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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ROBÔS E O IMPÉRIO / Isaac Asimov
ROBÔS E O IMPÉRIO / Isaac Asimov

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ROBÔS E O IMPÉRIO

 

AURORA

O Descendente

      Gladia sentiu a espreguiçadeira para ter certeza de que não estava muito úmida e depois se sentou. Um toque no botão de comando ajustou-a de forma a lhe permitir ficar meio reclinada, enquanto outro ativava o campo diamagnético para dar-lhe, como de costume, a sensação de completo relaxamento. E por que não? Ela estava, na realidade, flutuando um centímetro acima do tecido.

      Era uma noite quente e agradável, o tipo de noite que fazia do planeta Aurora uma beleza, perfumada e estrelada.

      Com uma pontada de tristeza, ela examinou as numerosas e minúsculas centelhas que pontilhavam o céu com desenhos, fagulhas as mais brilhantes, porque ela dera ordem  para que as luzes de sua casa fossem diminuídas.

      Era curioso, ficou imaginando, que nunca tivesse aprendido os nomes das estrelas e, nas vinte e três décadas de sua vida, nunca tivesse descoberto qual era qual.

      Seu planeta natal, Solaria, orbitava em torno de uma delas, aquela na qual, nas primeiras três décadas de sua vida, tinha pensado simplesmente como "o sol".  Gladia havia sido chamada outrora Gladia Solaria. Fora quando chegara a Aurora, vinte décadas atrás - duzentos Anos Galácticos Padrões o Que significou uma forma não muito amistosa de determinar seu nascimento estrangeiro. Um mês antes tinha sido o aniversário do bicentenário de sua chegada, fato que ela não assinalou porque não tinha especial interesse em pensar naqueles dias. Antes disso, em Solaria, tinha sido Gladia... Delmarre.

      Mexeu-se, constrangida. Tinha quase esquecido seu sobrenome. Teria sido por haver decorrido tanto tempo? Ou apenas tinha se esforçado para esquecê-lo?

      Durante todos aqueles anos, nunca lamentara nem sentira saudades de Solaria.

      Mas e agora?

      Seria por que ela agora, repentinamente, tinha se descoberto uma sobrevivente de Solaria? Este havia desaparecido - uma recordação histórica - e ela ainda vivia? Sentia falta agora por esse motivo?

      Franziu as sobrancelhas. Não, não sentia falta, decidiu com firmeza. Não, não sentia saudades nem desejava voltar lá. Era apenas a angústia peculiar de alguma coisa que tinha ficado tão distante dela - embora destrutivamente - e desaparecido.

      Solaria! O último dos mundos espaciais a ser colonizado e transformado num lar para a humanidade. E em conseqüência, por uma lei misteriosa de simetria, também o primeiro a perecer?

      O primeiro? Isso implicaria um segundo, um terceiro, e assim por diante?

      Gladia sentiu sua tristeza aumentar. Havia os que pensavam haver, de fato, essa implicação. Se assim fosse, Aurora, seu lar adotado havia muito, o primeiro dos Espaciais a serem colonizados, seria, por essa mesma lei de simetria, o último dos cinqüenta a morrer. Nesse caso, mesmo na pior das hipóteses, podia superar sua própria existência e, assim sendo, isso teria de acontecer.

      Seus olhos tornaram a se virar para as estrelas. Era desanimador. Era-lhe impossível destacar qual daqueles pontos indistinguíveis de luz era o sol de Solaria. Imaginou que fosse um dos mais brilhantes, mas havia centenas desse tipo.

      Gladia ergueu o braço e fez o que identificava para si mesma como seu "gesto de Daneel". O fato de estar escuro não importava.

      O robô Daneel Olivaw chegou quase imediatamente. Quem quer que o tivesse conhecido um pouco nas vinte décadas anteriores, quando fora desenhado pela primeira vez por Han Fastolfe, não teria notado conscientemente nenhuma mudança nele. Com seu rosto largo e ossudo, os brônzeos cabelos curtos penteados para trás, os olhos azuis, o corpo alto, bem construído e perfeitamente humanóide, ele teria parecido tão jovem e impassivelmente calmo como sempre.

      - Posso lhe ser útil, Senhora Gladia? - perguntou, com voz tranqüila.

      - Sim, Daneel. Qual daquelas estrelas é o sol de Solaria?

      Daneel não olhou para cima. Respondeu:

      - Nenhuma delas, Senhora Gladia. Nesta época do ano, o sol de Solaria não aparece antes das 3:20.

      - Oh! - Gladia sentiu-se desanimada. De certa forma, tinha concluído que cada estrela em que estivesse interessada seria visível a qualquer hora que lhe ocorresse olhá-la. Claro, elas surgiam e desapareciam em horas diversas. Sabia disso muito bem. - Então, estive olhando à toa.

      - A julgar pelas reações humanas - disse Daneel, como numa tentativa de consolar - as estrelas são lindas mesmo que uma em particular não seja visível.

      - Acho que sim - retrucou Gladia aborrecida e, com um toque brusco, ajustou a espreguiçadeira para uma posição sentada, levantando-se. - Contudo, era o sol de Solaria que eu queria ver, mas isso não quer dizer que me dispusesse a ficar sentada aqui até 3:2O.

      - Mesmo que ficasse, a senhora iria precisar de lentes de aumento.

      - Lentes de aumento?

      - Ele não é visível a olho nu, Senhora Gladia.

      - Só faltava essa! - Gladia alisou a calça. - Eu devia tê-lo consultado antes, Daneel.

      Quem quer que tivesse conhecido Gladia vinte décadas atrás, quando ela chegara a Aurora, teria notado alguma mudança. Ao contrário de Daneel, ela era apenas humana.

      Ainda tinha 1,55m de altura, quase dez centímetros abaixo da altura ideal para uma mulher Espacial. Gladia tinha conservado cuidadosamente seu perfil esbelto e não havia sinal de fraqueza ou rigidez em seu corpo. Havia, porém, alguns cabelos grisalhos em sua cabeça, rugas finas em torno dos olhos, e a pele era levemente fosca. Podia ainda viver mais umas dez ou doze décadas, mas era impossível negar que já não era mais jovem. Isso, contudo, não a incomodava.

      - Daneel, você pode identificar todas as estrelas? - perguntou ela.

      - Conheço as que são visíveis a olho nu, Senhora Gladia.

      - E sabe quando elas surgem e se põem?

      - Sim, Senhora Gladia.

      - E qualquer coisa a respeito delas?

      - Sim, Senhora Gladia. O Dr. Fastolfe certa vez pediu-me que reunisse todos os dados astronômicos para que ele pudesse tê-los à mão sem precisar consultar seu computador. Ele costumava dizer que era mais agradável recebê-los de mim do que do seu computador. - Depois, como que antecipando a pergunta seguinte: - Ele não explicou a razão disso.

      Gladia ergueu o braço esquerdo e fez o gesto adequado. Sua casa iluminou-se imediatamente. Na lua suave que a envolvia agora, ela ficou subliminarmente consciente dos vultos indistintos de vários robôs, mas não lhes prestou atenção. Em qualquer casa bem administrada, havia sempre robôs ao alcance dos seres humanos, tanto por segurança como para tarefas.

      Gladia deu um último olhar fugidio ao céu, onde as estrelas agora esmaeciam na luz difusa. Encolheu os ombros ligeiramente. Tinha sido quixotesca. Que bem lhe traria ter sido capaz de ver o sol daquele mundo agora perdido, um ponto indistinto entre tantos? Ela podia da mesma forma escolher um ao acaso, dizer a si mesma que era o sol de Solaria e olhá-lo.

      Fixou a atenção em R. Daneel, que esperava pacientemente, a superfície do rosto mergulhada na sombra.

      Ela tornou a pensar quão pouco ele tinha mudado desde quando ela o vira ao chegar à casa do Dr. Fastolfe, tanto tempo atrás. Ele tinha sofrido reparos, claro. Ela sabia disso, mas era um conhecimento vago, daqueles que se costuma pôr de lado e manter à distância.

      Era parte do enjôo geral que se confirmou também nos seres humanos. Os Espaciais podiam se vangloriar de sua saúde de ferro e do seu período de vida de trinta a quarenta décadas, porém não eram inteiramente imunes ao desgaste da idade. Um dos fêmures de Gladia tinha sido implantado numa base do quadril de titânio-silicone.

      Seu polegar esquerdo era completamente artificial, embora ninguém pudesse dizer isso sem cuidadosos ultra-sonogramas. Mesmo alguns dos seus nervos tinham sido reforçados.

      Isso seria verdade para cada Espacial de idade similar em qualquer dos cinqüenta planetas do Espaço (não, quarenta e nove, pois agora Solaria não podia mais ser levado em conta).

      Todavia, qualquer referência a coisas assim era uma obscenidade inqualificável. Os registros médicos envolvidos, que tinham de existir desde que um tratamento subseqüente fosse necessário, não eram revelados em hipótese alguma. Cirurgiões, cujas rendas eram consideravelmente mais altas que as do próprio Presidente, gozavam dessa situação privilegiada em parte porque eram virtualmente banidos da sociedade educada. Afinal de contas, eles sabiam.

      Tudo era parte da fixação Espacial da vida longa, da sua repugnância em admitir que a velhice existia, mas Gladia não protelava nenhuma análise de causas. Ela se sentia impacientemente mal ao pensar sobre si mesma em relação àquilo. Se ela tivesse um mapa tridimensional de si mesma com todas as porções protéticas, todos os reparos assinalados em vermelho contra o fundo cinza do seu eu natural, um rosado geral devia aparecer à distância. Ou era assim que ela imaginava.

      Seu cérebro, contudo, ainda estava intacto, completo, e, enquanto fosse assim, ela estaria intacta e completa, o que quer que acontecesse com o resto do seu corpo.

      Isso a fez voltar a Daneel. Apesar de conhecê-lo desde vinte décadas antes, fora apenas no último ano que ele lhe pertencera. Quando Fastolfe morrera (seu fim fora apressado talvez pelo desespero), legara tudo à cidade de Eos, o que era um procedimento bastante comum. Duas coisas, no entanto, ele tinha deixado para Gladia (além de confirmá-la na posse de sua casa, seus robôs e outros bens, juntamente com as terras a eles pertencentes).

      Uma tinha sido Daneel.

      Gladia perguntou:

      - Você lembra de tudo que confiou à memória no decorrer de vinte décadas, Daneel?

      Daneel respondeu com ar sério:

      - Acho que sim, Senhora Gladia. Se esqueci alguma coisa, não saberia, pois teria sido esquecida e eu não poderia lembrar, mesmo tendo sido memorizada.

      - Não consigo compreender isso - replicou Gladia. - Você pode lembrar, mas é incapaz de pensar num fato no momento. Eu freqüentemente tenho uma coisa na ponta da língua, por assim dizer, e sou incapaz de lembrá-la.

      - Não compreendo, senhora - disse Daneel. - Se eu sei de alguma coisa, esta coisa certamente estará disponível quando eu precisar dela.

      - Recuperação perfeita?

      Estavam caminhando devagar para a casa.

      - Mera recuperação, senhora. Fui construído assim.

      - Por quanto tempo mais?

      - Não compreendo, senhora.

      - Quero dizer, quanto seu cérebro agüentará? Com um pouco mais de vinte décadas de recordações acumuladas, quanto tempo mais ele poderá prosseguir?

      - Não sei, senhora. Até agora não senti dificuldades.

      - Pode não sentir... até descobrir subitamente que não é mais capaz de se lembrar.

      Daneel ficou pensativo durante um instante.

      - Isso talvez aconteça, senhora.

      - Você sabe, Daneel, nem todas as suas recordações são igualmente importantes.

      - Não posso avaliar isso, senhora.

      - Outros podem. Será perfeitamente possível limpar seu cérebro, Daneel, e depois, sob supervisão, tornar a enchê-lo de recordações importantes, contendo apenas... digamos, dez por cento do total. Você seria então capaz de prosseguir durante séculos, mais do que antes. Com um tratamento desse tipo, você poderia continuar indefinidamente. Claro, é um procedimento caro, mas eu não faria objeção a isso. Valeria a pena.

      - Eu seria consultado a respeito, senhora? Pediriam minha concordância para esse tratamento?

      - Sem dúvida. Eu não lhe daria uma ordem a esse respeito. Seria uma traição à confiança do Dr. Fastolfe.

      - Obrigado, senhora. Nesse caso, devo dizer-lhe que jamais me submeterei voluntariamente a tal procedimento, a menos que eu mesmo reconheça ter realmente perdido essa minha função.

      Tinham chegado à porta e Gladia parou. Francamente confusa, ela Perguntou:

      - Por que jamais, Daneel?

      Daneel respondeu, em voz baixa:

      - Há recordações que não posso me arriscar a perder, senhora, seja Por inadvertência ou por deficiência de julgamento por parte dos que vão orientar o assunto.

      - Como o aparecimento e desaparecimento das estrelas?... Desculpe, eel, não estava querendo brincar. A que recordações está se referindo?

      Daneel respondeu, com a mesma voz baixa:

      - Senhora, refiro-me às minhas recordações do meu antigo colega, o Terráqueo Elijah Baley.

      Gladia ficou parada, estarrecida, pois havia sido Daneel, finalmente, quem tomara a iniciativa, fazendo um sinal para a porta abrir.

      O robô Giskard Reventlov estava esperando na sala de estar e Gladia o cumprimentou com o aperto no coração que sempre a assaltava quando o encarava.

      Ele era primitivo, em comparação com Daneel. Tratava-se evidentemente de um robô com um rosto que não demonstrava qualquer expressão humana, com olhos que luziam com um tom avermelhado, como se podia notar se estivesse bastante escuro. Enquanto Daneel usava roupas, Giskard dava apenas a ilusão de estar vestido - uma ilusão hábil, contudo, pois fora a própria Gladia quem desenhara sua roupa.

      - Giskard - disse ela.

      - Boa noite, Senhora Gladia - respondeu Giskard com uma leve inclinação de cabeça.

      Gladia lembrou as palavras de Elijah Baley muito tempo atrás, como um sussurro no íntimo do seu cérebro:

      - Daneel cuidará de você. Será ao mesmo tempo seu amigo e protetor. E você precisa ser amiga dele... por mim. Contudo, é a Giskard que eu quero que você ouça. Deixe que ele seja seu conselheiro.

      Gladia franzira o cenho.

      - Por que ele? Não sei se gosto dele.

      - Não lhe peço que goste dele. Peço-lhe que confie nele.

      E não dissera por quê.

      Gladia se esforçara para confiar no robô Giskard, mas ficara contente por não ter que tentar gostar dele. Alguma coisa nele a fazia sentir arrepios.

      Tanto Daneel como Giskard foram parte integrante de sua casa durante muitas décadas, no decorrer das quais Fastolfe mantivera sua posse. Somente no leito de morte Han Fastolfe realmente transferira a propriedade. Giskard fora o segundo item, após Daneel, que Fastolfe deixara para Gladia.

      Ela dissera ao velho:

      - Daneel é o bastante, Han. Sua filha Vasilia gostará de ficar com Giskard. Tenho certeza disso.

      Fastolfe estava deitado na cama, em silêncio, de olhos fechados, parecendo a Gladia mais calmo do que o vira durante anos. Ele não respondera imediatamente, e durante um instante ela pensara que o velho tinha se despedido da vida tão silenciosamente que ela nem notara. Gladia apertara convulsivamente a mão dele e seus olhos se abriram.

      - Pouco me importo - sussurrou - com minhas filhas biológicas, Gladia. Durante vinte séculos, só tive uma filha funcional, e esta tem sido você. Quero que você fique com Giskard. Ele é valioso.

      - Por que ele é valioso?

      - Não sei dizer, mas sempre achei sua presença reconfortante. Conserve-o sempre, Gladia. Prometa-me.

      - Prometo - respondeu ela.

      E então seus olhos se abriram uma última vez e sua voz, encontrando uma derradeira reserva de energia, dissera, num tom quase natural:

      - Eu a amo, Gladia, minha filha.

      - Eu o amo, Han, meu pai - replicara a moça.

      Foram estas as últimas palavras que ele dissera e ouvira. Gladia verificara que estava segurando a mão de um morto, e durante algum tempo não conseguiu largá-la.

      Portanto, Giskard lhe pertencia. E, no entanto ele a deixou apreensiva, sem que ela soubesse por quê.

      - Bem, Giskard - disse ela - estive tentando ver Solaria no céu entre as estrelas, mas Daneel me disse que ele só seria visível a partir de 3:20 e que mesmo assim eu iria precisar de lentes de aumento. Você sabia disso?

      - Não, senhora.

      - Devo ficar esperando esse tempo todo? Que acha?

      - Sugiro, Senhora Gladia, que seria melhor esperar na cama.

      Gladia se controlou.

      - Acha? E se eu preferir ficar em pé?

      - Só fiz uma sugestão, senhora, mas a senhora terá um dia trabalhoso amanhã, e sem dúvida lamentará perder uma noite de sono se ficar acordada.

      Gladia franziu as sobrancelhas.

      - O que vai fazer meu dia trabalhoso amanhã, Giskard? Não sei de nenhuma dificuldade prevista.

      - A senhora tem um encontro, senhora, com um tal Levular Mandamus - replicou o robô.

      - Tenho? Quando isso aconteceu?

      - Há uma hora. Ele fotofonou e eu tomei a liberdade...

      - Você tomou a liberdade? Quem é ele?

      - É membro do Instituto de Robótica, senhora.

      - Então é um auxiliar de Kelden Amadiro.

      - Sim, senhora.

      - Compreenda, Giskard, que não tenho o menor interesse em ver Mandamus ou alguém ligado àquele sapo venenoso do Amadiro. Assim, se você tomou a liberdade de marcar um encontro com ele em meu nome, tome agora mesmo a liberdade de fonar para ele novamente e cancelá-lo.

      - Se a senhora confirmar isso como uma ordem, senhora, e fazê-la tão forte e definitiva como pode, tentarei obedecer. Eu talvez não seja capaz disso. Na minha opinião, a senhora estará se causando um mal se desfizer o encontro, e eu não posso permitir que isso aconteça por minha causa.

      - Seu julgamento possivelmente estará errado, Giskard. Quem é esse homem que me prejudicará se não o vir? O fato de ser membro do Instituto de Robótica dificilmente o tornará importante para mim.

      Gladia sabia perfeitamente que estava desabafando sua raiva em Giskard sem muita razão. Ela estava preocupada com as notícias do abandono de Solaria e embaraçada pela ignorância que a levara a procurar Solaria num céu onde ele não estava.

      Claro, tinha sido Daneel, cujo conhecimento tornara seu erro tão evidente, embora ela não tivesse ficado zangada com ele: mas Daneel parecia humano, e por isso Gladia automaticamente tratava-o como se fosse. A aparência era tudo. Giskard parecia robô, o que levava qualquer um a concluir facilmente que ele não possuía sentimentos a serem feridos.

      E, com certeza, Giskard não reagiria absolutamente à rabugice de Gladia (Daneel também não teria reagido... se fosse com ele).

      - Descrevi o Dr. Mandamus - disse ele - como membro do Instituto de Robótica, porém ele é, talvez, mais que isso. Nos últimos anos, ele tem sido o braço direito do Dr. Amadiro. Isso o torna importante, e ele não deve ser levianamente ignorado. Não é bom ofender um homem como o Dr. Mandamus, senhora.

      - Não, Giskard? Pouco me importa o Dr. Mandamus, e muito menos Amadiro. Suponho que você ainda se lembre: em outros tempos, quando ele, eu e o mundo éramos jovens, Amadiro esforçou-se para provar que o Dr. Fastolfe era assassino, e foi apenas por um quase milagre que suas maquinações fracassaram.

      - Lembro-me muito bem, senhora.

      - Fico aliviada. Temi que, em vinte décadas, você tivesse esquecido. Durante todo esse tempo, não tive o menor contato com Amadiro ou alguém ligado a ele, e pretendo continuar assim. Não me importo com o mal que isso possa me causar ou com as conseqüências que possa trazer. Não verei esse doutor-qualquer-coisa e, no futuro, não marque encontros em meu nome sem me consultar ou pelo menos sem explicar que tais encontros dependem de minha aprovação.

      - Sim, senhora - disse Giskard - mas posso chamar sua atenção para...

      - Não, não pode - retrucou Gladia e afastou-se dele.

      Houve um silêncio enquanto ela subiu três degraus, e nesse instante Giskard falou com voz calma:

      - Senhora, devo lhe pedir que confie em mim.

      Gladia parou. Por que teria ele usado essa expressão?

      Ela tornou a ouvir aquela voz do passado: "Não lhe peço que goste dele. Peço-lhe que confie nele."

      Ela apertou os lábios e franziu o cenho. Relutante, sem querer, virou-se.

      - Bem - disse, irritada - que quer dizer com isso, Giskard?

      - Apenas que, enquanto o Dr. Fastolfe viveu, senhora, sua política prevaleceu em Aurora e em todos os planetas Espaciais. Como resultado, foi permitido aos povos da Terra migrar livremente para vários planetas convenientes na Galáxia, e os que agora chamamos planetas dos Colonizadores floresceram. Contudo, o Dr. Fastolfe agora está morto e seus sucessores não têm o seu prestígio. O Dr. Amadiro conservou vivo seu próprio ponto de vista antiterra, e é bem possível que eles agora possam triunfar e que uma agressiva política contra a Terra e os planetas dos Colonizadores venha a ser inaugurada.

      - Se isso acontecer, Giskard, que posso eu fazer?

      - Pode receber o Dr. Mandamus e descobrir o que o faz tão ansioso para vê-la, senhora. Adianto-lhe que ele está muito ansioso para marcar o encontro o mais cedo possível. Pediu para vê-la às 8:00.

      - Giskard, eu nunca vejo ninguém antes do meio-dia.

      - Expliquei isso, senhora. Tive como resposta sua ansiedade em vê-la no café da manhã, apesar da minha explicação, o que me deu a medida de seu desespero. Acho importante descobrir por que ele está tão desesperado.

      - Na sua opinião, portanto, se eu não o vir, isso me causará mal pessoalmente? Não pergunto se ele causará algum mal à Terra ou aos Colonizadores, ou isto ou aquilo. Irá me causar mal?

      - Senhora, isso talvez impeça a Terra e os Colonizadores de continuarem a colonizar a Galáxia. Esse sonho se originou na mente do Detetive Elijah Baley há mais de vinte décadas. O mal à Terra será a profanação de sua memória. Estarei errado ao pensar que qualquer mal à sua memória será sentido pela senhora como se fosse algo pessoal?

      Gladia ficou abalada. Duas vezes em apenas uma hora Elijah Baley tinha sido incluído na conversa. Ele se fora há muito tempo - um Terráqueo de vida curta, cuja morte já completou mais de dezesseis décadas - e no entanto a simples menção do seu nome ainda a fazia estremecer.

      - Como as coisas podem se tornar subitamente tão sérias? - perguntou Gladia.

      - Não foi de súbito, senhora. Durante vinte décadas o povo da Terra e os Espaciais estiveram seguindo caminhos paralelos, sendo-lhes evitado convergir para o conflito pela sábia política do Dr. Fastolfe. Contudo, sempre houve uma forte oposição, movimento que o Dr. Fastolfe teve de enfrentar o tempo todo. Agora que ele está morto, a oposição está muito mais forte. O abandono de Solaria aumentou em muito o poder da oposição, que em breve pode ser a força política dominante.

      - Por quê?

      - Isso é um indício claro, senhora, de que a força dos Espaciais está declinando, e muitos Auroreanos podem sentir que uma ação enérgica deve ser tomada: agora ou nunca.

        - E você acha que o fato de eu ver esse homem é importante para preservar tudo isso?

      - Exato, senhora.

      Gladia ficou silenciosa por um instante e tornou a lembrar, embora revoltada, que em outros tempos havia prometido a Elijah confiar em Giskard.

      - Bem - replicou - não quero ver esse homem e não acho que isso serviria para alguma coisa boa... mas, está bem, vou vê-lo.

      Gladia estava dormindo e a casa se achava às escuras... pelos padrões humanos. Estava, porém, desperta, com movimento e ação, pois havia muito trabalho à espera dos robôs, que podia ser feito com luz infravermelha.

      A casa tinha de ser posta em ordem após a inevitável desordem de um dia de atividade. Suprimentos tinham que ser trazidos, o lixo tinha de ser eliminado, objetos precisavam ser limpos, esfregados ou guardados, utensílios tinham que ser conferidos, e havia sempre vigilância.

      As portas dispensavam fechaduras, não eram necessárias. Não havia crime violento de espécie alguma em Aurora, tanto contra os seres humanos como contra a propriedade. Não podia haver nada disso, uma vez que cada casa e cada ser humano eram, o tempo todo, protegidos por robôs. Isso era muito conhecido e confirmado.

      O preço dessa calma era que os robôs-guardas tinham de permanecer em seus lugares. Nunca eram utilizados - pela simples razão de que estavam sempre lá.

      Giskard e Daneel, cujos potenciais eram mais intensos e gerais que os dos outros robôs da casa, não tinham deveres específicos, a menos que se considerasse dessa forma o fato de serem responsáveis pelo desempenho adequado de todos os outros robôs.

      Às 3:00, eles tinham completado sua ronda pelos gramados e área arborizada, para ter certeza de que todos os guardas externos estavam executando suas funções devidamente e que não tinham surgido problemas.

      Encontraram-se no limite sul dos terrenos da moradia e durante certo tempo conversaram numa língua abreviada de fábula. Compreendiam-se muito bem, em virtude de muitas décadas de comunicação entre si, e não lhes era necessário usar todas as formas de fala humana.

      Daneel disse, num sussurro inaudível:

      - Nuvens. Invisíveis.

      Se Daneel estivesse falando para ouvidos humanos, teria dito: "Como vê, amigo Giskard, o céu está nublado. Se Senhora Gladia tivesse esperado a oportunidade de ver Solaria, não conseguiria vê-lo."

      E a réplica de Giskard foi:

      - Previsto. Entrevista, em vez disso - que era o equivalente a: "Assim foi dito na previsão do tempo, amigo Daneel, e pode ter sido usado como uma desculpa para mandar a Senhora Gladia para a cama cedo. Contudo, me parece ser mais importante enfrentar o problema com franqueza e persuadi-la a permitir essa entrevista sobre a qual já lhe falei."

      - Parece-me, amigo Giskard - retrucou Daneel - que o motivo principal é o fato de você ter achado difícil a persuasão em razão dela estar preocupada com o abandono de Solaria. Estive lá uma vez com o colega Elijah, quando a Senhora Gladia ainda era solariana.

      - Eu sempre soube - falou Giskard - que a Senhora Gladia não tinha sido feliz no seu planeta natal, que ela deixara seu mundo de boa vontade e não tinha a menor intenção de voltar a ele em nenhum momento. Mas concordo com você de ela ter ficado perturbada por ter a história de Solaria chegado a um fim.

      - Não compreendo essa reação da Senhora Gladia - disse Daneel - mas há muitos momentos em que as reações humanas não parecem decorrer logicamente dos acontecimentos.

      - É isso que torna tão difícil, às vezes, descobrir o que molesta ou não um ser humano. - Giskard podia ter dito isto com um suspiro, até mesmo insolente, se fosse humano. No caso, simplesmente afirmou, com a fria constatação de uma situação difícil. - Este é um dos motivos que me fazem pensar que as Três Leis da Robótica são incompletas ou insuficientes.

      - Você já disse tal coisa antes, amigo Giskard; eu procurei acreditar nisso e fracassei - replicou Daneel.

      Giskard ficou algum tempo calado, e depois:

      - Intelectualmente, acho que devem ser incompletas ou insuficientes, mas quando tento acreditar nisso, também eu fracasso, pois sou limitado por elas. Contudo, se não fosse essa limitação, tenho a certeza de que acreditaria em sua insuficiência.

      - Isso é um paradoxo que não posso compreender.

      - Nem eu. Apesar disso, vejo-me forçado a exprimi-lo. Certa ocasião, cheguei a sentir que estava prestes a descobrir o que de incompleto e insuficiente havia nas Três Leis, como na minha conversa com a Senhora Gladia esta noite. Ela me perguntou que mal poderia causar-lhe pessoalmente, em vez de abstratamente, o fato de não concordar com o encontro. Foi uma resposta que não pude dar, porque não estava nos limites das Três Leis.

      - Você deu uma resposta perfeita, amigo Giskard. O mal causado pela lembrança do Colega Elijah teria afetado profundamente a Senhora Gladia.

      - Foi a melhor resposta no âmbito das Três Leis. Não a melhor resposta possível.

      - Qual seria a melhor resposta possível?

      - Não sei, desde que, estando limitado pelas Leis, não posso exprimi-la em palavras ou mesmo em conceitos.

      - Não há nada além das Leis - disse Daneel.

      - Se eu fosse humano - falou Giskard - poderia ver além das Leis, e acho, amigo Daneel, que você pode ser capaz de ver além delas mais cedo do que eu desejo.

      - Eu?

      - Sim, amigo Daneel, venho pensando nisso há tempos, pois, apesar de robô, você pensa notavelmente como um ser humano.

      - Não é direito pensar assim - retrucou Daneel com calma, quase como se sofresse. - Você pensa essas coisas porque não pode ver o interior das mentes humanas. Você fica deformado, e isso pode, no fim, destruí-lo. Para mim, esse é um pensamento infeliz. Se você pode evitar ver o interior das mentes mais do que deve, faça-o.

      Giskard deu-lhe as costas.

      - Não posso evitar, amigo Daneel. Não posso. Lamento que por causa das Três Leis, eu possa fazer tão pouco com isso. Não posso sondar tão profundamente como necessário pelo medo de vir a causar danos. Não posso influenciar tão diretamente como necessário - pelo medo de vir a causar danos.

      - Contudo, você influenciou a Senhora Gladia muito habilmente, amigo Giskard.

      - Não é verdade. Posso ter modificado seu pensamento e tê-la feito aceitar a entrevista sem discussão, mas a mente humana é tão cheia de complexidades, que eu ousei muito pouco. A torção que apliquei poderia produzir torções secundárias de cuja natureza não estou certo, e isso poderia causar danos.

      - Contudo, você fez alguma coisa a Senhora Gladia.

      - Não deveria ter feito. A palavra "confiança" a afeta e a torna mais sensível. Já havia notado isso no passado, assim, usei a palavra com a maior precaução, uma vez que o excesso de uso a enfraquece. Isso me confunde, mas não posso simplesmente cavar à procura de uma solução.

      - Por que as Três Leis não permitem?

      Os olhos de Giskard pareceram intensificar seu brilho fraco.

      - Sim, a cada etapa as Três Leis se interpõem no meu caminho. Contudo, não posso modificá-las... porque se interpõem no meu caminho. Mas sinto que preciso modificá-las, pois pressinto a aproximação de uma catástrofe.

      - Você já disse isso antes, amigo Giskard, mas não explicou a natureza da catástrofe.

      - Porque não a conheço. Ela envolve a crescente hostilidade entre Aurora e a Terra, mas como vai evoluir para uma catástrofe real, não sei dizer.

      - É possível não ser, afinal de contas, uma catástrofe?

      - Acho difícil. Senti, entre certos funcionários auroreanos que conheci, um halo de catástrofe, de espera triunfante. Não posso descrever isso mais exatamente e não consigo sondar mais profundamente para obter uma melhor descrição, as Três Leis não permitem. É mais um motivo para que a entrevista com Mandamus seja realizada amanhã. Ela dará a oportunidade de examinar sua mente.

      - E se você não puder examiná-la efetivamente?

      Apesar da voz de Giskard ser incapaz de mostrar emoção, no sentido humano, o desespero estava ausente de suas palavras. Ele disse:

      - Então, isso me deixará desarmado. Posso apenas seguir as Leis. Que mais posso fazer?

      Daneel disse, suave e desanimadamente:

      - Nada.

      Claudia entrou na sua sala de estar às 8:15, intencionalmente - e com um toque de malignidade - determinada a deixar Mandamus (nesta altura tinha decorado seu nome com relutância) esperar por ela. Ela fizera também esforços especiais com sua aparência e (pela primeira vez em anos) se esforçara dolorosamente com o grisalho do seu cabelo, desejando até passageiramente, ter acompanhado a prática Auroreana quase universal do controle da tonalidade. Afinal de contas, tornar-se tão atraente e jovem quanto possível colocaria aquele servil indivíduo de Amadiro numa nova desvantagem.

      Ela estava completamente preparada para não gostar dele à primeira vista e ficou deprimidamente consciente de que ele podia ser jovem e atraente, que um rosto alegre podia abrir-se num sorriso brilhante quando ela aparecesse e que podia se tornar, contra sua vontade, relutantemente atraída por ele.

      Em conseqüência, Gladia ficou aliviada ao vê-lo. Ele era moço, sim, e provavelmente ainda não tinha completado seu primeiro meio século, porém ainda não havia se desenvolvido em sua plenitude. Era alto - talvez 1,85m, calculou - e muito esbelto. E isso o fazia parecer magro. Seu cabelo tinha um tom um tanto escuro para um Auroreano, os olhos eram castanho-claros, o rosto muito comprido, os lábios finos demais, a boca muito grande, a pele insuficientemente clara. Mas o que toldava uma verdadeira aparência de juventude era sua expressão muito afetada, muito sem humor.

      Com um relâmpago de compreensão, Gladia lembrou os romances históricos que tinham sido mania em Aurora (romances que, invariavelmente, tratavam da primitiva Terra: o que era estranho para um mundo que odiava  cada vez mais os Terráqueos) e pensou: Ora, ele é o retrato de um puritano.

      Sentiu-se aliviada e quase sorriu. Os puritanos eram habitualmente retratados como vilões, e se aquele Mandamus fosse mesmo ou não um puritano, era conveniente fazê-lo parecer um.

      Quando ele falou, porém, Gladia ficou desapontada, pois sua voz era suave e claramente musical (ele deveria ter um som nasal se quisesse preencher o estereótipo). Ele perguntou:

      - Sra. Gremionis?

      Ela estendeu a mão, com um sorriso deliberadamente condescendente.

      - Sr. Mandamus: Gladia, por favor. Como todos me chamam.

      - Sei que usa seu primeiro nome profissionalmente...

      - Eu o uso sempre. E meu casamento chegou a um fim amigável há muitas décadas.

      - Durou muito tempo, se não me engano.

      - Muitíssimo tempo. Foi um grande sucesso, porém mesmo os grandes sucessos chegam a um fim natural.

      - Oh - disse Mandamus, sentencioso. - Continuar depois do fim pode bem transformar o sucesso em fracasso.

      Gladia balançou a cabeça e comentou, esboçando um sorriso:

      - Quanta sabedoria para alguém tão jovem... Mas vamos passar para a sala de jantar? O café da manhã está pronto e eu já o atrasei bastante.

      Só quando Mandamus virou-se junto com ela e ajustou os passos aos seus foi que Gladia percebeu os dois robôs que o acompanhavam. Era impensável para qualquer Auroreano ir a algum lugar sem um séquito de robôs, mas, na medida em que se mantinham imóveis, não chamavam a atenção dos Auroreanos.

      Olhando-os rapidamente, Gladia percebeu que eram modelos recentes, muito caros. Sua pseudo-roupa era trabalhada e, ainda que não tivesse sido desenhada por ela, podiam ser consideradas como de primeira classe. Gladia foi obrigada a reconhecer isso para si mesma, embora relutante. Um dia ela teria de descobrir quem as desenhara, pois não tinha reconhecido o toque e podia estar diante de um novo e poderoso competidor. Ela viu-se admirando a maneira pela qual o estilo da pseudo-roupa se mostrava inconfundivelmente o mesmo para ambos os robôs, embora continuando distintamente individual para cada um. Não era possível alguém se enganar.

      Mandamus notou seu rápido olhar e interpretou a expressão de Gladia com desconcertante perspicácia (Ele é inteligente, pensou a mulher, desapontada).

      - O desenho exterior dos meus robôs - disse ele - foi criado por um jovem do Instituto, que ainda não se projetou. Mas terá sucesso, não acha?

      - Sem nenhuma dúvida - replicou Gladia.

      Gladia não esperava uma discussão de negócios até o café da manhã ter acabado. Seria o cúmulo da falta de educação falar de qualquer coisa que não o trivial durante as refeições, e Gladia imaginou que Mandamus não era de frivolidades.

      Havia o tempo, claro. O recente temporal, agora felizmente terminado, foi mencionado, além da perspectiva da estação da seca, prestes a começar. Havia a quase obrigatória expressão de admiração pela casa de Gladia, e esta aceitou-a com modéstia. Gladia nada fez para provocar tensão no homem e deixou-o escolher, sem ajuda, o assunto da conversa.

      Finalmente, seus olhos pousaram em Daneel, parado silenciosamente e imóvel no seu nicho de parede, e Mandamus deu um jeito de superar sua indiferença Auroreana e reparar nele.

      - Ah - disse ele - evidentemente o famoso R. Daneel Olivaw. Ele é absolutamente inconfundível. Um espécime bastante notável.

      - De fato.

      - Ele agora é seu, não? Pelo testamento de Fastolfe?

      - Sim, pelo testamento do Doutor Fastolfe - replicou Gladia levemente enfática.

      - O que me espanta é que a série de robôs humanóides do Instituto tenha fracassado como fracassou. Uma coisa incrível. A senhora alguma vez pensou nisso?

      - Ouvi a respeito - comentou Gladia, com precaução (poderia ser isso o que ele andava bisbilhotando?). - Não me lembro de ter perdido muito tempo pensando nesse assunto.

      - Os sociólogos ainda estão tentando compreender. Certamente, nós no Instituto nunca esquecemos o desapontamento. Pareceu como um desenvolvimento natural. Alguns de nós acham que Fa... o Dr. Fastolfe teve, de certa forma, alguma coisa a ver com isso.

      (Ele evitou cometer o mesmo engano pela segunda vez, pensou Gladia. Seus olhos apertaram-se e ela se tornou hostil quando achou que ele tinha ido procurá-la com o objetivo de sondar à procura de elementos para atingir o pobre e bom Han.)

      - Quem quer que pense isso é louco - disse ela, acidamente. - Se o senhor pensa assim, não mudarei a expressão.

      - Não sou dos que pensam dessa maneira, principalmente porque não vejo o que o Dr. Fastolfe possa ter feito para transformar a coisa em fracasso.

      - Por que alguém teria feito qualquer coisa? O que aconteceu foi que o Público não os aceitou. Um robô que parece com um homem compete com um homem, o que parece com uma mulher compete com uma mulher  de forma completa demais para não causar certo desconforto. Os Auroreanos não querem a competição. Necessitamos de mais motivos?

      - Competição sexual? - perguntou Mandamus, calmamente. Por um instante, Gladia o encarou francamente. Conheceria ele seu antigo amor pelo robô Jander? Tinha importância se ele soubesse? Nada parecia existir em sua expressão que parecesse que ele queria dizer mais do que o significado superficial das palavras.

      - Competição em geral - disse ela, finalmente. - Se o Dr. Han Fastolfe fez qualquer coisa que contribuísse para esse sentimento, foi ter desenhado seu robô de uma forma demasiadamente humana, porém, não passou disso.

      - Acho que a senhora deve ter pensado a respeito - replicou Mandamus. - O problema é que os sociólogos consideram o medo da competição muito humano para um grupo de robôs, numa explicação simplista. Acontece que isso não é suficiente e não há prova de outro motivo de aversão significativo.

      - A sociologia não é uma ciência exata - retorquiu Gladia.

      - Mas também não é inteiramente inexata.

      Gladia encolheu os ombros. Após uma pausa, Mandamus continuou:

      - Em todo caso, isso nos impediu de organizar expedições colonizadoras adequadas. Sem robôs humanóides para abrir caminho...

      O café da manhã ainda não estava terminado, mas ficou claro para Gladia que Mandamus não podia mais evitar as coisas não triviais. Ela disse:

      - Podíamos ter ido.

      Desta vez foi Mandamus quem encolheu os ombros.

      - Acho muito difícil. Além disso, esses bárbaros de vida curta da Terra, com a permissão do seu Dr. Fastolfe, inundaram todos os planetas à vista como uma praga de baratas.

      - Ainda há uma quantidade de planetas disponíveis. Milhões. E se eles podem fazê-lo...

      - Claro que eles podem - disse Mandamus, com uma súbita raiva. - Vai custar vidas, mas o que são vidas para eles! A perda de uma década ou mais, apenas isso, e há bilhões deles. Se um milhão deles morrerem no processo de colonização, quem saberá, quem se importará? Não serão eles.

      - Tenho certeza de que se importarão.

      - Bobagem. Nossa vida é mais longa e, portanto mais valiosa - e somos naturalmente mais cuidadosos com ela.

      - Por isso ficamos sentados aqui sem fazer nada, mas nos zangando com os Colonizadores da Terra por quererem arriscar suas vidas e por parecerem herdar a Galáxia como recompensa.

      Gladia não tinha consciência de ter uma tendência tão pró-colonizadores, mas estava tão desejosa de contradizer Mandamus que não pôde evitar o revide; sentiu, porém, que o que tinha começado como uma mera contradição fazia sentido e podia perfeitamente representar seus sentimentos. Além disso, ela ouvira Fastolfe dizer coisas semelhantes no decorrer dos seus últimos anos de desânimo.

      A um sinal de Gladia, a mesa foi rápida e eficientemente tirada. O café da manhã podia ter continuado, mas a conversa e o humor tinham se tornado incompatíveis com uma refeição civilizada.

      Voltaram para a sala de visitas. Os robôs do visitante os seguiram, bem como Daneel e Giskard, todos se instalando em seus nichos (Mandamus jamais notara Giskard, pensou Gladia, por que deveria fazê-lo agora? Giskard estava fora de moda, e era até mesmo primitivo, inteiramente inexpressivo, em comparação com os belos espécimes de Mandamus).

      Gladia sentou-se e cruzou as pernas, consciente de que a aparência destas era beneficiada pela parte inferior das suas calças.

      Posso saber por que motivo o senhor desejou me ver, Dr. Mandamus? - perguntou ela, não desejando postergar mais o assunto.

      - Tenho o mau hábito - respondeu ele - de mascar chiclete medicinal após as refeições, para facilitar a digestão. Isso a incomoda?

      Gladia respondeu secamente:

      - Acho que distrai a atenção.

      (O fato de não poder mascar colocou-o em desvantagem. Além disso, Gladia observou para si mesma, virtuosamente, que em sua idade ele não precisava de nada para auxiliar a digestão.)

      Mandamus tinha uma caixinha comprida aparecendo parcialmente no bolso superior de sua túnica. Colocou o chiclete de volta sem mostrar desapontamento e murmurou:

      - Claro.

      - Eu perguntei, Dr. Mandamus, o motivo de desejar me ver.

      - São dois os motivos, Lady Gladia. Um pessoal e outro oficial. Incomoda-se que eu comece pelo motivo pessoal?

      - Permita-me dizer-lhe francamente, Dr. Mandamus: acho difícil que possa existir algum motivo pessoal entre nós. O senhor trabalha no Instituto de Robótica, não é?

      - Sim, trabalho.

      - E, segundo soube, está ligado a Amadiro.

      - Tenho a honra de trabalhar com o Doutor Amadiro - replicou, com certa empáfia.

      (Está me devolvendo, pensou Gladia, mas não aceito.)

      - Amadiro e eu - disse ela - nos encontramos há cerca de vinte décadas, e foi muito desagradável. Desde então, não tive oportunidade de outro contato. Nunca tive com o senhor nenhum encontro de algum modo ligado a ele, porém fui persuadida de que esta entrevista podia ser importante. Assuntos pessoais, contudo, certamente não dão a esta entrevista nenhuma importância, pelo menos para mim. Assim, passemos ao assunto oficial.

      Mandamus abaixou os olhos, e um leve fluxo do que poderia ser um ar de embaraço aflorou-lhe ao rosto.

      - Permita-me que me reapresente. Sou Levular Mandamus, seu descendente em quinto grau. Sou o tetraneto de Santirix e Gladia Gremionis. Em contrapartida, a senhora é minha tetravó.

        Gladia piscou rapidamente, tentando não parecer atordoada, como realmente ficou (mas não conseguiu). Claro, ela possuía descendentes, e por que um deles não poderia ser aquele homem?

      - Tem certeza? - perguntou.

      - Absoluta. Mandei levantar minha árvore genealógica. Afinal de contas, dentro de alguns anos provavelmente Vou querer filhos, e antes que eu tenha um, essa pesquisa será obrigatória. Se estiver interessada, o padrão entre nós é M-F-F-M.

      - O senhor é filho do filho da filha da filha do meu filho?

      - Sou.

      Gladia não pediu mais detalhes. Ela tinha tido um filho e uma filha. Tinha sido uma mãe perfeitamente cumpridora dos seus deveres, mas no momento devido os filhos haviam seguido vidas independentes. Quanto aos descendentes além daquele filho e filha, num estilo Espacial perfeitamente decente, ela jamais perguntara ou se preocupara com eles. Tendo agora conhecido um deles, era bastante Espacial para ainda não se importar.

      O pensamento estabilizou-a completamente. Recostou-se na poltrona e relaxou.

      - Muito bem - disse. - O senhor é meu descendente em quinto grau. Se é esse o assunto pessoal que deseja discutir, isso não tem importância.

      - Sei disso perfeitamente, antepassada. Mas não é a minha genealogia em si o que desejo discutir, trata-se da fundação. O Dr. Amadiro conhece este parentesco. Pelo menos, desconfio.

      - É mesmo? E como?

      - Acredito que ele, em silêncio, estabelece a genealogia de todos os que vão trabalhar no Instituto.

      - Para quê?

      - Para descobrir exatamente o que descobriu no meu caso. Não é um homem confiante.

      - Não compreendo. Se o senhor é meu descendente em quinto grau, por que deverá ter para ele mais significado do que tem para mim?

      Mandamus coçou o queixo com os nós dos dedos da mão direita, com ar pensativo.

      - Sua antipatia pela senhora não é absolutamente menor que sua aversão por ele, Lady Gladia. Se a senhora recusar um encontro comigo por causa dele, ele também está igualmente preparado para recusar minha promoção por sua causa. E tudo pode ficar ainda um pouco pior se eu for descendente do Dr. Fastolfe.

      Gladia empertigou-se na cadeira. Suas narinas fremiram e ela perguntou, com voz dura:

      - Que espera então que eu faça? Não posso declará-lo não-descendente. Devo fazer um anúncio na hipervisão no sentido de que, para mim, você é indiferente e que o repudio? Isso satisfará o seu Amadiro? Se assim for, previno-o, não o farei. Nada farei para satisfazer aquele homem. Se isso significar que ele o dispensará e cortará sua carreira como desaprovação à sua associação genética, pelo menos você aprenderá a se misturar com gente mais sã e menos odiosa.

      - Ele não me demitirá, Senhora Gladia. Com perdão pela falta de modéstia, sou muito valioso para ele. De qualquer modo, espero um dia sucedê-lo como chefe do Instituto, e isso, tenho absoluta certeza, ele não permitirá, uma vez que ele desconfia que minha descendência seja pior do que a que brota da senhora.

      - Ele imagina que o pobre Santirix seja pior que eu?

      - De modo nenhum. - Mandamus corou e engoliu em seco, mas sua voz permaneceu uniforme e firme. - Sem que isso signifique um desrespeito, senhora, cabe a mim descobrir a verdade.

      - Que verdade?

      - Sou seu descendente em quinto grau. Isso está claro nos registros genealógicos. Mas é possível que eu seja também descendente em quinto grau, não de Santirix Gremionis, e sim do Terráqueo Elijah Baley?

      Gladia pulou em pé tão depressa como se o campo de força unidimensional de um titeriteiro a tivesse erguido. Ela não percebeu que tinha se levantado.

      Era a terceira vez em doze horas que o nome daquele antigo Terráqueo tinha sido mencionado - e por três pessoas diferentes.

      A voz dela pareceu não lhe pertencer absolutamente.

      - O que está querendo dizer?

      Ele respondeu, levantando-se por sua vez e recuando ligeiramente:

      - Parece-me muito claro. Seu filho, meu trisavô, nasceu de uma relação sexual entre a senhora e o Terráqueo Elijah Baley? Ele foi o pai do seu filho? Não sei como dizer isto mais francamente.

      - Como ousa fazer essa sugestão? Ou mesmo pensar nela?

      - Ouso porque minha carreira depende disso. Se a resposta for afirmativa, minha vida profissional poderá ficar arruinada. Quero uma negativa, mas uma negativa destituída de fundamento em nada me ajudará. Preciso ser capaz de apresentar provas ao Dr. Amadiro no momento apropriado, e mostrar-lhe que sua desaprovação à minha genealogia deve terminar em você. Afinal de contas, está claro para mim que a aversão dele pela senhora, e mesmo pelo Dr. Fastolfe, não é nada, nada mesmo, comparada com a incrível intensidade do seu ódio ao Terráqueo Elijah Baley. Não se trata apenas da sua vida curta, embora o pensamento de ter herdado genes bárbaros possa me perturbar tremendamente. Acho que se eu apresentar provas de ser descendente de um Terráqueo que não Elijah Baley, ele se satisfará. É o pensamento de ter sido Elijah Baley, e apenas ele, que o deixa maluco. Não sei por quê.

      A insistência no nome de Elijah fez com que ele parecesse, para Gladia, quase vivo outra vez. Ela ficou respirando ofegante e profundamente,  exultando com a melhor recordação da sua vida.

      - Eu sei por quê - respondeu Gladia. - Porque Elijah, com tudo contra ele, com Aurora inteira combatendo-o, conseguiu, seja como for, destruir Amadiro no momento em que ele pensou ter o sucesso nas mãos. Elijah conseguiu isso por sua coragem e inteligência. Amadiro encontrou seu superior incontestável na pessoa de um Terráqueo a quem negligentemente desprezou, que poderia fazer, em contrapartida, a não ser odiá-lo futilmente? Elijah morreu há mais de dezesseis décadas e Amadiro ainda não conseguiu esquecê-lo, não conseguiu quebrar as cadeias que o prendem pelo ódio e recordação a esse homem morto. E eu não esquecerei Amadiro, nem deixarei de odiá-lo, enquanto isso envenenar cada momento de sua existência.

      - Vejo que tem motivos para desejar mal ao Dr. Amadiro - disse Mandamus - mas que motivo tem para me desejar o mesmo? Permitir ao Dr. Amadiro pensar que eu sou descendente de Elijah Baley lhe dará o prazer de me liquidar. Por que lhe dar esse prazer desnecessariamente, se não sou esse descendente? Assim, dê-me a prova de que descendo da senhora e de Santirix Gremionis ou da senhora e de qualquer outro, menos Elijah Baley.

      - Seu louco! Seu idiota! Por que precisa que lhe dê provas? Procure os registros históricos. Neles encontrará os dias exatos em que Elijah esteve em Aurora. Encontrará também o dia exato em que meu filho Darrel nasceu. Verificará que Darrel foi concebido mais de cinco anos depois de Elijah ter partido de Aurora. Descobrirá também que Elijah jamais voltou. Ou você pensa que eu levei cinco anos engravidando, que carreguei um feto em meu útero durante cinco anos Galácticos Padrões?

      - Conheço as estatísticas, senhora. E não acho que tenha carregado um feto esse tempo todo.

      - Então, por que me procurou?

      - Porque ainda há mais coisa. Eu sei - e imagino que o Dr. Amadiro também sabe - que, como diz, apesar de nunca ter voltado à superfície de Aurora, o Terráqueo Elijah Baley esteve uma vez numa nave que orbitou em Aurora por um dia ou mais. Sei - e imagino que o Dr. Amadiro também sabe - que, embora o Terráqueo não tenha deixado a nave para ir a Aurora, a senhora saiu de Aurora para ir à nave, que ficou nela a maior parte do dia e que isso aconteceu quase cinco anos depois do Terráqueo ter estado no solo de Aurora - mais ou menos na época em que seu filho foi concebido.

      Gladia sentiu o sangue fugir do seu rosto ao ouvir as calmas palavras do rapaz. A sala ficou escura à sua frente e ela cambaleou.

      Sentiu o súbito toque de braços fortes em volta de si e viu que eram os de Daneel. Sentiu-se ser colocada devagar na poltrona.

      Ouviu a voz de Mandamus, como se viesse de uma grande distância.

      - Isso não é verdade, senhora? - perguntou.

      Claro, era verdade.

     

      O Antepassado?

      Lembrança!

      Claro, sempre presente, mas habitualmente permanecendo oculta. E então, às vezes, como resultado da espécie exata de impulso, podia surgir subitamente, agudamente definida, colorida, brilhante, movimentada e viva.

      Ela era novamente jovem, mais moça que aquele homem à sua frente, nova o bastante para sentir tragédia e amor - com sua morte em vida no planeta em Solaria tendo atingido seu clímax no fim amargo do primeiro em quem ela pensara como "marido". (Não, ela não diria seu nome mesmo agora, nem em pensamento.)

      Ainda mais perto de sua então-vida estavam os meses de profunda emoção com o segundo - não-homem - em quem pensava dessa maneira. Jander, o robô humanóide, lhe fora dado e ela o tinha tornado inteiramente seu até que, como seu primeiro marido, acabara morrendo repentinamente.

      Depois acontecera Elijah Baley, que nunca fora seu marido, que encontrara apenas duas vezes, com um intervalo de dois anos, cada vez por poucas horas em poucos dias.

      Elijah, cujo rosto ela tinha tocado com a mão sem luva, ocasião em que ficara excitada, cujo corpo nu ela tivera mais tarde nos braços, ocasião em que finalmente se apaixonara fortemente.

      Finalmente, um terceiro marido, com quem se acalmara e ficara em paz, trocando o insucesso pelo não-sofrimento e conseguindo, com um esquecimento firmemente mantido, o alívio de reviver.

      Até que um dia (ela não tinha certeza do dia em que interrompera os anos de sono pacífico), Han Fastolfe, tendo pedido permissão para visitá-la, chegara, vindo de sua casa ao lado. Gladia o recebera com certa preocupação, pois ele era um homem muito atarefado para perder tempo com futilidades. Tinham se passado apenas cinco anos desde a crise que havia levado Han a chefe de Estado  de Aurora. Ele era o Presidente do planeta e o verdadeiro chefe de todos os mundos Espaciais. Tinha pouquíssimo tempo para ser um ente humano.

      Aqueles anos tinham deixado marcas - e continuariam a deixar até que ele morresse tristemente, considerando-se um fracasso, embora nunca tivesse perdido uma batalha.

      Kelden Amadiro, que tinha sido derrotado, vivia vigorosamente, como prova de que a vitória pode ser o maior castigo.

      Fastolfe, não obstante, continuava a ser afável, paciente e submisso, mas até mesmo Gladia, apolítica como era e desinteressada das infindáveis maquinações do poder, sabia que seu domínio sobre Aurora só era mantido com firmeza através de constante e incessante esforço que o esvaziava de tudo que pudesse fazer a vida valiosa, e que ele mantinha - ou era levado a manter - apenas por causa do que considerava o bem de... de quê? Aurora? Os Espaciais? Simplesmente um vago conceito de um Bem idealizado?

      Ela não sabia. E desistiu de perguntar.

      Mas aquilo acontecera apenas cinco anos após a crise. Ele ainda dava a impressão de um jovem esperançoso, e seu agradável rosto honesto ainda era capaz de sorrir.

      - Tenho um recado para você, Gladia - dissera ele.

      - Agradável, espero - comentou Gladia, educadamente.

      Fastolfe levara Daneel com ele. Era um sinal da cura de antigas mágoas o fato de ela poder finalmente olhar para Daneel com afeição honesta e sem dor, apesar de ele ser uma cópia fiel do seu falecido Jander, até nos mais insignificantes detalhes. Gladia podia falar com ele, embora o robô lhe respondesse com voz quase idêntica à de Jander. Cinco anos tinham cicatrizado sua úlcera e mitigado sua dor.

      - Espero que sim - disse Fastolfe, sorrindo gentilmente. - É de um velho amigo.

      - É muito bom eu ter velhos amigos - replicou a mulher, lutando para não ser irônica.

      - É de Elijah Baley.

      Os cinco anos desapareceram e ela sentiu a punhalada e a dor aguda da volta da memória.

      - Ele está bem? - perguntou Gladia com voz meio estrangulada, após um minuto de atordoado silêncio.

      - Muito bem. E o que é mais importante, está perto.

      - Perto? Em Aurora?

      - Em órbita. Ele sabe que não receberá permissão para pousar, mesmo que eu use toda a minha influência, é o que imagino. Ele deseja vê-la, Gladia. Entrou em contato comigo porque acha que eu posso conseguir que você visite a nave. Acho que posso dar um jeito - mas só se você quiser. Quer?

      - Eu... eu não sei. É uma coisa muito repentina para pensar.

      - Ou um impulso? - fez uma pausa e acrescentou: - Francamente, Gladia, como está indo com Santirix?

      Ela o encarou furiosa, muito embora sem entender a mudança de assunto - e depois compreendendo.

      - Estamos indo muito bem.

      - Você está feliz?

      - Não estou... infeliz.

      - Não parece entusiasmada.

      - Quanto tempo dura o entusiasmo, se houver?

      - Pretendem ter filhos algum dia?

      - Sim.

      - Está planejando uma mudança de estado conjugal?

      Ela sacudiu a cabeça com firmeza.

      - Ainda não.

      - Então, minha cara Gladia, se quer um conselho de um homem um tanto cansado, que se sente inconfortavelmente velho, recuse o convite. Lembro-me do pouco que você me disse depois de Baley ter deixado Aurora, e, para lhe ser franco, fui capaz de deduzir mais daquilo do que você talvez imagine. Se for vê-lo, poderá achar tudo desapontador, não vivendo no profundo e maduro resplendor da reminiscência; se não for desapontador, pior ainda, pois irá interromper um contentamento talvez frágil, que sua vontade então não seja capaz de corrigir.

      Gladia, que estava exatamente pensando de modo vago aquilo mesmo, viu que a proposta só precisava ser verbalizada para ser rejeitada.

      - Não, Han - retrucou - preciso vê-lo, mas tenho medo de ir só. Você irá comigo?

      Fastolfe sorriu, com ar cansado.

      - Não fui convidado, Gladia. E se fosse, teria sido forçado a recusar. Vai haver uma importante votação no Conselho. Negócios de Estado, você compreende, dos quais não posso me ausentar.

      - Pobre Han!

      - Sim, de fato, pobre de mim. Mas você não pode ir só. Segundo sei, você não pode pilotar uma nave.

      - Ah! Bem, pensei que seria levada por...

      - Um transporte comercial? - Fastolfe sacudiu a cabeça. - Impossível. Para abordar e visitar abertamente uma nave terrestre em órbita, como seria inevitável se usasse um transporte comercial, você precisaria de uma Permissão especial, que levaria semanas para ser obtida. Se não quiser ir, Gladia, não precisa afirmar que não quer vê-lo. Se a papelada e a burocracia referente a isso levam semanas, estou certo de que ele não poderá esperar tanto tempo.

      - Mas eu quero vê-lo - disse Gladia, agora decidida.

      - Nesse caso, você pode usar minha nave espacial particular, Daneel a levará. Ele sabe manejar os comandos muito bem e está muito ansioso Para ver Baley. Não comunicaremos a viagem.

      - Mas isso vai complicá-lo, Han.

      - Talvez ninguém descubra - ou finja não descobrir. E se alguém provocar encrenca, eu darei um jeito.

      Gladia curvou a cabeça num momento de meditação e depois disse:

      - Não me importo, serei egoísta, mesmo que isso signifique encrenca para você, Han. Quero ir.

      - Então você irá.

     

      Era uma nave pequena, menor do que Gladia tinha imaginado, de certa maneira acolhedora, mas por outro lado um tanto assustadora. Afinal de contas, era bastante pequena para não ter provisões de falsa gravidade - e a sensação de falta de peso, conquanto constantemente levando-a a praticar divertidas ginásticas, mantinha-a constantemente se lembrando de que estava num meio anormal.

