso ter pensado uma vez ou duas que Aurora estaria muito melhor se eu nunca tivesse revelado as noções que levaram ao desenvolvimento do cérebro positrônico humaniforme... ou que teria sido melhor se tais cérebros provassem ser instáveis e imediatamente sujeitos ao congelamento mental. Mas foram pensamentos vagos. Nem por uma fração de segundo contemplei a possibilidade da destruição de Jander por esse motivo.

      - Então precisamos eliminar essa razão que lhe é atribuída.

      - Ótimo. Mas como?

      - Podemos mostrar que não tem finalidade. Qual a vantagem de destruir Jander? Podem ser construídos outros robôs humaniformes. Milhares. Milhões.

      - Temo não ser assim, Sr. Baley. Nenhum pode ser construído. Só eu sei como desenhá-los e, na medida em que seu destino é a colonização robótica, recuso-me a construir mais. Jander desapareceu e só resta Daneel.

      - O segredo poderá ser descoberto por outros. Fastolfe ergueu o queixo.

      - Gostaria de ver o roboticista capaz disso. Meus inimigos fundaram um Instituto de Robótica com a única finalidade de descobrir o método existente por trás da construção de um robô humaniforme, porém fracassaram. Não conseguiram até agora e sei que nunca conseguirão.

      Baley franziu o cenho.

      - Se o senhor é o único homem que conhece o segredo dos robôs humaniformes e se os seus inimigos estão desesperados para consegui-lo, por que não tentam obtê-lo do senhor?

      - Claro. Ameaçando minha existência política, talvez conseguindo algum castigo que me proíba trabalhar na especialidade e, dessa forma, dando fim à minha vida profissional, esperam que concorde em dividir o segredo com eles, sob pena de confisco de propriedade, prisão... quem sabe mais o quê? Contudo, resolvi submeter-me a tudo, tudo,mas não ceder. Compreenda porém que não desejo ser obrigado a isso.

      - Eles sabem da sua determinação de resistir?

      - Espero que sim. Já lhes disse francamente e muitas vezes. Presumo que eles pensam que estou blefando, que não estou falando sério... Mas estou.

      - Porém se eles acreditarem, poderão tomar medidas mais sérias.

      - Como, por exemplo?

      - Roubar seus documentos. Seqüestrá-lo. Torturá-lo. Fastolfe deu uma sonora gargalhada e Baley corou, dizendo:

      - Detesto dar a idéia de uma novela de hiperonda, mas já pensou nisso?

      - Sr. Baley - replicou Fastolfe - em primeiro lugar, meus robôs podem me proteger. Seria preciso uma guerra total para me aprisionar ou pegar meus documentos. Em segundo lugar, mesmo que de certa forma conseguissem, nenhum dos roboticistas meus adversários suportaria confessar que a única forma de obter o segredo do cérebro positrônico humaniforme seria roubá-lo ou forçar-me a revelá-lo. A reputação profissional dele ou dela seria completamente aniquilada. Em terceiro lugar, essas coisas são desconhecidas em Aurora. A mais leve suspeita de uma tentativa dessas contra mim poria a Legislatura e a opinião pública do meu lado.

      - É mesmo? - murmurou Baley, amaldiçoando silenciosamente o fato de ter de agir numa cultura cujos detalhes ele simplesmente não compreendia.

      - É. Acredite em mim. Gostaria que eles tentassem alguma coisa tão melodramática. Gostaria que fossem tão incrivelmente burros que fizessem isso. De fato, Sr. Baley,  gostaria de poder persuadi-lo a procurá-los, insinuar-se na confiança deles e convencê-los a executar um ataque contra meu estabelecimento, emboscar-me numa estrada  deserta... ou alguma coisa do tipo que, imagino, seja comum na Terra.

      - Não creio que seja este o meu estilo - retrucou Baley, secamente.

      - Também não creio e por isso não tenho intenção de tentar completar meu desejo. E, acredite-me, o assunto é muito sério, pois se não pudermos convencê-los a tentar  métodos suicidas de força, continuarão a fazer alguma coisa muito melhor do seu ponto de vista. Me destruirão com calúnias.

      - Que calúnias?

      - Não me atribuem apenas a destruição de um robô. É uma coisa bastante ruim e pode bastar. Andam murmurando, e por enquanto é apenas um murmúrio, que a morte não   passa de uma experiência minha, perigosa e bem-sucedida. Espalham que estou desenvolvendo um processo de destruir cérebros humanos rápida e eficientemente, de maneira   a que, quando meus inimigos criarem seus robôs humaniformes, eu, com membros do meu partido, tenhamos  condições de destruí-los todos, evitando assim que Aurora colonize novos mundos e deixando a Galáxia para meus sócios terráqueos.

      - Na certa, não podem acreditar nisso.

      - Claro que não. Já lhe disse que são mentiras. E também mentiras ridículas. Nenhum método semelhante de destruição é possível mesmo teoricamente e o pessoal do

      Instituto de Robótica não está na iminência de criar seus próprios robôs humaniformes. Não é concebível que eu pudesse entrar numa orgia de destruição em massa, mesmo que quisesse. Não posso.

      - Então a coisa toda não pode fracassar por si mesma?

      - Infelizmente, não é provável que aconteça a tempo. Pode ser uma bobagem, mas provavelmente vai durar o bastante para atirar a opinião pública contra mim, a ponto de obterem os votos suficientes na Legislatura para me derrotar. Finalmente, tudo será considerado bobagem, mas então será tarde. E, por favor, note que a Terra está sendo usada como bode expiatório. A acusação que estou sofrendo pela Terra é muito forte e muitos preferirão acreditar em tudo aquilo, indo de encontro a uma opinião sensata, por causa da sua raiva da Terra e dos terráqueos.

      - O senhor está me dizendo que se prepara um ressentimento forte contra a Terra - falou Baley.

      - Exatamente, Sr. Baley - replicou Fastolfe. - A situação piora para mim e para a Terra diariamente, e temos pouquíssimo tempo.

      - Mas não há uma forma fácil de nocautear essa coisa? - Baley, desesperado, achou que era hora de aceitar o ponto de vista de Daneel. - Se o senhor estiver de fato  ansioso em experimentar um método de destruição de um robô humaniforme, por que procurar um em outro estabelecimento, no qual seja inconveniente fazer a experiência?

      O senhor tinha Daneel à sua disposição. Estava ao seu alcance e conveniência. A experiência não teria sido feita nele se  persuadi-los de que seria mais sensato para mim sacrificar Daneel.

      - Não, não - disse Fastolfe. - Eu não conseguiria que acreditassem nisso. Daneel foi meu primeiro sucesso, minha vitória. Eu não o destruiria por nada neste mundo.

      Naturalmente, me viraria Para Jander. Todos veriam isso e seria loucura minha tentar persuadi-los de que seria sensato para mim sacrificar Daneel.

      Recomeçaram a caminhada, já próximos do seu destino. Baley estava mergulhado num silêncio profundo, de rosto fechado.

      - Como se sente, Sr. Baley? - perguntou Fastolfe. Em voz baixa, Baley respondeu:

      - Se está se referindo ao Exterior, não senti seu efeito.

      - Se se referindo ao nosso dilema, acho que me acho muito perto de desistir sem me meter numa câmara ultrassônica de dissolução de cérebros. - Depois, apaixonadamente:

      - Por que me trouxe, sr. Fastolfe? Por que me deu esta tarefa? Que lhe fiz para ser tratado desta maneira?

      - Realmente - retrucou Fastolfe - para começar, não foi idéia minha, e apenas posso alegar desespero.

      - Bem, de quem foi a idéia?

      - Foi o proprietário do estabelecimento a que estamos chegando quem sugeriu inicialmente: e eu não tinha idéia melhor.

      - O proprietário desse estabelecimento? Por que ele...

      - Ela.

      - Bem, então por que ela teria sugerido tal coisa?

      - Ah! Não lhe expliquei que ela o conhece, Sr. Baley? Lá está ela, à nossa espera.

      Baley olhou, espantado.

      - Jehoshaphat! - murmurou.

 

Gladia

      A moça à frente deles falou com um sorriso penoso:

      - Eu sabia, Elijah, que quando tornasse a encontrá-lo, seria essa a primeira palavra que ouviria.

      Baley encarou-a. Ela estava mudada. Tinha o cabelo mais curto e o rosto ainda mais perturbado que há dois anos, além de parecer ter envelhecido mais de dois anos.

      Contudo, não havia a menor dúvida de que era mesmo Gladia. O mesmo rosto triangular, com as maçãs salientes e o queixo pequeno. Continuava baixa, delgada e vagamente infantil.

      Ele havia sonhado freqüentemente com ela - embora não de forma abertamente erótica - quando retornou à Terra. Seus sonhos eram sempre de não ser capaz de tocá-la.

      Ela estava sempre presente, um pouco afastada demais para falar facilmente. Ela nunca o ouvia, quando ele a chamava. Nunca chegou perto demais, quando se aproximou dela.

      Não era fácil entender por que os sonhos eram assim. Ela era nativa de Solaria e, como tal, raramente se achou na presença física de outros seres humanos.

      Elijah tinha sido proibido de se aproximar dela pela razão de ser humano - e além disso (claro) por ser da Terra. Embora as exigências do caso de assassinato que estava investigando os forçassem a se encontrar, durante esses momentos juntos fisicamente, para evitar um contato efetivo, Gladia estava completamente coberta.

      Apesar disso, no último encontro, desafiando o bom senso, rapidamente tocara no rosto dele com a mão nua. Ela devia saber que poderia, com aquele gesto, ficar infeccionada. Baley apreciou muito aquele gesto, pois todos os aspectos da educação da moça contribuíam para torná-lo impensável.

      Os sonhos desapareceram no tempo.

      Baley disse, um tanto brutalmente:

      - É você a dona...

      Parou e Gladia terminou a frase por ele:

      - Do robô. E há dois anos o marido era meu. Tudo o que toco é destruído.

      Sem realmente saber o que estava fazendo, Baley levou a mão ao rosto dela. Gladia não pareceu notar.

      - Naquela vez, você chegou para me salvar - disse ela. - Desculpe, mas tive de chamá-lo novamente... Entre, Elijah. Entre, Dr. Fastolfe.

      Fastolfe desviou-se para permitir que Baley entrasse primeiro, imediatamente seguindo-o. Após Fastolfe, entraram Daneel e Giskard... e eles, com o auto-anulamento  característico dos robôs, dirigiram-se a nichos desocupados em paredes opostas, permanecendo silenciosos, encostados nelas.

      Por um momento, pareceu que Gladia iria tratá-los com a mesma indiferença que era dispensada aos robôs pelos seres humanos. Contudo, após um olhar a Daneel, ela  se virou e disse a Fastolfe, numa voz meio sufocada:

      - Aquele ali. Por favor. Peça-lhe para sair. Fastolfe, com um leve gesto de surpresa, perguntou:

      - Daneel?

      - Ele é muito... muito parecido com Jander!

      Fastolfe virou-se para olhar Daneel e um sinal de dor atravessou-lhe o rosto momentaneamente.

      - Claro, minha cara. Peço-lhe que me perdoe. Não pensei nisso... Daneel, vá para outra sala e fique lá enquanto estivermos aqui.

      Daneel saiu sem uma palavra.

      Gladia deu uma olhada em Giskard como que para julgar se ele, também, se parecia com Jander, virando depois com um leve encolher de ombros.

      - Algum de vocês quer um refresco? - perguntou Gladia. - Tenho um excelente, de coco, recentemente feito e gelado.

      - Não, Gladia - recusou Fastolfe. - Vim apenas trazer o Sr. Baley, como prometi, e não Vou demorar.

      - Agradeço-lhe um copo de água. Não a incomodarei por mais nada.

      Gladia ergueu a mão. Sem dúvida, estava sendo observada pois, num instante, entrou um robô silencioso, com um copo de água numa bandeja e um pratinho com o que pareciam bolachas com uma bolha rósea em cima.

      Baley não pôde deixar de pegar uma, apesar de não ter certeza do que se tratava. Devia ser alguma coisa originada na Terra, pois não podia acreditar que em Aurora, ele - ou quem quer que fosse - comesse algum pedaço da escassa flora e fauna nativas ou também alguma substância sintética. Não obstante, os descendentes das espécies alimentares terrestres podiam mudar com o tempo, tanto pelo cultivo deliberado como pela ação de um ambiente estranho... E Dr. Fastolfe, no almoço, tinha dito que a maior parte do cardápio auroreano possuía um sabor adquirido.

      Ficou agradavelmente surpreendido. O gosto era forte e condimentado, mas achou-o delicioso e, quase imediatamente, pegou outra. Agradeceu ao robô (que não se importou de ficar parado indefinidamente) e pegou o prato junto com o copo.

      O robô saiu.

      Estava caindo a tarde e os raios de sol entravam, rubros, pelas janelas ocidentais. Baley tinha a impressão de que a casa era menor que a de Fastolfe, mas seria bem mais alegre não fosse o vulto triste de Gladia parada no meio, provocando um efeito deprimente.

      Podia, é claro, não passar de imaginação de Baley. Em todo caso, o ânimo parecia-lhe impossível em qualquer prédio pretendendo abrigar e proteger seres humanos que ainda assim permaneciam expostos ao Exterior além de cada parede. Nenhuma parede, pensou, tinha o calor da vida humana no outro lado. Em nenhuma direção podia-se esperar companhia e comunidade. Do outro lado de cada parede, lado, alto e baixo, havia um mundo inanimado. Frio! Frio!

      E a frialdade envolveu o próprio Baley quando tornou a pensar no dilema em que estava metido (por um instante, o choque de tornar a encontrar Gladia o afastara de sua mente).

      - Venha - disse Gladia. - Sente-se, Elijah. Deve desculparme por não ser a mesma. Pela segunda vez, sou o centro de uma comoção planetária... e a primeira já foi mais que suficiente.

      - Compreendo, Gladia. Por favor, não se desculpe - disse Baley.

      - Quanto ao senhor, caro Doutor, não se considere como sobrando.

      - Bem... - Fastolfe olhou para a faixa de tempo na parede. - Ficarei um pouco mais, porém depois, minha cara, há trabalho a fazer, mesmo que o céu venha abaixo.

      Ainda mais que devo olhar para um futuro próximo, no qual talvez não possa mais trabalhar.

      Gladia pestanejou rapidamente, como se quisesse conter as lágrimas.

      - Eu sei, Dr. Fastolfe. O senhor está em grande complicação por causa... do que aconteceu aqui e eu só pareço ter tempo para pensar em meu próprio... aborrecimento.

      - Farei o que puder para cuidar da minha situação, Gladia - replicou Fastolfe - e não há necessidade de você sentir-se culpada a respeito... Talvez o Sr. Baley seja capaz de ajudar-nos, tanto a você como a mim.

      Baley franziu os lábios ao ouvir essas palavras e disse, com voz surda:

      - Eu não sabia, Gladia, que você estava metida nisso.

      - Quem mais poderia estar? - falou a moça, com um suspiro.

      - Você tem, ou tinha, a posse de Jander Panell?

      - Não verdadeiramente posse. O Dr.  Fastolfe o alugara a mim.

      - Então ele estava com você quando... Baley hesitou sobre a forma de se exprimir.

      - Morreu? Podemos dizer morreu?... Não, não estava. E antes que pergunte, não havia ninguém em casa na hora. Eu estava só. Estou habitualmente só. Quase sempre.

      É a minha educação solariana, lembra? Claro, não é obrigatório. Vocês dois estão aqui e eu não me incomodo... muito.

      - E se achava completamente só quando Jander morreu? Não se engana?

      - Já disse - falou Gladia, parecendo um pouco irritada. - Não, desculpe, Elijah. Sei que você precisa ter tudo dito e repetido. Eu estava só. Palavra.

      - Porém havia robôs presentes.

      - Ora, é claro. Quando digo "só", quero me referir a não haver outros humanos presentes.

      - Quantos robôs possui, Gladia? Sem contar Jander.

      Gladia fez uma pausa como se os tivesse contando mentalmente Afinal falou:

      - Vinte. Cinco na casa e quinze fora. Os robôs andam livremente entre minha casa e a do Dr. Fastolfe, também, e por isso não é possível avaliar quando um robô é rapidamente visto em cada local, se é um dos meus ou um dos deles.

      - Ah - disse Baley - e como o Dr. Fastolfe tem 57, significa que. se os juntarmos, há 77 robôs ao todo. Há ainda outra casa cujos robôs se misturem com os seus de maneira indistinguível?

      - Não há outra casa perto - replicou Fastolfe - que torne isso possível. Nem a prática de misturar robôs é verdadeiramente encorajada. Gladia e eu somos um caso especial porque ela não é auroreana e porque assumi... a responsabilidade por ela.

      - Mesmo assim. Setenta e sete robôs - disse Baley.

      - Sim - falou Fastolfe - mas por que está dizendo isso?

      - Porque - retrucou Baley - isso significa que o senhor tem 77 objetos móveis, cada um de forma vagamente humana, que está habituado a ver com o rabo do olho, sem dar maior atenção. Não é possível, Gladia, que se um ser humano verdadeiro tivesse penetrado na casa, com algum objetivo, você mal perceberia? Seria mais um objeto móvel, de forma vagamente humana, e você nào prestaria atenção.

      Fastolfe riu baixinho e Gladia, séria, balançou a cabeça.

      - Elijah - disse ela - qualquer um pode dizer que você é terráqueo. Pode imaginar que algum ser humano, mesmo o Dr. Fastolfe, se aproximasse de minha casa, sem que eu fosse informada pelos meus robôs? Posso ignorar uma forma móvel, julgando ser um robô, mas nenhum robô a ignoraria. Eu estava à sua espera agora, quando chegou, apenas porque meus robôs me informaram que você estava se aproximando. Não, não, quando Jander morreu, não havia nenhum outro ser humano na casa.

      - A não ser você?

      - A não ser eu. Como só havia eu em casa quando meu marido foi morto.

      Fastolfe interferiu suavemente:

      - Há uma diferença, Gladia. Seu marido foi assassinado com um instrumento rombudo. A presença física do criminoso era necessária e se você fosse a única pessoa presente, seria sério. Neste caso, Jander foi posto fora de operação por um programa sutilmente inculcado. A presença física não foi necessária. Sua presença solitária aqui nada significa, especialmente uma vez que você não sabe como bloquear a mente de um robô humaniforme.

      Viraram-se ambos para Baley, Fastolfe com ar inquisitivo, Gladia triste. (Irritava Baley que Fastolfe, cujo futuro era tão sombrio quanto o dele, encarasse tudo com bom humor. O que, na Terra faria que alguém risse como um idiota diante da situação?, pensou Baley, taciturno.)

      - Ignorância - disse Baley, sem pressa - pode nada significar. Uma pessoa pode não saber como chegar a determinado lugar e pode alcançá-lo andando ao leu. Alguém pode ter falado com Jander e, completamente sem perceber, tocar o botão do congelamento mental.

      - E as oportunidades disso? - perguntou Fastolfe.

      - O senhor é o especialista, Dr. Fastolfe, e suponho que me dirá serem mínimas.

      - Incrivelmente mínimas. Uma pessoa pode não saber como chegar a um determinado lugar, mas se o único caminho for uma série de cordas esticadas espalhadas em direções nitidamente variantes, quais as possibilidades de chegar lá, caminhando ao acaso, com os olhos vendados?

      As mãos de Gladia agitaram-se muito. Cerrou os punhos, como que para firmá-las, e pousou-as nos joelhos.

      - Eu não fiz aquilo, acidente ou não. Eu não estava com ele quando aconteceu. Não estava. Falei com ele pela manhã. Ele estava bem, perfeitamente normal. Horas depois, quando o chamei, não apareceu. Saí à sua procura e encontrei-o no seu lugar de costume, parecendo normal. O problema era que não me respondia. Não deu a menor resposta.

      Desde então, nunca mais respondeu.

      - Poderia alguma coisa que tenha dito a ele - perguntou Baley - de passagem, ter produzido o congelamento mental apenas após tê-lo deixado... digamos, uma hora mais tarde?

      Fastolfe interferiu secamente:

      - Impossível, Sr. Baley. Se o congelamento mental deve acontecer, acontece logo. Por favor, não atormente Gladia assim. Ela é incapaz de provocar deliberadamente um congelamento mental e impensável que o tenha feito acidentalmente.

      - Não é impensável que tenha podido ser produzido por um desvio positrônico ocasional, como o senhor disse que pode ter sido!

      - Não tão impensável.

      - Ambas as alternativas são extremamente improváveis. Qual a diferença, em termos de improbabilidade?

      - Enorme. Imagino que um desvio positrônico ocasional tem a probabilidade de 1 em 10 elevado a 12, que por defeito de construção, 1 em 10 elevado a 100. É apenas uma estimativa, porém razoável. A diferença é muito maior que a entre um único elétron e o Universo inteiro... e em favor do desvio positrônico.

      Houve silêncio, por algum tempo.

      - Dr. Fastolfe - falou Baley - o senhor disse antes que não podia demorar.

      - Já demorei demais.

      - Ótimo. Então vai embora agora?

      Fastolfe começou a levantar-se, mas então perguntou:

      - Por quê?

      - Porque desejo conversar com Gladia sozinho.

      - Para atormentá-la?

      - Preciso interrogá-la sem sua interferência. Nossa situação é séria demais para nos preocuparmos com polidez.

      - Não tenho medo do Sr. Baley, caro Doutor - disse Gladia, acrescentando, pensativa: - Meus robôs me protegerão, se sua falta de polidez se tornar excessiva.

      Fastolfe sorriu e falou:

      - Muito bem, Gladia.

      Ergueu-se e estendeu a mão a Gladia. A moça apertou-a rapidamente.

      - Desejo que Giskard permaneça aqui, para proteção geral - disse o Dr. Fastolfe - e Daneel na sala ao lado, se não se importa. Pode me emprestar um dos seus robôs para me acompanhar de volta à minha casa?

      - Certamente - retrucou Gladia, erguendo os braços. -

      Acho que o senhor conhece Pandion.

      - Claro! Um acompanhante forte e confiável. Saiu, com o robô seguindo-o de perto.

      Baley esperou, observando Gladia, estudando-a. Ela ficou sentada, com os olhos baixos, pousados nas mãos, que mantinha entrelaçadas no seu colo.

      Baley estava convicto de que ela podia dizer mais coisas. Não sabia como convencê-la a falar, porém de uma coisa mais tinha certeza. Enquanto Fastolfe estivesse presente, Gladia não diria a verdade completa.

      Finalmente, Gladia ergueu os olhos, com o rosto parecendo o de uma garotinha. Perguntou, com um fio de voz:

      - Como vai, Elijah? Como está se sentindo?

      - Bastante bem, Gladia.

      - O Dr. Fastolfe me disse - falou ela - que iria trazê-lo aqui a céu aberto e fazer com que você tivesse de esperar algum tempo na parte pior.

      - Ah? E para quê? Pelo prazer?

      - Não, Elijah. Eu contei a ele como você reagia no Exterior. Lembra da vez em que desmaiou e caiu na lagoa?

      Elijah balançou rapidamente a cabeça. Não podia negar o fato nem sua lembrança e muito menos aprovar a referência. Disse, asperamente:

      - Já não sou mais aquele. Melhorei.

      - Mas o Dr. Fastolfe disse que queria experimentá-lo. Correu tudo bem?

      - Bastante bem. Não desmaiei. . Lembrou-se do episódio a bordo da nave espacial ao se aproximarem de

       Aurora e apertou levemente os dentes. Aquilo tinha sido diferente e não precisava discuti-lo.

      Perguntou, mudando deliberadamente de assunto:

      - Como devo chamá-la aqui? Como me dirigir a você?

      - Você tem me chamado de Gladia.

      - Talvez não seja apropriado. Posso dizer Sra. Delmarre, porém você pode ter...

      Ela ficou ofegante e interrompeu-o bruscamente:

      - Não uso esse nome desde que cheguei aqui. Por favor não me chame assim.

      - Então como os auroreanos a chamam?

      - Gladia Solaria, mas se trata apenas de uma indicação de minha origem alienígena e também não o quero. Sou apenas Gladia. Um só nome. Não é um nome auroreano e duvido que haja outro igual neste planeta, sendo portanto suficiente. Continuarei a chamálo de Elijah, se não se importa.

      - Não me importo.

      - Gostaria de servir chá - falou a moça.

      Era uma declaração e Baley concordou com um aceno, comentando:

      - Não sabia que os Espaciais tomavam chá.

      - Não é o chá da Terra. É extraído de uma planta agradável, mas considerada inofensiva. Nós a chamamos de chá.

      Levantou o braço e Baley reparou que a manga estava firmemente fechada no pulso, juntando-se a luvas muito finas, da cor da pele. Ela também estava expondo o mínimo   da superfície do corpo na sua presença. Gladia ainda continuava tornando mínima a possibilidade de infecção.

      Seu braço permaneceu levantado um momento, e apôs alguns instantes, apareceu um robô com uma bandeja. Ele era evidentemente mais primitivo que Giskard, mas distribuiu   as xícaras, os pequenos sanduíches e pasteizinhos sem tropeços. Serviu o chá com bastante graça.

      Baley perguntou, curioso:

      - Como consegue isso, Gladia?

      - Isso o que, Elijah?

      - Você ergue o braço sempre que deseja alguma coisa e o robô sempre sabe o que é. Como este sabia que você queria que o chá fosse servido?

      - Não é difícil. Cada vez que levanto o braço, ele distorce um pequeno campo eletromagnético que atravessa a sala permanentemente. Posições ligeiramente diferentes   de minha mão e dedos produzem distorções diferentes e meus robôs podem interpretá-las como ordens. Só as uso para ordens simples: Venha cá! Traga chá! E assim por   diante.

      - Não vi o Dr. Fastolfe fazer o mesmo na casa dele.

      - Não é realmente auroreano. É um sistema de Solaria e acostumei-me a ele... Além disso, sempre tomo chá a esta hora. Borgraf estava à espera.

      - Este é Borgraf?

      Baley olhou o robô com algum interesse, certo de que apenas o olhara de relance antes. A familiaridade estava rapidamente dando lugar à indiferença. Mais um dia   e deixaria completamente de reparar nos robôs. Podiam adejar em volta, invisíveis, e os trabalhos domésticos apareceriam como feitos por si mesmos.

      No entanto, não queria deixar de reparar neles. Queria que não estivessem presentes.

      - Gladia - disse - quero estar só com você. Sem robôs... Giskard, vá para perto de Daneel. Você fica de guarda desde lá.

      - Sim, senhor - disse Giskard, subitamente consciente, reagindo ao som do seu nome.

      Gladia mostrou-se um tanto divertida.

      - Vocês, terráqueos, são muito estranhos. Sei que têm robôs na Terra, mas não parecem saber lidar com eles. Você late suas ordens, como se eles fossem surdos.

      Gladia virou-se para Borgraf e, em voz baixa, falou:

      - Borgraf, nenhum de vocês deve entrar na sala sem ser chamado. Não nos interrompam, a não ser por algum perigo claro imediato.

      - Sim, senhora - respondeu Borgraf.

      O robô recuou, examinou a mesa como que para julgar se não esquecera alguma coisa, virou-se e saiu.

      Foi a vez de Baley divertir-se. A voz de Gladia tinha sido suave, mas seu  tom se mostrou ríspido, como se ela fosse um sargento-mor dirigindo-se a um recruta. Mas  afinal, por que surpreender-se? Sabia que era mais fácil ver a loucura alheia que a própria.

      - Agora estamos a sós, Elijah - disse Gladia. - Mesmo os robôs saíram.

      - Não tem medo de ficar sozinha comigo? - perguntou Baley. Devagar, ela balançou a cabeça.

      - Por que deveria? Ergo um braço, faço um gesto, dou um berro... e vários robôs aparecerão imediatamente. Ninguém em nenhum mundo Espacial tem motivo para temer  qualquer outro ser humano. Isto aqui não é a Terra. Afinal, por que pergunta?

      - Porque há outros medos além dos físicos. Não a violentaria de forma alguma nem a maltratarei fisicamente, em qualquer circunstância. Mas não teme o meu interrogatório  e o que poderei descobrir a seu respeito? Lembre-se também que não estamos em Solaria. Lá, simpatizei com você e me dediquei a demonstrar sua inocência.

      Em voz baixa, a moça perguntou:

      - Não simpatiza comigo agora?

      - Desta vez, não há um marido morto. Você não é suspeita de assassinato. Apenas um robô foi destruído e, até onde sei, você não é suspeita de nada. Em vez disso,  meu problema é o Dr. Fastolfe. É da maior importância para mim, por motivos que não quero abordar, que eu seja capaz de demonstrar sua inocência. Se o processo der  uma reviravolta e for atingi-la,  não terei como evitar.  Não pretendo me afastar do meu caminho para evitar seu sofrimento.

      Sinto-me na obrigação de dizer-lhe isto.

      A moça levantou a cabeça e fixou seus olhos nos dele, arrogante.

      - Por que alguma coisa me atingiria?

      - Talvez devamos agora começar a descobrir - replicou Baley friamente - sem a presença do Dr. Fastolfe interferindo.

      Espetou um dos pequenos sanduíches com um garfinho (não tinha sentido usar os dedos e, assim, tornar talvez o prato todo inutilizável para Gladia), transferiu-o para seu próprio prato, metendo-o depois na boca e sorvendo o chá.

      Ela o acompanhou, sanduíche a sanduíche, gole a gole. Se ele estava ficando frio, também ela estava, aparentemente.

      - Gladia - disse Baley - é importante que eu saiba exatamente qual a relação entre você e o Dr. Fastolfe. Você mora perto dele e os dois formam o que é, virtualmente, uma única criadagem robótica. Ele está claramente preocupado com você. Fastolfe não fez qualquer esforço para defender sua inocência, exceto se declarar inocente, porém defendeu você vigorosamente desde que apertei meu interrogatório.

