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SEGREDOS DO CORAÇÃO / Rebecca Brandewyne
SEGREDOS DO CORAÇÃO / Rebecca Brandewyne

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

SEGREDOS DO CORAÇÃO

 

                   Uma busca perigosa

Depois de testemunhar o assassinato de seu pai, Malcolm Blackfriars faz uma descoberta chocante sobre sua família, cujo passado ocultava muitos segredos escuros e que pesava uma funesta maldição. Malcolm embarca assim em uma perigosa busca que o leva a arriscar sua própria vida a fim de conhecer a verdade sobre sua misteriosa herança.

Ariana e Malcolm estavam predestinados a encontrarem-se e se apaixonarem. Mas descobriria em sua intrépida busca os segredos de seu passado... ou conduziria ambos a perdição.

 

 

                   1669

                   Vale dos Reis, Luxor, Egito

Pronunciar o nome dos mortos era fazê-los reviver, ou nisso acreditavam os antigos egípcios. E naquele momento, James Ramsay, visconde do Strathmor e herdeiro do condado de Dúndragon, a margem do lago Ness, quase acreditava naquela idéia. Ansiava fervorosamente não ter ido nunca a Luxor nem ao Vale dos Reis, nem ter tido a audácia de abrir a sacrossanta tumba do supremo sacerdote Nefrekeptah, na qual, sem ele saber, achava-se nesse instante. Aquele sepulcro era de algum modo (embora o visconde não conseguisse compreender como) diferente do que haviam previamente inspecionado seus companheiros e ele.

Era um golpe de má sorte o que os tinha levado ali. Jamie tinha pressentido quase desde o começo. Mas maior infortúnio ainda era ter aberto aquela cripta em particular, a qual lhe parecia imensamente inquietante. Pois, embora as tumbas dos faraós e outros altos dignitários que tinham reinado com imunidade e impunidade supremas sobre os Dois Reinos do Egito se achavam enterradas ao longo de quilômetros e quilômetros naquele lugar, ali, no silencioso mausoléu do grande sacerdote, respirava-se não só Morte, mas também poder. Um poder de uma classe que Jamie nunca antes tinha conhecido: um poder estranho, prodigioso e tão absoluto que parecia quase tangível.

Como conseqüência disso, o que tinha começado como uma grande aventura, ansiada desde há muito tempo, parecia ter adquirido de repente um tintura extremamente sinistra, acentuada pelo estrondo distante e perturbador dos trovões, que lhe fazia temer que possivelmente se aproximasse uma estranha tormenta ou inclusive um terremoto.

Seus cinco companheiros, em troca, pareciam alheios ao temor e a apreensão que estava se apoderando dele. Ou possivelmente suas conversas e suas gargalhadas fossem só uma fachada para ocultar a fraqueza de sua coragem, refletiu Jamie, meditando. Pois sem dúvida não podiam ser do todo ignorantes à atmosfera espectral da tumba, nem à estranha forma em que rangia e inclinava a terra.

O pequeno grupo de exploradores, composto por um pequeno grupo de jovens, antigos companheiros de colégio, tinham viajado ao Egito desde a Grã-Bretanha no transcurso de seu Grande Tour, estimulados pela maioria deles, que tinham lido a respeito «da região das múmias» em uma descrição do místico Vale dos Reis escrita em um escuro livro pelo padre Charles François, um frade capuchino, e publicada no ano anterior. Jamie tinha esquecido já de quem tinha partido a idéia de viajar para o Egito para desenterrar uma ou mais daquelas múmias tão antigas. Mas, se pudesse recordar, teria amaldiçoado o nome de seu companheiro e amigo.

A viagem ao Egito tinha sido longa e árdua. Desde a Escócia, Jamie e seus condiscípulos tinham viajado a cavalo até Dover, onde um navio os tinha levado ao continente atravessando o canal da Mancha. Depois de percorrer a França, Itália e Grécia, haviam partido do porto do Pireo, junto a Atenas, e cruzado o Mediterrâneo até alcançar o Egito. Dar com o enigmático Vale dos Reis tinha resultado uma tarefa ainda mais árdua e tinha requerido os serviços de um guia nativo, pois o vale propriamente dito se encontrava oculto de maneira natural pelos Montes do Tebas. Jamie ignorava como iriam encontrar ele e seus colegas o caminho de volta à antiga cidade de Luxor, do outro lado do rio Nilo, onde tinham reservado um alojamento em uma estalagem. Pois, apesar do muito que lhe tinham pagado o guia nativo, ao saber que sua intenção era profanar e saquear algum dos muitos sepulcros do vale tinha fugido como uma raposa açoitada por uma matilha de cães de caça, e os jovens exploradores não voltaram a vê-lo. Esse fato por si só deveria lhes ter posto de sobre aviso, meditou agora Jamie com pesar.

Mas, apesar de tudo isso, o grupo tinha seguido adiante com sua temerária expedição, sem deixar-se acovardar pelo repentino desaparecimento de seu guia, que tinham atribuído alegremente à vadiagem, superstição e deslealdade própria dos nativos. Afinal de contas, que dano poderia sofrer as criptas, que eram saqueadas desde os tempos dos gregos e romanos? Quanto à volta a Luxor, que necessidade tinham de um guia para levá-los de volta? O único que tinham que fazer era caminhar para o leste, em direção ao Nilo, no qual sem dúvida não encontrariam dificuldade alguma, dado que o longo e tortuoso curso do rio se divisava da metade da montanhosa e se elevava como um gigante desde seu ribeiro oeste, apartir da planície desértica.

Na margem oriental do rio, a cidade de Luxor permanecia escondida como um gato egípcio, observando tudo em silêncio. Ao longo de seus muitos séculos de existência, a antiguíssima cidade tinha tido muitos nomes. Os antigos egípcios a tinham chamado Wast, «o cetro», e tinham feito dela a venerada capital do Alto Egito. Alguns se referiam a ela simplesmente como Nut, «a cidade», e mais tarde a tinham chamado Nut-Sul, para distingui-la do Nut-Norte ou Menfis, capital do Baixo Egito. Em épocas posteriores tinha recebido o nome de Tebas, talvez como tributo à cidade grega de mesmo nome, pois os gregos tinham governado antigamente o Egito, fundando a dinastia dos Ptolomeos, a qual tinha terminado com Cleópatra, fadada a morrer de maneira tão extravagante como tinha vivido. Para os árabes, a cidade era Qussour ou Ao-Oxor, «a cidade dos palácios» ou «monumentos», nomes que as línguas estrangeiras tinham distorcido até convertê-la em Luxor.

E possivelmente este último nome, que era o que tinha perdurado, fosse também o mais idôneo, pois a cidade albergava em efeito um sem-fim de magníficos palácios, templos e outros monumentos, dos quais só ficavam já as ruínas. Contudo, e contra toda probabilidade, aqueles monumentos tinham resistido durante milênios o calor implacável do deserto, o áspero embate da areia que arrastavam em suas asas os khamsins - os ferozes ventos desérticos que se apareciam em março e durante cinquenta dias sopravam sobre o sul do Egito e o mar Vermelho - as incomuns, mas violentas tormentas que se abatiam sem prévio aviso sobre a terra, e as inundações anuais do Nilo, as quais os nativos atribuíam a seus deuses com ardor e que davam lugar à rica e fértil terra que lhes servia de sustento. Aqueles monumentos tinham sobrevivido para contar a história do povo egípcio, o qual havia antigamente rendido culto aos Filhos dos Deuses, os faraós, enterrados há séculos em imensas e misteriosas pirâmides ou em enormes necrópoles a fim de preparar sua infeliz viagem ao Submundo. Sob o alto pico em forma de pirâmide conhecido como Gebel o-Qurn, «Monte do Chifre», o qual coroava os Montes de Tebas e a abrupta meseta que se elevava do plano desértico ao oeste do Nilo e que escurecia o vale mais abaixo, estendia-se a necrópole que Jamie e seus amigos se haviam proposto a explorar. O vale Bebam o-Muluk, «a fuga dos reis», estava formado por dois ramos serpenteados que se semelhavam às cobras negras consagradas à deusa Meretseger, «a que ama o silêncio», por cujo nome se chamava também às vezes ao tétrico pináculo do Monte do Chifre. E, como se honrasse assim a grande deusa, não havia ali mais que silêncio. O silêncio dos que estavam há muito tempo mortos, dos que já não viviam, respiravam nem faziam ouvir sua voz, dos que levavam milhares de anos amortalhados e enterrados no vale que, desde tempo imemorial, suava sob o sol ardente, luminoso e amarelo, em meio àquela umidade exterior e — sem que Jamie e outros soubessem — sob as ameaçadoras nuvens de cor estanho carregadas de negros presságios.

Depois de levantar seu acampamento, o alegre grupo tinha empreendido imediatamente a exploração de Wadjein, os Dois Vales, e tinham descoberto que era esta parte conhecida como Lha Set Aat, «o Grande Lugar, a que em qualquer lugar se encontrava cheia de mausoléus e estreitos corredores tubulares. Ao menos a simples vista, a parte ocidental do vale, a mais larga, não parecia ter tantas tumbas escavadas nas areias nativas que sustentavam os íngremes despenhadeiros do planalto. Jamie ignorava como tinham conseguido encontrar o sepulcro no qual se encontravam, pois os túneis cheios de labirintos que enchiam o vale formavam um matagal, e Jamie estava seguro de que, a falta de um guia, teriam se perdido sem remédio a não ser porque tinham tomado a precaução de ir desenrolando uma grande bobina de barbante à medida que avançavam, de modo que pudessem encontrar o caminho de volta ao vale.

Fora, além da cripta do supremo sacerdote Nefrekeptah, no cenário de céu azul pálido que se estendia interminavelmente sobre o deserto, o abrasador sol do verão continuava queimando com a mesma intensidade como se estivesse a uns poucos quilômetros da terra, e não há anos luz. Contudo, a cor escura que ia cobrindo o firmamento se fazia cada vez mais ameaçadora. A um lado do nítido horizonte, as nuvens escuras buliam e sussurravam, amontoando-se como um ninho de serpentes sibilantes, do quais de tempos em tempos arrancavam cinzas espirais que se deslizavam furtivamente pelo céu e que a intervalos ocultavam a luminescência do sol, que se abatia sobre a antiga e esparramada cidade de Luxor e sobre o altiplano que se erguia do deserto.

Nas vísceras da terra, entretanto, no interior do escuro e rarefeito mausoléu do grande sacerdote, deliberadamente escondido há muitos séculos entre os escarpados e nas altas ravinas que cercavam os ramos pelo vale, a atmosfera era estranhamente fresca em contraste com a abrasadora temperatura do exterior.

Em outras circunstâncias, Jamie teria saboreado a escuridão e o frescor da tumba como uma pausa ao sol e o ar salubre e carregado de presságios que pendia como uma nuvem sufocante sobre o vale. Entretanto, no instante em que seus companheiros e ele entrassem no sepulcro escondido, Jamie estava com uma sensação estranha e inquietante, um calafrio que não se devia ao frescor da cripta, a não ser à atmosfera viciada que reinava em seu interior. Agora, ao elevar sua tocha, sentiu que os pêlos da nuca levantavam e a pele dos braços arrepiava.

Em um escuro canto de sua mente, Jamie tentava se convencer de que a reação física que despertava nele a cripta era o resultado da brusca mudança de temperatura, coberto de suor, o calor sem misericórdia do exterior ao frescor do mausoléu. Mas nem o desassossego nem a fria comichão que lhe percorria as costas se dissiparam. Pelo contrário, à medida que entravam na escura e poeirenta tumba, sua agitação ia aumentando, e o inexplicável Poder que pressentia nela ia fechando suas dobras como um tecido a seu redor, fazendo com que se sentisse como se estivesse enterrado vivo.

A diferença dos outros sepulcros que tinham visitado previamente, aquele era de dimensões muito reduzidas, razão pela qual parecia improvável que pertencesse a um faraó ou a algum membro da realeza. O que a princípio tinha suscitado seu interesse era o fato de que a porta que dava à cripta tinha ficado escondida por inteiro por um enorme monte de entulhos acumulados por alguma enchente repentina causada pelas chuvas pouco frequentes, mas torrenciais que a cada meio século, mais ou menos, assolavam o vale. Saltava à vista que inundações posteriores tinham removido parte dos detritos, deixando ao descoberto um lado da porta, cujo impressionante selo, provido do carimbo alfandegário de um dos antigos administradores da necrópole, seguia ainda intacto. O grupo confiava em que isso significasse que o mausoléu não tinha sido profanado nem saqueado ao longo dos séculos, a diferença de muitos dos sepulcros do vale.

Depois de afastar todos os entulhos, os jovens tinham quebrado o selo e aberto com grande dificuldade a porta, que tinha permanecido fechada e oculta talvez milhares de anos. Tinham entrado ansiosos e espectadores, no sepulcro e descido correndo os degraus de pedra que levavam ao primeiro corredor. Só Jamie se atrasou preso pela repentina e inquietante certeza de que estavam profanando uma tumba.

Enquanto avançava com passo incerto pelo primeiro corredor, tinha experimentado certo alívio ao ver o fino pó dourado do deserto que cobria o chão de pedra e as teias de aranhas chapeadas e muito finas que infestavam o teto, lavrado grosseiramente na rocha. Tudo isso indicava que a cripta tinha sido profanada com antecedência, embora não pela entrada principal.

À medida que percorriam o caminho iluminado pelas tochas que levavam, foi observando que as paredes eram de pedra nua e que não tinham as pinturas de murais que tinha visto em outros sepulcros mais elaborados, pertencentes a faraós e outros membros da família real. Faltavam ali inclusive as inscrições deixadas a seu passo pelo vale pelos antigos gregos e romanos. Aquela tumba parecia ser a de um alto dignitário que não pertencia à realeza. Um sacerdote, possivelmente, ou algum outro nobre da corte, o bastante importante para ter sido enterrado no Vale dos Reis, mas não tanto como para estar à altura da família real. Embora Jamie não soubesse nesse momento, o sepulcro pertencia, em efeito, ao supremo sacerdote Nefrekeptah, servidor do deus egípcio Kheperi.

Kheperi, «que cobra vida», era o deus da alvorada e da criação, da vida, da morte e da ressurreição. Era representado na forma de um escaravelho (besouro), de homem com cabeça de besouro ou de homem com a coroa do besouro. Em alguns papiros funerários aparecia como um besouro montado em um barco sustentado por Nun, as águas primitivas do Caos, de onde procedia todo o vivo. Devido a que o besouro colocava seus ovos em uma bola de esterco que carregavam a um esconderijo para que eclodissem, os antigos egípcios acreditavam que Kheperi, em forma de um grande besouro, empurrava cada dia o sol como uma imensa bola de esterco para o oeste através da infinita abóbada celeste e logo através do Mundo Inferior, o qual pertencia unicamente aos deuses e aos mortos, para voltar a nascer pelo leste e dar começo de novo a sua longa viajem à manhã seguinte, regenerando eternamente a vida na terra.

Mas, enquanto avançava lentamente pelo primeiro corredor da cripta, levantando o fino pó acumulado durante séculos, Jamie não pensava na história milenar, na refinada cultura ou na complexa religião dos antigos egípcios. O que ocupava sua mente era o pesar de ter ido ao Egito e, mais ainda, por ter aceitado entrar em um dos mausoléus do vale em busca de uma recompensa.

Agora que se encontrava por fim no interior de uma tumba que talvez ainda tivesse uma parte de seu tesouro, apoderou-se dele violentamente a idéia de que a profanação que estavam dele e de seus amigos era um sacrilégio, e essa convicção começou a lhe pesar na consciência. Sem dúvida traria má sorte saquear um sepulcro e por isso o guia tinha fugido, pensou de novo.

Os xingamentos de alguns de seus amigos lhe tirou de repente de seu devaneio.

— O que ocorre? O que é o que acontece? — Perguntou com ansiedade enquanto levantava a tocha para ver o que estava ocorrendo adiante, na semi escuridão do longo corredor.

— Há um enorme buraco na parede — Respondeu lorde Thomas MacGregor — Pelo visto os pedreiros que trabalhavam em outra cripta próxima, mais acima, perfuraram este túnel sem querer. Há um montão de pedras e de entulhos dispersos pelo chão.

—Bom, já sabíamos que, embora o selo da entrada principal estivesse intacto, alguém deve ter entrado nesta tumba em algum momento — Disse Jamie — Se não, não haveria tanto pó nem tantas teias de aranhas e o ar estaria mais limpo. Assim sem dúvida as riquezas que estavam nesta tumba já foram saqueadas, e nesse caso perderemos o tempo se continuarmos em frente.

— Não estou de acordo — Disse lorde Andrew Sinclair — Talvez os operários só entraram neste primeiro corredor e lhes faltasse tempo para chegar ao segundo corredor e à câmara de enterro propriamente dita. Afinal de contas, suponho que estariam sob a vigilância de um capataz ou de guardas. Assim que eu proponho que continuemos até a porta seguinte.

— Sim, também me parece lógico — disse lentamente Lorde William Drurnmond — Seria uma lástima ter chegado até aqui só para retornar para a casa com as mãos vazias.

Apesar dos protestos e as advertências de Jamie, os outros estavam de acordo e, ao fim de um momento, abriram-se passo por entre os entulhos que cobriam o chão ali onde os operários tinham perfurado a parede de pedra do outro lado, e continuaram avançando pelo corredor, até chegar à segunda porta do sepulcro. Depois de examiná-la, chegaram à conclusão de que, como a primeira, não tinha sido forçada. Romperam o selo e atravessaram a porta, além da qual acharam um segundo lance de degraus de pedra que entrava nas negras vísceras da terra até dar em outro corredor que conduzia à câmara de enterro da cripta.

Ao chegar por fim a esta última, os jovens pararam na porta e observaram com crescente agitação que o selo também estava intacto. Nem sequer Jamie, apesar de seus temores, foi capaz de sufocar sua emoção enquanto alguns de seus companheiros rompiam o selo e empurravam lentamente a pesada porta. O que seus olhos viram mais à frente, ao entrar na câmara de enterro, deixou-os paralisados de assombro, pois o esplendor da tumba ultrapassava com acréscimo suas fantasias.

O teto estava repleto de formosas estrelas de ouro e prata, e as paredes com murais de vivas cores que representavam distintas cenas litúrgicas. No interior da estadia havia, sido colocada em fileira, uma assombrosa panóplia de objetos funerários. Entre os móveis, as estatuetas e outros objetos, havia um carro cerimonioso adornado com espirais e rosas de estuque dourado; uma luxuosa cama lavrada, com uma rede feita de folhas de Palmas entrelaçadas e, perto dela, um sem-fim de finos tecidos de linho que serviam de mosquiteiros e lençóis; uma cadeira parecida com um trono, construída em madeira grafite e adornada com inscrições douradas e provida de braços arrematados em cabeças de carneiro; um enorme cofre de madeira sustentado por patas em forma de garras de leão e adornado com incrustações de marfim, ébano e telas de mosaico de todas as cores do arco íris; um baú de madeira com quatro pernas e a tampa e os quatro pintados em cores vivas formando uma série de símbolos sagrados; um grande arca e alguns cânones, assim como outras vasilhas de barro que continham ainda vinho, azeite de oliva, mel, grão e fruta seca; dúzias de cilindros e papiros; mirta, uma peruca negra em um cesto; um sem-fim de amuletos de pedras preciosas, muitos deles em forma de escaravelho; e um espelho e um canudo que continha pó negro para pintar as pálpebras e pestanas cuja prata não enegreceu, até tal ponto tinha sido pura a atmosfera na câmara de enterro antes da destruição do selo.

Em um canto descansava a peça mais rica das que ali havia. Tratava-se de um grande sarcófago recoberto por inteiro de reluzente betume para lhe dar o tom de uma pátina negra como o ébano, e cheio de pinturas em relevo e inscrições de ouro. Em lugar de pernas, tinha patins curvos, de modo que parecia um arca ou navio, um ícone religioso de grande importância para os egípcios.

Um exame minucioso lhes permitiu descobrir que, no interior do enorme sarcófago, havia um dentro do outro, três fétreos menores e cada um deles mais rico que o anterior. O primeiro, o ataúde exterior, tinha a forma da múmia para a qual tinha sido fabricado. Como o sarcófago, estava inteiramente recoberto de breu, pinturas e inscrições douradas. Dentro deste havia um fétreo de menor tamanho e completamente talhado de lâminas de prata, sobre as quais tinham incrustadas bandas de estuque dourado. No interior do segundo ataúde havia um terceiro, todo ele dourado e ricamente ornamentado com hieróglifos de esmalte de cores e incrustações de ouro. Ao abri-lo, descobriram que estava recoberto inteiro de pó de prata.

Em seu interior, repousava tranquilamente a múmia, criada mediante um misterioso processo que demorava setenta largos dias em completar-se e que supunha a extração dos órgãos, a dissecação do corpo completo com natrón e seu preenchimento com azeite, bálsamo e múm — cera de abelhas — a fim de que, embora o cadáver pesasse, conservar-se-ia, entretanto para toda a eternidade. Como muitos outros dignitários de sua classe, o supremo sacerdote Nefrekeptah tinha sido envolto em centenas e centenas de metros de tiras de linho lubrificadas com resina e minuciosamente gravadas com fórmulas mágicas para proteger o espírito e favorecer sua viagem para o Mundo Inferior. Quando tiraram em parte as tiras de linho que envolvia a múmia do grande sacerdote, viram que a máscara funerária, dourada e rica em adornos, seguia em seu lugar e que sobre o coração do corpo repousava uma enorme esmeralda em forma de besouro que refulgia como gelo verde à luz ondulante das tochas. Por estranho que parecesse, pensou Jamie, era que daquele besouro que parecia emanar todo o Poder que sentia dentro das paredes da cripta.

Lorde George Kilpatrick proferiu um longo e suave assobio.

— Santo céu! Topamos com um autêntico tesouro, rapazes, não tenham dúvida! — exclamou — Ignoro como vamos levar tudo isto para casa. Ned, você é um bom companheiro e um verdadeiro amigo. Teria a bondade de ir procurar a esses condenados camelos? Eu não saberia o que fazer com eles, posto que se empenham em me cuspir.

— De acordo — lorde Edward Lennox sorriu ao recordar o incidente do cuspe e, dando meia volta, saiu lentamente da câmara de enterro para ir em busca dos camelos que tinham alugado para sua excursão, enquanto seus colegas começavam a discutir o melhor modo de transportar todos aqueles tesouros.

— Está claro que não podemos levar isso tudo, embora seja uma lástima — suspirou Tom — Com o dinheiro que tiraríamos da venda de tudo isto, poderíamos pagar todas nossas dívidas de jogo e ter para sempre a vida arrumada.

— Não acredito que você tenha que preocupar-se por isso, rapaz — disse alegremente Andy, dando uma palmada nas costas a seu amigo — Caramba! Só essa esmeralda deve valer uma fortuna. Olhem! É do tamanho de um ovo de ganso! — apontou o besouro sobre o peito da múmia — E muitas destas coisas têm que valer também uma fortuna. Como não trouxemos carros, não há nem que pensar em levar os móveis ou as coisas maiores, a não ser só os objetos menores. Agora que sabemos onde está este lugar, podemos voltar pelo resto mais tarde.

—Tem razão — concordou Will e, apontando para uma pilha de seda brilhante e damascos e belos tecidos de linho e algodão, acrescentou: — Dê-me uma mão com esses tecidos, rapazes. Podemos usá-los para envolver o resto.

— Como vamos transportar a múmia? — perguntou Geordie — Envolvemos e a jogamos em cima de um camelo?

— Talvez seja melhor que a deixemos em paz — sugeriu Jamie com indecisão — Roubar as posses de uma múmia já me parece mau, quanto mais carregar a própria múmia!

— O que? É que perdeu o juízo, rapaz? — exclamou Tom, assombrado — Leva séculos morto e enterrado. Já não lhe faz falta nem seu corpo nem suas posses. Além disso, enterrar um corpo de tal forma é um costume pagão, não um rito cristão. Assim não tem que preocupar-se com isso. Não vamos roubar o corpo nem a tumba, a não ser nos apropriar do que nos pertence por direito, posto que fomos nós quem o encontrou todos estes tesouros.

— Tem razão — afirmou Andy com calma — Meu Deus, Jamie, não percorreu meio mundo só para deixar tudo para trás no último momento, verdade? Eu acreditava que veio com intenção de fazer fortuna, depois de que grande parte de sua herança se perdeu sob a tirania de Cromwell, esse maldito saxão, e seus condenados puritanos.

— Sim, é verdade. Não posso negar — reconheceu Jamie com esforço, mortificado.

— Então chega de conversa e ajude Geordie com essa condenada múmia. Aposto que os barbeiros-cirurgiões de Edimburgo nos pagarão um bom punhado de guineas por ela!

Jamie, que sabia que aquilo também era certo, obedeceu ao fim, não sem reticência, e embora não voltasse a expressar protesto algum, continuou sentindo remorso na consciência. Geordie e ele desdobraram um grande tecido e começaram a envolver com ele a múmia do supremo sacerdote Nefrekeptah.

— Tire o besouro, sim, Jamie? Eu enquanto isso tirarei a máscara. Se não, poderia sair do tecido e se perder.

Jamie duvidou um instante que lhe pareceu eterno, alertado por seu instinto, e um terrível pressentimento se apoderou dele. Era vagamente consciente do estrondo distante que tinha ouvido antes ia se aproximando, fazendo-se cada vez mais forte e ameaçador, o qual fez aumentar seu medo. A pesar do frescor da tumba, tinha o rosto moreno e juvenil e as palmas das mãos cheias de suor. Não sabia com certeza o que estava acontecendo na superfície, mas tampouco gostava de nada o que estava acontecendo abaixo.

Os antigos egípcios acreditavam que não era o cérebro, a não ser o coração a fonte da qual emanavam a inteligência e as paixões humanas, que era no coração onde se albergavam a alma e o temperamento. Por isso veneravam o coração. Daí que, a diferença de outros órgãos, nunca era extraído durante o processo de mumificação e se conservasse inteiro e em seu lugar, guardado em um besouro em forma de coração. No Livro dos mortos, o coração dos finados aparecia em uma balança cujo outro pires ocupava a delicada pluma do MA'at, a deusa da verdade universal, a ordem e o equilíbrio. Assim, ao morrer, o coração testemunhava a favor ou contra o morto e, para assegurar-se de que o testemunho era favorável, no besouro frequentemente eram escritos alguns versos de um capítulo do Livro dos mortos:

 

               Oh, meu coração, que recebi de minha mãe,

               Oh, coração meu que tive sobre a terra,

               não levante testemunho contra mim!

               Não coloque os juízes contra mim!

               Não incline o fiel da balança contra mim

               na presença da Deusa do Equilíbrio!

               Não conte mentiras sobre mim

               Na presença do Grande Senhor do Ocidente!

 

Estes versos estavam escritos no besouro que continha o coração do supremo sacerdote Nefrekeptab, o qual, incrustado em ouro, era pendurado por uma fina corrente também de ouro, por meio de um buraco feito ao longo do talismã. Mas isto Jamie sabia até que alargou por fim a mão para apoderar-se do escaravelho. Então compreendeu que estava pendurado no pescoço da múmia. Passou com cuidado a corrente por cima da cabeça da múmia, procurando não tocá-la, e tentou de novo separar o amuleto. Mas viu com consternação que não se movia de seu lugar e por um instante que se fez interminável pensou, cheio de pavor, que a múmia o tinha agarrado com força para impedir que o tirassem.

— Pelo amor de Deus, Jamie! — exclamou Geordie com impaciência — O que faz aí parado como um pasmado? Agarre o besouro! Ou é que agora ficou com medo?

— Não, não é isso, juro — respondeu Jamie com energia, decidido a dominar sua imaginação — É que esta maldita coisa não se solta. Ah, já sei o que é que acontece! Está costurado às malditas vendas! Pegue, segure minha tocha enquanto corto os fios.

Jamie tirou da bota direita sua sgian dubh e cortou com a afiada adaga de folha chapeada os muitos pontos que sujeitavam o besouro ao linho que cobria a múmia. Logo voltou a guardar a adaga e agarrou o talismã. Mas, ao fazê-lo, e para seu eterno horror, a múmia se incorporou de repente em seu ataúde.

Jamie deu um grito de assombro e se separou de um salto daquele fantoche envolto em ataduras cuja visão gelava o sangue. De improviso, a terra pareceu rachar-se e mover-se sob seus pés. Levava ainda na mão o besouro e, ao tentar escapar do ataque da múmia, arrancou do tudo o amuleto, levando-se de passagem várias tiras de linho e fazendo com que o morto cambaleasse pesadamente e se chocasse com força contra Geordie.

— Meu deus, está vivo! — gritou Geordie enquanto tentava manter afastada à múmia agitando com ímpeto as duas tochas que levava nas mãos.

Anos depois, Jamie se diria que, na penumbra da tumba, talvez não tivesse cortado alguns dos fortes fios que sujeitavam o besouro à múmia de tal modo que possivelmente, ao tirar o talismã, tinha levantado sem dar-se conta o corpo ligeiro e dissecado. Entretanto, nunca conseguiria se convencer de tudo.

Nesse instante, entretanto, só sabia que a múmia parecia ter voltado para a vida e os estava atacando. Tom, Andy e Will se uniram rapidamente à eles e empurraram e golpearam à múmia com fúria até que por fim ficou estendida e quebrada sobre o chão de pedra do sepulcro.

— Digo que estava vivo! — repetiu Geordie, cujo semblante parecia cinzento na penumbra.

— Bobagem! — disse Andy — Está a milhares de anos morto e mumificado. Jamie deve ter puxado a tiras sem perceber e a tirou do ataúde. Por isso parecia que estava viva. Voltemos para o trabalho ou não acabaremos nunca. E, pelo que parece, aí fora está se formando uma boa tormenta.

Mas antes que os outros pudessem obedecer, resmungando, Ned entrou correndo na câmara, completamente molhado.

— Temos que sair daqui! — gritou, espantado — Os camelos escaparam e aí fora há uma tormenta de mil demônios. O vale está se alagando. Estas tumbas são uma armadilha mortal!

Como se quisesse confirmar as palavras pavorosas de Ned, a terra tremeu e se sacudiu uma vez mais sob seus pés, e por cima deles retumbou um horripilante rugido. De repente compreenderam que aquele som procedia da inundação, que ia cobrando força e velocidade e que se estendia como uma maré das montanhas ao vale.

Não fez falta que Ned lhes dissesse de novo para saírem dali. Agarraram quanto puderam e começaram a correr, saíram da câmara de enterro e percorreram a tropicões o corredor.

Jamie estava tão ansioso para escapar que apenas percebeu que levava ainda na mão o besouro do coração da múmia. Era este não só tão grande como um ovo de ganso, mas também mais pesado e mais frio que o gelo. Jamie o sentia gelado e preso à palma de sua mão, como se de algum modo se convertesse em parte dele. Mas, embora tivesse a mão intumescida de tanto agarrar o amuleto, o besouro parecia palpitar cada vez mais como um coração que cobrava forças dentro de sua mão, irradiando Poder. Jamie, entretanto, não parou para pensar nisso. Pensava unicamente em alcançar a superfície e correr para algum lugar elevado, onde suas possibilidades de sobreviver seriam muito maiores.

O coração martelava com espantosa força, até o ponto de parecer que ia estalar no peito, mas Jamie continuou correndo depois dos outros e subiu a saltos o primeiro lance de degraus, que saia da câmara de enterro ao corredor que se estendia mais à frente. Ali descobriu horrorizado que o chão de pedra estava molhado e que a chuva já tinha começado a filtrar-se na cripta. As pedras quebradas e os entulhos soltos do buraco pelo qual os antigos operários tinham penetrado sem querer no mausoléu por um corredor que discorria a maior altura formavam um perigoso obstáculo e, ao atravessar os atoleiros e a terra molhada, Jamie perdeu pé, escorregou e caiu de joelhos.

— Esperem! — gritou com aspereza enquanto tentava levantar-se — Esperem!

Mas o aterrador estrondo da enchente que de repente alagou a tumba, precipitando-se sobre as escadas como uma violenta cascata e afogou sua voz.

— Muito tarde! — gritou Ned antes de ser arrancado violentamente da escada de pedra pela água, que o engoliu de repente, extinguindo bruscamente a tocha que levava.

Jamie não esperou para ver ou ouvir nada mais. Seu instinto de sobrevivência o impulsionou continuar e, ficando em pé e sem sequer pensar, saltou através do desigual buraco na parede do corredor e se encontrou em uma escura cripta, mais alta, que se estendia mais à frente, levando ainda na mão a enorme e muito valiosa esmeralda.

 

         Começa o jogo

 

                   1754

                   Abadia de Medmenham, perto de Londres, Inglaterra

Situada entre os lagos de Hambledon e Hurley, nas imediações de Marlow, a abadia de Medmenham se elevava em meio de um arvoredo, na ribeira oeste do Támesis, no subúrbio de Londres e a umas seis milhas de West Wycombe, o lar ancestral do baronet sir Francis Dashwood. Construída no século XII, a abadia tinha começado sua vida tranquilamente e de maneira muito modesta como monastério cisterciense. Durante a época da Reforma, entretanto, tinha caído nas mãos da família Duffield, que a tinha transformado em uma imensa casa de campo no estilo Tudor.

Em 1751, Dashwood, filho de um rico comerciante casado com uma aristocrata, tinha arrendado a abadia aos Duffield e tinha empreendido imediatamente sua reforma com intenção de convertê-la na sede da Ordem dos Cavalheiros de Saint Francis, ordem que ele mesmo tinha criado cinco anos antes. Até então, a ordem tinha celebrado suas reuniões no botequim George & Vulture, no beco de Saint Michael, na paróquia londrina de Cornhill. Agora, entretanto, a abadia de Medmenham lhe servia como base de operações.

Dashwood, que tinha viajado muito no transcurso de seu Grande Tour e que em Florença, Itália, tinha sido iniciado nos segredos da maçonaria, tinha gasto consideráveis quantidades de tempo e dinheiro remodelando o antigo monastério. Os pedreiros e jardineiros de West Wycombe, seu imóvel próximo, tinham construído com grande esforço uma torre quadrada, deliberadamente ruinosa, na esquina sudeste da abadia, junto com um claustro com três arcadas de frente ao Támesis. Os jardins tinham sido remodelados por Maurice-Louis Jolivet e continha numerosas estátuas entre as quais se incluíam uma Vênus, deusa romana do amor, completamente nua, e um Príapo, deus romano da fertilidade, também nu e muito bem dotado. Sobre a entrada principal da abadia, Dashwood fez escrever as palavras Fay c que voudras, «faz o que deseje», o célebre lema da abadia de Téleme, criada na ficção por François Rabelais e construída pelo gigante Gargantúa.

No interior da abadia de Medmenham, uma estátua de Harpa-Khruti, deus egípcio do silêncio, conhecido pelos gregos e romanos como Harpócrates, levantava-se em um canto do matizado vestíbulo, com um dedo sobre os lábios. Do outro lado da suntuosa sala, em pose idêntica a de sua réplica masculina, havia uma estátua de Angerona, a escura deusa romana do solstício de inverno, a morte, o silêncio e o segredo, com a boca amordaçada. Para os maçons, aquelas duas deidades eram os guardiões do segredo, e se dizia que sua presença no vestíbulo servia para recordar aos patronos da abadia que nada do que se falasse ou fizesse entre os antigos muros daquela casa devia repetir-se fora.

O próprio sir Francis Dashwood era o «abade» de Medmenham, o chefe de um círculo seleto composto por doze «apóstolos». Aqueles treze cavalheiros eram os únicos que tinham o acesso permitido ao sanctasanctórum da abadia. Outros membros da Ordem dos Cavalheiros de Saint Francis eram ou «monges» ou «monjas», dependendo de seu sexo, e formavam o grosso da ordem.

Lorde Iain Ramsay, conde de Dúndragon, era um dos «monges de Medmenham». Essa noite, entretanto, desejava fervorosamente não sê-lo nem haver-se deixado arrastar pela buliçosa e dissoluta companhia que frequentava a velha abadia, a qual seria posteriormente conhecida para muitos como o «Clube do Fogo do Inferno».

Naquele chão, antigamente sagrado, levavam-se a cabo atos pagãos que horrorizavam o conde. Os antigos monges cistercienses que tinham criado a abadia sem dúvida se revolveriam em suas tumbas ante aquela idéia, refletiu Iain com pesar em um nebuloso canto de seu cérebro inchado pelo vinho. Corria o rumor de que dentro dos altos muros da abadia se rendia culto a Satã e, embora isso fosse incerto, era sim um fato de que os chamados monges de Medmenham reverenciavam a Mãe Terra, a qual rendiam tributo com toda classe de libações, dança de máscaras e atos impudicos.

Nos exuberantes jardins, oferecia-se vinho e outras coisas a Bona Dea, a Boa Deusa, e nas covas labirínticas que havia a curta distância da abadia, os «monges» e «monjas» da ordem copulavam em pequenas «celas» construídas para tal propósito. Entre os discos que rodeavam o lugar se construiu uma imponente fachada, semelhante a de uma igreja gótica, à entrada das covas que se estendiam sob a colina de West Wycombe e se prolongavam ao longo de quase meia milha, até High Wycombe, cruzando um riacho conhecido com o nome de «rio Estigio», para culminar em um enorme e riquíssimo salão de banquetes com altos tetos e repleto de estátuas romanas. No alto da colina se levantava a igreja de Saint Lawrence, coroada com uma enorme bola dourada e dedicada, muito convenientemente embora com certa ironia, ao santo padroeiro das prostitutas. Algumas vezes, quando estava bêbado como uma cuba, Dashwood entrava na bola dourada e, sem deixar de andar de um lugar a outro o qual ele chamava de seu «divino ponche de leite», ficava cantando obscenas paródias dos salmos.

Agora, ao pensar em todas aquelas coisas, Iain se estremecia involuntariamente. Que tolo tinha sido por mesclar-se com semelhantes sujeitos, por mais que fossem alguns dos pares mais importantes do reino! As mãos, nas quais sustentava os naipes, tremiam ligeiramente, e sua testa estava cheia de suor. Devido a sua estupidez, encontrava-se a ponto de perder tudo que pertencia a sua família há gerações: suas terras na Escócia e Inglaterra. Estavam jogando o sétimo, e Iain se achava muito por detrás de seu oponente, o conde lorde Bruno Foscarelli, amigo de Dashwood do leste de Florença.

Iain já não recordava como tinha acabado jogando às cartas com Foscarelli. De um momento para outro, tinha passado de um jantar no grande refeitório a encontrar-se sentado em uma mesa em frente ao conde italiano, disposto a embarcar-se no que tinha resultado ser uma desastrosa partida de sétimo. Iain não gostava de Foscarelli nem confiava nele, pois tinha o convencimento de que todos os italianos eram desleais e traiçoeiros. Estava por isso convencido de que Foscarelli estava fazendo armadilhas toda a noite.

Entretanto, nenhum dos curiosos que observavam o jogo parecia ver nada fora do normal na boa mão de Foscarelli e, dado que Iain não conseguia adivinhar por quais meios estava vencendo, não se atrevia a acusar o italiano. Além disso, embora soubesse como estava fazendo armadilhas, Foscarelli era um perito espadachim e um magnífico atirador e, pese a tudo o que corria o risco de perder essa noite, Iain não tinha intenção de acabar seus dias em um duelo ao amanhecer. O conde italiano tinha uma reputação que, longe de ser brilhante, sugeria escuras inclinações. Corria o rumor de que tinha matado a mais de um adversário no campo da honra e que tinha abandonado sua terra natal, a Itália sob a nebulosa nuvem do escândalo e a suspeita, embora ninguém soubesse com certeza o que significava aquilo. Por outra parte, sem que nem o conde nem ninguém mais no mundo soubessem, Iain tinha ainda um ás na manga com o qual esperava triunfar sobre seu oponente, tal e como tinha triunfado sobre seu próprio pai.

O pai de Iain, o defunto lorde Somerled Ramsay, antigo conde de Dúndragon, havia sentido escassa simpatia por seu filho, ao que considerava um tolo e um crápula, até o ponto de que em vida ter tomado medidas para impedir que o legado familiar caísse em suas mãos. Mas, ao final, Iain tinha conseguido burlar os intuitos de seu pai. Endividado até o pescoço por culpa do jogo e outros vícios vergonhosos, Iain há muito tempo confiava em sua herança para saldar suas dívidas, pois tinha intenção de vender algumas terras da família e adquirir desse modo os recursos necessários para agradar seus credores. Assim, alegrou-se quando seu pai tinha morrido por fim. Quinze dias depois, tinha vendido as terras que necessitava para saldar suas consideráveis dívidas e, imediatamente depois do funeral de seu pai, tinha retornado a Londres com intenção de cumprir com suas obrigações. Mas, por desgraça, ao chegar à cidade se encontrou com Dashwood e alguns outros monges de Medmenham, e ali estava sentado no vestíbulo da antiga abadia, com todos seus planos arruinados.

Tinha perdido a conta de quantas partidas tinha jogado com Foscarelli, embora soubesse que eram várias, pois cada partida consistia em seis mãos, e os dois maços de naipes que estavam usando tinham sido embaralhados e repartidos numerosas vezes no curso da noite. E cada vez, depois de repartir as cartas, a Iain tinha parecido que a diferença entre seus pontos acumulados e os de Foscarelli aumentava imensamente e que as apostas eram cada vez mais altas, até que, ao final, tinha acabado apostando até as terras de sua família com tal de continuar jogando. Como muitos jogadores, havia se sentido preso de uma estranha febre que não passava, e tinha se convencido de que sua sorte tinha que mudar cedo ou tarde. Só que não tinha mudado.

A seu redor, o ar sufocante da noite estival estava carregado de conversar tolas e risadas estrepitosas, de sons obscenos de promiscuidade; da fumaça das velas que ardiam nos lustres de cristal, e dos charutos que fumavam muitos dos cavalheiros presentes; e do perfume da profusão de flores que se abriam nos jardins da abadia, cujo aroma embriagador penetrava na casa com cada sopro de brisa. Além das paredes da abadia, os galhos das árvores se balançavam entre suspiros, o Támesis lambia brandamente suas margens e as aves noturnas cantavam melodiosamente. Iain só era vagamente consciente destas coisas quando tentava obrigar a seu cérebro aturdido a concentrar-se no jogo. Lançou um olhar furtivo a seu relógio de bolso e viu que eram bem passadas as duas da madrugada. Uns minutos depois, não ficaria já nada para apostar, estaria sem um cêntimo e virtualmente arruinado, mas seus credores seguiriam acossando-o. A idéia de ir ao cárcere por suas dívidas pesava grandemente sobre seu ânimo.

— A partida é minha — observou Foscarelli com olhar agudo e calculador.

A voz enganosamente sedosa do conde tirou Iain de seu estado de topor com um sobressalto.

— Sim, isso parece — disse com pesar ao perceber que tinha perdido de novo; de que tinha perdido tudo.

— Quer jogar outra partida?

— Não, não tenho nada mais. Estou acabado.

 

Foscarelli encolheu os ombros ligeiramente.

— É uma lástima. Pelo visto, os rumores que ouvi sobre sua família são certos. É verdade que a maldição do deus egípcio Khepari pesa sobre seu ramo do clã Ramsay, devido a que roubaram vocês seu coração.

— Isso não é mais que uma lenda supersticiosa — respondeu Iain, apesar de que nesse instante se sentia em efeito maldito.

— De verdade? Então, a história que me contaram sobre um antepassado seu que roubou uma muito valioso esmeralda em forma de besouro da tumba de um supremo sacerdote do antigo Egito consagrado a Kheperi é só uma fábula?

— Se não o fosse, você acha que me encontraria no apuro em que me encontro agora? — perguntou Iain com mais aspereza do que pretendia, e se ruborizou ao observar que acabava de admitir a seu pesar o apuro em que se encontrava sua vulnerabilidade ao haver-se deixado arrastar pela depravação que rodeava Dashwood, e sua culpa por ter pensado em entrar naquela arruinada partida de naipes com o conde — Se essa esmeralda existisse, com gosto a trocaria pelas terras que acabo de perder. Mas nunca a vi e sei tão pouco sobre ela como o que você mesmo acaba de dizer. Assim não acredito que seja mais que um conto.

— Entendo. Então, parece que sua má sorte desta noite é unicamente o resultado de uma má mão.

— Ora! Foi muito mais que isso! — estalou Iain sem poder remediar.

Os olhos negros de Foscarelli se fecharam de repente.

— O que quer dizer?

— Na-na-nada. Não queria dizer nada.

— Oh, eu acredito que sim. Pareceu-me que pretendia me acusar de trapaças, Dúndragon — o italiano empurrou bruscamente a cadeira e se levantou encolerizado — Como a Deus que não penso consentir tal ultraje! Ou retira essa insinuação e se desculpe milorde, ou meu padrinho irá visitar você e ao seu assim me você der seu endereço.

— Não tenho nada pelo que me desculpar. Não lhe acusei de nada, conde Foscarelli — disse Iain com uma expressão séria ao final de um momento, no meio do silêncio que tinha caído na estadia ao perceberem os convidados a situação. Ele também se levantou e olhou a seu oponente cara a cara por cima da mesa — Foi você quem chegou a essa conclusão, por mais errônea que seja. Mesmo assim, se negar reconhecer seu engano e insiste em exigir uma satisfação, saiba que me alojo no botequim George & Vulture, no beco de Saint Michael.

Com essas palavras, Iain girou sobre seus calcanhares e saiu da habitação tremendo dos pés à cabeça. Ao chegar à entrada principal da abadia de Medmenham, pediu que lhe levassem seu cavalo e partiu a galope, tomando o caminho do leste que levava a Londres enquanto amaldiçoava a si mesmo por não ter refreado sua língua. Por que demônio tinha falado daquele modo com Foscarelli e tinha insinuado que era um trapaceiro? Sabia que com Foscarelli não se faziam brincadeiras. E por que, quando o conde parecia tão decidido a entrar em uma disputa, não engolido seu orgulho e se desculpado? De todos os modos, estava já arruinado. Assim por que fazer tanto drama porque lhe despojaram também de sua dignidade?

 

A razão se devia ao vinho, que tinha ofuscado seu cérebro e soltado sua língua, pensou, desalentado. Agora, para salvar a vida, teria que fugir da Escócia e Inglaterra e partir para o continente, pois não se atrevia a enfrentar Foscarelli em duelo. Sem dúvida morreria. E essa perspectiva era ainda pior do que acabar na prisão por dívidas.

Conservava ainda alguns pertences pessoais que podia penhorar. Com eles obteria dinheiro suficiente para comprar uma passagem e cruzar o canal da Mancha. Sim, conseguiria escapar se apressasse, disse a si mesmo Iain, desejando de repente com desespero possuir suficiente astúcia e presença de ânimo para dar ao italiano um endereço falso a fim de ganhar tempo para poder escapar. Enfim, era um absurdo lamentar-se. Tinha que fazer o que estivesse em sua mão. Além disso, muitos monges de Medmenham se hospedavam no botequim George & Vulture, seu antigo lugar de reunião, quando visitavam Londres. Assim era muito possível que Foscarelli se inteirasse de sua intenção com apenas perguntar a qualquer um dos convidados da abadia.

Deste modo giravam a engrenagens do cérebro de Iain enquanto cavalgava para Londres. No exterior, além dos limites da abadia de Medmenham, a noite, mais fresca que abafada, ajudou a esclarecer sua cabeça de modo que pôde ordenar seus pensamentos, antes emaranhados e caóticos. Tinha parentes no continente, na França, os Ramezay, o antigo ramo normando da família. Podia ir até eles; sem dúvida não se negariam a lhe acolher em seu seio. Mas a idéia de apresentar-se ante eles com as mãos vazias e açoitado por um escândalo lhe deu o que pensar. Mesmo assim, não via outra saída. Lá em cima, a lua chapeada, quase cheia, brilhava com força, iluminando seu caminho. Logo chegou a Londres. Iain olhava com receio a seu redor enquanto atravessava o esparramado labirinto das ruas de Londres, sobre cujos caminhos sem pavimentar repicavam os cascos de seu cavalo à medida que avançava por Cheapside e logo por Poultry. Pouco depois chegou ao cruzamento das ruas Theardneedle, Cornhill e Lombard. Entrou em Cornhill, deixou para trás o Royal Exchange, que há essa hora estava fechado, e seguiu até o beco de Saint Michael. Ao dobrar a esquina do estreito beco, parou o cavalo em frente à porta do botequim George & Vulture, estabelecimento que datava do século XII, mas que tinha sido reconstruído durante o século XVII depois do Grande Fogo que assolou Londres em 1666.

Depois de dar as rédeas de seu cavalo ao sonolento rapaz, Iain entrou no botequim e subiu a toda pressa a seus aposentos. Westerfield, seu ajudante estava esperando sua chegada e lhe abriu a porta para que não tivesse que procurar a chave na semi escuridão do corredor.

— Volta tarde o senhor — observou o ajudante enquanto pegava o chapéu, a capa e as luvas de Iain — Desfrutou que uma agradável noite?

— Não, Westerfield, foi a pior noite de toda minha vida... e não temos nem um momento a perder! Tem que fazer as malas a toda pressa e sair daqui correndo.

— Por que, milorde? O que aconteceu? — Westerfield nunca tinha visto seu senhor em tal estado de agitação — Se for pela conta, milorde, já falei com o caseiro.

— Não, isso é o que menos me preocupa neste momento. Perdi tudo, Westerfield, em uma desastrosa partida de cartas com o conde Foscarelli. Pode que tenha ouvido falar dele. Tem uma reputação bastante desonrosa e, conforme acredito é um homem verdadeiramente malvado. Não me cabe nenhuma dúvida de que trapaceou. Eu estava um pouco ébrio e sem perceber fiz uma insinuação a respeito, e foi às nuvens. O caso é que, quando me neguei a me desculpar, alegando que só tinha interpretado mal meu comentário, desafiou-me a um duelo e, sem pensar, cometi a estupidez de lhe dar meu endereço para que seu padrinho pudesse vir me visitar. Não me atrevo a enfrentar Foscarelli. Não tenho sua habilidade nem com a espada nem com a pistola, e sem dúvida não se conformará em me ferir. Matará-me! — afirmou Iain com amargura enquanto arrastava seu baú, que estava em um canto, e abria a tampa — Pode-se saber o que faz aí parado, Westerfield? — prosseguiu, enfurecido — É que não entendeu nenhuma só palavra do que lhe disse? Mova-se, homem! Pode que o padrinho de Foscarelli esteja a caminho daqui enquanto conversamos. Devemos fugir para o continente, onde estaremos a salvo. Vamos, eu farei a bagagem. Você ocupe-se disto e disto — tirou o relógio de ouro de bolso e o selo que levava no dedo e os deu ao ajudante — Vá correndo a essa loja de penhores judia que há em Birchin Lane. Desperte o proprietário e diga-lhe para ver quanto lhe dará por isso. Pegue, leve isto também — colocou a mão sob a camisa e tirou uma cruz grande, ornamentada e de estranho aspecto que estava pendurava de uma corrente de prata ao redor de seu pescoço.

— Não, milorde! — exclamou Westerfield, horrorizado — Isso não! Essa cruz a deu seu defunto pai. Disse que nunca devia separar-se dela, nem sequer sob perigo de morte.

— Bom, meu pai está morto, assim não saberá que penhorei a condenada cruz, não lhe parece? Vale suas boas guineas, e necessito dinheiro para a viagem. Além disso, Neill, meu irmão, poderá resgatá-la, se não puder fazê-lo eu mesmo — Iain jogou com decisão o crucifixo nas mãos de Westerfield — Depressa, Westerfield! Cada segundo que passa pode me custar a vida.

— Sim, milorde.

O ajudante deu meia volta e saiu da habitação enquanto Iain voltava a fixar sua atenção no baú, que encheu freneticamente, olhando de vez em quando com nervosismo o relógio de bronze dourado que havia sobre o suporte da chaminé e que parecia marcar com perversa satisfação cada minuto que passava. Temia não poder escapar a tempo.

Logo o baú se encontrou cheio até arrebentar, apesar de que não tinha guardado nele tudo que tinha levado a Londres. Isso se devia a que tinha arrojado as coisas dentro em desordem, em lugar de dobrá-las, como sempre fazia Westerfield. Resmungando maldições para si mesmo, começou a reordenar suas posses a fim de conseguir mais espaço. Por fim concluiu sua tarefa, sentou-se sobre a tampa para fechá-la e grampeou as fivelas das tiras de couro do baú. Começou depois a tarefa de empacotar os pertences de Westerfield, os quais eram, por fortuna, muito mais escassos que os seus. Ansiava ardentemente tomar uma taça para acalmar seus nervos, mas sabia que sua liberalidade com o álcool era em parte a responsável por sua ruína e que devia manter a cabeça limpa se quisesse sair com vida daquele atoleiro.

Depois de fazer a bagagem, ficou dando voltas pelo apartamento, no transcurso das quais de vez enquando colocava a mão no bolso do colete para olhar a hora, só para descobrir que tinha dado o relógio a Westerfield para que o penhorasse.

Em certo momento lhe ocorreu, já a fora de tempo, escrever uma carta a seu irmão menor e herdeiro, Neill, visconde de Strathmor, e, sentando-se ante o escritório da sala de estar, pegou papel e lápis. Mas apenas tinha começado a escrever a missiva quando, raiando já a alvorada, ouviu por fim os passos comedidos de seu ajudante no corredor. Não havia tempo para continuar escrevendo. Iain interrompeu a metade de uma frase, assinou apressadamente a nota e a polvilhou com areia para secar a tinta. Dobrou a carta, selou-a com lacre e rabiscou seu nome em um canto para poder enviá-la.

Logo, guardou a carta no bolso da jaqueta, correu para abrir a porta a seu ajudante. Mas não foi Westerfield quem apareceu ante seus olhos, a não ser um completo desconhecido: um italiano bronzeado e fornido que lhe deu um amplo sorriso mostrando seus dentes brancos, face ao qual seu semblante lhe pareceu por completo desagradável e inclusive ameaçador.

— O signore Dúndragon, suponho — disse educadamente aquele cavalheiro — Permita me apresentar. Sou Cesare Spinoza, o padrinho do conde Foscarelli. O conde me informou que ontem à noite ofendeu você sua honra e que deseja uma satisfação. Naturalmente, tal afronta à sua reputação não pode passar por alto, como você compreende. O senhor conde solicita que vá a seu encontro no Green Park, hoje ao amanhecer, hora a que possivelmente ninguém os incomodará. Em caso de que não tenha escolhido ainda padrinho, ordenaram-me que lhe diga que sir Francis Dashwood se ofereceu para tal propósito. E, naturalmente, se encarregou dos preparativos necessários para que levem também um cirurgião, se por acaso for necessários seus serviços. Dado que está a ponto de amanhecer e fica pouco tempo, sugiro-lhe que me permita levá-lo ao parque, signore. Tenho uma carruagem nos esperando abaixo. Assim, se tiver a bondade de me acompanhar...

— Eu... agradeço o oferecimento, senhor — conseguiu dizer Iain, tragando saliva — Mas estou esperando a volta de Westerfield, meu ajudante, a quem enviei a um assunto de certa importância que temo que tenha que resolver antes de me encontrar com o conde Foscarelli.

— Ah, sim. Encontrei-me por acaso com seu servente de caminho aqui. Pediu-me que lhe advertisse que teve... um contratempo inevitável.

Ao ouvir isto, Iain sentiu que um terrível calafrio lhe corria a espinha dorsal e arrepiava o pêlo de sua nuca. Acreditava adivinhar nas palavras de Cesare Spinoza que este tinha feito algo que impedia a volta de Westerfield, que possivelmente lhe tinha ameaçado de algum modo, ou inclusive o tinha matado. Se fosse possível, teria fechado a porta no nariz do italiano, teria trancado a porta e tentado escapar por uma das janelas do andar de cima. Mas, por desgraça, Spinoza se encontrava de pé na soleira, de modo que não podia fechar a porta. Por outro lado, Iain pressentiu de repente que, no caso de que conseguisse chegar às ruelas e passarelas que se estendia lá abaixo, descobriria que o italiano não tinha ido sozinho e que havia outros valentões de Foscarelli rondando por ali.

— Entendo — respondeu Iain por fim — Nesse caso, me permita recolher minha capa.

— Dado que seu ajudante sofreu um contratempo, eu mesmo o ajudarei encantado, signore — o italiano entrou na habitação sem esperar um convite e o seguiu ao dormitório. Ao ver os baús preparados na metade da habitação, perguntou: — Parte de Londres, signore?

— Sim — Iain não viu razão alguma para mentir, pois não podia negar suas intenções quando saltava à vista que tinha feito a bagagem com intenção de sair de viagem — Devo me ausentar por razão de negócios. Partirei imediatamente depois de meu encontro com o conde Foscarelli.

— Então será melhor que nos apressarmos signore. Quanto antes acabe tudo isto, antes poderá sair, não acredita?

— Sim — respondeu Iain, enquanto rezava para não ter embarcado em uma viagem para o inferno.

Spinoza fez às vezes de ajudante e o ajudou colocar a capa. Logo saíram ambos do apartamento e desceram as escadas. Ali, quando um repentino estrondo no salão do botequim distraiu o italiano, conseguiu deslizar a carta sobre o monte de correspondência que havia em uma mesinha no corredor, esperando a que a recolhesse o carteiro.

Continuando, Spinoza e ele atravessaram o grande arco que dava entrada ao botequim e saíram à rua, onde Iain constatou que não se equivocava: havia vários valentões italianos, de muito má postura, rondando por ali. Junto à porta havia também quatro cavalos negros enganchados a um carro negro e reluzente que não levava brasão e que, em meio da bruma esbranquiçada e fantasmal que se deslizava pelo barulho das ruelas e passarelas, pareceu a

Iain vagamente uma limusine fúnebre. Os homens ficaram alerta ao ver Spinoza, abriram a porta da carruagem, desceram os degraus e ocuparam seus postos no alto do veículo. O condutor tocou os cavalos utilizando o chicote e a carruagem começou a andar subitamente, entre o estrondo das altas rodas sobre os paralelepípedos da rua.

Durante o trajeto, Iain e Spinoza caíram no que para o primeiro era um tenso e inquietante silêncio, apesar de que o segundo não parecia perceber ocupado como estava olhando com aparente interesse pela janela do carro, através da qual iam passando as ruas, ocultas em parte pela diáfana neblina branca que pendia sobre o Támesis e flutuava como um espectro através da cidade.

Desde Cockspur Street, a carruagem tomou a ampla avenida de Pall Mall, e Iain sentiu que seus nervos, já duros, esticavam-se ainda mais à medida que se aproximavam de Green Park, seu destino final. Deu-lhe de pensar que ia de caminho para sua própria morte e se perguntou, aflito, se Westerfield teria tido a mesma sorte. Pouco depois, o veículo entrou em Piccadilly Road e chegou por fim a Green Park, o qual se estendia além de Buckingham House, a residência londrina do duque de Buckingham.

Ao parar o carro, os valentões de Foscarelli desceram para abrir a porta e descer os degraus. Iain e Spinoza desceram e entraram juntos no parque, no qual mais de um desafortunado cavalheiro tinha achado ali seu fim em um duelo ao amanhecer. Não longe do lago, o conde Foscarelli e sir Francis Dashwood aguardavam sua chegada junto a alguns outros «monges de Medmenham». Iain viu com momentânea ira que o conde já tinha tirado sua capa e a casaca, e que aguardava vestido unicamente com a engomada camisa branca e as meias.

— Bom dia, lorde Dúndragon — o saudou Foscarelli com fingida jovialidade.

Enquanto tirava lentamente a capa, Iain percebeu o patético aspecto que apresentava com sua casaca negra abotoada até o queixo, a cara sem barbear e os olhos turvos e avermelhados.

— Não sei por que insistiu você neste encontro, conde Foscarelli — disse com voz fraca, ignorando deliberadamente o fato de que todo diálogo entre duelistas devia dar-se só através de seus procuradores — Tal e como lhe informei ontem à noite, não disse nada que pretendesse manchar sua honra e, se algum de meus comentários lhe induziu a pensar o contrário, peço-lhe sinceramente desculpas.

— De verdade? — o conde levantou uma sobrancelha negra com expressão demoníaca — Mas sem dúvida saberá que agora já é muito tarde para desculpar-se, lorde Dúndragon. Não só vai contra as normas, mas também temo que muita gente presente ontem à noite na abadia lhe ouviu insinuar que tinha trapaceado com as cartas e, como sem dúvida sabe, os rumores voam em Londres. Assim, minha reputação já sofreu dano. Graças a você, muitos me consideram já um trapaceiro. Deve-me uma satisfação. E, dado que é você o desafiado, cabe-lhe escolher as armas. Prefere espada ou pistola?

Iain se voltou para o Dashwood.

— Francis... — implorou-lhe — sei pelo senhor Spinoza que se ofereceu para ser meu padrinho. Em qualidade de tal, não poderia tentar conversar com o conde?

— Acredite-me, Iain, em qualidade de seu amigo, já tentei — respondeu Dashwood despreocupadamente — Mas tenho que admitir que inclusive a mim parecesse que acusava Bruno de trapacear e essa é uma acusação muito grave, Iain. Se houvesse se desculpado ali mesmo, talvez poderia ter resolvido este assunto. Mas temo que agora, tal e como Bruno assinalou, não há volta atrás. Todos conhecemos as normas, incluído você, Iain. No campo da honra não se aceitam desculpas até que se derrame a primeira gota de sangue. A verdade surpreende-me que tenha pensado que podia atuar contra as regras. Enfim, não nos demoremos mais e nos ponhamos mãos à obra antes que nos descubra o guarda. Examinei as espadas e as pistolas e te recomendo que escolha estas últimas. São de boa qualidade e, como acredito que está talvez mais acostumado a espadas mais pesadas que o florete, a pistola te virá de maravilha.

Iain tinha sérias dúvidas a respeito, mas por desgraça parecia ter esgotado todas as possíveis vias de escape para impedir o duelo. Pegou lentamente uma das duas pistolas que o médico lhes ofereceu primeiro a ele e logo a Foscarelli com uma reverência. Foi também este quem enunciou em voz alta as regras do combate.

Logo, Iain e o conde se deram as costas e, depois do que a Iain pareceu uma eternidade, começou a conta dos doze passos regulamentares. Com cada passo que dava, Iain sentia que seu coração pulsava mais e mais forte, até o ponto de chegar a pensar que os outros também ouviam que seu som devia reverberar através de toda a cidade no silêncio do amanhecer. Aquele palpitar retumbava em seu cérebro, e o sangue troava a tal ponto nos ouvidos que pensou que iria desmaiar.

Ao dar o último passo e girar-se, cambaleou levemente, recuperou o equilíbrio, levantou a pistola que sustentava na mão trêmula e disparou. Mas, tal e como temia, seu disparo se desviou muito de seu objetivo e a bala foi incrustar-se no tronco de um carvalho próximo. Iain acreditou ouvir que de entre as filas dos espectadores se levantava certo revôo de risadas logo sufocadas, e seu semblante, pálido e decomposto à luz chapeada que começava a despontar no horizonte, ruborizou-se ligeiramente antes de empalidecer outra vez. Rezou fervorosamente para que o italiano também errasse o tiro. Mas ao olhar os olhos escuros e desumanos do italiano através da pradaria, compreendeu que estava olhando o rosto do demônio, que todas suas esperanças de obter clemência eram em vão. Era homem morto.

Apenas tinha cruzado esta idéia por sua cabeça quando ouviu o disparo do conde. A bala lhe golpeou no peito tão violentamente que lhe deixou sem respiração. Enquanto tentava recuperar o fôlego, surpreendeu-lhe vagamente achar-se ainda em pé e, por um instante, pensou, alegre, que milagrosamente tinha sua vida salva, que apenas tinha sofrido uma ferida superficial. Mas logo, como se seus movimentos tivessem ficado lentos, sentiu que a mão com a qual sustentava a pistola se afrouxava que a arma caía no chão e, sem prévio aviso, seus joelhos cederam e se desabou sobre a verde erva úmida pela neblina e o rocio, cujo frescor o atravessou de repente, deixando-o completamente gelado. Pareceu ouvir de uma grande distância gritos e passos que corriam para ele; sentiu que seu corpo se elevava e que umas mãos puxavam com ímpeto sua casaca, arrancando os botões.

— Temo que não possa fazer nada — anunciou o médico com expressão grave antes de levantar-se. — A ferida de lorde Dúndragon é mortal.

«Não, não!», quis gritar Iain. Mas quando abriu os lábios para falar, sentiu o sabor do sangue, salgado e acre, sobre a língua. Tossiu e tentou cuspir. Mas uma funesta sombra caiu sobre seu rosto, tampando a pálida luz da alvorada. Como o mesmo diabo, o rosto bronzeado e fino de Foscarelli flutuou ante seus olhos quando o italiano se inclinou sobre ele para que ninguém pudesse ouvir o que lhe dizia.

— Diga-me onde está o Coração de Kheperi! — sussurrou Foscarelli, e sua voz soou como o chiado de uma serpente nos ouvidos de Iain — Diga-me o que fez com o besouro que seu antepassado roubou da tumba do supremo sacerdote egípcio!

— Não... sei... Nunca... o... soube... Não... não existe... — conseguiu ofegar Iain.

— Asqueroso embusteiro! — vaiou o conde — Eu sei que existe e, agora que suas posses são minhas, registrá-las-ei de cima abaixo até encontrá-lo.

Nesse instante, para desconcerto de Foscarelli, um leve e estranho sorriso de satisfação curvou os lábios ensanguentados de Iain.

— Procure o quanto quiser, conde. Tem... graça. Eu ganhei... e você perdeu. Só que... não sabe ainda. Sem a chave... nunca... descobrirá os mistérios... do legado de minha família... e ao final... seus herdeiros tampouco... nunca governarão... o castelo de Dúndragon. É a sede de... meu ramo do... do clã Ramsay... e sempre o será... aconteça o que acontecer...

Com aquela declaração triunfante, Iain sentiu que suas pálpebras batiam as asas fracamente uma última vez e se fechavam até que tudo se tornou negro. Logo, para seu imenso alívio, a palpitante dor de sua cabeça e seu coração cessou de repente.

 

                   1835

                   Oxford Street, Londres, Inglaterra

Septimus Quimbly tinha vivido em Londres toda sua vida. Tinha nascido quinze anos antes da mudança de século, no seio de uma família acomodada, embora não rica; seu pai tinha sido cartógrafo e vendedor de mapas e sua mãe pintora. Antes do nascimento de seu único filho, o senhor e a senhora Quimbly tinham tido a perspicácia e a boa fortuna de publicar um formoso e detalhado mapa de Londres que se fez muito popular e que tinha assegurado o êxito de seu até então, pouco conhecido estabelecimento, Quimbly & Company, Cartografia e Mapas, situado no número 7B de Oxford Street.

De seus industriosos pais, o jovem senhor Quimbly tinha aprendido sua profissão a uma curta idade e, passando o tempo, depois da morte de seus progenitores, tinha seguido seus passos e se feito cargo do negócio familiar, a cuja prosperidade dedicava todos seus esforços. Seus pais teriam se sentido extremamente orgulhosos dele, pois lhe tinha ido tão bem que, finalmente, ao requerer o local de cima da loja para aumentar o negócio, uns anos atrás se viu obrigado a transladar-se do que até esse momento tinham sido seus aposentos privados a uma casa que tinha adquirido em Baker Street, no elegante distrito do Marylebone.

Dado que sua residência se encontrava não muito longe da loja de Oxford Street, com os anos o senhor Quimbly tinha se acostumado a retornar para a casa ao meio-dia para um bom almoço e jogar dormir um pouco. Tinha trabalhando para ele dois empregados competentes nos quais podia confiar o cuidado de seu estabelecimento umas poucas horas, assim como dois aprendizes, o mais velho trabalhava também com esforço. O mais jovem, em troca, era um rapaz pouco prometedor, ardiloso e vago que o senhor Quimbly não tinha nem a mais remota esperança de convertê-lo em um vendedor de mapas decente, e muito menos em um cartógrafo qualificado.

Eram, em efeito, seus empregados quem preocupava o senhor Quimbly nesse dia em particular quando, por volta de meio-dia, como tinha por costume, saiu de sua loja para empreender o passeio de volta a casa ao longo de Oxford Street, em direção a Hyde Park e a Tyburn Turnpike.

Seu empregado mais antigo desejava lhe deixar para fundar seu próprio estabelecimento e, embora o senhor Quimbly não temesse a concorrência e desejasse o melhor àquele jovem ao que estava a muitos anos treinando, o resultado era que ficaria sem de mão de obra. Seu outro empregado e o aprendiz mais velho tinham experiência e idade suficientes para subir em suas respectivas filas, mas seu outro aprendiz, em troca, não só era muito jovem, mas também, como já se assinalou, era um caso perdido. E, o que era ainda pior, o senhor Quimbly suspeitava, embora ainda não tivesse provas, que o desgraçado menino lhe estava roubando, apesar de lhe pagar um salário justo por seu trabalho, além de lhe dar alojamento e comida. Quando o senhor Quimbly tinha aceitado, mais por piedade e bondade de coração que por conveniência, dar um serviço àquele moço, a situação financeira da família era menos precária, mas agora todos seus parentes pareciam ter desaparecido: ou tinham ido trabalhar nas fábricas, ou se encontravam na prisão por culpa de suas dívidas, ou tinham morrido. Assim, o senhor Quimbly ignorava o que fazer com o menino, já que a benevolência de seu caráter lhe impedia de jogá-lo à rua e desfazer-se dele.

Tão acostumado estava o senhor Quimbly com o caminho que percorria cada dia, e tão distraído com seus pensamentos, que apenas emprestava atenção ao que o rodeava. Daí que levou um bom susto ao se chocar de repente com um jovem que caminhava pela rua. Depois de lhe oferecer suas mais sinceras desculpas, o senhor Quimbly, de não ter nascido e crescido em Londres, não teria tornado a pensar no incidente. Mas, como não era assim, ao fim de um momento durante o qual lhe deu tempo para recuperar a lucidez e a consciência a seu redor, seus pálidos olhos azuis se abriram bruscamente atrás dos óculos chapeados e imediatamente apalpou os bolsos da jaqueta, em busca de sua carteira. Não estava! Aquela topada, que ao princípio parecia infeliz, tinha sido provocado em realidade por um ladrão de carteira com a única intenção de lhe roubar.

— Alto, ladrão! — gritou o senhor Quimbly, enfurecido, e, soltando no ar sua fortificação de punho de bronze com a esperança de atrair a atenção dos pedestres, pôs-se a correr com decisão atrás de seu assaltante — Detenham o ladrão!

Malcolm não recordava se, antes daquele fatídico ano de 1835, sua família tinha vivido alguma vez em outra parte que não fosse o velho casarão de pedra de Whitrose Grange. Até onde alcançava suas lembranças, sua única moradia tinha sido a fazenda, a qual ficava a certa distância de uma tranquila aldeia coberta na ladeira de uma colina, muito longe da agitação e o bulício das grandes populações do país.

Sua família pertencia a essa classe intermédia de pessoas que não são nem ricas nem pobres. Daí que, embora a fazenda fosse um imóvel em arrendamento, e a família de Malcolm tivesse que ganhar o pão de cada dia trabalhando, sua situação era bastante desafogada para poder se permitir um punhado de serventes e uns quantos trabalhadores braçais e, em que pese a que moravam a maior parte do tempo relativamente isolados — Whitrose Grange se encontrava um pouco afastada — eram, entretanto felizes.

Durante dezesseis anos, a vida de Malcolm transcorreu quase como um sonho; seus dias eram como um lago cuja tranquila superfície apenas se frisava. Estudava e aprendia, recebia uma educação adequada para um jovem de sua posição, e quando não estava estudando suas lições ajudava seu pai na fazenda. Tinha poucos amigos, além de seus pais e dos serventes e trabalhadores braçais da fazenda, e em que pese a tudo estranha vez se sentia falta de companhia, pois era um desses rapazes solitários que habitam ricos mundos imaginários criados por sua fantasia.

Os livros, que acabaram sendo a eterna paixão de Malcolm, transportavam-lhe deste modo a lugares reais e imaginários que de outro modo não teria podido ver ou conhecer, e os mapas lhe mostravam onde se encontravam aqueles lugares no grande esquema tanto dos mundos da fantasia como dos da realidade.

Aquele funesto ano de 1835, Malcolm aprendeu a que mais tarde consideraria a maior lição de todas: descobriu que, já fosse para bem ou para mau, o curso da vida de uma pessoa podia mudar para sempre em um abrir e fechar de olhos por causa de outro ser humano... embora fosse um desconhecido.

O sucesso que ia alterar até tal ponto o curso da vida de Malcolm começou com a chegada a Whitrose Grange de seu tio Charles e a família deste. Antes de sua visita à fazenda, Malcolm só tinha sido vagamente consciente da existência daquelas pessoas, às quais nunca tinha visto, apesar de que Katherine, a esposa de tio Charles, fosse a irmã pequena de seu pai. Receber visitas na fazenda era uma experiência nova para ele, e a princípio aquela intromissão fez com que as emoções de Malcolm oscilassem entre a exaltação pela alegre agitação que reinava na casa e a confusão e o ressentimento ante o desbaratamento de sua plácida rotina. Embora não fosse um menino mimado, estava acostumado a ser o centro das atenções na fazenda e a que as vistas de seus pais girassem em torno dele.

De repente tomou consciência de que seus pais tinham também vistas próprias, que se estendiam muito atrás no tempo, muito antes de sua chegada ao mundo, coisa que ao mesmo tempo em que suscitava sua curiosidade e sua exasperação. Incomodava-lhe pensar que nem sempre tinha feito parte de seu mundo e que, entretanto, tio Charles e tia Katherine sim.

À medida que foi passando o tempo, no entanto, Malcolm aprendeu além outra lição: que, por mais que dê o coração nunca fica sem amor, e, convencido do afeto que seus pais sentiam por ele, pôde por fim ampliar de bom grado o círculo de sua existência para incluir nele os hóspedes da fazenda.

 

Certa noite, havendo-se retirado já todos os moradores da casa, enquanto dormia tranquilamente em seu quarto, Malcolm sonhou não só com as pessoas que habitavam seu coração há muito tempo, mas também com os recém chegados que tinham encontrado um lugar nele. Mas, ao emergir do sonho profundo para um suave sono, um elemento perturbador se foi deslizando pouco a pouco em seu sonho, e em algum lugar de seu subconsciente começou a cobrar consciência do som de vozes amortecidas e grossas. Ao princípio, ainda dormindo, Malcolm acreditou que aquilo fosse parte do sonho, embora desconexo, que se desdobrava em seu pensamento e, como estava acostumado a ocorrer com os que sonham, percebeu como se de algum modo saísse de seu corpo e procurasse a origem daquele alvoroço entre a bruma de sua psique. Mas, ao não descobrir, foi percebendo pouco a pouco de que se encontrava além de seus sonhos, e subiu desde aquelas escuras e insondáveis profundidades para despertar com sobressalto. O que lhe tinha despertado? Perguntou-se, aturdido, no meio da escuridão de seu quarto, iluminado unicamente pela luz que penetrava pelas frestas das janelas de madeira.

Percebeu então o que era o som sufocado das vozes acaloradas que acreditava ter ouvido em sonhos. Vinham de baixo, do escritório de seu pai, que ficava justo sob seu quarto e no qual, depois do jantar, seu pai e tio Charles estavam acostumados a encerrar-se a sós para tomar com calma seu oporto enquanto o resto da família permanecia na sala de estar.

Malcolm afastou as mantas e se sentou na cama, nervoso, perguntando-se o que estava acontecendo, enquanto aguçava o ouvido para captar a conversa de seu pai e tio Charles. Como não pôde entender o que diziam, saiu da cama, tomando a precaução de não pisar nas tábuas do chão que sabia por experiência que rangiam e chiavam e, estremecendo-se de frio sob a camisa de dormir — pois o fogo estava reduzido a brasas que ardiam lentamente no ralo de ferro — ajoelhou-se e grudou a orelha no chão. Não conseguiu, entretanto, ouvir mais que pedaços amortecidos do diálogo, e por fim se aproximou sigilosamente de um lugar no qual havia um pequeno buraco no chão de onde podia ver o escritório de seu pai, apesar de que toda a sala parecia obscurecida e indistinta, pois as velas que ardiam no abajur aceso sobre o escritório de seu pai tremiam e lançavam largas sombras movediças sobre as simples paredes caiadas. Apesar de tudo, pôde ver lá de cima, seu pai, seu tio Charles e, para sua surpresa, um terceiro homem que não conhecia vestido com uma capa negra e que estava de costas para ele, de modo que não pôde lhe ver o rosto. Os três homens se encontravam reunidos em um canto do escritório, muito juntos, e estavam mantendo uma discussão cuja hostilidade, que apesar de desenvolver-se em voz baixa, saltava à vista.

Aquele desconhecido deve ter entrado furtivamente em Whitrose Grange como um ladrão, muito depois de que todos se fossem à cama, refletiu Malcolm. Sem dúvida seu pai ou tio Charles lhe tinham deixado entrar pelas portas francesas do escritório. Mas quem era aquele escuro desconhecido de capa e o que fazia ali àquelas horas da noite? Perguntava-se Malcolm com nervosismo. Pois, a julgar pela expressão vigilante e a tensa atitude dos três homens, deduziu corretamente que nem seu pai nem tio Charles abrigavam simpatia nem confiança alguma pelo desconhecido.

Enquanto aquela preocupante idéia cruzava sua cabeça, e para seu espanto, o desconhecido tirou sem prévio aviso uma adaga reluzente de debaixo de sua comprida capa e afundou no peito de tio Charles, depois do qual, girando violentamente o pulso, extraiu a folha. Durante o que pareceu uma eternidade, o estupor de Malcolm foi tal que acreditou que, confundidos pela penumbra do escritório, seus olhos lhe tinham enganado. Mas nesse momento tio Charles, cujo rosto pálido se contraía de dor, cambaleou-se e, entre gemidos, levou a mão ao peito, de onde tinha começado a brotar um líquido carmesim que se filtrou entre seus dedos e foi estendendo-se por sua fina camisa branca de cambraia.

— Meu deus! — exclamou Malcolm, de repente o homem do manto olhou a seu redor, alarmado, de modo que por um instante a luz vacilante das velas iluminou seu rosto bronzeado.

Um instante depois, seu pai e o intruso começaram um combate mortal. O abajur caiu e a cera derretida se estendeu em redemoinhos sobre a mesa e o chão. As velas rodaram e se esparramaram, prendendo os papéis que havia sobre a mesa. Depois, ao arrastar a corrente que soprava dentro do escritório as folhas que ardiam, as largas cortinas que estavam penduradas ante as portas francesas se incendiaram. Alheios ao fogo, os dois homens continuavam brigando grosseiramente. Malcolm permaneceu um instante olhando atônito a brutal cena, mas por fim conseguiu refazer-se.

Levantou-se com esforço, abriu a porta do quarto e correu para fora, gritando e esmurrando as portas dos quartos do corredor. Logo começou a correr a toda pressa para a escada do andar de baixo. Depois dele, ouviu os gritos angustiados de sua mãe e de tia Katherine, que tinham se levantado precipitadamente e se achavam já no corredor. Mas, ao agarrar-se ao corrimão e dobrar o canto para descer e correr pelas escadas, o único pensamento claro no torvelinho que se desatou na mente de Malcolm era chegar até seu pai para tentar ajudá-lo de algum modo. Entretanto, as chamas se estenderam com temível rapidez e, quando chegou ao escritório, este se tinha convertido em um inferno e as chamas crepitavam e lambiam tudo com frenesi enquanto uma densa fumaça negra saía da habitação, miserável pelas asas do vento que entrava pelas portas francesas, agora abertas.

— Não! — gritou Malcolm, triste, e teria entrado na habitação se não fosse porque sua mãe e tia Katherine, que estavam atrás dele, obrigaram-no a afastar-se — Não! Soltem-me! Vocês não entendem! Papai e tio Charles estão aí dentro!

Mas, enquanto as duas mulheres escutavam, horrorizadas, estas palavras, não havia já nada a fazer. As vigas de madeira do teto racharam, emitindo furiosos estalos e rangidos, e desabaram; o gesso das paredes rachou e começou a cair; e, a medida que se consumia avidamente aquele novo combustível, o fogo ficava cada vez mais violento, e suas línguas alaranjadas e amareladas iam se estendendo do escritório aos quartos contíguos e ao andar superior. Os criados, que dormiam nas pequenas habitações, tinham acudido correndo e, enquanto tia Katherine e alguns serventes subiam a tropeções para salvar seus dois meninos pequenos e tudo que pudessem recolher, outros moradores da casa saíram ao pátio para buscar no velho poço uma cadeia de baldes.

Malcolm ignorava quanto tempo estiveram esforçando-se. Só sabia que lhe ardiam os olhos e a garganta por culpa das corrosivas e sufocantes nuvens de fumaça, que tinha as sobrancelhas chamuscadas e que até seu rosto parecia trincado pelo calor do incêndio, lhe doíam os músculos dos braços duros, tinha as mãos esfoladas de tanto carregar baldes de água e sua camisa de dormir estava enegrecida pela cinza e furada pelas faíscas que despedia o fogo. Trabalhou, no entanto, como um homem feito, freneticamente, enquanto lágrimas de angústia lhe corriam pelas bochechas, até que sua mãe o rodeou com seus ternos braços e o abraçou até que ele deixou de lutar e começou a chorar amargamente sobre seu ombro. Sentia-se doente e envergonhado por não ter podido salvar seu pai, nem sua casa, a qual, apesar do árduo esforço dos serventes e dele mesmo, seguia ardendo com terrível e abrasadora violência.

— Vamos, Malcolm, meu queridíssimo filho — insistiu sua mãe brandamente — Seu pai estaria muito orgulhoso de ti. Fez tudo o que pôde. Mais do que podia. Mas já não pode fazer nada mais. Não pode fazer-se nada mais.

— Deveria tê-los salvo! Deveria ter salvado ele e tio Charles!

— Tentou, Malcolm, e isso é o que conta. O fogo foi um acidente... um terrível e trágico acidente.

— Não, não é verdade! Não foi um acidente! Eu vi o que aconteceu e não foi um acidente!

— Cale-se, Malcolm! Cale-se! Está muito cansado e triste. Não sabe o que diz — disse sua mãe com certa aspereza e, ao ver que ele se dispunha a protestar, tampou-lhe a boca com a mão e sacudiu de maneira quase imperceptível a cabeça, com um brilho de angústia nos olhos — Disse para se calar! Ouviu-me? Agora, venha comigo. Ficará doente se continuar aqui, com este frio, só com a camisa de dormir. A tia Katherine e os criados conseguiram salvar um pouco de roupa e outras coisas. Tem que se vestir e abrigar-se. Terá que passar o resto da noite no estábulo. Pela manhã decidiremos o que devemos fazer.

Assombrado pelo estranho comportamento de sua mãe, mas muito aflito e cansado para protestar, Malcolm ficou em silêncio e seguiu a sua mãe até o velho estábulo de pedra. Resultou uma amarga ironia que, devido ao frio que fazia dentro do estábulo, as duas famílias e os criados se vissem obrigados a acender um fogo no centro do lugar. Depois improvisaram camas amontoando o feno, e se cobriram com as mantas que tinham conseguido salvar do incêndio, sob as quais se aconchegaram, procurando consolo e calor.

Apenas conversavam entre eles, ainda comovidos, perplexos e esgotados pelo esforço de combater as chamas que levaram a vida de dois deles e os tinham deixado sem lar.

