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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Serões da Província / Júlio Dinis
Serões da Província / Júlio Dinis

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Serões da Província  

 

ERA por uma manhã de Abril de 18S2.

O campo vestia-se de seus mais opulentos e matizados trajos.

O Minho estava fascinador.

Por toda a parte eram já espessuras frondosas e impenetráveis; sombras discretas; vales misteriosos e encantadores, graças ao claro- -escuro, com que a vegetação renascente os coloria; colinas adornadas e festivas, como um trono de altar em capela rústica; enfloradíssimos silvados, veigas a exuberarem de vida; e, por entre tudo isto, casas de brancura ofuscante, e acima de tudo um céu sem nuvens, um céu azul, daquele azul dos céus napolitanos, a meu ver, tão culpados na existência dos lazzaroni.

As torrentes estavam nas suas horas de bom humor; não bramiam, murmuravam apenas; não se precipitavam impetuosas do alto dos outeiros, deixavam-se escorregar pelas anfractuosidades das quebradas.

Os ventos, como que arrependidos, pretendiam com afagos fazer esquecer aos arbustos mais tenros as violências passadas.

A luz salutar da Primavera convertia-se, por mágica metamorfose, em perfumes que embalsamavam os ares, em flores que esmaltavam os prados, em harmonias vagas que as brisas transportavam de selva em selva, que as aves escutavam atentas e os ecos repercutiam sonoros.

Nestes dias assim sente-se palpitar de vida a natureza inteira.

Por toda a parte se realiza um genese. No solo é o grão que germina; nos troncos as novas folhas que brotam; nos ramos as flores que desabrocham; nas águas, nas florestas, nos vergéis, nos ares, uma jovem e inquieta geração de aves e de insectos que surge, animando tudo com seus magníficos concertos, com suas valsas incessantes e rápidas, iluminadas por um sol vivificador.

É contagiosa esta alegria da natureza.

O coração recebe o influxo dela.

A vida tem então também a sua inflorescência. Nesta quadra as ilusões, as esperanças, as mais puras e ideais concepções de fantasias exaltadas pululam, como as boninas na relva; a alegria, os risos e os prazeres reflectem-se nos semblantes, como a luz do arrebol nos cimos dos outeiros; ama-se melhor, perdoa-se melhor, e a poesia e os cânticos saem tão espontâneos, como o trinado dos pássaros de entre a folhagem dos pomares.

A fisionomia das cidades perde também então um pouco da sua habitual gravidade. O vento que lhes vem dos arrabaldes inocula-lhes este fermento de folgazão regozijo. A Primavera desinquieta-os, sedu- -los, atrai-os, a esses soturnos cidadãos, e a população urbana trás borda nas aldeias circunvizinhas.

Os mais sisudos burgueses, que, durante o Inverno, revestidos da gravidade do seu paletó, e confiando os pés à impermeabilidade dos seus sapatos de guta-percha, passavam sérios e ponderosos, cortejando- se com irrepreensível compostura, agora vestidos de linho, de chapéu de palha de forma pastoril e leveza que não era de esperar da sua idade e posição, seguem prazenteiros caminho do campo, contando anedotas de índole pouco edificante, fazendo sentir o sabor do sal, não absolutamente ático, que as tempera; recordando as mais atrevidas coplas da Maria Cachucha, acompanhadas de exibições coreográficas de fazerem estalar de riso a parte feminina do rancho que capitaneiam.

É a época de esplendor dos «bons retiros» campestres. Mas em 1852, alguma coisa havia, além da costumada influência da Primavera, a sobressaltar a laboriosa população do Norte do reino. A antiga província de Entre Douro e Minho mostrava o que quer que era extraordinário no alvoroço e geral agitação, que por toda ela ia.

No Porto trabalhavam com azáfama as modistas, os alfaiates, os sapateiros, as luveiras e os doceiros; enchiam-se a deitar por fora as hospedarias; espanavam-se, como em dia de procissão, as varandas, a cujos pacíficos aracnídeos se declarava guerra de extermínio; lavavam- se as vidraças, caiavam-se as fachadas, e, graças a esta limpeza geral que se fazia nas casas, os passeios tornavam-se intransitáveis.

Ruas e largos eram calçados com uma actividade sem análoga nos fastos do município. As sessões extraordinárias do excelentíssimo corpo camarário não permitiam um momento de repouso aos preocupados edis.

Uma população exótica das províncias, trajando de uma maneira incrível, acotovelava-se nas praças, e, extasiada diante das exposições de ouro da Rua das Flores, dificultava a passagem ao cidadão portuense, cuja proverbial celeridade era desta vez, por força maior, modificada.

A guarnição militar da cidade limpava e envernizava as correias e estudava o exercício, e nos quartéis de Santo Ovídio, S. Bento, Carmo e Torre da Marca ressoava de contínuo a música marcial das bandas que se ensaiavam, Na Rua das Flores e à entrada das Hortas erguiam-se arcos triunfais de madeira e lona e de uma arquitectura problemática; no Cais da Ribeira construíra-se um pavilhão de duvidosa elegância; no centro da Praça de D. Pedro terminava-se um obelisco, diversamente comentado pelos cadeirinhas do passeio do poente, pelos políticos do do sul, pelos vigias e. empregados municipais do do norte, e do lado do nascente pelos grupos de elegantes, e literatos, que então estacionavam nas imediações do Guichard, aquele café que há-de merecer uma menção honrosa na história da literatura portuense, se alguém se lembrar de a escrever um dia.

À entrada dos Aloques...—mal agourada procedência — montava- se o primeiro gasómetro que viu a cidade invicta, destinado a iluminar a gás uma árvore alegórica, em que se trabalhava a toda a pressa no alto da Rua de S. João.

Este movimento não ficava concentrado entre os limites das barreiras, estendia-se para o sul a Vila Nova de Gaia, onde, no alto da Bandeira, se construíra também um arco e por toda a estrada de Lisboa até além de Grijó; para Q norte também a tranquila vida da província havia sido alterada. Desde os fidalgos que lavavam os brasões das suas armas e reformavam as librés desbotadas dos criados, até o aldeão, que tirava do fundo da caixa meia dúzia de cruzados novos, cuja integridade e boa conservação eram dignas daquelas dinheirosas épocas de D. João V que os mandara cunhar; todos, mais ou menos, participavam deste geral alvoroço.

É tempo de dizermos o motivo de tanta e tão excepcional agitação destes estranhos preparativos de festa, se é que o leitor o não tem já descoberto. O motivo era efectivamente para todos estes resultados.

As províncias do norte, que muitos anos havia não tinham visto um monarca, preparavam-se para receber e saudar a virtuosa filha do valente Soldado, de cuja gloriosa história aqui se tinham escrito as páginas mais brilhantes e simpáticas.

No espaço de vinte anos o Porto e o Norte do reino, assistira a muitas revoluções, passara por muitos sacrifícios, defendera a todo o transe o estandarte da liberdade, plantado por suas mãos nas memoráveis areias do Mindelo; acontecimentos políticos, quase que sem análogos na história das nações, observara-os o Minho, e nesse sentido já de pouco se podia admirar, mas desafizera-se da vista da realeza; era para toda esta boa gente quase um espectáculo novo.

Os mesmos soldados de D. Pedro não estavam habituados a ela.

Era o duque de Bragança, o coronel de caçadores 5, que militara a seu lado, e não o rei ou o imperador, que antes de desembainhar a espada e subir com os mais bravos às trincheiras do Porto, havia deposto o ceptro e as duas coroas, e despido os arminhos e a púrpura real.

O geral do povo fazia dos emblemas da majestade uma ideia fabulosa.

O manto de S. Luís, da igreja dos Franciscanos, era um acessório, sem o qual não se podia conceber um rei, e de antemão-preparavam-se para admirarem o esplendor e a preciosidade da coroa de ouro, que devia cingir a fronte da soberana.

A multidão, como sempre e em toda a parte, atraída pelos espectáculos novos, aglomerava-se à borda das estradas por onde devia passar a real comitiva. Pinhas de cabeças infantis rompiam por entre a folhagem dos álamos do caminho; as cobertas de damasco e as colchas de chita ramosa adornavam as janelas, onde se encaixilhavam curiosos e pitorescos grupos de fisionomias dos mais diversos aspectos, rindo, berrando, gesticulando, pasmando; as câmaras municipais estavam a postos, tendo em punho os formidáveis e irresistíveis documentos da sua eloquência; o presidente suava; o regedor decretava, e os cabos de polícia passeavam a sua autoridade por entre as turbas que se afastavam respeitosas.

De quando em quando, uma nuvem de poeira ao longe, um coro desafinado de vivas infantis punha tudo isto em alvoroço, ferviam os cotovelões, distribuíam-se com profusão as trilhadelas, assobiava-se, gritava-se, berrava-se, imitavam-se as vozes de todos os animais possíveis e impossíveis, esqueciam-se as conveniências; um espectador pacífico sentia-se literalmente montado pelo vizinho, e vingava-se, procedendo de igual sorte, com o que lhe ficava diante; a população subia até aos telhados pendia, como cariátides, das telhas e das cornijas; os camaristas sacudiam com os lenços o pó das suas botas excepcionais e principiavam a tirar os chapéus, o presidente começava a desenrolar, com a gravidade que o caso pedia, o monumental discurso...

Tudo em vão! Era a carruagem de um proprietário das imediações, o qual seguia para o Porto, onde tinha um peitoril à sua espera e um lugar no teatro para essa noite.

Estes rebates falsos sucediam-se a miúdo. Desde o princípio da manhã a vereação estava esperando! Afinal chegava o cortejo. Os foguetes estouravam com um estampido digno do município; os vivas elevavam-se em um crescente ameaçador ; uma nuvem de crianças precedia os batedores; tudo falava na sua passagem, tudo arrastava consigo; o povo pendura va-se às portinholas do carro em que vinha a família real, devorava com o olhar a rainha, o rei e os príncipes, e ficava como que espantado de os ver rir e conversar como simples mortais.

As vezes, chegado o momento solene, o orador municipal engasgava- se à leitura da felicitação que andava estudando havia um mês.

O povo, a arraia-miúda, sempre desatenciosa, atropelando então todas as noções de acatamento, envolvia os camaristas com irreverência indesculpável e impedia assim que as suas municipais figuras se destacassem de um modo conveniente.

O cortejo passava, e cada qual ficava fazendo comentários sobre o trajo, o chapéu, o sorrir, os modos, os gestos ou as palavras de suas majestades e altezas.

E isto se reproduzia, quase invariavelmente, em todos os pontos da estrada até ao Porto, onde cenas não menos curiosas se passaram então.

A agitação, que, segundo já dissemos, havia muitos dias alvoroçava a cidade, subira de ponto à medida que o telégrafo noticiava a chegada dos reais viajantes ãs terras mais próximas deste heróico baluarte das liberdades pátrias. — Era assim que os poetas e os jornalistas chamavam ao Porto nas odes e artigos que estavam elaborando para a ocasião.

Na manhã da véspera tinham principiado a rodar, em direcção aos Carvalhos, as carruagens e trens das principais personagens da cidade a esperar suas majestades e altezas, que na noite desse dia ali repousaram. Para lá estava ainda o governador civil, o general da divisão, e vários titulares antigos e recentes, bem como uma turba muito maior de aspirantes a titulares; viam-se passar a todo o momento as deputações de vários corpos colectivos que corriam a felicitar os augustos hóspedes. As casacas, as gravatas e luvas brancas, as fitas dos hábitos e comendas, as fardas agaloadas, os chapéus armados perpassavam, como brilhantes e rápidos meteoros, perante os olhos curiosos dos peões que, depois de cortejarem os seus possuidores, lhes ficavam redigindo uma biografia digna de Tácito pela severidade.

O dia estava sereno e límpido. Um noticiarista pôde escrever, esfregando as mãos por ter de empregar um pensamento sempre novo: — Dir-se-ia que até o tempo, ostentando o seu brilho e galas, quis manifestar alegrias, confundindo as suas homenagens com o regozijo público.

A ansiedade geral tocava o seu auge. As onze horas da manhã interrompiam-se todas as transacções comerciais. Fechavam-se as lojas, como em dia santificado. Os pais de família conduziam já a fascinadora prole para as sacadas do amigo, que tinha a infelicidade de morar em uma das ruas do trajecto, e indirectamente arrastavam atrás de si, sem o saber, uma coorte mais ou menos numerosa de fascinados.

Os corpos da guarnição marchavam ao som das músicas marciais, estimulavam o entusiasmo da população. Precedia-os uma turba tumultuosa de garotos, que se voltavam seduzidos pelo brilhantismo das fardas de grande gala e pelas evoluções do tambor-mor. No Cais da Ribeira, onde afluíam os curiosos de todos os lados para assistirem ao desembarque e à cerimónia da entrega das chaves, a multidão era compacta, a ponto de dificultar o trânsito das carruagens dos vereadores e as manobras dos batalhões do cortejo.

Era um oceano de cabeças, ruidoso, agitado, ameaçador! De onde como de um pandemónio, partia a gargalhada, o grito, a aclamação, o insulto, o apupo, a ameaça, os vivas e os morras que a curiosidade revolvia, e fazia ondular em grandes e imponentes marés. O Doure coalhado de navios, barcas, lanchas, escaleres e canoas embandeirados, e reflectindo nas suas águas, então serenas, a ponte pênsil, toda adornada de flâmulas e galhardetes, oferecia um aspecto risonho e festivo, que lhe não é habitual.

Ao meio-dia as salvas de artilharia, o estourar das girândolas, e o repique dos sinos, comunicando uma violenta comoção às turbas impacientes, anunciavam que sua majestade chegara ao alto da Bandeira.

Meia hora depois desembocando da estreita e tortuosa Rua Direita na praia de Vila Nova, ao som dos vivas dos nossos vizinhos de além Douro, correspondidos pelos dos Portuenses, o cortejo real encaminhava- se para o rio, que, por entre fileiras de embarcações de todo o género, atravessou.

No momento do desembarque, a multidão teve um paroxismo de curiosidade entusiástica, para resistir ao qual a guarnição militar obrou prodígios, que os fastos da polícia portuense deveriam registar.

Esta crise durou todo o tempo empregado por o cortejo real em sair dos escaleres e entrar no pavilhão, onde o presidente da Câmara pronunciou a felicitação do estilo e ofereceu a suas majestades as chaves da cidade, e só terminou quando de novo tudo se pôs em marcha, observando a pragmática que a etiqueta cortesã instituiu para casos tais.

Os sinos repicavam, os foguetes subiam aos ares, as janelas e varandas vergavam sob o peso dos espectadores, as flores choviam sobre o carro real, flutuavam as bandeiras, as flâmulas e os damascos de diversas cores; o cheiro das espadanas e mais verdes, que juncavam as ruas, completava as aparências de festa. A multidão contitinuava- se compacta da Ribeira até à Lapa, onde devia ter lugar o Te Deum, e da Lapa ao palácio dos Carrancas, da Torre da Marca, ainda então propriedade de particulares.

Estava enfim D. Maria II dentro dos muros da cidade invicta.

 

 

NÓS, porém, deixaremos o Porto, justamente na ocasião em que de todos os lados aflui gente para ele, atraída pelas iluminações, paradas, espectáculos líricos e dramáticos, bailes, ceias, lunchs e almoços, com que, durante oito dias, se ocupou a população desta invicta cidade, que não desmentiu seus brios de abastada e amante da dinastia.

Os poetas contribuíram com o seu contingente de sonetos, odes, hinos, cantatas e elogios para o esplendor dos festejos.

Nos diários da época mais circunstanciadas notícias do que quantas eu lhes pudera aqui dar, encontrarão os que as desejarem.

O Porto conservou-se em folguedo permanente até aos princípios de Maio. Na manhã do dia 5 partiu a corte em direcção às províncias do norte, indo almoçar a Castedo, onde a Câmara de Bouças serviu à família real, juntamente com o almoço, uma felicitação.

Precedendo o luzido cortejo, percorramos a extensão da estrada que vai deste lugar a Vila Nova de Famalicão, onde teremos de nos demorar.

Por toda a parte era movimento e vida! Por baixo de um sem-número de arcos campestres e dos festões de murta e de flores, que adornavam todas estas duas léguas de caminho, moviam-se e agitavam-se consideráveis magotes de gente da aldeia que, a todo o momento, os caminhos laterais vazavam na estrada.

Os trajos pitorescos do Minho, as cores garridas dos lenços e saias, a alvura das camisas de linho, o brilho dos cordões e das arrecadas, as festas de viola e clarinete acompanhando vilancetes improvisados de alguma cantadeira famosa, davam a toda esta multidão, que se enfileirava de um e de outro lado da estrada, ou acampada em grupos nas devesas e pinhais vizinhos, procedia a apetitosos repastos, complemento de todos os regozijos populares no Minho, um ar de satisfação indescritível.

De tempos a tempos viam-se passar caleças, cabriolés ou carroções — esse portuguesíssimo veículo, contra o qual o Sr. Ricardo Guimarães soltara já então o fatal grito de extermínio — conduzindo famílias que regressavam, repletas de festejos, à sua casa de província; outras vezes eram correios de secretaria, carroças de bagagem, oficiais da corte encarregados de disposições para o alojamento do séquito real, liteiras com eclesiásticos, militares a cavalo, destacamentos de infantaria e em suma toda essa população que, em tais ocasiões, se vê circular de terra em terra ou por obrigação e ofício ou por curiosidade e prazer.

Foi então que se deu um facto notabilíssimo, que a posteridade acoimará de fabuloso, como nós hoje acoimamos, já não digo as façanhudas proezas do cavalo de Alexandre, mas até, com certa escola histórica, as heróicas acções dos sete reis de Roma.

Um dia, o povo portuense viu partir, caminho do norte, uma legião de cadeirinhas, que, a passo regrado, uniforme, imperturbável e filosófico até, transpôs as barreiras da cidade invicta, para demandar as da augusta Bracara.

Na fronte destes beneméritos da humanidade reluzia uma auréola que revelava a importância da missão que iam cumprir assim! Nunca tão sublimes de estoicismo escutaram as chufas e apupadas dos garotos; nunca tão cônscios da sua importância social guardaram mais solene silêncio, apenas, de quando em quando, interrompido por uma interjeição galega, que o tropeço de um adepto novel desafiara. Com que denodada coragem tomavam o caminho da peregrinação, transportando, com cadenciado movimento, o inseparável veículo! E contudo o projecto que assim os reunia em bandos era para fazer enfiar os mais ousados.

As façanhas de Hércules não lhe eram superiores; a empresa imposta por Carlos Magno a Hugon ou Huol, do poema de Wieland, não era de mais difícil execução.

Estes destemidos heróis propunham-se a nada menos que a fazer viajar no Gerês — e por 2$400 réis! — toda a corte e a família real! Que pena que circunstâncias, alheias ao ânimo dos novos e intrépidos argonautas, impedissem por fim a realização desse feito! A humanidade enriqueceria a sua crónica de heroicidades e a águia das serras abateria o orgulho, vendo a seu lado o cadeirinha, limpando o suor que o nobilitava e pendurando o capote listrado nos mais altos picos dos rochedos, como o guerreiro vitorioso pendurava na sala de armas a cota, o elmo e o morrião dos combates.

Menos feliz que o Porto, Vila Nova de Famalicão sentia um pesadelo no meio dos seus regozijos. O dia não estava seguro. Grossas nuvens, assopradas do sul, empanavam, de espaço a espaço, a claridade da manhã; aumentavam, corriam e cerravam-se, prestes a fundirem- se em uma só massa, como para reprimir todas aquelas expansões de entusiasmo festivo.

Junto a um arco de dimensões colossais, flanqueado de um a outro lado por duas altas colunas, e que fora erigido logo à entrada da vila, estacionava a câmara, dignitários e mais convidados para a solenidade da recepção. Deste numeroso grupo a todo o instante se erguia uma cabeça para fitar as nuvens, de cujo aspecto e movimento se auferiam vários prognósticos meteorológicos.

— Isto passa — dizia um velho, cujo pescoço, armado de uma inflexível gravata branca, mal lhe permitira o movimento necessário para fitar o céu.

— Hum ! Não sei — respondeu-lhe um dos vereadores com ar de abatimento, — O vento está do sul.

— Ainda quando tenhamos chuva, é lá mais tarde. Quando o vento acalmar, pode ser — opinava um terceiro.

— O pior é ser hoje quarto crescente.

— Pois se temos água para a noite, devem ser interessantes as iluminações! — observou um indivíduo, que, tendo sido encarregado dessa parte dos festejos, via a sua glória futura ameaçada de se evaporar, ou, mais propriamente, de se fundir na inundação que receava.

— Uma coisa assim! — suspirava um, lembrando-se do chapéu novo que estreara.

— Vão-se demorando! — respondia-lhe outro, a quem a incómoda constrição de umas botas de polimento tornava impaciente.

— Faz-se-me tarde para o jantar — retorquia-lhes um velho.

consultando o relógio e dando a entender em uma visagem expressiva que este adiamento era o máximo sacrifício que podia fazer à realeza.

E com os ânimos assim dominados pela impaciência ou pelo receio, uns bocejavam, outros assobiavam, outros passeavam, e todos estendiam a vista pela estrada, a descobrir vestígios do que tão ardentemente esperavam.

De repente um som distante de morteiros e foguetes veio aumentar- lhes a ansiedade.

Chegara enfim o momento? Tudo se pôs a postos. Erguiam-se nos bicos de pés e estendiam os pescoços.

De facto, passados alguns momentos mais, assomava no extremo da estrada, onde convergiam todos aqueles raios visuais, um carro de grandes dimensões e de formas ainda não conhecidas ali, que, puxado por mais de uma parelha e envolvido em um turbilhão de poeira, se aproximava a toda a brida do lugar de onde o observavam estes ansiosos espectadores.

— Aí estão — disse um dos camaristas, conjecturando que não podia deixar de ser real um tão estranho meio de locomoção.

E, a um sinal dado, o morrão aproximou-se dos foguetes aprestados, e uma salva de girândolas subiu aos ares, quando o referido carro parava junto do arco triunfai.

Estava dado o alarme na povoação.

A câmara aproximou-se da portinhola.

Oh desapontamento! Em vez do que esperavam encontrar, apenas depararam com meia dúzia de fisionomias que os olhavam sorrindo, como se compreendessem e saboreassem o equívoco.

Caíram então em si.

Era uma das diligências da Companhia Viação Portuense, que escolhera aquele dia solene para inauguração das suas viagens.

Não inventamos. Os viajantes que receberam nesta jornada um acolhimento de príncipes, eram pela maior parte desta cidade, e ainda hoje não terão por certo esquecido a honraria que um engano lhes proporcionou.

Quando o presidente, chegando ao carro, se preparava talvez para recitar os primeiros períodos da sua alocução, deu de chapa com um rosto rubicundo e jovial, que, surgindo a um dos postigos, disse para os circunstantes: — Guarda dentro, guarda dentro, e à vontade. Safa! Não se pode viajar incógnito por esta terra.

Os espectadores fizeram uma careta expressiva, porque haviam reconhecido a pessoa que assim lhes falava.

— Então isso faz-se, José? — disse-lhe em tom de amuo um dos enganados.

— É célebre! — continuava este, e depois de descer do carro e recebendo de um criado o saco de viagem. — É célebre! Viemos em triunfo! Nunca imaginei que me estavam reservadas estas glórias! Com que preparavas-te para me recitar a tua felicitação, não é assim? — dizia para o orador municipal, que começava a achar graça ao sucedido.

— Escapamos de boa, meus senhores — disse depois para os seus companheiros de jornada — escapamos de boa! A eloquência do município! Que pesadelo! E os foguetes ? Com os diabos! Esgotaram a provisão? Depressa! depressa! Olá, João das Pipas, acende outra vez o morrão, meu homem. Perdeste o teu tempo e a tua ciência.

Mas não tem dúvida. Vocês, sem querer, saudaram um grande acontecimento— a inauguração da Companhia Viação Portuense, da qual eu possuo vinte e três acções. Não sabem o que saudaram com esses foguetes? Saudaram o Minho, saudaram Braga, saudaram o progresso, os melhoramentos desta nossa terra, o engrandecimento da província, do comércio e da agricultura. Não vos arrependais, meus amigos; não choreis o dinheiro do município, que estourou agora nos ares. São de bom agouro estes estouros. São palmas dadas a um grande cometimento.

Não estivesse eu com fome, que vos dissera já aqui quanto há a esperar desta caranguejola em que eu vim mais estes cavalheiros, meus amigos, de quem me despeço hoje, porque já agora aproveito a ocasião para ir a Barcelos na comitiva real. Pensai vós nisto, e dai por bem empregada a pólvora que consumistes. Todavia ponde-vos outra vez a postos, que suas majestades não tardam, e preparai também os guarda-chuvas, porque já sinto cair as primeiras pingas.

E, terminando este aranzel, que os circunstantes escutaram com um sorriso nos lábios, o jovial accionista da Companhia Viação Portuense dirigiu-se, a correr, para a estalagem vizinha.

O seu prognóstico era verdadeiro. A chuva principiava a cair; e quando os coches reais entraram na vila era já tal a cópia de água, que não pararam para se ler a felicitação camarária, e seguiram imediatamente para a casa do Ex.m° Sr. António Emílio Brandão, onde a família real tinha de pernoitar.

Estava em maré de infelicidades a Câmara de Vila Nova de Famalicão.

No entretanto o indivíduo que vimos sair da diligência, fazendo alarde do desapontamento dos seus amigos de Vila Nova, subia apressado os lanços da escada da hospedaria.

Era um velho baixo e magro, mas todo viveza e actividade, de uma fisionomia aberta e expansiva, olhos penetrantes e lábios habitualmente risonhos.

Trajava vestuário de jornada, e mostrava claramente em certas particularidades do seu equipamento de viagem, não ser noviço nestas empresas.

Trauteando um dos muitos hinos com que, durante os dias que passara no Porto, tivera vagar de encher os ouvidos, avançava a dois e dois os degraus, seguido do criado que lhe trazia as malas.