      Ela era uma Espacial. Havia mais de cinco bilhões de Espaciais espalhados por cinqüenta planetas, todos orgulhosos do nome. Contudo, quantos deles, que se chamavam Espaciais, eram realmente viajantes do espaço? Pouquíssimos. Talvez oitenta por cento deles nunca tivessem deixado seu planeta natal. Mesmo os restantes vinte por cento dificilmente tinham ido ao espaço mais de duas ou três vezes.

      Ela, certamente, não era uma Espacial no sentido literal do termo, pensou tristemente. Outrora (outrora!) tinha viajado pelo espaço, de Solaria para Aurora, há sete anos. Agora estava indo ao espaço pela segunda vez, num iate espacial particular, para uma rápida viagem, pouco além da atmosfera, uns míseros cem mil quilômetros, com outra pessoa - nem mesmo uma pessoa - como companhia.

      Lançou outro olhar a Daneel na pequena cabine do piloto. Podia apenas ver uma parte dele, sentado junto aos comandos.

      Gladia nunca tinha estado em qualquer lugar com apenas um robô ao alcance da voz. Sempre houvera centenas - milhares - à sua disposição em Solaria. Em Aurora havia, rotineiramente, dezenas, se não mais.

      Aqui só havia um.

      - Daneel - disse ela.

      - Sim, Senhora Gladia? - replicou ele sem desviar a atenção dos comandos.

      - Está contente por ver Elijah Baley outra vez?

      - Não sei direito como descrever meus sentimentos, Senhora Gladia. Pode ser semelhante ao que um ser humano descreveria como contente.

      - Mas você deve sentir alguma coisa.

      - Sinto como se pudesse tomar decisões mais rapidamente do que de costume, minhas reações parecem surgir mais facilmente, meus movimentos exigem menos energia. Posso interpretar isso globalmente como uma sensação de bem-estar. Pelo menos, tenho ouvido os humanos usarem essa expressão, e sinto que o que ela pretende descrever é uma coisa semelhante às sensações que experimento agora.

      - E se eu lhe dissesse que desejava vê-lo sozinha? - perguntou Gladia.

      - Então daremos um jeito.

      - Mesmo que signifique que você não o verá?

      - Sim, senhora.

      - Então não vai ficar desapontado? Quero dizer, não vai ter a sensação oposta a essa, bem-estar? Suas decisões serão menos rápidas, suas reações menos fáceis, seus movimentos vão requerer mais energia e assim por diante?

      - Não, Senhora Gladia, pois terei uma sensação de bem-estar cumprindo suas ordens.

      - Sua própria sensação agradável é a Terceira Lei, cumprir minhas ordens é a Segunda, e esta a precede. Não é?

      - É, senhora.

      Gladia reprimiu sua própria curiosidade. Jamais lhe ocorreria inquirir um robô comum a esse respeito. Um robô é uma máquina. Mas ela não conseguia pensar em Daneel como máquina, exatamente como cinco anos antes fora incapaz de pensar em Jander como máquina. Mas com Jander tinha havido unicamente uma paixão ardente - que terminara com o próprio Jander. Pois, apesar de toda a sua semelhança com o outro, Daneel não podia reacender as cinzas. Com ele, havia espaço para a curiosidade intelectual.

      - Não o aborrece, Daneel - perguntou Gladia - ser tão limitado pelas Leis?

      - Não posso imaginar outra coisa mais, senhora.

      - Toda a minha vida estive presa à força de atração da gravidade, mesmo durante minha última viagem numa espaçonave, mas posso imaginar não estar presa por ela. E aqui estou, de fato, não presa por ela.

      - E gosta, senhora?

      - De certa forma, sim.

      - Isso a deixa apreensiva?

      - De certa forma sim também.

      - Às vezes, senhora, quando penso que os seres humanos não são limitados pelas Leis, me sinto mal.

      - Por que, Daneel? Alguma vez tentou discutir com você mesmo por que o pensamento de ilegalidade o faz sentir-se mal?

      Daneel ficou um instante silencioso.

      - Já, senhora - replicou - mas não acho que quisesse ficar imaginando essas coisas durante minha breve associação com o Colega Elijah. Ele tinha um jeito...

      - Sim, eu sei - falou ela. - Ele especulava a respeito de tudo. Tinha uma inquietação que o levava a fazer perguntas o tempo todo, a torto e a direito.

      - Era o que parecia. E eu tentei imitá-lo e fazer perguntas. Assim, perguntei-me como podia ser a inexistência de Leis e descobri que não podia imaginar tal coisa; a única coisa que me ocorreu foi que eu podia ser como um humano, e isso me perturbou. E me perguntei, como a senhora o fez, por que isso me deixara inquieto.

      - E o que respondeu a você mesmo?

      - Após muito tempo - disse Daneel - concluí que as Três Leis comandam a forma pela qual meus roteiros positrônicos se comportam. O tempo todo, sob todos os estímulos, as Leis forçam a direção e intensidade do fluxo positrônico ao longo dessas trilhas, de forma que eu sempre sei o que fazer. Contudo, o nível de conhecimento do que fazer nem sempre é o mesmo. Há momentos em que minha obrigação de fazer está sob menor pressão que em outras. Eu sempre notei que quanto mais baixo está o potencial positrono-motivo, então mais indeciso eu fico sobre que resolução tomar. E quanto mais indeciso, mais perto fico do mal-estar. Ter de decidir uma ação num milésimo de segundo, em vez de um bilionésimo, produz uma sensação que não desejo seja prolongada. O que aconteceria, então, pensei comigo mesmo, se eu ficasse totalmente sem Leis, como os humanos? O que aconteceria se eu não pudesse tomar uma decisão clara envolvendo um dado conjunto de condições? Teria sido insuportável, e não quero voluntariamente pensar nisso.

      - Contudo, é o que você está fazendo, Daneel - retrucou Gladia. - Você está agora pensando nela.

      - Só por causa da minha ligação com o Colega Elijah, senhora. Observei-o sob condições em que ele estava incapaz, durante certo tempo, de decidir uma ação por causa da natureza confusa do problema à sua frente. Ele estava evidentemente sofrendo um mal-estar como resultado, e eu senti mal-estar por ele porque não havia nada que eu pudesse fazer para facilitar-lhe a situação. É possível que eu tivesse percebido apenas uma parte mínima do que ele então sentia. Se eu tivesse percebido uma parte maior e compreendido melhor as conseqüências da sua incapacidade de tomar uma decisão, poderia ter...

      Hesitou.

      - Deixado de funcionar? Sido desativado? - perguntou Gladia, pensando breve e dolorosamente em Jander.

      - Sim, senhora. Meu fracasso em compreender pode ser um instrumento de proteção embutido contra danos no meu cérebro positrônico. Mas então notei que, não importava quão dolorosa achasse sua indecisão, o Colega Elijah continuava a fazer um esforço para resolver seu problema. Admirei-o imensamente por causa disso.

      - Então você é capaz de admirar, hem?

      Daneel respondeu solenemente:

      - Uso a palavra no mesmo sentido em que ouvi os humanos usarem, não conheço a palavra exata para exprimir a reação provocada dentro de mim pelas ações dessa espécie do Colega Elijah.

      Gladia balançou a cabeça e depois disse:

      - E contudo há regras que governam as reações humanas também, certos instintos, coações, ensinamentos.

      - É o que o amigo Giskard pensa, senhora.

      - Agora, naturalmente.

      - Ele as acha, porém, complicadas demais para uma análise. Ele especula se um dia poderá ser desenvolvido um sistema destinado a analisar o comportamento humano com minúcias matemáticas, do qual possam derivar Leis convincentes que exprimam as regras desse comportamento.

      - Duvido - retrucou Gladia.

      - Nem o amigo Giskard é otimista. Ele acha que decorrerá um longo tempo antes que esse sistema seja desenvolvido.

      - Um tempo muito longo, eu diria.

      - Agora - falou Daneel - estamos nos aproximando da nave terrestre e devemos começar a atracação, o que não é fácil.

      Pareceu a Gladia ter a atracação demorado mais do que a entrada na órbita da nave terrestre.

      Daneel permaneceu calmo durante a operação - mas então não pôde fazer outra coisa - e garantiu-lhe que todas as naves humanas podiam atracar nas outras, apesar da diferença de tamanho e construção.

      - Como os seres humanos - disse Gladia, forçando um sorriso, mas não houve reação de Daneel. O robô concentrou-se na delicada atracação, que precisava ser feita com precisão. Atracar era sempre possível, mas nem sempre fácil como podia parecer.

      Gladia sentiu crescer seu mal-estar naquele momento. Os Terráqueos tinham vida curta e envelheciam rapidamente. Haviam decorrido cinco anos desde que vira Elijah pela última vez. Teria envelhecido muito? Como estaria? Ela seria capaz de evitar parecer chocada ou horrorizada com a mudança?

      Qualquer que fosse sua aparência, ele continuaria a ser o Elijah para quem sua gratidão não tinha limites.

      Era mesmo isso? Gratidão?

      Gladia reparou que suas mãos estavam fortemente enlaçadas, a ponto de seus braços doerem. Foi com dificuldade que conseguiu forçá-las a relaxarem.

      Ela percebeu quando a atracação foi completada. A nave terrestre era bastante grande para ter um campo gerador de falsa gravitação, e no instante da atracação ele se expandiu para incluir o pequeno iate. Houve leve efeito rotativo quando a direção para o chão subitamente torno "para baixo", e Gladia experimentou uma nauseante queda de cinco centímetros.

      Seus joelhos dobraram com o impacto e ela caiu contra a parede.

      Indireitou-se com certa dificuldade e ficou aborrecida por não ter antecipado a mudança e se preparado para ela.

      Daneel disse, sem necessidade:

      - Atracamos, Senhora Gladia. O Colega Elijah pede licença para vir a bordo.

      - Claro, Daneel.

      Ouviu-se um chiado, e uma parte da parede girou, deslizando. Um vulto agachado atravessou a parede, que voltou ao lugar após sua passagem.

      O vulto endireitou-se e Gladia murmurou "Elijah!", sentindo-se inundada de alegria e alívio. Pareceu-lhe que o cabelo dele tinha ficado mais grisalho, mas por outro lado era Elijah. Não havia outra mudança visível, nenhuma marca de envelhecimento, afinal de contas.

      Ele sorriu-lhe e, por um instante, pareceu devorá-la com os olhos. Depois ergueu o indicador como que dizendo "Espere" e caminhou em direção a Daneel.

      - Daneel! - Agarrou o robô pelos ombros e sacudiu-o. - Você não mudou. Jehoshaphat! Você é a constante em todas as nossas vidas.

      - Colega Elijah. Que bom vê-lo.

      - Que bom ouvir você me chamar outra vez de colega, e desejo que seja assim. Esta é a quinta vez que o vejo, porém a primeira em que não tenho um problema a resolver. Nem mesmo sou mais detetive. Demiti-me e agora estou emigrando para um desses novos mundos. Diga-me, Daneel, por que não foi com o Dr. Fastolfe, quando ele visitou a Terra há três anos?

      - O Dr. Fastolfe decidiu assim. Ele preferiu levar Giskard.

      - Fiquei desapontado, Daneel.

      - Teria sido muito agradável vê-lo, Colega Elijah, mas o Dr. Fastolfe me disse depois que a viagem fora um grande sucesso, de forma que talvez sua decisão tenha sido correta.

      - Ela foi um sucesso, Daneel. Antes da visita, o governo da Terra estava relutante em cooperar com a Colonização, mas agora o planeta todo está pulsando e se erguendo, e, aos milhões, o povo está ansioso para ir. Não temos naves com capacidade para acolher todos - mesmo com a ajuda Auroreana - e não temos planetas para recebê-los, pois cada um deles precisa ser adaptado. Nenhum poderá acomodar uma comunidade humana imutável. Aquele para o qual estou indo tem pouco oxigênio livre e teremos de morar em cidades sob cúpulas durante uma geração, enquanto a vegetação terrestre se espalha.

      Seus olhos voltavam-se cada vez mais freqüentemente para Gladia, que permanecia sentada, sorrindo.

      - É de se esperar - disse Daneel. - Segundo aprendi na história humana, os planetas dos Espaciais estão também atravessando um período de terraformação.

      - Claro que estão! E graças a essa experiência, o processo pode ser agora acelerado. Mas me pergunto se você concordaria em ficar na cabine do piloto durante algum tempo, pois preciso falar com Gladia.

      - Certamente, Colega Elijah.

      Daneel atravessou a arcada que levava à cabine, e Baley olhou para Gladia de maneira interrogativa, fazendo com a mão um gesto para um lado.

      Compreendendo perfeitamente, ela se aproximou e tocou o contato que tornava o compartimento silencioso. Estavam, para todos os efeitos, sozinhos.

      Baley estendeu as mãos.

      - Gladia!

      Ela tomou-as nas suas, sem mesmo pensar que estava sem luvas, dizendo:

      - Se Daneel tivesse ficado conosco, não seria um estorvo.

      - Não fisicamente, mas psicologicamente. - Baley sorriu tristemente e acrescentou: - Desculpe, Gladia. Eu precisava falar primeiro com Daneel.

      - Você o conhece há mais tempo - replicou ela, suavemente. - Ele tem prioridade.

      - Não tem não. É que ele não tem defesa. Se você estiver aborrecida comigo, Gladia, pode me dar um soco no olho, se quiser. Daneel não. Posso ignorá-lo, mandá-lo embora, tratá-lo como se ele fosse um robô, e ele será obrigado a obedecer, ser o mesmo colega leal e sem queixas.

      - O fato é que ele é um robô, Elijah.

      - Nunca para mim, Gladia. Meu cérebro sabe que ele é robô e não tem sentimentos à maneira humana, porém meu coração considera-o humano e preciso tratá-lo como tal. Gostaria de pedir ao Dr. Fastolfe que me deixasse levá-lo comigo, porém robôs não são permitidos nos novos mundos dos Colonizadores.

      - Você estaria sonhando em me levar com você, Elijah?

      - Espaciais também não.

      - Parece que vocês, Terráqueos, são tão absurdamente exclusivistas quanto nós, Espaciais.

      Elijah balançou a cabeça, tristemente.

      - Loucura em ambos os lados. De qualquer modo, mesmo que fôssemos sãos, eu não a levaria. Você não poderia suportar a vida e eu nunca teria certeza de que seus mecanismos de imunidade tinham sido construídos adequadamente. Eu ficaria temeroso de que você ou morresse rapidamente de alguma infecção banal ou vivesse demais e visse nossas gerações morrerem. Perdoe-me, Gladia.

        - Perdoar o quê, caro Elijah?

      - Por... isto. - Estendeu as mãos, de palmas para cima, para ambos os lados. - Por pedir para vê-la.

      - Mas estou contente por isso. Eu queria vê-lo.

      - Eu sei - replicou ele. - Tentei não vê-la, mas o pensamento de estar no espaço e não parar em Aurora dividiu-me. E, todavia não é bom, Gladia. Trata-se exatamente de uma nova despedida, e isso me arrasará também. Foi por isso que nunca lhe escrevi, que nunca tentei me comunicar com você pela hiperonda. Certamente você deve ter imaginado.

      - Na verdade, não. Concordo com você que não tinha sentido. Seria apenas tornar a coisa muito mais difícil. Contudo, escrevi-lhe inúmeras vezes.

      - Escreveu? Nunca recebi suas cartas.

      - Nunca as coloquei no correio. Assim que acabava de escrevê-las, eu as destruía.

      - Mas por quê?

      - Porque, Elijah, nenhuma carta particular pode ser enviada de Aurora para a Terra sem passar pelas mãos do censor, e nunca escrevi nenhuma que desejasse que os censores vissem. Se tivesse me enviado uma carta, garanto-lhe que jamais teria chegado a mim, por mais inocente que fosse. Acho que foi por isso que nunca recebi nenhuma. Agora que sei que você não estava a par da situação, fico muitíssimo contente por não ter sido louco a ponto de tentar permanecer em contato comigo. Você iria compreender mal o meu silêncio.

      Baley encarou-a.

      - E como a estou vendo agora?

      - Não legalmente, garanto-lhe. Estou usando a nave particular do Dr. Fastolfe, e assim passei pelos guardas da fronteira sem ser identificada. Se esta nave não fosse do Dr. Fastolfe, eu seria interceptada e mandada de volta. Presumo que você também tenha compreendido isso e por isso tenha entrado em contato com ele e não comigo diretamente.

      - Não compreendi nada. Estou espantado pela dupla ignorância que me manteve a salvo. Talvez tripla, pois eu não conhecia a combinação correta da hiperonda para me comunicar diretamente com você e podia enfrentar a dificuldade de tentar achá-la na Terra. Eu não poderia tê-lo feito particularmente, e já havia muitos comentários por toda a Galáxia a nosso respeito, graças àquele drama idiota da hiperonda, que foi para o ar nas subondas, depois de Solaria. Do contrário, garanto-lhe, eu teria tentado. Contudo, eu tinha a combinação do Dr. Fastolfe, e uma vez na órbita de Aurora, contactei-o imediatamente.

      - Seja como for, aqui estamos.

      Gladia sentou-se no beliche e estendeu as mãos.

      Baley segurou-as e tentou sentar-se num banquinho que ele havia aproximado um pouco, porém ela puxou-o insistentemente para o beliche, fazendo-o sentar-se ao seu lado.

      Baley perguntou, sem jeito:

      - Como vão as coisas com você, Gladia?

      - Muito bem, Elijah. E com você?

      - Estou ficando velho. Há três semanas comemorei meu qüinquagésimo aniversário.

      - Cinqüenta não é...

      Gladia interrompeu-se.

      - Para um Terráqueo, é velhice. Como você sabe, nós temos vida curta.

      - Mesmo para um Terráqueo, cinqüenta não significa velhice. Você não mudou.

      - É gentil de sua parte dizer isso, mas sei onde os estalos nas juntas se multiplicaram. Gladia...

      - Sim, Elijah?

      - Preciso perguntar. Você e Santirix Gremionis...

      Gladia sorriu e balançou a cabeça afirmativamente.

      - Ele é meu marido. Segui seu conselho.

      - E deu certo?

      - Bastante. A vida é agradável.

      - Ótimo. Tomara que dure.

      - Nada dura séculos, Elijah, mas pode durar anos, talvez mesmo décadas.

      - Filhos?

      - Ainda não. Mas quanto à sua família, meu homem casado? Seu filho? Sua mulher?

      - Bentley mudou para as Colônias há dois anos. Na realidade, estou indo juntar-me a ele. Ele é funcionário no planeta para onde estou indo. Tem apenas vinte e quatro anos e está prosperando. - Os olhos de Baley luziram. - Acho que terei de chamá-lo de Vossa Excelência. Pelo menos em público.

      - Formidável. E a senhora Baley? Está viajando com você?

      - Jessie? Não. Ela não quer deixar a Terra. Eu lhe disse que teríamos de morar em cúpulas durante muito tempo e que, na verdade, não seria muito diferente da Terra. Primitivo, claro. Contudo, ela pode mudar de idéia a tempo. Tornarei a mudança tão confortável quanto possível, e uma vez instalado, pedirei a Bentley para ir à Terra buscá-la. Nessa época, ela deverá estar bastante solitária para desejar vir. Veremos.

      - Mas nesse ínterim você ficará só.

      - Há mais de uma centena de emigrantes na nave, portanto não estarei realmente só.

      - Eles estão do outro lado do setor, contudo. E eu também estou só.

      Baley lançou um rápido olhar involuntário à cabine do piloto e Gladia disse:

      - A não ser por Daneel, é claro, que está do outro lado daquela porta e que é robô, a despeito de quão intensamente você pensa nele como pessoa. Mas certamente você não pediu para me ver apenas para perguntarmos pelas nossas respectivas famílias.

      O rosto de Baley ficou solene, quase ansioso.

      - Não posso pedir-lhe...

      - Então peço eu. Este beliche não foi na verdade feito para atividades sexuais, mas você enfrentará a possibilidade de cair dele, espero.

      - Gladia, não posso negar que... - disse Baley, vacilante.

      - Oh, Elijah, não se entregue a uma longa dissertação visando a satisfazer as necessidades de sua moralidade terrestre. Ofereço-me a você de acordo com os costumes Auroreanos. É seu pleno direito recusar e eu não tenho legalmente como discutir a recusa. Só que a discutirei com mais intensidade. Resolvi que o direito de recusa pertence apenas aos Auroreanos. Não a aceito de um Terráqueo.

      Baley suspirou.

      - Não sou mais Terráqueo, Gladia.

      - E eu estou ainda menos disposta a aceitar isso de um miserável emigrante se dirigindo a um planeta bárbaro onde ele terá de se abrigar sob uma cúpula. Elijah, tivemos tão pouco tempo, temos ainda menos agora e talvez eu nunca mais o veja. Este encontro é tão completamente inesperado, que será um crime cósmico deixá-lo passar.

      - Gladia, você realmente quer um velho?

      - Elijah, você quer realmente que eu implore?

      - Mas estou envergonhado.

      - Pois feche os olhos.

      - Quero dizer, de mim mesmo - do meu corpo decrépito.

      - Então sofra. Sua opinião boba a respeito de si próprio nada tem a ver comigo.

      E ela passou os braços em volta dele, quando a gola do seu vestido se abriu.

      Gladia ficou simultaneamente consciente de uma série de coisas.

      Ficou consciente da maravilha da constância, pois Elijah era exatamente como se lembrava dele. O lapso de cinco anos não tinha mudado nada. Ela não tinha vivido no resplendor de uma lembrança intensificada. Ele era Elijah.

      Também ficou consciente da mistura de diferenças. Intensificou-se sua sensação de que Santirix Gremionis, sem um único defeito maior que ela pudesse identificar, era todo defeitos. Santirix era afetuoso, gentil, racional, razoavelmente inteligente - e vazio. Ela não sabia dizer por que ele era vazio, mas nada do que o marido fazia ou dizia podia animá-la como Baley fazia, mesmo quando este nada fazia ou dizia. Baley era mais idoso, muito mais idoso fisiologicamente, não tão elegante quanto Santirix, e tinha, além disso, um indefinível ar de decadência - a auréola de envelhecimento rápido e vida curta que os Terráqueos prezavam. Contudo...

      Ficou consciente da tolice dos homens, de Elijah se aproximando hesitante, da sua total incapacidade de apreciar o efeito que produzia nela.

      Ficou consciente de sua desatenção, pois tinha se afastado para conversar com Daneel, que deveria ser o último, quando ele era o primeiro. Os Terráqueos temiam e odiavam os robôs, apesar disso, mesmo sabendo muito bem que Daneel era robô, Elijah tratava-o como gente. Os Espaciais, por sua vez, que gostavam de robôs e nunca se sentiam bem sem eles, jamais pensavam neles a não ser como máquinas.

      Acima de tudo, Gladia ficou consciente do tempo. Sabia que tinham se passado exatamente três horas e vinte e cinco minutos desde que Elijah entrara na pequena nave de Han Fastolfe, e sabia também que não seria permitido ficar muito mais tempo.

      Quanto mais tempo ela permanecesse fora da superfície de Aurora e a nave de Baley em órbita, mais provavelmente alguém repararia - se é que já não tivesse reparado, como parecia quase certo - mais provavelmente alguém iria ficar curioso e investigar. E depois Fastolfe ficaria metido numa desagradável enrascada.

      Baley voltou da cabine de pilotagem e olhou para Gladia com tristeza.

      - Agora preciso partir, Gladia.

      - Sei muito bem disso.

      - Daneel cuidará de você - disse Baley. - Ele será seu amigo e protetor, você precisa ser amiga dele. Por amor a mim. Mas é a Giskard que eu quero que ouça. Deixe que ele a aconselhe.

      Gladia contraiu o rosto.

      - Por que Giskard? Não sei se gosto dele.

      - Não lhe peço que goste dele. Peço-lhe que confie nele.

      - Mas por quê, Elijah?

      - Não posso lhe dizer. A esse respeito, você precisa também confiar em mim.

      Encararam-se sem palavras. Era como se o silêncio tivesse parado o tempo, permitindo-lhes reter os segundos e torná-los imóveis. Mas só durou um pouco. Baley perguntou:

      - Você não lamenta...

      - Como posso lamentar - sussurrou Gladia - se talvez nunca mais o veja?

      E ela nunca mais o viu. Nunca!

      Foi com sofrimento que ela se sentiu arrastar pelo desolado espaço morto dos anos mais uma vez até o presente.

      Eu nunca devia, pensou. Nunca!

      Gladia tinha se protegido contra as recordações agridoces durante muito tempo e agora mergulhava nelas - mais amargas que doces desde  que tinha visto aquele indivíduo, aquele Mandamus - porque Giskara  tinha pedido e porque tinha sido compelida a confiar em Giskard.

      Tinha sido o último pedido dele.

      Gladia voltou a fixar-se no presente. (Quanto tempo tinha passado.)

      Mandamus olhava-a friamente e disse:

      - Pela sua reação, Senhora Gladia, deduzo que é verdade. Não seria possível dizê-lo com maior clareza.

      - O que é verdade? De que está falando?

      - A senhora viu o Terráqueo Elijah Baley cinco anos após sua visita a Aurora. A nave dele estava na órbita deste planeta, a senhora foi vê-lo e esteve com ele mais ou menos na época em que concebeu seu filho.

      - Que prova tem disso?

      - Senhora, isso não ficou tão secreto assim. A nave do Terráqueo foi detectada em órbita. O iate de Fastolfe foi percebido em vôo. Ele foi observado atracando. Não era Fastolfe quem estava a bordo do iate, portanto houve a suposição de que fosse a senhora. A influência do Dr. Fastolfe foi suficiente para evitar o seu registro.

      - Se não foi registrado, não há prova.

      - Não obstante, o Dr. Amadiro passou os últimos dois terços de sua vida seguindo os movimentos do Dr. Fastolfe com os olhos do ódio. Sempre houve funcionários do governo dedicados de corpo e alma à política do Dr. Amadiro de reservar a Galáxia para os Espaciais, e eles comunicavam secretamente a ele tudo que pensavam poder interessá-lo. O Dr. Amadiro tomou conhecimento de sua escapada quase ao mesmo tempo em que aconteceu.

      - Isso não prova. A palavra não corroborada de um funcionário subalterno à procura de favores não é levada em conta. Amadiro nada fez porque mesmo ele sabe que não tem nenhuma prova.

      - Nenhuma prova com que possa inculpar alguém mesmo de um delito leve, nenhuma prova com a qual possa incomodar Fastolfe, mas prova suficiente para me colocar sob suspeita de ser descendente de Baley e assim inutilizar minha carreira.

      Gladia disse amargamente:

      - O senhor pode ficar tranqüilo. Meu filho é descendente de Santirix Gremionis, um verdadeiro Auroreano, e é desse filho de Gremionis que o senhor descende.

      - Convença-me disso, senhora. Nada mais peço. Convença-me de que passou horas sozinha com o Terráqueo discutindo - política, talvez - e conversando sobre os velhos tempos e amigos comuns - contaram-se histórias, engraçadas - e nunca se tocaram. Convença-me.

      - O que fizemos não tem importância, assim poupe-me de sua ironia. Naquele dia, eu já estava grávida do meu então marido. Levava comigo um feto de três meses, um feto Auroreano.

      - Pode provar?

      - Por que tenho de provar? A data do nascimento do meu filho está registrada, e Amadiro deve ter o dia da minha visita ao Terráqueo.

      - Como já lhe disse, ele foi informado disso na época, mas se passaram quase vinte décadas e ele não se lembra com exatidão. A visita não foi objeto de registro e não pode ser usada. Acho que o Dr. Amadiro prefere acreditar que o seu encontro com o Terráqueo ocorreu nove meses antes do nascimento do seu filho.

      - Seis meses.

      - Prove.

      - Tem a minha palavra.

      - É insuficiente.

      - Bem, então... Daneel, você estava comigo. Quando vi Elijah Baley?

      - Senhora Gladia, foi cento e setenta e três dias antes do nascimento do seu filho.

      - O que corresponde - completou Gladia - a pouco menos de seis meses antes do nascimento.

      - É insuficiente - repetiu Mandamus.

      Gladia ergueu o queixo.

      - A memória de Daneel é perfeita, coisa que pode ser demonstrada facilmente, e o depoimento de um robô serve de prova nos tribunais de Aurora.

      - Isto não é um assunto para tribunais, nem será, e a memória de Daneel não tem nenhum valor para o Dr. Amadiro. Daneel foi construído por Fastolfe e por ele mantido durante quase dois séculos. Não podemos dizer que modificações lhe foram introduzidas ou como o robô foi instruído para lidar com assuntos relativos ao Dr. Amadiro.

      - Então raciocine, homem. Os Terráqueos são muito diferentes de nós geneticamente. Somos virtualmente espécies diferentes. Não somos interférteis.

      - Não está provado.

      - Pois bem, existem registros genéticos. Darrel tem  Santirix, idem. Compare-os. Se meu ex-marido não é o pai dele, as diferenças genéticas tornarão isso inequívoco.

      - Os registros genéticos não estão à disposição de todos. A senhora sabe disso.

      - Amadiro não está tão imerso em considerações éticas. Ele tem influência bastante para vê-los ilegalmente. Ou ele tem medo de que sua hipótese seja desmentida?

      - Qualquer que seja o motivo, senhora, ele não trairá o direito de um Auroreano à privacidade.

      - Bem, então - retrucou Gladia - vá ao espaço exterior e sufoque no vácuo. Se o seu Amadiro se recusa a ser convencido, não é problema meu. O senhor, pelo menos, deve estar convencido, e é sua tarefa convencê-lo, por sua vez. Se não puder e sua carreira não progredir como gostaria, por favor, fique certo de que isso está inteira e intensamente fora de minhas preocupações.

      - Isso não me surpreende. Não esperava nada mais. E quanto a isto, estou convencido. Estava apenas esperando que a senhora me desse alguns elementos com que convencer o Dr. Amadiro. A senhora não os tem.

      Gladia encolheu desdenhosamente os ombros.

      - Portanto, usarei outros métodos - disse Mandamus.

      - Que bom que o senhor os tem - retrucou Gladia friamente.

      Mandamus falou em voz baixa, quase como se estivesse inconsciente da presença de mais alguém.

      - De fato. Eu possuo métodos bastante poderosos.

      - Ótimo. Sugiro-lhe que tente chantagear Amadiro. Ele deve ser muito vulnerável a chantagem.

      Mandamus encarou-a, subitamente franzindo o cenho.

      - Não seja tola.

      - Agora retire-se - disse Gladia. - Acho que já o aturei demais. Fora de minha casa!

      Mandamus ergueu os braços.

      - Espere! Eu lhe disse, no começo, que tinha dois motivos para vêla: um pessoal e outro oficial. Gastei tempo demais com o primeiro, porém solicito cinco minutos para discutir o segundo.

      - Não lhe dou mais do que isso.

      - Há alguém que deseja vê-la. Um Terráqueo - ou, pelo menos, um membro de um dos planetas dos Colonizadores, um descendente do povo da Terra.

      - Diga-lhe - retrucou Gladia - que nem os Terráqueos nem seus descendentes Colonizadores podem descer em Aurora e mande-o embora. Por que deveria eu vê-lo?

      - Infelizmente, senhora, nos dois últimos séculos o equilíbrio do poder mudou um pouco. Aquela gente da Terra tem mais planetas do que nós e também uma população muito maior. Têm mais naves, embora não tão avançadas quanto as nossas, e, em virtude de suas vidas curtas e de sua fecundidade, estão evidentemente muito mais preparados para morrer do que  nós.

      - Não acredito nisso.

      Mandamus sorriu friamente.

      - Por quê? Oito décadas são menos que quarenta. Seja como for, precisamos tratá-los educadamente, muito mais do que fomos no tempo de Elijah Baley. Se isso lhe serve de consolo, foi a política de Fastolfe que criou essa situação.

      - Afinal de contas, em nome de quem o senhor fala? É Amadiro quem necessita agora ser educado com os Colonizadores?

      - Não, realmente é o Conselho.

      - O senhor é porta-voz do Conselho?

      - Não oficialmente, mas me pediram que a informasse disso... não oficialmente.

      - E se eu vir esse Colonizador, o que vai acontecer? Qual o assunto a ser tratado?

      - Ignoramos, senhora. Contamos com a senhora para ficarmos informados. A senhora o receberá, descobrirá o que ele quer e nos transmitirá.

      - Quem é "nós"?

      - Como eu disse, o Conselho. O Colonizador virá à sua casa esta noite.

      - O senhor parece estar certo de que eu não tenho escolha a não ser assumir esta posição de informante.

      Mandamus ficou em pé, dando evidentemente como terminada a missão.

      - A senhora não será uma "informante". Nada deve a esse Colonizador. Apenas transmitirá a conversa ao seu governo, como deve fazer - e até ansiar - uma leal cidadã Auroreana. A senhora não quererá que o Conselho imagine que sua origem Solariana de alguma forma diminua seu patriotismo Auroreano.

      - Senhor, tenho sido Auroreana mais de quatro vezes ao longo de sua vida.

      - Sem dúvida, mas a senhora nasceu e cresceu em Solaria. A senhora é uma anomalia pouco habitual, uma Auroreana nascida no estrangeiro, e é difícil esquecer tal coisa. Tanto isto é verdade, que o Colonizador deseja vê-la, mais que a qualquer outra pessoa em Aurora, exatamente porque a senhora é Solariana de nascença.

      - Como sabe disso?

      - É uma presunção lógica. Ele a identifica como "a Solariana". Estamos curiosos em saber por que isso significa alguma coisa para ele... agora que Solaria não mais existe.

      - Pergunte-lhe.

      - Preferimos perguntar à senhora... depois que perguntar a ele. Agora peço-lhe licença para me retirar e agradeço-lhe por sua hospitalidade.

      Gladia fez um seco aceno de cabeça.

      - Concedo-lhe minha permissão de se retirar com mais prazer do que lhe concedi a minha hospitalidade.

      Mandamus dirigiu-se ao corredor que levava à entrada principal, acompanhado de perto por seus robôs.

      Parou exatamente antes de sair da sala, virou-se e disse:

        - Ia-me esquecendo... O Colonizador que deseja vê-la tem, por curiosa coincidência, o sobrenome Baley.

     

      A Crise

      Daneel e Giskard, com cortesia robótica, acompanharam Mandamus e seus robôs até fora do terreno da casa. Depois que estes saíram, os dois deram uma volta pelos terrenos para terem certeza de que os robôs menores estavam em seus lugares e verificaram o tempo (nublado e levemente mais frio que o normal).

      - O Dr. Mandamus admitiu abertamente - disse Daneel - que os planetas dos Colonizadores estão agora mais fortes que os dos Espaciais. Eu não esperava que ele dissesse isso.

      - Nem eu - replicou Giskard. - Eu tinha certeza de que os Colonizadores iriam ter sua força aumentada, em comparação com os Espaciais, porque Elijah Baley previu isso há muitas décadas, mas não vejo o meio de determinar quando o fato irá se tornar evidente para o Conselho de Aurora. Parece-me que a inércia social vai manter o Conselho firmemente convencido da superioridade dos Espaciais muito depois que tenham desaparecido, mas não posso calcular por quanto tempo irão continuar a se iludir.

      - Estou espantado de o Colega Elijah ter previsto isso há tanto tempo.

      - Seres humanos têm meios de pensar sobre seres humanos que nos escapam.

      Se Giskard fosse humano, o comentário poderia ter sido feito com pena ou inveja, mas, como era robô, foi um comentário meramente factual. Ele Prosseguiu:

      - Eu procurei adquirir o conhecimento, se não a maneira de pensar, lendo a história da humanidade nos menores detalhes. com certeza, em algum lugar do longo relato dos acontecimentos humanos as Leis da Humânica devem ter sido enterradas, elas que são equivalentes às nossas Três Leis da Robótica.

      - A senhora Gladia me disse uma vez que essa era uma esperança impossível - falou Daneel.

      - É bem possível, amigo Daneel, pois embora me pareça que essas Leis da Humânica possam existir, não consigo encontrá-las. A generalização que procuro fazer, por mais ampla e simples, contem inúmeras exceções. Contudo, se elas existem e se eu conseguir encontrá-las, poderá compreender melhor os seres humanos e ficar mais confiante em que estou obedecendo às Três Leis da melhor maneira.

      - Visto que o Colega Elijah compreende os seres humanos, deve ter conhecimento das Leis da Humânica.

      - Presumivelmente. Porém ele aprendeu isso por intermédio de uma coisa que os seres humanos chamam intuição, palavra que não compreendo, significando um conceito do qual nada sei. Provavelmente está além da compreensão e eu só tenho a razão sob o meu comando.

      Além da memória!

      Memória que não funcionava à maneira humana, é claro. Faltava-lhe o imperfeito retorno, a vagueza, os acréscimos e subtrações ditados, o desejo que seja verdade e o auto-interesse, para não falar nas protelações e lacunas, nos retrocessos que podem transformar a memória em devaneios com horas de duração.

      Era memória robótica assinalando os eventos exatamente como aconteceram, mas de maneira muito mais apressada. Os segundos desenrolavam-se em frações de segundo, de forma que os dias dos acontecimentos podiam ser revividos com aquela rápida exatidão de maneira a não provocar um vácuo perceptível na conversa.

      Como Giskard havia feito inúmeras vezes antes, ele reviveu essa visita à Terra, sempre procurando compreender a capacidade casual de Elijah Baley prever o futuro, sempre incapaz de descobrir.

      Terra!

      Fastolfe tinha ido à Terra numa belonave Auroreana, juntamente com uma lotação completa de colegas passageiros, tanto humanos como robôs. Uma vez em órbita, contudo, foi apenas Fastolfe quem tomou um módulo para pousar. Recebeu injeções para reforçar seu mecanismo de imunidade e colocou as imprescindíveis luvas, macacões, lentes de contato e filtros para o nariz. Como resultado, sentiu-se bastante seguro, mas nenhum outro Auroreano teve vontade de acompanhá-lo.

      Fastolfe encolheu os ombros a isso, pois lhe parecia (como mais tarde explicou a Giskard) que seria melhor recebido se chegasse sozinho. Uma delegação faria a Terra lembrar com desagrado os maus dias de outrora (para ela) de Spacetown, quando os Espaciais tinham uma base permanente na Terra e dominavam diretamente o planeta.

      Contudo, Fastolfe levou Giskard. Chegar sem robôs teria sido impensável, mesmo para Fastolfe. Chegar com mais de um seria acrescentar mais tensão aos Terráqueos cada vez mais anti-robôs que ele esperava ver e com quem pretendia negociar.

      Para começar, é claro, queria encontrar Baley, que iria ser sua ligação com a Terra e seus habitantes. Foi essa a desculpa racional para o encontro. A verdadeira desculpa era simplesmente que Fastolfe queria muito rever Baley, a quem certamente devia muito.

      (Que Giskard quisesse ver Baley e que tivesse muito levemente estimulado a emoção e o impulso no cérebro de Fastolfe para conseguir, Fastolfe não tinha meio de saber... ou mesmo imaginar.)

      Baley estava à espera deles na hora do desembarque, acompanhado de um pequeno grupo de funcionários da Terra, ocasionando assim uma tediosa perda de tempo durante a qual a diplomacia e o protocolo tiveram a primazia. Foi algumas horas antes que Baley e Fastolfe tivessem podido se afastar, e isso não teria acontecido tão cedo se não fosse pela silenciosa e não sentida interferência de Giskard... com um exato toque nas mentes dos mais importantes daqueles funcionários, que estavam visivelmente entediados. (Era sempre seguro confinar-se, acentuando uma emoção já existente. Quase nunca causava danos.)

      Baley e Fastolfe instalaram-se numa acanhada sala de jantar particular, ordinariamente disponível apenas aos altos funcionários do governo. Pratos podiam ser encomendados com o toque nas teclas de um cardápio computadorizado, sendo trazidos em carrinhos igualmente manobrados por computadores.

      Fastolfe sorriu.

      - Muito modernos - disse ele - mas esses carrinhos não passam de robôs especializados. Surpreende-me que a Terra os use. Certamente, não são de manufatura Espacial.

      - De fato, não - replicou Baley, solenemente. - Confecção doméstica, por assim dizer. Estes são apenas para uso dos chefões, e é a minha primeira oportunidade de experimentá-los. Provavelmente, não os usarei novamente.

      - Você pode ser eleito algum dia para um alto cargo e então poderá experimentar este tipo de coisa diariamente.

      - Nunca - replicou Baley.

      Os pratos foram colocados diante de cada um, o carrinho era até bastante sofisticado para ignorar Giskard, que ficou em pé, impassível, atrás da cadeira de Fastolfe.

      Durante um momento, Baley comeu em silêncio, então, com uma certa timidez, disse:

      - É um prazer vê-lo novamente, Dr. Fastolfe.

      - A recíproca é verdadeira. Não esqueci de quando você, há dois anos, esteve em Aurora e trabalhou para me livrar da suspeita da destruição do robô Jander e reverter as opiniões nitidamente a meu favor contra meu superconfiante oponente, o bom Amadiro.

      - Ainda estremeço quando penso naquilo - respondeu Baley. - E minhas saudações a você também, Giskard. Espero que não tenha me esquecido.

      - Isso seria totalmente impossível, senhor - afirmou Giskard.

      - Ótimo! Bem, doutor, espero que a situação política em Aurora continue a ser favorável. As notícias que temos sugerem isso, porém eu não confio na análise Terráquea dos assuntos Auroreanos.

      - Pode confiar... no momento. Meu partido está no comando firme do Conselho. Amadiro mantém uma oposição obstinada, porém desconfio que se passarão anos antes que sua gente se recupere do golpe que você lhes deu. Mas como vão as coisas com você e com a Terra?

      - Bastante bem. Diga-me, Dr. Fastolfe - o rosto de Baley crispou-se ligeiramente como que embaraçado - trouxe Daneel com o senhor?

      Fastolfe replicou devagar:

      - Lamento, Baley. Trouxe-o, mas deixei-o a bordo. Senti que não seria polido estar acompanhado por um robô tão parecido com um ser humano. Tendo a Terra se tornado tão anti-robô como se tornou, achei que um robô humanóide podia parecer uma provocação deliberada aos Terráqueos.

      - Compreendo - disse Baley e suspirou.

      - É verdade - perguntou Fastolfe - que seu governo está planejando a utilização de robôs dentro das Cidades?

      - Desconfio que chegaremos breve a isso, com uma época favorável, claro, para minimizar as perdas financeiras e a inconveniência. Os robôs serão restritos ao interior, onde são necessários para a agricultura e a mineração. Lá, também, poderão finalmente ser eliminados, e o plano é não haver robôs em nenhum dos novos mundos.

      - Já que citou os novos mundos, seu filho já abandonou a Terra?

      - Sim, há alguns meses. Tivemos notícias dele, que chegou são e salvo num novo planeta, juntamente com inúmeros Colonizadores, como eles mesmos se chamam. O planeta tem uma vegetação nativa e atmosfera rarefeita de oxigênio. Evidentemente, com o tempo pode se tornar muito semelhante à Terra. Enquanto isso, algumas cúpulas temporárias foram erguidas, novos Colonizadores foram avisados e todos estão ativamente dedicados à terra-formação. As cartas de Bentley e contatos ocasionais pela hiperonda são muito promissores, o que não impede a mãe dele de sentir muita saudade.

      - E você irá para lá, Baley?

      - Não tenho certeza se morar num mundo estranho sob uma cúpula é o meu ideal de felicidade, Dr. Fastolfe - não tenho a juventude e o entusiasmo de Ben - mas acho que vou, dentro de dois ou três anos. Seja como for, já transmiti ao Departamento minha intenção de emigrar.

      - Imagino que eles devem ter ficado preocupados com isso.

      - Nem um pouco. Eles dizem que estão, mas ficarão felizes por se livrarem de mim. Eu sou muito notório.

      - E como o governo da Terra reage a essa ânsia de expansão na Galáxia?

      - Nervosamente. Eles não proíbem absolutamente, mas certamente não colaboram. Continuam a desconfiar que os Espaciais são contra, e farão alguma coisa desagradável para impedi-la.

      - Inércia social - comentou Fastolfe. - Eles nos julgam de acordo com nosso comportamento de anos passados. Certamente, deixamos claro que agora encorajamos a colonização dos novos planetas pela Terra e que temos a intenção de colonizar outros por nossa conta.

      - Espero que explique isso ao nosso governo... Mas, Dr. Fastolfe, mudando de assunto, como está...

      Ficou na expectativa.

      - Gladia? - perguntou Fastolfe, ocultando seu divertimento. - Esqueceu o nome dela?

      - Não, não. Apenas hesitei em... em...

      - Ela está bem - disse Fastolfe - e vivendo confortavelmente. E me pediu que a lembrasse a você, mas imagino que não precise ser estimulado para recordá-la.

      - Espero que sua origem Solariana não seja usada contra ela.

      - Não, nem seu papel na queda do Dr. Amadiro. Até pelo contrário. Cuidei dela, garanto-lhe... De qualquer modo, me importo de lhe permitir livrar-se completamente dele, Baley. E se o funcionalismo da Terra continuar a se opor à imigração e expansão? Esse processo pode continuar, a despeito da oposição?

      - Possivelmente - replicou Baley - mas não certamente. Há uma oposição substancial entre os Terráqueos em geral. É difícil romper com as enormes Cidades subterrâneas que são nossos lares...

      - Seus úteros.

      - Ou nossos úteros, se preferir. Ir para novos mundos e ter de viver com a mais primitiva simplicidade por décadas, jamais tendo conforto durante a própria vida, não é nada fácil. Quando às vezes penso nisso, resolvo não ir - especialmente se passei uma noite em claro. Decidi não ir uma centena de vezes, e um dia talvez me agarre a essa decisão. Se eu me perturbo, quando, de certa forma, criei toda a idéia, então quem mais estará apto a ir livre e alegremente? Sem estímulo do governo - ou, para ser brutalmente franco - sem o pontapé do governo aplicado no fundo das calças da população, o projeto todo pode fracassar.

      Fastolfe balançou a cabeça, concordando.

      - Procurarei persuadir seu governo. Mas, e se eu falhar?

      Baley replicou, em voz baixa:

      - Se o senhor falhar - e se, em conseqüência, nosso povo fracassar - só restará uma alternativa: os próprios Espaciais devem colonizar a Galáxia. A tarefa tem de ser cumprida.

      - E ficará satisfeito ao ver os Espaciais se expandirem e ocupar a Galáxia, enquanto os Terráqueos permanecem em seu único planeta?

      - Não, claro que não, mas será melhor que a presente situação de imobilismo. Há muitos séculos, os Terráqueos espalharam-se pelas estrelas, fundaram alguns dos planetas que são hoje denominados Espaciais e estes poucos colonizaram outros. Contudo, um longo tempo decorreu desde que tanto os Espaciais como os Terráqueos, com sucesso, colonizaram e desenvolveram um novo mundo. Não se pode permitir tal imobilismo.

      - Concordo. Mas qual é o seu motivo para esperar a expansão, Baley?

      - Sinto que, sem algum tipo de expansão, a humanidade não pode progredir. Não tem que ser necessariamente uma expansão geográfica, porém esse é o melhor meio de induzir da mesma forma outros tipos de expansão. Se a expansão geográfica pode ser empreendida de forma a não sacrificar outros seres inteligentes, se houver espaços vazios onde possa haver expansão, então por que não tentar? Resistir à expansão, nestas circunstâncias, é abrir campo à decadência.

      - Então só vê essas alternativas? Expansão e progresso? Não expansão e decadência?

      - Sim, acredito que sim. Portanto, se a Terra recusar a expansão, então os Espaciais devem aceitá-la. A humanidade, quer na forma de Terráqueos ou Espaciais, precisa se expandir. Eu gostaria de ver os Terráqueos empreenderem a tarefa, mas, se isto não for possível, a expansão dos Espaciais é melhor que nenhuma. Uma alternativa ou outra.

      - E se um se expande e o outro não?

      - Então a sociedade em expansão se tornará cada vez mais forte e a não-expansionista cada vez mais fraca.

      - Tem certeza disso?

      - Parece inevitável, no meu entender.

      Fastolfe balançou a cabeça.

      - Realmente, concordo. É por isso que estou tentando persuadir tanto os Terráqueos como os Espaciais a se expandirem e progredirem. É a terceira alternativa e, creio, a melhor.

     

      A memória adejou durante os dias que se seguiram - incríveis massas de gente em movimento incessante, passando uns pelos outros em correntes e remoinhos - correndo em vias expressas sendo montadas e desmontadas - conferências infindáveis com inúmeros funcionários - mentes aglomeradas.

      Especialmente mentes aglomeradas.

      Mentes aglomeradas de forma tão espessa que Giskard não pôde destacar indivíduos. Mentes em massas misturando-se e fundindo-se numa vasta pulsação acinzentada onde tudo que podia ser detectável eram as fagulhas periódicas da desconfiança e aversão que se desprendiam sempre que alguém dessa multidão parava para olhá-lo.

      Só quando Fastolfe estava em conferência com alguns funcionários, pôde Giskard lidar com a mente individual, e isso, claro, foi o que teve importância.

      A memória ficou vagarosa até um ponto perto do término da estada na Terra, quando Giskard pôde, finalmente, manobrar um tempo sozinho novamente com Baley. Ajustou algumas mentes ao mínimo a fim de ficar certo de que, durante algum tempo, não haveria interrupção.

      Baley disse, desculpando-se:

      - Realmente, eu não o estive ignorando, Giskard. Simplesmente, não tive oportunidade de ficar a sós com você. Não sou muito considerado na Terra e não posso determinar minhas idas e vindas.

      - Senhor, claro que eu percebi isso, mas agora temos algum tempo juntos.

      - Ótimo. O Dr. Fastolfe me disse que Gladia está indo bem. Ele pode estar falando por bondade, sabendo que isso é o que eu gostaria de ouvir. Contudo, ordeno-lhe que seja sincero. Gladia, de fato, está indo bem?

      - O Dr. Fastolfe lhe disse a verdade, senhor.

      - E você lembra, espero, meu pedido, quando o vi pela última vez em Aurora, para que cuidasse dela e a protegesse de qualquer perigo.

      - Senhor, o amigo Daneel e eu estamos perfeitamente lembrados do seu pedido. Dei um jeito para isso, de maneira que, quando o Dr. Fastolfe não mais existir, tanto o amigo Daneel como eu passaremos a fazer parte da casa de Senhora Gladia. Então estaremos em posição muito melhor para protegê-la.

      - Isso - disse Baley com tristeza - será muito depois do meu tempo.

      - Compreendo e lamento, senhor.

      - Sim, mas não posso fazer nada, e aproxima-se uma crise - ou pode se aproximar - mesmo antes disso e contudo ainda depois do meu tempo.

      - Senhor, o que é que está pensando? Que crise é essa?

      - Giskard, é uma crise que pode surgir pelo fato do Dr. Fastolfe ser uma pessoa surpreendentemente persuasiva. Ou então há um outro fator associado a ele que está realizando a tarefa.

      - Como, senhor?

      - Cada funcionário que o Dr. Fastolfe viu e entrevistou parece agora entusiasticamente a favor da emigração. Não era assim antes, e se era, eles usavam de muita reserva. E logo que os líderes formadores de opinião fiquem a favor, outros certamente os seguirão. Isso irá se espalhar como uma epidemia.

      - E não quer isso, senhor?

      - Sim, quero, mas é quase demais o que eu quero. Nós nos espalharemos por toda a Galáxia - mas e se os Espaciais não quiserem?

      - Por que eles não haveriam de querer?

      - Não sei. Avanço isto como uma suposição, uma possibilidade. E se eles não quiserem?

      - A Terra e os planetas que seu povo colonizar ficarão então mais fortes, de acordo com o que lhe ouvi dizer.

      - E os Espaciais ficarão mais fracos. Haverá, contudo, um período de tempo durante o qual os Espaciais permanecerão tão fortes quanto a Terra e seus Colonizadores, embora num nível paulatinamente decrescente. Finalmente, os Espaciais se tornarão inevitavelmente conscientes de que os terráqueos serão um perigo crescente. Nesse momento, os planetas Espaciais irão certamente decidir que a Terra e os Colonizadores devem ser parados antes que seja muito tarde, e lhes parecerá que medidas drásticas terão de ser tomadas. Esse será um período de crise que determinará toda a história futura dos seres humanos.

      - Compreendo seu ponto de vista, senhor.

      Baley permaneceu num silêncio pensativo durante um instante e depois disse, quase num sussurro, como se temesse ser ouvido:

      - Quem conhece sua capacidade?

      - Entre os humanos, só o senhor... que não pode mencioná-la a ninguém.

      - Sei muito bem que não posso. O ponto, porém, é que foi você e não Fastolfe quem provocou a mudança que levou cada funcionário com quem contactou a ser partidário da emigração. E foi para conseguir isso que você deu um jeito de Fastolfe trazê-lo à Terra com ele, em vez de Daneel. Você era essencial, e Daneel podia ser uma distração.

      - Senti a conveniência - retrucou Giskard - de contar com um mínimo de pessoal, com o objetivo de facilitar minha tarefa, diminuindo as arestas do povo da Terra. Lamento, senhor, a ausência de Daneel. Percebo plenamente seu desapontamento por não poder cumprimentá-lo.

      - Bem... - disse Baley, balançando a cabeça. - Compreendo a necessidade e confio em que transmita a Daneel o quanto senti sua falta. Seja como for, continuo no meu ponto de vista. Se a Terra iniciar uma grande política de colonização mundial e se os Espaciais forem deixados para trás na corrida pela expansão, a responsabilidade por isso - e consequentemente pela crise que surgirá inevitavelmente - será sua. Por esse motivo, você precisa ter como sua responsabilidade imediata usar sua capacidade para proteger a Terra quando a crise surgir.

      - Farei o que puder, senhor.

      - E se conseguir, Amadiro poderá virar-se contra Gladia. Ele ou seus seguidores. Você precisa não esquecer também de protegê-la.

      - Daneel e eu não esqueceremos.

      - Obrigado, Giskard.

      E separaram-se.

      Quando Giskard entrou no módulo, acompanhando Fastolfe, para iniciar a viagem de volta a Aurora, tornou a ver Baley. Dessa vez, não teve oportunidade de falar-lhe.

      Baley acenou-lhe e emitiu uma palavra silenciosa: "Lembre."

      Giskard percebeu a palavra e, por trás dela, a emoção.

      Depois disso, Giskard nunca mais tornou a ver Baley. Nunca mais.

     

      Giskard nunca tinha achado possível recordar as vivas imagens dessa única visita à Terra sem acompanhá-las com as imagens da visita decisiva a Amadiro, no Instituto de Robótica.

      Não fora uma conferência fácil de arranjar. Amadiro, com a amargura da derrota pesando sobre si, não quis exacerbar sua humilhação indo à residência de Fastolfe.

      - Muito bem - dissera Fastolfe a Giskard - então posso me permitir ser magnânimo na vitória. Irei procurá-lo. Além disso, preciso vê-lo.

      Fastolfe tinha sido membro do Instituto de Robótica desde que Baley tornara possível o esmagamento de Amadiro e de suas ambições políticas. Em troca, Fastolfe tinha fornecido ao Instituto todos os dados para a construção e manutenção de robôs humaniformes. Uma quantidade deles tinha sido construída, depois o projeto chegou ao fim e Fastolfe foi afastado.

      Tinha sido intenção de Fastolfe, a princípio, ir ao Instituto sem robôs acompanhantes. Ter-se-ia colocado, sem proteção e (por assim dizer) nu no interior do que ainda era a fortaleza do campo inimigo. Teria sido um sinal de humildade e confiança, mas também a indicação de uma total autoconfiança, e Amadiro teria compreendido isso. Fastolfe, completamente só, daria uma demonstração de sua certeza de que Amadiro, com todos os recursos do Instituto sob sua direção, não ousaria tocar no seu inimigo sozinho, despreocupado e indefeso ao alcance do seu punho.

      Todavia, no fim, sem saber direito por quê, Fastolfe decidiu levar Giskard com ele.

      Amadiro pareceu um pouco mais magro desde a última vez que Fastolfe o vira. mas ainda era um tipo impressionante: alto e atarracado. Tinha perdido o sorriso confiante que fora, antes, sua marca registrada, e quando o experimentou à entrada de Fastolfe, ele pareceu mais um rosnado que se dissolveu num ar de sombria insatisfação.

      - Bem, Kelden - disse Fastolfe, tratando-o familiarmente - não nos vemos com freqüência, apesar de termos sido colegas durante quatro anos.

      - Vamos parar com essa falsa bondade, Fastolfe - disse Amadiro num resmungo claramente aborrecido e esganiçado - e me chame Amadiro. Nós somos colegas apenas de nome e não faço segredo - e jamais farei - da minha convicção de que sua política estrangeira é suicida para nós.

      Três dos robôs de Amadiro, grandes e reluzentes, estavam presentes e Fastolfe os examinou de sobrancelhas erguidas.

      - Você está muito bem protegido, Amadiro, contra um homem pacífico, acompanhado do seu único robô.

      - Eles não o atacarão, Fastolfe, como sabe muito bem. Mas por que trouxe Giskard? Por que não Daneel, sua obra-prima?

      - Seria seguro colocar Daneel ao seu alcance, Amadiro?

      - Acho que você está querendo fazer humor. Não preciso mais de Daneel. Nós construímos nossos próprios humaniformes.

      - Baseados em meu desenho.

      - Com melhoramentos.

      - E apesar disso não os usa. Foi por isso que vim vê-lo. Sei que minha posição no Instituto é apenas nominal e que mesmo minha presença não é bem-vinda, para não falar em minhas opiniões e recomendações. Contudo, como membro do Instituto, preciso protestar por seu fracasso em usar os humaniformes.

      - Como quer que eu os use?

      - A intenção foi fazer os humaniformes abrirem novos mundos, para os quais eles pudessem finalmente emigrar, depois que esses mundos fossem terraformados e tornados inteiramente habitáveis, ou não foi?

      - Mas você se opôs a isso, não, Fastolfe?

      - De fato - replicou Fastolfe. - Eu queria que os Espaciais emigrassem por iniciativa própria para os novos mundos e realizassem sua terraformação. Isso, contudo, não aconteceu, e vejo agora que não é provável que aconteça. Então, deixem-nos enviar os humaniformes. Será melhor que nada.

      - Todas as nossas alternativas levam a nada, enquanto seus pontos de vista dominarem o Conselho, Fastolfe. Os Espaciais não viajarão para mundos rudimentares e informes, nem, ao que parece, gostam de robôs humaniformes.

      - Você mal deu uma oportunidade aos Espaciais para gostarem deles. Os Terráqueos estão começando a colonizar novos planetas - mesmo os rudimentares e informes. E o fazem sem ajuda robótica.

      - Você conhece muito bem a diferença entre nós e os Terráqueos. Há oito bilhões deles, além de um grande número de Colonizadores.

      - E há cinco e meio bilhões de Espaciais.

      - A diferença não é só a quantidade - disse Amadiro amargamente. - Eles se reproduzem como insetos.

      - Não é verdade. A população da Terra está estável há séculos.

      - O potencial está presente. Se eles se dedicarem inteiramente à emigração, podem facilmente produzir cento e sessenta milhões de novos seres por ano, e esse número crescerá à medida que os novos mundos sejam habitados.

      - Temos a capacidade biológica de produzir cem milhões de novos seres a cada ano.

      - Mas não a capacidade sociológica. Nós temos vida longa, não desejamos nos reproduzir tão depressa.

      - Podemos enviar uma grande parte dos novos seres para outros planetas.

