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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Santuário / Nora Roberts
Santuário / Nora Roberts

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Santuário

 

Ela  sonhou com Sanctuary. A enorme casa refulgia ao luar, branca como um vestido de noiva, tão imponente e poderosa quanto uma força que desafiava a encosta. Reinava sobre as dunas a leste e o pântano a oeste, como uma rainha em seu trono. O nome era apropriado, pois podia mesmo servir como um santuário, um refúgio. A casa se destacava ali havia mais de um século, um grande tributo à vaidade e ao talento do homem, perto das sombras escuras da floresta de carvalhos-da-virgínia, por onde o rio corria, num silencio solene.

Ao abrigo das árvores, os vaga-lumes piscavam dourados. As criaturas noturnas agitavam-se, prontas para caçar ou serem caçadas. As coisas selvagens vicejavam ali, nas sombras, em segredo.

Nao havia luzes acesas para iluminar as janelas altas e estreitas de Sanctuary.  Não havia luzes acesas para irradiar as boas-vindas nas varandas graciosas e portas imponentes. A noite era profunda e uma brisa úmida soprava do mar. O único som que se podia ouvir ali era o farfalhar das copas dos carvalhos e os estalos secos — como se viessem de dedos — das folhas das palmeiras. As colunas brancas eram como soldados guardando a varanda larga. Mas ninguém abriu a porta da frente para recebê-la.

Ao se aproximar, ela podia ouvir o rangido de areia e conchas sob seus pés na estrada. Os sinos de vento retiniam, em pequenos acordes musicais. O balanço da varanda mexeu-se, mas não havia ninguém sentado ali para aproveitar a noite e o luar.

O perfume de jasmim e rosa impregnava o ar, realçado pelo cheiro de maresia. E logo ela começou a ouvir também o murmúrio do mar, derramando-se pela areia, para em seguida voltar.

O ritmo era firme e paciente, lembrando a todos os habitantes de Lost Desire, a ilha do desejo perdido, que o mar podia reclamar a terra e tudo o que nela havia, a seu capricho.

Mesmo assim, ela sentiu-se mais animada ao ouvi-lo, a música do lar, a música que embalara sua infância. Houvera um tempo em que vagueava livre e solta por aquela floresta, como uma corça, explorava o pântano, corria pela areia da praia, com o privilégio despreocupado da pouca idade.

Agora, não era mais uma criança, mas estava outra vez em seu lar.

Passou a andar mais depressa. Subiu os degraus, atravessou a varanda. Estendeu a mão para a enorme maçaneta de latão, que brilhava como um tesouro perdido.

A porta estava trancada.

Ela virou para a direita, depois para a esquerda, e tentou de novo. Deixem-me entrar, pensou ela, enquanto o coração começava a bater forte. Voltei para casa. Estou aqui.

Mas a porta permaneceu imóvel. Quando pressionou o rosto contra o vidro da janela alta, no lado da porta, não pôde ver nada lá dentro. Só a escuridão.

E sentiu medo.

Correu agora, pelo lado da casa, ao longo do terraço, onde as flores projetavam-se de vasos e os lírios dançavam fileiras de coristas de cores brilhantes. A música dos sinos de vento tornou se estridente e dissonante, os estalos das folhas de palmeiras soavam como advertências. Ela lutou com a porta seguinte, chorando enquanto batia com os punhos.

Por favor, não me deixem aqui fora! Quero voltar para casa!

Ela soluçava enquanto descia cambaleando pelo caminho do jardim. Iria para os fundos da casa, entraria pela varanda fechada com tela. Nunca ficava trancada... a mãe dizia que uma cozinha devia estar sempre aberta para as visitas.

Mas ela não conseguia encontrá-la. As árvores afloravam à sua frente, enormes e juntas, os galhos e as cortinas de musgo barrando sua passagem.

Estava perdida. Tropeçava a todo instante nas raízes, em sua confusão. Fazia um enorme esforço para avistar qualquer coisa, agora que o dossel das árvores não deixava o luar passar. O vento aumentou de intensidade, uivando. Atingia seu rosto como se fossem tapas violentos. Folhas serrilhadas de palmeiras projetavam-se em sua direção, como espadas. Ela virou-se para voltar, mas o rio passava agora pelo lugar em que antes ficava o caminho, isolando-a de Sanctuary. O mato alto nas margens balançava vertiginosamente.

Foi nesse instante que ela se viu, parada sozinha, chorando, na outra margem.

E foi também nesse instante que ela compreendeu que havia morrido.

 

JO FEZ UM TREMENDO ESFORÇO PARA SAIR DO SONHO.   QUASE podia sentir as beiras afiadas arranhando sua pele, enquanto se arrastava para a superfície do túnel do sono. Os pulmões ardiam, tinha o rosto molhado de suor e lágrimas. Estendeu a mão trêmula para o abajur na mesinha-de-cabeceira. Em sua pressa para sair da escurião, jogou no chão um livro e um cinzeiro cheio.

Quando a luz acendeu, ela levantou os joelhos para o peito, passou os  braços ao redor e embalou-se até ficar mais calma.

Era apenai um sonho, disse a si mesma.   Apenas um pesadelo.

Estava em seu lar, sua própria cama, seu apartamento, a quilômetros da ilha em que ficava Sanctuary. Uma mulher adulta, de vinte e sete anos, não tinha por que se assustar com um sonho absurdo.

Mas ainda tremia quando pegou um cigarro. Precisou de três tentativas para conseguir acender um fósforo.

Três e quinze da madrugada, ela notou ao olhar para o relógio na mesinha-de-cabeceira. Aquilo começava a se tornar típico. Não havia nada pior do que crises de nervosismo às três horas da madrugada. Ela estendeu as pernas pelo lado da cama e abaixou-se para pegar o cinzeiro no chão. Disse a si mesma que limparia a sujeira pela manha. Ficou sentada na cama, a camiseta enorme caída sobre as coxas, enquanto dava uma ordem para si mesma: trate de se controlar.

Não sabia por que os sonhos levavam-na de volta à ilha de Lost Desire, ao lar de onde escapara aos dezoito anos. Mas Jo calculava que qualquer estudante de psicologia do primeiro ano poderia traduzir o resto do simbolismo. A casa estava trancada porque ela duvidava que alguém pudesse acolhê-la se voltasse agora. Pensara um pouco a respeito nos últimos dias, mas especulara se seria capaz de encontrar o caminho de volta.

E aproximava-se da idade que a mãe tinha quando deixara a ilha. Desaparecera, abandonando o marido e três crianças, sem olhar para trás.

Annabelle alguma vez sonhara em voltar para casa?, especulou Jo. E também descobrira que a porta estava trancada?

Ela não queria pensar a respeito. Não queria lembrar a mulher que partira seu coração, vinte anos antes. Jo lembrou a si mesma que, a esta altura, já deveria ter superado todas essas coisas. Vivera sem a mãe, sem Sanctuary, sem a família. Até crescera... pelo menos em termos profissionais.

Jo bateu a cinza do cigarro, distraída. Correu os olhos pelo quarto. Mantinha-o simples, prático. Embora viajasse bastante, havia poucas lembranças. Exceto pelas fotos. Emoldurara as fotos, em preto-e-branco, escolhendo as que considerava mais repousantes para decorar as paredes do quarto em que dormia.

Ali, um banco de parque vazio, a armação preta de ferro batido descrevendo curvas graciosas. E ali um salgueiro solitário, as folhas rendadas pendendo para um lago pequeno, a superfície parecendo um espelho. Um jardim enluarado era um estudo de sombra e textura de formas contrastantes. A praia deserta, com o sol rompendo no horizonte, tentava o espectador a entrar na foto e sentir a areia sob seus pés.

Pendurara a paisagem marinha na semana passada, depois de voltar de uma viagem às ilhas Outer Banks, na Carolina do Norte. Talvez fosse um dos motivos para que começasse a pensar em Sanctuary, refletiu Jo. Poderia ter viajado mais um pouco para o sul, até a Geórgia, e pego a barca do continente para a ilha.

Não havia estradas para Desire, não havia pontes estendendo-se pelo estreito.

Mas ela não fora para o sul. Completara o serviço e voltara para Charlotte, a fim de se enterrar no trabalho.

E nos pesadelos.

Jo apagou o cigarro e levantou-se. Sabia que não conseguiria mais dormir, e por isso vestiu uma calça de training. Faria algum trabalho no laboratório, para afastar a mente dos problemas.

Era bem provável que a proposta do livro a estivesse deixando nervosa, decidiu ela, enquanto saía do quarto. Era um enorme passo em sua carreira. Embora soubesse que seu trabalho era bom, a oferta de uma grande editora de fazer um livro de arte com suas fotos fora inesperada e emocionante.

Estudos Naturais, de Jo Ellen Hathaway, ela pensou ao entrar na pequena cozinha para fazer um café. Não. Mais parecia um projeto de ciências. Vislumbres da Vida?   Muito pomposo.

Ela sorriu um pouco, empurrando para trás os cabelos ruivos. Deveria se limitar a fazer as fotos, deixando a escolha do título para os especialistas.

Afinal, sabia quando recuar e quando assumir uma posição firme. Vinha fazendo uma ou outra coisa durante a maior parte de sua vida. Talvez mandasse um exemplar do livro para casa. O que sua família pensaria a respeito? Acabaria ornamentando uma das mesinhas de café, onde um hóspede o folhearia, especulando se Jo Ellen Hathaway tinha algum parentesco com os Hathaway que dirigiam a pousada em Sanctuary?

Seu pai algum dia abriria o livro e veria o que ela aprendera a fazer? Ou se limitaria a dar de ombros, deixaria o livro intocado e sairia para passear por sua ilha? A ilha de Annabelle.

Era duvidoso que ele se interessasse agora pela filha mais velha, e era um absurdo que a filha se importasse.

Jo deu de ombros, descartando o pensamento. Tirou uma caneca azul de um gancho. Enquanto esperava que o café ficasse pronto, olhou pela pequena janela.

Havia algumas vantagens em estar acordada e em pé às três horas da madrugada, refletiu ela. O telefone não tocaria. Ninguém ligaria ou mandaria um fax, ninguém esperaria uma chamada sua. Durante algumas horas, não precisava ser alguém que os outros esperavam nem fazer qualquer coisa. Se sentia o estômago embrulhado ou a cabeça doía, era a única que sabia da fraqueza.

Por baixo da janela da cozinha, as ruas estavam escuras e vazias, molhadas da chuva do final do inverno. Um lampião espalhava uma pequena poça de luz... uma luz solitária, pensou Jo. Não havia ninguém para apreciá-la. A solidão tinha seus mistérios, meditou ela.   Possibilidades intermináveis.

Ela se sentiu atraída, como era freqüente com cenas assim. Descobriu-se a ignorar o aroma do café. Pegou a Nikon e saiu descalça para a noite fria, a fim de fotografar a rua deserta.

Tranqüilizou-a, como nenhuma outra coisa era capaz de fazer.  Com uma câmera na mão e uma imagem na mente, podia esquecer todo o resto. Os pés compridos pisavam nas poças geladas, enquanto deslocava-se de um lado para outro, experimentando ângulos diferentes. Com uma irritação distraída, empurrou os cabelos para trás. Não estariam caindo em seu rosto se estivessem aparados. Mas não tivera tempo cortá-los, e era por isso que se  projetavam para a frente, numa onda desgrenhada, fazendo-a desejar um elástico.

Tirou quase uma dúzia de fotos antes de ficar satisfeita. Quando se virou, o olhar foi atraído para cima. Deixara as luzes acesas. E nem percebera que havia acendido tantas luzes no percurso do quarto à cozinha.

Os lábios contraídos, atravessou a rua. Tornou a focalizar a câmera. Agachou-se, calculando tudo, e bateu outra foto, registrando as janelas iluminadas no prédio escuro. O Covil da Insone, decidiu ela. Depois, com uma meia-risada, que ecoou de uma maneira tão estranha que a fez estremecer, Jo tornou a baixar a câmera.

Talvez estivesse perdendo o juízo. Uma mulher sã estaria na rua às três horas da madrugada, só meio vestida e tremendo de frio, enquanto batia fotos de suas próprias janelas?

Comprimiu os dedos contra os olhos e desejou, mais do que nunca, a única coisa que sempre parecera se esquivar à sua busca. Normalidade.

Você precisava dormir para ser normal, pensou ela. E não tinha uma noite inteira de sono há mais de um ano. Precisava fazer refeições regulares. Perdera quatro quilos nas últimas semanas, o corpo comprido e esguio deixando os ossos à mostra. Precisava de paz de espírito. E não podia lembrar se algum dia já tivera isso. Amigos? Claro que tinha, mas nenhum bastante íntimo que pudesse ligar no meio da noite em busca de conforto.

Família... Tinha uma família, é verdade. Um irmão e uma irmã cujas vidas não combinavam com a sua. Um pai que era quase um estranho. Uma mãe que não via e de quem não tinha notícias há vinte anos.

Não foi culpa minha, pensou Jo, enquanto atravessava a rua. A culpa era de Annabelle. Tudo mudara quando Annabelle fugira de Sanctuary, deixando a família atordoada e desesperada. O problema, na opinião de Jo, era que os outros não haviam superado. Ela conseguira.

Não permanecera na ilha tomando conta de cada grão de areia, como o pai. Não dedicara a vida a dirigir e cuidar de Sanctuary, como o irmão, Brian. E não tentara escapar para as fantasias insensatas ou para uma emoção depois de outra, como a irmã, Lexy.

Em vez disso, estudara, trabalhara, criara sua própria vida. Se agora sentia-se um pouco nervosa, era apenas porque exagerara nos compromissos, deixando que a pressão a dominasse. Estava um pouco cansada. Isso era tudo. Bastava acrescentar algumas vitaminas a sua dieta e recuperaria a forma.

Podia até tirar umas férias, pensou Jo, enquanto pegava a chave no bolso. Fazia três anos — não, quatro — desde que fizera a última viagem sem qualquer plano de trabalho específico. Talvez o México, ou as Índias Ocidentais, algum lugar com um ritmo de vida lento e um sol quente. Para relaxar e esvaziar a mente. Era a maneira de superar aquele pequeno problema em sua vida.

Ao entrar no apartamento, ela chutou um pequeno envelope pardo quadrado que estava no chão. Por um momento, Jo permaneceu imóvel, uma das mãos na porta, a outra segurando a câmera. E ficou olhando para o envelope.

Já se encontrava ali quando saíra? E por que estava ali, em primeiro lugar? O outro envelope chegara um mês antes, esperando na pilha com o resto da correspondência, apenas com seu nome escrito, de uma forma meticulosa.

As mãos começaram a tremer outra vez, enquanto dizia a si mesma para fechar e trancar a porta. Tinha dificuldade para respirar, mas abaixou-se e pegou o envelope. Com todo cuidado, largou a câmera na mesinha e abriu o envelope.

Ao retirar o conteúdo, deixou escapar um gemido baixo e longo. A foto era profissional, cortada com perfeição. Como as outras três. Os olhos de uma mulher, com as pálpebras pesadas, amendoados, pestanas grossas e sobrancelhas arqueadas. Jo sabia que a cor seria azul, um azul profundo, porque os olhos eram os seus. E havia neles um terror intenso.

Quando fora tirada? Como e por quê? Ela comprimiu a mão contra a boca, olhando para a foto. Sabia que seus olhos refletiam a imagem com perfeição. O terror dominou-a.  Correu pelo apartamento, até o segundo e menor quarto, que convertera em laboratório. Frenética, abriu uma gaveta, remexendo no conteúdo, até encontrar os envelopes que guardara ali. Havia uma foto em preto-e-branco em cada um, no tamanho de cinco por quinze.

O coração trovejava em seus ouvidos quando alinhou as fotos. A primeira mostrava os olhos fechados, como se tivessem sido fotografados durante o sono. As outras seguiam o processo de despertar. Pestanas que começavam a levantar, mostrando apenas uma insinuação das íris. Na terceira foto os olhos já estavam abertos, mas ainda desfocados, turvados pela confusão.

Haviam-na perturbado, é verdade, deixaram-na inquieta, quando as encontrara no meio de sua correspondência. Mas não a assustaram.

Agora, a última foto concentrava-se nos olhos, bem despertos e brilhando de pavor.

Jo deu um passo para trás, estremecendo. Fez um esforço para manter a calma. Por que apenas os olhos?, perguntou a si mesma. Como alguém chegara tão perto para tirar aquelas fotos sem que ela percebesse? E agora tinha de se perguntar quem chegara tão perto da porta do apartamento.

Impelida por uma nova onda de pânico, ela correu para a sala e verificou as trancas da porta, frenética. O coração batia ainda mais forte quando se encostou na porta. E, depois, a raiva prevaleceu.

Que desgraçado! Ele queria aterrorizá-la. Queria que ela se escondesse naqueles cômodos, em sobressalto com as sombras, não querendo sair, com medo de que ele estivesse lá fora, observando-a. Logo ela, que sempre fora destemida, reagia agora como o homem queria.

Vagueara sozinha por cidades de outros países, percorrera ruas ameaçadoras e vazias, escalara montanhas, atravessara selvas perigosas. Com a câmera como escudo, nunca pensara no medo. E agora, por causa de algumas fotos, sentia as pernas bambas.

O medo fora se acumulando, Jo admitiu. Fora aumentando, ao longo das semanas, pouco a pouco. Fazia com que se sentisse desamparada, exposta, brutalmente sozinha.

Ela afastou-se da porta. Não podia e não viveria assim. Ignoraria as fotos, poria de lado. Enterraria bem fundo. Deus sabia que era uma perita em sepultar traumas, pequenos e grandes. Aquele era apenas mais um.

Tomaria seu café e voltaria ao trabalho.

 

POR  VOLTA  DE  OITO  HORAS  DA  MANHÃ,  ELA  COMPLETARA  O círculo: resvalara pela fadiga, recuperara-se com a energia nervosa, a calma criativa, e agora tornava a mergulhar no cansaço.

Não podia trabalhar de uma forma mecânica, nem mesmo nas tarefas mais básicas que tinham de ser desempenhadas no laboratório. Insistia em dispensar toda a sua atenção a cada etapa. Para isso, tivera de se acalmar, livrar-se da raiva e do medo. Enquanto tomava a primeira xícara de café, convencera-se de que encontrara o raciocínio por trás das fotos que vinha recebendo. Alguém admirava seu trabalho e tentava atrair sua atenção, empenhar a influência que Jo tinha para promover suas próprias fotos.

Isso fazia sentido.

De vez em quando ela fazia conferências ou realizava oficinas. Além disso, tivera três grandes exposições nos últimos três anos. Não era tão difícil ou tão extraordinário que alguém tirasse uma foto sua... várias fotos, para ser mais precisa.

Era até razoável.

E quem quer que fosse se mostrava criativo. Era só isso. Ampliara a área dos olhos, cortara e enviara as fotos numa espécie de série. Embora as fotos dessem a impressão de terem sido copiadas há pouco tempo, não se podia determinar quando ou onde tinham sido tiradas. Os negativos podiam ter um ano. Ou dois. Ou cinco.

Não restava a menor dúvida de que haviam atraído sua atenção, mas também ela exagerara, levara para termos pessoais.

Ao longo dos últimos dois ou três anos, recebem amostras do trabalho de admiradores seus. Em geral, eram acompanhadas por uma cana, elogiando as fotos de Jo, antes que o remetente pedisse seu conselho ou ajuda. Em uns poucos casos, havia também sugestões de colaboração num projeto.

O sucesso profissional que ela desfrutava ainda era relativamente recente. Não se acostumara com as pressões inerentes ao sucesso comercial nem com as expectativas dos outros, que podiam ser opressivas.

E ela teve de admitir, enquanto ignorava as contrações do estômago e tomava um gole do café já frio, que não estava absorvendo esse sucesso tão bem quanto deveria.

Seria muito melhor, refletiu, girando a cabeça dolorida sobre os ombros doloridos, se todos a deixassem em paz para fazer o que melhor sabia fazer.

As cópias prontas estavam penduradas para secar no lado do laboratório. O último rolo de negativos já fora revelado. Sentada num banco, junto do balcão de trabalho, ela ajeitou uma folha de contatos no painel luminoso. Estudou-os através da lupa, um a um.

Por um momento, sentiu um ímpeto de pânico e desespero Cada contato examinado estava desfocado, indistinto. Droga! Droga! Como era possível? Teria acontecido com todo o rolo? Elu mudou de posição, contraiu os olhos com força e tornou a verificar a imagem ampliada das dunas e vegetação rasteira, subitamente nítida outra vez.

Jo recostou-se, com um som que se situava entre um grunhido e uma risada.

Não são as fotos que estão desfocadas, sua idiota, mas você murmurou em voz alta.

Ela largou a lupa e fechou os olhos para descansá-los. Carecia da energia para se levantar e fazer mais café. Sabia que deveria comer, oferecer alguma coisa sólida ao organismo. E sabia também que deveria dormir. Estender o corpo na cama, desligar tudo e mergulhar no sono.

Mas tinha medo, No sono, perderia até mesmo aquele controle precário.

Já começava a pensar que deveria procurar um médico, tomar alguma coisa para os nervos abalados, antes que se rompessem de uma maneira irreparável. Mas essa idéia fazia-a pensar em psiquiatras. E com certeza eles iam querer sondar e bisbilhotar, desencavar coisas que ela estava determinada a esquecer.

Daria um jeito. Era eficiente em cuidar de si mesma. Ou, como Brian sempre dissera, era boa para afastar a cotoveladas as pessoas que estivessem em seu caminho e cuidar de tudo sozinha.

Que opção tinha... que opção qualquer deles tinha, deixados à deriva naquele fragmento de terra a quilômetros de lugar nenhum?

A raiva que irrompeu dentro dela fê-la estremecer de tão repentina e intensa. Cerrou os punhos no colo e teve de fazer um esforço para reprimir as palavras veementes que queriam aflorar contra o irmão, que nem sequer estava presente.

Era cansaço, ela disse a si mesma. Apenas sentia-se cansada. Só isso. Precisava pôr o trabalho de lado, tomar uma daquelas pílulas para dormir sem receita médica, que comprara e ainda não experimentara, desligar o telefone e mergulhar no sono. Estaria mais firme depois, mais forte.

Quando a mão tocou em seu ombro, ela soltou um grito e largou a caneca.

— Jesus, Jo!

Bobby Banes recuou, aturdido, espalhando pelo chão a correspondência que trouxera.

— O que está fazendo? Que diabo está fazendo?

Jo pulou do banco, derrubando-o, com o maior estardalhaço, enquanto ele a fitava, espantado.

— Eu... você disse que queria começar às oito horas. Só estou uns poucos minutos atrasado.

Jo fez um esforço para respirar. Pôs as mãos na beira do balcão, para conseguir manter o equilíbrio.

— Oito?

Seu assistente, um estudante, acenou com a cabeça em confirmação, cauteloso. Engoliu em  seco, mantendo-se a distância.  A seus olhos, Jo ainda parecia desvairada, prestes a atacar. Era o segundo semestre de trabalho com ela e pensava que aprendera a antecipar suas ordens, avaliar os ânimos, evitar as explosões. Mas não tinha a menor idéia sobre a maneira de lidar com aquele medo intenso nos olhos de Jo.

— Por que você não bateu? — perguntou ela, ríspida.

— Bati. Mas, como não respondeu, achei que devia estar aqui. Usei a chave que me deu quando viajou em seu último trabalho.

— Devolva-a. Agora.

— Claro, Jo. — Sem desviar os olhos dela, Bobby enfiou a mão no bolso da frente dos jeans desbotados, como era a moda. — Não tinha a intenção de assustá-la.

Jo procurou se controlar, enquanto pegava a chave estendida. Agora, ela compreendeu, o embaraço era tão grande quanto o medo. Para se dar um momento, curvou-se e levantou o banco.

— Desculpe, Bobby. Você me deu um susto. Não o ouvi bater.

— Não tem importância. Quer que eu pegue mais café?

Ela sacudiu a cabeça em negativa. Cedeu aos joelhos bambos, sentando no banco. Conseguiu sorrir para Bobby. Era um bom assistente, pensou Jo... talvez ainda um pouco pomposo em relação ao seu trabalho, mas também tinha apenas vinte e um anos.

Bobby tinha a aparência de um artista que se torna universitário, pensou ela, com os cabelos louros compridos presos num rabo-de-cavalo, uma pequena argola de ouro numa orelha, o rosto comprido e estreito. Os dentes eram perfeitos. Seus pais acreditavam em aparelho, refletiu Jo, que era um pouco dentuça.

Além disso, Bobby tinha um bom olho. E muito potencial. Era por isso que estava ali, no final das contas. Jo estava sempre disposta a retribuir o que recebera.

Como os enormes olhos castanhos ainda a fitavam com uma certa cautela, ela se empenhou ainda mais no sorriso.

— Tive uma noite difícil.

— É a impressão que dá.  — Ele também ensaiou um sorriso quando Jo alteou as sobrancelhas.  — A arte consiste em perceber o que existe de fato, não é mesmo? E você parece exausta. Nao conseguiu dormir?

Vaidade era uma coisa que Jo não tinha. Deu de ombros e esfregou os olhos cansados.

— Quase nada.

— Devia experimentar aquela melatonina. Minha mãe jura que funciona. — Bobby agachou-se para recolher os cacos da caneca. — E talvez pudesse reduzir a quantidade de café.

Ele levantou os olhos, mas Jo não estava prestando atenção. Embarcara outra vez em uma de suas viagens, pensou Bobby. Um novo hábito. Ele quase desistira de persuadir sua mentora a levar um estilo de vida mais saudável. Mas decidiu tentar de novo.

— Vem subsistindo outra vez de café e cigarro.

— E verdade.

Jo começara a divagar, meio adormecida.

— Isso ainda vai matá-la. E precisa de um programa de exercícios. Perdeu quase cinco quilos nas últimas semanas. Com sua altura, deve ter mais peso. E tem ossos grandes... corre o risco de acabar com osteoporose. Tem de reforçar os ossos e fortalecer os músculos.

— Hum-hum...

— E deve procurar um médico. Se quer minha opinião, está anêmica, cada vez mais pálida... e podia levar metade de seus equipamentos nas bolsas sob os olhos.

— É muita gentileza sua notar.

Ele recolheu os cacos maiores e largou-os na cesta de lixo. Claro que ele notara. Afinal, Jo tinha um rosto que atraía atenção. Não tinha importância se ela parecia trabalhar tanto que o resto ficava em segundo plano. Bobby nunca a vira com maquiagem e ela sempre mantinha os cabelos penteados para trás e presos, mas qualquer pessoa com algum bom gosto podia imaginá-los a emoldurar aquele rosto oval, com os ossos delicados, olhos exóticos e boca sensual.

Bobby tratou de se controlar, enquanto sentia o calor espalha-se pelas laces. Jo riria se soubesse que ele sentira uma extrema atração quando fora contratado. E essa atração física era tão importante quanto a admiração profissional. Mas ele já superara a parte da atração... isto é, quase toda.

Mas não tinha a menor dúvida de que, se ela fizesse alguma coisa para realçar aquela pele cor de magnólia, acrescentasse alguma cor aos lábios generosos e acentuasse aqueles olhos de pálpebras compridas, seria deslumbrante.

— Posso preparar seu café da manhã — sugeriu ele. — Se tiver alguma coisa em casa além de barras de chocolate e pão mofado.

Jo respirou fundo.

— Não se preocupe. Talvez eu pare em algum lugar para comer. Já estou atrasada.

Ela saiu do banco e abaixou-se para recolher a correspondência.

— Não faria mal nenhum se tirasse alguns dias de folga, para se preocupar apenas com você mesma. Minha mãe vai para um spa em Miami.

As palavras de Bobby eram agora apenas um zumbido em seu ouvido. Ela pegou o envelope pardo com seu nome em letras maiúsculas. Teve de limpar uma camada de suor da testa. Havia um nó de medo no fundo do estômago.

O envelope era mais cheio do que os outros, mais pesado. Jogue-o fora!, bradou sua mente. Não abra! Não veja o que tem dentro!

Mas seus dedos já começavam a puxar a aba. Um som baixo de lamento escapou de seus lábios quando rasgou o papel no pequeno fecho de metal. E desta vez uma avalanche de fotos derramou-se pelo chão. Jo pegou uma. Era bem produzida, em preto-e-branco, doze por dezoito.

Não apenas os seus olhos desta vez, mas ela toda. Jo reconheceu o lugar, uma praça perto do prédio, por onde costumava passar. Outra foto mostrava-a no centro de Charlotte, parada na beira da calçada, a bolsa da câmera pendurada no ombro.

— Ei, é uma boa foto sua!

Quando Bobby se inclinou para pegar uma das fotos, ela deu um tapa em sua mão e disse, ríspida:

— Fique longe! Não toque em nada!

— Jo, eu...

— Fique longe de mim!

Ofegante, ela ficou de quatro no chão, mexendo nas fotos, frenética. Era uma foto depois de outra em que ela fazia coisas corriqueiras, da vida cotidiana. Como sair do supermercado com uma bolsa de compras, embarcar ou saltar do carro.

Ele está por toda parte, observando-me. Aonde quer que eu vá, o que quer que faça. Vem me caçando, pensou ela, enquanto os dentes começavam a bater. Vem me espreitando e não há nada que eu possa fazer. Absolutamente nada, a menos...

E foi nesse instante que tudo dentro dela desligou. A foto em sua mão tremia, como se uma brisa forte tivesse invadido o apartamento. Não podia gritar. Parecia não haver qualquer ar dentro dela.

Simplesmente não podia mais sentir o próprio corpo.

A foto fora produzida com extremo talento, a iluminação e o uso de sombras e texturas eram magistrais. Estava nua, a pele brilhando de maneira sobrenatural. O corpo fora disposto numa pose repousante, o queixo frágil baixado, a cabeça virada num ângulo suave. Um braço estendia-se por sua cintura, o outro por cima da cabeça, numa posição de sono profundo, povoado por sonhos.

Mas os olhos estavam abertos, com um olhar fixo. Olhos de uma boneca. Olhos mortos.

Por um momento, ela foi lançada de volta a seu pesadelo, desamparada, olhando para si mesma, incapaz de lutar para sair da

escuridão.

Mas mesmo através do terror, ainda podia perceber as diferenças. A mulher na foto tinha uma massa de cabelos ondulados, espalhados em torno da cabeça. E o rosto era mais suave, o corpo mais

maduro do que o seu.

— Mamãe? — sussurrou ela, apertando a loto com as duas mãos. — Mamãe?

— O que foi, Jo? — Abalado, Bobby escutou sua própria voz subir e descer, enquanto fitava os olhos vidrados de Jo. — O que está acontecendo?

—  Onde estão suas roupas? — Jo inclinou a cabeça para trás, começando a balançar. Os sons mais variados explodiam em sua mente, incessantes, trovejantes. — Onde ela está?

— Fique calma.

Bobby deu um passo para a frente, estendendo a mão para pegar a foto. Jo levantou a cabeça, num movimento brusco.

— Fique longe! — A cor retornara às suas faces, um vermelho intenso. Alguma coisa que não era muito sã faiscava em seus olhos. — Não me toque! Não toque nela!

Assustado, aturdido, ele tornou a se empertigar, as mãos estendidas, com as palmas para a frente.

— Claro, Jo, claro...

— Não quero que você toque nela. — Ela estava fria, muito fria. Baixou os olhos para a foto. Era Annabelle. Jovem, de uma beleza fantástica e fria como a morte. — Ela não deveria ter nos deixado. Não deveria ter ido embora. Por que ela partiu?

— Talvez ela não tivesse outro jeito — murmurou Bobby.

— Não. Seu lugar era conosco. Precisávamos dela, mas ela não nos queria. Era tão linda... —As lágrimas escorriam pelas faces de Jo, enquanto a foto continuava a tremer em suas mãos. — Era a mulher mais bonita que já conheci. Como uma princesa de contos de fadas. Eu costumava pensar que era mesmo uma princesa. Mas ela nos deixou. Foi embora. E agora está morta.

A visão se tornou turva, a pele ainda mais quente. Jo comprimiu a foto contra os seios, enroscou-se como uma bola no chão e desatou a chorar.

— Venha comigo, Jo — murmurou Bobby, gentilmente, estendendo as mãos para levantá-la. -   Vamos procurar ajuda.

— Eu me sinto tão cansada... — Jo deixou que ele a levantasse, como se fosse uma criança. — Quero ir para casa.

— Está bem. Apenas feche os olhos agora.

A foto escapuliu de suas mãos e flutuou até o chão, caindo sobre as outras, virada para baixo. E Jo pôde ler o que estava escrito no verso, em letras grandes:

MORTE DE UM ANJO

Seu último pensamento, enquanto a escuridão a envolvia, foi Sanctuary.

 

À primeira claridade do amanhecer, o ar era enevoado, como um sonho prestes a se desvanecer. Raios de sol passavam pelo dossel dos carvalhos e faiscavam no orvalho. Os canários-do-brejo e os cardeais, que faziam o ninho com musgo, entoavam sua canção matutina. Um galo-da-campina disparou através das árvores, sem emitir qualquer som, como uma flecha vermelha.

Era o seu momento predileto. Ao amanhecer, quando as demandas ao seu tempo e energia ainda não haviam começado, ele podia ficar sozinho, podia acalentar seus pensamentos. Ou simplesmente ser o que era.

Brian Hathaway nunca vivera em outro lugar, só em Desire. Nunca desejara. Conhecia o continente, visitara cidades grandes. Até viajara para o México em férias uma ocasião, numa decisão impulsiva. Portanto, podia-se dizer que já estivera em outro país.

Mas Desire, com todas as suas virtudes e defeitos, era o seu lugar. Nascera ali, numa noite de vendaval em setembro, trinta anos antes.  Nascera na enorme cama de carvalho com baldaquino em que agora dormia, o parto feito pelo pai e por ma preta velha, que fumava um cachimbo de sabugo de milho e cujos pais haviam sido escravos domésticos, pertencentes aos ancestrais de Brian.

O nome da velha era Miss Effie. Quando ele era bem pequeno, Miss Effie gostava de lhe contar a história de seu nascimento. Como o vento uivava, o mar subia em fúria. Dentro da casa, na cama de baldaquino, a mãe dera à luz como uma guerreira, projetando-o para os braços à espera do pai com uma risada.

Era uma boa história. Houvera uma época em que Brian podia imaginar a mãe rindo enquanto o pai esperava, pronto para segurá-lo.

Agora, a mãe já partira há muito tempo e a velha Miss Effie já morrera. E há muito tempo que o pai não queria pegá-lo.

Brian foi andando pela neblina cada vez mais rala, entre as árvores imensas, com líquen vermelho e rosa nos troncos, através da claridade tênue e do ar frio que tanto favoreciam as samambaias e juçaras. Era alto e corpulento, muito parecido com o pai na compleição. Os cabelos eram escuros e desgrenhados, a pele dourada, os olhos de um azul frio. Tinha um rosto comprido que as mulheres achavam melancólico e atraente. A boca era firme, de quem tendia mais a remoer do que a sorrir.

Era outra coisa que as mulheres achavam fascinante... o desafio de fazer aqueles lábios se contraírem num sorriso.

A ligeira mudança na claridade sinalizou que tinha de voltar para Sanctuary. Era tempo de começar a preparar o café da manhã para os hóspedes.

Brian sentia-se tão contente na cozinha quanto ficava na floresta. Era outra coisa que o pai achava esquisita. E Brian sabia — com algum divertimento — que Sam Hathaway especulava se o filho não seria gay. Afinal, se um homem gostava de cozinhar para ganhar a vida, devia haver alguma coisa errada com ele.

Se fossem do tipo de discutir abertamente esses problemas, Brian teria lhe dito que podia gostar de criar um merengue perfeito, mas ainda preferia as mulheres para fazer sexo. Apenas não se sentia propenso a qualquer intimidade!

E essa tendência para se afastar das outras pessoas não era uma característica da família Hathaway?

Brian avançou pela floresta, tão silencioso quanto o cervo que passava por ali. Ele deu uma volta comprida, desviando-se pelo Half Moon Creek, onde a neblina se erguia da água como fumaça branca. Um trio de corças bebia no rio, na claridade tremeluzente, em meio ao silêncio profundo.

Ainda havia tempo, pensou Brian. Sempre havia tempo em Desire. Ele se permitiu a indulgência de sentar num tronco caído para contemplar o desabrochar da manhã.

A ilha tinha apenas pouco mais de três quilômetros no ponto mais largo, cerca de vinte quilômetros de uma extremidade a outra. Brian conhecia cada palmo, a areia esbranquiçada pelo sol das praias, os pântanos ensombreados, com seus antigos e pacientes ali-gátores. Adorava as depressões entre as dunas, a umidade maravilhosa, as campinas com a relva ondulando, margeadas por pinheiros novos e carvalhos imponentes.

Mas, acima de tudo, amava a floresta, com seus bolsões de escuridão e seus mistérios.

Conhecia a história, sabia que outrora algodão e índigo cresciam ali, cultivados por escravos. Seus ancestrais ganharam fortunas. Os ricos iam se divertir naquele pequeno paraíso isolado, caçando cervos e porcos selvagens, recolhendo conchas, pescando no rio e no mar.

Realizavam bailes animados no salão principal, à luz de velas em candelabros de cristal, jogavam cartas na sala de jogos, enquanto bebiam o melhor bourbon sulista e fumavam enormes charutos cubanos. Entregavam-se à indolência na varanda, durante as tardes quentes de verão, enquanto escravos serviam limonada gelada.

Sanctuary se tornara um enclave do privilégio, um testemunho de um modo de vida condenado ao fracasso.

Mais fortunas ainda haviam entrado e saído das mãos de magnatas do aço e da navegação, que haviam transformado Sanctuary em seu refúgio particular.

Embora o dinheiro não fosse mais como era, Sanctuary ainda resistia. E a ilha continuava em poder dos descendentes daqueles reis do algodão e imperadores do aço. Os chalés eram bem afastados uns dos outros, por trás de dunas, à sombra de árvores, de frente para a faixa extensa do estreito de Pelican. Passavam de geração em geração, garantindo que apenas umas poucas famílias podiam reivindicar Desire como seu lar.

E assim permaneceria.

O pai reagia aos incorporadores imobiliários e ecologistas com a mesma veemência. Não haveria resorts construídos na ilha, e nenhum governo, por mais bem-intencionado que fosse, seria capaz de convencer Sam Hathaway a convertê-la numa reserva nacional.

Era o monumento do pai a uma esposa infiel, pensou Brian. Sua bênção e sua maldição.

Os visitantes apareciam agora, apesar da solidão... ou talvez por causa disso. Para manter a casa, a ilha, o monopólio, os Hathaway haviam transformado parte de sua casa numa pousada.

Brian sabia que Sam detestava, ressentia-se de cada passo dado na ilha por um forasteiro. Era a única causa de uma discussão entre os pais, ao que ele podia lembrar. Annabelle queria abrir a ilha para mais turistas, atrair mais pessoas, instituir o tipo de turbilhão social que seus ancestrais haviam outrora desfrutado. Sam insistia em manter a ilha inalterada, intacta, controlando o número de visitantes e de hóspedes que passavam a noite na pousada, como um ava-rento que conta moedas. Fora isso, ao final, Brian acreditava, o que afastara a mãe... a necessidade de contato com mais pessoas, mais rostos, mais vozes.

Por mais que o pai tentasse, no entanto, não seria capaz de conter as mudanças, assim como a ilha não podia conter o mar.

Ajustamentos, pensou Brian, enquanto as corças se viravam, tomo uma unidade, e desapareciam entre as árvores. Ele próprio não queria saber de ajustamentos, mas no caso da pousada haviam sido necessários. E a verdade era que ele gostava de administra-la, gostava do planejamento, execução, rotina. Gostava dos visitantes, das vozes de estranhos, de observar os diversos hábitos e expectativas, de ouvir de vez em quando as histórias de seus mundos.

Não se importava com as pessoas em sua vida... desde que não tivessem a intenção de ficar. De qualquer forma, não acreditava que as pessoas pudessem ficar a longo prazo. Annabelle não ficara.

Brian levantou-se, vagamente irritado porque uma cicatriz de vinte anos começara a pulsar inesperadamente. Ignorou o fato, virou-se e seguiu pela trilha sinuosa que subia para Sanctuary.

Quando saiu das árvores, a luz era ofuscante. Atingia os borrifos de um repuxo, transformando cada gota num arco-íris. Ele olhou para os fundos do jardim. As tulipas desabrochavam em profusão, como era de esperar. As alpínias-rosa pareciam um pouco desanimadas e as... como era mesmo o nome daquela flor púrpura? Era um jardineiro medíocre, na melhor das hipóteses, com um esforço incessante para cuidar do terreno. Os hóspedes pagantes esperavam jardins bem cuidados, como também esperavam antigüidades brilhando e boas refeições.

Sanctuary tinha de manter condições excelentes para atraí-los, e isso significava horas intermináveis de trabalho. Sem hóspedes pagantes, não haveria meios de manter Sanctuary. Por isso, pensou Brian, lançando um olhar irritado para as flores, era um ciclo interminável, uma cobra engolindo o próprio rabo. Uma armadilha sem a chave.

— Agerato.

Brian ergueu a cabeça, num movimento brusco. Teve de contrair os olhos contra a claridade do sol para focalizar a mulher. Mas reconhecia a voz. E irritou-se por ela ser capaz de se aproximar por trás dele daquela maneira. Mas também sempre considerara a Dra. Kirby Fitzsimmons como uma pequena irritação.

— Agerato repetiu ela, sorrindo.

Sabia que o aborrecia e considerava isso um progresso. Levara quase um ano para conseguir pelo menos essa reação.

— A flor que você está olhando — acrescentou ela. — Seu jardim precisa de algum trabalho, Brian.

— Vou providenciar.

No instante seguinte, Brian recorreu à sua melhor arma. O silencio. Nunca se sentira completamente à vontade com Kirby. Mas era apenas pela aparência, embora ela fosse bastante atraente para quem gostava do tipo louro e delicado. Brian achava que era por causa de sua atitude, que era o oposto direto da delicadeza. Ela era eficiente, competente e parecia saber um pouco de tudo.

Sua voz transmitia o que Brian julgava ser o modo de falar da alta sociedade da Nova Inglaterra. Ou, quando ele se sentia menos vaidoso, de uma droga de ianque. E ela também tinha os malares salientes dos ianques. Realçavam os olhos verdes e o nariz um pouco arrebitado. Os lábios eram cheios... a boca não era grande. Era apenas mais uma coisa irritantemente perfeita em Kirby.

Brian esperava sempre receber a notícia de que ela decidira voltar ao continente, fechar o chalé que herdara da avó e desistir da idéia de manter uma clínica na ilha. Mas ela permanecia, mês após mês, pouco a pouco inserindo-se na estrutura da ilha.

E deixando-o cada vez mais irritado.

Kirby continuou a lhe sorrir, com aquela expressão provocante nos olhos, enquanto empurrava para trás os cabelos cor de trigo, que caíam sobre os ombros.

— Uma linda manhã.

— Ainda é cedo.

Ele enfiou as mãos nos bolsos. Nunca sabia o que fazer com as mãos na presença de Kirby.

— Mas não cedo demais para você.

Ela inclinou a cabeça para o lado. Era mesmo divertido contempla-lo. Há meses que Kirby esperava fazer mais do que contemplá-lo, mas Brian Hathaway era um dos nativos daquele pedaço de terra que ela tinha dificuldade para conquistar.

— Imagino que o café da manhã ainda não esta pronto.

— Não servimos antes de oito horas.

Brian tinha certeza de que ela sabia disso muito bem, pois aparecia com freqüência.

— Acho que posso esperar. Qual é o especial esta manhã?

— Ainda não decidi.

Como não havia meio de se livrar de Kirby, Brian resignou-se quando ela passou a acompanhá-lo.

— Meu voto é por waffles de canela. Eu poderia comer uma dúzia.

Ela esticou-se, entrelaçando os dedos com os braços estendidos por cima da cabeça.

Brian fez um esforço para não notar os seios pequenos e firmes projetando-se contra a camisa de algodão. Não notar Kirby Fitzsimmons passara a exigir um enorme esforço. Ele foi para o lado da casa, passando pelo caminho de conchas esmagadas, entre as flores da primavera.

— Você pode esperar na sala de estar dos hóspedes. Ou na sala de jantar.

— Prefiro sentar na cozinha com você. Gosto de observá-lo cozinhar.

Antes que Brian pudesse pensar em alguma objeção, ela subiu para a varanda cercada de tela e passou pela porta da cozinha.

Como sempre, a cozinha estava impecável. Kirby apreciava essa qualidade num homem, da mesma forma que apreciava um bom tônus muscular e um cérebro bem exercitado. Brian possuía as três qualidades, e era por isso que ela se interessava pelo tipo de amante que ele seria.

Imaginava que acabaria descobrindo, mais cedo ou mais tarde. Kirby sempre se empenhara para alcançar um objetivo. Tudo o que precisava fazer agora era continuar a desgastar sua armadura.

Não era por desinteresse. Ela já percebera a maneira com que Brian a contemplava nas raras ocasiões em que o surpreendia com a guarda baixa. Era pura obstinação.  O que ela também apreciava. Os contrastes daquele homem eram mmesmo divertidos.

Kirby sabia, ao sentar no banco ao lado do balcão da cozinha, que ele falaria muito pouco, a não ser que fosse estimulado. Era a distância que mantinha para os outros. Sabia também que Brian lhe serviria seu café extraordinário, lembrando que ela tomava puro. Era a sua hospitalidade inata.

Ela deixou-o permanecer em silêncio por algum tempo, enquanto tomava o café, em pequenos goles, da caneca fumegante que Brian pusera na sua frente. Não estava caçoando quando dissera que gostava de observá-lo na cozinha.

Uma cozinha podia ser um reduto feminino tradicional, mas aquela era toda masculina. Assim como o cozinheiro, pensou Kirby, com as mãos enormes e peludas, o rosto decidido.

Ela sabia — porque havia bem pouca coisa que uma pessoa na ilha não conhecia sobre as outras — que Brian reformara a cozinha há oito anos. Fizera o projeto, escolhera as cores e o material. Convertera-a numa cozinha de homem, com balcões de granito e pias reluzentes de aço inoxidável.

Havia três janelas largas, emolduradas apenas por remates de madeira curvos e lavrados. Havia um banco cinza por baixo, com uma mesa, para as refeições da família. Embora os Hathaway, até onde ela sabia, quase nunca comessem como uma família. O chão era de ladrilhos brancos, as paredes brancas e sem ornamentos. Nada de enfeites para Brian.

Havia toques domésticos, é verdade, no brilho das panelas de cobre penduradas com ganchos, os alhos e pimentões secos, a prateleira com utensílios de cozinha antigos. Kirby imaginava que ele pensava naquelas coisas como práticas, sem se preocupar se proporcionavam ou não um clima aconchegante.

Na reforma, Brian deixara a antiga lareira de tijolos. Era o que tornava a cozinha o centro da casa, um lugar para se reunir, para se ficar por horas. Kirby gostava quando ele acendia o fogo na lareira, no inverno, o cheiro de madeira queimando misturando se de uma forma agradável com os aromas dos ensopados bem temperados e das sopas borbulhantes.

Para ela, as enormes cozinhas comerciais mais pareciam um complexo que exigia um diploma de engenharia para operar. Mas também, diga-se de passagem, sua idéia de cozinhar era tirar uma embalagem do freezer e esquentar no microondas.

— Adoro esta cozinha.

Brian batia alguma coisa numa enorme tigela azul e limitou-se a soltar um grunhido. Kirby considerou que era uma resposta. Saiu do banco e foi se servir de mais café. Inclinou-se, roçando de leve em seu braço, e sorriu ao ver a massa na tigela.

— Waffles?

Ele mudou de posição. O cheiro de Kirby o perturbava.

— Não era o que você queria?

— Era sim. — Ela levantou a caneca, sorrindo por cima da borda. — É sempre bom ter o que você quer. Não concorda?

Seus olhos são incríveis, pensou Brian. Acreditara em sereias quando era pequeno. Todas tinham os olhos como os de Kirby.

— É bastante fácil conseguir se você quer apenas waffles. Brian recuou, contornou-a e pegou um aparelho de waffles num

armário por baixo do balcão. Virou-se, depois de ligá-lo na tomada, e esbarrou em Kirby. Numa reação automática, levantou a mão para seu braço, a fim de ampará-la. E deixou-a ali.

— Está me atrapalhando.

Ela se adiantou, apenas um pouco, satisfeita com o frêmito que percorreu seu corpo.

— Pensei que podia ajudar.

— De que maneira?

Kirby sorriu, deixando o olhar baixar por um instante para os lábios de Brian.

Qualquer uma. — Por que não?, pensou ela. E pôs a mão livre no peito de Brian. — Precisa de alguma coisa?

Ele sentiu que seu sangue corria mais depressa. Os dedos apertaram o braço de Kirby antes que pudesse se controlar. Pensou a respeito... e como pensava a respeito! Como seria empurrá-la contra o balcão e tomar o que ela insistia em oferecer?

Isso tiraria o sorriso daquele rosto.

— Você está na minha frente, Kirby.

Mas ele ainda não a largara. Era sem dúvida um progresso incontestável, pensou Kirby. Por baixo de sua mão, o coração de Brian estava acelerado.

— Estou atrapalhando você há quase um ano, Brian. Quando pretende fazer alguma coisa?

Ela percebeu que os olhos de Brian faiscaram antes de se contraírem. Sua respiração acelerou em expectativa. Finalmente, pensou Kirby. Inclinou-se para ele.

Mas Brian baixou o braço e recuou. O movimento foi tão inesperado e abrupto que ela quase tropeçou.

— Tome seu café, Kirby. Tenho muito trabalho.

Brian teve a satisfação de constatar que apertara um dos botões de controle. O sorriso de Kirby desapareceu. As sobrancelhas delicadas quase se uniram. Por baixo, os olhos se tornaram sombrios e furiosos.

— Qual é o problema, Brian?

Com extrema habilidade, ele despejou a massa no aparelho aquecido de waffles.

— Não tenho nenhum problema.

Ele lançou um olhar rápido para Kirby, enquanto baixava a tampa. Ela estava vermelha, os lábios contraídos. A fúria em pessoa, refletiu Brian. Ótimo.

— O que mais preciso fazer? — Ela bateu com a caneca, o café espirrando sobre o balcão impecável. — Preciso entrar nua aqui?

Ele quase sorriu.

— Uma idéia e tanto, não acha? Eu poderia aumentar as diárias pelo espetáculo extra. — Brian inclinou a cabeça para o lado. — Isto é, se sua nudez for atraente.

—  É sensacional e já lhe dei várias oportunidades de descobrir isso pessoalmente.

— Creio que eu gosto de criar minhas próprias oportunidades.  — Ele abriu a geladeira  — Quer ovos com os waffles?

Kirby cerrou os punhos. Lembrou a si mesma que fizera o juramento de curar, não de machucar. Virou-se e murmurou, enquanto saía pela porta dos fundos:

— Enfie os waffles no rabo.

Brian esperou até ouvir a porta bater, antes de sorrir. Calculou que levara a melhor naquela pequena batalha de vontades e decidiu se recompensar com os waffles que seriam de Kirby. Passava-os para o prato quando a porta foi aberta.

Lexy posou por um momento. Tanto ela quanto Brian sabiam que era mais por hábito do que uma tentativa de impressionar o irmão. Os cabelos de Lexy eram uma massa emaranhada de cachos que desciam até os ombros, em sua cor predileta no momento, Vermelho Renascença.

Ela gostava da influência de Ticiano e considerava que era uma melhoria em relação à tonalidade de Loura Deslumbrante que usara nos últimos anos. E que era tão difícil de manter.

A cor era apenas um pouco mais clara e mais brilhante do que aquela que Deus lhe dera. Combinava com seu tom de pele, que era leitoso, com uma insinuação de rosa por baixo. Lexy herdara os olhos castanho-esverdeados do pai. Naquela manha, estavam escuros, da cor de mares turbulentos, já realçados com todo cuidado através de rimei e delineador.

— Waffles... —A voz era um ronronar felino, que ela praticara muito, até se tornar uma característica. — Devem estar uma delícia.

Sem se impressionar, Brian cortou um pedaço e pôs na boca. É meu.

Lexy jogou a cabeleira de cigana para trás e adiantou-se, fazendo beicinho, irresistível. Pestanejou e sorriu quando Brian pôs o prato na sua frente.

— Obrigada, querido.

Ela estendeu a mão para a face do irmão e beijou a outra. Tinha o hábito de tocar, beijar e abraçar, no que era diferente do resto da familia.  Bian podia lembrar que Lexy, depois que a mãe fora embora , passara a se comportar como um cachorrinho, sempre saltando para os braços de alguém, à procura de aconchego. Mas também ela tinha apenas quatro anos na ocasião. Ele deu um puxão nos cabelos da irmã e entregou-lhe a calda.

— Mais alguém já acordou?

— Já sim. O casal no quarto azul está se mexendo. E a prima Kate entrou no chuveiro.

— Pensei que ia atender os hóspedes durante o café da manhã.

— E vou — respondeu Lexy, com a boca cheia.

Brian alteou uma sobrancelha, enquanto olhava para o roupão da irmã, curto, fino, entreaberto, de cores exuberantes.

— É o seu novo uniforme de garçonete?

Ela cruzou as pernas compridas e enfiou outro pedaço de waffle entre os lábios.

— Gostou?

— Poderá se aposentar com as gorjetas.

— Tem razão. — Lexy soltou uma meia-risada, empurrando os waffles no prato. — Esse tem sido o sonho de toda a minha vida... servir comida para estranhos e retirar seus pratos sujos, guardando as moedas que eles me dão para poder me aposentar com todo esplendor.

— Todos nós temos pequenas fantasias.

Brian pôs uma caneca com café ao lado da irmã, acrescentou creme e açúcar. Compreendia a amargura e o desapontamento, mesmo que não concordasse. E, porque a amava, inclinou a cabeça para o lado e perguntou:

— Quer ouvir a minha?

— Provavelmente tem alguma coisa a ver com o concurso de melhor receita de Betty Crocker.

— Bem que isso pode acontecer.

— Eu queria ser alguém, Bri.

— Você é alguém. Alexa Hathaway, Princesa da Ilha. Ela revirou os olhos, antes de pegar a caneca com o café.

— Não agüentei um ano em Nova York. Nem uma droga de um ano.

E quem quer ficar lá por mais tempo do que isso?

A própria idéia deixava-o arrepiado. Ruas apinhadas, cheiros por toda parte, ar abafado.

— É um pouco difícil ser atriz em Desire.

—  Se quer saber minha opinião, querida, eu diria que está fazendo um ótimo trabalho. E se pretende ficar de mau humor, leve os waffles para seu quarto. Está estragando minha disposição.

— E fácil para você. — Ela empurrou o prato, que Brian pegou antes que caísse do balcão. — Tem o que quer. Viver no meio do nada, dia após dia, ano após ano. Fazendo sempre a mesma coisa. Papai praticamente entregou a casa a você, a fim de poder circular pela ilha durante o dia inteiro, para ter certeza de que ninguém muda de lugar um grão sequer de sua preciosa areia.

Lexy levantou-se, abrindo os braços.

— E Jo tem o que ela quer. Uma fotógrafa famosa, viajando pelo mundo inteiro para tirar fotos. Mas o que eu tenho? O que eu tenho? Um patético currículo, com alguns comerciais, um punhado de pontas e um papel principal numa peça em três atos que saiu de cartaz na noite de estréia em Pittsburgh. Agora, estou outra vez presa aqui, servindo comida para outras pessoas, trocando roupas de cama... coisas que detesto fazer.

Ele esperou um momento, para depois aplaudir.

— Bom discurso, Lex. E você sabe direitinho escolher as palavras certas. Talvez queira desenvolver tudo isso no palco. Devo dizer que os gestos tendem um pouco para o solene.

Os lábios de Lexy tremeram por um instante, mas logo se firmaram.

— Vá se danar, Bri! Ela ergueu o queixo, abruptamente, antes de se retirar. Brian pegou  o garfo que ela deixara no prato. Parecia que não estava agradando naquela manhã, pensou ele, enquanto começava a comer o que a irmã deixara.

 

UMA HORA DEPOIS, LEXY ERA TODA SORRISO E CHARME SULISTA.

Era uma garçonete eficiente — o que a salvara da pobreza total durante sua temporada em Nova York — e serviu as mesas com toda a aparência de satisfação e gentileza sem pressa.

Usava uma saia bastante curta para irritar Brian e uma blusa sem mangas que realçava seu corpo da maneira mais favorável. Tinha o corpo atraente e empenhava-se ao máximo para mantê-lo assim.

Era um instrumento do ofício, tanto como garçonete quanto como atriz. O que também acontecia com o sorriso fácil e radiante.

— Quer que eu esquente seu café, Sr. Benson? Está gostando da omelete? Brian é uma maravilha na cozinha, não é mesmo?

Como o Sr. Benson parecia apreciar seus seios, ela se inclinou mais um pouco, a fim de lhe oferecer o máximo de emoção por seu dólar, antes de ir para a mesa seguinte.

— Vão nos deixar hoje, não é mesmo? — Ela olhou radiante para os jovens recém-casados, aninhados numa mesa de canto. — Espero que voltem logo.

Ela circulou pela sala, avaliando quando um cliente queria conversar, quando outro queria ser deixado em paz. Como sempre, numa manhã durante a semana, o movimento era mínimo e ela tinha muita oportunidade para representar.

O que queria mesmo era representar para casas lotadas, os grandes teatros de Nova York. Em vez disso, pensou Lexy, mantendo firme o sorriso do sol de verão, apresentava-se no papel de uma garçonete, numa casa que nunca mudava, numa ilha que nunca mudava.

Fora sempre a mesma, por centenas de anos, pensou ela. Lexy não era uma mulher que apreciasse a história. Para ela, o passado era urna chatice tão insuportável quanto Desire e as poucas famílias que tinham residência ali.

Os Pendleton casavam com os Fitzsimmon ou com os Brodieou com os Verdon. As chamadas Quatro Grandes da ilha.  De vez em quando um filho ou uma filha se desviava do curso e casava com alguém do continente. Alguns até se mudavam, mas a grande maioria permanecia, vivendo nos mesmos chalés, geração após geração, acrescentando uns poucos aos residentes permanentes.

Era tudo tão... previsível, pensou Lexy, enquanto virava uma folha no bloco de pedidos e olhava radiante para a mesa seguinte.

Sua mãe casara com um homem do continente, e agora os Hathaway reinavam em Sanctuary. Eram os Hathaway que viviam ali, trabalhavam ali, suavam sangue e consumiam seu tempo para manter a casa e proteger a ilha, há mais de trinta anos.

Mas Sanctuary ainda era e sempre seria a casa dos Pendleton, no alto da colina.

E parecia não haver como escapar.

Ela guardou as gorjetas no bolso e recolheu os pratos sujos. Os olhos se tornaram gelados no instante em que entrou na cozinha.  Destilara charme como uma serpente que descarna a pele. Irritava-a ainda mais saber que Brian era indiferente a seu suplício.

Largou os pratos na pia, pegou o bule de café fresco e voltou à sala.

Há duas horas que servia, removia a louça, arrumava tudo... e sonhava com o lugar em que queria estar.

Broadway! Tinha certeza de que encontraria seu lugar ali. Todos lhe diziam que possuía um talento natural. Claro que isso fora antes de sua partida para Nova York, quando se descobrira a enfrentar centenas  de outras jovens a quem haviam dito a mesma coisa.

Lexy queria ser uma atriz séria, não uma idiota desmiolada que posava para anúncios de lingerie e se apresentava como atriz-modelo esperava começar por cima. Afinal, tinha inteligência, aparência e talento.

A primeira visão de Manhattan incutira-lhe um senso de propósitop e energia. Era como se estivesse à sua espera, pensou ela, enquanto somava a conta para seis pessoas. Muita gente pelas ruas, o barulho, a vitalidade. E as lojas, com suas roupas deslumbrantes nas vitimes, os restaurantes sofisticados, a sensação predominante de que todos tinham alguma coisa para lazer, algum lugar para onde ir às pressas.

Ela também tinha uma coisa para fazer e um lugar para onde ir.

Alugara um apartamento muito caro. Mas não estava disposta a se contentar com um quartinho apertado. Presenteara-se com roupas novas da Bendels e passara um dia inteiro na Elizabeth Arden. Isso consumira uma parte de seu orçamento, mas considerara um investimento. Queria se apresentar da melhor maneira possível nas chamadas para formação de elenco.

O primeiro mês fora um rude despertar depois de outro. Nunca imaginara deparar com tanta concorrência ou com tanto desespero no rosto das pessoas que entravam em fila para uma audição depois de outra.

Recebera algumas propostas... mas a maioria envolvia audições particulares, deitada de costas. Ela tinha muito orgulho e autoconfiança para aceitar isso.

Agora, o orgulho e a autoconfiança — e também, era obrigada a admitir, sua ingenuidade — haviam efetuado o círculo completo.

Mas era apenas temporário, lembrou Lexy a si mesma. Em pouco menos de um ano, faria vinte e cinco anos e entraria na posse de sua herança. O que restava. Voltaria para Nova York... e desta vez seria mais esperta, mais cautelosa, mais hábil.

Não estava derrotada, concluiu ela. Apenas tirara uma licença. Ainda viria o dia em que entraria num palco para sentir que todo o amor e a admiração da audiência a envolviam. E nesse dia seria alguém.

Não apenas a filha mais nova de Annabelle.

Ela levou os últimos pratos para a cozinha. Brian já estava arrumando tudo. Não havia panelas sujas em sua pia, nem manchas e líquidos derramados no balcão. Mesmo sabendo que estava sendo impertinente, Lexy virou o pulso para derrubar a xícara em cima da pilha de pratos, derramando o resto de café, antes de bater no chão e se espatifar.

— Essa não! — exclamou ela, com um sorriso malicioso, quando Brian virou a cabeça.

— Você deve gostar de bancar a tola, Lex — disse ele, friamente. — É boa nisso.

— É mesmo?

Antes que pudesse se controlar, ela largou o resto da louça. Bateu no chão com o maior estardalhaço, espalhando restos de comida e fragmentos de porcelana por toda parte.

— O que acha disso?

— O que está tentando provar? Que você é tão destrutiva quanto sempre foi? Que sempre virá alguém atrás de você para limpar sua sujeira?

Brian foi até um closet e pegou uma vassoura.

— Limpe você mesma.

Ele estendeu a vassoura para a irmã.

— Não.

Embora já estivesse arrependida do ato impulsivo, ela empurrou a vassoura de volta. A colorida Fiestaware era como um caleidoscópio de cores a seus pés.

— São seus pratos preciosos. Limpe você mesmo.

— Você vai limpar essa sujeira ou juro que usarei a vassoura em você.