      Gladia esboçou um sorriso.

      - De que suspeita, Elijah?

      - Não se esquive. Não quero desconfiar. Quero saber.

      - O Dr. Fastolfe mencionou Fanya?

      - Sim, mencionou.

      - Perguntou-lhe se Fanya é sua mulher ou apenas sua companheira? Se tem filhos?

      Baley mexeu-se, inquieto. Claro, poderia ter feito essas perguntas. Contudo, numa Terra superpovoada, a privacidade era apreciada exatamente porque não tinha soçobrado.

      Era virtualmente impossível, na Terra, não conhecer todos os fatos sobre os arranjos familiares dos outros, e assim não se faziam perguntas nem se fingia ignorância.

      Era uma fraude universalmente sustentada.

      Ali em Aurora, claro, as maneiras da Terra não funcionavam, porém Baley mecanicamente tentou mantê-las. Estúpido!

      - Ainda não perguntei - replicou Baley. - Conte-me.

      - Fanya é mulher dele - disse Gladia. - Ele já casou uma porção de vezes, consecutivamente, é claro, embora o casamento simultâneo para cada ou ambos os sexos não seja totalmente desconhecido em Aurora. - O tom meio desgostoso com que se exprimiu trouxe, implícito, uma leve defesa: - É desconhecido em Solaria.

      "No entanto, o atual casamento do Dr. Fastolfe será provávelmente desfeito logo. Ambos ficarão assim livres para novas ligações, embora freqüentemente uma ou ambas  as partes não espere a separação para isso... Não estou dizendo que compreendo essa forma de tratar o assunto, Elijah, porém como os auroreanos estabelecem suas   relações. O Dr. Fastolfe, que eu saiba, é um tanto puritano. Ele sempre que pode mantém um casamento ou outra forma e nada procura fora deles. Em Aurora, isso é   considerado antiquado e um tanto bobo.

      Baley balançou a cabeça.

      - Percebi mais ou menos isso em minhas leituras. O casamento ocorre quando há a intenção de ter filhos, acho eu.

      - Teoricamente, é verdade, porém sei que hoje dificilmente alguém leva isso a sério. O Dr. Fastolfe já tem dois filhos e não pode ter mais, porém ainda se casa e se esforça para ter um terceiro. Ele não consegue, é claro, e sabe disso. Algumas pessoas nem mesmo se esforçam.

      - Então, por que se dar ao trabalho de casar?

      - Há vantagens sociais. É um tanto complicado, e não sendo auroreana, não estou certa de ter compreendido.

      - Bem, não importa. Fale-me sobre os filhos do Dr. Fastolfe.

      - Ele tem duas filhas de mães diferentes. Nenhuma das mães é Fanya, claro. Não tem filhos. Cada uma foi incubada no útero da mãe, como é costume em Aurora. Ambas estão agora adultas e têm suas próprias casas.

      - Ele é íntimo das filhas?

      - Não sei. Nunca fala a respeito delas. Uma é roboticista e suponho que ele deve ter contato com o trabalho dela. Acho que a outra está procurando emprego na administração de uma das cidades ou que já está realmente empregada. Na verdade, não sei.

      - Sabe se há tensões familiares?

      - Nada que eu tenha percebido, o que não quer dizer grande coisa, Elijah. Até onde sei, ele mantém bom relacionamento com todas as ex-mulheres. Nenhuma das separações foi litigiosa, pois o Dr. Fastolfe não é desse tipo de gente. Não posso imaginá-lo recebendo alguma contrariedade na vida com uma reação mais extremada que um bem-humorado suspiro de resignação. Ele fará uma piada em seu leito de morte.

      Aquilo, pelo menos, parecia verdade, pensou Baley.

      - E o relacionamento do Dr. Fastolfe com você? - perguntou

      - A verdade, por favor. Não estamos em posição de fugir à verdade para evitar aborrecimentos.

      Ela levantou os olhos e encarou-o.

      - Não há aborrecimento a evitar - replicou. - O Dr. Han pastolfe é meu amigo, um amigo muito bom.

      - Até onde, Gladia?

      - Como eu disse: muito bom.

      - Está esperando a dissolução do casamento dele, para ser talvez sua próxima mulher?

      - Não - respondeu ela, muito calma.

      - Então são amantes?

      - Não.

      - Foram?

      - Não... Está surpreso?

      - Apenas preciso de informações - retrucou Baley.

      - Então permita que responda às suas perguntas coerentemente, Elijah, e não as berre para mim como se quisesse surpreender-me e levando-me a contar-lhe coisas que de outra maneira eu manteria em segredo.

      Essas palavras foram ditas sem zanga aparente. Era quase como se estivesse se divertindo.

      Baley, corando um pouco, teve vontade de dizer que aquela não tinha sido sua intenção, mas na verdade fora e nada ganharia negando-a. Falou, num resmungo baixo:

      - Bem, então vamos continuar.

      Os restos do chá enchiam a mesa entre ambos. Baley ficou imaginando se sob condições normais ela teria levantado o braço e dobrado um pouco... e se o robô, Borgraf, teria entrado silenciosamente e retirado a mesa.

      O fato da mesa permanecer cheia perturbaria Gladia... e a tornaria menos controlada em suas reações? Se fosse assim, seria melhor que continuasse... mas Baley realmente não esperava muito, pois não viu em Gladia sinais de perturbação por causa da desarrumação ou mesmo de tê-la percebido.

      Os olhos de Gladia tornaram a fixar-se no colo e seu rosto pareceu ficar mais abatido e um tanto áspero, como se estivesse revolvendo um passado que não queria recordar.

      - Você teve um precário conhecimento da minha vida em Solaria - dissf a moça. - Não foi uma vida feliz, porém não tive outra. Foi só quando tive um pouco de felicidade que repentinamente percebi exatamente em que extensão e intensidade minha vida anterior tinha sido infeliz. A primeira suspeita veio através de você Elijah.

      - De mim? - perguntou Baley, tomado de surpresa.

      - Sim, Elijah. Nosso último encontro em Solaria, e espero que ainda se lembre, Elijah, ensinou-me uma coisa. Eu toquei você! Retirei a luva, uma igual à que estou   usando agora, e toquei seu rosto. O contato não foi demorado. Não sei o que significou para você... não, não me diga, não é importante, mas significou muito para   mim.

      Gladia ergueu os olhos, encarando-o desafiadoramente.

      - Significou muito para mim. Transformou minha vida. Lembre, Elijah, que até então, desde minha infância, eu nunca tinha tocado num homem, ou na verdade em algum   ser humano, exceto meu marido. E eu tocava nele muito raramente. Eu tinha examinado homens no trimensic, é claro, e através dele fiquei inteiramente familiarizada   com cada aspecto físico dos homens, cada parte deles. A esse respeito, nada tenho a aprender.

      "Porém eu não tinha motivo para achar que cada homem reagia de modo muito diferente de outro. Sabia como era a  pele do meu marido ao tato, como suas mãos sentiam  quando conseguia me tocar, como... tudo. Não tinha motivo para pensar que tudo podia ser diferente em cada homem. Não havia prazer no contato com meu marido, porém  por que deveria haver? Há algum prazer especial no contato dos meus dedos com esta mesa, exceto na medida em que posso apreciar sua suavidade física?

      "O contato com meu marido era parte de um ritual fortuito que ele realizava, porque se esperava isso dele, e como bom solariano passou a fazer de acordo com o calendário,   com o relógio e pelo resto da vida, de acordo com o prescrito pela boa educação. Exceto que, num outro sentido, não era boa educação, pois apesar desse contato periódico   ter como finalidade precisa a relação sexual, meu marido não desejava um filho e não estava interessado, acredito, em fazer um. E eu tinha muito medo dele para requerer   um por iniciativa própria, como era meu direito.

      "Quando me recordo, vejo que a experiência sexual foi superficial e mecânica. Nunca tive um orgasmo. Nenhuma vez. Soube que isso existia pela leitura, mas sua descrição   apenas me deixou confusa, já que só podia ser encontrada em livros importados, pois os  livros solarianos nunca tratavam de sexo, e por isso não podia confiar neles. Pensei que não passavam de metáforas exóticas.

      - Nem pude experimentar, pelo menos com sucesso, o autoerotismo. Acho que masturbação é a palavra comum. Pelo menos ouvi essa palavra ser usada em Aurora. Em Solaria, lógico, nenhum aspecto sexual é jamais discutido e nenhuma palavra referente a sexo usada na sociedade educada... Nem há outra espécie de sociedade em Solaria.

      - Por coisas que li eventualmente, fiz uma idéia de como se pode chegar á masturbação, e em várias ocasiões fiz tímidas tentativas de executar o que estava descrito.

      Não consegui. O tabu contra tocar a carne humana fez com que a minha própria se tornasse proibida e desagradável para mim. Podia esfregar a mão na anca, cruzar as pernas, sentir a pressão da coxa contra coxa, mas eram toques casuais, sem serem olhados. Transformar a ação do toque num instrumento de prazer deliberado era diferente.

      Cada fibra do meu ser sabia que não devia ser feito, e uma vez que eu sabia disso, o prazer não vinha.

      - E jamais me ocorreu, numa ocasião sequer, que poderia haver prazer em tocar, sob outras circunstâncias. Como poderia me ocorrer?

      - Até que toquei em você naquele dia. Por que o fiz, não sei. Senti um impulso de afeto por você, por ter evitado que fosse acusada de assassina. E, além disso, você não era proibido. Você não era solariano. Você não era, desculpe, completamente homem. Você era uma criatura da Terra. Tinha a aparência humana, porém de vida breve e presa de infecção, coisa para ser posta de lado como semi-humano, no melhor dos casos.

      - Assim, como tinha salvo minha vida e não era realmente humano, pude tocá-lo. E, além disso, você me olhou não com a hostilidade e repugnância do meu marido... ou com a indiferença cuidadosamente estudada de alguém me vendo num trimensic. Você estava ali, palpável, e seus olhos eram amáveis e preocupados. Você realmente tremeu quando minha mão se aproximou do seu rosto. Eu vi.

      - Por que, não sei. O toque foi muito leve e não havia como a sensação física ser diferente da que seria se eu tivesse tocado meu Marido ou outro homem qualquer... ou talvez, mesmo, qualquer outra mulher. Mas foi mais que uma sensação física. Você estava ali, aceitou e deu sinais de que o tinha aceito como... afeto. E quando nossas peles, minha não, seu rosto, entraram em contato, foi como se eu tivesse tocado numa chama suave que subisse pela minha mão e braço instantaneamente, incendiando-me toda.

      - Não sei quanto tempo durou, não pode ter sido mais de um segundo ou dois, mas para mim o tempo parou. Alguma coisa tinha me acontecido como nunca acontecera antes, e olhando para trás neste longo intervalo, quando aprendi a respeito, percebi que estive a ponto de sentir um orgasmo.

      - Evitei demonstrá-lo...

      Baley, não ousando olhá-la, balançou a cabeça.

      - Bem, não demonstrei - continuou. - Eu disse: "Obrigada, Elijah." Era pelo que você tinha feito por mim no caso da morte do meu marido. Mas foi muito mais para iluminar minha vida e me mostrar, sem mesmo saber o que era a vida, abrir uma porta, revelar um caminho, mostrar um horizonte. O ato físico nada era em si. Apenas um toque. Mas foi o começo de tudo.

      Sua voz morreu e, durante um momento, Gladia ficou calada, recordando. Depois, com um dedo levantado:

      - Não, não diga nada. Ainda não acabei. Eu tinha imaginado coisas antes, coisas muito vagas e indefinidas. Um homem e eu, fazendo o que eu e meu marido fazíamos, mas um tanto diferente, eu nem mesmo sabia diferente em que, e sentindo uma coisa diferente... uma coisa que não podia imaginar, nem mesmo usando toda a minha imaginação.

      Eu poderia, compreensivelmente, atravessar toda a minha vida tentando imaginar o inimaginável e poderia ter morrido como suponho que morrem as mulheres de Solaria, e os homens também, sem ter conhecimento após três ou quatro séculos. Ignorando eternamente. Tendo filhos, mas ignorando.

      - Porém um toque em seu rosto me fez saber, Elijah. Não é fantástico? Você me ensinou o que eu posso imaginar. Não a mecânica, não o embotado e relutante tocar de corpos, mas uma coisa que eu jamais teria concebido como tendo tudo a ver com isso. O ir de um rosto, a fagulha num olho, a sensação de gentileza-bondade... uma coisa que nem mesmo posso descrever... aceitação, a eliminação da terrível barreira entre indivíduos. Amor, suponho... uma palavra conveniente para englobar tudo isso e mais.

      - Senti amor por você, Elijah, porque pensei que você pudesse também sentir por mim. Não digo que tenha me amado, mas me pareceu que podia. Nunca o tivera, embora na literatura antiga falassem nisso, sabia tanto o que queriam dizer como os homens nesses mesmos livros falavam de "honra" e se matavam em nome dela. Eu aceitava a palavra, porém nunca extraí seu significado, mesmo hoje. Aconteceu o mesmo com "amor"até tê-lo tocado.

      - Depois disso, pude imaginar... e vim para Aurora recordando você. pensando em você e conversando incansavelmente com você na minha mente, supondo que em Aurora eu iria encontrar um milhão de Elijahs.

      Parou um momento, absorta, e depois, repentinamente, continuou:

      - Não encontrei. Descobri que Aurora era, à sua maneira, tão ruim quanto Solaria. Em Solaria, o sexo era errado. Odiavam-no e todos nós afastávamos dele. Não podíamos amar por causa do ódio que o sexo despertava.

      - Em Aurora, o sexo era aborrecido. Era aceito calmamente, facilmente... tão facilmente quanto respirar. Se alguém sentia o impulso, virava-se para o primeiro que parecesse disponível e se essa pessoa disponível não estivesse no momento fazendo alguma coisa que não pudesse ser posta de lado, o ato sexual era realizado da maneira mais conveniente. Como respirar... Mas respirar provocava êxtase? Se alguém ficasse sufocado, talvez então a primeira respiração ofegante conseqüente ao sufoco pudesse ser um prazer insuperável e um alívio. Mas se não ficasse sufocado?

      - E se alguém nunca ficasse sem sexo involuntariamente? Se fosse ensinado aos mais moços na mesma base da leitura e da programação? Se as crianças fossem levadas a experimentá-lo como matéria de estudo e se os mais velhos ajudassem?

      - O sexo, permitido e livre como o ar, nada tinha a ver com o amor em Aurora, da mesma maneira como o sexo, proibido e motivo de vergonha, nada tem a ver com o amor em Solaria. Em cada um, as crianças são poucas e devem chegar a isso após requerimento formal... E depois, se a permissão for dada, deverá haver um intervalo de sexo indicado apenas para gravidez, triste e desagradável. Se após um período razoável o engravidamento não se segue, os ânimos se rebelam e lança-se mão da inseminação artificial.

      - Com o tempo, como em Solaria, a ectogênese será o processo Pelo qual a fertilização e o desenvolvimento fetal serão implantados, tornando o sexo uma forma de interação social e divertimento que tem tanto a ver com o amor como o pólo espacial.

      - Não posso agiotar a atitude auroreana, Elijah. Não fui preparada para isso. com pavor, procurei o sexo e ninguém recusou... nem se importou. Os olhos de cada homem ficaram vagos quando me ofereci e permaneceram da mesma forma, quando aceitaram. Outra, pensaram, para quê? Estavam querendo, porém não mais que isso.

      - E tocá-los nada significava. Eu podia ter tocado meu marido. Aprendi a ir com ele, acompanhá-lo, aceitar sua direção... e tudo isso nada signficava. Nem mesmo consegui ganhar o impulso de fazer por mim e para mim. A sensação que você me deu nunca mais voltou e, com o tempo, desisti.

      - Durante tudo isso, o Dr. Fastolfe foi meu amigo. Só ele, em todo Aurora, sabia o que tinha acontecido em Solaria. Pelo menos é o que eu penso. Você sabe que todos os fatos não foram publicados e certamente não apareceram naquele horrível programa da hiperonda do qual ouvi falar... e que recusei ver.

      - O Dr. Fastolfe me protegeu na falta de compreensão por parte dos auroreanos e contra o desprezo geral dos solarianos. Protegeume também do desespero que tomou conta de mim, logo depois.

      - Não, não fomos amantes. Eu teria me oferecido, mas quando me ocorreu que poderia fazê-lo, não achei mais que o sentimento que me inspirou, Elijah, pudesse tornar a acontecer. Pensei que podia ter sido uma cilada da memória e desisti. Não me ofereci. Nem ele a mim. Não sei por que não o fez. Talvez ele tenha visto que meu desespero decorreu do meu fracasso de encontrar alguma coisa útil no sexo e não quisesse acentuar o desespero repetindo o fracasso. Foi muito bondoso da parte dele como agiu comigo a esse respeito: por isso não fomos amantes. Foi simplesmente meu amigo num momento em que eu precisava muito.

      - É isso, Elijah. Está aí a resposta completa da pergunta que fez. Você queria conhecer minha relação com o Dr. Fastolfe e disse que precisava de informações. Recebeu-as.

      Está contente?

      Baley tratou de não revelar sua tristeza.

      - Lamento, Gladia, que a vida tenha sido tão cruel com você. Você me deu a informação que eu precisava. Foi muito mais importante do que talvez pense.

      Gladia franziu a testa.

      - De que maneira?

      Baley não respondeu diretamente.

      - Gladia, estou contente porque sua recordação de mim lhe signifique tanto. Durante minha estada em Solaria, não me ocorreu que a tivesse impressionado tanto, e mesmo que tivesse percebido, não teria tentado... Você sabe.

      - Sei, Elijah - disse ela, suavizando-se. - Nem teria sido possível, se tivesse tentado. Eu não poderia.

      - E eu sei disso... Nem devo tomar agora como um convite o que me disse. Um toque, um momento de percepção sexual, não precisa mais que isso. Provavelmente nunca poderá repetir-se e esta única existência não deverá ser estragada por fúteis tentativas de ressurreição. Esse é o motivo pelo qual agora não me... ofereço. Meu fracasso nisso não deve ser interpretado como mais um fim inexpressivo para você. Além disso...

      - Sim.

      - Como já lhe falei, você talvez me tenha contado mais coisas do que supõe. Contou-me que aquilo não terminou com seu desespero.

      - Por que diz isso?

      - Ao contar-me a sensação que sentiu quando tocou minha  face, você expressou-se assim: "e olhando para trás nesse longo intervalo, quando aprendi a respeito, percebi que estive a ponto de sentir um orgasmo"... Mas então você chegou a explicar que o sexo com auroreanos nunca foi bem-sucedido e, suponho, você também então não sentiu orgasmo. Mas você deve ter sentido, Gladia, se reconheceu a sensação que teve naquela vez em Solaria. Não é possível olhar para trás e reconhecê-lo como tal, a menos que tenha aprendido a amar com sucesso. Em outras palavras, você deve ter tido um amante e deve ter experimentado o amor. Se devo acreditar que o Dr. Fastolfe não é nem foi seu amante, então alguém mais é... ou foi.

      - E daí? Por que isso é da sua conta, Elijah?

      - Não sei se é ou não é, Gladia. Diga-me quem é e prove que não é da minha conta e acabaremos com isto.

      Gladia manteve-se em silêncio. Baley prosseguiu:

      - Se não me contar, Gladia, terei de contar-lhe. Já lhe disse que não estou em posição de poupar seus sentimentos.

      Gladia permaneceu calada, as comissuras dos lábios brancas de tanta pressão.

      - Tem de ser alguém, Gladia, e sua tristeza pela perda de Jander é imensa. Pediu para Daneel sair porque não podia suportar olhá-lo em virtude da recordação de  Jander que seu rosto provocava. Se estou errado, achando que foi Jander Panell... - Parou um  instante e depois continuou rispidamente: - Se o robô, Jander Panell, não foi seu amante, diga.

      E Gladia murmurou:

      - Jander Panell, o robô, não foi meu amante. - Depois, com voz alta e firme, acrescentou: - Ele foi meu marido!

      Os lábios de Baley moveram-se sem emitir um som, mas não havia dúvida na exclamação tetrasilábica.

      - Sim - disse Gladia. - Jehoshaphat! Você está espantado. Por quê? Você desaprova?

      Baley retrucou, com voz neutra:

      - Não é da minha competência aprovar ou desaprovar.

      - O que quer dizer que você desaprova.

      O que quer dizer que estou só à procura de informações. Como se pode distinguir entre um amante e um marido em Aurora?

      - Quando dois seres moram juntos num mesmo local durante certo tempo, podem referir-se a um ou outro como "mulher" e "marido", em vez de "amante".

      - Por quanto tempo?

      - Varia de região para região, acho eu, de acordo com a opção local. Na cidade de Eos, o período é três meses.

      - Também é exigido nesse período sejam evitadas relações sexuais com outros?

      Gladia ergueu as sobrancelhas, surpresa.

      - Por quê?

      Estou apenas perguntando.

      - A exclusividade é impensável em Aurora. Marido ou amante, não faz diferença. As relações sexuais são por prazer.

      - E gostou enquanto esteve com Jander?

      - Acontece que não, mas a escolha foi minha.

      - Outros se ofereceram?

      - Ocasionalmente.

      - E você recusou?

      - Posso sempre recusar à vontade. É parte da não exclusividade.

      - Mas recusou?

      - Sim.

      - E os que recusou souberam por quê?

      - Que quer dizer?

      - Sabiam que você tinha um marido-robô?

      - Eu tinha um marido. Não o chame de marido-robô. Não há essa designação.

      - Eles sabiam? Gladia fez um silêncio.

      - Não sei.

      - Você lhes disse?

      - Por que motivo deveria dizer-lhes?

      - Não responda minhas perguntas com outras. Disse-lhes?

      - Não.

      - Como conseguiu evitar? Não acha que uma explicação pela recusa teria sido natural?

      - Nunca foram pedidas explicações. Uma recusa é apenas uma recusa, sempre aceita. Não estou compreendendo.

      Baley parou para organizar seus pensamentos. Gladia e ele não estavam em contradição, mas em caminhos paralelos.

      - Seria natural, em Solaria, ter um robô como marido? - recomeçou Baley.

      - Isso seria impossível em Solaria e eu jamais teria pensado nisso. Tudo era impensável em Solaria... E na Terra também, Elijah. Sua mulher tomaria um robô para marido?

      - Isso é irrelevante, Gladia.

      - Talvez, mas sua expressão é uma boa resposta. Você e eu não somos auroreanos, mas estamos em Aurora. Moro aqui há dois anos e aceito seus costumes.

      - Está dizendo que as relações sexuais entre humanos e robôs são comuns aqui em Aurora?

      - Não sei. Apenas sei que são aceitas porque tudo é aceito quando se trata de sexo... tudo que é voluntário, que proporciona satisfação mútua e não provoca dano físico a ninguém. Qual a diferença concebível que faz, para alguém mais, como uma pessoa ou grupo de pessoas encontram satisfação? Alguém se importa com os livros que vejo, com os alimentos que como, com a hora em que deito ou acordo, se gosto de gatos ou detesto rosas? O sexo também é objeto de indiferença... aqui em Aurora.

      - Em Aurora - repetiu Baley. - Mas você não nasceu em Aurora e não foi educada dessa maneira. Você acabou de me dizer que não conseguiu ajustar-se a essa verdadeira indiferença ao sexo, que agora estima. Anteriormente, você mostrou-se desgostosa com os casamentos múltiplos e a promiscuidade fácil. Se não disse aos que recusou por que agiu assim, pode ter sido porque, em qualquer recesso do seu ser, você estava envergonhada de ter Jander por marido. Você soube, ou desconfiou ou então simplesmente supôs, que isso era incomum mesmo em Aurora, e ficou envergonhada.

      - Não, Elijah, não me diga que fiquei envergonhada. Se ter um robô como marido é incomum mesmo em Aurora, é porque robôs como Jander são incomuns. Os que temos em Solaria, na Terra ou em Aurora, exceto Jander e Daneel, foram projetados para ter a mais primitiva satisfação sexual. Podem ser usados como objetos de masturbação, talvez, como pode ser um vibrador mecânico, porém nada mais. Quando os robôs humaniformes tiverem se espalhado, o mesmo acontecerá com a relação sexual humano-robô.

      - Como foi a primeira a possuir Jander? - perguntou Baley. - Só existiam dois: ambos em poder do Dr. Fastolfe. Teria ele, simplesmente lhe dado um deles, a metade do total?

      - Sim.

      - Por quê?

      - Por bondade, suponho. Eu estava só, desiludida, infeliz, estranha numa terra estranha. Ele me deu Jander como companhia nunca lhe agradeci bastante. Ele ficou apenas meio ano, mas esse período valeu toda a minha vida.

      - O Dr. Fastolfe sabia que Jander era seu marido?

      - Ele nunca comentou, por isso não sei.

      - Você informou-o?

      - Não.

      - Por quê?

      - Não vi necessidade... E não, não foi porque tivesse vergonha.

      - Como aconteceu?

      - Que eu não tenha sentido necessidade?

      - Não. Que Jander tenha se tornado seu marido. Gladia empertigou-se e respondeu, com voz hostil:

      - Por que preciso explicar?

      - Gladia está ficando tarde - falou Baley. - Não resista cada instante. Está angustiada porque Jander... morreu?

      - E ainda pergunta?

      - Quer descobrir o que aconteceu?

      - Novamente, ainda pergunta?

      - Então me ajude. Preciso de todas as informações para poder começar, só começar, a fazer progressos na solução de um problema aparentemente insolúvel. Como Jander tornou-se seu marido?

      Gladia recostou-se na cadeira e seus olhos subitamente encheram-se de lágrimas. Empurrou o prato com os farelos que restaram dos pastéis e disse, com voz sufocada:

      - Robôs comuns não usam roupas, porém são desenhados para darem a impressão de que usam. Tendo morado em Solaria, conheço bem os robôs e tenho algum talento artístico...

      - Lembro dos seus desenhos elegantes - disse Baley, suavemente.

      Gladia curvou a cabeça, agradecendo.

      - Executei alguns desenhos para novos modelos que possuíssem, na minha opinião, mais classe e mais interesse que alguns dos usados em Aurora. Alguns quadros meus, baseados nesses desenhos, estão pendurados aqui nesta sala. Outros estão em outros lugares da casa.

      Os olhos de Baley examinaram os quadros. Já os tinha visto. Eram indubitavelmente de robôs. Não eram naturalistas, mas alongados e anormalmente curvos. Notou que as distorções foram feitas para ressaltar, inteligentemente, as partes que, agora que olhava de uma nova perspectiva, sugeriam roupas. De certa maneira, davam a impressão de roupas de criados que ele vira reproduzidas num livro dedicado à Inglaterra Vitoriana, dos tempos medievais. Gladia saberia disso ou tinha apenas uma semelhança ocidental, se não circunstancial? Provavelmente, não tinha sido calculado, mas não era coisa (talvez) para ser esquecida.

      Quando notou pela primeira vez, pensou que era a forma de Gladia se rodear de robôs, imitando a vida em Solaria. Ela odiava aquela vida, dissera, mas era apenas o produto de sua mente pensante. Solaria tinha sido o único lar que realmente conhecera e isso não se descarta com facilidade... talvez nunca. E talvez também permanecesse um elemento de sua pintura, mesmo que suas novas ocupações lhe dessem um motivo mais plausível.

      - Eu tive sucesso - a moça estava dizendo. - Os fabricantes de robôs pagavam bem pelos meus desenhos e em numerosos casos, robôs já prontos tiveram seu aspecto refeito de acordo com minhas instruções. Havia uma certa satisfação naquilo tudo que, em parte, compensava o vácuo emocional da minha vida.

      - Quando Jander me foi dado pelo Dr. Fastolfe, eu passei a ter um robô que, é claro, usava roupas comuns. O querido doutor teve de fato a grande bondade de me dar algumas mudas de roupa para Jander.

      "Nenhuma tinha a menor imaginação e me diverti comprando o que considerei indumentária mais apropriada. Comecei por tirar-lhe as medidas exatas, pois eu pretendia mandar confeccionar meus desenhos... o que significava ter ele de tirar sua roupa aos poucos.

      "Ele tirou... e foi apenas quando estava completamente nu que pude perceber quanto estava perto do aspecto humano. Não faltava nada, e a parte que se poderia esperar ser ereta o era realmente. Estava, de fato, sob o que, do ponto de vista humano, podia ser chamado de controle consciente. Jander podia endurecê-la ou não, à vontade.

      Ele me revelou isso quando lhe perguntei se seu pênis era funcional. Eu estava curiosa a esse respeito.

      "Não se esqueça de que, apesar dele parecer muito com um homem, eu sabia que era robô. Eu tinha uma certa dificuldade de tocar em homens, você sabe, e não duvidava de que isso desempenhasse um papel na minha incapacidade de ter relações sexuais satisfatórias com auroreanos. Porém aquele não era homem e eu tinha convivido com robôs minha vida toda. Podia tocar em Jander à vontade.

      - Não levei muito tempo para perceber que tinha prazer em tocá-lo e o robô não precisou muito para ver que eu gostava. Ele era um robô perfeitamente afinado, que seguia estritamente as Três Leis da Robótica. Deixar de dar prazer quando podia correspondia a desapontar. E o desapontamento significava causar dano e ele não poderia fazer isso a um ser humano. Tomou cuidados infinitos, portanto, para me alegrar, e como vi nele o desejo de dar prazer, coisa que nunca vi nos homens auroreanos, fiquei realmente feliz e por fim descobri de modo pleno, creio, o que era um orgasmo.

      - Ficou, assim, totalmente feliz? - perguntou Baley.

      - com Jander? Claro. Totalmente.