No primeiro patamar encontrou-se frente a frente com o dono da hospedaria, que se descobriu ao avistá-lo.

— Olá! Viva o patrão. Passasse muito bem. Quero um quarto para esta noite.

O estalajadeiro fez uma visagem de embaraçado.

— Então? Vamos, adiante. Mostre-me um quarto, que tenho pressa.

— Mas... Valha-me Deus, Sr. José Urbano... É que eu não tenho nenhum quarto que lhe dê.

José Urbano fez um gesto de espanto, e pôs-se a olhar fito para o seu interlocutor.

— Com os diabos! Sr. Manuel! Você esquece-se que está falando com um dos mais assíduos fregueses da sua baiuca? — Não, senhor; mas é que eu não podia adivinhar que V. S.* chegava hoje e pretendia ficar aqui. Aluguei todos os quartos que tinha.

— Sr. Manuel! Olhe que eu sou José Urbano de Melo Ribeiro, e nunca na minha vida dormi uma noite ao relento. Arranje-se como puder; mas eu não saio daqui.

— Mas que quer V. S.' que eu faça! Eu se soubesse...

— Não tem desculpa nenhuma. Um homem conta sempre com um amigo.

— Mas nestas ocasiões...

— Pois nestas ocasiões é que se agradecem os favores. Então! Decida-se. Eu quero hoje ficar em Vila Nova. Parto amanhã para Barcelos.

Não desejo incomodar nenhum dos meus amigos que estão já abarrotados de hóspedes. Veja se rnô quer deixar em uma situação crítica. Tinha graça! Não saio daqui ao poder que eu possa...

— Valha-me Deus! — disse o estalajadeiro, coçando a cabeça.

— Deixemo-nos de lamentações. Se você não é homem de expediente, eu vou por aí pedir a esses inquilinos que me cedam metade do seu quarto. Alguns hão-de concordar. Com os diabos! Porque não ? Eu arrancho sofrivelmente a uma partida de stromboy ou voltarete ou de damas e gamão, e ainda não sou dos piores companheiros. Vamos lá.

Quando José Urbano acabou de pronunciar estas palavras, abriu-se por detrás dele uma porta, junto da qual se travara esta altercação, e um velho, de aparência marcial, vestido de um amplo capote ou sobretudo de mescla agaloado de vermelho e com botões de metal, e cabelo cortado à escovinha, se intrometeu na discussão, dizendo para José Urbano:.

— Aqui tem um que lhe aceita a companhia, se lha propuser e estiver disposto a aturar um velho soldado, que por certo o não poupará à narração de uma das suas campanhas.

José Urbano voltou-se. Achava-se na presença de um soberbo tipo de velho oficial, que desde logo lhe agradou.

Era uma figura, cuja cor e carnação revelavam saúde e robustez; bigode espesso e alvíssimo, umas certas rugas ao canto dos olhos, características de bom humor; porte airoso, movimentos fáceis, cabeça erecta; peito saliente.

— Bom! — disse José Urbano, intimamente satisfeito. — Eu logo vi que não estávamos em terra de bárbaros. Aceito, general, e agradeço.

— Devagar, devagar, meu ilustre amigo. Não posso com a patente. General! Safa! Como vai depressa! Major, major, e graças á febre promotora da Regeneração.

— Major! — disse José Urbano, instalando-se sem mais cerimónia no quarto do seu inesperado companheiro. — Como é isso ? Apre! Que tem andado a passo, meu salvador. Major! — Que quer? Servi a Junta do Porto em 1846. Está explicado o atraso.

— Hum! Então é dos meus! Está na presença de um patuleia.

Fique desde já sabendo.

— Folgo imenso.

E os dois apertaram novamente as mãos.

— Tirou-me de apertos, major — continuou José Urbano, revolvendo as malas. — Entre parêntesis, não repare se eu, compensando de alguma sorte a incúria dos governos, lhe chamar às vezes general.

— Chame-me o que quiser.

— Tirou-me de apertos, dizia eu. Imagine que esse desalmado do estalajadeiro me queria deixar sem quarto. A mim, que todos os meses lhe deixo aqui ficar alguns cruzados novos em troca de uns maus bifes de cebolada que me dá a tragar. Ainda assim é do melhor que se cozinha por cá. Olá, rapaz, traz-me cerveja inglesa — exclamou para um criado que atravessava o corredor. — Bebe cerveja, major? — Para lhe falar verdade, meu caro amigo, nunca fui afeiçoado a essa bebida de ingleses e flamengos. Lembra-me o tempo da emigração.

— Ah! emigrou também? Olá, rapaz, vinho do Porto.

— É para mim que o pede? Por quem é? Eu já não bebo antes de comer. Foi tempo.

— Está como eu. Rapaz, bifes de cebolada.

— Com os diabos, senhor.., como lhe hei-de chamar? — José Urbano, um seu criado.

— Meu caro Sr. José Urbano, veja que para jantar ainda é cedo.

— Chame-lhe lunch, chame-lhe o que quiser. O essencial é que eu coma. Em todo o caso... Rapaz, queijo londrino. Dá licença que me ponha à vontade, general? — Sem cerimónia. Está no seu quarto.

José Urbano não esperou nova autorização; vestiu um robe de chambre de chita, pôs um boné, calçou uns sapatos de tapete, que tirou da mala, e principiou a fazer os preparativos para se barbear.

O major, acendendo um cigarro, observava-o com visíveis mostras de satisfação.

— Então, com que o general ou o major veio com algum dos duques, não é verdade? — Rigorosamente falando, eu vim só. Há muito que desejava percorrer o Minho. Pedi licença em Lisboa, e aproveitei esta ocasião para levar a efeito esta visita.

— Não conhece a província? — Ora! como as minhas mãos.

— Visto isso, não tem roteiro marcado? — Senão o instituído por mim próprio. Quero abraçar alguns camaradas velhos e tornar a ver certos lugares.

— Segue para Barcelos amanhã, não é assim? — Não; vou primeiro a Braga.

— Diabo! —Que é? — Sinto não estar lá para o receber em minha casa.

— Agradecido.

— Talvez ainda nos encontremos. Demora-se ? — Veremos. Pode ser.

— Então é provável. Apressarei os meus negócios.

— É de Braga ? — Resido lá.

— É negociante ? — Às vezes. Quando me faz conta. Quer dizer, quando vejo probabilidades de bons resultados. No caso contrário vivo dos meus capitais.

Cultivo a minha horta, enxerto as minhas fruteiras, e uma vez ou outra, por desfastio, trabalho em eleições. Assim vou vivendo.

E com estas conversas pouco e pouco se foi estabelecendo a mais íntima familiaridade entre os dois; dentro de alguns minutos mais estavam um defronte do outro, prestando a devida homenagem ao talento culinário do vatel da estalagem, manifestado em um bife de cebolada, que teve as honras de bis.

Não os distraiu o estrondo dos morteiros, os hinos marciais e o murmúrio da populaça, que a chegada dos reais viajantes ocasionara nas ruas.

Acabada a refeição, José Urbano, que continuava a pôr de parte toda a cerimónia, dirigia ao major uma pergunta que envolvia uma intenção, evidente para o major.

— Não costuma dormir a sesta, coronel ? — Quase nunca, e hoje muito menos. Tenho de visitar o duque de Saldanha.

— Nesse caso não se constranja. Vá, vá. Eu dormirei, porque, para lhe falar francamente, ando muito falto de sono. Estes dias passados no Porto arrasaram-me. Na quinta-feira estive em S. João; representou a companhia dramática; recitaram os poetas. Na sexta fui ao baile da assembleia. No sábado voltei ao teatro; cantou-se a Lucrécia Bórgia.

Na segunda fui ao baile da Feitoria... em uma palavra, não me tenho em pé. Até logo,' general ou major, até logo. É verdade! Como se chama ? — Clemente Samora.

— Clemente! Tem graça. Esquisito nome de militar. Adeus, adeus.

E os dois separaram-se; José Urbano para se entregar às delícias de uma sesta que se não fez esperar; o major Samora para descer à rua, onde vários grupos de oficiais, chegados ultimamente, estacionavam.

Não havia muito que ali chegara o major, quando o chamou à parte um alferes ainda moço e imberbe, de compleição delicada, elegância irrepreensível e mãos aristocráticas, e ocupado a calçar uma luva de pelica com o mesmo escrupuloso cuidado que empregaria na plateia do teatro de S. Carlos.

A figura do recém-chegado, que, a julgar pelas aparências, dir-se-ia mais própria para adornar os salões da capital ou os passeios do Chiado, e para ostentar garbos nas paradas, do que a pernoitar em bivouac, vencer marchas e contramarchas, e dirigir uma carga de baioneta, contrastava com o ar marcial do major, que o seguia a passos vagarosos, revelando o hábito de cavalgar e talvez um princípio de reumatismo, que a vida de campanha lhe granjeara para a velhice.

— Não é verdade que tenciona seguir para Braga amanhã, major? — É, sim. Porque o pergunta? Posso ser-lhe útil? — Ofereço-lhe a minha companhia.

— Como! Pois não segue o cortejo ? — Não; o duque da Terceira encarregou-me de uma mensagem para o comandante do 8. Parto amanhã.

— Estimo. Faremos uma bela jornada. E sua mãe? — Segue ainda para Barcelos; depois parte para a quinta do Coural, cujos proprietários prometeu visitar. Esperam-na.

— Vai negociar o seu casamento, Filipe; aposto. As filhas desse capitalista são ricas e interessantes, dizem.

— Que importa ? Minha mãe sabe que para eu principiar a odiá-las bastava suspeitar que se tramava essa conspiração matrimonial. Mas descanse. As raparigas julgo que até estão prometidas a não sei que fidalgos do Minho.

— Então amanhã conto consigo ? — Sem falta.

— Eu moro na hospedaria. Acolá. E por sinal que tenho por companheiro de quarto um originalão. É verdade, se puder, apareçanos esta noite. Jogaremos uma partida de voltarete.

— Pode ser. Até a vista, — Até à vista.

Às nove horas da noite ia grande rumor no quarto do major Samora.

Este, José Urbano e Filipe de Rialva — que assim se chamava o jovem alferes, com quem acabamos de tomar conhecimento — jogavam uma partida de voltarete, a qual José Urbano acompanhava de observações críticas e sonoras exclamações.

A exigências suas, flanqueava a mesa do jogo uma boa provisão de bolacha, charutos e garrafas de Xerez e Porto, que concorriam em grande parte para o carácter ruidoso da partida.

José Urbano estava infeliz ao jogo. Rialva recordava-lhe, sorrindo, o velho adágio que lhe prometia felicidade nos amores.

José Urbano torcia o nariz à alusão.

— Não, meu caro amigo — exclamava ele, bebendo um cálice de Porto — desse achaque estou eu livre. Curti o coração ao sol do Rio de Janeiro e nas roças do sertão. Essas enxaquecas já não têm presa em mim.

— Vamos, Sr. José Urbano — continuava Rialva — se quiser ser ranço, talvez tenha que nos contar. Um episódio ameno no meio desse viver árido que diz.

— É certo — disse o velho negociante, tomando subitamente um ar de seriedade — é certo que nem tudo tem sido aridez na minha vida. Mas os poucos episódios amenos, como diz, os meus únicos amores... esses... são para mim demasiado sérios para os contar à mesa do jogo e entre dois goles de Xerez. Agora... Bebamos em honra da Carta Constitucional — exclamou, ao ouvir romper por baixo das janelas da hospedaria esse hino popular executado por uma filarmórica da localidade.

— Apoiado — respondeu o major, erguendo o cálice.

Rialva fitou por algum tempo José Urbano.

— O que se não conta a uma mesa de jogo — disse passados alguns momentos nesta contemplação — poderá contar-se um dia, dadas outras circunstâncias.

— Decerto — respondeu José Urbano.

— Bem; nesse caso... Em honra da Carta! E Rialva associou-se ao brinde.

 

 

NA tarde do dia seguinte, a laboriosa vila de Famalicão, tão     alvoroçada e festeira na véspera, mostrava um ar, não     dissimulado, de abatimento e de tristeza. Com as primeiras alvoradas desvanecera-      se todo o fantástico efeito das iluminações da noite.     O sonho terminara, durava o desgosto do acordar.

As colunas luminosas, os arcos cintilantes, os esplêndidos obeliscos     apresentavam-se agora em toda a sua prosaica realidade de madeira pintada,     lonas enodoadas, flores murchas, e verdura defumada e sem viço. Os     copos e as laranjas de azeite, que, sob o prestigio da luz, horas antes atraíam     com força irresistível as vistas da multidão, já     não desafiavam senão o tédio.

Raiara a luz verdadeira, e os falsos astros, apagando-se, mostraram tudo     o que eram. Quantas glórias, como eles, que no meio das trevas ofuscam,     não resistem aos primeiros clarões de um real alvorecer! Os     restos o destroços dessas máquinas de festa ali estavam expostos     às fantasias, aos caprichos e espírito aniquilador dos gaiatos,     que os apedrejavam agora; de todos os esplendores que desmaiam, de todas as     reputações que periclitam, as turbas costumam tirar destas vinganças,     pelo entusiasmo e delírio em que momentaneamente as arrebataram.

O desalento parecia nem dar ânimo para remover essas últimas,     deterioradas e quase repelentes memórias dos regozijos findos. Compreendo     aquele sentimento.

Eu não sei de nada mais triste do que o terminar de todas as festas.

Em criança arrasavam-se-me de água os olhos quando assistia     ao desfazer do presépio que, em honra do Menino Deus, se armava em     minha casa pelo Natal.

Cerrava-se-me o coração de melancolia, ao ver guardar outra     vez na arca — e por um ano! — o Menino, Nossa Senhora, S. José,     os grupos dos pastores, a vaca, o jumento, os três reis, os anjos e     todos os mais acessórios do pitoresco santuário, diante do qual,     nesses quinze dias, se rezava a coroa em família e se cantavam as loas     da ocasião ! Amargo dia de Reis, último desta abençoada     quinzena, já te não via assomar sem que se me enevoassem aquelas     puras alegrias infantis.

Que não encontrásseis mais estorvos pelo caminho, venerandos     Magos! Que aquela milagrosa estrela, que vos trouxe a Belém, vos não     fizesse errar mais tempo antes de lá chegardes! Fatal 6 de Janeiro!     com o teu anoitecer, anoitecia-me o coração. Voltava a vida     normal, voltavam os bancos das aulas, a aritmética, a caligrafia, oh!     a caligrafia sobretudo tão associada à férula do mestre-escola!     e o que era pior que o mais — acabava aquela santa comunidade, em que     durante quinze dias vira a família; o lar doméstico já     não ofereceria o alegre tumulto e desordem, em que velhos e crianças     tomavam parte, esse ruído e confusão que tão fundo calava     no coração de todos. A solenidade que nos reunira sob o mesmo     tecto, que nos fizera viver a mesma vida, ia acabar. Nós, as crianças,     chorávamos ãs claras na despedida; mas suspeitávamos     que as nossas lágrimas tinham companheiras envergonhadas.

Quantas vezes surpreendíamos segredos de comoção, que     nos redobrava o choro! Suspeitava-o eu então, mas acredito-o agora     que, apesar de na idade em que a lei me autoriza a não me considerar     criança, ainda não sou superior a cenas daquelas.

Se ainda hoje experimento uma sensação desagradável     ao entrar em um teatro vazio, assistindo ao findar de uma romaria, ouvindo     as derradeiras notas de uma valsa na última noite do Carnaval! A transição     do movimento para o repouso é como uma imagem do passamento! As vezes,     nesses momentos solenes, há convulsões até como as da     agonia. Nem outra coisa é a vertigem da última valsa.

E tanto isto se dá comigo, que só o considerar no estado de     desanimação em que, depois da partida dos augustos viajantes,     ficou a vila do Minho, onde se passaram as cenas do capítulo anterior,     me arrastou por divagações pouco alegres, que talvez fossem     avivar ao leitor memórias adormecidas, cujo delicioso pungir nem todos     me perdoarão.

Mas o facto era que, ou por abatimento moral ou por cansaço físico,     o povo de Famalicão não andava na rua aquela tarde.

A porta da hospedaria, onde contraímos conhecimentos, que teremos     de cultivar, estacionavam apenas alguns raros ociosos que se entretinham a     contemplar, com olhos de entendedores, dois soberbos cavalos da raça     de Alter, que um soldado segurava pelas rédeas. Os nobres animais,     ansiosos por partir, mordiam com impaciência os freios polidos, resfolgavam,     sacudiam as clinas, escarvavam com as ferraduras as pedras da calçada,     e expeliam dos beiços inquietos flocos de fumegante espuma.

Pelo selim e arreios que os ajaezavam conhecia-se pertencerem a militares,     e igual corolário se tirava da aparência bélica do palafreneiro,     contra cuja astuciosa impassibilidade, e calculado laconismo, se tinham vindo     quebrar as mais inquisitoriais interrogações dos curiosos do     grupo.

O manhoso soldado, depois de ter feito ampla provisão nos cigarros     que, para o humanizar,um de mais expediente lhe oferecera, limitara- se a     responder por monossílabos, pouco de satisfazer, aos quesitos sobre     o preço, as manhas, a sustentação, o tratamento dos quadrúpedes,     e em seguida sobre a jerárquica posição, merecimento     e mais partes que concorriam na pessoa dos seus proprietários.

Com ciência superior foi sustentado este jogo até que o tinir     das esporas de alguém que descia as escadas pôs fim às     interlocuções.

Os grupos dispersaram para dar praça aos viajantes; o soldado preparou     as rédeas e fez a continência que, na posição em     que estava, lhe era possível fazer.

Seguidos pelo estalajadeiro, que se desfazia em barretadas, assomaram ao     patamar os dois oficiais.

Não surpreenderei por certo o leitor, dizendo-lhe que eram os nossos     conhecidos, o major Clemente Samora e o alferes Filipe de Rialva.

Depois de dirigirem ao estalajadeiro um gesto familiar e cortejarem os curiosos     que se descobriam, os dois, tomando as rédeas da mão do soldado,     montaram com agilidade e partiram a passo em direcção ao norte.     Os espectadores seguiram-nos por longo tempo com a vista e ficaram fazendo     comentários sobre o jogar das dianteiras dos cavalos, seus merecimentos     absolutos e relativos, e sobre as qualidades, posição oficial     e até a missão de que poderiam ir encarregados os cavaleiros.

Estes caminharam por muito tempo silenciosos.

O major, deixando correr a vista por todos os pontos da paisagem lateral     à estrada, por as veigas, almargens, devesas, pinhais de um ameno e     delicioso panorama do Minho, dir-se-ia ressentir uma violenta comoção     interior, como se lhe fossem conhecidos aqueles sítios, e lhe estivessem     evocando memórias de outros tempos com toda a inquieta turba de saudades,     que, de ordinário, as acompanham.

Filipe de Rialva tomara também uma expressão de seriedade     melancólica, que lhe não era habitual.

Só a preocupação própria é que podia     fazer com que procurasse devassar-lhe a causa.

Houve uma ocasião em que Clemente Samora chegou a suspirar.

Era isto nele tão extraordinário, tão pouco dado a     estas melancolias era o velho militar, que Filipe de Rialva saiu enfim da     sua abstracção ao escutar este suspiro, e olhou admirado para     o seu companheiro de jornada.

Foi só então que reparou no ar de tristeza que as feições     acentuadas e expressivas lhe reflectiam naquele momento.

— Que é isso, major ? Se me não enganei, ouvi-o agora     suspirar — disse o alferes, dando um certo entono jovial à interpelação.

O major conservou-se algum tempo calado, depois respondeu, afectando indiferença:      — Que quer você, Rialva? O meu reumatismo não se esquece     de me dar de quando em quando notícias suas.

— Ai, major! major! a não descrer muito da minha experiência     na matéria, aquele suspiro não era desafiado por uma dor articular.

— E então que quer dizer com isso ? Vejo-o com ares de quem     me supõe apaixonado. Olhe bem para mim, Rialva. Acha-me com cara de     poeta erótico ou de galã de romance ? Na minha idade! —      Um militar é sempre jovem, major. É aforismo de quartel.

O coração não teve tempo de envelhecer no campo da     batalha.

— Mas contrai outros hábitos e afeições por lá,     e perde essa extrema inflamabilidade, que ameaça a de pessoas, como     você, de continuados incêndios. O meu não está sujeito     àquelas enxaquecas de que ontem nos falava o nosso amigo José     Urbano. Se se não curtiu, como o dele, nos calores dos sertões     americanos, temperou-se no fogo da metralha.

— Mas aquele suspiro, major? — Que tem aquele suspiro ? Que     significa isso ? Suspira-se sem motivo também e quantas vezes? —      Oh! mas é um terrível sintoma. Deve confessá-lo.

— Olhe, Rialva — disse o major depois de alguns minutos de silêncio      — vou falar-lhe com toda a franqueza. Não é com indiferença     e de ânimo tranquilo que tenho feito esta viagem do Minho. Sabe que     militei no Porto. Sabe que, sob o comando de D. Pedro, ganhei muitas das minhas     patentes e quase todas as minhas condecorações. A história     das minhas cicatrizes está escrita por estes sítios. Os episódios     das campanhas gravam-se-nos na memória e deixam saudades sempre.

Sinto-as agora e vivas e profundas! Se as sinto! É verdade. Conheço     ainda tudo isto! Acodem-me à imaginação coisas que julguei     esquecidas para sempre. Lances arriscados, situações difíceis,     entusiasmos de vitória, desesperos das derrotas, episódios cómicos     no meio dos horrores da guerra, banquetes, onde folgavam e riam, ao nosso     lado, muitos que momentos depois estavam inanimados na campa... mil aventuras     enfim, pecados velhos, que agora vão recordando com certo travor.

— Pecados velhos também? — disse o alferes, sorrindo.

— Que duvida ? E oxalá que fossem todos leves! — E não     serão ? — Nem todos, Rialva, nem todos. E se tiver de ser franco     consigo, talvez que vá prender a um dos mais graves o suspiro de que     há pouco você me pediu a explicação.

— Ah! Bem me parecia que vinha do coração.

— Mas não de um coração namorado e casquilho.     Entendamo-nos.

Graças a Deus e à minha boa sorte, tenho sido preservado desse     mau achaque de velhice. Mas de um coração arrependido... pode     ser... é. São remorsos de um mal feito, desejos de o remediar,     desejos irrealizáveis agora, e que por isso me serão perpétuos     tormentos.

— Repare, major, que está dando ãs suas ideias uma direcção     demasiado sinistra. Nunca assim o conheci apreensivo e lúgubre.

— Tenho por costume não manifestar os meus sentimentos.

É pudor de coração que se não quadra com a empáfia     militar. Mas, à vista destes lugares, tão cheios de recordações     para mim, a comoção foi mais forte do que eu, venceu-me, zombou     da minha repressão, trasbordou.

Já agora deixá-la.

— Confie em mim, major; eu sei compreender esses sentimentos.

— Não sabe tal. Na sua idade não se pensa nisto. Somos     imprudentes ; mais tarde, demasiadamente tarde, é que sentimos o mal.

O alferes, longe de protestar contra o conceito formulado pelo seu velho     companheiro, calou-se e pareceu meditar.

— Desde 1843 que não voltei a estes sítios — continuou     o major.

— Deveres em parte, e em parte o natural descuido de ânimo dos     que vivem aquela vida de Lisboa, mo impediram. E, contudo, alguma coisa me     devia ter trazido aqui há mais tempo.

— Vestígios de passadas afeições ? — Sim;     mas vestígios tristes, vestígios de lágrimas talvez.     Entre muitas aventuras da mocidade, eu tive também o meu romance, Rialva.

Sossegue, que não gastarei estilo em lho narrar. Eu não me     entendo com a vossa literatura de agora. Bem sabe que sou contemporâneo     dos sonetos, e por isso abstenho-me de fazer narrações a rapazes     que se alimentam de romanticismo puro. Em vez de arroubamentos, e enleios     que estão agora na moda, eu poderia falar-lhe nas clássicas     setas de Cupido e nas pouco ideais seduções das três filhas     de Vénus.

— Ora vamos, major. Quer-me parecer que, ainda que tarde, também     se sujeitou àquela vacina, de que fala Garrett, para se preservar das     bexigas, as quais na frase dele, matavam a fazer odes pindáricas e     sonetos os rapazes da sua época. Conte-me o seu romance.

— É preciso que lho conte? Pois não o adivinhou já?     Não o ia escrever capítulo por capítulo, prescindindo     da minha narração? É o eterno romance de um rapaz estouvado     que, no meio de suas afeições efémeras, costumado a acreditar     na inconstância dos corações, não recua diante     de nenhuma conquista; que se julga um profundo conhecedor da humanidade, só     por que lhe ignora o seu lado melhor.

A quem seduz a fama de um D. João ou Lovelace, e, como esses belos     modelos, que pretensiosamente procura imitar, fazendo de todas as mulheres     um leviano juízo, joga com as afeições de todas, sem     se lembrar que um só coração que sacrifique nesse jogo     é pagar muito cara uma distracção de rapaz.

— Bravo, major! Nunca me lembra de o ter ouvido faiar assim! —      Pois aproveite a ocasião, que talvez seja a última. Eu não     gosto de andar a fazer pelo mundo estas profissões públicas     de sentimenta dos movimentos militares que se seguiram à Regeneração,     me demorei alguns meses naquela cidade.

— Alguma imprudência sua.

— Sossegue, major; eu não sinto grandes apreensões a     respeito do caso, porque, como lhe disse, não creio que se morra de     amores cá por este mundo, e muito menos que seja eu o destinado para     inspirar uma dessas paixões excepcionais.

— Mas enfim? — Vi uma rapariga em um convento de Braga...

— E escalou-o, arrombou-o, incendiou-o? — Não, major.     E verá, pela narração que lhe vou fazer, que nestas coisas     ainda não deixei de ser noviço! — Oiçamos a narração.

