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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SEDUÇÃO CRIMINOSA / Nelson Demille
SEDUÇÃO CRIMINOSA / Nelson Demille

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

O tempo passa devagar nos Flint Hills do Kansas. É uma região inóspita. Um mar ondulado de erva no cimo do que tinha sido uma cadeia de montanhas, tão antigas que os cumes tinham ficado reduzidos a outeiros. É uma região de ranchos. Imprópria para a agricultura. Exposta a fortes tempestades de neve, tempestades de poeira, tornados, secas, granizo do tamanho de uma mão fechada, ventos violentos e inundações frequentes nas terras baixas junto aos rios.

Às vezes, quando Owen Byrne andava pelos montes a cavalo, sentia que estava a regressar ao passado e que, se continuasse, encontraria colonos, bisontes e bandos de índios Osage, depois os dinossauros e finalmente os glaciares e vulcões que tinham moldado o terreno desde o princípio de tudo. Às vezes parava o cavalo e tentava escutar o passado, com a certeza de que estava ali, a sussurrar à sua volta. E às vezes sentava-se no chão, com o cavalo e os cães a olhar para ele expectantemente, e tentava imaginar tudo o que já tinha acontecido naquele lugar. Cada insecto errante e cada semente a germinar. Cada gota de sangue derramado no nascimento e na morte.

Mas hoje não. Nem por vários meses. As preocupações tinham-no curado desses devaneios ociosos.

A jovem égua em que cavalgava percorria rapidamente o chão com o seu trote regular. Tentou evitar todo o tipo de preocupações e concentrar-se apenas no baque surdo e metronómico dos cascos da égua e no bater do vento na sua cara, no prazer do trote elegante e consistente que o conduzia pelo horizonte, mas não tinha saída. Aquele zumbido persistente da ansiedade não desaparecia. Tentou fazer apelo ao optimismo cego, dizendo a si próprio que as coisas haviam de se resolver... de alguma maneira. De alguma maneira. A expressão pareceu-lhe tão vazia de sentido.

Um avião passou lá no alto, no espaço aéreo e ele obrigou a égua a ficar quieta para poder olhar para cima. A luz do sol reflectia-se no revestimento prateado. Àquela distância o avião mais parecia um pássaro do que uma máquina. Um pássaro gigante a planar em direcção a um destino exótico. Ele nunca tinha andado de avião e ocorreu-lhe que talvez nunca chegasse a andar de avião. Que a sua vida já estava determinada e o que era agora, aos trinta e dois anos de idade, era tudo o que sempre seria.

Ali colocado, um homem alto, vestido com uma tosca pele de gamo no meio do vazio desolador, o próprio Owen Byrne parecia uma visão do passado. Com o seu longo casaco de lona e o rosto cheio de cicatrizes, o velho chapéu preto do oeste, parecia o elementar cavaleiro solitário. Como se fizesse parte do cavalo e do campo e do sonho de uma época anterior. Mas Owen não era um sonho nem uma visão. Era apenas um homem que estava a fazer o seu trabalho do dia-a-dia.

A égua sacudiu nervosamente a cabeça e passou para um movimento lateral, como se estivesse a dançar. Era ainda muito nova e a sua tolerância para se manter quieta era limitada. Quieta! murmurou ele, segurando-a com firmeza e obrigando-a a ficar imóvel por instantes, antes de lhe fazer sinal para voltar ao trote suave de que ela gostava. Enquanto cavalgava ia perscrutando o campo à procura de mais vitelos mortos.

Tinha encontrado mais um feto abortado precisamente naquela manhã, aumentando o número para trinta, desde o dia de Acção de Graças. A sua esperança inicial de que só uma pequena percentagem da manada estivesse infectada tinha dado lugar à resignação.

 

 

 

 

 

 

É um vírus novo da América do Sul que é parecido com o Bangs, tinha dito o veterinário. Transmite-se por contacto sexual. Não acontece nada de especial aos touros, mas todas as vacas infectadas vão perder as suas crias antes do fim do período de gestação.

 

Uma vez que a única produção do rancho eram vitelos, aquilo tinha sido uma notícia devastadora. Owen ainda não se tinha consciencializado da situação, enquanto o veterinário continuava a falar, explicando que os touros ficariam bem após uma quarentena e com a administração de antibióticos, mas o vírus ia fazer com que as vacas ficassem estéreis. Nunca mais iam dar crias. O Byrne Shamrock Ranch não só ia ter uma produção reduzida de vitelos para mandar para o mercado, como ia perder um número significativo de vacas que eram boas reprodutoras. E porque as vacas adultas não tinham muito valor para carne, qualquer que fosse o preço pago na venda para o matadouro ficaria muito aquém do custo de substituição daquelas vacas na manada.

 

Precisamente naquela manhã tinha despachado o primeiro grupo de vacas infectadas. Chegara o camião para as transportar e ele tinha tomado conta do carregamento, despejando toda a sua angústia e desespero no esforço físico. Não era só o facto de ser um prejuízo financeiro devastador, mas também o facto de os animais que iam para o matadouro serem vacas reprodutoras que ele tinha alimentado e tratado e conhecido durante anos. Vacas que estavam na sua melhor época de reprodução.

 

Mas tinha de começar a fazer-se a selecção. Não podiam estar a alimentar vacas estéreis durante todo o inverno. Com os diabos! Pela maneira como as coisas estavam a correr, nem sequer sabia se iam conseguir alimentar as vacas reprodutoras. Lembrou-se do ano em que um grupo de gatunos tinha fugido com meio carregamento de gado na véspera de Natal. Tinham conseguido ultrapassar aquele prejuízo. De alguma maneira haviam também de conseguir ultrapassar este. De alguma maneira. Lá estava de novo aquela expressão.

 

A égua lançou-se a galope pelo cume de um outeiro e avistaram-se os

 


currais, a cabana dos antigos colonos e o esqueleto sem folhas, próprio do inverno, da enorme pereira. A sua mãe tinha querido que cortassem a árvore a seguir ao funeral do irmão, mas Owen tinha-a convencido a não fazer tal coisa. Não só porque as árvores eram escassas nesta região, mas também porque Terry adorava aquela árvore e tinha tido o cuidado de construir os currais e as calhas de escoamento da água de modo a protegê-la.

 

Para Owen, este era o verdadeiro monumento ao seu irmão, não a laje de granito ornamentada no cemitério de Cyril. Esta era a criação mais importante de Terry construída de modo a que a lida com o gado marcar com o ferro quente, cortar os chifres, castrar e vacinar fosse mais rápida e mais fácil do que antes. Agora que Owen fazia a maior parte do trabalho sozinho, aquela estrutura era de um valor inestimável. Sem ela ele não teria conseguido, e por isso pensava nessa zona como um legado que Terry lhe tinha deixado.

 

Os pensamentos da morte do irmão fizeram-no sentir que estava a aproximar-se de uma vasta escuridão na qual não se aventurava a entrar, por isso rapidamente afastou aqueles pensamentos da cabeça, deixando a égua correr. Ela esticou-se ansiosamente e os cachorros que a seguiam mal conseguiam acompanhá-la.

 

Lá adiante nos currais encontravam-se os touros do rancho. Owen separava-os sempre da manada durante vários meses para assegurar que nenhuma vaca procriasse a meio do inverno que se seguia, pondo em risco a sobrevivência das crias e em alguns casos também a sobrevivência das mães. Claro que neste ano, com o vírus, a separação era ainda mais necessária.

 

Estava quase a chegar à cabana quando a égua subitamente resfolegou e se desviou para o lado. Podia tê-la obrigado a seguir em frente, mas os cachorros fizeram eco do sinal de perigo. Então também ele se apercebeu do leve mas inconfundível cheiro forte e penetrante a sangue que pairava no ar.

 

Desmontou e prendeu a égua ao lado da cabana. Depois deu a volta e dirigiu-se para o local onde os touros andavam aos encontrões e a resfolegar, lutando por lugares de acesso às gamelas da comida e impedindo-o de ver por entre aquela barreira de corpos musculosos. Estavam sempre com fome, quando estavam encerrados no curral. Com uma fome voraz. E também extremamente excitados. Muitas vezes se questionara sobre o que um cientista de ciências sociais poderia investigar com base no comportamento do touro. Os animais evitavam-se uns aos outros enquanto andavam no meio da manada, mesmo que não houvesse vacas para cobrir durante dias ou mesmo semanas seguidas. Porém, durante a sua permanência no curral, estimulavam constantemente os apetites sexuais uns aos outros e montavam-se uns nos outros numa ordem descendente de força e tamanho. O seu irmão sempre chamara àquilo a praxe do picanço.

 

Ora digam lá, rapazes, disse ele, observando-os atentamente, à procura de feridas. Quem é que está aqui a sangrar?

 

Eles estenderam os narizes húmidos na sua direcção e farejaram ruidosamente, procurando captar o cheiro dos cubos ou do grão. Trepou parcialmente a vedação e aquela massa musculosa começou a deslocar-se em desassossego. Do ponto mais alto em que se encontrava pôde olhar por cima dos largos dorsos dos animais maiores que estavam à frente e ver os animais mais novos e mais pequenos que tinham sido empurrados para o fundo do curral. E conseguiu ver que estavam a caminhar à volta de um animal que se encontrava no chão.

 

Muito bem, disse-lhes ele em voz alta, ficando imediatamente a saber que o touro caído no chão só podia ser o animal que o pai tinha acabado de comprar.

 

Owen pegou num saco de cubos de comida comprimida da cabana e encheu uma gamela no extremo oposto da série de currais. Como se esperava, os touros precipitaram-se para a comida, mugindo e marrando uns nos outros na tentativa de chegar em primeiro lugar. Ele fechou um portão para os impedir de voltar para trás e a seguir dirigiu-se para o animal que estava prostrado no chão.

 

O pequeno touro era uma beleza, mesmo estando ali deitado num charco de sangue e de estrume, com os olhos vidrados. Owen agachou-se ao lado dele e ouviu um ruído fraco e surdo da respiração do animal e um cheiro desagradável das narinas cheias de sangue incrustado. Afagou o pescoço do animal, sussurrando calma amigo, calma, mas o animal nem sequer reagiu ao seu toque. Uma profunda lassidão apoderou-se do corpo de Owen.

 

O pai tinha voltado do leilão na noite anterior, vangloriando-se de ter feito uma compra excelente e de ter falado com alguém que lhe ia transportar o animal adquirido directamente para os currais. Owen tinha ficado tão incrédulo pelo facto de o pai gastar o dinheiro que eles não conseguiam poupar, num touro de que não precisavam, que nem lhe tinha pedido quaisquer informações sobre as características do animal. Como por exemplo a idade. Nunca imaginando que o pai ia pôr o jovem animal junto com os touros grandes. Mas Clancy Byrne, que estava gradualmente a perder todo o senso comum que alguma vez tivera, tinha feito exactamente isso. Tinha atirado com um pequeno animal para o meio dos camaradas grandes e o pequeno animal tinha sido montado e deitado ao chão e marrado e atropelado durante toda a noite.

 

Owen voltou para o cavalo e puxou pela espingarda da bainha da sela, em seguida saltou de novo para dentro do curral e caminhou pelo chão amontoado. Uma linha de nuvens cirro eram arrastadas pelo vento através das montanhas distantes queimadas pelo sol. Os touros tinham acabado de devorar a comida e estavam a olhar para ele através da vedação. Os cachorros andavam impacientemente de um lado para o outro, à espera de um sinal para iniciar a perseguição.

 

Ele voltou-se e apontou a arma com um movimento suave. A espingarda produziu um ruído seco. O animal que jazia no chão deu um safanão. Os cachorros fugiram. Saiu sangue do buraco entre os olhos vidrados. Então acabou de dar comida aos touros e foi-se embora.

 

Depois cavalgou a toda a velocidade, indiferente a tudo, até sentir nos olhos lágrimas ardentes provocadas pelo vento e teve de abrandar para conseguir ver. Estava dominado pela raiva. Consumia-o tão completamente que tinha medo dela. Desmontou e levou a égua pela rédea, determinado a voltar ao normal. Não havia maneira de avaliar a extrema profundidade da sua fúria. O pai tinha com certeza feito coisas piores ao longo dos anos. Ele próprio tinha sido obrigado a fazer coisas piores.

 

Respirava fundo enquanto caminhava, reprimindo a raiva em cada respiração, obrigando o diabo a voltar para o inferno. Quando a raiva desapareceu, sentiu-se esgotado. Cansado da sua própria má disposição e de algo ainda mais forte. Qualquer coisa indescritível que estava a aproximar-se dele, vinda de todas as direcções.

 

Estava a tomar balanço para saltar de novo para a sela quando lhe pareceu ouvir tocar. Segurou a égua e inclinou-se para a frente para ouvir. Não, não tinha imaginado o som. Alguém estava a tocar o sino grande da casa. O som metálico era trazido pelo vento, ora claro e intenso, ora quase inaudível. Por fim compreendeu o tipo de toque. Não era o som frenético de alguma emergência, mas apenas um chamamento para ir para casa. Mudou de posição na sela, preocupado em verificar as reparações da vedação no vale, mas extremamente curioso por saber o motivo do chamamento.

 

Puxou a rédea da égua, voltando-a na direcção do celeiro, da casa e do sino. A verificação da vedação podia ficar para mais tarde. Se necessário, podia fazê-lo depois de escurecer, com a ajuda dos projectores da carrinha.

 

Quando chegou a casa, tratou da égua e meteu-a no estábulo. O sol de inverno estava a descer no céu. Saiu do celeiro velho e sombrio e dirigiu-se para casa. Não havia visitantes nem veículos estranhos à vista e não via qualquer explicação para a chamada do sino. A casa estava em silêncio ali em baixo, um pequeno rectângulo de pedra calcária da região que tinha resistido durante um século às intempéries dos Flint Hills. Estava anichada na clivagem entre os montes, com a frente voltada para Leste, na direcção da estrada que passava ao longe e as traseiras voltadas para Oeste, na direcção dos celeiros e dos currais. Ambas as extremidades eram de paredes sólidas, de modo que não havia nenhuma porta nem janela a dar para os ventos e as chuvas ferozes do Norte e do Sul.

 

Junto da porta das traseiras estava o sino, um pesado sino de bronze de um navio, que tinha sido trazido pelos primeiros colonos. Estava suspenso entre dois altos canos de aço, com uma corda comprida para o puxar de um dos lados. Já raramente o usavam, uma vez que as pick-ups estavam equipadas com rádios CB.

 

As botas faziam ruído ao pisar a erva e a neve incrustada, enquanto passava pelo que restava do moinho de vento abandonado, a antiga casa dos trabalhadores onde ele vivia e a alta vedação de arame à volta da horta. Quando chegou à porta das traseiras, limpou as botas no capacho de metal e a seguir entrou no átrio fechado.

 

Logo que entrou, tirou as esporas e meteu as luvas no bolso do casaco. Depois despojou-se do longo casaco de lona, da camisola de lã grossa e do saco com fecho de correr, onde trazia a espingarda de caça, pendurando-os na linha de cabides ao longo da parede. Por fim tirou o chapéu, passando automaticamente os dedos pelo cabelo, para desfazer a marca deixada pela banda do chapéu. Para Owen, um chapéu fazia parte das peças da sua roupa de trabalho, útil apenas para cobrir a cabeça e proteger os olhos do brilho intenso do sol.

 

Liberto dos arreios de cowboy, tinha-se transformado de uma visão do passado num homem contemporâneo. Um homem de cabelo castanho escuro e olhos de um azul intenso que eram próprios do lado irlandês da família do pai e a natureza reservada e séria que tanto caracterizara as pessoas do lado da família da mãe.

 

Cheguei, gritou ele quando passou do átrio para a cozinha. Foi atingido pela vaga de calor que vinha da fornalha antiga, e ouviu o zumbir da máquina de costura da sala em frente.

 

Atravessou a cozinha, espreitou pela porta para a sala de estar e viu a irmã mais velha debruçada sobre a velha máquina Singer preta. Ellen! chamou ele, sobrepondo a sua voz ao barulho lamuriento da máquina.

 

Ela tirou o pé do pedal e levantou os olhos para ele. O seu áspero cabelo grisalho caía desalinhado e notavam-se-lhe papos escuros por baixo dos olhos. Tinha trinta e cinco anos mas parecia muito mais velha.

 

Acabaste de perder uma chamada da Mike, disse ela em tom de aborrecimento. O pai dela foi a uma patuscada e saiu no camião para ir beber. Ela receia que ele possa desmaiar em qualquer sítio e morrer de frio nesta noite tão gelada.

 

Owen ficou surpreendido pelo facto de a irmã o chamar para casa tão cedo para ir ajudar os Wheelers. Ela desprezava o velho Wheeler e tratava-se de uma questão que podia resolver-se depois do jantar, com a ajuda dos projectores da pickup. Mas limitou-se a dizer, Está bem. Eu vou procurá-lo.

 

Voltou para a cozinha para tomar uma chávena de café. A Ellen seguiu-o e ele pegou na cafeteira. Também queres?

 

Ela fez um gesto com a mão em sinal negativo. Tinha as unhas roídas. Ele lembrou-se do tempo em que ela tinha o cabelo brilhante e as mãos tratadas e a cara sem aquelas linhas tão profundamente marcadas.

 

O que é que se passa? perguntou ela, observando-o atentamente. Ele pôs-se a olhar para a chávena. Encontrei mais um vitelo abortado. E houve confusão entre os touros.

 

O que aconteceu?

 

O novo touro que Clancy comprou foi atacado quase até à morte.

 

Ficou estropiado?

 

Está morto. Tive de lhe dar um tiro.

 

Merda! Deu um murro na mesa da cozinha. Devíamos dizer ao pai que mais vale perder a maldita fazenda num jogo de poker. Seria mais rápido e menos doloroso.

 

Ouviu-se o som de um carro lá fora no caminho de cascalho e a seguir a Meggie entrou de rompante pela porta. Com vinte e seis anos de idade, a Meggie era o mais jovem elemento da família Byrne. Trabalhava três dias por semana num Mercado e ia ter de fazer esse trabalho durante vários anos até pagar o empréstimo do carro que conduzia. Mas o carro era importante para ela e para a Ellen. Sem ele, elas ficavam ali desamparadas sempre que os homens saíam com as duas carrinhas.

 

Olá a todos, disse a Meggie, esforçando-se por entrar pela porta com dois sacos cheios de mercearias. O vento tinha soltado algumas madeixas do seu cabelo ruivo-escuro que ficaram salientes.

 

Owen correu a tirar-lhe os sacos das mãos.

 

Sabes daquele touro especial e caro que o pai comprou no leilão na noite passada? disse a Ellen antes de a Meggie ter acabado de desabotoar o casaco. Morreu.

 

Não!

 

Ops! Ellen quase pareceu presunçosa. Deram cabo dele mesmo ali no curral. Digo-vos aos dois. Em breve vamos ter de ir viver para a casa dos pobres e este rancho vai passar para as mãos de outra pessoa.

 

A Meggie olhou da Ellen para o Owen. O pai já sabe? Owen abanou a cabeça. Ainda não o vi hoje.

 

Eu sei onde está, disse a Ellen. Quando estava a falar com a Mike, ela disse que o viu esta manhã no banco. Ia a caminho de uma propriedade para ver uns cães de caça que estavam à venda.

 

Ela viu-o no banco? perguntou Owen.

 

A Ellen acenou com a cabeça. Na fila junto à montra, a falar em comprar cães de caça, disse ela acentuando cada palavra.

 

A Meggie mordeu a ponta do lábio e olhou para Owen. Houve um momento de tensão em silêncio. Depois a Meggie disse, Bem, parece-me que o dinheiro é dele.

 

Sim, disse a Ellen irritada, e o rancho também é dele. Mas eu diria que todos nós ganhámos o direito de ter uma palavra a dizer nestas coisas. Sobretudo o Owen. Ele trabalhou que se fartou para este rancho se aguentar.

 

Bemmm... A Meggie passou as mãos pelo cabelo e encolheu os ombros petulantemente. Se o pai comprar um punhado de cães, vamos com certeza ter muita carne fresca de touro para os alimentar, não acham?

 

Bolas! A Ellen revirou os olhos e foi-se embora.

 

Owen acabou de beber o café enquanto pensava em Mike Wheeler e onde poderia ter ido o pai dela.

 

Oh... Owen... A Ellen voltou à cozinha para lhe entregar um envelope rasgado. Desculpa. Esqueci-me de te dizer o motivo por que te chamei. Telefonaram-te de Nova Iorque. A mulher disse que era por causa das tuas histórias e que devias contactar com ela ainda hoje.

 

A Meggie franziu as sobrancelhas. Tens de dizer às pessoas que não te telefonem para aqui com recados desses, Owen. E se fosse o pai a atender o telefone e fosse algum Yankie a pedir-te para ligares para Nova Iorque?

 

O pai nunca atende o telefone, Meg. Disse Ellen. Ele fica sempre à espera que algum de nós vá atender. E além disso, ele vai ter de descobrir o que o Owen anda a fazer, mais cedo ou mais tarde.

 

Nós concordámos... disse a Meggie, falando devagar e articulando as palavras de maneira a dar-lhes mais ênfase, desde a última vez que o pai esteve hospitalizado... queríamos evitar enervá-lo. E tu sabes como ele reagiria a esta questão da escrita e todas estas chamadas de e para a cidade de Nova Iorque.

 

Até parece que o Owen está a cometer algum crime, declarou a Ellen. E estou farta e cansada de proteger o pai destas coisas. Ele nunca nos protegeu de nada.

 

Oh, com certeza... é assim que mostras a tua gratidão... voltar para aqui para afastar o pai depois de teres perdido o teu marido e não teres sítio onde viver e...

 

Basta! Num movimento brusco Owen afastou-se da mesa e da cadeira.

 

O que é? perguntou a Meggie cheia de indignação. Estou apenas a tentar chamar-lhes a atenção, meus caros, para a saúde do pai. Caramba, eu julgava que...

 

Basta! Owen pôs as mãos na testa e pressionou os olhos fechados com a parte inferior das palmas das mãos até ver formas estranhas e incoerentes. Quando voltou a abrir os olhos, as duas irmãs estavam de olhos fixos nele. Estavam com o aspecto nervoso e quase assustado, que era o que normalmente acontecia nas relações com o pai, e Owen detestava ser o causador disso, mas não conseguiu fazer um dos seus habituais gestos de conciliação.

 

Vou fazer a minha chamada, disse-lhes ele com ar de impaciência. As duas mulheres fizeram um aceno com a cabeça e foram para a sala de estar. Ele sabia que elas iam ficar a escutar a sua conversa. A privacidade nunca tinha sido uma prioridade na família, e só havia aquele telefone fixo na parede junto ao fogão. Ainda pensou em ir de carro até ao telefone de moedas na farmácia de Cyril, mas ficava a trinta minutos de viagem. Pôs-se a olhar para o nome e o número escritos no fragmento de um envelope. Bernadette Goodson. A sua agente literária. Ao ver o nome dela num rabisco da Ellen sentiu um nervosismo a percorrer-lhe o corpo. O meio habitual de comunicação de Bernie Goodson era por carta; uma chamada telefónica tinha de significar algo de especial.

 

Respirou fundo, levantou o receptor e marcou o número. A ligação fez-se lentamente. Finalmente respondeu a assistente. Depois Bernie entrou na linha.

 

Owen! Como está! Como vai a vida no Kansas? Bernie nasceu numa ilha onde se falava o Inglês genuíno, e conservava vestígios do seu sotaque de criança. Ele gostava do som identificativo da voz dela e das suas expressões pouco familiares.

 

O costume, disse ele.

 

Espero não o ter interrompido em alguma coisa importante.

 

Não.

 

Óptimo. Bem, tive uma longa conversa esta manhã sobre o seu novo manuscrito, e queria falar imediatamente consigo sobre isso. Lembra-se da editora que me recomendou a si? Aquela que gostou muito dos seus outros artigos?

 

Aquela que tinha um nome característico? Bernie riu-se. Sim. Arlene Blunt.

 

Com certeza. Lembro-me bem dela. Ainda tenho as suas cartas de rejeição fixadas com alfinetes na parede do meu quarto.

 

Agora, Owen, os editores nem sempre compram tudo o que querem. Já lhe expliquei isso.

 

Sim. Já me explicou. Owen sentiu um grande aperto no peito, como se tivesse acabado de fazer uma corrida. Não se atrevia a investir qualquer esperança nesta chamada... mas apesar disso, sentiu uma animação crescente.

 

Bem, esta manhã Arlene voltou a falar-me do seu manuscrito. E estava muito impressionada. Ela acha que você tem um talento extraordinário.

 

Ainda não conseguiu fazer com que os que mandam se interessassem por ele, mas continua a insistir. O problema que há com este livro é essencialmente o mesmo que há com os seus outros livros. Primeiro apesar de tudo estar tão bem entrelaçado que se parece com uma novela trata-se de um conjunto de histórias. O que é difícil de vender aqui. Segundo a sua escrita é muito sombria. Suicídios e mulheres desamparadas em quintas e a sua visão do campo a definhar... É tudo extremamente lúgubre. Tão realista. Quero dizer, até os animais são... bem... demasiado animalescos. As pessoas gostam de animais fofos e amorosos, ou pelo menos agradáveis.

 

A esperança abandonou-o num ápice. Este manuscrito tinha sido rejeitado tal como os outros e tinha como destino juntar-se-lhes na prateleira do armário.

 

Bernie fez uma pausa, como se estivesse à espera que Owen falasse. Como ele não falava, ela continuou. Claro que vou continuar a enviar o manuscrito para outras casas, mas temos de ser realistas... Arlene era a nossa maior esperança porque ela já tem uma atitude muito positiva em relação ao seu trabalho. Isto aqui está muito difícil para os novos escritores. O mercado está mau e os editores têm os olhos fixos no lucro final. Têm medo de arriscar. Não querem arriscar numa coisa que seja muito inquietante nem muito diferente do que está a vender-se bem.

 

Nesse caso talvez eu devesse começar a aprender a escrever guiões humorísticos para a televisão, disse ele.

 

Ela riu-se. Ninguém pretende que chegue a esse ponto. Mas o motivo por que lhe estou a telefonar é para o encorajar a tentar um rumo diferente no seu próximo trabalho. Talvez se pudesse pôr de parte os animais. E se fizesse uma novela em vez de escrever histórias?

 

Ele encostou o ombro à parede decorada com desenhos esbatidos de galos a dançar.

 

Arlene sugeriu que talvez você devesse pôr-se mais a par do que está a ter mais saída. Não é que alguém esteja a querer interferir na sua maneira de escrever, mas...

 

Eu sei o que são bestsellers, Bernie. Posso viver no meio do nada, mas vou à biblioteca e à livraria de vez em quando. Owen olhou para o tecto manchado. Nunca vou conseguir ter um livro publicado, pois não?

 

Owen! Você nunca me pareceu tão pessimista. Com certeza que vai ter a oportunidade de vender alguma coisa, e quando isso acontecer vai haver mercado para a sua ficção. Com um talento como o seu, só precisa de continuar a insistir até conseguir ter sorte.

 

Com certeza, disse ele.

 

Ela soltou uma leve risada; depois ouviu-se um som de murmúrio, como se ela estivesse a mudar de posição na sua secretária. Ele supôs que ela estivesse a trabalhar à secretária. Sempre a imaginara de óculos e com o cabelo a ficar grisalho, sentada atrás de uma grande secretária de carvalho, como uma bibliotecária.

 

Parece-me que tenho de abreviar esta conversa. Arlene Blunt e eu estamos ambas a atravessar uma crise... não tem nada a ver com o seu livro, acrescentou logo ela.

 

É bastante triste. Um dos meus autores de longa data tinha um contrato para escrever um livro sobre um crime verdadeiro para DeMille, em que Arlene seria a editora, mas o pobre homem teve ontem um ataque cardíaco e não pode fazer o trabalho.

 

Crime verdadeiro?

 

Não-ficção, sabe... O Campo de Cebolas, Atracção Selvagem, A Sangue Frio. Homicídio de alta qualidade. O tipo de material profundamente épico. DeMille gosta de tragédia americana... sensacional mas cheia de significado.

 

Eu li O Campo de Cebolas e Atracção Selvagem, disse Owen. Eram fascinantes.

 

Sim. O crime verdadeiro pode ser espantoso. Bernie deu um suspiro. O meu pobre autor está definitivamente fora de questão, mas DeMille ainda quer que o livro seja escrito, e depressa, por isso Arlene e eu andamos à procura de um substituto. Até agora todos os escritores que contactámos ou já estão comprometidos com um projecto ou não têm possibilidade de ir trabalhar no horário requerido.

 

A pulsação de Owen ficou tão forte que conseguia ouvi-la e a mão que segurava o receptor ficou pegajosa e húmida. Teve dificuldade em engolir.

 

E eu, Bernie?

 

O quê?

 

E se fosse eu a escrever esse livro sobre o crime?

 

Mas não é ficção e não é sobre nada do que você conhece.

 

Bernie... Expôs os seus argumentos, desesperado por fazer com que cada palavra fosse importante. Muito do que escrevo vem directamente da minha experiência da vida, portanto de certo modo já escrevi alguma não-ficção.

 

Ela ficou em silêncio.

 

Eu sou capaz de fazer isso, Bernie. Truman Capote era um escritor de ficção quando escreveu A Sangue Frio, não era?

 

Bem, eu sempre disse que a sua escrita é tão profunda que tenho de comer batatas fritas com ela para me manter em equilíbrio. DeMille ia gostar disso. Mas você não tem qualquer experiência com salas de tribunal, nem com o processo legal.

 

Nesse caso a minha abordagem vai ser novidade, e vou fazer um melhor trabalho a explicar as coisas aos leitores porque eu próprio terei acabado de tomar conhecimento delas.

 

Pense nisso, Bernie... O homicídio não está assim tão longe do que tenho andado a escrever. O tentar compreender as circunstâncias humanas que conduzem ao homicídio está muito próximo do que eu já fiz. Eu jamais seria capaz de me sentar a escrever um triler de espionagem ou qualquer coisa romântica, mas isto... um livro sobre o acto derradeiro...

 

Owen encontrou o pai de Michelle Wheeler desmaiado na carrinha por baixo da linha de choupos que dividiam o vale entre o Wheeler Ranch e o Byrne Shamrock Ranch. Tomou o peso do seu vizinho inerte, como fazem os bombeiros, carregou-o e colocou-o no lugar do passageiro da sua própria pickup. Sandy Wheeler iria passar essa noite em segurança na sua casa em vez de morrer de frio, mas na manhã seguinte ia ficar como um urso, sobretudo depois de saber que tinha sido um Byrne que o tinha levado para casa. Sandy Wheeler e Clancy Byrne odiavam-se havia quinze anos.

 

Aos solavancos pelo campo aberto, Owen tomou o caminho mais curto para a casa dos Wheelers. Enquanto conduzia, pensou em como era irónico que a sua escrita pudesse ser a solução para salvar o rancho Byrne. O seu pai achava que a actividade intelectual não tinha qualquer valor e todo o homem que passasse muito tempo com livros era limitado na sua masculinidade. Um Western de vez em quando estava bem, mas tudo o que fosse para além disso tornava-se suspeito. Passar muito tempo de rabo sentado ou puxar demais pela cabeça torna um homem homossexual, era uma das homilias de Clancy Byrne.

 

Clancy não sabia nada da escrita de Owen nem dos manuscritos no armário. A Meggie achava que esta revelação chocante podia ser fatal, por isso tinha insistido em que guardassem segredo. O que convinha perfeitamente a Owen. Ele não tinha prazer algum em ser constantemente ridicularizado pelo pai, nem nos sarcasmos de satisfação maldosa que Clancy ia fazer de cada vez que não fosse bem sucedido.

 

E até agora Owen não tinha mais nada para apresentar senão insucesso. Insucesso atrás de insucesso. Embora tivesse conseguido atrair a atenção de uma editora e tivesse conseguido a recomendação para a Agência Literária de Bernadette Goodson, ainda não tinha sido publicada uma única palavra sua.

 

Mas agora, depois de tantas rejeições e segredos, agora talvez pudesse ter uma oportunidade de facto. Com isto podia abrir caminho para a publicação do seu trabalho. Sabia que era capaz. Só precisava que o deixassem tentar.

 

Owen fez a curva, depois da qual avistou os edifícios dos Wheelers, e a sua ansiedade quanto ao que estava a ser decidido em Nova Iorque foi imediatamente substituída pela percepção de que Michelle estava ali e ele teria de lhe contar tudo. Tinha de fazê-la compreender o quanto isto significava para ele.

 

Os edifícios dos Wheelers eram parecidos com a sua própria casa, exceptuando o facto de aqui ter tudo um aspecto mais decadente. Como se tudo aquilo já tivesse sido votado ao abandono. E de certo modo tinha. A senhora Wheeler tinha-se ido embora numa noite, quando o filho mais novo ainda usava fraldas. E cada um dos oito filhos dos Wheelers tinham-se ido embora logo que atingiram a maioridade. Agora o rancho era o refúgio para Sandy Wheeler e o seu irmão, o tio Kaye, ambos já com mais de sessenta anos, a avó Wheeler, a idosa matriarca da família, e Michelle, que tinha voltado para casa para cuidar de todos eles, depois de ter passado sete anos na cidade de Kansas. Sobreviviam porque o rancho não tinha quaisquer dívidas, porque o avô Wheeler tinha deixado um seguro de vida quando morreu, e porque, até agora, a sorte tinha estado do lado deles.

 

Logo que Owen se aproximou da casa, Mike saiu a correr. A sua cara ficou aliviada quando viu o pai na carrinha. Mike era uma rapariga de vinte e sete anos, de cabelo liso cor de mel escuro, olhos claros e de olhar calmo e confiante de alguém que não tem incertezas. Era muitas vezes difícil para Owen relacionar a Mike que conhecia durante o dia com a Mike com quem fazia amor à noite.

 

Onde o encontraste? perguntou ela.

 

No vale.

 

Ela abanou a cabeça. Ele está a piorar da bebida, mas não quer que ninguém lhe fale nisso. Hoje, quando a avó tentou falar com ele, simplesmente foi-se embora. Estávamos preocupadíssimas. E o tio Kaye saiu na outra carrinha, por isso não tive hipótese de o ir procurar.

 

Owen olhou para a casota do tio Kaye. O homem dormia ali desde a adolescência, ajudando o irmão mais velho e tornando-se cada vez mais excêntrico com o passar dos anos. Às vezes Owen receava que também ele pudesse tornar-se o velho tonto da casa dos trabalhadores, e tinha de se convencer a si próprio de que a sua situação era diferente da de Kaye. Owen dirigia o rancho Byrne. Dormia na casa dos trabalhadores por opção própria. No futuro ele e a Mike haviam de casar, ter filhos e viver na sua própria casa.

 

Onde está o tio Kaye? perguntou ele.

 

Com um suspiro de desânimo, Mike revirou os olhos. Isto dá cabo de mim.

 

Owen carregou com o Sandy à maneira dos bombeiros e a Mike abriu-lhe as portas a caminho do quarto de Sandy. Juntos descalçaram-lhe as botas, despiram-lhe as calças de ganga e meteram-no debaixo dos cobertores.

 

O que se passa aí? gritou a avó do seu quarto.

 

O Owen encontrou o pai. Estamos a metê-lo na cama.

 

Ele está adormecido? perguntou a velhota.

 

Sim.

 

E o Kaye já chegou?

 

Não, avó.

 

Vou ter que lhe dizer meia dúzia de verdades!

 

Sim, avó. Agora vou sair um bocado. O Owen vai dar-me uma boleia para ir buscar a carrinha do pai.

 

Mike estava muito faladora a caminho do vale. Falou dos pintainhos que ia mandar vir do aviário na próxima primavera e das sementes para o jardim que tinha encomendado e de todo o trabalho que faria mais tarde no jardim se tudo corresse bem.

 

Owen lembrou-se de Mike Wheeler quando era adolescente. Ela detestava tudo o que tivesse a ver com a vida no campo e sonhava libertar-se daquilo tal como os seus irmãos mais velhos já tinham feito antes. No dia em que acabou o curso do ensino secundário partiu para Kansas City e Owen não ficou surpreendido. O que o surpreendeu foi quando ela de repente voltou para o rancho há dois anos e abraçou a vida do campo com todo o fervor. Fosse o que fosse que lhe tivesse acontecido na cidade, ela tinha ficado completamente diferente da Mike mais nova que ele tinha conhecido.

 

Mike... disse Owen, interrompendo o monólogo dela enquanto estacionava ao lado do camião do seu pai. Preciso de falar contigo.

 

O rosto dela ficou muito sério. Sobre o quê?

 

Ele hesitou, sem saber como começar. Sou capaz de ter uma hipótese de arranjar trabalho.

 

O quê? perguntou ela mais confusa do que interrogadora.

 

Ele contou-lhe tudo numa versão simplificada e depois confessou, Tenho de ir para Nova Iorque e ficar lá até acabar o julgamento.

 

Ir para Nova Iorque? Para a cidade de Nova Iorque? Ele fez um aceno com a cabeça em sinal afirmativo.

 

Não podes fazer isso Owen! Não é isso que tu queres fazer! Acredita em mim, por favor! Agarrou-o pelo braço, como se isso fosse suficiente para o segurar ali. As pessoas como tu e eu não foram feitas para viver na cidade. O nosso lugar não é aqui.!

 

É só por umas semanas, Mike. Talvez um mês. Eu consigo aguentar seja o que for durante esse tempo.

 

Tu não sabes. Não fazes a menor ideia. Largou-lhe o braço e tapou a cara com as mãos. Oh, Owen... há tantas maneiras de uma pessoa se magoar num sítio daqueles. Estás demasiado confiante... também...

 

Michelle, Michelle... ele puxou-a para ele com delicadeza. Eu vou ficar bem. Vou apenas fazer um trabalho. Prometo que não vou viver com nenhuns traficantes de droga, ladrões de jóias nem assassinos contratados.

 

O seu ar de brincalhão não surtiu qualquer efeito. Ela aconchegou-se nos seus braços durante alguns minutos com as mãos agarradas à lapela do seu casaco; depois afastou-se.

 

E quem vai tomar conta do rancho? perguntou ela.

 

Estamos a tentar resolver esse problema.

 

Com os problemas de saúde que o teu pai tem, ele não está em condições de poder fazer esse trabalho. E tu não tens dinheiro para poder pagar o tipo de ajuda que ias precisar. A sua voz intensificou-se ao pensar em todos os pretextos para ele não poder ir embora. Não há ninguém disponível mesmo que tivesses meios para pagar. As únicas pessoas que restam neste condado ou são velhas ou têm os olhos postos em algo mais fácil e mais bem pago do que trabalhar num rancho. E não tens tempo suficiente para mandar vir alguém do sul para te prestar ajuda.

 

Ele deixou-a desbobinar e depois disse-lhe, A Meggie arranjou uma pessoa que acha que pode fazer isso.

 

Ai sim? perguntou Mike com uma voz fraca.

 

Rusty Campbell. A família dele tem um rancho perto de Junction City. Ele é o mais novo de quatro irmãos e todos eles ficaram em casa, por isso a Meggie acha que ele vai querer vir para cá só pela oportunidade de sair de casa e ser patrão de si próprio pelo menos por algum tempo. Depois pago-lhe em dinheiro ou dou-lhe alguns vitelos correspondentes à sua compensação.

 

Isso parece-me muito suspeito, Owen. Aposto que esse rapaz vem mesmo só por causa da Meggie.

 

Talvez seja por isso, mas isso também não tem mal nenhum.

 

Com certeza... Quando menos esperares, a Meggie vai querer casar-se.

 

Owen franziu as sobrancelhas.

 

Agora é a tua vez de casar, Owen!

 

Mas, Mike, nós não podemos casar-nos, não é verdade? O teu pai não quer nem ouvir falar que vou mudar-me para a tua casa e tu não queres vir viver comigo na minha cabana. E...

 

Não é que me importe de ir viver na tua cabana, insistiu ela. Simplesmente não posso ficar ali e depois ter de ir para a casa principal para lavar ou cozinhar ou para fazer qualquer outra tarefa. Aquilo é território das tuas irmãs.

 

Sabes... atreveu-se ele a dizer, se isto der resultado, eu podia começar uma carreira... com um rendimento independente do rancho. Talvez o suficiente para podermos construir uma casa para nós.

 

Aquela ideia animou-a instantaneamente.

 

E onde é que íamos construí-la? perguntou ela.

 

Sabendo como é o teu pai, teria de ser nas terras dos Byrnes.

 

Ela ficou a olhar para fora da janela. Quando é que tens de partir?

 

O julgamento começa na próxima semana. Se eles decidirem optar por mim, vou ter de partir imediatamente.

 

Ela olhou-o por instantes, como se quisesse dizer alguma coisa; depois voltou-se de repente e deslizou no assento para fora da carrinha. Owen ficou a observá-la até ela virar a carrinha do Sandy e partir em direcção a casa.

 

Logo que Owen chegou a casa, a Meggie empurrou-o para o telefone com a novidade de que Bernadette Goodson tinha voltado a telefonar e queria que Owen lhe telefonasse imediatamente para o escritório. A Meggie estava com os olhos brilhantes e tinha os dedos cruzados para desejar sorte.

 

Owen marcou o número. Meggie sentou-se numa cadeira da cozinha, esperando ansiosamente. Ellen voltou da sala de estar e espreitou à porta. Ele tentou ignorá-las, mas elas ainda agravaram mais o seu nervosismo.

 

Finalmente, disse Bernie quando ouviu a voz dele. Estava com receio de ter de sair do escritório sem lhe dar a novidade.

 

Owen susteve a respiração.

 

Arlene gostou da ideia. DeMille não está muito convencido de que você consiga descalçar esta bota, mas eles estão receptivos. O acordo é que você comece a assistir ao julgamento e dentro de duas semanas apresente uma proposta de trabalho detalhada. Se a proposta lhes agradar, o contrato é seu.

 

E agora os inconvenientes do acordo... Uma vez que esta é uma situação muito pouco ortodoxa, Arlene e eu conseguimos convencer o editor a dar-lhe dois mil adiantados... já... para as primeiras despesas. Se você escrever o livro para eles, esse dinheiro será considerado como adiantamento do seu pagamento. Se a sua proposta não for aceite, os dois mil dólares serão anulados e você não terá que devolver o dinheiro. Arlene quer que você esqueça o autocarro e utilize algum desse dinheiro para comprar um bilhete de avião e vir para Nova Iorque o mais depressa possível, para ela poder encontrar-se consigo e para você poder começar a sua investigação. Consegue fazer isso?

 

Uma enorme alegria apoderou-se de Owen e só lhe apetecia gritar para Bernie e para as suas irmãs e para todas as pessoas que pudessem ouvir, mas refreou tudo dentro de si, conteve-se com todas as suas forças para que nada fosse perturbado. Para que nenhuma coisa pudesse desaparecer antes de a ter nas mãos. Eu consigo fazer isso, disse ele calmamente.

 

Voltou-se para as irmãs e acenou com a cabeça a indicar que havia novidade. A Meggie levantou as mãos na posição clássica de vitória e balbuciou um yes silencioso! Ellen sorriu com alguma ironia.

 

Tenho mais boas notícias para si, disse Bernie. Encontrei um apartamento onde você pode ficar. Sem pagar nada. Os donos estão na Califórnia por três meses e não puderam subalugá-lo para não perderem o direito ao arrendamento. O que acha disto?

 

Parece-me óptimo. Mas tem a certeza? Quero dizer, não estava à espera de que você se desse a tanto incómodo.

 

Pare. Eu só quero que isto resulte bem para si, Owen.

 

Eu sei. Obrigado. Vou fazer um bom trabalho, Bernie. Não se vai arrepender.

 

Só espero que você não se arrependa. Ouviu-se uma voz a gritar para Bernie, vinda do fundo e Owen ouviu um som fraco de tilintar, ao mesmo tempo que ela respondia num tom abafado. Isto aqui é de loucos, disse ela em tom apologético. Bem, enviei-lhe por correio expresso um pacote com recortes de jornais e outro material relativo aos antecedentes deste caso. Assim você poderá dar uma vista de olhos a esse material enquanto viaja no avião e estar informado acerca do que se passa quando for encontrar-se com a Arlene. Trata-se do homicídio de Serian, sabe. Aquele a que chamam o homicídio da Viúva Negra. Pode não ser uma grande notícia no Kansas, mas é um tema muito quente aqui em Nova Iorque. Com muito sensacionalismo.

 

Está bem.

 

Mas isto não é uma coisa certa, Owen. Compreende isso, não compreende? Você pode fazer toda esta viagem e complicar a sua vida e depois ver a sua proposta rejeitada.

 

Eu compreendo, disse ele, mas uma nova série de possibilidades estendia-se à sua frente e nada mais importava.

 

O tempo Estava claro quando Owen Byrne ia partir no avião para Nova Iorque, e o seu lugar era junto à janela. Ofereceu o lugar ao rapaz que partilhava a fila com ele, pensando que deveria ser a criança a ter direito às vistas, mas o rapaz disse que já não se preocupava a olhar para fora, pois era sempre a mesma coisa chata.

 

Owen não conseguia compreender aquela atitude. Especialmente vinda de uma criança. O rapaz voltou-se para o seu jogo electrónico. Owen olhou para ele por momentos, depois inclinou-se para a pequena janela, encostando a testa ao Plexiglass, de modo a poder ver em todas as direcções. Observou a tripulação de uniforme na azáfama das actividades em terra, de preparação para a partida. Viu um rato a correr como uma seta pela pista de descolagem enquanto o avião deslizava ao longo da pista para a posição de levantar voo, e a seguir viu o chão a ficar para trás quando eles se elevaram no ar da tarde cheia de sol.

 

Estava ao mesmo tempo maravilhado e assustado. Ainda mal tinha acabado de sair da sua região, dos Flint Hills, do estado de Kansas e já tinha deixado de estar em contacto com a terra. E sentiu-se quase como se estivesse a entrar noutra dimensão. Numa outra realidade.

 

Subitamente foi assaltado por recordações de Terry. O seu irmão gostava muito de aviões e tinha poupado dinheiro durante anos para pagar aulas particulares de pilotagem num aeródromo perto de Strong City. Lembrou-se de Terry a sobrevoar o rancho num pequeno avião vermelho e branco, descendo muito baixo e depois acelerando para subir a pique, de modo que o ruído do motor atroava por toda a casa. Inchando de orgulho e afecto, Owen saía a correr para o pátio e ficava a olhar para a barriga branca e brilhante daquele avião, enquanto subia para o céu. Era o seu irmão que ia ali. O seu irmão que era capaz de fazer tudo.

 

Passado pouco tempo, Terry tinha deixado de voar. Owen nunca soube porquê.

 

Agora, ao espreitar atentamente para o chão da quinta lá longe em baixo, que parecia um mosaico gigante de retalhos ligados uns aos outros pelas linhas direitas e finas das estradas de terra batida, Owen imaginou como o seu irmão ansiava por esta vista, e gostava de saber o que é que Terry teria encontrado ali. Teria sido apenas a novidade que o atraíra? Teria sido a excitação do controlo e do possível perigo? Ou tinha sido a libertação total da terra que Terry procurara? Estas perguntas nunca teriam resposta. Owen apenas podia imaginar que sonhos e temores teriam atraído o seu irmão. E queria, como quisera tantas vezes antes, que tivesse sido mais próximo em idade do seu irmão. Que tivesse sido mais o amigo do seu irmão do que apenas um miúdo que andava atrás dele. Porque ele tinha a certeza de que, se tivesse sido amigo do Terry, o seu irmão ainda estaria vivo.

 

Ouviu-se um leve som sibilante e o sinal do cinto de segurança apagou-se. Rapidamente, Owen afastou da cabeça aquelas recordações perturbantes. A viagem estava a ter nele um estranho efeito, avivando pensamentos que ele evitava habitualmente. Levantou-se para ir tirar o pacote de Bernie do receptáculo das bagagens que se encontrava por cima da sua cabeça. Estava ansioso por abri-lo mas ainda não tinha tido tempo para tal, visto que tinha chegado ao posto dos correios de Cyril mesmo a tempo de o levantar, quando ia a caminho do aeroporto.

 

Colocou o embrulho no lugar vazio entre ele e o rapaz, enquanto procurava os óculos para ler e o bloco de apontamentos e a caneta que tinha metido na bagagem. O envelope castanho almofadado era do tamanho de um envelope normal, cheio de autocolantes com as palavras URGENTE e EXPRESSO NOCTURNO. Foi invadido por uma onda de dúvidas, deixando-o cheio de inquietação. Será que se tinha metido em alguma coisa com que não sabia lidar?

 

Abriu o envelope pelo lado do selo e virou-o, despejando um monte de recortes de jornais e cópias de recortes e folhas rasgadas de revistas em cima do assento. Os cabeçalhos saltavam à vista.

 

INCÊNDIO DE SERIAN ACIDENTE OU SUICÍDIO?

ARTISTA AZARADO POR CASA ASSOMBRADA

SERIAN MORTO ANTES DO INCÊNDIO

POLÍCIA INTERROGA A VIÚVA

INCÊNDIO COMO COBERTURA

PARA UM BRUTAL HOMICÍDIO COM MACHADO?

ORGIA SEXUAL ANTES DO INFERNO.

ELA FICOU A VÊ-LO A ARDER

ARTISTA FAMOSO PREVIU A MORTE.

A MULHER MISTÉRIO DESAFIA OS POLÍCIAS

TESTEMUNHA DESAPARECE.

PADRE PROCURADO POR SER AMANTE DA VIÚVA

VIÚVA NEGRA UTILIZOU RITUAIS VOODOO COM O FOGO

GOVERNANTA AFIRMA QUE A VIÚVA SEDUZIA OS AMIGOS DO MARIDO

 

Começou a lê-los. Um artigo chamava a atenção para outro, impelindo-o a continuar e estava quase a acabar o monte quando se apercebeu de que não tinha tirado nenhuns apontamentos. Tirou os óculos de aros metálicos e inclinou a cabeça para trás. Apesar dos cabeçalhos sinistros e das insinuações, havia de facto uma grande tragédia naquela história.

 

Owen pôs-se a imaginar Bram Serian, o jovem artista, a deixar o seu ambiente rural e pobre, não levando nada consigo para Nova Iorque, a não ser o seu talento e a sua determinação.

 

Sentiu que tinha algumas afinidades com Serian. Como ele compreendia bem o desejo, a inquietação, a febre, a necessidade que tinha impelido aquele jovem. Serian podia ser a sua outra metade, uma versão mais determinada, mais implacavelmente ambiciosa de si próprio. Embora não soubesse nada que indicasse que Serian tinha sido cruel ao abandonar a sua família. Na verdade havia muito poucos factos sobre o seu passado. Mesmo nos vários obituários que tinha consultado, a história de Serian anterior à sua fama era vaga e contraditória, quase como se o verdadeiro nascimento tivesse sido a sua chegada a Nova Iorque. Ou até mais tarde. A data da sua primeira exposição de obras de arte com sucesso.

 

O sucesso meteórico de Serian no mundo da arte dos anos setenta tinha com certeza sido extraordinário. As suas obras tinham de repente muita procura. A sociedade de Nova Iorque estava aos seus pés. As mulheres afluíam à sua cama.

