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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SEM DIZER ADEUS / Penny Richards
SEM DIZER ADEUS / Penny Richards

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

SEM DIZER ADEUS

 

Mistério, aventura e romance sob o sol escaldante de Nova Orleans... Alguém está tentando matar o promotor Cullen McGyver, e a investigadora Kate Labiche é contratada para protegê-lo. Mas o interesse de Kate não é apenas profissional... Além de proteger Cullen, ela tem de proteger também seu coração, uma missão quase impossível!

Talvez tivesse sido o clima quente de Nova Orleans que propiciara o envolvimento da policial Kate Labiche com o advogado Cullen McGyver. Afinal, ela fora àquela cidade, famosa por sua atmosfera descontraída, a negócios... e acabara nos braços do respeitado e charmoso promotor. A atração entre os dois era intensa, mas Kate sabia que o sentimento de culpa de Cullen com relação à morte da esposa o impedia de entregar seu coração. Ainda assim, ela não esperava acordar uma manhã e descobrir que ele simplesmente partira, sem deixar vestígios. Tampouco ela poderia imaginar que, dois anos mais tarde, seria contratada para proteger aquele mesmo homem que havia jurado jamais perdoar. No entanto, por mais que tentasse negar a paixão avassaladora que os dominava, Kate logo descobriu que, desta vez, não poderia proteger seu próprio coração...

 

 

Um ligeiro farfalhar de folhas alertou Cullen McGyver de que ele não estava mais sozinho. Sentou-se ereto, na cadeira giratória instalada na plataforma, presa a três metros de al­tura, sobre a árvore. Correu os olhos até o começo do bosque, à direita, antes de examinar a trilha dos madeireiros que desaparecia depois de uma curva, à esquerda.

O antílope estava parado à beira da trilha pedre­gosa, as patas afundadas na grama avermelhada e quebradiça pelas temperaturas enregelantes. Tal co­mo Cullen, o animal estava imóvel como uma está­tua, ouvidos atentos. Sua galhada imponente, com pelo menos dois metros e meio de largura e dez pon­tas perfeitas, parecia pesada demais, mesmo para aquele pescoço maciço e musculoso.

Muy grande, pensou Cullen, com um sorriso de satisfação nos lábios. Aquele antílope ardiloso, quase um fantasma, que miraculosamente escapara da mi­ra dos rifles e das muitas armadilhas através dos anos, tornara-se para os caçadores o equivalente a "aquele peixe enorme que fugiu" das histórias de pescadores. Muitos dos que caçavam na terra arren­dada por McGyver, com quase três mil acres de ex­tensão, tinham se deparado com o enorme cervo. Mas, de alguma forma, o animal sempre dera um jeito de enganar, correr para fora do alcance dos seus perseguidores.

Movendo-se com firmeza, embora furtivo e caute­loso, o cervo veio direto em direção a Cullen, pare­cendo disposto a examinar os restos de comida que estavam logo abaixo da plataforma.

Cullen era um bom atirador e já matara sua cota de cervos ali mesmo, naquele local, mas não tinha intenção de usar a espingarda que estava ao alcance de sua mão. Bastava-lhe estar sentado e admirar a imponência daquele animal. Além disso, não viera até ali para caçar. O objetivo de sua vinda até ali era apenas descanso. Precisava descansar da moro­sidade ultrajante de um caso de abuso doméstico fi­nalmente encerrado naquela manhã.

Como promotor encarregado, ele conseguira uma condenação, e Rodney Perry estava a caminho da penitenciária, para cumprir pena. Infelizmente, na estimativa de Cullen, uma vida inteira atrás das gra­des não seria suficiente para pagar aquilo que Perry havia feito a sua família.

Levaria tempo até que a lembrança dos horrores trazidos a público, naquele caso, saísse de sua men­te. Convivia diariamente com as barbaridades que as pessoas faziam, umas às outras, no dia-a-dia, e sabia que qualquer coisa que ele fizesse para ame­nizar a dor das vítimas nunca seria suficiente... A morte de Joanie e a maneira inadequada com que ele lidara com o pesar.

O som abafado de um tiro, vindo de alguma parte além das colinas cobertas de pinheiros e que se es­tendiam até a linha do horizonte, arrancou-o de seus devaneios. Mais uma vez, o cervo ficou estático, imó­vel. Ouvindo. Esperando...

Do negro coração da floresta, veio o balido incon­fundível de uma corça. A trilha era extremamente íngreme e, se o cervo fosse cometer algum erro de julgamento, seria naquele momento, enquanto esta­va sob a influência de seus hormônios, ao invés de se guiar pela prudente inteligência que lhe permitira sobreviver, outono após outono.

O animal resfolegou, olhou ao redor e, em um sal­to, desapareceu na floresta, na direção do som que despertou seu interesse. Parecia inconsciente, ou tal­vez pouco se importasse, de que o perigo na forma de um dos muitos caçadores, e não de uma fêmea desejosa, pudesse estar espreitando nas sombras ca­da vez mais densas da tarde que caía.

Cullen recostou-se na cadeira e soltou a respiração que nem percebera haver retido. Não contaria a ne­nhum dos outros caçadores aquilo que acabara de presenciar. Iriam cansá-lo com a pergunta: "por que não atirou?". Além do mais, abater o cervo não era assim importante. Havia coisas que deviam ser man­tidas em sigilo, assim como havia outras que deviam ser preservadas. Como a família Perry e, quem sabe, como o belo antílope. Ambos tinham o direito a um pouco de prazer e liberdade por terem escapado de uma bala, por tantos anos.

Cullen serviu-se de café, usando a tampa da gar­rafa térmica que trouxera como caneca. Bebeu um gole e deixou a mente vaguear. Em virtude do alto prestígio e da firme determinação com que se dispusera a endireitar as coisas erradas no Arkansas, aqueles que faziam e desfaziam na política do Estado haviam cogitado em lançar seu nome como possível candidato ao Senado dos Estados Unidos.

Ele ficara lisonjeado, é claro. Uma parte de si se empolgara com a possibilidade de ter a oportunidade de servir o país de uma forma mais significativa. Outra parte, contudo, não estava tão certa disso. Es­taria disposto a mudar o estilo de vida, caso uma vitória assim o exigisse? Meghan, sua irmã gêmea, dissera que ele não era tão ambicioso para dar tal passo.

Cullen lhe respondera dizendo que ela era ambi­ciosa pelos dois. E que ele, por sua vez, queria ser o melhor promotor que pudesse, capturando e man­tendo os elementos perniciosos fora das ruas. Só por­que um cargo era de mais relevância ou angariava mais prestígio do que o outro, não significava que fosse melhor. Além do mais, com o clima político no país tão polarizado, com um escândalo a cada canto e o dinheiro dos lobbies influenciando quase toda de­cisão tomada em Washington, ele não tinha certeza de querer fazer parte de um tal esquema...

Sem dúvida, um cargo no Senado entraria em con­flito com suas caçadas, para não mencionar os em­pecilhos que criaria à proximidade que partilhava com sua irmã e a família. Para ele, depois do trabalho, essas eram as coisas mais importantes na vida, desde a morte de Joanie.

O ronco distante de um pequeno aeroplano relem­brou-o da civilização. Tinha de voltar a Little Rock. E logo. Prometera a Elizabeth Longstreet, a irmã mais nova de seu cunhado, que a levaria para ver Nancy Kerrigan e seu grupo na Alltel Arena. Pare­cera uma boa idéia quando a convidara, duas sema­nas atrás. Liz era bonita, disponível, inteligente e franca em suas intenções para com ele. Cullen já se recusara a sair com ela por tantas vezes que tinha começado a sentir-se culpado.

Nos últimos dois anos, esforçara-se para deixar o passado para trás e seguir em frente com sua vida, o que incluía ter encontros, mesmo que não fizesse isso havia semanas. Não que lhe faltassem oportu­nidades. Um dos problemas era ser considerado um dos solteiros mais cobiçados da cidade, se não do Es­tado, aquele que as mulheres mais velhas tentavam fisgar e as jovens continuavam a dar em cima, não importava o quanto ele se mostrasse desinteressado.

Meghan culpava-o, dizendo que esse mesmo de­sinteresse era que o tornava tão desejável. Não que Cullen gostasse de ficar sozinho... Ser solteiro signi­ficava voltar para uma casa escura. Refeições soli­tárias. Longas e intermináveis noites. Uma cama va­zia. Se encontrar uma mulher para dividir sua cama fosse tudo o que procurava, a vida seria simples. Ele, porém, queria mais. Queria encontrar alguém para compartilhar o resto de sua vida. Como o belo antí­lope, ele sabia que uma mulher cheia de desejo estava por aí, em algum lugar, mas tão longe que ele não podia vislumbrá-la.

Com a lembrança de uma mulher com longos ca­belos ruivos, cuja simples presença o excitava.

Esqueça-a!

Sábio conselho. Pensar nela inevitavelmente o con­duzia a uma depressão enraizada na culpa.

Pense em Elizabeth.

Outro sábio conselho, considerando que as som­bras se estendiam, cada vez mais densas. Cullen re-lanceou os olhos para o relógio. Até chegar à cabana onde deixara o jipe e dirigir até a cidade, estaria em cima da hora do encontro. Com um suspiro fundo, fechou a garrafa térmica e apanhou o rifle, imagi­nando, pela centésima vez, por que razão concordara com o compromisso.

Como não era seu hábito, Cullen verificou por duas vezes o rifle para ter certeza de que estava travado, antes de descer a escada. Então, apanhou a garrafa térmica e começou a descida. Não dera dois passos quando ouviu um outro tiro, este muito mais perto. Quase simultaneamente, sentiu uma violenta explo­são de dor no ombro esquerdo.

Com um grito que era mais de surpresa do que de dor, ele soltou a arma, a garrafa e a corda na escada. Vagamente consciente do chão que parecia correr pa­ra encontrá-lo e da necessidade de fazer alguma coi­sa para impedir a queda, ele lutou para manter-se alerta, mas uma escuridão abençoada o envolveu an­tes que ele se chocasse contra o solo...

Cullen acordou com um cheiro úmido e azedo a penetrar-lhe pelas narinas. Abriu os olhos e viu um punhado de estrelas reluzindo num céu enevoado. Respirando com dificuldade e aos poucos, era tudo o que podia fazer para suportar a dor no peito, re­gistrou três coisas na mente entorpecida: estava es­curo como breu, ele devia ter caído da plataforma e tinha perdido o encontro.

Tentou sentar-se e caiu de costas no chão gelado com um grito de pura agonia. Um suor frio brotou em sua testa. As costas do lado direito doíam como o inferno e havia algo errado com seu ombro tam­bém. Cerrando os dentes, ele ergueu a mão direita e apalpou a área machucada. Sentiu os dedos lam­buzarem-se de sangue.

A memória lhe voltou, aos pedaços. Recordou-se de ter ouvido um tiro por perto, antes de cair. Ob­viamente, tinha sido vítima de algum caçador des­cuidado. Devia ter machucado as costelas na queda, provavelmente na raiz saliente que sentia contra as costas. Na melhor das hipóteses, estavam trincadas. Na pior, estavam fraturadas, o que significava que, se ele fizesse um movimento errado, poderia perfu­rar o pulmão. Ou coisa pior.

Cullen ficou imóvel, olhando para o céu, tentando examinar a situação, embora lutasse contra a dor. Estava muito escuro. Ninguém sabia de seu para­deiro. A temperatura estava baixa e caindo cada vez mais a cada minuto. As previsões para a noite eram de que cairiam abaixo de zero. Como a reforçar tal pensamento, uma brisa gelada desceu pelas colinas, farfalhando os pinheiros e dando-lhe arrepios. Numa reação instintiva, ele se curvou e um novo espasmo de dor o alertou para que não se movesse.

Quando o pior passou, Cullen considerou suas op­ções. Podia jogar com a possibilidade de ferimentos mais sérios se de alguma forma conseguisse ficar em pé e caminhar pelo campo? Quanto sangue perdera, afinal? Ou podia ficar deitado ali onde estava e es­perar que algum caçador tropeçasse nele?

Nenhuma das alternativas o animava, mas era tu­do o que tinha. Que droga! Deixara o telefone celular no jipe, para evitar que alguém ou alguma coisa o perturbasse. Depois de pensar mais um pouco, re­jeitou a segunda hipótese. Além disso, ficaria sujeito a sofrer uma hipotermia e pegar pneumonia.

Sabendo que, na verdade, não havia escolha, Cul­len cerrou os dentes e rolou para o lado, gemendo de dor. Erguendo-se para uma posição meio sentada, apoiando-se no braço bom, esperou que as ondas de dor e de náusea passassem. Então, usando a raiz da árvore como auxílio, ficou de joelhos. Com esforço, pôs-se de pé e, lentamente, começou a descer a trilha que conduzia à cabana.

A curta caminhada levou duas vezes o tempo que costumava fazer. Houve momentos em que ele pre­cisou parar e descansar apoiado contra uma árvore até que a tontura passasse. Finalmente, quando co­meçava a pensar que andava a esmo na escuridão e estava perdido, Cullen viu a luz da varanda da ca­bana brilhando através das árvores. Em minutos, cambaleava pela clareira, já com as chaves do jipe entre os dedos entorpecidos.

Entrar no veículo foi outro pesadelo, entremeado de ondas de dor, náuseas e palavrões. Uma vez den­tro, ele lutou para fechar a porta e dar a partida, rezando para que o motor não demorasse a esquen­tar. Atrapalhou-se com o cinto de segurança e, de­pois de algumas tentativas frustradas, desistiu de colocá-lo. Apertou a embreagem e o motor reagiu. Engatou a primeira e tomou a direção de uma trilha que levava a uma estrada secundária, a um quilô­metro e meio de distância.

Percorrer a trilha foi um suplício enlouquecedor. Cheia de altos e baixos, buracos, curvas, o trecho exigiu dele todas as forças. Finalmente, e já comple­tamente atordoado, Cullen aproximou-se da estrada. Com um rápido olhar, verificou que nada vinha da outra direção. Segurando o volante com a mão es­querda e mantendo a consciência apenas por força da vontade, ele manobrou e entrou no asfalto, ace­lerando, a despeito das ondas de vertigem que o ce­gavam com freqüência crescente.

Dois quilômetros em ziguezague, e ele respirou fundo, ao fazer uma curva fechada. Uma pontada aguda e a escuridão o cegaram. Sufocado de agonia e com a mente próxima da inconsciência, ele agarrou o volante, sem perceber que avançava para a linha amarela que demarcava as pistas.

As luzes de um veículo que se aproximava na di­reção contrária e o som forte da buzina o fizeram recobrar os sentidos. Reagindo sem pensar, ele girou o volante para à direita, a fim de desviar-se. Difícil demais... E um movimento exagerado. Através da neblina da dor, Cullen viu a vala profunda que se seguia ao acostamento aproximar-se em velocidade.

Ele sabia que tinha de parar. Pisou no breque. Pouca força, muito tarde.

Antes que o jipe caísse de nariz dentro da vala, uma parte ainda alerta no cérebro de Cullen regis­trou um fato: o pedal do breque afundara até o as­soalho, sem diminuir, em nenhum instante, a velo­cidade do veículo.

 

Um sussurro violou a santidade do sono de Cullen. Um cheiro feminino, doce e suave, feriu-lhe as narinas. Algo quente e gentil roçou-lhe a testa. Ele esforçou-se por abrir os olhos e encontrou a face indistinta e sorridente de sua ir­mã gêmea. Como Meghan era médica especializada em traumas e, naquele momento, usava roupas de passeio, certamente devia ter sido chamada em casa para estar ali, ao pé da cama.

Ela passou a mão, suavemente, nos cabelos de Cullen e ele notou que havia lágrimas em seus olhos.

— Você acordou...

— Parece. Que horas são? — A voz de Cullen soou rouca, como se ele não a usasse fazia muito tempo. Sentiu a boca seca.

— Três da manhã.

Ele tentou focar o rosto de Meghan.

— Por que não está trabalhando?

— É minha noite de folga.

— Mas você teve que vir ao hospital de qualquer jeito — retrucou Cullen, correndo a língua pelos lá­bios ressequidos.

— Não tem problema. — Percebendo que o irmão tinha sede, Meghan colocou um pouco de água num copo e ofereceu a ele, dizendo: — Beba só um gole ou dois.

Cullen ergueu a cabeça em direção ao canudo. In­crível como aquele ligeiro movimento provocava uma dor tão terrível. Ele sorriu e bebeu dois pequenos goles, embora sua vontade fosse tomar o copo inteiro. — O que aconteceu?

A linda boca de Meghan retorceu-se num arreme­do de sorriso.

— Talvez seja eu quem deva fazer essa pergunta.

— O que quer dizer com isso? — Cullen sentia dificuldade não apenas em formar as palavras mas de concentrar-se no que estava dizendo. Efeito dos medicamentos, pensou.

— Você tem um ferimento de bala no ombro es­querdo, logo abaixo da linha do pescoço, provavel­mente de um rifle. Pode dar graças aos céus que não tenha atingido algum órgão vital ou a articulação do ombro.

Meghan falava naquele tom de voz profissional e sem emoção que usava ao tratar com seus pacientes.

— Tem também um par de costelas quebradas do lado direito, causadas pelo choque com o volante quando você caiu na vala da beira da estrada. Claro, não estava usando o cinto de segurança e é de se admirar que não esteja morto.

Confuso ou não, Cullen achou incrível como a irmã passava tão depressa do profissionalismo para a cen­sura fraternal. Ao término do relato, o tom havia mudado para irritação e incredulidade, o que, ele sabia, era motivado pela preocupação.

— Sem sermões, irmãzinha. Não consegui colocar o cinto e, além disso, não quebrei as costelas no aci­dente com o jipe. Isso aconteceu quando caí da pla­taforma de observação dos alces, depois que fui... atingido pelo tiro. Posso beber mais um pouco de água, por favor?

Meghan estendeu-lhe o copo.

— Você estava na plataforma quando foi atingido?

— Na verdade, estava descendo. — Não passou despercebida a Cullen a expressão fechada e as ru­gas que se formaram na testa de Meghan. — Eu precisava voltar para levar Liz ao show no gelo. — Ele baixou a cabeça contra o travesseiro e fechou os olhos, exausto pelo esforço. — Ela deve estar furiosa comigo...

— Na verdade, creio que Liz disse alguma coisa a respeito de você chegar a extremos só para não ter de sair com ela — retrucou Meghan, com secura.

Cullen mexeu a cabeça para trás e para a frente. Mesmo um gesto tão simples deixou-o atordoado.

— Não quero magoá-la, Meg, mas...

— Cullen, não precisa expor seus sentimentos a mim ou a Dan — cortou Meghan. — Liz é uma ótima mulher, mas não é para você. Nem eu nem Dan ve­mos problema nisso.

Ele abriu os olhos e tentou sorrir.

— Ótimo.

Meghan o fitou por algum tempo, apreensiva.

— O que está acontecendo, Cullen?

Ainda entorpecido pelo efeito dos remédios, Cullen tentou recordar-se se ela havia dito algo que ele não entendera.

— O que quer dizer com isso?

— O delegado acha que o incidente foi causado por algum caçador descuidado.

Cullen franziu a testa, tentando raciocinar atra­vés da nuvem que lhe toldava o cérebro.

— Eu penso a mesma coisa... — Depois de alguns instantes, prosseguiu com a voz arrastada: — Por que tenho a impressão de que a sua opinião é dife­rente?

Meghan deu de ombros.

— Se tivesse acontecido no solo, eu podia aceitar, mas você disse que estava descendo da plataforma. Que tipo de caçador sobe em árvores para atirar num alce?

— Talvez não fosse um caçador de alces. Quem sabe estivesse atrás de um esquilo ou de um guaxinim? — O comentário saiu sem levar em conta se algum dos animais estava em temporada de caça.

Meghan ergueu as sobrancelhas num gesto de in­credulidade.

— Com um rifle de grosso calibre? O buraco em seu ombro não foi feito com uma espingarda de chumbo.

Cullen passou a língua pelos lábios secos.

— Você está sugerindo que o tiro não... tenha sido acidental?

— Não vejo como possa ter sido — ela retrucou, secamente.

— Mas... se não foi um acidente, então você está insinuando que alguém tentou me ferir...

— Matar — ela afirmou, com uma voz fria.

— Quem haveria de querer me matar? — pergun­tou Cullen, sabendo que aquela era uma pergunta estúpida. Podia enumerar uma dúzia de nomes, mas seu cérebro não parecia estar nos eixos.

Meghan deu uma risada.

— O que me diz de qualquer um dos infratores que você colocou atrás das grades? Vamos dizer que a lista é bem expressiva.

— Ponto para você. — Ele fechou os olhos por um instante. — Não — continuou, balançando a cabeça. — Deve haver alguma outra explicação.

— Como o quê?

— Como... — Cullen não conseguiu pensar em nada.

— Não consegue, não é? Encare o fato, irmão. O que não pode aceitar é que nem todos aqui pensam que você é grande coisa. E, para você, saber que pode ser o alvo de algum tipo de vingança sórdida ou de um senso pervertido de justiça é como encarar um pesadelo. Coisas como essas não costumam aconte­cer com você... Acontecem com os outros.

Meghan acertara em cheio. Na verdade, vendetas pessoais aconteciam todos os dias. Os jornais esta­vam cheios de assassinatos, muitos executados por razões mais fúteis do que mandar alguém para a cadeia. De fato, muitas das pessoas que ele colocara atrás das grades deviam buscar algum tipo de vin­gança por algum erro, real ou imaginário, quando se vissem livres das garras da lei.

Meghan tinha razão. Ninguém gostaria de acre­ditar que pudesse ser o objeto do ódio de alguém. E, visto dessa perspectiva, o cenário de um caçador des­cuidado, que atirara por engano, não fazia muito sen­tido. A menos que...

— Talvez o caçador tenha tropeçado e a arma, dis­parado. Por isso o ângulo improvável da bala...

Meghan pensou na hipótese por um instante. A expressão em seus olhos indicava que a idéia podia ser considerada.

— Talvez... — ela concordou, num tom de dúvida.

— Mistério resolvido — disse Cullen, fingindo um sorriso. Ela não parecia convencida. Segurou-lhe a mão. Não gostava de pensar que alguém quisesse matá-lo. Seu ombro doía como os infernos, e ele es­tava tão cansado... — Vá para casa, doutora, para junto de seu marido, e me deixe dormir um pouco.

— Está certo. — Ela inclinou-se e depositou um beijo na testa do irmão. Em seguida, ergueu a grade da cama. — Eu o vejo de manhã.

— Certo.

Cullen ficou a observar enquanto Meghan apa­nhava o casaco de couro e a bolsa da cadeira, ru­mando para a porta. Voltou-se, a meio caminho, a boca aberta como se fosse falar alguma coisa.

Cullen levou um dedo aos lábios.

— Está vendo tevê demais.

Ela meneou a cabeça.

— Acho que a série Sala de Emergência.

Promotor Local Vítima de Acidente de Caça.

A reportagem, junto com uma foto de Cullen McGyver, ocupava a parte inferior da primeira página do Arkansas Democrat Gazette.

Ao ler o relato, o homem sentado na pequena sala que cheirava a remédio e couro, franziu a testa. Não havia pensado que o acidente fosse virar manchete. Claro, tampouco esperava errar o alvo, ou que McGy-ver sobrevivesse ao defeito nos freios. Maldito...

Releu o breve artigo. Cullen McGyver havia rece­bido, acidentalmente, um tiro no ombro ao caçar em sua reserva de alces no condado de Clark. Enfraque­cido pela perda de sangue, havia caído com o jipe numa vala, ao tentar dirigir até o hospital. O infor­me dizia que, a despeito dos ferimentos, que in­cluíam costelas quebradas, o popular promotor pas­sava bem.

O repórter se alongava, entrando em detalhes so­bre a sucessão sem precedentes de prisões efetuadas pelo promotor acidentado. Mencionava que seu nome fora ligado a uma possível indicação para concorrer ao Senado dos Estados Unidos. Continuava dizendo que ele havia sido transferido para um hospital em Little Rock e que passaria um curto período de tem­po se recuperando, antes de voltar ao trabalho. Não dizia onde seria essa recuperação.

A mão no jornal se crispou, amassando as beiradas e distorcendo a foto de McGyver, e o homem gemeu de ódio. Cullen McGyver arruinara-lhe a vida. Vira-se destruído, profissional e financeiramente. Fora privado da capacidade de trabalhar na profissão es­colhida, tudo em nome da justiça e do senso do certo e do errado. Sua estrela se extinguira quando mal começara a elevar-se, enquanto a estrela de McGyver subia, cada vez mais alto, junto com o respeito e a admiração das pessoas.

Agora, falavam dele rumo ao Senado, dentro de um ano. Com a sorte que tinha, ele venceria. E, mes­mo que fosse para Washington, tentaria legislar em nome da moralidade e da ética. Buscaria por puni­ções mais fortes, fosse para todos os que traficavam drogas como para aqueles que batiam em seus cães com um jornal. Os americanos já tinham legislação sobre a pena de morte. Embora geralmente fizesse discursos fervorosos pregando a liberdade de expres­são, o governo não ficaria feliz até que calasse os mais íntimos pensamentos de um homem.

Ali perto, um cavalo relinchou. Esticando os dedos e alisando o jornal com infinito cuidado, o homem apanhou a tesoura que estava na mesa, perto de uma xícara de café. Espetou a imagem que simbolizava seu castigo com a ponta afiada. O que McGyver fi­zera com ele não fora justo.

Qualquer um podia cometer um erro de julgamen­to. Acidentes aconteciam com freqüência... Como Cullen McGyver acabara de descobrir.

Naquela tarde, Cullen tentou desviar a atenção da dor em seu ombro e da necessidade de pedir por mais um sedativo, e procurou concentrar-se no jardim, através da janela. Mergulhava e emergia da inconsciência em relação direta com a freqüência dos me­dicamentos. Nisso, o telefone próximo à cama tocou.

Rilhando os dentes, para suportar a dor, ele vol­tou-se ligeiramente para o lado e estendeu a mão para o fone. Murmurou um alô.

— Olá, Cullen. Aqui é o Buddy. — Buddy Perkins era um colega de faculdade que cuidava dos veículos de Cullen e de Meghan desde que os dois tinham tirado a carteira de habilitação. — Como está, ami­go?

Cullen sufocou uma risada, imaginando o motivo pelo qual o tom normalmente alegre de Buddy havia desaparecido.

— Já estive melhor. E você?

— Muito bem. Acho que você sabe que Meghan pediu que o guincho trouxesse seu jipe até aqui, para que eu pudesse verificar os danos.

— Imagino que sim. Então, qual é o veredicto?

— Bem, para começar, o amortecedor da frente e o pára-lama direito precisam ser trocados. O capo vai dar algum trabalho. Steve pode arrumar e fazer a pintura. Por fim, você vai precisar de um novo radiador e freio.

Uma lembrança confusa surgiu na mente de Cul­len. Aquela de apertar os breques antes de cair na vala.

— Puxa, eu tentei diminuir a marcha antes de cair no acostamento, mas o pedal afundou até o as­soalho. — Riu, encabulado. — Não me lembro quan­do foi a última vez que mandei regular o freio.

— Não foi a pastilha, meu chapa. Você estava sem fluido de freio.

— Oh... Algum vazamento?

— Pode-se dizer que sim.

Cullen não deixou de perceber a ironia na voz do amigo.

— O que quer dizer com isso?

Buddy suspirou, de um jeito que dava para per­ceber seu estado de espírito.

— Não foi apenas um vazamento, Cullen. Alguém cortou o cabo do freio.

Cullen empurrou a bandeja com a refeição para o lado e lutou contra a vontade de pedir um sedativo. Precisava estar com a cabeça desanuviada para ten­tar compreender toda a implicação das novidades que Buddy lhe contara. Estava perdendo a batalha em ambas as frentes quando ouviu uma batida e uma face familiar apontou no vão da porta.

Louella Stephens era secretária de Cullen desde que ele começara a trabalhar como promotor, havia dez anos. Com seus sessenta anos, ela era rechonchuda, bonita, agradável e extremamente esperta. Ele sempre lhe dizia que, se não houvesse conflito de interesses, casaria com ela. Louella respondia sempre que não tinha certeza de que ele pudesse mantê-la. Algumas vezes, observando-a no trabalho, Cullen acreditava nisso.

— Olá.

A face redonda, emoldurada pelos cabelos claros, estampava um largo sorriso. Notando a comida in­tocada na bandeja, Louella entrou no quarto e le­vantou na mão uma embalagem com o logotipo de uma cadeia popular de sanduíches que Cullen freqüentava. Aproximou-se e inclinou-se, beijando-o na face.

— Parece que cheguei na hora certa.

— Chegou — disse Cullen, com um sorriso.

Louella retirou o prato de comida, substituindo-o pelo cheeseburguer, batata frita e um milk-shake de chocolate.

— Coma.

— Obrigado, Lou — disse Cullen, apreciando o esforço, mas sabendo que não podia ir além do milk-shake. Tomou um gole. Estava tão bom quanto ima­ginava. Pousou o copo e estremeceu.

— Ainda enfaixam as costelas quebradas? — per­guntou Louella.

— Que nada... Mas te dão este eficiente penduricalho com o "sirva-se de seu próprio sedativo". Um tipo de serviço expresso.

Louella sorriu e arrumou-lhe a camisa.

— Por quanto tempo vai ficar fora de circulação?

— Não sei o que meu médico dirá, mas Meghan disse que eu devia sair logo daqui. Segundo ela, pos­so ficar em casa. E como vão as coisas no escritório?

— O senador Falk ligou — respondeu Louella, dan­do um retoque final na camisa e sentando-se numa cadeira perto da cama. — Ele e o senador Watson querem ter uma conversinha com você em breve. Gos­tariam que você começasse a arrecadar fundos para a eleição.

— Vou encontrá-los, porém... acho um pouco cedo para preocupações com as finanças da campanha. Não decidi se quero concorrer, ainda.

Louella fitou-o por cima das lentes dos óculos.

— E a oportunidade de sua vida...

— Eu sei, mas não estou certo de ter o que é pre­ciso para ser um político bem-sucedido.

Louella sorriu.

— Você tem o que conta. E tem mais do que é preciso para se transformar em um candidato atraente.

Cullen encarou-a com um olhar interrogativo.

— Você ainda tem uma consciência confiável — explicou Louella, dando-lhe um tapinha na mão. — Uma raridade na enaltecida arena da política.

Cullen respondeu com um meio sorriso.

— O procurador perdeu o caso Kilgore — conti­nuou Louella, voltando ao assunto. Quando Cullen praguejou, ela ergueu a mão e disse: — Eu sei, eu sei, mas não precisa se desgastar por causa disso. Martin disse que ele estava bastante satisfeito com o júri para o julgamento de Connelly, e eu tenho Margie dando duro no caso Jones... presumindo que você esteja em condições de assumir isso.

— Estarei. — Cullen queria a pena máxima para Delbert Jones. Ele não apenas sujeitara sua família a abusos físicos durante anos, como, quando a esposa decidira abandoná-lo, ele tentara matá-la. Também ferira um dos policiais que tentara obrigá-lo a se render.

Ouviu-se uma leve batida na porta e, antes que Cullen pudesse dizer ao visitante que entrasse, sua irmã irrompeu no quarto, vestida com o avental ver­de e com uma expressão de incredulidade nos olhos arregalados. Ignorando Louella, exclamou:

— Falei com Buddy!

Maravilha.

— Olá para você também, Meg — retrucou Cullen, quase sem fôlego, devido à dor nas costelas machu­cadas. — Acho que não viu Louella, sentada aqui.

Meghan lançou um olhar rápido para a mulher mais velha.

— Olá, Louella — murmurou, voltando-se de novo para Cullen. — Buddy me contou sobre o jipe, o que é bom porque não acredito que você fosse me contar.

— Na verdade, eu ia — disse Cullen, apanhando o copo de milk-shake. — Mas não achei que valesse a pena aborrecê-la durante o seu trabalho.

— Alguém atirou em você deliberadamente, cor­tou o cabo de freio do seu jipe e você não queria me aborrecer?

Cullen percebeu a expressão de alarme que per­passou pelo rosto de Louella.

— O que quer dizer com atirar deliberadamente em Cullen? — a mulher perguntou, finalmente cha­mando a atenção de Meghan.

— Parece que alguém tentou fazer isso a ele.

— Interessante... Tenho de confessar que a possi­bilidade de isso acontecer passou pela minha cabeça — comentou Louella. — Pode me chamar de para­nóica, mas acho que já vi muita coisa nos últimos trinta anos.

— Ele gostaria de pensar que foi um acidente! — exclamou Meghan, apontando com a cabeça em di­reção a Cullen. — Que o rifle de algum caçador dis­parou acidentalmente e, no meio de três mil acres, aconteceu da bala atingir logo a ele, a três metros de altura, sobre a plataforma de uma árvore. Louella bufou.

— Duvidoso. E aquilo a respeito do freio?

— Buddy me disse que o freio não falhou. Alguém cortou a ligação e o fluido de freio vazou. Cullen po­dia ter morrido.

— Mas, o que haveria de... — Louella interrom­peu-se, meneando a cabeça.

— Esqueça... Pergunta estúpida.

— Telefonei para a delegacia e contei o que Buddy me disse. Eles concordaram, com relutância, em tra­tar do caso a partir de uma perspectiva ligeiramente diferente. Vão falar com Buddy e ficaram de mandar alguém para fazer perguntas a Cullen.

— Boa idéia — comentou Louella.

Cullen permanecera calado, apenas observando e ouvindo as duas mulheres. De repente, num misto de irritação e fascinação, resolveu falar:

— Eu realmente apreciaria se vocês, senhoras, não falassem sobre mim como se eu não estivesse aqui.

— Desculpe — disseram as duas, em uníssono, mas nenhuma delas parecia ou se expressava como se pedisse desculpas.

— Então, o que vai fazer? — perguntou Meghan, colocando as mãos nos quadris.

— Sobre o quê?

— Sobre o fato de alguém estar tentando matá-lo!

— Presumindo que você tenha razão, o que posso fazer? Não tenho a menor idéia de quem possa ser... e, como todos nós sabemos, as possibilidades são muitas. Então, o que vou fazer é tocar a minha vida como se tudo, realmente, fosse um acidente de caça.

— Vai continuar a ser um alvo?! — gritou Meghan, num tom de incredulidade.

— Que escolha eu tenho? — Cullen retrucou, a raiva elevando o timbre de sua voz.

— Você podia ir a algum lugar e ficar por lá du­rante algum tempo até que a polícia descubra quem é esse maníaco. Ele deve ter deixado algum tipo de evidência.

— E como encontrá-la em três mil acres? — per­guntou Cullen, lembrando-a da realidade da situa­ção. — E se não acharem nenhuma pista? Devo sim­plesmente me retirar da vida? Me esconder para sempre?

A raiva esvaiu-se dos olhos de Meghan e ela abai­xou a cabeça, impotente.

— Não — retrucou, a voz não mais que um sus­piro. — Acho que não. — Começou a passear pelo quarto, de um lado para o outro. — Você podia ir para a fazenda por algumas semanas — sugeriu, com um olhar de súplica.

Cullen abriu a boca para rejeitar o oferecimento da irmã. Mas, antes que pudesse dizer alguma coisa, ela apressou-se em explicar:

— Compreendo que você não possa ficar para sem­pre, mas precisa de algum tempo para se recuperar. Lá, terá tudo de que precisa para continuar com seu trabalho e pode dirigir até a cidade quando tiver audiências no tribunal. Só até depois do Dia de Ação de Graças.

A fazenda ficava ao noroeste de Arkansas e era o lugar onde ele e Meghan haviam crescido. Quando o pai falecera, deixara a propriedade aos dois, como herança. Meghan, que adorava cavalos, criava ani­mais de puro sangue. Quem cuidava deles era um administrador que tinha uma pequena casa nos li­mites das terras. Os dois irmãos adoravam voltar àquele lugar, mas raramente tinham tempo.

Seria um local esplêndido para a recuperação de Cullen, ou para servir de esconderijo, e ela tinha certeza quanto às condições de trabalho. Só que ele detestaria pensar que havia alguém por trás do dis­paro, alguém que diria a ele como viver a vida.

— Ninguém iria saber onde você está — insistiu Meghan, em tom persuasivo. — Se sair de cena por algum tempo, isso pode acalmar a situação. E, en­quanto estiver lá, pode fazer uma lista das pessoas que poderiam querer seriamente feri-lo e dar aos po­liciais algum tempo para descobrir quem está por trás do atentado.

— Sua irmã tem razão — comentou Louella.

— Acho que sim — admitiu Cullen, com um res­mungo, erguendo a mão boa e esfregando a testa. Tudo o que queria era que aquilo passasse. Que tudo passasse... a preocupação, a incerteza e a pulsação dolorosa da dor. O que desejava era apertar o pe­queno botão e liberar um pouco de sedativo... e de esquecimento instantâneo. Mas não era do tipo que tivesse por hábito fugir das coisas desagradáveis da vida.

— Há algo mais que você deve considerar — disse Louella, com uma expressão pensativa.

— O que é?

— Um guarda-costas.

— Não! — exclamou Cullen. Meghan sorriu e concordou.

— Grande idéia!

— Não — repetiu Cullen. — Isso está indo longe demais. Além disso, você disse que ninguém saberia onde eu vou estar.

— Não vão saber — disse Louella. — Mas não custa nada ter um plano de reserva.

— Ora, Louella! Além de ser tão óbvio como um caso de sarampo, eu me sentiria um tolo com algum tipo do tamanho de um armário me seguindo pelas costas por onde quer que eu fosse.

Louella fitou-o com os olhos inocentes.

— Quem disse que precisa ser um sujeito do ta­manho de um armário?

— Que outro tipo de guarda-costas existe?

— E uma mulher?

— Perdeu a cabeça? — exclamou Cullen. — Não vou me esconder debaixo da saia de uma mulher. Eu tento proteger as mulheres, lembra-se?

— Claro que me lembro — retrucou Louella, com um sorriso plácido. — Mas essa mulher não usa saia, pelo menos não freqüentemente, de modo que não há problema.

— Oh, ótimo! Então, vou ter um tipo de lutadora de artes marciais me seguindo?

— Evidente que não. — Louella deu-lhe um tapinha de conforto no braço. — Você tem razão a res­peito de chamar a atenção para si com um guarda-costas, por isso a coisa mais inteligente a fazer é ter alguém por perto que não desperte suspeitas.

— E como fazer isso? — perguntou Meghan.

— Contratar alguém que as pessoas vão pensar como uma mulher a quem Cullen está vendo social­mente.

— Como uma namorada de mentira? — caçoou Cullen.

— Exatamente. Você é solteiro. Namora um monte de mulheres. Por que não deixar as pessoas pensa­rem que encontrou alguém especial? Se o mundo jul­gar que você está envolvido emocionalmente com ela, não haverá razão para achar que ela está lá para protegê-lo.

— Faz sentido, Cullen — murmurou Meghan, seus olhos faiscando de excitação.

— E uma idéia ridícula!

— Tem uma melhor?

— Sim — ele retrucou, zangado. — Assumo os riscos.

— Isso não é uma opção! — exclamou Meghan, e ele não deixou de perceber a súplica, nos olhos dela. — Irmãos gêmeos são difíceis de substituir.

Cullen recordou-se de como ficara devastado quan­do, na infância, quase perdera Meghan por causa de uma ruptura de apêndice. Mesmo que não fossem idênticos, eram muito ligados.

— Isso não vai funcionar.

— Podemos tentar — a irmã insistiu, voltando-se para Louella. — Tem alguém em mente?

Louella concordou.

— Kate.

— Kate? Sua sobrinha? — perguntou Meghan.

— Sim — respondeu Louella, sorrindo.

— Não!

As duas mulheres voltaram-se para Cullen, sur­presas com a secura e a aspereza de sua voz. Ele emendou, num tom sombrio:

— Esqueçam. Não quero Kate Labiche como guar­da-costas.

 

O ar de espanto e surpresa no rosto de Meghan e Louella seria cômico, não fossem as circunstâncias. Cullen percebeu que havia exagerado na reação à sugestão de sua assistente.

— Pensei que tivesse ficado feliz com o trabalho de Kate quando usou os seus serviços da última vez — disse Louella, com uma expressão que passou da surpresa para a consternação. Ela adorava a sobri­nha e Cullen sabia que qualquer pequeno deslize seria visto como algo pessoal.

— Gostei muito dos serviços dela — disse ele, an­sioso para reparar o engano. — Ela fez um excelente trabalho rastreando quem estava por trás daquele negócio ilegal dos combustíveis.

— Então, por que ficou tão aborrecido com o fato de utilizá-la como guarda-costas? — perguntou Meg­han, franzindo a testa.

Cullen suspirou. O que poderia dizer que não fosse empurrá-lo ainda mais fundo nesse buraco?

— Olhem aqui, senhoras — retrucou, com uma suavidade que raramente falhava quando queria con­sertar seus erros —, eu não quero um guarda-costas.

Nenhum guarda-costas. E, em especial, não quero utilizar os serviços de Kate porque... bem, porque ela é sobrinha de Louella e há risco de perigo. Eu não me sentiria bem sabendo que pode acontecer al­guma coisa a ela.

Brilhante, McGyver!

Louella fez um gesto de descaso.

— Ora, Cullen, não se esqueça que Kate foi policial antes de se tornar uma detetive particular. Ela é uma profissional treinada. Pode tomar conta de si mesma.

— Louella tem razão. Há uma porção de investi­gadores que não possui o tipo de treinamento que se consegue numa academia de polícia. Não conheço Kate, mas se Louella diz que ela é boa, deve ser. Sugiro que comecemos a pensar em como vamos fa­zer esse plano funcionar. Depois, Louella telefona para a sobrinha e vê se ela está interessada.

Cullen lutou contra a vontade de soltar um pala­vrão. Não havia como argumentar contra aquela ló­gica básica das mulheres. Ele não queria Kate Labiche vinte e quatro horas por perto. Não suportaria. Mas, parecia que estava derrotado... a menos que quisesse esclarecer quais as reais razões para não empregá-la. Mesmo usando o notável poder de per­suasão que possuía, ele duvidava de que pudesse fa­zer sua irmã ou sua secretária entenderem o que acontecera entre ele e Kate, quando haviam estado em Nova Orleans. Ele próprio só começara a com­preender recentemente.

— O que acha, Cullen? — perguntou Meghan.

— Realmente, eu acho que é importante que encontre­mos quem possa fazer um serviço extra, e Kate, com certeza, parece ser essa pessoa.

O que ele pensava? Pensava que suas costas doíam e seu ombro latejava e seu cérebro parecia envolto em ataduras de gaze. Não acreditava que alguém pudesse querer machucá-lo, mas as evidências apon­tavam, definitivamente, nessa direção.

— Telefone para ela — ele resmungou, com um gesto de descaso, enquanto tentava não pensar na­quele pedaço de mau caminho, de longas pernas e cabelos ruivos, entre os lençóis. Não ousava lembrar daquela terceira vez em que tinham feito amor, mui­to embora julgasse que não fosse capaz... Dissera a ela que precisava aprender a se refrear. Mas ainda podia visualizar Kate, arqueando as costas e o pes­coço, enquanto ele deixava uma trilha de beijos até o seu ventre. E ela, ondulando o corpo para beijá-lo, comprimindo-lhe suavemente o lábio inferior com os dentes muito brancos... e, então, os próprios lábios, ao chegarem juntos ao êxtase. Era Kate, fazendo um serviço extra.

O som distante de um toque de telefone acordou Kate de um sonho excitante. Sem erguer a cabeça ou voltar-se, ela agarrou o receptor ao lado da cama e colocou-o no ouvido, resmungando um alô.

Ninguém respondeu. Ao contrário, o aparelho to­cou novamente. Atordoada de sono, ela ergueu-se so­bre os cotovelos e olhou ao redor. O som vinha da sala, um cômodo pequeno que ela havia convertidoem escritório. Empurrando os lençóis para o lado, ela sentou-se e colocou os pés no carpete.

— Estou indo, estou indo — resmungou, atraves­sando o quarto em passos largos. Ao apanhar o apa­relho, olhou para o relógio. Quase dez horas. Franziu a testa e resmungou:

— Investigações Criminais.

— Katie?

A cara fechada desfez-se e a irritação se foi. Nin­guém, a não ser seu pai e sua tia, a chamava de Katie.

— Tia Lou?

— Sim. Como vai, querida?

Isso dependia, pensou Kate. Jogou-se na poltrona do escritório e apoiou o cotovelo na mesa de carvalho, descansando a testa na palma da mão. Dependia do que estivesse em questão e de que dia fosse. Algumas vezes, dependia da hora.

— Estou bem, tia Lou. E você, como está?

— Ótima. Tentei telefonar para seu outro número uma porção de vezes nos últimos dias, mas você não atendeu, então pedi a James e ele me deu o telefone de seu escritório.

— Estive fora da cidade, atrás de uma mãe bioló­gica. — De novo, franziu a testa. Não era comum que a tia se mostrasse tão persistente em encontrá-la. — Está tudo bem, tia Lou?

— Tudo está ótimo. Telefonei para saber se você estaria interessada em aceitar um servicinho extra.

Um coelho recusaria um maço de cenouras? Um novo trabalho era sempre bem-vindo.

— Tenho uma porção de coisas em andamento, procurando pessoas desaparecidas e um casal de ado­tados em busca dos pais biológicos, mas acho que posso assumir alguma coisa a mais. O último mês foi muito magro.

— Faz pouco tempo que está nessa atividade e a propaganda boca a boca ainda não deu frutos — dis­se Louella. — Mas você chega lá.

Kate correu os dedos por entre os cabelos ruivos.

— Assim espero. E duro ser autônomo depois de sempre ter dependido do pagamento mensal.

— Concordo plenamente. O trabalho que tenho pa­ra você vai pagar extremamente bem.

Aquilo parecia bom. Kate olhou para a água num copo equilibrado sobre uma pilha de papéis, resul­tado do gelo derretido de alguma bebida que ela dei­xara ali, dias atrás.

— Então, quem é o sumido? — Com um encolher de ombros, apanhou o copo e levou-o aos lábios.

— Não é um sumido, meu bem. É o meu patrão.

O coração de Kate disparou e ela engasgou com a água que estava engolindo. Começou a tossir, en­quanto a tia, do outro lado da linha, perguntava o que tinha acontecido, preocupada.

— Está tudo bem — ela conseguiu dizer, final­mente.

O motivo do susto podia ser resumido em uma única palavra. Patrão. O que queria dizer Cullen Mc­Gyver. O promotor de sucesso com o qual sua tia trabalhava. Sem dúvida, o estimado sr. McGyver precisava dos serviços de algum investigador para algo fora da cidade, em outro daqueles importantes casos criminais em que trabalhava.

Nada fora do comum, até ali. Uma porção de de­tetives particulares trabalhava lado a lado com ad­vogados que precisavam de suas habilidades por uma série de razões, e ela havia feito um bocado de ser­viços para Cullen, quando abrira a firma. Sabia que ele ficara impressionado com o trabalho que ela fi­zera pelo generoso cheque que lhe enviara. Eviden­temente, ela não fora tão boa assim na cama, já que nunca mais ouvira uma palavra dele desde que lhe entregara o relatório e ele partira de Nova Orleans.

Kate era uma mulher adulta que sabia as regras dos jogos entre homens e mulheres, mas acabara de sair de um divórcio e sentia-se vulnerável. Precisava sentir-se valorizada em sua feminilidade. E Cullen havia feito um trabalho fantástico, levando-a a acre­ditar que era sincero e que aquilo que acontecera entre os dois, naqueles poucos dias, era diferente. Especial. Que havia bastante entre ambos para dar sustentação a uma relação.

Quando tudo se mostrara uma mentira, ela fizera aquilo que fazia melhor: erguera uma muralha de proteção em torno do coração e debitara o encontro na conta da experiência. Saber que Cullen queria utilizar seus serviços de novo trazia de volta as lem­branças que ela enterrara, depois de dois anos de trabalho árduo e de firme determinação.

— Patrão? — A palavra foi pronunciada num tom alterado. — Do que é que ele precisa, agora?

— Ele foi ferido num acidente de caça há alguns dias atrás.

A despeito da raiva que sentia, uma onda de pâ­nico a invadiu. Procurando controlar a voz, Kate per­guntou, num tom inexpressivo:

— Acidente de caça? Foi grave?

— Ele está com um ombro ferido e quebrou algu­ma costelas na queda.

Graças a Deus, não parecia muito sério, pensou Kate. Respondeu, com um tom displicente:

— Chamou a pessoa errada. Deixe-me lembrá-la, tia Lou, que meus talentos para enfermeira são ex­tremamente rudimentares. Não sou boa com mercú­rio cromo, bandaids ou aspirina.

A tia soltou uma risada gostosa.

— Cullen não precisa de uma enfermeira, querida. Precisa de uma guarda-costas.

Kate endireitou o corpo, na cadeira. Guarda-cos­tas. A palavra por si só despertava mais lembranças, mais longínquas e menos agradáveis do que aquelas de Cullen, lembranças que ela preferia não pensar... Ela e seu parceiro numa tocaia, atrás de um daque­les bandidos de Nova Orleans. Raul, face a face com um garoto cheio de espinhas e fora de si, com uma automática em uma das mãos e um saco de crack na outra. Raul, com a arma apontada para o garoto, gritando com ele para que largasse o revólver. Ela, ao lado, fora da linha de fogo, sabendo que precisava fazer alguma coisa, mas incapaz de puxar o gatilho contra alguém que não passava de um menino...

Seu estômago revirou-se e uma súbita depressão engolfou-a, em ondas violentas.

— Não sou guarda-costas, tia Lou. Devia saber disso.

— Katie, a morte de Raul Santiago foi...

— Minha culpa — ela completou, secamente.

— Você estava tentando ser cautelosa, procurando dar tempo a Raul para conversar com o garoto.

— Está bem, que seja — retrucou Kate. — Aprendi do jeito mais difícil que não se pode conversar com alguém cujo cérebro virou mingau.

— Você foi ensinada a respeitar a vida, Katie. Mesmo sabendo que poderia ter de tirar a vida de alguém no curso de seu trabalho, você não pode cul­par-se por hesitar ao pensar nisso.

Kate fechou os olhos e reviu a mancha alastran­do-se pela camisa de Raul. Ouviu o baque surdo quando ele caiu, o som repercutindo na tarde úmida e quente como uma bola perdida chocando-se contra uma parede. Reviu Luz, chorando. As crianças cho­rando. E Kate de olhos secos. Além das lágrimas. Abalada até os mais fundos recantos de sua alma.

— Tente usar isso racionalmente com a esposa de Raul e as crianças.

Kate ouviu a tia suspirar.

— Sei que têm sido dois anos difíceis para você, querida, mas precisa seguir em frente. Precisa parar de se culpar e lidar com o que aconteceu.

— Eu segui em frente — retrucou Kate, tentando colocar algum entusiasmo na voz.

— Larguei meu trabalho na polícia e me tornei detetive particular.

— Sim, você fez isso, mas não chegou a um acordo com aquilo que aconteceu. Não de verdade. Você foi uma policial excelente. Tem talentos que podem rastrear pais desnaturados e gente desaparecida.

— Gosto de pensar que estou fazendo um bom trabalho. — disse Kate, em voz afetada.

— E está — apressou-se Louella a assegurar. — Mas não está fazendo o melhor uso de suas habili­dades. Tem de enfrentar aquilo que aconteceu e pa­rar de fugir.

— E como fazer isso? — Kate percebeu a irritação e o tom de desafio na própria voz e odiou-se por falar assim com a tia.

Louella suspirou, novamente.

— Não sei dizer exatamente, mas imagino que de­ve ser como montar de novo um cavalo depois de ter sido jogada fora da sela.

O silêncio imperou durante alguns momentos. Ka­te sabia que sua tia tinha razão, mas a dor de reco­nhecer que fora responsável pela morte de alguém era algo que ela não tinha certeza de ser capaz de superar. Seria o cúmulo da tolice assumir a respon­sabilidade pela vida de alguém, considerando sua condição psicológica nos últimos dois anos? Não. Es­se era um cavalo que ela poderia montar outra vez... Poderia?

Deixando escapar um suspiro, ela cedeu e fez a pergunta que estava louca para fazer.

— E por que Cullen iria precisar de um guarda-costas?

— Todas as evidências indicam que o tiro não foi acidental.

— Que evidências? — perguntou Kate, sentindo o sangue correr mais rápido em suas veias.

— Cullen estava descendo da plataforma de caça, no meio de três mil acres de bosque, quando recebeu o tiro.

— Não é impossível! — exclamou Kate, embora sua mente lhe dissesse que isso era altamente im­provável.