—  Pois tente, Bri. — Ela postou-se na sua frente. Saber que errara era apenas um catalisador para fazê-la se manter firme. — Apenas tente e arrancarei seus olhos. Estou cansada de ouvir você me dizer o que fazer. Esta é minha casa tanto quanto é sua.

— Ora, ora, estou vendo que nada mudou por aqui.

Os rostos ainda contraídos em fúria, Brian e Lexy se viraram... e tiveram uma surpresa. Jo estava parada na porta dos fundos, as duas malas a seus pés e a exaustão no olhos.

—  Compreendi que estava em casa quando ouvi o estrondo, acompanhado por vozes felizes.

Numa mudança de ânimo abrupta e deliberada, Lexy passou o braço pelo de Brian.

Olhe só, Brian, outra filha pródiga de volta. Espero que ainda reste alguma coisa daquele pernil de bezerro.

— Eu me contento com um café murmurou Jo, fechando a porta.

 

Jo parou na janela do quarto de sua infância. A vista era a mesma. Lindos jardins, esperando na maior paciência que  alguém tirasse o mato, podasse e regasse. Os alissos já estavam dourados e as campânulas azuis balançavam. As violas exibiam seu viço para o sol, guardadas pelas hastes compridas das íris púrpura e pelas alegres tulipas amarelas. As marias-sem-vergonha e as cravinas desabrochavam, como sempre.

Havia palmeiras e mais além os carvalhos frondosos, entre os quais vicejavam as samambaias rendadas e as flores silvestres indiferentes.

A luz era adorável, dourada e perolada, enquanto as nuvens vagueavam pelo céu, projetando sombras suaves. A imagem era de paz, solidão, perfeição de livro romântico. Se tivesse energia, ela sairia agora, captaria em filme, faria com que tudo aquilo se tornasse seu.

Sentira saudade. Era muito estranho, pensou Jo, só compreendera agora que sentira saudade da vista pela janela do quarto em que dormira quase todas as noites de seus primeiros dezoito anos de vida.

Passara muitas horas trabalhando no jardim com a mãe, aprendendo os nomes das flores, suas necessidades e hábitos, apreciando a sensação da terra entre os dedos e do sol nas costas. Passarinhos e borboletas, o retinir dos sinos de vento, o lento desfile de nuvens brancas pelo céu azul... eram lembranças preciosas de sua infância.

Aparentemente, esquecera-se de guardá-las, concluiu ela, enquanto se afastava da janela, cansada. Quaisquer imagens que registrara daquele cenário, com a mente ou com a câmera, tinham sido arquivadas e relegadas a um segundo plano há muito tempo.

Seu quarto também pouco mudara. A ala da família em Sanctuary ainda exibia o estilo e o bom gosto de Annabelle. Para a filha mais velha, ela escolhera uma cama de baldaquino, com armação de madeira lavrada. A colcha era de renda irlandesa antiga, um tesouro hereditário da família Pendleton que Jo sempre amara, por causa do padrão e textura. E porque parecia tão resistente e eterna.

No papel de parede, as campânulas azuis desabrochavam numa explosão de alegria sobre o fundo marfim. O remate era acolhedor, numa tonalidade mel.

Annabelle escolhera as antigüidades, os globos das lâmpadas, as mesas de madeira de bordo, as cadeiras refinadas, os vasos em que sempre havia flores frescas. Ela queria que os filhos aprendessem desde cedo a viver com aquelas coisas preciosas, a cuidar delas com carinho. No consolo da pequena lareira de mármore havia velas e conchas. Nas prateleiras na parede oposta havia livros, em vez de bonecas.

Mesmo quando criança, Jo tinha pouco interesse para bonecas.

Annabelle estava morta. Não importava quanto dela ainda persistisse obstinadamente naquele quarto, naquela casa, naquela ilha, Annabelle morrera. Morrera em algum momento dos últimos vinte anos, 0 que tornava sua deserção completa e irrevogável.

Ó Deus, por que alguém imortalizara essa morte em filme? Jo baixou o rosto para as mãos. E por que haviam enviado as imagens dessa imortalização para a filha de Annabelle?

MORTE DE UM ANJO

Essas palavras estavam escritas no verso da foto. Jo lembrava-se delas com absoluta nitidez. Agora, ela esfregou a base da mão entre os seios, com bastante vigor, para tentar acalmar o coração. Que tipo de doença era aquela?, perguntou a si mesma. Que tipo de ameaça? E quanto era dirigido para ela pessoalmente?

A foto existira, era real. Não importava que tivesse desaparecido quando ela deixara o hospital e voltara ao apartamento. Não podia permitir que isso fizesse alguma diferença. Se admitisse que apenas imaginara, que não passara de uma alucinação, teria de admitir que perdera o juízo.

E como poderia enfrentar essa perspectiva?

Mas a foto não estava mais ali quando voltara. Todas as outras continuavam no mesmo lugar, aquelas imagens cotidianas da própria Jo, ainda espalhadas pelo chão do laboratório, onde as deixara cair, em choque e pânico.

Mas embora procurasse, passasse horas revistando cada palmo do apartamento, não encontrara a foto que causara seu colapso.

Se nunca existira... Ela fechou os olhos e apoiou o antebraço no vidro da janela. Se apenas inventara, se quisera que aquela imagem terrível fosse um fato, que sua mãe fosse exposta daquela maneira, na morte... em que isso a convertia?

O que ela podia aceitar? Sua própria instabilidade mental ou a morte da mãe?

Não pense a respeito agora. Jo pressionou a mão contra a boca, quando sentiu que a respiração começava a prender na garganta. Ponha de lado, como fez com as fotos. Tranque tudo, até que esteja mais forte. Não tenha outro colapso, Jo Ellen, ela ordenou a si mesma. Acabará no hospital, com médicos espetando seu corpo e sua mente.

Trate de se controlar. Ela respirou fundo, para firmar a respiração.  Trate de se controlar até que possa fazer as perguntas que precisam  ser formuladas, até descobrir as respostas que precisam ser encontradas.

Faria alguma coisa prática, ela decidiu, alguma coisa corriqueira, para tentar manter a farsa de que era apenas outra visita normal.

Já levantara o tampo corrediço da escrivaninha e pusera uma de suas câmeras ali. Mas, enquanto olhava, compreendeu que era o máximo de arrumação de suas coisas que seria capaz de fazer naquele momento. Virou o rosto para as malas em cima da colcha adorável. O pensamento de abri-las, tirar as roupas e pendurar no armário, dobrá-las e guardar nas gavetas era angustiante demais. Em vez disso, Jo sentou numa cadeira e fechou os olhos.

O que precisava fazer agora era pensar e planejar. Trabalhava melhor com uma lista de objetivos e tarefas, registrados na ordem em que seriam mais práticos e eficientes. Voltar para casa era a única solução; portanto, fora uma decisão prática e eficiente. Era o primeiro passo, ela garantiu para si mesma. Só precisava agora esvaziar a mente de alguma forma... limpá-la direito, para determinar o próximo passo.

Mas ela vagueou, quase sonhando.

Parecia que apenas alguns segundos haviam passado quando alguém bateu na porta, mas Jo descobriu-se a despertar com um sobressalto, desorientada. Levantou-se de um pulo, sentindo um embaraço absurdo por ter sido quase surpreendida a cochilar no meio do dia. Antes que ela pudesse alcançá-la, a porta foi aberta e a prima Kate estendeu a cabeça para dentro do quarto.

— Aí está você... e por Deus, Jo, você parece a três dias da morte. Sente-se, tome este chá e me conte o que está acontecendo com você.

Era a mesma Kate de sempre, pensou Jo, franca, objetiva, um pouco mandona. Ela descobriu-se a sorrir, enquanto observava Kate marchar pelo quarto com a bandeja de chá.

— Você parece maravilhosa.

— Sei me cuidar.

Kate pôs a bandeja na mesinha baixa num canto do quarto e acenou com a mão para uma cadeira.

— O que você não tem feito, a julgar por sua aparência. Está muito magra, muito pálida e seus cabelos são um desastre de grandes proporções. Mas daremos um jeito em tudo isso.

Decidida, ela serviu o chá de um bule de porcelana, adornado com raminhos de hera, em duas xícaras iguais.

— Muito bem, pode falar.

Kate recostou-se, tomou um gole do chá, inclinou a cabeça para o lado.

— Estou tirando um tempo de folga. — Jo viera de carro de Charlotte com o propósito expresso de encontrar tempo para inventar razões e desculpas para o retorno. — Umas poucas semanas.

— Jo Ellen, você não pode me enganar.

Nenhum deles jamais conseguira, pensou Jo, desde o momento em que Kate chegara a Sanctuary. Viera poucos dias depois da deserção de Annabelle, para passar uma semana, e continuava ali vinte anos mais tarde.

E Deus sabia que haviam precisado dela, pensou Jo, enquanto tentava calcular o mínimo que teria de contar para satisfazer Katherine Pendleton. Ela tomou um gole do chá, para ganhar tempo.

Kate era prima de Annabelle e a semelhança de família era acentuada nos olhos, na tonalidade da pele, no tipo de corpo. Mas enquanto Annabelle, na lembrança de Jo, sempre parecera de uma feminilidade inata, Kate tinha ângulos retos e era incisiva.

Era verdade, Kate sabia se cuidar, admitiu Jo para si mesma.

Usava os cabelos curtos, como os de um menino, uma massa castanho-avermelhada que combinava com o rosto de raposa em estado de alerta e o estilo prático. O guarda-roupa tendia para o informal, mas nunca para o relaxado. Os jeans estavam sempre passados, as camisas de algodão engomadas. As unhas eram curtas e bem cuidadas,  nunca sem três camadas de esmalte transparente.  Embora já estivesse com cinqüenta anos, mantinha-se esguia; pelas costas podia ser confundida com uma adolescente.

Entrara em suas vidas no momento de maior depressão e nunca vacilara. Sempre disponível, cuidava dos detalhes, pressionava cada um a fazer o que tinha de ser feito em seguida. À sua maneira objetiva e pragmática, insistindo e amando, conseguira estabelecer em suas vidas pelo menos uma ilusão de normalidade.

— Senti saudade de você, Kate — murmurou Jo. — Juro que senti.

Kate fitou-a em silêncio por um momento e alguma coisa aflorou em seu rosto.

—  Não vai me amolecer, Jo Ellen. Está metida em alguma encrenca. Pode optar por me contar logo ou deixar que eu arranque tudo. De qualquer forma, acabarei sabendo.

— Eu precisava de algum tempo de folga.

O que era uma verdade indubitável, refletiu Kate; dava para perceber apenas pela aparência da garota. E, conhecendo Jo, ela duvidava muito que tivesse sido um homem quem pusera aquela expressão magoada em seus olhos. Portanto, restava o trabalho. E o trabalho levava Jo a lugares estranhos e distantes, pensou Kate. Muitas vezes eram lugares perigosos, de guerras e desastres. O trabalho que ela sabia que a jovem prima pusera deliberadamente à frente de uma vida e uma família.

Pobre menina, minha pobre e doce menina, pensou Kate. O que fez com você mesma?

Kate apertou os dedos na asa da xícara, para evitar que tremessem.

— Alguém a magoou?

— Não foi isso. — Jo largou a xícara na mesinha, para comprimir os dedos contra os olhos doloridos. — Apenas excesso de trabalho... estresse. Acho que assumi compromissos demais nos últimos meses. É apenas a pressão.

As fotos. Mamãe.

Kate juntou as sobrancelhas. A linha que se formou era conhecida, não muito afetuosamente., como a Linha de Fratura Pendleton.

— Que tipo de pressão pode diminuir seu peso e fazer as mãos tremerem, Jo Ellen?

Na defensiva, Jo cruzou as mãos pouco firmes no colo.

— Acho que você poderia dizer que não tenho cuidado de mim. — Jo deu um sorriso fraco. — Mas prometo que farei melhor.

Kate estudou o rosto de Jo, batendo com os dedos no braço da cadeira. O problema era profundo demais para serem apenas preocupações profissionais.

— Está doente?

— Não. — A mentira saiu de sua boca quase tão suave quanto planejara. Deliberadamente, ela bloqueou o pensamento de um quarto de hospital, quase com a certeza de que Kate seria capaz de ler sua mente. — Apenas um pouco esgotada. Não tenho dormido bem ultimamente.

Nervosa, sob o olhar firme de Kate, Jo levantou-se para pegar um cigarro no bolso do casaco que largara numa cadeira.

— Fechei aquele contrato do livro... escrevi sobre isso para você. Acho que me deixou estressada. — Ela acendeu o isqueiro. — E um território novo para mim.

— Deveria se orgulhar, não ficar doente por causa disso.

— Tem toda razão. — Jo soprou a fumaça, enquanto fazia um esforço para reprimir a lembrança da imagem de Annabelle, as fotos. — Foi por isso que decidi tirar um tempo de folga.

Havia mais coisa, pensou Kate, mas aquilo seria suficiente por enquanto.

— Ainda bem que você voltou para casa. Duas semanas da comida de Brian vão acrescentar um pouco de carne em você. E Deus sabe que precisamos de mais ajuda por aqui. A maioria dos quartos e os chalés já estão reservados durante todo o verão.

—  Os negócios estão bons assim? — indagou Jo, sem muito interesse.

— As pessoas precisam escapar de suas próprias rotinas e entrar nas de outras. A maioria dos que vê para cá procura sossego e solidão, caso contrário iria para Hilton Head ou Jekyll. Ainda assim, querem lençóis limpos e toalhas engomadas na mesa.

Kate tamborilou com os dedos por um momento, pensando no trabalho que teria durante a tarde.

— Lexy tem ajudado, mas não é mais confiável do que antes — acrescentou ela. — Pode sumir durante o dia inteiro ou fazer todas as tarefas que precisam ser feitas. Vem sofrendo com alguns desapontamentos e angústias crescentes.

— Lex já tem vinte e quatro anos, Kate. Deveria ter amadurecido a esta altura.

— Algumas pessoas levam mais tempo do que outras. Não é uma falha, mas um fato.

Kate levantou-se, sempre pronta para defender um de seus pintinhos, mesmo que fosse contra as bicadas de outro.

— E algumas nunca aprendem a enfrentar a realidade. Passam a vida culpando todas as outras por seus fracassos e desapontamentos.

— Alexa não é um fracasso. Você nunca foi paciente com ela... assim como ela nunca foi com você. E isso também é um fato.

— Nunca pedi a ela para ser paciente comigo. — Antigos ressentimentos afloraram, como óleo quente em contato com água. — Nunca  pedi nada a ela... nem aos outros.

—  É verdade, nunca pediu — admitiu Kate, calmamente. — Poderia ter de dar alguma coisa de volta se pedisse. Poderia ter de admitir que precisa dos outros, se permitisse que eles precisassem de você. Pois já é tempo de todos vocês enfrentarem algumas coisas. Dois anos passaram desde a última vez em que os três estiveram juntos nesta casa.

— Sei quanto tempo foi — disse Jo, amargurada. — E não tive uma recepção de Brian e Lexy melhor do que esperava.

— Talvez fosse melhor se você esperasse mais. — Kate ergueu o queixo. — Nem perguntou por seu pai.

Irritada, Jo pegou outro cigarro.

— O que gostaria que eu perguntasse?

— Não use esse tom desdenhoso comigo, mocinha. Se pretende viver sob este teto, precisa ter respeito com seus provedores. E fará a sua parte enquanto estiver aqui. Seu irmão tem arcado com a maior parte do trabalho nos últimos anos. Está na hora de a família ajudar. Está na hora de vocês se tornarem uma família.

— Não entendo nada de pousada, Kate, e não posso imaginar que Brian queira que eu me intrometa em seu negócio.

— Não precisa entender para lavar roupa, polir móveis ou varrer a areia da varanda.

Ao gelo na voz da prima, Jo assumiu uma atitude de defesa e desafio.

— Não falei que não faria a minha parte. Queria apenas dizer...

—  Sei exatamente o que você queria dizer, mocinha, e quero que saiba que estou cansada desse tipo de atitude. Vocês três preferem afundar até a cabeça no pântano em vez de pedir ajuda aos outros. E você prefere morder a própria língua antes de perguntar por seu pai. Não sei se faz isso por ser competitiva ou apenas por teimosia, mas quero que pare com isso enquanto estiver aqui. Este é o seu lar. E, por Deus, já é tempo de parecer um lar.

Ela encaminhou-se para a porta.

— Kate...

— Não me chame. Estou zangada demais para falar com você agora.

— Eu só queria...

Quando a porta foi batida, com algum estrépito, Jo deixou o ar escapar dos pulmões, num longo suspiro.

A cabeça latejava, o estômago estava todo contraído e o sentimento de culpa a sufocava, como um cobertor encharcado.

Kate se enganava, refletiu ela. Era exatamente como um lar.

 

DA  ORLA  DO  PÂNTANO,    SAM  HATHAWAY  OBSERVOU  UM  GAVIÃO sobrevoar seu território de caça. Sam seguira para o interior da ilha naquela manhã, deixando a casa um pouco antes do amanhecer.

Sabia que Brian saíra quase na mesma hora, mas não haviam se falado. Cada um tinha os seus próprios hábitos, os seus próprios percursos.

Às vezes Sam pegava o Jeep, mas na maioria das vezes seguia a pé. Havia dias em que ia para as dunas e contemplava o sol nascer sobre o mar, tornando-o vermelho como sangue, depois dourado, depois azul. Quando a praia era toda espaço, luz e brilho, ele podia caminhar por quilômetros, os olhos avaliando atentamente a erosão, à procura de qualquer acumulação recente de areia.

Deixava as conchas nos lugares em que haviam sido jogadas pelas ondas.

Quase nunca se aventurava pelas campinas entre as dunas. Eram frágeis e cada passo poderia causar danos e mudanças. E Sam travava uma luta encarniçada contra a mudança.

Havia dias em que preferia vaguear pela beira da floresta, por trás das dunas, onde os lagos e charcos eram cheios de vida e música. Havia manhãs em que precisava do silêncio e o mínimo de claridade que encontrava ali, em vez do estrondo das ondas e o esplendor do sol nascente. Podia, como a garça paciente esperando pelo peixe descuidado, permanecer imóvel enquanto os minutos passavam.

Havia ocasiões, entre os pequenos lagos, cercados por salgueiros e lentilhas-d'água, em que podia esquecer que existia qualquer mundo além daquele, que era o seu. Ali, o aligátor escondido entre os juncos, enquanto digeria sua última refeição, ou a tartaruga tomando sol em cima de um tronco, talvez a próxima refeição do alígátor, eram mais reais para ele do que as pessoas.

Mas eram raros os dias em que Sam ia além dos pequenos lagos e embrenhava-se nas sombras da floresta. A floresta era o lugar que Annabelle mais amava.

Em outros dias, era atraído para o pântano e seus mistérios. I l.ivia ali um ciclo que podia compreender, crescimento e decadente ia, vida c morte. Aquilo era a natureza e podia-se aceitar. Nenhum homem era a causa do que acontecia ali, nem podia interferir, enquanto Sam mantivesse o controle.

Nas beiras, ele podia observar os caranguejos ucas, conhecidos como chama-maré, tão ocupados na lama que criavam pequenos estalos, como bolhas estourando. Sam sabia que, no momento em que se afastasse, os guaxinins e outros predadores se esgueirariam pela lama para se banquetearem com os caranguejos.

Tudo isso era parte do ciclo.

Agora, com a primavera chegando, os espartos ondulantes passavam de dourados para verdes e as campinas exibiam as cores das alfazemas e margaridas. Sam já vira mais de trinta primaveras chegarem em Desire... e nunca se cansara.

A terra era da família de sua esposa, passando de geração para geração. Mas se tornara sua no momento em que pusera os pés ali. Assim como Annabelle se tornara sua no momento em que a vira.

Não conseguira manter a mulher, mas ficara com a terra, através de sua deserção.

Sam era um fatalista... ou assim se tornara. Não havia como evitar o destino.

A terra viera para ele por intermédio de Annabelle; cuidava dela com desvelo, a protegia com determinação e nunca a abandonava.

Embora vários anos já tivessem transcorrido desde a época em que passava as noites à procura da esposa, ainda podia encontrá-la em qualquer lugar e por toda parte em Desire.

O que era ao mesmo tempo sua angústia e seu conforto.

Sam podia ver as raízes expostas das árvores nos pontos em que o rio erodia a margem do pântano. Alguns diziam que era melhor tomar providências para evitar que isso continuasse a acontecer. Mas Sam acreditava que a natureza sempre encontrava seu caminho. Se o homem, com boas ou más intenções, se empenhasse em alterar o curso do rio, que repercussões haveria em outras áreas?

Nada disso. Ele achava que tudo deveria permanecer como estava, que era melhor deixar que a terra, o mar, o vento e a chuva travassem sua batalha.

Kate estudava-o a alguns metros de distância.  Era um homem alto, esguio e forte, a pele morena e avermelhada, os cabelos escuros  começando a pratear. A boca firme era lenta para sorrir, os olhos castanho-claros ainda mais lentos. As rugas espalhavam-se dos cantos daqueles olhos, realçando o rosto, numa projeção de masculinidade.

Tinha mãos e pés enormes, uma característica que passara para o filho. Mas Kate sabia que Sam era capaz de se movimentar com uma graça fantástica e silenciosa, que nenhum habitante de uma cidade grande jamais conseguiria ter.

Em vinte anos, Sam nunca a acolhera, mas também não esperara que ela fosse embora. Kate simplesmente chegara, ficara e preenchera um propósito. Em momentos de fraqueza, Kate permitia-se especular o que ele pensaria, faria ou diria se um dia ela fizesse as malas e partisse.

Mas ela nunca partira, e duvidava que isso pudesse acontecer algum dia.

Fora apaixonada por Sam Hathaway em quase todos os momentos daqueles vinte anos.

Kate empinou os ombros, ergueu o queixo. Embora desconfiasse que Sam já sabia de sua presença, tinha certeza de que ele não diria nada se ela não falasse primeiro.

— Jo Ellen chegou na barca da manhã.

Sam continuou a observar os círculos do gavião. Claro que já percebera a presença de Kate, assim como sabia que ela não iria ao pântano se não tivesse alguma razão que considerasse importante. Kate não era uma grande apreciadora de lama e aligátores.

— Por quê?

Foi tudo o que ele disse, o que arrancou um suspiro impaciente de Kate.

— Aqui é a sua casa, não é mesmo?

A voz de Sam era lenta, como se as palavras se formassem com alguma relutância.

— Não creio que ela pense assim. Há muito tempo.

— Independentemente do que ela pensa, aqui é o seu lar. Você  é o pai dela e vai querer acolhê-la.

Sam projetou uma imagem da filha mais velha em sua mente. E viu a esposa com uma nitidez que acarretou desespero e indignação ao mesmo tempo. Mas apenas o desinteresse transpareceu em sua voz:

— Estarei em casa mais tarde.

— Quase dois anos se passaram desde que ela esteve aqui pela última vez, Sam. Pelo amor de Deus, vá ver sua filha agora.

Ele mudou de posição, aborrecido e contrafeito. Kate tinha um jeito de despertar essas reações nele.

— Há tempo suficiente, a menos que ela esteja planejando pegar a barca de volta para o continente esta tarde. Ela nunca foi capaz de permanecer no mesmo lugar por muito tempo, pelo que me lembro. E mal pôde esperar para deixar Desire.

— Ir para a universidade, iniciar uma carreira e ter sua própria vida não é uma deserção.

Embora ele não se mexesse nem emitisse qualquer som, Kate sabia que a farpa atingira o alvo. Lamentou ter achado que era necessário lançá-la.

— Ela voltou agora, Sam. Não creio que vá para qualquer lugar durante algum tempo, mas não é essa a questão.

Kate adiantou-se, pôs a mão firme no braço de Sam e virou-o para fitá-la. Havia ocasiões em que era preciso sacudir um ponto óbvio diante dos olhos de Sam para que ele pudesse percebê-lo, pensou ela. Era o que tencionava fazer agora.

— Ela está magoada, Sam. Não parece nada bem. Emagreceu e ficou muito pálida. Diz que não tem nada, mas é mentira. Jo Ellen dá a impressão de que alguém poderia derrubá-la apenas com um pensamento mais agressivo.

Pela primeira vez, uma sombra de preocupação surgiu nos olhos de Sam.

— O problema dela é no trabalho?

Melhor assim, pensou Kate. Mas ela teve o cuidado de não demonstrar sua satisfação.

—  A mágoa não parece desse tipo — disse Kate, mais gentilmente. — É uma dor interior. Não consigo determinar o que é, mas  tenho certeza de que existe. Ela precisa de seu lar, de sua família. E precisa do pai.

— Se Jo tem um problema, saberá como superá-lo. Sempre conseguiu dar um jeito.

—  O que está querendo dizer é que ela sempre teve de agir assim. — Kate teve vontade de sacudi-lo, até afrouxar a tranca que ele pusera em seu coração. — Mas que droga, Sam, você tem de estar presente para ajudá-la!

Ele olhou além de Kate, para o pântano.

— Ela já passou do ponto em que precisa de mim para fazer curativos em seus inchaços e arranhões.

— Não, não passou. — Kate baixou a mão do braço de Sam. — Ainda é sua filha.   Sempre será.    Belle não foi a única pessoa que partiu, Sam.

Ela observava atentamente o rosto de Sam enquanto dizia isso. Sacudiu a cabeça e acrescentou:

— Brian, Jo e Lexy também a perderam. Mas não deveriam ter perdido o pai.

Sam se contraiu todo. Virou-se para contemplar o pântano, sabendo que a pressão interna seria aliviada se ficasse sozinho de novo.

— Eu disse que estaria em casa mais tarde. Se Jo Ellen tem alguma coisa para me dizer, poderá falar quando eu chegar.

— Um dia desses você vai compreender que tem alguma coisa para dizer a ela... para dizer a todos.

Kate deixou-o sozinho, torcendo para que ele compreendesse isso o mais depressa possível.

 

Brian parou na porta do terraço oeste e estudou a irmã. Ela parecia frágil e nervosa. Parecia de alguma forma perdida entre o sol e as flores. Ainda vestia a calça folgada e o suéter enorme e fino com que chegara, mas acrescentara óculos escuros, de aros redondos. Brian imaginou que Jo usava aquele tipo de uniforme quando tirava suas fotos, mas no momento servia apenas para reforçar a impressão geral de que era uma inválida.

Mas ela sempre fora a mais durona dos três, recordou Brian. Mesmo quando criança, insistia em fazer tudo sozinha, encontrar as respostas, resolver os problemas, travar as lutas.

Era destemida, subindo mais alto em qualquer árvore, nadando mais longe depois da arrebentação, correndo mais depressa pela floresta. Apenas para provar que era capaz, refletiu Brian. Parecia-lhe que Jo Ellen sempre tinha alguma coisa para provar.

E depois que a mãe fora embora, Jo se mostrara ainda mais determinada a provar que não precisava de ninguém e de nada, a não ser de si mesma.

Mas ela precisava de alguma coisa agora, decidiu Brian. Ele saiu para o terraço. Não disse nada quando ela virou a cabeça e fitou-o através das lentes escuras. Sentou no balanço, ao lado da irmã, pôs em seu colo o prato que trouxera e disse apenas:

— Coma.

Jo olhou para a galinha assada, a salada de repolho, o biscoito dourado.

— E o almoço especial de hoje?

— A maioria dos hóspedes preferiu sair com lancheira hoje. O dia está muito bonito para comer dentro de casa.

— A prima Kate disse que você tem trabalhado muito.

— Bastante. — Por hábito, ele deu um impulso com o pé e pôs o balanço em movimento. — O que veio fazer aqui, Jo?

— Parecia a coisa certa para fazer na ocasião.

Ela pegou uma coxa de galinha e deu uma mordida. Sentiu o estômago embrulhar, como se decidisse se devia ou não aceitar a comida. Jo persistiu e engoliu, para depois acrescentar:

— Farei a minha parte no trabalho e não vou atrapalhá-lo. Brian escutou o rangido do balanço por um momento e pensou que precisava pôr um pouco de óleo.

— Não disse que você ia me atrapalhar, pelo que me recordo.

— Então atrapalhar Lexy. — Jo deu outra mordida na galinha. Franziu o rosto, olhando para os gerânios rosa que se derramavam pelas beiras de uma jardineira de concreto, com querubins rechonchudos esculpidos. — Pode dizer a ela que não estou aqui para atrapalhar seu estilo.

— Diga você mesma. — Brian abriu a garrafa térmica que trouxera e despejou a limonada na tampa. — Não quero me intrometer entre vocês duas ou acabarei com o rabo chutado pelos dois lados.

— Pois então fique fora. — Jo sentiu que a cabeça começava a doer, mas pegou a tampa com a limonada e tomou um gole. — Não sei por que ela tem tanto ressentimento de mim.

— Tamhém não posso imaginar. — Brian falou com a voz arrastada, antes de levantar a garrafa térmica e beber direto.  —  Você é um sucesso, famosa, com independência financeira, uma estrela em ascensão na sua profissão. Todas as coisas que Lexy quer para si mesma.

Ele pegou o biscoito, partiu-o ao meio, entregou metade a Jo, o vapor ainda subindo.

— Não entendo por que isso a deixaria tão irritada.

— Fiz tudo sozinha, por mim mesma. Não trabalhei tanto para chegar a esse ponto só para esnobá-la. — Sem pensar, Jo pôs na boca a metade do biscoito. — Não é minha culpa se ela tem uma fantasia infantil de ver seu nome nos cartazes, as pessoas jogando rosas a seus pés.

— O fato de você considerar infantil não faz com que o desejo seja menos real para ela. — Brian ergueu a mão antes que a irmã pudesse falar. — E não tenho a menor intenção de ficar no meio. Vocês duas podem esfolar uma à outra quando quiserem. Mas eu diria que neste momento ela pode acabar com você sem sequer suar.

— Não quero brigar com ela — murmurou Jo, cansada. Podia sentir a fragrância da glicínia que se derramava da arcada numa treliça próxima... outra lembrança vivida de sua infância. — Não vim para brigar com ninguém.

— Uma mudança e tanto.

O comentário acarretou uma insinuação de sorriso nos lábios de Jo.

— Talvez eu tenha amolecido.

— Milagres acontecem. Coma a salada de repolho.

— Não me lembro de ser tão mandona.

—Também não era moleza.

Com o que podia passar por uma risada, Jo pegou o garfo e espetou um pouco da salada de repolho.

— Conte o que é novidade por aqui, Bri, e o que continua igual. Traga-me de volta para casa, ela pensou, mas não podia dizer. Traga-me de volta.

— Vamos ver... Giff Verdon construiu outro quarto no chalé da família.

— Que notícia sensacional! — Jo franziu a testa. — Giff, aquele garoto magricela, com um topete. Aquele que vivia se babando por Lex?

— Esse mesmo. Encorpou um pouco e tem a mão firme com o martelo e o serrote. Faz todos os reparos por aqui agora. Ainda é apaixonado por Lexy, mas eu diria que agora ele sabe o que fazer em relação a isso.

Jo riu. Sem pensar, pôs mais salada de repolho na boca.

— Ela vai devorá-lo vivo. Brian deu de ombros.

— Talvez... mas ela vai descobrir que Giff é mais duro de mastigar do que podia esperar. A garota Sanders, Rachel, ficou noiva de um universitário de Atlanta. Vai se mudar para lá em setembro.

— Rachel Sanders... —Jo tentou projetar uma imagem mental. — Era aquela que só falava ceceando ou a que não parava de soltar risadinhas?

— A garota das risadinhas... tão estridentes que faziam os ouvidos sangrarem.

Satisfeito porque Jo estava comendo, Brian estendeu o braço pelo encosto do balanço e relaxou.

— A velha Sra. Fitzsimmons morreu há mais de um ano.

— A velha Sra. Fitzsimmons... Ela costumava abrir as conchas de ostras em sua varanda, com aquele cachorro preguiçoso dormindo a seus pés, ao lado da cadeira de balanço.

—  O cachorro também morreu, pouco depois. Acho que não viu muito sentido em viver sem ela.

— Ela me deixava tirar fotos suas — recordou Jo. — Quando eu era garota e ainda estava aprendendo. Tenho as fotos até hoje. Algumas até que são boas. O Sr. David ajudou-me a revelá-las. Eu devia ser uma chata, mas ela ficada sentada em sua cadeira de balanço e deixava-me praticar.

Jo recostou-se, acompanhando o ritmo do balanço, tão lento e monótono quanto o ritmo da ilha.

— Espero que tenhq sido uma morte rápida e sem dor.

— Ela morreu enquanto dormia, na idade avançada de noventa e seis anos. Não podia ser melhor do que isso.

— Não, não podia. — Jo fechou os olhos, a comida esquecida. — O que aconteceu com o chalé?

—  Ficou na família. Os Pendleton haviam comprado a maior parte das terras dos Fitzsimmons em 1923. Mas ela continuava a possuir a casa e o pequeno terreno ao redor. A neta herdou. — Brian tornou a levantar a garrafa térmica e desta vez tomou um gole grande da limonada. — Uma médica. Ela abriu uma clínica na ilha.

— Temos uma médica em Desire? — Jo abriu os olhos, alteou as sobrancelhas. — Ora, ora... Muito civilizado. As pessoas costumam procurá-la?

— Parece que sim... pelo menos pouco a pouco. E ela decidiu que não vai mais embora.

— Ela deve ser a primeira nova residente permanente na ilha em... quanto tempo? Dez anos?

— Por aí.

—  Não posso imaginar por quê... — A voz de Jo definhou quando lhe ocorreu. — Não é Kirby, é?  Kirby Fitzsimmons?  Ela passou alguns verões aqui quando éramos crianças.

— Acho que ela gostou tanto que decidiu voltar.

— Essa não! Kirby Fitzsimmons... e uma médica ainda porcima! — O prazer desabrochou, um sentimento surpreendente, que ela quase não reconheceu. — Éramos amigas e sempre estávamos juntas. Lembro o verão em que o Sr. David veio tirar fotos da ilha e trouxe a família.

Animou-a pensar a respeito, a jovem amiga de sotaque nortista, com quem partilhara ou imaginara tantas aventuras.

— Você saía com os meninos e não me deixava participar de suas brincadeiras — continuou Jo. — Quando eu não estava importunando o Sr. David, pedindo para me deixar tirar fotos com sua câmera, saía com Kirby e procurava por encrencas. Isso já tem vinte anos, nem menos um dia. Foi no verão em que...

Brian acenou com a cabeça, enquanto arrematava o pensamento:

— O verão em que mamãe foi embora.

— Tudo parece desfocado... — murmurou Jo, o prazer sumindo de sua voz. — O sol quente, dias compridos, as noites repletas de sons. Todos os rostos.

Ela enfiou os dedos por baixo dos óculos para esfregar os olhos.

— Eu levantava ao amanhecer, para poder acompanhar o Sr. David. Levava sanduíches de presunto e me refrescava no rio. Mamãe desencavou aquela velha câmera para mim... a Brownie... e eu corria para o chalé da Sra. Fitzsimmons para tirar fotos. Ficava por lá até que ela mandava que Kirby e eu fôssemos embora. Horas e horas se passavam até o pôr-do-sol, quando mamãe nos chamava para jantar.

Jo fechou os olhos, apertando-os com força.

— Tantas e tantas imagens... mas não consigo recordar nenhuma com nitidez. E, de repente, ela foi embora. Acordei uma manhã disposta a fazer todas as coisas que costumava fazer num longo dia de verão... e ela não estava mais ali. E não havia absolutamente nada para fazer.

— O verão acabou — disse Brian. — Para todos nós.

— E verdade... — As mãos tremiam de novo. Jo tirou o maço de cigarros do bolso. — Costuma pensar nela?

— Por que eu pensaria?

— Nunca especula para onde ela foi? O que ela fez? — Jo deu uma tragada profunda. Em sua mente, podia ver os olhos de pestanas compridas vazios de vida. — Ou por quê?

— Não tem nada a ver comigo. — Brian levantou-se e pegou o prato. — Nem com você. Ou com qualquer de nós. Já se passaram vinte anos desde aquele verão, Jo Ellen. É um pouco tarde para se preocupar com isso agora.

Ela abriu a boca, mas tornou a fechá-la quando Brian virou-se e voltou para a casa. Mas sentia-se preocupada com isso agora, pensou Jo. E apavorada.

 

Lexy   ainda   estava   furiosa   quando   subiu   as   dunas   a  caminho da praia. Jo voltara, ela tinha certeza, para ostentar seu sucesso e sua vida fascinante. E o fato de ter chegado a Sanctuary na esteira do fracasso de Lexy não parecia ser uma mera coincidência.

Jo bateria as asas e arrulharia em triunfo, enquanto Lexy teria de aceitar a humilhação. O pensamento fez seu sangue ferver ao correr através das dunas, a areia voando de suas sandálias.

Não desta vez, ela prometeu a si mesma. Agora manteria a cabeça erguida, se recusaria a ser projetada como inferior diante do último triunfo de Jo, a última viagem, a última maravilha. Não mais assumiria o papel da irmã caçula da grande estrela. Já superara esse papel, assegurou Lexy a si mesma. E era tempo de todos compreenderem isso.

Havia várias pessoas espalhadas pelo crescente largo que era a praia. Haviam delimitado seus territórios com toalhas e guarda-sóis coloridos. Ela notou diversas lancheiras listradas de Sanctuary.

Os cheiros do mar, loções e galinha assada invadiram suas narinas. Um garoto de dois ou três anos jogava areia com uma pá num balde vermelho, enquanto a mãe lia um livro, à sombra de um toldo portátil. Um homem se transformava lentamente numa lagosta ao sol implacável. Dois casais que ela servira naquela manhã partilhavam um piquenique e riam juntos, ouvindo a voz atraente de Annie Lennox pelo rádio portátil.

Ela não queria que aquelas pessoas estivessem ali. Em sua praia, no meio de sua crise pessoal. Para descartá-las, virou-se e afastou-se pela curva da praia.

Avistou-o na água, o brilho nos ombros bronzeados e molhados, os reflexos nos cabelos clareados pelo sol. Giff era uma criatura de hábitos previsíveis, pensou ela. Invariavelmente ia até a praia para nadar um pouco na hora do almoço. E Lexy também sabia que Giff estava de olho nela.

Ele não guardava segredo de seu interesse... e Lexy não era de se ressentir das atenções de um homem atraente.  Ainda mais quando precisava que seu ego fosse acariciado. Ela refletiu que um pequeno flerte, com a possibilidade de um sexo sem conseqüências, poderia fazer com que o dia voltasse aos trilhos.

Algumas pessoas diziam que sua mãe tivera um flerte. Lexy não tinha idade suficiente para se lembrar de qualquer coisa além de imagens vagas e fragrâncias suaves em relação a Annabelle, mas acreditava que ela tinha um jeito todo especial para o flerte natural. A mãe gostava de se exibir da melhor forma possível, de sorrir para os homens. E se a teoria de um amante secreto era um fato, Annabelle fizera mais do que sorrir, pelo menos para um homem.

Ou pelo menos fora isso que a polícia concluíra, depois de meses de investigação.

Lexy achava que era boa no sexo; haviam lhe dito isso com bastante freqüência para que considerasse que era uma eficiente habilidade pessoal. Para ela, havia pouca coisa que se comparasse a dissipar a tensão e ser o alvo da atenção total de alguém.

E ela gostava, apreciava todas as sensações intensas e maravilhosas que acompanhavam o ato. Não importava que a maioria dos homens não tinha a menor idéia se uma mulher pensava neles ou no mais recente homem bonito de Hollywood durante o sexo. Desde que ela tivesse um bom desempenho e se lembrasse das palavras certas.

Lexy considerava-se nascida para representar.

E decidiu que estava na hora de abrir as cortinas de veludo para Giff Verdon.

Ela largou na areia compacta a toalha que levara. Não tinha a menor dúvida de que ele a observava. Era o que os homens sempre faziam. Como se estivesse no palco, Lexy pôs seu coração na performance. Parada perto da beira da água, tirou os óculos escuros e deixou-os cair na toalha, despreocupada. Sem pressa, tirou as sandálias. Pegou a bainha do vestido de verão curto e levantou-o, fazendo com que os movimentos fossem de um lento striptease. O biquíni por baixo era pouco mais que uma tanguinha e o sutiã só cobria os mamilos, como as dançarinas costumavam usar.

Ela largou o vestido de algodão, estendeu os cabelos para trás com as duas mãos, depois se encaminhou para o mar, com o balanço dos quadris de uma sereia.

Giff deixou que a onda seguinte passasse por cima dele. Sabia que cada movimento e cada gesto de Lexy era deliberado. O que não parecia fazer qualquer diferença. Não conseguia desviar os olhos, não podia evitar que seu corpo ficasse tenso e ansioso, enquanto a contemplava, com suas curvas sensuais, o corpo de um dourado pálido, os cabelos caindo como chamas beijadas pelo sol.

Enquanto ela andava até o mar, o corpo todo em movimento, Giff imaginou como seria penetrá-la no ritmo das ondas. Notou que Lexy também o observava, os olhos captando o verde do mar, enquanto faiscavam num sorriso.

Ela mergulhou, tornou a se levantar, os cabelos molhados e lustrosos, a água escorrendo na pele. E soltou uma risada alta.

— A água está fria hoje — disse Lexy. — E as ondas mais fortes.

— Você não costuma vir à praia até junho.

— Talvez eu quisesse a água fria hoje. — Ela deixou que uma onda a levasse para perto de Giff. — E as ondas mais fortes.

— O mar estará mais frio e mais forte amanhã. Tem uma chuva chegando.

— Hum... — Lexy boiou de costas por um momento, contemplando o céu azul-claro. — Talvez eu volte amanhã.

Ela começou a bater com os pés na água, observando-o. Acostumara-se com os olhos castanho-escuros de Giff fixos nela, como um cachorrinho, quando eram adolescentes. Eram mais ou menos da mesma idade e haviam sido criados juntos. Mas Lexy já notara que ele mudara um pouco durante o ano que ela passara em Nova York.

O rosto afinara e a boca parecia mais firme e mais confiante. As pestanas compridas, que na juventude levavam os outros meninos a zombar dele não pareciam mais femininas. Os cabelos castanho claros eram lisos com mechas alouradas pelo sol.  Quando sorriu para Lexy, as covinhas — outra praga de sua juventude — destacaram-se nas faces.

— Está vendo alguma coisa interessante? — perguntou ele.

— Talvez. — A voz combinava com o rosto, concluiu Lexy. Era adulta e viril. A palpitação em seu estômago era satisfatória... e inesperadamente forte. — É bem possível.

— Imagino que você tenha alguma razão para vir nadar aqui quase nua. Não que eu não aprecie o panorama, mas pode me dizer qual é o motivo? Ou quer que eu adivinhe?

Ela riu, fazendo força contra a correnteza, para manter uma distância provocante entre os dois.

— Talvez eu quisesse apenas me refrescar.

—  Foi o que imaginei. — Giff sorriu também, satisfeito por compreendê-la melhor do que ela jamais poderia conceber. — Ouvi dizer que Jo chegou na barca da manhã.

O sorriso desapareceu do rosto de Lexy, os olhos se tornaram frios.

— E daí?

— Você quer descarregar um pouco da tensão? Quer me usar para fazer isso?

Quando ela virou e começou a bater os pés para voltar à praia, Giff agarrou-a pela cintura.

— Eu a atenderei — acrescentou ele, enquanto Lexy tentava se desvencilhar. — Queria mesmo fazer isso há muito tempo.

— Tire as mãos...

O final da exigência perdeu-se num grunhido de surpresa contra a boca de Giff. Ela nunca pensara que o confiável Giff Verdon fosse capaz de se mover tão depressa e com tanta determinação.

Também não imaginara que suas mãos eram tão grandes e tão firmes, que sua boca fosse tão... sensual, enquanto ele a beijava, com o  gosto do mar nos lábios. Por uma questão de formalidade, ela empurrou-o. Mas anulou o gesto com um pequeno gemido gutural, os  lábios se entreabrindo num convite para mais.

Lexy era exatamente como ele a imaginara, quente e ansiosa, a gatinha sensual com os lábios macios e úmidos. As fantasias que ele projetara, durante mais de dez anos, desfizeram-se por completo e voltaram a se formar, em cores novas e delirantes, impregnadas de um amor desamparado e uma necessidade desesperada.

Quando ela passou as pernas em torno de sua cintura, balançando o corpo contra o dele, Giff se perdeu.

— Eu quero você... — Ele interrompeu o beijo para roçar os lábios pelo pescoço de Lexy, enquanto as ondas os balançavam, num emaranhado de braços e pernas. — Sabe que sempre a desejei, Lexy.

Uma onda passou por cima da cabeça de Lexy, deixando-a com um rugido nos ouvidos. O mar puxava-a para o fundo. Sentia-se atordoada. Mas logo se encontrava outra vez ao sol ofuscante, com a boca de Giff a se fundir com a sua.

— Então tem de ser agora. Neste momento. — Ela ofegava, espantada ao descobrir como sua necessidade era real, intensa, incontrolável. — Aqui mesmo.

Giff a desejara assim por tanto tempo quanto podia se lembrar. Disposta, ansiosa. Seu corpo pulsava de tanta dor pelo desejo de penetrá-la. Mas sabia que se deixasse essa necessidade prevalecer, poderia possuí-la, mas a perderia no instante seguinte.

Em vez disso, ele baixou as mãos da cintura para apertar e acariciar sua bunda. Usou os polegares para atormentá-la, até que ela ficou com os olhos turvos, sem ver mais nada.

— Tenho esperado, Lex — murmurou ele, para largá-la em seguida. — Você também pode esperar.

Ela teve de fazer um esforço para se manter acima das ondas. (luspiu água enquanto o fitava, aturdida.

— Mas do que está falando?

—  Não estou interessado em aliviar sua coceira e depois observá-la se afastar, ronronando. — Ele levantou a mão e empurrou para trás seus cabelos molhados.  — Quando estiver preparada sabe onde  pode me encontrar.

— Seu filho-da-puta!

— Trate de descarregar sua raiva, meu bem. Conversaremos depois que você tiver tempo para pensar a respeito com calma. — Ele estendeu a mão para segurá-la. — Quando eu fizer amor com você, terá de ser por nós dois. Você também vai querer pensar assim.

Ela empurrou a mão que a apertava.

— Nunca mais toque em mim, Giff Verdon!

— Farei mais do que tocar em você.

Enquanto ela começava a nadar de volta à praia, Giff acrescentou, alto o bastante para seus próprios ouvidos:

— Ainda vou casar com você.

Ele deixou escapar um longo suspiro, enquanto a contemplava sair da água.

— A menos que eu me mate primeiro.

Para aliviar a vibração em todo o seu corpo, ele afundou. Mas como o gosto de Lexy continuava em sua boca, refletiu que era o homem mais esperto de Desire, ou o mais estúpido.

 

JO  ACABARA  DE  MOBILIZAR A  ENERGIA  NECESSÁRIA  PARA  DAR uma volta. Alcançara a beira do jardim quando Lexy subiu pelo caminho, furiosa. Não se dera ao trabalho de usar a toalha, e por isso o vestido leve estava grudado na pele. Jo ergueu os ombros, alteou uma sobrancelha.

— Como está a água?

— Vá para o inferno! — Ofegante, ainda atormentada pela humilhação, Lexy parou. — Só quero que você vá para o inferno.

—  Estou começando a pensar que já cheguei lá. E até agora minha recepção tem sido como eu esperava.

— Por que deveria esperar qualquer coisa? Este lugar nada significa para você... e nenhum de nós tem qualquer importância!

— Como sabe o que significa alguma coisa para mim, Lexy?

— Não vejo você arrumando as camas, tirando as mesas. Quando foi a última vez que você limpou um banheiro ou varreu um chão?

— Era isso o que você fazia esta tarde? — Jo correu os olhos das pernas sujas de areia aos cabelos úmidos da irmã. — O banheiro devia estar muito sujo.

— Não tenho de lhe dar explicações.

— O mesmo acontece comigo, Lex.

Quando Jo fez menção de se afastar, Lexy agarrou seu braço e sacudiu-o.

— Por que voltou?

0 cansaço dominou Jo de repente, deixando-a com vontade de chorar.

— Não sei. Mas não foi para magoá-la. Não foi para magoar ninguém. E me sinto cansada demais para brigar com você neste momento.

Surpresa, Lexy fitou-a nos olhos. A irmã que conhecia até aquele instante teria disparado uma saraivada de palavras, esfolado a adversária com sarcasmo. Nunca tivera conhecimento de qualquer ocasião em que Jo tremesse e recuasse.

— O que aconteceu com você?

—  Eu a avisarei quando descobrir. — Jo desvencilhou-se da mão que a segurava. — Por enquanto, deixe-me em paz, e farei a mesma coisa com você.

Ela afastou-se apressada pelo caminho, pegou a curva que seguia pura o mar. Mal olhou para as depressões entre as dunas, com sua vegetação rasteira, não ergueu o rosto para acompanhar o vôo de uma gaivota que soltava gritos estridentes. Precisava pensar, disse a si mesma. Apenas uma ou duas horas para pensar em paz e com sossego. Decidiria o que fazer, como contar aos outros. Se deveria ou não contar.

Poderia falar sobre o colapso? Poderia revelar a alguém que passara duas semanas no hospital porque seus nervos não agüentaram e alguma coisa em sua mente se rompera? Eles se mostrariam compreensivos, ambivalentes ou hostis?

E que importância  isso tinha?

Como poderia falar sobre a foto? Por mais que brigasse com todos, eram a sua família. Como podia submetê-los a isso, desencavar todo o sofrimento do passado? E se alguém quisesse ver, ela teria de dizer que a foto sumira.

Como Annabelle.

Ou nunca existira.

Pensariam que ela enlouquecera. Pobre Jo Ellen, louca como o chapeleiro de Alice.

Poderia contar que passara muitos dias tremendo de medo no apartamento, as portas trancadas, depois que deixara o hospital? Que se descobrira a procurar, frenética, pela foto que provaria que não estava realmente doente?

E que voltara para Sanctuary porque tivera de aceitar o fato de que estava doente. Que se permanecesse trancada no apartamento por mais um dia sequer, nunca teria encontrado a coragem para sair de novo.

De qualquer forma, a foto era muito nítida em sua mente. A textura, os tons, a composição. A mãe era jovem na foto. E não era sempre assim que Jo a lembrava... jovem? Os cabelos compridos e ondulados, a pele suave? Se tivesse alucinações com a mãe, não a veria sempre com aquela idade?

Quase da mesma idade que ela própria tinha agora, pensou Jo. Era provavelmente outro motivo para todos os sonhos, os medos, o nervosismo. Annabelle fora tão irrequieta e nervosa quanto a filha era? Existira um amante, no final das contas? Houvera sussurros a respeito, e até mesmo uma criança fora capaz de ouvi-los. Não houvera qualquer insinuação, nenhuma suspeita de infidelidade, antes da deserção. Mas depois os rumores se multiplicaram, as línguas se tornaram incansáveis e implacáveis.

Por outro lado, Annabelle fora discreta e hábil. Não deixara transparecer qualquer indicação de seus planos de ir embora, mas mesmo assim desaparecera.

O pai nao saberia?, especulou Jo. Um homem com certeza sabia se a esposa estava irrequieta, insatisfeita e infeliz.  Jo sabia que os dois costumavam discutir sobre a ilha. Teria sido o suficiente para que Annabelle se sentisse tão infeliz que virara as costas à casa, ao marido e aos filhos? Ele não percebera coisa alguma? Ou já era naquele tempo indiferente aos sentimentos das outras pessoas?

Era muito difícil lembrar se algum dia o pai fora diferente. Mas, com toda certeza, houvera um tempo em que soavam risos naquela casa. Os ecos ainda perduravam em sua mente. Imagens fugazes dos pais se abraçando na cozinha, a mãe rindo, os dois passeando pela praia de mãos dadas.

Havia imagens indistintas, esmaecidas pelo tempo, como se fixadas de maneira imprópria, mas inequívocas. Eram reais. Se ela conseguira apagar tantas recordações da mãe de sua mente, também poderia trazê-las de volta. Talvez assim começasse a compreender.

E, depois, decidiria o que fazer.

O barulho de passos a fez levantar os olhos no mesmo instante. O sol estava por trás dele, deixando-o na sombra. Um boné encobria seus olhos. Os passos eram largos e sem pressa.

Outra imagem há muito esquecida aflorou em sua mente. Viu-se como menina, os cabelos esvoaçando, a correr pelo caminho, rindo, gritando, até dar um salto. E os braços do pai estendiam-se para pegá-la, jogá-la para o alto e depois envolvê-la num abraço apertado.

Jo piscou para apagar a imagem e conter as lágrimas que queriam aflorar. O pai não sorriu. Por mais que se empenhasse em negar, Jo sabia que ele via Annabelle nela.

Ida ergueu o queixo e fitou-o nos olhos.

— Olá, papai.

— Jo Ellen...

Ele deu um passo para trás, a fim de avaliá-la. E constatou que Kate tinha razão. A filha parecia mesmo doente, pálida, tensa. Porque não sabia como tocá-la, e de qualquer forma não acreditava que ela recebesse bem o contato, Sam enfiou as mãos nos bolsos. Kate me disse que você estava aqui.

— Cheguei na barca da manhã — disse Jo, mesmo sabendo que a informação era desnecessária.

Por um momento difícil, ficaram imóveis, em silêncio, mais constrangidos do que dois estranhos. Sam deslocou o peso do corpo de um pé para outro.

— Está com algum problema?

— Apenas resolvi tirar alguns dias de folga.

— Parece esgotada.

— Tenho trabalhado demais.

O rosto franzido, ele olhou deliberadamente para a câmera pendurada no pescoço da filha.

— Não me parece que está tirando uma folga.

Num gesto distraído, ela pôs a mão em concha por baixo da câmera.

— É sempre difícil romper com os hábitos antigos.

— Tem razão. — Sam deixou escapar um suspiro. — Tem bastante luz no mar hoje e as ondas estão altas. Acho que deve dar boas fotos.

— Vou verificar. Obrigada.

— Não se esqueça de pegar um chapéu na próxima vez. Vai se queimar sem um chapéu.

— É verdade. Não esquecerei.

Sam não pôde pensar em mais nada para dizer. Por isso, acenou com a cabeça e recomeçou a andar, passando pela filha.

— Cuidado com o sol.

— Pode deixar.

Jo afastou-se apressada. Andava às cegas agora, porque sentira o cheiro da ilha no pai, a fragrância sinistra que partia seu coração.

 

A  QUILÔMETROS  DE   DISTÂNCIA,   À   LUZ   VERMELHA  E QUENTE do laboratório, ele enfiou o papel na bandeja com o fluido de revelação. Agradava-o recriar o momento de tantos anos antes, observá-lo se formar no papel, sombra a sombra, linha a linha.

Estava quase concluindo aquela fase. Queria prolongá-la, extrair todo o prazer possível, antes de seguir adiante.

Obrigara-a a voltar para Sanctuary. O pensamento o fez rir e exultar. Nada poderia ser mais perfeito. Era ali que a queria. Se não fosse por isso, já poderia ter cuidado dela antes, pelo menos meia dúzia de vezes.

Mas tinha de ser perfeito. Ele conhecia a beleza da perfeição e satisfação de trabalhar com todo cuidado para criá-la.

Não Annabelle, mas a filha dela. Um círculo perfeito fechando-se. Ela seria seu triunfo, sua obra-prima.

Dominá-la, possuí-la, matá-la.

E cada etapa seria registrada em filme. Ah, como Jo apreciaria aquilo! Mal podia esperar para lhe explicar tudo, a única pessoa que ele tinha certeza de que compreenderia sua ambição e sua arte.

O trabalho de Jo o atraía, e o fato de compreendê-lo fazia com que já se sentisse íntimo dela. E se tornariam ainda mais íntimos.

Com um sorriso, ele levou a cópia da bandeja de revelação para o banho de retenção, antes de passar para o fixador. Cautelosamente, verificou a temperatura do líquido. Esperou paciente até o despertador tocar, quando poderia acender a luz branca e examinar a cópia.

Linda, simplesmente linda. Uma composição adorável. Iluminação dramática... um halo perfeito sobre os cabelos, sombras incríveis para delinear o corpo e realçar os tons da pele. E o tema, pensou ele. A perfeição absoluta.

Quando a cópia estava bem fixada, ele tirou-a da bandeja e pôs debaixo da água corrente. Podia agora permitir-se sonhar com o que aconteceria em breve.

Estava mais próximo dela do que nunca, ligado através das fotos que refletiam a vida de cada um. Mal podia esperar para enviar a foto seguinte. Mas sabia que devia escolher o momento com todo cuidado.

Na bancada de trabalho, ao seu lado, havia um velho diário aberto, as letras precisas esmaecidas pelo tempo.

O momento decisivo é o supremo objetivo em meu trabalho. Captar esse evento breve e fugaz, em que todos os elementos, todas as dinâmicas de um alvo, alcançam o auge. E que momento pode ser mais decisivo do que a morte? E quanto controle mais o fotógrafo pode ter sobre esse momento, sobre o registro num filme, do que planejar, preparar e causar essa morte? Este único ato reúne alvo e artista, faz com que ele seja parte da arte, da imagem criada.

Como só matarei uma mulher, como só manipularei um momento decisivo, tenho de escolhê-la com o maior cuidado.

Seu nome é Annabelle.

Com um suspiro suave, ele pendurou a cópia para secar e acendeu a luz branca para estudá-la melhor.

— Annabelle... tão linda. E a filha é a sua imagem.

Ele deixou Annabelle pendurada ali, com seu olhar fixo, e saiu para completar os planos de sua estada em Desire.

 

A barca atravessava o estreito de Pelican seguindo para leste, na direção de Lost Desire. Nathan Delaney debruçava-se na amurada de boreste, como fizera uma vez antes, quando era um menino de dez anos. Não era a mesma barca e ele não mais um menino, mas queria reconstituir aquele momento ao máximo possível.

Era um dia fresco, com a brisa que soprava do mar. A fragrância era intensa e misteriosa. Estava mais quente na ocasião anterior, mas também era final de maio, em vez de meados de abril.

Nathan recordou como ele, os pais e o irmão caçula haviam se agrupado na amurada de boreste de outra barca, ansiosos pelo primeiro vislumbre de Desire e o começo do verão que passariam na ilha.

Não podia perceber muitas diferenças agora. Os imponentes carvalhos, com seu musgo rendado, projetavam-se da terra, assim como as palmeiras. As magnólias de folhas lustrosas ainda não haviam florescido.

Estavam em flor na outra ocasião? Um menino ansioso por aventuras não prestava muita atenção a flores.

Ele levantara o binóculo pendurado no pescoço. O pai ajudara-o, naquela manhã do passado distante, a focalizar o vôo rápido de um pica-pau. Seguira-se a briga esperada, porque Kyle pedira o binóculo e Nathan não quisera entregá-lo.

Nathan recordou a mãe rindo dos dois, o pai se abaixando para fazer cócegas em Kyle, a fim de distraí-lo. Em sua mente, Nathan podia contemplar a imagem da família. A mulher bonita, os cabelos esvoaçando, os olhos escuros faiscando em diversão e excitamento. Os dois meninos, corpulentos e enfezados, discutindo. E o homem, alto e moreno, de pernas compridas, corpo esguio.

Agora, pensou Nathan, ele era o único que restava. De alguma forma, crescera para adquirir o corpo do pai. Passara do menino corpulento para um homem de pernas compridas e quadris estreitos. Podia se contemplar num espelho e ver reflexos do rosto do pai nas faces encovadas e nos olhos de um cinza escuro. Mas tinha a boca da mãe, com arestas bem definidas, e os cabelos castanho-escuros, com insinuações de dourado e vermelho. O pai dizia que era como mogno envelhecido.

Nathan especulou se os filhos seriam mesmo apenas montagens dos pais. E estremeceu ao pensamento.

Sem o binóculo, ele observou a ilha tomar forma. Podia ver as manchas de cores das flores silvestres... rosa e violeta, de tremoços e trevos. Algumas casas eram visíveis, uns poucos trechos de estradas, retos ou sinuosos, o brilho de um rio que desaparecia entre as árvores. O mistério era aumentado pelas sombras da floresta, onde outrora havia porcos e cavalos selvagens, o faiscar dos pântanos, o capim ondulando em reflexos dourados e verdes ao sol da manhã.

Tudo era enevoado pela distância, como um sonho.

E, de repente, ele divisou uma mancha branca numa elevação, o piscar rápido do sol refletido no vidro. Sanctuary, pensou, e continuou a olhar até que a barca virou na direção do cais e a casa sumiu de sua vista.

Nathan deixou a amurada e voltou para o Jeep. Sentado ao volante, tendo apenas o zumbido dos motores da barca por companhia, especulou se não era loucura voltar, explorar o passado, até mesmo repeti-lo, sob alguns aspectos.

Deixara Nova York com tudo o que importava guardado no Jeep. Era surpreendentemente pouco. Mas também nunca tivera uma necessidade arraigada de possuir coisas. O que tornara sua vida mais simples através do divórcio, dois anos antes. Era Maureen quem gostava de colecionar coisas, o que poupara ambos de muito tempo e irritação quando propusera que ela levasse tudo o que quisesse do apartamento no West Side.

Deus sabia que ela até exagerara, deixando-o com pouco mais que suas próprias roupas e um colchão.

Esse capítulo de sua vida estava encerrado e há quase dois anos que ele se dedicava a seu trabalho. Projetar prédios era tanto uma paixão quanto uma carreira. Com Nova York servindo apenas como uma base, viajara por todo o país, estudando locais, trabalhando em qualquer lugar em que pudesse armar a prancheta e o computador. Aproveitara a dádiva do tempo para explorar outros prédios, explorar a arte que continham, das grandes catedrais na Itália e França às casas aerodinâmicas do deserto no sudoeste americano.

Era um homem livre, o trabalho a única exigência que havia em seu tempo e coração.

Até que perdera os pais, de maneira súbita e irremediável. E perdera-se também. Agora, perguntava a si mesmo por que sentia que só podia encontrar os pedaços em Desire.

Mas estava decidido a permanecer pelo menos durante seis meses. Considerara um bom sinal o fato de ter conseguido alugar o mesmo chalé em que sua família ficara naquele verão. Sabia que ouviria os ecos de suas vozes, que as escutaria com os ouvidos de um homem. E veria seus fantasmas com os olhos de um homem.

E voltaria a Sanctuary com o propósito de um homem.

Os filhos de Annabelle se lembrariam dele?

Descobriria muito em breve, refletiu Nathan, quando a barca bateu no cais.

Esperou sua vez, observando os blocos serem removidos dos pneus da picape à frente. Uma família de cinco pessoas, notou Nathan, e pelos equipamentos que podia avistar, acamparia na área de camping oferecida pela ilha. Nathan sacudiu a cabeça, sem entender por que alguém optava por dormir no chão, dentro de uma barraca, e ainda considerava que isso eram férias.