 

A maior parte dos jovens teriam sido rapidamente seduzidos por tudo aquilo, mas Bram Serian não. Este homem grande e austero, descrito por um escritor como uma combinação de um fora-da-lei como o Butch Cassidy com o bíblico Moisés, conservava os seus modos rudes, evitava as televisões e permanecia isolado, mantendo uma atitude de independência que o tornava admirado por uns e odiado por outros.

 

Owen gostava de ter conhecido Bram Serian. Sentia muito essa falta, como se Serian fosse um parente afastado que nunca tivesse conhecido, mas mesmo assim se sentisse ligado a ele. Como podia um homem com tanta vitalidade e tão dotado morrer tão inutilmente e de uma forma tão horrível quando tinha apenas quarenta e seis anos de idade?

 

Claro que não havia resposta para isso, e por esse motivo Owen prestou atenção ao que já conhecia. Exceptuando os altos e baixos da carreira do artista, havia dois outros tópicos importantes nos artigos. O primeiro era a casa de Serian, a Arcádia.

 

Quando Serian chegou pela primeira vez a Nova Iorque, foi viver para umas águas-furtadas em Manhattan, que funcionavam também como local de trabalho. Depois de ter obtido sucesso, manteve-se nas águas-furtadas onde continuou a passar algumas temporadas, mas comprou uma quinta no norte do estado, que passou a ser a sua casa principal. Transformou o enorme celeiro da propriedade num estúdio muito bem apetrechado, com espaço para os seus diversos projectos em escultura, pintura e trabalho em madeira. Este estúdio era alvo de muita curiosidade, mas ninguém era autorizado a entrar lá a não ser o seu assistente.

 

Logo que o estúdio ficou pronto, Serian começou a renovar a decrépita estrutura que ameaçava cair em ruínas. A obra evoluiu para um projecto complexo, e Serian comunicou aos seus amigos que toda a casa se ia transformar numa obra de arte. Os anos passaram. Serian dedicava a maior parte do seu tempo e recursos à casa, vivendo nas partes acabadas enquanto continuava a construir as alas laterais. Os amigos eram destacados para trabalhar, e os artistas que vinham visitá-lo eram encorajados a dar a sua contribuição com alguns retoques. O resultado foi a Arcádia, a lendária obra-prima inacabada que um crítico considerou como a maior construção artística do século e outro crítico descreveu-a como a obsessiva residência pessoal de Bram Serian.

 

Depois havia a mulher de Serian, claro. A ”Viúva Negra” dos cabeçalhos das publicações sensacionalistas e o tema de muita especulação na imprensa durante os sete meses que se seguiram à sua morte. Serian tinha trinta e três anos, um ano mais velho do que Owen, quando se casou. Toda a gente tinha ficado chocada por ele ter escolhido aquela rapariga para sua mulher. Parece que a noiva era completamente desconhecida para os amigos e companheiros, e ia continuar a ser uma desconhecida.

 

Mantinha-se isolada, reservada e misteriosa, uma combinação que gerava muitos rumores entre o grupo imaginativo de Serian. Havia insinuações de que ela era a filha secreta de um americano de alta patente e de uma mulher vietnamita da velha geração, que ela tinha sido uma espiadurante a guerra e, ou corria perigo, ou era provavelmente perigosa, que a sua fuga para os Estados Unidos tinha sido dramática e violenta. Alguns diziam que ela tinha salvo a vida de Serian no Vietname e que ele se sentira na obrigação de casar com ela. Subjacente a estes comentários brejeiros de mexeriquice que saíam na imprensa, encontrava-se um conjunto de factos reais. Lenore Serian era amerasiática, filha de mãe asiática e de um soldado anglo-americano, e tinha vindo para os Estados Unidos sem nada.

 

Pelo que Owen tinha lido, o casamento não mudou em nada a vida de Bram Serian. Dava a impressão que Serian trabalhava na sua casa, produzia as suas obras de arte e depois do casamento continuou a levar a mesma vida que anteriormente. Continuava a dividir o seu tempo entre Manhattan e a Arcádia e continuava a esquivar-se aos meios de comunicação, nunca dando entrevistas, recusando-se a ser fotografado e cortando totalmente com todas as pessoas conhecidas que se atrevessem a mencionar o seu nome na imprensa.

 

Por volta do fim dos anos oitenta, a carreira de Serian começou a cair no esquecimento. Caiu no ridículo e depois numa obscuridade relativa, continuando no entanto a atrair um grupo de seguidores dedicados. Depois, seis meses antes da sua morte, surgiram rumores de que Serian estava a preparar o seu regresso, e finalmente foi anunciada uma exposição numa galeria que supostamente confirmaria o seu regresso. A exposição estava prevista para Setembro.

 

Serian trouxe alguns convidados para a Arcádia num fim de semana, para trabalhar na casa e fazer uma festa. Toda a gente se divertiu até altas horas de Sábado à noite, que na verdade já era Domingo de manhã.

 

Às 4.25h. da manhã de Domingo do dia sete de Agosto, a governanta de Serian telefonou para os bombeiros a comunicar que o estúdio estava a arder. Os bombeiros voluntários lutaram contra o fogo mas o estúdio ficou destruído. Como se receava, o corpo de Bram Serian foi encontrado no meio dos escombros que ainda estavam a arder a fogo lento. Inicialmente as autoridades consideraram que tinha sido um acidente, mas a autópsia revelou que o crânio de Serian tinha sido esmagado antes de o incêndio começar, provavelmente com um machado.

 

Lenore Serian foi acusada do assassínio do marido. Os meios de comunicação entraram num frenesim crescente e subitamente todos aqueles que alguma vez tinham tido contacto com os Serians queriam contribuir com informações sobre Lenore. Foi publicado todo o tipo de especulação sobre o seu passado. O agente artístico de longa data de Serian acusou Lenore de ter inveja da carreira do artista. Os seus seguidores acusaram-na de tudo, desde o facto de ser simplesmente rude até ser uma autêntica psicopata.

 

Como se tudo isso não bastasse, a governanta de Serian andou a vender histórias para numerosas publicações sensacionalistas e para um programa de televisão, afirmando que Lenore tratava o marido com uma frieza cruel, ao mesmo tempo que seduzia os seus amigos para a prática de estranhos rituais sexuais no meio da floresta. Na opinião da governanta, Lenore tinha um poder misterioso, quase sobrenatural, sobre o marido, mas com o despontar de um novo impulso na sua carreira, ele estava a tentar libertar-se dela.

 

Era este o busílis da questão na opinião da polícia. Lenore matou o marido para evitar ser desalojada banida da vida de Serian e da casa a que ela se tinha apegado tão obsessivamente durante treze anos. De acordo com fontes anónimas, havia provas de que o homicídio não tinha sido um acto impulsivo, um crime de paixão, mas algo que Lenore tinha planeado, vigiando o seu marido, à espera do momento certo.

 

Owen folheou o que restava do material e viu a primeira página de uma publicação sensacionalista. Com a excepção do nome do jornal e uma linha a anunciar VIÚVA NEGRA CHEGA PARA O PROCESSO-CRIME, toda a primeira página estava preenchida com a fotografia da mulher. Tinha sido tirada quando saía de um carro, com o vestido puxado para cima e as longas pernas com as meias esticadas. Embora a fotografia granulada a preto e branco fosse muito escura, era evidente a sua expressão assustada e de desorientação.

 

Owen observou-a. Era muito atraente, muito exótica. Mas havia algo muito intenso e irritante naquele rosto com um perfil elegante. Alguma coisa que fazia com que qualquer acusação contra ela fosse credível.

 

Em voz alta, o rapaz ao lado de Owen insistia, Não quero só um copo. Da última vez deram-me a lata inteira. Owen deu uma olhadela e viu a hospedeira na coxia a servir bebidas. O rapaz tinha auscultadores nos ouvidos ligados a um leitor de CDs portátil e não se apercebia da altura da sua própria voz.

 

Com um sorriso forçado, a hospedeira de voo entregou-lhe a lata e a seguir voltou-se para Owen. O senhor deseja tomar uma bebida?

 

Owen hesitou.

 

O rapaz gritou-lhe, É grátis, sabe, como se tivesse tomado Owen por um novato.

 

A hospedeira de voo rangeu os dentes. Owen disse-lhe que bastava um refrigerante e, com um olhar carregado, ela pousou com alguma violência uma lata inteira no seu tabuleiro e continuou a andar. Ficou surpreendido com a grosseria dela.

 

O rapaz voltou-se para Owen e sorriu mostrando os dentes, como que a felicitá-lo por aprender tão depressa. Abriu a boca para falar e Owen estendeu as mãos para lhe tirar os auscultadores e evitar mais gritaria.

 

Temos que apanhar tudo o que pudermos, recomendou o rapaz, tomando um gole da sua bebida.

 

Quem te disse isso? perguntou Owen.

 

O rapaz encolheu os ombros. Ninguém. Sou suficientemente esperto para ver sozinho como é que as coisas funcionam.

 

Owen observou o rapaz. Andas muitas vezes de avião?

 

Sempre que o meu pai decide querer ver-me. Às vezes isso acontece com alguma frequência. Voltou a ligar o leitor de CDs. Outras vezes dá-me coisas.

 

Quando o avião começou a descer sobre o espaço aéreo de Nova Iorque, Owen encostou de novo a cabeça à janela. Esperava ver toda a parte leste dos Estados Unidos pavimentada e cheia de edifícios, mas em vez disso, só viu lá em baixo terrenos agrícolas. No Kansas a pequena percentagem de terreno montanhoso era utilizada como pastagem, mas aqui os agricultores tinham os seus montes cultivados a toda a volta, de modo que a divisão dos terrenos era feita com curvas e círculos. E o terreno que estava por cultivar não tinha nada o aspecto de pastagem, mas era de um verde escuro aveludado que lhe dava a aparência de floresta virgem.

 

O avião fez uma viragem, inclinando-se para o lado de dentro e então viu água. Seria o mar? Aquilo lá em baixo seria o oceano? A única pessoa disponível era o rapaz, mas ele não podia sujeitar-se a expor a sua ignorância perante o chato do garoto de dez anos, por isso a pergunta continuou sem resposta. E pouco depois o avião aterrou e ele foi apanhado de surpresa no frenesim da saída. Foi tirando do receptáculo da bagagem os objectos dos outros passageiros e entregando-os às pessoas e até transportou um carrinho para fora do avião, para uma senhora que estava com um bebé.

 

Pegou na sua bagagem e saiu. Estava um dia agradável, com uma temperatura de pelo menos dez graus centígrados e não se sentia a mínima brisa. Não era nada parecido com o mês de Fevereiro nos Flint Hills. Quando apanhou um táxi, baixou parcialmente o vidro da janela e respirou o ar de Nova Iorque, enquanto o taxista entoava suavemente uma canção numa língua estrangeira.

 

Saíram da zona do aeroporto e seguiram ao longo de uma extensão de areia e erva alta que lhe pareceu ser um pântano costeiro. O ar tinha uma feculência forte e salgada que soube instantaneamente ser o cheiro de terreno pantanoso, e sorriu para si próprio perante a novidade e estranheza de tudo aquilo.

 

Seguiram pela estrada sinuosa ao longo da costa. Atravessaram pontes móveis antigas com canais a passarem por baixo delas, serpenteando para um lado e para o outro. Viu largos canais ladeados por grandes casas e docas particulares e uma flotilha de pesca constituída por barcos de luxo. Depois os canais e o pântano deram lugar a uma extensão de água a perder de vista de um lado da estrada e terra firme do outro. Surgiram bairros de casas do lado da terra, com filas de casas antigas de tijolo, de dois andares. Nunca tinha visto tanto tijolo. E árvores grandes. Enormes árvores antigas debruçadas sobre as ruas. Parques enormes. Vislumbres de crianças a brincar. Na faixa da linha da costa, entre a estrada e a extensão de água, havia pessoas a correr e a caminhar e a andar de bicicleta.

 

Depois fizeram uma curva e a extensão de água estreitou-se ficando com a forma de um gargalo de garrafa entre pontos salientes de terra. Muito alto lá em cima, transpondo a água de brilho prateado, estava uma ponte magnificamente longa e delicada. Talvez a ponte de Brooklyn? Mas não, uma placa na estrada identificava-a como a ponte de Verrazano Narrows que ligava Brooklyn a Staten Island. Era uma vista tão espectacular e ele nunca tinha ouvido falar dela.

 

Passaram por baixo da parte inferior da ponte e a estrada fez de novo uma curva e a passagem estreita alargou-se dando acesso ao Porto de Nova Iorque. E ele ficou a olhar para o brilho ofuscante do sol, ficou a olhar para os barcos de pesca e para os barcos de transporte de pessoas e para as lanchas e para os enormes navios e para a verdadeira Estátua da Liberdade e para mais pontes, e depois viu Manhattan. Surgiu da água como uma miragem a cintilar à luz trémula da tarde, uma autêntica Cidade Esmeralda, em parte ficção científica e em parte catedral, uma visão espantosa e etérea. E sentiu-se como um homem que estivesse a olhar para uma sala cheia de gente e de repente tivesse visto a mulher mais linda do mundo.

 

Na altura em que chegou à agência de Bernadette Goodson, sentia-se entorpecido pela sobrecarga de experiências sensoriais. Ficou ali de pé no passeio, segurando uma mala enorme numa mão e um saco na outra, ambos da Ellen, porque mais ninguém na família tinha malas, e ficou a olhar para um e outro lado da rua. Toda a população de Cyril podia ser alojada só naquele quarteirão.

 

A rua era calma, quando comparada com as largas avenidas comerciais por onde tinha passado antes de chegar ali, e parecia ser principalmente residencial, se exceptuarmos a placa de latão onde se lia AGÊNCIA LITERÁRIA DE BERNADETTE GOODSON. Os edifícios tinham quatro ou cinco andares e eram construídos com pedra castanha ou cinzenta. Com enormes blocos de pedra, que tinham sido polidos e talhados e às vezes esculpidos com muitos motivos decorativos. Ficou admirado com as paredes comuns entre as casas e a maneira como os degraus da frente davam directamente para o passeio, de tal modo que não havia pátios. Imaginou como seria estar rodeado de pessoas. E perguntava-se como é que as árvores podiam crescer tanto e ser tão verdejantes naqueles pequenos quadrados de terra no chão pavimentado.

 

Observou o edifício de Bernie. Era castanho e tinha uma vedação decorativa de ferro até à altura da cintura a separá-lo do passeio. Os degraus eram largos e flanqueados por esculturas de leões, e havia uma inserção de vidro por cima da pesada porta de madeira. Era uma porta imponente. E um edifício grandioso.

 

Naquele preciso momento abriu-se a porta e um jovem de suspensórios vermelhos espreitou para fora e sorriu. O senhor é Owen Byrne? perguntou.

 

Sim.

 

O homem riu-se e gritou por cima do ombro lá para dentro, É ele! Depois desceu as escadas a correr, abriu o pequeno portão preto de ferro e estendeu-lhe a mão. Sou o Alex, disse ele. O assistente de Bernie. A mão que estendeu era pálida e macia, quando comparada com a de Owen. Deixe que eu levo um desses volumes, insistiu ele, e Owen deu-lhe o saco.

 

Quando iam a subir as escadas, Alex sorriu novamente. A recepcionista trabalha ali, junto àquela janela saliente da parede... e veio dizer-nos que estava ali um indivíduo vestido à cowboy, e que estava há dez minutos a olhar para ela.

 

Nem sequer a vi, disse Owen com algum embaraço.

 

Ninguém consegue ver para dentro através daquelas cortinas, mas ela pensou que você tivesse mau olhado. Alex riu-se. Seja como for, Bernie supôs que era você.

 

Pararam para fazer as apresentações logo à entrada da porta, onde uma mulher bem constituída estava sentada ao computador. Ela apertou-lhe a mão embaraçada e disse olá num tom musical, antes de atender o enorme telefone com muitos botões. Owen nunca tinha apertado a mão a uma senhora. E nunca tinha tocado numa pessoa negra. Sentiu-se desajeitado e pouco à vontade.

 

Alex conduziu-o através de uma sucessão de salas que comunicavam directamente umas com as outras, todas elas com madeira escura polida e tectos altos. Isto é uma antiga mansão de areia castanha avermelhada, disse ele. Bernie tem o primeiro andar e o resto do edifício está dividido em apartamentos.

 

Entraram numa sala com janelas grandes e portas francesas que davam para um pequenino pátio decorado com hera. A mulher que se levantou para o cumprimentar tinha um rosto em forma de coração, um sorriso cativante, emoldurado por covinhas e uma grande quantidade de delicadas braceletes a tilintar nos braços. Também era negra, como a recepcionista, embora Owen ficasse surpreendido por aquilo ser uma descrição tão despropositada. A sua pele era de um castanho luminoso e só o cabelo curto e com um penteado perfeito era negro.

 

Ele acenou com a cabeça, à espera de uma apresentação pelo Alex, mas em vez disso ela aproximou-se e estendeu-lhe a mão. Mais um aperto de mão de uma mulher. Não sabia com que firmeza devia apertar a mão. Mas ela não se ficou com o contacto com a mão. Puxou-o para ela e, com o braço livre deu-lhe um semi-abraço e beijou-o levemente na cara.

 

Eu sabia que um dia havia de trazê-lo para Nova Iorque, disse ela e, ao ouvir a voz dela, sentiu um abalo.

 

Bernie? A senhora é que é a Bernie?

 

Ela riu-se. E você é o Owen. Finalmente conhecemo-nos.

 

Ele ficou ali de pé, sentindo-se incrivelmente estúpido e esperando não ter dito inadvertidamente algo que a ofendesse durante os anos em que comunicaram. Nunca lhe tinha passado pela cabeça que ela pudesse ser negra.

 

Está a passar por um choque de culturas? perguntou ela enquanto Alex pegava no pesado casaco de pele de ovelha de Owen e o pendurava num cabide de madeira com a forma de uma árvore.

 

Sim, minha senhora, confessou ele. Há muitas coisas que preciso de assimilar.

 

Ela sorriu com o seu sorriso maravilhoso e covinhas nas bochechas. Embora sempre me tenha sentido atraída pelo charme do seu país, o minha senhora” tem de ficar fora. Faz-me sentir velha e como se fosse a rainha mãe.

 

Ele riu-se, sentindo-se um desastrado, mas satisfeito.

 

O julgamento só começa daqui a três dias, portanto tem algum tempo para dar umas voltas pela cidade e para se orientar. Tenho um assunto a tratar aqui e por isso não posso ir mostrar-lhe o seu apartamento, mas é fácil dar com ele. Pensei que talvez quisesse ir para lá e desfazer as malas; depois passo por lá e levo-o a jantar por volta das sete horas.

 

Owen acenou com a cabeça em sinal afirmativo.

 

O Alex vai dar-lhe as chaves e a direcção. É em East Village, uma zona que ou vai adorar ou vai detestar. Contornou a enorme secretária para se dirigir a uma parede cheia de prateleiras. As suas braceletes tilintaram levemente e os seus elaborados brincos oscilaram. Calculou que ela devia ter trinta e poucos anos, próxima da idade da sua irmã Ellen, e ficou admirado com este meio, onde era possível uma mulher negra jovem e atraente ter tanto sucesso. Em Cyril isso nunca seria possível. Ali a combinação de feminino e negro seria uma carga demasiado pesada.

 

Fiz uma recolha de alguns artigos de jornais para si e uma quantidade de livros que achei que lhe podiam ser úteis. Livros sobre crimes reais, sobre actuações da polícia e coisas do género. É uma boa quantidade. Espero que consiga levar tudo.

 

Não há problema. Obrigado.

 

Onde tem a máquina de escrever? perguntou ela de repente, enquanto examinava minuciosamente a bagagem dele. Trouxe a máquina de escrever, não trouxe?

 

Não... Eu...

 

Não há problema. Fez um aceno com a sua mão comprida e delgada. Ultimamente mudámos para os computadores, por isso tenho uma máquina de escrever metida ali no armário, que você pode usar. A não ser que viesse com a intenção de alugar um computador.

 

Não. Uma máquina de escrever está bem.

 

Ouviu-se a voz da recepcionista no intercomunicador. Bernie... é Lafehr na linha dois.

 

Bernie inclinou-se para o seu telefone da era espacial, carregou num botão e disse, Eu atendo. Depois voltou-se para Owen. Penso que já está tudo resolvido, disse ela. Agora deixo-o com o Alex e depois voltamos a ver-nos às sete.

 

Antes de Owen ter tempo de responder, já ela estava a levantar o receptor do telefone para atender a chamada.

 

Alex pegou na máquina de escrever e na caixa de livros e desceram juntos pelas escadas da frente. Eu vim para aqui de Indiana, confessou Alex. Não do interior como você, mas de uma bonita pequena cidade. Lembro-me de como me sentia confuso nas primeiras semanas. Mas não se preocupe... Logo vai adaptar-se.

 

E em Indiana também havia mulheres como Bernie? perguntou Owen.

 

Alex soltou um riso abafado. Posso dizer-lhe que vai passar por algumas experiências de ficar de olhos arregalados, disse ele. Esta cidade está cheia de pessoas interessantes.

 

Caminharam até à esquina, porque Alex disse que era mais fácil arranjar um táxi nas avenidas com muito trânsito. Enquanto Alex tentava vislumbrar um táxi que estivesse livre no meio de todo aquele trânsito, Owen observava o tráfego humano que passava por ele no passeio largo. Tanta gente atraente. Havia todo o tipo de cores de pele. Todo o tipo de cores de cabelo. Todo o tipo de corpos. Todos a andar a passos largos, confiantes, por aquela rua citadina abaixo como se fossem os donos do mundo.

 

Owen! chamou Alex da borda do passeio, onde estava a abrir a porta de um táxi amarelo. Ajudou Owen a carregar as suas coisas e depois, quando Owen estava a entrar para o banco traseiro, Alex entregou-lhe uma tira de papel com a direcção do apartamento, sorrindo intencionalmente com ironia, com ar de quem sabe e disse, Já não está no Kansas.

 

O táxi seguiu a grande velocidade e parou em frente de um edifício antigo de apartamentos com seis andares. Owen ficou de olhos abertos. A ”East Village” tinha-lhe parecido encantadora, mas a realidade era um pouco diferente. Não havia nada da alta burguesia que caracterizava o quarteirão de Bernie. Aqui um número diminuto de árvores de aspecto macilento debatia-se por oferecer alguma folhagem e estava tudo coberto por uma película de fuligem.

 

Os passeios estavam cheios de todo o tipo de pessoas que transbordavam para as ruas, e ele ficou sobressaltado ao ver um homem a dormir em cima de um pedaço de cartão, mesmo à entrada do edifício. Descarregou a sua mala, o saco, a máquina de escrever e a caixa de livros para o passeio e o táxi partiu a toda a velocidade. Uma mulher idosa que vinha a empurrar uma cadeira de rodas cheia de cães chihuahua de olhos salientes contornou a bagagem murmurando ao passar, Deus devia limpar toda esta escória.

 

Desculpe, minha senhora, disse Owen, tirando as coisas da sua frente.

 

Você não me apanha, respondeu ela. Os meus bebés são assassinos.

 

Owen ficou a olhar enquanto ela se afastava empurrando o carro de chihuahuas trémulos, e não pôde deixar de sorrir. Havia ali uma estranha energia cinética, uma energia divertida e necessária à vida, que era diferente de tudo o que já tinha conhecido.

 

Incapaz de transportar tudo de uma vez, deixou a mala ao fundo dos degraus enquanto subia com a máquina de escrever, os livros e o saco até à porta de entrada. Teve o cuidado de os amontoar junto à parede, de modo a que ninguém que fosse a sair do edifício pudesse tropeçar neles.

 

Com licença, disse ele para o homem que estava deitado em cima do cartão. O senhor sente-se bem?

 

Preciso de dormir! gritou o homem; depois abriu um olho, elevou-se do chão apoiando-se num cotovelo para examinar Owen e disse, Não tem aí um dólar?

 

Owen pediu desculpa por incomodá-lo, tirou um dólar da carteira e a seguir desceu os degraus para ir buscar a mala. Só que não estava lá. Olhou para um lado e para o outro da rua. As pessoas continuavam a passar como dantes, mas a mala tinha desaparecido.

 

No cimo das escadas o homem tinha-se sentado e estava a rir às gargalhadas.

 

Então já perdeu a virgindade, disse Bernie quando ele lhe contou da mala.

 

Tinha vindo a buscá-lo às sete horas e ele ainda não sabia que bastava carregar no botão eléctrico para abrir a porta de entrada e por isso, quando ela tocou à campainha, ele desceu a correr os cinco lances de escadas para ir abrir-lhe a porta.

 

E o que acha do apartamento? perguntou ela quando iam a caminho do restaurante.

 

Tinha pensado que viver num apartamento na cidade de Nova Iorque devia ser emocionante, sobretudo depois de o Alex lhe ter dito que era um estúdio e de Bernie se ter referido a ele como um pied-à-terre, mas depois verificou-se que a casa não era mais do que um quarto e uma casa de banho num edifício sombrio, com um elevador avariado. Era basicamente apenas um quadrado, mais pequeno do que a sua cabana no Kansas, com uma cozinha minúscula a um canto, um estrado para dormir no outro canto, um sofá e uma cadeira que estavam voltados para a única janela do quarto, uma casa de banho também pequenina e um armário ainda mais pequeno.

 

O apartamento é mesmo o que eu preciso, disse ele em tom de reconhecimento. E o preço é bom.

 

Sim. Ela riu-se. E subir todas aquelas escadas vai contribuir para se manter em boa forma física enquanto aqui estiver.

 

Sem dúvida. Então onde vamos comer? Acha que estou com a roupa adequada? Esta é a única roupa que tenho.

 

Apareceram novamente as covinhas. Meu caro, você até podia usar as suas polainas de vaqueiro por cima de um fato de dança e mesmo assim ser bem aceite na East Village.

 

Levou-o para a Sexta Rua, onde só havia restaurantes indo-paquistaneses por todo o quarteirão. Estavam todos amontoados, uns a seguir aos outros, todos eles muito pequeninos e servindo todos o mesmo tipo de comida.

 

A minha filha acha que devem ter uma enorme cozinha nas traseiras, em que se cozinha para todos os restaurantes, disse Bernie a rir enquanto o condúzia para uma sala comprida e estreita, parecida com uma caverna, exceptuando o facto de estar cheia de luzes coloridas e espelhos e enfeitada com toda a espécie de decorações com fios prateados e papel crepe. Este aqui é o Rosa da índia, anunciou Bernie. Definitivamente o meu preferido. Se estivermos com sorte, alguém vai fazer anos, o que aqui é um autêntico espectáculo.

 

Ela encomendou para os dois e imediatamente a comida começou a chegar. Chamuças com recheio de batata e vegetais. Grão de bico picante em pão entufado. Bananas fritas. Fatias finas de pão torrado com pimenta preta. Ela ia falando enquanto comiam, fazendo-lhe perguntas sobre a viagem e sugerindo-lhe lugares onde podia comprar roupa barata para substituir as peças roubadas. Depois ficou calada. Absorta em pensamentos.

 

O Alex parece ser um bom assistente, disse Owen, numa tentativa de quebrar o silêncio.

 

Oh, sim, é bastante competente. Com capacidade para tomar a iniciativa, diria eu... só que tem tantos problemas familiares que duvido que consiga recompor-se nos próximos tempos.

 

Oh, disse Owen, sentindo-se imediatamente desconfortável com a referência a tudo o que fosse rotulado de problemas familiares.

 

Bernie deu um suspiro. Ele tem uma daquelas relações tempestuosas, ora tudo bem, ora tudo mal. Muito tempestuosas. E destrutivas, se quer que lhe diga. Mas o facto é que todos nós já passámos por uma dessas situações em algum momento das nossas vidas, não é verdade? disse ela, sorrindo pesarosamente.

 

Owen concentrou-se na chegada do frango tandori. Não, ele nunca tinha tido nenhuma relação daquele género. A verdade era que ele só tinha tido uma verdadeira namorada antes da Mike. Uma rapariga no ano em que era caloiro na universidade. Entretanto tinha havido outras mulheres, mas nenhuma delas tinha sido importante nem durado muito tempo.

 

Então, disse Bernie, você ainda é solteiro, não é? Ele fez um aceno com a cabeça em sinal afirmativo.

 

E não tem ninguém significativo na sua vida?

 

Ninguém quê?

 

Uma namorada, uma companheira, seja lá o que for.

 

Ele hesitou. Era tão agradável ter este tipo de conversa como ir ao dentista, mas sentiu-se na obrigação de ser amável com a Bernie e sobretudo não queria ofendê-la.

 

Há uma pessoa com que tenho intimidade, disse ele. Uma pessoa que é minha vizinha, Mike Wheeler.

 

Ah... Mike, hein? Eu nunca teria imaginado tal coisa.

 

Ele encolheu os ombros. Na verdade o nome dela é Michelle, mas a família sempre a tratou por Mike.

 

Bernie tapou a cara com a mão e riu-se tanto que os seus ombros até estremeceram.

 

O que foi? O que é que eu disse para ter tanta graça?

 

Ela abanou a cabeça. Gostava que a minha filha estivesse aqui na cidade. Ela ia gostar de si.

 

E onde está ela?

 

Está a ter aulas. Na Universidade de Boston.

 

Você ainda não tem idade para ter uma filha na universidade.

 

Oh, isso é que tenho. Tenho quarenta e alguns anos. Casada durante três desses anos e divorciada há vinte, e mãe de uma linda filha de vinte anos.

 

Não!

 

Ela debruçou-se sobre a mesa na direcção dele, com as divertidas covinhas a aparecer no rosto e braceletes de prata a tilintar. Sim. Depois respirou fundo, sorriu e abanou a cabeça. Mudando de conversa e falando de assuntos mais sérios... Você tem de estar no escritório da editora amanhã de manhã às dez horas. O acordo relativo ao dinheiro para despesas deverá ser assinado por si, e depois vai falar-lhe sobre o que pretende DeMille e como deve começar a elaborar a sua proposta de trabalho.

 

Ele pousou o garfo, sem vontade de continuar a comer.

 

Não fique nervoso. Arlene está disposta a ajudá-lo. Ele fez um aceno com a cabeça.

 

Alguma dúvida?

 

Provavelmente. Mas agora não consigo pensar em nada.

 

Telefone-me sempre que quiser. Ou telefone ao Alex. Ele transmitiu-me a sua disponibilidade para lhe prestar toda a ajuda que puder e escreveu para si um pequeno guia de sobrevivência do escritor. Bernie estendeu-lhe várias folhas de papel densamente dactilografadas. Conselhos úteis sobre como utilizar o autocarro e o metropolitano. Direcções de boas livrarias. Localização de bibliotecas secundárias e instruções sobre o regulamento da biblioteca central de pesquisa. Onde comprar papel barato para máquinas de escrever. Ele riu-se. Eu disse-lhe que ele deve ter um talento por descobrir, para escrever guias turísticos.

 

Owen pegou nas folhas. Diga-lhe que lhe fico muito agradecido, disse ele. Fico-lhe agradecido por tudo e...

 

Eu sei. Só espero que tudo lhe corra da melhor maneira. É que ainda tenho algumas reservas sobre este seu compromisso em aceitar este trabalho.

 

Owen encolheu os ombros e esboçou um sorriso. O pior que me pode acontecer é eu não conseguir.

 

Naquela noite Owen ficou deitado naquele quarto estranho a ouvir os ruídos que vinham da rua, quando estava habituado a ouvir apenas o vento. Gostaria de ter a Mike ali na cama consigo, como na noite anterior.

 

Ela tinha ido à antiga casa dos trabalhadores depois da meia noite. Ele estava sentado em frente do fogão bojudo a olhar para as chamas, entusiasmado e desassossegado, cheio de inquietação. A pensar na sua partida. Entusiasmado com a sua partida. Mas preocupado pelo facto de se ir embora. Será que Rusty Campbell ia tomar bem conta do rancho? Quem ia evitar as discussões entre a Meggie e a Ellen? Quem ia fazer de motorista de Clancy nos dias em que a sua perna o incomodasse? E a Mike? A quem ia ela telefonar quando precisasse de ajuda?

 

De repente ouviu bater à porta e foi abri-la. Era a Mike, a sorrir com alguma hesitação, trazendo uma caixa de bolinhos quentes e usando o seu melhor vestido por baixo do casaco. Ele tinha estado à espera que ela aparecesse, mas sabia como às vezes era difícil ela escapar-se de casa.

 

Surpresa. Trouxe-te bolinhos para a viagem de amanhã.

 

Obrigado, disse ele. O rosto dela estava obscurecido com a luz da lanterna, mas ele sabia que ela estava nervosa.

 

Estás com bom aspecto, disse-lhe ele enquanto lhe pendurava o casaco. Há meses que não te vejo com um vestido de cerimónia.

 

Ela afastou-se dele e envolveu-se com os próprios braços como se estivesse com frio. Podes atiçar o lume?

 

Com certeza.

 

Ele agachou-se em frente do velho fogão para mexer as brasas e pôr mais lenha. Depois levantou-se e voltou-se para ela. Estava nua. Ali de pé, com o vestido caído aos pés e os braços cruzados sobre os seios, como uma relutante deusa Viking.

 

Adoro surpresas, disse-ele, e ela sorriu timidamente.

 

Em quase dois anos de intimidade, Mike sempre fizera questão de se esconder debaixo dos cobertores antes de se despir, e esta nova ousadia era uma surpresa.

 

Farei tudo o que tu quiseres, anunciou ela com determinação.

 

Ele aproximou-se dela e acariciou-lhe a linha dos ombros. Tudo? gracejou ele. O que é isto, um presente de despedida?

 

Estou a falar a sério, Owen. Tudo o que tu quiseres. Basta dizeres e eu faço.

 

Mike... Ele levantou a cabeça e tentou forçá-la a olhá-lo nos olhos, mas ela atirou-se a ele num abraço muito intenso, escondendo a cabeça no seu peito.

 

Quero casar-me, disse ela. Não quero esperar mais tempo.

 

Está bem. Ele acariciou-lhe o cabelo fino e macio. Como vamos conseguir fazer os preparativos?

 

Não sei. Não quero saber. Só quero casar-me amanhã de manhã, antes de partires para Nova Iorque.

 

Owen apoiou o queixo na cabeça dela. Mike...

 

Estou a falar a sério. Tenho o vestido apropriado e a minha certidão de nascimento e quero ficar aqui contigo até de manhã, para podermos ir no carro a algum sítio e casarmos.

 

Mike, isso não é possível. Para começar, não temos nenhuma licença de casamento e isso não é uma coisa que se consiga obter dum momento para o outro.

 

Um frémito de soluço silencioso sacudiu o corpo dela, e ele apertou-a com força, procurando protegê-la e aliviar a sua dor, mas sem saber como.

 

Gostava muito que pudesses vir comigo, disse ele.

 

Ela afastou-se e ficou a olhar para ele, mostrando a sua incredulidade através das lágrimas. Para Nova Iorque? Não há maneira de eu poder ir para Nova Iorque.

 

A afirmação incomodou-o mas manteve-se em silêncio. Ela franziu as sobrancelhas. Tu também não irias se não tivesses de ir, não é verdade?

 

Eu nunca deixaria passar a oportunidade de ir, se é isso que queres saber. Sempre quis ir ver Nova Iorque. Do mesmo modo que queria ir a S. Francisco e Los Angeles e Paris e Roma e muitos outros lugares.

 

Estás a deixar levar-te pela imaginação, Owen. Tens a ideia de que todos esses lugares distantes são maravilhosos, quando a verdade é que são sujos e cheios de gente, e cheios de estrangeiros e de vidas deprimidas. Acredita em mim, quando deixei Kansas City só pensava que era uma libertação!

 

A lenha estalou no fogão e uma rajada de vento fez tremer a janela. Owen ficou a olhar para a mala que estava ao lado da porta. Sabia como ela receava pela sua partida.

 

Ela soltou um suspiro. Ambos precisamos de dormir, parece-me.

 

Sim, concordou ele. Acho que sim.

 

Quer dizer que não queres fazer amor comigo? perguntou ela com um sorriso tímido mas reservado.

 

Ele pegou-a nos braços, tropeçou e acabou por cair com ela em cima da cama. A rir, ela enfiou-se para baixo dos cobertores e tudo voltou ao habitual.

 

Ele deslizou para baixo dos cobertores com ela e com as mãos percorreu os contornos do seu corpo. Pressionou o pénis erecto contra as coxas e a barriga dela. Ela estava mais agressiva do que era costume, tocando com as mãos no pénis e conduzindo-o cegamente para ela, com os olhos firmemente fechados. Ele entrou nela devagar, com todo o cuidado, observando-a à procura de algum sinal de desagrado, querendo, como sempre queria, ter a certeza de que ela estava a sentir prazer no acto.

 

Ele queria prolongá-lo, mas ela sabia exactamente onde tocá-lo e como mexer-se de modo que o seu controlo foi suprimido e ele não pôde evitar atingir o clímax. Quando terminou, ela enroscou-se nos seus braços e ele perguntou-lhe, como sempre, Foi bom? Vieste-te? e como sempre, ela disse, Sim. Claro. Mas ele nunca acreditou muito nela.

 

Amo-te, disse ele. Hei-de telefonar-te todas as noites.

 

Não te atrevas! Isso ia custar uma fortuna. Não me telefones nunca. Basta escreveres-me cartas. És escritor... portanto escreve.

 

Mas assim vou sentir saudades da tua voz.

 

Ela encostou a cara ao peito dele. Vou ficar a dormir aqui toda a noite, disse ela em tom de provocação. Não quero saber do que as pessoas possam dizer. E amanhã de manhã faço-te a mala e...

 

Eu já fiz a mala.

 

Oh! Bem... Então vou para casa de manhã e arranjo-te um saco térmico de comida para levares. Salada de batata e couve-flor e...

 

Mike, Mike... Eles dão comida no avião e penso que também têm comida em Nova Iorque.

 

Mas não é comida boa, parece-me. Nada que se pareça com a comida daqui de casa.

 

Não, concordou ele. Não é como a de casa.

 

Owen tinha dito aquilo mais para lhe agradar, nunca imaginando que ia passar a sua primeira noite a comer comida estranha e maravilhosa num pequeno restaurante estrangeiro, enquanto discutia ”relações” com uma mulher encantadora e inteligente de pele escura.

 

Não era como em casa. Lá isso era verdade, sem dúvida.

 

Na manhã seguinte foi para o seu encontro nas Publicações DeMille & Sons. Arlene Blunt, a editora mais antiga que tinha tanto poder sobre o seu trabalho, era afinal uma mulher pequenina que podia passar por uma adolescente. Tinha cabelo castanho encaracolado, que lhe brotava da cabeça como se fosse arame enrolado em espiral, e pele de cor pálida sem uso de cosméticos. Uma das suas orelhas estava perfurada com três brincos e a outra com dois. O seu aperto de mão era forte.

 

Ela conduziu-o numa breve visita pelo seu andar, explicando que este era editorial e que DeMille tinha outros andares no edifício para vendas e arte e relações comerciais. Depois levou-o para o seu escritório e, sem mais preliminares, disse-lhe, A sua proposta de trabalho tem de ser muito, muito boa, se não pode dizer adeus a toda esta ideia. Já alguma vez escreveu um plano de trabalho?

 

Não tinha.

 

Então deu início a um curso rápido sobre como escrever propostas de trabalho. Introduziu-o na mecânica do seu funcionamento e depois explicou-lhe que precisava de escrever dois capítulos para amostra e um resumo geral do livro, escritos de modo que até os mais cépticos dos seus chefes ficassem de água na boca perante o seu potencial comercial. Depois de terminada a lição, ela inclinou-se para trás na sua cadeira e fez girar um lápis nas suas mãos para a frente e para trás.

 

O que acha deste caso até agora? perguntou ela.

 

Owen concentrou-se por alguns momentos. Sabia que a pergunta era um teste, por isso pôs de lado a sua reticência natural.

 

Bram Serian levou para casa esta mulher, uma refugiada da guerra, e tentou compensá-la pelos males do passado, disse ele, mas era impossível. Ela tinha sofrido muito, e a relação entre eles estava desde o princípio condenada ao fracasso.

 

Ele lutou com ela durante treze anos, procurando ajudá-la a ultrapassar os seus problemas, mesmo quando a sua carreira estava a afundar-se e os seus próprios alicerces estavam abalados. E depois verificou que não podia continuar com o casamento.

 

Owen fez novamente uma pausa para pensar.

 

Talvez ela estivesse a arrastá-lo para o insucesso e a contribuir para a destruição da sua carreira. Talvez ele se tivesse interessado por outra pessoa. Talvez ele quisesse simplesmente libertar-se dela. Qualquer coisa... e comeÇou a falar em divorciar-se.

 

Para Lenore Serian... uma mulher intranquila e perturbada, cuja vida inteira girava à volta do marido e da casa... a ideia de divórcio deve ter-lhe parecido aterradora. Não tinha amigos. Nem parentes. E nenhuma outra existência para além dos limites da Arcádia.

 

Matá-lo foi provavelmente um acto de desespero para ela. Quase um acto de autodefesa. Estava a tentar ripostar e a agarrar-se ao único lar e ao único mundo que tinha deixado.

 

Ummmm. Arlene passou distraidamente o lápis pelo cabelo, fazendo-o sobressair de forma ainda mais desordenada. Gosto disso. Gosto muito. Vai ter de o alterar à medida que se desenrolar o julgamento, mas é um começo bastante bom. Sentou-se na sua cadeira em frente e sorriu. Você podia de facto ser bom nisto, Byrne.

 

Ele devolveu-lhe o sorriso sentindo um intenso alívio.

 

Ela apertou-lhe de novo a mão, depois acompanhou-o até ao elevador. Quando saiu do edifício para o passeio cheio de gente, apercebeu-se de repente de que não passava de um rapaz do campo no meio de uma cidade monstra, que tinha acabado de escrever o seu nome numa linha penteada de um contrato de publicação, e que não sabia o que diabo estava a fazer. Mas estava tão entusiasmado que parecia que tinha de novo dezoito anos.

 

Owen não utilizou os seus três dias para fazer uma visita à cidade. Debruçou-se atentamente sobre os livros que Bernie lhe tinha disponibilizado, dissecando-os num esforço determinado de ficar a saber o que fazia com que uma história de crime real tivesse sucesso. E deixou-se absorver pelo material que dizia respeito ao caso de Serian, lendo e relendo os recortes de jornais e artigos de revistas até saber de cor algumas passagens. Foram raras as vezes que se permitiu satisfazer os seus desejos. Fez uma visita à Catedral de S. Patrício em memória da sua mãe. Deu alguns passeios pela East Village sempre repleta de gente. Entrou em algumas livrarias. Saboreou comida chinesa e polaca e árabe em restaurantes baratos. E, por necessidade, reabasteceu o seu guarda-roupa.

 

Depois de comprar a roupa, voltou para o apartamento e vestiu uma camisa nova. Depois abriu a porta do armário para se ver ao espelho, coisa que raramente fazia quando estava em casa, pois não havia espelhos na antiga casa dos trabalhadores, para além de normalmente não se preocupar com a sua aparência. Mas quando se confrontou com a sua imagem reflectida, esqueceu-se da camisa e concentrou o seu olhar apenas no rosto que estava à sua frente.

 

Na mente trazia uma imagem de si próprio como sendo muito parecido com o pai, mas ao ver a sua imagem reflectida naquele espelho estranho, naquela estranha cidade e naquele estranho momento decisivo da sua vida, não conseguiu encontrar quaisquer traços de Clancy Byrne. Mesmo o cabelo castanho escuro e os olhos azuis já não tinham importância, agora que o cabelo e os olhos do pai já tinham perdido a cor, devido à sua idade.

 

Também não conseguia encontrar semelhanças com o seu falecido irmão naquele rosto. Nem com nenhum outro Byrne. De alguma maneira, aquele rosto tinha-se tornado o seu próprio rosto.

 

Na Terça-Feira de manhã, Owen saiu para a sessão de abertura do julgamento do homicídio de Serian. Antecipação e medo acompanhavam-no em igual medida.

 

Equipado com mapas e horários de comboio e os conselhos do Alex, apanhou um autocarro para a parte alta da cidade, para a Rua 42. Dirigiu-se para a Grand Central Station, um nome que lhe era familiar do tempo da sua infância, de quando a mãe gritava, Isto aqui não é a Grand Central Station! sempre que os filhos andavam a correr pela sala de estar. Esperava encontrar uma estação de caminho de ferro movimentada e barulhenta, semelhante aos terminais das linhas aéreas por onde tinha passado quando chegou a Nova Iorque mas, ao vê-la pela primeira vez, parou no meio do caminho e ficou a olhar, esquecendo-se do movimento das pessoas que passavam por ele no passeio. A artística fachada exterior, embora com algumas fissuras, era tão sólida e intemporal que lhe fazia lembrar as imagens do Partenon em Atenas ou do Coliseu em Roma.

 

Retomou o objectivo da sua viagem e entrou no edifício, juntando-se ao movimento das pessoas que se precipitavam para as portas do lado sudoeste. Foi arrastado por vários corredores desinteressantes, depois para o meio de um espaço onde havia uma enorme multidão crescente, que o maravilhou tanto como o exterior. Lá no alto, por cima do extenso espaço amplo, havia um tecto espantoso em forma de abóbada, onde se viam as constelações do céu nocturno. Inclinou a cabeça para trás e ficou ali a olhar para cima descaradamente, de boca aberta. E concluiu que este devia ser um monumento de um sonhador. Este edifício era mais do que o somatório de arquitectura, dinheiro e política, era um tributo à civilização. Uma visão digna de respeito. Um milagre.

 

Fê-lo desejar fazer construções. E perguntou-se se Bram Serian não teria sentido algo semelhante quando começou a construir a Arcádia.

 

Depois de comprar um bilhete para o comboio que fazia ligação para o norte, foi à procura do seu cais de embarque. No caminho passou por uma padaria e pôs-se na fila para comprar um pão fresco com queijo e uma chávena grande de café para levar consigo.

 

À hora da partida do comboio da manhã, havia muito mais passageiros a chegar para irem para o trabalho em Manhattan do que a partir, e ficou com uma secção inteira de uma carruagem só para si. Instalou-se num lugar com espaço para poder esticar as pernas e tirou o pequeno almoço do saco. O prazer que sentiu era tão elementar que quase parecia infantil. Uma viagem num comboio verdadeiro. O cheiro a café bom. Um assento confortável. Sorriu para si próprio enquanto desembrulhava o pão.

 

As portas fecharam-se e o comboio começou a mover-se lentamente pelo interior escuro da Grand Central. A escuridão continuou e ele pôs-se a olhar para o escuro, captando de vez em quando um vislumbre de movimento de sombras. Perguntou-se se haveria pessoas nos túneis ou se seria apenas uma ilusão provocada pela escuridão. Depois, o comboio saiu de repente para a luz do sol e ganhou velocidade, oscilando suavemente num ritmo ruidoso e calmo.

 

Tentou visualizar o trajecto da viagem, lembrando-se que Alex lhe tinha dito para imaginar o estado de Nova Iorque em forma de funil, com Manhattan lá ao fundo na parte mais estreita. Estavam na direcção do gargalo do funil, ao longo do rio Hudson.

 

Com a ajuda dos mapas e de um condutor conversador, identificou Harlem, por onde passaram a grande velocidade, depois foi observando à medida que viajavam através dos subúrbios dinâmicos cheios de gente a ir para o trabalho, através da faixa exterior de propriedades exuberantes e quintas com cavalos e finalmente entraram na zona rural. A zona rural de Serian. Uma terra de montes ondulados e densas florestas intervaladas por uma ou outra quinta de produção de leite e um ou outro pomar de macieiras. Alex tinha descrito aquela zona como luxuriante e pitoresca, mas naquele dia de Fevereiro o ar estava enevoado, viam-se manchas de neve nas vertentes dos montes que se derretia por entre pedregulhos desordenados e árvores de ramos despidos perfuravam a neblina como dedos deformados de bruxas.

 

Num estado de ansiedade, com medo de perder a sua paragem, Owen pegou no saco de viagem, que agora fazia de carteira, e já estava à porta à espera quando o condutor anunciou Stoatsberg.

 

Na pequenina estação de comboios Vitoriana, Owen perguntou à única pessoa que ali se encontrava qual era a direcção para o tribunal. O homem chupou os dentes, olhou para Owen e disse, Vai ao julgamento, é? Se quer que lhe diga, aquilo é tudo um desperdício de dinheiro dos nossos impostos. Aquela mulher é tão culpada como o próprio pecado e é um crime que nós, cidadãos, tenhamos de suportar as despesas de algum advogado bem falante para a safar da condenação.

 

Owen foi apanhado de surpresa pela má disposição do homem. Provavelmente aquela mulher também pagou muitos impostos ao longo dos anos, realçou ele.

 

O tipo olhou para ele com ar irritado e furibundo e a seguir fez um movimento com a cabeça numa determinada direcção. Siga em frente por essa rua e logo dá com ele.

 

Owen virou a gola do casaco para cima e saiu para a rua sem movimento. Em Stoatsberg estavam vários graus de temperatura mais baixo do que em Manhattan. O passeio estava cheio de lama de saibro e o único som que se ouvia era o correr da água fria que saía das caleiras. Passou por um depósito de madeiras deserto e um bar fechado, a seguir viu-se rodeado de casas velhas, algumas delas bem cuidadas, voltadas para os passeios rachados, com pequenos pátios rectangulares cheios de peças de carros e brinquedos cobertos de neve. Não havia movimento nas ruas, nem humano, nem de qualquer outra espécie.

 

Quarteirão após quarteirão era tudo a mesma coisa, e ele pensou como o inverno era com frequência pouco atractivo nas pequenas cidades. Em Cyril o tempo muito frio fazia com que as pessoas ficassem em casa e reduzia o espectro das cores a cinzentos escuros e brancos, alguns pretos e castanhos. Mas aqui a temperatura era tão baixa e a frialdade era tão penetrante que ele duvidava que uma mudança de estação pudesse ajudar. Era difícil acreditar que um artista tivesse optado por viver perto de um lugar daqueles.

 

Próximo do tribunal sombrio e coroado com uma cúpula, tinham deitado sal nas passagens de peões e estas tinham sido limpas. O parqueamento à beira do passeio estava cheio e as pessoas apressavam-se a atravessar a praça do tribunal, dirigindo-se para um dos edifícios baixos de escritórios de tijolo que flanqueavam a praça ou para os largos degraus de granito do tribunal. De um dos lados encontrava-se estacionada uma carrinha bem apetrechada, com logotipos de televisão nas portas.

 

Subiu os degraus e entrou no tribunal. À entrada havia um átrio espaçoso em mármore. O chão era em mármore castanho, os ornamentos das cornijas e lintéis em mármore cinzento, as colunas em mármore branco. Maciço, sólido, intemporal, mas com o inevitável barulho das máquinas automáticas de venda e tabuletas de plástico barato. Um posto temporário de segurança controlava o acesso à larga escadaria central e ao pequeno elevador posteriormente instalado. Juntou-se à fila de pessoas que esvaziavam os bolsos e abriam os sacos e pastas para serem inspeccionados.