      - Não quererão ir. Prezamos nossos corpos, que são fortes, saudáveis e capazes de sobreviver com força e saúde por cerca de quarenta décadas. Os Terráqueos não dão valor aos corpos que usam durante menos de dez décadas e que são crivados de doenças e pela degeneração mesmo nesse curto período de tempo. A eles não importa se mandam milhões por ano a uma miséria certa e uma morte provável. Na realidade, mesmo as vítimas não necessitam temer o sofrimento e a morte, pois o que mais têm eles na Terra? Os Terráqueos que emigram estão fugindo do seu mundo pestilento, sabendo muito bem que qualquer mudança dificilmente será para pior. Nós, por outro lado, valorizamos nossos bem formados e confortáveis planetas e não desejamos desistir deles levianamente.

      Fastolfe suspirou e replicou:

      - Tenho ouvido todos esses argumentos com muita freqüência. Amadiro, posso apontar o simples fato de que Aurora foi originariamente um mundo primitivo e malformado, que teria de ser terraformado de maneira aceitável, e que isso aconteceu com todos os mundos Espaciais?

      - E eu ouvi todos os seus argumentos até à náusea - disse Amadiro - mas não me canso de respondê-los. Aurora pode ter sido primitivo no início de sua colonização que foi feita por Terráqueos, outros planetas Espaciais também podem ter sido primitivos, provavelmente pelo fato de terem sido colonizados por Espaciais que ainda não tinham superado sua herança terrestre. Os tempos hoje são outros, já não existem condições para isso. O que poderá ser feito, então, que não pode ser feito agora?

      Amadiro ergueu um canto da boca num rosnar e prosseguiu:

      - Não, Fastolfe, o que sua política conseguiu foi iniciar a criação de uma Galáxia que será habitada unicamente por Terráqueos, onde os Espaciais definharão e declinarão. Você está vendo isto acontecer agora. Sua famosa viagem à Terra, há dois anos, foi o início de tudo. De certa forma, você traiu seu próprio povo, encorajando aqueles meio-humanos a começar uma expansão. Em apenas dois anos, há pelo menos alguns Terráqueos em cada um dos vinte e quatro planetas, e outros estão chegando regularmente.

      - Não exagere - respondeu Fastolfe. - Na verdade, nenhum desses planetas dos Colonizadores foi ainda adaptado para ocupação humana, e não o será durante décadas. Provavelmente nem todos irão sobreviver, e enquanto os mais próximos forem ocupados, as oportunidades de colonização dos mais afastados diminuirão, de modo que o impulso inicial declinará. Encorajei sua expansão porque contei também com a nossa. Ainda podemos nos manter se fizermos um esforço, e, em competição saudável, poderemos suprir a Galáxia juntos.

      - Não - reagiu Amadiro. - O que você pretende é a mais destrutiva de todas as políticas, um idealismo insensato. A expansão é unilateral e assim permanecerá, apesar de tudo o que você puder fazer. O povo da Terra enxameia sem empecilhos e deve ser impedido antes de se tornar forte demais para ser paralisado.

      - Como propõe fazer isso? Temos um tratado de amizade com a Terra, no qual especificamente concordamos em não impedir sua expansão no espaço, contanto que nenhum planeta de um mundo dos Espaciais seja tocado dentro de vinte anos-luz. Eles concordaram com isso escrupulosamente.

      - Todos conhecem o tratado - replicou Amadiro. - Todos sabem também que nenhum tratado jamais foi mantido, desde que comece a se voltar contra os interesses nacionais do signatário mais poderoso. Não dou nenhum valor a esse tratado.

      - Eu dou. Ele deve ser mantido.

      Amadiro sacudiu a cabeça.

      - Você tem uma fé tocante. Como será ele mantido depois que você não mais estiver no poder?

      - Não tenho a intenção de deixar o poder durante algum tempo.

      - À medida que a Terra e seus Colonizadores se tornarem mais fortes, os Espaciais ficarão temerosos e você não permanecerá no poder muito tempo depois disso.

      - E você rasgará o tratado, destruirá os planetas dos Colonizadores e fechará as portas para a Terra, fazendo com que depois os Espaciais emigrem e ocupem a Galáxia?

      - Talvez não. Mas se decidirmos que não, se resolvermos que estamos confortáveis assim, que diferença isso faz?

      - Nesse caso, a Galáxia não se tornará um império humano.

      - E daí?

      - Daí, os Espaciais ficarão embrutecidos e irão degenerar, mesmo que a Terra seja aprisionada e também embruteça e degenere.

      - É esse exatamente o artifício do seu partido, Fastolfe. Não há prova real de que uma coisa dessas vá acontecer. E mesmo que aconteça, a escolha será nossa. Pelo menos não veremos os bárbaros de vida curta se tornarem herdeiros da Galáxia.

      - Você está sugerindo seriamente, Amadiro - perguntou Fastolfe - que está desejando ver a civilização Espacial morrer, desde que possa evitar que a Terra se expanda?

      - Não estou contando com nossa morte, Fastolfe, mas se o pior acontecer, ora, sim, para mim nossa própria morte é uma coisa menos temível que a vitória de uma enigmática doença sub-humana de seres de vida curta.

      - Dos quais você descende.

      - E com quem não temos mais nenhuma relação verdadeiramente genética. Seremos vermes porque há um bilhão de anos tínhamos vermes entre nossos antepassados?

      Fastolfe, com os lábios apertados, levantou-se para partir. Amadiro, com o olhar ardente, não fez qualquer gesto para detê-lo.

     

      Daneel não tinha como dizer, diretamente, que Giskard estava perdido em recordações. Por um lado, a expressão de Giskard não tinha mudado, e, por outro, ele não estava perdido em recordações como estaria um humano. Não foi usado nenhum período palpável de tempo.

      Ademais, o pensamento que levara Giskard a voltar no passado tinha levado Daneel a pensar nos mesmos acontecimentos desse período como haviam sido contados por Giskard.

      Nem Giskard ficou surpreso com isso.

      Sua conversa prosseguiu sem nenhuma pausa fora de costume, mas de uma forma marcadamente nova, como se cada um pensasse no passado pelos dois.

      - Está parecendo, amigo Giskard, que, uma vez que o povo de Aurora reconhece agora ser mais fraco que o da Terra e dos seus muitos planetas Colonizadores, a crise a que se referiu Elijah Baley seguramente passou.

      - É o que está parecendo, amigo Daneel.

      - Você contribuiu para isso.

      - Contribuí. Mantive o Conselho nas mãos de Fastolfe. Fiz o que pude para modelar os que, por sua vez, modelavam a opinião pública.

      - Até agora me sinto indisposto.

      - Estive preocupado - replicou Giskard - durante cada etapa do processo, embora me esforçasse para não molestar ninguém. Toquei - mentalmente - apenas os seres humanos que só precisavam de um leve toque. Na Terra, apenas acendi o temor da represália e selecionei especialmente os que já tinham sido tocados pelo medo e quebrado um fio que, em todo caso, já estava desgastado e a ponto de quebrar. Em Aurora, foi o contrário. Os políticos daqui estavam relutantes em adotar políticas que levassem a um abandono do seu mundo confortável, eu simplesmente confirmei isto e desenvolvi o laço que os tornou um pouco mais fortes. E fazendo isso, me afundei num constante e fraco remoinho.

      - Por quê? Você encorajou a expansão da Terra e desencorajou a expansão dos Espaciais. Certamente, foi nisso que resultou.

      - Resultou? Você pensa, amigo Daneel, que um Terráqueo vale mais que um Espacial, apesar de ambos serem humanos?

        - Há diferenças. Elijah Baley preferiria ver seus próprios Terráqueos derrotados a ver a Galáxia desabitada. O Dr. Amadiro preferiria ver tanto a Terra como os Espaciais definharem a ver a Terra se expandir. O primeiro olha esperançoso o triunfo de ambos, o segundo fica contente ao ver que ambos não triunfam. Podemos não escolher o primeiro, amigo Giskard?

      - Sim, amigo Daneel, parece que sim. Contudo, até onde você foi influenciado pelo seu sentimento do valor especial do seu antigo Colega Elijah Baley?

      - Eu valorizo a lembrança do Colega Elijah - retrucou Daneel - e os nativos da Terra são seu povo.

      - Vejo que é assim. Há muitas décadas venho dizendo que você tende a pensar como um ser humano, amigo Daneel, mas fico imaginando se isso é necessariamente um cumprimento. Contudo, embora se incline a pensar como um ser humano, você não é um deles e, no fim, está limitado pelas Três Leis. Você não pode molestar um ser humano, seja ele Terráqueo ou Espacial.

      - Há horas, amigo Giskard, em que se deve preferir um ser humano a outro. Recebemos ordens especiais para proteger Lady Gladia. Fui forçado, numa ocasião, a molestar um ser humano para proteger Lady Gladia, e penso que, em igualdade de condições, atacaria um Espacial, pelo menos um pouquinho, para proteger uma pessoa da Terra.

      - Você pensa assim. Mas, num acontecimento real, você teria de ser guiado por circunstâncias específicas. Você descobrirá que não pode generalizar - retrucou Giskard. - O mesmo se dá comigo. Encorajando a Terra e desencorajando Aurora, tornei impossível para o Dr. Fastolfe persuadir o governo Auroreano a patrocinar uma política de emigração e instalar dois poderes em expansão na Galáxia. Não posso fazer nada a não ser concluir que essa parte dos seus trabalhos resultou em nada. Só serviu para inundá-lo de crescente desespero e talvez tenha apressado sua morte. Senti isso em sua mente, e foi doloroso. E apesar disso, amigo Daneel...

      Giskard fez uma pausa e Daneel perguntou:

      - Sim?

      - Não fazendo o que devia fazer, posso ter diminuído muito a capacidade da Terra de se expandir, sem ter melhorado grandemente os movimentos de Aurora naquela direção. O Dr. Fastolfe teria então ficado frustrado de ambos os modos - Terra e Aurora - e, além disso, sido desalojado de seu posto de chefia pelo Dr. Amadiro. Sua sensação de frustração teria sido ainda maior. Era ao Dr. Fastolfe, durante sua vida, que eu devia minha maior lealdade, e escolhi essa linha de ação que o frustrou menos, sem notadamente molestar outras pessoas com quem lidei. Se o Dr. Fastolfe fosse continuamente perturbado por sua incapacidade de persuadir os Auroreanos - e Espaciais em geral - a se expandir para novos planetas ficaria pelo menos encantado pela atividade do emigrante povo da Terra.

      - Você não podia ter encorajado tanto o povo da Terra como o de Aurora, amigo Giskard, e assim ter satisfeito o Dr. Fastolfe em relação a ambos?

      - Claro, isso também me ocorreu, amigo Daneel. Considerei a possibilidade, mas não achei conveniente. Pude encorajar os habitantes da Terra a emigrar usando uma mudança banal, inofensiva. Tentar o mesmo com os Auroreanos teria exigido uma mudança muito radical e talvez causasse muito dano. A Primeira Lei o proíbe.

      - É uma pena.

      - De fato. Pense no que poderia ter sido feito se eu pudesse ter alterado radicalmente o conjunto mental do Dr. Amadiro. Contudo, como poderia eu ter mudado sua determinação fixa de se opor ao Dr. Fastolfe? Teria sido como tentar forçá-lo a dar uma reviravolta de cento e oitenta graus em sua cabeça. Assim, acho eu, um giro completo da sua cabeça ou do seu conteúdo emocional seria igualmente mortal. O preço do meu poder, amigo Daneel - prosseguiu Giskard - é o grande e crescente dilema no qual estou constantemente mergulhado. A Primeira Lei da Robótica, que proíbe ferir seres humanos, trata, normalmente, dos ferimentos físicos visíveis que podemos, todos nós, ver facilmente e, assim, julgar sem dificuldade. Sozinho, porém, eu tenho consciência das emoções humanas e penetração de mentes, de sorte que conheço um número maior de formas sutis de danos, sem ser capaz de compreendê-las completamente. Em várias ocasiões, sou forçado a agir sem ter absoluta certeza, e isso me leva a um cansaço contínuo em meus circuitos. E contudo sinto que agi bem. Levei os Espaciais a ultrapassarem o ponto crítico. Aurora sabe da força de aglomeração dos Colonizadores e será agora obrigada a evitar um conflito. Eles terão que reconhecer que é muito tarde para represálias, e quanto a isso nossa promessa a Elijah Baley está cumprida. Colocamos a Terra no curso do povoamento da Galáxia e do estabelecimento de um Império Galáctico.

      Nesta altura, eles estavam se dirigindo para a casa de Gladia, mas agora Daneel parou e a suave pressão de sua mão no ombro de Giskard fez com que o outro também parasse. Daneel disse:

      - O quadro que você pintou é atraente. O Colega Elijah ficará orgulhoso de nós se, como você diz, o tivermos realizado. "Robôs a caminho do Império", diria Elijah, e talvez me batesse nas costas. Contudo, como já disse, estou apreensivo, amigo Giskard.

      - Com quê, amigo Daneel?

      - Não posso evitar imaginar se superamos realmente a crise a que o Colega Elijah se referiu há tantas décadas. É na realidade muito tarde para uma retaliação dos Espaciais?

      - Por que tem essas dúvidas, amigo Daneel?

      - Tornei-me cético por causa do comportamento do Dr. Mandamus no decorrer de sua conversa com Senhora Gladia.

      O olhar de Giskard fixou-se em Daneel por alguns instantes, e, no silêncio, puderam ouvir folhas farfalhando na aragem fresca. As nuvens estavam se desfazendo e o sol não tardaria a aparecer. Sua conversa, na sua forma telegráfica, levara pouco tempo, e Gladia, eles sabiam, ainda não estaria notando sua ausência.

      - O que havia na conversa que lhe provocou o mal-estar? - perguntou Giskard.

      - Eu tive a oportunidade, em quatro ocasiões diferentes, de observar Elijah Baley cuidar de um problema intricado. Em cada uma delas, notei a forma pela qual ele tratava de tirar conclusões úteis de informações limitadas e mesmo enganosas. Desde essa época, tentei, dentro de minhas limitações, pensar da mesma forma que ele.

      - Parece-me, amigo Daneel, que você se saiu bem a esse respeito. Já disse que você tende a pensar como um ser humano.

      - Você deve ter reparado, então, que o Dr. Mandamus tinha dois assuntos que queria discutir com a Senhora Gladia. Ele próprio frisou isso. Um era o de sua própria descendência, se de Elijah Baley ou não. O outro era o pedido para que Senhora Gladia recebesse um Colonizador e mais tarde relatasse o ocorrido. Dos dois, o segundo podia ser encarado como matéria importante para o Conselho. O primeiro, só tinha importância para ele próprio.

      - O Dr. Mandamus apresentou a sua descendência como de importância também para o Dr. Amadiro - comentou Giskard.

      - Então, seria um assunto de importância pessoal para duas pessoas em vez de uma, amigo Giskard. Não seria assunto de importância para o Conselho e, portanto, para o planeta em geral.

      - Prossiga, então, amigo Daneel.

      - Mas o assunto de Estado, como o próprio Dr. Mandamus se referiu a ele, foi colocado em segundo plano, quase como sem importância imediatamente. De fato, dificilmente pareceria uma coisa que exigisse uma visita pessoal. Poderia ter sido tratado por imagem holográfica por qualquer funcionário do Conselho. Por outro lado, o Dr. Mandamus tratou primeiro da sua própria descendência, discutiu-a detalhadamente, e era um assunto que só podia ser tratado por ele e mais ninguém.

      - Qual é sua conclusão, amigo Daneel?

      - Acredito que o assunto do Colonizador foi usado pelo Dr. Mandamus como um pretexto para uma conversa reservada com a Senhora Gladia, para poder discutir sua origem em particular. Era o caso de sua descendência, e mais nada, o que verdadeiramente o interessava... Você vê alguma forma de apoiar esta conclusão, amigo Giskard?

      O sol de Aurora ainda não tinha surgido das nuvens e o leve resplendor dos olhos de Giskard era visível.

      - A tensão na mente do Dr. Mandamus - replicou - era de fato mensuravelmente mais forte na primeira parte da entrevista que na segunda. Isso talvez possa servir de confirmação, amigo Daneel.

      - Então devemos nos perguntar por que a questão da descendência do Dr. Mandamus deve ser um assunto de tanta importância para ele.

      - O Dr. Mandamus explicou - disse Giskard. - É apenas para demonstrar que não é descendente de Elijah Baley, que sua rota de progresso está aberta. O Dr. Amadiro, de cuja boa vontade ele é dependente, se viraria inteiramente contra ele, se fosse descendente do Sr. Baley.

      - Foi o que ele disse, amigo Giskard, mas o que houve durante a entrevista nega isso.

      - Por que diz isso? Por favor, continue pensando como um humano, amigo Daneel. Acho isso instrutivo.

      Daneel respondeu, com ar sério:

      - Obrigado, amigo Giskard. Você reparou que nenhuma declaração feita pela Senhora Gladia, referente à impossibilidade do Dr. Mandamus descender do Colega Elijah, foi considerada convincente? Em todo caso, o Dr. Mandamus disse que o Dr. Amadiro não aceitaria tal declaração.

      - Sim, e o que você deduz disso?

      - Parece-me que o Dr. Mandamus estava tão convencido de que o Dr. Amadiro não aceitaria nenhum argumento contra Elijah Baley como antepassado que a gente fica pensando por que ele se deu ao trabalho de perguntar a Senhora Gladia a respeito. Ele evidentemente sabia desde o começo que era inútil fazer isso.

      - Talvez, amigo Daneel, porém é mera especulação. Você pode fornecer um motivo provável para sua ação?

      - Posso. Acredito que ele tenha perguntado sobre sua ascendência, não para convencer um implacável Dr. Amadiro, mas para se convencer.

      - Nesse caso, para que precisou afinal de contas mencionar o Dr. Amadiro? Por que não disse simplesmente: "Desejo saber"?

      Daneel esboçou um sorriso, uma mudança de expressão de que o outro robô seria incapaz, e retrucou:

      - Se ele tivesse dito "Desejo saber", a Senhora Gladia certamente teria replicado que não era da sua conta, e assim o Dr. Mandamus nada teria descoberto. Contudo, a Senhora Gladia é tão decididamente contra o Dr. Amadiro, quanto este contra Elijah Baley. A Senhora Gladia ficaria certamente ofendida diante de qualquer opinião fortemente sustentada pelo Dr. Amadiro contra ela. Ficaria furiosa, mesmo que a opinião fosse mais ou menos correta, quanto mais, então, se fosse totalmente errônea, como neste caso. Ela se empenharia em demonstrar que o Dr. Amadiro estava errado e forneceria cada documento de prova necessário para chegar a esse fim.

      "Nesse caso, a fria garantia do Dr. Mandamus de que cada documento prova era insuficiente só a tornaria mais furiosa e a levaria a mais revelações. A estratégia do Dr. Mandamus foi escolher a certeza de que obtera o máximo de Senhora Gladia e, no fim, ficar convencido de que não tinha um Terráqueo como antepassado, pelo menos não em tão pouco tempo como vinte décadas. Os sentimentos de Amadiro a esse respeito, acho eu, não estavam verdadeiramente em causa."

      - Amigo Daneel - disse Giskard - esse é um ponto de vista interessante, mas não parece estar suficientemente fundamentado. De que maneira podemos concluir que não passa de um palpite de sua parte?

      - Não lhe parece, amigo Giskard - replicou Daneel - que quando o Dr. Mandamus terminasse a investigação sobre sua descendência sem ter obtido provas suficientes para o Dr. Amadiro, como quis nos fazer acreditar, deveria estar claramente deprimido e desanimado? Segundo sua própria declaração, isso deveria significar que ele não teria possibilidade de progresso e jamais conseguiria a posição de chefe do Instituto de Robótica. E no entanto me parece que, longe de se sentir deprimido, ele estava realmente exultante. Posso julgar apenas pela aparência exterior, mas você pode ir mais além. Diga-me, amigo Giskard, qual era sua atitude mental ao terminar esse trecho da conversa com Senhora Gladia?

      Giskard comentou:

      - Pensando nisso agora, estava não apenas exultante, mas triunfante, amigo Daneel. Você tem razão. Agora que expôs seu processo de pensamento, aquela sensação de vitória que detectei claramente determina a agudeza do seu raciocínio. De fato, agora que ressaltou tudo isso, sinto-me meio perdido por minha incapacidade de ver por mim mesmo.

      - Essa, amigo Giskard, foi, em inúmeras ocasiões, minha reação ao raciocínio de Elijah Baley. O fato de eu poder continuar raciocinando assim nesta ocasião pode se dever, em parte, ao forte estímulo proporcionado pela presente crise. Isso me força a raciocinar mais concludentemente.

      - Você se subestima, amigo Daneel. Esteve pensando convincentemente durante muito tempo. Mas por que fala de uma crise atual? Pare para pensar e responda. Como se pode passar da sensação de vitória do Dr. Mandamus por não ser descendente do Sr. Baley à crise da qual você fala?

      - O Dr. Mandamus - refutou Daneel - pode ter-nos enganado com suas declarações referentes ao Dr. Amadiro, mas talvez seja legítimo, não obstante, supor como verdade que ele anseia por progresso, que tem a ambição de se tornar chefe do Instituto. Não acha, amigo Giskard?

      Giskard parou um momento, como que refletindo, e depois disse:

      - Eu não estava à procura de ambição. Estava examinando sua mente sem objetivo especial e preocupado apenas com manifestações superficiais. Contudo, pode ter havido relâmpagos de ambição quando falou de progresso. Não tenho motivos fortes para concordar com você, amigo Daneel, mas não tenho absolutamente motivos para não concordar.

      - Concordemos que o Dr. Mandamus é um homem ambicioso, então, e vejamos até onde isso nos leva. Está bem?

      - Está bem.

      - Então não lhe parece provável que a sua sensação de vitória, uma vez convencido de não ser descendente do Colega Elijah, tivesse nascido do fato de sentir que sua ambição não podia ser cumprida? Isso, contudo, não podia ser assim, por causa da aprovação do Dr. Amadiro, uma vez que concordamos que o motivo deste foi introduzido pelo Dr. Mandamus como uma distração. Sua ambição agora pode ser servida por algum outro motivo.

      - Qual?

      - Não há nada que levante prova constrangedora. Mas posso sugerir um tema especulativo. E se o Dr. Mandamus sabe de alguma coisa ou pode fazer alguma coisa que possa conduzi-lo a um grande sucesso, como, por exemplo, tornar-se o novo chefe? Não se esqueça que, na conclusão de seu interrogatório a respeito de sua descendência o Dr. Mandamus disse: "Eu possuo métodos bastante poderosos." Suponha que seja verdade, que ele só possa usá-los se não for descendente do Colega Elijah. Sua alegria por ter sido convencido da sua não-descendência resultaria, então, do fato de que agora poderia usar esses métodos e garantir a si mesmo um grande progresso.

      - Mas que "métodos bastante poderosos" são esses, amigo Daneel?

      Daneel retorquiu, com o ar sério:

      - Devemos continuar especulando. Sabemos que não há nada que o Dr. Amadiro deseje tanto como derrotar a Terra e forçá-la de volta à sua primitiva posição de subserviência aos planetas Espaciais. Se o Dr. Mandamus encontrar uma forma de fazer isso, poderá sem dúvida obter tudo que quiser do Dr. Amadiro, inclusive uma garantia de sucessão na chefia. Contudo, talvez seja por isso que o Dr. Mandamus hesite em efetuar a humilhação e derrota da Terra, a menos que não sinta afinidade com seu povo. Descendendo de Elijah Baley, da Terra, isso o inibiria. A negativa dessa descendência o deixaria livre para agir, o que o torna tão cheio de regozijo.

      - Está dizendo que o Dr. Mandamus é um homem de consciência? - perguntou Giskard.

      - Consciência?

      - É uma palavra que os seres humanos usam de vez em quando. compreendi que é aplicada a alguém que adere a regras de comportamento que o forçam a agir em direção oposta ao seu interesse imediato. Se o Dr. Mandamus sentir que não pode se permitir avançar à custa dos que lhe estão ligados, mesmo à distância, imagino-o um homem de consciência. Tenho pensado muito nessas coisas, amigo Daneel, uma vez que elas parecem implicar que os seres humanos têm Leis governando seu comportamento, pelo menos em alguns casos.

      - E você pode garantir que o Dr. Mandamus é, mesmo, um homem de consciência?

      - Como resultado de minhas observações de suas emoções? Não, não estive à procura de nada assim, mas, se sua análise é correta, a consciência parecerá uma conseqüência... Contudo, por outro lado, se começarmos supondo-o um homem de consciência e olharmos em sentido contrário, podemos chegar a outras conclusões. Pode parecer que se o Dr. Mandamus imagina ter um Terráqueo entre seus antepassados, apenas dezenove e meia décadas atrás, possa sentir-se levado, contra sua consciência, a ser uma ponta de lança na tentativa de derrotar a Terra, como uma forma de se libertar do estigma dessa descendência. Se ele não for esse descendente, então não será inevitavelmente levado a agir contra a Terra, e sua consciência ficará livre para forçá-lo a deixar a Terra sozinha.

      - Não, amigo Giskard - replicou Daneel. - Isso não combina com os fatos. Contudo, é confortante saber que ele não está prestes a praticar atos violentos contra a Terra, que irá embora sem uma forma de satisfazer o Dr. Amadiro e promovendo seu próprio avanço. Considerando sua natureza ambiciosa, não partirá com a sensação de vitória que você notou tão claramente.

      - Compreendo. Então podemos concluir que o Dr. Mandamus tem um método de derrotar a Terra.

      - Sim. E se isso é correto, então a crise prevista pelo Colega Elijah ainda não passou, continua presente.

      Giskard retrucou pensativo:

      - Mas ficamos com a pergunta básica não respondida, amigo Daneel. Qual é a natureza da crise? Qual é o perigo mortal? Você pode deduzir isso também?

      - Não, amigo Giskard. Fui até onde pude. Talvez o Colega Elijah pudesse ir mais longe se ainda estivesse vivo, mas eu não... Aqui, dependo de você, amigo Giskard.

      - De mim? De que forma?

      - Você pode examinar a mente do Dr. Mandamus, coisa impossível para mim e para qualquer outro. Pode descobrir a natureza da crise.

      - Temo não poder, amigo Daneel. Se eu tivesse morado com um ser humano por um longo período, como em outros tempos morei com o Dr. Fastolfe, como agora moro com a Senhora Gladia, poderia, pouco a pouco, desdobrar-lhe as camadas da mente, folha por folha, desfazer gradualmente os intrincados nós e aprender muito sem molestar um ou outra. Fazer o mesmo com o Dr. Mandamus, após um breve encontro ou mesmo uma centena de breves encontros, de pouco adiantaria. As emoções aparecem facilmente, os pensamentos não. Se eu tentasse apressar, forçar o processo, certamente o prejudicaria. E isso eu não posso fazer.

      - Contudo, o destino de bilhões de pessoas na Terra e outras tantas no resto da Galáxia pode depender disso.

      - Pode depender. Uma simples conjectura. Injúria a um ser humano é um fato. Desde, é claro, que o Dr. Mandamus seja o único que conheça a natureza da crise e possa levá-la a uma conclusão. Ele não pode usar sua capacidade ou conhecimento para forçar o Dr. Amadiro a lhe garantir chefia - se o Dr. Amadiro puder obtê-la de outra fonte.

      - É verdade - disse Daneel. - Pode bem ser assim.

      - Nesse caso, amigo Daneel, não é necessário conhecer a natureza da crise. Se o Dr. Mandamus puder ser forçado a não dizer ao Dr. Amadiro - ou a qualquer outro - o que quer que saiba, a crise não aflorará.

      - Alguém poderá descobrir o que o Dr. Mandamus sabe agora.

      - Certamente, mas não sabemos quando isso se dará. Muito provavelmente, teremos tempo para continuar sondando e descobrir mais - e nos prepararmos para desempenhar um papel próprio.

      - Então está bem.

      - Se o Dr. Mandamus puder ser contido, isso poderá ser feito danificando sua mente a ponto de não mais se tornar atuante - ou destruindo sua vida completamente. Só eu possuo a capacidade de danificar sua mente de forma apropriada, mas não posso fazê-lo. De qualquer modo, qualquer um de nós poderá dar um fim à sua vida fisicamente. Também não posso fazer isso. Você pode, amigo Daneel?

      Houve um silêncio e Daneel finalmente sussurrou:

      - Não. Você sabe disso.

      - Mesmo sabendo que o futuro de bilhões de pessoas na Terra e em outros lugares está correndo perigo? - perguntou Giskard, com voz lenta.

      - Não posso me obrigar a ferir o Dr. Mandamus.

      - Nem eu. Portanto, ficamos com a certeza de que uma crise mortal se avizinha, uma crise, porém, cuja natureza não conhecemos e não podemos descobrir, com a agravante de que somos impotentes para contê-la.

      - Olharam-se em silêncio, sem nada revelar nos rostos, mas com um ar de desespero pairando sobre si.

     

      Outro Descendente

      Gladia tinha procurado relaxar após o cruciante encontro com Mandamus - e o fizera com uma intensidade tremenda. Escurecera todas as janelas do quarto, preparara o ambiente com uma suave brisa quente, com o som de folhas farfalhantes e o ocasional canto amável de um pássaro distante. Mudara-o depois para o ruído de um marulho longínquo, ao qual acrescentara um leve mas inconfundível cheiro de maresia no ar.

      Não adiantou. Sua mente ecoava desamparadamente com o que tinha acabado de acontecer e com o que em breve aconteceria. Por que tinha conversado tão francamente com Mandamus? Qual era o seu interesse - ou o de Amadiro, no caso - procurando saber se ela havia visitado Elijah em órbita ou não - ou quando - se tinha ou não um filho com ele ou com qualquer outro homem?

      Ela se sentira desequilibrada pela declaração de descendência de Mandamus e o que significava. Numa sociedade onde ninguém se preocupava com descendência ou relação de parentesco, a não ser por motivos médico genéticos, a súbita intromissão de tal assunto numa conversa era motivo para preocupação. Isso e as repetidas (mas certamente acidentais) referências a Elijah.

      Percebeu que estava procurando desculpas para si mesma e, com impaciência, afastou tudo. Tinha reagido mal e havia balbuciado como uma criança aborrecida.

      Agora havia aquele Colonizador chegando.

      Não era Terráqueo. Não tinha nascido na Terra, Gladia tinha certeza, e era muito possível mesmo que nunca tivesse visitado a Terra. Sua gente devia ter habitado um mundo estranho, do qual ela nunca ouvira falar, e vivido lá durante gerações.

      Isso o tornava um Espacial, pensou ela. Os Espaciais também descendiam de Terráqueos - havia séculos - mas que importava? com certeza, os Espaciais tinham vida longa e esses Colonizadores deviam tê-la curta, mas até onde isso era uma diferença? Mesmo um Espacial podia morrer prematuramente, por algum acidente infeliz, Gladia tinha ouvido uma vez que um Espacial havia morrido de morte natural antes dos sessenta. Por que, então, não pensar no visitante como um Espacial com um sotaque estranho?

      Mas não era simples assim. Sem dúvida, o Colonizador não se considerava Espacial. O que conta não é o que alguém é, mas como se sente ser. Portanto, pense nele como um Colonizador e não como um Espacial.

      Contudo, não somos todos seres humanos, apenas seres humanos, não importa o nome que se dê - Espaciais, Colonizadores, Auroreanos, Terráqueos? A prova era que os robôs não podiam causar dano a nenhum deles. Daneel pularia tão rapidamente em defesa do mais ignorante Terráqueo como do Presidente do Conselho de Aurora... e isso quer dizer...

      Ela pôde sentir-se deslizando, realmente relaxando num sono leve, quando um pensamento súbito penetrou em sua mente e ricocheteou.

      Por que o Colonizador se chamava Baley?

      Sua mente ficou tensa e despertou das espirais bem-vindas do esquecimento, que a afligiam e subjugavam.

      Por que Baley?

      Talvez fosse simplesmente um nome comum entre os Colonizadores. Afinal de contas, fora Elijah quem tornara possível tudo, e devia ser um herói para eles como... como...

      Gladia não pôde pensar num herói semelhante para os Auroreanos. Quem tinha chefiado a expedição que primeiro chegara a Aurora? Quem tinha supervisionado a terraformação do planeta em estado bruto, escassamente vivo, de onde Aurora tinha surgido? Ela não sabia.

      Teria sua ignorância nascido do fato de ter ela vindo de Solaria - ou os Auroreanos simplesmente não tinham heróis fundadores? Afinal de contas, a primeira expedição a Aurora consistira de meros Terráqueos. Fora apenas nas gerações seguintes, com o tempo de vida em expansão, graças à adaptação da sofisticada bioengenharia, que os Terráqueos tinham se tornado Auroreanos. Depois disso, por que deveriam os Auroreanos desejar transformar em heróis seus desprezados antecessores?

      Mas os Colonizadores podiam fazer heróis dos Terráqueos. Talvez ainda não tivessem mudado. Podiam mudar finalmente e então Elijah seria esquecido, mas até lá...

      Devia ser isso. Provavelmente, metade dos Colonizadores vivos tinha adotado o sobrenome Baley. Pobre Elijah! Todos amontoados em seus ombros e em sua sombra. Pobre Elijah... querido Elijah...

      E ela adormeceu.

     

      O sono foi inquieto demais para lhe restaurar a calma, deixando-lhe apenas o bom humor. Gladia estava com o rosto contraído sem o perceber - e se tivesse se olhado no espelho, teria ficado espantada com o seu ar envelhecido.

      Daneel, para quem Gladia era um ser humano, a despeito da idade, aparência ou disposição, disse:

      - Senhora...

      Gladia interrompeu-o, com um leve tremor.

      - O Colonizador chegou?

      Ela ergueu os olhos para a fita-relógio na parede e depois fez um gesto rápido, em resposta ao qual Daneel imediatamente aumentou o aquecimento. (Tinha sido um dia frio e a noite ameaçava se tornar mais fria.)

      - Chegou, senhora - respondeu Daneel.

      - Para onde o levou?

      - Para o salão principal de hóspedes, senhora. Giskard o acompanha e os robôs domésticos estão todos ao alcance da voz.

      - Espero que eles sejam capazes de descobrir o que ele espera comer no almoço. Não conheço a cozinha dos Colonizadores. E espero que eles possam fazer um esforço para atender seus desejos.

      - Estou certo disso, senhora, pois Giskard agirá com competência.

      Gladia tinha certeza disso também, mas limitou-se a resmungar. Quer dizer, teria sido um resmungo se Gladia fosse o tipo de gente que resmungasse. Ela não acreditava que fosse.

      - Suponho - disse Gladia - que ele foi adequadamente posto de quarentena antes da permissão para pousar.

      - Teria sido inconcebível para ele não ter sido, senhora.

      - Apesar disso - replicou ela - Vou calçar minhas luvas e colocar um filtro nas narinas.

      Gladia saiu do quarto, vagamente consciente de que havia robôs domésticos à sua volta, e fez sinal para que lhe dessem um novo par de luvas e um filtro intacto.

      Cada casa tinha seu próprio vocabulário de sinais e todo membro humano cultivava-os, aprendendo a usá-los rápida e despercebidamente. Esperava-se de um robô que seguisse essas ordens discretas como se lesse as mentes, deduzindo-se que um robô não podia obedecer ordens de seres humanos estranhos a não ser que elas fossem dadas claramente.

      Nada humilhava mais o membro humano de uma casa que um dos robôs a ela pertencente hesitar em cumprir uma ordem ou, pior ainda, cumpri-la erradamente. Isso significava que o ser humano tinha feito um sinal incorretamente - ou que o robô tinha se atrapalhado.

      Geralmente, Gladia sabia, era o humano que cometia a falta, mas em cada caso, virtualmente, isso não era aceito. Era o robô quem cometia o erro sendo colocado de  lado para uma análise desnecessária ou injustamente  posto à venda. Gladia sempre sentira que nunca iria cair nessa armadilha de ego ferido, mas se naquele momento não tivesse recebido as luvas e o filtro, teria...

      Não chegou a terminar o pensamento. O robô mais próximo trouxe o que ela havia pedido, correta e rapidamente.

      Gladia ajustou o filtro no nariz e fungou um pouco para ter certeza de que se achava devidamente instalado (não estava disposta a contrair uma infecção em conseqüência  de uma doença que houvesse sobrevivido ao doloroso tratamento durante a quarentena). Perguntou:

      - Qual é o tipo dele, Daneel?

      - Normal, senhora - retrucou o robô.

      - Quero dizer, seu rosto.

      (Era bobagem perguntar. Se ele mostrasse qualquer semelhança familiar com Elijah Baley, Daneel teria reparado tão depressa quanto ela e teria comentado.)

      - É difícil dizer, senhora. Seu rosto não está bem visível.

      - Como assim? Certamente ele não está mascarado, está Daneel?

      - De certa maneira, sim, senhora. Seu rosto está coberto de pêlos.

      - Pêlos? - Riu involuntariamente. - Você quer dizer, à maneira dos documentos históricos da hipervisão? Barba?

      Gladia fez alguns gestos indicando um tufo de pêlos no queixo e outro sob o nariz.

      - Um pouco mais, senhora. Metade do seu rosto está coberto.

      Os olhos de Gladia se escancararam e pela primeira vez ela sentiu vontade de vê-lo. Como seria um rosto todo coberto de pêlos? Os homens Auroreanos - e os Espaciais  em geral - tinham poucos pêlos faciais e estes eram removidos permanentemente no começo da puberdade - virtualmente no decorrer da infância.

      Às vezes o lábio superior ficava intocado. Gladia lembrou que seu marido, Santirix Gremionis, antes do casamento, usava uma linha fina de pêlos sob o nariz. Bigode,  como dissera. Parecera-lhe como uma sobrancelha mal colocada, especialmente disforme, e após ter-se resolvido a aceitá-lo como marido, insistira para que ele destruísse  aqueles pêlos.

      Ele tinha concordado com um leve murmúrio e agora ela se perguntava, pela primeira vez, se ele tinha sentido falta dos pêlos. Pareceu-lhe que em certa ocasião, nos  primeiros anos, ele levava um dedo ao lábio superior. Gladia tinha pensado ser um gesto nervoso por causa de uma leve coceira; só agora lhe ocorreu que ele estava  procurando o bigode que desaparecera para sempre.

      Como pareceria um homem com um bigode ocupando todo o rosto? um urso?

      Como seria ao toque? E se uma mulher também tivesse esses pêlos? Pensou num casal tentando se beijar, com dificuldade de acharem as bocas um do outro. Achou o pensamento  engraçado, de uma forma inofensivamente  dissoluta, e riu alto. Sentiu a petulância desaparecer e olhou com firmeza para a frente, para ver o monstro.

      Afinal de contas, não havia por que temê-lo, mesmo que tivesse um comportamento de animal, como aparentava. Não possuiria nenhum robô - sabia-se que os Colonizadores  tinham uma sociedade não robótica - e ela estaria rodeada de uma dúzia. O monstro seria imobilizado  numa fração de segundo se fizesse o movimento mais suspeito  ou se erguesse a voz, enraivecido.

      Gladia disse, num perfeito bom humor:

      - Leve-me a ele, Daneel.

     

      O monstro levantou-se. O boa-tarde que pronunciou era quase ininteligível.

      Gladia conseguiu, com certa dificuldade, compreender-lhe as palavras.

      Distraidamente, respondeu:

      - Boa tarde.

      Lembrou da dificuldade que tivera para compreender outrora a pronúncia do Galáctico Padrão, quando, uma mocinha apavorada, tinha chegado ao planeta, vinda de Solaria.

      O sotaque do monstro era desagradável - ou soaria assim porque seu ouvido estava desacostumado com ele? Elijah, lembrou, também falava assim , mas em outras ocasiões falava muito bem. Tinham se passado, todavia, dezenove décadas e meia, e aquele Colonizador não vinha da Terra, e A língua, quando isolada, sofria mudanças.

      Só uma pequena parte da mente de Gladia, porém, estava presa ao problema da língua. Ela olhava para a barba do homem.

      Nem ao menos era parecida com as barbas que os atores usavam nos dramas históricos. Elas eram colocadas em tufos - um pouco aqui, pouco ali - parecendo coladas e lustrosas.

      A barba do Colonizador era diferente. Cobria-lhe as faces e o queixo uniformemente, de modo espesso e completo. Era castanho-escura, meio brilhante e ondulada como seus cabelos, e com pelo menos cinco centímetros de comprimento, calculou ela - uniformemente longa.

      Não lhe cobria totalmente o rosto, o que era um tanto desapontador. Sua testa estava completamente nua (exceto pelas sobrancelhas), bem como o nariz e as regiões sob os olhos.

      Seu lábio superior também não continha pêlos, porém era sombreado como se tivessem começado a surgir novos pêlos. Havia uma nudez adicional exatamente sob o lábio inferior, porém com outros fios surgindo, menos evidentes e concentrados principalmente sob a parte média.

      Visto que ambos os lábios estavam desprovidos de pêlos, ficou claro para Gladia que não haveria dificuldade em beijá-lo. Ela falou, sabendo que olhar era deselegante, mas olhando assim mesmo:

      - Parece-me que o senhor retira os pêlos em torno dos seus lábios.

      - É verdade, minha senhora.

      - Por que, se me permite perguntar?

      - A senhora pode perguntar. Por motivos higiênicos. Não quero que os alimentos grudem nos pêlos.

      - O senhor os raspa, não é? Estou vendo-os crescer novamente.

      - Uso um laser facial. Apenas quinze segundos, após acordar.

      - Por que não os depila e liquida com eles?

      - Posso querer que tornem a crescer.

      - Por quê?

      - Razões estéticas, minha senhora.

      Desta vez, Gladia não compreendeu a palavra. Ela soou como "acéticas" ou algo parecido.

      - Como? - perguntou ela. O Colonizador respondeu:

      - Posso ficar cansado do meu aspecto e querer deixar novamente crescer os pêlos do lábio superior. Algumas mulheres gostam disso, sabe, e - o Colonizador procurou ser modesto e não conseguiu - eu tenho um belo bigode quando o deixo crescer.

      Ela percebeu subitamente a palavra:

      - O senhor quis dizer "estética".

      O Colonizador riu, exibindo belos dentes brancos, e respondeu:

      - A senhora também fala engraçado, minha senhora.

      Gladia tentou parecer altaneira, mas desmanchou-se num sorriso. A pronúncia correta era consensual em Aurora. Respondeu:

      - O senhor precisa me ouvir com meu sotaque solariano. Então seria "razões estéticasss". O "s" estendido interminavelmente.

      - Estive em lugares onde falavam um pouco assim. Parece bárbaro. Ele arrastou ambos os erres fantasticamente na última palavra. Gladia riu.

      - O senhor pronuncia com a ponta da língua. Tem de ser com os lados. Ninguém a não ser um Solariano, pode fazê-lo corretamente.

      - Talvez a senhora possa me ensinar. Um Mercador, como eu, anda por toda parte, ouvindo toda a espécie de perversões lingüísticas.

      Ele tentou novamente arrastar os erres da última palavra, engasgou-se um pouco e tossiu.

      - Veja. O senhor irrita suas amídalas e nunca consegue.

      Ela continuava olhando sua barba e agora não podia mais refrear a curiosidade. Estendeu a mão na direção dela.

      O Colonizador vacilou e quis recuar; depois, percebendo a intenção de Gladia, ficou imóvel.

      A mão dela, quase invisivelmente enluvada, pousou levemente no lado esquerdo do seu rosto. O plástico transparente que cobria seus dedos não atrapalhava a sensação de toque, e ela achou os pêlos macios e encaracolados.

      - É agradável - comentou ela, com evidente espanto.

      - Amplamente admirada - disse o Colonizador, rindo.

      - Mas não posso ficar aqui o dia inteiro apalpando-o - disse ela. Ignorando seu previsível "No que me diz respeito, pode", ela prosseguiu:

      - Já disse aos meus robôs o que gostaria de comer?

      - Minha senhora, disse-lhes o que repetirei agora: o que houver disponível. Estive em muitos planetas no último ano e cada um tinha sua dieta própria. Um Mercador aprende a comer tudo que não for realmente tóxico. Prefiro uma refeição Auroreana a qualquer coisa que mandar fazer imitando Baleyworld.

      - Baleyworld? - perguntou Gladia rispidamente, tornando a ficar carrancuda.

      - Em homenagem ao chefe da primeira expedição ao planeta - ou a todos os planetas colonizados, por falar nisso. Ben Baley.

      - O filho de Elijah Baley?

      - Sim - respondeu o Colonizador e imediatamente mudou de assunto. Baixou os olhos e disse, com um traço de impertinência: - Como vocês fazem para conservar essas roupas assim, lisas e cheias? Gostaria de me sentir assim outra vez.

      - Estou certa de que terá a oportunidade de fazê-lo breve. Mas agora, por favor, venha almoçar comigo. Disseram-me que seu nome era Baley, por falar nisso – como seu planeta.

      - Não é de espantar. É o nome mais homenageado do planeta, naturalmente. Sou Deejee Baley.

      Tinham entrado na sala de jantar, precedidos de Giskard e seguidos de Daneel, cada um se instalando em seu nicho da parede. Outros robôs já estavam em seus nichos e dois saíram para servir a refeição. A sala estava iluminada pelo sol, as paredes cheias de decorações vivas, a mesa posta, o cheiro dos alimentos tentador.

      O Colonizador aspirou e soltou a respiração com satisfação.

      - Acho que não Vou ter qualquer problema comendo os alimentos Auroreanos... Onde quer que me sente, minha senhora?

      Um robô falou imediatamente:

      - E se sentasse aqui, senhor?

      O Colonizador sentou-se e Gladia então, atendidos todos os privilégios do convidado, tomou seu lugar.

      - Deejee - falou - não conheço as peculiaridades terminológicas do seu mundo, por isso perdoe-me se a pergunta for ofensiva. Deejee não é um nome feminino?

      - De modo nenhum - retrucou o Colonizador, levemente áspero. - Em todo caso, não é um nome e sim um par de iniciais. A quarta e a sétima letras do alfabeto.

      - Ah - falou Gladia, esclarecida. - D. G. Baley. E essas iniciais representam que nomes, se perdoa minha curiosidade?

      - Certamente. O "D", com certeza - disse ele, fazendo um gesto de polegar para um dos nichos da parede - e desconfio que o outro pode ser "G" - completou, fazendo gesto semelhante para o outro.

      - O senhor não está querendo dizer... - hesitou Gladia, com voz fraca.

      - Mas estou. Meu nome é Daneel Giskard Baley. Em cada geração, minha família teve pelo menos um Daneel ou um Giskard em suas múltiplas fornadas. Eu fui o último de seis filhos, mas o primeiro menino. Minha mãe achou que era bastante e desistiu de ter outro filho, dando-me ambos os nomes. Isso me fez ser Daneel Giskard Baley,  e a dupla carga foi muito grande para mim. Prefiro D. G. como nome e ficarei honrado se me chamar assim. - Sorriu alegremente. - Sou o primeiro a usar ambos os nomes e também o primeiro a ver os originais.

      - Mas por que esses nomes?

      - Foi idéia do nosso antepassado Elijah, de acordo com a crônica da família. Ele tinha a honra de dar nome aos netos e chamou o mais velho de Daneel, denominando ao outro Giskard. Insistiu nesses nomes e estabeleceu a tradição.

      - E as filhas?

      - O nome tradicional, de geração para geração, é Jezebel - Jessie. A mulher de Elijah, sabe.

      - Sei.

      - Não há... -conteve-se e desviou sua atenção para o prato que acabava de ser colocado à sua frente. - Se estivéssemos em Baleyworld, diria que isto era uma fatia de porco assado, coberto com molho de amendoim.

      - Na realidade, é um prato vegetariano, D. G. O que o senhor ia dizer é que não há Gladias na família.

      - Não há - falou D. G. calmamente. - Uma explicação seria que Jessie - a Jessie original - teria se oposto, mas não aceito isso. A mulher de Elijah, a Antepassada, como sabe, nunca foi para Baleyworld, jamais deixou a Terra. Como poderia ter-se oposto? Não, para mim é absolutamente certo que o Antepassado não queria outra Gladia.

      Nenhuma imitação, nenhuma cópia, nenhum pretexto. Apenas uma Gladia Única... Ele também pediu para não haver outro Elijah.

      Gladia estava encontrando dificuldade para comer.

      - Acho que seu Antepassado passou a última parte de sua vida tentando ser tão frio quando Daneel. Apesar disso, tinha intimamente noções românticas. Poderia ter permitido outros Elijahs e Gladias. Certamente não me ofenderia, e, imagino, o mesmo aconteceria com a mulher dele.

      Gladia riu timidamente.

      - Tudo isso não me parece muito verdadeiro - replicou D. G. - O Antepassado é praticamente história antiga, pois morreu há cento e sessenta   e quatro anos. Sou seu descendente na sétima geração, o que não me impede de estar sentado aqui com uma mulher que o conheceu quando ainda bastante moço.

      - Para dizer a verdade, não o conheci - disse Gladia, com os olhos fixos no prato. - Eu o vi, muito rapidamente, em três ocasiões diversas, num período de sete anos.

      - Eu sei. O filho do Antepassado, Ben, escreveu a biografia dele, que se tornou um dos clássicos literários de Baleyworld. Até eu a li.

      - É mesmo? Pois eu não. Nem mesmo sabia de sua existência. O que... o que diz ele a meu respeito?

      D. G. pareceu divertido.

      - Nada que pudesse condenar; a senhora aparece muito bem. Mas isso não tem importância. O que me espanta é estarmos juntos aqui, após o passar de sete gerações.

      Que idade tem, minha senhora? É justo fazer esta pergunta?

      - Não sei se é justo, mas nada tenho a opor. Em Anos Galácticos Padrões, tenho duzentos e trinta e três anos. Mais de vinte e três décadas.

      - Não parece ter ultrapassado a década de quarenta. O Antepassado morreu com setenta e nove anos, já velho. Tenho trinta e três, e quando eu morrer a senhora ainda estará viva...

      - Se eu evitar o homicídio acidental.

      - E continuará a viver durante talvez mais cinco décadas.

      - Você me inveja, D. G.?- perguntou Gladia, com uma ponta de amargura na voz. - Inveja-me por ter sobrevivido a Elijah por mais de dezesseis décadas e por estar condenada a sobrevivê-lo talvez por mais dez décadas?

      - Claro que a invejo - foi a resposta pausada. - Por que não? Eu não teria objeções a viver vários séculos, se não me constituísse em mau exemplo para os habitantes de Baleyworld. Não quero que eles vivam como algo genérico. O progresso intelectual e histórico se tornaria, dessa forma, muito lento. Os que estão no topo ficariam no poder durante tempo demais. Baleyworld mergulharia no conservadorismo e na decadência - como aconteceu com seu mundo.

      Gladia ergueu o pequeno queixo.

      - Verá que Aurora está indo muito bem.

      - Estou falando do seu mundo. Solaria. Gladia hesitou e depois replicou com firmeza:

      - Solaria não é meu mundo.

      - Espero que seja - disse D. G. - Vim vê-la porque acredito nisso.

      - Se foi por isso que veio me ver, está perdendo seu tempo, rapaz.

      - A senhora nasceu em Solaria e viveu lá algum tempo não?

      - Vivi lá nas primeiras três décadas de minha vida - cerca da oitava parte da minha existência.

      - Então isso a torna bastante Solariana para poder me ajudar num assunto muito importante.

      - Não sou Solariana, apesar desse assunto supostamente tão importante.

      - É um caso de guerra e paz - se considera isso importante. Os mundos Espaciais estão à beira de uma guerra com os mundos dos Colonizadores, e as coisas ficarão muito piores para todos nós se isso acontecer. E depende da senhora evitar o conflito e garantir a paz.

      A refeição tinha terminado (não fora abundante) e Gladia ficou olhando para D. G. de uma forma terrivelmente fria.

      Ela havia vivido calmamente durante as últimas vinte décadas, de olho nas complicações da vida. Pouco a pouco, tinha esquecido o sofrimento de Solaria e as dificuldades  de adaptação a Aurora. Tinha conseguido enterrar bem profundamente o sofrimento de dois assassinatos e o enlevo de dois amores estranhos - com um robô e com um Terráqueo  - e se saíra bem. Acabara por levar a termo um casamento longo e tranqüilo, que lhe dera dois filhos, e trabalhar em sua arte do vestuário. Finalmente os filhos  tinham partido, mais tarde o marido, e, por fim, ela deixara até mesmo o trabalho.

      Agora estava só, com seus robôs, contente - ou melhor, resignada - por deixar a vida deslizar suave e monótona para um retiro no seu próprio tempo - uma reclusão  tão agradável que ela não iria perceber o fim quando ele chegasse.

      Era o que ela queria.

      Então... O que estava acontecendo?

      Tinha começado na noite anterior, quando olhara inutilmente para o céu estrelado, a fim de ver a estrela de Solaria, que não estava no céu e nem seria visível para  ela mesmo que estivesse. Era como se essa tentativa fútil à procura do passado - um passado cujo sepultamento ela devia ter mantido - tivesse arrebentado a bolha  gelada que ela havia construído em torno de si mesma.

      Primeiro, o nome de Elijah Baley, a recordação mais alegremente dolorosa de todas as que ela havia tão cuidadosamente apagado, vinha sempre à tona, numa triste repetição.

      Depois, fora forçada a tratar com um homem que pensava - erroneamente - poder ser descendente de Elijah em quinto grau. Finalmente, estava agora tendo problemas  e responsabilidades semelhantes com os que tinham flagelado Elijah em várias ocasiões.

      Estaria ela se tornando Elijah, de certo modo, sem nenhum dos seus talentos e sua intransigente dedicação ao dever acima de tudo?

      Que teria ela feito para merecer isso?

      Gladia sentiu sua ira sendo enterrada sob um fluxo de autopiedade.

        Sentiu-se injustamente lidando com isso. Ninguém tinha o direito de descarregar responsabilidade nela, contra sua vontade. Gladia falou, forçando seu tom de voz:

      - Por que insiste em que eu sou Solariana, quando lhe digo que não sou?

      D. G. não pareceu perturbado pela frieza da sua voz. Ainda estava segurando o guardanapo macio que lhe fora dado ao término da refeição. Permanecia razoavelmente morno e úmido - não muito quente - e ele imitou os gestos de Gladia, limpando cuidadosamente as mãos e a boca. Depois, dobrou-o e limpou a barba. Estava agora rasgado e amarrotado.

      - Suponho que vai desaparecer completamente - disse ele.

      - Vai. - Gladia tinha depositado seu próprio guardanapo no receptáculo apropriado na mesa. Segurá-lo era descortês e podia ser desculpado apenas pela evidente falta de familiaridade de D. G. com os costumes civilizados. - Muitos acreditam que ele tem um efeito poluidor na atmosfera, mas há uma suave corrente de ar que carrega para cima os resíduos, aprisionando-os em seus filtros. Duvido que nos cause qualquer perturbação. Mas o senhor ignorou minha pergunta.

      D. G. salvou o restante do seu guardanapo e colocou-o no braço da cadeira. Um robô, em resposta ao rápido e discreto gesto de Gladia, removeu-o.

      - Não procurei ignorar sua pergunta, minha senhora - retorquiu D. G. - Não estou obrigando-a a ser Solariana. Apenas frisei o fato de que nasceu em Solaria e passou  as primeiras décadas lá, podendo, assim, ser razoavelmente considerada Solariana, pelo menos de certa forma. Sabe que Solaria foi abandonado?

      - Sim, me disseram.

      - Sentiu alguma coisa com isso?

      - Sou Auroreana há vinte décadas.

      - Isto é um non sequitur.

      - Um o quê!

      - Não tem relação com a minha pergunta.

      - Um non sequitur, quis dizer. Disse um "nonsense quitter". D. G. sorriu.

      - Está bem. Deixemos de lado o nonsense. Perguntei-lhe se sentia alguma coisa por causa da morte de Solaria e respondeu-me que é Auroreana. Confirma que isso é uma

      resposta? Uma Auroreana de nascimento pode sentir-se terrivelmente mal com a morte de um planeta irmão. Como se sente a esse respeito?

      Gladia retrucou friamente:

      - Isso não tem importância. Por que está interessado?

      - Explicarei. Nós - quero dizer, os Mercadores dos mundos dos Colonizadores - estamos interessados porque há um negócio a ser feito, lucros a serem obtidos e um  mundo a ser conquistado. Solaria já está terraformado e é um mundo confortável; os senhores, Espaciais, parecem  não ter necessidade ou desejo dele. Por que não poderemos nos instalar em Solaria?

      - Por que não é dos senhores.

      - Senhora, é esse o motivo da sua objeção? Aurora nunca o reivindicou, bem como Baleyworld? Não podemos supor que um mundo vazio deva pertencer a quem tiver prazer em colonizá-lo?

      - Os senhores o colonizaram?

      - Não... porque não está desabitado.

      - Está me dizendo que os Solarianos não o abandonaram completamente? - perguntou Gladia rapidamente.

      O sorriso de D. G. voltou e abriu-se numa risada.

      - Ficou excitada com esse pensamento. Apesar de ser Auroreana. O rosto de Gladia imediatamente franziu-se.

      - Responda à minha pergunta. D. G. encolheu os ombros.

      - Havia apenas uns quinhentos mil Solarianos pouco antes do planeta ser abandonado, de acordo com nossos cálculos mais otimistas. A população vem declinando durante anos. Mas mesmo cinco mil... Podemos ter certeza de que todos se foram? Contudo, não é essa a questão. Mesmo que os Solarianos tivessem realmente ido embora, o planeta não estaria vazio. Há, além disso, uns duzentos milhões ou mais de robôs - robôs sem dono - alguns dos quais estão entre os mais avançados da galáxia. Presumivelmente, os Solarianos que partiram levaram com eles alguns robôs; é difícil imaginar Espaciais sem os seus robôs. - Olhou em volta, sorrindo, para os robôs em seus nichos no interior da sala. - Contudo, possivelmente não puderam levar quarenta mil robôs cada um.

      - Bem - replicou Gladia - uma vez que os planetas dos Colonizadores estão agora tão virginalmente livres de robôs e desejam permanecer assim, presumo, não podem colonizar Solaria.

      - É verdade. Não até que os robôs tenham ido embora e que Mercadores como eu cheguem.

      - De que maneira?

      - Não queremos uma sociedade robótica, mas não nos importamos de estar em contato com robôs e tratar de negócios com eles. Não temos um medo supersticioso das coisas.

      Sabemos exatamente que uma sociedade robótica é um pulo para a decadência. Os Espaciais tornaram isso bastante claro para nós pelo exemplo. Assim, uma vez que não queremos viver com esse veneno robótico, estamos perfeitamente dispostos a vendê-los aos Espaciais por uma quantia substancial - se eles forem tão loucos para desejar essa sociedade.

      - Pensa que os Espaciais os comprarão?

      - Estou certo que sim. Receberão bem as modas elegantes que os Solarianos manufaturam. É sabido que eles são os melhores desenhistas da galáxia, e o falecido Dr. Fastolfe chegou a dizer que eles não têm paralelo  nesse campo, embora fosse Auroreano. Além disso, apesar de desejarmos uma grande soma, esta será consideravelmente menor do que valem os robôs Espaciais e Mercadores terão lucro ambos - o segredo do negócio feito.

      - Os Espaciais não comprarão robôs dos Colonizadores - disse Gladia, com desprezo evidente.

      D. G. tinha a maneira dos Mercadores de ignorar coisas não fundamentais, como a ira ou o desprezo. O que importava era o negócio.

      - Claro que comprarão - replicou. - Nós lhes ofereceremos robôs avançados pela metade do preço, por que não haveriam de aceitar? Quando há negócios a serem feitos, a senhora ficará surpresa em constatar, questões de ideologia se tornam pouco importantes.

      - Acho que o senhor será o único a ficar surpreso. Tente vender seus robôs e verá.

      - Gostaria de poder, minha senhora. Isto é, tentar vendê-los. Estou de mãos vazias.

      - E por quê?

      - Porque nada foi recolhido. Duas naves comerciais isoladas pousaram em Solaria, cada uma com capacidade de acolher vinte e cinco robôs. Se obtivessem sucesso, frotas inteiras de navios mercantes as teriam seguido, e ouso dizer que continuaríamos a fazer negócios durante décadas. E teríamos então colonizado o planeta.