A claridade diminuiu à medida que as nuvens se aproximaram para cobrir o sol. O rosto franzido, ele notou que chegavam depressa, voando do leste. A chuva podia cair de repente. Podia se lembrar de uma chuva torrencial por três dias seguidos na ocasião anterior em que estivera na ilha. No segundo dia, ele e Kyle já estavam se esganando, como jovens lobos.

A recordação o fez sorrir agora. Não sabia como a mãe fora capaz de aturá-los.

Saiu da barca devagar e pegou a estrada esburacada que partia do cais. Com as janelas do carro abertas, podia ouvir os acordes estrondosos e alegres que saíam do rádio da picape. A família de campistas já começava a se divertir, pensou Nathan, com ou sem chuva iminente. Ele estava determinado a seguir o exemplo e aproveitar a manhã.

Teria de enfrentar Sanctuary, é claro, mas faria isso como um arquiteto. Lembrava que seu núcleo era um glorioso exemplo do estilo colonial, com varandas largas, colunas imponentes, janelas altas e estreitas. Mesmo quando criança, já sentia bastante interesse para notar alguns detalhes.

Gárgulas por cima dos canos de escoamento das calhas, ele recordou, que personalizavam em vez de aviltarem o estilo imponente. Costumava apavorar Kyle ao dizer que as gárgulas adquiriam vida à noite e vagueavam pela floresta.

Havia uma torre cercada por uma varanda de viúva, assim chamada porque as esposas do passado observavam o mar lá de cima, à espera do retorno dos navios de seus maridos. As varandas eram salientes, com balaustradas ornamentadas, de pedra e ferro. As chaminés eram de pedras de tons suaves, trazidas do continente. As madeiras da casa eram de ciprestes e carvalhos locais.

Havia um defumadouro que ainda era usado. A antiga senzala estava em ruínas. Fora ali que Brian e Kyle haviam encontrado uma cascavel enroscada num canto escuro.

Havia cervos na floresta e aligátores nos pântanos. Sussurros de piratas e fantasmas povoavam o ar. Era um bom lugar para meninos e grandes aventuras. E para segredos sinistros e perigosos.

Ele passou pelo pântano a oeste com seus lodaçais e pequenos agrupamentos de árvores. O vento aumentara de intensidade, fazendo o capim ondular. Na beira do pântano, duas garças brancas postavam-se em patrulha, as pernas compridas na água rasa, parecendo pernas de pau das brincadeiras de criança.

E, depois, a floresta envolveu-o, exuberante e exótica. Nathan diminuiu a velocidade, deixando que a picape à sua frente se distanciasse. Ali havia silêncio, segredos sombrios. O coração começou a bater forte, desconfortável, as mãos apertaram o volante com toda força. Era uma coisa que viera enfrentar, dissecar, até compreender.

As sombras eram densas e o musgo pendia das árvores como leias de aranhas monstruosas. Para se testar, ele parou o carro e desligou o motor. Não podia ouvir qualquer coisa além das batidas de seu coração e a voz do vento.

Fantasmas, pensou ele. Teria de procurá-los ali. E quando os encontrasse, o que faria? Deixaria que permanecessem onde vagueavam, noite após noite, ou continuariam a atormentá-lo, murmurando palavras em seu sono?

Veria o rosto da mãe ou o de Annabelle? Qual das duas choraria mais alto?

Ele deixou escapar um longo suspiro. Descobriu-se a estender a mão para pegar um cigarro, embora tivesse deixado de fumar há mais de um ano. Irritado, virou a chave na ignição, mas obteve apenas um ronco forçado em resposta. Pisou no acelerador e tentou de novo, com o mesmo resultado.

— Merda! — resmungou ele. — Era só o que me faltava.

Nathan recostou-se e tamborilou com os dedos no volante, irrequieto. O que tinha de fazer agora, é claro, era saltar e dar uma olhada debaixo do capô. Sabia o que veria. Um motor. Fios, tubos e correias. Nathan refletiu que sabia tanto sobre motores, tubos e fios quanto de cirurgia cerebral. E enguiçar numa estrada deserta era justamente o que merecia por se deixar persuadir a comprar o Jeep de segunda mão de um amigo.

Resignado, saltou e levantou o capo. Isso mesmo, o que desconfiava. Um motor. Ele inclinou-se, mexeu aqui e ali e sentiu a primeira gota de chuva cair em suas costas. — Agora ficou ainda pior!

Ele enfiou as mãos nos bolsos da frente dos jeans, a cara amarrada, enquanto a chuva caía em sua cabeça.

Devia ter imaginado que havia algum problema quando o amigo, jovial, entregara uma caixa de ferramentas junto com o Jeep. Nathan pensou em pegar a caixa para bater no motor com uma chave de porcas. Era improvável que desse certo, mas pelo menos seria satisfatório.

Ele recuou... e ficou paralisado quando o fantasma saiu das sombras da floresta para observá-lo. Annabelle.

O nome aflorou em sua mente e ele sentiu que tudo por dentro se contraía em defesa. Ela parou na chuva, imóvel como uma corça, os cabelos ruivos molhados e emaranhados, os olhos azuis quietos e tristes. Os joelhos de Nathan ameaçaram ceder e ele teve de estender a mão para se apoiar no pára-lama.

E depois ela se moveu, empurrando os cabelos molhados para trás. Começou a avançar em sua direção. Nathan compreendeu que não era um fantasma, mas uma mulher. Não era Annabelle, mas com certeza era a filha dela.

Ele deixou escapar o ar que vinha prendendo nos pulmões até o coração se acalmar.

— Problemas com o carro?  — Jo tentou imprimir um tom jovial à voz. A maneira com que elea fitava fazia com que sentisse vontade de ter permanecido entre as árvores, deixando-o se virar sozinho. — Presumo que não está parado aqui, no meio da chuva, apenas para apreciar a vista.

— Não, não estou. — Ele ficou satisfeito porque sua voz soava normal. Se havia uma sugestão de nervosismo, a situação era causa suficiente para explicar. — O carro não quer pegar.

— Isso é um problema. — O homem parecia vagamente familiar, pensou Jo. Um bom rosto, forte, ossos proeminentes, viril. Se ela tivesse inclinação por retratos, ele seria um bom tema. — Já descobriu o defeito?

Ela tinha uma voz suave, como mel sobre creme, com um fascinante sotaque sulista.

— Descobri o motor. — Nathan sorriu. — Bem no lugar em que eu desconfiava que estaria.

— Ahn... E agora?

— Estou decidindo por quanto tempo devo olhar, como se soubesse o que procurar, antes de sair da chuva.

— Não sabe consertar seu carro? — perguntou ela, com uma surpresa tão óbvia que Nathan ficou irritado.

—  Não, não sei. Também tenho sapatos e não faço a menor idéia de como se curte o couro.

Ele começou a fechar o capô, mas Jo estendeu a mão para mantê-lo aberto.

— Darei uma olhada.

— Você é mecânica?

— Não, mas conheço o básico. — Ela empurrou-o para o lado com o antebraço. Verificou primeiro as conexões da bateria. — Parece que isto está em ordem, mas terá de se preocupar com a corrosão, se pretende passar algum tempo em Desire.

— Cerca de seis meses. — Ele inclinou-se ao lado de Jo. — Com que devo me preocupar?

— Isto. A maresia pode ser terrível para os motores. Você está me atrapalhando.

—  Desculpe. — Nathan mudou de posição. Obviamente, ela não se lembrava dele, e Nathan decidiu que fingiria que também não se lembrava dela. — Você mora na ilha?

— Não moro mais.

Para evitar que a câmera batesse no Jeep, Jo transferiu-a para as costas.

Nate olhou para a câmera. Era uma Nikon, do tipo mais moderno e sofisticado. Compacta, mais discreta, mais resistente do que outros modelos, era muitas vezes uma escolha profissional. O pai tivera uma. Ele também tinha.

— Estava tirando fotos na chuva?

— Não chovia quando saí — disse ela, distraída. — Terá de trocar a correia do ventilador muito em breve, mas não é esse seu problema agora.

Jo empertigou-se. Parecia indiferente ao aguaceiro.

— Tente fazer o carro pegar, para que eu possa ouvir o som.

— Você é quem manda.

Jo contraiu os lábios enquanto ele voltava a sentar ao volante. Não havia a menor dúvida de que o ego masculino fora abalado. Ela inclinou a cabeça para o lado ao ouvir o barulho do motor. Tornou a se inclinar por baixo do capo.

— Vire de novo! — gritou ela, murmurando em seguida, para si mesma: — Carburador.

— Como?

— Carburador. — Ela abriu a pequena tampa de metal com o polegar. — Vire outra vez.

O motor pegou agora. Com um aceno de cabeça satisfeito, Jo fechou o capo e deu a volta para a janela do motorista.

—  O carburador está fechando. Terá de mandar verificar. De qualquer forma, pelo barulho do motor, precisa mesmo de uma regulagem. Quando fez a última revisão?

— Comprei o Jeep há duas semanas. De um ex-amigo.

— Sempre um erro. Mas deve levá-lo agora ao lugar para onde está indo.

Quando ela começou a recuar, Nate inclinou-se pela janela para pegar sua mão. Notou que era estreita, comprida, ao mesmo tempo elegante e competente.

— Quero lhe dar uma carona. Está chovendo muito e é o mínimo queposso fazer.

— Não precisa. Posso...

— Posso enguiçar de novo. — Ele ofereceu um sorriso, encantador, espontâneo e persuasivo. — E com quem poderia contar para consertar 0 carburador?

Era uma tolice recusar, Jo sabia. E ainda mais tolo sentir-se acuada só porque ele pegara sua mão. Ela deu de ombros.

— Está bem.

Jo retirou a mão e ficou satisfeita quando ele a soltou no mesmo instante. Ela contornou o Jeep apressada e sentou no banco do passageiro, encharcada.

— O interior está em boas condições. — Meu ex-amigo me conhece muito bem. — Nathan ligou os limpadores do pára-brisa e olhou para Jo. — Para onde vamos?

— Continue por esta estrada e vire à direita na primeira bifurcação. Sanctuary não fica longe... mas também não há nada longe em Desire

— Isso é ótimo. Também estou indo para Sanctuary.

— É mesmo?

O ar ali dentro era denso e opressivo. A chuva forte parecia isola-los do resto do mundo,  encobrindo as árvores, abafando todos os sons. O que era razão suficiente para se sentir desconfortável, disse Jo a si mesma. E ficou bastante irritada com sua reação.

Inclinou a cabeça para o lado, fitou-o nos olhos e perguntou:

— Vai ficar na casa-grande?

— Não. Vou apenas pegar as chaves do chalé que aluguei.

— Disse que vai passar seis meses aqui? — Jo sentiu-se aliviada quando ele deu a partida, pois fez com que desviasse dela aqueles olhos cinza intensos para concentra-los na estrada. — São férias bastante longas.

— Trouxe trabalho comigo. Queria uma mudança de cenário durante algum tempo.

— Desire fica muito longe de casa. — Jo deu um pequeno sorriso quando ele a fitou. — Qualquer pessoa da Geórgia é capaz de reconhecer um ianque. Mesmo quando permanecem de boca fechada, dá para perceber pela maneira diferente com que se movem.

Ela empurrou os cabelos molhados para trás. Se tivesse continuado a pé, pensou, seria poupada da conversa. Mas até mesmo a obrigação de conversar era melhor do que o silêncio da chuva torrencial.

— Vai ficar no Little Desire Cottage, à beira do rio.

— Como sabe?

— Todo mundo por aqui sabe de tudo. Mas minha família aluga os chalés, administra a pousada e o restaurante. E por acaso fui designada para cuidar de Little Desire. Ontem mesmo levei roupa de cama e todo o resto para o ianque que chegaria hoje para passar seis meses.

—  Portanto, você é minha mecânica, senhoria e governanta. Quem eu devo chamar se minha pia entupir?

— Basta abrir o armário e pegar o desentupidor. Se precisar de instruções para o uso, posso escrevê-las. Ali está a bifurcação.

Nathan virou à direita e começou a subir.

— Vamos tentar de novo. Se eu quisesse grelhar dois filés, abrir uma garrafa de vinho e convidá-la para jantar, a quem deveria chamar?

Jo virou a cabeça, com um olhar frio.

— Terá melhor sorte com minha irmã. O nome dela é Alexa.

— Ela sabe consertar carburadores?

Com uma meia-risada, Jo sacudiu a cabeça.

—  Não. Mas ela é muito decorativa e gosta de convites de homens.

— E você não gosta?

— Digamos apenas que sou mais seletiva do que Lexy.

— Ai! — Assoviando, Nathan ergueu a mão para massagear o coração. — Acertou em cheio.

— Estou apenas nos poupando de algum tempo perdido. Lá está Sanctuary.

Ele observou a casa surgir através da cortina de chuva, como se flutuasse na neblina que envolvia sua base. Era antiga e imponente, tão elegante quanto uma beldade sulista do passado vestida para um baile. Era definitivamente feminina, pensou Nate, com aquelas linhas suaves, em seu branco virginal. As janelas altas eram amenizadas por remates em arcada. Grades de ferro ornamentadas adornavam as sacadas, onde flores desabrochavam em vasos vermelhos de argila.

Os jardins cintilavam, as flores se curvavam, pesadas da chuva, como fadas em reverência.

— Deslumbrante... — murmurou Nathan meio para si mesmo. — Os acréscimos mais recentes misturam-se de uma maneira perfeita com a estrutura original. Realçam em vez de modernizar. É uma harmonia magistral de estilos, o sulista clássico sem ser típico. Não poderia ser mais perfeita se a ilha fosse projetada para a casa, em vez do contrário.

Nathan parou ao final do caminho, antes de notar que Jo o fitava fixamente. Pela primeira vez, havia curiosidade em seus olhos.

— Sou arquiteto — explicou ele. — Construções como esta me deixam fascinado.

— Neste caso, provavelmente vai querer fazer uma excursão pelo interior.

— Eu adoraria... e lhe deveria pelo menos um jantar de filé por isso.

— Vai querer minha prima Kate como cicerone. Ela é uma Pendleton. — Jo abriu a porta do Jeep. — Sanctuary veio para nós através dos Pendleton. Ela conhece a casa melhor do que eu. Vamos entrar. Você pode se enxugar e pegar as chaves.

Ela subiu os degraus apressada. Parou na varanda, para sacudir a cabeça e espalhar a água da chuva. E esperou que Nathan ficasse ao seu lado.

— Jesus, olhe só para esta porta!

Reverente, Nathan passou as pontas dos dedos pela madeira esculpida. Era estranho que tivesse esquecido, pensou. Mas também costumava passar correndo pela porta de tela na varanda dos fundos e atravessar a cozinha.

— Mogno hondurenho — informou Jo. — Importado no início do século XIX, muito antes de começar a preocupação com o desmatamento das florestas tropicais. Mas é linda.

Ela virou a pesada maçaneta de latão e entrou com ele em Sanctuary.

— Os assoalhos são do pinho mais duro. — Jo bloqueou uma imagem espontânea da mãe encerando pacientemente aqueles assoalhos. — O que também acontece com a escada principal. A balaustrada é de carvalho, fabricada e entalhada aqui mesmo, em Desire, no tempo em que havia uma plantação do algodão de fibras longas conhecido como Sea Island. O lustre é mais recente, um acréscimo comprado na França pela esposa de Stewart Pendleton, o magnata da navegação que reconstruiu a casa principal e fez as alas. Muitos móveis foram perdidos durante a Guerra Civil, mas Stewart e a esposa viajaram bastante e compraram as antigüidades que mais gostavam e mais combinavam com Sanctuary.

— Ele tinha um bom olho — comentou Nathan, correndo os olhos pelo vestíbulo de teto alto, com uma escada reluzente, uma intensa claridade.

— E um bolso amplo — acrescentou Jo.

Ela disse a si mesma para ser paciente, esperar onde estava, deixá-lo vaguear pelo vestíbulo.

As paredes eram de um amarelo-claro suave, que proporcionavam a ilusão de frescura durante as tardes terrivelmente quentes do verão. Eram rematadas com madeira escura, que acrescentavam uma riqueza excepcional ao conjunto. Havia sancas esculpidas ao longo do leio alto.

Os móveis ali eram pesados e grandes na escala, como convinha a uma entrada imponente. Duas cadeiras de braços George II, com o encosto em forma de concha, ladeavam uma mesa hexagonal em que havia uma urna de latão com lírios e flores silvestres perfumando o ambiente.

Embora não colecionasse antigüidades — nem qualquer outra coisa, diga-se de passagem — Nathan era um homem que estudava todos os aspectos de casas e prédios, inclusive o que havia dentro. Reconheceu o armário flamengo em carvalho esculpido, o espelho de corpo inteiro em madeira dourada, sobre um suporte marchetado, a delicadeza do Queen Anne e a opulência do Luís XIV. E considerou que a mistura de épocas e estilos era inspirada.

— Incrível... — As mãos nos bolsos de trás dos jeans, ele virou-se para Jo. — Eu diria que é um lugar infernal para morar.

— Sob mais de um aspecto.

A voz era seca e só um pouco amarga. Nathan alteou uma sobrancelha, curioso, mas ela não acrescentou nenhuma explicação.

Limitou-se a informar:

— Mantemos a recepção na sala da frente.

Ela seguiu pelo corredor e entrou na primeira sala à direita. Alguém acendera o fogo na lareira ali, provavelmente na expectativa da chegada do ianque, e para manter a animação dos hóspedes, presos dentro da pousada num dia chuvoso, se por acaso entrassem na sala.

Jo foi até uma escrivaninha Chippendale enorme e antiga. Abriu a gaveta de cima e tirou os formulários de aluguel dos chalés. Lá em cima, na ala da família, havia um escritório com móveis modernos, inclusive um computador, cujo manejo Kate ainda se esforçava para dominar. Mas os hóspedes nunca eram submetidos a esses detalhes burocráticos corriqueiros.

—  Little Desire Cottage — disse Jo, pegando o contrato de locação.

Ela notou que já estava carimbado, com o aviso do recebimento de depósito, e assinado por Kate e um certo Nathan Delaney.

Jo largou o contrato e abriu outra gaveta para tirar as chaves, presas por um clipe em que estava escrito o nome do chalé.

— Esta chave serve para as portas da frente e dos fundos. A menor é de um depósito por baixo do chalé. Eu não guardaria nada importante ali se fosse você. Tão perto do rio, há um risco permanente de inundação.

— Não esquecerei.

— Providenciei ontem a instalação do telefone. Todas as ligações serão cobradas diretamente do chalé e acrescentadas em sua conta mensal. — Ela abriu outra gaveta e tirou uma pasta fina. — Encontrará aqui as informações e respostas habituais. Horários da barca, informações sobre a maré, como alugar um barco ou equipamento de pesca, se quiser. Há um folheto que descreve a ilha... história, fauna, flora... Por que está me olhando desse jeito?

— Tem olhos deslumbrantes. E difícil deixar de contemplá-los. Jo estendeu a pasta para ele.

— Seria melhor se olhasse para o que tem aqui.

— Está bem. — Nathan abriu a pasta e começou a folhear. — E sempre nervosa assim ou é por minha causa?

— Não estou nervosa, mas impaciente. Tem alguma pergunta a fazer... relacionada com o chalé ou com a ilha?

— Eu a avisarei se tiver.

— As instruções para chegar ao chalé estão na pasta. Se rubricar o contrato aqui, para confirmar o recebimento das chaves e instruções, pode ir para lá.

Nathan sorriu de novo, intrigado pela rapidez com que a hospitalidade sulista definhava.

— Não quero exigir demais da recepção — disse ele, pegando a caneta estendida por Jo. — Já que tenciono voltar.

— O café da manhã, almoço e jantar são servidos na sala de jantar da pousada. Os horários também estão indicados na pasta. Há lancheiras disponíveis para piqueniques.

Quanto mais ela falava, mais Nathan gostava de ouvir sua voz. Ela recendia a chuva e nada mais... e parecia, quando se fitavam aqueles adoráveis olhos azuis, tão tristes quanto um passarinho com a asa partida.

— Você gosta de piqueniques? — perguntou ele.

Ela soltou um longo suspiro, arrebatou a caneta de volta e rabiscou suas iniciais por baixo da rubrica dele.

— Está perdendo seu tempo ao flertar comigo, Sr. Delaney. Não tenho o menor interesse.

— Qualquer mulher sensata sabe que uma declaração como essa só pode ser um desafio.

Ele inclinou-se para ler as iniciais, "J.E.H.".

— Jo Ellen Hathaway — informou ela, na expectativa de assim despachá-lo mais depressa.

— Foi um prazer ser salvo por você, Jo Ellen. Ele estendeu a mão, achando engraçado quando ela hesitou antes de apertá-la.

— Fale com Zeke Fitzsimmons sobre a regulagem. Ele deixará seu Jeep em perfeitas condições. Espero que aprecie sua estada em Desire.

— Já começou de uma maneira muito melhor do que eu esperava.

— Neste caso, suas expectativas devem ser mínimas. Jo retirou a mão e acompanhou-o até a porta da frente.

— A chuva parou — comentou ela ao abrir a porta para o ar úmido e a neblina. — Não deverá ter qualquer dificuldade para encontrar o chalé.

— Tenho certeza de que não haverá qualquer problema. — Ele se lembrava perfeitamente do caminho. —Tornaremos a nos ver, Jo Ellen.

Tinha de ser assim, por vários motivos.

Ela inclinou a cabeça e fechou a porta sem fazer barulho. Deixou-o parado ali, especulando o que fazer em seguida.

 

Em seu terceiro dia em Desire, Nathan acordou em pânico. O coração batia forte, a respiração era curta e estrangulada, a pele gelada de suor. Levantou-se da cama de um pulo, os punhos cerrados, os olhos vasculhando as sombras escuras do quarto.

Um sol fraco infiltrava-se pelas ripas das venezianas, projetando uma gaiola no tapete cinza.

A mente permaneceu em branco por um momento angustiante, acuada por trás das imagens que a povoavam. Árvores iluminadas pelo luar, dedos de nevoeiro, o corpo nu de uma mulher, os cabelos escuros espalhados, os olhos arregalados e vidrados.

Fantasmas, ele disse a si mesmo, enquanto esfregava o rosto com força, usando as duas mãos. Já os esperava... e não o haviam desapontado. Apegavam-se a Desire como o musgo aderia a um carvalho.

Ele afastou-se da cama e deliberadamente — como uma criança assumindo o desafio de caminhar pelas rachaduras na calçada — passou pelas barras que o sol criava. No banheiro estreito, entrou na banheira branca, fechou as cortinas listradas e abriu a água quente do chuveiro. Lavou o suor do corpo, imaginando o pânico como um nevoeiro vermelho-escuro que turbilhonava na água e desaparecia pelo ralo.

Havia uma densa nuvem de vapor no banheiro quando ele terminou o banho e começou a se enxugar. Mas a mente estava lúcida de novo.

Vestiu um blusão velho, as mangas curtas esfiapadas e um short que usava na academia. Com a barba por fazer e os cabelos ainda molhados, foi até a cozinha, a fim de esquentar água para um café solúvel. Olhou ao redor. Franziu o rosto para o bule e o coador fornecidos pela pousada. Mesmo que adivinhasse as medidas certas, não se lembrara de trazer filtros de papel.

Naquele momento, seria capaz de pagar mil dólares por uma cafeteira. Pôs a chaleira no queimador da frente de um fogão que era mais velho do que ele. Foi até a área de estar da sala grande, a fim de ligar a televisão no noticiário da manhã. A recepção era péssima e as opções, mínimas.

Não havia cafeteira, não havia pay-per-view, pensou Nathan, enquanto sintonizava no noticiário da manhã de um dos três canais abertos disponíveis. Lembrou como ele e Kyle haviam lamentado a falta da diversão pela televisão.

Como poderemos assistir a "O homem de seis milhões de dólares" nesta coisa estúpida? E uma tragédia!

Vocês não estão aqui para ficar de olhos grudados na tela da televisão.

Ah, mamãe!

Tinha a impressão de que o esquema de cores era diferente. Havia uma vaga recordação de cores pastéis nas poltronas largas e no sofá de encosto reto. Agora, estavam cobertos por padrões geométricos, em verdes e azuis profundos, amarelos ensolarados.

O ventilador que pendia do centro do teto rangia alto naquele tempo. Agora, ele sabia por que se sentira compelido a puxar o cordão que o acionava, o ventilador funcionava com um suave zumbido das pás.

Mas era a mesma mesa amarela de pinho que separava as áreas no chalé. Era naquela mesa que a família se reunia para comer, empenhar-se em jogos de tabuleiro, ocupar-se com os mais complicados quebra-cabeças durante aquele verão.

A mesma mesa que ele e Kyle tinham de limpar depois do jantar. A mesa em que o pai permanecia por um longo tempo, em algumas manhãs, tomando café.

Ainda lembrava quando o pai ensinara a ele e a Kyle como abrir buracos na tampa de um pote para pegar vaga-lumes. Era uma noite quente e agradável e a caçada fora inebriante. Nathan recordou agora como o pote ao lado da cama faiscava e luzia, faiscava e luzia, embalando-o para o sono.

Mas pela manhã todos os vagalumes dentro do pote estavam mortos, sufocados, pois o livro por cima da tampa tapara todos os buracos. Ainda não podia se lembrar de ter posto o livro ali, aquele velho exemplar de Johnny Tremaine. Os corpos escuros no fundo do pote deixaram-no angustiado, com um sentimento de culpa. Saíra do chalé sem falar com ninguém e fora jogá-los no rio.

E não voltara a caçar vaga-lumes naquele verão.

Irritado com a recordação, Nathan afastou-se da televisão. Voltou ao fogão para despejar a água fumegando sobre uma colher de café solúvel. Levou a caneca para a varanda cercada de tela, a fim de contemplar o rio.

Era inevitável que as lembranças aflorassem agora que estava ali, disse a si mesmo. Fora por isso que viera. Para lembrar aquele verão, passo a passo, dia a dia. E para descobrir o que fazer com os Hathaway.

Ele tomou um gole do café e estremeceu um pouco com um gosto falso e amargo. Descobrira que muita coisa na vida era falsa e amarga. Por isso, tomou outro gole.

Jo Ellen Hathaway... Lembrava-se dela como uma garota magricela, cotovelos pontudos, uma trança desleixada e um temperamento estourado. Não tinha muito interesse por garotas aos dez anos de idade e por isso lhe dispensara pouca atenção. Ela era apenas uma das irmãs de Brian.

Ainda era, pensou Nathan. E ainda era magricela. E, ao que tudo indicava, seu temperamento ainda era o mesmo. A trança meio solta desaparecera. Os cabelos mais curtos e eriçados combinavam com sua personalidade, se não mesmo com seu rosto. A negligência do corte, a indiferença à moda. A cor era como o pêlo de uma corça selvagem.

Ele especulou por que Jo Ellen se mostrava tão pálida e cansada. Não parecia ser do tipo que definhava por uma paixão ou relacionamento rompido, mas alguma coisa a fazia sofrer. Seus olhos transbordavam de pesares e segredos.

E era justamente esse o problema, pensou Nathan, com uma meia-risada. Ele tinha uma fraqueza por mulheres de olhos tristes.

E melhor resistir, disse a si mesmo. Imaginar o que estaria acontecendo por trás daqueles olhos azuis, enormes e tristes não podia deixar de interferir com seu propósito. O que precisava agora era de tempo e objetividade, antes de dar o próximo passo.

Tomou mais um gole do café. Disse a si mesmo que se vestiria dali a pouco e iria para Sanctuary, onde tomaria um café decente e comeria alguma coisa. Era tempo de voltar, observar e planejar. Era tempo de evocar mais fantasmas.

Mas, por enquanto, queria apenas ficar parado ali, olhar através da tela fina, sentir o ar úmido, contemplar o sol a dissolver lentamente a neblina perolada que aderia ao solo e deslizava sobre o rio como asas de fadas.

Poderia ouvir o mar se prestasse atenção, um rumor baixo e incessante a leste. Mais perto, podia escutar os cantos dos passarinhos, as monótonas batidas de um pica-pau caçando insetos em algum lugar nas sombras da floresta. O orvalho faiscava como cacos de vidro nas folhas das palmeiras. Não havia vento para agitá-las e lazer com que chocalhassem.

Quem escolhera o lugar para aquele chalé, pensou Nathan, sabia o que fazia. Era um hino à solidão, oferecia vista e privacidade. A estrutura era simples e funcional. Uma caixa de cedro curtido pelo tempo, sobre estacas, uma varanda com tela no lado oeste, um deque estreito e aberto no leste. Dentro, o cômodo principal tinha o teto alto, para aumentar o espaço e a sensação de abertura. Em cada extremidade havia dois quartos e um banheiro.

Ele e Kyle tinham um quarto cada um. Como o mais velho, Nathan reivindicara o quarto maior. A cama de casal fizera com que se sentisse crescido e superior. Pendurara um cartaz na porta: Por Favor, Bata Antes de Entrar.

Gostava de ficar acordado até tarde, lendo seus livros, absorvido em seus pensamentos, escutando o murmúrio das vozes dos pais ou o zumbido da televisão. Gostava de ouvi-los rir de alguma coisa a que assistiam.

A risada rápida da mãe, a gargalhada profunda do pai. Ouvira esses sons com freqüência ao longo de sua infância. E lamentava porque nunca mais os ouviria.

Um movimento atraiu sua atenção. Nathan virou a cabeça. Onde esperava um cervo, avistou um homem, esgueirando-se pela margem do rio, como a neblina. Era alto e magro, os cabelos escuros como fuligem.

Porque sua garganta ficou ressequida, Nathan forçou-se a levantar a caneca e tomar outro gole. Continuou a observar, enquanto o homem se aproximava, os raios de sol inclinados iluminando seu rosto.

Não era Sam Hathaway, compreendeu Nathan, enquanto um princípio de sorriso contraía seus lábios. Brian. Vinte anos haviam feito com que ambos se tornassem homens.

Brian levantou os olhos, contraiu-os, focalizou o vulto por trás da tela. Esquecera que o chalé estava ocupado agora. Fez a anotação mental de se lembrar de dar suas caminhadas pelo lado oposto do rio. Ele ergueu a mão.

— Bom-dia. Não queria incomodá-lo.

—  Não incomodou. Eu estava apenas tomando um café horrível e contemplando o rio.

O ianque, Brian recordou, uma locação de seis meses. Quase podia ouvir Kate lhe dizendo para ser polido, sociável.

— É um bom lugar. — Brian enfiou as mãos nos bolsos, irritado por ter inadvertidamente sabotado a própria solidão. — Já se acomodou direito no chalé?

— Já sim. — Nathan hesitou, mas depois deu o passo seguinte: — Você ainda caça o Garanhão Fantasma?

Brian piscou, aturdido. Inclinou a cabeça para o lado. O Garanhão Fantasma era uma lenda que vinha dos dias em que cavalos selvagens vagueavam pela ilha. Diziam que o maior de todos, um enorme garanhão preto, de velocidade incomparável, ainda corria pela floresta. Quem o pegasse, saltasse em seu dorso e partisse a galope teria todos os seus desejos concedidos.

Ao longo da infância, a ambição mais profunda de Brian fora a de capturar e cavalgar o Garanhão Fantasma.

— Ainda mantenho os olhos bem abertos à procura. — Brian aproximou-se. — Eu conheço você?

— Acampamos uma noite no outro lado do rio, numa barraca para duas pessoas, toda remendada, com um cabresto de corda, duas lanternas e um pacote de Fritos. Pensamos ter ouvido o barulho de cascos de cavalo e um relincho alto e selvagem. — Nathan sorriu. — Talvez fosse verdade.

Brian arregalou os olhos, as sombras que havia neles se dissiparam.

— Nate? Nate Delaney? Seu filho-da-puta! Brian subiu os degraus para a varanda, sorrindo.

— Deveria ter me avisado que viria, que estava aqui. — Brian apertou a mão de Nathan. — Minha prima Kate cuida dos chalés. Puxa, Nate, você parece um náufrago.

Com um sorriso pesaroso, Nathan passou a mão pela barba por fazer no queixo.

— Estou de férias.

— Ora, ora, é uma surpresa e tanto. Nate Delaney... — Brian sacudiu a cabeça. — O que andou fazendo durante todos esses anos? Como está Kyle? E seus pais?

O sorriso vacilou.

— Eu lhe contarei depois.  — Só algumas coisas, pensou Nathan. —  Primeiro, vamos tomar aquele café horrível.

— Nada disso. Vamos para Sanctuary. Providenciarei um café decente. E alguma coisa para comer.

— Está bem. Espere só um instante, enquanto eu ponho uma calça e sapatos.

— Não posso acreditar que você seja nosso ianque — comentou Brian, enquanto Nathan se virava para entrar no chalé. — Isso me leva de volta ao passado.

Nathan olhou para trás por um instante.

— A mim também.

 

POUCO TEMPO DEPOIS, NATHAN SENTAVA JUNTO DO BALCÃO DA cozinha de Sanctuary, respirando os aromas divinos de café sendo preparado e bacon frito. Observou Brian cortar, com a maior habilidade, cogumelos e pimentões, para fazer uma omelete.

— Parece que você sabe o que faz.

— Não leu o folheto? Minha cozinha tem uma classificação de cinco estrelas. — Brian estendeu uma caneca com café para baixo do nariz de Nathan. — Beba e exulte.

Nathan tomou um gole. Fechou os olhos, em prazer agradecido.

— Tenho bebido borra de café nos dois últimos dias, o que pode estar me influenciando, mas eu diria que este é o melhor café que já foi feito no mundo civilizado.

— Claro que é. Por que não veio tomá-lo aqui antes?

—  Estava me orientando, aprendendo a ser preguiçoso. — Retomando o contato com fantasmas, pensou Nathan. — Mas agora que provei este café, passarei a ser um freqüentador habitual.

Brian despejou os cogumelos e pimentões numa frigideira para dourar, depois começou a ralar o queijo.

—  Espere só até provar minha omelete. Mas o que você faz? Ficou tão rico e independente que pode passar seis meses na praia?

Trouxe trabalho comigo. Sou arquiteto. Enquanto tiver minha prancheta e meu computador, posso trabalhar em qualquer lugar.

— Um arquiteto... — Brian encostou-se no balcão, batendo os ovos. — Você é bom?

— Aposto meus projetos contra seu café qualquer dia.

— Meus parabéns!

Brian tornou a se virar para o fogão, rindo. Com a facilidade da experiência, ele despejou a mistura da omelete, pôs o bacon para escorrer e verificou os biscoitos no forno.

— Como está Kyle? Ficou rico e famoso como queria?

Era um golpe, duro e rápido, no centro do coração. Nathan largou a caneca no balcão e esperou que as mãos e a voz firmassem.

—  Ele trabalhava para isso, Brian, mas morreu... há poucos meses.

— Jesus, Nate! — Chocado, Brian virou-se. — Sinto muito.

— Ele estava na Europa. Viveu mais ou menos por lá durante os últimos anos. Aconteceu num iate, em alguma festa. Kyle gostava de listas. — Nathan esfregava a têmpora enquanto falava. — Faziam um cruzeiro pelo Mediterrâneo. O veredicto foi de que ele devia ter bebido demais e caiu no mar. Talvez tenha batido com a cabeça. O corpo não foi encontrado.

— Uma coisa terrível. Sinto muito. — Brian tornou a se virar para a frigideira. — Perder alguém da família arranca um pedaço da pessoa.

— É verdade. — Nathan respirou fundo. — Aconteceu poucas semanas depois que meus pais morreram. Num desastre de trem na América do Sul. Papai estava lá a trabalho. Desde que Kyle e eu fomos para a universidade, mamãe costumava acompanhá-lo nas viagens. E costumava dizer que isso fazia com que se sentissem recém-casados durante todo o tempo.

— Não sei o que dizer, Nate.

— Não precisa dizer nada. — Nathan deu de ombros. — Você sobrevive. Acho que mamãe ficaria perdida sem papai, e não sei como os dois reagiriam à perda de Kyle. Você tem de refletir que tudo acontece por um motivo e assim consegue sobreviver.

— Às vezes a razão é a pior possível — murmurou Brian.

— Na maioria das vezes a razão é a pior possível. O que não muda nada. E bom voltar para a ilha. É bom tornar a vê-lo.

— Tivemos momentos sensacionais naquele verão.

— Alguns dos melhores da minha vida. — Nathan esforçou-se para exibir um sorriso. — Vai me servir logo essa omelete ou pretende me obrigar a suplicar?

— Não precisa suplicar. — Brian pôs a comida num prato. — Mas a genuflexão depois é encorajada.

Nathan pegou um garfo e espetou um pedaço da omelete.

— Agora, conte-me os últimos vinte anos de aventuras de Brian Hathaway.

— Não houve muitas aventuras. Cuidar da pousada exige bastante trabalho. Temos hóspedes durante o ano inteiro agora. Parece que quanto mais apinhada e movimentada se torna a vida no mundo exterior, mais as pessoas querem escapar de lá. E quando fazem isso, nós as alojamos, alimentamos e divertimos.

— Parece uma proposição de vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana.

— Seria assim mesmo, no mundo exterior. Mas a vida é mais lenta por aqui.

— Esposa? Filhos?

— Não. E você?

—  Tive uma esposa — respondeu Nathan, secamente. — Desistimos um do outro. Sem filhos. Foi sua irmã quem me recebeu aqui... Jo Ellen.

— É mesmo? — Brian levou o bule de café para encher a caneca de Nathan. — Ela voltou para Desire há uma semana. Lex também está aqui. Somos uma família grande e feliz.

Enquanto Brian se virava, Nathan franziu as sobrancelhas pelo tom de sua voz.

—  E seu pai?

Não se pode tirá-lo da ilha nem com dinamite. Ele nem mesmo vai mais ao continente para comprar suprimentos. Pode

Encontrá-lo vagueando por aí.

Ele virou a cabeça quando Lexy passou pela porta.

— Temos dois pássaros madrugadores ansiosos por um café — anunciou ela.

Nesse instante, Lexy avistou Nathan e parou. Numa reação automática, ajeitou os cabelos, inclinou a cabeça para o lado e ofereceu um sorriso insinuante.

— Temos uma visita na cozinha...

Ela chegou mais perto e fez uma pose, encostada no balcão. Ofereceu-lhe um sopro do perfume Eternity, que passara no pescoço naquela manhã, da amostra grátis que viera numa revista.

— Você deve ser muito especial se Brian deixou-o entrar em seus domínios.

Os hormônios de Nathan efetuaram uma dança rápida e instintiva, o que o levou a ter vontade de rir dos dois. Uma mulher frívola e deslumbrante foi sua primeira impressão, mas revisou-a quando reparou em seus olhos. Eram vigilantes e perceptivos.

— Ele se compadeceu de um velho amigo — disse Nathan.

— É mesmo? — Lexy gostou da aparência rude do estranho, além de exultar com sua expressão de aprovação masculina. — Apresente-me a seu velho amigo, Brian. Não sabia que você tinha algum.

— Nathan Delaney — disse Brian, brusco, indo pegar o segundo bule de café. — Minha irmã caçula, Lexy.

—  Nathan... — Lexy estendeu a mão, as unhas pintadas de Vermelho Flamejante. — Brian ainda me vê de trança.

— Privilégio de irmão mais velho. — Nathan ficou surpreso ao descobrir que a mão da sereia era firme e capaz. — Na verdade, também me lembro de você de trança.

— E mesmo? — Um pouco desapontado por ele não ter segurado sua mão por mais tempo, Lexy apoiou os cotovelos no balcão e inclinou-se em sua direção. — Não posso acreditar que eu tenha me esquecido de você. Faço questão de me lembrar detodos os homens atraentes que entraram em minha vida. Mesmo que seja por um breve initante.

— Você mal tinha saído da fralda e ainda não refinara sua rotina de femme fatale — interveio Brian, sarcástico, ignorando o olhar furioso da irmã. — Omelete de queijo e cogumelo é o café da manhã especial.

Lexy se controlou antes de começar a rosnar. Contraiu os lábios para um sorriso.

— Obrigada, querido. — Ela pegou o bule estendido. Pestanejou para Nathan. — Não banque o estranho. Temos bem poucos homens interessantes em Desire.

Porque parecia absurdo resistir ao espetáculo e era óbvio que ela esperava por isso, Nathan contemplou a saída de Lexy a rebolar. Só depois é que se virou para Brian, com sorriso lento.

— Você tem uma irmã e tanto, Bri.

— Ela precisa de uma boa surra, por se exibir assim para estranhos.

— Foi um bom acompanhamento para minha omelete. — Mas Nathan ergueu a mão ao perceber a fúria nos olhos de Brian. — Não se preocupe comigo, companheiro. Esse tipo de vibração sempre acarreta grandes dores de cabeça. E já tenho problemas em quantidade suficiente. Pode apostar que vou olhar, mas não tenho a menor intenção de tocar.

—  Não é da minha conta — murmurou Brian. — Ela está determinada a não apenas procurar encrencas, mas também a encontrá-las.

— As mulheres com essa aparência quase sempre conseguem se esgueirar das encrencas.

Ele se virou quando a porta foi aberta outra vez. Mas quem entrou na cozinha agora foi Jo.

E mulheres com essa aparência, pensou Nathan, não se esgueiram das encrencas. Abrem caminho a socos.

E ele se perguntou por que preferia esse tipo de mulher... e esse tipo de método.

Jo parou quando o viu. As sobrancelhas se uniram, antes que ela deliberadamente desanuviasse a testa.

— Parece estar em casa,  senhor Delaney.

— É assim que me sinto, Srta. Hathaway.

— Um tratamento bastante formal para um cara que a empurrou para dentro do rio e depois ficou com o lábio sangrando quando tentou tirá-la — comentou Brian, pegando uma caneca limpa.

— Não a empurrei. — Nathan sorriu, enquanto observava as s< >brancelhas de Jo se juntarem de novo. — Ela escorregou. Mas deixou meu lábio sangrando e me chamou de porco ianque, pelo que me recordo.

A lembrança se agitou na mente de Jo, quase escapuliu, mas depois aflorou com nitidez. Uma tarde quente de verão, o choque da água fria, a cabeça afundando. Para logo voltar à superfície, debatendo-se.

— É o filho do Sr. David. — O calor espalhou-se pela barriga de Jo, subiu para o coração. Por um momento, seus olhos refletiram essa reação, fazendo o coração de Nathan acelerar. — Qual deles?

— Nathan, o mais velho.

— Isso mesmo. — Ela empurrou os cabelos para trás, não com a sedução deliberada da irmã, mas com uma impaciência distraída. — E você me empurrou. Nunca caí no rio, a menos que quisesse ou alguém me ajudasse.

— Você escorregou e eu a ajudei a sair.

Ela riu, uma risada rápida e sonora, pegou a caneca oferecida por Brian e propôs:

— Acho que podemos esquecer o passado, já que o deixei de lábio inchado... e seu pai me deu o mundo.

A cabeça de Nathan começou a latejar, uma reação imediata e angustiada.

— Meu pai?

— Eu o seguia como uma sombra, atormentava-o com perguntas incessantes sobre como tirava fotos, por que escolhia aqueles temas, como a câmera funcionava. Ele foi muito paciente comigo. Devia levá-lo à loucura por interromper seu trabalho dessa maneira, mas ele nunca me escorraçou. Ensinou-me muita coisa, não apenas os elementos básicos, mas também como olhar e ver. Acho que lhe devo por todas as fotos que já tirei.

O que ele acabara de comer parecia se revolver em seu estômago, como pura gordura.

— Você é fotógrafa profissional?

— Jo é uma grande fotógrafa — declarou Lexy, com alguma amargura na voz, voltando à cozinha. — J.E. Hathaway, a globe-trotter, viajando pelo mundo a fotografar a vida de outras pessoas na passagem. Duas omeletes, Brian, duas batatas fritas, uma com bacon, outra com presunto. Os hóspedes do quarto 201 querem o café da manhã lá em cima, Miss Viajante do Mundo. E tem camas para arrumar.

—  Saída do palco à esquerda — murmurou Jo, quando Lexy tornou a sair. Ela tornou a se virar para Nathan. — Sou uma fotógrafa, graças em grande parte a David Delaney. Se não fosse pelo Sr. David, eu poderia ser uma pessoa tão frustrada e amargurada quanto Lexy. Como está seu pai?

— Ele morreu. — Nathan levantou-se abruptamente. — Tenho de voltar. Obrigado pelo café da manhã, Brian.

Ele saiu apressado, deixando a porta de tela bater.

— O que aconteceu, Bri?

— Um acidente. Há cerca de três meses. O pai e a mãe morreram. E ele perdeu também o irmão, cerca de um mês depois.

— O Deus! — Jo passou a mão pelo rosto. — Mexi numa casa de marimbondos. Volto num instante.

Ela largou a caneca no balcão e saiu correndo pela porta, atrás de Nathan.

— Nathan! Nathan! Espere um instante!

Ela alcançou-o no caminho coberto de conchas que serpenteava pelo jardim, na direção das árvores.

Desculpe. — Ela pôs a mão em seu braço para detê-lo. — Lamento muito que isso tenha acontecido.

Ele tentou se  controlar, com um esforço para pensar claramente, embora as têmporas latejassem.

— Não se preocupe. Ainda estou um pouco sensível.

— Se eu soubesse...

Ela parou de falar e deu de ombros, desamparada. Era bem provável que metesse os pés pelas mãos de qualquer maneira. Sempre fora desastrada nas relações sociais.

— Não sabia.

Nathan conseguiu controlar seus nervos. Apertou de leve a mão de Jo, ainda em seu braço. Achou que ela parecia muito consternada. E não fizera mais do que roçar acidentalmente uma ferida aberta.

— Não se preocupe mais com isso.

— Eu gostaria de ter mantido contato com ele. — Havia agora uma certa ansiedade na voz de Jo. — Gostaria de ter feito um esforço maior para agradecer tudo o que ele fez por mim.

— Não deveria fazer isso. — Nathan se arrependeu no instante mesmo em que falou. Virou-se para ela, os olhos intensos e frios. — Agradecer a alguém pelo lugar em que sua vida foi parar é a mesma coisa que culpá-la por isso. Somos todos responsáveis por nós mesmos.

Apreensiva, Jo deu um passo para trás.

—  É verdade, mas algumas pessoas influenciam os caminhos que seguimos.

— Neste caso, é engraçado que ambos tenhamos voltado para cá, não é mesmo? — Nathan olhou além dela, para Sanctuary, as janelas faiscando ao sol. — Por que você voltou, Jo?

— É o meu lar.

Ele contemplou as faces pálidas, as olheiras escuras.

— É o lugar para onde costuma vir quando se sente derrotada, perdida e infeliz?

Jo cruzou os braços como se estivesse com frio. Ela, geralmente a observadora, não gostava de ser observada de maneira tão perceptiva.

— É apenas o lugar para onde eu vou.

—  Parece que decidimos vir para cá quase ao mesmo tempo. Destino? Ou sorte?

Nathan deu um pequeno sorriso, porque sua opção era a última. Mas ela tinha outra preferência.

— Apenas coincidência. Por que você voltou?

— Não tenho a menor idéia.

Ele exalou entre os dentes. Tornou a fitá-la. Queria apagar a tristeza e preocupação dos olhos de Jo, queria ouvi-la rir outra vez. E teve a súbita certeza de que isso acalmaria sua alma tanto quanto a dela.

— Mas, já que estou aqui, por que não me acompanha até o chalé? — acrescentou Nathan.

— Conhece o caminho.

— Seria muito mais agradável se tivesse uma companhia... a sua.

— Já lhe disse que não estou interessada.

— Mas eu estou. — O sorriso se alargou quando ele estendeu a mão para ajeitar uma mecha de cabelos por trás da orelha de Jo. — Será divertido descobrir quem cutuca o outro para fora do caminho.

Os homens não flertavam com ela. Nunca. Ou pelo menos ela jamais notara. Mas o fato de que Nathan fazia justamente isso — e ela notava — só servia para irritá-la. A Linha de Fratura Pendleton surgiu entre as sobrancelhas.

— Tenho trabalho a fazer.

— É verdade. Arrumar a cama do 201.

Porque ele se virou primeiro, Jo teve a oportunidade de observá-lo a se embrenhar entre as árvores. Num gesto deliberado, ela sacudiu a cabeça, para que os cabelos caíssem de novo por cima das orelhas. Depois deu de ombros, como se estivesse se livrando de um contato desagradável.

Mas foi obrigada a admitir que já se sentia mais interessada do que queria.

 

Nathan levou uma câmera. Sentia-se compelido a reconstituir alguns passos do pai em Desire... ou talvez erradicá-los. Escolheu a velha e pesada Pentax, de alcance médio, uma das prediletas do pai. Com toda certeza, David Delaney levara-a para a ilha naquele verão.

Deveria levar também a volumosa Hasselblad e a elegante Nikon, além de uma coleção de lentes e filtros, sem falar nos inúmeros filmes. Nathan trouxera tudo. Os equipamentos estavam guardados no chalé, tudo arrumado com cuidado, como o pai lhe dissera que sempre deveria fazer.

Mas quando o pai partia em suas excursões, à procura de uma foto, quase sempre levava a Pentax.

Nathan escolheu a praia, com suas ondas espumantes e areia cintilante. Pôs os óculos escuros, como proteção contra o brilho intenso do sol, e subiu pelo caminho entre as dunas, através de um mar de aveas marinhas e plantas rasteiras emaranhadas. O vento soprava do mar e desmanchava seus cabelos. Ele parou no alto do caminho, escutando o ritmo do mar, os gritos estridentes das gaivotas, que circulavam e mergulhavam a todo instante.

Havia conchas trazidas pelas ondas ao longo da praia, como lindos bibelôs. Pequenas dunas, sopradas pelo vento, já começavam a se formar por trás delas. Os agitados sanderlingos voavam apressados de um lado para outro, sobre as espumas, como executivos a caminho da próxima reunião. E por trás da arrebentação um trio de pelicanos voava em formação militar, subindo e dando voltas, como uma unidade. Abruptamente, um deles iniciou um mergulho vertiginoso para o mar, logo acompanhado pelos outros. A água espirrou em três pontos diferentes e um momento depois os pelicanos tornaram a alçar vôo, cada um levando sua primeira refeição no bico.

Com a facilidade da experiência, Nathan levantou a câmera, alargou a abertura, aumentou a velocidade para captar movimento e depois focalizou os pelicanos. Seguiu-os enquanto sobrevoavam as cristas das ondas e subiam. E captou-os no mergulho seguinte.

Baixou a câmera, com um pequeno sorriso. Ao longo do tempo, passara períodos prolongados sem praticar seu hobby. Planejava compensar agora, consumindo pelo menos uma hora por dia para recuperar o prazer e melhorar o olho.

Não poderia pedir um princípio mais perfeito. A praia era habi-lada apenas por aves e conchas. Suas pegadas eram as únicas a desfigurar a areia. O que já era um milagre por si só, pensou ele. Onde mais um homem podia ficar tão completamente sozinho, tomar emprestado aquele tipo de beleza, com tanta paz e solidão?

Precisava dessas coisas agora. Milagres, beleza, paz. Com a mão cm concha por cima da câmera, Nathan desceu a inclinação até a areia úmida da praia, Agachou-se ali para examinar uma concha, traçar os contornos de uma estrela-do-mar com a ponta do dedo.

Mas deixou-as onde as encontrara, colecionando apenas em filme.

A brisa do mar e o exercício ajudaram a acalmar seus nervos, que ficaram tensos antes mesmo de sua saída de Sanctuary. Ela era uma

Fotógrafa, pensou Nathan, enquanto contemplava um lindo chalé,

prateado pelo tempo, projetando-se de trás das dunas. O pai soubera que aquela menina para quem bancara o mentor, durante um único verão, empenhara-se em seguir seus passos? Ele teria se importado? Ficaria orgulhoso? Acharia engraçado?

Nathan ainda podia se lembrar da ocasião em que o pai lhe mostrara pela primeira vez como uma câmera funcionava. As mãos enormes cobriam as do filho, pequenas, orientando com extrema gentileza e paciência. O cheiro da loção após barba no rosto do pai, um cheiro forte e penetrante. Brut. Isso mesmo, Brut. Era a que a mãe mais gostava. O rosto do pai, liso e macio, comprimido contra o seu. Os cabelos escuros eram penteados de maneira impecável, em ondas suaves a se estenderem da testa, os olhos cinza suaves e sérios.

Sempre respeite seu equipamento, Nate. Pode querer um dia ganhar a vida com uma câmera. Viaje pelo mundo com uma câmera e verá tudo o que há para ver. Aprenda a olhar e verá mais do que qualquer um. Ou será alguma outra coisa, fará outra coisa e usará a câmera apenas para guardar alguns momentos com você. Serão seus momentos e por isso terão a maior importância. Respeite seu equipamento, aprenda a usá-lo direito e nunca perderá esses momentos.

—  Quantos perdemos, de qualquer maneira? — especulou Nathan, em voz alta. — E quantos guardamos que seria melhor se tivéssemos perdido?

— O que disse?

Nathan teve um sobressalto quando a voz interrompeu seus devaneios e a mão tocou em seu braço.

— Como?

Ele deu um passo rápido, em recuo, meio esperando que fosse um dos seus fantasmas. Mas viu uma loura bonita e delicada, fitando-o através de lentes cor de âmbar.

— Desculpe pelo susto. — Ela inclinou a cabeça para o lado, estudando seu rosto, sem piscar. — Você está bem?

— Claro.

Nathan passou a mão pelos cabelos, ignorando a sensação desagradável dos joelhos bambos. Foi menos fácil ignorar o embaraço intenso, enquanto a mulher continuava a estudá-lo, como se ele fosse uma mancha estranha numa lâmina sob o microscópio.

— Não sabia que havia alguém por perto — acrescentou ele.

— Estou terminando minha corrida matutina.

Nathan notou pela primeira vez que a mulher usava uma camiseta cinza suada e justa, por cima de um short vermelho de ciclista.

— E era para o meu chalé que você olhava. Ou através dele.

— Ahn... — Nathan focalizou de novo o chalé, as tábuas de cedro prateadas pelo tempo, o telhado marrom inclinado, com seu deque marrom para tomar banho de sol. — Você tem uma vista sensacional.

— O nascer do sol é a melhor. Tem certeza de que está bem? Desculpe me intrometer, mas quando vejo um homem parado sozinho na praia, dando a impressão de que levou uma trombada de um caminhão e falando sozinho, não posso deixar de estranhar. É o meu trabalho.

— Polícia da praia? — indagou ele, sarcástico.

— Não. — Ela sorriu e estendeu a mão, cordial. — Médica. Doutora Fitzsimmons. Kirby. Tenho uma clínica no chalé.

— Nathan Delaney. Com a saúde perfeita. Não era uma velha que morava ali? Uma mulher pequena, com os cabelos brancos presos num coque.

— Minha avó. Você a conheceu? Não é um nativo.

— Não, não sou. Mas lembro-me dela... ou tenho essa impressão. Passei um verão aqui quando era garoto. As lembranças não param de aflorar. E você me encontrou no momento em que uma surgia.

— Ahn... — Os olhos por trás das lentes cor de âmbar perderam a perspicácia clínica e tornaram-se mais receptivos. — Isso explica tudo. Entendo o que está querendo dizer. Passei vários verões aqui quando era criança e as recordações também surgem durante todo o tempo. Foi por isso que decidi me mudar para cá quando vovó morreu. Sempre adorei esta ilha.

Distraída, ela dobrou a perna e pegou o dedão, o calcanhar encostado na bunda, num alongamento

Você deve ser o ianque que alugou o Little Desire Cottage por meio ano.

— As notícias circulam.

—  Não é mesmo? Ainda mais quando não precisam ir muito longe. Não há muitos homens sozinhos alugando chalés por seis meses. Muitas mulheres estão intrigadas. — Kirby repetiu o processo com a outra perna. — Acho que me lembro de você. Não eram você e seu irmão que estavam sempre brincando com Brian Hathaway? Lembro-me de vovó comentando que os meninos Delaney e o jovem Brian estavam sempre grudados, como unha e carne.

— Boa memória. Estava aqui naquele verão?

— Foi meu primeiro verão em Desire. Deve ser por isso que me lembro tão bem. Já esteve com Brian?

— Ele acaba de me servir o café da manhã.

— A magia em um ovo. — Foi a vez de Kirby olhar além do chalé. — Soube que Jo voltou. Tentarei ir até a casa depois de fechar a clínica hoje.

Ela olhou para o relógio, antes de acrescentar:

—  E como abre dentro de vinte minutos, é melhor eu ir me arrumar. Foi um prazer vê-lo de novo, Nathan.

— O prazer foi meu... doutora.

Nathan fez o acréscimo quando ela já corria na direção das dunas. Com uma risada, Kirby virou-se, mas continuou a correr, de costas.

—  Clínica geral — gritou ela. — Do nascimento ao túmulo. Pode me procurar se alguma coisa o afligir.

— Não esquecerei.

Ele sorriu e observou o rabo-de-cavalo balançar de modo atraente enquanto ela corria pelo vale entre as dunas.

Dezenove minutos depois, Kirby vestiu um jaleco branco por cima da calça Levis. Considerava o jaleco como uma fantasia, projetada para garantir ao paciente relutante que ela era mesmo uma médica. Isso mais o estetoscópio no bolso ofereciam aos ilhéus o impulso de que muitos precisavam para deixar que a neta de vovó Fitzsimmons examinasse seus orifícios.

Ela entrou no consultório, antes a despensa sempre bem abastecida da avó, ao lado da cozinha. Kirby deixara uma parede de prateleiras intacta. Era ali que guardava os livros, pastas e a combinação de fax e copiadora que a mantinha ligada com o continente. Tirara as outras prateleiras, já que não tinha planos de seguir o exemplo da avó, que guardava tudo, de molho de tomate a melancia em conserva.

Ela mesma carregara a pequena e adorável escrivaninha de cerejeira para o escritório. Viajara com ela desde Connecticut, uma das poucas coisas que levara para o sul. Estava equipada com um risque-e-rabisque revestido de couro e uma agenda, presente de despedida dos pais aturdidos.

O pai fora criado em Desire e considerava-se afortunado por ter escapado.

Ela sabia que o pai e a mãe haviam ficado emocionados quando decidira seguir a carreira do pai, ingressando na faculdade de medicina. E presumiram que ela continuaria assim, especializando-se em cirurgia cardíaca. Ao se formar, entraria na próspera clínica do pai, adotando a vida elegante e luxuosa que os dois tanto apreciavam.

Em vez disso, Kirby optara por ser médica de família, instalando-se no chalé curtido pelo tempo da avó e aderindo à simplicidade da vida na ilha.

E não poderia sentir-se mais feliz.

Ao lado da agenda, com suas iniciais em metal dourado, havia um elegante sistema telefônico, inclusive com interfone — para a possibilidade improvável de algum dia precisar de uma assistente —, e uma caixa de Lucite, com vários lápis Ticonderoga.

Kirby passara as primeiras semanas na clínica fazendo pouco mais do que apontar os lápis, para gastá-los em seguida com desenhos no risque-e-rabisque.

Mas insistira e pouco a pouco passara a usar os lápis para anotar consultas. Um bebê com crupe, uma velha com artrite, uma criança com febre alta da rubéola.

Foram os muito jovens ou muito velhos que primeiro confiaram nela. Depois outros a procuraram, para terem suas feridas costuradas, as dores aliviadas, os estômagos acalmados. Agora era a Doutora Kirby, tirando seu sustento da clínica.

Kirby verificou a agenda. Um exame ginecológico anual, o acompanhamento de um caso de sinusite aguda, o menino Mathews com outra dor de ouvido e o bebê Simmons para uma nova rodada de vacinação. A sala de espera não ficaria lotada, mas pelo menos ela se manteria ocupada durante a manhã. E, quem sabe, pensou ela, com uma risada, podia haver duas ou três emergências para animar o dia.

Como Ginny Pendleton era o exame ginecológico, às dez horas, Kirby calculou que teria pelo menos mais dez minutos. Ginny invariavelmente atrasava para tudo. Ela separou a ficha necessária, voltou à cozinha, despejou numa caneca o resto do café que fizera naquela manhã e levou-o para a sala de exame.

0 quarto em que outrora sonhava nas noites de verão era agora sua sala de exames, limpa e arrumada. Havia nas paredes brancas cartazes de flores do campo, em vez dos diagramas de sistemas nervosos e canais auditivos que alguns médicos preferiam como ornamentação. Kirby achava que esses diagramas deixavam os pacientes apreensivos.

Depois de meter a ficha no suporte na porta, ela pegou uma das Túnicas de algodão sem costas — achava que as túnicas de papel para os pacientes eram humilhantes — e ajeitou na extremidade da mesa de exames. Cantarolava junto com os acordes que saíam do estéreo que ligara. Era uma alegre sonata de Mozart. Kirby descobrira que isso era relaxante até mesmo para os clientes que não apreciavam música clássica.

Já arrumara tudo de que precisaria para o exame anual básico e terminara de tomar o café quando ouviu o pequeno carrilhão que indicava que a porta de entrada da clínica fora aberta.

Desculpe, desculpe... — Ginny entrou apressada, enquanto Kirby passava para a sala de espera. — O telefone tocou no momento em que eu ia sair.

Ela tinha vinte e poucos anos e Kirby não parava de lhe dizer que sua afeição pelo sol haveria de atormentá-la dentro de dez anos. Os cabelos eram louro-brancos, na altura dos ombros, frisados sempre, clamando por uma tintura nas raízes.

Ginny era de uma família de pescadores. Embora fosse capaz de pilotar um barco como um pirata sorridente, limpar um peixe como um cirurgião e abrir conchas e remover ostras com precisão e uma rapidez vertiginosa, preferia trabalhar no Camping Heron, ajudando os inexperientes a armar uma barraca, determinando os locais para cada um e cuidando dos livros.

Para a consulta com sua médica, enfeitara-se com uma de suas camisas prediletas, ao estilo do Oeste americano, púrpura, com franjas brancas. Kirby especulou, com uma curiosidade ociosa, quantos órgãos internos estariam ofegando para respirar sob os jeans apertados como uma cinta.

— Estou sempre atrasada.

Ginny exibiu seu sorriso radiante e aturdido, o que arrancou uma risada de Kirby.

— E todo mundo sabe disso. Pode entrar. Faça pipi no vidro primeiro. Conhece a rotina. Depois, vá para a sala de exame. Tire tudo e ponha a túnica com a abertura na frente. E me chame quando estiver pronta.

— Está bem. Era Lexy no telefone. — Ginny seguiu apressada pelo corredor, as botas de caubói ressoando. — Ela se sente irrequieta.

— É o seu estado habitual — comentou Kirby.

Ginny continuou a conversar, enquanto deixava o banheiro e passava para a sala de exame.

— Lexy vai aparecer no camping esta noite, por volta de nove horas. — Houve um baque, quando a primeira bota bateu no chão.