— Tem razão, mas saiu nos jornais e no noticiário da tevê e ninguém se apresentou para dizer que es­tava na área quando isso aconteceu. Cullen acredita que, se um rifle tivesse disparado acidentalmente, alguém apareceria para assumir a responsabilidade, especialmente sabendo que alguém ficara ferido e depois de ele ter declarado que não moveria qual­quer ação judicial.

— É caso de se pensar — murmurou Kate com a cabeça atordoada pela novidade perturbadora. Em­bora tivesse passado noites em claro, desde a última vez que estivera com Cullen, pensando em várias maneiras de fazer ela mesma um trabalho sujo como esse, sabia que era unicamente a dor por ter se sen­tido traída que a levara a ter pensamentos tão es­cusos. Pensar que alguém o odiava de verdade, a ponto de tentar matá-lo, era incompreensível.

— Isso é tudo?

— Não. Depois que Cullen recobrou a consciência, ele caminhou até a cabana e tentou dirigir até a cidade mais próxima para buscar ajuda. O freio de seu jipe falhou e ele caiu numa vala. O mecânico disse que o cabo foi cortado.

Kate franziu a testa e sua preocupação aumentou. Era uma evidência bastante grave, circunstancial ou não. Mordeu o lábio inferior, pensativa. Não tinha motivos para se colocar novamente numa posição on­de Cullen pudesse ter oportunidade de magoá-la de novo.

O dinheiro é bom.

A recompensa, um pensamento muito pertinente, surgiu sabe Deus lá de onde. Infelizmente, nessas alturas de sua vida, o dinheiro era importante. Mui­to. Ela tinha passado por meses difíceis e estava afundada em dívidas nos cartões de crédito. Se não fosse por um cheque de honorários que recebera de uma companhia seguradora, meses atrás, teria fica­do em maus lençóis. Suas finanças estavam a perigo. Na verdade, estava tão endividada com os cartões de crédito que não pudera mais usar alguns deles quando viajara, na semana anterior. E sem fazer seu trabalho, como iria sobreviver?

Estava em situação desesperadora... Para conse­guir se erguer novamente, teria de adotar medidas extremas, tal como se colocar numa situação que continha potencial perigo para seu coração partido.

— Tem alguma idéia de quem possa ser respon­sável? — perguntou, esperando obter um indício me­lhor do que se passava.

— Uma dúzia ou mais de pessoas que Cullen co­locou atrás das grades. Ele é um promotor excelente, Katie — disse Louella, num tom impregnado de en­tusiasmo e admiração. — Inteligente...

Matreiro.

— Esperto...

Evasivo.

— Habilidoso.

Um mentiroso contumaz!

— Mais importante — continuou Louella —, ele se importa com a vítima.

— Um modelo de perfeição, não é? — retrucou Kate, incapaz de esconder a ironia na voz.

— Ele é um homem honrado, Katherine, e, como você sabe muito bem, isso é algo que está se tornando cada vez mais difícil nos dias de hoje.

Ora, ora! Ela conseguira deixar tia Lou enfureci­da. Se a reprovação no tom de voz não fosse indício suficiente, a tia chamá-la de Katherine era. Ainda assim, considerando a experiência que tivera com o dito cujo, Kate não podia evitar de sentir o que sen­tia. E, por outro lado, além de sua interação pessoal com Cullen, ela tinha visto corrupção suficiente den­tro dos limites da lei para fazê-la encarar com olhos críticos alguém que parecia tão imaculadamente lim­po, não importava que tipo de endosso o célebre pro­motor pudesse obter de sua tia.

Contudo, Louella não era tola ao julgar as pessoas. Quem sabe Cullen McGyver fosse tudo que ela dis­sera que era, pelo menos na vida profissional. Quem sabe fosse um dos bonzinhos, merecedor de proteção. Isso não fazia a idéia de cuidar de sua proteção mais agradável, especialmente desde que tinham um pas­sado... mal resolvido.

— Sinto muito — disse, com um ligeiro toque de arrependimento. — A polícia não pode fornecer al­gum tipo de proteção? — perguntou, procurando por alguma saída ao sugerir a solução mais lógica para o problema de Cullen McGyver. Louella deu uma risada.

— Mesmo que tivessem a força policial que eles reclamam não ter, Cullen não haveria de querer nem ouvir falar de um... como é que ele disse, mesmo?... sujeito do tamanho de um armário postado atrás de si.

Kate acomodou as longas pernas sobre o tampo da mesa, sabendo que tinha de fazer a pergunta que lhe espicaçava a mente.

— E como é que ele se sente em ter uma mulher de quase um metro e oitenta grudada nas suas cos­tas?

Como ele se sente comigo, atrás dele?, pensou.

— Ele também não ficou muito satisfeito com a idéia, principalmente porque não quer que ninguém saiba o que está se passando.

Kate imaginou que Cullen estava provavelmente tão ansioso para contratá-la quanto ela em aceitar o trabalho. Na verdade, pensou, a razão que ele dera para explicar sua relutância não era má, especial­mente porque tia Lou não tinha a menor idéia de que pudesse ter havido algo entre os dois, a não ser um breve relacionamento profissional.

— Ele não quer atrair a atenção da mídia — con­tinuou Louella, em sua cega ignorância. — Eis por­que eu sugeri você. Eu disse a ele que se você acei­tasse o trabalho, nós poderíamos ocultar o fato de você estaria lá para protegê-lo, fazendo com que to­dos pensassem que havia um interesse amoroso em jogo.

O vacilante interesse de Kate evaporou-se. Tirou os pés da mesa e levantou-se da cadeira. O tom de sua tia era prosaico, mas Kate sabia por experiência que aquela entonação podia ser enganadora.

— Espere um pouco, tia Lou. Esse é outro daque­les seus esquemas maquiavélicos?

— Oh, claro que não! Por que você haveria de pen­sar uma coisa dessas? — Não havia como não notar a mágoa na voz de sua tia.

— Talvez porque você já tentou fazer isso antes.

— O homem está com um problema real, Kate — retrucou Louella, num tom injuriado.

— Ótimo, porque se não for assim e você estiver tentando me arranjar um marido conveniente, eu, definitivamente, não estou a fim.

— Arranjar Cullen para você? — Louella soltou uma gargalhada.

— Qual é a graça?

Sua tia riu, de novo.

— Pensar em você e Cullen como um par de ver­dade. Oh, é muito engraçado! Sem ofensa, querida, mas você não é o tipo dele, de jeito nenhum.

Kate fez cara feia, um pouco ofendida com o fato de que sua tia a considerasse tão indesejável. Porém, estava curiosa, queria saber o porquê.

— Ah, é? E qual é o tipo dele?

—Mignon. Socialmente educada. Que se vista com elegância.

Ora, isso certamente lançava uma luz sobre o mo­tivo que o levara a pegar aquilo que queria dela e, em seguida, sair feliz da vida, pensou Kate. Fora do quarto, ela não era o seu tipo. Servia para umas poucas noites de diversão e travessuras, mas quando se tratava de relacionamentos permanentes, o belo promotor procurava por um tipo mais na moda. O que deixava Kate de fora, já que desprezava essa coisa de moda e cuja única concessão era comprar os melhores tênis de corrida.

Deixou escapar um suspiro de alívio. Ou era de desapontamento?

— Isso me põe de lado, graças a Deus.

— Oh, não fale assim, Katherine. Você tem boas maneiras e é ótima dona-de-casa.

— Obrigada, tia Lou — retrucou Kate, sem deixar de perceber que a tia não dissera nada a respeito de a sobrinha ser elegante.

— Agora que esclarecemos tudo, por favor, quer pensar na oferta? Como um favor para mim?

Kate sentiu que fraquejava.

— Eu lhe disse que ele está disposto a pagar cinco mil adiantados, mais seiscentos por semana e des­pesas, não disse? — perguntou Louella, como quem não quer nada.

Cinco mil! Cinco mil era mais do que ela conse­guira nos últimos três meses.

— Que despesas? — perguntou.

— O aluguel de um apartamento pela duração do trabalho e um novo guarda-roupa.

— Você tem certeza da idoneidade dele? — per­guntou Kate, atônita com aquela aparente genero­sidade. — Quero dizer, como ele pode bancar isso com o salário de promotor?

— Dinheiro de herança. A família de sua mãe era dona de petróleo, no Texas, e seu pai era um madeireiro.

Isso explicava tudo.

— E por que eu iria precisar de um novo guarda-roupa? Já que não sou o tipo dele, não tem sentido fazer algo para impressioná-lo.

— Você estará se vestindo para o público, querida. Cullen é um homem muito considerado, com uma vida social bastante intensa. Assim que se recupe­rar, vai estar circulando novamente. Ora, ele conse­guiu o mais alto lance no leilão dos solteiros, no ano passado. E se você vai fingir que é sua namorada atual, tem de comparecer com ele a certos eventos.

— Que maravilha! — Kate ironizou, sem conse­guir conter-se.

— Sei que esse não é seu estilo, mas você é boa atriz, e é por isso que se sai tão bem em trabalhos com disfarces. Tenho certeza de que vai dar conta do recado.

— Não sei, não... — hesitou Kate. — Vou ter de transferir todos os casos em que estou trabalhando para um amigo meu e alguns dos meus clientes não vão ficar felizes com isso.

Ela ouviu a tia suspirar.

— Sei que é uma decisão importante, mas você vai pelo menos pegar um avião até aqui e falar com ele?

Quem sabe fosse a hora de confrontá-lo, pensou Kate. Quem sabe tia Lou tivesse razão. Quem sabe ela se inclinasse a esconder-se do passado ao invés de lidar com ele, cara a cara. Quem sabe havia che­gado a hora de encarar Cullen McGyver e dizer exa­tamente o que pensava dele por ter fugido e a aban­donado daquela maneira. Mas...

— Não posso pagar o custo da passagem.

— Cullen disse que paga a passagem, se você vier.

Ora, ora, o sr. McGyver pensava em tudo, não é?

Kate suspirou. Já que ele estava pagando por tu­do, o que ela podia perder ao ter uma conversinha com ele?

— Parece que o homem não deixou escapar nada — murmurou.

— Ele tentou — retrucou Louella.

— Tudo bem, então. Tia, veja se me consegue pas­sagem em um vôo amanhã. De preferência, bem cedo.

— Que tal esta tarde, às duas e quinze?

Kate fechou os olhos e balançou a cabeça, incré­dula. O hábito de tia Lou de pôr a carroça antes dos bois fora bem documentado através dos anos. E, com freqüência, isso sempre se revelava uma fonte de irritação.

— Você já comprou a passagem?

— Bem... Sim, Kate, comprei — admitiu Louella.

— Pensei que seria uma boa maneira de passar al­gum tempo com você, antes de mais nada.

Kate sentiu-se como se estivesse sendo engolida por uma onda gigantesca. Diferente da tia, que era conhecida pela impulsividade, Kate não gostava de tomar decisões apressadas. Normalmente, gostava de pensar sobre as coisas, examiná-las sob todos os ângulos concebíveis, pesar prós e contras, para não cometer erros. Fora por isso que hesitara por uma fração de segundo e permitira que aquele moleque drogado matasse seu parceiro.

Não iria pensar em Raul, naquele instante. Não iria se permitir isso. Esse trabalho com Cullen tinha potencial para tirá-la da enrascada financeira do mo­mento, e era isso o que importava.

Kate sentou-se, rígida, na cadeira, e endireitou os ombros.

— Parece que vamos nos ver esta tarde, então.

— Vou encontrá-la no aeroporto. Podemos jantar e você telefona para Cullen amanhã.

— Ótimo! — exclamou Kate, com mais entusiasmo do que realmente sentia. Anotou a informação sobre a passagem, disse adeus à tia, desligou o telefone e levantou-se. Era melhor se mexer se esperava che­gar a tempo de apanhar o vôo.

Enquanto tomava banho e fazia as malas, Kate continuou a perguntar a si mesma se havia perdido a cabeça ao considerar, mesmo remotamente, a su­gestão da tia. Justificou sua decisão de ir ao Arkan­sas dizendo a si mesma que não tinha compromissos. Uma entrevista de trabalho era apenas uma manei­ra de verificar se o serviço em potencial era exeqüí­vel. E havia a chance de ver Cullen outra vez.

Recriminou-se por pensar em Cullen. Devia con­centra-se no trabalho, não no homem. Infelizmente, os dois estavam intrinsecamente ligados. Ir para o Arkansas e encontrá-lo face a face era importante, se ela estivesse pensando em assumir o serviço. Po­dia-se aprender muita coisa não apenas questionan­do uma pessoa, mas examinando sua linguagem corporal e atitude. Olhando em seus olhos, ela seria capaz de ver exatamente onde se situava, diante dele.

Esqueça o ângulo pessoal, Kate. Você precisa de dinheiro, e esta é uma bela oportunidade. Ir vê-lo é a coisa certa, tanto em nível pessoal como profissio­nal, pensou.

Ao falar com ele, ela esperava poder deixar parte de seu doloroso passado para trás, no lugar a que pertencia. Se quisesse fazer um bom trabalho em protegê-lo no futuro, ela não poderia esquecer disso. Não importava o quanto o dinheiro pudesse ser bom, havia um monte de fatores a levar em conta e o mais importante era descobrir qual seria sua reação ao saber como Cullen McGyver se sentia a seu respeito e sobre o papel que ela poderia representar na vida dele.

Além disso, era sexta-feira, e outro solitário fim de semana se aproximava. A viagem seria um bál-samo na monotonia de sua vida, e, como a tia suge­rira, era uma oportunidade para as duas passarem algum tempo juntas.

Horas mais tarde, ao descer do avião, tia Louella estava esperando por ela, como havia prometido. En­volvida num abraço caloroso que recendia a White Shoulders, o perfume característico da tia, Kate viu-se engolfada por uma onda de nostalgia e amor. Até que seu tio, agora falecido, tivesse sido transferido para Little Rock, onze anos atrás, Louella fora a mãe que a leucemia arrancara de Kate, então com dez anos de idade.

— Tive saudade — disse ela, piscando através das lágrimas. — Não me dei conta do quanto, até ver você.

— Eu também, querida — afirmou Louella, aca­riciando o rosto da sobrinha.

— Está com fome?

— Morrendo! — Kate tinha um apetite voraz. Fe­lizmente, também contava com um metabolismo maravilhoso.

Louella riu.

— Algumas coisas nunca mudam. Onde você quer comer?

— Você escolhe. Não conheço bem o lugar.

— Vamos apanhar sua mala enquanto decidimos. Dirigiram-se para a esteira das bagagens.

— Sinto falta de tio Bert — disse Kate, de súbito. Era o tio, falecido fazia quatro anos, quem sempre cuidava das malas.

— Eu também.

— Ele era um amor. Pena que não haja mais gente como ele.

— Oh, existem uns poucos... — retrucou Louella. — São raros, mas estão por aí. Só é preciso procurar bastante por eles e você, senhorita, não tem namo­rado o suficiente desde que rompeu com Lane, para ver se encontra um bom sujeito.

— Tipo beijar um monte de sapos até achar o prín­cipe encantado? — perguntou Kate, com um sorriso.

— Exatamente.

— E você? — perguntou Kate, desviando-se de uma mulher que puxava um carrinho com gêmeos.

— Eu o quê? — devolveu Louella, com um olhar enviesado.

— Está namorando alguém?

— Sou velha demais para essas bobagens.

— Claro que não é! Você é a pessoa mais jovem de sua idade que já conheci. E é bonita, inteligente e...

— E não estou interessada. — Louella parou ao passarem por uma livraria. — Oh, olhe! Saiu um novo livro de Dean Koontz.

— Pare de mudar de assunto.

— Não estou mudando de assunto! — O rosto de Louella tingiu-se de indignado rubor.

— Claro que está — retrucou Kate, com um sorriso de malícia. — Seja honesta. Namorar é muito es-tressante, não é?

— Eu não saberia dizer, mas tenho certeza de que deve ser. Infelizmente, é a melhor maneira que eu conheço de encontrar o homem certo.

— É? Então, alguém precisa descobrir um jeito melhor.

Louella sorriu.

— Quem sabe?! O que me faz lembrar. A irmã de Cullen telefonou e disse que ele foi liberado do hos­pital hoje de manhã. Ela o está levando direto para a fazenda, para se recuperar. Quer que peguemos o carro e passemos o fim de semana lá.

Kate sufocou a vontade de gritar. Viera para uma entrevista de trabalho, não para perder tempo com Cullen e a irmã. Estava cansada. E preocupada em pagar as contas a vencer. A última coisa que dese­java era passar o fim de semana em confraternização com estranhos. Além disso, não gostara do jeito que sua tia emendara a conversa, ligando o melhor caminho de encontrar um homem com o nome de Cul­len McGyver. Conhecia bem a tia. Kate não duvida­va que Cullen estivesse metido em algum tipo de problema, mas tia Lou parecia disposta a matar dois passarinhos com a mesma pedrada, mesmo que um deles fosse um glorioso pavão e o outro um insípido pardal.

 

Na manhã seguinte, depois de devora­rem um farto café da manhã, à moda do campo, com os biscoitos amanteigados da tia, Ka­te e Louella colocaram as bagagens no carro e ru­maram para a fazenda dos McGyver. Kate passara uma noite agitada e chegara à conclusão que, de al­guma forma, sua entrevista com Cullen tinha sido trocada por uma visita de fim de semana. E não ha­via nada que pudesse fazer a respeito.

A essa altura, ela certamente poderia assumir um papel de boa moça por uns dois dias. Afinal, se fosse contratada para a posição de guarda-costas, era de se esperar que perdesse tempo com a fina flor da sociedade de Arkansas. Com isso em mente, ela mer­gulhara em um sono perturbado, repleto de fragmen­tos de sonhos eróticos.

Agora, ao tomarem a rodovia interestadual e com a confirmação de Louella de que a viagem até a fa­zenda levaria pelo menos duas horas, Kate reclinou a cabeça contra a janela e adormeceu.

— Eis a estrada.

Kate, que estivera cochilando, abriu os olhos e viu que saíam da auto-estrada, entrando numa via es­treita, asfaltada. Um rebanho de gado Black Angus enfeitava a pastagem à direita, e dez ou mais cavalos pastavam tranqüilamente nos campos que se per­diam ao longe, em ondulações suaves, à esquerda. Fileiras de madeira de lei e pinheiros marcavam o horizonte. Cercas de bordas brancas, recentemente pintadas, delineavam a rodovia que conduzia a uma casa branca, de dois andares, com uma varanda a circundá-la.

A casa situava-se em meio a pelo menos dez ár­vores, uma das quais uma magnólia ancestral. Um celeiro em estilo antigo, todo em vermelho, destaca­va-se ao fundo, junto com diversas outras edifica­ções. Sua breve associação com Cullen fizera Kate imaginar algo mais grandioso, alguma coisa menos terra a terra. Estava encantada, assim como surpre­sa, de ter a expectativa revertida.

Louella estacionou o carro em frente da casa. Mal desligara o motor, quando uma mulher bonita, de cabelos escuros, irrompeu pela porta da frente, des­cendo os degraus da varanda.

— Ei, Meghan! — exclamou Louella.

A despeito da aparência da mulher, de jeans e ca­miseta, Kate teve dela uma impressão de classe e de riqueza. Quem sabe fosse a perfeição dos cabelos escuros, cortados à altura da nuca, ou o ar refinado do rosto bem-feito. O que quer que fosse, causou em Kate um sentimento instantâneo de inferioridade. Ela não se preocupara em cortar os cabelos desde a morte de Raul. Impressionar as pessoas com sua aparência não era uma prioridade, e era mais fácil prender os cabelos num rabo-de-cavalo ou trançá-lo. Estava usando um jeans novo para o encontro inicial com Cullen e a irmã. Agora, desejava ter tido tempo para fazer as unhas e colocar um pouco mais de ma­quiagem.

Quaisquer conclusões a que Kate pudesse ter che­gado acerca da anfitriã foram postas de lado quando, sem qualquer hesitação, Meghan envolveu Louella num abraço caloroso.

— Teve algum problema em chegar até aqui? — perguntou Meghan.

— Nenhum — disse Louella. — Como está Cullen?

— A viagem realmente o deixou exausto e ele es­tava com muita dor, por isso lhe dei algo para aju­dá-lo a descansar.

Não havia como não notar a aflição nos olhos de Meghan. Ela estava preocupada e faria qualquer coisa para cuidar dos interesses e do bem-estar do irmão.

Louella fez as apresentações.

— Meghan, esta é minha sobrinha, Katherine Labiche, de Nova Orleans. Katie, esta é a irmã de Cul­len, Meghan Longstreet. Meghan é médica, especia­lista em traumatologia, no Baptist Memorial, em Little Rock.

Sorrindo, Meghan voltou-se para Kate. E esta pô­de sentir a força da inteligência daquela mulher pelo olhar com que a abarcou, por inteiro. Kate, por sua vez, examinou a anfitriã, desde a calça furada na coxa até a malha de cashemere rosa-pálido. Só mes­mo alguém como Meghan Longstreet poderia osten­tar aquela aparência casual e clássica, mesmo em trajes tão simples e informais.

Uma criatura interessante, pensou Kate. Meghan Longstreet parecia mais uma socialite desfrutando de um fim de semana do que uma profissional cate­gorizada. Mas, se fazia parte da equipe de traumatologia, devia ser boa.

Apertou a mão que a irmã de Cullen lhe estendeu, cumprimentando-a de uma forma firme e seca.

— E um prazer conhecê-la — disse.

— A você também — retrucou Meghan, com um sorriso.

Embora suas maneiras fossem agradáveis e sua linguagem corporal nada afetada, Kate notou que, por um instante, o sorriso não chegou aos olhos de Meghan. Notou também que havia alguma coisa a mais naqueles olhos castanhos. Preocupação? Será que a anfitriã já se preocupava que Kate não conse­guisse dar conta do trabalho? Ou o motivo daquela ansiedade seria a idéia de que não se adequasse ao papel que pretendiam que representasse?

— Cullen elogiou muito o trabalho que você fez para ele em Nova Orleans — disse Meghan.

— Verdade? — O comentário pôs um fim às ava­liações de Kate. Se ele ficara tão impressionado, por que não entrara em contato com ela? Simples. Ficar impressionado com o trabalho de alguém não signi­ficava necessariamente ficar impressionado com a pessoa.

— Verdade. Como prefere que a chamem? Katherine? — Meghan lançou um olhar divertido para Louella. — Para ser franca, você não se parece com uma Katie.

Kate não pôde deixar de sorrir.

— Tia Lou me chama de Katie desde que eu era um bebê. A maioria das pessoas me chama de Kate, simplesmente.

— Então, vou tratá-la de Kate — disse Meghan. — Sabe, você não se parece em nada com aquilo que eu esperava, conhecendo o seu currículo.

— E o que esperava?

— Não sei. Alguém mais sem graça. Pouco atraen­te. Talvez mesmo... mais reforçada. Você não é nada disso.

— Não há nada de sem graça em minha Katie! — exclamou Louella.

— Exceto talvez o nome.

Kate soltou uma risada, surpresa com o elogio inesperado.

— Tento passar tão despercebida quanto uma ruiva de um metro e oitenta pode passar — disse, com um ar displicente. — Uma aparência anônima ajuda quando se quer seguir o rastro de alguém e é preciso se misturar à multidão.

— Imagino — retrucou Meghan, pensativamente. Voltou-se e fez um gesto, indicando a casa. — Vamos entrar. Vou lhes mostrar os seus aposentos e dar-lhes um tempo para se acomodarem. Chamarei al­guém para levar a bagagem. Greg, o rapaz que con­tratamos para cozinhar enquanto estiverem aqui, não pode vir a não ser amanhã, de modo que estou preparando o almoço e não terei condições de fazer as honras da casa. Portanto, fiquem à vontade. Há alguns cavalos quarto-de-milha que você pode caval­gar, Kate, e uma sala de ginástica totalmente equi­pada com uma banheira quente. A propósito, o al­moço é às onze e meia, o jantar às seis, e não usamos trajes formais a não ser em ocasiões especiais. — Parou para respirar, sorriu e continuou:

— Foi um longo discurso, não é mesmo?

— Acho que explicou tudo — comentou Louella, com um sorriso. — Dan também veio?

Meghan balançou a cabeça, numa negativa, e abriu a porta.

— Ficou com as crianças. Diante das circunstân­cias, achei que seria melhor que, quando conheces­sem Kate, já fosse em seu papel de namorada do tio.

— Seu irmão pode não me querer para esse tra­balho — Kate sugeriu.

Meghan esboçou um sorriso enviesado e apontou para as escadas.

— Ele não quer ninguém para esse papel. — Ha­via, na voz de Meghan, uma tonalidade dura. — Mas esse é um momento em que a opinião dele não conta.

O quarto de Kate era adorável, decorado com pa­pel de parede em tonalidades tom sobre tom, em cre­me e verde-pálido, com cortinas de renda cor de pa­lha e acessórios em suaves nuances de verde, rosa e rosa-escuro. Fazia bem o estilo de Kate, que ado­rava o tradicional. Ela desfez a maleta de mão com poucos pertences e colocou-os nos lugares apropriados. Então, na esperança de desfrutar algum tempo antes do almoço, enfiou-se numa calça jeans, retocou o batom e soltou os grampos dos cabelos, deixando-os cair livremente pelos ombros e costas.

Isso feito, deu uma olhada na pequena pilha de livros sobre a mesinha-de-cabeceira e foi até a janela. Pôs-se a observar uma égua prenhe, com a barriga enorme, que pastava tranqüilamente no gramado. Se alguém lhe perguntasse, Kate teria que admitir: sua cabeça estava muito menos no animal e mais no encontro com Cullen. Seria no almoço ou ainda teria de esperar?

A idéia de encontrá-lo frente a frente fez com que se agitasse, tomada de uma súbita onda de pânico nervoso. Começou a passear de um lado para outro, no quarto, sabendo que essa sensação inquietante era causada pelo medo de rever Cullen, depois de quase dois anos. Não só isso a deixava com o estô­mago revirado. Pior, era o pavor daquilo que poderia ver nos olhos dele.

Kate disse a si mesma para esquecer o passado. Cullen, claramente, assim fizera. Ela estava ali para uma entrevista de trabalho. Ponto. Seria gentil, amis­tosa e profissional. Seria ela mesma... Quem quer que fosse atualmente. Incapaz de ficar sozinha com os pensamentos, saiu do quarto e seguiu para as es­cadas. Quem sabe Meghan precisasse de ajuda na cozinha.

— Não! Não pare!

A súplica abafada vinha entrecortada por beijos molhados e gemidos roucos que ressoaram nos ouvi­dos dele, mais uma respiração ofegante do que pala­vras de verdade. Os braços de Kate rodeavam-no pelo pescoço. Seu corpo pressionava o dela em meio à sua­vidade dos lençóis, o calor dos corpos nus fundindo-se numa película fina de suor e paixão primitiva.

— Tenho de diminuir o ritmo ou eu morro — disse ele, com uma risada maliciosa, afastando-se o sufi­ciente para fitá-la nos olhos. Uma mecha de cabelos úmidos enroscara-se no rosto de Kate. Com um sor­riso cansado de macho satisfeito, ele afastou a mecha com a ponta do dedo.

— Alguém já lhe disse que você precisa aprender a se refrear, srta. Labiche?

— Qual o problema, Excelência? — ela o provocou, movendo-se sensualmente sob ele. — Não agüenta?

Ele arqueou o corpo e penetrou-a, lenta e profun­damente.

— Posso agüentar pelo tempo que você quiser.

— Promessas, promessas...

Ele calou-a com um beijo faminto e selvagem. En­tão, entre gemidos e sussurros, nenhum dos dois fa­lou, por um longo, longo tempo.

Mais tarde, quando as sensações haviam abran­dado o bastante para permitir pensamentos coeren­tes, ele correu os dedos por entre os cabelos dela.

— Quando a contratei, jamais poderia sonhar que algo assim pudesse acontecer.

— Nem eu — confessou Kate. — E por que acon­teceu?

Ele beijou-a de leve na linha do queixo.

— Por que nunca conheci alguém assim> tão cheio de vida, em toda a minha existência? — E em se­guida acrescentou: — Por que não pude me conter?

— Nem eu pude — murmurou Kate, tocando-o sua­vemente e fazendo com as mãos uma espécie de má­gica no corpo extenuado.

— Ah, Kate Kate — ele gemeu, percebendo que talvez não estivesse tão cansado quanto pensava...

— Kate...

O nome veio a seus lábios quando o telefone tocou, desfazendo o encantamento. Tentando abrir os olhos enevoados pelo efeito do medicamento que Meghan lhe dera, Cullen estendeu automaticamente a mão para o receptor. Uma dor aguda e penetrante o re­cordou de sua situação. Graças a Deus, o retinir do aparelho emudeceu. Meghan devia ter atendido na extensão, em alguma parte da casa.

O aparelho de ar-condicionado emitiu um suave ronronar, lançando uma lufada de vento fresco pelo quarto. Cullen sentiu o cheiro de alguma coisa cozi­nhando e ouviu o som de conversas abafadas. Devia ser, provavelmente, a televisão. Ou Louella, pensou. Ou Kate.

Lembranças do sonho carregado de erotismo vol­taram-lhe à mente, acompanhadas de uma necessi­dade física quase dolorosa, um desejo que parecia nunca ficar satisfeito. Kate... Seu único deslize desde que perdera Joanie. A única mulher com quem se envolvera e que não pudera expulsar da cabeça. A única mulher cuja companhia o enchera de uma inesperada ansiedade de parar de viver do passado e aproveitar o que a vida tinha para lhe oferecer. A única mulher cuja incrível capacidade de se entregar completamente, tanto emocional como sexualmente, fora capaz de lhe proporcionar tanto prazer e satis­fação. E a culpa por ter abandonado o luto por Joanie o invadira, deixando-o apavorado.

Confuso, zangado, inseguro e incapaz de lutar, ele simplesmente a deixara e voltara para a vida na qual se lançara, fazendo do trabalho um esforço para tentar esquecer os quatro dias e as três noites que deviam ter sido, possivelmente, as horas de mais in­tensa satisfação em toda a sua existência.

Por que reagira tão violentamente à atração que sentira por ela?

Nunca conheci alguém assim, tão cheio de vida, em toda a minha existência. Não pude me conter.

As palavras do sonho, da realidade, eram verda­deiras. Porém, o desejo de fazer amor com Kate tinha mais a ver com o fato de que, desde que perdera Joanie, fazia menos de três anos, ele se sentia um morto-vivo. Estava começando a ter medo de nunca mais sentir nada.

Afundado em tristeza, capaz apenas de funcionar intelectualmente quando estava imerso em trabalho, ele se curvara aos pedidos de Louella e concordara em utilizar os serviços de Kate em um trabalho de investigação de que precisava para elucidar um caso particularmente sórdido de violação ambiental. To­mara um vôo para Nova Orleans e conhecera Kate. O resto, como dizem, era história.

Não se sentia orgulhoso pela maneira com que a deixara, sozinha na cama, sem uma palavra de adeus ou uma explicação. Mas, na época, sua convicção de estar sendo desleal com aquilo que ele e Joanie ha­viam partilhado fora mais forte dos que seus senti­mentos alvoroçados de sensualidade para com Kate.

Ele amava Joanie. Perdê-la tinha sido o fim da vida, tal como o imaginava. O fim da felicidade, da esperança. Estar com Kate o havia espicaçado, dan­do-lhe a impressão de que todos aqueles sentimentos estavam ao alcance de sua mão. Sensação irritante, acompanhada pela culpa de estar sendo infiel ao amor que ele e Joanie haviam compartilhado. Isso o for­çara a partir, determinado a esquecer Kate e tudo o que ela o fizera sentir. Como podia ter tanta sau­dade de Joanie, como podia tê-la amado tão profun­damente e, ainda assim, encontrar tamanho prazer e vislumbrar tantas promessas nos braços de outra mulher?

Partir tinha parecido a única maneira de salvar as suas crenças mais íntimas e a imagem que fazia de si mesmo. Rapidamente, porém, aprendera que esquecer Kate era mais fácil de ser dito do que feito, e seus esforços ainda falhavam mesmo depois de quase dois anos.

A irritante e enlouquecedora incapacidade de ar­rancá-la da mente tinha um componente a mais. Era mais fácil dizer não aos relacionamentos de longo prazo com outras mulheres que o rodeavam, cada uma esperando ser aquela que iria tirá-lo de circu­lação e levá-lo para o altar. E tinha havido mulheres, nos últimos dois anos. Nem tantas, e todas facilmen­te relegadas ao esquecimento quando comparadas à incomparável Kate.

Agora, inesperadamente, ela estava de volta à sua vida. E tudo porque algum maluco resolvera colocá-lo sob a mira de um rifle. Cullen estava feliz por ter saído do hospital, ansioso para que a vida retomasse seu curso normal e mais do que aflito para reassumir o trabalho.

Infelizmente, depois de considerar todas as evi­dências e conversar com Buddy, os investigadores do departamento de polícia haviam chegado à mes­ma conclusão que Meghan: alguém queria matá-lo. Isso estabelecido haviam afirmado que estavam em­penhados em seguir quaisquer pistas que pudessem levar ao esclarecimento do caso. Também concorda­ram que ele devia recuperar-se em lugar seguro. E insistiram para que aceitasse a sugestão de Louella de que tivesse um guarda-costas, de preferência uma mulher que se fizesse passar por interesse amoroso. Enquanto isso, a polícia tentaria descobrir quem era o agressor para colocá-lo atrás das grades.

E assim, ali estava ele, escondido no campo, espe­rando para ver Kate de novo, imaginando como ha­veria de se sentir quando isso acontecesse... imagi­nando como ela se sentiria com aquela coisa toda. Será que pensaria em agir como guarda-costas tal como em outro trabalho qualquer? Ou haveria algo mais? Algo especial?

Guarda-costas. Cullen ergueu a mão direita e co­briu os olhos. Deus do céu! A simples idéia de pensar em uma mulher, fosse Kate ou qualquer outra, in­terposta entre ele e uma bala era não apenas ridí­cula, mas decisivamente ofensiva.

Criado por pais sulistas, ele crescera com a anti­quada noção de que as mulheres eram fisicamente o sexo fraco. Não apenas os homens faziam o tra­balho pesado, eles tinham obrigação de proteger as mulheres. Parecia, de alguma forma, estranho a ele que alguma mulher pudesse achar essa idéia ques­tionável.

Bufando de irritação, Cullen rolou para o lado, desprezando a dor que se seguiu ao movimento. Er­gueu-se sobre o cotovelo e, então, para a posição sen­tada, gemendo de dor. Infelizmente, mesmo depois de alguns dias, isso se transformara em algo apenas suportável. Olhou para o relógio e viu que era quase hora do almoço. Pela primeira vez desde o atentado, ele sentia o estômago roncar de fome. Bom sinal. Estava a caminho da recuperação. Enfiou os pés nos chinelos e levantou-se da cama com tremendo esfor­ço, seguindo para as escadas, para ver se dava um jeito de apressar a refeição.

Sem ter certeza de onde procurar pela anfitriã, Kate espiou em vários cômodos até deparar com a biblioteca. Sua impressão imediata foi a de madeira e couro. Bordo e verde-escuro. Decoração clássica, antiga. Quietude palpável. Amante inveterada dos livros, ela entrou para ver as prateleiras.

Um agrupamento de fotografias sobre a lareira chamou-lhe a atenção e ela se deteve, para examiná-las. Havia a de um casal mais velho que, a julgar pela aparência, devia ser dos pais de Cullen. Um instantâneo de uma Meghan bem mais jovem, na Universidade de Arkansas, num cenário ornamen­tado para uma festividade, e de Cullen, em seu uni­forme de basquete. Fotografias dos dois em becas de formatura, sorridentes e segurando os respectivos di­plomas. Uma foto maior, dezoito por vinte e quatro, de Meghan e Dan, no dia do casamento, e uma de Cullen, ao lado de uma mulher miúda com cabelos castanho-avermelhados, que usava um vestido de noi­va em estilo vitoriano.

Com profundos olhos azuis, cabeleira farta de um rico tom acastanhado e um sorriso discreto, Joanie McGyver era extremamente bonita. De uma beleza suave. A palavra parecia dizer tudo sobre a falecida esposa de Cullen. Imaginando como seria ela, real­mente, pegou um instantâneo de uma Joanie visi­velmente grávida.

Kate sabia que a esposa de Cullen havia morrido junto com o bebê, ao dar à luz. Na foto, ela sorria e parecia alisar o barriga proeminente, orgulhosa da prova inconteste de sua feminilidade. Intuitiva­mente, Kate soube que essa era uma das últimas fotografias antes da morte de Joanie McGyver. Sen­tindo uma tristeza que não conseguiu compreender, Kate agarrou o porta-retrato e fitou a imagem, como se pudesse descobrir respostas naqueles olhos ex­pressivos.

Tudo que viu foi uma felicidade que lhe trouxe um nó à garganta. Um sentimento que ela entendia bem, porém não totalmente, por ter desfrutado de uma simples amostra do que devia ser sentir-se amada por Cullen.

— Linda, não era?

O som daquela voz, profunda, suave e, de alguma forma, perturbadora, fez com que Kate pulasse de susto. Apertou a fotografia entre os dedos para con­trolar o súbito tremor das mãos, um tremor que ra­pidamente se espalhou por seu corpo inteiro.

Tentou mentalmente recuperar o sangue-frio an­tes de olhar para ele, depois de quase dois anos. For­çou-se a dar meia-volta e encará-lo. Um suspiro in­voluntário escapou de seus lábios. Havia se esque­cido do quanto ele era bonito, pensou. Observou-o com a cuidadosa consideração que teria dedicado a uma situação perigosa antes de enfrentá-la.

Cullen estava parado na soleira da porta, com um desafiante ar de agente 007, usando jeans e uma camisa de tecido macio, com um dos braços numa tipóia. Os cabelos negros estavam cortados bem cur­tos, num corte moderno. O queixo era forte, as maçãs do rosto salientes e o nariz, aristocrático. E a boca... Parecia desenhada para deixar qualquer mulher lou­ca. Ela sabia disso. E outro suspiro involuntário lhe escapou.

Incapaz de suportar aquele olhar examinador e acurado por mais tempo, ela virou-se e colocou a foto em seu devido lugar.

— Sim — disse, voltando-se para fitá-lo.

— Sim, o quê? — ele perguntou, franzindo a testa. Ele se esquecera da pergunta que fizera, pouco antes?

— Sim, ela era uma mulher muito bonita — respondeu Kate. — É fácil entender porque você tanto a amava.

Cullen balançou a cabeça.

— A aparência não tem nada a ver com o amor que eu tinha por ela.

Claro que não. Joanie McGyver, sem dúvida, era a mulher ideal. Afinal, Cullen não levava uma vida perfeita, sem defeitos? Uma existência cujos proble­mas a riqueza, o charme e a inteligência não pudes­sem superar?

— Estou surpreso de que tenha vindo — disse ele, arrancando-a dos devaneios.

Kate deu de ombros.

— Eu é que fiquei surpresa de que você tenha pedido.

— Foi idéia de Louella.

— Ah... — murmurou Kate, com um gesto de en­tendimento. — Ela, certamente, não tem idéia de que não nos afastamos nos melhores termos.

Pela primeira vez, desde que se voltara para en­cará-lo, Kate pensou ter percebido uma vacilação no autocontrole de Cullen, algo indefinível naqueles som­brios olhos azuis. Rapidamente, porém, recuperou-se, como convém a todo bom advogado.

— Pensei que tivéssemos nos separado em termos excelentes — ele retrucou, enganchando o polegar da mão boa no bolso da calça. — Sem ressentimen­tos, sem recriminações, sem promessas que não po­díamos cumprir.

— Sem despedidas — emendou Kate, com um to­que de amargura.

— Um adeus teria mudado alguma coisa? — ele perguntou. — Foi o que tinha de ser.

— E foi exatamente o quê?

— Uma momentânea fuga do tempo. Risos. Con­versas. Duas pessoas solitárias e feridas procurando um caminho para se curarem.

O que, Kate supunha, resumia tudo, pelo menos do ponto de vista de um homem. Assim, a esse res­peito, Cullen estava com a razão.

— Suponho que esteja certo — ela admitiu, num resmungo. — Um adeus não teria mudado nada.

Especialmente desde que ficasse claro que tudo que ela havia significado fora uns poucos dias e noi­tes de diversão que o afastaram da dor e da solidão. Nem uma separação demorada e cheia de tristeza mudaria o fato de que ela tinha estado a ponto de apaixonar-se por ele. Algo que nunca esperara que pudesse acontecer tão depressa, depois de ter sido abandonada por Lane.

O que, mais uma vez, vinha mostrar o quanto é irracional o coração de uma mulher. Aprendera, po­rém, essa segunda lição sobre o amor muito bem. E, desde aquela ocasião, construíra a duras penas uma sólida barricada em torno do coração. Tinha certeza de que não incorreria no mesmo erro pela terceira vez.

— Então, parece que você tem um problema com a oferta de emprego, considerando nossa... breve his­tória do passado? — perguntou Cullen.

Kate ergueu o queixo em um ângulo que beirava o atrevimento e forçou um sorriso.

— Eu estou aqui, não estou?

Cullen concordou, com um gesto lento.

— Realmente, está.

Assim que falou, Cullen repreendeu a si mesmo. Será que Kate notara o duplo sentido? E, oh! céus, o que o havia levado a responder com uma réplica tão mordaz e provocativa uma pergunta inocente? Será que observá-la parada ali, vestindo aquele jeans justo e a camiseta curta, o fizera recordar-se de um tempo em que tirara uma camiseta semelhante pela cabeça dela e a livrara da calça jeans, expondo as pernas longas e bem torneadas? Quem sabe fosse o ar de desafio que via naqueles olhos, que dizia que mesmo que ele a contratasse para uma tarefa, ela não dava a mínima para o que ele pensasse dela ou por tê-la deixado sem uma palavra de despedida.

Amante de um desafio, Cullen percebeu que ainda continuava fascinado por aquela atitude arredia. Uma das coisas que o impelira para ela desde a primeira vez que tinham se encontrado. Kate, porém, não vie­ra para satisfazer quaisquer sensações sexuais mal-resolvidas que ele pudesse ter para com ela. Viera porque era boa no que fazia. E ele, agora, precisava dela de uma forma completamente diferente.

— Tia Louella me contou que alguém tentou dar cabo de você — disse Kate, abandonando o tom pes­soal da conversa e enfocando a razão real de sua presença ali.

— De mim? Alguém já lhe disse que você usa as palavras de um jeito muito cru? — perguntou ele, com um sorriso enviesado a lhe entortar o canto da boca.

— Isso serve para nós dois — retrucou Kate. A expressão, em seus olhos, dizia que ela gostaria de ter mordido a língua, pois, mais uma vez, fizera uma alusão ao relacionamento anterior de ambos.

Determinado a não dar ouvidos à voizinha que sus­surrava em seu íntimo, dizendo que ele fora um tolo em sair do apartamento daquela mulher sem olhar para trás, Cullen ignorou o comentário.

— Tem razão. O consenso geral das autoridades parece ser de que eu não sou o sujeito mais popular na cidade.

— E também é consenso geral que o melhor jeito de protegê-lo é contratar uma mulher como guarda-costas para fingir que ela seja seu último... interesse amoroso, certo?

— Certo.

Kate descansou o peso sobre uma das pernas e cruzou os braços, medindo-o de cima a baixo, com um olhar de fria avaliação.

— E como seu verdadeiro interesse amoroso se sente em ter alguém usurpando seu lugar, mesmo que temporariamente?

— Não há nenhum interesse amoroso verdadeiro — Cullen retrucou, sustentando-lhe o olhar.

Surpresa e dúvida toldaram os olhos de Kate.

— Acho difícil de acreditar.

— Tente — ele caçoou, com outro daqueles sorrisos enviesados. Deus do céu, ele se esquecera do quanto ela podia ser irritante.

Kate soltou um suspiro fundo.

— Tudo bem, então! — exclamou, colocando as mãos nos quadris. — Esse obstáculo está fora do caminho. O que acha de eu lhe devolver a pergunta?

Cullen ergueu as sobrancelhas, com um ar de in­terrogação.

— Como se sente em saber que estarei junto a você vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana, considerando nossa... breve história do passado?

— Honestamente?

— A honestidade é boa em qualquer relação — murmurou Kate, com um ligeiro gesto afirmativo.

Cullen ficou a imaginar se ela tinha consciência de que suas palavras podiam ser consideradas como sarcásticas. E, novamente, deixou o comentário pas­sar sem resposta. As emoções o agitavam, uma mes­cla de irritação e alívio, e seria um desafio tê-la por perto durante todo o tempo... Especialmente se ele não parasse de se recordar de quando a tivera nos braços, do gosto de sua boca, na maneira rouca com que ela lhe gritara o nome nos estertores da paixão.

Limpou a garganta e expulsou as lembranças per­turbadoras.

— Então, honestamente, eu não gosto da idéia de ter você ou qualquer outra mulher por perto, o tempo todo. Pensar em uma mulher para me proteger vai contra tudo aquilo em que acredito.

— Você é antiquado, Excelência.

— Em alguns aspectos, acho que sou — Cullen concordou.

— Ora, ora — murmurou Kate, num tom estranho. — Voltemos à questão. Você não quer uma mu­lher como guarda-costas, mas tem de ter uma. Como se sente sendo eu essa mulher?

Com receio de revelar demais dos sentimentos conflitantes que se tumultuavam dentro dele, Cullen falou:

— Suponho que contratar uma outra pessoa tor­naria tudo mais fácil para nós dois, mas não tenho dúvidas a respeito de sua capacidade de fazer o tra­balho, se aceitá-lo.

Kate deixou cair os braços ao longo do corpo.

— Então, está oferecendo o emprego a mim, ofi­cialmente?

— Não seja modesta, Kate! — ele exclamou, com um tom de irritação na voz.

— Não lhe cai bem. Você soube, desde o momento em que Louella lhe telefo­nou, que o emprego era seu.

— Não foi o que ela me disse.

— Deixe pra lá o que ela disse. Você me conhece.

— Na verdade, Excelência, não conheço.

Ele soltou uma praga, tomado de surpresa.

— Isso não vai funcionar se nós ficarmos trocando provocações. E funcionará menos ainda se continuar­mos a reviver o passado.

— Quer saber? Acho que não vai funcionar de jeito nenhum — retrucou Kate —, porque, diferentemen­te de você, não posso estancar meus sentimentos co­mo se fecha uma torneira.

— Ainda está zangada porque eu não a acordei para dizer adeus? — ele perguntou, incrédulo, sabendo que acertara na mosca e com a certeza de que era culpado da acusação.

— Claro que estou zangada! E não tente agir como se não fosse se sentir do mesmo jeito se eu o tivesse tratado da mesma forma.

— E então, como posso remediar as coisas? — per­guntou Cullen, erguendo o braço sadio com um ar de súplica. — Quer que eu me desculpe? Sinto muito. Foi imperdoável da minha parte. Nunca mais farei isso.

— Pode estar certo de que não fará mesmo. E foi, realmente, imperdoável. Um jeito covarde de acabar com um envolvimento.

— Três noites não significam que eu lhe devo ex­plicações sobre minhas ações — ele retrucou, num tom gélido.

— Tem razão. Não deve. Desculpe-me por ter pen­sado que você era um homem honrado.

— Aquilo foi apenas sexo, Kate — disse Cullen, secamente, mas o calor da raiva abandonara sua voz. — Um ótimo sexo, sem compromissos. Sei que não iria dar certo por uma série de razões. Achei que partir seria um jeito fácil de resolver as coisas para nós dois. Podemos colocar uma pedra sobre o assunto e seguir em frente?

— Claro — retrucou Kate. — Por que não? — Ela era uma mulher moderna.

— Por que não abandona essa sua atitude por um minuto e me diz por que pensou em aceitar este tra­balho quando é óbvio que ainda nutre uma raiva imensa de mim?

— Porque os negócios andam fracos e se o que tia Lou me disse é verdade, o dinheiro que você está oferecendo é muito bom.

— Seja lá o que Louella tenha dito, você pode sacar no banco. Literalmente.

— Ótimo. Você arranjou um guarda-costas — re­trucou Kate, com um sorriso frio.

— Ótimo — repetiu Cullen, mas não estava certo disso. Quase tudo a respeito daquela ruiva parada diante dele mexia com seus nervos do jeito errado.

— Você tem alguma idéia de quanto tempo essa brincadeira irá durar? — ela perguntou, cortando-lhe os pensamentos com rudeza.

— Não há como saber. Mas, se as coisas esmore­cerem em, digamos, três ou quatro meses e a polícia não tiver agarrado o atirador, daremos tudo por en­cerrado e você poderá voltar para Nova Orleans. Se pegarmos o sujeito em algumas semanas, você vai voltar com um generoso cheque de compensação.

— Muito justo — disse Kate, concordando. De re­pente, pareceu sentir-se desconfortável. — Você não sabe por que eu abandonei meu trabalho como poli­cial, há quase dois anos atrás, sabe? — perguntou, mudando de assunto sem aviso.

— Claro que sei. Louella me contou quando suge­riu que eu a contratasse para o caso Landry.

— E você não teve qualquer dúvida quanto a mi­nha capacidade de fazer o trabalho?

— Por quê? — ele perguntou, franzindo a testa. — Por causa daquilo que aconteceu a seu parceiro?

— O que aconteceu com Raul não foi pouca coisa.

— Não, mas é o tipo de situação que acontece quan­do se tem um trabalho como o seu. Todo policial sabe que pode acontecer com ele a qualquer tempo. Raul sabia disso.

Ela suspirou e balançou a cabeça.

— Não o deixa um pouco preocupado que eu ti­vesse ficado parada, tremendo dos pés à cabeça, e deixasse meu parceiro levar um tiro?

— Isso não me preocupa de maneira nenhuma.

— Ora, muito bem, essa era uma outra razão de eu ter hesitado em aceitar um emprego que poderia ter potencial para me colocar em situação semelhan­te. E esperto como todos dizem que você é, me parece que teve poucas reservas a respeito.

— Olhe, segundo eu vejo, passaremos a maior par­te do tempo aqui, não na cidade. Ninguém sabe onde estou, e tomaremos precauções, de maneira que, com sorte, ninguém nos encontrará. Essa coisa de guar­da-costas é só uma medida adicional em caso de al­gum vazamento de informação. Honestamente, não antecipo quaisquer situações onde seus medos pos­sam vir a ser colocados em teste.

— Então, por que ofereceu tanto dinheiro para con­tratar alguém?

Cullen sorriu.

— Fui escoteiro. E acredito que meu sucesso como promotor vem do fato de tentar pensar em todos os ângulos e estar preparado para qualquer contingên­cia. Todos com quem conversei pensam que você po­de lidar com a situação e eu creio piamente que po­demos encarar nossos temores.

Kate meneou a cabeça.

— Você fala como tia Louella.

— Ela é uma mulher sábia — disse Cullen. Fitou-a, indeciso. — Quem sabe eu devesse lhe fazer uma pergunta...

— O quê?

— Digamos que a história se repita e aconteça algo comigo. Isso a faria chegar a seus limites e acha que poderia superar?

O rosto de Kate tingiu-se de rubor e um olhar apavorado toldou-lhe a expressão por uma fração de segundo. Então, ela jogou os cabelos para o lado e esboçou um sorriso de puro sarcasmo, um traço que ele estava aprendendo a conhecer e que indicava que Kate estava relutante em demonstrar seus sen­timentos.

— Muito bem, eu superarei isso — ela consentiu, num tom de ironia.

— Não sou tão ligada a você quanto era a Raul.

— Ótimo, então. Acho que o emprego é seu. Quan­do começa?

— Preciso voltar para casa e resolver alguns pro­blemas pendentes.

— Quanto tempo acha que vai levar para ajeitar as coisas?

— Uns dois dias. Terei de fechar meu escritório.

— Por que faria isso?

— As leis que regulamentam o trabalho dos dete­tives particulares variam de Estado a Estado. Seria mais simples fechar do que tentar preencher todos os requerimentos em curto prazo.

Ele franziu a testa.

— O que vai fazer quando o trabalho terminar?

— Recebi uma oferta, na semana passada, para trabalhar em uma companhia de seguros, como in­vestigadora de fraudes. Acho que a vaga ainda es­tará em aberto quando eu terminar aqui. Não será muito emocionante, mas o salário é bom e o trabalho constante, o que é ótimo quando as contas não param de chegar, todo mês.

— Não quero que faça isso só para aceitar este emprego.

— Eu vinha pensando nisso faz algum tempo. Sua oferta apenas foi um empurrão a mais.

— Se tem certeza...

— Plenamente.

— Você ficará durante o fim de semana, como pla­nejado, então. Pode pegar o último vôo no domingo à noite e voltar no meio da próxima semana. O que acha?

— Como se você estivesse acostumado a sempre dar a última palavra.

Cullen bufou de irritação.

— Foi uma sugestão, Kate. Não sou um bicho-papão. Se precisar de mais tempo, não há problema.