Dormiram mal e passaram uma noite inquieta e desconsolada no estábulo. Levantaram-se antes do amanhecer, esgotados e famintos. Para então, a chuva cinzenta que tinha começado a cair pouco antes tinha apagado as chamas que durante a noite consumiram tão brutalmente a fazenda, deixando unicamente uma carcaça de pedra enegrecida que ardia sem chama sobre a grama, no lugar onde antes se elevava a casa. A primeira tarefa do aflito grupo foi inspecionar o escritório. Apesar de que sabia que era extremamente improvável, Malcolm abrigava ainda a esperança de que seu pai tivesse conseguido escapar de algum modo na noite anterior, levando tio Charles com ele. Por desgraça, entretanto, logo descobriram que as chamas tinham consumido até tal ponto a habitação que resultava impossível discernir o que tinha sido dos dois homens.

— Pode que papai e tio Charles tivessem tempo de sair — disse a sua mãe com indecisão.

— Se fosse assim, nos teriam avisado ontem à noite, Malcolm — respondeu ela com ternura — Não nos deixariam acreditar que morreram no incêndio.

— Pode que estejam em alguma parte, feridos ou inconscientes e não possam pedir ajuda mãe. Não deveríamos registrar os campos no caso de... ? — Sim, faremos isso filho, para ficar mais tranquilo.

Assim, empreenderam uma minuciosa busca, mas vendo que não encontravam nem rastro dos dois homens desaparecidos, chegaram à conclusão de que, em efeito, tinham perecido no incêndio. Foi, portanto, uma assembléia afligida a que se reuniu junto à silhueta enegrecida da casa para escutarem a mãe de Malcolm enquanto o céu plúmbeo continuava derramando aquela suja garoa.

— O primeiro que temos que fazer agora é procurar algo que comer — disse com calma — Depois, devemos ver se ficou algo mais que salvar na casa.

Por estranho que parecesse, uma vez que começaram a procurar entre as fumegantes ruínas que ainda vaiavam e despediam vapor sob a chuva, descobriram que se salvaram algumas coisas da casa, assim como toda a comida que tinha armazenado no porão. Retornaram ao estábulo, acenderam novo o fogo para esquentar e cozinhar e tomaram de café da manhã as maçãs, as nozes e as batatas que tinham tirado do porão e os ovos que recolheram no galinheiro. Enquanto comiam, a mãe de Malcolm disse aos serventes que, tendo morrido seu amo e estando a casa destruída, não poderiam continuar na fazenda, pois não sabia que passos daria o proprietário quando se inteirasse de sua perda mas, embora quisesse reconstruir a casa, ela sozinha, sem seu marido, não poderia fazê-lo.

— Todos nos serviram bem, e lhes agradeço por isso e pela bondade que nos demonstraram todos estes anos — afirmou com simplicidade enquanto tentava conter as lágrimas — Escreverei-lhes a cada um uma carta de recomendação para que possam procurar um bom emprego em outro lugar.

Alguns criados estava há muitos anos com a família de Malcolm e tinham também lágrimas nos olhos.

— Que Deus a abençoe, senhora! — disse uma faxineira com a voz sufocada pela emoção — Que Deus abençoe a você e ao jovem amo!

Outros se uniram àquele desejo, e Malcolm sentiu um nó na garganta, comovido pelo afeto e a devoção de seus serventes e porque se referiam a ele como ao «jovem amo». Depois de tomar o café da manhã, sua mãe lhe ordenou enganchar os cavalos à carroça. Uma vez feito isto, carregaram os pertences e a comida que tinham salvado da casa queimada, junto com as caixas de madeira em que levavam as galinhas. Ataram à parte de trás da carroça às duas vacas leiteiras que possuía a família, mas tiveram que deixar nos pastos o rebanho de cabras e ovelhas, pois Malcolm e sua mãe não tinham meios para levá-las ao mercado.

— Vou escrever ao senhor Cameron, o proprietário de Whitrose Grange, para lhe informar sobre o ocorrido e lhe pedir que se encarregue de vender o rebanho. Com o que ganhar poderá cobrar do que fica do arrendamento — explicou sua mãe a Malcolm enquanto o rapaz ajudava às mulheres e aos meninos pequenos a subir à carroça.

Sentou-se logo junto a sua mãe na boléia, agarrou as largas rédeas de couro, tocou os cavalos e empreenderam lentamente a marcha pelo sinuoso caminho que se afastava da fazenda. Olhou para trás uma última vez e saudou com a mão os serventes que permaneciam ainda ante as ruínas fumegantes da casa, de onde mais tarde empreenderiam o caminho a pé para a aldeia. Logo fixou resolutamente o olhar em frente e entrou na estrada que conduzia à população mais próxima de certa importância, a qual ficava no norte de Whitrose Grange. Percorreram as dez milhas que os separavam da cidade sob a chuva, e quando chegaram estavam molhados e gelados até os ossos, de modo que só desejavam esquentar-se ante um bom fogo. Mas, mesmo assim, sua mãe anunciou que primeiro deviam ir ao mercado e, uma vez ali, vender os cavalos e a carroça, as duas vacas leiteiras, os frangos e quase todas suas posses. Depois, levando o pouco que restava, Malcolm e outros percorreram a pé as bancas que rodeavam a praça do mercado. Em um posto que vendesse roupa usada, sua mãe comprou mudas para todos, pois tinham perdido quase todas suas roupas no incêndio. Em outro posto comprou dois pequenos baús de viagem.

— Agora, Malcolm, devemos encontrar um carro que nos leve a uma estalagem — disse.

Encontraram um carro e pediram ao condutor que os levasse a casa de hospedagem mais próxima. Pouco tempo depois, foram depositados junto a seus baús no pátio da estalagem Grouse & Trout, onde a mãe de Malcolm perguntou se havia alojamentos. Depois de pagar adiantado a noite, subiram a um pequeno, mas confortável apartamento e ali puderam por fim esquentar-se ante o fogo que a garçonete acendeu na lareira da sala de estar.

— Faria o favor de mandar que nos trouxessem também chá quente e algo de comer? — disse a mãe de Malcolm à moça — Bastará-nos com um pouco de sopa ou de guisado, pão e queijo.

— Sim, senhora — a garçonete fez uma pequena reverência e saiu do quarto.

Um momento depois, retornou com outra criada, levando bandejas carregadas de chá e comida. Depois que as duas moças partiram, Malcolm e os outros devoraram a comida com ânsia. Quando acabaram de comer e saciaram seu apetite, os filhos de tia Katherine dormiram no tapete que havia diante do fogo. Foi então quando a mãe de Malcolm se voltou para ele.

— Filho — começou a dizer enquanto deixava sua taça de chá vazia junto a uma mesa próxima — como estavam presentes os serventes, e por outras razões das quais você ainda nada sabe, não podia permitir que me contasse antes a história sobre o que viu ontem à noite no escritório de seu pai. Entretanto, agora que estamos sozinhos sua tia Katherine e eu gostaríamos muito de ouvi-la.

Surpreso com a explicação de sua mãe, mas contente pela possibilidade de relatar o que tinha visto Malcolm lhes falou sobre o intruso moreno e misterioso, vestido com uma capa, que tinha entrado na fazenda, e sobre como tinha discutido com seu pai e tio Charles, ao que tinha apunhalado.

— Então esse homem e papai começaram a brigar, e enquanto brigavam derrubaram o abajur da mesa de papai. Assim foi como começou o fogo.

— Entendo — sua mãe tinha a testa franzida em uma expressão pensativa e angustiada.

— Você o que acha Elizabeth? — perguntou, preocupada, a tia Katherine — De verdade acredita que Charles e Alexander estão mortos? Que um de nossos inimigos os matou?

— Que inimigos? — perguntou Malcolm, alarmado — Mãe, do que está falando tia Katherine? Que inimigos são esses? Quem iria querer matar papai e tio Charles?

— Essa é uma história muito longa, filho — respondeu sua mãe com gravidade depois de um momento — Algum dia lhe contarei. Mas agora sua tia Katherine e eu devemos decidir o que nos convém fazer. Depois do que me disse ontem à noite, temia que a seu pai e a tio Charles lhes tivesse ocorrido algo assim. Além disso, se nossos adversários tiverem descoberto que nós não morremos no incêndio, tal como sem dúvida pretendiam, tampouco agora estamos a salvo. Por sorte me ocorreu dar meu nome de solteira aqui, mas pode que nem sequer isso nos proteja.

Malcolm estava perplexo ante aquela revelação.

— Mas... mas por que iriam querer alguém nos matar?

— Porque acreditam que, enquanto vivamos, somos uma ameaça para eles, por isso... e isso é tudo que tem que saber de momento — respondeu sua mãe — Assim, por favor, não volte a perguntar, Malcolm. Agora, seja um bom menino e desça correndo ao botequim. Pergunte ao hospedeiro a que hora sai o próximo carro e para onde vai, porque não podemos nos arriscar a permanecer aqui, tão perto da fazenda. Averigua também quanto vale a passagem..., para ir dentro do carro, claro. Não podemos ir sentados no teto.

Malcolm cumpriu as ordens de sua mãe, apesar do estado de confusão em que se achava. Até a noite anterior, seus pais tinham sido simples arrendatários de uma fazenda e, em sua ignorância, ao menos que ele fosse consciente, não tinham nem um só inimigo sobre a face da terra. De repente, entretanto, pareciam ter vários. Adversários misteriosos, sem rosto, anônimos, que já tinham matado seu pai e tio Charles e que matariam a ele e a sua mãe, e a sua tia Katherine e a seus dois pequenos primos se pudessem. Perplexo e horrorizado, Malcolm não acreditava no que estava acontecendo. Como podiam ser uma ameaça para alguém, sua família e ele? Perguntava-se. Ignorava-o, mas estava decidido a averiguar tudo e vingar o assassinato de seu pai e tio Charles.

Depois de falar com o hospedeiro, retornou para cima para informar sua mãe sobre o que tinha averiguado. Ela tirou então vários bilhetes de uma libra de sua bolsa e os entregou, lhe ordenando que retornasse ao botequim e comprasse as passagens de carro para todos eles. Malcolm teve a impressão de que estava tentando afastá-lo dali para poder conversar a sós com tia Katherine. Tão orgulhoso se sentia, entretanto, das responsabilidades que lhe tinha encomendado, que não se zangou muito porque lhe excluíram da conversação. Perguntou-se, não obstante, que argumentos e segredos estariam trocando as duas mulheres sem que ele soubesse.

Esta vez, quando retornou ao apartamento do andar de acima, descobriu sua mãe sentada ante o escritório da sala de estar, redigindo uma carta. Tia Katherine estava no quarto contiguo, para onde já tinha levado o menor de seus filhos, uma menina, embora o mais velho continuasse dormindo sobre o tapete, diante da lareira.

— A quem escreve, mãe? — perguntou Malcolm ao lhe dar as passagens de carro.

— A meu procurador em Londres, o senhor Nigel Gilchrist.

— Não sabia que tinha um advogado em Londres.

— Há muitas coisas que não sabe ainda, filho. Mas sente-se e te contarei algumas. Como bem sabe, sua tia Katherine e eu estivemos conversando, e depois de muito discutir, por fim decidimos que passos temos que dar. Seus filhos e ela nos acompanharão até Newcastle-upon-Tyne, de onde empreenderão o caminho de volta para sua casa, enquanto que você e eu seguiremos até Londres. Você certamente não se lembrará de meus pais, seus avós, porque morreram quando era ainda muito pequeno. Mas eles gostavam muito de nós e desejavam assegurar nosso bem-estar econômico no caso de que acontecesse algo inesperado a seu pai. Viviam austeramente e desse modo cada ano conseguiam economizar algum dinheiro, que investiam com sensatez e com cujos benefícios abriram um fidecoismo (ato de disposição de vontade expressa em testamento, pelo qual uma pessoa pode deixar um bem imóvel para o sucessor do seu herdeiro) para mim. Não é muito abundante, mas sim suficiente para que vivamos comodamente se não desperdiçarmos nossos ganhos, sobre tudo porque meus pais me deixaram também uma pequena propriedade, uma casinha em Saint John's Wood, um distrito ao noroeste de Londres. Informei ao senhor Gilchrist, quem outras vezes me aconselhou em assuntos de negócios, que desejo tomar posse imediatamente de Hawthorn Cottage, assim se chama a casa, e lhe pedi que notifique aos arrendatários que devem procurar outro alojamento. Agora deve levar esta carta abaixo e colocá-la no correio — a mãe de Malcolm assinou a missiva com seu nome e a seguir pulverizou um pouco de areia sobre o papel para secar a tinta. Depois de sacudir a areia e dobrar a nota, selou-a e a entregou a seu filho junto com uma moeda de quatro peniques. Logo continuou dizendo: — Contei-te tudo isto, filho, para que não se preocupe pensando no que vai ser de nós agora que... agora que... — a emoção quebrou sua voz e seus olhos se encheram de lágrimas repentinamente. Levou a delicada mão à boca e ficou em silêncio um momento até que conseguiu recompor-se — Agora que seu pai já não está conosco.

— Pode que ainda esteja vivo, mãe — disse Malcolm em voz baixa enquanto refreava resolutamente suas lágrimas.

— Não acho que o esteja..., nem seu tio Charles tampouco. Sem dúvida nos teriam avisado de que estavam vivos, e não tivemos notícias, nem ontem à noite nem esta manhã. Se tivessem conseguido escapar, mas estivessem feridos e não pudessem pedir ajuda, com toda segurança os teríamos encontrado quando registramos o imóvel. Não, não devemos acreditar que seguem vivos, filho. Seria muito cruel manter a esperança e descobrir logo que em efeito perderam a vida no incêndio. Devemos tentar ser fortes e seguir adiante, como eles teriam desejado.

Embora Malcolm percebesse a sabedoria das palavras de sua mãe, sentia-se zangado e resistia em acreditar que seu pai estivesse de verdade morto. Pegou a carta para o senhor Gilchrist e desceu, mas seus tumultuosos pensamentos não o abandonaram nem sequer quando, depois de jantar, pôs-se a dormir no sofá da sala de estar. Do outro lado da porta fechada do dormitório contiguo, ouvia a conversa de sua mãe e de tia Katherine e os leves gemidos do pranto de alguma delas, ou possivelmente de ambas. Mas, tal era sua agitação e sua tristeza, que não podia lhes oferecer consolo algum. Por fim conseguiu conciliar o sonho, mas, como na noite anterior, caiu em um inquieto sono e despertou antes da alvorada com os músculos duros.

Levantou-se com esforço e avivou o fogo, tentando dissipar o frio que se apoderou da habitação. Logo se lavou com a água fria da bacia de porcelana que tinha deixado preparada sua mãe na noite anterior, antes de retirar-se. Uma vez que esteve vestido, sentou-se para olhar pelas janelas que davam à cidade, que, em meio da bruma matinal, pareceu-lhe sombria e cinza, até que sua mãe e os outros estiveram preparados para partir da estalagem. Seus escassos pertences foram rapidamente empacotados nos dois pequenos baús, exceto o cofre de prata lavrada de seu pai, que tia Katherine tinha salvado do dormitório de seus pais na noite do incêndio e na qual sua mãe tinha guardado na noite anterior a maior parte do dinheiro que sobrou da venda da carroça e dos animais. Tomaram o café da manhã no salão principal do botequim, depois do qual montaram no primeiro de uma série de carros de linha que tinham que levá-los a seu destino.

Viajar de carro era uma nova experiência para Malcolm. De não estar ainda acossado pela angústia, não só pela perda de seu pai e o incêndio do único lar que tinha conhecido, mas também pelo fato de ver como se desvanecia na bruma da manhã, com cada milha que percorriam, tudo que lhe era conhecido e amado, teria se sentido alegre e cheio de expectativas. Mas sua agitação era tal que, pelo contrário, quando não se sumia em um espasmódico torpor em seu assento, via passar a paisagem com olhos empanados pelas lágrimas que lutava por manter a raia para não preocupar a sua mãe e tia Katherine, pois era consciente, a despeito da integridade que demonstravam, de que elas também se achavam assustadas e afligidas. Ocorreu-lhe então que era agora o homem da casa e que por isso sua mãe tinha confiado nele de forma instintiva para fazer as averiguações concernentes aos preparativos de sua viagem e à compra das passagens do carro de linha. Ao perceber isso, sentou-se um pouco mais reto no assento. Sua família tinha inimigos. Talvez não soubesse ainda quem eram, mas tinha a responsabilidade de velar por sua mãe, tia Katherine e seus filhos.

De todos eles, só a menor de seus dois primos, muito menina ainda para compreender o acontecido, parecia ter escapado à pena, e esteve choramingando, zangada, até que tia Katherine tirou por fim um punhado de maçãs e nozes que tinham salvado do porão da fazenda.

Por fim, depois de mudar de carruagem na estalagem de White Hart, Malcolm e os outros chegaram a Newcastle-upon-Tyne, onde sua mãe e ele se despediram entre lágrimas de tia Katherine e seus filhos, os que deixaram no pátio do botequim George para que retornassem por seus próprios meios a casa. Malcolm e sua mãe prosseguiram seu trajeto ao longo da Grande Estrada do Norte, rumo a Londres. Quando o carro no qual viajavam se deteve de novo para trocar os cavalos e para que os passageiros jantassem, sua mãe lhe anunciou enquanto comiam que acreditava conveniente mudar de sobrenome uma vez chegassem a seu destino.

— Mas por que, mãe? — Perguntou Malcolm, angustiado — Estando tão longe de casa, não importará como nos chamemos, não? Porque, iriam nos seguir até Londres nossos inimigos? E, embora conseguissem fazê-lo, como iriam nos encontrar ali, em uma cidade tão grande?

— Não sei. Mas sim sei que não devemos subestimá-los, filho — insistiu sua mãe, cujo rosto pálido mostrava uma expressão solene e ansiosa enquanto passava o olhar pelo salão do botequim — Seu pai... seu pai e seu tio Charles foram talvez muito temerários e sem perceber mostraram suas intenções... Não, por favor, não me faça perguntas, Malcolm. Este não é momento nem lugar para falar dessas coisas. Nossos adversários são muito poderosos. Podem ter espiões em todas as partes. Deve recordá-lo sempre. De momento, basta com que entenda os perigos que confrontamos. Agora, me diga como deveríamos nos chamar?

O pôster lavrado e pintado que estava pendurado sobre a porta do velho botequim em que pararam dizia que aquele lugar se chamava «Estalagem Blackfriars». Assim foi como Malcolm se converteu em Malcolm Blackfriars.

Depois de recomeçar sua viagem, o carro alcançou por fim a extensa cidade de Londres, cuja vista, sons e aromas esmagou a princípio a Malcolm. Estava acostumado à paz, ao verde e a solidão da campina, coisas que não tinha em Londres, mas ao menos descobriu um pequeno oásis quando sua mãe e ele se acharam por fim comodamente instalados em seu novo lar, Hawthorn Cottage, em Cochrane Street, em Saint John'sWood, um distrito relativamente isolado ao noroeste de Londres, ao pé do sudoeste da colina de Prim-rose e a borda do extenso verde de Regent's Park. Aquele bairro continuava mantendo sua antiga atmosfera de tranquilidade rural e se converteu por isso em um refúgio de artistas, escritores, filósofos e cientistas.

A casa, Hawthorn Cottage, não era tão grande como Whitrose Grange. Mas mesmo assim a Malcolm parecia um lugar muito agradável. Levantava-se sobre uma modesta parcela retangular e tinha jardins, humildes, mas mesmo assim atrativos, na parte dianteira e na de trás. Cresciam naqueles jardins não só arvorezinhas de espinheiro branco que davam seu nome à casa, mas também macieiras silvestres e altas outras árvores, graciosos salgueiros. Ao fundo do jardim de trás, em um canto, elevava-se uma alta estátua de uma donzela antiga que vertia água em um pequeno lago que se abria a seus pés. Ali, com o passar das semanas, Malcolm passava muitas horas ociosas, sonhando acordado e meditando sobre o novo rumo que tinha tomado sua vida, entre a saudade de sua antiga rotina e a incerteza a respeito dos escuros secretos que sua mãe não queria compartilhar ainda com ele, apesar de que Malcolm continuava lhe fazendo perguntas de vez em quando.

Um dia, quando caminhava atrás de sua mãe por Edgware Road, resolveu que, assim que retornassem à casa do mercado, perguntaria-lhe de novo por tudo que lhe ocultava ainda. Até então, faria o possível por desfrutar do dia, disse a si mesmo com firmeza, coisa que não lhe resultou tão difícil como acreditava, devido a contínua agitação que reinava em Edgware Road e que seguia sendo uma experiência nova e emocionante para ele, como o era ir às compras com sua mãe.

Apesar de que, ao chegar a Londres tinha contratado uma cozinheira e uma donzela, a senhora Blackfriars preferia ir às compras ela mesma para assegurar-se de que não a enganavam nem as faxineiras nem os comerciantes, pois tomava grandes precauções com o dinheiro para assegurar-se de que Malcolm e ela não acabassem na rua.

— Só dispomos do dinheiro do fideicomisso que me deixaram meus pais — lhe tinha recordado a Malcolm quando, levado pela curiosidade, este lhe tinha perguntado por que não deixava ir as comprar à cozinheira — E embora Hawthorn Cottage seja nossa, temos que pagar os impostos e os salários dos empregados. Embora não sejamos pobres, Malcolm tampouco somos ricos. Assim devemos economizar. Não sabe quão fácil é passar de uma vida modesta à miséria e encontrar-se sem lar e arrojado à rua. Se não fosse por meu fideicomisso, não sei o que teria sido de nós depois do incêndio da fazenda e da morte de seu pai. Essa é a verdade.

— Nos teríamos arrumado algum modo, mãe — lhe tinha assegurado Malcolm — Eu poderia procurar um emprego para ajudar. Afinal de contas, na fazenda trabalhava.

Mas ela se limitou a mover a cabeça de um lado a outro e sorrir brandamente.

— Isso era diferente — lhe havia dito — Seu pai era o arrendatário da fazenda.

— Bom, mas, como você mesma disse, papai morreu, e a fazenda se queimou, assim que os perdemos para sempre. Assim o que vou fazer agora? Não posso continuar perdendo tempo jogando nos jardins. Tenho dezesseis anos e devo começar a aprender algum ofício, mãe, se quisermos ter um futuro decente — lhe havia dito ele astutamente e, embora ao final sua mãe se havia sentido obrigada a reconhecer a contra gosto que estava certo, tinha declarado que, mesmo assim, não sabia de que forma podia encontrar trabalho como aprendiz.

— Já sei. Poderia escrever ao senhor Gilchrist e perguntar. — Tinha sugerido Malcolm.

Ao qual sua mãe tinha respondido exalando um profundo suspiro.

— A verdade é, filho, que não acredito que pudesse suportar perder a ti também agora — Disse em voz baixa, e Malcolm se havia sentido de repente envergonhado por não ter percebido aspecto da questão — Sei que tem razão e que cedo ou tarde terá que se abrir caminho na vida, mas ainda faltam uns anos até que isso aconteça. Mas, mesmo assim, pensarei ao menos em escrever ao senhor Gilchrist. Logo, já veremos.

Assim, embora sem dúvida tivesse aborrecido sua mãe sem obter por isso uma resposta satisfatória a respeito de seu futuro, Malcolm resistia resolutamente a zangar-se ou a deixar-se levar pelo desânimo daquela lembrança, pois, como se desejasse lhe compensar por seu desacordo, sua mãe lhe tinha prometido que nesse dia, antes de fazer compras, aventurariam-se em algumas das ruas que se estendiam além de Saint John's Wood.

Para evitar perderem-se ou serem enganados pelos choferes, em sua chegada a Londres tinham comprado um mapa em uma loja de Oxford Street e, nesse dia, depois de consultá-lo, tinham decidido percorrer Edgware Road até Tyburn Turnpike, junto ao canto nordeste de Hyde Park e Cumberland Gate, e dali descer por Oxford Street até Regent Street, retornando a Saint John's Wood por Park Road.

Enquanto passeavam, Malcolm olhava tudo com ávido deleite: os grandes edifícios de tijolo de vários andares de altura, coroados por um sem-fim de chaminés que cuspiam fumaça, de modo que uma densa e escura nuvem pendia sobre a cidade, cujo ar cheirava a carvão e a fuligem e manchava as paredes dos edifícios; adornadas luzes das ruas; as multidões que lotavam as calçadas e a cavalaria e veículos que repicavam nos caminhos sem pavimentar e nas ruas pavimentadas. Quando chegaram a Tyburn Turnpike, detiveram-se um momento para olhar o guarda do pedágio, que cobrava às carruagens que atravessavam estralando a porta de madeira, a qual se abria para o norte de Londres, o sul de Islington e a Grande Estrada do Norte. Ali acabava Edgware Road. Malcolm e sua mãe entraram em Oxford Street e deixaram para trás o canto nordeste de Hyde Park, onde Malcolm viu um homem gritando ante um pequeno grupo de pessoas ali reunidas. Passaram logo Portman Barracks e Orchard Street e estavam se aproximando de Duke Street quando, de improviso, Malcolm ouviu que alguém gritava «Ladrão! Ladrão!» e viu um rapaz esfarrapado correndo a toda velocidade para ele por Oxford Street, seguido a passo muito mais lento por um cavalheiro bem vestido e de cabelo grisalho, de compleição grossa, que usava óculos chapeados e agitava freneticamente um forte punho de bronze.

— Detenha o ladrão! — gritou de novo aquele cavalheiro.

Malcolm compreendeu que cometeu um roubo. Ouviu ao longe o assobio dos apitos da polícia e viu que dois agentes corriam para ali. Mas em seguida percebeu que nem os policiais nem o cavalheiro do forte poderiam alcançar ao ladrão. Sem deter-se a considerar as consequências de seus atos, Malcolm começou a correr depois do menino, fazendo ouvidos surdos aos gritos de sua mãe, que lhe ordenava que voltasse imediatamente. Viu que o trombadinha tomava Duke Street em direção a Manche Square, e entrou com tudo na rua lotada de gente, abrindo-se passo entre cavalos e veículos cujos condutores lhe gritavam e lhe lançavam impropérios.

Com cada passo que dava se aproximava mais do ladrão, e seu rosto ia ruborizando-se de satisfação enquanto seu corpo se enchia de euforia ante a possibilidade da captura, até o extremo que esteve a ponto de começar a rir a gargalhadas enquanto corria.

— Tenho-te! — gritou, triunfante, ao lançar-se sobre o moço, ao que atirou no chão.

Enquanto o desarrumado moço tentava fugir, iniciou-se uma refrega que só acabou quando os dois policiais chegaram por fim à praça, seguidos uns instantes depois pelo cavalheiro do forte, que mancava ligeiramente e respirava com dificuldade. Os agentes separaram imediatamente os dois moços e os agarraram com força pelas lapelas enquanto os sacudiam com força.

— Bom, senhor — disse-lhe respeitosamente um dos policiais ao cavalheiro de cabelo branco —, talvez agora tenha a bondade de nos dizer o que fez estes dois malfeitores e por que ia você atrás deles.

— Oh, não, eu só tentava apanhar esse daí, agente — o cavalheiro assinalou com o forte o andrajoso menino que lhe tinha roubado a carteira — Roubou-me a carteira rapidamente.

— Maldito trombadinha! — grunhiu o policial, e, depois de registrar a jaqueta puída do moço, extraiu a carteira e a agitou diante de sua cara — Pegamos você com as mãos na massa, né? O que tem a dizer em sua defesa, moleque?

— Nada! — espetou-lhe com aspereza o moço enquanto tentava soltar-se — Mas não foi minha idéia, juro, senhor! Foi Badger quem me disse que era um ricaço com a carteira bem cheia e que podia pegá-lo ao meio-dia em Oxford Street e deixá-lo limpo. Só queríamos gastar umas quantas libras bebendo rum.

— Tome cuidado com o que diz moleque, e não me venha com conversa ou será pior. E quem demônios é esse Badger? — perguntou o policial.

— Santo céu! É um de meus aprendizes! — exclamou indignado o cavalheiro — Seu verdadeiro nome é Dick Badgerton e é um safado dos pés à cabeça e fazia tempo que suspeitava que me roubava.

— Pois a ele também denunciaremos — declarou solenemente o policial — como seu cúmplice. Mas e este outro rapaz? O que fez?

— Fez? Nada, agente, salvo apanhar ao ladrão de carteira, que de outro modo sem dúvida teria escapado levando minha carteira. A esse outro moço não deve prendê-lo, agente, porque, de não ser por ele, hoje teria ficado com umas quantas libras a menos — disse com firmeza o cavalheiro — Deve ficar livre e eu mesmo lhe recompensarei por seu empenho. Como se chama, moço?

— Malcolm. Malcom... Blackfriars.

— Bom, jovem Blackfriars, se meu julgamento não me engana, e não está acostumado a me enganar, parece um moço honrado, empreendedor e trabalhador. Assim estou do mais agradecido por ter te conhecido e porque teve o valor de perseguir o ladrão.

Para então, a mãe de Malcolm tinha aparecido ao fim da Manchester Square, e seu belo rosto se encheu de ansiedade ao ver seu filho com o cabelo revolto, a jaqueta suja e rasgada, o nariz ensanguentado e nas garras do policial que o segurava.

— Filho! O que aconteceu? O que fez? — perguntou, angustiada.

— Asseguro-lhe que não aconteceu nada com o que você deva preocupar-se, minha senhora — respondeu o cavalheiro, voltando-se para ela e, ao ver seu aspecto, tirou sua cartola e fez uma reverência — Permita-me apresentar. Sou Septimus Quimbly, cartógrafo e comerciante de mapas — colocou a mão no bolso, tirou seu cartão e entregou a ela — Tenho o prazer de me dirigir à mãe do jovem senhor Blackfriars... ou possivelmente a sua irmã? Pois admito, senhora, que apenas posso acreditar que você tenha idade suficiente para ter um filho tão maior.

A senhora Blackfriars se ruborizou.

— Adula-me você com seus cumpridos, mas me temo que é você muito amável — respondeu ela depois de olhar o cartão — Sim, sou a senhora Blackfriars, a mãe de Malcolm. Espero que não tenha se metido em uma confusão.

— Não, absolutamente, senhora — lhe assegurou o senhor Quimbly com toda formalidade — Apesar do que possam sugerir as aparências, seu filho não é acusado de nenhum delito e, na realidade, estava a ponto de ser posto em liberdade quando entrou você em cena, pois, por sorte para mim, conseguiu apanhar a esse jovem ladrão de carteira aí, que faz uns momentos me aliviou de minha carteira.

Nesse momento, um dos policiais interrompeu a conversa para lhes dizer que deviam ir o quanto antes ao estabelecimento do senhor Quimbly para prender o aprendiz Dick Badgerton, aliás, Badger, antes que suspeitasse que seu plano tinha fracassado e fugisse da justiça. Com Malcolm já em liberdade, enquanto o outro moço, cujo nome era Tobias Snitch, aliás, Toby, era levado a rastros pelo policial que lhe prendeu, o pequeno grupo se abriu passo entre os curiosos e retornou por Duke Street até Oxford Street, e dali se dirigiu à loja do senhor Quimbly. Ali, Dick Badger Badgerton foi detido, depois do qual Toby Snitch e eles foram conduzidos pelos policiais aos calabouços da delegacia de polícia até a manhã seguinte, quando compareceriam ante o juiz.

— Que situação tão lamentável! — suspirou o senhor Quimbly ao ver pela cristaleira da loja como levavam a seu aprendiz — Não só não almocei ainda, mas também fiquei sem meus dois aprendizes e tenho agora ainda menos empregados que antes, pois um de meus oficiais vai deixar-me para abrir seu próprio estabelecimento — voltando-se para o único aprendiz que ficava, disse —. Harry, seja um bom menino e vá correndo a Baker Street, a minha casa. Conte à senhora Merritt o que aconteceu e lhe diga que hoje não irei para casa almoçar — logo disse à senhora Blackfriars: — Senhora, embora esteja enormemente agradecido a seu filho, temo que seus atos tiveram por efeito envolvê-la neste desafortunado assunto. Se não tiverem nenhum outro compromisso, por favor, me permita lhes compensar tendo a honra de acompanhá-los a almoçar no Verrey's. Asseguro-lhe que é um café perfeitamente respeitável e que se encontra do outro lado da rua, entre as ruas Regent e Hanover, de modo que não deve ter receio de me acompanhar.

— Oh, por favor, mamãe — disse Malcolm, adivinhando que sua mãe se dispunha a recusar o convite — Lembro-me muito bem da loja do senhor Quimbly. Aqui foi onde compramos nosso mapa de Londres quando chegamos, assim certamente poderá nos contar muitas coisas sobre a cidade.

—Não queria lhe ofender, senhor, mas embora lhe agradeça de coração seu generoso convite, temo que não tenho costume de aceitar convites de desconhecidos — afirmou a senhora Blackfriars, não sem amabilidade.

— Nem eu supunha tal coisa, senhora — respondeu ele com calma — Entretanto, pensava que, talvez, dadas as circunstâncias, pudesse fazer uma exceção. Por outra parte, tenho que confessar que me atrevi a fazer tal sugestão impelido por uma idéia que me ocorreu com respeito a seu filho. Quantos anos tem, jovem?

— Dezesseis.

— Hum... Dois anos mais dos que costumam ter os aprendizes. Entretanto, acho-me em uma situação tal que necessito urgentemente dois aprendizes para que me ajudem com a loja... e você sem dúvida parece mais que adequado para essa tarefa. Se pudesse persuadir a sua senhora mãe para que aceitasse, estaria interessado no posto?

— Sim, senhor — respondeu Malcolm imediatamente, antes que a senhora Blackfriars pudesse protestar.

Ao final, recordando a fascinação que sentia seu filho por mapas e livros e seu desejo de começar a lavrar um futuro decente em lugar de matar o tempo nos jardins de Hawthorn Cottage, e impressionada pelos maneiras e a loja do senhor Quimbly, a senhora Blackfriars consentiu em que o senhor Quimbly os acompanhasse a almoçar no café Verrey's para discutir os detalhes do emprego de seu filho. Enquanto tomavam um fumegante prato de sopa de cenouras, frango assado aromatizado com romeiro e servido com arroz e cogumelos, acordaram que Malcolm começaria a trabalhar na segunda-feira seguinte por um período de sete anos e que começaria recebendo o que lhe pareceu um salário semanal digno de um príncipe, pois era mais alto que o habitual já que, como sua mãe desejava que continuasse vivendo com ela em Hawthorn Cottage, o senhor Quimbly não teria que pagar sua manutenção e seu alojamento.

Quando por fim concluíram felizmente seu delicioso almoço e seu amistoso acordo de negócios, saíram os três do café Verrey's sentindo que, apesar de seu pouco prometedor começo, o dia tinha acabado com bem.

 

                   1848

                   Hotel de Levesque, Paris, França

A babá voltou a dormir em seu posto. Estava acostumado a dormir. Era muito velha e surda para continuar como babá... ou isso tinha deduzido Ariana pelos pedaços da conversa que tinha ouvido entre a cozinheira e Tessie, a criada, na cálida e acolhedora cozinha da velha fazenda cujas extensas terras ficavam mais à frente do povoado. Mas, como a babá estava com a família há muitos anos, ninguém considerava sequer a possibilidade de despedi-la. Tão melhor, pensou Ariana, sorrindo com secreta satisfação, pois, se a babá estivesse acordada, ela não poderia sair às escondidas do quarto das crianças, nem entrar na sala contigua, fria e iluminada unicamente pela pálida e cinza luz do sol que penetrava pelas frestas das portinhas de madeira das janelas.

Há apenas uns momentos tinha ouvido fechar-se de repente a porta traseira que comunicava a cozinha com a horta e o jardim de flores aromáticas. Depois de subir a um tamborete de madeira, girou a tranca das portinhas de uma janela e abriu uma fresta.

— Aonde vai, Collie? — gritou-lhe ao moço que viu abaixo.

— Pescar. Se não, não levaria o cano, não acha?

— Posso ir contigo?

— Pensava que estava dormindo, Ana.

— Não tenho sono e, além disso, já tenho cinco anos e não costumo dormir a tarde — insistiu Ariana com vivacidade — Quero ir contigo. Estou cansada de ficar encerrada neste lugar todo o dia.

— Onde está a babá? O que diz ela de tudo isto?

— Nada, porque está dormindo, como sempre.

— De acordo, então — respondeu Collie depois de um momento — Suponho que não há nada de mau em que venha comigo. Mas recorde, Ana, que não deve falar pelos cotovelos, porque se fizer muito ruído não pescarei nem um peixe, de acordo? Recolhe seu chapéu, sua capa e suas luvas. Espero-te na porta de trás.

Ariana não esperou para ouvir nada mais. Fechou a janela, desceu do tamborete e saiu de sua habitação cheia de emoção. Pegou o chapéu, a capa e as luvas e desceu sigilosamente pela escada que dava à cozinha, onde esperou com a alma na mão a que a cozinheira e Tessie estivessem de costas para sair às escondidas pela porta traseira. Uma vez no jardim, cruzou o pátio correndo e desceu pelo estreito e sinuoso atalho de calhaus, em direção à porta mais afastada do jardim. Ali viu que Collie tinha cumprido sua promessa e a estava esperando.

— Espero que saiba que não penso fazer disto um costume, Ana — Disse-lhe ele, não sem amabilidade, enquanto se separava da grade de ferro contra a qual estava apoiado — Porque tem que saber que tenho coisas muito melhores que fazer que ser sua babá.

— Sim, já sei. Mas não vou te dar nenhum problema, Collie. De verdade. Já o verá. Serei muito boa, prometo.

— Segure a língua, menina, e não me faça promessas que não pode cumprir — o repreendeu — É uma menina muito desobediente e mais esperta que uma fada. Acaso não acaba de escapar da pobre babá e da fazenda sem dizer a ninguém uma palavra?

— Sim — confessou Ariana, envergonhada.

— Então é uma sorte que tenha avisado de que está me acompanhando para pescar. Se não, ao descobrir que não estava, teria saído para te buscar.

— Eu... não tinha pensado.

— Não, já me imagino. Mas pode que a próxima vez tenha em conta os sentimentos dos outros e não só os teus — disse Collie com suavidade — Embora não acredito que isso te resulte muito difícil, Ana, pois ainda é muito jovem e tem muito que aprender. E, além disso, imagino que não deve ser muito divertido ficar encerrada em uma fazenda, no meio do nada. É uma menina muito inquieta e curiosa e se aborrece aqui, suponho. Assim pegue um balde e venha comigo. Quero voltar para casa antes do anoitecer.

Alvoroçada porque lhe permitiram acompanhar o jovem, Ariana obedeceu e foi balançando alegremente o balde de lata enquanto Collie e ela atravessavam o bosque e desciam pela abrupta ladeira da colina até a borda do grande lago. Aqui e lá, farrapos da branca bruma que nunca abandonava de tudo as Terras Altas flutuavam como espectros entre as árvores. As aves nos vermelhos ramos do outono chamavam docemente as umas às outras e cantavam sua harmoniosa canção; vermelhos veados e cabras montanhesas saltavam na espessura. Os esquilos trabalhavam em excesso no chão fazendo provisão de nozes para o inverno e brincando de correr entre os matagais. No céu do entardecer brilhava um sol pálido e fraco que não conseguia dissipar os redemoinhos de nuvens cinza que frequentemente o ocultavam, de modo que seus raios apenas transpassavam o bosque.

Ariana se alegrava de que Collie estivesse a seu lado, pois apesar de lhe fascinar os animais, não teria gostado de encontrar-se sozinha naquela sombria folhagem, e ele era vários anos mais velho que ela e muito mais alto e forte. A ele não parecia afetar a escuridão do bosque, e sua presença protetora lhe dava consolo.

Embora quisesse passar mais tempo com ele, via tão raramente o rapaz que, agora que estavam a sós, estava ansiosa para saber mais coisas sobre ele. Mas, embora sua ardente curiosidade a impulsionasse a falar, tinha presente sua promessa de ficar em silêncio e, apesar de lhe resultar difícil, conseguiu refrear sua língua. Temia que, se insistisse em falar com ele, Collie mudaria de idéia e a mandaria de volta à fazenda.

Assim Ariana continuou avançando em silêncio, balançando o balde. Ao fim de um momento saíram do bosque e se encontraram na franja de grama da ladeira rochosa da colina que, mais à frente, aplanava-se para formar a borda escalonada. Mais à frente, o lago Ness se estendia ante eles como uma espécie de serpente que se abria passo pelo Grande Vale, uma fissura aparentemente interminável formada por ravinas, colinas e Montes que se elevavam de ambos os lados aprisionando o lago e cortando as Terras Altas pela metade.

Até então, Ariana tinha visto o lago só de longe, da estrada de cima que corria paralela a ele. Agora, enquanto Collie e ela desciam a ladeira da colina e descendiam cuidadosamente pela praia escalonada, pareceu-lhe que desde aquela altura era uma extensão de água muito vasta, nem tanto de largura — pois de onde estava, quando os véus da bruma baixa e deslizante se abriam, vislumbrava aqui e lá a outra borda —, como de cumprimento, pois por mais que tentasse não conseguia ver nem o princípio nem o final do lago. Tinha ouvido dizer que vivia ali um monstro terrível e, ao recordá-lo, estremeceu.

— Tem frio, Ana? — perguntou Collie ao ver que tremia de repente.

— Não, é que estou um pouco assustada. As pessoas dizem que há um monstro no lago.

— Pois se há eu nunca o vi. Mas, se tiver medo, pode me esperar aqui.

— Não, quero ir contigo.

— É uma menina muito valente — respondeu ele com simplicidade, mas suas palavras gelaram a Ariana.

O pequeno barco de pesca de Collie, o qual tinha batizado de Bruxa do mar, estava na margem do rio. Depois colocar nele a Ariana e colocar a vara de pescar, Collie empurrou o barco para as águas superficiais da margem e subiu a bordo. Levantou os remos, que estavam no fundo do barco, colocou-os nas argolas e começou a remar com força, dando longas braçadas que logo afastaram a barco da borda, rumo ao coração do lago, a uma centena de metros de distância. Ao fim de meia hora chegaram ao centro do lago. Collie levantou os remos, deixou de lado e lançou a linha.

— Que espera pescar, Collie? — perguntou Ariana em um sussurro, recordando que seu companheiro lhe tinha advertido que não devia tagarelar para não assustar os peixes.

Ele encolheu os ombros ligeiramente.

— Alguma truta ou um salmão. São os melhores peixes que há no lago Ness, não como os bagres, que são muito pequenos e ossudos e não servem para nada. Mas como de todos os modos vivem nas águas pouco profundas, não acredito que pesquemos nenhum. Aqui, nas águas mais profundas, há muitos salmões nesta época do ano. Também há alguns piques, talvez menos. Acredito que são os peixes maiores do lago..., além desse monstro do qual falava antes, claro. Mas já te disse que eu nunca o vi.

—A lguma vez nadou no lago?

— Não, a água está sempre muito fria. Além disso, está cheia de algas, por isso está tão turva que não se vê quase nada por debaixo da superfície.

— Entendo.

Depois disso Ariana ficou em silêncio de novo, aconchegada no assento de madeira da popa da embarcação, com as mãos unidas ao redor dos joelhos. Agora que estava sentada, começava a notar o frio do ar outonal, que se filtrava através de sua larga capa de lã. O vento, que apenas tinha notado antes, soprava com mais força sobre o lago, e a bruma escocesa se convertia em uma áspera garoa. Quase desejava estar de volta no quarto das crianças, aconchegada sobre o velho tapete turco, em frente ao fogo.

Havia tal quietude sobre o lago que o silêncio resultava temível, como se um horrível e misterioso cataclismo tivesse ocorrido enquanto a Bruxa do mar flutuava sobre a água, e Collie e ela fossem as únicas pessoas que estavam vivas sobre a face da terra. A seu redor, por toda parte, a névoa ondulante estava a baixa altura, girando em redemoinhos como um diáfano tecido de seda que mãos invisíveis e misteriosas iam tecendo em torno deles. A garoa tamborilava sobre o lago — pi-p, pi-p — e o som que produzia era como os leves passos de uma fada sobre a água. Ariana olhou a seu redor nervosa, esperando em parte encontrar-se com uma daquelas pequenas criaturas sobrenaturais e, de repente, o sudário de bruma se abriu ante ela, lhe mostrando uma cena horripilante.

Visto desde aquele ângulo, o imenso castelo, encarapitado no alto da borda noroeste do lago como uma águia em seu ninho, parecia surgir do enorme precipício sobre o qual se sustentava como se fosse uma parte viva dele. Construído em arenito vermelho que, envelhecido pelos séculos, tinha ficado de uma pálida cor sangre, a imponente fortaleza mostrava uma sinistra mescla de elevadas torres e pináculos fendidos por lacunas, ameaçadores muralhas e enormes fortes. Suas janelas, estreitas e arqueadas, pareciam dúzias de olhos negros quase fechados que olhavam ameaçadoramente o lago, e o pesado restelo de ferro semelhante a uma boca aberta e de afiados dentes de alguma besta sobrenatural escondida e pronta para saltar da rochosa cúpula de sua montanha.

Ariana deixou escapar um leve gemido de pavor.

— Collie, o que é esse lugar tão horrível? — sussurrou, afundando-se no barco involuntariamente.

Por um instante, ele ficou tão quieto e silencioso que Ariana pensou que não tivesse ouvido sua pergunta ou que não pensava responder. Mas ao fim disse com aspereza:

— Dúndragon.

— O que significa esse nome?

— A fortaleza do dragão.

— É... é porque o monstro do lago é uma espécie de dragão marinho?

— Pode. Não sei. As pessoas dizem que o castelo está encantado.

Antes que pudesse dizer nada mais, enquanto olhava a lúgubre fortaleza, Ariana viu de repente um rapaz de pé sobre um dos parapeitos de pedra, como se tivesse se materializado de repente na etérea e branca névoa. Era alto, moreno e esbelto, e possuía uma sinuosa elegância que recordava a uma serpente, impressão esta fantasmal, que se fortaleceu quando, para horror de Ariana, o jovem começou lentamente a transformar-se em uma gigantesca e negra serpente marinha e logo, uma vez completa sua transformação, deslizava-se pela muralha do castelo e se afundava nas águas do lago. Petrificada, Ariana tentou dizer a Collie, que estava de costas à macabra cena, o que estava acontecendo, mas tal era seu horror que não conseguiu articular uma palavra. Permaneceu muda, paralisada pelo medo no fraco barco em que se encontrava sentada, olhando como uma enorme onda coroada de espuma branca se formava bruscamente sobre o vasto lago e se dirigia diretamente para eles. Aquele tinha que ser o horrível monstro do lago! Pensou sombriamente em alguma negra fenda de sua mente.

Entre a movediça água espumosa, seu corpo longo e serpenteante apareciam como os três arcos de um antigo claustro sobre o horizonte cinzento, aproximando-se cada vez mais. Logo, de repente, sua esquiva cabeça e em forma de cavalo emergiu à superfície e se abateu, aterradora, sobre a Bruxa do mar, engolindo o barco. Enquanto a monstruosa serpente marinha se elevava sobre a embarcação, abriu sua enorme boca, deixando ao descoberto uma série de presas semelhantes aos dentes afiados e implacáveis de um tubarão, uma língua larga e bífida que se retorcia e se enroscava como se tivesse vida própria, e, do fundo de uma garganta aparentemente infinita, uma labareda que surgia em apocalípticos estalos. A boca negra se aproximou de Ariana e de repente a tirou da Bruxa do mar e a tragou inteira, sumindo-a na escuridão e o fogo.

Ela gritou uma e outra vez.

Foram seus gritos de terror que a despertou do sonho, daquele horrível pesadelo que a tinha mantido presa entre suas cruéis garras até esse momento. Ariana Lévesque se sentou na cama e se abraçou, tremendo incontrolavelmente, enquanto tentava convencer-se de que estava ainda viva e não tinha sido engolida pelo odioso monstro marinho de seu sonho.

Tal era seu estado de agitação que por um momento não soube onde estava. Na penumbra, os móveis de seu cômodo quarto pareciam assumir formas caprichosas e sinistras, como se de alguma forma tivesse sido transladada a um planeta desconhecido. Seu coração pulsava com violência; sua respiração era áspera e agitada enquanto tentava orientar-se. Os lençóis de sua cama e sua fina camisola de musselina branca estavam empapados de suor, e tudo o que ficava do alegre fogo da lareira era um punhado de brasas que ardiam sem chama, brandamente, no ralo da chaminé. Imediatamente se sentiu gelada até os ossos e se estremeceu violentamente.

Nem sequer o esplêndido Hotel de Lévesque, a casa que possuía seu pai em um elegante bairro de Paris, escapava do frio do mês janeiro. Fora, as ruas da cidade permaneciam em silêncio, a não ser pelo vento que suspirava ao longo das largas e retas avenidas e pelos estreitos e retorcidos becos.

Dentro, em troca, Ariana ouviu vozes e passos apressados proveniente do longo corredor que se estendia além de seu quarto. Alguém chamou então com decisão à porta e esta se abriu de repente, deixando entrar sua mãe e a sua governanta, a qual desde que Ariana cumpriu dezoito anos lhe servia mais como dama de companhia que como preceptora. Ambas as mulheres estavam vestidas com camisolas brancas e xales e levavam velas para iluminar seus passos.

— Ma pauvre petite! — exclamou Hélène Lévesque, condessa de Valcoeur, visivelmente angustiada, ao entrar correndo no quarto e deixar a vela sobre uma das mesinhas de noite — O que passou? O que acontece, chérie? É esse pesadelo de novo? Oh, que pergunta tão estúpida! Claro que é esse pesadelo outra vez. Não há nada que te assuste mais. Mademoiselle Thibault — se voltou para a governanta — por favor, diga a uma das donzelas para acender o fogo e que traga uma taça de chocolate quente para minha filha.

— Oui, Madame, em seguida — mademoiselle Thibault saiu do quarto para cumprir as ordens de sua senhora.

Enquanto isso, a condessa recolheu o robe de Ariana, que estava aos pés da cama, e a ajudou a envolver-se nele, e insistiu para que saísse da cama e se sentasse na poltrona de veludo azul que havia em frente à chaminé. Uma vez que viu sua filha comodamente sentada, Madame Valcoeur agarrou o longo atiçador de bronze e, sem deixar de resmungar, cheia de nervosismo, revolveu as brasas do fogo, conseguindo pouco depois que se elevasse uma suave chama.

— Ah, Berthe, menos mal que veio! Minha filha teve um pesadelo e está gelada. Olhe para ver o que pode fazer com o fogo.

— Oui, Madame — a donzela que tinha entrado no quarto fez uma reverência e se aproximou da lareira; tirou vários pedaços de carvão e os jogou ao fogo até que este começasse a dançar alegremente de novo.

Para então, mademoiselle Thibault apareceu novamente, levando uma bandeja de prata da cozinha sobre a qual havia uma jarra cheia de chocolate quente, duas finas taças de porcelana de Sévres com seus pires e outras coisas, incluindo um prato de bolinhos. A governanta deixou a bandeja sobre a mesa redonda e baixa de frente a chaminé.

— Pensei que talvez você também quisesse um pouco de chocolate, Madame — disse — Quer que faça as honras?

— Oui, Odette, se for você tão amável — respondeu agradecida a condessa enquanto se afundava na poltrona de veludo azul que havia em frente à que ocupava sua filha —. Embora acredite que esta noite me custará voltar a dormir inclusive com o chocolate quente.

— Sinto muito, mamam — disse Ariana em voz baixa — Não queria te acordar.

— Sei, Ma petit, assim não se preocupe por isso. Não pode evitá-lo. Mas tomara pudesse fazer algo para acabar com esse horrível pesadelo. Estou extremamente preocupada com você.

Uma vez servido o chocolate quente Madame Valcoeur e Ariana se encontraram com suas respectivas taças cheias, a governanta e a donzela se retiraram, deixando mãe e filha sozinhas na penumbra do quarto.

— Ariana, sabe perfeitamente que os monstros como essa serpente marinha gigante de seu pesadelo não existem — disse a condessa com firmeza — Só é um mau sonho, chérie, nada mais.

— Mas parece tão real, mamam — protestou Ariana com a testa franzida — E as Terras Altas da Escócia e o lago Ness sim existem. Mademoiselle Thibault me falou deles em nossas classes de geografia. Oh, quanto desejaria te fazer compreender, mamam! Cada vez que tenho esse sonho, é como... como se estivesse de verdade ali, na Escócia..., como se tivesse visto todas essas coisas com meus próprios olhos: as Terras Altas, o lago, esse lúgubre castelo... Como se tivesse vivido quando criança nessa velha fazenda, como se tivesse conhecido Collie, esse rapaz, em outra vida... — sua voz se apagou quando compreendeu o que devia estar pensando sua mãe, e começou a rir, envergonhada — Oh, já sei que parece que estou louca! Mas não estou, mamam. De verdade.

— Sei que não está louca, Ma petit. Mas imagina o que pensariam outros se lhe ouvissem falar assim. Pensariam que está mal da cabeça! Ou, pior ainda, que é uma bruxa, que sonha com coisas passadas. Deve me prometer, chérie, que não falará desse pesadelo com ninguém mais que comigo.

— Oui, mamam, prometo.

— Très bon. Agora, seja uma boa garota e beba o chocolate, que eu vou beber o meu e, enquanto isso, vamos falar de outras coisas mais agradáveis que esse espantoso sonho... porque fico doente de ouvir falar disso! Não consigo imaginar por que teve esse sonho pela primeira vez, e muito menos por que continua se repetindo. É do mais estranho! A sua idade, deveria ter a cabeça cheia de festas e bailes..., pensar em encontrar um jeune homme com o que se casar ou, ao menos, se apaixonar. Eu na sua idade não pensava em outra coisa.

Em sua juventude, Madame Valcoeur tinha sido a sensação de Paris, pois estava entre as moças mais belas da cidade. Inclusive agora, em sua maturidade, continuava sendo uma mulher bela e encantadora cuja companhia e conversa eram extremamente apreciadas nos salões elegantes da metrópole.

— Devemos dar uma festa, um baile, e convidar a todos os jovens solteiros — prosseguiu com decidida alegria — Falarei com seu pai amanhã mesmo. Que pena que continue havendo todo esse radicalismo e que volte a falar-se de revolução por culpa desses agitadores alemães, esse tal Karl Marx e esse Friedrich Engels! Alegrei-me tanto quando expulsaram Marx de Paris! Espero que não volte nunca. Tenho entendido que Engels e ele se foram a Bruxelas. Que fiquem ali! Se não, assim que nos descuidarmos, a burguesia voltará a elevar-se em armas outra vez e irá quer livrar-se de Luis Felipe, quem, apesar de que cada vez é mais impopular, continua sendo o rei! Já tivemos bastante com que lhe cortassem a cabeça ao pobre Luis XVI. França não necessita mais desatinos! — insistiu a condessa com energia — Que tal está seu chocolate, Ma petite! Bom? Oui. Está muito doce e muito rico, não é certo? Pois o beba de uma vez, chérie, ou não poderemos voltar a pregar

O olho em toda a noite! Oui, um baile cheio de elegantes jovens é justo o que necessita para tirar da cabeça esse horrível pesadelo. Que tema podemos escolher? Um baile de disfarces? Às pessoas gostam de muito os bailes de disfarces. Oui, isso estaria bem. Mas, mesmo assim, tem que haver algo mais... algo um pouco diferente para divertir e surpreender nossos convidados... Ah, estou tão emocionada! Começaremos a preparar o baile amanhã mesmo, Ma petite. Será o maior acontecimento da Pequena Estação. Mais, oui?

— Com certeza que sim, mamam — Respondeu Ariana com afeto, sorrindo brandamente.

Madame Valcoeur era uma dessas mulheres bondosas e bem-intencionadas, embora pouco perspicazes, que acreditavam que todos os males do mundo poderiam se resolver com boa comida e bebida, entretenimento e galanteria. Ariana, que era mais sábia do que permitiam supor seus dezoito anos, era consciente a muito tempo daquele triste defeito do caráter de sua mãe e tinha renunciado a qualquer tentativa de manter qualquer discussão séria com ela. A condessa tinha, apesar de sua volubilidade, um bom coração e não suportava que ninguém, e particularmente aqueles a quem amava, sofresse. Se seus esforços por alegrá-los consistiam em abarrotá-los com bolos e em dançar, ao menos suas insônias eram sinceras e sem egoísmo. Assim, Ariana aceitou o oferecimento de sua mãe de celebrar um baile de máscaras com o espírito benévolo com que tinha sido feita aquela sugestão e não disse nada mais sobre seu pesadelo, consciente de que, de havê-lo feito, só teria conseguido reavivar a agitação de sua mãe.

Depois de tomar o chocolate, a condessa se assegurou de que sua filha se deitasse de novo e se agasalhasse cuidadosamente, e lhe deu um beijo e um abraço antes de recolher a vela e retornar a sua habitação.

— Tenha doces sonhos agora, Ma petite — disse a Ariana com um terno sorriso, e saiu da habitação deixando atrás dela o quente fulgor de sua presença.

Mas, uma vez fechada a porta da habitação de sua filha, ao pôr-se a andar pelo corredor, Madame Valcoeur continuava inquieta e, face às duas taças de chocolate quente que bebeu, pressentia que não poderia pregar olho em toda a noite. Entrou em seu dormitório com seu bonito rosto franzido em um cenho de angústia, e seu marido, Jean-Paul Lévesque, conde do Valcoeur, percebeu sua preocupação nada mais ao vê-la. Tinham-lhe despertado os gritos de sua filha e tinha entrado na habitação de sua esposa, contigua à sua, para esperar sua volta.

— Ariana voltou a ter esse pesadelo — disse ao ver o semblante triste de sua esposa.

— Oui. Ai, Jean-Paul, é muito angustiante! O que vamos fazer?

— Já não é uma menina, Hélène — o conde exalou um profundo suspiro — Não podemos protegê-la eternamente, embora quiséssemos. Em algum momento temos que lhe dizer a verdade. E se nos acontecesse algo? O que seria dela então, ignorante como continua sendo de tantas coisas que a correspondem?

— Não sei..., não sei — a condessa se deixou cair em uma poltrona rasa de raias e escondeu um instante o rosto entre suas elegantes mãos — Ainda é muito jovem, e a carga que deve levar sobre os ombros é tão grande... Não, Jean-Paul, não devemos perturbar sua felicidade e sua confiança em nós antes que seja absolutamente necessário.

— Correm tempos difíceis, Hélène — lhe recordou Monsieur Valcoeur — a França não voltou a conhecer a estabilidade política da execução do Luis XVI. O horrível reinado do Terror, as Guerras Napoleônicas, nosso assim chamado Rei Cidadão Luis Felipe..., nenhuma dessas coisas beneficiou nosso país. E agora a conspiração monárquica para restaurar o trono à linha maior dos Borbouns, enquanto os revolucionários e os radicais planejam outra rebelião para derrocar à monarquia e o governo! Alors, quem sabe o que acontecerá no futuro, com os tempos turbulentos que vivemos? Pode que amanhã, ao despertar, descubramos que o mundo que conhecíamos desapareceu para sempre, pois não é só na França onde homens como Marx e Engels disseminaram suas idéias. Non, a semente do descontentamento e a rebelião que semearam eles e sua estirpe de insatisfeitos e oprimidos criou raízes em todas as partes, e a discórdia cresce em todo o continente. São muitos os que se encontram sem casa ou doentes... ou ambas as coisas! Esses homens estão desesperados e, o que é pior ainda, não tem nada a perder, salvo suas vidas, umas vidas que, dadas as circunstâncias, valem tão pouco que muitos deles estão dispostos às sacrificar-se. Asseguro-te, Hélène, que está a ponto de sobrevir uma mudança que varrerá toda a Europa e, para falar a verdade, não sei se será para melhor ou para pior.

— Assusta-me terrivelmente quando fala assim Jean-Paul. Não acredita que a burguesia vai voltar a rebelar-se e instigar outro Terror?

— Acredito que, nestes tempos incertos, tudo é possível. Mas você não se preocupe com essas coisas, Ma chére. São assuntos de homens, e os homens se encarregarão deles. Falei isso só para que saiba o perigo que apresenta manter Ariana na escuridão dos assuntos que a concernem tão intimamente. Seguir deixando-a na ignorância talvez seja pôr em perigo sua vida. Faltaríamos gravemente a nosso dever se fizéssemos isso, Hélène.

— Oui, pode que tenha razão — respondeu a condessa, embora seu semblante continuasse expressando dúvida — Mas, do mesmo modo, lhe revelar o conhecimento que durante tanto tempo lhe ocultamos não seria jogar sobre seus ombros uma carga insuportável? Como sabemos que é suficientemente amadurecida e forte para levar esse terrível lastro? E se lhe mete na cabeça mesclar-se nesse perigoso assunto e levanta as suspeitas de nossos inimigos? Uma só insinuação à pessoa equivocada e o que seria dela? — a condessa exalou um profundo suspiro — Ai, Jean-Paul, nunca me perdoaria se lhe acontecesse algo horrível porque não tomamos a decisão correta sobre se devemos lhe dizer ou não o que lhe estivemos ocultando todos estes anos! Tomara soubéssemos com certeza o que devemos fazer! Devemos pensar com atenção que caminho devemos seguir nestes assuntos... e rezar ao bon Dieu para que nos guie.

— Muito bem, Hélène, como desejar — o conde sorriu com ternura — Esperaremos um pouco mais e veremos como progridem as coisas. Isso não pode nos fazer nenhum dano.

— Non, não pode nos fazer nenhum dano — repetiu Madame Valcoeur, apesar de que, agora que por fim se saiu com a sua, sentia que um repentino calafrio lhe corria pelo espinho dorsal, como se um ganso acabasse de passar sobre sua tumba.

                   1848

                   Oxford Street, Londres, Inglaterra

Segundo um decreto promulgado em 1847 por Mohamed Alí, o paxá do Egito, o processo de modernização empreendido com toda diligência tanto no Cairo como em outras partes do país, estava acontecendo «à maneira européia para beneficio geral do reino». Mas, em privado, Khalil al Walid não estava de tudo convencido de que os projetos em que se achavam embarcadas as autoridades, a imitação do continente europeu, redundassem finalmente em benefício para o Egito. Pois, a seu modo de ver, fisicamente sua árida, ardente e deserta pátria tinham pouco ou nada em comum com a Europa e, por conseguinte, o que se julgava conveniente para Londres ou Paris, Roma ou Madrid, Berlim ou Viena, não tinha por que sê-lo para o Cairo. Entretanto, e graças ao fluxo, ao parecer inesgotável, de centenas de estrangeiros do continente europeu, a capital egípcia tinha mudado já de maneira inevitável, fazendo sua uma nova mentalidade, um novo modo de fazer as coisas, e partia com decisão para adiante em nome do Progresso dos infiéis.

Enquanto o senhor Al Walid olhava de um lado a outro de Oxford Street, observando as lojas londrinas ante as quais se encontrava, pensou que, se o paxá Mohamed Alí continuasse assim, sem dúvida não passaria muito tempo antes que os labirínticos bazares egípcios, lotados de gente e de ruído e expostos ao ar livre, nos quais reinava o aroma penetrante das ervas e especiarias, as frutas e as hortaliças, e o colorido do algodão e a seda, os tapetes e as bancas, as jóias e os metais, fossem substituídos por fachadas de tijolo e cristal, imponentes e impessoais, semelhantes às que nesse momento rodeavam a ele e a Hosni, seu servente. Embora em seu íntimo o senhor Al Walid reconhecesse o muito atrasado que parecia seu país em comparação com tudo aquilo, sabia que nem sempre tinha sido assim e que antigamente o Egito tinha albergado uma civilização épica e altamente avançada, e lhe irritava sobremaneira ser consciente de que já não era assim, de que os infiéis, antigamente bárbaros, tinham superado com muito aos egípcios. Razão pela qual ele devia pôr seu grão de areia para restaurar o esplendor e a grandeza de seu país.

Hosni e ele tinham suportado uma longa viajem até chegar a Londres. Por desgraça, no Cairo se viram obrigados a comprar passagens para um pequeno vapor, sujo e infestado de insetos, que os tinha levado pelo Nilo até o antigo porto de Alexandria. Ali, em contraste com seu anterior meio de transporte, tinham subido a bordo de um barco a vapor agradavelmente luxuoso pertencente à Companhia Naval de Vapor Peninsular e Oriental, navio que, depois de várias semanas de viagem, tinha-os deixado na Inglaterra. O senhor Al Walid preferiria não ter feito aquela viagem. Mas tinha recebido ordens e tinha intenção de cumpri-la, pois se não o fizesse se veria obrigado a retornar com as mãos vazias e cairia, portanto, em desgraça, como os que lhe tinham precedido, e o senhor Al Walid não tolerava a idéia de que aquilo chegasse a acontecer.

Tinha buscado informações nos detalhados informem de seus muitos predecessores, apesar de que não confiava em ninguém, além de Hosni, seu servente, que estava com ele há muitos anos. Esse era o motivo pelo qual o senhor Al Walid se encontrava agora em Oxford Street, levemente estremecido pela incessante garoa que caía naquela gélida e cinza tarde de inverno, e em um escuro e afastado canto de sua cabeça, desejava esta de volta ao Egito, quente e seco sob o ardente e luminoso sol de seu país. Quanto antes terminasse a tarefa que lhe tinham encomendado e pudesse partir daquele úmido, frio e lugrube país, melhor, refletiu friamente enquanto olhava de um lado a outro da rua em busca do número 7B, onde se achava o estabelecimento de Quimbly & Company, Cartografia e Mapas. Ao encontrá-lo por fim, o senhor Al Walid endireitou cuidadosamente o turbante branco, alisou as longas dobras de seu galabiya e depois cruzou devagar a rua e entrou na próspera loja, seguido por Hosni, que permanecia silencioso e alerta atrás dele, sujeitando com estupidez um guarda-chuva negro sobre seu senhor para resguardá-lo da chuva.

Quando Malcom despertou essa manhã na pequena e linda casinha que compartilhava com sua mãe na aprazível e relativamente afastada paróquia de Saint John's Wood, não tinha indício algum de que esse dia fosse ter não um, mas dois incidentes extremamente incomuns e, para falar a verdade, prodigiosos. Em efeito, Malcolm estava há muito tempo acostumado a agradável rotina de sua existência que, às vezes, para sua própria surpresa, quase chegava a esquecer que vivia cada dia suspenso por um fio de um abrupto e perigoso precipício e que a qualquer momento podia cair, ou ser empurrado, ao profundo e negro abismo que se abria mais à frente.

Ou isso lhe tinha feito acreditar sua mãe.

Na realidade, se alguma vez tinham tido inimigos, como dizia a senhora Blackfriars, sem dúvida aquelas pessoas tinham perdido completamente a pista deles há muito tempo, ou tinham se esquecido de sua existência. Pois, nos treze anos transcorridos desde que Malcolm e sua mãe abandonaram o casarão Whitrose Grange para dirigir-se a Londres e durante os quais Malcolm tinha trabalhado como aprendiz com o senhor Quimbly, de Quimbly & Company, Cartografia e Mapas, nada adverso lhes tinha ocorrido, de modo que Malcolm tinha chegado quase a convencer-se de que aquele misterioso e escuro intruso que tinha visto no escritório de seu pai a noite do fatídico incêndio da granja eram um produto de sua imaginação ou, mais provavelmente, de seus sonhos.

Agora, por estranho que parecesse, cada vez que pensava em seu pai e em tio Charles, como fazia às vezes, era como se de algum modo os tivesse conhecido e amado em uma vida muito distante e se separada da presente. Sua morte cruel e prematura, e inclusive a lembrança de seus rostos morenos, juvenis e elegantes, tinham sumido com o passar dos anos até ficar guardado no fundo de seu coração, e o tempo tinha aliviado sua angústia e sua pena até as converter em uma dor surda e suportável, marcado unicamente por um inegável sentimento de culpa e um profundo remorso de consciência por não haver-se decidido nunca a vingar seus assassinatos. Se tivesse oportunidade, teria se inclinado naquela direção, mas por desgraça nunca lhe tinha apresentado a oportunidade. Tampouco tinha conseguido persuadir a sua mãe de que lhe revelasse os segredos que guardava. Assim, com o tempo, tinha deixado de interrogá-la e tinha permitido que seus propósitos de vingança se alojassem em um lugar remoto de sua mente na qual estranha vez aparecia.

Durante aqueles anos, nenhuma das cartas que sua mãe tinha escrito à tia Katherine tinha obtido resposta. Por conseguinte, dela e de seus filhos também se perdeu a pista, e a senhora Blackfriars temia que lhes tivesse ocorrido alguma desgraça e que, como seu pai e o tio Charles, estivessem mortos em suas tumbas.

Não eram, portanto, tais reflexões as que ocupavam a mente de Malcolm quando se levantou de sua cama essa manhã em Howthorn Cottage e fez suas abluções como cada manhã, muito cedo. Malcolm não pensava em nada em particular enquanto se lavava e se vestia, nem quando se dirigiu à cozinha para tomar o café da manhã que cada manhã lhe preparava a cozinheira.

A senhora Peppercorn, a cozinheira dos Blackfriars, era uma mulher jovial e séria, como à cozinha que governava, era o coração de Hawthorn Cottage. Durante os treze anos que levava trabalhando como aprendiz para o senhor Quimbly, Malcolm tinha demonstrado com acréscimo que seu chefe não se equivocou ao confiar nele, e com o tempo tinha sido recompensado com uma ascensão ao posto de oficial de segunda na florescente loja de mapas. Graças a seu emprego fixo e ao conseguinte aumento de seu salário, tinha podido aumentar os escassos empregados de Hawthorn Cottage, formados até então por uma donzela e uma cozinheira, contratando uma governanta e uma faxineira para a cozinha. Neste último tinha ganhado a eterna devoção da senhora Peppercorn, pois, até então, era ela quem suportava a carga não só da preparação da comida, mas também das tarefas de limpeza da cozinha. A senhora Peppercorn, viúva e sem filhos, tinha chegado a mimar tanto a Malcolm que este tinha sempre assegurado uma boa comida em casa, e embora, como senhor da casa, correspondia-lhe comer no salão, devido ao afeto que a senhora Peppercorn sentia por ele, preferia pelas manhãs a calidez da cozinha.

Ao sair de sua habitação e percorrer o corredor, Malcolm sentiu o aroma familiar dos ovos frescos e as fatias de toucinho que se fritavam no fogão de ferro, da sopa que borbulhava em sua chaleira e dos fígados picantes que fritavam na frigideira. Havia também fruta sortida e uma torrada quente lubrificada com a geléia que a senhora Peppercorn fez com esmero no verão anterior, e o bule a ferver. Em efeito, quando Malcolm passou a porta oscilante de carvalho e entrou na cozinha, viu que tudo estava exatamente como tinha imaginado, como cada manhã dos treze anos precedentes.

— Bom dia, senhora Peppercorn — saudou antes de sentar-se à velha mesa de madeira onde lhe servia o café da manhã.

— Bom dia, senhor Blackfriars..., embora, para falar a verdade, não é muito bom. Com este vento tão frio que vem do Támesis e esta condenada chuva, temo que esta manhã passará frio de caminho ao trabalho, senhor — a senhora Peppercorn seguiu conversando pela cozinha, com o rosto redondo e bochechudo ruborizado pelo calor do fogão enquanto lhe preparava um prato que pôs na mesa, ante Malcolm, junto com uma taça de chá quente — Terá que usar o casaco grosso outra vez, senhor Blackfriars, e levar o guarda-chuva.

— Sim, isso parece — Respondeu Malcolm distraidamente enquanto olhava pelas janelas de cristal chumbado da cozinha salpicado de gotas de chuva — Que vontade tenho de que chegue a primavera!

— Esperemos que chegue logo este ano — repôs a senhora Peppercorn enquanto dava os últimos retoques à bandeja do café da manhã que cada manhã preparava para a senhora Blackfriars.

Uma vez se tinha feito um homem e assumido as responsabilidades do lar, Malcolm tinha insistido em que sua mãe desfrutasse de alguns pequenos luxos. O café da manhã na cama era um deles. Apesar de que a constituição da senhora Blackfriars nunca tinha sido de extremo delicada, tampouco era particularmente forte, e durante um tempo a Malcolm tinha parecido que sua saúde declinava. Agora, entretanto, embora sua mãe tivesse sempre o leve ar de indolência e melancolia que tinha pesado sobre ela depois da morte de seu pai, achava-se a gosto e satisfeita com sua casa e seu jardim, pensou Malcolm.

Enquanto afundava com ânsia o garfo no saboroso café da manhã que tinha ante ele, a senhorita Woodbridge, a governanta, entrou na cozinha para recolher a bandeja de sua mãe e levá-la para cima. Antes de fazê-lo, pôs um par de flores que tinha colhido no jardim dianteiro em um jarro de cristal que colocou na bandeja.

— Muito bonito, senhorita Woodbridge — comentou a senhora Peppercorn, assentindo com a cabeça.

— É tão deprimente este tempo... Espero que isto anime um pouco à senhora Blackfriars —Explicou a governanta — Encantam-lhe os novelo e as flores, mas há tão poucas que floresçam nesta época do ano... Antes, quando saí, o jardim me pareceu muito bonito.

— E estou seguro de que minha mãe também gostará — afirmou Malcolm enquanto comia seu café da manhã, e seu elogio fez com que a senhorita Woodbridge se ruborizasse ligeiramente.

Em agudo contraste com a cheia e afável cozinheira, a governanta era uma solteirona magra e seca como um pau, um pouco tímida e reticente, que se movia quase como um espectro pelas habitações de Hawthorn Cottage, vigiando tudo. Mas, a despeito de sua aparência de fragilidade, a senhorita Woodbridge tinha um núcleo de aço, de modo que, embora fosse sempre cortês, considerava-se suave de maneiras, era também extremamente firme, razão pela qual a casa estava como estava. Malcolm se alegrava de ter escolhido com tão bom tino às novas faxineiras, pois Lucy, a criada da cozinha, a qual se encontrava nesse momento esfregando panelas e frigideiras na pilha da cozinha, era tão luminosa e alegre como uma flor da primavera, e tão trabalhadora, honesta e séria como Nora, a donzela. Assim, convencido de que sua mãe estava em boas mãos em Hawthorn Cottage, Malcolm podia dedicar-se com a consciência tranquila a seu trabalho, sem preocupar-se com o bem-estar de sua mãe durante suas diárias ausências.

Depois de tomar seu café da manhã e acabar de ler a edição matinal do The Time, Malcolm se levantou e subiu ao andar de acima. Chamou brandamente à porta da habitação de sua mãe, e ao lhe dizer ela que passasse, desejou-lhe bom dia e conversou com ela uns instantes. Logo voltou para o andar de baixo e no corredor pegou o chapéu, o casaco e as luvas e recolheu seu guarda-chuva antes de sair de casa. Depois de fechar a porta as suas costas, abriu o guarda-chuva para resguardar-se da garoa que caía sem pausa e empreendeu o caminho para a loja de mapas de Oxford Street. Há treze anos costumava a ir a pé, a passo lento, até a parada do ônibus de Saint John's Wood, onde pegava o pesado carro público que, depois de um trajeto de pouco mais de duas milhas e meia, deixava-o em Oxford Street, de onde ia andando o resto do caminho até a loja de mapas.

Nesse dia, por acaso, chegou a seu destino ao mesmo tempo em que o senhor Quimbly descia de um carro em frente à loja.

— Que manhã, não é, Malcolm? — saudou-lhe seu chefe, aquele cavalheiro corpulento e de cabelo grisalho.

— Sim, senhor, certamente — repôs Malcolm — Esta mesma manhã disse à senhora Peppercorn que estou desejando que chegue a primavera.

— Pois temo que ainda demorará em chegar, e é uma pena — o senhor Quimbly exalou um profundo suspiro enquanto Malcolm abria a porta da loja para que passasse — Acredito que agora sinto o frio do inverno nos ossos muito mais que em minha juventude.

Dentro do estabelecimento, Harry Devenish, o oficial de primeira, e os dois aprendizes, Jem Oscroft e Peter Tuck Tucker, já tinham começado seu trabalho.

O local que ocupava Quimbly & Company estava dividido em duas partes. No andar de abaixo estava o salão principal, aberto ao público, e o escritório particular do senhor Quimbly. No andar de cima estavam os armazéns e a oficina na qual se desenhavam e imprimiam os mapas. Durante o tempo que estava a serviço do senhor Quimbly, Malcolm tinha aprendido cada um dos aspectos do ofício, desde o desenho inicial dos mapas até como vendê-los, razão pela qual se sentia agradecido, e nunca deixava de dizer obrigado por isso, assim como naquele dia, já longe, em que chamou a atenção do senhor Quimbly, pois nem todas as lojas de mapas eram tão completas e eficientes como Quimbly & Company, Cartografia e Mapas.

Essa manhã, depois de se aquecer e tirar o chapéu, o casaco e as luvas e fechar o guarda-chuva, Malcolm bebeu uma taça de chá quente em frente ao fogo que ardia alegremente na lareira. Logo subiu as escadas do andar superior e se sentou em frente sua mesa de desenho. Pegou seu lápis e se dedicou ao mapa que ia tomando forma lentamente, mas com risco firme, sob sua hábil e artística mão. Nisto se entreteve até a primeira hora da tarde, quando se reuniu com Harry, Jem e Tuck ao redor da lareira do andar de baixo. Apesar da idade, o senhor Quimbly continuava retornando a casa para almoçar. Seus oficiais e aprendizes, em troca, comiam na loja de mapas e, como todos se levavam bem, desfrutavam particularmente daquela folga em sua larga jornada de trabalho. Malcolm tirou do bolso de seu casaco os dois sanduíches que lhe tinha preparado a senhora Peppercorn, aproximou um tamborete às chamas que chispavam na lareira e tirou o papel que envolvia os sanduíches.

Mas apenas tinha dado uma mordida quando a porta da loja se abriu inesperadamente e a campainha de bronze que estava pendurada sobre ela começou a repicar. Ao ouvir seu som, a alegre conversa e as risadas que uns instantes antes enchiam o estabelecimento do senhor Quimbly se interromperam bruscamente, e os quatro jovens, ainda sentados ao redor da lareira, olharam para a entrada para ver quem era.

— Caramba, são esses índios pagões! — murmurou Tuck, o mais jovem deles, com os olhos abertos — Céus, acham que vieram nos roubar?

— Não seja burro e cale-se! — vaiou Harry, lhe dando um puxão de orelhas — Vão ouvir... e pode que se queixem ao senhor Quimbly. Quem vai atender o balcão?

— Tuck — disse Jem, sufocando uma risada — mas não acho que deva mandá-lo.

— Irei eu, Harry — Malcolm se levantou de seu tamborete, limpou as migalhas da calça, endireitou o colete e se dirigiu ao balcão. Ali saudou amavelmente os dois estrangeiros de inusitado traje — Boa tarde, cavalheiros, posso lhes ser de alguma ajuda?

— Isso ainda está por ver — respondeu tranquilamente Khalil al Walid enquanto seus olhos negros passeavam pela loja, sem passar nada por alto. A sala principal da Quimbly & Company, tinha estantes cheias de livros e gavetas repletas de mapas de todas as classes e tamanhos, estavam todas limpas e os largos balcões cobertos de mármore e o chão de madeira combinando com a luz que lançavam os abajures fixados às paredes, sem uma bolinha de pó à vista — Estou procurando uns mapas.

— Então veio ao lugar adequado, senhor — lhe assegurou Malcolm com firmeza — Não encontrará em toda a Inglaterra melhor loja de mapas que a do senhor Quimbly. Que classe de mapas necessita?

— Mapas da Escócia dos últimos séculos.

Malcolm conseguiu ocultar com muita dificuldade sua surpresa com fato de aqueles dois estrangeiros estarem interessados na região setentrional, gélida e remota, embora assustadoramente bela, do norte da Inglaterra.

— De alguma região em particular na Escócia, senhor? As Terras Altas? As Terras Baixas?

— As Terras Altas. Sou herpetólogo (ramo da zoologia que estuda anfíbios e répteis) e estou interessado em explorar a zona ao redor do lago Ness, pois ouvi falar do misterioso monstro do lago, um enorme dragão ou serpente marinha. Ouviu você falar dessa criatura?

— Ouvi histórias sobre ela, sim — respondeu Malcolm devagar — mas temo que não posso lhe dizer nada mais que o que ouvi contar nos botequins de Londres, pois nunca viajei a Escócia, nem vi o lago Ness. Entretanto, posso lhe mostrar alguns mapas dessa região, senhor — se voltou para as largas prateleiras de madeira que havia atrás dele, procurou cuidadosamente entre seu conteúdo e tirou vários mapas que colocou sobre o longo balcão. A seguir desdobrou com cuidado o primeiro mapa, estendendo-o sobre o balcão, e foi apontando suas características, suas vantagens e seus inconvenientes, aos dois estrangeiros, que o estudavam com ávido interesse.

— O que é este lugar? — o senhor Al Walid apontou um edifício muito ornamentado que se elevava em um promontório do lago Ness — Uma estalagem?

— Não, senhor. É um castelo. Dúndragon chama-se.

— Entendo — comentou com indiferença o senhor Al Walid — É uma pena, porque parece estar em um lugar muito conveniente sobre o lago. Onde está a hospedagem mais próxima, então?

— Aqui, senhor, em Inverness — Malcom assinalou o mapa.

Para seu deleite, quando acabou de lhes mostrar os mapas que tinha tirado das prateleiras, o cavalheiro estrangeiro comprou três deles. Malcolm os enrolou com esmero, envolveu-os em papel e os atou com uma corda enquanto o único dos dois estrangeiros que tinha falado durante a transação tirava sua carteira de debaixo das dobras de seu galabiya e, abrindo-a, extraiu os bilhetes de libra necessários para pagar. Malcolm contou o dinheiro rapidamente, mas com discrição, como lhe tinha ensinado a fazer o senhor Quimbly, e logo, com a chave que levava no colete presa em uma corrente, guardou-o na caixa registradora.

— Obrigado, cavalheiro — disse — foi um prazer atendê-los. Espero que se lembrem da Quimbly & Company no futuro, se alguma vez necessitarem de novo nossos serviços.

Os dois estrangeiros se limitaram a assentir solenemente com a cabeça, sem abandonar sua fleumática expressão. Logo o ajudante do herpetólogo recolheu o pacote e saíram da loja, agitando suas largas túnicas como asas de mariposas sobre o chão de madeira. A campainha de bronze da porta voltou a repicar com estrépito ao sair eles. De repente, uma gélida rajada de vento entrou no estabelecimento do senhor Quimbly e um estranho calafrio percorreu a espinho dorsal de Malcolm, fazendo com que o pêlo de sua nuca ficasse em pé e que lhe arrepiasse a pele dos fortes braços, que estavam nus, pois quando trabalhava na mesa de desenho enrolava as mangas da camisa. Enquanto observava os dois estrangeiros através da ampla cristaleira da loja até que se perderam de vista, estremeceu involuntariamente e sentiu de repente que um ganso acabava de cruzar sobre sua tumba.

Por diversas razões, aqueles dois homens ocuparam os pensamentos de Malcolm durante o resto da tarde, por mais que tentasse concentrar-se em seu trabalho. Mais de uma vez teve que aplicar a borracha ao rascunho a lápis no qual estava trabalhando, e os enganos, que estranha vez cometia, enchiam-lhe de exasperação.

— Pode-se saber o que te passa, Malcolm? — o senhor Quimbly, que acabava de subir ao andar de cima, apoiou uma mão sobre seu ombro — Hoje está muito distraído, e isso é estranho em ti. Pode que esteja entusiasmado por ter vendido três mapas tão bons esta tarde, o qual é muito compreensível, não é? Sem dúvida o pobre Tuck, se tivesse valor para atendê-los, não teria se saído tão bem como você.