 

A agente policial que apalpou o saco de Owen tinha uma expressão de aborrecimento. O senhor traz aqui um gravador, disse ela, sem sequer levantar os olhos para a sua cara.

 

Sim. Estou a fazer investigação para escrever um livro e...

 

Não quero saber do que o senhor anda a fazer, meu caro. Por mim não passam gravadores nem máquinas fotográficas. Vocês julgam que podem vir para aqui e passar com tudo o que querem, não é verdade?

 

Desculpe. Não sabia...

 

Ela fez um movimento brusco com o polegar para a direita. Diga isso ao sargento.

 

O sargento também não lhe prestou atenção. Tirou o gravador e escreveu um recibo a Owen sem sequer confirmar a sua presença. O incidente deu resposta a uma das dúvidas de Owen sobre julgamentos. Não era permitido fazer gravações.

 

A sala número 6, que era a sala de audiências do Juiz Martin J. Pulaski, não foi difícil de encontrar. Era a que estava cheia de gente. Havia três oficiais de diligências que estavam de sentinela, de braços cruzados e rostos sérios, enquanto observavam a avalanche de pessoas. Tinha sido colocado um dispositivo de cordas de belbutina e postes de metal cromado para manter a ordem, mas mesmo assim havia alguma confusão. Owen dirigiu-se para o que parecia ser o fim da fila. A mulher que estava à sua frente fez-lhe sinal com os olhos. O seu cabelo parecia algodão de açúcar e tinha seios abundantes por baixo de uma camisola decorada com ursinhos infantis a dançar.

 

É esta a fila para o julgamento de Serian? perguntou Owen.

 

Precisamente, assegurou-lhe ela; depois, apontando com a mão para um letreiro na parede, disse, Era melhor o senhor tirar o casaco.

 

Ele leu o letreiro escrito à mão PROIBIDO TRAZER COMIDA, BEBIDAS E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO. PROIBIDO FUMAR, MASCAR PASTILHAS ELÁSTICAS E CUSPIR. TIRAR TODOS OS CASACOS E CHAPÉUS ANTES DE ENTRAR despiu o casaco e agradeceu-lhe.

 

Estou à espera da minha irmã, disse ela. Se ela não chegar depressa, parece-me que vou ter de tentar guardar-lhe um lugar lá dentro.

 

Ele esboçou um sorriso por delicadeza.

 

O senhor não acha horrível estarmos cá tão atrás? Provavelmente vamos ter de nos sentar nas empenas. Estão ali umas raparigas que conheço mesmo à frente da fila... está a ver aquele grupo em que estão todas a fazer croché? Mas não vejo maneira de lhes pedir para dar um golpe. São todas muito senhoras de si. De qualquer modo ficamos a saber que amanhã temos de vir mais cedo, não é verdade?

 

Com certeza. Tirou do bolso um bloco de apontamentos e começou a tomar nota de tudo o que lhe vinha à mente, esperando parecer tão absorvido e ocupado que ela se sentisse desencorajada.

 

Pelo contrário, aquilo provocou nela ainda mais excitação. O senhor é dos jornais?

 

Não.

 

Então para que é tudo isso? Aproximou-se dele, numa tentativa de conseguir ler as suas notas.

 

Ele fechou o bloco de notas. É investigação, disse ele, tentando manter alguma indefinição.

 

Está a brincar! O que é o senhor, escritor ou coisa parecida?

 

Coisa parecida.

 

Eu sou a Phyllis. E o senhor como se chama?

 

Owen Byrne.

 

Ela franziu a cara por momentos a pensar, depois disse, Nunca ouvi falar de si. No entanto não me surpreende que esteja aqui. Ela é o tipo de pessoa que pode fazer uma boa história.

 

Ela?

 

Phyllis franziu as sobrancelhas e revirou os olhos. Sabe... baixou a voz, a Viúva Negra... Lenore Serian. Olhou desconfiada à sua volta, depois baixou mais um pouco o tom de voz. O meu filho Tommy é uma das testemunhas. Trabalhou muito naquela casa e viu-a a queimar coisas e a fazer feitiços.

 

A fazer feitiços?

 

Feitiços de bruxas e coisas voodoo. Ou como lhe chamam lá na terra donde ela veio.

 

Owen tentou manter uma expressão neutra.

 

Devia entrevistar o meu filho. As coisas que ele lhe podia contar... Os seus traços fisionómicos alteraram-se subitamente de alegria. Olhe! Ali está Spencer Brown. Eu já sabia que ia ser ele quem ia participar neste julgamento. Aquele velho catavento do Ministério Público está apavorado por ter de enfrentar um advogado de defesa famoso e por isso fez-se substituir por Spencer Brown.

 

Spencer Brown, primeiro assistente do gabinete do Ministério Público, atravessou o átrio a passos largos, com ar confiante e calmo. Devia ter trinta e poucos anos, cabelo ruivo, corpo de jogador de futebol à defesa e cara de menino de coro.

 

Agarra-os, Spence! alguém gritou, e Brown fez uma saudação de vitória antes de desaparecer pelas portas duplas que davam acesso à sala de audiências.

 

A multidão aplaudiu.

 

Seguindo atrás de Brown, ia um homem atarracado, de cabelo escuro, empurrando nervosamente um carrinho de metal cheio de caixas. GABINETE DO MINISTÉRIO PÚBLICO, lia-se numa chapa fina de metal que estava no lado de trás.

 

Aquele deve ser Dapolito, disse Phyllis. Ele não é realmente um dos nossos. Ouvi alguém dizer que foi criado em Brooklyn.

 

De um e de outro lado da fila ouviam-se as pessoas a queixarem-se umas às outras pelo facto de a imprensa ser autorizada a ficar à frente dos espectadores, mas a resmunguice de descontentamento era pouco animada. A sua atenção estava concentrada no átrio da entrada. À espera que os outros actores subissem ao palco.

 

Apareceu um jovem negro impecavelmente vestido, empurrando um carro porta-bagagem de duas rodas com caixas enormes de pele do processo, seguras com correias. Um dos oficiais de diligências abriu-lhe a porta.

 

Este só pode ser do lado dela, disse a Phyllis. O gabinete do nosso Ministério Público não tem pessoas negras a trabalhar para eles.

 

Reparei que isto aqui era muito descolorido, disse Owen, mas o seu sarcasmo discreto foi direitinho a ela. Era penoso para ele acreditar que tivesse viajado de tão longe e que estivesse tão perto de Manhattan, para afinal vir a parar a uma cidade pequena e triste, cheia de atitudes tão mesquinhas como aquelas em que tinha crescido.

 

Passaram vários minutos. A tensão foi aumentando ao longo da fila. Depois, ao virar da esquina surgiu um indivíduo de ombros caídos e um pouco desgrenhado, com o cabelo bastante raro e uma expressão calma e bem disposta. Aquele é Rossner! murmurou alguém, e Owen fez uma dupla tentativa. Este era Charles Rossner? O advogado barracuda de defesa?

 

A chegada de Rossner deu origem a uma agitação de sussurros seguidos de silêncio. Lenore Serian tinha de vir a seguir. As caras dos espectadores brilharam de excitação predadora.

 

Foi rápido quando aconteceu. Ela surgiu ao virar da esquina, ladeada por dois homens de aspecto robusto que a conduziram pelo meio da multidão. O seu cabelo escuro estava firmemente enrolado atrás da cabeça e trazia um simples vestido castanho. Na fotografia do jornal ela tinha aparecido como uma ameaça glacial, com a aura de uma mulher insensível, com experiência do mundo e da sociedade, mas agora não parecia nada disso. O seu rosto era mais afável e com um aspecto muito mais jovem do que tinha aparecido na fotografia dos jornais. Não se notava qualquer maquilhagem. Não trazia jóias. Não usava vestuário sensual. Não se notava nenhum brilho feroz ou malicioso. Lenore Serian não era de modo algum a mulher perversa e ameaçadora por que a multidão esperava tão avidamente.

 

Ela passou por Owen, tão próxima por instantes que ele podia ter estendido o braço e tocar-lhe, e a realidade da sua presença atingiu-o com a força de um soco. Lenore Serian não era apenas uma personalidade forjada para divertir o público ou uma personagem inventada para o seu livro. Era um ser humano real. Tão real como ele. Uma pessoa em carne e osso, que podia ser um monstro impiedoso, ou uma mulher inocente, a passar por uma terrível provação. Em ambos os casos a realidade era deprimente.

 

Depois ela desapareceu, engolida pelas pesadas portas que davam acesso à sala de audiências número 6. Houve um alívio colectivo da respiração e uma troca de olhares de conivência de um e de outro lado da fila. A culpa de Lenore Serian estava ali a pairar, implicitamente combinada por tácitos desconhecidos.

 

Ela vai ter aqui o que merece, proclamou Phyllis com ar de satisfação. Não vai haver corações a sangrar entre os nossos jurados.

 

Queria escapar-se de Phyllis, mas não podia sair dali, a não ser que desistisse do seu lugar na fila.

 

As portas abriram-se de repente e um oficial de diligências gritou, Por favor, entrem ordeiramente! A precipitação que se seguiu levou-o para a frente e empurrou-o para dentro de um dos bancos fixos de madeira, semelhantes aos de uma igreja, acabando por ficar ao lado de Phyllis. Um oficial ordenou à sua fila para se juntarem mais, e ele obedeceu com alguma relutância, enquanto Phyllis resmungava por não lhe ser possível guardar um lugar para a irmã.

 

Felizmente a excitação da sua primeira vez numa sala de audiências deulhe a possibilidade de rapidamente ignorar Phyllis. Era isso. Um templo do sistema de justiça. De alguma maneira conseguia ser ao mesmo tempo mais e menos do que tinha imaginado.

 

Havia lustres impressionantes de latão, mas faltavam metade dos globos de vidro. Os candeeiros de parede a condizer estavam decorados com fios eléctricos dos microfones colocados ao acaso e aquecedores portáteis. E as graciosas janelas em arco que flanqueavam um lado da sala tinham sido grampeadas com plástico isolador. Era o tipo de trabalho que o seu pai teria engendrado, dizendo com ar de desafio, Resolve o problema, não resolve?

 

No entanto, apesar das recentes profanações, a dignidade da sala sobrevivia. Tinha sido construída para durar séculos uma combinação majestosa de pau-rosa, nogueira e mármore com os pormenores trabalhados à mão que já não se viam em edifícios públicos. Os suportes para a bandeira tinham sido feitos em latão cheio de decorações, com águias pousadas no topo, e os caracteres de EM DEUS CONFIAMOS tinham sido esculpidos em bronze. Havia três enormes retratos magistrais nas paredes, com os óleos escurecidos pelo passar do tempo.

 

A sala estava cheia de passado. Pairava no ar com o pó e o leve cheiro da madeira envelhecida. Imaginou os construtores. Mesmo nos seus momentos mais brilhantes este tribunal singular nunca tinha sido tão grandioso como a Catedral de S. Patrício nem tão imponente como a Grand Central Station, mas ele pôs-se a imaginar que os homens que tinham projectado e suado com o seu trabalho, que tinham esculpido com dedicação a madeira e o mármore, tinham trabalhado por algo mais importante do que a simples remuneração semanal. Mesmo num ambiente tradicional como o de Cyril, isso não aconteceria hoje em dia. Se era preciso um tribunal, encomendavam um equipamento pré-fabricado e encaixavam-no com parafusos e calafetagem. E no dia da abertura já estaria a cair aos bocados.

 

Não é emocionante? Phyllis agitou-se ao seu lado para ilustrar o seu estado de espírito. Nunca estive num julgamento de um homicídio!

 

Phyllis. Teve pena dela, mas isso não a tornava mais agradável. Com um pequeno encolher de ombros de forma discreta, afastou-se dela e abriu o bloco de apontamentos para fazer um esboço geral da sala.

 

Ignorou as pessoas que enchiam a sala e concentrou-se na disposição da mesma. Os seus olhos foram atraídos em primeiro lugar pelo assento do juiz, o local mais alto na sala de audiências. Elevava-se lá na frente ao centro, alto e sólido e imponente, ao mesmo tempo altar e trono. Vários degraus abaixo, junto à parede do lado direito, estendia-se a bancada dos jurados, duas filas de cadeiras vedadas por um corrimão. Entre a bancada do júri e a cadeira do juiz encontrava-se, isolada, a barra das testemunhas. Era muito fácil imaginar como aquele lugar podia ser intimidativo.

 

Ao nível médio, coladas à base do lugar do juiz, estavam duas pequenas secretárias. Owen imaginou que deviam ser para o oficial de justiça e para o secretário do juiz. Depois havia o lugar do escrivão em frente, mas vários degraus abaixo da barra das testemunhas. E, finalmente, ao nível do chão, estavam de um e outro lado as mesas destinadas à defesa e à acusação. A mesa da defesa do lado esquerdo. A mesa da acusação do lado direito, mais próxima do júri.

 

A barreira que separava tudo isto da secção da assistência era uma balaustrada de madeira, um número substancial de pesados balaústres, com um torneado clássico, com um corrimão gasto e sem brilho, devido ao contacto das mãos humanas. Para cá desta barreira estavam os bancos fixos, onde ele se encontrava sentado. Estes preenchiam dois terços da sala, fila após fila, com uma passagem central desde a porta da balaustrada até às portas duplas ao fundo da sala.

 

Embora já tivesse visto este tipo de disposição em filmes e em fotografias, nunca tinha presenciado o verdadeiro impacto de uma sala de audiências. Havia ali um poder incrível mesmo quando a sala não se encontrava em funcionamento.

 

Contrariamente ao que tinha imaginado que iria acontecer, o juiz Martin Pulaski já se encontrava sentado. Parecia que estava a ler livros de direito. De tempos a tempos levantava os olhos para olhar com um ar irritado e furibundo para os assistentes especialmente barulhentos. Ao aproximar-se a hora do julgamento, fechou os seus livros e debruçou-se para a frente para falar com o seu secretário de direito.

 

Owen observou Pulaski. Sem o seu formidável assento e o seu manto preto, o juiz devia ser um homem simples, com mais de sessenta anos, com um rosto de feições delicadas, quase efeminadas. Tanto o cabelo, que estava a ficar grisalho, como o bigode estavam aparados com um estilo militar rude e usava óculos com pesados aros negros.

 

Todos os participantes estavam presentes, com excepção do júri. O escrivão estava a pôr papel na sua máquina. O oficial de justiça estava de costas arqueadas a escrever num enorme livro que parecia um livro de registos. E o secretário de direito estava de pé, junto ao lugar do juiz, a prestar atenção ao que o juiz dizia. Todos eles eram homens com mais de trinta anos, de cabelo castanho e com um ar sério.

 

Owen era suficientemente alto para poder ver tudo bastante bem. Até as mesas dos advogados que estavam ao nível do chão. Conseguia ver mesmo à sua frente onde estavam sentados Brown e Dapolito, à mesa da acusação.

 

Estavam voltados para a tribuna do juiz. Um de costas largas e o outro de costas estreitas. Brown parecia estar descontraído, inclinado para trás na sua cadeira, com os cotovelos levantados e os dedos das mãos cruzados atrás do pescoço, mas Dapolito parecia uma pilha de nervos, lançando olhares por toda a sala, enquanto remexia no monte de pastas que se encontravam ao seu lado.

 

À esquerda de Owen conseguia ver o território da defesa. O banco da frente tinha sido vedado por uma corda e estava ocupado pela escolta intimidante de Lenore Serian e o jovem negro com as caixas do processo. Numa mesa estreita encostada à balaustrada em frente deles estavam montes de pastas e caixas com etiquetas onde se lia PROVAS. A própria mesa da defesa estava ocupada por Lenore e o seu advogado. Rossner estava voltado para ela, a conversar, mas ela estava a olhar fixamente para a frente, de ombros direitos e de cabeça erguida. Owen não conseguia ver-lhe o rosto.

 

Que vestido, heim? disse Phyllis em voz alta. A mim parece-me mais um saco de batatas.

 

Owen respirou fundo e continuou a fazer esboços e a tomar notas.

 

Custa muito acreditar que alguém que tem muito dinheiro use aquilo para vir ao tribunal, disse uma mulher sentada do outro lado dele. Ela tinha-se inclinado para o seu lado para concordar com a Phyllis.

 

Owen sugeriu à mulher que talvez quisessem ficar juntas e ficou aliviado ao verificar que ambas gostaram da ideia. Levantou-se e deixou a segunda mulher deslizar para o seu lugar, ao lado de Phyllis. A gratidão efusiva das duas mulheres trouxe-lhe uma pequena pontada de remorso, mas depressa desapareceu.

 

Seis oficiais de diligências tinham tomado posição em volta da sala. Silêncio no tribunal! anunciou um deles com uma voz ribombante.

 

O oficial de justiça levantou-se. O Povo do Estado de Nova Iorque contra Lenore Serian. O Povo está pronto?

 

Sim, o Povo está pronto! responderam Brown e Dapolito de forma enérgica.

 

A defesa está pronta?

 

Sim, estamos. A resposta de Rossner foi fraca mas reverente.

 

Vamos trazer o júri e dar início ao processo, perguntou o juiz de maneira áspera, quase de desafio, ou há algum problema que seja preciso resolver primeiro?

 

Prontos para o júri, senhor Doutor Juiz, responderam os três advogados em uníssono.

 

Bom. Gostava de ouvir as duas declarações de abertura ainda hoje. O juiz fez um gesto para um oficial de diligências que se encontrava junto da bancada do júri. Traga-os para dentro, por favor.

 

Brown e Dapolito levantaram-se. Lenore e Rossner levantaram-se. Ela parecia estar deslocada à frente da sala, rodeada de madeira escurecida devido ao envelhecimento e por advogados vestidos de negro ou azul marinho. Parecia demasiado delicada, demasiado diferente, demasiado frágil ali no meio deles com o seu simples vestido castanho. E Owen ficou chocado com o facto de tudo isto ser um ritual de homens. O juiz com o manto negro, o oficial e o secretário e o escrivão, os advogados de fato preto e os assistentes eram todos homens. E ela parecia estar ali muito sozinha.

 

Que entre o júri, chamou um oficial de diligências, quando abriu uma porta ao fundo, no canto direito da sala.

 

Os doze jurados e quatro representantes entraram com alguma hesitação, tomaram os seus lugares e concentraram-se no juiz, como se tivessem medo de olhar para mais algum sítio. Eram uma mistura de novos e velhos, homens e mulheres, todos com um aspecto marcado de classe média muito trabalhadora. Não havia asiáticos, nem hispânicos, nem negros no grupo, mas se as atitudes de Phyllis fossem representativas da comunidade, então os dois indivíduos mediterrânicos e a mulher de cabelo ruivo também contariam como minorias. Era exactamente como em Cyril, no Kansas. E não havia muito tempo, também ele provavelmente nem sequer teria reparado.

 

Bom dia, senhoras e senhores.

 

O júri murmurou uma resposta, como se fosse uma turma perante o professor.

 

O juiz observou atentamente a sala por alguns momentos em silêncio, pigarreou ruidosamente, depois voltou-se na direcção da bancada do júri. Pousou os antebraços no assento, apertou as mãos uma à outra e assumiu uma atitude de ternura e benevolência paternal, enquanto observava os jurados reunidos.

 

Estamos aqui reunidos hoje nesta sala de audiências, para empreender uma missão muito séria... A justiça. Vós, membros do júri, estais aqui para cumprir uma obrigação legal que é sagrada para a nossa nação. A obrigação do jurista. Este dever está no coração do nosso sistema de justiça e são pessoas como vós que mantêm vivo este sistema.

 

Pulaski aclarou de novo a garganta e impeliu com força o queixo para a frente. O seu olhar nunca se desviou dos dezasseis rostos profundamente atentos que estavam à sua frente.

 

A partir de hoje ser-vos-á pedido que pondereis cuidadosamente a causa contra Lenore Serian. Mas antes de iniciar uma tarefa tão séria, primeiro tendes de partir do princípio de que esta mulher, Lenore Serian, está inocente. Quero que olheis para ela neste momento e digais para vós próprios esta mulher está inocente. Compete à acusação provar o contrário... provar-vos que ela é culpada e apresentar-vos provas para além de toda a dúvida razoável.

 

O juiz transferiu a sua atenção para os promotores de justiça do Ministério Público, Brown e Dapolito, e a sua expressão mudou, ficou de sobrancelhas carregadas enquanto os observava atentamente.

 

Agora ides ouvir a declaração de abertura do Dr. Brown. As declarações de abertura não fazem parte das provas testemunhais e não são aceites como tal. São apenas promessas... antecipações do que cada parte espera mostrar-vos. A vossa reacção a tudo o que o Dr. Brown disser deve ser, Prova-o.”

 

A sala de audiências ficou em silêncio.

 

Brown inclinou-se a sussurrar para Dapolito. Os gestos do seu corpo transmitiam algum aborrecimento para com o discurso do juiz.

 

Dr. Brown, disse o juiz rispidamente, vamos começar?

 

Todos os olhares na sala convergiram para Spencer Brown. Levantou-se. A insolência pretensiosa da sua postura fez lembrar a Owen um capitão da equipa de futebol da escola secundária, e Owen perguntou-se como podia o juiz permanecer imparcial em relação às personalidades no seu tribunal.

 

Houve um breve período de perturbação, enquanto o pódio que estava encostado à parede era arrastado e colocado no lugar adequado e se fazia um teste ao microfone. Finalmente, Spencer Brown, primeiro assistente do procurador distrital, deu uma leve pancada no microfone, colocou as suas notas no lugar e passou rapidamente os olhos pela sala.

 

Dr. Brown, disse o juiz com alguma impaciência, parece-me que estamos todos à sua espera. Owen pensou que talvez o juiz não fosse tão imparcial no fim de contas.

 

Obrigado, Meritíssimo, respondeu Brown. Senhoras e senhores... há seis meses, no dia sete de Agosto... uma vida foi roubada a vida de Bram Serian, marido, vizinho, membro da comunidade e artista bem conhecido. Houve manifestações de pesar em todo o mundo pela sua morte e o choque dessa morte foi tão grande que no princípio ninguém parou para levantar a questão sobre se tinha sido acidental ou não. Toda a gente supôs que esta tragédia horrível tivesse sido acidental.

 

O facto de um velho edifício de madeira ser de repente devorado pelas chamas é uma ocorrência lamentavelmente frequente nas nossas zonas rurais. Só mais tarde é que uma autópsia nos forneceu a terrível revelação de que o crânio de Bram Serian estava profundamente fracturado e que Bram Serian já estava morto quando aquela mecha fatal foi arremessada. Só então, senhoras e senhores, é que a terrível verdade veio à superfície. Bram Serian foi assassinado. E a pessoa que tinha o motivo, os meios, e a oportunidade para cometer esse crime está aqui sentada hoje nesta sala... Lenore Serian.

 

Quando Brown pronunciou o nome da arguida, deu uma volta para apontar para ela um dedo acusador, mandando todos os jurados olhar. Owen teve a impressão de ter visto a mulher estremecer, mas depois ela endireitou os ombros e levantou o queixo em ar de desafio.

 

Spencer Brown tornou a voltar-se para o júri, cheio de confiança e de justificada indignação. Lenore Serian planeou o assassínio do seu marido a sangue frio, esperou pela oportunidade perfeita e então pôs o seu plano em prática. Não há nenhuma testemunha que possa vir provar a sua culpa e também não existe nenhuma prova testemunhal, mas nós conseguimos juntar as peças de um quebra-cabeças que vai demonstrar absoluta e conclusivamente que Lenore Serian é a assassina do seu marido.

 

A partir dali Brown partiu para uma visão geral do casamento de Serian. Contou como viviam juntos e como tinham uma vida confortável, possuindo não só a casa grande mas também umas águas-furtadas na zona de Soho da cidade de Nova Iorque. Quando Brown se instalou no pódio, as suas palavras assumiram um tom monótono que quase fazia adormecer.

 

Temos testemunhas que vão demonstrar que Bram Serian era mais velho do que a sua mulher. Ela era uma refugiada da Guerra do Vietname e estava sem vintém quando Bram Serian a introduziu na sua casa e no seu coração. Bram Serian era o género de homem que punha o seu dinheiro onde tinha a boca. Sentia uma profunda obrigação em ajudar as pessoas que tinham sido afectadas pela guerra e foi isso que o conduziu em primeiro lugar a esta mulher. Mas Lenore Serian não estava satisfeita com o amor e a generosidade deste grande homem. Não se sentia satisfeita pela paciência continuada do seu marido, pela sua compreensão e lealdade ao longo dos anos.

 

A actividade artística de Bram Serian tinha-se tornado muito valiosa e granjeara-lhe um lugar na sociedade e os benefícios de um elevado rendimento e tempo de lazer. A maior parte das esposas ter-se-iam sentido felizes com isto, mas teremos depoimentos que vão demonstrar que Lenore Serian não era feliz. Ela queria o marido só para ela. Ela era insensatamente ciumenta. Até ficava melindrada com os encontros do marido com o seu agente artístico de longos anos. Recusava-se a aparecer em público com ele e a assistir às suas exposições de arte ou quaisquer outras solenidades onde a sua presença fosse muito exigida, e tentava manipulá-lo e impedi-lo de participar nessas importantes cerimónias. Ela queria mantê-lo isolado apenas com ela na sua propriedade, e embora lhe permitisse ter convidados com frequência, ela nunca participava na recepção desses convidados. Nunca se descontraía nem se divertia. Ela fazia a sua ronda, vigiando o marido como um falcão, e fazia com que toda a gente à sua volta se sentisse desconfortável e importuna.

 

Brown respirou fundo e fez uma pausa para olhar para a arguida. Owen imaginou o que ela estaria a pensar naquele momento.

 

A verdade, senhoras e senhores, é que Bram Serian era obrigado a enfrentar as tentações que muitos homens famosos enfrentam. Estava rodeado de mulheres bonitas para onde quer que fosse e talvez algum do ressentimento bizarro da sua mulher fosse provocado por isso. Mas isso não desculpa as atitudes de Lenore Serian.

 

Também é verdade que Lenore Serian não tinha tido uma vida fácil e tudo indica que era incapaz de ter o tipo de relação que um bom casamento exige. As testemunhas dir-nos-ão que ela era incapaz para o amor. Incapaz até para a amizade! Mas isso não desculpa as suas atitudes. Ela era e é uma pessoa adulta e equilibrada que compreende perfeitamente a diferença entre o que está certo e o que está errado.

 

Owen fez uma pausa nos seus apontamentos para observar novamente Brown. Estava a repetir os seus pensamentos. Cobrindo e recobrindo o mesmo chão. A falar da relação de Serian com a sua mulher e depois a martelar na questão de um divórcio iminente. Ao desviar-se do sentido exacto do seu texto preparado, enredou-se nas suas frases e distorceu-as de várias maneiras em confusas convoluções.

 

De repente Brown mudou de posição, olhou para baixo, para os seus apontamentos e levantou a voz, - o que significava isto para Lenore Serian?


Significava que ela estava a perder o domínio sobre o seu marido. E que corria o risco de perder tudo! Tudo!

 

Havia brigas sem fundamento que chegavam aos ouvidos de Natalie Raven, a governanta. Ouvia-se Lenore Serian a gritar, “Não te admito que faças isso!”

 

Foi com esta ideia na cabeça que a arguida se deslocou à cidade com Natalie Raven e foi sozinha ao armazém de ferragens, como o dono da loja vai testemunhar, comprou um candeeiro de vidro a petróleo e duas garrafas de petróleo para candeeiros, para o estúdio do seu marido.

 

Bram Serian tinha transformado um velho celeiro que estava na sua propriedade, no seu estúdio de arte. Este estúdio era o seu lugar particular e ninguém podia entrar lá.

 

A governanta dos Serians de há quatro anos testemunhará que Bram Serian fazia ele próprio a limpeza e o aprovisionamento daquele estúdio e nunca teria pedido que quer ela quer Lenore comprassem qualquer coisa para ele. Para além disso ele estava sempre preocupado com possíveis estragos que pudessem causar aos seus quadros e no passado tinha recusado velas para o estúdio porque, dizia ele, a pequena quantidade de fumo que produziam podia estragar uma pintura.

 

Vamos ouvir testemunhos de que Serian tinha medo do fogo e preocupava-se com a natureza inflamável de alguns dos seus materiais de trabalho. Um ano antes da sua morte tinha deixado de fumar, em parte por motivos de saúde e em parte porque se preocupava até com um cigarro aceso junto das suas obras. Quando andava a construir o estúdio, rejeitou a ideia de um fogão que queimasse lenha e tinha-se dado a grandes trabalhos para instalar um fogão eléctrico com a aparência de lume a arder lá dentro mas sem chamas verdadeiras.

 

Brown abriu os braços. É este o homem que subitamente ia querer um candeeiro a petróleo para o seu estúdio!

 

O promotor de justiça fez uma pausa para permitir que a sua incredulidade desdenhosa penetrasse na mente das pessoas.

 

Mas Lenore Serian gostava do fogo. Ouviremos pessoas que vêm testemunhar que esta mulher era fascinada pelo fogo. Que andava constantemente a queimar coisas e a acender os fogões de sala e tinha velas acesas em casa tanto de dia como de noite.

 

Remexeu nas suas notas.

 

Agora vamos aos acontecimentos que conduziram directamente a este crime hediondo. No dia anterior ao assassínio, Bram Serian convidou vinte e duas pessoas de Manhattan para passarem um fim de semana divertido no campo. Ele era conhecido pela sua hospitalidade e muitas pessoas no mundo da arte tinham sido seus convidados ao longo dos anos. Para além de se divertirem, Serian esperava que os convidados contribuíssem com o seu trabalho para a sua famosa casa.

 

O grupo trabalhou até meio da tarde, depois do que houve um intervalo para nadar num lago e de um modo geral foi um tempo bem passado.

Fizeram um cozinhado para o jantar ao ar livre e acabaram por volta das oito horas. A seguir, alguns saíram numa tentativa de pescar durante a noite e outros ficaram por ali a beber cerveja e a ouvir música. Bram Serian estava bem disposto. Toda a gente falava da sua próxima exposição. Quando começou a anoitecer o pessoal foi-se juntando no exterior em alegre camaradagem.

 

Lenore Serian não se tinha associado às festividades e nem sequer tinha participado nas mais simples conversas de simpatia com qualquer dos convidados. Manteve-se sempre distanciada e a única vez que se ouviu a sua voz em toda a noite foi quando se pôs a gritar com o marido.

 

Serian comunicou aos convidados que se ia deitar e sugeriu que os outros fizessem a mesma coisa, uma vez que já passava das duas horas da manhã. Havia quartos de hóspedes no piso principal e na cave havia ainda uma espécie de dormitório para os convidados. O quarto da governanta era no segundo piso e ela já tinha ido para a cama.

 

Às duas horas e quarenta e cinco minutos da manhã ouviu-se uma discussão acalorada entre Lenore e Bram Serian no pátio, junto da porta do seu estúdio e esta discussão acordou a governanta. Esta olhou para fora da janela e ficou a observar até ao fim da discussão, depois viu Bram Serian abrir a porta do estúdio, entrar e voltar a fechar a porta. Supôs que ele ia passar ali a noite, uma vez que isso já vinha sendo habitual da parte dele.

 

Durante a hora seguinte o crânio de Bram Serian foi amachucado com uma pancada. Ele tinha estado a beber e estava muito cansado... muito provavelmente a dormir profundamente, quando foi dado o golpe fatal. Não é preciso muita força para desferir um golpe fatal num crânio humano que se encontra no chão. A gravidade está do lado do atacante e até uma pessoa pequena é capaz de baloiçar um objecto pesado para baixo, para o chão. Junto ao corpo foi encontrado um machado e um machado teria constituído a arma perfeita. Um movimento para baixo teria posto fora de combate ou até matado a vítima.

 

A seguir, num plano diabólico para fazer o assassínio parecer um acidente, Bram Serian foi molhado com petróleo de candeeiro. O candeeiro de vidro que Lenore Serian tinha comprado apenas umas semanas antes estava desfeito ao lado dele. E o fogo foi ateado. O assassino acendeu um fósforo e Bram foi engolido pelo fogo. A beleza deste plano, do ponto de vista do assassino, era que não importava se Bram estava morto ou vivo quando o incêndio começou, porque em qualquer dos casos o assassino estava convencido de que seria aceite como acidente.

 

A rapidez e intensidade do incêndio devem ter surpreendido o homicida, tendo-o levado a cometer alguns erros. A chave foi deixada na porta. Vários quadros foram levados para fora do edifício, mas depois foram abandonados no meio das árvores.

 

Às quatro horas e quinze minutos a governanta voltou a acordar. Olhou para fora da janela e viu labaredas a saírem do estúdio. Lenore Serian estava no pátio a ver o fogo a alastrar. A governanta debruçou-se para fora da janela e gritou para Lenore, e só então é que Lenore Serian gritou “fogo” e pediu ajuda.

 

Foi a governanta, Natalie Raven, quem telefonou para o serviço de incêndios e foi a governanta quem acordou os convidados e os organizou numa brigada de baldes. Foi a governanta quem procurou por toda a casa e pelos jardins, na esperança de que Bram Serian não estivesse dentro do edifício a arder. O que fez Lenore Serian? Ficou-se por ali nas proximidades a observar.

 

Uma testemunha virá testemunhar que a porta do estúdio estava aberta, quando Bram Serian nunca deixava a porta aberta nem destrancada. Vamos ouvir o testemunho de que na fechadura da porta só se encontrava uma chave, quando Bram guardava as suas chaves numa argola grande.

 

O homicida deixou a porta aberta. O homicida utilizou uma cópia da chave e depois esqueceu-se de a tirar da porta. O homicida retirou aqueles quadros para fora, para os salvar do fogo. A prova demonstrará que essa é a única explicação aceitável. E a evidência também demonstrará que a única pessoa com os meios, o motivo, e a oportunidade para entrar naquele estúdio e agredir mortalmente Bram Serian, derramar petróleo por cima dele e acender um fósforo era Lenore Serian, uma mulher que queria controlar o seu marido e manter a todo o custo a sua casa.

 

Obrigado.

 

Spencer Brown voltou-se e dirigiu-se para o seu lugar com o ar justificado de um cruzado.

 

Logo que se sentou, a sala irrompeu numa agitação de barulho e movimento. Os repórteres da rádio apressaram-se a sair da sala para ir comunicar com as suas estações.

 

Silêncio! gritou um oficial de diligências.

 

O juiz voltou-se para o júri. Obrigado pela vossa atenção durante esta longa sessão, senhoras e senhores. Depois das audiências preliminares, não tereis de ficar aí sentados durante tanto tempo sem fazermos um intervalo. Aclarou a garganta e a sua boca moveu-se num leve sorriso controlado. Interrompemos a audiência para o almoço. Se tiverem alguma pergunta a fazer sobre os vossos planos para o almoço, podem perguntar ao oficial de diligências que vos acompanhará até à sala dos jurados.

 

Voltou a aclarar a garganta e assumiu um ar de seriedade Lincolnesa. Não devem discutir este caso, advertiu-os, especificando os regulamentos e terminando com uma advertência de que não deviam ler sobre este caso nem ouvir reportagens noticiosas na televisão. Owen pensou como devia ser difícil estar sentado naquela bancada do júri e evitar discutir o caso com a família e com os amigos todas as noites.

 

Foi ordenado à assistência que permanecesse sentada, enquanto os jurados saíam da sala. Logo que as duas filas de pessoas saíram em silêncio, toda a gente se levantou.

 

Saiam da sala, por favor. Saiam da sala!

 

Owen encostou-se para trás para deixar passar a Phyllis e a sua amiga em primeiro lugar. A sala esvaziou-se rapidamente. Quando ele finalmente se levantou, era dos últimos a sair. Abriu completamente a porta e deu um passo atrás para que a pessoa que vinha logo atrás dele pudesse sair primeiro. Obrigado, disse ela, caminhando devagar, acabando os dois por sair um ao lado do outro.

 

Em trabalho? perguntou ela.

 


Ele olhou à volta. Está a falar comigo?

 

Sim. Perguntei se está aqui a cumprir uma tarefa.

 

Ela tinha um rosto brilhante e fresco, cabelo macio, louro escuro e seios bem definidos sob um casaco justo. Nova Iorque parecia estar cheia de mulheres atraentes.

 

Não sei se compreendi a sua pergunta.

 

Desculpe. Ela sorriu. Estou a ser muito indiscreta. Eu estava atrás de si ao passarmos na segurança e ouvi-o dizer que estava a fazer investigação para um livro.

 

O sorriso dela tinha um brilho equivalente a cem watts, com todos os dentes branquíssimos, e embora não fosse provável que a conhecesse, parecia-lhe vagamente familiar.

 

Daqui é a Holly Danielson, no julgamento da Viúva Negra.

 

Aquela frase não lhe dizia nada e a sua expressão deve ter demonstrado isso, porque a pose profissional desintegrou-se. Sabe... ela fez um breve encolher de ombros Metro Eye at Five. Ou como dizemos às vezes, Jive at Five.

 

É repórter de televisão?

 

É possível que eu tenha uma aparência diferente fora das câmaras, heim?

 

Para lhe dizer a verdade, eu não sou de Nova Iorque... e mesmo que fosse... não costumo ver o noticiário na televisão. Mas... apressou-se a acrescentar, ontem à noite dei uma volta pelos canais e provavelmente tive um momentâneo vislumbre da menina.

 

Oh... Ela recuperou o seu sorriso. Estou aqui a fazer a cobertura do julgamento. E você? Está a trabalhar por contrato, como independente ou o quê?

 

Um pouco de cada, confessou ele, começando a descer a extensa escadaria para a calma do átrio do tribunal durante o intervalo do almoço.

 

Isso parece muito misterioso, disse ela, começando a andar de novo ao lado dele.

 

A curiosidade dela fê-lo sorrir. Não há nenhum mistério, apenas incerteza.

 

Mas você é escritor?

 

Acessoriamente.

 

Está a especializar-se em julgamentos?

 

Mal. Este é o primeiro.

 

Não se preocupe. Vai adaptar-se num instante. Depois de ter feito o segundo, sentia-me como se fosse capaz de exercer a profissão de advogada.

 

Faz mais algum tipo de reportagens para além de julgamentos?

 

Com certeza. Tudo o que conseguir. Mas este caso do Serian é um grande furo para mim. Proporciona-me muita exposição.

 

Ao passarem pela segurança, ele imaginou o que faria uma pessoa querer estar em frente de uma câmara de televisão a falar para uma audiência invisível. Não conseguia imaginar-se a fazer uma coisa daquelas.

 

Portanto... você vai provavelmente escrever um livro, certo? Senhor...?

 

Byrne. Owen Byrne.

 

Os olhos dela dilataram-se. É um nome irlandês! Bem me parecia que você tinha o aspecto de irlandês.

 

Tenho?

 

Com certeza. O cabelo e os olhos. Nunca vi tantos olhos azuis maravilhosos como quando estive na Irlanda. Exactamente como os seus.

 

Ele parou e olhou à sua volta com algum embaraço. Desculpe... mas tenho mesmo de ir embora.

 

Ahhhh... embaracei-o, não foi? Parece-me que estou demasiado habituada a conviver com os outros repórteres. Estamos sempre a meter-nos uns com os outros.

 

Owen sentiu-se lisonjeado pela sua atenção mas extremamente desconfortável. Mudou o saco para a outra mão. Vou tentar vê-la na televisão logo à noite, disse ele enquanto se voltava e se dirigia para a porta.

 

Espere, onde vai?

 

Procurar um sítio para almoçar.

 

Venha comigo, então. Vou apresentá-lo a alguns tipos novos.

 

Obrigado na mesma, mas acho que vou apenas...

 

Estou a fazer-lhe um favor, insistiu ela. Se quer actualizar-se em relação ao tipo de conversa sobre os julgamentos e fazer alguns bons contactos, esta é a melhor maneira. Acredite.

 

Enquanto caminhavam para a Rua Principal, Owen ouviu toda a história da vida de Holly Danielson. Que era do sul da Califórnia. E de como tinha tirado um curso de comunicação na universidade e tinha trabalhado numa pequena estação em Los Angeles, antes de finalmente aterrar em Nova Iorque. E de como tinha mandado arranjar os dentes ao mesmo dentista que tratava as estrelas de cinema. E de como ela nunca tinha sido eleita chefe da claque na escola secundária, mas isso também já não interessava.

 

Ela fez-lhe perguntas sobre o seu passado e ele confessou que tinha sido criado no Midwest, antes de desviar a atenção dela novamente para a sua própria história. Felizmente ela era fácil de distrair. No entanto ele não se sentiu à vontade até chegarem ao café e ficar livre de mais perguntas que ela pudesse fazer-lhe.

 

O restaurante tinha compartimentos com bancos vermelhos revestidos com uma imitação de couro e uma mesa de almoço arredondada, com as bordas cromadas, que podia ter sido transposta directamente de uma pequena cidade do estado donde ele vinha. A afluência de pessoas para o almoço estava em plena actividade e a sala estava cheia de gente, a maior parte da qual parecia ser conhecida da Holly. Ela acompanhou-o através do barulho e das nuvens de fumo dos cigarros a pairar no ar, até à mesa perto do fundo e apresentou-o ao Ray, do jornal News e a Sharon, de uma estação de rádio-notícias e a Marilyn que escrevia uma coluna para um jornal cujo nome Owen não percebeu. Holly deslizou para o banco do compartimento e trouxeram uma cadeira extra para Owen. O centro da mesa estava ocupado por três cinzeiros a transbordar.

 

Você é escritor, heim? perguntou Ray. Era um homem corpulento e gordo, com uma barbela por baixo do queixo, que se mexia quando falava.

 

Estou a tentar ser, confessou Owen.

 

Vocês os jóqueis dos livros são todos uns sortudos. Conseguem ter fama e muitos dólares. Um dia destes vou escrever um livro. Logo que consiga ter algum tempo livre.

 

Owen fez um aceno com a cabeça.

 

O Ray acendeu um cigarro com o isqueiro de Marilyn e esboçou um sorriso pretensioso. Você acha que eu sou um palerma, não é verdade?

 

Owen sentou-se na cadeira sem saber como havia de responder, mas então Ray soltou uma risada e acrescentou, Porque você sabe que eu nunca conseguiria vender um único livro se não tivesse um bom agente, não é verdade?

 

Owen hesitou, mas antes que pudesse responder, o grupo entrou numa discussão sobre o julgamento, como se o seu único interesse fosse o homicídio. Para Owen foi óptimo. Pôde ficar sossegado e gostou daquela mudança repentina.

 

Descobrimos que Rossner não só contratou um psicólogo de júris, como mandou fazer uma sondagem qualquer.

 

Estás a brincar!

 

O Rossner é um tipo cheio de truques.

 

Foi por isso mesmo que ela o contratou, meu caro.

 

E achas que tudo isso teve alguma influência na selecção do júri?

 

Não. Pelo menos a longo prazo.

 

O que queres dizer com isso? Claro que fez diferença. O psicólogo esteve a dizer-lhe quais os jurados com que devia contar. Isso tinha de alterar a configuração da selecção.

 

Com certeza. Mas não me parece que alguém possa prever quem vai ser um jurado favorável e quem não vai. Mesmo as antigas normas segundo as quais os liberais eram melhores para a defesa já não se aplicam. Raios, actualmente não há regras nenhumas.

 

Por falar em negros, achas que Rossner está a prejudicar-se por trazer um assistente negro para esta sala de audiências?

 

Boa pergunta.

 

Nem podia ser pior, disse a Marilyn. Podia ao menos ter trazido uma mulher negra.

 

Todos riram com o comentário da Marilyn, cuja própria compleição era cor de café com leite. Owen perguntou-se se ela seria considerada negra. Tinha visto tantos tons de pele nos últimos dias que estava a ficar confuso quanto à divisão entre categorias.

 

A comida chegou mas não os acalmou.

 

Ele é muito bom, digo-vos aqui. Provavelmente arranjou um gajo negro só para chamar a atenção. Provavelmente espera que isso provoque alguma perplexidade.

 

Não me parece. Acho que Jacowitz já está com ele há algum tempo.

 

Esquece isso. O que acharam da introdução de Brown?

 

Tecnicamente foi boa. Mas o gajo é um bocado monótono, não é?

 

É uma pena. Esperava-se que um homem como aquele fosse capaz de pôr algum entusiasmo na sua maneira de apresentar um discurso.

 

Ray revirou os olhos e as mulheres riram-se.

 

A grande questão é saber se Brown pôs todas as suas cartas na mesa ou se está a guardar algumas surpresas para mais tarde.

 

Eu aposto que o Rossner vai fazer mesmo isso. Vai dizer apenas o suficiente para expor os seus argumentos nas alegações preliminares, mas sendo ele tão dissimulado... podem ter a certeza de que vai ficar com alguma na manga.

 

Está bem...Está bem... Vamos agora falar do motivo. Estou convencido que ela assassinou o marido. Ela fez mesmo isso. Não tenho dúvidas. E planeou tudo com antecedência, pensando que podia usar o candeeiro para fazer com que parecesse acidental e servindo-se de uma festa como uma espécie de camuflagem. Ela foi astuciosa e agiu com sangue frio e perfeitamente controlada. Concordo plenamente com a acusação em tudo isso. Mas não alcanço o motivo da possessividade. Acho que foi exclusivamente por dinheiro.

 

Não! Não pode ser só por dinheiro.

 

Porquê? O dinheiro é um dos três motivos principais para cometer qualquer crime, não é?

 

Com certeza. E ela casou com ele por causa do dinheiro que ele tinha... e do seu nome e posição social e tudo o mais. Quero dizer, tinha de ter, não tinha? Era uma refugiada sem nada, por isso naturalmente agarrou-se a ele como se fosse um ganso de ouro.

 

Muito bem, mas o que ia ela ganhar em matá-lo? O ganso já não está vivo para produzir os ovos de ouro. Exceptuando alguns dos seus novos quadros, arderam todos no incêndio. Não há seguro de vida e não há dinheiro, nem títulos de obrigações, nem acções, nem nada. E a famosa casa não está acabada, provavelmente não é vendável e, segundo parece, está com dívidas. Portanto como é que o motivo podia ser o dinheiro? A possessividade é que faz todo o sentido.

 

Não havia seguro contra incêndio?

 

Se ela conseguir recebê-lo o que não acontecerá se se provar que foi ela quem pegou o fogo.

 

Então talvez haja dinheiro escondido algures, sem ninguém saber.

 

Sim. Lá naquelas ilhas onde os traficantes da droga escondem o seu dinheiro.

 

Ou talvez as coisas tenham simplesmente corrido mal? Talvez ela pensasse que podia tirar para fora todos os quadros antes de o celeiro ser envolvido pelas chamas. Talvez pensasse que não haveria qualquer problema por parte da companhia de seguros quanto ao incêndio. Quem sabe... talvez pensasse que o seu maridinho tivesse um seguro de vida.

 

Mas ainda agora estavas a dizer que ela era muito astuta. Se fosse assim tão astuta, não teria cometido todos esses erros.

 

Oh diabo, não sei. Mas ela podia tê-lo deixado em qualquer altura, podia ter-se divorciado dele com uma generosa pensão, depois de todos aqueles anos de casamento. Para quê correr o risco de cometer um homicídio? Eu gosto mais do ponto de vista da possessividade.

 

O que transforma isto num crime de paixão, não é verdade?

 

Paixão? Duvido. Aquela mulher tem os olhos mais frios que jamais vi. Acho que ela não tem quaisquer sentimentos. Não tem paixão. Não tem amor. Nem mesmo capacidade para gostar. Olhem só para a audiência de hoje. Não havia ali um único amigo ou membro da família a apoiá-la.

 

É verdade?

 

Foi o que disseram os oficiais de diligências.

 

Owen estava completamente absorvido pelo diálogo quando, sem nenhum sinal que ele pudesse notar, todos se levantaram. De acordo com o relógio de parede, tinham estado sentados à mesa exactamente trinta e sete minutos. Seguiu atrás deles para a caixa registadora, onde metodicamente dividiram a conta. Depois a Sharon e a Marilyn apressaram-se a sair à procura de telefones, deixando o Ray, a Holly e Owen a caminhar juntos para o tribunal.

 

O nevoeiro tinha-se dissipado e no céu da tarde começava a aparecer o sol. Ele seguiu atrás da Holly para fora do restaurante com restos da conversa a repercutir no pensamento. A parte sobre os olhos de Lenore Serian preocupava-o. Não havia olhos frios. Se alguma característica eles tinham, era o facto de serem demasiado intensos. Demasiado ardentes.

 

Já consegue decifrar todo este palavreado legal, Byrne? perguntou o Ray. O Ray caminhava a um lado de Owen e a Holly ia do outro lado.

 

Ainda não, confessou Owen.

 

Ora vamos lá, disse o Ray expressivamente. Não há nenhum contador a funcionar. Ponha-me uma questão. Pergunte qualquer coisa.

 

Owen fez perguntas sobre as audiências que tinham tido lugar antes do julgamento e obteve uma lição interminável sobre como as audiências antes dos julgamentos eram usadas para estabelecer as regras fundamentais para o julgamento do júri e como essas audiências tratavam de coisas como a ocultação de provas e declarações obtidas ilegalmente e como todas as audições eram nomeadas de acordo com os casos originais que tinham estabelecido os precedentes e como raio podiam ser prolongadas e aborrecidas. O Ray não parou de falar até estarem à vista do tribunal. Acendeu um cigarro. Se quiser saber mais, pode ouvir a opinião do empregado do juiz e procurar obter uma lista das audições extraordinárias que realizaram para este julgamento.

 

Já tenho todas as notas sobre o pré-julgamento, disse Holly a Owen baixinho. Eu faço-lhe cópias.

 

O Ray lançou um olhar para ela com as sobrancelhas levantadas. A fase do pré-julgamento é como observar um treino de críquete. Não há júri, nem assistência, nem drama... É só o juiz e os advogados todos a tentar confundir-se uns aos outros com a mais incrível verborreia legal. Só vão assistir aqueles que são mesmo dedicados. Como aqui a nossa Holly. E ela não costuma partilhar os seus apontamentos.

 

Ele não é repórter, protestou a Holly.

 

Está certo. O Ray voltou-se para Owen como se estivesse a confidenciar-lhe um segredo. Há repórteres que partilham informações. Mas a Holly não. Você tem sorte porque não é repórter.

 

Ray!

 

O que é? Estou apenas a dizer ao tipo que ele tem muita sorte. O Ray aspirou uma lufada de fumo e depois, com um piparote, atirou com o cigarro para a valeta. Por que está a franzir as sobrancelhas? perguntou a Owen. Não gosta que lhe digam que é um indivíduo com sorte?

 

Não... Não. Não gosto de ver pessoas a atirar lixo para o chão.

 

O quê? O Ray olhou para o chão com uma expressão de quem ficou magoado. Meu Deus! Por que acha que inventaram as máquinas de varrer.

 

Em sua casa não deita lixo para o chão, ou deita? perguntou Owen.

 

Sim, raios! Para que acha que inventaram as mulheres e as mães? O Ray bateu na coxa com a palma da mão e desatou às gargalhadas.

 

A Holly aproximou-se e tocou na manga do casaco de Owen, num pedido para que desistisse.