— Que interessantes olhos, meu amigo! Uns olhos que valiam poemas;     o rosto de uma cor de pérola fascinadora, e a voz com mistérios     de melodia, que a arte ainda não decifrou. Não havia ser-lhe     indiferente, major, acredite. O major que fosse...

— Bem, bem, adiante. Fale-me de si, Rialva, fale-me de si. De mim     sei eu de sobra o que devo pensar. Conheço-me há muito.

— Perdi a cabeça por aquela mulher. Não havia dia em     que eu não procurasse vê-la, e consegui fazer-me notado. Passando     agora pelos pormenores desta inocente afeição, basta que lhe     diga que ela me correspondia. Parece-me que o vi sorrir quando pronunciei     a palavra inocente! Mas juro-lhe que é o epíteto apropriado.

— Longe de mim duvidá-lo. Continue.

— Sob o pretexto de visitar a escrivã do convento, que era     das relações de minha família, fui admitido à     grade, e ela, não sei sob que pretexto, lá estava sempre também.     Cada vez a admirava mais, porém ardia de impaciência por lhe     não poder falar de viva voz. O acaso...

— Mau — disse o major com um meio sorriso. — Agouro mal     da intervenção do acaso no romance. É sempre perigosa     e inconveniente.

— Oiça — continuou Rialva, sorrindo também como     se não fora sem fundamento a observação do seu companheiro.      — O acaso um pouco e muito a boa vontade dela, fez com que esta rapariga     viesse passar alguns dias fora do convento e em casa de um comerciante de     Braga, de cuja filha ela era íntima amiga. Eu tinha relações     com este comerciante, e pude então, mais a vontade, conversar com ela.

— Ora prossiga, prossiga.

— Pouco mais tenho para lhe dizer. O meu amor foi tímido e     respeitoso, como nem eu próprio suspeitava que fosse possível     sê-lo.

Diante daquela mulher, diante daquela candura, desconhecia-me, achava-me     acanhado como qualquer rapaz de dezasseis anos. Creia, major, que não     sabia o que tinha feito da minha audácia habitual. Tinha de partir     para Lisboa. Minha mãe havia-me alcançado do ministro uma transferência     de corpo. Disse-o à pobre menina, que se banhou em lágrimas     ao sabê-lo. O seu amor havia adquirido uma intensidade que o denunciara.     Em Braga falava-se muito nisso. Na noite da minha partida consegui uma entrevista     dentro do jardim da casa onde ela ainda então se achava.

— Aproxima-se a peripécia — disse o major.—Adeus     timidez...

— Juro-lhe, major, que a respeitei, como se a protegesse um ambiente     de pureza e castidade. Davam onze horas na igreja de S. Marcos, e pela primeira     e única vez os nossos lábios se encontraram, e logo depois eu     saltava o muro do jardim, montava o cavalo e seguia o caminho do Porto, de     onde me transportei para Lisboa. E assim terminou este inocente episódio     da minha vida, — E ela? — Que lhe posso eu dizer dela? A impossibilidade     de nos correspondermos era manifesta. Dois dias depois devia ela voltar ao     convento, onde não podia receber cartas minhas. Ainda lhe escrevi de     Porto, esperando receber a resposta em Lisboa. Esperei debalde, e...

— E esqueceu-a, não é verdade? Nem mais pensou nessa     rapariga, que talvez a estas horas esteja chorando por si, ou por sua causa.

— Acredita, major ? Não acha mais natural que esteja pensando     em outro? — Pode ser. Em todo o caso, basta que por uma efémera     distracção arriscasse dessa maneira o destino do coração,     que é o destino inteiro de uma mulher, para que não possa ou     não deva pelo menos, encarar levianamente o sucedido e deixar de sentir     uns indícios de remorso.

— Acreditasse eu que produzira um padecimento real...

— Que faria ? — Nunca o perdoaria a mim próprio.

— Cingia os cilícios e disciplinava as carnes, não é     assim ? — Condenar-me-ia a uma completa abstenção de galanteios,     pelo menos.

— E dessa maneira secaria as lágrimas que fizera derramar!      — Qual era então o meu dever, major ? diga.

— Quando estiver em Braga, se se demorar por lá, averigúe     do sucedido e depois falaremos. Escusamos de estar agora a traçar planos     de imaginárias campanhas.

A estas palavras do major seguiu-se um silêncio prolongado, durante     o qual as ideias tomaram outra direcção a ponto de que ao restabelecer-se,     o diálogo versou sobre assuntos indiferentes que não precisamos     de referir, e assim se manteve até à chegada dos dois cavaleiros     a Braga, ainda com algumas horas de dia.

Desempenhando nesta cidade a missão oficial de que viera encarregado,     Filipe de Rialva propunha-se no dia seguinte principiar as averiguações     a que o major e a sua própria curiosidade o convidavam, quando um acontecimento     imprevisto o veio impedir de as realizar.

Pela madrugada do dia seguinte chegara a Braga uma notícia telegráfica,     que lançara o espanto e consternação nos ânimos     de todos os seus habitantes.

Constava que ãs onze horas da noite antecedente o palácio     onde repousava em Barcelos a família real havia sido devorado por um     incêndio.

Os noveleiros políticos, sempre prontos a darem aos mais insignificantes     acontecimentos um colorido lúgubre, filiavam aquele facto casual em     uma trama premeditada e misteriosa. As notícias que se davam em voz     alta, comentavam-se depois ao ouvido. As insinuações transluziam     das frases estudadamente formuladas. Os ociosos agrupavam- se defronte das     repartições públicas e das casas das autoridades, como     se, das fachadas desses edifícios, esperassem elucidações.

Exagerava-se o sucedido. Houve tal que condenou ãs chamas a vila     de Barcelos inteira! Em outros grupos enumeravam-se as vítimas e especificavam-se     com escrupulosa exactidão a natureza e carácter dos ferimentos!     Uns revelavam a descoberta de uma máquina infernal ; outros noticiavam     a prisão dos criminosos.

Os ódios partidários, então mais acesos que hoje, todos     estes boatos acolhiam, e de boa ou má fé concorriam para os     divulgar, ampliando-os.

A nova, ao chegar aos ouvidos dos nossos dois conhecidos, Clemente Samora     e Filipe, havia adquirido já as mais formidáveis dimensões,     e revestira-se das cores menos para tranquilizar.

Desesperando de saber a verdade no meio de tantas variantes, e até     encontrando incertezas nas informações oficiais, os dois, que     tinham em Barcelos por quem se inquietar e que nada os prendia actualmente     a Braga, resolveram informar-se por seus próprios olhos, e com este     intuito partiram essa mesma manhã em direcção à     vila.

Algum tempo mais que se tivessem demorado, teriam serenado as suas inquietações.

O pânico desvanecera-se afinal. Sabia-se enfim que o incêndio     não atingira nunca as proporções medonhas que se dissera.     A inverosimilhança dos romances inventados, com grande desespero dos     seus autores, ia já fazendo sorrir.

 

 

"QUATRO dias depois dos sucessos do capítulo anterior, percorria     a estrada de Barcelos, em direcção a Braga, uma jovial cavalgada     de oficiais do exército e de alguns estudantes do Porto, que a promessa     de um segundo perdão de acto trazia naquele tempo muito jubilosos e     como que em férias já.

Filipe de Rialva e o major Samora haviam-se-lhe incorporado.

Do rancho era talvez este último o único melancólico.     A sua estada em Barcelos avivara-lhe as saudades que o perseguiam. Nenhumas     informações pudera obter, nem sequer do lugar onde repousava     a morta.

Nem um só vestígio dos seus passados amores tinha encontrado     o pesaroso velho. Uma estrada em construção acabara de derrubar     a pequena casa, que a imaginação lhe estava agora ainda reproduzindo,     e com ela dir-se-ia haver destruído todas as memórias desse     drama obscuro, que terminara em túmulo.

Rialva, ao inverso do seu companheiro, no descuido dos vinte e dois anos,     entregara-se inteiro ao prazer da jornada.

Pouco avultavam já na memória do estouvado alferes as recordações     da sua aventura de Braga. Tivera tempo e ocasião de se distrair.

De Barcelos seguira a corte a Viana, e nessa marítima cidade do Minho     foram demasiados os prazeres em que tomara parte, para que lhes resistisse     qualquer ideia melancólica. Vinha-lhe o coração desafogado     ao voltar a Braga, onde se antecipava um dia à comitiva real, que só     no dia 12 devia sair de Barcelos.

O génio expansivo e bom humor de Filipe valeram-lhe uma certa preponderância     sobre o rancho, que parecia havê-lo tacitamente elegido para seu chefe.     Isto lisonjeava-o e obrigava-o a fazer todos os esforços para justificar     a escolha.

A cada passo, estridentes gargalhadas e hurras espantosos partiam em coro     do bando turbulentoso. Por vezes a algazarra subiu a ponto que o major Samora,     em poucas disposições para tomar parte nela, sopeou o passo     ao seu cavalo para se distanciar do tropel.

— Meus senhores! — disse um dos estudantes, a que no ano anterior     um perdão de acto, poderoso Deus ex-machina, arrebatara milagrosamente     dos nevoeiros da matemática, onde se vira perdido, e que esperava que     um outro o ajudasse a livrá-lo da botânica, mau grado do Sr.     Costa Paiva que não conseguira ensinar-lhe a classificar nem a Digitalis     purpúrea. — Meus senhores, nem todo o tempo gastemos a rir. A     divina arte do canto está em decadência entre nós. De     todas as nações do mundo a portuguesa é a que menos canta!     Vergonha! Eu, digno e degenerado representante daquela antiga e característica     classe de estudantes que corria as estradas e estacionava nas praças     de capa traçada, espada ao lado e guitarra em punho, coro ao repeti-lo!     O estudante de Salamanca, cantando seguidillas debaixo da ventana da senhorita     de tez morena e olhos travessos, um pobre diabo sem dinheiro, mas cantando,     cantando a escalar janelas, no meio das rixas, cantando na cara dos guardas     civis e dançando, ao som da pandereta, o fandango e o bolero —      eis o tipo ideal, que se perde, que degenera desde que a filosofia o estragou.     O estudante hoje é folhetinista, é político, é     erudito, é sisudo e, mais que tudo, é sensaborão! Dá-lhe     mais canseira a salvação da república, do que o penteado     da sua amante! Que tremenda responsabilidade nos cabe, meus amigos! Nós,     indignos depositários de um grande legado, que deixamos esbanjar! Reajamos     quanto nos seja possível, e reajamos cantando. A cantar se têm     feito revoluções.

Dêem-me o poder das canções, e eu revolverei o mundo.     Cantemos! — É justo que abras tu o exemplo — respondeu-lhe     um dos companheiros.

O convite foi repetido por toda a companhia.

O orador não se fez muito rogado, e em uma toada popular, que então     andava na boca de todos, cantou as seguintes coplas, que nos parece serem     da sua lavra:

Ouvia gabar os beijos,     Dizer deles tanto bem,     Que me nasceram desejos     De provar alguns também.

Que esta fruta não é rara,     Mas nem toda tem valor:     A melhor é muito cara,     E a barata é sem-sabor.

Colhi-os dos mais mimosos;     Provei três, mas, por meu mal,     Ao princípio saborosos,     Amargaram-me afinal.

Um colhi eu de uma bela,     Que era Rosa, sem ser flor.     Se tinha espinhos como ela,     Dela também tinha a cor.

Vi-a a dormir, e furtei-lha     Um beijo que a acordou.     Eu gostei, porém causei-lhe     Tal susto, que desmaiou.

Logo que a vi sem sentidos,     Fugi, sem outro lhe dar;     Que beijos, sem ser pedidos,     Não são coisas pra brincar.

Outra vez, duma morena,     Olhos azuis, cor de céu,     Corpo esbelto, mão pequena.     Um beijo me apeteceu.

Pedi-lho — e então por bons modos,     Pedi-lho do coração.     Zombou dos meus rogos todos     E respondeu-me: que não,

Zombei como ela zombava,     E um beijo, à força, lhe dei;     Mas... bem dado ainda não 'stava     E c'um bofetão o paguei.

Custou-me caro o desejo,     Que mui caro ela o vendeu.     Pagar por tal preço um beijo !     Assim não os quero eu.

Este, mais do que o primeiro,     Me deixou traca impressão;     Quis provar inda um terceiro     Para não jurar em vão.

Mas não quis fruta roubada     Que mal com ela me dei.     Uma dama delicada     Ofereceu-ma... Eu aceitei.

Ai, que boa fruta que era     Estava mesmo a cobiçar.     Passar a vida quisera     Tal fruta a saborear.

Mas, no meio da colheita...     Da fruta, o dono apar'ceu.     Zelosos olhos me deita:     Se zelava o que era seu !

Vendo o caso mal seguro,     Eu logo ali lhe jurei     Restituir e até com juro     A fruta que lhe tirei,

E, caso não discordasse,     Não me parecia mal     Que a ele os juros pagasse     E à senhora... o capital.

Esta sensata proposta     Em fúrias o arrebatou,     E, por única resposta,     A lutar se preparou!

Oiço inda gabar os beijos,     Dizer deles muito bem:     Mas findaram-me os desejos,     Já sei o sabor que tem.

Uma estrepitosa algazarra rompeu do grupo, quando o académico terminou     a sua cantiga.

— Visto isso — disse um dos cavaleiros — puseste-te em     dieta dessa fruta ? Tenho piedade da tua higiene meticulosa! Possuis um estômago     demasiado susceptível. Eu por mim, meus senhores, confesso-lhes que,     verde ou madura, não sei de outra fruta que me agrade tanto.

— Alto lá! — respondeu o que cantara. — Nada de     responsabilidades absurdas. Eu não subscrevo todas as legítimas     consequências da canção. E se julgam necessário     neutralizar o efeito, eu estou pronto a cantar-lhes uma outra. Possuo-as para     todos os gostos.

— Por esta vez dispensamos-te da retractação. Acreditamos-te.

Nada de lógica em assuntos destes. Que os cépticos cantem     de crentes e os crentes encham as estrofes do cepticismo. Ninguém lhes     deve pedir contas. Outro cantor! — Eu por mim, estou pronto a cantar      — disse um alferes de caçadores — mas não a mulher     nem o amor; inspira-me mais um charuto, um cachimbo e até um cigarro,     sendo o tabaco forte e a mortalha boa.

— Pois canta o cigarro. Admite-se o culto. Vai entoando a antífona,     enquanto nós acendemos os fachos do rito sagrado — respondeu     Filipe, distribuindo cigarros por todos os da cavalgada.

E dentro em pouco o bardo novamente indigitado, principiava cantando:

No centro de círculos     E nuvens de fumo,     Um deus me presumo.     Um deus sobre o altar!     Nem doutros turíbulos     Me apraz tanto o incenso,     Como o deste imenso     Cachimbo exemplar I

Em divãs magníficos     De seda e veludo     Repousa sisudo     O ardente sultão,     Fumando, inebria-se     E esquece odaliscas,     E os beijos, faíscas     De amor, e o Alcorão.

Longe, oh! longa o ópio,     Que os sonhos deleita     Da mísera seita     Dos Teriachis.     Horror ao narcótico,     Que vem das papoulas,     E ao que arde em caçoulas     No harém dos Alis I

Que a África tórrida     De areias candentes     Consuma as sementes     Do arábio café.     Bebido nas chávenas     De índia e porcelana     A negra tisana     Veneno me é,

E a folha asiática,     Delícias da China,     Por nossa má sina     Trazida pra cá?     Sorvida em família,     Em morno hidro-infuso !     Anátema ao uso     Das folhas de chá !

Nem tu, ó alcoólico     Licor dos lagares,     Terás meus cantares,     Meus hinos terás.     Embora das ânforas     Vazado nas taças,     Aos outros tu faças     A boca loquaz.

Meu canto, é da América,     País do tabaco,     Melhor do que Baco,     Que o ópio melhor.     Que a Europa, Ásia e Africa     E a Terra hoje toda     Já fuma por moda     O heróico vapor.

Até na Lapónia,     Da gente pequena,     Se fuma, e no Sena,     No Tibre e no Pó,     No Volga e Danúbio,     No Tejo e no Douro..     Que grande tesouro     Se deve a Nicot !

Nem venha da cantora     Contar maravilhas     O das cigarrilhas     Famoso inventor.     Raspail ó cismático,     E eu sou ortodoxo;     O seu paradoxo     Não me há-de ele impor.

E os áridos lábios     Mais fumo inda aspirem,     Que os néscios suspirem     Por beijos febris.     Não quero outros ósculos,     Não quero outra amante,     Qual mais doidejante     Que os fumos subtis ?

Tornadas Vesúvios,     As bocas fumegam,     De nuvens que cegam,     Vomitam legiões.     Fumar ! Oh, delícias I     Prazer de nababo!     E leve o Diabo     Do mundo as paixões!

É indescritível o entusiasmo que se manifestou em seguida às     últimas palavras da canção ou hino do tabaco. Foi tal     a gritaria que os ecos das montanhas vizinhas despertaram estremunhados, e,     como dizia Fernão Mendes Pinto, as carnes tremiam de medo.

Todas as bocas pediram bis, e de novo se guardou um silêncio solene     para escutar as estâncias de tão popular produção,     algumas das quais muitos já repetiam em coro.

— E tu, Filipe ? — disse o cantor favorecido da aura de popularidade      — não cantas também ? — Depois do teu triunfo, julgo     prudente prescindir dos meus direitos. Desisto da palavra.

— Não admito. Não é facultativo, é obrigatório     o cantar.

— Isso é crueldade. Queres imolar-me nas aras da tua musa rodeadas     de fumo de tabaco? — Isso é modéstia mal cabida. Ou temes     ferir a delicadeza da tua musa sentimental com as baforadas do meu cachimbo'      — Apelo para a decisão do conclave — disse o estudante     que cantara primeiro.

— A votos! A votos ! — bradaram algumas vozes.

No momento em que isto se passava havia a cavalgada chegado a um ponto da     estrada erma de habitações e perfeitamente deserta de viajantes.     Era um extenso lanço que seguia em linha recta por meio de lezírias     sem cultura, e tapadas de tojo e pinheirais ainda novos.

A vista alcançava de extremo a extremo deste lanço tanto mais     facilmente, porque a atmosfera densa de vapores apresentava, sob uma óptica     favorável, os planos mais distantes.

Isto permitiu que os cavaleiros avistassem ao longe sentada, a fiar, sobre     as pedras de um dos muros que flanqueavam a estrada, uma mulher, que na aparência     mostrava já ser de avançada idade, a qual, ao ver aproximarem-se     os viajantes, se levantou açodada e colocou-se no meio da estrada como     se lhes desejara falar.

— Aí tens quem te vai inspirar, Filipe. Uma princesa desconhecida     que desce a escutar as namoradas endeixas do trovador — exclamou um     dos que primeiro a avistara.

— Vem à fala. Respeito, senhores; quem sabe se estaremos na     presença da rainha das fadas? Esta nossa peregrinação,     digna de um segundo Ariesto para a cantar, precisava de uns jardins de Armida,     eis aqui quem no-los vai abrir.

— Restos do terremoto, eu vos saúdo — disse um outro,     tirando o chapéu e vergando a cabeça.

— Coitada! Alguma pobre mendiga — disse Filipe, procurando já     nas algibeiras com que satisfizesse a que ele julgava indigente pela atitude     que a vira tomar aguardando-os...

— Em todo o caso, vejamos o que ela nos quer. Portemo-nos sérios     para lhe inspirarmos confiança. Está-me a parecer que se pode     tirar partido disto.

E, seguindo este parecer, todos guardaram silêncio e marcharam na     maior compostura.

Estavam finalmente na presença da velha. Era de facto de aspecto     centenar; engelhada, curvada e trémula, mas ainda assim com certo ar     de resolução.

Logo que os viu chegar, dirigiu-lhes a palavra: — Ora, Nosso Senhor     venha na sua companhia! — Amen! santinha, e que também esteja     consigo.

— Ele está em toda a parte onde o procurem. Boa é a     sua assistência, e a da Virgem Nossa Senhora, e a do milagroso Padre     Santo António, que nos livre de perigos e de trabalhos, de testemunhos     falsos e de ferros de el-rei e de maus vizinhos de ao pé da porta.     Ora para bem os fade a sua sorte. Ámen.

— Então veio fiar para o descampado? É melhor, são     os ares mais livres — disse Filipe, para desviar a atenção     da velha do riso mal disfarçado dos seus companheiros.

— Nada, não senhor, eu lhe digo. O menino...

Desta vez os risos rebentaram.

.— Olhem! Estão-se a rir por eu lhe chamar menino. E eles que     o são todos para mim, que para um cento só me faltam quatro     anos! Vejam os grandes homens.

— Não faça caso, não faça caso. Deixe-os     lá. Diga o que ia a dizer.

— Ah! perguntava eu se os... vá lá, senhores, se os     senhores eram... criados de sua majestade? Sim, porque ser criados dos reis     não é baixeza nenhuma. Um morgado da minha terra, fidalgo dos     quatro costados e homem de teres e haveres, pois senhores, deu um bom par     de centos de mil-réis para ser moço do paço, e pelos     modos as suas obrigações são as mesmas da gente, mas     aquele ainda assim q u e r que lhe paguem para as fazer, por isso é     que eu pergunto.

— Não se enganou, minha tia — disse Rialva, fazendo um     sinal aos companheiros — eu sou estribeiro-mor da casa real, aquele     monteiro- mor, este copeiro-mor, camareiro-mor o outro, esmoler-mor...

— Vejam que graça! Pelo que estou ouvindo todos os empregos     mores são para os fidalgos, menos o de tambor-mor, que nesse tenho     eu um neto, que é um rapagão como uma casa.

De novo a seriedade dos ouvintes esteve para os abandonar.

— Visto que são o que eu suspeitava, sabem dizer-me se a rainha     se demorará ainda muito? — Então queria vê-la ?      — Vê-la? Não era só vê-la, é que lhe     queria também falar.

— Falar-lhe?! Aqui? — Aqui mesmo, sim senhor, e porque não?      — Então tem a pedir-lhe alguma coisa? — É verdade     que tenho. Tenho a pedir-lhe justiça.

— Justiça! — disseram admiradas algumas vozes do grupo.      — E contra quem? — Isso basta que ela o saiba.

— Mas na estrada, boa mulher, a falar verdade, não é     das melhores ocasiões — disse o major Samora, que tendo-se agora     reunido ao rancho, de que se separara, acabava de ouvir as últimas     palavras do diálogo.

A velha voltou-lhe uns olhos desconfiados, e respondeu com certa aspereza:      — Para fazer justiça é sempre ocasião.

— Bravo! — disse o estudante da canção.

A velha, estimulada pelo sinal de aprovação, prosseguiu: —      Não é ocasião! tem graça. Nem que a gente não     tenha mais que fazer do que largar barcos e redes para ir ao palácio     procurar sua majestade. E então para quê? Para vir o senhor porteiro-mor,     o senhor escudeiro-mor, o senhor lacaio-mor, e nos mandar pôr fora sem     que a rainha o saiba. Temos outra como as justiças dos tribunais.

Andar uma criatura em uma barafunda de escrivães e procuradores e     letrados e testemunhas e jurados, e a gastar dinheiro, e tanto mais ganha     quem mais gaste, e tanto mais gasta quem mais tem.

Nada, não serve para mim. Aqui, no meio da estrada. Se me não     deixarem chegar à carruagem, ponho-me a gritar: Aqui del-rei! aqui     del-rei! e veremos então o que vai. Forte coisa! Olha agora a grande     dúvida! — É assim, é assim, minha tia — diziam     do lado alguns oficiais.

— Vamos cá a saber, tardará muito a rainha ? Rialva,     trocando um olhar com os circunstantes, apressou-se a responder, fazendo por     dissimular um certo ar de malícia, que olhos mais exercitados que os     da velha poderiam reconhecer: — Duas horas o mais tardar. Conhece-a?      — Nunca a vi, mas isso logo se tira, pouco mais ou menos. Sempre há-de     vir vestida de modo que...

— Não, não — disse Rialva. — A rainha traja     como qualquer outra senhora; de mais a mais como vem incógnita, nem     acompanhamento traz. Não vê que nos mandou adiante? — Sim,     sim. Mas então como há-de ser? — Olhe, daqui por duas     ou três horas, pouco mais ou menos, vendo chegar duas carruagens com     criados de casaco azul, botões de prata e colete vermelho, e dentro     da primeira uma senhora de meia-idade vestida de verde com xale e um chapéu     branco...

— É ela? — É ela. Acompanham-na talvez algumas     mais novas, são damas do Paço. Na segunda carruagem vêm     os criados.

— E o rei e os príncipes ? — Esses vêm mais tarde,     a cavalo, e com os generais. Não lhe disse já que sua majestade     quis vir incógnita? — Bem, bem.

— E olhe lá. É provável que por isso mesmo ela     se ponha a rir se vossemecê lhe chamar rainha e o negue; mas teime e     diga-lhe que vai pedir justiça, que ela há-de escutá-la.

— Isso fica ao meu cuidado. Então diz que daqui por duas horas?      — Duas ou três.

— Isto vai nas nove — disse a velha, falando consigo e fitando     as nuvens — com mais três, nove, dez, onze, doze. Meio-dia. Chega     não chega: uma hora; janta não janta são duas, às     seis é noite. Não tem dúvida; uma vez não são     vezes. E isto como assim há-de fazer-se. Ora então, muito obrigada,     e vão com Nossa Senhora.

— Adeus, minha tia — disseram todos com a possível gravidade.

— Deus permita que se saia bem da empresa.

— Amen! ámen! E o alegre bando, despedindo-se da velha, que     voltou a tomar a sua primeira posição, partiu a galope em direcção     a Braga.

Quando a considerável distância do sítio, onde esta     cena se passara, afrouxaram o passo às cavalgaduras para pedirem a     Filipe explicações sobre o que ultimamente dissera à     velha.