      - Nunca brigou?

      - Com Jander? Como poderia? Seu único objetivo, sua única razão de vida, era me satisfazer.

      - E isso não a perturbou? Ele só a satisfez porque também sentia prazer.

      - Qual o motivo de alguém fazer alguma coisa, a não ser porque também quer?

      - E você nunca sentiu a necessidade de tentar o verdadeiro... tentar os auroreanos, depois de ter aprendido a ter orgasmo?

      Teria sido um substituto insatisfatório. Eu só queria Jander. E agora você entende o que perdi?...

      A expressão normalmente séria de Baley tornou-se solene.

      - Compreendo, Gladia - replicou. - Se a fiz sofrer antes, perdoe-me, por favor, pois não tinha entendido direito.

      Porém, ela estava chorando e Baley esperou, incapaz de dizer mais alguma coisa, incapaz de pensar numa forma razoável de consolar.

      Finalmente, Gladia sacudiu a cabeça, enxugou os olhos com as costas da mão e suspirou:

      - Há mais alguma coisa?

      Com ar de desculpas, Baley disse:

      - Algumas perguntas sobre outro assunto e depois deixarei de aborrecê-la. - Acrescentou, precavidamente: - Por enquanto.

      - O que é?

      Gladia parecia cansadíssima.

      - Sabe que há gente que pensa ser o Dr. Fastolfe o autor do assassinato de Jander?

      - Sei.

      - Sabe que o próprio Dr. Fastolfe admite que só ele possui a capacidade de matar Jander da maneira como foi feito?

      - Sei. O próprio caro doutor me disse.

      - Muito bem, Gladia: você acha que o Dr. Fastolfe matou Jander?

      A moça ergueu os olhos para ele, súbita e asperamente, e depois retrucou, zangada:

      - Claro que não. Por que faria isso? Jander era dele, para começar, e o doutor cuidava-o muito. Você não conhece o caro Dr. Fastolfe como eu, Elijah. É uma pessoa amável que não magoaria ninguém e nunca um robô. Supor que quisesse matar um é como imaginar que uma pedra pudesse cair para cima.

      - Não tenho mais perguntas, Gladia, e a única outra coisa que tenho de fazer aqui no momento é ver Jander, o que resta dele, se você me permitir.

      Ela voltou a ficar desconfiada e hostil.

      - Por quê? Por quê?

      - Gladia! Por favor! Não creio que sirva para alguma coisa, mas preciso ver Jander e confirmar que de nada adiantou vê-lo. Procurarei não ofender sua sensibilidade.

      Gladia levantou-se. Seu vestido, muito simples, tendo apenas uma barra, não era preto (como teria sido na Terra), mas de uma cor neutra, sem reflexos. Baley, que não era especialista em moda, achou ser muito apropriado ao luto.

      - Venha - murmurou a moça.

      Baley atravessou com Gladia várias peças, cujas paredes brilhavam pouco. Em uma ou duas ocasiões, percebeu um movimento, que julgou tratar-se de um robô saindo rapidamente do caminho, pois tinham recebido ordens de não aparecerem.

      Passando por um corredor e depois subindo um lance de escada, chegaram a um cubículo, no qual uma parte da parede brilhava para fazer o efeito de refletor.

      Havia uma cama de armar, uma cadeira... e nada mais.

      - Este era o quarto dele - disse Gladia. Depois, como que respondendo a um pensamento de Baley, prosseguiu: - Era tudo o que precisava. Eu o deixava só a maior parte do tempo possível: o dia inteiro, se pudesse. Jamais quis ficar cansada dele. - Balançou a cabeça. - Hoje gostaria de ter ficado com ele cada segundo. Eu não sabia que nossa vida em comum iria ser tão curta... Aqui está ele.

      Jander estava deitado na cama e Baley examinou-o atentamente. O robô fora coberto com um tecido macio e brilhante. A parede refletor lançava seu brilho sobre a cabeça de Jander, que se mostrava tranqüila e quase inumana em sua serenidade. Os olhos continuavam arregalados, mas sem vida e embaçados. Parecia muito com Daneel, justificando amplamente o mal-estar de Gladia diante dele. A coberta deixava à mostra os ombros e pescoço nus.

      - O Dr. Fastolfe o examinou? - perguntou Baley.

      - Sim, completamente. Procurei-o, desesperada, e se o tivesse visto correr para cá, sua preocupação, seu sofrimento, o... o pânico, você jamais pensaria que ele pudesse ser responsável. Nada pôde fazer.

      - Jander está nu?

      - O Dr. Fastolfe teve de retirar-lhe a roupa para o exame completo. Não valia a pena tornar a vesti-lo.

      - Gladia, permite que retire a coberta?

      - É preciso?

      - Não quero que me acusem de ter deixado de ver alguma coisa evidente no exame.

      - Você poderá talvez descobrir alguma coisa não vista pelo Dr. Fastolfe?

      - Nada, Gladia, porém necessito saber que não há nada a ser descoberto por mim. Coopere, por favor.

      - Bem, nesse caso, continue, mas por favor, quando acabar torne a pôr a coberta exatamente como estava.

      Virou-se de costas para Baley e Jander, apoiou o braço esquerdo na parede e encostou a testa nele. Estava silenciosa - e imóvel - porém Baley sabia que a moça chorava novamente.

      O corpo não era, talvez, muito humano. A musculatura era um tanto simplificada e meio esquemática. Mas todas as suas partes estavam lá: mamilos, umbigo, pênis, testículos, pêlos púbicos, etc. Até mesmo pêlos finos e raros no peito.

      Quantos dias tinham decorrido da morte de Jander? Baley espantou-se por não saber, mas tinha acontecido pouco antes de sua viagem a Aurora ter começado. Já se passara uma semana e não havia sinal de decomposição, tanto visualmente como pelo olfato. Uma clara diferença robótica.

      Baley hesitou, mas depois meteu um braço sob as costas de Jander e outro sob os quadris. Não lhe ocorreu pedir a ajuda de Gladia: teria sido impossível. Levantou-o e, com alguma dificuldade, virou-o, sem tirá-lo da cama.

      A cama rangeu. Gladia devia ter percebido o que ele estava fazendo, pois não se voltou. Apesar de não ter oferecido ajuda, também não protestou.

      Baley retirou os braços. Jander permanecia quente ao toque. Presumivelmente, a unidade de energia continuava a manter uma coisa tão simples como a temperatura, mesmo com o cérebro desativado. O corpo também estava firme e elástico ao tato. Presumivelmente, jamais passaria pelo estágio análogo ao rigor mortis.

      Um braço estava agora caído para fora da cama, pendente de uma forma quase humana. Baley pegou-o suavemente e largou-o. Ele balançou ligeiramente de um lado para outro e depois parou. Baley dobrou-lhe uma das pernas, examinando um pé e depois o outro. As nádegas tinham sido perfeitamente modeladas e havia até um ânus.

      Baley não se pôde livrar de uma sensação de mal-estar. Não abandonava a idéia de que estava violando a privacidade de um ser humano. Se fosse um cadáver humano, a frieza e endurecimento lhe teriam tirado a humanidade.

      Pensou, constrangido: um cadáver robótico é muito mais humano que o de um ser humano.

      Tornou a meter os braços sob Jander e virou-o para cima.

      Esticou o lençol o melhor que pôde e depois recolocou a coberta como antes, alisando-a. Deu um passo atrás e achou que ficou como antes... ou quase.

      - Terminei, Gladia - disse.

      Ela virou-se para Jander, com os olhos úmidos, e perguntou:

      - Agora podemos ir?

      - Claro que podemos, mas, Gladia...

      - Então?

      - Vai conservá-lo assim? Imagino que não entrará em decomposição.

      - E importa, se eu conservá-lo assim?

      - De certa forma, sim. Você lhe deve dar uma oportunidade de se recuperar. Você não pode passar três séculos chorando-o. O que passou, passou. - Essa afirmação soou ocamente pomposa aos seus próprios ouvidos. Como teria soado aos dela?

      - Sei que está sendo bondoso, Elijah - replicou a moça. Pediram-me que conservasse Jander até a investigação terminar. Depois, ele será archoteado, a meu pedido.

      - Archoteado?

      - Submetido a um archote de plasma e reduzido a nada, como o são os cadáveres humanos. Terei hologramas dele... e recordações Isso o satisfaz?

      - Sem dúvida. Agora preciso voltar à casa do Dr. Fastolfe.

      - Sim. Concluiu alguma coisa do exame do corpo de Jander?

      - Eu não esperava isso, Gladia. Ela o encarou:

      - E, Elijah, quero que você descubra quem fez isso e por quê. Preciso saber.

      - Mas, Gladia...

      Ela sacudiu violentamente a cabeça, como que afastando tudo o que não queria ouvir.

      - Sei que você é capaz.

     

Novamente Fastolfe

      Baley saiu da casa de Gladia para o pôr-do-sol e virou-se para o que julgou dever ser o horizonte oeste, dando com o sol de Aurora, de um escarlate vivo, encimado por faixas finas de nuvens rosadas num céu verde-maçã.

      - Jehoshaphat - murmurou.

      O sol de Aurora, evidentemente mais frio e laranja que o da Terra, acentuava a diferença de cenário, quando sua luz passava pela maior espessura de Aurora.

      Daneel estava atrás dele, Giskard, como antes, bem na  frente.

      Daneel falou em seu ouvido:

      - Está sentindo-se bem, Colega Elijah?

      - Muito bem - replicou Baley, satisfeito consigo mêsmo. - Estou lidando bem com o Exterior, Daneel. Posso até admirar o poente. Ele é sempre assim?

      Daneel olhou, indiferente, para o sol que se punha e respondeu:

      - Sempre. Mas vamos depressa para a casa do Dr. Fastolfe. Nesta época do ano, o crepúsculo não dura muito, Colega Elijah- e desejo-o lá enquanto ainda puder ver com facilidade.

      - Estou pronto. Vamos.

      Baley imaginou se não era melhor esperar pela escuridão- Seria desagradável não poder ver, mas, assim, teria a ilusão de e star fechado... e no íntimo não tinha certeza de quanto tempo essa euforia Provocada por admirar um poente (um poente, imagine, no Exterior) iria durar. Mas era uma vacilação covarde e ele não queria depender dela.

      Giskard deslizou sem barulho na direção dele e disse:

      - Prefere esperar, senhor? A escuridão será melhor para o senhor? A nós tanto faz.

      Baley percebeu outros robôs mais afastados, a cada lado, Gladia teria determinado que seus robôs do campo montassem guarda ou Fastolfe os teria enviado?

      Eles acentuavam a preocupação que despertava e, maldosamente, não quis admitir fraqueza.

      - Não, vamos já - replicou.

      E partiu num passo vivo para a casa de Fastolfe, que mal podi ver entre as árvores afastadas.

      Pensou corajosamente: que os robôs me sigam ou não, como quiserem. Sabia que, se começasse a pensar nisso, uma coisa dentro dele cederia ao pensamento de estar na parte externa de um planeta sem proteção, mas com ar entre ele e o grande vácuo, porém não pensaria nisso.

      Foi a alegria de estar livre do medo que fez seu queixo tremer e os dentes baterem. Ou foi o vento frio da tarde o responsável... que também arrepiou a pele dos seus braços.

      Não foi o Exterior.

      Não foi.

      Tentando afrouxar os dentes, perguntou:

      - Você conhecia bem Jander, Daneel?

      - Estivemos juntos durante algum tempo - retrucou o robô. - Desde a época da construção do amigo Jander até ter passado para a casa da Srta. Gladia, estivemos sempre juntos.

      - Incomoda-o, Daneel, que Jander parecesse tanto com você?

      - Não, senhor. Ele e eu sabíamos sermos diferentes, Colega Elijah, e o Dr. Fastolfe também não nos confundia. Éramos, portanto, dois indivíduos.

      - E você também os diferenciava, Giskard?

      Os dois agora se achavam muito perto, talvez porque os outros robôs estivessem cumprindo seus deveres afastados.

      - Que eu lembre - replicou Giskard - não houve ocasião em que fosse importante eu notar.

      - E se tivesse havido, Giskard?

      - Então eu teria diferenciado.

      - Que opinião tinha de Jander, Daneel?

      - Minha opinião, Colega Elijah? - repetiu Daneel. - Em relação a que aspecto de Jander deseja minha opinião?

      - Por exemplo, ele trabalhava direito?

      - Sem dúvida.

      - Seu trabalho era satisfatório em todos os sentidos?

      - Que eu saiba, era.

      - E você Giskard? Qual é sua opinião?

      - Nunca fui amigo íntimo de Jander como Daneel foi - disse Giskard - e assim não há razão para eu dar opinião. Posso apenas dizer que, até onde sei, o Dr. Fastolfe sempre esteve contente com o amigo Jander. Parecia estar sempre contente com ambos, o amigo Jander e o amigo Daneel. Contudo, não acho que minha programação seja de modo a me permitir ter certeza disso.

      - E no período depois de Jander ter entrado para o serviço da Srta. Gladia? Teve contato com ele, Daneel?

      - Não, Colega Elijah. A Srta. Gladia o mantinha dentro de casa. Nas ocasiões em que visitava o Dr. Fastolfe, nunca vinha com ela, que me lembre. Nas vezes em que acompanhei o Dr. Fastolfe nas visitas à casa de Srta. Gladia, não vi o amigo Jander.

      Isso deixou Baley um tanto surpreso. Virou-se para Giskard a fim de repetir a pergunta, fez uma pausa e depois encolheu os ombros. Não estava conseguindo nada e, como o Dr. Fastolfe já havia dito, não adiantava muito interrogar um robô. Não diria intencionalmente nada que pudesse ferir um ser humano, nem podia ser intimidado, subornado ou adulado para isso. Não mentiria francamente, mas ficaria, teimosamente - se não educadamente - insistindo em dar respostas inúteis.

      E - talvez - não mais interessasse.

      Tinham chegado à porta de Fastolfe e Baley sentiu sua respiração aumentar. O tremor de seus braços e lábios era, tinha certeza, só por causa do vento frio.

      O sol desaparecera, algumas estrelas ficaram visíveis, o céu estava se tornando de um verde-púrpura esquisito, que o fazia parecer triturado, e ele abrigou-se nas paredes brilhantes.

      Estava a salvo.

      Fastolfe cumprimentou-o.

      - Voltou na hora, Sr. Baley. Sua conversa com Gladia foi compensadora?

      - Muito compensadora, Dr. Fastolfe - disse Baley. - É muito possível que eu tenha encontrado a chave da solução.

      Fastolfe apenas sorriu educadamente, não demonstrando surpresa, júbilo ou descrédito. Dirigiu-se para uma peça que era, evidentemente, a sala de jantar, menor e mais aconchegante que a em que tinham almoçado.

      - O senhor e eu, caro Sr. Baley - disse Fastolfe, amavelmente - vamos ter um jantar informal a sós. Apenas nós dois. Até os robôs ficarão fora, se desejar. Nem falaremos de negócios, a não ser que o queira muito.

      Baley nada disse, mas parou para olhar as paredes, espantado. Elas eram de um verde oscilante, com nuanças de luminosidade e matiz, progressivas de baixo até em cima. Havia uma sugestão de folhagens de verde-escuro e reflexos de sombras aqui e ali. As paredes faziam a sala parecer uma gruta bem-iluminada num raso braço de mar. O efeito era vertiginoso: pelo menos Baley achou.

      Fastolfe não teve dificuldade em interpretar a expressão de Baley.

      - É um gosto adquirido. Sr. Baley, confesso - disse ele. - Giskard, reduza a iluminação da parede... Obrigado.

      Baley deu um suspiro de alívio.

      - E obrigado ao senhor, Dr. Fastolfe. Posso ir ao Pessoal, senhor?

      - Mas claro. Baley hesitou:

      - O senhor pode... Fastolfe deu uma risadinha.

      - Vai achá-lo perfeitamente normal, Sr. Baley. Não terá queixas.

      Baley inclinou a cabeça.

      - Muitíssimo obrigado.

      Sem o intolerável faz-de-conta, o Pessoal - acreditou que seria o mesmo que tinha usado antes - não passava do que era, muito mais luxuoso e acolhedor do que jamais tinha visto. Era incrivelmente diferente dos existentes na Terra, que não passavam de filas de unidades idênticas estendendo-se indefinidamente, designado para ser usado por uma - e só uma - pessoa de cada vez.

      A privada brilhava de certa forma, com a limpeza higiênica. Sua camada molecular externa devia ter sido retirada após cada utilização e uma nova camada colocada.

      Baley sentiu vagamente que, se permanecesse bastante tempo em Aurora, iria ter dificuldade a se adaptar às multidões da Terra, que relegavam a higiene e limpeza a segundo plano – coisa a se prestar uma reverência distante . um ideal não muito atingível.

      Baley, rodeado do conforto de peças de marfim e ouro (sem dúvida- ambos não verdadeiros), reluzentes e lisas, subitamente estava tremendo por causa da troca eventual de bactérias da Terra e estremeceu diante de sua rica contaminação. Não era o que os Espaciais sentiam? Podia culpá-los?

      Pensativamente, lavou as mãos, mexendo nos pequenos botões aqui e ali, na faixa de comando, visando a mudar a temperatura. E no entanto os auroreanos eram tão desnecessariamente pomposos na decoração de interiores, tão insistentes em fingirem estar vivendo num estado natural, quando tinham domesticado e estragado a natureza... Ou apenas

      Fastolfe era assim?

      Afinal de contas, a residência de Gladia era muito mais austera. .. Ou era apenas porque tinha sido educada em Solaria?

      O jantar foi uma pura delícia. Novamente, como no almoço, havia uma clara sensação de estar próximo da natureza. Os pratos eram numerosos - todos diferentes, em pequenas quantidades - e em vários casos foi possível ver que tinham sido parte de plantas e animais. Estava começando a tomar conhecimento dos inconvenientes: ossinhos ocasionais, pedacinhos de cartilagens, fibras, que poderiam tê-lo repugnado antes - como parte da aventura.

      O primeiro prato foi um peixinho - que se comia inteiro, com os órgãos internos que pudesse ter - e aquilo foi uma maneira boba de colocá-lo em contato íntimo com a Natureza, com letra maiúscula. Seja como for, engoliu o peixinho como Fastolfe e o sabor converteu-o imediatamente. Nunca havia provado coisa igual. Era como se tivesse saboreado brotos subitamente inventados e inseridos em sua língua.

      O paladar mudava de prato para prato e alguns eram claramente estranhos e não totalmente agradáveis, mas achou que não tinha importância. A sensação de um gosto diverso, de diferentes gostos diversos (a conselho de Fastolfe, bebeu um gole de água levemente perfumada entre os pratos) era o que importava... e não o detalhe interno.

      Procurou não engolir depressa nem concentrar a atenção completamente nos alimentos, nem lamber o prato. Desesperadamente, continuou a observar e imitar Fastolfe, ignorando os olhares simpáticos mas claramente divertidos do outro.

      - Espero - disse Fastolfe - que tenha gostado.

      - É muito bom - tratou Baley de afirmar.

      - Por favor, não se force a uma polidez inútil. Não coma qualquer coisa que lhe pareça estranha ou intragável. Mandarei servir o que o senhor quiser em substituição.

      - Não há necessidade, Dr. Fastolfe. Tudo está bastante satisfatório.

      - Ótimo.

      Apesar de Fastolfe ter proposto comer sem a presença de robôs, havia um para servir (Fastolfe, acostumado a isso, provavelmente nem reparou, pensou Baley... que nem tocou no assunto).

      Como era esperado, o robô ficou silencioso e suas maneiras impecáveis. Sua libré parecia ter sido copiada de dramas históricos que Baley tinha visto na hiperonda.

      Só ao ser olhada muito de perto é que alguém podia ver como a indumentária era uma ilusão de luz e como o exterior do robô era de metal liso... e nada mais.

      - O exterior do garçom foi desenhado por Gladia? - perguntou Baley.

      - Foi - replicou Fastolfe, evidentemente satisfeito. - Como Gladia ficará contente ao saber que o senhor reconheceu o toque dela. Ela é boa, não acha? Seu trabalho vem ganhando popularidade e ela ocupa um lugar útil na sociedade auroreana.

      A conversa durante a refeição foi agradável, mas sem importância. Baley não teve pressa em "falar de negócios" e, de fato, preferiu ficar muito tempo silencioso enquanto saboreava a refeição e deixando ao seu inconsciente - ou que faculdade ocupou o lugar, na ausência de um pensar efetivo - decidir como entrar no assunto

      que lhe parecia agora ser o ponto central do problema Jander.

      Fastolfe assumiu, de certa forma, a iniciativa, dizendo:

      - E agora que mencionou Gladia, Sr. Baley, posso perguntar-lhe o que aconteceu, que o senhor chegou na casa dela bastante desesperado e voltou quase alegre e dizendo   ter talvez conseguido a chave de tudo? Soube alguma coisa nova, e talvez inesperada, em casa de Gladia?

      - De fato - replicou Baley, distraído.

      Mas estava perdido na sobremesa, que não podia reconhecer absolutamente e da qual (depois que um desejo em seus olhos tinha servido para inspirar o garçom) lhe foi   servida mais um pouco. Estava  farto. Nunca na vida tinha gostado tanto do ato de comer, e pela primeira vez sentiu os limites fisiológicos que tornavam impossível comer indefinidamente.  Ficou um tanto envergonhado por isso.

      - E o que descobriu de novo e inesperado? - perguntou Fastolfe, com paciência. - Presumivelmente, uma coisa que eu mesmo não sei?

      - Talvez. Gladia me disse que o senhor deu-lhe Jander há cerca de meio ano.

      Fastolfe balançou a cabeça.

      - Eu sabia disso. De fato, dei.

      - Por quê? - perguntou Baley, ríspido.

      O ar amistoso do rosto de Fastolfe desapareceu devagar. Depois respondeu:

      - Por que não?

      - Não sei por que não, Dr. Fastolfe - disse Baley. - Não me interessa. Minha pergunta é: por quê?

      Fastolfe sacudiu levemente a cabeça e ficou calado.

      - Dr. Fastolfe - continuou Baley - estou aqui para esclarecer o que parece ser uma grande encrenca. Nada do que o senhor fez, nada, tornou as coisas simples. Pelo   contrário, o senhor parece ter prazer em mostrar-me como a situação é grave e em destruir toda a especulação que eu possa oferecer com uma possível solução. Ora,   não espero que outros respondam minhas perguntas. Não tenho posição oficial neste mundo e nem o direito de fazer perguntas, para não dizer forçar respostas.

      "Com o senhor, porém, é diferente. Estou aqui a seu pedido, tentando salvar sua carreira e a minha e, de acordo com sua opinião a respeito, estou procurando livrar   Aurora e a Terra também. Assim sendo, espero que responda minhas perguntas total e verdadeiramente. Por favor, não adote táticas protelatórias, como me perguntando   por que não quando eu pergunto por quê. Agora, mais uma vez... e pela última: por quê?”

      Fastolfe estendeu os lábios e ficou triste.

      - Desculpe, Sr. Baley. Se hesitei em responder, foi porque, olhando para trás, não me pareceu haver um motivo bastante dramático. Gladia Delmarre - ela não quer  que usem seu sobrenome - Gladia é uma estrangeira neste planeta, sofreu experiências dramáticas no seu planeta de origem, como sabe, e traumáticas neste, como talvez  não saiba...

      - Sei. Por favor, seja mais direto.

      - Bem, então senti pena dela. Gladia estava só e Jander, pensei, poderia fazê-la sentir-se menos solitária.

      - Pena dela? Exatamente. São amantes? Foram?

      - Não, absolutamente não. Não tentei. Nem ela... Por quê? Ela lhe disse que tínhamos sido amantes?

      - Não, não disse, porém preciso de confirmação, seja como for. Quando houver uma contradição, eu lhe direi, não precisa se preocupar com isso. Por que motivo, tendo  o senhor simpatizado tanto com ela, e pelo que pude tirar de Gladia, ela lhe ficou muito agradecida, nenhum dos dois tomou a iniciativa? Fui informado de que, em  Aurora, propor sexo é quase igual a um comentário sobre o tempo.

      Fastolfe franziu a testa.

      - O senhor nada sabe sobre isso, Sr. Baley. Não nos julgue pelos padrões do seu próprio mundo. O sexo não é assunto de muita importância para nós, porém o usamos   com cuidado. Não parece ser assim para o senhor, mas nenhum de nós o propõe levianamente. Gladia, sem conhecer nossos costumes e sexualmente frustrada em Solaria,   talvez se tenha oferecido levianamente... ou desesperadamente, melhor dizendo, e talvez não seja surpreendente, portanto, que não tenha gostado do resultado.

      - O senhor não procurou melhorar as coisas?

      - Oferecendo-me? Eu não sou o que ela precisa e, nesse ponto, ela não é o que eu preciso. Senti pena dela. Gosto de Gladia. Admiro seu talento artístico. E quero   que seja feliz... Afinal de contas, Sr. Baley, o senhor certamente concorda que a simpatia de um ser humano por outro não precisa repousar no desejo sexual ou outra   coisa, a não ser o sentimento humano decente. O senhor nunca sentiu simpatia por alguém? Nunca desejou ajudar alguém sem outro motivo que a boa sensação de aliviar   o sofrimento de outra pessoa? De que espécie de planeta veio o senhor?

      - O que o senhor disse é justificado, Dr. Fastolfe. Não duvido de que o senhor seja um ser humano decente. Todavia, seja indulgente comigo. Quando lhe perguntei   pela primeira vez por que tinha dado Jander a Gladia, não me disse o que acaba de me dizer... e também com enorme emoção, devo acrescentar. Seu primeiro impulso   foi tergiversar, hesitar, ganhar tempo, perguntando por que não.  - Admitindo que o senhor finalmente me contou a verdade, o que foi que o deixou embaraçado de saída na pergunta? Que motivo, que o senhor não quis admitir, teve,  antes de resolver defender o motivo quis confessar? Desculpe-me por insistir, mas preciso saber: e, garanto-lhe, não por curiosidade pessoal. Se o que me disser não ter utilidade neste triste caso, pode ter certeza de que foi atirado num buraco negro.

      Fastolfe replicou em voz baixa:

      - Com toda a honestidade, não sei direito por que evitei sua pergunta. O senhor me surpreendeu numa coisa que talvez eu não quisesse enfrentar. Dê-me um tempo, Sr. Baley.

      Ficaram juntos, calados. O criado retirou a mesa e saiu da sala. Daneel e Giskard estavam em outro lugar (presumivelmente vigiando a casa). Baley e Fastolfe ficaram finalmente sós numa sala livre de robôs.

      - Por fim, Fastolfe falou:

      - Não sei o que devo dizer-lhe, porém permita-me recuar ai- " guns decênios. Tenho duas filhas. Talvez o senhor saiba. São de mães diferentes...

      - O senhor preferiria ter filhos, Dr. Fastolfe? O homem mostrou-se genuinamente surpreso.

      - Não. De maneira nenhuma. A mãe da minha segunda filha queria um filho, acho eu, mas não consenti na inseminação artificial com esperma selecionado, nem mesmo com   o meu próprio, e insisti no lançamento natural do dado genético. Antes que pergunte por que, foi porque prefiro uma certa operação de chance na vida e porque penso,   no conjunto, que queria uma oportunidade de ter uma filha. Eu teria aceito um filho, compreenda, mas não queria abandonar a possibilidade de uma filha. Seja como   for, aprovo filhas. Bem, minha segunda foi também mulher e esse talvez seja um dos motivos da mãe ter desfeito o casamento logo após o nascimento. Por outro lado,   uma considerável porcentagem de casamentos é desfeita após um nascimento e assim eu talvez não necessite de um motivo especial.

      - Suponho que ela levou a filha. Fastolfe dirigiu um olhar confuso a Baley.

      - Por que ela faria isso?... Mas esqueci. Você é da Terra. Não, claro que não. A criança foi levada para um berçário, onde Poderia ser devidamente cuidada, claro.

      Na realidade, porém - franziu o nariz como que subitamente embaraçado por uma recordação curiosa - não foi posta lá. Resolvi criá-la. Era legal essa attude, mas  não muito comum. Eu era muito moço, claro, não  tinha ainda atingido os cem anos, mas já havia me distinguido na robótica.

      - Conseguiu?

      - Quer dizer, educá-la com sucesso?

      - Ah, sim. Fiquei gostando muito dela. Chamei-a de Vasilia. Era o nome de minha mãe, sabe - Deu uma risadinha reminiscente. - Adquiri  esse estranho traço de sentimento... como essa afeição por meus robôs. Nunca encontrei minha mãe, claro, mas o nome dela está na minha lista. E ela ainda vive, segundo   me consta, por isso posso vê-la... mas acho que é um tanto nojento ter contato com alguém de cujo útero se saiu... Onde estava eu?

      - O senhor deu o nome de Vasilia à sua filha.

      - Sim... trouxe-a e realmente fiquei gostando dela. Muito mesmo. Pude ver onde estava a atração ao fazer uma coisa assim, mas, claro, tornei-me um incômodo para   meus amigos e tive de mantê-la afastada quando precisava fazer um contato, social ou profissional. Lembro de uma vez...

      Fez uma pausa.

      - Sim?

      - É uma coisa que não me vem à memória há décadas. Ela se aproximou correndo, chorando por algum motivo, e atirou-se em meus braços quando o Dr. Sarton estava comigo,   discutindo um dos primeiros programas de construção de robôs humaniformes. Vasilia tinha apenas sete anos de idade, acho, e, claro, abracei-a, beijei-a e esqueci   o trabalho, que era praticamente inesquecível para mim. Sarton saiu, tossindo, sufocado... e muito indignado. Precisei de toda uma semana para restabelecer contato   com ele e recomeçar as deliberações. As crianças não provocam esse efeito nas pessoas, suponho, mas há muito poucas crianças e são encontradas muito raramente.