 

Está bem, está bem, disse o Ray. Vejamos... onde é que eu ia? Oh, sim... Estava a chegar à selecção do júri. Tirou um cigarro e segurou-o entre os dedos. A selecção do júri é um pouco mais divertida. Começam com uma reunião de jurados possíveis.

 

Um grupo enorme para o julgamento de Serian, acrescentou Holly. Eles estavam a ter muito cuidado por causa de toda a publicidade. Tinham medo que tivessem de dispensar um grande número de pessoas por serem preconceituosas, devido ao que já tinham ouvido.

 

O Ray acendeu o cigarro antes de continuar. Primeiro, reduzem o grupo com base em generalidades. Problemas ou obrigações que tornariam muito difícil servir num júri. Ligações pessoais a princípios no caso. E por aí adiante. Depois constituem ao acaso um painel de doze pessoas, colocam-nas na bancada dos jurados e deixam os advogados concentrar-se nos indivíduos. Chama-se Voir Dire, o que significa “contar a verdade” em francês. E ouvi dizer que o Rossner e o Brown transformaram-no num espectáculo muito bom.

 

Eu tenho tudo isso, Owen. A Holly contornou uma poça de lama e água para proteger os seus sapatos de camurça. Folhas biográficas sobre os jurados também. Também pode copiar isso.

 

Meu Deus, Holly... estamos muito generosos.

 

Ele não representa nenhum tipo de competição.

 

Como é que sabes? Ele pode ser um espião de um jornal sensacionalista ou um correspondente infiltrado para os Britânicos ou...

 

Oh, cala-te, Ray. O Ray calou-se.

 

Eu não quero aproveitar-me de ninguém, disse Owen com indiferença. A verdade era que ele gostava muito de ver as notas da Holly.

 

Você não está a aproveitar-se, insistiu a Holly. O Ray está apenas a falar demais. Se quiser usar o material, será para um livro, daqui a vários meses, portanto não existe qualquer conflito. Lançou ao Ray um olhar irritado e ele escondeu o queixo no casaco como uma tartaruga a tentar escapar.

 

O cabelo da Holly brilhava com reflexos dourados à luz do sol, e as suas bochechas estavam coradas com o frio. Ela tinha uma beleza genérica, tipo torta de maçã, que fazia lembrar a Owen os filmes antigos e os concursos de beleza dos anos cinquenta.

 

Então por que estava sentado na galeria geral? perguntou-lhe a Holly. Por que não está na secção da imprensa?

 

Eu não sou membro da imprensa, disse Owen.

 

O que quer dizer com isso? Você é escritor. Está habilitado. Vou dar-lhe um número para onde deve telefonar para obter um passe de imprensa. Entretanto pode sentar-se ao meu lado. Vou fazer com que o deixem passar com o meu passe de técnico.

 

Você pode, disse o Ray. Há lugares livres e você tem todo o direito de fazer isso? Pareceu a Owen que a súbita solicitude do Ray tinha como objectivo agradar à Holly

 

Óptimo. Obrigado. A assistência vai ser tão grande depois do almoço como foi esta manhã?

 

Com certeza. A Holly riu-se. E foi bom eu tê-lo convidado a sentar-se ao pé de mim, porque está demasiado atrasado para conseguir um lugar nos bancos da assistência.

 

Quer dizer que eu não tinha direito ao mesmo lugar desta manhã?

 

Não. As pessoas têm de esperar em fila e arranjar de novo um lugar. Só os meios de comunicação social é que têm lugares reservados.

 

Então, obrigado mais uma vez.

 

Não tem de quê. A Holly sorriu e o Ray fez também um riso forçado. Enquanto subiam as escadas do tribunal, Holly passou por detrás de Owen para ir acotovelar o Ray. Estou ansiosa por ouvir o discurso do Rossner, e tu? Mister Slick em pessoa. Sinto-me como se estivesse a ir para um espectáculo de Gunther Gabel-Williams a domar leões.

 

Ou Michael Milken a vender velharias, resfolegou o Ray Meteu a mão no bolso para tirar um cigarro. Vemo-nos lá dentro, miúdos. Preciso de um pouco mais de veneno antes de entrar.

 

Owen segurou uma das enormes portas para a Holly entrar. O Rossner não pode ter nada de muito surpreendente para dizer, pois não? Nesta altura não são já todos os factos do conhecimento geral?

 

Espere só para ver, assegurou-lhe ela. Ele vai torcer tanto as coisas, que quando terminar você não vai distinguir o negro do branco ou o que está em cima do que está em baixo.

 

Duvido que consiga influenciar-me assim tanto. As acusações de Brown eram todas muito lógicas e credíveis.

 

Veremos, disse ela, veremos.

 

Senhoras e senhores do júri, o meu nome é Charlie Rossner, advogado de defesa de Lenore Serian. Rossner estava de pé, ao lado do pódio, com o cotovelo apoiado nele. Brown tinha sido formal, hipócrita, autoritário. Rossner era informal o vizinho elegante, pronto para uma conversa.

 

Eu vim para o magnífico e histórico tribunal do vosso condado para lutar pela justiça, tal como todos vós, bons cidadãos do júri, estais a lutar pela justiça. Mas tenho de dizer-vos agora mesmo Rossner coçou o lobo da orelha e olhou para o júri com uma expressão enigmática Pergunto-me por que estamos todos aqui. Voltou-se para Lenore e a perplexidade confundiu-se com a comiseração e alguma incredulidade. Esta mulher não devia estar num tribunal a defender-se de uma acusação de homicídio. Qual homicídio? As provas vão pôr em evidência que ninguém tem a certeza de ter havido um homicídio.

 

Bram Serian morreu e houve um incêndio horrível. Sim. Mas os testemunhos demonstrarão que Bram Serian estava bêbado quando entrou para o seu estúdio naquela noite, aos tropeções, a cair de bêbado. E embora ele estivesse a tentar deixar de fumar, não conseguia cortar com o hábito.

 

Rossner fez uma pausa, para permitir que esta ideia fosse mentalizada.

 

A tropeçar de bêbado e a fumar às três horas da manhã, num velho edifício de madeira, cheio de materiais inflamáveis e de um candeeiro de petróleo quebrável! Aqui está a receita para um trágico acidente.

 

O advogado acomodou-se novamente junto ao pódio, calmo e bem disposto. Puxou as calças e olhou de um jurado para o outro com uma expressão de estamos-todos-metidos-nisto.

 

Vejamos a situação... Lenore e Bram Serian não tinham propriamente um casamento de um livro de histórias. Mas quantos casais têm? Se todos nós pudéssemos ver o que se passa do lado de lá das portas dos quartos dos nossos vizinhos, quantos casamentos perfeitos encontraríamos? Não muitos, parece-me. A diferença neste caso, é que os Serians são figuras públicas, por isso as imperfeições do seu casamento são ampliadas e expostas à luz do dia.

 

Rossner realçou isto levantando as duas mãos no ar. Owen estava impressionado. Rossner projectava a imagem do advogado sem fantasias, ético, idealista sobre quem tinha lido e admirado quando era jovem.

 

Lenore pode ter sido uma má dona de casa e pode ter aborrecido o seu marido com algumas questiúnculas e pode até ter ficado cheia de ciúmes de vez em quando. Mas isso não são actos criminosos. Bram Serian também tinha os seus defeitos. Como todas as pessoas com talento, ele era uma pessoa cheia de subtilezas e nem sempre era fácil conviver com ele.

 

Mas a verdade é que os Serians tinham conseguido levar uma vida em comum durante treze anos e as provas demonstrarão que nenhum deles tencionava acabar com esse relacionamento, que com tanto esforço tinham tentado construir. Indiferentes ao que tinha acontecido nas suas vidas caóticas, este casal manteve-se unido. Havia entre eles alguma coisa que os unia e nenhum deles queria levar a vida sem o outro. Eram um casal dedicado. Um casal estável.

 

Quanto a essa questão do candeeiro... vamos ouvir contar como são vulgares esses candeeiros e quantas esposas os compram para os seus maridos e quantas pessoas os usam em oficinas e em alpendres onde guardam as ferramentas. Aquele candeeiro era para ser utilizado exactamente da mesma maneira que a maioria das pessoas o usa, uma luz para uma noite de temPestade, quando deixa de haver luz. E as provas demonstrarão que o estúdio de Bram Serian já estava tão cheio de materiais inflamáveis que um fogo acidental podia acontecer em qualquer altura, sem a ajuda de um candeeiro de petróleo.

 

Se ela estava a planear qualquer coisa diabólica, podia ter usado o que tinha disponível, sem chamar a atenção para si própria. Sendo a esposa de um artista, ela sabia perfeitamente que ele havia de ter lá dissolvente para pintura e todo o género de materiais químicos perigosos.

 

E depois, uma vez que estamos enredados em todo este disparate, vamos ouvir falar da noite do incêndio. Vamos ouvir contar quantas pessoas se encontravam a vaguear junto do estúdio, antes de ter começado o incêndio. Outras pessoas com mais oportunidade para atear um incêndio, se de facto houve um incêndio ateado pela mão de alguém que não a de Bram Serian.

 

Vamos ouvir falar de acidentes que acontecem a pessoas que fumam e bebem para além dos limites do bom senso. E finalmente vamos ouvir um médico que nos vai contar que as mãos e os braços de Lenore Serian ficaram gravemente queimados ao tentar abrir caminho pelo meio do fogo, para salvar o marido... uma tentativa heróica de salvamento, que nenhuma outra pessoa fez. Nem a devotada governanta. Nenhum dos vinte e dois convidados de Bram Serian. Nem os bombeiros treinados que acorreram tão corajosamente a esta emergência.

 

E vamos ficar a saber que o motivo por que não deu sinal de alarme... o motivo por que ela ficou ali naquele pátio, como uma pedra, a ver o fogo destruir a sua vida, enquanto toda a gente gritava e disparatava... o motivo foi que Lenore estava abatida e exausta e em estado de choque.

 

Ele empertigou-se, com os olhos ardentes perante a injustiça da situação.

 

Vamos ouvir, senhoras e senhores, que Lenore está inocente... tão vítima desta tragédia como o seu querido marido, e que não há aqui ninguém a quem se possa imputar qualquer culpa. Digo-vos eu, que as provas não corroboram nenhum crime. Que, de facto, o único crime cometido foi o crime de acusar Lenore Serian e de a trazer perante este tribunal.

 

Rossner sentou-se. A sala de audiências estava em silêncio absoluto. Owen olhou para a Holly ao seu lado e ela sorriu para ele, com o ar de quem já sabia, Eu disse-lhe.

 

Mais tarde, naquela noite, depois de ter apanhado o transporte público para a cidade e passado à máquina os seus apontamentos, Owen desceu do apartamento para ir a uma cabine telefónica na esquina da rua e telefonar para casa. Foi a Ellen quem atendeu o telefone.

 

Não devias telefonar, advertiu ela. Tu não tens dinheiro para andar a fazer chamadas de longa distância.

 

Preciso de saber o que se passa por aí, Ellen.

 

Bem... parece-me que já posso falar. O pai está a dormir na sua cadeira e a Meggie saiu para ir fazer uma visita ao Rusty na antiga casa dos trabalhadores.

 

O Rusty está a sair-se bem? Ele está a fazer um bom trabalho?

 

Está a fazer exactamente o que tu lhe disseste e faz tudo tão bem como

 


  1. Disse ela num tom sarcástico. Mas quase parece que temos uma visita de John Wayne. A Meggie e o pai comportam-se como se o tipo fosse o dono da lua. O pai até o deixa ganhar ao dominó.

 

Ele já encontrou mais vitelos abortados?

 

Não. O veterinário diz que o problema pode ter terminado. Ela hesitou. O Rusty tem andado a falar em fazer reprodução artificial. A falar ao pai das vantagens de não ter as dores de cabeça de manter os touros e de não ser preciso preocupar-se com a propagação das doenças venéreas, quando se introduz o esperma congelado nas vacas.

 

O Clancy não está a dar ouvidos ao Rusty pois não?

 

Está, sim senhor. Esteve sentado com o Rusty depois do jantar a folhear um catálogo AL. Estiveram a tomar nota dos preços do sémen de certos touros e todo esse género de coisas.

 

Isso é uma loucura. A inseminação artificial não é rentável quando se criam vitelos para irem para a engorda.

 

Bem... isso é outra questão. O Rusty tem andado a falar sobre a vantagem de mudar para uma operação registada. Diz que está na altura certa de fazer isso, uma vez que muitas vacas têm de ser substituídas de qualquer modo.

 

Owen ficou tão estupefacto que não conseguiu responder.

 

O pai não concordou propriamente com isso, disse a Ellen para o animar. Mas também não discordou.

 

Nem posso acreditar numa coisa dessas. Alguns anos atrás, quando ele tinha dinheiro para alterar as coisas e eu mencionei a possibilidade de termos uma manada registada, ele até subiu aos arames.

 

Eu sei, concordou a Ellen.

 

Qual é a sugestão de Rusty Campbell para pagarmos vacas de criação de raça pura e um programa LA.?

 

Ainda não se falou nisso.

 

Tu ou a Meggie deviam explicar-lhe que estamos falidos, antes que meta mais dessas ideias na cabeça do Clancy.

 

Então a Ellen lançou-se num monólogo cheio de amargura, dizendo que não conseguia explicar nada ao Rusty porque a Meggie monopolizava-o completamente, dizendo que tudo tinha mudado desde que o Owen tinha ido embora, dizendo que não ia continuar a cozinhar e a fazer limpeza para pessoas que a tratavam como se fosse um cão rafeiro.

 

Owen procurou acalmá-la. Depois de a ter acalmado, perguntou-lhe por Michelle Wheeler.

 

Não a tenho visto nem ouvido nem tenho tido notícias dela, disse Ellen.

 

Eras capaz de lhe telefonar... para saber se está tudo bem... por favor? Vou tentar, disse a Ellen. Agora tenho de desligar. O papá acordou. A linha foi desligada. Pousou o receptor e ficou ali na avenida barulhenta

 

durante alguns minutos, a olhar para o vazio. Quando voltou para o apartamento e começou a subir as escadas, ia a caminhar devagar, levando consigo um fardo de culpa e de preocupação.

 

Na quinta-feira dia do julgamento, Owen entrou no tribunal com um pouco mais de confiança e subiu rapidamente as escadas apinhadas de gente e penetrou no mar de gente que estava à entrada da sala de audiências número 6. A fila de espectadores ia-se deslocando impacientemente atrás das cordas de veludo. Os repórteres estavam em grupos, verificavam os blocos de notas e engoliam o último café antes de ir para dentro.

 

Quando chegou às portas duplas, mostrou de relance o seu novíssimo cartão de imprensa e fizeram-lhe sinal para passar à frente da fila de espectadores e das mulheres que faziam croché. Viu Phyllis e baixou a cabeça enquanto passava lentamente por ela através das portas duplas. Lá dentro havia uma atmosfera de silêncio semelhante à de uma biblioteca. A secção da imprensa estava escassamente ocupada, mas todos os artistas importantes estavam no seu lugar, o juiz e os seus lacaios, a defesa e a acusação e a maior parte dos oficiais de diligências.

 

Viu Holly mesmo à sua frente e hesitou, sem saber se devia dizer olá, ou deslizar discretamente para um lugar na fila da retaguarda, mas ela avistou-o e fez-lhe sinal para ir para a frente.

 

Sente-se aqui, ordenou-lhe ela, chegando-se para o lado no banco, para lhe dar lugar junto à passagem. Ele guardou o seu saco por baixo do banco fixo e olhou à sua volta. Era um lugar espectacular. Mesmo à sua frente estavam Brown e Dapolito. À sua direita tinha uma vista sem obstáculos para a bancada do júri. À sua esquerda estava a mesa da defesa.

 

Encontrava-se suficientemente próximo para poder ver todos os pormenores. Via os semi-círculos humedecidos por baixo das mangas do casaco do fato de Spencer Brown e as manchas de cabelo rarefeito na cabeça de Charlie Rossner. Os ganchos que seguravam o cabelo de Lenore Serian e a linha delicada dos seus ombros por baixo da camisola grossa. Se ao menos ela se voltasse para o lado. Ficou a olhar para as costas dela, desejando que se voltasse. Ou pelo menos que se virasse para Rossner, de maneira que pudesse ver-lhe parte do rosto.

 

A examinar a estrela principal? perguntou-lhe a Holly.

 

A tentar.

 


Ela não é assim tão atraente. Não consigo compreender toda esta excitação de ela ser considerada uma deusa do sexo.

 

Dapolito coçava furiosamente o pescoço, Brown murmurava por entre dentes o hino da força aérea sob a respiração e Rossner lia um monte de papéis que lhe eram passados pelo seu assistente.

 

Owen inclinou-se para a Holly para lhe sussurrar, Sinto uma certa estranheza em estar aqui sentado tão próximo de todos eles. É como se estivéssemos a comportar-nos como intrusos.

 

Logo se habitua a isso.

 

Na verdade até podíamos falar com eles daqui.

 

Não faça isso. O juiz Pulaski não ia gostar nada.

 

Relanceou os olhos para trás, para os outros repórteres a entrar em fila para os bancos atrás dele. Eu devia sentar-me muito mais atrás. Não preciso de estar aqui à frente.

 

Esqueça, disse a Holly. Você está comigo e este é o meu lugar. O único motivo por que não nos sentámos aqui ontem depois do almoço, foi porque o pessoal daquela ranhosa revista francesa ocupou todo este banco durante a tarde inteira.

 

Estão todos os lugares reservados?

 

Não. Mas nós, os profissionais habituais, temos todos os nossos territórios marcados.

 

Virou a cabeça para incluir uma mulher que estava sentada do outro lado dela. Não é verdade, Pat? Todos nós temos os nossos territórios, não temos?

 

Tal como as hienas. A mulher soltou um riso abafado e inclinou-se para a frente de Holly para estender uma mão toda guarnecida de prata e turquesas. Eu chamo-me Pat Melville, disse ela. Patricia Velez Melville. Você deve ser o escritor de quem a Holly me esteve a falar esta manhã.

 

Owen Byrne, disse ele, devolvendo-lhe o forte aperto de mão e pensando que apertar as mãos às mulheres estava a começar a parecer normal.

 

A Pat é repórter do jornal regional e colaboradora da Imprensa Associada. A Holly piscou os olhos para ele. Ela é uma fonte de informação nesta área, para o caso de você querer respostas para algumas das suas perguntas.

 

Então você é uma habitante local? perguntou ele.

 

A Pat riu-se. Depende de quem faz a pergunta. Vivi aqui durante nove anos. Sepultei o meu marido aqui no cemitério. Mas ainda se referem a mim como aquela mulher mexicana do Arizona.

 

De algures na sala, ouviu-se uma voz licenciosa a perguntar, Descreveria a camisola de Lenore como cor de ferrugem ou arruivada?

 

A cor arruivada sempre me fez lembrar batatas, alguém respondeu.

 

Mantenham-se em silêncio, gente! advertiu um oficial de diligências.

 

Ouviste dizer se o juiz já decidiu quanto ao depoimento de Nellicliff? sussurrou Pat.

 

Ainda não tomou nenhuma decisão, respondeu Holly.

 

Mas eles vão prestar declarações hoje?

 

Supostamente.

 

Um homem que estava atrás da Pat tocou-lhe levemente no ombro, e ela voltou-se para conferenciar baixinho com ele. A Holly inclinou-se para o outro lado e encostou a sua cabeça à de Owen. Então está ou não a escrever um livro sobre isto?

 

Não sou eu quem decide, confessou ele. Tenho de formular uma proposta de trabalho e é preciso que o editor goste dela.

 

Ena, que grande tensão, heim?

 

Sim.

 

Mas também está a divertir-se, não está? A Holly fez um largo sorriso. Quero dizer, não é assim tão difícil de resistir ao homicídio.

 

Ouviu-se o som de uma pancada, vinda de um canto do fundo da sala. Todas as cabeças se viraram para olhar e ele seguiu-as automaticamente. Um par de técnicos de som estavam a resolver o problema de alguns fios caídos no chão e a procurar uma boa posição para colocar uma câmara de televisão. A televisão não era autorizada no julgamento, mas ia haver um breve período de filmagem mais tarde, para um documentário sobre o sistema judicial em Nova Iorque. Ele olhou por instantes, depois voltou-se para trás. Toda a gente na frente ficou a olhar para o motivo da distracção. O juiz tinha levantado os olhos de um maço de papéis e estava a olhar para o movimento com um olhar severo, os oficiais de diligências, o oficial de justiça e o escrivão estavam todos paralisados. Dapolito e Brown olharam por cima dos ombros. Rossner tinha mudado a cadeira de posição. E Lenore... lentamente, Lenore Serian voltou-se.

 

O olhar dela roçou mesmo por ele. Tão perto que ele podia ter chamado a sua atenção com o mais leve movimento. Mas ficou muito quietinho. A observá-la, como teria observado uma criatura rara que tivesse vislumbrado na floresta. E viu que ela não era a sereia cruel da fotografia do jornal nem a criança-mulher vulnerável do dia anterior. Ela era forte e com compostura e senhora de uma elegância comedida.

 

De repente as portas abriram-se de par em par para os espectadores e Lenore voltou de novo o olhar para a frente. Ele retomou a respiração. Foi posta ordem no tribunal e o júri foi anunciado dois a dois. Hoje estavam calmos, passando os olhos pela sala enquanto tomavam os seus lugares. Alguns lançaram olhares furtivos à arguida, antes de prestar atenção aos comentários do juiz naquela manhã.

 

O jurado número sete parece muito preocupado, sussurrou a Holly. Antes de Owen poder contar os lugares e saber quem era o número sete, a Pat inclinou-se a dizer, Descobri que a número três faz pinturas a óleo de animais de estimação das pessoas.

 

Não! A Holly folheou o seu bloco de notas. Pensei que a três fosse aquela que tem a loja de produtos de beleza na garagem.

 

A Pat abanou a cabeça. Estás a confundi-la com a dez. Lembra-te em Voire Dire...

 

Owen ouviu e escrevinhou algumas notas, espantado com o facto de hoje perceber muito mais do que ontem. Conseguia seguir a conversa enquanto as duas mulheres saltavam dos jurados individuais para uma característica da selecção do júri, para a decisão do juiz de que não daria autorização à acusação para questionar as testemunhas da brigada de salvamento sobre visitas anteriores de auxílio a casa dos Serians.

 

Para Owen, o processo criminal tinha assumido a simetria geométrica de um jogo de mesa. Começou com o crime, depois saltou sucessivamente para o júri de acusação, para o processo-crime, as audições antes do julgamento, a selecção do júri, as declarações de abertura, o corpo do julgamento, as alegações finais, as deliberações do júri e finalmente o veredicto. Era um jogo entre duas equipas a acusação contra a defesa e embora fosse a acusada quem ganhava ou perdia, parecia que ela não participava no jogo.

 

Owen saltou uma página em branco no seu bloco de notas. A Holly tinha-se oferecido para partilhar com ele as transcrições reais do julgamento, mas mesmo assim ele queria tomar as suas notas. Queria as suas próprias impressões no papel e não queria ficar demasiado dependente da generosidade da Holly.

 

O oficial de justiça levantou-se e pigarreou com bastante intensidade. O povo chama Reggie Howland.

 

Não era permitido às testemunhas estarem na sala de audiências excepto enquanto estavam a prestar declarações, por isso um guarda tinha de se inclinar para a porta e fazer sinal para a testemunha entrar. Howland, um homem de rosto anguloso, com uma maçã de Adão proeminente, deslocou-se ao longo da passagem central com um ar constrangido, passou pela porta da balaustrada de madeira e subiu para o banco das testemunhas. Colocou a mão direita sobre uma velha Bíblia, segurada pelo oficial de justiça, e levantou a mão esquerda para o alto.

 

Jura dizer toda a verdade e nada mais que a verdade assím Deus o ajude? As palavras do funcionário foram ditas em série, de modo que lhes faltou tanto a entoação como o significado.

 

Juro, disse Howland, enquanto as suas orelhas adquiriram um vermelho carregado.

 

Sente-se por favor.

 

Howland sentou-se no banco das testemunhas e o oficial de justiça voltou para a sua secretária, abriu o livro de registos e disse, Em voz alta e clara, diga por favor o seu nome completo e a sua morada, para que fique registado e soletre por favor o seu último nome. Tanto o oficial como o escrivão registaram a informação ao mesmo tempo que era dita pela testemunha.

 

Spencer Brown levantou-se de um salto do seu lugar, com o fato retesado nos seus ombros largos, como se de repente se tivesse dilatado.

 

Bom dia, senhor Howland. Brown sorriu. Podia dizer-nos qual é a sua profissão e em que outras actividades ocupa o seu tempo?

 

Sou agricultor e bombeiro voluntário. Há quanto tempo é agricultor?

 

Há cerca de quinze anos.

 

E há quanto tempo é bombeiro voluntário?

 

Há cerca de quatro anos.

 

Durante esses quatro anos como bombeiro, teve algum treino especial relativamente aos seus deveres de bombeiro?

 

Com certeza. Estamos sempre a ter reuniões e sessões de treino com especialistas vindos de toda a parte.

 

Esse treino inclui instrução na utilização do telefone?

 

Algum. Temos de saber o que devemos perguntar às pessoas que telefonam e como acalmá-las e como obter informações. Esse tipo de coisas.

 

Portanto o senhor tem experiência e está bem preparado para obter informações das pessoas que lhe telefonam.

 

Faz parte do meu trabalho.

 

E qual é o procedimento para o registo de uma chamada de emergência? Toma notas ou existe algum procedimento formal escrito?

 

Temos um diário de registos mesmo ao lado do telefone. Preenchemos o nome e a direcção e as indicações do caminho para lá chegar, e depois há uma secção de notas. Qualquer coisa de especial sobre as indicações ou sobre o que as pessoas dizem, como por exemplo, se há eventuais lesões ou se o incêndio está a propagar-se ou outra coisa qualquer.

 

Dapolito entregou a Brown uma folha de registo rectangular e Brown exibiu-o. Houve uma troca de impressões em que o juiz falou com Brown e Rossner a respeito do registo. Depois disso foi tomada em consideração como prova testemunhal, foi registada e foi-lhe atribuído um número de identificação pelo oficial de justiça.

 

Agora, senhor Howland, o senhor estava de serviço na manhã do dia sete de Agosto?

 

Com certeza que estava. Fui eu que atendi o telefone quando chegou a chamada de casa dos Serians.

 

Pode indicar-nos essa chamada no diário de registos, por favor?

 

Aqui está. Mesmo aqui.

 

Pode pegar neste lápis vermelho e fazer um círculo à sua volta, por favor?

 

Quer que faça um círculo em volta de tudo, ou só do princípio ou o quê, porque eu não quero escrever onde não devo.

 

E se colocasse simplesmente a chamada entre parênteses?

 

Como?

 

Coloque simplesmente uma marca onde começa o registo e outra marca onde acaba.

 

Já percebi. Aqui. Pronto.

 

Pode ler, por favor, o que assinalou entre esses parênteses?

 

Ahh... quatro horas e vinte e cinco minutos da manhã. Quinta dos Serians. Estrada nacional número 13, cinco milhas a sul da mercearia do Gruber. Estúdio de arte. Possível morte. Casa em perigo. Mulher que deu a informação Natalie Raven.

 

Quando registou a entrada no diário de registos?

 

Fi-lo enquanto estava a falar com a mulher.

 

Enquanto ela estava a falar consigo ao telefone?

 

Ou talvez tenha escrito algumas palavras depois de ter desligado, mas foi principalmente enquanto ela estava a falar.

 

Posteriormente a ter registado isto, o que é que fez?

 

Depois disso, quer você dizer?

 

Sim.

 

Dei o alerta a todo o pessoal e chamei a brigada de salvamento e pus o camião a trabalhar.

 

Então o tempo é essencial, quando recebe uma chamada de emergência como esta.

 

Com certeza.

 

Consegue, de um modo geral, registar todas as palavras que diz a pessoa que telefona, numa chamada de emergência?

 

Não. Receio bem que não. Algumas pessoas tornam-se muito faladoras quando estão nervosas.

 

Houve alguma coisa que a pessoa que telefonou por causa dos Serians tivesse dito e que você não tivesse tido oportunidade de registar?

 

Com certeza. A menina Raven... a pessoa que telefonou... estava a berrar e a gritar e tudo isso.

 

Recorda-se do que ela disse quando estava aos berros e aos gritos que não conseguisse registar no diário?

 

Nem tudo. Mas houve coisas que me deixaram perplexo. Ela sucumbiu logo depois de me dar as orientações... a gritar que nos despachássemos... dizendo, “Ela está a queimá-lo. A queimar tudo. Eu sei que ele está morto.” Esse género de coisas ficam gravadas na cabeça dum gajo.

 

Foram exactamente essas as palavras? “Ela está a queimá-lo. Ela está a queimar tudo. Eu sei que ele está morto.”

 

Foi isso mesmo que ela disse.

 

O senhor reagiu de alguma maneira na sequência dessas palavras?

 

Desculpe, não estou a compreender.

 

Tomou algumas providências especiais por causa do que ela disse?

 

Chamei a brigada de salvamento por causa da gritaria dela de que alguém estava morto, se é isso que quer dizer.

 

Obrigado, senhor Rowland. Brown voltou-se e dirigiu-se para a mesa de acusação.

 

Rowland levantou-se.

 

Rossner levantou-se.

 

O juiz, que tinha estado debruçado sobre um bloco de apontamentos do tribunal, a tomar notas, empurrou os óculos para cima do nariz e inclinou a cabeça para a testemunha. Senhor Rowland, mantenha-se sentado, por favor. Parece-me que o advogado de defesa tem algumas perguntas para si.

 

Oh... com certeza. Com certeza. Com as orelhas a ficarem vermelhas mais uma vez, Rowland deixou-se cair novamente na cadeira e pestanejou muito.

 

Charles Rossner hesitou por instantes, como se estivesse absorto em pensamentos. Ficou a meio caminho entre a mesa da defesa e a testemunha, com as calças amarrotadas e a gravata um pouco torta, a olhar para as janelas cobertas de plástico por detrás do júri. Depois coçou o queixo e voltou-se para a testemunha com um sorriso.

 

Olá, senhor Rowland. Eu sou Charlie Rossner. Como está o senhor?

 

Ah... bem. Estou bem, obrigado.

 

Há quanto tempo disse que era bombeiro voluntário?

 

Cerca de quatro anos.

 

Isso é digno de louvor. É um trabalho duro, não é?

 

Oh, com certeza. Às vezes é mesmo muito duro.

 

E dir-se-ia que é um trabalho que gera muita tensão?

 

A coisa com mais tensão que eu já fiz, com toda a certeza.

 

Alta tensão no local de um incêndio?

 

Pode crer.

 

Mas começa ainda antes disso, não é verdade? No momento em que atende uma chamada de emergência existe tensão, não existe?

 

Com certeza. A chamada é mesmo importante. É preciso obter a informação certa e se o incêndio é fora, no campo, temos de certificar-nos de que as indicações para chegar ao local são claras.

 

Quanto tempo da sua instrução é de facto dedicado à recepção de chamadas telefónicas?

 

Bem, ouvimos uma pessoa a discursar sobre isso e deram-nos algumas instruções sobre o que devemos perguntar à pessoa que telefona.

 

Houve alguma simulação do trabalho de atendimento do telefone durante a qual pudesse praticar o atendimento de chamadas?

 

Não.

 

Foi-lhe dada alguma instrução sobre o modo de proceder no atendimento do telefone?

 

Não propriamente.

 

Atendeu muitas chamadas telefónicas durante os seus quatro anos? Howland hesitou. Há outros indivíduos que fazem mais atendimento do telefone do que eu.

 

Oh? Então o senhor não é habitualmente a pessoa que atende as chamadas de emergência, como a chamada de casa dos Serians?

 

Podia colocar as coisas dessa maneira, mas isso não quer dizer que eu não seja capaz de lidar com a situação.

 

Rossner fez uma pausa, torceu a cara numa expressão pensativa e confusa e coçou a cabeça.

 

Vamos recapitular. O senhor atendeu muitas chamadas de emergência durante os seus quatro anos?

 

Algumas.

 

Como descreveria essas chamadas?

 

O que quer dizer com isso?

 

As chamadas são de algum modo semelhantes?

 

Todos os incêndios têm uma história diferente.

 

As chamadas são calmas e racionais?

 

Às vezes. Se for um incêndio num matagal ou num barracão abandonado ou qualquer coisa do género.

 

E quando é numa casa ou num celeiro? Esses telefonemas são calmos?

 

Não.

 

Será correcto dizer que essas chamadas são histéricas? Difíceis de compreender?

 

Podem ser.

 

Como a chamada dos Serians?

 

Sim, como a chamada dos Serians.

 

As pessoas que telefonam costumam estar assustadas?

 

Sim.

 

Perturbadas... nervosas?

 

Normalmente.

 

E essas pessoas que telefonam... as que estão assustadas ou perturbadas... falam com clareza?

 

A maioria delas não.

 

O que dizem faz sempre sentido?

 

Não.

 

Mesmo para alguém com experiência... pode ser difícil compreendê-las?

 

Com certeza.

 

Por exemplo, quando escreveu o nome da pessoa que telefonou no diário de registos, o que escreveu?

 

Natalie Raven.

 

Rossner sorriu condescendentemente. Por que não abre o diário e refresca a sua memória, senhor Rowland.? O que foi que escreveu primeiro? A parte que foi apagada e corrigida posteriormente. Todo o rosto de Rowland ficou vermelho escarlate. Escrevi Nellie Raymond e mais tarde alguém corrigiu-o com o nome correcto. Isso não tem nada de mal.

 

Quando estava a atender o telefone e a falar com a outra pessoa, o senhor pensou que ela tinha dado o nome como sendo Nellie Raymond?

 

Sim.

 

Porque não conseguiu compreender a mulher a dizer “Natalie Raven não é verdade?

 

Exactamente! Ela falava depressa e estava a choramingar. Mas eu cumpri a minha tarefa. Mandei o camião para onde era suposto ir.

 

E graças a isso a casa dos Serians foi salva.

 

Parece-me que se pode dizer que sim.

 

E isso é que é importante, não é? E não o que foi dito ao telefone.

 

Tem toda a razão.

 

Não pode dar-se ao luxo de perder muito do seu valioso tempo a ouvir pessoas histéricas, não é verdade?

 

Não. Temos que pôr a organização a funcionar.

 

Por isso não tem tempo para se preocupar se ouviu Nellie Raymond em vez de Natalie Raven?

 

Exactamente.

 

Ou se a pessoa que telefona diz ele ou ela... duas palavras que têm um som parecido?

 

Exacto.

 

Portanto a pessoa que telefonou podia ter dito, “Ele está a queimá-lo. A queimar tudo. Eu sei que ele está morto”?

 


Rowland olhou para Spencer Brown com ar apologético. Sim, parece-me que sim.

 

E não tem tempo para reconsiderar o que ouviu, ou se ouviu alguma coisa correctamente, pois não?

 

Não.

 

Muito bem, agora, depois de ligar o alarme, o que fez?

 

Peguei no meu material e subi para um camião para ir combater o incêndio.

 

E foi o primeiro a chegar?

 

Não. Ted Waterhouse vive para aqueles lados e chegou lá antes de nós.

 

Falou com ele ou com qualquer um dos outros bombeiros sobre a chamada telefónica?

 

Não.

 

Não falou com ninguém sobre a chamada? A dizer que estava preocupado com o significado daquilo?

 

Não.

 

Então naquela altura, fosse o que fosse que pensasse ter ouvido, não lhe parecia assim tão sinistro nem suspeito?

 

Acho que não pensei muito nisso naquela altura.

 

Não pensou que parecesse suspeito?

 

Parece-me que não.

 

Quando começou a pensar nisso?

 

Depois de o xerife começar a fazer-me perguntas.

 

Quantos meses depois do incêndio teria sido isso, senhor Howland?”

 

Oh, talvez dois.

 

O senhor não tinha a certeza do que tinha ouvido e não achou que parecesse suspeito até dois meses depois do incêndio, quando o xerife começou a fazer-lhe perguntas?

 

Acho que foi mesmo isso.

 

Obrigado senhor Howland.

 

Foi chamada a segunda testemunha de acusação. Mais uma vez houve os preliminares de rotina; depois Brown aproximou-se da testemunha. Ted Waterhouse era tão parecido com Spencer Brown que podia ser o seu irmão mais novo.

 

Bom dia, senhor Waterhouse.

 

“Dia, Spence.

 

Pode dizer-nos qual é a sua profissão?

 

Faço reparações de aparelhos eléctricos... máquinas de lavar roupa, secadores, frigoríficos... faço tudo. Até fiz uma reparação do seu aparelho para exercícios de remo, não fiz? Sorriu orgulhosamente. E também sou bombeiro voluntário.

 

Há quanto tempo está na actividade de reparação de aparelhos eléctricos?

 

Desde que saí da escola secundária. Fez cinco anos no passado mês de Junho.


Há mais ou menos um ano. De certo modo senti que o meu nome... Waterhouse... estava de acordo com o trabalho. Sorriu e olhou para a assistência à espera de uma reacção à sua observação jocosa.

 

Houve alguns risos abafados por toda a sala de audiências. A boca de Brown rasgou-se num sorriso firme e mecânico.

 

Acorreu ao incêndio em casa dos Serians?

 

Sim. Vivo para aquelas bandas, sabe, e quando recebi a chamada estava a menos de cinco minutos dali.

 

Já alguma vez tinha tido a oportunidade de visitar a casa dos Serians antes da chamada por causa do incêndio?

 

Sim, tinha. Tinha feito a reparação do frigorífico algum tempo antes. E precisamente duas semanas antes do incêndio Natalie chamou-me para reparar a máquina de lavar.

 

Portanto estava familiarizado com a casa dos Serians. Sabia qual era o seu aspecto em circunstâncias normais.

 

Exactamente.

 

Diga-nos, por favor, o que observou quando chegou.

 

Bem, entrei no pátio e a primeira coisa que vi foi o incêndio. Só metade do celeiro, ou estúdio, parece-me, estava a arder quando lá cheguei.

 

Dapolito apresentou um diagrama do estúdio do tamanho de um póster e deu-se início ao processo da sua apresentação como prova. Depois foi colocado num cavalete de pintor e Brown perguntou à testemunha, Qual a parte do estúdio que viu a arder?

 

Waterhouse indicou a parte do estúdio onde tinha sido a área de convívio de Serian e onde a posição do corpo estava marcada com um desenho linear.

 

Conseguiu olhar para o interior deste edifício em chamas? perguntou Brown.

 

Sim. A porta estava completamente aberta e olhei lá para dentro e toda aquela parte era uma muralha de chamas. Sabia que se havia lá alguém, já tinha passado o momento em que o salvamento era possível.

 

Então o senhor conseguiu olhar para o interior porque a porta do estúdio de arte de Bram Serian se encontrava completamente aberta?

 

Sim.

 

Que mais notou à sua chegada?

 

Vi toda aquela fila de gente a tentar fazer uma brigada de baldes e vi a senhora Serian de pé, junto às árvores.

 

E reparou no que a senhora Serian estava a fazer?

 

Ela estava simplesmente a olhar.

 

Quando chegou ao local com o seu material e vestido de uniforme, ela correu para si e...?

 

Protesto! gritou Rossner. Está a conduzir a testemunha.

 

Deferido, respondeu o juiz imediatamente. Reformule, Dr. Brown. Com um ar de aborrecimento indulgente, Brown perguntou à testemunha

 

Se tinha consigo toda a parafernália oficial de combate ao incêndio.

 

Com certeza. Tinha o meu chapéu na cabeça e o casaco vestido e as botes calçadas e transportava o material.

 

Então o senhor era imediatamente identificável como a primeira figura oficial que tinha chegado ao local?

 

Sim.

 

Qual foi a reacção, quando foi reconhecido pelas pessoas que se encontravam no local?

 

Algumas começaram a gritar coisas como “Graças a Deus”, ou faça qualquer coisa”. A menina Raven veio a correr e a gritar e a chorar, tentando arrastar-me para junto do incêndio. Dizendo-me que entrasse no edifício e salvasse Bram Serian.

 

E o que fez a senhora Serian?

 

Nada. Limitou-se a ficar a olhar, mesmo com o aspecto de quem estava muito calma.

 

O que aconteceu a seguir?

 

Ouvi outros carros a chegar e corri a contar aos outros camaradas o que se estava a passar.

 

Brown agradeceu à testemunha e foi sentar-se; então Rossner levantou-se e afastou-se sem pressa da mesa, com as mãos nos bolsos e um sorriso afável no rosto. “Dia, senhor Waterhouse. Eu sou Charlie Rossner.

 

Waterhouse encostou-se para trás e cruzou os braços. Eu sei quem é o senhor, disse ele.

 

Muito bem, muito bem. Porque eu também sei quem é o senhor, o senhor é o melhor técnico de reparações nesta cidade, não é verdade?

 

É o que dizem. Waterhouse encolheu os ombros e deixou descontrair os braços.

 

O senhor reparou a máquina do Dr. Brown e reparou o frigorífico dos Serians, não é verdade?

 

É verdade.

 

E os Serians ficaram tão satisfeitos com o trabalho que o senhor fez no frigorífico que voltaram a chamá-lo para reparar a máquina de lavar, não é verdade?

 

É verdade.

 

Rossner sorriu. Parece-me que os artistas famosos também têm os seus aparelhos avariados tal como todos nós.

 

Isso é verdade. Waterhouse sorriu e vários membros do júri soltaram risos abafados.

 

Quando é que foi lá reparar a máquina de lavar?

 

Na semana antes do incêndio.

 

Uma semana antes?

 

Mais dia menos dia. Teria de verificar para dizer com exactidão.

 

Assim está muito bem. Então e o que se passava com a máquina de lavar roupa de Bram Serian?

 

A saída de água estava obstruída e não conseguia fazer o escoamento durante o ciclo do movimento rotativo.

 

Podia explicar-nos melhor?

 

Brown levantou os braços com ar de indignação. Meritíssimo... esta linha de interrogatório não leva a lado nenhum. O Dr. Rossner está a pescar.


Pulaski relanceou um olhar para Rossner.

 

Eu asseguro, Meritíssimo, que podemos andar à pesca na máquina de lavar roupa, mas sabemos o que procuramos e é relevante.

 

Indeferido, disse o juiz bruscamente. Mas não brinque com o tribunal, Dr. Rossner.

 

Rossner fez uma vénia com a cabeça para o juiz, depois voltou a sua atenção de novo para a testemunha. Continue... por favor... insistiu ele.

 

Há um tubo de borracha mais ou menos deste tamanho, Waterhouse serviu-se do polegar e do dedo indicador para formar um círculo, que vai do fundo da cuba da máquina para a bomba. Quando a máquina escoa, a água tem de passar por aquilo. Mas havia qualquer coisa no tubo e por isso a água não conseguia escoar tão depressa como devia.

 

Muito bem. Estou a perceber o que está a dizer. Então o senhor teve de colocar-se ali por baixo e tirar o que estava a obstruir o tubo de borracha.

 

Exactamente.

 

O que era?

 

Waterhouse ficou perplexo e relanceou um olhar para Brown, como que a pedir-lhe conselho.

 

O que era senhor Waterhouse? repetiu Rossner.

 

Deixe-me ver... Tiro tantas coisas... Ficou de olhar carregado, em sinal de concentração mental, mas alguma coisa nesta expressão fez Owen desconfiar que a testemunha estava a fingir e que a sua memória era perspicaz. Finalmente disse, Um isqueiro. Foi isso. Um isqueiro para acender cigarros.

 

Pode descrevê-lo para nós?

 

Bem, era mesmo bonito. De prata. Com trabalho de gravação. Como por exemplo uma fivela de um cinto de fantasia. E a inicial S mesmo no meio.

 

Como acha que o isqueiro foi parar ao tubo de borracha da máquina de lavar?

 

Isso é fácil. Acontece a toda a hora. As pessoas deixam coisas nos bolsos e a roupa é atirada para a máquina e lá vai.

 

O que fez com o isqueiro?

 

Dei-o a Natalie.

 

A Natalie Raven, a governanta?

 

Acho que sim. Quero dizer, nessa altura eu não sabia que ela era a governanta, mas foi a ela que o dei.

 

Que posição achava que ela tinha naquela casa?

 

Desta vez o protesto de Brown foi aceite. Rossner ficou com ar pensativo por momentos, depois recomeçou o seu interrogatório de uma forma um pouco diferente.

 

Natalie Raven disse-lhe que ela era qualquer coisa mais do que uma governanta?

 

Waterhouse manifestou-se constrangido. Não... não exactamente.

 

O que lhe disse ela exactamente?

 

Não foi tão importante o que me disse, mas mais a maneira como se comportou.

 


E como se comportou ela?

 

O protesto de Brown foi dito num tom lamuriento que Owen achou incómodo, mas o protesto foi aceite.

 

Rossner fez novamente uma pausa, depois abandonou aquela linha de interrogatório para voltar à sequência original. Natalie Raven disse alguma coisa quando o senhor lhe deu o isqueiro?

 

Waterhouse hesitou e relanceou novamente um olhar para Brown. Brown colocou a mão em frente dos olhos a servir de escudo, como se estivesse a esconder-se.

 

O que fez Natalie Raven quando o senhor lhe entregou o isqueiro? repetiu Rossner.

 

Praguejou e disse que o Bram tinha começado novamente a fumar.

 

Consegue recordar exactamente como ela disse isso... praguejar e tudo?

 

Waterhouse levantou os olhos para cima, para o juiz, como que a pedir autorização e o juiz acenou-lhe com a cabeça em sinal de assentimento. Ela disse, “Aquele Serian maldito e covarde começou novamente a fumar”, ou qualquer coisa parecida com isso.

 

Aquele Serian maldito e covarde começou novamente a fumar? Waterhouse baixou os olhos, para as mãos. Sim.

 

Muito bem... Rossner fez uma pausa e fez alguns movimentos. Voltando à noite do incêndio...

 

Rossner conduziu a testemunha através da noite do incêndio mais uma vez, sem revelar nada de novo; então o juiz anunciou a suspensão das actividades para o intervalo do almoço.

 

Owen foi almoçar com a Holly e Pat Melville. A insistências da Pat, foram a um restaurante chinês, onde a comida tinha o sabor da variedade enlatada que a Ellen servia às vezes em casa. Comeu o prato especial do dia e escutou o que Pat Melville dizia enquanto falava do panorama local.

 

Bram Serian sempre se ajustou bem por estes lados, disse a Pat. Não é que tivesse feito amigos íntimos... Não era isso. Ele era propriedade da comunidade. Era a celebridade desta região. E toda a gente gostava muito dele porque não se metia onde não era chamado e vestia-se como um rapaz do campo e falava a linguagem apropriada no armazém de rações. Mas a Lenore a Pat abanou a cabeça a Lenore colheu sempre antipatias. As suas origens eram suspeitas, bem como a sua relação com o Serian e toda a gente achava que ela era fria e arrogante.

 

Como era de facto a vida deles na Arcádia? perguntou Owen.

 

Pelo que tenho ouvido, o Serian tanto estava em casa como estava fora,

 

explicou a Pat. Mas a Lenore não saía de lá.

 

Ela tinha amigos na localidade?

 

Não. Nem um. E raramente se via na cidade com ele. Ouvi dizer que ela não sabia conduzir, portanto isso talvez explique que assim fosse. Mas as pessoas que tinham contacto com ela dizem que ela era como um autêntico fantasma e que gostava de ficar lá escondida.

 

Acho isso difícil de acreditar, disse a Holly. Uma mulher precisa de ter à sua volta amigos ou familiares. Especialmente quando está encravada ali no campo e o marido passa muito tempo fora de casa. Deve ter tido alguém para lhe fazer companhia.

 

Achas que o Ted, o técnico de aparelhos domésticos, fazia outras coisas por lá, para além de reparar máquinas de lavar roupa? perguntou a Pat sarcasticamente.

 

Bem, é possível, não é? disse a Holly. Toda a gente diz que ela tinha relações sexuais com os amigos do marido... por que não também com indivíduos das redondezas?

 

Talvez, concordou a Pat. Mas por que não apareceu nenhum indivíduo que avançasse a reclamar a conquista? Agora que o Serian está morto, esperava-se que pelo menos um desses amantes secretos desse um passo em frente e se vangloriasse.

 

A Holly encolheu os ombros. Quem sabe se ele não teria motivos para se manter em silêncio. E mesmo que avançasse, Rossner podia arranjar maneira de impedir que prestasse depoimento. Olha para os Nellicliffs... eles têm informações a acrescentar mas ele está a tentar impedir que sejam ouvidos.

 

No caminho de regresso para o tribunal, Owen reparou que tinha aprendido muito pouco com os testemunhos até agora e que todo o procedimento era ineficaz e em muitos casos absurdo; as horas de interrogatório para esclarecer factos que pareciam tão insignificantes como grãos de areia na praia, seguidos de uma enorme energia perdida em especulação e falatório.

 

Porém, isso também era necessário. E ele não queria perder um único momento.

 

Depois do almoço, o juiz finalmente tomou uma decisão sobre o testemunho dos Nellicliffs. A decisão foi anunciada antes de o júri entrar, de modo que o júri não fazia ideia do que se estava a passar, nem que tinha havido uma discussão sobre a próxima testemunha a depor.

 

Earl e Ida Nellicliff eram enfermeiros reformados que dirigiam um serviço médico voluntário de ambulâncias. Estavam entre os muitos que convergiram para a Arcádia naquela manhã de Agosto e presumivelmente também tinham os seus grãos de areia a acrescentar ao caso da acusação. No entanto, o depoimento em que Spencer Brown estava interessado em registar eram as considerações do casal sobre anteriores chamadas de emergência a casa dos Serians. Havia rumores de que estes relatos eram extremamente prejudiciais para Lenore Serian.

 

A sala de audiências estava em silêncio absoluto no momento em que o juiz tomou a decisão e leu uma declaração a explicar essa decisão. Os Nellicliffs não poderiam falar das visitas anteriores. Não tinham valor probatório, disse o juiz, citando vários casos legais.

 

Rossner tinha ganho.

 

Mandaram entrar o júri e Brown abordou todos os movimentos com os Nellicliffs mas o seu depoimento foi pouco significativo. Ambos tinham concentrado os seus esforços a tratar de lesões menores, apoiados pelos bombeiros e pelos convidados no meio de todo aquele caos, e nenhum deles tinha tido contacto com Lenore Serian.

 

Rossner não fez o contra-interrogatório a nenhuma das testemunhas.

 

O tribunal deu por terminada a sessão do dia às 16.45 horas e a Holly correu a telefonar ao seu produtor de uma cabine telefónica. Owen ignorou o oficial de diligências que estava a tentar fazer sair as pessoas da sala e deixou-se ficar na secção da imprensa com os retardatários que estavam a trocar impressões e estavam a juntar os seus haveres. Ele estava à espera de que Lenore Serian abandonasse a sua cadeira e se voltasse.

 

Vamos, pessoal, para fora! ordenou o oficial e Owen, lentamente, pegou no seu saco e levantou-se.