— O número doze está vago. É um dos meus pontos prediletos. Pensamos em acender uma boa fogueira e tomar dois pacotes de seis cervejas. Não quer aparecer?

— Agradeço o convite.  — Houve outro baque. — Pensarei a reSpeito. Se decidir aparecer levarei outra embalagem de seis.

— Pensei em convidar Jo, mas sabe como Lexy fica irritada. Mas espero que ela apareça. — A voz de Ginny era agora ofegante, o que levou Kirby a acreditar que ela estava tirando os jeans. — Já esteve com Jo?

— Ainda não. Ia tentar encontrá-la em algum momento hoje.

— Seria ótimo se elas sentassem e fizessem as pazes. Não sei por que Lexy tem tanta raiva de Jo. Mas também parece que ela sente raiva de todo mundo. Ainda falou mal de Giff. Se eu tivesse alguém como Giff me olhando de alto a baixo, como ele olha para Lexy, não sentiria raiva de nada neste mundo. E não estou dizendo isso porque somos primos. A verdade é que se não fôssemos parentes de sangue, eu o atacaria num minuto de Nova York. Estou pronta.

— Sou capaz de apostar que Giff vai vencê-la pelo cansaço. — Kirby entrou na sala de exame, pegando a ficha na porta. — Ele é tão obstinado quanto Lexy. Vamos verificar seu peso. Algum problema, Ginny?

— Nenhum. Tenho me sentido muito bem. — Ginny subiu na balança e fechou os olhos. — Não me diga com quanto estou.

Kirby riu, enquanto deslocava o peso. Cinqüenta e nove quilos. Sessenta e um. Epa!, pensou ela. Sessenta e quatro.

— Tem feito exercícios regulares, Ginny?

Ainda de olhos fechados, Ginny deslocou o peso do corpo de um pé para outro.

— Mais ou menos.

— Aeróbica, vinte minutos, três vezes por semana. E reduza as barras de chocolate. — Porque era mulher, além de médica, Kirby zerou a balança antes de Ginny abrir os olhos. — Vamos para a mesa. Quero tirar sua pressão.

— Sempre digo a mim mesma que tenho de assistir àquele vídeo da Jane Fonda. O que você acha de uma lipo?

Kirby prendeu a braçadeira para tirar a pressão.

— Acho que você deve andar pela praia algumas vezes por semana e imaginar que cenouras são burras de chocolate da Herschey's, pelo menos por algum tempo.  Vai perder esses três quilos extras sem muito esforço. A pressão está boa. Quando foi sua última menstruação?

—  Foi há duas semanas. Mas veio com quase uma semana de atraso. O que me deixou apavorada.

— Está usando o diafragma, não é mesmo? Ginny cruzou os braços na cintura.

— Na maioria das vezes. Mas nem sempre é conveniente.

— A gravidez também não é.

— Sempre faço o cara usar camisinha. Sem exceções. E há dois caras muito atraentes no número seis.

Kirby pôs as luvas, suspirando.

— O sexo casual sempre acarreta complicações perigosas.

— Não duvido, mas é muito divertido. — Ginny sorriu para o cartaz de Monet que Kirby pregara no teto. — E eu sempre me apaixono um pouco por eles. Mais cedo ou mais tarde, porém, tenho certeza de que encontrarei o grande amor. O homem certo. Enquanto isso, posso muito bem provar o que vejo em campo.

—  Um campo minado — murmurou Kirby. — Você corre grandes riscos.

— Mas é bom. — Ginny tentou se imaginar a caminhar entre as flores imprecisas no cartaz, tamborilando com os dedos de muitos anéis na barriga. — Nunca viu um homem e o desejou tanto que sentiu tudo por dentro se contrair, o corpo estremecer da cabeça aos pés?

Kirby pensou em Brian e fez um esforço para se controlar, antes de suspirar de novo.

— Já sim.

— Adoro quando isso acontece. E tão... primal, não acha?

— Concordo. Mas primal e inconveniente de lado, quero que use sempre o diafragma.

Ginny revirou os olhos.

— Claro doutora. Ei, por falar em homens e sexo, Lexy diz que encontrou com o ianque e que é carne de primeira. Também encontrei com ele.

— E Lexy tem razão?

— Ele é muito atraente.

Gentilmente, Kirby levantou um dos braços de Ginny e começou o exame do seio.

— Ele é um velho amigo de Bri... passou um verão aqui com os pais. O pai era aquele fotógrafo que publicou um livro de fotos sobre as ilhas naquele tempo. Minha mãe ainda tem um exemplar.

— O fotógrafo... Estou lembrando agora. Tinha esquecido. Ele tirou fotos de vovó. Fez uma gravura com uma das fotos e mandou para vovó depois que foi embora. Ainda a tenho em meu quarto.

— A mãe pegou o livro esta manhã, quando lhe contei. É realmente muito bonito.

Kirby ajudou-a a sentar, enquanto ela acrescentava:

— Há uma foto de Annabelle Hathaway e Jo cuidando do jardim em Sanctuary. Mamãe lembrou que ele tirou as fotos no ano em que Annabelle fugiu. Comentei que talvez ela tivesse fugido com o fotógrafo, mas mamãe informou que ele, a esposa e os filhos continuaram na ilha depois que Annabelle desapareceu.

— Isso aconteceu há vinte anos. Era de esperar que as pessoas esquecessem, não falassem mais nisso.

— Os Pendleton são de Desire. Annabelle era uma Pendleton. E ninguém esquece nada na ilha. Ela era realmente linda. — Ginny saltou da mesa. — Não me lembro muito bem dela, mas alguma coisa voltou quando vi a foto. Jo seria muito parecida com a mãe, se fizesse um esforço para isso.

— Imagino que Jo prefere ser parecida com Jo. Você está ótima, Ginny. Pode se vestir. Estarei à sua espera na outra sala quando acabar.

— Obrigada. E dê um jeito de ir ao camping, Kirby. Teremos uma noite só de mulheres. Número doze.

— Veremos.

 

KIRBY  FECHOU  A  CLÍNICA  ÀS  QUATRO  HORAS  DA  TARDE.  SUA única emergência fora um caso grave de queimadura de sol, de um veranista que dormira na praia. Depois do último paciente, ela passou quinze minutos cuidando da maquiagem, escovando os cabelos e pondo mais água-de-colônia.

Disse a si mesma que era para seu prazer pessoal, mas como ia para Sanctuary, sabia que era mentira. Esperava que sua aparência fosse bastante atraente e o cheiro bastante agradável para fazer Brian Hathaway sofrer.

Kirby saiu pela porta que dava para a praia. Adorava a emoção intensa de ver o mar tão perto de sua casa. Observou uma família de quatro pessoas brincando na água rasa. Dava para ouvir a música estridente das risadas das crianças por cima do zumbido do mar.

Ela pôs os óculos escuros e desceu os degraus. O estreito caminho de tábuas que mandara Giff construir contornava a casa e levava-a para longe das dunas. Havia alguns ciprestes projetando-se da areia, encurvados e afetados pelo vento, que mesmo agora soprava areia em seus tornozelos. Moitas de flores-de-cera e sabugueiro-da-praia cresciam na depressão. Ela acrescentou suas pegadas às muitas que já cruzavam a areia.

Contornou a vegetação das dunas, bastante nativa para conhecer e respeitar sua fragilidade. Em poucos momentos, deixou a claridade quente da areia e do mar e ingressou na caverna escura e fresca da floresta.

Andava rápido, mas sem se apressar, a mente concentrada em seu destino. Estava acostumada aos sussurros e estalidos da floresta, às alterações de som e luz. Por isso, ficou surpresa quando se descobriu a parar, aguçando os ouvidos e escutando o próprio coração bater mais alto, com a sensação de que subia pela garganta.

Virou devagar, um círculo completo, esquadrinhando as sombras. Ouvira alguma coisa estranha, pensou. Sentira alguma coisa diferente. E podia ter de novo agora a sensação angustiante de que era observada.

— Olá? — Ela se detestou por estremecer ao eco vazio da própria voz. —  Tem alguém aí?

O estrépito das folhas de palmeiras, o sussurro que podia ser de cervo ou coelho, o silêncio opressivo do ar parado na semi-escuridão da floresta. Idiota, ela disse a si mesma. Claro que não havia ninguém ali. E se houvesse, que importância isso teria? Kirby virou-se, continuou a seguir pela trilha bem conhecida, ordenando a si mesma para caminhar num ritmo razoável.

Um suor frio escorreu pelo meio de suas costas, a respiração começou a se tornar ofegante. Ela fez um esforço para reprimir o medo crescente. Tornou a se virar, convencida de que perceberia um brilho de movimento em sua esteira. Não havia nada, a não ser galhos entrelaçados e musgo pendendo.

Droga, pensou ela, esfregando a mão sobre o coração acelerado. Havia mesmo alguém ali. Agachado por trás de uma árvore, encolhido numa sombra. A observá-la. Devia ser um menino, ou dois, assegurou Kirby a si mesma. Isso mesmo, apenas dois garotos furtivos, empenhados numa brincadeira de mau gosto.

Ela andou para trás, enquanto corria os olhos ao redor. Ouviu de novo, um som fraco e sorrateiro. Tentou gritar outra vez, fazer algum comentário enérgico sobre crianças mal-educadas, mas o terror apertava sua garganta, impedindo a passagem de qualquer som. Numa reação instintiva, virou-se e passou a andar mais depressa.

Quando o som chegou mais perto, ela abandonou todo o orgulho e desatou a correr.

E quem a observava riu contra as mãos e depois soprou um beijo para suas costas afastando-se.

Ofegante, Kirby disparava entre as árvores, os tênis ressoando na trilha num tamborilar frenético. Reprimia um soluço quando viu a luz mudar, a claridade envolvê-la, no instante em que saiu do meio das árvores. Olhou para trás, por cima do ombro, preparada para avistar algum monstro a saltar em seu encalço.

E gritou quando esbarrou num sólido muro de peito e braços, que a envolveram, firmes.

— Qual é o problema? O que aconteceu? — Brian quase a levantou em seus braços, mas ela também o enlaçou, comprimindo o rosto contra o seu peito.       — Está ferida? Deixe-me ver.

— Não, não estou ferida. Um tempo... preciso de um tempo.

— Está bem.

Ele suavizou a pressão de seus braços e afagou os cabelos de Kirby. Tirava o mato da beira externa do jardim quando ouvira os sons da corrida em pânico pela floresta. Dava os primeiros passos para investigar o que era quando ela saíra do meio das árvores e se jogara em seus braços.

Agora o coração de Kirby batia forte contra seu peito... e o coração de Brian quase acompanhava o ritmo. Ela deixara-o assustado, com aquela expressão de animal acuado ao olhar para trás, como se esperasse um ataque pelas costas.

— Fiquei assustada — murmurou Kirby, ainda grudada nele, como um carrapicho. — Eram apenas garotos, tenho certeza. Mas senti que era vigiada, seguida, caçada. Eram apenas garotos, mas me deixaram assustada.

— Está tudo bem agora. Recupere o fôlego.

Ela era muito pequena, pensou Brian. Costas delicadas, cintura estreita, cabelos sedosos. Mal consciente do que fazia, ele aconchegou-a em seus braços. Era estranho que ela se ajustasse tão bem contra ele, mas ao mesmo tempo parecesse bastante frágil para que a levantasse em seus braços e a protegesse, sã e salva.

Ó Deus, como ela tinha um cheiro agradável! Brian baixou o rosto para o alto da cabeça dela por um momento. Absorveu a fra-f/ância e a textura dos cabelos, enquanto dissolvia a tensão do pescoço de Kirby, em carícias lentas.

—  Não sei por que entrei em pânico daquela maneira. Isso nunca me aconteceu.

E porque a sensação começava a se desvanecer, ela foi tomando conhecimento, pouco a pouco, de que Brian a abraçava. Num abraço bem apertado. Que suas mãos a acariciavam. Com a maior ternura. Que os lábios roçavam em seus cabelos. Gentilmente.

A freqüência cardíaca em queda tornou a  acelerar. Mas desta vez

nada tinha a ver com pânico.

— Brian... Ela subiu as mãos pelas costas de Brian, enquanto erguia a cabeça.

— Está tudo bem agora. Não se preocupe. E antes de pensar no que fazia, ele beijou-a na boca. Brian sentiu como se tivesse levado um soco na barriga, um golpe que o deixava sem fôlego, o cérebro atordoado, as pernas bambas. E, depois, os lábios de Kirby se entreabriram, quentes e macios, emitindo murmúrios sensuais.

Ele foi mais fundo, alcançando a língua de Kirby, enquanto suas mãos deslizavam pelos jeans justos até a bunda, a fim de moldar calor contra calor.

Kirby parou de pensar no instante em que o beijo começou. A novidade daquela experiência era uma emoção inédita e inebriante. Sempre fora capaz de manter a mente separada, de se manter apartada, orientar e controlar o ato. Mas agora era tragada por um turbilhão, sacudida por uma sensação depois de outra.

A boca de Brian era quente e faminta, o corpo duro, as mãos enormes e exigentes. Pela primeira vez em sua vida, Kirby sentia-se delicada, como se pudesse ser partida ao meio pelo capricho de Brian.

Por motivos que ela não podia compreender, a sensação era insuportavelmente excitante. Ela estendeu as mãos para os ombros de Brian, murmurando seu nome contra aquela boca ansiosa. A cabeça pendeu para trás, inerte. Pela primeira vez com um homem, ela cambaleava à beira da rendição absoluta e incontestável.

Foram a mudança, a súbita docilidade, o pequeno gemido desamparado que o levaram a recuperar o controle. Levantara-a para as pontas dos pés, os dedos comprimiam sua carne e a imagem que aflorava em sua mente era o impulso de arrastá-la para o chão.

No jardim de sua mãe, pelo amor de Deus. Em plena luz do dia. A sombra de sua casa. Repugnado com os dois, Brian afastou-a, num movimento brusco.

Era isso o que você queria, não é mesmo? — disse ele, furioso. Deu-se a muito trabalho para provar que sou tão fraco quanto qualquer outro.

As cores ainda se misturavam na cabeça de Kirby.

— Como? — Ela piscou para desanuviar a visão. — Como?

— A encenação da donzela em desgraça deu certo. Um a zero para você.

Kirby voltou à Terra abruptamente. Os olhos de Brian eram tão duros e ardentes quanto a boca se mostrara, mas com um tipo diferente de paixão. Quando ela registrou as palavras e o significado, seus próprios olhos se arregalaram numa indignação chocada.

— Acredita mesmo que encenei isso, que banquei a idiota só para que você me beijasse? Seu filho-da-puta arrogante, pretensioso e estúpido! — Insultada ao máximo possível, Kirby empurrou-o. — Não faço encenações e nem agora nem nunca serei uma donzela de qualquer tipo! E mais ainda, beijá-lo não é um objetivo importante em minha vida!

Ela empurrou para trás os cabelos desgrenhados, empinou os ombros.

— Vim aqui para ver Jo, não você. E por acaso encontrei-o no caminho.

— Imagino que foi por isso que pulou em meus braços e me envolveu como se fosse uma cobra.

Kirby respirou fundo, determinada a assumir uma posição de calma e dignidade.

— O problema aqui, Brian, é que você queria me beijar... e gostou do beijo. Agora tem de me culpar, acusar-me de cometer alguma ridícula artimanha feminina, porque quer me beijar de novo. Quer pôr as mãos em mim como acabou de fazer... e por alguma razão isso o deixa furioso. Mas é problema seu. Vim aqui para ver Jo.

—  Ela não está — informou Brian, quase rangendo os dentes. Saiu com suas câmeras, não sei para onde.

Pois então dê um recado meu para ela. Camping Heron, nove horas, ponto doze. Uma noite só de mulheres. Acha que pode se lembrar ou quer que eu escreva?

—  Direi a ela. Mais alguma coisa?

— Não, absolutamente nada.

Kirby virou-se para ir embora, mas depois hesitou. Com ou sem orgulho, não seria capaz de enfrentar o retorno pela floresta sozinha, pelo menos ainda não. Ela mudou de direção e seguiu pelo caminho coberto de conchas. Seria mais do que o dobro da distância até sua casa, ela pensou, mas uma boa caminhada serviria para descarregar sua fúria no suor.

Brian franziu o rosto para suas costas. Olhou para a floresta. E teve uma súbita certeza de que nada do que acontecera fora uma farsa. E isso, ele concluiu, fizera não apenas com que ele bancasse o idiota, mas também o sórdido ainda por cima.

— Espere um instante que vou acompanhá-la.

— Não, obrigada.

— Eu disse para esperar!

Ele alcançou-a e segurou-a pelo braço. Ficou aturdido com a fúria intensa no rosto de Kirby quando ela se virou.

— Eu o avisarei quando quiser que me toque, Brian, e também avisarei quando quiser qualquer coisa de você. Enquanto isso... — ela desvencilhou-se com um movimento brusco — eu cuidarei de mim mesma.

— Desculpe.

Ele se amaldiçoou no instante mesmo em que falou. Não tinha essa intenção. E as sobrancelhas alteadas e olhos arregalados de Kirby fizeram com que sentisse vontade de ter cortado a língua.

— Com licença, mas você disse alguma coisa?

Era tarde demais para recuar, pensou Brian. Ele engoliu a pílula amarga e murmurou:

—  Pedi desculpa. Estava descontrolado. Deixe-me levá-la até em casa.

Ela inclinou a cabeça, altiva, na opinião de Brian, com um sorriso presunçoso.

— Obrigada. Seria ótimo.

 

Você deveria levar uma embalagem de seis cervejas, não um vinho de luxo, como uma magnata.

Já disposta a se queixar, Lexy pôs o saco de dormir e o resto de suas coisas no Land Rover de Jo.

— Gosto de vinho.

Jo mantinha a voz suave e usava frases curtas.

— Não sei por que você quer passar a noite na floresta.

Lexy amarrou a cara, enquanto Jo enrolava com todo cuidado seu moderno saco de dormir. Sempre o melhor para Jo Ellen, pensou ela, irritada, enquanto punha as duas embalagens de seis Coors no compartimento de carga do Land Rover.

— Não tem piano-bar, nem serviço de quarto, nem maítre para puxar o saco.

Jo pensou nas noites que passara em barracas, em motéis de segunda classe, tremendo de frio dentro de seu Land Rover. Qualquer coisa para conseguir a foto que queria. Ela levou para o veículo o saco com as coisas que pedira a Brian. Empurrou os cabelos para trás.

— Darei um jeito de sobreviver.

— Fui eu quem articulou tudo. E fiz isso porque queria passar uma noite longe daqui. Queria relaxar com amigas. Minhas amigas.

Jo bateu a porta traseira. Rangeu os dentes quando o som ecoou como o estampido de um tiro. Seria mais fácil afastar-se, pensou ela. Virar as costas, voltar para casa e deixar Lexy seguir sozinha para o camping.

Mas ela não optaria pelo mais fácil.

— Ginny também é minha amiga, e não vejo Kirby há anos. Ela deixou por aí. Deu a volta para o lado do motorista, sentou ao volante e ficou esperando.

A agradável expectativa que sentira antes, quando Brian transmitira o convite de Kirby, já havia desaparecido, deixando em seu lugar o estômago embrulhado. Mas estava determinada a continuar até o fim, sem se deixar intimidar pelo mau humor da irmã.

Teria momentos desagradáveis agora, mas iria de qualquer maneira. E Lexy faria a mesma coisa, pensou ela, quando a irmã bateu a porta.

— Cinto de segurança — ordenou Jo.

Lexy soltou um grunhido exasperado enquanto prendia o cinto de segurança. Jo decidiu acrescentar:

— Por que não tomamos um porre e fingimos que podemos tolerar uma à outra durante uma noite?   Uma atriz com sua espantosa competência não deve ter a menor dificuldade para fazer isso.

Lexy inclinou a cabeça para o lado, com um sorriso exuberante.

— Vá se foder, irmã querida.

— Já começou.

Jo ligou o motor. Estendeu a mão para um cigarro, por hábito, no instante em que partiu.

— Não vai fumar no carro, não é?   Jo empurrou o isqueiro.

0 carro é meu.

Ela seguiu para o norte, os pneus cantando na estrada de conchas. O ar entrando pelas janelas era um bálsamo maravilhoso.  Ela usava o Land Rover para acalmar os nervos. Não protestou quando Lexy ligou o rádio no volume máximo. Música alta significava que não haveria conversa e a ausência de conversa significava que não haveria discussão, pelo menos durante a viagem até o camping.

Ela guiava depressa, a lembrança de cada curva na estrada aflorando em sua mente. Isso também servia para tranqüilizá-la. Pouca coisa mudara. A escuridão ainda caía muito depressa e a noite trazia os sons do vento e do mar, que faziam a ilha parecer um vasto lugar. Um mundo em que as marés regiam a vida.

Ela se lembrava de ter guiado em alta velocidade por aquela estrada, com o vento desmanchando seus cabelos e o rádio aos berros. Lexy também se encontrava ao seu lado naquela ocasião.

A primavera antes de Jo deixar a ilha, uma primavera suave e fragrante. Tinha dezoito anos na ocasião e Lexy, apenas quinze. As duas não paravam de rir e haviam consumido a maior parte de uma garrafa do vinho Ernest and Júlio, para melhorar a disposição. A prima Kate fora visitar a irmã em Atlanta, e por isso não havia ninguém para se preocupar com o paradeiro das duas adolescentes.

Havia liberdade e insensatez, com uma ligação entre as duas que se perdera em algum ponto do caminho, pensou Jo. A ilha permanecera como sempre fora. Mas aquelas duas jovens haviam desaparecido.

— Como está Giff? — perguntou Jo.

— Como vou saber?

Jo deu de ombros. Mesmo naquela época, há tantos anos, Giff já andava de olho em Lexy. E já naquele tempo Lexy sabia disso. Jo apenas especulava se essa situação persistia.

— Não o vejo desde que voltei. Ouvi dizer que ele anda trabalhando com carpintaria e não sei mais o quê.

— Ele é um idiota. Não dou a menor atenção ao que Giff faz ou deixa de fazer. Lexy olhou pela janela de cara amarrada, ao recordar a maneira como beijara aquele imbecil. — Não estou interessada nos meninos da ilha. Gosto de homens.

Ela tornou a se virar para a irmã, com uma expressão de desafio, e acrescentou:

— Homens com classe e dinheiro.

— Conhece algum?

— Claro que sim. — Lexy estendeu metade do braço dobrado para fora da janela, numa pose de sofisticação casual. — Nova York fervilha de homens assim. Gosto de um homem que sabe das coisas. Como nosso ianque, por exemplo.

Jo sentiu que se empertigava, mas fez um esforço deliberado para relaxar.

— Nosso ianque?

— Nathan Delaney. Ele dá a impressão de que é um homem que sabe o que quer... com as mulheres. Eu diria que ele é exatamente o meu tipo. E rico.

— Por que acha que ele é rico?

— Pode se dar ao luxo de tirar seis meses de férias. Um arquiteto com sua própria firma não pode deixar de ter solidez financeira. É viajado. Os homens que viajaram muito sabem como mostrar lugares interessantes do mundo a uma mulher. É divorciado. Os homens divorciados apreciam uma mulher amável.

— Fez sua pesquisa, não é mesmo, Lex?

— Claro. — Ela esticou-se, sensual. — Eu diria que Nathan Delaney é mesmo o meu tipo. Deve evitar que eu morra de tédio durante algum tempo.

— Até que você possa voltar a Nova York — comentou Jo. — Uma mudança do território de caça.

— Exatamente.

—  Interessante... — Os faróis do Land Rover iluminaram a placa discreta do Camping Heron. Jo reduziu a velocidade, deixou a Shell Road, entrando numa terra de valas e capim de pântano. — Sempre pensei que você se dava mais importância do que isso.

— Você não tem a menor idéia do que eu penso a  respeito de qualquer coisa, inclusive de mim mesma.

—  Parece que não.

O silêncio ali parecia vibrar, rompido apenas pelo coaxar estridente das rãs. Ao ouvir um estalo forte, Jo estremeceu, involuntariamente. Era o som inconfundível de um aligátor mastigando uma tartaruga. Ela pensou que sabia o que a tartaruga sentia naqueles últimos segundos de vida. A sensação de desamparo, de estar acuada por alguma coisa enorme, brutal e faminta.

Porque seus dedos tremiam, ela apertou o volante com mais força. Não fora destruída, lembrou a si mesma. Conseguira escapar. Ganhara algum tempo. Ainda tinha o controle.

Mas o ataque de ansiedade a pressionava, insistente. Ela obrigou-se a inalar e exalar, devagar, normal.   Ó Deus, apenas normal!   Ela desligou o rádio.

Passou pela cabine de controle, vazia agora, enquanto o sol se punha no horizonte. Concentrou-se em guiar pelo caminho sinuoso, entre uma sucessão de pequenas lagoas. Os clarões de fogueiras piscavam aqui e ali. Acordes musicais saíam de rádios, para desaparecer um instante depois. Quando havia uma abertura entre os arbustos, ela podia divisar o brilho branco das ninféias ao luar.

Voltaria a pé, disse Jo a si mesma, tiraria fotos, absorveria o silêncio e a ausência de outras pessoas. Trataria de se concentrar em ficar sozinha. E segura.

— Lá está o carro de Kirby.

Zumbido demais nos ouvidos, pensou Jo, forçando-se a respirar fundo de novo.

— O que disse?

— Aquele conversível pequeno e elegante. É de Kirby. Estacione atrás.

— Certo.

Jo manobrou o Land Rover para estacionar. Quando desligou o motor, descobriu que o ar transbordava de sons. Os murmúrios e pios do pequeno mundo oculto por trás das dunas e além da beira da floresta. Também havia muitos cheiros, de maresia e vegetação úmida.

Ela saiu do carro, aliviada por encontrar tanta vida.

— Jo Ellen!

Kirby saiu correndo do escuro e envolveu Jo num abraço apertado. Os abraços súbitos e espontâneos sempre pegavam Jo desprevenida. Antes que ela pudesse se firmar, Kirby já estava recuando, as mãos ainda nos braços de Jo, com um enorme sorriso de satisfação.

— Estou tão contente por você ter vindo! Tão contente em vê-la de novo! Temos um milhão de anos para pôr em dia. Ei, Lexy, vamos levar suas coisas e abrir logo algumas cervejas.

— Ela trouxe vinho — informou Lexy, enquanto abria a porta do compartimento de carga.

— O que é ótimo. Vamos abrir também uma garrafa. Temos uma porção de porcarias para acompanhar. Estaremos de porre e empanturradas antes de meia-noite.

Sem parar de falar por um momento sequer, Kirby levou Jo para a traseira do Land Rover.

— Ainda bem que sou médica. O que é isto? — Ela enfiou a mão na bolsa de compras. — Patê! Como conseguiu esse patê?

— Pressionei Brian até que ele me deu — respondeu Jo.

— Boa idéia. — Kirby pegou a sacola de compras e uma embalagem de seis cervejas de Lexy. — Levo isto. Ginny está acendendo a fogueira. Precisam de ajuda com o resto?

— Podemos dar um jeito. — Jo pendurou no ombro a bolsa de câmeras e pegou as garrafas de vinho. — Sinto muito por sua avó, Kirby.

— Obrigada. Ela teve uma vida longa, exatamente como queria. Deveríamos todas ser espertas a esse ponto.

Kirby sorriu radiante para as duas. Concluíra que conseguira dissipar a tensão que pairava no ar entre as irmãs quando haviam chegado.

— Estou morrendo de fome — acrescentou ela.  — Não jantei.

 Lexy bateu a porta traseira do Land Rover.

—  Merda! Deixei a lanterna no bolso traseiro. — Kirby virou-se, ergueu um quadril e pediu a Jo: — Pode pegá-la?

Com algumas contorções e o uso flexível dos dedos, Jo conseguiu tirar a lanterna e acendê-la. Seguiram pela trilha estreita em fila indiana.

Já estava tudo preparado e arrumado no ponto doze, uma fogueira ardendo num círculo de areia sem folhas e gravetos. Ginny acendera o lampião Coleman, a chama baixa, e enchera de gelo uma caixa de isopor. Sentava nela, comendo de um saco de batatas fritas e tomando uma cerveja.

— É ela! — Ginny ergueu a lata de cerveja num brinde. — Jo Ellen Hathaway, seja bem-vinda!

Jo largou no chão seu saco de dormir. Pela primeira vez, sentia-se em casa. E sentia-se bem-vinda.

— Obrigada.

 

— UMA MÉDICA... — JO SENTAVA NO CHÃO, DE PERNAS CRUZADAS, ao lado da fogueira, tomando o Chardonnay de um copo de plástico. Uma garrafa já estava metida na areia pelo gargalo. — Não posso imaginar. Quando éramos crianças, você sempre falava em ser uma arqueóloga ou coisa parecida, uma Indiana Jones feminina, explorando o mundo.

— Em vez disso, resolvi explorar a anatomia. — Num porre agradável, Kirby espalhou mais do excelente patê de pato de Brian numa bolacha Ritz. — E gosto muito.

— Todo mundo sabe de seu trabalho, Jo — disse Kirby, tentando desviar a conversa na direção de Jo. — Mas há alguma coisa especial em sua vida?

— Não. E na sua?

— Tenho trabalhado em seu irmão, mas ele não quer cooperar.

— Brian? —Jo engasgou com o vinho. Respirou fundo. E repetiu:  — Brian?

— Ele é solteiro, atraente, inteligente. — Kirby lambeu o polegar. — E faz um patê maravilhoso. Por que não Brian?

— Não sei. Ele é... — Jo gesticulou.  — Brian...

— Ele finge ignorá-la. — Lexy sentou e também se serviu de patê. — Mas não é o que acontece.

— Não? — Kirby fitou-a, os olhos contraídos. — Como sabe?

—  Uma atriz tem de observar as pessoas, saber como elas desempenham seus papéis. — Lexy acenou com a mão, jovial. — Você o deixa nervoso e ele se sente irritado por isso. O que significa que você o irrita porque ele nota sua presença.

— É mesmo? — Embora já se sentisse tonta, Kirby terminou de tomar o vinho em sua garrafa e serviu-se de mais. — Ele disse alguma coisa a meu respeito? Acha que... Ei, espere um pouco!

Ela ergueu a mão, revirou os olhos e acrescentou:

— Parece até que estamos na escola secundária. Esqueça que eu perguntei.

— Quanto menos fala sobre qualquer coisa, mais Brian pensa a respeito — garantiu Lexy. — E ele mal menciona seu nome.

— É mesmo? — repetiu Kirby, começando a se animar. — Ele é assim? Ora, ora... talvez eu lhe dê outra chance.

Ela piscou ao clarão em seus olhos.

— Por que a foto? — perguntou ela, enquanto Jo baixava a câmera.

— Você parecia muito presunçosa. Chegue perto de Lexy e Ginny. Quero tirar uma foto das três.

— Lá vai ela de novo... — resmungou Lexy, mas empurrou os cabelos para trás e posou assim mesmo.

Jo quase nunca fazia retratos, muito menos de pessoas que não estavam posando. Gostava de deixar que se arrumassem para a câmera, enquadrava-as, ajustava a lente e acionava o clarão do flash para iluminá-las.

As três eram lindas, refletiu ela, cada uma à sua maneira exclusiva: Ginny, com seus cabelos louros frisados e o sorriso largo; Lexy, sempre pensando em si mesma e mal-humorada; Kirby, confiante e classuda.

E eram parte de sua vida, pensou Jo. Cada uma delas, por motivos diferentes.  Esquecera isso por tempo demais.

Sua visão ficou turva e ela demorou um instante para compreender que tinha os olhos marejados de lágrimas.

— Senti saudade de todas vocês... muita saudade. — Ela largou a câmera e levantou-se. — Tenho de fazer pipi.

—  Irei com ela — murmurou Kirby, enquanto Jo deixava a clareira.

Ela pegou uma lanterna e foi atrás, apressada.

— Ei, Jo! — Kirby teve de andar mais depressa para alcançá-la. Segurou-a pelo braço. — Vai me contar qual é o problema?

— Minha bexiga está cheia. Como médica, você devia reconhecer o sintoma.

Quando Jo fez menção de se desvencilhar, Kirby segurou-a com mais firmeza.

— Estou perguntando como amiga e como médica. Vovó diria que você se encontra no fundo do poço. Deu para perceber, por esse breve encontro, que você está esgotada e estressada. Não quer me dizer qual é o problema?

— Não sei. — Jo comprimiu uma das mãos contra os olhos, porque ameaçavam se encher de lágrimas outra vez. — Não posso falar a respeito. Só preciso de algum espaço.

— Está bem. — A confiança era sempre conquistada passo a passo, pensou Kirby. — Não quer me procurar na clínica? E fazer um exame médico completo?

—  Não sei... talvez. Pensarei a respeito. —Jo controlou-se e conseguiu sorrir. — Mas há uma coisa que posso lhe dizer.

— O que é?

— Tenho de fazer pipi.

— Por que não disse logo? — Kirby apontou a lanterna pela trilha, rindo. — Se sair correndo do acampamento sem uma lanterna, pode acabar virando comida de aligátor.

Cautelosa, Kirby correu o facho da lanterna pela vegetação densa  que margeava a lagoa próxima.

— Acho que eu poderia andar por esta ilha de olhos vendados. Senti mais saudade do que imaginava, Kirby, mas ainda tenho a sensação de que sou uma estranha aqui. É uma linha indistinta para cruzar.

— Ainda não tem duas semanas que voltou. Dê para si mesma o tempo que disse que precisa.

— Estou tentando. Eu primeiro.

Jo agachou-se na pequena privada. Kirby começou a rir, mas depois descobriu-se a tremer. No instante em que Jo fechou a porta, ela sentiu-se completamente sozinha e exposta. Os sons pareciam se aproximar, envolvê-la. Sussurros, gritos, batidas. Nuvens encobriram a lua. Ela segurava e apertava a lanterna com as duas mãos.

Isso é ridículo, ela disse a si mesma. Não passava de uma reação retardada à experiência que tivera na floresta naquela tarde. Claro que não estava sozinha. Havia outros locais de acampamento ocupados ao redor. Podia até divisar o brilho de lanternas e fogueiras. E Jo estava separada apenas por uma porta de madeira.

Não havia nada que pudesse assustá-la, ela lembrou a si mesma. Não havia nada nem ninguém na ilha que tivesse a intenção de lhe causar qualquer mal.

E quase soltou um suspiro de alívio quando Jo saiu da privada.

—  Pode entrar — disse Jo, ainda abotoando os jeans. — Mas leve a lanterna. Quase caí no buraco. Está escuro como a morte lá dentro, sem falar no cheiro.

— Poderíamos ter ido aos banheiros coletivos.

— Acho que eu não precisaria mais quando chegasse lá.

— Bom argumento. Espere por mim, está bem?

Jo murmurou em concordância. Encostou-se ao lado da porta. Empertigou-se quase no instante seguinte ao ouvir passos à sua direita. Ficou tensa, mas disse a si mesma que a reação era apenas um subproduto da vida na cidade. Observou uma luz balançando aproximar-se.

— Olá.

A voz masculina era baixa, cordial e agradável. Jo fez um esforço para relaxar.

—  Olá.  Já vamos sair daqui em um minuto

— Não tem problema. Eu estava apenas dando um passeio ao luar antes de dormir. Estou no ponto dez. — O homem se adiantou por mais alguns passos, mas permaneceu nas sombras. — Uma linda noite. Um lindo lugar. Nunca imaginei que veria também uma linda mulher.

— Nunca se sabe o que se vai encontrar na ilha. —Jo contraiu os olhos pela luz da lanterna em seus olhos. — Isso é parte do charme.

— Tenho certeza. Estou gostando de tudo. Uma aventura em cada passo, não é mesmo? A expectativa do que pode acontecer. Sou um grande fã... da expectativa.

Não, refletiu Jo, a voz não era cordial e agradável. Era como xarope... doce demais, densa demais e tinha aquele sotaque arrastado exagerado com que os ianques, insultuosamente, imitavam a maneira de falar dos sulistas.

— Neste caso, tenho certeza de que não ficará desapontado com o que Desire tem a oferecer.

— Do meu ponto de vista, as ofertas são perfeitas.

Se estivesse com a lanterna, Jo esqueceria as boas maneiras e iluminaria o rosto do estranho. Era o fato de a voz sair do escuro, ela disse a si mesma, que a fazia parecer tão assustadora e perigosa. Quando a porta da privada rangeu, ao seu lado, ela se inclinou e pegou a mão de Kirby, antes mesmo que a amiga acabasse de sair.

— Temos companhia — anunciou Jo, irritada por sua voz soar tão alta e estridente. — Parece que o ponto aqui é bastante popular esta noite. O número dez está de passagem.

Mas quando ela tornou a olhar, levantando a mão de Kirby que segurava a lanterna, não havia ninguém ali. Com um som de pânico em sua garganta, Jo pegou a lanterna, frenética, e iluminou os arbustos e árvores à sua frente.

— Ele eslava aqui. Havia alguém aqui. Não imaginei nada. Tenho certeza.

— Está tudo bem. — Gentilmente, Kirby pôs a mão no ombro de Jo, preocupada com o tremor. — Quem era ele?

— Não sei. Apareceu de repente. E conversou comigo. Não ouviu?

— Não, não ouvi nada.

— Ele estava quase sussurrando. Foi por isso. Não queria que você ouvisse. Mas o homem esteve aqui. — Seus dedos apertavam os de Kirby como um torno, o pânico agitava seu estômago. — Juro que ele estava bem ali.

— Acredito em você, querida. Por que não acreditaria?

— Porque ele desapareceu e... — A voz de Jo definhou. Ela balançou por um instante, para recuperar o equilíbrio. — Não sei. Ó Deus, que confusão! Estava escuro e ele me deu um susto. Não pude ver seu rosto.

Ela deixou escapar um suspiro e empurrou os cabelos para trás com as duas mãos.

— Acho que ele me deixou arrepiada.

— Não é nada de mais. Também levei um susto esta tarde quando ia para Sanctuary. E fugi como um coelho assustado.

Jo soltou uma pequena risada. Esfregou as palmas suadas nas coxas dos jeans.

— E mesmo?

— Pulei nos braços de Brian, balbuciando. Isso fez com que ele se sentisse tão grande e forte que até me beijou. Portanto, não foi uma perda completa.

Jo fungou, grata por sentir as pernas outra vez firmes.

— E como foi?

— Maravilhoso. Por isso, estou absolutamente convencida de que ele merece outra chance. — Ela apertou a mão de Jo. — Sente-se melhor agora?

— Muito melhor. Desculpe.

— Não foi nada. Um lugar assustador. — Kirby sorriu. — Vamos voltar e dar um susto em Lex e Ginny.

 

QUANDO AS DUAS SE AFASTARAM, DE MÃOS DADAS, ELE OBSERVOU -as das sombras. Sorriu para si mesmo, apreciando a música de vozes femininas suaves definhando na distância. Fora melhor que ela tivesse vindo com a outra. Poderia ter se sentido compelido a passar para o estágio seguinte se Jo Ellen chegasse tão perto sozinha.

E ainda não estava preparado, não como deveria, para passar da expectativa à realidade. Ainda havia muita coisa para providenciar, muita coisa para aproveitar.

Mas como ele a desejava! Saborear aquela boca firme e sensual, abrir aquelas coxas compridas, fechar as mãos em torno daquela linda garganta branca.

Ele fechou os olhos e deixou que a imagem aflorasse em seu cérebro. A imagem congelada de Annabelle, tão imóvel e tão perfeita, adquirindo vida e tornando-se sua. Virando Jo.

Uma parte do diário projetou-se em sua mente:

O assassinato fascina a todos nós. Alguns negariam, mas são mentirosos. O homem sente uma atração irresistível pelo espelho de sua própria mortalidade. Os animais matam para sobreviver... por alimento, por território, por sexo. A natureza mata sem emoção.

Mas o homem também mata por prazer. Sempre foi assim. Somos os únicos dentre todos os animais que sabem que tirar uma vida é a essência do controle e poder.

Muito em breve experimentarei essa perfeição. E poderei captá-la. Minha própria imortalidade.

Ele estremeceu de prazer.

Expectativa, pensou ele, enquanto acendia a lanterna de novo, para iluminar o caminho. Isso mesmo, ele era um grande fã da expectativa.

 

O assovio alegre acordou Nathan. Enquanto vagueava pelo mundo logo abaixo da plena consciência, sonhou com um passarinho cantando feliz num galho próximo do bordo junto de sua janela. Encontrara um passarinho assim quando era jovem, um melro que entoava sua canção matutina todos os dias, durante um verão inteiro, saudando-o com tanta precisão que passara a chamá-lo de Bud, o companheiro.

Eram dias quentes e vagos, repletos de atividades importantes, tomo andar de bicicleta, jogar bola e tomar sorvete.

O canto insistente do amanhecer fazia com que Nathan saudasse todas as manhãs com um sorriso e uma saudação rápida para Bud. Ficara arrasado quando Bud o abandonara ao final de agosto. A mãe lhe dissera que Bud provavelmente partira mais cedo para as férias do inverno.

Nathan virou na cama, achando muito estranho que Bud soubesse assoviar "Ring of Fire". No meio do sonho, Bud pulou para o peitoril da janela, agora um passarinho de desenho animado, um personagem de Disney, com penas pretas e lustrosas e o rosto curtido de Johnny Cash, o rosto de quem já estivera em toda parte e fizera tudo.

Quando o passarinho começou a executar uma coreografia que incluía chutes para o ar e giros rápidos, Nathan despertou por completo. Olhou para a janela, meio esperando deparar com alguma extravagância de desenho animado.

— Ó Deus... — Ele passou as mãos pelo rosto. — Nunca mais coma chili em lata à meia-noite, Delaney.

Ele virou de novo e comprimiu o rosto contra o travesseiro. Só então percebeu que o passarinho não estava ali, mas o assovio continuava.

Com um grunhido, saltou da cama e pôs o short de jeans cortados que usava na noite anterior. O cérebro confuso pela falta de sono, ele piscou para o relógio, estremeceu, depois saiu do quarto para descobrir quem se mostrava tão animado às seis e quinze da manhã.

Seguiu o assovio — era "San Antônio Rose" agora —, saiu da varanda cercada de tela, desceu os degraus. Havia uma picape vermelha reluzente parada atrás do seu Jeep. O dono estava por baixo da casa, em cima de uma escada e fazendo alguma coisa com um cano, enquanto assobiava com o maior entusiasmo. Os músculos saltados por fora e por trás da camiseta azul fizeram com que Nathan reajustasse seus pensamentos de assassinato rápido.

Talvez pudesse dominar o Garoto Assobiador, ele pensou. Pareciam ter mais ou menos a mesma altura. Não dava para ver seu rosto, mas o boné, os jeans justos e as botinas de trabalho surradas indicavam juventude.

Pensaria em matá-lo depois do café, decidiu Nathan.

— O que está fazendo aqui?

O Garoto Assobiador virou a cabeça e ofereceu um sorriso rápido e jovial por baixo da pala do boné.

—Bom dia. Tem algum vazamentos aqui. Preciso subir e dar um jeito antes de começar o tempo de AC. — Conserta ar-condicionado?

— Conserto tudo.

Ele desceu da escada. Limpou a mão no fundilho dos jeans antes de estendê-la para Nathan.

— Sou Giff Verdon. Conserto tudo.

Nathan estudou os olhos castanhos cordiais, o incisivo torto, as covinhas, os cabelos clareados pelo sol que se derramavam do boné e desistiu dos planos de homicídio.

— Você sabe fazer café? Um café decente?

— Se tem os ingredientes, posso fazer.

— Tem uma coisa parecida com um cone e uma espécie de... — Nathan ilustrou com as mãos, vagamente — bule.

— Conheço o esquema. O café pinga do cone. O melhor sistema. E parece que está bem precisado de um café, Sr. Delaney.

— Nathan. Eu lhe darei cem dólares por um bule de café de verdade.

Giff soltou uma risada e deu um tapa firme e cordial nas costas de Nathan.

— Se está precisando tanto assim, é de graça. Vamos logo fazer esse café.

— Sempre começa a trabalhar de madrugada? — perguntou Nathan, enquanto subia os degraus atrás de Giff.

— Quando se começa cedo, gosta-se mais do dia. — Ele seguiu direto para o fogão. Encheu a chaleira com água da pia. — Tem filtros?

— Não.

— Neste caso, teremos de improvisar.

Giff pegou algumas toalhas de papel, dobrou-as com a maior habilidade e ajeitou-as no cone de plástico.

— Você é arquiteto, não é?

— Sou sim.

Nathan passou a língua pelos dentes e pensou por um instante em escová-los. Depois do café. Mundos podiam ser conquistados, oceanos percorridos, mulheres seduzidas. Valeria a pena viver a vida de novo. Depois do café.

— Eu costumava pensar que seria um.

— Costumava pensar que seria um o quê? — indagou Nathan, enquanto Giff abria o armário por cima da pia à procura de café.

—  Um arquiteto. Sempre podia ver esses lugares em minha mente, casas na maioria, as janelas, telhados, paredes. Podia ver até os ornamentos. — Giff tirou o café da lata e despejou no filtro com a precisão descuidada do hábito. — Podia até entrar na casa, revisar a planta. Às vezes pensava em mudar as coisas. O lugar certo para esta escada não é aqui, mas ali.

— Entendo o que está dizendo.

— Mas não tinha recursos para pagar a faculdade, e agora não tenho tempo para largar tudo e estudar. Em vez disso, construo.

Em expectativa, Nate pegou duas canecas.

— Você é um construtor?

— Não sei se poderia se chamar assim. Não chega a esse ponto. Mas faço anexos e conserto coisas. — Ele afagou o cinto de ferramentas, com a mesma confiança com que um pistoleiro do Velho Oeste afagava o revólver no quadril. — Sou competente com o martelo. E como sempre há alguma coisa a consertar por aqui, estou sempre ocupado. Talvez um dia desses eu pegue uma das casas em minha mente e a construa do nada.

Nathan encostou-se no balcão, fazendo um esforço para não babar enquanto Giff despejava a água fervendo no filtro.

— Tem feito algum trabalho em Sanctuary?

— Claro. Uma coisa e outra. Trabalhei na equipe que reformou a cozinha para Brian. Agora Miz Pendleton está querendo acrescentar uma casa de banho. Como um solário. Um lugar em que possa instalar uma Jacuzzi e talvez uma sala de ginástica. As pessoas gostam de fazer essas coisas quando estão de férias. Estou preparando um projeto para ela.

— No lado sul — disse Nathan para si mesmo. —A luz seria a melhor, com acesso direto pelo jardim.

— Foi o que pensei. — O sorriso de Giffse alargou. — Acho que estou no aminho certo, se você pensou a mesma coisa.

— Eu gostaria de ver suas plantas.

— É mesmo? — Giff deixou transparecer toda a sua surpresa e prazer. — Isso é ótimo. Eu as trarei assim que estiverem um pouco mais completas. Um pagamento melhor do que os cem dólares pelo café.

Uma pausa e ele acrescentou, ao notar como Nathan olhava para o bule, enchendo lentamente:

— Demora para coar. As melhores coisas levam algum tempo. Mais tarde, quando estava no chuveiro, tomando a segunda caneca de café, enquanto a água quente escorria pela nuca, Nathan teve de concordar que Giff tinha razão. Valia a pena esperar por algumas coisas. A mente estava lúcida outra vez, o organismo quase vibrando de contentamento com a cafeína. Ao se vestir e depois de tomar a terceira caneca de café, sentia-se preparado para a ida a pé até Sanctuary, ansioso por uma lauta refeição.

Tanto a picape quanto Giff haviam desaparecido quando Nathan tornou a descer os degraus da varanda. Partiu para consertar outra coisa, concluiu ele. Sabia que Giff achara engraçado quando ele lhe pedira as instruções para fazer o café daquela maneira, passo a passo. Mas Nathan funcionava melhor com instruções precisas.

Descobriu-se a assoviar "I Walk the Line". De volta a Johnny Cash, pensou ele, balançando a cabeça. E nem mesmo gostava de música country.

Quando entrou na floresta, escura e verde, deliberadamente passou a andar mais devagar. Seguiu a suave curva do rio, sob a arcada de galhos e musgo balançando. Porque sempre lhe ocorria que era como entrar numa igreja, parou de assoviar.

Um movimento de cor atraiu sua atenção. Parou para observar uma borboleta amarela que esvoaçava pela trilha. A esquerda, as pequenas palmeiras, trepadeiras emaranhadas c troncos retorcidos formavam uma muralha que se projetava para o alto, oferecendo vislumbres de flores vermelhas, os trechos do céu muito azul avistados através dos galhos.

Embora fosse um desvio, ele continuou pela trilha à beira do rio. Sabia que o rio se alargaria e que penetraria ainda mais no silêncio e frescura da floresta.

Até que a viu, de repente, agachada ao lado de um tronco caído. As mangas do blusão folgado estavam puxadas além dos cotovelos, os cabelos estendidos para trás e presos num rabo-de-cavalo curto. Tinha um joelho na terra úmida, o outro pé bem plantado no chão, para manter o equilíbrio.

Não seria capaz de dizer por que a achava tão atraente. Por que a achava tão... interessante.

Mas permaneceu onde estava, em silêncio, observando Jo se preparar para tirar a foto.

Achava que sabia o que ela procurava. O jogo de luz na água, as sombras das árvores na superfície escura, a tênue neblina se dissipando. Um pequeno milagre, de profunda intimidade. E a maneira com que o rio fazia uma curva, um pouco além, pensou Nathan. A maneira com que desaparecia nessa curva, onde a relva era alta e as li vores grossas, levando a especular o que se poderia ver ali.

Quando ele viu a corça surgir, à esquerda, adiantou-se sem fazer barulho e agachou-se por trás de Jo. Ela teve um sobressalto quando Nathan tocou em seu ombro e por isso ele deu um aperto de leve.

— Não faça barulho — sussurrou ele. — À esquerda. Na posição de dez horas.

Embora seu coração disparasse e batesse forte, Jo deslocou a câmera para a esquerda. Quando focalizou a corça, respirou fundo, para se controlar, e esperou.

Captou a corça, a cabeça erguida, farejando. Tornou a clicar quando a corça esquadrinhou o rio e olhou direto para os dois humanos no outro lado, agachados e imóveis. Seus braços começaram a doer a medida que os segundos foram se transformando em minutos. Mas Jo não se mexeu, pois não queria correr o risco de perder uma foto. A recompensa veio quando a corça avançou graciosa através da relva e o filhote de um ano saiu do meio das árvores e juntou-se à mãe para beber no rio.

A luz penetrava na floresta enviesada, em hastes brancas de sonho, parecendo líquida ao passar pela neblina em movimento. As línguas dos dois animais causavam ondulações suaves e lentas na água escura.

Deixaria uma subexposição, só um pouco, pensou Jo, a fim de acentuar a aura de outro mundo, em vez de procurar a nitidez firme da realidade. As cópias deveriam parecer encantadas, um pouco turvas, como as imagens de contos de fadas.

Ela não baixou a câmera até o filme acabar, e mesmo então se manteve em silêncio, enquanto a corça e o filhote se afastavam pela beira do rio, até desaparecerem além da curva.

— Obrigada. Eu poderia ter perdido a cena.

— Não creio.

Jo virou a cabeça e teve de recorrer a toda sua força de vontade para não recuar abruptamente. Não compreendera que ele se encontrava tão perto, nem que ainda mantinha a mão em seu ombro.

— Você se move sem fazer barulho, Nathan. Não o ouvi.

— Estava completamente absorvida. Tirou a foto que focalizava antes de a corça aparecer?

— Vamos ver se saiu alguma coisa.

— Também gosto de tirar fotos. Um hobby antigo.

— Nada mais natural. Está no sangue.

Nathan não gostou do comentário. Sacudiu a cabeça.

— Não tenho uma paixão pela fotografia. Apenas um interesse de amador. E uma porção de equipamentos.

Jo nunca sabia se era mais fácil falar de tais perdas ou não dizer nada. Por isso, optou por ficar calada.

— Seja como for, tenho agora todos os equipamentos profissionais e uma habilidade mínima — acrescentou ele. — Não é nem um pouco parecida com a sua.

— Como sabe que tenho alguma habilidade se nunca viu meus trabalhos?

—  Excelente pergunta. Eu poderia dizer que a opinião vem de observar seu trabalho agora. Você tem a paciência, a graça silenciosa, a imobilidade.  A Imobilidade é uma qualidade atraente.

— Pode ser, mas fiquei imóvel por tempo demais.

Ela começou a se levantar. Nathan transferiu a mão de seu ombro para o cotovelo e levantou-a junto com ele.

— Não quero atrapalhar seu passeio — acrescentou Jo.

— Se continuar a me escorraçar desse jeito, Jo Ellen, vou acabar complexado.

Ela parecia mais descansada, pensou Nathan. Havia um pouco de cor em suas faces... mas podia ter sido causada pela irritação. Ele sorriu e levantou a câmera de lente sem reflexo, pendurada no pescoço de Jo.

— Também tenho esse modelo.

— É mesmo? — Ao se lembrar da criação de Nathan, Jo absteve-se de dar um puxão na câmera. — Como eu disse, seria difícil para você não ter algum interesse por fotografia. Seu pai ficou desapontado por você não ter seguido a mesma carreira?

— Não. — Nathan continuou a estudar a Nikon, recordando as pacientes instruções do pai sobre abertura, campo de visão. — Meus pais jamais desejaram que eu fosse qualquer outra coisa que não o que quisesse ser. Seja como for, Kyle ganhava a vida com uma câmera.

— Eu não sabia... —Jo recordou abruptamente que Kyle também havia morrido. Sem pensar, tocou na mão de Nathan. — Se é um ponto sensível, não há necessidade de falar a respeito.

— Também não se pode ignorar. — Nathan deu de ombros. — Kyle trabalhava na Europa... Milão, Paris, Londres. Fazia muita fotografia de moda.

— E uma arte independente.

— Claro. E você tira fotos de rios.

— Entre outras coisas.

— Eu gostaria de ver suas fotos.

— Por quê?

— Acabamos de concluir que é um interesse meu. — Ele soltou a câmera. Dedicarei mais tempo à fotografia enquanto estiver aqui. E gostaria de conhecer seu trabalho. Como você mesma disse... está relacionado com meu pai

Era o rumo certo. Ele quase podia ver a mente de Jo mudando de idéia, passando da recusa automática para a concordância.

— Trouxe alguma coisa comigo. Acho que você pode dar uma olhada um dia desses.

— Que tal agora? Eu estava mesmo a caminho de Sanctuary.

— Está bem. Mas não tenho muito tempo. Ainda estou prestando serviço de arrumadeira.

Jo começou a se abaixar para pegar a bolsa de equipamentos, mas ele se antecipou.

— Pode deixar que eu levo.

Jo foi andando ao seu lado. Tirou o maço de cigarros do bolso do casaco.

— Isso não é outra cantada, não é mesmo?

— Seria, se eu tivesse pensado nisso. Ainda tenho aquele filé à espera.

— Vai acabar com queimadura de freezer. — Jo soltou um suspiro, enquanto o estudava pelos olhos contraídos. — Por que sua esposa o deixou?

— O que a leva a pensar que ela me deixou?

— Está bem... por que você a deixou?

— Deixamos um ao outro. — Nathan afastou para o lado um musgo pendendo na trilha. — O casamento se perdeu pela falta de interesse. Está tentando avaliar que tipo de marido eu era antes de me deixar lhe oferecer um filé para o jantar?

— Não. — A irritação na voz de Nathan levou-a a contrair os lábios, antes de acrescentar: — Mas teria feito isso, se lembrasse. Por que não pulamos esse assunto? Perguntarei apenas se gostou da primeira semana em Desire.

Ele parou e virou-se para fitá-la.

— Não foi mais ou menos aqui que você caiu na água naquele verão?

Jo alteou uma sobrancelha.

— Não. Foi um pouco mais rio abaixo que você me empurrou.  E se teve a idéia de repetir a manobra, eu pensaria duas vezes.

—  Uma das razões para minha volta é reconstituir alguns daqueles dias e noites. — Nathan deu um passo à frente e ela deu um passo para trás. — Tem certeza de que não foi aqui que você entrou na água?

— Tenho sim.

Ele fez com que Jo desse outro passo para trás. Ela bateu com a mão no peito dele, mas descobriu-se manobrada para mais perto da margem.

— Não tenha tanta certeza.

No instante em que Jo escorregou na relva úmida, ele puxou-a ao encontro de seu peito.

— Epa! — Sorridente, Nathan passou os braços em torno de sua cintura. — Há sempre uma possibilidade, não é?

Jo segurou os braços de Nathan com firmeza, para qualquer eventualidade.

— Já chega.

— Acho que terei de aceitar sua palavra quanto a isso... e esperar a descoberta por mim mesmo. A expectativa é metade da diversão.

— Como? — Jo sentiu que o sangue se esvaía para a sola dos pés. Sou um grande fã da expectativa. — O que foi mesmo que disse?

— Que eu aceitaria sua palavra. Ei! — Ele deslocou o peso do corpo de um pé para outro. Puxou-a para mais perto, enquanto ela se debatia. — Tome cuidado ou acabaremos dando um mergulho matutino.

Nathan conseguiu afastá-la da beira do rio. Jo estava branca, tremendo tanto, que a pele vibrava nas palmas de Nathan.

— Fique calma — murmurou ele, tornando a abraçá-la. — Não tive a intenção de assustá-la.

— Sei disso.

O medo viera e passara depressa, deixando-a com a sensação de que era uma tola. Porque seu coração ainda batia forte, deixou que Nathan a abraçasse... e perguntou-se quando fora a última vez em que alguém a abraçara daquele jeito.

— Não foi nada — acrescentou Jo. — Apenas uma estupidez. Encontrei um cara à noite no camping que me disse uma coisa parecida. Ele me assustou.

— Desculpe.

Jo deixou escapar um longo suspiro.

— Não foi culpa sua. Ando com os nervos à flor da pele.

— Ele não a machucou?

— Não. Nem tocou em mim. Apenas me deixou assustada. Ela encostou a cabeça no ombro de Nathan e começou a fechar os olhos. Seria muito fácil permanecer assim. Ser abraçada. Sentir-se segura. Mas fácil nem sempre era a maneira certa. Ou a mais sensata.

— Não vou para a cama com você, Nathan.

Ele esperou um momento, apreciando a sensação de Jo aconchegada em seus braços, a textura dos cabelos contra seu rosto.

— Neste caso, posso muito bem me afogar no rio neste momento. Acaba de destruir o sonho de minha vida inteira.

Jo teve vontade de rir, mas reprimiu a risada que se formou em sua garganta.

— Estou tentando ser franca com você.

— Em vez disso, por que não mente um pouco? Afague meu ego. — Nathan deu um puxão de leve no rabo-de-cavalo e ela levantou a cabeça. — Podemos começar com uma coisa simples e continuar até as mais complicadas.

Ela observou o olhar de Nathan baixar para sua boca, perdurar, depois subir lentamente para os olhos. Quase podia saborear o beijo, sentir a vibração em seus lábios. Seria simples fechar os olhos e deixar que ele a beijasse. Seria fácil inclinar-se para a frente e recebê-lo no meio do caminho.

Em vez disso, porém, ela ergueu a mão e pressionou os dedos contra a boca de Nathan.

—  Não.

Ele suspirou, pegou o pulso de Jo e roçou os lábios pelos dedos.

— Você sabe como fazer um homem se empenhar por seus prazeres, Jo

— Não serei um dos seus prazeres.

— Você já é. — Sem largar a mão de Jo, ele virou-se para seguir até Sanctuary. — Não me pergunte por quê.

Como ele parecia não esperar um comentário a respeito nem uma conversa inconseqüente, Jo foi andando em silêncio. Teria de pensar sobre aquela... situação, decidiu ela. Não era bastante tola para negar que tivera uma reação a Nathan. Aquele clique físico, visceral, que qualquer mulher reconhecia como desejo básico. Era normal o suficiente a ponto de ser quase tranqüilizador.

Podia estar perdendo o juízo, mas o corpo ainda funcionava em todos os circuitos elementares.

Não sentira o clique com bastante freqüência em sua vida para considerá-lo como uma coisa corriqueira. E quando ecoava de uma forma tão óbvia no homem que a causara... isso era uma coisa em que não se podia deixar de pensar.

Por enquanto, pelo menos, era algo que podia controlar, que podia compreender, analisar, relacionar as opções. Mas ela desconfiava que o problema com os cliques era o fato de que causavam comichões. E problema com as comichões era o fato de que incomodavam até que ela desistia e começava a cocar.

— Terá de ser depressa — avisou ela, enquanto se encaminhava para a porta lateral.

— Sei disso. Você está no serviço de arrumação de camas. Não vou retê-la por muito tempo. Planejo farejar em torno de Brian até ele me alimentar.

— Se não estiver muito ocupado, pode persuadi-lo a sair depois. Para ir à praia, talvez para pescar. Ele passa tempo demais aqui.

— Ele adora esta casa.

— É verdade. — Jo entrou num corredor em cuja parede fora pintado um mural da floresta e do rio. — Mas isso não significa que tem de servir Sanctuary em todas as horas de todos os dias.

Ela empurrou um painel e uma parte do mural abriu.

— É uma maneira estranha de expressar a situação — comentou Nathan, passando pela abertura e subindo a escada para o que fora outrora os aposentos dos criados, mas era agora a entrada particular da ala da família. — Servir Sanctuary.

— É o que ele faz. Suponho que é o que todos nós fazemos quando estamos aqui.

Ela virou à esquerda no alto da escada. Ao passar pela primeira porta aberta, deu uma olhada no quarto de Lexy. A enorme cama de baldaquino estava vazia. E desarrumada, como era de esperar. Havia roupas espalhadas por toda parte... no tapete Aubusson, no assoalho encerado, nas elegantes cadeiras Queen Anne. As fragrâncias de loções, perfumes e talcos pairavam no ar, em celebração feminina.

— Talvez nem todos — murmurou Jo, continuando a andar. Ela tirou uma chave do bolso e abriu uma porta estreita. Nathan alteou as sobrancelhas em surpresa quando entrou. Era um laboratório fotográfico muito bem equipado e organizado.

Um tapete antigo e puído protegia o assoalho de tábuas de pinho de largura variável; estores grossos estavam arriados e presos, para permanecerem assim, sobre as janelas gêmeas. Prateleiras de metal cinza continham vidros com substâncias químicas e tubos de plástico. Em outras, havia pilhas de caixas de papelão preto, que ele presumiu que continham os papéis de cópias, as folhas de contato e fotos já prontas. Havia uma bancada de trabalho comprida, de madeira, com um banco alto.

— Não sabia que você tinha um laboratório aqui.