— Tuck é muito jovem ainda. Só tem dezesseis anos — disse Malcolm.

— Sim, a mesma idade que tinha você quando se converteu em meu aprendiz — repôs o senhor Quimbly — Mas você era mais maduro e mais sábio que os meninos de sua idade. Sempre trabalhou bem e me foi leal, Malcolm. Alegra-me que a fé que depositei em ti no dia que pegou esse ladrão de carteira não me decepcionou. O que te parece de hoje ir para a casa um momento antes? — o senhor Quimbly olhou seu relógio de bolso — De todas as formas é quase a hora de fechar, e temo que se continuar usando o rascunho, acabará furando o papel.

— Sim, sei. Peço-lhe desculpas, senhor. Tem razão. Estou um pouco distraído. Temo que não deixo de pensar nesses dois estrangeiros. Não porque compraram três mapas, embora me alegra ter feito tão boa venda, certamente, mas sim porque ao mesmo tempo suscitaram minha fascinação e meu receio. Não sei se consigo me explicar, senhor Quimbly.

— Sim, certamente. Sempre nos sentimos atemorizados e ao mesmo tempo cheios de uma mórbida curiosidade acima de tudo o que nos é alheio e desconhecido e que, portanto, não entendemos. Eu teria sentido o mesmo, se estivesse presente quando esses dois hindus apareceram aqui esta tarde.

— Bom, apesar do que diga Tuck, não estou seguro de que fossem hindus, senhor. Eram negros, certamente, mas pode que fossem africanos ou árabes. Era difícil sabê-lo, pois muitos orientais usam turbantes e túnicas, não é certo?

— Sim, mas isso não nos concerne, porque, sejam hindus, persas, turcos ou qualquer outra coisa, o mais provável é que não voltemos a vê-los. Sem dúvida terão ido à longínqua

Escócia a procura desse misterioso monstro marinho do lago Ness — o senhor Quimbly começou a rir de boa vontade, dando uma palmada no ombro de Malcolm — Que acontecimento, não é, Malcolm?

— Sim, senhor — Malcolm deu um sorriso muita dificuldade.

Mas, depois de recolher sua mesa de trabalho e sair cedo da loja, continuou intrigado e inquieto. Sumido em seus pensamentos, dirigiu seus passos para a parada do ônibus de Oxford Street, curvado e envolto em seu grosso casaco para evitar o áspero vento que soprava do Támesis. Apenas percebeu o crepúsculo que ia caindo sobre Londres quando entrou no ônibus para retornar a casa. Quando por fim desceu em Saint John's Wood, foi caminhando até Hawthorn Cottage. Abriu a porta com sua chave, pendurou o chapéu e o casaco no saguão e deixou as luvas sobre a prateleira e o guarda-chuva.

— Malcolm? Malcolm é você? — a senhora Blackfriars apareceu no saguão com expressão ansiosa.

— Sim, sou eu, mãe, não se assuste.

— Chegou cedo. Aconteceu algo? Está doente? Não... não te despediu o senhor Quimbly, verdade?

— Não, embora tenha sido o próprio senhor Quimbly quem me mandou para a casa antes da hora de fechar. Deixa que me aproxime do fogo para me esquentar, mãe, porque estou gelado até os ossos, e lhe contarei tudo.

— Claro filho. Que estúpida e desconsiderada sou por te segurar aqui, de pé, com o frio que faz! Senhorita Woodbridge! Senhorita Woodbrige... ah, está você aí — a governanta começou a descer as escadas do saguão — Meu filho chegou cedo do trabalho e está gelado...

— Em seguida lhe trago um pouco de chá quente, senhora — respondeu a senhorita Woodbridge, e desapareceu pelo corredor que levava a cozinha.

Enquanto isso, Malcolm e sua mãe entraram no pequeno, mas elegante salão, onde um fogo de carvão ardia alegremente no ralo de ferro. Malcolm sentou-se em uma das poltronas de raias que havia em frente à lareira. Esfregou vigorosamente os dedos um momento e logo se recostou na poltrona, fechou os olhos e exalou um longo suspiro.

— Tomara não tivesse que percorrer um caminho tão longo com este frio todos os dias — disse a senhora Blackfriars enquanto olhava seu filho com preocupação.

— Não há tanta distância daqui à parada de ônibus, mãe, e sabe perfeitamente que o custo de um carro para ir a Londres todos os dias é abusivo. E acaso não foi você quem me ensinou que devíamos olhar cada penique, senão iríamos acabar despejados?

— Sim — ela esboçou um leve sorriso — Mas o senhor Gilchrist administrou muito bem minhas rendas todos estes anos e investiu sabiamente meus recursos, e você tem um bom trabalho.

— Sim. Mas, mesmo assim, não tem sentido esbanjar.

Para então, a senhorita Woodbridge tinha aparecido no salão junto com a donzela, Nora, levando cada uma delas uma bandeja carregada com as coisas do chá, que deixaram sobre a mesa de mármore que havia entre as duas poltronas. Uma vez que as empregadas saíram, a senhora Blackfriars serviu a seu filho uma taça de chá e um prato cheio das coisas que mais gostava dentre a variedade de sanduíches, bolos, bolachas e doces que tinha preparado a senhora Peppercorn. Malcom por um momento comeu com ânsia, pois o ar invernal lhe tinha aberto o apetite. Logo, depois de acabar com a fome e entre bocado e bocado do que ficou no prato, falou com sua mãe sobre os dois estrangeiros que tinham entrado na loja do senhor Quimbly essa tarde. Enquanto lhe relatava aquele inesperado incidente, observava-a com atenção por debaixo de suas densas pestanas negras para ver que efeito sortia nela seu relato. Aquele detalhado escrutínio rendeu fruto. Enquanto Malcolm falava, a senhora Blackfriars ficou pálida e começou a agitar-se, retorcendo com nervosismo as mãos sobre o colo enquanto seu chá esfriava e seu prato permanecia intacto. Quando ao fim Malcolm mencionou que os dois estrangeiros tinham perguntado com aparente despreocupação pelo castelo do Dúndragon, ela proferiu um gemido, como se de repente lhe houvessem dado uma bofetada, e levou uma mão à boca trêmula.

— Oh, Malcolm! — exclamou, visivelmente alarmada — Não lhes disse nada, verdade? Não lhes disse que conhecia esse horrível lugar?

— Não, claro que não. Menti e fingi que nunca tinha estado na Escócia.

— Graças ao céu, filho! Porque, se alguém nos relacionasse alguma vez com esse espantoso castelo... — a senhora Blackfriars se interrompeu bruscamente, ocultando o rosto entre as mãos.

— O que, mãe? — perguntou Malcolm, com o coração acelerado — O que aconteceria? Sei que sempre sentiu medo e repulsão pelo castelo de Dúndragon, mas nunca entendi por que. Tem algo que ver com esses misteriosos inimigos que diz que temos? E se é assim, do que se trata? — ao ver que sua mãe não respondia, continuou com certa exasperação — Pelo amor de Deus, mãe tenho quase trinta anos! Não acredita que já é hora de que me diga a verdade? O que são esses escuros secretos que guarda em todos estes anos? E o que têm a ver conosco e com a morte de papai e de tio Charles? Se estamos em perigo, como parece pensar, como vou fazer algo para nos proteger se continua obstinada a me deixar na ignorância?

A senhora Blackfriars exalou um longo suspiro.

— Oh, sei que tem razão, Malcolm. É só que temo que meta na cabeça tentar fazer algo se lhe conto o que deseja saber. Poderiam te matar, como mataram seu pai e tio Charles.

— Mas... por que? — perguntou Malcolm com aspereza.

— É uma história muito larga, meu filho. Mas, sim, por mais que me assustem as possíveis consequências, é hora de que saiba a verdade. Porque, conforme acredito, esses dois estrangeiros que entraram na loja esta tarde eram adversários disfarçados — a senhora Blackfriars tocou a campainha de cristal que havia em uma das bandejas e, quando a governanta se apresentou no salão, disse-lhe — Senhorita Woodbridge, seria tão amável de trazer o cofre que está em minha habitação?

— Sim, senhora.

Uma vez que a governanta se foi, Malcolm disse.

— O que te faz pensar que esses dois desconhecidos eram inimigos disfarçados, mãe? Pareciam de verdade, e tinham aspecto oriental.

— Nossos inimigos são italianos, e, portanto suponho que, se usassem turbantes e túnicas como as que me descreveu, com seus olhos e seu cabelo negro, poderiam passar facilmente por orientais, filho. Além disso, tenho quase certeza de que foi o mais velho deles, Vittore, que viu essa noite no escritório de Whitrose Grange e que assassinou seu pai e tio Charles.

— Vittore? Vittore que mais? Não conheço ninguém com esse nome.

— Não, claro que não. Mas eu sim — a senhora Blackfriars estremeceu visivelmente — Se trata do conde lorde Vittore Fosearelli, o homem mais depravado que conheci. Ele é o dono do castelo de Dúndragon.

Malcom franziu o cenho, cheio de perplexidade.

— Mas não entendo o que tem isso a ver conosco, nem por que esse tal conde Foscarelli queria matar papai e tio Charles.

— Para entendê-lo, é necessário que me volte ao princípio de nossa história, a um tempo e um país muito distantes da Inglaterra de hoje em dia. Ah, muitíssimo obrigado, senhorita Woodbridge — a senhora Blackfriars pegou o cofre que lhe tinha levado a governanta, quem voltou a sair da sala depois de cumprir sua tarefa e a colocou com cuidado sobre seu colo. Logo tirou uma pequena chave pendurada de uma corrente ao redor do pescoço e abriu a o cofre — Nossa história..., a história de nosso ramo do clã Ramsay, pois esse é nosso verdadeiro nome — começou a dizer, surpreendendo muito a Malcolm, que nunca tinha ouvido aquele nome, pois antes de converter-se em Malcolm Blackfriars acreditava haver-se chamado Malcolm MacLeod — tem seus origens no antigo Egito, nos subúrbios de Luxor, em um lugar chamado o Vale dos Reis, pois foi ali onde um de seus antepassados, lorde James Ramsay, visconde de Strathmor e, depois da morte de seu pai, conde de Dúndragon, viajou em sua juventude, correndo o século XVII, e alterou para sempre desse modo as vidas de todos seus descendentes. Como sem dúvida sabe por seus estudos, meu filho, os antigos egípcios tinham o costume de mumificar os mortos para preservá-los para a eternidade e de enterrá-los em grandes pirâmides e vastas necrópoles a fim de impedir a profanação de suas tumbas. Mas, naturalmente, ao longo dos séculos, devido a que frequentemente esses sepulcros continham grandes riquezas em forma de esplêndidos objetos funerários, as câmaras de enterros das pirâmides e necrópoles foram frequentemente profanadas e saqueadas... e não só despojadas de suas riquezas, mas também de suas múmias. Uns cem anos antes da viagem de lorde Dúndragon a Luxor e o Vale dos Mortos, os farmacêuticos europeus fabricavam já o que então se conhecia como «múmia», um fino pó que supostamente era feito de múmias pulverizadas e cuja ingestão, conforme se acreditava, alongava a vida e melhorava a saúde.

— Santo céu! — disse Malcolm, enojado.

— Sim, bom, naturalmente a ciência médica não estava tão avançada há uns séculos como está agora — observou secamente a senhora Blackfriars — Voltando para nosso relato, lorde Dúndragon e alguns seus discípulos tinham ouvido falar sobre essas múmias e tinham lido sobre o Vale dos Reis em um livro escrito por um monge capuchino, razão pela qual decidiram viajar ali com a intenção de entrar em uma daquelas tumbas secretas e levar sua múmia, que pensavam vender aos cirurgiões de Edimburgo. Mas, por razões que se desconhece, seu plano mudou quase desde o começo, como o próprio lorde Dúndragon explicou em seu jornal, no qual, depois de sua volta a Escócia, relatou todas suas aventuras — a senhora Blackfriars tirou do cofre prateado que tinha sobre o colo um jornal pequeno e extremamente velho, cujas folhas estavam amareladas pelo tempo — dentro de uns instantes deixarei que leia isto, Malcolm. Mas, enquanto isso basta dizer que a câmara de enterro que saquearam lorde Dúndragon e seus companheiros era ao parecer a de um supremo sacerdote que em vida tinha servido com grande zelo ao deus egípcio Kheperi, para o qual o besouro era um símbolo profundamente sagrado. Este último é importante porque, durante a profanação da tumba por lorde Dúndragon e seus companheiros, caiu sobre o deserto uma grande tormenta, e o Vale dos Reis começou a alagar-se, convertendo o sepulcro em uma armadilha mortal, de modo que lorde Dúndragon e seus amigos tiveram que fugir correndo para salvar suas vidas. Entretanto, ao final, só sobreviveu lorde Dúndragon. E, devido à tormenta e à inundação, o único que conseguiu salvar da tumba foi uma grande esmeralda em forma de besouro, de valor incalculável, que sem perceber levou consigo ao escapar.

— Onde está esse besouro agora? — disse Malcom, fascinado, apesar de que se perguntava aonde conduziria tudo aquilo e o que tinha a ver com ele.

— Não sei — respondeu a senhora Blackfriars — Ninguém sabe. O único posso te dizer é que era um legendário talismã egípcio conhecido como Coração de Kheperi, como o próprio lorde Dúndragon descobriu tempos depois graças a um sacerdote velho e cego que conheceu no Cairo antes de abandonar o Egito. Os egípcios acreditavam que aquele amuleto tinha sido criado pelo próprio deus Kheperi e que, portanto, possuía numerosas propriedades mágicas que podiam empregar quem soubesse como as usar, incluindo a capacidade de conceder a vida eterna a quem possuísse o talismã. Dizia-se que era maior que um ovo de ganso e que tinha desaparecido misteriosamente alguns milhares de anos antes que lorde Dúndragon viajasse ao Vale dos Reis. Há muito tempo estava perdido quando lorde Dúndragon o descobriu na tumba do supremo sacerdote. Dizia-se também que trazia má sorte a todo o que o tivesse em suas mãos, salvo os sacerdotes consagrados a Kheperi, tal era seu poder. O próprio lorde Dúndragon chegou a acreditar, pois desde o momento em que o roubou do peito da múmia do supremo sacerdote, sentiu-se maldito. E, em efeito, nada voltou a lhe sair bem depois disso, pois seu pai tinha morrido durante sua ausência, e a moça com a que se casou pouco depois de sua volta a Escócia morreu ao dar a luz, apenas um ano depois de seu casamento. Ele mesmo morreu tragicamente em um espantoso acidente de caça, às mãos de seu próprio filho, seu único filho e herdeiro. Embora não há provas disso, presume-se que o filho herdou a esmeralda, mas temo que o que aconteceu depois com o amuleto continua sendo um completo enigma — a senhora Blackfriars se deteve um momento e logo continuou com seu relato — Por desgraça, apesar de seu desaparecimento, a maldição da esmeralda perdurou. Quase um século mais tarde, foi a razão da morte de outro lorde Dúndragon, um descendente direto, como é você, Malcom, que viajou da Escócia ao Egito. O nome deste último lorde Dúndragon era Iain Ramsay e, como era um jovem dissoluto e pouco cuidadoso, cometeu a imprudência de misturar-se com sir Francis Dashwood e os assim chamados monges da abadia de Medmenham, aos que as pessoas se referem frequentemente hoje em dia como o Clube do Fogo do Inferno, embora a verdadeira ordem dos Cavalheiros de Saint Francis, como o próprio sir Francis a batizou, não existe há muito tempo. Acredito que se dissolveu antes inclusive da morte de seu fundador, embora sei só de ouvir, certamente. Mas estou divagando. Voltemos para nosso relato. Lorde Dúndragon do que agora te falo se viu envolto uma noite, bêbado, em uma desastrosa partida de cartas com um italiano, o conde lorde Bruno de Foscarelli, um antepassado desse mesmo lorde Vittore que acredito assassinou a seu pai e a tio Charles. Ao concluir a partida de cartas, lorde Dúndragon se encontrou arruinado, pois tinha cometido a estupidez de jogar tudo que possuía, incluindo as terras dos Ramsay na Escócia e Inglaterra. Ofuscado ao perceber seu engano, acusou Foscarelli de trapacear e o conde o desafiou a um duelo ao amanhecer, no transcurso do qual recebeu um disparo e morreu à mãos do italiano, a qual, a parecer, tinha sido desde o começo a intenção do conde. Pois, depois de tomar posse das propriedades que tinha adquirido de maneira tão pouco honrada, ficou completamente louco, ou isso diziam os serventes e os aldeões, e começou a ruir o interior do castelo do Dúndragon peça a peça e a escavar nos jardins.

— Procurando a esmeralda perdida?

— Sim, isso parece.

— Mas... temo que continuo sem entender... por que nos consideram os Foscarelli uma ameaça, mãe? — perguntou Malcolm, perplexo — Se já têm nossas terras...

— Parece-me que acreditam equivocadamente que sabemos onde está a esmeralda, o Coração de Kheperi — afirmou com calma a senhora Blackfriars — e que poderíamos tentar recuperá-la se alguma vez conseguíssemos de novo às posses dos Ramsay. Naturalmente, isso era o que tinha em mente seu pai quando arrendou Whitrose Grange. Quando caía a noite, sempre que tinha oportunidade, tirava seu velho bote de pescar e cruzava furtivamente o lago Ness até o castelo de Dúndragon para procurar a esmeralda.

Esta nova revelação deixou mais atônito a Malcolm do que tudo que sua mãe lhe tinha contado até então.

— Mas... o que o fazia acreditar que esse amuleto existia ainda, que não se perdeu irremediavelmente há muitos anos? — perguntou com mais aspereza da que pretendia.

— Em seu leito de morte, seu avô paterno deu isto a seu pai — a senhora Blackfriars tirou de debaixo do sutiã de seda um crucifixo de prata adornado pendurado uma larga e fina corrente de prata. Depois de tirar a cruz da cadeia, a entregou a seu filho — Seu avô disse a seu pai que não se separasse dela por nenhuma razão, nem sequer sob ameaça de morte, e que se aferrasse a ela sempre porque era a única chave que abria os mistérios de nosso legado familiar. Mas, quando seu pai começou essas expedições furtivas no castelo de Dúndragon, temia que o descobrissem e o capturassem, e me deu o crucifixo para que o guardasse. Desde então o levo sempre comigo.

— Mas... como pode ser esta cruz a chave para a esmeralda desaparecida? E como foi parar nas mãos de meu avô?

— Não sei — a senhora Blackfriars sacudiu a cabeça — Só sei que tio Charles, que pertencia ao ramo dos Ramesay de nossa família, tinha um crucifixo idêntico a este que lhe tinha dado seu pai, com a mesma advertência. Mas nunca conseguimos averiguar quem fez esses crucifixos nem o que têm que ver com o Coração de Kheperi.

 

Malcolm esteve dando voltas à cabeça toda a noite, enquanto tentava assimilar o que sua mãe lhe tinha contado. Malcolm Ramsay. Esse era seu verdadeiro nome. Entretanto, parecia tão opaco e alheio como os dois misteriosos estrangeiros que tinham entrado na loja de mapas essa tarde, precipitando desse modo a esclarecedora conversa com sua mãe.

Antes do jantar, Malcolm tinha lido com cuidado o velho jornal no qual lorde James Ramsay, visconde de Strathmor e mais tarde conde de Dúndragon, que tinha viajado ao Egito e ali roubado o Coração de Kheperi, tinha escrito o relato de suas aventuras. Em seu jornal, lorde Dúndragon explicava que, depois de roubar a valiosa esmeralda daquele sepulcro do Vale dos Reis, tinha viajado ao Cairo, onde, fazendo-se passar por historiador, tinha travado conhecimento com um velho sacerdote cego de um templo. Perguntando ao ancião sobre os amuletos em forma de besouro e tinha conseguido uma descrição do Coração de Kheperi, junto com o relato de sua legendária história e suas supostas propriedades mágicas. Depois, em lugar de devolver a jóia aos egípcios, lorde Dúndragon a tinha conservado, não só porque a fortuna de sua família tinha sofrido sérios reversos durante o governo de Oliver Cromwell, mas também porque não desejava que sua desastrosa viagem a Luxor e o sacrifício de todos seus companheiros fossem em vão. De nada lhe tinha servido, entretanto, pois ao final o antigo talismã e só lhe tinha proporcionado infortúnios. Daí que tivesse chegado a acreditar que pesava uma maldição sobre o amuleto, tal e como lhe havia dito o sacerdote cego. Neste ponto a narração se interrompia bruscamente, e Malcom supôs que deveria ser então quando lorde Dúndragon pereceu acidentalmente às mãos de seu próprio filho enquanto caçava.

Agora, depois de devolver o pequeno jornal ao cofre de prata que tinha pertencido a seu pai, Malcolm se passeava com nervosismo por seu quarto, pensando, entre outras coisas, nos dois estrangeiros que tinham entrado no estabelecimento do senhor Quimbly essa tarde. Seriam de verdade egípcios, perguntava-se, que foram em busca da apreciada esmeralda? Se soubesse antes tudo o que sua mãe lhe tinha contado nessa tarde! Teria ficado em guarda e possivelmente teria sondado discretamente os dois estrangeiros e descobrir se conheciam a história do Coração de Kheperi. Talvez sua incursão na loja de mapas se devia a que tinham averiguado de algum modo sua verdadeira identidade, conjeturava, e, portanto sua nebulosa relação com a esmeralda perdida. Pois, dadas as circunstâncias, a idéia de que a aparição dos dois estrangeiros na loja do senhor Quimbly fosse uma simples coincidência lhe parecia descabelada.

Ao perceber isso, Malcolm sentiu que um gélido calafrio lhe corria as costas, pois, se os dois egípcios sabiam quem eram sua mãe e ele, não saberiam também os italianos? Se assim fosse, sua mãe e ele corriam sem dúvida grave perigo, pois sua mãe lhe tinha advertido muitas vezes que seus inimigos eram extremamente desumanos, que não retrocediam ante nada em sua busca do Coração de Kheperi.

Enquanto passeava como um tigre enjaulado por seu quarto, brincava sem perceber com o crucifixo de prata e a larga corrente que sua mãe lhe tinha dado essa tarde. Ao fim se deteve e pegou de novo a lupa que havia sobre seu escritório para estudar o crucifixo. Embora seu desenho fosse belo e intrincado, não parecia haver nada significativo nele. Como já tinha feito várias vezes antes, deu a volta à cruz. Gravada ao dorso se lia Apocalipse 22:13. Malcolm já tinha lido aquele versículo da Bíblia, o qual dizia: Eu sou o Alfa e o Omega, o primeiro e o último, o princípio e o fim. Mas não conseguia imaginar como podia lhe servir aquilo de alguma ajuda. Por fim deixou escapar um profundo suspiro e, abandonando sua tentativa de decifrar as pistas que pudesse conter o crucifixo, o pendurou no pescoço e o escondeu sob a camisa.

Apesar de que, com o cair da noite, o ar do inverno que soprava fora estava ainda mais frio e continuava garoando, decidiu de improviso sair para dar um passeio. Desceu ao salão do andar de baixo e disse a sua mãe, que estava sentada em frente ao fogo, jogando às cartas com a senhorita Woddbridge, que pensava sair.

— Não sei quanto vou demorar, assim não me espere acordada, mãe — acrescentou.

— Como quiser, filho — o pálido semblante de sua mãe se endureceu um instante, cheio de ansiedade — Abrigue-se e tome cuidado. Já sabe que há ladrões e... e outros perigos na cidade quando anoitece — sua alusão a seus inimigos não passou despercebida a Malcolm.

— Sim. Não se preocupe, mãe. Não me acontecerá nada.

Pegou o grosso casaco, o chapéu e as luvas, recolheu seu guarda-chuva e saiu da casa pela porta principal. Não brilhavam no céu a lua nem as estrelas, mas a suave a luz dos abajures que refulgia nas janelas das casas de Cochrane Street iluminava seus passos quando abriu o guarda-chuva para proteger-se da chuva e começou a andar em direção a Regent's Park. Tinha a vaga idéia de passar para ver o senhor Quimbly para lhe contar tudo que tinha ouvido de sua mãe e lhe pedir conselho. Face à advertência de sua mãe ao partir, não viu ninguém enquanto caminhava pelas ruas, e pensou vagamente que devia fazer tão frio que nem sequer os ladrões de carteira e os assassinos se atreviam a sair. Assim, perdido em seus pensamentos, percorreu sem contratempos a rua sudoeste de Regent's Park e entrou em Upper Baker Street em direção à casa do senhor Quimbly.

Mas quando chegou ali, descobriu que não havia luz nas janelas, pelo que deduziu corretamente que seu chefe já tinha ido à cama. Ficou ali parado um momento, sob o guarda-chuva, em meio a incessante garoa, olhando a escura casa com a esperança de ver alguma faísca de luz ou outro sinal de vida que lhe indicasse que o senhor Quimbly estava ainda acordado. Por fim, ao não ver nenhum, compreendeu com uma aguda pontada de desilusão que bater a porta só serviria para despertar os empregados e incomodar sem necessidade o senhor Quimbly, e a contra gosto deu meia volta para empreender o longo caminho de volta a casa.

Não tinha dado mais de cinco passos, no entanto, quando sem prévio aviso sentiu que lhe empurravam com força por trás. Tudo aconteceu tão depressa que ao princípio demorou para reagir e, antes que pudesse ficar em guarda, sentiu que lhe puxavam bruscamente o chapéu e que um capuz de seda caía sobre seu rosto, lhe impedindo ver e apenas respirar. Estimulado pelo medo, começou a arranhar o suave tecido que lhe cobria o rosto e deixou cair o guarda-chuva em lugar de usá-lo como arma. Logo, recuperando a compostura, começou a lutar impetuosamente contra os punhos que lhe golpeavam com força e puxando seu casaco, lhe fez cair de joelhos. Compreendeu pelos gemidos de seus agressores que algum de seus murros tinha acertado no alvo, mas enquanto lutava desesperadamente, temia ter perdido a batalha. Assim, foi um grande alívio para ele ouvir de repente gritos aos longe, seguidos pelo assobio do apito de um policial e passos apressados. Logo, tão repentinamente como tinha começado, a agressão cessou, e Malcom pôde por fim tirar da cabeça o asfixiante capuz. Enquanto tentava recuperar o fôlego, ainda perplexo pela brutal surra que tinha recebido, levantou-se cambaleando e viu um jovem que corria para ele do outro lado da rua um policial que se apressava para ali desde a esquina das ruas Dorset e Baker.

— Encontra-se bem, senhor? — perguntou com ansiedade o jovem, e agachou solicitamente para recolher o chapéu e o guarda-chuva de Malcolm, que tinham sido pisoteados na briga.

— Sim, acredito que sim.

— Por desgraça, não acredito que isto lhe sirva de muito agora — o jovem lhe deu o chapéu e o guarda-chuva.

— Não, suponho que não.

Para então tinha chegado já o policial, acompanhado do senhor Quimbly, quem, alarmado pelos ruídos da briga e pelo apito do policial, levantou-se da cama e apareceu na janela do andar superior de sua casa, tentando ver a causa daquele alvoroço.

— Sugiro que entremos todos em meu salão — disse o senhor Quimbly — não só para nos cobrir da chuva, mas também para nos assegurar de que Malcolm não foi ferido nessa monstruosa agressão — o ancião parecia indignado com que um de seus mais apreciados empregados tivesse levado uma brutal surra.

Os outros não necessitaram que insistisse e seguiram o senhor Quimbly ao interior da casa. Ali, a senhora Merritt, a governanta, respondeu à chamada da campainha junto com outros serventes e, ao fim de um momento, serviu chá quente e acendeu um agradável fogo sob o formoso suporte de ébano de lareira. O senhor Quimbly se encontrava sentado em uma poltrona de pano verde, envolto em seu robe de seda, com um longo gorro de dormir na cabeça, um pouco retorcido, e os pés apoiados sobre uma banqueta. Frente a ele, sentando na beirada de seu assento, como se estivesse incômodo naquele salão, encontrava-se o policial, que fazia perguntas e tomava notas. Malcolm e o jovem moreno e bonito que tinha ido em sua ajuda, e cujo nome era Nicolas Ravener, ocupavam o sofá. Embora Malcolm se acreditasse intacto, ao dissipar o arrebatamento de adrenalina que havia em seu corpo, começou a tomar consciência de que estava, em efeito, muito machucado, embora não parecesse ter nada quebrado.

— E não tem idéia, senhor, de quem lhe atacou? — perguntou o policial.

— Não — Malcolm sacudiu a cabeça — Já disse, tamparam-me a cabeça com um capuz, assim não vi seus rostos. Mas tenho certeza de que eram mais de um.

— Tem razão — apontou o senhor Ravener — Eu vi fugir ao menos dois, e pode que até três, agente. É difícil saber, porque estava muito escuro, claro, e, além disso, chovia. Os homens que assaltaram ao senhor Blackfriars puseram-se a correr de Baker Street, para Oxford Street. Mas acredito que deveria ter algum meio de transporte esperando-os, porque notei que um carro se afastava da calçada muito rapidamente pouco depois, e logo depois disso não vi mais a esses homens.

— Se quiserem que lhes diga a verdade, cavalheiros, isto não me parece um roubo corrente - declarou o policial — Poderia ser obra de uma dessas horríveis bandas de ladrões e assassinos que rondam pelas ruas da cidade, mas, se for assim, temo-me que tramavam algo muito mais sinistro do que roubar a carteira do pobre senhor Blackfriars. Teve você sorte de que passasse por ali o senhor Ravener, senhor.

— Certamente que sim — disse Malcolm — E não sei como lhe agradecer, senhor Ravener.

— Só lamento não ter chegado antes, quando de verdade podia lhe haver sido de ajuda, senhor Blackfriars — respondeu com modéstia o senhor Ravener — Me temo que o único que fiz foi gritar com esses vagabundos, assim consegui alertar ao senhor agente e assustar os ladrões. Entretanto, estava você se defendendo admiravelmente, senhor, que estou seguro de que esses rufiões não se teriam saído com a sua ao final, fosse o que fosse o que tramavam.

Uma vez finalizadas as pesquisas, o agente partiu da casa do senhor Quimbly, seguido pelo senhor Ravener, deixando Malcolm a sós no salão com seu chefe.

— Malcolm, tem certeza de que está bem? — perguntou o senhor Quimbly, visivelmente preocupado.

—Sim, senhor. Reconheço que estou muito machucado, mas passará. Peço-lhe sinceramente desculpas por tê-lo despertado e envolvido neste desagradável incidente, senhor. Certamente estará perguntando-se o que estava fazendo em frente a sua casa a estas horas da noite. A verdade é que acreditava poder falar com você. Mas, ao não ver luz em suas janelas, percebi que estava já na cama. Acabava de dar a volta para voltar para casa quando me atacaram.

— Entendo. Então, quer me dizer agora o que se preocupa, Malcolm? O que te trouxe aqui esta noite?

— Não, senhor, está muito tarde e já lhe causei muitas moléstias esta noite. Só iria lhe contar uma história que me contou minha mãe esta tarde e lhe pedir conselho, isso é tudo. Assim não é nada que não possa esperar até outro momento.

— Muito bem, pois. Comamos juntos aqui amanhã. Assim poderá me contar essa história enquanto saboreamos o que prepare a senhora Merritt. Enquanto isso, entretanto, vendo o que ocorreu esta noite, nego-me rotundamente a permitir que retorne andando na escuridão, e sozinho. Não, não tente protestar, Malcolm, porque te asseguro que não vou ouvir. Está ferido e não pode caminhar duas milhas e meias nesse estado. Vou mandar meu empregado em busca de um carro. Enquanto isso, sugiro que entre e se arrume um pouco. Não acredito que queira preocupar sua mãe, que sem dúvida se alarmará se te vê chegar assim.

— Sim, senhor.

Finalmente, depois de se arrumar um pouco, Malcolm saiu junto ao senhor Quimbly, que sustentava um guarda-chuva, e se subiu no carro que esperava junto à calçada, frente à casa. Depois de comprovar que se encontrava comodamente sentado entre as almofadas do carro, seu chefe lhe informou que já tinha pagado o trajeto até Saint John's Wood e lhe disse que não se apressasse em ir. O cavalo enganchado ao pesado veículo pôs-se a andar a uma ordem de seu amo, e as altas rodas da carruagem começaram a girar como as engrenagens da mente inquieta de Malcolm, que, recostado no fofo assento, fechou os olhos, exausto, e agradeceu por não ter que retornar a pé para casa no meio da escuridão e a chuva.

 

                   1848

                   Hotel de Lévesque, Paris, França

No Hotel do Lévesque se desatou um tumulto no centro do qual se encontrava Madame Valcoeur, de comum acordo, sem ela sabê-lo, com os revolucionários e os radicais de Paris.

Para falar a verdade, a cidade nunca se repôs da brutal decapitação do rei Luis XVI e de sua esposa, María Antonieta, no século XVIII. Da queda violenta da monarquia, Paris tinha se convertido em lugar de agitação e em cenário de lutas de poder que passavam uma atrás de outra. Apesar de que a monarquia tinha sido finalmente restaurada, Luis Felipe, o assim chamado Rei Cidadão, era cada vez mais impopular. Durante o mês de janeiro anterior, as autoridades tinham proibido um banquete previsto para o dia quatorze, o primeiro de uma série de atos organizados pelos opositores ao regime monárquico em protesto pelas limitações que o rei tinha imposto sobre o direito de reunião. Os organizadores do banquete, entretanto, não tinham se deixado intimidar pela proibição, e tinham se limitado a pospor sua celebração até 22 de fevereiro.

Por desgraça, a condessa de Lévesque, alheia aos planos dos organizadores do banquete, tinha decidido celebrar seu baile de máscaras nesse mesmo dia. Quando a notícia da nova data do banquete correu por Paris, seu marido lhe tinha aconselhado que mudasse a noite do baile. Mas a condessa se negou tenazmente a deixar-se convencer pelos sábios conselhos de seu marido.

Não sei como vou mudar a data agora, Jean-Paul — havia dito com amabilidade, mas com firmeza — Já sabe que mandei os convites no mês passado. Como vou defraudar a nossos convidados, sobre tudo sendo tão provável que as autoridades voltem a proibir o banquete dos radicais? Non, não penso mudar nossos planos nem contrariar a todos nossos convidados só porque um punhado de exaltados decidiram tomar à rua. Além disso, ao final não acontecerá nada, já verá, Jean-Paul.

Mas Ariana, que se encontrava vestida já para a festa de disfarces, de pé ante o ornamentado espelho de seu quarto, não estava tão segura como sua mãe de qual seria o resultado daqueles acontecimentos.

Era certo que, tal e como Madame Valcoeur havia predito, as autoridades haviam proibido o banquete dos opositores novamente. Mas isso não tinha acovardado os revolucionários como Alphonse de Lamartine e A. T. Enjoe, nem os radicais encabeçados por Louis Blanc.

Embora a manhã tivesse amanhecido com o céu plúmbeo e cheio de densas nuvens, Paris continuava fervendo. Na noite anterior, como precaução contra possíveis desordens, os batalhões da cavalaria se infiltraram na cidade em segredo. Alguns deles se encontravam no Hipódromo e outros estavam acampados ao redor das fortificações de Paris. À luz lúgubre da alvorada, alguns destacamentos de guarda tinham empreendido marcha para os bulevares do centro da cidade e Palais Bourbon, onde a Câmara de Deputados celebrava sua reunião. Pois, embora a imprensa extremista que tinha soltado essa manhã na primeira página a notícia de que o banquete tinha sido suspenso, muitos parisienses não tinham ouvido ainda a notícia e enquanto aquele dia sombrio despontava no horizonte, tinham começado a dirigir-se para a igreja de Madelaine, onde os opositores ao regime tinham previsto congregar-se antes de partir temerariamente pelas ruas da cidade, para seu banquete.

Pelas portas do balcão que aparecia na rua Saint Honoré, Ariana tinha visto com crescente inquietação os artesãos, operários e mercadores de Paris que se dirigiam aos Campos Elíseos, a Agrada de Madeleine e a Agrada de Concorde. Seu desassossego cresceu ao observar que os rostos de muitos deles pareciam cheios de séria determinação e que sob os capuzes levavam pistolas, espadas e adagas. Para defenderem-se dos rebeldes, as autoridades tinham ordenado ao exército apostar-se na vizinhança da Câmara de Deputados, com dez regimentos de infantaria e seis peças de artilharia colocadas entre Quai d'Orsay e os Inválidos, a fim de proteger a assembléia pelo oeste, em tanto que uma nutrida força se encontrava no Pont da Concorde e no Palais Bourbon. Ninguém, além das pessoas providas de passes ou dos deputados, que levavam as medalhas de seu mandato, podia cruzar a ponte. O exército tinha ocupado também a zona que rodeava a Câmara de Deputados propriamente dita. Ao retornar, cheia de ansiedade, às portas do balcão que dava à rua e olhar por entre as cortinas, Ariana havia sentido que um violento calafrio lhe percorria as costas ante a visão dos manifestantes, que gritavam. «Viva a Réforme!» e cantavam Marsellesa e o hino dos girondinos. Até esse momento, a grade e a porta principal do ministério de Assuntos Exteriores tinha permanecido aberta, e os soldados que montavam guarda em frente ao edifício tinham permanecido desarmados. Mas, a isso do meio-dia, tanto a grade como a porta se fecharam e um destacamento de dragões armados até os dentes se destinou ao amparo do ministério, que tinha sofrido o ataque de uma multidão de descontentes. Os rebeldes, armados com paus e barras de ferro, haviam tentando atravessar a grade e tinham apedrejado a um sentinela que tinha tentado cruzá-la para pedir reforços. O sentinela se viu obrigado a retroceder e a procurar refúgio dentro do ministério, cujas janelas estavam sendo apedrejadas. Enquanto gritavam «Viva a Réforme!» Os manifestantes exigiam a François Guizot, o capitalista primeiro-ministro do governo, que aparecesse, mas nesse momento o exército tinha chegado ao ministério para dispersar os rebeldes, e Guizot pôde sair do Palais Bourbon sem contratempos.

Nessa tarde, Ariana soube que por todo Paris as multidões enfurecidas tinham atacado e saqueado lojas e veículos e levantado barricadas; e embora ao cair a noite reinasse nas ruas uma calma relativa, Ariana continuava inquieta e nervosa, e a ilusão e o prazer com o qual tinha esperado o baile de máscaras se dissiparam quase por completo.

Inclusive o disfarce de Cleópatra que usava e que em outras circunstâncias teria feito apreciado, acrescentava a essa noite seu desassossego. Era excessivamente provocador. Embora Ariana estivesse vestida com pudor, as dobras brancas e graciosas de seu disfarce, bordado com cordões dourados, realçavam seus peitos grandes e redondos e se amoldavam a seus quadris. Cobria a cabeça com uma peruca negra e lisa que lhe chegava à altura do queixo, ao estilo dos antigos egípcios, e uma diadema de ouro de cujo centro se elevava uma cobra com o capuz desdobrado. Sandálias trançadas cobriam seus lindos pés. Maquiou o belo rosto, e tinha pintado os olhos com Kohl negro, o qual lhes dava uma aparência rasgada e profundamente misteriosa. Enquanto se olhava no espelho, pensava que tinha um aspecto muito estranho, como se acabasse de sair de um mural pintado nas paredes de um templo ou de uma tumba egípcia.

— Oh, mademoiselle, está maravilhosa! — exclamou Sophie, sua donzela — Será a inveja de todas as mulheres do baile.

— Pode ser — respondeu Ariana lentamente — Mas isso não alivia meus temores, Sophie. Que notícias há? Houve mais distúrbios na rua?

— Non, ao menos que eu saiba, mademoiselle. Madame Valcoeur tinha razão: os planos da oposição não deram em nada. Assim não tem nada a temer.

Mas Ariana não podia evitar preocupar-se. Desejava fervorosamente que sua mãe tivesse atendido a razão e suspendido ou inclusive cancelado o baile. Mas já era muito tarde. Além das portas que levavam a balcão, Ariana podia ouvir o estrondo das rodas das carruagens sobre os paralelepípedos à medida que iam chegando os primeiros convidados.

— É hora de descer, mademoiselle — disse Sophie.

— Oui, tem razão — assentiu Ariana.

Respirou fundo para acalmar seus nervos, pegou sua máscara, adornada com plumas e lentejoulas e saiu do quarto para descer ao salão de baile, onde se reuniu com seus pais para receber os convidados.

— Está muito bonita, chérie! — exclamou a condessa ao ver sua filha — O vestido ficou perfeito, embora já soubesse. Amanhã será a sensação de Paris.

— Mamam! — Ariana ruborizou — Vão ouvir os convidados!

Madame Valcoeur encolheu os ombros despreocupadamente.

— E que mais dá? O que podem fazer, a não ser estar de acordo comigo de que tenho a filha mais formosa de toda a cidade?

— Certamente, Hélène. Nossa filha é a mais formosa — Monsieur Valcoeur abraçou a sua mulher e a sua filha com um sorriso cheia de orgulho.

As portas do salão de baile estavam totalmente abertas, e o mordomo anunciou a chegada dos primeiros convidados.

Ariana ignorava quanto tempo passou de pé na porta, dando as boas-vindas aos convidados ao baile de disfarces. Finalmente, entretanto, viu-se liberada de seus deveres e pôde mesclar-se com os convidados. Logo sua caderneta de baile esteve cheia e Ariana começou a girar a ritmo de valsa pelo salão com seu primeiro acompanhante.

Em qualquer outra ocasião, os cuidados que lhe dedicavam os jovens a teria deixado contente. Mas essa noite nem sequer aquilo conseguia levantar seu ânimo, pois, cada vez que deixava de dançar para tomar um refrigério, ouvia alguma discussão acalorada que lhe deixava os nervos em pé, discussões que versavam a respeito de se o rei Luis Felipe devia ou não destituir o primeiro-ministro, François Guizot, a fim de apaziguar tanto os revolucionários como os radicais. Ariana tinha a impressão de que os fortes ventos da mudança que sopravam sobre seu país eram, em efeito, de temer, e se estava perguntando com ansiedade o que proporcionariam a ela e a sua família quando seus amigos a tiraram bruscamente de seu topor.

— Estou farta de tanto ouvir falar de revolucionários e radicais! — exclamou mademoiselle Gabrielle Fournier, dirigindo-se ao pequeno grupo de jovens reunidas em torno de uma das largas mesas do banquete — Pensava que iríamos nos divertir, não a debater o futuro da França. Ariana, já leram seu futuro?

Ela sacudiu a cabeça.

— Non, estou a noite toda dançando e continuaria dançando se não houvesse dito ao Monsieur Saint Quentin que gostaria muito comer e beber algo que dançar outra vez a valsa.

— Pois já teve um descanso, assim tem que ir imediatamente ao pavilhão e perguntar a Madame Polgar por seu futuro — disse com firmeza mademoiselle Joséphine de Hautmesny — Oh, Ariana, nos disse coisas tão misteriosas que não sabemos o que pensar!

— Oui, é verdade — disse mademoiselle Véronique Richeville — É muito crítica, mas também fascinante. Até dá um pouco de medo. Ao princípio pensei que certamente era só uma atriz a que sua mãe a pagou para fazer o papel de adivinha para que nos divertisse esta noite. Mas te asseguro Ariana, que depois de vê-la e escutar suas predições, tenho certeza de que Madame Polgar tem um verdadeiro dom, é uma autêntica vidente! Não entendo de onde a tirou Madame Valcoeur.

— Não sei — respondeu Ariana sinceramente, intrigada pelas afirmações de suas amigas sobre aquela pitonisa que sua mãe tinha incluído entre as diversões do baile de disfarces.

Para proporcionar um entretenimento novo a seus convidados, à condessa lhe tinha ocorrido chamar uma adivinha e tinha feito instalar em um extremo do salão de baile, sobre um soalho coberto com tapetes persas de distintos tons de marfim e ouro, uma enorme e colorida tenda de campanha de raias. Era dentro daquele elaborado lugar onde Madame Polgar levava toda a noite predizendo o futuro a todo aquele o bastante ousado ou tolo para procurar seu conselho. Ariana não tinha nem idéia de quantos convidados tinham ido a ela, embora cada vez que, ao longo da noite, tinha se aventurado a olhar para a tenda, sempre tinha visto uma longa fila esperando para entrar. A fila, entretanto, dissipou-se já àquela hora da madrugada, de modo que, quando suas amigas conseguiram por fim levá-la até a tenda, Ariana pôde entrar em seguida.

Em agudo contraste com a luminosidade do salão de baile, o interior da tenda se encontrava em relativa penumbra, razão pela qual os olhos de Ariana demoraram um momento em acostumar-se à falta de luz. Ariana não sabia o que esperar, mas sem dúvida não era a imagem fantasmagórica e cativante que apareceu ante seus olhos uma vez se acostumou à penumbra. O que viu a fez se sentir como se, ao afastar a cortina da tenda e entrar no espaçoso lugar, tivesse retrocedido de repente no tempo, a um lugar longe. De improviso desapareceram as imagens, a música e as risadas do salão de baile, ocultas e amortecidas pelas densas dobras da tenda, dentro da qual reinavam em qualquer parte sombras alargadas, e o único som que se ouvia era uma estranha e bela melodia que parecia flutuar como uma neblina pelo pavilhão.

Sobre o chão, no canto mais escuro, havia uma grande almofada quadrada, da cor ouro, adornado com cordões dourados e um sem-fim de bolas. Sobre ele, apenas visível na escuridão, estava sentado um anão e de pele morena que tocava as cordas de uma harpa.

No centro foram colocados móveis necessários para o desempenho do misterioso ofício de Madame Polgar. Incluíam-se uma cadeira como um trono, cabeças de carneiro e de cabra, serpentes, dragões, corvos e besouros, e um sofá em rico veludo de cor rubi. De ambos os lados da cadeira tinham candelabros dourados, em cada um dos doze braços havia uma vela acesa. Fora isto, o pavilhão não tinha qualquer outra iluminação. Dos braços dos candelabros, suspensos em labirínticas correntes, estavam pendurados incensários de ouro cujo penetrante aroma resultava exótico e estranho. Em frente a cadeira como um trono havia uma pequena vela redonda de madeira coberta com um xale de seda negra com muitas franjas, salpicado de sóis dourados, luas e estrelas. Sobre o xale havia um cofre de cor de ouro e uma grande bola de cristal, apoiada em um suporte dourado. Em frente à mesa, do outro lado da cadeira, havia um delicado tamborete de quatro pernas, cujo amplo assento estava coberto de um brocado dourado.

Sentada majestosamente no trono estava a adivinha, Madame Polgar, cuja idade podia estar entre os quarenta e os cem anos. Era extremamente difícil adivinhar, pois seu rosto bronzeado e inescrutável, com as maçãs do rosto altas e seu nariz proeminente e farpado, sem rugas, salvo por algumas muito pequenas, de modo que só suas mãos, brancas e salpicadas de manchas marrons, semelhantes a garras, com suas unhas largas e curvas pintadas de vermelho, testemunhavam que não era uma moça, a não ser uma anciã com muitos anos. Seus olhos fundos e puxados, pintados de negro, eram tão dourados e penetrantes como os de um falcão. Sua boca era carnuda e de cor escarlate. Na cabeça, lhe ocultando o cabelo, usava um turbante púrpuro adornado com plumas, no centro de cuja parte dianteira tinha um enorme rubi falso. Várias túnicas de seda púrpura e dourada cobriam seu corpo. Dos lóbulos de suas orelhas estavam pendurados grandes aros de ouro, e inúmeros braceletes dourados adornavam seus pulsos. Nos dedos vários anéis de ouro incrustados com pedras falsas. Quando falou, sua voz soou como o som de um corvo, baixa e densa. Seu francês tinha o forte sotaque de sua língua cigana nativa.

— Passa, Filha de Isis — disse com voz gutural — Estava há muito tempo te esperando.

— Supõe-se que sou Cleópatra — disse Ariana enquanto entrava lentamente na loja.

— Sim, sei. Cleópatra, que, enquanto viveu sobre esta terra, foi a encarnação da deusa Isis, e que escolheu como instrumento de sua morte não um áspide, como se acredita popularmente, e sim uma cobra consagrada à deusa Meretseger, a que ama o silêncio, e que era também a outra cara de Isis. Porque todas as deusas são em realidade uma única deusa, cada uma delas um rosto distinto, uma aparência diversa com a que a grande Deusa Terra, Divina Mãe de todos nós, apresenta-se ante nós. Assim, entre Filha de Isis. Entre e sente-se, e te lerei seu destino..., para bem ou para mau.

Ariana se aproximou da mesa com passo indeciso e se sentou docilmente no assento de brocado. Não estava assustada, pois sabia que sua mãe não teria contratado Madame Polgar se pudesse ser perigosa. Mas mesmo assim havia algo inexplicável e misterioso na adivinha, algo que a fazia estremecer-se. De repente, na escuridão da tenda, parecia como se Madame Polgar fosse extremamente velha, como se ela em pessoa tivesse caminhado pelas margens do Nilo quando Cleópatra vivia e reinava, embora Ariana soubesse que isso era de todo impossível.

— Acredita no destino, Filha de Isis? — perguntou-lhe a adivinha.

— Oui, suponho que sim. Não acredita todo mundo?

— Non, alguns pensam que tal poder não existe, que nossas vidas são o que nós fazemos delas, porque nos concedeu o livre-arbítrio. Mas, naturalmente, isso não é de tudo certo. Se não, que sentido teria rezar aos deuses e às deusas para que intervenham nos assuntos dos mortais?

— Pois... não sei. Acredito que nunca tinha pensado desde esse ponto de vista.

— Deveria fazê-lo. Agora, me deixe ver suas mãos — ordenou Madame Polgar.

Ariana obedeceu e, ao estender as mãos sobre a mesa, surpreendeu-lhe ver que lhe tremiam um pouco, embora não soubesse se por medo ou por nervosismo.

— A mão direita é a mão do destino — explicou Madame Polgar enquanto observava com atenção suas palmas — As linhas que vê sobre ela foram escritas também nos astros no momento de seu nascimento, e, se não tivesse vontade nem julgamento próprio, o que está escrito aqui seria em efeito o mapa de seu futuro. Mas a mão esquerda... a mão esquerda é a mão do livre-arbítrio e, como pode ver por si mesma, suas linhas diferem das da mão direita. São o mapa das decisões que tomou no passado e das que tomará no futuro, e que, para bem ou para mau, darão forma e mudarão o que o destino decretou para ti nesta vida.

— Nesta vida? — perguntou Ariana com o cenho franzido.

— Oui, porque, como sabe, a alma é imortal e não perece com o corpo, mas sim continua sua longa viajem para o único Deus e a única Deusa, pois o caminho que leva a nossos Pais não é nem reto nem fácil, a não ser um labirinto cheio de provas para a nossa sabedoria e nosso valor. Esse caminho não pode percorrer-se em uma só vida. Por isso a alma transita por muitas vidas, até que aprende tudo o que deve saber para fundir-se com o único Deus e a única Deusa — Madame Polgar juntou com força as mãos da jovem — E, durante cada uma dessas vistas, igual a suas mãos se entrelaçam a uma com a outra, assim se entrelaçam o destino e o livre-arbítrio, e de ambos nasce seu futuro.

— E que me reserva o meu?

— Está segura de que deseja saber a resposta a essa pergunta, Filha de Isis?

— Oui, Madame.

— Então..., vejamos o que há nele.

A adivinha soltou por fim as mãos de Ariana e fixou sua atenção na grande bola de cristal que havia a um lado da mesa. Colocando-a no centro, cobriu-a com uma ponta do xale de seda negra e começou a polir com lentos movimentos circulares que fizeram com que Ariana se sentisse hipnotizada enquanto observava os gestos da velha. O anão continuava tocando brandamente as cordas de sua harpa, mas sua música se tornou repetitiva e hipnótica, e parecia deixar Ariana em um estranho transe. O perfume penetrante e estranho dos incensários saturava o olfato de Ariana e ficava difícil de respirar. A cabeça lhe dava voltas, e se sentia estranha e desorientada, inclusive fora de si, como se estivesse observando o interior da tenda de uma grande distância. Ao fim de um momento, Madame Polgar afastou o xale da bola de cristal.

— Olhe agora a bola de cristal fixamente e me diga o que vê — ordenou a Ariana.

A jovem se inclinou para frente para olhar a bola de cristal, que uns minutos antes lhe tinha parecido tão transparente como um sino de cristal muito puro. Agora, em troca, para surpresa de Ariana, já não o era.

— Vejo... vejo névoa, Madame — disse lentamente.

— Isso é tudo?

Enquanto Madame Polgar fazia esta pergunta, a bruma esbranquiçada, que girava dentro da bola como um véu pelo vento abriu-se deixando ao descoberto um lago.

— Mon Dieu, é o lago! — exclamou Ariana, espantada ante a visão do lago que aparecia nos pesadelos que a atormentavam desde que podia recordar.

— O lago? — perguntou Madame Polgar brandamente.

— Oui, o lago Ness. Um lago das Terras Altas de Escócia. Eu... estudei-o em minhas aulas de geografia com mademoiselle Thibault.

— Compreendo. E o que vê nele?

— Um... um castelo avermelhado. Um lugar proibido e terrível.

— Como sabe?

— Eu... não sei. Só que, em apesar de sua cor, com certa luz parece tão branco e espantoso como um velho esqueleto. Assim tem que estar encantado... e maldito!

Recordando então que sua mãe lhe tinha proibido que falasse sobre aquele pesadelo com qualquer outra pessoa, Ariana se mordeu o lábio inferior e sacudiu a cabeça para tentar esquecer. Sentia-se aturdida e confusa, insegura de si mesma e de tudo que a rodeava. Pensou que talvez despertasse a qualquer momento para descobrir que estava na cama, sonhando, e afastou com muita dificuldade o olhar da bola de cristal. A música que tocava o anão ficava mais forte, e cheiro dos incensários, mais denso, enchia a tenda com uma aromática nuvem. Assustada por ter falado de seu pesadelo, Ariana desejou de repente sair dali, mas parecia lhe faltar a vontade.

Madame Polgar retirou a bola de cristal de sua anterior posição sobre a mesa e, ao fazê-lo, seus braceletes tilintaram. Logo abriu o cofre dourado e tirou um maço de cartas de tarô que ofereceu a Ariana.

— Corte as cartas três vezes, Filha de Isis — lhe disse.

Ariana cortou com dificuldade as cartas e logo as devolveu à adivinha, que começou a colocar os naipes sobre a mesa, formando um desenho complexo e antigo. Quando acabou, ficou olhando com atenção um momento e por fim disse com voz áspera:

— Os três reis que vê entre as cartas representam três homens aos que conhecerá no futuro. Tome cuidado com o rei de pentaclos — assinalou com uma unha vermelha o rei de ouros —porque a carta está ao reverso, o qual significa que é corrupto e perigoso, e que suas intenções para ti não são boas. O rei de espadas tem uma profissão... um homem da lei, talvez, ou de algum outro campo que requeira reflexão, análise e capacidade de planejamento. Mas não posso te dizer se será seu amigo ou seu inimigo. Em troca, que representa o rei de varas sentirá devoção por ti. Confia nele, se tiver que confiar em alguém, pois velará por ti até a morte. Muitos perigos lhe aguardam, Filha de Isis, e logo empreenderá uma viagem destinada que te levará por mar e terra até a guarida que há séculos habita um dragão. Faz muito tempo que espera sua volta, como os irmãos que são seus filhos. Neste mesmo momento estão se congregando desde todos os limites do mundo como um bando de corvos sobre um campo de batalha coberto de cadáveres. Desde muito longe chegou um intruso para reclamar o que pertence ao Antigo. Com ele, começará uma perigosa busca, embora o que busca não será o que encontre. Pois, de dois corações, só desejará um. Se aferre a esse, pois o outro te demonstrará sua falsidade ao final. Tem em suas mãos a chave de seu destino. Sempre a teve. Use-a sabiamente, Filha de Isis.

Quando Madame Polgar ficou em silêncio, Ariana levantou os olhos das cartas dispostas sobre a mesa e descobriu que a velha tinha desaparecido misteriosamente. A música magnética tinha cessado e o não se esfumou. Era como se a adivinha e ele se desvanecessem na fumaça aromática que saturava o interior da tenda. Confusa e perturbada, Ariana afastou o tamborete da mesa e ao se levantar percebeu que se encontrava também estranhamente fraca e trêmula. Agarrou-se por um momento na beirada da mesa até que, finalmente, suas pernas cobraram forças. Logo saiu cambaleando da loja e piscou, deslumbrada pelas luzes brilhantes do salão de baile.

— Ariana! Demorou uma eternidade! — exclamou Gabrielle ao vê-la — E está pálida e aturdida! O que te disse Madame Polgar?

— Oui, diga-nos. — lhe pediu Joséphine imperiosamente — Acaso não é certo o que lhe dissemos sobre ela, Ariana?

— Oui, é muito... misteriosa, sim — respondeu Ariana enquanto respirava fundo, tentando acalmar-se — Tanto que não sei o que pensar.

— Bom, e o que te disse? — perguntou Véronique.

— Tantas coisas que nem sei por onde começar — respondeu Ariana, inquieta ainda por ter desobedecido as advertências de sua mãe — Além disso, era tudo tão estranho e tão crítico que não tinha nem pé nem cabeça. Me disse que logo vou fazer uma viagem por terra e mar — Ariana recuperou pouco a pouco a compostura e, encolhendo os ombros, começou a rir para tirar importância dos augúrios. Só acreditarei quando acontecer, porque nem sequer posso conceber a idéia de abandonar a França.

Entretanto, no dia seguinte, para desânimo de Ariana, a situação política, longe de apaziguar-se, piorou. Levantaram-se barricadas em todos os bairros de Paris, e os coronéis da guarda nacional informaram que seus homens exigiam que o rei Luis Felipe cassasse imediatamente ao primeiro-ministro, François Guizot. Depois deste anúncio, uma consulta aos generais de infantaria deu os resultados mais desalentadores, pois nenhum comandante se atrevia a responder por suas tropas se a guarda nacional ficasse do lado das multidões de cidadãos que começavam a tomar as armas em nome da revolução e a reforma.

O rei pareceu por fim compreender a seriedade da situação a que se enfrentava e não teve mais remédio que ceder às exigências do povo e desfazer-se de Guizot e seus seguidores. O primeiro-ministro e seu gabinete foram cassados de maneira fulminante. Ajudantes e os oficiais do exército, montados a cavalo, galopavam pelas ruas de Paris para difundir a notícia. Mas, mesmo assim, os rebeldes não retiraram as barricadas que tinham levantado nessa manhã. Guizot, por sua parte, consciente do desprezo que sentia por ele o povo, permaneceu em sua casa, o Hotel dê Capucines, com uma enorme força militar tanto dentro como fora do edifício. Mas o Hotel de Lévesque carecia de defesas e, quando as notícias do que estava acontecendo chegaram a seu lar, Ariana temia pela segurança de sua família e serventes. Parecia mentira que na noite anterior se celebrou ali um baile de máscaras.

— O que está acontecendo nas ruas, Sophie? — perguntou a sua donzela, que acabava de entrar no quarto — Ouvi às pessoas passarem cantando e falando e tudo parece tão próximo... Ainda está o povo em armas? Estão perto daqui? Oh, têm que estar! Tenho certeza!

— Oui, mademoiselle — disse Sophie ao deixar a bandeja que levava sobre uma mesinha — Dizem que os rebeldes estão pedindo que se acendam as luzes para iluminar todo Paris, e por isso em todas as casas ao redor de Tullerias as pessoas colocaram abajures e velas nas janelas para apaziguar às massas. Aos que se negam a cumprir suas exigências, os rebeldes os ameaçam apedrejando suas janelas, e em alguns lugares já atiraram algumas pedras. O ministério da Justiça não fez caso e foi atacado por mais de dez mil homens.

— Oh, non! — exclamou Ariana, alarmada.

— Temo que é certo, mademoiselle — Sophie deu uma taça de chocolate a sua senhora e começou a acender os abajures e colocá-los nas janelas — Os rebeldes romperam as janelas do ministério e puseram fogo na porta principal. Mas não se preocupe, mademoiselle. Assim que se soube que estavam atacando o ministério, um batalhão de soldados e vários destacamentos da guarda nacional foram enviados para restabelecer a ordem. Formaram uma linha através da rua Castiglione, e não permitem passar a ninguém.

Ariana confiava fervorosamente que com aquilo bastasse para sufocar o estalo de violência. Mas, por volta das dez, no Hotel dê Capucines, onde Guizot se negava a acender as luzes ou velas, teve lugar um espantoso massacre. As tropas ao redor do hotel tinham ocupado as calçadas, obrigando os reunidos ali a retroceder para o meio-fio, que, como às calçadas dos bulevares, estava cheia de manifestantes e curiosos. Durante algum tempo, a manifestação se manteve em paz, mas logo apareceu um grupo de artistas e estudantes desarmados que começaram a desfilar pelos bulevares cantando Mourir pour a Patrie. Pouco depois, disparou-se acidentalmente uma pistola e a bala deu na pata do cavalo do comandante das tropas. Acreditando que suas tropas estavam sendo atacadas, o comandante deu ordem para disparar, e o décimo quarto batalhão de assalto levantou suas armas para efetuar uma descarga mortal contra a multidão. Uns quantos que viram os soldados empunhar suas armas, preparando-se para abrir fogo, atiraram-se no chão e salvaram assim a vida. Mas todos os outros, homens, mulheres e meninos de todas as classes, caíram ali onde estavam e seu sangue se derramava sobre o pavimento. Imediatamente estendeu-se o pânico, e as pessoas que por milhares se congregaram na frente do Hotel dê Capucines fugiram, cheias de pavor, em todas as direções.

Atraída pelo som aterrador dos disparos às portas do balcão que dava para a rua Saint Honoré, Ariana estremeceu ao ouvir os gritos de «Traição!» que corriam pelos bulevares. Logo, quando as notícias começaram a estender-se pelas ruas da cidade, inteirou-se de que a gritaria que tinha ouvido procedia do Hotel dê Capucines e de que talvez mais de uma centena de pessoas tinham sido assassinadas pelos soldados, depois do qual um batalhão de soldados armados com espadas tinha carregado contra a multidão.

No dia seguinte, depois de outro amanhecer singularmente cinza, lúgubre e chuvoso, Ariana se levantou pouco depois do meio-dia com a surpreendente noticia de que, como resultado da catástrofe da noite anterior, o rei Luis Felipe tinha abdicado e que, por causa daquela calamitosa decisão, o futuro da França pendendo por um fio, seu pai havia resolvido cruzar o canal da Mancha com toda a família e fugir para a Inglaterra, onde estariam a salvo. Ao parecer, a viagem que lhe tinha dito Madame Polgar tinha começado.

 

         O passado enterrado

 

                   1848

                   Oxford Street, Baker Street e Hatton Green, Londres, Inglaterra

À manhã seguinte do brutal ataque que tinha sofrido em frente à casa do senhor Quimbly, Malcolm despertou dolorido e duro por culpa da surra que tinha recebido. Ficou deitado na cama, pensando no ocorrido da noite anterior, com a esperança de que aqueles rufiões tivessem saído pior que ele, e ao fim, consciente de que não podia ficar na cama, levantou-se com muita dificuldade e, ao fazer sua higiene diária, alegrou-se ao ver no espelho que ao menos não tinha o rosto marcado. De não ser assim, teria que inventar alguma mentira, pois não queria que sua mãe soubesse. Sem dúvida se alarmaria e pensaria o pior: que tinha sido atacado por seus inimigos.

Mas, depois de refletir longamente sobre o incidente, Malcolm não estava tão seguro disso. Era certo que, tal e como tinha observado o policial na casa do senhor Quimbly, o ataque não parecia obra de vulgares ladrões cuja única intenção fosse lhe roubar. Mas isso não significava necessariamente que os Foscarelli tivessem algo a ver com o assunto. Afinal de contas, podia ser uma simples coincidência terem lhe atacado na noite do mesmo dia que os dois estrangeiros tinham entrado na loja do senhor Quimbly. Ou acaso havia alguma outra conexão, mais sinistra, da qual ainda não era consciente? Malcolm não sabia ainda, e o fato de não saber causava uma profunda inquietação.

Depois de vestir-se e tomar o café da manhã, saiu de Hawthorn Cottage a caminho da parada de ônibus de Saint John's Wood. Apesar de que o senhor Quimbly lhe havia dito para não se apressar, estava ansioso por chegar a Quimbly & Company. Queria acabar o quanto antes seu trabalho para comer tranquilamente com o senhor Quimbly. Embora soubesse que sua mãe, se soubesse que pensava contar sua história a seu chefe, teria se mostrado horrorizada ante a idéia, era consciente de que, para ter alguma oportunidade de reivindicar o passado que lhe tinham roubado, ia necessitar ajuda. E, naturalmente, naquele momento sua mãe de pouco podia lhe ajudar. Embora ao parecer lhe houvesse dito já tudo que sabia, Malcolm não tinha dúvida alguma de que o tinha feito unicamente para satisfazer sua curiosidade e como salvaguardar-se contra seus adversários, deixando claro que não desejava que embarcasse em plano algum para tentar encontrar o Coração de Kheperi ou vingar a morte de seu pai e seu tio Charles. Mas, de um modo ou outro, cobraria a vingança, pensava Malcolm com séria determinação.

Para então, o ônibus tinha chegado a Oxford Street. Desceu do carro cheio de gente e entrou apressadamente na loja, onde imediatamente começou a trabalhar no mapa que no dia anterior tinha cometido tantos enganos. Quando por fim o acabou, observou com orgulho que tinha feito um bom trabalho e pensou que o senhor Quimbly estaria satisfeito, apesar de que o papel tinha ficado um pouco fino no lugar onde tinha aplicado a borracha mais do que necessário.

— Sim, assim basta. Ficou muito bem, Malcolm — disse o senhor Quimbly quando viu o mapa — Duvido que eu mesmo faça melhor. Estende-o sobre a mesa e, quando Harry tiver almoçado, que comece a preparar as pranchas. Enquanto isso, você e eu vamos a minha casa, porque tenho que admitir que, depois do desafortunado incidente de ontem à noite, estou desejando saber o que é o que te contou sua mãe de tão importante como para que te visse impelido a ir me visitar a essas horas da noite. Espero que se sinta um pouco melhor esta manhã e que sua mãe não saiba o que aconteceu.

— Não, senhor. Tinha razão, só teria servido para alarmá-la... e por mais razões das que você acredite. Mas este último pertence à história que minha mãe me contou ontem e que desejo lhe relatar, senhor Quimbly. Porque, para lhe ser franco, senhor, necessito ajuda e conselho, e não me ocorre outra pessoa a quem recorrer e em quem confie mais que em você, nem por cujo conselho tenha mais consideração.

— Bom, Malcom, sinto-me realmente adulado. Nesse caso, espero estar à altura de suas expectativas. Bom, vamos pegar nossos casacos e a nos pôr a caminho. Porque confesso que agora me consome até mais a curiosidade que antes.

Uma vez que pegaram seus casacos e saíram da loja de mapas, o senhor Quimbly, apesar dos protestos de Malcolm, insistiu em pegar um carro que os levasse a sua casa.

— Demoraremos muito menos que a pé e, embora hoje se encontre melhor, Malcolm, não acredito que se sente bem dar um passeio com esta chuva e este frio.

Assim, sem novos protestos, o jovem consentiu em pegar um carro, se sentindo secretamente aliviado por economizar o passeio até a casa de seu chefe no meio da garoa e o áspero vento. Pararam um carro que os deixou em frente ao edifício de tijolo no qual o senhor Quimbly tinha seu lar. O senhor Quimbly abriu com sua própria chave e saudou amavelmente à senhora Merritt quando, ao ouvi-los chegar, se apresentou no vestíbulo para ajudá-los a tirar o casaco, o chapéu, as luvas e o guarda-chuva.

Ato seguido, os dois homens se dirigiram a sala, onde descobriram que a cozinheira do senhor Quimbly, a senhora Saltash, tinha preparado sopa de verduras, frango assado, pudim de cenouras, uma fornada de pão recém assado e um delicioso bolo de maçã. Polly, a donzela, serviu-lhes a comida e, depois de fazer uma pequena reverência, deixou-os sozinhos para que desfrutassem do almoço. Uma vez sozinhos, o senhor Quimbly tomou de novo a palavra.

— Agora, Malcolm, se não interromper em excesso seu almoço, sugiro que me conte essa história enquanto comemos. Assim poderei refletir sobre a questão e decidir se posso te ajudar de algum modo... ou, ao menos, se posso te dar algum conselho que mereça a pena ouvir.

Assim, entre bocado e bocado, Malcolm relatou a seu chefe o que sua mãe lhe tinha contado no dia anterior, enquanto o senhor Quimbly lhe escutava atentamente, proferindo de vez em quando uma exclamação, meneando a cabeça, cheio de assombro, ou intercalando alguma e outra pergunta. Quando Malcolm acabou de narrar sua história, os dois tinham acabado seu almoço e se achavam tomando o café e comendo o bolo de maçã.

— Tenho que te dizer que estou completamente atônito, Malcolm — disse o senhor Quimbly, pensativo — Percebe que, se essa esmeralda perdida existe ainda e for encontrada, valeria sem dúvida uma fortuna e te converteria em um homem extremamente rico?

— Sim, mas prefiro não me fazer ilusões a respeito, senhor. Acima de tudo, quero que se faça justiça pelos assassinatos de meu pai e de tio Charles.

— Sim, mas tem que entender, Malcolm, que há muitas classes de justiça... e a de olho por olho e dente por dente não é necessariamente a mais desejável. Há outros modos, possivelmente melhores, de enfrentar-se os Foscarelli, como sem dúvida seu pai sabia. Trouxe o crucifixo que te deu ontem sua mãe? — Malcolm assentiu — Se importaria de me mostrar ou prefere guardá-lo em segredo?

— Não, pode vê-lo, naturalmente, senhor — Malcolm tirou a cruz de debaixo de sua camisa, puxou a corrente do pescoço e deu o crucifixo a seu chefe — O examinei com cuidado quando minha mãe me deu, mas não consegui descobrir nada singular nele.

— Hum — disse o senhor Quimbly enquanto observava a cruz — Eu tampouco vejo nada que me chame a atenção. Assim, devemos consultar alguém mais versado nestas matérias. Por sorte, tenho um bom amigo dono de uma joalheria em Hatton Garden. É judeu e se chama Jacob Rosenkranz. Se não tiver objeção, acredito que deveríamos lhe levar o crucifixo para que o examine. Dou-te minha palavra de honra de que é um homem extremamente discreto.

— Confiou em seu bom julgamento, senhor Quimbly — respondeu Malcolm lentamente.

— Bem. Então, estamos de acordo — comentou o senhor Quimbly, satisfeito. Tirou do bolso de seu colete azul de raias seu relógio de ouro, olhou a hora e soltou um suspiro — Mas, por desgraça, hoje é muito tarde para que visitemos Jacob. É hora de voltar para a loja. Entretanto, poderíamos ir amanhã e almoçar no botequim de Old Mitre. O que te parece, Malcolm?

— Parece-me uma excelente idéia, senhor. E me permita lhe dizer quanto agradeço seu conselho e sua ajuda neste assunto.

— Oh, por favor, não há de que — o senhor Quimbly se ruborizou e desdenhou com um gesto da mão as amostras de agradecimentos do jovem — Sou eu quem se sente profundamente adulado porque acreditou em mim, Malcolm. Como sabe, adoro os quebra-cabeças, e isto é um maravilhoso mistério e uma grande aventura! — o velho senhor sorriu jovialmente — Caramba, não me divertia tanto desde que era um menino! O único que me preocupa agora é se a agressão que sofreu ontem à noite tem algo a ver com este assunto.

De momento, será melhor que assumamos que assim é e que tomemos as precauções devidas. Acredito que para começar bastará com que tome lições de boxe, esgrima e pontaria.

— Já sou um excelente atirador, senhor — interrompeu Malcolm — Meu pai me ensinou. Estávamos acostumados a caçar juntos. Não pratico muito ultimamente, mas...

— Então tem que começar a fazê-lo imediatamente! — insistiu com energia o senhor Quimbly — Porque, para ser franco, esses italianos, esses Foscarelli, não me parecem pessoas muito agradáveis. Jogadores profissionais e assassinos! Sim, devemos nos andar com muito olho, Malcolm, e medir bem nossos passos. Agora, vamos fumar um charuto e beber um copo de oporto para aquecer antes de sair outra vez à rua, pois, pelo que vejo das janelas, está chovendo ainda mais forte e não parece que o vento diminuiu.

Malcolm e seu chefe se retiraram à acolhedora biblioteca da casa, onde desfrutaram de um bom charuto e uma taça de oporto antes de retornar a Quimbly & Company. Uma vez de volta ao trabalho, o senhor Quimbly enviou uma breve nota a seu amigo Jacob Rosenkranz lhe informando que pensavam aparecer em sua joalheria no dia seguinte, na hora do almoço, se não tivesse inconveniente, e mandou Tuck a Hatton Green com a mensagem. Tuck voltou depois de um tempo com uma nota em que o senhor Rosenkranz dizia estar livre a essa hora e se mostrava encantado por ter a oportunidade de ver seu velho amigo.

Assim, no dia seguinte, pouco antes do meio-dia, o senhor Quimbly deixou de novo Harry a cargo da loja, parou um carro e Malcolm e ele partiram para a Hatton Green. De Oxford Street, o carro os levou até a loja de Jacob Rosenkranz circulando por High Street até High Holborn e logo pela própria rua Holborn, antigos meio-fios romanos que culminavam na Holborn Circus, a praça que ficava junto à entrada sul de Hatton Garden. Como Malcolm não tinha oportunidade de visitar frequentemente aquela parte de Londres, olhava tudo com interesse enquanto o carro avançava para Hatton Green, até parar em frente uma loja pequena e de aspecto austero em cujo letreiro se lia Rosenkranz's, joalheria fina. Depois de descer do veículo, o senhor Quimbly e ele entraram no estabelecimento, cuja campainha de bronze soou discretamente quando cruzaram a porta.

Imediatamente um jovem foi recebê-los. Mas em seguida apareceu atrás dele um cavalheiro mais velho que Malcolm reconheceu imediatamente como Jacob Rosenkranz. O proprietário da joalheria era um homem alto, enxuto e de aspecto sagaz, com um par de óculos ovais de aros de prata que combinava com a cor de seu cabelo e com sua larga barba, e atrás dos quais brilhavam uns olhos escuros e penetrantes que passeavam sem cessar pela estadia. Ia completamente vestido de negro, com um sóbrio terno negro de bom pano, e parecia perpetuamente zangado. Malcolm descobriu logo, entretanto, que apesar de ser prudente e estrito, o senhor Rosenkranz era também um homem escrupulosamente honesto que não enganava nem a seus empregados nem a seus clientes e que possuía uma postura seca e afiada como uma navalha que excitava o senso de humor do próprio Malcolm. Em resumo, o joalheiro não tolerava de bom grado os tolos e, não era nem mesquinho nem avaro, não estava disposto a aproveitar-se deles.

— Jacob, como está? — perguntou afetuosamente o senhor Quimbly.

— Como sempre: com muito trabalho, pouco dinheiro e gelado até os ossos.

— E por que não sai de férias, sobe os preços a seus clientes e joga um pouco mais de carvão ao fogo?

— Porque não posso partir e deixar a loja sozinha, a metade de meus clientes não pagam suas dívidas porque vivem acima de suas possibilidades, e, se jogar um pouco mais de carvão no ralo, a lareira se esquentará tanto que explodirá e o que seria de mim então?

— Suspeito que acabaria na prisão, Jacob. Não acredito que às autoridades achassem graça que fizesse voar uma boa parte de Hatton Green. Agora, me permita te apresentar meu oficial, o senhor Malcolm Blackfriars. Malcolm, este é o senhor Jacob Rosenkranz. Não preste atenção a seu eterno e diabólico fatalismo. Vai com o ofício. Se você e eu cometemos um engano ao desenhar um mapa, podemos simplesmente apagá-lo. Mas para Jacob um engano pode significar fazer pedacinhos uma gema cara ou inclusive de incalculável valor.

— Assim é — disse o joalheiro, assentindo — Enfim, cavalheiros, me acompanham a meu escritório? Aarón, Hezekiah, tragam um pouco de chá para nossos convidados, por favor.

Enquanto seus dois aprendizes se apressavam a cumprir suas ordens, o senhor Rosenkranz conduziu Malcolm e o senhor Quimbly para seu escritório particular. Uma vez ali, o joalheiro os convidou a sentar-se nas duas cadeiras que havia em frente a seu escritório, depois do qual tomou assento. Um dos aprendizes levou uma bandeja que depositou cuidadosamente sobre a mesa.

— Obrigado, Aarón, isso é tudo por agora — disse o joalheiro e, ao partir o aprendiz, serviu o chá nas delicadas taças de porcelana de Meissen dispostas sobre a bandeja.

Quando as taças estiveram servidas, o senhor Rosenkranz tomou de novo a palavra.

— Bom, Septimus, embora me alegre muito te ver, meu velho amigo, dado que trouxe o senhor Blackfriars contigo, suponho que não veio por simples cortesia...

— Não, em efeito. Quero que Malcolm te conte uma história, depois da qual desejamos conhecer sua opinião sobre algo de soma importância para ele. Mas, antes que comece, deve me dar sua palavra de honra de que nada do que digamos sairá daqui sem o consentimento de Malcolm. Lamento me pôr tão misterioso, mas o certo é que talvez estejamos enfrentando a uma questão de vida ou morte.

— Santo céu! Tem-me em brasas! Muito bem, pois. Tem você minha palavra, senhor Blackfriars, e, como suponho que Septimus lhe haverá dito já, cumprirei minha promessa, assim não tem nada que temer.

— Sim, senhor, isso me disse o senhor Quimbly.

Dito isto, Malcolm relatou de novo sua história da mesma maneira que a tinha contado ao senhor Quimbly na tarde anterior, oferecendo deste modo o relato do ataque que tinha sofrido em frente à casa de seu chefe, embora deixou claro que ignorava se o incidente tinha a ver com o assunto em questão. O senhor Rosenkranz lhe escutou atentamente, proferiu alguma ou outra exclamação, meneou a cabeça e intercalou uma pergunta ou duas. Quando Malcolm acabou seu relato, o senhor Quimbly falou de novo.

— Como compreende, Jacob, nós gostaríamos muito que examinasse o crucifixo de Malcom e nos dissesse se há nele algo singular.

— Naturalmente, farei encantado — respondeu o joalheiro enquanto seus olhos penetrantes reluziam — Mas primeiro quero lhes mostrar algo — levantou-se da cadeira giratória de seu escritório e, puxando um pequeno anel de chaves do bolso de seu colete negro, abriu um armário próximo do qual extraiu um cofre de bom tamanho. Colocou-o sobre a mesa e voltou a sentar-se — Quanto tempo faz que somos amigos, Septimus? — perguntou.

— Tanto tempo que prefiro não contar! Mas desde que fomos uns pirralhos, como bem sabe, Jacob.

— Sim, tínhamos onze ou doze anos quando nos conhecemos, não é certo? Não acredito que fôssemos maiores. Uns jovens vândalos tinham implicado comigo porque era judeu — explicou o senhor Rosenkranz a Malcom — e decidiram me dar uma surra. Esperaram-me em Smithfield Market, na feira de São Bartolomé, e talvez tivesse tido uma morte prematura se não fosse por Septimus e por nosso bom amigo Boniface Cavendish, que por acaso passavam por ali e que, dando amostras de grande valor, conseguiram afugentar a esses rufiões com paus e pedras. Assim foi como me salvei. Mas agora, depois de ouvir sua história, senhor Blackfriars, veio-me à mente a obra de Friedrich von Schiller A morte de Wallenstein. Conhece-a você?

— Sim, senhor, conheço.

— Então sem dúvida conhecerá o verso que diz: «A casualidade não existe, e quanto nos aparece como um mero acidente brota das mais profundas fontes do destino». Esta tarde, depois de tantos anos, estou começando a pensar que talvez não foi simples casualidade que Septimus e Boniface fossem em meu auxílio nesse dia na feira de São Bartolomé. Perguntará você por que, assim me permita compartilhar com você minha própria história, a qual passou através de minha família há muitas gerações. Como sem dúvida saberá, senhor Blackfriars, os judeus foram perseguidos ao longo de toda a história, e minha família não foi uma exceção. Faz quase dois séculos, emigramos a este país, que agora é a Alemanha, com a esperança de melhorar nossa sorte. Mas, embora éramos joalheiros de ofício, logo descobrimos que era difícil estabelecer-se nesse negócio aqui, em Londres. Porque, devido à perseguição e o mau trato que recebemos em nosso país de origem, chegamos aqui com muito escassos meios. Assim, ao princípio, meus parentes ganharam a vida como puderam, principalmente como prestamistas. Um deles montou uma pequena loja em Birchin Lane. Uma noite, de madrugada, esse antepassado meu, Ezekial Rosenkranz, que era o dono do negócio nesse momento e vivia em um pequeno apartamento em cima da loja, despertou sobressaltado pelos golpes que alguém estava dando em sua porta. Ao princípio, como poderá imaginar, sentiu-se aterrorizado, pois temia que fossem as autoridades, dispostas a lhe prender por alguma razão desconhecida, ou algum canalha que pretendia lhe fazer alguma maldade por ser judeu. Assim no princípio fez ouvidos surdos, confiando em que, se não respondesse à porta, quem chamava iria embora. Mas os golpes ficaram cada vez mais fortes e insistentes e por fim, temendo que seus vizinhos despertassem, Ezekial se armou de valor e se atreveu a colocar a cabeça pela janela para tentar ver o que estava acontecendo. Então viu na calçada um homem sozinho que, ao vê-lo, pediu-lhe que descesse e abrisse a loja imediatamente, insistindo em que era questão de vida ou morte. Embora ainda com medo, Ezekial atendeu por fim às demandas do desconhecido ao não ver ninguém mais com ele, e desceu para abrir a porta. Depois de olhar de um lado a outro de Birchin Lañe para assegurar-se de que ninguém os via, o desconhecido entrou apressadamente e se desculpou uma e outra vez por ter despertado Ezekial a uma hora tão inoportuna. Logo pareceu refazer-se e se apresentou por fim, dizendo que era Westerfield, o ajudante do conde de Dúndragon, o qual se alojava ali perto, na estalagem George & Vulture, no beco de Saint Michael.

— Não! — exclamaram ao mesmo tempo o senhor e Malcom, estupefatos.

— Sim, é lógico que isto os assombre, cavalheiros. Eu também fiquei perplexo ao ouvir a história do senhor Blackfriars. Pode que agora comecem a perceber por que me veio à memória essas sábias palavras de Schiller, pois quais eram as probabilidades de que

Septimus e eu nos fizéssemos amigos por azar há tantos anos e que no dia de hoje tenha tido a sorte de trazer você a minha loja, senhor Blackfriars? Trata-se de uma simples coincidência? Eu não acredito. Mas estou divagando. Permitam retornar a meu antepassado, Ezekial, o prestamista, e a Westerfield, o ajudante do conde de Dúndragon. Como já sabem pelo relato da mãe do senhor Blackfriars, lorde Dúndragon se embarcou em uma arruinada partida de cartas com o conde Foscarelli, e, depois de acusá-lo indiretamente de trapacear, tinha sido desafiado em duelo. Mas o que não sabem é que lorde Dúndragon não tinha intenção de ir àquela fatídica entrevista. Tinha intenção de fugir para o continente e, achando-se necessitado de dinheiro para a viagem, enviou seu ajudante à loja de Ezekial para penhorar as poucas posses que tinha. Entre elas se encontrava um relógio de ouro de bolso, um selo de ouro e um crucifixo de prata.