      - E sua filha, Vasilia, gostava do senhor?

      - Ah, sim... pelo menos até... Gostava muito de mim. Mandei-a à escola e fiz com que fosse dada à sua mente a máxima condição de desenvolvimento.

      - O senhor disse que ela gostava do senhor até... alguma coisa. Não concluiu a frase. Então houve uma época em que ela deixou de gostar do senhor. Quando foi isso?

      - Ela queria ter sua própria moradia quando se tornou crescida. Era uma coisa natural.

      - E o senhor não queria?

      - Que o faz supor que eu não queria? Claro que queria. O senhor está concluindo que sou um monstro, Sr. Baley.

      - Devo concluir, em vez disso, que tão logo sua filha atingiu a idade de ter sua própria casa, não mais sentiu a mesma afeição pelo senhor que tinha naturalmente,   quando era sua filha dependente, morando em sua casa?

      - Não é tão simples assim. De fato, foi um pouco mais complicado. Veja... - Fastolfe parecia embaraçado. - Recusei-a quando ela se ofereceu a mim.

      - Ela se ofereceu ao senhor? - perguntou Baley, horrorizado.

      - Isso era uma coisa natural - afirmou Fastolfe, com ar de indiferença. - Ela me conhecia melhor. Eu a tinha educado em sexo, encorajei-a a experimentar, levei-a   aos Jogos de Eros, fiz o que pude por ela. Era uma coisa a ser esperada e fui bobo por não ter esperado, deixando me enredar.

      - Mas incesto? Fastolfe repetiu:

      - Incesto? Ah, sim, um termo terrestre. Isso não existe em Aurora, Sr. Baley. Poucos auroreanos conhecem sua família mais chegada. Naturalmente, se o casamento estiver   em causa e houve um requerimento de filhos, há uma pesquisa genealógica, mas que tem isso a ver com o sexo, socialmente falando? Não, não, a coisa anormal foi eu   ter recusado minha própria filha.

      Enrubesceu, principalmente nas orelhas.

      - Eu devia esperar isso - murmurou Baley.

      - Não tenho motivos decentes para isso, também... pelo menos nenhum que pudesse explicar a Vasilia. Foi criminoso de minha parte não ter previsto aquilo e poder   preparar uma base para uma rejeição racional de alguém tão jovem e inexperiente, se fosse necessário, que não a magoasse e a submetesse a uma dolorosa humilhação.

      Estou de fato insuportavelmente envergonhado por ter assumido à responsabilidade incomum de ter recolhido uma criança, apenas para submetê-la a essa experiência   desagradável. Pareceu-me que Podíamos continuar nossa relação de pai e filha - como amigo e amiga - porém ela não desistiu. Por mais que eu a recusasse, não importando   o carinho que eu usasse, as coisas pioraram entre nós.

      - Até que finalmente...

      - Finalmente, ela quis sua própria casa. A princípio, me opus, não porque não quisesse que ela não tivesse uma, mas porque eu Queria restaurar nossa amizade antes   que partisse. Nada adiantou.

      Foi talvez o período de minha vida em que mais me esforcei. Por fim, ela simplesmente, e um tanto violentamente, insistiu em partir e não pude evitar mais. Nessa  época, ela já era roboticista profissional, e estou grato por não ter abandonado a profissão por minha causa, e foi capaz de arranjar uma casa sem minha ajuda. Depois   de ter-se instalado, de fato, desde então tivemos muito poucos contatos.

      - Pode ser, Dr. Fastolfe, uma vez que ela não abandonou a robótica, que não se considere totalmente estranha.

      - É o que ela faz de melhor e no que tem mais interesse. Nada tem a ver comigo. Sei disso porque, para começar, pensei como o senhor e tentei vários contatos que  não foram aceitos.

      - O senhor sente falta dela, Dr. Fastolfe?

      - Claro que sim, Sr. Baley... É um exemplo do erro de se ter um filho. Entra-se num impulso irracional, num desejo atávico, que leva a inspirar à filha o mais forte   sentimento possível de amor e depois nos sujeita à possibilidade de termos de recusar a primeira proposta dessa mesma filha de se entregar e marcá-la emocionalmente   para sempre. E, ainda mais, a gente se submete a isso pelo sentimento irracional de pena de não ter feito. É uma coisa que nunca senti, nem antes nem depois. Ela   e eu sofremos desnecessariamente e a culpa foi toda minha.

      Fastolfe caiu numa espécie de meditação e Baley perguntou suavemente:

      - E o que tem tudo isso a ver com Gladia? Fastolfe sobressaltou-se.

      - Ah! Eu tinha esquecido. Bem, é muito simples. Tudo o que falei sobre Gladia é verdade. Eu gostava dela. Simpatizava com ela. Admirava seu talento. Mas, para completar,   ela parece com Vasilia. Notei a semelhança quando vi a primeira reportagem de hiperonda sobre sua chegada de Solaria. Era espantosa, o que me fez ficar interessado.

      - Suspirou. - Quando soube que ela, como Vasilia, também tinha sido marcada pelo sexo, foi mais do que pude suportar. Arranjei para que ela viesse morar perto de   mim. Tornei-me seu amigo e fiz o que pude para amortecer suas dificuldades de adaptação a um mundo estranho.

      - Então ela é uma filha-substituta.

      - De certo modo, sim. Acho que pode considerar assim, Sr. Baley... E o senhor não tem idéia de como sou grato por ela jamais ter metido na cabeça a idéia de se oferecer   a mim. Tê-la recusado seria reviver minha rejeição de Vasilia. Tê-la aceito por incapacidade  de repetir a rejeição seria amargurar minha vida, pois então eu teria sentido que estava fazendo por aquela estranha, aquele pálido reflexo de minha filha, o que  não tinha feito por ela. De qualquer maneira... Mas, não importa, o senhor agora pode ver por que hesitei em responder-lhe. De certa forma, pensar nisso me faz voltar  a essa tragédia em minha vida.

      - E sua outra filha?

      - Lumen? - falou Fastolfe. indiferente. - Nunca tive qualquer contato com ela. embora receba notícias dela de vez em quando.

      - Ouvi dizer que se candidatou a um cargo político.

      - Um cargo local. Pelos Globais.

      - O que é isso?

      - Os Globais. Eles lutam apenas por Aurora: somente o nosso globo, como vê. Os auroreanos devem assumir a iniciativa de colonizar a galáxia. Todos os outros devem ser impedidos, o máximo possível, especialmente os terráqueos. "Egoísmo esclarecido", é como o denominam.

      - Claro que esse não é o seu ponto de vista.

      - Sem dúvida. Eu chefio o Partido Humanista, que acredita que todos os seres humanos têm direito à Galáxia. Quando falo em "meus inimigos", estou me referindo aos Globais.

      - Lumen, então, é um dos seus inimigos.

      - Vasilia também é, como membro do Instituto de Robótica de Aurora, IRA, fundado há poucos anos, dirigido por roboticistas que me consideram um demônio a ser derrotado a qualquer preço. Contudo, até onde posso saber, minhas diversas ex-mulheres são apolíticas, talvez mesmo humanistas. - Riu maliciosamente e prosseguiu: - Bem, Sr. Baley, fez todas as perguntas que tinha em mente?

      As mãos de Baley procuraram ao acaso bolsos na sua roupa auroreana - coisa que fazia periodicamente desde que começou a usá-las na nave - e não os encontrou. Conformou-se, como fazia às vezes, em cruzar os braços no peito.

      - Na verdade, Dr. Fastolfe - disse - não estou certo de que o senhor tenha realmente respondido à primeira pergunta. Parece-me que o senhor nunca se cansa de evitá-la.

      Por que deu Jander a Gladia? Precisamos trazer tudo à tona, para que possamos ver a luz onde agora só há trevas.

      Fastolfe tornou a ruborizar-se. Provavelmente de raiva, desta vez, mas continuou a falar calmamente.

      - Não me intimide, Sr. Baley - disse Fastolfe. - Já lhe respondi. Tive pena de Gladia e pensei que Jander poderia fazer-lhe companhia. Falei-lhe mais francamente   que a qualquer outra pessoa, em parte por causa da minha posição e em parte porque o senhor não é auroreano. Em troca, exijo o devido respeito.

      Baley mordeu o lábio inferior. Ele não estava na Terra. Não tinha autoridade oficial a apoiá-lo, mas apenas seu orgulho profissional.

      - Peço-lhe desculpas, Dr. Fastolfe - replicou - se feri seus sentimentos. Não quis dizer que o senhor não está sendo verídico ou pouco cooperador. Não obstante,   não posso agir sem conhecer toda a verdade. Vou sugerir-lhe a resposta possível que estou esperando e o senhor me dirá se estou certo, quase certo ou completamente   errado. Pode ser que o senhor tenha dado Jander a Gladia com o objetivo de que ele pudesse servir como foco do impulso sexual dela e assim não tivesse ocasião de   se oferecer ao senhor? Talvez não tenha sido um motivo consciente, mas pense nisso agora. É possível que isso tenha Contribuído para o presente?

      Fastolfe pegou um pequeno enfeite leve e transparente que estava sobre a mesa de jantar. Virou-o sem parar. A não ser por esse movimento, Fastolfe parecia petrificado.

      Finalmente, respondeu:

      - Talvez sim, Sr. Baley. Certamente, após ter-lhe emprestado Jander - por falar nisso, não foi um presente total - fiquei menos preocupado sobre a possibilidade de Gladia oferecer-se a mim.

      - Sabe se Gladia usou Jander para relações sexuais?

      - Perguntou a Gladia sobre isso, Sr. Baley?

      - Isso nada tem a ver com minha pergunta. O senhor sabe? Testemunhou alguma relação claramente sexual entre eles? Algum dos seus robôs lhe informou a respeito? Ela própria lhe disse?

      - A resposta a todas essas perguntas, Sr. Baley, é não. Se me detenho para pensar nisso, não há nada de estranho particularmente no uso de robôs para fins sexuais,   tanto por homens quanto por mulheres. Os robôs comuns não são especialmente adaptados a esse fim, porém os seres humanos são hábeis a esse respeito. Quanto a Jander,  foi adaptado para isso porque era tão humaniforme quanto pude torná-lo...

      - E por isso podia tomar parte num ato sexual.

      - Não, nunca tivemos isso em mente. Foi o problema abstrato de construir um robô completamente humaniforme que levou-nos, o Dr. Sarton e eu, a isso.

      - Mas esses robôs humaniformes são idealmente indicados para o sexo, não são?

      - Suponho que sim, agora que me permito pensar nisso, e confesso que escondi na mente, desde o começo, que Gladia podia usar Jander com esse fim. Se o fez, espero que tenha ficado satisfeita. Considerarei meu empréstimo a ela uma boa ação, se ficou.

      - O senhor não teria contado com mais que uma boa ação?

      - De que modo?

      - Que diria o senhor se eu lhe contasse que Gladia e Jander eram marido e mulher?

      A mão de Fastolfe, ainda segurando o enfeite, fechou-se convulsivamente, apertando-o durante um instante, para depois deixá-lo cair.

      - Como? Isso é ridículo. Legalmente impossível. Não poderiam ter filhos e assim não seria concebível um requerimento para isso. Sem a intenção de um pedido assim, não pode haver casamento.

      - Não é um problema de legalidade, Dr. Fastolfe. Gladia é solariana, lembre, e não tem a perspectiva auroreana. É uma questão de emoção. A própria Gladia me disse que considerou Jander como marido. Acho que agora se considera viúva, com outro trauma sexual: e muito severo. Se, de alguma forma, o senhor conscientemente contribuiu para isso...

      - Pelas estrelas - disse Fastolfe com desusada emoção - não contribuí. O que quer que estivesse na minha cabeça, nunca imaginei que Gladia pudesse fantasiar o casamento com um robô, por mais humaniforme que fosse. Nenhum auroreano poderia imaginar isso.

      Baley balançou a cabeça e ergueu a mão.

      - Acredito no senhor. Não creio que o senhor seja bastante ator para me enrolar numa sinceridade forjada. Mas tenho que saber. Afinal de contas, seria possível que...

      - Não, não seria. Possível que eu previsse essa situação? Que eu deliberadamente criasse essa abominável viuvez por algum motivo? Nunca. Não era concebível e, assim   sendo, não a concebi. Si. Baley, o que quer que eu tivesse em mente ao colocar Jander na casa  de Gladia, foi para o bem dela. Eu não quis fazer isso. Ter boas intenções é uma pobre defesa, eu sei, mas é tudo o que tenho a oferecer.

      - Dr. Fastolfe, não vamos mais nos referir a isso - disse Baley. - O que tenho agora a oferecer é uma possível solução do mistério.

      Fastolfe respirou fundo e reclinou-se na cadeira.

      - O senhor fez várias insinuações quando voltou da casa de Gladia. - Olhou para Baley com um ar de brutalidade. - Não podia me ter dado essa "chave" desde o começo?

      Precisávamos passar por tudo... isso?

      - Lamento, Dr. Fastolfe. A chave não faria sentido sem tudo... isso.

      - Está bem. Concordo.

      - Jander ficou numa posição que o senhor, o maior teórico robótico do mundo todo, não previu, por seu próprio consentimento. Agradou tanto Gladia que ela se apaixonou  por ele profundamente e passou a considerá-lo seu marido. E se em vez de agradá-la ele a tivesse desagradado?

      - Não sei bem o que quer dizer.

      - Bem, veja, Dr. Fastolfe. Ela estava um tanto reservada a respeito. Sei que em Aurora os assuntos sexuais não são coisas que se escondam a qualquer custo.

      - Não os anunciamos nas hiperondas - disse Fastolfe secamente - mas não fazemos o maior segredo disso como o fazemos de outros assuntos estritamente pessoais. Sabemos   em geral quem foi o último parceiro de alguém e, se se trata de amigos, freqüentemente temos uma idéia de como é bom, entusiástico ou fora do comum o outro parceiro,   ou ambos reciprocamente. É uma questão de conversar ao acaso.

      - Sim, mas o senhor nada sabia da ligação de Gladia com Jander.

      - Eu desconfiava...

      - Não é a mesma coisa. Ela nada lhe disse. O senhor nada viu. Nem qualquer robô lhe contou. Ela conservou o fato em segredo, mesmo para o senhor, seu melhor amigo   em Aurora. É evidente que os robôs dela receberam ordens estritas de nunca discutirem Jander e este deve ter sido cuidadosamente instruído para nada deixar transparecer.

      - Suponho que seja uma conclusão sólida.

      - Por que Gladia faria isso, Dr. Fastolfe?

      - Um senso de privacidade solariana com relação ao sexo?

      - Não é a mesma coisa que dizer ter ela ficado envergonhada?

      - Não tinha motivo para isso, embora o fato de considerar Jander como marido pudesse torná-la risível.

      - Ela poderia ter ocultado essa parte com facilidade sem esconder tudo. Suponha, à sua maneira solariana, que tenha ficado envergonhada.

      - Bem, e depois?

      - Ninguém gosta de ficar envergonhado: e ela pode ter culpado Jander por isso, na forma um tanto irracional que as pessoas têm de atribuir a outros a culpa pelos dissabores que são claramente sua própria culpa.

      - Sim?

      - Deve ter havido horas em que Gladia, que tem um temperamento explosivo, debulhou-se em lágrimas, digamos, e censurou Jander por ser a fonte de sua vergonha e sofrimento.

      Pode não ter durado muito e ela talvez tenha mudado para pedidos de desculpas e cadeias, mas Jander não teria claramente pensado que era, realmente, a fonte de sua vergonha e sofrimento?

      - Talvez.

      - E isso não poderia ter significado para Jander que, se continuasse a relação, iria torná-la infeliz, e que se terminasse a ligação iria fazê-la sofrer? O que quer que fizesse, quebraria a Primeira Lei e, incapaz de agir sem essa violação, só poderia encontrar refúgio em não agir absolutamente... e assim entrou em congelamento mental. Lembra do que me contou hoje do lendário robô leitor de mentes, que foi levado à paralisia por aquela pioneira da robótica?

      - Por Susan Calvin, sim, lembro. Estou entendendo! O senhor preparou sua cena baseado na velha lenda. Muito esperto, Sr. Baley, mas não funciona.

      - Por quê? Quando disse que só o senhor podia provocar um congelamento mental em Jander, o senhor não tinha a menor idéia de que ele estivesse tão profundamente envolvido nessa situação tão inesperada. Ela desenrola-se exatamente paralela à de Susan Calvin.

      "Vamos supor que essa história sobre Susan Calvin e o robô leitor de pensamentos não passe de uma lenda totalmente fictícia. Encaremo-la seriamente. Continuará a não haver paralelo entre ela e a situação de Jander. No caso de Susan Calvin, estávamos tratando com um robô inacreditavelmente primitivo, um que hoje nem mesmo conseguiria a situação de brinquedo. Ele só poderia lidar qualitativamente com esses temas: A cria sofrimento, não-A cria sofrimento conseqüentemente, congelamento mental.

      - E Jander? - perguntou Baley.

      - Qualquer robô moderno, qualquer robô do último século teria pesado o assunto qualitativamente. Qual das duas situações, A ou não-A, provocaria o maior sofrimento?

      O robô teria de chegar a uma rápida decisão e optar pelo mínimo de sofrimento. A possibilidade de que julgasse as duas alternativas mutuamente exclusivas para produzir   precisamente quantidades iguais de sofrimento é pequena, e mesmo que assim fosse, o robô moderno é dotado de um fator fortuito. Se A e não-A são fatores de sofrimento   precisamente idênticos, de acordo com o julgamento dele, esse robô escolhe um ou outro de uma forma totalmente imprevisível e depois o segue cegamente. Não entra   em congelamento mental.

      - Está dizendo que é impossível para Jander entrar em congelamento mental? O senhor disse que poderia ter feito.

      - No caso de um cérebro positrônico humaniforme, há uma maneira de pôr de lado o fator acaso, que depende inteiramente da forma em que o cérebro é construído. Mesmo   que alguém conheça a teoria básica, é muito difícil e prolongado o processo para poder levar o robô ao jardim, por assim dizer, por uma hábil sucessão de perguntas   e ordens para, finalmente, induzir o congelamento mental. É impensável que possa ser feito por acidente e a simples existência de uma evidente contradição, como   a produzida por amor e vergonha simultaneamente, não pode fazer a coisa sem o ajustamento quantitativo mais cuidadoso, sob condições as mais desusadas... O que nos   deixa, como venho dizendo, a possibilidade não determinista como a única maneira possível de ter acontecido.

      - Mas seus inimigos insistirão que sua própria culpa é a mais provável... Não podemos, por nossa vez, insistir que Jander foi levado ao congelamento mental pelo   conflito criado pelo amor e vergonha de Gladia? Isso não pareceria plausível? E não poria a opinião pública ao seu lado?

      Fastolfe franziu a testa.

      - Sr. Baley, o senhor é muito afoito. Pense seriamente nisso. Se tentarmos sair do nosso dilema desta forma um tanto desonesta, quais serão as conseqüências? Já  não falo na vergonha e sofrimento de Gladia, que terá de suportar não apenas a perda de Jander, mas a sensação de que contribuiu para essa perda se, de fato, sentiu   realmente  essa vergonha e a revelou de alguma forma. Não quero fazer isso e assim deixemo-la de lado, se pudermos. Considere em lugar disso que meus inimigos dirão que  emprestei Jander a ela exatamente para provocar o que aconteceu. Eu teria feito isso, diriam, com o objetivo de desenvolver um método de congelamento mental em robôs   humaniformes, que me isentaria de toda a responsabilidade evidente. Ficaríamos piores do que estamos agora, pois eu não seria apenas acusado de ser um intrigante   ardiloso, como estou sendo, mas, ainda, de me ter comportado monstruosamente com relação a uma mulher insuspeita, de quem fingi ser amigo, coisa que há muito venho   evitando.

      Baley ficou tonto. Sentiu o queixo cair e sua voz transformou-se num balbucio:

      - Certamente, eles não irão...

      - Irão, sim. O senhor mesmo esteve meio inclinado a pensar assim, não faz muito tempo.

      - Apenas como uma remota...

      - Meus inimigos não a considerarão remota e não a espalharão como remota.

      Baley corou. Sentiu a onda de calor e não conseguiu encarar Fastolfe. Pigarreou e disse:

      - Tem razão. Decidi-me por uma saída sem pensar e só me resta pedir-lhe desculpas.  Estou profundamente envergonhado... Não há saída, suponho, mas a verdade... se conseguirmos descobri-la.

      - Não se desespere - replicou Fastolfe. - O senhor já descobriu coisas ligadas a Jander com as quais nunca sonhei. Pode descobrir mais e, finalmente, o que parecer um completo mistério para nós, agora, pode se desenrolar e ficar evidente. Que planeja fazer a seguir?

      Baley não conseguiu pensar em nada em meio à vergonha do seu fiasco. Replicou:

      - Realmente não sei.

      - Bem, então não é justo eu perguntar. O senhor teve um dia cansativo e nada fácil. Não é de estranhar que seu cérebro esteja um tanto lento agora. Por que não descansa, não vê um filme, não dorme? Estará melhor de manhã.

      Baley balançou a cabeça e resmungou:

      - Talvez tenha razão.

      Mas, naquele momento, não pensava que iria sentir-se melhor de manhã.

      O quarto estava frio, tanto em temperatura como em ambiente. Baley tremeu ligeiramente. Uma temperatura tão baixa num quarto produzia a desagradável sensação de estar no Exterior. As paredes eram ligeiramente esbranquiçadas e (incomum na casa de Fastolfe) não tinham enfeites. O chão parecia de marfim liso, mas ao pé descalço era acarpetado. O leito era branco e o cobertor liso era frio ao toque.

      Sentou-se na beira do colchão e achou-o pouco elástico ao seu peso.

      Virou-se para Daneel, que tinha entrado com ele:

      - Daneel, você fica perturbado quando um ser humano mente?

      - Sei que os humanos mentem, Colega Elijah. Às vezes uma mentira pode ser útil ou mesmo obrigatória. O que sinto a respeito de uma mentira depende de quem a diz, da ocasião e do motivo.

      - Você sempre sabe quando um ser humano mente?

      - Não, Colega Elijah.

      - Você acha que o Dr. Fastolfe mente com freqüência?

      - Nunca vi o Dr. Fastolfe mentir.

      - Mesmo em relação à morte de Jander?

      - Até onde posso saber, ele diz sempre a verdade.

      - Talvez ele o tenha instruído a dizer isso... posso perguntar?

      - Não me instruiu, Colega Elijah.

      - Mas talvez lhe tenha também ensinado a dizer que... Parou. Novamente... que adiantava inquirir um robô? E neste  caso particular era um convite a uma regressão interminável.

      Percebeu subitamente que o colchão estava cedendo um pouco sob ele, até meio envolver seus quadris. Levantou-se repentinamente e disse:

      - Daneel, há alguma forma de aquecer o quarto?

      - Ele ficará aquecido quando você estiver sob as cobertas, com a luz apagada, Colega Elijah.

      - Ah. - Olhou em torno, desconfiado. - Quer apagar a luz e ficar no quarto, Daneel, quando eu me deitar?

      A luz apagou-se quase imediatamente e Baley percebeu que sua  suposição de que aquele quarto, pelo menos, não era decorado, estava completamente errada. Assim que escureceu, sentiu-se no Exterior. Ouviu o suave barulho do vento  nas árvores e o pequeno e sonolento murmúrio de distantes formas de vida. Havia também a ilusão de estrelas acima de sua cabeça, com uma nuvem ocasional deslizando,   vagamente visível.

      - Acenda a luz, Daneel!

      A claridade inundou o quarto.

      - Daneel - disse Baley - não quero nada disso. Não quero estrelas, nuvens, ruídos, árvores, vento... nem cheiros também. Quero trevas... escuridão informe. Pode dar um jeito?

      - Claro, Colega Elijah.

      - Então faça isso. E me mostre como posso apagar a luz quando estiver pronto para dormir.

      - Estou aqui para protegê-lo, Colega Elijah. Baley retrucou, aborrecido:

      - Tenho certeza de que pode fazer isso do outro lado da porta. Imagino que Giskard deve estar do outro lado das janelas, se de fato existirem janelas por detrás das cortinas.

      - Existem... Se atravessar aquela soleira, Colega Elijah, encontrará um Pessoal só para você. Aquele trecho da parede não é sólido e poderá facilmente atravessá-lo.

      A luz acenderá assim que entrar e apagará quando sair... e não há decoração. Poderá banhar-se, se desejar, ou fazer o que quiser antes de sair ou depois de acordar.

      Baley virou-se para o lado indicado. Não viu abertura na parede, mas o chão enquadrado naquele ponto revelou uma espessura como se fosse um umbral.

      - Como verei no escuro, Daneel? - perguntou.

      - Esse trecho da parede, que não é uma parede, brilhará fracamente. Para iluminar o quarto, há essa depressão na cabeceira da sua cama, que, uma vez colocando o dedo nela, apagará ou acenderá a luz.

      - Obrigado. Agora pode se retirar.

      Meia hora depois, terminou com o Pessoal e meteu-se sob o cobertor, com a luz apagada, envolto por uma agradável escuridão.

      Como dissera Fastolfe, tinha sido um dia cansativo. Era quase inacreditável que tivesse chegado a Aurora apenas naquele dia. Aprendera muito e no entanto nada lhe adiantara.

      Ficou no escuro e repassou os acontecimentos do dia, na esperança de que alguma coisa aparecesse que lhe tivesse escapado antes... porém foi tempo perdido.

      Era demais para o tranqüilo, pensativo, atento e sutil Elijah Baley do drama da hiperonda.

      O colchão estava outra vez envolvendo-o, como um cercado aquecido. Moveu-se ligeiramente e o colchão esticou-se sob ele, para depois tornar a ajustar-se à sua nova posição.

      Não adiantava tentar, com sua mente cansada e sonolenta, reexaminar o dia, mas não pôde evitar fazê-lo uma segunda vez, seguindo seus próprios passos, seu primeiro   dia em Aurora: do espaçoporto à casa de Fastolfe, depois à de Gladia e finalmente de volta a Fastolfe.

      Gladia - mais bela do que imaginava, mas dura - havia algo duro nela... ou apenas tinha se coberto com uma carapaça protetora... pobre mulher. Pensou carinhosamente   na reação dela ao tocar o rosto dele... se pudesse ter permanecido com Gladia, poderia tê-la ensinado... auroreanos estúpidos... uma atitude nojentamente indiferente   com relação ao sexo... vale tudo... significando que nada vale... não vale a pena... estúpidos... para a casa de Fastolfe, para a de Gladia, de volta a Fastolfe...   de volta a Fastolfe.

      Moveu-se ligeiramente e sentiu, distraidamente, o colchão tornar a remodelar-se. De volta a Fastolfe. Que aconteceu no caminho de volta a Fastolfe? Alguma coisa   dita? Não dita? E na nave, antes de ter chegado a Aurora... alguma coisa que combinasse...

      Baley estava no mundo vago da sonolência, quando a mente se liberta e segue sua própria lei. É como o corpo voando, pairando no ar, sem gravidade.

      Por seu próprio acordo, estava pegando os acontecimentos... pequenos aspectos que não tinha notado... juntando-os... reunindo uma coisa à outra... entrando no lugar...   formando uma rede... um tecido...

      Então pareceu-lhe ter ouvido um barulho que o levou a um nível de consciência. Prestou atenção e nada ouviu, mergulhando novamente na sonolência, para retomar a   linha de pensamento... e ela o enganou.

      Era como uma obra de arte afundando num pântano. Podia ainda ver seus contornos, suas massas de cor. Ficaram diminuídos, mas continuava sabendo que estavam ali.

      E mesmo quando tentou agarrar desesperadamente, desapareceram juntos e ele nada lembrou. Nada mesmo.

      Baley tinha realmente imaginado tudo ou foi uma cilada da memória, uma ilusão nascida de uma bobagem flutuante numa  mente adormecida? E ele estava, de fato, adormecido.

      Quando acordou momentaneamente, durante a noite, disse para si mesmo que tinha uma idéia. Uma idéia importante.

      Mas de nada se lembrou, exceto que alguma coisa estivera ah.

      Permaneceu acordado por algum tempo, perscrutando as trevas. Se de fato alguma coisa estivera ali... tornaria a voltar.

      Ou não! (Jehoshaphat!)

      E tornou a adormecer.

     

Fastolfe e Vasilia

      Baley acordou sobressaltado e prendeu a respiração com forte desconfiança. Havia um leve e irreconhecível odor no ar, que desapareceu na sua segunda inspiração.

      Daneel estava parado gravemente ao lado da cama.

      - Espero, Colega Elijah, que tenha dormido bem.

      Baley olhou ao redor. As cortinas ainda estavam fechadas, porém era dia claro no Exterior. Giskard estava usando roupa, da cabeça aos pés, completamente diferente da que vestira no dia anterior.

      - Muito bem, Daneel - respondeu Baley. - Que foi que me acordou?

      - Uma injeção de antisomnin na circulação de ar do quarto, Colega Elijah. Ela ativa o sistema de despertar. Usamos quantidade abaixo do normal, pois não tínhamos certeza da sua reação. Talvez devêssemos ter usado quantidade ainda menor.

      - Pareceu-me como um chapinhar na parte traseira. Que horas são?

      - São 0705, pelo sistema auroreano - respondeu Daneel. - Fisiologicamente, o desjejum estará pronto em meia hora.

      Respondeu sem qualquer traço de humor, embora um ser humano pudesse descobrir um sorriso apropriado.

      Giskard disse, com o tom mais seco e menos modulado que o de Daneel:

      - Senhor, o amigo Daneel e eu não podemos entrar no Pessoal.