 

Naquele preciso momento dois guarda-costas avançaram e colocaram-se ao lado de Lenore e ela levantou-se. Voltou-se na sua direcção. E Owen podia ter jurado que ela olhou directamente para ele, embora ela lhe dissesse mais tarde que não o tinha visto. O homem corpulento de rosto avermelhado colocou nos ombros dela uma longa capa negra com capuz e o homem pequeno de cabelo escuro agarrou-a pelo cotovelo e saíram. Caminhando juntos.

 

Owen caminhou atrás deles. O homem mais pequeno relanceou os olhos para trás, com os seus olhos penetrantes de falcão, a avisar Owen para que se mantivesse à distância, com um olhar ameaçador. O seu nome era Joe Volpe, o que quer dizer raposa em italiano. O seu parceiro de mãos fortes e musculosas e de cara avermelhada era Frank Riley. Eram polícias reformados da cidade de Nova Iorque, que trabalhavam juntos na prestação de serviços tão especializados e exclusivos que a sua agência tinha um número de telefone que não vinha na lista. Owen tinha sabido tudo isto pela Holly e pela Pat ao almoço.

 

Aquele Brown está a suar, ouviu Riley dizer. Devíamos comprar ao homem um desodorizante melhor.

 

Um lado da boca de Volpe fez um trejeito para cima com ar divertido.

 

Quando chegaram às portas duplas que davam para o corredor, Lenore hesitou. Então puxou para cima o capuz da capa e fez um aceno com a cabeça. Volpe abriu a porta. Foram atingidos pelos gritos como se fosse uma onda de calor.

 

Vamos, Lenore! Só uma breve declaração. É verdade que consultou outro advogado para além de Rossner?

 

Um oficial de diligências interveio. Vamos lá para fora, pessoal! gritou ele, e o pequeno grupo de persistentes repórteres dirigiu-se ruidosamente para as escadas.

 

Volpe e Riley apressaram-se a levar Lenore para o elevador. Estavam voltados para a frente quando as portas se fecharam e Owen viu que Lenore estava a segurar o capuz de tal forma que apenas se viam os olhos. Sentiu um arrepio a percorrer-lhe o corpo. Ela parecia um anjo da morte envolvido nas suas vestes negras.

 

Owen seguiu Lenore Serian até à saída do tribunal e observou a massa de jornalistas e fotógrafos que desciam as escadas e a engoliram logo que ela deixou a relativa segurança do edifício. Depois ficou a observar os repórteres de televisão a pôr em vídeo as peças para as notícias da noite.

 

Tomaram posição. Duas equipas técnicas instalaram-se no interior do átrio e os restantes ficaram dispersos lá fora ao frio, nas escadas e ao fundo na praça, de maneira que o tribunal aparecesse em segundo plano. Andou por ali de equipa em equipa, observando e escutando. Havia uma agitação de pessoas a pentear o cabelo e um brilho repentino de espelhos enquanto se prestava atenção à maquilhagem e aos colares e jóias. Uma das mulheres que estava lá fora tinha insistido em despir o casaco e estava a fazer um grande esforço para não tremer de frio enquanto falava ao microfone. Um dos homens estava a discutir com a sua equipa sobre se deviam atravessar a rua e gravar em frente do hotel para onde se tinham retirado Lenore e a sua equipa de defesa.

 

No fim cada um deles cumpriu a sua tarefa, terminando com a expressão habitual. Foi Holly Danielson para..., daqui foi Amy Chang para..., daqui foi Gil Flores para..., foi Leland Wilson para... Todos eles a fazer a reportagem do julgamento do homicídio da Viúva Negra. Mas cada uma das reportagens tinha um ponto de vista ou salientava um aspecto diferente e Owen verificou que os espectadores teriam diferentes percepções do julgamento, consoante o canal que sintonizassem nas suas televisões naquela noite.

 

Depois de gravar a sua peça, a Holly tentou persuadi-lo a ir jantar com o seu grupo, mas ele disse que não, que estava ansioso por voltar para o seu apartamento e passar à máquina as suas notas, enquanto estava tudo ainda fresco. Porém, havia outros motivos para a sua recusa. Coisas que não podia dizer à Holly. Que estava preocupadíssimo quanto à maneira como elaborar o projecto que esperavam dele. Que tinha medo do insucesso. E mais. Estava preocupado com a rapidez e facilidade com que se tinha adaptado àquele ambiente. De alguma maneira parecia estar errado. Como se estivesse a trair a sua outra vida. A sua vida real.

 

Quando chegou a East Village, pouco depois das oito, resistiu aos aromas rantalizantes de comidas exóticas e, depois de muito procurar, conseguiu encontrar um restaurante onde podia comer um hambúrguer, ervilhas enlatadas e puré de batata instantâneo ensopado em molho de carne, uma refeição tão parecida com as refeições cozinhadas pela sua irmã Ellen, que podia fechar os olhos e fingir que estava em casa. Só o hambúrguer é que não sabia bem. Era melhor o que comiam em casa porque a carne que tinham no frigorífico vinha de animais do campo, animais que estavam feridos e para os quais não havia remédio, tinham de ser mortos a tiro e transportados para um talho local. A sua família nunca provou a carne seleccionada de novilho alimentado com rações, que era criado para ser consumido pelo público americano.

 

O jantar não melhorou o seu estado de espírito. Voltou para o seu prédio mas não conseguiu decidir-se a subir. Pôs-se a caminhar, circulando pelos quarteirões vizinhos e voltando atrás, até que finalmente trocou algumas notas por moedas e marcou o número de Michelle Wheeler de uma cabine telefónica de uma esquina.

 

Owen! Não era suposto telefonares-me. É excessivamente caro.

 

Sinto saudades de ti, Mike. Queria ouvir a tua voz.

 

Uhmm... devo ficar desconfiada? Estás a sentir-te culpado por alguma coisa?

 

Não. Apenas tenho saudades tuas.

 

Eu também tenho saudades de ti. Parece tão estranho não te ter aqui.

 

Deves estar sozinha em casa. Não estás a falar baixinho, nem a dizer que sou o vendedor de comida para frangos.

 

Ela riu-se. Tens razão. Não há ninguém em casa para além de mim. O pai levou a avó a Emporia para ir às compras no Mercado. Não sei por que é que ela não pode comprar a roupa por catálogo, como eu faço.

 

Talvez seja uma desculpa para ela sair do rancho de vez em quando.

 

Não. Ela nasceu e cresceu neste lugar. Até podia morrer sem sentir necessidade disso.

 

Segundo parece, não no tempo que leva a ir ao Mercado e voltar.

 

Alto! O que estou a ouvir? Já estás a tornar-te um convencido de Nova Iorque?

 

Owen riu-se. É possível. Isto é um lugar perigoso para isso.

 

Uhmm, bem, sendo assim não és castigado. E não digas essa palavra perigoso, já estou suficientemente preocupada contigo. Tens visto muitas... tu sabes... pessoas negras e drogados e homossexuais e tudo isso?

 

Mike... Deu um suspiro e reconsiderou o que ia dizer-lhe. As coisas não são como tu pensas que são. As pessoas não são como tu pensas que são. Quem me dera... Mas como podia ele fazê-la compreender que a maior parte das coisas que lhes tinham ensinado e levado a pensar estavam erradas. Pura e simplesmente erradas.

 

Ele sempre desconfiara que estavam erradas. Não, mais do que isso. Sempre acreditara que estavam erradas. Mas agora sabia-o em primeira mão e tinha os rostos reais das pessoas na sua mente a prová-lo.

 

Uma voz mecânica interrompeu-os a pedir mais moedas e Owen enfiou a sua última moeda na ranhura.

 

Quem me dera que estivesses aqui, disse ele.

 

Eu não! Mas gostava que tu estivesses aqui em casa.

 

Não vou demorar, assegurou-lhe ele.

 

Sim, e eu continuo a pensar na casa. Na nossa casa pequenina. Será como um milagre.

 

A minha proposta pode não ser aceite, Mike. Posso ter de voltar para casa sem um vintém.

 

Nem penses nisso. Tu vais conseguir. Sempre fizeste o que estava certo. A voz mecânica interrompeu novamente e a Mike gritou mais alto, Adeus! Poupa o teu dinheiro e escreve!

 

Pousou o telefone e fez um esforço para voltar para o apartamento, mas o telefonema não o tinha acalmado. Se alguma coisa tinha feito, era ter piorado a sua disposição. Enquanto subia as escadas para o apartamento, pensou que provavelmente devia ter ido jantar com a Holly e a sua cambada. Não teria perdido mais tempo do que já tinha desperdiçado e não estaria tão deprimido.

 

Na quinta-feira de manhã Owen fez a viagem para cima e entrou no tribunal como se fosse um profissional com experiência que seguia uma rotina. Quando entrou no tribunal, foi recebido pelos sorrisos de Marilyn, Ray, Sharon e Gil como se fizesse parte do grupo e quando se sentou no lugar junto à coxia, que tinha sido guardado para ele, a Holly e a Pat cumprimentaram-no calorosamente e envolveram-no na sua conversa em voz baixa sobre os desenvolvimentos.

 

Chegou Lenore. Ao vê-la subir, seguida atentamente por Volpe e Riley, aquilo fez lembrar a Owen um casamento. Só que não havia sorrisos nem caras coradas nem hesitações envergonhadas. Os passos de Lenore eram regulares e as suas costas estavam direitas e, embora mantivesse os olhos voltados para baixo, havia no seu porte uma atitude de desafio.

 

Algures nas filas atrás dele, conseguia ouvir vozes de mulheres a discutir sobre o cabelo de Lenore perguntando-se se ela o usava sempre enrolado daquela maneira, imaginando que comprimento teria quando estava solto, imaginando se o brilho era natural ou obtido através de algum produto de cosmética. Quando acabaram com o cabelo, lançaram-se num ataque às suas roupas. Hoje ela trazia mais uma vez um vestido assexuado e deselegante. Desta vez era castanho escuro, e fazia lembrar a Owen os vestidos que algumas mulheres Amish usavam no Kansas.

 

Rossner acha que consegue enganar o júri trazendo-a vestida daquela maneira, ouviu dizer uma voz desconhecida.

 

O Povo contra Lenore Serian!

 

O anúncio familiar era divertido. Era como dizer Vamos jogar à bola! no começo de um jogo, ou Vamos pô-los daqui para fora! quando se começava a conduzir a manada de gado. Observou os advogados atentos nas suas cadeiras e pensou como era fácil perceber a sua motivação. Quase conseguia sentir os seus acessos de adrenalina e as emoções que sentiam por cada Ponto que marcavam.

 

O júri não foi chamado como habitualmente. Em vez disso, todos os advogados, a arguida, o escrivão e o oficial de justiça juntaram-se ao lado do assento do juiz para uma longa conversa em surdina com este último.

 

Isto é uma audiência privada, sussurrou a Holly. Logo vou saber qual era o assunto e depois digo-lhe.

 

E o júri? perguntou Owen.

 

O objectivo de uma audiência particular é precisamente o júri ficar fora do assunto tratado.

 

Mas como se pode esperar que um júri faça um julgamento justo se as coisas não lhe são dadas a conhecer?

 

Justo? Holly repetiu a palavra como se estivesse divertida. É a estratégia que conta, Owen. Não é de maneira nenhuma a justiça que conta.

 

Trinta minutos mais tarde, a audiência privada terminou e o júri foi mandado entrar. Owen observou os seus rostos e imaginou quantos teriam vindo para aquele lugar convencidos de que o seu primeiro dever era fazer justiça.

 

A primeira testemunha da manhã foi o Delegado do Xerife Kenneth Havlik. Era um homem novo e de aspecto afável. Se não fosse o uniforme, podia ter sido alvo de rixas. Limpou as palmas das mãos nas pernas das calças, jurou dizer a verdade e depois limpou-as mais uma vez enquanto dizia o seu nome, morada e posição no departamento do Xerife, para ficarem registados.

 

O juiz voltou-se para ele. Tenha calma, Kenneth. Nenhum de nós aqui está armado. Houve uma série de risadas mas Havlik não se acalmou.

 

Brown caminhou lentamente e sorriu.

 

Senhor Delegado Havlik, podia dizer-nos há quanto tempo estava empregado... isto é, há quanto tempo se encontrava sob as ordens do Xerife Bello na altura em que se deu o incêndio em casa dos Serians?

 

Sim senhor.

 

Há quanto tempo?

 

Quatro meses.

 

Já tinha tido a oportunidade de visitar o local do homicídio antes deste incidente?

 

Protesto, meritíssimo, gritou Rossner. Ainda não foi provado que houve um homicídio.

 

Brown revirou os olhos. Meritíssimo... queixou-se ele.

 

Aproximem-se! gritou o juiz.

 

Depois de uma troca acalorada de protestos em surdina, o juiz mandou-os embora, Protesto aceite! O júri deverá ignorar a referência ao homicídio, e Brown voltou para o pódio com as maxilas cerradas.

 

Brown consultou as suas notas. Podia contar-nos o que fez naquela manhã, Kenneth?

 

Onde quer que comece?

 

Desde o momento em que pensou que os seus serviços podiam ser necessários na casa dos Serians.

 

Parece-me que foi quando ouvi os meus cães. Eu estava a dormir quando todos os meus cães de caça começaram a fazer uma grande algazarra no canil. Vesti-me e fui ver o que se passava com eles e a acalmá-los. Quando lá cheguei, vi o tráfego que passava na estrada... carros dos bombeiros para apagar incêndios e tudo o mais. Depois vi as chamas ao longe na casa dos Serians. Pelo aspecto das coisas, calculei que iam precisar de ajuda e por isso dirigi-me para lá.

 

O senhor foi o primeiro elemento das forças da ordem a chegar ao local?

 

Fui, sim senhor.

 

E o que lhe pareceu que estava a acontecer no momento da sua chegada?

 

Havlik engoliu apressadamente o copo de água que lhe foi trazido por um oficial de diligências. Entrei no pátio e vi pessoas a correr de um lado para o outro aos gritos e berros e indivíduos a tentar apagar o fogo. Dirigi-me aos bombeiros e identifiquei-me como delegado e perguntei se havia alguma coisa em que eu pudesse ajudar. Um deles disse-me que era possível que houvesse um homem dentro do edifício e talvez eu devesse ir ver como estava a esposa.

 

E o senhor foi procurar localizar a senhora Serian?

 

Fui, sim senhor.

 

Pode descrever-nos, por favor, o seu contacto com a senhora Serian?

 

Ela estava um pouco afastada para o lado, sozinha, estava toda tisnada e estava simplesmente a olhar e perguntei-lhe se era a senhora Serian e ela acenou que sim com a cabeça, mas parecia tão calma que eu não sabia se devia ou não acreditar nela. Então disse-lhe quem eu era e perguntei-lhe se tinha a certeza de que havia alguém no celeiro. Ela não respondeu e por isso voltei a fazer-lhe a mesma pergunta e ela disse que sim, que o seu marido tinha estado a dormir lá e que não tinha saído. Perguntei-lhe se tinha a certeza de que ele não tinha saído e ela disse que tinha a certeza.

 

E qual foi a sua reacção a seguir, delegado?

 

Perguntei-lhe se havia alguma coisa que eu pudesse fazer por ela e ela disse, “Não. A não ser que consiga falar com espíritos”.

 

Continue, por favor, Delegado Havlik. O que aconteceu depois disso?

 

Fiquei como que assombrado e pensei que talvez não devesse dizer mais nada, por isso afastei-me e foi quando vi os quadros encostados à árvore.

 

Pode descrever-nos a sua descoberta desses quadros e que providências tomou?

 

Sim, senhor. Eram três. Sem moldura nem nada. Simplesmente ali encostados à árvore. Sabendo o que eu sabia... que o indivíduo era um artista famoso... fiquei preocupado que alguma coisa pudesse acontecer àqueles quadros... um carro de combate ao incêndio podia acidentalmente fazer marcha atrás no escuro e passar por cima deles ou qualquer coisa parecida, por isso levei-os para dentro de casa.

 

Em que altura achou que era necessário mandar chamar o xerife?

 

Logo depois daquilo. A menina Raven veio a correr, a gritar e a chorar Pelo facto de o maior artista do mundo ter sido queimado vivo e eu pensei que era melhor chamar o Xerife Bello e contar-lhe o que estava a acontecer ali.

 

Depois disso aconteceu alguma coisa que envolvesse a senhora Serian, antes da chegada do xerife?

 

Aconteceu, sim senhor.

 

Brown suspirou com ar de impaciência. Pode contar-nos o que se passou, por favor?

 

Com certeza. Logo depois de ter chamado o xerife, vi a senhora Serian e a menina Raven envolverem-se numa luta. Não sei quais foram as primeiras palavras, mas a menina Raven estava mesmo transtornada e qualquer coisa que a senhora Serian disse transtornou-a ainda mais e ela deu uma bofetada na senhora Serian e a senhora Serian atirou-se a ela e deitou-a ao chão e ambas rolaram pelo chão no meio da lama.

 

Qual foi a sua reacção perante este espectáculo?

 

Corri para elas e alguns dos homens que ali estavam correram também e separámo-las. A menina Raven parecia histérica, mas a senhora Serian estava absolutamente calma, como se fosse um simples dia normal cheio de sol.

 

Owen relanceou o olhar para a Holly e ela levantou as sobrancelhas como que a confirmar que isto que estavam a ouvir era bom material.

 

Rossner levantou-se e Owen verificou que Brown tinha terminado o seu interrogatório com o delegado. Havlik estava nervoso e chupou o lábio inferior quando Rossner se dirigiu para ele.

 

Delegado Havlik, disse que estava a dormir na noite em questão e que os seus cães o acordaram e imediatamente deduziu que havia problemas em casa dos seus vizinhos.

 

Sim, senhor.

 

Está sempre tão alerta e é tão perspicaz?

 

Tento ser. Foi para isso que fui contratado.

 

Nesse caso, é evidente que teve muito cuidado em reparar no estado em que se encontrava a senhora Serian quando falou com ela naquela noite.

 

Bem... sim.

 

Pode descrever-nos esse estado.

 

O senhor quer dizer... se estava suja e tudo isso?

 

Sim. Descreva-a simplesmente para nós. Como agente das forças da ordem, deve ser um observador com experiência, portanto conte-nos simplesmente tudo o que consegue recordar sobre ela naquela noite.

 

Está bem... como já disse, ela estava toda suja e coberta de fuligem. Tinha a cara toda manchada e os seus braços estavam negros.

 

Havia muita luz no lugar onde ela se encontrava?

 

Não. Estava bastante escuro, porque ela estava junto das árvores.

 

Então você não conseguiu ver se ela estava ou não ferida?

 

Não.

 

Conseguiu ver-lhe a cara com atenção? Ver se estava pálida ou ver as pupilas dos olhos?

 

Havlik ficou com uma expressão confusa. Não.

 

O departamento da polícia dá alguma preparação paramédica?

 

Não.

 

Então, mesmo que lhe tivesse sido possível vê-la com clareza, provávelmente não conseguiria saber se o seu comportamento estranho era consequência do choque, pois não?

 

Protesto, Meritíssimo, disse Brown, levantando-se da cadeira e deitando para o chão vários papéis que estavam em cima da mesa.

 

O juiz franziu as sobrancelhas, mas deferiu o protesto.

 

Seguiu-se uma audiência privada, que se arrastou por muito tempo.

 

Quando recomeçou o processo, Rossner declarou que tinha terminado o interrogatório ao delegado Havlik e Brown levantou-se para lhe colocar mais algumas questões.

 

Delegado Havlik, começou ele, alguma vez teve oportunidade de ter formação em primeiros socorros?

 

Bem, fiz um pequeno curso sobre isso na escola secundária. Ensinaram-nos os rudimentos, por exemplo, como dar aquele abraço a pessoas que estão em choque e esse tipo de coisas.

 

Recebeu instrução sobre a situação designada por estado de choque?

 

Sim, senhor. E mesmo que não pudesse ver a senhora Serian muito bem... pelo que me ensinaram sobre o estado de choque, não diria que uma pessoa que se envolve numa rixa esteja em estado de choque.

 

Protesto, Meritíssimo, gritou Rossner. Pôs-se de pé e abriu as mãos. Com o devido respeito pelo curso de primeiros socorros do Delegado Havlik, ele não tem qualificações para nos dar pareceres médicos.

 

Houve mais uma discussão entre os advogados e os comentários de Havlik foram retirados do registo, mas claro que o júri já os tinha ouvido. Owen perguntou-se se Rossner teria ganho alguma coisa.

 

À hora do almoço Owen juntou-se a um grupo do qual faziam parte a Holly, a Pat, o Ray, a Marilyn a colunista, a Sharon a repórter de rádio e o outro repórter de televisão, Gil Flores. Caminharam juntos para o restaurante de pizzas na cidade.

 

O que prova que ela é capaz de violência, disse a Holly.

 

Sim, concordou o Ray com um riso abafado. Gostava de ter estado lá para ver aquelas duas a lutar no meio da lama.

 

Raios partam se acredito nessa de ela estar em estado de choque, disse a Marilyn e houve uma imediata concordância geral. Owen suspeitou que as atitudes dos repórteres fossem semelhantes às do júri.

 

Durante o almoço especularam sobre o assunto das audiências privadas; depois, no caminho de regresso, a conversa desviou-se para a tagarelice do costume entre o pessoal da comunicação social quem estava a fazer a cobertura para quem e que colunista tinha andado a escrever sobre o julgamento sem de facto ter assistido a ele e que repórter casada da rádio andava a flirtar com o secretário do juiz.

 

Logo que chegaram ao tribunal, Owen telefonou para o escritório de Bernie para trocar impressões com ela. Ela tinha saído para o almoço, por isso falou com o Alex, que estava ansioso por saber pormenores do julgamento. Owen quis ser agradável e começou a fazer-lhe um relato pormenorizado, mas acabou por dar a Alex uma versão condensada, pensando que o Alex não ia apreciar todas aquelas complexidades. O julgamento tinha acabado por lhe dar a impressão de estar num mundo diferente que as pessoas alheias provavelmente não conseguiam compreender.

 

Quando o tribunal se reuniu novamente às 13:30, um xerife de uniforme, Vincent Bello, caminhou com passos pesados para a barra das testemunhas. Era um homem entroncado e forte, com mais de cinquenta anos, com cara de lua cheia, um nariz grande picado das bexigas, com um ar todo cheio de importância e maneiras autoritárias.

 

Xerife Bello, começou Brown, por favor, pode dizer-nos a que horas foi chamado e que providências tomou a seguir à recepção da chamada do Delegado Havlik?

 

Recebi a chamada às cinco horas e parti imediatamente para a quinta dos Serians.

 

E qual era a situação quando lá chegou?

 

Uma completa confusão. Toda a energia eléctrica das lâmpadas que havia no pátio vinha do estúdio, por isso só tínhamos os faróis dos carros e lanternas eléctricas portáteis para se poder ver. Havia gente por todo o lado... vizinhos e bombeiros e convidados do falecido. Avistei o meu delegado, Kenneth Havlik; depois encontrei o homem que comandava a equipa de bombeiros... Pete Gadding, e comecei a organizar o pessoal.

 

Brown atrapalhou-se ao pegar nas suas fichas de notas. Pete Gadding. Está a referir-se ao Comandante dos Bombeiros Peter Gadding?

 

Exactamente.

 

Gadding informou-o do ponto da situação?

 

Sim. O Pete disse-me que o edifício ardeu tão rapidamente que não tinha sido possível salvá-lo. Disse que tiveram sorte em conseguir evitar que o fogo alastrasse. E disse que parecia que havia um homem lá dentro.

 

Nessa altura havia alguma razão para suspeitar de crime?

 

Não. Naquela altura apenas parecia ser um fogo de rotina em que tinha morrido uma pessoa. Está sempre a acontecer, sabe.

 

Que providências tomou depois de falar com Peter Gadding?

 

Dei uma volta por ali, passando em revista a situação e à procura da senhora Serian.

 

Já conhecia pessoalmente Lenore Serian naquela altura?

 

Não... não posso dizer que nos conhecíamos. Mas conhecia-a de vista. Já a tinha visto na cidade e ela não é o género de mulher que se veja com frequência, por isso naturalmente reparei nela.

 

Foi bem sucedido ao tentar localizar a senhora Serian?

 

Não, eu andava ali de um lado para o outro, a passar em revista a situação e de repente aparece aquela mulher a correr. Estava coberta de lama e com um olhar desvairado e a soltar gritos agudos. Mas não era a senhora Serian.

 

Ficou surpreendido ou sentiu-se ameaçado com o comportamento da mulher?

 

Não. Estou habituado a mulheres perturbadas quando acontecem tragédias. De facto diria que o seu comportamento era normal.

 

O que aconteceu a seguir?

 

Apareceu um indivíduo. Agiu como se tivesse andado a persegui-la e a tivesse apanhado. Disse-lhe que tinha de se acalmar e que devia voltar para casa e esperar pelo médico.

 

E esse homem informou-o da identidade da mulher?

 

Sim. Pediu desculpa e disse-me que a mulher era Natalie Raven, a governanta dos Serians e que estava muito nervosa por causa da morte do patrão. Ora aquilo surpreendeu-me, porque eu conhecia Natalie Raven de vista e agora não a tinha reconhecido. Depois perguntei-lhe quem era ele e ele disse que se chamava Bello levantou os olhos para o juiz posso consultar as minhas notas... é que tenho alguma dificuldade em memorizar nomes, senhor Dr. Juiz.

 

Houve uma pequena interrupção enquanto as notas de Bello eram examinadas e discutidas numa conferência em voz baixa entre o juiz e os dois advogados. Por fim foram devolvidas a Bello com um aceno de cabeça em sinal de aprovação. Bello olhou para eles e depois continuou. Clay Southey era o nome da pessoa, e disse que era um dos convidados de Manhattan. Perguntei-lhe se tinha visto a senhora Serian e ele apontou para a casa.

 

Então dirigiu-se para a casa, xerife?

 

Sim.

 

E conseguiu falar com Lenore Serian?

 

Não. Estava fechada num quarto e recusou-se a falar comigo.

 

Quem mais estava lá dentro de casa?

 

Alguns bombeiros estavam a descansar e havia lá alguns convidados, e quando ia a sair, para ir orientar a retirada dos veículos do pátio, chegou um médico.

 

Alguém tinha mandado vir esse médico?

 

Sim. A menina Raven tinha-lhe telefonado.

 

O senhor deixou então a casa e esteve ocupado a ajudar os veículos a sair do pátio... estou correcto?

 

Sim.

 

Que horas eram quando terminou a remoção dos veículos?

 

Terminámos mais ou menos ao romper da aurora.

 

A luz era... quero dizer, a luz do sol... suficiente para lhe permitir ver bem o estúdio nessa altura?

 

Conseguia ver-se o que restava dele.

 

O Chefe Gadding abordou-o desta vez para entrar com ele no estúdio?

 

Sim. Disse que aquilo já tinha arrefecido e queria que eu fosse lá dentro com ele para procurarmos o corpo.

 

Nessa altura ainda não tinham a certeza se iam descobrir um corpo lá dentro, pois não?

 

Exactamente. Nunca se sabe. Lá porque a esposa pensava que o tipo estava a dormir lá dentro, não queria dizer que estivesse.

 

E o que constatou quando entrou no estúdio?

 

Estava tudo negro e queimado. Do lado sul, onde os estragos eram maiores e onde nos tinham dito que o sujeito em questão estava a dormir, o chefe Gadding localizou o corpo.

 

O falecido estava muito queimado?

 

Como um bocado de carvão.

 

Isto provocou um murmúrio de lamentações na secção da assistência e Owen notou que alguns jurados olharam imediatamente para Lenore, para ver qual era a sua reacção. Tanto quanto Owen pôde ver, ela não teve qualquer reacção.

 

Brown aclarou a garganta. O senhor e o Chefe Gadding discutiram alguma suspeita quanto ao fogo naquela altura?

 

Quando a vítima é famosa e rica, há sempre perguntas, mas eu não diria que tivéssemos qualquer preocupação relativamente ao incêndio naquela altura.

 

Havia alguma coisa ao lado do corpo que lhe chamasse a atenção?

 

Havia um grande bocado de metal no chão, a uma pequena distância do corpo. Peguei nele e mostrei-o a Pete Gadding e concordámos que parecia a cabeça de um machado, que naquela altura pensámos, ou presumimos, que talvez o falecido tivesse estado a tentar lutar contra o fogo.

 

O pedaço de metal foi apresentado como prova e identificado por Bello.

 

Qual foi a sua atitude naquela altura?

 

Saí pela porta... a porta era de aço e à prova de fogo e ainda estava de pé... e vi que havia uma chave na fechadura.

 

Pode descrever a fechadura, por favor?

 

Era uma daquelas fechaduras com um ferrolho por cima do puxador.

 

E é capaz de descrever a chave?

 

Era apenas uma chave, não estava ligada a nenhuma argola nem a outras chaves e era do tipo normal de chave de latão.

 

A chave foi retirada de um saco de plástico para ser identificada por Bello.

 

Nessa altura saiu das proximidades do estúdio?

 

O Pete ficou lá à espera de John Bagley, o magistrado do Ministério Público e eu fui para dentro de casa tomar um café e falar com os convidados e tomar nota de nomes e moradas.

 

Achou que foram todos cooperativos?

 

Todos, excepto a senhora Serian. Continuava a recusar-se a sair do seu quarto.

 

O médico já tinha chegado ao local?

 

Sim, mas ela recusou-se a falar com ele, por isso ele prestou os primeiros socorros a todas as lesões e cortes que os Nellicliffs tinham tratado e cuidou da menina Raven, que estava num estado emocional lastimável.

 

Meritíssimo... Rossner levantou-se e seguiu-se mais uma sequência de consultas em surdina.

 

Passados vinte minutos, o juiz mandou embora o júri por aquele dia e dispensou a testemunha. Os sussurros continuaram. Os assistentes começaram a ficar aborrecidos com aquilo e foram saindo pouco a pouco. Por fim a imprensa desistiu e começou também a sair.

 

Por hoje isto acabou, disse a Pat.

 

Owen abanou a cabeça. Nem posso acreditar que haja tantas confidências, tantos intervalos de quinze minutos e tão poucas testemunhas num dia.

 

E este é um juiz eficiente. Enquanto a Holly falava, voltou-se para ele e os seus seios tocaram-lhe no braço. Owen tentou ignorar o facto e concentrar-se no que ela estava a dizer. Há alguns juizes que todos os dias começam tarde as audiências e dão-nas por terminadas bastante mais cedo, com duas vezes mais suspensões das actividades, entretanto.

 

A conversa continuou enquanto desciam e saíam para a neve macia. Owen inclinou a cabeça para trás, para deixar que os flocos leves como penas lhe caíssem no rosto. Nunca tinha visto neve como aquela. Aquilo era uma coisa própria de postais ilustrados e contos de fadas. Pairava no ar, vinda dos limites mais altos do céu, sem vento, voando como se fosse penugem de ganso através de uma luz prateada.

 

Com certeza que no Kansas também há neve, comentou a Marilyn secamente.

 

Mas não como esta. Estendeu a mão para apanhar os flocos macios de neve. Nos Flint Hills temos tempestades. Enormes e fortes tempestades súbitas de neve batida pelo vento. Normalmente toda a gente vai a correr para casa e fica ali a fazer jogos e a comer até passarem.

 

O comer soa-me bem. Holly olhou para o relógio. Saímos tão cedo. Eu podia fazer já a minha peça, voltar à estação de televisão com o meu operador de câmara, e ficava com imenso tempo livre para passarmos uma noite divertida. Alguém quer ir a Chinatown?

 

Eu vou. Marilyn olhou para Owen. Era uma mulher sensata, com rugas vincadas à volta dos olhos e da boca. Já esteve em Chinatown?

 

Não, pensava que...

 

A Marilyn cortou-lhe a palavra. Então não há melhor altura do que esta.

 

Como Owen não concordasse de imediato, a Marilyn franziu as sobrancelhas com ar sério. Owen, você come, não come?

 

Claro.

 

Bem, então esta noite vamos comer comida chinesa. Boa comida chinesa.

 

Na sexta-feira de manhã, o Xerife Bello estava de novo sentado no banco das testemunhas para o contra-interrogatório. Rossner aproximou-se do homem com alguma hesitação e começou a levá-lo através da descrição da cadeia de acontecimentos que conduziram ao facto de Lenore Serian ser acusada. O advogado quase parecia estar intimidado pelo xerife e a presunção de Bello aumentou à medida que o interrogatório progredia.

 

Andou por ali à volta do que já tinha sido dito. Rossner obrigou Bello a voltar atrás e a repetir tudo o que tinha dito a Brown durante o depoimento inicial, e à medida que se ia repetindo, o próprio Bello começou a manifestar abertamente menosprezo pelas perguntas de Rossner.

 

E então, xerife, deixe-me ver se compreendo bem isto... o senhor diz que esteve ali fora até ao romper do dia a tirar os veículos do pátio?

 

Sim.

 

Por que foi tão difícil tirar todos os veículos?

 

Bello deu um suspiro de impaciência. Aquilo ali era um mar de lama. Para começar, o chão estava molhado porque tinha sido uma semana chuvosa; depois havia toda aquela água que foi deitada no incêndio. O pátio era um autêntico pântano... escorregadio em alguns sítios e suficientemente profundo noutros para inundar as nossas botas. Estávamos fartos de empurrar com as mãos os veículos para o chão seco. Tivemos até um carro dos bombeiros atolado.

 

E o senhor também disse que aquilo era uma confusão porque estava escuro e havia gente por todo o lado?

 

Exactamente.

 

Quantos convidados disse que havia em casa dos Serians naquela noite, xerife?

 

Bello pegou no seu bloco de notas e abriu-o e leu directamente dele. Vinte e dois convidados.

 

É isso que tem nos seus registos? Os registos que foram apresentados antes como prova?

 

Exactamente.

 

E tem a certeza de que o número era de vinte e dois?

 

Foi isso que eu disse.

 

Mas não disse que esperou até ao romper do dia até ter retirado todos os veículos da lama e de ter encontrado o corpo e de ter tomado café para reunir os convidados e recolher informações?

 

Sim. Bello mudou de posição na cadeira e houve também uma alteração subtil na sua expressão.

 

Então alguém podia já ter ido embora por essa altura?

 

Sim.

 

Falou com Natalie Raven para ver se tinha os nomes de todos os convidados?

 

Sim, falei. Mas ela disse que não tinha a certeza de quantos tinham lá estado.

 

Então mais alguém... alguém que não teve oportunidade de interrogar... alguém de quem não sabe nada... podia ter lá estado naquela noite?

 

A boca de Bello torceu-se, como se a resposta tivesse um mau sabor. Tudo é possível.

 

Portanto está no reino das possibilidades, que outros pudessem ter estado e tivessem tido acesso ao estúdio de Bram Serian naquela noite?

 

Como eu já disse, tudo é possível.

 

Isso é um sim, xerife?

 

Sim.

 

Rossner fez uma pausa e coçou a cabeça. Então o senhor interrogou aquelas vinte e duas pessoas?

 

Sim.

 

No local?

 

Algumas no local.

 

E algumas mais tarde?

 

- Sim. Depois de a autópsia demonstrar que o falecido tinha sido atingido na cabeça, nessa altura interrogámos minuciosamente todas as pessoas.

- Todos os vinte e dois convidados foram interrogados pormenorizadamente?

 

Bello mostrou alguma inquietação. - Todos menos um, que não conseguimos encontrar.

 

- Não conseguiu encontrar um dos convidados? Uma testemunha que podia ter informações crucíais sobre o que tinha acontecido naquela noite?

- Sim. Um homem chamado James Collier desapareceu antes de o podermos interrogar.

 

- Desapareceu?

 

O queixo de Bello levantou-se e o nariz inchou. - o senhor sabe que ele desapareceu, Rossner. Não fazemos nenhum segredo nem fazemos truques sujos.

 

- Xerife, - advertiu o juiz, - limite as suas respostas às perguntas. Rossner ergueu a cabeça e simulou uma expressão perplexa de inocência. -Agora, quanto ao facto de o senhor e o Chefe Gadding terem encontrado o corpo... o senhor disse que vocês os dois não tinham qualquer suspeita em relação ao fogo naquela altura?

 

- Eu disse que tinha dúvidas, porque o homem era famoso, mas ainda não tinha suspeitas.

 

Rossner consultou um cartão com apontamentos. - o senhor disse que tinha falado com o Chefe Gadding sobre várias coisas, e depois o senhor disse que nós ainda não tínhamos suspeitas... esse nós referia-se a si ou ao chefe?

 

- Eu não posso falar por Gadding, - respondeu Bello rudemente. Tem que trazê-lo aqui e colocar-lhe a pergunta.

 

- Será correcto afirmar, nesse caso, que tudo o que o senhor pode dizer, é que você não tinha quaisquer suspeitas. Está certo?

 

- Certo.

 

- Muito bem... voltemos à chave. - Houve uma interrupção, enquanto a chave era apresentada a Bello.

 

Pode descrever esta chave, por favor, xerife?

 

É apenas uma vulgar chave de latão que se pode encontrar em qualquer armazém de ferragens.

 

- Está a referir-se às chaves de latão em bruto que as lojas de ferragens possuem em grandes quantidades para fazer cópias de chaves para os clientes?

- Sim.

 

- Isto é, então, uma cópia de uma chave, feita por uma loja de ferragens e não uma chave original que tivesse vindo com a fechadura?

 

A cara de Bello ficou intensamente corada, de tal modo que parecia estar adoentado. - Não sei, - disse ele por entre dentes.

 

- Desculpe. Pode falar mais alto, por favor?

 

O xerife parecia estar a diminuir de tamanho. - Não sei se é ou não uma cópia.

 

- Não verificou a chave para determinar se era uma cópia ou uma chave original?


Não.

 

Foi verificada a existência de impressões digitais na chave?

 

Sim.

 

E havia nela algumas impressões identificáveis?

 

Sim. Foi recuperada a impressão de um dedo polegar, mas não tinha qualquer utilidade.

 

De quem era a impressão do polegar, xerife?

 

Minha.

 

Rossner olhou para o tecto por instantes e bateu com o dedo no queixo. Xerife... tinha conhecimento da identidade de Bram Serian na altura em que se deu o incêndio?

 

Com certeza.

 

A identidade dele afectou-o de alguma maneira durante aquelas horas em que esteve no local do incêndio?

 

Parece-me que eu estava um pouco nervoso... e acho que todas as outras pessoas também estavam nervosas... devido à pessoa de quem estávamos a tratar. Aquele artista era famoso e rico e toda a gente desejava que pudéssemos limpar a porcaria e puséssemos tudo em ordem antes que a imprensa nos caísse em cima.

 

Então será correcto afirmar que o senhor estava com pressa de resolver a situação?

 

Sim.

 

Já alguma vez ouviu o provérbio antigo que diz que estar com pressa pode provocar erros... Já ouviu dizer que a pressa é má conselheira?

 

Sim.

 

Acha que foram cometidos erros naquela manhã? Bello baixou os olhos. Não sei.

 

O senhor falou-nos da lama e da luta contra o fogo e do número de pessoas presentes... Com tudo isso, era possível verificar se havia pegadas ou marcas de pneus de carros suspeitos?

 

Bello endireitou-se de repente, agarrando a sua oportunidade de se ilibar de qualquer culpa. Teria sido completamente impossível. O local do crime já estava aniquilado na altura em que eu lá cheguei.

 

Em algum momento, posteriormente, voltou lá e examinou o local?

 

Sim. Após os resultados da autópsia voltámos lá e realizámos uma investigação no terreno.

 

Que tipo de investigação fez?

 

Uma investigação minuciosa. Com a participação de todos os meus homens.

 

Dividiu a área em quadrantes? Foi uma pesquisa em grelha?

 

Não sei bem se estou a perceber o que quer dizer.

 

O senhor sabe qual é a técnica que a lei manda que se use, conhecida por busca em grelha?

 

Bem... Estou familiarizado com esse termo, mas não é alguma coisa... não acho... é aquela com os quadrados, não é?

 

Não podia ter usado essa técnica. Isso é quando uma área é dividida em quadrados e pesquisada quadrado a quadrado; porém, isso não teria sido possível naquele espaço amplo à volta da casa dos Serians.

 

Por que não?

 

Porque aquele espaço não é plano, portanto não podia ser dividido em quadrados.

 

Rossner voltou-se para trás, para a mesa da defesa e passou a mão pela boca para ocultar um sorriso. Alguns dos jurados reviraram os olhos e do fundo da secção da assistência vieram alguns risos abafados. Até o juiz baixou a cabeça e escondeu a cara com as mãos por momentos.

 

Rossner voltou-se de novo para a testemunha e continuou. Mas fez uma busca naquela zona?

 

Sim.

 

Na área do local do crime, que já tinha sido comprometida antes de o senhor ter chegado na manhã do incêndio... correcto?

 

Está correcto, e eu penalizei os meus homens por isso e chamei a atenção do Detective Kilgren para o facto.

 

O Detective Kilgren da polícia estadual que mais tarde participou na investigação?

 

Sim.

 

O que esperava encontrar naquela investigação?

 

Qualquer prova relacionada com a morte.

 

Que tipo de prova?

 

O habitual... pontas de cigarros... marcas de pneus... qualquer coisa.

 

Marcas de pneus, pontas de cigarros e o habitual... repetiu Rossner com incredulidade. Numa área que tinha sido uma confusão de lama e percorrida por cinquenta ou mais pessoas com carros e carrinhas dos bombeiros?

 

Bello limpou a garganta. Faz parte da rotina.

 

E qual era o objectivo dessa pesquisa?

 

Como já disse, era para procurar provas relacionadas com a morte.

 

Mas o senhor acusou Lenore Serian, e com certeza não estava ali à procura de marcas de pneus e pontas de cigarros para usar como prova contra ela.

 

Não.

 

Já tinha testemunhas que a colocavam no local, por isso não precisava de mais provas para isso, não é verdade?

 

Sim. Mas isso foi antes de a acusarmos e ainda não estávamos concentrados nela e andávamos à procura de outro autor do crime.

 

Quer isso dizer que pensava que havia outra pessoa que podia ter feito aquilo?

 

Sim. Era esse o nosso pensamento inicial.

 

Mas mudou de opinião?

 

Sim.

 

O que fez com que mudasse de opinião?

 

Foi um conjunto de coisas... factos que rodeavam a morte e a arguida e o seu marido que nos levaram a seguir naquela direcção.
Foi Natalie Raven que os conduziu naquela direcção?

 

Eu diria que o seu depoimento contribuiu para isso.

 

E estava ansioso por encontrar um bode expiatório, por causa de toda a pressão dos meios de comunicação?

 

Não prestei nenhuma atenção aos meios de comunicação.

 

Mas o senhor disse anteriormente que estava ansioso por evitar que o incomodassem, não disse?

 

Não lhes prestei atenção. Isso não quer dizer que goste de os ver por aí.

 

Será correcto dizer que chegou a Lenore Serian como suspeita só depois de ter saído frustrada qualquer tentativa de encontrar alguma prova no comprometido local da morte e depois de Natalie Raven lhe ter prestado declarações e depois de os meios de comunicação o terem pressionado... será correcto dizer isso?

 

Bello cruzou os braços e olhou para Rossner com ar irritado. Nada disso é correcto.

 

Xerife Bello, repreendeu-o o juiz com brandura.

- Desculpe senhor Dr. Juiz.

 

Agora, continuou Rossner, sim ou não? Chegou a Lenore Serian como sua arguida apenas depois de não ter conseguido qualquer prova no local e depois de Natalie Raven o ter arengado e depois de os meios de comunicação social o terem pressionado?

 

Bello mordeu os lábios e os seus olhos diminuíram. Por momentos parecia que não ia responder. Depois, com um pesado suspiro, disse, Sim.

 

Já não se punha qualquer questão quanto a Owen ir almoçar com a Holly e companhia. Simplesmente foi. Hoje acabaram por se encontrar de novo no café cheio de fumo. Deslizou para o recanto, sentou-se e seguiu atentamente a discussão que se seguiu acerca do incêndio.

 

Owen estava agora tão ambientado às pessoas que estavam à sua volta e à conversa agressiva e sem restrições à hora do almoço, que reparava em mais pormenores individuais do que antes. Reparou que o Ray olhava muitas vezes para a Holly e a Holly não prestava qualquer atenção ao Ray. Reparou que as opiniões da Pat pareciam chamar toda a atenção para si e que a Sharon mudava com frequência de opinião e que o sarcasmo mordaz da Marilyn às vezes se aproximava muito da crueldade, mas ela sempre se detinha antes de derramar sangue. E notou que a Holly era a estrela deles. Todos a adoravam e em troca ela obsequiava-os com sorrisos deslumbrantes e prendava-os em tudo o que faziam com uma aura de galhofa.

 

Toda a gente estava entusiasmada com o interrogatório de Rossner ao Xerife Bello. Todos eles tinham percebido que Rossner pretendia levantar dúvidas sobre se a morte tinha de facto resultado de um homicídio e não de um acidente, mas com este interrogatório Rossner tinha aberto a possibilidade de homicídio por um criminoso desconhecido. As opiniões dos repórteres sobre isto eram muitas e variadas. Foram apresentados argumentos nas mais variadas direcções. Então a Marilyn fez um comentário que os fez parar a todos. Rossner apresentou Bello como um parvo e fez a sua investigação parecer uma comédia de arlequim, mas isso não quer dizer que Lenore Serian esteja inocente. Com aquilo-todos eles se voltaram imediatamente para a suposição de culpa de Lenore.

 

Depois do almoço o promotor público chamou o magistrado John Bagley, que anunciou orgulhosamente que também era dono do Daisy Septic Cleaning Service e continuou a fazer um pouco de publicidade comercial para o seu negócio. Bagley relatou pormenorizadamente como tinha sido chamado e como tinha inspeccionado a recuperação do corpo. No fim do interrogatório de Brown, Owen pensou que o depoimento tinha sido tão claro e simples que Rossner talvez se abstivesse de fazer o contra-interrogatório.

 

Mas Rossner levantou-se sem pressa, e como que por acaso, conduziu Bagley à repetição do relato da sua actuação.

 

Aquilo deve ter sido uma grande confusão, heim, todos aqueles detritos e os charcos de água? perguntou Rossner, assumindo de repente um ar solene e complacente.

 

Foi horrível. E eu nem sequer tinha botas.

 

Pode dizer alguma coisa sobre o que havia à volta do corpo?

 

Não. Estava tudo destruído e o que tinha ficado foi remexido e vasculhado por todos nós.

 

Pode dizer exactamente como é que o corpo tinha caído? Onde estava a cabeça, por exemplo?

 

Oh, sim. Com certeza.

 

Paul Jacowitz levantou-se e entregou a Rossner um diagrama do tamanho de um póster com o esquema do soalho do estúdio de Bram Serian. Rossner levou o póster ao juiz que o examinou e em seguida procedeu-se ao processo formal de numeração do documento apresentado em juízo. Depois disso Rossner exibiu-o de maneira que o júri pudesse vê-lo e entregou à testemunha uma pequena gravura negra que representava o corpo, enroscado numa posição fetal, mas com a cabeça perfeitamente identificável.

 

Isto tem cola na parte de trás, senhor Bagley. Pode, por favor, inclinar-se e colar isso aqui, para mostrar exactamente em que posição se encontrava o corpo?

 

Bagley colocou cuidadosamente a gravura no diagrama do soalho. Um jurado deu um espirro forte e tanto Rossner como o juiz disseram santinho, um a seguir ao outro.

 

Rossner observou a gravura negra que Bagley tinha colocado no póster. Pode descrever-nos, por favor, senhor Bagley, onde se encontra a cabeça em relação aos elementos que sobreviveram ao incêndio e que eram identificáveis?

 

Com certeza... Bagley examinou o diagrama por momentos. A cabeça estava a cerca de trinta centímetros dos tijolos aqui.

 

A plataforma elevada de tijolo onde assentava o fogão?

 


Sim.

 

Conseguia ver claramente a plataforma de tijolo e o fogão?

 

Sim. Havia algumas vigas queimadas em cima dele, mas mesmo assim conseguia vê-la perfeitamente.

 

Pode descrevê-la para nós?

 

Era perfeitamente vulgar. Um fogão de aquecimento grande, de luxo, de aspecto antigo, instalado em cima de uma plataforma que tinha a altura de dois tijolos e cerca de dois metros de diâmetro.

 

E Bram Serian estava deitado com a cabeça aqui? Rossner apontou para o diagrama.

 

Sim.

 

Quando um corpo se queima desta maneira, é normal enroscar-se numa posição fetal?

 

É muito frequente.

 

Então o corpo podia ter caído e ter ficado estendido direito mas depois enroscou-se quando foi queimado pelo fogo?

 

Sim. É isso mesmo.

 

E se estava estendido e direito, tendo em consideração o peso de Bram Serian, onde é que ficaria a cabeça?

 

Bagley observou o póster, depois olhou para Rossner, como se de repente tivesse compreendido alguma coisa. A cabeça ficaria mesmo à beira dos tijolos.

 

Mesmo à beira da plataforma de tijolos, com a altura de dois tijolos?

 

Sim.

 

- Uma aresta perigosa para se bater com a cabeça?

 

Com certeza. Muito perigosa.

 

Rossner fez uma pausa para permitir às pessoas assimilarem as implicações daquela afirmação. Os jurados estavam a olhar com toda a atenção. Owen voltou-se para ver se a Holly ou a Pat ou a Marilyn estavam tão surpreendidos como ele. Todas as mulheres estavam a escrevinhar a toda a velocidade nos seus blocos de apontamentos.

 

Imediatamente, Brown levantou-se para um novo interrogatório e conseguiu remediar a situação, levando o magistrado a fazer afirmações que faziam com que a teoria de a cabeça bater nos tijolos parecesse ridícula. Mas mesmo assim ainda parecia a Owen que Rossner tinha marcado pontos.

 

O Chefe Peter Gadding foi chamado a seguir. Era um homem de poucas palavras, e Brown teve de arrancar à força o seu testemunho. A descrição feita por ele, daquela noite, não tinha adjectivos de embelezamento de nenhuma espécie. Os pensamentos de Owen divagavam. Observou o lado de trás da cabeça de Lenore Serian. Em que pensaria ela à noite quando estava afastada do julgamento? Sentava-se a ver televisão ou enroscava-se em frente da lareira a ler um livro, como se fosse mais uma noite normal?

 

E então, Chefe Gadding, disse Brown, o que aconteceu quando o Xerife Bello encontrou o objecto de metal que mais tarde foi identificado como a cabeça de um machado?

 

O xerife segurou-o nas mãos e disse, “Acho que encontrei a cabeça de um machado. O nosso cadáver deve ter tentado fazer de bombeiro”.

 

E qual foi a sua reacção?

 

Eu disse, põe isso no chão, Vinrde, estás a destruir provas”.

 

Brown pareceu estar um pouco nervoso mas recompôs-se rapidamente. Nessa altura tinha algumas suspeitas de o fogo não ser acidental?

 

Sim. Foi por isso que chamei Kelvin Mullin, o inspector de incêndios. Brown deu por terminado o seu interrogatório e Rossner colocou-se em posição. O advogado de defesa foi respeitoso para com o Chefe Gadding, sem ser deferente. Depois de colocar à testemunha algumas questões gerais sobre o incêndio, perguntou-lhe, Comunicou as suas suspeitas quanto ao incêndio ao Xerife Bello?