Neste ponto, Malcolm e seu chefe romperam de novo em exclamações de assombro, mas antes que qualquer um deles conseguisse dar voz às perguntas que lhes assaltavam, o joalheiro os fez calar levantando uma mão.

— Esperem... e lhes prometo que ouvirão toda a história — disse Rosenkranz brandamente. Logo tomou ar e prosseguiu com seu relato — Durante a transação, Westerfield se mostrou muito resistente ao separar-se da cruz, por medo de que seu senhor fosse incapaz de pegá-la mais tarde, e por fim pediu a Ezekial papel e pluma para escrever uma nota ao irmão menor e herdeiro de lorde Dúndragon, Neill, então visconde de Strathmor, lhe informando o paradeiro do crucifixo. Westerfield justificou seu pedido explicando que a cruz era um legado muito importante para a família devido a seu valor sentimental, mas tal era sua agitação que Ezekial começou a suspeitar imediatamente que ali havia algo errado, e aquela impressão se manifestou apenas uns minutos depois. Porque, quando Westerfield abandonou por fim a loja, Ezekial, que o estava observando da cristaleira, viu como era assaltado ferozmente por vários estrangeiros de pele escura que tinham permanecido escondidos nas sombras e que o levaram arrastado a um beco do qual não voltou a sair. Esses homens eram sem dúvida empregados do conde Foscarelli. Meu antepassado, como é fácil imaginar, temia ser a seguinte vítima daqueles homens e, acreditando que Westerfield, querendo ou sem querer, tinha-lhe envolvido em algum assunto secreto e sem dúvida perigoso, pegou a mensagem de Westerfield para o visconde de Strathmor e o crucifixo, saiu furtivamente da loja e foi correndo a Petticoat Lane, no gueto, onde viviam vários parentes deles. Ali, na casa de seu sobrinho, Ezekial desenhou com todo detalhe a cruz e guardou o desenho e o crucifixo sob as tábuas do chão. Depois escreveu uma carta ao visconde de Strathmor em que lhe informava de todo o ocorrido e lhe dava indicações sobre quando e onde podia reclamar a cruz e a breve nota de Westerfield. Como medida de precaução, Ezekial ficou vários dias sem aparecer por sua loja, mas enviava seu sobrinho em segredo, o qual foi muito sensato de sua parte, como se demonstraria mais tarde, pois durante esse tempo os valentões do conde Foscarelli entraram na loja e a saquearam de cima abaixo, e Westerfield apareceu morto por uma surra no beco mais próximo. Ao final, Ezekial recebeu resposta do visconde de Strathmor, com o qual se encontrou no lugar e a hora combinados. A cruz foi resgatada por uma soma muito mais elevada do que o que valia e que a quantidade pela qual tinha sido penhorada. Para então a notícia da morte de lorde Dúndragon às mãos do conde Foscarelli tinha andando já por todo Londres, como é lógico. Sabia-se também que o italiano tinha tomado posse de todas as propriedades dos Ramsay tanto na Escócia como na Inglaterra, pois lorde Dúndragon tinha cometido a estupidez de apostar naquela calamitosa partida de cartas. Entretanto, o visconde de Strathmor nunca tinha abrigado esperanças de herdar as terras dos Ramsay, pois acreditava, naturalmente, que seu irmão mais velho, lorde Dúndragon, se casaria cedo ou tarde e teria herdeiros.

Assim, se achando na necessidade de lavrar um futuro, o visconde de Strathmor tinha abraçado a carreira militar, na qual prosperou rapidamente, e tinha feito uma série de investimentos muito prudentes que, embora não conseguiram lhe dar uma fortuna, asseguravam-lhe uma posição desafogada. Daí como pôde recompensar generosamente meu antepassado por sua honestidade e sua ajuda. Foi, em realidade, esse dinheiro, junto com os benefícios que lhe deu com a venda posterior da loja de penhores, o que permitiu a Ezekial fundar esta joalheria. Assim, como verá, senhor Blackfriars, por estranho que pareça, sua família e a minha se cruzaram de maneira irrevogável há muito tempo —chegado a este ponto, o joalheiro fez uma larga pausa. Logo, utilizando outra chave do chaveiro, abriu o cofre que tinha posto sobre sua mesa e, depois de rebuscar cuidadosamente entre os papéis que havia nela, tirou lentamente um desenho amarelado, enrugado e quebradiço, e o ofereceu a Malcom — É este seu crucifixo, senhor Blackfriars? — perguntou com expressão grave.

— Sim, sim, em efeito, senhor! Tenho quase certeza! — respondeu Malcolm elevando a voz, cheio de excitação. Logo se apressou a tirar a cruz de debaixo de sua camisa, puxou a corrente que tinha pendurada ao redor do pescoço e entregou o crucifixo ao joalheiro para compará-lo com o desenho.

— Para falar a verdade, e apesar de tudo, ainda não posso acreditar que seja o mesmo. Em toda minha vida tinha sonhado em segurar em minhas mãos a cruz que desenhou Ezekial há quase um século — o senhor Rosenkranz sacudiu a cabeça, assombrado — É uma peça muito valiosa — afirmou depois de estudar um momento o crucifixo — É de prata maciça e não de latão, certamente, e o trabalho de ourives é maravilhosos. Mas, além disso, não vejo nada que pudesse me levar a acreditar que se trata de algo mais do que parece a simples vista. Mas não se desanime, senhor Blackfriars, pois as aparências são enganosas, e todos sabemos que o crucifixo tem que ter algum significado oculto, ou, com toda probabilidade, o pobre Westerfield não teria sido assassinado por ele, nem a loja de Ezekial saqueada, nem a recompensa do visconde de Strathmor teria sido tão generosa. Além disso, o desenho da peça é extremamente intrincado... e pode que haja alguma escura razão para isso — o joalheiro abriu uma das gavetas de seu escritório, tirou sua lupa e observou de novo a cruz — Ah! — suspirou por fim com grande satisfação enquanto um sorriso triunfante brincava nas comissuras de sua fina boca — É o que imaginava. Aqui está — passou a lupa a Malcolm — Olhe atentamente esta parte do desenho, esses ramos entrelaçados, com suas flores e seus espinhos. Sim, aí. No desenho, por ser de duas dimensões, não se vê muito bem. Mas o vê você? No centro da grinalda de ramos, o que parece a princípio um simples raminho ou um espinho é na realidade um número romano. O um.

— Sim, já o vejo — disse Malcolm, passando a lupa ao senhor Quimbly para que pudesse observar o desenho — Mas o que significa?

— Disse você que seu tio Charles tinha outro crucifixo, não? — perguntou o joalheiro.

— Sim, um igual a este, ou isso me disse minha mãe.

— Oh, com o devido respeito, duvido que seja igual a este, senhor Blackfriars — afirmou o senhor Rosenkranz — Porque, se as cruzes fossem idênticas, para que servem esses números?

— É certo! — exclamou o senhor Quimbly, atônito.

— Bom, suponho que para as diferenciar, para saber qual pertencia a meu pai e qual ao tio Charles — disse Malcom.

— Sim, isso também é certo — reconheceu seu chefe, desiludido.

— Vejo que não me expliquei bem. O que quero dizer é para que teria que distinguir as cópias — inquiriu o joalheiro franzindo o cenho, pensativo — Se forem exatamente iguais, o que importa que alguém leve o número um e outra o número dois ou vice-versa? Por que numerar os crucifixos? Se um cavalheiro e seu mordomo têm cada um uma cópia da casa do primeiro, põem-lhes um número a cada uma, quando ambas abrem a mesma porta?

— Sim, já entendo aonde quer chegar — disse Malcolm lentamente enquanto refletia sobre aquela curiosa questão — Há uma razão que explica esses números, uma razão que, naturalmente, desconhecemos. Além disso, o conde Foscarelli deveria ter uma boa razão para associar minha cruz com a esmeralda perdida. Porque, se não, como você diz, por que seus homens se incomodariam em assaltar e matar o pobre Westerfield e saquear a loja de Ezekial?

— Exato! — o semblante do senhor Rosenkranz expressava sua exaltação — Acredito que podemos estar quase seguros de que, por mais inofensivo que possa nos parecer, o crucifixo é a chave para encontrar o Coração de Kheperi.

— A verdade é que não sei por que jogam os sinos ao vento — comentou mal-humorado o senhor Quimbly — Porque, se tudo isso for certo, e não tenho razões para acreditar que não o seja, acaso não vêem o que significa? Com toda probabilidade significa que necessitaremos as duas cruzes para encontrar a esmeralda maldita. Assim, sabem onde está o outro crucifixo?

— Por desgraça, não — Malcolm deixou escapar um profundo suspiro — Desde o dia que minha mãe e eu nos separamos de tia Katherine e de seus filhos na estalagem de Newcastle-upon-Tyne, não tivemos mais notícias deles. Minha mãe ainda se angustia profundamente cada vez que pensa nisso.

— Sim, já imagino — respondeu o joalheiro com delicadeza — É uma pena que a outra cruz se perdeu, pois sem dúvida nos seria de grande ajuda poder as comparar. Hei aqui o que lhe proponho, senhor Blackfriars, se me permitir a ousadia. Se Septimus e você me fazem a honra de me permitir fazer parte de seu grupo nesta aventura, começarei imediatamente a fazer pesquisas sobre o segundo crucifixo, com toda discrição, certamente. Nós, os judeus, formamos uma sociedade muito estreita, e, além disso, há muito somos joalheiros. Assim que talvez seja possível que me inteire de alguma coisa sobre o paradeiro da outra cruz.

— Uma idéia excelente, Jacob! — exclamou o senhor Quimbly com um sorriso radiante — Estou seguro de que falo por Malcolm, além de por mim mesmo, quando digo que estaremos encantados de te ter em nosso grupo e que lhe agradecemos qualquer ajuda que possa nos prestar.

— Sim, sim, certamente — disse Malcolm, agradecido.

— Bem — o senhor Rosenkranz parecia satisfeito — Nesse caso, me permitam fazer outra sugestão: vamos os três ver Boniface Cavendish para lhe contar nosso segredo e solicitar sua ajuda. Se por acaso você ainda não sabe, senhor Blackfriars, nosso amigo Boniface é livreiro e tem uma loja em Old Bond Street. Armazenou em sua cabeça um vasto conhecimento, à força de ler literalmente centenas de livros. Temo que a maior parte desse conhecimento seja completamente inútil, mas mesmo assim não é desatinado pensar que possa saber algo sobre a lenda dessa misteriosa esmeralda perdida, o Coração de Kheperi, ou sobre a maldição que pesa sobre sua família.

— É certo! — exclamou o senhor Quimbly com renovado entusiasmo — Temos que ver Boniface o antes possível, Malcolm! Ele também é um homem de honra no qual se pode confiar plenamente, só Deus sabe quantos escuros volumes sobre história do Egito terá enterrados nessa poeirenta livraria dele, pois, por desgraça, é um camundongo de biblioteca de muito cuidado. Não acredito que tenha jogado fora nada em toda sua vida.

Acordaram os três que o senhor Quimbly enviaria uma nota ao senhor Cavendish imediatamente, lhe perguntando se poderiam passar por sua livraria no dia seguinte. Logo, depois de escrever a missiva e mandá-la com Hezekiah, o aprendiz, Malcolm e seu chefe se despediram do joalheiro com a impressão de que sua visita tinha sido extremamente frutífera.

A curta distância da joalheria, entre os números 8 e 9 de Hatton Arejem, abria-se um pequeno e estreito beco que levava a rua de Ely Agrada e o botequim Old Mitre, ao qual se encaminharam Malcolm e o senhor Quimbly. Depois de comer, voltaram de carro a Quimbly & Company, onde o senhor Quimbly aguardava uma breve resposta de seu velho amigo Boniface Cavendish. Ou, melhor dizendo, de seu oficial, pois o senhor Cavendish, ao parecer, resfriou-se e, por conselho de seu médico, foi de férias para o Mediterrâneo até que se encontrasse completamente restabelecido de sua doença.

 

                   1848

                   Bazar O Panteão, Londres, Inglaterra

Ariana e sua família tinham chegado por fim a Londres, depois de viajar de Paris a Calais e dali cruzar o canal até Dover. Em Londres, depois de passar várias semanas alojados em um luxuoso hotel, instalaram-se em uma das elegantes casa da formosa praça de Portman Square, no seleto bairro de Marylebone.

O mais famoso edifício de Portman Square era a casa Montagu, que se encontrava situada na esquina noroeste da praça, na qual se levantava ao redor de um extenso parque elíptico, cheio de árvores e rodeada por uma grade de ferro forjado. A casa Montagu tinha sido construída para a senhora Elizabeth Montagu, uma rica intelectual que durante o século XVIII tinha feito época ao fundar uma seleta «reunião» na qual não se permitiam os jogos de azar e a literatura se convertia no principal estímulo da noite.

Depois de encontrar-se por fim comodamente instalada em Portman Square, e impressionada com a história do lugar, Madame Valcoeur tinha decidido deixar seu rastro na alta sociedade inglesa da mesma maneira que a senhora Montagu durante o século anterior. Assim, tendo recebido a visita da nata da sociedade londrina, a qual lhes tinha dispensado uma cálida acolhida, a condessa se propôs adentrar sua família naqueles círculos seletos estabelecendo seu próprio salão. Seu plano foi um êxito imediato, com o resultado de que os Lévesque, apesar de haverem-se instalado na Inglaterra, não tinham sofrido o declive social que frequentemente afetava os outros refugiados franceses. Assim, apesar de Ariana continuar sentindo uma nostalgia de vez enquando e sentir falta imensamente de suas amigas de infância, não lhe faltavam acompanhantes de sua mesma classe, pois um grupo de elegantes senhoritas se apressaram em acolhê-la em seu seio e numerosos jovens cavalheiros de toda a cidade a tinham convertido em seu objeto de desejo.

Mas, mesmo assim, e face aos incessantes e bem-intencionados protestos de sua mãe e os conselhos, mais sutis, de seu pai, Ariana não tinha encontrado ainda um pretendente que satisfizesse suas exigências. Agora, ao pensar, deixou escapar um profundo suspiro e se separou da janela de seu quarto, que dava o parque de Portman Square. Tinha só dezoito anos, mas sabia que seus pais tinham razão e que devia pensar em se casar e assegurar seu futuro, posto que, a falta de um filho varão, o título e as propriedades de seu pai na França passariam depois de sua morte a um parente longínquo. Ariana, não obstante, receberia uma importante soma de dinheiro em forma de fundo fiduciário. Assim, salvo que seus investimentos se provassem desastrosos, nunca seria pobre. Entretanto, se ficasse solteira, tampouco poderia continuar desfrutando do nível de vida que tinha tido até então.

— Não sei por que, mas hoje estou muito inquieta — disse Ariana a sua donzela — vamos sair, Sophie. Deixou de chover e faz um precioso dia de primavera. Podemos ir caminhando até Oxford Street para dar uma olhada nesse bazar sobre o qual tanto ouvimos falar.

— Oh, oui, mademoiselle. Que divertido! As donzelas das outras senhoritas me disseram que nesse bazar há toda classe de bagatelas e ninharias a preços muito razoáveis, e também uma galeria de arte, uma estufa e até um viveiro! Pode que seja o que necessita para animar-se, mademoiselle, porque sei que às vezes sente falta da França, como eu.

— Oui, é certo. Inglaterra é muito diferente da França, verdade, Sophie? Mas ao menos aqui não há tanto revôo político, embora tenha entendido que há seis anos tentaram assassinar a rainha Vitória, o que me surpreendeu, porque eu acreditava que a rainha e o príncipe Alberto eram muito queridos por seu povo. Mas ao parecer não é assim em todas as partes.

— Non, mademoiselle. Há muitas pessoas que detestam a rainha e acreditam que deveria abdicar. Mas, mesmo assim, por isso ouvi, não é provável que isso ocorra. Assim não deve se preocupar com que logo nos vejamos obrigados a fugir da Inglaterra, como nos passou na França — declarou Sophie firmemente enquanto dava a Ariana um xale de seda.

Vestidas convenientemente para sua excursão, senhora e donzela desceram as escadas e saíram pela porta principal da casa. Logo, depois de dar um breve, mas agradável passeio pelo parque foram de Orchard Street para Oxford Street e o bazar O Panteão. Como apenas estavam há três meses em Londres, a cidade lhes parecia uma novidade e ainda olhavam extasiadas tudo que viam.

Oxford Street era uma larga avenida com várias lojas de todas as classes, entre as quais abundavam as floriculturas e as lojas de frutas. Mas sem dúvida uma de suas atrações mais populares era o bazar O Panteão, o qual se inaugurou originalmente em 1772 como teatro e salão de bailes. Não muito longe de Cumberland Gate, na esquina nordeste de Hyde Park, encontravam-se os suporte do bazar, além dos quais Ariana e Sophie se acharam em um vestíbulo que albergava um par de esculturas. Dali, um lance de escadas conduzia ao que Sophie, em sua ignorância, tinha chamado pouco antes a «galeria de arte», e que, como logo descobriram, não merecia um nome tão pomposo, pois era na realidade uma série de habitações dedicadas a quadros em sua maioria medíocres, pintados quase todos eles por artistas locais. Desde estas habitações, chegava-se ao andar superior, onde se encontrava o assim chamado «bazar de brinquedos», por outro lance de escadas que desembocava em uma galeria no andar de baixo. Desde aquele ponto elevado, Ariana e Sophie viram que o bazar estava decorado com muito cuidado e bom gosto, que tinha grandes mostradores bem ordenados e que exibia um sem-fim de mercadorias: chapéus, flores artificiais, luvas, meias, plumas, rendas, jóias e cadernetas disputavam o espaço com adornos de cristal e porcelana, figuras de alabastro, faqueiros, brinquedos, livros, partituras, álbuns fotográficos e muitos outros objetos. Em um extremo do bazar acharam o viveiro e a estufa, no qual havia grande variedade de plantas.

Ariana e Sophie passaram quase toda a tarde passeando entre os mostradores do andar de baixo, examinando tudo quando se oferecia a sua vista e comprando de vez em quando algo que chamava especialmente sua atenção. Por fim, exaustas e com várias caixas, uma gaiola com um casal de periquitos e uma planta da estufa, decidiram retornar a casa.

— Talvez deveríamos pedir uma carruagem — disse Ariana quando, ao sair à rua, compreendeu a dificuldade de retornar caminhando a Portman Square.

—Será muito mais rápido chamar um carro, mademoiselle — sugeriu Sophie — irei ver se encontro um, mademoiselle.

— Oui, é uma idéia excelente. Eu fico aqui, com nossas coisas.

— Seguro que não lhe importa ficar sozinha uns minutos, mademoiselle? — o rosto de Sophie refletia suas súbitas dúvidas ante a idéia de separar-se de sua senhora.

— Claro que sim. Há muita gente, assim é improvável que alguém tente me fazer dano com tantas testemunhas — disse Ariana em tom razoável — Não se preocupe por mim, Sophie. Não me acontecerá nada.

— Muito bem. Mas, por mais queira, não se mova daqui, mademoiselle. Ficaria histérica se voltasse e não estivesse aqui. Voltarei em seguida.

A donzela desapareceu entre a multidão que se amontoava em Oxford Street enquanto Ariana esperava no bazar. Mas, face ao que havia dito a Sophie um momento antes, ao achar-se sozinha na rua, Ariana descobriu que se sentia mais insegura do que lhe teria gostado. Sabia que em Londres, como em Paris, abundavam os ladrões de carteira e outros rufiões, e temia que se equilibrassem sobre ela e lhe roubassem as compras. Como medida de precaução, começou a empilhar as caixas a seu lado, com intenção de pôr a gaiola sobre elas e o vaso de barro a um lado para dificultar a tarefa aos possíveis ladrões. Enquanto se achava concentrada em sua tarefa, sentiu de repente que alguém a estava observando furtivamente e, ao apoderar-se dela aquela sensação, levantou o olhar das caixas. Apesar de que o sol da primavera brilhava brandamente, sentiu um calafrio repentino e a pele se arrepiou. Percorreu com o olhar a sua volta, mas não viu nada alarmante e, ao fim de um momento mordeu o lábio inferior e sacudiu a cabeça, pensando que era apenas o nervosismo. Mesmo assim, não era aquela a primeira vez desde sua chegada a Inglaterra que sentia que alguém a espiava, e, ainda inquieta, desejou fervorosamente que Sophie voltasse.

Fixou não obstante sua atenção nas caixas, na gaiola e no vaso de barro e acabou de colocá-los para que estivessem a salvo dos ladrões. Mas estava tão absorta em sua tarefa que demorou uns instantes para perceber que se desatou certo alvoroço em Oxford Street. Compreendeu por fim que tinha acontecido algum contratempo e ao levantar o olhar viu horrorizada que um carro avançava sem rumo pelo meio-fio de paralelepípedos. Sem dúvida o condutor tinha sofrido um ataque do coração ou uma apoplexia, pensou Ariana, alarmada, pois tinha desabado sobre o assento e, enquanto ela olhava, um movimento particularmente violento da bagagem fez com que caísse do banco e se precipitasse à rua, onde escapou pelos cabelos de ser esmagado pelas rodas do veículo. O cavalo, entretanto, continuou avançando a galope, puxando a carruagem. Uns quantos homens puseram-se a correr para o meio-fio para tentar detê-lo, enquanto as mulheres gritavam e corriam, pegando nos braços a seus filhos pequenos.

Ariana sabia que devia voltar e entrar no vestíbulo do bazar, onde se acharia a salvo do cavalo aterrorizado e do carro, que prosseguiam enlouquecidos por Oxford Street, em direção a Cumberland Gate. Mas apesar disso permaneceu paralisada, com os olhos fixos na caótica cena que se desenvolvia ante seus olhos, surda aos gritos das pessoas que passava correndo a seu lado, empurrando-se em sua ânsia para achar refúgio. De improviso recebeu um brutal golpe desde atrás e se precipitou para o meio-fio. Perdeu o equilíbrio, cambaleou e caiu sobre os paralelepípedos, arranhando dolorosamente as mãos. Permaneceu um instante aturdida e desorientada e depois sacudiu a cabeça para tentar refazer-se. Lutou desesperadamente para levantar-se, entorpecida pelo espartilho e as anáguas. E ao levantar o olhar ficou petrificada quando viu que o cavalo desbocado se dirigia diretamente para ela. Uns segundos depois seria esmagada pelos cascos ensurdecedores e as rodas do carro. E morreria.

Malcolm se sentia extremamente contrariado porque Boniface Cavendish estava viajando indefinidamente. Estava ansioso por alguma ação decisiva no referente à esmeralda desaparecida e os dois crucifixos. Mas, embora o senhor Quimbly e o senhor Rosenkranz falassem sobre a possibilidade de consultar o empregado do senhor Cavendish sobre o Coração de Kheperi, finalmente decidiu que, embora o empregado fosse de confiança, quanto menos pessoas soubessem sobre a esmeralda fora de seu pequeno círculo, seria melhor.

Como contribuição pessoal a sua empresa, o senhor Quimbly se impôs a tarefa de desenhar e imprimir vários mapas detalhados da zona ao redor do castelo do Dúndragon e o lago Ness ao longo dos séculos, enquanto o senhor Rosenkranz levava a cabo discretas pesquisas a respeito dos crucifixos. Enquanto isso, Malcolm devia começar imediatamente a aprender a defender-se não só com os punhos, mas também com a espada e a pistola. Acordaram que, durante seu descanso do almoço, as segundas-feiras e as quartas-feiras, Malcolm começaria a tomar aulas de boxe com um pugilista experiente, e as terças-feiras e quinta-feira, aprendesse esgrima na Ecole d'Arme de Henry o Jovem, em Saint Coma's Street. Nos finais de semana, praticaria com suas pistolas no botequim Rede House de Battersea Fields, onde teria que andar com pés de chumbo, pois aquele lugar atraía a indivíduos de má índole que bebiam e jogavam e se apostavam em concursos de tiro ilegais.

Como não parecia haver nada mais a fazer, Malcolm se entregou àquelas atividades com toda a alma, mais resolvido que nunca a vingar a morte de seu pai e seu tio Charles. Sem dúvida os Foscarelli tinham descoberto suas verdadeiras identidades e sabiam que andavam atrás da esmeralda maldita, o Coração de Kheperi, razão pela qual o conde lorde Vittore Foscarelli os enfrentou e os tinha assassinado. Malcolm ficava doente de pensar que os Foscarelli estavam há um século ou mais tão obcecados para encontrar a pedra perdida que eram capazes de assassinar por ela, e estava decidido a que não conseguissem, a fazer o que estivesse em sua mão para encontrá-la antes que eles.

Com o passar das semanas, enquanto suas lições de boxe e esgrima progrediam, chegou a compreender que sua infância em Whitrose Grange não tinha sido um desperdício de tempo, pois fisicamente se converteu em um homem alto e de largos ombros, fibroso e ágil como tralha um chicote e possuía músculos robustos e fortes nascidos de seus anos de trabalho na fazenda. Isso lhe era especialmente útil quando enfrentava Rory Hoolihan o Vermelho, o boxeador irlandês que lhe treinava na arte do boxe; e embora a esgrima lhe parecesse a princípio muito mais difícil, também naquele campo descobriu Malcolm que suas aventuras de juventude nos campos que rodeavam Whitrose Grange saíam em seu auxílio. Apesar de ser alto e fornido, era extremamente ágil e rápido. Não era por nada que tinha corrido pelas ladeiras rochosas e mastreadas das colinas e por praias pedregosas há muitos anos, e sua leveza e velocidade surpreendia a mais de um oponente pouco avisado.

Desfrutava particularmente de suas sessões de tiro ao alvo em Battersea Fields, e não porque gostasse em especial de disparar, embora dedicasse seus fins de semana a isso, mas sim porque foi no botequim Rede House onde voltou a encontrar-se com Nicolas Ravener. Depois do assalto em frente à casa do senhor Quimbly, Malcolm tinha ido visitar o jovem no botequim George &Vulture, no beco de Saint Michael, onde se alojava, para lhe agradecer de novo por sua ajuda naquela desafortunada noite. Após, entretanto, não teve a oportunidade de ver o senhor Ravener. Mas, depois de encontrar-se por acaso no botequim Rede House, ficaram bons amigos, e Malcolm tinha descoberto que o senhor Ravener frequentava não só Battersea Fields, mas também Ecole d 'Arme de Henry o Jovem e o salão de boxe de Rory Hoolihan o Vermelho. Depois disso, tinham acordado encontrar-se com regularidade para praticar nos três lugares e tinham descoberto que, como eram quase da mesma altura e compleição, podiam afinar suas habilidades com maior eficácia se exercitassem juntos.

Certo dia, depois de uma de suas sessões na Ecole d'Arme, Malcolm voltava a contra gosto para a loja do senhor Quimbly, atravessando Park Lane, pela parte oriental de Hyde Park, como se fosse ainda um aprendiz ansioso por afastar-se um momento de seu lugar de trabalho, quando, ao dobrar a esquina de Oxford Street, percebeu que algo mais adiante se formava certo alvoroço e, de repente, assaltado pela idéia de que possivelmente tivesse acontecido algo com seu chefe, começou a correr para a loja do senhor Quimbly. Não tinha ido muito longe, entretanto, quando viu que um cavalo enganchado a um carro sem condutor avançava a toda pressa pela rua e que, justo em seu caminho, havia uma jovem caída sobre os paralelepípedos que tentava freneticamente levantar-se. A qualquer momento, seria esmagada sob o cavalo e o carro.

Malcolm não parou para no perigo a que iria se expor. Pensou só na moça aterrorizada e indefesa. Com o coração preso pela angústia, sentiu que a adrenalina atravessava seu corpo, lançou-se à rua e levantou a moça com um só movimento, saltando com ela à calçada no instante em que o cavalo e o carro passavam a seu lado. O cavalo conseguiu por fim desprender-se dos eixos da carruagem e continuou galopando impetuosamente, enquanto o carro se cambaleava sobre suas duas rodas um momento antes de derrubar-se para um lado, quebrando todo. Em um escuro canto de sua mente, Malcolm era consciente do estrondo, mas o único que lhe importava era a jovem que sustentava entre seus braços. Viu que havia desmaiado. Não sabendo o que fazer, chamou um carro que parou junto à calçada para não se chocar com o veículo descontrolado e colocou cuidadosamente a jovem em seu interior, sentou-se a seu lado e gritou ao chofer que fosse a toda pressa ao número 713 de Oxford Street.

A jovem, não se moveu e, enquanto o carro abria passo entre a confusão e o pânico e começava a percorrer lentamente a rua, Malcolm temia que tivesse morrido de um ataque do coração. Buscou-lhe o pulso e se sentiu profundamente aliviado ao encontrá-lo, embora fosse rápido e débil. A moça não parecia ter sofrido nenhuma ferida visível. Malcolm lamentou não ter nada para reanimar a jovem e se contentou lhe afrouxando o pescoço do vestido para que pudesse respirar mais facilmente.

Observou-a com atenção à luz do sol que entrava pela janela do carro e que caía sobre seu pálido semblante, iluminando sua cútis de porcelana, que parecia quase translúcida, como a de um anjo. O luxuoso e elegante chapéu, que estava amarrado sob o queixo, tinha caído sobre as costas, deixando ao descoberto uma longa e lustrosa cabeleira de cachos negros que emoldurava brandamente seu rosto e umas sobrancelhas que se arqueavam com delicadeza sobre seus olhos. Malcolm se perguntava de que cor seriam estes, mas, como a moça os tinha fechados, o único que sabia era que tinha os cílios mais longos e densos que tinha visto nunca. As maçãs de seu rosto eram altas, finamente moldados e possuíam um leve toque rosado. Seu nariz era reto e de aparência clássica, sobre sua boca avermelhada e carnuda. Seu pescoço, longo e gracioso como o de um cisne, descia até seu peito, que se movia agitadamente. O xale de seda com franjas que a envolvia deslizou sobre seus braços, e por um instante Malcolm imaginou seus ombros e seus seios nus e pensou que era a criatura mais bela que tinha visto nunca.

Tinha nesse instante uma aparência tão frágil e vulnerável que lhe comovia profundamente e suscitava nele o desejo de protegê-la. Havia além, algo em seu belo e sereno semblante que excitava em sua memória lembranças enterradas há muito tempo. Aquela sensação, entretanto, desvaneceu-se antes que pudesse aferrar-se a ela e, ao final, teve só a estranha e vaga impressão de que aquela jovem lhe recordava a alguém... a um quadro, possivelmente, embora não estivesse seguro, pois só tinha uma impressão nebulosa de um rosto molhado de chuva ou de lágrimas, entre a névoa.

O carro parou por fim em frente ao número 7B de Oxford Street. Malcolm desceu, pagou o chofer e, pegou nos braços a jovem, tirou-a do carro e a introduziu na loja, ainda inconsciente. Sem emprestar atenção em Harry, Jem e Tuck, que tinham se reunido a seu redor, cheios de curiosidade, Malcolm chamou com urgência o senhor Quimbly e, quando o velho cavalheiro apareceu, levou a jovem, seguindo as indicações de seu chefe, ao escritório privado da atrás da loja, onde a depositou brandamente sobre um divã.

— Tuck, traga o estojo de primeiro socorros — ordenou o senhor Quimbly, enquanto Malcolm, sentado na beirada do sofá, começava explicar o ocorrido — Acredito que há um frasco de sal. Continua, por favor, Malcolm. Diz que não sabe quem é esta jovem nem por que estava sozinha no meio de Oxford Street?

— Sim, senhor.

— Bom, não importa. Seja quem for, fez bem em ajudá-la e trazê-la aqui. Vamos ver se podemos reanimá-la. Logo, com um pouco de sorte, nos dirá quem é e se há alguém que possa estar preocupado por ela e levá-la a casa. Ah, obrigado, Tuck — o senhor Quimbly pegou o estojo de primeiro socorros e o pôs sobre a mesa — Harry, leve Jem e Tuck e voltem para o trabalho. Chamarei se necessário — o senhor Quimbly abriu o estojo de primeiro socorros, tirou o frasco de sais e o deu a Malcolm — Destampe-o e agite brandamente sob o nariz da jovem — disse —Isso deve reanimá-la.

Malcolm fez o que lhe pedia e, um instante depois, para seu alívio, a jovem começou a mover a cabeça lentamente de um lado a outro. Um leve gemido escapou de seus lábios e suas pálpebras bateram até que se abriram até deixar ao descoberto uns olhos da intensa cor violeta das ametistas, que o olhou com atordoamento um instante antes de encher-se de pavor e confusão. A moça deu um grito e tentou levantar-se, mas Malcolm a tombou brandamente no sofá e começou a lhe falar com voz suave e tranqüila para que pudesse lhe compreender.

— Não, por favor, não tente levantar-se ainda, senhorita. Temo que tenha sofrido uma forte comoção. Precisa recuperar-se. Mas aqui está a salvo, dou-lhe minha palavra de honra. Permita-me apresentar. Sou Malcolm Blackfriars, e neste momento se encontra você no escritório particular de meu chefe, o senhor Septimus Quimbly. Esta é sua loja, Quimbly & Company. Esteve você a ponto de ser atropelada por um carro descontrolado. Eu pude afastá-la da trajetória do carro por pouco e, não sabendo o que fazer, a trouxe aqui em um carro. Recorda algo do que lhe contei?

Pouco a pouco, a confusão que se refletiam nos olhos assustados da jovem começou a dissipar-se e finalmente assentiu com a cabeça.

— Oui... oui, pensei que iria morrer. Mas você me resgatou! Foi muito valente, senhor! Mas depois disso não me recordo nada mais.

— É natural. Entretanto, não deve preocupar-se. Salvo pelo susto de haver-se visto tão perto da morte, está você intacta — fez uma pausa e, alegrando-se de ter aprendido quando menino a língua francesa, comentou — É você francesa, mademoiselle. Pode me dizer seu nome? Leva muito tempo na Inglaterra? Tem família aqui a quem pode avisar para que não se preocupem com você?

Antes que pudesse responder, entretanto, a campainha da porta da loja começou a repicar com força. Aquele som foi seguido por certo alvoroço e pela voz ansiosa de uma mulher.

— Onde está? O que fez com minha filha, Ma pauvre petite? Se tocaram um só cabelo da cabeça, lamentarão, asseguro! Sei que foi sequestrada e trazida aqui enquanto se achava inconsciente, assim não creiam que possam me enganar com contos. Alors! Exijo que me levem até ela imediatamente... ou estes policiais os algemarão e levarão a todos presos!

Harry começou a gaguejar uma explicação e de repente parou-se na porta do escritório o senhor Quimbly, que um instante depois foi empurrado por uma mulher alta e bonita que ia acompanhada de dois policiais, um arrumado cavalheiro de cabelo grisalho e duas donzelas.

— É esse, Madame! — gritou a mais jovem das duas donzelas, assinalando Malcolm — Esse é o homem que raptou mademoiselle Ariana! Eu o vi colocá-la inconsciente em um carro e ouvi quando gritou ao chofer que a trouxesse aqui!

— Quel monstre! — exclamou Madame Valcoeur com evidente horror — O que fez com minha filha, pedaço de bruto? Gerdarmes, detenha este homem imediatamente!

— Non, non, mamam — Ariana conseguiu sentar-se com muita dificuldade no divã — Lhes asseguro que foi todo um espantoso mal-entendido. Não estou ferida, a não ser só assustada, e monsieur Blackfriars não me raptou. Justamente o contrário! Salvou-me dando amostras de grande valor. Se não fosse por ele, teria morrido atropelada por um cavalo desbocado em plena rua.

— É isso certo? Oh, Ma pauvre petite! — a condessa cruzou a habitação e rodeou a sua filha com os braços — Quanto agradeço ao bon Dieu que esteja bem!

— Ejem, ejem — pigarreou o senhor Quimbly — Talvez devamos nos sentar para tentar elucidar este assunto tranquilamente. Harry faça o favor de trazer um pouco de chá para nossos convidados. Agora — continuou uma vez que seu funcionário de primeira desapareceu com evidente alívio — me permitam me apresentar. Sou Septimus Quimbly, proprietário desta excelente loja de mapas, e este é meu funcionário de segunda, o senhor Malcom Blackfriars. Posso agora ter o prazer de saber com quem falo?

— Certamente, Monsieur — o conde de Valcoeur tomou as rédeas da situação — Sou Jean-Paul Lévesque, conde de Valcoeur, e esta é minha esposa, Madame Hélène, condessa de Valcoeur, e minha filha, mademoiselle Ariana. Estas são as donzelas de minha esposa e minha filha, a senhora Adélaide Gauthier e a senhorita Sophie Neuville. Deixarei que os senhores policiais se apresentem, e logo confio em que possamos chegar ao fundo deste desafortunado incidente.

Os policiais se apresentaram. Logo, enquanto tomavam o chá que Harry tinha levado em uma bandeja de prata, Ariana contou como, durante o alvoroço causado pelo cavalo desbocado, tinha sido empurrada acidentalmente ao meio-fio, onde tinha caído. Continuando, Malcolm explicou como a tinha afastado da trajetória do carro e, vendo que desmaiou, tinha-a levado a loja do senhor Quimbly, não sabendo que outra coisa fazer. Depois, Sophie relatou que, ao voltar com um carro ao bazar, viu que Malcolm colocava a Ariana desmaiada em uma carruagem e que, ao ouvir o que dizia ao chofer, acreditando que sua senhora tinha sido sequestrada, tinha pagado um moço que passava pela rua para que cuidasse de suas compras e tinha dado ordens ao condutor do carro que tinha levado que a levasse apressadamente à casa dos Lévesque em Portman Square, onde tinha provocado um autêntico alvoroço.

— Sinto muitíssimo — disse a moça, envergonhada, enquanto retorcia as mãos — Não queria causar moléstias, de verdade.

— Non, claro que não, não se preocupe, Sophie — disse Madame Valcoeur com energia — Dadas as circunstâncias, fez bem, e ninguém com um pouco de sentido comum pensaria o contrário. Mas agora devo me desculpar, Monsieur Blackfriars, pelo que disse. Estava tão angustiada que, em minha ignorância, maltratei-lhe terrivelmente, quando deveria ter lhe agradecido do fundo de meu coração.

— É natural, Madame, tendo em conta o ocorrido — respondeu Malcolm cortesmente —Por favor, não lhe dê mais voltas. Só confio em que este mal-entendido tenha ficado esclarecido e esquecido.

— É você extremamente amável e bondoso, Monsieur — a condessa o olhou detalhadamente — Estamos muito agradecidos por ter salvado a vida de nossa filha. Não sei como lhe agradecer. Como posso lhe compensar? Se alguma vez necessitar algo, Monsieur Blackfriars, se houver alguma coisa que Monsieur Valcoeur e eu possamos fazer por você, não duvide em nos avisar imediatamente. E, se o senhor Quimbly e você não têm outros compromissos, concederiam-nos a honra de jantar conosco na quinta-feira da semana próxima e unir-se a nossa pequena reunião?

Malcolm e seu chefe aceitaram de bom grado o convite da condessa, depois do qual Monsieur e Madame Valcoeur se despediram, levando Ariana e seu séquito com eles.

           O salão de Madame Valcoeur

 

                     1848

                     Londres, Inglaterra

— Oh, Sophie, viu alguma vez um homem mais bonito que Monsieur Blackfriars? — Ariana começou a girar alegremente por seu quarto, fazendo rodar ao redor de seus tornozelos sua camisola e seu robe branco — Se tivesse desenhado um retrato do homem de meus sonhos, teria sido exatamente igual a ele. Mal acreditei quando o vi inclinar-se sobre mim antes de cair na rua. Para falar a verdade, pensei que tinha morrido, que o cavalo e o carro tinham me matado, e que Monsieur Blackfriars era um anjo enviado à terra para me levar ao céu.

— Que bobagens diz, mademoiselle — gorjeou brandamente Sophie, mas sorriu enquanto puxava as mantas da cama de Ariana — Monsieur Blackfriars não é precisamente um anjo, a não ser um homem feito, e muito bonito, certamente. Entretanto, tenho que lhe advertir como amiga que embora Monsieur Blackfriars tenha encontrado grande favor a seus olhos e aos de seus pais, não acredito que os condes possam considerá-lo um pretendente adequado para pedir sua mão em matrimônio, mademoiselle, se é isso o que deseja secretamente... e sem dúvida você também sabe. É a filha dos condes de Valcoeur, e Monsieur Blackfriars é um simples vendedor de mapas. Seu enlace se consideraria extremamente inadequado para você, mademoiselle, embora muito afortunado para o senhor Blackfriars.

— Sei, sei. Mas, Oh, Sophie, agora que o vi, estou segura de que não serei feliz com ninguém mais.

— Ao contrário. Não pode estar segura de semelhante coisa, mademoiselle — insistiu com firmeza a donzela — Porque, para falar a verdade, agora mesmo não sabe você nada sobre o Monsieur Blackfriars, além de que teve a valentia de resgatá-la. Mas como sabe que o único que lhe impulsionou foi o temor por sua vida? Pode que seja alguém da pior espécie, um libertino ou um caça fortunas que viu uma jovem elegante em apuros e tentou se aproveitar da oportunidade que apareceu.

— Non, Sophie, não posso acreditar porque de uma coisa estou segura: não havia no olhar de Monsieur Blackfriars uma só ponta de frieza, cálculo ou astúcia. Pelo contrário, comportou-se com perfeita bondade e solicitude, com tal educação e maneiras tão elegantes e cavalheirescas, que custa acreditar que ganhe a vida trabalhando como aprendiz de cartógrafo e vendedor de mapas. Se não soubesse a que se dedica, teria acreditado que era um cavalheiro de elevada linhagem, Sophie. E, se for sincera, reconhecerá que você também.

A donzela deixou escapar um suspiro.

— Isso não muda o fato de que Monsieur Blackfriars se dedique ao comércio, mademoiselle — observou a seguir com expressão grave, embora amável — Sei o interessada está nele. Mas faltaria a meu dever se lhe desse falsas esperanças. Porque, embora os condes tenham convidado o Monsieur Blackfriars para jantar, o fizeram somente como amostra de gratidão por ter lhe salvado a vida. Não acreditará você que vai se converter em um visitante habitual, mademoiselle?

— Sei que tem razão, Sophie, mas não quero pensar nisso agora. Assim me deixe sonhar um pouco. Que mal pode me fazer?

— Pode que nenhum, mademoiselle. Mas, por outro lado, talvez muito. Aí vem Fanny com seu chocolate. Deseja algo mais antes de retirar-se?

— Non — Ariana sacudiu a cabeça quando Fanny, a garçonete, deixou a bandeja em uma mesa próxima para que Sophie servisse o chocolate.

— Obrigado, Fanny. Isso é tudo — disse Sophie.

A garçonete fez uma reverência e saiu do quarto, seguida um instante depois pela própria Sophie. Depois que as duas empregadas se foram, Ariana levou sua taça à mesinha de noite e se tombou na cama.

Mas, uma vez agasalhada, descobriu que estava muito inquieta para conciliar o sono, apesar do chocolate quente que acabava de beber. Ficou acordada por um longo tempo, recordando o instante em que Malcom Blackfriars a tinha afastado da trajetória do cavalo desbocado e o carro.

No curto espaço de sua vida, ninguém a tinha turbado tanto como Malcolm Blackfriars. Embora não havia dito a Sophie, sentia que, sob sua cavalheiresca aparência se agitava uma ferocidade profunda que lhe custava trabalho definir. Era como se, embora vivesse e trabalhava na cidade, estaria muito mais a vontade no campo, pensou Ariana e, de repente veio em sua cabeça uma imagem de Malcolm vestido como um escocês das Terras Altas, cruzando os agrestes picos e parámos da Escócia. Quando seus olhos se fecharam por fim e caiu em um profundo torpor, aquela imagem se metamorfoseou e se mesclou em seu cérebro com a de Collie, o moço de seu sonho que se sentava em frente a ela em seu pequeno barco de pesca, a Bruxa do mar, enquanto a bruma escocesa os envolvia em seu sudário e as ondas turvas do lago Ness lambiam brandamente o casco da embarcação.

E pela primeira vez em toda sua vida, quando o pesadelo e a aterradora serpente marinha se introduziram em seu subconsciente, Ariana não gritou. Porque quando, finalmente, a monstruosa serpente se abria passo ondulando para ela, Collie se desvanecia na bruma e em seu lugar aparecia Malcolm Blackfriars montado em um cavalo marinho branco como a espuma e a arrancava das fauces da morte.

Malcolm nunca achou que o tempo seria tão longo. Os dias que antecederam à quinta-feira da semana seguinte e ao jantar na casa dos condes de Valcoeur em Portman Square pareceram arrastar-se com penosa lentidão. Tentava concentrar-se tanto em seu trabalho como nas pesquisas que tinha empreendido para localizar o Coração de Kheperi, mas nem sequer isto conseguia afastar seu pensamento mademoiselle Ariana Lévesque. Embora tinha conhecido outras jovens, nenhuma delas tinha agitado sua imaginação como Ariana no breve espaço de tempo que tinha passado com ela. Entretanto, Malcom era consciente de que a jovem estava fora de seu alcance, o qual lhe causava ira e doloroso desespero. Se possuísse títulos ou riquezas, poderia ter aspirado a cortejá-la. Mas, tal e como estavam as coisas, a menos que encontrasse algum modo de reclamar as propriedades perdidas dos Ramsay na Escócia e Inglaterra, não tinha nada a oferecer a Ariana. Nem sequer seu verdadeiro nome.

À exceção da época que seguiu às mortes de seu pai e seu tio Charles, nunca se havia sentido tão abatido, tão amargamente consciente da desafortunada situação em que, embora não fosse por culpa dela, achava-se. Nunca antes tinha ambicionado títulos ou riqueza, pois, até esse momento, nunca tinha sentido sua falta. Agora, em troca, amaldiçoava com toda sua alma seu antepassado, aquele tolo do lorde Iain Ramsay, antigamente conde de Dúndragon, pois, se não houvesse jogado as terras dos Ramsay, ele poderia ter gozado tanto de um título como de riquezas, e poderia ter pedido a mão de Ariana. Mas, naturalmente, recordava-se, sem esperança, não havia modo de emendar tudo aquilo. Assim, convinha-lhe concentrar suas energias em encontrar a esmeralda perdida, pois sem dúvida aquela peça de incalculável valor poderia restaurar a fortuna de sua família, embora não pudesse devolver seus títulos nobiliários e suas posses. De momento, entretanto, face às indagações que Jacob Rosenkranz tinha levado a cabo com toda discrição, nada tinham averiguado sobre a pedra perdida, e Boniface Cavendish continuava ausente, de modo que Malcom, o senhor Quimbly e o senhor Rosenkranz tinham ainda uma conversa pendente com ele.

Ao pensá-lo, Malcolm partiu pela metade sem perceber o lápis com que estava desenhando o mapa que tinha começado essa mesma manhã. Ao partir o lápis, começou a resmungar maldições e esteve a ponto de atirar os pedaços ao cesto de papéis.

— Algum problema, Malcolm? — perguntou amavelmente o senhor Quimbly ao entrar na oficina.

— Sim. Devo-lhe uma desculpa, senhor. Temo que outra vez custa me concentrar em meu trabalho. Vou um pouco atrasado, mas não tema. Por-me-ei ao dia em seguida.

— Confio em que assim será..., a não ser, claro está, que siga distraído pensando em uma cascata de cachos negros e uns perturbadores olhos violetas — os olhos azul pálido do senhor Quimbly cintilaram jovialmente.

— Tanto nota, senhor? — perguntou Malcolm a contra gosto.

— Não. Mas cheguei a te conhecer muito bem nestes anos. Além disso, não esqueci o que é ser jovem. Mademoiselle Lévesque é uma moça extraordinariamente bonita. Teria que ser cego ou tolo para não perceber e, por sorte, você não é nenhuma coisa nem outra, Malcolm.

— Mesmo assim, não me faz nenhum bem pensar tanto nela, senhor. Está fora de meu alcance.

— Sim, bom, como gosta de dizer a meu velho amigo Boniface Cavendish, se nossas ambições não excedessem nosso alcance, não ficaria nada pelo que lutar. Além disso, Malcolm, se resolvermos o enredo de seu legado familiar e encontramos a esmeralda perdida, ninguém poderá dizer que não é um pretendente adequado para mademoiselle Ariana, nem te acusar de ser um caça fortunas. Assim não se desespere ainda. Pode que o jogo já tenha começado há muito tempo. Mas você e eu acabamos de nos unir a ele.

— Tem você razão, senhor — Malcom tentou se animar — Temo que sou muito impaciente. Estou ansioso para fazer algo!

— É lógico, certamente. Confesso que eu sinto o mesmo desde que soube deste assunto. Mas não se impaciente, Malcolm. O dia da ação chegará, estou seguro disso. Enquanto isso convém que tracemos cuidadosamente nossos planos em lugar de fazer o primeiro que nos passe pela cabeça. Não tenho dúvida alguma de que seu pai e seu tio Charles tomaram todas as precauções possíveis e, entretanto, ao final caíram presos de seus adversários. assim, devemos ser ainda mais cautelosos e ardilosos que eles. Está fazendo tudo o que pode, assim não se atormente pensando que está de braços cruzados. E, enquanto isso pode desfrutar do prazer de certo jantar e de uma agradável e estimulante conversa com os senhores de Valcoeur e sua encantadora filha, não é, Malcolm?

— Sim — assentiu o jovem esboçando um sorriso.

— Então alegre essa cara. Porque, como também gosta de dizer Boniface, se podemos sonhar com algo, podemos fazê-lo realidade. E, dado que nenhum de nós recebeu o dom, ou a maldição, da clarividência, não podemos saber o que nos proporciona o futuro. Mas podemos fazer o que estiver em nossas mãos para realizar nossos sonhos, e, enquanto mademoiselle Ariana não se compromete em matrimônio, não há razão para que se desespere, Malcolm. Eu, pelo menos, não vejo nenhuma. Bom, vamos ver o quanto progrediu com esse desenho, porque Harry tem que começar a preparar as pranchas se queremos acabá-lo antes que o senhor Greyson venha buscá-lo.

Para sua surpresa, Malcolm descobriu que, depois desta conversa com seu chefe, os dias não só passavam mais rápido, mas também se sentia mais capaz de concentrar-se em seu trabalho, em lugar de ficar absorto contemplando a perturbadora imagem de Ariana. Embora fosse consciente de que a efígie desta dançava sempre na periferia de sua mente, contentava-se sabendo que logo voltaria a vê-la e que tinha ao menos uma oportunidade de conseguir a riqueza necessária para pedir sua mão.

Logo, finalmente, chegou a noite do jantar na elegante casa dos senhores de Valcoeur em Portman Square, e Malcolm pôde deixar de lado seus afazeres em Quimbly & Company e concentrar-se na iminente noite. Desceu do ônibus na parada de Saint John's Wood e percorreu virtualmente correndo o caminho até Hawthorn Cottage. Uma vez ali, parou um instante para saudar sua mãe e subiu a toda pressa a seu quarto. Depois de banhar-se, vestiu seu melhor terno e uma gravata-borboleta nova que tinha comprado em uma loja de Regent Street. Não era um homem vaidoso, mas ao olhar-se no espelho que havia sobre a penteadeira de seu quarto pensou que tinha muito bom aspecto. Pouco depois, quando por fim desceu, sua mãe confirmou essa opinião.

— Oh, filho! — exclamou brandamente ao vê-lo — Que bonito está! Embora vá estar em tão boa companhia em Portman Square, me atreveria a dizer que não haverá presente nenhum cavalheiro mais elegante que você.

— Adula-me, mãe — disse Malcolm com ternura — Quanto eu gostaria que pudesse me acompanhar!

— Sabe que isso não é possível, filho, que o convite de Madame Valcoeur não me incluía e que, embora assim fosse, acredito que me sentiria extremamente incômoda, pois faz muito tempo que não saio. A última companhia de qual desfrutei foi a de seu tio Charles, sua tia Katherine e seus dois filhos, e se fosse a Portman Square esta noite, me lembraria disso e ficaria muito triste pensando no que foi de Katherine e de seus meninos quando chegaram em casa. Entristece-me não ter noticias dela... Rezo para esteja bem, mas, Oh, Malcolm!, no fundo de meu coração temo que esteja morta. Se não, sem dúvida teria respondido minhas cartas.

A senhora Blackfriars mordeu o lábio inferior e, com os olhos cheios de lágrimas, voltou-se para ocultar suas emoções, mas não conseguiu enganar Malcolm.

— Sei que tia Katherine teria mantido contato contigo se pudesse, mãe — disse com suavidade — E, embora em efeito estiver morta todos estes anos, não gostaria que seguisse chorando por ela.

— Sim, sei. O pior é não saber o que foi dela. Acredito que me sentiria mais tranquila se soubesse com certeza o que lhe aconteceu. Claro, que isso foi há muito tempo, e esta noite é uma noite de festa, uma noite para pensar no futuro, não no passado. Assim vá a Portman Square e, sobre tudo, passe bem, porque esta é uma oportunidade muito estranha e maravilhosa, meu filho. Nunca é mal ter amigos nas altas esferas, e os senhores de Valcoeur devem estar muito agradecidos porque resgatou sua filha de uma morte segura. E com grande risco de sua vida! Oh, estremeço-me ao pensar! Embora não devo, a não ser estar feliz porque mademoiselle Ariana e você estão a salvo. Que nome tão bonito tem! Recorda-me o da filha de Katherine, Ana. Lembra-se? Tinha um nome mais longo, claro, mas temo que ultimamente minha memória me lança armadilhas e já não me lembro de qual era, porque desde que nasceu a chamaram sempre Ana.

— Sim, lembro-me dela. Era uma menina muito valente e bonita que sempre vinha comigo quando ia pescar.

— Bom, não pensemos mais no passado — insistiu de novo a senhora Blackfriars, e esboçou um sorriso decidido — Anda, vá de uma vez.

 

Malcolm inclinou a cabeça e depositou um leve e afetuoso beijo sobre a testa de sua mãe. Logo, quando ela desapareceu no salão, pegou seu chapéu, suas luvas e seu casaco e recolheu seu guarda-chuva se por acaso chovesse. Saiu depois de Hawthorn Cottage pela porta principal e se encaminhou para Marylebone.

Agora que a primavera se encaminhava para o verão, os dias começavam a ficar mais quentes e longos, e o sol não se pôs ainda quando Malcolm começou sua caminhada de um pouco mais de três quilômetros até Portman Square. Como temia chegar muito cedo à casa dos condes de Valcoeur, obrigou-se a passear lentamente por Park Road, dobrando a esquina sudoeste de Regent's Park, para o elegante distrito de Marylebone. Enquanto caminhava, mantinha-se alerta e pendente do que acontecia a seu redor, pois embora não houvesse voltado a sofrer nenhuma agressão, não tinha esquecido o acontecido. Desde a noite do assalto tinha sempre a estranha, mas nítida sensação de que alguém lhe observava. Mas, embora olhasse a seu redor dissimuladamente, não via ninguém que lhe parecesse suspeito e, esporeado a seu pesar pela emoção, continuou andando a passo lento para Portman Square, até que por fim chegou à elegante casa dos condes de Valcoeur. Depois de respirar fundo em um esforço para dominar sua crescente agitação, chamou o timbre e um instante depois o mordomo lhe deu amavelmente as boas-vindas.

— O senhor Blackfriars, suponho? Tenha a bondade de passar, senhor. Estávamos lhe esperando — Malcolm entrou no belo vestíbulo e entregou o chapéu, o casaco, as luvas e o guarda-chuva ao mordomo — Se fizer o favor de me acompanhar, senhor. A família está reunida no pequeno salão. Por aqui, senhor — Butterworth, o mordomo, abriu umas portas que davam ao vestíbulo e anunciou: — O senhor Malcolm Blackfriars.

Ao entrar no pequeno salão, Malcolm percebeu imediatamente que era o centro das atenções, pois todos os olhos se voltaram para ele. Por um instante ficou ali parado, assombrado pela magnificência da habitação e o estranho da situação, não sabendo muito bem o que fazer. Logo seu anfitrião se aproximou dele e Malcolm conseguiu repor-se. Inclinou-se sobre a mão que lhe estendia Madame Valcoeur, a beijou e imediatamente foi recompensando com um cálido sorriso de aprovação.

— Bem-vindo, Monsieur Blackfriars — disse a condessa — Estamos encantados por ter unido a nós esta noite. Acredito que já conhece todos os pressente, salvo Madame Polgar, certamente. É uma vidente com muito talento que, como minha família, viajou recentemente para Londres de Paris. Teve a bondade de vir ver-me esta tarde, e a convidei para jantar conosco. Madame Polgar — a condessa se voltou para a adivinha — me permita lhe apresentar o Monsieur Blackfriars. Foi ele quem salvou a vida de nossa querida Ariana outro dia em Oxford Street, por isso estamos imensamente gratos.

— Como está você, Monsieur Blackfriars? — Madame Polgar lhe estendeu a mão e Malcolm se inclinou sobre ela e a beijou — É um prazer conhecer um jovem tão valente e elegante.

— É você muito amável, Madame, mas não fiz mais do que teria feito qualquer outro homem de bem em meu lugar. Mademoiselle Ariana necessitava ajuda e, por sorte, eu estava em situação de oferecer-lhe — Sim, o destino sempre se engenha para que as pessoas estejam no lugar adequado no momento preciso — murmurou enigmaticamente a adivinha — Diga-me, Monsieur Blackfriars, é você um bom espadachim, por acaso?

 

— Por desgraça, não, Madame, embora estudo a arte da esgrima na Ecole d'Arme de Henry o Jovem. Sou cartógrafo de ofício. Oficial de segunda na Quimbly & Company.

— Ah, sim. O senhor Quimbly deve estar muito orgulhoso de você.

— Estou, em efeito, Madame — declarou o velho cavalheiro, que tinha chegado antes e se encontrava sentado em uma poltrona de seda, em frente a chaminé de mármore esculpido.

— Sente-se, Monsieur Blackfriars — Madame Valcoeur lhe indicou um dos sofás de brocado que havia na habitação — Gostaria de beber algo? Algum aperitivo? E os outros? Querem algum outro refrigério?

As donzelas e os lacaios se apressaram a voltar a encher os copos e pratos, e Malcolm se encontrou sentado junto à Ariana em um sofá, com uma taça de xerez em uma mão e um prato de aperitivos equilibrado sobre o joelho.

— É uma prazer vê-la de novo, mademoiselle — disse a Ariana — Espero que tenha se recuperado de tudo de seu acidente.

— Oh, oui, Monsieur. Mas tenho que lhe agradecer de novo pela valentia que demonstrou esse dia ao me resgatar. Sei que, se não tivesse me socorrido você, sem dúvida teria morrido.

— A perda de uma jovem tão bela teria sido uma grande tragédia, assim que eu também me alegro de havê-la evitado.

Malcolm lhe sorriu brandamente e se sentiu embargado pelo prazer quando ela se ruborizou e abaixou as densas pálpebras para fechar com pudor seus olhos de ametista. Tinha um aspecto maravilhoso, pensou Malcolm, com seu vestido lilás de seda e encaixe, cujo decote de volantes mostrava um pedaço de seus formosos e redondos seios, e cuja faixa rodeava uma cintura tão fina que Malcolm tinha a impressão de que podia abrangê-la com as mãos. Tinha entrelaçado entre os negros cabelos fitas de seda que combinavam com o vestido, e seu cabelo brilhava, negro como a asa de um corvo, à luz suave das velas e o fogo, em contraste com sua cútis de porcelana, tingida por um leve rubor que se difundia pelas maçãs de seu rosto e seus doces lábios. Sapatilhas delicadas estavam em seus pés, e com suas graciosas mãos agitava um formoso leque, apesar de que seus gestos estavam desprovidos de paquera, e havia unicamente neles um acanhamento e uma vulnerabilidade que comovia profundamente a Malcolm.

— Madame Valcoeur mencionou que vieram recentemente de Paris — comentou ele — O que lhe parece a Inglaterra e a cidade?

— Aqui tudo é muito diferente — respondeu ela devagar — Mas ao menos está mais... tranquilo. Paris estava sumido no caos quando partimos. Por isso viemos a Londres, a Portman Square.

— É uma das praças mais bonitas da cidade.

— Sim? Não as vi todas assim não posso julgar. Meu pai a escolheu porque está perto de Hyde Park e Regent's Park, acredito. Essa é uma das coisas que mais gosto em Londres: passear pelos parques. Se o tempo é bom, saio a dar um passeio todas as tardes. Gosta de passear pelo parque, Monsieur Blackfriars?

— Sim, minha mãe e eu vivemos em Saint John's Wood, não muito longe de Regent's Park, e Quimbly & Company está muito perto de Hyde Park. Às vezes, quando o tempo permite, vou almoçar ali, sentado em um banco.

— Então pode que nos encontremos alguma vez — sorriu Ariana.

— Seria um grande prazer para mim — Malcom sorriu de novo ao perceber que Ariana, sabedora de que era extremamente provável que aquela noite não voltasse a repetir-se, estava insinuando como podiam voltar a ver-se.

Isso deveria significar que o olhava com bons olhos, pensou Malcolm, pois não lhe parecia o tipo de mulher que incentivava o interesse dos homens com a única intenção de brincar com seus afetos.

Mas não tiveram oportunidade de continuar conversando, pois nesse momento se anunciou o jantar. Todos se levantaram e os cavalheiros escoltaram as damas à sala de jantar. Ali Malcolm descobriu que, embora fossem apenas seis para o jantar, a mesa estava suntuosamente servida. Pela primeira vez em sua vida, tinha razões para alegrar-se de que, embora seus pais não possuíssem títulos nem riquezas, tivessem-lhe proporcionado uma educação refinada, como se algum dia pudesse chegar a ser conde de Dúndragon, em vez do filho de um fazendeiro. Devido a isso, suas maneiras na mesa eram impecáveis, e usava sempre acertadamente os talheres adequados para tal ou qual prato. Tinha a impressão de que os senhores de Valcoeur e Madame Polgar estavam bastante surpresos e impressionados por isso, como se tivessem esperado que cometesse algum engano e se prepararam para passá-lo por alto discretamente.

— Tem família aqui, Monsieur Blackfriars? — perguntou-lhe amavelmente a condessa.

— Meu pai faleceu há muitos anos, por desgraça. Mas minha mãe ainda vive e, como não voltou a casar-se, não tive ainda razões para me mudar. Compartilhamos uma pequena casa, Hawthorn Cottage, em Saint John's Wood.

— Oh, quanto o sinto. Se soubesse, a teria convidado a unir-se a nós — disse Madame Valcoeur.

— Não é necessário que se desculpe, Madame. Desde que morreu meu pai, minha mãe não frequenta os círculos sociais. Vive muito recluída. Tem seus livros e sua música, seus bordados e seu jardim para entreter-se, e, além disso, pelas tardes está acostumada a jogar cartas com nossa governanta, a senhorita Woodbridge. Assim acredito que está contente, embora, naturalmente, sente falta de meu pai.

— Deve ter gostado muito dele.

— Sim, Madame, muito.

— E seu pai... era também cartógrafo? Foi assim como se converteu em aprendiz do senhor Quimbly? — os olhos de Madame Polgar cintilaram, cheios de curiosidade.

— Não, Madame. Temo que meus antepassados perderam a herança que deveria ser de meu pai e, portanto, a minha com o tempo. Assim meu pai nunca passou de ser um simples arrendatário. Quando morreu eu tinha dezesseis anos e, como minha mãe não podia levar a fazenda sozinha, instalamo-nos em Hawthorn Cottage.

— Malcolm e eu nos conhecemos pouco depois disso — contou o senhor Quimbly, e a seguir explicou como acabou tomando a Malcolm como aprendiz.

— Dá a impressão de que desde sua infância foi você uma pessoa muito valente e decidida, Monsieur Blackfriars — Monsieur Valcoeur assentiu com a cabeça, satisfeito — Tivemos muita sorte porque estivesse você por ali para salvar a nossa filha.

 

— Em efeito. Um valioso amigo... e um temível inimigo — exclamou a adivinha — Deve permitir que lhe leia as cartas de tarô alguma vez, Monsieur Blackfriars. Apostaria que tem você um futuro fascinante pela frente.

— Pode ser, Madame. Entretanto, prefiro acreditar que, seja o que for que estava escrito nas estrelas no momento de nosso nascimento, podemos mudá-lo por meio de nossos atos.

— É possível, Monsieur, já que para isso nos concedeu o livre-arbítrio. Para que pudéssemos mudar nosso futuro. Entretanto, não subestime o poder do destino. Porque o destino e o livre-arbítrio estão entrelaçados. São duas caras de um tudo, como as duas caras do deus romano Jano.

— Ah, vejo que encontramos um tema estimulante de conversa para nossa reunião desta noite! — a condessa bateu palmas, alvoroçada — Não falemos mais do assunto até que nos reunamos no salão com o resto de nossos convidados ou, senão, esgotaremos o tema e não ficará nada que dizer para passar o resto da noite.

Depois que sua anfitriã expressou seus desejos cortesmente, sem sombra de dúvidas, reuniram-se todos ao redor da mesa e dirigiram a conversa para outros roteiros e o excelente jantar transcorreu da maneira graciosa enquanto se servia um prato atrás do outro. Por fim, depois da sobremesa, as três damas se retiraram ao pequeno salão, deixando os três cavalheiros tomando seu oporto e fumando seus charutos. Mas não passou muito tempo antes que começassem a chegar os convidados à reunião e Monsieur Valcoeur se levantasse da mesa para cumprir seus deveres como anfitrião. Malcolm e o senhor Quimbly retornaram ao pequeno salão para reunir-se com as damas enquanto o mordomo ia anunciando os convidados e introduzindo-os na habitação. Malcolm reconheceu os nomes e os títulos de muitos deles, embora não conhecesse nenhum pessoalmente... até que o mordomo anunciou elevando a voz:

— Lady Christine Fraser e o senhor Khalil al Walid.

Ao ouvir isto, Malcolm observou com sobressalto que o último convidado era um dos estrangeiros tinha entrado na Quimbly & Company umas semanas antes.

— Senhor Quimbly — sussurrou com urgência a seu chefe — são eles! São os estrangeiros que entraram na loja aquele dia. Vê esse cavalheiro moreno com traje oriental que chegou com lady Christine Fraser e que anunciaram como o senhor Khalil al Walid? E o que vai atrás deles, o que não anunciaram, esse deve ser o servente do senhor Al Walid!

— Sim, sim. Bem, este é um giro muito estranho dos acontecimentos, não acha, Malcolm? Não pode ser uma simples coincidência que o senhor Al Walid se encontre entre os convidados desta noite, não te parece? — o senhor Quimbly observou os dois estrangeiros atentamente.

— Eu... não sei, senhor — Malcolm franziu o cenho, pensativo — Em circunstâncias normais, nem você nem eu estaríamos aqui, e ainda não sabemos como chegaram até aqui o senhor Al Walid e seu servente. Se foi Madame Valcoeur quem os convidou ou não.

Logo descobriram que, nas reuniões da condessa de Valcoeur, os convidados estavam acostumados a levar consigo outras pessoas, sabendo que seus acompanhantes seriam bem recebidos sempre e quando fossem educados e pudessem contribuir de maneira interessante à conversa. Este era o caso do senhor Al Walid. Lady Christine, que resultava ser uma das amigas de Ariana desde sua chegada a Londres, tinha conhecido o egípcio durante uma viagem a Escócia, e como tinha permanecido em contato com ele depois de sua volta a Inglaterra, tinha-lhe pedido que assistisse à reunião de Madame Valcoeur.

— O senhor Al Walid é herpetólogo e vem do Egito. Está procurando a gigantesca serpente marinha que, conforme se diz, habita as águas do lago Ness. E o que poderia ser mais interessante e entretido que isso? — perguntou lady Christine aos reunidos no pequeno salão.

Ao ouvir isto, seus hóspedes e Arianas deixaram escapar uma exclamação de assombro, e esta última empalideceu e estremeceu visivelmente.

— Tem frio, mademoiselle? — Malcolm, que a tinha visto estremecer-se, levantou-se imediatamente — Por favor, permita acompanhá-la a uma poltrona junto ao fogo. Talvez sua donzela possa lhe trazer um xale.

— Oui, uma excelente idéia, Monsieur Blackfriars. Temo que minha filha não se encontre de tudo recuperada de seu acidente em Oxford Street — a condessa se voltou para um dos empregados e lhe ordenou que buscasse Sophie, a donzela da Ariana, e trouxesse um xale enquanto Malcolm acompanhava Ariana a uma das poltronas colocadas em frente à grande lareira de mármore.

— Aqui entrará se aquecerá em seguida — Malcolm lhe dedicou um sorriso tranquilizador e procurou sufocar o desejo de tomar suas pequenas e lindas mãos e apertar em uma tentativa de lhe devolver seu calor.

—Estou segura de que assim será. Obrigado por ser tão considerado, Monsieur Blackfriars. É você muito amável — Ariana se voltou para outros e acrescentou —: Lhes rogo que não interrompam sua conversa por minha culpa. Só sofri um calafrio passageiro, o asseguro. Monsieur Blackfriars tem razão. Aqui estou melhor, junto ao fogo. Por favor, senhor Al Walid, querer nos falar você sobre seu... trabalho?

—Sim, eu também estou muito interessado em saber mais sobre esse assunto. Foram-lhe de utilidade os mapas antigos que adquiriu em minha loja durante sua busca, senhor Al Walid? — perguntou amavelmente o senhor Quimbly, com os olhos azuis muito abertos e um olhar franco, face ao qual Malcolm, que conhecia bem a seu chefe, adivinhou os agudos cálculos que tinham lugar na cabeça do senhor Quimbly, sobre tudo depois de saber que o senhor Al Walid era egípcio.

—Em efeito, senhor, foram-me extremamente úteis, obrigado — o rosto do senhor Al Walid era inescrutável; seus olhos escuros tinham um olhar afiado e vigilante.

—Então, descobriu você o monstro do lado Ness? — perguntou Madame Polgar.

—Por desgraça, não, Madame. Entretanto, não me dou por vencido e voltarei dentro de pouco a Escócia para prosseguir minha busca.

—Parece algo muito perigoso — comentou a adivinha — Já parou a pensar, senhor Al Walid, que esse monstro marinho, se é que existe, poderia ser sua morte?

—Meu campo de estudo suporta sempre certo risco, Madame. Mas mesmo assim perseverarei em meu empenho.

—Acredito que o fará. Estou segura de que sabe que a serpente é um símbolo espiritual muito em todo o mundo, verdade, senhor Al Walid? — os braceletes de ouro de Madame Polgar tilintaram brandamente quando deixou de lado sua taça de xerez, já vazia — Foi a morte que escolheu a rainha Cleópatra, quem em vida encarnou à deusa Isis, a Divina Mãe de todos nós. É Isis quem, como controla a serpente, traz-nos tanto a vida como a morte.

«Eu, Isis, sou quanto foi, é ou será; nenhum mortal me desvelou nunca». Essa é a inscrição que se encontrou no templo de Sais. Não é assim, senhor Al Walid?

—Sim, Madame, é correto — o senhor Al Walid assentiu impassivo — Parece que sabe você muito sobre a história e a religião do antigo Egito.

—Isso é porque Madame Polgar é uma vidente com muito talento e, como tal, interessa-se não só pelo futuro, mas também o presente e passado, e estudou o antigo Egito com atenção — explicou Madame Valcoeur.

—Oui, assim é — disse a adivinha — Os antigos egípcios compreendiam não só a vida e a morte, mas também o modo irrevogável em que se encontra entretecidos o destino e o livre-arbítrio, assunto sobre o qual estávamos falando antes, Madame, e que, conforme acredito, é o tema eleito para nossa conversa desta noite. Assim somos extremamente afortunados por contar com a presença do senhor Al Walid esta noite, que poderá nos oferecer uma perspectiva autorizada sobre seu país e seus antigos moradores. Diga-nos, senhor Al Walid, não é certo que os antigos egípcios reverenciavam o coração e acreditavam que nele se encontrava a fonte da inteligência e as emoções humanas, das quais brota o livre-arbítrio?

—Sim, assim é, Madame — respondeu Al Walid — Até tal ponto que, embora durante o complexo processo de mumificação que empregavam meus ancestrais, todos os órgãos do corpo eram extraídos e armazenados em canopes, o coração, pelo contrário, preservava-se sempre com muito cuidado e, posteriormente, era devolvido a seu lugar no cadáver.

—Tenho entendido que frequentemente se protegia o coração com um talismã ou amuleto em forma de besouro — continuou Madame Polgar — Sabe algo disso, senhor?

—Sim, em efeito, Madame. Inclusive hoje em dia o besouro continua sendo um símbolo muito venerado pelos egípcios. O talismã do qual fala se colocava sobre o peito do defunto para proteger seu coração durante a longa viajem para o Mundo Inferior. Ao longo dos séculos tanto arqueólogos como saqueadores descobriram muitos desses amuletos nas grandes pirâmides e necrópoles. O mais famoso desses besouros levava o nome do deus Kheperi. Assim que o conhecia como o Coração de Kheperi.

Ao ouvir aquilo, Malcolm ficou paralisado pelo assombro enquanto bebia um sorvo de sua taça de xerez.

—O que... o que tinha de particular esse talismã tão renomado? — perguntou cuidadosamente com um semblante que esperava refletisse unicamente um interesse casual no tema sobre o qual estavam falando.

—Bom, verá, senhor Blackfriars, segundo a lenda esse amuleto, o Coração de Kheperi, lavrou-se em uma enorme esmeralda e era maior que um ovo de ganso, o qual por si só lhe teria conferido um valor incalculável — explicou o senhor Al Walid — A pedra foi polida à perfeição e pendurada de uma corrente de ouro maciço. Mas o que seriamente fazia especial o Coração de Kheperi era o que, segundo os rumores, tinha o poder do deus Kheperi e, portanto, nas mãos de alguém que soubesse como utilizá-lo, concedia inclusive a imortalidade.

—Non! Isso é impossível! — exclamou Monsieur Valcoeur com um gesto desdenhoso — Não posso acreditar!

—Vejo que continua tão cético como sempre, Monsieur — Madame Polgar o olhou com irritação — Há coisas neste mundo que escapam a nossa compreensão. Porque, o que somos nós, a não ser simples mortais? Inclusive os que, como a mim, nos concederam poderes extraordinários, logo que compreendemos o que não podemos captar com nossos cinco sentidos. Durante a Idade Média, ainda se acreditava que o mundo era plano e não redondo.

—Em efeito, Madame — disse Ariana, que continuava sentada ante o fogo, envolta no xale que lhe tinha levado Sophie. - Estudei em minhas lições com minha governanta, mademoiselle Thibault. Mas sinto curiosidade. Monsieur Al Walid, fala você desse talismã, o Coração de Kheperi, como se já não existisse. Perdeu-se ou foi destruído, talvez? E, se for assim, como pôde ocorrer tal coisa com um amuleto que sem dúvida era um dos grandes tesouros do Egito? Por que não está em um museu, guardado?

—Para falar a verdade, mademoiselle, é uma história muito estranha — o senhor Al Walid fixou sua atenção em Ariana — Segundo a lenda, o Coração de Kheperi permaneceu durante séculos guardados em um lugar secreto, no templo consagrado ao culto do deus Kheperi. Mas, naturalmente, nada permanece igual eternamente, e Egito não foi uma exceção a essa norma. Morreram os antigos faraós e seus sacerdotes. Chegaram outros ao poder, e com eles chegaram também novos deuses. Os templos que tinha perdido o favor régio foram destruídos, e se construíram outros novos. E em meio a esses ventos de mudança que sopravam sobre o Egito, o Coração de Kheperi desapareceu misteriosamente e durante séculos se perdeu seu rastro. Logo, segundo conta a história, um dia, há quase duzentos anos, um grupo de estrangeiros viajou a meu país. Tratava-se de jovens que se embarcaram no que vocês chamam um «grande tour» Viajaram para a Luxor, o Vale dos Reis, onde tinham intenção, conforme explicaram a seu guia nativo antes que este fugisse atemorizado, de saquear uma ou várias das tumbas ocultas no vale. Ao final penetraram na câmara de enterro do supremo sacerdote Nefrekeptah, o qual tinha servido em vida no templo de Kheperi e era muito poderoso e estimado, por isso o lugar exato de sua tumba tinha permanecido em segredo até que aqueles jovens se toparam com ele por acaso e descobriram ali o Coração de Kheperi. Ou isso se diz.

—Então, insinua você que esses jovens roubaram a esmeralda? — o semblante de Madame Valcoeur se via pálido ao leve fulgor das velas e o fogo que iluminava o salão.

—Sim, um desses jovens o roubou, Madame. Os outros perderam a vida durante uma estranha tormenta que alagou o vale enquanto estavam no interior da tumba do supremo sacerdote.

—Mas... como... como sabe que esse jovem... ? Como se chamava? Como sabem que levou o Coração de Kheperi, Monsieur? Que provas tem disso? Porque suponho que todo isso não é mais que uma velha lenda, afinal de contas, não é certo? — insistiu Madame Valcoeur.

—Não, absolutamente, Madame — o senhor Al Walid sacudiu a cabeça — O supremo sacerdote Nefrekeptah existiu sem dúvida alguma, pois existem antigos textos egípcios que falam dele. E, na realidade, também há um documentário de que era supremo sacerdote do templo de Kheperi quando a apreciada esmeralda desapareceu tão misteriosamente. O jovem que saqueou seu sepulcro era um tal lorde James Ramsay, visconde de Strathmor.

 

—Visconde de Strathmor? — a linda cara de lady Christine tinha uma expressão extasiada — Esse título é escocês, e os Ramsay são sem dúvida um clã escocês, mas esse vizcondado em particular é muito antigo e desapareceu há muito tempo por falta de herdeiros varões.

—É muito possível, senhora. Como não conheço os clãs nem os títulos escoceses, não posso assegurar. Só sei que lorde Strathmor conseguiu escapar de algum modo da tumba do supremo sacerdote e que chegou ao Cairo. Ali fez amizade com um velho sacerdote cego que lhe contou a história do famoso Coração de Kheperi.

—Mas, mesmo assim, isso não prova a existência da esmeralda, nem muito menos demonstra que lorde Strathmor a roubou — assinalou Monsieur Valcoeur.

—Muito certo, Monsieur — respondeu o senhor Al Walid — Entretanto, por meios tortuosos dos quais sei muito pouco, depois se soube, graças ao sacerdote cego, que lorde Strathmor possuía em efeito o Coração de Kheperi e que o tinha roubado do sepulcro de Nefrekeptah, arrancando-o do peito da múmia do supremo sacerdote.

—Se isso é assim, onde está a esmeralda agora? — Madame Polgar com seus olhos cintilantes se inclinou para frente em seu assento, cravando suas mãos semelhantes a garras nos braços da poltrona.

—Ninguém sabe, Madame, pois desapareceu de novo misteriosamente depois da morte de lorde Strathmor. Presume-se que seu único filho herdou o amuleto, mas me temo que o que foi dele depois de sua morte é um completo enigma.

—Certamente, senhor Al Walid, para ser você herpetólogo está muito versado na história e a religião de seu país — a adivinha observava atentamente o egípcio.

—Como você, Madame, sinto um profundo interesse por todas as coisas da espiritualidade antiga. Não só é um campo fascinante de estudo por si mesmo, mas também, como você muito bem disse, estão relacionadas de um modo ou outro com as serpentes. Por isso sempre acreditei que, para compreender inteiramente a natureza das serpentes, é necessário entender suas relações com o homem.

A conversa se centrou a seguir no tema escolhido para essa noite, o destino e o livre-arbítrio, mas durante o resto da noite Malcolm escutou só pela metade enquanto as engrenagens de seu cérebro giravam vertiginosamente. Antes de abandonar Hawthorn Cottage, sua mãe lhe havia dito que aquela era uma estranha oportunidade. Mas que pouco suspeitava ela até que ponto ia ser! Que probabilidade havia, perguntava-se Malcolm, de que encontrasse ali o senhor Al Walid, descobrisse que era egípcio e que era também muito versado na história do Coração de Kheperi? Aquilo não podia ser uma simples coincidência.

Malcolm se sentia cada vez mais miserável preso as redes do destino, tecidas há muito tempo e das quais só o dom do livre-arbítrio podia salvá-lo. Desejava ardentemente debater com o senhor Quimbly sobre tudo que tinham ouvido essa noite. Mas a reunião resultou ser tão interessante e entretida que não se dissolveu até bem entrada a noite, depois da qual era muito tarde para conversar com seu chefe.

—Sim, sim, eu estou tão ansioso como você para repassar os acontecimentos desta noite, Malcolm — disse o senhor Quimbly assim que saíram da casa — Mas nossa pequena conversa terá que esperar até manhã, temo-me. Não estou acostumado a ficara cordado até tão tarde e estou tão cansado que de meus lábios não sairia nada sensato. Assim que nos veremos pela manhã. Podemos comer de novo juntos em minha casa.

—Será um prazer, senhor!

Malcolm viu subir o senhor Quimbly em um carro e se encaminhou logo para sua casa. A lua e as estrelas brilhavam no firmamento, e sua luz, que se mesclava com a das luzes, iluminava seus passos enquanto caminhava para Saint John's Wood. Estava tão casando e se amontoavam tantas idéias em sua cabeça, que perdeu a noção de tudo que o rodeava e baixou a guarda. Assim, o brutal e repentino ataque lhe pegou completamente despreparado.

Só quando lhe caiu bruscamente o chapéu percebeu o perigo, e um instante depois umas mãos grossas tentaram lhe colocar um capuz sobre a cabeça. Esta vez, entretanto, graças às muitas semanas que levava treinando, reagiu com maior rapidez. Largou-se violentamente e começou a golpear com o guarda-chuva seus oponentes com fúria, tentando afugentá-los. Eles lhe devolveram os golpes, mas Malcolm compreendeu em seguida que aqueles dois rufiões, apesar de sua disposição para lutar, careciam da experiência que ele tinha adquirido.

Ao fim de um momento retrocederam e Malcolm pôde vê-los claramente à luz da lua e das luzes que iluminavam a rua. Viu com assombro que seus assaltantes usavam máscaras, como se acabassem de sair de um baile de disfarces. Mas, se era assim, aquele baile se celebrou em um lugar pouco respeitável, pois suas roupas estavam sujas, remendadas e puídas. Aqueles dois homens não tinham nem sua altura nem sua compleição; eram fibrosos e fracos, como se estivessem a longo lutando para ganhar a vida nos baixos recursos de Londres. Enquanto se moviam a seu redor, Malcolm pensou em um escuro canto de sua mente que se pareciam com os espantalho que de menino tinha visto tantas vezes nos campos de trabalho. Uma coisa era segura: aqueles dois homens não eram Khalil al Walid e seu servente, como tinha suspeitado.

O fato de que fossem desconhecidos lhe tranquilizou em parte e, ao mesmo tempo, desalentou-lhe. Porque talvez não fossem mais que vulgares ladrões que se propunham lhe roubar... ou, pior ainda, assassinos que pretendiam matá-lo para roubar seu cadáver tranquilamente, lhe despojando não só de sua carteira ou suas jóias, mas também da roupa e os sapatos. Por outra parte, talvez aqueles rufiões estivessem trabalhando para o senhor Al Walid e seu criado, ou inclusive os Foscarelli, em cujo caso sem dúvida se propunham matá-lo e lhe roubar o crucifixo que tinha pendurado no pescoço. Malcolm sabia que não devia permitir que isso ocorresse e, quando seus assaltantes lhe atacaram com renovado ímpeto, defendeu-se com ferocidade, usando o guarda-chuva e os punhos.