— Desculpe. Acho que você desperta o que há de pior em mim.

— Digo o mesmo — ele retrucou e estendeu a mão livre.

— Podemos apertar as mãos e estabelecer uma trégua?

— Claro — ela respondeu, atravessando a sala em direção a ele.

A mão de Cullen fechou-se sobre a dela. O aperto era firme, a pele macia.

— Amigos?

Kate encarou-o nos olhos e meneou a cabeça.

— Posso lidar com essa coisa de trégua, eu acho. Mas, amigos? Não creio, Excelência. Isso seria forçar demais a credulidade. Vamos apenas tentar não aper­tar o pescoço um do outro, está bem?

 

Cullen retirou-se para seu quarto, de­pois do almoço, para descansar. Sen­tia-se enjoado com o sedativo e precisava de algum tempo para digerir a conversa, ou seria o confronto? Com Kate. Se quisesse ser justo, teria de assumir a culpa pelo tom da discussão. Agira de forma errada e ela se incumbira de lembrá-lo. Ninguém, e muito menos Cullen, gostava de ser apanhado fazendo algo errado, e ele gostava ainda menos de ser lembrado disso. Tinha de admitir uma coisa em relação a Kate Labiche. Ela seria um osso duro de roer, um traço que ele admirava em seus adversários nos tribunais. A questão era: isso seria uma boa coisa durante as próximas semanas?

Enfiou a mão por entre os cabelos e praguejou bai­xinho. Mesmo que tivesse se desculpado e pedido uma trégua, ele não tinha certeza de que isso fun­cionaria. Persistia a ligeira dúvida de que empregá-la era comprar problemas, de um jeito ou de outro, ainda que por razões desconhecidas, ou razões que não queria encarar de perto. Na verdade, fora do­brado como uma panqueca quando sua irmã e Louel-la o haviam forçado a contratar Kate.

Aquelas duas haviam vibrado ao saber que Kate aceitara o trabalho. Cullen vibrara quando ele e Ka­te haviam conseguido chegar a um acordo sem maio­res discussões, durante o almoço. Na verdade, tinha sido muito bom. Ela sabia como se comportar em companhia dos outros, mesmo que chegasse quase a desafiá-lo em cada ponto da conversa, quando ti­nham estado sozinhos.

Não, não era verdade. Embora não tivessem dis­cutido a morte do parceiro dela ou a de sua esposa, haviam passado muito tempo juntos, em Nova Or­leans, falando sobre os respectivos empregos, seus desapontamentos com o sistema, sua concordância em que não estava sendo feito o suficiente e suas frustrações em saber que não importava o quanto se esforçassem para tirar a escória das ruas, nunca se­ria o bastante.

Haviam se conhecido em fevereiro. No Dia dos Na­morados, na verdade. Por sugestão de Louella, Cul­len havia voado até Nova Orleans para contratar Kate para um trabalho. Ele queria que ela observas­se dois indivíduos que estavam, segundo as informa­ções, envolvidos em negócios ilegais no descarte de combustível, operação que tinha base em Arkansas.

Naquela época, a Tracers Inc., firma de investiga­ção de Kate, era nova, e a morte de Raul, assim como o divórcio de Kate, eram recentes o bastante para se constituírem em fontes de uma dor considerável. Ela ainda lamentava a perda do parceiro e carregava culpa por se considerar culpada pelo fato.

Cullen, ainda de luto por Joanie, e sofrendo com a própria parcela de culpa pela morte da esposa, havia ficado ao mesmo tempo fascinado e enfurecido com Kate. A fascinação vinha do fato de que ela era diferente de qualquer mulher que já conhecera, ver­dadeiramente conhecedora das implicações internas e externas de seu trabalho, assertiva e insolente, em nada semelhante às mulheres com quem ele usual­mente lidava.

Embora freqüentemente emitisse julgamentos rá­pidos sobre as pessoas, com base na primeira im­pressão, e raramente estes se mostrassem errados, ele não fora capaz de apontar a razão por trás dos sentimentos que Kate lhe despertara. Semanas pas­sariam antes que percebesse que a irritação tinha raízes no fato de que ela era a primeira mulher que o fazia dolorosamente consciente de que ele não mor­rera com Joanie. Kate era uma mulher despachada, um tipo que ele procurava evitar, preferindo namo­rar mulheres mais suaves, mais femininas e menos chegadas a um confronto.

No entanto, tudo a respeito de Kate o fazia sen­tir-se como se estivesse emergindo de algum sono escuro, sem sonhos. Seus dias, que haviam se trans­formado em um filme insípido em preto-e-branco desde a morte de Joanie, foram subitamente inun­dados de uma cor vibrante.

Tudo em Kate clamava pela vida, seu corpo flexí­vel, fisicamente condicionado, sua língua afiada, o jeito com que ela o olhava, com aquele ar de desafio nos olhos, como se estivesse dizendo ao mundo para sair da casca e tentar viver. Ela parecia estar pronta para o que desse e viesse, para o que quer que a vida lhe reservasse.

Não sendo homem de deixar passar um desafio, Cullen aceitara o duelo. Não fazia vinte e quatro horas que a conhecera quando deu o primeiro passo.

Disse que ela o desagradava. Ela simplesmente dera meia-volta e se afastara. Ele a agarrara pelo braço e a obrigara a encará-lo, puxando-a para den­tro dos braços e beijando-a, fosse para castigá-la ou porque era algo que vinha desejando fazer desde que pousara os olhos nela.

Ninguém tinha ficado mais surpreso do que ele próprio quando, tão depressa, as coisas fugiram do controle. Haviam se jogado na cama e, por quatro dias e três noites, ele tentara da melhor forma in­fundir e sugar para dentro dele aquela força vital. A intensidade com que ela o fazia vibrar era ao mes­mo tempo libertadora e aterrorizante e, embora o fi­zesse sentir-se mais vivo, Cullen odiou-se pela mag­nitude das sensações que Kate despertava, muito dis­tante de qualquer coisa que ele houvesse experimen­tado com uma mulher, inclusive a própria esposa.

Durante o tempo que passara com Kate, a certeza de que estava sendo desleal com Joanie e para com o amor de ambos nunca se distanciara de sua mente. Foi essa culpa que o fez sair em silêncio do aparta­mento dela, sem uma explicação ou um adeus. Ele sabia, ao partir, que era uma atitude de covardia. Mas, naquela manhã, em particular, o remorso tinha provocado um nó doloroso em sua garganta, e ele sabia que tinha de pôr um fim ao envolvimento com Kate ou perderia a sanidade.

De volta a Little Rock, ele se forçara a recordar que era um homem saudável e que aquilo que haviam partilhado nada mais era que sexo. E mesmo que fosse a primeira intimidade que experimentava com uma mulher desde a morte de Joanie, não havia ali uma ameaça real a suas lembranças. Afinal, sexo não era a mesma coisa que amor. Sob um outro en­foque, disse a si mesmo que era ridículo sentir-se desleal para com uma mulher que estava morta fazia quase um ano, e que o que havia experimentado era uma progressão natural no processo de recuperação de uma perda.

Levara meses para acreditar nas próprias racio­nalizações, e muito mais até que se perdoasse por aquilo que ele considerava uma transgressão grave contra a esposa. Nunca conseguira esquecer-se de Kate, embora soubesse, no íntimo, que era a mulher errada para ele. Ela não era como as mulheres que costumava namorar. Nada parecida com Joanie. E ele e Joanie tinham tido o casamento perfeito...

Esqueça o que aconteceu em Nova Orleans. Esta é uma nova situação, um novo campo de batalha. Você precisa de Kate e de todas as coisas que admira nela com relação a sua especialidade profissional.

Verdade. Portanto, ele devia esquecer aquele pe­queno deslize e concentrar-se no presente. Era um profissional que não deixava os sentimentos pessoais interferirem em um caso. Essa situação não era di­ferente que qualquer outra dúzia delas com as quais lidara, exceto que se tratava de sua vida, sua segu­rança, seu esteio. E, a despeito da incerteza de Kate em como reagiria diante de uma situação de risco, ela era qualificada para desempenhar a tarefa.

Cullen cerrou o punho da mão sadia. Droga! De­testava essa sensação de vulnerabilidade. Detestava esconder-se como um criminoso comum. Odiava a idéia de que alguém estivesse observando cada mo­vimento seu, na tocaia, esperando pela melhor opor­tunidade para feri-lo. Odiava mais ainda a idéia de uma mulher interposta entre ele e a morte. Mas, era assim que tinha de ser. Fosse Kate ou alguma outra mulher, não importava. Como era mesmo que sua mãe costumava dizer? Oh, sim. Melhor um diabo conhecido do que um que não se conhece.

De volta a seu quarto, Kate ficou a meditar sobre a decisão de tornar-se guarda-costas de Cullen. Vie­ra até ali porque sua tia jogara duro, sacara uma passagem de avião e prometera a ela a Lua... Bem, milhares de dólares, pelo menos. O pensamento de pagar as contas soara como tomar um sorvete, a des­peito da dita ameaça à vida de Cullen, que a fizera perder a cabeça por um breve instante.

Passeou pelo quarto, resmungando baixinho, pra­guejando contra a tia, xingando Cullen, esbravejan­do contra as circunstâncias que a tinham arrastado até ali. Será que realmente pensava que poderia es­quecer a intimidade que haviam partilhado? Se as­sim fosse, era melhor dar risada. Bastara tê-lo visto em carne e osso e todas as lembranças haviam re­tornado, fazendo-a dolorosamente consciente de que ele a abandonara e que quase dois anos era tempo demais para uma mulher saudável seguir insatis­feita.

A partida de Cullen a magoara muito mais do que podia afirmar, mais do que poderia imaginar, espe­cialmente por ter acontecido logo depois do divórcio com Lane. Na verdade, considerando o quanto se sentira devastada sobre a separação, ela mal podia acreditar que tivesse ido com tanta facilidade para a cama com Cullen. Enfrentar as mais variadas fa­cetas da vida nas ruas deixara nela poucas ilusões, porém não era ainda tão liberal a respeito de sexo como a maioria das mulheres de sua idade. Seu com­portamento em relação a Cullen não era exatamente o dela.

Mas, tinha acontecido, e ele seguira seu caminho. E Kate havia arquivado um breve registro, em sua mente, de que devia haver alguma coisa basicamen­te errada com ela, já que parecia desconhecer como prender um homem. Quando tivera a primeira en­trevista com Cullen, o problema já se apresentara: eram duas pessoas solitárias e pesarosas, e haviam se permitido um breve vôo na esperança de que pu­dessem dar um novo impulso as suas vidas. O ponto crucial dessa percepção era que, não importava o quanto esse envolvimento fosse casual, Kate não con­seguira esquecer Cullen. E reconhecer o fato não tor­nava as coisas mais fáceis.

Ela ainda se recordava daquelas noites, em vivi­dos detalhes. Podia se lembrar de cada palavra que tinham falado. Ainda ficava a imaginar por que se apaixonara pelo estilo de Cullen, por sua vulnerabi­lidade, por ele. E, realmente, se apaixonara, mesmo sabendo que estavam em mundos diferentes, sabendo que entre eles nunca não poderia haver nada, além daquilo que tinha acontecido.

E agora, por um golpe do destino ou por uma bala de um possível assassino, ali estava ela, colocando o coração em perigo, de novo. A decisão de aceitar o emprego vacilou. Seria ela forte o bastante para pas­sar dia após dia com um homem pelo qual estava apaixonada? Como iria sobreviver quando o trabalho terminasse? Havia concordado em ficar e proteger Cullen. A questão agora era: quem iria protegê-la?

Cullen, que detestava depender de alguma coisa ou de alguém e estava tentando cortar os sedativos, havia passado uma tarde difícil e optara por jantar no quarto, na noite anterior. A dor irritante e o fato de ter cochilado várias vezes durante o dia fora a perfeita combinação para garantir-lhe uma noite in­sone. Remexera-se revirara-se e pregara os olhos no teto, num esforço para manter as lembranças de Kate a distância, tudo em vão. Como uma planta da­ninha, as recordações torturantes tinham se infiltra­do sorrateiramente em sua mente, a cada oportuni­dade. Quando conseguira pegar no sono, o teor eró­tico de seus sonhos o fizera acordar, insatisfeito, zan­gado. E cheio de desejo.

Levantara-se e vestira-se logo cedo, tentando fazer o café. Estava na cozinha observando o líquido es­curo escoar para dentro da garrafa térmica da cafe­teira elétrica quando Kate surgiu na porta. Quando o viu sentado à mesa, ela parou e, então, com um ar de determinação, entrou, de cabeça erguida e com uma expressão neutra na face.

Kate usava uma calça jeans preta e um suéter justo. Seus cabelos estavam enrolados e presos com uma presilha, as pontas encaracoladas das mechas caindo levemente dos lados. Usava uma maquiagem tão sutil que era quase imperceptível. A boca, que o atormentara nos sonhos na noite anterior, exibia o brilho de um batom suave. Levou um instante até que Cullen percebesse que a real diferença em Kate estava na atitude.

— Bom dia — disse ele.

— Bom dia.

— Sente-se — murmurou, indicando uma cadeira a sua frente.

Ela sentou-se, mas não o encarou. Aquilo ficava cada vez mais interessante.

— Dormiu bem? — Se a surpresa que viu nos olhos dela tinha algum significado, ele a pegara de­sarmada.

— Na verdade, não. Não durmo bem fora de casa.

— Eu também — concordou Cullen, reconhecendo, como já fizera em Nova Orleans, que Kate tinha um tom de voz atraente. Baixo e rouco. Algo entre Lauren Bacall e Demi Moore.

Com o assunto do sono aparentemente superado, o silêncio imperou entre os dois. Fora da cozinha, um vento frio, caprichoso, fustigava os arbustos de azevinhos que roçavam nas laterais da casa como unhas irritantes. A cafeteira desligou-se.

— Olhe, eu...

— Olhe, posso...

Falaram simultaneamente e calaram-se, juntos.

— As damas primeiro — disse Cullen. Ela balançou a cabeça.

— Não. Prossiga.

— Tudo bem. — Cullen levantou-se e foi até o armário, pegando duas canecas. Encheu-as de café. — Creme ou açúcar? — perguntou?

Quando ela recusou os dois, ele continuou:

— Ia perguntar se podíamos começar de novo. Sei que chegamos a uma trégua, ontem, mas quero saber se não há um jeito de eu poder mudar o passado. Não tenho desculpas para o meu comportamento de ontem, exceto que essa situação me abalou um bo­cado. Ninguém deseja acreditar que existe uma pes­soa lá fora que gostaria de vê-lo morto.

Kate encarou-o. Uma curiosidade cautelosa subs­tituiu a expressão de guarda em seus olhos. Incerto diante do silêncio dela, Cullen sentou-se e ergueu a caneca de café.

— E, como eu disse, estou enfrentando um pro­blema e tanto com a idéia de usar uma mulher como proteção.

— Uma reação normal — disse Kate, num tom cuidadoso, como se pesasse cada palavra. — Com­preendo. Não guardo mágoa daquilo que aconteceu ontem.

Cullen notou que ela não voltava a repetir as mes­mas reclamações acerca de Nova Orleans.

— Ótimo — retrucou, feliz por poder dispensar um novo pedido de desculpas.

— Agora, o que queria me dizer?

Ele viu que Kate respirava fundo e o encarava. Havia se esquecido como era única a cor daqueles olhos, de um castanho luminoso. Olhos dentro dos quais um homem podia se afundar, assim como ele andava cobiçando se afogar naquele uísque de safra antiga cuja cor os olhos dela recordavam. Ela pigarreou.

— Embora eu aprecie sua gentileza e não tenha problemas em relevar o que aconteceu ontem, tenho de ser honesta e dizer que, depois de conversar com o travesseiro, não creio que esse arranjo vá funcio­nar. Por mais que eu precise de dinheiro...

Cullen pestanejou, imaginando se tinha ouvido di­reito.

— O que não vai funcionar?

— Eu, como sua guarda-costas. Fingir ser sua... namorada... — ela fez um gesto de descaso — ou seja lá o que for.

Ele mal conseguia entender o que ela estava di­zendo. Tudo que registrou era que Kate não ia acei­tar o trabalho e isso era algo que, de repente, ele julgou inaceitável.

— O que mudou desde ontem?

Ela suspirou e meneou a cabeça.

— Esqueça o dia de ontem. Mesmo que você tenha se desculpado e nós tenhamos apertado as mãos, não estou certa de que possamos deixar para trás tudo que aconteceu em Nova Orleans.

Ela falava depressa, como se quisesse acabar logo o discurso e sair. Essa era uma faceta em Kate que Cullen ainda não havia visto. Hesitante. Insegura. Incerta.

— Passar tanto tempo juntos seria desagradável, para dizer o mínimo.

— Você não tem que passar tempo algum comigo, exceto quando estivermos em público — ele retrucou, alterado. — Isso a deixará feliz?

— Ficar feliz não tem nada a ver com isso.

— Então, o que é?

Kate remexeu-se na cadeira e preferiu ignorar a pergunta.

— Vamos olhar para isso de um ponto de vista diferente. Minha tia descreveu o tipo de mulher que o atrai. Não sou como essas mulheres. Mesmo com as roupas certas, não poderei me misturar a seu mundo e acho que seria óbvio para as pessoas que o conhecem bem. Para ser franca, não creio que vão acreditar que temos algum envolvimento.

— Louella disse que você era uma boa atriz, razão de fazer tão bem seu trabalho sob disfarce. Isso não seria muito diferente.

Que droga! Estava fora de si? Estava, realmente, tentando convencê-la a ficar, quando se sentia do mesmo jeito que ela? Kate tinha razão. Nova Orleans ficaria no caminho. As lembranças estariam ali, com eles, todo o tempo em que estivessem juntos... Então, por que tentar o destino?

Porque você ainda a deseja, McGyver. Porque não a expulsou de seu sistema, nunca se saciou de seja lá o que for que ela lhe deu.

Se era assim, o que ele esperava? Que ela fosse para a cama com ele, que recomeçassem de onde tinham parado? Pouco provável. A dama estava pro­fundamente zangada com ele pela forma com que a abandonara. Inteiramente zangada.

— Olhe — continuou Kate, inclinando-se para a frente, com uma expressão de ansiedade.

— Estou acostumada a lidar com a escória da sociedade, não com as camadas superiores. Estou dizendo a você que mesmo que não tivéssemos os acontecimentos de Nova Orleans entre nós, eu não me adaptaria a seu mundo. Além disso, tenho uma sensação visceral de que, não importa o quanto nós dois tentemos ser educados, iremos nos alfinetar mesmo quando esti­vermos em público.

— Debitaremos isso na conta das brigas de amor — disse Cullen, suavemente. — Supõe-se que o amor vence tudo, lembra-se?

— Sim, mas ambos sabemos que não. E, além dis­so, não seria amor de verdade, o que torna as coisas mais difíceis de serem convincentes.

Cullen percebeu a amargura na voz de Kate. Será que se referia ao amor que tinha pelo ex-marido? Será que esse amor não fora suficiente para que ele ficasse? De súbito, Cullen descobriu-se a pensar no ex-marido dela e em por que ele a abandonara. O consenso geral era que pertencer ao destacamento policial tornava difícil os relacionamentos.

Ele conhecia muito oficiais com mais de um casa­mento fracassado, mas nunca conhecera um homem casado com uma policial feminina, antes. Que tipo de problemas era inerente a um relacionamento as­sim? Eram os mesmos? Ou diferentes? Lane Labiche havia entrado com o pedido de divórcio depois do tiro em Raul. Por que, de repente, ele chegara à conclusão de que era hora de pôr um ponto final à relação?

— Cullen? — ela chamou, estalando os dedos dian­te do rosto dele.

— Está me ouvindo?

— Estou pensando.

— Sobre o quê?

— Pensando na razão pela qual está fazendo tanto carnaval em cima disso. Você teve tempo para pen­sar em tudo isso antes de vir até aqui falar do em­prego e, mesmo assim, veio.

— Não é verdade, não tive muito tempo — ela refutou. — Tia Lou já tinha até comprado minha passagem de avião...

— Está brincando?

Kate confirmou com um gesto de cabeça e bebeu um gole do café.

— Eu vim porque... Honestamente, eu estava de­sesperada por dinheiro.

— Então, aceite a droga do emprego, Kate — ele exclamou, com raiva. — Tentarei ficar fora de seu caminho e não haverá muito a fazer, exceto quando sairmos em público. Pense nisso como um tipo de férias pagas em L.A.

— L.A.? — perguntou Kate, juntando as sobran­celhas numa indagação, imaginando o que Los An­geles teria a ver com o assunto.

Cullen sorriu.

— Lower Arkansas. E como o povo da região cha­ma a área.

Com um meio sorriso e um menear de cabeça, ela recostou-se na cadeira e cruzou os braços.

— Por que está fazendo isso?

— Fazendo o quê?

— Tentando me fazer mudar de idéia. Boa pergunta.

— Todos dizem que preciso de um protetor, e eu concordei, desde que seja você. Afinal, veio altamen­te recomendada.

Mesmo ao verbalizar aquela resposta lisonjeira, Cullen sabia que não era verdade. Pelo menos, não a verdade integral. A essas alturas, não tinha cer­teza de qual seria a verdade verdadeira. Só sabia de uma coisa: era imperativo que Kate aceitasse o tra­balho.

Ela o fitou dentro dos olhos e Cullen pôde perceber que ela estudava a situação com toda a cautela.

— Até onde Louella entrou em detalhes sobre aqui­lo que aconteceu? — ele perguntou, com a esperança de deixá-la interessada.

— Que você foi baleado nos bosques, caiu de uma plataforma de observação de alces e quebrou algu­mas costelas. Que pegou seu carro e tentou dirigir para buscar ajuda e caiu numa vala. Inicialmente, pensaram que você perdera a direção ou algo assim, mas, depois, souberam que o cabo do freio tinha sido cortado, o que, junto com o estranho incidente do tiro, fez os investigadores da polícia pensarem que você foi alvo de um atentado.

Kate resumira o assunto com admirável eficiência.

— Foi exatamente isso.

— Acharam alguma pista de quem possa estar por trás disso?

Cullen julgou o interesse um bom sinal. Balançou a cabeça, negando.

— Coloquei muita gente atrás das grades e fiz mi­nha cota de inimigos.

— Demarca o território — ela murmurou, concor­dando. — Mas, se foi uma dessas pessoas, por que esperaram até agora para tentar acabar com você?

— É a pergunta que estamos todos nos fazendo. Um amigo meu acha que tem alguma coisa a ver com meu nome ter sido mencionado como um possí­vel candidato ao Senado dos Estados Unidos. Há também a possibilidade de que seja alguém que es­tivesse preso e tenha sido solto, recentemente. Pode ser qualquer um. Temos a esperança de poder lançar alguma luz sobre essa questão em particular assim que você assumir sua função.

— Quer dizer que eu não ficaria apenas sentada por perto, esperando que algo acontecesse? Traba­lharia ativamente no caso?

Definitivamente, o interesse brilhava naqueles olhos.

— Eu gostaria.

Ela o encarou, cautelosamente, mas Cullen não conseguiu adivinhar seus pensamentos.

— Você tem de ser honesto comigo se eu começar a fazer um monte de perguntas e tocar um ponto sensível. E não pode ficar bravo com isso, se for parte do trabalho.

Ela estava fraquejando, isso era visível.

— Tenho por hábito ser honesto, Kate. E tentarei controlar meu temperamento. — Cullen sustentou aquele olhar penetrante. — Sobre essa coisa de guar­da-costas e namorada, você deve saber que eu tenho uma vida social ativa, com muitos compromissos, de maneira que volta-e-meia iremos a Little Rock, as­sim que eu esteja em condições. Kate fez uma careta.

— Tia Lou mencionou isso. Que tipo de compro­missos sociais?

— Teatro e eventos artísticos. Festas. Arrecadação de fundos. Como meu... interesse amoroso atual, é de se esperar que você compareça junto comigo. Eu, é claro, assumirei a responsabilidade por quaisquer necessidades em termos de vestuário que você venha a precisar para atualizar seu guarda-roupa.

Cullen percebeu, pelo olhar acusador, que o sorri­so que Kate esboçava era falso.

— É exatamente isso que me deixa preocupada.

— Tudo vai dar certo.

Ela suspirou, outro sinal de que fraquejava.

— Duvido que eu tenha alguma coisa que seja ade­quada para o tipo de evento do qual está falando.

— Cuidaremos disso tão logo seja possível, então. Isso nos dará algo que fazer enquanto meu ombro está cicatrizando. Também vamos procurar um apar­tamento para você.

— Por que pagaria por um apartamento que eu nunca usaria?

— Por que não iria usá-lo?

— Não posso protegê-lo se não ficar por perto, pos­so? — ela perguntou, arqueando as sobrancelhas.

Cullen não havia pensado nisso.

— Se ficar na casa, os meios de comunicação vão descobrir e deduzir que estamos vivendo juntos.

O sorriso enviesado retornou.

— Ruim para sua imagem, hein?

— Na verdade, eu estava pensando na sua ima­gem — retrucou.

Kate ergueu os ombros, num gesto displicente.

— Trata-se de trabalho. Desaparecerei quando tu­do estiver acabado e ninguém irá se importar, de um jeito ou de outro. Além disso, a idéia é deter o assassino. Ele terá menos chances de tentar algo se houver outra pessoa por perto.

— Pode ser — retrucou Cullen. — E quem sabe não tenha a compulsão de liquidar duas pessoas ao invés de uma.

— Há essa possibilidade — concordou Kate, com uma desenvoltura admirável.

— Contudo, não há como você estar comigo vinte e quatro horas por dia.

— Por que não?

— Que razão plausível haveria para que você me seguisse até o trabalho ou ao tribunal?

— Bem pensado. — Kate soltou um suspiro pensativo. — Nem mesmo as pessoas que são loucas umas pelas outras ficariam assim grudadas. Acho que tudo que podemos fazer é resolver o que cada dia traga e esperar que possamos identificar esse bandido tão logo quanto possível.

Cullen examinou-a, detidamente.

— Fala como se tivesse mudado de idéia. De novo.

Kate esboçou um sorriso.

— Você é muito persuasivo, Excelência, mas acho que já sabe disso.

Cullen sorriu. Sua habilidade de convencer um jú­ri era quase uma lenda.

— E você precisa de dinheiro.

— Certo. Definitivamente, preciso de dinheiro.

— Não vai dar para trás de novo, vai?

— Não. Não vou mudar de idéia. É uma promessa.

O que tinha feito?, Kate perguntou a si mesma uma centena de vezes, nos dias subseqüentes. E por que fizera isso? Por que aceitara o trabalho com Cullen contra todas as melhores evidências, sabendo que estava flertando com o perigo, colocando-se em con­tato tão íntimo e próximo com ele?

A resposta era simples, mas ela não queria admi­tir. Dissera sim porque assumir a tarefa significava ficar perto dele. Ele a usara, a magoara, e, depois de superar a dor de ser rejeitada, tanto por Lane como por Cullen, ela havia jurado que nunca mais se colocaria em uma posição na qual pudesse ser ferida assim, tão profundamente. Como diria Tia Louella: Jamais diga nunca.

Voltara para Nova Orleans e dispensara todos os clientes, limpara a geladeira, empacotara tudo que julgara que fosse precisar por umas poucas semanas e colocara tudo no porta-malas do Ford bege. Ruma­ra para o Arkansas, incapaz de expulsar a sensação perturbadora de que não voltaria nunca mais. For­çou-se a não mergulhar nesse pensamento.

A viagem foi mais demorada do que esperava e ela não conseguiu chegar à fazenda a não ser depois de escurecer. Saiu do carro, abriu o porta-malas e tirou um par de maletas. O cansaço desabou sobre ela, pesado como as bagagens, quando subiu os de­graus da varanda e bateu à porta. Através da cortina de renda, ela viu uma figura sair da sala de estar e, em seguida, a luz encheu o amplo saguão. Era Cullen.

Kate tentou sorrir quando ele abriu a porta. Quase não conseguiu. Ele vestia jeans e um suéter azul claro e tinha uma aparência incrivelmente sedutora, embora ela relutasse em admitir isso.

— Olá.

— Por que demorou tanto? — perguntou ele, sem retribuir o cumprimento.

A irritação superou o cansaço de Kate.

— Desculpe-me — retrucou, com a voz ríspida. — Parei e descansei um pouco.

— Não é nada demais, mas eu estava começando a ficar preocupado. Entre — murmurou, recuando um passo. — Parece cansada...

— A adulação não vai levá-lo a lugar nenhum — Kate retrucou, pegando as maletas do chão. — Onde posso deixar isso?

— No mesmo quarto que usou antes. E eu não quis ofendê-la.

Podia ser imaginação, mas ela julgou ter visto um ligeiro rubor colorir as faces de Cullen. Decidindo que seria melhor ignorar isso e manter a boca fecha­da, Kate seguiu para as escadas.

— Eu me sinto um estúpido — disse Cullen, atrás dela.

Kate parou e olhou por sobre o ombro.

— Por quê?

— Por não ser capaz de carregar suas coisas. Definitivamente, aquilo era embaraçoso.

— Não é nada demais.

— Para mim, é — ele resmungou. — Você comeu?

— Não.

— Está com fome?

— Demais.

— Ótimo. Estarei na cozinha quando você termi­nar. Tenho ensopado e salada para o jantar.

— Parece muito bom.

Cullen voltou-se e seguiu pelo corredor que levava à cozinha. Enquanto o observava afastar-se, Kate percebeu que talvez a maneira de evitar os confron­tos fosse conduzir a conversa através de monossílabos. Também estava pensando que gostava daquele jeans velho, desbotado e justo. E gostava da maneira com que ele andava, com uma graça segura, em lar­gas passadas, que era ao mesmo tempo elegante e sensual.

Pare com isso, Kate! Quanto mais pensar em todo aquele aparato sexual, mais difícil será para você. Limite-se a proteger o promotor e esqueça o homem.

Ela voltou-se e começou a subir as escadas e, en­tão, parou.

— Onde está todo mundo? — perguntou.

— Meghan teve de voltar ao hospital — explicou Cullen, do fim do corredor.

— Oh... — Pergunta cretina. Claro. Sua tia e a irmã dele tinham vidas e tarefas a reassumir.

Kate subiu o resto dos degraus, tentando aceitar o fato de que, embora houvesse gente para ajudar nas tarefas diárias e para manter as coisas funcio­nando, quando sua tia e Meghan não estivessem por perto, ela ficaria mais ou menos sozinha com ele por um período indefinido de tempo. De repente, estava agradecida por ter de fazer aquelas viagens a Little Rock, onde estariam rodeados de pessoas. Pelo me­nos, seria um tipo diferente de estresse.

Dez minutos mais tarde, Kate tinha arrumado tudo no quarto. Passou uma escova nos cabelos sol­tos, notando que, desde que os deixara crescer, es­tavam horríveis e sem corte. Escovou os dentes, borrifou-se com uma colônia suave e passou um brilho nos lábios.

Afastando-se um passo do espelho, mirou-se, com um olhar cansado. Nada de espetacular ali. Real­mente, precisava cortar os cabelos. Mas parecia lim­pa e asseada, o que era tudo que precisava para aque­le trabalho. Não estava ali para impressionar al­guém. Já convencera seu novo patrão de que podia desempenhar a tarefa para qual havia sido contra­tada. Portanto, não havia necessidade de estar na moda. E, se fosse para impressioná-lo de outra ma­neira, ela já tentara. E falhara.

Parou na porta da cozinha de tijolos à vista e en­feitada de utensílios de cobre, cheia de janelas e plan­tas. Dois lugares estavam colocados na mesa oval de carvalho. Jogos americanos de brim azul, pratos de cerâmica escura e canecas com gelo. Guardanapos vermelhos. Com uma só mão, Cullen tinha dado um jeito de tirar o ensopado do fogo sem derramá-lo no chão de madeira encerada. Descansando sobre um suporte azul-brilhante, a tigela de ensopado ocupava um lugar de honra entre o arranjo da mesa, seu aro­ma saboroso e picante enchendo o ar.

O estilo informal deixou Kate à vontade. Não era uma mulher do tipo "porcelana e cristais", o que não era bom sinal para o futuro, quando tivesse de acom­panhar Cullen em suas diversas obrigações sociais. Ora essa, viveria um dia de cada vez e se preocupa­ria com esse problema quando se apresentasse.

Kate atravessou a soleira da porta quando Cullen tirava dois pratos de salada da geladeira. Ele se vol­tou e a viu.

— Tudo acomodado? — perguntou, colocando os pratos na mesa.

— Tudo arrumado, pelo menos — respondeu ela. — E a comida está com uma cara ótima. Não sabia que tinha prendas domésticas.

— Na verdade, mal sei fazer um café. E já que eu não tinha certeza se você cozinhava ou não, achei que o melhor era contratar alguém para cuidar disso enquanto estivermos aqui. Acho que Meghan falou de Greg para você.

— Sim — disse Kate. — Ele é de confiança, espero.

Cullen sorriu.

— Conheço Greg Kingsley desde que eu era crian­ça. Ele costumava ser o clínico geral da cidade. Era ele quem cuidava de nossos machucados quando pe­quenos. Sua esposa era uma das melhoras amigas de minha mãe.

— Uma bela recomendação. E agora?

— Greg aposentou-se há uns seis anos e Maude faleceu na última primavera. Ele disse a Meghan que, já que estava entediado, ficaria muito feliz em ficar de olho em meus ferimentos, assim como de cuidar da cozinha para nós. Sua filha, Connie, vem duas vezes por semana para fazer a limpeza. E, an­tes que pergunte, sim, ele sabe cozinhar. Provavel­mente melhor do que a maioria das mulheres da cidade.

Sorriu, o primeiro sorriso aberto que Kate já vira. O efeito sobre a decisão de Kate em manter as coisas impessoais foi imediato e devastador. Conteve a res­piração na garganta e o lugar pareceu tornar-se quen­te demais, de repente. A diferença que o sorriso trou­xera às feições dele era impressionante. Cullen já era um homem incrivelmente bonito, mas a curvatura em seus lábios e a luz que faiscara em seus olhos azuis davam a ele uma aura luminosa que ela só havia visto quando tinham feito amor. Kate for­çou-se a respirar com calma.

— O que disse a ele a meu respeito?

— Segui o plano. Disse que você é minha namo­rada e que ficaria comigo enquanto eu me recupero do acidente. — Cullen soltou uma risada e o coração de Kate saltou, de novo, no peito.

— Que foi?

— Greg não aprova esse nosso arranjo. Ele me olhou com um olhar severo, resmungou alguma coisa sobre filhos e falta de compromisso, disse que não era da sua conta, mas que esperava mais de mim. Não preciso dizer, eu me senti com sete anos de idade e devidamente castigado.

Ela apontou a mesa.

— Bem, quer ele aprove ou não, fico feliz que te­nha concordado em cozinhar para nós. Isso está pa­recendo delicioso.

— Vai estar — disse Cullen, puxando a cadeira para ela.

Desacostumada com tais gentilezas de um homem, Kate sentou-se, pensando que poderia se acostumar facilmente com tanta gentileza. Quando Cullen a aju­dava a arrumar a cadeira sob a mesa da melhor ma­neira que podia, ela sentiu uma lufada de seu per­fume, algo exótico que lhe trouxe à mente as noites abafadas do deserto e homens de turbantes montan­do cavalos árabes. Pensamentos que eram totalmen­te proibidos, considerando-se as circunstâncias.

Péssimo. Ela mal se acomodara e já enfrentava problemas emocionais. Seria um longo tempo, três ou quatro meses.

 

Kate acordou cedo em seu primeiro dia -de trabalho. Seu primeiro pensamen­to foi imaginar se Cullen já estaria de pé e circulando pela casa. Se não, deveria acordá-lo? Não. Não ti­nham nada urgente para fazer. Haveria tempo su­ficiente durante o próximo mês ou mais, para tentar colocar as mãos naquele que estava por trás do aten­tado contra a vida dele.

O jantar transcorrera melhor do que ela havia es­perado, provavelmente porque ambos estavam cons­cientes da possibilidade de ofenderem um ao outro. Haviam conversado sobre banalidades e, terminada a refeição, ela o ajudara a colocar os pratos na má­quina de lavar louças e pedira licença, alegando um cansaço que não era de todo verdadeiro. Pensou ter notado um certo alívio na atitude de Cullen, como se ele também estivesse ansioso para que a noite passasse.

Levantou-se e tomou um banho, vestindo um jeans desbotado e uma camiseta colorida com uma estam­pa do Mardi Gras, o carnaval de Nova Orleans. Des­ceu as escadas para ver se podia adiantar o café da manhã. Ao chegar ao pé da escada, deu de encontro com o aroma de café e de bacon frito. Evidentemen­te, Cullen já estava de pé. Respirando fundo, Kate seguiu em frente, insegura daquilo que o dia pudes­se trazer, mas determinada a dar tudo de si. E, se Cullen voltasse a assumir a ironia anterior, a dar o troco.

Abriu a porta da cozinha e viu um homem alto, robusto, de cabelos grisalhos, parado junto ao fogão, com uma caneca de café em uma das mãos e com um garfo na outra. Ouvindo o ranger da porta, ele se voltou. Sua fisionomia era agradável, seu nariz forte, e seu sorriso despontou, lento e amistoso.

— Você deve ser Kate — disse ele, pousando o garfo no fogão e aproximando-se com a mão esten­dida.

Sentindo que um sorriso recíproco curvava seus lábios, Kate estendeu a própria mão.

— E você deve ser o Dr. Kingsley.

— Greg — ele retrucou, apertando a mão de Kate com um aperto forte e caloroso.

— Greg.

— Sente-se, enquanto eu pego um pouco de café para você.

Kate dispensou a gentileza.

— Não deixe o bacon queimar. Eu mesma me sirvo.

Greg sorriu. Kate achou uma caneca no armário sobre a cafeteira e serviu-se da bebida perfumada enquanto fazia um inventário dos ingredientes do desjejum arrumados sobre o balcão. Uma bela porção de queijo ralado. Um rótulo de molho picante em um vidro pequeno. Outro recipiente com feijões cozidos.

— O ensopado mexicano estava maravilhoso.

— Obrigado — disse Greg, endereçando a ela um sorriso enviesado e indicando o balcão. — Aposto que você acha que não sei cozinhar nada sem chili e quei­jo curado.

— Acontece que eu adoro chili e queijo curado — retrucou Kate. Olhou-o por debaixo dos cílios e, en­tão, fez um ar de cobiça, fitando a pequena travessa com uma pilha de fatias de bacon frito.

Ele soltou uma risada.

— Seja minha convidada.

Kate pegou um pedaço de bacon e levou-o à boca, enquanto Greg colocava as últimas fatias na frigideira de ferro e quebrava dois ovos na gordura fumegante.

— Não é muito saudável, mas é muito gostoso — disse.

— Eu sei.

— Cullen acordou?

— Sei lá — disse Kate, com displicência.

Greg olhou-a por sobre o ombro de um jeito que ela não soube decifrar e começou a fritar os ovos.

— Então, diga-me, como você e Cullen se conhe­ceram, sendo você de Nova Orleans e ele morando em Little Rock?

A pergunta pegou Kate de surpresa. Como pudera esquecer que aquele homem não tinha idéia do mo­tivo real de sua presença na fazenda? Para ele, ela era a namorada de Cullen, sua amante. Não era de admirar que a olhasse daquele jeito quando ela dis­sera que não sabia se Cullen tinha acordado ou não.

Droga! Às primeiras horas do primeiro dia e seu dis­farce já estava sob ameaça! Kate escarafunchou a mente em busca de uma resposta plausível.

— Nós nos conhecemos no restaurante de meu pai — respondeu, finalmente. — Cullen apareceu com alguns amigos e eu estava no caixa naquela noite.

— Amor à primeira vista?

— Bem... — ela hesitou. — Interesse imediato, pelo menos. Ele, ah... Voltou na noite seguinte. So­zinho. E me perguntou se eu gostaria de tomar uma xícara de café. Eu disse que sim e nós... — Sua voz falhou.

— O resto, como dizem, é história.

O comentário veio da soleira da porta, onde Cul­len, vestido com um jeans tão velho quanto o dela, estava parado, fitando-a, com uma expressão pensativa.

— Bom dia — disse Greg. — Dormiu bem?

— Assim, assim. E você? — perguntou Cullen, di­rigindo-se a Kate, com um brilho estranho nos olhos.

— Dormiu bem?

— Bem — ela respondeu, com uma expressão de cautela, vendo que ele chegava mais perto.

Cullen parou a um passo dela.

— Sentiu saudade, não? Ninguém para lhe esquen­tar os pés.

Céus, do que ele estava falando? E, afinal, o que estava fazendo?, Kate perguntou-se quando Cullen se inclinou com um pequeno gemido de dor. O olhar de ambos se encontrou, por um breve instante, e pa­recia haver um aviso na profundeza daqueles olhos azuis. Segundos contados se passaram antes que os lábios dele roçassem os dela e Kate se desse conta disso. Afastou-se, bufando de raiva. Cullen endireitou-se com um suspiro.

— Ora, ora, ainda continua brava comigo! Brava?

Ela abriu a boca para perguntar do que ele estava falando, mas ele levou o dedo até lábios dela, pressionando-os ligeiramente.

— Chega de discussão, Kat. Eu já disse que sinto muito. Estou perdoado?

A voz de Cullen, ao chamá-la pelo diminutivo do apelido, tinha um tom rouco, de intimidade, e a ex­pressão do olhar quase podia passar por ternura. Ela franziu as sobrancelhas. Notando o brilho de ad­vertência nos olhos dele, ela percebeu, com atraso, o que ele estava fazendo. Tentara lhe dar um beijo de bom-dia, como qualquer homem faria com a mu­lher de sua vida. E ela o repelira. Cullen estava ape­nas tentando remediar a situação por conta da pla­téia, no caso o bom doutor. Deus do céu! Esse mal­fadado arranjo podia ser mais difícil de levar em frente do que ela imaginava, especialmente se in­cluía deixar que Cullen a beijasse. Ela não tinha certeza se as barreiras que construíra para proteger o coração poderiam suportar esse tipo de pressão.

Relanceou os olhos em direção a Greg, a tempo de vê-lo voltar-se para o fogão. Embora estivesse ocu­pado, colocando os ovos num prato, Kate sabia que ele ouvira cada palavra com ávido interesse. Como não haveria de escutar? Sem dúvida devia estar ima­ginando porque Cullen pedia desculpas. Bem, ela não tinha a menor idéia do que dizer, portanto, dei­xou-o às voltas com aquele pequeno enigma.

Cullen preferiu não dar explicações. Ao invés dis­so, Kate percebeu que ele se sentava do lado oposto e apanhava o prato que Greg lhe oferecia.

— As damas primeiro — disse Cullen, colocando o prato em frente a Kate.

Ela baixou os olhos, aflita. Duas fatias de torradas com manteiga, três fatias de bacon, dois ovos mexi­dos com molho quente e queijo e uma generosa colherada de feijões refogados enchiam o prato. Mo­mentos atrás, ela estava morrendo de fome. Agora, perdera totalmente o apetite.

— E então, o que faz para viver, Kate? — pergun­tou Greg.

Kate lançou um olhar inquisitivo para Cullen. O que deveria dizer? Ele podia não querer que ela con­tasse a Greg que era detetive particular.

— Rastreamento de pistas.

— Seguro.

Cullen e Kate falaram juntos, o olhar de ambos se chocando ao perceberem que haviam dito duas coisas inteiramente diferentes.

— Bem... — disse Greg, franzindo a testa e alon­gando a palavra. — Afinal, o que é?

Esforçando-se para fingir calma e recusando-se a enfrentar o olhar de Greg, Kate pegou o garfo e co­meçou a comer.

— Eu costumava tentar localizar pessoas que fu­giam de seus compromissos, pagamentos das pres­tações de carro, pensão dos filhos, esse tipo de coisas — respondeu, entre as garfadas. — Mas, aceitei um trabalho na última semana com uma companhia de seguros para ajudar a identificar reclamações frau­dulentas. E tão recente que acho que Cullen se es­queceu.

— Ah... — Greg voltou à tarefa de fritar os ovos.

— Aposto que foi difícil tirar um tempo para vir aqui, já que está em um novo emprego.

O olhar aflito de Kate implorou ajuda a Cullen.

— Na verdade — mentiu —, eles foram bastante compreensivos.

— Isso é bom. — Greg tirou a segunda leva de ovos e começou a arrumar outro prato, que entregou a Cullen. — Então, como fica esse namoro de longa distância? — perguntou, com um ar distraído. — Pa­rece que é de tirar a paciência de um homem.

Kate olhou feio para Cullen, dizendo, sem pala­vras, que era a vez dele de arranjar uma desculpa.

— E é — retrucou ele, finalmente. — Por isso, Kate finalmente decidiu se mudar para cá.

Greg foi até a cafeteira e serviu-se de outra caneca de café, virando-se para encará-los com uma expres­são pensativa.

— Entendo — murmurou, concordando. — Então, esse seu novo emprego com a companhia de seguros é em Little Rock?

— Sim!

— Isso!

O sim de Kate foi murmurado com evidente alívio. O isso de Cullen saiu num tom que parecia dizer que a deixa de Greg era uma bela saída.

O velho tamborilou com os dedos em torno da ca­neca e olhou de um para o outro, com um ar pensativo.

— O que foi? — perguntou Cullen. O sorriso de Greg foi irônico.

— Quem vocês pensam que estão fazendo de bobo? O idiota da vila? — Ignorando a expressão de espan­to no rosto de ambos, ele continuou: — Se Barnesville tivesse um idiota, ela seria a única pessoa que cairia nessa história mal contada.

— Não sei do que está falando! — exclamou Cul­len, tentando disfarçar com um ar de bravata.

— Claro que sabe. E a mocinha aqui também — Greg apontou o dedo para Kate —, se é que o nome dela é mesmo Kate.

— E claro que é meu nome de verdade! — retrucou Kate, indignada, percebendo que o plano todo ia por água abaixo diante de seus olhos.

— Bem, pelo menos é um começo — retrucou Greg, num tom de dúvida. — Agora, por que os dois não param de fazer essas caras de bobos e me contam o que diabos está acontecendo?

Cinco minutos mais tarde, Cullen terminava a his­tória. Greg não dissera palavra enquanto ouvia o relato do acidente, as razões dos temores de Meghan e de como Kate tinha concordado em representar o papel de namorada de Cullen até que o possível as­sassino fosse encontrado.

— Pode ser uma sentença perpétua — resmungou, por fim.

— O que quer dizer com isso? — perguntou Cullen.

— A polícia pode nunca descobrir quem foi.

— Descobrirão — afirmou Kate. Se a determina­ção em sua voz tivesse qualquer influência sobre is­so, certamente os policiais conseguiriam. — Cullen e eu vamos começar a fazer uma lista dos possíveis suspeitos, hoje mesmo.

— Essa podia ser uma boa idéia, mas eu tenho uma ainda melhor.

— Qual? — perguntou Cullen.

— Os dois devem sentar-se e repassar a história do romance bem direitinho. Ninguém vai engolir es­sa do jeito que está.

— Ele tem razão — disse Cullen, voltando-se para Kate.

Greg sorriu.

— Acho que isso explica porque Kate não sabia se você tinha acordado ou não.

— Quando ela o enca­rou, Greg continuou: — Corrija-me, se eu estiver en­ganado, mas não há apaixonados que não dividam uma cama com essa idade e nos dias atuais. — Apon­tou o dedo para Cullen. — Vocês dois precisam ten­tar ser um pouco mais carinhosos, trocar beijos e pequenos agrados, também.

— Beijos! — exclamou Kate, como se a simples idéia fosse absurda para ela. Mas em seu íntimo ela sabia que isso poderia ser parte do acordo. Afinal, era de se supor que fosse namorada de Cullen. Beijar faria certamente parte da atuação.

— Beijar — retrucou Greg, num tom seco. — Você sabe. Tipo de coisa de quem dorme junto. Quando um homem e uma mulher são considerados um ca­sal, normalmente trocam abraços e beijos. Faz parte daquilo que chamam amor... ou luxúria. Seja lá o que for. Você, Kate, precisa se esforçar mais, prin­cipalmente porque ninguém iria acreditar que estão ardendo de paixão se saltar para o lado cada vez que Cullen chegar perto de você.

— Eu não saltei para o lado!

— Sim, doçura, você saltou. E aposto que, se olhar para a palma das mãos, vai ver as marcas de suas unhas.

Kate olhou antes de pensar. Ele tinha razão.

— Eu lhe disse. — Com um sorriso satisfeito, Greg voltou-se para Cullen. — Quanto a você, precisa olhar para Kate como se a adorasse. Ela é a mulher que você ama, a mulher com quem deseja ficar so­zinho em cada oportunidade... quem sabe a mulher com quem quer se casar um dia. Seu idiota, não pode encará-la como se quisesse esganá-la.

— Não fiz isso.

Greg olhou para ele com uma expressão implacável.

— Bem, vamos jogar fora esses ovos frios e come­çar tudo de novo.

Surpreendentemente, o apetite de Kate retornou assim que não foi necessário fingir mais. Reuniram-se todos e comeram os ovos à mexicana. Depois, ten­taram elaborar uma história sobre o primeiro encon­tro, o namoro e o trabalho de Kate que pudesse pas­sar pelo crivo dos amigos e sócios de Cullen.

Mantiveram a parte sobre o encontro no restau­rante do pai de Kate, poucos meses antes. E acres­centaram que tinham se visto algumas vezes quando acontecera de Cullen estar na cidade. Fora uma atra­ção instantânea, se não amor à primeira vista, mas, depois de alguns encontros, haviam decidido que, mo­rando em Estados diferentes, o romance não iria dar certo. Teriam que romper a relação. O acidente de Cullen havia feito com que ambos percebessem que estavam enganados, que estavam envolvidos emocionalmente muito mais do que a princípio acredi­tavam. Ele pedira para Meghan entrar em contato com Kate tão logo chegara à fazenda, e Kate tomara o avião para estar ao lado dele, sabendo que o amor que sentia era verdadeiro.

Decidiram que Kate seria uma professora de His­tória do colegial. Pois esta matéria fora seu forte no período que estudava. Havia tirado um ano de licen­ça, o que seria uma explicação razoável para que ela pudesse deixar de lado a vida em Nova Orleans para ficar com o homem que amava por um longo período de tempo.

Greg deu palpites, dizendo que quanto mais curto o período de tempo que tivessem passado na compa­nhia um do outro, melhor. Serviria para encobrir os muitos lapsos no conhecimento de ambos com rela­ção aos gostos e desagrados. Por fim, chegaram à conclusão que não era um plano perfeito, mas que teria que ser suficiente.

— Há algo mais que precisamos conversar — disse Cullen. — O Dia de Ação de Graças será daqui a três dias. Parece que a coisa mais fácil para todos seria que fizéssemos a reunião na fazenda, já que estamos aqui.

— Faz sentido — disse Greg. — Dan, Meghan e as meninas adoram vir para cá, embora não tenham essa oportunidade muitas vezes.

— Certo — disse Cullen, concordando. — E isso dará a Louella e a Kate a chance de ficarem juntas. — Olhou para Greg. — Não ouvi você comentar que Connie e a família iam passar o dia com os parentes do marido?

— Sim.

— Então, você pode muito bem se juntar a nós ao invés de ficar em casa, sentado, sozinho.

Greg concordou, com um sorriso torto nos lábios.

— Eu ficaria feliz com isso, embora tenha a sus­peita de que você só quer a minha presença porque precisa de alguém para preparar o peru.

— Isso passou pela minha cabeça, confesso — ad­mitiu Cullen, sorrindo. — O que acha, Kate? Será que Louella gostaria de vir?

— Tenho certeza de que sim — respondeu Kate.

— Só faço uma exigência.

— O quê?

— Que tia Lou faça a sobremesa.

— Greg? — perguntou Cullen.

— Nada a objetar — concordou Greg, embora não parecesse lá muito satisfeito.

— Eu havia pensado em fazer uma sobremesa de arroz-doce.

— Quem sabe no próximo ano? — indagou Cullen.

Greg fez um gesto evasivo.

— Bem, agora que está tudo resolvido, acho que vou arrumar a cozinha e começar a pensar em algu­ma coisa para o almoço. Depois, darei uma olhada nesse ombro.

— Eu ajudo — disse Kate, preferindo ficar com Greg do que com Cullen.

— Como quiser.

Cullen preferiu ir até seu quarto e ligar para o escritório e para a chefatura de polícia, em busca de alguma novidade. Quando a porta fechou-se, atrás dele, Kate soltou um suspiro fundo.

— Que dureza, hein?

Kate ergueu os olhos para ele.

— O quê?

— Estar com Cullen.

Ela tirou os pratos da mesa e levou-os para a pia.

— E toda essa situação.

Greg raspou os restos no lixo, enxaguou os pratos e estendeu-os para Kate, que os colocou na lavadora.