      Se o senhor quiser entrar e se nos disser se precisa de alguma coisa, lhe forneceremos imediatamente.

      - Sim, claro.

      Baley levantou-se, virou-se e saiu da cama. Giskard começou imediatamente a revirar a cama.

      - Quer me dar seu pijama, senhor?

      Baley hesitou apenas um instante. Era um robô e nada mais. Despiu-se e entregou a roupa a Giskard, que a pegou com um leve inclinar de cabeça em sinal de aceitação.

      Baley olhou-se com desgosto. Tomou subitamente consciência de um corpo de meia-idade, que estava muito provavelmente em pior condição que o de Fastolfe, que era quase três vezes mais velho.

      Procurou automaticamente os chinelos e verificou não haver nenhum. Presumivelmente, não precisava deles. O chão estava quente e macio, ao toque dos seus pés.

      Entrou no Pessoal e pediu instruções. Do outro lado do ilusório trecho de parede, Giskard explicou-lhe solenemente o funcionamento do barbeador, do fornecedor de dentifrício, como fazer funcionar automaticamente a água e controlar a temperatura do chuveiro.

      Tudo era em escala maior e mais trabalhada que o que a Terra tinha para oferecer e não havia tabiques do outro lado dos quais pudesse ouvir os movimentos e ruídos involuntários de outra pessoa, coisa que precisava ignorar com determinação para manter a ilusão de privacidade.

      Era eficiente, pensou Baley, sombrio, ao utilizar o luxuoso ritual, mas era uma eficiência à qual (percebeu logo) podia se acostumar. Se demorasse algum tempo em Aurora, iria sentir o choque cultural da volta à Terra dolorosamente intenso, especialmente no que se referia ao Pessoal. Esperava que o reajustamento não fosse demorado, mas também esperava que todo terráqueo que colonizasse novos mundos não se sentisse compelido a agarrar-se ao conceito de Pessoais Comunitários.

      Talvez, pensou Baley, fosse essa a maneira de definir "eficiente": o que leva alguém a se habituar com facilidade.

      Baley saiu do Pessoal tendo realizado várias funções, queixo raspado, dentes reluzentes, corpo banhado e seco.

      Virou-se para um dos robôs:

      - Giskard, onde está o desodorante?

      - Não compreendo, senhor - respondeu o robô. Daneel interferiu depressa:

      - Quando você ativou o ensaboador, Colega Elijah, recebeu também um efeito desodorante. Peço-lhe que desculpe a incompreensão do amigo Giskard. Falta-lhe a experiência que tive na Terra.

      Baley ergueu as sobrancelhas, duvidoso, e começou a vestir-se com o auxílio de Giskard.

      - Estou vendo - comentou - que você e Giskard continuam ao meu lado o tempo todo. Houve alguma tentativa de me pôr fora do caminho?

      - Nenhuma até agora, Colega Elijah - retrucou Daneel. - Apesar disso, será conveniente que eu e o amigo Giskard fiquemos ao seu lado o tempo todo, se for possível conseguirmos isso.

      - Por que, Daneel?

      - Por dois motivos, Colega Elijah. Primeiro porque podemos ajudá-lo em qualquer aspecto da cultura ou folclore que não lhe forem familiares. Segundo, o amigo Giskard, em particular, pode registrar e reproduzir cada palavra de qualquer conversa que você tiver. Pode lhe ser valioso. Você deve lembrar que houve horas nas suas conversas tanto com o Dr. Fastolfe como com a Srta. Gladia em que eu e o amigo Giskard estávamos distantes ou em outra sala...

      - Então essas conversas não foram gravadas por Giskard?

      - Na verdade foram, Colega Elijah, mas com baixa fidelidade... e talvez haja trechos não tão claros quanto gostaríamos que estivessem. Seria melhor que ficássemos tão perto de você quanto o necessário.

      - Daneel - perguntou Baley - você é de opinião que eu ficaria muito mais à vontade se pensasse em vocês como guias e aparelhos de gravação que como guardas? Por que não chegar simplesmente à conclusão de que, como guardas, vocês são totalmente desnecessários? Uma vez que não tem havido tentativas até agora, por que não é possível concluir que não haverá tentativas contra mim, no futuro?

      - Não, Colega Elijah, tal atitude seria uma falta de atenção. O Dr.  Fastolfe acha que o senhor é visto com  grande apreensão pelos seus inimigos. Eles tentaram persuadir o Presidente a não dar permissão ao Dr.  Fastolfe para chamá-lo e certamente continuarão a tentar convencê-lo a mandá-lo de volta para a Terra, o mais depressa possível.

      - Essa espécie de oposição pacífica não necessita de medidas de segurança.

      - De fato, mas se a oposição tem motivos para temer que você  possa absolver o Dr. Fastolfe, é possível que seja levada a extremos. Afinal de contas, você não é auroreano e as restrições à violência em nosso mundo podem ser,  portanto, em seu caso, bastante enfraquecidas.

      Baley replicou com dureza:

      - O fato de eu estar aqui todo um dia e nada ter acontecido deveria aliviar suas mentes consideravelmente e reduzir bastante a ameaça de violência.

      - Poderia de fato ser assim - disse Daneel, sem demonstrar ter percebido o  tom de ironia na voz de Baley.

      - Por outro lado - disse Baley - se eu parecer estar progredindo, o perigo pode imediatamente aumentar.

      Daneel parou para pensar e depois replicou:

      - Seria uma conseqüência lógica.

      - Portanto, você e Giskard irão comigo para onde eu for, por via das dúvidas, para o caso de eu dar um jeito de fazer meu trabalho bem demais.

      Daneel fez nova pausa e depois disse:

      - Sua forma de colocar o problema, Colega Elijah, me confunde, porém parece ter razão.

      - Nesse caso - concluiu Baley - estou pronto para o desjejum, embora meu apetite fique diminuído com a informação de que a alternativa para o meu fracasso é a tentativa   de assassinato.

      Fastolfe sorriu para Baley no outro lado da mesa.

      - Dormiu bem, Sr. Baley?

      Baley examinou, fascinado, a fatia de presunto. Devia ter sido cortada com uma faca. Estava granulosa, com uma discreta faixa de gordura de um lado. Em suma, não   fora beneficiada. O resultado era um gosto muito forte de presunto, por assim dizer.

      Havia também ovos fritos, com a gema parecendo uma meia esfera achatada no centro, rodeada de branco, parecendo com as margaridas que Ben lhe tinha mostrado no campo,   na Terra. Intelectualmente, ele sabia com que um ovo se parecia antes de ser processado e sabia que era composto de uma gema e uma clara, porém nunca os tinha visto   continuarem separados, depois de preparados  para serem comidos. Mesmo a bordo da nave e em Solaria, os ovos eram servidos mexidos.

      Ergueu os olhos agora atentos para Fastolfe.

      - Perdão?

      Fastolfe repetiu, paciente:

      - Dormiu bem?

      - Sim, muito bem. Teria provavelmente continuado dormindo, não fosse o antisomnin.

      - Ah, sim. Não é o tratamento que um hóspede tem direito de esperar, mas acho que o senhor pode querer começar cedo.

      - Tem toda razão. E afinal de contas não sou exatamente um hóspede.

      Fastolfe ficou alguns instantes comendo em silêncio. Sorveu a bebida quente e depois falou:

      - Teve alguma inspiração durante a noite? Acordou talvez com uma nova perspectiva, com uma nova idéia?

      Baley olhou desconfiado para Fastolfe, mas o rosto do interlocutor não revelava ironia. Ao levar sua bebida aos lábios, Baley disse:

      - Temo que não. Estou tão inútil hoje como na noite passada. Tomou um gole e involuntariamente fez uma careta.

      - Desculpe. Está achando a bebida intragável? Baley resmungou e cautelosamente tornou a prová-la.

      - É apenas café, como sabe - informou Fastolfe. - Sem cafeína.

      Baley franziu a testa.

      - Não tem sabor de café e... desculpe, Dr. Fastolfe, não quero começar a parecer paranóico, mas Daneel e eu acabamos de fazer uma brincadeira sobre a possibilidade de violência contra mim: brincadeira de minha parte, claro, e não da parte de Daneel, e continuo pensando que, uma vez que possam me pegar é...

      Não terminou a frase.

      As sobrancelhas de Fastolfe ergueram-se. Pegou o café de Baley com um murmúrio de desculpas e cheirou-o. Depois, retirou um pouco com uma colherinha e provou, dizendo depois:

      - Perfeitamente normal, Sr. Baley. Não é uma tentativa de envenenamento.

      - Desculpe - replicou Baley - por me portar tão bobamente, uma vez que sei ter sido isto preparado por seus próprios robôs...

      Mas tem certeza?

      Fastolfe sorriu.

      - Robôs já foram adulterados antes... Contudo, desta vez não houve adulteração. Apenas este café, apesar de universalmente popular em vários mundos, provém de diversas variedades. É notório que cada ser humano prefere o café do seu próprio mundo. Desculpe, Sr.  Baley, não tenho nenhuma variedade da Terra para lhe oferecer. Prefere leite? Ele é relativamente constante de mundo para mundo. Suco de fruta? O suco de toronja auroreana é considerado geralmente superior em todos os mundos. Há os que supõem, sem provas, que nós o deixamos fermentar um pouco, mas, claro, não é verdade. Água?

      - Experimentarei seu suco de toronja. - Baley olhou desconfiado para o café: - Acho que devo procurar me habituar a isto.

      - De forma alguma - replicou Fastolfe. - Por que procurar o desagradável, se é desnecessário?... Portanto - seu sorriso pareceu um pouco tenso, quando voltou ao comentário anterior - a noite e o sono não lhe proporcionaram nenhuma reflexão útil?

      - Lamento - disse Baley. Depois, franzindo a testa como se lembrasse alguma coisa: - Contudo...

      - Contudo?

      - Tenho a impressão de que pouco antes de cair no sono, no limbo da livre associação entre o sono e a vigília, pareceu-me ter conseguido alguma coisa.

      - De fato? O quê?

      - Não sei. O pensamento me despertou totalmente, mas não permaneceu. Ou talvez eu tenha sido distraído por um som imaginado. Não lembro. Agarrei-me à idéia, mas não consegui retê-la. Desapareceu. Acho que esta espécie de coisa não é incomum.

      Fastolfe ficou pensativo.

      - Tem certeza?

      - Realmente, não. O pensamento surgiu tão tênue, tão rapidamente, que nem pude realmente estar certo de tê-lo pensado. E mesmo que o tivesse, pareceu-me ter lógica apenas porque estava semi-adormecido. Se se repetisse agora, em plena luz do dia, podia não ter qualquer sentido.

      - Mas por mais fugitivo e o que quer que fosse, deveria certamente ter deixado traço.

      - Imagino que sim, Dr. Fastolfe. E nesse caso voltará. Espero.

      - Devemos esperar?

      - Que mais podemos fazer?

      - Há uma coisa denominada Sonda Psíquica.

      Baley recostou-se na cadeira e encarou Fastolfe um momento. Depois disse:

      - Ouvi falar nela. Não a usamos na Terra nas tarefas policiais.

      - Não estamos na Terra, Sr. Baley - replicou suavemente Fastolfe.

      - Pode prejudicar o cérebro, não é?

      - Provavelmente não, se em mãos capazes.

      - Mas não é impossível, mesmo em mãos capazes - replicou Baley. - Estou informado de que não pode ser usada em Aurora, a não ser em condições claramente definidas.

      É aplicada nos culpados de crime capital ou...

      - Sim, Sr. Baley, porém quando se trata de auroreanos. E o senhor não é auroreano.

      - Está dizendo que por ser terráqueo devo ser tratado como não humano?

      Fastolfe sorriu e abriu os braços.

      - Vamos, Sr. Baley, foi apenas uma idéia. Ontem à noite o senhor se mostrou bastante desesperado para sugerir tentar resolver o problema colocando Gladia numa posição   trágica e terrível. Eu comecei a imaginar se o senhor está bastante desesperado para arriscar-se.

      Baley esfregou os olhos e durante um minuto ou mais permaneceu calado. Depois, com voz alterada, disse:

      - Eu estava errado na noite passada. Confesso. Quanto a este assunto, não há garantia de que o que eu pensei, quando meio adormecido, tenha alguma importância para   o caso. Pode ter sido pura fantasia... um disparate ilógico. Pode não ter havido nenhum pensamento. Nada. Considera acertado, por menor que seja a probabilidade  de lucro, arriscar a inutilização do meu cérebro, quando, segundo o senhor diz, é dele que depende a solução do problema?

      Fastolfe balançou a cabeça.

      - O senhor defende seu caso com muita eloqüência... e eu não falava realmente a sério.

      - Obrigado, Dr. Fastolfe.

      - Mas para onde vamos daqui?

      - Por uma coisa, quero falar outra vez com Gladia. Há pontos que precisam ser esclarecidos.

      - Devia tê-los abordado na noite passada.

      - Devia, porém já possuía mais dados que os que podia adequadamente absorver na noite passada e houve coisas que me escaparam. Sou investigador e não computador infalível.

      - Não lhe estou culpando - disse Fastolfe. - Apenas odeio ver Gladia desnecessariamente perturbada. À vista do que me disse ontem à noite, só posso deduzir que ela deve estar profundamente tensa.

      - Sem dúvida. Mas também está profundamente ansiosa para descobrir o que aconteceu: quem, se foi alguém, matou aquele que ela considerava seu marido. Isso também  é compreensível. Tenho certeza de que ela quer me ajudar... E também desejo falar com mais alguém.

      - Quem?

      - Sua filha Vasilia.

      - Vasilia? Para quê? com que fim?

      - Ela é roboticista. Desejo conversar com outro roboticista que não o senhor.

      - Não quero isso, Sr. Baley.

      Tinham acabado de comer. Baley levantou-se.

      - Dr. Fastolfe, preciso lembrar-lhe mais uma vez que estou aqui a seu pedido. Não tenho qualquer autorização formal para agir como policial. Não tenho ligação com   autoridades auroreanas. A única possibilidade que tenho de ir ao fundo desta encrenca dolorosa é esperar que várias pessoas cooperem voluntariamente comigo e respondam   minhas perguntas.

      "Se o senhor me impede disso, fica evidente que não posso ir além de onde estou, que é lugar nenhum. Vai parecer também muito mal para o senhor, e portanto para   a Terra, e por isso tenho de insistir para que não se ponha no meu caminho. Se me tornar possível interrogar quem eu quiser, ou mesmo simplesmente tentar tornar  isso possível, intercedendo a meu favor, então os habitantes de Aurora com certeza considerarão esse fato como um sinal de inocência consciente de sua parte.

      Se dificultar minha investigação, por outro lado, a que outra conclusão chegarão que não a de que o senhor é culpado e teme ser denunciado?

      Fastolfe retrucou, com aborrecimento mal reprimido:

      - Compreendo perfeitamente, Sr. Baley. Mas, por que Vasilia? Há outros roboticistas.

      - Vasilia é sua filha. Ela o conhece bem. Pode ter opiniões firmes sobre a possibilidade de ter o senhor destruído um robô.

      Sendo ela membro do Instituto de Robótica, e estando ao lado dos seus inimigos políticos, qualquer prova favorável que possa dar será persuasiva.

      - E se testemunhar contra mim?

      - Bem, enfrentaremos isso quando acontecer. Quer comunicar-se com ela e pedir-lhe que me receba?

      Resignadamente, Fastolfe retrucou:

      - Vou atendê-lo, mas está enganado se pensa que posso facilmente persuadi-la a vê-lo. Ela pode estar muito ocupada... ou pensar que está. Pode estar fora de Aurora.

      Pode simplesmente não querer ser envolvida. Procurei explicar, na noite passada, que ela tem motivo, ou pensa que tem, para me ser hostil. Se pedir-lhe, de fato, que o receba, pode impeli-la a recusar, apenas para mostrar que não gosta de mim.

      - Quer tentar, Dr. Fastolfe? Fastolfe suspirou.

      - Tentarei enquanto o senhor estiver na casa de Gladia... Suponho que quer vê-la pessoalmente. Posso indicar-lhe que um visor tridimensional faz o mesmo efeito.

      A imagem é bastante definida em qualidade, não se podendo dizer o mesmo de um encontro pessoal.

      - Sei disso, Sr. Fastolfe, mas Gladia é solariana e tem associação de idéias desagradáveis com visão tridimensional. E em todo caso sou de opinião que estar ao alcance   da mão é mais produtivo. A presente situação é delicada demais e as dificuldades enormes para mim, para desistir disso.

      - Bem, avisarei Gladia. - Virou-se para sair, hesitou e tornou a voltar-se. - Mas, Sr. Baley...

      - Sim, Dr. Fastolfe?

      - Ontem à noite o senhor disse que a situação era muito séria para que o senhor levasse em consideração tudo o que pudesse afetar Gladia. Havia, frisou o senhor,   coisas mais importantes a considerar.

      - É verdade, mas pode confiar em que não a perturbarei, se puder evitar.

      - Não estou falando de Gladia agora. Adivirto-o apenas de que esse ponto de vista essencialmente seu deve ser estendido a mim. Não espero que se preocupe com  minha   conveniência ou orgulho, se tiver a possibilidade de falar com Vasilia.  Não estou me referindo aos resultados, mas se conseguir conversar com ela, devo  suportar todos os aborrecimentos conseqüentes e o senhor não deve procurar me poupar. Compreende?

      - Para ser totalmente honesto, Dr. Fastolfe, nunca foi minha intenção poupá-lo. Se eu tivesse de pesar sem embaraço ou vergonha em relação ao bem-estar de sua política   e em relação ao bem-estar do meu mundo, eu não hesitaria um só momento em envergonhá-lo.

      - Ótimo!... E, Sr. Baley, devemos estender essa atitude também ao senhor. Não devemos permitir que sua conveniência se atravesse no caminho.

      - Não lhe foi permitida quando o senhor resolveu me trazer aqui sem que eu fosse consultado.

      - Estou me referindo a outra coisa mais. Se após um razoável espaço de tempo não muito longo, apenas razoável, não progredir no sentido de obter uma solução, teremos   de examinar a possibilidade da sondagem psíquica. Nossa última chance pode estar no que sua mente sabe que o senhor não sabe que ela sabe.

      - Pode ser nada, Dr. Fastolfe. Fastolfe olhou com tristeza para Baley.

      - Concordo. Mas como disse, referente à possibilidade de Vasilia testemunhar contra mim... bem, nós o enfrentaremos quando chegar a hora.

      Tornou a virar-se e saiu da sala.

      Baley, pensativo, viu-o afastar-se. Parecia-lhe agora que, se tivesse feito progresso, teria de enfrentar represálias físicas de caráter desconhecido, mas possivelmente   perigosas. E se não tivesse progredido, teria de enfrentar a Sonda Psíquica, que não era melhor em nada.

      - Jehoshaphat! - murmurou baixinho para si mesmo.

      A caminhada até a casa de Gladia pareceu-lhe mais curta que a anterior. O dia estava ensolarado e agradável novamente, porém a paisagem não parecia absolutamente  a mesma. Os raios do sol vinham de outra direção, claro, e a coloração estava ligeiramente diferente.  Podia ser que a vida vegetal fosse um tanto diversa pela manhã em relação à tarde... ou cheirasse de outra maneira. Baley, certa vez, tinha pensado assim a respeito  da vegetação terrestre pensou.

      Daneel e Giskard estavam novamente em sua companhia, mas caminhavam mais perto e pareciam menos intensamente atentos. Baley perguntou, à toa: O sol brilha o tempo todo aqui?

      - Não, Colega Elijah - replicou Daneel. - Se não, seria desastroso para a flora e, por extensão, para a humanidade. A previsão, de fato, é que o céu ficará anuviado no decorrer do dia.

      - Que é aquilo? - perguntou Baley, assustado.

      Um animalzinho castanho-acinzentado estava escondido na relva. Vendo-os, afastou-se devagar.

      - Um coelho, senhor - respondeu Giskard.

      Baley sentiu-se menos tenso. Já os tinha visto nos campos da Terra.

      Gladia não os esperava na porta, desta vez, porém evidentemente os aguardava. Quando um robô fê-los entrar, não se levantou mas disse, entre zangada e fatigada:

      - O Dr. Fastolfe me informou que você precisava me ver novamente. De que se trata?

      Usava um vestido visivelmente colado ao corpo e sem nada por baixo. O cabelo estava repuxado para trás sem cuidado e tinha o rosto pálido. Parecia mais cansada que no dia anterior e era claro que tinha dormido pouco.

      Daneel, lembrando o que tinha acontecido na véspera, não entrou na sala. Giskard, contudo, entrou, deu uma olhada atenta em volta e retirou-se para um nicho de parede.

      Um dos robôs de Gladia ficou num outro nicho.

      - Lamento muito, Gladia - disse Baley - ter de incomodá-la novamente.

      - Esqueci de lhe dizer, na noite passada - replicou a moça - que, depois que Jander for maçaricado, irão evidentemente reciclá-lo para tornar a ser utilizado nas fábricas de robôs. Suponho que será divertido saber que, cada vez que eu olhar para um robô recentemente montado precisarei de algum tempo para perceber que muitos dos átomos de Jander são parte dele.

      - Nós também, quando morremos - informou Baley - somos reciclados... e quem sabe que átomos de quem estão em você e em mim neste instante e em quem os nossos estarão um dia.

      - Você tem toda a razão, Elijah, o que me faz lembrar como é fácil filosofar sobre as desgraças alheias.

      - Isso também é verdade, Gladia, mas não vim aqui filosofar.

      - Diga então a que veio.

      - Preciso fazer-lhe perguntas.

      - As de ontem não foram suficientes? Passou esse tempo todo pensando em novas?

      - Em parte, sim, Gladia. Você me disse ontem que mesmo após viver com Jander, como marido e mulher, houve quem se oferecesse a você, que recusou.

      É sobre isso que preciso inquiri-la.

      - Por quê?

      Baley ignorou a pergunta.

      - Diga-me, quantos se ofereceram durante seu casamento com Jander?

      - Não mantenho registros, Elijah. Três ou quatro.

      - Alguns insistiram? Algum se ofereceu mais de uma vez?

       Gladia, que estava evitando encará-lo, enfrentou-o e perguntou:

      - Contou a outros? Baley sacudiu a cabeça.

      - Só toquei nesse assunto com você. Contudo, pela sua pergunta, desconfio que um, pelo menos, insistiu.

      - Um. Santirix Gremionis. - Ela suspirou. - Os auroreanos têm nomes curiosos e o dele era curioso... mesmo para um auroreano. Nunca encontrei alguém tão persistente quanto ele. Era sempre educado, sempre aceitando minha recusa com um sorrisinho e uma mesura imponente, e depois, como se nada tivesse havido, tornava a tentar na semana seguinte ou mesmo no dia posterior. A mera repetição constituía-se, em si, uma pequena descortesia. Um auroreano correto aceitaria a recusa como definitiva, a menos que o companheiro em perspectiva deixasse razoavelmente claro que poderia haver uma mudança de idéia.

      - Diga-me ainda: os que se ofereceram a você sabiam de sua relação com Jander?

      - Não foi uma coisa que eu tenha citado em conversas casuais.

      - Bem, então vamos considerar esse Gremionis especialmente. Ele sabia que Jander era seu marido?

      - Nunca lhe disse.

      - Não rejeite isso tão facilmente, Gladia. Não se trata de terem dito a ele. Ao contrário dos outros, ele se ofereceu repetidamente. Por falar nisso, com que freqüência?

      Três vezes? Quatro? Quantas?

      - Não contei - retrucou Gladia, com ar cansado. - Pode ter  sido uma dúzia ou mais. Se ele não fosse uma pessoa agradável, eu teria determinado que meus robôs lhe impedissem a entrada.

      - Ah, mas não mandou. E leva tempo fazer vários pedidos, ele veio vê-la. Encontrou-a. Teve tempo de notar a presença de Jander e como você se comportava com ele.

      Ele poderia não notar essa relação?

      Gladia balançou a cabeça.

      - Duvido. Jander nunca aparecia quando eu estava com um ser humano.

      - Que instruções lhe deu? Presumo que o tenha feito.

      - Sim. E antes que você sugira que eu tinha vergonha da relação, era somente uma tentativa de evitar aborrecimentos e complicações. Eu conservei um certo instinto   de privacidade com relação ao sexo que os auroreanos não têm.

      - Torne a pensar. Ele teria adivinhado? Veja, um homem apaixonado...

      - Apaixonado! - Sua voz era quase um resmungo. - Que sabem os auroreanos de amor?

      - Um homem que acha estar apaixonado. Você não corresponde. Não poderia ele, com a sensibilidade e a desconfiança de um apaixonado desiludido, ter adivinhado? Imagine!

      Não poderia ele ter feito uma referência direta a Jander? Alguma coisa que lhe tenha despertado uma leve suspeita...

      - Não! Não! Seria inaudito para um auroreano comentar desairosamente as preferências sexuais ou os hábitos de outros.

      - Não necessariamente de forma desairosa. Um comentário bem-humorado, talvez. Qualquer indicação de que desconfiou da existência de uma relação.

      - Não!  Se o jovem  Gremionis tivesse  dito qualquer coisa assim, jamais veria o interior da minha casa novamente e eu teria providenciado para que nunca mais se  aproximasse de mim... Porém nunca fez isso. Ele era a própria imagem do homem bem-educado comigo.

      - Você diz "jovem". Que idade tem Gremionis?

      - Mais ou menos a minha. Trinta e cinco. Talvez até um ou dois anos menos.

      - Uma criança - disse Baley, com tristeza. - Até mais moço que eu. Mas nessa idade... Suponha que ele tenha adivinhado sua relação com Jander e ficasse calado.

      Apesar disso, não teria ficado enciumado?

      - Enciumado?

      Ocorreu a Baley que a palavra podia ter pouca significação em Aurora ou Solaria.

      - Zangado porque você preferiu outro a ele. Gladia respondeu, rispidamente:

      - Conheço o significado da palavra "enciumado". Repeti-a apenas por surpresa ao ver que você pensa que os auroreanos são ciumentos. Em Aurora, as pessoas não são   ciumentas em relação ao sexo. Por outras coisas, sim, mas não a respeito do sexo. - Havia um claro ar de desdém em seu rosto. - Mesmo que tivesse ficado enciumado,   qual a importância disso? Que poderia fazer?

      - Não seria possível que ele dissesse a Jander que a relação com um robô poderia tornar perigosa sua posição em Aurora...

      - Isso não seria verdade!

      - Jander teria acreditado se lhe fosse dito... acreditaria que a estava pondo em perigo, comprometendo-a. Não teria sido esse o motivo do congelamento mental?

      - Jander nunca teria acreditado nisso. Tornou-me feliz em cada dia em que foi meu marido e eu lhe disse isso.

      Baley permaneceu tranqüilo. Ela estava perdendo a calma, porém ele simplesmente queria esclarecer o assunto.

      - Tenho certeza de que ele acreditou em você, mas poderia também sentir-se obrigado a crer em alguém mais que lhe disse o contrário. Se dessa forma ele fosse apanhado   num insuportável dilema da Primeira Lei...

      O rosto de Gladia contorceu-se e ela guinchou:

      - É uma loucura. Você está apenas me contando a velha história da carochinha de Susan Calvin e do robô leitor de pensamentos. Ninguém com mais de dez anos de idade   acredita nisso.

      - Não é possível que...

      - Não, não é. Sou de Solaria e conheço bastante sobre robôs para saber que não é possível. Seria preciso um especialista incrível para amarrar a Primeira Lei num   robô. O Dr. Fastolfe pode ser capaz disso, mas Santirix Gremionis, certamente não. Gremionis é um requintado. Trabalha com seres humanos. É estilista e desenhista   de roupas. Faço o mesmo, mas com robôs. Gremionis jamais tocou num robô. Nada sabe a respeito deles, a não ser ordenar a  um deles que feche a janela ou coisa assim.

      Está querendo me dizer que foi a relação de Jander comigo... comigo... - bateu com a ponta do  dedo no esterno rudemente, onde o arredondado dos seus pequenos seios mal se notava sob o vestido - que causou a morte de Jander?

      - Não foi nada que tenha feito conscientemente - replicou Baley querendo parar, mas incapaz disso. - E se Gremionis aprendeu com o Dr. Fastolfe como...

      - Gremionis não conhece o Dr. Fastolfe e seja como for não teria compreendido nada do que ele lhe dissesse.

      - Você não pode ter certeza do que Gremionis possa ou não ter compreendido, e quanto a não conhecer o Dr. Fastolfe... Grejnionis pode ter estado com freqüência na sua casa, se a perseguiu tanto, e...

      - E o Dr. Fastolfe raramente esteve aqui. Na noite passada, quando veio com você, foi a segunda vez em que atravessou a soleira da minha porta. Temia que estar tão perto de mim me afastaria dele. Confessou isso uma vez. Perdeu a filha dessa maneira, pensou... uma coisa boba assim. Veja, Elijah, quando se vive vários séculos, tem-se bastante tempo para perder milhares de coisas. Seja agradecido por sua curta vida, Elijah.

      Estava chorando incontrolavelmente. Baley olhou e sentiu-se impotente.

      - Desculpe, Gladia. Não tenho outras perguntas. Posso chamar um robô? Você precisa de ajuda?

      Ela balançou a cabeça e fez-lhe um aceno.

      - Por favor, vá embora... vá embora - disse, com voz estrangulada. - Vá embora.

      Baley hesitou e depois saiu da sala, atirando-lhe um último olhar duvidoso, antes de atravessar a porta. Giskard seguiu-o de perto e Daneel juntou-se a ele ao sair da casa. Baley mal notou. Percebeu vagamente que estava começando a aceitar a presença deles como uma sombra ou suas roupas, que estava atingindo um ponto em que iria sentir-se nu sem eles.