      - Mas não tiveram sucesso. Por quê?

      - Porque ambas as naves foram destruídas na superfície do planeta e, até onde posso saber, toda a tripulação foi morta.

      - Falha do equipamento?

      - Bobagem. Ambas pousaram a salvo; não tinham sido destruídas. Seus últimos relatórios diziam que os Espaciais estavam se aproximando - se Solarianos, nativos ou outros Espaciais, não sabemos. Só podemos presumir que os Espaciais atacaram sem avisar.

      - Isso é impossível.

      - Será?

      - Claro que é. Que motivo teriam?

      - Manter-nos fora do planeta, diria eu.

      - Se quisessem fazer tal coisa - replicou Gladia - teriam simplesmente anunciado que o planeta estava ocupado.

      - Podiam ter achado mais agradável matar alguns Colonizadores. Pelo menos, é assim que muitos de nós pensam, e há pressões para que resolvamos o assunto enviando algumas naves de guerra a Solaria, estabelecendo uma base militar no planeta.

      - Isso seria perigoso.

      - Certamente. Podia levar à guerra. Alguns dos nossos mais exaltados estão à espera disso. Talvez alguns Espaciais também estejam e tenham destruído as duas naves apenas para provocar hostilidades.

      Gladia ficou espantada. Não houvera nenhuma alusão a relações tensas entre Espaciais e Colonizadores em nenhum dos novos programas.

      - Certamente, pode-se discutir o assunto - disse Gladia. - Seu povo entrou em contato com a Federação dos Espaciais?

      - Um organismo sem qualquer importância, mas entramos. Fizemos o mesmo com o Conselho Auroreano.

      - E então?

      - Os Espaciais negam tudo. Sugerem que os lucros potenciais no comércio do robô Solariano eram tão altos que os Mercadores, interessados apenas em dinheiro – apesar de não terem interesses pessoais - lutariam entre si. Evidentemente, quiseram que acreditássemos que as duas naves haviam destruído uma à outra, na esperança de monopolizarem o comércio para seu próprio planeta.

      - Então as duas naves eram de planetas diferentes?

      - Sim.

      - O senhor não acha, então, que poderia realmente ter havido luta entre elas?

      - Não acho provável, mas admito a possibilidade. Não tem havido conflitos extensos entre os planetas dos Colonizadores, apenas disputas muito ardorosas. E todas têm sido resolvidas mediante arbitragem da Terra. Contudo, temos de reconhecer que, numa situação de aperto estando em jogo um negócio de muitos bilhões de dólares, os planetas dos Colonizadores permaneçam unidos. É por isso que não consideramos a guerra uma boa idéia para nós e achamos que alguma coisa deve ser feita para desencorajar os mais exaltados. É por isso que estamos aqui.

      - Estamos?

      - A senhora e eu. Pediram-me que fosse a Solaria e descobrisse - se pudesse - o que realmente tinha acontecido. Eu levaria uma nave - armada, mas não muito fortemente.

      - O senhor também poderia ser destruído.

      - Possivelmente. Minha nave, porém, pelo menos não seria apanhada desprevenida. Além disso, não sou um desses heróis da hipervisão e levei em conta o que poderia fazer para minimizar as possibilidades de destruição. Ocorreu-me que uma das desvantagens da penetração dos Colonizadores em Solaria é que não conhecemos absolutamente o planeta. Pode ser útil, portanto, levar alguém que o conheça - em suma, um Solariano.

      - Está dizendo que quer me levar?

      - Exatamente, minha senhora.

      - Por que eu!

      - Tenho de considerar que pode compreender sem explicação, minha senhora. Os Solarianos que abandonaram o planeta foram não se sabe Para onde. Se ficaram alguns no planeta, muito provavelmente são inimigos. Não se conhecem Espaciais nascidos em Solaria que vivam em outro Planeta Espacial além de Solaria - exceto a senhora.

      Que é o único nativo  daquele planeta ao meu alcance: o único em toda a galáxia. E por isso que eu preciso tê-la comigo, é por isso que a senhora precisa vir.

      - O senhor está errado, Colonizador. Se sou a única pessoa disponível, então o senhor não tem ninguém disponível. Não pretendo ir com o senhor e não há maneira - absolutamente nenhuma - de me forçar a isso. Estou cercada pelos meus robôs. Dê um passo em minha direção e será imediatamente imobilizado - e se lutar será ferido.

      - Não pretendo forçá-la. A senhora terá de vir espontaneamente e de boa vontade. Trata-se de evitar uma guerra.

      - Isso é tarefa para governos, tanto do seu lado como do meu. Recuso-me a ter alguma coisa a ver com isso. Sou uma cidadã particular.

      - A senhora o deve ao seu planeta. Nós poderemos vir a sofrer com a guerra, mas Aurora também.

      - Não sou uma daquelas heroínas da hipervisão e o senhor também não.

      - Então, a senhora o deve a mim.

      - O senhor está maluco. Não lhe devo nada. D. G. esboçou um sorriso.

      - Nada me deve como indivíduo, porém me deve muito como descendente de Elijah Baley.

      Gladia franziu o cenho e continuou encarando o monstro barbado durante um bom período de tempo. Como tinha podido esquecer quem ele era?

      Com dificuldade, finalmente murmurou:

      - Não.

      - Sim - insistiu D. G. impetuosamente. - Em duas diferentes ocasiões, o Antepassado fez mais pela senhora do que algum dia poderá pagar. Ele não está mais aqui para poder reclamar a dívida - uma pequena parte dela. Herdei o direito de fazê-lo.

      Desesperada, Gladia perguntou:

      - Mas que poderei fazer, se for com o senhor?

      - Veremos. A senhora virá?

      Em desespero, Gladia desejou recusar, mas não fora por isso que Elijah tinha subitamente se tornado parte de sua vida, mais uma vez, nas últimas vinte e quatro horas?

      Que aquele pedido impossível lhe fora feito usando o nome dele, tornando-lhe a recusa impossível?

      - Que importa? O Conselho não vai me deixar ir com o senhor. Não vão permitir que um Auroreano seja levado numa nave dos Colonizadores.

      - Minha senhora, a senhora vive aqui em Aurora há vinte décadas e por isso pensa que os nativos a consideram como um deles. Não é verdade. Para eles, continua sendo Solariana. Eles permitirão que vá.

      - Não permitirão - replicou ela, com o coração batendo e a pele dos antebraços arrepiada. Ele tinha razão. Gladia pensou em Amadiro, que certamente só pensava nela como Solariana. Apesar disso, repetiu, tentando tranquilizar-se: - Não permitirão.

      - Permitirão - replicou D. G. - Não veio alguém do seu Conselho pedir-lhe para me receber?

      Ela disse, desafiadora:

      - Apenas me pediram que relatasse esta conversa. E eu o farei.

      - Se eles querem que me vigie aqui, em sua própria casa, minha senhora, acharão ainda mais útil que me vigie em Solaria. - Esperou pela resposta; quando esta não veio, prosseguiu, com um traço de cansaço na voz: - Minha senhora, se recusar, não a forçarei, porque não será preciso. Eles se encarregarão disso. Porém, não desejo tal coisa. O Antepassado também não desejaria, se estivesse aqui. Ele desejaria que a senhora fosse comigo apenas por gratidão a ele e nada mais. Minha senhora, o Antepassado trabalhou para a senhora em condições extremamente difíceis. Não quer cooperar em consideração à memória dele?

      O coração de Gladia baqueou. Sabia que não podia resistir a isso.

      - Não posso ir a lugar algum sem robôs - replicou.

      - Não achei que pudesse. - D. G. estava novamente rindo. - Por que não leva meus homônimos? Vai precisar de mais?

      Gladia olhou para Daneel, porém este estava de pé, imóvel. Virou-se para Giskard - a mesma coisa. Então pareceu-lhe que, apenas por um instante, sua cabeça moveu-se - muito de leve - afirmativamente.

      Precisava confiar nele. Portanto, respondeu:

      - Muito bem, Vou com o senhor. Só preciso desses dois robôs.

     

SOLARIA

 

      O Planeta Abandonado

      Pela quinta vez em sua vida, Gladia viajou numa espaçonave. De repente, não lembrava exatamente há quanto tempo ela e Santirix tinham ido juntos ao planeta Euterpe  conhecer suas florestas tropicais, mundialmente reconhecidas como incomparáveis, especialmente sob o resplendor romântico do seu brilhante satélite, Pedra Preciosa.

      A floresta tropical era, de fato, verde e luxuriante, com as árvores cuidadosamente plantadas em colunas e a vida animal devidamente selecionada, de forma a produzir  cor e prazer e ao mesmo tempo evitando as criaturas venenosas ou desagradáveis.

      O satélite, com cento e cinqüenta quilômetros de diâmetro, estava bastante perto de Euterpe para brilhar como um ponto luminoso de luz faiscante. Estava tão perto  do planeta que se podia vê-lo atravessar o céu para oeste, superando o movimento rotativo mais lento do planeta. Luzia quando se dirigia ao zênite e diminuía quando  tornava a cair para o horizonte. Era olhado com fascinação na primeira noite, com menor interesse na segunda e com um vago desgosto na terceira - na hipótese do  céu estar claro nessas noites, o que não acontecia normalmente.

      Os Euterpianos, reparou Gladia, nunca o olhavam, embora o elogiassem ruidosamente para os turistas, é claro.

      No todo, Gladia tinha gostado bastante da viagem, porém o que mais lembrava era a alegria da volta a Aurora e sua decisão de não mais viajar, a não ser por motivo  de força maior. (Como tinha acontecido, por falar nisso, umas oito décadas atrás.)

      Durante um certo tempo, ela viveu com o desagradável temor de que seu marido insistisse numa outra viagem, porém ele nunca o fez. Podia acontecer, pensava ela às  vezes, naquele tempo, que ele tivesse chegado à mesma decisão e temesse que Gladia pudesse querer viajar.

      Não era incomum evitar viagens. Os Auroreanos, em geral - todos    os Espaciais, por falar nisso - tendiam a ficar em casa. Seus mundos, suas casas, eram muito confortáveis. Afinal de contas, que maior prazer pode haver que ser  cuidado por seus próprios robôs, servomecânicos que conheciam seus menores sinais e, por extensão, seus meios e desejos, mesmo que não fossem expressos.

      Gladia mexeu-se, incomodada. Fora isso que D. G. quisera dizer quando falara de decadência de uma sociedade robotizada?

      Agora porém ela estava de volta ao espaço, depois de todo esse tempo. E também numa nave terrestre.

      Ela não tinha visto muita coisa da nave, mas o pouco que vislumbrou deixou-a terrivelmente receosa. Pareceu-lhe nada mais que linhas retas, ângulos agudos e superfícies  polidas. Tudo que não fosse rígido tinha sido evidentemente eliminado. Era como se nada pudesse existir a não ser funcionalmente. Apesar de não saber o que era exatamente  funcional em cada objeto da nave, sentiu que tudo era necessário, que nada interferia na escolha da menor distância entre dois pontos.

      No sistema Auroreano (ou mesmo Espacial, quase se podia dizer, embora Aurora fosse o mais avançado a esse respeito), tudo existia em camadas. A funcionalidade estava  na base - ninguém podia se livrar completamente disso, exceto no que era puro ornamento - mas logo acima havia sempre alguma coisa para satisfazer os olhos e os  sentidos, em geral; e acima disso alguma coisa para satisfazer o espírito.  Como isso era melhor!... Ou representaria tamanha exuberância da criatividade humana que os Espaciais não mais poderiam viver num universo sem adornos - e seria  isso  ruim? O futuro seria pertencer aos geômetras daqui-para-ali? Ou os Colonizadores ainda não teriam ainda aprendido as doçuras da vida?

      Mas nesse caso, se a vida possuía tantas doçuras, por que havia ela encontrado tão poucas para si mesma?

      Gladia, realmente, nada tinha a fazer a bordo daquela nave, a não ser pensar e repensar essas questões. Aquele D. G., aquele descendente bárbaro de Elijah, tinha  metido aquilo em sua cabeça com a calma convicção de que os planetas Espaciais estavam morrendo, apesar de ter podido constatar durante a curtíssima estada em Aurora  (certamente ele pôde), que este planeta estava profundamente mergulhado em riqueza e segurança.

      Ela tentou fugir aos seus próprios pensamentos vendo os holofilmes que lhe tinham fornecido e olhando, com curiosidade moderada, as imagens trêmulas e saltitantes  na superfície de projeção, enquanto as histórias de aventuras (eram todas histórias de aventuras) passavam apressadamente de acontecimento para acontecimento, deixando  pouco tempo para conversa e nenhum para pensamentos - ou mesmo prazer. Muito semelhante aos móveis deles.

      D. G. entrou quando Gladia estava no meio de um dos filmes, porém parou, prestando realmente atenção. Ela não foi apanhada de surpresa.

      Seus robôs, que vigiavam a porta, assinalaram sua chegada muito a tempo e não o teriam deixado entrar se ela não desejasse recebê-lo. Daneel entrou com ele.

      - Como está passando? - perguntou D. G. Então, quando a mão dela tocou um interruptor e as imagens diminuíram, tremularam e desapareceram, ele disse: - Não precisava ter desligado. Eu assistirei com a senhora.

      - Não é necessário - replicou ela. - Já vi bastante.

      - A senhora está confortável?

      - Não completamente. Estou... isolada.

      - Lamento! Mas também fiquei isolado em Aurora. Eles não permitiram que os meus fossem comigo.

      - Está se vingando?

      - Absolutamente, não. Não se esqueça, permiti-lhe que trouxesse dois robôs à sua escolha com a senhora. Por outro lado, não sou eu o responsável; minha tripulação  é que me obriga a isso. Eles não gostam nem de Espaciais nem de robôs. Mas de que se queixa? Este isolamento não diminui seu medo de infecções?

      O olhar de Gladia era arrogante, mas sua voz soou fatigada.

      - Fico pensando se não estou velha demais para temer infecções. De certa forma, acho que vivi bastante. E também tenho minhas luvas, meus filtros de narinas e -  se necessário - minha máscara. Além disso, duvido que o senhor vá se dar ao trabalho de me tocar.

      - Nem ninguém mais - retrucou D. G., com uma súbita ponta de amargura na voz, quando sua mão dirigiu-se, indecisa, para o objeto no lado direito de seu quadril.

      Os olhos de Gladia acompanharam o gesto.

      - O que é isso? - perguntou.

      D. G. sorriu e sua barba pareceu brilhar na luz. Havia alguns fios avermelhados entre o castanho.

      - Uma arma - respondeu e puxou-a.

      Segurou-a por um cabo moldado que sobressaía em sua mão como se a torça da empunhadura o estivesse pressionando para cima. Na frente, virado para Gladia, um fino cilindro estendia-se cerca de quinze centímetros. Não havia orifício visível.

      - Isso mata gente? - perguntou Gladia, estendendo a mão para ela. D. G. afastou-a rapidamente.

      - Nunca estenda a mão para a arma de alguém, minha senhora. Isso e Pior que ter maus modos, pois todo Colonizador é instruído para reagir violentamente a um movimento assim, e a senhora pode ficar ferida.

      Gladia, de olhos escancarados, recolheu a mão e colocou ambas por trás das costas, dizendo:

      - Não ameace causar dano. Daneel não tem senso de humor a esse respeito. Em Aurora, ninguém é bastante selvagem para usar armas.

        - Bem - respondeu D. G., impassível diante do adjetivo - não temos robôs para nos protegerem - e este não é um instrumento de morte. Em alguns aspectos, é pior.

      Emite uma espécie de vibração que estimula os terminais nervosos responsáveis pela sensação de dor. Machuca muito mais do que tudo que a senhora possa imaginar.

      Ninguém desejaria voluntariamente passar por isso duas vezes, e quem carrega esta arma raramente a usa. Nós a denominamos chicote neurônico.

      Gladia franziu o cenho.

      - Asqueroso! Temos nossos robôs, mas eles jamais machucam alguém, exceto numa inevitável emergência - e assim mesmo o mínimo possível.

      D. G. encolheu os ombros.

      - Isso parece muito civilizado, mas um pouco de dor - um pouco de matança até - é melhor que a decadência de espírito espalhada pelos robôs. Além disso, o chicote neurônico não é feito para matar, e sua gente tem armas nas suas espaçonaves que podem trazer globalmente morte e destruição.

      - Isso é porque tivemos de travar guerras no começo da nossa história, quando nossa herança da Terra ainda era forte, mas progredimos.

      - Vocês usaram essas armas na Terra mesmo depois de terem supostamente progredido.

      - Isso foi... - começou, mas fechou a boca para impedir-se de dizer mais alguma coisa.

      D. G. balançou a cabeça.

      - Eu sei. A senhora ia dizer: "Aquilo foi diferente." Pense nisso, minha senhora, caso comece a especular por que minha tripulação não gosta de Espaciais. Ou eu. Mas a senhora vai me ser útil, minha senhora, e não Vou deixar que minhas emoções interfiram.

      - De que modo lhe serei útil?

      - A senhora é Solariana.

      - O senhor continua insistindo nisso. Passaram-se mais de vinte décadas. Não sei como Solaria está agora. Não tenho a menor idéia. Como Baleyworld era há vinte décadas?

      - Ele não existia nessa época, mas Solaria sim, e aposto que a senhora se lembrará de alguma coisa útil.

      D. G. levantou-se, curvou a cabeça num cumprimento rápido de boas maneiras um tanto zombeteiro e saiu.

      Durante certo tempo, Gladia manteve um silêncio meditativo e perturbado, dizendo a seguir:

      - Ele não foi absolutamente educado, não é?

      Daneel respondeu:

      - Senhora Gladia, o Colonizador está evidentemente sob grande tensão. Está viajando para um mundo onde duas naves iguais a esta foram destruídas e suas tripulações aniquiladas. Juntamente com sua tripulação, está correndo um grande perigo.

      - Você defende sempre todo ser humano, Daneel - disse Gladia, magoada. - O perigo também existe para mim e não o estou enfrentando voluntariamente, mas isso não me força a ser rude.

      Daneel ficou calado. Gladia prosseguiu:

      - Bem, talvez tenha sido assim. Eu fui um pouco rude, hem?

      - Não creio que o Colonizador tivesse a intenção - retrucou Daneel. - Posso sugerir, senhora, que a senhora se prepare para dormir? É muito tarde.

      - Está bem. Vou me preparar para dormir, porém acho que não estou bastante calma para isso, Daneel.

      - O amigo Giskard me garantiu que a senhora estará, e ele sempre tem razão nesses assuntos.

      E ela dormiu.

     

      Daneel e Giskard ficaram na escuridão do camarote de Gladia.

      - Ela irá dormir profundamente, amigo Daneel - disse Giskard - e bem que precisa disso. Está enfrentando uma viagem perigosa.

      - Parece-me, amigo Giskard - disse Daneel - que você a influenciou para concordar com essa viagem. Suponho que tenha um motivo.

      - Amigo Daneel, sabemos tão pouco sobre a natureza da crise ora enfrentada pela Galáxia, que não podemos com segurança recusar qualquer ação que possa aumentar nosso conhecimento. Preciso saber o que está acontecendo em Solaria, e para isso era necessário ir até lá. Impunha-se, portanto, conseguir que Senhora Gladia fosse. Quanto a influenciá-la, bastou um pequeno toque. Apesar de suas altissonantes declarações em contrário, ela estava ansiosa para ir. Havia um desejo irresistível dentro dela de ver Solaria. Era um sofrimento interior que não cessaria até que ela fosse.

      - Já que você diz, eu acredito. Contudo, ainda acho confuso. Ela não deixou claro, com freqüência, que sua vida em Solaria tinha sido infeliz, que havia adotado integralmente Aurora e nunca desejara voltar ao seu lar de origem?

      - Sim, havia isso também. Estava muito claro em sua mente. Ambas as emoções, ambos os sentimentos existiam juntos e simultâneos. Observei coisas semelhantes freqüentemente nas mentes humanas; duas emoções antagônicas presentes ao mesmo tempo.

      - Essa condição não parece lógica, amigo Giskard.

      - Concordo e só posso concluir que os seres humanos não são, o tempo todo e a respeito de tudo, lógicos. Esse deve ser um motivo pelo qual é tão difícil descobrir as Leis que governam o comportamento humano. No caso de Senhora Gladia, percebi sempre sua ânsia por Solaria. Normalmente, era muito bem oculta, obscurecida pela mais intensa antipatia que sempre sentiu pelo planeta. Quando chegaram, contudo, as notícias de que Solaria tinha sido abandonado pelos seus habitantes, seus sentimentos mudaram.

      - Como assim? Que teve o abandono a ver com as experiências juvenis que levaram Senhora Gladia a essa antipatia? Ou, tendo mantido contida sua ânsia pelo planeta durante as décadas em que havia ali uma sociedade trabalhadora, por que deveria reativá-la, uma vez que ele se tornou um planeta abandonado, e novamente ansiar por um mundo que devia agora ser uma coisa totalmente estranha a ela?

      - Não posso explicar, amigo Daneel. Por mais conhecimento da mente humana que eu tenha conseguido, meu desespero é cada vez maior por ser incapaz de compreender.

      Não é uma genuína vantagem ver no interior dessa mente e eu freqüentemente invejo sua simplicidade de controle do comportamento, resultante de sua incapacidade de ver sob a superfície.

      Daneel insistiu:

      - Imaginou uma explicação, amigo Giskard?

      - Suponho que ela sente pena do planeta desabitado. Ela o abandonou há vinte décadas...

      - Ela foi levada.

      - Parece-lhe, agora, ter sido uma deserção, e imagino que ela brinca com o pensamento doloroso de que se tornou um exemplo; que se não tivesse partido, ninguém a acompanharia e o planeta permaneceria habitado e feliz. Uma vez que não posso ler seus pensamentos, estou apenas tateando no escuro, talvez inadequadamente, baseado em suas emoções.

      - Ela, porém, não deve ter sido um exemplo, amigo Giskard. Como já se passaram vinte décadas desde que ela partiu, pode não haver nenhuma conexão causal verificável entre o acontecimento muito anterior e o muito posterior.

      - Concordo, mas seres humanos às vezes encontram uma espécie de prazer em alimentar emoções dolorosas, em se culparem sem motivo ou mesmo contrariamente ao motivo.

      Em todo caso, Senhora Gladia sentiu tão agudamente a ânsia de voltar, que achei ser necessário liberar o efeito inibidor que a impedia de concordar em ir. Foi preciso apenas um levíssimo toque. Mas apesar de eu sentir ser necessário que ela fosse, uma vez que isso significava levar-nos com ela, tive a incômoda sensação de que as desvantagens podiam, muito possivelmente, ser maiores que as vantagens.

      - Como, amigo Giskard?

      - Visto que o Conselho estava ansioso para que Senhora Gladia acompanhasse o Colonizador, isso pode ter tido o propósito de manter a Senhora Gladia ausente de Aurora durante um período crucial, quando a der rota da Terra e dos seus mundos de Colonizadores estiver sendo preparada.

      - Daneel pareceu meditar sobre a declaração. Pelo menos, foi só após uma longa pausa que ele disse:

      - Qual a finalidade, na sua opinião, de manter Senhora Gladia ausente de Aurora?

      - Isso não sei, amigo Daneel. Desejo sua opinião.

      - Não examinei esse assunto.

      - Examine-o agora!

      Se Giskard fosse humano, o comentário teria sido uma ordem. Seguiu-se um silêncio ainda maior e depois Daneel disse:

      - Amigo Giskard, até o momento em que o Dr. Mandamus apareceu na residência de Senhora Gladia, ela nunca demonstrou nenhuma preocupação com os assuntos internacionais.

      Ela era amiga do Dr. Fastolfe e de Elijah Baley, porém essa amizade era de afeto pessoal e não tinha base ideológica. Além disso, ambos não mais existem. Ela tem antipatia pelo Dr. Amadiro, que é recíproca, mas trata-se também de um assunto pessoal. Essa antipatia tem duzentos anos de idade e nenhum fato foi acrescentado a ela, cada um permanecendo teimosamente antipático ao outro. Não há motivo para o Dr. Amadiro - que é hoje a influência dominante no Conselho - temer Senhora Gladia ou dar-se ao trabalho de afastá-la.

      - Você negligencia o fato de que, removendo Senhora Gladia, ele também remove a nós dois. Ele pôde sentir, com certeza, que ela não partiria sem nós; dessa forma, talvez sejamos nós que ele considera perigosos.

      - No decorrer da nossa existência, amigo Giskard, de maneira nenhuma demos a impressão de termos ameaçado o Dr. Amadiro. Que motivo tem ele para nos temer? Ele não conhece sua capacidade ou como fez uso dela. Por que, então, se daria ao trabalho de nos afastar, temporariamente, de Aurora?

      - Temporariamente, amigo Daneel? Por que conclui que ele planeja um afastamento temporário? Ele sabe, certamente melhor que o Colonizador, o que está havendo em Solaria, e também que o Colonizador e sua tripulação serão seguramente trucidados - e com eles Senhora Gladia e nós. Talvez a destruição da nave do Colonizador seja seu alvo principal, mas levará em conta o fim da amiga do Dr. Fastolfe e dos robôs deste, como um lucro adicional.

      - Certamente - comentou Daneel - ele não quererá se arriscar a uma guerra com os planetas dos Colonizadores, o que poderá acontecer se a nave deles for destruída; o minuto de satisfação de nos ter aniquilado, se adicionado, não valerá o risco.

      - Não é possível, amigo Daneel, que o Dr. Amadiro tenha em mente exatamente a guerra; que isso no seu cálculo não envolva nenhum risco,

      Pois, livrando-se de nós ao mesmo tempo, aumenta seu prazer sem aumentar o risco que não deve existir?

      Daneel retrucou calmamente:

      - Amigo Giskard, isso não é racional. Numa guerra desencadeada nas presentes condições, os Colonizadores vencerão. Estão melhor preparados, psicologicamente, para os rigores da guerra. Estão mais espalhados e podem, consequentemente, agir com mais sucesso, usando a tática de atacar-e-fugir. Eles têm comparativamente pouco a perder nos seus planetas relativamente primitivos, enquanto os Espaciais têm muito, nos seus confortáveis e altamente organizados mundos. Se os Colonizadores estiverem dispostos a oferecer a destruição de um dos seus planetas por um dos Espaciais, estes terão de se render imediatamente.

      - Mas essa guerra teria de ser travada "sob as presentes condições"? E se os Espaciais tiverem uma nova arma que possa ser usada para derrotar os Colonizadores rapidamente?

      Não poderá ser essa a verdadeira crise que estamos agora enfrentando?

      - Nesse caso, amigo Giskard, a vitória poderá ser maior e mais eficientemente ganha com um ataque de surpresa. Por que se dar ao trabalho de provocar uma guerra, que os Colonizadores podem começar por um ataque de surpresa aos planetas Espaciais com danos consideráveis?

      - Talvez os Espaciais necessitem testar sua arma, e a destruição de uma série de naves em Solaria represente o teste.

      Os Espaciais seriam muito pouco inventivos se não tivessem encontrado um método experimental que não traísse a existência de uma nova arma.

      Foi então que Giskard virou-se para considerar.

      - Pois muito bem, amigo Daneel, como explica esta viagem? Como explica a concordância do Conselho - até mesmo a ansiedade - para que acompanhássemos o Colonizador?

      Este disse que eles iriam ordenar a Gladia que fosse, e foi isso exatamente que aconteceu.

      - Não examinei o assunto, amigo Giskard.

      - Pois examine-o agora.

      A frase tinha, novamente, o sabor de uma ordem. Daneel disse:

      - Farei isso.

      Houve um silêncio que se prolongou, mas Giskard, não demonstrou, por palavra ou gesto, impaciência enquanto esperava.

      Finalmente, Daneel falou lentamente, como se tivesse sentido seu caminho por estranhas avenidas de pensamento:

      - Não acho que Baleyworld - ou qualquer dos planetas dos Colonizadores - tenha o legítimo direito de se apossar da propriedade robótica em Solaria. Embora os Solarianos tenham partido ou talvez morrido, Solaria continua um planeta Espacial, ainda que desocupado. Certamente os restantes quarenta e nove planetas dos Espaciais raciocinarão assim. Principalmente Aurora - caso se sinta no comando da situação.

      Giskard meditou sobre isso.

      - Está dizendo, amigo Daneel, que a destruição de duas naves dos Colonizadores foi a maneira Espacial de reafirmar sua propriedade de Solaria?

      - Não - respondeu Daneel - esta não teria sido a maneira de Aurora, o principal poder Espacial, sentir-se no comando da situação. Aurora simplesmente teria anunciado que Solaria, desabitado ou não, estava fora dos limites das naves dos Colonizadores, e ameaçado represálias contra os planetas nativos, se qualquer nave dos Colonizadores entrasse no sistema planetário Solariano. E eles teriam estabelecido um cordão de naves e estações sensoriais em torno do sistema planetário. Não houve esse aviso, essa ação, amigo Giskard. Por que, então, destruir naves que poderiam ter sido mantidas afastadas do planeta com facilidade, em primeiro lugar?

      - Mas as naves foram destruídas, amigo Daneel. Quer usar a ilogicidade básica da mente humana como explicação?

      - Não, a menos que precise. No momento, tomemos a destruição em si. Agora, consideremos as conseqüências. O comandante de uma única nave dos Colonizadores aproxima-se de Aurora, pede permissão para discutir a situação com o Conselho, insiste em levar um cidadão Auroreano com ele para investigar os acontecimentos em Solaria e o Conselho concede-lhe tudo. Se a destruição de naves sem aviso prévio é uma ação muito violenta para Aurora, ceder ao capitão Colonizador tão covardemente é muito mais uma demonstração de fraqueza. Longe de procurar uma guerra, Aurora, cedendo, parece estar disposta a fazer tudo para repelir essa possibilidade.

      - Sim - disse Giskard - vejo que esse é um meio possível de interpretar acontecimentos. Mas o que se segue?

      - Parece-me - disse Daneel - que os planetas Espaciais ainda não se encontram tão fracos a ponto de se prestar a tal servilismo; e mesmo que estivessem, o orgulho de séculos de supremacia evitaria que eles fizessem isso. Deve ser outra coisa, que não a fraqueza, que os está levando a proceder assim. Já assinalei que eles não podem deliberadamente provocar uma guerra; portanto, é muito mais provável que estejam querendo ganhar tempo.

      - Com que finalidade, amigo Daneel?

      - Eles querem aniquilar os Colonizadores, mas ainda não estão preparados. Estão deixando que eles obtenham o que querem para evitar a guerra, até estarem preparados para lutar em seus próprios termos. Só estou surpreso por não terem oferecido enviar uma belonave Auroreana com eles. Se esta análise é correta - e acho que é - Aurora possivelmente nada tem a ver com os incidentes em Solaria. A intenção é evitar atritos, que só Serviriam para pôr os Colonizadores de sobreaviso, antes de estarem preparados com alguma coisa devastadora.

      - Então, como considerar esses atritos, como os chama, amigo Daniel?

      - Descobriremos talvez quando pousarmos em Solaria. Pode acontecer que Aurora esteja tão curioso quanto nós e os Colonizadores, e esse é um outro motivo pelo qual devem ter cooperado com o comandante, a ponto de permitir que

      Senhora Gladia o acompanhasse.

      Foi a vez de Giskard permanecer em silêncio. Finalmente, ele disse:

      - E qual é a misteriosa devastação que eles planejam?

      - Anteriormente falamos de uma crise surgindo do plano Espacial de vencer a Terra, mas usamos esta em seu sentido geral, compreendendo os Terráqueos juntamente com seus descendentes nos planetas Espaciais. Contudo, se desconfiarmos seriamente da preparação de um golpe devastador que permitirá aos Espaciais derrotar seus inimigos de um golpe, poderemos talvez aperfeiçoar nosso ponto de vista. Portanto, eles não podem estar planejando um golpe num planeta dos Colonizadores. Individualmente, os mundos dos Colonizadores são prescindíveis, e os sobreviventes remanescentes levarão, em fúria e desespero, a devastação aos planetas Espaciais.

      - Você conclui então, amigo Daneel, que será um golpe na própria Terra.

      - Sim, amigo Giskard. A Terra possuía a grande maioria dos seres humanos de vida breve; é a fonte perene de emigrantes para os planetas dos Colonizadores e a matéria-prima principal para a fundação de novos; é o lar venerado de todos os Colonizadores. Se ela for de alguma forma aniquilada, o movimento Colonizador jamais poderá se recuperar.

      - Mas os planetas dos Colonizadores não iriam revidar com a mesma violência, como se isso acontecesse com um dos seus mundos? Parece-me inevitável.

      - A mim também, amigo Giskard. Conseqüentemente, acho que, a menos que os planetas dos Espaciais tenham enlouquecido, o golpe terá de ser sutil; de modo que os Espaciais pareçam não ter nenhuma responsabilidade.

      - Por que não um golpe sutil contra os planetas dos Colonizadores, que possuem a maior parte do verdadeiro potencial bélico dos Terráqueos?

      - Igualmente porque os Espaciais acham que o golpe contra a Terra será mais devastador psicologicamente ou porque a natureza do golpe só terá efeito contra a Terra e não contra os planetas dos Colonizadores. Inclino-me para a última hipótese, uma vez que a Terra é um mundo único e tem uma sociedade que não se parece com a de nenhum outro planeta - Colonizador ou, quanto a isso, Espacial.

      - Então, em resumo, amigo Daneel, você chega à conclusão de que os Espaciais estão planejando um golpe ardiloso contra a Terra, golpe esse que a destruirá sem deixar provas de serem eles os causadores, que não funcionará contra nenhum outro planeta e que ainda não poderá ser lançado por falta de preparação adequada.

      - Sim, amigo Giskard, mas em breve essa preparação estará concluída, e, quando isto acontecer, terão de atacar imediatamente. Um atraso aumentará a possibilidade de um vazamento que porá tudo a perder.

      - Deduzir tudo isso, amigo Daneel, dos breves indícios que possuímos, é muito digno de aplauso. Agora, conte-me a natureza do golpe. O que planejam exatamente os Espaciais?

      - Cheguei tão longe, amigo Giskard, através de um campo instável, sem ter certeza de que meu raciocínio era inteiramente correto. Porém, mesmo que o suponhamos correto, não posso ir mais além. Temo não saber e não poder imaginar qual a natureza do golpe.

      - Mas não podemos tomar medidas apropriadas - replicou Giskard - para neutralizar o golpe e solucionar a crise até conhecermos sua natureza. Se precisarmos esperar até o golpe se revelar pelos seus resultados, então poderá ser tarde demais para fazer alguma coisa.

      - Se algum Espacial conhece a natureza do que está para acontecer, esse alguém é Amadiro. Você não pode forçar Amadiro a anunciar o evento publicamente e, dessa forma, alertar os Colonizadores, inutilizando o golpe?

      - Não posso fazer isso, amigo Daneel, sem virtualmente destruir sua mente. Duvido poder segurar sua mente o tempo suficiente para permitir-lhe fazer o anúncio. Não posso realizar tal coisa.

      - Talvez então - falou Daneel - possamos nos consolar com o pensamento de que o meu raciocínio esteja errado e que nenhum golpe contra a Terra esteja sendo preparado.

      - Não - retrucou Giskard. - Acho que você tem razão e que devemos apenas esperar... de mãos amarradas.

     

      Gladia esperou, com uma quase dolorosa premonição pelo término do Salto final. Estariam então bem próximos de Solaria para ver seu sol como um disco.

      Não passaria de um disco, claro, um círculo informe de luz, domesticado a ponto de uma pessoa poder olhá-lo sem piscar após a luz ter passado por um filtro apropriado.

      Sua aparência não era singular. Todas as estrelas que carregavam entre seus planetas um mundo habitável, no sentido humano, possuíam uma longa lista de requisitos próprios que terminavam por fazê-las se parecerem todas umas com as outras. Eram todas estrelas sozinhas - não muito maiores ou menores que o sol que brilhava sobre a Terra - nenhuma muito ativa ou muito velha ou muito tranqüila ou muito jovem ou muito quente ou muito fria ou muito fora de padrão na composição química. Aquelas manchas solares, labaredas e protuberâncias eram todas parecidas ao olhar. Era necessária uma acurada espectro-heliografia para ressaltar os detalhes Que tornavam cada uma singular.

      Apesar disso, quando Gladia ficou olhando para um círculo de luz que absolutamente nada mais era para ela do que isso - um círculo de luz - sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Nunca prestara a menor atenção ao sol quando vivera em Solaria; era apenas uma eterna fonte de luz e calor, surgindo e se pondo num ritmo regular.

      Quando ela partira de Solaria, tinha visto aquele sol desaparecer às suas costas apenas com um sentimento de agradecimento. Não tinha dele uma recordação que valesse a pena.

      Contudo, ela chorava silenciosamente. Estava envergonhada por se sentir tão afetada sem um motivo justificável, porém não parou de chorar.

      Fez um esforço enorme quando o sinal luminoso brilhou. Devia ser D. G. na porta; ninguém mais se aproximaria do seu camarote,

      - Ele deve entrar, senhora? - perguntou Daneel. - A senhora parece emocionalmente afetada.

      - Sim, estou, Daneel, nas deixe-o entrar. Imagino que não será uma surpresa para ele.

      Contudo, foi. Pelo menos, ele entrou com um sorriso no rosto barbado... e este desapareceu quase imediatamente. D. G. recuou e disse em voz baixa:

      - Voltarei mais tarde.

      - Fique! - ordenou Gladia asperamente. - Isto não é nada. Uma reação boba momentânea. - Fungou e enxugou raivosamente os olhos. - Por que veio?

      - Eu queria discutir Solaria com a senhora. Se chegarmos a um pequeno acordo, pousaremos amanhã. Se a senhora não estiver em condições de uma discussão agora...

      - Estou. Na verdade, tenho uma pergunta a lhe fazer. Que história é essa de darmos três Saltos para chegar aqui? Um seria mais que suficiente. Foi suficiente quando me levaram de Solaria para Aurora há vinte décadas. com certeza, a técnica da viagem espacial não piorou desde então.

      O riso de D. G. voltou.

      - Uma ação evasiva. Se uma nave Auroreana estivesse nos seguindo, eu pretendia... confundi-la.

      - Por que uma nave haveria de nos seguir?

      - Foi só uma idéia, senhora. O Conselho estava um tanto ansioso para ajudar, pensei. Sugeriu que uma nave Auroreana me acompanhasse , em minha expedição a Solaria.

      - Ora, isso teria ajudado, não?

      - Talvez - se eu estivesse absolutamente certo de que Aurora não estava por trás de tudo isso. Eu disse muito claramente ao Conselho que queria fazer a viagem sem, ou melhor, apontou o dedo para Gladia - só com a senhora. Mas o Conselho não poderia enviar uma nave para me acompanhar contra minha vontade... por pura bondade, digamos. Ora, eu continuava me recusando a aceitar; eu já espero muita encrenca para ainda ter que ficar olhando para trás a cada instante. Assim, tratei de dificultar uma possível perseguição. Minha senhora, o quanto sabe a respeito de Solaria?

      - Já não lhe disse inúmeras vezes? Nada! Passaram-se vinte décadas.

      - Ora, senhora, estou me referindo à psicologia dos Solarianos. Ela não pode ter mudado em apenas vinte décadas. Diga-me por que eles abandonaram seu planeta.

      - O que eu soube - disse Gladia, calmamente - foi que sua população estava declinando sem cessar. Uma combinação de mortes prematuras e poucos nascimentos foi aparentemente a responsável.

      - Isso lhe parece justificável?

      - Claro que sim. Os nascimentos sempre foram poucos. - Seu rosto contraiu-se, ao relembrar. - Os hábitos Solarianos não tornam a gravidez fácil, tanto natural como artificial ou de proveta.

      - A senhora nunca teve filhos, senhora?

      - Em Solaria, não.

      - E a morte prematura?

      - Só posso imaginar. Acho que ela se origina de um sentimento de fracasso. Solaria evidentemente não se desenvolveu, embora os Solarianos empregassem um grande fervor emocional para que seu mundo tivesse uma sociedade ideal: não apenas melhor que a da Terra, porém mais próxima da perfeição do que qualquer outra dos mundos Espaciais.

      - A senhora quer dizer que Solaria estava morrendo de tristeza coletiva do seu povo?

      - Se prefere colocar o fato dessa maneira ridícula - disse Gladia, ofendida.

      D. G. encolheu os ombros.

      - Parece ser o que a senhora estava dizendo. Mas teriam eles realmente partido? Para onde terão ido? Como viverão?

      - Não sei.

      - Mas, Senhora Gladia, é fato conhecido que os Solarianos estão acostumados a enormes extensões de terra, assistidos por milhares de robôs, de forma que cada Solariano foi deixado num isolamento quase completo. Se abandonaram Solaria, para onde terão ido na busca de uma sociedade onde pudessem se adaptar? Terão ido, de fato, para algum dos outros planetas Espaciais?

      - Que eu saiba, não. Mas então eu não merecia a confiança deles.

      - Terão fundado um novo planeta para si próprios? Se fundaram, só podia ser um primitivo e precisando de muita coisa para se terraformar. Estavam preparados para isso? Gladia balançou a cabeça. - Não sei.

      - Talvez eles não tenham realmente partido.

      - Que eu saiba, Solaria tem dado provas de estar desabitado.

      - Que provas?

      - Todas as comunicações interplanetárias cessaram. Toda a radiação do planeta, com exceção da relativa ao trabalho dos robôs ou insofismavelmente devida a causas naturais, cessou.

      - Como sabe disso?

      - É o que consta dos jornais Auroreanos.

      - Ah, sim. Será que alguém está mentindo?

      - com que objetivo?

      Gladia formalizou-se diante da sugestão.

      - Por isso nossas naves foram atraídas ao planeta e destruídas.

      - Isso é ridículo, D. G. - Sua voz tornou-se áspera. - O que ganhariam os Espaciais com a destruição de duas naves mercantes, usando um pretexto tão requintado?

      - Algo destruiu duas naves dos Colonizadores num planeta supostamente vazio. Como a senhora explica isso?

      - Não explico. Suponho que estamos indo a Solaria com a finalidade de encontrar uma explicação.

      D. G. a olhou com ar sério.

      - A senhora seria capaz de guiar-me ao local do planeta onde viveu?

      - Minha propriedade?

      Ela devolveu o olhar, espantada.

      - Não quer tornar a vê-la?

      O coração de Gladia sofreu um baque.

      - Sim, gostaria, mas por que minha propriedade?

      - As duas naves que foram destruídas pousaram em pontos muito afastados do planeta; apesar disso, a destruição de ambas foi feita com muita rapidez. Embora cada ponto possa ser mortal, parece-me que a sua propriedade oferece um risco menor.

      - Por quê?

      - Porque lá poderíamos receber auxílio dos robôs. A senhora tem conhecimento disso, não é mesmo? Presumo que eles permaneceram lá mais de vinte décadas. Daneel e Giskard, eu garanto. E os que estavam lá à sua época ainda se lembrarão da senhora, não é verdade? Deverão tratá-la como sua dona e reconhecer a obediência que lhe devem, além mesmo da que devem a seres humanos comuns.

      - Havia dez mil robôs na minha propriedade - replicou Gladia. - Conheço talvez três dúzias de vista. A maioria dos restantes jamais vi, e eles podem nunca me ter visto. Os robôs agrícolas não são muito adiantados, como sabe, bem como os florestais e os das minas. Os robôs domésticos ainda devem lembrar de mim - se não foram vendidos ou transferidos desde que parti. Também acontecem acidentes, e alguns robôs não duram vinte décadas. Além disso, o que quer que pense da memória dos robôs, a humana é falível e posso não me lembrar absolutamente deles.

      - Mesmo assim - pediu D. G. - pode me guiar até sua propriedade?

      - Pela latitude e longitude? Não.

      - Tenho mapas de Solaria. Eles servirão de ajuda?

      - Aproximadamente, talvez. Ela fica no setor central-sul do continente Heliona, ao norte.

      - E assim que estivermos próximos, pode usar marcos de maior precisão - se planarmos sobre a superfície Solariana?

      - Quer dizer pelas costas e rios?

      - Sim.

      - Acho que posso.

      - Ótimo! Enquanto isso, veja se pode lembrar os nomes e aparências de cada um dos seus robôs. Isso pode provar a diferença entre vivos e mortos.

     

      D. G. Baley parecia uma pessoa diferente com seus oficiais. O sorriso aberto não era visível, nem a calma indiferença ao perigo. Sentou-se, debruçou-se sobre os mapas, revelando uma intensa concentração no rosto.

      - Se a mulher está certa - disse - temos a propriedade enquadrada em limites estreitos; se nos movermos para o sistema aéreo, logo logo a teremos.

      - Desperdício de energia, comandante - murmurou Jamin Oser, o subcomandante.

      Era alto e, como D. G., usava uma bela barba, avermelhada como suas sobrancelhas, que encimavam brilhantes olhos azuis. Parecia um tanto idoso, mas tinha-se a impressão de que isso se devia mais à experiência que aos anos.

      - Nada posso fazer - replicou D. G. Se tivéssemos a antigravidade que os técnicos vêm prometendo deste lado da eternidade, seria diferente.

      Examinou novamente o mapa e prosseguiu:

      - Ela diz que deve ser ao longo deste rio, cerca de sessenta quilômetros corrente acima, onde ele deságua neste mais caudaloso. Se ela estiver certa.

      - Você continua duvidando - disse Chandrus Nadirhaba, cuja insígnia classificava-o como navegador e responsável por levar a nave ao Ponto exato... ou, seja como for, ao ponto indicado. Sua pele morena e Bigode bem delineado acentuavam a beleza forte do seu rosto.

      - Ela está relembrando a situação num espaço de tempo de vinte décadas - disse D. G. - Que detalhes você lembraria de um local que não visse há três décadas? Ela não é um robô. Pode ter esquecido.

      - Então, para que trazê-la? - murmurou Oser. - E o outro, e o robô? A tripulação está inquieta, e não gosto disso também.

      D. G. ergueu os olhos, cenho franzido, as sobrancelhas quase unidas. Disse, em voz baixa:

      - Não tem a menor importância nesta nave o que o senhor ou a tripulação não gostam. Sou o responsável e tomo as decisões. Estamos todos sujeitos a morrer dentro de seis horas após o pouso, a menos que essa mulher nos salve.

      Nadirhaba comentou friamente:

      - Se tivermos de morrer, morreremos. Não seríamos Mercadores se não soubéssemos que a morte repentina é o outro lado dos grandes lucros. E fomos todos voluntários para esta missão. Em todo caso, não faz mal sabermos, comandante, de onde a morte virá. Isso terá de ser um segredo?

      - Absolutamente, não. Imagina-se que os Solarianos foram embora; mas, e se uns duzentos ficaram silenciosamente para trás a fim de vigiar o local.

      - E o que podem fazer contra uma nave armada, comandante? Terão uma arma secreta?

      - Não muito secreta - respondeu D. G. - Solaria está apinhada de robôs. Foi por isso que as naves dos Colonizadores pousaram em primeiro lugar no planeta. Cada Solariano remanescente pode ter à sua disposição milhões de robôs. Um exército enorme.

      Eban Kalaya era o responsável pelas comunicações. Até aquele instante se mantivera calado, pois era um dos mais novos, estando além disso marcado pelo fato de ser o único dos quatro oficiais presentes sem pêlos de qualquer espécie no rosto. Naquele instante arriscou um comentário:

      - Robôs - disse - não podem ferir seres humanos.

      - Foi o que nos disseram - retrucou D. G. secamente - mas o que sabemos de robôs? Só sabemos é que duas naves foram destruídas e cerca de cem seres humanos – todos bons Colonizadores - foram mortos em locais muito distantes um do outro num mundo coberto de robôs. Quem poderia ter feito isso, a não ser os robôs? Não sabemos que espécie de ordens um Solariano pode ter dado aos robôs ou que truque foi empregado para que a tal Primeira Lei da Robótica fosse evitada.

      Dessa forma - prosseguiu - tivemos de preparar nosso próprio truque. Da melhor maneira possível, segundo os relatórios que nos chegaram das outras naves, antes de serem destruídas, todos os homens a bordo desembarcaram. Era um mundo vazio, afinal de contas, e todos queriam esticar as pernas, respirar ar puro e ver os robôs que tinham ido buscar. Suas naves estavam desprotegidas e eles mesmo despreparados quando aquilo aconteceu.

      "Isso não acontecerá desta vez. Estou desembarcando, mas o resto de vocês vai ficar a bordo da nave ou em sua vizinhança."

      Os olhos escuros de Nadirhaba chisparam desaprovadoramente.

      - Por que o senhor, comandante? Se precisa de alguém para servir de isca, qualquer um de nós pode servir mais facilmente que o senhor.

      - Obrigado por pensar assim, navegador - disse D. G. - mas não estarei sozinho. Comigo estarão a Espacial e seus companheiros. Ela é a única essencial. Talvez conheça alguns dos robôs, e alguns talvez a conheçam. Estou esperando que, embora possam ter recebido ordens para nos atacarem, não queiram fazer o mesmo com ela.

      - Quer dizer que eles poderão lembrar a velha Mocinha e cair de joelhos a seus pés - comentou Nadirhaba, secamente.

      - Se quiser encarar assim. Foi por isso que a trouxe, e por isso pousaremos em sua propriedade. Preciso estar com ela porque sou o único que a conhece – e preciso ver como se comporta. Uma vez que tenhamos sobrevivido usando-a como couraça, e dessa maneira conhecendo exatamente o que estamos enfrentando, poderemos tomar a iniciativa. Não precisaremos mais dela.

      - E depois, o que vamos fazer com ela? - perguntou Oser. – Lançá-la no espaço?

      D. G. rugiu:

      - Vamos levá-la de volta para Aurora!

      - Sou forçado a dizer-lhe, comandante - replicou Oser - que a tripulação considera isso um desperdício e uma viagem desnecessária. Eles acham que podemos simplesmente deixá-la neste planeta arruinado. Afinal de contas, foi daqui que ela saiu.

      - Sim - disse D. G. - certamente será nesse dia que eu receberei ordens da tripulação...

      - Tenho certeza de que não quererá isso - replicou Oser - mas a tripulação tem seu ponto de vista, e uma tripulação infeliz tornará a viagem perigosa.

     

      A Tripulação

      Gladia pisou no solo de Solaria. Cheirou a vegetação - não exatamente os odores de Aurora - e imediatamente atravessou o abismo de vinte décadas.

      Ela sabia que nada podia ser melhor do que os odores para trazer de volta associações. Nem vistas, nem sons.  Exatamente aquele tênue e único cheiro trouxe-lhe de volta a infância - a liberdade de se locomover, com uma dúzia de robôs vigiando-a cuidadosamente, a excitação  de ver outras crianças de vez em quando, parando, olhando timidamente, aproximando-se aos poucos, estendendo a mão para tocar a outra, depois um robô dizendo: "Chega,  Srta. Gladia", afastando-a, voltando-se a fim de olhar para a outra criança, de quem um outro grupo de robôs estava se ocupando.

      Gladia lembrou o dia em que lhe disseram que só pela holovisão poderia ver outro ser humano dali por diante. Observar, disseram-lhe, e não ver. Os robôs haviam dito  "ver" como se esta fosse uma palavra que não deviam pronunciar, e que era apenas murmurada. Ela podia vê-los porque eles não eram humanos.  A princípio, não foi ruim. As imagens com quem pôde falar eram tridimensionais, movendo-se livremente. Podiam falar, correr, dar cambalhotas se quisessem - mas não  podiam ser tocadas. E depois lhe disseram que ela podia realmente ver alguém que tivesse freqüentemente observado e de quem tivesse gostado. Ele era um adulto, um  tanto mais velho que ela, embora parecesse bastante moço, como acontecia em Solaria. Ela iria ter permissão para continuar a vê-lo - se quisesse - sempre que necessário.

      Ela desejou. Lembrou como aconteceu - exatamente como aconteceu no primeiro dia. Ela ficou inibida e ele também. Deram voltas em torno um do outro, com medo de se  tocarem. Mas foi um casamento.

      Claro que foi. Depois, tornaram a se encontrar - vendo, não observando, porque era um casamento. Finalmente tocaram-se. Esperavam que isso acontecesse.

      Foi o dia mais excitante de sua vida - até ter acontecido.

      Impetuosamente, Gladia impediu seus pensamentos. Que adiantava continuar? Ela tão afogueada e ansiosa, ele tão frio e retraído. Ele continuou a ser frio. Quando ia vê-la, a intervalos regulares, para os rituais que podiam (ou não) ter sucesso ao engravidá-la, era tão clara a sua repulsa que ela ficava logo ansiosa para que ele esquecesse. Ele, porém, era uma pessoa de palavra e nunca esqueceu.

      Depois chegou o momento, após anos de infelicidade se arrastando, quando ela o encontrou morto, o crânio esmagado, sendo considerada o único possível suspeito. Elijah Baley a salvou e ela foi tirada de Solaria e levada para Aurora.

      Agora estava de volta, aspirando o odor de Solaria.

      Nada mais lhe era familiar. A casa distante não tinha nenhuma semelhança com qualquer coisa de que se lembrasse, mesmo levemente. Em vinte décadas tinha sido modificada, derrubada, reconstruída. Ela nem mesmo conseguiu nenhuma sensação de familiaridade com o próprio solo.

      Viu-se estendendo a mão para trás a fim de tocar a nave dos Colonizadores que a levara àquele planeta que cheirava como o lar mas não era o lar em nenhum outro aspecto - apenas tocar alguma coisa que era familiar por comparação.

      Daneel, que ficou parado ao seu lado na sombra da nave, disse:

      - Está vendo os robôs, Senhora Gladia?

      Havia um grupo deles, a cem metros de distância, entre as árvores de um pomar, imóveis, olhos solenemente brilhando ao sol, com o metal cinzento bem polido. Gladia lembrou os robôs Solarianos que possuíra.

      - Estou, Daneel - replicou.

      - Vê alguma coisa familiar neles, senhora?

      - Absolutamente nada. Parecem-me modelos novos. Não posso lembrar deles e estou certa que eles não podem lembrar de mim. Se D. G. está esperando que alguma coisa interessante aconteça, produto da minha suposta familiaridade com os robôs da minha propriedade, vai se dar mal.

      - Parece que eles apenas nos observam, senhora - disse Giskard.

      - Isso é compreensível - replicou Gladia. - Somos intrusos e eles vieram observar-nos para fazer um relatório sobre nós de acordo com o que devem ser ordens dadas.  Contudo, hoje não têm ninguém a quem transmitir a observação e apenas podem olhar em silêncio. Sem ordens  posteriores, suponho que não farão mais que isso, mas também  não deixarão de cumprir sua missão.

      - Tudo correrá bem, Senhora Gladia - replicou Daneel - se nos Acolhermos aos nossos alojamentos a bordo. Acredito que o comandante esteja supervisionando a construção  de defesas e ainda não se ache pronto    para iniciar a exploração. Acho que ele não aprovará sua saída do camarote sem uma licença específica. Gladia retrucou, altaneira:

      - Não Vou adiar minha descida à superfície do meu próprio planeta apenas para satisfazer os desejos dele.

      - Compreendo, mas os membros da tripulação estão espalhados pela vizinhança e acho que alguns notaram sua presença aqui.

      - E estão se aproximando - disse Giskard. - Se quer evitar alguma infecção...

      - Estou preparada - interveio Gladia. - Filtros nasais e luvas. Gladia não compreendeu a natureza das estruturas sendo colocadas em torno da nave. Na sua maioria, os tripulantes, absorvidos na construção, não tinham visto Gladia e seus dois acompanhantes, parados, como estavam, na sombra.

      (Era a estação quente naquela parte de Solaria, que tinha a tendência de esquentar mais - e, em outras ocasiões, ficar mais fria - do que Aurora, uma vez que os dias Solarianos eram quase seis horas mais longos que os de Aurora.)

      Os tripulantes que se aproximavam eram cinco, e um deles, o mais alto e atarracado, apontou na direção de Gladia. Os outros quatro olharam, ficaram algum tempo parados, como que apenas curiosos, e depois, a um gesto do primeiro, continuaram a se aproximar, mudando levemente a direção para se dirigir diretamente aos três Auroreanos.

      Gladia olhou-os silenciosamente, as sobrancelhas erguidas em sinal de desprezo. Daneel e Giskard esperaram, impassíveis.

      Giskard disse, em voz baixa, a Daneel:

      - Não sei onde está o comandante. Não consigo distingui-lo entre a tripulação, no meio da qual deveria estar.

      - Devemos nos retirar? - perguntou Daneel, alto.

      - Isso seria vergonhoso - replicou Gladia. - Estou no meu planeta.

      - Ficou onde estava e os cinco tripulantes se aproximaram a passos lentos.

      Tinham estado trabalhando, fazendo um grande esforço físico, (como robôs, pensou Gladia, com desprezo) e estavam suando. Gladia sentiu o cheiro que saía deles. Aquele cheiro era mais eficiente para fazê-la afastar-se que quaisquer ameaças, mas, mesmo assim, manteve-se onde estava. Os filtros nasais, tinha certeza, diminuiriam o efeito do odor.

      O tripulante maior aproximou-se ainda mais que os outros. Sua pele era bronzeada. Os braços nus brilhavam com o suor da musculatura. Devia andar pelos trinta anos (o cálculo mais aproximado que Gladia podia fazer sobre a idade daqueles seres de vida curta), e, se banhado e vestido adequadamente, poderia ficar bem apresentável.

      - Então a senhora é a dama Espacial que trouxemos de Aurora em nossa nave?

      Falou devagar, evidentemente procurando dar um tom aristocrático  ao seu galáctico. Não conseguiu, é claro, e falou como um Colonizador - ainda mais rusticamente que D. G.

      Gladia retrucou, estabelecendo seus direitos territoriais:

      - Sou de Solaria, Colonizador.

      Parou, num grande embaraço. Tinha levado muito tempo pensando em Solaria até agora, quando vinte décadas se tinham passado, e falara com um pesado sotaque Solariano:  o "a" aberto e o "r" carregado, o "i" soando terrivelmente como "oi".  Tornou a falar, em voz muito mais baixa e menos autoritária, na qual o sotaque da Universidade de Aurora - o padrão para a fala galáctica em todos os mundos Espaciais  - soou claro:

      - Eu sou de Solaria, Colonizador.

      O homem riu e virou-se para os outros.

      - Ela fala afetado, mas vai melhorar, não é caras? Os outros riram também e um gritou:

      - Diz pra ela falar um pouco mais, Niss. Talvez todos nós possamos aprender a falar como passarinhos Espaciais.

      Ele colocou a mão no quadril num gesto afetado, o melhor que pôde, enquanto mantinha a outra mão pendendo molemente. Ainda sorrindo, falou:

      - Calem-se, vocês todos. Fez-se silêncio instantaneamente.

      O homem tornou a virar-se para Gladia.

      - Sou Berto Niss, mestre de Primeira Classe. Como se chama, mocinha?

      Gladia não teve coragem de tornar a falar.

      - Estou sendo educado, mocinha - insistiu Niss. - Estou falando com o cavalheirismo de um Espacial. Sei que a senhora é bastante idosa para ser minha bisavó. Que idade tem, mulherzinha?

      - Quatrocentos anos - gritou um dos tripulantes às costas de Niss.

      - Mas não parece!

      - Ela não parece ter cem! - afirmou outro.

      - Ela parece em condições para uma transa - garantiu um terceiro - e não teve nenhuma durante muito tempo, acho eu. Niss, pergunte-lhe se quer uma. Seja educado e pergunte-lhe se podemos ir um de cada vez.

      Gladia corou, furiosa, e Daneel disse:

      - Mestre de Primeira Classe Niss, seus companheiros estão ofendendo Senhora Gladia. Quer se retirar?