A briga foi feroz. Mas não havia ninguém ali para presenciá-la. Esta vez, nenhum Nicolas Ravener foi em seu auxílio, nenhum policial apareceu em cena fazendo ressonar seu apito. Aqueles dois canalhas tinham escolhido bem o lugar do assalto, em um desolado canto sudoeste de Regent's Park, no qual só havia umas poucas casas ao outro lado da rua, muito perto de Regent's Canal. A proximidade do canal era preocupante, pois Malcolm temia que, se não conseguisse impor-se a seus assaltantes, estes lhe arrojassem inconsciente ou inclusive morto à água, onde talvez passasse algum tempo antes que o descobrissem. Aquela horripilante idéia deu um ímpeto novo a seus esforços e, embora deu vários golpes, conseguiu dar mais dos que recebia, usando sem piedade o guarda-chuva para cravar e golpear seus assaltantes, que grunhiam e gemiam de dor.

Finalmente, um dos dois rufiões tirou uma navalha cuja folha cintilou à luz da lua e as luzes. Malcolm apertou a mandíbula com determinação e, compreendendo que devia atuar sem tardar, jogou de lado o guarda-chuva e se jogou para o rapaz da navalha, lhe agarrando pelo ossudo pulso. Seu adversário e ele lutaram pela navalha, enquanto o outro agarrava o guarda-chuva e começava a golpeá-lo na cabeça e nas costas até que Malcolm pensou que, longe de sair vitorioso, ao fim de uns minutos que cairia de joelhos e acabaria degolado. Desesperado, saltou para o lado agilmente, sujeitando os pulsos de seu adversário e, ao girar-se, conseguiu desequilibrar seu oponente, que se precipitou para frente e cravou acidentalmente a navalha no rapaz do guarda-chuva.

O sangue emanou na penumbra e o da navalha, cheio de perplexidade, começou a amaldiçoar e extraiu a folha enquanto o outro emitia gemidos de assombro e dor e, deixando cair o guarda-chuva, agarrou o braço, sobre cuja manga se ia estendendo uma mancha escura.

—Me acertou! Acertou-me! — exclamou com voz rouca, e começou a correr rua abaixo, cambaleando-se.

—Pagará por isso, como todo o resto, cartógrafo falso! Deve-nos muito e não pensamos esquecer! Cedo ou tarde cobraremos o que nos deve e terá seu castigo! — espetou o outro a Malcolm e, ao fazê-lo, passou-se a navalha ensanguentada junto à garganta e começou a correr atrás de seu companheiro.

Dolorido e exausto, Malcolm observou seus agressores com receio até que os viu desaparecer entre as densas sombras. Uns minutos depois, ouviu os cascos de um cavalo e o estalo contínuo das rodas de um veículo no meio-fio. Ao parecer, aqueles dois rufiões tinham um carro esperando-os, como da outra vez. Depois, Malcolm só ouviu sua respiração agitada e áspera e o suave fluxo da água lambendo as margens de Regent's Canal.

Ao fim de um momento, seguro já de que seus agressores tinham fugido, recolheu seu chapéu e seu guarda-chuva e começou a andar com muita dificuldade para Hawthorn Cottage. Quando chegou ao fim, abriu a porta com sua chave e subiu com grande esforço a seu quarto. Ali se despiu, lavou-se e se deitou na cama, dolorido. Por fim se sumiu em um inquieto torpor, atormentado por pesadelos e profundamente perturbado porque seus assaltantes lhe tinham chamado de «cartógrafo falso». Estava claro que sabiam quem era e onde trabalhava. Mas, o que era mais preocupante, não tinha nem o mais leve indício de sua identidade nem de por que desejavam lhe matar.

 

           A livraria do senhor Cavendish

 

                     1848

                     Old Bond Street, Londres, Inglaterra

Ao despertar à manhã seguinte, Malcolm se sentia como se durante toda a noite, enquanto dormia, alguém tivesse deixado cair sobre ele, uma e outra vez, um carrinho de mão cheio de tijolos. Doíam-lhe todos os músculos e ossos do corpo, e não pôde sufocar um gemido de dor ao tentar levantar-se da cama. Ao chegar ao lavabo e ver seu rosto sem barbear no espelho, descobriu para seu desalento que tinha o olho esquerdo arroxeado e o lábio inferior rachado. Estava claro que não poderia ocultar o acontecido de sua mãe e, enquanto fazia sua higiene matinal, ficou pensando e tentando encontrar uma explicação plausível para suas feridas.

Quando desceu para tomar o café da manhã, tinha dado já com o que esperava fosse um relato verossímil, que pôde pôr a prova com a senhora Peppercorn assim que esta o viu.

— Santo céu, senhor! O que lhe passou? — exclamou quando Malcolm se sentou à mesa da cozinha — Pensava que tinha ido jantar na casa de uns condes franceses, não em um botequim!

— Sim, assim foi, senhora Peppercorn, mas, por desgraça, saí de madrugada da casa dos condes de Valcoeur e, como era tão tarde, decidi me dar o estranho luxo de alugar um carro para que me trouxesse até aqui. Mas, ao subir ao carro, escorreguei com a má sorte de golpear a cara com o degrau.

— Santo céu, senhor! Teve sorte de não ter machucado mais — a senhora Peppercorn sacudiu a cabeça, preocupada. Logo se voltou para a criada, que estava junto à pia, esfregando pratos — Lucy, deixe isso agora. Quero que vá correndo ao açougue e compre um bom filé fresco para o olho arroxeado do senhor Blackfriars. É o melhor para estas coisas, senhor. Em seguida lhe baixará o inchaço.

Embora Malcolm tentasse dissuadi-la, a cozinheira não quis ouvir nem pensar do assunto e a criada foi enviada a toda pressa ao açougue, enquanto ele tomava o café da manhã e lia o jornal. Lucy voltou depois de um momento com um filé envolto em papel com uma corda. A senhora Peppercorn desembrulhou a carne e a deu a Malcolm, insistindo em que a pusesse sobre o olho ferido. Ele concordou ao fim, pensando que seria uma descortesia não lhe fazer caso, já que tinha tanto trabalho. Entretanto, logo descobriu que a peça de carne, que estava muito fresca, exercia um efeito calmante sobre seu olho dolorido e, quando acabou de ler o jornal e de beber uma segunda taça de chá, sentiu que o inchaço tinha diminuído um pouco.

— Sim, eu tinha razão. Já está um pouco melhor, senhor Blackfriars — a cozinheira assentiu com a cabeça enquanto o observava — Agora pelo menos poderá dizer a sua mãe que fez algo, não vá ser que tema que você perca o olho. Sei muito bem quanto se preocupa com você.

— Sim, assim é, senhora Peppercorn. Muito obrigado por sua ajuda.

Malcolm se levantou da mesa e subiu para dar bom dia a sua mãe, preparando-se para o desgosto que ia lhe dar, que foi, em efeito, considerável. Mas finalmente conseguiu convencê-la de que só tinha sido um acidente ao escorregar sobre o degrau de um carro e de que ficaria bem em um par de dias.

— Bom, se estiver cansado ao subir a um carro, tenho que agradecer porque não machucou mais. E porque aconteceu depois do jantar na casa dos condes de Valcoeur, Malcolm. Porque imagina como teria sido se tivesse que ir com um olho arroxeado e o lábio partido. Que impressão lhes teria causado!

— Sim, suponho que os senhores de Valcoeur não se alegrariam tanto nesse caso — disse Malcolm sorrindo a contra gosto.

— Causou-lhes boa impressão, filho? Oh, claro que sim! Seu pai e eu nos esforçamos muito para te educar como um autêntico cavalheiro.

— Não acredito que os condes de Valcoeur encontrassem nenhum motivo de queixa, mãe. Assim não se preocupe com isso. Agora devo ir ou chegarei tarde ao trabalho. Mas lhe prometo contar tudo assim que chegar em casa esta tarde.

— Sim, deve fazê-lo. Estou ansiosa para saber tudo — disse ela.

— Já imaginava.

Embora se sentisse ligeiramente culpado por ter mentido a sua mãe, ao sair da habitação estava contente porque sua conversa com ela tinha sido tranqüila e não se viu obrigado a lhe contar o ocorrido, pois isso só teria servido para angustiá-la pensando que seus inimigos, os Foscarelli, tinham descoberto sua verdadeira identidade e seu paradeiro, e Malcolm não queria que nada perturbasse a tranquilidade de sua mãe. Já tinha sofrido bastante pela morte de seu pai e de seu tio Charles e pelo inexplicável desaparecimento de tia Katherine e seus dois filhos.

Depois de sua habitual viagem de ônibus até Oxford Street, Malcolm entrou na Quimbly & Company, onde se dirigiu sem demora para a parte de trás da loja e, depois de bater na porta, entrou no escritório de seu chefe.

— Meu deus, o que aconteceu, Malcolm? — exclamou o senhor Quimbly, levantando-se da cadeira.

— Lamento lhe dizer que ontem à noite me atacaram de novo, senhor. E desta vez pude ver meus assaltantes. Eram dois, mas, por desgraça, não tenho nem idéia de quem eram, pois levavam o rosto coberto com máscaras — Malcolm lhe relatou a seguir o acontecimento da noite anterior.

— E diz que um desses rufiões te chamou «cartógrafo falso»? — perguntou o senhor Quimbly com o cenho franzido —É muito estranho, não acha? Se os Foscarelli, ou inclusive os egípcios, tivessem contratado esses homens, é muito possível que lhes houvessem dito ao menos que se chama Malcom Blackfriars. Mas... cartógrafo? Parece-me muito estranho, Malcolm. Porque qualquer pensaria que esse epíteto se referia a sua relação com minha loja de mapas, não acredita?

— Sim, senhor, tem você razão — respondeu Malcolm lentamente — Mas não acredito que tenha enfurecido a um cliente até o ponto de que mande a um par de valentões para me dar uma surra.

— Não, eu tampouco. Assim, até que averiguemos algo mais, temo-me que isto seguirá sendo um mistério. Enquanto isso, não deve baixar a guarda em nenhum momento. Menos mal que insisti em que aprendesse a boxear e a manejar a espada. Ao parecer, as lições que tomou te foram muito úteis.

— Sim, senhor, é certo.

— Enfim, sei que está tão ansioso como eu para falar do acontecido de ontem à noite na casa dos senhores de Valcoeur, e sei também que te prometi que comeríamos em minha casa. Entretanto, houve uma mudança de planos que espero te agrade, pois já acertei isso. Pouco depois de chegar à loja esta manhã, recebi uma mensagem de meu velho amigo Boniface Cavendish. Voltou por fim a Inglaterra e quer reunir-se conosco e com Jacob esta mesma tarde. Além disso, disse que convidas a todos para um almoço e, embora não tenho nenhuma dúvida de que a comida consistirá em uns quantos sanduíches comprados em uma barraca na rua, não quero lhe ofender nem lhe desiludir recusando seu amável oferecimento.

— Não, claro que não, senhor. Alegrará-me muito conhecer seu amigo o senhor Cavendish.

— Bem. Então, podemos matar vários pássaros de um tiro, informando a Boniface sobre o que averiguamos até agora sobre sua herança e o Coração de Kheperi, e contando a Jacob o acontecido de ontem à noite. Talvez possam nos dizer algo sobre esse tal senhor Al Walid. Porque, se esse homem é de verdade herpetólogo, eu como o chapéu! Em busca de uma serpente gigante! Ja! Que disparate!

 

À manhã seguinte da reunião de sua mãe, Ariana despertou com a sensação de não dormido. Passou a noite dando voltas na cama. Tinha-lhe causado uma profunda surpresa conhecer a ocupação do senhor Al Walid, e tinha ficado atônita ao descobrir que tinha empreendido uma viagem a Escócia, em busca do grande monstro marinho que, conforme se dizia, morava no lago Ness. Desde que tinha uso da razão, sua mãe lhe havia dito uma e outra vez que tal criatura não existia além dos limites de seu pesadelo. Mas, depois daquela noite, Ariana se sentia profundamente confusa e doída, pois tinha a impressão de que sua mãe a tinha traído de algum modo ao lhe ocultar que no lago podia viver, efetivamente, uma enorme serpente marinha.

Enquanto pensava nestas coisas, alguém bateu na porta de seu quarto e um instante depois entrou sua mãe, levando uma bandeja carregada com uma jarra de chocolate quente, fruta fresca e bolachas recém feitas.

— Bom dia, chérie. Dormiu bem?

— Não muito bem, mamam.

— Oh, carinho, já temia isso. Por isso te trouxe eu mesma o café da manhã. Pensei que devíamos conversar.

— Sobre o senhor Al Walid e seu campo de estudo? Sobre sua busca pelo monstro marinho do lago Ness, cuja existência sempre se empenhou em negar?

— Oui. Suspeitava como deveria se sentir depois de conhecer o senhor Al Walid e ouvir falar de seus estudos — a condessa deixou a bandeja sobre a mesinha de noite e começou a servir o chocolate quente. Feito isto, deu uma taça a Ariana e se sentou junto a sua filha na cama — Não te reprovo que esteja zangada comigo, Ma petite. Mas quero que saiba que não menti a propósito sobre a serpente marinha. Porque, embora haja quem diz havê-la visto, seus relatos são tão confiáveis como os de quem conta histórias de fadas, duendes e outras criaturas místicas. Em realidade, chérie, não há provas de que esse monstro marinho seja algo mais que um efeito da imaginação dos montanheses. E, dado que tem sonhos aterradores com esse monstro, pensei que o melhor seria negar sua existência rotundamente. Parecia-me um absurdo te assustar ainda mais te dizendo que talvez fosse real.

— Não digo que suas intenções não fossem boas, mamam. Mas é que não vê que já não sou uma menina? Tenho idade suficiente para me casar e ter filhos. Não pode continuar me protegendo eternamente. Acaso não percebeu que vivi sempre entre algodões? Demorei muito mais que outras garotas de minha idade a me apresentar em sociedade e, mesmo assim, sempre tinha que te pedir exaustivamente antes de deixar assistir a uma festa, a um baile ou um jantar. Com razão não encontrei ainda um jeune homme, como papai e você desejariam.

— Não seja injusta, Ma petite — respondeu brandamente a condessa — Havia muitos jovens na França desejosos de pedir sua mão. Mas, se for sincera, reconhecerá que não olhava a nenhum com bons olhos. E aqui, na Inglaterra, tampouco a atraiu nenhum jovem sua atenção. Salvo Monsieur Blackfriars. Equivoco-me, chérie?

— Oh, não me fale do Monsieur Blackfriars! Sei que vai dizer o mesmo Sophie: que não tem título nem riquezas, assim não pode aspirar a uma jovem como eu.

— Oui, todo isso é por desgraça certo, Ma petite. Se não, eu não poria nenhum impedimento, nem seu pai tampouco, conforme acredito, porque Monsieur Blackfriars é um jovem muito elegante, educado e surpreendentemente cavalheiresco. Mas o mundo não é frequentemente como nós gostaríamos, chérie, e o fato é que Monsieur Blackfriars tem pouco ou nada que te oferecer, além de seu bom nome. Que futuro teria, casada com um simples vendedor de mapas?

— Pelo menos seria feliz. E, além disso, eu tenho meu próprio dinheiro.

— Oui, dinheiro que seu pai pensa te entregar assim que se case. Mas uma coisa te digo, Ma petite. Conheço os homens, e Monsieur Blackfriars não seria o homem que eu acredito que seja, se conseguisse sua mão, consentiria em viver de seu dote. Pode que não seja rico, mas é um jovem orgulhoso e honrado, não um libertino nem um caçador de dotes. Asseguro-te que não tocaria nem um penique de seu dinheiro, mas sim insistiria em que vivessem de seus ganhos.

— E tão terrível seria isso, mamam?

— Non, pode que não, chérie — o semblante de Madame Valcoeur se suavizou — Não, se o amar e ele te corresponder. Mas, se tiver julgado bem o Monsieur Blackfriars, sei que seus escrúpulos não lhe permitirão te pedir que viva com ele em condições semelhantes, sabendo a vida a que está acostumada. Sentir-se-ia culpado e envergonhado se te pedisse que te conformasse com menos. Assim vá atrás deles se acredita que deve fazê-lo, Ma petite, pois sei que o coração tem vontade própria e sobre ele não manda a razão. Mas lhe advirto: a menos que a posição do Monsieur Blackfriars mude por um golpe do destino, se está decidida a conquistá-lo, acabará quase com toda certeza com o coração partido. Porque, embora o queira, não te pedirá que se case com ele, chérie.

— Oh, mamam, espero que se equivoque! Embora, no fundo, temo que tenha razão — confessou Ariana com tristeza.

— Sinto muitíssimo, de verdade, Ma petite. Mas, como te disse antes, há muitos jovens elegantes que lhe conviriam. Assim, posso te perguntar por que Monsieur Blackfriars, chérie? O que tem esse jovem que te cativou até o ponto de conquistar seu coração a primeira vista, quando tantos outros o tentaram em vão?

— Não sei, mamam. Só sei que, no momento em que vi o Monsieur Blackfriars inclinar-se sobre mim em Oxford Street e notei que me levantava em seus fortes braços, senti como se o conhecesse sempre. Sei que parece uma tolice, mamam, mas me recorda a Collie, o moço de meu sonho... de meu pesadelo. É quase como se fossem a mesma pessoa — Ariana se interrompeu bruscamente, mordendo o lábio inferior. Logo encolheu os ombros com inapetência e deixou escapar uma risada envergonhada — Mas isso é impossível, claro. Porque Collie não existiu alguma vez, não é certo? Não é mais que um produto de minha imaginação. Porque nunca estive na Escócia, nem nas Terras Altas, nem no lago Ness, verdade? E, como não acredito possuir o dom da clarividência, Collie não pode ser mais que um sonho de juventude. Dá a casualidade de que Monsieur Blackfriars se parece com ele um pouco, isso é tudo. Já está. Agora que falei isso em voz alta e ordenei minhas idéias, não pensarei mais nisso. E pode que com o tempo deixe de sonhar com Collie e de pensar no Monsieur Blackfriars.

— Oui, acredito que é o melhor, ma petite — murmurou mecanicamente Madame Valcoeur e, levantando-se, deu-se a volta. Seu formoso semblante se via muito pálido à luz da manhã que penetrava pelas janelas, e seu olhar parecia estranhamente turvado e reflexivo.

Ariana, entretanto, não reparou na estranha expressão de sua mãe. E, de todos os modos, não teria podido vê-la através das lágrimas que tinha de repente seus olhos violetas.

 

A livraria de Boniface Cavendish estava favoravelmente situada no cruzamento entre as ruas New Bond, Old Bond e Grafton, e era um estabelecimento pequeno e de modesta aparência cuja porta de carvalho se abria a um interior cheio de livros até transbordar. De fato, ao entrar com o senhor Quimbly e Jacob Rosenkranz, enquanto a campainha de bronze da porta tilintava alegremente, Malcolm pensou que não tinha visto tantos livros juntos em toda sua vida. Do chão ao teto havia estantes de madeira repletas de livros de toda índole: volumosos tomos encadernados em pele, pequenos livros de bolso que eram pouco mais que panfletos, e, entre eles, livros de todas classes e tamanho que pareciam embutidos sem tom nem som nas estantes, encaixados ali onde cabiam. Aquele amontoamento de livros fazia com que a loja parecesse incrivelmente pequena, lotada e suja. E, em efeito, tal e como pôde observar Malcolm, as prateleiras estavam cheias de pó.

Enquanto passava o olhar pela loja, fascinado, observou que se aproximava deles um homem ao que em seguida reconheceu como Boniface Cavendish em pessoa: um homem que não era nem baixo e robusto, como o senhor Quimbly, nem alto e enxuto, como o senhor Rosenkranz, a não ser algo intermédio e sem dúvida um dos cavalheiros de aspecto mais extravagante que Malcolm tinha visto nunca. Isso se devia a que inclusive o mais comedido observador teria podido descrever a aparência do senhor Cavendish como desleixada. Seu cabelo cinza se arrepiava estranhamente em todas as direções, como se fizesse dias que não se penteava, e suas roupas eram tão largas e estavam tão enrugadas que se haveria dito que levava semanas dormindo com elas. O óculos, que usava sobre o nariz, necessitava uma boa limpeza, e sua camisa enrugada estava manchada de cinza e tabaco de pipa.

— Santo céu, onde demônios estavam? — bramou — Estou esperando faz meia hora!

— Não, sua nota dizia claramente às doze e trinta, Bonny. Estou seguro, e agora é doze e trinta — respondeu o senhor Rosenkranz em tom suscetível enquanto agitava seu relógio de bolso.

— Ah, sim? Vá, teria jurado que lhes disse ao meio-dia em ponto. Mas não importa. Já estão aqui, e vejo que continua tão teimoso como sempre, Jacob. Suponho que não comeram ainda.

— Claro que não. Convidou-nos a comer aqui..., embora duvide que nos dê algo mais que um sanduíche, e espero que não seja de presunto, Bonny, porque já sabe que não como porco.

—Ah, sim, claro, claro... Já não me lembrava de que lhes tinha convidado para o almoço. Danny! Tim! Onde estão, rapazes? Ah, estão aqui. Peguem alguns copos limpos e corram à uma barraca de sanduíches. Traga-nos café e sanduíches e o que seja que sirvam hoje. Bom, Septimus, meu velho amigo, espero que esteja de melhor humor que Jacob... e que não se importe de comer presunto!

— Claro que não, Bonny. Agora, por favor, me permita te apresentar meu funcionário, o senhor Malcolm Blackfriars. Malcom, como tenho certeza que já adivinhou, este é Boniface Cavendish, o proprietário desta livraria.

— É um prazer conhecê-lo, senhor Cavendish — disse Malcolm.

— Qualquer amigo de Septimus e Jacob é meu amigo. Assim, por favor, me chame Bonny. Bom, passamos a meu escritório, cavalheiros? A verdade é que estou morto de curiosidade por saber o que aconteceu durante minha ausência. Tenho muito olfato e estou seguro de que aqui está acontecendo algo estranho. Se não, Jacob não teria concordado comer sanduíches de uma barraca da rua, tenho certeza disso. Não estaria a tom com a imagem de um joalheiro!

— Está muito equivocado, Bonny. Não tenho nada contra as barracas de comida, e frequentemente, quando tenho muito trabalho, eu também frequento uma — protestou, zangado, o senhor Rosenkranz — É simplesmente que não como carne de porco porque sou judeu.

— Caramba! Tinha esquecido as restrições de sua dieta! Mas não tema, Jacob. Comerá agriões ou um algo igualmente inofensivo — continuou alegremente o senhor Cavendish enquanto os conduzia a seu escritório — A senhora Potter tem uns agriões deliciosos em sua barraca. Ou isso diz ela!

Malcolm deduziu em seguida que o livreiro era tão avoado como afável e desalinhado, impressão que referendou seu escritório, pois era este um completo desastre transbordante de livros e papéis, como se o senhor Cavendish deixasse todas as coisas onde caíam. A habitação estava repleta de cacarecos de toda espécie, entre os quais se incluíam um cérebro conservado em um grande frasco e um enorme pássaro dissecado cujas plumas roídas pareciam em processo de desintegração. Malcolm compreendeu então por que lhe havia dito o senhor Quimbly que o livreiro nunca jogava nada fora.

Depois de apartar apressadamente algumas pilhas de livros e papéis do sofá e das cadeiras, o senhor Cavendish tirou um enorme lenço do bolso e sacudiu com energia as almofadas para lhes tirar o pó; convidou-os a sentarem-se, aparentemente alheio à poeira que tinha levantado. Tomou assento em sua poltrona, atrás do escritório, sorriu jovialmente e começou a acrescentar à carregada atmosfera do escritório a fumaça de sua pipa, da qual fumava com evidente regozijo, lançando baforadas de fumaça que ficavam flutuando no ar.

— Bom, contem-me tudo — disse com avidez —Porque, se não me equivocar, enquanto estive fora, recuperando minha maltratada saúde e me queimando no sol do Mediterrâneo, vós três se embarcaram em uma grande aventura.

— Assim é, em efeito, Bonny — respondeu o senhor Quimbly — Mas, antes de lhe contar o acontecido, deve nos dar sua palavra de honra de que não falará com ninguém deste assunto sem o consentimento de Malcolm.

— Ah, então se trata de um mistério... de um segredo, não é assim? Melhor que melhor! Claro que lhes dou minha palavra. Agora, continue Septimus. Do que se trata? Está claro que tem algo que ver com o jovem senhor Blackfriars, aqui presente. Descobriu possivelmente o mapa de um tesouro enterrado entre o pó de sua loja, Septimus?

— Em minha loja não há pó, asseguro-lhe Bonny, embora, por desgraça, não posso dizer o mesmo da tua. Agora, fecha o pico enquanto Malcolm conta sua história. E logo Jacob e você ouvirão os estranhos acontecimentos de ontem à noite e que deram como resultado a penosa aparência que Malcolm apresenta hoje. Acreditem, a trama se complica!

Antes que pudessem dizer algo mais, entretanto, Tim e Danny, os empregados do senhor Cavendish, retornaram da barraca de comida da senhora Potter carregando taças de café fumegante, sanduíches de presunto, fatias de pão com manteiga, alguns molhos de agrião para o senhor Rosenkranz, duas dúzias de ovos fervidos e grossas e generosas fatias de bolo recém assado. Enquanto comiam, Malcolm relatou sua história, incluindo os acontecimentos da noite anterior. Sua narração deixou o senhor Cavendish boquiaberto, de modo que, quando acabou, o livreiro ficou sentado em sua cadeira, sacudindo a cabeça, mudo de assombro. Ao fim de um momento disse:

— Francamente, senhor Blackfriars, deixou-me você de pedra. Acredito, entretanto, que posso lhes ser de alguma utilidade em sua busca da esmeralda perdida — absorto, o livreiro começou a tamborilar com seus dedos sobre a mesa — Deixem-me pensar onde está o livro que me trouxe lembranças de seu extraordinário relato. Poderia estar na estante de história ou em outra categoria... hum... Já sei! — o senhor Cavendish se levantou bruscamente de sua cadeira e desapareceu sem aviso na livraria, onde uns instantes depois o ouviram chamar a seus empregados e rebuscar nas prateleiras. Ao cabo de um momento, uma pilha de livros caiu no chão, e o senhor Cavendish começou a resmungar maldições em voz baixa. Um momento depois, voltou a entrar no escritório — Aqui está o tomo que procurava! Por fim saberemos tudo que terá que saber sobre o único filho e herdeiro de lorde Dúndragon, lorde Robert Roy Ramsay, nono conde de Dúndragon! — o senhor Cavendish agitou com alvoroço o pesado volume que levava nas mãos e, tomando assento, colocou-o sobre sua mesa.

— O que é isso, Bonny? — o senhor Quimbly se inclinou para frente para olhar o título do livro — Uma história do clã Ramsay?

— Não, uma história sobre sociedades secretas — o livreiro abriu o volumoso livro e começou a folheá-lo até que por fim exclamou — Sabia! Sabia! Aqui está. O que lhes havia dito? Eu nunca esqueço o que leio em um livro!

— Por isso precisamente não se lembra de nada mais — comentou com ironia o senhor Rosenkranz — Mas isso não vem ao caso agora. O que é o que encontrou, Bonny?

— Uma escura passagem a respeito de lorde Rob Roy Ramsay, nono conde de Dúndragon. Sim, vêem-no? O senhor Blackfriars disse que lorde James Ramsay, oitavo conde de Dúndragon, morreu à mãos de seu único filho como consequência de um dramático acidente de caça, e foi isso o que disparou minha memória. Assim é como me lembrei que tinha lido algo sobre esse assunto em alguma parte. Só me faltava recordar onde. E é aqui, nos iluminados. História das ordens esotéricas, de sir Walter Hutchenson. Escutem isto — o senhor Cavendish assinalou com o dedo a página impressa — Sir Walter escreveu que, depois da morte prematura do oitavo conde de Dúndragon, o nono lorde Dúndragon se encontrava tão perturbado por ter matado a seu pai, embora fosse acidentalmente, que se entregou ao cultivo de sua vida espiritual e ao estudo dos ocultos e as ciências esotéricas. Devem recordar que essa foi também a obsessão de muitos homens ilustres ao longo dos séculos. Assim, não há nada de estranho nisso. Mas os condes de Dúndragon eram escoceses, e a Escócia era há muito tempo um viveiro de cavalheiros templários, entre outras coisas. E aqui, na Inglaterra, naturalmente, havia também várias ordens pseudo monásticas como os Cavalheiros de Saint Francis, fundada por sir Francis Dashwood e conhecida hoje em dia como o Clube do Fogo do Inferno. E aqui vem o interessante. Com o tempo, como sir Francis, o nono lorde Dúndragon fundou também sua própria ordem pseudo monástica, a que chamou Ordem dos Filhos de Isis, em honra a deusa egípcia. A ordem, que incluía treze irmãos ou monges, adorava, conforme se acredita, «uma versão egípcia da pedra filosofal», lavrada em forma de besouro e consagrada ao deus egípcio Kheperi e que, conforme se acreditava, dirigida devidamente, concedia a imortalidade a quem a possuía.

— O Coração de Kheperi! — exclamou Malcolm com o coração acelerado.

— Isso parece — disse o livreiro, e seus olhos castanhos brilharam, alvoroçados.

— Diz o livro o que foi da esmeralda, Bonny? — perguntou o senhor Quimbly.

— Por desgraça, não. Mas afirma, em troca, que depois de que quatro dos irmãos da ordem dos Filhos de Isis se encontraram mortos em trágicas e estranhas circunstâncias, a seita se dissolveu bruscamente e seus membros se dispersaram.

— Momento no qual, é de supor, o Coração de Kheperi desapareceu — o senhor Rosenkranz deixou escapar um profundo suspiro.

— O nono lorde Dúndragon e os outros oito irmãos, como o oitavo lorde Dúndragon, chegaram à conclusão de que a esmeralda estava maldita e sem dúvida a esconderam até que chegassem a entender melhor seu poder — disse Malcolm, pensando em voz alta — Logo forjaram dois crucifixos que são a chave para encontrar o esconderijo do Coração de Kheperi.

— Santo céu! — exclamou o senhor Quimbly, percebendo de repente com uma palmada na frente — É que não o vêem? Contando lorde Dúndragon, ficavam nove irmãos. E se havia nove cruzes? Uma chave composta de nove partes, por assim dizer?

 

           Encontro no parque

 

                     1848

                     Hyde Park e Kensington Gardens, Londres, Inglaterra

Ariana passou a semana em luta com seu coração e sua mente, tentando persuadir-se de que o amor a primeira vista não existia e de que não podia, portanto, haver-se apaixonado por Malcolm Blackfriars. Sentia-se fortemente atraída por ele, sim. Mas isso se devia tão somente a seu surpreendente parecido com Collie, o rapaz de seu sonho, no qual se via a si mesma brincando correndo cheia de felicidade a seu lado por um bosque de outono, para montar-se no pequeno bote de pesca, arrulhada pelo suave som de sua voz. Mas, por muito real que lhe parecesse aquele sonho, Collie não existia. Era só uma invenção de sua imaginação a qual lhe tinha posto o rosto formoso e moreno de Malcolm Blackfriars, e devia aceitá-lo.

Não pensaria mais em Malcolm Blackfriars, resolveu energicamente. Mas, para seu desalento, logo descobriu que não era fácil levar a cabo sua resolução e, por fim, na segunda-feira seguinte pela tarde, não pôde suportar mais o desgosto de não vê-lo.

— Sophie, hoje brilha o sol e faz um dia tão bonito que eu gostaria de ir dar um passeio — disse a sua donzela, afastando-se da janela de seu quarto, que dava à praça — Vá abaixo e lhe diga ao Monsieur Montségur que nos prepare um almoço campestre. Vamos comer em Hyde Park. Não te parece divertido?

Mas Sophie, que estava sentada em um banco estofado, aos pés da cama de Ariana, não se deixou enganar por sua expressão inocente.

— Mademoiselle, esta idéia sua não terá nada a ver com o fato de que Monsieur Blackfriars disse no jantar da semana passada que às vezes vai almoçar em Hyde Park, verdade?

— E o que se for assim? — Ariana agitou a cabeça, zangada, e uma careta obstinada começou a formar-se nas comissuras de sua boca — Acaso não posso ir dar um passeio pelo parque por isso? Além disso, o parque é muito grande, sabe? É muito improvável que encontremos o Monsieur Blackfriars. E, de todos os modos, que mais dá que nos encontremos? Já sabe que falei com minha mãe sobre ele e não me proibiu vê-lo.

— Oui, isso é certo — disse a donzela enquanto dava o último ponto ao vestido da Ariana e, depois de fazer o nó ao fio, cortou-o com os dentes — Madame Valcoeur é muito sábia em assuntos do coração, e sabe que se tivesse proibido de ver o Monsieur Blackfriars, só teria conseguido que se empenhasse em vê-lo e que se encontrasse com ele em segredo na primeira oportunidade. Deste modo, você economiza subterfúgios e madame Valcoeur não se vê obrigada a espiar sua própria filha.

— Faz com que me sinta muito culpada, Sophie — disse Ariana.

— Lamento, mas não era essa minha intenção, mademoiselle. É simplesmente que não entendo essa obsessão por um homem com o qual não tem nenhum futuro, sobre tudo havendo tantos cavalheiros bonitos entre os quais escolher. Se eu tivesse tantos pretendentes como a senhorita, sentiria-me muito afortunada e não perderia tempo me apaixonando por um que não tem nem títulos nem riquezas que o respaldem.

— Monsieur Blackfriars tem muitas outras qualidades. E títulos e riquezas não são tudo, Sophie,

— Isso o diz somente porque nunca lhe faltou nada, mademoiselle. Se de repente se encontrasse no lugar de uma pobre mulher da rua, não pensaria o mesmo. Não digo eu que ser nobre e possuir fortuna traga a felicidade, porque as duas sabemos que isso não é necessariamente certo. Mas, mesmo assim, um título abre muitas portas que de outro modo permanecem firmemente fechadas, e o dinheiro assegura que não vai acabar como uma despejada, em uma fábrica ou algo pior.

— Bon Dieu, Sophie! Que coisas diz! Monsieur Blackfriars não é um mendigo. E até você tem que admitir, Sophie, que não se atrapalhou nenhuma só vez no jantar de mamãe e que se defendeu de maravilha na reunião.

— Oui, nisso tem razão. Comportou-se como um perfeito cavalheiro, não posso negar. Muito bem, pois. Irei abaixo dizer a Monsieur Montségur que prepare um almoço campestre e logo iremos dar um passeio por Hyde Park e comeremos ali para que possa extasiar-se contemplando Monsieur Blackfriars se der a casualidade de nos encontrarmos, ou voltar afligida a casa se não acontecer. De todas as formas, espero que saiba o que faz, mademoiselle. E que não acabe com o coração partido.

Mas Ariana, que estava resolvida a sair, não permitiu que a idéia de que Malcolm Blackfriars não estivesse em Hyde Park a desanimasse e logo Sophie e ela, vestida com seus trajes de passeio e seguida por dois empregados que levavam uma manta e uma cesta de vime com seu almoço pôs-se a andar por Portman Street, para Oxford Street e Park Lañe. Ao chegar em Cumberland Gate, seguiram pelo caminho principal que atravessava o coração de Hyde Park, até o lago Serpentine e ali, não muito longe de suas margens, Ariana indicou aos empregados que estendessem a manta e começassem a esvaziar a cesta de picnic.

O coração lhe palpitava com força e as mãos lhe suavam, pois, enquanto passeavam pelo parque, tinha visto Malcolm e, ao acomodar-se sobre a manta, estendendo suas saias a seu redor e colocando a sombrinha de modo que a protegesse do sol, viu que o jovem caminhava para ela. Ao vê-lo, sentiu que o coração lhe palpitava erraticamente no peito e por um instante temeu desmaiar.

— Não lhe ocorra desmaiar, mademoiselle! — sussurrou Sophie.

— Não ia fazer isso — mentiu Ariana.

— Claro que sim!

— Cale, boba! Vai ouvir!

Depois deste intercâmbio de sussurros, não disseram nada mais, pois nesse instante Malcolm se aproximou dela e, tirando a cartola, fez uma profunda reverência.

A luz brilhante e amarela do sol refulgia em seu lustroso cabelo negro, e um atrativo sorriso curvava seus lábios. De repente, Ariana sentiu que ficava sem fôlego, como se o espartilho lhe apertasse muito, e que seu pulso se acelerava.

— Monsieur Blackfriars, que inesperado prazer! — inclinou a cabeça para olhá-lo e lhe lançou um esplendoroso sorriso de boas-vindas. Logo, vendo seu olho arroxeado, exclamou: — Oh, Meu deus! Colocou-se você em uma briga!

— Não, absolutamente, mademoiselle, o asseguro — se apressou a responder Malcolm — Temo que minha penosa aparência se deve a que escorreguei e caí ao subir a um carro depois de abandonar a casa de seus pais no outro dia. E, por desgraça, agora que estão curando, minhas feridas parecem muito piores do que são — fez uma pequena pausa e logo continuou — Estava a ponto de comer quando a vi passeando pelo parque. E, naturalmente, não podia comer até que falasse com você e lhe dissesse de novo o muito que desfrutei do jantar e a reunião na casa de seus pais. Teria a bondade de lhes transmitir meu mais sincero agradecimento a Monsieur e Madame Valcoeur por me convidar?

— Certamente. Mas... almoça sozinho aqui no parque, Monsieur? Se for assim, não quer unir-se a nós? Parece que nosso cozinheiro preparou comida para um regimento — Ariana se ruborizou ao dizer isto, sabendo que Sophie tinha advertido ao Monsieur Montségur, o cozinheiro, que preparasse comida suficiente para que Malcolm almoçasse com elas.

— Não queria incomodar...

— Non, seriamente, não é moléstia absolutamente, o asseguro. Além disso, queria ouvir sua opinião sobre um assunto que saiu a reluzir durante a reunião da semana passada, Monsieur.

— Nesse caso, estarei encantado de me unir a você e a mademoiselle Neuville.

Dito isto, Malcolm se sentou sobre a manta enquanto Sophie, que tinha mandado retirar-se os empregados até que os necessitassem, servia o almoço, enchendo os delicados pratos de porcelana com finas fatias de frios de vitela, frango e presunto e generosas porções de duas saladas distintas, diversos queijos e frutas e grossas fatias de pão recém feito, abundantemente lubrificadas de manteiga. Malcolm abriu o vinho e o serviu nas taças de cristal. Depois, Ariana, Sophie e ele consumiram sua comida falando cortesmente de banalidades. Uma vez acabado o almoço, Sophie anunciou com muito tato que ia dar um passeio ao redor do lago Serpentine e se afastou, deixando-os sozinhos.

— Meu pai ainda não comprou cavalos para que passeemos pelo parque — comentou Ariana melancolicamente enquanto observava como sua donzela atirava pedacinhos de pão aos patos que se apinhavam na borda —Mas espero que o faça logo. Você monta a cavalo, monsieur Blackfriars?

— Sim, embora faça vários anos que não o faço.

— Então talvez quando meu pai nos compre você queira me fazer a honra de sair a passear comigo pelo parque, Monsieur. Estou segura de que não haverá nenhum problema para que você monte um de nossos cavalos com tal propósito.

— Pode que não, mademoiselle, embora repita que não queria incomodar, me aproveitar de seus pais nem abusar de sua bondade e sua generosidade para comigo. Sou muito... consciente da diferença de nossas posições. Compreendo por que me convidaram para jantar e à reunião posterior, mas, por muito que me seduza a idéia, não espero me converter em um convidado habitual na casa de seus pais em Portman Square.

— Mas... mas não deve estar tão seguro disso, Monsieur — insistiu Ariana brandamente —Porque, se algo aprendi nestes últimos meses, é que há muito poucas coisas das quais possa estar-se seguro nesta vida. Verá, antes de vir a Inglaterra, eu vivia entre algodões. Quando pensava em minha existência, acreditava que fluía tão serenamente como as águas do Sena. Embora, para lhe ser franco, confesso que de vez em quando sentia falta de alguma mudança e alguma emoção que rompesse minha rotina — reconheceu Ariana com um sorriso desinteressado — Mas nem sequer quando, uma noite em um baile de disfarces, Madame Polgar me leu o tarô e me disse que logo empreenderia uma viagem por mar e terra, acreditei possível. Entretanto, só uns dias depois disso, aqui estava, em Londres, tal e como ela havia predito.

— Então você acredita que é uma autêntica vidente e não só uma farsante com talento? — perguntou Malcolm.

— Eu... não estou segura — Ariana franziu o cenho, pensativa — Conhecendo a situação política de Paris, sem dúvida pôde adivinhar que meu pai nos tiraria da França e nos levaria a Inglaterra, onde estaríamos a salvo. Mas Madame Polgar me falou também de muitas outras coisas essa noite. Coisas estranhas e misteriosas, incluindo o fato de que no futuro conheceria três homens. Chamou-os o rei, o rei de espadas e o rei de varas. Pode que você seja o homem ao que ela chamou o rei de espadas, porque na outra noite lhe perguntou se era um bom espadachim, recorda?

— Sim, claro. Mas, naturalmente, como disse então, embora estude em École d 'Arme do Henry o Jovem, não sou precisamente um professor da esgrima.

— Non, mas é você cartógrafo, o qual requer reflexão, análise e capacidade de planejamento, e o rei de espadas possui essas qualidades, ou isso me disse Madame Polgar. Vê você, Monsieur? Como ela saberia de você antes que eu mesma o conhecesse? Por isso acredito que possui o dom da clarividência.

— Sim, isso parece. Disse-lhe algo mais sobre o rei de espadas?

— Non — Ariana sacudiu a cabeça — Salvo que não sabia se seria amigo ou inimigo.

— Então fique tranquila, mademoiselle — disse Malcolm, muito sério — Porque lhe prometo que, aconteça o que acontecer, nunca serei seu inimigo.

— Isso acredito, Monsieur. E me alegra muito, porque embora conheça muita gente aqui, em Londres, acredito tenho muito poucos amigos. Lady Christine Fraser, a quem conheceu na outra noite, pode que seja a única. Mas é reconfortante saber que posso contar com você, se alguma vez precisar de um amigo.

— Se dúvida não terá você motivos de preocupação nesse aspecto, mademoiselle — Malcolm se sentia de repente surpreso e preocupado pela repentina gravidade da expressão de Ariana.

— Não sei. Agora que conheço você, não posso evitar me perguntar pelo rei de pentaclos, do qual Madame Polgar me falou quando leu as cartas de tarô. Advertiu-me que era um homem corrompido e perigoso e que só me traria desgraças.

— E conheceu a esse homem? — Malcolm se sentia profundamente perturbado por aquele augúrio.

— Non, graças ao céu. E espero não conhecê-lo nunca.

— Pois, se chegar a conhecê-lo, mademoiselle, deve me avisar em seguida — disse Malcolm — Farei o que seja para protegê-la dele.

— Obrigado, Monsieur. Isso me tranquiliza. Agora, embora eu tampouco queria lhe incomodar, eu gostaria de muito lhe perguntar o que achou do Monsieur Al Walid e seu campo de estudo. Conhece você a Escócia, as Terras Altas e o lago Ness? Você acredita que Monsieur Al Walid tem razão e que há uma gigantesca serpente marinha que vive no lago?

— Sim, conheço a Escócia, e as Terras Altas e também o lago Ness, mademoiselle —respondeu Malcolm lentamente — Mas, embora não é a primeira vez que ouço dizer que uma serpente monstruosa habita o lago, temo não poder lhe dizer se é certo ou não. Entretanto, tenho curiosidade. Por que pergunta, mademoiselle?

— Oh, por nada em especial, Monsieur — Ariana encolheu os ombros levemente, como se aquilo não tivesse importância para ela. Logo, ao ver a expressão de perplexidade e preocupação de Malcolm, continuou com reticência — É uma estupidez, o asseguro. Mas é que... desde que era menina tenho um pesadelo aterrador sobre... sobre uma serpente monstruosa e um lago, assim que me perguntava se tais criaturas existem em realidade, isso é tudo.

— Não acredito que ninguém conheça a resposta a essa pergunta, mademoiselle, embora a crença nessas criaturas há perdurado durante milhares de anos. Os antigos cartógrafos acostumavam escrever «Aqui há dragões» nas zonas do mar ou terra que não se conheciam. Assim é muito possível, suponho, que em algum momento do passado, os cartógrafos não soubessem o que havia mais à frente do lago Ness e por isso escrevessem «Aqui há dragões» nessa parte do mapa da Escócia. Pode que por isso se chegasse a acreditar que no lago vivia uma gigantesca serpente marinha.

— Caramba... Oui, eu não sei nada sobre mapas, mas suponho que sua conjectura poderia ser certa. Então, você acredita que o senhor Al Walid vai em busca de uma quimera?

— Bom, o senhor Quimbly está convencido disso — Malcolm sorriu — Diz que a busca do senhor Al Walid é um perfeito disparate.

— De verdade? — Ariana riu, satisfeita — Para falar a verdade, agrada-me muito Monsieur Quimbly. Parece um homem extraordinariamente sensato.

— Oh, sim. E, como também tem um excelente senso de humor, adoraria saber que o que pensa do senhor Al Walid a tem feito rir. Sabe que é a primeira vez que a ouço rir? É um som encantador. Deveria rir mais frequentemente.

Enquanto falava, a intensidade de seu olhar era tal que Ariana sentiu que seu coração se acelerava como se tivesse se deslocado a uma larga distância e não conseguisse recuperar o fôlego. Outras sensações igualmente estranhas começavam a atravessá-la, e se sentia acalorada e ruborizada, aturdida e débil. Um comichão elétrico irradiava através de seus seios e corria até o centro de seu ser. Era aquela uma sensação que nunca antes tinha experimentado e que ao mesmo tempo a excitava e a confundia.

— Bom... está ficando tarde e devo retornar a casa — disse precipitadamente, e começou a recolher as coisas.

— Sim, eu também devo voltar para o trabalho. Espere... me deixe ajudá-la.

Malcolm ficou de joelhos e foi alcançando os pratos e copos vazios. Estava tão perto que Ariana sentia seu aroma deliciosamente limpo e masculino; um perfume de loção de barbear de sândalo e colônia, a tabaco e ao vinho que tinha bebido no almoço. De repente, Ariana sentiu um desejo de puxá-lo e envolvê-lo em seus braços e atraí-lo para si, de apoiar a cabeça sobre seu ombro e esconder o rosto em seu amplo peito.

Apenas conhecia Malcolm. Entretanto, sentia-se como se o conhecesse de toda a vida. Durante o almoço e depois tinha falado com ele com tanta liberdade como se fossem velhos amigos, ou inclusive um antigo amante. Acaso não havia dito Madame Polgar que cada alma passava por muitas vidas? Era possível, perguntava-se Ariana, que tivesse conhecido Malcolm Blackfriars em outro lugar e em outro tempo? Era por isso que se sentia tão atraída por ele, como se tivesse se apaixonado a primeira vista?

Malcolm fechou a cesta de picnic, levantou-se e lhe estendeu uma mão para ajudá-la a levantar-se. Quando suas mãos se tocaram, apoderou-se de Ariana um inesperado tremor que a atravessou por completo.

— Obrigado pelo almoço, mademoiselle — disse Malcolm apertando brandamente sua mão — A comida e o vinho eram excelentes. E a companhia ainda mais deliciosa. Se algum dia desta semana voltar a passear por aqui, estarei encantado de lhe devolver o favor trazendo uma cesta de picnic para compartilhá-la com você.

— Poderia vir outra vez na quinta-feira, Monsieur — murmurou ela, escolhendo deliberadamente um dia de final da semana para não parecer muito ansiosa nem em excesso atrevida.

— Até lá. Au revoir, mademoiselle — Malcolm lhe beijou a mão.

— Au revoir, Monsieur — disse ela.

Depois que Malcolm se despedisse a contra gosto dela, Ariana se levantou e ficou observando-o até que se perdeu de vista, com a mão à boca trêmula, ali onde a tinha beijado.

 

Durante os dias seguintes, Ariana não conseguiu tirar Malcolm da cabeça. Pensava nele sem cessar e em suas apaixonadas e vividas fantasias imaginava um sem-fim de circunstâncias mas quais, de um modo ou outro, Malcolm se via de repente catapultado para sua classe social e conseguia títulos e riquezas. Não falava com ninguém daqueles sonhos, apesar de que suspeitava que não era nenhum segredo para sua mãe e para Sophie. Esta continuava repreendendo-a a respeito de suas relações com Malcolm e lhe recordando que não tinha futuro com ele. Sua mãe, em troca, apenas lhe falava daquele assunto, o qual, embora confundisse enormemente Ariana, reportava-lhe tal alívio que não se atrevia a lhe perguntar por suas razões.

Na quinta-feira se vestiu com esmero com um de seus trajes de passeio mais favorecedores e saiu para Hyde Park acompanhada de Sophie.

— Está perdendo tempo com o pobre Monsieur Blackfriars e vai de cabeça ao desastre, mademoiselle — disse a donzela enquanto desciam por Portman Square em direção ao parque — Diga-me, o que tem de mau o conde de Netherfield?

— Bon Dieu, Sophie! — exclamou Ariana, exasperada — Esse homem é pelo menos quinze anos mais velho que eu e, além disso, muito feio!

— Mas é nobre, e rico, assim, se casar com ele, teria o futuro assegurado.

— Duvido-o. Já enterrou a duas esposas e é provável que também me sobreviva.

— Eu só penso em seu bem, mademoiselle — disse Sophie em tom de recriminação.

— Então não me imagine casada com alguém como o conde de Netherfield. Porque, embora fosse o próprio rei, não poderia suportar semelhante união. Não quero voltar a ouvir falar dessa tolice. Eu gosto de Monsieur Blackfriars e, se puder, será meu.

— Então temo que será toda sua vida tão pobre como um camundongo de igreja.

— Não acredito, Sophie. Já te disse que Monsieur Blackfriars não é precisamente um mendigo.

— Non, mas sua renda anual apenas dá para manter uma casinha com um ou dois serventes. O que é isso comparado com o que teria se fosse a condessa de Netherfield?

— Em cujo caso teria também ao Monsieur Netherfield.

— Bom, talvez pudesse lhe pôr um saco na cabeça.

— Sophie! — Ariana começou a rir a seu pesar e sua donzela soltou uma gargalhada, de modo que quando cruzaram Cumberland Gate e entraram em Hyde Park, a caminho do Serpentine, formavam um alegre casal.

Ali descobriram Malcom as esperando. Saltava à vista que se havia proposto agradá-las, pois já tinha estendido a manta, em cujo centro repousava uma cesta de picnic, junto à qual estava sentado Malcolm, lendo. Ao vê-las se levantou de um salto, fez uma reverência e beijou a mão de Ariana. Esta sentiu que a percorria um estremecimento.

— Mademoiselle Ariana, que prazer vê-la de novo — disse Malcolm com um sorriso.

— O prazer é meu, Monsieur Blackfriars — respondeu Ariana lhe devolvendo o sorriso.

Nesse momento sentiram ambos que o mundo se afastava e que só ficava a seu redor o lugar onde se achavam parados, com os olhos fixos o um no outro, tomados ainda da mão. Ariana era vagamente consciente das vozes das pessoas que passeavam a pé ou a cavalo pelo parque, do ruído dos cascos dos cavalos, dos cisnes e os patos que flutuavam nas serenas águas de Serpentine, e do suave fluxo que lambia a margem. Entretanto, tudo aquilo perdia a importância comparado com o bater de seu coração e com a agitação de seu fôlego. Ariana ignorava quanto tempo estiveram ali parados. Mas Sophie rompeu por fim o feitiço que tinha caído sobre eles ao esclarecer a garganta para lhes recordar sua presença. Malcolm soltou a contra gosto a mão de Ariana e a saudou. Sophie se sentou na manta. Ele se ajoelhou junto às duas jovens e começou a esvaziar a cesta e a colocar os pratos de porcelana e as taças de cristal.

Ao ver tudo aquilo Ariana lançou às escondidas um olhar triunfante a sua donzela com o qual pretendia lhe dizer que Malcolm não só sabia apreciar os aprimoramentos da vida, mas também era capaz de proporcionar alguns deles. Sophie, entretanto, limitou-se a menear a cabeça sem dizer nada, como se quisesse dizer que certa quantidade de porcelana fina não bastava para viver bem. Logo, não obstante, fez-se evidente que a senhora Peppercorn, a cozinheira de Malcolm, tomou-se tantas moléstias como Monsieur Montségur e tinha preparado um festim capaz de ganhar o favor do mais delicioso gourrnet. Depois que Malcolm encheu os pratos, começaram a comer com entusiasmo, comentando o rica que estava a comida.

— Nossa cozinheira, a senhora Peppercorn, estará encantada quando souber o quanto gostaram — lhes disse Malcolm — O vinho o escolhi eu mesmo. Mas a senhorita Woodbridge, nossa governanta, encarregou-se das flores, e Nora e Lucy, nossas donzelas, também puseram seu grão de areia escolhendo as toalhas e à prata.

— Parece que sua mãe e você gozam de uma vida muito cômoda em Hawthorn Cottage, Monsieur Blackfriars — comentou Ariana.

— Sim, estamos vivendo ali muitos anos. Desde que chegamos a Londres, na realidade.

— Isso foi depois da morte de seu pai?

— Sim.

— E alguma vez pensou em viver sozinho?

— De vez em quando, sim, certamente. Mas, ao final, sempre chego à mesma conclusão, e minha mãe está de acordo, de que não há necessidade de gastar dinheiro em vez de economizá-lo, ao menos até que me case. Porque suponho que minha futura esposa preferirá ter sua própria casa e não viver com minha mãe, embora seja uma mulher muito boa e amável.

— Estou segura de que assim é. Eu gostaria de conhecê-la alguma vez.

— Sei que também gostaria muitíssimo — Malcolm fez uma pausa — Se tiver acabado seu almoço, mademoiselle Ariana, gostaria de dar um passeio por Serpentine comigo?

— Oui, vá, mademoiselle — disse Sophie — A última vez que viemos ao parque fui eu quem desfrutou do prazer de passear por Serpentine e dar de comer aos patos. Assim hoje, se Monsieur Blackfriars não fizer objeção, recolherei eu os pratos e a cesta.

— Obrigado, mademoiselle Neuville. É você muito amável — disse Malcom, agradecido.

Levantou-se e estendeu uma mão fina, mas forte para Ariana para ajudá-la a levantar-se. Levaram-se os restos do pão do almoço para dar de comer aos patos, dirigiram-se a Serpentine e ficaram passeando por sua borda. À medida que passeavam, Malcolm ia partindo o pão e dando algumas partes a Ariana para que os jogasse nos patos; outros os atirava ele mesmo. Ao pouco tempo se acharam rodeados por uma dúzia ou mais de patos que chapinhavam e cacarejavam, apoderando do pão com ânsia.

— As árvores e as flores estão preciosas nesta época do ano, não acha? — comentou Ariana quando se separaram da margem — E os jardins de Kensington me recordam um pouco às Tullerías.

— Sente falta de Paris?

— Não tanto como quando chegamos a Londres — Ariana não acrescentou que isso se devia a seu encontro com Malcolm, mas a insinuação ficou suspensa entre eles, e lhe pareceu que Malcolm a entendia, pois lhe sorriu com prazer.

— Alegra-me que já não sinta nostalgia — disse ele quando começaram a andar em direção a Kensington Gardens.

Hyde Park e Kensington Gardens tinham crescido até o ponto de converter-se em dois grandes parques divididos pelo rio Serpentine e o Long Water, e unidos por uma ponte construída em 1826. Ariana e Malcolm atravessaram a ponte, deixaram atrás o lado leste da avenida de Rotten Row, rodeada por árvores, e entraram nos jardins de Kensington. Ali continuaram passeando pelas avenidas sinuosas que cruzavam o parque, ao passar por Long Water, até que chegaram por fim a Round Pond, o lago que se estendia ante a imponente ponte de tijolo vermelho do palácio de Kensington, separado dos jardins por sua grade de ferro forjado, negro e dourado.

Enquanto passeavam pelos caminhos de terra, cada um deles tinha consciência aguda da presença do outro. Poderiam ter sido amantes, pensou Ariana, e desejou fervorosamente que fossem, que houvesse algo mais entre eles que a amizade que tinha surgido tão inesperadamente entre eles e que cultivavam com tanto esmero.

Ignorava que Malcolm abrigava também tais pensamentos, que estava na realidade consumido por um conflito interior: desejava amá-la e fazê-la sua, mas era dolorosamente consciente do fato de que, tal e como estavam as coisas, tinha pouco ou nada que lhe oferecer. Nem sequer seu verdadeiro nome. Não pela primeira vez amaldiçoou com fúria lorde Iain Ramsay, aquele antepassado dele que jogou as propriedades dos Ramsay na Escócia e Inglaterra. Desde não ter sido por isso, Malcolm possivelmente teria gozado de títulos e riquezas e teria podido pedir a mão de Ariana. Mas, tal e como estavam as coisas, só podia morder a língua para não lhe dizer quão ardentemente a admirava e desejava. Porque, que bem podia lhe fazer lhe falar de seus sentimentos? Perguntava-se com amargura. Como ia lhe responder ela, sendo sua posição tão superior a dele? Não, o único que podia esperar dela era sua amizade, pensava Malcolm com desalento. Quase desejava não havê-la conhecido nunca, pois o fato de que estivesse tão perto e, entretanto tão longe de seu alcance era uma tortura para ele. Tinha gravado em sua memória desde o começo os mínimos detalhes de seu formoso semblante, assim não precisava olhá-la para saber como iluminavam sua pele de porcelana os raios de sol que penetravam de soslaio sob o guarda-sol e como faziam brilhar seus olhos violetas de densas pestanas, como ametistas, nem como suas bochechas floresciam como rosas, com a mesma cor que sua boca rosada e vulnerável. Ansiava beijá-la, afundar as mãos em sua cabeleira negra e reluzente, enterrar a cara entre seus peitos grandes e redondos, inalar profundamente sua doce fragrância a lírios e fazê-la sua.

Mas não disse nada disto enquanto se encontravam em frente Round Pond, observando as crianças que, sob o atento olhar de suas babás e governantas, punham a navegar seus barquinhos de brinquedo. Pelo contrário, disse:

— Se alguma vez voltarmos a passear por aqui, mademoiselle, terei que trazer um de meus barquinhos para jogá-lo à água, se gostar. Embora, possivelmente, tal passatempo seja só para crianças.

— Non, claro que não, Monsieur — repôs Ariana alegremente, sorrindo — Agora mesmo estava pensando em quão divertido poderia ser. Tem, então, muitos barquinhos de brinquedo?

— Não, já não. Só uns quantos que construí pouco depois que minha mãe e eu viéssemos para Londres. Outros desapareceram no terrível incêndio que assolou a fazenda em que vivíamos antes. Essa foi a noite que morreu meu pai, e por essa razão perdemos a fazenda.

— Que horror! Sinto muitíssimo — Ariana mordeu o lábio inferior, comovida — Então talvez você prefira não jogar à água nenhum de seus barquinhos aqui, afinal de contas, se lhe traz tão más lembranças.

— Não, por favor, não se preocupe com isso, mademoiselle. Só tenho boas lembranças de meus barquinhos e quando era menino, colocava-os para navegar nos riachos do campo. E também o barco que tinha naquele tempo. Um pequeno barco de pesca com o qual estava acostumado a sair a remar pelo lago perto de nossa fazenda, que estava situada na saia de uma colina.

Ao ouvir isto, Ariana parou de repente e empalideceu. Um calafrio lhe percorreu as costas, fazendo-a estremecer violentamente, apesar do quente sol que brilhava sobre os jardins. Sem dúvida, disse a si mesma em alguma nebulosa greta de sua mente, não podia ser uma simples coincidência que Malcolm acabasse de descrever a mesma cena que tinha visto uma e outra vez em seu sonho, naquele pesadelo que a atormentava desde menina e em que ela e um moço chamado Collie desciam dando saltos a ladeira de uma colina, da fazenda em que viviam, e se punham a remar em seu barquinho, a Bruxa do mar, até chegar ao coração do lago Ness.

— Passa algo, mademoiselle? Disse algo inapropriado? — perguntou Malcolm alarmado ao ver que seu rosto tinha adquirido um tom cinzento sob a sombrinha.

— Non, é só uma... uma enxaqueca repentina, temo-me — Ariana levou uma mão à frente —De repente me sinto enjoada.

— Então devemos voltar com mademoiselle Neuville imediatamente — Malcolm a puxou pelo braço e começou a andar para a margem norte de Serpentine.

— Non, não... está bem — disse Ariana, tentando recuperar a compostura — Não se preocupe comigo, Monsieur. Estou segura de que me encontrarei melhor em seguida. Sem dúvida esta dor de cabeça se deve a uma insolação. Assim, me diga... tinha nome seu barco de pesca?

— Sim — respondeu Malcom com um doce sorriso — Eu o chamava de Bruxa do mar.

         Os mascarados

 

                   1848

                   Portman Square, Hanover Square e Grosvenor Square, Londres, Inglaterra

— Mamam, por favor, me diga a verdade. Estivemos alguma vez na Escócia? — perguntou Ariana no dia seguinte enquanto tomava o café da manhã com sua mãe no salão da casa de Portman Square.

— Pois... non, chérie. Por que... por que o pergunta?

— Por algo que disse ontem Monsieur Blackfriars em Kensington Gardens.

— Não sabia que havia tornado a vê-lo, Ariana — Madame Valcoeur deixou de agitar seu chocolate quente e pôs a colherinha sobre o pires de porcelana.

— Não me proibiu vê-lo, mamam.

— Non, mas tampouco te animei, Ma petite. Em todo caso, isso não interessa agora. Se desfruta da companhia de Monsieur Blackfriars, e assim parece, seu pai e eu não nos opomos a que sejam amigos, naturalmente. Afinal de contas, é um jovem muito elegante, inteligente e amável. O único empecilho que lhe impomos é que não tem nem título nem fortuna que lhe avalizem para pretender sua mão. Mas, como vê, isso não nos cegou nem a seu pai nem a mim até o ponto de não ver as boas qualidades que possui. E, para ser justa, tenho que confessar que também me produz certa... curiosidade o senhor Blackfriars. Suponho que por seu interesse nele. Assim que te rogo me diga o que é o que te disse que te levou a me perguntar de novo por Escócia.

— Disse-me... mamam, disse-me que, de menino, quando vivia em uma fazenda, antes que morrera seu pai, tinha um velho barco de pesca com o qual estava acostumado a sair a remar por um lago. Como Collie, o moço de meu sonho..., de meu pesadelo. Mas há algo mais, mamam! O barco de Monsieur Blackfriars se chamava Bruxa do mar, como o de Collie! O que te parece tudo isso?

A condessa não respondeu imediatamente, pois, enquanto escutava a sua filha, engasgou-se de repente com o chocolate que estava bebendo. Deixou bruscamente a taça no pires e tossiu com tanta violência que Ariana se assustou.

— Mamam — se levantou da cadeira — Mamam, está bem? Vou pedir ajuda!

— Non... non, estou bem, seriamente. É que... desceu o chocolate por outro lugar, nada mais. Só... necessito um momento para... recuperar o fôlego. Já está. Vê? Já estou melhor. Então, o que estava dizendo, chérie, sobre o Monsieur Blackfriars? Por favor, conte-me outra vez... mais devagar.

Ariana repetiu o que já lhe tinha contado.

— Compreenderá o perturbador que me resulta tudo isto, mamam — disse uma vez que acabou — Cada vez estou mais convencida de que Monsieur Blackfriars e Collie são a mesma pessoa. Mas como é possível, se nunca estive na Escócia? A menos, claro, que me tenha concedido o dom da clarividência, como Madame Polgar. Embora, em vez de ver o futuro, o que vejo é o passado.

— Mas, Ariana, Monsieur Blackfriars não te disse que o lago no qual pescava com seu barco fosse o lago Ness. E, além disso, Bruxa do mar deve ser um nome muito comum entre os barcos. Acredito que está dando mais importância a isto do que tem. Poderia ser uma simples coincidência.

— Eu não acredito, mamam. Oh, como eu gostaria que houvesse algum modo de averiguar a verdade! Porque, se Monsieur Blackfriars for o Collie de meu sonho, então está claro que vislumbrei um fragmento de seu passado, e eu gostaria muitíssimo saber por que.

— Lhe... disse Monsieur Blackfriars algo mais que a tenha feito chegar a essa conclusão, Ma petite? — perguntou Madame Valcoeur.

— Non — Ariana sacudiu a cabeça — Só me disse que a fazenda na qual viviam antes de vir a Londres se queimou e que seu pai morreu nessa mesma noite.

— Entendo — disse lentamente a condessa — Mas, chérie, em seu sonho a fazenda não se queima nem aparece nenhum homem que pudesse ser o pai de Collie. Assim, embora te custe admitir, há certas diferenças entre seu sonho e a história que te contou Monsieur Blackfriars. Ele só mencionou um barco e um lago.

— Sei, sei. Mas mesmo assim, mamam, não posso tirar da cabeça a idéia de que Monsieur Blackfriars e Collie são a mesma pessoa.

— Bom — Madame Valcoeur encolheu os ombros um pouco, como se não atribuísse importância alguma àquele assunto — Seja como for, isto é um mistério para mim. Entretanto, continuo dizendo que está dando muita importância, Ariana. Confio em que não fale disto com ninguém mais. Porque seria extremamente preocupante para mim, Ma petite, saber que é vidente, como Madame Polgar. Confesso que às vezes essa mulher me põe muito nervosa.

— Então, por que se relaciona com ela? — perguntou Ariana, surpresa — E como a conheceu, mamam?

— Passou por Valcoeur um dia, em sua carruagem. Dukker, esse anão que a acompanha, conduzia. Perderam-se e se pararam na porta para pedir indicações. Deu a casualidade de que seu pai e eu retornávamos a casa nesse instante e a convidei para entrar. Verá, o dia estava muito caloroso e disse que tinha percorrido um longo caminho. Estava cansada pela viagem, mas também faminta e sedenta. Dukker tinha tomado um desvio equivocado, disse-me, e não tinham encontrado a estalagem em que tinham intenção de jantar e dormir. Comemos juntas e a encontrei fascinante, admito-o, pois não é só vidente, também muito culta, sabe? Fizemo-nos amigas e continuamos sendo-o. Entretanto, às vezes me inquieta com suas perguntas e suas predições.

— Bom, mamam, a verdade é que não sabe nada dela — disse Ariana — Poderia ser uma impostora que se aproveitou sem escrúpulos de sua hospitalidade e seu bom caráter.

— Non. Seu pai, que não é tão crédulo como eu, fez algumas pesquisa sobre seu passado. É quem diz ser: Madame Polgar, uma cigana de Valaquia. Seu marido era um conde ou barão romeno, não me lembro exatamente, que morreu tragicamente em um duelo ou em um acidente ou algo pelo estilo. Tinham deixado seu país por motivos políticos e naquela época estavam vivendo no estrangeiro. Depois da morte de seu marido, Madame Polgar decidiu dedicar-se a viajar. Evidentemente, procede de uma longa linha de videntes. Seus antepassados eram cavalheiros templários, maçons, ou algo assim, e tem laços tanto com a França como com Escócia. Assim suponho que por isso, quando compreendeu que a França tampouco era segura, veio para Inglaterra. Parece-me que tem intenção de partir para Escócia.

— Talvez por isso pareça tão interessada em Monsieur Al Wahd e sua busca pela serpente legendária do lago Ness — sugeriu Ariana, cuidadosa.

— Não sei. Confesso que o senhor Al Walid me pareceu um homem muito estranho e desconcertante, e também que me surpreendeu o aparente interesse de Madame Polgar. Mas, por favor, Ariana, não comece a falar outra vez do monstro do lago Ness. Sabe que esse assunto me deixa nervosa.

— Muito bem, mamam — Ariana suspirou, resignada — De todos os modos, Monsieur Blackfriars me contou que Monsieur Quimbly disse que a idéia de Monsieur Al Walid era um disparate.

— Alegra-me muito ouvi-lo. Monsieur Quimbly parece um homem muito sensato e instruído, e se ele não acredita que essa serpente marinha exista, estou segura de que não existe.

 

Durante as semanas seguintes, o verão se converteu languidamente em outono. Quando não estava ocupada com outras coisas, Ariana passava todo o tempo que podia com Malcolm.

Uma segunda-feira, seu pai foi visitar o estabelecimento de leilões de cavalos do número 10 de Grosvenor Agrada e comprou três formosos cavalos. Ariana achou aquilo engraçado, pois, embora seu pai fosse aficionado por montar a cavalo, sua mãe estranha vez o fazia, de modo que com dois cavalos teria sido suficiente. Mas mesmo assim, por razões que lhe eram desconhecidas, seu pai tinha comprado três cavalos. Ainda mais curioso era o fato de que um deles fosse um potro negro extremamente brioso, com arreios pouco adequados tanto para sua mãe como para ela, e seu pai sempre montava o cavalo baio que tinha comprado. Ariana, por sua parte, tinha uma delicada e graciosa égua branca. Assim, resultou por fim que só Malcolm montasse o potro negro cada vez que encontrava tempo para acompanhá-la durante seus passeios por Hyde Park.

O potro lhe sentava bem, pensava Ariana, e se perguntava se seu pai o tinha comprado pensando em Malcolm. Mas não conseguia imaginar por que teria uma coisa tão estranha, e ao fim decidiu que aquela idéia era só um desejo dele. Tinha a impressão, por outra parte, de que Malcolm tinha se sentido incomodado ao princípio ao montar o potro. Não queria aproveitar-se de seus pais, nem dela, mas, uma vez persuadido de que podia utilizar o potro, não podia ocultar seu regozijo cada vez que galopava com ele por Rotten Row.

Nesses momentos, tinha um ar tão selvagem e livre, tão excitante e enigmático, que Ariana não era a única que se sentia atraída por ele. Mais de uma vez, via mulheres que o olhavam furtivamente, e em tais ocasiões sentia não só um feroz orgulho por estar a seu lado, mas também ciúmes intensos dos quais quase se envergonhava, pois comumente não era dada a tão ingrata emoção. Mesmo assim, seus ciúmes logo se aplacavam, pois Malcolm só tinha olhos para ela, e Ariana esperava contra vento e maré que estivesse se apaixonando por ela, como ela por ele. Nunca tinha conhecido um homem que a fascinasse até aquele ponto e, de ter podido ele acompanhá-la às diversas reuniões sociais às que assistia, haveria se sentido extasiada. Tal e como estavam as coisas, entretanto, só a afligia o fato de que Malcolm não frequentasse os mesmos círculos sociais e, portanto, não fosse convidado às festas, noites de galas, os jantares e os bailes que, com a chegada do outono e a Pequena Estação, monopolizavam cada vez mais suas noites.

Certa noite tinha que acompanhar seus pais a um baile de máscaras que oferecia a marquesa de Mayfield, e embora durante os dias anteriores tivesse tentado persuadir Malcolm de que fosse com elas, ele tinha se negado amavelmente, mas com firmeza.

— Mademoiselle Ariana, deve você compreender que uma coisa é que desfrute de um almoço campestre em Hyde Park, de um passeio por Kensington Gardens, ou inclusive de uma excursão a cavalo por Rotten Row com você, e outra coisa bem diferente é que assista com seus pais e você um baile ao qual não fui convidado — lhe havia dito enquanto passeavam a cavalo pelo parque — Devo declinar seu amável convite.

Ariana tragou saliva, desiludida, e tentou sorrir.

— Entendo, Monsieur, certamente. Mas eu gostaria... eu gostaria que as coisas fossem diferentes, que a um homem lhe julgasse unicamente por seus méritos ou a falta deles, e não se é nobre, possui fortuna ou alguma outra vara de medir semelhante. Tais coisas raras vezes um bom medidor para o valor de um homem.

— Não, claro que não — disse Malcolm — Mas, por desgraça, assim é como funciona o mundo no qual vivemos. Por mais que desejemos, mademoiselle, todos os homens não são iguais, embora esteja de acordo em que todos deveríamos ter as mesmas oportunidades de prosperar.

— Oui, eu mesma disse algo parecido a Sophie — Ariana fez uma pausa e logo continuou — Bom, se não querer ir ao baile de máscaras de Madame Mayfield, ao menos consinta em que apostemos uma corrida até o final de Rotten Row.

— Isso parece!

Rondo, Ariana esporeou sua égua, Telaraña, e Malcolm apertou os calcanhares no potro negro, Caligine e começaram a correr pelo amplo caminho de terra que levava a ponte do rio Serpentine. Mas, ao final, a égua não pôde tirar vantagem ao potro, e Malcolm acabou ganhando a corrida. Ela parou por fim à égua e, ofegando pelo esforço e a agitação, com os olhos brilhantes pela emoção da corrida, olhou para Malcolm enquanto tentava recuperar o fôlego. De repente, pareceu que ele iria se inclinar para beijá-la. Mas Malcolm pareceu dominar-se e, puxando as rédeas de Caligine, disse-lhe que era hora de voltar com os cavalos para os estábulos, os quais se encontravam nas quadras detrás da casa de Portman Square.

— Mademoiselle, se apresse, tem que acabar de vestir-se. - A voz de Sophie tirou Ariana de seu sonho — Era Fanny a que acaba de bater na porta. Diz que chegou uma mensagem dos condes de Eaton. Tiveram que sair repentinamente de viagem e querem que levemos a mademoiselle Christine ao baile conosco. Além disso, dispôs-se que depois venha a ficar aqui vários dias, até que seus tios voltem para casa.

— Ah, será muito divertido, verdade, Sophie? Christine é a melhor amiga que tenho em Londres e, enquanto estiver aqui, será quase como ter uma irmã.

— Oui, mademoiselle. Mas agora se apresse — lhe urgiu a donzela — ou chegaremos mais tarde que o conveniente ao baile da senhora marquesa. De caminho temos que passar por Hanover Square para recolher a mademoiselle Christine e sua bagagem.

Ariana acabou rapidamente de arrumar-se com a ajuda de sua donzela. O baile da marquesa só requeria uma capa e uma máscara. O traje de Ariana não era, portanto, elaborado, e consistia simplesmente em uma máscara branca, com plumas e lentejoulas, que lhe cobria o rosto e um manto simples e solto combinando que lhe tampava o vestido branco de baile. Ao fim esteve preparada. Depois de descer a escada até o vestíbulo, pavimentado com ladrilhos de mármore branco e negro, descobriu que seus pais e Madame Gautier, a donzela de sua mãe, iriam um carro até a casa da marquesa em Grosvenor Square, enquanto que ela, Sophie, Christine e sua donzela, a senhorita Innes, iriam em outro.

Ariana e Sophie subiram na carruagem que esperava atrás do carro dos condes d Valcoeur. Um instante depois, o pequeno cortejo entrou em Orchard Street em direção a Hanover Square, onde recolheram lady Christine Fraser e a sua donzela, a senhorita Innes.

— Ariana! — Christine sorriu, radiante, atrás de sua máscara rosa de plumas e lantejoulas ao acomodar-se entre as macias almofadas de veludo da carruagem — Espero que não se incomode com o que meus tios acordaram com seus pais. Vão estar fora algum tempo, porque a prima do tio Owen está muito doente, e temiam que me sentisse sozinha em sua ausência.

— Non, absolutamente. Estou desejando te ter comigo.

— Muito bem, então. Vamos passar em grande esta noite no baile de lady Mayfield. Oh, olhe que névoa há fora! Espero que não chova!

— Acredito que só é um pouco de bruma — disse Ariana, olhando pelas janelas. Mas enquanto falava viu que começavam a cair gotas nos cristais — Non, minto. Começou a chover.

— Bom, então espero que não acabemos como uma sopa. Jane lembrou-se de trazer o guarda-chuva?

— Sim, milady.

— Bem. Então não há com o que preocupar-se. A menos, claro, que chova muito.

Ao chegar na casa da marquesa de Mayfield, o céu opaco continuava derramando uma leve garoa. Quando o cortejo dos Lévesque parou em frente a casa da marquesa, Ariana observou que as luzes refulgiam a seu redor, iluminando brandamente a esplêndida praça e seu igualmente esplêndido parque no meio da ligeira garoa. A bruma que soprava no interior desde o mar e se estendida até o rio Támesis ficava ainda mais densa, e se deslizava fantasmagoricamente pela praça e o parque, onde parecia fogo entre as árvores e as sombras longas que estes projetavam sob a luz nebulosa e argêntea da lua.

A casa da marquesa de Mayfield, pelo contrário, resplandecia como um castelo de conto de fadas na escuridão. Os empregados, semelhantes a soldadinhos de chumbo, alinhavam-se de ambos os lados da porta, armados com guarda-chuva, para proteger os convidados da marquesa da garoa quando subiam da calçada até a casa. Debaixo daquele dossel artificial, Ariana e os outros entraram em fim no vestíbulo. Ali lhes deu as boas-vindas o mordomo, que, depois de tirar-lhes os casacos, conduziu-os ao salão de baile, cheio de espelhos, onde os anunciou com voz enérgica. A marquesa foi saudá-los, depois do qual puderam somar-se à festa.

Como a fachada da casa, o salão de baile resplandecia, cheio de luz, e as chamas de seus muitos abajures de resplandecente cristal se refletiam nos incontáveis espelhos dourados que cobriam as paredes. A orquestra estava tocando na galeria destinada aos músicos, e os casais de dançarinos se apinhavam sobre o chão de assoalho polido, formando um colorido e ondulante mar de capas e máscaras. Em um extremo do salão de baile havia longas mesas cobertas com branquíssimas toalhas e com grandes bandejas de prata repletas de apetitosas peças e de enormes fontes de prata cheias até transbordar de ponche.

Ariana e Christine se abriram passo entre a multidão, rindo e conversando, e logo se encontraram rodeadas de amigos e com as cadernetas de baile repletas. Ariana dançou até que lhe pareceu que seus pés não aguentariam mais. Mas, apesar de que tentava mostrar-se alegre, tinha sempre presente que Malcolm não estava ali. Porque era com ele com quem ansiava dançar. Ao fim, avançada já a festa, fartou-se de dançar, de conversar e rir com seus acompanhantes, de desalentar suas paqueras e de defender-se dos avanços dos mais audazes e, alegando estar fatigada, abriu-se passo entre os convidados até chegar às longas mesas carregadas de comida e bebida, onde encontrou Christine bebendo uma taça de ponche.

— Christine — perguntou ao fim de um momento — quem é esse homem ali, o da máscara púrpura e a capa, esse que nos olha tanto?

— Oh, Meu deus! — exclamou Christine, alarmada ao ver aquele indivíduo as observando — Não sabia que iria vir. Se não, não teria vindo.

— Por que? O que ocorre? Quem é?

— O visconde Ugo. E tenho que te advertir, Ariana, que, se for sensata, não irá quer saber nada dele, porque é o homem mais dissoluto, malvado e traiçoeiro que imaginar-se possa.

— Então, conhece-o?

— Sim, por desgraça. Vimo-nos algumas vezes, porque sua família, os Foscarelli são das Terras Altas, como à família de meu pai, os Fraser.

— Mas... Foscarelli? Esse nome parece italiano — Ariana franziu o cenho, achando estranho — Então, a família do visconde Ugo emigrou para Escócia da Itália?

— Sim, fará cem anos, mais ou menos. É uma história muito estranha, tão endiabrada como foram sempre os Foscarelli. Um dos antepassados do visconde Ugo, o conde lorde Bruno Foscarelli, emigrou aqui, par a Inglaterra, e não para a Escócia. Diz-se que teve que deixar sua pátria por culpa de não sei que escândalo. Acredito que, em realidade, ninguém soube nunca do que se tratava. Em qualquer caso, enquanto se encontrava em Florência, travou amizade com sir Francis Dashwood, quem no século passado fundou o famoso Clube do Fogo do Inferno. Assim que o conde Foscarelli viajou para a Inglaterra, onde voltou a frequentar sir Francis e se converteu em membro da abadia de Medmenham, onde se reunia o Clube do Fogo do Inferno duas ou três vezes ao ano, conforme acredito. Durante uma de suas reuniões, o conde Foscarelli começou uma partida de cartas com lorde Iain Ramsay, por então conde de Dúndragon, um condado muito importante das Terras Altas, e o conde Foscarelli ganhou tudo que possuía..., todas as posses dos Ramsay na Escócia e Inglaterra. Depois, lorde Dúndragon assegurou que o conde Foscarelli trapaceava e, como resultado disso, bateram-se em duelo no Green Park e o conde Foscarelli matou de um disparo a lorde Dúndragon.

— Non! Que horror! — exclamou Ariana.

— Certamente foi para o pobre lorde Dúndragon — declarou Christine e logo fez uma careta — Embora não acredito que a ninguém importasse, porque ao parecer era uma uva sem semente. Assim foi como os Foscarelli ficaram com o castelo de Dúndragon, junto com as demais propriedades dos Ramsay. Suponho que, além disso, continuam tendo terras na Itália, posto que continuaram usando seu títulos italianos. O condado de Dúndragon deve levar muito tempo vacante, ou pode inclusive que revertera na Coroa por falta de um herdeiro varão dentro da família Ramsay.

— Então, lorde Dúndragon não tinha filhos?

— Não, só um irmão menor, o visconde de Strathmor.

— O mesmo visconde de Strathmor do qual nos falou Monsieur Al Walid na outra noite na reunião de minha mãe? — perguntou Ariana, assombrada — O que roubou essa esmeralda de uma tumba egípcia?

— Não, esse foi outro visconde Strathmor, um anterior. O visconde do qual estou falando era o irmão pequeno de lorde Dúndragon e, embora, a diferença de seu irmão, tinha herdeiros, não sei o que foi deles. Nas Terras Altas corre o rumor de que fugiram para salvar a vida, pois senão os Foscarelli os teriam matado a todos.

— Mas por que?

— Por causa dessa esmeralda, o coração de Kheperi. Fazia já muitíssimo tempo que tinha desaparecido, como disse o senhor Al Walid na outra noite. Mas ao parecer o conde Foscarelli pensava erroneamente que lorde Dúndragon a tinha, e por isso lhe enrolou para que aceitasse jogar às cartas com ele e lhe enganou trapaceando. Para ficar com suas terras. Ele acreditava, como muitos outros, que a esmeralda tinha o poder de conceder a imortalidade a quem a possuísse.

— Mas isso não pode ser mais que uma lenda supersticiosa, Christine. Não posso acreditar que alguém seja capaz de cometer um assassinato por essa razão.

— Equivoca-te, Ariana — insistiu Christine com gravidade, e seu belo rosto empalideceu de repente — São capazes... e o têm feito! Mas não me atrevo a te dizer nada mais porque, para meu espanto, o visconde Ugo se dirige para cá e poderia ouvir nossa conversa. Finja que não o vê e talvez nos deixe em paz.

— Mas, se lhe despreza e lhe teme tanto, por que não se nega a falar com ele?

— Isso seria extremamente imprudente. Já te disse que é um homem sinistro. É muito perigoso ofendê-lo ou zangá-lo de algum modo. Não sabia que estava em Londres. Se soubesse que a marquesa o tinha convidado para o baile, teria ficado em casa.

Christine não disse nada mais, pois nesse momento o visconde Ugo chegou a seu lado, juntou os calcanhares, inclinou-se em uma profunda reverência e beijou a mão que a jovem estendeu a contra gosto.

— Signorina Christine, que prazer vê-la de novo! — murmurou com suavidade, como se não notasse o estremecimento que percorreu visivelmente Christine ao sentir seu contato ou talvez tomando-o por um tremor de desejo e alvoroço — Me fará você o favor de me apresentar sua amiga? Acredito que não nos conhecemos.

— Certamente. Mademoiselle Ariana, te apresento lorde Lucrezio Foscarelli, visconde Ugo. Lorde Ugo, esta é mademoiselle Ariana Lévesque. Veio a Londres de Paris com seus pais, os condes de Valcoeur, passada a primavera, depois da abdicação de Luis Felipe.