— Pois não compreenderam ? É uma surpresa que preparei     a minha mãe. Minha mãe devia partir de Barcelos duas ou três     horas depois de mim com as meninas do Coural, minhas primas não sei     em que grau, em casa de quem tenciona ficar esta noite para depois de amanhã     assistir em Braga à entrada da rainha. Portanto, dentro de duas horas     estará ela ouvindo uma reclamação em forma dirigida por     esta pobre velha, o que não pouco a há-de divertir e às     priminhas.

Mas que necessidade tinha você de enganar esta mulher ? — disse     o major com um certo ar de amigável censura.

— Deixe lá, major — disse um dos oficiais — o episódio     deve ser interessante, e aquelas senhoras devem agradecer-no-lo.

— Quem sabe o que esta pobre criatura teria a pedir à rainha     ? — Se for esmola, não ficará sem ela, pedindo-a a minha     mãe.

— Sim; mas se for justiça ? — E julga que irá mal     encaminhada, se minha mãe a guiar para obtê-la? — Assim     a julgue merecedora dela.

— Pois então, deixe correr, major. Pena tenho de não     poder presenciar a cena,

 

 

Ameia légua de Braga, Filipe de Rialva, o major Samora e seus jovens     companheiros tiveram a surpresa de um feliz encontro.

Ao dobrarem um ângulo de estrada, que em uns sítios aqui e     ali era povoada de pequenas casas e vendas, como denunciando a vizinhança     de uma grande povoação, acharam-se frente a frente com uma personagem     muito nossa conhecida, José Urbano.

À ruidosa exclamação com que José Urbano saudou     a cavalgada, rompeu desta um coro unânime de brados, que em uns desafiava     o conhecimento que tinham do jovial negociante, e em outros o estranho costume     de jornada de que ele vinha revestido.

José Urbano montava uma égua corpulenta, mas não de     raça apurada. Um chapéu de palha de amplíssimas abas,     preso por uma fita por baixo da barba, um barrete preto subjacente que lhe     defendia as orelhas de um leste em perspectiva, que a sua ciência meteorológica     prognosticava iminente; óculos verdes, baluarte contra a invasão     da poeira; guarda-sol minhoto, com honras de barraca, mas o único que     tem razão de ser; um capote de camelão, verdadeiro epigrama     ao sol da Primavera; galochas capazes de arrostar com o dilúvio ao     lado da arca; alforges repletos, uma cabaça a tiracolo, diante de si     uma trouxa e na garupa uma pequena mala; tal o conjunto de acessórios     que concorriam para o efeito prodigiosamente cómico do recém-     -chegado.

— Aleluia! — exclamou José Urbano, elevando para a testa     os enormes óculos verdes, que o incomodavam quase tanto como a poeira.

— Aleluia! Encontro enfim Aníbal. Juraria que me andavam a     fugir, meus companheiros de Vila Nova. Receiam-se da desforra que me devem     ao voltarete. Inútil trabalho. Ela é inevitável como     os fados. Persegui- los-ei até aos confins do mundo. Mas de facto!     Apresso os meus negócios em Barcelos para os encontrar em Braga. Chego.     Qual! Haviam-se evaporado. Acordaram uma manhã com a febre de passear,     e partiram para Barcelos! que eu acabava de deixar justamente em companhia     do correio que trouxe a Braga a notícia da terminação     do incêndio. Com os diabos! disse eu comigo. Os meus amigos teriam praça     assente em alguma companhia de bombeiros? Voltam agora a Braga, quando eu     estava em caminho da minha casa de campo.

— Eu iria jurar, meu caro José Urbano — disse o major     Samora — que partia para a Sibéria. — O aspecto respeitável     do seu equipamento...

— Permita-me que lhe diga, major, que essa observação     desacredita um pouco a reputação de homem experiente e cauteloso     que merecia. Fie-se em calores de Maio! Bom, bom. Olhe-me para aqueles riscos     brancos do céu, aquilo é leste, o impertinente, o endemoninhado     leste. Eu nunca ouvi o sibilar dos pelouros, meu caro Cipião, mas afianço-lhe     que me não pode ser mais desagradável que o do vento leste.     Não o há assim.

— Nem o dos mosquitos? — perguntou um estudante.

— Nem esse. Os mosquitos matam-se, o leste... mata-nos. Bem vejo que     o capote lhes está causando sensação. O capote, meus     amigos, é o mais útil artigo de vestuário que desde a     folha de figueira tem inventado o engenho do homem. Conserva-me o calor no     Inverno e a frescura no Verão. Os óculos livram-me os olhos     da poeira e conservam- me a vista. O guarda-sol, que os espanta pela enormidade,     abriga a minha pessoa e a bagagem dos ardores do sol e das torrentes da chuva.     A cabaça, meus amigos, contém o líquido que me sacia     a sede, ou me dá o calor para arrostar com o frio...

— Basta, basta, amigo José Urbano — interrompeu Samora.—      Vejo agora que sou imprevidente. Desse modo tanto pode viajar pela Cítia     fria como pela Líbia ardente.

Esta observação do major foi festejada com uma estrondosa     gargalhada, na qual tomou parte José Urbano.

— Seja — disse este, quando serenou a hilaridade — mas     o facto é que os meus amigos vão para Braga e eu para a minha     casa de campo.

Não importa. Amanhã cedo cá estou de volta, e fiquem     certos que me não tornam a fugir. Cobardes! São militares, e     fogem de um paisano desarmado! E José Urbano, despedindo-se de Rialva     e Samora, saudou a cavalgada, que lhe correspondeu com estrepitosos hurras.

Daí a pouco entrava a cavalgada em Braga, e aquele grupo alegre e     ruidoso dispersava-se, levando todos gratas recordações da viagem     de Barcelos à capital do Minho.

Na manhã seguinte, véspera da entrada da rainha em Braga,     passeava o major Samora com alguns oficiais militares no campo de Santana,     quando um indivíduo bem trajado, de idade avançada, mas de aspecto     vigoroso, lhe foi ao encontro com os braços estendidos, dizendo-lhe     com o sorriso nos lábios: — O sr. major Samora já tão     cedo por aqui?! — Tão cedo ? — disse Samora — pois     o amigo José Urbano não sabe que os militares se levantam ao     toque de alvorada?

— É verdade, é verdade; mas quando se não está     em serviço activo... Naturalmente não quis que o inimigo o surpreendesse     na cama! Muito bem; como o prometido é devido, aqui estou em cumprimento     da minha palavra. Mas diga-me, major, onde está hospedado? —      No quartel.

— Tem necessidade de estar hoje em Braga? — Nenhuma. Os meus     deveres estão cumpridos e só amanhã...

— Nesse caso quer-me fazer um obséquio ? — Quantos quiser,     meu caro senhor.

— Há-de vir jantar comigo.

— O pior é que o meu antigo camarada, o capitão Melo,     já me havia obrigado a prometer-lhe jantar com ele.

— O capitão pode esperar, não é verdade ? —      disse José Urbano, voltando-se para o capitão, entre quem e     ele existia a maior familiaridade.

— Pode até vir connosco também.

— Isso é que não — disse o capitão interpelado      — mas não quero também privar o Samora do agradável     passeio que lhe proporciona o amigo Urbano. Aconselho-te que vás, e     amanhã será o meu dia.

— E não levas a mal ? — Essa é boa! — Às     suas ordens, Sr. José Urbano. É longe? — Um quarto de     légua afastado de Braga. É um caminho excelente.

— Conta meia légua, Samora; o nosso amigo tomou os costumes     da aldeia; para ele não há longes.

— Isso também é com o meu cavalo.

— Então vamos! — continuou José Urbano —      mas, major, não julgue que pretendo com isto pagar-lhe os obséquios     que me fez em Famalicão. Não, senhor.

— Basta de agradecimentos por tão pouco; não falemos     mais nisso.

E os dois dirigiram-se para o quartel, onde o major Samora residia; este     montou a cavalo; José Urbano tomou na alquilaria próxima uma     possante égua que ali dera a guardar, e partiram em direcção     à morada do negociante bracarense, vivenda retirada da cidade na proximidade     da estrada do Porto, mas afastada dela mais de um quarto de légua.

— Então reside na quinta permanentemente? — Não,     senhor. Eu vivo em Braga, porque a isso me obriga o meu negócio. Mas     tenho há tempos a minha família fora da cidade, longe da qual,     por gosto, eu viveria também.

— É numerosa a sua família? — Uma sobrinha apenas.     Pobre rapariga. Eu sei que não é esta a vida a que naquela idade     se dirigem seus suspiros,..

E os dois prosseguiram no seu caminho conversando acerca da agricultura,     do comércio, da indústria, de política, até avistarem     a casa onde José Urbano vinha descansar a miúdo das suas lidas     comerciais.

Era uma agradável vivenda, circundada por um viçoso quintal     todo orlado de limoeiros, e onde florejavam as mais formosas japoneiras e     magnólias de algumas léguas em redor. Penduravam-se pelos muros     festões virentes de jasmins e balsaminas, em volta dos quais zumbia     incessante um buliçoso enxame de abelhas, atraídas pelos aromas     suaves que se exalavam em torno. Na extensão destes muros abriam-se     sobre o caminho duas janelas de grades, através das quais se descobria     a abundante verdura daquele perfumado recinto, e de fora se escutava já     o murmúrio contínuo e monótono de uma cascata, que derramava     a frescura e a vida por toda aquela vegetação interior.

Respirava-se ali uma tranquilidade que deliciava o coração.     O horizonte, que rodeava esta pitoresca residência, era extremamente     aprazível.

Para qualquer lado que as vistas se dirigissem repousavam sempre agradavelmente     sobre um ameno fundo de folhagem e verdores, onde se demoravam irresistivelmente,     seduzidas pela alegria e festa que se reflectia por toda a parte. No meio     do repouso e silêncio que reinava em torno dessa habitação     campestre, como que se adivinhava a vida latente da natureza que desperta     no raiar da Primavera, e o azulado e tenuíssimo véu de nuvens     da manhã, que o sol não dissipara ainda de todo, era como a     garça transparente que longe de disfarçar, realça a formosura     de certos rostos e o fulgor de certos olhos. Através daquele sendal     vaporoso pressentia-se sorrir a natureza, mais fascinadora ainda nos seus     trajos simples da manhã, que nas ostentosas galas do meio-dia. As ervas     dos silvados, ainda húmidas do orvalho, dispersavam em cambiante íris     os raios de luz, fulgindo como brilhantes nas suas mudanças contínuas,     ou imitando o fulgor do rubi, a amenidade da safira, a limpidez da esmeralda     e do topázio; só a Primavera tem destes encantos.

Digam o que quiserem das outras estações, nenhuma é     tão agradável como esta. A natureza é sempre admirável,     é sempre artística, é sempre poética, mas o carácter     da sua poesia é variado. No Inverno é sublime e lúgubre     como o Manfredo, o Corsário, o Giaour e muitos outros poemas; Byron     admira-se, surpreende-nos, aterra-nos, faz-nos estremecer e mistura certo     terror secreto ao seu entusiasmo; e entre o ritmo das rajadas, as estrofes     do mar agitado o que caracteriza os seus hinos. No Estio é imaginosa,     apaixonada, esplêndida, lasciva, como um frémito de Musset, como     uma oriental, como um episódio de D. João.

No Outono transparece nos seus cânticos o que quer que seja de utilitário,     são os frutos sazonados pendentes das árvores, e das searas     maduras, que chamam o pensamento para os sérios problemas da vida,     como este género de poesia filosófica que entre as galas do     estilo desenvolve um pensamento moral e humanitário. Mas na Primavera     a poesia da natureza é destas composições fugitivas,     em que tudo é harmonia e lirismo; abundam as flores, multiplicam-se     as imagens, nos lagos e ribeiros onde se reflecte o céu, nos ares onde     os vapores se condensam fantasmagòricamente em pequenas nuvens de formas     tão variadas como as concepções de fantasia de poeta,     combinam-se surpreendentemente a luz e o orvalho como as lágrimas e     os sorrisos em uma balada germânica.

O concerto das selvas compõe-se de gemidos e cantos, harmonizados     em misteriosa consonância. A natureza é então como a donzela     que só cura de atavios e enfeites, e se entrega descuidada à     alegria do viver; reflectem-se-lhe desanuviados os sorrisos nos lábios     inquietos, exalam-se-lhe do seio irreprimíveis os suspiros de envolta     com os cânticos, pulsa-lhe o coração ansioso como se fosse     excesso de vida. Mais tarde a maternidade tem também sua beleza, mas     há alguma coisa de melancólico nas alegrias de então;     o futuro, que à donzela fulgurava de esperanças, à mãe     anuvia-se-lhe de cuidados; o coração sobressalta-se-lhe de contínuo     repartido por tantos afectos. A natureza no Outono tem também o carácter     grave da maternidade, mas na Primavera só há a despreocupação     da virgem.

Não sei se estes mesmos, se análogos pensamentos, suscitava     ao major Samora o belo espectáculo campestre que se gozava dali; é     certo que parecia não se saciar de correr com os olhos por aquele horizonte     vasto e pitoresco, e não participar da impaciência que manifestava     José Urbano pela demora que havia em lhe abrirem o portão, ao     qual estava batendo havia cinco minutos.

Respondiam-lhe do interior os latidos formidáveis de dois cães,     mas não se observava o menor vestígio de uma existência.

— Onde estará metida esta gente ? — exclamou José     Urbano com azedume notável.

O major nem deu fé da demora que assim exasperava o seu anfitrião.

Finalmente ouviu-se o estalar da areia do jardim: o ruído de uns     passos ligeiros e uma voz feminina, cujo timbre agradável e sonoro     veio despertar o major da sua contemplação extática,     fez-se ouvir de uma das janelas do muro.

— Ah! é o padrinho! estava bem longe de o esperar aqui a esta     hora — disse aquela voz ao reconhecer José Urbano; e o major     elevando a cabeça na direcção de onde lhe tinham vindo     aquelas palavras, pôde perceber, ainda que de passagem, a forma elegante     de uma rapariga que se retirava com agilidade.

— Abre, Micas, abre — disse José Urbano, cujo mau humor     se desvaneceu ao ouvir aquela voz. — Ainda não sei o que fez     a Roberta a esta gente toda! — E, voltando-se para o major, acrescentou:      — É minha sobrinha. Uma boa rapariguinha; coitada. — E     suspirou.

Ouviu-se o correr de um ferrolho no portão do quintal, que girou     sobre os gonzos e se abriu aos recém-chegados, que se apearam rapidamente,     e recolheram os cavalos.

O major, com a amabilidade de um militar sensível aos encantos da     beleza, cumprimentou a gentil porteira, que meio enleada pelo inesperado da     visita, se ia sorrindo ao corresponder ao cumprimento.

— Meu padrinho é só o responsável da má     recepção que o senhor tem. Se me tivesse prevenido quando partiu     de madrugada....

— Minha senhora — disse o major em tom jovial — V. Ex.     há-de permitir que, fazendo eu próprio a minha apresentação,     lhe diga que tem na sua presença um velho soldado, que dormiu muita     vez no terreno e no agradável leito das tarimas, comeu o caldo pouco     apetitoso do rancho, e saciou muita vez a sede na água dos rios. Quando     bato a uma porta a demandar quartel, só peço o pão, sal     e água, de que costumam rezar os boletos.

— Nesse caso ganho ânimo, porque espero satisfarei a tão     pouco exigente peregrino; mas está-me parecendo que o padrinho não     se satisfaz com tão pouco.

— Não, Micas, pelo menos não te perdoo aquele pudim     de batatas que sabes cozinhar tão bem; o mais fica por conta de Roberta.

— De Roberta, sim! Quando a teremos nós cá! —      Como ? — Disse-me, depois do padrinho ter partido, que tinha que fazer     na cidade. Uma compra de linho ou estopa, ao que julgo. Ou é natural     que aproveite a ocasião para ver a rainha...

— A rainha? hoje! — Pois não entra hoje em Braga? —      Amanhã.

— Disse-nos aqui a leiteira que entrou já ontem, e à     Roberta afirmaram-lhe que era hoje de tarde...

— Deixa afirmar. Mas então quem ficou em casa? — Eu.     Os criados foram para a lavoura.

— Só! — exclamou José Urbano com certo ar de censura     e desagrado.

— Com estes — respondeu, voltando-se para ele sorrindo, a gentil     rapariga, ao passo que afagava a cabeça de dois enormes cães     acorrentados que, como se desejassem justificar a confiança que depositava     neles, a afagavam com humildade.

O major não disse palavra. Não se cansava de admirar a singeleza     e graça da interlocutora.

Para justificar esta contemplação admirativa do major, precisamos     nós também de esboçarmos aqui o perfil desta nova personagem     da nossa história, minudência cuja falta nenhuma leitora me perdoaria     por certo.

E contudo a tarefa é de desanimar.

 

 

NAO sei de maior dificuldade que a de descrever a heroina de um romance.     Tão pouca coisa basta para a desconceituarmos aos olhos da leitora!...     Eu, porém, sacrificarei à verdade algumas simpatias que poderia     angariar a maior, se a menosprezasse.

Descrevo-a tal qual ela era. Em primeiro lugar começarei por dizer     que o modo por que ela trajava, realçava-lhe tudo que eram dotes naturais.

Maria Clementina, sobrinha de José Urbano, era de uma configuração     elegante, na qual se observavam as regulares proporções que     a arte não teria decerto a corrigir. De um porte desafectadamente majestoso,     inexplicavelmente combinado a uma expressão de bondade insinuante e     atractiva, havia no andar, nas feições, na maneira de olhar,     um ar de dignidade e de nobreza, que intimidava os mais ousados.

Um singelo vestido de riscado escocês, adornado apenas por um colarinho     liso, e por uns punhos apertados por duas coralinas, deixava- -lhe sobressair     todo o correcto contorno daquelas gentis formas femininas, de uma flexibilidade     admirável. No rosto não havia aquela combinação     de rosas e neve, que para muita gente constitui o supremo grau de beleza,     e contudo não era trigueira, nem de uma alvura desmaiada dos tipos     alemães, que tão frequentemente se combinam com cabelos ruivos,     antipática combinação; mas para lhes dar uma ideia daquele     colorido encontro-me gravemente embaraçado; a natureza concedeu àquelas     tintas uma singular influência sobre a fantasia do coração,     empregou-as apenas em alguns rostos de mulher, que exercem então um     poder verdadeiramente magnetizador. Um romancista português, e outros     franceses, comparou uma dessas cores à da pérola; e tem um pouco     disto efectivamente, mas excede-a em beleza. Quanto a mim considero-as as     mais perigosas. Imaginem um rosto assim, animado pelo cintilar de uns olhos     negros, orlado por uma moldura de cabelos também pretos, cujas ondulações     naturais semelhavam elegantes ornatos; concebam a mais bem modelada boca,     cujos lábios, convenientemente grossos, agitava incessante um mal perceptível     tremor, sinal evidente de uma exaltada sensibilidade; suponham agora toda     esta simpática cabeça, graciosamente coberta por um largo chapéu     de palha, que a assombrava de uma penumbra de efeitos ópticos e fascinadores,     e terão explicada a razão pela qual o major não se fartava     de fixar esta rapariga com os mais inequívocos sinais de uma sincera     admiração e decidida simpatia.

Caminharam todos os três por entre ruas orladas de arbustos que se     entrelaçavam, formando um toldo de folhagem, e cobertas de areia que     fazia sobressair a verdura matizada dos tabuleiros em que estava repartido     o jardim.

José Urbano fazia notar ao major o desenvolvimento de algumas árvores     fruteiras, à afilhada a raridade de certas flores. E assim chegaram     à entrada de casa, que não desdizia do aspecto festival de toda     a vivenda. José Urbano subiu mais apressado os quatro degraus de pedra     que davam entrada por a porta envidraçada, e abrindo-a de par em par,     disse, voltando-se para o major: — Tenho a honra de o receber em minha     casa, senhor major.

— E agora hão-de me dar licença, o senhor major e o     padrinho — disse a elegante sobrinha do proprietário —      que me retire para tratar do seu jantar.

— A falar verdade, minha senhora, eu preferia o pão do boleto,     a privar-me do prazer da sua companhia.

— Mas o padrinho é mais exigente. Não tem esses hábitos     militares.

— Mas se nós esperássemos por a Roberta...? —      Não pode ser.

— Porém, Micas, a falar verdade, tu só...

— Meu caro Sr. José Urbano — disse o major em tom meio     jovial — estou tentado a fazer-lhe uma proposta...

— Qual é, major? — Receio que ma não admitam;     mas desde já lhes declaro que mau é que a chegue a formular,     porque sou teimoso.

— Vamos, major, diga. — A Micas já está cheia     de curiosidade.

Repare...

— A falar verdade... Ainda quando não seja senão para     ver como o sr. major é teimoso — observou esta, sorrindo.

— Proponho que nós todos colaboremos no jantar.

— Essa agora! — disse José Urbano admirado.

— Pois o sr. major também cozinha? — Oh! minha senhora.     Um militar precisa de saber de tudo um socado; pois deve afazer-se a contar     consigo apenas. Tenho tido ocasião de cozinhar para mim mesmo, de compor     a minha própria roupa, e até de me medicamentar.

— Confesso-lhe, sr. major, que estava com minha vontade de experimentar     o seu talento culinário.

— Pois com permissão aqui do seu padrinho, minha senhora, >parece-me     que chegou a ocasião.

— Não, senhor, a minha permissão não pode...

— Meu caro José Urbano, você, que viajou também,     deve saber alguma coisa de cozinha. Eu pela minha parte prometo uma saborosa     açorda, na confecção da qual granjeei certa fama entre     os meus antigos camaradas, que também me diziam inimitável em     manejar o espeto; e, se houver ocasião, folgarei de lhes demonstrar     que não sou indigno de crédito. E você que sabe fazer,     ó José Urbano? diga lá, ande, e vamos a isto.

— Confesso que nunca tive disposição para a cozinha.

— Nem se atreverá a fritar uns ovos com umas rodelas de salpicão     ? pois eu creio que o fumeiro deve estar bem provido, hem? — Não     é por falta de materiais...

— É verdade que isto de fritar uns ovos ainda requer seu engenho     e tacto culinário; no grau devido é um prato delicioso, um pouco     acima é detestável. Mas eu vigiarei, vamos.

— Ora, o sr. major está a gracejar.

— Basta-me saber — disse a sobrinha de José Urbano —      que posso contar com o seu auxílio em caso de maior urgência.

— Minha senhora, eu não lhe disse que era teimoso? É     fama que tenho no exército, e já agora não a hei-de desmentir,      — Mas...

— Para outra vez...

— Não recuo, faço disto questão ministerial...     O meu amor-próprio exige que eu lhes faça apreciar as qualidades     da minha açorda.

E o major, gracejando e rindo, de tal maneira insistiu, que os três     acabaram por passar todos para a cozinha às risadas e já sem     o menor constrangimento.

O major era destas pessoas, cujo bom humor se comunica, e que põe     à vontade e nas mais joviais disposições as pessoas com     quem se acha. Logo às primeiras palavras que se tivesse com ele cessava     todo o constrangimento, e estabelecia-se uma familiaridade e sem-cerimónia,     como um amigo de longos anos.

O próprio José Urbano participava daquela alegria e arregaçava     as mangas do casaco, preparando-se para a tarefa culinária às     ordens do seu comensal.

Maria Clementina assistia rindo com vontade a toda aquela azáfama     dos dois.

O major era admirável de actividade. Tomara posse do terreno, e não     se mostrava constrangido.

— Minha senhora — dizia ele, voltando-se para a afilhada de     José Urbano — porá V. Ex.' à minha disposição     um fornecimento de água, pão, sal, azeite, vinagre, pimenta,     alho, cravo, cebola, salsa, salpicão e toucinho.

— Misericórdia, major... Tenha misericórdia dos nossos     estômagos...

Os desgraçados não resistem a essa metralha.

— José Urbano, você não sabe o que diz. Não     há tónico mais eficaz do que a açorda preparada assim!     Verá, verá.

— Pode satisfazer a minha requisição, minha senhora?      — Prontamente.

— Bem; agora, José Urbano, vá você empunhando     essa sertã para logo, e partindo os ovos já...

— Confesso-lhe que é uma tarefa melindrosa. Partir ovos! —      Que pusilânime ! Homem, é assim! — E, com a maior presteza,     o major preleccionava praticamente o seu hospedeiro, que ria a bandeiras despregadas.

— AV. Ex.a declaro-a emancipada da minha tutela e livre em todos os     seus movimentos.

— Ainda bem — disse José Urbano — quando não,     recearia pelo destino do nosso jantar.

— Homem, não faça injustiça à experiência     da vida de campanha.

Prometo-lhe que se há-de lembrar com saudade da minha açorda.

Na cozinha ia uma desusada animação, Parecia que se preparava     um banquete esplêndido. O major, de per si só, fazia mais ruído     que meia dúzia de cozinheiros. E com uma gravidade, que Maria Clementina     não podia ver sem se perder de riso, mexia e remexia a açorda,     que exalava um cheiro apetitoso, e de quando em quando ia vigiar o trabalho     de José Urbano, que ele empregara a bater uns ovos, aos quais associara     uma quantidade de ingredientes. José Urbano executava fielmente as     ordens do major, e havia um quarto de hora que estava batendo os ovos com     um escrúpulo e regularidade admiráveis.

Ao meio-dia, graças aos esforços combinados dos três,     o jantar foi declarado completo, e José Urbano, que observava os costumes     patriarcais, folgou ao antever que não seria alterada a sua hora do     costume.

Enquanto o major dava a última demão à sua decantada     açorda, Maria Clementina pôs a mesa, a qual deu um ar festivo,     graças as flores com que a adornou; e José Urbano, descendo     à garrafeira, foi procurar o mais precioso vinho de que ela constava.     No entretanto o major apareceu na sala de jantar, junto de Maria Clementina.

— Pois já está posta a mesa! — exclamou ele ao     entrar na sala.