      Caminhou depressa, de volta à casa de Fastolfe, com a cabeça num torvelinho. Seu desejo de ver Vasilia fora, a princípio, por desespero, por falta de outro objeto de curiosidade, mas agora as coisas tinham mudado. Havia a possibilidade de ter tropeçado em alguma coisa vital.

      O rosto feio de Fastolfe estava vincado de rugas tristes quando Baley voltou.

      - Algum progresso? - perguntou.

      - Eliminei parte de uma possibilidade... Talvez.

      - Parte de uma possibilidade? Como vai eliminar a outra parte? Melhor ainda, como estabelece o senhor uma possibilidade?

      - Por considerar impossível eliminar uma possibilidade - replicou Baley - faz-se um início ao estabelecer uma.

      - E se descobrir ser impossível eliminar a outra parte da possibilidade que misteriosamente mencionou?

      Baley encolheu os ombros.

      - Antes de perdermos tempo levando isso em conta, preciso ver sua filha.

      Fastolfe ficou abatido.

      - Bem, Sr. Baley, fiz o que pediu e procurei contato com ela. Precisei acordá-la.

      - Quer dizer que ela está numa parte do planeta ainda noite? Não tinha pensado nisso. - Baley ficou triste. - Acho que ainda sou muito tolo para imaginar que estou na Terra. Nas Cidades subterrâneas, o dia e a noite perdem o significado e o tempo tende a ser uniforme.

      - Não é tão mau assim. Eos é o centro robótico de Aurora e são poucos os roboticistas que moram fora dela. Vasilia estava dormindo e acordá-la em nada melhorou seu mau humor, ao que parece. Ela não quis falar comigo.

      - Torne a insistir - disse Baley.

      - Falei com seu robô-secretário e houve uma aborrecida troca de recados. Ela deixou muito claro que não queria falar comigo em hipótese alguma. Foi um pouco mais flexível com o senhor. O robô informou que ela lhe daria cinco minutos no seu canal de vídeo particular, se o senhor ligar - Fastolfe consultou a faixa de tempo na parede - em meia hora. Não o verá pessoalmente, em nenhuma circunstância.

      - As condições são insuficientes e o tempo também. Preciso vê-la pessoalmente pelo tempo que me for necessário. O senhor explicou a importância disso, Dr. Fastolfe?

      - Tentei. Ela não se interessou.

      - O senhor é seu pai. com certeza...

      - Ela é menos inclinada a modificar sua decisão em meu benefício que por um estranho apanhado ao acaso. Sei disso e assim utilizei Giskard.

      - Giskard?

      - Ah, sim. Giskard é o seu predileto. Quando ela estudava robótica na universidade, tomou a liberdade de fazer alguns pequenos ajustes na programação dele: e nada

      como isso para tornar mais íntima a relação com um robô... exceto com o método de Gladia, é claro. Era quase como se Giskard fosse Andrew Martin.

      - Quem é Andrew Martin?

      - Quem foi, e não quem é - replicou Fastolfe. - Nunca ouviu falar nele?

      - Nunca!

      - Que estranho! Todas as velhas lendas dos senhores dão a Terra como seu berço e no entanto não é conhecido nela. Andrew Martin foi um robô que pouco a pouco, passo a passo, foi considerado como se tornando humaniforme. Não há dúvida de que, antes de Daneel, existiram robôs humaniformes, mas todos simples brinquedos, pouco mais que autômatos. Apesar disso, contaram-me histórias incríveis sobre a capacidade dele: um sinal seguro da natureza lendária do relato. Houve uma mulher, parte das lendas, conhecida geralmente como Mocinha. A relação é muito complicada para ser contada agora, mas suponho que cada menina em Aurora sonhou ser Mocinha e ter Andrew Martin como robô. Vasilia também... e Giskard foi seu Andrew Martin.

      - Bem, e depois?

      - Pedi ao robô para dizer-lhe que o senhor iria acompanhado por ele, Giskard. Ela não o vê há anos e pensei que podia amaciá-la, levando-a a concordar em recebê-lo.

      - Mas presumo que não deu resultado.

      - Não deu.

      - Então, precisamos pensar em outra coisa. Deve haver outro modo de convencê-la a me receber.

      - Talvez o senhor consiga pensar num - replicou Fastolfe. - Dentro de instantes o senhor vai vê-la no trimensic e terá cinco minutos para convencê-la de que precisa encontrá-lo pessoalmente.

      - Cinco minutos! Que posso fazer em cinco minutos?

      - Não sei. Afinal de contas, é melhor que nada.

      Quinze minutos depois, Baley estava diante da tela tridimensional, pronto para conhecer Vasilia Fastolfe.

      O Dr. Fastolfe tinha saído, dizendo, com um sorriso irônico que sua presença certamente tornaria a filha menos acessível à persuasão. Daneel também não estava presente. Só Giskard permaneceu para fazer companhia a Baley.

      - O canal trimensic da Dra. Vasilia está aberto para recepção - disse Giskard. - Está pronto, senhor?

      - Tanto quanto possível - retrucou Baley, soturno. Recusou sentar-se, sentindo que poderia ser mais imponente se ficasse em pé (Quão imponente pode ser um terráqueo?).

      A tela iluminou-se enquanto o resto da sala ficou na penumbra e uma mulher surgiu, meio desfocada no início. Estava em pé, encarando-o, com a mão pousada numa bancada de laboratório, cheio de diagramas (Sem dúvida ela também tinha planejado ser imponente).

      Tão logo o foco apurou, a orla da tela dissolveu-se e a imagem de Vasilia (se era ela) tornou-se nítida e tridimensional. Estava numa sala com todos os sinais de uma sólida realidade, com a diferença de que o ambiente em nada combinava com o da sala em que Baley se encontrava e a divisão era nítida.

      A moça usava uma saia castanho-escura que se prolongava em pernas de calças largas semitransparentes, de forma a que suas pernas do meio das coxas para baixo, eram vistas através do tecido. A blusa era apertada e sem mangas, deixando os braços nus até os ombros. O decole era baixo e o cabelo, muito louro, cheio de caracóis.

      Não tinha a simplicidade do pai, nem suas enormes orelhas. Baley supôs que ela tivera uma bela mãe e que foi agraciada com a distribuição dos genes.

      Era baixa e Baley notou uma grande semelhança com Gladia nas feições, embora sua expressão fosse muito mais fria e tivesse a marca de uma personalidade dominadora.

      A moça perguntou secamente:

      - O senhor é o terráqueo que veio resolver os problemas do meu pai?

      - Sim, Dra. Fastolfe - retrucou Baley, de forma igualmente seca.

      - Pode me chamar de Dra. Vasilia. Não desejo ser confundida com meu pai.

      Dra. Vasilia, preciso da oportunidade de conversar com a  senhora, pessoalmente, por um período razoavelmente extenso.

      - Não duvido disso. O senhor é, claro, um terráqueo e uma fonte certa de infecções.

      - Passei por tratamento médico e estou livre disso. Seu pai esteve constantemente comigo durante um dia inteiro.

      - Meu pai finge ser idealista e precisa fazer bobagens de vez em quando para sustentar seu fingimento. Não desejo imitá-lo.

      - Devo acreditar que a senhora não quer que façam mal a ele. Mas vai fazer com que ele seja atingido se recusar ver-me.

      Está perdendo tempo. Não o verei, a não ser desta maneira, e metade do período que concedi já se passou. Se o senhor desejar, podemos parar agora, caso ache insatisfatória  esta decisão.

      - Giskard está aqui, Dra. Vasilia, e deseja pedir-lhe que me encontre.

      Giskard entrou no campo de visão.

      - Bom dia, mocinha - disse, em voz baixa.

      Por um momento, Vasilia ficou embaraçada e, quando falou, foi num tom mais brando.

      - Estou vendo você com prazer, Giskard e o verei sempre que você quiser, mas não desejo encontrar esse terráqueo, mesmo que você insista.

      - Nesse caso - disse Baley, usando desesperadamente todos os seus trunfos - devo entregar o caso de Santirix Gremionis ao público sem tê-la consultado.

      Vasilia arregalou os olhos, sua mão na mesa ergueu-se vivamente e crispou-se.

      - Que é que há com Gremionis?

      - Só que ele é um rapaz bonito e a conhece muito bem. Tenho de tratar com assuntos dessa natureza sem ouvir o que a senhora tem a dizer?

      - Vou dizer-lhe imediatamente o que...

      - Não - replicou Baley, erguendo a voz. - Não me dirá nada a não ser que possa vê-la cara a cara.

      A moça retorceu a boca.

      - Nesse caso, Vou vê-lo, mas não ficarei junto do senhor um instante mais que o que determinei. Estou lhe avisando... e traga Giskard.

      A ligação tridimensional foi cortada com um estalo e Baley sentiu-se tonto à súbita mudança do fundo. Procurou uma cadeira e sentou-se.

      Giskard estava segurando seu braço, para garantir sua chegada a salvo na cadeira.

      - Em que posso ajudá-lo, senhor? - perguntou,

      - Eu estou bem - replicou Baley. - Só preciso recuperar o fôlego.

      O Dr. Fastolfe se encontrava parado à frente dele.

      - Peço-lhe novamente desculpas, por ter falhado como anfitrião. Ouvi numa extensão equipada para receber sem transmitir. Eu desejava ver minha filha, embora ela   não quisesse me ver.

      - Compreendo  -  respondeu  Baley  ligeiramente  ofegante. - Se os seus costumes determinam que o que o senhor fez precisa de desculpas, eu o desculpo.

      - O que é isso sobre Santirix Gremionis? Nunca ouvi falar nesse nome.

      Baley encarou Fastolfe e replicou:

      - Dr. Fastolfe, Gladia me falou nele hoje de manhã. Quase nada sei a seu respeito, mas aproveitei a oportunidade para dizer à sua filha aquilo. As probabilidades   são contra mim, mas, apesar disso, os resultados foram os que eu desejava. Como sabe, posso tirar deduções úteis, mesmo de poucas informações, e por isso é melhor   o senhor me deixar em paz para continuar. Por favor, no futuro, coopere completamente e não me faça mais menção da Sonda Psíquica.  Fastolfe ficou calado e Baley sentiu uma grande satisfação por ter imposto sua vontade primeiro à filha e depois ao pai.

      Não sabia quanto tempo poderia continuar agindo assim.

     

Vasilia

      Baley parou na porta do carro aerodinâmico e disse, com firmeza:

      - Giskard, não quero que as janelas sejam escurecidas. Não quero sentar nos fundos. Quero viajar na frente e observar o Exterior. Uma vez que eu fique entre você  e Daneel, estarei bastante seguro, a menos que o próprio carro seja destruído. E nesse caso seremos todos destruídos e não importa se eu estiver na frente ou  atrás.

      Giskard reagiu à força do argumento, curvando-se respeitosamente.

      - Senhor, se o senhor sentir-se doente...

      - Então você parará o carro e eu irei para o assento traseiro e você escurecerá as janelas. Ou nem mesmo precisará parar. Posso pular por cima do assento dianteiro  enquanto você se mexe. O ponto, Giskard,  é que é muito importante para mim  tornar-me o mais familiarizado possível com Aurora e também ficar da mesma  maneira acostumado com o Exterior. Esta declaração é uma ordem, Giskard.

      Daneel disse, tranqüilamente:

      - O colega Elijah tem razão, amigo Giskard. Ele estará razoavelmente a salvo.

      Giskard, talvez com relutância (Baley não pôde interpretar a expressão do seu rosto pouco humano), concordou e sentou-se no  comando. Baley acompanhou-o e olhou pelo  vidro claro do pára-brisa,  sem a segurança que aparentou na voz. Contudo, a pressão de um robô de cada lado era reconfortante.

      O carro levantou-se nos jatos de ar comprimido e balançou um pouco, como se estivesse procurando uma posição segura. Baley sentiu uma estranha sensação na boca do  estômago e tratou de não lamentar sua heróica performance de momentos antes. Não adiantava tentar dizer-se que Daneel e Giskard não davam sinais de medo e deviam  ser imitados. Eram robôs e não podiam sentir medo.

      E então o carro andou para a frente, subitamente, e Baley sentiu-se esmagado contra o encosto do assento Dentro de um minuto, movia-se a uma velocidade tão grande  quanto a que sentia no Caminho Expresso de City. Uma estrada relvada e larga estendia-se à sua frente.

      A velocidade parecia ainda maior porque não havia as luzes amigas e os prédios de City em ambos os lados, mas enormes extensões verdes e formações irregulares.  Baley lutou para manter a respiração calma e para falar o mais naturalmente possível, sobre assuntos neutros.

      - Não passamos por terras cultivadas, Daneel. Parece-me terras devolutas.

      - Estamos em território citadino, Colega Elijah - replicou Daneel. - São propriedades particulares.

      - Citadino?

      Baley não pôde aceitar. Sabia como era uma Cidade.

      - Eos é a maior e mais importante cidade de Aurora. A primeira a ser construída. A Legislatura do Mundo Auroreano está aqui. O Presidente da Legislatura tem sua  propriedade aqui e estamos passando por ela.

      Não apenas uma cidade, porém a maior. Baley olhou em torno.

      - Eu tinha a impressão de que Fastolfe e Gladia possuíam casas nos subúrbios de Eos. Devo pensar que passamos agora os limites da cidade?

      - Em absoluto, Colega Elijah. Estamos passando pelo centro. Os limites ficam a sete quilômetros de distância daqui e nosso destino situa-se a cerca de quarenta quilômetros além.

      - O centro da cidade? Não vejo prédios.

      - Não foram feitos para serem vistos da estrada, porém há um que pode vislumbrar entre as árvores. É a moradia de Fuad Labord, escritor famoso.

      - Conhece todas as casas de vista?

      - Estão nos meus bancos de memória - replicou Daneel, com solenidade.

      - Não há trânsito na estrada. Por quê?

      - As distâncias maiores são cobertas por carros aéreos ou subterrâneos magnéticos. As ligações tridimensionais...

      - Em Solaria eles são chamados exibidores - disse Baley.

      - E aqui também, nas conversas informais, mas TVC em ocasiões solenes. Abrange a maior parte das comunicações. Finalmente, os auroreanos gostam de andar e não é  incomum caminharem vários quilômetros para visitas de cortesia ou mesmo encontros de negócios, quando o tempo não é essencial.

      - E quando devemos atingir um lugar muito afastado para andar, muito perto para carros aéreos, e exibidores tridimensionais não são desejados, usa-se o carro de superfície.

      - Um plano aerodinâmico, mais especificamente, Colega Elijah, que é denominado carro de superfície, suponho.

      - Quanto tempo leva ele para chegar à casa de Vasilia?

      - Não muito, Colega Elijah. Ela está no Instituto de Robótica, como talvez você saiba.

      Houve uns instantes de silêncio e depois Baley disse:

      - Está nublado ali no horizonte.

      Giskard fazia uma curva a alta velocidade, o carro inclinando-se num ângulo de trinta graus. Baley abafou um gemido e agarrou-se a Daneel, que colocou o braço esquerdo  nos ombros de Baley, apertando-o com força. Lentamente, Baley soltou a respiração à medida que o carro se endireitava.

      - Sim - disse Daneel - aquelas nuvens resultarão em chuva mais tarde, como foi previsto.

      Baley franziu a testa. Tinha sido apanhado pela chuva uma vez - uma vez - durante seu trabalho experimental no campo Exterior da Terra. Era como ficar sob um chuveiro   frio, vestido. Fora tomado de pânico total por um instante, quando percebeu que não tinha como pegar uma torneira e desligá-la. A água poderia correr Para sempre!...

      Depois, todos começaram a correr e ele junto, à procura da secura e segurança de City.

      Mas estava em Aurora e não tinha idéia de como proceder quando começasse a chover e não havia City para se abrigar nela. Correr para a casa mais próxima? Os refugiados   seriam automaticamente bem recebidos?

      Então houve outra virada rápida e Giskard disse:

      - Senhor, estamos no estacionamento do Instituto de Robótica. Podemos agora entrar e visitar a casa da Dra. Vasilia, no terreno do Instituto.

      Baley balançou a cabeça. A viagem levara entre quinze e vinte minutos (segundo imaginou, pelo tempo da Terra) e ele ficou contente por ter acabado. Disse, um tanto ofegante:

      - Desejo saber alguma coisa a respeito da filha do Dr. Fastolfe, antes de encontrá-la. Você a conhece, Daneel?

      - Quando passei a existir - replicou o robô - o Dr. Fastolfe e a filha estavam separados havia muito tempo. Nunca a encontrei.

      - Mas você, Giskard, você e ela se conhecem muito bem. Não é verdade?

      - É, senhor - replicou Giskard, impassível.

      - E gostam um do outro?

      - Acho, senhor - falou Giskard - que a filha do Dr. Fastolfe gosta de minha presença.

      - E você tem prazer de estar com ela? Giskard pareceu escolher as palavras.

      - Dá-me a sensação que eu considero ser a que os humanos denominam de "prazer" de estar com todo ser humano.

      - Porém mais ainda com Vasilia, penso. Tenho razão?

      - O prazer dela de estar comigo, senhor - replicou Giskard - parece estimular os potenciais positrônicos que produzem as ações em mim equivalentes às que o prazer produz nos seres humanos. Ou foi isso o que o Dr. Fastolfe me disse uma vez.

      Baley perguntou, de repente:

      - Por que Vasilia abandonou o pai? Giskard ficou calado.

      Baley insistiu, com a súbita dureza de um terráqueo se dirigindo a um robô:

      - Fiz-lhe uma pergunta, rapaz.

      Giskard moveu a cabeça e olhou para Baley que, por um momento, pensou que o brilho dos olhos do robô pudesse se transformar num fulgor de ressentimento devido à palavra humilhante.

      Contudo, Giskard falou humildemente e seus olhos nada revelaram quando replicou:

      - Gostaria de responder, senhor, porém a Srta. Vasilia me proibiu de revelar tudo o que concerne a essa separação.

      - Mas estou ordenando que me responda e posso insistir mais rispidamente, de fato... se eu desejar.

      - Desculpe - retrucou Giskard. - A Srta. Vasilia, já naquele tempo, era especialista em robótica e as ordens que me deu foram suficientemente fortes para permanecerem, a despeito de tudo o que o senhor possa dizer.

      - Ela deveria ser muito hábil com robôs, pois o Dr. Fastolfe me disse que ela o programou certa vez - replicou Baley.

      - Aquilo não foi perigoso, senhor. O Dr. Fastolfe sempre poderia corrigir os enganos.

      - E ele precisou?

      - Não, senhor.

      - De que natureza foi a reprogramação?

      - De pouca monta, senhor.

      - Talvez. Mas me responda: que foi que ela exatamente fez? Giskard hesitou e Baley percebeu logo o que aquilo significava.

      - Temo - retrucou o robô - que as perguntas referentes à reprogramação não possam ser respondidas por mim.

      - Proibiram-lhe?

      - Não, senhor, mas a reprogramação automaticamente elimina a anterior. Se mudei em alguma coisa, para mim parece que sempre foi assim e não lembro do que fui antes de ter mudado.

      - Então como sabe que a reprogramação foi de pouca monta?

      - Como o Dr. Fastolfe nunca sentiu necessidade de corrigir o que a Srta. Vasilia fez, como me disse uma vez, suponho apenas que as mudanças foram mínimas. O senhor poderá perguntar à Srta. Vasilia, senhor.

      - Perguntarei - disse Baley.

      - Temo porém que ela se recuse a responder, senhor.

      Baley ficou abatido. Até então, tinha interrogado apenas o Dr. Fastolfe, Gladia e os dois robôs, que fizeram o possível para cooperar. Agora, pela primeira vez, iria enfrentar alguém inamistoso.

      Baley saltou do veículo, que estava pousado numa nesga de grama, e sentiu um certo prazer em ter uma coisa sólida sob os pés.

      Olhou em volta, surpreso, pois os prédios eram menos espalhados e à sua direita havia um especialmente grande, de construção baixa, mais ou menos como um bloco de metal e vidro em ângulos retos.

      - É aquele o Instituto de Robótica? - perguntou.

      - Todo este conjunto é o Instituto, Colega Elijah - replicou Daneel. - Está vendo apenas uma parte e é mais densamente construído do  que  o  normal  em   Aurora, porque  é  uma  entidade política autônoma. Contém casas particulares, ginásios comunais, laboratórios, bibliotecas, etc. O prédio maior é o centro administrativo.

      - Isso é tão pouco auroreano, com todos esses edifícios à vista, a julgar pelo que vi em Eos, que posso imaginar ter havido uma desaprovação geral.

      - Acredito que sim, Colega Elijah, mas o chefe do Instituto se dá bem com o Presidente, que tem muita influência, e houve uma licença especial, ouvi dizer, em face das necessidades da pesquisa. - Daneel olhou em torno, pensativo. - É de fato mais compacto do que eu supunha.

      - Mais do que você tinha suposto? Daneel, você nunca esteve aqui?

      - Não, Colega Elijah.

      - E você, Giskard?

      - Não, senhor - replicou Giskard.

      - Vocês vieram até aqui sem a menor dificuldade - comentou Baley - e pareceu-me que conheciam o lugar.

      - Fomos devidamente informados, Colega Elijah - disse Daneel - uma vez que foi necessário virmos com você.

      Baley sacudiu a cabeça, pensativo, questionando a seguir:

      - Por que o Dr. Fastolfe não veio conosco?

      Achou, mais uma vez, que não adiantava tentar pegar um robô descuidado. Feita uma pergunta rapidamente - ou inesperadamente - o robô apenas esperava até que ela fosse absorvida, para então responder. Nunca eram apanhados desprevenidos.

      - Como disse o Dr. Fastolfe - replicou Daneel - ele não é membro do Instituto e achou que seria impróprio fazer uma visita sem ser convidado.

      - Mas por que não é membro?

      - Nunca me disseram o motivo, Colega Elijah.

      Baley virou-se para Giskard, que respondeu imediatamente:

      - Nem a mim, senhor.

      Não sabiam? Foram instruídos para dizer que não sabiam?-  Baley encolheu os ombros. Não importava. Os seres humanos podiam mentir e os robôs podiam ser instruídos a mentir.

      Claro, os seres humanos podiam ser intimados ou levados a mentir - se o inquiridor fosse bastante hábil ou muito bruto - e os robôs podiam ser manobrados sem instruções - se o inquiridor fosse bastante hábil ou muito inescrupuloso - mas as habilidades eram diferentes e Baley nada sabia sobre robôs.

      - Onde será possível encontrar a Dra. Vasilia Fastolfe? - perguntou Baley.

      - Sua casa está exatamente à nossa frente - retorquiu Daneel.

      - Você então foi bem instruído quanto à sua localização?

      - Foi impresso em nossos bancos de memória, Colega Elijah.

      - Bem, nesse caso, vá na frente.

      O sol laranja estava alto no céu agora e sem dúvida era quase meio-dia. Quando se aproximaram da casa de Vasilia, entraram na sombra do edifício e Baley encolheu-se ligeiramente ao sentir a temperatura cair imediatamente.

      Seus lábios contraíram-se ao pensamento de ocupar e colonizar mundos sem Cidades, onde a temperatura não fosse controlada, mas sujeita a variações idiotas e imprevisíveis.

      E notou, preocupado, que as nuvens no horizonte tinham se aproximado um pouco. Podia, também, chover a qualquer momento, com a água caindo em catadupas.

      Terra! Que saudade das Cidades!

      Giskard caminhou na frente para a casa e Daneel pegou o braço de Baley, evitando que este o seguisse.

      Claro! Giskard estava fazendo um reconhecimento.

      Daneel procedeu da mesma maneira. Seus olhos examinaram os arredores com uma atenção que nenhum ser humano teria conseguido. Baley tinha certeza de que aqueles olhos robóticos nada perderiam. (Ficou imaginando por que os robôs não eram equipados com quatro olhos, eqüitativamente distribuídos ao redor da cabeça... ou uma faixa ótica rodeando-a completamente. Não Daneel, uma vez que precisava ter aparência humana. Mas, por que não Giskard? Ou provocaria complicações de visão que os recursos positrônicos não Podiam dominar? Durante um momento, Baley teve uma visão fugaz de complexidades que complicavam a vida de um roboticista.

      Giskard reapareceu na soleira da porta e fez um sinal. O braço de Daneel exerceu uma respeitosa pressão e Baley adiantou-se. A Porta ficou entreaberta.

      Não havia fechadura na casa de Vasilia, mas também as de

      Gladia e Fastolfe não tinham, lembrou Baley subitamente. A população escassa e a separação entre as habitações ajudavam a garantir a privacidade e, sem dúvida, o costume de não-intromissão também ajudava. E, pensando bem, os guardas-robôs ubíquos eram mais eficientes que qualquer fechadura.

      A pressão da mão de Daneel no antebraço fez Baley parar. Giskard, à frente deles, estava falando em voz baixa com dois robôs, que eram mais ou menos parecidos com Giskard.

      Baley sentiu repentinamente a boca do estômago gelar. E se por uma rápida manobra outro robô substituísse Giskard? Ele seria capaz de reconhecer a substituição?

      Distinguir um do outro? Seria deixado com um robô sem instruções especiais para vigiá-lo, um que pudesse inocentemente levá-lo a correr perigo e depois reagir com rapidez insuficiente, quando fosse necessário protegê-lo?

      Contendo a voz, virou-se calmamente para Daneel:

      - Incrível a semelhança desses robôs, Daneel. Pode distingui-los?

      - Certamente, Colega Elijah. O padrão de suas roupas é diferente e também os seus números de código.

      - Para mim não parecem diferentes.

      - Você não está acostumado a notar detalhes assim. Baley tornou a olhar.

      - Que números de código?

      - São facilmente visíveis, Colega Elijah, quando se sabe onde olhar e quando os olhos são mais sensíveis aos raios infravermelhos que os dos humanos.

      - Assim sendo, terei problemas se precisar identificar um, não é?

      - Absolutamente não, Colega Elijah. Basta perguntar a um robô seu nome todo e número de série. Ele lhe dirá.

      - Mesmo que tenha sido instruído para me fornecer um falso?

      - Para que um robô seria instruído dessa forma? Baley resolveu não explicar.

      Giskard, de qualquer maneira, estava voltando. Virou-se para Baley:

      - Senhor, vai ser recebido. Por aqui, por favor.

      Os dois robôs da casa caminharam na frente. Atrás deles, Baley e Daneel, este continuando a segurar o detetive protetoramente. Fechando a retaguarda, Giskard. Os dois robôs pararam diante de uma porta dupla, que se abriu automaticamente, para os dois lados. A peça interna era cheia de uma parca luz cinzenta: luz diurna filtrando-se por cortinas espessas.

      Baley distinguiu, não muito nitidamente, um pequeno vulto humano na sala, meio sentado numa banqueta alta, com o cotovelo apoiado numa mesa que ocupava a extensão da parede.

      Baley e Daneel entraram, seguidos de Giskard. A porta fechou-se, tornando a peça ainda mais escura.

      Uma voz feminina ordenou rispidamente:

      - Parem aí! Fiquem onde estão!

      E a peça foi inundada pela plena luz do dia.

     

      Baley piscou e ergueu os olhos. O teto era vitrificado e podia-se ver o sol por ele. O sol parecia estranhamente fraco, porém, podendo ser encarado, apesar de não parecer afetar a qualidade da luz interior. Presumivelmente, o vidro (ou o que quer que fosse a substância transparente) difundia a luz sem absorvê-la.

      Baley olhou para a mulher, que continuava mantendo sua posição no banco, e perguntou:

      - Dra. Vasilia Fastolfe?

      - Dra. Vasilia Aliena, se deseja o nome todo. Não uso nomes de outras pessoas. Pode chamar-me Dra. Vasilia.

      É o nome pelo qual sou comumente conhecida no Instituto.

      - Sua voz, até ali bastante ríspida, suavizou-se. - E como vai, meu velho amigo Giskard?

      Giskard respondeu, num tom estranhamente diferente do seu habitual:

      - Meus cumprimentos... - Fez uma pausa e completou: -

      Eu a saúdo, Mocinha. Vasilia sorriu.

      - E isto, suponho, é o robô humaniforme sobre o qual ouvi falar: Daneel Olivaw?

      - Sim, Dra. Vasilia - replicou Daneel com rispidez.

      - E finalmente, temos... o terráqueo.

      - Elijah Baley, Doutora - apresentou-se Baley, secamente.

      - Sim, sei que os terráqueos têm nomes e que o seu é Elijah Baley - retrucou ela, friamente. - O senhor não se parece com aquele ator detestável que fez o seu papel no espetáculo de hiperonda.

      - Sei disso, Doutora.

      - O que desempenhou o papel de Daneel tinha melhor aparência, contudo, mas suponho que não estamos aqui para discutir o espetáculo.

      - Sim, não estamos.

      - Julgo que nos encontramos aqui, terráqueo, para falar sobre o que quer saber a respeito de Santirix Gremionis e acabar com isso Não é?

      - Não completamente - replicou Baley. - Esse não é o motivo básico da minha vinda, embora imagine que cuidaremos dele.

      - De fato? O senhor tem a impressão de que estamos aqui para uma longa e complicada discussão sobre qualquer tema que tenha escolhido?

      - Acho, Dra. Vasilia, que seria bom para a senhora permitir-me que conduza esta entrevista como eu julgar melhor.

      - Está me ameaçando?

      - Não.

      - Bem, nunca conheci um terráqueo e posso estar interessada em ver até onde o senhor parece com o ator que desempenhou seu papel: isto é, de outras formas que não   a aparência. O senhor é realmente a pessoa superior que parece ser no espetáculo?

      - Espetáculo - retrucou Baley com claro desgosto - que foi superdramatizado e exagerou muito minha personalidade. Gostaria que me aceitasse como sou e me julgue   apenas como lhe apareço agora.