— Como vai, Monsieur Ugo? — disse Ariana, lhe oferecendo amavelmente a mão.

Eram imaginações delas, ou o italiano se deteve um instante, como se lhe surpreendesse conhecer seu nome? Se assim foi, recuperou-se rapidamente, e um instante depois Ariana se convenceu de que aquela estranha impressão não tinha sido mais que um capricho de sua vivida fantasia, estimulada pelo relato de Christine e pelo efeito enganoso das luzes dos abajures.

— Muito bem, agora que a conheço, signorina — respondeu lorde Ugo com um sorriso que a Ariana pareceu ameaçador. Por detrás das estreitas ranhuras da máscara, seus olhos negros a olhavam com ávido interesse. Ariana sentiu um calafrio — Está gostando de Londres?

— Ao princípio sentia certa nostalgia, mas agora eu gosto de muito.

— E o que, se me permite perguntar-lhe a fez mudar de opinião? Posso me atrever a aventurar que entrou em cena um pretendente apetecível?

— Em caso de que assim seja, Monsieur Ugo, isso só me concerne.

— Aha! —ele jogou a cabeça para trás e começou a rir. Sua risada era tão demoníaca que Ariana sentiu de novo um calafrio — Com que doçura acaba de me pôr em meu lugar a senhorita, me dizendo que não me coloque onde não me chamam.

— Nada disso, Monsieur. Limitei-me a afirmar o óbvio. Agora, se me desculpar, temo que o dever me chama. Minha mãe me está fazendo gestos do outro lado do salão. Devo ir vê-la.

— Certamente. Foi um prazer conhecê-la, signorina Ariana.

Ariana não disse nada; limitou-se a assentir com a cabeça e logo se voltou para sua amiga, que permanecia a seu lado, observando-a.

— Vem, Christine?

— Para falar a verdade, signorina Christine, se pudesse me dedicar uns minutos de seu tempo... — disse o italiano — Há um pequeno assunto privado sobre o qual queria lhe falar.

— Sim..., está bem, milorde — disse Christine devagar e com receio.

Ariana detestava a idéia de deixar sozinha sua amiga com o visconde Ugo. Mas, a menos que quisesse ofender o italiano levando-se sua amiga a rastros, não podia fazer outra coisa. Já tinha se desculpado alegando que devia falar com sua mãe, e não podia desdizer-se e ficar com sua amiga e o visconde, sobre tudo tendo em conta que ele tinha deixado bem claro que sua presença seria considerada inoportuna. Assim se afastou deles e se abriu passo entre a multidão, preocupada com tudo o que Christine lhe havia dito sobre os Foscarelli e o visconde Ugo. E, enquanto pensava nele, lhe ocorreu de repente que havia algo nele que lhe resultava familiar e no que não tinha reparado imediatamente porque, como todos outros, o visconde usava máscara e capa. De improviso, entretanto, percebeu que era quase como se o tivesse visto antes em alguma parte, embora estivesse segura de que não era assim, e o fato de não entender por que acreditava conhecê-lo a encheu de desassossego.

Estava tão preocupada e perdida em seus pensamentos que tropeçou sem querer com um dos convidados da marquesa.

— Oh, pardon, Monsieur! — balbuciou, envergonhada — O sinto muitíssimo. Desculpe-me, por favor — ao levantar o olhar para o jovem alto e moreno com o qual tinha tropeçado, e que usava uma máscara negra e uma capa da mesma cor, perguntou, indecisa — Monsieur Blackfriars? Non, desculpe, Monsieur. Pensava que era outra pessoa, mas vejo que me equivoquei — ao olhar com mais calma, percebeu que os olhos que a olhavam atrás da máscara do desconhecido eram de um surpreendente tom de azul safira, não da cor cinza, brumosa dos de Malcom.

— Refere-se você ao senhor Malcom Blackfriars, minha lady? É seu amigo? — perguntou o desconhecido para sua surpresa.

— Mais oui, Monsieur — respondeu, intrigada — Você também o conhece?

— Certamente que sim, milady. Malcom e eu somos bons amigos. Dado que temos isso em comum, me permita me apresentar. Sou Nicolas Ravener. A seus pés, milady — o jovem se inclinou ante ela.

— Eu sou mademoiselle Ariana Lévesque.

A Ariana pareceu que, ao ouvir seu nome, o senhor Ravener empalidecia de repente sob a máscara e resmungava uma maldição.

—Mil perdões, mademoiselle — disse apressadamente — Acabo de ver alguém com quem devo falar a todo custo e sem demora. Foi um prazer conhecê-la, mas lhe rogo me desculpe.

Ariana ficou muda de assombro por seu estranho comportamento, e o senhor Ravener se afastou a toda pressa, ao parecer atrás do visconde Ugo, que acabava de sair pelas portas que davam a terraço e aos magníficos jardins da parte de trás da casa da marquesa. Cheia de curiosidade, Ariana se lançou atrás dos dois homens.

Chegou em frente as portas e saiu a terraço, tomando cuidado de permanecer escondida entre as sombras para que nem o senhor Ravener nem o visconde pudessem vê-la. O ar outonal era frio e úmido e muito poucas pessoas tinham procurado a beleza dos jardins iluminados pela lua, preferindo o calor das lareiras que esquentavam os salões da marquesa. Não havia ninguém ali, salvo Ariana e os dois homens. Do terraço, Ariana viu o italiano parar em um dos atalhos do jardim e acender um charuto antes de prosseguir seu solitário passeio. Mas, para sua surpresa e assombro, em lugar de lhe alcançar, o senhor Ravener se ocultou atrás de um sebe recortado em forma de golfinho, de modo que se fez evidente que estava espiando o visconde Ugo e que, contra o que havia dito a Ariana, não tinha intenção de lhe dirigir a palavra. À medida que o italiano entrava no jardim, o senhor Ravener lhe seguia furtivamente. As sapatilhas marroquinas que usava Ariana apenas fez ruídos sobre as pedras quando desceu do terraço e começou a andar às pressas pelo atalho, atrás dos dois homens, tremendo sob sua capa, que apenas a protegia do ar frio da noite e da garoa.

Tomou a precaução de esconder-se atrás das árvores e os matagais e deste modo chegou por fim ao coração do jardim, onde se levantava uma alta fonte de pedra, cujas águas caíam em um lago redondo e de bom tamanho. Ali parou o italiano, que parecia perdido em seus pensamentos enquanto fumava com evidente deleite seu charuto, olhando distraidamente os peixes que nadavam no lago.

Enquanto Ariana observava a cena de uma brecha aberta em um sebe, com o coração martelando no peito, o senhor Ravener saiu lentamente detrás do tronco de uma árvore e, antes que ela pudesse dizer nada, equilibrou-se brutalmente sobre o visconde Ugo. Agarrando o italiano por trás, sujeitou-lhe os braços, puxou sua capa púrpura, cujos botões saíram voando, e apertou a mão em sua garganta. Os dois homens mantiveram uma luta breve, mas desesperada durante a qual Ariana, que permanecia imóvel, petrificada pelo medo e o frio, pareceu-lhe uma eternidade. Por fim, o senhor Ravener empurrou violentamente o visconde no lago e fugiu como se os cães do inferno lhe pisassem nos calcanhares. Por sorte, o ruído da água ao cair o italiano cobriu o leve grito de pavor que proferiu Ariana ao ver o que acontecia.

Logo, aterrorizada ainda, Ariana conseguiu refazer-se e, vendo que o visconde Ugo estava ileso e se debatia freneticamente no lago antes de aferrar-se a sua borda de pedra, deu meia volta e correu tão rápido como pôde para as acolhedoras luzes da casa da marquesa.

 

           Ladrões na noite

 

                       1848

                       Moles do Strand e Adelphi, Londres, Inglaterra

O dia depois do acidentado baile de máscaras celebrado na casa da marquesa de Mayfield em Grosvenor Square, Malcolm, ignorante de todo o ocorrido, passou a tarde de sábado no botequim Rede House, na Battersea Fields, exercitando sua pontaria em companhia de Nicolas Ravener. Depois, às seis em ponto da tarde, sentaram-se os dois em uma mesa do hotel Caledônia em Robert Street, junto a Strand, onde por dois xelins e seis peniques desfrutaram de um copo de cerveja negra e da table d'hôte, um jantar corrente e morno que se servia diariamente e com poucas flores. Enquanto bebia o copo de cerveja, Malcolm se sentia um pouco culpado, pois ultimamente tinha dedicado quase todo seu tempo a Ariana e tinha descuidado tanto seus treinamentos como a amizade do senhor Ravener. A última vez que o tinha visto tinha sido no salão de boxe, onde estava desafogando suas muitas frustrações com um saco que golpeava tão forte que era um prodígio que a lona não se rachou.

— Que golpes deu hoje, Malcolm — lhe havia dito o senhor Ravener — Se preocupa com algo?

— Não... Sim, meus condenados princípios, Nicolas — Malcolm tinha deixado de dar murros e havia lhe lançando um sorriso desinteressado — travei amizade com uma dama. E, antes que me pergunte isso, não se trata de um noivado, embora, para falar a verdade, eu gostaria. Mas, por desgraça, sua posição está tão a cima da minha que, a menos que mude drasticamente minhas circunstâncias, não posso nem pensar em me casar com ela, por mais que o deseje. A dama pensa assistir a um baile de máscaras na casa da marquesa de Mayfield na sexta-feira, o qual te dará uma idéia da classe de círculos que frequenta. Queria que a acompanhasse, mas a mim, naturalmente, não me havia convidado a marquesa, quem sem dúvida desconhece minha existência, e me vi obrigado a declinar seu convite. Mas te asseguro, Nicolas, que por um instante senti a tentação de pôr uma máscara e uma capa e penetrar na casa da marquesa para me acotovelar com a nata da sociedade de Londres, porque estou seguro de que assistirão todos aqueles que pintam algo na cidade.

— E por que não o faz? — tinha perguntado o senhor Ravener, sorrindo — Ir, quero dizer. Não faz falta apresentar um convite com a borda dourada na porta para que um estirado mordomo te deixe passar. Basta penetrar nas quadras pela parte do jardim e entrar pelas portas traseiras. Como todo mundo irá disfarçado, ninguém te reconhecerá. A fim de contas, quem vai fixar-se em um convidado disfarçado entre centenas de outros?

— Santo céu, Nicolas, dá a impressão de que não é a primeira vez que faz algo assim.

— Sim, o fiz uma ou duas vezes, quando acreditei necessário. E não me importa admiti-lo. Porque a fortuna favorece os audazes, Malcom, e como fiquei órfão à idade de doze anos, tive que lutar muito para sair adiante.

— Entendo. Sinto muito. Não sabia que sua vida tinha sido tão dura.

— Bom, sim, não estou acostumado a falar de meu passado.

— Nem de seu presente tampouco — tinha comentado Malcom — Percebe, Nicolas, que desde que nos conhecemos nenhuma só vez até agora tinha me falado de sua família, de seus amigos, de como ganha a vida, de onde vive, nem de qualquer outra coisa de índole pessoal? Não, não estou lhe reprovando por isso, e te asseguro que não quero pecar por ser indiscreto. Seus assuntos são coisa sua, afinal de contas. Mas, mesmo assim, não posso evitar sentir curiosidade, sabe?

O senhor Ravener encolheu os ombros um pouco, desdenhosamente.

— Isso é simplesmente porque não há nada que contar, asseguro-lhe. Meus pais morreram, me deixando órfão, como já te disse. Sempre fui uma alma solitária, assim não tenho amigos, além de ti. Para falar a verdade, sou jogador profissional. Assim posso ir e vir quando deseje e não tenho que responder a mais patrão que a mim mesmo. Também é essa a razão para que boxeie, faça esgrima e tente melhorar minha pontaria com a pistola. Em minha profissão, nunca se é muito precavido. Ultimamente me alojo no botequim George & Vulture, no beco de Saint Michael. Há algo mais que queira saber?

— Não, mas obrigado por satisfazer minha curiosidade.

— Não há de que.

Agora, ao recordar aquela conversa, Malcolm pensou de repente que, sendo jogador profissional, Nicolas tinha que conhecer toda classe de pessoas e que talvez pudesse lhe ser útil em sua busca do Coração de Kheperi. Além de sua incapacidade para cortejar Ariana como era devido, a principal causa do estado de agitação de Malcolm eram os escassos progressos sobre aquele assunto. O senhor Quimbly tinha completado vários mapas da zona que rodeava o castelo de Dúndragon ao longo dos últimos séculos, mas, de momento, não tinham obtido nada mais. Jacob Rosenkranz não tinha averiguado nada a respeito ao paradeiro do segundo crucifixo, que tinha pertencido ao tio de Malcolm. E Boniface

Cavendish não tinha descoberto nada mais sobre lorde Rob Roy Ramsay, o nono conde de Dúndragon, nem sobre a misteriosa ordem dos Filhos de Isis, fundada por ele. Malcolm tinha declarado sua intenção de retornar a Escócia, às Terras Altas e o lago Ness, com o propósito de tentar descobrir a identidade dos doze membros originais da ordem e seguir o rastro de seus descendentes. Mas inclusive a generosidade do senhor Quimbly parecia ter limites, pois quando Malcolm tinha anunciado sua intenção, seu chefe lhe havia dito sem rodeios que não podia ausentar-se da loja tanto tempo. Assim, consciente de que o senhor Quimbly tinha sido mais que generoso com ele, Malcolm tinha renunciado a sua idéia, embora não sem reticência, e tinha aceitado a sugestão de seu chefe de que fosse o senhor Cavendish, quem sabia muito mais que todos eles sobre manuscritos antigos, quem acatasse a tarefa de fazer pesquisas sobre a ordem nas bibliotecas de Londres.

Assim, enquanto jantava e conversava com Nicolas Ravener, Malcom dava voltas à idéia de confessar-se com ele e lhe pedir ajuda para procurar a esmeralda. Mas, ao final, resolveu que era um passo muito sério para dar sem se consultar com os senhores Quimbly, Rosenkranz e Cavendish, e mordeu a língua a contra gosto.

Depois de jantar, Malcolm e o senhor Ravener decidiram ver a primeira função do teatro Royal,em Strand, não muito longe de Robert Street. Chegaram a tempo de ver a comédia em três atos de Paul Pry, com o conhecido ator Edward R. Wright no papel principal, e enquanto riam como o resto dos espectadores, Malcolm pôde esquecer por um momento as frustrações que lhe atormentavam. Saíram logo do teatro e se dirigiram a um botequim de Adelphi Street para tomar uma taça e comer um bocado.

Por fim, entretanto, sendo já quase meia-noite, Malcolm empurrou sua cadeira para trás e se levantou da mesa.

— Está-se ficando tarde, Nicolas, e devo retornar a casa. Nos domingos tenho que me levantar cedo para acompanhar a minha mãe à igreja. Ofereceria-me para compartilhar um carro contigo, mas se te aloja no botequim George & Vulture, vamos em direções opostas. Assim, boa noite.

— Sim. Além disso, quero acabar este copo antes de ir. Foi uma tarde estupenda. Tome cuidado. E já nos veremos a semana que vem no Rory o Vermelho ou por aí. Boa noite, Malcolm.

Depois de pegar sua capa no botequim mau iluminado e cheio de fumaça, Malcolm saiu à rua e começou a andar com passo rápido por Adam Street, para Strand, onde sabia que poderia encontrar um carro àquelas horas da noite. Mas, ao chegar em Strand, enquanto parava um carro que passava pela rua, percebeu de repente de que, na penumbra do botequim, pegou por engano a capa do senhor Ravener em vez da sua. Como eram mais ou menos da mesma altura e compleição, Malcolm não tinha descoberto seu engano até que, ao levantar o braço para chamar o carro, uma rajada de vento do Támesis tinha agitado a sobrecapa, fazendo-a levantar-se como as asas de um corvo. Sua capa era simples e carecia da sobrecapa que encarecia o objeto. Resmungando maldições para si mesmo, deu meia volta e voltou seus passos para o botequim de Adelphi Street, confiando em que o senhor Ravener não tivesse ido ainda.

As luzes refulgiam brandamente no meio da bruma que se deslizava desde o mar e o rio Támesis, e o ar gelado permanecia mudo, salvo pelo suspiro da brisa noturna e o leve tamborilar da fria garoa. Ao aproximar-se de Adelphi Street, a névoa obscureceu sua visão, e foram o som dos violentos golpes e gemidos de dor que chegaram a seus ouvidos em meio da quietude da noite o que lhe alertou de que diante dele estava tendo lugar uma briga.

Aguilhoado por seu instinto, Malcolm começou a correr por Adam Street, a cujo término conseguiu por fim livrar-se da névoa, viu o senhor Ravener em uma luta desesperada com dois homens mascarados, um dos quais sujeitava uma faca cuja folha reluzia, ameaçadora, à luz nebulosa da lua. O senhor Ravener, entretanto, não estava indefeso. Sempre levava com ele um punho de prata em cuja cabeça tinha gravado um dragão alado. Malcolm viu de repente que o punho ocultava uma pequena e mortífera espada que o senhor Ravener brandia a seu redor habilmente, mantendo a raia a seus atacantes.

Entretanto, Malcolm sentiu um nó na garganta, pois ao correr para ali viu que seu amigo se encontrava no cais de Adelphi, que dava sobre o Támesis e onde não havia espaço para manobrar. Malcolm chegou por fim ao embarcadouro e deixou cair seu guarda-chuva, que não se incomodou em abrir, sobre a cabeça do rufião que tinha mais perto, enquanto o senhor Ravener se encarregava do outro.

— Deus, Toby! É o dos mapas! — gritou o homem ao que tinha golpeado com o guarda-chuva enquanto se cambaleava pela força do ataque de Malcolm.

— Mate-o, Badger! — gritou o outro — Não deixe que escape!

Ao ouvir os nomes de seus dois oponentes, Malcolm ficou um momento estupefato, pois nesse instante compreendeu horrorizado que estava lutando nada menos que com o ladrão de carteira Tobías Toby Snitch e com seu cúmplice, Dick Badger Badgerton, o antigo aprendiz do senhor Quimbly. Com razão usavam capas e máscaras! Devem ter passado algum tempo espiando-o e, como não queriam que lhes visse o rosto por medo de que os reconhecesse, disfarçaram-se.

Malcolm compreendeu em seguida que, na escuridão, tinham confundido o senhor Ravener com ele por culpa da capa. Enquanto lutava com Badger à vida ou morte, perguntou-se quantos anos tinham passado na prisão por seus delitos contra o senhor Quimbly. Quando tinham saído e quanto tempo levavam tramando sua vingança? Porque sem dúvida tinham chegado a odiá-lo amargamente durante sua estadia na prisão, pois, de não ter sido por ele, nunca os teriam apanhado naquele dia, já longe, em que decidiram roubar a carteira do senhor Quimbly. De repente compreendeu por que tinham tentado lhe tampar a cabeça com um capuz durante seus assaltos anteriores: sem dúvida pensavam raptá-lo, torturá-lo e finalmente matá-lo. Fruto da vingança, sua morte teria sido em extremo desagradável... e ainda podia sê-lo.

Porque Badger era forte, fibroso e escorregadio e, apesar de Malcolm ser mais alto e corpulento e igual de ágil, custava-lhe grande trabalho mantê-lo a raia, pois tinha quebrado o guarda-chuva ao golpear com ele seu adversário na cabeça e só podia defender-se com os punhos.

— No bolso da capa, Malcolm! — gritou o senhor Ravener enquanto cruzava sua pequena espada com a veloz folha da navalha de Toby.

Malcolm demorou um momento para compreender. Logo, de repente, percebeu que um dos bolsos da capa de seu amigo devia conter algo que podia ajudá-los a salvar a vida. Enquanto esquivava os golpes de Badger, procurou ansiosamente nos bolsos até que apalpou algo frio e metálico. Tirou a pequena, mas mortífera pistola inventada umas décadas antes por Henry Derringer e disparou a seu adversário. Durante um instante que lhe pareceu eterno, acreditou ter errado o tiro, pois Badger ficou ali parado, perplexo, mas ao parecer ileso. Logo, entretanto, quase com movimentos retardados, seu enxuto rosto perdeu cor à pálida luz da lua, suas mãos se fecharam sobre seu peito e por entre seus dedos começou a brotar o sangue enquanto se cambaleava. Nesse momento, Malcolm recordou seu tio Charles instantes antes de morrer, e o fato de que ele usasse uma capa, como o assassino de seu tio, pareceu-lhe a mais cruel das ironias.

Mas não havia tempo para parar para pensar nisso. Porque, para horror de Malcolm, Badger começou a pular, enlouquecido, pelo cais, com gemidos enquanto o sangue brotava de seu peito, e sem prévio aviso se equilibrou sobre o senhor Ravener e o atirou ao rio Támesis um instante antes de precipitar-se à água. Caíram ambos com grande estrondo e se afundaram enquanto Malcolm permanecia no cais, atônito e indeciso, com a pistola descarregada na mão e Toby a uns metros de distância empunhando ainda sua navalha.

— Matou a Badger e vai pagar por isso! — bramou Toby.

Malcolm tomou em um décimo de segundo uma decisão que confiava que salvaria sua vida e a de seu amigo. Arrojou a pistola imprestável à cabeça de seu oponente e, ao agachar-se Toby para esquivá-la, equilibrou-se sobre ele de cabeça, caindo ambos mais à frente do cais. O Támesis estava tão escuro e frio que Malcolm ficou cego e sem fôlego ao afundar-se em suas águas e pensou por um instante que ia afogar-se. Mas logo, procurando ar, emergiu à negra superfície iluminada pela lua e começou a nadar enquanto olhava a seu redor, procurando ansiosamente o senhor Ravener. Ao vê-lo agitar os braços na água, Malcolm nadou para ele e o agarrou com força. Logo começou a nadar para as escadas de Salisbury. Estavam estas a escassos metros de distância, mas a Malcolm pareceu que passava uma eternidade antes que conseguisse as alcançar e arrastar a seu amigo degraus acima. Deu a volta ao senhor Ravener e lhe golpeou nas costas várias vezes com força, até que seu amigo começou a tossir e a expulsar água pela boca.

— Nicolas! Nicolas! Está bem? Pode se levantar?

— Sim..., se for... tão amável de... me ajudar.

Assim que levantou o senhor Ravener, Malcolm viu que tinha uma mancha de sangue no colete.

— Está ferido!

O senhor Ravener assentiu fracamente.

— Esse... maldito bastardo... apunhalou-me.

— Pode andar? Tenho que te levar ao hospital e não me atrevo a te deixar aqui neste estado, porque não sei se Toby Snitch sabe nadar. Espero que não saiba e que tenha se afogado. Mas não me atrevo a me arriscar porque, se continua vivo, certamente subirá pelas escadas de Salisbury ou pelas de York. São os lugares mais próximos pelos quais pode subir e, se o conseguir, te pegará enquanto eu estiver tentando parar um carro.

— Posso andar..., mas não quero ir ao hospital. Leve-me a... a George & Vulture.

— Não seja tolo, Nicolas! perdeu muito sangue. Necessita um médico.

— Eu... sei cuidar de... mim mesmo. Leve-me a... a estalagem.

— Não penso ficar aqui discutindo contigo.

Malcolm jogou o braço de seu amigo no ombro e levou o senhor Ravener por Adam Street até Strand, onde parou um carro. Consciente de que o chofer se negaria a levá-los se lhe dizia que o senhor Ravener estava ferido, Malcolm lhe disse que seu amigo estava bêbado e que caiu por acidente no Támesis enquanto passeavam pelo cais. Deu-lhe a direção de Hawthorn Cottage e lhe prometeu uma boa gorjeta se os levasse a toda pressa.

— Disse-te que... levasse-me... à estalagem — protestou o senhor Ravener fracamente uma vez que estiveram dentro do veículo, o qual se afastou da calçada e começou a correr sobre a pavimentação em direção a Charing Cross e às ruas Cockspur e Regent.

— Não está em condições nem de discutir nem de cuidar de ti mesmo. Se não querer ir ao hospital, então insisto em que venha comigo a Hawthorn Cottage, onde estará bem atendido até que se recupere. É culpa minha que lhe atacassem. Se não tivesse levado sua capa, Toby e Badger não lhe teriam confundido comigo — enquanto falava, Malcolm puxou a seu amigo a capa, o colete e a camisa para ver se era grave a ferida. O senhor Ravener tinha um feio rasgão no flanco — Tenho que deter a hemorragia. Se não, sangrará antes que cheguemos a casa e possa chamar um médico.

Malcolm rasgou em tiras sua camisa molhada e improvisou com ela uma venda, desejando não ter feito caso ao senhor Ravener e haver-se dirigido diretamente ao hospital mais próximo. Quanto mais pensava no longe que estava Hawthorn Cottage, mais se angustiava pelo estado de seu amigo. O senhor Ravener se afundou em um canto do veículo e tinha os olhos fechados e o rosto pálido; sua respiração era rápida e superficial, e os dentes batiam como castanholas. Tinha a roupa molhada e tremia incontrolavelmente. Malcolm compreendeu que estava a ponto de perder o conhecimento. Horrorizava-lhe não ter sequer um brandy ou uma manta para lhe dar calor. De repente começou a esmurrar a parede do carro e gritou ao condutor que tinha mudado de idéia, que os levasse a toda pressa a Portman Square. Uns minutos depois, ao chegar ali, tirou o senhor Ravener do veículo e ordenou ao chofer que esperasse junto à calçada. Logo, sem lhe importar que fossem quase duas da manhã, chamou a campanhia da casa dos Lévesque e começou a esmurrar a porta até que por fim abriu Butterworth, o mordomo.

— Senhor Blackfriars! — exclamou, assombrado, ao ver ante si a aqueles dois homens.

Atrás do mordomo se ouviu de repente a voz alarmada de Madame Valcoeur e, em resposta a suas perguntas, a voz tranquilizadora de seu marido antes que este se dirigisse ao mordomo.

— Quem é Butterworth? O que ocorre? Por que despertam toda a casa a estas horas da noite?

— É o senhor Blackfriars, milorde... — começou a dizer o mordomo.

— Por favor — interrompeu Malcolm e, olhando além dele, viu no fundo do vestíbulo os condes e a Ariana, que, ao ouvir o nome de Malcolm, ficou imóvel na metade da escada, com uma mão na garganta. Depois dela se encontrava lady Christine, a quem Malcolm tinha conhecido na reunião da condessa — Por favor, disseram que se alguma vez necessitasse algo... o que fosse... podia ir a vocês. Meu amigo o senhor Ravener foi atacado. Está ferido gravemente...

— Oh, mon Dieu! — gritou Madame Valcoeur, assustada — Devem entrar logo!

Um instante depois, desatou-se tal alvoroço que Malcolm apenas dava crédito ao que via. De repente apareceram os empregados para levar o senhor Ravener a uma suntuosa habitação do andar de acima, onde lhe despiram, puseram-lhe uma grosa camisa de dormir e o meteram na cama. As donzelas corriam de um lado para outro, levando jarras com chá quente e taças de brandy, assim como toalhas, panos, sabão, bacias de água fumegante, frascos de anti-séptico e outras coisas. Enviou-se outros empregados para chamar o médico e a mandar recado à senhora Blackfriars para que soubesse que o amigo de seu filho estava ferido e que os dois iriam passar a noite em Portman Square. O condutor do carro recebeu o pagamento da corrida e uma substanciosa gorjeta. Malcolm foi instalado em uma habitação contigua a do senhor Ravener, e lhe deu roupa limpa para que se trocasse. Depois de acabar de lavar-se e vestir-se, foi escoltado até a biblioteca, onde Monsieur Valcoeur lhe deu uma taça de brandy.

— O doutor chegou já e está acima, atendendo o senhor Ravener — lhe informou gravemente o conde — Assim não deve preocupar-se com ele no momento. Entretanto, como sem dúvida saberá, perdeu muito sangue, e seu estado parece muito grave. Pode nos dizer o que aconteceu? Disse você que os assaltaram.

— Sim — respondeu Malcolm, e procedeu a explicar-lhe tudo, começando pelo dia em que perseguiu e apanhou Toby Snitch e acabando por essa noite.

— Deve se sentir terrivelmente mal, Monsieur Blackfriars — disse Ariana, comovida, uma vez Malcolm acabou seu relato — E pensar que o pobre senhor Ravener se encontra ferido gravemente porque foi confundido com você por causa da capa e esses canalhas o pegaram! Claro, que não tem nada a ver, como temi ao princípio, com esse homem espantoso e malvado, esse tal Lucrezio Foscarelli, o visconde Ugo.

Para seu assombro, suas palavras sortiram sobre os reunidos na biblioteca o mesmo efeito que se tivesse atirado uma bomba. Por um instante, todos os presentes ficaram olhando-a com a boca aberta e um denso silêncio caiu sobre a habitação. Foi finalmente Christine quem rompeu o silêncio, perguntando:

— Santo céu, Ariana! Por que acredita que lorde Ugo poderia ter assaltado o pobre senhor Ravener?

— Porque, justo depois de me apresentou ao Monsieur Ugo ontem à noite, no baile da marquesa e depois que lhes deixei ali, conversando, estava tão aturdida por tudo o que me tinha contado sobre ele e sua horrível família que não olhava por onde ia e me tropecei com o senhor Ravener... literalmente.

— Com o senhor Ravener! É que estava na casa da marquesa ontem à noite? Está segura, mademoiselle, de que era ele? — perguntou Malcolm, tão assombrado por aquela notícia como pelo fato de que Ariana tivesse mencionado o nome dos Foscarelli.

— Mais oui, Monsieur. Ao princípio pensei que era você com quem tinha tropeçado. O senhor Ravener e você são quase da mesma altura e compleição, e os dois têm o cabelo negro e a pele escura, assim que se parecem muito. E, além disso, o senhor Ravener usava capa e máscara. Assim, até que não vi que seus olhos eram azuis em vez de cinzas, não percebi meu engano. Mas, antes disso, tinha-me dirigido a ele por seu nome, assim que percebeu que o conhecia e se apresentou me dizendo que era amigo dele.

— Entendo — disse Malcolm lentamente — Mas isso não explica por que pensou ao princípio que o senhor Ravener tinha sido atacado por lorde Ugo.

— Non. Isso foi porque, enquanto estávamos conversando, Monsieur Ravener se desculpou de repente e saiu a toda pressa detrás de Monsieur Ugo, que acabava de sair ao jardim. Eu... confesso que senti curiosidade e os segui. e... Oh, sei que é terrível por minha parte! Mas os estive espiando nos jardins. Por isso vi como o senhor Ravener seguia o Monsieur Ugo e o atacava pelas costas.

— O que?! — exclamou Malcolm, cheio de incredulidade.

— Oui, temo-me que assim foi, Monsieur Blackfriars. Como lhe digo, vi com meus próprios olhos. Monsieur Ugo e ele estiveram lutando um momento... e logo Monsieur Ravener lhe lançou ao lago que há no centro do jardim. Foi tão horrível que fiquei ali parada, esperando para me assegurar de que Monsieur Ugo estava bem, e logo voltei correndo à casa.

— Me... deixou surpreso, mademoiselle. Não consigo imaginar por que cometeu o senhor Ravener um ato tão perverso e covarde — Malcolm estava, em efeito, profundamente conturbado pelo comportamento de seu amigo, do que, apesar de si mesmo, tinha começado a desconfiar — Nem sequer sabia que conhecesse a existência de lorde Ugo, nem muito menos que tivessem sido apresentados ou que houvesse entre eles alguma briga por razões que ainda me são desconhecidas. Entretanto, estou seguro de que o senhor Ravener terá alguma boa razão que explique seus atos e lhes asseguro que averiguarei qual é.

— Se chegar a fazê-lo, Monsieur Blackfriars, rogo-lhe que não mencione o nome de minha filha em relação com este assunto — disse Madame Valcoeur, que estava muito pálida — Não há necessidade de implicá-la nisto. E, Ariana... — voltou-se para sua filha — embora não sei o que te contou Christine sobre o visconde Ugo, deve saber que sua reputação, e a de sua família, é... extremamente desagradável. Assim, não quero que volte a se relacionar com ele no futuro. Está claro?

— Oui, mamam — Ariana assentiu, tragando saliva, pois não recordava que sua mãe lhe tivesse falado nunca com tanta severidade.

— Très bon. Agora, está aqui o doutor Whittaker. Sem dúvida ele nos dirá qual é o estado do Monsieur Ravener e se podemos esperar que sobreviva a esta noite.

 

           A novena chave

           Um convite para a lembrança

 

                       1848

                       Portman Square, Londres, Inglaterra

O senhor Ravener não morreu. Mas durante os dias que seguiram seu estado se agravou, pois, como resultado do golpe, tinha perdido muito sangue e contraído uma infecção que o doutor Whittaker atribuía a sua exposição posterior às fétidas águas do Támesis e por cuja causa a febre se apoderou dele até lhe fazer delirar.

Consciente de que a vida de seu amigo pendia de um fio, Madame Valcoeur sugeriu amavelmente a Malcolm que se instalasse na casa dos Lévesque até que o senhor Ravener se recuperasse. Malcolm agradeceu em extremo seu oferecimento e, na manhã seguinte ao ataque, levantou-se muito mais cedo que o habitual, pois tinha passado uma noite inquieta, consumido pela angústia que lhe causava o estado de seu amigo mas também pelo fato de ter disparado a um homem. Embora fosse certo que, se tivesse a oportunidade, Dick Badger Badgerton teria lhe matado sem duvidar, Malcolm se sentia atormentado pela idéia de ter acabado com sua vida. Estava quase seguro de que, ferido por um disparo a queima roupa, Badger não podia ter sobrevivido às frias águas do Támesis, embora soubesse nadar, coisa que Malcolm duvidava. Toby Snitch, em troca, era bem diferente, e o fato de ter escapado aumentava a angústia de Malcolm.

Agora, depois de tomar um banho meticuloso na banheira do quarto contiguo a seu quarto, Malcolm secou-se com uma enorme e macia toalha. Apesar de todo o ocorrido, apenas pôde refrear sua curiosidade e seu assombro enquanto contemplava o luxuoso banheiro e o suntuoso quarto que lhe tinham dado. Assim era como viviam os que se moviam nas altas esferas, pensou, e se sentiu de repente possuído por uma mescla de inveja, saudade e desalento, pois a contemplação dos luxos de quais desfrutavam os ricos lhe fez sentir com maior vivacidade que qualquer outra coisa a distância que o separava da Ariana. Sentiu que seu coração se enchia de novo de cólera contra seu antepassado, o dissoluto lorde Iain Ramsay, antigo conde de Dúndragon, e resolveu com maior ímpeto que nunca recuperar a esmeralda perdida que podia restaurar ao menos a riqueza de sua família, se não seu título.

No dormitório descobriu que a noite anterior, enquanto dormia, alguém tinha lavado e engomado sua roupa e havia colocado novamente em seu quarto. Vestiu-se, chamou brandamente à porta do quarto do senhor Ravener, contiguo ao seu, e ao entrar sem esperar resposta viu Ariana de pé junto à cama de seu amigo, torcendo um pano úmido sobre uma bacia de porcelana colocada sobre uma das duas mesinhas de noite. Ao levantar os olhos para Malcolm, Ariana esboçou um débil sorriso e levou um dedo aos lábios.

— Está dormindo, embora não se encontre bem. A febre lhe faz delirar, como nos advertiu o doutor Whittaker — murmurou ela para não incomodar o paciente — Terá que tentar fazê-lo beber para que não se desidrate, e mantê-lo fresco no caso da febre subir perigosamente. Sinto muitíssimo o de seu amigo, Monsieur Blackfriars, porque, embora assaltasse ao Monsieur Ugo pelas costas, estou segura de que tinha razão e há uma boa razão para isso. É muito estranho. Uma ou duas vezes, durante seu delírio, Monsieur Ravener me chamou de mamam e me agarrou a mão como se minha presença o reconfortasse. Acredito que talvez sua mãe seja francesa e que a quer muitíssimo. E, naturalmente, nenhum homem que adora a sua mãe pode ser tão mau. Minha mãe sempre diz que o modo como trata a sua mãe é uma das melhores formas de medir o valor de um homem. E de saber como tratará a sua esposa.

Suspenso no ar, sem que nenhum dos dois o mencionasse, ficou o fato de que Malcolm sentia devoção por sua mãe e que isso não tinha escapado à aguda percepção de Ariana. Nesse momento, enquanto contemplava seu formoso semblante com esperança, ternura e angústia, Malcom teve que refrear-se para não lhe dizer que, se aceitasse ser sua esposa, trataria ela com a mesma devoção com a qual tratava sua mãe. Mas em lugar de fazê-lo, disse:

— O senhor Ravener é órfão, por desgraça. Seus pais morreram quando tinha doze anos.

— Ah. Mas, então, isso é ainda mais terrível que chame sua mãe agora, não lhe parece? Se estivesse viva, mandaríamos alguém buscá-la em vez de enganá-lo. Porque confesso que, embora me sentisse um pouco culpada, não lhe disse que não era sua mãe, temendo que ao perceber se desgostasse. Sabe você se tem algum outro parente?

— Não, que eu saiba — Malcom sacudiu a cabeça — Para falar a verdade, por certas coisas que me disse, acredito que o senhor Ravener está muito sozinho no mundo.

— Quanto lamento ouvir isso! — disse Christine, que acabava de entrar no quarto — Embora, de todos os modos, não é de tudo certo. Qualquer homem que tenha a coragem de atacar esse vilão de lorde Ugo, seja quem for, é meu amigo — fez uma pausa e logo continuou: — Bati na porta, mas acredito que tão brandamente que não me ouviram. Sophie me encarregou que lhe afaste da cama do senhor Ravener, Ariana. Disse que ontem à noite a fez partir e que esteve velando por ele toda a noite. Assim que me ofereci a te substituir. Esta manhã não vamos à igreja. Assim desça com o senhor Blackfriars para tomar o café da manhã. Sophie disse que ainda não comeu nada.

— Sim, é verdade. E, para falar a verdade, estou faminta e suponho que o senhor Blackfriars também o estará. Assim vou deixar o senhor Ravener a seu cuidado. Mas, se voltar a chamar a sua mãe, Christine, deve me prometer que me avisará imediatamente. Não sei por que estranha razão me confundiu com ela e acredito que ficará muito nervoso se não estiver aqui para reconfortá-lo.

— Está bem, prometo-lhe. Agora, vá antes que venha Sophie te buscar.

Desceram pela grande escada até o vestíbulo e Ariana conduziu Malcom ao pequeno salão, onde o café da manhã estava servido em bandejas de prata dispostas em fileiras sobre o aparador, junto ao qual permaneciam de pé dois empregados e duas donzelas, preparados para servi-los. Ariana soube pelos empregados que seu pai já tinha tomado o café da manhã e tinha saído de casa reclamado por um assunto urgente. Sua mãe, fatigada pelos acontecimentos da noite anterior, estava ainda deitada. Assim Ariana e Malcolm tinham o pequeno salão somente para eles e, ao sentarem-se juntos à mesa, ela não pôde evitar pensar que assim seria sua vida de casados se alguma vez chegasse a contrair matrimônio com o Malcolm. Ignorava, entretanto, que ele estava pensando o mesmo, embora se imaginasse na cozinha de Hawthorn Cottage, cuja mesa de madeira era simples se comparada com a suntuosa mesa de mogno de Honduras a que se encontrava sentado. Não, pensava triste, não podia pedir a Ariana que fizesse tal sacrifício por ele, sobre tudo quando não podia lhe oferecer sequer seu verdadeiro nome.

Depois do café da manhã, Ariana se retirou a seu quarto para descansar e Malcolm foi para a casa informar a sua mãe do ocorrido na noite anterior. Depois de lhe assegurar que se encontrava bem e acompanhá-la à igreja, guardou algumas coisas em uma mala e retornou a Portillan Square. Na manhã seguinte, depois de passar a noite na casa dos Lévesque, retornou de novo a Hawthorn Cottage para ver como se encontrava sua mãe e se encaminhou logo à parada de ônibus de Saint John's Wood, onde tomou o transporte público com a esperança de não chegar tarde o Quimbly & Company.

— Chega tarde! — gritou Harry nada mais entrar Malcolm na loja — E não acredite que não vai se notar, Malcolm, porque o senhor Quimbly já está aqui. Embora, como ultimamente entra e sai quando deseja, talvez não te diga nada, apesar de que é só o oficial de segunda deste estabelecimento. E o primeiro sou eu, naturalmente! — insistiu Harry com aspereza.

— Olhe, Harry — começou a dizer Malcom compreendendo imediatamente os temores de seu companheiro — acreditará se te digo que surgiram uma série de problemas pessoais nos quais o senhor Quimbly está me ajudando? Dou-te minha palavra de honra que assim é. Asseguro-te que não pretendo ganhar o favor de nosso chefe com o propósito de ficar com seu posto ou com a loja quando o senhor Quimbly se retire.

— É certo isso? Não vai atrás de meu posto? Nem da loja tampouco? — perguntou Harry ainda com certo receio.

— Não — Malcom sacudiu a cabeça — Tenho problemas, Harry estou dizendo a verdade. No sábado de noite, Badger e seu amigo Toby atacaram por engano meu amigo acreditando que fosse eu. Estiveram a ponto de matá-lo.

— Santo céu! Refere a Dick Badgerton e Tobías Snitch? — o rosto de Harry refletia assombro e pavor.

— Sim. Devem ter saído da prisão e decidiram se vinga de mim. E o que é pior ainda, estou quase seguro de que matei Badger... e pode que a Toby também. Mas não saberei com certeza a menos que as autoridades descubram os corpos. Os quatros caímos no Támesis, e embora pude salvar meu amigo, o senhor Ravener, não vi o que aconteceu com Badger e Toby, mas suponho que se afogaram. Saberei algo mais quando tirarem os corpos do rio, se é que os tiram. Agora, devo informar ao senhor Quimbly de tudo isto, assim que te agradeceria, Harry, que começasse a sobrecarregar as pranchas dos mapas do senhor Pettigrew esta mesma manhã. Eu virei a te dar uma mão assim que acabe de falar com nosso chefe.

— De acordo — Harry assentiu, envergonhado — Eu... sinto muito ter suspeitado que andava atrás de meu posto, Malcolm. Devia imaginar que não era assim.

— Sim, mas não importa. Entendo.

Ao dirigir-se ao escritório do senhor Quimbly, Malcolm se sentiu abatido ao pensar em quantas coisas tinha que contar a seu chefe essa manhã.

— Santo céu! — exclamou o senhor Quimbly quando lhe contou o acontecido no sábado de noite — Acredita então que todos esses assaltos não tinham nada que ver nem com o senhor Al Walid nem com os Foscarelli? Que foram obra de Dick Badgerton e de Tobías Snitch? Confesso que me deixa estupefato, Malcolm. Para falar a verdade, não havia pensado nesses dois rufiões desde dia que os encerraram em City Bridewell. Então... Badger está morto? Bom, não posso dizer que me surpreenda, porque desde que descobri o vago e ladrão que era, soube que não acabaria bem. Mas, mesmo assim, não posso evitar sentir um pouco de lástima por esse pobre vagabundo. Afinal de contas, procedia de uma família muito pobres cujos membros acabaram nas fábricas, nas prisões de Fleet ou Marshalsea por dívidas, ou mortos. Badger teve aqui uma oportunidade de romper esse círculo vicioso e escapar de tudo isso. Mas a desperdiçou e preferiu dedicar-se ao crime. Assim suponho que, definitivamente, lamento a perda do que poderia ter sido, não do que foi — o velho cavalheiro sacudiu a cabeça tristemente. Logo continuou dizendo: — Bom, Malcolm, lamento muito dizer que, embora possamos estar relativamente seguros de que Badger não voltará a te incomodar, não acredito que possa dizer o mesmo de Tobías Snitch. Disse que estava ileso?

— Acredito que sim, senhor. Mas as docas estavam muito escura e o senhor Ravener é muito bom com a espada. Assim pode que tenha lhe ferido, não sei.

— É uma lástima, uma autêntica lástima, certamente — disse o senhor Quimbly sacudindo ainda a cabeça — Me interessa sobremaneira, como à ti, saber por que atacou a esse tal visconde Ugo. E pelas costas, nada menos! Se me permite dizê-lo, isso não fala muito bem de seu amigo, Malcolm.

— Sei, mas quanto mais voltas dou a este assunto, senhor, mais me convenço de que o senhor Ravener não tinha intenção de matar lorde Ugo. Se quisesse matá-lo, estou seguro de que teria podido fazê-lo. E o que fez? Empurrou lorde Ugo ao lago da marquesa! Quanto mais o penso, senhor, mais me parece que foi o ato de um homem que sente tal desprezo por lorde Ugo que pensou que não merecia a pena assassiná-lo, se entende o que quero dizer.

— Sim, em efeito. Bom, assim que se instalou temporariamente na casa dos Lévesque — o senhor Quimbly mudou bruscamente de tema e seus pálidos olhos azuis cintilaram alvoroçados — Foi uma sorte que Portman Square estivesse muito mais perto que Baker Street no sábado de noite, não é, Malcolm? Assim, vai poder desfrutar de uma longa e deliciosa companhia dos condes de Valcoeur... e de sua bela filha. Esta contente, embora esteja preocupado com o pobre senhor Ravener.

— Para lhe ser franco, sinto-me dividido a respeito, senhor — confessou Malcolm com inapetência — Porque, a menos que encontre o Coração de Kheperi e recupere a fortuna de minha família, embora não seus títulos, o que posso oferecer a Ariana? Neste momento, nem sequer posso lhe dar meu verdadeiro nome. Assim que tudo isto me desespera. Mas, apesar de tudo, sua presença me enche de felicidade.

— Bom, eu te aconselho que aproveite todo o tempo que passe com ela e com seus pais, Malcolm. Porque sabe, tenho a estranha sensação de que neste assunto estão trabalhando forças misteriosas. Sem dúvida essa enigmática adivinha, Madame Polgar, insistiria em que se trata do destino. Acredito que estão começando a acontecer coisas em relação à esmeralda perdida, embora nós não as compreendamos. Jacob me disse que acredita estar a ponto de descobrir quem fabricou seu crucifixo e o de seu tio Charles, e Boniface está encerrado na Biblioteca de Londres, entre antigos manuscritos, procurando pistas sobre os Filhos de Isis.

— Isso é fantástico — Malcolm se alegrou com as notícias de seu chefe — Continuo acreditando que não somos mais que meros peões nas mãos dos deuses, mas que, em troca, podemos tomar o destino em nossas mãos e lhe dar forma através de nossa vontade.

— Assim se fala, Malcolm! — o senhor Quimbly juntou as mãos e sorriu — Bom, como vão as pranchas dos mapas do senhor Pettigrew?

— Espero que Harry tenha começado a fazê-los esta manhã. Assim, se me desculpar, senhor, subirei para ajudá-lo ou não as acabaremos a tempo.

— Silêncio! Silêncio! — ordenou severamente Madame Polgar com os olhos fechados e uma mão levantada, até que o anão, que estava balbuciando, emudeceu — Assim. Muito melhor — disse e, abrindo lentamente os olhos, desceu a mão — Não entendo nada do que diz quando balbucia dessa maneira, Dukker. Onde estava? Esteve fora desde sexta-feira a noite. Começava a pensar que o guarda tinha te prendido ou que estava por aí atirado, ferido ou inclusive morto em algum lúgubre beco. Respire fundo e tente se acalmar. Suponho por como resmunga que aconteceu algo importante, mas não posso entender o que é se não falar devagar e com clareza.

— Oui, oui, Madame. Tentarei falar mais claramente. Foi assim. Recordará você que, depois de chegar na carruagem dos senhores Alvaston à festa de disfarces da marquesa de Mayfield, na sexta-feira a noite, ordenou-me que a esperasse nos estábulos na parte de trás da casa.

— Não sou idiota, Dukker! Lembro-me muito bem das instruções que te dei. Embora esteja claro que as desobedeceu, porque não estava por nenhuma parte quando os senhores Alvaston e eu saímos do baile.

— Non, Madame. Peço-lhe desculpas por não ter seguido suas ordens, mas, enquanto matava o tempo nos estábulos, observei da janela um incidente nos jardins da marquesa que me chamou muito a atenção. De repente apareceu o visconde Ugo e, enquanto passeava pelos jardins, fumando um charuto, vi que lhe seguia às escondidas outro homem. Ao princípio pensei que era Monsieur Blackfriars. Mas logo percebi que era aquele outro que é seu amigo, Monsieur Ravener. E, sem que eles soubessem, estavam sendo espionados por uma terceira pessoa: mademoiselle Ariana!

— De verdade? Oui, tudo isto me interessa. Porque, como sabe muito bem, tudo que concerne ao Monsieur Ugo e mademoiselle Ariana me fascina. Assim continua, Dukker, rogo-lhe. O que aconteceu depois?

— Não imagina você, Madame! Monsieur Ravener se aproximou às escondidas de Monsieur Ugo e o atacou pelas costas. E, enquanto isso, mademoiselle Ariana observava Monsieur Ravener, mas não gritou para advertir o Monsieur Ugo. Estiveram lutando um momento e, ao final, Monsieur Ravener empurrou Monsieur Ugo no lago do jardim e fugiu. Enquanto Monsieur Ugo, que estava furioso, mas ileso, tentando sair do lago, mademoiselle Ariana, em lugar de ajudá-lo, voltou correndo à casa. O que lhe parece, Madame?

— Acredito que fez muito bem ao observar com atenção esse incidente, Dukker.

— Obrigado, Madame — o anão sorriu com orgulho — Nesse momento, pensei que o mais prudente era abandonar meu posto nos estábulos e seguir Monsieur Ravener. Porque, naturalmente, até o momento de seu assalto a Monsieur Ugo, não parecia que tivesse relação alguma nem com ele nem com mademoiselle Ariana.

— Que esperto é, Dukker! Só confio que desta vez, a diferença de outras ocasiões em que tomou um assunto em suas mãos, suas ações tenham sido menos infelizes e mais frutíferas.

— Oui, Madame, asseguro-lhe que assim é. Por sorte, a diferença daquele dia em Oxford Street, quando por acidente empurrei mademoiselle Ariana muito forte e caiu na rua, justo no caminho do cavalo desbocado, esta vez tudo saiu conforme esperava.

— Bom, alegra-me muito sabê-lo, porque te asseguro, Dukker, que quase me parou o coração aquele dia quando me disse o que tinha passado a pobre mademoiselle Ariana. Por um instante temi que estivesse morta. E isso teria sido desastroso para nossos planos.

— Oui, Madame. Em todo caso, como lhe dizia, segui Monsieur Ravener. Por isso não estava em meu posto quando saiu da casa da marquesa na sexta-feira a noite, e por essa mesma razão estive ausente estes últimos dias.

— E o que averiguou sobre o Monsieur Ravener? Está ou não está metido neste assunto?

— Temo-me que ainda não sei, Madame. Sem dúvida é um jogador profissional, porque, depois de escapar dos jardins da marquesa, foi para Cockerel Clube, um casa de jogos clandestinos conhecida pelas elevadas apostas que se fazem em suas salas. Logo retornou a seus aposentos no botequim George & Vulture. No sábado passou todo o dia com o Monsieur Blackfriars, exercitando sua pontaria no botequim Rede House, depois do qual jantaram juntos no hotel Caledônia, em Robert Street, e assistiram a uma função no teatro Royal, em Strand — o anão fez uma pausa para tomar fôlego. Logo prosseguiu dizendo: — Agora vem o mais interessante, Madame. Uma vez monsieur Ravener e Blackfriars saíram do teatro, foram a um botequim de Adelphi Street. Quando ficou tarde, Monsieur Blackfriars partiu, mas não parecia ele, e sim Monsieur Ravener, pois por alguma razão tinham confundido suas capas no botequim, e Monsieur Blackfriars levou a do Monsieur Ravener. Assim segui por engano Monsieur Blackfriars, pensando, claro, que se tratava de Monsieur Ravener. Logo, de repente, Monsieur Blackfriars percebeu seu engano e voltou para o botequim. E o que é que viu? Monsieur Ravener estava lutando com dois homens mascarados no cais de Adelphi! Monsieur Blackfriars correu imediatamente em auxílio de Monsieur Ravener e, ao final, os quatro acabaram caindo no Támesis. Estou quase seguro de que Monsieur Blackfriars matou um dos mascarados com um disparo, pois tinha uma pequena pistola que tirou da capa do Monsieur Ravener.

— Santo céu, Dukker! — exclamou Madame Polgar, atônita — Não me diga que o senhor Blackfriars e o senhor Ravener também estão mortos, que se afogaram no Támesis!

— Non, Madame — o anão sacudiu a cabeça para enfatizar suas palavras — Por sorte, os dois estão vivos. Entretanto, Monsieur Ravener está muito ferido gravemente, pois um dos mascarados, ao que não disparou Monsieur Blackfriars, apunhalou-lhe. Mas o que lhe parece, Madame? Em vez de levar Monsieur Ravener ao hospital, Monsieur Blackfriars parou um carro e ordenou ao chofer que os levasse a casa dos condes de Valcoeur em Portman Square. E ali é onde foram... e onde ainda seguem!

— De verdade? Oh, fez muito bem, Dukker, muito bem, sim, certamente — disse a adivinha, assentindo, pensativa — Toda esta informação me é muito valiosa. Oui, assim é. Agora começo a ver que o destino colocou sua mão neste assunto, e com grande ironia, além disso — durante um momento, enquanto sopesava tudo o que lhe tinha contado o anão, Madame Polgar ficou em silêncio e tamborilando os dedos sobre os braços de sua poltrona. Logo resmungou para si mesma — Me pergunto se sabem... Pode que não, mas está claro que é só é questão de tempo... — de repente saiu de seu topor e disse ao anão — Se Monsieur Ravener estiver tão doente como diz, Dukker, em Portman Square não passará nada durante algum tempo. Assim quero que vá a Berkeley Square, na casa de Monsieur Ugo, e que não lhe perca de vista. Sem dúvida foi ele quem ordenou a esses dois mascarados que atacassem monsieur Ravener e Blackfriars, e embora tanto eles como o resto não são mais que simples peões no perigoso jogo que jogamos, Monsieur Ugo é nosso mortal inimigo, e devemos saber o que sabe e o que esta tramando.

 

Nos dias outonais que seguiram, entre a revoada das folhas caídas e o sussurro da garoa, Ariana e Christine se alternaram para atender o senhor Ravener até que por fim a febre cedeu e o jovem começou pouco a pouco a recuperar-se. Entretanto, embora lhe contrariasse seu confinamento, o senhor Ravener se encontrava tão fraco que não podia abandonar a cama. Assim Malcom continuou vivendo na casa dos Levesques em Portman Square e não só não houve sugestão alguma de que partisse, mas também, quando sua consciência lhe impulsionou por fim a sacar o tema, os senhores do Valcoeur lhe informaram com decisão de que não queriam nem ouvir falar do assunto até que seu amigo se recuperasse por completo.

— Estou segura de que sua presença aqui é um grande consolo para Monsieur Ravener — insistiu com firmeza a condessa — Agora que está se recuperando, temo que se empenhe em abandonar a cama antes que esteja de todo recuperado se não estiver você aqui para lhe fazer companhia, Monsieur Blackfriars. Além disso, para ser justa, tenho que confessar que tenho razões egoístas para lhe fazer abandonar a idéia de ir-se. Não imagina você quanto me alegra ver quatro pessoas jovens conversando, lendo ou jogando cartas pelas noites ao redor da cama de Monsieur Ravener. Assim, por favor, não pense em partir ainda. E, além disso, quando Monsieur Ravener se encontre bem para sair da cama e unir-se a nós na sala de jantar, eu gostaria muitíssimo de convidar sua mãe para jantar, para conhecê-la. Foi muito generosa por lhe compartilhar conosco durante estes difíceis momentos, e eu gostaria de lhe agradecer por isso.

— Sei que falo por minha mãe se disser que se sentirá muito honrada de conhecê-la, Madame Valcoeur — respondeu Malcom com gravidade.

Naturalmente, não podia já pensar em partir da casa dos Levesque sem parecer grosseiro, desconsiderado e ingrato. Entretanto, a idéia de continuar ali lhe atormentava de maneira insuportável, pois cada dia que passava se apaixonava um pouco mais por Ariana. Achar-se agasalhado em Portman Square lhe tinha dado uma oportunidade que, em circunstâncias normais, a maioria dos homens não teriam tido nunca: tinha podido viver com a mulher a qual desejava sobre todas as coisas, sem cortejá-la e sem fazer dela sua noiva. E residir na mesma casa que ela dia atrás dia lhe tinha mostrado com mais clareza que qualquer outra coisa, que classe de esposa seria Ariana e até que ponto podia satisfazer todas suas expectativas e seus sonhos. Era formosa, carinhosa, generosa e amável. E, entretanto, possuía uma paixão, uma vontade e uma obstinação que lhe tinham convencido de que dentro dela, sob o gelo, havia fogo. Ariana lhe tinha enfeitiçado com seus expressivos olhos de cor ametista, que podiam brilhar com ternura e preocupação e, um instante depois, cintilar com irresistível regozijo e bom humor.

Cada tarde, quando retornava de Quimbly & Company para a casa dos Lévesque, aguçava o ouvido procurando os passos ligeiros de Ariana na escada — sem saber que ela, com idêntica concentração, aguardava ouvir o som da porta que indicava sua chegada — e, quando levantava os olhos e a via descer pela escada, ficava sem fôlego, assombrado por sua beleza. Em tais ocasiões, Malcolm ansiava dolorosamente fazê-la sua, e amaldiçoava com amargura lorde Iain Ranisay, cuja inconsciência havia perdido tudo que pertencia por direito a seus descendentes.

— Minha mãe acaba de me dizer que vai ficar conosco um pouco mais, Monsieur Blackfriars — disse Ariana, interrompendo o sonho de Malcolm ao entrar no salão — Me alegra muito sabê-lo, porque temo que seja cada vez mais difícil reter Monsieur Ravener na cama, se não estiver você aqui pelas noites para entretê-lo. Como você, teme estar aproveitando-se de nossa hospitalidade, embora lhe assegurei uma e outra vez que é bem-vindo em nossa casa, e continua preocupado com seu quarto no botequim de George & Vulture, embora lhe informasse que essa foi uma das primeiras coisas das quais se ocupou meu pai na manhã seguinte do ataque. Saberá você que meu pai foi em pessoa ao botequim para recuperar os pertences de Monsieur Ravener e pagar a conta, e falar com as autoridades a respeito de Dick Badgerton e Tobías Snitch e do terrível assalto que sofreram você e Monsieur Ravener.

— Sim, sei — aquilo, na realidade, tinha tirado um grande peso de cima de Malcolm, pois, quando o corpo de Badger foi por fim tirado do Támesis por uns que passavam por ali, a investigação subsequente determinou que sua morte tinha sido acidental, pois não havia provas suficientes de que o disparo de Malcolm fosse a razão de seu falecimento. Assim que a única preocupação de Malcolm era não saber o que tinha sido de Toby nem que quantidade de dinheiro tinha tido que pagar Monsieur Valcoeur para assegurar-se de que se fechasse imediatamente o caso da morte de Badger, pois, quando lhe perguntou sobre este assunto, o conde se limitou a encolher- os ombros e a lhe dizer que não tinha importância — Mas, mesmo assim, deve você compreender, mademoiselle — disse Malcolm a Ariana — que o senhor Ravener é muito orgulhoso, como eu. Nós dois estamos acostumados a nos abrir caminho na vida e a pagar nossas contas, e não aceitamos nem esperamos esmolas de ninguém.

— Mas, dadas as circunstâncias, socorrer Monsieur Ravener essa noite e seguir ocupando-se dele após não é uma esmola, a não ser uma amostra de humanidade. O doutor Whittaker nos disse que foi um milagre que não morresse e, embora Monsieur Ravener está já fora de perigo, segue estando muito débil e vai recuperando suas forças muito devagar. Assim não devem vocês pensar que os consideramos intrusos que procuram aproveitar-se de nós, Monsieur Blackfriars. Sabemos que não é assim, que Monsieur Ravener e você são homens de mundo, que dispõem de seus meios, e que só devido ao ataque que sofreu Monsieur Ravener estão aqui..., embora tanto a mim quanto a meus pais nos alegra muito ter podido ajudá-los, porque, aconteça o que acontecer, nunca poderemos lhe agradecer o suficiente por ter me salvado a vida aquele dia em Oxford Street. Assim, como vê, monsieur Blackfriars, não é você quem está em dívida conosco, a não ser ao reverso.

— Rendo-me, mademoiselle... rendo-me! — Malcolm começou a rir e levantou as mãos — Madame Valcoeur e você me deram tanto a lata que seria terrivelmente grosseiro por minha parte não ficar.

— Bem! — Ariana sorriu, juntando as mãos com olhar travesso — Confesso que esperava que fosse assim. Você acha que sou malvada?

— Muito! Entretanto, é fácil perdoá-la, porque sei que só pensa no senhor Ravener e em que permaneça na cama até que recupere do todo sua saúde.

— Oui, assim é — disse Ariana lentamente, e de repente se ruborizou, pois o certo era que sua preocupação pelo senhor Ravener era só parte do motivo pelo qual desejava que Malcolm ficasse na casa — Mas, para lhe ser franca, Monsieur Blackfriars, tenho que admitir que também queria que ficasse por outras razões. Eu... desfruto muito de sua companhia — disse apressadamente, e seu rubor se fez ainda mais intenso.

— E eu da sua, mademoiselle — respondeu Malcolm com suavidade, desejando fervorosamente tomá-la em seus braços, beijá-la e lhe pedir que se casasse com ele — Tomara... tomara as coisas fossem... diferentes entre nós.

Enquanto falavam, aproximaram-se sem perceber, e estavam tão perto que Ariana estava segura de que Malcolm podia ouvir o batimento enlouquecido de seu coração. Tinha, na realidade, tão pouca experiência com os homens que até esse momento não tinha estado segura de que Malcolm sentisse por ela mais interesse que o que podia sentir por uma simples amiga. A certeza de que assim era produziu dentro dela um tumulto de emoções, entre as quais se despontavam a esperança e o desalento: esperança de que a convencesse de que podiam ter um futuro juntos, e desalento porque não o fez. Porque suas palavras tinham sido tão cuidadosamente escolhidas que, enquanto reconheciam os sentimentos que havia entre eles, deixavam claro que qualquer relação além da amizade era impossível.

— Como já lhe disse uma vez, as coisas podem mudar, Monsieur — disse Ariana em voz baixa.

— Sim, sempre podemos esperar que assim seja, mademoiselle. Mas, em caso de que isso não ocorra, não queria enganá-la lhe fazendo acreditar que não me importa o abismo que separa nossa posição na vida, porque sim me importa.

— Eu... entendo e lhe agradeço sua sinceridade, Monsieur — Ariana se obrigou a conter as lágrimas e esboçou um alegre embora trêmulo sorriso — Vai jogar uma partida de cartas com Monsieur Ravener e mademoiselle Christine?

— Sim, não sei de que vai servir. O senhor Ravener é tão bom jogador que os outros não têm nada que fazer frente a ele.

Para evitar maior confusão, Malcolm fingiu não ver as lágrimas que brilharam um instante em seus olhos, embora sua visão lhe doeu profundamente, fazendo com que se sentisse ao mesmo tempo culpado e envergonhado por ter cedido, embora fosse momentaneamente, a seu desesperado desejo de lhe dizer o muito que a amava. Até esse instante, apesar de estar seguro de seus sentimentos por Ariana, ignorava o que sentia ela por ele. Mas seus olhos chorosos e seu valoroso sorriso lhe tinham falado com maior eloquência que as palavras do risco que corria o coração da Ariana, como o seu; e, que apesar de tudo, ao perceber, Malcolm havia sentido um arrebatamento de alegria, acompanhado de desolação, pois aquela situação lhe incomodava.

— Oui, mas como Monsieur Ravener é um jogador profissional, é lógico que jogue melhor que nós às cartas — disse Ariana enquanto saíam do salão e se dirigiam ao vestíbulo — Me atreveria a dizer que, se mudassem de profissão, Monsieur Ravener não demonstraria tanta perícia desenhando um mapa ou bordando um lenço.

— Sim, bom, embora esteja disposto a lhe dar o benefício da dúvida no que diz respeito às habilidades artísticas, pois o senhor Ravener é um homem com muitos talentos, acredito que estou de acordo em que o trabalho de agulha não se conta entre eles — Malcom começou a rir de novo.

— Do que riem? — perguntou Christine do alto das escadas — Vão jogar às cartas ou não? Porque o senhor Ravener insiste em não ficar na cama a menos que lhe dermos outra vez a oportunidade de ganhar.

— Pode que nós sejamos quem ganhe a ele — respondeu Ariana, sorrindo — Monsieur Blackfriars e eu estávamos riscando nossa estratégia. Assim volte com o senhor Ravener e lhe avise que lhe convém estar em guarda. Diga-lhe que até agora lhe deixamos ganhar porque estava doente, mas que, agora que está melhor, não teremos piedade dele.

Christine sorriu e desapareceu no quarto do senhor Ravener, sabendo o muito que se zangaria este quando lhe dissesse que lhe tinham estado deixando ganhar porque estava doente. E logo comprovou que tinha razão.

— Deixar ganhar? — o senhor Ravener se incorporou sobre os travesseiros — Que idéia! Embora tenha estado prostrado nesta cama, asseguro-lhe que meu estado de saúde em nada afetou a minha habilidade com as cartas, lady Christine. Ganhei com justiça... e o demonstrarei ganhando outra vez esta noite. Agora, vêm ou não vêm o senhor Blackfriars e lady Ariana?

— Sim, Nicolas — disse Malcom ao entrar com Ariana no quarto — E me alegra muito verte tão animado. Está muito melhor estes últimos dias.

— Estou tão bem que posso me levantar da cama. Não posso continuar aqui deitado, perdendo o tempo. Tenho... assuntos urgentes para resolver — insistiu o senhor Ravener.

—Ah, sim? E não terão esses assuntos urgentes algo a ver com o visconde Ugo, Nicolas? —perguntou Malcom com estudada indiferença enquanto levava a pequena mesa de naipes junto à cama e colocava três cadeiras a seu redor.

— O visconde Ugo...? — perguntou o senhor Ravener depois de um momento e, com aparente desinteresse para o tema, pegou o maço de cartas que havia sobre a mesinha de noite, a seu lado, e começou às embaralhar com destreza — Me temo que não conheço ninguém com esse nome.

— De verdade? Bom, então, pode que me equivoquei — Malcolm se encolheu os ombros como se a questão não lhe importasse. Logo ajudou às jovens a sentarem-se e tomou assento à mesa — É só que, enquanto delirava, ouvi uma... estranha história a respeito de um... pequena briga que teve lorde Ugo e você no baile de disfarces da marquesa de Mayfield. Algo relacionado com um lago, se não me recordo mal — levantou uma sobrancelha com expressão inquisitiva.

— Quem te contou isso? — perguntou lentamente o senhor Ravener.

— Eu — disse Ariana antes que Malcolm pudesse responder — Estava no jardim essa noite, quando você empurrou o Monsieur Ugo ao lago. Assim vi como lhe agredia.

— Entendo — um músculo vibrou na mandíbula do senhor Ravener, quem ato seguido anunciou — Tem você razão, mademoiselle. Estive nos jardins com lorde Ugo essa noite. Esperava não ter que explicar o que sem dúvida lhe pareceu um ato covarde, e por isso neguei conhecê-lo. Além disso, era certo o que disse. Esse homem e eu nunca fomos formalmente apresentados, assim em realidade não o conheço.

— Então, por que demônios lhe atacou, Nicolas? — perguntou Malcolm.

— Minhas razões são privadas e, de momento, Malcolm, temo que não posso te contar nada mais, salvo, claro, que são excelentes e que não tinha intenção de machucar lorde Ugo.

Poderia ter lhe matado, sabe? Assim sem dúvida o fato de que me limitasse a lhe atirar no lago demonstra que não lhe odeio até esse ponto.

— Pelo contrário, o modo como mademoiselle Ariana descreveu o incidente me faz acreditar que despreza até tal ponto lorde Ugo que nem sequer se dignou matá-lo.

— Sim, bom, pode ser. Entretanto, o fato é que não lhe fiz nenhum dano, além de machucar um pouco seu orgulho, claro. Assim, deve reconhecer que não lhe desejava nenhum mal.

— Digamos simplesmente que reservo meu julgamento até que saiba mais sobre o assunto — afirmou Malcolm com gravidade — Agora, pensa repartir as cartas ou vai ficar embaralhando toda a noite?

O senhor Ravener repartiu as cartas e, ao começar o jogo, não voltaram a mencionar o visconde Ugo nem o incidente dos jardins da marquesa na noite do baile de disfarces. Entretanto, sem que os outros soubessem, os quatro continuavam dando voltas naquele assunto e, como resultado disso, o jogo não conseguiu prender sua atenção como de costume. Ao fim de um momento, como nem sequer ele pudesse concentrar-se na partida, o senhor Ravener alegou estar fatigado e aceitou o oferecimento de Christine de lhe ler em voz alta até que dormisse. Malcolm e Ariana saíram do quarto e se retiraram ao salão de música, onde ela tocou o piano enquanto Malcolm ia passando as páginas da partitura. Desta maneira passaram o resto da noite, até que por fim tiveram que desejar boa noite.

Quando o senhor Ravener pôde abandonar por fim a cama para reunir-se com os Lévesque na sala de jantar, madame Valcoeur manteve sua promessa e convidou para jantar à senhora Blackfriars. Naquele momento, a condessa não podia imaginar que seu convite os poria a todos, incluído ela mesma, em um apuro de proporções monumentais e causaria tal alvoroço no lar dos Blackfriars e no seu próprio que qualquer um teria pensado que os Lévesque e os Blackfriars se dispunham a acotovelar-se com a realeza. Na casa dos Lévesque em Portman Square, encarregou-se às faxineiras limpar cuidadosamente as janelas e varrer as lareiras, limpar o pó dos móveis e lustrar os chãos, enquanto na cozinha, o cozinheiro, Monsieur Montségur, trabalhava infatigavelmente para preparar uma série de pratos deliciosos. Hawthorn Cottage fervia igualmente, pois a senhorita Woodbridge e Nora tiveram que retocar o melhor vestido da senhora Blackfriars, lhe pondo novos adornos e lhe arrumando as pregas, além de lavar e engomar a saia para preparar a visita de sua senhora a casa dos condes de Valcoeur.

— Oh, é tão emocionante, senhora! — exclamava Nora enquanto arrumavam o vestido.

— Sim — assentiu a senhora Blackfriars com um sorriso — Confesso que me sinto outra vez como uma menina que vai a seu primeiro baile.

Na realidade, a senhora Blackfriars não estava só nervosa por voltar a apresentar-se em sociedade, mas sim sentia uma intensa curiosidade pelos Lévesque e, particularmente, por Ariana. Era consciente de que seu filho se apaixonou perdidamente pela jovem. Mas, dada sua diferença de status social, ignorava como pensava Malcolm conquistar o coração e a mão de Ariana. Tinha não obstante a impressão de que os senhores de Valcoeur não olhavam de tudo com maus olhos seu filho. De outro modo, não teriam convidado, sua mãe, para jantar. Afinal de contas, não tinham por que convidá-la. De modo que seu convite parecia indicar que Malcolm contava com sua aprovação, o qual não deixava de assombrar a senhora Blackfriars.

À medida que se aproximava inexoravelmente o jantar na casa dos Lévesque, sua agitação não fez a não ser aumentar e, quando soube que os condes de Valcoeur iriam enviar sua carruagem para buscá-la, ficou ainda mais nervosa, pois nunca tinha imaginado que pudessem dispensar tantos cuidados. A noite do jantar, quando o carro dos Lévesque chegou por fim, ficou parada um momento na porta de Hawthorn Cottage, olhando-o embevecida por sua magnificência e pelas quatro formosas éguas que o puxavam. A senhora Blackfriars sabia que se seu marido, Alexander Ramsay, tivesse conseguido recuperar o legado de sua linhagem, seu estilo de vida teria sido tão luxuoso como o dos condes de Valcoeur, como tinha visto. Entretanto, o que sentiu nesse momento não foi nem amargura nem pena pelo que lhe tinha sido negado — pois, face à modéstia de seus meios, seu marido e ela tinham sido extremamente felizes — a não ser angústia por seu único filho, porque suas esperanças de ser feliz se viram truncadas por não possuir nem títulos nem fortuna.

— Mamãe?

A voz de Malcom a tirou bruscamente de seu sonho, e percebeu que um dos empregados desceu de seu posto na parte de trás do carro para lhe abrir a porta e ajudá-la a subir os degraus. A senhora Blackfriars se ruborizou um pouco, sobressaltada, ao reparar que levava um momento olhando boquiaberta a carruagem. Subiu rapidamente e se acomodou entre as macias almofadas estofadas de veludo vermelho. Malcolm se sentou a seu lado e o empregado fechou a porta e voltou a ocupar seu lugar na parte traseira do carro. O condutor espetou os cavalos e o veículo começou a andar com uma leve sacudida, a caminho de Marylebone.

Em seu interior, a senhora Blackfriars e Malcolm falaram muito pouco. Estavam perdidos em seus pensamentos, olhando pelas janelas embaçadas e salpicadas de chuva. Com o cair da noite, as luzes estavam acesas e fulguravam rodeadas de névoa, nas ruas, iluminando os portais das lojas e as casas. A senhora Blackfriars observava o panorama com interesse, pois rara vez ia a cidade ou ia além dos limites de Saint John's Wood, e lhe surpreendiam vagamente as mudanças que observava a seu redor.

À medida que a carruagem se aproximava de Portman Square, as casas se faziam cada vez mais suntuosas, e a senhora Blackfriars ia se sentindo um tanto intimidada. Afinal de contas, pensava, podiam dizer-se muitas coisas favoráveis sobre o ambiente alegre e acolhedor de Whitrose Grange e Hawthorn Cottage e, portanto, embora as grandes casas a impressionassem, não sentia inveja de seus proprietários. Entretanto, quando o carro dobrou por Gloucester Agrada e entrou em Portman Square, não pôde reprimir uma leve exclamação de prazer ao ver o amplo parque oval do centro da praça, pois embora o outono se precipitasse para o inverno e muitas árvores tinham perdido já suas folhas e apareciam nuas à luz da lua e as luzes, notou em seguida quão agradável seria dar um passeio por aquele lugar quando o tempo o permitisse.

Por fim, depois de rodear o parque até sua metade, o veículo parou em frente uma das casas maiores da praça, e a senhora Blackfriars compreendeu que aquele devia ser o lar dos Lévesque.

— Oh, que bonito! — comentou ao descer do carro.

— Sim — Malcolm assentiu sob o guarda-chuva que sustentava sobre eles um dos empregados — É uma das casas mais bonitas da praça.

Chamou a campanhia e um instante depois Butterworth, o mordomo, abriu-lhes a porta. Depois de saudá-los educadamente, conduziu-os através do opulento vestíbulo até o elegante salão que havia mais à frente; anunciou-os e logo fechou as portas atrás dele ao sair da estadia. Por um instante, a senhora Blackfriars e seu filho permaneceram parados na soleira, olhando à multidão de rostos que havia no salão, que haviam se virado para eles com interesse. Logo, antes que ninguém pudesse falar, os olhos da senhora Blackfriars se posaram sobre um rosto entre as pessoas e seu semblante empalideceu.

— Katherine! — gritou, cheia de alegria e incredulidade.

Ato seguido o pequeno salão pareceu girar lentamente a seu redor antes que uma piedosa escuridão a envolvesse e a tragasse.

             A família

 

                     1848

                     Portman Square, Londres, Inglaterra

Ao desmaiar a senhora Blackfriars, Malcolm teve a presença de ânimo de agarrá-la. Levantou-a nos braços, levou-a ao sofá e a depositou nele brandamente, enquanto Ariana, que tinha percebido que sua mãe não estava em condições de fazê-lo, ordenou a várias donzelas e empregados que buscassem sais, um pano e uma bacia de água, e pediu ao cozinheiro, Monsieur Montségur, que atrasasse o jantar ao menos meia hora. Logo correu junto a Malcolm para ajudá-lo com sua mãe, deixando-a aos cuidados de seu pai. Pois, ao desmaiar a senhora Blackfriars, madame Valcoeur ficou de repente muito branca e, deixando escapar um leve grito, desabou em uma poltrona e continuava ali sentada, murmurando para si mesma, em estado de muita agitação. Dividido entre seus deveres de anfitrião e marido, Monsieur Valcoeur revoava em torno de sua mulher, apertava-lhe as mãos e lhe falava com doçura, intercalando entre seus comentários expressões de preocupação pela senhora Blackfriars. Lady Christine, vendo que todo mundo estava ocupado, ordenou às donzelas e empregados que servissem brandy e xerez e que passassem as taças entre os convidados enquanto, desde sua poltrona junta ao fogo, como um falcão que espreitava sua presa, o senhor Ravener observava a cena em silêncio, com expressão pensativa.

Por fim, depois de se aproximar um frasquinho de sais no nariz, a senhora Blackfriars voltou em si e abriu as pálpebras. Seus olhos pareceram um instante cheios de confusão. Era evidente que não sabia onde estava.

— Está bem, mãe? — perguntou Malcolm, preocupado, enquanto a ajudava a incorporar-se no sofá.

— Sim..., sim — a senhora Blackfriars gemeu brandamente, levando uma mão à testa para sujeitar o pano molhado que lhe tinha posto Malcolm — Eu... estou bem. Foi só... a impressão de ver Katherine aqui... Não, a Katherine, não — se corrigiu, olhando hipnotizada para Ariana — Agora percebo, porque ela tinha minha idade... e você, mademoiselle, não tem ainda nem vinte anos. Mas se parece tanto a ela que apenas posso acreditá-lo. Como pode ser... ? Eu... não entendo...

Para surpresa de todos os presentes, foi o senhor Ravener quem respondeu, ordenando aos serventes que se retirassem e fazendo jurar Christine solenemente que manteria o segredo do quanto se dissesse ali.

— Agora, senhora Blackfriars, rogo-lhe me perdoe por parecer tão misterioso e tão ousado, mas posso lhe perguntar se a senhora se refere a Katherine de Ramezay? Por favor — prosseguiu ao ver que ela titubeava — não tema me dizer a verdade. Pois, se for em efeito dela de quem fala, saiba que era minha mãe e que, além disso, desde que comecei a recuperar minha saúde suspeitava que a jovem a que Malcolm e eu conhecemos como mademoiselle Ariana Lévesque é em realidade minha irmã desaparecida, Ariana de Ramezay. Agora só falta descobrir se é a senhora Elizabeth Ramsay e se seu filho Malcolm é nosso primo. Embora admita que no fundo tenho a certeza de que assim é.

— Oh, mon Dieu! — exclamou de repente a condessa, sacudindo a cabeça enquanto levava uma mão à boca — Assim é, na verdade. E sabia! Sabia! Oh, Ma chére Elizabeth! Quanto me alegra poder te chamar assim! Por favor, não se assuste, está entre amigos, asseguro-lhe. Meu marido, Jean-Paul, é o primo de Charles de Ramezay. Assim foi como ficamos com a Ariana. Somos seus padrinhos.

— Mamam... Agora sou eu quem não entende nada. O que está dizendo Monsieur Ravener e você? — o formoso semblante de Ariana refletia perplexidade e temor — Eu sou Ariana Lévesque, não Ariana de Ramezay. Como vou ser a mulher a que se refere Monsieur Ravener? Como poderia ser sua irmã... e prima de Monsieur Blackfriars?

— É uma história muito longa, chérie — disse Madame Valcoeur com um profundo suspiro — E confesso que devíamos ter lhe contado isso há muito tempo. Mas tinha tanto medo do que seria de ti se alguma vez averiguasse a verdade, que convenci seu pai para que guardássemos silêncio. Queria te proteger. Mas agora devemos lhe contar tudo. Contar-te como chegou a nós há treze longos anos. Mas primeiro Jean-Paul... — voltou-se para seu marido — Por favor, diga a Fanny que fale com Monsieur Montsegur que não sirva o jantar até as nove.

Enquanto o conde repartia ordens à donzela da porta do salão, a condessa fez uma pausa para recuperar o fôlego. Logo, uma vez seu marido acabou de falar com a faxineira e fechado as portas do salão, continuou, dirigindo-se a sua filha:

— É, em efeito, Ariana de Ramezay, Ma petite, pois seus verdadeiros pais eram Charles e Katherine d Ramezay, condes de Jourdain e, tal e como disse, Charles era primo irmão de Jean-Paul. Seu pai e a mãe de Jean-Paul eram irmãos. O que aconteceu foi isto, Ariana. Quando seu irmão Nicolas tinha doze anos e você cinco, seus pais decidiram viajar para a Escócia, às Terras Altas, onde sabiam que Alexander e Elizabeth Ramsay viviam em um lugar chamado Whitrose Grange, junto ao lago Ness.

Ariana deixou escapar um gemido estrangulado.

— Então, meu sonho, meu pesadelo, não era minha imaginação, como você dizia, mamam, e sim uma lembrança!

— Oui, isso acredito, embora, como não esteja de todo segura, deve ser Elizabeth e Malcolm quem lhe esclareça isso. Na realidade — se dirigiu a eles — pode que seja melhor que sejam vocês quem continue a narração deste ponto.

A senhora Blackfriars e Malcolm, recuperados já de seu assombro, confirmaram suas verdadeiras identidades e explicaram o ocorrido em Whitrose Grange: como o pai de Malcolm, Alexander Ramsay, e Charles de Ramezay, o pai de Nicolas e Ariana, cruzavam às escondidas o lago Ness até o castelo de Dúndragon em busca do Coração de Kheperi; como tinham sido assassinados por lorde Vittore, conde Foscarelli, depois de que este descobriu de algum modo suas verdadeiras identidades; como a fazenda tinha ardido nessa mesma noite; e como Malcom e outros tinham fugido.

— Mas nunca soube o que tinha sido de Katherine e de seus dois filhos depois de que os deixamos na estalagem George aquele dia, em Newcastle-upon-Tyne — disse a senhora Blackfriars com voz fraca e os olhos cheios de lágrimas — Lhe escrevi muitas vezes a uma direção secreta que tínhamos acordado. Mas, como não voltei a ter notícias delas, temia que tivesse morrido.

— Sim, temo que assim é. Minha mãe está morta há treze anos, tia Elizabeth — disse Nicolas com suavidade — Adoeceu na viagem de volta a França, como eu. Uma epidemia se apoderou do navio e, quando chegamos em Calais, boa parte dos passageiros estavam gravemente doente. Minha mãe temia que morrêssemos os dois e não ficasse ninguém para ocupar-se de Ariana, que por sorte se salvou do contágio. Assim minha mãe escreveu uma carta aos senhores de Valcoeur e pagou a uma família que ia no navio e que passaria em sua viagem pelas terras dos Valcoeur, para que entregasse a Ariana e a missiva. Enquanto isso, minha mãe e eu encontramos alojamento em uma pensão de Calais, não muito longe das docas — encolheu os ombros levemente — Não era grande coisa. Estávamos tão doentes que quase ninguém se atrevia a nos abrir suas portas. Mas, como eu não estava tão doente como minha mãe, depois de acomodá-la ao quarto me arrastei pelas ruas em busca de um médico. Quando por fim encontrei um disposto a me acompanhar, não pôde fazer nada para salvá-la. Uns dias depois, minha mãe morreu.

— Oh, Nicolas, quanto sinto! — a senhora Blackfriars começou a chorar brandamente.