— Não — insistiu Greg, meneando a cabeça, len­tamente. — E mais do que isso.

— Quem é você? Um paranormal?

— Não. Mero observador.

— Se quer saber...

— Quero — interrompeu Greg, com um sorriso.

— Cullen e eu... nós, realmente, nos conhecemos em Nova Orleans, mas faz quase dois anos.

— E foi amor à primeira vista? — indagou Greg, fitando-a diretamente.

Kate enfrentou aquele olhar de frente.

— Pleiteio o direito de ficar calada.

Greg concordou.

— Ele é um bom homem, Kate. Um sujeito muito honrado.

Kate sentiu-se agradecida que ele não insistisse. Esboçou um sorriso que não chegou a seu olhar.

— Assim dizem.

— Bem, o que quer que os dois sintam ou não, eu sugiro que, já que aceitou o trabalho, seja eficiente em fingir que se importam um com o outro. Como eu disse, ninguém vai engolir essa história de que existe algo entre vocês se ambos continuarem a agir como porcos-espinhos...

Ela não pôde evitar e riu da analogia. Afinal, não podia argumentar com a lógica.

— O que posso dizer? Você tem razão.

Desgostoso, frustrado, furioso, o homem dobrou o jornal e jogou-o sobre a pilha dos demais. Onde se metera aquele maldito McGyver? Seguir-lhe a pista até o campo dos alces não fora um problema, todos conheciam as famosas terras dos McGyver. E quan­do se está desempregado, era fácil sair ao encalço de alguém e persegui-lo. A parte difícil tinha sido esperar até que pudesse pegar McGyver sozinho, pla­nejar o tiro de maneira que parecesse um acidente. Quem haveria de imaginar que ele sobreviveria?

Agora, estava de volta à ativa, e nada além de uma breve nota do fato tinha sido liberada pelo hos­pital, na sexta-feira, para as estações locais de televisão. Não haviam dito uma só palavra a respeito de seu paradeiro. Não estava em casa, no condomínio de luxo onde morava, e não tinha voltado ao serviço. Estava se escondendo, em recuperação ou seja lá co­mo chamem isso. Mas, onde?

Não era justo que um homem como McGyver pu­desse ter tudo, aparência, família amorosa, celebri­dade e sucesso. Não era justo. Não era justo que McGyver não aceitasse seu papel na derrocada das esperanças e sonhos de um homem... a vida dele! Julgar mal uma situação não podia, não devia, ter causado tanta dor.

— Você destruiu minha vida e eu vou me vingar!

O tempo devia ter tornado as coisas melhores para ele. Mas as feridas nunca cicatrizavam. Não. Ele não tinha intenção de deixá-las sarar. Ao contrário, a cada dia que passava, o ódio intensificava-se, junta­mente com a determinação de ver a justiça ser feita.

Não tinha acabado. Nada como um sucesso para construir a confiança. Ele chegara perto de livrar o mundo de um advogado arrogante, auto centrado em sua noção dos direitos, no dia do alegado acidente de caça. Da próxima vez, não cometeria erros.

Encorajada pelo fato de Greg estar por perto, como amortecedor, e determinada a dar conta do trabalho, Kate saiu da cozinha e foi à procura de Cullen. En­controu-o na biblioteca, com a poltrona virada para o lado, para que pudesse olhar pela janela. Kate pôde perceber o cheio de couro e o aroma de charuto de algum antigo ocupante, assim como os sons distantes de Greg mexendo nos utensílios de cozinha. Apenas um pano de fundo para aquilo que realmente lhe prendia a atenção: o homem atrás da escrivaninha.

Seus ombros estavam caídos, a arrogância, ou se­ria a confiança?, o abandonara. Distraído e sem no­tar que era observado, Kate viu nele uma vulnera­bilidade que pensara não existir. Pela primeira vez, desde que concordara em trabalhar para Cullen, ela baixou a guarda. A vida daquele homem fora amea­çada e, agora, seu mundo pessoal transformara-se num caos. Ela sabia o que era ter o mundo destruído, as crenças e valores arrasados sob as vicissitudes da realidade da vida. Sabia exatamente o quanto era difícil reconstruir as ilusões perdidas. As mágoas se amenizavam, as cicatrizes se fechavam, mas o de­sencanto perdurava por muito tempo.

Para ocultar a súbita onda de simpatia, ela bateu na moldura da porta. Cullen voltou o rosto, com um ar tristonho.

— Olá...

— Olá — ela respondeu parada na porta. — Está tudo bem no escritório? — Fez a pergunta mais para quebrar o gelo e livrá-lo daquela aura de introspecção do que para mostrar que se importava.

— Acho que sim — ele murmurou, virando a ca­deira em direção a ela. — Eu estava sentado aqui, fazendo uma lista das pessoas que acusei, no passa­do, e que podem ter perfil psicológico para atentar contra a minha vida. Se pensar mais um pouco, acho que me lembrarei de mais alguns nomes.

Kate sentou-se, em frente a ele, determinada a ser tão profissional quanto possível sob as estressantes circunstâncias.

— Não deve ser agradável pensar que alguém quer lhe tirar a vida.

— Você deve saber.

— Por que fui policial, você quer dizer? — Quando Cullen concordou, ela meneou a cabeça. — É dife­rente. São os mocinhos contra os bandidos. Rara­mente é coisa pessoal. O rancor normalmente se vol­ta contra os promotores de acusação, em quem os bandidos colocam a responsabilidade de impedir que façam seu trabalho escuso e de condená-los. Geral­mente não vêem aqueles que os prenderam como ini­migos. Quero dizer, se não fosse eu a apanhá-los, seria qualquer outro. São as regras do jogo.

— Você considera isso um jogo?

Kate fez um gesto de descaso.

— É só uma comparação. Como em qualquer jogo, há estratégias envolvidas quando se quer levar al­guém para as barras dos tribunais. Você sabe disso, porque ter uma estratégia forte é vital tanto para a defesa como para a acusação. E há regras, as leis, cujo principal objetivo é impedir a desonestidade. Bem... pelo menos, os policiais têm regras e devem se guiar por elas.

— Algumas vezes, não.

— Algumas vezes — concordou ela. Um sorriso irônico, sutil, cruzou seus lábios. — Por tudo isso, comparar a sua situação a um jogo não é uma má correlação. Olhe para nós. Estamos envolvidos em um jogo para tentar descobrir quem atirou em você.

— Tem razão — ele disse, com um gesto de con­cordância.

— E você?

— Eu?

— Já quebrou as regras?

O sorriso surgiu de novo.

— Entortei algumas — Kate admitiu.

— Engraçado. Você me parece mais uma seta que não se verga.

Kate não queria falar a respeito de si mesma.

— Dou o melhor de mim — retrucou, secamente.

— Então, quem está na lista? — Quando Cullen a fitou, com uma expressão angustiada, ela insistiu:

— Temos de começar em algum momento.

— Acho que sim. — Ele estendeu-lhe o papel.

— Dub Lambert — Ela leu. Encarou Cullen. — O que ele fez para ficar no topo da lista?

Cullen pegou uma caneta e começou a rabiscar o bloco que estava sobre a mesa.

— Ele se confrontou comigo, diante da minha casa, há um mês, mais ou menos.

— Por quê?

Cullen baixou os olhos para o papel cheio de ra­biscos e não respondeu.

— Você não pode guardar segredos de mim, Cul­len. Tenho que saber de tudo. O bom, o ruim e o feio.

— Certo — ele concordou. Respirou fundo e des­viou o olhar para um ponto abstrato na sala. — Dub é casado com uma mulher chamada Lucy. Eu e ela tivemos um breve envolvimento antes de nós dois nos casarmos. Joanie e eu tínhamos rompido, ela e Dub também. Lucy era bonita e simpática e... Envolvente. Acho que você diria que eu a usei. —Voltou-se para Kate. — Não foi muito recomendável de minha parte, não é?

Lá fora, um cardeal espiou pela fresta da janela e olhou para dentro, balançando a cabecinha verme­lha como se estivesse curioso sobre a opinião de Ka­te. Embora achasse que era bobagem, Kate ficou sur­presa pela nota de dor que aquela confissão provo­cava em Cullen. Ora, ele era um homem bonito. Cla­ro que as mulheres o assediariam. E, sem dúvidas, devia ter havido muitas mulheres, depois de Nova Orleans.

Ela expulsou os sentimentos de compaixão para longe e procurou fazer uma expressão impessoal.

— Não estou aqui para julgar aquilo que você fez ou deixou de fazer. Estou aqui para protegê-lo e en­contrar quem está por trás dos atentados.

Cullen escondeu sua reação ao comentário sob uma expressão indecifrável.

— Como Dub ficou sabendo?

— Lucy estava grávida quando ela e Dub se ca­saram. O filho precisou fazer alguns testes, um ano depois de nascido e descobriu-se que seu tipo san­güíneo era diferente do de Lucy ou Dub.

Kate sorriu.

— Deve ter sido um jeito bem desagradável de descobrir que o filho que ele pensava que era dele não era.

— Foi um choque — concordou Cullen. — Princi­palmente porque Lucy usou a gravidez para obrigá-lo a se casar.

— Então... ele deve ter pressionado Lucy e ela contou a respeito do caso com você — concluiu Kate, depois de alguns segundos de silêncio.

— Bingo! — exclamou Cullen, levantando-se e ca­minhando até a janela. O cardeal voou para o galho de um carvalho desfolhado que, no verão, proporcio­nava sombra para aquele lado da casa. — Na ver­dade, foi uma aventura de fim de semana, não um envolvimento de longo prazo — ele continuou, sem se voltar.

— Apenas para aliviar a tensão — murmurou Ka­te, tentando afastar a amargura da voz. A ligação de Cullen com Lucy era muito semelhante a que ele mantivera com Kate. — A questão é, você dormiu com ela e, por causa disso, Dub achou que você era o pai biológico da criança.

— Sim — disse Cullen, voltando-se para ela. Kate reclinou-se na cadeira.

— E o que aconteceu quando ele veio até a sua casa?

— Queria dinheiro. Que eu arcasse com a respon­sabilidade ou iria aos jornais.

— Ah... Isso me parece chantagem. Fica bem claro como ele, realmente, se sentia com relação à pater­nidade.

— Foi o que pensei. — Cullen começou a andar de um lado para o outro, como se não conseguisse ficar parado.

— E o que você lhe disse?

— Que, se ele queria dinheiro, contratasse um ad­vogado e movesse uma ação. Que era melhor não divulgar o caso sem provas ou ele seria acusado de difamação.

— Como tinha tanta certeza de que o filho não era seu?

— Tenho certeza.

Kate encarou-o com o olhar sombrio.

— E nunca mais ouviu falar dele?

— Nem uma palavra.

— Você telefonou a Lucy e falou com ela a respeito disso?

— Não.

— Já que foi ela a apontá-lo, quem sabe você de­vesse ter feito um teste de DNA.

Um músculo saltou, no queixo de Cullen.

— Talvez. — Voltou a andar de um lado para o outro. — Eu realmente pensei que ela entraria em contato, ou que, talvez, isso... passasse.

Uma estúpida forma de racionalização, pensou Kate.

— Coisas como essas não passam, por mais que a gente queira.

— Acho que não — ele retrucou, com um suspiro pesado.

Ela se inclinou para a frente, na cadeira.

— Não ficou curioso em saber se a criança era realmente sua ou não?

— Não é! — ele exclamou, com secura. — Posso nem sempre tomar as melhores decisões, mas não sou uma pessoa descuidada. Tomo precauções.

Cullen sentiu o sangue todo afluir ao seu rosto.

— Ah... você foi cuidadoso... Acidentes acontecem, Cullen. Imagino que uma boa porcentagem de crian­ças ande por aí a despeito das precauções.

— Afinal, de que lado você está? — ele perguntou, num rompante.

— Não há lado algum nesta situação — retrucou Kate, com firmeza. — Estou apenas analisando os fatos, que não são necessariamente agradáveis. — Determinada a provocá-lo, ela prosseguiu: — Você precisa fazer o teste de DNA.

Cullen fechou os olhos e cocou o nariz.

— Como iria se sentir se o garoto fosse seu filho? — ela o pressionou.

A expressão no rosto de Cullen mudou para o que poderia ser descrito como chocada.

— Não pode ser meu! — ele gritou, num tom de angústia e tristeza. — Meu filho devia nascer por amor... ser gerado pelo amor. Eu devia estar envol­vido com a vida dele. Se esse filho fosse meu, não seria justo... para mim ou para Joanie.

Aquela colocação deixava entrever duas coisas. Primeiro, com toda a sua vivência, Cullen McGyver tinha um ranço de idealismo dentro dele. Coisa rara para um homem que atingira seu nível profissional. Também indicava que ele nutria uma porção de sen­timentos mal-resolvidos com a esposa morta. Não era de admirar que a tivesse deixado sozinha em Nova Orleans, pensou Kate, invadida por uma onda de compreensão. Não havia espaço para outra mu­lher no coração de Cullen. Sentindo, de repente, uma opressão sufocante, Kate prometeu a si mesma exa­minar essa nova informação com mais cuidado, de­pois. Naquele momento, estava trabalhando, e seu trabalho era reunir informações das quais precisava para descobrir quem era que queria matar Cullen.

— Detesto ser portadora de más notícias, Exce­lência — disse ela, com um toque de dor na voz. — Mas a vida nem sempre é justa. Se fosse, meu par­ceiro não estaria morto. Portanto, esqueça a justiça. O fato é que há um garotinho lá fora que pode ser seu. O certo seria você começar a pensar em resolver a situação, se o filho for seu.

Cullen pareceu picado por uma cobra.

— Não se atreva a me julgar!

— Não estou julgando. Só estou colocando as coi­sas nos devidos lugares. Em minha avaliação, isso precisa de consideração mais séria, porque, pelo que me disse, você não parece o tipo de homem que foge das responsabilidades, não importa o quanto isso pos­sa custar.

— Não sou mesmo!

— Um teste de DNA pode esclarecer tudo — con­tinuou Kate, suavizando a voz.

— Eu sei.

— Você, porém, decidiu contra.

— Por enquanto, sim.

— O que, traduzido aos olhos públicos, quer dizer que você não está ansioso que o mundo descubra que você tem os pés de barro.

— É isso. Talvez Louella tenha mencionado que estou pensando em concorrer a uma vaga no Senado dos Estados Unidos. Você sabe o que a mídia pode fazer com uma notícia como essa... Com todos os es­cândalos dos últimos anos e com tantas pessoas in­fluentes tendo amantes, filhos ilegítimos, acusados de suborno e todo o tipo de sujeira, seria um suicídio político jogar isso ao vento ou deixar que se espalhem outras alegações negativas quanto ao meu caráter.

— Melhor jogar limpo agora do que no meio da campanha.

— Droga! — ele vociferou, encarando-a com raiva. Kate deu de ombros, encarando-o.

— Tudo bem, tudo bem. Você tem razão — ele concordou.

— É bem melhor agora. E é egoísmo da minha parte colocar a carreira à frente da vida de alguma criança. Farei o teste.

— Ótimo. Se der positivo, acho que saber a ver­dade seria benéfico para todos. É sempre melhor sa­ber em que terreno se está pisando.

— Você está certa.

Kate abaixou a cabeça e ponderou sobre o assunto, preocupada, tentando não se envolver emocional-mente na questão.

— O que foi? — perguntou Cullen, observando-a.

— Se a suspeita de um escândalo prejudicar suas chances de ser eleito, minha permanência aqui pode ser um problema ainda maior — disse, depois de alguns instantes.

— Isso não pode ser evitado. Assim que o maluco for preso, podemos explicar tudo à mídia.

— Você é quem manda — retrucou Kate, com um gesto de desdém.

— Quem sabe? Até as eleições do próximo ano, tudo pode estar esquecido.

— Você tem razão. Vou falar com Meghan sobre o teste, quando ela chegar.

— Ótimo. — Kate enviou a ele um sorriso rígido de aprovação.

Tentou não pensar no assunto nem imaginar Cullen fazendo amor com outra mulher. Precisava vol­tar sua atenção à lista de suspeitos, não ficar pen­sando nos envolvimentos que Cullen tivera no pas­sado. Poderia descobrir outras coisas na vida de Cul­len que ele não gostaria de tornar públicas. Laços com outras mulheres.

 

Kate expulsou da mente os pensamen­tos de Cullen com outras mulheres. Ele podia ser um ótimo promotor e um bom homem, mas não era santo. Era um homem apenas, com to­das as necessidades, vícios e falhas de qualquer ser humano.

Forçou-se a voltar a atenção para a lista.

— Mais uma pergunta.

— Fale.

— De tudo que sabe sobre Dub, acha que ele pode ser capaz de matar?

Cullen demorou a responder.

— Não sei. Minha impressão inicial é que ele é do tipo de nutrir rancor. E o típico valentão.

Kate tomou alguns notas no papel.

— Certo. Vou investigar. O próximo. Quem é Claude Porter?

Cullen pendeu a cabeça para trás e fitou o teto, tentando reunir os dados.

— Fez uma queixa alegando ter lesionado as cos­tas no trabalho. Queria uma indenização de milha­res de dólares da companhia para a qual trabalhava.

A investigação o surpreendeu fazendo algo que a tal lesão não permitiria fazer. Foi submetido a diversos exames e nós o condenamos por extorsão. Tudo o que fizemos foi provar sua culpa. Não posso acredi­tar que queira me matar por isso.

— Nunca se sabe — disse Kate. — E quanto a John Lamonti?

— Um técnico do time de basquete que forçou intimidades com duas garotas da equipe. A defesa fez um trabalho espetacular, convencendo o júri que ti­nha sido consensual. Mesmo com as garotas tendo dezessete anos. Mas ele estava com o pulso quebra­do, e a partir daí consegui provar que a história era diferente do que ele afirmara. A sentença foi sus­pensa por alguns trabalhos comunitários, eu acho.

— Isso foi há quanto tempo?

— Acho que uns quatro anos. A última vez que soube, ele era técnico de uma escola ao sul do Arkansas. — Cullen esfregou o lábio inferior com a pon­ta do dedo e espiou o papel, lendo o próximo nome. — Vincent James lesou o governo em mais de cem mil dólares. Foi pego sacando a aposentadoria da mãe muito tempo depois da morte dela.

— Michael Mullins? — perguntou Kate, erguendo as sobrancelhas, numa indagação.

— Michael Mullins... — Cullen fechou os olhos. — O velho Mike descarregou todo o tipo de produtos químicos perigosos num riacho por uma porção de anos. Acabou com a vida selvagem num raio de qui­lômetros e matou um rebanho ou dois de gado. Não me lembro quanto tempo ele pegou. Acho que não muito. — Cullen estremeceu, de repente.

— O que foi?

Os olhos dele encontraram os de Kate.

— Eu me lembrei, de repente, que ele jurou que ia me pegar quando saísse...

— E você não sabe quando pode ser? — perguntou Kate, anotando tudo, furiosamente.

— Não, sinto muito.

— Isso não é problema. Vou verificar. Na verdade, vou investigar todos da lista, saber onde estão e o que andam fazendo. Enquanto isso, vá pensando em alguém mais que possa ser incluído na lista.

Ele concordou e Kate levantou-se para sair.

— Precisamos falar sobre minha agenda, ajustar nossos planos.

O coração de Kate disparou dentro do peito. Tinha esperança de que ele ainda não retornasse às ativi­dades normais da vida, pelo menos até o feriado de Ação de Graças. Mas... Fazer o quê? Fez um gesto de descaso.

— Tudo bem.

— Concordei em ser o mestre-de-cerimônias na parada de Natal em Barnesville, na tarde de sábado, depois do Dia de Ação de Graças. Assumi o compro­misso meses atrás.

— Não acho prudente. Uma parada... Lugares aber­tos... — ponderou Kate, franzindo a testa. — Seria impossível para uma pessoa manter os olhos em to­dos os possíveis problemas. Além disso, não acha que é um pouco cedo para sair e andar por aí?

— Trata-se de uma festa de cidade pequena e não estarei fazendo nada extenuante. — A irritação foi visível nos olhos azuis. — Não é nada espetacular, que saia nos jornais.

— Compreendo, e levarei isso em consideração. O que mais vem pela frente?

Cullen puxou uma pequena agenda do bolso e abriu-a.

— Há uma exposição de arte em Dallas no dia primeiro de dezembro.

Kate ia dizer alguma coisa quando ele continuou:

— E uma mostra privativa. Apenas para convida­dos, se isso ajuda a deixá-la mais tranqüila.

— Mais ou menos. — Na verdade, o convite eli­minaria apenas o excesso de pessoas entrando e sain­do. Além disso, haveria uma porção de seguranças na galeria. — O que mais?

— Uma festa em Aledo, na casa de um velho ami­go, depois da exposição.

— Que velho amigo?

Os lábios de Cullen se cerraram, num gesto tenso, e um músculo saltou em seu queixo. Claramente, ele não gostava de todas aquelas perguntas. Péssimo. Ela fora contratada para protegê-lo e o faria da me­lhor maneira, gostasse ele ou não. Kate ignorou a voz da consciência que lhe dizia que ela gostava de provocar, gostava de assumir o controle. Digamos que isso fosse o troco pela forma com que ele a tra­tara, em Nova Orleans.

— Jack Lattimer — respondeu Cullen, por fim.

— Quantas pessoas irão comparecer?

— Não faço idéia. Como vou imaginar?! — excla­mou ele, irritado.

Ora, ora, pensou Kate, Cullen não estava passan­do no teste.

— Preciso ver a lista de convidados antes de dizer que está tudo bem.

— Para mim, tanto faz — ele retrucou, com um tom gelado. — Se pode imaginar como perguntar sem levantar a bandeira vermelha, ficarei feliz com isso.

— Se esse Jake Sei-Lá-Do-Quê é seu velho amigo, não pode simplesmente perguntar a ele?

Cullen esboçou um sorriso de ironia.

— Não, sem pôr tudo por água abaixo. Ninguém deve saber que você é minha guardiã, lembra-se?

Kate jogou-se na cadeira. Sentia-se uma idiota. Cullen mediu-a com um olhar de pedra, fechou a agenda e colocou-a de volta no bolso.

— Há muitas outras coisas que posso cancelar, exceto os planos que tenho de passar o Natal com Meghan e a família. Se quiser passar o Natal com seu pai, acho que estarei seguro com Meghan e Dan.

Os pensamentos de Kate tumultuaram-se. Essa coisa de guarda-costas secreto era um jogo inteira­mente novo para ela, um que ela não sabia se tinha condições de jogar.

— Dan e Meghan moram em Little Rock?

— Sim.

Ela meneou a cabeça.

— Não podemos deixar você sozinho. Eu irei, tam­bém. O trabalho tem preferência sobre aquilo que eu quero ou onde passo os feriados.

— Você é quem manda.

As palavras eram de concordância, mas a expres­são nos olhos dele podiam indicar qualquer coisa, menos aceitação. Ele estava tão zangado com a in­tromissão de Kate nos eventos futuros que ela co­meçava a ficar preocupada. Fitou-o para dizer que já seria bastante difícil fazer o trabalho, e ficaria muito pior se ficassem se estranhando a todo mo­mento. Claro, se tivesse liberdade de ação seria mui­to mais fácil. E, se cada um cedesse um pouco para o bem do plano, melhor.

— Parece que vamos precisar ir até a cidade para umas compras — disse ele, antes que Kate achasse as palavras certas para expressar seu pensamento.

A súbita mudança de assunto a confundiu, por um instante.

— Compras?

— Sim. Você vai precisar de algumas coisas. Para a exposição e a festa.

Então, ele tinha planos de ir aos eventos, a des­peito do perigo? Ótimo. Ela iria e faria o melhor para protegê-lo. Se alguém metesse uma bala naquele co­ração duro, ela poderia dizer "Não lhe disse?". Mas, uma exposição de arte! Kate sufocou a vontade de bufar. Detestava eventos formais. Não importava o quanto dissessem que ela era bonita, sempre se sen­tia como se fosse uma enjeitada, sendo examinada e deixada de lado.

— Eu... eu não tenho idéia do que comprar... do que seria apropriado.

— Eu tenho — Cullen retrucou, com um sorriso de malícia. — Não se preocupe. Você e eu faremos uma bela equipe. Você coloca sua vida na linha de fogo por mim e eu farei com que seja a mulher mais bem vestida do evento. E, já que estou morto de té­dio, iremos esta tarde.

— Esta tarde?

— Como você disse antes, não há porque postergar o que tem de ser feito.

— Acho que não — ela concordou, com um suspiro.

Cullen afastou-se, deixando Kate pensativa e mais preocupada do que gostaria de admitir. No passado, ela fora capaz de introjetar uma nova identidade, insinuar-se na vida dos bandidos... jogar junto, reu­nir pedaços e peças de informações pelo caminho. Agora, porém, era diferente.

A diferença era que, no antigo trabalho, ela reunia informações, mas tinha alguém para lhe fornecer os detalhes de que precisava para desvendar o caso. Desta vez, estava sozinha. Sem informantes. Sem retaguarda. Só ela e Cullen. E alguém que o queria ver morto.

Compras. Com um arrogante, insuportável... idio­ta! Kate correu a escova pelos cabelos com uma vio­lência que usaria para derrubar um batedor de car­teiras. Cullen mal falara com ela durante o almoço, o que não escapara aos olhos de Greg e, agora, ela devia passar a tarde com ele, experimentando rou­pas. Ir ao dentista fazer o canal seria preferível, pen­sou, prendendo os cabelos.

Ao vestir uma calça com tons cinza-chumbo e um suéter branco, bem leve, ela tentou diminuir a irritação dizendo a si mesma para acalmar-se e relem­brando que, de muitas maneiras, esse trabalho era uma moleza. Seu alter ego, entretanto, argumentou que não haviam chegado à parte mais difícil ainda. O teste verdadeiro viria quando ela e Cullen saíssem em público.

A ira cedeu um pouco, ao pensamento. Não apenas estava zangada com a atitude de Cullen, ela tinha de admitir que parte de sua própria reação era ba­seada em puro medo. Estava com medo. Não de que não fossem capazes de colocar de lado a animosidade e fazer todos de bobos. Mas, se algo acontecesse e ela, se visse no meio de uma situação semelhante àquela que enfrentara com Raul? Não podia afrou­xar a guarda nem por um minuto. Não, com ele. Com ninguém mais.

Respirou fundo, dizendo a si mesma que podia fa­zer o trabalho. Certo. Podia. Durante o tempo que levara para empacotar as coisas, em Nova Orleans, Louella a mantivera atualizada sobre qualquer re­ferência a Cullen através da mídia. A essas alturas, não devia ter saído nada de novo, exceto que ele es­tava se recuperando do acidente de caça. Ninguém saberia que estavam fazendo compras, de maneira que as chances de correrem algum perigo eram mí­nimas. De qualquer forma, estava preocupada.

Olhou-se no espelho. Pusera o mínimo de maquia­gem, iluminara os lábios com um brilho e colocara um pouquinho de colônia, de aroma fresco. Com os cabelos presos do jeito habitual, ela decidiu que era o melhor que podia fazer com aquilo que tinha.

Você pode fazer isso. As palavras ressoaram como um mantra em seus ouvidos quando ela desceu as escadas para encontrar-se com Cullen, na biblioteca. Quando o viu, parado perto da escrivaninha, o fone no ouvido, seu coração disparou. Não prestou aten­ção na conversa. Estava mais preocupada com o ho­mem em si, que se parecia como a pilha de um mi­lhão ou mais de dólares, que ele, sem dúvida, valia, com sua calça caríssima num tom de cinza, a camisa de um pálido azul-lavanda e o paletó esporte. Estava barbeado e os cabelos negros escovados para trás. Usava um anel de ônix na mão direita e um relógio no pulso esquerdo que, provavelmente, custava mais do que ela ganhava, em meses de trabalho.

Ele se voltou parcialmente e viu Kate, parada na porta. Disse:

— Espere, fale com Kate. — Estendeu a ela o te­lefone. — E Meghan. Você precisa ouvir isso.

Kate pegou o telefone.

— O que foi?

Meghan falava num tom de pânico.

— Fui até a casa de Cullen para pegar algumas roupas para levar até aí, amanhã, e decidi verificar os recados na secretária eletrônica. Havia uma, com a voz de um homem, que dizia: Soube de seu acidente pela televisão. Pena que não tenha dado certo. Farei contato de novo, no momento em que parar de se esconder.

O coração de Kate disparou. Contudo, o facínora parecia não ter idéia de onde eles estavam, o que a deixava mais tranqüila para fazer compras. Mesmo assim, a mensagem não deixava dúvidas das inten­ções do atirador.

— Eu não sabia o que fazer — disse Meghan, do outro lado da linha, aflita.

— Fez a coisa certa, mas precisa se acalmar — disse Kate. — Cullen não corre perigo imediato. Pode fazer uma cópia da fita?

— Sim — disse Meghan.

— Então, mande fazer duas cópias, dê uma à po­lícia e traga a outra para cá, para que eu e Cullen possamos ouvi-la. Ele pode identificar a voz, ver se é familiar.

— Boa idéia.

Meghan disse que ela e a família planejavam che­gar mais ou menos ao meio-dia, no dia seguinte, e Kate desligou. Olhou para Cullen. Não precisava re­petir a conversa. Ele ouvira tudo.

— Pronta?

Ela fez que sim e ele jogou-lhe as chaves, já que não podia dirigir. Kate apanhou-as no ar e saiu da sala, com pose de profissional, a fisionomia tranqüi­la, aparentando uma calma que estava longe de sen­tir. A ameaça, agora, era real, não apenas o produto de uma imaginação fértil. Alguém, um homem, que­ria Cullen morto. Era função de Kate impedir que isso acontecesse.

Chegaram a Little Rock e, seguindo as orientações de Cullen, Kate rumou para uma butique que ficava em um shopping bastante movimentado. No momen­to em que se aproximou da porta, onde se lia simplesmente Chyna's, Kate percebeu que estava fora de seu ambiente. A loja era chiquérrima, de alta clas­se, ou, como diria tia Lou, de cair o queixo. Não o tipo de lugar em que Kate provavelmente entrasse, mesmo que tivesse dinheiro. Uma sensação pesada, desconfortável, instalou-se na boca de seu estômago.

Cullen segurou a porta para que Kate entrasse primeiro. A butique era pequena e decorada no estilo dos anos quarenta, que Kate achava bastante en­cantador. Uma vendedora, a única empregada à vis­ta, aproximou-se imediatamente, mediu Kate com o olhar, dispensou-a no segundo e voltou-se para Cul­len, a quem, obviamente, conhecia.

Cullen fez algumas perguntas em voz baixa e Ka­te, que se dirigira até o nicho onde estavam expostas diversas blusas de seda, ouviu quando ele disse al­guma coisa sobre Joanie. Kate procurou a etiqueta com o preço e, quando viu o valor, puxou a mão de susto, como se tivesse tomado um choque.

— Pelo que entendi, você está procurando um traje formal — disse uma voz aveludada atrás dela.

A vendedora, provavelmente perto dos seus cin­qüenta anos, endereçou a Kate um sorriso que pre­tendia ser educado. Os olhos, porém, desmentiam.

— Ah, sim. Estou.

A mulher fez um gesto para o fundo da loja.

— Se me acompanhar, pode ver se há alguma coisa que lhe agrade.

Kate relanceou os olhos para Cullen, pouco à von­tade, e seguiu atrás da mulher, que continuava a sorrir e disse chamar-se Frieda.

— Tem alguma cor em mente?

Kate ia responder quando percebeu que a vende­dora não dirigia a pergunta a ela, mas sim a Cullen.

— Algo em tom pastel, eu acho — disse ele, com uma expressão distante nos olhos, como se estivesse em outro tempo e em outro lugar.

Pastel? Kate pensou num tom parecido com horror. Não usava nada em tom pastel desde que era um bebê. Olhou para a vendedora, mas a atenção de Frie­da estava toda em Cullen e havia, nos olhos dela, uma emoção que Kate não conseguiu identificar.

— Algo leve e suave. Chiffon, quem sabe — emen­dou Cullen.

— Certamente, Sr. McGyver. — Frieda mediu Ka­te com um rápido olhar, resmungou alguma coisa sobre altura e saiu por uma porta, voltando com três vestidos.

— Experimente estes, para começar.

Com ar de dúvida, Kate foi até o provador, carre­gando os vestidos de chiffon, em lavanda, pêssego e verde-musgo. A mulher seguiu-a e ia entrar junto, mas Kate voltou-se, literalmente bloqueando-lhe a passagem. Frieda arqueou as sobrancelhas, com ar de surpresa.

— Eu me visto sozinha desde os três anos — res­mungou Kate, recusando-se a tirar a roupa na frente da vendedora.

— Mas, eu...

— Eu a chamarei, se precisar — retrucou Kate, forçando um sorriso.

Frieda encarou-a com frieza educada.

— Claro. Estarei aqui fora. Oh, e o Sr. McGyver gostaria de ver cada vestido que você experimentar.

Kate bufou. Claro que ele queria. Estava pagando a conta...

Experimentou primeiro o vestido verde, mais des­pojado. Embora gostasse do corte, a cor a fazia ar­repiar-se. Saiu do provador e encarou Cullen, que estava sentado em uma confortável poltrona, espe­rando. Kate mordeu a língua, determinada a não dizer nada que provocasse fagulhas entre os dois. Era apenas um vestido que ela usaria uma única vez. Ainda assim, se tivesse que usá-lo em público, pediria demissão, com assassino ou sem assassino.

A expressão de Cullen era enigmática, e a testa se franzira. Por insistência de Frieda, Kate fez uma pirueta. Cullen cerrou as sobrancelhas.

— Fica bem em você — disse.

Será que ouvira direito? Kate mandou a discrição para o espaço.

— Detestei. Não sou bala de hortelã!

— Devo dizer que acho que ela tem razão — mur­murou Frieda, com um sorriso de desculpas. — Va­mos tentar um outro.

O vestido cor de pêssego tinha o corpete bordado com pequenas contas, a cintura baixa e uma saia que caía em suaves ondulações. A cor ia bem com os cabelos ruivos, mas, na avaliação de Kate, o bordado era muito rebuscado.

— A cor fica muito bem a ela — disse Frieda, en­corajada pelo olhar de Cullen. — Não acha?

— Eu me sinto como um enfeite de Natal — retrucou Kate, indicando o bordado. Seu olhar encon­trou o de Cullen, desafiador.

Os olhos dele brilharam, acusadores, como se ele pensasse que ela estava sendo deliberadamente rude para provocá-lo. Bem, ele podia estar pagando a con­ta, mas seria ela quem teria que sair com o maldito vestido. Portanto, escolheria um que a deixasse pelo menos em parte à vontade, mesmo que fosse por uma única noite.

— Experimente outro — disse ele.

O cor de lavanda foi um desastre, desde a saia esvoaçante à tonalidade. O corpete riscado em tom sobre tom fez Kate sentir-se como um bandido me­xicano do velho oeste, ou, quem sabe, a Barbie. Cer­rando os dentes, ela saiu disposta a dar sua opinião para a platéia.

Cullen pareceu perplexo, ao vê-la.

— Joanie tinha um vestido parecido — disse, com um ar estranho.

Ah, como ela suspeitava. Ele instruíra Frieda para mostrar a ela os vestidos nas cores e estilos que a esposa falecida teria escolhido. Muito bem, o sr. McGyver precisava entender bem direitinho e urgente que ela não tinha intenção de ser o clone de Joanie McGyver.

— Deixe-me ver atrás — pediu Cullen.

— Não! — Kate não soube dizer quem ficou mais surpreso com a recusa, se Cullen ou Frieda. — Não sou Joanie e não vou tentar me transformar nela.

— Embora falasse baixo, não havia como ocultar o toque duro em sua voz.

A vendedora desviou o olhar para Cullen, pedindo socorro. Kate até se surpreendeu que a mulher não levasse as mãos à cabeça.

Uma voz feminina os salvou da situação emba­raçosa.

— Não! Não! Não, pelo amor de Deus, Frieda! O que está tentando fazer com essa pobre criatura?

Cullen e Frieda se voltaram. O olhar de Kate cor­reu para a mulher miúda, de pele cor de café com leite, vestida como nos anos quarenta, que cruzou a butique como um tufão em miniatura.

— Olá, Chyna! — exclamou Cullen, sorrindo. Ah... A dona. Kate percebeu o prazer na voz de Cullen. Pequena, curvilínea e bonita de doer, com imensos olhos castanhos, uma boca sensual e cabelos curtos e extravagantes, a dona da butique era tudo que a ruiva Kate, alta demais, gostaria de ser.

— Olá, sócio! — exclamou Chyna, com um sorriso largo, antes de se inclinar e estalar um beijo na face de Cullen.

Sócio? O que estava acontecendo?

Chyna olhou para a tipóia no braço de Cullen.

— O que foi que aconteceu com você?

— Não ouviu as notícias?

— Doçura, eu faço as notícias — disse Chyna, com um volteio.

— Realmente — ele concordou, com uma risada.

— Fiquei no caminho de um caçador descuidado. Na­da demais.

Chyna voltou a atenção para Kate.

— O homem toma um tiro e diz que não é nada.

— Estendeu a mão. — Oi. Sou Chyna Talmadge. E você?

— Kate. Kate Labiche.

— Kate Labiche... — repetiu Chyna. — E...

— Vol­tou-se para Cullen, com ar de indagação.

— Ora, sou o amor da vida dele! — exclamou Kate, no mais arrastado sotaque de Nova Orleans, dirigin­do um olhar de adoração para Cullen. Não deixou de perceber o brilho de irritação nos olhos dele.

— Ora, ora! — exclamou Chyna, encarando Cullen com um olhar encantado.

— Bem, o tempo é inexo­rável, se posso me expressar assim. Um homem não pode ficar em campo, jogando, eternamente.

— Kate certamente colocou um ponto final nisso — concordou Cullen, com um sorriso amistoso. Sim, pensou Kate. Eu e um assassino desconhe­cido.

Chyna arqueou as sobrancelhas bem desenhadas.

— Deve ser sério, se estão fazendo compras.

— Muito sério — afirmou Cullen, com um brilho provocante no olhar.

Kate ficou a observar a troca de palavras entre os dois amigos com uma sensação muito próxima da inveja. Nunca tivera amigos íntimos, e aqueles cuja amizade prezava tinham se mudado ou ainda faziam parte da polícia de Nova Orleans, o que significava que raramente podia vê-los.

Voltando as costas para Cullen, Chyna focou a atenção no vestido, inclinando a cabeça e fazendo um gesto para que Kate fizesse um giro completo.

— Você é de Nova Orleans, não é? — perguntou, num tom natural, embora estivesse concentrada.

— Sim.

— Achei que sim, por causa do sotaque. — Chyna voltou-se para Frieda.

— Por quê, pode me dizer, escolheu essa cor de lavanda?

— O sr. McGyver disse tom pastel... — murmurou a vendedora, na defensiva.

— O sr. McGyver disse? — Chyna levou as mãos bem cuidadas aos quadris. — Preciso lembrá-la de que é uma vendedora de moda? Jamais faça uma mulher experimentar uma coisa que não lhe cai bem. Seu trabalho é fazê-la deslumbrante para os demais. Ou, neste caso, para ele.

Frieda curvou-se, visivelmente abalada com a crí­tica, embora, até mesmo para Kate, aquilo soasse mais como uma brincadeira.

— O que mais experimentou? — perguntou Chyna para Kate.

Chyna torceu o nariz ao saber dos outros dois ves­tidos.

— O pêssego com o estilo do verde podia ficar bem, mas acho que sei o que ficará melhor ainda. — Virou-se para Cullen com as sobrancelhas erguidas e apontou o dedo para ele. — Você está tentando trans­formá-la em outra pessoa, querido. Lembre-se de que ela não é Joanie.

O rubor tingiu as faces de Cullen. Então, Chyna também chegara a essa conclusão. Kate não ficou feliz em saber que tinha razão, ao contrário, sentiu uma estranha sensação de tristeza.

Vendo a expressão nos olhos de Kate, Chyna ex­plicou:

— Não se ofenda, Kate de Nova Orleans. Joanie McGyver era uma de minhas melhores clientes. Se não fosse por ela, eu não teria tido a oportunidade de abrir este lugar. O que eu quero dizer é que Joanie era suave e doce. E não há nada suave e doce em você.

Kate não tinha certeza se já havia conhecido al­guém assim, tão franca.

— Mas, tudo bem — Chyna apressou-se em emen­dar, dando um tapinha no braço de Kate. — Eu tam­bém não sou doce. Se prestar atenção, uma porção de coisas são difíceis de obter e aquelas mais sofis­ticadas são, freqüentemente, muito especiais. — Pu­xou Kate para o provador. — Agora, deixe-me buscar aquele vestido de arrasar para que você experimen­te. Eu mesma desenhei, e garanto que vai deixar Cullen McGyver de quatro.

— Vamos ver — a ironia que Kate percebeu na própria voz já era esperada. A pontada de tristeza não era. Mas, não havia tempo para analisar os pró­prios sentimentos.

— Alguma coisa errada? — perguntou Chyna, franzindo a testa. — Um pedaço de pano errado para agarrar o seu homem?

Aquela mulher era esperta, pensou Kate.

— Invoco o direito de me calar — resmungou, com um sorriso, fazendo o melhor que podia para conti­nuar com a farsa.

Ainda tentava imaginar por que a idéia da própria incapacidade de impressionar Cullen como mulher a deixava aborrecida, quando Chyna retornou com o vestido.

Kate vestiu-o. Era perfeito. Ficou surpresa, feliz ao ver a diferença que a cor e o estilo produziam em sua imagem e mais surpresa ainda com a sensação que a roupa lhe dava. Chique. Sensual. Desejável. Coisas que não sentia fazia longo tempo, se é que r sentira algum dia.

Confeccionado num tecido macio e aderente, suave e ao mesmo tempo brilhante, num tom delicado de verde, o vestido tinha um profundo decote drapeado. Mole e sensual, caía solto do alto do busto e deslizava pelos quadris, com uma fenda nos dois lados que revelavam um pedaço da coxa a cada passo que ela dava. Enquanto a frente tinha uma aparência ele­gante e sofisticada, as costas eram nuas até um pou­co abaixo da cintura. Acompanhava um colete de veludo negro, sem gola, curto na frente e um pouco mais longo atrás, que cobria as costas. Comportado, embora atrevido. Provocante na medida certa. Um vestido que inspirava confiança e poder.

O reflexo no espelho mostrou a Kate a excitação em seus olhos e o rubor em suas faces. Sentia-se como Cinderela sob as mãos da fada-madrinha. O paralelo não terminava ali. Kate sabia que, quando pegassem a pessoa responsável pelo atentado a Cul­len, o relógio iria oficialmente bater doze vezes e ela acordaria em seus farrapos, de volta ao escritório, levantando pistas para viver, enquanto o Príncipe Encantado continuaria com sua vida perfeita acompanhado da verdadeira princesa do seu reino. Mes­mo assim, Kate tinha um tempo ainda não definido para se divertir e tentaria extrair o máximo desse tempo.

Chyna, que em nada era semelhante a uma fada-madrinha, estava parada, avaliando o resultado de sua obra. Ergueu os olhos e captou a expressão re­fletida nos olhos de Kate.

— Oh, é isso aí, menina — elogiou, com um sorriso satisfeito e ronronando como uma gata. Empurrou Kate, num gesto de carinho. — Bem, vamos lá para ver o que o seu homem tem a dizer.

Kate abriu a boca para retrucar que Cullen não era seu homem, mas lembrou-se a tempo de que esse era o trunfo de toda a trama para manter Cullen a salvo. E percebeu que Chyna, seu primeiro teste efe­tivo do disfarce, estava comprando a idéia. O que era bom. Então, por que, perguntou a si mesma, sen­tia-se assim tão deprimida?

Cullen ainda se remoia com os comentários de Ka­te e de Chyna, afirmando que ele estava tentando transformá-la em Joanie. O que o deixava mais zan­gado era que elas tinham razão. Ele tentara fazer Kate usar o mesmo estilo e as cores que ficariam perfeitos em Joanie, mas que em nada combinavam com ela. Assim como Kate, Chyna percebera o fato no momento em que entrara na loja.

Joanie e Chyna haviam sido colegas de faculdade, um dueto improvável que se unira nos negócios, de­pois da formatura. Chyna tinha o dom para o desenho, e Joanie, o capital. Cullen conhecera Joanie na loja, então em outro local, embora acompanhado de outra mulher. Como desta vez, Chyna tinha saído, e Joanie ocupava-se dos clientes. Tinha sido amor à primeira vista.

Ainda o deixava admirado que as duas mulheres tivessem se saído tão bem. Por fora, Chyna era avoa-da, meio louquinha. Por dentro, criativa, astuta e com uma força surpreendente quando se tratava de combinar estilos, cores e tecidos, assim como para vender suas idéias. Não apenas era uma mestra no design, mas tinha um talento real para ler as pri­meiras impressões de uma mulher e traduzir essa impressão para a perfeita combinação de roupas e acessórios.

Joanie era quieta, mulher de negócios, aquela que mantinha os pés de Chyna no chão e os livros dentro dos limites estreitos e rígidos da fiscalização. Seu ditado favorito era: engatinhar primeiro, andar de­pois. Com a morte de Joanie, o negócio fora herdado por Cullen, e ele tinha de confessar que, sob o tino comercial de Chyna, a loja tinha avançado em passos largos, nos últimos três anos. Um ano atrás, ela o convencera de que era hora de uma loja tornar-se duas, e, até então, a expansão estava funcionando incrivelmente bem.

Cullen estava começando a ficar ansioso de tanto esperar quando viu Kate surgir do provador e cami­nhar em direção a ele. Vinha de cabeça erguida, om­bros eretos, com um colete de veludo preto balan­çando entre os dedos. Com a clássica simplicidade de seu penteado, estonteante foi a única palavra que lhe veio à mente. O musgo suave e incomum do ves­tido fizera maravilhas com seu tipo físico e o ruivo dos cabelos. O vestido era justo, escorrido e revela­dor... Um desejo súbito, inesperado e indesejável, ex­plodiu dentro dele como os fogos de artifício do Dia da Independência, fazendo seu coração disparar, seus terminais nervosos emitirem faíscas e sua cabeça ro­dar como se estivesse embriagado.

— E então? — perguntou Chyna.

Ele estava tão abalado com a metamorfose de Kate que nem mesmo registrou o sorriso satisfeito de Chyna.

— O que acha?

O que ele achava? Queria correr as mãos pelos braços de Kate e ver se eram tão sedosos como se recordava. Queria colar a boca em cada uma das sardas douradas que enfeitavam os ombros e os seios... uma tarefa impossível. Já tentara. Queria deslizar os dedos por aqueles quadris e sentir a suavidade do tecido que se agarrava à firmeza daquele corpo, lutando para chegar mais perto daquele...

O desejo desvairado o surpreendeu por sua inten­sidade, deixando-o abismado, embaraçado, zangado e... sem fala. Desviou os olhos de Kate para Chyna, cujo sorriso se transformara num cenho fechado.

— Pensei que gostaria, mas, se não...

— Gostei. — Sua voz saiu rude e o olhar voltou para Kate, contra a sua vontade.

— Experimente o colete, doçura — disse Chyna, com uma expressão enlevada nos olhos. Kate obedeceu e fez meia-volta. Embora não tives­se idéia do motivo, Cullen sabia que o vestido era perfeito.

— Vamos levá-lo. E o que mais Kate precisar como acessório.

Quando terminaram, Kate estava de posse não apenas de sapatos e roupas íntimas para usar com o vestido, mas de um conjunto marrom e diversos conjuntos de calça e blusa combinando. Chyna disse a Cullen que venderia as roupas pelo preço de custo, pois precisava manter o contador feliz. Quando so­mou o total, Kate, que estava ao lado, bufou de susto.

Ainda chocado com as próprias sensações, Cullen voltou-se para ela, tirando o cartão de crédito da carteira.

— Algo errado?

— Eu... é que... eu... não posso aceitar — ela ga­guejou. — E caro demais.

— Não se preocupe com isso, Kate. Ele pode arcar com essa despesa — disse Chyna, num tom divertido.

Plenamente consciente de que tinham um papel a representar, mas completamente cego ao brilho do desejo que ainda lançava sombras em seus olhos, Cullen encarou-a. Não conseguiu se conter e demo­rou-se naqueles lábios. Viu a confusão na expressão de Kate desaparecer sob o impacto de uma súbita compreensão, quando ele ergueu a mão e roçou o nó dos dedos no rosto dela, e deslizou a ponta do indi­cador pela linha do queixo até encontrar a boca entreaberta.

As sensações que ele abrigava desde que a vira parada na biblioteca, segurando a foto de Joanie, sensações proibidas, ocultas, esmagadas a cada opor­tunidade, não podiam ser por mais tempo negadas. Queria beijá-la. O fato não o surpreendeu. Era quase uma fatalidade.

— Chyna tem razão — disse, com um ligeiro sor­riso a lhe curvar a boca. — Posso pagar, portanto, deixe-me fazer isso por você.

Os olhos de Kate se arregalaram de surpresa com o que viu naquele olhar sombrio. Obrigou o coração a controlar-se, mas os dedos de Cullen fecharam-se em seu queixo, segurando-a gentilmente, porém com firmeza, enquanto ele se inclinava. Parou, os lábios a centímetros de se tocarem.

— Além disso — murmurou, num tom rouco —, o vestido parece ter sido criado por Chyna para você. Seria um pecado que outra o tivesse.

E, então, anulou o espaço que havia entre as bocas e sentiu uma emoção nova, quente, que lhe ilumi­nava a alma. A boca de Kate era mais macia do que se recordava, mais suave do que era de se supor, sendo ela uma mulher tão insolente. Mais doce que seu suco favorito. Cullen lutou contra o desejo de beber daquela doçura por mais tempo, procurando confinar o beijo a um toque breve, porém firme, e a um ligeiro toque da língua na junção daqueles lábios.

Tomado de uma vertigem, e mais do que apenas perturbado, ele ergueu a cabeça. As pálpebras de Kate abriram-se lentas e seus olhos de um castanho-dourado expressavam uma confusão algo estupidificada. A não ser pela música romântica que vinha dos alto-falantes ocultos pela loja, um silêncio absoluto reinou no ambiente.

— Ele tem razão, doçura — disse Chyna, quebran­do a quietude. — E perfeito para você. Devo ter mentalizado a sua pessoa quando desenhei este vestido.

Ainda com a expressão abobalhada, Kate voltou-se para Chyna e tentou sorrir.

— Obrigada.

— Certo, certo. Até logo, bonitão. — Com uma mesura, Chyna entregou as sacolas para Cullen e as caixas para Kate, já que ele podia usar apenas uma das mãos.

— Obrigado, Chyna.

— Vivo e respirando! É quem eu estou pensando?

Kate e Cullen estavam se dirigindo para a porta quando a voz feminina os fez parar. Quando Cullen viu a mulher elegantemente vestida apontando para eles, seu coração saltou. Tracy Cunningham. Saíra com ela algumas vezes, por um curto tempo. Ela era uma das que tinham feito de tudo para levá-lo para o altar. Quando haviam rompido e tivera de ser fran­co, dizendo a ela que seu interesse não era tão pro­fundo assim, ela reagira espalhando boatos de que ele a seduzira e a enganara, abandonando-a com o coração partido. Era uma mulher bonita, inteligente, de língua ferina e uma inveterada fofoqueira, qui­sessem as pessoas acreditar ou não. Onde houvesse a suspeita de sucesso ou o sopro de um escândalo no Estado, Tracy era a primeira a saber. Cullen ouviu o gemido abafado, de profundo desagrado, de Chyna.

— E é! — gritou Tracy. — Cullen McGyver, em carne e osso.

Como esperado, ela irrompeu loja adentro, que­brando a magia daquele beijo e pressionando o rosto corado contra o dele, beijando o ar com os lábios pin­tados de vermelho-escarlate.

— Então, por onde tem andado? — Sem esperar pela resposta, emendou:

— Li alguma coisa sobre o acidente de caça nos jornais.

— Estou bem, obrigado — disse Cullen, determi­nado a ser gentil, mesmo com vontade de matá-la. Tratá-la do jeito que gostaria iria gerar outra série de boatos infames.

— Srta. Cunningham. — Chyna, que devia ter sen­tido a tensão dentro de Cullen, entrou na conversa. — Veio ver aquela blusa de seda de que lhe falei?

— Oh, é claro! — Tracy respondeu, sem nem se­quer olhar para Chyna.

— Vou trazê-la.

Tracy desviou a atenção de Cullen para Kate.

— Não vai nos apresentar, Cullen?

Cullen não tinha escolha.

— Kate, querida, esta é Tracy Cunningham, uma velha amiga minha. Tracy, esta é Katherine Labiche, a mulher de minha vida.

Os olhos de Kate se arregalaram, de maneira im­perceptível.