— E eu que vinha para a ajudar! — Mil vezes agradecida; mas     o coronel...

— Assim me despacha já, se os ministros lhe quiserem honrar     a palavra.

— O sr. major, queria dizer, foi apenas justo para o serviço     da cozinha.

— Há-de fazer-me a honra de provar a minha açorda, não     é verdade ? — Decerto. E parece-me poder já assegurar     que há-de estar deliciosa.

— Não me queira mal pela minha impertinência; mas é     génio meu...

— Querer-lhe mal! Se eu lhe assegurar que há muito tempo que     me não rio como hoje!... O sr. major conseguiu fazer-me esquecer por     algumas horas as mortificações da minha vida.

— Pois também tem mortificações ? — perguntou-lhe     o major com um carinho que a maior parte das pessoas que o conhecessem lhe     estranhariam, ouvindo-o.

— E pergunta-mo ? — E duvido-o. Chama mortificações     a quê ? Desgostos por o padrinho não viver aqui, saudades de     alguma amiga mais íntima, zangas pela rabugice da sua criada, a doença     de algumas das suas pombas mais bonitas... pretextos para mostrar mais uma     maneira de serem belos esses bonitos olhos que tem.

Maria Clementina sorriu a este galanteio do velho militar; mas através     deste sorriso descobriam-se uns longes de tristeza.

— Se o major soubesse o motivo por que eu vivo triste, talvez, longe     de me estranhar a tristeza, se admiraria ainda de me ver sorrir...

às vezes.

— Ora adeus. Não é difícil penetrar no seu segredo.     Perdoe dizer-lho. Afinal é o segredo dos... vinte anos... não     é a sua idade ? — É — disse Maria Clementina, corando     e desviando os olhos dos do major. — Mas ainda não adivinhou     tudo.

Nisto ouviram-se passos no corredor, e a conversa, com aprazimento de Maria     Clementina, foi interrompida por José Urbano, que voltava da sua excursão     à garrafeira, exclamando ao entrar na sala: — Major! Eu cá     sou nacional. Porto e Madeira.

— Apoiado, sr. Urbano. Eu secundo o seu patriotismo.

E sentaram-se todos três à mesa. José Urbano, contente     e jovial; o major fazendo as despesas de conversação com anedotas     que faziam rir até às lágrimas o negociante, e assomar     um sorriso aos lábios de Maria Clementina, que, da curta conversa que     tivera com o major, conservava uns vislumbres de melancolia.

A açorda preparada pelo major teve um efeito monumental. José     Urbano declarou-a a mais deliciosa comida que em sua vida tinha provado. E     não obstante ao princípio não poder eximir-se em fazer     uma careta, abrindo a boca para minorar o excesso dos condimentos, depois     de costumar o paladar, reclamava repetições com uma insistência,     que lisonjeava um pouco o orgulho do major.

— Bravo, major! Já vejo que o cheiro da pólvora apura     e aperfeiçoa o paladar. É deliciosa! — Mais outra vez,     Sr. José Urbano.

— Vá, mais outra.

— Tenha cautela, meu padrinho, que lhe não vá fazer     mal. É tão forte ! — Deixe, minha senhora, isto dá     tom ao estômago. E com um cálice de Madeira por cima... V. Ex.'     é que não lhe é afeiçoada.

— Estava excelente, sr. major. Bem viu que comi.

Aqui para nós, a sensação que a açorda deixara     em Maria Clementina não era das mais favoráveis ao talento culinário     do major.

Reinou em todo o resto do jantar a mesma jovial animação com     que principiara a manhã. O major fez um brinde a Maria Clementina,     José Urbano outro ao major; este outro a José Urbano, ambos     uma a sua majestade; o comerciante outro ao exército, o militar outro     ao comércio; e estavam no seu undécimo brinde, quando se ouviu     bater à portaria duas grandes argoladas.

 

 

O som estridente das argoladas no portão da casa determinou, por alguns     momentos, completo silêncio na sala, e os três convivas, olhando-se     interrogativamente, como que se perlavam — quem será ? —      Já sei. É a Roberta — disse Maria Clementina, respondendo     à interrogação tácita dos dois. — Ninguém     senão ela podia entrar no quintal.

E levantando-se chegou â janela, cuja vidraça correu para ver     quem batia.

— É você, Roberta ? — Sou eu, menina, sou eu —      respondeu uma voz de mulher, na qual se notava um evidente cansaço.      — Ai que venho mais morta que viva! Depressa, faz favor de atirar cá     abaixo a chave da portaria, e abrir a sala das visitas...

— Pois quem vem lá? — Uma senhora de carroça,     para visitar a menina, José Urbano levantou-se sobressaltado.

— Uma senhora! — Mas quem é? — perguntou Maria     Clementina, igualmente admirada.

— Depressa, menina, depressa, que está à espera.

— Mas que senhora é ? — insistiu Clementina.

— Eu não conheço — respondeu Roberta, já     impaciente — mas ande depressa, pelo amor de Deus.

Clementina voltou para dentro a procurar a chave da portaria.

— Diz que é uma senhora que me procura.

— Mas quem pode ser ? — perguntou José Urbano, admirado.

— Ignoro-o.

E deitando a correr com uma graciosa agilidade, foi buscar a chave que Roberta     lhe pedia.

José Urbano chegou à janela, e dirigindo-se a Roberta: —      Ó Roberta, quem é que vem lá? A criada, ouvindo a voz     de seu amo, estremeceu e mostrou-se profundamente embaraçada.

— Pois o Sr. José Urbano... Boa te vai! Então o senhor...     olhem os meus pecados!... Pois na verdade... Em nome do Padre... Então     que quer isto dizer!... Temo-la travada! E continuava resmungando como se     a presença do amo a contrariasse.

— Responde: quem é que vem lá ? — Aí tem     a chave — disse Maria Clementina, atirando-lha pela janela e voltando     para ordenar a sala das visitas.

A velha não esperara por mais nada; sem atender a seu amo, fugiu     com uma ligeireza de que ninguém julgaria capazes as suas pernas estropeadas.

— Roberta, ó Roberta! demónio de mulher.

O major, que neste tempo se aproximara da janela, fez um movimento de surpresa     ao observar a mulher que corria em direcção ao portão.

— Ah! é aquela a sua criada ? — É; uma velha já     meia tonta e teimosa, mas, coitada, conheceu- me pequeno. Veja, major, a idade     que ela terá.

O major calou-se. O motivo da sua surpresa fora o ter reconhecido na criada     de José Urbano a velha que ele e seu jovem companheiro Rialva haviam     encontrado no dia antecedente na estrada, e que lhes perguntou pela chegada     da rainha.

— Mas quem poderá ser? — perguntava a si próprio     José Urbano.

— Uma senhora que procura minha sobrinha! Durante este tempo passeava     Maria Clementina na sala de recepção, igualmente preocupada     em saber quem seria a pessoa que a procurava.

Desde que Maria Clementina vivia no campo, raras tinham sido as visitas     que recebera; por isso a surpreenderam as palavras de Roberta, e mais ainda     a expressão da sua fisionomia, na qual se lia um certo espanto inexplicável.     Absorvida por estes pensamentos, a sobrinha de José Urbano desceu ao     jardim a receber a sua desconhecida visita.

Não esperou muito tempo. Roberta assomou pouco depois à entrada     de uma das ruas que conduziam ali, e após ela uma senhora de meia-idade     magnificamente vestida e com certo ar de nobreza e dignidade, que revelavam     distinção.

Maria Clementina foi ao seu encontro.

Roberta, colocando-se por detrás da recém-chegada, a quem     tributava extremas atenções, fazia sinais telegráficos     a Maria Clementina, que esta não podia entender, o que cada vez mais     a embaraçava, pois nada lhe recordava as feições da senhora     que pretendia visitá-la.

— Não sei a quem nem ao que devo a honra desta inesperada visita,     mas em todo o caso é-me sumamente agradável receber uma tão     lisonjeira distinção — disse Clementina, aproximando-se     da senhora, cuja fisionomia denotava um ar de bondade simpática e atraente,     que dispôs o ânimo de Maria Clementina em seu favor.

— Minha senhora — disse a recém-chegada, fixando em Maria     Clementina um olhar penetrante — ainda que lhe parece estranha a linha     visita, peço-lhe que me dispense de a explicar enquanto não     estivermos mais à vontade.

— Essa é boa — disse Clementina, sorrindo. — Se     V. Ex.* até não quiser dar-me explicações algumas,     não serei eu por certo que me atreva a pedir-lhas. Quer ter a bondade     de entrar? — Se o ordena? Mas para lhe falar verdade, se lhe não     fosse incómodo, aquela rua de romãzeiras tem uma sombra tão     convidativa...

— Como V. Ex.* quiser.

E as duas desviaram-se na direcção da rua de romãzeiras.

Maria Clementina, cada vez mais admirada da estranheza da visita; a senhora     idosa envolvendo-a nos seus olhares vivos e penetrantes.

Roberta, ao afastar-se delas, pôde obter ensejo de dizer a sua ama     em tom enigmático: — Cautela! trate-a com muito respeito! Eu     depois lhe direi...

Maria Clementina estava vendida, como vulgarmente se diz, Estranhava os     modos da criada pelo menos tanto quanto o inesperado da visita.

— Quer-me dar o seu braço ? — disse a Clementina a senhora,     cuja visita tanto a preocupava.

— Com todo o gosto.

E as duas mulheres penetraram, assim juntas e silenciosas, durante algum     tempo, pela copada rua do jardim. Chegaram à extremidade oposta à     rua, onde, junto de uma pequena fonte, havia um convidativo banco de cortiça     assombrado por um toldo de trepadeiras.

— Quer-me fazer o favor de se sentar aqui comigo ? — Com o maior     prazer.

A desconhecida, tomando então as mãos ds Maria Clementina,     disse-lhe com um tom meigo e afectuoso: — Sabe que me está inspirando     muita simpatia ? — Oh! minha senhora...

— Quero enfim dizer-lhe o que me trouxe aqui. Eu sou de Lisboa.

— Ah! de tão longe! ? — exclamou Maria Clementina, para     dizer alguma coisa.

— É verdade. E havia muito que desejava conhecê-la.

— A mim! ? em Lisboa...

— Admira-se ? — Não sei como V. Ex.a me pudesse conhecer     em uma terra, onde ninguém me conhece.

— Ninguém? — Decerto. A minha única família     resume-se em meu tio, que vive comigo.

— Mas algumas amigas...

— Amigas ! Engana-se V. Ex.*; eu não tenho amigas.

— Diz-me isso com um ar de descrença, que é de estranhar     em uma menina tão nova.

— Há pessoas para quem a experiência é prematura.

— Santo Deus! que desconsoladora dúvida! Ora vamos, quer-me     parecer que é menos justa nesse seu cepticismo.

— Não chame a isto cepticismo, minha senhora, graças     a Deus, eu tenho a amizade de meu padrinho.

— Só?! — Tem razão; era injusta. E a de minha     criada Roberta.

— E a de mais ninguém ? Parece-me que ainda mais uma vez terá     de reconhecer a sua injustiça. Em Lisboa alguém existe que a     estima.

— A mim ? — perguntou Maria Clementina, corando enleada sob     os olhares da sua interlocutora.

— E é dessa pessoa que eu lhe queria falar.

— V. Ex.*? — Eu, sim. Quer ser franca comigo ? — Eu? Mas...

— Oiça-me. Uma das minhas amigas tem um filho oficial no exército.

Maria Clementina sobressaltou-se a estas palavras.

— No ano passado — continuou a senhora — este rapaz, que     é meu afilhado, e por quem eu me interesso muito, passou algum tempo     em Braga em serviço. Quando voltou a Lisboa, por diligências     da mãe, ia preocupado e triste. Estranhavam-no todos que o tinham conhecido     o mais alegre, e direi mesmo, estouvado rapaz da capital. A mãe dele,     sobressaltada no seu coração materno, escreveu para alguém     do seu conhecimento, residente aqui próximo, e a carta que obteve...     Quer-me fazer o favor de a ler ? — continuou a senhora ídosa,     oferecendo uma carta a Maria Clementina. — É neste ponto...

— Mas para que hei-de eu...—dizia Clementina, tremendo e estendendo     quase involuntariamente as mãos para aquela carta; apesar da sua turbação     lançou-lhe os olhos, e pôde ler as seguintes linhas: «Quanto     ao que me perguntas a respeito de teu filho, colocas-me em sérios embaraços;     pois não sei se o meu pensamento lisonjeará demasiado a tua     vaidade maternal. Em todo o caso, eu com a franqueza que sempre me conheceste,     dir-te-ei que, a meu ver, o teu filho Filipe é digno de censura...»      As mãos de Maria Clementina tremiam cada vez mais ao ler estas palavras;     vencendo a sua comoção prosseguiu: «Há tempos que     a sua assiduidade junto de uma menina destes lugares havia sido notada; no     dia da sua partida uma imprudência dele sacrificou a reputação     daquela que inocentemente confiara nele e ...»

Maria Clementina devolveu a carta que estava lendo.

— Entendo, minha senhora — exclamou ela com a voz alterada com     as faces tingidas de um vivo rubor. — V. Ex.* sabe que sou eu a pessoa     assim caluniada, não é verdade? — E então com que     fim me procurou? — prosseguiu Maria Clementina com certo tom de amargura.

— Para lhe assegurar que a mãe de Filipe de Rialva, ao receber     esta carta, comoveu-se, e que, por um secreto pressentimento, acreditou na     pureza da mulher que uma imprudência de seu filho assim sacrificara;     que ela me pediu que se pudesse encontrá-la, lhe assegurasse isto mesmo,     e que lhe transmitisse um beijo, que eu espero me não recusará.

— Oh! minha senhora! — exclamou Clementina, verdadeiramente     comovida.

E as duas mulheres por muito tempo confundiram seus beijos e suas lágrimas.

— Ora agora — continuou afinal a senhora de Lisboa — faça-se     justiça a todos. Filipe ainda não é tão culpado,     como nesta carta se diz.

Ele, quer-me parecer, ainda se não esqueceu da menina.

Maria Clementina abanou a cabeça em ar de dúvida.

— Oh! não faça esse movimento que se não quadra     com esses olhares tão cheios de confiança, com uma expressão     de lábios, que, mesmo contra sua vontade, se conformam em um sorriso.     Não seja desconfiada. Sobretudo não me fique odiando Filipe...     não? Desta vez o sorriso de Maria Clementina tinha outra significação.

— Odiá-lo! — dizia-lhe, baixinho, o coração.      — E julgam necessário recomendar-me que o não odeie! Ora,     apesar do coração falar tão baixo, não sei que     admirável acústica era a senhora lisbonense que o percebeu,     e aproximando-se de Maria Clementina disse-lhe com voz afectuosa: —      Ainda o ama, não é verdade ? Diga-me que sim.

Maria Clementina corou e calou-se.

— Bem, bem, este rubor é também uma resposta. Adeus.     Permite- me que volte a visitá-la?...

— Quando V. Ex.* quiser.

— Agora retiro-me.

— E nem ao menos há-de descansar em nossa casa ? — Se     me dispensa...

— Meu padrinho há-de sentir.

—Quê! pois não está só? Tinham-me dito.,.

— Meu padrinho chegou, sem ser esperado, com um amigo que jantou connosco.     Eles lá vêm ao nosso encontro.

A senhora de Lisboa seguiu com os olhos a direcção em que     lhe apontou Maria Clementina, e não pôde disfarçar um     movimento de espanto ao reconhecer o major.

— O Sr. Clemente Samora aqui ? O major pela sua parte parecia tê-la     também reconhecido, e não mostrava menor estupefacção.

— Longe estava eu de esperar encontrar V. Ex.' neste lugar, Sr.' D.     Joana.

— Não menos alheia estava eu ao prazer do seu encontro, major.

José Urbano, depois de cumprimentar, segundo a etiqueta, a dama desconhecida,     voltou para sua afilhada e para o major olhares interrogadores.

— Para evitar-lhes o incómodo de uma apresentação,     eu própria me apresento — disse ela, olhando para o major de     uma maneira particular, como se lhe quisesse recomendar o silêncio.

— V. S." é, segundo julgo, o tio desta menina, não     é verdade? — disse D. Joana, sorrindo-se amavelmente para José     Urbano.

— Às ordens de V. Ex.* aqui e em toda a parte. José     Urbano, negociante em Braga.

— Muito bem, Sr. José Urbano. Pois eu sou de Lisboa, e aproveitei     a vinda da rainha para visitar o Minho, que há muito tinha desejos     de ver. Ao despedir-me de algumas minhas amigas em Lisboa recebi de uma a     incumbência agradável de procurar esta menina para lhe assegurar     da parte dela que, apesar da ausência, sempre a teve presente no coração.     O acaso fez com que eu na estrada encontrasse a sua criada, de cuja conversa     vim a saber ser aqui a morada de quem eu procurava, e resolvi por isso cumprir     imediatamente a minha comissão.

Agora retiro-me, mas já autorizada para voltar a visitá-la     por minha própria conta, se o Sr. José Urbano se não     opõe...

— Oh minha senhora! V. Ex.* honra-nos muito com a sua visita.

— O major fica? — Vinha também despedir-me desta menina,     e se V. Ex." quiser aceitar a minha companhia...

— Porém o major vai para Braga, e eu fico em casa do visconde     de P...

— Pessoa de bem — disse José Urbano ao ouvir este nome.      — Mas o major pode acompanhar V. Ex.* até perto da quinta do     visconde, sem torcer muito caminho.

E José Urbano, profundamente conhecedor da topografia do lugar, indicou     ao major Samora o itinerário que devia seguir.

— Então até breve... É verdade; quer-me fazer     o obséquio de aceitar um lugar na minha carruagem para vermos amanhã     a entrada da rainha? — perguntou D. Joana, voltando-se para Maria Clementina.

— Peço a V. Ex.* que me dispense de aceitar tão lisonjeiro     favor; mas não me agrada o tumulto.

— Basta; eu também prefiro falar-lhe mais com sossego, Adeus.

E, aproximando-se de Maria Clementina, beijou-a afectuosamente, dizendo-lhe     ao mesmo tempo:

— É verdade, peço-lhe que não dissuada a sua criada     das ideias que formar a meu respeito.

O major Samora ao ajudar D. Joana a subir para a carruagem, estava pensativo,     e olhava para Maria Clementina de um modo particular.

— Entre, major. O André que lhe conduza o cavalo até     ao sitio onde teremos de nos separar.

E depois de fazer um último sinal de afectuosa despedida a Maria     Clementina, cortejar José Urbano, e ter enviado a Roberta, que se desfazia     em mesuras, um gesto particular, deu ordem de partir, e em pouco tempo a carruagem     se afastava do lugar.

— Parece uma excelente senhora — disse José Urbano, fechando     a porta. — Mas de quem te trouxe ela visitas, Micas? — Ah!...      — respondeu Maria Clementina, turbada — da filha do juiz de direito,     que se retirou o ano passado.

Em todo o resto da tarde Maria Clementina mostrou-se preocupada.

José Urbano passeava no quintal, examinando minuciosamente o estado     dos enxertos, o adiantamento dos renovos, e limpando os alegretes com a solicitude     de um horticultor de vocação.

Maria Clementina permaneceu imóvel encostada à varanda, seguindo     com os olhos o volutear das andorinhas no espaço, nessa posição     cheia de languidez e poesia de mulher de vinte anos que cisma. O cismar nesta     idade é uma das variadas manifestações do amor, e a mais     ideal, a mais pura, e mais sublime. Cisma-se antes que o coração     tenha decifrado o enigma proposto, antes que o amor tenha recebido uma solução     real. É o estremecimento da alma, precursor de uma vida nova. Após     uma longa viagem, e depois de flutuar suspenso entre o céu e o abismo     do mar, o nauta, encostado um dia à amurada do navio, estendendo os     olhos pela amplidão das águas, sublimes de mais para lhe bastarem     por muito tempo ao coração, e procurando ao menos nas nuvens     um simulacro de montanhas, lagos fantásticos, campinas e florestas,     sente que o vento, que lhe agita os cabelos e que sibila pelas enxárcias,     o perfuma de fragrâncias suaves; que lhe recorda a terra por que suspira,     e que lhe anuncia prazeres que ainda não vê. Então aspira     com sofreguidão estas brisas, que roubaram ãs flores os seus     perfumes, e deixa-se cair em uma contemplação extática,     maginando os bosques e os vergéis da terra de que se sente próximo.

Na vida há uma situação idêntica, em que também     a atmosfera nos vem perfumar de misteriosa fragrância, e em que ao aspirá-la     sonhamos venturas e esquecemos os dissabores de viagens empreendidas.

É a aurora do amor; quadra de devaneios e fantasias, em que a vida     do coração principia e exerce sobre nós o seu mágico     influxo.

Maria Clementina estava naquele momento em uma dessas situações.

O que lhe estaria a fantasiar a imaginação? Imaginem-no as     leitoras.

E tão absorvida estava naquele seu íntimo cismar que nem dava     pela presença de sua criada Roberta, cujo entrar e sair, e ruído     que de propósito fazia, tinha o que quer que fosse de suspeito, e noutra     ocasião teria já evidentemente sido notado por ela.

Roberta acabou de se convencer que não conseguira tornar-se notada;     por isso, aproximando-se de Maria Clementina, dirigiu-lhe a palavra.

— Então diga-me cá, menina, que lhe pareceu a visita     daquela senhora? Maria Clementina olhou para a criada com certo sobressalto,     como se aquelas palavras a desviassem, mau grado seu, de um agradável     meditar.

— Que me havia de parecer, Roberta? Uma delicadeza daquela senhora,     que assim quis ter um incómodo por minha causa.

— Sabe quem ela é ? — perguntou Roberta com certo ar     de mistério.

— Uma senhora de Lisboa.

— Mas que senhora ? — Que senhora ? ! Não entendo a pergunta.

— Sim; pergunto eu se sabe quem é aquela senhora? — Eu,     não.

Roberta tornou-se cada vez mais misteriosa; foi à porta observar     se alguém a escutava; depois aproximou-se de Maria Clementina, e disse-lhe     em voz baixa: — Quer que lhe diga quem ela é ? — Diga lá.

— E promete segredo ? — Prometo — respondeu Maria Clementina,     sorrindo ao lembrar- se da recomendação de D. Joana.

— Pois olhe; mas não se assuste, nem diga nada ao padrinho.

— Mas então quem é ? — É a rainha! —      A rainha ? Ah! ah! ah! — disse Maria Clementina não podendo reter     uma gargalhada.

— Olhem! E a menina ri-se! É o que eu lhe digo.

— Então era a rainha ? — Era, sim, senhora, era. E sabe     quem a trouxe aqui? — Eu não.

— Fui eu.

— Ah! então você tem esse poder sobre a rainha? —      Ora escute.

E Roberta, com toda a familiaridade, puxou uma cadeira para junto de Maria     Clementina e prosseguiu: — Aquela história do alferes...

— Roberta! já lhe disse que não queria que me falasse     mais nisto.

— E não tenho falado. Agora, o que eu não podia era     deixar de pensar também. Que quer a menina? Eu vi-a nascer, assim como     vi nascer a mãezinha, e já que não pude dar àquela     as venturas que lhe desejei sempre, disse cá de mim para mim: Esta     não há-de ter uma sorte infeliz, ao poder que eu possa.

— Mas a que vem isso agora, Roberta ? — A que vem? Ora escute.     Aquela doida da leiteira veio-nos aqui dizer que a rainha chegava ontem. Quando     ela me disse aquilo, eu pus-me cá a malucar. A rainha é rainha.     Ela é quem manda e governa, os outros têm de lhe obedecer. Se     eu lhe contasse tudo...

— Se lhe contasse o quê, Roberta? — exclamou Maria Clementina     com certa inquietação.

— Tudo. A história do tal alferes.

— Roberta! — Ora valha-me Deus, menina. Com esses escrúpulos     não se faz nada de jeito. Se eu tivesse estado com a menina em Braga,     eu me acautelaria; assim ao menos vamos a remediar o mal. A rainha dizem que     é uma boa senhora. Se eu lhe fizer constar que, por causa de um alferes,     as más-línguas se atreveram a murmurar da mais virtuosa menina     que eu tenho conhecido, ela há-de tomar suas medidas e remediar tudo.

— Você tem coisas, Roberta! — Diga-lhe que sim. Eu o que     não tenho são papas na língua.

Sabe a menina que para dizer a verdade, tanto a digo diante dos reis como     dos da minha igualha. Já uma vez fui jurar como testemunha de dizer     o que sabia, e até o juiz disse que eu era uma mulher desenganada.

Eu cá sou assim. Pedi-lhe ontem licença e fui-me pôr     na estrada à espera da rainha. Bem podia esperar até pela manhã.     Passou este senhor general, que cá jantou hoje; quando me lembro como     a menina cá se arranjou sem mim, ainda me benzo; o que valeu é     que ele é um homem como se quer, e o padrinho estava hoje de boa maré.     Ainda assim! Mas não tem dúvida, ainda que tivesse de cair a     sé, por bem empregado dava eu o meu tempo... Mas como ia dizendo, passou     este senhor e um rapazote novo, e foram eles que me disseram que a rainha     só chegaria daí a duas ou três horas, e até me     deram os sinais certos para eu a conhecer. Esperei, esperei e por fim sempre     apareceu: conheci-a logo.

— Ah! então conheceu-a ? — Conheci logo. Vi a carruagem     e disse com os meus botões: É aquela. Vinham dois criados a     cavalo atrás e outra carruagem com senhoras também. Não     trazia estadão, porque, como me disse o tal rapaz, ela viaja... viaja...     ora como disse ele?... Era assim uma coisa como em cólicas, mas que     vinha a dizer que viajava sem estrondo.

Cheguei-me à carruagem, apesar do sinal do boleeiro, e ela ao ver-me     fez logo sinal para parar. Atenciosa é ela com os pobres, Deus Nosso     lho pague.

Maria Clementina ouvia com curiosidade a narração desta aventura     da criada.