— Era um banheiro e quarto de vestir. —Jo acendeu a luz branca. Foi até as fotos que revelara e copiara na noite anterior, ainda penduradas na linha de secagem. — Pressionei a prima Kate até que ela me deixou derrubar a parede e fazer o laboratório. Poupei durante três anos para comprar os equipamentos.

Ela passou a mão pelo ampliador, lembrando o cuidado com que fizera uma pesquisa de preços, contando cada centavo.

—  Kate comprou isto para mim como presente de aniversário quando fiz dezesseis anos. Brian me deu as estantes e a  bancada. Lcx me deu papel e fluido de revelação. Surpreenderam-me com os presentes antes que eu gastasse minhas economias. Foi o melhor aniversário que já tive.

— A família sempre ajuda — comentou Nathan, notando que ela não mencionara o pai.

— Às vezes isso acontece. —Jo inclinou a cabeça para a pergunta que não foi formulada. — Ele permitiu o laboratório. Afinal, não foi fácil para meu pai renunciar a uma parede.

Ela virou-se para pegar uma caixa em cima da máquina de esmaltagem.

— Estou reunindo fotos para um livro que devo lançar. Estas provavelmente são as melhores, embora eu ainda tenha de fazer a seleção final.

— Vai lançar um livro? Maravilhoso!

— Isso ainda tem de ser comprovado. Por enquanto, é apenas uma coisa com que tenho de me preocupar.

Ela deu um passo para trás quando Nathan se adiantou para pegar a caixa. Enganchou os polegares nos bolsos de trás da calça e ficou esperando.

Nathan precisou ver apenas a primeira foto para notar que ela estava muito além de competente. Seu pai fora competente, pensou Nathan, às vezes até inspirado. Mas, se ela se considerava a discípula de David Delaney, então superara em muito seu mentor.

A foto em preto-e-branco vibrava de drama, as linhas tão firmes e nítidas que poderiam ter sido esculpidas com um bisturi. Era um estudo de uma ponte sobre águas agitadas... a ponte branca vazia, o mar escuro revolto, o sol acabando de romper no horizonte.

Outra mostrava uma árvore isolada, os galhos largos, estendendo-se em todas as direções, sem folhas, num campo deserto, recém-arado. Ele poderia contar os sulcos. Foi examinando as fotos lentamente, sem dizer nada, impressionado com o que Jo era capaz de ver, captar e projetar para a eternidade.

Chegou a uma cena noturna, um prédio de alvenaria, as janelas escuras, exceto pelas três de cima, com brilho surpreendentemente imenso. Dava para ver a umidade nos tijolos, uma tênue neblina turbilhonando por cima de poças escuras. E quase podia sentir na pele o ar frio e úmido.

— As fotos são espetaculares. E você sabe disso. Teria de ser absurdamente neurótica e humilde para não conhecer as dimensões de seu talento.

— Eu não diria que sou humilde. — Jo deu um sorriso. — Neurótica, provavelmente. A arte exige neuroses.

— Eu não diria neurótica. — Curioso, ele baixou a última foto, para estudar o rosto de Jo. — Mas solitária. Por que você é tão solitária?

— Não sei do que você está falando. Meu trabalho...

— É brilhante — interrompeu Nathan. — E triste. Em cada uma dessas fotos a impressão é a de que alguém acabou de se afastar e só restou você em cena.

Apreensiva, ela tirou a foto da mão de Nathan e tornou a guardá-la na caixa.

— Não estou interessada em fotografar pessoas. Não é isso o que eu faço.

— Jo... — Ele tocou com as pontas dos dedos o rosto dela e percebeu pelo lampejo em seus olhos que o gesto simples provocara um sobressalto. — Você exclui as pessoas. Faz com que seu trabalho seja visualmente espantoso e emocionante. Mas o que faz com o resto de sua vida?

— Meu trabalho é o resto da minha vida. — Com uma batida brusca, ela pôs a caixa de volta na prateleira. — E agora, como eu disse antes, tenho uma manhã muito ocupada.

— Não vou mais tomar seu tempo.

Mas ele virou-se, sem pressa, e começou a examinar as fotos penduradas na linha de secagem. Quando riu, Jo empinou os ombros e preparou-se para rosnar.

—  Para alguém que alega não ter interesse por retratar pessoas, você sabe mostrá-las com perfeição.

Com uma expressão mal-humorada, ela adiantou-se e viu que Nathan olhava para uma das fotos que tirara no camping.

— Isso não é trabalho. É simplesmente...

— Sensacional — arrematou Nathan. — Engraçada, com um clima de intimidade. Essa é a médica com o braço estendido pelos ombros de sua irmã. Quem é a mulher com o sorriso de um hectare?

— Ginny Pendleton. — Jo fez um esforço para não rir. O sorriso de Ginny era assim mesmo, vasto como um hectare, fértil, repleto de promessas. — Ela é nossa amiga.

— São todas amigas. Isso é evidente na foto... a afeição e o vínculo feminino. E é evidente também que há um vínculo da fotógrafa. Ela pode não aparecer na foto, mas sua ligação é inequívoca.

Jo mudou de posição, contrafeita.

— Estávamos de porre. Ou quase.

— Melhor assim. A foto é sem dúvida inadequada para o tema do livro que está preparando, mas deveria considerá-la se fizer outro. Nunca faz mal nenhum misturar um pouco de diversão em sua angústia.

— Está apenas olhando para um bando de mulheres atraentes e meio bêbadas.

—  Por que não? — Ele estendeu a mão para o queixo de Jo, levantando-o quando ela quis se desvencilhar. — Eu adoraria ver como faz seu auto-retrato na próxima vez em que estiver tão descontraída.

Os olhos de Nathan eram afetuosos e compreensivos, muito atraentes na maneira com que a fitavam e penetravam fundo em seus olhos. Jo sentiu aquele pequeno clique de novo, mais nítido desta vez.

— Vá embora, Nathan.

— Está bem.

Ames que qualquer dos dois pudesse pensar a respeito, ele inclinou a cabeça e deu um beijo de leve em seus lábios. E logo deu outro beijo, um pouco mais longo, um pouco mais firme. Mais ardente do que ele esperava, pensou Nathan, e mais excitante, já que ela mantivera os olhos abertos e sem piscar.

—Você estremeceu — murmurou ele.

— Não, não estremeci.

Nathan passou o polegar pelo queixo de Jo, antes de baixar as mãos.

— Um dos dois estremeceu.

— Você não vai embora.

— Acho que não. Pelo menos não como você quer.

Ele comprimiu os lábios contra a testa de Jo desta vez. Ela não estremeceu, mas sentiu um solavanco no coração.

— Não... decididamente não como você quer.

Quando ele a deixou, Jo virou-se para a janela. Apressou-se em soltar o cordão do estore, levantá-lo e abrir as janelas. Queria ar, bastante ar, para esfriar o sangue e desanuviar a mente. E no momento mesmo em que respirava fundo divisou a figura parada à beira de uma duna, o vento desmanchando seus cabelos, estufando a camisa.

Sozinha, como seu pai sempre estava sozinho, todas as pessoas mantidas além do muro invisível que ele erguera. Com um movimento brusco, Jo fechou a janela de novo para depois baixar a cortina.

Não era seu pai. Não era sua mãe. Era ela mesma. E talvez fosse por isso que havia ocasiões em que sentia que não era ninguém.

 

Giff estava assoviando de novo. Nathan tentou identificar a melodia enquanto comia uma torrada francesa, no balcão da cozinha. Mas não conseguiu. Só pôde presumir que Giff embrenhara-se tão fundo pelo território da música country-western que seus conhecimentos restritos não permitiam acompanhá-lo.

Não podia haver a menor dúvida de que o homem era um trabalhador sempre alegre, refletiu Nathan. E aparentemente era mesmo capaz de consertar qualquer coisa. Nathan tinha certeza de que só com uma fé absoluta Brian poderia pedir a Giff para desmontar a lavadora de louça do restaurante no meio do café da manhã na pousada.

Agora, Brian fritava, grelhava e mexia, Giff assoviava e consertava a lavadora, e Nathan comia uma segunda porção de torradas francesas douradas com chutney de maçã.

Ele não podia se lembrar de outra ocasião em que tivesse comido uma refeição mais saborosa.

— Como está indo Giff? — perguntou Brian, enquanto o contornava para por um pedido completo na ponta do balcão.

— Mais ou menos.

— Se não puser essa máquina para funcionar até o final do café da manhã, Nate terá de lavar os pratos manualmente.

— É mesmo? — Nathan engoliu um pedaço da torrada. — Mas só usei um prato.

— Regras da casa. Você come na cozinha, tem de ajudar quando é preciso. Não é mesmo, Giff?

— Claro. Mas acho que não vai chegar a esse ponto. Vou consertá-la. — Ele olhou quando Lexy passou pela porta e sorriu. — Ainda vou dominá-la no momento certo.

Ela dispensou-lhe um olhar irritado, contrariada porque Giff conseguia parecer atraente mesmo com aquele boné de beisebol ridículo e a camiseta encardida.

— Mais dois especiais, um com presunto, outro com bacon. Dois ovos com a gema mole, bacon, uma porção de batatas fritas, torrada comum. Giff, tire seus pés enormes do caminho.

Lexy contornou-os para pegar os pedidos já prontos. O sorriso de Giff já era enorme quando ela deixou a cozinha.

— Essa sua irmã é a coisa mais linda que eu conheço, Bri.

— É o que você diz, Giff.

Brian quebrou dois ovos e os despejou em uma frigideira.

— Ela é louca por mim.

— Deu para perceber. A maneira com que ela se mostrou entusiasmada quando viu você foi embaraçosa.

Giff soltou uma risada e bateu com o cabo da chave de fenda na palma da mão.

— É o jeito dela. Lexy quer um homem farejando em sua esteira como um cachorrinho e fica de nariz empinado quando não consegue isso. Mas ela vai dar a volta por cima. Basta compreender como funciona a cabeça de uma determinada mulher.

— E quem sabe como funciona a mente de qualquer mulher? Brian gesticulou com a espátula para Nathan. — Você sabe, Nate?

Nathan contemplou o pedaço de torrada francesa que ia morder. O molho pingou no prato.

— Não, não posso dizer que sei. E estudei bastante o assunto. Pode-se até dizer que dediquei uma boa parte de minha vida a isso, com resultados duvidosos.

—  Não é uma questão de saber como todas funcionam. — Paciente, Giff começou a prender os parafusos. — Você tem de se concentrar em uma. É como um motor. Um não funciona necessariamente da mesma maneira que outro, até quando são da mesma marca e modelo. Cada um tem suas peculiaridades. Alexa, por exemplo...

Ele parou de falar por um instante, enquanto terminava de pôr mais um parafuso e pegava outro.

— Ela é quase bonita demais para o seu próprio bem. Pensa muito a respeito, preocupa-se com isso.

— Ela tem maquiagem suficiente no banheiro para pintar toda uma fileira de coristas de Las Vegas — comentou Brian.

— Algumas mulheres acham que isso é uma responsabilidade. Lex fica furiosa se um homem não se mostra deslumbrado com ela vinte e quatro horas por dia... e se fica deslumbrado vinte e quatro horas por dia, Lex acha que é um idiota, porque não é capaz de perceber nada além da superfície. O segredo é encontrar a linha, depois escolher o momento e o lugar certo para cruzá-la.

Brian pôs os ovos num prato. Lexy era mesmo assim, pensou ele. Contraditória e irritante.

— Parece trabalho demais para mim.

— Ora, Bri, as mulheres sempre dão trabalho. — Giff levantou a pala do boné, as covinhas destacando-se. — Isso é parte da atração.

Ele acenou com a cabeça para a lavadora, enquanto acrescentava:

— Ela vai funcionar agora.

Giff avaliou o tempo e calculou que Lexy voltaria à cozinha a qualquer momento para buscar os pedidos prontos.

— Ginny, eu e alguns outros estamos pensando em fazer um luau esta noite. Lá em Osprey, as dunas da águia pescadora. Tenho muita lenha que juntei e será uma noite clara. — Quando Lexy passou pela porta, Giff sentiu-se satisfeito. — Pensei que você poderia avisar os hóspedes aqui, falar com turistas nos chalés e no camping.

— Avisar sobre o quê? — perguntou Lexy.

— Sobre o luau.

— Esta noite? — Os olhos de Lexy faiscaram, enquanto ela punha os pratos no balcão. — Onde?

— Em Osprey. — Com todo cuidado, Giff guardou as ferramentas na caixa de metal amassada. — Você vai, não é, Bri?

— Não sei, Giff. Tenho de pôr em dia a contabilidade da pousada.

— Deixe disso, Bri. — Lexy cutucou-o ao passar para pegar os pedidos. — Não seja um chato. Todos nós iremos.

Na esperança de enfurecer Giff, ela ofereceu um sorriso sedutor para Nathan.

— Você também irá, não é? Não há nada como um luau na ilha.

— Não perderia de jeito nenhum.

Ele lançou um olhar cauteloso para Giff, torcendo para que o homem já tivesse guardado o martelo.

— Grande! — Lexy lançou-lhe um sorriso radiante ao passar, o sorriso que reservava para as ocasiões especiais. — Começarei a avisar as pessoas.

Giff cocou o queixo e levantou-se, enquanto Lexy deixava a cozinha.

— Não precisa ficar tão apreensivo, Nate. O flerte é uma iniciativa natural de Lexy.

— Ahn...

Nathan olhou para a caixa de ferramentas, pensando em todas as armas em potencial que havia ali.

— Não me incomoda nem um pouco. — A vontade ali, Giff pegou um biscoito numa tigela e deu uma mordida. — Se um homem decide conquistar uma linda mulher, tem de esperar um pouco de flerte da parte dela, muitos olhares de outros homens. Portanto, pode olhar quanto quiser.

Giff levantou a caixa de ferramentas e piscou, antes de acrescentar:

— Mas se quisesse fazer mais do que olhar, precisaríamos ter outro tipo de conversa. Até esta noite.

Ele saiu assoviando.

—  Quer saber de uma coisa, Bri? — Nathan levou seu prato para a pia. — Esse cara tem bíceps mais duros do que pedra. Acho que não vou nem olhar.

—  Uma sábia precaução. Agora você pode pagar o café da manhã pondo a louça na lavadora.

 

— NÃO   SINTO  A  MENOR  DISPOSIÇÃO  PARA  UMA  CONFRATERnização social, Kate. Vou trabalhar um pouco no laboratório esta noite.

— Não vai fazer trabalho nenhum. — Kate foi até a cômoda de Jo, pegou uma escova simples de cabo de madeira e sacudiu-a. — Vai passar um pouco de batom nos lábios, arrumar os cabelos e descer para o luau. Vai dançar na areia, tomar vinho e se divertir um pouco.

Antes que Jo pudesse protestar de novo, Kate ergueu a mão, ao estilo de um guarda de trânsito.

— Poupe seu fôlego, menina. Já tive essa briga com Brian e consegui vencer. E melhor você jogar a toalha no ringue logo de uma vez.

Quando ela jogou a escova, Jo pegou-a antes que acertasse em sua cabeça.

— Não sei por que importa...

— Claro que importa — disse Kate, entre os dentes semicerrados, enquanto abria a porta do armário de pau-rosa. — É importante que as pessoas nesta casa aprendam a se divertir um pouco de vez em quando. Quando acabar com você, vou pressionar seu pai.

Jo soltou uma risada e arriou na cama.

— Não há a menor possibilidade.

— Ele vai ao luau — declarou Kate com uma expressão determinada, enquanto entudava o que havia no armário. — Nem que eu tenha de bater em sua cabeça para deixá-lo inconsciente e arrastá-lo até a praia. Não tem nenhuma blusa que dê a impressão de que se importa com o que veste, mesmo que remotamente? Irritada, ela empurrou os cabides para o lado.

—  Não tem alguma coisa que seja pelo menos um pouco atraente ou elegante?

Sem esperar por uma resposta, ela foi até a porta e gritou:

— Alexa! Escolha uma blusa para sua irmã e traga até aqui!

— Não quero nenhuma camisa de Lex. — Alarmada, Jo levantou-se de um pulo. — Se eu tivesse de ir, iria com minhas próprias roupas. Mas não importa, porque não vou.

— Vai sim. E trate de ondular os cabelos. Estou cansada de vê-la com os cabelos escorridos.

— Não tenho nada para fazer isso, mesmo que quisesse... e não quero.

— Ah! — exclamou Kate. —Alexa, traga a blusa e os bobes para o quarto de sua irmã!

— Fique fora daqui, Lex! — gritou Jo. — Kate, não tenho mais dezesseis anos.

— Não, não tem. — Kate acenou com a cabeça, decidida, os pequenos pingentes de ouro nas orelhas balançando com o movimento. — É uma mulher adulta e adorável. Já faz muito tempo que não se orgulha disso. Mas agora vai se orgulhar de novo, empenhar algum esforço em sua aparência... e não admito nenhum protesto. Crianças terríveis, sempre brigando comigo por tudo...

Ela entrou no banheiro de Jo.

— Você não tem nem mesmo rimel aqui. Se quer ser uma freira, entre para o convento. O batom não é um instrumento de Satã.

Lexy entrou no quarto com uma blusa pendurada no ombro e urna caixa de bobes na mão. Seu ânimo era o melhor possível, na expectativa da noite pela frente. Por isso, sorriu e alteou as sobrancelhas para Jo.

— Ela está num dos seus ataques?

— E dos grandes. Não quer ondular os cabelos.

— Relaxe, Jo Ellen.

Lexy largou os bobes na cômoda. Contemplou sua aparência no espelho. Mantivera a maquiagem sutil, para combinar com a festa informal. De qualquer forma, a luz da fogueira seria extremamente lisonjeira. A maioria estaria usando jeans, ela sabia, e por isso a saia comprida e larga, coberta com papoulas vermelhas, seria um contraste atraente.

— E não vou usar suas roupas.

— Como quiser. — Lexy virou-se, contraiu os lábios e estudou-a rapidamente. Sentia-se bastante bem para ser cordial. — Hum... O luxo afetado não é o seu estilo.

— Isso é uma novidade. Deixe-me anotar.

Lexy deixou o sarcasmo escorrer de seus ombros perfumados. Deu uma volta lenta em torno da irmã.

— Tem uma camiseta preta que não seja tão larga que duas de você caberiam?

Cautelosa, Jo acenou com a cabeça.

— Devo ter.

— E um jeans preto?

Quando deu de ombros para informar que tinha, Lexy bateu com um dedo em seus lábios.

— É assim que você irá. Elegante e moderna. Talvez com argolas nas orelhas e um cinto como acessório. Mas isso será tudo. E nada de cabelos ondulados.

— É mesmo?

— Mas vai precisar de um novo penteado. — Lexy continuou a bater com o dedo nos lábios, ao mesmo tempo que contraía os olhos e balançava a cabeça. — Posso dar um jeito nisso. Bastam uns pequenos cortes aqui e ali.

— Cortes? — Jo pôs as mãos nos cabelos em defesa. — O que está querendo dizer com isso? Não vou deixá-la cortar meus cabelos.

—  Por que se importaria? Estão sempre escorridos.

— E isso mesmo interveio Kate. — Lexy tem jeito com cabelos. É ela quem apara os meus, se não posso ir ao continente. Lave os cabelos,Jo.  Lexy, pegue sua tesoura.

— Está bem. — Derrotada, ela ergueu as mãos. — Talvez até seja melhor assim. Se ela me escalpelar, não terei de passar metade da noite sentada na areia, com um bando de idiotas, ouvindo alguém cantar "Kum Ba yah".

Quinze minutos depois, ela sentou com uma toalha em volta do pescoço, com fios de cabelos caindo.

— Ó Deus! — Jo apertou os olhos com força. — Perdi o juízo. Agora é oficial.

— Pare de se contorcer. — Mas havia mais riso na ordem do que irritação. — Não fiz quase nada... ainda. E pense quanto tempo vai conseguir manter a prima Kate a distância.

— Tem razão. —Jo forçou os ombros a relaxarem. — Esse é um ponto positivo.

— Você tem cabelos maravilhosos, Jo. Uma bom volume, uma ondulação natural. — Lexy contraiu os lábios, contemplando os próprios cabelos no espelho. — Não sei por que tenho de pagar tanto dinheiro para frisá-los. Meus cabelos são retos como um alfinete.

Com um dar de ombros pelos caprichos da vida, ela tornou a se concentrar no trabalho que fazia.

— Você só precisa de um corte decente. Depois que eu acabar, não precisará fazer mais nada.

— Já não faço nada.

— E isso é evidente. Mas agora será diferente.

— Só não quero que corte demais... —Jo arregalou os olhos e sentiu a garganta fechar quando quase dez centímetros de cabelos caíram em seu colo. — Ó Cristo! O que você fez?

— Relaxe. Estou apenas fazendo um franja, mais nada.

— Franja? Franja? Não pedi nenhuma franja!

—  Mas vai ter. Uma linda franja, descendo até as sobrancelhas. Dá uma aparência casual, que combina com você. Lexy continuou a passar o pente e cortar, dar um passo para trás, franzir o rosto, cortar mais um pouco. — Eu      gosto. E gosto muito.

— Melhor para você — murmurou Jo. — Pode usar.

— Vai me dever um pedido de desculpas. — Lexy espremeu um pouco de gel na palma, esfregou as mãos e passou-as pelos cabelos úmidos da irmã. — Só precisa de um pouco disso. Mais ou menos do tamanho de uma moeda de dez centavos.

Jo olhou para o tubo e amarrou a cara.

— Não vou usar essa coisa gordurosa nos cabelos.

— Terá de usar. Só um pouco. — Lexy ligou o secador de cabelos. — Pode deixar secar naturalmente, mas isto lhe dará um pouco mais de volume. Não precisará de mais do que dez minutos pela manhã para cuidar dos cabelos.

— Não levo nem dois minutos agora. Qual o sentido?

Jo disse a si mesma que não se importava com o corte. Apenas sentia-se cansada de ficar sentada durante tanto tempo com alguém cuidando de seus cabelos. Não estava nervosa.

— Pronto. — Lexy desligou o secador e tirou-o da tomada. — Tudo o que você tem de fazer agora é bancar a chata e encontrar defeitos. Pode começar a reclamar, como uma megera. Não estou ligando.

Ela deixou o quarto batendo os pés. Jo arrancou a toalha com um movimento brusco.

Mas parou assim que viu seu reflexo no espelho. Deu um passo para a frente. Parecia... atraente, ela refletiu. Levantou a mão para roçar pelas pontas. Em vez de penderem, os cabelos se inclinavam na direção das orelhas e para trás da cabeça. Proporcionavam-lhe uma aparência alegre. E a franja até que não era tão ruim assim, no final das contas. Hesitante, ela sacudiu a cabeça. Tudo caiu mais ou menos no lugar. Nada despencou até os olhos para deixá-la irritada.

Ela pegou a escova e passou pela cabeça, observando os cabelos subirem e caírem, as pontas bem cortadas. O que era ótimo. Não exigia muito trabalho, mas tinha classe. Isso mesmo, tinha de admitir que era um corte de classe... e que essa classe lhe era favorável.

E lembrou-se de quando sentava-se na beira da cama, enquanto a mãe escovava seus cabelos.

Seus cabelos são lindos, Jo Ellen. Densos e macios. Serão a sua maior glória.

São da mesma cor que os seus, mamãe.

Sei disso. E Annabelle riu e abraçou-a. Você será minha gêmea pequena.

— Não posso ser sua gêmea, mamãe — sussurrou Jo agora. — Não posso ser como você.

Não era por isso que ela nunca fizera nada com seus cabelos além de prendê-los atrás da cabeça com um elástico? Não era por isso que não havia rimel no banheiro? Era a teimosia, especulou Jo, ou o medo que a impedia de gastar mais de cinco minutos por dia com sua aparência? De se contemplar de verdade no espelho?

Se pretendia se manter sã, pensou Jo, precisava aprender a enfrentar o que via no espelho todos os dias. E para enfrentar, ela compreendeu, teria de aprender a aceitar.

Ela respirou fundo para se controlar, saiu para o corredor e foi até o quarto de Lexy.

Encontrou a irmã no banheiro, escolhendo um batom entre os inúmeros cosméticos no balcão.

— Desculpe. — Como a irmã não dissesse nada, Jo deu o último passo à frente. — Sinto muito, Lexy. Você estava absolutamente certa. Banquei a chata, procurando defeitos.

Lexy olhava para o pequeno tubo dourado, observando o batom vermelho subir e descer.

— Por quê?

— Tenho medo.

— De quê?

— De tudo. — Era um alívio finalmente admitir. — E verdade, tudo me assusta hoje em dia. Até mesmo um novo corte de cabelo.

Ela conseguiu exibir um sorriso para acrescentar!

— Até mesmo um corte de cabelos espetacular.  

Lexy foi apaziguada o suficiente para retribuir o sorriso quando seus olhos se encontraram no espelho.

— Está mesmo sensacional. E ficaria ainda melhor se você acrescentasse alguma cor, realçasse os olhos.

Jo suspirou. Olhou para o vasto estoque pessoal de cosméticos.

— Por que não? Posso usar algumas dessas coisas?

—  Qualquer coisa aqui daria certo. Somos mais ou menos do mesmo tipo. — Lexy tornou a se concentrar em sua imagem no espelho e passou batom nos lábios com todo cuidado. —Jo... você tem medo de ficar sozinha?

— Não. Eu me sinto muito bem sozinha. — Jo pegou o blush. — É praticamente a única coisa que não me assusta.

— Engraçado... é a única coisa que me assusta.

 

AS CHAMAS SUBIAM DA FOGUEIRA, PROJETAVAM-SE DA AREIA branca na direção de um céu escuro, cravejado de diamantes. Como algum ritual druida do fogo, pensou Nathan, enquanto tomava uma cerveja gelada, observando o fogo. Podia imaginar figuras em túnicas dançando ao redor, oferecendo sacrifícios a algum deus primitivo e faminto.

E de onde isso viera? Ele tomou outro gole da cerveja para dissipar a imagem.

A noite era fresca, a fogueira quente e a praia quase sempre deserta transbordava de pessoas, som e música. Ainda não se sentia preparado para ser parte daquilo. Ficou observando os casais na dança de acasalamento, o fluxo e refluxo de masculino e feminino, tão básico quanto a maré.

E ele pensou nas fotos que Jo lhe mostrara naquela manhã, aqueles fragmentos congelados de solidão. Talvez fosse isso, ele refletiu, que o levara a perceber como se tornara solitário.

— Oi, lindo. — Ginny arriou na areia, ao seu lado. — O que faz sozinho aqui?

—  Procuro pelo significado da vida. Ela vaiou. Jovial.

— Isso é fácil. É viver. — Ela ofereceu-lhe um salsichão que acabara de tirar da fogueira, um pouco queimado. — Coma.

Nathan deu uma mordida. Sentiu o gosto de carvão e areia.

— Hum...

Ginny soltou uma risada. Apertou o joelho dele, num gesto de cordialidade.

— Fazer comida ao ar livre não é um dos meus pontos fortes. Mas posso preparar um sensacional café da manhã, ao melhor estilo sulista, se algum dia... passar por perto da minha casa.

Como uma manobra de sedução, era óbvia e fácil. Lá estava o sorriso de um hectare, um pouco torto agora, da tequila que ela andara bebendo. Nathan não pôde deixar de sorrir.

— É uma oferta muito atraente.

—  Ora, meu bem, não há uma única mulher sozinha na ilha, entre dezesseis e sessenta anos, que não adoraria preparar seu café da manhã. Quero apenas ficar na frente da fila.

Sem saber direito como deveria responder agora, Nathan cocou o queixo.

— Gosto muito de café da manhã, mas...

— Não se preocupe com isso. — Desta vez ela apertou o braço dele, como se testasse e aprovasse o bíceps. — Sabe o que você tem de fazer, Nathan?

— O que é?

— Tem de dançar.

— É mesmo?

— Claro que é. — Ginny levantou-se de um pulo e estendeu a mão. — E dançar comigo. Vamos, lindo, vamos levantar um pouco de areia.

Nathan pegou a mão de Ginny. Descobriu-a tão quente e viva que foi fácil sorrir.

— Esta bem.

Ginny conseguiu pegar o ianque  — comentou Giff, observando-a levar Nathan na direção da areia úmida.

— É o que parece. — Kirby lambeu o marshmallow do polegar. — Ela sabe mesmo como se divertir.

— Não é tão difícil.

Com uma cerveja pendendo entre os dedos, Giff correu os olhos pela praia. Algumas pessoas dançavam ou balançavam, outras se refestelavam em torno da fogueira, ainda outras afastavam-se pela escuridão para ficarem a sós. Crianças corriam e berravam. Os mais velhos sentavam em cadeiras de praia, trocando fofocas e observando os mais jovens.

— Nem todo mundo quer se divertir.

Kirby tornou a lançar um olhar para as dunas, mas não avistou ninguém vindo da direção de Sanctuary.

— Você está com olhos atentos à espera de Brian, enquanto eu aguardo ansioso por Lexy. — Giff passou o braço pelos ombros de Kirby, num gesto cordial. — Por que não dançamos? Podemos ficar de olho juntos.

— É uma boa idéia.

Brian passou sobre as dunas, Lexy de um lado, Jo no outro. Parou lá em cima, contemplando a cena.

— E isso, minhas crianças, tudo isso, será um dia de vocês.

—  Ora, Bri, não seja tão mal-humorado — protestou Lexy, dando-lhe uma cotovelada de leve.

Ela avistou Giff no mesmo instante e sentiu uma pontada de ciúme ao vê-lo nos braços de Kirby para uma dança lenta.

— Estou ansiosa por um siri — disse ela, jovial, começando a descer para a praia.

— Provavelmente poderíamos escapar agora — sugeriu Jo. — Kate ainda está arrastando papai. Seguiríamos para o norte, daríamos a volta e estaríamos em casa antes que ela chegasse aqui.

— Kate nos obrigaria a pagar por isso mais tarde. — Resignado, ele enfiou as mãos nos bolsos traseiros da calça. — Por que acha que somos tão deficientes nas ocasiões sociais, Jo Ellen?

— Temos Hathaways demais.

— E poucos Pendletons — arrematou Brian. — Acho que Lexy ficou com toda a nossa quota.

Ele acenou com a cabeça para o ponto da praia em que a irmã se encontrava, já no meio da agitação, cercada por muitas pessoas, e acrescentou:

— Vamos acabar logo com isso.

Mal haviam alcançado a praia quando Ginny foi correndo até eles. Saudou-os com beijos estalados.

— Por que demoraram tanto? Já estou meio acesa. Nate, vamos pegar uma cerveja para esses dois, a fim de que possam nos alcançar.

Ela virou-se para ir buscar as cervejas, esbarrou em alguém e deu uma risada.

— Ei, Morris, não quer dançar comigo? Vamos embora! Nathan soltou um suspiro.

— Não sei de onde ela tira tanta energia. Quase me deixou esgotado. Querem aquela cerveja?

— Pode deixar que eu vou pegar — disse Brian, afastando-se.

— Gosto dos seus cabelos. — Nathan levantou um dedo para roçar na franja de Jo. — O corte ficou ótimo.

— Foi Lexy quem cortou.

— Está adorável. — Ele passou a mão pelo ombro de Jo, desceu pelo braço, até pegar a mão dela. — Isso é um problema para você?

— Não, eu... Não comece nada comigo, Nathan.

— Tarde demais. — Ele chegou mais perto. — Já comecei. Nathan aspirou a fragrância de Jo, envolvente, intrigante, e murmurou:

— Você está usando perfume.

— Lexy...

— Eu gosto. — Ele inclinou-se e deixou-a atordoada ao farejar seus cabelos, seu pescoço. — E gosto muito.

Jo sentia dificuldade para respirar. Irritada, ela deu um passo para trás.

— Não é por isso que estou usando. — Gosto assim mesmo. Quer dançar?

— Não.

— Ótimo. Também não quero. Vamos sentar perto da fogueira e trocar algumas carícias.

Era tão absurdo que Jo quase riu.

— Vamos apenas sentar perto da fogueira. Se tentar qualquer coisa, pedirei a meu pai que pegue sua arma e acabe com você. E como é um ianque, ninguém vai se importar.

Ele riu e passou o braço pela cintura de Jo. Ignorou a reação, pois já compreendera que ela reagia com um sobressalto instintivo ao ser tocada.

— Está bem, ficaremos sentados quietinhos.

Nathan pegou uma cerveja e um espeto com um salsichão para ela e foi se acomodar ao seu lado.

— Vejo que trouxe a câmera.

Num movimento automático, ela pôs a mão sobre a velha bolsa de couro na cintura.

— Uma questão de hábito. Esperarei um pouco antes de usá-la. Às vezes uma câmera afasta as pessoas... mas depois que tomam bastante cerveja, não se importam tanto.

— Pensei que não tirava retratos.

— Como regra geral, não tiro. — A conversa sempre fazia com que se sentisse pressionada. Ela meteu a mão no bolso para tirar um cigarro. — Você não precisa persuadir os objetos inanimados com lisonja ou bebida para tirar uma foto.

— Só tomei uma cerveja.

Nathan pegou o isqueiro, protegeu-o com a mão em concha contra a brisa que soprava do mar e acendeu o cigarro.

— E você não tentou me persuadir com lisonjas — acrescentou ele. — Mas pode tirar minha foto quando quiser.

Jo estudou-o através da fumaça. Ossos fortes, olhos fortes, boca forte.

— Talvez eu tire. — Ela pegou o isqueiro de volta e guardou-o no bolso. O que veria através da lente? E qual seria sua reação ao que visse?  — É bem possível.

— Você se sentiria constrangida se eu dissesse que estava à sua espera?

Ela fitou-o de novo, mas logo desviou os olhos.

— Ficaria sim... e muito constrangida.

— Então não vou mais tocar no assunto nem dizer que a observei parar lá em cima, entre as dunas, e pensei: lá está ela. Por que demorou tanto?

Jo ajeitou o espeto entre os joelhos, a fim de liberar a mão para a cerveja. Podia sentir as palmas úmidas com o nervosismo.

— Não demorei tanto assim. A fogueira não está acesa há mais de uma hora.

— Não estou falando desta noite. E acho que também não deveria mencionar que sinto uma profunda atração por você.

— Não creio...

— Portanto, falaremos sobre outra coisa.

Ele sorriu para Jo, deliciado com a expressão aturdida em seus olhos, a boca adorável um pouco contraída.

—  Há muitos rostos para estudar por aqui — acrescentou Nathan. — Você poderia fazer outro livro só com isso. Os rostos de Desire.

Ele mudou de posição. Os joelhos esbarraram. Jo fitou-o, surpresa com a suavidade de suas insinuações. E com certeza era só isso, apenas insinuações. Qualquer homem podia fazer com que o coração de uma mulher disparasse com algumas palavras sugestivas e um sorriso que continha muitas insinuações.

— Ainda não acabei o livro para o qual fui contratada, muito menos pensei em outro.

— Mas acabará pensando, mais cedo ou mais tarde. Tem muito talento e ambição para não pensar sobre isso. Mas, por enquanto, por que não satisfaz minha curiosidade e me fala sobre essas pessoas?

— Quem o deixa curioso?

— Todos. E qualquer um.

Jo virou o espeto em cima das chamas, observou ,a gordura subir e borbulhar.

— Aquele é o Sr. Brodie... o velho com o boné branco e o bebê no colo. Deve ser o seu bisneto, o quarto pelas minhas contas. Seus pais foram criados em Sanctuary, no início do século XX. Ele nasceu em Desire, foi criado aqui.

— E cresceu na casa?

— Passava muito tempo ali, mas sua família ganhou um chalé e um pedaço de terra, por seus serviços longos e leais. Ele lutou na Segunda Guerra Mundial, como artilheiro. Trouxe a esposa de Paris. Ela se chamava Marie Louise e viveu aqui com ele até morrer, há três anos. Tiveram quatro filhos, dez netos e até agora quatro bisnetos. Ele sempre anda com dropes de hortelã no bolso. — Ela virou o rosto para Nathan. — Era isso o que queria saber?

— Era exatamente isso. — Ele se perguntou se Jo sabia que sua voz se animara ao contar a história. — Escolha outra pessoa.

Jo suspirou. Achava que aquilo era uma tolice. Mas pelo menos não a deixava nervosa.

— Aquela é Lida Verdon, minha prima pelo lado Pendleton. É a mulher grávida e com cara de cansada que está ralhando com a criança de dois ou três anos. É seu terceiro filho em quatro anos.   O marido, Wally, é bonito como seis demônios... e não presta. É motorista de caminhão e se ausenta em longas viagens. Ganha muito bem, mas Lida não vê a cor do dinheiro.

Uma criança passou correndo, com gritos de alegria, o pai indulgente em seu encalço de brincadeira. Jo apagou o cigarro na areia e enterrou-o.

— Quando Wally está em casa, passa a maior parte do tempo de porre ou bebendo para ficar. Ela já o expulsou de casa duas vezes, mas aceitou-o de volta. E tem um bebê ainda aprendendo a andar e outro de colo como provas das reconciliações. Somos da mesma idade, Lida e eu, nascemos com apenas dois meses de diferença. Tirei fotos cm seu casamento. Ela aparece linda, feliz e jovem nas fotos, Agora, quatro anos depois, está acabada. Nem tudo em Desire é um conto de fadas.

— Sei disso. — Nathan passou o braço pelos ombros de Jo. — Nem tudo é conto de fadas em qualquer lugar. Fale-me sobre Ginny.

— Ginny? — Com uma risada rápida, Jo correu os olhos pela praia. — Não é preciso dizer qualquer coisa sobre Ginny. Basta olhar para ela. Está vendo como ela faz Brian rir? Ele quase nunca ri assim. Só Ginny consegue levá-lo a esse ponto.

— Você cresceu com ela.

— Isso mesmo. Quase como irmãs, embora ela seja mais ligada a Lexy. Ginny foi sempre a primeira de nós a experimentar qualquer coisa, especialmente se fosse proibida. Mas nunca havia qualquer mal nisso, ou nela. E apenas uma questão de Ginny gostar de tudo, e gostar muito. E também... ei, aposto que foi ela quem provocou aquilo!

Ele estava absorvido demais a contemplar Jo para notar. Tudo nela se animara e relaxara.

— O que aconteceu?

— Está vendo ali? —Jo recostou-se no braço de Nathan e apontou para a beira da água. — Lex e Giff estão brigando. Os dois vivem às turras desde que usavam fraldas. Ginny gosta de ambos e provavelmente fez alguma coisa para que eles brigassem esta noite.

— Ela queria que os dois brigassem?

—  Não, seu cabeça de minhoca. — Jo tirou o salsichão da fogueira, rindo. Enfiou o espeto na areia. — Ela quer que os dois façam as pazes.

Nathan pensou um pouco a respeito. Franziu o rosto quando Giff suspendeu Lexy e carregou-a pela praia — ela esperneando e xingando — ao melhor estilo de Rhett Butler.

— Se isso dá certo, terei de conversar com Ginny para que provoque uma briga entre nós.

— Sou muito mais difícil de conquistar do que minha irmã — Comentou Jo, secamente.

— Pode ser. — Nathan tirou o salsichão do espeto e jogou-o de uma mão para outra, a fim de fazê-lo esfriar. — Mas pelo menos já consegui fazer com que você cozinhasse para mim.

 

APESAR DE A MULHER ESTAR SE DEBATENDO EM SEUS BRAÇOS, GIFF manteve um ritmo firme, até que a fogueira se tornou um brilho tênue a distância.   Convencido de que tinham tanta privacidade quanto podiam conseguir, ele pôs Lexy no chão.

— Quem você pensa que é? — gritou ela, empurrando-o com as duas mãos.

— A mesma pessoa que sempre fui — disse ele, calmamente. — É tempo de você dar uma boa olhada.

— Já olhei para você antes e não vi alguém que tivesse o direito de me carregar quando eu não queria. — Por mais emocionante que seja, ela disse a si mesma. Por mais romântico que seja. — Eu estava apenas conversando.

— Não estava não.  Flertava com aquele cara só para me irritar.  E desta vez conseguiu.

— Apenas me mostrei polida e cordial com um homem a quem Ginny me apresentou. Um homem atraente de Charleston. Um advogado que veio passar alguns dias na ilha, acampando com amigos.

— Um advogado de Charleston que estava prestes a babar em seu ombro. — Os olhos normalmente suaves de Giff pareciam cuspir fogo agora. — Você teve tempo para fazer o que queria, Lexy, e eu não me intrometi. Mas, agora que voltou, é tempo de crescer.

— Crescer? — Ela pôs as mãos nos quadris, ignorando a água que espumava na areia, a poucos centímetros de seus pés. — Já sou crescida e você é apenas um dos muitos que ainda não tiveram o bom senso de percebê-lo. Faço o que eu quero, quando eu quero e com quem eu quero.

Ela virou-se e começou a se afastar, o nariz empinado. Giff coçou o queixo e disse a si mesmo que não deveria ter perdido o controle, mesmo que Lexy tivesse se engraçado com um advogado de Charleston. Mas o dano já fora causado.

Ele se moveu depressa. Quando Lexy ouviu-o se aproximar e virou se, só teve tempo de gritar antes que ele a derrubasse:

— Estragou minha saia, seu idiota de cérebro de minhoca! — Furiosa agora, Lexy usou os cotovelos, joelhos, dentes, rolando com ele pela areia, enquanto as ondas os cobriam e encharcavam. — Eu odeio você! Odeio tudo em você, Giff Verdon!

— Não, Lexy, sei que não me odeia. Você me ama.

— Pode me puxar o saco, beijar meu rabo em súplica, que isso nunca vai acontecer!

— Terei o maior prazer, querida. — Ele imobilizou os braços de Lexy e ergueu-se por cima dela com um sorriso. — Mas acho que é bom começar de cima.

Giff baixou a cabeça. Quando Lexy virou o rosto de lado, ele roçou os lábios sobre a pele logo abaixo da orelha.

— E este é um bom lugar para começar.

Tremores percorriam o corpo de Lexy, que parecia se derreter de tão quente.

— Eu odeio você! Já disse que odeio você!

—  Sei o que disse. — Ele foi descendo pelo pescoço de Lexy, devagar, mordiscando, emocionado com a maneira pela qual aquele corpo de mulher se tornava inerte, por baixo do seu. — Pode me beijar, Lexy.

Com um soluço, ela virou o rosto. As bocas se encontraram.

— Aperte-me, Giff. E me acaricie. Ah, como eu odeio você por me fazer desejá-lo!

— Conheço o sentimento. — Giff acariciou os cabelos, o rosto, enquanto ela murmurava e ficava tensa. — Não se preocupe. Eu nunca a machucaria.

Desesperada, Lexy agarrou-o pelos cabelos e puxou com força.

—  Dentro de mim. Preciso de você dentro de mim. Estou tão vazia...

Ela ergueu o corpo, gemendo. Giff estendeu a mão para um seio. Um instante depois, cedendo à sua fome, puxou a blusa, para poder beijá-lo.

O gosto de Lexy, quente, úmida, pungente, expalhou-se por seu sangue como uíique.  Queria ser lento e terno, mas esperara durante toda a sua vida por aquilo. E ela se mexia ansiosa por baixo, as mãos o puxando, apertando, acariciando. Quando a beijou na boca, Giff não pôde mais pensar. Mal conseguia respirar. Era tudo gosto e som. Ele ofegava enquanto tentava arrancar a saia molhada. Puxou o tecido fino e grudado no corpo, até que a mão pôde deslizar pela coxa, até que a encontrou, já úmida. Ela comprimiu-se contra sua mão e gozou, antes que ele pudesse fazer mais do que gemer.

— Jesus, Lexy...

— Agora, Giff! Eu o matarei se você parar! Juro que matarei!

— Não vai precisar... — ele conseguiu balbuciar. — Eu já estaria morto. Tire logo essas roupas.

Ele puxou a saia com uma das mãos, os próprios jeans com a outra.

— Pelo amor de Deus, Lexy, ajude-me!

— Estou tentando! — Ela ria agora, presa numa saia encharcada, ainda voando no orgasmo rápido e intenso, o sangue latejando tão alto que mal podia ouvir o barulho do mar. — Eu me sinto inebriada. Eu me sinto maravilhosa. Depressa!

— Ora, que se dane!

Ele jogou seus jeans para o lado, arrancou a própria camisa e jogou-a para longe na água. Deu um puxão na saia.

— Mas o que está fazendo? A saia é nova!

— Comprarei outra. Comprarei uma dúzia. Mas, pelo amor de Deus, deixe-me penetrá-la logo de uma vez!

Ele arrancou a saia pela cintura elástica e penetrou-a quase antes mesmo que Lexy pudesse se livrar por completo.

Ela gritou em choque e prazer. Passou as pernas em torno de Giff, cravou os dedos em seus ombros e observou seu rosto. Olhos escuros, nunca se desviando dos seus, vendo-a apenas.

Quando a onda a encobriu, por dentro e por fora, Lexy comprimiu-se contra ele. Sabia que Giff sempre a traria de volta.

— Eu amo você... — murmurou ele, enquanto seu corpo se precipitava para o orgasmo. — Eu amo você Lexy.

Giff se largou. Estremeceu junto com ela, até que os dois corpos ficaram completamente inertes. Depois, ele abraçou-a com firmeza e deixou que as ondas os empurrassem de um lado para outro. Fora perfeito, pensou, livre, simples e certo. Como sempre tivera certeza que seria.

— Ei, vocês!

Giff olhou, indolente. Avistou uma figura na praia, acenando com os dois braços. Soltou uma risada e comprimiu os lábios contra os cabelos de Lexy.

— Oi, Ginny.

— Vi algumas roupas espalhadas por aí que pareciam familiares. Vocês estão nus?

— É o que parece. Ele sorriu, sentindo o tremor da risada de Lexy.

— Ginny, ele afogou minha saia.

— Já não era sem tempo.  — Ginny soprou beijos efusivos para os dois. — Vou dar uma volta. Para desanuviar a cabeça.  Lexy, Miz Kate trouxe seu pai para a festa. Ele está sentado junto da fogueira. Se eu fosse vocês, não me esqueceria de arrumar alguma coisa para vestir antes de voltar.

A cambalear mais do que um pouco, sem parar de rir para si mesma, Ginny foi andando pela praia. Sentia-se feliz em seu coração ao ver os dois juntos daquele jeito. Afinal, o pobre Giff vinha sonhando com ela há anos, enquanto Lexy... ora, Lexy se limitava a correr atrás do próprio rabo, à espera de que Giff a alcançasse.

Ginny teve de parar por um momento e esperar que a cabeça girando tornasse a assentar sobre os ombros. Deveria ter evitado as doses puras de tequila, disse a si mesma. Mas, por outro lado, a vida era muito curta para se evitar as coisas.

Um dia ela encontraria o homem certo para segurá-la. E até que isso acontecesse, iria se divertir muito a procurá-lo.

Como se ela tivesse conjurado, um homem atravessou a areia em sua direção.  Ginny alteou um quadril, ofereceu um sorriso.

— Oi, lindo. O que está fazendo por aqui sozinho?

— Estava à sua procura, linda. Ela sacudiu os cabelos para trás.

— Não é uma coincidência?

— Nem tanto. Prefiro pensar como destino.

Ele estendeu a mão. Ginny apertou-a, pensando que era sua noite de sorte.

Apenas embriagada o suficiente para tornar tudo mais fácil, pensou ele, enquanto a levava para a escuridão. E sóbria o suficiente para fazer com que fosse... divertido.

 

Pela primeira vez em semanas, Jo acordou descansada e com apetite. Sentia-se calma e controlada, refletiu, quase feliz. Kate tinha razão, decidiu Jo, enquanto passava os dedos pelos cabelos, como se fossem uma escova. Precisara da noite fora, o companheirismo, a música, a distração. E não fazia mal nenhum passar algumas horas na companhia de um homem que aparentemente a achava atraente. Na verdade, Jo começava a pensar que não faria mal nenhum passar um pouco mais de tempo em companhia de Nathan.

Ela passou pelo laboratório. Por uma vez, não pensou no envelope com fotos que escondera no fundo de uma gaveta do arquivo. Por uma vez, não pensou em Annabelle.

Em voz disso, pensou em descer outra vez até o rio, na possibilidade de esbarrar com Nathan. Por acaso. Estava ficando tão terrível quanto Ginny, concluiu ela com uma risada. A tramar maneiras de fazer um homem notá-la.. Mas se dava certo para Ginny, talvez desse certo para elo também. O que havia de errado em flertar um pouco com  um homem que a interessava? Que a deixava excitada?

Pronto. Jo parou na escada, bastante curiosa para avaliar a situação. Não era tão difícil assim admitir que ele a excitava... pela atenção dispensada, a maneira descontraída com que pegava sua mão, a maneira deliberada com que a fitava nos olhos. A maneira calma e confiante com que a beijara. Apenas se inclinara, recordou Jo, provara, aprovara e recuara. Como se soubesse que haveria muitas oportunidades para mais, no tempo e lugar que ele escolhesse.

Deveria tê-la enfurecido, pensou Jo. A clamorosa arrogância masculina. E, no entanto, ela descobrira que a atraíra, no mais primitivo dos níveis. Especulou como seria seu desempenho no jogo do amor e se demonstraria alguma habilidade.

Ela sorriu e continuou a descer. Tinha o pressentimento de que poderia surpreender Nathan Delaney. E a si mesma.

— Eu bem que poderia ir, Sam, mas tenho uma saída de hóspedes esta manhã. — Kate olhou quando Jo entrou na cozinha. Passou a mão pelos cabelos e ofereceu um sorriso distraído. — Bom-dia, querida. Levantou cedo.

— Todo mundo, ao que parece.

Jo olhou para o pai ao se encaminhar para o bule de café. Ele estava parado na porta, com metade do corpo fora. O desejo de escapar era óbvio.

— Algum problema? — perguntou ela, jovial.

— Um pequeno problema. Temos alguns campistas chegando na barca da manhã e outros partindo na volta da barca. Acabo de receber um telefonema de uma família que já arrumou tudo e está pronta para ir embora, mas não há ninguém para acertar as contas.

— Ginny não está no escritório?

— Ela não atende ao telefone ali, nem em sua casa. Imagino que dormiu demais. — Kate sorriu com um ar de cansaço. — Em algum lugar, tenho certeza de que prolongou a festa até tarde.

— A festa ainda estava animada quando fui embora, por volta de meia-noite.

Jo tomou um gole do café, o rosto franzido na tentativa de recordar se vira Ginny por perto antes de ir embora.

—  Se ela tivesse uma noite de sono decente, em sua própria cama, não teria qualquer dificuldade para se apresentar no trabalho — resmungou Sam.

— Você sabe muito bem que Ginny não costuma fazer isso, Sam. Ela é tão confiável quanto o nascer do sol. — O rosto franzido em preocupação, Kate olhou para o relógio. — Talvez ela esteja passando mal.

— Ou seja, de ressaca.

— Como acontece com alguns seres humanos em vários momentos de suas vidas — protestou Kate, em tom brusco. — Mas isso não é relevante. O problema é que temos pessoas saindo do camping e outras chegando. Não posso sair daqui esta manhã. E mesmo que eu pudesse, não sei nada sobre armar barracas e banheiros portáteis. Você terá de abrir mão de duas horas de seu tempo precioso para cuidar disso.

Sam piscou, aturdido. Era raro Kate assumir aquele tom mordaz com ele. E parecia que vinha ouvindo com bastante freqüência ultimamente. Porque queria paz mais do que qualquer outra coisa, Sam deu de ombros.

— Irei até lá.

— Jo irá com você — disse Kate, abruptamente, o que fez com que os dois a fitassem, surpresos. — Você pode precisar de ajuda.

Ela passou a falar depressa, a decisão tomada. Se pudesse forçá-los à companhia um do outro durante a manhã, talvez mantivessem uma conversa de verdade.

— Jo, você pode aproveitar a ida ao camping para verificar como está Ginny. Talvez seu telefone não esteja funcionando, ou ela tenha passado mal. Deixarei para me preocupar a respeito até que você faça contato.

Jo transferiu a câmera para o outro ombro, vendo seus planos para a manhã se dissiparem.

—  Está bem.

Avisem-me depois que tudo for resolvido. — Kate afugentou-os pela porta afora. — E não se preocupe com a arrumação da casa. Lexy e eu daremos um jeito.

Como os dois estavam de costas, Kate deu um sorriso largo e esfregou as mãos. Pronto, pensou ela. Agora vocês têm de tratar um com o outro.

Jo sentou no banco do passageiro da velha Blazer do pai e prendeu o cinto de segurança. O veículo tinha o cheiro do pai.   Areia, mar e floresta. O motor pegou sem dificuldade, com um ronco suave. Sam nunca deixara que qualquer coisa sua sofresse por negligência, pensou ela.    Exceto os filhos.

Irritada consigo mesma, Jo tirou os óculos escuros do bolso da frente da túnica e ajeitou no rosto.

— Foi uma boa festa ontem à noite — murmurou Jo.

— Preciso verificar se aquele garoto cuidou da praia.

O garoto era Giff, Jo sabia; e ambos sabiam que Giff não deixaria um único invólucro de comida para desfigurar a areia.

— A pousada parece que está bem. Tem muitos hóspedes para esta época do ano.

— Propaganda — disse Sam, lacônico. — Kate cuida disso.

Jo teve de fazer um esforço para não deixar escapar um suspiro.

— Eu diria que a divulgação boca a boca também é forte. E o restaurante é uma atração com a comida de Brian.

Sam limitou-se a soltar um grunhido. Nunca poderia compreender, em toda a sua vida, como um homem era capaz de se amarrar a um fogão. Não que entendesse as filhas melhor do que compreendia o filho. Uma delas viajava para Nova York, querendo ser famosa por lavar os cabelos em comerciais de TV, enquanto a outra viajava por toda parte para tirar fotos. Havia ocasiões em que que pensava que o maior enigma do mundo era como os filhos podiam ter saído dele.

Mas não podia esquecer que eram também filhos de Annabelle.

Jo deu de ombros e desistiu. Baixou a janela e deixou que o ar acariciasse seu rosto. Ficou escutando o barulho dos pneus na estrada e os sons no labirinto de mato que abrigava a vida à beira do pântano.

—  Pare!

Sem pensar, ela estendeu a mão para tocar no braço de Sam. Quando ele freou, Jo apressou-se em saltar, deixando o pai a observá-la com o rosto franzido.

Ai, numa elevação, uma tartaruga tomava sol, a cabeça erguida, de tal forma que os lindos padrões do pescoço refletiam-se com perfeição na água escura. O animal não lhe prestou qualquer atenção quando ela se agachou para bater a foto.

Depois houve um farfalhar e a tartaruga recolheu a cabeça, com um estalo súbito. Jo prendeu a respiração quando uma garça alçou vôo, como um fantasma todo branco, numa elevação quase vertical, sem qualquer esforço. Um momento depois, a garça abriu as asas, agitando o ar. Voou sobre a sucessão de pequenas lagoas e ilhotas, até mergulhar além das árvores.

— Eu costumava imaginar como seria fazer isso, voar pelo céu como magia, ouvindo apenas o som das asas batendo no ar.

— Lembro que você sempre gostou mais das aves — comentou Sam, por trás dela. — Mas não sabia que pensava em voar.

Jo sorriu.

—  Eu sempre imaginava. Mamãe me contou a história da Princesa Cisne, a linda jovem transformada em cisne por um feiticeiro. Sempre achei que era a melhor de todas.

— Ela conhecia uma porção de histórias.

— É verdade.

Jo virou-se e examinou o rosto do pai. Ainda o angustiava, ela especulou, lembrar a esposa? Doeria menos se ela pudesse lhe dizer que achava que Annabelle havia morrido?

— Eu gostaria de poder lembrar todas aquelas histórias — murmurou ela.

E desejava também poder se lembrar da mãe com bastante nitidez para saber o que fazer. Jo respirou fundo, para se controlar.

—  Papai, alguma vez ela o avisou para onde foi ou explicou por que partiu?

— Não.  — 0 calor que surgira em seus ollios, enquanto observava o vôo da garça com Jo, deu lugar ao gelo. — Não precisava. Não estava aqui e foi embora porque quis. Agora, precisamos ir para o camping.

Ele virou-se e voltou para a Blazer. Seguiram em silêncio pelo resto do caminho.

 

JO  TRABALHARA  NO  CAMPING  DURANTE  A  JUVENTUDE.  APRENdendo tudo sobre o empreendimento da família, como dizia Kate. O procedimento pouco mudara ao longo dos anos. O mapa grande pregado na parede do pequeno escritório detalhava os locais de acampamento, as trilhas, as instalações sanitárias. Os alfinetes de cabeça azul estavam espetados nos pontos já ocupados, os vermelhos nos locais reservados, enquanto os verdes indicavam os que haviam sido desocupados. Os pontos verdes precisavam ser verificados.

Os banheiros e chuveiros também eram examinados, duas vezes por dia, lavados, e os suprimentos, renovados. Como era improvável que Ginny tivesse feito qualquer coisa ali desde o luau, Jo resignou-se ao trabalho de faxineira.

— Pode deixar que eu cuido dos banheiros — disse ela a Sam, enquanto ele preenchia os documentos necessários para que um grupo de impacientes campistas fosse embora. — Depois, irei até a cabana de Ginny para descobrir o que aconteceu.

— Vá primeiro à cabana — disse Sam, sem levantar os olhos. — Cuidar dos banheiros é trabalho dela.

—  Está bem. Não devo demorar mais de uma hora. Virei encontrá-lo aqui.

Jo seguiu a trilha para leste. Se fosse uma garça, pensou ela, com um pequeno sorriso, estaria batendo na porta de Ginny num piscar de olhos. Mas pelas voltas que a trilha dava, esgueirando-se entre as pequenas lagoas e contornando o mato alto, era uma caminhada de quase meio quilômetro.

Ela passou por uma área de acampamento com uma barraca ainda fechada. Era evidente que as pessoas ali não eram madrugadors. Um par de guaxinins correu pela trilha. Os dois animais olharam para ela com expressões astutas e continuaram em sua busca pela primeira refeição.

A cabana de Ginny era uma pequena caixa de cedro, espremida entre as árvores. Era animada por dois enormes vasos vermelhos, cheios de flores de plástico, nas cores mais exuberantes. Estavam nos lados da porta, guardados por um velho par de flamingos rosa. Ginny gostava de dizer que adorava as flores e os animais, mas a variedade de plástico era a mais conveniente.

Jo bateu na porta uma vez, esperou um instante e depois entrou. A única sala da cabana tinha menos de dez metros quadrados, com a área da cozinha separada da área de estar por um balcão estreito. A falta de espaço não impedia Ginny de colecionar coisas. Havia bugigangas em todas as superfícies lisas. Globos cheios de água, cinzeiros de suvenir, mulheres de porcelana em vestidos ornamentados, poodles de cristal.

As paredes eram pintadas com um rosa brilhante e cobertas por gravuras de mau gosto... naturezas-mortas na maior parte, de flores e frutas. Jo ficou ao mesmo tempo comovida e surpresa ao ver uma de suas fotos em preto-e-branco, no meio das gravuras. Era uma foto simples, de Ginny dormindo numa rede de cordas em Sanctuary, tirada quando eram adolescentes. Jo sorriu ao se virar para o quarto.

— Ginny, se você não está sozinha aí, trate de se cobrir porque vou entrar.

Mas não havia ninguém no quarto. A cama continuava desarrumada; e tanto a cama quanto boa parte do chão estavam cobertas de roupas. A julgar pelas aparências, refletiu Jo, Ginny tivera a maior dificuldade ao escolher a roupa certa para o luau.

Ela deu uma olhada no banheiro, só para ter certeza de que a cabana estava mesmo vazia. A prateleira de plástico, por cima da pequena pia de pedestal, tinha uma porção de cosméticos. Ainda havia uma camada de pó-de-arroz na pia. Três vidros de xampu se destacavam na beira da banheira, um deles ainda lacrado. Uma boneca sorria do alto da caixa de água do vaso sanitário, uma peça de crochê branco e rosa cobrindo um rolo extra de papel higiênico.

Era típico de Ginny.

— Na cama de quem você foi dormir esta noite, Ginny? — murmurou Jo.

Com um pequeno suspiro, ela deixou a cabana, pronta para limpar os banheiros coletivos.

Ao chegar ali, Jo tirou as chaves da bolsa para abrir o pequeno depósito. Lá dentro o material de limpeza e os suprimentos para os banheiros estavam arrumados em perfeita ordem. Era sempre uma surpresa constatar como Ginny podia ser disciplinada no trabalho, quando o resto de sua vida parecia ser tão imprevisível, até uma confusão cômica.

Armada com esfregão e balde, detergentes e desinfetantes, panos de chão e luvas de borracha, Jo entrou primeiro no banheiro feminino. Uma mulher de cinqüenta anos escovava os dentes numa das pias. Jo ofereceu-lhe um sorriso distraído e começou a encher o balde. A mulher enxaguou a boca, cuspiu.

— Onde está Ginny?

— Hum... — Jo piscou contra os vapores fortes do desinfetante borbulhando no balde. —Ao que tudo indica, figura entre os desaparecidos.

— Excessos de festa. — A mulher soltou uma risada jovial. — Meu marido e eu adoramos... tanto que levantamos tarde esta manhã.

— É para isso que as férias servem, diversão e acordar tarde.

— Mas é difícil convencê-lo da segunda parte. — A mulher tirou um pequeno tubo da bolsa de viagem, esguichou a loção hidratante nas pontas dos dedos e começou a espalhar pelo rosto. — Dick é obsessivo com horários. E estamos quase uma hora atrasados para a nossa caminhada matutina.

— A ilha não vai a lugar nenhum.

— Diga isso a Dick. — Ela riu de novo, para depois cumprimentar uma jovem e uma menina em torno de três anos que entraram no banheiro.  — Bom-dia, Meg. E como está a linda Lisa hoje?

A menina correu para a mulher e começou a cnversar.

Jo usou as vozes como música de fundo, enquanto limpava o banheiro. A mulher mais velha era Joan e parecia que ela e Dick ocupavam a área de acampamento ao lado da área de Meg e o marido, Mick. Haviam consolidado, nos dois últimos dias, aquela amizade estranhamente íntima de pessoas em férias. Combinaram um jantar de peixe frito e depois Meg entrou num dos boxes de chuveiro com a menina.

Jo ouviu a água cair e a voz da criança ecoar, enquanto limpava o chão. Refletiu que era isso que Ginny apreciava, colecionar os pequenos fragmentos da vida de outras pessoas. Mas Ginny também era capaz de se integrar, de participar com as outras. As pessoas lembravam-se dela. Tiravam fotos com ela e a incluíam em seus álbuns de família. Chamavam-na pelo nome e os visitantes pela segunda vez ou mais sempre perguntavam por Ginny.

Porque ela não se escondia das coisas, pensou Jo, apoiando-se no esfregão. Porque não desaparecia em segundo plano. Era muito parecida com suas flores de plástico de cores brilhantes. Alegre e ousada.