      Niss virou-se para olhar Daneel, a quem, até ali, tinha ignorado completamente. O sorriso sumiu do seu rosto e ele retrucou:

      - Você aí. Esta mulherzinha está fora dos limites. Foi o que o comandante disse. Não vamos incomodá-la. Apenas uma conversa inofensiva. Aquela coisa ali é um robô.

      Não vamos nos importar com ele, e ele não pode nos maltratar. Conhecemos as Três Leis da Robótica. Nós lhe  daremos ordem para que fique longe de nós. Mas você é um Espacial e o comandante nos deu ordens a seu respeito. Portanto - estendeu o dedo - fique fora disto e  não interfira, ou então machucaremos sua bela pele e você acabará se lamentando.

      Daneel ficou calado.

      Niss sacudiu a cabeça.

      - Ótimo. Gosto de ver alguém esperto bastante para não começar nada que não possa acabar.

      Virou-se para Gladia.

      - Agora, mulherzinha Espacial, vamos deixá-la só, porque o comandante não quer que a importunemos. Se um dos homens aqui presentes fez um comentário grosseiro, isso  é muito natural. Apertemos as mãos e fiquemos amigos - Espacial, Colonizador, qual é a diferença?

      Estendeu a mão para Gladia, que recuou, horrorizada. A mão de Daneel avançou num milésimo de segundo, quase depressa demais para ser vista, e agarrou o pulso de Niss.

      - Mestre de Primeira Classe Niss - disse tranqüilamente - não tente tocar na senhora.

      Niss baixou os olhos para a mão e os dedos que seguravam seu pulso com firmeza. Retrucou, num rosnar baixo e ameaçador:

      - Dou-lhe até três para contar e largar meu pulso. A mão de Daneel afastou-se e ele disse:

      - Preciso fazer o que você disse, pois não desejo machucá-lo, mas devo proteger a senhora. Se ela não quer ser tocada, como acho que não quer, não insista, ou me verei forçado a uma atitude que lhe causará dor. Por favor, aceite minha garantia de que farei tudo que puder para reduzi-la ao mínimo.

      Um dos tripulantes gritou, divertido:

      - Desça a mão nele, Niss. Ele é um conversa-fiada.

      - Olhe, Espacial - falou Niss - eu lhe disse duas vezes para se manter fora disto e você me tocou uma vez. Agora lhe digo pela terceira e última vez: faça um movimento,

      diga uma palavra, eu o racho ao meio. Esta mulherzinha vai trocar um aperto de mão, amigavelmente, e pronto. Depois iremos embora, tá legal?

      Em voz baixa e estrangulada, Gladia disse:

      - Não quero ser tocada por ele. Faça o que for necessário.

      - Senhor - falou Daneel - com o devido respeito, a senhora não deseja ser tocada. Preciso pedir-lhe - e a todos os outros - que se vá.

      Niss sorriu e um braço estendeu-se como que para empurrar Daneel para o lado, com força.

      O braço esquerdo de Daneel moveu-se com rapidez e novamente Niss foi seguro pelo pulso.

      - Vá, por favor, senhor - disse Daneel.

      Niss continuou mostrando os dentes, mas não estava mais sorrindo-

      Violentamente, ergueu o braço. A mão de Daneel, fechada sobre seu punho, subiu um pouco, diminuiu o movimento e parou. Seu rosto não demonstrou esforço. Sua mão desceu, arrastando com ela o braço de Niss; depois, com uma rápida torção, Daneel curvou o braço de Niss atrás das suas costas largas e manteve-o lá.

      Tendo ficado inesperadamente de costas para Daneel, Niss ergueu o outro braço e passou-o por cima da cabeça, à procura do pescoço de Daneel. Seu outro pulso foi agarrado e trazido para baixo o mais distante possível, facilmente; Niss gemeu, evidentemente sentindo dor.

      Os outros quatro tripulantes, que estavam olhando numa expectativa ansiosa, permaneceram em seus lugares, imóveis, silenciosos, de boca aberta.

      Niss, olhando para eles, gemeu:

      - Me ajudem!

      - Eles não o ajudarão, senhor - retrucou Daneel - pois, se o tentarem, o castigo do comandante será o mais severo possível. Agora, devo pedir-lhe que me garanta não mais incomodar Senhora Gladia e que irá embora pacificamente, junto com os outros. Do contrário, lamentarei muito, mestre de primeira classe, mas precisarei destroncar seus braços.

      Ao dizer isso, tornou o aperto mais forte em ambos os pulsos e Niss soltou um gemido abafado.

      - Peço-lhe desculpas, senhor - prosseguiu Daneel - mas estou cumprindo ordens estritas. Posso contar com sua garantia?

      Niss deu um pontapé para trás, com súbita maldade; muito antes que sua grossa bota atingisse o alvo, porém, Daneel tinha pulado para um lado e desequilibrou o Colonizador.

      Ele caiu pesadamente de frente.

      - Posso contar com sua concordância, senhor? - disse Daneel, puxando-o gentilmente pelos dois pulsos, de forma que os braços do tripulante ergueram-se ligeiramente de suas costas.

      Niss urrou e disse, meio incoerente:

      - Pode. Me largue.

      Daneel largou-o e recuou um passo. Lenta e dolorosamente, Niss rolou, movendo os braços devagar e girando os pulsos com uma careta de dor.

      Depois, quando seu braço direito aproximou-se do coldre que usava, ele sacou desajeitadamente sua pistola.

      O pé de Daneel pisou em seu braço, pregando-o no chão.

      - Não faça isso, senhor, ou serei forçado a quebrar um ou mais ossinhos de sua mão. - Curvou-se e extraiu o explosor de Niss do coldre.  Agora, levante-se.

      - Muito bem, Sr. Niss - ouviu-se uma outra voz. - Faça o que lhe dizem e levante-se.

      D. G. Baley se achava parado ao lado deles, a barba eriçada, o rosto levemente corado, porém sua voz estava perigosamente calma.

        - Vocês quatro - prosseguiu - entreguem-me suas pistolas, um de cada vez. Vamos. Um pouco mais depressa. Uma... duas... três... quatro. Agora continuem em posição de sentido. - Senhor - virou-se para Daneel - entregue-me essa arma que está segurando. Ótimo. Cinco. E agora, Sr. Niss, preste atenção.

      Colocou os explosores no chão, ao seu lado. Niss empertigou-se na posição de sentido, os olhos estriados de sangue, o rosto retorcido, evidentemente sofrendo.

      - Alguém quererá, por favor - perguntou D. G. -dizer o que aconteceu?

      - Comandante - apressou-se Daneel a falar - o Sr. Niss e eu tivemos uma divertida discussão. Ninguém se machucou.

      - Contudo, o Sr. Niss parece um tanto atingido - comentou D. G.

      - Mas não vai durar muito, comandante - garantiu Daneel.

      - Compreendo. Bem, falaremos disso mais tarde. Senhora - rodopiou nos calcanhares para se dirigir a Gladia - não me lembro de lhe ter dado permissão para sair da nave. A senhora vai voltar para seu camarote com seus dois acompanhantes imediatamente. Sou o comandante aqui e isto não é Aurora. Faça o que estou dizendo!

      Daneel segurou o braço de Gladia, que ergueu o queixo mas virou-se e subiu a rampa da nave, acompanhada de Daneel e seguida por Giskard. Depois, D. G. virou-se para os tripulantes.

      - Vocês cinco - disse ele, sem nunca erguer a voz - venham comigo. Vamos descobrir o que há no fundo disto... ou de vocês.

      Fez um gesto a um suboficial para que apanhasse as armas e as levasse.

     

      D. G. olhou os cinco, de mau humor. Estava no seu próprio alojamento, a única parte da nave, pelo seu tamanho, digna desse nome, e que tinha uma leve aparência de luxo.

      Falou, apontando para cada um:

      - Bem, esta é a maneira como trabalhamos. Você vai me dizer exatamente o que aconteceu, palavra por palavra, gesto por gesto. Quando tiver terminado, você me dirá tudo o que estava errado ou foi omitido. Depois, você, depois você, então chegarei a você, Niss. Espero que todos estejam desarranjados, que tenham feito alguma coisa invulgarmente idiota que causou a todos, especialmente a Niss, uma considerável humilhação. Se, no relato de vocês, evidenciar-se que nada fizeram de errado e não sofreram nenhuma humilhação, saberei que estão mentindo, especialmente quando a Espacial me contar com certeza o que aconteceu - e tenho a intenção de acreditar em cada palavra que ela me disser. Uma mentira tornará as coisas piores para vocês do que o que fizeram realmente. Agora - latiu - comecem!

      O primeiro tripulante vacilou apressadamente contando o acontecido, segundo fez algumas correções, aumentando o relato de certa forma, depois o terceiro e o quarto.

      D. G. ficou ouvindo, impassível, o recital, pondo a seguir Berto Niss de lado.

      Dirigiu-se aos outros quatro:

      - E enquanto Niss tinha o rosto devidamente metido na terra pelo Espacial, o que faziam vocês quatro? Olhavam? com medo de se mexerem? Todos quatro? Contra um homem apenas?

      Um dos tripulantes rompeu o pesado silêncio para dizer:

      - Tudo aconteceu muito depressa, comandante. Estávamos exatamente nos preparando para agir quando tudo acabou.

      - E o que estavam se preparando para fazer no caso de poderem se mexer algum dia?

      - Ora, íamos tirar o estrangeiro Espacial de cima do nosso companheiro.

      - Acham que iam conseguir? Desta vez, nenhum se arriscou a falar. D. G. inclinou-se para eles.

      - Bem, a situação é a seguinte. Vocês não deviam se meter com os estrangeiros, e por isso pagarão a multa de uma semana de salário cada um. E agora, vamos deixar isto bem claro: se disserem o que aconteceu a mais alguém - na tripulação ou fora dela, em qualquer ocasião, bêbados ou sóbrios - serão rebaixados a aprendizes.

      Não importa quem tenha falado, os quatro serão rebaixados, por isso tratem de vigiar uns aos outros. Agora voltem para os seus deveres, e se me enganarem em qualquer instante durante a viagem, se falarem contra os regulamentos, estarão fritos.

      Os quatro se retiraram, cabisbaixos, envergonhados, taciturnos. Niss ficou, um hematoma crescendo em seu rosto, os braços evidentemente doloridos.

      D. G. fitou-o num silêncio ameaçador, enquanto Niss olhava para os lados, para baixo, para todos os cantos, menos para o rosto do comandante. Só quando os olhos de Niss, procurando fugir, encontraram o olhar fuzilante do comandante, foi que D. G. disse:

      - Ora, você parece muito bem, agora que se envolveu com um maricas Espacial da metade do seu tamanho. Da próxima vez, é melhor se esconder quando um deles aparecer.

      - Sim, comandante - disse Niss, infeliz.

      - Você não me ouviu dizer, Niss, as instruções que dei antes de sairmos de Aurora, que a Espacial e seus acompanhantes não deviam ser incomodados nem interpelados?

      - Comandante, eu quis apenas cumprimentá-la educadamente. Estávamos curiosos para vê-la mais de perto. Não pretendíamos incomodá-la.

      - Não pretendia incomodá-la? Perguntou-lhe que idade tinha. Era da sua conta?

      - Apenas curiosidade. Eu queria saber.

      - Um de vocês fez uma sugestão sexual.

      - Não fui eu, comandante.

      - Quem foi? Você pediu desculpas por isso?

      - A uma Espacial? Niss pareceu horrorizado.

      - Certamente. Você agiu contra minhas ordens.

      - Eu não pretendia magoá-la - disse Niss, obstinadamente.

      - Não pretendia magoar também o homem?

      - Ele pôs as mãos em mim, comandante.

      - Sei que pôs. Por quê?

      - Ele estava me dando ordens.

      - E você não pôde agüentar isso, não é?

      - O senhor agüentaria, comandante?

      - Está bem. Você não agüentou. Foi derrubado por causa disso. De cara no chão. Como aconteceu?

      - Não sei direito, comandante. Ele foi rápido. Como o disparo de uma câmera. E tinha um punho de ferro.

      D. G. retrucou:

      - Claro. Que esperava, idiota? Ele é de ferro.

      - Como, comandante?

      - Niss, será que não conhece a história de Elijah Baley? Niss, confuso, cocou a orelha.

      - Sei que ele foi seu qualquer-coisa-avô, comandante.

      - Sim, todos sabem disso por causa do meu nome. Alguma vez você ouviu a história da vida dele?

      - Não sou de ver, comandante. Não história.

      Ao dizer isso, Niss encolheu os ombros, estremeceu e fez um gesto de esfregar o ombro, depois achou que não ousaria fazer isso.

      - Já ouviu falar em R. Daneel Olivaw? Niss franziu o cenho.

      - Foi amigo de Elijah Baley.

      - Sim, foi. Então sabe alguma coisa. Sabe o quer dizer o "R" de RDaneel Olivaw?

      - Significa "Robô", não é? Era um amigo robô. Naquela época havia robôs na Terra.

      - Havia, Niss, e ainda há. Mas Daneel não era um simples robô. Era um robô Espacial que parecia com um homem Espacial. Pense nisso, Niss. Adivinhe o que o homem

      Espacial que você escolheu para brigar era realmente.

      Niss arregalou os olhos e ficou intensamente ruborizado.

      - Está dizendo que aquele Espacial era um ro...

      - Aquele era R. Daneel Olivaw.

      - Mas, comandante, aquilo foi há centenas de anos.

      - Sim, e a Espacial era amiga particular do meu Antepassado Elijah. Ela tem duzentos e trinta e três anos, se quer saber. E você acha que um robô não pode ser tão bom assim? Você tentou lutar com um robô, seu grande idiota.

      - Por que ele não disse? - perguntou Niss com indignação.

      - E por que iria dizer? Você perguntou? Olhe, Niss, você ouviu o que eu disse aos outros sobre contar o episódio a alguém. Isso vale também para você, e muito mais ainda. Eles são apenas tripulantes, porém estou de olho em você para chefe de tripulação. Estou de olho em você. Se vai ser responsável pela tripulação, precisa ter cabeça e não apenas músculos. Por isso, agora vai ser mais duro para você, porque terá de provar que tem miolos, contra minha firme opinião de que não tem.

      - Comandante, eu...

      - Não fale. Ouça. Se essa história se espalha, os outros quatro serão rebaixados a aprendizes, mas você não será nada. Nunca mais voltará a bordo de uma nave. Nenhuma delas o quererá, prometo-lhe. Nem como tripulante, nem como passageiro. Pergunte a você mesmo que tipo de dinheiro poderá ganhar em Baleyworld... e fazendo o quê?

      É o que acontecerá se falar a respeito ou se cruzar o caminho da Espacial, seja como for, ou mesmo se simplesmente olhá-la durante mais de meio segundo ou aos seus dois robôs. E vai cuidar para que ninguém mais entre a tripulação seja agressivo. Você será o responsável. E pagará uma multa de duas semanas de salário.

      - Mas, comandante - respondeu Niss, em voz desanimada - os outros...

      - Como espero menos dos outros, Niss, multei-os em quantias menores. Retire-se.

     

      D. G. ficou brincando distraidamente com o fotocubo que ficava sempre em sua mesa. Cada vez que o virava, ele escurecia, clareando quando era posto sobre um dos

      lados

      como sua base. Quando se iluminava, a imagem sorridente tridimensional de uma mulher podia ser vista.

      Corria um boato entre a tripulação de que cada um dos lados mostrava uma mulher diferente. O boato era verdadeiro.

      Jamin Oser observou a luminosa aparição e desaparição das imagens, inteiramente desinteressado. Agora que a nave estava defendida - ou tão defendida quanto possível

      contra ataques os mais variados - era hora de Pensar no próximo passo.

      D. G., contudo, estava se aproximando do assunto obliquamente - ou talvez não se aproximando absolutamente. Disse:

      - Claro, a culpa foi da mulher.

      Oser encolheu os ombros e alisou a barba, como se estivesse se tranqüilizando pelo fato de ele pelo menos não ser mulher. Ao contrário de D. G., Oser tinha o lábio superior também abundantemente coberto.

      - Evidentemente - disse D. G. - o fato de estar em seu planeta natal eliminou nela qualquer sentimento de discrição. Ela saiu da nave, apesar de eu ter-lhe pedido para não fazê-lo.

      - Você devia ter-lhe dado ordem.

      - Não sei se isso teria ajudado. Ela é uma aristocrata voluntariosa, habituada a fazer o que quer e trazer seus robôs à volta. Além disso, planejei usá-la e preciso de sua cooperação, não de seus amuos. E, também, ela era amiga do Antepassado.

      - E ainda está viva - disse Oser, balançando a cabeça. - Dá arrepios. Uma mulher velhíssima.

      - Eu sei, mas parece muito moça. E ainda atraente. De nariz empinado. Não se afastou quando a tripulação se aproximou, recusou-se a apertar a mão de um deles. Bem, já passou.

      - Contudo, comandante, foi correto dizer a Niss que ele agrediu um robô?

      - Foi preciso! Foi preciso, Oser. Se ele pensasse ter sido vencido e humilhado na frente de quatro dos seus colegas por um Espacial efeminado com a metade do seu tamanho, ficaria totalmente inútil para nós, eternamente. Isso o teria arrasado completamente. E não queremos que aconteça alguma coisa que provoque o boato de que os Espaciais - aqueles Espaciais humanos - sejam super-homens. Por isso fui obrigado a ordenar-lhes tão energicamente que não falassem sobre o assunto. Niss vai forçá-los a isso. E se o fato vazar, também se tornará conhecido que o Espacial era robô. Mas acho que houve uma coisa boa em tudo aquilo.

      - O quê, comandante? - perguntou Oser.

      - Me levou a pensar em robôs. O quanto sabemos deles? Quanto você sabe?

      - Comandante, isso não é uma coisa sobre a qual eu pense muito - replicou Oser, encolhendo os ombros.

      - Ou sobre a qual alguém mais pense também. Pelo menos um Colonizador. Sabemos que os Espaciais têm robôs, dependem deles, não vão a lugar nenhum sem eles, não pensam sem eles, são parasitas deles, e temos certeza de que perecerão por causa deles. Sabemos que a Terra outrora teve robôs, por imposição dos Espaciais, e que foram pouco a pouco desaparecendo, não sendo absolutamente encontrados nas suas Cidades, mas apenas no campo. Sabemos que os planetas dos Colonizadores não os têm nem os querem em parte alguma - cidade ou interior. Por isso, os Colonizadores nunca os encontraram em seus próprios planetas e dificilmente na Terra. (Sua voz tinha uma inflexão curiosa cada vez que ele dizia "Terra", como se a maiúscula pudesse ser ouvida, como se as palavras "lar" e "mãe" fossem ouvidas por trás dela.) Que mais sabemos?

      - Há as Três Leis da Robótica - disse Oser.

      - Correto. - D. G. empurrou para o lado o fotocubo e curvou-se para a frente. - Especialmente a Primeira. "Um robô não pode prejudicar um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano seja prejudicado." Bem, não se fie nisso. Nada significa. Todos nós sentimos inteiramente a salvo dos robôs por causa disso, e é ótimo se eles nos dão confiança, mas não se for uma falsa confiança. R. Daneel machucou Niss e isso não incomodou o robô, com ou sem a Primeira Lei.

      - Ele estava defendendo...

      - Exatamente. E se você precisar equilibrar os ataques? E se fosse o caso de outro machucar Niss ou permitir que sua Espacial fosse machucada? Naturalmente, ela teria prioridade.

      - Isso faz sentido.

      - Claro que faz. E estamos num planeta de robôs, uns duzentos milhões deles. Que ordens eles receberam? Como equilibram o conflito entre diferentes agressões? Como podemos ter certeza de que nenhum deles nos tocará? Alguma coisa neste planeta já destruiu duas naves.

      Oser replicou, preocupado:

      - Esse R. Daneel é um robô invulgar, parece mais com um homem do que nós. Talvez não possamos generalizar a partir dele. O outro robô, como é o nome dele...

      - Giskard. É fácil lembrar. Eu me chamo Daneel Giskard.

      - Eu penso no senhor como comandante. Seja como for, esse R. Giskard apenas ficou parado e nada fez. Sua aparência é de robô, e ele se porta como tal. Temos montes de robôs lá em Solaria nos observando neste instante, e também não estão fazendo nada. Apenas observando.

      - E se houver alguns robôs especiais que podem nos maltratar?

      - Acho que estamos preparados para enfrentá-los.

      - Agora estamos. Daí o incidente entre Daneel e Niss ter sido uma boa coisa. Sempre pensamos que podemos nos encrencar se alguns Solarianos ainda estiverem aqui.

      Não devem estar. Tiveram de partir. É por isso que os robôs - ou pelo menos alguns especialmente construídos - podem ser perigosos. E se Lady Gladia pode mobilizar seus robôs neste lugar - Que já foi sua propriedade - e fazê-los defendê-la, nós também podemos muito bem estar em condições de neutralizar tudo o que eles tenham deixado para trás.

      - Ela pode fazer isso? - perguntou Oser.

      - É o que vamos ver - replicou D. G.

      - Obrigado, Daneel - disse Gladia. - Você trabalhou bem. - Contudo Seu rosto se mostrava contraído. Seus lábios estavam comprimidos e exangues, as faces pálidas. Acrescentou, em voz baixa: - Gostaria que não tivesse vindo.

      - É um desejo inútil, Senhora Gladia - replicou Giskard. - O amigo Daneel e eu permaneceremos fora do camarote para garantir que a senhora não será mais incomodada.

      O corredor estava vazio e continuou assim, mas Daneel e Giskard resolveram falar em ondas sonoras de intensidade abaixo do limiar humano, trocando pensamentos na sua maneira breve e condensada.

      - Senhora Gladia tomou uma decisão imprudente ao recusar se retirar - disse Giskard. - Isso é claro.

      - Suponho, amigo Giskard - disse Daneel - que naquele momento não havia a menor possibilidade de fazê-la mudar sua decisão.

      - Foi uma decisão muito firme e tomada com muita rapidez. O mesmo se pode dizer da intenção de Niss, o Colonizador. Tanto sua curiosidade a respeito de Senhora Gladia como seu desprezo e animosidade em relação a você eram fortes demais para que eu o manejasse sem um sério dano mental. Os outros quatro eu pude manejar. Foi possível impedi-los de intervir. O espanto deles por sua capacidade de dominar Niss imobilizou-os naturalmente e precisei apenas reforçar ligeiramente o efeito.

      - Foi uma sorte, amigo Giskard. Se aqueles quatro tivessem se juntado ao Sr. Niss, eu teria de enfrentar a difícil escolha entre forçar Senhora Gladia a uma retirada humilhante ou avariar um ou dois Colonizadores para assustar o resto. Acho que teria tomado a última alternativa, mas isso também teria causado um grave desconforto.

      - Você está bem, amigo Daneel?

      - Muito bem. O estrago que causei ao Sr. Niss foi mínimo.

      - Fisicamente, amigo Daneel, foi. Para sua mente, contudo, foi uma grande humilhação, para ele muito pior que estrago físico. Uma vez que pude perceber isso, teria sido impossível para mim fazê-lo tão facilmente. E contudo, amigo Daneel...

      - Sim, amigo Giskard?

      - Estou preocupado em relação ao futuro. Em Aurora, através de todas as décadas da minha existência, fui capaz de trabalhar devagar, de esperar oportunidades de tocar mentes suavemente, sem causar dano, de fortalecer o que já estava lá, de enfraquecer o que já estava atenuado, de empurrar na direção de um impulso existente.

      Agora, todavia, estamos chegando a um tempo de crise, no qual as emoções surgirão fortes, as decisões deverão ser tomadas rapidamente e os acontecimentos nos superarão.

      Se, afinal, eu tiver de fazer alguma coisa boa, devo agir também com rapidez, e as Três Leis da Robótica me impedem de agir assim. Leva tempo pesar as sutilezas de comparar o dano físico e o mental. Se eu estivesse sozinho com Senhora Gladia quando os Colonizadores se aproximaram, não vejo que rumo eu teria tomado para não reconhecer depois que havia provocado um sério dano a Senhora Gladia, a um ou mais dos Colonizadores, a mim mesmo - ou possivelmente a todos os que estavam envolvidos - E o que se deve fazer, amigo Giskard? - perguntou Daneel

      - Uma vez que é impossível modificar as Três Leis da Robótica amigo Daneel, mais uma vez devemos chegar à conclusão de que nada há que possamos fazer, mas aguardar o fracasso.

     

      O Supervisor

      Era manhã em Solaria, manhã na propriedade: sua propriedade. Na distância, via-se a residência que poderia ter sido a sua. De certa forma, tinham-se passado vinte décadas e Aurora parecia-lhe ser um sonho distante que nunca se realizara.

      Gladia virou-se para D. G., que estava apertando o cinto em torno da sua fina veste exterior, um cinto do qual pendiam duas armas. No quadril esquerdo, estava o chicote neurônico; à direita, uma coisa mais curta e volumosa que ela imaginou ser um explosor.

      - Estamos indo até a casa? - perguntou a mulher.

      - Possivelmente - respondeu D. G., meio distraído.

      Estava inspecionando as armas, uma de cada vez, encostando uma no ouvido como se estivesse procurando ouvir um leve zumbido que lhe garantisse estar a arma funcionando.

      - Só nós quatro? - Mecanicamente virou os olhos para cada um dos outros: D. G., Daneel... Perguntou a este: - Daneel, onde está Giskard?

      - Pareceu-lhe, Senhora Gladia - replicou Daneel - ser sensato proceder como guarda avançado. Como robô, pode não ser notado entre outros robôs, e se houver alguma coisa errada, poderá avisar-nos. Em todo caso, ele é mais dispensável que a senhora ou o comandante.

      - Um bom raciocínio robótico - disse D. G., sombrio. - Isso é muito bom. Venha, estamos indo para a frente agora.

      - Só nós três? - perguntou Gladia, num tom queixoso. - Para ser honesta, sinto falta da capacidade robótica de Giskard para aceitar tal sacrifício.

      - Todos somos sacrificáveis, Lady Gladia - replicou D. G. - duas naves foram destruídas, todos os membros de suas tripulações eliminados. Aqui não há segurança na quantidade.

      - O senhor não está fazendo com que eu me sinta melhor, D.G

      - Então Vou me esforçar. As primeiras naves não estavam preparadas. A nossa está. E eu também estou. - Colocou as mãos nas cadeiras.

      - E a senhora tem um robô que já mostrou ser um protetor eficiente. Ainda mais, a senhora é a nossa melhor arma. Sabe como mandar os robôs fazerem o que quiser que eles façam, e isso pode ser crucial. A senhora é a única entre nós que pode fazer isso; as primeiras naves não contavam com ninguém da sua estatura. Portanto, venha...

      Prosseguiram andando. Gladia disse, após uma pausa:

      - Não estamos andando na direção da casa.

      - Não, ainda não. Primeiro estamos indo ao encontro de um grupo de robôs. Espero que os esteja vendo.

      - Sim, estou, mas não estão fazendo nada.

      - Não, não estão. Havia muito mais robôs aqui quando pousamos pela primeira vez. A maioria sumiu, mas estes permaneceram. Por quê?

      - Se lhes perguntarmos, eles nos dirão.

      - A senhora vai lhes perguntar, Lady Gladia.

      - Eles lhe responderão tão prontamente quanto a mim. Somos igualmente humanos.

      D. G. parou subitamente e os outros dois também. Virou-se para Gladia e disse, sorrindo:

      - Minha cara Lady Gladia, igualmente humanos? Uma Espacial e um Colonizador? Que lhe aconteceu?

      - Somos igualmente humanos para um robô - disse ela, irritada. - E, por favor, pare de brincadeiras. Eu não brinquei de Espacial e Terráqueo com seu Antepassado.

      O sorriso de D. G. sumiu.

      - É verdade. Peço-lhe desculpas, Lady Gladia. Vou procurar conter minha veia irônica, pois, afinal de contas, somos aliados neste planeta.

      Um momento depois, prosseguiu:

      - Bem, senhora, eu quero que descubra que ordens os robôs receberam se é que receberam alguma; se há alguns robôs que, por acaso, possam tê-la conhecido; se há seres humanos na propriedade ou no planeta, ou qualquer coisa mais que lhe ocorrer perguntar. Eles não deverão ser perigosos; são robôs, e a senhora é humana; não podem portanto, magoá-la. É verdade - acrescentou, recordando - que o seu Daneel maltratou um tanto Niss, mas foi sob condições que não se aplicam aqui. E Daneel Pode ir com a senhora.

      Daneel disse, respeitosamente:

      - Eu acompanharia Lady Gladia de qualquer maneira, comandante, essa é minha função.

      - A de Giskard também, suponho - falou D. G. - e apesar disso ele anda vagando por aí.

      - Com um objetivo, comandante, que ele discutiu comigo e que concordamos ser essencial como maneira de proteger Lady Gladia.

      - Muito bem. Ambos podem continuar andando. Eu ficarei na cobertura. - Empunhou a arma com a mão direita. - Se eu gritar "Caiam", atirem-se no chão imediatamente. Aquelas coisas não escolhem alvo.

      - Por favor, só use isso como último recurso, D. G. - pediu Gladia. - Dificilmente haverá ocasião para usá-la contra robôs. Venha, Daneel.

      Ela se foi, andando rápida e decididamente na direção do grupo de cerca de uma dúzia de robôs imóveis bem à frente de uma fila de arbustos baixos, com o sol matutino se refletindo aqui e ali em seus exteriores lustrosos.

     

      Os robôs não recuaram nem avançaram. Permaneceram calmamente onde estavam. Gladia contou-os. Onze inteiramente à vista. Era possível que houvesse outros, invisíveis.

      Tinham sido desenhados à maneira de Solaria. Muito lustrosos. Muito lisos. Nenhuma ilusão de roupa e quase nenhum realismo. Eram praticamente abstrações matemáticas  do corpo humano, com não mais de dois deles muito parecidos.

      Ela teve a sensação de que eles eram pelo menos tão flexíveis ou complexos quanto os robôs Auroreanos, porém mais decididamente adaptados a tarefas específicas.

      Ela parou pelo menos a quatro metros da fila de robôs; Daneel (ela pressentiu) parou ao mesmo tempo que ela e estacou menos de um metro atrás. Ficou bastante perto  para interferir imediatamente em caso de necessidade, porém o bastante afastado para deixar claro que ela era a portavoz dos dois. Os robôs à sua frente, Gladia  tinha certeza, consideraram Daneel como um ser humano, mas ela também sabia que Daneel era bastante consciente de si mesmo como robô para deduzir o engano dos outros  robôs.

      - Quem de vocês vai falar comigo? - perguntou Gladia. Houve um breve período de silêncio, como se estivesse acontecendo uma conferência muda. Depois, um dos robôs avançou um passo.

      - Senhora, eu falarei.

      - Você tem nome?

      - Não, senhora. Tenho apenas um número de série.

      - Há quanto tempo está em operação?

      - Estou em operação há vinte e nove anos, senhora.

      - Mais alguém no grupo tem estado em ação durante tanto tempo?

      - Não, senhora. É por isso que eu estou falando em vez de outro

      - Quantos robôs são usados nesta propriedade?

      - Não tenho esse dado, senhora.

      - Por alto.

      - Talvez dez mil, senhora.

      - Algum esteve funcionando por mais de vinte décadas?

      - Os robôs agrícolas incluem alguns que talvez estejam.

      - E os domésticos?

      - Esses nunca operaram por muito tempo, senhora. Os patrões preferem robôs do último tipo.

      Gladia balançou a cabeça, virou-se para Daneel e disse:

      - É compreensível. Também era assim no meu tempo. Tornou a se voltar para o robô.

      - A quem pertence esta propriedade?

      - Esta é a propriedade Zoberlon, senhora.

      - E há quanto tempo pertence à família Zoberlon?

      - Há mais tempo do que estou em operação, senhora. Não sei ao certo, mas podemos obter a informação.

      - Já ouviu falar na família Delmarre?

      - Não, senhora.

      Gladia virou-se para Daneel e disse, um tanto magoada:

      - Estou tentando guiar o robô, pouco a pouco, como Elijah poderia ter feito outrora, mas acho que não sei fazê-lo adequadamente.

      - Pelo contrário, Lady Gladia - retrucou Daneel gravemente - parece-me que a senhora conseguiu muito. Não é provável que qualquer robô nesta propriedade, com exceção talvez de alguns agrícolas, tenha qualquer lembrança da senhora. No seu tempo, a senhora teria encontrado algum deles?

      Gladia sacudiu a cabeça.

      - Nunca! Não lembro de ter visto nenhum deles, mesmo à distância.

      - Então está claro que a senhora não é conhecida nesta propriedade.

      - Exatamente. E o pobre D. G. nos trouxe de tão longe para nada. Se ele contava comigo, fracassou.

      - Conhecer a verdade é sempre útil, senhora. Não ser conhecido é, neste caso, menos útil que ser conhecido, mas não saber se alguém é conhecido ou não pode ser ainda menos útil. Não há, talvez, outros pontos dos quais a senhora possa extrair informações?

      - Sim, vejamos... - Durante alguns segundos, ela ficou imersa em pensamentos e depois disse, suavemente: - É estranho. Quando falo a esses robôs, me exprimo com um sotaque acentuadamente Solariano. Contudo, não falo da mesma forma com você.

      Daneel comentou:

      - Não é de estranhar, Lady Gladia. Os robôs falam com esse sotaque porque são Solarianos. Eles trazem de volta os dias da sua juventude, e a senhora fala mecanicamente, como o fazia naquela época. Volta a ser imediatamente o que é, porém, quando se vira para mim, porque sou parte do seu mundo atual.

      Um lento sorriso surgiu no rosto de Gladia e ela respondeu:

      - Você raciocina cada vez mais como um ser humano, Daneel.

      Ela virou-se para os robôs e ficou profundamente consciente da quietude dos arredores. O céu estava quase que uniformemente azul, a não ser por uma tênue fila de nuvens no horizonte a oeste (indicando que poderia ficar nublado de tarde). Ouvia-se o ruído do roçar das folhas, tocadas pela brisa, o zumbir dos insetos, o canto solitário de um pássaro. Nenhum ruído de seres humanos. Podia haver muitos robôs em torno, porém trabalhavam silenciosamente. Não havia os ruídos exuberantes de seres humanos aos quais se habituara (a princípio penosamente) em Aurora.

      Mas agora, de volta a Solaria, achou a paz maravilhosa. Nem tudo era ruim em Solaria, tinha de admitir.

      Virou-se para o robô rapidamente, perguntando, com uma nota de compulsão na voz:

      - Onde estão seus donos?

      Contudo, era inútil tentar apressar ou assustar um robô, ou pegá-lo desprevenido. Ele respondeu, sem o menor sinal de perturbação:

      - Foram-se, senhora.

      - Para onde?

      - Não sei. Não me disseram, senhora.

      - Quem de vocês sabe? Houve um total silêncio. Gladia perguntou:

      - Há algum robô na propriedade que saiba? O robô respondeu:

      - Não sei de nenhum, senhora.

      - Seus donos levaram robôs com eles?

      - Sim, senhora.

      - Mas não levaram vocês. Por que foram deixados aqui?

      - Para fazermos nosso trabalho, senhora.

      - Contudo, você fica aqui sem fazer nada. Isso é trabalhar?

      - Protegemos a propriedade contra os de fora, senhora.

      - Como nós, por exemplo?

      - Sim, senhora.

      - Mas estamos aqui e você continua sem fazer nada. Como se explica isso?

      - Observamos, senhora. Não temos ordens posteriores.

      - Você transmitiu suas observações?

      - Sim, senhora.

      - A quem?

      - Ao supervisor, senhora.

      - Onde está ele?

      - Na mansão, senhora.

      - Ah.

      Gladia virou-se e caminhou vivamente para D. G. Daneel acompanhou-a.

      - Então? - perguntou D. G.

      Estava com ambas as armas preparadas, porém meteu-as de volta nos coldres quando eles voltaram. Gladia balançou a cabeça.

      - Nada. Nenhum robô me conhece. Tenho certeza de que nenhum robô sabe para onde foram os Solarianos. Mas fazem relatórios a um supervisor.

      - Supervisor?

      - Em Aurora e nos outros planetas Espaciais, o supervisor nas grandes propriedades com inúmeros robôs é um humano, cuja profissão é organizar e dirigir grupos de robôs trabalhando nos campos, minas e estabelecimentos industriais.

      - Então, há Solarianos aqui. Gladia sacudiu a cabeça.

      - Solaria é exceção. A proporção de robôs para seres humanos sempre foi tão grande que não era costume designar um homem ou mulher para supervisionar os robôs. Essa tarefa era realizada por um outro robô especialmente programado.

      - Então, há um robô naquela mansão - D. G. fez um movimento de cabeça - que é mais avançado que esses e que pode ser proveitosamente interrogado.

      - Talvez, mas não sei se é seguro tentar ir àquela mansão. D. G. comentou, ironicamente:

      - Mas é apenas outro robô.

      - A mansão pode estar cheia de armadilhas.

      - Este campo também.

      - Será melhor - disse Gladia - enviar um dos robôs à mansão para dizer ao supervisor que seres humanos desejam falar com ele.

      - Não será necessário - replicou D. G. - Evidentemente, esse trabalho jáfoi feito. O supervisor está surgindo e não é nem robô nem "ele". O que eu vejo é uma mulher humana.

      Gladia ergueu os olhos, espantada. Avançando rapidamente para eles, vinha uma mulher alta, bem-feita de corpo e impressionantemente atraente. Mesmo à distância, não havia dúvida quanto ao sexo.

     

      D. G. exibiu um enorme sorriso. Pareceu ter-se empertigado um pouco, endireitado os ombros e estufado o peito. Levou rapidamente a mão à barba, como que para se certificar de que estava lisa e macia. Gladia olhou-o com desgosto e disse:

      - Essa aí não é uma Solariana.

      - Como pode saber? - perguntou D. G.

      - Nenhuma Solariana se permitiria ser observada tão à vontade por outros seres humanos. Observada, não vista.

      - Conheço a diferença, minha senhora. Contudo, a senhora me deixou observá-la.

      - Morei mais de vinte décadas em Aurora. Mesmo assim, ficou em mim muito de Solariana para não aparecer diante dos outros dessa forma.

      - Ela tem muito o que exibir, senhora. Eu diria que ela é tão alta quanto eu e tão bela quanto um poente.

      A supervisora tinha parado a cerca de vinte metros de onde estavam e os robôs tinham se movido para os lados, de maneira que nenhum permaneceu entre a mulher e os três da nave.

      - Os costumes podem mudar em vinte décadas - disse D. G.

      - Não algo tão básico quanto a aversão Solariana pelo contato humano - replicou Gladia, asperamente. - Nem em duzentas décadas.

      Ela voltara a usar seu sotaque nasal Solariano.

      - Acho que a senhora subestima a plasticidade social. Assim, Solariana ou não, suponho que ela é Espacial - e se há outras Espaciais iguais a essa, sou inteiramente pela coexistência pacífica.

      O olhar de desgosto de Gladia ficou mais forte.

      - Bem, o senhor pretende ficar aí parado olhando dessa maneira por muito tempo? Não quer que eu interrogue a mulher?

      D. G. teve um sobressalto e voltou-se para olhar Gladia com ar aborrecido.

      - A senhora interroga os robôs, como já fez. Eu interrogo os humanos.

      - Especialmente as mulheres, suponho.

      - Não quero me gabar, mas...

      - Jamais conheci um homem que não se dedicasse a esse assunto.

      Daneel interpôs-se:

      - Acho que a mulher não vai esperar mais tempo. Comandante, se o senhor quiser conservar a iniciativa, aproxime-se dela agora. Eu o acompanharei, como fiz com a Senhora Gladia.

      - Dificilmente precisarei de proteção - retrucou D. G. asperamente.

      - O senhor é um ser humano e não devo, pela inação, permitir que seja atacado.

      D. G. avançou rapidamente, com Daneel em seus calcanhares. Gladia, relutando ficar para trás sozinha, seguiu-os, hesitante.

      A supervisora olhava-os calmamente. Usava um vestido branco, liso, que lhe ia até o meio da coxa, com uma faixa passada na cintura. Exibia um decote amplo e convidativo, e seus mamilos estavam claramente visíveis no tecido transparente do vestido. Não havia indicação de que ela estivesse usando nada mais além de um par de sapatos.

      Quando D. G. parou, um metro de distância os separava. Sua pele, ele pôde ver, era perfeita, as maçãs do rosto salientes, os olhos grandes e um tanto rasgados, a fisionomia serena.

      - Senhora - disse D. G., falando tão de perto quanto permitia a aproximação de uma patrícia Auroreana - tenho o prazer de falar com a supervisora desta propriedade?

      A mulher ouviu durante um momento e depois respondeu, com um sotaque tão acentuadamente Solariano que parecia até cômico, vindo de uma boca tão perfeitamente modelada:

      - Você não é um ser humano.

      Depois, ela entrou em ação tão fulminantemente que Gladia, ainda a uns dez metros de distância, não pôde ver detalhadamente o que tinha acontecido. Viu apenas um borrão em movimento e depois D. G. caído de costas, imóvel, e a mulher parada, com suas armas nas mãos.

      O que mais deixou Gladia estupefata, naquele momento atordoante, foi que Daneel não se mexera, quer para prevenir, quer para reagir.

      Mas mesmo quando pensou nisso, já era tarde, pois Daneel havia agarrado o pulso esquerdo da mulher, torcendo-o.

      - Largue essas armas imediatamente - falou, numa voz áspera e peremptória que ela nunca ouvira dele.

      Era inconcebível que se dirigisse assim a um ser humano.

      A mulher respondeu, igualmente áspera no seu tom mais agudo:

      - Você não é um ser humano.

      O braço direito dela ergueu-se, empunhando a arma, e esta disparou. Durante um momento, uma tênue faísca deslizou sobre o corpo de Daneel, e Gladia, incapaz de emitir um som no seu estado de choque, sentiu a visão ficar toldada. Nunca na vida havia desmaiado, mas aquilo parecia um prelúdio.

      Daneel não se dissolveu, nem houve uma explosão. Como Gladia percebeu, ele tinha, prudentemente, agarrado o braço que segurava o explosor. O outro sustinha o chicote neurônico, e este é que tinha sido descarregado completamente - bem de perto - sobre Daneel. Se ele fosse humano, o maciço estímulo dos seus nervos sensoriais poderia tê-lo morto ou deixado permanentemente inválido. Contudo, ele era, afinal de contas, embora humano na aparência, um robô, e seu equivalente a um sistema nervoso não reagiu ao chicote.

      Então Daneel segurou o outro braço, erguendo-o, ao mesmo tempo em que tornava a falar:

      - Largue essas armas, ou arrancarei cada braço de suas juntas.

      - Você faria isso? - perguntou a mulher.

      Seus braços se contraíram e, durante um instante, Daneel foi erguido do chão. As pernas do robô balançaram para a frente e para trás, como um pêndulo, os pontos onde os braços se juntavam funcionando como um pivô. Seus pés atingiram a mulher com força e ambos caíram pesadamente no chão.

      Gladia, sem transformar o pensamento em palavras, percebeu que, apesar de parecer tão humana quanto Daneel a mulher era exatamente não-humana. Uma sensação de insulto instantâneo inundou-a, tornando-a subitamente Solariana até o âmago - ultrajada pelo fato de um robô ter usado força contra um ser humano. Admitia que ela poderia, de certa forma, ter reconhecido Daneel, mas não ousaria atacar D. G.

      Avançou correndo e gritando. Nunca lhe passou pela cabeça temer um robô simplesmente porque ele havia derrubado um homem forte com um soco e estava lutando com um robô ainda mais forte.

      - Como se atreve? - gritou ela, com um sotaque Solariano tão carregado que irritou seu próprio ouvido; mas de que maneira era possível falar com um robô Solariano?

      - Como se atreve, moça? Cesse toda a resistência imediatamente

      A musculatura da mulher pareceu relaxar total e simultaneamente, como se uma corrente elétrica tivesse sido desligada. Seus belos olhos fixaram-se em Gladia sem bastante humanidade para parecerem espantados. Respondeu, numa voz hesitante e indistinta:

      - Minhas desculpas, senhora.

      Daneel estava de pé, olhando, vigilante, a mulher caída na grama. D. G., reprimindo um gemido, estava lutando para se recompor.

      Daneel curvou-se para pegar as armas, porém Gladia fez-lhe um sinal, furiosamente, para se afastar.

      - Dê-me essas armas, criada - falou. A mulher respondeu:

      - Sim, senhora.

      Gladia agarrou-as, separou rapidamente o explosor e entregou-o a Daneel.

      - Destrua a mulher quando julgar melhor, Daneel. É uma ordem. - Estendeu o chicote neurônico a D. G. e disse: - Isto é inútil aqui, exceto contra mim - e o senhor.

      Está se sentindo bem?

      - Não, não estou - resmungou D. G., esfregando o quadril. - Está querendo dizer que ela é uma robô?

      - Uma mulher o teria derrubado assim?

      - Não uma das minhas relações. Eu disse que poderia haver robôs especiais em Solaria, programados para serem perigosos.

      - Claro - retrucou Gladia, asperamente - mas quando vê alguém que corresponde à sua idéia de uma bela mulher, o senhor se esquece disso.

      - Sim, é fácil ser prudente depois do fato. Gladia suspirou e tornou a virar-se para a robô.

      - Landaree, senhora.

      - Levante-se Landaree.

      Landaree levantou-se da mesma maneira que Daneel - como se estiesse sobre molas. Sua luta com Daneel parecia não tê-la danificado nem um pouco.

      Gladia perguntou:

      Por que, contrariando a Primeira Lei, você atacou esses seres humanos?

      - Senhora - retrucou Landaree, com firmeza - eles não são seres humanos.

      - Você diz que eu não sou humana?

      - Não, senhora, a senhora é.

      - Então, como ser humano, estou definindo esses dois homens como humanos. Entendeu?

      - Senhora - a voz de Landaree estava um pouco mais suave - eles não são seres humanos.

      - Na verdade são, porque eu lhe disse que são. Você está proibida de atacá-los ou feri-los, seja como for.

      Landaree permaneceu muda.

      - Compreendeu o que eu lhe disse?

      A voz de Gladia tornou-se mais Solariana ainda, como se tivesse atingido o maior grau de intensidade.

      - Senhora - repetiu Landaree - eles não são humanos. Daneel disse a Gladia, em voz baixa:

      - Senhora, ela recebeu ordens tão determinadas que a senhora não pode contrariá-las com facilidade.

      - É o que veremos - disse Gladia, respirando forte.

      Landaree olhou em volta. O grupo de robôs, durante os poucos minutos do conflito, aproximou-se de Gladia e seus dois acompanhantes. Atrás deles, estavam dois robôs que, achou Gladia, não eram membros do grupo original e estavam carregando juntos, com alguma dificuldade, um grande e volumoso objeto de alguma espécie. Landaree fez um gesto na direção deles, que se adiantaram um pouco mais depressa.

      Gladia gritou:

      - Robôs, parem! Eles pararam.

      - Senhora - disse Landaree - estou cumprindo minhas obrigações. estou seguindo as instruções que recebi.

      Gladia retrucou:

      - Suas obrigações, criada, são obedecer as minhas ordens!

      - Não posso ser ordenada a desobedecer minhas instruções - insistiu Landaree.

      Gladia ordenou:

      - Daneel, acabe com ela!

      Depois, Gladia foi capaz de raciocinar sobre o acontecido. O tempo de reação de Daneel foi muito mais rápido do que teria sido o de um humano e ele soube que estava enfrentando um robô contra o qual as Três Leis não impediam a violência. Contudo, ela parecia tão humana que mesmo o perfeito conhecimento de que se tratava de uma robô não se sobrepôs totalmente à sua inibição. Ele cumpriu a ordem mais devagar do que devia.

      Landaree, cuja definição de "ser humano", não era evidentemente a de Daneel, não foi inibida pela aparência dele e atacou ainda mais rapidamente. Ela havia agarrado o explosor e os dois estavam novamente lutando.

      - Robô! Pare! - gritou Gladia, cujos punhos fechados estavam levantados.

      Landaree gritou, em voz de contralto, muito alta:

      - Vocês todos! Juntem-se a mim! Os dois com aparência de homens não são seres humanos. Tratem de destruí-los, sem fazer nenhum mal à mulher.

      Se Daneel pôde ser inibido por uma aparência humana, o mesmo se deu com muito mais intensidade com os simplórios robôs Solarianos, que se adiantaram lenta e intermitentemente.

      - Parem! - guinchou Gladia.

      Os robôs pararam, porém a ordem não fez efeito em Landaree.

      Daneel tentou pegar o explosor, mas foi dobrado para trás sob a força do poder evidentemente maior de Landaree.

      Gladia, transtornada, olhou em volta, como que esperando encontrar uma arma em algum lugar.

      D. G. estava tentando acionar seu radiotransmissor. Ele disse, gemendo:

      - Está estragado. Acho que caí sobre ele.

      - Que vamos fazer?

      - Devemos levá-lo de volta para a nave. Depressa.

      - Então corra - disse Gladia. - Não posso abandonar Daneel. - Encarou os robôs que atacavam, gritando brutalmente: - Landaree, pare! Landaree, pare!

      - Não posso parar, senhora - respondeu a robô. - Minhas instruções são precisas.

      Os dedos de Daneel foram abertos à força e Landaree tornou a se apropriar do explosor.

      Gladia protegeu Daneel com seu corpo.

      - Você não deve causar dano a este ser humano.

      - Senhora - disse Landaree, com o explosor apontado para Gladia, sem vacilar. - A senhora está diante de uma coisa que parece um ser humano mas não é. Minhas instruções são destruir o que estiver à vista- Depois, com voz mais alta: - Vocês dois, carregadores: para a nave.

      Os dois robôs, carregando o volumoso objeto, reiniciaram seu trajeto.

      - Robôs, parem! - gritou Gladia, e eles pararam, tremendo, como que tentando mover-se para frente e apesar disso incapazes de prosseguirem - Você não pode destruir meu amigo humano Daneel sem me liquidar  e você mesma admite que eu sou humana e portanto não posso ser atacada.

      Daneel disse, em voz baixa:

      - Minha senhora, não deve atrair um ataque no esforço de me proteger.

      Landaree disse:

      - Não adianta, senhora. Posso afastá-la facilmente da sua atual posição e depois destruir o ser não-humano que está atrás da senhora. Uma vez que isso pode atingi-la, peço-lhe, respeitosamente, para se afastar voluntariamente de onde está.

      - A senhora precisa, senhora - disse Daneel.

      - Não, Daneel. Ficarei aqui. No tempo que ela levar para me tirar daqui, você foge!

      - Não posso fugir mais depressa que o raio de um explosor - e se tentar, ela atirará através da senhora, sem escolha. Suas instruções provavelmente são essas. Lamento, minha senhora, que isso lhe cause infelicidade.

      E Daneel ergueu Gladia, que se debatia, afastando-a sem esforço para um lado.

      Os dedos de Landaree firmaram-se no contato, mas ela não apertou o gatilho. Permaneceu imóvel.

      Gladia, que tinha cambaleado e estava agora sentada, ficou em pé. Cautelosamente, D. G., que tinha permanecido no local nas últimas trocas de palavras, aproximou-se de Landaree. Daneel, com muita calma, estendeu a mão e tirou o explosor dos seus dedos inertes.

      - Creio - disse Daneel - que esta robô está permanentemente desativada.

      Empurrou-a gentilmente e ela caiu inteira, com os membros, tronco e cabeça nas posições relativas que ocupavam quando estava em pé. Seu braço ainda estava dobrado, a mão segurando um explosor invisível e seus dedos apertando um botão invisível.

      Entre as árvores, a um lado do campo gramado onde o drama tinha acabado de se desenrolar, Giskard estava se aproximando, seu rosto robótico sem demonstrar curiosidade, embora suas palavras pudessem fazer parecer o contrário.

      - Que aconteceu na minha ausência? - perguntou.

     

      A volta à nave foi bastante calma. Agora, que o ataque de medo e ação tinha acabado, Gladia sentia-se acalorada e irritadiça. D. G. capengava um tanto dolorido e caminhava lentamente, em parte por causa da coxeadura e em parte porque os dois robôs Solarianos ainda estavam carregando seu volumoso instrumento, andando pesadamente.

      D. G. olhou-os por cima do ombro.

      - Agora, que a supervisora está fora de ação, eles obedecerão às minhas ordens.

      Gladia falou, entre dentes:

      - Por que o senhor não corre até lá e pede ajuda? Por que permanece desamparadamente olhando?

      - Ora - disse D. G., numa tentativa do mesmo tipo de graciosidade que teria demonstrado se estivesse melhor - com sua recusa em abandonar Daneel, hesitei em bancar o covarde, por comparação.

      - Seu tolo! Eu estava segura. Ela não teria me atacado. Daneel interveio:

       - Senhora, lamento ter de contradizê-la, mas acho que teria, se a necessidade de me destruir fosse maior.

      Gladia virou-se para ele, com violência:

      - E foi muito bonito aquilo que você fez, me tirando do caminho. Você queria ser destruído?

      - Preferivelmente a vê-la ferida, senhora, sim. Meu fracasso em parar a robô pelas inibições causadas por sua aparência humana demonstrou-se, em todo caso, um limite insatisfatório à minha utilidade para senhora.

      - Mesmo assim - disse Gladia - uma vez que sou humana, ela teria hesitado em atirar em mim durante um perceptível espaço de tempo e você poderia ficar de posse do explosor nesse momento.

      - Eu não podia arriscar a sua vida, senhora, numa coisa tão incerta como a hesitação dela - comentou Daneel.

      - E o senhor - falou Gladia, sem demonstrar ter ouvido Daneel e tornando a virar-se para D. G. - não devia ter sacado o explosor em primeiro lugar.

      D. G. replicou, franzindo o cenho:

      - Senhora, estou tomando em consideração o fato de termos estado todos muito perto da morte. Os robôs não se importam com isso, e de certa forma eu cresci acostumado ao perigo. Para a senhora, contudo, aquilo foi uma desagradável novidade, e está sendo infantil com relação ao resultado. Desculpo-a - um pouco. Mas, por favor, preste atenção. Eu não tinha meio de saber que o explosor me seria tomado tão facilmente. Se eu não tivesse sacado a arma, a supervisora poderia ter-me matado com as mãos nuas tão rápida e eficientemente como com o explosor. Assim, não haveria sentido na minha corrida, para responder a uma anterior reclamação sua. Eu não podia superar a velocidade de um explosor. Ora, por favor, continue, se precisar sair do seu sistema, porém não tenho a intenção de discutir mais com a senhora.

      Gladia olhou de D. G. para Daneel, voltando para o primeiro, e disse em voz baixa:

      - Suponho estar sendo exagerada. Muito bem, chega de percepções tardias.

      Tinham chegado à nave. Membros da tripulação saíram ao encontro deles. Gladia viu que estavam armados. D. G. fez um sinal ao subcomandante.

      - Oser, suponho que você viu o objeto que os dois robôs estão carregando, não?

      - Sim, senhor.

      - Bem, faça-os levarem-no para bordo. Coloque-o no setor de segurança e mantenha-o lá. O setor de segurança deve então ser trancado e conservado assim. - Virou-se por um momento e depois retornou: - E, Oser, tão logo isso tenha sido feito, vamos nos preparar para partir.

      Oser perguntou:

      - Comandante, devemos também conservar os robôs?

      - Não. Eles são de confecção muito simples, de pouco valor portanto, e, nestas circunstâncias, levá-los criaria conseqüências indesejáveis. O aparelho que estão carregando é muito mais valioso que eles.

      Giskard ficou observando o objeto sendo cuidadosa e lentamente colocado dentro da nave.

      - Comandante - disse ele - estou achando que se trata de um objeto perigoso.

      - Também tenho a mesma impressão - replicou D. G. - Desconfio que a nave iria ser destruída logo depois de nós.

      - O que é aquela coisa? - perguntou Gladia.

      - Não tenho certeza, mas creio que é um intensificador nuclear. Vi modelos experimentais em Baleyworld, e este parece um irmão maior.

      - O que é um intensificador nuclear?

      - Como o nome indica, Lady Gladia, é um instrumento que intensiva a fusão nuclear.

      - E como isso é feito? D. G. encolheu os ombros.

      - Não sou físico, minha senhora. Uma corrente de partículas W é envolvida e proporciona uma fraca interação. É só o que eu sei sobre ela.

      - O que ela provoca? - perguntou Gladia.

      Bem, suponha que a nave tenha seu suprimento de força como agora, por exemplo. Há pequenas quantidades de prótons, derivados do nosso suprimento de combustível de hidrogênio, que são ultraquentes e se fundem para produzir força. Hidrogênio adicional é constantemente aquecido. Para produzir prótons livres que, quando bastante quentes, também se fundem para manter aquela força. Se a corrente de partículas W do intensificador nuclear atinge os prótons em fusão, estes se fundem mais rapidamente e liberam mais calor. Este calor produz prótons e os leva à fusão mais rapidamente do que devem, o que produz ainda mais calor, intensificando o ciclo vicioso. Uma fração mínima de segundo é o bastante para que o combustível em fusão forme uma minúscula bomba termonuclear e a nave inteira e tudo nela seja transformado em vapor. Gladia pareceu apavorada.

      - Por que tudo não se incendeia? Por que o planeta inteiro não explode?

      - Não creio que haja perigo disso, senhora. Os prótons devem estar excessivamente quentes e em fusão. Prótons frios são de tal forma incapazes de fundir, que, mesmo quando a tendência é intensificada em toda a extensão de um engenho desses, isso ainda não é bastante para permitir a fusão. Pelo menos, foi o que inferi de uma conferência sobre o assunto a que assisti. E nada a não ser hidrogênio é afetado, até onde posso saber. Mesmo no caso de prótons ultraquentes, o calor produzido não aumenta desmedidamente. A temperatura esfria com a distância do raio intensificador de forma que apenas uma limitada quantidade de fusão pode ser forçada. Isso é bastante para destruir a nave, claro, mas não há possibilidade de explosão dos oceanos ricos de hidrogênio, por exemplo, mesmo que parte deles seja ultra-aquecido - o que certamente não acontecerá, se estiverem frios.

      - Mas e se a máquina for ligada acidentalmente no depósito...

      - Não creio que isso seja possível. - D. G. abriu a mão e mostrou um cubo de dois centímetros de metal reluzente. - Do pouco que sei dessas coisas, isto é um ativador, e o intensificador nuclear nada pode fazer sem ele.

      - Tem certeza?

      - Completamente, não, mas devemos correr o risco, visto que preciso levar esta coisa para Baleyworld. Agora, vamos para bordo.

      Gladia e seus dois robôs subiram a rampa e entraram na nave. D. G. seguiu-os e conversou rapidamente com alguns oficiais da tripulação. Depois virou-se para Gladia, o cansaço começando a aparecer:

      - Vamos levar umas duas horas para colocar todo o nosso maquinismo a bordo e ficar prontos para partir, e a cada instante o perigo aumenta.

      - Perigo?

      - A senhora não imagina que a temível robô seja a única de sua espécie em Solaria, não é? Ou que esse intensificador nuclear que pegamos seja o único do seu tipo, certo? Acho que deve ter demorado a construção de outros robôs humanóides e intensificadores nucleares neste lugar - talvez um tempo considerável - mas não podemos nos arriscar. E enquanto isso, senhora, vamos até seu camarote tratar de alguns negócios necessários.

      - Que negócios necessários são esses, comandante?

      - Bem - disse D. G., fazendo-os andar - diante do fato de que eu talvez tenha sido vítima de traição, acho que devo proceder a uma informal corte marcial.

     

      Após sentar-se com um suspiro audível, D. G. disse:

      - O que eu realmente quero é um banho quente, uma massagem, uma boa refeição e a chance de dormir, mas isso só será possível quando tivermos deixado o planeta. O mesmo se aplica à senhora, senhora. Mas outras coisas não podem esperar. Tenho uma pergunta a fazer: onde você estava, Giskard, enquanto o resto de nós enfrentava um enorme perigo?