— Qual de V. Ex." é a rainha ? — disse eu para as     três senhoras que iam dentro, apesar de logo ver que havia de ser a     mais idosa. As mais novas desataram a rir... como a menina ri também...     não sei porquê. Lembrou-me que seria por eu não dar o     tratamento que devia e emendei a tempo: Qual de vossas majestades é     a rainha? As outras riam ainda... Eram uns galos dourados, coitadinhas, nem     por estarem diante de quem estavam!... Raparigas. Mas a senhora então,     tocando- -lhes com o cotovelo, disse muito séria, voltando-se para     mim: — Sou eu; porquê ? — Ah! eu logo vi, ora primeiro que     tudo seja sua majestade muito bem-vinda a esta sua terra, onde tem muitos     amigos. Meu amo fala muito no paizinho de vossa majestade. Ora muito bem.     Vossa majestade há-de ter pressa; mas é que eu sempre lhe queria     pedir...

A rainha julgou que era esmola, pois já ia a meter a mão ao     bolso...

— Em cortesia — dissa eu, que a percebi — não é     isso que eu peço, é justiça.

— Justiça! — disse a rainha, tornando-se logo séria.      — Fale, fale... quem lhe fez mal? Eu lhe conto, não foi a mim     verdadeiramente, mas... é o mesmo que se fosse, se fui eu que a trouxe     ao colo...

— A quem ? — perguntou a rainha.

— A minha menina! — Roberta — disse Maria Clementina,     interrompendo-a — você não tem juízo! Ir assim,     diante dessa gente toda, falar em coisas das quais eu já lhe tinha     proibido de dizer uma palavra mais! — Ora venha cá ensinar-me     como as coisas se fazem! Cuida que me pus mesmo agora a tagarelar para quem     me quisesse ouvir. Era o que faltava. Eu disse à... à rainha:     Se vossa majestade quiser ter o incómodo de se chegar aqui, eu conto-lhe     tudo. Ela chegou à porta da carruagem, e eu disse-lhe tudo ao ouvido.

— Tudo o quê ? — Contei-lhe que, estando eu na quinta     e c padrinho no Porto, a menina fora para o convento. Que foi por ocasião     do Saldanha andar por cá e que deixara ficar em Braga um tal alferes,     que inquietou a menina; porquanto enfim, como eu disse à rainha, quando     a gente é nova o coração é o coração,     o sangue ferve,..

— Jesus, meu Deus! que mulher esta! — exclamou Maria Clementina,     corando.

Roberta não atendeu à interrupção, e continuou:      — Que depois a viu em casa do Sr. Domingos Pedral, e que na noite em     que o tal alferes tinha de partir para Lisboa, foi falar com a menina ao jardim     do Sr. Pedral, onde a menina estava. Asneira, como eu disse à rainha,     em que se eu lá estivesse, a não deixaria cair. E logo então     com tanta infelicidade, que ao saltar o muro foi visto por um grupo de estudantes     que dobrava uma esquina, e o mesmo foi verem-no eles que vê-lo toda     a cidade, a qual já falava nestes amores há muito.

No dia seguinte a reputação da menina andava já por     essas bocas do mundo; as delambidas das freiras puseram-se a fazer biquinhos     à volta da menina para o convento. E eu e a quem contaram isto fomos     buscar a menina para a quinta, porque, graças a Deus, a sobrinha do     Sr. José Urbano não precisa dos favores de ninguém. Disse-lhe     que o Sr. José Urbano chegara aqui a Braga espavorido, mas que depois     de falar com a menina ficara manso como um cordeiro, e nunca falara mais nisto.

— Sabe, Roberta, que se meu padrinho soubesse o que você fez     havia de ficar muito satisfeito! Não viu como ele lhe ordenou que nunca     mais falasse em tal ? — Pois sim; com esses escrúpulos ficávamos     sempre nesta vida.

A menina sem voltar à cidade, sem visitar ninguém, aqui metida.

— Bem me importa a cidade. Que canseira lhe dá isso a você     ? Eu já lhe disse que não me distraio aqui ? — Ora deixemo-nos     disso. Os passarinhos cantam muito bem, as flores são muito bonitas;     mas vindo o Inverno nem passarinhos nem flores. Depois sempre quero ver como     a menina se diverte. É como o ano passado. Chorava, chorava...

— O ano passado estava doida. Já sabe que me curei daquela     loucura.

— Diga-o a quem quiser, menos a mim. Olhem para onde ela vem com os     seus esquecimentos! — Mas que lucrou você em contar a essa senhora     a minha história? — À rainha...

— A rainha, seja lá rainha. Para quê? — Pois quem     lhe pode dar remédio, senão ela? Eu lá lhe disse: Agora     veja vossa majestade se isto deve ficar assim. Se os militares que vossa majestade     para cá nos manda vêm para manter a paz, ou para meter a desordem     nas famílias e fazer a infelicidade de meninas bem educadas...

— Como se chamava esse oficial ? — perguntou a rainha, e eu     bem vi que ela já estava interessada por a história.

— Olhe, eu só sei que ele era Filipe.

— E disse-lho! valha-me Deus ! — Disse, disse... Era o que faltava     se eu me punha com biocos.

— Filipe de Rialva?! — perguntou a rainha assim com mostras     de o conhecer...

— Tanto não posso dizer a vossa majestade; eu só sei     que ele é Filipe.

A rainha não perguntou mais nada dele.

— Mora daqui longe essa menina ? — É ali logo.

— Pode lá ir uma carruagem ? — Indo pela banda de cima,     estou que pode.

— Ela estará amanhã só ? — De todo só.     Porque não esperava que o padrinho viesse de Braga.

— Vou ficar hoje em casa do visconde de P., sabe onde é? —      Perfeitamente, majestade, é logo ali — e apontei para o sítio.

— Amanhã, a esta mesma hora, esteja lá para me guiar     no caminho.

Vá com Deus.

Eu desviei-me da carruagem, que desapareceu em um abrir e fechar de olhos.

Quando cheguei a casa e vi o Sr. José Urbano, fiquei atarantada de     todo, porque me lembrei que já não podia ir buscar a rainha.     Passei a noite muito triste, e nem dormi, mas rezei muito a Nossa Senhora.

Hoje de madrugada, vendo partir o padrinho para a cidade, fiquei tão     contente, que por pouco não me deu o sono. Boa te vai. Olha agora se     eu adormecia nesta ocasião, estava bem servida! E levantei- me logo,     e quando foram horas pedi à menina que me deixasse ir a Braga comprar     linho, mas fui ter com a rainha, que já estava à minha espera.     Pelos modos parece que também madruga, porque ainda não era     meio-dia! Depois ela... a rainha... fez-me entrar na carruagem.

Oh! Eu bem não queria, mas não houve de quê. Hem ? Que     lhe parece ? desta poucas se gabarão! Não é assim? Ora     aqui tem como a rainha aqui veio ter.

Mas julgue como eu ficaria quando vi o Sr. José Urbano à janela.

Credo ! Fiquei sem pinga de sangue, e por pouco não caí redondamente     no chão. Decerto me valeu o meu padre Santo António. Também     olhe que uma aquela assim como esta poucas vezes acontece à gente.     O que me admirou foi o padrinho não a conhecer. Agora, quando a vir     em Braga, é que há-de ser bonito. O major, esse logo vi que     a conheceu; porém, ela fez-lhe sinal, que eu bem reparei. Mas como     veio o major cá ter...? E como se arranjaram com o jantar? É     verdade, ó menina, quem fez aquela sopa, que... santo nome de Deus!     por pouco me não punha a boca em carne viva! Onde aprendeu a menina     a cozinhar aquilo ? Maria Clementina sorriu-se a esta referência à     açorda do major.

Mas naquele momento achava-se possuída de veemente desejo de estar     só, e por isso voltando-se para Roberta, disse-lhe: — É     necessário ir cuidar do chá do padrinho, que ele não     tarda por aí. Vá; depois conversaremos.

Roberta retirou-se murmurando: — A rainha nesta casa e eu na carruagem     da rainha! Quando me lembro! Maria Clementina ficou outra vez só. Outra     vez se deixou arrebatar pelos devaneios da sua fantasia. Ficar só,     é a suprema felicidade em situações como a sua. Escuta-se     melhor o que murmura o coração agitado, percebem-se todas as     íntimas vibrações dos misteriosos sentidos de onde procedem     os afectos. Nas trevas, em que a imaginação de Maria Clementina     se confundia, via raiar enfim um raio de luz. Não era pois ainda desesperada     a sua situação. Seria possível desanuviar-se-lhe o céu,     para o qual já não olhava com esperança? Não seria     ainda a resignação a única arma que lhe podia dar a paz     do coração que perdera? Tudo isto lhe propunha o pensamento,     e entre estas questões vacilava aquele pobre coração,     que julgava ter abafado todas as esperanças, e agora as via surgir     de súbito umas após outras, a povoarem- lhe de novo a fantasia,     mais inquieta que nunca, e a seduzirem-na com o esplendor do seu brilho, com     o vivo de suas cores.

Como é ilusória a placidez dos vinte anos! O fogo latente     alimenta uma iminente erupção. Ó transparente máscara     de sisudez posta nestes lindos rostos de mulher, como ocultas mal os risos     inquietos que se agitam por debaixo! pensai, cismai, sonhai, imaginações     juvenis ; pulsai, amai, corações virginais; a vida na vossa     quadra é isto.

Não há gelo que apague o fogo que vos escalda; e, se o sufocais     com gelo, funde-se em lágrimas e a paixão rebenta mais forte.

Deixemos Maria Clementina entregue aos seus pensamentos de amor, acompanhem-na     as imaginações dos leitores, mais capazes de as seguirem aí,     e vamos nós a outro ponto, onde o desfiamento desta narração     nos chama.

 

 

Ao separar-se do major, perto da quinta onde devia pernoitar a senhora de     Lisboa, a que este chamara D. Joana, disse-lhe ela, estendendo-lhe a mão:      — Então ficamos nisto, major? — Pela minha parte prometo     cumprir quanto V. Ex." me ordene.

— Não diga ordene, por quem é. Eu peço só...

— Não é o mesmo que ordenar ? — Bem, major, não     insistamos em galanteios. Combinamos então o major em colher informações     de família. Eu em sondar o coração de Filipe.

— Eu posso dar a V. Ex." informações neste ponto.

— Como?! — Filipe falou-me nesta inclinação, e     confessou conservar da pequena uma ideia muito superior à de todos     quantos amores tem experimentado. Mas V. Ex.' está resolvida...

— A evitar que Filipe cometa uma deslealdade. Que quer, major? meteu-se-me     na cabeça fazer de meu filho um perfeito cavalheiro...

— E não lhe será muito difícil o empenho na execução,     minha senhora. Mas adiante, V. Ex.* e Maria Clementina serão tudo,     menos o fruto de alguma antiga árvore genealógica.

— Olhe, major, eu não tenho o defeito de me esquecer que meu     pai era um negociante da capital; e se o pai de Filipe não julgou desonrar-      se, aliando-se com a minha família, eu renegaria a minha procedência,     se adoptasse esses preconceitos. Ora agora, para o mundo, que para desculpar     uma acção boa precisa de a explicar por uma ideia interesseira,     ficarei absolvida dizendo-se que os capitais de José Urbano sossegaram     os escrúpulos aristocráticos, que, como sabe, eu nunca tive.

— Bem, minha senhora. Agora, que recebi as suas instruções,     retiro-me e até à vista.

— Conto com a sua aliança ? — De vida e de morte.

E o major despediu-se de D. Joana Rialva com a galantaria de um perfeito     militar; e montando a cavalo partiu em direcção a Braga.

Momentos depois estava D. Joana no salão do visconde de P..., onde     a aventura da estrada ainda era comentada com alegria. D. Joana contou a seu     modo o que lhe sucedera na visita que acabava de fazer, inventando uma história     de uma família desgraçada, que a exoneração de     um emprego público reduziu à miséria, e agradeceu a Filipe     o haver-lhe fornecido a ocasião de reparar um mal.

— E . Ex.' visitou essa família?'—perguntou Filipe —      se é que a mãe não exige que a trate por majestade também.

Nova hilaridade das senhoras do salão.

— Visitei, e voltarei a vê-la. Assim lho prometi. Já     agora quero tomar a sério o papel de rainha. Imaginei que devia levar     a felicidade àquela família que assim recorreu a mim. Parece     que andou aqui a mão da Providência. E tu, Filipe, terás     também o teu papel em tudo isto. Preciso da tua coadjuvação     para secundar os meus projectos.

— De todo o coração, minha mãe, lha prometo.

— Reclamo já a tua companhia para a visita que tenciono fazer-lhe.

—Da melhor vontade... prometo.

— E nós todas vamos também — exclamaram algumas     senhoras.

— Não vai nenhuma. Eu quero continuar a ser suposta rainha,     e o riso das meninas não mo permitiria.

— Prometemos estar sérias.

— Não creio na promessa. Desta vez irei eu só com Filipe...

E, combinando nisto, passou-se a conversar noutros assuntos, a discutir     toilettes, a planear projectos de passeios, voltando-se de quando em quando     ao objecto que evidentemente mais preocupava D. Joana.

O dia seguinte foi de grande alvoroço para Braga. Todos os nossos     conhecidos; à excepção de Maria Clementina e de Roberta,     andavam envolvidos naquele mare magnum de povo, e tomando parte no tumulto     e agitação, em que a chegada de sua majestade lançou     a população de Braga.

Deixemos, porém, passar este dia, pois que não nos compete     tomar parte naqueles regozijos, e juntemo-nos às personagens desta     história no dia seguinte a esse para seguirmos a série de acontecimentos     que formam o entrecho desta narração.

O carro, que já uma vez havia conduzido D. Joana à quinta     de José Urbano, corria agora com ela e Filipe de Rialva pela estrada     de Braga na mesma direcção. O major encarregou-se de conservar     na cidade o proprietário da quinta, porque a visita evidentemente não     se destinava a este.

Rialva fazia notar a sua mãe as belezas do caminho e exaltava os     encantos da província do Minho com um entusiasmo de artista.

— Deve V. Ex." concordar que é uma aprazível província     esta.

Os campos são jardins, os montes são cômoros de verdura,     parece que se sente tudo cantar e sorrir.

— E efectivamente esta gente do campo é essencialmente amante     da música. Ainda não cessamos de ouvir cantar.

Naquele mesmo momento uma fresca e suave voz de aldeã cantava em     um campo:

Aquele que tanto amei     Esqueceu meu pensamento,     Como o rio esquece as rosas     Que retratou um momento.

— É uma acusação de infidelidade — disse     D. Joana fitando em seu filho um olhar malicioso, que este não percebeu.

— Mas que bonita voz a da cantora! Parece-me que ainda em S. Carlos     não se ouviu tão sonoro timbre.

Mais adiante uma lavadeira cantava em um ribeiro, vizinho à estrada:   

O amor que me juraste     Bem cedo o vi acabar,     Foi fumo de labareda     Que já se desfez no ar.

— Outro queixume. Parece-me que a cada passo se ergue uma voz a acusar     a inconstância do coração.

— É porque só os corações infelizes é     que cantam; a alegria e a felicidade são mudas.

Ao voltar um ângulo do caminho era outra rapariga que fiava à     Porta, cantando:

O teu amor era falso,     Teve pouca duração,     Mas deixou mágoas eternas     No meu pobre coração.

— É singular! — disse D. Joana com certa intenção.      — Parece de propósito; sempre a mesma poesia. Nem que nos perseguisse     uma voz como a da consciência a acusar-nos de alguma culpa de inconstância.

Ora dos dois, quem com mais alguma probabilidade poderá ser acusado     disso, não serei eu decerto. Se fosses tu, Filipe?...

— Quem sabe, minha mãe? — respondeu Filipe com uma seriedade     que não estava em harmonia com o tom jovial em que D. Joana lhe fizera     a observação.

— Ah! quem sabe ? Ninguém senão tu e a Providência,     que talvez esteja falando pela boca desta pobre gente. Só me admira     que fale no Minho para emendar o mal feito em Lisboa.

— E se fosse o mal feito no Minho ? — No Minho? mas... ah? sim,     tu estiveste alguns meses aqui.

Então, Filipe, por acaso inspirar-te-iam estas belas paisagens alguns     capítulos de romance? Porque mo não contaste? Sabes que tudo     quanto escreves e contas me excita sempre interesse; pois nem te lembras que     até os teus trabalhos académicos eu gostava de ler? Nem aos     de matemática perdoava; não os decifrava, mas entendia-os. Não     sei se me admites este paradoxo.

— Eu sei, minha mãe, avaliar o seu muito afecto, mas que quer?     O conceito elevado que V. Ex.' na sua indulgência materna faz de mim,     lisonjeia-me tanto, causa-me tal orgulho, que recuo ante a ideia das confissões     que lhe podem lançar a mais leve sombra na imagem que a sua muita bondade     formou de mim.

— Deve ser bem grave a culpa cometida, que assim te está causando     remorsos.

— Ainda não pude avaliar toda a extensão e gravidade     dela.

— Porquê? — Porque não pude saber ainda as consequências     que resultaram.

— E se eu exigir que ma confies ? — Basta que lhe diga, que     essas cantigas populares que nos têm acompanhado, podem considerar-se     como V. Ex.* disse há pouco, a voz da minha consciência ou dos     meus remorsos.

— Remorsos! Repara que são a consequência de um crime.     Por acaso...

— Pelas convenções sociais não me pode ninguém     chamar criminoso ; mas por um outro código, pelo código da consciência,     eu sou acusado.

— De que crime ? — De ter feito nascer uma paixão, prevendo     quase que ela teria de morrer sufocada, prognosticando-lhe o seu nenhum futuro.

— E que motivos tens para julgar nela mais sincera essa paixão     do que o era em ti ? Vaidoso! Imaginas que ninguém te poderia aceitar     a corte sem morrer de amores por ti? — Por um lado tem razão     no que diz; mas um pressentimento...

— Bem. A coisa não passa de um pressentimento? Pois nesse caso     oponho-lhe um outro pressentimento meu. Já nem sequer pensa em ti essa     em quem pensas ainda tanto. É o mais natural. Tranquiliza os teus escrúpulos;     mas parece-me que não te seria demasiado lisonjeiro o convencimento     desta verdade. Ora diz-me: tu ainda a amarás? — Julgo que não,     minha mãe. Eu sinto-me tão volúvel! — Mas como     tu dizes isso! que ar de remorso! Nunca te acusaste com tanta contrição     do teu rompimento com a Alberta dos Prazeres, com quem estiveste quase esposado.     Ó Filipe, dar-se-á que o teu coração entre deveras     nisso? — Quero acreditar que não, minha mãe. Seria uma     calamidade.

— Porquê ? — V. Ex.ª permite-me que fale francamente?      — Ordeno-te.

— Pois bem. É porque se eu me sentisse deveras apaixonado,     podia estabelecer-se entre mim e V. Ex." um conflito, do qual, fosse     o resultado qual fosse, eu sairia sempre com feridas que não sarariam     nunca, ou acabaria por lhe não obedecer; e se o amor fosse verdadeiro,     sofrendo por ele, eu venceria a paixão, e nunca me perdoaria a desobediência.

— E qual a razão porque julgavas inevitável um conflito     ? Essa mulher era indigna de ti ? — A sociedade em que V. Ex."     vive é de umas exigências ridículas, mas a que se acostumam     a obedecer os que a frequentam. Conveniências sociais. A mulher a quem     me refiro era filha de um negociante de Braga.

— Não te sabia desses preconceitos heráldicos tão     arreigados! — Em mim? Engana-se, minha mãe, se eu fosse só...     Mas sabe que lhe não quero dar desgosto...

— Se me não engano, achamo-nos em frente da casa da família     que vamos socorrer.

Efectivamente a carruagem parou diante do portão da quinta de José     Urbano, e o boleeiro, apeando-se, puxou o cordão da sineta, cujo ruído     se fez ouvir ao longe, despertando os latidos dos cães, fiéis     guardadores daqueles jardins.

Passados tempos o portão abriu-se, e Roberta apareceu, depois de     perguntar de dentro quem era, com voz um pouco resolvida; ao dar com os olhos     na carruagem deu um salto, como se a picasse uma víbora.

— Vossa...—ia exclamar a pobre velha atónita.

— Psiu! — disse D. Joana, pondo o dedo na boca e com um sorriso     benevolente.

Roberta calou-se, mas, ao ver saltar Rialva do carro, fez um novo movimento     de surpresa.

— Agora é o outro. Pelo que vejo eram grandes fidalgos ambos.

Rialva, que conheceu logo em Roberta a velha da estrada, procurou tornar-se     ouvido dela, dizendo à mãe, ao ajudá-la a descer:

— Se vossa majestade se quiser utilizar do meu braço...

D. Joana sorriu, e saltando junto de Roberta, perguntou-lhe em voz baixa:      — Onde está a menina ? — Deve andar pela quinta. Eu vou     chamá-la, — De modo nenhum. Iremos ter com ela.

— Como vossa majestade quiser; nesse caso eu vou adiante.

— Também não. Se me quiser antes fazer o favor de me     preparar um copo de água chalada...

— Com todo o gosto. Mas se vossa majestade se engana no caminho?...

— Melhor, mais tempo gozaremos da quinta.

E tomando o braço de Filipe, D. Joana desceu as escadas que conduziam     à quinta.

— Sabe, minha mãe, que para um empregado demitido é     esta uma magnífica vivenda? — disse Rialva, admirando o bom aspecto     de quanto o rodeava.

— Restos de um bem-estai passado — respondeu D. Joana, entranhando-      se em uma rua orlada de roseiras todas enfloradas.

— Que deliciosa habitação! — exclamava Rialva     a cada passo.

— Sigamos na direcção de onde nos chega o sussurro do     cair da água.

Rialva atrasara-se de D. Joana alguns passos de distância, tendo-se     demorado a colher um botão de rosa que se pendurava em uma das ruas...

Preparava-se a apressar o passo para alcançar sua mãe, quando     viu esta voltar pé ante pé, e com a mão nos lábios     como a recomendar- lhe silêncio.

Filipe parou.

D. Joana chegou-se a ele e disse-lhe baixinho: — Devagar, muito devagar.     Dorme alguém ali adiante. Quero preparar-te um belo espectáculo.     Devagar! E os dois caminharam tão de manso, que mal se escutava o estalar     da areia da rua e de uma ou outra folha seca que o vento destacava das árvores.

— É agora — disse D. Joana, desviando-se para deixar     patente a seu filho a vista do largo junto a uma pequena cascata, no qual     penetraram.

Rialva olhou e estremeceu de surpresa.

Reconhecera Maria Clementina adormecida.

A mãe e o filho permaneceram silenciosos ante aquele espectáculo.

Quem o poderia conceber tão belo.

Languidamente recostada no banco rústico que existia ao lado da cascata,     conservara Maria Clementina uma posição naturalmente artística,     na qual lhe sobressaíam todas as formas elegantes e correctas daquele     corpo flexível e delicado.

0 braço direito, dobrado sob a cabeça e um pouco descoberto,     exagerava pela flexão as curvas graciosas e suaves do seu regular contorno;     o esquerdo, pendente ao longo do corpo, permitia observar uma mão encantadora.     Não era destas pequeninas mãos, galantes como as de uma criança,     e que se abrangem em uma só das nossas; reconhecendo a graça     desses modelos, confesso que me produzem mais sensação as mãos     como as de Maria Clementina. Algum tanto compridas e estreitas, cobertas por     uma pele alvíssima e transparente, sob a qual se desenhava uma complicada     rede de veias azuladas, tinham estas mãos assim o que quer que seja     de distinção e encanto, que atrai as vistas, que as fixa, que     as fascina.

Eu, a respeito de belezas femininas, não sou partidário ardente     do galante, do mignon, como os Franceses dizem; prefiro-lhe o ar de dignidade     e grandeza que se lê em certos tipos, temperado pelo que possui de brandura     todo o rosto de mulher verdadeiramente bela.

A cabeça de Maria Clementina, um pouco inclinada para trás,     descobria em toda a sua vantajosa forma, o colo, cuja transição     para a face e para os seios se fazia por curvas tão disfarçadas     e brandas, que a vista insensivelmente deslizava por elas e perdia-se a divagar     naqueles lábios, que a respiração entreabria, pousava     amorosamente nas suas graciosas comissuras, que se elevavam em um quase imperceptível     sorriso, nas pálpebras, que pareciam denunciar o fulgor dos olhos que     mal encobriam; ou baixava ardente como insinuando-se por entre o corpilho     do' vestido, que subia até ao pescoço, avaro das belezas que     ocultava, e como fascinada por aquele movimento cadenciado de um respirar     tranquilo.

Filipe de Rialva permaneceu por muito tempo nesta contemplação     sob a influência de um fervoroso sentimento de quase veneração.     Sua mãe olhava-o sorrindo.

— É ela — disse afinal Filipe, olhando para sua mãe     e ainda comovido por sentimentos encontrados que o dominavam.

— Eu sei! — respondeu D. Joana, continuando a sorrir.

— Sabe?! — Bem vês que te trouxe aqui.

— Mas... como foi isto? — Pediam justiça, enviaste a     queixosa para mim, Eu prometi fazê-la. A isso venho.

— A fazer justiça? — Sim.

— E o ofendido é...

— É ela e o culpado és tu. Não to diziam há     pouco os teus remorsos, Filipe? Ao partires para Lisboa deixaste comprometida     a reputação desta menina.

— Pois acaso...

— Viram-te descer o muro do jardim...

— Oh! meu Deus...

— Desde então a sociedade escrupulosa obrigou-a a procurar esta     solidão. Deves supor se lhe terão sorrido os dias passados aqui.

E no entretanto tu esquecia-la na capital.

— Oh! minha mãe... juro-lhe...

— Não jures, Filipe; ora para que vais tu jurar? Confessa,     é melhor; e arrepende-te, que é mais nobre.

— Eu sou um miserável, minha mãe.