Talvez fosse tempo de ela própria se adiantar alguns passos, pensou Jo. Sair do segundo plano. Ficar sob a luz dos refletores.

Ela recolheu o material de limpeza e deixou o banheiro das mulheres. Contornou o prédio para a porta do banheiro dos homens. Usou primeiro o lado do punho cerrado para bater na porta, três batidas firmes. Esperou alguns segundos e repetiu. Com um pequeno tremor, abriu a porta e gritou:

— Hora da limpeza! Tem alguém aí?

Anos antes, quando ajudava Ginny, Jo entrara no banheiro dos homens para deparar com um idoso enrolado numa toalha de rosto. O velho deixara o aparelho de audição na barraca. Ela não queria repetir a experiência. Não ouviu nada lá dentro... nenhum som de água correndo, nenhuma indicação de mictório ou vaso sendo usado. Mesmo assim, fez o máximo de barulho ao entrar.

Como precaução final, deixou a porta aberta e pendurou a plena vista o cartaz que dizia FAZENDO LIMPEZA EM SEU BANHEIRO.

Satisfeita, levou o balde até uma pia e despejou o desinfetante. Vinte minutos, trinta no máximo, ela disse a si mesma, e teria acabado. Para passar o tempo, ela começou a planejar o resto de seu dia.

Pensou em pegar o carro e ir até a praia do norte. Havia ali ruínas de uma antiga missão espanhola, construída no século XVI e abandonada no XVII. Os espanhóis não tiveram muita sorte na conversão dos índios ao cristianismo, e o povoado que fora planejado, como os historiadores desconfiavam, nunca chegara a ser concretizado.

Era um dia agradável para ir até lá. A luz seria excelente, no meio da manhã, para fotografar as ruínas e os terraços de conchas deixados pelos índios. Ela especulou se Nathan não gostaria de acompanhá-la. Um arquiteto não se interessaria pelas ruínas de uma antiga missão espanhola? Ela pediria a Brian para preparar um almoço de piquenique e passariam algumas horas entre os fantasmas de monges espanhóis.

Jo teve de se perguntar: a quem queria enganar? Não estava nem um pouco interessada nos monges ou nas ruínas. Era o piquenique que ela queria, a tarde sem qualquer responsabilidade, sem compromissos, sem prazos para cumprir. Era Nathan que ela queria. Empertigou-se e comprimiu a mão contra a barriga, sentindo uma agitação rápida. Queria algum tempo a sós com ele, talvez como um teste para os dois. Para descobrir o que aconteceria se por acaso tivesse a coragem de se soltar. De ficar com ele. De ser Jo.

E por que não?, pensou ela. Iria até o chalé de Nathan quando voltasse. Como uma visita casual. Improvisada. Sem qualquer planejamento. O que tivesse de acontecer, aconteceria.

Quando as luzes apagaram, ela soltou um grito e derramou água nos pés. Virou-se, o esfregão levantado, como uma lança, e ouviu o barulho da pesada porta sendo fechada.

— Olá? —O som da própria voz, tênue e trêmula, fez com que estremecesse.      — Quem está aí?

À claridade mínima que entrava pela única janela do banheiro, no alto da parede, de vidro fosco, Jo encaminhou-se para a porta,  que resistiu ao primeiro empurrão. O pânico surgiu do nada, atacando-a pela garganta. Empurrou a porta de novo, depois bateu. Virou-se abruptamente, o coração trovejando nos ouvidos. Tinha certeza de que alguém entrara no banheiro e se postava atrás dela.

Não viu nada... apenas as baias vazias, o brilho opaco do chão molhado. E só podia ouvir a própria respiração,  acelerada. Ainda assim, encostou-se na porta, apavorada demais para virar as costas ao banheiro. Os olhos deslocavam-se para a esquerda e a direita, à procura de qualquer movimento nas sombras.

O suor começou a escorrer pelas costas, o suor frio do pânico.   Não conseguia sorver ar suficiente, por mais que tentasse. Parte de sua mente manteve-se firme, procurando orientá-la: Você conhece os sinais, Jo Ellen, não deixe que prevaleçam, não se deixe vencer. Se tiver um colapso, voltará para o hospital. Trate de se controlar. De qualquer maneira.

Ela comprimiu a mão contra a boca, a fim de reprimir os gritos, mas saíram assim mesmo, em lamúrias. Podia sentir que começava a perder o controle, o terror a pressioná-la, implacável, até que virou o rosto para a porta e bateu, com a palma, sem muita força.

—  Por favor, por favor, deixe-me sair. Não me deixe sozinha aqui dentro.

Jo ouviu o barulho de passos na trilha e abriu a boca para gritar. Foi nesse instante que o medo se tornou monstruoso, empurrando-a para trás, a cambalear. Os olhos estavam arregalados e fixos na porta, a pulsação batia dolorosa contra a pele. Ela ouviu um rangido e uma imprecação. Virou-se de novo, atordoada, ficou ofuscada quando a porta foi aberta e o sol brilhante entrou no banheiro.

Viu a silhueta de um homem. Os joelhos bambos, estendeu o cabo do esfregão, como se fosse uma espada.

— Não chegue perto de mim!

— Jo Ellen? O que aconteceu?

— Papai?

O esfregão caiu no chão com um estrépito.  Ela quase caiu também, mas o pai estendeu as mãos para segurá-la e levantá-la.

— O que aconteceu aqui?

— Não consegui sair. Não podia. Ele me vigiava. E eu não tinha como escapar.

No momento, Sam sabia apenas que a filha estava pálida como a morte, tremendo tanto que quase se podiam ouvir os ossos chocalharem. Por instinto, pegou-a nos braços e levou-a para o sol.

— Está tudo certo agora, meu bombom. Não precisa mais se preocupar com nada.

Era uma antiga palavra de carinho que ambos haviam esquecido. Jo comprimiu o rosto contra o ombro do pai. Continuou a apertá-lo com força quando ele sentou num banco de pedra, mantendo-a em seu colo.

Ela era muito pequena e retraída, pensou Sam, surpreso. Como era possível, já que sempre parecia tão alta e competente? Sempre que tinha pesadelos, quando era criança, ela aninhava-se em seu colo daquela maneira, recordou Sam. Sempre o procurava ao sentir medo em seus sonhos.

— Não tenha medo. Não precisa mais ter medo de nada.

— Eu não conseguia sair.

—  Sei disso. Alguém prendeu a porta com um pedaço de madeira. Crianças, só isso. Uma brincadeira de mau gosto.

— Crianças... — Jo estremeceu, apertando-se contra o pai. — Crianças numa brincadeira de mau gosto... É isso mesmo. Apagaram a luz e me trancaram lá dentro. Entrei em pânico.

Ela manteve os olhos fechados por mais um momento, enquanto se concentrava em fazer a respiração voltar ao normal.

— Nem mesmo tive o bom senso de fazê-los parar com a brincadeira. Simplesmente não pude mais pensar.

— Levou um susto. Não costumava se assustar com tanta facilidade.

— Tem razão. Não costumava me assustar desse jeito. Jo abriu os olhos agora.

— Houve um tempo em que você derrubaria aquela porta e arrancaria o couro de quem fez a brincadeira.

Isso quase a fez sorrir, a imagem dela que o pai tinha em sua memória.

— É mesmo?

— Sempre teve uma veia impetuosa. — Porque ela havia parado de tremer e era agora uma mulher adulta, não mais a criança que ele outrora confortava, Sam afagou seu ombro, contrafeito. —Acho que você amoleceu um pouco.

— Mais do que um pouco.

— Não sei não. Cheguei a pensar por um momento que você ia me espetar com aquele esfregão. Quem a vigiava?

— Como?

— Você disse que ele a vigiava. A quem se referia?

As fotos, pensou ela. Seu próprio rosto. O rosto de Annabelle. Jo apressou-se em sacudir a cabeça e mudar de posição. Não agora, foi tudo o que ela pôde pensar. Ainda não.

— Eu estava apenas dizendo besteiras, de tão apavorada. Desculpe.

— Não precisa se desculpar. Ainda está branca como um lençol. Vamos voltar para casa.

— Deixei todas as coisas lá dentro.

— Pode deixar que eu cuido disso. Fique sentada aqui até sentir as pernas firmes de novo.

— Está bem.

Mas quando Sam começou a se levantar, ela segurou-o pela mão.

— Papai... obrigada por afugentar os monstros.

Ele olhou para as mãos juntas. A mão de Jo era fina e branca... a mão da mãe, pensou Sam, com uma tristeza insuportável. Mas fitou aquele rosto e viu a filha. E porque se sentiu subitamente embaraçado, largou a mão de Jo e deu um passo para trás.

—  Guardarei tudo e depois voltaremos para casa. Provavelmente você precisa comer alguma coisa.

Não é isso, pensou Jo, enquanto ele se afastava.  Precisava do pai. E até aquelemomento não imaginara quanto precisava.

 

Jo não tinha mais qualquer disposição para um piquenique. Sentia o estômago embrulhado só de pensar em comida. Sairia sozinha, decidiu. Iria até o pântano de água salgada ou desceria até a praia. Se tivesse energia suficiente, poderia se apressar e pegar a barca da manhã para o continente. E poderia se perder entre as multidões em Savannah por algumas horas.

Ela lavou o rosto com água fria e ajeitou um boné de beisebol sobre os cabelos. Mas quando passou agora pelo laboratório, sentiu-se compelida a entrar, abrir a gaveta do arquivo, tirar o envelope. As mãos tremiam um pouco quando espalhou as fotos sobre a bancada de trabalho.

Mas a foto de Annabelle não reaparecera num passe de mágica. Havia apenas Jo, uma foto depois de outra. E os olhos, os estudos hábeis de seus olhos, em diversas expressões. Ou os olhos de Annabelle. Como podia ter certeza?

Recebera uma foto da mãe. Tinha certeza. Uma foto da morte. Não poderia ter imaginado. Ninguém seria capaz de imaginar uma coisa assim. Isso faria com que fosse insana, delusória. O que ela não era. Não podia ser. Vira mesmo a foto. Estivera em suas mãos.

Com um esforço da vontade, ela obrigou-se a parar, fechar os olhos, contar as respirações, o ar entrando e saindo, devagar, até o coração parar de dançar dentro do peito.

Lembrava com toda nitidez a sensação de desmoronar, de perder o controle de si mesma. Não permitiria que isso acontecesse de novo.

A foto não estava ali. Isso era um fato. A foto existira. Isso era um fato também. Portanto, alguém a levara. Talvez Bobby percebesse que a deixara transtornada e decidira se livrar da foto. Ou alguém arrombara o apartamento enquanto ela se encontrava no hospital e pegara a foto. A mesma pessoa que mandara a foto voltara para levá-la embora.

Rapidamente, Jo guardou as fotos de volta no envelope pardo. Não importava que parecesse um absurdo, mas tinha de se apegar a essa idéia. Alguém se empenhava numa brincadeira cruel; e ao se manter obcecada, ela permitia que a pessoa vencesse.

Levou o envelope para a gaveta do arquivo, fechou-a com uma batida brusca e deixou o laboratório.

Mas podia confirmar ou eliminar uma possibilidade com um único telefonema. Voltou a seu quarto, pegou o caderninho de endereços na escrivaninha e folheou-o depressa. Apenas perguntaria, mais nada, ela disse a si mesma, enquanto ligava para o apartamento que Bobby Banes partilhava com dois amigos da universidade. Podia se mostrar casual e apenas indagar se ele levara a foto.

Seus nervos já estavam tensos ao terceiro toque da campainha.

— Alô?

— Bobby?

— Não. Aqui é Jack. Mas estou disponível, querida.

— Aqui é Jo Ellen Hathaway — disse ela, incisiva. — Gostaria de falar com Bobby.

— Ahn...  — O jovem limpou a garganta, embaraçado. — Desculpe, Srta. Hathaway. Pensei que fosse uma das...  Mas ele não está.

— Pode pedir a ele para entrar em contato comigo? Darei o número onde conseguirá me encontrar.

— Claro. Mas não sei exatamente quando ele voltará, nem onde está. Bobby viajou logo depois das provas finais. Uma expedição fotográfica. Foi uma boa idéia tirar fotos antes do próximo semestre.

— Deixarei o número assim mesmo. — Jo deu o número. — Se ele ligar, dê o meu número, está bem?

— Claro, Srta. Hathaway. Tenho certeza de que ele gostará de receber notícias suas. Bobby ficou preocupado com... Isto é, não sabia se retomaria o estágio no próximo outono. Ahn... Como se sente agora?

Não houve a menor dúvida na mente de Jo de que o companheiro de apartamento de Bobby tomara conhecimento de seu colapso. Ainda acalentara uma esperança, mas era um absurdo pensar que poderia ser de outra forma.

— Estou bem, obrigada. — A voz era fria, cortando qualquer possibilidade de mais alguma pergunta. — Se falar com Bobby, avise que é muito importante que ele me ligue.

— Pode deixar, Srta. Hathaway. Ahn...

— Adeus, Jack.

Jo desligou, lentamente. Fechou os olhos. Não importava que Bobby tivesse partilhado seu problema com os amigos. Ela não podia permitir que isso tivesse alguma importância, não podia se sentir constrangida ou transtornada por esse motivo. Era esperar demais que ele mantivesse em segredo quando sua instrutora enlouquecia de repente em sua presença e era levada às pressas para o hospital.

Seu orgulho teria de resistir, decidiu Jo. Com um esforço para descartar a vergonha que ainda persistia, ela desceu. Se tivesse um pouco de sorte, Bobby telefonaria em algum momento das duas próximas semanas. E, com isso, ela teria pelo menos uma resposta.

Ao se aproximar da cozinha, ouviu vozes lá dentro. Parou, com a mão na porta.

— Há alguma coisa errada com ela, Brian.  Está  diferente. Por acaso conversou com você?

— Kate, Jo nunca conversa com ninguém. Por que conversaria comigo?

— Você é seu irmão. A família.

Jo ouviu o barulho de pratos e sentiu o cheiro persistente de carne grelhada, do café da manhã. Uma porta de armário foi aberta e fechada.

— Que diferença isso faz?

A voz de Brian era irritada, impaciente. Jo quase podia vê-lo tentando se livrar de Kate.

— Deve fazer toda a diferença. Se ao menos tentasse, Brian, ela poderia se abrir com você. Estou preocupada com ela.

— Jo me parecia muito bem ontem à noite, no luau. Ficou com Nathan por duas ou três horas, tomou uma cerveja, comeu um salsichão.

— E voltou do camping esta manhã mais branca do que um lençol. Está com esses altos e baixos desde que chegou à ilha. E veio sem avisar, inesperadamente. Não quer falar sobre sua vida, não diz quando vai voltar. E você não vai me dizer que não notou como... ela anda trêmula.

Jo não queria ouvir mais. Recuou apressada, virou-se e saiu pela frente da casa.

Agora vigiavam-na, pensou ela, cansada. E especulavam se iria ou não ter um colapso. Se lhes dissesse que isso já acontecera, haveria acenos de cabeça e murmúrios compreensivos... e insinuantes.

Ora, que se danasse tudo! Ela saiu de casa, para o sol. Respirou fundo. Poderia dar um jeito em tudo. E daria. E se não conseguisse encontrar paz ali, se não a deixassem em paz, partiria de novo.

E para onde iria? O desespero envolveu-a. Para onde se ia ao deixar o último lugar?

Sua energia foi esvaindo-se, pouco a pouco. Arrastava os pés ao descer os degraus da varanda. Admitiu para si mesma que se sentia cansada demais pari ir a qualquer lugar. Foi até a rede de cordas, à sombra de dois carvalhos, e refugiou-se ali.  Era como entrar num útero, pensou Jo, enquanto os lados da rede ajustavam-se para acomodá-la e o balanço começava.

Às vezes, nas tardes quentes, ela encontrava a mãe ali. Deitava junto na rede. Annabelle contava histórias, a voz lenta e suave. Tinha um cheiro agradável, de muito sol. Ficavam balançando, contemplando os fragmentos de sol através das folhas verdes.

As árvores eram mais altas agora. Tiveram mais de vinte anos para crescer... e ela também. Mas onde estava Annabelle?

 

ELE CAMINHAVA PELA BEIRA DA ÁGUA EM SAVANNAH, IGNORANDO as lojas atraentes e os turistas apressados. Não fora perfeito. Não fora nem quase perfeito. Era a mulher errada. Claro que ele já sabia disso. E sabia mesmo quando a pegara.

Fora excitante, mas apenas por um momento. Um lampejo e depois terminara... como gozar cedo demais.

Ele parou, olhando para o rio, e acalmou-se. Um pequeno jogo de manipulação mental que diminuiu a freqüência cardíaca, firmou a respiração, relaxou os músculos. Estudara aqueles exercícios de controle da mente sobre o corpo em suas viagens.

Não demorou muito para deixar que os sons tornassem a invadi-lo... pouco a pouco. O retinido de uma bicicleta de passagem, o zumbido de pneus no calçamento. As vozes dos turistas, a risada exultante de uma criança que saboreava um sorvete.

Estava calmo de novo, outra vez sob controle. Sorriu sobre a água. Era uma imagem atraente e sabia disso... os cabelos esvoaçando um pouco à brisa, um homem de rosto bonito e corpo bem trabalhado, que gostava de atrair a atenção feminina.

Como atraíra a atenção de Ginny.

Ela se mostrara mais do que disposta a acompanhá-lo pela praia escura e sobre as dunas. Meio embriagada, flertando com ele, o sotaque sulista engrolado pela tequila.

Ginny nunca soubera o que a atingira.  Literalmente. Ele teve de reprimir uma risada ao pensar a respeito. Um golpe curto e rápido, atrás da cabeça, e ela caíra. Não precisara de muito esforço para carregá-la até as árvores. Sua expectativa era tão intensa que ela parecia não ter peso. Despi-la fora... estimulante. Era verdade que Ginny tinha um corpo mais exuberante do que ele queria. Mas também não podia esquecer que ela fora apenas um exercício preparatório.

Ainda assim, ele fora apressado demais. Podia admitir isso agora, podia analisar. Fora precipitado, atrapalhara-se com os equipamentos, na ansiedade em tirar as primeiras fotos. Ginny nua, com as mãos amarradas por cima da cabeça, presa a uma árvore nova, mas resistente. Ele não tirara um tempo para espalhar os cabelos, procurar a melhor iluminação, os melhores ângulos.

Nada disso. Estava dominado pelo poder do momento e estuprara-a assim que ela recuperara a consciência. Planejara conversar primeiro, captar o medo crescente nos olhos, enquanto Ginny começava a compreender o que ele tencionava fazer.

Como acontecera com Annabelle.

Ela se debateu, tentou falar. Movimentou com toda força as pernas compridas e adoráveis. Arqueou as costas. E eu me sentia calmo, podia controlar cada momento.

Ela era o tema. E eu era o artista.

Como acontecera com Annabelle, ele pensou de novo. Como deveria ter acontecido agora, desta vez.

Mas o primeiro orgasmo fora um desapontamento. Tão... corriqueiro, refletiu ele agora. Nem mesmo tivera vontade de estuprá-la de novo. Fora mais uma tarefa do que um prazer, recordou ele. Nada mais que um passo adicional para manipular a imagem final.

Mas quando tirara o lenço de seda do bolso, passara em torno do pescoço, apertara várias vezes, observara os olhos se esbugalharem, a boca se contorcer em busca de ar, para soltar um grito...

Isso fora muito melhor. E tivera um orgasmo maravilhoso, brutal, longo, satisfatório.

E achava que a última imagem de Ginny, aquele momento decisivo, podia ter sido um dos seus melhores.

Dera o título de Morte de uma Vagabunda; afinal, o que mais ela fora? Nunca um de seus anjos. Fora vulgar e ordinária. Absolutamente descartável.

Era por isso que não chegara nem perto da perfeição. Não fora culpa sua, mas de Ginny. E isso o deixou bastante reanimado, agora que tudo era evidente. O defeito era dela... do tema, não do artista.

Mas ele a escolhera e atraíra.

Teve de lembrar a si mesmo, mais uma vez, que não passara de um exercício. Todo o incidente não fora mais do que um ensaio, com uma substituta no lugar da atriz principal.

Seria perfeito na próxima vez. Com Jo.

Com um pequeno suspiro, ele apalpou a pasta de couro que continha as fotos, reveladas nos aposentos que alugara, ali perto. Era tempo de voltar a Desire.

 

COMO  LEXY  NÃO  PODIA  SER  ENCONTRADA  EM  PARTE  ALGUMA, Brian saiu para o jardim, a fim de arrancar mais um pouco de ervas daninhas. Lexy prometera que faria isso, mas ele tinha certeza de que a irmã escapara para procurar Giff, a fim de seduzi-lo para uma diversão na hora do almoço. Vira os dois na noite anterior, da janela de seu quarto. Molhados, cobertos de areia e rindo como crianças, enquanto subiam pelo caminho. Era óbvio, até mesmo para seu cérebro cansado, que haviam feito mais que dar um mergulho à meia-noite. Ele achara engraçado, até sentira um pouco de inveja.

Parecia fácil para eles desfrutar um ao outro, viver o momento. É verdade que imaginava que Giff tinha em mente muito mais do que o momento e que Lexy sapatearia em seu coração antes de sair de cena.

De qualquer forma, Giff era um homem inteligente e paciente, e eral possível fazer com que Lexy acabasse dançando de acordo com sua melodia. Brian refletiu que seria muito interesante observar.  A uma distância segura.

Isso era tudo o que ele realmente queria, pensou Brian. Uma distância segura.

Ele olhou para as aqüilégias, as flores lavanda e amarelas, em forma de trombeta, abertas, em celebração. Eram bonitas, alegres e cabia a ele cuidar para que continuassem assim. Enfiou a mão no bolso do avental curto de lona, que pendurara na cintura para trabalhar no jardim. E foi nesse instante que ouviu uma lamúria.

Olhou para ver a mulher na rede. E seu coração parou. Os cabelos eram de um vermelho escuro na sombra verde. A mão que pendia para fora da rede era esguia, pálida e elegante. O choque o fez dar um passo à frente, mas depois virou a cabeça, angustiado, e recuou.

Não era a mãe, pelo amor de Cristo. Sua irmã. Era impressionante quanto ela parecia às vezes com Annabelle. No ângulo certo, com a luz certa. Era difícil suspender as recordações... evitar a angústia. A mãe adorava balançar na rede durante uma hora, nas tardes quentes de verão. E se Brian passava por ali, sentava no chão, de pernas cruzadas, ao seu lado, a mãe punha a mão em sua cabeça, desmanchava os cabelos, perguntava que aventuras ele tivera naquele dia.

E sempre escutava. Ou pelo menos era o que Brian outrora pensava. Era mais provável que estivesse entregue a seus devaneios enquanto ele falava. Sonhava com o amante, como fugiria, abandonando o marido e os filhos. Sonhava com a liberdade, que deveria querer mais do que ao próprio filho.

Mas era Jo quem estava deitada na rede agora e tudo indicava que não tinha um sono sereno.

Uma parte de Brian — uma parte que ele considerava com desdém, com um sentimento próximo do ódio — queria se virar, afastar-se, deixar a irmã entregue a seus próprios demônios. Mas ele foi até a rede, a  testa franzida em preocupação, enquanto Jo se agitava e gemia no sono.

— Jo... — Ele pôs a mão no ombro da irmã e sacudiu-a. — Vamos, quuerida, acorde...

No sonho, o que a perseguia através da floresta, com suas árvores fantasmas e vento selvagem, alcançou-a e cravou as garras afiadas em sua carne.

— Não!   - Ela fez um movimento brusco, desvencilhando-se. Não me toque!

Calma, calma... — Brian sentira o vento do punho roçando em seu rosto e não sabia se ficava impressionado ou preocupado. — Não quero acabar com o nariz quebrado.

A respiração ofegante, atordoada, Jo abriu os olhos.

— Brian... — Os tremores prevaleceram e por isso ela tornou a arriar na rede e fechar os olhos. — Desculpe. Um pesadelo.

— Foi o que imaginei.

Era mesmo preocupação, no final das contas, e mais do que ele esperava. Kate tinha razão, como sempre. Havia de fato alguma coisa muito errada ali. Brian correu um risco e acomodou-se na beira da rede.

— Quer alguma coisa? Água?

— Não.

A surpresa transpareceu nos olhos de Jo quando os abriu e descobriu a mão de Brian sobre a sua. Não podia se lembrar da última vez, em que Brian pegara na sua mão. Ou ela tomara a iniciativa.

— Não se preocupe. Estou bem. Foi apenas um sonho.

— Também tinha pesadelos terríveis quando era criança. Acordava aos gritos, chamando papai.

— Isso mesmo. — Jo deu um sorriso desanimado. — Acho que a gente nunca deixa tudo para trás.

— Ainda tem muitos pesadelos?

Brian tentou dar a impressão de que era uma pergunta sem importância, mas viu o brilho nos olhos da irmã.

— Pelo menos não acordo mais gritando por ninguém.

— Não pensei que pudesse fazer isso.

Ele teve vontade de levantar-se, afastar-se. Os problemas da irmã não tinham deixado de ser problemas seus há muitos anos? Mas ele continuou onde estava, balançando a rede, gentilmente.

— Não é um defeito ser auto-suficiente, Brian.

— Tem razão.

— E não é um pecado querer resolver sozinho seus problemas.

— E isso o que você está fazendo, Jo? Cuidando de seus problemas? Pois pode ficar tranqüila. Já tenho problemas em quantidade suficiente para não ter de assumir os seus.

Mas ainda assim ele não a deixou. Continuou a balançar a rede, na sombra verde. O conforto deixou Jo com os olhos ardendo. Cautelosa e carente, ela deu um passo experimental.

— Tenho pensado muito em mamãe ultimamente.

Os ombros de Brian ficaram tensos no mesmo instante.

— Por quê?

— Tenho visto mamãe na imaginação. — A foto que não estava mais onde deveria. — E sonhado com ela. Acho que mamãe morreu.

As lágrimas haviam aflorado sem que qualquer dos dois percebesse. Quando Brian olhou e viu as lágrimas escorrendo pelas faces da irmã, sentiu o estômago se contrair.

— Qual é o sentido, Jo Ellen? De que adianta ficar angustiada por uma coisa que aconteceu há vinte anos e não pode ser mudada?

— Não posso evitar... e não posso explicar. Simplesmente acontece.

— Ela nos deixou e conseguimos sobreviver. É só isso.

— Mas o que acontece se ela não nos deixou por vontade própria? Se alguém a levou à força? Se alguém...

— E se ela foi seqüestrada por alienígenas? — O tom de Brian era ríspido. — Pelo amor de Deus! A polícia manteve o caso aberto durante mais de um ano. Não havia nada, nenhuma evidência de seqüestro, nenhuma evidência de crime. Ela foi embora. Ponto final. Pare de se levar à loucura.

Jo tornou a fechar os olhos. Talvez fosse mesmo isso que estivesse fazendo, levando a si mesma, lentamente, à insanidade.

— É melhor pensar que era mentira cada vez que ela dizia que nos amava? Isso é mais estável, Brian?

— Émelhor deixar tudo como está.

— E continuarmos sozinhos — murmurou Jo. — Cada um de nós. Porque outra pessoa pode dizer que nos ama e isso ser também uma mentira. É melhor deixar como está. É melhor não correr o risco. É melhor ficar sozinho do que ser deixado sozinho.

O comentário atingiu o alvo com impacto suficiente para fazê-lo se eriçar.

— É você quem tem pesadelos, Jo, não eu. — Brian tomou uma decisão súbita e levantou-se antes de poder mudar de idéia. — Venha comigo.

— Para onde?

— Daremos uma volta de carro. Vamos.

Ele tornou a pegar a mão da irmã, levantou-a e puxou-a na direção de seu carro.

— O que é? Para onde vamos?

— Apenas faça o que estou dizendo, por uma vez.

Ele a fez sentar no banco do passageiro, bateu a porta e constatou com satisfação que ela estava surpresa demais para tentar sair.

— Já tenho Kate em cima de mim o tempo todo — murmurou ele, sentando ao volante e virando a chave na ignição. — E agora você começa a chorar. É demais. Tenho de cuidar de minha própria vida.

— Eu entendo. — Jo fungou e passou o dorso da mão pelas laces, para remover as lágrimas. — Mas você está mesmo vivendo, Brian?

— Apenas fique quieta e espere. — As rodas rangeram, enquanto ele fazia a manobra e descia pela estrada. — Você volta muito branca, parecendo um saco de ossos. Mas agora vamos até o fundo. Talvez assim todos fiquem em seus cantos e me deixem em paz.

Os olhos contraídos agora, Jo segurou a maçaneta da porta.

—  Para onde vamos?

Você vai lazer uma consulta médica.

De jeito nenhum! — A surpresa guerreava com o alarme doentio. — Pare esse carro agora mesmo e me deixe saltar!

Brian contraiu os lábios, numa expressão sombria e acelerou.

— Você terá uma consulta. E se for necessário eu a carregarei até lá. Descobriremos se Kirby é pelo menos metade tão boa quanto pensa que é.

— Não estou doente.

— Então não deve ter medo de deixar que ela a examine.

Ele entrou no caminho. Parou na frente do chalé de Kirby, com os pneus rangendo. Virou-se e pôs a mão no ombro da irmã. Os olhos ardiam em fúria.

— Você pode entrar com seus próprios pés ou embaraçar a nós dois, obrigando-me a carregá-la no ombro. Mas vai entrar de uma maneira ou de outra. A escolha é sua.

Trocaram olhares impregnados de raiva. Jo calculou que seu temperamento estourado igualava o do irmão. Numa batalha verbal, tinha uma boa possibilidade de derrotá-lo. Mas, se Brian decidisse passar para o terreno físico — e ela se lembrava da juventude que isso era sempre possível —, não teria a menor chance. Ela optou pelo caminho mais fácil e deu preferência ao orgulho.

Sacudiu a cabeça, saltou do carro e subiu os degraus para o chalé de Kirby. Foram encontrá-la no balcão da cozinha, passando manteiga de amendoim numa fatia de pão.

— Oi.

Ela lambeu o polegar e deixou que seu sorriso de recepção persistisse, enquanto examinava primeiro um rosto com uma fúria fria, depois o outro. Era estranho como a semelhança de família tornava-se subitamente forte, refletiu Kirby.

— Querem almoçar? — indagou ela.

— Tem algum tempo para um exame físico? — perguntou Brian, empurrando a irmã para a frente.

Kirby deu uma pequena mordida no pão, enquanto Jo virava-se para Brian com um grunhido de protesto.

— Claro que sim. Minha próxima consulta está marcada para uma e meia. — Ela sorriu, jovial. — Qual dos dois vai se despir para mim hoje?

— Ela está almoçando— disse Jo para Brian, altiva.

— Manteiga de amendoim não é almoço, a menos que você tenha seis anos de idade. — Ele deu outro empurrão em Jo. — Vá para a sala de exames e tire as roupas. Não vamos sair daqui enquanto Kirby não examiná-la, da cabeça aos pés.

— Pelo que vejo, esta é a minha primeira consulta por seqüestro. — Kirby olhou para Brian, pensativa. Imaginava que ele se tornara bastante preocupado com a irmã para se tornar rude, mas não tinha certeza. — Pode ir, Jo. A sala de exame é meu antigo quarto. Estarei lá num instante.

— Não há nada de errado comigo.

— Ótimo. Isso tornará meu trabalho mais fácil e lhe dará uma desculpa para punir Brian depois. — Ela deu outra mordida no pão e sorriu de novo. — Eu a ajudarei.

— Combinado.

Jo virou-se e afastou-se pelo corredor, ainda furiosa.

— 0 que está acontecendo, Brian? — murmurou Kirby, depois que a porta foi batida.

— Ela tem pesadelos e não come. Voltou do camping esta manhã branca como um lençol.

— O que ela foi fazer no camping?

— Ginny não apareceu para trabalhar hoje.

— Ginny? Ela não é de fazer isso. — Kirby franziu o rosto, mas logo descartou esse assunto. Era uma preocupação diferente. — Fico contente que você a tenha trazido. Há algum tempo que desejo examiná-la.

— Quero saber o que há de errado com ela.

— Posso fazer um exame clínico, Brian. Se ela tiver algum problema físico, eu descobrirei. Mas não sou uma psiquiatra.

Frustrado, ele enfiou as mãos nos bolsos.

— Apenas descubra o que há de errado com ela.

Kirby acenou com a cabeça. Entregou-lhe o resto do pão.

— Tem leite na geladeira. Pode se servir.

Quando ela entrou na sala de exames, Jo ainda estava vestida, andando de um lado para outro.

— Escute, Kirby...

— Você confia em mim, não é, Jo?

— Isso não tem nada...

— Vamos acabar logo com isso e assim todos se sentirão melhor.

— Kirby pegou uma túnica limpa. — Vá para o banheiro, no outro lado do corredor, e faça pipi no vidro.

Ela pegou uma ficha limpa e um formulário, enquanto Jo a fitava com o rosto franzido.

— Vou precisar do histórico médico... última menstruação, problemas físicos, remédios receitados que está tomando, alergias, essas coisas. Pode começar a preencher isto depois de vestir essa peça da última moda, enquanto eu faço a análise da urina.

Ela inclinou-se para escrever o nome de Jo na ficha.

— É melhor ceder facilmente — murmurou Kirby. — Brian é maior do que você.

Jo deu de ombros uma vez, antes de ir para o banheiro.

 

— A PRESSÃO ARTERIAL  ESTÁ UM POUCO ALTA.  —  KlRBY REMOVEU a braçadeira. — Mas não chega a ser grande coisa. É provável que seja decorrente de uma ligeira oscilação de humor.

— Muito engraçado.

Kirby esquentou o estetoscópio entre as mãos, para depois comprimi-lo contra as costas de Jo.

—  Respire fundo, exale. De novo. Você tem também uma pequena deficiência de peso. O que deixa a mulher em mim ficar verde de inveja e leva a médica sensata a protestar.

— Tenho sentido pouco apetite.

— A comida cm Sanctuary deve resolver este problema. — E se não resolvesse, Kirby tencionava fazer uma reavaliação. Ela pegou o oftalmoscópio e começou a examinar os olhos de Jo. — Sente dores de cabeça?

— Agora ou sempre?

—  As duas coisas.

— Agora eu sinto, mas diria que é uma conseqüência direta do envolvimento com Brian, o Carrasco. — Jo suspirou. — Acho que venho sentindo mais dores de cabeça nos últimos meses do que o habitual.

— Uma dor pequena e latejante ou intensa e lancinante?

— Quase sempre da variedade pequena e latejante.

— Vertigem, desmaio, náusea?

— Eu... não, não realmente.

Kirby empertigou-se, deixando uma das mãos no ombro de Jo.

— Não ou não realmente? — Quando Jo deu de ombros, Kirby largou o instrumento. — Querida, sou médica e sou sua amiga. Preciso que seja franca comigo. E quero que saiba que tudo o que disser nesta sala ficará entre nós.

Jo respirou fundo. Cruzou as mãos no colo.

— Tive um colapso nervoso. — O ar escapou dos pulmões de Jo num suspiro, em parte por medo, em parte por alívio. — Cerca de um mês antes de minha vinda para cá. Simplesmente desmoronei. Não pude evitar.

Sem dizer nada, Kirby pôs as duas mãos nos ombros de Jo e massageou-os gentilmente. Jo ergueu a cabeça e viu apenas compaixão naqueles olhos verdes suaves. Seus próprios olhos se encheram de lágrimas.

— Isso faz com que me sinta uma tola.

— Por que deveria?

— Nunca me senti tão desamparada. Sempre fui capaz de lidar com as situações, Kirby, à medida que aconteciam. E de repente tudo foi se acumulando, o peso cada vez maior. Não tinha mais certeza se apenas imaginava as coisas ou se aconteciam de fato. Até que tive um colapso. Desabei.

— Procurou ajuda?

— Não tinha opção. Sofri o colapso na presença de meu assistente.  Ele me levou para o hospital e pasei algum dias internada. Um colapso mental. Não me importa que já estejamos no século XXI. Não me importa que seja uma época intelectualizada. Sinto-me envergonhada.

— Posso garantir que não há do que se envergonhar. Você tem todo o direito de sentir qualquer coisa que quiser.

Os lábios de Jo contraíram-se um pouco.

— Ou seja, não preciso me envergonhar de estar envergonhada.

— Exatamente. Como era sua agenda de trabalho na ocasião?

— Apertada, mas eu gostava assim.

— E sua vida social?

— Inexistente, mas eu gostava assim. E isso se aplica também à minha vida sexual. Não me sentia deprimida, definhando por causa de um homem... ou pela ausência de um homem. Mas tenho pensado muito em minha mãe. Tenho quase a mesma idade que ela quando foi embora... quando tudo mudou.

E sua vida desmoronou, pensou Kirby.

— E se preocupou com a possibilidade de tudo mudar de novo, além de seu controle. Não sou uma psicanalista, Jo, mas apenas uma antiquada clínica geral. Qual foi o prognóstico quando você teve alta?

— Não sei exatamente. — Jo mudou de posição, o papel estendido na mesa de exame estalando. — Eu mesma me dei alta.

— Entendo. Não indicou nenhum remédio no formulário.

— Não estou tomando nenhum. E não me pergunte o que os médicos indicaram. Não peguei nenhuma receita. Não quero tomar drogas... e não quero conversar com um analista.

— Está bem. Por enquanto, cuidaremos de tudo à maneira antiga. Vamos eliminar qualquer causa física. Receitarei ar fresco, descanso, refeições regulares... — Uma pausa e Kirby acrescentou, com um sorriso: — ... e um pouco de sexo bom e seguro, se puder obter.

— Sexo não é uma das minhas prioridades.

— Neste caso, querida, você está mesmo louca.

Jo piscou, surpresa, depois soltou uma risada, enquanto Kirby passava álcool na parte interna de seu cotovelo.

— Obrigada.

— Não cobro nada pelos insultos. E a última parte da receita é conversar. Comigo, com sua família, com qualquer outra pessoa em quem confie para ter uma conversa. Não deixe que as coisas se acumulem de novo. Você se preocupa demais, Jo. Descarregue um pouco.

Ela sacudiu a cabeça e acrescentou, antes que Jo pudesse falar qualquer coisa:

— Seu irmão se importa o suficiente para arrastá-la até aqui... um lugar que tem evitado como a peste desde que me mudei. E se sou juíza de caráter, aposto que ele está andando de um lado para outro lá fora, apavorado com a possibilidade de que eu saia para informar que sua irmã só tem mais três semanas de vida.

— Seria uma lição bem merecida. — Jo deixou escapar um suspiro profundo. — Mesmo que eu me sinta melhor agora do que em muitas semanas.

Ela viu a seringa e arregalou os olhos.

— Para que isso?

— Só preciso de um pouco de sangue. — A agulha levantada, Kirby sorriu. — Não quer gritar para descobrir quanto tempo ele leva para entrar aqui correndo?

Jo desviou os olhos, prendeu a respiração.

— Eu não daria essa satisfação a Brian.

 

DEPOIS QUE JO SE VESTIU, KIRBY ENTREGOU-LHE UM RECIPIENTE de plástico.

— São apenas vitaminas. De alta potência. Se começar a comer direito, não vai mais precisar. Mas servirão para lhe proporcionar um certo vigor por enquanto. Avisarei quando o laboratório mandar os resultados do exame de sangue. Mas todo o resto está dentro dos parâmetros normais.

— Agradeço por tudo.

Pois então demonstre, cuidando de si mesma e me procurando sempre que precisar.

— Farei isso. — Era sempre um pouco estranho fazer um movimento afetuoso ostensivo, mas ela adiantou-se para dar um beijo no rosto de Kirby. — Pode ter certeza. E falei sério quando disse que me sentia melhor do que em muito tempo.

— Ótimo. Siga as recomendações da doutora Kirby e vai se sentir ainda melhor.

Ela levou Jo para a outra sala, guardando as preocupações para si mesma. Encontraram Brian fazendo exatamente o que ela previra, andando de um lado para outro, irrequieto. Ele parou e fitou-as com o rosto franzido. Kirby respondeu com um sorriso jovial:

— Teve uma menina forte e saudável de cinqüenta quilos, papai. Meus parabéns.

— Muito engraçado. — Ele olhou para Jo. — O que há de errado com você?

Jo inclinou a cabeça para o lado, fitando-o com os olhos contraídos.

—  Pode ficar com raiva de mim — sugeriu Jo, enquanto se encaminhava para a porta. — Vou embora. Obrigada por espremer em sua agenda os caprichos desse idiota, Kirby.

— Venho me esforçando para fazer isso há vários meses. Ela riu, enquanto a porta de tela era batida.

— Quero saber o que há de errado com minha irmã.

— Ela sofre de irmãotite aguda no momento. Embora muito irritante, quase nunca é fatal.

— Quero uma porra de uma resposta objetiva.

Brian estava quase rosnando. Kirby balançou a cabeça em aprovação.

— Gosto ainda mais de você quando é humano. — Ela se virou para a cafeteira, satisfeita em constatar que ele se mostrara útil, preparando um café fresco. Muito bem, respostas objetivas. Não quer sentar?

Ele sentiu um frio no estômago. É grave?

— Nem tanto quanto você aparentemente pensa. Toma o café puro, não é mesmo? Como um homem de verdade.

Kirby prendeu a respiração quando ele pegou seu braço, apertando com firmeza.

— Não estou com ânimo para brincadeiras.

— Está bem. Já vi que meus comentários espirituosos não vão relaxá-lo. Os resultados dos exames só deverão chegar daqui a duas semanas. Mas posso dar minha opinião abalizada pelo exame físico. Jo está exausta. Sente-se nervosa e estressada, irritada consigo própria por estar nervosa e estressada. Precisa exatamente do que você demonstrou que pode dar. Apoio... mesmo quando ela protestar.

A primeira pontada de alívio atenuou a pressão no peito de Brian.

— Isso é tudo?

Kirby virou-se para servir o café.

— Há uma confidencialidade no relacionamento entre médica e paciente. Jo tem o direito à sua privacidade e à minha discrição.

— Jo é minha irmã.

— E verdade. Num nível pessoal, fico feliz por saber que você leva esse relacionamento a sério. Não tinha certeza se isso acontecia. Tome aqui. — Ela entregou uma caneca a Brian. —Jo voltou porque precisava estar em casa. Precisava de sua família. Portanto, esteja disponível para ela. Isso é tudo o que posso lhe dizer. Qualquer coisa mais tem de partir da própria Jo.

Ele afastou-se, tomando o café sem perceber. Muito bem, pensou, Jo não sofria de qualquer das doenças misteriosas e letais que imaginara enquanto esperava. Apenas esgotara sua energia. Não era um câncer ou um tumor no cérebro.

— Muito bem. — Desta vez ele disse em voz alta. — Acho que posso pressioná-la a comer regularmente e ameaçar Lexy para não provocar brigas.

— Você é muito doce — murmurou Kirby

— Não sou não.

Brian largou a caneca abruptamente e recuou. Agora que sua preocupação se desvanecera, podia ver Kirby com clareza. A maneira com que aqueles olhos de sereia sorriam para ele. A maneira com que ela ficava parada ali, toda fria e controlada, toda rosa e dourada.

— Estou apenas cuidando de mim mesmo — acrescentou ele. — Quero minha rotina de volta, e isso não será possível enquanto ela não tiver se recuperado.

Com uma expressão afetuosa nos olhos, Kirby adiantou-se.

— Mentiroso. Impostor. Coração mole.

— Fique longe de mim.

— Ainda não.

Ela pegou o rosto de Brian entre as mãos. Ele atiçara mais do que seu desejo desta vez e Kirby não podia resistir.

— Você contratou a consulta médica para Jo e ainda não pagou a conta. — Ela ergueu-se nas pontas dos pés. — Meus serviços não são baratos.

Kirby roçou os lábios pelos dele. As mãos de Brian seguraram a cintura de Kirby. O gosto daquela mulher inundou-o.

— Estou lhe dizendo para ficar longe de mim. — Ele inclinou a cabeça, aprofundou o beijo. — Por que não me escuta?

A respiração de Kirby já começava a faltar, deixando-a sem fôlego. Uma gloriosa sensação.

— Sou teimosa. Persistente. E estou certa.

— Você é agressiva. — Os dentes de Brian mordiscaram o lábio inferior de Kirby, apertaram um pouco. — Não gosto de mulheres agressivas.

— Hum... gosta sim.

— Não, não gosto.

Ele empurrou-a de costas até o balcão e comprimiu seu corpo, duro e quente, contra ela. A boca ansiosa encontrou a de Kirby, ardente, devoradora,

—  Mas eu quero você Kirby, Sente se feliz agora?

Ela inclinou a cabeça para trás.  Deixou escapar um gemido quando a boca ele Brian desceu por seu pescoço.

— Dê-me cinco minutos para cancelar todas as consultas da tarde e garanto que ambos ficaremos extasiados. Me acaricie, Brian, pelo amor de Deus!

— Não será fácil.

Ele mordiscou a orelha, onde um botão de esmeralda faiscava no lóbulo. Os lábios ansiosos voltaram à boca de Kirby, para um beijo intenso, até que ela cravou as unhas em seus ombros. Brian viu-se a possuí-la ali mesmo, onde estavam, abrindo seu zíper, baixando a calça impecável de Kirby, arremetendo até se livrar daquela necessidade desesperada, até superar aquela terrível frustração.

Mas ele não a tocou, não a possuiu. Em vez disso, usou a dor que se agitava dentro dele para controlar os dois. Levantou a mão para o pescoço de Kirby, empurrou sua cabeça para trás, até que os olhos dos dois se encontraram. Os olhos de Kirby eram verdes como mares revoltos, convidando-o a mergulhar.

— Será à minha maneira. E você terá de aceitar isso. Os nervos estremeceram através do desejo.

— Escute...

—  Não. Já acabamos com isso. E acabamos também com os jogos. Você poderia ter recuado, mas não o fez. Agora, será à minha maneira. Quando eu voltar, vamos terminar o que começamos.

A respiração de Kirby estava acelerada, o sangue parecia cada vez mais quente. Por um momento, odiou-o por ser capaz de fitá-la com olhos tão frios e controlados.

— Pensa que me assusta?

— Não creio que você tenha juízo suficiente para deixar que isso a assuste. — Brian sorriu, um sorriso lento e perigoso. — Mas deveria. Quando eu voltar.

Ele deu um passo para trás, antes de acrescentar:

— E não vou querer saber se você está pronta ou não.

Kirby fez um esforço para se controlar, tentando manter o mínimo de orgulho.

— Seu desgraçado arrogante!

— Tem toda razão.

Brian encaminhou-se para a porta, torcendo para conseguir sair antes que o anseio por ela o levasse a gemer em voz alta. Lançou-lhe um último olhar, contemplando os cabelos desarrumados, iluminados pelo sol, os olhos que faiscavam a raiva de emoções perigosas, a boca ainda inchada dos beijos.

— Eu trataria de me arrumar um pouco, doutora. Seu próximo paciente acaba de chegar.

Ele saiu, deixando a porta de tela bater.

 

O Little Desire Cottage não era um desvio muito longo na volta para Sanctuary. E de qualquer forma, pensou Jo, com um esforço para justificar, a caminhada lhe faria bem.

Talvez tirasse algumas fotos do rio à tarde, verificasse quantas flores silvestres haviam desabrochado. E como passaria por perto, seria uma grosseria se não parasse para cumprimentá-lo.

Além do mais, era propriedade da família.

Ela até desenvolveu uma desculpa, de que estava apenas de passagem, e fez um ensaio mental para encontrar o tom casual. Por isso, foi uma decepção quando chegou ao chalé e descobriu que o Jeep de Nathan não estava ali.

Parou na base da escada para a varanda, sem saber se entrava ou não. Acabou subindo, apressada, antes que pudesse mudar de idéia. Não havia nada de errado em entrar, apenas por um instante, deixar um bilhete. Não incomodaria ninguém, não bisbilhotaria. Queria apenas... Droga! A porta estava trancada.

Foi outro pequeno choque. As pessoas em Desire quase nunca trancavam suas portas. Curiosa demais agora para se preocupar com as boas maneiras, ela encostou o rosto no vidro e espiou.

Na mesa comprida na área da cozinha havia um laptop, fechado, o que era uma frustração. Uma impressora do último modelo estava ao lado. Tubos compridos, que ela presumiu que continham plantas de arquitetura, empilhavam-se em seguida. Um quadrado de papel grande fora desenrolado, preso nos cantos por um pote de café solúvel, um cinzeiro e duas canecas. Mas independente da posição que assumia ou de como virava a cabeça, não dava para ver o que estava escrito ali.

De qualquer forma, não é da minha conta, ela lembrou a si mesma, esforçando-se em ver. Ao barulho de folhas pisadas, ela recuou apressada e olhou para trás. Um peru selvagem saiu do meio das árvores, soltou seu gluglu e tratou de fugir, meio desajeitado. Com um revirar dos olhos, Jo apalpou seu coração disparado. Seria demais se o próprio Nathan saísse do meio das árvores e a surpreendesse a espionar sua casa.

Jo refletiu que havia dezenas de coisas que podia fazer, dezenas de lugares a que podia ir. Não era tão importante assim que tivesse se desviado de seu caminho para vê-lo.

Provavelmente era melhor não o ter encontrado, ela disse a si mesma, enquanto deixava a varanda e tomava o rumo de Sanctuary. Pegou a Trilha das Palmeiras, que seguia a curva do rio, passando por áreas escuras, de densa vegetação, onde as muscadíneas e as samambaias da ressurreição formavam uma autêntica selva exuberante.

Não precisava no momento daquele tipo de distração, do tipo de complicação que Nathan Delaney inevitavelmente acarretaria em sua vida. Mal começava a se recuperar.

Se mantivesse um relacionamento com ele, teria de lhe contar sobre... coisas. E se contasse, isso seria o fim do relacionamento. Quem haveria de se envolver com uma mulher louca em suas férias?

A trilha era sinuosa, repleta das pequenas palmeiras típicas do Sul dos Estados Unidos, a Saereno repens, que lhe davam o nome. Ouviu de novo o chamado do peu e o canto longo de um passarinho A bolsa da câmera batia em seu quadril, enquanto acelerava os passos e argumentava consigo mesma.

Ao não começar qualquer coisa, ela apenas poupava aos dois algum tempo e embaraço.

Mas por que ele não estava em casa?

— Psiu... — Giff pôs a mão na boca de Lexy ao ouvir passos na trilha, perto da clareira que era protegida por carvalhos e euriales. — Alguém está passando.

— Oh... — Num movimento rápido, Lexy pegou a blusa descartada e cobriu os seios. — Pensei que havia dito que Nathan passaria o dia no continente.

— E ele foi mesmo. Encontrei-o a caminho da barca.

— Então quem... ahn... — Lexy soltou uma risadinha, enquanto espiava entre as folhas. — É apenas Jo. E parece irritada com o mundo, como sempre.

— Fique quieta. — Giff abaixou a cabeça de Lexy, junto com a sua. — Prefiro que sua irmã não me pegue de calça arriada.

— Mas é tão bonito seu...

Ela estendeu a mão para pegá-lo e os dois lutaram, com risadinhas abafadas, até que Jo desapareceu.

— Você é terrível, Lex.

Giff imobilizou-a, sorrindo. Ela ainda usava o sutiã — não houvera tempo para tirá-lo — e ele gostava da sensação do tecido liso roçando em seu peito.

— Como eu poderia explicar se ela nos encontrasse?

— Se Jo não sabe o que está acontecendo, é tempo de alguém lhe mostrar.

Com um balanço de cabeça, Giff inclinou-se para beijá-la na ponta do nariz.

— Você é muito dura com sua irmã.

—  Eu sou dura com ela? — Lexy soltou uma risada. — Experimente o contrário. É muito mais apropriado.

Talvez cada uma seja dura demais com a outra. Mas tenho a impressão de que ultimamente Jo passou por momentos muito difíceis com alguma coisa.

— Jo tem uma vida perfeita para ela. — Lexy fez uma cara de contrariada e girou uma mecha dos cabelos de Giff entre os dedos.

— Tem seu trabalho, todas aquelas viagens. As pessoas se babam por suas fotos, como se fossem bebês recém-nascidos. Ou estudam-nas como se fossem compêndios idiotas. E ganha muito dinheiro, o suficiente para não ter de se preocupar com seus fundos de investimentos miseráveis.

O amor o envolvia quando roçou os dedos pelo queixo de Lexy.

— Meu bem, é puro desperdício de tempo sentir inveja de Jo.

— Inveja? — Ao choque do insulto, os olhos de Lexy se tornaram sombrios e arregalados. — Por que eu haveria de sentir inveja de Jo Ellen?

— Exatamente. — Giff beijou-a de leve. — Vocês duas estão atrás da mesma coisa. A maneira de vocês serem e como procuram são tão diferentes quanto a noite e o dia, mas o objetivo é o mesmo.

— Acha isso? — A voz era tão suave quanto leite fresco. — E qual seria esse objetivo?

— Ser feliz. No fundo, é o que a maioria das pessoas quer. E deixar sua marca. Mas só porque ela conseguiu antes de você não significa que a sua seja menos importante. E, no final das contas, ela tem três anos de vantagem.

Não apaziguou Lexy nem um pouco. A voz passou de suave para gelada:

— Não sei por que você me trouxe aqui se tudo o que queria era falar sobre minha irmã.

— Foi você quem me trouxe, meu bem. — Ele sorriu e a manteve imobilizada, apesar de Lexy se debater com evidente irritação.

— Pelo que recordo, você apareceu no Sand Castle Cottage, onde eu cuidava da minha vida, trocando as telas. Sussurrou alguma coisa em meu ouvido... e como já tinha esta manta em sua mochila, o que um homem podia fazer?

Ela ergueu o queixo,  alteou uma sobrancelha. N

— Não sei, Giff. O que um homem pode fazer?

— Acho que terei de lhe mostrar.

Ele não se apressou. Ao final, deixou-a um pouco fraca e trêmula. Na noite anterior, tudo acontecera num ímpeto ardente. A necessidade prevalecendo sobre o prazer, o prazer atropelando a necessidade.  Mas agora, aoar fresco e na claridade difusa da clareira, as mãos de Giff foram lentas, os calos roçando de leve sobre a pele de Lexy, os dedos  pressionando, deslizando. E embora a boca fosse ardente, não  demonstrava qualquer pressa. Procurava a boca de Lexy, muitas e muitas vezes, como se fosse o único sabor de que precisava.

Quando  Lexy suspirou, veio lá do fundo.

Podia ser seduzida tanto quanto possuída. Esperara durante a vida inteira para fazer as duas coisas, para observar a si mesma  a deixá-lo fazer as duas coisas. Não havia nada nela que não fosse uma coisa preciosa  para Giff. Agora, ele podia lhe mostrar, centímetro por centímetro.  Um dia, muito em breve, ele diria tudo, palavra por palavra.

Quando ele a penetrou, o gemido de recepção foi doce e suave. Ele se preparou para dar mais, tirar mais, num ritmo tão lento e suave quanto o rio que corria ali perto.  Lexy gemeu de novo quando ele baixou a cabeça para chupar os seios.

— Você goza primeiro — murmurou Giff. — Para que eu possa ver.

Ela não seria capaz de se controlar. Tinha a sensação de que era arrastada como folha na correnteza do rio. O orgasmo envolveu todo o seu corpo, interminável, adorável, profundo.  Mal pôde sussurar o nome de Giff, enquanto todo o seu organismo vibrava.

Ele tornou a beijá-la na boca, e um instante depois também gozou.

— Hum...

Isso foi tudo o que  Lexy conseguiu dizer, enquanto se virava e aconchegava a cabeça no peito de Giff. Nunca tivera um orgasmo assim... que a envolvesse por completo.

E ele parecia ter mantido um controle absoluto, uim,a percepção total de Lexy. Somente o trovejar de seu coração, sob o rosto de Lexy, indicava que se encontrava tão atordoado quanto ela. Lexy sorriu de novo e virou os lábios para o peito dele.

— Você deve ter praticado muito.

Giff manteve os olhos fechados, apreciando o ar em seu rosto e os cabelos de Lexy em sua mão.

— Acredito firmemente que se deve praticar uma habilidade até fazê-la da maneira certa.

— Eu diria que você já faz da maneira certa.

— Eu a desejei durante toda a minha vida, Lexy.

Alguma coisa dentro dela estremeceu ao ouvi-lo dizer isso, tão simples, tão fácil. Na exultação posterior, ela ergueu a cabeça. Quando o fitou, sentiu de novo o estremecimento.

— Acho que, lá no fundo, também sempre o desejei. Quando ele abriu os olhos, a expressão ali deixou-a com a boca

ressequida, levou-a a oferecer um sorriso provocante.

— Mas você era magricela demais.

— E você tinha o peito liso. — Ele estendeu a mão para tocar em seus seios, fazendo-a rir. — As coisas mudam.

Lexy ergueu-se e montou em cima dele.

— E você costumava puxar meus cabelos.

— Mas você costumava me morder. Ainda tenho as marcas de seus dentes no ombro esquerdo.

Lexy soltou uma risada e jogou os cabelos para trás. Seria difícil desembaraçar os cabelos depois, mas ela tinha de admitir que valera a pena.

— Não tem não.

— Claro que tenho. Mamãe diz que é a marca Hathaway.

— Quero ver.

Ela puxou-o até que o pôs de lado. Aproximou o rosto para espiar, contraiu os olhos, embora pudesse ver com bastante nitidez a cicatriz esbranquiçada. Sus marca. Ela sentiu uma estranha emoção ao saber que ele a carregava.

—  Onde? Não vejo nada. — Lexy abaixou mais o rosto. — Ah... está falando dessa coisinha de nada? Posso fazer muito melhor agora.

Antes que Giff pudesse se defender, ela cravou os dentes em seu ombro. Ele gritou, derrubou-a, rolou para o outro lado, os dois embolados. As mãos de Giff apertaram aqui, apertaram ali, até que Lexy ficou ofegante do desejo renovado, tanto quanto do riso.

— Eu diria que é tempo de pôr minha marca em você.

— Não se atreva a me morder, Giff! — Ela riu, debateu-se, rolou para o lado. — Ui! Droga!

— Ainda não mordi você.

— Alguma coisa me mordeu.

Giff moveu-se depressa, visões de cobras aflorando em seu cérebro. Levantou-se, pegou-a no colo, numa fração de segundo. Ela ficou boquiaberta ao fitar os olhos dele, subitamente duros e frios, esquadrinhando o chão.

— Puxa!

Isso foi tudo o que ela conseguiu balbuciar, o coração romântico disparando.

Não havia nada a rastejar ou andar ao redor. Mas ele avistou um brilho prateado. Pôs Lexy em pé e virou-a. Havia um tênue arranhão vermelho nas costas, quase na altura do ombro direito.

— Você rolou em cima de alguma coisa, só isso. — Ele deu um beijo no arranhão, depois abaixou-se para pegar o objeto prateado — O brinco de alguém.

Os olhos falseando, Lexy estendeu a mão para trás e esfregou distraída a área em que sentia um pouco de dor. Giff a pegara no colo como se ela não pesasse nada, pensou Lexy, sonhadora. E dera a impressão de que a defenderia contra um dragão cuspindo fogo.

Imagens de Lancelote e Guinevere, de castelos envoltos por brumas, afloraram em sua mente, antes que ela conseguisse focalizar o brinco que Giff segurava. Havia uma fileira de pequenas estrelas prateadas.

— Esse brinco é de Ginny. — O rosto um pouco franzido, ela pegou-o. — De seu par predileto. Não entendo como veio parar aqui.

Giff alteou as sobrancelhas.

— Tenho a impressão de que não somos os primeiros a usar a floresta para outra coisa além de um passeio pela natureza.

Com uma risada, Lexy tornou a sentar na manta. Pôs o brinco ao seu lado, com todo cuidado, antes de pegar o sutiã.

— Acho que você tem razão. Mas esta clareira fica bem distante do camping e de seu chalé. Ela usava os brincos ontem à noite?

— Não costumo prestar atenção às orelhas de minha prima — comentou Giff, sarcástico.

— Tenho quase certeza...

Lexy parou de falar, fazendo um esforço para recordar a cena. Ginny vestia uma camisa vermelha com tachões prateados, uns jeans bastante justos, com um cinto de caubói. É isso mesmo, concluiu Lexy, quase com certeza ela usava seus brincos prediletos, das estrelas prateadas. Ginny gostava de como balançavam e refletiam a luz.

— Ora, não importa. Devolverei para ela. Se conseguir encontrá-la.

Giff sentou para vestir a cueca.

— Como assim?

— Ela deve ter encontrado alguém muito interessante no luau. Não apareceu para trabalhar esta manhã.

— Não apareceu? Ginny nunca falta.

— Mas faltou esta manhã. Eu soube quando desci para o trabalho em Sanctuary. — Lexy tirou uma escova da mochila e iniciou o árduo processo de desembaraçar os cabelos. — Ui... droga! Havia uma porção de gente entrando e saindo do camping, sem a presença de Ginny. Kate mandou papai e Jo até lá para cuidarem de tudo.

GifF vestiu os jeans e levantou-se para fechá-los.

— Verificaram sua cabana?

— Acabei o serviço e saí antes que eles voltassem, mas presumo que foram até lá. Kate ficou furiosa.

— Ginny não é de se comportar assim. Pode ser impetuosa, mas nunca deixou Kate nessa situação.

— Talvez ela tenha passado mal. — Lexy esfregou o brinco entre os dedos, antes de guardá-lo no bolso do short mínimo, que vestira para levar Giff à loucura. — Estava tomando tequila sem parar.

Ele acenou com a cabeça, em concordância. Mas sabia que Ginny, mesmo de ressaca, iria trabalhar, ou providenciaria alguém para substituí-la. Recordou como ela parecia, cambaleando pela praia, no escuro, acenando para ele e Lexy, soprando beijos.

— Vou verificar como ela está.

— Faça isso. — Lexy levantou-se, adorando como ele admirou suas pernas. — E talvez mais tarde...

Ela abraçou-o, antes de acrescentar:

— ... você possa me verificar também.

— Também pensei nisso. Achei que seria uma boa se fosse jantar na pousada. E deixar... você me servir.

— Ahn... — Os lábios de Lexy contraíram-se num sorriso felino, enquanto ela recuava, ajeitando os cabelos encaracolados. — Foi essa a sua idéia?

— Foi sim. E pensei também que depois poderia subir, talvez descobrir seu quarto... Poderíamos experimentar numa cama, para variar.

— Hum... — Ela passou a língua pelo lábio superior. — Talvez eu esteja disponível esta noite... dependendo do tipo de gorjeta que você oferecer.

Giff sorriu e captou aqueles lábios umedecidos num beijo, que a deixou atordoada. Quando conseguiu respirar de novo, Lexy soltou um suspiro e murmurou:

— É um bom começo.