 

Sim.

 

E qual foi a reacção dele?

 

Exactamente ou devo parafrasear?

 

Tão exactamente quanto lhe for possível.

 

Bello disse, “Então o artista cozinhou-se a si próprio. Ele não é um dos nossos. Vamos evitar provocar mais confusão do que o necessário”.

 

Ficou chocado com essa afirmação por parte do xerife?

 

Não.

 

Por que não?

 

Já o conhecia há muito tempo.

 

Rossner esperou que os risos abrandassem. Vamos voltar a nossa atenção mais uma vez para a cabeça do machado. Quando avisou o xerife de que estava a danificar provas, qual foi a reacção dele?

 

Que a morte foi um acidente e não eram necessárias quaisquer provas.

 

Portanto, na manhã do incêndio, quando ainda podiam existir provas que foram posteriormente perdidas ou destruídas, como consideraria a atitude do xerife?

 

Ele mostrou-se desinteressado.

 

Logo que o Chefe Gadding saiu, a sessão foi encerrada até segunda-feira de manhã.

 

Holly voltou-se e dardejou um sorriso a Owen, e ele percebeu que ela devia ter alguma grande proposta para a noite e, sem se permitir reconsiderar, murmurou as suas desculpas e apressou-se a sair. Subitamente sentiu necessidade de se ir embora.

 

Voltou de comboio para Manhattan, sentado sozinho a olhar para fora, para a paisagem de inverno. De vez em quando surgiam breves vistas do rio no percurso do comboio e ele estava sempre à espera delas. O rio tinha o mesmo aspecto. Blocos de gelo flutuavam na água cinzenta que corria lentamente, tal como da primeira vez que fez a viagem. Tinha sido apenas quatro dias antes? Parecia que tinha sido há meses. Ou ainda há mais tempo.

 

Sentiu um sentimento súbito de angústia, de saudades de casa. Não pela casa que tinha deixado recentemente, mas pela casa da sua infância, quando toda a sua família estava intacta e em segurança, e o resto do mundo existia apenas entre as capas dos livros que lia. Fechando os olhos, conjurou o irmão, de ombros largos e sorridente, enquanto olhava para um Owen mais novo.

 

E quase com a mesma facilidade conseguiu imaginar a mãe, com os braços cheios de pó de farinha enquanto trabalhava na mesa da cozinha, dirigindolhe um sorriso suave e triste enquanto dizia, Tens de aprender a não fazer tantas perguntas, Owen.

 

As velhas fotografias estavam mesmo ali à sua frente, mas quando tentava apagar o passado e substituí-lo pelo presente, tinha grande dificuldade. Era difícil imaginar as irmãs, o pai ou mesmo Michelle Wheeler tal como eram agora, apesar de ter estado com elas até uma semana antes. Os rostos da sua família eram imprecisos. E a Mike, a mulher com quem tinha feito amor e com quem tinha feito planos... mal conseguia visualizar uma imagem do seu rosto.

 

Por que era o passado, que ele sempre tentara evitar, de repente muito mais imediato e poderoso do que o presente?

 

Abriu o seu bloco de notas, escreveu Mike, depois sorriu, porque não lhe tinha escrito nada desde o tempo da faculdade. Quando ainda a considerava como uma miúda da vizinhança. Rasgou aquela folha e começou de novo.

 

Querida Mike.

 

Tenho saudades tuas. Tenho saudades da tua força calma e do teu sorriso e da visão que tens do nosso futuro. Tenho saudades de te abraçar.

 

Rasgou a folha e amarrotou-a numa bola compacta. A Mike ia detestar uma carta daquelas. Ela não gostava de sentimentalismos de nenhuma espécie. Mesmo a poesia. Não suportava poesia.

 

Começou de novo. Escreveu sobre a neve macia e os dias sem vento e o terreno agrícola que tinha visto do avião. Escreveu-lhe um pouco sobre a cidade e um pouco sobre o julgamento e sobre o facto de conhecer tantos repórteres. Depois concluiu com amor, dizendo que esperava vê-la dentro em breve.

 

Dobrou a carta e meteu-a dentro do bolso do peito do casaco para a pôr no correio mais tarde. Fê-lo sentir-se melhor, tê-la ali junto ao coração, como um talismã... um laço, uma ligação tangível à sua vida real. Tinha de se agarrar àquilo. Tinha de se agarrar àquilo para não se perder no caminho de regresso a casa. Porque esta não era a sua vida. Este julgamento e esta cidade situavam-se numa outra dimensão. Esta era a realidade da toca do coelho. Um sonho da realidade vista ao espelho, que em breve ia desaparecer.

 

Abriu de novo o bloco de notas.

 

Queridas Ellen e Meggie. Olhou para aquilo e mudou-o para se ler, Queridos Ellen, Meggie e Clancy. Sempre chamara o pai pelo nome, mas ao vê-lo escrito ali parecia estranho. E Rusty Campbell? Deveria incluir o Rusty? Por fim começou uma nova folha e escreveu simplesmente, Olá a todos. Depois, no caminho para a Grand Central procurou pensar em alguma coisa para escrever.

 

No sábado de manhã Owen estava desorientado. Por momentos, ao acordar, pensou que a viagem para Nova Iorque não tinha passado de um longo sonho fulgurante.

 

O relógio marcava 7:55. Tinha ficado a trabalhar até tarde, a transcrever as suas notas e a trabalhar na estrutura da proposta e tinha decidido permitir-se o luxo de dormir até tarde. Mas após anos a levantar-se com o sol, não conseguia ficar na cama para além das 7:55.

 

Começou por fazer café e sentou-se em frente do trabalho que tinha abandonado na noite anterior. Havia qualquer coisa que não estava bem. A proposta não tinha vida, faltava-lhe alma. Apoiou o cotovelo em cima da mesa junto à máquina de escrever e olhou para a fotografia de Lenore Serian que tinha recortado do jornal e afixado na parede.

 

Se ele fosse um jurado e tivesse que votar naquele dia... Tentou imaginarse a julgá-la. Ela seria inocente ou culpada? Ou integrar-se-ia em alguma categoria intermédia inocente por motivos de insanidade provavelmente, ou inocente devido a circunstâncias atenuantes... Talvez o golpe na cabeça de Serian tivesse realmente sido um acidente e depois ela tivesse entrado em pânico e tentado encobri-lo com o fogo. Ou talvez fosse mesmo culpada. Como Spencer Brown e o gabinete do Ministério Público e a polícia achavam que era.

 

Ficou a olhar para a imagem granulada do jornal. As linhas marcadas e as sombras, os ossos angulosos do queixo e os olhos escuros em forma de amêndoa. Olhar para ela era como olhar para um rio de água escura. Quase conseguia sentir a turbulência e as correntes inferiores sob a aparência exterior.

 

O café estava pronto e bebeu-o com prazer, a pensar no dia que se estendia à sua frente. Primeiro, tinha de fazer algum exercício. Uma semana inteira sem suar e sem fazer esforço tinha feito com que se sentisse como que enjaulado. Tinha de sair dali. Dar uns saltos. Libertar-se de alguma maneira. E dePOÍS tinha de fazer uma proposta melhor. Mas como?

 

Talvez precisasse de aprofundar a sua pesquisa sobre a maneira de ser de Lenore Serian e de a compreender... estabelecer empatia com ela... conhecê-la melhor como ser humano em carne e osso e não como a mitológica Viúva

 

Negra de que a imprensa tanto gostava. Tentou imaginar Lenore como a mãe ou a irmã de alguém. Como mãe não deu resultado e como irmã também era difícil. Ela parecia absolutamente distanciada de laços tão banais.

 

Irmã.

 

Com alguma relutância pegou na carta que estava na sua caixa do correio quando chegou a casa a noite anterior. Era da Ellen.

 

Querido Owen,

 

Espero que te encontres bem e que não tenhas muito trabalho, embora eu esteja convencida de que estás a trabalhar muito. Como é o julgamento de um homicídio? Tens de ficar ali sentado o dia inteiro, dia após dia? Devias tirar algum tempo para ti e ir ver coisas, pois seria um crime estares num lugar tão famoso e não ires ver as coisas mais importantes. Quem me dera estar aí contigo. Havia de te arrastar até ao Empire State Building e a Ellis Island e à Estátua da Liberdade e por aí fora.

 

As coisas por aqui não vão bem, desde que te foste embora. Mas não te preocupes, não tem nada a ver com o gado, é só comigo. A Meggie faz-me sentir como se aqui já não houvesse lugar para mim, e definitivamente já não há lugar para mim como esposa, por isso não sei mais onde é o meu lugar.

 

Enquanto estavas aqui permanentemente a acalmar as coisas, eu não me entregava muito a estes pensamentos, mas agora penso muito nisso. Estou a tentar lembrar-me do que queria fazer quando andava na escola secundária (para além de ser chefe de claque e de me casar com o Danny). Lembras-te? Acho que se pudesse voltar atrás até àquele tempo da minha vida, talvez pudesse começar de novo. Às vezes tenho medo de acabar como o Terry.

 

Escreve depressa,

 

(Nada de chamadas de longa distância!)

 

Um abraço, Ellen

 

Owen ficou preocupado com a carta. Acabar como o Terry? Até que ponto fazia intencionalmente aquela referência ao seu irmão falecido?

 

Gostava de lhe responder imediatamente com algum conselho sensato que a acalmasse, mas não conseguia pensar no que havia de lhe dizer. E ele nunca soubera o que ela queria quando andava na escola secundária. Conseguia lembrar-se bem daquele tempo, mas não sabia dizer o que ela queria. Ela tinha sido uma daquelas crianças muito activas e populares e ao mesmo tempo tinha conseguido ter boas notas. Porém, não conseguia estar sem arranjar problemas. As suas piadas irreverentes e a sua atitude em relação à autoridade mantinham-na num estado de constante castigo.

 

Owen receava por ela naquele tempo. Era apenas três anos mais velha do que ele, mas a diferença entre um e o outro parecia abismal. Ele acreditava que ela estava destinada a coisas grandiosas, que havia de explodir para o mundo e fazer qualquer coisa importante quando chegasse à idade apropriada. Mas depois, quando fez dezoito anos naquele verão que se seguiu à conclusão do curso do ensino secundário, fugiu de casa com Danny Langmore e mudou-se para o Texas.

 

No princípio parecia ser feliz. O Danny encontrara um trabalho muito bem pago nos campos petrolíferos e Ellen estava entusiasmada por ter arranjado um emprego em part-time numa grande loja muito selectiva. Escrevia longas cartas efusivas sobre os seus clientes endinheirados e o guarda-roupa que ela estava a fazer com os descontos generosos que a loja fazia aos empregados. Escrevia sobre os seus jantares em restaurantes e bailes e festas onde actuavam cantores famosos de música country.

 

Nos primeiros dois Natais após o seu casamento, veio de avião para casa sozinha e participou na decoração de bolos e nos torneios de dominó e de críquete com o seu antigo entusiasmo. No terceiro Natal estava a recuperar de um aborto espontâneo e não estava em condições de poder viajar. Depois disso as suas longas cartas semanais degeneraram em bilhetes mensais que eram moderados e vagos. Não tornou a vir a casa até ao funeral do Terry.

 

Na noite anterior ao funeral, Owen foi buscá-la ao aeroporto. Procurou-a no meio da torrente de passageiros que saíam, na expectativa de ver a irmã irrequieta e cheia de energia que tinha visto da última vez, mas a mulher que saiu do avião era uma imitação ridícula, hesitante, nervosa e mal arranjada da rapariga que recordava. Ele tinha apenas vinte anos naquela altura e estava devastado pela perda do irmão e tinha-se conformado, pensando que a mudança terrível da Ellen fosse consequência do seu sofrimento profundo pela morte do irmão.

 

A sua próxima visita a casa foi para ir ao funeral da mãe. Ela e o Danny foram juntos de carro. Mais ninguém reparou naquilo. Mas daquela vez Owen não pôde evitar reparar nas mudanças na sua irmã, nem acreditar que a dor fosse a única responsável. Ela fazia-lhe lembrar um cão que tivesse sido vergastado tantas vezes que se agachava a cada som que ouvia.

 

Tentou falar com ela. Até a levou a sair uma noite, numa tentativa de recriar as noites longas e quentes da sua infância, quando eles se esgueiravam das suas camas e se retiravam silenciosamente para as traseiras do celeiro a sufocar com cigarros roubados e a conversar até ao romper do dia. Nada deu resultado. Ela estava fechada para ele. E a sua preocupação apenas parecia assustá-la.

 

Um mês mais tarde Owen estava à espera do pai e da Meggie que voltavam de uma exibição de fogo de artifício do dia Quatro de Julho na cidade, quando o telefone tocou. A sua voz era tão rouca que ele teve de fazer esforço para tentar compreendê-la. Num monólogo longo e inexpressivo, ela disselhe que o Danny tinha tentado estrangulá-la na noite anterior e a polícia tinha sido chamada e o Danny tinha fugido e ela sabia que, se continuasse ali, ele Poderia eventualmente matá-la e a polícia não ia impedi-lo e perguntava se a deixavam vir imediatamente para casa.

 

Owen deixou um recado a dizer apenas que tinha ido buscar a Ellen e a seguir meteu-se na carrinha e partiu para o Texas. Conduziu durante catorze horas seguidas, tendo chegado ao apartamento duplex da irmã em Houston mesmo antes do meio-dia do dia seguinte. Ellen estava sentada no sofá a olhar distraidamente para a televisão quando ele entrou pela porta que se encontrava aberta. O pescoço dela estava marcado com manchas escuras e tinha um olho inchado e roxo.

 

Tens as malas prontas? perguntou Owen. O seu cansaço por ter conduzido durante toda a noite foi imediatamente substituído por uma raiva profunda, de revolver as entranhas, provocada pelas marcas de violência na sua irmã. Ela abanou a cabeça. Tentei telefonar-te de novo mas ninguém atendeu.

 

O seu rosto parecia estar calmo, mas as mãos tremiam no seu regaço, como se tivessem vontade própria. Não devia ter-te arrastado para isto. É tudo culpa minha. Tenho de ficar aqui e tentar resolver a situação com o Danny.

 

Ellen... o Danny pode ser teu marido, mas ele não tem o direito de te magoar... nunca... por nenhuma razão. Não é culpa tua e não tens nada que ficar aqui.

 

Ela olhou para ele. Tinha uma expressão semelhante à de uma criança cheia de medo.

 

Vamos empacotar as tuas coisas, Ellen. Podes vir para casa e descansar por algum tempo. Depois podes decidir o que fazer em relação ao Danny.

 

Mas, e se o Danny chega e me apanha a fazer as malas? Vai ficar furioso. Eu nem posso ir à mercearia sem a sua autorização.

 

Owen não deixou mostrar a sua reacção. Se o Danny chegar, eu falo com ele. Não te preocupes.

 

Juntos encheram as malas e caixas com os seus pertences. Não eram muitas coisas. Ela disse que o Danny às vezes deitava fora as suas coisas para a castigar, em vez de lhe bater. A única peça de mobília que queria levar era uma cadeira de baloiço que tinha sido da avó. Tinha sido partida e depois colada toscamente. Owen não lhe perguntou o que tinha acontecido.

 

Estava a carregar a parte de trás da pick-up quando o Danny chegou num vistoso carro desportivo de cor vermelha. Danny Langmore era um homem, bonito, elegante e em plena forma, devido ao esforço físico, bronzeado e louro e vestido com roupa cara. Subiu pelo caminho de acesso, trazendo um ramo de flores e uma caixa de bombons, como se fosse um autêntico pretendente.

 

Olá, Owen! Mas que surpresa. Eh pá, nunca pensei que conseguisses vir até à nossa casa. Owen conteve a raiva violenta que sentia pelo Danny, colocou uma mala na carrinha e voltou-se para enfrentar o cunhado. Vou levar a Ellen para casa, disse ele. A cara do Danny alterou-se. Oh, vá lá. Só porque tivemos uma pequena briga? Como pudeste fazer-lhe aquilo, Danny? Como foste capaz de a magoar daquela maneira? Raios, ela tem estado a encher-te a cabeça de tretas. Eu nunca lhe faria mal.

 

Então onde é que ela arranjou aquelas nódoas?

 

O Danny riu-se cheio de confiança. Tu conheces a Ellen... ela é desajeitada como um sapo com três pernas... anda sempre a cair ou a tropeçar em alguma coisa.

 

Owen voltou as costas ao Danny e entrou em casa. Está aqui o Danny, avisou a irmã num tom calmo. Já acabaste de empacotar tudo?

 

Ela fez um aceno afirmativo com a cabeça. A sua expressão era de autêntico terror.

 

Continua e fecha-te num quarto qualquer que tenha chave. Eu acabo de carregar as coisas e a seguir saímos daqui. Está bem?

 

Ela desapareceu para a casa de banho no preciso momento em que o Danny entrou.

 

Querida, chamou o Danny em frente da porta fechada. Tu não te vais mesmo embora, pois não? Trouxe-te umas flores e chocolate do See de que tu tanto gostas. Vá lá querida... Sai daí. Estou arrependido por termos tido aquela briga. Relanceou um olhar para Owen. Ellie, tu sabes que tudo o que aconteceu foi um acidente. Sabes que eu nunca te magoaria de propósito.

 

Owen levou para fora as duas últimas caixas, meteu-as à força na carrinha e apressou-se a voltar para casa. O Danny estava a tentar abrir a porta da casa de banho aos pontapés, mas parou logo que viu Owen.

 

Raios, disse o Danny timidamente. Estas mulheres sabem mesmo como pôr um gajo fora de si, não sabem?

 

Ellen, está tudo pronto. Podemos partir, disse Owen.

 

Ela abriu um bocadinho a porta, viu Owen e então saiu para o átrio da entrada.

 

Vai para o carro, disse Owen. Falta-me levar estas duas coisas. Ellen passou pelo Danny sem notar o olhar furioso do marido. O Danny esperou um pouco, depois seguiu atrás dela. Owen pegou nos dois volumes, um saco de pele e uma pequena mala. Ambos pareciam estar cheios de pedras. Quando chegou ao fundo do corredor, conseguiu ver, através da porta da frente que estava aberta, o local onde ela estava a subir para a cabina da pick-up. O Danny estava todo atrapalhado a procurar qualquer coisa no armário dos casacos que estava ao lado da porta da entrada. Owen começou a atravessar a sala. Depois o Danny saiu do armário e pôs-se à porta com uma espingarda, e quando estava a levantar a espingarda, Owen precipitou-se para a frente, tomou balanço e atirou com o saco à cabeça do Danny que se estatelou no chão de cimento.

 

Aconteceu tudo tão depressa que Owen teve dificuldade em aceitar que tinha acontecido de facto, embora soubesse que era verdade e às vezes tivesse pesadelos em que não acertava com o saco na cabeça do Danny e o Danny disparava aquela arma. Mas quando estava acordado e consciente, recusava-se sequer a aceitar que a arma estivesse carregada. O Danny estava apenas a tentar assustar a Ellen. Era só isso. E Owen às vezes sentia remorsos por lhe ter dado uma pancada tão violenta com aquele saco.

 

Talvez Lenore Serian tivesse sido apanhada numa situação semelhante aquela. Em ambas nenhum dos dois tinha intenção de magoar o outro, mas as coisas correram mal. Talvez ela estivesse apavorada como a Ellen. Talvez ela tivesse sido maltratada como a Ellen? Não tinha lido nada que indicasse que Bram Serian fosse capaz de um tal comportamento mas, por outro lado, a sua experiência com Danny Langmore tinha ensinado Owen a não dar importância às aparências. Com o Danny tinha aprendido que se pode conhecer uma pessoa, trabalhar ao seu lado, conhecer até a sua família e no entanto não fazer ideia do que essa pessoa seja capaz de fazer, ou de como se comporte nas relações íntimas.

 

De repente Owen saltou da cadeira, estimulado com renovada energia. Era daquilo que ele precisava! Compreender Bram Serian. Descobrir mais coisas a seu respeito. Não sobre a sua carreira, ou a sua arte, ou a sua casa misteriosa, mas sobre ele, o homem. Que género de pessoa tinha sido Serian? O que o tinha impulsionado? O que o teria inspirado ou emocionado? Algures devia haver respostas. Ou pelo menos, indícios. Estava ali a chave para ele fazer uma proposta com vida tinha de dar vida a Bram Serian.

 

A enorme biblioteca central de pesquisa na Quinta Avenida era outro edifício de fazer uma pessoa ficar maravilhada. Owen subiu os degraus de pedra maciça e passou pela esplêndida entrada com várias colunas erguidas com magnificência e tantalizadas por pensamentos da grande riqueza de informação que um lugar como aquele tem para oferecer. Pegou numa brochura e passou uma vista de olhos pela lista de colecções e exposições. Depois foi pela escadaria de mármore de forma arredondada e subiu três pisos, para as principais áreas de leitura.

 

Caminhou pelas salas majestosas, respirando os odores da madeira antiga e dos livros velhos e da intensa humanidade, que lhe enchiam os olhos com a beleza e o alcance e a promessa daquele lugar e a seguir deu início à sua pesquisa. Dentro de um templo venerável da palavra impressa como aquele, havia de encontrar Bram Serian, o homem por detrás do artista, e havia de ver tudo com mais clareza. Havia de ter um ponto de convergência. E a tragédia assumiria uma dimensão mais humana.

 

As horas passaram. Trabalhou com catálogos e monitores de computador. Rabiscou notas nos seus blocos de apontamentos. Mas não encontrou quase nenhuma informação nova. Se alguma coisa encontrou, foram novos quebra cabeças.

 

Desceu as escadas e foi para a assombrosa sala dos periódicos actuais, mas também ali não conseguiu obter melhores resultados. Não lhe parecia possível que uma celebridade tão excêntrica como era Bram Serian tivesse escapado a dissecação por parte da imprensa no decorrer da sua carreira, mas a verdade é que tinha. Estava ali tudo sobre a sua versatilidade artística e as suas pinturas cheias de cólera e de tormento, sobre a sua casa e a sua influência nos outros artistas, mas pouco sobre o homem real. Ao longo dos mais de vinte anos em que o nome de Bram Serian tinha sido merecedor de reportagens, tinham sido mencionadas cinco datas diferentes de nascimento e uma variedade de locais de nascimento imaginários. Uma criação de carneiros no interior da Austrália, um rancho antigo de criação de gado em Montana, um acampamento de abate de árvores no Noroeste, a sede de uma empresa de criação de gado para rodeos no Texas e uma cabana nas regiões selvagens do Alaska. Owen achava provável que o próprio Serian tivesse alimentado os rumores e as reportagens erróneas sobre a sua história, e se assim fosse, ou o artista tinha andado a divertir-se com a invenção de uma autêntica anedota gigante ou tinha sido apanhado nas suas próprias fantasias. Ou então tinha andado deliberadamente a ocultar a verdade. Não havia indicação de que algum daqueles factos fosse correcto. E os diferentes obituários que tinham aparecido depois da sua morte eram apenas uma nova versão da informação antiga.

 

Owen tirou os óculos de leitura e encostou-se para trás na cadeira para esticar as articulações. Tinha chegado e passado a hora do almoço e esse facto estava a fazer o registo no seu estômago vazio, por isso saiu para o exterior, para um dia maravilhosamente temperado do fim de Fevereiro, para ir comprar um cachorro quente a um vendedor ambulante. A Quinta Avenida fervilhava com o tráfego de Sábado. Juntou-se à multidão divertida que estava sentada nos degraus de pedra maciça a comer e a observar.

 

Os seus pensamentos vagueavam. Imaginava como seria viver numa cidade como aquela e ter acesso a todas as bibliotecas e museus e divertimentos. Viver diariamente no meio de tanto drama humano. Absorver a energia e a velocidade e a agressividade que pairava constantemente no ar.

 

Depois tentou imaginar-se sentado ao lado de Bram Serian. O que teria Serian para dizer sobre a vida em Manhattan? O que diria ele sobre a pesquisa que Owen andava a fazer? Ficaria aborrecido ou divertido com os esforços de Owen?

 

Se alguém soubesse a verdade sobre Bram Serian, seria provavelmente a viúva. Mas mesmo que Lenore Serian não fosse tão solitária, ele não podia aproximar-se de uma mulher que estava a lutar pela própria vida.

 

Owen voltou para dentro. Depois de ponderar as suas opções, dirigiu-se para a secção mais especializada em arte, desencorajado mas mesmo assim relutante em aceitar que uma biblioteca tão vasta não tivesse o que ele precisava de saber.

 

Os periódicos na colecção de arte continham uma lista de registos sobre Serian. Owen leu-as e tomou apontamentos e fez fotocópias. Depois, com a ajuda de um bibliotecário bem informado, conseguiu passar em revista o material genérico sobre o mundo da arte dos anos setenta e oitenta, esperando encontrar referências a Serian, assim como obter uma perspectiva do seu meio.

 

Quando terminou, ficou a saber que a arte contemporânea estava dividida por regiões, assim como por teorias. Ficou a saber que, para além dos estilos de arte, havia estilos de exposição e de venda de arte. Até havia estilos de discussão sobre a arte. Ficou a saber o que Serian pensava do trabalho de outros artistas e do rumo da arte e de vários conservadores de museus e críticos e proprietários de galerias. Tomou nota de uma lista de livros de referência para comprar e uma lista de museus e galerias para visitar. Tomou nota dos nomes de todas as pessoas no mundo da arte que tinham aparecido na vida de Serian. Mas apesar de todos os blocos de apontamentos que tinha enchido e das pastas que tinha atestado de fotocópias, a sua fonte de informação ainda estava a escapar-lhe. Ainda não tinha adquirido um bom conhecimento do homem que tinha sido Bram Serian. As respostas não podiam ser encontradas no material da imprensa.

 

Com alguma relutância, Owen perguntou onde eram os telefones de moedas da biblioteca. Nunca gostara de tratar de assuntos pelo telefone e certamente nunca tinha telefonado a pessoas completamente estranhas para lhes fazer pedidos, para lhe dispensarem algum do seu tempo, mas não tinha outras alternativas. Tinha de falar com os colegas e os amigos de Serian. Depois de procurar na lista telefónica, Owen começou a marcar os números. A tarefa não se tornava mais fácil à medida que prosseguia. Havia linhas desligadas e linhas em que o telefone tocava mas ninguém atendia. Praguejou enquanto desligava o telefone. Mas quando tinha acabado, tinha algumas marcações consistentes de entrevistas para aquela mesma noite.

 

Saiu da biblioteca. O sol já ia baixo no céu, mas a temperatura do ar ainda estava agradável. Ficou parado ao cimo dos degraus de pedra, flanqueados pelos enormes leões e respirou fundo, enquanto olhava para o espaço extenso da Quinta Avenida e para o passeio movimentado por baixo dele. Sentiu a mesma sensação de tranquilidade e bem-estar que às vezes se apoderava dele quando estava a olhar para baixo do cimo de um outeiro ventoso dos Flint Hills. O que o fez sorrir, porque parecia quase perverso que dois polos opostos pudessem provocar nele a mesma sensação.

 

Um sussurro aterrador começou lá no fundo do seu íntimo e enquanto permanecia ali a olhar para baixo, o sussurro ia aumentando. Ele seria o primeiro a capturar Bram Serian na imprensa. Este livro não seria apenas sobre a morte de Serian ia esclarecer o mistério da sua vida.

 

Pensou numa coisa que tinha lido e copiado para o seu caderno de exercícios muitos anos atrás. Uma coisa de Rilke. Aquilo a que chamamos destino não vem para nós do exterior: parte do nosso interior. E sentiu como aquilo era verdade, sentiu que ele tinha estado à espera disto, que tinha havido uma corda invisível a puxá-lo para este livro e este homem e que de alguma maneira Bram Serian tinha estado à espera dele.

 

Owen chegou cedo para a sua entrevista no sábado à noite e ficou à espera no passeio frio durante quinze minutos antes de entrar. À entrada do edifício estava um porteiro vestido de uniforme e uma grande tabuleta onde se lia, TODOS OS HÓSPEDES DEVEM SER ANUNCIADOS. Deu o seu nome ao porteiro e esperou. Este era o primeiro edifício com serviço de porteiro em que alguma vez tinha estado. Pior, era a primeira entrevista que ele já alguma vez tinha conduzido. Tinha esperança de que o nervosismo e a falta de experiência não fossem demasiado evidentes e estava preocupado que Hillyer pudesse não colaborar, se percebesse que estava a lidar com um amador.

 

Gregory Hillyer tinha sido um artista de nível médio dos anos sessenta e tinha sido professor na lendária Sociedade dos Estudantes de Belas-Artes na Rua 57, em Manhattan. Hillyer tinha sido o mentor de quem Bram Serian mais se tinha aproximado.

 

Finalmente, o porteiro fez-lhe sinal com a cabeça e ele subiu num elevador estreito. Quando as portas se abriram, Owen viu um homem muito velho a espreitar à porta de um apartamento ao fundo do corredor. É o senhor Hillyer? perguntou Owen. O homem confirmou com uma reacção brusca.

 

Gregory Hillyer era da cor do velho pergaminho. Os seus olhos eram remelosos e as suas mãos estavam deformadas. Estava vestido com um pijama de flanela amarelo sob um sobretudo castanho de lã escocesa. Mas, apesar de toda a sua aparência frágil, tinha um comportamento rude e falou com uma voz firme ao mandar Owen sentar-se.

 

Então você está a escrever sobre Bram Serian, disse Hillyer.

 

Sim.

 

Gregory Hillyer instalou-se na sua cadeira, pegou num copo de qualquer coisa que parecia uísque escocês e disse. Então vamos a isso. O que é que quer saber?

 

Importa-se que grave a nossa conversa?

 

À vontade. Não tem nada que me afecte.

 

Owen ligou o gravador. Não fazia ideia de qual seria a maneira mais apropriada de começar uma entrevista, mas tentou dar um ar de confiança. Por que não me fala de como conheceu Bram Serian, como travou conhecimento com ele... tudo o que se lembrar sobre isso.

 

Hillyer pigarreou com um ruído surdo e tomou um pequeno gole de uísque. Bram Serian deu nas vistas desde o princípio, mas não por causa do seu talento. A sua arte era crua. Banal. Masturbadora. Não é que muita arte não seja masturbadora. Todos nós a fazemos até certo ponto. Mas as suas primeiras tentativas estavam abaixo do que é aceitável.

 

O motivo por que ele fez tanta sensação quando apareceu pela primeira vez na Sociedade dos Estudantes de Belas-Artes não foi pela sua arte de modo algum. Foi pela sua presença física. Ele sobressaía no meio dos outros estudantes de arte. Ele tinha bem mais de um metro e oitenta de altura e era forte como um boi e vestia-se como se fizesse as suas compras nos mercados de roupa em segunda mão. Com certeza que ninguém ia adivinhar que era um veterano do Vietname. Ele dava uma impressão de frescura dos montes. Como se tivesse acabado de tirar a palha do cabelo.

 

Mas logo que comecei a trabalhar com ele, fiquei a saber que ele tinha qualquer coisa que faltava a tantos dos meus outros estudantes... desejo. Não só o desejo de criar, porque para um artista esse desejo surge sem qualquer esforço consciente como o apetite sexual. Não, o seu desejo era de grandeza, de reconhecimento, de... significado.

 

Não quer dizer que a sua arte não tivesse importância para ele. Era vital. O acto de criar. O acto de fazer. De construir. Era o seu modo de expressão e o seu próprio meio pessoal de psicoterapia. Uma situação comum entre os artistas.

 

Hillyer soltou um riso seco de satisfação.

 

Só Deus sabe quantos assassinos de espírito transtornado podia haver no mundo se não fosse a arte.

 

Mas quanto a ser dotado... não era. Havia outros estudantes como Jonas Watkins, por exemplo, que tinham dentro de si autênticos génios naturais.

 

Mas Serian não. O seu trabalho era fruto de grande esforço e estava marcado pela frustração. É claro que ele ainda não tinha começado a pintar a sério. As aulas de pintura e de desenho em que participava eram de pouca importância para ele naquela altura. Os seus interesses estavam no acto de moldar e de modelar e de construir com as mãos... actividades enérgicas e tácteis... e ele não tinha paciência para pincelar cor numa tela. De facto, lembro-me de ele demonstrar mesmo desdém por essa actividade.

 

Hillyer aclarou a garganta, depois foi acometido de um ataque de tosse. Quando esta passou, tomou uma longa bebida antes de continuar.

 

Jonas Watkins... é um homem com quem devia falar, se conseguir encontrá-lo. Foi colega de quarto do Serian durante algum tempo e eles pareciam ser amigos. Até que Watkins se afastou...

 

Foi o que aconteceu com a maior parte deles. Ensinei tantos ao longo dos anos, trabalhei com tantos... vi tanto talento... O género de talento natural que nos faz suster a respiração. Eles vinham ter comigo... jovens e ansiosos e ambiciosos... sem a menor ideia do que os esperava no mundo... ou de como era difícil aguentarem-se naquele avião celestial, onde a única realidade é aquilo que se adquire com os sentidos, para o transformar em arte.

 

Depois as rodas da vida esmagaram-nos com os fardos da respeitabilidade e da criação dos filhos e impostos e hipotecas e eles voltaram-se para a anestesia da televisão e consumo comercial... e caíram. Como anjos. Caíram nos dentes da engrenagem da máquina e tornaram-se pessoas indolentes e limitadas, apenas com uma recordação daquele avião mais alto onde um dia tinham vivido.

 

Foi isso que eu testemunhei repetidas vezes ao longo dos anos. A sedução dos meus estudantes. A perda do seu estado de graça. Não conseguiram resistir à tentação como eu... e como o Serian conseguiu.

 

Olhe à sua volta, senhor Byrne. Para além das obras de arte e da roupa que trago vestida, nada nesta sala me pertence. Estou desembaraçado. Vivo com a minha irmã. Nunca me permiti ser tentado pelo casamento nem pelo materialismo.

 

E podia afirmar que tinha ensinado esse discernimento a Bram Serian, mas não ensinei. Ele já o possuía. Pode ter aprendido a compreendê-lo mais profundamente através de mim, mas ele já tinha o tacto natural no seu interior.

 

Oh não... estou a vê-lo nos seus olhos. Está a pensar que este velhote não sabe nada sobre como o Serian enriqueceu e arranjou uma esposa e tudo isso. Mas sei. Continuei a ser o guru do Serian, o seu apoio espiritual, mesmo até ao fim. Isso não quer dizer que eu fosse o seu confessor pessoal ou confidente. Ele não era essa espécie de homem. Só falávamos de arte. Mas eu passava muito tempo na Arcádia e via como eram as coisas.

 

Para quem está de fora ele pode ter parecido ter todas as características de um falhado, mas isso não passava de uma ilusão. O dinheiro tinha pouca importância para ele. Era superveniente. A casa grande não era o típico bangaló hipotecado do animal suburbano era uma obra de arte em progresso. E o casamento... não era real.

 

Não compreendo, disse Owen. Eles não estavam casados legalmente?

 

Hillyer riu-se por entre dentes, com ar de quem sabe. Quem é que sabe ou se interessa? Estou a falar de questões espirituais. O casamento não tinha domínio sobre ele, não o preenchia, portanto não interferia com a sua criatividade. Eu sempre acreditei que fosse por causa do sangue oriental dela. São muito submissas, sabe. É por isso que as mulheres orientais são tão populares como noivas por correspondência. Muito submissas... Sorriu sugestivamente. Sexualmente também. Ouvi dizer que fazem tudo o que um homem quer.

 

Então acha que o Serian casou com a Lenore porque ela era submissa e não fazia qualquer exigência relativamente ao seu tempo?

 

Não. Não. Não. Eu não disse que foi por isso que ele casou com ela. Eu disse que era isso que fazia com que estar casado com ela fosse tão fácil para ele. Hillyer assumiu um ar severo em pensamento. Tanto quanto me lembro, ele casou com ela por uma questão de compromisso. Uma espécie de promessa durante a guerra.

 

Quer dizer que ele conheceu a Lenore quando esteve no Vietname?

 

Obviamente, deve tê-la conhecido naquela altura.

 

Tem a certeza disso? perguntou Owen entusiasmado. Aquilo era a primeira prova de que alguns rumores sobre Lenore podiam ser verdadeiros, e insistiu para que Hillyer contasse mais.

 

Esta é a primeira vez que falo nisso. Hillyer soltou um suspiro profundo. Agora, depois que o Bram se foi, que mal pode ter se um velhote como eu falar? Ele já cá não está para ficar zangado, não é verdade?

 

Acho que a mulher deve ter tido uma espécie qualquer de passado duvidoso. Talvez fosse uma espia ou uma prostituta. Porque ele preocupava-se muito em proteger a sua identidade. E porque era desse género de mulheres que ele gostava.

 

Espias e prostitutas?

 

Especialmente as prostitutas. Tinha uma preferência por mulheres maculadas.

 

Owen sondou-o, tentando suavemente determinar se Gregory Hillyer tinha alguns factos reais que apoiassem a hipótese do Vietname, mas o velhote não tinha.

 

Digo-lhe que aquilo não foi um casamento romântico, insistiu Hillyer. O Bram estava a compensá-la por qualquer coisa que tinha acontecido no Vietname. Você devia procurar falar com alguns dos seus camaradas militares, se quer saber mais. Tudo o que lhe posso dizer é que o próprio casamento não significava nada para ele. Ele vivia para a sua arte... e a sua identidade como artista. Vivia para o poder e o respeito que a sua arte lhe proporcionava.

 

Isso era verdade no princípio e era verdade no fim. E foi por isso que a mulher acabou por matá-lo. Porque ele estava para além do seu alcance. Porque ela não conseguia magoá-lo de nenhuma outra forma.

 

Gregory Hillyer esvaziou o copo, levantou-se da cadeira e dirigiu-se lentamente para um armário, para o encher de novo. Era de facto uísque escocês.

 

Não ofereceu nada a Owen.

 

Depois de Hillyer ter voltado para a sua cadeira, Owen perguntou-lhe que mais sabia sobre Lenore.

 

- Oh, ela é um enigma, é isso que ela é. Não existe nenhuma actriz que conseguisse fazer um melhor trabalho a ser misteriosa do que a Lenore. Como é que ela é misteriosa?

 

É difícil de explicar. Nunca participava nas conversas, e se alguém lhe perguntasse alguma coisa, ela normalmente devolvia a pergunta. Se alguém dissesse, Não está um dia bonito, Lenore? ela olhava para ele e respondia Acha que está um dia bonito? e nunca se associava às risadas dos outros. Nunca era assim espontânea. - Hillyer hesitou. - Veio-me mesmo agora à cabeça que ela era muito parecida com uma modelo artístico. Já alguma vez observou uma modelo artístico com experiência?

 

Owen abanou a cabeça em sinal negativo.

 

- Quando estão em pose, elas são o ponto de convergência de todos os olhares de uma sala cheia de gente, mas agem como se não se apercebessem de que estão perante uma assistência. As que são mesmo boas conseguem criar uma aura incrível à sua volta com a sua linguagem corporal, no entanto parecem não notar nem dar importância ao efeito que têm sobre aqueles que estão a observá-las. A Lenore era assim. Atraía a atenção com a sua singularidade e a sua aura sexual, mas era indiferente a essa atenção.

 

- Como era a relação entre ela e o Serian?

 

- Como já disse, ela era-lhe submissa. Respeitosa. Bastava um olhar dele para ela ficar subjugada. Ela sabia qual era o seu lugar.

 

Hillyer bebeu um longo trago de uísque. - A minha irmã não gosta que eu beba, - explicou ele. - Quando ela vir a quantidade de líquido que desapareceu da garrafa, vou dizer-lhe que foi você, o meu convidado, quem foi o responsável. Se você ainda estiver aqui, por favor, não me desminta.

 

Owen olhou nervosamente para a porta.

 

- Não se preocupe. Temos cerca de uma hora até que ela desça. - Os olhos de Hillyer estavam a ficar vidrados e as suas palavras estavam a perder a tonalidade ríspida, mas ele parecia estar ansioso por continuar a falar.

 

Owen verificou os seus apontamentos. - Encontrei informações contraditórias sobre as origens de Serian... data de nascimento, local de nascimento, família...

 

Hillyer sorriu. - o Bram era bastante dissimulado em relação a essa questão. Queria que o seu passado permanecesse passado e, ou evitava falar nesse assunto, ou mentia. Uma vez disse a alguém que tinha aparecido completamente criado no autocarro que o trouxe para aqui, e provavelmente isso é mais verdadeiro do que qualquer outra coisa que eu lhe tenha ouvido dizer sobre esse assunto. -Alguma vez fez alguma referência aos pais?

 

- Não.

 

- o senhor tinha a impressão de ele ter tido uma infância muito má ou de estar a fugir de alguma coisa?

 

- Em todos os anos que o conheci, nunca obtive indícios suficientes para formar uma opinião sobre o seu passado. Ele vestia-se como um rústico no princípio e mais tarde mudou para o estilo de roupa de cowboy. Ambos podem ter sido estilos afectados. Não sei. A sua maneira de falar não era própria do Leste, mas também não era propriamente do Sul, nem do Texas, nem canadiana, nem daquele estilo suave da Califórnia. Tanto quanto sei, ele cresceu algures num subúrbio de classe média e toda a sua recusa do passado pode estar radicada numa espécie de horror à mediocridade.

 

Como tantas outras pessoas criativas, ele veio para Nova Iorque e reinventou-se a si próprio. Não é fora do comum.

 

Consegue recordar-se de alguma alusão, por mais pequena que fosse...?

 

Nada mais para além do que já lhe contei.

 

Além de Jonas Watkins, ele tinha alguns amigos com quem eu pudesse ter interesse em falar?

 

O Serian não era propriamente dado a intimidades. Ele tornou-se um bom líder entre o grupo de estudantes de artes mas, para além de Watkins, não criou nenhumas ligações especiais de que me tenha apercebido.

 

E raparigas? Ele tinha namoradas?

 

Hillyer sorriu. Namoradas. Esse é um termo tão frívolo e Bram Serian nunca foi frívolo. Teve a sua quota parte de aventuras sexuais. Como já referi, ele era fascinado por prostitutas. E teve uma ligação durante algum tempo com uma modelo artístico. Uma mulher alta e negra que era considerada um grande prémio. Eram completamente inadequados um para o outro. Tenho a certeza de que Watkins vai lembrar-se do nome dela.

 

Owen voltou a verificar o bloco de notas, embora não tivesse quaisquer outras perguntas escritas.

 

O senhor diz que continuou a ser o seu conselheiro criativo. Pode explicar como se deu a sua mudança da escultura para a pintura?!

 

Ah... Hillyer bebeu o que restava do uísque. A intervenção divina é a única forma para explicar isso.

 

Ele nunca tinha realmente gostado da pintura, embora tivesse feito um pouco aqui e ali. Lembro-me de uma vez em que estivemos a beber juntos depois das aulas. Havia cerca de uma dúzia de estudantes e eu próprio e outro professor juntámo-nos a um canto do nosso barzinho escuro preferido e o assunto deu origem a uma discussão sobre qual seria a forma mais pura de arte, a escultura ou a pintura. A discussão prolongou-se indefinidamente, com os pintores a acusar os escultores de serem artesãos exaltados, apenas a um grau acima de tricotadoras e pedreiros e os escultores a acusar os pintores de serem amadores incapazes, baseando-se nas tintas para realizar o seu trabalho. Como de costume, o Bram não tinha dito nada. Estava encostado à parede com aquela expressão divertida, que fazia com que muitas pessoas pensassem que ele já tinha as respostas para tudo... mas que realmente era porque ele não se importava com essas respostas... e alguém insistiu que ele devia explicar por que é que não gostava de pintar. E o Serian disse que era por causa da ausência de relevo. Disse que detestava a planura... quer fosse numa mulher, numa tela ou num terreno.

 

Rimo-nos durante muito tempo por causa disso. Foi uma daquelas afirmações que toda a gente repetiu durante anos. E nunca ouvi dizer que tivesse mudado de opinião.

 

Então um dia ele convidou-me a ir à sua quinta para ver uma coisa. Fui lá, na expectativa de ver o que era habitual mas, em vez disso, ele mostrou-me algumas telas. Isto foi antes da casa grande... e ele nunca levou pessoas ao estúdio ou à antiga casa da quinta que ali havia... por isso montámos aquelas telas em suportes cá fora. Ele afastou-se e foi para dentro do estúdio por algum tempo e assim eu pude examiná-las sem ser incomodado. Depois, quando voltou e me perguntou o que eu pensava, eu estava quase sem fala. O trabalho era brilhante.

 

Owen franziu as sobrancelhas absorto em pensamentos. Se tivesse de explicar que tipo de homem era o Serian que espécie de pessoa era como o descreveria?

 

Ele era muito activo. Mesmo muito activo. E acredito que ele podia ter sido bastante feliz sem ter nenhuma intimidade na sua vida. Ele gostava de ter seguidores e de ajudar os jovens e os lutadores, mas ficava muito desconfortável com a proximidade. E não gostava que lhe tocassem.

 

Hillyer agarrou-se aos braços da cadeira e debruçou-se para a frente, como se fosse a cair da cadeira.

 

Ela vai voltar para casa em breve e tenho de me escapar para a cama, declarou.

 

Owen ajudou Hillyer a levantar-se da cadeira e segurou-o pelos braços enquanto o velhote seguia lentamente o caminho para o quarto. Quando já estava em segurança, empoleirado na cama, Owen disse-lhe, Obrigado pelo seu tempo.

 

Tire-me este casaco, ordenou-lhe ele, e Owen libertou-lhe suavemente os frágeis braços. Pode voltar noutra altura se precisar, disse Hillyer. Mas aviso-o... fico à espera da oferta de um exemplar do livro, quando for publicado.

 

Terei todo o gosto, disse-lhe Owen, e encaminhou-se para a porta.

 

Com quem vai falar a seguir? perguntou Hillyer.

 

Owen voltou-se para trás. Amanhã tenho uma entrevista marcada com Edie Norton. A mulher que...

 

Hillyer carregou o sobrolho. Eu sei quem é Edie Norton. Aquela cabra vampira.

 

Owen passou o resto da noite de sábado a organizar as suas notas sobre o julgamento, a passar à máquina a transcrição da entrevista com Gregory Hillyer e a trabalhar na proposta. Trabalhou até tarde mas, mesmo assim, quando foi para a cama não conseguia dormir. Ficou ali deitado no escuro a ouvir os ruídos que vinham da rua lá em baixo.

 

No princípio Lenore tinha-lhe parecido o grande mistério. Tinha imaginado Bram Sedan como um homem muito parecido consigo próprio e tinha imaginado um carácter para Serian que agora verificava estar errado. No dia seguinte tinha uma entrevista com Edie Norton, proprietária das Galerias Norton e que fora durante muito tempo agente artística de Bram Serian. Certamente ela ia ter respostas para as suas questões.

 

O seu pensamento precipitou-se em antecipação. Os ponteiros iluminados do relógio marcavam a passagem das horas.

 

O comentário de Bram Serian sobre detestar a ausência de relevo numa mulher, numa tela ou num pedaço de terreno continuava a repercutir nos seus pensamentos. Serian só podia ser de uma região agrícola para ter dito aquilo.

 

O próprio CHven tinha nascido numa região plana. Numa zona de cultivo de trigo a vinte quilómetros de Maynard, no Kansas. Sete hectares de terreno agrícola de primeira qualidade, delimitado por laranjeiras Osage e interrompido apenas pelas casas da quinta e por uma extensão de folhas secas de cedro do lado norte do pátio.

 

As sebes constituídas por árvores e os arvoredos naquela região tinham sido plantados pelos colonos num passado longínquo, presumivelmente para marcar as linhas divisórias dos terrenos e abrandar a velocidade do vento sempre presente, mas CKven suspeitava que os primeiros colonos as tivessem plantado também por outros motivos. Achava que tinha sido uma maneira de aproveitar o terreno e torná-lo inofensivo, pois podia ser embrutecedor enfrentar aquele terreno plano inflexível, olhar para o horizonte sem relevo, sem uma interrupção da linha que conduzisse os olhos ou o espírito para as alturas.

 

A propriedade da sua família chamava-se a quinta dos Hadleys. Os Hadleys eram da família da sua mãe; tinham sido donos daquelas terras

durante gerações antes de passarem para ela. Havia um portão de ferro forjado que dava para o jardim, com as letras do nome HADLEY integradas no design do portão. O canteiro em frente da casa tinha roseiras com rebentos irregulares e dos tempos antigos, que tinham vindo do Leste numa carroça coberta em que vieram os primeiros Hadleys. Ao lado do caminho de acesso estava uma caixa de correio feita de uma vasilha de leite, onde se lia HADLEY em letras de latão.

 

Clancy Byrne nunca mudou uma única coisa, nem colocou o nome BYRNE. Devia ter sido talvez um aviso, mas a falta de sentido de posse de Clancy combinava muito bem com as suas outras atitudes despreocupadas, de cuja origem ninguém suspeitava. Talvez o próprio Clancy não tivesse consciência das suas intenções. Além disso, mais uma vez, talvez o objectivo fosse bem claro na sua mente, desde o princípio. Desde o dia em que conhecera a mãe deles.

 

Stella Hadley era uma rapariga triste de dezanove anos, que estava desolada pela morte dos pais e do irmão num curto espaço de tempo, quando conheceu Clancy Byrne num piquenique do Dia Quatro de Julho. Ele estava apenas de visita à região e por isso gerou-se à sua volta um ar de mistério. O que combinava com o seu charme e os seus lendários olhos azuis que faziam com que todas as mulheres do piquenique ficassem curiosas. Terminou num impressionante segundo lugar a corrida a pé para homens e ganhou a competição de cravar uma ferradura. Depois tirou o bandolim das mãos de um tocador e divertiu toda a gente com uma sucessão de canções populares irlandesas.

 

Stella Hadley ficou fascinada por ele.

 

Aquela era a história que todos tinham ouvido vezes sem conta durante a infância. O conto da princesa triste e definhada a ser arrebatada pelo príncipe encantador e elegante. Mesmo para o fim da sua vida, quando era evidente que o conto de fadas não tinha acabado em felicidade, a mãe deles ainda adorava contar a história daquele encontro de sedução.

 

Stella e Clancy casaram-se passados que foram três meses após aquele encontro. A noiva, que não tinha o menor sentido da realidade, converteu-se ao catolicismo e assinou a escritura de transferência da quinta que recebera por herança, no dia do casamento. Nenhuma das suas tias ou tios conseguiu dissuadi-la daquelas atitudes drásticas. Stella estava determinada a provar que a sua confiança em Clancy era muito forte. Ou talvez estivesse decidida a prendê-lo tão firmemente a ela, de tal maneira que ele nunca mais pudesse libertar-se dela.

 

Até Owen ter nove anos, Ellen doze, Terry dezasseis e Meggie três, viveram na quinta rodeados de tias-avós senis e uma comunidade onde os pais e os avós da sua mãe se tinham estabelecido e gostado. Havia muito trabalho para fazer, mas a maior parte era sazonal concentrado nas tarefas da plantação e da colheita. Cultivavam trigo do inverno, o que significava que faziam a sementeira no Outono, concediam os direitos de pastagem de maneira que os criadores locais de gado leiteiro pudesse levar o gado a pastar no marfolho tenro, depois observavam a cultura a recuperar milagrosamente da pastagem e os meses em que ficava coberta por uma grande camada de neve, para se desenvolver com o sol da Primavera e transformar-se num mar dourado ondulante que cobria todas as fazendas do Kansas.