      Vasilia riu.

      - Pelo menos o senhor não parece intimidado por mim. É um ponto a seu favor. Ou o senhor pensa que essa coisa de Gremionis que tem na cabeça coloca-o na posição de me dar ordens?

      - Só vim aqui para descobrir a verdade a respeito da morte do robô humaniforme, Jander Panell.

      - Morte? Ele então alguma vez esteve vivo?

      - Uso esta palavra em lugar de "tornado inoperante". Dizer "morte" a deixa confusa?

      - O senhor argumenta bem - replicou Vasilia. - Debrett, traga uma cadeira para o terráqueo. Ele ficará cansado em pé, se a conversa for longa. Depois volte para seu nicho. E você também pode escolher um, Daneel. Giskard, fique aqui comigo.

      Baley sentou-se.

      - Obrigado, Debrett. Dra. Vasilia, não tenho autoridade para interrogá-la. Não tenho recursos legais para forçá-la a responder minhas perguntas. Contudo, a morte de Jander Panell colocou seu pai numa posição um tanto...

      - Colocou quem numa posição?

      - Seu pai.

      - Terráqueo, às vezes me refiro a uma certa pessoa como meu pai, porém ninguém mais. Por favor, use o nome correto.

      - Dr. Hans Fastolfe. É seu pai, não é? Para efeito de registro?

      - O senhor está usando um termo biológico - replicou Vasilia. - Eu partilho genes com ele de uma forma característica do que, na Terra, seria considerada uma relação pai-filha. Aqui em Aurora isso é indiferente, exceto em assuntos genéticos e médicos. Posso conceber meu sofrimento, resultante de estados metabólicos, nos quais seria apropriado considerar a fisiologia e a bioquímica dos que partilham os genes comigo: pais, irmãos, filhos e assim por diante. Caso contrário, essas relações não são geralmente citadas numa sociedade auroreana educada. Estou lhe explicando isto porque é terráqueo.

      - Se ofendi os costumes, foi por ignorância e peço desculpas - respondeu Baley. - Posso me referir à pessoa em discussão pelo nome?

      - Certamente.

      - Nesse caso, a morte de Jander Panell colocou o Dr. Hans Fastolfe numa posição um tanto difícil e presumo que isso deve preocupá-la a ponto de querer ajudá-lo.

      - O senhor supõe isso, não é? Por quê?

      - Ele é seu... Ele a trouxe à vida. Cuidou da senhora. Tinham uma afeição profunda um pelo outro. Ele ainda sente uma profunda afeição pela senhora.

      - Ele lhe disse isso?

      - Tornou-se óbvio nos detalhes da nossa conversa... até mesmo pelo fato dele ter tanto interesse pela solariana, Gladia Delftiarre, que se parece com a senhora.

      - Ele lhe disse isso?

      - Sim, mas mesmo que não dissesse, a semelhança é evidente.

      - Todavia, terráqueo, nada devo ao Dr. Fastolfe. Pode pôr de lado essas suposições.

      Baley pigarreou.

      - À parte os sentimentos pessoais que possa ter ou não, há o futuro da Galáxia. O Dr. Fastolfe deseja novos mundos para serem explorados e colonizados por seres  humanos. Se as repercussões políticas da morte de Jander levarem à exploração e colonização de novos mundos por robôs, o Dr. Fastolfe crê que isso será catastrófico   para Aurora e para a humanidade. Certamente, a senhora não quererá participar desse desastre.

      Vasilia encarou-o respondeu, indiferente:

      - Certamente que não, se eu concordar com o Dr. Fastolfe. Não concordo. Não vejo perigo em ter robôs humaniformes realizando o trabalho. Estou aqui no Instituto,   de fato, para tornar isso possível. Sou Globalista. Como o Dr. Fastolfe é Humanista, torna-se meu inimigo político.

      Suas respostas foram cortantes e diretas, nem um instante mais do que deviam ser. De cada vez seguia-se um silêncio marcante, embora ela ficasse esperando, com interesse,   a pergunta seguinte. Baley teve a impressão de que Vasilia estava curiosa a respeito dele, divertida, como que apostando consigo mesma sobre qual seria a nova pergunta,   determinada a dar-lhe exatamente o mínimo de informação necessária, para forçar outra pergunta.

      - A senhora é membro do Instituto há muito tempo? - perguntou Baley.

      - Desde sua fundação.

      - Ele tem muitos membros?

      - Imagino que um terço dos roboticistas auroreanos são membros, embora apenas cerca de metade more realmente e trabalhe no recinto do Instituto.

      - Outros membros do Instituto partilham da sua opinião sobre a exploração robótica de outros mundos? Eles são inteiramente contra o ponto de vista do Dr. Fastolfe?

      - Desconfio que a maioria é Globalista, mas nunca votamos a esse respeito nem discutimos formalmente. O senhor terá de perguntar-lhes um a um.

      - O Dr. Fastolfe é membro do Instituto?

      - Não.

      Baley esperou um pouco, porém ela nada acrescentou à negativa.

      - Não é surpreendente? - perguntou. - Era de esperar que ele, mais do que todos, fosse membro.

      - Acontece que não o queremos. E o que é menos importante,  talvez, ele não nos quer.

      - Não é ainda mais surpreendente?

      - Não sei por quê. - E depois, como que incitada a dizer mais por uma irritação interior, acrescentou: - Ele mora na cidade de Eos. Suponho, terráqueo, que sabe   o significado do nome.

      Baley balançou a cabeça e replicou:

      - Eos é a antiga deusa grega do alvorecer, como Aurora é a antiga deusa romana do amanhecer.

      - Exatamente. O Dr. Han Fastolfe mora na Cidade do Amanhecer, no Mundo do Amanhecer, porém não acredita na Aurora. Ele não compreende o método necessário de expansão   pela Galáxia, convertendo o Amanhecer Espacial em amplo Dia Galáctico. A exploração da Galáxia com robôs é a única forma prática de realizar a tarefa e ele não quer   aceitar isso... ou nós.

      - Por que é o único método prático? - perguntou Baley, devagar. - Aurora e os outros mundos Espaciais não foram colonizados e explorados por robôs, mas por seres   humanos.

      - Retificação: por terráqueos. Foi tão dispendioso e ineficiente, que hoje não há terráqueos que queiram ser futuros colonizadores. Nós nos tornamos Espaciais, de   vida e saúde longas, temos robôs que são infinitamente mais versáteis e flexíveis que os disponíveis aos seres humanos que originalmente colonizaram nossos mundos.

      Os tempos e significado são totalmente diferentes... e hoje só a exploração robótica é realizável.

      - Suponhamos que a senhora tenha razão e o Dr. Fastolfe esteja errado. Mesmo assim, ele tem um ponto de vista lógico. Por que ele e o Instituto não se aceitam? Simplesmente   porque estão em desacordo nesse ponto?

      - Não, o desacordo é comparativamente menor. Há um conflito mais fundamental.

      Baley fez uma nova pausa e outra vez ela nada acrescentou ao comentário. O detetive não a sentiu longe de mostrar irritação e por isso, calmamente, quase tateando,   prosseguiu:

      - Qual o conflito mais fundamental?

      O divertimento na voz de Vasilia por pouco veio à tona. Suas feições suavizaram-se um pouco e durante um momento ela se pareceu mais com Gladia.

      - Acho que não adivinharia sem que lhe fosse explicado.

      - É justamente por isso que estou perguntando, Dra. Vasilia.

      - Muito bem, terráqueo, disseram-me que os terráqueos têm vida curta. Não fui enganada, não é?

      Baley encolheu os ombros:

      - Alguns de nós chegam a cem anos, tempo da Terra. - Pensou um pouco. - Talvez uns cento e trinta anos métricos mais ou menos.

      - E que idade tem o senhor?

      - Quarenta e cinco pela medida padrão, sessenta pela métrica.

      - Eu tenho sessenta e seis, pela métrica. Pretendo viver três séculos métricos no máximo... se tiver cuidado.

      Baley abriu os braços.

      - Meus parabéns.

      - Há desvantagens.

      - Disseram-me esta manhã que em três ou quatro séculos há o risco de serem acumuladas muitas perdas.

      - Temo que sim - replicou Vasilia. - E também muitas possibilidades de ganho. No todo, equilibra.

      - Quais são então as desvantagens?

      - O senhor não é cientista, claro.

      - Sou um cidadão... um policial, se preferir.

      - Mas talvez conheça cientistas em seu mundo.

      - Conheci alguns - disse Baley, com cautela.

      - Sabe como trabalham? Fomos informados de que na Terra eles cooperam sem necessidade. Que eles têm no máximo meio século de trabalho ativo no decorrer de suas curtas vidas. Menos de sete décadas métricas. Não se pode fazer muito nesse curto espaço.

      - Alguns dos nossos cientistas realizaram um grande trabalho em muito menos tempo.

      - Porque se valeram das descobertas de outros anteriores a eles e se beneficiaram das descobertas de outros contemporâneos, não é?

      - Claro. Temos uma comunidade científica para a qual todos contribuem no desenrolar do espaço e do tempo.

      - Exatamente. De outro modo não daria certo. Cada cientista, cônscio da improbabilidade de conseguir muito sozinho, é levado a se integrar na comunidade, não podendo evitá-lo. O progresso torna-se então muito mais do que seria se isso não existisse.

      - E não é assim também em Aurora e nos outros mundos Espaciais? - perguntou Baley.

      - Teoricamente, é, na prática, nem tanto. As pressões numa  sociedade de vida longa são menores. Os cientistas têm três ou três e meio séculos para se dedicarem a um problema, de maneira que existe a idéia de que um progresso  significativo pode nascer, nesse tempo, de um trabalhador solitário. Torna-se possível sentir-se uma espécie de avareza intelectual: querer realizar uma coisa sozinho,   assumir-lhe a propriedade como uma faceta particular de progresso, propenso a ver diminuído o progresso geral, em vez de desistir do conceito de ser só seu. E o  avanço geral é diminuído nos mundos Espaciais, como conseqüência, a ponto de lhes ser difícil superar o trabalho feito na Terra, apesar de nossas enormes vantagens.

      - Presumo que não diria isso se eu não soubesse que o Dr. Han Fastolfe age dessa maneira.

      - Ele certamente age assim. Foi sua análise teórica do cérebro positrônico que tornou o robô humaniforme possível. Usou-a para construir, com a ajuda do falecido   Dr. Sarton, seu amigo robô Daneel, porém não divulgou os detalhes importantes de sua teoria, nem deixou-a ao alcance de mais ninguém. Dessa forma, ele, e só ele,   tem o domínio da produção de robôs humaniformes.

      Baley franziu a testa.

      - E o Instituto de Robótica dedica-se à cooperação entre cientistas?

      - Exatamente. O Instituto foi construído sobre mais de uma centena de roboticistas famosos de idades, progressos e capacidades diversos, e esperamos instalar ramificações   em outros mundos, tornando-o uma associação interestelar. Nós todos nos dedicamos a comunicar nossas descobertas ou especulações individuais voluntariamente a um   fundo comum pelo bem de todos, o que vocês, terráqueos, fazem porque suas vidas são muito curtas.

      "Isso, no entanto, o Dr. Han Fastolfe não faz. Tenho certeza de que o senhor pensa ser o Dr. Han Fastolfe um nobre idealista auroreano patriótico, mas ele não coloca   sua propriedade intelectual, como a considera, no fundo comum e por isso não nos quer. E como assume uma atitude de propriedade individual sobre as descobertas científicas,   não o queremos. Suponho que agora não mais considerará o mútuo antagonismo como mistério.”

      Baley balançou a cabeça e perguntou:

      - A senhora acha que vai adiantar... essa desistência voluntária da glória pessoal?

      - É preciso - replicou Vasilia, sombria.

      - E o Instituto, pelo esforço conjunto, duplicou o trabalho  individual do Dr. Fastolfe e redescobriu a teoria do cérebro positrônico humaniforme?

      - Conseguiremos, com o tempo. É inevitável.

      - E não estão fazendo uma tentativa de abreviar o tempo necessário, persuadindo o Dr. Fastolfe a revelar o segredo?

      - Acho que estamos a caminho de persuadi-lo.

      - Por intermédio do escândalo Jander?

      - Não acho que o senhor precise fazer essa pergunta... Bem disse-lhe tudo o que o senhor desejava, terráqueo?

      - Contou-me algumas coisas que eu não sabia - confessou Baley.

      - Então está na hora de me falar sobre Gremionis. Por que ligou o nome desse barbeiro a mim?

      - Barbeiro?

      - Ele se considera cabeleireiro de classe, entre outras coisas, porém é barbeiro, pura e simplesmente. Fale-me sobre ele... ou vamos considerar a entrevista terminada.

      Baley sentiu-se fatigado. Pareceu-lhe claro que Vasilia havia gostado do duelo. Ela lhe deu o bastante para aguçar seu apetite e ele agora iria ser forçado a comprar   material suplementar, fornecendo-lhe informações. E não tinha nenhuma. Ou, pelo menos, só tinha palpites E se nenhum deles estava errado, vitalmente errado, ele  estava acabado.

      Por essa razão, fez algumas esquivas.

      - A senhora compreende, Dra. Vasilia, que não pode se livrar fingindo que é uma farsa supor que há uma ligação da senhora com Gremionis.

      - Por que não, onde está a farsa?

      - Ah, não. Se fosse farsa, a senhora teria rido na minha cara e desligado o contato tridimensional. O simples fato de ter a senhora concordado em abandonar sua posição   anterior e me receber, o simples fato de a senhora ter falado comigo durante esse tempo e me ter  dito muitas coisas, é uma confissão clara de que a senhora sente  que eu possivelmente estou com a faca no seu pescoço.

      Os músculos do maxilar de Vasilia contraíram-se e ela rebateu, em voz baixa e irada:

      - Olhe aqui, homenzinho da Terra, minha posição é vulnerável e você provavelmente sabe disso.  Sou filha do Dr. Fastolfe e há alguns aqui no Instituto que são bastante   idiotas, ou bastante patifes, para desconfiar de mim por isso. Não sei que espécie de coisa o  senhor possa ter ouvido ou inventado, porém que é mais ou menos uma farsa, não há dúvida. Não obstante, por mais ridícula que seja, pode ser usada eficientemente  contra mim. Por isso estou disposta a um acordo. Contei-lhe algumas coisas e posso dizer-lhe mais, porém só se me revelar o que tem nas mãos e me convencer de que   está falando a verdade. Agora comece.

      - Se tentar me pregar peças, não ficarei em pior posição que agora se o expulsar... e terei pelo menos o prazer de fazer isso. E usarei o prestígio que tiver com o Presidente para que ele cancele a decisão de ter-lhe permitido vir aqui e o mande de volta à Terra. Há uma enorme pressão contra ele agora para fazer isso e o senhor não vai querer que eu junte meu esforço aos deles.

      "Portanto fale! Já!"

      O impulso de Baley foi atingir o ponto crucial, tateando para ver se tinha razão. Mas sentiu que não adiantaria. Ela perceberia o que ele estava fazendo – Vasilia não era boba - e o impediria. Ele estava na trilha de alguma coisa, sabia, e não queria estragar. O que a moça dissera sobre sua posição vulnerável como resultado de sua relação com o pai podia ser verdade, porém ela não teria ficado apavorada ao vê-lo se não tivesse desconfiado que a noção que ele tinha não era completamente ridícula.

      Precisava, portanto, surgir com alguma coisa importante, capaz de estabelecer imediatamente uma espécie de domínio sobre ela. Dessa forma... ao jogo.

      - Santirix Gremionis - disse Baley - se ofereceu a você. - E antes que Vasilia pudesse reagir, aumentou a parada, dizendo, com um toque de aspereza: - E não uma vez, mas várias.

      Vasilia crispou os dedos no joelho, levantando-se e sentando-se no banco como que para se acomodar melhor. Olhou para Giskard, que continuou imóvel e inexpressivo ao seu lado.

      Depois, virou-se para Baley e disse:

      - Bem, aquele idiota se oferece a todos, sem olhar idade e sexo. Seria de espantar que não me desse atenção.

      Baley fez o gesto de afastar aquilo (Ela não riu. Não terminou a entrevista. Nem mesmo deu uma demonstração de fúria. Estava esperando  para ver que conclusão ele tiraria da declaração, pois tinha agarrado alguma coisa pelo rabo).

      - Isso é exagero, Dra. Vasilia - disse Baley.  - Contudo ninguém, por mais indiscriminado que fosse, deixaria de escolher e no caso desse Gremionis, a senhora foi   escolhida, e apesar de sua recusa a aceitá-lo, ele continuou a se oferecer, contrariando o costume auroreano.

      - Estou contente por ter o senhor sabido que o recusei. Há quem ache que por uma questão de cortesia deve aceitar qualquer oferecimento, ou quase todo oferecimento,   mas essa não é a minha opinião. Não sei por que deva submeter-me a uma coisa desinteressante que só vai desperdiçar meu tempo. Tem alguma objeção a isso, terráqueo?

      - Nada tenho a dizer, favorável ou não. sobre os costumes auroreanos.

      (Ela estava esperando, prestando atenção a ele. Esperando o quê? Seria pelo que ele queria dizer, mas não tinha certeza de que ousasse?)

      A moça falou, esforçando-se para parecer divertida:

      - O senhor tem alguma coisa a oferecer... ou já terminamos?

      - Ainda não - replicou Baley, forçado agora a fazer outro jogo. - A senhora reconheceu essa perseverança não-auroreana em Gremionis e ocorreu-lhe que poderia tirar   partido dela.

      - De fato? Que loucura! Que partido eu poderia tirar?

      - Uma vez que ele estava fortemente atraído pela senhora, não seria difícil conseguir que ele fosse atraído por outra que se parecesse muito com a senhora. Incitou-o   a isso. talvez lhe prometendo aceitá-lo se a outra não o fizesse.

      - Quem é essa pobre mulher que se parece tanto comigo?

      - A senhora não sabe? Ora, vamos, Dra. Vasilia, deixe de ingenuidade. Estou me referindo à solariana Gladia, colocada pelo Dr. Fastolfe sob sua proteção exatamente   porque se parece com a senhora. Não ficou surpresa quando me referi a isso, no início da nossa conversa. Agora é muito tarde para fingir ignorância.

      Vasilia olhou-o severamente.

      - E do interesse dele por essa mulher o senhor deduziu que primeiro ficou interessado em mim? Foi por causa dessa suposição absurda que se aproximou de mim?

      - Não é inteiramente uma suposição absurda. Há outros fatores substanciais. Nega tudo isso?

      Vasilia passou a mão pensativamente sobre a mesa comprida ao seu lado e Baley imaginou que detalhes conteriam as folhas de papel nela. Pôde distinguir, a distância,  fórmulas complexas que lhe eram totalmente desconhecidas, por mais que as examinasse cuidadosamente.

      - Estou ficando cansada - disse Vasilia. - O senhor me disse que Gremionis esteve interessado primeiro em mim e depois na solariana que se parece comigo. E agora   quer que eu negue isso. Por que devo me dar ao trabalho de negar? Ou que importância tem? Mesmo que fosse verdade, como isso poderia me incomodar, afinal? Está dizendo   que fiquei aborrecida pelas atenções que não pedi e que habilidosamente desviei. E daí?

      - Não é tanto o que fez, mas por que fez - replicou Baley. - A senhora sabia que Gremionis era um tipo persistente. Ofereceu-se à senhora insistentemente e iria fazer a mesma coisa com Gladia.

      - Se ela o recusasse.

      - Gladia é solariana, com problemas sexuais, e recusou todos, coisa que, ouso dizer, a senhora sabia e por isso imagino que em virtude do seu estremecimento com seu pa... Dr. Fastolfe, tinha bastante sensibilidade para ficar de olho num substituto para ele.

      - Então é um ponto para ela. Se recusou Gremionis, revelou bom gosto.

      - Sabe que não há "se" nisso. A senhora sabia que recusaria.

      - Mesmo assim... e daí?

      - Oferecimentos insistentes a ela teriam significado que Gremionis freqüentava a casa de Gladia, que queria se ligar a ela.

      - Pela última vez. E daí?

      - E na casa dela existia um objeto muito incomum, um dos dois robôs humaniformes existentes, Jander Panell.

      Vasilia hesitou, mas depois perguntou:

      - Até onde quer chegar?

      - Acho que a senhora notou que se o robô humaniforme, de alguma forma, fosse morto em circunstâncias que implicassem o Dr. Fastolfe, isso poderia ser usado como uma arma para forçá-lo a revelar o segredo do cérebro positrônico humaniforme. Gremionis, aborrecido com a constante recusa de Gladia a aceitá-lo e dada a oportunidade de sua presença na casa dela, pôde ser induzido a executar uma brutal vingança, matando o robô.

      Vasilia piscou rapidamente.

      - Aquele pobre barbeiro poderia ter um monte de razões e  outras tantas oportunidades e não iria adiantar. Ele não saberia como mandar um robô dar um aperto de mão com eficiência.

      Como faria ele para, num ano-luz, impor um congelamento mental a um robô?

      - O que nos leva agora finalmente ao ponto - replicou Baley suavemente - um ponto que eu acho ter a senhora previsto, pois evitou despedir-me porque precisava ter  certeza se eu tinha esse ponto na cabeça ou não. O que quero dizer é que Gremionis fez o trabalho, com a ajuda deste Instituto de Robótica, agindo por seu intermédio.

     

Ainda Vasilia

      Foi como se um drama de hiperonda tivesse feito uma parada numa imobilidade holográfica.  Nenhum dos robôs se mexeu, claro, nem também Baley e a Dra. Vasilia Aliena. Longos segundos - anormalmente longos - passaram antes que Vasilia soltasse a respiração  e, bem devagar, ficasse  em pé.

      Seu rosto se contraiu num sorriso sem humor e falou em voz baixa.

      - O senhor está afirmando, terráqueo, que eu sou um acessório na destruição do robô humaniforme?

      - Foi mais ou menos isso o que me ocorreu, Doutora – disse Baley.

      - Obrigada pelo pensamento. A entrevista está terminada e o senhor pode se retirar.

      Vasilia apontou a porta.

      - Acho que não quero - replicou Baley.

      - Não estou consultando seus desejos, terráqueo.

      - Mas deve, pois como pode me fazer sair contra minha vontade?

      - Tenho robôs que por determinação minha o farão retirar-se educada, mas firmemente, sem machucar nada a não ser sua auto-estima... se tiver uma.

      - A senhora só tem um robô aqui. Eu tenho dois que não deixarão isso acontecer.

      - Tenho vinte ao alcance da voz.

      - Dra. Vasilia, compreenda, por favor! A senhora ficou surpresa ao ver Daneel. Desconfio que apesar de trabalhar no Instituto de Robótica, onde os robôs humaniformes  são prioritários, nunca viu realmente um completo e funcionando. Seus robôs, conseqüentemente, também não viram. Veja agora Daneel. Ele parece humano. Parece mais  humano que qualquer outro já existente, com exceção do falecido Jander. Para seus robôs, ele certamente parece humano. Ele saberá como dar uma ordem de maneira a   que eles lhe obedeçam, de preferência, talvez, à senhora.

      - Posso se necessário chamar vinte humanos do Instituto, que o expulsarão, talvez um pouco machucado, e seus robôs, mesmo Daneel, não conseguirão agir eficientemente.

      - Como pretende chamá-los, já que meus robôs não lhe permitirão mover-se? Eles têm reflexos extraordinariamente rápidos.

      Vasilia repuxou os lábios de uma forma que não podia ser considerada como um sorriso.

      - Sobre Daneel, nada posso dizer, mas conheci Giskard quase minha vida inteira. Não creio que ele faça alguma coisa para me impedir de solicitar ajuda e acho que   fará com que Daneel também não interfira.

      Baley procurou evitar que sua voz tremesse, como se patinasse em gelo cada vez mais delgado... e sabia disso. Falou:

      - Antes que faça alguma coisa, talvez a senhora possa perguntar a Giskard como ele agirá se lhe der ordens que entrem em conflito com as minhas.

      - Giskard? - perguntou Vasilia, com ar de absoluta confiança.

      Giskard fixou o olhar em Vasilia e retrucou, com um estranho tom de voz:

      - Mocinha, sou obrigado a proteger o Sr. Baley. Ele tem prioridade.

      - De fato? Por ordem de quem? Deste terráqueo? Deste estrangeiro?

      - Por ordem do Dr. Han Fastolfe - respondeu o robô.

      Os olhos de Vasilia relampejaram e a moça tornou a sentar-se, devagar, no banco. As mãos, pousadas no colo, tremiam e ela disse, com os lábios quase fechados:

      - Ele também pode levar você.

      - Se isso não basta, Dra. Vasilia - interveio Daneel subitamente,  por vontade própria - eu também porei o bem-estar do Colega Elijah acima do seu.

      Vasilia examinou Daneel com curiosidade amarga.

      - Colega Elijah? É assim que o chama?

      - É, Dra. Vasilia. Minha escolha decorre não apenas das instruções do Dr. Fastolfe, mas também porque ele e eu somos colegas nesta investigação e porque... - Daneel   fez uma pausa como que confuso pelo que ia dizer, mas depois, apesar disso, completou: - somos amigos.

      - Amigos? - repetiu Vasilia. - Um terráqueo e um robô humaniforme? É um belo par. Nenhum dos dois é humano.

      Baley disse, rispidamente:

      - Apesar disso, unidos pela amizade. Para seu próprio bem, não experimente a força da nossa... - Agora foi sua vez de se interromper e, para sua surpresa, completou   a frase que parecia impossível: - ... amizade.

      Vasilia virou-se para Baley.

      - Que deseja?

      - Informações. Fui chamado a Aurora, este Mundo do Amanhecer, para solucionar um fato que não parece ter uma explicação simples, do qual o Dr. Fastolfe é falsamente acusado, com a possibilidade, além disso, de conseqüências terríveis para seu mundo e o meu. Daneel e Giskard compreendem bem essa situação e sabem que só a Primeira Lei, imediatamente e em toda a sua plenitude, pode ter precedência aos meus esforços para resolver o mistério. Como eles ouviram o que eu disse e sabem que a senhora poderá ser, possivelmente, um acessório do crime, compreendem que não devem permitir que esta entrevista termine. Assim sendo, torno a dizer, não se arrisque a ações que eles possam executar se a senhora se recusar a responder minhas perguntas. Acusei-a de ser um acessório no assassinato de Jander Panell. Nega ou não essa acusação?

      Precisa responder.

      Vasilia disse amargamente:

      - Vou responder. Nunca tive medo! Assassinato? Um robô é posto fora de ação e isso é assassinato? Bem, nego, seja assassinato ou o que for! Nego com todas as minhas forças. Não forneci a Gremionis informações sobre robótica, com a finalidade de permitir-lhe dar um fim a Jander. Não conheço bastante para isso e desconfio que alguém no Instituto conheça.

      - Não sei dizer se a senhora possui conhecimentos suficientes  para ter ajudado a cometer o crime ou se alguém no Instituto tem. Podemos contudo discutir o motivo. Primeiro, a senhora pode ter um sentimento de ternura por esse Gremionis. Todavia, por mais que a senhora possa rejeitar seus oferecimentos, por mais desprezível possa achá-lo como um possível amante, seria muito estranho que  a senhora se sentisse envaidecida por sua persistência, a ponto de desejar ajudá-lo se ele lhe implorasse sem as exigências sexuais com que a aborrecia?

      - Está dizendo que ele poderia ter vindo me procurar e pedisse: "Vasilia, querida. Preciso liquidar um robô. Por favor me diga como fazê-lo e lhe ficarei gratíssimo."

      E eu responderia: "Ora, claro, querido, eu adoraria ajudá-lo a cometer um crime"... Ridículo! Só um terráqueo, ignorante dos nossos costumes, pode acreditar que uma coisa dessas possa acontecer. E precisaria ser um terráqueo especialmente burro.

      - Talvez, porém devemos examinar todas as possibilidades. Por exemplo, como uma segunda possibilidade, a senhora não poderia estar ciumenta pelo fato de Gremionis ter transferido seu afeto e por isso o tenha ajudado sem considerar uma ternura abstrata, mas com um desejo bem concreto de tê-lo de volta?

      - Ciumenta? É uma emoção da Terra. Se não quero Gremionis para mim, por que devo me preocupar se ele se oferece a outra mulher e ela o aceita ou, também, se outra mulher se oferece e ele a aceita?

      - Já me disseram que o ciúme sexual não existe em Aurora e estou pronto a admitir que é verdade teoricamente, mas que essas teorias raramente se mantêm na prática.

      Certamente, há exceções. Mais ainda, o ciúme é freqüentemente um sentimento irracional e não pode ser eliminado com a simples lógica. Mas deixemos isso de lado por agora. Como terceira possibilidade   a senhora pode ter ciúmes de Gladia e desejar prejudicá-la, mesmo que não se preocupe nem um pouco com Gremionis.

      - Ciúme de Gladia? Nunca a vi, exceto uma vez na hiperonda, quando ela chegou a Aurora. O fato de a terem achado parecida comigo de vez em quando nunca me preocupou.

      - Talvez a preocupasse que ela ficasse aos cuidados do Dr. Fastolfe, sua predileta, quase a filha que a senhora foi anteriormente? Ela a substituiu.

      - Ela é bem-vinda por isso. Nada me preocuparia menos.

      - Mesmo se fossem amantes?

      Vasilia encarou Baley com fúria crescente e gotas de suor começaram a surgir na raiz dos seus cabelos.

      - Não precisamos discutir isso - replicou. - O senhor pediu-me que negasse a alegação do que eu tinha sido o acessório do que chamou de assassinato e eu neguei.