Ela abaixou-se para pegar a manta, virando deliberadamente para provocá-lo, as nádegas saltando no short apertado. Olhou para trás e acrescentou:

— Vou lhe oferecer... um excelente serviço.

 

DE VOLTA  À PICAPE,  NA  ESTRADA  PARA O CAMPING,  GlFF SENTIU o coração quase voltando ao normal. Aquela mulher era dinamite, pensou, e a vida com ela seria uma incessante aventura. Calculava que Lexy ainda não estava preparada para ajustar suas noções à perspectiva de passar o resto da vida com ele, mas pretendia trabalhar para chegar a esse ponto.

Ele sorriu para si mesmo. Ligou o rádio e ouviu Clint Black murmurar pelos alto-falantes. Tinha tudo planejado, refletiu Giff. O namoro... que progredia muito bem, em sua opinião. O pedido de casamento, o casamento, a vida conjugal.

Assim que a convencesse de que ele era exatamente o que ela precisava, estaria tudo resolvido. Enquanto isso, poderiam se divertir ao máximo.

Ele entrou no camping. Franziu o rosto ao ver o adolescente dentro da cabine, no lugar de Ginny.

— Oi, Colin. — Giff parou a picape. Inclinou-se pela janela. — Guarnecendo o posto hoje?

— Isso mesmo.

— Viu Ginny?

— Nem de longe. — O garoto tentou uma piscadela lasciva. — Ela deve ter passado uma noite bastante animada.

—  Imagino... — Mas Giff sentiu um frio desconfortável no estômago. — Vou dar uma olhada na cabana, para descobrir o que aconteceu.

— À vontade.

Giff foi guiando devagar, preocupado com a possibilidade de uma criança surgir correndo na sua frente. Com o verão se aproximando, ele sabia que mais pessoas iriam para a ilha, armariam barracas no camping, ocupariam os chalés, estenderiam toalhas na praia. As pessoas nos chalés fritariam ao sol durante metade do dia e depois ligariam o ar-condicionado ao máximo. O que significava, em geral, que ele ficaria ocupado com os consertos.

Não que ele se importasse. Era um trabalho bom e honesto. E embora sonhasse com algo mais desafiador, imaginava que seu dia chegaria.

Parou ao lado da cabana de Ginny e saltou. Esperava encontrá-la na cama, gemendo, com a cabeça numa bacia. Isso explicaria o silêncio. Quando estava em casa, Ginny tinha sempre o rádio ligado a todo o volume, a televisão também, sua própria voz alteada numa canção ou numa discussão com um dos programas de entrevistas em que era viciada. Os sons colidiam na maior alegria. Ela alegava que isso a impedia de se sentir solitária.

Mas Giff nada ouviu agora, exceto os estalos das folhas de palmeiras e o barulho das rãs na água. Foi até a porta. Como se sentia tão à vontade ali quanto em sua própria casa, não se deu ao trabalho de bater.

Teve um sobressalto quando abriu a porta e deparou com um homem à sua frente.

— Deus Todo-Poderoso, Bri! Assim você me mata de susto!

—  Desculpe. — Brian sorriu. — Ouvi a picape e pensei que poderia ser Ginny.

Ele olhou por cima do ombro de Giff, enquanto perguntava:

— Ela veio com você?

— Não. Acabei de saber que ela não foi trabalhar e vim descobrir o que aconteceu.

— Ela não está aqui. Parece que não veio em casa hoje, embora seja difícil saber com certeza. — Brian olhou para trás. —A mulher é tão desarrumada quanto três adolescentes se arrumando para uma festa.

— Talvez ela esteja em um dos pontos de acampamento. Brian esquadrinhou as árvores em torno dos tufos de capim dourado do pântano. Havia dois ou três patos de rabo pontudo descansando na água, em sua extensa rota de migração ao longo do Atlântico. Um gavião do pântano voava em círculos, sem pressa. Perto da trilha estreita, onde as tradescâncias se emaranhavam, um trio de borboletas amarelas esvoaçava alegremente.

Mas ele não avistou qualquer sinal do habitante humano daquele pequeno canto da ilha.

— Estacionei perto do número um e dei a volta completa para chegar aqui. Perguntei por Ginny, mas ninguém a viu desde ontem.

— Há alguma coisa errada. — O frio no estômago de Giff se transformou em dor. — Alguma coisa muito errada, Bri.

— Concordo com você. Já passa de duas horas da tarde. Mesmo que ela tivesse dormido em outro lugar, já teria aparecido a esta altura. — A preocupação era como um punho pressionando sua nuca. Brian esfregou-a, distraído, enquanto tornava a correr os olhos pela bagunça que era a cabana de Ginny. — Acho que está na hora de começarmos a telefonar para as pessoas.

— Falarei com minha mãe. Ela fará meia dúzia de ligações antes que qualquer de nós consiga completar a primeira. Vamos embora. Eu o deixarei em seu carro.

— Obrigado.

Enquanto se acomodava ao volante, GifF comentou:

— Ela estava no maior porre ontem à noite. Eu a vi... Lexy e eu a vimos. Estávamos na água... dando um mergulho.

— Um mergulho... posso imaginar.

Giff deixou passar um instante, antes de puxar a pala do boné.

— Como posso lhe dizer que estou transando com sua irmã?  Brian comprimiu os dedos contra os olhos.

— Acho que essa foi uma maneira. É um pouco difícil para mim dizer a palavra "parabéns" nas circunstâncias.

— Quer saber quais são minhas intenções?

—  Não, não quero. — Brian ergueu a mão. — Juro que não quero.

— Vou casar com ela.

Agora nunca mais poderei lhe dizer a palavra "parabéns". — Ele mudou de posição no banco, fitando Giff com um olhar curioso. — Você enlouqueceu?

— Eu a amo. — Giff engrenou a ré e partiu. —  Sempre a amei.

Brian imaginou Lexy sorridente a chutar o coração ainda sangrando de Giff do alto de um penhasco.                  

— Você já é crescidinho, Giff. Sabe em que está se metendo.

— Isso mesmo... e também sei que você e o resto de sua família nunca deram a Lexy o crédito que ela merece. —A voz normalmente suave de Giff assumia um tom defensivo firme, o que levou Brian a altear as sobrancelhas. — Ela é inteligente, forte, tem um coração tão grande quanto o mar e, quando se eliminam as frivolidades, é lão leal quanto qualquer outra pessoa.

Brian deixou escapar um longo suspiro. A irmã era também temerária, impulsiva e egocêntrica. Mas as palavras de Giff haviam tocado um ponto sensível e deixaram-no envergonhado.

— Você tem razão. E se alguém pode acentuar as melhores qualidades de Lexy, eu diria que é você.

— Ela precisa de mim. — Giff tamborilou com os dedos no volante. — Eu agradeceria se você não mencionasse a nossa conversa. Ainda não chegamos a essa parte.

— Pode ter certeza de que a última coisa sobre o que eu gostaria de conversar com Alexa seria sua vida amorosa.

— Melhor assim. Mas desviei-me do assunto. Como eu dizia, vi Ginny ontem à noite. Deve ter sido por volta de meia-noite. Eu não prestava muita atenção na ocasião. Ela seguia para o sul, pela praia... parou e acenou para nós.

— Estava sozinha?

— Estava. Disse que precisava desanuviar a cabeça. Não notei se ela voltou... fiquei ocupado com outras coisas.

— Se ela apagou na praia, alguém já a teria encontrado a esta altura. Portanto, deve ter voltado ou cortou caminho pelas dunas.

—  Encontramos um de seus brincos naquela clareira junto do no, no lado de Sanctuary.

— Quando?

— Há pouco tempo. — Giff parou a picape ao lado do carro de Brian.       Lexy e eu estávamos...

—  Por favor, não ponha essa imagem em meu cérebro. O que vocês são? coelhos? — Brian sacudiu a cabeça. — Tem certeza de que o brinco era de Ginny?

—  Lexy tinha certeza... e também tinha certeza de que Ginny usou o brinco ontem à noite.

— É o tipo de coisa que Lex costuma notar. Mas é um caminho estranho para Ginny seguir, se estava voltando para casa.

— Foi o que pensei. Mas ela podia estar com alguém na ocasião. Ginny não tem o hábito de deixar uma festa antes que termine... a menos que tenha outra espécie de festa planejada.

— Nada disso é típico de Ginny.

— Tem toda razão. Estou começando a ficar preocupado, Brian.

— Eu também. — Brian saltou da picape, virou-se e apoiou-se na janela. — Fale com sua mãe para começar a telefonar. Darei um pulo até o cais. É possível que ela tenha encontrado o homem de seus sonhos e pegou a barca com ele para Savannah.

 

ÀS SEIS HORAS, UMA BUSCA INTENSIVA FORA INICIADA. ATRAVÉS dos caminhos na floresta, ao longo das acidentadas trilhas de excursões para o norte, pela curva da praia, nas sendas sinuosas que contornavam as pequenas lagoas. Alguns dos participantes da busca podiam lembrar-se de outra busca, por outra mulher.

Vinte anos não haviam ofuscado a lembrança. E embora procurassem por Ginny, muitos comentavam sobre Annabelle.

Era provável que ela tivesse partido, como Belle fizera. Era o que alguns pensavam. Ela sempre tivera uma ânsia de aventura e decidira satisfazê-la. A garota Pendleton sempre fora desenfreada. Não, não Annabelle, ressaltavam as pessoas, mas Ginny. Annabelle era como as correntezas profundas, enquanto Ginny era como as ondas arrebentando na praia.

Mas as duas haviam partido.

Nathan ouviu uma das conversas no cais, enquanto largava sua pasta no banco do passageiro e guardava os suprimentos atrás.

Fez seu coração bater um pouco mais depressa, com mais vigor. Deixou o estômago embrulhado. Ouviu o nome de Annabelle ser pronunciado várias vezes e sentiu um zumbido nos ouvidos. Viera para enfrentar a realidade, Nathan lembrou a si mesmo, e depois tentara ignorá-la. Também não tinha certeza do que mais podia fazer. Ou se seria capaz de conviver com o curso que tivesse de tomar.

Ele seguiu para Sanctuary.

Avistou Jo sentada nos degraus da varanda, a cabeça apoiada nos joelhos levantados. Ela ergueu o rosto ao ouvir o Jeep e Nathan divisou todos os fantasmas em seus olhos.

— Não conseguimos encontrá-la. — Jo comprimiu os lábios. — Ginny desapareceu.

— Já soube.

Sem saber o que mais fazer, ele sentou ao lado de Jo. Passou o braço por seus ombros, a fim de que ela pudesse se aconchegar.

— Acabo de sair da barca.

— Procuramos por toda parte. Durante muitas horas. Ela desapareceu, Nathan, simplesmente desapareceu, como...

Jo não podia dizer. Não diria. E decidiu, enquanto respirava fundo, fechar a porta ao pensamento.

—  Se ela estivesse na ilha, alguém já a teria visto, alguém já a teria encontrado.

— É muito terreno para cobrir.

— Não é não. — Jo sacudiu a cabeça. — Se ela estivesse tentando se esconder, é claro que poderia se manter um passo à frente. Ginny conhece a ilha tão bem quanto qualquer um, cada enseada, cada trilha. Mas não havia razão para se esconder. Ela simplesmente foi embora.

— Não a vi na barca da manhã. E verdade que dormi durante a maior parte da viagem, mas Ginny não conseguiria passar despercebida.

— Já verificamos isso. Ela não pegou a barca.

—  Muito bem. — Ele subiu e desceu a mão pelo braço de Jo enquanto tentava pensar. — Barcos particulares. Há muitos na ilha... de pessoas que moram aqui e pessoas de fora.

— Ginny sabe pilotar um barco, mas nenhum dos nativos comunicou o desaparecimento de sua embarcação. E ninguém se apresentou para dizer que a levou ao continente.

— Não poderia ser alguém que só veio passar o dia aqui?

— É possível. — Jo balançou a cabeça, tentando aceitar. — É o que a maioria das pessoas começa a pensar. Ela é impetuosa e pode ter partido com alguém. Já fez isso antes, mas nunca sem dar um aviso... muito menos quando tinha trabalho no dia seguinte.

Nathan recordou a maneira que Ginny lhe sorrira. Oi, lindo.

— Ela bebeu bastante tequila ontem à noite.

—  Estão falando sobre isso também. — Jo desvencilhou-se, num movimento brusco. — Ginny não é uma bêbada vulgar e irresponsável.

— Eu não disse isso, Jo, nem tive a intenção.

— É muito fácil dizer que ela não se importava, não ligava para nada. Que simplesmente partiu sem avisar a ninguém, sem pensar em ninguém. — Jo levantou-se de um pulo, enquanto as palavras continuavam a sair, incontroláveis: — Deixou sua casa e sua família, todas as pessoas que amava, sem pensar duas vezes, sem imaginar como todos ficariam preocupados e magoados.

Os olhos faiscavam em fúria, a voz se elevava. Jo não se importava mais se era de sua mãe que falava agora. Não se importava mais se percebia, pela expressão séria e compadecida em seus olhos, que Nathan compreendia tudo.

— Não acredito nisso. — Ela respirou fundo e deixou escapar o ar lentamente. — E nunca acreditei.

— Sinto muito.

Nathan também se levantou. Abraçou-a. Embora Jo o empurrasse, tentasse se desvencilhar, ele não cedeu.

—    Sinto muito, Jo.

— Não quero sua compaixão. Não quero nada de você, nem de qualquer outra pessoa. Largue-me.

— Não.

Ela fora deixada de lado por muitas pessoas, com muita freqüência, pensou Nathan. Ele comprimiu o rosto contra os cabelos de Jo e esperou que a fúria passasse. Até que ela parou de se debater. Abruptamente, Jo abraçou-o também.

—  Oh, Nathan, estou com tanto medo... É como passar por tudo de novo, e ainda sem saber por quê.

Nathan olhou por cima de sua cabeça, para a profusão de bocas-de-leão e campânulas no jardim.

— Faria alguma diferença? Ajudaria saber por quê?

— Talvez não. Às vezes penso que tornaria ainda pior. Para todos nós. — Jo baixou o rosto para o pescoço de Nathan, sentindo uma gratidão patética por ele estar ali, por ser tão sólido. — Detesto ver meu pai se lembrar... e Brian e Lexy. Não falamos a respeito... parece que não somos capazes de falar a respeito. Mas o problema existe. Sempre nos pressiona e acho que nos afastou uns dos outros durante a maior parte de nossas vidas.

Ela deixou escapar um longo suspiro, embalado pelo ritmo firme do coração de Nathan.

— Eu me descubro a pensar mais em mamãe do que em Ginny e me detesto por isso.

— Não fique assim.

Ele roçou os lábios pela têmpora, pela face e depois na boca de Jo.

— Não fique assim — repetiu ele.

E aprofundou-se no beijo mais do que tencionava. Ela não se desvencilhou; em vez disso, abriu-se para ele. O mero conforto transformou-se em algo mais com a pressão da urgência. Nathan ergueu as mãos, emoldurou o rosto dela, tornou a baixá-las, numa carícia lenta e longa, que fez o estômago de Jo despencar para os joelhos.

A necessidade que a envolveu nesse instante era doce, madura, imensa. Acima de tudo, Jo queria se entregar. De onde vinha aquilo?, pensou ela, atordoada. E para onde poderia ir? Ela desejou subitamente, com toda a força de seu coração, que pudessem ser apenas duas pessoas se afogando uma na outra, naquele beijo lento e interminável, enquanto o sol mergulhava pelo céu e as sombras se tornavam mais longas e profundas.

— Não posso fazer isso — murmurou ela.

— Mas eu tenho de fazer.

Nathan mudou o ângulo do beijo. Quando Jo baixou os braços, inertes, ele murmurou:

— Abrace-me de novo, apenas por um instante. Precise de mim outra vez, apenas por um instante.

Ela não podia resistir, não podia negar aos dois. Por isso, apertou-o com força e deixou que o momento os envolvesse. Vagamente, ouviu o barulho de pneus na estrada. A realidade se insinuou e Jo recuou.

— Tenho de ir.

Nathan estendeu as mãos, segurou-a pelas pontas dos dedos.

— Volte comigo. Vamos para casa. Escape de tudo isso por algum tempo.

As emoções afloraram nos olhos de Jo, fizeram com que se tornassem ainda mais azuis.

— Não posso.

Ela subiu correndo os degraus, entrou em Sanctuary e fechou a porta, sem olhar para trás.

 

Trinta e seis horas depois de Ginny ter deixado de aparecer para o trabalho, Brian entrou na sala de estar da família e estendeu-se no sofá antigo. Estava exausto e não havia mais nada que pudesse fazer. A ilha fora vasculhada em todas as direções, inúmeros telefonemas foram dados. Finalmente, a polícia fora avisada.  Não que os policiais parecessem muito interessados, pensou Brian, enquanto estudava as rosetas de gesso no teto em arcadas. Afinal, a desaparecida era uma mulher de vinte e seis anos... e uma mulher com uma reputação. Uma mulher que era livre para ir e vir como quisesse, não tinha inimigos conhecidos e sempre demonstrava uma atração por incursões pela chamada vida airada.

Brian já sabia que as autoridades dariam ao caso apenas um exame superficial, fariam o básico e depois o arquivariam.

Haviam feito um pouco mais do que isso vinte anos antes, ele recordou, quando outra mulher desaparecera. Haviam trabalhado com mais afinco e por mais tempo para encontrar Annabelle. Os policiais  revistaram toda a ilha, fizeram perguntas, tomaram nota, pareciam preocupados. Mas havia dinheiro envolvido naquele caso... fundos de investimentos, propriedades, heranças. Brian levara algum tempo para compreender que a polícia investigava o caso como um crime. E que seu pai fora, por um breve instante, o principal suspeito.

O que o deixara apavorado.

Mas nenhum indício de crime jamais fora encontrado e o interesse acabara se desvanecendo. Brian calculava que o interesse no caso de Ginny Pendleton se desvaneceria muito mais depressa.

E, agora, ele esgotara tudo o que podia fazer.

Pensou em pegar o controle remoto, ligar a televisão ou o estéreo e sair de circulação durante uma hora. A sala de estar — ou sala da família, como Kate insistia em chamá-la — quase nunca era usada.

Fora Kate quem escolhera os móveis casuais e confortáveis, misturando as poltronas grandes e profundas, as mesas pesadas e antigas, o sofá em que se podia deitar para tirar um cochilo. Kate também espalhara almofadas coloridas pelo chão, diante da perspectiva, Brian imaginava, de que um dia a sala poderia receber tanta gente que nem todos teriam um assento tradicional.

Na maioria das vezes, no entanto, a sala era ocupada por uma única pessoa de cada vez.

Os Hathaway não eram pessoas que tinham o hábito de formar grupos para assistir ao principal noticiário da noite na televisão. Eram solitários, pensou Brian, todos eles, encontrando mais pretextos para se manterem separados do que para permanecerem juntos.

O que tornava a vida menos... complicada.

Ele sentou, mas carecia da energia para se distrair com as notí-< ias de outra pessoa. Em vez disso, levantou-se e foi até a geladeira pequena, por trás do bar de mogno. Era outra das fantasias obstinadas de Kate, manter aquele bar e a geladeira bem abastecidos. Como se a família pudesse se encontrar ali depois de um longo dia de trabalho, partilhar um drinque, alguma conversa, um pouco de diversão, Brian soltou uma pequena risada, enquanto abria uma cerveja.

Não havia a menor possibilidade.

Com esse pensamento ainda amargurando-o, ele levantou a cabeça e deparou-se com o pai na porta. Não dava para saber quem se mostrara mais surpreso.

O silêncio pairou no ar, daquele tipo denso e opressivo que só pode ocorrer dentro da família. Ao final, Brian levantou a cerveja e tomou um gole longo. Sam deslocou o peso do corpo de um pé para outro, enganchou os polegares nos bolsos da frente e perguntou a Brian:

— Já acabou por hoje?

—  É o que parece. Não há mais nada a fazer. — Como apenas ficar em pé ali fazia com que se sentisse um tolo, Brian indagou: — Quer uma cerveja?

— Não me importaria.

Brian pegou outra garrafa na geladeira e abriu-a, enquanto o pai atravessava a sala. Sam tomou um gole. Ficou calado. Sua intenção era relaxar um pouco com uma partida de beisebol pela televisão, talvez tomar um bourbon para ajudá-lo a dormir.

Nunca passara por sua cabeça tomar uma cerveja com o filho.

—  A chuva chegou — murmurou ele, tateando. Brian podia ouvir o barulho nas janelas.

— Tem sido uma primavera bonita e seca.

Sam acenou com a cabeça e tornou a deslocar o peso do corpo de um pé para outro.

— O nível da água está muito baixo em algumas das lagoas menores. A chuva vai ajudar.

— Os forasteiros não vão gostar.

— Não vão mesmo. — O rosto franzido de Sam era um reflexo. Mas precisamos da chuva.

O silêncio voltou a prevalecer. Prolongou-se até que Brian inclinou a cabeça para o lado e disse:

— Parece que já esgotamos o tempo como assunto. Qual será o próximo? Política? Esporte?

Sam não deixou de perceber o sarcasmo, apenas optou por ignorá-lo.

— Não pensei que você tivesse interesse por qualquer das duas coisas.

— Tem toda razão. O que eu poderia saber sobre esses assuntos tão viris? Afinal, cozinho para viver.

— Não foi isso que eu quis dizer. — Sam sentia os nervos à flor da pele, mais próximo de uma explosão do que lhe agradava. Concentrou-se em não perder a calma. — Apenas não sabia que você se interessava.

— Você não tem a menor idéia do que me interessa. Não sabe o que eu penso, o que eu quero, o que eu sinto. Porque isso nunca o interessou.

— Brian Hathaway! —A voz de Kate era incisiva. Ela entrou na sala, junto com Lexy. — Não fale com seu pai dessa maneira!

—  Deixe o garoto falar. — Sam manteve os olhos no filho, enquanto largava a cerveja numa mesinha. — Ele tem esse direito.

— Mas não tem o direito de ser desrespeitoso.

— Kate... — Sam lançou-lhe um olhar firme, depois acenou com a cabeça para o filho. — Se tem alguma coisa entalada na garganta, fale agora.

— Levaria anos para dizer tudo e não mudaria nada.

Sam foi para trás do bar. Queria mesmo tomar um uísque, no final das contas.

— Por que não começa assim mesmo?

Ele serviu-se três dedos de Jim Bean, num copo pequeno. Depois de um breve momento de hesitação, despejou o uísque num segundo copo, que estendeu sobre o bar para Brian.

— Não bebo bourbon. O que provavelmente também faz com que eu seja menos que um homem.

Sam sentiu uma pontada de dor no coração. Levantou seu copo.

— A escolha da bebida de um homem é da sua própria conta. E você já é adulto há algum tempo. Por que deveria se importar com o que eu penso?

— Levei trinta anos para chegar aqui. Onde você estava durante os últimos vinte anos?

A tranca que ele pusera nas perguntas e o sofrimento por trás delas deram lugar à frustração. A tranca partiu-se, como se estivesse enferrujada, esperando apenas pelo último golpe para arrebentar.

— Você foi embora, como ela fez. Só que fez pior, porque nos obrigou a saber, em todos os dias de nossas vidas, que não tínhamos a menor importância para você. Éramos apenas acessórios, que relegou para os cuidados de Kate...

— Escute aqui, Brian William Hathaway...

— Deixe-o falar. — Sam mantinha a voz fria, para disfarçar as agulhas em brasa que espetavam sua garganta. — Pode terminar, Brian. Sei que tem mais a dizer.

— Que diferença isso faria? Voltaríamos ao passado e você estaria presente quando dois garotos de fora me encheram de porrada só para se divertirem? Ou quando eu tinha quinze anos e passei mal com a primeira cerveja? Quando eu tinha dezessete anos e fiquei apavorado, porque sentia medo de ter engravidado Molly Brodie, quando perdemos a virgindade juntos?

Brian mantinha os punhos fechados nos lados do corpo, sentindo uma raiva que não sabia que existia dentro dele.

— Você nunca estava presente. Era sempre Kate. Era ela quem limpava os vômitos e segurava minha cabeça. Era ela quem me confortava quando eu precisava, quem me ensinou a guiar, quem me passava sermões e me elogiava. Nunca você. Nem uma única vez. Nenhum de nós precisa de você agora. E se tratava mamãe com a mesma desatenção egocêntrica, não é de admirar que ela tenha ido embora.

Sam encolheu-se todo ao ouvir isso, a primeira demonstração de emoção durante o longo fluxo de amargura. Sua mão tremia um pouco quando a estendeu para pegar o copo. Mas antes que ele pudesse falar, Lexy gritou da porta:

— Por que está fazendo isso? Por que está fazendo isso agora? Aconteceu alguma coisa com Ginny! — A voz se desmanchou num solo, enquanto ela avançava pela sala. —  Foi alguma coisa terrível, tenho certeza, mas tudo o que você pode fazer é ficar parado aqui, dizendo essas coisas horríveis!

As lágrimas escorriam pelas faces. Ela comprimiu as mãos contra os ouvidos, como se assim pudesse bloquear tudo.

— Por que não pode deixar tudo isso em paz, fingir que não tem a menor importância?

— Porque tem. — Furioso pelo fato de a irmã não ser capaz de ficar do seu lado nem mesmo agora, Brian virou-se para ela: — Porque importa que não passemos de um arremedo patético de uma família, que você tivesse de fugir para Nova York e tentasse preencher com homens o buraco que ele abriu em sua vida. Que Jo ficasse doente e eu não consiga ficar com uma mulher sem pensar que acabarei afastando-a, como ele fez com mamãe. Importa e importa muito, porque nenhum de nós sabe como ser feliz.

— Sei como ser feliz! — A voz de Lexy se elevara, estridente. Sua reação instintiva era gritar em negação, pois assim faria com que tudo fosse mentira. — E serei feliz! Terei tudo o que quero!

— O que está acontecendo aqui?

Jo pôs a mão no batente da porta e parou. As vozes alteadas haviam-na trazido de seu quarto, onde tentava cochilar, para compensar o sono que perdera na preocupação com Ginny.

— Brian é odioso!

Com um soluço desesperado, Lexy virou-se e correu para os braços da irmã.

O choque da cena, a visão do irmão e do pai fitando-se através do bar, como pugilistas à espera da campainha, deixou Jo atordoada. Kate estava parada no meio, chorando baixinho.

— O que está acontecendo aqui? — repetiu Jo, a cabeça começando a latejar. — É por causa de Ginny?

— Eles não se importam com Ginny. — Perdida em sua dor Lexy soluçava no ombro de Jo. — Eles não se importam.

— Não tem nada a ver com Ginny. Doente agora de fúria e culpa, Brian saiu de trás do bar. É apenas uma típica noite Hathaway.   E já me cansei.

Ele saiu, parando por um instante ao lado de Lexy. Levantou a mão, como se fosse afagar os cabelos da irmã, mas logo tornou a baixá-la, sem chegar a fazer o contato. Jo engoliu em seco.

— O que foi, Kate?

Kate removeu as lágrimas das faces.

— Querida, pode levar Lexy para o quarto? Estarei lá dentro de um instante.

— Está bem.

Jo lançou um olhar rápido para o pai, que mantinha o rosto impassível, os olhos enigmáticos. Decidiu que era melhor guardar as perguntas para depois.

— Vamos, Lexy — murmurou ela. — Venha comigo.

Depois que elas saíram, Kate tirou um lenço do bolso e assoou o nariz.

— Não que isso seja desculpa para o comportamento dele, mas Brian está doente e exausto de tanta preocupação — comentou ela. — Todos nós estamos, mas ele vem falando com a polícia e ainda por cima tem de cuidar da pousada. Ele está apenas esgotado, Sam.

—  E também está certo. — Sam tomou um gole do uísque, especulando se o álcool tiraria o gosto amargo da vergonha de sua garganta. — Não tenho sido um pai para eles desde que Belle nos abandonou. Deixei tudo aos seus cuidados.

— Sam...

Ele fitou-a.

— Vai me dizer que isso não é verdade?

Kate suspirou. Depois, porque suas pernas pareciam cansadas demais para sustentá-la por mais um minuto, sentou num banco do bar.

— Não direi isso. Não há sentido em mentir.

Sam soltou um grunhido que podia passar por uma risada. — Você sempre foi honesta até demais. É uma qualidade admirável... e irritante.

— Não pensei que você prestasse muita atenção. Há anos que venho entoando uma variação um pouco mais polida do que Brian acaba de dizer. — Ela inclinou a cabeça para o lado. Embora seus olhos estivessem injetados, eram firmes quando se encontraram com os dele. — Jamais causou a menor impressão em você.

— Causou alguma.

Sam tirou os óculos para passar as mãos pelo rosto. Talvez fosse porque estivesse cansado e deprimido, talvez porque recordasse com muita nitidez o que já deveria ter se desvanecido, mas as palavras que não fora capaz de dizer antes afloraram sem esforço:

— Não queria que as crianças precisassem de mim. Não queria que ninguém precisasse. E também não queria precisar das crianças.

Ele fez menção de se retirar em seguida. Era mais do que jamais dissera para qualquer pessoa antes, exceto para si mesmo. Mas Kate observava-o com tanta paciência, com tanta compaixão, que Sam se descobriu a dizer o resto:

— A verdade, Kate, é que Belle partiu meu coração. Quando comecei a superar, você estava aqui e as coisas pareciam correr bastante bem.

— Se eu não tivesse ficado...

— As crianças não teriam ninguém. Fez um bom trabalho com elas, Kate. Não sei se compreendia isso até que aquele garoto me acertou um direto entre os olhos, há poucos minutos. Era preciso coragem para fazer isso.

Kate fechou os olhos.

— Nunca compreenderei os homens, nem que viva mais meio século. Está orgulhoso de Brian por gritar com você... por insultá-lo?

— Respeito Brian por isso. Ocorre-me que não tenho demonstrado o respeito apropriado que um homem adulto merece.

— Aleluia...

Kate pegou o copo com bourbon que Brian deixara intacto e bebeu. E engasgou.

Os lábios de Sam se contraíram. Kate parecia muito bonita, pensou ele, sentada ali, batendo com o punho fechado na altura do coração, o rosto vermelho, os olhos arregalados.

— Você nunca foi de tomar uísque.

Ela respirou fundo, gemendo porque o uísque ardia como o fogo do inferno.

— Resolvi abrir uma exceção esta noite. Estou exausta. Sam tirou o copo de sua mão.

— Só vai passar mal com isso.

Ele abriu a geladeira e encontrou a garrafa aberta do Chardonnay que Kate preferia. Enquanto servia, ela fitava-o com uma expressão de surpresa.

— Nunca imaginei que você soubesse o que gosto de beber.

— Não se pode viver com uma mulher durante vinte anos sem perceber alguns de seus hábitos. — Ele compreendeu o que acabara de dizer e sentiu o calor subir pelo pescoço. — Isto é, viver na mesma casa.

— Ahn... O que pretende fazer em relação a Brian?

— Tenho de fazer alguma coisa?

— Sam... — Impaciente, ela tomou um gole rápido do vinho, para tirar o gosto de bourbon da boca. — Vai desperdiçar esta chance?

Lá estava ela de novo, pensou Sam, pressionando-o, quando ele queria apenas um pouco de paz.

— Ele estava furioso e deixei-o dizer o queria. Agora acabou.

— Não, não acabou. — Kate inclinou-se para a frente, por cima do bar, segurando-o pelo braço, antes que ele pudesse se esquivar. — Brian apenas abriu a porta, Sam. Agora, você tem de ser pai e homem suficiente para entrar.

— Ele não tem qualquer utilidade para mim.

—  Essa é maior bosta que já ouvi. — Ela sentia-se tão furiosa que nem notou que a tosse de Sam encobria uma risada. — Como vocês têm a cabeça dura! Acho que cada fio branco que tenho na cabeça foi conseqüência da teimosia Hathaway.

Sam correu os olhos pelos impecáveis cabelos castanho-avermelhados.

— Você não tem nenhum fio branco.

—  E pago um bom dinheiro para manter assim. — Ela deixou escapar um suspiro. — Agora, Sam, quero que preste toda atenção. Mantenha os ouvidos bem abertos, por uma vez. Não quero saber qual é a idade de seus três filhos, pois eles ainda precisam de você. E já está mais do que na hora de você dar, para eles e para si mesmo, o que deixou de dar há muitos anos. Compaixão, atenção e afeição. Se essa horrível jogada de Ginny fez isso aflorar, então quase me sinto contente. E juro que não ficarei de braços cruzados vendo vocês quatro se afastarem uns dos outros de novo.

Kate levantou-se, pegou seu copo e acrescentou:

— Agora tentarei acalmar Lexy, o que deve me ocupar por metade da noite. Isso lhe dá tempo suficiente para procurar seu filho e começar a reparar os erros passados.

— Kate...

Quando ela parou na porta e virou-se para fitá-lo, com os olhos faiscando, o nervosismo levou-o a estender a mão para a garrafa de Jim Beam, para largá-la em seguida.

— Não sei por onde começar.

— Seu idiota... — Ela falou com tanta afeição que Sam sentiu o calor subir no pescoço pela segunda vez. — Você já começou.

 

BRIAN   SABIA   EXATAMENTE   PARA   ONDE   IA.   NÃO  SE  ILUDIU  com a suposição de que estava apenas dando uma longa volta para esfriar. Poderia ter contornado toda a ilha a pé e ainda assim seu sangue continuaria quente. Sentia-se furioso consigo mesmo por ter perdido a calma, por dizer coisas que não adiantava. Censurava-se por ter feito Lexy e Kate chorarem.

A vida era mais simples quando se guardava as coisas, concluiu Brian, quando apenas se convivia com os outros e só se cuidava dos próprios problemas.

Não fora isso o que o pai fizera durante todos aqueles anos?

Brian curvou os ombros contra a chuva, irritado por ter saído sem uma capa e estar agora todo molhado. Podia ouvir o mar quebrando forte, enquanto caminhava pela areia encharcada entre as dunas. Havia luzes acesas por trás das janelas dos chalés e ele usava-as como uma bússola, no escuro.

Ouviu os acordes de música clássica ao subir os degraus para o chalé de Kirby. Avistou-a através do vidro da porta, salpicado pela chuva. Ela usava um training azul, folgado, e estava descalça. Os cabelos pendiam para a frente, formando uma cortina diante do rosto, enquanto se inclinava para a geladeira, um pé de unhas pintadas de rosa batendo no ritmo da música.

O súbito ímpeto de desejo foi bastante satisfatório. Brian abriu a porta sem bater. Ela empertigou-se no mesmo instante, soltando um grito abafado:

— Oh, Brian! Não ouvi você se aproximar. — Surpresa, ela pôs a mão na porta aberta da geladeira. —Alguma notícia de Ginny?

— Não.

— Pensei...

Os nervos vibravam nas pontas dos dedos quando ela passou-os pelos cabelos. Os olhos de Brian eram sombrios e francos. Algo indubitavelmente perigoso fumegava neles. O coração de Kirby subiu pela garganta.

— Você está encharcado.

— Chove lá fora.

Ele se adiantou.

— Eu... ahn... — Não importava quanto ela dissesse a si mesma que isso era ridículo, o fato é que seus joelhos começaram a tremer. — Eu ia tomar um vinho. Você podia servir, enquanto pego uma toalha.

— Não preciso de uma toalha.

— Está bem. — Ela podia agora sentir o cheiro de chuva em Brian... e o calor. — Vou pegar o vinho.

— Mais tarde. Brian estendeu a mão e fechou a porta da geladeira, Espremeu-a contra a porta com seu corpo, esmagou sua boca com um beijo

ansioso e ardente.

Mesmo enquanto o gemido ficava estrangulado na garganta de Kirby, ele enfiou as mãos por baixo do blusão e cobriu os seios. Seus dentes mordiscaram a língua de Kirby, fazendo com que pequenos frêmitos de medo e dor percorressem seu corpo. Ele desceu as mãos, agarrou sua bunda, levantou-a do chão por alguns centímetros, o brim molhado e esticado comprimindo-se contra a ânsia entre as coxas de Kirby.

Ela conseguiu deixar escapar um suspiro trêmulo quando os lábios de Brian grudaram em seu pescoço.

— Chega de conversa... — Sôfrega, ela atacou a orelha. O gosto da mordida fez com que desejasse mais. — O quarto fica no final do corredor.

— Não preciso de uma cama. — Com um sorriso selvagem, ele ergueu a cabeça e fitou-a nos olhos. — Ao meu jeito. E faço meu melhor trabalho na cozinha.

Os pés de Kirby tornaram a tocar no chão antes que ela pudesse piscar. Ele ergueu os braços dela por cima da cabeça, segurando os pulsos com uma das mãos, enquanto tornava a comprimi-la contra a porta da geladeira.

— Olhe para mim.

Brian enfiou a outra mão por dentro da cintura da calça do training e estendeu os dedos para penetrá-la.

Ela soltou um grito abafado... choque e prazer colidindo numa investida brutal sobre o sistema que a fazia movimentar os quadris, acompanhando o ritmo implacável de Brian, numa reação instintiva. A visão de Kirby tornou-se turva, a respiração saía em ofegos curtos, até que ela gozou, num fluxo explosivo.

Ela já estava molhada. Brian descobriu-a escorregadia e pronta, e só isso foi suficiente para provocar um tremendo excitamento. Mas quando Kirby ficou com os olhos vidrados e seu fluxo deixou-o com a mão encharcada, a necessidade fez todo o corpo de Brian estremecer. Sus respiração era quase um rosnado quando arrancou o blusão pela cabeça, para depois cobrir um seio com a boca.

Era pequeno, firme e tinha gosto de pêssego. Brian queria devorá-lo, até ficar saciado ou morto. Seus murmúrios de aprovação misturavam-se com ameaças que nenhum dos dois podia compreender. As mãos de Kirby passaram pelos cabelos de Brian, puxaram a camisa molhada, os dedos sempre competentes atrapalhando-se em sua pressa. A própria falta de controle acrescentava uma camada ao excitamento de Brian.

— Mais... — murmurou ele, empurrando para baixo a calça do training. — Quero mais.

Quando Brian baixou a boca, ela segurou-o pelos ombros e soluçou:

— Você não pode... eu não posso... Ó Deus, o que está fazendo comigo?

— Eu a estou possuindo.

No instante seguinte, a boca alcançou-a e lábios e dentes levaram-na além da sanidade. A cabeça de Kirby pendeu para trás, contra a porta da geladeira que não parava de zumbir, enquanto o calor espalhava-se por todo o seu corpo, cobrindo a pele de suor. A força do orgasmo foi como um trem em disparada passando pelo túnel em que ele a mantinha acuada e desamparada.

O corpo de Kirby estava inerte, a cabeça pendendo, quando ele a levantou. Nada mais a chocava agora, nem mesmo quando ele a estendeu na mesa da cozinha, como o prato principal que preparara para satisfazer seu apetite.

Ele tirou a camisa, sem desviar os olhos dela em momento algum. Apoiou um pé na beira da mesa, tirou um tênis, depois o outro, jogou os dois para o lado. Desabotoou os jeans, baixou o zíper.

Os olhos de Kirby começavam a desanuviar. Melhor assim, pensou Brian. Queria vê-los ficarem vidrados de novo. Ao tirar os jeans, ele contemplou-a de novo. Pele rosada e úmida, curvas delicadas, os cabelos espalhados sobre a madeira escura. Ela era linda, deslumbrante. Diria isso quando tivesse certeza de que poderia formar palavras. Montou a e sorriu ao sentir que ela tremia.

— Quero que diga "possua me, Brian".

Ela tinha de se concentrar em sugar ar suficiente para sobreviver. Deixou escapar um gemido quando os polegares roçaram em seus mamilos.

— Diga.

Sem pensar, ela ergueu o corpo.

— Possua-me, Brian. Pelo amor de Deus.

Ele penetrou-a, num movimento rápido e firme, levando os dois à beira do orgasmo. Brian viu aqueles olhos de sereia ficarem vidrados de novo.

— Agora é você quem tem de me possuir, Kirby.

— Está bem.

Ela ergueu a mão para o rosto de Brian, envolveu-o com as pernas e exultou na viagem vertiginosa.

Brian estava ofegante quando arriou em cima dela. Pela primeira vez em dias, sentia tanto o corpo quanto a mente relaxados. Podia senti-la ainda tremendo por baixo, na esteira do sexo maravilhoso. Esfregou o rosto nos cabelos de Kirby, aspirando a fragrância.

— E isso foi apenas para abrir o apetite.

— Ó meu Deus...

Ele riu e ergueu-se. Ficou exultante ao vê-la sorrir.

— Você tem gosto de pêssego.

— Havia acabado de tomar um banho de essência quando você apareceu para me estuprar.

— Escolhi o momento mais oportuno.

Ela estendeu a mão para afastar os cabelos do rosto de Brian... um gesto afetuoso que deixou os dois intrigados.

— Acho que foi mesmo. Você parecia muito perigoso e excitante quando chegou.

— Eu me sentia perigoso. Tivemos uma briga de família em Sanctuary.

— Sinto muito.

— Não é problema seu. Bem que eu gostaria de tomar aquele vinho agora.

Brian virou-se, saiu da mesa e foi até a geladeira. Kirby permitiu-se admirar a cena. Como médica, podia lhe dar nota dez por se manter em forma. Como sua amante, podia sentir-se grata por seu corpo esbelto e firme.

— Os copos de vinho estão no segundo armário à esquerda — informou ela. — Vou pegar um roupão.

— Não precisa se incomodar — disse Brian, no momento em que ela se levantava.

— Não vou ficar em pé nua na cozinha.

— Claro que vai. — Ele serviu os dois copos, generoso, antes de tornar a fitá-la. — E, de qualquer maneira, não ficará em pé por muito tempo.

Surpresa, ela alteou uma sobrancelha.

— Não?

— Não. — Ele entregou-lhe um copo. Bateram de leve. — Calculo que o balcão a deixará na altura apropriada.

Ela sentiu-se grata por ainda poder tomar um gole do vinho.

— No balcão da cozinha?

— Isso mesmo. E ainda tem o chão.

Kirby olhou para o linóleo branco de que a avó tanto se orgulhara ao instalar três anos antes.

— O chão...

— Calculo que poderemos chegar à cama... se você está mesmo decidida a ser tradicional... dentro de duas ou três horas. — Brian olhou para o relógio em cima do fogão. — Temos tempo suficiente. Não servimos o café da manhã antes de oito horas.

Kirby não sabia se ria ou se engolia em seco.

— Você é extremamente confiante em sua capacidade de permanência, não é?

— Tenho confiança absoluta. E você? A emoção de um desafio a fez sorrir.

— Eu o acompanharei passo a passo, Brian... e mais do que isso. Cuidarei para que ambos sobrevivamos ao esforço.  — Seus olhoss sorriram para Brian por cima do copo de vinho. — Afinal, uma médica serve para essas coisas.

— Neste caso...

Brian largou seu copo. Kirby soltou um grito estridente quando ele segurou-a pela cintura... e outro quando sua bunda encostou na fórmica.

— Ei, está frio!

— Neste caso... — Brian mergulhou um dedo em seu copo de vinho e deixou pingar no mamilo. Inclinou-se para a frente e lambeu delicadamente. — ... teremos de esquentar as coisas.

 

Sam concluiu que era um mau sinal quando um homem precisava tomar coragem para conversar com o próprio filho. E era pior quando finalmente tomava coragem, mas não conseguia encontrar o filho em parte alguma.

A cozinha estava vazia, sem sinal de café sendo feito ou biscoitos no forno. Sam parou ali por um momento, sentindo-se desajeitado e contrafeito no que persistia em pensar como uma área de mulher.

Sabia que Brian sempre fazia uma caminhada no início da manhã, mas também que ele começava a preparar o café e a massa de biscoito ou pão especial antes de sair. De qualquer forma, Brian já teria voltado àquela hora. Mais trinta ou quarenta minutos e as pessoas começariam a entrar na sala de jantar, querendo comer.

Só porque Sam não passava muito tempo na casa — e o mínimo possível junto dos hóspedes — isso não significava que ignorava o que acontecia ali.

Sam revirou o boné entre as mãos, detestando o fato de que a preocupação começava a dominá-lo. Acordara em outra manhã para descobrir que uma pessoa de sua família desaparecera. Também sem qualquer preparativo. Sem aviso. E agora não havia café no bule nem massa de biscoito crescendo na grande tigela azul, sob um pano branco.

Afugentara o filho? E teria agora mais anos pela frente para especular se era o responsável por afastar outra pessoa de Sanctuary e de si mesmo?

Ele fechou os olhos por um momento, até se livrar do terrível sentimento de culpa. Não, não assumiria aquela culpa. Brian era adulto, assim como Annabelle também era adulta na ocasião. As decisões que haviam tomado eram suas. Sam pôs o boné na cabeça e encaminhou-se para a porta.

E sentiu pontadas de alívio e ansiedade quando ouviu o assobio aproximando-se pelo caminho do jardim.

Brian parou de assobiar — e parou de andar — quando viu o pai passar pela porta da varanda fechada por tela. Ressentiu-se por seu ânimo passar abruptamente da luz para a desolação. E ressentiu-se pela súbita interrupção de seus últimos momentos de solidão.

Ele acenou com a cabeça, passou por Sam e entrou na cozinha. Sam permaneceu parado onde estava por um momento, indeciso. Não era difícil para um homem perceber quando outro passara a noite com uma mulher, empenhado num sexo ardente. Ver aquela expressão relaxada e satisfeita nos olhos do filho fizera com que se sentisse tolo... e invejoso. E Sam pensou que seria muito mais fácil para ele se continuasse a andar e deixasse as coisas como estavam.

Com um grunhido, ele tirou o boné da cabeça e tornou a entrar.

— Preciso falar com você.

Brian olhou para o pai. Já pusera um avental comprido e despejava grãos de café no moedor.

— Estou ocupado agora.

Sam assumiu uma posição decidida.

— Preciso conversar com você mesmo assim.

— Neste caso, terá de falar enquanto trabalho. — Brian ligou o moedor, povoando a cozinha com o barulho e o aroma. — Estou um pouco atrasado esta manhã.

— Hum...

Sam tornou a revirar o boné entre as mãos. Decidiu esperar até que o moedor parasse, em vez de tentar falar mais alto. Observou Brian medir o pó de café, medir a água em seguida e pôr a enorme Bunn Omatic para funcionar.

— Fiquei surpreso por você não estar aqui.

Brian pôs uma tigela grande no balcão e começou a pegar os ingredientes para os biscoitos.

— Não bato um relógio de ponto para ninguém, a não ser para mim mesmo.

— Não pensei nisso.

Sam não tivera mesmo essa intenção. Desejou saber como falar com um homem que usava um avental e preparava massa de biscoito.

— Eu queria falar sobre ontem... sobre a noite passada. Brian despejou leite, calculando a quantidade no olho.

—  Eu disse tudo o que tinha a dizer e não vejo sentido em repetir.

— Portanto, você acha que pode dizer o que quiser, mas eu não tenho o direito de falar.

Brian pegou uma colher de pau, aninhou a tigela no braço, por hábito, e começou a bater. A exultação sonhadora em decorrência do sexo durante a noite inteira já se dissipara.

—  O que eu penso agora é que você teve a vida inteira para falar... e no momento tenho trabalho a fazer.

— Você é um homem difícil, Brian.

— Aprendi pelo exemplo.

Era um dardo bem disparado, para atingir o alvo em cheio. Sam reconheceu e aceitou. Depois, cansado de bancar o suplicante, ele largou o boné no balcão.

— Vai escutar o que tenho a dizer e assim acabaremos logo com isso.

— Pode falar. — Brian pôs a massa na tábua coberta de farinha de trigo e começou a amassar com toda a força. — E acabaremos logo com isso.

— Você estava certo. — Sam sentiu uma pressão na garganta e engoliu em seco. — Tudo o que disse ontem à noite era certo e verdadeiro.

Os punhos afundados na massa de biscoito, Brian virou a cabeça para fitar o pai, aturdido.

— Como?

— E o respeito por ter a coragem de dizer.

— Como?

— Entrou farinha de trigo em seus ouvidos? — indagou Sam, impaciente. — Eu disse que você estava certo e tinha todo o direito de falar. Quanto tempo leva para essa engenhoca fazer uma xícara de café?

Sam olhava para a máquina com uma expressão acusadora. Lentamente, Brian voltou a amassar a massa, mas sem desviar os olhos do pai.

— Pode tirar uma xícara, se precisar.

— Eu preciso.

Sam abriu um armário e franziu o rosto ao descobrir que só havia copos e taças ali.

— As xícaras e canecas de café não são guardadas aí há oito anos —informou Brian, a voz suave. — Duas portas para a esquerda... por cima da área de preparação de café.

— Área de preparação de café... — murmurou Sam. Nome, de fantasia para bebidas de fantasia quando tudo o que um lionu m quer é uma xícara de café puro.

— Nossos cappuccinos e lattes são bastante populares. Sam sabia o que era cappuccino... ou quase. Mas não tinha a menor idéia do que era latte. Soltou um grunhido. Pegou o bule de vidro com todo cuidado para despejar café na caneca. Tomou um gole, sentiu-se um pouco melhor, tomou outro gole.

— É um bom café.

— Por causa dos grãos.

— Acho que moer na hora faz alguma diferença.

— Toda a diferença do mundo. — Brian largou a massa na tigela, cobriu-a e foi até a pia para se lavar. — Creio que estamos tendo agora uma conversa de verdade pela primeira vez em... durante a maior parte de minha vida.

— Não fiz o que era certo com você. — Sam olhava para o líquido preto em sua caneca. — Desculpe.

Brian parou de enxugar as mãos, outra vez atordoado.

— Como?

— Não vou continuar a repetir tudo. — Sam levantou a cabeça, num movimento brusco, os olhos cheios de frustração. — Estou apresentando um pedido de desculpa e você deve ter a grandeza de aceitá-lo.

Brian ergueu a mão, antes que a conversa se deteriorasse para uma discussão, como costumava acontecer.

— Você me pegou desprevenido. E me deixou espantado. — Brian foi até a geladeira, a fim de pegar frios e ovos para o café da manhã. — Talvez eu pudesse aceitar melhor se soubesse pelo que está pedindo desculpa.

—  Por não estar ao seu lado quando tinha doze anos e levou uma surra. Quando tinha quinze anos e vomitou ao tomar sua primeira cerveja. Quando tinha dezessete anos e era tão estúpido que não sabia como fazer amor com uma garota sem se tornar pai.

Mais do que um pouco trêmulo, Brian pegou uma frigideira.

— Kate me levou a Savannah para comprar camisinhas.

— Não é possível! — Se o filho batesse em sua cabeça com um salame, Sam ficaria menos chocado. — Kate comprou camisinhas para você?

— Comprou. — Brian descobriu-se a sorrir da recordação, enquanto esquentava a frigideira. — Aproveitou para fazer um sermão sobre responsabilidade, comedimento, abstinência. E depois me comprou um pacote de Trojans e disse que, se eu não pudesse controlar o impulso, então era melhor usar uma proteção.

—  Doce Jesus! — A risada escapou enquanto Sam encostava no balcão. — Não dá nem para imaginar!

Ele se empertigou, limpou a garganta e acrescentou:

— Eu é que deveria ter-lhe dito essas coisas.

— Isso mesmo, deveria ter sido você. — Como se o arranjo fosse vital, Brian ajeitou salsichas na frigideira. — Por que não foi?

— Não tinha sua mãe para me dizer que era melhor conversar com aquele menino, que estava com algum problema na cabeça. Ou que Lexy queria exibir os sapatos novos. Via essas coisas pessoalmente, mas me acostumei a contar com sua mãe para me levar a agir. E depois, quando não a tive mais, larguei tudo. — Sam pôs a caneca em cima do balcão. Enfiou as mãos nos bolsos. — Não estou acostumado a me explicar. E não gosto.

Brian pegou outra tigela. Quebrou o primeiro ovo para a massa de panqueca.

— A opção é sua.

— Eu a amava. — As palavras pareciam rasgar a garganta e Sam sentiu-se grato porque o filho continuava concentrado em seu trabalho. — Não é fácil para mim dizer isso. Talvez não tenha dito o suficiente a ela... o sentimento vinha com mais facilidade do que as palavras. Eu precisava dela. Sam, o sisudo... era assim que sua mãe me chamava. Não me deixava permanecer desse modo por muito tempo. Ela amava a companhia de novas pessoas, gostava de conversar sobre todos os assuntos. Amava esta casa, amava esta ilha. E, por algum tempo, também me amou.

Brian pensou que provavelmente nunca ouvira um discurso tão longo de Sam Hathaway. Sem querer interromper o fluxo, ele não disse nada, enquanto despejava na tigela a manteiga que derretera.

— Tínhamos os nossos problemas. Não vou fingir que não havia nenhum. Mas sempre conseguíamos superá-los. Na noite em que você nasceu... Jesus, fiquei apavorado! Mas Belle não ficou. Era tudo uma grande aventura para ela. E quando acabou, quando você estava aninhado em seus braços, mamando, ela recostou-se nos travesseiros, com um sorriso. "Veja que lindo bebê nós fizemos, Sam. leremos de fazer muitos outros." Um homem não pode deixar de amar uma mulher assim. Nem sequer tem uma opção.

— Não pensei que você a amava.

— Amava e muito. — Sam tornou a pegar a caneca com café. Falar tanto deixara-o com a garganta ressequida. — Levei anos vivendo sem ela até parar de amá-la. Talvez eu a tenha afastado, mas não sei como foi. O fato de não saber me deixou angustiado por muitos anos.

— Peço desculpa. — Brian viu o brilho de surpresa nos olhos do pai. — Pensava que isso não importava para você. Pensava que não estava realmente interessado.

— Claro que me importava. Depois de algum tempo, no entanto, você aprende a viver com o que tem.

— E você tinha a ilha.

— Era com a ilha que podia contar, o que podia cuidar. E me impediu de enlouquecer. — Sam respirou fundo. — Mas um homem melhor deveria estar presente para segurar a cabeça do filho quando ele vomitou de um excesso de Budweiser.

— Löwenbräu.

— Uma cerveja importada? Não é de admirar que eu não o compreenda.

Sam soltou um suspiro e avaliou o homem que o filho se tornara. Um homem que usava um avental para trabalhar e fazia tortas. Um homem, ele corrigiu, com olhos frios e firmes, os ombros largos e bastante fortes para carregarem mais do que o próprio peso.

— Ambos dizemos o que queríamos e não sei se isso fará alguma diferença. Mas me sinto contente porque falamos.

Sam estendeu a mão, torcendo para que fosse a coisa certa.

Jo entrou na cozinha nesse instante, para deparar com a cena surpreendente do pai e o irmão trocando um aperto de mãos na frente do fogão. Ambos olharam para ela com idênticas expressões de embaraço. Mas no momento Jo sentia-se muito cansada e irritada para analisar.

— Lexy não está se sentindo bem. Vou substituí-la durante o cale da manhã.

Brian pegou um garfo e apressou-se em virar as salsichas, antes que queimassem.

— Vai servir as mesas?

— Foi o que eu disse.

Jo pegou um avental curto num gancho, vestiu-o e deu um laço atrás.

— Quando foi a última vez em que serviu mesas? — perguntou Brian.

— Na última vez em que estive aqui e estava com deficiência de pessoal.

— É uma péssima garçonete.

— Mas sou tudo o que tem, companheiro. Lexy chora sem parar de tanta dor de cabeça, e Kate foi até o camping para tentar endireitar a confusão por lá. Não tem outro jeito que não me aceitar.

Sam pegou seu boné e encaminhou-se para a porta. Lidar com o filho era uma coisa, e já fora bastante difícil. Não tinha a menor intenção de encarar uma filha no mesmo dia.

— Tenho coisas a fazer...

Sam quase estremeceu quando a filha lançou-lhe um olhar gelado.

— Eu também tenho, mas estou servindo as mesas porque vocês dois decidiram se engalfinhar, e Kate e eu tivemos de passar metade da noite escutando Lexy chorar e se lamentar. Agora, pelo que vejo, os dois trocaram um aperto de mãos, como homens de verdade. Portanto, está tudo em ordem. Onde estão os blocos de pedidos?

— Na gaveta de cima, por baixo da caixa registradora. — Pelo canto do olho, Brian viu o pai passar pela porta. Típico, pensou ele, pondo as salsichas para escorrer. — Já trabalhou com uma caixa registradora computadorizada, Jo?

— Por que deveria? Não sou uma vendedora, não sou uma garçonete. Sou apenas uma fotógrafa.

Brian esfregou a nuca. Seria uma longa manhã.

— Suba, enfie uma aspirina pela goela de Lexy e traga-a para cá.

— Se você quer Lexy, vá buscá-la. Já me enchi de Lexy e sua rotina de rainha do drama.  Ela estava se espojando.  —  Jo bateu com os blocos no balcão e foi pegar o bule de café. — O centro das atenções, como sempre.

— Ela ficou transtornada.

— Talvez tenha ficado mesmo, até que começou a gostar das atenções,como sempre. De qualquer forma, não foi culpa minha. E fui eu quem teve de aturá-la. Já passava de duas horas da madrugada quando Kate e eu conseguimos acalmá-la um pouco e pude ir para meu quarto. — Jo esfregou com força o meio da testa. — Tem alguma aspirina aqui? Brian tirou uma garrafa de um armário e pôs em cima do balcão.

— Leve o bule e sirva a primeira rodada de café. As panquecas de  blueberry são as especiais. Se tiver de amarrar a cara, faça-o aqui. Lá fora, sorria sempre. Diga seu nome aos clientes e finja que pode ser simpática. Deve compensar o serviço lento.

— Não enche! Jo quase rosnou, mas pegou o bule de café, um bloco de pedidos e deixou a cozinha.

A situação não melhorou.

Brian cortava uma grapefruit e rangia os dentes para os dois pedidos esperando para serem levados às mesas há cinco minutos. Mais dois minutos, pensou ele, e teria de jogar tudo fora, para começar de novo.

Onde estava Jo?

— Uma manhã movimentada. — Nathan entrou pela porta dos fundos. - Dei uma olhada na sala de jantar pelas janelas. Parece que tem a casa cheia.

— Manhã de domingo. — Brian virou o que calculava ser a milionésima panqueca do dia. — As pessoas gostam de um farto café da manha aos domingos.

— Eu também gosto. — Nathan sorriu para a grelha. — Panquecas de blueberry são um grande pedido.

— Entre na fila. Droga, 0 que ela está fazendo lá fora? Construindo as pirâmides? Você entende de computadores?

— Sou o orgulhoso proprietário do trê.  Porquê?

— Porque vai agora ficar na caixa registradora. — Brian sacudiu o polegar para trás. — Não posso parar o que estou fazendo aqui cada vez que ela traz uma conta.

— Quer que eu trabalhe na caixa registradora?

— Não quer comer?

— Por que não trabalho na caixa registradora?

Nathan foi estudar a máquina. Jo entrou apressada na cozinha nesse instante, os braços carregados de pratos.

— Ela devia saber como seria o dia de hoje. Vou matá-la se conseguir sobreviver. O que está fazendo aí, Nathan?

— Ao que tudo indica, entrei na folha de pagamentos. — Nathan observou-a largar os pratos na pia e pegar os pedidos à espera. — Está muito graciosa hoje, Jo Ellen.

— Não enche!

Ela empurrou a porta com o ombro e saiu.

— Imagino se ela está sendo simpática assim com os clientes.

— Não destrua minha fantasia, Brí. Gosto de pensar que ela reserva esses agrados só para mim.

— Vai empurrá-la de novo no rio?

— Ela escorregou... e estou pensando em outra coisa para mim e Jo Ellen.

Brian passou a mão pelo rosto.

— Não quero que me diga. E também não quero essa imagem em minha mente.

— Apenas achei que você deveria conhecer o rumo que pretendo seguir.

Para ilustrar, Nathan agarrou-a quando ela tornou a passar pela porta. Beijou a boca contraída e surpresa.

— Ficou maluco?

Ela deu uma cotovelada na barriga de Nathan para se desvencilhar. Pôs pedidos, dinheiro e cartões de crédito em suas mãos, enquanto acrescentava!

—  Cuide disso.

Jo foi pegar um bule de café fresco. Largou os novos pedidos no balcão.

—  Duas porções de especiais, ovos mexidos, uma porção de bacon, torrada de trigo integral. Não me lembro de uma coisa, mas está escrita aí, e os biscoitos e o creme estão quase acabando. E se o monstrinho da mesa três derramar seu suco mais uma vez, vou estrangulá-lo, junto com os pais idiotas.

Nathan sorriu, enquanto ela tornava a sair.

— Bri, acho que pode ser amor.

— É mais provável que seja insanidade. E por enquanto mantenha as mãos longe de minha irmã e cuide dessas notas, ou não vou alimentá-lo.

 

ÀS  DEZ  E  MEIA,  JO  ENTROU  CAMBALEANDO   EM   SEU   QUARTO e caiu de cara na cama. Tudo doía. As costas, os pés, a cabeça, os ombros. Ninguém que não tivesse passado por aquilo, pensou ela, poderia saber como era árduo o trabalho de garçonete. Escalara montanhas, vadeara rios, passara dias escaldantes no deserto... e faria tudo isso de novo pela imagem certa.

Mas cortaria os pulsos com um sorriso se algum dia tivesse de trabalhar de novo como garçonete.

E detestava ter de admitir que Lexy não apenas não era uma fingida preguiçosa, mas também fazia com que o trabalho parecesse fácil.

Ainda assim, se não fosse por Lexy, Jo não perderia a luz difusa e gloriosa que ocorrera naquela manhã, depois da chuva. Não estaria com os olhos pesados do sono de três horas. E os pés não estariam protestando daquela forma.

Ela rangeu os dentes quando sentiu o colchão afundar sob o peso de outra pessoa.

— Saia daqui, Lexy, ou posso encontrar a energia para matá-la.

— Não precisa se incomodar. Ela não está aqui.

Jo virou a cabeça, fitando Nathan com os olhos contraídos.

— O que está fazendo aqui?

— Você não pára de me perguntar isso. — Ele estendeu a mão para empurrar os cabelos de Jo para trás da orelha, a fim de ter uma visão clara de seu rosto. — Neste momento, vim apenas verificar como você está. Uma manhã difícil, hem?

Ela gemeu e fechou os olhos.

— Vá embora.

— Dez segundos de massagem nos pés e você vai me suplicar para ficar.

— Massagem nos pés?

Jo tentou recolher a perna, mas ele segurou-a pelo tornozelo, com firmeza. Tirou o sapato.

— Dez, nove, oito...

E quando Nathan passou a base da mão pela arcada, um prazer intenso espalhou-se por todo o corpo de Jo, levando-a a gemer.

— Não falei? Apenas relaxe. Pés felizes são a chave para o universo.

— Galileu?

— Carl Sagan — disse ele, com um sorriso. — Comeu alguma coisa lá embaixo?