— Eu também — disse a condessa com voz trêmula e os olhos cheios de lágrimas — Ao chegar Ariana em Valcoeur, Jean-Paul partiu imediatamente para Calais. Mas não conseguiu encontrar nem rastro de Katherine nem de Nicolas. Era como se lhes tivesse tragado a terra e, como sabíamos pela nota de Katherine que estavam muito doentes, acreditamos que tinham morrido por causa das febres. Até essa noite, quando Malcolm te trouxe aqui, ferido, não sabíamos que tinha sobrevivido, Nicolas. Mas essa noite, quando te vi de pé com Malcolm em nossa porta, vi em seguida que era a viva imagem de Charles a sua idade e como, pelas muitas coisas que Ariana tinha me contado, havia já começado a suspeitar a verdadeira identidade de Malcolm e esperava e confiava em que fosse nosso Nicolas... e o é, graças a Deus! Por favor, nos conte como viveu, como chegou a Inglaterra e como conseguiu encontrar Malcolm.

— Como vivi? Como qualquer outro menino de rua, temo-me — disse Nicolas com despreocupação — Suponho que sabem como são as cidades portuárias. Quando minha mãe exalou seu último suspiro, algumas pessoas que estavam no quarto, pois era um desses botequins que alugam camas e até ocos no chão para passar a noite, ajudaram-me a enterrá-la. Tive que enterrá-la em uma fossa comum, claro, porque tinha muito pouco dinheiro e, como minha mãe tinha morrido e eu era menor de idade, não tinha como acessar às contas bancárias de meu pai. Essa foi uma das grandes ironias de minha vida: sabia que todo o dinheiro de meu pai estava no banco, enquanto eu me via obrigado a viver mal. O caso é que consegui sobreviver. Depois do que tinha passado a meu pai e a tio Alexander e do que tinha me contado minha mãe sobre nosso legado familiar antes de morrer, não confiava em ninguém e me aterrorizava dizer meu verdadeiro nome. Como De Ramezay e Ramsay significam «da ilha de Raven», mudei meu sobrenome para Ravener e, para evitar que nossos inimigos me descobrissem, fiz-me passar por um rapaz inglês ao que tinham forçado a arrolar-se em uma navio mercante e que, para escapar, tinha saltado do navio em Calais — ficou calado um momento, recordando. Logo prosseguiu — Naturalmente, como minha mãe tinha nascido e crescido na Escócia, eu falava inglês, além de francês, desde pequeno, assim não me custou me fazer passar por inglês, e o fato de que outros me acreditassem inglês e não soubessem que falava francês foi de grande utilidade em muitas ocasiões. Assim consegui sobreviver e, ao final, inclusive prosperar, depois de me converter em jogador profissional. Mas nunca esqueci o acontecido em Whitrose Grange, nem a história que me contou minha mãe sobre nossa família e o Coração de Kheperi, assim, quando por fim ficou mais velho e tive suficientes recursos, deixei a França e vim para Londres. No princípio, tinha intenção de seguir viagem até a Escócia e as Terras Altas. Mas então ocorreu algo totalmente inesperado. Dispunha-me a entrar na Quimbly & Company para comprar um mapa da cidade quando, através da cristaleira da loja, vi Malcolm atrás do mostrador. Quando nossos pais morreram ele tinha dezesseis anos, era quase um homem, assim não tinha mudado tanto como eu. Por isso, suponho, não me reconheceu quando nos vimos. Entretanto, não me apresentei em seguida ante ele. A memória às vezes nos prega peças, e queria estar seguro de sua identidade, sobre tudo quando descobri que se fazia chamar Malcolm Blackfriars. Estive lhe seguindo e averiguei tudo que pude sobre ele. Quando vi tia Elizabeth em Hawthorn Cottage, convenci-me de que eram eles. Por desgraça, entretanto, na noite que pensava revelar minha verdadeira identidade a Malcolm foi a noite que lhe atacaram pela primeira vez, conforme acredito, esses dois rufiões que logo me atacaram , Tobías Snitch e Dick Badger Badgerton.

— Malcolm! — a senhora Blackfriars olhou para seu filho, alarmada — Não havia me dito nada disso!

— Não, não queria que se preocupasse, mãe. Mas em seguida saberá tudo, prometo-lhe. Agora, continua, Nicolas, rogo-lhe.

— Bom, o que aconteceu foi o seguinte. Eu não queria te dizer a verdade diante do policial que foi em seu auxílio nem de seu chefe, o senhor Quimbly, que nos tinha feito entrar em sua casa depois do assalto. Assim que me vi obrigado a me apresentar ante ti como Nicolas Ravener, e decidi logo que talvez fosse melhor manter a farsa um pouco mais, ao menos até que soubesse quem tinha te atacado e por que. Afinal de contas, era possível que, se eu tinha te encontrado, nossos adversários também teriam dado contigo e, em tal caso, podia ser muito mais útil se me considerassem um simples seu amigo achado por azar.

— Sim, entendo — assentiu Malcolm, reflexivo — Se estivesse em seu lugar, provavelmente eu teria feito o mesmo. E ao menos agora entendo por que se comportou assim com o visconde Ugo, por que não o matou essa noite, nos jardins da marquesa de Mayfield. Suponho que acredite que tem um crucifixo e que por isso lhe abriu a capa e lançou a mão à sua garganta. O que significava que há, em efeito, mais de duas cruzes, como supunha o senhor Quimbly.

— O senhor Quimbly? Oh, Malcolm! Contou ao senhor Quimbly? — perguntou a senhora Blackfriars, horrorizada.

— Sim, mãe.

— Mas me prometeu não dizer nada...

— Nada disso, mãe. Lembre-se. Por sorte, não te prometi nada parecido. Porque, senão, pouco poderia fazer para recuperar o legado de nossa família.

— Suponho que se dão conta de que esta história me deixou completamente confusa e aturdida — Ariana estava pálida e tinha um olhar angustiado e perplexa — Ignoro do que estão falando. O que tem que a ver esse crucifixo com a esmeralda perdida, o Coração de Kheperi?

— Por desgraça, ainda não sei exatamente — respondeu Malcolm — Mas tentarei lhe explicar. – E colocou a mão sob a camisa, tirou sua cruz, que tinha pendurada ao redor do pescoço, e a mostrou a Ariana — Quando contei ao senhor Quimbly a história de nossa família, sugeriu-me que lhe levássemos este crucifixo a um amigo dele, um joalheiro chamado Jacob Rosenkranz, que tem uma loja em Hatton Green — entre as exclamações de assombro dos outros Malcolm repetiu a história que lhe tinha contado o senhor Rosenkranz sobre seu antepassado, Ezekial Rosenkranz, dono da loja de penhores de Birchin Lane que tinha visitado Westerfield, o ajudante de lorde Iain Ramsay — Assim, como vêem, sabemos que esta é a cruz número um e que há ao menos outra, que pertencia a tio Charles, e que suponho é a número dois. A tem você, Nicolas?

— Não — o senhor Ravener sacudiu a cabeça — Minha mãe a pôs no pescoço de Ariana antes de mandá-la para a casa dos senhores de Valcoeur.

— Mas eu não tenho nenhum crucifixo — disse Ariana.

— Mais oui, chérie, claro que o tem — disse a condessa — Jean-Paul o tem guardado em um compartimento secreto de seu escritório. Sabíamos pela carta de Katherine que era da maior importância e que devíamos conservá-lo a todo custo.

— Irei buscá-lo — o conde saiu do salão e retornou depois de uns minutos com a cruz de prata, assim como com uma ornamentada lupa de aumento — Terá que fazer você as honras, Malcolm — disse lhe entregando os dois objetos — Temo que minha vista já não é o que era.

Malcolm aproximou um abajur e examinou atentamente o crucifixo com ajuda da lupa.

— Sim! — exclamou de repente — Esta é a cruz número dois! Olhe como está entretecido o dois romanos entre os espinhos e os ramos, aqui — assinalou o lugar exato a Ariana.

— Oui, oui, já o vejo.

— Tenho que olhar à parte de trás — Malcolm deu a volta à cruz e a olhou de novo através da lente de aumento — Salomão 19:1-2 — levantando a vista, perguntou — Tem uma Bíblia à mão, Madame Valcoeur?

— Certainement. Mas, por favor, não podem me chamar tia Hélène? Sei que na realidade sou uma espécie de prima política dos dois, mas acredito que será muito mais simples que me chamem tia Hélène.

— Será um prazer, Madame... digo, tia Hélène — Malcolm lhe dedicou um cálido sorriso.

— O mesmo digo, tia Hélène — disse o senhor Ravener, sorrindo fracamente, pois ainda não se encontrava de tudo recuperado de suas feridas, e descer pela primeira vez ao salão lhe tinha fatigado mais do que estava disposto a admitir.

— Bem — a condessa pegou a Bíblia familiar de uma mesinha próxima e a folheou até que encontrou o capítulo e o versículo que procurava — «Mas sobre os ímpios descarregou sua ira sem misericórdia até o fim: como se o Senhor estivesse prevendo o que lhes tinha que acontecer. «Porque depois deles terem permitido a Seu povo que partisse e até lhes apressando para que saíssem, arrependidos logo, foram a seu alcance» — citou em voz alta.

— O qual, por desgraça, não parece de muita ajuda para localizar o Coração de Kheperi que o capítulo e o versículo de Apocalipse que tem inscritos na parte de trás de meu crucifixo — Malcolm deixou escapar um profundo suspiro — Assim deixemos esse quebra-cabeças de momento. Queria saber por que suspeitava que havia mais de duas cruzes e por que acreditava que o visconde Ugo podia ter uma, Nicolas.

— Ah, bom, há vários motivos para isso. O primeiro, que nunca esqueci o crucifixo de meu pai que minha mãe tinha dado a Ariana. Naquele momento, minha mãe me disse que teria que ter sido meu depois da morte de meu pai, mas que, como estávamos tão doentes, não podia correr o risco de que a cruz se perdesse para sempre, e que, portanto, devia levar Ariana. O problema era que, depois de escrever a carta que acompanhava minha irmã, minha mãe começou a delirar e era difícil entender o que tentava me dizer. Assim, até a noite do baile de disfarces da marquesa de Mayfield e meu encontro fortuito com Ariana, durante o qual, como a tia Elizabeth, impressionou-me imediatamente seu parecido com minha mãe, não sabia para onde ou com quem tinha sido enviada minha irmã.

— Oh, meu querido rapaz! Tomara o tivesse sabido! — murmurou Madame Valcoeur, sacudindo a cabeça com tristeza — Lhe teríamos aberto nossas portas e nossos corações, como fizemos com Ariana. Porque, como sua pobre mãe sabia, embora ansiasse ter filhos, não podia os ter. E, naturalmente, não recordava seu batismo, no qual Jean-Paul e eu lhe servimos de padrinhos, nem o batismo de Ariana, onde tivemos de novo essa honra, pois então tinha apenas sete anos. Assim não me surpreende que não se lembre de nós.

— Isso não é de tudo certo, tia Hélène — disse o senhor Ravener — Me lembrava vagamente de que tinha um tio chamado Jean-Paul e uma tia chamada Hélène. E, quando Malcolm me trouxe aqui e vi os dois, reconheci-lhes imediatamente, embora nesse momento estava muito ferido para tirar a reluzir a questão. Mas, como quando lhes vi pela última vez era um menino e só lhes conhecia por tio Jean-Paul e tia Hélène, não recordava seus sobrenomes, nem seus títulos. Assim não tinha meio algum de lhes encontrar. Podiam viver em qualquer parte da França e inclusive em Paris lhes teria conhecido por seu títulos e não por seus nomes de batismo. Mas, mesmo assim, depois de um tempo fui a Paris para tentar lhes buscar e, embora não tive êxito, não desperdicei da tudo a viagem, pois foi ali, em uma partida de sétimo, onde consegui um crucifixo que se parecia a uma cópia do de meu pai.

— Não! — exclamou Malcolm, cujo semblante refletia incredulidade e agitação — Mas... onde está essa cruz agora, Nicolas? Não a usava na noite que te trouxe aqui.

— Não. Estava, e está ainda, espero, escondida sob uma tábua do chão de meu quarto no botequim George & Vulture — a voz do senhor Ravener soava irônica — Por isso não queria que me levasse para o hospital, nem a nenhum outro lugar.

— Oh, sacrébleu! — exclamou Monsieur Valcoeur — Malcolm e eu iremos em seguida a recuperá-la.

— Sim — disse o senhor Ravener gravemente — Porque, por mais que me doa confessar, ainda não me encontro com forças para fazê-lo eu mesmo, e embora esteja seguro de que o visconde Ugo ignora quem o atacou essa noite nos jardins da marquesa, sem dúvida terá tentado averiguar minha identidade e pode que tenha adivinhado que ia atrás de um crucifixo e suspeite que eu também possuo um. E, nesse caso, pode que tenha se interessado pelo botequim George & Vulture. Eu mesmo me interessei por ele. Tinha ouvido contar a minha mãe um relato desconexo a respeito de lorde Iain Ramsay, antigo conde de Dúndragon e membro do chamado Clube do Fogo do Inferno e, como não sabia se esse tal lorde Iain havia possuído uma cruz e, se assim fosse, se seria a mesma que tinha pertencido a tio Alexander, tinha uma vaga idéia de que lorde Dúndragon, se alguma vez teve em suas mãos o crucifixo, talvez o tivesse escondido no botequim George & Vulture antes de seu nefasto duelo com o conde Foscarelli. Muitos dos membros do Clube do Fogo do Inferno se alojavam no botequim quando estavam em Londres, conforme tinha averiguado pelas pesquisas que fiz aqui e lá. Por isso me instalei ali. Sei que o proprietário da estalagem me considerava um suscetível, porque sempre estava me queixando e pedindo que me mudassem de quarto, até que consegui registrar todas e cada uma das habitações, sem resultados. Mas lorde Ugo, em caso de que empreenda semelhante tarefa, talvez não saia com as mãos vazias, posto que guardei minha cruz ali. O tipo do qual ganhei, por certo, parecia não saber nada sobre ela e pensava portanto que carecia de importância. Estava bêbado e me disse que a tinha deixado um amigo moribundo que não tinha herdeiros e que lhe havia dito que era muito valiosa. Mas a tinha levado a um joalheiro que lhe havia dito que não valia mais que a prata e o artesanato... ou isso acreditou ele.

— Era de esperar — pensou Malcolm em voz alta — posto que o senhor Quimbly acredita que há na realidade nove crucifixos.

— Nove! — exclamou Ariana.

— Sim, nove chaves, como dissemos. Pois, depois de visitar o senhor Rosenkranz, contamos a história a Boniface Canvendish, um amigo do senhor Quimbly que tem uma livraria em Old Bond Street.

— Oh, Malcolm! — exclamou a senhora Blackfriars, alarmada — É um milagre que não saiba já todo Londres quem somos! Filho, o que fez? Adverti-o sobre o extremamente perigosos que eram nossos inimigos, os Foscarelli. De que não se deterão ante nada, nem sequer ante o assassinato, com tal de encontrar a esmeralda perdida, o Coração de Kheperi.

— Pode ser, mãe, não o nego. Mas te asseguro que os senhores Quimbly, Rosenkranz e Cavendish são cavalheiros de toda confiança que me deram sua palavra de honra que iriam respeitar o segredo. De fato, foi o senhor Cavendish quem descobriu que, depois da trágica morte de lorde James Ramsay, oitavo conde de Dúndragon, em um acidente de caça, à mãos de seu filho, esse mesmo filho, lorde Rob Roy Ramsay, nono conde de Dúndragon, herdou o Coração de Kheperi e que, abatido por ter causado a morte de seu pai, entregou-se à vida espiritual e fundou uma ordem pseudomonástica chamada os Filhos de Isis.

— Os Filhos de Isis! — gemeu Ariana, atônita — Oh, mon Dieu! Acredito... acredito que disso me falava Madame Polgar na noite que me leu as cartas do tarô.

— Por que? O que te disse? — Malcolm se inclinou para frente, cheio de ansiedade.

— Bom, foi pouco antes de deixarmos Paris, na noite do baile de disfarces no qual Madame Polgar deveria entreter os convidados lhes adivinhando o futuro. Disse-me então algo sobre os Filhos de Isis. Ou, ao menos, acredito que a isso se referia Madame Polgar. Eu fui a última a entrar em seu pavilhão, e foi tudo muito estranho e misterioso. Mas lembro que me disse que ia fazer uma viagem por mar e terra, até a guarida de um dragão... Oh, acabo de perceber que deveria referir-se ao castelo de Dúndragon! Porque esse dia, no lago, Collie, você me disse que Dúndragon significa «fortaleza do dragão», recorda?

— Sim — Malcolm esboçou um sorriso — Ninguém me chamou Collie desde que era pequeno, Ana. Inclusive agora me custa acreditar que seja essa garotinha valente e decidida que ia pescar comigo aquele dia na Bruxa do mar.

Ao ouvir isto, Ariana se ruborizou profundamente, pois tinha utilizado o diminutivo sem perceber conta.

— Sinto muito..., Malcolm.

— Não, não importa. Collie está bem.

— E Ana.

— Bem. E em relação aos Filhos de Isis?

— Ah, oui, Madame Polgar me disse que o dragão tinha esperado durante séculos minha volta, como os irmãos que eram seus filhos. Sem dúvida se referia à ordem dos Filhos de Isis, não lhes parece? Disse que estavam se congregando como corvos ao redor de um campo de batalha coberto de cadáveres. Que um intruso tentaria lhes arrebatar o que pertencia ao Antigo... a esmeralda do supremo sacerdote, claro! Que me embarcaria em uma perigosa busca e que tinha a chave de meu destino em minhas mãos e sempre a tinha tido. O crucifixo, suponho! Ah, deve ser uma autêntica vidente, porque, se não como iria saber tudo isso?

— Pode que descenda de algum dos irmãos dos Filhos de Isis — explicou Malcolm com expressão sombria — O senhor Cavendish descobriu em um livro a respeito das ordens pseudomonásticas que os Filhos de Isis estavam formados por doze membros; treze, na realidade, contando seu fundador, lorde Dúndragon. Conforme se diz, rendiam culto a uma muito valiosa esmeralda lavrada em forma de besouro: o Coração de Kheperi. Mas, depois de que quatro deles morreram em estranhas circunstâncias, os outros nove membros chegaram à conclusão de que a esmeralda estava maldita, tal e como se dizia, e pelo visto a esconderam em alguma parte até que chegassem a compreender melhor seu poder. Logo ordenaram fabricar as cruzes, que são a chave para encontrar seu esconderijo, e se dispersaram. Assim, se houver em efeito nove crucifixos, como acredita o senhor Quimbly, está claro que tiveram que passar de mão em mão entre os descendentes dos irmãos da ordem durante mais de um século e meio. O qual explica facilmente por que a esmeralda nunca foi encontrada; sobre tudo se tiver em conta que para isso fazem falta nove cruzes.

— C'est impossible! — declarou o conde com firmeza — Esses monges falsos deviam estar loucos se conceberam um plano tão disparatado.

— É muito provável que pensassem reunir-se em algum momento para recuperar a esmeralda, tio Jean-Paul — observou o senhor Ravener — que ideassem um plano para impedir algum deles de resgatar sem contar com outros. Não acredito que pensassem que as coisas fossem sair assim... nem que os Foscarelli ficariam obcecados até tal ponto com o Coração de Kheperi. Todos os membros dessa família têm que estar loucos se tiverem inculcado a seus filhos geração a geração essa fixação por apoderar-se da esmeralda, custe o que custar — ficou refletindo um momento e logo continuou — Sem dúvida lhes perguntarão por que não insisti para que Christine nos deixasse antes de começar a interrogar tia Elizabeth. A razão é muito simples. Durante os dias de minha convalescença, tive longas conversas com Christine. Vejam, sentia curiosidade por saber por que desprezava tanto lorde Ugo. Por fim me disse que acredita que lorde Ugo e seu pai, o conde lorde Vittore, foram os responsáveis pela morte de seus pais.

— Meus pais foram... assassinados há dez anos, quando eu tinha oito. E, depois de ouvir sua história, estou convencida de que foi o conde Foscarelli e lorde Ugo quem os matou — disse Christine em voz baixa — Eu vivia então nas Terras Altas, pois só depois da morte de meus pais vim para Londres, para ficar com meus tios. Antes, meus pais e eu íamos visitá-los às vezes, e uma noite, quando voltávamos para Escócia da Inglaterra, nossa carruagem foi assaltada... por ladrões, pensamos então. O condutor fez o que pôde para escapar deles, mas houve um tiroteio e tanto ele como nossos empregados acabaram mortos. Finalmente, o carro saiu da estrada e caiu. Meus pais também morreram. Depois disso, a porta do carro se abriu e eu me fingi instintivamente de morta. Um homem apareceu. Um desconhecido. Eu estava deitada no colo de minha mãe morta e não me atrevi a levantar o olhar, assim não pude lhe ver o rosto. Mas falou em um idioma estrangeiro, em italiano, acredito agora, com outro homem que esperava a cavalo fora da carruagem. O primeiro abriu o pescoço da capa de meu pai e lhe arrancou o crucifixo do pescoço. A cruz que meu pai usava essa noite era, que eu recorde, idêntica aos dois crucifixos que vi aqui esta noite, e sei que ele costumava dizer que era muito valiosa, a chave para desvelar um grande mistério, e que algum dia seria minha. Assim agora acredito que talvez um de meus ancestrais pertencesse a essa ordem, aos Filhos de Isis, e assim foi como essa cruz chegou à mãos de meu pai... e a razão pela qual os Foscarelli o assassinaram.

— Se isso for certo, o senhor Rosenkranz tinha razão ao citar Schiller — disse Malcolm, pensativo — e a casualidade não existe, e o que nos parecem simples acidentes brotam, na verdade, da mais profundas fontes do destino. Por que, senão, fez amizade com Ariana e está aqui esta noite, Christine? Não posso acreditar que tenha sido tudo uma simples coincidência, mas sim mas bem o destino, que, conforme diz Madame Polgar, coloca sua mão nos assuntos dos homens... e ao que, em minha opinião, temos que nos opor exercitando nosso livre-arbítrio. Assim, os Foscarelli têm mais assassinatos sobre suas costas do que acreditávamos. E agora sabemos que têm em seu poder ao menos um crucifixo... enquanto que nós temos três!

— Sempre e quando pudermos recuperar o meu do botequim — disse o senhor Ravener.

— Oui, terei que encarregar-me disso imediatamente — insistiu Monsieur Valcoeur.

— Sim. E é muito possível que Madame Polgar tenha também uma cruz — disse Malcolm — Ainda não sabemos. Mas, se for assim, já sabemos o paradeiro de pelo menos cinco, e pode que os senhores Quimbly, Rosenkranz e Cavendish possam nos ajudar a encontrar as outras quatro. Acreditam que o senhor Al Walid possa ter outra?

— O egípcio do qual me falou Christine? — perguntou o senhor Ravener — Possivelmente. Entretanto, pelo que me disse, acredito que é mais provável que esteja tentando localizar os descendentes dos irmãos da ordem dos Filhos de Isis. Quando Christine o conheceu nas Terras Altas, encontrou-se com ele na igreja do Saint Andrew, em uma aldeia não muito longe do castelo de Dúndragon. Christine tinha ido ver o pároco, o pai Joseph, que é um velho amigo de sua família. O senhor Al Walid estava revisando os arquivos da paróquia. Mas por que ia fazer algo assim um herpetólogo cujo campo de estudo são as serpentes?

— Não sei, mas, em todo caso, acredito que merece a pena não perdê-lo de vista, porque sabe muito mais de tudo isto do que deu a entender — Malcolm ficou a tamborilar com os dedos sobre o sofá — Talvez devamos dar um golpe de efeito e ver o que acontece.

— No que esta pensando? Eu poderia entrar facilmente em casa de Madame Polgar e do senhor Al Walid e as registrar — sugeriu Nicolas.

— Se estivesse bem, sim — disse Malcolm, fazendo ouvidos surdos à exclamação escandalizada de sua mãe — Mas ainda não está recuperado de tudo, e, além disso, pode que Madame Polgar, em caso de que tenha um dos crucifixos, use-o. O mesmo pode se dizer do senhor Al Walid. Não, Nicolas, eu estava pensando em outra coisa...

Durante o jantar, que se serviu por fim às nove em ponto, acordaram que a senhora Blackfriars e Malcolm se instalassem temporalmente na casa dos Lévesque, e a tal efeito se enviou imediatamente um recado a Hawthorn Cottage. Logo, uma vez concluída a comida, as senhoras se retiraram ao salão, deixando os cavalheiros com seu oporto e seus charutos, depois do qual Monsieur Valcoeur e Malcolm teceram um plano para recuperar a cruz de Nicolas do botequim George & Vulture. A Ariana dava voltas a cabeça, pois apenas conseguia assimilar as revelações daquela noite. Apesar de que desde o começo tinha intuído que Malcolm e Collie, o moço de seu sonho eram a mesma pessoa, a confirmação desse fato não deixava de assombrá-la. Ainda mais surpreendente era saber que os condes de Valcoeur não eram em realidade seus pais, a não ser uns parentes longínquos que encarregaram dela depois da morte de seus pais. Aquela informação tinha sacudido os alicerces de sua existência, fazendo-a sentir-se como se tivesse vivido imersa em uma mentira e tivesse perdido de repente sua identidade. Entretanto, tinha ganhado de passagem um irmão, o senhor Ravener. Assim não podia lamentar de tudo o que tinha descoberto.

— Ma pauvre petite — murmurou a condessa ao olhar sua filha adotiva — Não culparia se nos odiasse para mim e a seu pai.

— Oh, non, mamam! Isso jamais! É só que tudo isto foi tão... repentino e desconcertante... Suponho que, para ser sincera, tenho que admitir que me sinto... culpada por lamentar tão pouco as mortes de meus verdadeiros pais. Entristece-me não ter chegado a conhecê-los, não recordar seus rostos e que me pareçam estranhos..., sobre tudo sabendo que deviam me querer muitíssimo se minha mãe me mandou para vocês para me salvar a vida.

— Sim — disse a senhora Blackfriars — Tem razão, Ariana. Charles e Katherine lhe queriam com todo seu coração, assim sei que não teriam querido que sofresse por eles e que, além disso, compreenderiam por que são somente lembranças distantes para ti agora. Afinal de contas, só tinha cinco anos quando morreram. É lógico que não se lembre claramente e que continue querendo como sempre a Jean-Paul e Hélène, que ocuparam seu lugar há tanto tempo e que lhe querem tanto e têm feito quanto puderam por ti.

— Malcolm me disse que é muito boa e generosa, tia Elizabeth, e agora vejo que é certo —Ariana fez uma pausa e ficou pensando um momento. Logo prosseguiu — Tomara soubesse do que estão falando meu pai, Malcolm e Nicolas na biblioteca! Sei que tem algo a ver com os Foscarelli e o Coração de Kheperi e que, portanto, tem que ser muito perigoso.

— Sim, isso me temo — disse Christine, mordendo-se com ansiedade o lábio inferior — E isso é o que mais me preocupa! Nicolas... o senhor Ravener... ainda não se encontra bem para misturar-se neste assunto. Temo que volte a resultar ferido... ou que o matem!

— Você gosta dele muito, verdade, chérie? — perguntou Madame Valcoeur, e Christine se ruborizou — Oh, não se envergonhe por isso! Acredito que Nicolas te adora. Se não, não te teria contado os segredos de nossa família. Seria um marido excelente, sabe? Porque não é pobre absolutamente. Depois que Charles foi assassinado e Nicolas desapareceu, Jean-Paul era o herdeiro do condado de Jourdain, através de sua mãe, que era, é obvio, uma De Ramezay. O condado de Valcoeur o herdou de seu pai, naturalmente. Mas, agora que encontramos Nicolas, o condado de Jourdain voltará para ele, pois é seu legítimo dono. Assim que seus tios não se importarão nesse sentido, e certamente Jean-Paul e eu não nos oporemos a seu casamento.

— Obrigado, Madame — Christine sorriu, trêmula — Espero, espero que quando meus tios retornem, Nicolas fale com eles.

— Oh, eu também espero, Christine — Ariana abraçou a sua amiga — Porque assim não só terei ganhado um irmão, mas também uma irmã. E sempre desejei ter irmãos!

— E um marido não, Ma petite! — perguntou a condessa, fazendo com que sua filha se ruborizasse tão intensamente como Christine um momento antes — A posição de Malcolm é muito mais incerta que a de Nicolas, temo-me. Porque, embora lorde Bruno, o conde Foscarelli, enganasse lorde Iain Ramsay jogando às cartas há mais de meio século, despojando assim a Malcolm de sua herança, disso faz tanto tempo que não acredito que a estas alturas as coisas possam emendar-se.

— Não, mas... — Christine se interrompeu bruscamente. Logo continuou muito devagar — O caso é que... Eu... não queria dar a ninguém vãs esperanças, mas o padre Joseph, que, como disse Nicolas, é um velho amigo de minha família e pároco da igreja de Saint Andrew, na aldeia que há mais à frente do castelo de Dúndragon, disse-me que o senhor Al Walid fazia algumas pesquisa extremamente peculiares enquanto estava na igreja da aldeia, não só sobre os registros habituais de nascimentos, matrimônios e falecimentos, mas também a respeito de assuntos jurídicos que não tinham nada a ver com a igreja: procurações, testamentos, últimas vontades e coisas assim, particularmente em relação a lorde Somerled Ramsay, quem, conforme entendi, era o pai de lorde Iain Ramsay e o conde de Dúndragon anterior a ele.

— Mas o que pode significar isso? — perguntou-se Ariana em voz alta, assombrada — Que interesse pode ter o senhor Al Walid nessas coisas?

— Bom, o padre Joseph me disse que, desde que ele pudesse recordar, corria o rumor na aldeia de que os Foscarelli, aos que os aldeãos odeiam, por certo, não tinham em realidade direitos legais sobre o castelo de Dúndragon, embora o conde lorde Bruno Foscarelli o tivesse ganhado jogando às cartas.

— Sim, durante suas saídas furtivas, Alexander e Charles também averiguaram isso na aldeia — disse a senhora Blackfriars — Mas, por desgraça, nunca puderam determinar de onde procedia essa informação, se eram simples falatórios dos aldeãos, que, como diz, odeiam os Foscarelli, ou se tinham alguma base legal.

— Mas, se a houvesse, então...

— Não deve ter ilusões, Ana — disse a senhora Blackfriars, interrompendo brandamente a Ariana — Malcom foi despojado de sua herança e não pode reclamar legalmente seus direitos apoiando-se unicamente nos falatórios de um punhado de aldeãos. Sem provas sólidas que levar ante os tribunais, nada pode fazer-se a esse respeito.

— Pode que não. Mas continuo pensando que é muito estranho que o senhor Al Walid se interessasse por essas coisas — insistiu Ariana obstinadamente — Não entendo o que podia ganhar com isso.

— Eu tampouco. Mas temo seja só uma anomalia mais na estranha história do clã dos Ramsay de Dúndragon — a senhora Blackfriars exalou um profundo suspiro.

— Pode ser — disse Madame Valcoeur — Entretanto, dadas as circunstâncias, nem Jean-Paul nem eu poríamos objeções em caso de que Malcolm quisesse aspirar à mão de Ariana. É um bom homem e faz parte de nossa família, assim estou segura de que as coisas poderiam arrumar-se.

— Mesmo assim, Malcolm é extremamente orgulhoso... e está acostumando a abrir-se caminho na vida — comentou a senhora Blackfriars — Embora seja muito reservado e não me disse isso claramente, sei que ama profundamente Ana. E, minha querida menina — se voltou para a Ariana — nada me faria mais feliz que te ter como minha filha. Parece-te muitíssimo a Katherine, e não só na aparência, mas também em temperamento, e era uma mulher maravilhosa, a melhor amiga que tive. Mas, e espero que me perdoe por te falar com franqueza, temo que seja impossível persuadir Malcolm de que siga os ditados de seu coração podendo te oferecer tão pouco neste momento, em comparação com o que já tem. Para falar a verdade, acredito que é isso, mais que vingar a morte de seu pai, o que o impulsionou a empreender a busca em que Alexander e Charles fracassaram. Eu já perdi a meu marido. Não queria perder também a meu filho.

— Nem eu perder Nicolas, agora que o encontrei — disse a condessa gravemente — Mas, Ma chére Elizabeth, por outro lado Malcolm e Nicolas são muito valentes e estão na flor da vida. Não podemos esperar que fiquem de braços cruzados enquanto os Foscarelli tentam destruir a todos, e sem dúvida o tentarão. Por isso me alegra tanto que tenham aceitado ficar conosco aqui, em Portman Square, uma temporada. Esses homens devem estar loucos, como diz Nicolas. Já mataram Alexander e a Charles, e também aos pais de Christine. Está claro que não se deterão ante nada para conseguir seus malvados propósitos, tal é o poder que essa maldita esmeralda, o Coração de Kheperi, exerce sobre eles. Deus sabe que tem que ser uma pedra realmente perversa se causou tanto dor e tanta maldade! Tomara que lorde James Ramsay não a tivesse roubado nunca da tumba desse supremo sacerdote egípcio! Claro, que o passado não pode mudar, por mais que o deseje um. Assim só podemos seguir adiante. E, embora Malcolm e Nicolas não empreendam a busca da esmeralda perdida, acredito que os Foscarelli seguirão sendo uma ameaça para todos nós, pois não podem conceber que outros não anseiem possuí-la tanto como eles.

Essa noite, Ariana voltou a ter seu velho pesadelo. Mas esta vez, em uma escura curva de sua mente, percebeu que não era só um sonho e sim uma lembrança real, que de algum modo tinha ficado distorcido pelas grotescas imagens nascidas de seu medo instintivo no dia que, entre os véus da névoa, vislumbrou o castelo de Dúndragon encarapitado como um abutre no abrupto promontório que entrava no lago.

No sonho, via que o rapaz moreno e desconhecido que permanecia de pé sobre os parapeitos do castelo começava a sofrer sua lenta metamorfose até converter-se em uma titânica serpente marinha, e se sentia aterrorizada ao observar que, esta vez, levava sobre o rosto uma máscara púrpura idêntica ao que tinha usado o visconde Ugo no baile de disfarces da marquesa de Mayfield. Ariana abriu a boca e gritou uma e outra vez, mas, para seu espanto, nenhum som saiu de sua garganta enquanto o gigantesco monstro marinho se abatia sobre ela, ameaçador, e abria sua boca imensa.

E logo tudo foi escuridão e silêncio.

           O manicômio e a sessão de espiritismo

 

                     1848

                     Cavendish Square, Portman Square e Southwark, Londres, Inglaterra

Uns dias depois do revelador jantar na casa dos Lévesque em Portman Square, os senhores Quimbly, Rosenkranz e Cavendish receberam um inesperado convite para a casa dos condes, como Madame Polgar. Entretanto, a diferença dos três cavalheiros, a adivinha não só estava surpresa, mas também receosa.

— Você o que acha, Dukker? — seus olhos amarelados refulgiam como os de um falcão que tinha visto uma presa — Nos convidaram outra vez para jantar na casa dos condes de Valcoeur, em apenas duas semanas. O convite não diz nada suspeito, mas mesmo assim me pergunto se...

— Acredita que se passou da raia, Madame? — perguntou o anão com um cenho pensativo — O que os condes suspeitam que é você é algo mais que uma simples adivinha?

— Pode ser — ela assentiu lentamente e logo encolheu os ombros — Claro, pode ser que não. Não saberemos se não aceitarmos o convite.

— Dadas as circunstâncias, parece-lhe sensato, Madame? Porque, se os Lévesque souberem já o que acontece, talvez estejam tramando algo.

— Non, isso não seria próprio deles. Embora não estou tão segura dos senhores Blackfriars e Ravener. Nesse jogo as apostas são muito altas, Dukker, mas não acredito que isso acovarde a nenhum desses dois jovens. Afinal de contas, Monsieur Blackfriars não vacilou em disparar a seu assaltante a queima roupa, não é certo? E Monsieur Ravener não poderia ter sobrevivido como jogador profissional nos baixos recursos do Calais, Paris e Londres se fosse um covarde, posto que, por isso descobri graças às fofocas dos serventes dos condes de Valcoeur, minhas suspeitas e deduções sobre o Monsieur Ravener deram no alvo. Não, a menos que me equivoque, e rara vez me equivoco, Monsieur Blackfriars e ele são adversários aos que convém vigiar de perto. Mas, mesmo assim, talvez possam converter-se em nossos aliados, coisa que não pode se dizer do visconde Ugo. Ele é nosso mortal inimigo, Dukker. Não devemos esquecer.

— Vigia-nos, Madame, como nós vigiamos a ele.

— Oui, temo que seu pai e ele sabem mais sobre nós do que nós gostaríamos. Mas isso já não tem remédio. Homem prevenido vale por dois. E nós estamos acautelados contra eles, não é certo, Dukker?

— Oui, Madame. Não conseguirão o que procuram, o juro.

— Bem! Mas, mesmo assim, recorde o que te disse, o que desejo que faça em caso de que me aconteça alguma desgraça.

— Oui, não esquecerei, Madame.

— Então, tudo sairá bem. Agora, antes de irmos ao teatro, tenho que meditar um momento, Dukker. Vá procurar sua harpa e toque algo suave.

Madame Polgar se levantou do divã que ocupava e foi sentar- se em uma poltrona de veludo vermelho diante da lareira, cujo lustroso suporte de madeira de ébano reluzia e no qual o fogo ardia alegremente. Agora que o inverno se aproximava, a casinha que tinha alugado em Henrietta Street, não muito longe de Cavendish Square, estava frequentemente gelada e, como tinha crescido na região romena da Valaquia, Madame Polgar estava acostumada a um clima muito mais quente. Assim sentia agudamente o frio, sobre tudo agora que estava velha. Porque embora, com o passar dos anos, cuidou-se e se conservava bem, era muito velha, muito mais velha do que as pessoas acreditavam. Com o frio, pareciam lhe doer até os ossos, e tinha saudades de sua pátria, que não via desde mais de vinte e cinco anos, desde que seu marido e ela tinham emigrado devido às tensões políticas e as rebeliões que se apoderaram de seu país. Nesse período de tempo, depois da morte de seu marido, tinha viajado muito, esporeada por um misterioso relato que lhe tinha contado sua avó quando menina.

Ao princípio, Madame Polgar tinha concedido pouco crédito àquele conto, pois sua avó era uma estrangeira, loira e pálida, procedente das altas e agrestes montanhas de um país muito longínquo, que tinha se apaixonado por seu avô enquanto viajava pelo continente. Inclusive depois de seu casamento, lady Sibyl Macbeth continuava tendo um ar estranho e distante, como se parte dela continuasse ainda nas Terras Altas, onde tinha nascido e crescido. Lady Sibyl tinha o dom da «segunda visão», como ela o chamava, dom que tinha herdado sua neta, Madame Polgar.

Agora, enquanto olhava fixamente as chamas que crepitavam na lareira, Madame Polgar sabia que a história que contado sua avó era certa. Ante seus olhos dourados, as chamas que chispavam no ralo da lareira pareciam dançar como fadas enlouquecidas na bola de cristal colocada sobre seu suporte de ouro, em uma vela próxima a qual Madame Polgar puxou lentamente para ela. Dukker estava sentado em uma almofada, em um canto escuro, tocando brandamente as cordas de sua harpa, cuja etérea melodia se deslizava como a brisa e girava em redemoinhos como a bruma dentro da bola de cristal que Madame Polgar olhava intensamente.

Entretanto, por mais que o tentasse, a adivinha não conseguia concentrar-se e nessa noite não viu nada na bola de cristal, salvo os redemoinhos de bruma, que nada lhe diziam. Ao fim exalou um profundo suspiro e se deu por vencida. Era quase como se um véu tivesse caído sobre o futuro, ou como se não fosse ter já futuro, pensou de repente, e se estremeceu violentamente.

Dukker correu e correu até que acreditou que lhe estalariam os pulmões. Nunca, em toda sua vida, havia- e sentido tão aterrorizado. Sua protetora, Madame Polgar, tinha desaparecido. Tinha sido sequestrada graças a um estratagema extremamente engenhoso e, em apesar de sua vigilância, ele não percebeu até que foi muito tarde para salvá-la. Assim, ao final, não tinha podido fazer nada, salvo escapar, sabendo que, se não o fizesse, não poderia ajudá-la; não teria oportunidade alguma de resgatá-la. Na noite anterior, quando aconteceu o audaz sequestro, Dukker atuou impulsionado por um arrebatamento de adrenalina. Agora, entretanto, quando por fim diminuiu o passo para recuperar o fôlego e observou atentamente a seu redor, percebeu por fim consciente do horror e a importância do que tinha acontecido e se sentiu a beira das lágrimas. Deveria ter ficado mais atento, disse a si mesmo, culpando-se amargamente pela espantosa desgraça que tinha caído sobre a adivinha. Mas nem suas lágrimas nem suas lamentações ajudariam Madame Polgar; Dukker sabia e, finalmente, depois de forçar-se a respirar fundo várias vezes, conseguiu repor-se.

Seguro já de que ninguém lhe seguia, deslizou-se às escondidas entre as largas sombras da tarde até que se encontrou por fim ante a casa dos Lévesque. Olhou a seu redor, receoso, e chamou repetidamente a campanhia. Finalmente, Butterworth, o mordomo, abriu a porta e ficou olhando-o desde sua altura, como se fosse uma desprezível criatura.

— Teria bastado com que chamasse uma só vez. E, além disso, como sem dúvida sabe, as pessoas como você devem usar a entrada de serviço — disse o mordomo altivamente, disposto fechar a porta em sua cara.

— Non! Espere! Espere! Eu... devo ver imediatamente Madame Valcoeur! — balbuciou o anão, quase histérico, temendo que lhe negassem a entrada à casa — É questão de vida ou morte! Madame Polgar foi sequestrada!

O mordomo lhe permitiu entrar, não sem reticência.

— Espere aqui — lhe ordenou com aspereza — E não toque nada — desapareceu então para avisar a sua senhora.

Um momento depois, a condessa em pessoa apareceu no vestíbulo, pálida e preocupada.

— O que aconteceu, Dukker? O que passou? Butterworth me disse que Madame Polgar foi sequestrada. É isso certo?

— Oui, Madame! E não há tempo a perder. Sua vida está em perigo! — balbuciou o anão com nervosismo.

— Bon Dieu! Isto é terrível! — exclamou a condessa — Não posso acreditar! Mas deve você acalmar-se, Dukker. Pouco entendo do que me diz. Isso. Muito melhor. Agora, venha comigo. Será melhor que Monsieur Valcoeur e que os senhores Blackfriars e Ravener, que por sorte estão também aqui, saibam o ocorrido.

A condessa acompanhou o anão ao salão e lhe fez sentar-se. Logo lhe pediu que contasse o ocorrido de maneira mais rápida e concisa possível. Mais tranquilo, Dukker se sentou obedientemente na beirada de uma poltrona, aferrando-se a um cofre dourado que levava entre as mãos, e começou a falar gaguejando.

— Bom, há ta-ta-tanto que contar em relação aos acontecimentos que lle-lle-levaram ao sequestro dê-de Madame Polgar que eu... eu não sei por onde começar. Pode que já saibam grande parte do que poderia lhes contar. Em cujo caso, é melhor que descreva o acontecido ontem à noite. Eu... não sei. Foi assim. Faz algum tempo, Madame Polgar se embarcou em uma p-perigosa busca por culpa da qual ganhou formidáveis inimigos: os Foscarelli. Pode que tenham ouvido falar deles. Foram eles quem a sequestraram! Esse horrendo sucesso teve lugar ontem à noite, depois que Madame Polgar e eu saíssemos do teatro. Tínhamos ido ver uma ópera italiana em Covent Garden, no Bow Street. Quando saímos, alugamos um carro para que nos levasse para a casa, pois Madame Polgar não tem carruagem própria na cidade. Mas, sem sabermos até então, o carro no qual subimos não era um verdadeiro carro, a não ser um carro que os Foscarelli empregaram com o só propósito de raptar Madame Polgar.

— Oh, non! — exclamou Madame Valcoeur — A pauvre madam!

— Oui, Madame — disse o anão com tristeza — Envergonha-me admitir que, ao princípio, deixamo-nos enganar por esta engenhosa artimanha, e não suspeitamos que o carro não era o que parecia. Foi só ao ver que não pegava o caminho da casa de Madame Polgar quando começamos a perceber o perigo. De onde eu estava, na parte traseira do carro, gritei ao condutor que ia na direção equivocada. Mas, para meu horror, fez caso omisso e fustigou os cavalos com o chicote até que o carro cobrou tal velocidade que temi cair. Nesse momento apareceram uns homens a cavalo que nos rodearam. Foi então quando compreendi o perigo em que nos achávamos e soube que Madame Polgar tinha sido sequestrada. Ela começou a gritar para que me salvasse. Mas, quando quis saltar ao meio-fio, um dos homens a cavalo me agarrou e me pôs de barriga para baixo sobre sua cadeira, assim não pude escapar. Desse modo fui conduzido aos estábulos da casa dos Foscarelli em Berkeley Square. Mas sou muito forte e por sorte, uma vez ali, pude me largar e fugir. Entretanto, não parti dali. Só os fiz acreditar que tinha ido, para que deixassem de me buscar. Logo, uma vez retrocederam em sua busca, escondi-me em um lugar no qual podia observar suas idas e vindas e no dia seguinte de minha vigília fui recompensado quando vi que colocavam Madame Polgar em uma carruagem. Segui a pé o carro para ver aonde a levavam. E era a Bedlam! Os Foscarelli a encerraram em um manicômio!

— Oh! Temos que tirá-la dali imediatamente! — exclamou a condessa, visivelmente conturbada, e se voltou implorante para seu marido, Malcolm e o senhor Ravener.

— Oui, Ma chére, certamente — respondeu o conde com firmeza — Nicolas, encontra-te com forças para nos acompanhar

— Sim.

— Então, nos apressemos. Ariana, lady Christine cuidem de sua mãe e da senhora Blackfriars em nossa ausência. E lhes assegure de que Dukker não parta antes de retornarmos.

— Mas quero ir com vocês, Monsieur! — protestou o anão com veemência, ficando em pé.

— Non, você deve ficar aqui e esperar — respondeu Monsieur Valcoeur com determinação — Todos os aqui presentes sabemos em que classe de busca se embarcou sua senhora e por que se converteu em vítima dos Foscarelli. Só nos estorvaria. Os Foscarelli sabem quem é e, se nos acompanhasse, adivinhariam imediatamente que pretendemos resgatar Madame Polgar. Tal e como estão as coisas, só cabe esperar que lhe tenham seguido até aqui e estejam vigiando a casa.

— Non, Monsieur, assegurei-me que isso.

— Espero que seja verdade, pelo bem de todos.

O conde saiu bruscamente do salão, seguido por Malcolm e o senhor Ravener, e as quatro mulheres e o anão ficaram sentados, cheios de angústia, sem dizer nada. Ao fim de um momento, Ariana e Christine ofereceram às duas damas mais velhas copos de xerez para acalmar-se, e ordenaram aos serventes prepararem algo de comer e beber para Dukker.

O manicômio de Bedlam, como era conhecido popularmente, tinha sido criado em 1247. Ao princípio tinha servido como priorado da ordem da Santa Maria de Bethlehem, mas desde muito tempo era um célebre asilo para lunáticos, e sua sinistra história não era desconhecida nem para os homens que partiram para ele, nem para as mulheres e o miúdo que ficaram em casa. Até princípios do século XIX, era costume cobrar dos visitantes um penique para entrar no hospital, e centenas de milhares de pessoas ao ano pagavam pelo privilégio de entreter-se vendo os loucos presos como bestas. Essa prática, entretanto, tinha sido por fim estritamente proibida, e agora os visitantes só podiam entrar quatro dias à semana, e isso só para ver parentes ou amigos que estivessem internados na instituição.

— Espero que Madame Polgar não tenha sofrido nenhum dano — disse Malcolm enquanto a impressionante carruagem de Monsieur Valcoeur entrava por entre as labirínticas ruas da cidade, internando-se no sórdido bairro de Southwark.

— Eu espero que os Foscarelli não tenham conseguido seu crucifixo, se é que tem um — disse o senhor Ravener — Eles parecem acreditar que o tem, ou não se teriam tomado tantas moléstias para apoderar-se dela.

— Não acredito que seguisse com vida, embora fosse encerrada em um manicômio, se tivessem conseguido lhe tirar a cruz — disse Malcolm.

— Não. Entretanto, não sabemos se ainda está viva. Afinal de contas, só temos a palavra do anão e, embora não acredito que tenha mentido, é possível que Madame Polgar esteja agonizando nesse manicômio.

— Temo que tenha razão, Nicolas — o conde golpeou com o punho de prata de sua bengala o teto do carro — Mais depressa, homem! Não há tempo a perder!

A carruagem parou por fim bruscamente ante o edifício do hospital, e Monsieur Valcoeur, Malcolm e o senhor Ravener desceram a toda pressa e atravessaram o pórtico de seis colunas que sustentava um esplêndido tímpano decorado com o escudo real e, debaixo dele, uma pedra dedicada ao rei Enrique VIII. Uma vez dentro do asilo para doentes mentais, acharam-se em um amplo vestíbulo cuja principal atração eram duas estátuas de pedra, assombrosamente vividas, tituladas Melancolia e Desvario, cujo autor era o escultor anglo-dinamarquês Caius Gabriel Cibber. Aquelas duas estátuas se achavam originalmente ante as portas do antigo hospital, em Moorfields, mas tinham sido transladadas ao novo edifício. Achavam-se quase sempre tampadas com cortinas que só se abriam em ocasiões especiais. Malcolm e o senhor Ravener, entretanto, não pensaram em olhar atrás dela enquanto o conde conversava com o guarda, que, ante sua ameaça de chamar à polícia, tinha-os deixado entrar a contra gosto.

— O guarda está dificultando as coisas difíceis para tio Jean-Paul — disse o senhor Ravener em voz baixa — Suspeito que os Foscarelli lhe subornaram para que não deixe entrar ninguém que pergunte por Madame Polgar.

— Bom, então terá que fazer algo ao respeito — sussurrou Malcolm.

Antes de sair de casa dos Lévesque, tinham tomado a precaução de armar-se com umas pistolas que estavam escondidas sob sua capa. Puxaram de repente as armas e avançaram com decisão, as dobras de suas capas agitando-se a seu redor empurrado pela corrente que penetrava no vestíbulo. Agarraram cada um por um lado o guarda por trás e lhe apontaram com as pistolas.

— Ou nos leva agora mesmo onde está escondida a velha que trouxeram os italianos, ou sofrerá um destino extremamente desagradável — disse Malcolm com voz áspera e baixa, Cravando o canhão de sua pistola no flanco do guarda — E não tente gritar nem nos dar gato por lebre. Já matei um homem. E te asseguro que não duvidarei em matar a outro.

— S-s-sim, sim, está bem, está bem. Não vou fazer nada, juro. Venham por aqui..., façam o favor — gaguejou o guarda, olhando assustado de um a outro.

Os três andares de Bedlam, sob os quais havia também um porão, estavam formados por uma nave central e duas asas principais, embora com os anos se foram acrescentando outras dependências para aumentar o edifício. Cada planta estava dividida em galerias que albergavam os pacientes. Por fim, depois de percorrer muitos corredores, o guarda abriu com uma das chaves de sua enorme argola de ferro a porta de uma pequena cela. Mal iluminada pela luz que lançavam os abajures fixados às paredes do corredor, a minúscula habitação tinha o chão e as paredes talhadas de cortiça e borracha para impedir que os pacientes se fizessem mal. Mas, longe de achar-se em estado de frenesi, Madame Polgar estava alarmantemente quieta, acorçoada em um canto, com a cabeça caída.

— Sacrébleu! — Monsieur Valcoeur se aproximou dela correndo. Logo, ao fim de um momento, levantou o olhar e disse sombriamente — A golpearam e drogaram. Dêem-me uma mão algum dos dois!

Malcolm, que suspeitava que o senhor Ravener se encontrava ainda muito fraco, guardou-se a pistola no bolso e correu para ajudar o conde. Entre os dois levantaram Madame Polgar e a tiraram da cela. Malcolm a levou nos braços pelas galerias, seguindo os outros, e depois de descer as escadas a colocou na carruagem que esperava fora. O senhor Ravener e Monsieur Valcoeur soltaram por fim o aterrorizado guarda e subiram atrás de Malcolm no carro. Logo, o conde golpeou com a bengala o teto da carruagem e os cavalos empreenderam a marcha com uma sacudida.

Através das janelas embaçadas do carro, salpicadas de chuva, Malcolm apenas via o fraco resplendor das luzes, tal era o manto de bruma mesclada com fumaça que envolvia Southwark, e se maravilhava da velocidade com que conduzia o chofer, embora sua principal preocupação fosse Madame Polgar, que não tinha bom aspecto. O conde a tinha agasalhado com uma manta e tinha tentado fazer com que bebesse uns sorvos de brandy que levava no bolso. Mas pouco podia fazer-se até que chegassem em Portman Square e chamassem o doutor Whittaker. Uma ou duas vezes a velha proferiu um fraco gemido, mas não abriu os olhos nem sequer quando o carro se cambaleou bruscamente ao passar sobre um buraco da estrada. Enquanto o veículo circulava a toda velocidade pela ponte de Westminster, Malcolm viu abaixo o rio Támesis e as lanchas e barcos que sulcavam suas águas, transportando mercadorias e carvão de um lado a outro das docas, e suspirou aliviado, pois sabia que o carro tinha deixado atrás Southwark e se achava em terreno mais seguro. A seu lado, no assento, Nicolas pareceu relaxar-se ligeiramente, embora continuasse olhando com receio pela janela.

A carruagem chegou por fim a Portman Square. O conde e Nicolas entraram primeiro na casa; Malcolm levou madame Polgar ao salão onde, entre exclamações de preocupação e perguntas ansiosas das quatro senhoras e o anão, depositou-a brandamente sobre o sofá. Ao ver sua senhora viva, Dukker pareceu por um instante fora de si de alegria, e agradeceu a todos repetidamente enquanto tentava falar com a adivinha. Mas ela não respondia e, ao fim de um momento, enquanto Monsieur Valcoeur gritava aos criados para que fossem em busca do doutor Whittaker, o anão percebeu que estava ferida gravemente e sua alegria se dissipou bruscamente.

— Vai... vai ficar bem? — perguntou, cheio de ansiedade.

— Não sei — o conde sacudiu a cabeça — Salta à vista que a maltrataram, embora não tanto como temi ao princípio. Além disso, drogaram-na. Acredito que por isso continua inconsciente. Saberemos mais quando chegar o doutor Whittaker. Enquanto isso sugiro que a levemos a um dormitório, onde estará mais cômoda.

— Oui, mon cher — disse Madame Valcoeur, angustiada — Já dei ordens aos serventes de que preparem uma habitação.

Assim, ao seu devido tempo, Madame Polgar foi instalada em um dormitório na casa dos Lévesque e examinada pelo doutor Whittaker, quem informou que, que apesar de que, em efeito, tinham-na golpeado, suas feridas não eram mortais. Tinham-lhe quebrado, entretanto, três dedos de uma mão.

— C'est monstrueux! — exclamou horrorizada a condessa ao ouvir a notícia.

— Em efeito, Madame — disse o cirurgião com gravidade — Entretanto, como disse, Madame Polgar se recuperará completamente. Minha única preocupação é sua idade. Não sei se este terrível incidente prejudicou seu coração. Não lhe dei nenhum sedativo, porque não sei que classe de droga lhe deram, embora suspeite que era um opiláceo, assim não quero correr o risco de me exceder com a dose. Entretanto, quando os efeitos da droga se dissipem por fim, podem lhe administrar uma ou dois colheres de láudano do frasco que deixei na mesinha de noite.

Uma vez que saiu o médico, Sophie e a senhorita Innes, a donzela de lady Christine, encarregaram-se de velar à adivinha, enquanto os outros, incluído Dukker, reuniam-se de novo no salão. O anão quis ficar com sua senhora, mas saltava à vista que vê-la naquele estado lhe causava uma terrível agitação, e o doutor lhe tinha ordenado suspender suas visitas. De modo que Dukker se achava sentado de novo na beirada da poltrona que ocupou previamente, com o semblante desconsolado, enquanto sujeitava ainda contra o peito o cofre dourado que tinha levado com ele. Ariana se compadecia dele, pois embora lhe parecesse uma extravagância que Madame Polgar tivesse por servente um anão, estava claro que Dukker sentia devoção por sua senhora.

Depois de assegurar-se de que a adivinha estava bem atendida, Monsieur Valcoeur, Malcolm e o senhor Ravener puderam relatar a história de seu resgate, a qual suscitou nas damas sentimentos de assombro e angústia.

— Oh, Collie! — exclamou Ariana — E se lhes tivessem atacado em Southwark ou em Bedlam e lhes tivessem matado? Não teria podido suportá-lo! — ruborizou-se então intensamente, envergonhada por ter revelado seus sentimentos ante todos os presentes.

— Preocupavam-me muito mais lady Christine e você — respondeu ele com o cenho franzido e o coração transbordante de amor e apreensão — Se os Foscarelli foram capazes de atacar a pobre Madame Polgar de maneira tão ruim, o que seriam capazes de fazer a vocês? Já sabem, naturalmente, que lady Christine está implicada neste assunto e, embora, como já roubaram o crucifixo de seu pai, talvez acreditem que não lhes é de nenhuma utilidade, de ti, Ana, não pode dizer o mesmo, se chegassem a suspeitar que também está a par deste assunto.

— Estamos cautelosos contra os Foscarelli, Malcolm — afirmou o senhor Ravener com firmeza.

— Nós também estávamos — disse Dukker do canto no qual estava sentado — Mas, ao final, a Madame Polgar não serviu de nada...

A mão de Malcolm rodeava, forte e cálida, a mão frágil de Ariana, gelada até os ossos. Encontravam-se os dois sentados na enorme mesa redonda que Madame Valcoeur fez colocar essa tarde no meio do salão de baile, rodeado de espelhos, onde também se achavam reunidos os outros. A mesa estava coberta com uma toalha de seda escarlate rendada nas pontas, e em seu centro se elevavam dois pesados candelabros, um de ouro e o outro de prata. No de ouro ardia uma grossa vela branca e, no de prata, uma vela negra. Além das velas, os fogos que ardiam nas grandes lareiras, de ambos os extremos do salão de baile, e da pálida luz da lua que penetrava por entre os três pares de portas da parede que dava ao terraço, nenhuma outra luz iluminava a habitação.

Madame Polgar se encontrava sentada à mesa redonda, vestida com um majestoso turbante com plumas e pedraria e uma túnica flutuante combinando com a cor da toalha. Durante os dias transcorridos desde seu sequestro, soube pela condessa que seu convite para jantar e a reunião dos Lévesque tinha surgido da idéia de convencê-la para celebrar uma sessão de espiritismo, e a adivinha se declarou por fim bastante restabelecida para levantar-se da cama e realizar os desejos de seus anfitriões.

— Mas, Ma pauvre Madame Polgar, temo que não esteja ainda de tudo bem — tinha alegado a condessa — Terá que lhe entalar os dedos e ainda não estão de tudo recuperados.

— Não necessito os dedos para uma sessão de espiritismo, e agora que já não há segredos entre nós, quero lhes ressarcir por ter planejado roubar o crucifixo de Ariana — tinha insistido Madame Polgar — Me tinham informado de que Monsieur Valcoeur era o primo de Monsieur Charles de Ramezay, o conde de Jourdain, e soube pela antiga babá de Valcoeur que você não podia ter filhos, Madame. Assim foi como comecei a suspeitar a verdadeira identidade de Ariana. Essa tarde, em Oxford Street, como já sabem por nossas conversas destes dias, Dukker só queria jogar no chão mademoiselle Ariana para poder lhe tirar a cruz, se a usasse. Não era sua intenção empurrá-la tão forte que caísse no meio-fio. Mas, mesmo assim, quase a perderam naquele dia, e teria sido minha culpa.

— Com quanta ironia jogou o destino neste assunto! Basta fixar-se na longa cadeia de acontecimentos que levaram a que Dukker empurrasse sua filha no instante em que Monsieur Blackfriars se achava presente para lhe salvar a vida. O que teria pensado lorde James Ramsay, o ladrão do Coração de Kheperi, de tudo isto? Sabemos que tão rara vez afetam nossos atos às vidas de outros, inclusive séculos depois de que estejamos mortos e enterrados, que o tempo é em si mesmo uma infinita tapeçaria e cada um de nós um fio dos quais formam sua trama! Acredito que meu fio chegou a seu fim e que logo será talhado. Assim desejo celebrar esta sessão. Desse modo, talvez possa redimir meus pecados, que são muitos. Ansiava o dom da imortalidade que, conforme se diz, concede o Coração de Kheperi. Mas agora que o fim se aproxima, sei que também a morte serve a um propósito e que só experimentando-a compreenderei qual é esse propósito.

Além da adivinha, Malcom e Ariana, achavam-se sentados ao redor da mesa Monsieur e Madame Valcoeur, a senhora Blackfriars, o senhor Ravener, lady Christine e os senhores Quimbly, Rosenkranz e Cavendish. Dukker permanecia sentado em uma almofada, em um canto do salão, com a cabeça de negros cachos inclinada sobre o harpa, cujas cordas tocava entoando uma hipnótica melodia. Os reunidos tinham sopesado a possibilidade de convidar o senhor Al Walid à sessão. Mas finalmente, não sabendo seus propósitos, tinha-lhes parecido pouco sensato lhe informar o quanto tinham descoberto já sobre a chave que desvelava o mistério da muito valiosa esmeralda perdida.

— Estão todos preparados para começar? — perguntou Madame Polgar com voz enérgica, apesar de que se sentia extremamente frágil e velha — Deram-se as mãos? Bem. Então, vamos tentar entrar em contato com o outro lado, ali onde se encontram os que atravessaram as portas da morte, como faremos todos algum dia, cada qual a seu devido tempo. Queremos falar com lorde Robert Roy Ramsay, nono conde de Dúndragon. Enquanto tento estabelecer um vínculo com os espíritos, devem permanecer todos em silêncio. Entretanto, se chegar a se estabelecer contato com lorde Dúndragon, poderão lhe fazer cada um uma pergunta e, se assim o decidir, responderá e, embora pareça que sou eu quem fala, recordem que não sou em realidade mais que a médium, o instrumento através do qual lorde Dúndragon poderá comunicar-se conosco. Bem, vamos começar...

Muito tempo depois, até o dia de sua morte, Ariana não recordaria exatamente o que havia dito ou feito a adivinha ante aquela mesa redonda ao redor da qual se achavam reunidos. Recordaria, em troca, uma mescla confusa de imagens e impressões, como se tivesse vendo tudo aquilo através de um cristal embaçado ou de uma tela de sombras chinesas. Era consciente, acima de tudo, do contato da mão de Malcolm sobre a sua e, ao outro lado, da mão de seu irmão recém encontrado, o senhor Ravener, que a agarrava com amor e a ternura que tinha brotado imediatamente entre eles, como se não tivessem sido separados treze anos e tivessem crescido juntos. Assim, apesar de que os fogos que crepitavam nas duas lareiras apenas dissipavam o frio que reinava no espaçoso salão e pôde combater o medo, o frio e a incerteza que se apoderaram dela ao avançar a sessão de espiritismo com o calor e a ternura que irradiavam para ela tanto Malcolm como seu irmão.

Fora, a chuva que tinha começado a cair pouco antes tamborilava com mais força sobre o telhado negro e as janelas esmerilhadas, e o vento sussurrava e gemia, fazendo sacudir os cristais das janelas. Dentro, a voz imperiosa de Madame Polgar ressoava na sala vazia, apelando a deuses e espíritos enquanto entoava antigas palavras e resmungava o que pareciam encantamentos. Tudo isso ia acompanhado pelo repentino piscar das velas e umas estranhas batidas por cima da mesa. Logo, ao fim, a adivinha disse com voz clara:

— É você, lorde Rob Roy Ramsay, antigamente conde de Dúndragon? Está conosco?

Ao fim de um momento de tensão, Madame Polgar fechou os olhos, girou a cabeça e começou a responder a suas próprias perguntas. Mas, para estupor de Ariana, a voz que saía de sua garganta era surpreendentemente profunda e masculina.

— Sim, sou lorde Dúndragon. Quem me chama do outro lado?

— Os que procuram a verdade e o que permaneceu perdido muito tempo. Solicitamos sua ajuda em nossa busca. Queremos te fazer umas perguntas. Responderá-nos?

— Se puder, sim.

— Bem. Agora, escuta e, por seu juramento de honra, me responda com a verdade.

— Dou-te minha palavra de fazê-lo.

— Lorde Dúndragon, se é que é tal, fundou você uma ordem chamada os Filhos de Isis? — Monsieur Valcoeur olhava com uma mescla de receio e ceticismo para Madame Polgar, pois embora tinha aceitado tomar parte na sessão, no fundo lhe parecia uma enganação.

— Sim, pois eram os filhos das viúvas, como Horus era o filho da viúva Isis, depois da morte de seu pai, Osíris.

— Quantos... quantos foram? — perguntou fracamente Madame Valcoeur com a vista cravada na adivinha, enquanto estava hipnotizada e repelida por aquela voz, aparentemente descarnada, que emanava de sua garganta.

— Treze.

— Qual era seu principal propósito? — atrás dos óculos, os olhos do senhor Quimbly pareciam receosos e, entretanto, não se separavam da cena que se desenvolvia ante eles.

— Aprender como usar a chave que nos abrisse as portas da imortalidade.

— E conseguiram? — perguntou com curiosidade o senhor Cavendish, que se encontrava francamente fascinado.

— Não, não conseguimos controlar o poder mágico da pedra.

— Que pedra? Refere-se à esmeralda perdida, o Coração de Kheperi? — apesar do evidente desagrado que lhe produzia tudo aquilo, o senhor Rosenkranz não pôde ocultar a repentina nota de avidez que ressoou em sua voz.

— Sim, era uma pedra filosofal egípcia. Meu pai cometeu o engano de roubá-la de uma tumba no Vale dos Reis. Tinha-a criado o deus Kheperi e pertencia ao supremo sacerdote de seu culto. Dizia-se que possuía a capacidade de conceder a imortalidade a quem a possuísse. Mas, na realidade, estava maldita.

— Como sabe? — perguntou lady Christine.

— Quatro de nossos irmãos morreram por culpa da pedra. Suas mortes foram horrendas e prematuras.

— O que fizeram depois com a pedra? A destruíram? — perguntou Ariana, temerosa, por suas próprias razões, de que a esmeralda já não existisse.

— Não, era muito valiosa e poderosa para destrocá-la. Ocultamos-la, como ela nos tinha ocultado seu poder.

— Onde a esconderam? — perguntou com expressão séria o senhor Ravener.

— Em um lugar onde estaria a salvo para sempre.

— Onde? — perguntou Malcom.

— Foi há tanto tempo...

— Onde? — repetiu Malcom com urgência — Diga-nos! Diga-nos!

— No lugar das noves chaves...

Enquanto os pressente ouviam aquelas proféticas mas escuras palavras, a mesa começou a tremer ante eles. Logo, de repente, cambaleou-se violentamente, deu uma sacudida e se elevou do chão. Ao mesmo tempo, o vento começou uivar como se uma matilha de cães uivasse nos jardins.

— O que está passando? O que está passando? — gritou a senhora Blackfriars, levantando-se pela metade da cadeira, aterrorizada.

— É a pedra... a pedra maldita! — advertiu-lhes o espírito de lorde Dúndragon — Tomem cuidado! Tomem cuidado! Recordem a quem pertence o Coração de Kheperi!

Sua voz, aparentemente descarnada, retumbou estranhamente no salão de baile e se mesclou com o uivo do vento, o qual parecia ter desatado sua fúria contra a casa. As portas se abriram de repente e os fogos se extinguiram; as velas piscaram, enlouquecidas, e uma nuvem negra ocultou a face inescrutável da lua, sumindo a estadia em uma escuridão completa.

         Questão de amor e morte

 

                   1848

                   Residência dos Lévesque, Portman Square, Londres, Inglaterra

Ninguém sabia ao princípio o que tinha acontecido, que era só o vento o que tinha aberto as portas e apagado os fogos e as velas, envolvendo em sombras o salão de baile. Por um instante, todos os presentes temeram ser atacados por seus inimigos, os Foscarelli, e se levantaram de um salto. Malcolm pegou Ariana em seus braços para protegê-la enquanto chamava a sua mãe para assegurar-se de que estava bem.

— Não se preocupe, Malcolm — respondeu o senhor Quimbly entre os gritos dos homens e os chiados das mulheres — Está a salvo comigo e o senhor Cavendish.

Mas Ariana, estava tão perto dele que podia ouvir o batimento de seu coração, sentiu que Malcolm não se relaxava. Notava sob as mãos a tensão de seus músculos. Seu próprio coração palpitava tão violentamente que tinha a impressão de que lhe ia estalar no peito, embora não teria podido dizer se isso se devia unicamente ao medo. Nunca a tinha abraçado assim um homem e, para falar a verdade, a adrenalina que alagava seu corpo surgia de uma mescla de temor e excitação. Apesar de sua apreensão, sentia como se filtrasse o calor de Malcolm em seu corpo, do mesmo modo que uma vela de cera se funde ao calor de sua chama, e o aroma almiscarado e viril de Malcolm saturava seus sentidos ao respirar agitadamente, como se lhe apertasse muito o espartilho. Malcolm lhe apertava a cabeça contra seu peito, agarrando-a pelo cabelo, enquanto com o outro braço rodeava com firmeza seu corpo. Esquadrinhava a escuridão, tentando decidir se pesava alguma ameaça sobre eles e de onde procedia.

Os serventes acudiram correndo ao ouvir os gritos no salão, e os empregados se apressaram a fechar as portas do terraço, em tanto as donzelas, cujas saias e aventais batiam as asas a seu redor, acendiam os abajures dispostos ao longo das paredes.

— Oh, Madame! Madame! — ao ver a adivinha puxava sua cadeira, com a cabeça apoiada contra o respaldo e os olhos fechados, Dukker correu a seu lado e começou a lhe esfregar as mãos, presa de ansiedade — Fale comigo, Madame!

Alarmado, o senhor Cavendish, que era o que se encontrava mais perto, acudiu junto a Madame Polgar e lhe buscou o pulso enquanto inclinava a cabeça sobre seu peito. Logo se incorporou e sacudiu a cabeça com pesar.

— Madame Polgar morreu — disse com suavidade — Me temo que seu coração não tenha podido resistir.

— Non, non! Não pode ser!

Para consternação dos outros, o anão se lançou sobre sua senhora morta e começou a soluçar incontrolavelmente, lhe suplicando que abrisse os olhos.

— Oh, Malcom! — murmurou Ariana, angustiada.

Juntos afastaram brandamente o anão do corpo de sua senhora e tentaram lhe consolar enquanto o levavam para fora do salão. Madame Valcoeur e a senhora Blackfriars os seguiram. A condessa estava profundamente afetada e a mãe de Malcom tentava lhe oferecer consolo, enquanto fazia sugestões em relação às ordens que teria que dar.

— Oui, oui... o que te parecer melhor, Elizabeth — Madame Valcoeur enxugava o pranto em seu lenço de renda — Oh, a pauvre Madame Polgar! Justo antes da sessão me disse que ia morrer, sabe? Não deveria ter permitido que seguisse adiante com a sessão! Sabia que não estava de tudo bem, por culpa desses malditos Foscarelli. Tomaram apodreçam no inferno! Deveria ter insistido para que ficasse acima, em vez de celebrar a sessão. Porque foi isso o que a matou!

— Não, Hélène, não deve se culpar pelo ocorrido. Madame Polgar era muito velha, e os Foscarelli a maltrataram e a aterrorizaram. Seu coração não pôde resistir a tensão. Sente-se, por favor, e deixe que te peça um chá. Ou prefere um chocolate quente?

— Já ordenei aos serventes que tragam as duas coisas, e um pouco de café, tia Elizabeth —disse Ariana ao entrar no salão, seguida por Malcom e de outros assistentes à malograda sessão de espiritismo — Collie e Nicolas levaram Dukker para acama e lhe deram um calmante. Estava destroçado. Deram-lhe um pouco do láudano que receitou o doutor Whittaker a Madame Polgar. Espero que durma bem por um momento. Sei que a morte de Madame Polgar foi um golpe muito duro para ele. E para outros, também.

— Além da morte de Madame Polgar, o pior deste assunto é que não acredito que tenhamos tirado nada em claro — o senhor Ravener franziu o cenho e tirou do bolso de sua jaqueta uma caixinha de ouro da qual extraiu um charuto. Logo, depois de perguntar às senhoras se podia fumar, acendeu-o e inalou profundamente.

— Oh, não estou de acordo com você, meu querido rapaz — disse o senhor Cavendish — Pelo contrário, acredito que averiguamos algo de suma importância. Descobrimos que todos os membros originais da ordem dos Filhos de Isis eram filhos de viúvas. Recordem o que nos há disse lorde Dúndragon, que fundou a ordem para os filhos das viúvas, o mesmo Horus era filho da viúva Isis, depois da morte de seu pai, Osíris.

— Sim, sim, é certo! — exclamou Malcom, que permanecia sentado no sofá junto à Ariana.

— Não sei como podem falar dessa maldita esmeralda estando a pauvre Madame Polgar de corpo presente na outra habitação — gemeu a condessa.

O corpo da adivinha tinha sido transladado ao salão principal, onde, posto que Madame Polgar era católica, as irmãs da Capela Real da França, de Little George Street, às que se enviaram um recado imediatamente, encarregariam-se de lavá-lo e prepará-lo para o enterro. O doutor Whittaker tinha chegado também para examinar o cadáver da adivinha e testemunhar oficialmente a causa da morte, que, conforme deduziu, deu-se devido a uma falha cardíaca. Por último, avisou-se a uma funerária para que se encarregasse dos detalhes do enterro e se encomendou um ataúde que se expôs no salão principal, rodeado de velas, até que tivesse lugar o enterro.

— Ma chére — lhe disse Monsieur Valcoeur a sua esposa — acredito falar por todos os presentes se disser que o fato de que debatermos este assunto não indica uma falta de delicadeza de nossa parte, mas sim demonstra certa precaução e praticidade. Salvo nos assegurar de que Madame Polgar tenha um enterro decente, não há nada mais que possamos fazer por ela, pois se encontra já nas mãos do Criador. Além disso, os verdadeiros responsáveis por sua morte são nossos inimigos, os Foscarelli. E, sabendo a classe de homens que são, seria uma estupidez por nossa parte não dar todos os passos necessários para recuperar a esmeralda e proteger nossas vidas contra eles.

— Oui, sei que tem razão — respondeu a condessa, e tentou refazer-se.

Assim, a conversa continuou durante um momento. Por fim, ao ficar tarde, os reunidos no salão começaram a retirar-se. Malcolm e Ariana se ofereceram para fazer o primeiro turno velando o cadáver de Madame Polgar, mas Madame Valcoeur insistiu em que era seu dever, e Malcolm e Ariana procuraram a tranquilidade da biblioteca para falar um momento a sós.

— Pobre Madame Polgar! — Ariana exalou um profundo suspiro enquanto olhava pelas janelas salpicadas pela chuva da biblioteca — Tomara não tivéssemos celebrado a sessão!

— Madame Polgar sabia o que fazia, Ana — Malcolm lhe pôs as mãos sobre os ombros com ternura — Não podemos nos culpar pelo ocorrido. Conforme disse sua mãe, tinha vaticinado sua própria morte. Pode que a tenha assustado tanto a sessão e que tenha morrido por isso.

— Foi aterrador! — Ariana estremeceu sem querer — Essa voz profunda que falava por sua boca! Não podia ser ela, nenhuma voz fingida. E esses estranhos golpes sobre a mesa, e como tremia e se movia! Madame Polgar deve ter sido uma verdadeira vidente, Collie. Se não, como ia fazer todas essas coisas?

— Não sei — ele sacudiu a cabeça — Confesso estar tão desconcertado como você. Além disso, como seu pai e o senhor Rosenkranz eram tão céticos em relação aos supostos talentos de Madame Polgar, depois de tirar seu cadáver do salão de baile examinaram a mesa e não encontraram nada suspeito: nem dispositivos mecânicos, nem cordas, nem aparelho algum.

— Então era uma vidente de verdade e não uma fraude.

— Isso parece.

— E foi lorde Dúndragon quem nos falou! — Ariana se voltou subitamente em seus braços — Oh, Collie! Assusta-me tanto o que possa nos proporcionar o futuro... Cada vez estou mais convencida de que lorde Dúndragon tinha razão e essa esmeralda está maldita. Devemos tomar cuidado. Assustam-me os riscos que meu pai, Nicolas e você estão dispostos a enfrentar para encontrar a esmeralda. Poderiam acabar feridos... ou inclusive mortos!

— Pode que os Foscarelli sejam malvados. Pode inclusive que estejam loucos, como diz Nicolas. Mas não são deuses, Ana. Os pode vencer. E por Deus que penso vencê-los!

— Assusta-me te ouvir falar assim, Collie. Não quero que te ocorra nada.

— Não me ocorrerá nada, Ana. Assim não se preocupe. É você quem me preocupa. Sei que tenho pouco ou nenhum direito a te dizer o que deve fazer, mas desejaria que não saísse de casa durante uns dias. Sem dúvida os Foscarelli investigarão todas as pessoas tiveram contato com Madame Polgar, e já demonstraram que são inclusive capazes de chegar ao sequestro.

Ariana se estremeceu de novo e disse:

— Custo a acreditar que, apesar de sua reputação, continuem sendo convidados aos melhores salões. Não há dúvida de que as pessoas conhecem os rumores que circulam sobre eles.

— Sim, suponho que sim. Mas, por outro lado, a riqueza abre muitas portas que, em circunstâncias normais, permaneceriam fechadas. E, às vezes, uma reputação duvidosa é uma vantagem. As mulheres, em particular, sentem-se atraídas pelos libertinos, os caça fortunas e outros canalhas desse tipo, sobre tudo se forem bonitos e encantadores.

— Bom, suponho que tenho que admitir que o visconde Ugo é ambas as coisas — disse Ariana — Mas, mesmo que Christine não tivesse me dito nada, esse homem teria me desagradado. Recordou-me a... a uma serpente! A essa horrível serpente marinha de meus sonhos. Collie..., acha que talvez esse dia, quando fomos pescar no lago Ness, vi o Monsieur Ugo nos parapeitos do castelo de Dúndragon? Que senti que era malvado e que queria nos fazer dano? As crianças são frequentemente mais intuitivas que os adultos.

— Sim, é certo. Pode que o tenha visto.

— Aconteceram-nos tantas coisas desde aquele dia... Às vezes custo a acreditar. Resulta difícil assumir que há mais de uma década você e eu íamos pescar juntos no lago. Mas que impressão deve ter me causado aquele dia! Até sonho com ele. E, entretanto, não recordo a morte de nossos pais, nem o incêndio de Whitrose Grange.

— Não deve se reprovar por isso Ana. Só tinha cinco anos. Sem dúvida é possível que aqueles fatos fossem tão desconcertantes e dramáticos para ti que sua mente sufocou sua lembrança, eliminando-o de sua consciência. Pense no que deve ter significado para ti. Perder seus pais em tão pouco tempo, e também seu irmão, e viver de repente com tio Jean-Paul e tia Hélène, que, embora fossem seus padrinhos, naquele tempo deveriam ter parecido uns estranhos.

— Entretanto, até muito recentemente, não sonhei com nada do que tinha perdido. Salvo contigo, Collie. É como, ao confrontar as mudanças que sacudiram minha vida como um violento furacão, tivesse me obstinado a ti com todas minhas forças. De algum modo devo ter pressentido a tempestade que estava formando e você me parecia o olho da tormenta. Um lugar onde podia me refugiar. Suponho que por isso nunca te esqueci.

— Eu a ti tampouco, Ana. Essa tarde, quando te levei para pescar no lago Ness, foi o último dia feliz que passei em Whitrose Grange. Essa mesma noite, nossos pais foram assassinados e a fazenda se queimou — Malcolm ficou em silêncio um momento, sumido em seus pensamentos. Logo prosseguiu — percorremos um longo caminho depois, verdade, Ana? Você foi uma menina preciosa e valente, e se converteu em uma jovem ainda mais linda e valente.

— Sinto-me adulada, certamente. Mas te equivoca, Collie — respondeu ela com suavidade enquanto esboçava um leve sorriso irônico — Embora tento ser valente, no fundo não sou absolutamente. Os Foscarelli me aterram. E também nosso futuro.

— Nunca permitirei que te passe nada, Ana. Juro-lhe.

De repente se fez entre eles um instante carregado de eletricidade como o que precede a uma tormenta, um momento prodigioso em que os olhos grandes e expressivos de Ariana, cheios ao mesmo tempo de medo, incerteza, desejo e amor, permaneceram fixos nos de Malcolm, nos quais viu uma mistura de emoções nuas que ele já não podia ocultar. Amargura e cólera pelo passado; dor e sofrimento pelo presente; apreensão e incerteza pelo futuro e, sobre tudo, desejo e amor por Ariana... Todos aqueles sentimentos irrefreáveis brilhavam um após o outro em seus olhos ardentes, que refletiam a batalha que acontecia dentro dele. Lutou com todas suas forças, mas ao final perdeu. Ariana dispôs de apenas um décimo de segundo para desfrutar de sua alegria antes que Malcolm a tomasse bruscamente entre seus braços e a beijasse com uma ânsia desesperada, liberando seus desejos reprimidos, como se não existisse o amanhã, a não ser só o aqui e o agora.

Ariana nunca tinha sido beijada por um homem, e suas fantasias e sonhos não a tinham preparado para aquilo: o modo como as mãos de Malcolm se enredavam entre seu cabelo, lhe levantando o rosto; a forma em que seus lábios se apoderavam dos dela com ardor; como o corpo duro e robusto de Malcolm se fundia com o seu, suave e frágil, de tal modo que ela tremia incontrolavelmente... Emoções e sensações que Ariana rara vez tinha experimentado se amontoavam agora em seu interior, desbocadas. A cabeça lhe dava voltas e já não pensava em nada, salvo nele. Logo, ao fim de um momento, deixou de pensar em tudo, e só pôde sentir. A boca de Malcolm sufocava os leves gemidos que proferia involuntariamente, e a debilitava.

Malcolm, entretanto, recordou por fim que era um cavalheiro e que estava ultrapassando o limite com uma jovem inocente a que pouco ou nada podia oferecer, e obrigou-se a afastar dela.

— Eu... sinto muito — lutou visivelmente para recuperar o domínio de si mesmo — Não tinha o direito de fazer isso. Não deveria ter acontecido. Por mais que o deseje, não estou em situação de te pedir que seja minha esposa, Ana.

— Oh, Collie! — a voz de Ariana estava cheia de angústia — Tem que colocar seu orgulho no caminho de nossa felicidade?

— Eu não sou um caça fortunas. Não posso viver de seu dote, Ana, nem posso te pedir que renuncie a sua forma de vida, a tudo o que está acostumada, para viver a vida que poderia te dar. Não sou rico. A diferença de seu irmão, não tenho um condado esperando a que o reclame. Minha herança se perdeu, e não tenho esperança de recuperá-la. Sou cartógrafo e, como tal, o mais que posso aspirar é possuir algum dia meu próprio estabelecimento.

— Isso é suficiente para mim, Collie. Não peço mais.

— Pode que não. Mas sei que terá muitos outros pretendentes que podem te dar muito mais.

— Mas nenhum deles pode me oferecer o que mais desejo: a felicidade. Isso só me pode dar você, Collie.

— Maldita seja, Ana! Põe-me as coisas muito difíceis quando fala assim.