      - Comandante - respondeu Giskard - não me parece que o fato de robôs serem deixados sozinhos no planeta representasse qualquer perigo. Além do mais, Daneel ficou com o senhor.

      - Comandante - interpôs Daneel - concordei em que Giskard devia fazer um reconhecimento e que eu ficaria com Senhora Gladia e com o senhor.

      - Os dois concordaram, é? - perguntou D. G. - E alguém mais foi ouvido?

      - Não, comandante - disse Giskard.

      - Se tinham certeza de que os robôs eram inofensivos, Giskard, como imagina que as duas naves tenham sido destruídas?

      - Parece-me, comandante, que devem ter restado seres humanos no planeta, mas que fizeram o impossível para não serem vistos pelo senhor. Eu quis saber onde eles se encontravam e o que estavam fazendo. Saí à procura deles, examinando o terreno o mais depressa possível. Interroguei os robôs que encontrei.

      - Encontrou algum ser humano?

      - Não, comandante.

      - Examinou a casa de onde a supervisora surgiu?

      - Não, comandante, pois eu tinha certeza de que não havia ninguém dentro dela. E ainda tenho.

      - Havia a supervisora.

      - Sim, comandante, mas ela era uma robô.

      - Uma robô perigosa.

      - Para meu pesar, não percebi isso, comandante.

      - Você sente pesar, sente?

      - É uma forma de me exprimir. Escolhi descrever o efeito nos meus circuitos positrônicos. É uma analogia grosseira com o termo que os seres humanos usam para isso, comandante.

      - Por que você não percebe que um robô pode ser perigoso?

      - Por causa das Três Leis da Robótica... Gladia interrompeu.

      - Pare com isso, comandante. Giskard sabe apenas o que foi programado para saber. Nenhum robô é perigoso para os seres humanos, a menos que haja um conflito mortal entre seres humanos, e o robô precise tentar impedi-lo. Nesse conflito, Daneel e Giskard teriam indubitavelmente nos defendido com o menor dano possível a outros.

      - É mesmo? - D. G. colocou dois dedos sobre o cavalete do nariz e beliscou. - Daneel nos defendeu. Estávamos lutando contra robôs, não seres humanos, e portanto ele não tinha dificuldade em decidir a quem defender e até onde. Contudo, ele demonstrou espantosa falta de êxito, considerando que as Três Leis não o impedem de causar dano a robôs. Giskard esteve afastado, voltando no exato momento em que tudo havia acabado. É possível haver um laço de simpatia entre robôs? É possível que robôs, quando defendendo seres humanos contra robôs, sintam de certa forma o que Giskard chama "pesar" por fazer isso e talvez fracassem - ou se eximam...

      - Não! - explodiu Gladia, furiosa.

      - Não? - perguntou D. G. - Ora, não pretendo ser técnico em robótica. A senhora é, Lady Gladia?

      - Não sou roboticista de nenhuma forma - replicou Gladia - mas passei toda a minha vida entre robôs. O que o senhor sugere é ridículo. Daneel estava perfeitamente preparado para dar sua vida por mim, e Giskard teria feito o mesmo.

      - Qualquer robô teria feito o mesmo?

      - Claro.

      - Contudo, aquela supervisora, a tal Landaree, estava de fato disposta a me atacar e aniquilar. Concordemos que, de maneira misteriosa, ela detectou que Daneel, não obstante a aparência, era tão robô quanto ela - apesar da aparência - e não ficou inibida quando o atacou. Que aconteceria, porém, se ela me atacasse, quando sou indubitavelmente humano? Ela hesitou com a senhora, admitindo que era humana, mas não comigo como um robô pode discriminar entre nós dois? Será que ela não era verdadeiramente robô?

      - Ela era robô - replicou Gladia. - Claro que era. Mas... a verdade é que não sei por que ela agiu assim. Jamais ouvi falar em coisa parecida. Só posso imaginar que os Solarianos, tendo aprendido a construir robôs humanóides, desenharam-nos sem a proteção das Três Leis, embora eu tivesse jurado que, entre todos os Espaciais, eles teriam sido os últimos a agir assim. Em número, os Solarianos são amplamente superados por seus próprios robôs, tornando-se totalmente dependentes deles – numa extensão muito maior que qualquer outro Espacial - e por esse motivo os temem mais. A subserviência e mesmo um pouco de estupidez foram embutidas em todos os robôs Solarianos. As Três Leis são mais fortes em Solaria - e não mais fracas - que em qualquer outro planeta. Contudo, não posso pensar em outro meio para explicar Landaree a não ser supor que a Primeira Lei foi...

      Daneel interrompeu:

      - Desculpe, Senhora Gladia, por interferir. Posso obter sua permissão para tentar uma explicação do comportamento da supervisora?

      D. G. disse, ironicamente:

      - Suponho que chegamos ao fato. Só um robô pode explicar outro robô.

      - Senhor - replicou Daneel - a menos que compreendamos a supervisora, não seremos capazes de, no futuro, tomar medidas contra o perigo Solariano. Acho que tenho um meio de determinar seu comportamento.

      - Continue - disse D. G.

      - A supervisora - prosseguiu Daneel - não tomou medidas instantâneas contra nós. Ela nos examinou durante algum tempo, evidentemente indecisa sobre como agir. Quando o senhor, comandante, aproximou-se e falou-lhe, ela anunciou que o senhor não era humano e o atacou instantaneamente. Quando me interpus e gritei que ela era uma robô, ela afirmou que eu não era humano e também me atacou imediatamente. Quando Lady Gladia avançou, contudo, gritando com ela, a robô reconheceu sua humanidade e, por um momento, deixou-se dominar.

      - Sim, Daneel, lembro de tudo isso. Mas o que significa?

      - Parece-me, comandante, que é possível alterar o comportamento de um robô fundamentalmente, sem sequer tocar as Três Leis, desde que, por exemplo, seja alterada a definição de ser humano. Um ser humano, afinal de contas, é apenas o que se define como tal.

      - Então é assim? E o que você considera como um ser humano? Daneel não ficou preocupado com a presença ou ausência de ironia.

      Respondeu:

      - Fui construído com uma descrição minuciosa da aparência e comportamento dos seres humanos, comandante. Para mim, tudo o que combina com essa descrição é um ser humano. Portanto, o senhor tem a aparência e o comportamento, enquanto a supervisora tinha o aspecto mas não o comportamento.

      Para a supervisora, por outro lado, a característica principal de um ser humano era a fala, comandante. O sotaque Solariano é destacável, e Para ela uma coisa que parecesse com um ser humano era definida como Um ser humano apenas se falasse como um Solariano. Evidentemente, tudo o que parecesse com um ser humano, mas não falasse com sotaque Solariano, devia ser destruído sem hesitação, bem como toda a nave levando esses seres.

      D. G. disse, pensativo:

      - Você talvez tenha razão.

      - O senhor tem sotaque de Colonizador, comandante, tão inconfundível a seu modo como o Solariano ao dele, porém os dois são inteiramente diferentes. Logo que o senhor abriu a boca, definiu-se para a supervisora como não-humano, fazendo com que ela o denunciasse e atacasse.

      - E você falou como Auroreano, sendo atacado da mesma forma.

      - Sim, comandante, porém Lady Gladia falou como autêntica Solariana, e por isso foi considerada humana.

      D. G. examinou o assunto silenciosamente durante algum tempo e depois disse:

      - É um sistema perigoso, mesmo para quem fizer uso dele. Se um Solariano, por qualquer motivo, em qualquer momento, se dirigisse a esse robô de uma forma que ele não considere autêntico sotaque Solariano, seria atacado imediatamente. Se eu fosse Solariano, teria medo de me aproximar desse robô. Meu grande esforço para falar um Solariano puro poderia provavelmente me colocar em má situação e me levar à morte.

      - Concordo, comandante - disse Daneel - e acho que é por isso que os que fabricam robôs em geral não limitam a definição de um ser humano, alargando-a ao máximo.

      Os Solarianos, contudo, deixaram o planeta. Pode-se supor que o fato de robôs supervisores terem essa programação perigosa é a melhor indicação de que os Solarianos partiram realmente e não estão aqui para enfrentar o perigo. Parece que sua única preocupação neste momento é não permitir que ninguém que não seja Solariano ponha o pé neste planeta.

      - Nem mesmo outros Espaciais?

      - Eu esperaria, comandante, que fosse difícil definir um ser humano numa forma que incluísse as dezenas de sotaques Espaciais diversos e também excluísse as grandes quantidades de diferentes sotaques Colonizadores. Limitando a definição unicamente ao sotaque Solariano distinto, seria bastante difícil.

      - Você é muito inteligente, Daneel - disse D. G. - Eu desaprovo robôs, não por eles, claro, mas como uma influência perturbadora na sociedade. Apesar disso, com um robô como você ao meu lado, como esteve antes ao lado do Antepassado...

      Gladia interrompeu:

      - Nem pense nisso, D. G. Daneel jamais seria presenteado ou mesmo vendido, e também não poderia ser facilmente obtido à força...

      D. G. ergueu a mão, com um sorriso de desculpa.

      - Eu estava apenas sonhando, Lady Gladia. Garanto-lhe que as leis de Baleyworld tornariam minha idéia de possuir um robô impensável.

      Giskard interveio subitamente:

      - Comandante, o senhor me permite acrescentar algumas palavras?

      - Ah - disse D. G. - o robô que deu um jeito de evitar a ação e que voltou quando tudo estava seguramente acabado.

      - Lamento que o caso lhe pareça assim. Tenho sua permissão,comandante, para acrescentar algumas palavras, apesar de tudo?

      - Ora, prossiga.

      - Está parecendo, comandante, que sua decisão de trazer Lady Gladia com o senhor nesta expedição deu um bom resultado. Se ela não tivesse vindo e o senhor se aventurasse em sua missão exploradora apenas com os membros da tripulação da nave como acompanhantes, teria sido rapidamente aniquilado e a nave seria destruída. A capacidade de Lady Gladia de falar como uma Solariana e sua coragem ao enfrentar a supervisora foi que mudaram o resultado.

      - Não foi bem assim - retrucou D. G. - pois teríamos sido todos destruídos, possivelmente até Lady Gladia, não fosse o fortuito acontecimento da inativação espontânea da supervisora.

      - Não foi fortuito, comandante - respondeu Giskard - e é extremamente improvável que qualquer robô fique inativo espontaneamente. Tem de haver um motivo para isso, e posso sugerir uma possibilidade. Em várias ocasiões Lady Gladia ordenou à robô que parasse, como o amigo Daneel me disse, mas as instruções sob as quais a supervisora agia eram mais fortes.

      "Não obstante, a ação de Lady Gladia serviu para moderar a resolução da supervisora, comandante. O fato de Lady Gladia ser incontestavelmente um ser humano, mesmo dentro da definição da supervisora, e de estar agindo daquela forma para tornar necessário, talvez, que a supervisora a ferisse - ou mesmo matasse - moderou-a ainda mais. Assim, no momento crucial, os dois requisitos antagônicos - precisar destruir seres não-humanos e ter de evitar ferir seres humanos - equilibraram-se e a robô imobilizou-se, incapaz de fazer qualquer coisa. Seus circuitos queimaram.

      O cenho de Gladia franziu-se, revelando confusão.

      - Mas... - começou e depois desistiu. Giskard prosseguiu:

      - Veio-me à idéia que talvez seja bom o senhor informar a tripulação disso. Sua desconfiança de Lady Gladia pode diminuir se o senhor salientar o que a iniciativa e coragem dela significaram para cada membro da tripulação, visto tê-los conservado vivos. Isso pode, também, fazê-los ter uma excelente opinião da sua previsão ao insistir em tê-la a bordo nesta ocasião, talvez mesmo contra o conselho dos seus próprios oficiais.

      D. G. soltou uma enorme gargalhada.

      - Lady Gladia, vejo agora por que a senhora não se separa dos seus robôs. Eles não são apenas tão inteligentes como seres humanos, mas exatamente iguais em astúcia. Felicito-a por tê-los. E agora, se não se importa, tenho de apressar minha tripulação. Não desejo ficar em Solaria nem um minuto além do necessário. E prometo-lhe que não será incomodada durante horas. Sei que deseja se restaurar e descansar, tanto quanto eu.

      Depois que ele se retirou, Gladia permaneceu durante algum tempo mergulhada em profundos pensamentos; depois virou-se para Giskard e   disse em Auroreano comum, uma versão vulgar do padrão galáctico, que tinha se espalhado por Aurora, de difícil compreensão para todo não-Auroreano:

      - Giskard, que bobagem foi aquela sobre queimar os circuitos?

      - Minha senhora - respondeu o robô - citei apenas como uma possibilidade e nada mais. Achei melhor acentuar seu papel ao ser dado um fim à supervisora.

      - Mas como você pode pensar que ele acreditará que um robô pode queimar tão facilmente?

      - Ele sabe pouquíssimo sobre robôs. Pode transitar no meio deles, mas vem de um planeta que não os usa.

      - Mas eu conheço muita coisa a respeito deles e também tenho esse problema. A supervisora não demonstrou nada sobre circuitos desequilibrados; nenhuma gagueira, nenhum tremor, nenhuma dificuldade de comportamento de qualquer espécie. Apenas... parou.

      Giskard replicou:

      - Senhora, uma vez que não conhecemos as exatas especificações que presidiram a construção da supervisora, devemos nos contentar com a ignorância do que havia de racional por detrás da paralisação.

      Gladia balançou a cabeça.

      - Seja como for, é perturbador.

 

BALEYWORLD

 

      O Planeta dos Colonizadores

      A nave de D. G. estava novamente no espaço, rodeada pela perpétua imutabilidade do vácuo infinito.

      Isso não ocorreu muito cedo a Gladia, que tinha eliminado imperfeitamente a tensão nascida da possibilidade de que um segundo supervisor - com outro intensificador - pudesse chegar sem aviso. O fato de que poderia ser uma morte rápida se tivesse acontecido, uma morte inesperada, não foi muito satisfatório. A tensão tinha estragado o que, de outra forma, teria sido uma exuberante chuveirada, juntamente com várias outras formas de renovação do conforto.

      Foi somente depois da partida real, depois da chegada do suave e distante zumbido dos jatos protônicos, que ela conseguiu se preparar para dormir. Estranho, pensou ela, enquanto a consciência começava a desaparecer, que o espaço pudesse parecer mais seguro que o mundo de sua juventude, que ela devesse partir de Solaria, da segunda vez com alívio ainda maior que da primeira.

      Solaria porém, não era mais o planeta da sua juventude. Era um mundo sem humanidade, protegido por paródias distorcidas de humanidade, robôs humanóides que eram uma triste zombaria do gentil Daneel e do pensador Giskard.

      Ela finalmente adormeceu - e enquanto dormia, Daneel e Giskard, montando guarda, puderam mais uma vez conversar.

      - Amigo Giskard - disse Daneel - estou convencido de que foi você Quem destruiu a supervisora.

      - Evidentemente, não havia escolha, amigo Daneel. Foi puramente um acidente que eu tenha chegado a tempo, pois meus sentidos estavam completamente ocupados com a procura de seres humanos, e não achei nenhum. E nem perceberia o significado dos acontecimentos se não fosse pela ira e desespero de Lady Gladia. Foi o que eu senti à distância e que me levou a correr até a cena - mal chegando a tempo. Nesse aspecto, Lady Gladia salvou a situação, pelo menos no que se refere à vida do comandante e à sua. Eu teria ainda salvo a nave, acredito, mesmo que tivesse chegado tarde demais para salvar você. - Fez uma pausa e acrescentou: - Eu teria achado muito insatisfatório, amigo Daneel, ter chegado tarde demais para salvá-lo.

      Daneel respondeu, com um tom de voz grave e formal:

      - Agradeço-lhe, amigo Giskard. Estou contente por você não ter-se deixado inibir pela aparência humana da supervisora. Isso diminuiu minhas reações, assim como a minha aparência enfraqueceu as dela.

      - Amigo Daneel, a aparência física da supervisora não teria significado nada para mim, porque eu estava ciente do padrão dos seus pensamentos. Esse padrão era tão limitado e tão totalmente diferente da completa extensão dos padrões humanos, que eu não sentia necessidade de fazer qualquer esforço para identificá-la de maneira positiva. A identificação negativa, como não-humana, estava tão nítida que agi imediatamente. Na verdade, só tive consciência da minha ação após tê-la executado.

      - Também pensei nisso, amigo Giskard, mas desejei uma confirmação para não entender mal. Devo concluir, então, que você não sentiu preocupação após ter matado o que era, na aparência, um ser humano?

      - Não, uma vez que era um robô.

      - Parece-me que, se eu tivesse conseguido destruí-lo, iria sentir obstrução do fluxo positrônico livre, não importa até onde tivesse compreendido tratar-se de um robô.

      - A aparência humanóide, amigo Daneel, não pode ser descartada quando esse é o único elemento de julgamento. Ver é muito mais imediato que deduzir. Foi somente por ter podido observar sua estrutura mental e me concentrado nisso que pude ignorar sua estrutura física.

      - Como você acha que a supervisora iria se sentir se tivesse nos matado, a julgar pela sua estrutura mental?

      - Ela tinha dado instruções muito firmes e não havia dúvidas em seus circuitos de que você e o comandante eram não-humanos, segundo sua definição.

      - Mas ela também poderia ter destruído Senhora Gladia.

      - Quanto a isso, não temos certeza, amigo Daneel.

      - Se ela tivesse feito isso, amigo Giskard, teria sobrevivido? Você teria como saber?

      Giskard ficou calado durante bastante tempo.

      - Eu não tive tempo suficiente para examinar o padrão mental. Não sei dizer qual teria sido sua reação se ela tivesse assassinado Lady Gladia.

      - Se eu me colocasse no lugar da supervisora - a voz de Daneel tremeu e baixou um tom - acharia que poderia matar um ser humano para salvar a vida de outro ser humano, que certamente haveria um motivo para pensar assim, que era mais necessário salvar. O ato, contudo, poderia ser difícil e danoso. Matar um ser humano apenas para destruir alguma coisa eu considero não-humano seria inconcebível.

      - Ela apenas ameaçou. Não cumpriu a ameaça.  Teria cumprido, amigo Giskard?

      - Como podemos saber, se não conhecemos a natureza de suas instruções?

      - Essas instruções teriam negado tão completamente a Primeira Lei? Giskard respondeu:

      - Estou vendo que seu objetivo nesta discussão foi fazer essa pergunta. Aconselho-o a não prosseguir.

      Daneel disse, teimosamente:

      - Vou colocá-la no condicional, amigo Giskard. Evidentemente, o que não pode ser externado como um fato pode ser proposto como fantasia. Se as instruções podem ser cercadas de definições e condições, se podem ser dadas com suficiência de detalhes, de uma forma bastante vigorosa, pode ser possível matar um ser humano por um objetivo menos irresistível que salvar a vida de outro ser humano?

      Giskard retrucou, em voz abafada:

      - Não sei, mas suspeito que seja possível.

      - Nesse caso, porém, se sua suspeita for correta, isso implicará que é possível neutralizar a Primeira Lei em condições determinadas. A Primeira Lei, nesta hipótese, e conseqüentemente, com certeza, as demais, podem ser modificadas até quase a não-existência. As Leis, inclusive a Primeira, podem, então, não ser absolutas, mas simplesmente o que robôs projetados determinem que sejam.

      - Chega, amigo Daneel. Vamos parar - disse Giskard.

      - Ainda há mais um passo, amigo Giskard - replicou Daneel. - O Colega Elijah o teria dado.

      - Ele era um ser humano. Podia fazê-lo.

      - Eu devo tentar. Se as Leis da Robótica - mesmo a Primeira - não são absolutas, e se humanos podem modificá-las, não será possível, talvez, sob condições adequadas, mod...

      Daneel parou.

      Giskard falou, com voz fraca:

      - Não prossiga.

      Daneel respondeu, uma leve hesitação obscurecendo sua voz:

      - Não prosseguirei.

      Um longo silêncio os envolveu. Foi com dificuldade que os circuitos positrônicos em cada um cessaram de divergir. Finalmente, Daneel disse:

      - Surge outro pensamento. A supervisora era perigosa não apenas Por causa das instruções que recebeu, mas devido à sua aparência. Ela me confundiu e provavelmente também ao comandante, e pôde confundir e enganar os seres humanos em geral, como enganei, sem querer, o oficial Niss. Ele claramente não percebeu, a princípio, que eu era um robô.

      - E daí, amigo Daneel?

      - Em Aurora foram construídos vários robôs humanóides no Instituto de Robótica, sob a direção do Dr. Amadiro, com desenhos preparados pelo Dr. Fastolfe.

      - Todos sabem disso.

      - O que aconteceu a esses robôs humanóides?

      - O projeto fracassou. Foi a vez de Daneel:

      - Todos sabem disso. Mas não responde à pergunta. O que aconteceu a esses robôs humanóides?

      - Supõe-se que tenham sido destruídos.

      - Essa suposição não precisa estar necessariamente correta. Teriam sido realmente destruídos?

      - Teria sido a coisa mais sensata a fazer. O que mais se podia fazer com um fracasso?

      - Só sabemos que os robôs humanóides foram um fracasso e que foram retirados de circulação?

      - E se não fossem, seria diferente?

      - E se não fossem, poderia haver outro motivo para serem retirados de circulação?

      - Não consigo pensar em nada, amigo Daneel.

      - Torne a pensar, amigo Giskard. Lembre, estamos falando agora de robôs humanóides que, não pensamos, podem, pelo simples fato da sua natureza humanóide, ser perigosos. Pareceu-nos, na nossa conversa anterior, que havia um plano em marcha em Aurora para derrotar os Colonizadores drástica, segura e definitivamente. Achamos que esses planos precisavam ser centrados no planeta Terra. Estou certo até agora?

      - Sim, amigo Daneel.

      - Então, não pode acontecer que o Dr. Amadiro seja o inspirador e o centro desse plano? Sua antipatia pela Terra ficou bem clara nestas vinte décadas. E se o Dr.

      Amadiro construiu numerosos robôs humanóides, para onde eles devem ter sido enviados, se desapareceram de circulação? Lembre-se que, se os roboticistas solarianos podem deformar as Três Leis, os Auroreanos também podem.

      - Está sugerindo, amigo Daneel, que os robôs humanóides foram mandados para a Terra?

      - Exatamente. Para enganar os Terráqueos com sua aparência humana e tornar possível o que quer que o Dr. Amadiro planeje como um golpe contra a Terra.

      - Você não tem prova disso.

      - Contudo, é possível. Examine o desenrolar da discussão.

      - Se for assim, teremos de ir à Terra. Teremos de estar lá e, de alguma forma, evitar o desastre.

      - Sim, é isso.

      - Mas não podemos ir, a menos que Lady Gladia vá e isso não é provável.

      - Se você puder influenciar o comandante a levar esta nave à Terra, senhora Gladia não teria outra escolha senão ir também.

      - Não posso fazer isso, sem causar-lhe mal - retrucou Giskard. - Ele está firmemente decidido a ir para o seu próprio planeta, Baleyworld. Devemos maquinar sua ida à Terra - se pudermos - depois de ele ter feito o que planeja em Baleyworld.

      - Então pode ser muito tarde.

      - Não posso fazer nada. Não devo fazer mal a um ser humano.

      - Se for muito tarde... Amigo Giskard, imagine o que isso significa.

      - Não posso levar isso em conta. Sei apenas que não posso causar dano a um ser humano.

      - Então a Primeira Lei não é suficiente e precisamos...

      Ele não pôde prosseguir e ambos mergulharam num silêncio desesperado.

     

      Baleyworld tornou-se pouco a pouco mais nítido à medida que a nave se aproximava. Gladia observou-o cuidadosamente pelo visor do seu camarote; era a primeira vez que ela via um planeta dos Colonizadores.

      Ela protestou contra esta etapa da viagem quando tomou conhecimento dela por D. G., mas acabou encolhendo os ombros, com um risinho.

      - Que quer, minha senhora? Preciso fazer chegar esta arma do seu povo - acentuou ligeiramente o "seu" - ao meu. E também fazer-lhe um relatório.

      Gladia comentou friamente:

      - O Conselho Auroreano lhe deu permissão para me levar a Solaria com a condição de me levar de volta.

      - Na verdade, não foi assim, minha senhora. Deve ter havido um acordo informal para isso, porém nada escrito. Nenhum acordo formal.

      - Um acordo informal me comprometeria - ou a qualquer indivíduo civilizado, D. G.

      - Estou certo disso, Senhora Gladia, mas nós, Mercadores, vivemos Para o dinheiro e por assinaturas postas em documentos legais. Eu jamais, sob nenhum pretexto, violaria um contrato escrito ou me recusaria a fazer alguma coisa pela qual tivesse recebido pagamento.

      Gladia ergueu o queixo.

      - Isso é uma insinuação de que preciso lhe pagar para ser levada de volta?

      - Senhora!

      - Vamos, vamos, D. G. Não gaste uma indignação fingida comigo. Se eu tiver de ficar prisioneira em seu planeta, diga logo e dê-me o motivo. Explique-me exatamente a situação.

      - A senhora não é minha prisioneira, nem será. Na realidade, honrarei esse acordo verbal. Levá-la-ei para casa - finalmente. Primeiro, porém, preciso ir a Baleyworld, e a senhora deve vir comigo.

      - Por que devo ir com o senhor?

      - Os habitantes do meu planeta querem vê-la. A senhora é a heroína de Solaria. A senhora nos salvou. Não pode privá-los da oportunidade de ficarem roucos saudando-a.

      Além disso, a senhora foi a amiga querida do Antepassado.

      - O que sabem eles - ou pensam que sabem - a esse respeito? - perguntou Gladia, asperamente.

      D. G. riu.

      - Nada que a desacredite, garanto-lhe. A senhora é uma lenda, e lendas são mais extensas que a vida; embora eu confesse que seria fácil para uma lenda ser mais extensa que a senhora - e muito mais nobre. Ordinariamente, não a quero no planeta porque a senhora não pode sobreviver à lenda. Não é bastante alta, suficientemente bela, nem majestosa. Mas quando a história de Solaria veio à tona, a senhora adquiriu subitamente todos os requisitos citados. Na verdade, eles podem não querer deixá-la partir. Deve lembrar-se de que estamos falando de Baleyworld, o planeta onde a história do Antepassado é levada mais a sério que em qualquer outro - e a senhora é parte dessa história.

      - O senhor não está usando isso como pretexto para me manter presa, está?

      - Asseguro-lhe que não. E lhe garanto que a levarei para casa - quando puder. Quando puder.

      Gladia não ficou tão indignada quanto sentiu que tinha o direito de estar. Ela não queria ver como era um planeta dos Colonizadores, e, afinal de contas, este era o mundo peculiar de Elijah Baley. Seu filho o fundara. Ele próprio tinha passado suas últimas décadas ali. Em Baleyworld, deveriam existir remanescentes dele – o nome do planeta, seus descendentes, sua lenda.

      Portanto, ficou observando o planeta - e pensando em Elijah.

      A observação forneceu-lhe pouco e ela sentiu-se desapontada. Não havia muito para ser visto entre as camadas de nuvens que cobriam o planeta. Na sua experiência relativamente pequena como viajante espacial, pareceu-lhe que as camadas de nuvens eram mais espessas que o habitual em planetas habitados. Deveriam pousar dentro de poucas horas, agora, e...

      O sinal luminoso acendeu-se e Gladia arrastou-se para apertar o botão PARE em resposta. Mais uns instantes e ela apertou o botão ENTRE.

      D. G. entrou, sorrindo.

      - Cheguei num momento inconveniente, minha senhora?

      - Na verdade, não - replicou Gladia. - Só preciso calçar as luvas e colocar meus filtros de nariz. Suponho que devia usá-los o tempo todo, mas se tornam cansativos quando, por algum motivo, me sinto menos preocupada com a infecção.

      - A familiaridade alimenta o desprezo, minha senhora.

      - Não vamos chamá-lo assim - respondeu Gladia, que também sorriu.

      - Obrigado - disse D. G. - Vamos pousar logo, senhora, e eu lhe trouxe um macacão, cuidadosamente esterilizado e encerrado neste saco plástico de maneira a não ser tocado por mãos de Colonizadores. É simples vesti-lo. Não sentirá incômodo e verá que ele cobre tudo, menos o nariz e os olhos.

      - Apenas para mim, D. G.?

      - Não, não, minha senhora. Todos usamos coisas assim quando no exterior, nesta época do ano. É inverno na nossa capital atualmente e faz frio. Habitamos um planeta bastante frio - pesadamente coberto de nuvens, com muita precipitação e neve freqüente.

      - Mesmo nas regiões tropicais?

      - Não. Lá a tendência é para o clima quente e seco. Contudo, a população se concentra nas regiões mais frias. Nós as preferimos. É fortificante e estimulante. Os mares, povoados de espécies de vida Terráqueas, são férteis e por isso os peixes e outros animais multiplicaram-se abundantemente. Não há, por conseqüência, escassez de alimentos, apesar do solo agriculturável ser limitado, o que nos impedirá de sermos o celeiro da Galáxia. Os verões são curtos porém muito quentes, e as praias, nessa época, ficam apinhadas, embora a senhora possa achar seus freqüentadores desinteressantes, visto termos um forte tabu contra a nudez.

      - Parece-me uma estação singular.

      - Uma questão de distribuição solo-mar, uma órbita planetária ligeiramente mais excêntrica que a maioria de poucas coisas mais. Francamente, não me preocupo com isso. - Encolheu os ombros. - Não é meu campo de interesse.

      - O senhor é Mercador. Imagino que não fica muito tempo no planeta.

      - É verdade, mas não sou Mercador para fugir. Gosto daqui. Contudo, talvez gostasse menos se permanecesse aqui mais tempo. Sob esse Ponto de vista, as condições duras de Baleyworld servem a um importante objetivo. Encorajam o comércio. Baleyworld produz homens que percorrem os mares à procura de alimentos, e há uma certa semelhança entre navegar pelos oceanos e pelo espaço. Ouso dizer que um terço de todos os Mercadores singrando as rotas do espaço é nativo de Baleyworld.

      - O senhor me parece estar num estado semimaníaco, D. G. - confessou Gladia.

      - Pareço? Estou me considerando neste instante como de muito bom humor. E tenho motivo para isso. E a senhora também.

      - Eu tenho?

      - É evidente, não acha? Deixamos Solaria vivos. Sabemos exatamente o que é o perigo Solariano. Nos apossamos de uma arma estranha, que pode interessar nossos militares. E a senhora se tornará a heroína de Baleyworld. O mundo oficial já conhece o resumo dos acontecimentos e está ansioso para homenageá-la. Por esse motivo, a senhora é a heroína desta nave. Quase todos os homens a bordo ofereceram-se para vir lhe entregar o macacão. Estão todos ansiosos para se aproximar e se banhar em sua aura, por assim dizer.

      - Uma grande mudança - comentou Gladia, secamente.

      - Completa. Niss, o tripulante a quem seu Daneel castigou...

      - Estou bem lembrada, D. G.

      - Está ansioso para se desculpar com a senhora. E trazer seus quatro companheiros, que também querem pedir desculpas. E surrar, em sua presença, o que fez uma sugestão imprópria. Ele não é uma pessoa má, minha senhora.

      - Tenho certeza que não. Garanta-lhe que está perdoado e o incidente esquecido. E se o senhor quiser se dar ao trabalho, eu gostaria... gostaria de lhe apertar a mão e talvez as de alguns outros antes de desembarcar. Mas o senhor não deve deixá-los aglomerar-se à minha volta.

      - Compreendo, mas não posso garantir que não haja uma certa aglomeração na cidade de Baley, capital de Baleyworld. Não há como impedir que vários funcionários governamentais tentem obter vantagens políticas sendo vistos ao seu lado, enquanto riem e se curvam para todos.

      - Jehoshaphat! Como diria seu Antepassado.

      - Não repita isso quando estiver no solo, senhora. É uma expressão reservada para ele. É considerado de mau gosto alguém mais dizê-la. Haverá discursos, vivas e toda espécie de formalidades menores. Desculpe, minha senhora.

      Ela replicou, pensativa:

      - Posso agüentar, mas suponho que não há como pará-los.

      - Não há, minha senhora.

      - Vai demorar quanto tempo?

      - Até cansarem. Vários dias, talvez, mas haverá uma certa variedade.

      - E quanto tempo deveremos permanecer no planeta?

      - Até eu me cansar. Desculpe, minha senhora, mas tenho muito o que fazer. Lugares a ir, amigos para ver.

      - Mulheres com quem fazer amor.

      - Ai de mim, a fragilidade humana - disse D. G. com uma ampla risada.

      - O senhor está a ponto de se babar.

      - Uma fraqueza. Não posso evitar. Gladia riu.

      - O senhor não é inteiramente são, é?

      - Nunca afirmei ser. Mas, deixando isso de lado, devo também levar em conta esses assuntos aborrecidos, como o fato de meus oficiais e tripulação quererem ver suas famílias e amigos, recuperar o sono e ter algum divertimento planetário. E a senhora deve levar em conta os sentimentos dos objetos inanimados - a nave deve ser consertada, lustrada, renovada e reabastecida. Coisinhas assim.

      - Quanto tempo vão levar essas coisinhas?

      - Podem levar meses. Quem sabe?

      - E o que devo fazer enquanto isso?

      - Pode visitar nosso planeta, ampliar seus horizontes.

      - Mas seu planeta não é exatamente o paraíso da Galáxia.

      - É verdade, mas procuraremos mantê-la interessada. - Olhou o relógio. - Mais um aviso, senhora. Não diga sua idade.

      - Porquê?

      - Essa alusão pode aparecer numa referência casual. Todos esperam que diga algumas palavras e a senhora pode querer atendê-los. Por exemplo: "Em mais de minhas vinte e três décadas de vida, nunca fiquei tão contente por ver alguém como estou ao ver os habitantes de Baleyworld." Se a senhora for tentada a dizer de saída alguma coisa assim, resista.

      - Seguirei seu conselho. Não tenho intenção de me abandonar a hipérboles em hipótese alguma. Mas, apenas por curiosidade, por que isso?

      - Simplesmente porque é melhor para eles não saber sua idade.

      - Mas eles sabem minha idade, não sabem? Sabem que fui amiga do seu Antepassado e sabem em que época ele viveu. Ou estarão sob a impressão - Gladia olhou-o de soslaio - de que sou uma descendente distante daquela Gladia?

      - Não, não, eles sabem quem a senhora é e que idade tem, mas apenas intelectualmente - bateu na testa. - Pouca gente tem cabeças pensantes, como deve ter notado.

      - Sim, notei. Em Aurora é a mesma coisa.

      - Ótimo. Não gostaria que os Colonizadores fossem especiais a este respeito. Bem, então a senhora tem a aparência de - fez uma pausa, avaliando - quarenta, talvez quarenta e cinco, e eles a aceitarão assim em suas tripas, que é onde se coloca a média do mecanismo pensante das pessoas. Se a senhora não atrapalhar as coisas.

      - Isso faz realmente alguma diferença?

      - Se faz? Olhe, o Colonizador médio realmente não quer robôs. Não gosta deles, não os deseja. Nisso ficamos felizes por diferirmos dos Espaciais. Vida longa é diferente. Quarenta décadas é consideravelmente mais que dez.

      - Poucos de nós, realmente, atingem a marca de quarenta décadas.

      - E poucos de nós a de dez décadas. Nós ensinamos a vantagem da vida curta - qualidade contra quantidade, rapidez evolutiva, mundo sempre em mudança - porém nada realmente faz o povo feliz por viver dez décadas quando ele imagina que pode viver quarenta. Eles não vêem Espaciais com muita freqüência, como pode imaginar, e por isso não têm ocasião de ranger os dentes pelo fato de os Espaciais parecerem moços e vigorosos mesmo quando são duas vezes mais idosos que o Colonizador mais velho que conhecem. Eles vêem isso na senhora, e se pensarem a respeito, ficarão inseguros.

      Gladia comentou, amargamente:

      - O senhor gostaria que eu fizesse um discurso e dissesse a eles exatamente o que significam quarenta décadas? Devo contar-lhes durante quantos anos alguém sobrevive à primavera da esperança, para não falar de amigos e conhecidos? Devo expor-lhes a pouca importância de filhos e família, as trocas infindáveis de maridos, uns após outros, falar-lhes da mistura nebulosa de relações e informações, da fase em que já se viu e ouviu tudo o que se queria ver e ouvir, em que se descobre ser impossível ter um pensamento novo, em que se esquece o que há de excitação e descoberta à volta, em que se aprende a cada ano como o enfado pode chegar a ser cada vez mais intenso?

      - Os Baleyanos não acreditariam nisso. Eu mesmo talvez não acreditasse. É essa a forma de sentir de todos os Espaciais ou a senhora está inventando?

      - Apenas sei como me sinto, mas observei outros se tornarem sombrios ao envelhecerem, vi seu ânimo azedar, suas ambições diminuírem e sua indiferença crescer.

      Os lábios de D. G. contraíram-se e ele ficou mais sombrio.

      - A taxa de suicídio é muito alta entre os Espaciais? Nunca ouvi dizer que fosse.

      - É virtualmente zero.

      - Mas isso não combina com o que a senhora está dizendo.

      - Veja bem! Vivemos cercados de robôs, dedicados a nos conservar vivos. Não há meios de nos matarmos, com nossos atentos e ativos robôs sempre em torno de nós. Duvido que qualquer de nós chegue sequer a tentar. Eu, por exemplo, nem sonharia com isso, quando menos porque não posso suportar a idéia do que isso iria causar a todos os meus robôs domésticos, em especial Daneel e Giskard.

      - A senhora sabe que eles não estão realmente vivos. Eles não têm sentimentos.

      Gladia sacudiu a cabeça.

      - O senhor diz isso porque nunca viveu com eles. Em todo caso, acho que o senhor superestima a ânsia pela vida prolongada entre sua gente. O senhor conhece minha idade, vê minha aparência e contudo isso não o afeta.

      - Porque estou convencido de que os planetas Espaciais é que vão degenerar e morrer, que os planetas dos Colonizadores é que são a esperança da humanidade futura, e que a nossa característica vida curta é que garante isso. Ouvindo o que a senhora acaba de dizer, considerando que seja tudo verdade, ainda fico mais certo disso.

      - Não seja tão confiante. O senhor terá de desenvolver seus próprios problemas insuperáveis - se já não os têm.

      - Isso é indubitavelmente possível, minha senhora, mas agora preciso deixá-la. A nave está se preparando para pousar e eu preciso estar atento ao computador que comanda o pouso ou ninguém acreditará que sou o comandante.

      D. G. retirou-se e ela permaneceu numa sombria meditação durante algum tempo, os dedos puxando o plástico que encerrava o macacão.

      Ela havia chegado a uma sensação de equilíbrio em Aurora, um meio de permitir que a vida transcorresse tranqüilamente. Isso ocorrera refeição por refeição, dia a dia, estação por estação, e o silêncio a tinha quase isolado da tediosa espera pela única aventura que restara, a derradeira, a da morte.

      E agora ela viera a Solaria e tinha despertado as recordações de uma infância há muito decorrida, num mundo que já não existia, de forma que o silêncio tinha sido estilhaçado - talvez para sempre - e por isso ela agora jazia descoberta e nua para horror da vida que prosseguia.

      O que poderia substituir o silêncio desaparecido?

      Ela percebeu o brilho diminuto dos olhos de Giskard pregados nela e disse:

      - Ajude-me, Giskard.

      Fazia frio. O céu estava cinzento, nublado, e o ar luzia com uma leve precipitação de neve. Flocos de neve rodopiavam na brisa fresca e caíam além, no campo de pouso que Gladia podia ver, formando distantes montes brancos.

      Havia uma multidão amontoada aqui e ali, retida por barreiras para não se aproximar muito. Todos usavam macacões de diferentes modelos e cores, e externamente todos pareciam balões, tornando-se humanos numa Multidão de objetos informes com olhos. Alguns estavam usando visores Que brilhavam, transparentes, em seus rostos.

      Gladia encostou a mão enluvada no rosto. com exceção do nariz, sentia-se bastante aquecida. O macacão fazia mais que isolar; parecia irradiar calor por si mesmo.

      Gladia olhou para trás. Daneel e Giskard estavam ao alcance, cada um vestindo seu macacão.

      A princípio, ela havia protestado.

      - Eles não precisam de macacões. Não são sensíveis ao frio.

      - Sei disso - replicou D. G. - mas a senhora disse que não vai a lugar algum sem eles, e não podemos justificar a presença de Daneel sentado aí, exposto ao frio. Seria antinatural. Tampouco desejamos despertar hostilidade, deixando claro que a senhora tem robôs.

      - Eles precisam saber que trago robôs comigo, e o rosto de Giskard não deixa margem a dúvidas - mesmo num macacão.

      - Eles podem saber - replicou D. G. - mas há a possibilidade de não pensarem nisso se a tal não forem forçados; portanto, não vamos forçá-los.

      Agora D. G. a estava levando para um carro terrestre, que tinha teto e lados transparentes.

      - Todos querem vê-la enquanto nos locomovemos, minha senhora - disse D. G., sorrindo.

      Gladia sentou-se num lado e D. G. no outro.

      - Sou o co-herói - disse ele.

      - O senhor dá importância a isso?

      - Ah, dou. Isso significa uma gratificação para minha tripulação e uma possível promoção para mim. Não é de se desprezar.

      Daneel e Giskard também entraram e se instalaram de frente para os dois humanos. Daneel defronte de Gladia, e Giskard defronte de D. G.

      Havia um carro terrestre à frente deles, sem transparência, e uma fila de cerca de doze atrás. Ouviu-se o barulho de saudações e uma floresta de braços balançando, da multidão reunida. D. G. sorriu, ergueu um braço em resposta e instigou Gladia a fazer o mesmo. Ela o acompanhou de uma forma indiferente. Dentro do carro estava quente, e seu nariz tinha perdido a dormência.

      - Estas janelas têm um brilho bastante incômodo - disse ela. - Isso não pode ser eliminado?

      - Sem dúvida, mas não será feito - replicou D. G. - Este é o melhor campo de força que pudemos instalar, sem causar transtorno. Lá fora há um povo entusiasta, que foi devidamente examinado, mas alguém pode ter conseguido ocultar uma arma, e não queremos que a senhora seja ferida.

      - O senhor acha que alguém pode querer me matar?

      (Os olhos de Daneel estavam calmamente perscrutando a multidão num dos lados do carro, enquanto Giskard vigiava o outro.)

      - É muito improvável, minha senhora, mas a senhora é uma Espacial e os Colonizadores não gostam de Espaciais. Alguns podem odiá-los de maneira violenta, o bastante para ver na senhora uma Espacial e nada mais. Mas não se preocupe. Mesmo que alguém tentasse - o que, como eu disse, é improvável - não conseguiria.

      A fila de carros começou a se mover, ao mesmo tempo e muito suavemente.

      Gladia soergueu-se, meio espantada. O assento da frente estava vazio.

      - Quem está dirigindo? - perguntou.

      - Os carros são totalmente computadorizados - replicou D. G. - Os carros Espaciais não são?

      - Temos robôs para dirigi-los.

      D. G. continuou abanando a mão e Gladia o seguiu mecanicamente.

      - Nós não temos - disse ele.

      - Mas um computador é basicamente a mesma coisa.

      - O computador não é humanóide e não chama a atenção. Por mais semelhança tecnológica que possa haver, são mundos à parte, psicologicamente.

      Gladia olhou os arredores e achou-os opressivamente estéreis. Mesmo dando o desconto do inverno, havia desolação nas moitas desfolhadas espalhadas e nas árvores escassamente distribuídas, cuja aparência raquítica e deprimente acentuava a morte que parecia envolver tudo.

      D. G., notando a depressão de Gladia e ligando-a aos olhares lançados por ela aqui e ali, disse:

      - A aparência agora não é boa, minha senhora. No verão, porém, não é má. Há planícies gramadas, pomares, campos de cereais...

      - Florestas?

      - Abundantes, não. Ainda somos um mundo em crescimento. Ainda estão sendo moldadas. Na verdade temos apenas pouco mais de um século e meio. O primeiro passo foi cultivar pedaços de terra para os primeiros Colonizadores, usando sementes importadas. Depois, colocamos peixes e invertebrados de todos os tipos no oceano, num esforço máximo para obter uma ecologia auto-sustentável. Isso é muito fácil se a química oceânica é adequada. Se não for, então o planeta não é habitável sem uma extensa modificação química, e isso na realidade nunca foi tentado, apesar de existirem todas as espécies de plantas para isso. Finalmente, fizemos experiências no sentido de criar condições para que o solo produza, o que é sempre difícil, sempre demorado.

      - Os planetas dos Colonizadores seguiram invariavelmente esse caminho?

      - Estão seguindo. Nenhum está realmente terminado. Baleyworld é o mais velho e ainda não está pronto. com mais uns dois séculos, os planetas dos Colonizadores serão ricos e cheios de vida - tanto o solo como o mar - ainda que nessa época haja planetas ainda mais novos que estarão construindo seu caminho em vários estágios preliminares. Estou certo de que os planetas Espaciais fizeram o mesmo.

      - Muitos séculos atrás - e mais depressa, acho eu. Temos robôs para ajudar.

        - Daremos um jeito - retrucou D. G., conciso.

      - E quanto à vida nativa - as plantas e animais que evoluíram no planeta antes dos humanos chegarem?

      D. G. encolheu os ombros.

      - Não significam muito. Coisas pequenas e frágeis. Claro, os cientistas estão interessados, e por isso a vida nativa ainda existe, especialmente a aquosa, a botânica e a zoológica. Ainda há lençóis d'água e consideráveis tratos de terra que não foram transformados. A vida nativa continua a florir neles, em estado selvagem.

      - Mas essas terras serão, finalmente, todas transformadas.

      - Esperamos que sim.

      - Não acha que o planeta realmente pertence a essas coisas pequenas, insignificantes e frágeis?

      - Não. Não sou sentimental a esse ponto. O planeta e todo o universo pertence à inteligência. Os Espaciais concordam com isto. Onde está a vida nativa de Solaria? Ou de Aurora?

      A fila de carros, que tinha saído sinuosamente do espaçoporto, agora chegou a uma área plana, calçada, onde vários prédios baixos e abobadados se destacavam.

      - Capital Plaza - disse D. G., em voz baixa. - Aqui se situa o centro nervoso do planeta. Os escritórios governamentais estão localizados nesta área, o Congresso Planetário reúne-se aqui, a Mansão Executiva ergue-se neste local e assim por diante.

      - Desculpe, D. G., mas não é muito impressionante. São prédios pequenos e desinteressantes.

      D. G. sorriu.

      - A senhora está vendo apenas um ocasional ponto mais alto, minha senhora. Os edifícios propriamente ditos estão no subsolo - todos interligados. Realmente, é um único conjunto e continua crescendo. É uma cidade completa, auto-suficiente. Ela e as áreas residenciais ao redor constituem Baleytown.

      - Os senhores planejam manter tudo, finalmente, subterrâneo? A cidade inteira? O planeta todo?

      - Sim, muitos de nós pensam num mundo subterrâneo.

      - Ouvi dizer que eles têm Cidades na Terra.

      - De fato, têm, minha senhora. As chamadas Cavernas de Aço.

      - Então elas são imitadas aqui?

      - Não é uma simples imitação. Acrescentamos nossas idéias e... Vamos chegar a uma parada, minha senhora, e a qualquer momento nos pedirão para descer. Se eu fosse a senhora, prenderia as aberturas do macacão. O vento sibilante de Plaza no inverno é lendário.

      Gladia obedeceu, um tanto indecisa quando tentou juntar as beiras das aberturas.

      - O senhor diz que não é uma simples imitação.

      - Não é. Construímos nossos subterrâneos levando em conta o tempo- Uma vez que ele é, no seu todo, mais severo que o da Terra, torna-se necessária uma modificação na arquitetura. Construindo-se adequadamente, quase não se precisa de energia para manter o conjunto calorífico no inverno e o frescor no verão. De certa maneira, na verdade, conservamos o calor no inverno, em parte, com a tepidez armazenada no verão anterior, e o frescor do verão com a frialdade do inverno anterior.

      - E a ventilação?

      - Esta consome parte de nossas economias, mas não todas. Funciona, minha senhora, e um dia igualaremos os edifícios da Terra. Claro, a nossa máxima ambição é fazer de Baleyworld um reflexo da Terra.

      - Eu nunca soube que a Terra fosse tão admirável a ponto de se tornar motivo de inspiração - replicou Gladia alegremente.

      D. G. fixou um olhar áspero nela.

      - Minha senhora, não faça piadas iguais a essa enquanto estiver entre Colonizadores - nem mesmo comigo. A Terra não é matéria de piadas.

      - Desculpe, D. G. Eu não pretendi ser descortês.

      - A senhora não sabia. Mas agora sabe. Venha, vamos sair.

      A porta lateral do carro deslizou silenciosamente e D. G. girou no banco para sair. Depois estendeu a mão para ajudar Gladia e disse:

      - A senhora vai falar ao Congresso Planetário, e todo funcionário governamental fará tudo que puder para estar presente.

      Gladia, que tinha estendido a mão para pegar a de D. G. e que já havia sentido - penosamente - o vento frio no rosto, encolheu-se subitamente.

      - Preciso fazer um discurso? Ninguém me informou. D. G. ficou surpreso.

      - Pareceu-me, no entanto, que a senhora devia esperar por isso.

      - Ora, pois não esperei. E não posso fazer um discurso. Nunca fiz tal coisa.

      - A senhora precisa. Não há nada de tão terrível. Basta dizer umas poucas palavras, após alguns longos e maçantes discursos de boas-vindas.

      - Mas que poderei dizer?

      - Nada espetacular, asseguro-lhe. Apenas paz e amor e blablablá - basta meio minuto. Se a senhora quiser, rabiscarei algumas palavras.

      E Gladia saiu do carro, acompanhada por seus robôs. Sua cabeça rodopiava.

     

      O Discurso

      Tão logo entraram no edifício, retiraram os macacões e os entregaram aos criados. Daneel e Giskard também despiram os seus; os criados lançaram olhares penetrantes ao último, aproximando-se dele devagar.

      Gladia ajustou nervosamente seus filtros nas narinas. Jamais estivera na presença de grandes multidões de seres humanos de vida curta - vida curta derivados em parte,

      sabia (ou sempre lhe fora dito), do fato de levarem em seus corpos infecções crônicas e montes de

      parasitas.

      - Terei de volta meu próprio macacão? - gemeu ela.

      - A senhora não vestirá o de outra pessoa - replicou D. G. - Ele ficará guardado e radioesterilizado.

      Gladia parecia muito cautelosa. Dava a impressão de sentir que mesmo o contato óptico podia ser perigoso.

      - Quem são essas pessoas?

      Apontou para várias pessoas que usavam roupas vivamente coloridas e estavam evidentemente armadas.

      - Guardas de segurança, senhora - respondeu D. G.

      - Mesmo aqui? Num prédio do governo?

      - Sim, certamente. E quando estivermos na plataforma, haverá a proteção de uma guarda de campo, separando-nos do auditório.

      - Os senhores não confiam em seus próprios legisladores? D. G. esboçou um sorriso.

      - Completamente, não. Este é um planeta ainda primitivo e seguimos nossos próprios caminhos. Ainda não aparamos todas as arestas e não temos robôs velando por nós.  Além disso, temos também partidos minoritários militantes; temos nossos falcões de guerra.

      - Que são falcões de guerra?

      A maior parte dos habitantes do planeta tinha, agora, despido os macacões e estava se servindo de bebidas. Havia um zumbido de conversa no  ar e muita gente olhava para Gladia, mas ninguém se aproximou para falar com ela. De fato, ficou claro para Gladia que havia um círculo de vazio à sua volta. D.  G.  reparou seu olhar em torno e interpretou-o corretamente.

      - Eles foram avisados - falou - de que a senhora gostaria de um pouco de espaço. Acho que compreenderam seu medo de infecções.

      - Espero que eles não considerem isso como um insulto.

      - Talvez considerem, mas a senhora tem uma coisa que é nitidamente um robô ao seu lado, e a maior parte dos habitantes não quer essa espécie de infecção. Especialmente os falcões de guerra.

      - O senhor ainda não me disse quem são eles.

      - Direi quando houver ocasião. A senhora, eu e outros na plataforma vamos ter de andar dentro em pouco. A maioria dos colonizadores pensa que, com o tempo, a Galáxia  será deles, que os Espaciais não poderão nem quererão competir vitoriosamente na corrida pela expansão. Também sabemos que isso leva tempo. Não iremos ver, nem provavelmente  os nossos filhos. Pode levar um milênio, segundo pensamos. Os falcões de guerra não querem esperar. Querem resolver o caso já.

      - Eles querem guerra!

      - Não dizem explicitamente e não se chamam falcões de guerra. Nós, gente sensata, é que os chamamos assim. Eles se denominam Dominadores da Terra. Mas é difícil  discutir com gente que anuncia ser a favor da supremacia da Terra. Todos nós também somos, porém a maioria de nós não espera necessariamente que isso aconteça amanhã  e não ficará violentamente obcecada se isso não acontecer.

      - E esses falcões de guerra podem me atacar? Fisicamente? D. G. fez-lhe sinal para andar.

      - Acho que devemos começar a nos mover, senhora. Estão nos colocando em fila. Não, não creio que a senhora vá ser realmente atacada, porém é sempre melhor ser precavido.

      Gladia imobilizou-se quando D. G. indicou seu lugar na fila.

      - Não sem Daneel e Giskard, D. G. Continuo sem ir a lugar algum sem eles. Nem mesmo aqui, na plataforma. Principalmente depois do que o senhor acaba de me contar  sobre os falcões de guerra.

      - A senhora está pedindo muito, minha senhora.

      - Ao contrário, D. G., não estou pedindo nada. Leve-me de volta para casa imediatamente - com meus robôs.

      Gladia ficou olhando, tensa, enquanto D. G. se aproximava de um pequeno grupo de funcionários. Ele se curvou ligeiramente, com os braços estendidos para baixo em  diagonal. Era o que Gladia desconfiou fosse um gesto de respeito em Baleyworld.

      Não ouviu o que D. G. estava dizendo, mas uma fantasia dolorosa e verdadeiramente involuntária povoou sua imaginação. Se houvesse qualquer tentativa de separá-la  dos seus robôs contra sua vontade, Daneel e Giskard fariam o que pudessem para evitar. Agiriam rápida e    precisamente para realmente ferir alguém - mas os guardas de segurança usariam suas armas imediatamente.

      Ela precisava evitar isso a todo custo - fingir que estava se separando voluntariamente deles e pedir-lhes que esperassem por ela. Como poderia fazer isso? Em toda a sua vida, nunca ficara inteiramente sem robôs. Como poderia sentir-se a salvo sem eles? Contudo, que outro meio havia para sair do dilema?

      D. G. voltou.

      - Sua condição de heroína, minha senhora, é uma útil moeda de troca. E, claro, sou um sujeito muito persuasivo. Seus robôs podem ir com a senhora. Tomarão lugar na plataforma atrás da senhora, mas não haverá refletores sobre eles. E, por amor ao Antepassado, minha senhora, não chame a atenção para eles. Nem mesmo os olhe.

      Gladia suspirou, aliviada.

      - O senhor é uma boa pessoa, D. G. - disse ela, trêmula. - Obrigada.

      Gladia ocupou seu lugar próximo à ponta da fila, com D. G. à sua esquerda, Daneel e Giskard às suas costas, e, atrás deles, uma longa cauda de funcionários de ambos  os sexos.  Uma Colonizadora, carregando um bastão que parecia ser um símbolo do seu cargo, depois de ter examinado atentamente a fila, balançou a cabeça e avançou para a ponta,  começando então a andar. Todos a acompanharam.

      Gladia começou a perceber música à frente num simples e um tanto  repetitivo andamento de marcha, e imaginou se esperavam que ela andasse de forma coreográfica. (Os costumes variavam infinita e irracionalmente de planeta para planeta,  disse para si mesma.)

      Olhando de soslaio, reparou D. G. andando em passo lento para a frente, de maneira indiferente. Estava quase desleixado. Ela franziu os lábios desaprovadoramente  e caminhou ritmicamente, a cabeça erguida, a espinha retesada. Na falta de direção, estava andando como queria.

      Chegaram a um palco, e assim que entraram nele, cadeiras surgiram suavemente de nichos no chão. A fila desfez-se, porém D. G. pegou sua manga e ela o acompanhou.

      Os dois robôs a seguiram.

      Gladia parou diante da cadeira que D. G. apontava silenciosamente. A música cresceu de intensidade, porém a luz não era tão brilhante quanto vinha sendo. Depois, após o que pareceu uma espera interminável, ela sentiu D. G. pressionando-a levemente para baixo, Gladia sentou-se, seguida por todos.

      Ela sentiu o leve tremor da cortina de campo de força e, além dele, uma  platéia de vários milhares de pessoas. Cada cadeira estava ocupada num anfiteatro que subia em degraus. Estavam todos vestidos com cores sóbrias, castanhas e pretas,  ambos os sexos iguais (na medida em que pôde distingui-los). Os guardas de segurança nos corredores estavam firmes em seus  uniformes verdes e vermelhos. Sem dúvida, eram imediatamente identificados. (Embora, pensou Gladia, isso fizesse deles um alvo imediato.) Ela virou-se para D. G.  e disse, em voz baixa:

      - Seu povo tem um legislativo enorme. D. G. encolheu levemente os ombros.

      - Suponho que todos no aparelho governamental estão presentes, com amigos e convidados. Uma homenagem à sua popularidade, minha  senhora.

      Ela lançou um olhar sobre a platéia, da direita para a esquerda e para  trás, no extremo do arco, para captar uma visão, de soslaio, de Daneel ou de Giskard - apenas para ter certeza de que estavam lá. E então pensou, com rebeldia, que  nada aconteceria se desse um rápido olhar e deliberadamente virou a cabeça. Eles estavam lá. Ela também percebeu os olhos de D. G. erguidos para o céu em desespero.

      Ela saltou subitamente quando a luz de um refletor caiu sobre uma das pessoas no palco, enquanto o resto do espaço diminuiu para uma sombra irreal.

      O vulto enfocado levantou-se e começou a falar. Sua voz não estava  excessivamente alta, mas Gladia pôde ouvir uma leve reverberação nas paredes distantes. Devia penetrar em cada recanto do amplo salão, pensou Gladia. Seria uma forma  de ampliação com um instrumento tão disfarçável que ela não via ou era uma forma particularmente inteligente de acústica do salão? Ela não sabia, porém encorajou  sua confusa especulação a continuar, pois isso a aliviava, por algum tempo, da necessidade de ter que ouvir o que estava sendo dito.

      Em certo ponto, ela ouviu um suave grito de "Quakenbush", vindo de um ponto indeterminado da platéia. Se não fosse pela perfeição da acústica (se de fato era isso), provavelmente teria passado despercebido.

      A palavra nada significava para ela, mas, a julgar pelo suave e breve frouxo de riso que varreu a platéia, ela desconfiou que se tratava de uma grosseria. O som extinguiu-se quase imediatamente e Gladia ficou um tanto admirada pelo profundo silêncio que se seguiu.

      Se a sala fosse tão perfeitamente acústica que todo som pudesse ser ouvido, a platéia talvez tivesse de ficar silenciosa, ou o barulho e a confusão seriam intoleráveis.

      Então, uma vez o hábito do silêncio se houvesse estabelecido e o ruído da platéia se tornasse um tabu, só o silêncio teria se tornado impensável. - Exceto onde o impulso de murmurar "Quakenbush" se tornasse irresistível, supôs Gladia.

      Ela percebeu que seu pensamento estava se tornando confuso e seus  olhos estavam se fechando. Sacudiu-se e empertigou-se na cadeira. Os habitantes do planeta  estavam querendo homenageá-la; se caísse no sono durante a  solenidade, isso certamente seria um insulto intolerável. Forçou-se a ouvir, para se manter acordada,  porém aquilo pareceu torná-la ainda mais sonolenta. Mordeu as bochechas e respirou profundamente.