— Se eu olhar para outra panqueca, juro que vomitarei.

— Foi o que pensei. Trouxe outra coisa. Jo abriu um olho.

— O quê?

— Hum... Você tem pés muito atraentes. Longos, estreitos, um peito do pé alto e elegante. Um dia desses vou começar a mordê-los, de leve, e passarei a subir... Ah, sim, queria saber o que eu trouxe para você comer. — Nathan pressionou os dedos sobre o peito do pé e desceu até o calcanhar. — Morangos com creme, os biscoitos milagrosos de Brian com geléia de fabricação caseira e uma porção de bacon pela proteína,

— Por quê?

— Porque você precisa comer. — Nathan ergueu o rosto para fitá-la. — Ou quer saber por que vou morder seus pés?

— Não importa.

— Está bem. Por que você não vira, senta na cama e come?

Jo fez menção de dizer que não sentia fome... uma reação automática. Mas lembrou as ordens de Kirby para não deixar de comer. E a perspectiva dos morangos exercia uma certa atração. Sentou na cama. Tentou não se sentir tola quando Nathan acomodou-se na sua frente, de pernas cruzadas, com os pés dela em seu colo. Pegou a tigela e tirou um morango com os dedos.

Estudou-o em silêncio por um momento. Nathan não se dera ao trabalho de fazer a barba naquela manhã. Além disso, os cabelos precisavam ser aparados. Mas o estilo um pouco descontraído combinava com ele, assim como o dourado que o sol da ilha estava acrescentando aos cabelos castanhos.

— Não precisa se dar a todo esse trabalho, Nathan. Estou mesmo pensando em ir para a cama com você.

— Isso tira um fardo de minha mente.

Ela deu uma mordida num morango. O gosto era tão doce e inesperadamente estimulante que ela sorriu.

— Acho que estou um pouco irritada esta manhã.

— É mesmo? — Ele pegou os dedos do pé de Jo, movendo-os para a frente e para trás, gentilmente. — Nem notei.

— O que é a sua maneira ianque insidiosa de dizer que sou sempre uma chata.

— Nem sempre. E acho que a palavra que escolheria no caso seria "perturbada".

—  Um legado Hathaway. — Como os morangos haviam despertado seu apetite, ela pegou uma fatia de bacon e deu uma mordida. - Tivemos uma briga de família ontem à noite. Foi por isso que Lexy ficou na cama, com a cabeça debaixo das cobertas, enquanto eu servia as mesas.

— Você sempre cobre as faltas? Surpresa, ela sacudiu a cabeça em negativa,

— Não. Quase não cubro nada.  Raramente estou aqui.

— E quando está, serve as mesas, troca as roupas de cama, limpa os banheiros.

— Como soube disso?

A voz era ríspida agora, o que deixou Nathan perplexo.

— Você me contou. Que estava no serviço de faxina aqui na pousada.

— Ah, isso...

Sentindo-se uma tola, Jo pegou um biscoito e partiu-o ao meio.

— Aconteceu alguma coisa?

— Nada de mais. Alguns garotos fizeram uma brincadeira de mau gosto comigo há dois dias. Trancaram-me no banheiro dos homens no camping. Fiquei um pouco nervosa.

— Não tem nada de engraçado.

— Na ocasião, também não achei engraçado.

— Conseguiu pegá-los?

— Não. Eles já haviam desaparecido quando meu pai abriu a porta. Não foi nada de mais, apenas uma coisa irritante.

—  Portanto, podemos acrescentar a faxina no banheiro dos homens à lista das faltas que você não costuma cobrir. E nos intervalos de tudo isso você está preparando um livro de fotografia e ainda encontra tempo para tirar novas fotos. O que me diz da diversão?

— A fotografia é uma diversão para mim. — Quando ele apenas alteou uma sobrancelha, Jo pegou outro morango e acrescentou: — Fui ao luau.

— E ficou quase até meia-noite. Uma mulher desregrada. Uma linha se formou entre as sobrancelhas de Jo.

— Não gosto muito de festas.

— O que aprecia além de fotografia? Livros, filmes, artes plásticas, música? Isto é o que se costuma chamar de ciência de conhecer melhor um ao outro.

Como ela permanecesse calada, Nathan continuou:

— É muito conveniente, ainda mais quando se pretende levar a outra pessoa para a cama. — Ele inclinou se para a frente. Achou engraçado quando ela recuou. — Vai partilhar esses morangos?

Jo ordenou que sua pulsação se acalmasse. Como ele ainda massageava seus pés, pôs um morango em sua boca.

Ele pegou as pontas dos dedos de Jo entre os dentes e sugou-os também. Soltou-os, sorrindo.

— Isto é o que se chama de estimulação sensorial subliminar. Ou, como é mais conhecido, vou gozar com você.

— Essa parte eu já entendi.

— Ótimo. Vamos continuar. Cinema?

Jo tentou se lembrar se já conhecera outro homem que a desconcertasse com tanta facilidade e com tanta freqüência. A resposta foi um não categórico.

— Gosto dos filmes antigos, em preto-e-branco, em particular o film noir. A luz e as sombras são incríveis.

— Relíquia Macabra?  (The Maltese Falcon? – N.T.)

— O melhor dos melhores.

— Veja só. — Ele bateu de leve no pé de Jo. — Uma coisa em comum. O que acha do cinema contemporâneo?

— Neste caso, prefiro a ação direta. Os filmes de arte quase nunca me agradam. Prefiro ver Schwarzenegger surrar cinqüenta inimigos a ouvir um punhado de pessoas expressando sua angústia em outra língua.

— É um grande alívio para mim. Nunca poderíamos criar cinco filhos e golden retrievers se eu tivesse de suportar filmes de arte.

Isso a fez rir, um som meio rouco, que Nathan achou absurdamente excitante.

— Se essas são minhas opções, posso reconsiderar as indicações.

— Sua cidade predileta, em qualquer parte.

— Florença — respondeu Jo, antes de saber se era verdade. — O sol claro, as cores.

— Os prédios. A idade e grandiosidade. O palácio Pitti, o palazzo Vecchio.

— Tenho uma foto maravilhosa do Pitti, pouco antes do pôr-do-sol.

— Eu adoraria vê-la.

— Não a trouxe — respondeu ela, distraída, recordando o momento, a inclinação dos raios do sol, o barulho no ar quando os pombos alçaram vôo. — Deixei em Charlotte.

—  Posso esperar. — Antes que ela tivesse tempo de reagir, Nathan apertou seu pé. — Quando terminar o café da manhã, que tal me levar para uma excursão de verdade pela ilha?

— Hoje é domingo.

— Já ouvi um rumor sobre isso.

— Estou querendo dizer que a maioria dos hóspedes deixa os chalés no domingo. É preciso limpá-los e reabastecê-los para os novos hóspedes, até às três horas da tarde.

— Mais cuidados domésticos. Como eles fazem quando você não está aqui?

—  Kate perdeu as duas garotas que cuidavam dos chalés na semana anterior à minha vinda. Elas arrumaram emprego no continente. E como estou aqui, junto com Lexy, ela ainda não se deu ao trabalho de substituí-las.

— Quantos chalés estão na sua lista?

— Seis.

Nathan pensou por um momento, acenou com a cabeça, levantou-se.

— Neste caso, é melhor nós começarmos logo.

— Nós?

Isso mesmo. Sei usar um aspirador de pó e um esfregão. Com isso você acabará mais depressa e poderemos encontrar um trecho sossegado da praia para uns amassos.

Jo se sentou na cama, pôs os pés nos sapatos... pés incrivelmente felizes, ela deve de admitir.

— Talvez eu conheça alguns trechos assim... se você for tão eficiente com o inspirador quanto é com a reflexologia.

— Jo Ellen... — Ele pôs as mãos nos quadris de Jo, num gesto que ela achou muito íntimo. — Há uma coisa que você precisa saber.

Ele ainda era casado. Estava sob indiciamento federal. Preferia o sadomasoquismo ao sexo normal. Jo deixou escapar um pequeno suspiro, espantada consigo mesma. Não sabia que tinha tanta imaginação.

— O que é?

— Também estou pensando em ir para a cama com você. Ela soltou uma risada.

— Nathan, isso tem sido um peso em minha mente desde que você voltou para Desire.

 

ELE  SENTIA-SE  MUITO  FELIZ  POR  TER  VOLTADO,   POR  ESTAR tão perto dela. O simples fato de observá-la provocava uma pontada de expectativa pelo que ia acontecer. No momento oportuno.

Pensou que poderia prolongar o prazer. Afinal, planejara com todo cuidado. Dinheiro não era problema. Dispunha de todo o tempo do mundo. Seria ainda mais satisfatório embalá-la para a complacência, observá-la relaxar pouco a pouco. E depois a arrastaria de volta, um súbito puxão na corrente que ela não sabia que os ligava.

Ela teria medo. Ficaria confusa. E se tornaria ainda mais vulnerável por causa da serenidade que ele permitira antes de rearrumar a composição.

Isso mesmo, ele podia esperar. Desfrutaria o sol e o mar. Não levaria muito tempo para conhecer a rotina de Jo. Tanto quanto conhecera seus hábitos em Charlotte.

Deixaria que ela se distraísse, talvez até que se apaixonasse um pouco. O que seria uma fascinante ironia.

E durante todo o tempo Jo não teria a menor idéia de que ele se encontrava ali para controlar seu destino, para cumprir seu próprio destino. Para tirar a vida de Jo.

 

— Não sei por que você não pode tirar um dia de folga, apenas um, e passar  algum tempo comigo.

Giff baixou sua pistola de pregos, ficou de cócoras e estudou o rosto mal-humorado de Lexy. Era um desses caprichos maliciosos da natureza, pensou ele, que aquela expressão de contrariedade fosse tão atraente para um homem.

— Meu bem, eu disse que teria uma semana bastante ocupada. E ainda estamos na terça-feira.

— Que diferença o dia pode fazer? — Lexy ergueu as mãos. — Cada dia por aqui é igual aos outros.

—  Pois eu direi que diferença faz para mim. — Giff passou a mão pela beira do deque que acabara de completar. — Prometi a Miss Kate que teria este acréscimo da varanda pronto e fechado com tela no sábado.

— Pode entregar no domingo.

— Eu disse que seria no sábado.  — Para Giff, isso dizia tudo. Mas como era com Lexy que conversava, recorreu a toda a sua paciência para explicar o resto: — O chalé está reservado para a próxima semana. Como ela precisa de Colin no camping em tempo integral agora, e Jed ainda tem uma semana na escola antes das férias de verão, terei de fazer tudo sozinho.

Ela não tinha o menor interesse pela droga da varanda. De qualquer forma, o chão estava quase pronto. Quanto tempo levaria para fazer um telhado e cercar com tela?

— Só um dia, Giff. — Ela agachou-se ao seu lado, pondo todo o charme na voz ao dizer, depois de beijá-lo no rosto: — Apenas umas poucas horas. Podemos pegar seu barco e ir até o continente. Almoçar em Savannah.

— Não posso perder esse tempo, Lex. Mas se eu conseguir aprontar tudo, podemos ir no sábado. Adiarei alguns serviços e aproveitaremos todo o fim de semana, se você quiser.

— Não quero ir no sábado. — A voz perdeu o charme, tornou-se obstinada. — Quero ir agora.

Giff tinha uma prima de cinco anos que se mostrava tão insistente assim para conseguir tudo o que queria... e sempre queria tudo na hora. Mas refletiu que Lexy não gostaria da comparação.

— Não posso ir agora — disse ele, paciente. — Pode pegar o barco, se está tão ansiosa em ir, fazer compras.

— Sozinha?

— Leve sua irmã, uma amiga.

— Não penso em ninguém com quem gostaria menos de passar o dia do que Jo. E não tenho mais nenhuma amiga, agora que Ginny foi embora.

Ele não precisava ver as lágrimas escorrerem dos olhos de Lexy para saber que essa era a raiz do problema, a maior causa de seu novo descontentamento. Mas não havia nada que ele pudesse fazer a respeito, como também não havia nada que pudesse curar a ferida em seu coração desde o desaparecimento de Ginny.

— Se quer ir comigo, terá de esperar até sábado. Deixarei o fim de semana livre. Podemos reservar um quarto no hotel e eu a levarei para um jantar de luxo.

— Você não entende nada! — Lexy bateu com o punho no ombro dele, enquanto se levantava. — Sábado não é hoje e eu acabarei enlouquecendo se não sair daqui! Por que você não pode arrumar mais tempo para ficar comigo?

— Estou fazendo o melhor que posso.

Até mesmo sua enorme paciência começava a se esgotar. Giff pegou a pistola de pregos e fez um disparo.

— Você não pode nem mesmo parar de trabalhar e prestar atenção por cinco minutos. Dá um jeito de me espremer entre os serviços. E agora uma varanda estúpida é mais importante do que minha companhia.

— Dei minha palavra de que aprontaria a varanda. — Giff levantou-se, pegou outra tábua e estendeu-a sobre o cavalete para medir. — E cumpro o que prometo, Lexy. Se ainda quiser ir para Savannah no fim de semana, eu a levarei. E o melhor que posso lazer.

— Não é suficiente. E tenho certeza de que não haverá a menor dificuldade em encontrar alguém que ficará feliz em me levar hoje.

Ele passou o lápis pela tábua, para fazer a marca, depois fitou-a com os olhos frios e contraídos. Reconhecia a possibilidade concreta de que ela consumasse a ameaça.

— Não fará isso. — A voz era calma e contida. — Mas a decisão é sua.

Foi como um tapa. Lexy esperava que ele se enfurecesse, tivesse um acesso de ciúme, dissesse o que faria se ela olhasse para outro homem. Teriam uma briga acirrada e satisfatória, antes que ela o arrastasse para o chalé vazio, onde haveria um momento de sexo para lazerem as pazes.

E depois ela o convenceria a levá-la para Savannah.

A cena que ela ensaiara mentalmente se dissolveu. Porque queria chorar, Lexy sacudiu a cabeça e virou-se.

— Muito bem, pode continuar a construir sua varanda, e eu farei o que tiver de fazer.

Giff não disse nada, enquanto ela descia os degraus provisórios. Teve de esperar que a raiva intensa se dissipasse antes de pegar a serra elétrica. Sabia que a fúria poderia custar caro e não queria ter de pagar com um dedo. Precisaria de todos, refletiu, se Lexy estivesse mesmo empenhada em cumprir a ameaça.

Isso mesmo, precisaria de todos os dedos para o punho fechado com que arrebentaria a cara de alguém.

Lexy ouviu o zumbido da serra e rangeu os dentes. Um filho-da-puta egoísta... Giff não passava disso. Não se importava com ela. Lexy foi andando depressa pela areia, os olhos ardendo, a respiração ofegante. Ninguém se importava com ela. Ninguém a compreendia. Nem mesmo Ginny...

Ela teve de parar por um instante quando os músculos da barriga se contraíram. Ginny partira. Fora embora. Todas as pessoas de quem gostava sempre a deixavam, de um jeito ou de outro. Ela nunca tinha importância suficiente para que ficassem.

A princípio, tivera certeza de que alguma coisa terrível acontecera com Ginny. Fora seqüestrada, ou caíra bêbada em uma lagoa, sendo devorada por um aligátor.

O que era um absurdo, é claro. Levara dias, mas Lexy acabara se resignando ao fato de que fora abandonada de novo. Porque ninguém ficava, não importava quanto ela precisasse.

Mas desta vez... Lexy lançou um olhar desafiador para trás, na direção do chalé em que Giff trabalhava. Desta vez ela partiria primeiro.

Ela seguiu para a linha das árvores. O sol era muito quente em sua pele, a areia arranhava os pés nas sandálias. Naquele momento, odiava Desire e tudo o que havia ali, com uma paixão intensa e irracional. Odiava as pessoas que faziam as refeições na pousada, esperando que ela as servisse e tirasse a mesa depois. Odiava sua família por pensar nela como uma sonhadora irresponsável. Odiava a praia, com o sol branco ofuscante e as ondas intermináveis desmanchando-se na areia. E a floresta, com seus bolsões de sombras escuras e o silêncio clamoroso.

E, acima de tudo, odiava Giff, porque estivera pensando em se apaixonar por ele.

Não mais o faria. Não lhe daria essa satisfação. Em vez disso, pensou Lexy, enquanto deixava o sol para a sombra, concentraria sua atenção em outro homem, para fazer Giff sofrer.

Quando avistou o Little Desire Cottage, com um vulto sentado na varanda, ela sorriu. Não sabia por que não pensara nisso antes. Por que não pensara nele.

Nathan Delaney... Ele era perfeito. Bem-sucedido, sofisticado, culto. Já estivera em muitos lugares e fizera coisas. E era um prazer contemplá-lo... um homem tão deslumbrante que até Jo notara.

Podia apostar que Nathan Delaney sabia como tratar uma mulher.

Lexy abriu a pequena bolsa vermelha que trazia junto do corpo. Pôs na boca um Lifesaver de cereja para adoçar o hálito. Pegou o estojo de maquiagem e empoou o nariz e a testa com todo cuidado. Como estava rosada do sol, as faces não precisavam de blush, mas passou batom nos lábios, um vermelho jovem e sedutor. Esguichou um pouco de Joy e afofou os cabelos, enquanto pensava na maneira exata de conduzir a cena.

Encaminhou-se para o chalé. Ao chegar perto, levantou os olhos com um sorriso cordial.

— Oi, Nathan.

Ele levara o computador para a mesa de piquenique na varanda, a fim de desfrutar a brisa enquanto trabalhava. O projeto já estava quase todo desenvolvido. À interrupção, ele levantou a cabeça, distraído. Sentiu uma pontada de dor, no princípio de torcicolo.

— Oi, Lexy.

Ele massageou o pescoço.

— Não me diga que está trabalhando numa manhã tão linda.

— Apenas cuidando dos detalhes finais.

—  Esse é um daqueles computadores pequenos? Como pode projetar prédios inteiros nessa coisa?

— Nos mínimos detalhes.

Ela riu. Inclinou a cabeça para o lado e passou um dedo pelo pescoço.

— Interrompi seu trabalho e agora deve estar querendo que eu suma o mais depressa possível.

— Claro que não. Isso me dá uma desculpa para descansar um pouco.

— É mesmo? Você me detestaria se eu subisse e pedisse para dar uma olhada? Ou é temperamental e não gosta de mostrar seu trabalho antes de ficar todo pronto?

— Meu trabalho é apenas a parte preliminar da obra e por isso não há motivo para ser temperamental. Claro que pode subir.

Nathan olhou para o relógio enquanto ela subia. Queria mais duas ou três horas para refinar as plantas. E tinha um encontro marcado à uma hora da tarde. Uma viagem até o norte da ilha, para um piquenique. E mais algum tempo para conhecer melhor Jo Ellen Hathaway.

Ainda assim, ele sorriu para Lexy... era impossível não fazê-lo. Ela era linda como uma gravura, com uma fragrância mais viçosa do que a brisa que soprava pelas telas. E a saia branca e curta mostrava que as pernas eram compridas e adoráveis.

— Quer alguma coisa gelada?

— Hum... Tomarei um gole do seu, está bem? — Ela pegou o copo na mesa e tomou um gole. — Café gelado. Uma delícia.

Lexy detestava café gelado. Jamais entendera por que as pessoas gelavam uma bebida que só era ótima quando tomada quente.

Ela passou a língua pelo lábio superior e sentou ao lado dele. Mas não perto demais. Uma mulher não queria ser óbvia. Olhou para o monitor e ficou tão surpresa com a planta baixa que havia ali, complexa e detalhada, que quase esqueceu o objetivo da visita.

— Mas não é fantástico? Como você faz tudo isso com um computador? Pensei que os arquitetos usavam lápis, regua de cálculo e calculadoras.

— Não tanto quanto usávamos antes. O CAD tornou a nossa vida mais fácil. É Um programa de desenho em computador. Pode se tirar as paredes, mudar os ângulos, alargar portas, ampliar cômodos e depois mudar de idéia, voltar ao que era antes. E não precisa usar borracha.

— É espantoso. Isso vai ser a casa de alguém?

— Uma casa de férias, na costa oeste do México.

— Uma villa... — Imagens de música animada, flores exóticas e empregados vestidos de branco afloraram na mente de Lexy. — Bri já esteve no México. Eu nunca fui a outro país.

Ela lançou um olhar de lado para Nathan, mexendo as pestanas.

— Você conhece o mundo inteiro, não é?

— Não chegaria a tanto, mas já estive em vários lugares. — Uma pequena campainha de alarme soou no cérebro de Nathan, mas ele ignorou-a como absurda e egocêntrica. — Há penhascos espetaculares na costa oeste do México, com vistas incríveis. A casa dará para o Pacífico.

— Nunca vi o oceano Pacífico.

— O mar pode ser agitado. Esta área aqui... — ele encostou o dedo no monitor — ... será o solário. Paredes e telhado de vidro... com o telhado movimentado por um motor. Poderão abri-lo para festas ou qualquer outra coisa, quando o tempo estiver bom. A piscina será ali. Não terá uma forma definida, pois acompanhará as rochas. Aproveitaremos a flora nativa. Haverá uma pequena cascata aqui. Vai parecer uma laguna.

— Uma piscina dentro da casa... — Lexy soltou um suspiro longo e sonhador. — Eles devem ser milionários.

— Mais do que milionários.

Ela fitou Nathan com uma admiração sonhadora.

— Você deve ser o melhor dos melhores. Muito importante. Bem-sucedido. Projetando villas no México para milionários. — Lexy pôs a mão na coxa de Nathan. — Não posso sequer imaginar como seria construir coisas tão bonitas.

Ahn... A segunda campainha de alarme soou mais alta, impossível de ignorar. Nathan considerava-se razoavelmente inteligente. E um homem inteligente sabia quando uma mulher tentava seduzi-lo.

—  Muitas  pessoas  trabalham  num  projeto  como  este. Engenheiros, paisagistas, empreiteiros.

Ele não era doce?, pensou Lexy, chegando um pouco mais perto.

— Mas, sem você, eles não teriam sobre o que trabalhar. E você quem faz acontecer, Nathan.

O recuo era muitas vezes a opção do homem inteligente, decidiu Nathan. Ele mudou de posição e conseguiu pôr alguns centímetros de distância entre os dois.

— Não se eu não terminar estas plantas. — Ele deu um sorriso rápido, torcendo para que não parecesse tão nervoso quanto se sentia. — E estou um pouco atrasado. Por isso...

— Parecem maravilhosas.

A mão subiu um pouco pela coxa de Nathan. Inteligente ou não, ele também era humano. O corpo reagiu como a natureza determinava.

— Escute, Lexy...

—  Estou impressionada. — Ela inclinou-se, sedutora. — Adoraria ver mais.

Sua respiração atingia os lábios de Nathan, enquanto ela acrescentava:

— Muito mais...

Ao concluir que ele era cavalheiro demais — ou muito obtuso para tomar a iniciativa, Lexy beijou-o na boca e passou os braços por seu pescoço.

Dominou-o por um minuto. Ela era ardente e sensual. O sangue esvaiu-se da cabeça de Nathan, tornando difícil pensar de forma racional. Mas ele conseguiu segurar os pulsos de Lexy, afastar seus braços e recuar.

— Sabe... — Nathan teve de tossir para poder continuar. — Você é muito atraente, Lexy. Sinto-me lisonjeado.

—  Isso é ótimo. — O coração de Lexy batia um pouco mais depressa. A imagem do rosto de Giff, enfurecido pelo ciúme, aflorou em sua mente e fez seu coração disparar. —  Por que não entramos um pouco?

— Há outra coisa. — Ele baixou os braços de Lexy e continuou a segurar suas mãos. — Gosto do meu rosto como é. Já me acostumei. E quase nunca me corto ao fazer a barba.

— Também gosto. E um rosto maravilhoso.

—  Obrigado. E não quero que Giff se sinta na obrigação de remodelá-lo por mim.

— Por que eu me importaria com Giff? — Ela sacudiu a cabeça, com um ar de indiferença. — Ele não é meu dono.

O nervosismo em sua voz e o brilho furioso nos olhos indicavam com certeza que uma disputa entre namorados estava na raiz da atual tentativa de sedução.

— Tiveram uma briga, não é?

— Não quero falar sobre Giff. Por que não me beija de novo, Nathan? Sabe que tem vontade de me beijar.

Parte dele queria mesmo, uma parte instintiva, muito próxima da superfície naquele momento.

— Está bem, não vamos falar de Giff. Mas podemos falar de Jo.

— Ela também não é minha dona.

— Não, não é. Mas estou... — ele não sabia direito como explicar — ... interessado em Jo.

— Acho que está interessado em mim.

Para provar, ela desvencilhou uma das mãos e estendeu-a para a virilha de Nathan. Com um esforço para não gritar, ele segurou-a pelo pulso.

— Pare com isso. — A voz de Nathan assumiu um tom de sermão que deixaria qualquer mãe orgulhosa. — Você vale mais do que isso, Lexy. Muito mais.

— Por que você haveria de querer Jo mais do que a mim? Ela é fria, mandona e...

— Pare com isso. — Ele apertou com firmeza as mãos de Lexy. Nao quero que fale sobre Jo dessa maneira. Gosto dela. E sei que você também gosta.

— Você não sabe do que eu gosto. Ninguém sabe.

Porque a voz de Lexy tremeu ao final, ele sentiu uma súbita e profunda compaixão. Gentilmente, levantou suas mãos e beijou-as, o que a fez piscar em surpresa.

— Talvez isso aconteça porque você própria ainda não se decidiu. — Torcendo para que fosse seguro, ele soltou uma das mãos e afastou os cabelos do rosto dela. — Gosto de você, Lexy. E outro motivo pelo qual não posso aceitar sua tentadora oferta.

A vergonha dominou-a, deixando as faces vermelhas.

— Banquei a idiota.

— Não... mas eu quase banquei. — Mais firme agora, Nathan recuou. Estendeu a mão para o café, que não estava mais gelado, a fim de refrescar a garganta. — É mais do que provável que você teria mudado de idéia em algum momento... e onde isso me deixaria?

Lexy fungou.

— Talvez eu não mudasse de idéia. O sexo é fácil. O resto é que complica.

— Fale-me a respeito.

Quando ele ofereceu o café, Lexy conseguiu sorrir e sacudir a cabeça.

— Detesto café gelado. Só tomei para seduzi-lo.

— Uma boa tática. Quer me falar sobre sua briga com Giff?

— Não tem importância. — A angústia invadiu-a com tanta força que ela se levantou e começou a andar de um lado para outro, na esperança de se livrar. — Ele não se importa comigo, não com o que eu faço, nem com quem estou.

— Meu bem, ele é louco por você. Ela soltou uma risada rápida.

— Ser louco por alguém é muito fácil.

— Nem sempre. Não quando você tenta fazer com que tudo dê certo.

Os lábios contraídos, Lexy fitou-o.

— Você tem mesmo esses sentimentos por Jo?

— Aparentemente.

— Ela não é fácil.

— É o que estou descobrindo.

— Já a levou para a cama?

— Lexy...

— Ainda não. — Ela contraiu os lábios num sorriso. — E isso o deixa nervoso.

Lexy voltou e sentou na beira da mesa.

— Quer algumas dicas?

— Não acho que seja apropriado nós discutirmos... — Nathan parou de falar, pensou um pouco e abandonou a dignidade: — Que dicas?

— Jo gosta de ter o comando, de ficar com o controle de tudo, entende? E assim que ela funciona, é assim que ela vive. E sempre mantém um pequeno espaço, uma margem de manobra, entre ela e as outras pessoas.

Nathan descobriu-se a sorrir de novo, a gostar ainda mais de Alexa Hathaway.

— Ela nunca imaginaria como você a conhece bem.

— A maioria das pessoas me subestima. — Lexy deu de ombros. E quase sempre eu deixo. Mas acho que você foi legal comigo hoje, e por isso serei legal com você. Não a deixe manobrar demais.  E quando chegar o momento, Nathan, trate de arrebatá-la. Tenho a impressão de que ninguém jamais fez isso com Jo Ellen e é justamente o que ela precisa.

Lexy lançou-lhe um olhar longo e avaliador, muito feminino, para depois sorrir.

— Creio que você pode cuidar dessa parte muito bem. E também creio que é bastante inteligente para não contar a ela o que aconteceu aqui.

— Não há a menor possibilidade. O sorriso malicioso desapareceu.

— Descubra o que há de errado com ela, Nathan.

— Errado?

— Alguma coisa a angustia. Jo voltou à ilha na tentativa de escapar. Mas não está conseguindo. Na primeira semana aqui ela chorava durante o sono ou passava metade da noite andando de um lado para outro. E de vez em quando surge uma expressão estranha em seus olhos, como se tivesse medo. Jo nunca teve medo de nada.

— Já conversou com ela?

— Eu? — Lexy riu de novo. —Jo não conversaria comigo sobre qualquer coisa importante. Acha que sou a irmã caçula fútil.

— Não há nada de fútil em você, Lex. E pode ter certeza de que não a subestimo.

Comovida, ela inclinou-se e beijou-o.

— Acho que isso nos torna amigos.

— Fico satisfeito por isso. Gifif é um homem de muita sorte.

— Só se eu decidir lhe dar uma segunda oportunidade. — Lexy sacudiu a cabeça e levantou-se. — Talvez eu dê... depois que ele rastejar um pouco e suplicar muito.

—  Como amigo, eu agradeceria se também não mencionasse isso para Giff. É possível que ele pense em me dar uma surra.

— Não darei nome nenhum. — Ela foi até a porta e olhou para trás. — Mas tenho a impressão de que você saberia se defender, Nathan. E muito bem. Até a próxima.

Sozinho, Nathan esfregou os olhos, o coração, a barriga. Controlar uma mulher assim era um tremendo desafio. E ele desejou que Giff tivesse a melhor sorte do mundo.

 

JO  ARRUMAVA  O  CESTO  DE  PIQUENIQUE  QUANDO LEXY ENTROU na cozinha. A bolsa com as câmeras esperava em cima do balcão, já pronta, o tripé encostado ao lado.

— Vai fazer um piquenique? — perguntou Lexy, jovial.

—  Quero tirar algumas fotos na extremidade norte da ilha. Pensei em aproveitar a tarde.

— Vai sozinha?

— Não. — Jo ajeitou no cesto o vinho escolhido. — Nathan vai comigo.

— Nathan? — Lexy sentou no balcão. Pegou uma maçã verde lustrosa na tigela de pedra com as frutas. — Ora, que coincidência!

Sorridente, Lexy limpou a maçã na blusa, entre os seios.

— Como assim?

— Estou vindo do chalé de Nathan.

— E mesmo?

Embora se empertigasse, Jo conseguiu manter um tom de indiferença na voz.

— É sim. — Exultante por ter a iniciativa e levar a irmã na contradança, Lexy deu uma mordida na maçã. — Passei pelo chalé e lá estava ele, sentado na varanda, tomando um café gelado. Convidou-me a subir.

— Você não gosta de café gelado. Lexy passou a língua pelos lábios.

— Os gostos mudam. Ele mostrou o projeto em que está trabalhando. Uma villa no México.

—  Nunca imaginei que pudesse se interessar por projetos de arquitetura.

—  Estou interessada numa porção de coisas. — Um brilho malicioso nos olhos, Lexy deu outra mordida na maçã. — Especialmente por homens bonitos. E aquele é carne de primeira.

— Tenho certeza de que ele se sentiria lisonjeado por você pensar assim — disse Jo, sarcástica, batendo a tampa do cesto. — Pensei que ia ver Giff.

— Também o vi.

— Vejo que andou ocupada. — Jo pendurou a bolsa de câmeras no ombro e levantou o cesto. — Tenho de ir agora ou perderei a luz.

— Vá pela sombra e divirta-se no piquenique. Ah, Jo... dê lembranças minhas a Nathan, está bem?

Depois que a porta foi batida, Lexy passou um braço pela barriga e caiu na gargalhada. Outra dica, Nathan, pensou ela: provoque um pouco o monstro de olhos verdes e depois colha as recompensas.

 

ELA  NÃO  IA  MENCIONAR  NADA.   NÃO  SE  REBAIXARIA,  NEM mesmo para abordar o assunto da maneira mais casual. Jo mudou a posição do tripé. Inclinou-se para olhar pelo visor, à procura do ângulo perfeito que queria.

O mar era mais violento ali, investindo contra os rochedos na base do penhasco. As gaivotas circulavam aos gritos, asas brancas batendo no ar.

O calor e a umidade estavam concentrados, fazendo o ar tremeluzir.

A parede sul do velho mosteiro ainda continuava em pé. O dintel sobre o vão de porta estreito também resistira. Através do espaço ali, luz e sombras se emaranhavam, trepadeiras silvestres floresciam. Ela queria aquela impressão de abandono... os tufos de mato alto, as dunas que o vento construía e destruía.

Jo não queria movimento e teve de esperar, avaliar os instantes em que tudo ficava parado, entre as rajadas de vento. A profundidade do campo, pensou ela... as texturas da pedra, as trepadeiras, a areia, as variadas tonalidades de cinza.

Para conseguir, ela tinha de reduzir a abertura da lente, diminuir a velocidade do obturador. Inclinou um pouco a lente na direção do horizonte, enquadrou a imagem, tomando o cuidado de bloquear as ruínas das paredes restantes. Queria dar a impressão de que o prédio podia ser inteiro, mas ainda assim permanecia vazio e deserto.

Sozinho.

Ela tirou as fotos. Carregou o tripé e a câmera para o canto leste. A textura era excelente ali, com os buracos e cicatrizes que o vento, a areia e o tempo haviam aberto nas pedras. Desta vez ela usou as paredes desmoronadas, para captar desolação e perda.

Ao ouvir um clique baixo, Jo empertigou-se. Nathan estava parado à sua esquerda, baixando a câmera.

— O que está fazendo?

Tirei uma foto sua, — Ele tirara trêa, antes de Jo perceber sua presença,       — Tinha uma expressão de   absoluta concentração.

Ela sentiu um frio no estômago. Fotos suas, sem que tivesse conhecimento. Mas forçou os lábios a se contraírem num sorriso.

— Passe-me a câmera. Tirarei uma foto sua.

— Melhor ainda... ponha o timer na sua câmera para tirar uma foto de nós dois na frente das ruínas.

— Este tipo de câmera, com esta luz, não é apropriado para retratos.

— Não será uma foto para sua próxima exposição. Não precisa ser perfeita, Jo. — Nathan largou sua câmera. — Será para nós apenas.

— Se eu tivesse um difusor...

Ela virou a cabeça, olhou para o sol, mudou a posição da câmera para reduzir as sombras, calculou a abertura, ajustou a velocidade do obturador. Empinou os ombros.

— Jo... — Ele teve de fazer um esforço para não rir. — Pense como um instantâneo.

— De jeito nenhum. Pare à esquerda da abertura, na frente da parede. A cerca de meio metro.

Ela esperou até que Nathan chegasse ao ponto indicado. Através do visor, observou-o sorrir para ela. Poderia conseguir uma foto muito melhor, pensou Jo, se tivesse algum controle, o equipamento necessário para manipular luz e sombras. Poderia assim realçar os cabelos esvoaçando ao vento, mostrar todas as diferentes tonalidades de claro e escuro.

A luz era demais, ela concluiu. Deveria ser mais suave, apenas um pouco romântica, para destacar aqueles olhos maravilhosos, aquela estrutura óssea tão forte. Com um refletor, algum cenário, um difusor, ela poderia fazer uma foto espetacular.

Ah, como ele era atraente! Parado na frente daquelas pedras, parecia vigoroso e vibrante. Viril e capaz. Tão sensual com a camiseta cinza sobre o peito largo, os jeans desbotados e justos nos quadris estreitos.

— Já entendi por que você não costuma fazer retratos.

Jo piscou, aturdida, e empertigou-se.

— Como assim?

— O modelo entraria em coma de tanto esperar que você prepare tudo. — Sorridente, ele estendeu o braço e fez o sinal de venha para cá com os dedos. — Não precisa ser uma foto artística.

— Sempre tem de ser artística. — Ela fez ajustes por mais um momento, depois ligou o timer e postou-se ao lado de Nathan. — Dez segundos. Ei!

Nathan mudou de posição, colocou-a na sua frente e passou os braços em torno da sua cintura.

— Gosto desta pose. Relaxe e sorria.

Ela sorriu, encostando-se nele, enquanto o obturador clicava. Quando Jo começou a se afastar, ele roçou o rosto em seus cabelos.

— Ainda gosto desta pose. — Ele virou-a, estendeu os braços para continuar a enlaçá-la e baixou o rosto para um beijo na boca. — E desta ainda mais.

— Tenho de guardar o equipamento.

— Está bem.

Nathan roçou os lábios por seu pescoço. O nervosismo e o desejo deixaram Jo agitada.

— Eu... a luz mudou. Não é mais apropriada. — Porque os joelhos começavam a tremer, ela recuou. — Não pretendia levar tanto tempo.

— Não tem importância. Gostei de observá-la trabalhando. E vou ajudá-la a guardar tudo.

— Prefiro fazer isso sozinha. Fico nervosa quando alguém pega nos meus equipamentos.

— Neste caso, abrirei o vinho.

— Boa idéia.

Jo foi até o tripé, deixando escapar um suspiro longo e baixo. Teria de tomar uma decisão muito em breve, pensou, se continuava a avançar ou recuava. Ela soltou a câmera e guardou-a, com o maior cuidado.

— Lexy disse que se encontrou com você esta manhã.

— Como?

Nathan torceu para que o espocar da rolha encobrisse a reação de choque em sua voz.

— Ela disse que foi ao seu chalé.

Jo já se repreendia por ter levantado o assunto. Manteve os olhos concentrados no que fazia. Nathan tossiu, sentindo uma súbita necessidade de tomar um copo de vinho.

— E verdade. Mas não ficou muito tempo. Por quê?

— Por nada. — Jo desmontou o tripé. — Ela disse que você lhe mostrou as plantas em que está trabalhando.

Talvez tivesse subestimado Lexy, no final das contas, pensou Nathan, servindo o vinho nos dois copos.

— O projeto no México. Eu fazia alguns ajustes quando ela... apareceu.

Jo pôs os equipamentos na beira da manta que estendera no chão.

— Parece um pouco nervoso, Nathan.

— Não estou não. Apenas tenho fome. — Ele entregou o copo de Jo, tomou um gole comprido do seu, antes de sentar e dar uma olhada no cesto. — O que trouxe para comer?

Jo contraiu os músculos.

— Aconteceu alguma coisa com Lexy?

— Se aconteceu alguma coisa? — Nathan tirou do cesto um recipiente de plástico com galinha assada. — Não estou entendendo.

Ela contraiu os olhos pela expressão de inocência de Nathan.

— Não mesmo?

— O que está pensando? — Quando não queria se defender, o melhor era partir para o ataque, pensou ele. — Acha que eu... com sua irmã?

Nathan deu à voz um tom de insultado, ainda mais eficaz pelo desespero que o impelia.

—  Ela é uma linda mulher.

Jo pôs uma tigela fechada, com frutas picadas, em cima da manta.

— Lexy é mesmo linda, o que significa que pulei em cima dela na primeira oportunidade. Que homem você pensa que eu sou? — Nathan demonstrava irritação, em parte genuína, e achava que era justificada. — Vou atrás de uma irmã pela manhã e troco pela outra à tarde? Talvez eu passe uma cantada na prima Kate antes do anoitecer, para conquistar toda a família.

— Não pensei... só perguntei...

— O que exatamente queria perguntar?

— Eu...

Os olhos de Nathan exibiam uma expressão sombria, irradiando fúria. O choque do alarme veio primeiro, o que a surpreendeu, mas foi logo abafado pela auto-repulsa.

— Não é nada — murmurou Jo. — Desculpe. Ela estava apenas me provocando. Sabia que eu viria me encontrar com você e que temos conversado de vez em quando. Queria me sacanear.

Ela deixou escapar um suspiro e repreendeu-se mais uma vez por não manter a boca fechada. Como Nathan permanecia calado, ela acrescentou:

— Não sei por que mencionei... Não tinha a intenção de falar, mas escapou.

Ele inclinou a cabeça para o lado.

— Ciúme?

Jo deveria se sentir aliviada porque a fúria desaparecera dos olhos dele, mas a pergunta deixou-a tensa.

— Não. Eu apenas... não sei. Sinto muito. — Ela pegou a mão de Nathan. — Sinceramente.

— Vamos esquecer. — Ele levou a mão de Jo aos lábios. — Nunca aconteceu.

Quando ela sorriu, inclinou-se e beijou-o de leve na boca. Nathan revirou os olhos para o céu, especulando se deveria agradecer a Lexy ou esganá-la.

 

Kirby tirou a temperatura de Yancy Brodie enquanto a mãe olhava, na maior ansiedade.

— Ele ficou acordado durante a maior parte da noite, Dra. Kirby. Dei Tylenol, mas a febre voltou esta manhã. Jerry teve de partir no camaroneiro antes do amanhecer e foi na maior preocupação.

—  Não me sinto bem — murmurou Yancy, irritado, fitando Kirby nos olhos. — Mamãe disse que você vai fazer com que eu me sinta melhor.

— Veremos o que posso fazer. — Kirby passou a mão pelos cabelos cor de palha de Yancy, um menino de quatro anos. — Você foi à festa de Betsy Pendleton há duas semanas?

— Ela tinha sorvete e bolo, e preguei o rabo no jumento.

— Burro — corrigiu a mãe.

— Papai diz que é jumento. — Yancy sorriu, depois encostou a cabeça no braço de Kirby. — Não me sinto bem.

— Eu sei, querido. E quer saber de uma coisa? Betsy também não se sente bem hoje. Nem Brandon nem Peggy Lee. O que temos aqui é uma erupção de catapora.

— Catapora? Mas ele não tem nenhuma bolha!

— Mas vai ter. — Kirby já notara as erupções começando debaixo dos braços. — E você tem de fazer um esforço para não cocar quando começar a comichar, querido. Darei uma loção para sua mãe passar em você que vai ajudar. Annie, você e Jerry já tiveram catapora?

— Ambos tivemos. — Annie deixou escapar um longo suspiro. — E foi Jerry quem passou para mim quando éramos crianças.

— Então é provável que não tenham agora. A catapora de Yancy está começando a aparecer, e por isso é melhor reduzir ao mínimo seus contatos com outras crianças e adultos. Vai ficar de quarentena, companheiro.

Ela bateu de leve com a ponta do dedo no nariz do menino, antes de acrescentar:

— Banhos mornos com um pouco de maisena vão ajudar quando as bolhas surgirem. Receitarei remédios para passar nas erupções e tomar via oral. Como só tenho amostras aqui, você terá de pedir a Jerry para comprar no continente. Para a febre, pode dar Tylenol. — Kirby pôs a mão no rosto do menino. — Passarei na sua casa dentro de poucos dias para verificar como ele está.

Ao perceber a aflição de Annie, Kirby sorriu e tocou em seu braço.

— Ele vai ficar bom, Annie. Vocês três passarão algumas semanas difíceis, mas não prevejo qualquer complicação. Repassarei tudo com você antes que o leve para casa.

— Mas eu... posso conversar com você por um minuto?

— Claro. Ei, Yancy... — Kirby tirou o estetoscópio de seu pescoço e ajeitou-o no menino. — Quer ouvir seu coração bater?

Ela ajustou os fones nos ouvidos de Yancy e guiou sua mão. Os olhos cansados do menino tornaram-se enormes e brilhantes.

— Fique escutando por um momento, enquanto eu converso com sua mãe.

Kirby saiu com Annieparu ocorredor, deixando a porta aberta.

— Yancy é forte e saudável, absolutamente normal para um menino de quatro anos. Não há nenhum motivo para se preocupar. A catapora é inconveniente, irritante, mas quase nunca apresenta qualquer complicação. Tenho algum material para ler a respeito, se você quiser.

— Não é... — Annie mordeu o lábio. — Fiz um desses testes domésticos de gravidez há poucos dias. Deu positivo.

— Entendo. Não está feliz por isso, Annie?

—  Claro que estou. Jerry e eu vínhamos tentando ter outra criança há mais de um ano. Mas... o bebê vai nascer perfeito? Não terá nenhuma doença?

A exposição ao vírus durante o primeiro trimestre acarretava um risco mínimo.

— Você não teve catapora quando era criança?

— Tive. Minha mãe pôs luvas de algodão em mim para me impedir de cocar e formar cicatrizes.

— É bastante improvável que tenha de novo. — Se tivesse, pensou Kirby, com uma pontada de preocupação, lidariam com o problema quando acontecesse. — E mesmo que contraia o vírus, é mais provável que nada aconteça com o bebê. Por que não me deixa fazer agora um teste de gravidez só para confirmar? E farei um exame rápido. Veremos em que ponto você está e seguiremos daí por diante.

— Eu me sentiria muito melhor.

— Pois então faremos isso. Quem é o seu obstetra?

— Fui para uma clínica no continente quando Yancy nasceu.  Mas esperava que você pudesse cuidar de tudo desta vez.

— Conversaremos sobre isso mais tarde. Irene Verdon está na sala de espera. Vamos perguntar se ela pode ficar de olho em Yancy por alguns minutos. Depois, os dois devem ir para casa e descansar. Você precisará de muito descanso.

— Já me sinto melhor só de saber que você cuidará de nós, Dra Kirby —    Annie passou a mão pela barriga. — De todos nós.

 

À  UMA  HORA  DA TARDE,  KlRBY JÁ   DIAGNOSTICARA MAIS  DOIS casos de catapora, imobilizara um dedo quebrado e tratara de uma infecção na bexiga. Era essa a vida de uma clínica geral, pensou ela ao pegar um pote de manteiga de amendoim.

Tinha trinta minutos de folga até a próxima consulta e esperava passar esse tempo sentada, comendo alguma coisa. Não resmungou quando a porta foi aberta, mas teve vontade.

Era um estranho. Agora ela conhecia todos os moradores da ilha e nunca vira aquele homem. Classificou-o no mesmo instante como um beach rover, o vagabundo de praia, do tipo que aparecia na ilha de vez em quando, à procura de sol e ondas. Tinha os cabelos alourados pelo sol, caindo até os ombros. O rosto era bronzeado. Usava jeans com as pernas cortadas e desfiadas. A camiseta era da ilha mexicana de Cozumel, um paraíso turístico. Os óculos escuros eram da Wayfarer.

Quase chegando aos trinta anos, calculou Kirby, bem-cuidado e atraente. Ela largou o sanduíche e retribuiu o sorriso hesitante.

— Desculpe. — O estranho baixou a cabeça. — Estou no lugar certo? Disseram-me que havia uma médica aqui.

— Sou a Dra. Fitzsimmons. Em que posso ajudá-lo?

— Não tenho uma consulta marcada. — Ele olhou para o sanduíche. — Preciso marcar?

— Para que precisa de uma consulta?

— Eu tenho... ahn...

O homem deu de ombros e estendeu a mão. A palma estava bastante queimada, com um largo vergão vermelho, as bolhas exsudando.

— A aparência é horrível.

Numa reação automática, Kirby adiantou-se e pegou a mão, gentilmente, para examiná-la.

— Foi uma estupidez. O café estava quente e peguei o bule sem pensar. Estou no camping.  Quando perguntei ao garoto no check-in se havia algum lugar em que poderia conseguir uma pomada ou algo parecido  ele me disse para procurá-la.

— Vamos para o consultório. Limparei a queimadura e farei um curativo.

— Estou interrompendo seu almoço.

—  O trabalho de médica é assim mesmo. Então você está no camping.

Kirby levou-o para a sala de exame.

— Isso mesmo. Pensei em continuar até as Keys, para trabalhar um pouco. Sou artista plástico.

— É mesmo?

Ele sentou na cadeira indicada por Kirby. Franziu o rosto ao olhar para a palma da mão.

—Acho que isso vai me deixar inativo por duas ou três semanas.

—A menos que possa pintar com a mão esquerda — comentou Kirby, sorrindo, enquanto punha as luvas, depois de lavar as mãos.

— De qualquer maneira, eu já estava pensando em passar mais tempo aqui. Um lugar maravilhoso. — Ele respirou fundo quando Kirby começou a limpar a queimadura. — Dói bastante.

— Sei disso. Recomendo aspirina. E luva para pegar o bule.

0  estranho deu uma risada. No instante seguinte, rangeu os dentes por causa da dor.

— Acho que tive sorte de encontrar uma médica na ilha. Esse tipo de queimadura pode infeccionar, não é mesmo?

— Pode sim. Mas providenciaremos para que isso não aconteça. O que você costuma pintar?

— Qualquer coisa que me atraia. — Ele sorriu, apreciando a fragrância de Kirby, a maneira com que os cabelos dourados caíam sobre o rosto. —Talvez queira posar para mim.

Ela riu. Afastou a cadeira com rodinhas, abriu uma gaveta e pegou um tubo de pomada.

— Não quero, mas mesmo assim agradeço.

— Você tem um rosto incrível. Faço um bom trabalho com mulheres bonitas.

Kirby fitou-o. Ele tinha os olhos escondidos pelos óculos escuros.  Embora seu sorriso fosse largo e cordial, havia  nele alguma coisa que a deixou subitamente constrangida. Médica ou não, era também uma mulher e estava a sós com um estranho. Alguém que a observava com uma atenção um pouco exagerada.

— Tenho certeza de que faz mesmo. Mas o fato de ser a única médica na ilha me mantém sempre muito ocupada.

Ela baixou a cabeça para passar a pomada na queimadura. Aquilo era uma insensatez, disse a si mesma. Estava sendo ridícula. O homem tinha uma queimadura de segundo grau na mão e deixava que uma estranha a tratasse. E era um artista plástico. Portanto, era natural que a observasse atentamente.

— Se mudar de idéia, acho que passarei algum tempo por aqui. Puxa, já me sinto melhor.

Ele deixou escapar um longo suspiro. Kirby sentiu que a mão ferida relaxava. E sentindo-se ainda mais tola, ofereceu um sorriso compadecido.

— É para isso que estamos aqui. Quero que mantenha a mão bem seca. Pode envolvê-la com um saco plástico quando entrar no chuveiro. E eu não tentaria nadar durante a próxima semana. O curativo deve ser trocado todos os dias. Se não tiver alguém disponível para ajudá-lo, pode vir até aqui que cuidarei disso.

— Agradeço sua atenção. — Enquanto Kirby passava gaze em torno da mão, ele acrescentou: — Tem boas mãos, doutora.

— É o que todos dizem.

— Falo sério... não apenas boas mãos de médica. Mãos artísticas. Mãos de anjo. — O estranho exibiu outro sorriso. — Eu adoraria desenhá-las algum dia.

— Veremos o que acontece quando você for capaz de segurar um lápis de novo. — Kirby levantou-se. — Vou lhe dar um tubo da pomada. E quero que me procure dentro de dois dias, se não deixar a ilha antes. Se for embora, deve procurar algum médico no continente.

— Está certo. Quanto lhe devo?

— Tem seguro de saúde?

—  Não.

— Vinte e cinco dólares pela consulta e dez pelo material.

— Mais do que justo.

Ele tirou a carteira do bolso traseiro da calça com a mão esquerda. Cauteloso, pegou as notas com as pontas dos dedos da mão enfaixada, enquanto acrescentava:

— Acho que terei um pouco de dificuldade para fazer certas coisas durante algum tempo.

— Terá ajuda no camping, se precisar. Esta é uma ilha acolhedora.

— Já notei.

— Vou fazer o recibo.

— Não precisa. — O homem mudou de posição e Kirby sentiu de novo um sobressalto nervoso. — Se já acabou aqui, talvez queira me acompanhar até o camping. Veria algumas das minhas obras, ou poderíamos...

— Kirby! Você está aí atrás?

Ela sentiu um fluxo de alívio, tão rápido e intenso que quase a deixou atordoada.

— Estou terminando a consulta com um paciente, Brian! — Ela tirou as luvas, enquanto recomendava ao estranho, a voz incisiva: — Trate de manter essa mão seca. E não seja econômico com a pomada.

— Você é a médica.

Ele seguiu na frente. Alteou as sobrancelhas ao deparar com um homem parado na cozinha, um pano ensangüentado em torno da mão esquerda.

— Parece que tem um problema aqui.

— Um bom observador — resmungou Brian, sarcástico, enquanto olhava para a mão enfaixada. — E parece que não sou o único.

—  Um dia movimentado para a doutora.

— A doutora não teve cinco minutos... — disse Kirby, entrando na cozinha.       — Brian, o que aconteceu?

O coração na garganta, ela se adiantou apressada, segurou-o pelo pulso e tirou o pano ensangüentado.

— A droga da faca escorregou. Eu estava apenas... Tem sangue pingando no chão.

— Fique quieto. — O coração de Kirby acalmou-se quando examinou o corte comprido no dorso da mão. Era profundo e sangrava bastante, mas não chegava a ser grave. — Precisa levar alguns pontos.

— Não, não preciso.

— Claro que precisa. Pelo menos dez pontos.

— Basta enfaixar a mão e voltarei ao trabalho.

— Eu mandei ficar quieto! Terá de me dar licença... — Kirby levantou os olhos. Franziu o rosto. — Acho que ele já foi embora. Venha comigo.

— Não quero que me costure. Só vim porque Lexy e Kate insistiram, furiosas comigo. E se Lexy não estivesse me chateando, eu não teria me cortado em primeiro lugar. Basta pôr um anti-séptico e enfaixar para que eu possa voltar ao trabalho.

— Pare de bancar o bebê. — Ela pegou-o pelo braço, firme, e levou-o para o fundo do chalé. — Sente-se e trate de se comportar. Quando foi a última vez que tomou uma injeção antitetânica?

— Uma injeção?      Ora, Kirby...

— Isso foi há muito tempo.

Ela lavou-se rapidamente, pôs os instrumentos necessários numa bandeja de aço inoxidável e sentou na frente dele com um vidro de anti-séptico.

— Cuidaremos disso depois. Agora, vou limpar e desinfetar o corte, para depois aplicar uma local.

— Local o quê?

Brian podia sentir o ferimento pulsando, no ritmo do coração. Ambos aceleraram agora.

— Anestesia. Deixarei toda a área dormente para poder dar os pontos.

— Por que sua obsessão por injeções?

—  Quero ver você mexer os dedos... Assim é melhor. Achava que você não havia cortado qualquer tendão, mas precisava ter certeza. Tem medo de injeções, Brian?

— Claro que não.

Quando ela pegou a seringa, Brian sentiu que todo o sangue se esvaía de seu rosto e apressou-se em acrescentar:

— Tenho sim. Mantenha essa coisa longe de mim, Kirby. Brian tinha certeza de que ela riria, mas isso não aconteceu. Em vez disso, fitou-o nos olhos, muito séria.

— Respire fundo, deixe o ar sair devagar. Faça isso de novo, olhando para o quadro por cima de meu ombro direito. Continue a olhar para o quadro e conte as respirações. Um, dois, três. Isso mesmo. Será apenas uma pequena picada. — Kirby inseriu a agulha na pele. — Continue a contar.

— Está bem. — Ele podia sentir o suor escorrer pelas costas. Concentrou-se na aquarela de lírios-do-vale. — Está na hora de você fazer algum comentário sarcástico.

— Já trabalhei num pronto-socorro. Vi mais sangue durante aquele ano do que um leigo pode ver em três vidas inteiras. Tiros, facadas, acidentes de carro. Nunca entrei em pânico. O mais perto que já cheguei do pânico aconteceu há poucos minutos, quando vi seu sangue pingando no chão da cozinha.

Ele desviou os olhos da gravura para fitá-la nos olhos.

— Limparei tudo para você.

— Não seja idiota.

Kirby pegou um pedaço de papel cirúrgico para fazer uma área esterilizada. Fez uma pausa quando ele tocou em sua mão.

— Eu também gosto de você. E gosto muito. — Brian esperou até que ela fitou-o de novo. — Como isso aconteceu?

— Não sei. O que acha que devemos fazer?

— Provavelmente não vai dar certo... você e eu.

— Provavelmente não. — Kirby começou a suturar. — Mantenha a mão imóvel, Brian.

Ele olhou para baixo. Viu-a enfiar a agulha de sutura na pele. Sentiu o estômago embrulhado. Respirou fundo outra vez e tornou a olhar para o quadro.

Não se preocupe em fazer umserviço perfeito. Só quero que seja rápido.

— Sou famosa pelos meus pontos pequenos e impecáveis. Basta relaxar e continuar a respirar fundo.

Como pensou que seria mais humilhação do que poderia suportar se desmaiasse, Brian fez um esforço para obedecer.

— Não tenho medo de agulhas. Apenas não gosto delas.

— É uma fobia comum.

— Não tenho fobia. Apenas não gosto de pessoas espetando agulhas em mim.

Kirby baixou a cabeça para que ele não pudesse ver seu sorriso.

— Perfeitamente compreensível. Por que Lexy o chateava?

— O de sempre. Tudo. — Brian tentou ignorar a ligeira pressão quando ela juntou as beiras do ferimento. — Sou insensível. Não me importo com ela... nem com qualquer outra pessoa, diga-se de passagem. Não a compreendo. Ninguém a compreende. Se eu fosse um irmão de verdade, emprestaria cinco mil dólares para que ela pudesse voltar a Nova York e se tornar uma grande atriz.

— Pensei que ela havia decidido passar todo o verão aqui.

— Lexy teve uma briga com Giff. Como ele não foi procurá-la rastejando, ela passou do estágio do mau humor... que foi nossa bênção ontem... para o da agressividade. Está quase acabando?

— Estou na metade — informou Kirby, paciente.

—  Na metade. Isso é ótimo. Maravilhoso. — Brian sentiu o estômago embrulhar de novo. Muito bem, pense em outra coisa. — Quem era o cara que acabou de sair?

— Hem? Ah, sim, o queimado. Meteu a mão num bule de café pelando. Diz que é um artista, a caminho das Keys. Pode passar algum tempo no camping. Não sei seu nome.

— Que tipo de artista?

— Um pintor, eu acho. Queria que eu posasse para ele. Quando a mão de Brian fez um movimento brusco, ela acrescentou:

— Mas que droga!  Fique quieto!

— O que disse a ele?

— Que eu me sentia lisonjeada, agradecia muito, mas não tinha tempo. O homem me deixou nervosa.

Brian estendeu a mão livre e apertou seu ombro, fazendo-a soltar um grunhido.

— Só mais dois ou três pontos.

— Ele tocou em você?

— Como? — Não, não era medo ou dor o que havia nos olhos de Brian, ela compreendeu. Era fúria. E isso era maravilhosamente satisfatório. — Claro que sim, Brian. Só com uma das mãos, ele me derrubou no chão, num ímpeto de desejo, e rasgou minhas roupas.

Os dedos de Brian apertaram-na mais um pouco.

— Quero uma resposta franca. Ele pôs as mãos em você?

— Claro que não. Apenas fiquei nervosa por um momento porque o consultório estava vazio e ele parecia interessado demais. E depois ele disse que queria apenas desenhar minhas mãos. — Kirby mexeu os dedos da mão esquerda. — Mãos de anjo. Agora fique quieto, antes de estragar meu trabalho e acabar com uma cicatriz horrível. Não que seu ciúme não seja lisonjeiro.

— Não estou com ciúme. — Ele retirou a mão do ombro de Kirby e torceu para que o nevoeiro diante de seus olhos se dissipasse logo. — Apenas não quero que algum vagabundo de praia a assedie.

— Ele não me assediou... e se tentasse, eu poderia controlá-lo. Só mais um ponto agora.

Kirby deu o ponto, fez o nó e examinou com todo cuidado a fileira reta de suturas.

— Um trabalho perfeito, se me permite dizê-lo. Ela levantou-se para preparar a injeção antitetânica.

— Como poderia controlar?

— Controlar o que? Ah, sim... ainda estamos nisso? Com uma recusa polida.

—  E se não adiantasse?

— Um bom apertão naquela queimadura e ele estaria esperneando no chão, gritando de dor.

Quando ela se virou, tomando o cuidado de manter a seringa nas costas, viu que Brian sorria.

— Você teria mesmo feito isso.

— Claro que sim. Uma ocasião esfriei o ardor de um paciente impetuoso ao apertar de leve sua laringe. Ele decidiu no mesmo instante parar de fazer sugestões obscenas para mim e para a enfermeira. Agora, Brian, quero que olhe de novo para os lírios.

Ele empalideceu.

— O que você tem nas costas?

— Apenas olhe para os lírios.

— Ó Cristo!

Ele virou o rosto. Um momento depois, soltou um grito e estremeceu.

— Brian, foi apenas o algodão com álcool. Tudo acabará em dez segundos. Sentirá apenas uma espetadela.

— Essa não! O que está usando? Uma agulha de estofador?

—  Pronto. Já acabou. — Kirby pôs um esparadrapo na picada, depois sentou para enfaixar a mão. — Mantenha a mão seca. Trocarei o curativo para você quando precisar. E dentro de dez dias, duas semanas, pensaremos em tirar os pontos.

— Vai ser divertido, não é?

— Tome aqui. — Kirby meteu a mão no bolso do avental e tirou um pirulito. — Um prêmio por ter se comportado como um bom menino.

—  Posso reconhecer o sarcasmo quando o ouço, mas aceito o pirulito.

Ela desembrulhou o pirulito e pôs na boca de Brian.

— Tome duas aspirinas. O efeito da anestesia local passará depressa e sentirá alguma dor. Por isso, deve se antecipar à dor, em vez de tentar aliviá-la depois.

— Não vai dar um beijo na ferida?

— Acho que sim. — Ela levantou a mão de  Brian e encostou os lábios de leve na gase. Tome mais cuidado quando estiver na cozinha. Gosto de suas mãos do jeito que são.

— Neste caso, imagino que não vai se importar se eu aparecer aqui esta noite, derrubá-la no chão com apenas uma das mãos e arrancar suas roupas.

— Acho que não me importaria. — Kirby inclinou-se para a frente, até que seus lábios se encontraram. Não os afastou para murmurar: — Quanto mais cedo, melhor.

Brian olhou para a mesa de exame. Um sorriso lento espalhou-se por seu rosto.

— Já que estou aqui, não deveria fazer um exame físico completo? Não faço nenhum há dois ou três anos. Poderia usar seu estetoscópio... apenas o estetoscópio.

A perspectiva provocou um arrepio em Kirby.

— A doutora não pode recusar... — Mas ela voltou à Terra quando ouviu a porta externa ser aberta. — Porém, terei de marcar a consulta para a noite.

Kirby recuou, levantou-se e pegou a bandeja.

— Tive uma manhã movimentada, com muitos casos de catapora, e o próximo paciente acaba de chegar.

Brian percebeu que não queria ir embora. Queria sentar ali e contemplá-la, estudar a maneira competente com que cuidava dos instrumentos, os movimentos firmes e graciosos. Portanto, procurou ganhar mais tempo para fazer isso.

— Quem pode pegar catapora?