— É um prazer conhecê-la, Srta Cunningham.

— Igualmente — respondeu Tracy, dispensando Kate com um olhar. Voltou-se para Cullen, tomando-lhe o braço machucado com ambas as mãos.

— Por onde anda você? — perguntou.

O que ele podia dizer? Optou por uma resposta vaga, lógica e, pelo menos esperava, menos perigosa:

— Estou me recuperando por algum tempo. A fa­mília vai passar o Dia de Ação de Graças na fazenda. Meghan precisa de um tempo longe do hospital.

— Ela está bem, então.

— Está ótima.

— Que bom.

O olhar de Tracy percorreu as caixas e sacolas com o logotipo da loja, voltou ao rosto de Kate e, então, novamente, pousou em Cullen. Ele quase po­dia visualizar as engrenagens dando voltas no cére­bro daquela mulher, tentando avaliar o potencial de Kate em segurá-lo, imaginando exatamente o quanto seria sério o que havia entre ambos e provavelmente concluindo que deviam estar dormindo juntos, já que ele estava comprando roupas para ela. Cullen não tinha intenção de satisfazer-lhe a curiosidade. Ela que pensasse o que quisesse.

— Aqui está a blusa, Srta. Cunningham — Chyna avisou, em tom de voz suave.

— Não podemos nos demorar, Tracy — disse Cul­len, tomando o braço de Kate com a gentileza do mais fino cavalheiro. — Realmente, temos que ir. A família vai se reunir a nós amanhã e ainda temos muita coisa a fazer.

— Oh! — exclamou Tracy, com um muxoxo de de­sapontamento. — Eu esperava que pudéssemos co­locar o assunto em dia durante o almoço...

— Outra hora — desconversou Cullen. — Pronta, Kate?

Ela aquiesceu e acompanhou-o em direção à saída da loja.

— Foi bom ver você — Tracy falou, embora o brilho em seu olhar dissesse o contrário.

— Você, também — ele respondeu, com um aceno. Quando Kate o precedeu e saiu da loja, Cullen se deu conta de que mentir podia se tornar um hábito.

 

Nem Kate nem Cullen disseram uma palavra ao fazerem o caminho de vol­ta, no carro. Ela continuou pensando na expressão que vira em seus olhos, quando ele a apresentara como a mulher de sua vida. Tinha de contar a Greg que representação fantástica Cullen havia feito. Se não soubesse que era apenas uma farsa, ela teria acreditado que a ternura expressa, no rosto dele, era verdadeira. E o beijo fora muito convincente. Ela, porém, sabia, por experiência, que só porque ele po­dia fingir de maneira brilhante, isso não significava que os sentimentos fossem verdadeiros. O que con­tava era que Tracy tinha dado a impressão de achar aquilo tão persuasivo como Kate.

Tracy. Kate recordou-se do sentimento inespera­do, bem parecido com ciúme, que sentira quando Cullen a apresentara à mulher, a tal velha amiga. Tudo bem, era ciúme. Velha amiga de quanto tempo? Tinham tido um caso antes ou depois de Joanie? Que tipo de velha amiga?

Não é da sua conta Kate, e não se esqueça disso. Não comece a enganar o coração com essa brincadeirinha de agarra-agarra. Você está apenas represen­tando, lembra-se?

Tracy não sabia que tudo fazia parte do trabalho. O que diria aos amigos de Cullen sobre a mulher que vira com ele, comprando roupas? O pensamento deixou Kate com uma sensação definitivamente de­sagradável, que ela tentou dissipar. Não importava que os amigos de Cullen pudessem considerá-la uma concubina mantida. Afinal, era esse o plano.

Relembrando a expressão ansiosa nos olhos de Tra­cy, quando medira Cullen de cima em baixo, o ciúme voltou. Absurdo. Mesmo tendo partilhado com ele a maior intimidade, Kate dificilmente conhecia aquele homem. Não havia motivo para que a animosidade que sentira por Tracy Cunningham pudesse ser ciú­me... Podia?

Relanceou os olhos para Cullen, que olhava para o outro lado da janela. Ele, certamente, era um belo homem, e estava claro que não gostara da situação mais do que ela. Mas, o que ela estava fazendo era necessário. E precisava fazer muito melhor para tor­nar as coisas tão livres de estresse quanto possível. Por exemplo, Cullen gastara uma nota comprando roupas e Kate não tinha agradecido apropriadamen­te aquela generosidade. Precisava corrigir isso.

— Obrigada pelas roupas — As palavras saíram firmes, mas o tom, definitivamente, era encabulado.

— Foi um prazer. O vestido ficou sensacional em você. Vai arrasar na galeria.

Kate experimentou um ligeiro frêmito de prazer e uma enorme surpresa com o elogio.

— Não quero lhe causar nenhum embaraço.

— Não há chance disso.

De novo, o cumprimento inesperado a tomou de surpresa. Olhou-o de esguelha e percebeu que Cullen a fitava com uma expressão estranha nos olhos.

— Que droga ter encontrado com Tracy! — excla­mou ele, recostando a cabeça contra o assento. — Deus sabe o que ela dirá às pessoas. Mas não tem sentido ficar preocupado com isso. Não há nada que possamos fazer para impedi-la.

— Não. — Kate olhou-o, outra vez, de relance.

— O quê?

— Que tipo de boa amiga foi Tracy Cunningham, por falar nisso?

Kate suspirou. Não pretendia fazer a pergunta. Es­capara. Pelo menos, podia alegar uma boa intenção.

— Não tão boa como ela gostaria de ter sido.

— Pode ser porque você a levou a acreditar que as coisas eram mais do que eram? — perguntou Ka­te, tentando traçar um paralelo com sua própria ex­periência com Cullen.

— Nunca a enganei, se é isso que você está per­guntando. — Sua voz tinha adquirido um tom gélido. Voltou a cabeça para olhar pela janela lateral.

— Dormiu com ela?

Relanceando os olhos, de novo, Kate percebeu que o peito dele se estufava, num suspiro. Cullen enca­rou-a. Antes de voltar a atenção para o tráfego, ela notou um ar divertido naqueles olhos azuis profun­dos, cor de cobalto.

— Qual o problema, Kate? Com ciúme?

Ela obrigou-se a rir.

— Curiosidade.

— Sei que você não acha que eu sou o homem mais honesto do mundo, mas, por favor, me dê algum crédito. A mulher parece um tornado. Não aceitou educadamente minha rejeição.

Aliviada, Kate concentrou-se em dirigir. Se man­tivesse a boca fechada, talvez pudessem chegar em casa sem discutirem. Ela pensaria em alguma outra coisa.

— Você tinha que me beijar, na butique? — De novo, a pergunta escapara de sua boca sem que ela desejasse.

Pelo canto do olho, viu que ele balançava o ombro bom num gesto displicente.

— Pareceu a coisa certa, sob as circunstâncias. Não é para convencermos o mundo de que somos um casal?

— Eu sei. É que... — Sua voz falhou. Como poderia dizer que aquilo abalava seus sentimentos?

— Sei que pode ser duro pra você, mas faz parte do trabalho, de maneira que vai ter de sorrir e su­portar. Na verdade, se eu bem me lembro, você cos­tumava gostar que eu a beijasse.

Não havia como negar o tom de ironia em sua voz. Kate dirigiu-lhe um olhar enviesado. Era a primeira vez que ele, deliberadamente, falava do relaciona­mento de ambos, em Nova Orleans. Incapaz de pen­sar numa resposta à altura, ela manteve o olhar no trânsito. Gostava dos beijos dele, certo. Esse era o problema. E suspeitava que ele sabia disso.

— Com fome? — perguntou Cullen, mudando de assunto.

Kate estava faminta, mas não tinha certeza de ter condições de conversar durante o almoço, especial­mente com os pensamentos tão tumultuados. Ainda assim, por que não? Não fazia diferença estar sen­tada com Cullen em um restaurante ou no carro.

— Eu podia comer alguma coisa — respondeu.

— Conheço uma boa cantina italiana.

— Ótimo.

Ele lhe passou a direção que o veículo devia seguir até o restaurante, e Kate fez o que pôde para con­centrar-se no caminho, ao invés de pensar em Tracy Cunningham ou no jeito com que seu coração dispa­rara, quando Cullen a beijara.

Cullen não podia cultivar muita empatia pelos sen­timentos ofendidos de Kate, quando ele próprio es­tava tendo problemas com aquele beijo e com a rea­ção que sentira. Tinha tido mulheres, desde Nova Orleans. Não um monte, mas algumas. Belas mu­lheres. Mulheres doces. Mulheres desejáveis. Mulhe­res que muitas vezes eram escolhidas porque algo, nelas, o fazia recordar-se da esposa falecida. Ou es­colhidas na esperança de que pudessem apagar a culpa e preencher o vazio dentro dele, escolhidas em um esforço de varrer as lembranças de uma ruiva efervescente. Nenhuma conseguira.

Kate não era nenhum clone de sua falecida esposa. Era como nenhuma outra mulher que conhecera. Ori­ginal. Soubera disso desde a primeira vez que a vira.

Era impossível comparar Kate a outras mulheres. Damas delicadas e socialmente adequadas em opo­sição à mulher nua e crua. Ela o enchera de raiva em Nova Orleans. E o impressionara. Mesmo assim, sem mesmo tentar, ela o fizera desejar abraçar a vida novamente, antes que sentisse que estava pron­to. E ali estava ela, de volta a sua vida, fazendo os dois anos transcorridos parecerem sem vida e insípidos, fazendo-o desejar experimentar tudo que ele sabia que a vida tinha a oferecer.

Pode ser que ao saber que alguém quer pôr um ponto final à sua vida, isso o tenha feito sentir-se incompleto, de repente.

Talvez. Talvez fosse a combinação disso com a chegada de Kate. Tudo que ele sabia era que, no momento em que a beijara, na butique, tivera cer­teza de que jamais deixara de desejá-la. Mesmo sus­peitando que Kate pudesse sentir-se da mesma ma­neira, ele sabia que levaria um tempo enorme para derrubar todas as barreiras que ela construíra entre os dois. Kate Labiche não era o tipo de mulher que daria uma segunda chance a um homem que brin­cara com seus sentimentos... Mesmo que a partida dele tivesse sido induzida pelo próprio senso de alto preservação.

Kate não saberia dizer como Cullen passava a noi­te. Ela, por sua parte, mal conseguia pregar os olhos. Sentir os lábios dele nos seus trouxera de volta lem­branças que ela dera duro para esquecer. Isso, com­binado à certeza de que estava com ciúme de suas antigas namoradas, fizeram-na perceber que se tor­nar parte da vida de Cullen colocara seu coração em perigo, tal como ela temia.

Havia amado Lane de todo o coração e o abandono e o divórcio a tinham devastado. Cullen surgira em sua vida antes que a tinta secasse nos papéis de separação e, embora ele não fosse o tipo de homem por quem normalmente se visse atraída, Kate não fora capaz de resistir a seu assédio. Ele era bonito e gentil em demasia. Kate gostava de tipos mais ru­des, homens mais homens. Ele era uma figura pú­blica, ela gostava de privacidade. Ele crescera rico, ela vinha de uma vida de trabalho, de valores da classe média, em uma casa onde o emprego freqüen­temente significava galinha em um dia e as penas no próximo.

Ele, porém, mostrara desejo por ela e, na época, isso tinha sido de vital importância, já que Kate se sentia tudo, menos atraente, e precisava elevar sua auto-estima, que o pedido de divórcio de Lane ha­viam jogado no pó. Ela precisava saber que ainda podia atrair um homem, ser desejável. Cobiçada. Cullen a fizera sentir tudo isso. Por uns poucos dias.

Desde então, ele tinha sido o único homem que se aproximara dela. O breve envolvimento viera tão próximo do divórcio que se podia dizer que tinha sido um momento definitivo em sua vida. Tivera poucos namorados e sempre deixara claro que não procura­va nem um caso de uma noite nem uma relação sé­ria. Queria mais um namoro do tipo "jantar e cine­ma". Era mais simples levar uma vida mais ou menos monástica do que entrar e sair de uma série de relacionamentos. Beijos eram raros em sua vida, o que, ela sabia, era parte do problema.

O beijo foi só um estratagema, Kate. Ele precisava fazer o relacionamento parecer uma coisa verdadeira para Chyna e para Tracy. Tudo parte do jogo. Ele próprio afirmou.

Ela sabia que passar a ilusão de um envolvimento sério era crítico para seus planos de proteção. Co­nhecia, também, o risco para seu coração, quando aceitara o trabalho. Contudo, não havia esperado que as coisas se tornassem tão intensas. E assim, tão depressa. Ela era esperta o suficiente para per­ceber que ficaria ainda pior quanto mais tempo du­rasse a farsa. Mas, não tinha alternativa, a não ser ir em frente.

Oh, você tem opções, Kate. Pode arrumar as malas e ir embora.

Sua consciência chamou-a de covarde por não fa­zer exatamente isso, mas a outra metade de seu ser argumentou que Cullen realmente precisava de pro­teção e que ficar seria um exercício de fortalecimento de caráter. Permanecer firme e superar. Certo. Con­siderando o potencial de acabar a coisa toda com o coração partido, era um argumento deplorável. No momento, porém, ela não tinha intenção de fazer as malas e voltar para Louisiana.

A noite custava a passar. Kate levantou-se e to­mou um banho. Escovou os cabelos e sentou-se em uma poltrona perto da janela, olhando o céu estre­lado. Imaginou o inimigo de Cullen no vazio e tentou visualizar um potencial ataque. Onde o homem po­deria se esconder? Nas edificações de fora? Nas raí­zes da magnólia gigante? Qual seria a primeira rea­ção dela?

Kate sabia que estava criando problemas, algo con­tra o que tia Lou sempre a alertara, desde criança. Um defeito, a menos que fosse uma escritora de ro­mances, brincando de "e se", em um exercício de fu­tilidade. Finalmente, em algum momento, nas pri­meiras horas da manhã, ela conseguiu esquecer a ameaça e o beijo e sucumbiu ao abraço bem-vindo de Morfeu, o deus do sono.

Kate deu um tapa no botão de alarme quando o despertador tocou, às sete, e não conseguiu abrir os olhos até quase às oito da manhã. Nessa hora, nor­malmente, já terminara de tomar o café. Graças a Deus tomara banho durante à noite. Jogou água no rosto, escovou os dentes, prendeu os cabelos e en­fiou-se em uma camiseta e em uma calça jeans, so­nhando com umas poucas horas a mais de sono. Sua tia e a família de Cullen logo estariam chegando. A vida seria movimentada nos próximos dias.

Greg estava na cozinha colocando alguns pratos na máquina de lavar louça quando ela entrou na cozinha. O ambiente recendia com o aroma de canela e maçã. Cullen não estava à vista.

Greg sorriu para ela, por sobre o ombro.

— Desceu em boa hora — brincou, sorrindo. — Se tivesse dormido um pouco mais, o sol iria rachar suas costelas.

— Tive uma noite péssima.

— Acontece. Que tal uns waffles de canela e nozes com xarope de bordo e purê quentinho de maçã ao lado?

— Parece delicioso — ela falou, pegando uma ca­neca do armário e servindo-se de café. — Onde está Cullen?

— Já comeu e foi pegar o jornal.

A casa ficava muito longe da rodovia principal pa­ra que o jornal fosse jogado no jardim. Contudo, ha­via um tubo ao lado da caixa do correio, na estrada de cascalho, para o entregador. O problema era que o tubo ficava a mais de quinhentos metros da casa.

— Você deixou que ele fosse sozinho? — perguntou Kate, aborrecida.

Greg deu de ombros e pegou a tigela de massa.

— Perguntei se ele achava que era uma boa idéia e ele me disse que era um homem crescido e não precisava de babá para pegar o jornal. Disse que a caminhada lhe faria bem.

Resmungando alguma coisa impublicável sobre os homens e suas inclinações machistas, Kate bateu a caneca no tampo da mesa, fazendo o líquido quente transbordar.

— Eu escutei — disse Greg, com uma ferocidade fingida lhe estreitando os olhos.

— Então, sabe que estou certa — ela retrucou, enxugando a mão na perna da calça.

— Nunca discuta com uma mulher que carrega uma arma.

— Esperto — disse Kate, caminhando para a porta. — Mais esperto que nosso patrão, de qualquer forma. Tenho que ir atrás dele.

— Estacionei atrás de seu carro, mas as chaves estão na ignição. Ei! — ele chamou. — Isso significa que não quer os waffles!

— Guarde até eu voltar — ela gritou, do corredor.

— Está bem.

Kate chegou à porta correndo. Como ele havia di­to, as chaves do carro de Greg estavam na ignição. Ela deu a partida, deu ré até poder fazer a volta e, então, desceu a estrada de cascalho que levava à rodovia. Fez a curva e viu Cullen logo adiante. Tra­zia o jornal na mão e caminhava em direção à casa.

Ela freou ao lado dele, jogando cascalho e derrapando ligeiramente antes de endireitar o Ford. En­gatou a marcha e, sem desligar o motor, abriu a por­ta e saltou do carro. Só então viu a expressão de pânico na expressão de Cullen.

— O que aconteceu? — ele perguntou, transferin­do o jornal para a mão na tipóia e agarrando-a pelo braço, com a outra.

— O que aconteceu?! — Kate gritou, soltando-se com um safanão. — Alguém por aí quer você morto e Sua Excelência decide sair por conta própria? Está dificultando o meu trabalho.

Cullen não disse palavra por um longo instante. Ela viu a preocupação nos olhos dele transformar-se em raiva, viu seus lábios se esticarem e o músculo saltar em seu queixo.

— Estou perfeitamente a salvo.

Kate colocou as mãos nos quadris.

— Está?

— Ninguém sabe onde eu estou.

— Isso é o que a gente pensa.

Cullen passou o jornal para a mão sadia e bateu-o com força contra a perna da calça, em um gesto de frustração.

— Eu me sinto um prisioneiro! — exclamou, ten­tando extravasar a frustração.

— Infelizmente, essa é a situação. — Quando ele não respondeu, Kate apontou para o carro. — Entre. Vou levá-lo de volta.

Cullen ficou calado durante todo o trajeto até a casa, ocasionalmente endereçando um olhar a Kate, olhar que, se pudesse matar, poderia levá-la para o túmulo. Quando desceram, em frente da casa, sua raiva já arrefecera o suficiente para que percebesse que ela tinha razão. E isso fez com que sua frustra­ção atingisse um nível intolerável.

Quando entraram na cozinha, sentindo a tensão entre os dois, Greg ficou em silêncio e continuou a derramar a massa do waffle na chapa. Sem uma pa­lavra, Kate sentou-se e pegou a caneca de café entre as palmas das mãos, sua atitude dizendo que não se atrevessem a lhe dirigir a palavra.

Fazendo questão de ignorá-la, Cullen desdobrou o jornal, pondo de lado as páginas da frente e seguindo para a seção com as notícias do Arkansas. Não de­morou a encontrar o que procurava, coisa que tinha esperanças de não achar.

Promotor é Possível Vítima. A manchete dizia tu­do. Leu a notícia, em todo o caso:

Uma fonte anônima trouxe ontem uma infor­mação que levanta dúvidas sobre a presunção do delegado do Condado de Clark de que o re­cente acidente de caça envolvendo o promotor de Little Rock, Cullen McGyver, tenha sido aciden­tal. As autoridades estão verificando as infor­mações antes de alterar oficialmente sua posição sobre o caso. Em outro desdobramento não re­velado, soube-se que o promotor McGyver está se recuperando na fazenda de sua família.

O artigo continuava a recapitular os acontecimen­tos em torno do atentado e a tentativa de Cullen em chegar ao hospital. Terminava com a observação de que seu sucesso em colocar os violadores da lei na cadeia tinha lhe granjeado muitos inimigos.

Cullen soltou um palavrão.

— O que foi? — perguntou Kate, encarando-o com dureza.

Ele dobrou o jornal em quatro e o estendeu a ela.

— Embaixo, no canto direito.

Kate leu a notícia.

— Qualquer um, com inteligência mediana, pode descobrir onde você está. E só fazer umas perguntas, aqui e acolá — comentou.

— Estou consciente disso.

O tom de Cullen foi mais duro do que ele preten­dia, mas Kate pareceu não ter se abalado. Ele em­purrou a cadeira para trás e levantou-se, servindo-se de um pouco de café.

Greg colocou um prato com um waffle e outro, com um pão recheado de lingüiça, na frente de Kate. Ela escolheu o waffle e pegou uma colher, para se servir do purê de maçã.

— Posso? — perguntou Greg, indicando o jornal.

— Claro — disse ela.

O telefone tocou e Cullen, que estava mais perto, atendeu.

— McGyver.

— Oi. É Meghan.

— Oi — respondeu Cullen, sentindo o humor mu­dar para melhor. — O que há?

— Viu o jornal?

— Sim, acabei de ler.

— Tem alguma idéia de quem poderia ter forne­cido alguma informação sobre o acidente?

— Nenhuma — respondeu Cullen, apoiando-se no tampo do gabinete. — Posso estar errado, mas a par­te que fala sobre minha recuperação na fazenda deve ter vindo de Tracy Cunningham.

— Tracy Cunningham?

— É. Kate e eu encontramos com ela, ontem, na Chyna's, quando estávamos procurando um vestido para Kate usar na exposição de arte. Tracy tinha ouvido falar do acidente e perguntou onde eu havia me enfiado. Tentei dar uma desculpa dizendo que iríamos passar o Dia de Ação de Graças na fazenda.

Meghan soltou um gemido.

— Não precisa falar, eu sei. Ela adoraria me cau­sar problemas, mas, já que não tinha idéia de que eu estava me escondendo, provavelmente deve ter feito um comentário inocente com uma de suas ami­gas e, no final do dia, a notícia já estava na mídia. Não há nada que possamos fazer a respeito.

— Acho que não — resmungou Meghan. — A mes­ma história está em um dos canais da tevê local, um pouco mais ampliada.

— Ampliada como?

— Quem falou sabia sobre o cabo do freio e dizia que eram mínimas as chances de você ter sido atin­gido pelo tiro do jeito que foi.

Cullen ficou em silêncio enquanto pensava. Final­mente, disse:

— Talvez você e Dan devam ficar em casa no Dia de Ação de Graças. As coisas podem ficar feias por aqui, se o bandido decidir aparecer.

Ele ouviu o suspiro de Meghan.

— Assumiremos o risco. De jeito nenhum esse su­jeito vai estragar meu feriado. — Ela suspirou, de novo. — Detesto aumentar o seu fardo, mas Lucy deixou um recado na secretária eletrônica, também.

Cullen sufocou uma praga e cocou a aba do nariz.

— O que ela quer?

— Disse que Dub está contratando um advogado.

— Maravilha! Droga! Não! — ele exclamou, interrompendo-a quando Meghan ia continuar. — Não quero ouvir mais nada! Seria quase impossível fazer alguma coisa antes do feriado, de qualquer jeito. Tra­ga aquela fita, também, e veremos se podemos ima­ginar o que fazer. Já que não posso impedir que ve­nha, a que horas devo esperá-la?

— Tão logo eu acorde Lindsay e Marley e arrume as coisas. Deveremos estar aí lá pelo meio-dia.

— Ótimo. Até lá, então. Cuidado, dirija devagar.

— Não se preocupe. Tome cuidado, você também.

Cullen notou a preocupação na voz da irmã.

— Claro.

Desligou o telefone antes que ela dissesse mais alguma coisa.

— Era Meghan — informou, sem necessidade. — Ela contou que a mesma história estava no noticiário desta manhã, mas com detalhes que parecem dis­cordar da versão de acidente.

— Que tipo de detalhes? — perguntou Kate, em­purrando o prato para o lado.

— Minha posição no momento do tiro. O fato de que o cabo de freio foi cortado.

— Mas... quem iria dizer isso? — perguntou Greg.

— Quem sabe? — retrucou Kate. — Pode ser qual­quer um com acesso à informação. Não importa o quanto você se esforce por manter determinados fa­tos em sigilo, alguém invariavelmente fala demais.

Cullen suspirou. Ela estava certa. Bastava uma pessoa abrir a boca sobre um assunto e a próxima coisa a acontecer era uma investigação ir por água abaixo ou um escândalo estourar. Familiarizado com o trabalho da mídia, ele esperava mais especulações a respeito do incidente antes do dia acabar. Tinham lançado o osso aos cães da imprensa e, agora, estes farejavam o sangue. Era só uma questão de tempo antes que alguém pensasse em algum outro petisco e, como um fungo sórdido, a coisa toda iria crescer como um cogumelo, fora de controle. Aí então, a ver­dadeira diversão começaria.

— Então, o que acha? — perguntou.

— Acho incrível que alguém não tenha dito algu­ma coisa antes — retrucou Kate.

— Isso vai complicar as investigações não é?!

— De alguma forma. O delegado irá continuar o que vinha fazendo. E eu também, assim como você. O único problema é que, agora, o pilantra tem idéia de onde você está e que estamos de olho nele. Não há nada que possamos fazer, a não ser que você quei­ra mudar para outro lugar.

— Não, obrigado.

— Há duas possíveis reações que o bandido pode ter, agora que sabe que suas intenções foram reve­ladas — continuou Kate.

— Quais?

— Diga você.

Embora aquilo o irritasse, Cullen percebeu por que ela fazia isso. Ele confiava demais em Kate, achando que ela daria conta da situação e tinha parado de pensar por si mesmo, o que fora bom, a princípio, enquanto estava sob a ação de medicamentos e in­capaz de raciocinar. Mas, ficava mais forte a cada dia, e já era tempo de parar de reagir ao que estava acontecendo e começar a assumir um papel mais ati­vo e menos defensivo.

— Se ele sabe que a polícia está atrás dele, pode presumir que eu estarei atento ao que se passa ao meu redor, mais preparado para agir. Pode até pen­sar que eu conto com alguma proteção policial. Le­vando tudo em consideração, ele pode resolver que é arriscado demais fazer outra tentativa de acabar comigo, mesmo sabendo que a investigação não che­gou a nenhuma evidência concreta.

— Certo.

— O outro cenário é que ele está plenamente cons­ciente de tudo isso, porém zangado demais ou com­pletamente louco para se importar com alguma coi­sa, a não ser me liquidar. Portanto, vai continuar tentando.

— Muito bem, Excelência! — exclamou Kate, com um ligeiro sorriso.

— Temos de estar preparados pa­ra qualquer contingência. Levamos vantagem sobre ele em um aspecto.

— Qual?

— Ele não tem idéia de que uma mulher é a sua proteção.

— Verdade. E exatamente agora, além de saber onde eu estou, ele e a mídia descobriram tudo que havia para se saber.

Kate soltou uma risada.

— Você entende melhor que ninguém desse negó­cio. O que mais Meghan disse? Que fita quer que ela traga?

— Ela verificou meus recados de novo, hoje, e não havia nada do sujeito, mas havia uma mensagem de Lucy Lambert.

Cullen quase podia visualizar o raciocínio de Kate, tão transparentes eram seus pensamentos. Ela re-lanceou os olhos para Greg e, então, encontrou o olhar de Cullen. Ele fez um sinal imperceptível com a cabeça.

— Ah... — ela resmungou, em tom neutro. — Quando chegam?

Cullen olhou para Greg, que estava arrumando um prato. Se o velho senhor percebeu que estavam deliberadamente lhe sonegando informações, não de­monstrou.

— Meghan disse que estariam aqui por volta do meio-dia. Mas, conhecendo as meninas, pode ser que se atrasem. E Louella?

— Disse que chegaria logo pela manhã — respon­deu Kate. — Acho que ela quer fazer algumas tortas e assar broas de milho para a sobremesa, ou algo assim.

Greg, que não estava achando nada agradável a idéia de dividir o espaço da cozinha com alguém, no feriado, resmungou alguma coisa ininteligível.

— O que disse? — perguntou Cullen.

— Sem querer ofender, Kate — retrucou Greg, en-carando-os com a mão na cintura —, acho que sua tia deve ser uma ótima criatura, mas não creio que a cozinha seja grande o suficiente para nós dois.

— Ela é uma excelente criatura! — exclamou Ka­te. — E tenho certeza de que vocês dois vão se dar bem, sem problemas.

— Talvez eu devesse ficar em casa...

— De forma alguma — reagiu Cullen, ofendido. — Não vamos passar o Dia de Ação de Graças sem você. Que é isso, Greg? Você é um homem razoável. E Louella tem o coração de ouro. Vocês irão se en­tender muito bem. — Cullen afastou-se do gabinete e caminhou para a porta. Voltou-se e dirigiu-se a Kate. — Vou telefonar para a delegacia de polícia e ver por que não me mantiveram informado a respei­to do que está acontecendo. E, sim, antes que você pergunte, prometo não sair da casa sem avisar. Ou devo dizer que não vou sair sem pedir permissão?

— Diga o que bem entender — retrucou Kate. — Só fale.

Ele fez um ligeiro gesto de saudação.

— Sim, senhora.

Kate ficou a observá-lo sair da cozinha e, então, ergueu-se e correu atrás dele, pelo corredor.

— Cullen!

Ele parou.

— E Lucy Lambert?

— O recado dizia que ela precisava falar comigo. Dub está contratando um advogado.

Kate bufou de frustração.

— Para quê?

— Não sei. Eu disse a Meg que não queria ouvir mais nada, até que ela e a família estivessem aqui.

— Certo. Não há sentido em estragar o dia. — Ela abaixou a cabeça, pensativa.

— Estou pensando se há algum lugar que eu possa ir para praticar um pouco de tiro ao alvo.

— Tiro ao alvo?

— Sim, tiro ao alvo. Gosto de treinar, me sinto mais segura.

— Agora?

— Se não se importa... Considerando que alguém vai estar lá fora para pegar você, eu me sentiria me­lhor fazendo umas rondas com a arma na cintura.

— Tudo bem — ele concordou. — Deixe-me tele­fonar e dar uma dura no pessoal da delegacia e, de­pois, eu a levarei a um bom ponto.

— Quanto tempo?

— Daqui a dez minutos. Eu a encontro no carro.

Mantendo a palavra, Cullen reuniu-se a Kate dez minutos mais tarde e os dois rumaram para o ponto mais distante da fazenda. Cullen conseguira conven­cê-la de que não havia razão para que ele não fosse junto, já que não estava fazendo nada, e se acomo­dara no banco do passageiro, enquanto ela dirigia.

— O que disse o delegado? — Kate perguntou.

— A cantilena habitual de que estavam levantan­do todas as pistas, mas que não tinham nada de novo a dizer e, por isso, não telefonaram. Pediram desculpas pelo fato de alguém lá de dentro ter dei­xado a informação vazar para a imprensa e alega­ram que pode ter sido uma boa coisa, já que o sujeito pode sentir a pressão e cair fora.

— Bla-bla-bla! — exclamou Kate.

— Exatamente.

— Aonde vamos? — ela quis saber.

— A uma antiga pedreira.

Cullen explicou que, quando a extração de casca­lho havia sido abandonada, vinte anos atrás, seu pai tinha feito o possível para reparar o dano ambiental, removendo a sujeira, enchendo os buracos, plantan­do árvores e grama para pastagem.

— A propriedade pertence a sua família faz tem­po? — perguntou Kate, querendo saber mais a res­peito daquele homem que abalara suas defesas tão facilmente.

— Desde que acabou a Guerra Civil — disse Cul­len. — A casa onde estamos morando tem mais de cem anos. De acordo com as escrituras, custou ape­nas quinhentos dólares para ser construída.

— Você deve estar brincando!

— Era uma fortuna, naquela época.

Sem intenção, ele a fizera recordar-se da diferença social e financeira que havia entre os dois.

— Dinheiro de petróleo, certo? — Kate perguntou, e percebeu o tom ácido na própria voz.

Cullen fitou-a, com um olhar pensativo.

— Nessa ocasião, era da madeira. O petróleo veio depois.

— Como é crescer com tanto dinheiro?

— Eu não saberia dizer. Não tinha idéia disso até chegar à adolescência. Meghan e eu crescemos aqui e vivemos uma vida muito simples. Oh, tínhamos cavalos e roupas novas quando a escola começava, mas meus pais amavam este lugar e o povo daqui, e morreram antes que fizessem alguma coisa para se afastar, ou a nós, das pessoas que nos rodeiam.

— Nada de soltar os cachorros em ninguém, hein?

— Definitivamente, não. E você? Como foi ser cria­da na cidade?

— Cresci em um apartamento. O bairro não era ruim, mas não era bom, também. Tive a minha cota de coisas feias pela vida afora. Minha mãe e meu pai puseram tudo que tinham em um restaurante e quase cada centavo era reinvestido para torná-lo me­lhor, maior, mais do que os turistas queriam. Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos. No ano se­guinte, um lavador de pratos que meu pai havia des­pedido voltou, no meio da noite, e pôs fogo no res­taurante, o que foi quase uma bênção em dose dupla.

— Como pode ser isso?

— Tínhamos seguro. Por mais terrível que fosse perder tudo, isso possibilitou a ele construir um lu­gar maior e melhor.

— E a outra parte da bênção?

— Isso me fez decidir entrar para a polícia.

— E onde está o lavador de pratos, agora? — per­guntou Cullen.

— Morreu na cadeia, de um ataque do coração.

— O restaurante de seu pai deve ser um sucesso, hoje em dia.

— Não é cinco estrelas, mas vai bem.

Cullen viu que ela erguia o queixo. Não era de se admirar que Kate fosse tão orgulhosa. Tivera de ba­talhar por tudo para abrir seu caminho. E, sem dú­vida, sua postura rígida fora adquirida desde a in­fância, quando já começara a conviver com as difi­culdades da vida. Como diria um jogador de pôquer, melhor fazer seu blefe antes que alguém bata... ou o engane.

— Vire à direita, aqui — indicou ele. A estrada, mais uma trilha que ondulava entre as árvores, con­duzia a uma larga pastagem nas colinas, onde uma manada de cavalos mastigava a relva ainda verde.

— Era uma pedreira? — perguntou Kate.

— Sim.

Os resultados não eram maus. Havia uma espécie de lagoa, larga e profunda, de formas irregulares, bordejada aqui e ali por fileiras de pinheiros e car­valhos, árvores de crescimento mais lento. Era um local bonito e, dentro de uns dez anos, teria uma aparência mais natural.

— Ele fez um bom trabalho — comentou Kate, com um gesto de aprovação.

— Acho que sim. A lagoa tem carpas e lambaris, se gostar de pescar.

— Nunca pesquei. Cresci no asfalto, lembra-se?

— Então, precisamos fazer isso uma tarde dessas.

— Parece divertido.

— Vai me fazer colocar a isca em seu anzol? — ele brincou.

— Pelo jeito de seu braço, eu é que vou ter de colocar a isca no seu — Kate o provocou com um sorriso. E ocorreu a Cullen que, pela primeira vez desde que Kate chegara, ambos estavam se relacio­nando de uma forma natural. Era a primeira vez que o passado não interferia.

Kate apontou para um serrilhado de rochas, feito pelas mãos do homem, a distância, um lugar perfeito para fixar um alvo.

— É aquele lugar que você tinha em mente? Cullen aquiesceu. Ela, definitivamente, entendia do negócio. Ficou a observar enquanto Kate colocava uma série de três cartões com os alvos tradicionais e voltava até onde ele estava parado.

— Vamos recuar um pouco — disse ela. Aproximadamente a uns vinte metros do alvo, ela parou, pegou uma arma do coldre preso à cintura e encaixou o pente de balas.

— Uma pistola Glock? — brincou Cullen, para quebrar a ansiedade. — Achei que uma policial ve­terana como você preferia um .38.

— Os tempos mudaram — ela murmurou, assumindo a posição de tiro e respirando fundo. — O 38 não tem poder de fogo suficiente, especialmente se você se depara com alguém drogado. E a Glock é mais leve. Mesmo com um pente de dezessete balas, pesa menos de novecentos gramas.

Antes que Cullen pudesse fazer qualquer outro co­mentário, ela fez seis disparos rápidos. O trio de potros que pastava ali perto assustou-se e saiu em lou­ca disparada, parando centímetros antes da cerca de arame farpado que contornava a estrada da pedrei­ra. Kate voltou-se, ligeiramente, atirou outras seis vezes e, então, atingiu o último alvo com as cinco balas que restavam.

Cullen ainda estava boquiaberto com a rápida su­cessão de disparos, quando Kate baixou os braços, jogou a cabeleira para trás, em um gesto provocante e não intencional, e disse:

— Quer fazer alguma coisa de útil e ir ver como eu me saí?

— Claro.

Atordoado demais pelo profissionalismo do desem­penho para sentir-se ofendido com a frase, ele cruzou a extensão de grama. Nenhum dos tiros estava fora do círculo de quatro polegadas. Impressionado, ele deu graças aos céus que Kate fosse sua aliada. Se estivesse do outro lado e tivesse sido ela que o pu­sesse sob a mira, lá no bosque, ele não estaria ali para contar a história.

Fitou-a, parada no meio do pasto, as pernas ligei­ramente afastadas, os longos cabelos ruivos esvoaçando com a brisa leve e o corpo, alto e esguio, vestido em jeans e camiseta. Parecia mais uma colegial que uma mulher que podia acertar a unha de um homem no raio de vinte metros.

Naquele instante, ele não queria mais nada, a não ser sair correndo e beijá-la, jogá-la no chão e fazer amor com ela. Mas, isso só iria gerar mais proble­mas. Suspirou e apanhou os alvos. E o desafio, que ele achava tão fascinante?

— E então? — ela perguntou, quando ele estava a poucos metros de distância.

Cullen ergueu um dos cartões, para que ela pu­desse comprovar o resultado.

— Ele está morto.

Um lampejo estranho perpassou pelos olhos de Kate, um brilho que Cullen não soube definir. E o sorriso foi breve. Frio. Satisfeito.

— Ótimo.

 

Como fazia cada manhã, antes de sair para seu deplorável e ridículo arreme­do de trabalho, o homem assistiu ao noticiário da manhã, rezando para que surgisse um fiapo de in­formação que ele pudesse usar como uma pista. Até o momento, nada. Quando a imagem da bela jorna­lista, de cabelos escuros, deu lugar a um anúncio de uma joalheria, ele mudou de canal, para ver se havia alguma coisa a mais, nos outros canais.

Pegou uma fotografia emoldurada na mesinha ao lado e correu o dedo pela imagem de uma mulher sorridente. Ah... como ele a amava... E Cullen McGyver havia arruinado tudo. Ela se fora. Tudo que ele mais gostava se fora. Não podia ter nada de volta e era culpa de McGyver. O que dizia a Bíblia? Olho por olho? Era hora de McGyver pagar.

Num esforço de reportagem, sobre o atentado a Cullen McGyver, Miles Gentry está do lado de fora do hospital, em Arkadelphia, com a enfer­meira que presenciou sua chegada quando o pro­motor de Little Rock deu entrada na emergência. Miles?

A voz da âncora do jornal matutino trouxe o ho­mem de volta de suas dolorosas lembranças. Com uma expressão de ansiedade, ele pegou o controle re­moto e aumentou o volume. Miles Gentry, o enviado da emissora ao local, conversava com uma jovem, do lado dé fora do hospital. O nome que piscava ao pé da tela dizia: Sara Jerome, enfermeira. Sob a cuida­dosa inquisição do repórter, a enfermeira confirmou que, realmente, estava em serviço quando Cullen Mc-Gyver tinha sido levado para o Pronto-Socorro.

Ao ser perguntada se acreditava que o tiro fosse acidental, a jovem expressou reservas. Por insistên­cia do repórter, resumiu pontos específicos a respeito de onde estava McGyver no momento do tiro, a tra­jetória da bala e realçou o fato de que seria uma incrível coincidência que, no meio de tanto bosque, a bala fosse atingir o único alvo humano que possi­velmente se encontrasse na área.

— Então, sob essas circunstâncias, você acredita que seja mais provável que o disparo tenha sido in­tencional? — insistiu Miles.

— Vamos dizer que já vi muitos acidentes de caça e várias mortes relacionadas a isso. Alguma coisa, com relação a este caso, parece que não se encaixa direito.

O repórter agradeceu à mulher e, então, a trans­missão voltou a ser feita da estação.

Cheio de esperanças, o homem dos bosques mudou o canal, sintonizando a emissora anterior. O inter­valo comercial acabara e agora, a imagem trazia al­guém, em um campo, entrevistando um jovem que não devia ter mais de uns dezenove anos. O rapaz era um dos empregado da Oficina de Manutenção e Reparos do Buddy, e dizia ao repórter que tinha aju­dado a consertar o jipe de Cullen McGyver e que podia afirmar: o cabo do freio tinha sido cortado, com toda a certeza.

Ora, ora, todos estavam dando com a língua nos dentes, de repente.

A câmera fixou o entrevistado e o repórter agra­deceu a ele pelas informações, acrescentando que Buddy Perkins, o dono da oficina, se recusara a co­mentar o assunto. Disse ainda que essa informação tinha obrigado o Departamento de Polícia a exami­nar o acidente de caça, ocorrido nove dias antes, sob outro ponto de vista.

— E, de outra fonte, soubemos que Cullen McGy­ver, que desapareceu de vista depois de ter sido li­berado pelo hospital, está se recuperando na fazenda de sua família, ao sul de Arkansas.

O homem deu um salto, endireitando o corpo. Que­ria poder retroceder a imagem e repetir o último pedaço de informação, só para certificar-se de ter ouvido direito. Cullen McGyver estava na fazenda de sua família? O homem soltou uma risada, balan­çando a cabeça, incrédulo. Oh, isso era bom demais! Enquanto se lastimava e fervia de ódio por não saber do paradeiro de McGyver, aquele infeliz estava ali mesmo, debaixo de seu nariz.

O repórter terminou o segmento com um comen­tário sobre a sucessão de processos de condenações que Cullen McGyver conseguira ganhar e falando sobre a sua possível indicação para o Senado, nas eleições do ano seguinte.

O homem levantou-se da cadeira, pensativo. As coisas estavam mudando... Depois de todo aquele tempo, alguém finalmente tinha juntado dois e dois e aparecido com a resposta certa. O fato era que a polícia, agora, trabalhava com dados mais consisten­tes e giraria o foco sobre os mesmos, imprimindo um senso de urgência ao caso. Por outro lado, ele sabia onde estava McGyver. Analisando rapidamente a si­tuação, concluiu que a daquele momento era a de um homem caçado.

Depois de voltarem da pedreira, Cullen retirou-se para seu quarto, para descansar até o almoço. Kate ficou feliz em vê-lo afastar-se, embora suspeitasse que ele fazia isso apenas para colocar alguma dis­tância entre os dois e não porque, realmente, neces­sitasse de repouso. Ele estava mais forte a cada dia, graças a Deus.

Precisando ocupar-se com alguma coisa até que todos chegassem, ela resolveu ir até a cozinha para ver se podia ajudar Greg. Estava descendo a escada quando ouviu o barulho de uma porta de carro se fechando. Correu para fora e viu Louella caminhan­do em direção à varanda, com um largo sorriso na face. Sua tia estava bonita, vestida numa calça caqui e com uma camiseta com uma estampa alusiva ao Dia de Ação de Graças que ela mesma pintara.

— Devia ter me telefonado do celular para dizer que estava chegando, para que eu estivesse em casa, se precisasse de mim — repreendeu-a Kate.

— Meu carro está em excelentes condições e o celu­lar está comigo — Louella envolveu Kate num abra­ço apertado. — Mas, obrigada por se preocupar.

— Venha até a cozinha conhecer Greg. Acho que escutei quando ele chegou da mercearia, minutos atrás.

— Greg? E o doutor? — perguntou Louella, se­guindo atrás de Kate.

— Médico aposentado — corrigiu Kate. — Ele é viúvo e um cozinheiro de mão-cheia.

A testa de Louella franziu-se e ela juntou as so­brancelhas.

— Ele não se sente o dono do pedaço na cozinha, não é?

Kate achou mais prudente não entrar em deta­lhes. Tinha problemas suficientes, não precisava de mais um. Que os dois se ajeitassem com seus egos.

— Acho que teremos de ver, não é mesmo? — co­mentou, com um sorriso.

Greg estava colocando uma assadeira de ferro cheia de douradas broas de milho no forno, quando as duas entraram na cozinha.

— Olá, Greg! Voltou cedo... — brincou Kate.

— Arranhado e acabado, mas de volta — ele re­trucou, fechando o forno. — Não sei que bicho morde as mulheres quando vão à mercearia. Parecem uma tropa de choque. Algumas, na verdade, tentaram ar­rancar uma dúzia de ovos das minhas mãos. — Virou-se e, quando seu olhar caiu sobre Louella, seu sorriso desapareceu e suas faces ficaram rubras.

— Greg, esta é minha tia, Louella Stephens. — Kate voltou-se para a tia e viu que Louella tinha estreitado os olhos, atitude que adotava quando exa­minava algo ou alguém com profunda atenção. — Tia Lou, este é Greg Kingsley. E nosso cozinheiro temporário e médico clínico geral.

Surpreendentemente, as feições contraídas de tia Lou abriram-se num largo sorriso e ela estendeu a mão.

— É um prazer conhecê-lo, Greg.

Cavalheiro que era, Greg não teve escolha a não ser apertar a mão estendida. Louella cobriu a dele com a outra mão, num gesto amistoso.

— Acho que vamos cuidar juntos da cozinha pelos próximos dois dias, e só quero que você saiba que acredito que seja um homem generoso por deixar que alguém invada seus encantados domínios. E pro­meto não arrancar nada de suas mãos.

— Eu... bem, eu... — gaguejou Greg. Visivelmente embaraçado por Louella ter ouvido sua arenga sobre o comportamento de consumo das mulheres e surpreso que ela julgasse que o problema em potencial estava superado, Greg ficou sem pala­vras. Era a primeira vez que isso acontecia, desde que Kate o conhecera.

Tia Lou endereçou-lhe um sorriso luminoso.

— Deixando as brincadeiras de lado, prometo ficar fora do seu caminho tanto quanto possível. Em se­guida, com um sorriso, acrescentou: — E devo dizer que sua reputação o precede. Espero poder anotar algumas dicas enquanto estiver aqui.

— Oh, bem, é muito gentil de sua parte dizer isso,

Louella, mas eu duvido que possa lhe ensinar algu­ma coisa. E não creio que tenhamos problema algum em partilhar a cozinha — disse Greg, finalmente.

Kate tossiu para disfarçar a risada. O que mais ele poderia dizer? Tia Lou, que parecia mais bonita e mais jovem que qualquer mulher da sua idade, conseguira desarmá-lo tão rapidamente quanto um especialista em explosivos desarmaria uma bomba. Ela enfrentara o problema, pedira desculpas since­ras por qualquer inconveniente que a situação pu­desse causar e o elogiara, tudo de um só fôlego. Se Greg respondesse de qualquer outro modo, isso o fa­ria parecer com um arrematado idiota.

— Por favor — disse Louella, soltando a mão de Greg com um ligeiro afago —, me chame de Lou. — Cheirou o ar — E sopa de legumes?

— É.

— Humm... — murmurou Louella. — Uma de mi­nhas favoritas. Especialmente com broa de milho.

— Espero que goste.

— Tenho certeza que sim. — Louella relanceou os olhos pelo tampo do gabinete, onde vários ingredien­tes deliciosos para o Dia de Ação de Graças estavam esperando.

— Há alguma coisa que possa fazer para ajudar?

A expressão confusa nos olhos de Greg desapa­receu, dando lugar a uma súbita exibição de com­petência.

— Oh, não! — exclamou, dispensando a sugestão. — Está quase na hora do almoço para começar al­guma coisa. Além disso, você é uma hóspede. Sente-se. Gostaria de um pouco de café? Fiz uma garrafa há pouco, quando voltei do mercado.

— Seria ótimo — disse Louella, com outro daque­les sorrisos.

Se Kate não conhecesse bem o rabugento doutor, ela poderia jurar que ele tinha corado. Tia Lou o deixara aturdido. Ou o deixava mudo ou o fazia falar pelos cotovelos. Ficou a observá-lo servir uma xícara de café para Louella, revirando-se entre a geladeira e o armário, à procura de uma colher.

— Obrigada, Greg. — Com outro sorriso luminoso, tia Lou mexeu o café e voltou a atenção para Kate, que se servia sozinha.

— Quando Meghan e Dan chegam?

— Disseram que estariam aqui na hora do almoço — informou Kate.

— Maravilha. Há anos que não vejo as meninas.

— Tem filhos, Lou? — perguntou Greg.

— Infelizmente, meu falecido marido, Bert, e eu nunca tivemos filhos — ela respondeu. — Kate é a filha que eu nunca tive. — Estendeu a mão e deu um tapinha no braço de Kate. — E não se poderia pedir uma melhor.

— Posso acreditar nisso — retrucou Greg, para surpresa de Kate.

— E você, Greg?

— Tenho um filho no Exército. Está servindo no Alasca. Minha filha vive aqui, mas vai passar o fe­riado com a família do marido, portanto vocês vão ter de me aturar.

— Aturar! — exclamou Louella. — Dificilmente.

Acho que você será uma maravilhosa contribuição para nossa reunião.

Não era de admirar que Cullen valorizasse tanto o trabalho de sua tia, pensou Kate. Ela conseguia reverter qualquer situação, apenas com um pouco de conversa. Sua tia era inestimável. Maravilhosa. E, a menos que a intuição de Kate estivesse fora dos eixos, Greg pensava da mesma forma.

Quarenta minutos mais tarde, houve uma agita­ção na porta da frente, o som de vozes femininas anunciando a chegada de Meghan e sua família. Cul­len, que ouvira o barulho, desceu as escadas e correu para a cozinha, onde já se instalara o costumeiro alvoroço de "olás" e apresentações.

O marido de Meghan, Dan, era grande e forte e tinha a aparência de um lutador peso-pesado. Na rea­lidade, era um contador de sucesso que tinha perten­cido à equipe de boxe da faculdade. Suas filhas, Lindsay e Marley, de treze e quinze anos, respectivamen­te, eram bonitas, cheias de vida e muito agradáveis.

Depois do almoço, as garotas selaram um par de éguas e saíram a explorar a fazenda. Dan descarre­gou a bagagem e levou-a para os quartos, indo, de­pois, assistir ao jogo de futebol, pela televisão. Kate e Cullen planejavam ir para a biblioteca ouvir as fitas da secretária eletrônica que Meghan trouxera.

— Divirtam-se — disse ela, num tom meio esqui­sito, quando entregou as fitas para Kate, na sala.

— Você não vai ouvir conosco? — perguntou Cullen. Meghan balançou a cabeça.

— Prometi a Dan que assistiria ao jogo com ele. Oh! Quase esqueci! Ele viu a cobertura do atentado em pelo menos duas estações, de manhã, enquanto eu estava no banho.

— Alguma novidade? — perguntou Kate.

— Sim. Um repórter entrevistou um rapaz que tra­balha para Buddy que disse que o cabo de freio foi cortado; outro falou com uma enfermeira do setor de traumatologia do hospital, que supostamente tinha reservas quando ao ferimento em seu ombro, mesmo antes da história dos freios chegar ao noticiário. Dan pode contar mais sobre isso. — Ela procurou o irmão, com o olhar. — Estou ficando apavorada.

— Por quê?

— Tenho medo que, com todo esse súbito interes­se, algum repórter mais esperto, assim como o ban­dido que quis matar você, comece a cavar mais fundo e descubra onde fica a fazenda.

Cullen aproximou-se e confortou-a, com um afago.

— Kate e eu já discutimos esse aspecto. É só uma questão de tempo, motivo por que ela quis fazer um pequeno exercício de tiro.

— Se eu soubesse que foi Tracy quem pôs a boca no trombone, eu poderia esganá-la com minhas pró­prias mãos — Meghan resmungou por entre os den­tes cerrados.

— Não há sentido em chorar sobre o leite derra­mado, irmãzinha. O dano está feito. A única coisa que podemos fazer agora é estarmos preparados pa­ra o caso de acontecer alguma coisa.

— Acho que tem razão. — Meghan apontou a cabeça para Kate, com um brilho bem-humorado nos olhos. — Então, como se saiu ela como atiradora? — perguntou, procurando elevar os ânimos.

— Se Kate estivesse do outro lado daquele rifle, eu não estaria aqui para contar o fato a você.

— Fico feliz em ouvir isso — enfatizou Meghan.

— Foi reconfortante — admitiu Cullen. Roçou a face da irmã com um beijo. — Pare de se preocupar e vá assistir ao jogo. Estou em boas mãos.

— E, acho que está — concordou Meghan. Com outro sorriso, saiu da sala.

Cullen voltou-se para Kate, com um brilho de con­sideração nos olhos que a deixou desconcertada.

— Vamos ouvir as fitas? — ela perguntou, voltan-do-se e seguindo para a biblioteca. — Todos esses elogios vão me subir à cabeça.