      Discursaram três funcionários, um após o outro, felizmente com alguma brevidade, e depois Gladia sacudiu-se, completamente acordada (Teria realmente cochilado, apesar  dos seus esforços - com milhares de pares de olhos fixados nela?), quando o refletor iluminou um ponto à sua esquerda e D. G. levantou-se para falar, defronte de  sua cadeira.

      O rapaz parecia inteiramente à vontade, com os polegares metidos no cinto.

      - Homens e mulheres de Baleyworld - começou. - Funcionários, legisladores, ilustres chefes e amigos habitantes do planeta, todos ouviram sobre o que aconteceu em  Solaria. Sabem que tivemos um sucesso total. Sabem que Lady Gladia de Aurora contribuiu para esse sucesso. Está na hora, portanto, de fornecer-lhes alguns detalhes  e ao resto dos habitantes do planeta, que estão vendo pela hipervisão.

      Ele passou a descrever os acontecimentos de forma alterada e Gladia ficou friamente divertida com a natureza das modificações. Mencionou por alto seu próprio contratempo  nas mãos de um robô humanóide. Giskard não foi citado, sendo o papel de Daneel minimizado, ao passo que o de Gladia foi muito aumentado. O incidente transformou-se  num duelo entre duas mulheres - Gladia e Landaree - e foram a coragem e o senso de autoridade de Gladia que saíram vitoriosos. Encerrando, D. G. disse:

      - E agora, Lady Gladia, Solariana de nascimento, Auroreana por cidadania, mas Baleyworldiana pela coragem - houve um formidável aplauso final, o mais altissonante  que Gladia já tinha ouvido, pois os oradores anteriores tinham sido recebidos discretamente.

      D. G. ergueu os braços, pedindo silêncio, sendo imediatamente atendido. Então concluiu:

      - ... que vai falar aos senhores.

      Gladia sentiu o refletor sobre si e virou-se para D. G., num pânico súbito. Seus ouvidos encheram-se de aplausos, e também D. G. estava batendo palmas. Aproveitando  a oportunidade, ele se curvou para ela e sussurrou:

      - A senhora ama a todos, a senhora quer paz, e uma vez que não é legisladora, não está habituada a longos discursos. Diga isso e sente-se.

      Gladia o olhou sem compreender, nervosa demais por ter ouvido o que ele disse.

      Ergueu-se e encarou infindáveis filas de gente.

      Gladia sentiu-se muito pequena (sem dúvida, não pela primeira vez em sua vida) quando enfrentou o público. Os homens no palco eram todos  mais altos que ela, o mesmo  acontecendo com as outras três mulheres. Percebeu que, apesar de estarem todos sentados e ela em pé,  sobrepunham-se  a ela. Quanto ao público, que estava esperando, agora numa atitude de silêncio quase ameaçador, os que dele participavam eram, estava convencida, todos maiores que  ela em quaisquer dimensões. Gladia inspirou profundamente e disse:  - Amigos... - sua voz saiu fraca, quase inaudível. Pigarreou (pareceu-lhe um trovão) e tornou a tentar.

      - Amigos! - Desta vez, havia uma certa normalidade no tom. - Os senhores são todos originários da Terra. Cada um dos senhores. Eu também descendo dos Terráqueos.

      Não há seres humanos em nenhum dos planetas habitados - sejam Espaciais, Colonizadores ou a própria Terra - que não sejam Terráqueos de nascimento ou descendentes deles. Todas as outras diferenças desaparecem em face da enormidade deste fato.

      Seus olhos viravam para a esquerda, a fim de olhar D. G., e ela viu que ele estava sorrindo e que uma pálpebra tremia como se ele estivesse piscando.

      Gladia prosseguiu:

      - Isto deverá ser nosso guia em cada pensamento e ação. Agradeço a todos por pensarem em mim como um ser humano amigo e por me receberem em seu seio, sem olhar para  outra classificação na qual estivessem tentados a me colocar. Por causa disso, e na esperança de que breve chegará o dia em que dezesseis bilhões de seres humanos,  vivendo em paz e amor, se considerarão assim e nada mais - ou menos - penso nos senhores não apenas como amigos, mas como parentes de ambos os sexos.

      Houve uma interrupção de palmas que ecoou sobre Gladia e ela semicerrou os olhos, aliviada. Permaneceu em pé para permitir que os aplausos continuassem a banhá-la na bem-vinda indicação de que tinha falado corretamente e - mais ainda - suficientemente. Quando os aplausos começaram a diminuir, Gladia sorriu, inclinou-se para a esquerda e para a direita, e começou a sentar-se.

      Nesse instante, uma voz elevou-se na platéia:

      - Por que não fala em Solariano?

      Ela imobilizou-se a caminho da cadeira e olhou, em pânico, para D. G.

      O rapaz balançou a cabeça levemente e formulou em silêncio:

      - Ignore.

      Fez um gesto o mais disfarçado possível para que ela sentasse.

      Gladia olhou-o um ou dois segundos, depois percebeu o aspecto desajeitado que devia ter, com o traseiro saliente no ato não acabado de  sentar-se. Empertigou-se imediatamente  e lançou um sorriso ao público, ao mesmo tempo em que virava a cabeça de um lado para outro. Pela primeira vez percebeu objetos às suas costas, cujas lentes reluzentes  estavam focadas nela.

      Claro, D. G. tinha dito que a solenidade iria ser transmitida pela  hiperonda. Contudo, agora isso pouco importava. Ela havia falado e sido aplaudida,  e estava enfrentando a platéia que podia ver, ereta e sem nervosismo. Que importava a parte invisível? Gladia falou, ainda sorrindo:

      - Considero essa uma pergunta amistosa. O senhor quer que lhe mostre minha educação. Quantos querem saber se posso falar Solariano? Não hesitem. Ergam seus braços direitos.

      Alguns braços levantaram-se. Gladia falou:

      - A robô humanóide em Solaria me ouviu falar Solariano. Foi isso que a derrotou, afinal. Vamos, quero ver cada um que deseja uma demonstração.

      Outros braços direitos se ergueram e, num momento, a platéia tornou-se um mar de braços levantando. Gladia sentiu alguém puxando a perna de sua calça e, com um safanão, afastou-o.

      - Muito bem. Agora podem baixar os braços, compatriotas. Saibam que atualmente falo o Galáctico Padrão, que é também a sua língua. Contudo, estou falando-o como uma Auroreana e sei que todos os senhores me entendem, embora a maneira como pronuncio as palavras possa lhes soar divertida e a minha escolha de vocábulos possa em alguns momentos confundi-los um pouco. Os senhores repararão que minha maneira de falar tem notas que sobem e descem - quase como se eu as estivesse cantando.

      Isso sempre parece ridículo a todos os não-Auroreanos e mesmo a outros Espaciais.

      "Por outro lado, se eu adoto a maneira Solariana de falar, como estou fazendo agora, os senhores repararão imediatamente que as notas musicais param e a fala se torna gutural, com erres que quase nunca saem - especialmente se não houverrr "rrrr" em parrrte alguma no panoramarrr vocal.”

      Houve uma explosão de riso na platéia e Gladia enfrentou-a com uma expressão séria no rosto. Finalmente, ela ergueu os braços e fez um gesto de interrupção para cima e para baixo, fazendo o riso cessar.

      - Contudo - prosseguiu ela - eu provavelmente não mais irei a Solaria e por isso não terei outra ocasião, daqui para a frente, de usar o dialeto Solariano. E o bom  Comandante Baley - virou-se e fez uma rápida curvatura em sua direção, notando que havia um claro sinal de transpiração em sua testa - me disse que ele não será  mais falado quando eu voltar para Aurora, e assim devo também abandonar o dialeto Auroreano. Minha única escolha, portanto, será falar o dialeto de Baleyworld, que  já estou começando a praticar.

      Ela meteu os dedos de cada mão num cinto invisível, estufou o peito, esticou o queixo, e exibiu o sorriso inconsciente de D. G. e disse, numa grave tentativa de barítono:

      - Homens e mulheres de Baleyworld, funcionários, legisladores, honrados chefes e amigos habitantes do planeta - e isto inclui todos, exceto, talvez, os chefes desonrados... - Ela se esforçou para incluir as paradas  glóticas, os "a" e cuidadosamente pronunciou o "h" de honrados de uma forma que era quase um arquejo.  Desta vez, o riso foi ainda mais estrondoso e prolongado, fazendo com que Gladia se permitisse um sorriso e esperasse calmamente, enquanto a manifestação prosseguia  mais e mais. Afinal de contas, ela os estava convencendo a rirem de si próprios.

      Quando tudo ficou novamente silencioso, ela disse simplesmente numa versão não exagerada do dialeto Auroreano:

      - Cada dialeto é engraçado - ou peculiar - para os que não estão acostumados com ele, e tende a separar os seres humanos - tornando-os com freqüência mutuamente  inamistosos - em grupos. Os dialetos, contudo, são apenas maneiras de falar. Em vez disso, os senhores, eu e todos os outros seres humanos em cada planeta habitado,  devíamos prestar atenção à linguagem do coração - e não há dialetos nela. Essa língua - se a ouvirmos atentamente - tange as mesmas cordas em todos nós.

      Estava liquidado. Gladia estava pronta para sentar novamente, porém outra pergunta fez-se ouvir. Desta vez era voz de mulher.

      - Que idade a senhora tem?

      Desta vez, D. G. forçou um resmungo baixo entre dentes:

      - Sente-se, senhora! Ignore a pergunta.

      Gladia virou-se para encarar D. G., que estava meio levantado. Os outros no palanque, que ela mal podia ver na sombra fora do refletor, estavam tensamente inclinados para ela.

      Gladia virou-se para a platéia e gritou, estridente:

      - Esta gente aqui no palanque quer que eu me cale. Quantos dos senhores aí querem o mesmo? Estou vendo que ficaram calados. Quantos querem que eu continue em pé e responda francamente à pergunta?

      Houve aplausos entusiásticos e gritos de "Responda! Responda!" Gladia disse:

      - A voz do povo! Desculpem-me D. G. e todos os outros, mas estou sendo convocada a falar.

      Ergueu o olhar para o refletor, piscando, e gritou:

      - Não sei quem comanda os refletores, mas iluminem o auditório e desliguem o refletor. Não me importa se isso prejudicará as câmaras de hiperonda. Apenas façam com  que o som continue nítido. Ninguém deve se importar que eu fique na sombra, contanto que possam me ouvir. Não é?

      - É! - foi a resposta unânime. E depois: - Luzes! Luzes! Alguém no palanque fez um sinal meio indeciso e a platéia foi inundada de luz.

      - Assim é melhor! - disse Gladia. - Agora posso ver a todos, meus Compatriotas. Eu gostaria, especialmente, de ver a mulher que me fez a pergunta, a que quer saber a minha idade. Gostaria de me dirigir a ela diretamente. Não seja tímida ou encabulada. Se teve coragem de fazer a pergunta, deve tê-la para fazê-la às claras.

      Esperou e, finalmente, uma mulher ergueu-se no meio da platéia. Usava o cabelo preto repuxado para trás, tinha a pele levemente morena e sua roupa, apertada para ressaltar sua forma esguia, tinha tons diversos de castanho.

      Ela falou, um pouco estridente demais:

      - Não tenho medo de me levantar. E não tenho medo de tornar a fazer a pergunta: Que idade a senhora tem?

      Gladia encarou-a com firmeza e percebeu que estava gostando do confronto. (Que estaria acontecendo? Durante suas primeiras três décadas, ela havia sido cuidadosamente educada para achar intolerável a presença real de um simples ser humano. E agora ali estava ela, encarando milhares, sem temer. Estava vagamente espantada e completamente feliz.)

      - Por favor - começou Gladia - fique em pé, senhora, e conversemos. Como vamos estabelecer a idade? Em anos passados desde o nascimento?

      A mulher retrucou, com serenidade:

      - Meu nome é Sindra Lambid. Sou membro do Congresso e portanto uma "legisladora" do Comandante Baley, uma entre seus "honrados líderes". Espero merecer ao menos  o adjetivo. (Houve uma cascata de riso à medida que a platéia pareceu melhorar o bom humor.) Respondendo à sua pergunta, acho que o número de Anos Galácticos Padrões  decorridos desde o nascimento é a definição habitual da idade de alguém. Assim, tenho cinqüenta e quatro anos. E a senhora? Que tal nos dar uma idéia?

      - Vou fazê-lo. Desde que nasci, passaram duzentos e trinta e três Anos Galácticos Padrões e portanto tenho mais de vinte e três décadas, ou seja, cerca de quatro vezes mais velha que a senhora.

      Gladia manteve-se empertigada e percebeu que seu vulto pequeno e magro, juntamente com a luz fraca, fizeram-na parecer incrivelmente infantil naquele momento.

      Houve um murmúrio confuso na platéia e uma espécie de resmungo à sua esquerda. Um rápido olhar nessa direção mostrou-lhe que D. G. estava com a mão na testa.

      Gladia continuou:

      - Esta, porém, é uma forma inteiramente passiva de estabelecer o lapso de tempo. É uma medida de quantidade que não leva em conta a qualidade. Minha vida tem decorrido  tranqüilamente, podendo-se mesmo dizer que sem relevo. Deslizei por uma rotina estabelecida, protegida de todos os acontecimentos adversos por um sistema de funcionamento  social suave que não dá espaço, quer a mudanças, quer a experiências, e por meus robôs, que se interpõem entre mim e aborrecimentos de toda espécie.   "Só duas vezes em minha vida senti o sopro da excitação, e em ambas a tragédia esteve presente. Quando eu tinha trinta e três anos, mais moça que muitos dos que  estão agora me ouvindo, houve um período - não muito longo - em que pesou sobre mim uma acusação de assassinato. Dois  anos depois, durante outra fase - não muito longa igualmente - fui envolvida em outro assassinato. Em ambas as ocasiões, o detetive Elijah Baley esteve ao meu lado.  Acredito que a maior parte dos presentes - ou talvez todos - conheçam o relato feito pelo filho de Elijah Baley.

      "Devo agora acrescentar uma terceira parte, pois, no mês findo, tive de enfrentar uma grande perturbação, que atingiu o clímax com minha convocação perante os senhores,  coisa inteiramente diferente de tudo o que fiz em toda a minha longa vida. E devo confessar que só a bondade com que me receberam tornou isso possível.”

      "Levem em conta, todos, o contraste disso tudo com suas próprias vidas. Os senhores são pioneiros e vivem num planeta precursor. Este mundo vem crescendo durante  todas as suas vidas e continuará a crescer. Ele é tudo, menos colonizado, e cada dia é - e precisa ser - uma aventura. O próprio clima é uma aventura. Os senhores  têm, em primeiro lugar, frio, depois calor e finalmente frio novamente. É um clima abundante em ventos e tempestades, com transformações súbitas. Em momento algum  podem sentar-se e deixar o tempo passar sonolentamente num planeta que muda suavemente ou não muda absolutamente.”

      "Muitos nativos de Baleyworld são Mercadores ou podem decidir sêlo, caso em que passarão metade de suas vidas percorrendo as rotas do espaço. E se algum dia este  planeta se tornar insípido, seus habitantes podem preferir exercer suas atividades em outro menos desenvolvido ou integrar uma expedição que encontre um planeta  ainda virgem de seres humanos e tomar parte na sua formação, semeando-o e tornando-o apropriado para a ocupação humana.”

      "Medindo a extensão da vida por acontecimentos e feitos, sucessos e agitações, eu sou uma criança, mais moça que todos os senhores. Minha longa idade só tem servido  para me aborrecer e cansar; os poucos anos dos senhores os enriquecem e excitam. Portanto, diga-me novamente: que idade tem?”

      Lambid sorriu.

      - Cinqüenta e quatro excelentes anos, Senhora Gladia.

      Gladia sentou-se; os aplausos cresceram e continuaram. Ao abrigo do barulho deles, D. G. disse, com voz rouca:

      - Lady Gladia, quem lhe ensinou a dominar uma platéia como essa?

      - Ninguém - sussurrou ela, de volta. - Nunca tentei antes.

      - Mas retire-se enquanto está por cima. Quem está agora se levantando é o nosso chefe falcão de guerra. Não é preciso encará-lo. Diga que está cansada e sente-se. Nós conteremos o Velho Bistervan.

      - Mas não estou cansada - disse Gladia. - Estou me divertindo. O homem que a encarava agora, na sua extrema direita, um tanto perto  do palanque, era alto e vigoroso, com sobrancelhas brancas hirsutas caindo sobre os olhos. Seu cabelo fino era também branco, e sua indumentária escura, adornada  por uma listra branca nas mangas e pernas da calça, como Que determinando limites estritos para seu corpo.

        Sua voz era profunda e musical.

      - Meu nome - disse - é Tomas Bistervan e muitos me conhecem como o Velho, principalmente, suponho, porque desejam que eu o seja de fato e não demore muito a morrer.  Não sei como me dirigir à senhora, porque a senhora não parece ter tido um nome de família e também não a conheço com bastante intimidade para chamá-la pelo prenome.  Para ser honesto, não desejo conhecê-la tanto assim.

      "Evidentemente, a senhora ajudou a salvar uma nave de Baleyworld no seu planeta contra as armadilhas e armas colocadas por seu povo, e estamos lhe agradecendo por isso. Em troca, a senhora nos mimoseou com algumas excelentes bobagens sobre amizade e parentesco. Pura hipocrisia!”

      "Quando foi que seus conterrâneos se sentiram nossos parentes? Quando foi que os Espaciais sentiram qualquer afinidade com a Terra e seus habitantes? Certamente, os senhores, Espaciais, são descendentes de Terráqueos. Não esquecemos isso. Durante mais de vinte décadas, os Espaciais controlaram a galáxia e trataram os Terráqueos como se fossem animais odiosos, doentes e de vida curta. Agora, que estamos ficando fortes, a senhora estende a mão da amizade, mas essa mão está enluvada, como as suas. Tentam erguer o nariz para nós; ele, porém, mesmo quando não levantado, tem protetores. Então? Estou certo?"

      Gladia ergueu os braços.

      - Talvez - disse ela - a platéia aqui nesta sala - e, mais ainda, a que me vê pela hiperonda - não perceba que estou usando luvas. Elas não atrapalham, mas estão presentes. Não nego isso. E tenho filtros nas narinas que impedem a entrada da poeira e de microorganismos sem interferir grandemente com a respiração. E tenho o cuidado de borrifar minha garganta de vez em quando. E me lavo talvez um pouco mais do que impõem os requisitos da higiene individual. Não nego nenhuma dessas coisas.

      "Mas isso é o resultado dos meus defeitos e não dos seus. Meu sistema de imunidades não é forte. Minha vida tem sido muito confortável e raramente tenho ficado exposta. Não se trata de uma escolha deliberada, mas devo pagar por ela. Se qualquer dos senhores estivesse na minha infeliz posição, o que faria?”

      Bistervan replicou, amargo:

      - Eu faria o mesmo que a senhora e consideraria isso como um sinal de fraqueza, um sinal de que eu estava despreparado e desajustado para a vida e, portanto, tinha  de dar espaço para os que são fortes. Mulher, não fale de parentesco conosco. A senhora não é minha parenta. A senhora pertence aos que nos perseguiam e tentavam  nos destruir quando eram fortes e que começam a se lamentar conosco quando estão fracos.

      Houve uma agitação na platéia - e por falar nisso, amigável - mas Bistervan manteve-se firme. Gladia falou suavemente:

      - O senhor lembra do mal que fizemos quando éramos fortes?

      Bistervan respondeu:

      - Não tema que esqueçamos. Está diariamente em nossa memória.

      - Ótimo! Porque agora sabem o que evitar. Aprenderam que é errado o poderoso oprimir o fraco. Portanto, quando a mesa vira e os senhores passam a ser os fortes e  nós os fracos, não deverão ser opressores. 

      - Ah, sim. Conheço o argumento. Quando os senhores eram poderosos, nunca ouviram falar de moralidade, mas agora que estão fracos, ela é intensamente pregada.

      - No seu caso, porém, quando eram fracos sabiam tudo sobre moralidade e viviam apavorados pelo comportamento dos fortes: agora, que são fortes, esquecem a moralidade. Certamente, é melhor o imoral aprender moralidade pela adversidade do que o moralista esquecer a moralidade na prosperidade.

      - Devolveremos o que recebemos - disse Bistervan, erguendo o punho fechado.

      - Os senhores deveriam dar o que gostariam de receber - disse Gladia, mantendo os braços erguidos, como que num abraço. - Uma vez que todos podem pensar em alguma  injustiça passada para vingar, como está dizendo, meu amigo, é direito que o forte oprima o fraco. E quando diz isso, o senhor justifica os Espaciais do passado  e, conseqüentemente, não deve se queixar atualmente. O que eu digo é que a opressão foi um erro no passado e o será igualmente no futuro. Não podemos modificar o  passado, infelizmente, mas ainda podemos decidir como será o futuro.

      Gladia fez uma pausa. Quando Bistervan não respondeu imediatamente, ela perguntou:

      - Quantos querem uma nova galáxia, não a má e velha, infinitamente repetida?

      Começaram os aplausos, mas Bistervan ergueu os braços e bradou:

      - Esperem! Esperem! Não sejam tolos! Parem!

      O silêncio voltou lentamente e Bistervan prosseguiu:

      - Acham que esta mulher acredita no que diz? Supõem que os Espaciais nos desejam algum bem? Eles ainda pensam ser poderosos e continuam nos desprezando, tentando  nos destruir - se não os aniquilarmos antes. Esta mulher chegou e nós, como tolos, a recebemos e homenageamos. Bem, ponham suas palavras à prova. Que qualquer um  dos senhores requeira permissão para visitar um planeta Espacial e ver o que puder. No caso de terem um planeta atrasado que produza ameaças, como aconteceu ao Comandante  Baley, como seriam tratados? Perguntem ao comandante se o trataram como parente.

      "Essa mulher é uma hipócrita, apesar de suas palavras - não, por causa delas. Elas são a expressão verbal de sua hipocrisia. Ela se lamenta e geme a respeito do  seu  inadequado sistema de imunização, alegando que precisa se proteger contra o perigo da infecção. Claro, ela não age assim porque pensa que somos idiotas e mórbidos.  Suponho que este pensamento nunca lhe ocorreu.”

        "Ela se lamenta de sua vida passiva, protegida do infortúnio e da desdita por uma sociedade bem instalada e uma multidão atenta de robôs. Como deve odiar isso.”

      "Mas o que a ameaça aqui? Que desgraça pode sentir que irá cair sobre si em nosso planeta? Contudo, trouxe dois robôs. Reunimo-nos neste anfiteatro para homenageá-la  e cumprimentá-la; pois bem, apesar disso ela trouxe esses robôs. Estão no palanque com ela. Agora que o recinto está todo iluminado, podem vê-los. Um é uma imitação  de ser humano e chama-se R. Daneel Olivaw. O outro é um impudente robô, de construção iniludivelmente metálica; seu nome é R. Giskard Reventlov. Vamos cumprimentá-los,  meus amigos. Eles são os parentes desta mulher.”

      - Xeque-mate! - resmungou D.G, num sussurro.

      - Ainda não - retrucou Gladia.

      Pescoços esticaram-se na platéia, como se um repentino impulso tivesse afetado a todos, e a palavra "robôs" atravessou toda a extensão do recinto em milhares de influxos de respiração.

      - Os senhores podem vê-los sem problemas - soou a voz de Gladia. - Daneel, Giskard, levantem-se.

      Os dois robôs imediatamente se ergueram por trás dela.

      - Que cada um fique ao meu lado - continuou ela - para que meu corpo não atrapalhe a visão - se bem que meu corpo não é tão volumoso a ponto de causar obstrução.

      "Agora, permitam-me deixar algumas coisas claras para todos os senhores. Estes dois robôs não vieram comigo para me servir. Sim, eles ajudam a dirigir minha casa  em Aurora, com mais cinqüenta e um outros, e não realizo nenhuma atividade que prefira realizada por um robô. Este é o costume no planeta em que vivo.

      "Os robôs variam em complexidade, capacidade e inteligência, e estes dois situam-se no mais alto nível a este respeito. Daneel, em especial, é, na minha opinião,  o robô de todos os robôs, cuja inteligência muito se aproxima da dos humanos nas áreas em que a comparação é possível.”

      "Eu trouxe apenas Daneel e Giskard comigo, porém eles não realizam trabalhos muito importantes para mim. Se isso lhes interessa, eu me visto, me banho, uso meus  próprios talheres e ando sem ser carregada.”

      "Uso-os, então, para proteção pessoal? Não. Eles me protegem, de fato, mas protegem igualmente quem mais necessitar de proteção. Em Solaria, ainda recentemente,  Daneel fez o que pôde para proteger o Comandante Baley e preparou-se para renunciar à sua existência a fim de me proteger. Sem ele, a nave nunca poderia ter sido  salva.”

      "E certamente não preciso de proteção neste palanque. Afinal de contas, há um campo de força nele que proporciona uma ampla proteção. Não está aqui a meu pedido,  mas o fato é que está, e fornece toda a proteção de que preciso.”

      "Então, por que meus robôs estão aqui comigo?”

      "Os aqui presentes que conhecem a história de Elijah Baley, que libertou a Terra dos seus dominadores, que iniciou a nova política de colonização, e cujo filho chefiou  os primeiros seres humanos até Baleyworld - que outro nome poderiam dar a este planeta? - sabem que ele, muito antes de me conhecer, trabalhou com Daneel. Trabalhou  com ele na Terra, em Solaria e em Aurora - em cada um dos seus grandes casos. Para Daneel, Elijah Baley foi sempre o "Colega Elijah". Não sei se isso consta de sua  biografia, mas podem confiar na minha palavra. E embora Elijah Baley, como Terráqueo, tenha tido inicialmente uma forte desconfiança de Daneel, a amizade entre eles  cresceu. Quando Elijah Baley estava morrendo neste planeta, há mais de sessenta anos, quando isto aqui era apenas um aglomerado de casas pré-fabricadas cercadas  de canteiros, não foi seu filho que esteve com ele em seus últimos instantes. Nem eu tampouco. (Por um momento traiçoeiro, Gladia pensou que sua voz não iria manter-se  firme.) Ele mandou chamar Daneel e se manteve vivo até a chegada deste.  "Sim, foi a segunda visita de Daneel a este planeta. Eu estava com ele, mas permaneci em órbita. (Firme!) Foi Daneel sozinho quem desceu, foi ele quem recebeu suas  últimas palavras. Então, isto nada significa para os senhores?"

      Sua voz aumentou um ponto, quando ela ergueu os punhos.

      - Preciso dizer-lhes isto? Já não sabem? Aqui está o robô que Elijah Baley amava. Sim, amava. Eu quis ver Elijah antes que morresse, para me despedir, porém ele preferiu Daneel - e este é Daneel. Este é o próprio.

      "E este outro é Giskard, que só conheceu Elijah em Aurora, mas que teve ocasião de salvar-lhe a vida naquele planeta.”

      "Sem estes dois robôs, Elijah Baley não teria atingido seu objetivo. Os planetas Espaciais continuariam a dominar, os planetas dos Colonizadores não existiriam e nenhum dos senhores estaria aqui. Sei disso e os senhores também. Será que o Sr. Tomas Bistervan também sabe?”

      "Daneel e Giskard são nomes famosos neste planeta. Têm sido usados habitualmente pelos descendentes de Elijah Baley, a pedido deste. Cheguei numa nave cujo comandante se chama Daneel Giskard Baley. Quantos, entre as pessoas que estou encarando neste instante - pessoalmente ou via hiperonda - têm o nome de Daneel ou Giskard? Bem, esses robôs ao meu lado são os possuidores dos nomes homenageados. E devem ser denunciados por Tomas Bistervan?"

      O murmúrio crescente entre a multidão estava se tornando ruidoso e ergueu os braços, implorando.

      - Um momento. Um momento. Deixem-me terminar. Não lhes disse por que trouxe estes dois robôs.

      Fez-se um silêncio imediato.

      - Estes dois robôs - prosseguiu - nunca esqueceram Elijah Baley, como eu também não. Essas lembranças em nada diminuíram com o passar  das décadas. Quando eu estava pronta para embarcar na nave do Comandante Baley, quando soube que poderia visitar Baleyworld, como recusar trazer Daneel e Giskard  comigo? Eles queriam ver o planeta que Elijah Baley tornara possível, o planeta onde ele passou a velhice e onde morreu.

      "Sim, eles são robôs, mas robôs inteligentes, que serviram fielmente Elijah Baley, com competência. Não é bastante termos respeito por seres humanos, precisamos também respeitar todos os seres inteligentes. Por isso eu os trouxe aqui. - Finalmente, então, deu um grito que exigia resposta - Fiz mal?”

      Gladia teve sua resposta. Um fragoroso grito de "Ho!" estendeu-se pelo recinto e todos ficaram de pé, batendo palmas e pés, berrando, rugindo... cada vez mais... sem parar...

      Gladia ficou olhando, sorrindo, e, como o barulho continuasse, percebeu duas coisas. Primeiro, que estava coberta de suor. Segundo, que estava mais feliz do que estivera algum dia em sua vida.

      Era como se tivesse, durante a vida inteira, esperado por aquele momento - o momento em que, depois de ter ficado isolada, pudesse finalmente compreender, após vinte  e três décadas, que podia enfrentar multidões, comovê-las e curvá-las à sua vontade.

      Ficou ouvindo a infindável gritaria - mais, mais... e mais...

     

      Foi muito tempo depois - quanto ela não saberia dizer - que Gladia, finalmente, voltou a si.

      Primeiro tinha sido o barulho incessante, a sólida cunha do pessoal da segurança guiando-a através da multidão, o mergulho em túneis infindáveis, que pareciam mergulhar  cada vez mais no solo.

      Ela perdeu o contato com D. G. imediatamente e não sabia se Daneel e Giskard estavam a salvo com ela. Queria perguntar por eles, mas estava rodeada de gente sem rosto.

      Pensou vagamente que os robôs deviam estar com ela, pois resistiriam à separação e ela ouviria o tumulto se fosse feita alguma tentativa.

      Quando, finalmente, Gladia chegou num recinto, os dois robôs estavam lá com ela. Ela não sabia onde estava exatamente, porém o local era bastante amplo e limpo.

      Era algo pobre em comparação com seu lar em Aurora; comparado com o camarote da nave, porém, era bastante luxuoso.

      - A senhora estará segura aqui, senhora - disse o último dos guardas ao se retirar. - Se precisar de alguma coisa, chame.

      Apontou para um aparelho na mesinha ao lado da cama.

      Gladia olhou o dispositivo, mas quando se virou para perguntar o que era e como funcionava, o guarda tinha desaparecido.

      Ora, muito bem, não Vou precisar, pensou.

      - Giskard - ordenou, cansada - descubra qual dessas portas leva ao banheiro e veja como o chuveiro funciona. O que eu preciso agora é de uma chuveirada.

      Sentou-se cuidadosamente, sabendo que estava molhada, mas não desejando saturar a cadeira com seu suor. Estava começando a sentir dor com a rigidez anormal de sua  posição, quando Giskard surgiu.

      - Senhora, o chuveiro está aberto - declarou - e a temperatura é adequada. Há um material sólido, que acredito ser sabonete, e uma espécie primitiva de uma coisa  semelhante a toalha, como vários outros artigos que podem ser úteis.  - Obrigada, Giskard - disse Gladia, consciente de que, apesar da sua grandiloqüência no sentindo de que robôs como Giskard não executam serviços domésticos, era  exatamente isso o que lhe havia pedido para fazer.

      Mas as circunstâncias alteram os casos...

      Pareceu-lhe que se não tivesse necessitado de um banho de chuveiro com tanta premência como agora, nunca também teria gostado tanto de um. Permaneceu nele muito  mais tempo do que devia, e quando terminou, nem mesmo lhe ocorreu imaginar se as toalhas estavam de algum modo esterilizadas, até depois de ter-se secado - e a essa  altura era tarde demais.

      Vistoriou o material que Giskard tinha deixado para ela - pó, desodorante, pente, pasta dentifrícia, secador de cabelo - mas não conseguiu achar nada que servisse  de escova de dentes. Finalmente desistiu e usou o dedo, que ela achou bastante insatisfatório. Não encontrou escova de cabelo e achou isso também insatisfatório.

      Lavou o pente com sabonete antes de usá-lo, mas encolheu-se de medo, da mesma forma. Encontrou uma roupa que parecia adequada para usar na cama. Cheirava a limpeza, mas ela achou que estava larga demais.

      Daneel perguntou, em voz baixa:

      - Senhora, o comandante deseja saber se pode vê-la.

      - Acho que sim - replicou Gladia, ainda procurando outra camisola. - Mande-o entrar.

      D. G. parecia cansado e mesmo perturbado, mas quando ela se virou Para cumprimentá-lo, o rapaz sorriu fatigado e disse:

      - É difícil acreditar que a senhora tem mais de vinte e três décadas de idade.

      - Nesta coisa?

      - Isso contribui. É semitransparente - ou não tinha reparado? Ela olhou, indecisa, para a camisola e depois falou:

      - Bem, se isso o diverte, mas tenho estado viva, apesar disso, durante dois séculos e um terço.

      - Ninguém imaginaria isso olhando-a. A senhora deve ter sido belíssima quando jovem.

      - Nunca me disseram isso, D. G. Sempre acreditei que um encanto    tranqüilo era o máximo a que podia aspirar. Em todo caso, como se usa este instrumento?

      - A cabine telefônica? Basta apertar o quadrado no lado direito e alguém perguntará se precisa de alguma coisa. É só pedir.

      - Ótimo. Vou precisar de uma escova de dentes, uma escova de cabelo e roupas.

      - A escova de dentes e a escova de cabelo, Vou providenciar. Quanto às roupas, já foram arranjadas. A senhora encontrará uma bolsa pendurada no seu armário. Nela encontrará o mais atual na moda de Baleyworld, que poderá não lhe atrair, é claro. E não garanto que lhe sirva. A maioria das mulheres de Baleyworld são mais altas que a senhora e certamente mais encorpadas e gordas. Mas isso não importa. Acho que a senhora ficará segregada ainda algum tempo.

      - Por quê?

      - Ora, senhora. A senhora fez um discurso na noite passada e, estou lembrado, não quis sentar-se, embora eu sugerisse mais de uma vez que o fizesse.

      - Ao que parece, foi um grande sucesso, D. G.

      - Foi. Foi um estrondoso sucesso. - D. G. sorriu abertamente e cocou o lado direito do rosto, com o ar de quem examina a palavra com muito cuidado. - Contudo, o  sucesso  tem também suas desvantagens. Devo dizer que, neste instante, a senhora é a pessoa mais famosa em Baleyworld, e cada habitante do planeta quer vê-la e tocá-la. Se  a levarmos a qualquer lugar, haverá um conflito imediato. Pelo menos até as coisas esfriarem. Não podemos saber quanto tempo vai levar.

      "Além disso, a senhora teve os falcões de guerra apoiando-a, mas na luz fria do amanhã, quando o hipnotismo e a histeria tiverem passado, eles irão ficar furiosos. Se o Velho Bistervan realmente não pensou em assassiná-la imediatamente após seu discurso, amanhã de manhã certamente pensará, realizando a ambição de sua vida: matá-la por tortura lenta. E há gente do seu partido que pode compreensivelmente obrigá-lo a esse pequeno capricho.”

      "É por isso que a senhora está aqui, minha senhora. É por isso que este quarto, este andar, todo este hotel estão sendo vigiados por não sei quantos destacamentos de segurança, entre os quais espero não haja falcões de guerra disfarçados. E porque estou tão ligado à senhora neste brinquedo de herói e heroína, vejo-me também engaiolado aqui, sem poder sair.”

      - Ah - disse Gladia, inexpressivamente. - Queira desculpar por isso. Então o senhor não pode ver sua família.

      D. G. encolheu dos ombros.

      - Os Mercadores, na verdade, não são muito ligados à família.

      - Nesse caso, sua amiga.

      - Ela agüentará. Provavelmente melhor que eu. Fixou Gladia especulativamente.

      Gladia respondeu calmamente:

      - Nem pense nisso, comandante. D. G. ergueu as sobrancelhas.

      - Não há como evitar pensar nisso, mas não tomarei nenhuma iniciativa, senhora.

      - Quanto tempo o senhor acha que ficarei aqui? - perguntou ela.  Seriamente.

      - Depende do Diretório.

      - Do Diretório?

      - O quinteto executivo, senhora. Cinco pessoas - ergueu a mão com os dedos separados - cada uma servindo durante cinco anos de maneira escalonada, com uma substituição  a cada ano, mais eleições especiais em caso de morte ou incapacidade. Isso garante a continuidade e reduz o perigo do governo individual. Significa também que toda  decisão deve ser discutida, e isso leva tempo, às vezes mais do que o disponível.

      - Imagino - disse Gladia - que se um deles for um sujeito determinado e tenaz...

      - Poderá impor seus pontos de vista aos outros. Já aconteceram coisas assim, mas não estamos mais nesses tempos, se percebe o que estou dizendo. O Diretor Sênior  é Genovus Pandaraí. Ele não é mau, apenas indeciso - e às vezes isso é a mesma coisa. Disse-lhe para permitir que seus robôs ficassem no palanque com a senhora e  isso resultou numa péssima idéia. Um a zero contra nós dois.

      - Mas por que foi uma péssima idéia? O povo ficou satisfeito.

      - Satisfeito demais, minha senhora. Queríamos que a senhora fosse nossa heroína Espacial de estimação e ajudasse a manter fria a opinião do público, evitando o desencadeamento  de uma guerra prematura. Vocês são ótimos em longevidade, e a senhora fez com que eles dessem vivas à vida curta. Depois fez com que dessem vivas aos robôs, e não  queremos isso. Nesse assunto, não nos interessa muito que o público exalte a idéia de amizade com os Espaciais.

      - Os senhores não querem uma guerra prematura, mas também não desejam uma paz prematura. É isso?

      - Foi muito bem dito, senhora.

      - Mas então o que querem?

      - Queremos a Galáxia. Toda ela. Queremos colonizar e povoar todo Planeta habitável nela e estabelecer nada menos que um Império Galáctico. E não queremos que os  Espaciais interfiram. Eles podem ficar em seus próprios mundos e viver em paz como desejam, mas não devem se intrometer.

      - Mas então querem confiná-los aos seus cinqüenta planetas, como Confinamos os Terráqueos à Terra durante tantos anos. A mesma velha injustiça. O senhor é tão ruim quanto Bistervan.

      - As situações são diferentes. Os Terráqueos foram castigados como represália ao seu potencial expansionista. Os Espaciais não têm esse potencial.

      Eles escolheram a trilha da longevidade e dos robôs, e o potencial desapareceu. Nem têm mais cinqüenta planetas. Solaria foi abandonada. Os outros, com o tempo, também serão. Os Colonizadores não têm interesse em empurrar os Espaciais para o caminho da extinção, mas por que devemos nos intrometer em sua escolha voluntária de agir assim? Seu discurso tendeu a interferir nisso.

      - Fico contente. O senhor acha que eu deveria dizer o quê?

      - Eu lhe disse: paz, amor e sentar-se. Poderia ter acabado num minuto.

      Gladia replicou, furiosa:

      - Não posso acreditar que o senhor tivesse esperado alguma coisa tão boba de minha parte. Por quem me toma?

      - Por quem acha que é: alguém que morre de medo de falar. Como poderíamos saber que a senhora era uma louca que podia, em meia hora, persuadir a platéia a berrar contra? Mas esta conversa não nos leva a nada - ergueu-se pesadamente - eu também preciso de um chuveiro e acho melhor ter uma noite de sono - se puder. Vê-la-ei amanhã.

      - Mas quando saberemos o que o Diretório decidirá fazer comigo?

      - Quando eles descobrirem, o que poderá levar tempo. Boa noite, senhora.

      - Fiz uma descoberta disse Giskard, com a voz sem sombra de emoção.

      - E a fiz porque, pela primeira vez em minha vida, enfrentei milhares de seres humanos. Se isso tivesse me acontecido há dois séculos, teria feito a descoberta naquela época. Se eu nunca tivesse enfrentado tantos ao mesmo tempo, jamais a teria feito.

      "Considere, portanto, quantos pontos vitais eu poderia facilmente agarrar, porém nunca o fiz e nunca o farei, simplesmente porque as condições adequadas para isso  nunca se apresentaram a mim. Eu permaneço ignorante, a não ser quando as circunstâncias me ajudam, mas não posso contar com elas.”

      - Eu não acho, amigo Giskard - replicou Daneel - que Lady Gladia, com toda a sua longa vida, pudesse enfrentar milhares de pessoas de igual para igual. Eu não acreditaria  que ela fosse capaz sequer de falar. Quando ficou claro essa possibilidade, concluí que você a havia ajustado e descoberto que isso podia ser feito sem lhe causar  dano. Qual foi sua descoberta?

      - Amigo Daneel - explicou Giskard - na realidade, tudo que ousei fazer foi liberar alguns poucos fios de inibição, o suficiente para permitir que ela dissesse algumas palavras, pudesse ser ouvida.

      - Mas ela foi muito além disso.

      - Após aquele ajuste microscópico, virei-me para a multiplicidade de mentes que enfrentei na platéia. Eu nunca havia experimentado tantas, da mesma forma que Lady Gladia, e fiquei tão surpreendido quanto ela. A princípio, descobri que nada podia fazer no vasto entrosamento mental que me atingiu. Senti-me desamparado.

      "E então notei pequenas amizades, curiosidades, interesse - não posso descrevê-los com palavras - com um brilho de simpatia por Lady Gladia à sua volta. Joguei com  o que pude descobrir que havia nesse brilho de simpatia, endurecendo-os e engrossando-os um pouquinho. Eu queria uma pequena reação a favor de Lady Gladia, que a  pudesse encorajar, que pudesse tornar desnecessária minha interferência depois na sua mente. Foi tudo o que fiz. Não sei quantos fios da cor adequada manejei. Não  foram muitos.”

      - E depois, amigo Giskard? - perguntou Daneel.

      - Descobri, amigo Daneel, que eu tinha iniciado alguma coisa autocatalítica. Cada fio que eu fortalecia, fortalecia um outro próximo da mesma espécie, e os dois  juntos fortaleciam vários outros perto. Depois não precisei fazer mais nada. Pequenos estremecimentos, pequenos ruídos e olhares rápidos que pareciam aprovar o que  Lady Gladia dizia encorajaram ainda outros.

      "Depois, descobri uma coisa ainda mais estranha. Todos aqueles pequenos indícios de aprovação, que eu podia detectar apenas porque as mentes estavam abertas para  mim, Lady Gladia devia também ter captado de certa forma, pois as inibições subseqüentes em sua mente tombaram sem minha interferência. Ela começou a falar com mais  rapidez, mais confiança, e a platéia reagiu melhor que nunca, sem que eu interviesse. E, por fim, houve uma histeria, uma tempestade, um temporal de raios e trovões  mentais tão intensos que fui obrigado a fechar minha mente ou teria sobrecarregado meus circuitos.”

      "Nunca, em minha existência, eu tinha encontrado nada igual. Isso, contudo, teve início sem qualquer outra modificação introduzida por mim em toda a multidão além  da que introduzi, no passado, entre um simples punhado de gente. Desconfio, na realidade, que o efeito irradiou-se além da platéia sensível para a minha mente, para  a platéia maior, atingida pela hiperonda.”

      - Não vejo como isso possa acontecer, amigo Giskard - comentou Daneel.

      - Nem eu, amigo Daneel, não sou humano. Não experimento diretamente a posse de uma mente humana com todas as suas complexidades e contradições, e por isso não posso  compreender os mecanismos pelos quais ela reage. Mas, evidentemente, as multidões são mais facilmente manobradas que os indivíduos. Parece paradoxal. Um peso maior  exige mais esforço Para ser manuseado que um menor. Uma grande energia exige mais tempo Para ser calculada que uma pequena. Uma grande distância exige muito  mais tempo para ser vencida que uma pequena. Por que, então, muita gente deve ser mais facilmente manobrável que pouca gente? Você pensa como um ser humano, amigo  Daneel. Pode explicar?

      - Você mesmo, amigo Giskard - replicou Daneel - disse que era um efeito autocatalítico, uma matéria de contágio. Uma simples fagulha pode acabar por incendiar uma floresta.

      Giskard fez uma pausa e mergulhou em pensamentos. Depois disse:

      - O único motivo para esse contágio é a emoção. Senhora Gladia escolheu argumentos que ela sentiu iriam comover os sentimentos da platéia. Ela não tentou argumentar  com eles. Pode ser, então, que quanto maior a multidão, mais facilmente ela é manobrada pela emoção e não pelo raciocínio.

      "Uma vez que as emoções são poucas e os motivos muitos, o comportamento de uma multidão pode ser mais facilmente previsível que o comportamento de uma pessoa. Isso,  por sua vez, significa que se as leis devem ser desenvolvidas para permitir que a corrente da História possa ser predita, então deve-se lidar com grandes populações,  quanto maiores melhor. Isto em si pode constituir a Primeira Lei da Psico-história, a chave para o estudo das Humanidades. Contudo...”

      - Sim?

      - Espanta-me que, apenas por não ser humano, eu tenha levado tanto tempo para compreender isso. Um humano teria, talvez instintivamente, compreendido sua própria mente o bastante para saber como manejar outros iguais a ele. Senhora Gladia, sem nenhuma experiência em falar para grandes multidões, realizou a incumbência muito bem. Quão melhores seríamos se tivéssemos conosco alguém como Elijah Baley. Amigo Daneel, você não está pensando nele?

      - Você pode ver a imagem dele em minha mente? - perguntou Daneel. - Isso é surpreendente, amigo Giskard.

      - Eu não o estou vendo, amigo Daneel. Não posso receber seus pensamentos. Mas posso sentir emoções e disposições - e sua mente tem uma constituição que, pela experiência  anterior, sei estar associada à de Elijah Baley.

      - Senhora Gladia citou o fato de que eu fui o último a ver o Colega Elijah vivo, por isso tornei a lembrar, em memória, aquele momento. Estou pensando novamente no que ele disse.

      - O quê, amigo Daneel?

      - Procuro o motivo. Sinto que é importante.

      - Como podia o que ele disse ter um motivo além da implicação das palavras? Se houvesse um significado oculto, Elijah Baley teria dito.

      - Talvez - comentou Daneel, pensativo - o Colega Elijah não tenha compreendido o significado do que estava dizendo.

     

      Após o Discurso

      Memória!

      Ela permaneceu na mente de Daneel como um livro fechado de detalhes infinitos, sempre à sua disposição. Alguns trechos eram invocados freqüentemente à procura de  informações, mas apenas uns poucos eram invocados simplesmente porque Daneel desejava sentir sua estrutura. Esses poucos eram, na maior parte, os que incluíam Elijah  Baley.

      Muitas décadas atrás, Daneel tinha vindo a Baleyworld, Elijah Baley ainda era vivo. Senhora Gladia viera com ele, mas, após terem entrado em órbita, Bentley Baley  parou sobre eles em sua pequena nave para encontrá-los e foi levado para bordo. Nessa época, já era um homem de meia-idade, um tanto curtido pelo tempo.

      Olhou para Gladia com ar levemente hostil e disse:

      - A senhora não pode vê-lo, senhora.

      E Gladia, que estivera chorando, perguntou:

      - Por quê?

      - Ele não quer, senhora, e preciso respeitar seus desejos.

      - Não posso acreditar, Sr. Baley.

      - Tenho um bilhete manuscrito e uma gravação, senhora. Não sei se a senhora será capaz de reconhecer sua escrita ou a sua voz, mas tem minha palavra de honra que lhe pertencem e que nenhuma influência desfavorável foi exercida sobre ele para que fizesse esses registros.

      Ela foi para seu camarote, a fim de ler e ouvir sozinha. Depois surgiu - com ar de derrota - mas deu um jeito de dizer, com firmeza:

      - Daneel, você vai descer sozinho para vê-lo. É a vontade dele. Mas vai me informar sobre tudo que acontecer e for dito.

      - Sim, senhora - disse Daneel.

      Daneel desceu na nave de Bentley, que lhe disse:

      - Daneel, robôs são proibidos neste planeta, mas foi feita uma exceção  no seu caso, por vontade de meu pai e porque ele é altamente respeitado aqui. Não tenho nenhuma animosidade pessoal contra você, compreenda, mas sua presença  precisa ser inteiramente limitada. Você será levado diretamente a meu pai. Quando ele lhe tiver falado, você será novamente colocado em órbita. Compreende?

      - Perfeitamente, senhor. Como está seu pai?

      - Moribundo - respondeu Bentley com brutalidade talvez consciente.

      - Compreendo isso também - disse Daneel, com a voz visivelmente trêmula, não em conseqüência de uma emoção comum, mas porque a consciência da morte de um ser humano,  conquanto inevitável, alterava as redes do seu cérebro positrônico. - Quanto tempo mais ele viverá?

      - Deveria ter falecido há já algum tempo. Manteve-se vivo porque se recusa a morrer antes de vê-lo.

      Pousaram. Era um planeta enorme, mas a parte habitada - se se resumia nisto - era mínima e miserável. O dia se apresentava nublado e chovera cedo. As ruas largas  e retas estavam vazias, como se a população existente não estivesse disposta a se reunir para ver um robô.

      O carro de solo atravessou com eles o vazio e levou-os a uma casa maior e mais atraente que a maioria. Entraram juntos. Bentley parou diante de uma porta interna.

      - Meu pai está aqui - disse, com ar triste. - Você deve entrar sozinho. Ele não quer a minha presença junto com você. Entre. Poderá não reconhecê-lo.

      Daneel penetrou no quarto sombrio. Seus olhos se adaptaram rapidamente e ele viu um corpo coberto por um lençol dentro de um casulo que só era visível por seu leve  brilho. A luz do quarto intensificou-se um pouco e Daneel pôde, então, ver o rosto nitidamente.

      Bentley tinha razão. Daneel nada viu do seu velho colega nele. Mostrava-se macilento e esquelético. Os olhos estavam fechados e pareceu a Daneel estar vendo um cadáver.

      Nunca vira um ser humano morto, e quando esse pensamento atingiu-o, ele cambaleou e pareceu-lhe que suas pernas não o sustentariam.

      Mas os olhos do velho abriram-se e Daneel recuperou o equilíbrio, embora continuasse a sentir uma debilidade estranha.

      Os olhos fixaram-se nele e um sorriso fraco entreabriu os lábios pálidos e rachados.

      - Daneel. Meu velho amigo Daneel.

      Era o tom fraco de Elijah Baley, cuja voz lembrou naquele som sussurrado. Um braço surgiu devagar do lençol e pareceu a Daneel que, afinal de contas, tinha reconhecido Elijah.

      - Colega Elijah - murmurou docemente.

      - Obrigado... obrigado por ter vindo.

      - Para mim, era importante vir, Colega Elijah.

      - Temi que eles não tivessem permitido. Eles - os outros - até mesmo meu filho, pensam em você como um robô.

      - Eu sou um robô.

      - Não para mim, Daneel. Você não mudou, não é? Não o vejo nitidamente, mas me parece estar o mesmo de sempre. Quando o vi pela última vez? Há vinte e nove anos?

      - Sim... E em todo este tempo, Colega Elijah, não mudei; e, como vê, sou um robô.

      - Eu, porém mudei, e muito. Não deveria tê-lo deixado me ver neste estado, mas estava muito fraco para resistir ao desejo de vê-lo mais uma vez.

      A voz de Baley pareceu tornar-se um pouco mais viva, como que fortalecida pela presença de Daneel.

      - Estou contente por vê-lo, Colega Elijah, apesar de você ter mudado.

      - E Lady Gladia? Como vai ela?

      - Vai bem. Veio comigo.

      - Ela não está...

      Uma nota de doloroso alarme surgiu em sua voz, quando correu o olhar em torno.

      - Ela não está neste planeta, mas em órbita. Ela foi informada de que você não a queria ver - e compreendeu.

      - Não é verdade. Eu quero vê-la, mas fui capaz de resistir a essa tentação. Ela não mudou, não é?

      - Continua com a mesma aparência de quando a viu pela última vez.

      - Ótimo. Mas não podia permitir-lhe que me visse neste estado. Não podia consentir que esta fosse a última lembrança minha. com você é diferente.

      - Isso é porque sou um robô, Colega Elijah.

      - Não insista mais nisso - replicou o moribundo, irritado. - Se você fosse humano, Daneel, não significaria mais para mim.

      Ficou por algum tempo silencioso no leito e depois prosseguiu:

      - Todos estes anos, nunca lhe hipervisei nem escrevi. Não posso me permitir interferir em sua vida. Gladia ainda está casada com Gremionis?

      - Está sim.

      - É feliz?

      - Não posso avaliar. Ela não se comporta de forma a ser interpretada como infeliz.

      - Filhos?

      - Os dois permitidos.

      - Ela não ficou zangada porque não dei notícias?

      - Acredito que ela tenha compreendido seus motivos.

      - Ela alguma vez... se referiu a mim?

      - Quase nunca, porém, Giskard é de opinião que ela freqüentemente Pensa em você.

      - Como vai Giskard?

      - Funciona adequadamente - da forma que o senhor sabe.

      - Então você está a par... das suas capacidades?

      - Ele me contou, Colega Elijah.

      Baley ficou novamente em silêncio. Depois mexeu-se e disse:

      - Daneel, pedi sua presença aqui pelo desejo egoísta de vê-lo, de ver pessoalmente que não mudou, que há uma aragem dos grandes dias de minha vida ainda persistindo,  que você se lembra de mim e continuará se lembrando. Mas também quero lhe dizer uma coisa.

      "Morrerei breve, Daneel, e sei que você tomará conhecimento disso. Mesmo que não esteja aqui, mesmo que esteja em Aurora, a notícia chegará até você. Minha morte  será uma notícia galáctica. - Seu peito moveu-se num riso fraco e silencioso. - Quem teria pensado nisso alguma vez? - Prosseguiu: - Gladia também tomará conhecimento, claro, mas ela sabe que devo morrer e aceitará o fato, por mais triste que seja. O que eu temia era o efeito em você, pelo fato de ser - como você insiste e eu nego - um robô. Pelos velhos tempos, você deve sentir como obrigação evitar que eu morra, e o fato de que não poderá fazer isso pode talvez ter um efeito permanentemente deletério em você. Vamos, portanto, discutir a esse respeito."

      A voz de Baley estava enfraquecendo. Apesar de Daneel estar imóvel, seu rosto revelava uma condição incomum - refletia emoção, que se consubstanciava numa expressão  de preocupação e tristeza. Os olhos de Baley estavam fechados e ele não pôde ver aquilo.

      - Minha morte, Daneel - começou - não é importante. Nenhuma morte individual entre seres humanos é importante. Quem morre deixa uma obra, e esta não morre inteiramente. Nunca morre inteiramente enquanto a humanidade existir. Compreende o que estou dizendo?

      - Sim, Colega Elijah - replicou Daneel.

      - A obra de cada indivíduo contribui para um conjunto, constituindo assim parte integrante de uma totalidade. Esta totalidade de vidas humanas  - passado, presente e futuro - forma uma tapeçaria que vem existindo por muitos milhares de anos - e se desenvolvendo de modo cada vez mais aprimorado e mais belo.  Mesmo os Espaciais são um ramo dessa tapeçaria, e também contribuem para a perfeição e beleza do padrão. Uma vida individual é um fio na tapeçaria, e o que é um  fio comparado com o conjunto?

      "Daneel, conserve sua mente fixada com firmeza na tapeçaria e não deixe que o arrastar de um único fio o afete. Há muitos outros fios, cada um válido, cada um contribuindo..."

      Baley parou de falar, mas Daneel esperou com paciência.

      Os olhos de Baley se abriram e, fixando-se em Daneel, franziram-se ligeiramente.

      - Você ainda está aí? Chegou a hora de partir. Disse-lhe o que pretendia.

      - Não desejo partir, Colega Elijah.

      - É preciso. Não posso afastar a morte por mais tempo. Estou cansado... desesperadamente cansado. Quero morrer. Está na hora.

      - Não poderei ficar enquanto você viver?

      - Não quero isso. Se eu morrer enquanto você estiver olhando, isso pode atingi-lo terrivelmente, apesar de tudo o que eu disse. Vá agora. É uma... ordem. Permitirei  que seja um robô, se desejar, mas, nesse caso, precisa obedecer minhas ordens. Nada do que possa fazer salvará minha vida, portanto não há por que seguir a Segunda  Lei. Vá! - Baley apontou o dedo debilmente e disse: - Adeus, amigo Daneel.

      Daneel virou lentamente, cumprindo a ordem de Baley com uma dificuldade jamais experimentada.

      - Adeus, Colega... - Fez uma pausa e disse, com a voz ligeiramente embargada: - Adeus, amigo Elijah.

      Bentley encontrou Daneel na sala ao lado.

      - Ele ainda está vivo?

      - Ainda estava quando eu saí.

      Bentley entrou e tornou a sair quase imediatamente.

      - Não está mais. Ele o viu e depois... entregou-se.

      Daneel precisou encostar-se na parede. Levou algum tempo para que se recuperasse.

      Bentley, desviando os olhos, esperou; depois, ambos voltaram para a pequena nave, tornando a entrar em órbita, onde Gladia esperava.

      Ela também perguntou se Elijah Baley ainda estava vivo, e quando lhe disseram suavemente que não, ela virou-se, sem lágrimas, e entrou no próprio camarote para chorar.

     

      Daneel continuou seus pensamentos, como se a recordação aguda da morte de Baley em todos os seus detalhes não tivesse intervindo momentaneamente.

      - E, contudo, agora, à luz do discurso de Senhora Gladia, eu pude compreender um pouco mais do que o Colega Elijah estava dizendo.

      - Como assim?

      - Não tenho muita certeza. É muito difícil pensar na direção em que eu estou tentando.

      - Esperarei o tempo que for necessário - disse Giskard.

     

      Genovus Pandaral era alto e ainda não muito velho, apesar do seu espesso tufo de cabelo branco, que, juntamente com suas abundantes suíças brancas, dava-lhe um ar  de dignidade e distinção. Seu aspecto geral, parecendo um chefe, tinha auxiliado seu avanço nas fileiras, porém, como ele mesmo sabia muito bem, sua aparência era  muito mais forte que sua fibra interior. Uma vez eleito para o Diretório, superara com bastante rapidez sua exultação inicial. Ele estava mergulhado em problemas,  e a cada ano, quando era promovido automaticamente, ficava consciente disso mais nitidamente. Agora era o Diretor Sênior. O Diretor Sênior de todos os tempos!

      Outrora, a tarefa de dirigir não tinha importância. No tempo de Nephi Morler, há oito décadas, o mesmo Morler, que era sempre apresentado aos estudantes como o maior  de todos os Diretores, não havia sido nada. Que tinha Baleyworld sido então? Um pequeno planeta, uma insignificante quantidade de fazendas, um punhado de aldeias  amontoadas ao longo de linhas naturais de comunicação. A população total não passava de cinco milhões, e suas exportações mais importantes eram lã virgem e titânio.

      Os Espaciais os ignoravam totalmente, sob a influência mais ou menos benigna de Han Fastolfe de Aurora, e a vida era simples. As pessoas sempre podiam fazer viagens  de volta à Terra - se desejavam uma aragem de cultura ou de tecnologia - e havia um fluxo constante de Terráqueos chegando como imigrantes. A considerável população  da Terra era inesgotável.

      Então, por que Morler não poderia ter sido um grande Diretor? Ele nada tivera para fazer.