— Que nome tão feio! Agora cais-me em um outro extremo.

É preciso emendar o mal feito.

— E como ? — De uma maneira possível.

— Pois quer...

— Então que é? Hesitas em fazer justiça, quando     não hesitaste em cometer a culpa...

— E consente...

— Ordeno, se ainda podem ter para ti valor as minhas ordens.

— Mas essas são para mim uma bênção do     Céu, creia-me! — exclamou Filipe, apoderando-se da mão     de sua mãe e beijando-lha com efusão.

Um movimento de Maria Clementina deu a conhecer que ela despertava, enfim,     de seu sono tranquilo ao rumor do diálogo, que se travara entre D.     Joana e seu filho. Esta correu ao encontro de Maria Clementina, ocultando     por este movimento a presença de Filipe.

— V. Ex." aqui! — disse Maria Clementina sobressaltada     ao abraçar D. Joana.

— Estava a gostar de a ver dormir...

E depois de a beijar afectuosamente, D. Joana afastou-se, descobrindo assim     a figura de Filipe, que se conservara imóvel a distância.

Maria Clementina, dando com os olhos nele, estremeceu, exclamando : —      Oh! meu Deus.

— É meu filho — disse D. Joana, beijando-a na fronte     com carinhosa solicitude.

Maria Clementina vacilou, deixou-se cair no banco em que estivera sentada,     e pelas faces, que passavam de uma súbita palidez a um intenso rubor,     deslizaram as lágrimas que lhe inundavam os olhos...

Nisto assomava na extremidade de uma das ruas a velha Roberta com o copo     de água e chá, que D. Joana lhe pediu.

Esta correu a encontrá-la para lhe encobrir a turbação     dos dois.

— Agradecida pelo incómodo que teve. Agora faz-me um favor?     Ajuda-me a cortar um ramo de japoneiras ? — E aproximando-se de Roberta,     acrescentou a meia voz: — Deixemos sós os dois; este é     o tal alferes...

— É este! — disse Roberta, olhando para Filipe com olhos     espantados e com certa indignação. — E logo foi a ele     que eu...

— Está bom, deixemo-los, que tudo se há-de arranjar.

— Deveras ? — Comprometo a minha palavra.

— E a palavra real .. — disse Roberta.

— Tem razão... não volta atrás — terminou,     sorrindo, D. Joana de Rialva.

E D. Joana, conduzida pela velha, foi efectivamente cortar um ramo de camélias,     com grande orgulho de Roberta, que toda se desvanecia em estar colhendo flores     para sua majestade.

Filipe e Maria Clementina, ficaram. Esta, vendo afastar-se D. Joana, levantou-se     para segui-la; mas viu diante de si Filipe ainda imóvel e atencioso,     e as forças faltaram-lhe, deixando-se cair de novo.

— Ainda poderei esperar de si a minha absolvição, Maria?      — disse Filipe aproximando-se da donzela.

— Pois eu já o acusei ? — respondeu timidamente Maria     Clementina.

— Acusa-me a consciência.

— De que o acusa então? de me ter mentido?...

— Não, que lhe não mentia, quando lhe disse que a amava...

— Então ? De me ter esquecido ? — Também não.     Podia eu esquecê-la? — Não sei. Mas de que o acusa a consciência?     diga.

— De não ter sido eu próprio que há mais tempo     tivesse vindo oferecer-lhe a reparação do mal que lhe fiz.

— Do mal ? Pois sabe se me fez mal ? — Sei. Soube-o agora...     de minha mãe.

— Entendo. E vem ofecerecer-me uma reparação? —      Era o meu dever, mesmo quando...

— É uma generosidade. Mas oiça-me — disse Maria     Clementina, levantando-se e caminhando para Filipe, com uma resolução     que contrastava com a sua timidez de há pouco. — Eu não     posso aceitar um sacrifício.

— Um sacrifício...

— Olhe, Filipe, um ano de solidão faz-nos pensar com madureza.

Há um ano receberia com alvoroços de alegria as palavras que     me disse. Hoje não. Sou culpada para com o mundo. Que me importa! Sou     inocente para com a minha consciência. Mas quando mesmo esta me acusasse,     acredite que não me moveria a aceitar de si isso que chama o cumprimento     de um dever. Deveres! Quem lhos impôs ? A sociedade? Eu não lhe     pedi que advogasse a minha causa. Eu? bem vê que não. Tranquilize     os escrúpulos da sua consciência; se é ela que o impele     a esse passo, desista de obedecer-lhe; eu absolvo-o de toda a responsabilidade.     Obrigada, Filipe, mas bem vê que não devo aceitar, — E     se a voz da consciência se harmonizar neste caso com a do coração     ? — E quem mo há-de assegurar? — disse Maria Clementina,     voltando à sua anterior confusão.

— Incrédula? Exigir provas é renegar a persuasão     do amor.

Sabe porque há um ano me acreditava e hoje duvida?

— Porque se passou um ano! E que ano, Filipe ! que experiência     colhida nestes doze meses passados a sós com o meu pensamento e com     o desprezo dos outros...

— Do desprezo, pois acaso...

— Oh! Não julgue que lhe falei nisto como uma arguição.     Não era o que mais me fazia sofrer esse desprezo; esquecia-me dele.     Outra causa movia as minhas lágrimas.

— E era? Maria Clementina calou-se embaraçada.

Filipe aproximou-se dela, e tomando-lhe a mão insistiu: — O     que a fazia chorar então, Maria? Maria Clementina levantou os olhos     húmidos de lágrimas e com um sorriso angélico respondeu     suspirando: — E pergunta-mo ? Chorava, chorava de saudade.

— Pois lembrava-se de mim?...

— Duvida, e quer que acredite no seu amor! — Se eu era indigno     de tanto! E agora...

— Agora ? — Porque mudou de pensar ? — Porque mudei ?     Eu mudei 1 E julga que posso deixar de acreditar ; julga que me restam forças     para resistir a uma tentação! Devia pedir-lhe misericórdia,     mas... Nem sei... Olhe, que exige de mim? que diga que o amo?... Pois sim,     amo-o, amo-o. Que mais quer? É a minha perdição talvez.

— É a sua salvação, minha filha — disse     D. Joana, que se aproximou de Maria Clementina e a apertou nos braços.

Nisto ouviu-se tocar a sineta do portão.

 

 

OS sons vibrantes da sineta interromperam de chofre as carinhosas efusões     de D. Joana e Maria Clementina, que se olharam como se perguntassem uma à     outra — quem será? Em seguida novos e mais rápidos sons     se fizeram ouvir, ecoando pelo jardim, indicando que quem tangia a sineta     queria ser ouvido e tinha pressa de transpor o portão.

— Quem será — disse Maria Clementina — que tão     apressado se mostra? — Deve ser — respondeu D. Joana — seu     padrinho e o major, que ficou de estar aqui com ele por estas horas. Filipe     conservar-se-á por enquanto aqui fora; a menina quer-me acompanhar     ao encontro dos recém-chegados ? Maria Clementina cedeu o braço     a D. Joana, que, apoiando-se nele, caminhou na direcção do portão.

— Vamos trabalhar no seu futuro; quero dispor tudo antes de partir.

— Pois quando parte ? — Depois de amanhã.

— Já? Tão cedo.

— Assim me é indispensável. Mas em breve a tornarei     a ver em Lisboa. Não é verdade? — Em Lisboa?... —disse     Maria Clementina, corando.

— Sim, e bem junto de nós. Sempre desejei ter uma filha. Dou     graças por me deparar uma tão boa.

— Oh! minha senhora — exclamou Maria Clementina, não     podendo conter o seu reconhecimento e apoderando-se-lhe da mão, que     beijou comovida.

— Vejo que me aceita por mãe... Obrigada.

— E é a senhora que me diz obrigada? A mim, que pela primeira     vez conheço a ventura que há em ser filha! — Pobre menina.     Mas vamos, não nos sensibilizemos, que estamos próximos ao último     ataque decisivo.

Esta observação foi sugerida a D. Joana pela vinda de José     Urbano, que na companhia do major se aproximava delas.

— Que agradável surpresa! V. Ex." aqui ? — É     verdade, Sr. José Urbano. Espero que me perdoará esta invasão     da sua propriedade.

— Oxalá que ela se reproduzisse.

— Mas veja que não me retiro sem paga! — acrescentou,     mostrando- lhe o ramo de camélias que colheu.

— É na verdade só agora que principio a conhecer o preço     dessas flores...

— A benevolência do proprietário anima-me a confessar-lhe     que as minhas intenções vão mais longe. Premedito um     roubo de mais valor.

— V. Ex.'? — É verdade, e receio não lhe encontrar     tão boas disposições de mo perdoar como agora.

— Deveras ! — respondeu José Urbano, sorrindo.

— Vou fazer-lhe a confissão dele, se me quiser ouvir.

— Com a melhor vontade. Quer V. Ex.* entrar? — Aceito. Venha,     major.

— Pois também entro na confidência ? — Não     o dispenso.

Maria Clementina deixou-se ficar um pouco atrás, enleada e confusa,     porque previa do que se ia tratar.

D. Joana aproximou-se dela e disse-lhe a meia voz: — Poupo-lhe o dissabor     de assistir ao processo; dentro em pouco lhe comunicarei a sentença.

Maria Clementina retirou-se.

José Urbano, D. Joana e o major entraram no salão.

José Urbano tinha um ar prazenteiro, o major puxava o bigode com     certo embaraço, D. Joana meditava um plano de campanha.

Sentaram-se todos.

— Sr. José Urbano, eu não sou partidária dos     rodeios. Costumo ir direita ao fim. O roubo que eu lhe premedito fazer é     nada menos que o de sua sobrinha.

— De minha sobrinha! — repetiu José Urbano, entre sério     e risonho, como se esperasse a explicação destas palavras.

— É verdade. Queria pedir-lha para filha.

— Como?!...

— Imagine, Sr. José Urbano, que eu tenho um filho por quem     sou doida, perdidamente doida, e que concebi que era Maria Clementina a mulher     que lhe podia dar a felicidade que eu ambiciono para ele.

José Urbano olhava estupefacto para D. Joana, como se não     tivesse compreendido.

— Então diz V. Ex.* que...

— Que lhe peço a mão de sua afilhada para...

— Mas um projecto tão pouco meditado...

— Talvez menos do que julga.

— Menos do que julgo... — disse José Urbano com manifesta     intenção. — Seja assim; mas o que V. Ex.* me pede não     pode realizar-se.

— Que diz, Sr. José Urbano ?! Não posso acreditar que     me negue a satisfação de obter o que lhe peço, porque     já considero sua sobrinha como minha filha muito amada.

— Não duvido; mas Maria Clementina, que é um anjo, não     pode casar com o filho de V. Ex.", porque se opõem a isso... circunstâncias     e melindres que é necessário respeitar.

E José Urbano carregou de tal maneira o semblante, que parecia indicar     à sua interlocutora que não continuasse a falar-lhe naquele     assunto.

D. Joana, porém, pareceu não atentar nisso, e, mostrando-se     risonha continuou, dizendo: — Parece-me compreender, Sr. José     Urbano, que tem receio de meu filho não ser digno de sua sobrinha,     nem capaz de a fazer feliz.

— Não é isso, minha senhora — interrompeu José     Urbano, com vivacidade. — São motivos particulares, que dizem     respeito a uma pessoa de minha família, que já não vive     e a quem muito amei.

— Mas — disse D. Joana — se não há desonra     para sua sobrinha no enlace dela com meu filho, porque me recusa a sua mão?     Dar-se-á que a destine para outro mais digno que meu filho ?

— Não destino, não. Enfim — disse José Urbano,     um pouco enfadado — acabemos com isto. Para V. Ex.* conhecer a razão     da minha negativa, era necessário contar-lhe a minha e a história     de minha irmã, que não vive há muito e a quem amei extremosamente.     Essa história cansará a paciência de V. Ex." e do     sr. major, que desejo poupar...

— Conte, conte — disse D. Joana — que nos dará     com isso muito prazer. Não é assim, major? — Decerto —      respondeu este — porque estou ansioso de a ouvir.

O rosto de José Urbano empalideceu e mostrou-se anuviado de tanta     tristeza que causou profunda impressão em D. Joana e no major.

— Seja como querem — disse por fim José Urbano, depois     de ter estado algum tempo silencioso, e como que invocando as recordações     do passado. — É doloroso avivar feridas que desejo cicatrizadas,     mas não tenho outro meio de acabar com isto. Oiçam: «Quando     minha mãe morreu, tinha eu vinte anos. Foi em 1818.

Até aí, vivera eu como rapaz.

«De pequeno senhor de minha vontade, eu não sabia o que eram     sujeições e constrangimentos. Minha mãe era uma santa     mulher, que vivia absorvida entre as suas devoções e as suas     economias. Os pequenos haveres em bens rurais, que meu pai deixara ao morrer,     eram por ela tão bem administrados, que nunca a menor sombra de privações     nos veio amargurar a vida.

«Quando morreu, achei-me eu à testa da família. Minha     mãe tinha-me dito pouco antes: «Tenho-te deixado gozar da tua     vida de rapaz, porque bem sabia que dentro em pouco terias de renunciar a     ela. Vê se compreendes o teu dever. Deixo-te uma irmã de oito     anos.» «Aterrou-me ao princípio esta responsabilidade,     e o novo encargo fez-me pensar seriamente. Obedeci a minha mãe; desde     o dia da sua morte, abandonei a companhia dos meus companheiros de prazer,     e votei-me de coração ao trabalho. Sentia-me recompensado com     a alegria que experimentava quando podia dar um vestido novo a minha irmãzita.

«Cedo as minhas ambições principiaram a crescer. É     sempre a mesma história. Já me não contentava com os     modestos mas continuados proventos que tirava do meu negócio de cereais.     Queria lucros mais visíveis.

«O Brasil principiou-me então a sorrir com as suas promessas     de riquezas, com que a tantos atrai. Não descansei mais enquanto não     realizei o meu intento. Regulei com um negociante meu amigo uma mesada a minha     irmã, e deixei-a em companhia de Roberta, que foi ama de nós     ambos, e parti.

«Seria curiosa e rica de experiência a história da minha     vida no Rio de Janeiro, se o contá-la me não afastasse do fim     que tenho em vista. Basta que diga que trabalhei! Trabalhei deveras. Não     me fazia hesitar qualquer trabalho, por penoso que fosse. Recusava apenas     as empresas menos honestas.

«Tive que sofrer e muito. Estive no Brasil por ocasião da guerra     da independência. Basta que diga isto. Mas a minha perseverança     valeu-me e não me deixou soçobrar. No fim de seis anos, aumentava     consideravelmente a mesada a minha irmã. No fim de oito, podia-me dizer     rico. Mais um ano no Brasil, e voltarei para Portugal, disse eu comigo.

«Não havia dia em que não pensasse nisto com entusiasmo.

«Por meados de 1833, andava eu tratando da liquidação,     quando, ainda me lembro bem, recebi de Portugal uma carta tarjada de preto.

Abri-a a tremer. Era do negociante meu amigo, participando-me que minha     irmã que havia tempos se achava incomodada, morrera no dia 23 de Julho     de 1833, apesar de todos os socorros da medicina.

«Não posso dizer como fiquei quando li esta carta. Caí     em tal abatimento, que os médicos agouraram mal da minha vida. Aconselharam-      me ares pátrios. Mas eu já não tinha coração     para voltar aqui; ao mesmo tempo, a minha vida no Rio de Janeiro era-me insuportável.

Terminei a liquidação do meu negócio, e fui viajar.

«Percorri a Europa; durante quatro anos, vivi vida errante e aventureira.     No fim deste tempo, conheci que estava cicatrizada a chaga do meu coração,     e principiaram a crescer em mim uns veementes desejos de voltar à minha     terra. A mesma saudade me chamava.

Não pude resistir-lhe. Entrei em Portugal em 1837. Quando avistei     a casa onde eu nascera e onde vivi com minha irmã, senti uma profunda     comoção interior. Vir encontrá-la vazia, sem aquela linda     menina, que eu deixara de dez anos a brincar, que viera à janela ver-m-e     dobrar a esquina quando eu parti, para a não tornar a ver! E, pensando     isto, eu parei defronte da casa a olhá-la e sem forças que me     levassem mais adiante. Quando de repente — que ilusão aquela,     meu Deus ! — a mesma janela se abriu, e ela... a minha irmã,     tão pequena como eu a deixara, se encostou ao peitoril, olhando-me     exactamente como me olhava dantes.

«Eu não pensei no impossível da visão. Acreditei     nela. Corri, corri como um louco, e bati à porta, gritando; Eu logo     vi que não podia ser.

«—Abre, Roberta, abre... minha irmã ainda está     viva!...

«Roberta veio-me abrir a porta a tremer. Não sei como ela me     reconheceu nem o que me disse. Eu estava alucinado.

«—Deixa-ma ver, deixa-ma ver. Para que me tinham dito que ela     morrera? «Não posso dizer como corri e o que se passou; lembra-me     que dentro de pouco tempo eu abraçava e beijava uma bonita criança     de dez anos, julgando beijar minha irmã. E ela também me abraçava,     sorrindo e a chorar... a pobre pequena. Porém, a ilusão passou;     a razão voltou-me, e reconheci que havia nisto tudo um engano. Mas     a semelhança era tanta! Um ar de tristeza se apoderou de mim; e voltando-      me para Roberta, que chorava a um canto, perguntei-lhe: «—Quem     é esta menina, Roberta?

«—É sua sobrinha, filha de sua irmã.

«Dei um salto, como se aquelas palavras me atravessassem o coração.     Um relâmpago terrível me iluminou o espírito; ia a passar     das carícias talvez a alguma crueldade, quando aquele anjo, ouvindo     as palavras de Roberta, exclamou: «Ai, pois é este o meu tio!      — e saltou-me ao pescoço, beijando- me com meiguice. Desarmou-me;     desatei a chorar, e não pude deixar de a apertar ao coração.

«Passados poucos instantes, Maria retirou-se para ir buscar flores,     disse ela, e eu fiquei só com Roberta. Voltou-me o ar sinistro que     aquela criança me havia conjurado, e disse a Roberta que me contasse     a história de minha irmã. A história era curta.

«—A infeliz foi enganada por um infame, que, abusando da sua     inocência, fora a causa do seu infortúnio e da sua morte.

«— E era assim que vigiavas pela irmã que eu te confiei,     Roberta? «A pobre mulher respondia-me chorando.

«Mas a voz da minha consciência acusava-me mais do que a ela.

Eu é que não devia ter abandonado a irmã, para satisfazer     ambições desmedidas. Agora, cumpre-me chorá-la e proteger     a filha melhor do que a protegera a ela. Pobre criança! Quem podia     deixar de querer- lhe ? Ela reproduziu-me as venturas que eu julgava perdidas     para sempre. Nela cri renascer minha irmã. E por isso a amei. Amei-a     logo e cada vez mais! E veja como parece a sorte perseguir-me; durante meses     que tive de passar no Porto, por pouco a não ia sacrificando, e lhe     causei, sem querer, um mal irremediável! Está terminada a história     de Maria Clementina.

«A sorte infeliz da minha irmã era muito notória, para     que eu pudesse viver feliz na minha terra. Vim por isso para Braga, deixando     Barcelos, onde nascera, com vivas saudades.» — Barcelos! —      exclamou o major, que havia momentos não podia dissimular a sua agitação.

— Sim — respondeu José Urbano — julgava ter já     dito que tinha sido em Barcelos que eu nasci. Agora, já vê V.     Ex.* a razão por que eu há pouco lhe dizia que a proposta que     se dignou fazer era impossível.

Maria Clementina é filha ilegítima e eu não conheço     seu pai.

— Não conhece? — perguntou D. Joana com interesse.

— Nunca me puderam dar sinais dele. Em Roberta encontrei sempre uma     reserva, nesse ponto, que me fez julgar ser recomendação de     minha irmã. Sei apenas que era um militar, um dos muitos que por aqueles     tempos (foi em 1832) cobriam o reino. Era vida de guerra a de então...     algum aventureiro, que nunca mais se lembrou da vileza que cometera, nem talvez     mesmo ao cair no campo atravessado por uma bala inimiga.

— Sua irmã chamava-se... ? — perguntou o major com voz     alterada.

— Maria Luísa — respondeu josé Urbano.

O major não se pôde vencer. Olhando para Maria Clementina, que     passeava então no terraço adjacente, exclamou, juntando as mãos:      — Justo Deus ! pois eu tinha uma filha ? Esta exclamação     do major fez estremecer José Urbano, que empalideceu.

D. Joana ergueu-se também sobressaltada.

— Sr. José Urbano — disse o major, comovido — o     militar, o aventureiro, o miserável que acusou, sou eu; não     ficou atravessado por uma bala no campo de batalha, mas por muito tempo se     conservou em um leito de doença, e quando se ergueu foi seu primeiro     pensamento a mulher que verdadeiramente amara; disseram-lhe que tinha morrido,     mas nunca ele soube que lhe ficara uma filha. Ai, se o soubesse ! Eu, que     tantas vezes me atormentava na minha solidão vazia de afecto... Se     eu suspeitasse que existia na terra aquele anjo!—E o major juntava as     mãos, olhando para Clementina.

José Urbano conservava-se mudo e taciturno.

— Quando mesmo Maria Clementina não tivesse achado um pai —      disse D. Joana — não julgue que eu desistiria do meu pedido,     Sr. José Urbano. Mas agora parece-me que cessam da sua parte todos     os escrúpulos.

José Urbano ergueu a cabeça e, fitando o major, disse: —      Ainda bem, major Samora, que só nos reconhecemos na idade em que se     apagaram os fogos da juventude; ainda bem.

— Então, é a ambos que peço a mão de Maria     Clementina para meu filho... —disse D. Joana; seja esta união     a que faça desvanecer a nuvem que parece meter-se entre os senhores.     Dêem as mãos como amigos. Vamos.

O major ficou quieto, e José Urbano caminhou para ele com as mãos     estendidas.

— Acredito, major, que foi leviano, mas não foi vil. Minha     irmã mandar-me-ia perdoar.

Os dois apertaram as mãos.

Dentro em pouco tempo, eram tudo abraços na sala de José Urbano.

A um sinal de Joana, Maria Clementina entrara em casa, com o coração     alvoroçado e as faces tingidas de rubor.

Filipe, que entendeu também o sinal de sua mãe, seguiu a pequena     distância. Quando Maria Clementina entrou, D. Joana foi-lhe ao encontro     e, tomando-a pela mão, levou-a junto do major.

— É de justiça que seja para o major o primeiro abraço      — disse D. Joana.

O major tremia ao abrir os braços a Maria Clementina, e a custo exclamou:      — Minha filha! Maria Clementina olhava com estranheza.

José Urbano disse-lhe, comovido, apontando para o major; —      Podes abraçá-lo, Micas, é teu pai...

Filipe entrou neste momento.

Maria Clementina achava-se nos braços do major, desfeita em lagrimas,     mal compreendendo ainda o que se passava.

Samora, que não se fartava de a abraçar, disse, meio a rir     meio a chorar, para Filipe, que o olhava estupefacto: — É o complemento     daquela minha história; eu tinha uma filha..

Era esta... este anjo.

— Como vamos ser felizes todos! José Urbano aproximou-se de     Filipe, e disse-lhe: — E tem fé que a tornará feliz ?'      — Quanto a puder fazer um amor verdadeiro.

— Ora não desanimem então.

Imaginem as efusões mútuas que se seguiram.

Ao entrar Roberta na sala, o major foi-lhe ao encontro, exclamando: —      Roberta! Lembra-se ainda do alferes Clemente Samora? — Santo nome de     Deus! Que nome foi dizer! — exclamou a velha, olhando para seu amo com     ar de mistério e susto.

— Saiba que ele vive ainda, e que encontrou sua filha, a qual abraço     agora...

— Quê?... pois então... É verdade que tem avultações.     Mas...

santo nome!... Santo... então? — Então, este dia é     um dia de ventura. Achei minha filha, e exactamente na ocasião de encontrar     também um filho no melhor rapaz do exército.

— Oh! major! Os dois militares apertaram as mãos afectuosamente.

— Ah! pois já está tudo arranjado? — exclamou     Roberta, exultando de contente.

— Tudo, graças ao seu expediente, Roberta. Pode ufanar-se de     ter feito a felicidade de seus amos.

— Como ? — perguntou José Urbano.

— Ora como? — disse Roberta — indo a fonte limpa. Quem     pode...

— Psiu!... — disse D. Joana, olhando-a com mistério.

— Ah! pois ele não sabe ainda? — murmurou Roberta, olhando     para seu amo com ar de mistério.— Não importa; eu não     posso deixar de bradar: Viva sua majestade a rainha! A saudação     foi jovialmente acolhida.

Do mais que se seguiu, deixo-o a imaginação do leitor concebê-      lo.

D. Joana partiu no dia seguinte para Lisboa.

O major Samora, Filipe, José Urbano e Maria Clementina seguiram-     na passados oito dias.

O casamento fez-se na capital, onde os noivos ficaram residindo na companhia     do major, que remoçava com o inesperado sucesso, e recebendo visitas     amiudadas de José Urbano, que reside ainda em Braga.

Roberta vive na firme persuasão que foi a rainha D. Maria II"     quem interveio no casamento dessa menina, e toda ufana repete muitas vezes,     com grande prazer de José Urbano: — Aqui está quem deslindou     este negócio todo. Não fora eu, que ainda hoje estaríamos     como dantes; eu nem sei o que seria, Não há justiça como     a justiça de sua majestade.

 

NÃO me consta que tenha existido mãe tão extremosa,     e talvez tão excessivamente indulgente, como o era a Sr." D. Margarida,     de Entre Arroios, na época em que, voltando eu de uma pequena digressão     pela província do Minho, tive a fortuna de ser recebido como hóspede     em casa desta senhora, a meio caminho do Porto a Braga, um quarto de légua     afastada da estrada principal.