 

Os rendimentos do trigo, combinados com o lucro pequeno mas estável da concessão do petróleo no sector quarenta, proporcionavam um modo de vida decente para toda a família, apesar de o pai ser um péssimo agricultor. Os terrenos eram férteis, portanto não era preciso grande competência para conseguir uma boa produção. A terra escura argilosa daqueles campos tinha sido enriquecida ao longo dos séculos pelos sedimentos arrastados pelos afluentes transbordantes, e os antepassados da sua mãe tinham sido responsáveis cuidadosos, preservando o terreno com estrume e deixando periodicamente um campo em repouso, fazendo a rotação com sorgo ou com centeio e trigo. Numa única geração não era possível que Clancy desfizesse tudo aquilo.

 

Para sermos justos, Clancy não era tanto um mau agricultor mas antes um agricultor desinteressado. A agricultura aborrecia-o. Owen recordava-se perfeitamente das técnicas de plantação do pai. A estação começava com Clancy a passar o tempo no café, perto do elevador do grão, supostamente a recolher sugestões para a plantação. Depois era para ele um momento importante, quando ia buscar a máquina de semear ao barracão do equipamento e ia comprar as sementes. Quando chegava o grande dia, levava o Terry, a Ellen e o Owen para o campo e fazia um pequeno discurso sobre Deus e os santos serem bons para eles. Depois saltava para o tractor e dava aquela primeira volta cerimonial, fazendo o esboço de um desenho que Owen agora sabia que podia ser visto pelos passageiros de um avião que passasse lá no alto. Logo que esse primeiro passo de diversão terminava, parava o tractor e ordenava a um dos filhos que tomasse conta dele.

 

Trabalhavam normalmente por turnos, caminhando de casa para os campos e dos campos para casa e acenando uns aos outros para serem substituídos. Durante os últimos trinta minutos do turno de Owen, ele ficava sempre ansioso, imaginando repetidas vezes o seu alívio ao acenar com o lenço vermelho do outro lado do campo.

 

Lembrava-se de conduzir uma máquina que fazia um barulho ensurdecedor, enquanto se deslocava pesadamente em círculos à volta de um extenso campo aberto como uma das actividades mais entorpecedoras da mente e mais abaladoras da coluna vertebral que era possível imaginar. Mesmo não havendo vento, o pó levantava-se para cobrir cada centímetro de pele e de roupa, e no Kansas havia quase sempre vento. Outros agricultores não lavravam nos dias maus, com receio de que o seu precioso solo fosse levado pelo vento, mas o solo não era um conceito importante para Clancy. Owen lembrava-se de andar aos solavancos pelo campo, sentado às vezes ao volante do tractor, quando a imundície levantada pelo vento lhe batia com tanta força no rosto que ele ficava cego e os sulcos abertos pela charrua ficavam aos ziguezagues e o campo ficava com o aspecto de arte moderna agrícola. Quando aquilo acontecia, Terry fazia sempre um turno duplo, para refazer o trabalho.

 

Havia também outros pequenos trabalhos. Tinham uma vaca Jersey que tinha de ser ordenhada duas vezes por dia, e os cães tinham de ser alimentados, e havia sempre um porco ou um cordeiro ou um novilho a ser engordado no curral atrás do barracão onde guardavam o equipamento. Era preciso fazer a manutenção das vedações e do equipamento, embora os baixos níveis de exigência de Clancy não fizessem muita pressão nesse campo. O inverno trazia montes de neve que tinham de ser limpos com a pá e a primavera significava que o caminho de acesso tinha de ser de novo coberto de gravilha. Durante o verão todos eles tinham de ajudar na horta da mãe e na preparação de conservas e na produção de geleia com os produtos da horta. Mas no meio de tudo aquilo eles ainda conseguiam divertir-se. E, se bem que o trabalho fosse frequentemente esgotante, não havia nele qualquer amargura. Eram felizes.

 

O pai estava muitas vezes fora de casa. Era cliente assíduo do café e sobretudo de todo o tipo de jogos de dominó. Às vezes ficava fora durante vários dias, quando ia à caça do coiote ou a fazer uma compra de cães ou tratar de outro assunto qualquer. Apesar da sua ausência ser de alguma maneira um alívio, ficavam sempre contentes por vê-lo regressar. Ele trazia boa disposição para o ambiente da casa com as suas histórias engraçadas e fazia a sua mãe ficar com os olhos a brilhar. Ficavam orgulhosos por ter um pai que era tão charmoso e tão divertido.

 

Foi o nascimento da Meggie que alterou tudo.

 

Clancy partiu para ir tratar de um assunto qualquer naquela manhã. As previsões anunciavam neve, a pick-up estava imobilizada à espera de uma nova bomba de combustível e a sua mulher estava com nove meses, mas ele foi-se embora a acenar da janela do carro familiar com a promessa de voltar em breve.

 

A neve prevista abateu-se sob a forma de uma forte tempestade de neve batida pelo vento. Houve uma avaria da rede telefónica, como sempre acontecia quando havia grandes tempestades. A seguir foi a energia eléctrica. Estavam todos juntos à volta do velho fogão de ferro a lenha, a contar histórias de fantasmas, quando a mãe teve a primeira contracção. A sua mãe, que normalmente era tão corajosa, entrou em pânico.

 

Terry vestiu duas camadas de roupa interior comprida e um fato-macaco isolador e dois pares de luvas e um protector para o rosto, feito à mão, que só tinha buracos abertos para os olhos e partiu no tractor à procura de ajuda. Owen estava preocupado com a sua mãe, mas após anos a assistir ao nascimento de vitelos, ou de potros, ou de cordeiros, o nascimento parecia-lhe um acontecimento natural e não compreendia bem os perigos que a mãe estava a correr.

 

Foi a partida de Terry no meio daquela violenta tempestade que realmente aterrorizou Owen. Owen saiu com o irmão para ir ao barracão do equipamento. O vento soprava com tanta força e a neve já estava tão alta que tiveram dificuldade em abrir a porta das traseiras da casa e percorrer o espaço entre a casa e o barracão do equipamento. O tractor parecia pequeno no meio da escuridão. Mesmo à velocidade máxima, era lento. Muito, muito lento. E era um tractor normal, antiquado, sem cabina nem aquecimento para proteger o Terry da tempestade.

 

Quando o irmão finalmente se deslocou ruidosamente e se embrenhou no meio da noite cheia de neve, Owen teve subitamente a percepção de que podia morrer. O pai e o irmão da mãe tinham ambos morrido num acidente com o tractor, em condições muito menos perigosas. Sabia que Terry podia ficar cego com a neve, sair da estrada e ficar atolado e morrer de frio antes de conseguir obter ajuda. Sabia que a neve no chão e a fraca visibilidade podiam fazer com que Terry se enganasse em relação ao terreno e se aproximasse demasiado de uma vala profunda, fazendo o tractor inclinar-se e cair para o lado. De tal maneira que o condutor ficasse esmagado por baixo dele, ou fosse projectado e ficasse desamparado na noite gelada. E foi naquele momento que tudo mudou para Owen. Daquele momento em diante nunca mais sentiria o mesmo em relação ao pai encantador e voluntarioso.

 

Ellen e Owen humedeciam a testa da mãe com uma esponja e deixavam que ela lhes apertasse as mãos durante as contracções, e diziam todas as orações que tinham aprendido durante as esporádicas aulas de catequese. Não fazia ideia do tempo que tinha passado pareceu-lhe uma eternidade até ouvir o som de socorro. O abençoado bramido do limpador da estrada. O Terry tinha ido ter com a única pessoa que podia levar a sua mãe ao hospital, o homem responsável por fazer a manutenção das estradas arenosas e sujas. Mantinha a estrada limpa para a sua quinta e esta máquina monstruosa tinha a força e a potência de um carro de assalto.

 

Aconchegaram a mãe na cabina aquecida do limpador de estradas. Um Terry semi-gelado tinha ficado em casa do homem a aquecer-se, por isso foi a Ellen quem subiu para o limpador de estradas, para ir com a mãe para o hospital e gritar com ela no nascimento da Meggie.

 

Clancy não apareceu durante vários dias. Só apareceu ao fim do dia em que a mãe voltou do hospital.

 

Estava na cama com o bebé, quando ouviram o carro e ela levantou-se e saiu para a varanda. Owen correu atrás dela, a colocar-lhe um cobertor nos ombros. E ambos pararam a meio do caminho. Do outro lado, a fixá-los de olhos esgazeados da parte de trás do carro, estavam cinco longos focinhos cinzentos. Cães. Provenientes do cruzamento entre galgos de raça e cães russos de caça ao lobo. Aquelas criaturas muito sorrateiras, cabeludas e inexpressivas, que correm como o vento e matam como máquinas. Clancy Byrne tinha perdido o nascimento da filha e tinha deixado a família abandonada durante uma semana para ir à procura de cães de caça.

 

Stella Byrne encostou-se ao filho por momentos, depois recompôs-se e colocou a boca naquela posição que se tornou tão característica durante os anos que se seguiram. Diz-lhe que estou a descansar, disse ela e voltou para dentro de casa, deixando Owen a cumprimentar Clancy e a ouvir a sua longa história de como soube que um agricultor tinha sufocado dentro do seu silo e de como obteve informações de que aquele agricultor possuía alguns dos melhores cães de caça ao coiote do estado, de como seguiu a viúva e finalmente conseguiu apoderar-se deles por trapacice. Intrujei-a, tinha dito Clancy em triunfo. Ainda bem que a enganei.

 

Só mais tarde é que descobriram como é que cinco cães crescidos tinham sido metidos no assento de trás do carro novo da família o primeiro carro novo que tinham e o único automóvel que alguma vez tinha sido escolhido Pela mãe.

 

Quando Clancy finalmente firmou o negócio com a viúva, ela dissera que queria que levasse os cães imediatamente, por isso, sem hesitar, Clancy foi a uma oficina e mandou o mecânico arrancar o assento de trás da carrinha. Depois carregou aqueles cães infestados de pulgas dentro do espaço de carga que tinha acabado de criar e meteu-se à estrada. Pensou que tinha sido uma solução inteligente, e claro que tencionava voltar lá para recuperar o assento.

 

A sua mãe manteve-se fechada durante vários dias com a bebé. Clancy pedia e implorava à porta, prometendo que o carro ia ficar como novo, prometendo que ia mandá-lo limpar por profissionais e ia mandar reinstalar o assento numa oficina. Até foi a Hutchinson e comprou-lhe um presente, uma caixa de madeira dispendiosa para jóias, que era uma miniatura de uma cómoda e era suficientemente grande para meter lá o conteúdo de uma exposição inteira de uma loja. Mandou o Terry levar-lha através da linha de batalha do limiar da porta do seu quarto.

 

Embora ela não possuísse quaisquer jóias para além da aliança de casamento e um pregador que a mãe lhe tinha deixado, o presente fez o seu trabalho de magia e Stella abriu a porta. Parecia não se sentir incomodada pelo facto de Clancy ter obviamente comprado a primeira coisa que viu, sem ter em consideração o que ela pudesse porventura querer ou precisar. Guardou aquela comodazinha como se fosse um tesouro, enchendo as gavetas forradas de veludo com as suas mais preciosas recordações. Para além do pregador que tinha sido da família por várias gerações, guardou lá dentes de bebé e os caracóis do primeiro corte de cabelo e o dólar de prata que o seu pai lhe tinha dado quando terminou o curso do ensino secundário, a fita azul que o Terry usou no concurso ortográfico do oitavo ano, a bala que tinha sido extraída da coxa da Ellen depois de Clancy a ter atingido acidentalmente enquanto andava à caça, e ao longo dos anos acrescentou a medalha de despedida da turma do Terry e o alfinete de cabeça da Ellen quando foi chefe de claque e o lápis de ouro com uma inscrição gravada que Owen ganhou no concurso de dissertações do condado.

 

Clancy mandou limpar o carro e desinfestá-lo das pulgas. Mas nunca conseguiu restaurá-lo. Passaram meses antes que ele voltasse para reaver o assento e nessa altura o mecânico da paragem de camiões já tinha desistido de devolvê-lo e tinha-o vendido. O Terry fez uma grade de madeira e segurou-a com arame no espaço vazio do carro, depois colocou em cima almofadas de cama e foi o que serviu de banco traseiro durante os restantes dois anos em que tiveram o carro. Terry e Owen e a mãe nunca falaram daquilo, mas a Ellen proporcionou a Clancy preocupações infindas, servindo-se daquele carro arruinado contra o pai de maneiras que teriam feito rir o próprio diabo.

 

Planuras. As planuras faziam parte da infância de Owen. Faziam parte do seu passado, que permanecia gravado na sua memória. Mas compreendia muito bem o ódio de Bram Serian.

 

Ficou a olhar para o meio da escuridão do seu barulhento quarto citadino. O que pensaria Serian dos Flint Hills, imaginou ele. E sorriu para si próprio. Porque pensou que sabia. Pensou que finalmente tinha a chave para o carácter de Ram Serian

 

Owen tinha uma entrevista marcada com Edie Norton para as quatro horas na sua galeria, no SoHo. Depois de fazer o seu trabalho de casa, sabia que havia outra Galeria Norton na alta da cidade e que os Nortons eram muito conhecidos na sua especialidade.

 

Como era seu hábito, Owen chegou cedo. Deu uma volta pelas salas espaçosas. Pareciam semelhantes a outras galerias por onde tinha passado no caminho para ali, com tectos altos e paredes brancas e soalhos de carvalho polido. Havia dois quadros de Serian em exibição. Um deles era uma pintura abstracta escura e inflamada, e o outro era uma mistura sóbria mas violenta de corpos a fundirem-se.

 

Atrás da secretária estava uma jovem mulher com um ar mal-humorado mas arrogante, com um vestido de malha apertado. Owen sorriu para ela. Ela desapareceu durante alguns minutos, depois voltou e acompanhou-o até ao escritório. Enquanto Owen seguia atrás dela para a parte de trás do edifício, perguntou-se como é que uma pessoa com aquela atitude conseguia manter um emprego.

 

Quando entrou no gabinete exuberantemente decorado, foi recebido por uma mulher que devia ter mais de cinquenta anos, embora estivesse tão elegantemente produzida que a sua idade se tornava uma questão secundária. Estendeu-lhe a mão e disse, Olá, Owen. Eu sou Edie Norton, enquanto o seu olhar o avaliava atrevidamente centímetro a centímetro.

 

Posso oferecer-lhe chá ou café?

 

Owen recusou e ela sentou-se à sua secretária cheia de motivos decorativos.

 

Bonita mobília, comentou ele.

 

De um antiquário francês. É a minha segunda paixão a seguir à arte. Ele fez um aceno com a cabeça. Ela sorriu.

 

Mandei investigá-lo com muito cuidado, Owen, mas mesmo assim acho que devo avisá-lo... se alguma coisa do que aqui dissermos for vendido a publicações sensacionalistas ou usado para algum propósito que não seja o seu livro, as Galerias Norton vão causar-lhe muitos aborrecimentos.

 

Oh?

 

Sim. Temos de ser muito cuidadosos, sabe. Todas as pessoas que conheciam o Bram têm recebido propostas, e como nós éramos muito íntimos dele- Ela encolheu os ombros delicadamente.

 

Owen pôs de lado estas notícias inquietantes e concentrou-se no seu objectivo. Ouvi dizer que está previsto a senhora ir prestar depoimento no julgamento, disse ele.

 

Sim. Sou obrigada a testemunhar. Se o meu marido, Barry, não estivesse na Europa em viagem de negócios, também iam obrigá-lo a ir lá. Ela franziu as sobrancelhas, mas a pele do seu rosto era tão firme que não apareceram nenhumas rugas verticais. Fale-me desse livro para o qual anda a fazer pesquisa, Owen.

 

Havia qualquer coisa de estranho na maneira como Edie Norton pronunciou o seu nome que fez Owen querer manter-se distanciado dela. Tentou evitar qualquer troca de olhares.

 

Como lhe expliquei ao telefone, trata-se fundamentalmente de um livro sobre um crime verdadeiro. Neste momento estou a concentrar-me no julgamento e na tragédia da morte de Serian, mas também queria falar da vida de Serian. Queria que as pessoas soubessem quem era Serian. Não apenas como artista mas como homem.

 

Uhmm... Ela entrelaçou as mãos sobre a secretária e contraiu os lábios a pensar. Qualquer coisa como... como pode esta morte trágica fazer sentido sem se conhecer o lado humano do génio criativo que foi destruído?

 

Owen pestanejou. Sim. É mais ou menos isso. Posso citar o que a senhora disser?

 

O riso dela foi frio e automático.

 

Parece-me que lhe disse que o meu tempo hoje é muito limitado.

 

Sim.

 

E pode pôr esse gravador de lado. Nada de gravações.

 

Está bem. Owen abriu o seu bloco de apontamentos.

 

E sabe quais as áreas que não estou disposta a discutir.

 

Se eu alguma vez ultrapassar os limites, por favor, chame-me a atenção... senhora Norton.

 

Edie, insistiu ela.

 

Muito bem, disse ele, sentindo-se desconfortável sob o olhar perscrutador dela. Vamos começar pelo princípio. O que sabe a senhora da infância de Serian?

 

Não muito. Ele guardou para si próprio os seus primeiros anos.

 

Donde era ele?

 

De algures por aí. Com a mão cheia de jóias fez desdenhosamente um gesto a indicar as regiões do interior do país. Do outro mundo. Da terra onde os homens crescem para serem homens. Sorriu. Como você.

 

Eu... ah... Quando contactou com ele pela primeira vez, ele tinha algum sotaque ou modo de falar que pudesse levá-la a adivinhar donde vinha?

 

Não.

 

Ele falou alguma vez dos pais?

 

Não. Mas tinha sempre aquela coisa relacionada com os órfãos. Nada em concreto... mas... bem, por exemplo, ficava furioso com aquelas histórias nos jornais em que as pessoas abandonam os bebés. E sempre que havia um filme em que entrava um órfão ou um orfanato, ficava ansioso por ir vê-lo. Por isso sempre me perguntei se algum dos pais seria órfão ou se ele próprio seria órfão.

 

Perguntou-lhe alguma vez?

 

Ela suspirou impacientemente. Tem de compreender como era o Serian. Ele nunca, mas mesmo nunca, discutia fosse o que fosse que tivesse a ver com o seu passado. Franziu as sobrancelhas com ar pensativo. Nem sequer tenho a certeza se eu queria que se soubesse alguma coisa do seu passado neste momento. Tenho um considerável investimento financeiro na imagem de Bram Serian e não quero correr riscos.

 

Owen reflectiu sobre isso. Sim. Compreendo o que está a dizer. Mas como pode a imagem de Bram Serian ser prejudicada por se restaurar a sua humanidade? Qualquer que seja o seu passado... por mais complexo ou mundano que seja... o facto de o revelar não vai alterar o respeito e o fascínio que as pessoas têm pelas suas obras. Se alguma coisa acontecesse, o mistério que ele criou à sua volta provocaria ainda mais interesse. Ela olhou para Owen em silêncio.

 

Senhora Norton... Edie... As pessoas como o Serian, as pessoas que vão atrás dos seus sonhos e se elevam acima de todos nós... as suas vidas são tesouros que deviam fazer parte do domínio público. Podíamos aprender com ela. Ser inspirados por ela. Sermos estimulados a ter compaixão ou a compreender algum aspecto da condição humana que de outro modo nunca teríamos compreendido. A história de Serian é importante.

 

Edie Norton esboçou um leve sorriso. Afinal você consegue ser tão eloquente quando fala como quando escreve, gracejou ela. Parecia estar a deixar-se arrastar para as recordações daquele momento, pois o seu olhar perspicaz estava a ficar desfocado. Quando recuperou, sorriu melancolicamente para Owen e disse, Meu Deus, o que eu poderia fazer consigo se você fosse artista em vez de ser escritor. Toda essa sua sinceridade natural e esses olhos azuis e essas bonitas mãos calejadas. Faz-me lembrar o “Bram quando era jovem.

 

Owen aclarou a garganta e olhou para o seu bloco de apontamentos.

 

Ela suspirou. Bem, suponho que um livro sensacional sobre o Serian vai atrair mais atenção para as suas obras... e publicidade para a galeria. Debruçou-se para a frente, por cima da capa protectora de pele cor de rosa da secretária e cruzou as mãos. Então vamos a isso. O que quer saber?

 

Owen deu início à lista de perguntas que tinha preparado.

 

Bram Serian era o nome completo dele?

 

Duvido. Mas foi o único nome que usou.

 

Sabe qual era a sua data de nascimento?

 

Não. E duvido que mais alguém saiba. Ele mudava-a com frequência.

 

E o seu local de nascimento?

 

Não faço a menor ideia. Mas a minha versão preferida é aquela do acampamento dos lenhadores.

 

Ele fez alguma vez referência a pessoas do seu passado? Conhecidos, familiares, professores...

 

Ela hesitou. Depois de ter feito a sua primeira grande venda de obras dele, estávamos todos a beber champanhe e ele disse qualquer coisa sobre desejar poder esfregar o seu sucesso no nariz da sua professora de arte. Eu disse-lhe que teria muito gosto em enviar-lhe uma notícia impressionante e ele ficou muito zangado. Até me partiu uma das minhas taças de champanhe de cristal e disse-me que me metesse na minha vida.

 

Foi uma reacção forte.

 

O Serian era um homem de reacções fortes.

 

Consegue recordar-se de alguns indícios que conduzam à sua vida de juventude?

 

Ela abanou a cabeça. Apenas... muita gente achava que a sua postura de homem do campo-cowboy era unicamente por pretenciosismo. Mas sempre me pareceu autêntico. Nunca acreditarei que ele tenha crescido num subúrbio. Era o género de pessoa forte, profunda e calma, sabe? Como você. Só que o Serian tinha qualquer coisa de misterioso. Podia sentir-se nele a capacidade de ser cruel. E tinha muitos problemas em relacionar-se com as pessoas. Ou as ignorava, ou esperava demasiado delas e ficava constantemente decepcionado, ou furioso, ou acrescentava um nome à sua famosa lista negra.

 

Owen esperou, deu-lhe tempo para continuar se assim o desejasse; depois perguntou, E quanto ao Vietname? Qual é a história do Vietname?

 

Acho que qualquer coisa que lhe tenha acontecido no Vietname, foi uma coisa má. Acho que aquilo lhe trouxe muito sofrimento.

 

Em que ramo do serviço militar estava ele?

 

Não faço ideia. Ele nunca era explícito.

 

O que dizia ele sobre a guerra?

 

Oh, coisas imprecisas. Falava da vida, da morte, da injustiça, incluindo a hipocrisia do governo. Coisas assim. Mas se alguém levantasse a questão do Vietname, o Bram ia-se embora. Não queria ouvir os outros falar nisso.

 

E a Lenore? Ouvi dizer que o Serian a conheceu no Vietname durante a guerra e que provavelmente casou com ela como pagamento de uma dívida.

 

Isso é um disparate completo! Lenore Serian não veio do Vietname. Ela só disse isso ao Bram para captar a sua simpatia. Você viu-a. Ela podia ser meio japonesa, meio coreana, meio filipina... Ela podia ser uma dessas patetóides da Califórnia que são um pouco de tudo. Que provas existem de que ela seja meio vietnamita? Nenhumas. E aquele sotaque dela! Ela atenuou-o ao longo dos anos, mas costumava parecer-se com alguém de Toledo a imitar um filme francês muito mau. Edie Norton revirou os olhos e deu um estalido com a língua em sinal de descontentamento. Tudo na Lenore é falso. Ela criou uma personagem inteira só para caçar Bram Serian. E deu resultado. Conseguiu enganá-lo tal como conseguiu enganar muitos outros.

 

Owen tentou conter a sua surpresa. Se ela é uma impostora, por que é que o procurador do ministério público não apresentou essa questão no julgamento?

 

Hah! Aqueles idiotas cabeçudos naquele gabinete atrasado do delegado do ministério público nunca vão descobrir nada sobre uma mulher tão esperta como é a Lenore. E também já comecei a questionar-me se o Bram não a protegeria... se não teria descoberto a verdade sobre ela em qualquer altura e, em vez de enfrentar a humilhação de esse facto se vir a saber... se não a teria ajudado a enterrar ainda mais fundo a sua verdadeira identidade.

 

Edie Norton lançou um olhar para o relógio de pulso e franziu as sobrancelhas, como se desejasse que o seu tempo terminasse. A Lenore, disse ela amargamente. A questão acaba sempre por andar à volta da Lenore, não é verdade?

 

A senhora parece estar cheia de ressentimentos contra ela.

 

Edie levantou-se e caminhou pela sala, passando os dedos pela mobília requintada.

 

Quando conhecemos o Serian, ele estava inscrito na Sociedade dos Estudantes de Belas-Artes e vivia em West Village. Ainda não havia muito tempo que tinha vindo para Nova Iorque. As suas obras eram de importância secundária, mas vimos que tinha um potencial enorme, por isso aceitámolo. Tentámos orientá-lo. Procurámos ajudá-lo a conhecer o seu próprio esplendor, por assim dizer. A sua escultura melhorou e conseguimos finalmente vender alguns dos seus trabalhos, mas... oh, sabe... ele não se enquadrava em lado nenhum. Não era minimalista, não era realista, não era surrealista. Simplesmente não havia maneira de conseguir enquadrá-lo.

 

Mas não o abandonámos. Ele andava cada vez mais preocupado com a sua incapacidade de encontrar um público, e entrou numa fase em que quase desapareceu durante algum tempo, comprou aquela quinta e transformou-se num eremita. Então descobriu o seu génio para a pintura e tornou-se o Bram Serian.

 

Durante todo aquele período, ele esteve relacionado com uma modelo qualquer, mas eu poucas vezes a vi e ele nunca falou nela. Se não fosse por causa do falatório do mundo artístico, eu nem teria sabido que ela existia. Está a ver, naquela altura ele tinha absolutamente uma visão restrita das coisas e não deixava que as trivialidades pessoais interferissem com a sua criatividade.

 

Depois casou com a Lenore e ela destruiu a sua capacidade de fazer isso. Desgastou-o com as suas manipulações e o seu comportamento infantil e neurótico e eventualmente terá destruído a sua capacidade de criar. Quando ele já não conseguia criar, ela destruiu-o.

 

Edie Norton tapou a cara com as suas mãos perfeitamente tratadas. Owen sentou-se em silêncio. Quando se recompôs, estava furiosa.

 

Lenore Serian não é assunto que eu esteja disposta a discutir!

 

Peço desculpa, disse Owen. Esperou para ver se ela o mandava embora, o que não aconteceu. Pelo contrário, ela voltou para a sua cadeira e deixou-se cair nela como se se sentisse frustrada.

 

Sabe o nome da modelo?

 

Não. Ela não era relevante.

 

Mas parece que o Serian andou envolvido com ela durante vários anos...

 

Ela era irrelevante! interrompeu Edie.

 

- Muito bem. Owen olhou para os seus apontamentos, enquanto pensava que direcção havia de tomar. Por fim perguntou, Depois de o Serian ter mostrado os seus quadros a Gregory Hillyer, ele trouxe-os imediatamente para a galeria?

 

Edie Norton riu-se desdenhosamente. Então você esteve a falar com o velho Hilly, não esteve? Eu nunca recorreria a ele como fonte de informação, Owen.

 

Por que não?

 

Digamos apenas que os alcoólicos de oitenta anos não têm memórias em que se possa confiar.

 

Mas ele parecia estar lúcido.

 

Os olhos dela diminuíram. Eu podia contar-lhe algumas coisas sobre reg Hillyer... então ela parou de falar e esboçou um sorriso sem graça.

 

Mas assim estaríamos a desviar-nos do assunto, não é verdade? Olhou para o relógio de pulso.

 

Owen voltou atrás nos seus apontamentos. A senhora foi muitas vezes à quinta?

 

No princípio não. Ele não queria que ninguém lá fosse. Andava a trabalhar no estúdio e as condições eram rudimentares.

 

Ele remodelou o celeiro sozinho?

 

Não totalmente. Contratou profissionais para fazerem a instalação eléctrica e a canalização e todas aquelas luzes celestes no telhado. E depois também havia o Al. Ele ajudou-o no estúdio.

 

Quem é o Al?

 

O Al? Porquê? Ele foi ali um elemento constante durante vários anos. Não sei onde é que o Bram o descobriu. Havia rumores de que o Al podia ter sido um primo afastado ou coisa parecida, mas duvido que fosse alguma coisa desse género. Seja como for, o Al era uma pessoa incapacitada. Um débil mental. Não havia maneira de o homem poder funcionar neste tipo de sociedade. O Bram tomou conta dele e deixou-o viver no estúdio como uma espécie de ajudante para todo o tipo de tarefas e assistente criativo.

 

O que é um assistente criativo?

 

Oh, sabe... alguém que estica as telas, toma conta dos maçaricos, limpa os restos de tinta. Esse género de coisas. Um artista com muito trabalho pode dar trabalho a vários assistentes.

 

O que aconteceu ao Al depois de o Bram morrer?

 

O Al tinha-se ido embora muito antes disso. Edie Norton entretinha-se a brincar distraidamente com o anel com uma grande esmeralda que tinha no dedo, depois voltou a olhar para o relógio.

 

Rapidamente Owen perguntou, Como é que as pinturas-revelação do Serian lhe chamaram a atenção? Hillyer telefonou-lhe?

 

Hillyer? Certamente que não. Aquele velho louco não teve nada a ver com isso.

 

Respirou fundo e a sua expressão tornou-se mais suave. Depois de o Bram ter começado a trabalhar na quinta, quase se tornou um eremita. Era muito difícil conseguir que viesse à cidade. Tanto o Barry como eu andávamos preocupados. Passavam-se meses sem lhe pormos a vista em cima. E ele disse-nos em termos bastante incisivos que não queria que aparecessem visitas por lá. Depois, um dia o Bram telefonou-lhe e ele disse que tinha umas coisas para nos mostrar e que gostava que fôssemos lá a casa.

 

Deixámos tudo e fomos a correr. Foi a nossa primeira visita à quinta e de certa maneira ficámos chocados. Tão longe, ali no meio de nada e com aquela casinha lastimosa... Isso foi antes de ele ter começado o projecto do edifício grande. Mas ele tinha um grande orgulho na sua casa e especialmente no estúdio que já tinha acabado. Era enorme. Um autêntico celeiro de facto, que ele tinha remodelado e transformado definitivamente naquele estúdio, com uma iluminação perfeita por meio de clarabóias e tudo. Pelo menos foi o que ele disse. Não nos deixou ir ver lá dentro. Não permitia que ninguém lá entrasse. Com a excepção do seu assistente, claro.

 

Também não nos levou a casa. Acho que se sentia embaraçado. Havia uma varanda de madeira descaída no meio, à frente da casa, e ele mostrou-nos uma quantidade de telas e pediu-nos para lhes darmos uma vista de olhos. O Barry olhou para mim e ficámos os dois a pensar, “Oh, não... o que irá sair daqui...” porque o Serian nunca se tinha interessado por pintura, e então começámos a ver as telas e ficámos estupefactos. Estupefactos! O Barry ficou tão entusiasmado que começou a gaguejar.

 

Edie Norton sorriu perante aquela recordação. Aquelas pinturas representavam o ponto de viragem. Organizámos uma grande exposição e fizemos do Bram uma estrela. Desde então ele passou a ser solicitado incessantemente. Dividia o seu tempo entre as águas-furtadas em Manhattan e a casa de campo, e tinha todos os encontros sociais na cidade, por isso os anos passaram sem que ninguém fosse à sua quinta. Anos, quando todos nós sabíamos que era lá que tudo acontecia, se bem que estivesse em Manhattan. Depois começou a falar da casa que estava a construir e as pessoas mostraram-se interessadas e ofereceram-se para ir ajudá-lo e assim começaram as festas de trabalho duro do Bram aos fins de semana. Apareciam grupos de pessoas e toda a gente martelava e pintava e comia grelhados e fazia loucuras.

 

No verão o Bram alugou uma carrinha para levar as pessoas da cidade na sexta-feira à tarde e trazê-las de volta no domingo à noite, de maneira que havia uma frequência regular de festas de trabalho. Toda a gente queria ir, mas o Bram era muito selectivo na escolha das pessoas.

 

Quando é que a Lenore foi para lá?

 

Não sei. Costumávamos sair de vez em quando e ocasionalmente conseguíamos vê-la por momentos. Ela gostava de ficar nos bastidores, movimentando-se em silêncio antes de todos se levantarem de manhã e esse tipo de coisas, e nós simplesmente supúnhamos que ela tinha vindo como empregada em part-time para fazer as tarefas da casa. Por fim compreendemos que ela vivia lá, mas ainda não pensávamos nada daquilo. Ela era uma espécie de criatura maltrapilha nessa altura e toda a gente pensava que ele tivesse arranjado uma daquelas trabalhadoras ilegais da Coreia ou das Filipinas para lhe fazer as tarefas da casa. Raramente a víamos. Ela mantinha-se afastada. A maior parte do tempo a gente esquecia-se de que o Bram tinha mais duas pessoas a viver ali com ele, porque tanto a Lenore como o Al eram muito bons a manter-se afastados, sem serem vistos. O Barry dizia sempre que eles correspondiam à ideia que ele tinha dos empregados perfeitos silenciosos e quase invisíveis.

 

Finalmente, ouvimos dizer que ela devia ser uma espécie de refugiada da guerra. Uma daquelas órfãs semi-vietnamitas.

 

Logo que ouvi dizer isso, fiquei desconfiada de qual seria o estratagema dela. Sabia que andava atrás dele. Quero dizer, o Bram sentia uma grande atracção por órfãs, para começar, e tinha aqueles vestígios de bagagem cultural do Vietname, portanto ela estava realmente a aproveitar-se de toda a sua fraqueza.

 

Então ele organizou uma grande festa num fim de semana, convidou um grupo de nós para o campo, para passarmos lá a noite e vermos a parte da casa que já estava acabada de fazer. E enquanto lá estávamos, a rapariga apareceu por acaso. Só que já não era uma rapariga. Tinha-se transformado nessa criatura dramática. E o Barry disse, “Estou a ver que ainda tens a tua refugiadazinha a viver aqui”, e o Bram olhou à sua volta por momentos, como se não soubesse do que o Barry estava a falar; depois disse, “Oh, sim. Casei com ela”. Edie Norton respirou fundo.

 

Ficámos todos estupefactos, mas o Bram continuou a falar como se aquilo não tivesse uma grande importância. De facto, mais tarde nessa mesma tarde, levou-nos para um lago a ver uns patos exóticos que tinha comprado e estava mais entusiasmado e animado com os patos do que com a questão do seu casamento.

 

Nunca compreendi por que teria ele casado com ela. Ela é esteticamente interessante, claro. Você viu-a. Aquela aparência de frescura e a estrutura óssea... Para um artista, suponho que fosse natural vê-la como uma peça de arte. Arte viva. E percebi como ela o atraiu pelo lado de órfã do Vietname... mas porquê o casamento?

 

Ela já lá estava. Já estava à sua disposição. Provavelmente dormiam juntos desde o princípio. Então por que diabo casou com ela?

 

Edie dirigiu a pergunta a Owen, como se ele tivesse a resposta.

 

Eles não pareciam estar apaixonados quando casaram? perguntou Owen cautelosamente.

 

Definitivamente não! Foi a coisa mais bizarra. Ninguém conseguia explicar aquilo. Até os outros homens achavam aquilo inexplicável. Toda a gente falava constantemente naquilo.

 

A senhora alguma vez lhe perguntou quais tinham sido os motivos?

 

Jamais me atreveria a fazer tal coisa. Por essa altura o Bram já tinha revelado o seu lendário mau temperamento e até eu tinha algum receio dele.

 

E a Lenore? Alguma vez teve com ela uma conversa pessoal que lançasse alguma luz sobre o assunto?

 

Ninguém tinha conversas com a Lenore, nem pessoais nem de qualquer outro tipo.

 

Ela não tinha amigos íntimos?

 

Não tinha amigos, ponto final. Se quer que lhe diga, Lenore Serian era e continua a ser uma pessoa mentalmente perturbada. Porquê? Mesmo depois de começar... Edie Norton controlou-se e olhou para ele de olhos arregalados. Não lhe vou dar informações pessoais sobre Lenore Serian.

 

Muito bem... vamos voltar atrás... a senhora disse que a Lenore só se envolveu com o Serian muito depois de ele ter voltado do Vietname. Portanto os rumores de que ele a conheceu lá, de se ter envolvido lá com ela, ou de sentir que tinha algum compromisso para com ela, por algo que aconteceu lá, são totalmente desprovidos de fundamento?

 

Sim. Edie mudou de posição na cadeira e rodou a bracelete do relógio de pulso para ver as horas. Tem mais cinco minutos, disse ela.

 

Está bem. Então agora fale-me do Serian. Como era ele quando o conheceu e como é que ele mudou à medida que progrediu na sua carreira.

 

Ela sorriu. Lembro-me da primeira vez que o vi. Foi numa festa. Oh, ele

era magnífico. Tinha uma aura artística que pode dizer-se que brilhava. E era inocente e simpático e incrivelmente sensual.

 

Olhou à sua volta, como se tivesse receio que alguém pudesse estar a observar; depois estendeu a mão para uma gaveta ao fundo da secretária e tirou uma fotografia com uma moldura de oito-por-dez. O Bram matava-me se soubesse que eu tinha isto, disse ela. Mas tem tanto significado para mim.

 

Entregou a fotografia a Owen. Era a primeira fotografia de boa qualidade que via do rosto de Bram Serian e ficou a observá-la atentamente. O homem tinha cabelo forte e louro, um bigode comprido e forte virado para cima em cada uma das pontas e um rosto que ficaria perfeito num desenho feito em sépia, num modelo de estanho do século dezanove. Tinha um olhar distante, como se não se apercebesse da câmara a focá-lo. Havia várias mulheres à sua volta, todas elas com os olhos postos nele. Uma delas era uma versão mais nova de Edie Norton. Ao fundo via-se o perfil de uma mulher negra muito atraente.

 

Por que detestava ele que lhe tirassem fotografias? perguntou Owen.

 

Ele dizia que queria que as pessoas se concentrassem na sua arte e não nele. Encolheu os ombros. Quaisquer que fossem as suas razões, ele era inflexível nesse ponto.

 

Esta é a senhora, não é? perguntou Owen.

 

Edie sorriu. Sim. Foi tirada numa das primeiras exposições do Bram. E essa é... Apontou para a mulher ao lado dela. Oh, não consigo lembrarme do nome dela. Do tipo mundano. A cabra atirou-se ao Bram durante toda a noite, mas eu consegui impingir-lhe um quadro.

 

E quem é esta? perguntou Owen, apontando para a mulher que estava em segundo plano.

 

Essa é Geneva, respondeu Edie; depois calou-se e olhou para Owen com ar irritado.

 

É a modelo com que ele se envolveu?

 

Claro! Essa é Geneva Johnson.

 

Edie arrebatou a fotografia das mãos dele, ficou a olhar para ela por instantes e depois guardou-a enquanto dava um suspiro. O Bram perdeu a sua inocência mas continuou a ser muito sensual. E com o passar dos anos não perdeu a sua simpatia. Sabe Deus quantos parasitas estavam a viver à sua custa. O assistente atrasado que tinha no estúdio e outros artistas sem sucesso que tinha conhecido na Sociedade dos Estudantes de Belas-Artes... Ela bufou de indignação. E aquele velho porco, Greg Hillyer... aquele homem deve ter vivido à custa do Bram durante vários anos... E claro, ele era sempre generoso para com os jovens artistas e para com os programas de arte e os grupos. Mas era difícil para a maior parte das pessoas recordar a sua benevolência, porque ele tinha-se tornado tão... terrível. Toda a gente tinha medo do seu temperamento.

 

E a Lenore tinha medo dele?

 

Quem sabe. É evidente que não havia interacção entre eles quando eu estava por perto.

 

Mesmo nas festas, nas inaugurações, em acontecimentos públicos?

 

Meu caro Owen, a Lenore nunca o acompanhava em Manhattan. Ela era como um dos seus patos exóticos. Ficava próximo do lago.

 

Por que acha que era assim?

 

A minha suposição é que ela era um objet d”art para a sua esplêndida casa e as pessoas não costumam andar com decorações domésticas atrás delas. Mas este é definitivamente o meu último comentário sobre a Lenore.

 

Gostava de ouvi-la falar mais sobre as amizades de Serian e...

 

Tem de ficar para a próxima oportunidade. Hoje tenho uma agenda muito carregada.

 

Então posso voltar a telefonar-lhe? perguntou Owen.

 

Ela sorriu sugestivamente. Talvez devêssemos encontrar-nos para tomar uma bebida na próxima vez.

 

Owen saiu do seu gabinete, cogitando sobre o que tinha e não tinha ficado a saber. A jovem com o vestido justo e de atitude afectada estava à espera para o acompanhar até à saída. Ela lançou-lhe um olhar de desdém com ar de superioridade e disse, Como correu a entrevista?

 

Correu bem.

 

Ela disse-lhe que fodeu com ele?

 

Owen não conseguiu dissimular a sua surpresa.

 

Oh, sim. Ela engoliu uma quantidade de comprimidos quando ele se casou com a Lenore. Embora não tenham sido suficientes para a matar.

 

Desirée! a voz de Edie ouviu-se vinda do fundo. Já fizeste aquelas chamadas telefónicas?

 

Sim, Mãe!

 

Owen caminhou para Leste, em direcção ao seu apartamento. O céu tinha ficado muito cinzento e a temperatura estava a descer. Caminhou com as mãos nos bolsos e a olhar para o passeio, esticando as pernas com grandes passadas, mas não conseguiu ultrapassar o abatimento que sentia. A verdade sobre as vidas das pessoas era muitas vezes tão triste, ou patética, ou trágica. O facto de Edie Norton querer morrer por amor e o facto de Serian casar com uma mulher por motivos inexplicáveis, e Lenore, provavelmente não desejada e sem um lar, ou possivelmente tão desesperada, que teve de planear uma táctica e recorrer à mentira para conseguir obter segurança. E o Serian morto e a Lenore acusada e a Edie com o seu coração empedernido e a sua filha apanhada no fogo cruzado.

 

E a sua própria família, complicada e falida de tantas maneiras.

 

Quando chegou ao apartamento estava num profundo estado de depressão. Procedeu ao ritual de abrir a porta com a chave, abrir a porta exterior e depois a porta entre o vestíbulo e o átrio.

 

Aqui está finalmente! Ouviu-se uma voz feminina e ficou surpreendido ao ver Holly Danielson sentada ao fundo das escadas.

 

Olá, respondeu Owen, animado instantaneamente pela saudação jovial dela.

 

Espero que não se importe que eu tenha aparecido... Ela levantou-se, puxando os jeans com as mãos. Tinha as bochechas coradas e os olhos a brilhar. Tenho algum material para si e precisei de vir para estes lados, por isso pensei que podia trazer-lho, mas como você não tem telefone tive de arriscar se seria boa altura.

 

Há quanto tempo está aqui à espera?

 

Oh, não muito. E como vê, consegui introduzir-me aqui para o átrio, por isso não foi mau.

 

Não parecia ter pressa em dar-lhe o material e ir-se embora, por isso Owen perguntou-lhe, Quer subir? Posso fazer uma chávena de café.

 

Na verdade... Pegou no saco branco e no saco castanho que estavam no chão aos seus pés. A modos que trouxe a minha própria festa.

 

Owen tirou-lhe das mãos o saco branco e começaram a subir as escadas. Sentiu imediatamente o cheiro picante da comida chinesa.

 

Há ali em baixo aquele pequeno restaurante que faz a melhor comida Szechuan, disse ela, enquanto seguia atrás dele pelas escadas acima. Nunca consigo resistir-lhe. Por isso... pensei... se você ainda não tivesse jantado...

 

Ele ficou extremamente aliviado por ter sido interrompido na sua meditação profunda e estava grato pelo conforto da comida prometida pelos cheiros tantalizantes. Isto é bestial, disse ele. Nem acredito que tenha feito uma coisa destas.

 

Também trago cerveja chinesa, disse-lhe ela impacientemente. Não sabia se preferia vinho ou cerveja, mas com Szechuan calculei que não me enganaria se trouxesse cerveja chinesa.

 

A cerveja parece-me óptima ideia.

 

Desembrulharam a comida em cima da pequena mesa de centro do apartamento, depois sentaram-se no sofá a comer. Ela abriu uma embalagem de cartão e passou-lha.

 

Massa fria com sésamo!

 

Ela irradiava alegria. Lembrei-me que você gostou disto quando a Marilyn lhe disse para provar.

 

Nunca me passaria pela cabeça que a massa fria pudesse ser tão boa, confessou ele, rindo enquanto enchia avidamente o seu prato.

 

Comeram em silêncio durante algum tempo; depois a Holly começou a falar, a comentar o ambiente monótono do apartamento e a característica de classe baixa de East Village em geral. Lamentou a aborrecida falta de homicídios e de agressões físicas no seu trabalho de sábado e contou a sórdida história de um produtor na sua estação que não tirava as mãos das suas subordinadas.

 

Por que não faz queixa dele? Faça-o parar.

 

Sim, com certeza. A Holly resfolegou sarcasticamente. Podíamos provavelmente conseguir até que ele fosse despedido. Mas qualquer uma que se atreva a abrir a boca será tratada como se fosse uma leprosa para o resto da sua carreira na televisão. Sorriu ironicamente. Não se mostre tão chocado. É assim que as coisas funcionam. Ou se aprende a viver com isso, ou se procura emprego onde os únicos homens que há lá são nossos subordinados.

 

Ou procura emprego fora da televisão, disse Owen.

 

Hah. É a mesma coisa na maior parte das áreas de trabalho. Você nunca se apercebeu disso porque sempre viveu a boa vida do campo. Quando os homens chegam ao poder, a maior parte deles não consegue resistir a tirar partido da situação. Faz parte da natureza masculina, parece-me. Encolheu os ombros com um ar triste. Quem sabe, talvez as mulheres fossem também más em termos estatísticos, se um número razoável delas tivesse a mesma oportunidade. Talvez o poder seja a derradeira tentação.

 

Owen observou-a enquanto punha mais frango com gengibre no prato. O seu apetite desapareceu e voltou a sua melancolia.

 

Estive hoje a falar com Edie Norton, disse-lhe ele.

 

Conseguiu alguma coisa de interesse?

 

Parece-me que sim. Estou a começar a perguntar-me se Bram Serian não estaria desde o princípio destinado à tragédia.

 

E o que o faz pensar assim?

 

Não sei. Não tenho nada de concreto.

 

Bem, há-de imaginar uma maneira de usar isso. É uma perspectiva muito boa. Destinado à tragédia desde o princípio. Parece um título que fará a sua editora ver sinais de dólares.

 

Owen queria dizer-lhe que East Village era uma zona óptima na sua opinião e um sábado à noite sem homicídios não era motivo para se queixar e a tragédia não era apenas um ponto de vista para criar sinais de dólares. Em vez disso, levantou-se de repente e levou o seu prato para o lava-loiça.

 

Não quer comer mais nada? perguntou ela.

 

Já comi o suficiente, disse ele, enquanto se ocupava a montar a máquina do café.

 

Eu disse alguma coisa que não devia, Owen?

 

Ele voltou-se para lhe sorrir, mas foi uma reacção sem entusiasmo. Parece-me que não sou muito boa companhia esta noite, tenho a cabeça cheia. Mas obrigado pelo jantar. Foi uma surpresa agradável.

 

Ela começou a recolher as embalagens de cartão, insistindo em deixá-las no frigorífico. Insistindo em lavar os pratos e fazer a limpeza. Ele desejava não ter começado a fazer o café, porque só queria que ela se fosse embora.

 

Ó rapaz, invejo-o por ter crescido no campo, disse ela. Sempre sonhei com isso quando era criança. Todos aqueles animais e aquele espaço e toda a família feliz a comer tarte de maçã.

 

Ele riu-se. Eu sonhava em viver numa cidade onde pudesse ir de bicicleta para a biblioteca e ir ao cinema e encontrar-me com outras crianças com as mesmas ideias que eu.

 

Eu nunca pensei nisso dessa maneira, disse ela.

 

Ela apoiou os cotovelos no balcão a observar como ele tirava as chávenas e o leite e o açúcar. Se eu estivesse a descrevê-lo para uma peça de reportagem, diria que você tem uma aparência de intelectual selvagem. Tocou levemente na cara com o dedo numa atitude de reflexão. Ou talvez fosse melhor dizer que você é o tipo do irlandês sentimental e misterioso.

 

Mas você nunca vai fazer uma peça da qual eu faça parte, disse ele, ambos divertidos e ao mesmo tempo incomodados com a referência dela.

 

Você era um crânio quando andava na escola? perguntou ela.

 

Tome o seu café, disse ele, colocando uma chávena em frente dela. Ela serviu-se do leite e do açúcar, observando-o com ar divertido enquanto mexia o café. Diga lá... Era um barra?

 

Não. Ele sabia que o que ela queria era que lhe contasse mais sobre o seu passado, mas não queria encorajá-la.

 

Ela levou o seu café para o sofá e sentou-se. O que pensa a sua família do facto de você estar aqui nesta malvada velha cidade de Nova Iorque?

 

Estão horrorizados.

 

Uhmm. Ela sorriu e bebeu um gole de café. Posso imaginar. Os meus também ficaram horrorizados quando vim para cá. E eu venho de uma cidade.

 

Ele encostou-se ao balcão e bebeu o café.

 

Mas você gosta disto aqui, não gosta? perguntou ela num tom mais sério do que antes.

 

Por que diz isso?

 

Você simplesmente... ajusta-se bem. Pousou a chávena em cima da mesa de vidro. Você tem a postura adequada.

 

Owen esfregou os olhos com ar cansado. Oiça, Holly... preciso de me pôr a trabalhar na minha proposta, por isso...

 

Mas foi mesmo por isso que eu vim cá, insistiu logo ela. Trago-lhe cópias de todo o tipo de coisas. Estendeu a mão para a enorme carteira que tinha colocado no chão por baixo da mesinha de centro e tirou um envelope de Manila. Venha sentar-se aqui. Bateu com a mão na almofada ao lado dela. Vou mostrar-lhe o que tenho aqui.

 

Com alguma relutância, Owen levou a sua chávena e sentou-se ao lado dela. Ela chegou-se para ele para dar uma vista de olhos ao material, encostando o seio ao seu braço enquanto apontava os artigos mais importantes. A pressão agradável do contacto dela provocou algum calor na sua pele na zona de contacto. Tentou ignorar o facto e concentrar-se no conteúdo do envelope. Verificou-se que o que ela tinha trazido continha informação de reduzido interesse, que lhe podia dar no dia seguinte durante o julgamento. Começou a referir-lhe isso, mas depois desistiu.

 

Agradeço a sua ajuda, disse ele.