Colocaram a primeira fita no gravador, esperando encontrar alguma pista de quem seria a voz do te­lefonema anônimo. A voz do homem era suave, con­trolada, a mensagem sem emoção, tanto no teor quan­to na maneira de se expressar. A primeira impressão de Kate foi de que ele fazia parte do grupo dos cri­minosos organizados, daqueles que planejam e exe­cutam metodicamente seus crimes, dando conside­rável atenção aos cuidados em não deixar rastros. Essa teoria era reforçada pelo desejo aparente do homem em jogar um jogo de gato-e-rato.

Ouviram a fita uma segunda vez, e Kate percebeu um ruído ao fundo, que não notara antes.

— O que é isso?

— O quê? — perguntou Cullen.

Ela voltou a fita e ouviram de novo.

— Parece um cavalo relinchando a distância.

— Tem razão — concordou Cullen, com um lam­pejo de excitação nos olhos azuis.

— Significa que nosso homem vive no campo, com cavalos por perto?

— Pode ser — retrucou Kate, temperando a pró­pria emoção da descoberta com prudência. — Vou verificar todos os nomes em nossa lista e ver se al­gum deles tem ligação com algum local em que possa haver cavalos. — Fez um gesto displicente.

— Se bem que, é evidente, haja uma chance de a fita ter captado o som de algum programa de tevê.

— Você tem de ser assim, tão prática? — pergun­tou Cullen.

— Estou só fazendo o papel de advogado do diabo.

— E fazendo um belo trabalho, que droga! — ele exclamou, voltando a fita e ouvindo novamente a mensagem, com a testa franzida de concentração.

— A voz soa familiar.

— Provavelmente, é. Já que partimos da presun­ção de que a pessoa que quer matá-lo é uma que sente que você a arruinou, de alguma forma, eu diria que há noventa e nove por cento de chance que você tenha falado com ela em mais de uma ocasião. Mas o que nos interessa, mesmo, é se você consegue fazer a conexão dessa voz com algum nome... ou rosto.

— Desculpe-me, mas não consigo pensar em nin­guém — ele murmurou. — Quem sabe possa surgir.

— Espero. — Kate tirou a primeira fita do grava­dor e colocou a outra. — Vamos ver o que Lucy Lambert tem a dizer.

A voz soou nervosa e aflita. Jovem.

— Cullen. E a Lucy. Telefonei porque acho que você deve saber que deixei o Dub. Ele ficou louco desde que descobriu sobre nós... e Tyler. Está pla­nejando contratar um advogado para acioná-lo, pe­dindo pensão para o menino, ou, como ele chama, o reembolso pelos cinco anos de cuidados que saíram do bolso dele.

— Imagino que, com sua carreira em ascensão com a indicação para o Senado e tudo o mais, você não gostaria que isso fosse aos tribunais. — Houve uma pausa. — Só pensei que você gostaria de saber. E, escute, eu realmente sinto muito. — Seguia-se um clique e o silêncio.

De cenho franzido, Cullen olhou para o gravador como se esperasse que cuspisse mais informações que pudessem ajudar.

— Toque de novo.

Kate cruzou os braços e tamborilou os dedos nos lábios, enquanto ouvia a mensagem. Quando esta terminou, ela soltou um suspiro fundo.

— Quando você me contou o que estava na fita, a princípio eu pensei que era uma sugestão mal velada de chantagem. Agora, não tenho certeza.

— Por quê? — perguntou Cullen.

— Preste atenção. Ela fala como se estivesse cho­rando. E pede desculpas.

— Por que acha que ela ligou, então? — perguntou Cullen.

— Acho que está contando o que Dub planeja, mas não creio que esteja sugerindo que vão ficar calados e fora dos tribunais, se você pagar. Chame de intuição feminina, mas creio que ela telefonou para pre­veni-lo, para lhe dar uma chance de ter um trunfo. Em vez de chamar de extorsão, ela o está advertindo.

— Não podemos saber com certeza — relutou em aceitar Cullen.

— Podemos, se você perguntar a ela. Tem alguma idéia para onde ela foi, se deixou o Dub?

— Provavelmente para a casa dos pais.

— E onde fica? — perguntou Kate

— Não sei. Sempre pensei que fosse nos arredores de Little Rock. Seu nome era Newman, quando a conheci. Acho que a coisa a fazer é ver se Meghan olhou o identificador de chamadas em meu telefone. E se apareceu o nome Newman.

— Agora você está pensando como um policial — elogiou Kate, com um sorriso feliz no rosto.

— Osmose — ele sugeriu, retribuindo o sorriso.

— Não chegou perto o bastante para absorver por osmose — ela retrucou.

— Lamentavelmente.

Tão logo houve a troca de palavras, ambos perce­beram que haviam ultrapassado algumas barreiras invisíveis. Mesmo na linha de fogo, Cullen se deu conta de que, problema ou não, ele queria que não existissem mais outros entre os dois, que havia res­pondido a Kate com a verdade.

O momento passou. Desviando o olhar, Kate con­centrou-se nas notas que escrevia. Cullen levantou-se, de repente.

— Vou falar com Meghan sobre o identificador de chamadas.

— Ótimo. — Ele estava quase na porta quando ela perguntou: — O que diz seu íntimo? Acha que é Dub?

Cullen abaixou a cabeça, como se fizesse uma ava­liação.

— Posso não ter cem por cento de certeza, mas creio que não. Que eu me lembre, a voz de Dub é mais grave.

— Humm... — resmungou Kate, pensativamente. — Há sempre a chance de que, se Dub é o autor do telefonema, tenha disfarçado a voz.

— Então, vou verificar se Lucy está na casa do pai, pegarei o número com o serviço de informações, telefonarei a ela e verei o que ela tem a dizer.

— Diga a ela que você não vai ser chantageado e veja qual é a reação. E, depois, diga que não acha que o filho seja seu e que quer fazer um teste de DNA para provar isso de uma vez por todas. Marque uma hora e um local, consultório médico ou hospital, para encontrá-lo, para que você possa descobrir a verdade.

Cullen fez uma ligeira reverência que deixou Kate ruborizada.

— Sim, senhora.

E, então, voltou-se e saiu da biblioteca.

Kate continuava a fazer suas anotações quando alguém bateu à porta. Louella estava parada ali, com o rosto salpicado de farinha de trigo, um pedaço de papel na mão, que estendeu a Kate.

— Detesto aborrecê-la, mas me lembrei que tenho algumas informações sobre sua lista de suspeitos.

Havia uma porção de coisas a serem aprendidas sob um suspeito através dos canais legais, assim co­mo os vários e diversos métodos de subterfúgios usa­dos pelos policiais para obter informação de amigos e parentes. Por causa de seu papel como assistente do escritório de Cullen, Louella tinha acesso a uma série de dados que a maioria das pessoas não tinha.

— Obrigada, tia Lou. Sente-se.

— Oh, tenho de voltar para as minhas tortas de abóbora. Só queria lhe dar isso.

— Está fazendo torta de nozes?

— Greg está. A receita é quase igual à minha. — Despediu-se, com um aceno.

— Espero que isso ajude.

— Tenho certeza de que ajudará — Kate falou, observando a tia desaparecer pelo corredor, com um sorriso enlevado nos lábios. Sua tia e Greg pareciam estar se dando muito bem. Por que ela, Kate, não poderia ter esse tipo de sorte com um homem? Ime­diatamente veio-lhe ao pensamento a conversa fácil entre ela e Cullen no caminho para a velha pedreira, aquele breve instante de brincadeira. Quem sabe ela pudesse sobreviver aos meses vindouros sem ne­nhum dano significativo ao coração.

Com um esforço determinado, Kate expulsou os pensamentos sobre Cullen da mente e leu as infor­mações que sua tia havia reunido. Michael Mullins, o sujeito que despejara os produtos químicos no ria­cho, tinha saído da prisão havia três meses. Até onde se podia saber, estava se comportando como um bom moço. Reconciliara-se com a esposa, arranjara um trabalho com o irmão e nunca faltara a uma reunião com o oficial da condicional. Nada disso significava que não tivesse alguma atividade extracurricular que pudesse não ser tão honesta.

Kate pensou sobre os homens da lista. Pelo que Lucy dissera, sua vida com Dub era tudo, menos idí­lica, e ele já havia se confrontado com Cullen. De todos os suspeitos, parecia que Michael Mullins e Dub Lambert ganhavam o duvidoso título dos po­tenciais assassinos mais prováveis. Pelo menos, por ora.

Meghan confirmou que o nome Richard Newman aparecia no visor do identificador de chamadas. Cul­len pegou o número com o serviço de informações e telefonou para a casa dos pais de Lucy. Ficou saben­do, pela gravação na secretária eletrônica, que eles estariam ausentes até a quinta-feira, o que signifi­cava que não havia nada a ser feito antes da manhã seguinte ao Dia de Ação de Graças.

Cullen desligou e passou a informação a Kate, que disse:

— Outra vez "pé no acelerador e pé no freio". Cullen andava de um lado para outro da sala quan­do Dan e Meghan enfiaram a cabeça pelo vão da porta.

— O jogo acabou — comunicou Dan, desnecessa­riamente. — Por que essas expressões tão sérias?

— Não vamos conseguir contato com Lucy Lam­bert até sexta-feira.

— Então, deixem isso de lado. Você dois estão mui­tos sérios para um feriado.

— Dan tem razão — concordou Meghan. — Não há por que ficarmos sentados aqui, chorando nossa miséria, quando devíamos estar dando graças.

— O que vocês precisam é de uma mudança de cenário — sugeriu Dan. — Uma noite fora. Podemos ir até aquele barzinho que eu descobri há uns dois anos atrás.

— Este é um condado com lei-seca, lembra-se? On­de fica esse bar?

— Logo depois da fronteira, em Louisiana — in­formou Dan. — Podemos comer uns cheeseburgers gordurosos e dançar um pouco de música country. — Puxou Meghan para os braços e ensaiou alguns passos. — O que dizem?

— E as meninas? — perguntou Meghan. — Acha que ficarão bem?

— Alugaremos alguns filmes — disse Dan. — E Louella estará aqui para ficar de olho nelas. Não posso imaginar que o idiota que atirou em Cullen seja louco o bastante para tentar entrar na casa.

— Concordo — disse Kate. — Ele é organizado, não do tipo de se aventurar em alguma coisa sem qualquer planejamento.

— A profissional falando... — aparteou Cullen. — Então, o que me diz, Kate? Se as meninas estão se­guras, uma noite fora num barzinho country seria muito perigoso para nós?

— Tenho certeza de que será ótimo — respondeu Kate, num tom impassível.

— Ótimo. Conte conosco — afirmou Cullen, voltando-se para o cunhado.

Quando Lindsay e Marley foram comunicadas dos planos para a noite, não criaram qualquer problema por ficar em casa assistindo a algumas comédias. Louella mostrou-se feliz em ficar com as meninas, dizendo que tinha algumas coisas a fazer, antes de encerrar o dia, e estava muito cansada para sair. Greg concordou com Louella, mas ofereceu-se para levar as garotas até a cidade para pegar os filmes, enquanto os demais se aprontavam.

Alguns minutos mais tarde, Greg e as duas me­ninas estavam na estrada. Kate seguiu Louella es­cada acima.

— Então, como você e Greg se entenderam na co­zinha, hoje?

Louella lançou um sorriso brincalhão por sobre o ombro.

— Bem, Greg e eu não nos entendemos na cozinha, embora eu deva dizer que passou pela minha cabeça, uma vez ou duas, que seria muito bom se isso acon­tecesse.

— Tia Lou!

Chegaram ao topo da escada.

— Ora, não sou uma jovenzinha, Katie, mas tam­bém não estou morta! — exclamou Louella. — Greg é um homem muito atraente. E é inteligente e en­graçado, e nos demos muito bem, obrigada. Na ver­dade, ele é o primeiro, desde que Bert morreu, que me interessou de fato.

— Que bom — disse Kate. Então, emendou: — Eu acho...

— O que quer dizer?

— Estava preocupada que os dois se estranhassem na cozinha e, agora, estou começando a me preo­cupar que o cozinheiro acuse minha tia de assédio sexual.

Louella deu um tapa de brincadeira no braço de Kate.

— Oh, você!

E caíram na risada.

— Acha que Greg correspondeu? — perguntou Kate. A expressão nos olhos de Louella podia ser cha­mada simplesmente de uma convencida satisfação.

— Eu o peguei me olhando uma porção de vezes com aquele tipo de... Ah, não sei. A melhor descrição é "admiração irritada".

— E o que é isso, exatamente? — perguntou Kate, levando as mãos à cintura.

— Bem... ele gostou de mim, me acha atraente, mas não gosta daquilo que está sentindo.

Estranhamente, a explicação fazia sentido para Kate. O sentimento que sua tia descrevia era exa­tamente o que ela sentia em relação a Cullen.

Cullen, Kate, Dan e Meghan entraram na cami­nhonete e seguiram pelos quase vinte quilômetros que os separavam do Midnight Cowboy. Mais pare­cia um clube e estava lotado, parcamente iluminado e cheio de fumaça. Kate sentiu-se como se tivesse recuado no tempo. Certamente, para uma época an­terior à atual, em que lhe perguntavam se você pre­feria lugar para fumante ou não-fumante. As pes­soas, homens e mulheres, calçavam botas e vestiam jeans da marca Wranglers, a marca do verdadeiro caubói. Nada de jeans de grife, ali.

Acharam uma mesa perto do fundo do salão, não longe á ajukebox que esgoelava alguma coisa na voz de Trisha Yearwood. Cullen que, depois da permis­são de Meghan, deixara a tipóia em casa, puxou uma cadeira para Kate. Dan fez o mesmo para Meg­han, que comentou alguma coisa sobre a fumaça de cigarro.

— Podemos, por favor, baixar a crista e não ser­mos chatos por uma noite? — perguntou Dan. — Vamos superar essas coisas, tá? Vou comer um san­duíche bem engordurado com jalapenos, um pouco de queijo e batata frita com chili e uma caneca de cerveja. E não quero nem ouvir falar a palavra "colesterol", certo?!

Meghan arrepiou-se toda e olhou para o cardápio, escrito num enorme quadro, acima do bar.

— Quero uma tigela de chili.

— E você, Kate? — perguntou Cullen.

— Vou com Dan, sem cerveja. Vou querer um re­frigerante.

Cullen resolveu pedir a mesma coisa.

A garçonete aproximou-se e eles fizeram os pedi­dos. Enquanto esperavam ser servidos, Dan pergun­tou a Kate sobre o tempo em que fora policial em Nova Orleans e quis saber como era trabalhar como detetive particular. E Kate percebeu que tanto Meg­han como Cullen ouviam suas respostas com um ávi­do interesse.

A garçonete, usando jeans e uma blusa amarrada na cintura, trouxe o pedido e disse que seu nome era Pam e que a chamassem se precisassem de mais al­guma coisa. A comida era surpreendentemente boa, colesterol excluído. O chili, feito em casa, as batatas fritas fresquinhas e crocantes, o hambúrguer, gre­lhado no carvão e no ponto. Suculento.

Quando terminaram, Kate proclamou que estava empanturrada demais para dançar, mesmo que sou­besse, o que não sabia. Decidido a resolver a parada, Dan olhou para Cullen.

— Não creio que eu seja muito bom para ensiná-la com um braço só — retrucou Cullen. — Sinto muito.

Dan olhou de Cullen para Meghan.

— Acho que cabe a mim dar a Kate um curso rá­pido, presumindo que você não se importe que eu dê umas voltas com outra linda mulher pelo salão.

— Fique à vontade. — Meghan fez um gesto em direção à pequena pista de dança.

Os próximos minutos passaram numa lufada, com passos de dança rapidamente assimilados e execu­tados sem muita elegância, mas, depois de haverem dançado duas músicas, Kate já conseguia acompa­nhar alguns movimentos mais difíceis, os volteios e os pontapés. Aprendeu como relaxar e deixar Dan guiá-la. Quando, uns quinze minutos mais tarde, ele levou-a de volta para a mesa com uma série de viravoltas, anunciou que ela já estava pronta para o momento triunfal.

Ofegante, ele entornou meia caneca da cerveja quente e, com uma piscadela, pegou a mão de Me­ghan e arrastou-a para a pista de dança. Ali, os dois deram um show de deixar os outros de queixo caído. Meghan sorria para o marido com um ar enlevado, e o sorriso dele mostrava o quanto a adorava.

— Os dois são loucos um pelo outro, não são?

— Totalmente.

— Parece que eles sempre dançaram juntos.

— Este não é, definitivamente, o primeiro rodeio dos dois — riu Cullen. — Dançam juntos desde a faculdade. O problema é que ambos não têm muita oportunidade de sair, já que são extremamente de­dicados as suas carreiras.

— Deviam arrumar tempo — disse Kate, com uma melancolia que inconscientemente lhe toldou a voz.

— Você diz isso com autoridade — retrucou Cul­len, levando o copo aos lábios.

O sorriso de Kate foi meio amargo.

— E? Bem, tenho os papéis do divórcio para provar meu ponto de vista.

— A despeito dos números crescentes de divórcio neste país, e embora você tenha um divórcio em seu passado, a instituição do casamento é uma ótima coisa se duas pessoas realmente se amam e querem que dê certo — afirmou Cullen. — Não deixe que aquilo que aconteceu a você a faça ver o casamento com amargura, Kate.

Surpresa, tanto com o comentário como pelo que parecia preocupação nos olhos dele, Kate não conse­guiu pensar numa resposta adequada. E, na espe­rança de desviar a conversa para longe do aspecto pessoal, ia dizer alguma coisa quando um homem enorme aproximou-se da mesa. Além de seu tama­nho, não havia nada, nele, que pudesse causar alar­me. Na verdade, comparado à metade dos outros ho­mens, no bar, ele parecia bastante amistoso.

— Quer dançar?

Kate não tinha a menor idéia do que a esperava, mas não era um pedido para dançar. Olhou para Cullen, para ver o que ele dizia, mas tudo o que viu foi uma expressão impassível. Por que ela não ha­veria de dançar com outro homem? Cullen não podia fazer aqueles movimentos, e Kate tinha saído para se divertir. Mediu o estranho com um olhar rápido e decidiu que o homem era inofensivo.

— Claro — concordou, levantando-se. — Por que não?

O homem conduziu-a para a pequena pista e pu­xou-a para perto, num abraço frouxo.

— Como é seu nome? — perguntou.

— Kate. E o seu?

— Brutus.

Disse aquilo com tranqüilidade, mas seus olhos faiscaram com um brilho provocativo. Kate percebeu que ele estava esperando que ela julgasse o nome estranho.

— Brutus — ela repetiu, com um gesto de avalia­ção. — Combina.

Para sua surpresa, ele inclinou a cabeça para trás e gargalhou. Kate relanceou os olhos para a mesa. Pela cara feia de Cullen, ela podia ver que ele não estava achando graça.

— De onde você é Kate? Não fala como uma Arky.

— Nova Orleans.

Ele sorriu, apertou-a contra o corpo e ronronou:

— A Despreocupada...

Kate empurrou-o, gentilmente.

— A cidade, eu não.

Brutus afrouxou o aperto e franziu a testa.

— Como é?

— A cidade é despreocupada. Eu não.

Outro profundo borbulhar de uma gargalhada ir­rompeu de dentro de Brutus e ele girou-a, veloz­mente, pela pista de dança. Passaram por Dan e Meghan, que a encararam, com um olhar preocupa­do e indagador.

— Você dança bem para uma garota da cidade que acabou de aprender.

— Obrigada. Você também não dança mal.

Brutus apontou com a cabeça para Cullen.

— O sujeito lá é seu namorado?

Tudo bem. Hora de começar a representar o papel para o qual fora contratada.

— É.

— Trata bem de você?

Ela fez que sim.

— A maior parte do tempo — disse, com o rosto indiferente. — Para mim, ele passa muito tempo tra­balhando, mas outro como esse...

Brutus correu os olhos de Cullen para Kate.

— Como ainda não dançou com você?

Kate endereçou a Cullen um sorriso luminoso e soprou-lhe um beijo. Ele franziu a testa.

— Pobrezinho — ela murmurou. — Ele quebrou um par de costelas num acidente de carro, recen­temente — disse a Brutus, com uma suavidade que surpreendeu até mesmo a ela própria. Não era exa­tamente uma mentira. Ora, aquela coisa de na­morada de faz-de-conta era muito mais fácil do que esperava.

Executavam uma série de volteios quando Brutus perguntou:

— Pode não ser da minha conta, mas já que estou sentindo uma queda por você, tenho de perguntar. Você ama aquele cara lá?

 

Kate tropeçou e sentiu que os braços de seu parceiro fechavam-se com força em torno dela.

— Desculpe-me — murmurou, sentindo o rosto queimar e o estômago revirar-se doentiamente por causa da pergunta inesperada. — Ainda não peguei o jeito...

— Você está indo bem — incentivou Brutus, fa­zendo-a rodopiar e quase a deixando atordoada. Quando Kate o encarou novamente, ele insistiu: — E então?

— Então... estou lisonjeada que esteja interessado — retrucou Kate, ignorando a pergunta.

— Mas? — cutucou Brutus.

— Mas o quê?

— Você ama o sujeito, certo?

Amar Cullen? A simples idéia era ridícula. Mas, mesmo que pensasse assim, sabia que se havia algo que podia ser alvo de piada, era ela. Claro que o amava, motivo pelo qual tinha aceitado o emprego. Suspeitava disso fazia dois anos, mas dera um jeito de ocultar a verdade sob a raiva. Quando a mágoa ameaçara abandoná-la, ela voltara à negação, convencendo-se de que não havia como ela ter se apai­xonado, realmente se apaixonado, tão depressa e com tanta intensidade, depois do que Lane tinha apron­tado com ela. O que sentira por Cullen fora paixão. Desejo. Mas, agora, com Brutus forçando a resposta, forçando-a a examinar de perto o coração, ela não podia continuar a negar.

Qualquer que fosse o motivo de Cullen, busca do esquecimento ou um pouco de diversão, ele dera um jeito de infiltrar-se de mansinho no coração de Kate, nos cantos que, a despeito dos danos causados por Lane, ainda acreditavam em amor e finais felizes. O difícil era entender por que Kate permitira que Cullen se tornasse íntimo tão depressa. Ou talvez fosse melhor que ela se perguntasse como poderia impedi-lo.

Com o coração batendo tão forte que parecia poder até encobrir a música, Kate ergueu os olhos para Brutus.

— Sabe como é, Brutus — disse, num tom que espelhava a própria incredulidade e a tristeza —, não sei por quê, mas amo.

Brutus soltou um resmungo que podia significar qualquer coisa.

— Vou dizer uma coisa. Ele é um sujeito de sorte mas um completo idiota por deixar uma mulher co­mo você sozinha.

A sinceridade na voz do grandalhão dizia muito sobre ele.

— Ora, obrigada, Brutus... — retrucou Kate, emo­cionada. — Direi a ele.

— Eu mesmo direi. — Com uma valentia nascida de uma confiança inata, o gigante dirigiu-se para a mesa onde Cullen estava. Kate seguiu-o, inquieta, as visões de um tumulto relanceando diante de seus olhos, ainda que não pudesse fazer nada para barrar a passagem de seu novo paladino. Cullen não parecia o tipo que aceitava críticas numa boa, nem mesmo críticas construtivas.

Cullen fervia de raiva, vendo o gigante e Kate dan­çando pelo salão. Seja lá o que ela estivesse dizendo a ele, devia ser engraçado, já que o sujeito não pa­rava de rir. Cullen rilhou os dentes. Aquele imbecil imenso a segurava muito apertado, e Kate estava fazendo papel de tola.

Ela está apenas se divertindo. Não é culpa dela se você está com ciúme, só porque ela está se divertindo mais na companhia de um estranho do que com você.

A percepção de que estava enciumado o atingiu com a força da bala que o ferira na plataforma. Ciú­me? Dificilmente. Ciúme implicava em um certo es­tado da mente que Cullen não estava disposto a ad­mitir. Por que teria uma atitude possessiva ou sen­tiria ciúme de Kate?

Porque, desde a primeira vez que pôs os olhos nela, Kate conseguiu excitá-lo só de caminhar. Colocando a culpa de lado, você a desejou desde que a conheceu, continuou desejando quando a abandonou em Nova Orleans, e a deseja, agora. Por isso se ressente quan­do outro homem a toca. Sentiu ciúme de Dan, mesmo sabendo que ele é louco por sua irmã.

Mesmo que Cullen tentasse chegar a bons termos com seus sentimentos, ele sabia que estava ignoran­do o significado mais profundo, coisas que não estava preparado para admitir. A música terminou e Kate e seu parceiro continuaram no meio da pista por al­guns segundos, conversando. Finalmente, o homen­zarrão caminhou em direção a Cullen, com um brilho de determinação no olhar. Zangado e sem compreen­der bem o porquê, tudo que Cullen pôde pensar era que não tinha qualquer condição de promover um quebra-quebra no bar. Tinha de usar sua habilidade com as palavras para acalmar aquele brutamontes. O gigante parou diante da mesa.

— Brutus Vicker — o brutamontes apresentou-se, estendendo a mão a Cullen.

Julgando o gesto um sinal de boa vontade, Cullen apertou a mão estendida sem hesitação, com firmeza.

— Cullen McGyver.

— Prazer em conhecê-lo — disse Brutus, enfiando os polegares nos bolsos da calça. — Quis vir aqui e lhe dizer que arranjou uma boa mocinha como na­morada.

O olhar de Cullen desviou-se para Kate, que es­tava parada a um passo atrás de seu novo paladino, com o rosto branco de pavor e os braços cruzados sobre os seios.

— Sei disso — retrucou, sabendo que as palavras eram, em parte, verdadeiras. Kate era uma boa mu­lher. Mas, não era dele. Não, realmente.

— Não devia deixar uma mulher como ela sozinha muito tempo.

Cullen desferiu um olhar irritado para Kate. Que diabos tinha dito ao homem?

— Realmente, não creio que isso seja da sua conta.

— Pode não ser — retrucou Brutus, com a voz macia. — Mas há um monte de homens solitários por aí que ficariam muito felizes de tirá-la de suas mãos. — Dizendo isso, virou as costas e afastou-se.

Zangado, mas aliviado que o encontro tivesse ter­minado sem problemas, Cullen ficou a observar o gigante se afastar. Kate fez menção de sentar-se. Num impulso irrefletido, Cullen estendeu o braço ferido para impedi-la e sentiu uma pontada aguda de dor espalhar-se pelo ombro.

De olhos arregalados, Kate olhou para a mão em seu cotovelo e, depois, encarou-o. Ele puxou Kate com força, trazendo-a para dentro do vão das pernas.

— O que está fazendo? — ela murmurou, tentando libertar-se.

— Representando meu papel. Tentando fazer o que aquele sujeito lá sugeriu — Cullen resmungava as palavras por entre os dentes cerrados de dor. — Ten­tando cuidar melhor de você, dar-lhe mais atenção.

O espanto espalhou-se pelo rosto de Kate.

— Não deixe que o que Brutus disse o aborreça. Ele é só um sujeito com quem eu dancei.

— Sim. — A voz de Cullen soava baixa e zangada. — E parece que você estava se divertindo pra valer.

A testa de Kate franziu-se de perplexidade.

— O que é isso, Cullen? Você... não está com ciú­me, está?

— Sente-se — ele ordenou, sem conseguir pensar em uma resposta que não o incriminasse.

— O quê?

— Sente-se!

Ele puxou-a pelo braço e, sem querer fazer uma cena, Kate não teve escolha, a não ser sentar-se nos joelhos dele. Imediatamente, os sentidos de Cullen foram inundados pelo cheiro de Kate. E viu-se sufo­cado com aquela proximidade. Inseguro, sem saber o que fazer ou falar e precisando de alguma coisa que lhe desse suporte, Cullen circundou-a pela cin­tura com o braço machucado, enfiando o polegar no passador das calças dela. Descansou a outra mão no joelho de Kate. Não se conteve e deslizou-a pela coxa, recordando-se da sensação de suavidade daquela pe­le que tinha sob a palma. Recordou-se de muitas outras coisas que era melhor esquecer.

Os olhos de Kate pareciam os de uma corça apa­nhada pelo farol de um carro se aproximando.

Não tome isso pelo lado pessoal — disse ela, com a voz alterada e sem fôlego —, mas acho que você está levando esse negócio de namorada muito a sério. — Tentou se levantar, mas ele segurou-a com firmeza pela coxa.

Confusão, incerteza e alguma coisa que ele não soube definir substituíram o susto, nos olhos de Ka­te. Cullen ergueu a mão e segurou-a pela nuca, puxando-a para mais perto.

— Cullen? Não faça isso!

— Psiu... — Cullen sussurrou, a voz impregnada de urgência. De necessidade.

— Não precisa fazer isso — ela balançou a cabeça, numa negativa.

— Acho que tenho.

Ele forçou-a a abaixar o rosto e os lábios de ambos se encontraram. E uniram-se com fome das intimidades que os dois recordavam com vivida clareza. Apenas a vaga percepção de que estavam em público impediu Cullen de fazer um papel ridículo. Forçou-se a pôr fim ao beijo, depois de instantes. Quando se recostou na cadeira, viu que Brutus Vicker os obser­vava do outro lado do salão.

Cullen desviou o olhar para Kate. Os olhos dela mostravam uma confusão ainda maior. Quis beijá-la de novo, mas não estava em condições. Sabia exata­mente por que queria provar daquele gosto nova­mente, e não tinha nada a ver com a farsa de um namoro. Tinha a ver com fome e desejo e uma excitação crescente.

— Bom trabalho.

O som da voz de Dan fez Cullen dar um salto. Kate levantou-se de seu colo com o rosto queimando, vermelha como um pimentão.

— O quê?

— Disse que você dois estão fazendo realmente um bom trabalho com essa coisa de relacionamento sério. Ninguém que estivesse olhando diria que foi uma representação.

Cullen pegou o copo de cerveja e levou-o aos lábios para esconder a ironia do sorriso.

Esse é o problema, Dan. Não tenho certeza se é representação, pensou.

Permaneceram no bar por mais uma hora e meia, e Kate, mesmo tendo dançado, rido e brincado, agin­do como se estivesse se divertindo muito, não pudera impedir que seus pensamentos continuassem a se desviar para coisas muito mais sérias, cada vez que havia uma brecha. Como agora. Dan e Meghan es­tavam na pista de dança e Cullen havia ido ao toa-lete. Era um momento perfeito para analisar a per­gunta desafiadora de Brutus, questionar se amava ou não a Cullen. A pergunta a pegara de surpresa e a atingira com uma realidade que preferia não en­carar. Mas, encarar era preciso. Não apenas encarar, mas imaginar um jeito de lidar com isso. Amar Cul­len traria apenas desilusão e problemas, porque, mes­mo que ele a desejasse, e, sem dúvida, ele a desejava, desejar era bem diferente de gostar, e luxúria se dis­tanciava muito de amor.

Ela não podia dizer que não havia sido avisada. Sua tia lhe dissera que ela não era do tipo de Cullen, que ele gostava de mulheres de sociedade, mais ve­lhas e mais educadas. E ela era apenas a simplória Kate, bonita o bastante pela maioria dos padrões, inteligente o suficiente para outros, mas, definitiva­mente, não incluída na liga de McGyver.

Kate exalou um longo suspiro. O problema era que o aviso viera tarde. Como querer arrumar a cerca depois que o gado tinha fugido. Quando tia Lou con­tara a ela sobre a preferência de Cullen em relação às mulheres, o dano já estava feito. Kate já estava apaixonada por ele.

Ainda ponderava sobre os predicados que tinha a oferecer quando Dan e Meghan retornaram, seguidos de Cullen, chegando todos quase ao mesmo tempo.

— Que noite! Estou acabada — exclamou Meghan.

— Eu também — retrucou Cullen.

— Estraga-prazeres — reclamou Dan. — Suponho que queira voltar para casa também? — ele pergun­tou a Kate.

— Estou um pouco cansada.

— Tudo bem — disse Dan, com um suspiro de desapontamento. — Vamos embora.

O trajeto até a fazenda foi mais ou menos silen­cioso. Meghan aconchegara-se a Dan, que a abraçou, dirigindo com apenas uma das mãos. Cullen e Kate sentaram-se no banco de trás, cada qual no seu canto, tão conscientes um do outro como se estivessem partilhando o espaço com uma cobra.

Quando Dan desligou o motor, Kate foi a primeira a sair da caminhonete. A porta da frente estava des­trancada, e ela entrou sem esperar pelos demais, seguindo em direção ao som da televisão, na sala de estar. Lindsay e Marley estavam esparramadas de barriga para baixo no chão, sobre almofadas. Absor­tas com algum filme de aventuras adolescentes res­mungaram uma ligeira saudação por sobre os om­bros. Louella e Greg não estavam à vista.

Kate seguiu até a cozinha e encontrou-os sentados à mesa, com dois copos de vinho branco, um prato de biscoitos salgados e uma porção de queijo entre os dois. A mão de sua tia estava estendida entre os petiscos, coberta pela de Greg.

Ouvindo o som da porta, Louella ergueu os olhos e uma coloração rosada tingiu-lhe as faces. Sorriu, mas não pareceu apressada em retirar a mão de sob a do doutor.

— Olá, querida. Onde estão todos?

— Conversando com as meninas, provavelmente — disse Kate, abrindo o armário, à procura de um copo.

— Comportaram-se como anjos. São tão gentis e educadas. Divertiu-se?

— Sim — retrucou Kate, enchendo o copo com o gelo que retirara do freezer. — Foi diferente. Apren­di a dançar música country.

— Parece divertido — Louella falou. Parecendo ligeiramente embaraçado, Greg per­guntou:

— Quer um copo de vinho, Kate?

— Não, obrigada. Só estava com sede. Acho que vou subir.

— Vou indo, também — Greg informou, levantando-se. — É tarde e temos um dia cheio, amanhã.

— A que horas vai estar aqui? — Louella quis saber.

Greg apertou os olhos, calculando.

— O peru é bem grande... Se quisermos que esteja pronto lá pelo meio-dia, a tempo de prepararmos os acompanhamentos e as outras coisas, acho que o belezinha ali vai demorar umas cinco horas e meia no forno.

Louella sorriu.

— Vou esperar com o café pronto.

— Não precisa — disse Greg, mas a expressão sa­tisfeita em seu rosto não combinava com as palavras.

Louella fez-lhe um afago na mão.

— Sei que não preciso... mas eu quero.

Se fosse possível, o sorriso de Greg chegaria às orelhas.

— Até amanhã, então.

Louella murmurou:

— Boa noite.

Kate levou as mãos à cintura e ficou a observar a tia, que continuava olhando para Greg, que se afastava.

— Ora, ora — disse, enquanto os murmúrios de despedida de Greg com o resto da família ressoavam pelo corredor. — O que está acontecendo?

— Nada... — retrucou Louella. — Nada mais que o início de uma bela amizade. E, se as coisas pros­seguirem tão bem como eu espero, algo mais dura­douro no futuro.

— Não está indo depressa demais com essa empolgação? — perguntou Kate, em tom de increduli­dade. — Quero dizer, Greg parece um homem ma­ravilhoso, mas você só o conhece faz um dia.

O sorriso de Louella surgiu doce, sua face refle­tindo uma certeza interior.

— Quando é certo, é certo, Kate. E quando é certo, eu sei.

Espantada com a firmeza de sua tia, Kate não pôde evitar um sentimento confuso, não obstante prazeroso. Louella merecia um pouco de felicidade e se podia encontrá-la num bom homem como Greg Kingsley, então, que assim fosse. Contudo, embora não quisesse admitir, Kate sentiu uma pontada de ciúme de que a felicidade estivesse ao alcance de sua tia e tão distante dela.

O Dia de Ação de Graças passou num torvelinho de risadas e exclamações de prazer, entre a mesa farta e repleta de delícias e os jogos de família. Dan ganhou de todos no Jogo da Memória, Kate e Lindsay venceram os demais na mímica, e Cullen e Kate surpreenderam o grupo e até a si próprios, vencendo o Jogo da Compatibilidade. Embora participasse das brincadeiras, Cullen mostrava-se mais quieto do que o normal, algo que Kate estava aprendendo depressa a distinguir como um traço de preocupação.

Louella e Greg agiam como jovens, perfeitos ado­lescentes, e Kate interceptou não apenas diversos olhares significativos trocados entre os dois, mas ou­tros olhares, mais questionadores, da parte dos Longstreets e de Cullen. Se alguém perguntasse a ela sobre aquele relacionamento tão amistoso, bem que ela podia responder com o comentário da tia: "quan­do é certo, é certo".

Kate telefonou ao pai no meio da tarde, depois da hora do rush no restaurante. James Labiche mos­trou-se feliz que a filha tivesse ligado, perguntou so­bre o novo emprego e disse que esperava vê-la no Natal. Kate lhe contara a verdade sobre o trabalho, sabendo que ele teria de confirmar sua história de ter sido professora, caso alguém lhe perguntasse. Kate, que normalmente via o pai várias vezes por semana, desligou o telefone deprimida, cheia de sau­dade. Detestava ficar longe dele, especialmente num feriado como aquele.

No jantar, comeram as sobras do almoço, um exa­gero que não conseguiriam consumir em uma sema­na. Satisfeitos, felizes e alegres, todos ajudaram a arrumar a cozinha e a enxugar os pratos e Greg despediu-se. Louella foi para seu quarto, os Longstreets e Cullen sentaram-se na sala, junto com as meninas, que assistiam a um filme. Reclamando que estava se tornando sedentária desde que chegara, Kate tro­cou de roupa e vestiu um abrigo esportivo, dirigin­do-se à sala de ginástica para se exercitar um pouco.

Fazia musculação há não mais de dez minutos, quando ouviu o ranger da porta. Cullen entrou. Sur­presa, Kate ficou imóvel no lugar. O olhar de Cullen, intenso, penetrante, percorreu-a desde os cabelos presos no rabo-de-cavalo até os pés descalços, demorando-se nos quadris modelados pelo tecido aderente do abrigo.

Kate viu aqueles olhos azul-cobalto escurecerem para o azul-marinho e observou, confusa e ansiosa, quando a expressão de Cullen mudou, deixando trans­parecer um desejo súbito, nu e cru. Engoliu em seco e respirou fundo, sentindo um arrepio recíproco de excitação dentro de si. Sem dizer palavra, ele cruzou o pequeno espaço que os separava. Kate percebeu que suas mãos tremiam e não era por causa do exer­cício com os pesos. Tremiam com a aproximação de Cullen. Abaixou-se para pegar a toalha que deixara no chão, mas Cullen a alcançou, primeiro.

Os dedos dele roçaram os dela, quando a segurou pelo pulso. Ela endireitou-se devagar, consciente da força daquela proximidade, certa de que podia sentir o calor daquele corpo. Pestanejou, percebendo que o rosto de Cullen estava a centímetros do seu. A ex­pressão, nos olhos dele, era de um indiscutível de­sejo. Em pânico, sabendo que estava em perigo de ter mais uma vez o coração partido, ela fez um mo­vimento desajeitado e deu um passo para trás, afas­tando-se dele. Abandonar-se às emoções que fluíam daquele olhar e a invadiam seria tolice, e ela havia jurado, quando ele a abandonara, que não mais faria o papel de tola.

— O que você quer? — perguntou, conseguindo finalmente encontrar a voz.

— Você — ele murmurou, num tom rouco, entregando-lhe a toalha.

Sua voz era fria, firme, sem qualquer hesitação. O gemido sufocado de surpresa de Kate encheu o silêncio do aposento. Buscando uma saída, procuran­do na mente algum tipo de resposta evasiva, Kate agarrou a toalha e levou-a ao rosto suado, a melhor maneira de bloquear a intensidade daquele olhar.

Sentiu o calor da mão de Cullen no braço e gelou. Lentamente, baixou a toalha. Com medo de respirar, com medo de se mexer, ela ficou imóvel, hipnotizada com a fome que viu naquele olhar, enfeitiçada pelo aroma quente e masculino que lhe entrava pelas na­rinas, um cheiro que expulsava todos os pensamen­tos lógicos e sugeria loucuras e coisas deliciosas.

Se você o ama, por que não? A voz tímida argu­mentou com a razão. Certo, ela o amava, o que sig­nificava que estava pronta para seguir em frente. Diferentemente da primeira vez em que se envolvera com ele, ela sabia o que esperar. Não haveria sur­presas. Ela, que não era o tipo dele, sabia que Cullen não tinha planos de um relacionamento sincero e duradouro. Sabendo de tudo isso com antecedência, não tendo noções preconcebidas nem expectativas, aceitando o que ele pudesse oferecer, de olhos bem abertos, não havia como ficar ainda mais magoada, havia?

Ela balançou a cabeça, numa negativa, sabendo que estava se enganando, sabendo intimamente que era apenas uma recusa simbólica. Sabia, pela deter­minação nos olhos de Cullen, que ele reconhecera a farsa daquela rejeição, tal qual o pretenso romance de amor entre os dois.

As mãos de Cullen deslizaram dos ombros de Kate para o pescoço, escorregando para prendê-la pelo queixo. Ela sentiu o coração disparar e uma letargia a dominou, impedindo-a de se mexer. Ele baixou a cabeça. Suas feições fortes borraram-se diante dos olhos dela. Ótimo, pensou Kate, deixando que as pálpebras se cerrassem. Afinal, não precisava enxergar. Tudo que precisava era sentir aqueles lábios nos de­la, quentes e entreabertos, movendo-se, ávidos, devorando-lhe a boca com o desejo que o beijo no bar apenas sugerira. Sem ter a intenção e sem perceber o que fazia, Kate soltou a toalha. Com uma das mãos, agarrou Cullen pelo cinto. Com a outra, puxou-o pela nuca, para trazê-lo para mais perto.

Ele aprofundou o beijo, transformado agora em um gentil assalto. E Kate abriu mais a boca, acei­tando o avanço total daquela língua. A mão em seu pescoço deslizou para baixo... modelando, apalpan­do. A outra subiu, deslizando por baixo do tecido aderente, os dedos quentes explorando a pele nua.

Seu toque era mais sensual do que ela se recor­dava. Quem sabe porque isso fora fazia muito tempo. Com o corpo a queimar de desejo, doendo com uma fome tão intensa, Kate perdeu a capacidade de ra­ciocinar. Não fazia sentido lutar contra, não quando o desejava com tanto desespero.

Por um longo momento, suas bocas fundiram-se numa união esfomeada. Então, as mãos de Cullen deslizaram para baixo, apertando-a contra o calor e o volume saliente em sua calça. Kate não precisava de encorajamento. Enroscou-se contra ele, compri­mindo o ventre àquele duro símbolo de masculinidade, desejando uma proximidade ainda maior. O gemido de desejo que escapou da garganta de Cullen, rouco, sensual, tenso e carregado, ameaçou deixá-la louca, perto de um ataque cardíaco. Em meio aos pensamentos tumultuados, uma evidência emergiu: exercia um poder sobre ele. Não tinha importância que o poder fosse uma estrada de duas mãos.

A boca de Cullen abandonou a dela e passou a depositar pequenos beijos úmidos em seu pescoço. Ela soltou um leve gemido, os dedos se dobrando para agarrar... prender aquelas coxas firmes. O som da respiração de ambos, pesada, ofegante, encheu o ar. A última vez em que Kate sentira-se assim, tão feminina, tão desejável, tão voluptuosa, fora na pri­meira vez em que ela e Cullen haviam feito amor. Ou tinha sido da última?

— Quero você, Kat — ele murmurou, a boca roçando-lhe o pescoço esguio, a voz rouca e baixa.

— Sim — ela disse, num sussurro febril —, sim.

Sem uma palavra, ele ergueu a mão e tirou o elás­tico que lhe prendia os cabelos, deixando-os cair em cascata. Kate balançou a cabeça e a cabeleira farta desabou por sobre seus ombros. Cullen agarrou o zíper da blusa do abrigo e abriu-o, fazendo uma ca­reta de dor. Vendo a expressão no rosto dele, Kate afastou-lhe as mãos, arrancou a blusa e jogou-a no chão, sem sequer pensar que estava novamente co­locando seu coração em perigo.

Era tarde demais para escutar advertências. Tar­de demais para qualquer outra coisa, a não ser ouvir os sentimentos...

Ela era linda, pensou Cullen. Kate estava ali, dian­te dele, com uma expressão de vulnerável desafio nos olhos, enquanto ele se inebriava com as formas e a simetria de seus seios desnudos e a pele sedosa dos ombros salpicados de sardas cor de mel. Quando a fitou, um rubor delicado coloriu-lhe as faces, e ela cruzou os braços num gesto involuntário, tentando proteger-se da intensidade daquele olhar.

Cullen segurou-a pelos pulsos, empurrando-lhe as mãos para os lados. Então, com o olhar preso ao dela, tocou-a, testando a incrível suavidade da pele. Ela ofegou e fechou os olhos, mordendo o lábio inferior. Ele beijou-a, então, forçando seus lábios a se abrirem com um toque suave, enquanto deslizava as mãos por suas costas, empurrando-a para o sofá que ficava perto da parede.

As costelas doloridas e o ombro latejando foram es­quecidos, diante da mágica daquele momento, cheio de toques de ternura. Estranhamente emocionante e notavelmente criativo. Quando ele não conseguiu tirar uma peça de roupa, Kate ajudou, seus dedos ansiosos abrindo os botões, puxando o zíper, puxando a calça. Ela era incrivelmente inventiva ao tocá-lo. Quando foi impossível assumir uma posição de apoio, trocou de lugar com ele, tomou a iniciativa, fazendo-o deitar-se de costas e desfrutar... até levá-lo a atingir as sensações mais plenas.

Era tudo que ele se recordava, tudo que soubera que seria, algo que ele tinha certeza de que nunca o satisfaria por completo. Para tão longa abstinên­cia, tinha acabado depressa demais.

Mais tarde, ela sentou-se, imóvel e calada, com uma perna sobre a dele, enquanto as batidas do co­ração diminuíam de intensidade. E Cullen enterrou o rosto naquele mar vermelho de mechas macias e aspirou o cheiro quente e úmido da cabeleira revolta, tentando compreender exatamente o que tinha acon­tecido. Sexo, sim. Porém, mais do que apenas sexo, porque Kate era mais do que apenas outra mulher.

Você está se apaixonando por ela.

A voz, em sua cabeça, murmurou aquilo que seu coração se recusara a admitir, atingido pela cons­ciência plena do ciúme que sentira, quando a vira dançar com Brutus Vickers. Os olhos de Cullen se abriram, e a mão que deslizava pelas costas de Kate, em lenta exploração, se imobilizou. Apaixonado por ela? Impossível. Ele a admirava, estava impressio­nado com sua capacidade em fazer seu trabalho. Sen­tia-se bem ao lado dela, mas... amor? Não. De jeito nenhum.

Por que não? Você não pode mais usar Joanie como desculpa. Faz mais de três anos.

Ele havia amado Joanie e uma parte de seu ser sempre a amaria, mas Cullen sabia que, desde que se aproximara de Kate, afastava-se para longe da tristeza e do sofrimento de seu luto inicial. Ao tentar conjurar uma imagem de si e de Joanie, tudo que lhe veio à mente foi Kate, movendo-se em perfeita sincronia com ele, os olhos medindo a profundidade de seu desejo, sorrindo de maneira sensual e encan­tadora, enterrando os dentes no lábio inferior com um gemido de prazer... um gemido que ele repetiu enquanto alcançavam a plenitude juntos.

A intensidade das sensações que a imagem des­pertava era inacreditável, humilhante, não permi­tindo espaço para amores do passado, amantes do passado ou experiências do passado. Emergira de dentro dele sorrateiramente, num momento de per­feito aclaramento, deixando evidente que ele supe­rara a morte de Joanie e acordara para a vida. Es­tava pronto para prosseguir. Pronto para se apaixo­nar. Era chegada a hora.

Kate, que tentava recuperar o controle da respi­ração, sentiu a mudança em Cullen. Uma imobili­dade, uma letargia, como se ele estivesse se depa­rando com alguma coisa, como se tivesse chegado a uma estarrecedora conclusão. A sensação varreu sua alegria. Do mais profundo de seu ser, a razão aflorou.

O que ela fizera?

Simples. Comprometera o emprego e quem sabe até mesmo a segurança de Cullen. E para quê? Para repetir o desempenho e entregar-se a intimidades com o belo promotor, fora de seu alcance? Para outra rodada de aflições e dor no coração? Nem o amor nem o fato de que sabia onde estava se metendo da­vam a ela o direito de colocar Cullen em perigo.

Fora contratada para protegê-lo, não para satis­fazer quaisquer necessidades sexuais que ele, ou ela, pudessem ter. E agora que lançara o profissionalis­mo ao vento, ela podia ter implodido com o caso. Não havia como permanecer com os sentidos atentos, fria, recolhida, pronta para protegê-lo de adversários in­visíveis quando ela sabia que, cada vez que ele se aproximasse, ela derreteria como um pedaço de cho­colate ao sol. Deus do céu, o que tinha feito? O que poderia fazer para mudar as coisas, se é que havia alguma coisa a fazer?

Nada.

O dano estava feito, os dados lançados. Kate tinha duas escolhas: ficar e agir de forma despudorada, fingindo que o que havia acontecido entre os dois não era nada, apenas um breve entretenimento que ele parecia desejar. Ou partir, levando o orgulho alquebrado de volta a Nova Orleans. Melhor um or­gulho alquebrado do que um coração partido.

Sentiu a mão dele no ombro.

— Kat? — a voz soou como um ronronar rouco em seu ouvido.

Ela se esforçou por abrir os olhos e o encarou. Com o olhar perturbado, percorreu aquele semblante bo­nito. O que poderia dizer? Como pôr um bom final a tudo com o mínimo possível de sofrimento? Sem efeitos de longo prazo? De maneira brutal era me­lhor, decidiu. Como arrancar um esparadrapo de um só golpe, sentindo uma aguda pontada de agonia ao invés de soltá-lo devagarinho, o que apenas prolon­gava a sensação de dor.

Levou as mãos aos cabelos, afofando-os, num gesto displicente.

— Isso... não fazia parte de nosso acordo, Cullen. — Ela mesma se surpreendeu com a firmeza da pró­pria voz. — Não está me pagando o bastante para me deitar com você.

A ternura, nos olhos dele, se esvaiu. E uma raiva insidiosa emergiu das profundezas. Kate, porém, não devia estar tão controlada como havia suposto, por­que algo que ele viu naqueles olhos fizeram a raiva desaparecer quase tão rapidamente quanto havia sur­gido, deixando apenas um leve toque de irritação na voz de Cullen.

— Não tente agir como se não me desejasse — disse ele. — Arranje uma desculpa melhor.

Não. Não havia como negar o que havia acontecido entre os dois. Sem desculpas. Sem explicações. Ou havia?

— Não tenho intenção de negar o fato. — Kate afastou-se dele para apanhar as roupas. — Vamos debitar isso na conta da atração mútua, está bem?

Não sabia como conseguira falar assim, tão natu­ralmente, quando sentia como se seu corpo inteiro pudesse desintegrar-se se ele a tocasse. Achou a cal­ça e vestiu-a.

— Oh! — ele exclamou, com uma profunda ironia, ao começar a recolher as próprias roupas. — Você admite o sentimento, então.

— Como eu disse, não posso negar. — Esforçou-se por falar em tom normal.

— O que quero dizer é que, às vezes, isso é um... Vínculo que ocorre entre pessoas em certas situações, embora possa ter acon­tecido alguma falha ética. Pacientes se apaixonam por seus médicos. Estudantes pelos professores. E fato provado que reféns sentem-se vinculados aos se­qüestradores, em graus diferentes. Como promotor, você sabe disso tão bem quanto eu. Passamos pela mesma experiência quando trabalhamos juntos, em Nova Orleans e, obviamente, seja o que for, ainda funciona da mesma maneira.

— Você está se enganando, Kat — Cullen afirmou, puxando o zíper da calça e lutando para abotoar a camisa.

— Kate — ela corrigiu, e emendou: — Não penso assim.

Ele meneou a cabeça.

— Você é Kat, a gata, não Kate. Kat, com a atitude retraída para desencorajar qualquer um de se apro­ximar. Kat, com pequenas garras afiadas que arra­nham quando se estendem. Como agora.

— Você se aproximou bastante...

— Fisicamente.

— E tudo o que você queria.

— É?

Kate o encarou, buscando esclarecimento. Ele não deixou transparecer nada, e Kate não conseguiu ler o que se ocultava naqueles olhos.

— O ponto principal é que não podemos deixar que isso continue. Não há razão.

— Pensei que a razão era óbvia — Cullen retrucou, enfiando a beirada da camisa para dentro da calça da melhor maneira que pôde. — Satisfação mútua.

— Não estou em busca do prazer pelo prazer — Kate corrigiu-o, erguendo o queixo. — E não acredito em gastar energia com causas perdidas. Acho que você também não.