— Isso é sem dúvida o que tento — declarou o senhor Ravener, saindo de entre as fileiras de estantes em sombras que flanqueavam a biblioteca — Por favor, me perdoem. Não pretendia lhes espiar. Como Christine já se retirou, vim à biblioteca em busca de um livro, com a esperança de que a leitura me tranquilizasse e pudesse conciliar o sonho. Mas acredito que estava mais cansado do que acreditava, pois assim que comecei a ler adormeci na poltrona e acabo de despertar. Não pretendia interromper sua conversa. Mas, ao despertar, não pude evitar lhes ouvir.

Ao ouvir isto, Ariana se ruborizou, envergonhada.

— É um desavergonhado, Nicky.

— Se o for, pode atribuir à vida que me vi obrigado a levar. Não, não te guardo rancor, Ana — respondeu ao ver a pergunta que refletiam nos olhos de Ariana — Para falar a verdade, nada me tem feito mais feliz que te encontrar sã e salva junto a tio Jean-Paul e tia Hélène. Nossa mãe tinha razão. Era melhor que fosse eu, e não você, quem ficasse desamparado na rua. Mas, dado que consegui sobreviver, nunca me desculpo se alguma vez me faltam essas qualidades que se consideram necessárias em um cavalheiro. Prefiro falar com franqueza a andar com rodeios. Salta à vista que Malcolm e você estão muito apaixonados. Todos sabemos. Teria que estar cego para não perceber. E, embora não te dê conta, Ana, diz muito em favor de Malcolm que exponha às claras as dificuldades que traria para ti sua união. Mas, Malcolm parou para pensar no dano que fará a Ana se não se casar com ela?

— O que quer dizer, Nicolas? — Malcolm franziu o cenho.

— Como filha de nossa mãe, que era irmã de seu pai, Ana é a mais jovem e, portanto, a última descendente direta de lorde James Ramsay, o conde de Dúndragon que roubou a esmeralda. Christine me disse que a muito tempo corre o rumor na aldeia que há junto ao castelo de Dúndragon, de que os Foscarelli não têm direitos legítimos sobre o lugar e, embora seja o primeiro em admitir que não sei se é certo ou não, e se for? E se seriamente há algo irregular no modo em que lorde Iain Ramsay perdeu em uma partida de cartas suas propriedades em favor de lorde Bruno, o conde de Fosearelli?E se suas propriedades estavam amortizadas ou algo assim, e lorde Dúndragon não podia dispor delas livremente? Sem dúvida os Foscarelli conhecem os rumores que correm pela aldeia. Talvez inclusive saibam que são certos. Não sabemos. Mas, em qualquer caso, que melhor modo de assegurar a posse do castelo de Dúndragon que casar Ana com lorde Ugo e certificar-se de que você e eu, os únicos herdeiros legais diretos, estamos mortos? — sugeriu brandamente o senhor Ravener, e Malcolm sentiu um calafrio — Vou casar-me com Christine, não só porque me apaixonei profundamente por ela, mas também porque quero mantê-la a salvo. Era uma menina quando seus pais morreram e guardou silêncio até agora. Os Foscarelli não têm motivos para suspeitar que saiba algo sobre o Coração de Kheperi ou que foram eles quem fez sair da estrada a carruagem de seus pais, aos que mataram e roubaram. Agora, entretanto, dado que está relacionada conosco e também, indiretamente, com Madame Polgar, pode que os Foscarelli comecem a temer que Christine saiba ou recorde algo. Não podem estar seguros de que não seja capaz de identificá-los como os assassinos de seus pais e talvez, só por isso, tentem lhe fazer dano. E eu não penso permitir — o semblante moreno do senhor Ravener parecia cheio de determinação — Os tios de Christine retornarão dentro de pouco. Assim que cheguarem lhes pedirei sua mão em matrimônio. Além disso, penso obter uma licença especial para que não tenhamos que esperar a que se leiam as admoestações, o qual poderia resultar perigoso para Christine, pois os Foscarelli saberão que logo contará com um marido jovem, forte e capaz, e não só com seus velhos tios para protegê-la. Em tal caso, pode que os Foscarelli se sintam impelidos a atuar antes de nosso casamento, e não quero correr esse risco — o senhor Ravener guardou silêncio um momento. Logo continuou dizendo — Reflete sobre o que te disse, Malcolm. Poderíamos celebrar uma cerimônia dupla. Eu, ao menos, sentiria-me tão honrado e feliz de poder te chamar «irmão» como de poder te chamar «primo», e de ver minha irmã não a salvo, mas também feliz. Inclusive quando criança era teimosa e voluntariosa. Assim sei que, se apaixonou por ti, não aceitará nenhum outro. E, agora, me despeço lhes desejando boa noite.

O senhor Ravener saiu da biblioteca levando o livro que tinha tirado de uma das estantes e Malcolm e Ariana ficaram sozinhos. Unicamente o crepitar do fogo que ardia na lareira e o tamborilar da chuva contra os cristais rompia o silêncio.

— Agora muitas coisas das que me disse Madame Polgar aquela noite no baile de disfarces começam a cobrar sentido — disse Ariana brandamente por fim — Até esta noite, temia que, por mais que tentasse ocultar, Nicky me guardasse rancor por ter crescido entre algodões, enquanto ele viveu na miséria. E, embora perceba que é um homem duro e valente que aproveita as oportunidades que lhe saem ao passo, acredito que no fundo é muito bom e generoso. Tem que ser ele o rei de varas que Madame Polgar viu em meu futuro e que me protegeria até a morte. Quanto deve me querer! Resulta-me terrivelmente penoso haver me esquecido dele, não ter sequer o reconhecido ao voltar a vê-lo.

— Não deve se culpar por isso, Ana. Mudou muito. Não é o menino que eu recordava. Durante os últimos treze anos se converteu em um homem e, embora tia Hélène tenha razão e Nicolas se pareça muito com tio Charles, nem sequer eu, que tinha dezesseis anos quando conheci seu verdadeiro pai, percebi quem era. Acredito que a terrível imagem do rosto do pobre tio Charles quando lorde Vittore Foscarelli o apunhalou ficou tão gravada em minha memória que já não posso vê-lo de outra forma. Pode que por isso ao princípio não associasse Nicolas a ele. E sei pelo que ele mesmo me disse que Nicolas não te reprova por não se lembrar dele, Ana. Se não, não se preocuparia tanto com sua felicidade — Malcolm fez uma pausa e de repente deixou escapar uma risada cheia de amargura e vergonha — Sou eu quem deveria se envergonhar — disse, zangado consigo mesmo — Só pensei em mim mesmo e em meu orgulho. Não é de estranhar que Madame Polgar te dissesse que não sabia se eu, o rei de espadas, seria seu amigo ou seu inimigo. Suponho que intuiu de algum modo o conflito interno e as dúvidas que tinha sobre ti, e não podia predizer se acabaria me convertendo em seu marido e protetor ou se, por culpa de meu maldito orgulho, poria-te sem querer em perigo, te deixando a mercê de lorde Ugo. Porque sem dúvida lorde Ugo é o sinistro rei de pentaclos sobre o qual Madame Polgar te pôs de sobre aviso, Ana.

— Mas, Collie, até que Nicky falasse sobre eles esta noite, você não sabia nada sobre os rumores que circulam há tempo que na aldeia que há junto ao castelo de Dúndragon — disse Ariana brandamente — Assim não sabia que pesava sobre mim essa ameaça.

— Não, mas agora sei que os Foscarelli não se deterão ante nada. Poderá me perdoar alguma vez por ser tão orgulhoso e tão tolo, Ana?

— Oh, Collie, claro que sim.

— É extremamente humilhante para mim ter tão pouco a te oferecer, além de minha pessoa e meu amparo.

— Pois não deveria se envergonhar, porque não é sua culpa, e não me importa enquanto estivermos juntos.

— Mas te merece muito mais do que posso te dar, Ana.

— Oh, Collie, é que não sabe que só quero a ti? Quero-te desde que éramos crianças.

— E eu a ti, Ana, com todo meu coração, valha o que valha.

— Para mim vale tudo, Collie!

— Então, aceitará-me tal e como sou, com meu orgulho e tudo, e se casará comigo, Ana? Quer que celebremos nosso casamento junto com Nicolas e Christine?

— Oui, oui. Nada poderia me fazer mais feliz!

Ao ouvir isto, Malcolm tomou de novo Ariana em seus braços e a beijou com ternura e com todo o amor que sentia por ela. Seu coração transbordava e sua mente se fechou deliberadamente a seus temores prévios. Encontraria a esmeralda perdida e recuperaria a fortuna de sua família, prometeu-se em silêncio. Desse modo, Ariana não se arrependeria nunca de ser sua esposa, e ele poderia ocupar-se dela. Mas, enquanto pensava nestas coisas, além das janelas da biblioteca, embaçadas pela bruma e a chuva, uma escura nuvem passou de repente sobre o rosto impenetrável da lua, e um gélido calafrio se apoderou de Malcolm.

           Velhacos e tumbas

 

                     1848

                     Cemitério Geral de Todas as Almas, Kensal Green, Londres, Inglaterra

Por medo ao que lhes pudesse acontecer, Malcolm e a senhora Blackfriars continuaram vivendo na casa dos Lévesque em Portman Square a pedido de Madame Valcoeur.

A senhora Blackfriars aceitou de bom grado ficar, pois a ela também tinham impressionado profundamente os acontecimentos daquela noite, e temia pensar que os Foscarelli caíssem sobre eles em Hawthorn Cottage. Desejava ardentemente não haver dito nada a Malcolm sobre sua herança e o Coração de Kheperi, pois temia que aquilo acabasse lhe proporcionando a morte, como lhes tinha ocorrido a seu pai e a seu tio Charles.

Madame Polgar devia ter a mortalha e o ataúde mais finos que houvesse na funerária. Dukker insistiu nisso na manhã seguinte de sua morte, alegando que Madame Polgar, pouco antes de sua morte, tinha-lhe dado instruções precisas a respeito de seu enterro e tinha reservado uma pequena conta bancária, a que ele tinha acesso, para cobrir os gastos.

— A noite que vim aqui pedir ajuda, depois que os Foscarelli levaram Madame Polgar a Bedlam, não vim diretamente — explicou o anão a todos ante a mesa do café da manhã — Fui primeiro a casa de Madame em Henrietta Street. Era como temia. Durante nossa ausência, os Foscarelli tinham registrado a casa em busca de um crucifixo muito valioso que pertencia a Madame.

— Mas não levaram o que procuravam, verdade? — perguntou Malcolm — Porque, se assim fosse, não lhes teriam feito falta manter Madame Polgar com vida.

— Tem razão, Monsieur — Dukker, que levava ainda o cofre do qual não se separou desde sua chegada a casa dos Lévesque, levantou-se da poltrona que ocupava em um canto e se colocou junto à Ariana, que estava sentada à mesa — Madame Polgar insistiu muito em que, se algo lhe acontecesse, entregasse a você isto — pôs solenemente a caixa sobre a mesa e abriu muito devagar sua tampa — Como verá, guardava aqui suas cartas de tarô. Os Foscarelli abriram a caixa, claro, e atiraram as cartas pelo chão, mas eu as recolhi.

— Madame Polgar queria que tivesse suas cartas? — perguntou Ariana — Mas... por que? Não entendo.

— Non, mademoiselle. As cartas, não. As cartas só eram uma artimanha para enganar a quem olhasse dentro da caixa. É a caixa mesma que contém o que Madame queria que fosse seu — explicou o anão — Por sorte, os Foscarelli não sabiam que esta caixa é um quebra-cabeças. Que tem uma segunda tampa que se abre assim.

Para surpresa de Ana, embora a caixa parecia ser um todo, estava composta em realidade por um certo número de pequenas peças de madeira que se deslizavam para um lado e outro e que, ao girar a caixa e colocar as peças da maneira adequada, como fez Dukker, a segunda tampa, que parecia a simples vista o fundo da caixa, abria-se. Em seu interior se encontrava a cruz de Madame Polgar. O anão a tirou cuidadosamente e a entregou a Ariana, que estava muda de assombro.

— Madame Polgar me disse que, se ainda não soubesse para que servia o crucifixo, o senhor Blackfriars e o senhor Ravener o diriam. Também me disse que eram na realidade seu primo, Monsieur Ramsay, e seu irmão, Monsieur de Ramezay, conde de Jourdain. É isso certo?

— Eu... não sei o que responder a isso, Dukker — disse Ariana com franqueza enquanto olhava desconcertada a seu noivo e seu irmão.

— É certo, em efeito — disse por fim Malcolm, apesar de que não sabia se podiam confiar no anão — Mas como sabia Madame Polgar?

— Durante muitos anos procurou os descendentes de uma ordem chamada os Filhos de Isis, que antigamente rendia culto à esmeralda conhecida como o Coração de Kheperi, a qual foi roubada por um antepassado comum de vocês da tumba de um supremo sacerdote egípcio, e sobre a qual, se recordarem, falou-lhes esse estranho cavalheiro egípcio, o senhor Al Walid, uma noite. A avó de Madame Polgar, que procedia da Escócia, descendia de um dos irmãos fundadores da ordem dos Filhos de Isis e, depois de lhe contar a história da esmeralda perdida, confiou-lhe a cruz, que supostamente é a chave para encontrar o esconderijo da esmeralda. Madame Polgar acreditava que outros descendentes dos Filhos de Isis deviam ter crucifixos parecidos, porque, se o examinar atentamente, mademoiselle Ariana, verá que a cruz leva o número oito.

— Necessito... necessito uma lupa — Ariana olhou de perto a cruz que sustentava na mão, ainda incrédula, mas não pôde distinguir o número.

— Trarei-te uma — o senhor Ravener saiu do salão e voltou depois de um momento com uma lente e a Bíblia de Madame Valcoeur.

— Olhe você, Nicky — Ariana lhe estendeu o crucifixo.

— Sim, não cabe dúvida de que é o número oito — anunciou o senhor Ravener depois de olhar longamente através da lupa — E na parte de trás está inscrito «Nahum 2:8» — deu a cruz e a lupa a Ariana e começou a folhear a Bíblia — «E Nínive alagada pelas águas ficou como uma lacuna. “Fugiram seus defensores, e por mais que lhes gritavam: detenha-lhes, lhes detenha, nenhum voltou a olhar atrás».

— Entende você a que alude a passagem, Monsieur Jourdain? — perguntou o anão.

— Não, não exatamente — o senhor Ravener sacudiu a cabeça — E, de momento, você deve me chamar senhor Ravener e não Monsieur Jourdain. Desejo ocultar minha verdadeira identidade a nossos inimigos, os Foscarelli, tanto tempo como puder. Naturalmente, essa cruz deve conter uma chave para encontrar a esmeralda perdida, mas, por desgraça, é tão crítica como as das cruzes que já tínhamos.

— Então... Madame Polgar tinha razão! Há outros crucifixos e os têm vocês! — exclamou Dukker, alegre.

— Alguns, mas não todos — disse Malcom com cautela.

— Quantos?

— Quatro, contando o que acaba de dar a mademoiselle Ariana.

— Só quatro? — o semblante do anão se escureceu — Madame Polgar esperava que tivessem muitos mais e que pudessem aliar-se contra os Foscarelli.

— Tomara nos houvesse dito isso desde o começo! — o rosto de Madame Valcoeur refletia seu pesar — Nós poderíamos tê-la salvado dos Foscarelli.

— Madame Polgar era extremamente prudente, Madame — disse Dukker, muito sério — Não confiava em ninguém, salvo em mim. Sabia que teria dado minha vida por ela, pois me salvou há muitos anos e depois fui seu devoto servidor. E, agora, se me aceitar, mademoiselle — se voltou para a Ariana — serei também seu. Juro sobre minha honra.

— Eu... sinto-me realmente adulada e profundamente comovida, Dukker — disse Ariana, surpreendida pelo oferecimento do anão — Mas, francamente, também sinto curiosidade. Por que deseja me servir?

— Quero emendar as coisas — o semblante de Dukker parecia cheio de vergonha e abatimento — Fui eu quem a empurrou em Oxford Street o dia em que esteve a ponto de ser atropelada. Só queria atirá-la no chão para poder lhe tirar do pescoço a cruz, se a usasse. Mas, embora seja anão e não muito alto, sou extraordinariamente forte, e às vezes não domino minha própria força. Assim que a empurrei muito forte. Madame Polgar se enfureceu comigo. Horrorizava-lhe pensar que podia ter morrido por minha culpa. E a mim também. Sinto-o muitíssimo, mademoiselle. Não pretendia lhe fazer nenhum dano.

— Non, estou segura de que não, assim te perdôo, Dukker. Na realidade, tenho que te agradecer, porque foi esse incidente que me devolveu o Monsieur Blackfriars — Ariana se ruborizou levemente, pois Malcolm e ela não tinham anunciado ainda seu compromisso. Antes de fazê-lo, Malcolm tinha que falar com seu pai, e ainda não tinha tido ocasião de fazê-lo.

Mas, imediatamente depois do café da manhã, Malcolm se reuniu com Monsieur Valcoeur em seu escritório e imediatamente obteve seu consentimento para casar-se com Ariana.

— Asseguro-te, Malcolm, que nada nos agradaria mais a sua tia Hélène e a mim que ver Ariana felizmente casada contigo — o conde sorriu, encantado — É uma boa notícia. E ajudará a tirar da cabeça de Hélène a morte de Madame Polgar.

— Deve saber, tio Jean-Paul, que cheguei a amar profundamente Ariana. Entretanto, duvidei até agora em pedir sua mão devido a minha posição. Não quero que me considere um caçador de fortunas. Mas, por outra parte, depois do que Nicolas me disse ontem à noite, não posso permitir que meu orgulho siga interpondo-se entre Ariana e mim, sabendo que poderia expô-la a inumeráveis perigos nas mãos dos Foscarelli. Prometo-lhe que, como marido dela, não só farei o que estiver em meu poder para assegurar sua segurança e bem-estar, mas também para recuperar o Coração de Kheperi e devolver a minha família sua fortuna, para que a Ariana nunca falte nada — prometeu Malcolm solenemente.

— Estou seguro de que assim será, Malcolm, porque durante estes últimos meses, antes inclusive de que Hélène e eu começássemos a suspeitar sua verdadeira identidade, percebi que é um jovem verdadeiramente valente, honesto, honrado e capaz, justo a classe de homem que eu gostaria de ter como genro, embora não seja um Ramsay de Dúndragon, estou aparentado comigo por laços de sangue e por matrimônio. E, o que é mais importante, sei que fará feliz a Ariana.

— Tentarei, Monsieur, dou-lhe minha palavra.

— Bem. Então, vamos anunciar a feliz notícia em seguida. Sei que sua mãe e Hélène vão alegrar-se muitíssimo, e não pode haver reparo algum quanto à oportunidade do momento, porque Madame Polgar não era nosso parente, assim não temos que guardar luto.

O conde tinha razão em sua hipótese. O efeito do anúncio do compromisso de Malcolm e Ariana, seguido pela declaração do senhor Ravener de sua intenção de casar-se com lady Christine, alegrou sobremaneira à condessa e à senhora Blackfriars. Estenderam as felicitações e depois Monsieur Valcoeur voltou a encerrar-se em seu escritório, com Malcolm e o senhor Ravener, para celebrar fumando um charuto, enquanto as damas se reuniam no salão para começar a preparar a pequena cerimônia privada, que, conforme se lembrou, teria lugar o antes possível.

— É uma lástima que tenhamos que mantê-lo em segredo e não possamos anunciar a notícia nos jornais, nem celebrar uma grande cerimônia e convidar todo mundo — a condessa deixou escapar um suspiro melancólico — Mas, tendo em conta o perigo que supõem os Foscarelli e o assunto dessa esmeralda maldita, suponho que Malcolm e Nicolas têm razão e o melhor será celebrar uma cerimônia discreta pedindo licenças especiais. Oh, Ma chère Ariana e Ma chère Christine! Estou tão feliz por vocês! Apesar do muito que o desejava, não tive filhos. Mas Ariana foi enviada, e agora Nicolas nos foi devolvido e você, Christine, vais ser como uma segunda filha para mim, e Malcolm como um segundo filho. O bon Dieu me encheu que benções!

— E a mim — disse a senhora Blackfriars com um sorriso suave, embora um tanto triste — Só desejaria que minha querida irmã e cunhada, Katherine, estivesse viva e pudesse compartilhar a alegria deste dia conosco. Estaria muito orgulhosa de ti, Ariana... e de ti, Hélène, por ter ocupado seu lugar e ter sido a mãe amorosa que era se tivesse sobrevivido. Educou muito bem Ariana, Hélène. A confiança e a fé de Katherine estavam mais que justificadas.

— Como... como era, tia Elizabeth? — perguntou Ariana brandamente — Sei que, o dia que me viu, pensou que fosse ela. Tanto nos parecemos?

— Sim, Ariana. Cada vez que lhe olho, vejo Katherine. Tinha seu mesmo cabelo negro e esses olhos de ametista, e a mesma comovedora mescla de coragem e vulnerabilidade que intuo em ti. Não é de sentir estranhar que Malcolm se apaixonou por ti. Inclusive de pequena, sempre dizia que era uma garotinha muito bonita e valente.

— Bom, já não sou uma garotinha — disse Ariana, rindo.

— Pode que não, mas continua sendo bonita e valente — insistiu a senhora Blackfriars com um sorriso radiante — E me fará muito feliz te ter como filha.

— E eu me sentirei muito afortunada por ter ganhado outra mãe tão maravilhosa. Foi a mim quem o bon Dieu encheu que benções.

— Eu sinto exatamente o mesmo, Ariana — disse Christine — Sou tão afortunada por ter conhecido Nicolas! Custa acreditar que, em meio a tantos perigos, tenhamos encontrado a felicidade.

— Oui, assim é. É como se um raio de luz que brilhasse na escuridão. Um presente completamente inesperado, como o crucifixo de Madame Polgar. Pode inclusive que seja uma mensagem. Um presságio do que está por chegar, sem dúvida diria ela. Tomara seja assim!

Mas, antes que acontecesse a cerimônia dupla, deveria ser celebrado o funeral de Madame Polgar. A adivinha ia ser enterrada, conforme tinha disposto, em uma cripta de tijolo no cemitério geral de Kensal Green. O enterro teria lugar na sexta-feira às três da tarde. Enviaram as notificações, impressas em moldes negros, em papel bilhete e selados com cera negra, a todas suas amizades, e alugaram carruagens para recolher os parentes e levá-los a cemitério.

A tarde do funeral, os convidados se reuniram na casa dos Lévesque em Portman Square. Era um dia frio e lúgubre de inverno, e uma neblina cinzenta procedente do mar e do rio Támesis cobria tudo. O céu estava coberto e garoava, de modo que as altas plumas negras de avestruz sujeitas às cabeças dos cavalos estavam condensadas, e os tecidos de veludo que cobria o carro fúnebre e as carruagens dos parentes estavam molhados. O cortejo fúnebre percorreu seu triste trajeto com procissão desde Portman Square até Kensal Green e passou por fim sob o imponente arco que guardava a entrada do cemitério.

Era este um lugar aprazível e atrativo, cuidadosamente desenhado ao estilo do cemitério de Pére-Lachaise de Paris e provido de belos jardins. A grade de ferro que atravessou o cortejo fúnebre dava passo a amplas avenidas rodeadas por castanhos, olmos, tilos, carvalhos, álamos, cujos atalhos ia pelo resto da exuberante pradaria, cheia de arbustos de amora, urzes, lavanda e urtigas. No extremo leste do cemitério havia um jardim de mariposas e abelhas, onde os guardas tinham plantado bergamota, hisopo, romeiro e salvia para atrair os insetos. Por toda parte abundavam os pequenos templos gregos, assim como os obeliscos de pedra, os sarcófagos, as lápides, as urnas e as criptas, e nas largas e frescas sombras que projetavam os mausoléus das grandes famílias, à luz tênue do dia invernal, germinavam e se apodreciam, no meio do limo, esponjoso dos cogumelos.

Aquela era a primeira vez que Ariana via o cemitério e, ao descer da carruagem, ajudada por Malcom, pensou que Madame Polgar tinha escolhido um lugar muito apropriado para seu eterno descanso.

— Isto é muito bonito — comentou com Malcolm em um sussurro, sob o guarda-chuva que sustentava um dos empregados.

— Sim — Malcolm assentiu e lhe deu o braço — Embora, quando chegar minha hora, preferiria que me enterrassem nas Terras Altas.

— Oh, não fale de sua morte, Collie! — disse-lhe Ariana, muito séria, enquanto começavam a andar para a cripta de tijolo onde ia ser enterrada a adivinha — Não suportaria te perder, sobre tudo agora que vamos nos casar — mordeu ansiosamente o lábio inferior — E tenho medo por ti, porque quem sabe o que estarão tramando os Foscarelli?

— Por favor, não se preocupe, Ana. Estamos de sobre aviso.

— Sei, mas mesmo assim, como disse Dukker, Madame Polgar também o estava e morreu. Ainda não posso acreditar. Para falar a verdade, dava-me um pouco de medo, como à minha mãe. Mas, mesmo assim, por estranho que pareça, vou sentir sua falta.

— Eu também. Acredito que sabia muito mais sobre os Filhos de Isis que nós e, como ela mesma disse, poderíamos ter unido nossas forças para encontrar o Coração de Kheperi. Mas agora já é muito tarde para isso.

— Que morte tão estranha, Collie! Morrer durante a sessão de espiritismo! Confesso que após me perguntei se essa esmeralda maldita não terá a culpa. Oh, Collie, talvez deveria abandonar sua busca, senão pode ser que signifique também sua morte.

Malcolm negou com a cabeça resolutamente.

— Não, não posso fazer isso, Ana. Nem sequer por ti. Se não, a maldição que essa esmeralda lançou sobre o clã Ramsay persistirá. Recairá sobre nossos filhos, Ana. E os filhos do visconde Ugo sem dúvida se converterão em inimigos dos nossos, e este círculo vicioso não terá fim. Seu pai e o meu deram suas vidas tentando impedir que isso acontecesse. Embora eu também fracasse, devo acaso renunciar a proteger a nossos filhos?

— Non, non, claro que não — Ariana se ruborizou ao lhe ouvir falar de seus futuros filhos — Não tinha pensado. Suponho que, com tudo o que passou, eu... não pensei de verdade no futuro.

Entretanto, de repente, desejava fervorosamente ter o dom da clarividência, como Madame Polgar, e ver com claridade o que lhes proporcionava o futuro. Mas, ao contemplar o cemitério, só viu névoa e chuva e, a curta distância, enquanto os véus da bruma abriam passo a cripta de tijolo que ia receber os restos mortais da adivinha. Ao ver suas fauces escuras e ameaçadoras, estremeceu involuntariamente e sentiu de repente que aquele sepulcro esperava a ela.

Muito por cima de lorde Lucrezio Foscarelli, visconde Ugo, abatia-se o anjo de pedra lavrada que tocava seu trompete sem emitir som algum: um sinistro clamor cuja muda advertência não podiam ouvir os simples mortais reunidos no cemitério de Kensal Green. Mas ele o percebia, e um sorriso altivo curvou seus lábios. A diferença daqueles que espiava, ele era um dos imortais. Ou o seria, assim que seu pai, o conde lorde Vittore Foscarelli, e ele descobrissem o esconderijo do Coração de Kheperi. Durante um século, desde que se fez conhecida a existência da legendária esmeralda, a posse do amuleto tinha escapado à família. Mas ele, lorde Ugo, não fracassaria em seu empenho, como seus predecessores. Ele sairia vitorioso, e dominaria o imenso poder da pedra que lhe concederia a vida eterna. Seu pai lhe tinha inculcado aquela obsessão desde menino e lhe tinha ensinado a tratar sem escrúpulos a todos aqueles que pretendessem se apoderar do tesouro. Como Madame Polgar.

Seu pai e ele tinham investido grande quantidade de tempo e esforço para seguir a pista da adivinha, com a que por fim tinham dado através do rastro de sua avó escocesa, lady Sibyl Macbeth, descendente de um dos membros originais dos Filhos de Isis. Inesperadamente, tinham descoberto que Madame Polgar tinha emigrado uns meses antes para Inglaterra, a Londres, e tinha idealizado um plano para sequestrá-la. Mas nem sequer as ameaças e os golpes tinham bastado para tirar daquela velha bruxa o paradeiro do crucifixo que sem dúvida tinha escondido em alguma parte. Assim lorde Ugo a tinha encerrado em Bedlam, onde pensava retê-la até que lhe desse a informação que desejava. Mas o anão tinha escapado das mãos de seus homens e as tinha engenhado para resgatá-la, desbaratando desse modo seus planos.

Escondido atrás de um enorme sepulcro de pedra coroado por um anjo, lorde Ugo olhava com o binóculo o grupo reunido em torno da cripta de tijolo de Madame Polgar, e Dukker em particular, com os olhos negros e venenosos entreabertos e a boca crispada pela ira. O anão pagaria por sua intromissão, disse a si mesmo em silêncio. Sobre tudo, porque a adivinha tinha morrido se lhe revelar onde a cruz estava escondida. Se não fosse por isso, lorde Ugo teria se alegrado de que a velha bruxa tinha morrido, pois, apesar de si mesmo, seus penetrantes olhos amarelos, semelhantes aos de um falcão, e suas estranhas e fatalistas predições lhe davam calafrios. Seu pai ria dos augúrios de Madame Polgar e insistia em que não era mais que uma velha impostora. Mas lorde Ugo não estava tão seguro e, para ser franco consigo mesmo, tinha que admitir que, embora tivesse jogado por terra seus planos, sua morte lhe produzia certo alívio.

Lorde Ugo se inteirou da morte da adivinha pela marquesa de Mayfield, a que tinha ido ver uns dias antes.

— A morte de Madame Polgar foi muito inesperada. Um ataque do coração, entendi — lhe havia dito a marquesa — Acredito que vão enterrá-la em Kensal Green. Pergunto-me por que não repatriaram seu corpo. Entendi que procedia de um desses principados romenos... como se chama? Valaquia? Moldávia? Transilvânia? Quem pode recordar as todos?

— Quando é o funeral? — tinha perguntado lorde Ugo, fingindo um interesse superficial no assunto.

— Na sexta-feira pela tarde, às três. Mas, como levava menos de um ano vivendo em Londres e tinha poucos amigos aqui, acredito que será uma cerimônia muito íntima e simples.

Depois daquilo, lorde Ugo só precisava confirmar os pormenores nos escritórios do cemitério de Kensal Green em Great Russell Street e assegurar-se de chegar ao campo santo antes do cortejo fúnebre para averiguar com que amigos contava Madame Polgar em Londres. Para evitar que lhe descobrissem, vestiu-se com roupas de luto para confundir-se com as pessoas que visitavam o cemitério àquela hora, pois era improvável que o enterro de Madame Polgar fosse o único que se celebrava essa tarde. Tinha dado ordem a seu chofer de esperá-lo em Harrow Road e se aproximou a pé do cemitério, levando um buquê de flores para que parecesse que ia apresentar seus respeitos a algum parente ou amigo morto. Uma vez além das portas de Kensal Green, tinha inspecionado cuidadosamente o cemitério e eleito um esconderijo no alto de um prado em pendente, desde cuja altura podia ver com os prismáticos quase todo o campo santo.

Agora, enquanto percorria com o olhar ao pequeno grupo de parentes reunidos em torno da cripta de Madame Polgar, deteve-se de repente, preso de estupor e incredulidade. Com uma mão que lhe tremia ligeiramente, tirou de seu bolso um fino lenço de linho e limpou as lentes embaçadas do binóculo; logo ajustou as lentes para assegurar-se de que estavam bem focadas e voltou a olhar pelos visores, convencido já de que as lentes não lhe tinham enganado.

Ali estava lady Christine Fraser, a que conhecia há bastante tempo, e, junto a ela, mademoiselle Ariana Lévesque, a qual tinha atraído seu interesse durante o baile de disfarces da marquesa de Mayfield porque lhe recordava vivamente a alguém. Do outro lado de Christine se achava um homem alto e moreno ao que não conhecia e, junto à Ariana, o jovem que lorde Ugo teria reconhecido em qualquer parte. Era seu inimigo, Malcom Ramsay! Estava seguro disso! Há anos, nas Terras Altas, passou-se incontáveis dias solitários nas almenas do castelo de Dúndragon, vigiando aquele menino, tão solitário como ele, que estava acostumado a sair para pescar pelo lago Ness. Algumas vezes tinha imaginado que o moço e ele ficavam amigos, mas seu pai lhe tinha proibido categoricamente que brincasse com os meninos das aldeias próximas, alegando que não eram companheiros adequados para o único filho do conde Foscarelli. Logo, à manhã seguinte do incêndio de Whitrose Grange, a fazenda que se elevava na ribeira leste do lago, onde vivia o menino, o pai de lorde Ugo lhe tinha informado que o moço ao que conheciam como Malcolm MacLeod era na realidade um Ramsay e, portanto, seu inimigo.

— Os Ramsay estiveram aqui, nos espiando, desde o começo, Lucrezio — lhe havia dito seu pai, encolerizado — Pretendem recuperar o castelo de Dúndragon e roubar a esmeralda antes que possamos encontrá-la. Por sorte descobri antes que fosse muito tarde e os matei, como eles nos teriam matado se não tivesse estado em guarda.

— Estão todos mortos? Inclusive o menino? — tinha perguntado lorde Ugo, um pouco assombrado.

— Sim, sim, não acabo de dizer? — tinha respondido seu pai com impaciência — Ontem à noite fui a Whitrose Grange e enfrentei o pai, Alexander Ramsay, e também ao homem que acredito era seu primo, Charles de Ramezay, enquanto os outros dormiam. Discutimos e brigamos. Matei os dois e um abajur que ardia na mesa de Ramsay caiu e incendiou a casa. Não pode ter escapado ninguém. Os outros devem ter morrido em suas camas.

— O senhor Ramsay... usava o crucifixo?

— Não. Assim, ou não o herdou, ou o tinha escondido em alguma parte em Whitrose Grange.

Depois do café da manhã, o pai de lorde Ugo e alguns homens tinham cruzado o lago para registrar a fazenda, mas não tinham encontrado nada entre suas ruínas ainda fumegantes. O lugar estava deserto e não havia rastro da cruz por nenhuma parte.

— E se o crucifixo de Ramsay se perdeu para sempre? — tinha perguntado lorde Ugo à volta de seu pai — Como encontraremos então o Coração de Kheperi?

— Não sei — tinha respondido seu pai com o cenho franzido — Pode que Ramsay não tivesse uma das cruzes, afinal de contas, ou pode que o crucifixo esteja em outro lugar. Não devemos nos render, e seguir procurando.

— Mas pai devemos confrontar o fato de que, a parte que deixou a seus descendentes nosso antepassado, lorde Bruno Foscarelli, nossa família só conseguiu recuperar dois crucifixos mais do século passado.

— Isso é porque não sabíamos onde procurar. Mas cada geração de nossa família continuou esta busca e sempre conseguiu averiguar algo que seus predecessores não sabiam. Um dia venceremos, como acabamos de vencer nossos adversários. O menino de Ramsay e seus duas primos, os Ramezay, eram os últimos de sua linhagem. E pereceram ao fim!

Ou isso tinha acreditado seu pai. Mas agora lorde Ugo sabia que não era assim. Malcolm e sua mãe, pois sem dúvida era ela a senhora que permanecia a seu lado, tinham conseguido escapar de algum modo do incêndio de Whitrose Grange. Aquela certeza desencadeou no interior de lorde Ugo um fluxo de lembranças a muito tempo esquecidas e até então nebulosas e, ao voltar a fixar as lentes no homem alto e moreno e em Ariana, que ao lado de Christine, compreendeu de repente a quem lhe recordava Ariana: à mulher da fazenda que seu pai tinha identificado como a tia de Malcolm, Katherine de Ramezay! E o homem alto e moreno se parecia sem dúvida a seu defunto primo, Charles de Ramezay. Assim tinham que ser os primos de Malcolm! Lorde Ugo quase não pôde acreditar. Durante mais de uma década tinha acreditado desaparecidos os adversários de sua família, consumidos pelas chamas que assolaram Whitrose Grange. Ao perceber que, pelo contrário, estavam vivos foi como um golpe que o deixou aniquilado, como se um oponente invisível lhe tivesse tirado de repente a respiração de um murro. Durante um momento esteve respirando com aspereza, laboriosamente, apoiado contra o mausoléu que se levantava atrás dele, enquanto as engrenagens de sua mente giravam furiosamente. Logo, ao fim, obrigou-se com esforço a refazer-se e enfocou de novo o binóculo nas pessoas reunidas ante a cripta de tijolo da adivinha.

Durante a Revolução Francesa, um sem-fim de membros da nobreza e o clero francês tinham fugido do país e procurado refúgio na Inglaterra. Muitos deles se instalaram em Londres, de tal modo que, ao iniciar o novo século, a cidade contava já com cinco arcebispos, vinte e sete bispos e cincos mil sacerdotes católicos, com suas respectivas congregações. Como consequência da enorme influência dos católicos franceses, fez-se necessário estabelecer lugares de culto para eles, e tinham construído oito capelas em Londres para seu uso. Em 1814, quando a maioria dos exilados foram repatriados, enclausuraram-se todas as capelas menos uma, a de São Luis, em Little George Street. Esta capela, fundada em 1799 e batizada posteriormente com o nome de Capela Real da França, tinha continuado aberta e era atendida por sacerdotes franceses. Foi um deles, o padre Gérard Saint-Clair, quem oficiou o funeral de Madame Polgar. Dukker tinha informado a Ariana de, sua chegada a Londres, depois de saber que o padre Gérard estava aparentado não só com os Saint-Clair da França, mas também com os Sinclair da Escócia, Madame Polgar se interessou vivamente pelo ancião clérigo e tinha pedido que fosse ele quem celebrasse seu funeral.

No princípio, para mortificação dela, Ariana, que se achava sumida em seus sonhos, apenas tinha prestado atenção ao padre Gérard. Mas, ao fim de um momento, enquanto permanecia de braço dado com Malcolm com a cabeça agachada para ocultar seus pensamentos, começou a notar que seu noivo parecia rígido, preso pela tensão, e tinha o olhar cravado no velho sacerdote. Ao ver que Malcolm estava concentrado na cerimônia, ruborizou, envergonhada, por ter permitido que sua mente vagasse, e se obrigou a fixar sua atenção no padre e no funeral. Foi só então quando viu o que tinha chamado a atenção de Malcolm, e deixou escapar um gemido de surpresa, tão assombrada como se de repente lhe tivessem dado uma bofetada.

Ao ouvir que continha a respiração, Malcolm a apertou com mais força. Mas, mesmo assim, a Ariana custou a ficar quieta, pois, para seu assombro, o padre Gérard tinha pendurado ao redor do pescoço um elaborado crucifixo de prata que parecia uma réplica exata dos quatro guardados no compartimento secreto do escritório de seu pai. Fez ameaça de falar, mas Malcolm sacudiu imperceptivelmente a cabeça, e Ariana mordeu a língua e ficou em silêncio. Mas, mesmo assim, não pôde resistir a tentação de levantar o olhar para Malcolm e logo para todos os presente para ver se tinham reparado na cruz que o sacerdote luzia audazmente sobre o peito e que emitia um leve fulgor à luz cinzenta do inverno que penetrava sob o dossel de guarda-chuva negros que sustentavam os empregados para proteger da chuva os assistentes do funeral. Ariana suspeitava que seu pai também tivesse visto a cruz, mas não estava do todo segura, pois sua tia Elizabeth e ele estavam consolando sua mãe, que chorava copiosamente, como sempre fazia nos funerais, e que não cessava de murmurar «a pauvre Madame Polgar» uma e outra vez.

Com o coração acelerado pela agitação nervosa e a apreensão, Ariana permaneceu sob o dossel de guarda-chuva. Seus pensamentos tumultuosos eram ainda mais caóticos que antes. Perguntava-se o que fariam Malcolm e Nicolas. Não podiam abordar o padre Gérard e lhe arrancar o crucifixo ali mesmo, ante a tumba da adivinha, pensou. Assim, o que aconteceu a seguir a pegou completamente de surpresa. Quando por fim os oitos pajens que levavam o ataúde tiraram o pano mortuário de veludo negro do féretro de Madame Polgar e o dobraram cuidadosamente, depois do qual levantaram o ataúde para colocá-lo dentro da cripta de tijolo, Dukker proferiu de repente um grito angustiado e se equilibrou, preso pela histeria, sobre o sacerdote.

— Non, non! Não pode enterrar Madame! Não pode! Não está morta! Não pode ser! Ela vive! Vive! Terá que abrir o ataúde em seguida! Asfixiará-se aí dentro!

Ante os olhares horrorizados dos assistentes, que permaneciam paralisados, Malcolm e Nicolas se apressaram a apartar ao anão do padre Gérard, ao que Dukker se aferrava tenazmente enquanto balbuciava e proferia lastimosos gemidos. Os dois jovens explicaram que Dukker estava afligido pela pena e se desculparam. Levaram-se logo a rastros o anão e desapareceram entre a névoa... e, com um sobressalto que lhe afrouxou os joelhos, Ariana viu que a cruz do sacerdote tinha desaparecido com eles.

         Planos de casamentos e outros

 

                     1848

                       Portman Square e Berkley Square, Londres, Inglaterra

— Como sabia Madame Polgar que o padre Gérard tinha um crucifixo?

Foi o senhor Quimbly quem formulou a pergunta que ocupava as mentes de todos.

O funeral da adivinha tinha terminado por fim e, embora as limusines fúnebres haviam devolvido à maioria em torno de sua tumba a suas respectivas casas, um grupo seleto e reduzido, formado pelos senhores Quimbly, Rosenkranz e Cavendish, tinha sido transladado à casa dos Lévesque em Portman Square. Ali tinham se reunido no salão para debater os acontecimentos dessa tarde e tomar o chá. Todos estavam ansiosos por saber o que tinha sido de Malcolm, o senhor Ravener e Dukker, pois, depois de desaparecer entre a névoa em Kensal Green, não voltaram a apresentar-se no cemitério, de modo que Ariana, Christine e suas respectivas donzelas se viram obrigadas a retornar a casa na carruagem sem eles. Ao chegar na casa dos Lévesque, entretanto, tinham descoberto que, depois de abandonar o cemitério, os três homens tinham alugado um carro em Harrow Road e tinham chegado a casa sem contratempos.

Dukker se achava sentado em silêncio em um canto. Mas, ao formular o senhor Quimbly sua pergunta, todos os olhos se voltaram inesperadamente para ele, procurando uma explicação.

— Madame Polgar — disse por fim o anão — foi muito afortunada, pois conseguiu descobrir certos dados a respeito da ordem dos Filhos de Isis e o mistério do Coração de Kheperi que acredito que vocês desconhecem. Como já lhes disse, um antepassado da avó de Madame Polgar, lady Sibyl Macbeth, fazia parte da ordem dos Filhos de Isis. Este dado em particular se transmitiu de geração em geração no seio do clã Macbeth, muitos de cujos membros tinham o dom da «segunda visão», como eles o chamam, a capacidade de predizer o futuro, que a própria Madame Polgar herdou. O dom da clarividência tinha aparecido no clã Macbeth na Idade Média, quando um de seus membros, lorde Hunter Macbeth, conde de Bailekair, filho de um Macbeth e de uma cigana romaní, casou-se com lady Mary Carmichael, a que muitos consideravam uma bruxa, pois possuía a «segunda visão». Assim, desde essa época, o clã Macbeth compreendia os poderes que à maioria de nós nos escapam. Madame Polgar sabia também por sua avó que tanto lorde Bailekair como sua esposa, que era prima longínqua dela, tinham uns olhos extraordinários, da cor das ametistas — o anão se deteve e os outros se voltavam de repente para olhar Ariana, presa de estupor. Ao fim de um momento, Dukker continuou dizendo — Oui. Verão, a razão de que os de mademoiselle Ariana sejam dessa mesma cor é que, como Madame Polgar sabia por sua avó, lorde Robert Roy Ramsay, o conde de Dúndragon que fundou a ordem dos Filhos de Isis, casou-se com uma dama do clã Macbeth, irmã do membro do clã que foi um dos irmãos da ordem dos Filhos de Isis. Por isso, quando Madame descobriu que Monsieur Valcoeur era primo de Monsieur Charles de Ramezay, conde de Jourdain, e soube pela velha babá de Valcoeur que Madame Valcoeur não podia ter filhos, compreendeu que mademoiselle Ariana tinha que ser na realidade a filha perdida dos Ramezay, e, portanto, descendente direta de lorde Dúndragon e de sua esposa, a do clã dos Macbeth. Mas o que tem tudo isso que ver com o padre Gérard de Saint-Clair? Sei que o estão perguntando. Tenham paciência e logo saberão. Como todos sabem — prosseguiu o anão —, depois da morte de seu marido, no exílio, Madame Polgar decidiu dedicar-se a viajar e, depois de percorrer muitos países, estabeleceu-se por fim na França. Para então, tinha gasto muito dinheiro estudando os ocultos e as ciências esotéricas, e tinha aprendido muito sobre ordens como a dos cavalheiros templários, assim sabia que, quando a ordem foi desmantelada na França, muitos de seus membros fugiram para a Escócia, onde há muito tempo tinham vínculos com diversos clãs; entre eles, o dos Sinclair, um de cujos membros, sir William Saint-Clair, tinha construído uma estranha capela esotérica não muito longe da sua casa, o castelo de Rosslyn. Madame pensou então que, se as pessoas tivesse vivido na Escócia durante os séculos XVII e XVIII e tivesse querido fundar uma nova ordem, com toda probabilidade lhe teria pedido a um Sinclair que fizesse parte dela, pois, como os Macbeth, os Sinclair estavam imbuídos do conhecimento dos ocultos e as ciências esotéricas. Madame sabia, além disso, que, como os Ramsay, que procediam dos Ramezay normandos da França, os Sinclair tinham sua origem nos Sancto Claros ou Saint Clair da Normandia, também franceses, e que, como os Ramsay e os Ramezay, os Sinclair e os Saint-Clair se mantiveram unidos por laços de sangue e matrimônio. Talvez agora as coisas comecem a esclarecer-se um pouco, non? Enquanto estava na França, Madame se propôs encontrar o rastro dos Sinclair e os Saint-Clair que tinham cruzado o canal em um sentido e em outro, e ao final suas pesquisas a conduziram até o pai Gérard Saint-Clair. Ignoro se o padre conhece o significado do crucifixo, embora Madame acreditasse que não. Entretanto, quando lhe disse que colecionava cruzes e se ofereceu para comprar a sua, o padre Gérard não quis separar-se dela, alegando que era antiga e tinha grande valor sentimental para ele. Eu a teria roubado antes, mas o padre a usa sempre e, como é tão velho e apenas sai da capela, não tive ocasião de lhe tirar o crucifixo. Esta tarde, entretanto, vi minha oportunidade e, embora sem dúvida suspeitará de mim, não pode demonstrar que eu o roubei — disse o anão com satisfação — Em realidade, se seriamente ignorar a importância do crucifixo, acreditará que simplesmente o perdeu de caminho ao funeral e nem sequer suspeitará de mim. O que opina você, mademoiselle Ariana?

— Acredito que se arriscou muito, Dukker — respondeu ela com o cenho franzido — Se lhe tivessem apanhado, e diante de tantas testemunhas... O padre Gérard teria insistido em chamar à polícia e teria acabado você na prisão.

— Mas não foi assim. E Madame Polgar estaria muito orgulhosa de minha astúcia. Sei que é o que ela teria desejado que fizesse, pois por esse motivo pediu que fosse o padre Gérard quem oficiasse o funeral, para lhe fazer sair da Capela Real da França e me dar a ocasião de lhe arrebatar o crucifixo — o anão, que uns minutos antes estava exultante, parecia de repente abatido e molesto.

— O que preocupa a minha irmã é o que teria ocorrido a você, Dukker — disse o senhor Ravener para apaziguá-lo — demonstrou ser um complemento imprescindível em nossa pequena conspiração, e não queremos perdê-lo. Demonstrou você grande astúcia e valentia ao roubar a cruz — se deteve um momento enquanto brincava com o crucifixo roubado, que sustentava na mão — Este é o crucifixo número cinco, por certo, e na parte de trás tem «II Crônicas, 3:17». Esse versículo da Bíblia diz: «Estas colunas as erigiu no átrio do templo, uma à direita e outra à esquerda: a da direita a chamou Jachin, e a da esquerda Booz».

— Bom, isso parece bastante claro — disse com vivacidade o senhor Cavendish, agitando seu cachimbo enquanto falava — Parece que o Coração de Kheperi se encontra escondido em um templo de alguma classe. Talvez em umas ruínas romanas ou celtas.

— Não sei por que está tão seguro, Bonny — comentou, irritado, o senhor Rosenkranz — Nenhuma das passagens bíblicas das outras cruzes parece indicar nada pelo estilo.

— Não? E o que me diz dessa que se refere a uma lacuna, Jacob? É bastante frequente encontrar uma lacuna em um templo, sabe.

— Sim, Bonny — disse o senhor Quimbly — mas o que Jacob quer dizer é que as passagens bíblicas dos outros crucifixos se referem... bom, a coisas intangíveis, a falta de uma palavra melhor. Oferecem informação, «sou o Alfa e o Omega» e coisas assim, mas não dizem em realidade nada que indique o lugar concreto onde está escondida a esmeralda.

— Mas alfa e omega são letras gregas, que podem achar-se gravadas nas pedras de um templo — insistiu o senhor Cavendish com entusiasmo.

— Pode que o senhor Cavendish tenha razão — disse Madame Valcoeur com indecisão — Mas todas estas pistas são tão estranhas e vagas que em minha opinião não têm nem pés nem cabeça.

— Temo-me que tem razão, Ma chére — Monsieur Valcoeur deixou escapar um profundo suspiro e se levantou de sua poltrona — vou trazer as outras cruzes. Talvez, se as virmos todas juntas, nos ocorra algo — o conde saiu do salão e retornou depois de um momento, deixando as cruzes sobre uma mesinha de cartas que havia a um lado da habitação — Sugiro que nos reunamos todos a seu redor e somemos nossos esforços para ver o que nos ocorre.

Durante mais de uma hora, Malcom e Ariana, o senhor Ravener e lady Christine, os condes de Valcoeur, a senhora Blackfriars e os senhores Quimbly, Rosenkranz e Cavendish, e Dukker, o anão, estiveram observando os crucifixos com toda atenção. De vez enquando liam em voz alta os versículos da Bíblia aos que faziam referência as inscrições da parte de trás das cinco cruzes e anotavam as idéias que lhes ocorriam, por descabeladas que fossem. Mas, ao finalizar seu escrutínio, reunidos no salão se viram obrigados a admitir a contra gosto que estavam tão longe de resolver aquele quebra-cabeças como ao princípio.

Ao sair do cemitério de Kensal Green, o visconde Ugo retornou tão rápido como pôde a imponente mansão que compartilhava com seu pai, o conde lorde Vittore Foscarelli, em Berkeley Square. Uma vez ali, desceu de um salto da carruagem negra em que tinha ido ao cemitério e correu dentro da casa, chamando a gritos seu pai, ao que por fim encontrou em seu escritório.

— Enganaram-nos, pai! E não só essa velha bruxa da Madame Polgar! — gritou a seu pai enquanto passava a mão pelo cabelo negro e se andava pela habitação como um tigre enjaulado.

— O que quer dizer, Lucrezio? — o conde, que estava sentado em seu escritório, inclinado sobre uns documentos, com uma pluma na mão, levantou o olhar e observou com o cenho franzido seu filho — Madame Polgar está morta. E não nos enganaram.

— Sim, isso foi o que disse sobre Malcom Ramsay e seus primos, Nicolas e Ariana. Que estavam mortos, que se queimaram no incêndio de Whitrose Grange. Mas estão vivos! E também a mãe de Malcom, Elizabeth Ramsay. Vi a todos com meus próprios olhos no funeral de Madame Polgar, pai! Pode que seja todo um estratagema para nos enganar, enquanto conspiram os cincos contra nós, como sem dúvida estão fazendo os últimos treze anos! Como pôde ser tão estúpido? Deveria ter te assegurar de que Malcolm e seus primos estavam mortos! Deveria ter matado Madame Polgar, em lugar de encerrá-la em Bedlam, de onde a resgataram seus aliados! Deu buono! Ouviu uma só palavra do que te disse, pai?

— Sim, sim, Lucrezio — resmungou o conde Foscarelli, recostando-se em sua cadeira. Lorde Ugo pensou que de repente parecia extremamente velho e gasto, e profundamente impressionado por suas notícias — Vivos, diz? Malcolm Ramsay, sua mãe e seus primos, vivos? Não entendo como pode ser. Whitrose Grange era um inferno quando fui, naquela noite. E, menos Alexander e Charles, aos que matei eu mesmo os outros estavam na cama. É impossível que escapassem das chamas!

— Pois escaparam — insistiu lorde Ugo com aspereza — Pode que nem todos estivessem dormindo. Quem sabe? O que importa é o presente. O que vamos fazer, pai? Está claro que os Ramsay e seus primos, os Ramezay, estão vivos e se aliaram contra nós. E lady Christine Fraser também estava com eles no funeral. É evidente que se uniu a eles. E quem sabe o que recordará sobre a morte de seus pais ou quantos aliados mais terão os Ramsay e os Ramezay? São certos os rumores que correm pela aldeia do castelo de Dúndragon? Houve algo ilegal na forma em que nosso antepassado, o conde lorde Bruno Foscarelli, obteve sua propriedade, pai? Há alguma possibilidade de que Malcolm se apodere do castelo de Dúndragon e tenha as mãos livres para procurar o Coração de Kheperi?

— Não, não acredito que a haja — o conde Foscarelli se repôs da impressão e seu cérebro trabalhava já a marchas forçadas; seus olhos negros, entreabertos, tinham uma expressão pensativa — Eu também levo anos ouvindo esses estúpidos falatórios. Desde que era um menino, na realidade. Não acredito que sejam mais que maliciosos rumores que fazem correr um punhado de aldeãos, ressentidos porque o castelo de Dúndragon esteja em mãos de italianos, e não de montanheses. Já sabe como são esses escoceses, como se unem como um abacaxi contra os forasteiros, sobre tudo se forem estrangeiros. Daria igual se levássemos ali mil anos em vez de cem, Lucrezio. Seguiríamos sendo intrusos para esses bárbaros. Acredite, se esses rumores fossem certos, sem dúvida os Ramsay o teriam averiguado faz tempo. Não, os Ramsay não podem demonstrar que nosso antepassado, o conde lorde Bruno Foscarelli, enganou a lorde Dúndragon jogando às cartas, e nunca se descobriu prova alguma de que lorde Dúndragon não tivesse direito a ficar com as propriedades dos Ramsay naquela partida de cartas. Assim que o que mais me preocupa neste momento é o que sabem os Ramsay e os Ramezay sobre o Coração de Kheperi... e quantos crucifixos conseguiram reunir. Nós temos três. Acredito que podemos dar por sentado que encontraram ao menos dois: o de Alexander Ramsay e o de Charles do Ramezay, pois é provável que nenhum dos dois se perdesse no incêndio de Whitrose Grange. Porque, se Malcom, sua mãe e seus dois primos escaparam do fogo, como parece, é muito possível que também salvassem as cruzes.

— E sem dúvida Madame Polgar, se é que essa velha bruxa seriamente está morta, deixou-lhes seu crucifixo, pai — disse lorde Ugo com veemência — Além disso, o velho sacerdote que oficiava o funeral, usava uma grande cruz de prata e, embora nem sequer com o binóculo pude vê-la com detalhe, observei que Dukker, o anão, roubava-a, o que me fez pensar que era um dos crucifixos da ordem dos Filhos de Isis, e que Madame Polgar descobriu seu paradeiro antes de morrer e cultivou a amizade desse velho cura para arrebatar-lhe.

— Isso são quatro, e pode que os Ramsay e os Ramezay tenham mais. Afinal de contas, tiveram treze anos para procurar sem obstáculos. Se é assim, levam vantagem. Temos que fazer algo, Lucrezio! Devemos procurar essas cruzes!

— Sim, pai — lorde Ugo assentiu, pensativo — E acredito que talvez haja um modo de conseguir...

 

Depois que Malcolm e o senhor Ravener conseguissem as licenças de matrimônio, os dois casamentos se celebrariam na igreja da Sagrada Trindade de Marylebone.

Na manhã do casamento, Ariana estava tão nervosa que não pôde provar o café da manhã que Fanny levou a seu quarto. Perguntava-se se Christine, que tinha voltado para casa de seus tios, lorde e lady Eaton, em Hanover Square, estaria tão agitada e confusa como ela.

O senhor Ravener e Christine tinham decidido não contar a lorde e lady Eaton a história do Coração de Kheperi para que não se alarmassem, e, para explicar o segredo de seu casamento, haviam-lhes dito que o senhor Ravener viajava incógnito por razões pessoais e não desejava que sua verdadeira identidade se conhecesse ainda na Inglaterra. Lorde e lady Eaton ficaram ligeiramente perplexos, mas as veladas referências dos senhores de Valcoeur aos «importantes assuntos familiares» aos que se achava entregue seu sobrinho, o senhor Ravener, conseguiram tranquilizá-los e, persuadidos de que Christine ia fazer um matrimônio extremamente vantajoso com um cavalheiro nobre e endinheirado, tinham dado por fim seu consentimento.

Acordou-se que as três famílias viajariam em carruagens separadas desde suas respectivas residências e se encontrariam na igreja e que, além de Dukker e as donzelas das senhoras, os únicos convidados que assistiriam seriam os senhores Quimbly, Rosenkranz e Cavendish.

Ariana afastou a bandeja do café da manhã, levantou-se e correu às janelas de sua habitação, que davam a Portman Square e ao parque da praça.

— Oh, Sophie! Espero que não comece a chover outra vez! — disse com ardor enquanto olhava pelos cristais embaçados pela névoa e a chuva.

— Pode que não chova até depois do casamento. Deveria comer algo, embora seja um pouco, mademoiselle. Se não ficará com fome e se enjoará.

— Non, estou muito nervosa para comer. Tenho que me beliscar para me convencer de que não estou sonhando, de que de verdade vou casar-me com Malcolm, Oh, Sophie! Apenas posso acreditar! Tenho a impressão de que a qualquer momento vou despertar-me e descobrir que estes últimos meses não foram mais que um sonho. E não poderia suportar! Até que Malcolm apareça na igreja, não deixará de me preocupar que ocorra algo espantoso que impeça que nos casemos. Acredito que não me livrarei deste medo até que o pároco nos declare marido e mulher.

Mas, apesar de seu nervosismo e seus temores, nada ocorreu durante o trajeto até a igreja e, embora a manhã transcorresse com insuportável lentidão, não passou na realidade muito tempo antes que se achasse vestida com seu formoso vestido de noiva, ante o sacerdote, com Malcom a seu lado. Junto a eles estavam o senhor Ravener e Christine, e atrás deles, nos bancos, achavam-se reunidos seus familiares e os escassos amigos aos que tinham convidado a compartilhar com eles aquele feliz dia.

Ao final, os dois casais intercambiaram seus votos. Logo a cerimônia acabou e Malcom e Ariana se acharam convertidos ao fim em marido e mulher. Mas Ariana continuava achando impossível inclusive quando retornaram a casa dos Lévesque para o banquete. Ali, durante sua ausência, salão tinha sido decorado com flores de inverno, e, além disso, do almoço que ia servir-se, havia sobre um aparador um alto bolo de casamento uma fileira de garrafas de champanha. Embora os convidados fossem poucos, o banquete transcorreu alegremente enquanto donzelas e empregados serviam pratos e taças e, um após o outro, os cavalheiros foram levantando-se para brindar pelos dois casais. Inclusive o senhor Rosenkranz se somou à alegria geral e levantou sua taça de champanha dizendo: «Mazel tov!», o qual significava, conforme lhes disse, «boa sorte».

Malcolm confiava em que, em efeito, tivessem boa sorte. Mas, como estavam presentes lorde e lady Eaton, que ignoravam a existência do Coração de Kheperi, não disse nada sobre a esmeralda perdida nem sobre os perigos que confrontavam o senhor Ravener, Christine, Ariana e ele.

Apenas podia acreditar que Ariana fosse sua esposa; que aquela formosa e sedutora mulher que permanecia sentada a seu lado fosse a linda garotinha com a qual tinha saído para pescar em seu barco, a Bruxa do mar, sobre as águas turvas do lago Ness, treze anos antes. Que caminho tão longo tinham percorrido desde aquela tarde outonal! Entretanto, teriam que ir muito mais longe se quisessem livrar-se da maldição do Coração de Kheperi. A Malcolm quase dava vontade de rir quando pensava que os Foscarelli fossem capazes de tomar-se tantas moléstias para apoderar-se da esmeralda e conseguir assim a vida eterna, enquanto que ele só ansiava tê-la em suas mãos para desfazer-se dela. Nenhuma só vez lhe tinha passado pela cabeça tentar dominar o poder da esmeralda e converter-se em imortal. Estava convencido, de repente, de que viver eternamente enquanto as pessoas às que amava morriam não podia ser mais que outra maldição, e a idéia de perder Ariana resultava insuportável. Desejava que nenhum deles tivesse ouvido falar nunca do Coração de Kheperi, que não tivessem que embarcar-se naquela infeliz busca. Mas em seu foro interno sabia que o único modo de assegurar o bem-estar de Ariana era encontrar a esmeralda e desfazer-se dela.

— Um penique por seus pensamentos, Collie — disse Ariana brandamente, tirando o de seu topor — Está tão sério que me pergunto o que estará pensando.

— Em ti, minha querida Ana — respondeu ele, obrigando-se a sorrir — E em como assegurar seu futuro.

— Oh, não falemos dessas coisas agora, Collie. Não pense nelas sequer. Só por hoje, não permitamos que essa maldita esmeralda lance sua lúgubre sombra sobre nós. Finjamos que não existe, que continua enterrada na tumba do supremo sacerdote egípcio ao que a arrebatou nosso antepassado, lorde Dúndragon. Pode que seja muito poderosa, não o nego. Mas nós temos poderes mágicos ainda maiores, Collie. O poder do amor! — declarou Ariana com veemência.

— Sim, tem razão, Ana. E devemos nos aferrar a ele, aconteça o que acontecer.

Não voltaram a falar durante um momento. Depois de concluir o excelente almoço e comer bolo e tomar champanha, madameValcoeur os conduziu a todos ao salão, que também tinha sido adornado com flores e onde se colocaram mesas de cartas, deixando espaço para dançar. Monsieur Valcoeur tinha contratado um pequeno conjunto musical para que tocasse e, dando umas palmadas para chamar a atenção dos presentes, insistiu em que os dois recém casados dançassem a primeira peça. Os noivos obedeceram, e continuaram os festejos. Ariana e Christine eram incapazes de refrear sua alegria e suas risadas enquanto dançavam com seus maridos pelo salão. Depois, como não havia suficientes damas, outros se alternaram para dançar, e Malcom pensou que fazia muitos anos que não via tão feliz a sua mãe, que, acalorada e sorridente, dançou primeiro com o senhor Quimbly e logo com o senhor Cavendish. Inclusive o senhor Rosenkranz se animou por fim a dançar, e seu semblante, geralmente tão severo, parecia iluminado por uma desacostumada alegria.

A tarde passou em um suspiro e logo se precipitou para o acaso. Com o cair da noite, os convidados começaram a partir, embora a contra gosto. Por fim, só ficaram os familiares mais próximos. Depois do jantar, Ariana e Christine se foram discretamente aos apartamentos que Madame Valcoeur fez preparar para os recém casados na casa de Portman Square.

— É melhor que comecem sua vida de casadas em habitações que não tenham pertencido a nenhuma de vocês antes — lhes tinha explicado — Assim seus maridos não terão a sensação de que são intrusos em seus aposentos de donzelas.

Agora, entretanto, enquanto permanecia sozinha no apartamento que a condessa lhes tinha atribuído a Malcolm e a ela, Ariana quase desejava estar em seu antigo quarto, onde tudo lhe resultava familiar, e se perguntava se Christine, cujo quarto se achava ao outro lado do corredor, sentia o mesmo. De improviso compreendeu que aquele era o verdadeiro fim da infância e o princípio de sua maturidade como mulher, que se achava ante uma soleira transcendental do qual não haveria volta atrás depois daquela noite. Aquela idéia a assustava e ao mesmo tempo a enchia de gozo. Pela primeira vez percebia que, em muitos sentidos, embora fosse seu primo e o conhecia desde a infância, Malcolm era um desconhecido para ela. Além de trabalhar na loja de mapas, como tinha passado os treze anos de sua separação, perguntava-se agora. Sua discrição lhe tinha impedido de lhe fazer excessivas perguntas. Mas agora se perguntava se tinha se deitado com outras mulheres, como se deitaria com ela essa noite; se as tinha estreitado entre seus braços, beijado e amado. À medida que estas perguntas se agitavam em sua cabeça, começaram a apoderar-se dela ciúmes ferozes, mesclados com incerteza, e mordeu o lábio inferior, presa pela ansiedade. Tinha uma idéia muito rudimentar do que se esperava de uma mulher em sua noite de núpcias. Daí que se sentisse acossada pela curiosidade e pela inquietante possibilidade de que Malcolm a comparasse com suas outras amantes e a encontrasse carente de atrativos.

De repente alguém bateu na porta, tirando Ariana de seus pensamentos. O coração lhe deu um tombo. Logo a porta se abriu e apareceu Sophie.

— Vim ajudá-la a arrumar-se, Madame — disse a donzela.

— Ah, Sophie, que estranho soa que me chame Madame!

— Mas agora é uma senhora casada, assim devo chamá-la. Estou tão contente de que ao final tenha podido casar-se com o Monsieur Malcolm... ! Espero que sejam os dois muito felizes juntos.

— Merci, Sophie. Sei que vamos ser.

Depois de tomar um banho, Ariana retornou ao dormitório, onde Sophie a ajudou vestir a camisola e a bata e lhe escovou o cabelo. Logo, Ariana ficou de novo sozinha no quarto, com o pulso acelerado e o estômago cheio de mariposas, sentada em frente a penteadeira, onde Sophie a tinha deixado. Ao fim de um momento voltaram a chamar brandamente à porta, e esta vez, quando a porta se abriu, foi Malcolm quem entrou. Ariana se levantou de um salto, derrubando o tamborete da penteadeira.

— Oh, mon Dieu! — exclamou, e endireitou o assento com mãos trêmulas. Um instante depois, percebeu que Malcolm estava a seu lado, ajudando-a a colocar o tamborete. Logo ele tomou uma de suas mãos trêmulas a apertou brandamente.

— Não tenha medo, Ariana. Não vou fazer te dano — disse.

Ela assentiu lentamente.

— Sei. É só que... que me sinto tão jovem e tão... tão ingênua. Não quero te defraudar, Collie.

— Oh, Ana — ele sorriu com ternura — Acaso não sabe que jamais poderia me defraudar? É tudo que tinha sonhado... e mais.

Malcolm a abraçou e, ao atraí-la para si, Ariana pensou que nunca se havia sentido tão segura e amada. Era como se Malcolm tivesse tecido a seu redor um casulo para protegê-la do mundo. Fora soprava o vento invernal, carregado de uma bruma fantasmal que atravessava os jardins da parte de trás da casa, e a chuva tamborilava nas janelas. As árvores nuas se estremeciam, geladas, e as folhas marrons caíam de seus ramos para girar e dançar com cada sopro de vento, rangendo como ossos velhos, até que se somavam por fim à empapada folhagem para apodrecer-se sobre a terra cheirosa. Mas dentro tudo estava quieto e calado, a não ser pelo crepitar do fogo na lareira e o tamborilar do coração de Ariana. Malcolm continuou abraçando-a como se fosse uma menina enquanto lhe acariciava o cabelo e lhe falava com doçura.

Ariana, entretanto, não era uma menina. Era uma mulher adulta e, apesar de seus temores, desejava a seu marido. Levantou o olhar para ele e pode ver que seus expressivos olhos cor ametista revelavam seus mais íntimos pensamentos e desejos, pois nenhum outro homem a tinha olhado nunca como Malcolm a olhava nesse instante, como se tivesse a certeza de que, uns minutos depois, iria possuí-la intimamente, por completo, e de que depois pertenceria só a ele irrevogavelmente, pelo resto de sua vida. Ao cobrar consciência disso, Ariana sentiu que ficava sem respiração, e um ardor delicioso e de lenta combustão que rara vez tinha experimentado antes se inflamou no centro de seu ser e se difundiu como uma febre por todo seu corpo, fazendo-a tremer com uma mescla de temor e espera. Pois, face às palavras tranquilizadoras de Malcolm, ainda não sabia o que esperar dele. O pulso de sua delicada garganta batia as asas erraticamente. A boca ficou seca e seus lábios se abriram. Tirou a ponta da língua para umedecê-los lábios. Um gemido suave e incoerente escapou de sua garganta enquanto, lentamente, seu corpo se balançava contra o de Malcolm, miserável inexoravelmente por aquele sentimento que tomou conta dela de forma tão repentina e feroz, e que a atraía irresistivelmente para suas escuras labaredas primitivas.

Suas mãos, que pareciam ter vida própria, rodearam o pescoço de Malcolm. Tremendo incontrolavelmente, levantou o rosto para ele e Malcolm a beijou com firmeza e engoliu não só seu fôlego, mas também seu leve gemido de incerteza e prazer. Logo, ao fim de um momento, os lábios de Malcolm pousaram ligeiros e rápidos como asas de mariposa, sobre sua boca, suas pálpebras, suas têmporas e as mechas de seu cabelo. Seus dedos se introduziram entre a lustrosa cabeleira negra de Ariana e se deslizaram sobre seus ombros para lhe tirar o robe de seda que usava e que caiu com um leve sussurro ao chão, formando a seus pés uma poça. Ariana se sentia também como se estivesse se desfazendo, desarticulada e derretida, e a surpreendia vagamente de achar-se ainda de pé e não haver-se convertido em um atoleiro no chão. Enquanto em um escuro canto de sua mente pensava isto, sentiu que Malcolm lhe acariciava os seios e notou que seus mamilos se endureciam e se arrepiavam, apertando-se contra o sutiã da camisola e as palmas de Malcolm, que se deslizavam sobre seus seios com leveza e roçavam sedutoramente a seda da camisola sobre suas pontas eretas. Do centro de seus mamilos, o prazer irradiava em círculos e se difundia por todo seu corpo, e seus peitos se incharam e se crisparam como nunca antes.

Os lábios de Malcom eram doces e sensuais. Suas mãos, firmes e sutis, teciam sobre ela um feitiço mágico ao que Ariana se entregava voluntariamente, abrindo a boca como um casulo coberto de rocio a ele, enquanto seus dedos se abriam e se fechavam sobre o corpo fibroso de Malcolm, tão distinto ao dela, apalpando a poderosa musculatura que vibrava e se estremecia sob sua carne. Era tão alto e forte que Ariana se sentia pequena e frágil entre seus braços, como se fosse uma flor que ele podia dobrar ou romper a vontade. Perguntava-se nebulosamente se, quando chegasse o momento, arrebataria-lhe a castidade com a mesma facilidade. Estremeceu-se um pouco ao pensá-lo e ele, adivinhando seus renovados temores, abraçou-a com mais força como se fosse um animalzinho assustado e Ariana fosse fugir e lhe negar o que tanto desejava.

Malcolm a levantou em braços e a depositou sobre a cama com dossel que ocupava o centro do quarto. Despojaram-se de suas roupas sem saber como e se abraçaram, nus. O peso de Malcolm esmagou Ariana sobre o colchão de plumas. Passou um tempo sem que Ariana o notasse. Malcolm continuou acariciando-a e beijando-a. Sua voz era cada vez mais ávida e suas mãos cada vez mais audazes. O calor de sua língua a abrasava por toda parte e seus dedos se deslizavam sobre ela com destreza, despertando nela excitação e desejo, emoções e sensações deliciosas cuja existência ela desconhecia. Ela, a sua vez, regozijava-se na fragrância masculina, o tato e o sabor de Malcolm, que cheirava a sândalo, a tabaco e almíscar. O pêlo negro que salpicava seu peito era muito fino e suave; suas largas costas eram como o cetim; suas robustas coxas pareciam de ferro. Seu gosto era do champanha que tinham bebido, e Ariana se sentia tão embriagada por ele como se o doce e espumoso vinho lhe tivesse subido à cabeça. Cheia de ansiedade, explorou seu corpo, cada linha e plano e se apoderou dele como Malcolm do dela.

E logo, finalmente, Malcolm se colocou sobre ela e Ariana sentiu a aguda e doce dor de se converte de uma donzela em mulher, e a um homem em conquistador. Ela deixou escapar um leve gemido de surpresa, pois, apesar tudo o que lhe haviam dito, nada a tinha preparado para aquilo: para aquela absoluta invasão e para sua igualmente completa rendição a uma união destinada a convertê-los em um só. Ficaram juntos, peito contra peito, coxa contra coxa, sem espaço entre eles. As mãos de Malcolm estavam debaixo dela e lhe arqueavam os quadris para sair ao encontro dos seus até que, de repente, o mundo começou a girar e se dissolveu, e Ariana e ele se precipitaram no vazio escuro e cego, aferrando-se um ao outro enquanto se elevavam e voltavam a cair.

         O Coração de Kheperi

 

                     1848

                     Londres, Inglaterra, e as Terras Altas de Escócia.

Um par de dias depois das núpcias, Jacob Rosenkranz e Boniface Cavendish se apresentaram inesperadamente à hora do almoço na Quimbly & Company. Ao ver Malcom sentado com Harry, Jem e Tuck ao redor da lareira, comendo, saudaram-os com afeto e pediram para ser levados imediatamente ante o senhor Quimbly.

— Temo que não está aqui — lhes explicou Malcom — Vai almoçar em casa todos os dias.

— Vê, Bonny? O que te disse? — o joalheiro olhou, irritado para o livreiro — Te disse que devíamos ter ido a Baker Street. Mas não, você te empenhou em que viéssemos aqui.

— E como ia saber que Septimus nos tinha oculto seu costume de voltar para casa para almoçar? — perguntou o senhor Cavendish, balançando a cabeça, perplexo — Santo céu! Está ficando velho! Percorrer todo esse caminho diariamente!

— Tem a mesma idade que nós, Bonny... e não está precisamente decrépito — respondeu o senhor Rosenkranz com aspereza — O que passa é que de vez em quando a gota lhe dá a lata.

— Muita comida. Café e sanduíches de uma barraca da rua, essa é a receita para manter-se em forma — disse o livreiro sorrindo enquanto dava uma palmada na proeminente barriga — Bom, senhor Blackfriars — se voltou para Malcolm de novo — então deve você nos acompanhar imediatamente a casa de Septimus, porque temos grandes notícias sobre certo assunto que o afeta de cheio.

— Tem isto algo que ver com os problemas que tem, Malcolm? — perguntou Harry ao levantar-se de seu tamborete em frente à lareira.

Malcolm assentiu devagar.

— Sim. Os senhores Rosenkranz e Cavendish tiveram a amabilidade de me ajudar em certas pesquisas extremamente delicadas.

— Então vá com eles a casa do senhor Quimbly. Eu farei seu turno no balcão. Se lhe necessitarmos, mandarei Tuck para te buscar.

— Obrigado, Harry. Agradeço-lhe muitíssimo — disse Malcom, e pegou seu casaco, suas luvas e seu guarda-chuva.

Ao fim de um momento, depois de uma rápida caminhada no meio do vento invernal, chegaram a casa do senhor Quimbly, ao que despertaram de sua sesta, e se acomodaram na biblioteca. O senhor Quimbly estava sentado junto a lareira, em uma poltrona, agasalhado com uma manta e com os pés apoiados sobre uma banqueta.

— Santo céu, o que passou? Sem dúvida algo importante ou não estariam os três aqui — exclamou, endireitando o gorro de dormir que tinha posto.

— Nunca adivinharia, Septimus, assim que lhe diremos sem preâmbulos — anunciou o senhor Cavendish — Jacob conseguiu averiguar quem fez os crucifixos dos Filhos de Isis, e eu descobri os nomes dos membros da ordem e segui o rastro de seus descendentes até aqui, até Londres.

— Isso é excelente! Bem feito, sim senhor! Sabia que podia contar com vocês — o senhor Quimbly juntou as mãos, sorrindo, cheio de satisfação.

— Estarei eternamente grato aos três — declarou Malcolm — Não sei como compensá-los.

— Pode considerar nossa ajuda um presente de casamento um tanto tardio — disse o senhor Cavendish — porque acredito que falo em nome de todos se disser que não tomamos parte nesta perigosa aventura para obter uma recompensa material, a não ser para tentar emendar uma injustiça. Com isso nos basta.

— Exato, exato! — disseram ao uníssono o senhor Quimbly e o senhor Rosenkranz.

— Obrigado, muitíssimo obrigado — Malcolm estava tão comovido que apenas lhe saíam as palavras.

— Agora, Jacob, nos diga o que descobriu — disse o senhor Quimbly depois de um momento — Como poderá imaginar, estou ansioso para saber tudo antes que Malcolm e eu tenhamos que voltar para a loja.

— De acordo — o joalheiro tampouco deixava de pensar no que estaria ocorrendo em sua loja durante sua ausência — Os crucifixos foram fabricados por um tal Mordecai Weisel, que ao parecer era um homem muito consciencioso, pois tinha uns arquivos extremamente minuciosos. Seu descendente, Isaac Weisel, que é tão consciencioso como ele, conservava-os ainda quando por fim lhe encontrei em Bonn. Recebi sua resposta a minha carta esta mesma manhã. Há em efeito, nove cruzes. No momento em que foram feitas, quatro delas se enviaram a Escócia, três a França, uma a Itália e outra a Inglaterra, a Londres, em concreto. E aqui é onde intervém Bonny.

— Assim é, Jacob! — o livreiro sorriu — Depois de muitas diligências, encontrei ao proprietário que acredito ter o crucifixo que se enviou a Londres. É o coronel Hilliard

Pemberton, um membro do corpo de dragões retirado que vive em Wimpole Street. Naturalmente, ainda não sei se conhece o significado da cruz, mas acredito que não podemos nos arriscar a que assim seja. Acredito, mas bem, que devemos idear um modo de lhe arrebatar a cruz, seja como for.

— Bonny! Refere-te a roubar. – Uma expressão de recriminação alagou o rosto do senhor Rosenkranz.

— Naturalmente, Jacob — o semblante do livreiro expressava seu estupor ante o que ele considerava a candura do joalheiro — Pelo amor de Deus, não suporá que, se conhecer seu verdadeiro valor, o coronel Pemberton vai nos dar a cruz, verdade? Além disso, não se trata de um roubo. Todos os crucifixos são simples meios para encontrar a esmeralda perdida, o Coração de Kheperi, que pertencia unicamente ao antepassado do jovem senhor Blackfriars, lorde Rob Roy Ramsay. Assim que a esmeralda pertence por direito ao senhor Blackfriars.

— Pertence por direito ao estado egípcio — disse com firmeza o joalheiro — E espero — acrescentou voltando-se para Malcolm — que, se tiver a sorte de encontrá-la, o jovem senhor Blackfriars a devolva e receba uma digna recompensa por isso.

— Christine! Oh, Christine! Temos que ir imediatamente! — exclamou Ariana ao entrar no salão de manhã na casa dos Lévesque, uns dias depois de que os senhores Rosenkranz e Cavendish visitassem Quimbly & Company — Há... houve um terrível acidente em... no botequim Rede House... e Collie e Nicky estão feridos gravemente!

— Não! Oh, não! — Christine empalideceu e se levantou da cadeira em que estava bordando — Como ficou sabendo, Ariana?

— Acaba de chegar uma nota. Deu-me isso Butterworth. É do dono do botequim! Suplica-nos que vamos imediatamente, antes que seja muito tarde!

— Oh, Meu deus!

— Non, madames — protestou Dukker com firmeza, deixando de lado sua harpa, que estava tocando para as entreter enquanto costuravam — Não posso permitir que saiam a nenhuma parte. Isto poderia ser uma artimanha de nossos inimigos.

— Non, Dukker, não pode ser — disse Ariana, ao bordo da histeria — Collie e Nicky foram esta manhã a esse botequim para exercitar sua pontaria. Ordenei que preparem a carruagem para nos levar o antes possível.

— Madame, por favor, me ouça! Por favor, permita ir em seu lugar, averiguar se é verdade o que diz essa nota. Os Foscarelli espiavam a pobre Madame Polgar. Talvez agora estejam espiando aos que tinham relação com ela, incluídos nós. Se for assim, pode que já conheçam a verdadeira identidade de Monsieur Blackfriars e do senhor Ravener. Pode que conheçam nossos costumes, nossas idas e vindas. Talvez isto seja uma estratagema para as fazer sair de casa.

— Teremos que correr esse risco, Dukker — o belo rosto de Ariana refletia sua determinação — Se a nota for autêntica e Collie e Nicky estão feridos gravemente, nunca me perdoaria não ter ido a seu lado imediatamente.

— Oh, tomara estivessem aqui os condes e Madame Blackfriars para detê-las! — exclamou o anão, sacudindo a cabeça com desalento — Sabem perfeitamente que os senhores ordenaram que não saíssem da casa, nem sequer para ir fazer as compras natalinas.

— Mas não sabiam que iriam sofrer um grave acidente — respondeu Ariana com um áspero soluço, e levou uma mão à boca trêmula. Logo deu a volta e saiu correndo da habitação para ir perguntar onde estava a carruagem. Christine saiu atrás dela.

Ao final, acordaram que Dukker seguisse a carruagem a cavalo até o botequim Rede House. Desse modo, se algo acontecesse, ele poderia dar a voz de alarme. O anão insistiu que os empregados que acompanhavam o carro levassem pistolas e, em apesar de seu estado de angústia, Ariana e Christine compreenderam que era o mais sensato. Depois de informar a Butterworth seu destino, empreenderam a toda pressa a marcha. Dentro da carruagem, Ariana e Christine, que temiam o pior, abraçavam-se, procurando consolo uma na outra, enquanto, depois delas, montado em Telaraña, a égua branca de Ariana, Dukker temia também o pior, embora suas idéias sobre o desastre não tinha nada a ver com as duas mulheres.

Ariana não tinha passado tanto medo em toda sua vida. De repente, enquanto se dirigiam ao botequim Rede House, pouco depois de a carruagem entrar no sórdido distrito de Lambeth, viram-se assaltadas pelo que a princípio lhes pareceu um grupo de salteadores de caminhos.

— Oh, Meu deus, Ariana! — gemeu Christine, agarrando com força o braço de sua cunhada, muito pálida — Isso é o que passou na noite que morreram meus pais! Assim foi como começou!

Um instante depois, enquanto o chofer gritava e fustigava os cavalos com o chicote, sua carruagem cobrou tal velocidade que Ariana e Christine caíram no chão do veículo. Dali não podiam ver nada. Ignoravam o que estava ocorrendo, mas sabiam que estava acontecendo um tiroteio, pois ouviam os disparos. Agachada entre os assentos do carro, Ariana sentiu que seu coração pulsava tão forte que temia que lhe estalasse no peito, e em um escuro canto de sua mente pensou que aquilo tinha que ser ainda pior para Christine, que tinha passado antes por aquela experiência na noite em que morreram seus pais. Por fim, depois do que lhes pareceu uma eternidade, embora em realidade só foram uns minutos, o veículo se separou da estrada e a porta se abriu de repente. Logo, antes que tivessem tempo de compreender o que estava ocorrendo, antes que pudessem ver que o condutor e os empregados jaziam ensanguentados e imóveis no chão, seus assaltantes as tiraram a força do carro, apesar de sua resist&ecir