      Disse-lhe  que me faltava a capacidade e o motivo. Agradecerei se apresentar seu caso a toda Aurora. Exiba suas bobas tentativas de me fornecer um motivo. Mantenha, se desejar,  que eu tenho capacidade para isso. O senhor não vai chegar a lugar nenhum. Absolutamente nenhum.

      E apesar dela estar tremendo de raiva, Baley achou que havia convicção na voz da moça.

      Vasilia não temia a acusação.

      Concordara em vê-lo e por isso ele estava nas pegadas de alguma coisa que ela temia... talvez desesperadamente.

      Porém ela não temia aquilo.

      Onde então tinha ele errado?

      Baley falou, perturbado, procurando uma saída:

      - Suponhamos que eu aceite sua afirmação, Dra. Vasilia. Suponhamos que eu concorde que a minha desconfiança de que a senhora tenha sido um acessório naquele... roboticídio...  esteja errada. Isso não significa que seja impossível a senhora me ajudar.

      - E por que deveria?

      - Por dignidade humana - replicou Baley. - O Dr. Han Fastolfe garante que não foi ele, que não é um roboticida, que não colocou o tal robô Jander fora de ação. A  senhora conheceu o Dr. Fastolfe melhor que ninguém, supõe-se. Passou anos numa relação íntima com ele como filha querida, do nascimento à puberdade. Viu-o em horas  e condições que ninguém mais viu. Quaisquer que sejam seus sentimentos atuais a seu respeito, o passado não é modificado por eles. Conhecendo-o como o conhece, a  senhora deve ser capaz de testemunhar que seu caráter não lhe permite destruir um robô, principalmente aquele que é um dos seus grandes sucessos. Irá prestar esse  depoimento francamente? Diante de todos os mundos? Seria uma grande ajuda.

      O rosto de Vasilia endureceu.

      - Compreenda-me - disse, pronunciando as palavras destacadamente. - Não quero ser envolvida.

      - A senhora precisa ser.

      - Por quê?

      - Não deve nada a seu pai? Ele é seu pai. Mesmo que a palavra nada lhe signifique, há uma ligação biológica. E além disso, pai ou não, ele cuidou da senhora, alimentou-a e sustentou-a durante anos. Deve-lhe alguma coisa por isso.

      Vasilia estremeceu. Era visível e seus dentes chocaram-se. Tentou falar, não conseguiu, respirou fundo duas vezes e tornou a tentar. Finalmente, disse:

      - Giskard, está ouvindo isto? Giskard inclinou a cabeça.

      - Sim, Mocinha.

      - E você, humaniforme... Daneel?

      - Estou, Dra. Vasilia.

      - Também ouviu tudo?

      - Sim, Dra. Vasilia.

      - Ambos compreendem que o terráqueo insiste para que eu dê prova do caráter do Dr. Fastolfe?

      Os dois balançaram a cabeça.

      - Então falarei... contra minha vontade e meu ódio. Isso porque senti que devo a esse meu pai um mínimo de consideração como meu gerador e educador, que anteriormente  me impediu de testemunhar. Mas agora quero. Ouça-me, terráqueo. O Dr. Han Fastolfe, de cujos genes partilho, não cuidou de mim... mim... mim como um ser humano separado,  distante. Não passei de uma experiência, de um fenômeno em observação.  Baley sacudiu a cabeça.

      - Não foi isso o que perguntei. Ela virou-se, furiosa, para ele.

      - O senhor insistiu para que eu falasse e eu Vou falar... e essa será a resposta: o Dr. Fastolfe se interessava por uma coisa. Uma coisa. Só uma coisa. O funcionamento  do cérebro humano. Desejava reduzi-lo a equações, a um diagrama, a um quebra-cabeça resolvido e assim criar uma ciência matemática do comportamento humano, que lhe  permitisse prever o futuro do homem. Chamou-a "psicohistória". Duvido que o senhor tenha conversado com ele por uma hora sem que isso fosse mencionado. É a sua monomania.

      Vasilia examinou o rosto de Baley e gritou, numa alegria feroz)

      - Eu sabia! Falou-lhe dela. Então deve ter-lhe dito que está interessado em robôs até que eles possam levá-lo ao cérebro humano. Ele está interessado em robôs humaniformes  até que estes possam levá-lo ainda mais perto do cérebro humano... Sim, ele também lhe disse isso.

      "A teoria básica que tornou os robôs humaniformes possíveis surgiu, tenho a certeza, da sua tentativa de compreender o cérebro humano e ele se agarra a ela, não  permitindo que ninguém mais a veja porque deseja resolver inteiramente o problema do cérebro humano sozinho nos dois séculos, mais ou menos, que lhe restam. Tudo  está subordinado a isso. O que certamente me inclui.”

      Baley, tentando enfrentar o fluxo de ódio, perguntou em voz baixa:

      - De que maneira isso a inclui, Dra. Vasilia?

      - Quando eu nasci, deveria ter sido colocada com outros iguais a mim nas mãos de profissionais que soubessem cuidar de crianças. Não devia ter sido posta aos cuidados  de um amador, pai ou não, cientista ou não, não deviam ter permitido ao Dr. Fastolfe sujeitar uma criança àquele ambiente, se fosse alguém que não Han Fastolfe.

      Ele usou todo o seu prestígio para conseguir, convocou cada devedor, persuadiu cada pessoa-chave que pôde, até obter o controle sobre mim.

      - Ele a amava - murmurou Baley.

      - Me amava? Qualquer outra criança daria no mesmo, porém não havia outra disponível. O que ele queria era a presença de uma criança em crescimento, um cérebro em  desenvolvimento. Queria fazer um estudo acurado do seu método de desenvolvimento, de como crescia. Precisava de um cérebro humano ainda primitivo, crescendo complexo,  para poder examiná-lo detalhadamente. com essa finalidade, submeteu-me a um ambiente anormal para experiências sutis, sem nenhuma consideração por mim como ser humano.

      - Não posso acreditar. Mesmo que ele estivesse interessado em você como objeto de experiência, ainda assim podia preocupar-se com você como ser humano.

      - Não. Você fala como terráqueo. Talvez na Terra haja uma espécie de cuidado com as ligações biológicas. Aqui não há. Eu fui para ele objeto de experiência. Ponto final.

      - Mesmo que assim fosse no começo, o Dr. Fastolfe não podia deixar de amá-la: alguém desamparado entregue aos cuidados dele.

      Mesmo que não houvesse nenhuma ligação biológica, mesmo que a senhora fosse um animal, digamos, ele acabaria por amá-la.

      - Ah, o senhor acha? - perguntou, em tom amargo. - O senhor não conhece a força da indiferença em alguém como o Dr. Fastolfe. Se para melhorar seus conhecimentos precisasse eliminar minha vida, ele o faria sem a menor hesitação.

      - Isso é ridículo, Dra. Vasilia. O tratamento que lhe deu foi tão bondoso e atencioso, que lembrava amor. Sei disso. A senhora... a senhora se ofereceu a ele.

      - Ele lhe disse isso, não é? Sim, disse. Nunca, mesmo atualmente, ele parou para pensar se essa revelação poderia me embaraçar... Sim, ofereci-me a ele e por que não? Ele era apenas o único ser humano que eu realmente conhecia. Era só superficialmente gentil comigo e eu não compreendia seus verdadeiros objetivos. Foi um alvo natural para mim. Depois, também, ele tratou de me introduzir na estimulação sexual, sob condições controladas: os controles que ele instalou. Foi inevitável que eu finalmente me virasse para ele. Fui obrigada, pois não havia mais ninguém... e ele recusou.

      - E odiou-o por isso?

      - Não. No começo, não. Não durante anos. Apesar do meu desenvolvimento sexual ter sido reprimido e distorcido, cujos efeitos sinto até hoje, não o culpei. Eu não sabia o suficiente. Arranjei desculpas para ele. Estava ocupado. Tinha outras. Precisava de uma mulher mais velha. O senhor ficaria espantado com a minha inventividade para descobrir motivos para sua recusa. Só anos depois percebi que havia alguma coisa errada e tratei de descobri-la, de encará-la. "Por que ele me recusa?", perguntei.

      "Me forçando poderia ter-me posto no caminho certo, resolveria tudo."

      Vasilia fez uma pausa, engolindo, e cobriu os olhos com as mãos por um instante. Baley esperou, imóvel por causa do embaraço. Os robôs mantinham-se inexpressivos (incapazes, até onde Baley podia saber, de experimentar qualquer modificação nos dispositivos positrônicos que deveriam produzir uma sensação que se parecesse com o embaraço humano).

      Ela prosseguiu, mais calma:

      - Ele evitou a pergunta o mais que pôde, mas fui cada vez mais insistente. "Por que me recusa?". "Por que me recusa?". Ele não hesitava em fazer sexo. Vi em várias ocasiões... Lembro-me de ter imaginado se ele preferia homens. Quando não há crianças em causa, as preferências pessoais em casos assim não tinham a menor importância e alguns homens podiam ter nojo de mulheres e vice-versa. Não foi assim com esse homem que chama de meu pai. Ele gostava de mulheres, às vezes garotas, tão jovens como eu era quando me ofereci pela primeira vez. "Por que me recusava?". Finalmente respondeu-me... e duvido que saiba qual foi a resposta.

      A moça parou e esperou, com ar irônico.

      Baley mexeu-se, inquieto, e falou, num resmungo:

      - Ele não quis ter relações sexuais com a filha?

      - Ah, não seja bobo. Que diferença isso faz? Levando em conta que em Aurora raramente um homem sabe quem é sua filha, qualquer um que faça amor com qualquer mulher alguns decênios mais moça pode ser... Mas esqueça, é evidente. O que ele respondeu... ah, como lembro as palavras... foi: "Sua idiota! Se eu me meter com você dessa maneira, como posso manter minha objetividade... e de que me adiantaria continuar a estudá-la?."

      "Nessa época, veja bem, eu sabia o interesse dele pelo cérebro humano. Comecei mesmo a seguir seus passos e por minha vez, estava me tornando roboticista. Trabalhei nesse sentido com Giskard e fiz experiências com a programação dele. Trabalhei muito bem, não foi, Giskard?”

      - Foi, sim, Mocinha - replicou o robô.

      - Mas pude constatar que aquele homem a quem o senhor chama de meu pai não me considerava um ser humano. Ele estava querendo me ver deformada para sempre, em vez  de arriscar sua objetividade. Suas observações lhe significavam mais que minha normalidade. A partir daí, soube quem ele era, quem eu era... e abandonei-o.

      O silêncio pairou, pesado, no ar.

      A cabeça de Baley latejava levemente. Ele queria perguntar: a senhora não pode levar em conta o egocentrismo de um grande cientista? A importância de um grande problema?

      Não poderia desculpar uma coisa dita talvez com irritação ao ser forçado a discutir o que não queria? A própria ira de Vasilia não era agora do mesmo tipo? A concentração  de Vasilia em sua própria "normalidade" (o que quer que isso significasse para ela), excluindo talvez os dois problemas mais importantes com que se defrontava a  humanidade - a natureza do cérebro humano e a colonização da Galáxia - não significava um egocentrismo muito menos desculpável?

      Porém não podia fazer nenhuma dessas perguntas. Não sabia  como, de modo a dar-lhes um senso real para aquela mulher, nem tinha a certeza de que iria compreendê-la, se ela respondesse.

      Que estava ele fazendo naquele mundo? Não podia compreender-lhe os objetivos, qualquer que fosse a explicação. Nem eles poderiam compreender os seus.

      Cansado, Baley disse:

      - Lamento, Dra. Vasilia. Sei que está zangada, mas se puder conter um pouco sua raiva e levar em conta, em lugar dela, o caso do Dr. Fastolfe e do robô assassinado,  não poderia a senhora ver que estamos lidando com duas coisas diferentes? O Dr. Fastolfe pode ter querido examiná-la de uma forma objetiva e calma, mesmo à custa  da sua infelicidade, e ainda assim estar anos-luz afastado do desejo de destruir um robô humaniforme avançado.

      Vasilia ficou rubra.

      - O senhor não compreende o que estou lhe dizendo, terráqueo? - gritou. - Acha que falei aquilo tudo apenas porque penso que você ou outro qualquer esteja interessado na triste história da minha vida? Por falar nisso, supõe que me dá prazer me expor desta maneira?

      "Conto-lhe isto apenas para mostrar-lhe que o Dr. Han Fastolfe, meu pai biológico, como o senhor nunca se cansa de frisar, destruiu Jander. Claro que o fez. Tenho evitado dizer isso porque ninguém, a não ser o senhor, foi bastante idiota para me perguntar e por causa de um resquício de consideração que tenho por aquele homem.”

      Porém agora que me perguntou, digo, e por Aurora continuarei a dizer isso para quem quer que seja. Publicamente, se necessário.

      "O Dr. Han Fastolfe destruiu Jander Panell. Tenho certeza disso. Não lhe basta?"

      Baley olhou horrorizado para aquela mulher enlouquecida. Gaguejou e recomeçou:

      - Não consigo compreender, Dra. Vasilia. Por favor, acalme-se e raciocine. Por que deveria o Dr. Fastolfe destruir o robô? Que tem isso a ver com a forma como a tratou?

      Imagina ser uma espécie de represália contra a senhora?

      Vasilia estava ofegante (Baley notou, distraído e sem intenção consciente, que apesar de Vasilia ser menos encorpada que Gladia, seus seios eram maiores) e lutou para manter a voz controlada.

      - Já não lhe disse, terráqueo, que Han Fastolfe estava interessado em estudar o cérebro humano? Não hesitou em pô-lo sob tensão, visando a observar os resultados.

      E preferia cérebros fora do comum, os de uma criança, por exemplo, a fim de acompanhar seu desenvolvimento. Qualquer um, menos um comum.

      - Mas o que tem isso a ver com...

      - Então pergunte a si mesmo por que ele se interessou pela estrangeira.

      - Por Gladia? Perguntei-lhe e ele me disse. Ela o fazia lembrar-se da senhora, e a semelhança é de fato evidente.

      - E quando o senhor me disse isso antes, achei graça e perguntei-lhe se acreditava nele. Torno a perguntar. Acredita?

      - Por que não devo?

      - Porque não é verdade. A semelhança pode ter-lhe atraído a atenção, mas o motivo real do interesse é que a estrangeira é... estrangeira. Ela foi educada em Solaria, sob a hipótese e axiomas sociais diferentes dos de Aurora. Portanto, ele poderia examinar um cérebro diferente dos nossos, o que lhe daria uma interessante perspectiva.

      Não está compreendendo?... Falando nisso, por que ele está interessado no senhor, terráqueo? Ele é tão bobo que pense ser o senhor capaz de resolver um problema auroreano, quando o senhor nada sabe sobre Aurora?

      Daneel tornou a intervir repentinamente e Baley sobressaltou-se ao som da voz dele.

      - Dra. Vasilia - disse Daneel - o Colega Elijah solucionou um problema em Solaria, apesar de desconhecer completamente aquele planeta.

      - É verdade - replicou Vasilia, carrancuda.  - Todos os mundos viram isso naquele programa de hiperonda. E o raio pode cair, também, mas não acredito que Han Fastolfe ache que ele vai cair duas vezes no mesmo lugar. Não, terráqueo, o senhor o interessou, em primeiro lugar por ser da Terra. O senhor possui outro cérebro alienígena, que ele pode examinar e manipular.

      - Certamente, Dra. Vasilia, a senhora não acredita que ele arriscasse matérias de importância vital para Aurora e mandasse buscar alguém que sabia ser inútil, apenas para examinar um cérebro incomum.

      - Claro que ele faria. Não é esse o centro de tudo o que estou  lhe dizendo? Não há crise atingindo Aurora que ele acredite, mesmo por um instante, ser tão importante quanto resolver o problema do cérebro. Posso lhe dizer exatamente  o que ele responderá se lhe perguntar. Aurora pode erguer-se ou afundar, florescer ou apodrecer, e tudo isso será sem importância se comparado com o problema  do cérebro, pois se os humanos realmente compreenderem, tudo o que foi perdido no decorrer de um milênio de decisões descuradas ou erradas será recuperado num decênio  de desenvolvimento humano inteligentemente orientado pelo sonho dele de "psico-história". Ele usará o mesmo argumento para justificar qualquer coisa, mentiras, crueldade,  tudo, dizendo apenas que tudo foi tentado para servir ao objetivo de adiantar o conhecimento do cérebro.

      - Não posso imaginar que o Dr. Fastolfe seja cruel. É o mais gentil dos homens.

      - Acha? Quanto tempo passou com ele?

      - Poucas horas na Terra, há três anos - replicou Baley. - Um dia agora, aqui em Aurora.

      - Um dia inteiro. Um dia inteiro. Convivi quase que constantemente com ele durante trinta anos e a partir daí, acompanhei sua  carreira com atenção. E o senhor  esteve com ele um dia inteiro, terráqueo? Bem, nesse único dia ele nada fez que o amedrontasse ou  humilhasse?

      Baley ficou calado. Pensou no ataque súbito com o codimentador, do qual foi salvo por Daneel, do Pessoal e suas dificuldades, graças à sua natureza oculta, a longa  caminhada no Exterior, feita para testar sua capacidade de se adaptar ao ar livre.

      - Sei que ele fez - insistiu Vasilia. - Seu rosto, terráqueo, não é a máscara de disfarce que o senhor pensa que é. Ele o ameaçou com a Sonda Psíquica?

      - Ele a mencionou - disse Baley.

      - Um dia... e já a mencionou. Presumo que o tenha perturbado?

      - Sim.

      - E não havia motivo para mencioná-la?

      - Ah, havia, sim - respondeu Baley depressa. - Eu disse que tinha pensado numa coisa   e esquecido, o que propiciou a sugestão de que a Sonda Psíquica podia ser usada para recuperar o pensamento.

      - Não, não podia - afirmou Vasilia. - A Sonda Psíquica não    pode ser usada com bastante delicadeza para isso... e se fosse tentado,  as possibilidades seriam consideráveis de uma permanente avaria do cérebro.

      - Certamente não seria, se manejada por um especialista: pelo Dr. Fastolfe, por exemplo.

      - Por ele? Ele não tem o menor conhecimento da Sonda. Fastolfe é teórico e não técnico.

      - Então por outra pessoa. Na verdade, não se referiu a si mesmo.

      - Não, terráqueo. Por ninguém.  Pense! Pense! Se a Sonda Psíquica pudesse ser usada em seres humanos com segurança por qualquer um e se Han Fastolfe estivesse preocupado   com o problema da desativação do robô, então por que não sugeriu que a Sonda Psíquica fosse aplicada nele mesmo?

      - Nele mesmo?

      - Não me diga que isso não lhe ocorreu! Qualquer cabeça pensante chegaria à conclusão de que Fastolfe é culpado. O único ponto em favor de sua inocência é que ele   próprio insiste nela. Bem, por que então ele não se oferece para provar sua inocência, submetendo-se à sondagem psíquica, mostrando que nenhuma parcela de culpa   pode ser tirada dos recessos do seu cérebro? Ele sugeriu isso, terráqueo?

      - Não, não sugeriu. Pelo menos a mim.

      - Porque ele sabe com certeza que é perigosamente mortal. Mas não hesitou em sugerir no seu caso, apenas para observar como funciona seu cérebro sob pressão, como   o senhor reage ao medo. Ou talvez, lhe tenha ocorrido que, apesar do perigo que a Sonda é para o senhor, possa fornecer-Me alguns dados interessantes, até onde seu   cérebro terráqueo está envolvido. Diga-me então: isso não é crueldade?

      Baley afastou a idéia com um gesto firme do braço direito:

      - Como isso se aplica ao caso real: ao roboticídio?

      - A solariana atraiu a atenção do meu antigo pai. Tinha um cérebro interessante... para seus objetivos. Portanto, deu-lhe o robô, Jander, para ver o que acontecia se uma mulher, não educada em Aurora, lidasse com um robô de aparência humana em todos os detalhes. Ele sabia que uma auroreana teria imediatamente relações sexuais com ele, sem se perturbar com isso. Confesso que eu teria um problema porque não fui educada normalmente, mas nenhuma auroreana comum teria. A solariana, por outro   lado, ficaria muito Perturbada porque foi educada num mundo extremamente robotizado e tinha atitudes mentais rigidamente incomuns em relação aos robôs. A diferença, como vê, podia ser muito instrutiva para meu pai, que tentou com essas variações  construir sua teoria do funcionamento do cérebro. Han Fastolfe esperou meio ano até que a solariana chegasse a ponto de poder talvez começar a fazer os primeiros   movimentos de aproximação...

      - Seu pai nada sabia sobre as relações entre Gladia e Jander - interrompeu-a Baley.

      - Quem lhe disse isso, terráqueo? Meu pai? Gladia? Se ele naturalmente estava mentindo, ela provavelmente não sabia. Pode ter certeza de que Fastolfe sabia o que vinha acontecendo, tinha de saber, pois devia fazer parte do seu estudo de como um cérebro humano cedia sob as condições solarianas.

      "E depois pensou, e estou tão certa disto como se lesse os pensamentos dele. no que poderia acontecer agora, no ponto em que a mulher estivesse exatamente começando   a confiar em Jander, se subitamente, sem motivo, ela o perdesse. Ele sabia como uma auroreana reagiria. Sentiria desapontamento e depois procuraria um substituto,   porém que faria uma solariana? Portanto, deu um jeito para pôr Jander fora de ação...”

      - Destruir um robô tão valioso apenas para satisfazer uma curiosidade trivial?

      - É monstruoso, não? Mas foi o que Han Fastolfe decidiu fazer. Portanto, volte a ele, terráqueo, e diga-lhe que seu joguinho acabou. Se até agora o planeta em geral  não acreditou na culpa dele, vai certamente acreditar, depois do meu depoimento.

      Por um longo momento, Baley ficou aturdido, enquanto Vasilia o olhava com uma espécie de prazer sombrio, o rosto duro e completamente diferente do de Gladia.

      Nada havia a fazer...

      Baley levantou-se, sentindo-se velho... muito mais velho que seus 45 anos padrão (idade de criança para aqueles auroreanos). Até ali, tudo o que fizera não tinha levado a nada. Pior ainda, a cada um dos seus movimentos, as cordas pareciam apertar-se em torno de Fastolfe.

      Ergueu os olhos para o teto transparente. O sol estava bem alto, porém talvez já tivesse passado seu zênite, pois se apresentava muito pequeno, sendo obscurecido intermitentemente por nuvens esparsas. Vasilia percebeu o olhar  para cima. Moveu o braço para um lugar do grande banco perto do qual se sentara e a transparência do teto cessou. Ao mesmo tempo, uma luz brilhante inundou a sala,  com o mesmo tom levemente alaranjado do sol.

      - Acho que a entrevista acabou - disse ela. - Não tenho mais motivos para vê-lo novamente... ou o senhor a mim, terráqueo. Talvez seja melhor o senhor deixar Aurora.

      O senhor causou - sorriu sem alegria e disse as palavras seguintes quase brutalmente- bastante prejuízo a meu pai, embora menos do que ele merece.

      Baley caminhou para a porta e seus dois robôs juntaram-se a ele. Giskard perguntou, em voz baixa:

      - Sente-se bem, senhor?

      Baley encolheu os ombros. Que poderia responder?

      - Giskard! - gritou Vasilia. - Se o Dr. Fastolfe achar que não precisa mais de você, quer vir trabalhar comigo?

      Giskard olhou-a, com ar tranqüilo.

      - Se o Dr. Fastolfe permitir, virei. Mocinha. Ela sorriu, contente.

      - Venha, por favor, Giskard. Sinto sempre saudades de você.

      - Penso muito na senhora, Mocinha. Baley virou-se ao chegar à porta.

      - Dra. Vasilia, a senhora tem um Pessoal que eu possa usar? A moça arregalou os olhos.

      - Claro que não, terráqueo. Há pessoais comunitários aqui e ali no Instituto. Seus robôs poderão levá-lo.

      Baley olhou e sacudiu a cabeça. Não era de espantar que ela não quisesse que um terráqueo infeccionasse suas dependências, mas ainda assim ficou indignada. Com raiva, mais que num tom racional, Baley disse:

      - Dra. Vasilia, se eu fosse a senhora, não gostaria de falar na culpa do Dr. Fastolfe.

      - E o que me impede?

      - O perigo da descoberta de suas relações com Gremionis. O Perigo para a senhora.

      - Não seja ridículo. O senhor admitiu que não houve trama entre mim e Gremionis.

      - Na verdade, não. Concordei que parecia haver motivo para concluir não ter havido uma conspiração direta entre a senhora e  Gremionis para destruir Jander. Permanece a possibilidade de uma trama indireta.

      - O senhor está louco. O que é uma trama indireta?

      - Não desejo discutir isso diante dos robôs do Dr. Fastolfe... a menos que a senhora insista. E por que insistiria? A senhora sabe muito bem o que eu quero dizer.

      Não havia motivo para Baley pensar que ela aceitasse esse blefe. Ele simplesmente tornaria a situação ainda pior.

      Porém ela não aceitou. Franzindo a testa, Vasilia retraiu-se.

      Baley pensou: há, portanto, uma trama indireta, seja qual for, e isso a conterá até que descubra ser um blefe.

      Um pouco mais animado, Baley falou:

      - Repito, nada diga sobre o Dr. Fastolfe.

      Mas, claro, não tinha idéia de quanto tempo ganhou: talvez pouquíssimo.

      11 Gremionis

     

      Estavam de volta ao carro: os três na frente, com Baley mais uma vez no meio, sentindo a pressão em ambos os lados. Baley ficou-lhes grato pelo cuidado infatigável que tinham com ele, apesar de serem máquinas, incapazes de desobedecer ordens.

      E depois pensou: por que rejeitá-los com a palavra "máquinas"? São máquinas boas num universo de gente muitas vezes má. Não tenho o direito de preferir a subcategoria  máquinas versus gente a bons versus maus. E Daneel, pelo menos, para mim não é máquina.

      - Preciso tornar a perguntar-lhe, senhor: sente-se bem? - falou Giskard.

      Balançando a cabeça, Baley replicou:

      - Muito bem, Giskard. Muito contente por estar aqui fora com vocês.

      O céu se apresentava, em sua quase totalidade, branco: realmente branco. Soprava um suave vento fresco, perfeitamente sentido quando entraram no carro.

      - Colega Elijah - disse Daneel - prestei muita atenção à conversa entre você e a Dra. Vasilia. Não desejo fazer nenhum comentário desfavorável ao que ela disse,   porém preciso dizer-lhe que, segundo tenho observado, o Dr. Fastolfe é um ser humano generoso e educado. Ele jamais, que eu saiba, foi deliberadamente cruel, nem,   até onde posso julgar, sacrificou o bem-estar básico de um ser humano às necessidades da sua curiosidade.

      Baley examinou o rosto de Daneel, que lhe deu de certa maneira a impressão de grande sinceridade.

      - Você poderia - perguntou - dizer alguma coisa contra o Dr. Fastolfe, mesmo que ele de fato fosse cruel e imprudente?

      - Eu poderia ficar calado.

      - Mas você ficaria?

      - Se mentindo eu atingisse a Dra. Vasilia, lançando uma dúvida injustificável sobre sua veracidade, e se mantendo-me em silêncio prejudicasse o Dr. Fastolfe, dando   nova feição às acusações verdadeiras contra ele, e se ambos os dados fossem para mim iguais em intensidade, então eu teria necessidade de permanecer calado. Tudo   sendo eqüitativamente igual, o dano produzido por uma ação supera em geral o resultante da inação.

      - Então - replicou Baley - apesar da Primeira Lei estabelecer: "Um robô não pode causar dano a um ser humano ou, pela inação, permitir que um ser humano seja ferido",   as duas metades da lei não são iguais? Uma falta decorrente de ação, diz você, é maior que uma resultante de omissão.

      - O texto da lei é apenas uma descrição aproximada das constantes variações da força positronomotiva das circunvoluções do cérebro robótico, Colega Elijah. Não tenho  suficiente conhecimento para descrever o assunto matematicamente, porém conheço minhas tendências.

      - E elas são sempre escolher não fazer a fazer, se o dano for em geral igual em ambas as direções?

      - Em geral. E sempre escolher a verdade em vez da não-verdade, se o dano for semelhante em ambas as direções. Em geral, quero dizer.

      - E nesse caso, uma vez que você refuta a Dra. Vasilia, causando-lhe dano por isso, só o faz porque a Primeira Lei é suficientemente atenuada pelo fato de que você  está dizendo a verdade?

      - Exatamente, Colega Elijah.

      - Contudo, o fato é que você diria o que disse, apesar de ser mentira... desde que o Dr. Fastolfe o instruísse com a necessária intensidade para que dissesse aquela  mentira, quando necessário, e recusasse confessar que tinha sido instruído para isso.

      Houve um silêncio e depois Daneel replicou:

      - Exatamente, Colega Elijah.

      - É uma complicação danada, Daneel... mas ainda acredita que o Dr. Fastolfe não matou Jander Panell?

      - Minha experiência com ele diz que falou a verdade, Colega Elijah, e não iria causar dano ao amigo Jander.

      - No entanto, o próprio Dr. Fastolfe apresentou um motivo poderoso para isso, enquanto a Dra. Vasilia expôs uma razão totalmente diversa, uma que é exatamente tão   forte e mais infame que a primeira. - Baley refletiu por um instante. - Se o público tivesse conhecimento dos dois motivos, a crença da culpa do Dr. Fastolfe seria   universal.

      Virou-se subitamente para Giskard.

      - E você, Giskard? Você conhece o Dr. Fastolfe há mais tempo que Daneel. Concorda em que ele não podia ter cometido o crime e destruído Jander, baseado no que sabe  do caráter do Dr. Fastolfe?

      - Concordo, senhor.

      Baley examinou o robô, indeciso. Era menos avançado que Daneel. Até onde podia ser acreditado como uma testemunha confirmadora? Não pode