      E, no futuro, governar seria novamente muito simples. À medida que os Espaciais continuassem a degenerar (fora dito a todos os estudantes que isso aconteceria, que  eles iriam se afogar nas contradições da sua sociedade - embora Pandaral, às vezes, especulasse se aquilo era mesmo verdade) e os Colonizadores continuassem a crescer  em número e força, chegaria breve o tempo em que a vida seria novamente segura. Os Colonizadores viveriam em paz e desenvolveriam sua própria tecnologia ao limite  máximo. Quando Baleyworld estivesse cheia, assumiria as proporções e condições de uma nova Terra, como os demais planetas, enquanto outros novos brotariam aqui e  ali, em número cada vez maior, finalmente construindo o Grande Império Galáctico. E certamente Baleyworld, como o mais velho e mais populoso dos planetas dos Colonizadores,  teria sempre um papel de relevo nesse império, sob o comando benigno e perpétuo da Mãe Terra.

      Mas Pandaral não era Diretor Sênior no passado. Nem no futuro. Era agora.

      Han Fastolfe estava morto. Kelden Amadiro, porém, estava vivo. Ele  tinha se colocado contra a permissão para a Terra enviar Colonizadores vinte décadas antes, e ainda estava vivo para provocar encrencas. Os Espaciais continuavam  muito fortes para serem desprezados, os Colonizadores não eram ainda bastante fortes para avançar com confiança. Os Colonizadores, seja como for, tinham de conter  os Espaciais até que o equilíbrio tivesse mudado suficientemente.

      E a tarefa de manter os Espaciais calmos e os Colonizadores resolutos porém cordatos, caía mais sobre os ombros de Pandaral que de qualquer outro - e era uma tarefa não desejada nem pedida.

      Agora era manhã, uma fria manhã - cinzenta, com mais neve caindo - embora isso não surpreendesse - e ele caminhou pelo hotel sozinho. Ele não queria acompanhamento.

      Os guardas de segurança, em pleno vigor, fizeram continência quando ele passou e agradeceu com ar fatigado. Falou com o capitão da guarda, quando este avançou para cumprimentá-lo.

      - Algum problema, capitão?

      - Nenhum, diretor. Tudo em paz. Pandaral balançou a cabeça.

      - Em que quarto colocaram Baley?. Ah... E a Espacial e seus robôs estão sob estrita vigilância?... Ótimo.

      Ele passou adiante. No todo, D. G. tinha se comportado bem. Solaria, abandonado, podia ser usado pelos Mercadores como um estoque de robôs quase infinito e como uma fonte de grandes lucros - embora estes não fossem tomados como o equivalente natural da segurança mundial, pensou Pandaral, sombriamente. Mas Solaria, cheio de armadilhas, devia ser abandonado. Ele não valia uma guerra. D. G. tinha agido bem ao partir imediatamente.

      E ao trazer o intensificador nuclear consigo. Até agora, esses aparelhos eram tão agressivamente poderosos, que só podiam ser usados em amplas e caras instalações  desenhadas para destruir naves invasoras - e mesmo essas nunca tinham ultrapassado o estágio de planejamento. Caras demais. Versões menores e mais baratas faziam-se  absolutamente necessárias, e assim D. G. tinha razão em pensar que um intensificador Solariano era mais importante que todos os robôs juntos daquele planeta. Esse  intensificador iria ajudar muito os cientistas de Baleyworld.

      No entanto, se um planeta Espacial tinha um intensificador portátil, por que outros não o teriam? Por que não Aurora? Se essas armas fossem bastante pequenas para caber em belonaves, uma frota espacial podia varrer qualquer quantidade de naves dos Colonizadores sem problemas. Em Que ponto desse desenvolvimento eles estariam?

      E quão rapidamente podia Baleyworld avançar na mesma direção, com a ajuda do intensificador Que D. G. trouxera?

      Ele bateu na porta do quarto de hotel de D. G., entrando quase imediatamente, sem esperar por convite. Havia certas vantagens úteis que acompanhavam a prerrogativa de ser Diretor Sênior.

      D. G. olhou do banheiro e disse, com a cabeça enrolada na toalha em que estava secando o cabelo:

      - Eu gostaria de cumprimentar Sua Excelência Diretorial de forma mais apropriada e digna, mas o senhor me pegou em desvantagem, uma vez que estou em posição pouco digna, tendo acabado de sair do chuveiro.

      - Ah, cale-se - disse Pandaral, de mau humor. Normalmente, Pandaral saboreava a irreprimível vivacidade de D. G., mas não naquele instante. De muitas formas, ele nunca compreendera inteiramente o rapaz. Ele era um Baley, um descendente em linha reta do grande Elijah e do fundador, Bentley. Isso o tornava candidato natural ao posto de Diretor, especialmente porque ele tinha a espécie de bondade que o tornava benquisto junto à população. Contudo,  ele preferira ser Mercador, uma vida difícil - e perigosa. Podia torná-lo rico, mas muito provavelmente o mataria ou - o que era pior - o envelheceria prematuramente.

      Além disso, a vida de D. G. como Mercador o afastava de Baleyworld durante meses de cada vez, e Pandaral preferia seus conselhos aos da maioria dos seus chefes de  departamento. Ninguém jamais poderia dizer quando D. G. estava falando sério, mas, apesar disso, valia a pena ouvi-lo.

      Pandaral disse, com ar grave:

      - Não acho que o discurso daquela mulher tenha sido a melhor coisa que nos aconteceu.

      D. G., meio solene, encolheu os ombros.

      - Quem poderia ter previsto aquilo?

      - Você poderia. Você devia ter examinado seus motivos - se tivesse mudado de idéia quanto a trazê-la.

      - Eu examinei suas intenções, diretor. Ela passou mais de três décadas em Solaria. Foi lá que ela moldou sua mente e viveu totalmente com robôs. Viu seres humanos  apenas por imagens holográficas, com exceção do marido - que não a visitava, com freqüência. Ela teve uma adaptação difícil quando chegou a Aurora, e mesmo lá ela  vivia principalmente com robôs. Em nenhuma ocasião, em vinte e três décadas, Gladia enfrentou mais de vinte pessoas juntas, muito menos quatro mil. Eu concluí que  ela não seria capaz de falar mais que uma poucas palavras - se tanto. Eu não tinha como saber que ela era uma demagoga.

      - Você podia tê-la impedido, ao descobrir que era. Estava sentado exatamente ao seu lado.

      - O senhor queria um tumulto? A platéia estava gostando. O senhor estava lá e viu. Se eu a tivesse forçado a se calar, eles teriam atacado o palanque. Afinal de contas, diretor, o senhor não procurou impedi-la.

      Pandaral pigarreou.

      - Realmente, pensei nisso, mas cada vez que eu olhava para trás, percebia o olho do seu robô - o que olha como um robô.

      - Giskard. Sim, mas e daí? Ele não lhe causaria dano.

      - Eu sei. De qualquer modo, ele me deixou nervoso e isso me preocupou.

      - Bem, não importa, diretor - replicou D. G. Agora estava solene e empurrou a bandeja do café da manhã para o outro. - O café ainda está quente. Sirva-se de bolo  e geléia, se desejar. Mas voltando ao assunto, isso passará. Não acredito que os presentes tenham ficado realmente inundados de amor pelos Espaciais a ponto de prejudicarem  nossa política. Isso pode mesmo servir a um objetivo. Se os Espaciais souberem do que houve, o partido de Fastolfe poderá ficar fortalecido. Fastolfe pode estar  morto, mas seu partido não - não totalmente - e precisamos incentivar sua política de moderação.

      - O que eu tenho em mente - replicou Pandaral - é o Congresso Pan-Colonizador que se realizará dentro de cinco meses. Serei obrigado a ouvir uma série de referências irônicas ao abrandamento de Baleyworld e ao fato de seus habitantes terem se tornado amigos dos Espaciais. Olhe - acrescentou macambúzio - quanto menor o planeta, mais altivo.

      - Então diga-lhes isso - respondeu D. G. - Seja um verdadeiro estadista em público, mas, em particular, encare-os com firmeza - não oficialmente - e diga-lhes que  há liberdade de expressão em Baleyworld e pretendemos continuar assim. Diga-lhes que Baleyworld leva a sério os interesses da Terra, mas que, se algum planeta quiser  provar sua primordial devoção à Terra declarando guerra aos Espaciais, Baleyworld observará com interesse, porém nada mais. Isso os manterá calados.

      - Oh, isso não - disse Pandaral, assustado. - Um comentário como esse certamente vazaria. Estaria criada uma situação intolerável.

      - O senhor tem razão, o que é uma pena - comentou D. G.  - Mas pense nisso e não deixe essas cabeças ocas faladoras dominá-lo.

      Pandaral suspirou.

      - Acho que daremos um jeito, mas a noite passada complicou nossos planos de encerrar com um dó de peito. O que eu realmente lamento.

      - Que dó de peito? Pandaral respondeu:

      - Quando você partiu de Aurora para Solaria, duas belonaves Auroreanas também vieram. Sabia disso?

      - Não, mas de certa forma já esperava - disse D. G. com pouco caso. - Foi por esse motivo que eu me dei ao trabalho de ir a Solaria por um caminho evasivo.

      - Uma das naves de Aurora pousou em Solaria, a milhares de quilômetros de distância da sua - mas pareceu não fazer qualquer esforço para manter vigilância sobre você - e a segunda permaneceu em órbita.

      - É compreensível. Eu teria feito o mesmo se tivesse uma segunda nave à minha disposição.

      - A nave Auroreana que pousou foi destruída em poucas horas. A nave em órbita transmitiu o acontecido e recebeu ordem de voltar. Uma estação dos Mercadores captou o relatório, que foi enviado para nós.

      - O relatório não foi decifrado?

      - Claro que não, mas era um dos códigos que destruímos. D. G. balançou a cabeça pensativamente e depois disse:

      - Muito interessante. Concluo que eles não tinham ninguém que falasse Solariano.

      - Evidentemente - retrucou Pandaral, sério. - A menos que alguém pudesse descobrir para onde os Solarianos foram, essa sua mulher é a única Solariana disponível na Galáxia.

      - E eles me deixaram ficar com ela, não? Os difíceis Auroreanos.

      - De qualquer forma, eu ia anunciar a destruição da nave Auroreana na noite passada. De uma forma normal - sem maldade. Mesmo assim, porém, isso deverá excitar todos os Colonizadores na Galáxia. Quero dizer, vamos nos safar e os Auroreanos não.

      - Temos uma Solariana e os Auroreanos não - disse D. G. secamente.

      - Muito bem. Isso faz com que você e a mulher tenham uma boa viagem. Mas não leva a nada. Depois do que a mulher fez, tudo mais se tornou um anticlímax, mesmo as notícias da destruição de uma belonave Auroreana.

      - Para não falar no fato - acrescentou D. G. - de que todos terminaram aplaudindo a amizade e o amor, não seria natural - pelo menos na primeira meia hora – aplaudir a morte de algumas centenas de Auroreanos.

      - Acho que sim. Logo, isso era um enorme golpe psicológico que perdemos.

      D. G. franziu o cenho.

      - Esqueça isso, diretor. O senhor sempre pode fazer propaganda num outro momento mais apropriado. Importante mesmo é o que tudo isso significa. Uma nave Auroreana explodiu. Vale dizer que eles não estavam esperando que um intensificador nuclear fosse usado. A outra nave foi mandada de volta, o que pode significar que não estava equipada com defesas contra ele - e talvez nem tenham mesmo qualquer defesa. Isso me faz supor que esse intensificador portátil - ou semiportátil, enfim - é uma manifestação especificamente Solariana e não Espacial em termos genéricos. São boas notícias para nós - se verdadeiras. No momento, não vamos nos preocupar com propaganda desse tipo, mas apenas nos concentrar em apurar cada informação que pudermos apurar desse intensificador. Precisamos estar na frente dos Espaciais nisso - se possível.

      Pandaral mastigou um pedaço de bolo e disse:

      - Talvez você tenha razão. Mas nesse caso, como nos ajustamos em outro trecho das notícias?

      D. G. perguntou:

      - Que outro trecho das notícias? Diretor, o senhor está me dando as informações de que necessito para uma conversa inteligente ou pretende atirá-las uma a uma para o ar e fazer-me saltar atrás delas?

      - Não seja irritável, D. G. Não há sentido em conversar com você se eu não puder ser informal. Você sabe como é uma reunião do Diretório? Quer o meu emprego? Você o terá, sabe disso.

      - Não, obrigado, não o quero. O que eu quero é o seu trecho de notícias.

      - Recebemos uma mensagem de Aurora. Uma mensagem real. Eles de fato se dignaram a se comunicar diretamente conosco, em vez de fazê-lo por intermédio da Terra.

      - Podemos considerá-la uma mensagem muito importante então - para eles. Que querem?

      - Querem a Solariana de volta.

      - Então, evidentemente, sabem que outra nave partiu de Solaria e veio para Baleyworld. Eles também devem ter suas estações de rastreamento e escutaram clandestinamente nossas comunicações como nós as deles.

      - De jeito nenhum - disse Pandaral, irritadíssimo. - Eles decifraram nossos códigos tão depressa como nós os deles. Minha impressão é que devemos chegar a um acordo para que ambos enviemos mensagens às claras. Nenhum de nós ficaria em situação desfavorável.

      - Eles explicaram por que querem a mulher?

      - Claro que não. Espaciais não fornecem motivos, dão ordens.

      - Eles descobriram o que aquela mulher fez exatamente em Solaria? Uma vez que ela é a única pessoa que fala Solariano autêntico, quererão que ela limpe o planeta dos seus supervisores?

      - Não sei como terão podido descobrir, D. G. Nós só anunciamos seu papel na noite passada. A mensagem de Aurora foi recebida bem antes disso. Mas não importa por que eles a querem. O problema é: o que faremos? Se não a devolvermos, podemos provocar uma crise com Aurora, coisa que eu não quero. Se a devolvermos, isso não agradaria aos cidadãos de Baleyworld, e o Velho Bistervan terá um pretexto para dizer que estamos rastejando diante dos Espaciais.

      Encararam-se e depois D. G. disse, com voz arrastada:

      - Temos que devolvê-la. Afinal de contas, ela é Espacial e cidadã de Aurora. Não podemos retê-la contra a vontade deles, ou estaremos expondo a risco todo Mercador que se aventure, a negócios, no território Espacial. De qualquer modo, Vou levá-la de volta, diretor, e o senhor poderá me culpar por isso. Diga que uma das condições para que eu pudesse levá-la a Solaria era levá-la de volta para Aurora, o que é verdade. Que, embora não se tratasse de uma formalidade escrita, eu sou uma pessoa ética e achei que devia cumprir meu acordo. Isso pode até se tornar uma vantagem para nós.

      - De que maneira?

      - Darei um jeito. Mas se conseguir, diretor, minha nave deve ser reequipada à custa do planeta. E minha tripulação vai ter de receber gratificações vultosas. Vamos, diretor, eles estão desistindo de suas licenças.

      Considerando que não tinha a intenção de estar em sua nave novamente pelo menos durante outros três meses, D. G. pareceu estar muito bem-humorado. E considerando que Gladia tinha alojamentos maiores e mais confortáveis do que antes, ela parecia um tanto deprimida.

      - Por que tudo isto? - perguntou.

      - Olhando os dentes de cavalo dado? - perguntou de volta D. G.

      - Estou apenas querendo saber por quê?

      - Por um motivo, senhora: a senhora é uma heroína classe A. Quando a nave foi reformada, criamos este espaço para a senhora.

      - Mas este espaço não foi simplesmente criado. Devia pertencer a alguém.

      - Realmente, era o lugar de descanso da tripulação, porém eles insistiram, sabe? A senhora também é a preferida deles. Na verdade, Niss - lembra-se dele?

      - Evidentemente.

      - Ele quer que a senhora o coloque no lugar de Daneel. Diz que Daneel não gosta do emprego e vive pedindo desculpas às suas vítimas. Niss garante que liquidará quem lhe causar o menor problema, que terá prazer nisso e nunca pedirá desculpas.

      Gladia sorriu.

      - Diga-lhe que pensarei no seu oferecimento e que terei prazer em lhe apertar a mão, se for possível. Eu não tive oportunidade de fazê-lo antes do nosso desembarque em Baleyworld.

      - Espero que a senhora use suas luvas nessa ocasião.

      - Claro, porém fico imaginando se isso é absolutamente necessário. Não tenho também fungado muito desde que saí de Aurora. As injeções que tomei provavelmente reforçaram muito bem meu sistema de imunização. - Tornou a olhar em volta. - O senhor até arranjou nichos para Daneel e Giskard. Foi muito simpático de sua parte, D. G.

      - Senhora - retrucou D. G. - fazemos o possível para agradar e estamos encantados por tê-lo conseguido.

      - Bastante estranhamente - Gladia falou como se estivesse realmente confusa pelo que ia dizer - não estou inteiramente satisfeita. Não estou certa de querer partir do seu planeta.

      - Não? Frio... neve... monotonia... primitivismo... multidões infindáveis por tudo quanto é lado, ovacionando. O que pode tê-la atraído aqui?

      Gladia ruborizou-se.

      - Não são as multidões ovacionando.

      - Fingirei acreditar na senhora, senhora.

      - Não são. É uma coisa inteiramente diferente. Eu... eu nunca fiz nada. Diverti-me de várias maneiras comuns, ocupei-me com campos de força coloridos e exodesenho de robôs. Fiz amor, fui mulher e mãe e... e... em nenhuma dessas coisas jamais fui uma pessoa de alguma importância. Se eu tivesse subitamente desaparecido da vida ou se - nunca tivesse nascido, não teria afetado quem quer que fosse ou alguma coisa, exceto, talvez, um ou dois amigos muito íntimos. Agora é diferente.

      - Acha?

      Havia um leve toque de ironia na voz de D. G. Gladia disse:

      - Sim! Eu posso influenciar pessoas. Posso escolher uma causa e fazê-la minha. Eu escolhi uma causa. Quero evitar a guerra. Quero o universo habitado tanto por Espaciais  como por Colonizadores. Quero que cada grupo conserve suas próprias peculiaridades, mas aceitando livremente as dos outros também. Quero trabalhar tão intensamente  nisto a ponto de, quando eu morrer, a História mudar por causa do meu trabalho e as pessoas dizerem: "Não fosse ela, as coisas não estariam tão boas como estão."

      Gladia virou-se para D. G., com o rosto radiante.

      - O senhor sabe a diferença que isso faz - depois de dois séculos e um terço sem ser ninguém, ter a oportunidade de ser alguém; descobrir que a vida supostamente  vazia passou a ter conteúdo, afinal de contas, transformando-se em algo maravilhoso; ser feliz muito depois de ter desistido de qualquer esperança nesse sentido?

      - A senhora não precisa estar em Baleyworld, senhora, para ter tudo isso.

      D. G. parecia, de certa forma, um tanto embaraçado.

      - Eu não conseguiria isso em Aurora. Lá, não passo de uma imigrante Solariana. Num planeta dos Colonizadores, eu seria uma Espacial - uma coisa rara.

      - No entanto, em várias ocasiões - e com muita veemência - a senhora declarou que queria voltar para Aurora.

      - Há algum tempo, sim. Mas agora não diria isso, D. G. Agora não é isso que eu quero.

      - O que irá influenciar um bocado. Só que Aurora a quer de volta. Eles deviam ter-nos dito.

      Gladia ficou nitidamente espantada.

      - Eles me querem!

      - Uma mensagem oficial, do Presidente do Conselho de Aurora diz que sim - respondeu D. G. brandamente. - Nós gostaríamos de mantê-la aqui, mas os diretores resolveram  que conservá-la não vale uma crise estelar. Não tenho certeza de concordar com isso, mas eles estão acima de mim.

      Gladia franziu o cenho.

        - Por que me quererão eles? Vivi em Aurora por mais de vinte décadas e durante esse tempo não deram nenhuma demonstração nesse sentido... Espere! O senhor supõe  que eles me consideram agora como o único meio de neutralizar os supervisores em Solaria?

      - Esse pensamento também me ocorreu, minha senhora.

      - Eu não quero fazer isso. Neutralizar aquela supervisora não foi uma coisa fácil, e talvez eu nunca mais seja capaz de repetir aquilo. Sei que não quero... Além  disso, para que eles querem pousar no planeta? Eles podem aniquilar os supervisores à distância, agora que sabem o que eles são.

      - Na verdade - disse D. G. - a mensagem exigindo sua volta foi enviada muito antes de eles poderem ter sabido do seu choque com a supervisora. Devem querê-la para alguma outra coisa.

      - Oh! - Gladia pareceu surpresa. Depois, reanimando-se: - Pouco me importa o que seja. Não quero voltar. Tenho o que fazer aqui e pretendo prosseguir.

      D. G. levantou-se.

      - Fico feliz por ouvi-la dizer isso, Senhora Gladia. Eu estava esperando que a senhora se sentisse assim. Prometi-lhe que faria o possível para levá-la comigo quando deixamos Aurora. Neste instante, porém, preciso ir a Aurora e a senhora precisa ir comigo.

     

      Gladia ficou observando Baleyworld, enquanto o planeta recuava, com emoções muito diferentes das que sentira quando o vira aproximar-se. Continuava o planeta frio,  cinzento e miserável, como tinha sido no começo, mas caloroso e vivo para os habitantes. Estes eram reais, sólidos.

      Solaria, Aurora, os outros planetas Espaciais que ela havia visitado ou visto na hipervisão, todos pareciam cheios de gente insubstancial... gasosa.

      Era essa a palavra: gasosa.

      Não importava quão poucos eram os seres humanos que habitavam um planeta Espacial, eles se espalhavam para encher o planeta da mesma maneira que as moléculas de  gás se expandiam para encher um recipiente. Era como se os Espaciais se repelissem.

      E eles se repeliam, pensou ela, sombria. Os Espaciais sempre a repeliam. Ela fora levada a isso em Solaria, mas mesmo em Aurora, quando estava experimentando loucamente  o sexo, logo no começo, o aspecto menos agradável era a aproximação se fazer necessária.

      Exceto... exceto com Elijah... Mas ele não era Espacial.

      Baleyworld não era assim. Provavelmente, todos os planetas dos Colonizadores não eram. Estes se aglomeravam, deixando grandes espaços vazios em torno, como o preço  da aglomeração - isto é, vazios até que o  aumento da população os preenchesse. Um planeta dos Colonizadores era um mundo de pessoas juntas, de seixos e rochedos, e não de gás.

      Por que isso? Robôs, talvez! Eles diminuíam a dependência das pessoas uma das outras. Preenchiam os interstícios entre elas. Eles eram o isolamento que diminuía a atração natural que as pessoas tinham entre si, de forma que todo o sistema se partia em pedaços isolados.

      Tinha de ser isso. Em lugar nenhum havia mais robôs que em Solaria, e o efeito de isolamento tinha sido tão enorme que as moléculas de gás separadas - os seres humanos - tornavam-se tão completamente inertes que quase nunca se relacionavam. (Para onde teriam ido os Solarianos, tornou ela a pensar, e como estariam vivendo?)

      E a vida longa tinha alguma coisa a ver com isso também. Como alguém podia ter uma ligação emocional que não se deteriorasse lentamente à medida que as multidécadas  passassem... ou, alguém morrendo, como poderia o outro suportar a perda durante multidécadas? Aprendia-se, portanto, a não ter ligações sentimentais, mas a se manter  firme, numa atitude de isolamento.

      Por outro lado, seres humanos, se de vida curta, não podiam tão facilmente sobreviver à fascinação pela vida. À medida que as gerações passavam rapidamente, a bola da fascinação pulava de mão para mão sem sequer tocar o chão.

      Como dissera recentemente a D. G., nada mais havia a fazer ou conhecer, tinha experimentado e pensado em tudo, teria de viver em total enfado. .. E enquanto falava, ela não sabia, sequer sonhara com a multidões de pessoas, umas sobre as outras; ou em falar a tantos que se fundiam num contínuo mar de cabeças; ouvir suas respostas não em palavras mas em sons inaudíveis; fundir-se com eles, partilhando seus sentimentos, tornando-se um enorme organismo.

      Não se tratava de ela nunca ter experimentado isso antes, mas apenas que jamais havia sonhado que uma coisa assim pudesse ser experimentada. Quanta coisa mais ela não sabia, apesar de sua longa vida? O que mais existiria para ser experimentado, que ela era incapaz de imaginar?

      Daneel disse suavemente:

      - Senhora Gladia, acho que o comandante está pedindo para entrar.

      - Pois então que entre - disse Gladia sobressaltada. D. G. entrou, de sobrancelhas erguidas.

      - Que alívio! Pensei que a senhora talvez não estivesse. Gladia sorriu.

      - De certa forma não mesmo. Estava mergulhada em pensamentos. Isso me acontece às vezes.

      - Felicidade sua - retrucou D. G. - Meus pensamentos nunca são suficientemente grandes para eu me perder neles. Está resignada a visitar Aurora, senhora?

      - Não, não estou. E entre os pensamentos em que estive perdida, um    era justamente esse: eu não ter nenhuma idéia de por que o senhor precisa ir a Aurora. Não pode ser apenas para me devolver. Qualquer cargueiro espacial faria  o  trabalho.

      - Posso sentar, senhora?

      - Pode, claro. Não era preciso perguntar, comandante. Aliás, gostaria que o senhor parasse de me tratar como aristocrata. Torna-se cansativo. E se é uma indicação irônica de que sou Espacial, então é pior ainda. Na verdade, eu quase preferiria que me chamasse Gladia.

      - A senhora parece ansiosa para se livrar de sua identidade Espacial, Gladia - disse D. G., sentando-se e cruzando as pernas.

      - Eu gostaria de esquecer distinções não-essenciais.

      - Não-essenciais? Não enquanto você viver cinco vezes mais que eu.

      - Coisa estranha, eu estive pensando nisso como uma desvantagem um tanto aborrecida para os Espaciais. Quanto falta para chegar a Aurora?

      - Desta vez não haverá ação evasiva. Alguns dias para ficarmos bastante afastados do nosso sol e podermos dar um salto pelo hiperespaço que nos leve dentro de poucos dias a Aurora - e pronto.

      - Mas por que você precisa ir a Aurora, D. G.?

      - Eu poderia dizer que se trata de uma simples cortesia, mas na verdade eu gostaria de uma oportunidade para explicar ao seu Presidente - ou mesmo a um dos seus subordinados - o que aconteceu exatamente em Solaria.

      - Eles não sabem?

      - Basicamente, sim. Eles foram bastante gentis para grampear nossas comunicações, como teríamos feito com as deles se a situação fosse inversa. Contudo, podem não ter tirado as devidas conclusões. Eu gostaria de corrigi-las - se for o caso.

      - E quais são as devidas conclusões, D. G.?

      - Como sabe, os supervisores de Solaria estão preparados para funcionar diante de um ser humano apenas se ele falar com sotaque Solariano, como você fez. Isso significa não só que os Colonizadores não são considerados humanos, mas que os Espaciais não-Solarianos também não são. Para ser exato, os Auroreanos não serão considerados seres humanos se pousarem em Solaria.

      Gladia arregalou os olhos.

      - É incrível. Os Solarianos não fariam os supervisores tratar os Solarianos como trataram você.

      - Não? Pois já destruíram uma nave Auroreana. Sabia?

      - Uma nave Auroreana! Não, não sabia.

      - Garanto-lhe que sim. Ela pousou mais ou menos ao mesmo tempo que nós. Nós fomos embora, ela não. Você estava conosco, ela não. A conclusão é - ou devia ser – que os Auroreanos não podem tratar os outros planetas Espaciais automaticamente como aliados. Numa emergência, será cada planeta Espacial por si mesmo.

      Gladia balançou a cabeça energicamente.

      - Seria uma loucura generalizar com base num único fato. Os Solarianos teriam achado difícil fazer os supervisores reagirem favoravelmente a cinqüenta sotaques e  desfavoravelmente a montes de outros. Foi mais simples fixá-los num único. É isso. Apostaram em que nenhum outro Espacial tentaria pousar no seu planeta e perderam.

      - Sim, garanto que é assim que os chefes Auroreanos vão argumentar, uma vez que as pessoas geralmente acham muito mais fácil uma dedução agradável do que uma desagradável. O que eu pretendo é fazer com que eles examinem a possibilidade da desagradável - e que os deixa pouco confortáveis. Desculpe meu amor-próprio, mas não posso confiar em ninguém para fazer isso tão bem como eu; por isso, acho que, mais que qualquer outro, eu devo ir a Aurora.

      Gladia sentiu-se inconfortavelmente dividida. Ela não queria ser Espacial; queria ser humana e esquecer o que acabara de chamar "distinções não-essenciais". Contudo, quando D. G. falou com evidente satisfação de forçar Aurora a uma posição humilhante, ela ainda se sentiu de certa forma Espacial.

      Aborrecida, replicou:

      - Suponho que os planetas dos Colonizadores também estão em disputa. Não é cada um por si?

      D. G. balançou a cabeça.

      - Pode lhe parecer que seja assim, e eu não me surpreenderia se cada planeta Colonizador, individualmente, tivesse às vezes o impulso de colocar seu próprio interesse acima do bem-estar de todos, mas temos uma coisa que falta aos Espaciais.

      - E o que é? Uma nobreza maior?

      - Claro que não. Não somos mais nobres que os Espaciais. O que temos é a Terra. É nosso mundo. Todo Colonizador visita a Terra tão freqüentemente quanto possível.

      Todo Colonizador sabe que existe um planeta, grande e adiantado, com uma história incrivelmente rica, de variedade cultural e complexidade ecológica, que é seu e  ao qual ele pertence. Os planetas dos Colonizadores podem brigar uns com os outros, porém a briga possivelmente pode não resultar em violência ou em permanente rompimento  de relações, pois o governo da Terra é chamado imediatamente para mediar todos os problemas e sua decisão é suficiente e inquestionável.

      "Essas são as nossas três vantagens, Gladia: a falta de robôs, que nos permite construir novos planetas com nossas próprias mãos; a sucessão rápida de gerações, que exige mudança constante; e, acima de tudo, a Terra, que nos dá nosso âmago.”

      - Mas os Espaciais... - disse Gladia, apressadamente, e parou. D. G. sorriu e replicou, com uma ponta de amargura:

      - Você ia dizer que os Espaciais também descenderam dos Terráqueos e que a Terra é também seu planeta não é? Concretamente isso é verdadeiro,  mas psicologicamente é falso. Os Espaciais fizeram o que puderam para negar sua herança. Não se consideram Terráqueos outrora transferidos - ou removidos  em grupo. Se eu fosse místico, diria que, separando-se das suas raízes, os Espaciais não poderão sobreviver muito tempo. Como não sou místico, evidentemente não  posso colocar o problema dessa maneira. Ainda assim, entretanto, eles não poderão sobreviver durante muito tempo. Estou certo disso.

      Depois de uma curta pausa, o rapaz acrescentou, com uma bondade um tanto preocupada, como se tivesse percebido que, no seu alvoroço, estava atingindo um ponto sensível dentro dela:

      - Mas, por favor, pense em você mesma como um ser humano, Gladia, e não como uma Espacial, e eu pensarei em mim também como um ser humano, não um Colonizador. A humanidade sobreviverá, quer sob a forma de Colonizadores ou Espaciais, ou ambas. Creio que será unicamente sob a forma de Colonizadores, mas posso estar errado.

      - Não - replicou Gladia, procurando ser racional. - Acho que você tem razão - a menos que, de alguma forma, as pessoas aprendam a deixar de fazer a distinção Espacial/Colonizador. E meu objetivo é ajudar as pessoas a conseguirem isso.

      - Contudo - disse D. G., olhando para o painel de horas que rodeava a parede - atrasei seu jantar. Posso comer com você?

      - Certamente - respondeu Gladia. D. G. pôs-se em pé.

      - Então Vou buscar a comida. Eu devia enviar Daneel ou Giskard, mas não quero me habituar a dar ordens aos robôs à mão. Além disso, por mais que a tripulação a adore, não creio que essa adoração se estenda aos seus robôs.

      Gladia realmente não gostou da refeição, quando D. G. a trouxe. Ela pareceu não ter se acostumado à falta de sutileza nos temperos, possivelmente herança da Terra, alimentos fermentados para consumo maciço, mas que também não se tornaram especialmente repulsivos. Ela comeu impassível.

      D. G., reparando sua falta de animação, comentou:

      - Espero que a comida não lhe cause indisposição! Ela balançou a cabeça.

      - Não. Aparentemente, já me acostumei. Passei por algumas situações desagradáveis quando entrei pela primeira vez na nave, mas nada verdadeiramente grave.

      - Fico contente com isso, mas, Gladia...

      - Diga.

      - Você pode sugerir algum motivo pelo qual o governo Auroreano queira você de volta com tanta urgência? Não pode ser pelo modo como dominou a supervisora e também não é por causa do discurso. O pedido foi feito muito antes de eles terem tomado conhecimento de ambos os fatos.

      - Nesse caso, D. G. - disse Gladia, com tristeza - possivelmente eles não me querem mesmo para nada. Nunca me quiseram.

      - Mas deve haver alguma coisa. Como lhe disse, a mensagem era assinada pelo Presidente do Conselho de Aurora.

      - Este Presidente em especial, neste momento especial, deve ser um testa-de-ferro.

      - Como? Quem está por trás deles? Kelden Amadiro?

      - Exatamente. Mas você o conhece então.

      - Oh, sim - retrucou D. G., sombrio - o centro do fanatismo anti-Terra. O homem esmagado politicamente pelo Dr. Fastolfe há vinte décadas e que sobreviveu para nos ameaçar novamente. É um exemplo da mão morta da longevidade.

      - Mas há também um enigma - comentou Gladia. - Amadiro é vingativo. Sabe que foi Elijah Baley o causador dessa derrota e acredita que eu também sou responsável.  Sua antipatia - extrema antipatia - se estende a mim. Se o Presidente está me chamando, é por ordem de Amadiro, e por que este me quererá? Ele deveria, ao contrário,  querer se livrar de mim. Foi provavelmente por isso que me mandou com você para Solaria. Certamente esperava que sua nave fosse destruída - e eu junto com ela. E  isso não o teria absolutamente entristecido.

      - Nada de lágrimas incontroláveis, hem? - disse D. G., pensativo. - Mas certamente não foi o que lhe disseram. Ninguém lhe disse: "Vá com esse Mercador louco porque nos dará prazer vê-la morta."

      - Não. Disseram que você precisava desesperadamente da minha ajuda e que era político cooperar com os planetas Colonizadores naquele momento, que faria um grande bem a Aurora contando-lhes, na minha volta, tudo o que ocorresse em Solaria,

      - Sim, eles queriam isso. Poderiam até ter querido dizer isso. Mas depois - contra todas as expectativas - quando nossa nave partiu a salvo, enquanto uma nave Auroreana era aniquilada, eles podiam muito bem querer um relato em primeira mão do que acontecera. Por conseqüência, quando a levei a Baleyworld, em vez de voltar para Aurora, eles pediram sua volta. Possivelmente foi isso. A esta altura, é claro, eles sabem de tudo e, portanto talvez não precisem mais de você. Contudo - estava falando mais para si mesmo do que para Gladia - o que eles sabem é o que captaram na hipervisão de Baleyworld, e podem preferir não aceitar isso como valioso. E também...

      - E também o quê?

      - Um palpite me diz que essa mensagem pode não ter sido transmitida apenas pelo desejo de terem um relatório seu. A força da exigência, parece-me, vai muito além disso.

      - Não há nada mais que eles possam querer. Nada - afirmou Gladia.

      - Duvido muito - disse D. G.

      - Eu também duvido - falou Daneel de seu nicho na parede, naquela noite.

      - De que você duvida, amigo Daneel? - perguntou Giskard.

      - Duvido do verdadeiro significado da mensagem vinda de Aurora, reclamando a presença de Lady Gladia. Para mim, como para o comandante, o desejo de um relatório não me parece um motivo totalmente satisfatório.

      - Você tem uma outra sugestão?

      - Tenho uma suposição, amigo Giskard.

      - Posso conhecê-la, amigo Daneel?

      - Ocorreu-me que, ao exigir a volta de Senhora Gladia, o Conselho Auroreano pretende obter mais do que pediu - e não ser Senhora Gladia o que eles querem.

      - O que mais, além dela, quererão eles?

      - Amigo Giskard, é concebível que Lady Gladia volte sem nós?

      - Não, mas de que valeríamos, você e eu, para o Conselho?

      - Eu, amigo Giskard, não seria útil para eles. Você, contudo, é inestimável, pois pode entrar diretamente em contato com as mentes.

      - Isso é verdade, amigo Daneel, porém eles não sabem disso.

      - Depois da nossa partida, não é possível que tenham, de alguma forma, descoberto isso e lamentado amargamente ter permitido que você saísse de Aurora?

      Giskard não hesitou perceptivelmente.

      - Não, não é possível, amigo Daneel. Como teriam descoberto? Daneel retrucou, cautelosamente:

      - Estive pensando a esse respeito. Na viagem que fez à Terra com o Dr. Fastolfe, você deu um jeito de ajustar alguns robôs terrestres, limitando sua capacidade mental até o ponto em que pudesse continuar seu trabalho de influenciar os funcionários da Terra a olhar com coragem e simpatia o processo de Colonização. Pelo menos foi o que você me disse. Dessa forma, há robôs na Terra capazes de terem as mentes ajustadas.

      "Assim, então, como viemos a suspeitar recentemente, o Instituto de Robótica de Aurora enviou robôs humanóides para lá. Não conhecemos seu exato objetivo fazendo  isso, mas o mínimo que pode ser esperado deles é que observem os acontecimentos naquele planeta e os relatem.”

      "Mesmo que os robôs Auroreanos não possam ler mentes, podem enviar relatórios assinalando que este ou aquele funcionário mudou subitamente de atitude em relação  à Colonização, e talvez, desde que partimos  de Aurora, alguém no poder em Aurora - talvez o próprio Dr. Amadiro; - tenha começado a compreender que isso só pode  ser explicado pela existência de robôs ajustadores de mentes na Terra. Pode ter acontecido então que o estabelecimento de ajustadores de mentes tenha sido investigado  tanto  até o Dr. Fastolfe como a você mesmo.”

      "Isso, por sua vez, pode tornar claro aos funcionários Auroreanos o significado de alguns outros acontecimentos, que podem ter sido investigados até você em vez do Dr. Fastolfe. Dessa forma, estarão querendo que você volte desesperadamente, mas se sentem incapazes de pedi-lo diretamente, pois isso revelaria seu novo conhecimento.”

      Assim, reclamaram a volta de Lady Gladia - um pedido natural - sabendo que, se ela for levada de volta, você também voltará com ela.

      Giskard ficou em silêncio durante um minuto inteiro e depois falou:

      - Um raciocínio interessante, amigo Daneel, mas sem muita base. Aqueles robôs que eu escolhi para a tarefa de encorajar a Colonização terminaram sua tarefa há dezoito  décadas e ficaram inativos desde então, pelo menos no que se refere ao ajustamento da mente. Mais ainda, a Terra retirou os robôs de suas Cidades e os confinou em  áreas não habitadas de suas não-Cidades faz muito tempo já.

      " Isso significa que os robôs humanóides que supostamente estiverem sendo enviados para a Terra não tiveram, assim, ocasião de encontrar meus robôs ajustadores  de mentes ou mesmo de perceber qualquer ajustamento de mente, considerando que eles não estão mais empenhados nisso. É impossível, portanto, para minha especial  capacidade, ter sido descoberto da maneira que você supôs.”

      Daneel perguntou:

      - Não existe outro meio de descobrir, amigo Giskard?

      - Nenhum - replicou Giskard, com firmeza.

      - Apesar disso... tenho minhas dúvidas - afirmou Daneel.

 

AURORA

 

      O Velho Líder

      Kelden Amadiro não estava imune da praga humana da memória. Estava, na verdade, mais sujeito a ela que a maioria. Além do mais, em seu caso a persistência da memória  tinha, como acompanhamento, um conteúdo incomum pela intensidade de sua profundidade, raiva e frustração prolongadas.

      Tudo tinha ido muito bem para ele nas vinte décadas anteriores. Tinha sido o fundador do Instituto de Robótica (ainda era o chefe), e por um brilhante e vitorioso  momento pareceu-lhe que não podia deixar de obter o controle total do Conselho, esmagando seu grande inimigo, Han Fastolfe, deixando-o em desesperada oposição.

      Se ele tivesse... se pelo menos tivesse...

      (Havia tentado desesperadamente não pensar nisso, mas sua memória mantinha o assunto cada vez mais presente, como se nenhuma dor ou desespero fossem suficientes.)  Se tivesse vencido, a Terra teria permanecido isolada e ele só teria visto que ela declinava, deteriorava e finalmente se desintegrava. Por que não? Os habitantes  de vida curta de um planeta enfermo, superpovoado, estariam melhor mortos, uma centena de vezes melhor que vivendo a vida que se haviam forçado a levar.

      E os planetas Espaciais, calmos e seguros, poderiam então ter se expandido em seguida. Fastolfe sempre lamentara que os Espaciais vivessem tanto e tão confortavelmente  nas suas almofadas robóticas para serem pioneiros, mas Amadiro teria provado que ele estava errado.

      Contudo, Fastolfe vencera. No momento da derrota certa, de alguma forma, inacreditavelmente, ele penetrara no espaço vazio, por assim dizer, e segurara com firmeza  a vitória em suas garras - arrancada do nada.

      Claro, tinha sido Elijah Baley, aquele Terráqueo...

      Mas, por outro lado, a desconfortável memória de Amadiro tropeçava no Terráqueo e voltava. Ele não podia retratar aquele rosto, ouvir aquela Voz, lembrar aquele  feito. O nome era bastante. Vinte séculos não tinham sido suficientes para obscurecer o ódio que nutria - ou aplacar a dor que  sentia, o mínimo que fosse.

      E com Fastolfe responsável pela política, o miserável Terráqueo voara para seu planeta corruptor e se estabelecera em mundo após mundo. O furacão do progresso  da Terra tonteara os planetas Espaciais e levara-os a uma medrosa paralisação.

      Quantas vezes Amadiro se dirigira ao Conselho para afirmar que a galáxia estava escapando dos dedos dos Espaciais, que Aurora estava observando inexpressivamente,  enquanto planeta por planeta vinham sendo ocupados por homens inferiores, que a cada ano a apatia estava firmemente se apossando do espírito dos Espaciais?

      "Despertem", gritava. "Despertem. Vejam como eles crescem. Vejam como os planetas dos Colonizadores se multiplicam. O que estão esperando? Que eles pulem em suas gargantas?"

      E Fastolfe sempre respondia naquela sua vozinha melosa de acalanto, os Auroreanos e os outros Espaciais (sempre seguindo a liderança de Aurora, quando este preferia não liderar) instalavam-se e voltavam à sua modorra.

      O óbvio parecia não atingi-los. Os fatos, os números, o indiscutível declínio dos negócios, de década para década, deixava-os indiferentes. Como era possível gritar  a verdade tão firmemente, ter cada predição confirmada e apesar disso ter de olhar uma grande maioria seguindo Fastolfe como um rebanho de carneiros?  Como era possível que o próprio Fastolfe pudesse olhar tudo o que considerara uma total loucura e, apesar disso, nunca se desviar de sua política? Não se tratava  nem mesmo do fato de que ele insistisse teimosamente em estar errado, mas apenas que ele simplesmente nunca parecia notar que estava errado.

      Se Amadiro fosse o tipo de homem dotado de fantasia, certamente imaginaria que certo tipo de encanto, certa espécie de encantamento apático tinha caído sobre os  planetas Espaciais. Imaginaria que em algum lugar alguém possuía o poder mágico de acalmar cérebros antes ativos e cegar para a verdade olhos outrora aguçados.

      Para completar o intenso sofrimento final, o povo lamentou a morte de Fastolfe em frustração. Em frustração, disseram, porque os Espaciais não se apossaram de novos planetas por si mesmos.

      Fora a própria política de Fastolfe que os impedira de fazer isso! Que direito tinha ele de sentir frustração por causa disso? Que teria ele feito se, como Amadiro, tivesse sempre visto e falado a verdade e sido incapaz de forçar os Espaciais - muitos Espaciais - a ouvi-lo.

      Quantas vezes tinha ele achado que teria sido melhor para a galáxia ficar vazia que sob o domínio dos homens inferiores? Se ele tivesse o poder mágico de destruir a Terra - o planeta de Elijah Baley - com um gesto de cabeça, com que empenho o faria!

      Contudo, procurar refúgio nessa fantasia podia ser unicamente um sinal do seu completo desespero. Era o anverso da sua repetição, desejo fútil de desistir e saudar a morte - se seus robôs o permitissem.

      E então chegou a hora em que lhe foi dado o poder de destruir a Terra - mesmo forçando-o contra sua vontade. Aconteceu cerca de três quartos de década antes, quando foi apresentado a Levular Mandamus.

      Memória! Três quartos de década antes...

      Amadiro ergueu os olhos e viu que Maloon Cieis tinha entrado no escritório. Indubitavelmente tinha feito o sinal, ou não teria obtido o direito de entrar.

      Amadiro suspirou e largou seu pequeno computador. Cieis tinha sido seu braço direito desde que o Instituto fora criado. Estava ficando velho a seu serviço. Nada visível drasticamente, apenas um ar geral de decadência. Seu nariz parecia ter ficado um pouco mais torto que antigamente.

      Amadiro esfregou o seu, um tanto batatudo, e ficou imaginando até onde a decadência o estava atingindo. Ele chegara a ter 1,95m de altura, um bom tamanho mesmo pelos padrões Espaciais. Estava agora tão reto quanto sempre estivera; apesar disso, quando recentemente medira sua altura, não conseguira alcançar mais de 1,93m. Estaria começando a ficar curvado, a encolher, a diminuir?

      Pôs de lado esses pensamentos sombrios, eles mesmos um sinal mais certo de idade do que simples medidas, e disse:

      - O que é, Maloon?

      Cieis tinha um novo robô pessoal seguindo seus passos - muito moderno e lustroso. Isso também era sinal de envelhecimento. Se alguém não pode conservar o próprio corpo jovem sempre pode comprar um robô novo e jovem. Amadiro estava disposto a nunca provocar sorrisos entre os realmente moços, tornando-se presa dessa ilusão especial, principalmente desde que Fastolfe, era oito décadas mais velho que ele, nunca o fizera.

      - É esse Mandamus novamente, chefe - disse Cieis.

      - Mandamus?

      - Aquele que vive insistindo em lhe falar. Amadiro pensou um pouco.

      - Você se refere àquele idiota que é descendente da Solariana?

      - Sim, chefe.

      - Bem, não desejo vê-lo. Você ainda não deixou isso claro para ele, Maloon?

      - Exaustivamente claro. Pediu-me que lhe entregasse um bilhete e disse que o senhor o receberá.

      Amadiro falou pausadamente:

      - Acho que não, Maloon. O que diz o bilhete?

      - Não o entendi. Não é galáctico.

      - Nesse caso, por que devo eu entendê-lo melhor que você?

      - Não sei, porém ele me pediu que o entregasse ao senhor. Se não quiser lê-lo, chefe, e me der ordem, voltarei e me livrarei dele mais uma vez.

      - Bem, nesse caso, deixe-me vê-lo - disse Amadiro balançando a cabeça.

      Olhou, aborrecido o bilhete, que dizia: "Ceterum censeo, delenda est Carthago."

      Amadiro leu o bilhete, olhou para Maloon e tornou a fixar o olhar no papel. Finalmente, disse:

      - Você deve ter dado uma olhada nisto, uma vez que sabe não ser galáctico. Perguntou-lhe o que significava?

      - Perguntei, chefe. Ele disse que era latim, mas isso não me deixou mais esclarecido. Disse que o senhor entenderia. Ele é uma pessoa muito persistente e disse que

      ficaria ali o dia inteiro esperando, até que o senhor lesse.

      - Como é ele?

      - Magro. Sério, provavelmente sem humor. Alto, mas não tanto quanto o senhor. Tenso, olhos fundos, lábios finos.

      - Que idade?

      - Pela constituição da sua pele, eu diria que quatro décadas, se tanto. É muito moço.

      - Nesse caso, precisamos levar em consideração sua juventude. Mande-o entrar.

      Cieis mostrou-se surpreso.

      - O senhor vai recebê-lo?

      - Foi o que acabei de dizer, não foi? Mande-o entrar.

      O rapaz entrou na sala quase marchando. Parou empertigado defronte da escrivaninha e disse:

      - Agradeço-lhe, senhor, por ter concordado em me receber. Permite que meus robôs se juntem a mim?

      Amadiro ergueu as sobrancelhas.

      - Ficarei satisfeito por vê-los. O senhor permite que eu conserve os meus ao meu lado?

      Tinham passado muitos anos desde que ouvira alguém pronunciar a velha fórmula robótica. Era um desses velhos e bons costumes que entraram em desuso quando a noção  de polidez formal deteriorou-se e difundiu-se cada vez mais a noção de que um robô pessoal era parte de alguém.

      - Sim, senhor - disse Mandamus, e dois robôs entraram. Amadiro notou que eles não o fizeram até receberem permissão. Eram  dois robôs novos, nitidamente eficientes e mostrando todos os sinais de habilidade artesanal.

      - Seu próprio desenho, Sr. Mandamus?

      Havia sempre um valor especial nos robôs que eram desenhados por seus proprietários.

      - De fato, senhor.

      - Então o senhor é roboticista?

      - Sou, senhor. Formei-me na Universidade de Eos.

      - Trabalhando com... Mandamus respondeu suavemente:

      - Não com o Dr. Fastolfe, senhor. com o Dr. Maskellnik.

      - Oh, mas o senhor não é membro do Instituto.

      - Pedi inscrição, senhor.

      - Compreendo. - Amadiro arrumou os papéis na mesa e depois prosseguiu apressadamente, sem erguer os olhos: - Onde aprendeu latim?

      - Não sei latim bastante para falar ou ler, mas o suficiente para conhecer essa citação e saber onde a encontrar.

      - Isso em si é notável. Como conseguiu?

      - Não devoto todo o meu tempo à robótica e assim tenho outros interesses. Um deles é a planetologia, com especial referência à Terra, o que me leva à sua história e cultura.

      - Esse não é um estudo popular entre Espaciais.

      - Não, senhor, e isso é muito mau. Deve-se sempre conhecer os inimigos - como o senhor faz, senhor.

      - Como eu faço?

      - Sim, senhor. Acredito que o senhor esteja familiarizado com muitos aspectos da Terra e tenha aprendido mais a esse respeito do que eu, pois estudou o assunto mais tempo.

      - Como sabe disso?

      - Procurei aprender o mais possível sobre o senhor.

      - Porque sou outro dos seus inimigos?

      - Não, senhor, mas porque quero fazer do senhor um aliado.

      - Fazer-me um aliado seu? Então planeja me usar? Não percebe que está sendo um tanto impertinente?

      - Não, senhor, pois tenho certeza de que irá querer se aliar a mim.

      Amadiro encarou-o.

      - Não obstante, ocorre-me que o senhor está sendo mais que um tanto impertinente. Diga-me, o senhor compreende a citação que me enviou?

      - Sim, senhor.

      - Então queira traduzi-la para o Galáctico Padrão.

      - Ela diz: "Na minha opinião, Cartago precisa ser destruída."

      - E o que significa isso, na sua opinião?

      - Quem a disse foi Marcus Porcius Cato, senador da República Romana, um organismo político da antiga Terra. Ela derrotou sua principal

      Cartago, mas não a destruiu. Cato sustentava que Roma não podia   sentir-se segura até Cartago ser totalmente destruída - o que finalmente aconteceu.

      - Mas o que é Cartago para nós, rapaz?

      - Há algumas analogias.

      - Por exemplo?

      - Os planetas Espaciais têm também um rival principal que, na minha opinião, precisa ser destruído.

      - Cite o inimigo.

      - O planeta Terra, senhor.

      Amadiro tamborilou suavemente na mesa à sua frente.

      - E o senhor quer que eu seja seu aliado nesse projeto. Acha que eu ficarei feliz e ansioso para isso. Diga-me, Dr. Mandamus, quando foi que eu alguma vez disse,  num dos meus inúmeros discursos e escritos a respeito, que a Terra devia ser destruída?

      Os lábios finos de Mandamus se apertaram e suas narinas arfaram.

      - Não estou aqui - disse - numa tentativa de fazê-lo cair na armadilha de alguma coisa que possa ser usada contra o senhor. Não fui mandado aqui pelo Dr. Fastolfe  ou alguém do partido dele. Nem sou do seu partido. Nem estou tentando dizer o que se passa em sua cabeça. Estou lhe dizendo o que vai na minha. No meu entender,  a Terra precisa ser destruída.

      - E como propõe destruí-la? Sugere que atiremos bombas nucleares nela até que as explosões, a radiação e as nuvens de poeira destruam o planeta? Porque, se é assim,  como pretende impedir que as naves vingadoras dos Colonizadores façam o mesmo com Aurora e outros planetas Espaciais que possam atingir? A Terra podia ser bombardeada  impunemente há quinze décadas, mas agora não.

      Mandamus parecia revoltado.

      - Nem me passou pela cabeça uma coisa dessas, Dr. Amadiro. Eu não destruiria desnecessariamente seres humanos, ainda que fossem Terráqueos. Contudo, há uma forma  de destruir a Terra sem necessariamente matar todos os seus habitantes - e não haverá represália.

      - O senhor é um sonhador - replicou Amadiro - ou talvez não muito são.

      - Permita-me que explique.

      - Não, rapaz. Tenho pouco tempo, e por causa de sua citação, que compreendi muito bem e despertou minha curiosidade, já permiti a mim mesmo gastá-lo demais com o  senhor.

      Mandamus levantou-se.

      - Compreendo, Dr. Amadiro, e peço-lhe desculpas por tomar seu tempo em demasia. Contudo, pense no que lhe disse, e, se ficar curioso, pode me chamar quando dispuser  de mais tempo do que tem agora. Mas não espere demasiadamente, pois, se for preciso, procurarei outros caminhos; meu desejo é destruir a Terra. Veja, estou sendo  franco com o senhor.

      O rapaz esboçou um sorriso que esticou suas faces magras sem produzir muito efeito. Ele disse:

      - Adeus. E novamente obrigado.

      Virou-se e saiu. Amadiro ficou olhando pensativamente sua partida depois apertou um botão num dos lados da escrivaninha.

      Quando Cieis entrou, ele disse:

      - Maloon, quero que esse rapaz seja vigiado noite e dia, e quero saber com quem ele fala. Todos. Quero todos identificados e interrogados. Aqueles que eu indicar devem ser trazidos à minha presença. Mas, veja bem, Maloon, tudo deve ser feito sigilosamente e com uma atitude de persuasão suave e amistosa. Como sabe, ainda não mando aqui.

      Mas finalmente iria mandar. Fastolfe tinha trinta e seis décadas de idade e vinha nitidamente decaindo. Amadiro era oito décadas mais moço.

     

      Amadiro recebeu seus relatórios durante nove dias seguidos.

      Mandamus falou com seus robôs, ocasionalmente com colegas na universidade, e ainda mais ocasionalmente com pessoas nas casas vizinhas à sua. Suas conversas eram  totalmente triviais, e, muito antes de passar o nono dia, Amadiro tinha decidido que não podia continuar vigiando o rapaz. Mandamus estava ainda no começo de uma  longa vida, podendo ter trinta décadas à sua frente; Amadiro tinha apenas de oito a dez, no máximo.

      E Amadiro, pensando no que o rapaz lhe dissera, sentiu, com crescente inquietação, que não podia correr o risco de que existisse um meio de destruir a Terra e ele  o ignorasse. Podia ele permitir que a destruição tivesse lugar após sua morte, sem que a testemunhasse? Ou, que, quase tão desagradável, ela pudesse ocorrer durante  sua vida, mas com outra cabeça no comando, com outros dedos nos interruptores?

      Não, ele tinha que ver, que testemunhar e fazer, do contrário, por que tinha suportado a longa frustração? Mandamus podia ser um bobo ou um louco, mas, neste caso,  Amadiro tinha de saber com certeza se era um ou outro.

      Chegando a esse ponto de raciocínio, Amadiro mandou chamar Mandamus ao seu escritório.

      Amadiro percebeu que, fazendo isso, estava se humilhando, mas a humilhação era o preço que tinha de pagar para ter certeza de que não havia a menor possibilidade  de a Terra ser destruída sem ele. Era um preço que estava disposto a pagar.

      Ele chegou a se fortalecer para a possibilidade de Mandamus aparecer   em sua presença com um sorriso malicioso e desdenhosamente vitorioso.  a também que suportar isso. Depois da resignação, claro, se a sugestão   do rapaz fosse idiota, ele mandaria castigá-lo com toda a plenitude permitida  por uma sociedade civilizada, do contrário...

      Estava, portanto, satisfeito quando Mandamus entrou no seu escritório numa atitude de humildade razoável e agradeceu-lhe, com evidente sinceridade, por aquela segunda entrevista. Pareceu a Amadiro que deveria mostrar-se generoso por sua vez.

      - Dr. Mandamus - disse - ao mandá-lo embora sem ouvir seu plano, fui um tanto descortês. Diga-me, portanto, o que está pensando e ouvirei, até ficar perfeitamente  claro para mim - como desconfio que ficará - que seu plano talvez resulte mais do entusiasmo que do raciocínio frio. Aí, tornarei a mandá-lo embora, mas sem desprezo,  e espero que o senhor reaja sem raiva, por sua vez.

      - Não posso ficar zangado - retrucou Mandamus - por ter recebido uma justa e paciente audiência, Dr. Amadiro. Mas, e se o que eu disser fizer sentido para o senhor e der esperanças?

      - Nesse caso - disse Amadiro pausadamente - será possível que ambos possamos trabalhar juntos.

      - Isso será maravilhoso, senhor. Juntos, poderemos realizar mais que separadamente. Mas haverá coisa mais tangível que o privilégio de trabalharmos juntos? Haverá uma recompensa?

      Amadiro pareceu aborrecido.

      - Eu ficaria grato, é claro, porém não passo de um conselheiro e dirigente do Instituto de Robótica. Esse será o limite do que poderei fazer pelo senhor.

      - Compreendo, Dr. Amadiro. Mas, dentro desse limite, eu não poderia receber alguma coisa por conta? Agora?

      Olhou com firmeza para Amadiro.

      Amadiro franziu o cenho ao sentir seu olhar mergulhando num par de olhos fixos, aguçados e determinados. Não havia humildade neles!

      - O senhor está pensando em quê? - perguntou Amadiro friamente.

      - Em nada, que não possa me dar, Dr. Amadiro. Faça-me entrar para o Instituto.

      - Se estiver qualificado...

      - Não tema. Estou.

      - Não podemos deixar essa decisão ao candidato. Precisamos...

      - Ora, Dr. Amadiro, essa não é a maneira de iniciar uma relação. Uma vez que o senhor me manteve sob observação a cada instante, desde que parti a última vez, não  posso acreditar que não tenha examinado minha ficha acuradamente. Como resultado, o senhor deve saber que estou qualificado. Se, por qualquer motivo, achasse o contrário  não esperaria que eu fosse bastante engenhoso a ponto de elaborar um plano para a destruição de nossa Cartago particular e eu não estaria aqui de volta por uma chamada  sua.

      Durante um momento, Amadiro sentiu uma chama queimá-lo internamente. Por um instante, sentiu que mesmo a destruição da Terra não valia  o ato de suportar aquela fanfarronada infantil. Mas só por um instante. Então, seu sentido de proporção voltou e ele pôde dizer-se que uma pessoa tão jovem, embora  tão insolente e tão gelidamente segura de si mesma, era a espécie de homem de que ele precisava. Além disso, tinha examinado a ficha de Mandamus, e não havia dúvida  de que ele estava qualificado para o Instituto.

      Amadiro falou, calmamente (à custa de sua pressão arterial):

      - O senhor tem razão. Está qualificado.

      - Então me inscreva. Estou certo de que tem as fórmulas necessárias no seu computador. Só precisa colocar meu nome, minha escola, meu ano de formatura, quaisquer  outras trivialidades estatísticas que achar necessárias e depois assinar seu nome.

      Sem responder uma palavra, Amadiro virou-se para o computador. Forneceu a necessária informação, obteve a fórmula, assinou-a e entregou-a a Mandamus.