 

Ela descalçou os sapatos, dobrou as pernas e sentou-se em cima delas e tocou com os dedos no tecido da manga dele. Todas as suas camisas parecem novas. Deita-as fora e compra outras em vez de as lavar?

 

Não é assim que se deve fazer? perguntou ele. Sentiu o perfume dela e olhou para o interior da sua blusa. Não tinha soutien. Será que o tinha desabotoado antes e tinha descaído ou era a maneira como ela se inclinava para ele que mostrava tanto?

 

Você está muito tenso, disse ela por simpatia. Toda essa pressão por causa da sua proposta e tudo isso... Com os dedos massajou-lhe suavemente o pescoço. Volte-se. Está tão tenso. Como é possível trabalhar desta maneira?

 

Ele voltou as costas para ela, fechando os olhos e submetendo-se à estranha pressão das pontas dos seus dedos. Deslizaram para cima e para baixo, massajando e esfregando.

 

Desabotoe a camisa, disse ela, o que ele fez, sem olhar para trás, para ela.

 

Ela puxou a camisa para baixo até ao meio das costas, de modo a ter acesso ao pescoço e aos ombros. As suas mãos acariciaram-lhe a pele, fazendo desaparecer a tensão, mas mandando-a directamente para a região genital. Ele mudou levemente de posição e ela encostou-se a ele, fazendo pressão nas suas costas e deixando as mãos deslizar dos ombros para baixo, para a frente do peito nu. E ele apercebeu-se que os seios dela, encostados às suas costas, estavam descobertos, que ela tinha desabotoado a blusa e que o calor era da sua pele. Ouviu um leve gemido de prazer e verificou que era mesmo dele.

 

Relaxe, sussurrou ela, e ele voltou-se sob as mãos guiadas, de modo que ficou novamente sentado no sofá.

 

Agora ela estava na sua frente. Ajoelhada no meio das suas pernas. Os seus seios brancos e macios roçavam nas suas coxas. Os dedos dela alcançaram o fecho das calças. Ele fechou os olhos, concentrando-se nas sensações, fazendo respirações rápidas quando o fecho se abriu. Sentiu a boca dela, leve como uma pena, na barriga, beijando e encostando o nariz, movendo-se para baixo... para baixo. E teve medo de abrir os olhos ou de voltar a respirar, medo de fazer alguma coisa que pudesse parar aquela boca húmida e macia do seu movimento descendente. Nunca tinha estado na boca de uma mulher. E queria estar. Como ele queria. Cerrou os punhos para evitar empurrar-lhe a cabeça mais depressa para baixo.

 

Os beijos pararam. Oh, Owen, disse ela suavemente, eu sabia, desde o momento em que o vi, que nós íamos dar-nos bem. Tenho pensado tanto em si desde aquele dia.

 

As palavras dela foram como um balde de água fria. A sua erecção murchou e a bruma de desejo do prazer sensual desapareceu do seu cérebro, deixando-o a sentir-se como se fosse o maior idiota do mundo. Não havia uma maneira apropriada para escapar. Nenhum estalido mágico com os dedos que pudesse fazer desaparecer aquela situação. A Holly ficou a olhar para ele com uma expressão de embaraço e vulnerabilidade que o fez sentir-se ainda pior. Levantou-se desajeitadamente, abandonando-a junto do sofá, enquanto puxava a camisa e se recompunha.

 

Desculpe, Holly. Peço-lhe muita desculpa. Não sei o que se passa comigo. Ela pestanejou várias vezes. Não quer fazer amor comigo? perguntou com uma voz fraca.

 

Ela ainda se encontrava no chão. A olhar para ele, com as lágrimas a saltarem-lhe dos olhos. Ele apanhou a blusa dela do braço do sofá e deu-lha, depois desviou os olhos, mas ela não a vestiu. Levantou-se do chão e sentou-se à beira do sofá, segurando a blusa em frente do peito.

 

Acho que era óbvio que eu queria fazer amor consigo. Mas não está certo. Eu disse-lhe, Holly... tenho uma pessoa na minha terra e não seria justo para consigo nem para com ela.

 

É por isso que está preocupado? Recuperou alguma da sua confiança e vestiu a blusa, sem fazer qualquer esforço de modéstia. Ele viu-se forçado a desviar o olhar.

 

Owen, somos dois adultos responsáveis e sentimo-nos atraídos um pelo outro. A felicidade é para aqueles que sabem como agarrá-la. Estarmos juntos faz com que nos sintamos felizes. E quem vai saber? Quem se vai magoar?

 

Ele pesou cuidadosamente as suas palavras. Fico lisonjeado por você me querer. Você é uma mulher extremamente atraente e se as circunstâncias fossem diferentes...

 

Talvez as coisas lhe pareçam diferentes se lhes prestar realmente atenção, disse ela. Talvez o motivo por que se sente atraído por mim é que não está apaixonado por ela. Devia pensar nisso.

 

Ele desviou-se. Neste preciso momento não consigo pensar noutra coisa, a não ser como vou trabalhar esta noite e como é que vou ter a proposta pronta dentro em breve. Disse aquilo de uma maneira mais brusca do que pretendia e sentiu-se culpado por isso. Mas não pediu desculpa. Queria que ela saísse do apartamento.

 

Com certeza, disse ela, aparentemente impassível. Eu sei como são os fins de prazo.

 

Ele retirou-se para o recanto da cozinha e ficou a observar, enquanto ela calçava os sapatos, dava um jeito ao cabelo, pegava na carteira e no casaco. Quando parecia estar pronta para sair, ele acompanhou-a até à porta e abriua para ela sair.

 

Não se preocupe, disse ela. Não estou zangada consigo. Ao ver como você é tão fiel, isso só o torna ainda mais atraente. A maior parte dos homens são tão fáceis. Não importa se estão comprometidos, ou casados, ou seja lá o que for. Desde que pensem que podem safar-se. Encolheu os ombros. Foi por isso que não me casei. Não se pode confiar nos homens. A maior parte dos homens são escravos das suas pilas.

 

Talvez só tenha andado com os homens errados, sugeriu Owen.

 

Sim... acho que tem razão, sorriu com ar triste e pôs ao ombro a alça da sua carteira. Mas estou a tentar alterar isso.

 

Ele ignorou o olhar expressivo que ela lhe dirigiu. Quer que a acompanhe até lá abaixo? perguntou ele. Que espere até você apanhar um táxi ou...

 

É muito simpático da sua parte, mas não. Sou uma rapariga má da cidade. Ela pôs-se em bicos de pés para lhe dar um beijo rápido na cara. Depois saiu e dirigiu-se para as escadas. Até amanhã, disse ela, Adeus.

 

Adeus, respondeu Owen automaticamente. Começou a fechar a porta e então reparou que o velhote que vivia do outro lado do patamar estava à porta, a espreitar.

 

Então finalmente ela encontrou o senhor, disse o homem.

 

Como?

 

Esteve aí muito tempo à sua espera. A andar de um lado para o outro e sentada nas escadas. O senhor não vende drogas, pois não?

 

Não.

 

As raparigas não gostam de esperar, sabe.

 

Vou tentar não me esquecer disso.

 

Sim. Hoje não foi assim tão mau. Não passaram mais de vinte minutos desde o momento em que bateu à porta até o senhor aparecer. Mas a noite passada esteve aqui durante três horas. Estive quase para chamar a polícia.

 

Peço desculpa se o senhor foi incomodado, disse Owen.

 

Fechou a porta. Na noite passada ela também tinha estado à sua espera? Meu Deus. Que estúpido que tinha sido. Como é que não tinha reparado que ela se sentia atraída por ele?

 

Mas tinha de pôr fim àquilo, porque ele não era inocente. Não podia rejeitar a responsabilidade pelo que tinha acontecido. Soube o que ela queria logo que se sentou ao lado dela no sofá. Talvez até antes disso. E tinha ficado fascinado pelo que poderia acontecer. Pelo desconhecido. Até pela natureza de proibição de tudo aquilo.

 

Que confusão teria arranjado se ela não tivesse falado e não o tivesse chamado à realidade. Ela não tinha sido a Holly para ele, de maneira nenhuma. Nem tinha sido ninguém que ele conhecesse. Não tinha sido mais do que uma personagem duma fantasia. E que fantasia... Mesmo com o seu espírito racional com tudo sob controle, o seu pénis ainda se estimulou, só de pensar naquilo. Sexo louco e livre com uma loura cremosa num refúgio de Nova Iorque. Directamente de um sonho molhado de um adolescente.

 

O problema era que seria embaraçoso. Ia dar início a uma série de segredos de culpa que teria de esconder da Mike. Ou significaria que teria de contar à Mike a verdade e iria magoá-la. E possivelmente significaria que iria também magoar a Holly, porque podia dizer que, apesar da sua aparência sofisticada, ela esperava uma resposta emocional da parte dele, para além de física. Ela queria ser mais do que uma loura anónima nas suas fantasias.

 

Desejava poder telefonar à Mike e ouvir a sua voz. Mas para isso tinha de sair e ir a uma cabine telefónica e além disso ele tinha prometido que não ia gastar mais dinheiro em chamadas de longa distância. Andou de um lado para o outro durante algum tempo, depois foi tomar um duche, aliviando a impulsão sexual remanescente da única maneira possível, depois meteu-se finalmente ao trabalho.

 

Como introdução, começou por transcrever as notas da entrevista com Edie Norton. Depois voltou a Gregory Hillyer. E depois passou em revista as notas que tinha tomado sobre tudo o que tinha sido escrito relativamente ao passado pessoal de Bram Serian. Por que iria alguém querer fazer desaparecer o seu próprio passado de uma maneira tão completa? O que teria levado Serian a fazer aquilo. O que o teria transformado na estranha forma criativa em que se tornou? E que espécie de relação teria tido com a mulher que estava a ser julgada pelo seu homicídio?

 

Às duas da manhã Owen obrigou-se a desistir e a ir para a cama. No dia seguinte recomeçava o julgamento. Estava ansioso por mergulhar mais uma vez naquele drama, apesar de ter começado a compreender que ia conseguir obter poucas respostas. Os ruídos que vinham da rua acalmaram-no e deixou-se levar para o meio-sono que sempre fora o seu tempo de maior criatividade. Era a altura em que a sua imaginação levantava voo e ele podia sonhar o que escolhesse. Agora o sonho estava cheio de Bram Serian.

 

E com o sonho veio uma ideia. Talvez, simplesmente talvez ele tivesse uma nova pista para perseguir na manhã seguinte.

 

Quando Owen entrou no tribunal na segunda-feira de manhã, não subiu as escadas que davam acesso à sala de audiências número 6. Em vez disso, no seguimento da ideia que tinha tido durante a noite, dirigiu-se para a área dos gabinetes do primeiro andar e seguiu pelo corredor para o gabinete dos registos do condado. O funcionário que estava lá era simpático e conversador. Os registos mostravam que Bram Serian tinha comprado a sua quinta a uma pessoa chamada John Potter. Após alguns minutos de conversa com o funcionário ficou a saber que John Potter vivia com a filha apenas a cinco quarteirões dali.

 

Estava quase na hora de começar a audiência, mas Owen não podia esperar. Saiu do edifício para ir imediatamente a casa de Potter.

 

A mulher que o atendeu à porta estava desconfiada. Levou muito tempo a explicar-lhe o que pretendia, antes que ela o deixasse finalmente entrar. Espero bem que não seja nenhum vendedor dissimulado, advertiu ela enquanto conduzia Owen para uma sala que ficava por detrás da cozinha.

 

Ela abriu a porta. Tem aqui alguém que quer falar consigo, pai. Agora porte-se bem e não arranje confusões.

 

John Potter era um homem fraco, de olhos melancólicos, mas parecia ser uma pessoa atenta. Claro que me lembro de ter vendido a minha casa àquele indivíduo que é artista, disse ele bruscamente. Foi o maior erro da minha vida.

 

Como assim, senhor Potter?

 

Porque acabei por ficar aqui, quando podia estar a viver ali com os meus animais e o meu buraco para pescar.

 

Já conhecia o Serian ou a sua família antes de lhe vender a quinta?

 

Não. Ele não tinha família por estas bandas.

 

Mais um beco sem saída. Owen tentou superar o seu desapontamento.

 

Ele falou muito consigo? Disse por que queria a quinta ou alguma coisa?

 

Potter estendeu a mão para o cachimbo apagado. Era um indivíduo muito pouco falador, mas explicou-me o motivo por que queria comprar a minha quinta. Gostava muito do meu celeiro e do meu lago grande. Gostava das árvores e do facto de não se verem as casas da estrada. Potter sorriu ironicamente. Disse que gostava daquilo porque era retirado e não era plano. Quase fez aquele velho agente de vendas de imóveis engolir os dentes, porque ele tinha-me dito, quando o registei, que o terreno era demasiado acidentado e irregular para conseguir um bom preço por ele. Com uma mão a tremer, Potter levou o cachimbo à boca.

 

Posso acender-lhe essa coisa? perguntou Owen, olhando à volta, à procura de fósforos.

 

A minha filha não me deixa fumar aqui, disse Potter.

 

Owen observou-o por instantes, perguntando-se se devia oferecer-se para levar o velhote para fora e acender-lhe o cachimbo.

 

Continue... continue, apressou-o Potter. Que mais? Isto é um bom teste para a minha memória.

 

Ele trazia consigo alguma mulher... uma namorada, uma noiva, qualquer coisa?

 

Não.

 

Owen ficou pensativo por instantes. Também vendeu as suas vacas juntamente com a propriedade?

 

Não. O indivíduo não as quis. Não estava nada interessado em ter vacas. Disse que ia comprar cavalos.

 

E referiu que espécie de cavalos tencionava comprar de corrida, de exibição, de saltos...?

 

Não disse nada.

 

Pergunto-me se não estaria a pensar em comprar éguas para fazer criação ou...

 

Potter soltou um riso abafado. Não me parece que o tipo tivesse qualquer ideia. Ele não percebia patavina de criação de animais.

 

Deveras? Então ele parecia ter sido criado na cidade?

 

Não. Na verdade, ele até fez questão em dizer-me que era agricultor. Potter coçou a cabeça e deu uma chupadela no cachimbo. Estou a tentar lembrar-me do que ele disse exactamente. Qualquer coisa sobre cultivar trigo. Então eu disse-lhe que as minhas terras não eram próprias para cultivar trigo, e ele disse que estava bem, porque já tinha tido a sua medida de cultivo do trigo.

 

Trigo! Lá estava outra vez, aquela referência constante ao trigo e a aversão a terrenos planos. Owen ficou entusiasmado por instantes, até que se apercebeu de que ele tinha-lhe dito realmente muito pouca coisa.

 

Verificou o seu relógio de pulso. Tenho de voltar para o tribunal, senhor Potter. Agradeço a sua disponibilidade e estava a pensar se o senhor costuma ler. Podia mandar-lhe alguns livros ou...

 

Já lá vai o tempo em que gostava de ler um bom livro. Especialmente livros sobre o Oeste americano e histórias de guerra. Mas já não consigo ler com estes velhos olhos, filho. Nem uma palavra.

 

Ao dizer aquilo deu uma pancada na mesa e tossiu, depois cuspiu um enorme escarro de substância viscosa para o chão. O seu riso áspero e irritante perseguiu Owen até à saída.

 

Owen caminhou pela calçada acima para o tribunal, a pensar em John Potter e na sua filha, obrigados a viver juntos até à morte. Mais ou menos como a Mike no Wheeler Ranch com o pai, o tio e a avó. Como a sua própria família. Todas as histórias eram diferentes, porém os enredos do amor, dever e necessidade acabavam por ser sempre extraordinariamente semelhantes. Pensou em Bram Serian. Que laços teria ele rompido com a sua fuga para Nova Iorque? E que coalescência obscura o teria prendido a Lenore durante tantos anos?

 

Maquinalmente, Owen passou pela segurança, subiu pelas escadas até ao segundo andar e entrou na sala de audiências do Juiz Pulaski. Estava uma testemunha a prestar declarações e Spencer Brown estava todo empertigado. O oficial de diligências que estava à porta, de olhar carrancudo, avisou-o de que não podia perturbar o silêncio na sala e Owen acenou com a cabeça em sinal de que tinha compreendido, mas depois hesitou. Não sabia bem onde devia sentar-se. Havia o seu lugar habitual ao lado da Holly, mas será que a Holly queria que ele se sentasse ao seu lado depois da noite anterior? Deveria ir para o banco de trás da secção de imprensa? Ou isso seria um insulto à Holly e ia envolver-se em sarilhos ainda mais complicados?

 

A indecisão apoderou-se dele e o olhar carrancudo do oficial intensificouse e sabia que tinha de tomar uma atitude.

 

Meritíssimo! gritou Rossner lá na frente, e ele foi salvo por uma conversa entre o juiz e os advogados. O júri foi dispensado e as pessoas levantaram-se e saíram da sala de audiências para ir fumar um cigarro ou para ir à casa de banho.

 

A Holly voltou-se para falar com alguém na fila de trás, viu Owen e imediatamente fez-lhe um gesto com a mão para avançar.

 

Pensei que talvez o comboio tivesse sido assaltado, sussurrou-Lhe ela a sorrir, como se nada tivesse mudado. Só que havia uns ténues círculos por baixo dos olhos e a sua boa disposição era exagerada.

 

O facto de a ver fez com que fosse acometido por um sentimento de culpa. Considerou pedir-lhe novamente desculpa, mas depois decidiu que isso só os faria sentirem-se ambos desconfortáveis, por isso esboçou um sorriso forçado e perguntou, Perdi alguma coisa importante?

 

Tem estado a ser interrogado o inspector dos bombeiros Kevin Mullin. A Holly folheou o seu bloco de notas. Vejamos... Aqueles de entre nós que têm conseguido manter-se acordados têm assistido a uma prelecção sobre a natureza do fogo e acelerantes. Depois falou sobre o padrão do fogo na casa dos Serians e como o centro do incêndio foi o corpo de Serian. Depois íamos na melhor parte em que descobriram os restos do candeeiro de petróleo quando começou esta conversa entre o juiz e os advogados.

 

Owen ia tomando notas enquanto ela falava; depois, foi um alívio quando terminou a conversa e ambos puderam descontrair e concentrar-se no julgamento. O júri voltou a entrar em fila e a ocupar os respectivos lugares e a testemunha voltou a sentar-se. Soencer Brown endireitou os ombros e voltou à sua posição. A sua linguagem corporal tornou claro que tinha ganho a discussão com o juiz e o outro advogado.

 

Pode dizer-nos, senhor Mullin, se essas peças que referiu ter achado foram em seguida enviadas para serem analisadas e identificadas por peritos?

 

Sim. E como já tinha suspeitado, eram os restos do candeeiro de vidro a petróleo.

 

Obviamente satisfeito consigo próprio, Brown voltou para o seu lugar e Rossner levantou-se para fazer o contra-interrogatório.

 

Olá, senhor Mullin, começou Rossner, aproximando-se do inspector dos bombeiros, como se estivessem num encontro de negócios. Já viu muitos fogos que envolvessem candeeiros de petróleo?

 

Alguns. Não posso dizer que sejam frequentes, mas também não são raros.

 

Disse-nos uma quantidade impressionante de coisas sobre este incêndio e onde começou e qual foi o padrão do fogo, mas eu estava a pensar... há coisas que não pode contar-nos sobre o incêndio?

 

Com certeza.

 

Agora, o senhor disse que definitivamente estava presente um acelerador na vizinhança do corpo...

 

Sim.

 

Pode identificar categoricamente esse acelerador como sendo o candeeiro de petróleo e não o dissolvente de tinta ou qualquer outro produto químico que se encontrasse no estúdio de Bram Serian?

 

Não. Não posso.

 

Pode dizer se o candeeiro de petróleo estava aceso quando começou o incêndio? ”“

 

Não.

 

Pode afirmar se o candeeiro foi quebrado antes do fogo ou se foi o fogo que destruiu o candeeiro?

 

Não.

 

Pode afirmar se o falecido estava a segurar o candeeiro?

 

Não.

 

Ou se ele tinha caído e deixado cair o candeeiro?

 

Não.

 

Ou se acidentalmente tropeçou no candeeiro?

 

Não.

 

Ou se o candeeiro de petróleo caiu e derramou o petróleo em cima dele, ou se acidentalmente o salpicou, ou se ele estava caído no chão numa poça de petróleo do candeeiro partido... pode dizer se alguma destas situações é verdadeira?

 

Não.

 

- Pode dizer se foi um cigarro que pegou o fogo?

 

Não.

 

É possível que tenha sido um cigarro a dar origem a tudo aquilo... um Cigarro que tenha caído ou um cigarro manuseado descuidadamente? - É possível, dado o conjunto apropriado de circunstâncias.
Pode dar-nos um exemplo de um conjunto apropriado de circunstâncias?

 

Sim. Por exemplo, se o falecido tivesse um cigarro aceso na boca ou na mão e tivesse deixado cair o candeeiro e se tivesse baixado para o apanhar.. podia ser um cenário.

 

Um cenário que podia resultar num atear acidental do incêndio, não é verdade?

 

Exactamente.

 

Rossner fez uma pausa para as pessoas consciencializarem a situação: depois sorriu delicadamente e disse, Obrigado, senhor Mullin. Não tenho mais perguntas.

 

O juiz mandou sair o júri mais cedo para o almoço, mas o assunto do tribunal continuou. Brown informou relutantemente Pulaski que o Dr. Gavril, o patologista, tinha tido uma emergência pessoal e estava incapaz de testemunhar no dia seguinte, como estava previsto. Brown garantiu ao juiz que a testemunha marcada a seguir ao Dr. Gavril podia estar no tribunal por volta das treze horas, de modo que o julgamento pudesse continuar e que informaria o tribunal quando o Dr. Gavril estivesse disponível.

 

Embora o Juiz Pulaski concordasse com isso, era evidente que as emergências pessoais não eram desculpas válidas na sala de audiências. Owen tentou imaginar como seria o juiz sem os símbolos de autoridade. Era difícil imaginar aquele homem a ter uma vida própria fora da sala de audiências.

 

Finalmente toda a gente foi mandada embora. Owen juntou-se ao pessoal dos meios de comunicação que se dirigiu para o café. A Holly fingia que nada tinha acontecido, por isso ele achou que devia fazer a mesma coisa.

 

A discussão à mesa do almoço estava mais animada que nunca, mas Owen não estava interessado em segui-la. Os seus pensamentos divagavam. Bram Serian agigantava-se agora tanto na sua imaginação, que o julgamento já não estava a prender tanto a sua atenção como antes. As estratégias na sala de audiências, os estratagemas, os jogos de adivinhas e as teorias pareciam-lhe subitamente absurdas. Bram Serian estava morto. Perdido para todos eles. A sua tragédia e mistério apoderaram-se completamente de Owen.

 

Brown tinha o Detective Douglas Kilgren da polícia estadual pronto para testemunhar depois do almoço. Kilgren era alto, aprumado e com ar importante e, embora usasse um fato e uma gravata, de alguma maneira fazia lembrar a Owen um membro da Polícia Montada Canadiana.

 

Impacientemente Brown conduziu o Detective Kilgren através das suas credenciais e da sua impressionante folha de serviços como polícia; depois levou o detective passo a passo, durante uma apresentação que durou duas horas, através do relato dos acontecimentos que tiveram lugar desde o momento em que Kilgren chegou ao local até ao momento em que Lenore Serian foi responsabilizada como autora do homicídio. Quando tudo já tinha sido dito e repetido, Brown fez ainda uma recapitulação para salientar mais uma vez os pontos mais importantes.

 

Portanto nunca lhe passou pela cabeça, nem uma vez, que tivesse sido cometido um homicídio? perguntou Brown.

 

Nunca, respondeu Kilgren categoricamente.

 

Com base na sua longa experiência como agente da autoridade, havia alguma dúvida na sua mente, depois de ter terminado a investigação, que alguém que não fosse Lenore Serian devesse ser acusado deste homicídio?

 

Absolutamente nenhuma.

 

Brown obrigou o Detective Kilgren a continuar nesta linha de interrogatório por mais vinte minutos. Não se chegou a nenhuma nova conclusão, mas a firmeza calma do detective removeu todas as dúvidas levantadas pela actuação do Xerife Bello. Brown teve muita dificuldade em deixar a testemunha, mas finalmente terminou o interrogatório e sentou-se.

 

Quando Rossner se apresentou a Kilgren e começou o contra-interrogatório, Owen detectou uma prudência subtil no procedimento do advogado. Esta era uma testemunha com que Rossner estava preocupado.

 

Detective Kilgren, o senhor orientou a investigação que se seguiu ao relatório da autópsia de Bram Serian. Isso é verdade?

 

Em alguns aspectos fui eu que orientei e noutros desempenhei a função de conselheiro ou observador.

 

Na sua opinião de especialista, o Xerife Bello conduziu uma investigação metódica e competente sobre a morte de Bram Serian?

 

Para responder a essa pergunta primeiro teria de ter a definição de metódica e competente, porque essas palavras são abertas. Não existe apenas uma maneira correcta de fazer as coisas numa investigação, por isso não existe um quadro de resultados ou sistema de graduação para avaliar uma investigação. O que é importante aqui o que interessa recordar é que o Xerife Bello reconstituiu um caso difícil, baseado em muitos e diferentes critérios evidenciais.

 

Portanto o senhor está a dizer que aprovou integralmente as técnicas,

 

ou a falta de técnicas, utilizadas nesta investigação.

 

Aprovo qualquer técnica que conduza a resultados. Se houvesse mais agentes da autoridade que conseguissem resultados, não teríamos tantos criminosos a ameaçar cidadãos decentes nas ruas.

 

Pode dizer-se que o senhor acredita que é procedimento adequado concentrar-se num suspeito e não seguir outras vias de investigação e manter a mente aberta a outros possíveis suspeitos?

 

Em determinadas circunstâncias pode dizer-se precisamente isso. Neste caso específico havia preponderância de provas que apontavam directamente para a arguida, portanto teria sido um desperdício de tempo e de energia procurar suspeitos alternativos perante a falta de informação, só por causa das aparências.

 

Repentinamente Rossner anunciou que terminava ali o seu interrogatório. Owen observou como o advogado voltou para a sua cadeira e pela primeira vez viu a traição da emoção. Rossner sentia-se visivelmente frustrado.

 

Depois do Detective Kilgren, o estado chamou um especialista em medicina legal, chamado Tonnessen. Tonnessen fez uma exposição da sua formação e experiência profissional e depois ficou à disposição do tribunal e foi aceite como especialista.

 

Tonnessen era um homem vigoroso e de barba, que mais parecia um lenhador do que um cientista mas, logo que começou a falar, desfizeram-se quaisquer dúvidas quanto à sua dedicação profissional. Tonnessen deu respostas científicas e detalhadas a tudo. Disse ao tribunal mais sobre a sua profissão do que as pessoas queriam saber e certamente mais sobre a cabeça do machado e os vestígios do candeeiro de petróleo do que jamais alguém pretendia saber.

 

Quando Rossner iniciou o contra-interrogatório, Tonnessen admitiu lamentavelmente que a única coisa que não podia afirmar relativamente à cabeça do machado ou ao candeeiro era precisamente como é que Bram Serian tinha encontrado a sua morte.

 

Owen! Espere!

 

Holly alcançou-o mesmo quando ia a sair do tribunal.

 

Posso falar consigo um minuto? perguntou ela. Será que podia esperar até eu terminar a minha peça e depois ir tomar um café comigo?

 

Desculpe, Holly. Tenho de encontrar-me com a minha agente e a minha editora esta noite depois do jantar e estou com muita pressa. Preciso de apanhar o próximo comboio.

 

Está bem... então... Olhou à sua volta. Bem, eu só queria dizer-lhe que não há motivos para haver esta tensão entre nós. Quero dizer, as coisas acontecem. Sentimo-nos atraídos um pelo outro, mas isso não é nenhum crime. A questão é, não há motivo para não podermos ser bons amigos e estou preocupada porque sinto que você agora se sente desconfortável comigo. Não acha que pode haver amizade entre um homem e uma mulher?

 

Isso não faz parte da minha sociedade, Holly. Na minha cidade, só o facto de ir ao café com um membro do sexo oposto é quase o mesmo que estar comprometido, por isso não tenho muita experiência com amigos do sexo feminino. A mulher com quem estou comprometido costumava ser minha amiga, mas obviamente não ficámos apenas amigos.

 

Holly riu-se. Mas agora já não está no Kansas. Aqui na cidade os homens e as mulheres trabalham juntos e têm de ser amigos constantemente. Às vezes até dormem juntos e continuam a ser amigos.

 

Owen abanou a cabeça. Para mim não faz sentido tentar imaginar ou aprender novos hábitos, porque vou voltar para Cyril mais depressa do que você pensa.

 

Oh, vá lá. Anime-se. Tenho sido uma boa amiga para si. Tenho-o ajudado e apresentei-o a outras pessoas e tudo.

 

Sim, você fez isso. E fico-lhe agradecido.

 

Muito bem, então... Ela sorriu com ar provocador enquanto lhe estendia a mão. Vamos apertar as mãos a isso. Amigos, está bem?


Amigos, concordou Owen discretamente.

 

Mais tarde, enquanto olhava pela janela do comboio, pensou como seria voltar para Cyril onde nunca apertava as mãos às mulheres, nem fazia amigos entre elas e onde nunca via uma pessoa de uma raça diferente e onde tudo era tão familiar e imutável que tornava possível viver ali de olhos vendados e sentir-se bem.

 

Saiu do comboio na Grand Central. O terminal tinha perdido para ele muito do seu esplendor. Agora reparava nas vistosas máquinas metálicas multibanco e nos horríveis quiosques de fast-food e nas manchas de humidade no tecto celestial e nos pedintes a andarem de um lado para o outro como abutres. Mas, curiosamente, sentia-se ainda mais afeiçoado à estação do que antes. Toda a ilha de Manhattan era como este edifício grandiosa e inspiradora, fervilhando de energia e vitalidade, mas também suja e a desmoronar-se e às vezes perigosa. E ele adorava tudo aquilo. Desejava abraçá-la, conhecê-la e assimilá-la.

 

Saiu para a Rua 42. Para Leste ficava a elegância da arte déco do edifício Chrysler e as águas rápidas e escuras do East River. Para Oeste estendia-se a Rua 42, cruzando a Quinta Avenida próximo da biblioteca central de pesquisa e o Parque Bryant, que era uma jóia, atravessando a Broadway perto dos grandes teatros com todo o seu esplendor e sordidez, atravessando o submundo da Oitava e Nona Avenidas, e terminando na vastidão cinzenta do Rio Hudson.

 

Já era noite, mas as ruas estavam cheias de gente. Os passeios regurgitavam de risos e conversas. Havia pessoas apressadas. Pessoas que andavam a passear. Pessoas que tinham saído com outras pessoas, em vez de ficarem sentadas em frente dos aparelhos de televisão nas suas salas de estar.

 

Ficou ali parado no passeio, a observar, a escutar, divertido com a magia eléctrizante de tanta vivacidade. E depois para o seu encontro de jantar com Bernadette Goodson, sorrindo enquanto se introduzia naquele movimento de humanidade.

 

Na terça-feira de manhã, Owen estava atrasado. Entrou apressado no tribunal e subiu até ao controle da segurança. O átrio estava deserto, exceptuando a presença de uma mulher. Todos os três guardas estavam ocupados a inspeccionar a sua volumosa carteira e a interrogá-la.

 

Estou aqui porque venho prestar depoimento, insistia ela. Agora dêem-me a minha carteira e deixem-me entrar.

 

Owen observou-a. Era alta, apenas com menos seis ou sete centímetros do que os seus cento e noventa centímetros, de ombros largos e ossos substanciais, pernas compridas e mãos compridas e expressivas. A sua pele era tão escura como os grãos de café torrado. Estava voltada para o outro lado e ele não conseguia ver-lhe a cara.

 

Espere ali naquele átrio, ordenou-lhe um dos guardas. Volte para trás para o banco junto das máquinas de refeições rápidas e sente-se. Eu vou lá acima a comunicar-lhes que a senhora está aqui. Consultou o bloco informativo. É a senhora Johnson, não é?

 

Ela acenou com a cabeça em sinal afirmativo.

 

Geneva Johnson! Mesmo ali à sua frente encontrava-se Geneva Johnson. A modelo com quem Serian tinha andado envolvido durante os primeiros anos em Nova Iorque.

 

Owen tinha tentado todas as formas possíveis para localizar esta mulher do passado de Serian e agora aqui estava ela. Observou-a enquanto passava pelo detector de metais e voltava para o átrio. Trazia no braço um casaco de peles e usava uma roupa cor de laranja vivo que envolvia e entrelaçava e sobrepunha e pendia numa extravagância complexa de tecido. O seu cabelo estava penteado com tranças longas e finas enfeitadas com missangas e depois todas as tranças estavam apanhadas no cimo da cabeça formando um rabo de cavalo. Estava numa posição em que não conseguia ter uma visão completa do rosto dela.

 

Os guardas riram dissimuladamente e sussurraram entre eles comentários obscenos, logo que ela ficou fora de vista. Owen cerrou os dentes para evitar chamar-lhes a atenção para o seu comportamento pouco profissional. Não podia tomar a atitude de os irritar, nem atrair a atenção deles de maneira nenhuma, porque tencionava seguir Geneva Johnson e não queria arriscar que eles interviessem. Quando acabaram de inspeccionar o seu saco, ele apanhouo e, em vez de subir as escadas, voltou para o átrio.

 

Owen encontrou Geneva Johnson sentada a um recanto da parede junto das máquinas de venda automática. Estava a ler um livro que tinha uma brochura de tamanho desproporcionado.

 

Desculpe, disse ele.

 

Ela levantou os olhos. Os traços fisionómicos do seu rosto eram expressivos e intemporais. Os seus olhos eram de um castanho lânguido. Tinha um porte nobre.

 

Já querem que eu vá?

 

Não. O meu nome é Owen Byrne e eu...

 

Não falo com jornalistas, disse ela.

 

Embora ele estivesse de pé e ela sentada, mesmo assim tinha a sensação de estar a ser olhado de cima.

 

Eu não sou jornalista. Sou escritor.

 

É a mesma coisa. Vá-se embora.

 

Não. Não é a mesma coisa. Eu não escrevo histórias para nenhum jornal nem revista. Ando a fazer pesquisa para escrever um livro.

 

A expressão dela não mudou, mas ela estava a ouvir. Owen falava mais depressa do que era normal, ansioso por lhe dar uma explicação completa, antes que ela deixasse de ouvir.

 

Estou a escrever sobre o julgamento. Mas não consigo fazer com que a morte de Bram Serian faça sentido sem saber mais sobre a sua vida. Procuro informações sobre o passado dele... estou a tentar descobrir gradualmente o seu passado e ver como se transformou no que era.

 

Os olhos dela diminuíram. Como é que eu sei que está a ser sincero?

 

Pode investigar-me, disse Owen, abrindo um bloco de notas onde escreveu o seu nome e os nomes e números de telefone da sua editora e da sua agente. A seguir acrescentou a sua morada temporária em Manhattan e a sua morada permanente e número de telefone no Kansas. Dizem-me que sou fácil de investigar, disse ele, incapaz de resistir a um breve sorriso enquanto arrancava a folha e lha entregava.

 

Ela relanceou um olhar pela lista, depois olhou circunspectamente para ele.

 

Eu não pretendo explorar ninguém, disse Owen.

 

Se isso é verdade, então deviam embalsamá-lo e colocá-lo num museu, meu caro senhor, porque isso faz de si uma pessoa excepcional entre o seu género.

 

Eu apenas quero obter informação sobre o passado de Serian. A senhora conheceu-o quando ele veio pela primeira vez para Nova Iorque, não é verdade?

 

Ela observou-o com um olhar perspicaz e avaliador.

 

Qual é o seu signo astrológico? perguntou ela.

 

Não sei, confessou ele.

 

Ela dobrou o papel e meteu-o dentro da sua enorme carteira. Eu não queria prestar depoimento, disse ela. Esses ordinários obrigam-me a ir depor. O senhor, pelo contrário, não pode obrigar-me a fazer nada.

 

Claro que não. Eu não quereria tal coisa. Eu...

 

Com quem é que já falou até agora?

 

Com Gregory Hillyer e Edie Norton. Ela riu sarcasticamente. Faço ideia da porcaria que eles lhe serviram.

 

O livro que ela tinha no colo escorregou e caiu para o chão e Owen baixou-se para o apanhar. Quando lho entregou, olhou para o título Fórmulas Mágicas e Cerimónias para Orientar a Energia Espiritual.

 

Isso é sobre magia? perguntou Owen.

 

O sorriso dela era desprovido de entusiasmo. É sobre coisas que o senhor provavelmente não consegue compreender.

 

Então ele desistiu, calculando que a mulher nunca ia concordar em dar-lhe uma entrevista. A aceitação da derrota descontraiu-o. Senhora... riu-se ele, isso abrange muito território, porque eu não compreendo a maior parte das coisas que acontecem no mundo. É por isso que escrevo. Estou apenas a tentar fazer com que tudo faça algum sentido.

 

Então tem pela frente o trabalho da sua vida.

 

Ele riu-se de novo. Parece-me que nisso tem toda a razão. Ela mostrou um semblante severo. Bram Serian era um criador. Um criador brilhante. E o senhor não vai querer perturbar a arte.

 

Não sei bem se compreendi.

 

Ora aí está, então! O seu sorriso era mais genuíno desta vez. Aí tem uma coisa em que pode trabalhar. Veja se consegue imaginar e comPreender. Entretanto, por que não se vai embora e me deixa esperar em paz?

 

Muito bem. Tem todos os elementos para o caso de haver alguma coisa...

 

Não vai haver. Adeus.

 

Owen subiu as escadas a correr e foi para a sala de audiências número 6 e sentou-se no lugar vazio junto à coxia, ao lado de Holly. Ela lançou-lhe um olhar inquiridor, depois voltou o seu bloco de notas de maneira que ele pudesse ler Sven Eklund - O Homem dos Fogões. Owen ficou imediatamente a saber que o sujeito idoso que estava na barra das testemunhas era o homem que tinha instalado o fogão no estúdio de Serian há quase vinte anos.

 

O testemunho de Eklund foi enfadonho e Owen teve dificuldade em evitar que a sua mente começasse a divagar. Observou Lenore Serian. Observou o júri. Pensou em Bram Serian.

 

Brown insistiu com a testemunha, levando o velho Sven Eklund através de uma história da companhia dos fogões e uma exposição de fotografias de fogões e uma discussão sobre a percentagem de instalações de falsos fogões por oposição aos fogões que queimam lenha. O advogado tentou repetidamente levar Eklund a fazer um exame dos motivos psicológicos dos seus clientes de fogões eléctricos, mas Rossner opôs-se àquela perspectiva com numerosos protestos, até que finalmente o juiz advertiu Brown que devia parar, a não ser que quisesse demonstrar ao tribunal que Sven Eklund tinha um curso de psicologia.

 

Ouviu-se um leve ruído de ressonar ao fundo da sala e o juiz fez parar tudo enquanto um oficial de diligências foi a acordar o espectador transgressor. Durante a interrupção, Holly inclinou-se a sussurrar que ela já tinha visto um dos jurados a cabecear com sono.

 

Quando prosseguiu o testemunho, Brown tentou levar Eklund a lembrar-se das afirmações que Serian lhe tinha feito sobre o fogão, mas o velhote não conseguiu lembrar-se de muita coisa. No contra-interrogatório Rossner levou cuidadosamente Eklund a admitir que nem sequer se lembrava de ter feito a instalação do fogão a Serian, até a polícia o convocar e lhe refrescar a memória. Depois de uma manhã inteira com o homem dos fogões, Owen não conseguia perceber como é que cada uma das partes tinha ganho ou perdido um centímetro que fosse.

 

Logo que Eklund desceu do lugar da testemunha, o Juiz Pulaski mandou ir os jurados para a sala do júri e chamou o promotor de justiça e o advogado de defesa para discutir uma nota que o juiz tinha recebido do presidente dos jurados.

 

Onde esteve? sussurrou Holly.

 

Estive a falar com uma testemunha, confessou Owen. Vi-a lá em baixo e não pude resistir a fazer uma tentativa.

 

A Holly riu-se um bocadinho. Está a aprender, disse ela. Quando esta coisa acabar você é capaz de ser um autêntico jornalista.

 

Não há nenhumas regras que proíbam falar com as testemunhas, ou há?

 

Não. Mas tem de ter cuidado. Pode pisar os calos a alguém... fazer inimigos... e a última coisa que qualquer um de nós precisa é pôr o gabinete do ministério público furioso e não cooperativo.

 

Owen acenou com a cabeça em sinal de compreensão.

 

Portanto... Holly franziu uma sobrancelha com ar interrogador. Com quem é que esteve a falar?

 

Com Geneva Johnson.

 

Conseguiu obter alguma coisa de interesse?

 

Não.

 

Não fique desanimado. Nenhum de nós conseguiu arrancar nada de interesse a Geneva Johnson.

 

Pat debruçou-se para a frente de Holly para se juntar à conversa. Essa mulher, a Johnson, está demasiado longe no passado de Serian. Qualquer coisa de interesse relacionado com ela é rigorosamente uma questão do passado.

 

Não vejo por que o promotor público precisa do seu depoimento, disse Holly, como se aquilo fosse um assunto pessoal que lhe desagradasse.

 

Segundo a Marilyn, começou a Pat, explicando a Owen que a Marilyn tinha um canal de contacto consistente com o gabinete do ministério público, de tal modo que qualquer coisa que ela dissesse relativamente à estratégia de Brown e Dapolito era como se fosse o evangelho. De acordo com a Marilyn, Geneva Johnson foi a única pessoa que conseguiram encontrar, que esteve directamente envolvida com o Serian quando ele estava a construir o estúdio.

 

O que tem isso a ver com seja lá o que for? perguntou a Holly.

 

O testemunho dela vai servir para eles desenvolverem a questão do incêndio. Parece que é só para isso que eles a querem. Exclusivamente por causa do incêndio. Apesar de ser uma testemunha antipática.

 

E isso faz alguma diferença?

 

Pode fazer, disse-lhe a Pat. Se uma testemunha tem de ser obrigada a vir depor e é considerada antipática, então o advogado pode ser agressivo ao fazer o interrogatório, sem que isso seja considerado hostilização. Depois vai poder ver se Brown decide...

 

A Pat abandonou a conversa e voltou a sua atenção para o que se passava na frente, pois o tribunal foi chamado de novo à ordem. O júri voltou a sentar-se.

 

O juiz olhou para o relógio, comunicou aos jurados a sua habitual advertência de que não deviam discutir o caso e depois dispensou toda a gente para ir almoçar.

 

Owen juntou-se ao pessoal, que hoje incluía não só os repórteres mas também os empregados do tribunal e até Spencer Brown e Tony Dapolito. O motivo era um almoço de beneficência organizado pelos Auxiliares Metodistas na cave da igreja. Todos diziam que era uma situação aborrecida, com toda a gente a ter de comportar-se o melhor possível e ninguém podia discutir o julgamento do homicídio para o qual estavam todos reunidos.

 

Quando o grupo saiu, Owen ficou surpreendido ao ver o Juiz Pulaski a atravessar a praça do tribunal próximo deles. Sem a sua toga, o juiz era um homem pequeno, com um aspecto perfeitamente normal, se exceptuarmos o facto de o seu fato ser excepcionalmente bem cortado. O juiz levava dois livros. Owen ficou a observar, tentando ver quais eram os títulos. O livro de capa dura tinha como título Jogos Capitais, o livro sobre a nomeação do Supremo Tribunal Clarence Thomas. Uma escolha apropriada para um juiz, pensou Owen. O livro de bolso, mais pequeno, era uma novela de Clive Cussler sobre as proezas de Dirk Pitt.

 

Pontualmente às duas horas recomeçou o julgamento. Havia um novo nível de tensão na sala e a secção dos espectadores estava superlotada. Owen sentia que as pessoas estavam ansiosas. Estava toda a gente cansada de pormenores técnicos e pronta para qualquer coisa com interesse... qualquer coisa sensacional. E Geneva Johnson era a primeira testemunha capaz de alimentar aquela ansiedade.

 

Quando foi chamado o seu nome, Geneva Johnson desceu pelo corredor central como se fosse uma rainha cuja virtude tivesse sido posta em causa. Nem sequer olhou para Lenore, embora percorresse o resto da sala com um olhar de desprezo, enquanto se sentava na cadeira das testemunhas.

 

A sala estava absolutamente em silêncio. Owen tentou imaginar o que estaria Lenore a pensar.

 

Spencer Brown colocou-se em posição. Fez lembrar a Owen um galo doméstico todo inchado e pronto para iniciar a luta, e Owen reparou que Brown tencionava intimidar Geneva Johnson.

 

Qual é a sua ocupação, menina Johnson?

 

Tenho uma loja.

 

Já teve outras ocupações anteriores à actual?

 

Claro. Não cheguei simplesmente aos dezasseis anos e abri a minha loja.

 

A resposta incisiva fez Brown hesitar por um momento.

 

Pode falar-nos um pouco sobre essa loja?

 

O que gostava de saber, senhor Advogado? O valor das vendas? O perfil dos clientes? A classificação de Dunn e Bradstreet? O índice de satisfação dos empregados?

 

Brown olhou para ela com ar irritado. Qual é a categoria desse estabelecimento?

 

Pronto a vestir para senhoras.

 

É proprietária dessa loja e administra-a sozinha?

 

Sim.

 

Então será correcto descrevê-la como uma mulher de negócios?

 

É assim que me chamam.

 

E para ter sucesso nesse negócio é necessário ter uma boa memória e um bom conhecimento das pessoas e consciência do que elas dizem, de maneira a poder convencê-las a comprar, não é assim?

 

É mesmo assim.

 

Voltando ao passado, pode contar-nos como conheceu Bram Serian?

 

Em sentido bíblico ou noutro?

 

Brown tossiu. Quando o conheceu?

 

Conhecemo-nos em 1968.

 

E posteriormente teve um envolvimento romântico com Bram Serian?

 

Não. Mas começámos a dormir juntos.

 

Brown olhou para ela com justificada perplexidade. Está a dizer que não teve nenhum envolvimento romântico com Bram Serian?

 

O romantismo é para os palermas, senhor Advogado. Nenhum de nós era palerma.

 

Estou a ver. Brown estudou as suas notas nervosamente. Vamos voltar àquele período de tempo em que estava a viver com Bram Serian.

 

Sim. Vamos. Replicou ela sarcasticamente.

 

Onde residia com Bram Serian?

 

Nas águas-furtadas dele, em Manhattan.

 

Essas águas-furtadas eram utilizadas para mais alguma coisa, para além de serem um espaço de habitação?

 

Sim. O Serian trabalhava lá.

 

E advertiu-a de algumas regras a observar naquele espaço onde vivia e trabalhava?

 

Sim.

 

Pode dizer-nos quais eram essas regras?

 

Nunca podia levar para lá convidados, a não ser que tivesse combinado antecipadamente com ele. Ele tinha os seus trabalhos cobertos com lençóis e ninguém podia espreitar por baixo deles.

 

Mais alguma coisa?

 

Ela soltou um suspiro. Ele tinha muitas regras. Era proibido ouvir a música de Barry Manilow, nada de chapéus em cima da cama, nada de Kahlil Gibran, era proibido fazer qualquer referência ao Vietname, nada que fosse cor-de-laranja, nada de animais excepto aves, era proibido mencionar Deus, proibido mascar pastilhas elásticas... Quer que continue?

 

Vamos limitar-nos a coisas mais específicas, disse Brown. Bram Serian tinha algumas regras relativamente ao fogo ou a chamas?

 

Ela tinha estado a olhar para Brown mesmo nos olhos durante a sua troca de palavras, mas depois baixou os olhos. O que significaria, perguntou-se Owen... Resignação? Derrota? Recordações dolorosas? Ou estaria a preparar uma mentira?

 

Ele não me deixava queimar velas.

 

Está a dizer que há vinte anos, quando ainda era jovem, Bram Serian não permitia uma única chama de vela naquilo que era o seu local de trabalho e de residência?

 

Sim.

 

Brown fez uma pausa para dar tempo às pessoas para assimilarem aquela ideia. Toda a gente na sala tinha a atenção concentrada no promotor de justiça e na sua testemunha.

 

Agora, menina Johnson, a sua relação com Bram Serian ainda se mantinha e ainda estava a residir nas águas-furtadas em Manhattan com Bram Serian quando ele comprou a propriedade nos arredores de Stoatsberg?

 

Sim.

 

A menina mudou-se para a quinta para ir viver lá com ele?

 

Não. Fiquei nas águas furtadas e o Serian andava de um lado para o outro, entre a quinta e as águas-furtadas.

 

Por que não mudou de residência com ele?

 

Porque ele não quis. Não era um bom lugar para se viver e ele só ia para lá quando estava a construir aquele estúdio.

 

Naquela altura ele estava envolvido na transformação do celeiro num estúdio de arte, não estava?

 

Sim. Estava envolvido com certeza.

 

Ele costumava discutir consigo o projecto do edifício?

 

Ás vezes.

 

Qual era a sua atitude global acerca daquele projecto?

 

Estava muito entusiasmado com ele.

 

Discutiu consigo a escolha de um fogão de aquecimento?

 

De certo modo.

 

Pode contar-nos o que ele lhe disse relativamente à sua escolha de um fogão?

 

Ele mostrou-me uma gravura de um fogão e disse-me que se parecia exactamente com um fogão a lenha, mas era uma imitação. O fogão era de facto um aquecedor eléctrico para uma sala, com um ventilador.

 

E esse fogão era caro?

 

Muito.

 

Ele disse por que tinha escolhido esse tipo de fogão, em vez de instalar o habitual fogão a lenha que era tão fácil de encontrar nos arredores de Stoatsberg?

 

Ele não queria fogo no seu estúdio.

 

Ele não lhe disse, na verdade, que tinha muito medo do fogo? perguntou Brown. Que tinha um medo do fogo desde há muito tempo e... Protesto! gritou Rossner.

 

Contenha-se, Dr. Brown, ordenou o juiz tão depressa que Owen ficou com a certeza que Pulaski tinha estado à espera de um motivo para gritar ao promotor de justiça.

 

Os dentes de Brown cerraram-se. Ele não disse, muitas vezes e na presença de outras pessoas, que tinha medo do fogo?

 

Ele nunca me disse que estava aterrorizado nem que tinha medo de alguma coisa no mundo, replicou ela.

 

Está a dizer-me que ele não lhe disse, na presença de outras pessoas, “ que tinha medo que houvesse um incêndio no seu estúdio? Ele falou no facto de o celeiro ser feito de madeira velha e de como podia arder com facilidade.

 

Então ele tinha medo que o seu estúdio de arte pudesse incendiar-se.

 

Sim.

 

Com aquilo Spencer Brown sensatamente agradeceu à sua obstinada testemunha e voltou para a segurança do seu assento.

 

Rossner aproximou-se dela com uma delicadeza exagerada, apresentando-se e fazendo-lhe uma série de perguntas delicadas para começar. Depois concentrou-se nas questões do fogo.

 

A menina diz que ele não queria que acendesse velas. Era isso?

 

Sim.

 

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