Ele cruzou o espaço que os separava, colocou-se diretamente diante dela e plantou as mãos nos qua­dris. Surpreendentemente, a expressão em seu rosto era de curiosidade.

— E isso quer dizer?

Kate não conseguiu enfrentar o olhar de Cullen.

— Significa que nós dois sabemos que eu não sou seu tipo de mulher e, portanto, fica claro que isso nada mais é que luxúria passageira. — Ela ergueu o queixo, respirou fundo e passou a mão meio trê­mula nos cabelos. — Aconteceu, e não há sentido em ficarmos nos debatendo com isso. Porém, não permi­tir que aconteça de novo tornaria apenas a situação mais complicada e mais... volúvel. E uma distração da qual não preciso.

Cullen estendeu a mão em direção ao rosto de Ka­te e roçou o nó dos dedos pela linha de seu queixo.

— Você tem razão. Alguma coisa em tudo isso é volúvel e a luxúria faz parte daquilo que existe entre nós. Concordo que continuar — ele fez um gesto vago — seria uma distração. E sei exatamente o que sinto por você, Kat. Acredite em mim, saber não me faz gostar disso mais do que você.

Tomada de surpresa pela rude honestidade na voz de Cullen, Kate forçou-se a encará-lo e a fortalecer-se contra o poder daquele olhar.

— Então, você sabe que eu estou certa.

Seria tão fácil dar um passo em direção a ele, ela pensou. Tão fácil abraçá-lo e ficar aconchegada a ele e deixar os sentimentos em fúria transbordarem nu­ma explosão, tal como o conteúdo de uma garrafa de champanhe, depois de agitada.

— Isso precisa ser esclarecido — ele murmurou. — Mas, já que você não está em condições de discutir esse tipo de coisa no momento, acho que teremos de tratar disso em mais detalhes, mais tarde. Depois de pegarmos o canalha. — Cullen inclinou-se e roçou os lábios nos dela, num beijo gentil que repercutiu num frêmito delicioso pelas veias de Kate.

— Bons sonhos, Kat — murmurou, deixando-a lá, sozinha com seus pensamentos, mais sozinha do que ela se vira quando acordara e descobrira que ele a abandonara, sem um adeus.

 

O homem, na janela, ficou a observar Cullen McGyver e a ruiva a seu lado, num misto de interesse e ódio. Evidentemente, che­gara tarde demais para testemunhar o ápice daquele encontro, mas, mesmo assim, era evidente que Mc­Gyver tinha encontrado outra mulher. Ora, ora, e seu amor imorredouro pela falecida esposa? Não fora ele que proclamara ter ficado devastado com a sua morte, que fora um acidente, a ponto de mover céus e terras em busca de reparação? Como podia justi­ficar o que tinha acontecido ali, com aquela mulher de cabelos ruivos e pernas compridas?

Não importava. Pelo menos, ele sabia agora onde McGyver estava. Já podia ajustar seus planos com método. Colocá-los em ação. Em breve. Já que não podia ter a vida anterior de volta, e matar McGyver arruinaria qualquer chance de que isso ocorresse, ele, pelo menos, teria o consolo de saber que a vida de McGyver também se fora.

Cullen seguiu para o seu quarto, sabendo que dor­mir era impossível. Estava perturbado demais com o que tinha acontecido para mergulhar no esqueci­mento pelo qual ansiava. Talvez perturbado fosse uma palavra muito dura. Aborrecido não cabia bem, por outro lado. Surpreso. Espantado. Qualquer que fosse a palavra, estava surpreso com a intensidade de seus sentimentos crescentes para com Kate. E espantado que ela fosse capaz de colocar de lado o que tinha ocorrido, tão facilmente. Enfim, nenhuma palavra podia expressar o torvelinho de seus senti­mentos, sentimentos que eram tão fortes como ine­gáveis, algo que ele fora obrigado a encarar enquanto estavam no bar, na noite anterior.

Havia mais naquele vínculo do que a luxúria com que ela parecia tão ansiosa em rotular a relação. Ele se tornava cada vez mais envolvido com as outras facetas da personalidade de Kate, com a mulher com­plexa que era ela... Existiam outras razões. O traba­lho que ela um dia exercera e a traumática expe­riência pela qual passara com seu antigo parceiro tinham contribuído à capacidade de Kate para re­cuar e examinar uma situação com mais clareza, pa­ra compartimentar as coisas que aconteciam a ela. Havia poucas dúvidas, na mente de Cullen, de que o trabalho a tinha endurecido, dando a ela uma acuidade sobre as pessoas e as coisas que a maioria das mulheres não tinha, mas não a ponto de extirpar-lhe a feminilidade. Não. A obstinação, em Kat, era mais uma tenacidade mental do que rudeza ou uma ati­tude grosseira.

A despeito das diferenças de vivência e educação, a despeito do que ele pudesse ou não pudesse querer,

Cullen tinha que se curvar ao fato de que desejo, curiosidade e admiração eram parte de uma emoção mais complicada, o amor. Ele a amava.

A voz interior murmurara a verdade da qual sus­peitava desde que a vira pela primeira vez. Suas lembranças de Joanie, um dia tão vibrantes e claras, haviam fenecido em freqüência e energia durante os dois anos passados. Ele sabia que o suavizar de seu sofrimento e o empalidecer de suas recordações eram o curso natural dos acontecimentos. O homem não foi feito para ficar de luto para sempre. Encontrar o amor era uma boa coisa, se pudesse convencer Kate de que aquilo que ele sentia era verdadeiro...

Só é bom se ela se sentir do mesmo jeito.

Será que sentia? Seria a sua insistência de falar que aquilo que haviam compartilhado era apenas desejo um discurso verdadeiro, ou era um jeito de resguardar o coração? Embora ela parecesse confian­te a respeito de sua capacidade de executar o serviço quando ele a contratara, Kate era bem menos segura em seu papel como mulher. Graças, sem dúvida, ao ex-marido que a abandonara. Quando fosse o mo­mento certo, ele faria o melhor para convencê-la de que poderiam ser felizes, juntos. O momento, porém, não era aquele. Até que tivessem trancafiado a pes­soa que tentara matá-lo, ele devia controlar o tempo e ver se podia conduzir melhor as coisas para des­cobrir o que Kate sentia.

Estava entrando no chuveiro quando percebeu que não tinha usado qualquer proteção, quando fizera amor com Kate. Praguejou alto. Onde estava com a cabeça? Este era o problema. Não pensara, só sen­tira. Sentiu-se furioso consigo mesmo e, de repente, seus pensamentos desviaram-se de Kate e recaíram sobre Lucy Lambert e o filho.

Praguejou mais uma vez. Tinha sido cuidadoso com Lucy. Rezava para que o menino não fosse seu filho, não porque não quisesse a responsabilidade ou porque isso pudesse diminuir sua imagem aos olhos do público, mas porque era uma situação que cau­sava sofrimento a todos os envolvidos, especialmente Tyler.

Cullen acreditava, veementemente, que as pessoas deviam responder com responsabilidade por suas ações. Porém, uma aventura de fim de semana seria difícil de explicar a uma criança, se chegasse o mo­mento de Tyler saber a verdade. E esse tempo che­garia, sem dúvida.

E quanto a Kate?

Kate era diferente, ele pensou, seus pensamentos fechando o círculo completo. Se acontecesse de ficar grávida, então ele faria a coisa certa. De qualquer maneira, tinha plena certeza de querer fazer a coisa certa. O problema era convencê-la de que ele se im­portava, fazê-la acreditar que mesmo que ela não fosse como as mulheres que ele normalmente namo­rava, era ela a mulher que ele queria.

Depois de uma noite mal dormida, Cullen acordou cansado e dolorido. Determinado, expulsou Kate da mente, decidido a concentrar-se no telefonema para Lucy Lambert. Desceu as escadas e encontrou a cozinha deserta. Já que a noite anterior fora de festa, Greg só viria bem mais tarde, e Louella tinha se oferecido para fazer o café. Sentindo necessidade de cafeína, Cullen ligou a cafeteira. Gostava de ser ser­vido, mas aprendera a arranjar-se sozinho.

Greg, sob a alegação de que não havia nada a fazer em sua casa, surgiu logo depois que o líquido come­çou a escorrer pelo coador. Graças a Deus, trazia o jornal debaixo do braço. Os outros adultos desceram logo depois. Meghan, fazendo uma careta bem-humo­rada, comentou que as garotas provavelmente dor­miriam até o meio-dia.

Cullen notou que Kate tinha uma aparência fresca e descansada em sua calça caqui e com aquele pulôver bordo tricotado, como se não tivesse tido pro­blema algum em dormir depois daquele romântico episódio na sala de ginástica. Ele correu um olhar demorado por aquelas longas pernas e os quadris bem modelados, recordando-se do toque daquela pele sob seus dedos, firme e maleável, e dos seios ma­cios... da boca.

Por mais que tentasse atrair-lhe o olhar, Kate re­cusou-se a fitá-lo. E se acontecia de ele pegá-la espiando-o de soslaio, ela desviava os olhos, mais que depressa. Cullen sentiu que sua irritação aumenta­va. Eram adultos. Deviam ser capazes de falar sobre o que tinha acontecido, aceitar a situação ou supe­rá-la, se decidissem que aquilo não os levaria a lugar algum. E essa era uma perspectiva que Cullen des­cobrira ser totalmente inaceitável.

Talvez Kate tivesse dito tudo o que tinha a dizer sobre a questão na noite anterior. Quem sabe seu jeito de lidar com aquilo fosse ignorar o acontecido. Quem sabe fosse essa a melhor atitude, já que, no momento, a coisa mais importante era chegar ao fun­do do enigma e descobrir quem era o potencial as­sassino. Só depois ele poderia pensar em tocar a vida para a frente, concentrar-se em Kate.

As conversas em torno do café da manhã eram genéricas, e Cullen mal participou delas. Tão logo terminou de comer, pediu licença e rumou para a biblioteca, ansioso para entrar em contato com Lucy, aflito para colocar um fim naquela charada e seguir com a vida.

Estava remexendo os papéis sobre a mesa, quando Kate entrou pela porta.

Irritado com a habilidade dela em agir com tanta calma, quando, só de olhar para ela, ele quase ex­plodia de desejo, Cullen lançou-lhe um olhar zanga­do e continuou com a atenção presa ao que estava fazendo.

— Você se importa de fechar a porta?

— Eu iria embora, se pudesse — ela retrucou, de volta. — Que bicho te mordeu?

Você.

— Nenhum. — As palavras saíram como um rosnado. Ele ergueu o olhar furioso e encarou-a. — Ape­nas me sinto doente de ser mantido refém de algum idiota com um machado pronto para desferir o golpe.

As sobrancelhas de Kate se arquearam, e ela di­rigiu-lhe um sorriso enviesado.

— Não é uma boa analogia, Excelência.

Mesmo sem querer, ele não conseguiu deixar de sorrir.

— Vou telefonar a Lucy. Por que não escuta na extensão?

— Boa idéia — disse Kate.

Cullen tirou um pedaço de papel do bolso e discou o número. Uma mulher atendeu, no terceiro toque. Ele reconheceu-lhe a voz.

— Lucy? É Cullen McGyver.

— Cullen! — exclamou ela, numa voz que era um pouco mais que um suspiro. — Como me encontrou?

— O nome de seu pai estava em meu identificador de chamadas.

Ouviu que ela suspirava.

— O que você quer?

— O que eu quero? — ele repetiu. — Quero saber por que está fazendo isso comigo.

— Só um minuto — ela murmurou. Ele ouviu um pequeno estalido e o som de uma porta se fechando. Em seguida, um rangido, quando ela apanhou o re­ceptor, novamente. — Fazendo o quê?

— Primeiro de tudo, quero saber por que você con­tou a Dub sobre mim.

— Dub lhe disse o porquê — retrucou Lucy. — Quando Tyler ficou doente e precisou fazer exames no hospital, seu tipo sangüíneo não era igual ao nos­so, então fui obrigada a contar a ele sobre mim e você. Dub... — ela hesitou. — Dub não ficou nada feliz ao saber que eu o enganara e usara a gravidez para forçá-lo a se casar comigo.

— Imagino que não. Mas, isso ainda não explica por que você disse a ele que Tyler é meu filho.

— Eu tinha que dizer alguma coisa. Dar algum nome... — a voz de Lucy soou nervosa, apavorada.

— Então, apontou o meu — ele constatou.

— Claro que eu não apontei o seu, simplesmente! — Lucy gritou, alterada. — A menos que tenha se esquecido, há uma boa chance de Tyler ser seu filho.

— Não me esqueci de nada — Cullen respondeu no mesmo tom, exaltado.

— Eu certamente não me esqueci de que tomei precauções.

— Sim, muito bem, precauções nem sempre fun­cionam. — Uma amargura indisfarçável modulava a voz de Lucy.

Cullen descansou o cotovelo na mesa, passou a mão no rosto e deixou que as palavras penetrassem em sua mente, tentando sem êxito encontrar um jei­to de pôr um ponto final àquele pesadelo. Da manei­ra que as coisas caminhavam, ele não chegaria a lugar algum. De súbito, sentou-se, empertigado.

— Você disse que teve de dar o nome de alguém ao Dub, certo?

— O quê? — perguntou Lucy, num tom cauteloso.

— Você disse que havia uma chance de Tyler ser meu filho... — Cullen olhou para Kate, que estava ouvindo e observando tudo, com cuidado.

— Sim. — Houve uma hesitação na voz de Lucy... quase uma interrogação.

— Quem mais poderia ser o pai, Lucy?

— O-o que quer dizer com isso?

— Você disse que tinha que dar um nome ao Dub

— Cullen repetiu, na esperança que sua insinuação pudesse calar fundo. — Disse que eu podia ser o pai.

Mas, se você não estava saindo com ninguém, a não ser comigo, saberia disso com certeza, não é? É essa a razão para que eu apenas pudesse ser o pai de Tyler? É porque havia mais alguém, alguém que vo­cê não contou ao Dub, não é mesmo?

— Não! — ela gritou, mas ele percebeu a verdade naquela negativa.

— Está mentindo, Lucy. — A voz de Cullen exibia uma súbita certeza. — Houve alguém além de mim enquanto você e Dub estavam separados. Quem é, Lucy?

— Ninguém!

— Fale.

Ele ouviu-a soluçar e captou o desespero em sua voz.

— Não importa, não é? O que conta é que Dub quase acabou comigo quando descobriu a seu respei­to. O que acha que ele faria se soubesse que havia um outro homem, também?

O estômago de Cullen revirou-se ao imaginar Dub, com seus cem quilos, batendo em Lucy, cujo peso era metade disso, se tanto.

— É disso que você tem medo?

— Você não teria? — ela gritou, em meio aos so­luços.

Cullen exalou um suspiro pesado.

— Compreendo seu dilema, Lucy, e não quero tor­nar as coisas mais difíceis do que já são. O que você deve fazer é contar a Dub sobre o outro e entrar com um pedido de restrição contra ele, se achar ne­cessário.

— Você sabe tão bem quanto eu que essas coisas não valem o papel em que estão escritas se alguém como Dub quiser se vingar.

— Se ele tentar machucá-la de novo, providencia­rei para que você tenha a melhor representação no tribunal que o dinheiro possa comprar.

— Não posso. — Havia um pavor verdadeiro em sua voz.

— Você precisa, Lucy. Tente entender minha po­sição. Você está ameaçando levar-me ao tribunal para...

— Eu, não! Dub.

— Tudo bem — disse Cullen, em tom conciliatório. — Dub está querendo me levar às barras do tribunal para tentar extorquir dinheiro em nome da criança de quem provavelmente eu não sou o pai. Pelo recado que você me deixou, na secretária eletrônica, tive a impressão de que se eu enfrentar a situação, você irá aos jornais para que façam a festa.

— Não! — ela gritou. — Você me conhece bem e sabe que eu não seria capaz. Isso é idéia de Dub. Só telefonei para tentar avisá-lo do que ele planejava fazer.

Kate tinha razão.

— Tudo bem. Considere-me avisado. E considere minha decisão tomada.

Não havia como ignorar a firmeza em sua voz.

— O-o que vai fazer?

— Um teste de DNA para descobrir de uma vez por todas se sou o pai de Tyler. Espero que você coopere comigo, fornecendo uma amostra de sangue do menino.

— E se eu não der?

— Por que não? — perguntou Cullen, seu tempe­ramento a ponto de atingir o limite da paciência. — Não quer saber a verdade para sua própria paz de espírito?

— Sim... — ela murmurou, num dolorido soluço. — Quero. Mas não quero que Dub descubra que hou­ve mais alguém. Ele poderia me perdoar por uma aventura... Mas, duas? Não quero que ele pense que fico saindo com todo homem que aparece na minha frente...

Cullen não podia acreditar no que estava ouvindo. Mesmo depois de colocar homens como Dub Lambert atrás das grades, por tanto tempo, mesmo depois de ouvir durante anos as história de mágoas e sofri­mento de mulheres alquebradas, nunca deixava de se surpreender como, com inusitada freqüência, elas valorizavam e defendiam seus agressores.

— Lucy. Escute. Você disse que deixou o sujeito. A menos que esteja pensando em voltar, por que iria se importar com o que ele pensa de você? Acabou de me contar que ele bateu em você. E apenas uma questão de tempo até que ele comece a fazer a mes­ma coisa com Tyler. É isso que você quer?

Ela estava chorando, agora. O terror era evidente em sua voz.

— Não! Nada disso é culpa dele.

— Então, me ajude — pediu Cullen, com a sua voz mais convincente. — Vamos descobrir a verdade juntos. Se o menino é meu, ficarei feliz em pagar uma pensão. Se não for, então, ambos estaremos melhor, sabendo. E se Dub causar qualquer problema, eu, pessoalmente, a ajudarei a ir para algum lugar onde possa começar de novo. Droga, eu a ajudarei, de qualquer jeito.

— Por que faria isso por mim?

— Porque sei que você é uma grande mulher, não tem de se envergonhar de nada. Algumas vezes fa­zemos coisas levados pelo desespero, sofrimento, so­lidão, que não faríamos em circunstâncias normais.

Quando o choro transformou-se em soluços entrecortados, Cullen conseguiu marcar uma hora, na se­mana seguinte, para encontrá-la e providenciar o teste. Avisou-a para contar aos pais sobre o que es­tava acontecendo e para que fizesse tudo para não ficar sozinha com Dub.

— Mais uma coisa — disse, quando já ia desligar.

— Sim?

— Você sabe que Dub foi até minha casa e me ameaçou.

— Sim. Eu tentei impedi-lo, mas ele não me ouviu.

— Acha que ele seria capaz de fazer alguma coisa a mais?

— Alguma coisa a mais? Como o quê?

— Tentar me matar.

Ele ouviu uma inalação profunda.

— Por que pergunta uma coisas dessas?

— Estou apenas tentando fazer uma imagem clara daquilo que estou enfrentando — tentou desconver­sar Cullen.

— Espere... — pediu Lucy, uma nota de compreen­são crepitando em sua voz.

— Você recebeu um tiro.

Ouvi a respeito, no noticiário. Agora, estão dizendo que não foi acidente. Está me perguntando se eu acho que possa ter sido Dub?

— Sim.

Lucy não respondeu de imediato.

— Dub é um valentão e gosta de cantar bravatas — disse ela, por fim. — É baixo e o tipo do sujeito que parece não levar desaforo para casa, mas só cai sobre aqueles que não podem revidar. Mas, matar alguém? Acho que não. Ele é covarde demais para tanto.

Quando Cullen despediu-se, teve de admitir que os sentimentos de Lucy, com relação a Dub, o faziam sentir-se melhor. Mas, apenas ligeiramente. Depois que Lucy desligou, ele ouviu outro clique e Kate en­trou na sala, com uma expressão pensativa. Cullen colocou o receptor no gancho.

— E então?

Ela fez um gesto evasivo.

— Acho que ela é a melhor pessoa para julgar a reação dele em determinada situação. Claro, a gente se engana todo santo-dia com relação às pessoas que acha que conhece bem.

— Verdade.

— Fico contente que tenha decidido fazer o teste de DNA. E creio que você também ficará.

— Também acho — concordou Cullen. Kate diri­giu-se à porta e ele a chamou:

— Aonde vai?

Ela voltou-se e correu a mão por aqueles cabelos maravilhosos, que, por alguma razão, deixara soltos.

— Já que temos a parada de Natal, amanhã à noite, vou sair para praticar um pouco de tiro, para o caso de precisar. Não saia de casa até eu voltar.

Ele curvou-se, num sinal de obediência.

— Sim, senhora.

— Me poupe de sua ironia, Excelência. Estava na defensiva, as garras de fora.

— Kat? — ele chamou, usando o apelido de pro­pósito.

Ela o fitou por sobre o ombro, as sobrancelhas cer­radas, numa interrogação. Estava mais corada do que o normal?

— Sim?

— Você está maravilhosa, hoje. Gosto do jeito que esse jeans fica em você.

Ela voltou-se para encará-lo, a raiva faiscando em seus olhos.

— Pare com isso!

— Parar com o quê?

— Pare de tentar me lembrar da noite passada, pro­curando me perturbar com insinuações provocantes.

Ele levantou-se e deu a volta à mesa, cruzou a sala e parou a um passo dela. Kate recuou até cho­car-se contra a porta, como se tivesse medo de que ele a tocasse.

— É isso o que estou fazendo? — ele perguntou, com a voz inocente.

— Sabe que é!

Ignorando a dor em seu ombro, Cullen colocou a palma das mãos contra a porta, cercando-a e aprisionando-a entre a madeira e seu corpo.

— Aconteceu, Kate — murmurou, num tom suave. — E eu tenho as marcas das unhas em minhas cos­tas para provar. Fingir estar brava não vai adiantar, por isso eu sugiro que você aceite isso pelo que foi, ou supere.

— Não estou fingindo que estou brava. Estou bra­va. Estou furiosa comigo mesma por ter deixado que isso acontecesse.

— Deixado que acontecesse? Se meu senso de me­mória não falha, você assumiu a liderança depois de um certo ponto.

Não havia nada que ela pudesse dizer quanto a isso. Nenhuma maneira de negar. Satisfeito de ter feito seu ponto, ele deixou as mãos penderem ao lado do corpo e afastou-se.

— Faça um bom treino — murmurou, voltando-se e caminhando para a es­crivaninha.

— E o que foi aquilo?

A voz dela o parou no meio do caminho. Cullen voltou-se, franzindo a testa.

— O que foi o quê?

— Você disse que eu devo aceitar o que aconteceu pelo que foi. O quê, exatamente, foi aquilo?

Para você? Embora as palavras não fossem ditas, era aonde ela queria chegar. O que aquilo havia sig­nificado para ele?

Cullen deixou que seu olhar a medisse de cima em baixo, numa preguiçosa apreciação, demorando-se naqueles lábios, antes de fitá-la nos olhos. Sabia exatamente o que aquilo fora, mas não tinha vonta­de de entregar a ela o coração, de bandeja, quando sabia que Kate ainda estava muito distante de po­der aceitá-lo.

— Eu mesmo ainda estou tentando descobrir — mentiu. — Informarei, quando souber.

Kate dirigiu até a pedreira abandonada e arrumou os alvos entre as rochas, praguejando contra Cullen e xingando a si mesma. Se pensava que a luz do dia fosse banir a sensação que a invadira de ser uma completa idiota, por ter cedido aos impulsos eróticos que os beijos de Cullen haviam acendido, dentro de­la, estava redondamente enganada. Na verdade, a fria crueza do sol tinha ressuscitado as lembranças que ela tentara com esforço suprimir durante à noi­te. Ensaboando o corpo no chuveiro, sentira os ter­minais nervosos eriçarem-se de excitação, durante o banho.

Havia uma diferença em seu rosto no espelho, tam­bém. Uma suave satisfação nos olhos, um ligeiro afrouxamento na linha dos ombros e do queixo. Não tinha mais a aparência de quem está brigado com o mundo, com um peso nas costas. Parecia uma mu­lher que era verdadeiramente amada... uma mulher enamorada.

E detestou-se, por isso.

Os dois não tinham um futuro comum pela frente, e ambos sabiam disso. Fazer amor com Cullen po­deria ter posto em risco sua capacidade em protegê-lo. A percepção de que, quando estavam juntos, ela se tornava mais consciente da presença dele do que do ambiente que os rodeava a deixava com uma sen­sação de vulnerabilidade, algo que detestava, acima de tudo. Não teria como superar se alguma coisa acontecesse a Cullen quando era de se supor que ela o mantivesse em segurança. E seria uma imensa per­da para o povo do Estado e para a Lei que ele assu­mira a missão de fazer cumprir.

Trabalhando com sua tia na lista de suspeitos e conversando com Meghan e Greg, Kate aprendera a conhecer mais a respeito de Cullen McGyver. Ele lu­tava pelos casos que representava com diligência e fervor. Era um advogado empenhado em ajudar mu­lheres maltratadas e um defensor dos direitos huma­nos, assim como um sentenciador implacável dos pre­dadores sexuais. Queria um meio ambiente mais lim­po e acreditava que poderia combater as fraudes con­tra a previdência social e os seguros. Era um homem que se empenhava ao máximo em cada caso que as­sumia. Ouvia. Aprendia. Sua preocupação era genuí­na, e sua honestidade, acima de qualquer suspeita.

Em resumo, ele daria um maravilhoso senador da República, um homem que, a despeito de sua atual situação com Lucy, era decente, com altos padrões morais. Contudo, não era perfeito. Cometia erros. Quem não os comete? A aventura com Lucy, que acon­tecera antes de os dois estarem casados, provocaria apenas um arranhão em sua integridade, perante os olhos da opinião pública. Um filho ilegítimo já era outra coisa. Kate receava a repercussão se o teste de DNA comprovasse que Tyler Lambert era filho de Cullen, embora sentisse que de alguma forma se­ria melhor que ele descobrisse a verdade sobre a pa­ternidade do menino.

Embora não houvessem avançado muito quanto à presente situação, Kate sentia que haviam feito progressos. Se pudesse eliminar Dub da lista de suspei­tos, ficaria mais tranqüila em proteger Cullen, quan­do fosse estrear como namorada dele, na cidade... Isso, se ele a deixasse fazer o seu trabalho.

Kate suspirou. Quanto mais tempo ficasse ali, mais complicadas ficariam as coisas. Longe de arrancá-lo de suas entranhas, a noite anterior tinha apenas agu­çado o seu apetite. O de Cullen também, se ela podia ser juiz de alguma coisa. Estar com ele, dia após dia, só faria aumentar a fome de seu desejo e adicionar complexidade à situação. E isso a obrigaria a tentar descobrir com mais empenho uma maneira de tirar o assassino da toca para que ela pudesse capturá-lo. Então, voltaria para sua previsível, monótona e te­diosa vida em Nova Orleans. E buscaria aprender a viver sem Cullen McGyver.

Bufando de frustração, ela ergueu a pistola, fir­mou a mira com o outro braço e descarregou a arma nos alvos. Pelo canto dos olhos, viu os potrinhos le­vantarem a cabeça, como tinham feito da outra vez, para depois saltarem de medo e saírem a galope pela pastagem, como se estivessem sendo caçados por demônios.

Que pena. Detestava perturbá-los, mas era preciso praticar, se queria estar preparada. Só podia nutrir a esperança que os animais se acostumassem com isso. Voltou-se e viu que se aproximavam da cerca, em disparada. Quase todos estacaram, relinchando, menos um, uma potranca baia, que se chocou contra a tábua da cerca, arrebentando-a e fazendo os peda­ços voar pelos ares. Tropeçou, caindo de ponta-cabeça. Levantou-se, quase de imediato, mas, mesmo de onde estava, Kate pôde ver que o animal mancava visivelmente.

Travando a arma e colocando-a no coldre, Kate correu para o jipe que emprestara para ir à pedreira. Tinha de contar a Cullen o que tinha acontecido, para que ele mandasse cuidar do animal e consertar a cerca, antes que todos os outros cavalos fugissem. Cobriu a distância até a casa em questão de minutos, parando perto da porta da cozinha. Desligou o motor e entrou correndo. Esperando deparar-se com Greg, Kate surpreendeu-se ao encontrar Dan procurando alguma coisa na geladeira.

— Onde está todo mundo? — perguntou.

— Greg levou Louella para conhecer sua casa, e Meghan e as meninas foram ao supermercado — dis­se Dan, franzindo a testa. — O que foi?

— Eu estava na velha pedreira praticando tiro ao alvo — respondeu Kate, sem fôlego. — Os disparos assustaram os potros e um deles arrebentou a cerca. Está mancando feio.

Dan fechou a geladeira e pensou um instante.

— Sam, o rapaz que cuida dos cavalos para Meg está fora, até segunda-feira. Vá contar ao Cullen e diga que chame o veterinário enquanto eu pego al­guns laços, pregos e um martelo no celeiro. Encon­tre-me na minha caminhonete.

Kate correu para o corredor, parou e voltou-se.

— Você entende alguma coisa de cavalos?

— Não muito. O que sei é que com as costelas quebradas e o ombro ferido, Cullen será ainda mais inútil do que eu.

Kate encontrou Cullen na biblioteca, com diversos livros jurídicos espalhados pela escrivaninha. Devia estar fazendo alguma pesquisa para o julgamento do caso Jones, que se aproximava.

— Chame o veterinário! — ela exclamou, sem preâmbulos. — Uma das potrancas se machucou na cerca.

Cullen não perdeu tempo. Pegou a lista e ligou para o veterinário mais próximo. Uma voz masculina atendeu e Cullen explicou o que havia acontecido. O homem identificou-se como o assistente do veteriná­rio e disse que, felizmente, o doutor acabara de che­gar de outro atendimento e iria até a fazenda assim que possível. Cullen deu as indicações para que ele pudesse chegar à pedreira, desligou e seguiu atrás de Kate, para a caminhonete.

Quando Cullen, Dan e Kate chegaram ao local, ape­nas um outro animal havia passado pelo buraco da cerca. Os demais potros pastavam tranqüilamente.

Dan estendeu um dos laços para Kate.

— O que eu faço com isso? — ela perguntou, olhan­do para o laço e meneando a cabeça.

— A égua castanha parece bem dócil — disse Cul­len. — Veja se pode chegar bem perto e segurá-la pela crina e, depois, passe o laço em seu pescoço. Dan e eu tentaremos pegar o baio.

— E se ela tentar fugir? — perguntou Kate, pe­gando o laço.

— Solte a corda ou vai machucar seriamente as mãos.

Para surpresa de Kate, a égua era tão dócil quanto parecia. Não se assustou com sua aproximação, em­bora a fitasse com cautela. Apenas jogou a cabeça para o alto, relinchando, uma ou duas vezes, quando Kate segurou-a pela crina e passou-lhe o laço pelo pescoço. Fora disso, a captura foi tranqüila.

— E agora? — ela gritou.

Cullen, que ficara de cócoras para examinar as pernas do animal, ergueu os olhos com um sorriso.

— Leve-a de volta para o pasto. Ela passou por aquele buraco ali.

— E se ela tentar escapar de novo? — perguntou Kate, olhando para a abertura na cerca.

— Fique parada por perto e não deixe — disse Dan. — Quando eu pegar o baio, pregarei as tábuas para segurá-las até que Sam volte ao trabalho.

Suspirando, Kate puxou a égua para o pasto atra­vés da abertura da cerca. Se seus velhos companhei­ros da polícia pudessem vê-la, naquele instante...

— Ela se machucou muito? — perguntou, depois de soltar o animal.

— Tem um corte bem profundo no peito e um rasgo feio até o osso na canela direita, mas nada parece quebrado — disse Cullen. — Ela vai ficar bem.

Ficaram a observar a potranca pastar enquanto esperavam a chegada do veterinário. Finalmente, o ruído de um carro se aproximando chamou-lhes a atenção. Instantes depois, uma picape vermelha pa­rava atrás da caminhonete de Dan. Dois homens desceram, um alto e de cabelos ondulados, o outro de barba, com jeito humilde e com um boné de bei­sebol na cabeça. O homem alto, obviamente o veterinário, seguiu direto na direção da potranca ferida, enquanto o assistente se dirigia para a traseira do veículo, abrindo o porta-malas para pegar o equipa­mento necessário.

— É um prazer conhecê-lo, sr. McGyver — disse o homem alto, estendendo a mão para Cullen. — Sou Mark Johnson, o novo veterinário. — Em seguida, cumprimentou Dan e Kate, que se apresentaram. En­tão, apontou com a cabeça para o outro homem, ao lado da picape. — Aquele é Kenny, meu assistente.

Kenny, aparentemente absorto em sua tarefa, li­mitou-se a acenar. Feitas as apresentações, o vete­rinário aproximou-se para examinar a égua, fazendo Dan puxá-la para que pudesse observar-lhe a mar­cha e, em seguida, avaliou a ferida no peito para verificar a profundidade do corte. Kate, que já con­vivera com sua parcela de sangue em seu trabalho na polícia, mas que não conseguia tolerar o sofri­mento de qualquer animal, recuou, feliz por poder deixar os homens assumirem o problema.

— Vamos precisar dar uns pontos, Kenny — o ve­terinário gritou para o assistente.

— Pegue um pou­co de anestésico local só para o caso de ela ficar agi­tada e dar coices.

O assistente aproximou-se, pegou o laço das mãos de Dan e passou para o outro lado, interpondo a po­tranca entre si e os três outros homens. Dan e Cullen saíram do caminho.

— Podemos tentar consertar a cerca enquanto vo­cês trabalham — sugeriu Dan, voltando-se para o cunhado. — Pegue o martelo lá na caminhonete e eu verei o que podemos fazer com o resto daquelas tábuas.

— Boa idéia — disse Cullen, se dirigindo para o veículo.

— Aqui está o anestésico. — Enquanto falava, Kenny estendeu a seringa e uma mecha de algodão molhada de álcool.

O veterinário limpou o pescoço da potranca, pres­sionou o local com o polegar e, com um movimento experiente, enfiou a seringa na veia. Segundos de­pois, retirava a agulha e passava o algodão no local da picada.

O animal, atento aos movimentos de Kenny, que lhe cocava o focinho e embaixo das orelhas, mal pa­receu perceber a espetadela.

Sorrindo, Kate voltou o olhar para Cullen e Dan, que trabalhavam a poucos metros dali.

— A tábua precisa ser trocada — disse Dan. — Podemos pregar os pedaços, mas vai ficar mais baixa do que as outras. Mas isso deve segurar, até Sam vir aqui.

— Com o que temos, não dá para fazer melhor — concordou Cullen.

Parecia que tudo estava sob controle, pensou Kate, voltando a atenção para a potranca. O veterinário injetava o anestésico local em torno da ferida do pei­to, que sangrava. Fosse pelo temperamento, fosse pela ação do medicamento, o animal continuava tran­qüilo e imóvel.

Pensando o quanto o veterinário parecia compe­tente, Kate desviou o olhar para seu assistente. Kenny tinha a atenção dirigida aos dois homens, na cer­ca. E Kate, de repente, surpreendeu-se com a hosti­lidade que viu naqueles olhos. De imediato, sentiu os músculos se retesarem, em alerta.

— Kenny — disse o veterinário, erguendo os olhos. — Preciso lavar este corte antes de suturar a ferida. Traga tudo o que precisaremos e um antibiótico.

— Certo, doutor — disse o assistente, num tom educado, entregando o laço ao veterinário e dirigin­do-se para a picape.

Devia ter sido uma ilusão de ótica ou sua imagi­nação, pensou Kate. Não havia absolutamente nada nas maneiras do assistente que pudessem sugerir alguma coisa, além de uma atitude retraída. Quan­do ele passou, a poucos passos de distância, baixou a cabeça, tocou a aba do boné e esboçou um meio sorriso.

O desconforto de Kate diminuiu e ela retribuiu o sorriso. Sua preocupação com a segurança de Cullen a estava deixando estressada. Saber que teriam de sair em público, em breve, abalara seus nervos mais do que havia percebido. Começava a imaginar fan­tasmas, saltar em sombras, enxergar coisas onde não havia nada. Coitado do assistente. Era apenas um sujeito tímido.

 

O sábado chegou, último dia que a fa­mília de Meghan passaria na fazenda. Era também a noite da parada de Natal de Barnesville, da qual Cullen seria o apresentador. A tarde caiu depressa, fria, cortante e calma. Louella, Kate, Greg e Cullen seguiram para a cidade no carro de Greg. Dan levou a família.

As estrelas faiscavam no céu, brilhantes como pon­tos de luz refletindo-se na neve, nada que se com­parasse à profusão de luzes pisca-pisca que adorna­vam cada árvore, janela e porta da rua principal. Ou ao sorriso das crianças que esperavam a visita do Papai Noel.

Kate postou-se ao lado de Cullen que, como mestre-de-cerimônias e a personalidade local de sucesso, além de possível senador da República, estava de pé no palanque principal, acompanhado dos juízes que iriam decidir qual seria o carro alegórico vencedor. A equipe da estação de tevê comunitária também estava ali, preparada para transmitir a parada para os lares em todo o condado.

Cullen era bom nessas coisas e conversava com desenvoltura com o repórter da tevê e a repre­sentante da Câmara de Comércio. Brincava, esban­jando charme, e parecia ter uma bagagem imensa de conhecimento acerca das paradas anteriores e das atividades sociais dos clubes locais e organizações cívicas.

Ao lado dele, Kate ficou em alerta o tempo inteiro, esquadrinhando a multidão, procurando por alguém que parecesse deslocado, com uma atitude ou postura inadequada ou suspeita. Felizmente, o desfile todo não durou mais de quarenta e cinco minutos e, assim como Cullen havia predito, não houve incidentes.

Quando tudo terminou, decidiram ir até um pe­queno café e tomar chocolate quente antes de volta­rem à fazenda. Cullen e Kate já tinham tirado seus casacos e estavam consultando o cardápio quando Meghan e a família entraram, fazendo os sininhos da porta tilintarem.

— Vocês jamais vão adivinhar quem acabei de ver! — Meghan comentou, com um sorriso luminoso, ao chegar, antes dos demais, à mesa.

— É provável que não — disse Cullen.

— Grady Holmes. — Voltou-se para Kate. — Grady é um antigo amigo da faculdade.

— Um antigo namorado da faculdade — corrigiu Dan.

— Oh, não precisa ficar com ciúme, bonitão — retrucou Meghan, soprando-lhe um beijo. — Você sa­be que é o único homem no mundo para mim.

— Sei, sei... — Dan fez cara de zangado, mas o brilho dos seus era zombeteiro.

— Então, o que Grady está fazendo aqui? Não es­tava advogando em Dallas? — perguntou Cullen.

— Está — confirmou Meghan, enquanto Dan a ajudava a tirar o casaco. — Veio passar o feriado de Ação de Graças e não vai embora a não ser amanhã. Perguntou de você. Acha que é ótimo que pense em concorrer para o Senado.

— Acho incrível que tanta gente esteja convencida de que serei um bom senador, quando nem mesmo me decidi se entro na disputa ou não.

— Quer dizer que ainda não sabe se vai concorrer? — perguntou Kate.

— Isso mesmo. Tenho pensado bastante, mas não tomei a decisão final. Ir para Washington significa­ria uma porção de mudanças em minha vida.

— E você não gosta de mudanças, não é? — per­guntou Dan.

— Depende do tipo de mudança de que está fa­lando — retrucou Cullen. — Há algumas que eu acho que tornariam minha vida melhor, diferentes dessa que me aconteceu com alguém tentando me matar. No geral, estou plenamente satisfeito com o status quo.

— Você é muito bom naquilo que faz — comentou Meghan. — E está mobilizando o Estado.

Cullen sorriu.

— Falando como uma verdadeira irmã.

— Bem, é verdade.

— A garçonete vem aí — avisou Dan. — O que vão querer?

— Acho que um café e um pedaço de torta de nozes — disse Meghan.

— Parece bom — concordou Kate. — Também vou querer.

A garçonete aproximou-se e todos fizeram seus pe­didos. Conversavam sobre a parada, quando Meghan murmurou, com um ar estranho:

— Ah... Vocês não vão adivinhar quem mais eu vi. Pelo menos, acho que era ele.

— Estou cansado de adivinhações — brincou Cullen.

— Quem?

— Kent Carlson.

O nome pairou no ar como uma nuvem de mos­quitos sobre um pântano. Até Lindsay e Marley pa­raram de conversar.

— O que é que eu estou perdendo aqui? — per­guntou Kate, percebendo o ambiente tenso e corren­do os olhos de um para outro, na mesa. — Quem é Kent Carlson?

— Kent Carlson é o homem que matou Joanie — disse Cullen, num tom enfezado.

O silêncio desabou sobre a mesa.

Felizmente, ape­nas por alguns segundos, até que a garçonete trou­xesse as bebidas e os doces. Logo, a conversa reco­meçou, porém sem muito entusiasmo. Gradualmen­te, adquiriu mais vida, mas nada que revertesse à anterior descontração. Quando terminaram de co­mer, todos concordaram que estavam exaustos, mas que a noite tinha sido ótima e o feriado, excelente. Meghan lamentou que tivesse de ir embora, no dia seguinte.

Vinte minutos mais tarde, estavam na fazenda. Greg despediu-se, dizendo que voltaria bem cedo, pela manhã, e seguiu para casa, sem descer do carro. O grupo de sete, os Longstreets, Cullen, Kate e Louel­la, entraram na casa, tirando casacos, chapéus e lu­vas. Louella seguiu direto para as escadas, alegando que queria terminar de ler um livro. As garotas e os pais foram para a sala, ver televisão. Cullen foi ve­rificar os recados, na secretária eletrônica.

Preocupada com aquele evidente desgaste diante da menção do nome de Kent Carlson, Kate parou ao pé da escada, indecisa por um momento. Decidiu, então, procurar Meghan, que fora até a cozinha para tomar um remédio para dor de cabeça.

Meghan engolia o comprimido quando Kate che­gou à porta.

— Detesto aborrecê-la, mas quero conversar com você a respeito da reação de Cullen ao nome de... Kent, é isso? — disse Kate.

— Sim, Kent — concordou Meghan. — Kent Carl­son. Eu deveria ter pensado que isso iria aborrecê-lo. Não devia ter aberto a boca, especialmente quando nem tenho certeza se era ele.

— Cullen ainda é apaixonado pela esposa, não é? — perguntou Kate, insegura se queria ouvir a ver­dade, mas precisando ter certeza para manter a ca­beça nos eixos dali em diante.

Ao invés de responder, Meghan pegou-a desprevenida, com uma outra pergunta:

— Está apaixonada pelo meu irmão, não está?

Kate arregalou os olhos.

— Sou uma observadora experimentada — justi­ficou-se Meghan.

— Tenho visto o modo como olha para ele. Parando para pensar um pouco, ele olha do mesmo jeito pra você.

— E apenas por causa dessa proximidade forçada — Kate tentou explicar.

— Não começou em Nova Orleans? Pela sua cara, eu diria que sim, o que explica uma porção de coisas.

— O quê, por exemplo? — perguntou Kate, curiosa em descobrir tudo sobre o estado de espírito de Cullen, quando a abandonara.

— Porque ele estava tão insuportável quando vol­tou, para começar. Ficou irritado por meses. Não pen­sei que voltasse a namorar algum dia, mas, quando isso aconteceu, parecia que era por vingança, quase como se estivesse tentando provar alguma coisa a si mesmo... ou esquecer algo.

— Como o quê?

— Na ocasião, pensei que estivesse tentando pro­var que podia superar a morte de Joanie. Agora, não tenho tanta certeza. Talvez ele estivesse tentando esquecer... você.

Kate soltou uma risada.

— Isso não teria sido muito difícil. Ele não teve problema algum em me deixar.

— Então, como eu pensei, houve realmente algu­ma coisa entre vocês, não é?

Kate concordou.

— Nada sério.

— Bastante sério, eu creio. E aconteceu antes de um ano da morte de Joanie, o que, conhecendo meu irmão, ele deve ter encarado como algum tipo de fa­lha de caráter.

— Por quê? — perguntou Kate, franzindo a testa.

— Cullen amava Joanie. E ter qualquer tipo de relacionamento com uma mulher, tão cedo, menos de um ano depois da morte dela, seria como traí-la. Para ele, seria deslealdade.

— Deslealdade? Para com Joanie?

— Sim, para com sua memória e o amor que ti­nham partilhado. Ele deve ter pensado que aconte­ceu cedo demais. — Meghan encarou Kate, com um olhar pensativo. — Saber que houve algo entre vocês dois também explica sua relutância inicial em con­tratá-la.

Embora saber disso fosse um belo afago para seu ego, afinal, não era assim tão descartável quanto pensara, Kate não estava pronta para acreditar que tivesse causado um impacto duradouro na vida de Cullen. Mesmo assim, queria saber mais sobre aque­le homem complexo que lhe roubara o coração. Que­ria saber mais sobre Joanie, que ainda exercia tanto poder sobre ele.

— Fale-me de Joanie.

— O que quer saber?

— Ele ainda a ama, não é? — Kate repetiu a per­gunta inicial.

Meghan meneou a cabeça.

— Não. Acho que, por um longo tempo, ele estava enamorado da idéia de continuar a amá-la. E sen­tiu-se culpado. Acho que ainda se sente culpado.

— Culpado? Por quê?

— Por ter insistido que os dois ficassem aqui por alguns dias. Ela entrou em trabalho de parto e es­tava morta, quando ele voltou.

Com apenas aquele pedaço de informação, as pe­ças do quebra-cabeça começaram a tomar forma, na mente de Kate.

— Você disse que Kent Carlson era o médico de Joanie, quando estava grávida?

— Não. Ele não era seu médico regular. Kent era o médico que assumiu o cargo de Greg em Webster, uma outra cidadezinha não muito distante de Barnesville. Tinha acabado de sair da faculdade de me­dicina e...

— Kate! — chamou Cullen. Sua voz, mesclada de raiva e incredulidade, ressoou pelo corredor.

— Na cozinha! — respondeu ela, lançando um olhar preocupado a Meghan, a história que ela es­cutava momentaneamente esquecida.

Cullen irrompeu pela porta, de rosto pálido como um defunto, a boca apertada de tensão.

— Venha até a biblioteca. Precisa ouvir uma coisa.

— O que é? — ela perguntou, seguindo às pressas para a biblioteca, atrás dele, com Meghan em seus calcanhares.

— O assassino. Ele sabe onde estou.

O coração de Kate falhou uma batida, mas ela es­forçou-se para não deixar o pânico dominá-la e ti­rar-lhe o bom senso.

Cullen apertou o botão da secretária eletrônica, acionando a fita gravada.

— Olá, McGyver — a voz masculina era suave e sussurrante. — Só pensei em telefonar para lhe di­zer que, como afirmei, eu ia encontrá-lo, e encontrei. Sei onde você está e sei o que você estava fazendo lá, na sala de ginástica, com aquela ruiva bonita.

O olhar de Kate buscou o de Cullen, e o som de sua exclamação de espanto encheu a sala. Não teve coragem de encarar Meghan. Deus do céu! Será que o assassino realmente ficara observando enquanto ela e Cullen partilhavam o mais íntimo dos atos? Estremeceu de horror. Sentiu-se como se houvesse sido violentada, como se aquilo a que haviam se en­tregado fosse algo vulgar, indecente.

— Durma de olhos abertos, McGyver — a voz ofegante soprou.

— Entrarei em contato.

Kate esfregou os tendões dos braços, que haviam se retesado diante da ameaça daquela voz sussurrante. Pior que o fato daquele desconhecido ter es­pionado a ela e a Cullen, era saber que ele estivera tão perto, perto o bastante para terminar o serviço que havia começado no bosque. E ninguém, Kate me­nos ainda, tinha sequer idéia de que estivesse tão próximo.

— Reconhece a voz? — perguntou Meghan, igno­rando o comentário que o homem fizera sobre Cullen e Kate.

Cullen enterrou a mão nos cabelos desalinhados.

— Não, quero dizer, soa familiar, mas... Ele está quase sussurrando e é difícil dizer com certeza.

— Pode dizer se é ou não é a mesma pessoa que deixou a outra mensagem?

— insistiu Kate, encon­trando a voz, embora soasse rouca e tensa.

— Não sei, não sei. — Cullen, franzindo a testa.

— Talvez, se ouvir as duas, eu possa fazer uma com­paração.

— Vamos ouvir, então... — disse Kate.

Pegaram a outra fita e ouviram. Depois de com­parar os dois telefonemas, os três concordaram que, mesmo que fosse impossível ter certeza, as duas mensagens tinham sido deixadas pela mesma pes­soa. E, depois de escutar novamente, Cullen ainda não tinha idéia se aquela voz lhe era familiar ou não.

— Por que ele não tentou algo quando teve a chan­ce? — perguntou Meghan, trazendo o episódio da sala de ginástica à baila.

— Está jogando conosco — explicou Kate. — Al­gumas vezes, caçar traz mais emoção do que matar. Ele quer fazer com que Cullen sinta medo.

— Bem, está fazendo um trabalho danado de bom — tentou brincar Cullen.

Meghan deixou escapar um suspiro.

— O que vamos fazer, agora?

— Ver se todas as portas e janelas estão tranca­das. Não creio que ele tente alguma coisa com tantas pessoas na casa, mas não posso garantir. Pode ser melhor que todos voltem a Little Rock hoje mesmo. Prometo não deixar Cullen fora de minhas vistas.

— Nenhum louco vai me expulsar de minha casa apavorada! — exclamou Meghan.

— As meninas po­dem dormir num acolchoado em nosso quarto e Dan pode manter o revólver ao lado da cama. Ele é um bom atirador.

— É mesmo — concordou Cullen. — E quanto a Louella?

— Falarei com ela — resolveu Kate. — Verei o que diz.

A reação de Louella foi bem semelhante à de Meghan, o que fez Kate chamá-la de mulher teimosa.

— Com quem acha que você aprendeu a ser assim? — retrucou Louella, com um sorriso. — Era difícil saber quem era o mais cabeça-dura, eu ou seu pai. Agora, vá tomar conta do seu homem.

Kate, que já se dirigia para a porta, voltou e apro­ximou-se da tia.

— Do que está falando?

— Não faça essa cara de surpresa — respondeu Louella, com um gesto impaciente. — Até um cego pode ver o jeito que vocês dois se olham.

Era demais para o orgulho profissional de Kate. Se duas pessoas, na mesma noite, comentavam o jei­to que ela e Cullen se olhavam, isso queria dizer que tinha exposto o coração ao mundo. Mas, e Cullen?

Você não pode pensar nisso agora.

Mesmo assim, Kate não conseguiu se conter e per­guntou:

— Como é que ele olha pra mim? Louella abriu um sorriso.

— Como se não pudesse decidir entre sacudi-la até seus dentes baterem feito um chocalho, ou ar­rastá-la para debaixo de uma moita e se entregar a todo tipo de loucuras com você.

Embaraçada, Kate fez o que pôde para reparar o dano de expor tão facilmente suas emoções.

— E só um jogo, tia Lou — murmurou, num tom crispado.

— É? — Louella perguntou. Tomou a mão gelada da sobrinha por entre as suas. — Ele é um bom homem, Kate. Se há alguma coisa rolando, não ignore. Não deixe passar essa oportunidade. Pode não haver outra.

Kate percebeu a sinceridade na voz de sua tia e sentiu um nó na garganta, de emoção. Contudo, acre­ditava tanto num futuro maravilhoso ao lado de Cullen quanto acreditava em contos de fada.

— Você mesma disse, não sou o tipo dele. Nunca serei.

— Bobagem! Cullen está visivelmente interessa­do. Mais do que interessado. Faça o que qualquer mulher com auto-estima faria e tire vantagem disso.

— Não iria funcionar — murmurou Kate, meneando a cabeça. — Além disso, não trago boas lembran­ças de um casamento, como você sabe muito bem, e não sou muito boa em me recuperar depois de um coração partido. — Suspirou.

— Sou ainda pior no papel de femme fatale.

— Não foi culpa sua que Lane não pudesse resistir à pressão — disse Louella. — E foi ele quem saiu perdendo. Quanto a essa coisa de você não ser o tipo de Cullen, bem... — Ela deu de ombros. — O coração não é governado por regras, Katie. Tem suas pró­prias leis e não presta a menor atenção aos ditames da razão ou a possíveis riscos.

Afagou a mão de Kate com profundo carinho.

— Lembra-se de quando conversamos a respeito da melhor maneira de conhecer os homens e que eu lhe disse que era namorando? Bem, minha querida — falou, com um brilho especial nos olhos —, acho que ambas descobrimos isso. Resta-nos ver como va­mos lidar com o fato daqui para frente.

Kent Carlson esticou-se em sua solitária cama, com as mãos enlaçadas debaixo da cabeça, tentando visualizar a preocupação estampada no rosto de to­dos, na fazenda dos McGyver. Que roessem as unhas, arrancassem os cabelos!

A irmã de McGyver o vira na parada de Natal e, embora tivesse percebido um leve sinal de reconhe­cimento em seus olhos, ele não estava seguro de que ela conseguira juntar dois e dois. Afinal, ele estava muito diferente do homem que fora três anos atrás. Mais velho. Mais grisalho. E a barba lhe dava uma aparência mais rude do que a que tinha antes.

Ficou a imaginar se tinham ouvido seu mais re­cente recado e se Cullen McGyver finalmente come­çava a encarar a situação com a seriedade que me­recia. E era bastante grave. Especialmente agora que havia uma mulher envolvida.

Cullen McGyver arruinara a vida de Kent, o jovem e promissor médico, porque o culpara pela morte de Joanie McGyver. Na verdade, fora Cullen, aquele ar­remedo choroso de homem a proclamar aos céus que jamais haveria de superar aquela perda que tinha enterrado as unhas na carreira de Kent, levando-a para o túmulo, por assim dizer. Não era interessan­te que jamais tivesse se convertido em apenas três anos?

Kent deixou a mente vagar e retroceder, como fa­zia com freqüência, até a noite em que Joanie McGy­ver morrera. Recém-casado e com o diploma fresquinho de médico geral emoldurado na parede, ele tinha assumido o encargo de cuidar dos pacientes do Dr.Greg Kingsley, que se aposentara. A vida era um mar de rosas.

Estava em casa, com a esposa, celebrando os seis meses de aniversário de casamento, quando recebeu o telefonema do hospital, informando que uma mu­lher tinha dado entrada, em trabalho de parto. Kent disse que não estava de plantão, mas foi informado de que não tinham escolha, a não ser chamá-lo, pois o outro médico estava cuidando de uma vítima de acidente de carro.

Célia, deslumbrante em sua sensual camisola de cetim, implorou para que ele não fosse, mas Kent sabia que não tinha alternativa. Estava aprendendo, bem depressa, que precisava dar tudo de si para ocu­par o espaço de Greg Kingsley, ou seria logo desa­creditado. Kent despejou o resto do champanhe no copo, bebeu de um só gole e despediu-se da mulher com um beijo demorado e com a promessa que vol­taria antes que ela sentisse saudade.

O trajeto até o hospital no meio da noite tempes­tuosa pareceu interminável, enquanto ele lutava pa­ra manter o carro na estrada, com o vento a desferir rajadas violentas, de todos os lados. Sua mente o advertiu de que o vento era apenas um ingrediente a mais. Quantas taças de champanhe tinha tomado, afinal? Não tantas a ponto de causar problemas. Sentia-se no topo do mundo, cheio de amor pela es­posa, excitado por um desejo que lhe queimava as entranhas. Invencível.

Quando chegou ao pequeno hospital rural, a en­fermeira de plantão o olhou de cima em baixo, fran­ziu a testa e lhe perguntou se estava bem. Estava ótimo, é claro, assegurou, com um sorriso largo. Mui­to bem. Seguiu para a pia, lavou e desinfetou as mãos e os braços, calçou as luvas e, então, entrou no quar­to onde estava Joanie McGyver.

Com a mente em Célia e nos doces momentos que o esperavam, Kent começou a examiná-la. Não fez um exame meticuloso para verificar o estado geral da paciente. Ouviu apenas com um ouvido quando ela mencionou que ela e o marido tinham vindo pas­sar o fim de semana na fazenda, a uns trinta quilô­metros dali. Ela viera de carro e o marido ficara re­tido em Atlanta, porque o vôo tinha sido cancelado por causa das condições do tempo. As dores haviam começado uma hora antes, ou menos, e ela havia tentado relaxar para ver se diminuíam. Quando per­cebera que não havia sinais de melhora, pegara o carro e dirigira no meio da tempestade até o hospital.

Kent assegurou a ela que tudo estava bem e que lhe daria algo para interromper as contrações. Vol­tou-se e murmurou a palavra "de bunda" para a en­fermeira, que arqueou as sobrancelhas e o seguiu para fora do quarto.

— Devíamos telefonar para Texarkana — disse ela, quando a porta do quarto se fechou. — Estamos sem pessoal, mal equipados e mal preparados, dou­tor, e esta é uma situação que pode ficar muito feia.

A raiva ferveu como um vulcão, dentro dele. Que atrevimento o dela de questionar sua habilidade em fazer o trabalho que aprendera a fazer. E aprendera muito bem, muito obrigado! Era um bom médico. Um excelente médico. Claro que poderia fazer o par­to... se é que era hora.

— Queira me desculpar — disse Kent, o álcool aquecendo-lhe as veias. — O que quer dizer com isso?

— Quero dizer que já estávamos sem pessoal antes de a tempestade impedir que os outros funcionários chegassem. O senhor é um clínico recém-formado...

— Concluí o curso em primeiro lugar na minha classe.

— Posso perceber. Não se ofenda, doutor, mas está mais qualificado para atender uma dor de garganta ou a um caso de herpes do que para fazer o parto do primeiro bebê de uma mulher, ainda mais em posição errada, de nádegas!

— Valha-me Deus, mulher! Sou um médico, e da­nado de bom — ele retrucou, aos gritos, zangado. Eu era o melhor da minha turma. Posso andar sobre as águas ou seja lá qual for a expressão equivalente para o médico. — Já fiz partos, antes. Vários, na verdade. E um procedimento de rotina. — Exceto que, desta vez, não há sinal de ser rotina.

Ele ignorou a vozinha irritante que insistia em dizer que estava sendo autoconfiante em excesso.

— Caso não tenha percebido, há uma tempestade lá fora. — Segurou-a pelo braço, num gesto conci­liatório. — Vamos fazer tudo ao nosso alcance para interromper as contrações. Se falhar, haverá tempo suficiente para virar o bebê e fazermos o parto. Compreende?

— Compreendo que mesmo que tudo corra sem intercorrências, não temos instalações para fazer um parto de risco.

Um grito de agonia veio do quarto onde estava Joanie McGyver.

— Uma opinião controvertida, me parece.

En­carou a mulher de meia-idade com um sorriso con­fiante e deu-lhe um tapinha no ombro.

— Não é hora de perder tempo, enfermeira Larsen. O dever nos chama.

Infelizmente, as coisas não transcorreram como ele esperava. Não houve como interromper o traba­lho de parto. Para um primeiro filho, tudo foi muito rápido. Para piorar a situação, o bebê estava em po­sição errada, as nádegas encaixadas em posição de saída. Joanie McGyver precisava tomar alguma coi­sa para a dor, porque berrava sem parar... O anestesista estava a caminho, e Kent não teve outra es­colha, a não ser ministrar à parturiente um anestésico potente.

Tentou virar o bebê, sem êxito. Pensou em uma cesariana, mas descartou a idéia. Era tarde demais para isso. O bebê se encaixara no canal e Joanie McGyver gritava cada vez mais, a despeito do seda­tivo que lhe dera.

Então, misericordiosamente, tudo terminou, final­mente. O bebê, um menino, nasceu morto, com o cor­dão umbilical enrolado no pescoço. O anestesista chegou e, num ato de bondade, administrou o que julgou ser um lenitivo temporário para Joanie.

Exausto, sóbrio à custa do desastre, com a fé em sua própria capacidade abalada até o âmago, Kent arrancou a máscara e saiu da sala, não desejando outra coisa a não ser encontrar o esquecimento em outra garrafa de champanhe e na suavidade do corpo de sua esposa...

Entrou no carro e desligou o telefone celular. Não estava de plantão. Já fizera tudo e mais até do que podia esperar de si mesmo. Soube, tarde demais, que pouco depois que deixara o hospital, Joanie McGyver sofrerá uma hemorragia e nada fora capaz de inter­rompê-la.

De acordo com o testemunho que prestou no pro­cesso de erro médico que Cullen McGyver moveu contra ele, a enfermeira Larsen afirmou que Joanie McGyver morrera antes que a parteira a quem te­lefonara chegasse. Naquela hora, Kent tinha voltado para casa e ouvia o sensual lamento de um saxofone, abria uma nova garrafa de champanhe e se deliciava com o corpo de sua esposa, na esperança de bloquear os ecos dos gritos de Joanie McGyver.

Cullen McGyver havia chegado logo depois do nas­cimento. Ao saber da notícia da morte da esposa e do filho, fora tomado de um frenesi de dor, substi­tuído em seguida pela raiva. Explodira em acusações e ameaças, gritando que exigiria legalmente que a licença de médico de Kent fosse cassada. O testemu­nho de Anita Larsen de que ele estava embriagado forneceu o argumento final para encerrar o processo.

E assim, a existência pela qual ele tanto lutara, durante tantos e tão duros anos, se acabara. Célia, que desejava mais do que tudo ser a esposa de um médico, o abandonara antes do martelo final, ansio­sa para encontrar alguém que pudesse dar a ela o status com o qual sonhava, desesperadamente.

Kent aprendera muitas lições, naquela noite. E, entre elas, uma verdade solene: as conexões políticas podiam ser uma ferramenta poderosa nas mãos cer­tas... ou nas mãos erradas.

Quando Kate deixou a tia, descobriu que Cullen tinha se fechado em seus aposentos. Ela resolveu, então, tomar um banho rápido e secar os cabelos. Enfiando-se num pijama de flanela de calça folgada, colocou o coldre de sua Glock preso ao ombro e seguiu pelo corredor até o quarto de Cullen. Respirou fundo e bateu à porta.

Cullen, com os cabelos molhados e caídos no rosto, usando apenas uma toalha na cintura, abriu a porta com um safanão. Nenhum dos dois disse palavra, por um instante. Kate notou as manchas em seu peito, das costelas machucadas, e a imaculada brancura da bandagem que envolvia seu ombro. A largu­ra de seu peito peludo e a cintura estreita. A exten­são longilínea das pernas nuas. Lembranças da noite do Dia de Ação de Graças invadiram-lhe a mente, qual convidados indesejados.

— O que está fazendo aqui?

O som de sua voz quebrou a magia que a envol­vera.

— Meu trabalho. — Ela o encarou, a expressão em seus olhos numa encruzilhada entre a conside­ração e o desafio. — Fui contratada para protegê-lo, e disse à sua irmã que não o perderia de vista.

— Não pensei que quisesse dizer isso, literalmen­te. Não, depois da... noite passada.

O queixo de Kate ergueu-se por uma fração de centímetro.

— Já concordamos que aquela noite foi apenas...

— Não se atreva a dizer que foi um erro — ele avisou, apontando um dedo para ela.

— Foi o que foi. Nada mais. E não pode acontecer de novo.

— Por quê?

Kate percebeu que um calor lhe subia pelas faces.

— Porque aquele homem está aqui! — exclamou a raiva de si mesma deixando sua voz esganiçada. — Chegou perto o bastante para terminar o que ti­nha começado, e eu não tenho idéia do quanto se aproximou porque estava com minha atenção ocu­pada com outra coisa. Você podia ter sido morto e, a despeito de minhas afirmações de que conseguiria conviver com isso, eu jamais me perdoaria por não ter feito o meu trabalho.

Ele cruzou os braços sobre o peito nu.

— Então, o que tem em mente?

Ela apontou com a cabeça para a poltrona otomana que ficava perto da cama.

— Ficarei ali.

— Não — ele retrucou. — Nada disso. — Estendeu a mão e agarrou-a pelo braço, puxando-a para dentro do quarto e fechando a porta. — Se vai ficar, você dorme na cama. Comigo.

O coração de Kate disparou em seu peito, e seu sangue ferveu, como lava. Encarou-o, furiosa, os seios arfando.

— Não vou fazer amor com você, Cullen!

— Ninguém pediu isso a você.

A resposta zangada abrandou a raiva.

— Tudo bem — ela retrucou. — Vou ficar a seu lado na cama.

— Combinado.

— De que lado dorme? — perguntou Kate, encon­trando aquele olhar impetuoso.

Ele apontou para o lado direito, e Kate rodeou a enorme cama até o outro lado, chutando fora os chi­nelos e colocando a pistola sobre o criado-mudo de mogno. Sem uma palavra, tirou a colcha, dobrando-a aos pés da cama. Então, enfiou-se debaixo das co­bertas, puxando-as até o queixo.

Cullen ficou parado, a observar. Então, desligou a luz do teto e foi até a cômoda, abrindo uma das gavetas. A luz do abajur lançava uma luminosidade dourada pelo quarto, expulsando as sombras. Antes que Kate percebesse o que ele ia fazer, a toalha caiu no chão. A visão daquela máscula nudez a fez en­gasgar de surpresa.

— Desculpe-me — disse Cullen, por sobre o ombro. Kate não saberia dizer se era ilusão de ótica ou se havia, realmente, um brilho encabulado naqueles olhos. — Não pretendia chocá-la, mas, normalmen­te, durmo sem roupa. Já que vamos dividir a cama, pensei em vestir um pijama, para não deixá-la cons­trangida.

— Obrigada.

Kate arrumou o travesseiro e rolou para o lado. Em questão de segundos, sentiu o colchão afundar quando Cullen sentou-se na beirada da cama e levou a mão para desligar a lâmpada do abajur. No ins­tante seguinte, percebeu que ele se esticava, a seu lado, ficando de costas para ela. Podia ser sua ima­ginação, mas Kate achou que podia sentir o calor daquele corpo. Podia sentir o cheiro de sabonete, com um toque de almíscar, suave e ao mesmo tempo más­culo. Fechou os olhos com força. Aquilo não ia dar certo.

— Fale-me sobre a morte de Joanie — pediu, na escuridão. Nada melhor do que o fantasma de uma esposa morta para manter os pensamentos libidinosos afastados.

Cullen continuou calado por longos segundos.

— Não me diga que não é da minha conta — ela insistiu.

— Depois de Nova Orleans e do Dia de Ação de Graças, você pelo menos me deve isso. Ele virou-se, deitando-se de costas. Kate fez o mes­mo. Sabia que ele estava olhando o teto, na escuridão do quarto.

— Ela estava grávida. Foi uma gravidez terrível, desde o princípio — as palavras saíam lentamente, como se lembrar fosse extremamente doloroso.

— Aconteceram alguns sangramentos. Ela ficou de cama, em repouso, por bastante tempo. Houve mui­tos problemas. Um enjôo terrível...

Ele suspirou e Kate esperou que continuasse.

— Faltavam ainda algumas semanas para a data prevista do parto. Joanie sentia-se bem melhor. Com­binamos de passar o fim de semana aqui. Ela veio de carro, logo cedo. Eu estava em Atlanta, a traba­lho, e meu vôo foi cancelado por causa da tempesta­de. Joanie entrou em trabalho de parto e, sozinha, dirigiu até o hospital mais próximo. Chamaram Kent Carlson para atendê-la. Ele estava bêbado, ou, pelo menos, tinha bebido, e pensou que podia cuidar dela.

O bebê estava em posição invertida, as coisas se com­plicaram e a criança nasceu morta. Carlson saiu, imediatamente depois, e Joanie teve uma hemorra­gia. Esvaiu-se em sangue até a morte.

As unhas de Kate enterraram-se em suas palmas. E ela sentiu que seus olhos queimavam, inundados de lágrimas.

— Sinto muito — murmurou. E sua voz soou trê­mula e diminuta, na escuridão.

— E... eu também. As mulheres não deviam mor­rer ao dar à luz, nos dias de hoje — Cullen falou com amargura.

— Não.

— Eu, porém, me assegurei de que Kent Carlson nunca mais pudesse matar alguém. Movi um pro­cesso contra ele que o fez perder a licença médica.

— Ele merecia.

Sem mais palavras, Cullen virou-se para o lado bom, indicando que a conversa acabara. Kate conti­nuou deitada no mesmo lugar, as lágrimas queimando-lhe as têmporas e escorrendo para o travesseiro. A despeito de todas as diferenças entre ambos, tinha certeza absoluta, agora, de que o amava. Certeza absoluta de que faria o que quer que fosse, em seu poder, para mantê-lo em segurança. Ele merecia is­so, pelo menos.

Cullen fechou os olhos e ouviu a suave respiração da mulher a seu lado, imaginando se estava acorda­da ou pensando sobre a história que ele acabara de lhe contar. E descobriu que tudo o que mais queria, naquele instante, era virar-se e tomá-la nos braços, enterrar-se dentro dela e procurar o esquecimento do passado e das incertezas do futuro na doçura e no calor de Kate. Se não tinha certeza antes, agora era definitivo. Ele a amava.

 

Quando Kate abriu os olhos, demorou alguns segundos até perceber onde es­tava. No quarto de Cullen, envolvida num calor gos­toso. Desgostosa consigo mesma, afastou os lençóis. Não era sua intenção pegar no sono. Que tipo de guarda-costas era ela, afinal? Fez menção de levan­tar-se e percebeu que alguma coisa, pesada e quente, repousava em sua cintura. Levou a mão para tirá-la. A tal coisa era o braço de Cullen. Ele se aninhara as suas costas, as coxas junto às dela.

Mais desperta, ela sentiu o calor daquela respi­ração contra o ombro. Sem pensar, fechou os olhos e correu a ponta dos dedos pelo braço de Cullen, adorando a sensação de suavidade e calor daquela pele. E, de súbito, as labaredas ardentes do desejo a incendiaram.

Abriu os olhos, no mesmo instante. Mau sinal. Aquilo não era nada bom. E podia ficar pior e colo­cá-la em situação difícil, pois tudo indicava que a cortina final logo se fecharia sobre aquela farsa de estarem juntos. O bandido sabia onde Cullen estava. E chegando mais perto, tornando-se mais audacioso.

Era apenas uma questão de encontrar o momento oportuno para tentar liquidá-lo. Era só uma questão de tempo, antes que Kate descobrisse se tinha ou não condições de fazer seu trabalho.

Deixando escapar um pequeno suspiro, ela tentou se livrar do peso do braço de Cullen. Ele segurou-a firme e murmurou, a boca roçando o ombro dela:

— Não se mexa.

Kate não poderia se mover, mesmo que quisesse. E não queria. Conteve a respiração, esperando para ver o que iria acontecer, em seguida.

O toque do telefone quebrou o silêncio e a magia e Kate sentiu um sobressalto. Cullen resmungou.

— Pode pegar o telefone para mim? — pediu, com uma voz enrolada.

Kate pegou o receptor e o entregou a ele. Cullen rolou para o lado e deitou-se de costas.

— Alô.

Kate não demorou a descobrir que ele estava fa­lando com o veterinário, que telefonara para avisar que estava mandando o assistente para trocar os cu­rativos da potranca. Kate não estava muito interes­sada no animal ferido, naquele instante. Sem o peso do braço de Cullen em torno de sua cintura, ela sen­tia frio e uma sensação de abandono, mas também uma espécie de lucidez, como se o bom senso retor­nasse. Era o momento perfeito para levantar-se, ir para seu quarto, vestir-se e fugir da proximidade perturbadora de Cullen, antes que permitisse que acontecesse algo entre os dois. E não podia aconte­cer. Sucumbir a seu poder de persuasão, que não era pouco, só podia ser desculpado da primeira vez, pon­do a culpa em uma insanidade momentânea; da se­gunda, na própria fraqueza. Mas, permitir uma ter­ceira vez seria indesculpável.

Jogou as cobertas de lado e começou a levantar-se, mas Cullen estendeu a mão e segurou-a pelo pulso, impedindo-a. Quando se voltou para fitá-lo, Kate viu a expressão de dor em seu rosto. Ele usara o braço ferido.

— Fique — ele murmurou, num monossílabo.

Kate balançou a cabeça e, gentilmente, libertou-se dos dedos que a prendiam. Quando apanhava a pis­tola, Cullen desligou o telefone e deixou o receptor sobre a cama.

— Covarde.

Ela o encarou. Os lençóis cobriam apenas parcial­mente o peito nu. Kate sentiu que seus terminais nervosos começavam a despedir faíscas sob o calor que via nos olhos dele.

— Digamos que eu não ache que minha perma­nência seja uma coisa sábia a fazer.

Um meio sorriso curvou a boca de Cullen.

— Incrível. Uma mulher que conhece suas limi­tações.

Kate não conseguiu pensar em uma resposta à al­tura. Recordou-se de fazer tudo que estivera a seu alcance para tornar sua vida com Lane normal, re­lembrando que ele uma vez lhe dissera que viverem juntos era altamente estressante. Pensou em Cullen, quando a abandonara, sem um adeus. Oh, sim. Ela conhecia as próprias limitações.

— Bem, se não posso saboreá-la no café da ma­nhã, podemos nos vestir e ver o que Greg pode nos oferecer.

— Pare com isso! — exclamou Kate. Só podia sen­tir-se mais forte se assumisse o controle, e seu con­trole esvaía-se depressa quando Cullen derramava sobre ela todo aquele seu considerável e irresistível charme.

— Com o quê?

— Não venha com isso pra cima de mim... não brinque comigo!

— Por que acha que estou brincando?

Ela ouviu o timbre alterado daquela voz, viu o bri­lho de impaciência naqueles olhos.

Cullen fez um esforço para sentar-se e recostou-se contra a cabeceira de mogno.

— Então, você acha que o que aconteceu entre nós foi só uma brincadeira, algo que fiz para passar o tempo?

— Não foi?

— Acreditaria se eu lhe dissesse que está enga­nada, que significou muito mais do que isso para mim?

Kate queria acreditar, mas as diferenças e as má­goas e desapontamentos que guardava do passado tornavam difícil crer, especialmente levando em con­ta o contraste entre seu estilo de vida e o de Cullen.

— Não — disse. Fria. Firme. Irrevogável.

— Isso soa como um belo final — ele retrucou. — Mesmo que eu possa compreender a razão. — Sorriu, embora sem graça. Ou seria com tristeza? — Vá, levante e vá se vestir. Eu a encontrarei lá embaixo.

Sem dizer palavra ou olhar novamente para ele, Kate pegou sua Glock e saiu do quarto, imaginando se cometera um erro que não poderia reparar, e re­ceando, do fundo do coração, que assim fosse.

Vinte minutos mais tarde, Kate estava vestida e pronta para enfrentar o dia. Enfiara a Glock na cin­tura da calça jeans, aninhada na curvatura de suas costas, debaixo do suéter. Enchendo o peito com um influxo fundo de ar, foi até o quarto de Cullen para ver se ele estava pronto para descer e tomar o café. Ele não respondeu à batida da porta e, quando entrou para verificar, Kate ouviu o barulho do chuveiro.

Não fazia sentido ficar sentada ali, esperando por ele. Afinal, Cullen detestava isso.

Agora que já era dia claro, certamente ela podia deixá-lo sozinho den­tro da casa o tempo suficiente para que tomasse um banho e se vestisse. Bufando de frustração, Kate saiu do quarto, fechou a porta atrás de si e rumou para a cozinha.

Lá embaixo, encontrou sua tia e Greg ocupados em preparar o desjejum, trabalhando juntos com uma precisão que era incrível, considerando que se co­nheciam havia cinco dias.

— Oi, querida! — exclamou Louella, abrindo-se em um lindo sorriso.

— Bom dia, tia Lou. Bom dia, Greg.

— Bom dia, Katie — disse Greg, usando o diminutivo que Louella usava.

— Graças a Deus tivemos uma noite sem inciden­tes! — exclamou Louella, enchendo uma jarra de su­co de laranja e colocando-a sobre a mesa.

— Graças a Deus — repetiu Kate. Serviu-se de uma caneca de café e bebeu um gole. — Onde estão todos?

— Meghan foi até o estábulo para ver a potranca. Dan e as meninas preferiram aproveitar as últimas chances de dormirem até mais tarde.

— Não posso dizer que acho errado — retrucou Kate.

— Quantos ovos você quer? — perguntou Greg.

— Dois — disse Kate. — Se puder esperar um pouco, preciso sair e perguntar a Meghan se vai aguar­dar o veterinário.

— Acho que eu o vi chegando há poucos minutos — disse Greg. — Mas, por que não verifica quanto tempo Meghan vai demorar, para eu poder preparar os ovos?

— Certo — concordou Kate. Pegou a caneca de café e saiu pela porta dos fundos, apanhando um casaco do cabideiro ao passar. — Quando Cullen des­cer, diga a ele que voltarei em um minuto. Sob ne­nhuma circunstância ele pode sair de casa sem mim.

— Feito — retrucou Greg.

Lá fora, no ar gelado da manhã ensolarada, Kate colocou a caneca sobre a antiga mesa de ferro do alpendre e enfiou o casaco. Pegando o café, rumou para o estábulo. Lá estava um carro estacionado per­to dos fundos, mas não era a picape que o veterinário dirigia no dia anterior. Era um modelo mais antigo, com um logotipo pintado na lateral, onde se lia Clí­nica Veterinária Cidade e Campo. Quem sabe o ou­tro veículo de Mark Johnson tivesse quebrado, pensou, ao sair da claridade do sol e entrar na semi-obscuridade do estábulo.

Por uns poucos segundos, tudo que conseguiu en­xergar foram sombras. O cheiro de feno, estéreo e o inconfundível odor de vitaminas entraram-lhe pelas narinas. Então, quando seus olhos se ajustaram à luz que vinha das frestas das paredes, Kate viu par­tículas de poeira dançando no ar. Sua imediata im­pressão foi de que o estábulo estava vazio. Não havia sinal de Meghan ou do veterinário, nenhum som a não ser o resfolegar dos cavalos e o bater de cascos.

— Meghan? — chamou. — Onde você está?

Nenhuma resposta, apenas o arrastar de patas, o baque de fardos de feno contra a parede e um ligeiro ruído, indefinível.

Uma sensação familiar e inexplicável de inquie­tude arrepiou os cabelos de sua nuca. Era a mesma sensação que ela sentira quando se fizera passar por usuária de droga para apanhar um traficante, a sen­sação que tivera quando entrara sozinha num clube barra-pesada, sabendo que havia potencial para vio­lência a seu redor. A mesma sensação que experi­mentara no dia em que ela e Raul haviam irrompido pela porta daquele cortiço cheio de crack e tinham dado de cara com a morte...

Recordou-se que não estava na cidade e nenhum daqueles cenários se aplicava. Estava só com os ner­vos à flor da pele por causa do recado deixado na secretária eletrônica, na noite anterior. Mark John­son não era uma ameaça. Era o veterinário local. Ele e Meghan provavelmente estavam em uma das baias, ocupados em refazer os curativos da potranca.

Ainda assim, anos de cautela arraigada a obriga­ram a deixar a caneca de café sobre uma caixa e levar a mão às costas, procurando pela pistola. Ao roçar os dedos na segurança da Glock, uma sensação de ridículo a invadiu. Melhor sentir-se uma idiota do que cair morta, uma voizinha interior sussurrou. Pelo menos, tinha o conforto de saber que Cullen estava em segurança, lá dentro.

Cullen tinha acabado de entrar na cozinha quando o telefone tocou.

— Onde está Kate? — perguntou, dirigindo-se pa­ra o balcão para atender o chamado.

— Foi até o estábulo para ver quanto tempo vai demorar até Meghan e o veterinário terminarem de cuidar da potranca.

— Ah... — Cullen pegou o receptor. — Alô?

— Sr. McGyver?

— Sim. — Cullen reconheceu a voz do outro lado da linha, já que a ouvira pouco antes, na mesma manhã. Era o veterinário, Mark Johnson.

— Posso falar com Kenny um minuto?

— Kenny? — perguntou Cullen, não se lembrando do nome.

— Sim. Kent Carlson, meu assistente.

Kent Carlson. O nome reverberou pela mente de Cullen. Kent Carlson, o médico que fora responsável pela morte de Joanie. Uma imagem do ajudante do veterinário relampejou pela sua cabeça. Não se pa­recia com o homem de quem Cullen se recordava, do julgamento, mas podia ser por causa da barba e dos cabelos grisalhos.

— Eu o chamei pelo pager — continuou Johnson, do outro lado da linha —, mas ele não retornou a ligação, e eu...

O restante do que estava dizendo não foi registra­do pela mente de Cullen, que tentava assimilar o fato: Kent Carlson trabalhava como assistente de um veterinário. Percebendo que precisava responder al­guma coisa, Cullen assegurou a Johnson que pediria a Kenny que entrasse em contato assim que possível. O veterinário agradeceu e despediu-se, mas antes que pudesse desligar, Cullen exclamou:

— Espere!

— Pois não?

— Há quanto tempo ele trabalha com você?

— Faz apenas uns poucos dias, mas não se preo­cupe com a potranca. Kent veio altamente recomen­dado pelo veterinário com quem trabalhou no con­dado de Hempstead.

— Obrigado — disse Cullen, sentindo a cabeça em torvelinho, examinando a informação de cada ângulo e tentando determinar se podia significar alguma coisa ou não. Desligou o telefone e olhou pela janela, procurando encaixar os fatos que acabara de saber. Seria possível que o assistente de Johnson fosse o mesmo Kent Carlson cuja incompetência tinha ma­tado Joanie, ou era alguma outra coincidência engra­çada da vida? E, se fossem a mesma pessoa, o que importava isso? O que o homem fazia para viver não tinha nada a ver com o os trágicos acontecimentos de mais de três anos atrás. Eram águas passadas.

Você vai se arrepender, McGyver. Está me ouvindo? Um dia você vai se arrepender daquilo que fez comigo.

As palavras faladas num murmúrio ríspido por Carlson, ao sair da sala do tribunal, depois de ver a carreira e a própria vida arrasadas, ressoaram na mente de Cullen. A verdade fulminou-o com a força da bala que o atingira ao descer da plataforma da árvore, lá no bosque.

— Cullen? O que foi? Você está bem?

Era a voz de Louella, aguda de preocupação. Sem responder, Cullen saiu correndo para a biblioteca, onde seu pai guardava seus rifles de caça em uma estante feita especialmente para as armas. Abriu as portas e pegou o rifle calibre 22 do suporte de apoio, agarrando a caixa de balas na prateleira ao lado. Carregaria a arma, a caminho do estábulo.

Ao sair da biblioteca, deparou-se com Meghan, que vinha pelo corredor, apressada.

— Pensei que estava no estábulo — disse ele.

— Estava, porém tive uma revelação e, por isso, pedi licença e vim correndo para cá. — Segurou o irmão pelo braço. — Cullen, escute. Era Kent Carl­son a pessoa que vi na parada. Ele é o assistente do veterinário. E acho que pode ser o homem que vem ameaçando sua vida.

Da porta da cozinha, Louella soltou um grito de pavor. Greg puxou-a contra o peito, confortando-a com um abraço.

— Eu sei — disse Cullen. — Acabei de descobrir por mim mesmo.

Notando a arma, os olhos de Meghan se arre­galaram.

— O que vai fazer com isso?

— Kate está lá fora com ele. Vou ajudá-la.

A irmã agarrou-o pelo braço.

— O quê! Ora, você não...

Cullen livrou-se, com um safanão.

— Não tenho tempo de ficar aqui conversando, Meg. Vou enlouquecer se Kent Carlson matar outra mulher que eu amo.

Como o grande alce que se embrenhara pelos bos­ques ao ouvir o balido da corça, sem pensar na pró­pria segurança, Cullen saiu correndo pela porta em direção ao estábulo, preocupado apenas com Kate.

Os cabelos na nuca de Kate continuavam arrepia­dos. Cada molécula de seu ser lhe dizia que alguma coisa estava errada, e essa alguma coisa não era di­fícil de se adivinhar. O homem que queria ver Cullen morto tinha vindo terminar o que havia começado, duas semanas atrás. Na mente, ela processara todos os dados em questão de minutos e a realidade da situação emergira. A pessoa que atirara em Cullen não era Dub Lambert ou qualquer dos outros ho­mens que ela investigara, na semana anterior. Era o assistente de Mark Johnson, Kenny. Kent.

O olhar de ódio que interceptara no dia em que a potranca tinha se ferido fazia sentido agora, como fazia sentido o jeito que ele interpusera o animal entre si e Cullen, para evitar ser reconhecido. Como descobrira onde Cullen estava? Será que estivera na área todo o tempo? Não era inacreditável que ele estivesse trabalhando para o veterinário a quem haviam telefonado? Não, não era inacreditável. Tinha sido um ato de premeditação.

Assim que havia localizado Cullen e conseguido o emprego com o veterinário, ele se pusera a jogar o jogo da espera. Afinal, tinha esperado por três anos. Umas poucas semanas a mais ou mesmo meses não fariam diferença. Mas, como a sorte, ou o destino, movera suas engrenagens, o ferimento da potranca o trouxera para a órbita de Cullen em um tempo relativamente curto. Kate não tinha dúvidas de que ele pretendia terminar o trabalho iniciado. E agora, naquela manhã.

Lenta e cautelosamente, ela percorreu o corredor sujo de poeira, em meio aos fardos de feno. Escutou um ligeiro ruído de passos às suas costas, e virou-se, a pistola em riste. Era apenas um rato, perseguido por um gato de estábulo que se escondera atrás de um fardo de feno. Voltando-se novamente, não viu nada à frente. Adiante, o corredor fazia uma curva de noventa graus à direita, cortando as doze baias em duas seções de seis. Movendo-se devagar, furti­vamente, Kate rumou naquela direção, imaginando onde estava Carlson, imaginando o que ele havia feito com Meghan.

A adrenalina fluía através de suas veias como al­guma droga de alta potência. Cada sentido estava em alerta, cada som amplificado. Fora um barulho que ouvira, vindo do corredor que acabara de deixar? Começava a recuar quando a porta do estábulo se escancarou, batendo contra a parede.

— Kate!

Cullen. Kate abriu a boca para gritar a ele para que ficasse parado, quando alguém, Carlson, saltou sobre ela. Soltando um grito de surpresa, ela caiu, jogada para a frente. Tentou impedir a queda com os cotovelos, mas atingiu o chão duro com tanta força que a Glock escapou, escorregando num giro para debaixo de uma pilha de forragem estocada ao longo do corredor onde as duas alas convergiam. Escutou a voz de Cullen, chamando por ela, de novo. Tentou levantar, mas foi agarrada pelo casaco pelas costas e jogada violentamente de joelhos.

Ia gritar para avisar Cullen quando sentiu a es­tocada do cano de uma arma apertada contra sua têmpora.

— Uma palavra e você morre.

Embora não ficasse surpresa de ter as suspeitas confirmadas, Kate sentiu o sangue se enregelar em suas veias. Aquela voz... era a mesma voz gravada na fita da secretária eletrônica.

Cullen escutou os sons de um baque e de algo se arrastando, vindos de algum lugar do meio do está-bulo. Por que Kate não respondia?

Talvez ela não possa. Não! Nada ia acontecer a ela. Não podia! Com o rifle apoiado no ombro, ele avançou corajosamente pelo corredor, os olhos cor­rendo de um lado para outro, os ouvidos atentos aos ruídos, como o grande alce teria feito. Com os sen­tidos aguçados de tensão, ele tinha esperanças de captar algum barulho, algum sinal de localização, quando Kate foi empurrada pela ala central, com as mãos acima da cabeça. Kent Carlson a seguia, em passos lentos, como se tivesse todo o tempo do mundo para atingir seus objetivos.

Cullen avaliou a situação com a objetividade que podia, considerando que Kate estava na linha de fo­go. A notícia boa era que Carlson não tinha as garras sobre ela, não apontava a pistola que trazia nas mãos contra Kate. Ao contrário, segurava a arma com am­bas as mãos, como um atirador, e mirava em Cullen. A má notícia era que Kate estava entre ele e um tiro certeiro de Carlson.

— Deixe-a ir, Carlson — disse Cullen. — Isso é entre mim e você.

— Depende de como você enxerga a coisa. — Ele riu, dando outro passo adiante. Kate ficou onde es­tava de olhos arregalados, uma expressão entre o medo e o choque refletida em sua face.

— Pensei que ela era só outra de suas mulheres, mas vejo que não... e isso me deixa realmente muito zangado, especialmente depois de você ter declarado que estava tão desesperado com a morte de sua es­posa. Que jamais iria superar, que sua vida estava arruinada, que...

A amargura empestava a voz de Carlson.

— Mas, o jamais não durou tanto assim, não é mesmo, Excelência? Seu sofrimento só durou três anos, e, enquanto isso, sua vida perfeita continua cada dia melhor.

— A vida é o que fazemos dela — retrucou Cullen, avançando e aproximando-se.

— Para a maioria de nós, o destino nos fere. Mas as feridas saram. A me­nos que continuemos a cocar.

Carlson soltou uma risada, um som cristalino, alegre demais para a situação. Um som que dizia cla­ramente da loucura mantida cuidadosamente sob controle. Apontou a cabeça em direção a Kate.

— E uma policial, não é?

— Não.

— Mentiroso.

Carlson deu um passo à frente, para tão perto de Kate que podia agarrá-la, se quisesse. Ela parecia estar em estado de choque, e Cullen percebeu que Kate revivia o pesadelo em que seu parceiro fora assassinado. Tinha que fazer alguma coisa, dizer al­guma coisa para arrancá-la daquele delírio.

— Kate!

Kate só podia enxergar, com os olhos da mente, as imagens de uma viela suja de Nova Orleans. E Raul, parado em meio às latas de lixo e com uma arma apontada para sua cabeça. Como num sonho, ouviu o grito de Cullen, chamando por ela. Ergueu a cabeça de chofre, como um animal selvagem que escuta um som estranho a seu ambiente. As lem­branças do passado se evaporaram. E ela se viu, mais uma vez, no momento extremamente perigoso do presente.

Tentou avaliar a situação. Quando Carlson a agar­rara do chão e a jogara no meio do corredor, ele des­viara a arma de sua cabeça e a apontara para Cul­len. Cullen, a quem ela devia proteger, manter em segurança. Cullen, que ela amava. Ela sentira o co­ração afundar em desespero e um sentimento de de­samparo a invadira. Assim como acontecera antes, ela se vira impotente, embora de uma forma dife­rente. Sua pistola se fora, e ela não tinha meios de proteger, nem a si nem a Cullen.

Então, o que vai fazer, Kate? Vai ficar parada aí e deixar que ele atire em Cullen? Vai deixar que o mate diante de seus olhos?

Não. Ficara paralisada uma vez e permitira que uma pessoa de quem gostava fosse assassinada. Nun­ca mais seria capaz de recuperar a sanidade se al­guma coisa acontecesse a Cullen.

Então, Kate, pense.

Um miado estridente, vindo do alto, perto dela, chamou-lhe a atenção e, provavelmente, de Cullen e de Carlson, também. O gato pardo correu pela viga central do estábulo, como um equilibrista na corda bamba. Sem pressa nenhuma, parou e endereçou aos humanos lá embaixo um olhar desdenhoso. E, então, pulou sobre o monte de fardos de feno estocados no canto do corredor. Kate seguiu, com o olhar, a ater­rissagem graciosa do felino. Ao vê-lo saltar para o chão, seu coração quase parou.

Em meio aos restos de forragem, entalada entre um fardo de feno e a parede do estábulo, estava a Glock...

Por um instante, o miado agudo do gato desviou a atenção de Cullen e ele afastou os olhos de Carlson. Felizmente, o gato também distraíra o ex-doutor por um momento. Porém, apenas por um momento. An­tes que Cullen pudesse avaliar se podia ou não ten­tar atirar sem pôr Kate em risco, o olhar frio, calculado de Carlson voltou a se fixar sobre ele, assim como a mira de seu revólver.

Pelo menos, Kate parecia ter recuperado o san­gue-frio. Estava parada, olhando para ele, com olhos calmos e firmes, quase como se tentasse lhe dizer alguma coisa.

— Deixe-a ir — disse Cullen, novamente.

— Eu...

Sem qualquer aviso, Kate saiu correndo em zigue-zague em direção à ala central. E, como se a obser­vasse em câmara lenta, Cullen percebeu que, num movimento guiado por puro instinto, Kent Carlson apontava a arma para ela. Não!

Incapaz de parar para pensar nas conseqüências de seus atos, Cullen apertou o gatilho por duas vezes e viu Carlson recuar. Quase simultaneamente, soou um disparo, reverberando pelo estábulo. Ah, Kate!

Com a mira do rifle ainda apontada para o inimi­go, Cullen captou apenas parcialmente os relinchos nervosos e o espocar assustado dos cascos dos cava­los nas baias ao redor. O gato correndo feito louco, miando desesperadamente, passando diante dele, procurando um abrigo. Carlson de pé, parecendo ter, de repente, os braços muito pesados para segurar a arma. Mas tudo em que Cullen podia pensar era em Kate.

Então, numa fração de segundo, antes que ele pu­desse relancear os olhos na direção em que ela fugi­ra, Carlson caiu para a frente, esparramando-se en­tre os fardos de feno. Cullen baixou o rifle e correu até onde Kate jazia, caída no chão.

Ela estava pálida como morta. Contudo, tinha os olhos abertos. Arregalados. A Glock descansava mo­lemente em sua coxa, ainda presa entre as duas mãos, e dedos esbranquiçados pela força do aperto ainda estavam no gatilho. O sangue escorria de um corte em sua face.

Cullen sentiu o estômago revirar-se e seu coração falhou uma batida. Carlson estivera perto, muito per­to de matá-la.

— Você está bem?

Ela fez que sim e estendeu a mão a ele para que a ajudasse a ficar de pé. Com o braço em condições segurando-a com firmeza contra o corpo, Cullen usou a ponta de seu sapato e rolou Carlson de costas. Ha­via dois buracos em seu peito. Um, do rifle de Cullen, outro, da Glock de Kate.

Quando Kate e Cullen emergiram da escuridão do estábulo para a claridade do sol de inverno, foram recebidos pelo reconfortante som de sirenes a dis­tância. Greg, Louella e Meghan deviam estar de olhos presos àquele palco de horror, porque a porta dos fundos abriu-se com impacto e as duas mulheres saí­ram correndo ao pátio. Greg seguiu-as, mais lenta­mente, com um sorriso de satisfação iluminando-lhe a face. Louella envolveu Kate, num abraço apertado, e Meghan lançou os braços em torno do pescoço do irmão, soluçando.

Mais de duas horas transcorreram até que o de­legado desse por encerrado o interrogatório, a equipe de emergência da polícia cuidasse do ferimento da face de Kate e o corpo de Carlson fosse retirado e encaminhado para o necrotério. Dan e as meninas dormiam durante toda a confusão, até que tinham sido acordados pelo som dos disparos. Os ouvidos de Kate ainda zuniam com o eco dos três tiros.

O pa­ramédico disse que ela estava bem. A bala de Kent Carlson passara raspando.

Dizer que a emoção que tomou conta da casa foi de alívio seria uma redundância. O perigo havia pas­sado e, ninguém, exceto o bandido da história, tinha sido morto. Missão cumprida.

Kate tirou a mala de debaixo da cama e jogou-a sobre a colcha de renda. Era hora de retornar à pró­pria vida. Sua tia e os Longstreet estavam de partida para Little Rock, encerrando o feriado do Dia de Ação de Graças e reassumindo o dia-a-dia, sem outras preo­cupações imediatas. Kate, contudo tinha uma única preocupação: como haveria de passar o resto de sua vida sem Cullen?

Estava recolhendo algumas coisas de uma gaveta quando alguém bateu à porta. Cullen enfiou a cabeça para dentro, seu olhar caindo imediatamente sobre a mala que estava em cima da cama.

— Posso entrar?

A última coisa que Kate queria era falar com ele, mas sabia que era chegada a hora.

— Claro.

Cullen encaixou os polegares da beirada dos bolsos e inclinou a cabeça, apontando a mala.

— Vai a algum lugar?

— Sim.

Ela arrumou uma pilha de roupas íntimas num canto da mala e esforçou-se por demonstrar uma fal­sa alegria na voz.

— Hora de ir pra casa. O bandido saiu de cena. O jogo acabou. Vencemos.

— Pensei ter lhe dito que isso não era um jogo, para mim — retrucou Cullen, recostando-se contra a porta fechada. — Nem depois do primeiro dia ou., em outro qualquer.

Kate ficou a imaginar se o ruído dos tiros não ti­nha prejudicado sua audição. Seu coração começou a bater um pouquinho mais depressa.

— O que não foi um jogo?

— Nada do que aconteceu — ele afirmou. — Nem a suposta encenação de que você era a mulher da 'minha vida, nem o que aconteceu entre nós na sala de ginástica.

Kate acariciou o suéter na mala e voltou-se para fitá-lo.

— Então, não foi um jogo, não foi sexo. O que está tentando me dizer? Que foi amor?

Cullen devolveu o olhar com uma determinação que era desconcertante.

— Se eu disser que sim, o que me diria? Que estava chocada. Que não acreditava nele.

— Que os remédios afetaram sua capacidade de raciocinar. Que...

— Por quê, Kate? — ele a interrompeu. — Por que é tão difícil pra você acreditar que alguém pode amá-la?

Por que era tão difícil? Ela despejou em cima dele a única desculpa que lhe veio à mente.

— Quem sabe porque já vi como o amor tem vida curta quando os tempos são difíceis.

— Lane?

— Sim, Lane.

— Ele foi um tolo em deixar uma mulher como você escapar.

— Certo. Sou uma coisa tão valiosa que, desde o dia em que assinamos os papéis de divórcio, ele deve estar se chutando, por ter me abandonado — ela caçoou, num tom leviano. — E, claro, sou exatamen­te o tipo de mulher a quem você estava procurando.

Cullen riu, e ela pôde perceber a ironia na en­tonação.

— Não. Você não tem nada do tipo de mulher que eu estava procurando... se eu estivesse procurando. Que homem, em juízo perfeito, haveria de querer uma mulher que discute cada frase que ele diz, uma mulher que tem um coldre no ombro do tamanho do Arkansas...

— E estas são as minhas boas qualidades — dar-dejou Kate, ficando vermelha.

Ele riu de novo e, desta vez, um riso franco. O efeito em Kate foi imediato. E devastador.

— E senso de humor, também.

Com receio de que pudesse fraquejar se ele conti­nuasse com aquele tom brincalhão e terno, Kate fe­chou a mala parcialmente arrumada e voltou-se, enfrentando-o com um olhar arrogante.

— Fico feliz que tenha achado meus defeitos tão divertidos, Excelência, porém...

Algo na expressão de Cullen obrigou-a a se calar, havia tristeza, exasperação e algo que ela não con­seguia definir.

— Quem haveria de querer uma mulher que é tão insegura de si mesma que não tem senso para per­ceber que é maravilhosa, inteligente e extremamen­te atraente?

Ao fitá-lo dentro dos olhos, Kate pensou o que de­via fazer para defender seu coração da sinceridade que via ali. Pela primeira vez desde que haviam ini­ciado aquela pequena discussão, sua determinação falhou.

— Tenho uma confissão a fazer — disse Cullen, rompendo o crescente silêncio. Tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços no peito.

— Ah, é?

— Eu a deixei em Nova Orleans porque aquilo que aconteceu entre nós dois me amedrontou até os ossos.

— Amedrontou?

— Eu amava Joanie. Fiquei desesperado quando ela morreu. Mal conseguia viver um dia após o outro. Não pensava que poderia ser feliz de novo, estava certo de que jamais haveria de me apaixonar outra vez... E então, fui à Nova Orleans e, em menos de dois dias, você jogou todas aquelas crenças no chão.

O coração de Kate disparou, num ritmo alucinado.

— Está tentando me fazer acreditar que se apai­xonou por mim em Nova Orleans?

— Começou assim. Sua energia, sua atitude e a vulnerabilidade que vi em você me fizeram perceber que eu não havia morrido juntamente com Joanie.

Fizeram com que eu me desse conta de que outras pessoas passavam por tragédias em suas vidas e não desistiam. Erguiam-se, limpavam a poeira e tenta­vam, de novo.

Sua voz falhou e seus ombros se ergueram, num ligeiro gesto indiferente.

— E havia também um sexo fantástico. Encarou-a, os olhos sombrios.

— O que senti por você foi tão intenso que fiquei assustado e devastado pela culpa.

— Por que se sentiria culpado?

— Porque pensei que continuaria de luto por Joa­nie pelo resto da minha vida. Porém, como Carlson apontou, meu sofrimento não chegou nem perto do que eu esperava. Menos de um ano, na verdade. O que aconteceu entre nós me abalou um bocado. Você me abalou um bocado. Por mais louco que isso soe, eu me senti como se estivesse sendo infiel a Joanie, ao que tínhamos.

Surpresa com aquela admissão, Kate ficou sem fa­la. Era exatamente o que Meghan havia deduzido. Kate pensou em seus próprios sentimentos de culpa com relação à morte de Raul e percebeu que as pes­soas lidavam com a culpa de maneiras diferentes. Será que era uma tolice maior da parte de Cullen sentir-se culpado por desejar recuperar a alegria de viver tão depressa, depois da morte de Joanie, do que fora a de Kate em continuar se flagelando por algo que, com toda a honestidade, ela podia não ser capaz de evitar, não importando o quanto tentasse?

Ele sorriu um sorriso tenso e hesitante.

— Você não parece convencida. Sei que é difícil de acreditar. Eu mesmo levei um tempo danado ten­tando entender, mas cheguei à conclusão irrefutável de que é verdadeiro.

— O que é verdadeiro? — ela perguntou, sua voz quase um suspiro, seu coração se inundando de uma esperança tímida, a despeito dos avisos da razão.

— O que eu sinto por você. O que acho que você sente por mim. O amor. O que eu preciso fazer... o que nós precisamos fazer é encarar nossos temores. Morro de medo de pensar em perder mais alguém que eu amo.

Quando percebi que você estava lá fora com aquele louco, fiquei apavorado. O amor, porém, não vem sem riscos, Kate. E viver é correr riscos.

— Não quero ter de encarar novamente a situação de ver alguém se afastar de mim só porque as coisas ficaram difíceis — ela falou, com o coração começan­do a vicejar com os primeiros e hesitantes botões da esperança e da felicidade. — Não poderia suportar isso, de novo.

— Não me afastarei de você. Jamais.

Como ela gostaria de acreditar nas palavras de Cullen. Mas, tinha medo. Temos de encarar nossos temores, Katie. A voz de tia Louella soou, alta e clara, na mente de Kate, fazendo eco ao que Cullen acabara de falar. Mas, o que ela poderia fazer? A vida era mais simples sem as complicações advindas de amar alguém e ser amada.

Acredita nisso, Kate? Acredita que ele realmente a ama?

Era difícil não acreditar quando Cullen a fitava com tanta ternura e desejo nos olhos. Difícil não crer, quando queria acreditar tão desesperadamente nisso.

— E quanto a Tyler? E quanto àquele receio? O que vai fazer se descobrir que ele é seu filho?

— Encarar com responsabilidade o fato, com a maior dignidade que eu seja capaz.

A resposta certa.

— Eu não me encaixo em seu mundo, em sua vida.

Ele deu de ombros, com displicência.

— Se eu for um homem casado e feliz, minha vida social irá declinar consideravelmente.

Kate conteve a respiração, em choque. Casada. Com Cullen McGyver. Os disparos certamente ti­nham lhe afetado a audição. Será que ele dissera, realmente, o que ela achava que tinha dito? Sim. Podia confiar integralmente em seu amor? Se dese­jasse ser verdadeiramente feliz de novo, ela sabia que tinha de confiar, mas... Oh, era tão difícil entre­gar-se aos sentimentos e arriscar-se a ser magoada, novamente...

— Detesto Washington.

— Sabe — ele murmurou, pensativo —, não acre­dito que eu também goste muito. Acho que não irei concorrer ao Senado, afinal. — Fitou-a, com a ex­pressão determinada, compreensiva. — Sabe o que distingue um jogador, Kat?

Ela meneou a cabeça, numa negativa.

— Um jogador é um quarto calculista, um quarto fanfarrão, um quarto instinto visceral e um quarto impetuoso. Você é uma jogadora?

— Não sei dizer — ela murmurou, em dúvida.

— Claro que é. Toda vez que caminhava para uma situação de perigo, como policial, você estava entran­do em um jogo onde podia ganhar do bandido.

O coração de Kate sentiu uma pontada dolorosa.

— Eu não ganhei do bandido no dia em que Raul foi morto.

— Não, mas isso não a impediu de assumir este trabalho e de se colocar outra vez na linha de fogo. Não a impediu de se colocar entre mim e alguém que queria me matar. E não a deteve na hora de apertar o gatilho, hoje.

— Nós dois atiramos.

— Viu? Somos um time danado de bom. Lentamente, deliberadamente, Cullen descruzou os braços e endireitou-se. Deu um passo em direção a Kate. Estendeu a mão.

— Vamos lá, Kat — implorou. — Aceite o jogo. Fique. Se você partir, eu jamais a verei naquele ves­tido fantástico.

— Tenho medo — ela murmurou.

— Isso nos coloca no mesmo barco.

Kate ficou imóvel por longos segundos, com o co­ração batendo violentamente no peito, inebriando-se no amor que via nos olhos de Cullen, apavorada em falhar, terrificada em perdê-lo, perder aquilo tudo, quem sabe sua última chance de amar, sabendo que se assim fosse, jamais teria um outro vislumbre de felicidade.

Com o coração disparado, ela estendeu a mão e deu o primeiro e hesitante passo...

 

                                                                                Penny Richards  

 

                      

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