Era uma época de crise para a fidalga, como por lá lhe chamavam     todos os vizinhos, esta a que me refiro. Dias antes haviam as cortes decidido      — e qual é a casa rica de província que não tem     o seu pequeno parlamento ? — que o menino Tomás, o qual então     contava já quinze anos feitos, seguisse estudos em Coimbra.

Discutia-se, porém, ainda acaloradamente a escolha da faculdade.

O abade, egresso do convento de Santo Tirso, jovial como uma anacreôntica,     gordo como o primeiro prémio de uma exposição agrícola     na secção — gado suíno — votava pela de teologia;     o doutor, homem de emaranhados discursos, recheados de cujos e supraditos     e rábula por amor da arte, insistia na de jurisprudência; —      e o médico, original de curtas falas, mas, em compensação,     de bem compridas pernas, que dizia parada a ciência desde os seus bons     tempos de Universidade, e parecia querer-nos dar a entender que escutara então     dela a última palavra, antevia um futuro brilhante para o jovem morgado     na carreira clinica; mais generoso do que nenhum, apoiava este projecto de     lei com a promessa da sua livraria, curioso museu de antiquário, coberto     de uma camada de pó semi-secular, e na qual a traça imperturbável     prosseguia lentamente todos os dias uma obra de destruição.

A faculdade de Matemática era a única não representada;     e os s membros deste erudito congresso, em tudo tão divergentes, viam-se     só unânimes ao reconhecer que ela não merecia, de facto,     entrar em linha de conta.

— No nosso país, um matemático — dizia o doutor,     concordavam o médico e o abade, e eu quase estive tentado a concordar     também — não tem uma posição segura e definida.     Os nossos governos encomendam as estradas aos enxurros, e as pontes fazem-se     quando os ventos derrubam os troncos das árvores através das     correntes dos ribeiros.

E o coro entoava um anátema às estradas, às pontes     e ao Governo.

Isto era em 185...

A Sr.» D. Margarida, essa fazia dos matemáticos uma ideia horrorosa,     pouco superior à que formava dos lobisomens, para que tomasse a peito     defender a ciência de Newton e de Laplace da excomunhão lançada     contra ela por este sapientíssimo triunvirato.

E todos os dias se reproduziam de parte a parte os mesmos argumentos ; —      todos os dias, como nos tribunais, a discussão percorria sucessivamente     seus diferentes graus: principiando pela argumentação pausada     e razoável, passando à réplica tumultosa, em seguida,     confundindo-se em acaloradas vozearias, e terminando, enfim, pelas mais aguçadas     alusões e as mais descompostas diatribes. Os contendores todos os dias     se retiravam vermelhos, suando, resfolegando como touros no circo; a Sr.ª      D. Margarida adiava a sessão para a noite imediata; e o menino Tomás,     causa inocente de tantas iras, continuava dormindo sossegadamente sob os tectos     paternais, apesar dos quinze anos feitos.

Recomendado à dona da casa por um seu amigo íntimo de Braga,     mereci a honra de ser imediatamente posto ao corrente da questão, e,     o que mais é, convidado para intervir nela. Quis recusar-me a esta     lisonjeira prova de consideração, mas debalde o tentei; e afinal     reconheci que bem necessária seria a minha intervenção,     pois via os litigantes cada vez mais longe de se encaminharem a um acordo.

Convocou-se, portanto, nova reunião para o dia seguinte ao da minha     chegada, que se efectuara no fim da tarde de um magnífico dia de Julho,     e depois de aturada conversa com a minha atenciosa hospedeira, na qual ela     me pôs ao alcance de todas as suas tribulações domésticas,     tais como: — a impertinência das criadas, o arejo das batatas,     o vinho que se lhe azedara, um muro que tinha desabado — consegui, após     várias tentativas infrutuosas, dar-lhe as boas noites. Retirei- me     para o quarto que me fora indicado, pensando comigo mesmo como tão     depressa me achava envolvido em um negócio de família, de não     pequena gravidade, e árbitro dos destinos de uma criança, que     nem sequer tinha ainda visto.

A janela do aposento, onde pernoitei, dava para um bem provido pomar, glória     da Sr.* D. Margarida, que se ufanava de possuir as mais deliciosas laranjas     e os mais saborosos pêssegos de toda a província; e destes últimos     bem gratas recordações efectivamente me ficaram!

A noite estava belíssima. Era uma destas abafadas noites de Estio,     em que somos, quase irresistivelmente, levados para a contemplação     do espectáculo do céu, sem nuvens nem estrelas, e da terra inundada     por um luar magnífico de reflexos surpreendentes.

Apaguei a luz, e, encostado ao peitoril, esqueci-me durante horas a olhar     para o que via diante de mim, e a pensar não sei em que , se é     que pensar se chama àquilo.

Desta contemplação fui afinal despertado por o ruído     de uma janela, que se abria cautelosamente. Movida assim a minha curiosidade,     pus-me a observar o que se passava.

A posição era favorável a esta inocente espionagem.     Uma rápida descrição topográfica do lugar o mostrará     claramente.

A casa de Entre Arroios, edificada nos princípios do século     passado, conservava ainda, apesar das sucessivas mudanças que o espírito     de reforma de D. Margarida lhe havia introduzido, o aspecto pesado e quase     lúgubre das construções daquela época no nosso     país.

A fachada principal ostentava, heràldicamente combinadas, as armas     da família, tidas pela gente do lugar como uma das principais glórias     da sua terra. Duas largas pilastras de granito corriam, livres de oca e de     argamassa, ao longo desta fachada, desde a sólida cornija que sustentavam     em floridos capitéis, até aos alicerces sobre que se apoiavam     os pedestais enegrecidos. Para a parte posterior prolongavam- se os corpos     laterais do edifício em alas paralelas, abrangendo por esta forma um     espaço quadrangular, onde um dos ascendentes de D. Margarida plantara     o pomar a que já me referi e que com tanta dignidade sustentava nos     mercados a boa fama da horticultura minhota.

Subindo três degraus de pedra, já meio gastos pelo uso, e transpondo     uma porta envidraçada, entrava-se do pomar, por o corpo central da     casa, para a sala de jantar; no mesmo correr eram a cozinha e despensas, e     para outro lado o salão das recepções solenes, ordinariamente     fechado.

No andar superior eram os quartos de D. Margarida, os quais abriam para     uma ampla varanda de bem torneados balaústres, onde vegetavam em vasos     de louça as flores predilectas da senhora; era também aí     a sala dos serões familiares, e finalmente o quarto de Tomás.

Este ficava situado em um dos ângulos do quadrilátero e imediato     ao corpo lateral do edifício que fora destinado para capela.

Durante as devastações que o País sofrera nas sucessivas     guerras civis dos últimos períodos da nossa história,     a casa de Entre Arroios não fora mais do que as outras respeitada,     e os estragos que, no resto da habitação, tinham já sido     cuidadosamente reparados, conservavam- se ainda visíveis no pequeno     templo, onde havia muito se não exercia por isso o ofício divino.

As janelas que deste templo deitavam para o pomar, uma das ais ficava muito     próxima e subjacente à do quarto de Tomás, mostravam     ainda os grossos caixilhos de ferro despovoados de vidros, e já em     parte atacados pela acção corrosiva do tempo.

Finalmente, do lado esquerdo, em simetria com a capela, pro.

longava-se um pequeno pavilhão, originariamente destinado para alojar     os hóspedes, que, recebidos e gasalhados na casa de Entre Arroios com     proverbial cordialidade, ficavam, contudo, como urn natural e delicado pudor     de ménage, um tanto afastados do seio íntimo da família,     não a constrangendo assim a alterar os hábitos domésticos,     que, e na vida de província principalmente, nunca se sacrificam sem     dolorosa violência.

Foi neste pavilhão que me prepararam aposento, e de lá, oculto     pelas folhas de uma laranjeira ao alcance do meu braço e através     dela, podia eu pois descobrir toda aquela parte da casa que, por mais vezes     habitada, não era, como esta, tão oprimida pela exuberância     da vegetação.

Foi, pois, desta situação vantajosa que me dispus a averiguar     a causa do ruído, proveniente, ao que parecia, do lado exactamente     oposto àquele que eu ocupava.

Não havia dúvida. Uma das vidraças do andar superior     abria-se vagarosamente. Era a do quarto de Tomás.

Ora, segundo o que me tinham dito dele naquela noite, desculpando- lhe a     ausência, Tomás achava-se algum tanto incomodado e deitara-se     mais cedo do que o costume. Seria pois aquele movimento filho do delírio     da febre? Foi o meu primeiro pensamento, e tive tentações de     excitar o alarme; mas, ponderando melhor, resolvi-me a expectar.

Já então estava convencido, e depois tenho mil vezes confirmado     a observação, que não há, de ordinário,     gente mais importuna do que as pessoas chamadas serviçais.

Passado assim algum tempo, vi uma forma escura desenhar-se no vão     da janela, crescer, crescer e, com grande terror meu, erguer-se sobre o parapeito,     como tentando precipitar-se.

Não sei como pude reprimir um grito de susto: a ideia de suicídio     fez-me arrepiar os cabelos.

Cedo, porém, e com uma presteza que deixava suspeitar não     ser a primeira vez que executava a manobra, o vulto, firmando-se nos lavores     salientes da ombreira e daí num cano de ferro que descia do telhado     ao pátio, junto ao ângulo da parede, transportou-se para o jazente     da janela do templo, que lhe ficava próxima, mas em plano inferior     ao do quarto.

Depois, segurando-se aos varões de ferro dos caixilhos vazios, deixou-se     resvalar até encontrar com os pés uma fenda ou desigualdade,     não sei se natural, se artificialmente praticada na parede, e, enfim,     por uma evolução, que a sombra projectada pelas árvores     me não deixou perceber, cedo tocava a relva, com tanta felicidade e     prontidão, que, sem hesitar, abandonei a ideia primeiro sugerida, por     febricitante.

Aquela sombra, ou antes aquele corpo, desde que se viu em terra, parou como     escutando se tivera sido pressentido; afastou-se alguns passos e voltou de     novo, passando em revista todas as janelas com escrupulosa atenção;     porém, esquecendo-se neste exame exactamente da única, que o     havia traído, a do meu quarto, o qual talvez julgava desabitado. Satisfeito,     ao que parecia, com estas observações, estranhou- se no pomar     e cedo se perdeu por entre as árvores.

A surtida nocturna deu-me que pensar. Sem dúvida, era este o herói     de quem todos se ocupavam em Entre Arroios, e talvez mais herói do     que me parecera, quando a senhora D. Margarida me desenhou o seu retrato,     com o defeito comum aos retratos feitos por todas as mães, que, desconhecendo     geralmente as vantagens do claro-escuro, nos pintam seus filhos sem uma única     sombra que lhes dê relevo Aos quinze anos, uma excursão tão     extravagante da casa materna tem já de ordinário uma causa,     que não exige grande penetração, nem andes esforços     de inteligência para ser reconhecida.

Não me demorei por tanto tempo a desenvolver este problema, que resolvi     pela fórmula geral. Mas o que me fez maior sensação foi     que, por esta façanha, Tomás mostrava-se menos criança     do que o queriam fazer aqueles que, sem o consultar, lhe andavam a discutir     o futuro, destinando-lhe, um a cadeira abacial, outro a banca de advogado,     outro a clássica mula de médico; e eu pensava comigo mesmo que     muito bem poderia acontecer, chegada a ocasião de levar a efeito qualquer     das resoluções em que assentavam, se tal hipótese era     admissível, que todos fossem embaraçados por um obstáculo     muito natural e não previsto, o de vontade de Tomás, a qual,     a julgar pelo que vira, não me parecia dever ser demasiado maleável.

Jurei não deixar escapar esta observação e aproveitá-la     para me conduzir no dia seguinte, visto a minha assistência ser reclamada     pela assembleia, e conservei-me de atalaia, aguardando o regresso do filho     pródigo, o qua! se efectuou pelas duas horas da noite, e com a mesma     agilidade e destreza que eu já admirara.

Contente com a minha involuntária descoberta, e mais adiantado talvez     do que ninguém na vida intima do protagonista desta história,     abandonei o meu posto e deitei-me a dormir um sono agradável.

Pela manhã, acordei em sobressalto, sonhando que era obrigado a executar     a manobra de ginástica que presenciara na véspera.

QUANDO abri a janela, ainda o Sol não havia despontado no horizonte.

A manhã estava tão amena e tão belo panorama se ofereceu     aos meus olhos, assim que os estendi ao longe pelos campos, que não     pude vencer os desejos de explorar aqueles pitorescos lugares, apesar de ver     ainda hermeticamente fechadas as janelas do quarto da senhora de Entre Arroios.

Servindo-me, pois, de uma saída particular, que havia no pavilhão,     independente do resto da casa, desci ao pomar, e aproveitando-me do momento     em que o dragão deste novo jardim das Hespérides, um respeitável     indivíduo da espécie Lineana: canis familiaris, saboreava as     delícias do sono matutino, abri a porta da comprida gradaria, que formava     o quarto lado da área consagrada a Pomona, e achei-me na quinta.

Os bens pertencentes à casa de Entre Arroios são extensíssimos,     e naquela época uma exuberante vegetação dava aos campos     tão agradável aspecto, tanta vida e frescura, que havia realmente     prazer entranhar- se a gente por aquelas extensas avenidas, e perder-se no     meio das copadas devesas, ainda quando se corresse o risco de faltar a um     almoço como costumava sair das cozinhas de Entre Arroios.

Depois de muito caminhar, pude atingir enfim os limites da quinta, e, verdadeiramente     fatigado, sentei-me em um pequeno muro tosco e coberto de hera, que ficava     sobranceiro a uma destas tortuosas e estreitas ruas, que em mil direcções     atravessam as nossas aldeias e a cujo aspecto, monotonamente uniforme em todas     elas, anda de ordinário mais ou menos ligada alguma recordação     de nossa vida passada.

Aí jogos, alegrias, perfumadas memórias de uma esquecida infância,     nos reverdecem na imaginação, volteiam em torno de nós,     como um enxame de borboletas brancas ao agitarmos a balseira, onde pousavam     embriagadas nos nectários das flores.

O nosso pensamento, à semelhança de um vaso metálico,     ressoa por muito tempo, quando, embora de leve, percutido; como ondas sonoras,     as nossas recordações, movidas por uma palavra, por um som,     por uma flor, por um perfume, sucedem-se, dilatam-se cada vez mais vastas,     cada vez mais suaves, até se desvanecerem em uma confusa imagem do     passado, de formas indefinidas e vagas, mas por isso mesmo mais bela, mais     inebriante ainda, em um quase sonho, delicioso e grato como o murmúrio     que termina o som, como o crepúsculo em que desmaia o dia, como o Outono     que sucede à estação dos florescentes verdores.

E assim eu me deixava então enlevar pela reminiscência das     passadas cenas, que tão profundamente me fazia esquecer tristezas e     alegrias presentes.

Nós caminhamos sempre na vida entre duas visões: uma precede-      nos esplêndida e brilhante, como a luminosa aparição que     dirigia no deserto a marcha do povo hebreu; outra segue-nos, formosa e pálida,     como as virgens ideais dos cantos escoceses. São a esperança     e a saudade. Com os olhos naquela, quase chegamos a olvidar inteiramente a     existência da última; mas que uma sombra extinga, obscureça,     sequer, a auréola que na primeira nos atrai e seduz, e a segunda surgirá,     como surgem as estrelas, quando a chama do Sol desmaia no extremo ocidente.

Destas ideias, destes sonhos, por onde me arrebatava a fantasia, evocou-me     o ruído de uns passos ligeiros e leves, que de momento a momento se     fazia mais distinto.

Nada de estranho poderia ter o facto, visto serem estas as horas em que     de todos os lados da aldeia partiam os operários para o trabalho ;     contudo um inexplicável movimento de curiosidade me fez debruçar     sobre o muro em que estivera sentado, aguardando a chegada da pessoa que parecia     avizinhar-se.

Não esperei muito tempo para conhecer a causa do ruído que     me preocupava; cedo vi no princípio da estreita rua, que as árvores     dos campos fronteiros guarneciam de um toldo de verdura, assomar uma gentil     forma feminina com os trajes elegantes das lavradoras do Minho, e sustentando     na cabeça, no mais perfeito equilíbrio, uma vasilha a trasbordar     de leite mungido de pouco.

Era uma rapariga que parecia contar de treze para catorze anos.

Os cabelos desatados saiam-lhe em madeixas abundantes por debaixo de um     lenço escarlate, disposto em volta da cabeça com artístico     e indescritível desleixo; outro da mesma cor se lhe cruzava no seio,     cujas formas principiavam a desenhar-se em curvas graciosas; a cintura tão     delicada e flexível, que, ao vê-la, involuntariamente se imaginava     a requebrar-se nas ondulações de uma valsa — era sem constrangimento     apertada em um estreito colete de fustão azul-escuro; a saia, de pano     preto, descia-lhe até ao meio da perna; as mangas amplas e compridas     da camisa de linho, alvo como a neve, vinham apertar-se- -lhe nos punhos,     ocultando aos olhos o puro contorno dos braços, que, não obstante,     uma pequena e bem modelada mão deixava adivinhar.

0 fogo nos olhos, rosas nas faces, a alvura do leite no colo descoberto,     onde realçava um fio de formosas coralinas, assim se adiantava esta     risonha visão, que me vi tentado a tomar pela deusa da madrugada.

Com grande espanto meu, ela olhava-me de longe sorrindo e na aparência     decidida a dirigir-me a palavra. Não tendo, como é de crer,     motivos para me recear da aparição, conservei-me imóvel,     absorvido agradavelmente a contemplá-la. Mas afirmando-se melhor em     mim, quando a distância de me poder falar, a gentil rapariga fitou-me     uns olhos espantados, baixou-os imediatamente, corou a ponto de rivalizar     com a pequena rosa que trazia ao peito, e apressando o passo, o ansiosa para     fugir às minhas vistas, apenas murmurou ao passar e sem erguer os olhos,     a singela saudação, usada pela gente dos campos: — muito     bons dias. Apesar da voz quase sumida, com que estas três palavras foram     pronunciadas, afigurou-se-me de uma melodia encantadora.

Respondi-lhe simplesmente ao cumprimento, abstendo-me, como de um sacrilégio,     de acrescentar uma única frase, que se semelhasse a galanteio. Tal     era a atmosfera de virginal castidade, que me parecia envolver esta poética     criatura.

Segui-a com a vista enquanto pude, até que a vi desaparecer em uma     das voltas do caminho, no mesmo momento em que aparecia o sol, por detrás     da colina fronteira, dando-me a entender que era tempo de voltar a casa, para     não ser logo no primeiro dia inexacto à hora do almoço,     que tão cuidadosamente me comunicara na véspera a senhora de     Entre Arroios.

Abandonei, pois, este lugar, onde experimentara tão vivas impressões     morais, para procurar aquela outra espécie de impressões, cuja     fisiologia melhor que ninguém estudou, porque melhor que ninguém     as experimentava, Brillat-Savarin, o médico-gastrónomo.

Na sala do almoço encontrei já a senhora de Entre Arroios,     ocupando o trono, que, como chefe de família, de direito lhe pertencia.

Era uma destas antigas cadeiras de couro lavrado, guarnecida de reluzentes     tachas amarelas, a qual atento o seu peso, só quase por antífrase     se poderia chamar um dos móveis da casa; nossos avós as inventaram     para se sentarem, assim como nós inventamos as modernas para fingir     que nos sentamos.

Numerosas gerações da nobre família de Entre Arroios     haviam conhecido e acatado esta cadeira histórica, que tivera já     a honra, disse-me a Sr.' D. Margarida com um movimento de justa vaidade, de     ser ocupada um dia inteiro por um arcebispo de Braga, durante uma excursão     pela diocese.

D. Margarida saudou-me com o mais amável dos seus sorrisos, dirigiu-me     duas graças benevolamente maliciosas sobre o meu passeio em jejum,     terminando por me colocar à sua direita, defronte de um magnífico     chocolate, que deveras me deleitou.

Com a curiosidade, que é de prever, pedi novas do bijou da família.     O Tomazinho, disse-me a Sr." D. Margarida, passara mal a noite e exigira     que ninguém lhe entrasse no quarto, por causa de uma intensa dor de     cabeça, que lhe costumava dar muitas vezes.

— Ah! muitas vezes ? — A cada passo.

— E há muito que sofre dessas... dores de cabeça? —      Há coisa de alguns meses a esta parte é que ele se principiou     a queixar. Isto há-de ser do sol...

— Também creio, minha senhora. O sol faz muito mal e em certas     idades sobretudo. E que diz a isso o doutor? Eu sempre gostei de ver os médicos     explicarem certas coisas.

— O médico — respondeu-me D. Margarida — diz que     aquilo é força de sangue, e até propôs uma sangria.

— Ah! e seu filho, minha senhora? — Não quis ouvir falar     em semelhante coisa, — É que talvez então se achasse melhor.

— Efectivamente passou algum tempo mais aliviado, mas depois soltou-lhe.

— E hoje? — Levantou-se pela manhã muito cedo e saiu.     Diz que lhe fazem muito bem estes passeios.

— As dores de cabeça? — Sim; pois é toda a sua     doença.

— Decerto que devem fazer.

Quando acabava de receber estas informações, para mim bastante     significativas, a porta da sala abriu-se e o menino Tomás entrou em     cena.

— «Falai no ruim, olhai para a porta» — foram as     palavras com que a senhora de Entre Arroios saudou o recém-chegado,     para quem lançava uns olhos a trasbordarem de amor maternal.

Tomás beijou com afecto a mão da mãe, e inclinou-se     cortesmente diante de mim, depois que a Sr.a D. Margarida me apresentou com     todas as formalidades.

Um primeiro olhar lançado sobre Tomás, me fez desde logo simpatizar     com ele.

Era ainda imberbe, algum tanto pálido, com uns lânguidos olhos     castanhos, que se pressentiam talhados para contemplações poéticas;     os cabelos negros naturalmente anelados e compridos; a fronte espaçosa,     a boca de uma expressão melancólica; tudo naquela fisionomia     revelava sentimentos nobres e generosos, elevados brios, talvez uma excessiva     sensibilidade, e um espírito fácil em impressionar-se; graves     defeitos para quem desejar viver em paz neste mundo.

O vestuário singelo, mas elegante, fazia sobressair-lhe a estatura     airosa e bastante desenvolvida para a idade que ele tinha. Conhecia- se haver     crescido e vigorado ao ar livre dos campos.

Enquanto eu prosseguia neste meu rápido exame, reparei por acaso     em uma rosa vermelha, que Tomás trazia descuidadamente na mão.

Era em tudo semelhante à que vira ao peito da pequena leiteira.

Seria mera coincidência? Que admirava? Em uma terra e em uma estação,     em que as rosas surgem espontâneas debaixo dos pés, que significação     podia ter o facto ? Contudo, o que eu já sabia de Tomás levava-me     a conceder mais algum peso à pequena circunstância que observara.

Travei com ele uma conversa banal, sobre mil coisas em que se costuma falar,     quando se não quer dizer nada.

No fim do almoço a senhora de Entre Arroios improvisou entre nós     um passeio, ao qual lamentava não poder acompanhar-nos, porque lho     não permitia o governo da casa, de uma exigência mais que des.

pótica — frase dela.

— Vão, vão passear. Mas olha lá, Tomás,     cautela com o sol, e não vás para o lado dos lameiros: a humidade     pode fazer-te mal. Olha sabes ? não seria mau ires mais enroupado;     a manhã está fresca, e o que livra do frio, livra do calor.

E com estas e idênticas recomendações, das quais a muito     custo Tomás conseguiu livrar-se, sujeitando-se a umas, iludindo outras     conforme pôde, saímos ambos para observar o plano de divertimento     que nos traçara a Sr.* D. Margarida.

Durante o passeio, Tomás mostrou-se agradável, e às     vezes jovial.

Falámos em vários assuntos, e em todos pude reconhecer nele     bastante cultura intelectual, contra o que era de esperar, atendendo à     vida isolada que passava ali.

Quanto porém aos seus sentimentos, Tomás mostrava-se pouco     comunicativo, e se às vezes eu tentava mais a fundo sondar aquele carácter,     que me parecia, a muitos respeitos, digno de estudo, tornava- se subitamente     mais reservado ainda, como se pressentisse as minhas atenções.

Afinal decidi-me a atacá-lo mais de perto.

— Sabe, Sr. Tomás — disse-lhe depois de uma hora de passeio      — que admiro as suas compatrícias ? — Sim?!—foi a     única resposta monossilábica que pude obter.

Não desanimei contudo e prossegui: — Esta manhã, pelo     menos, vi uma que me pareceu um verdadeiro modelo de artista.

— Deveras ? — respondeu-me no tom de voz mais indiferente que     se pode conceber.

— Deveras — continuei eu — e foi justamente daqui mesmo.

Havíamos de facto chegado ao sítio, de onde eu, como cortesão     em antecâmara de monarca, aguardara o despertar do Sol.

— Ah! daqui ? Pareceu-me descobrir mais algum interesse nesta interrogação     de Tomás.

— Ao que pude julgar, era uma leiteira das imediações.     Bonita rapariga, palavra de honra!—dizendo isto, fitava os olhos nos     dele, que momentaneamente se abaixaram.

— Havia de ser a Paulina — disse com um ar de indiferença     mal representada; e mudando de conversa: — O senhor é do Porto     ? Fiz-me desentendido.

— Paulina? é um nome poético. É da terra essa     rapariga? — Julgo que sim... É, mas...

Eu não o deixei continuar.

— Não a acha galante? Esta pergunta visivelmente o contrariou.     Um movimento quase imperceptível dos lábios, uma ruga que mal     se lhe desenhou na fronte, e o rubor demasiado que por momentos lhe invadiu     as faces, mo denunciaram.

— Assim — respondeu-me de um modo seco; e afastou-se alguns     passos, ostensivamente para cortar uma vara de um castanheiro vizinho, mas     na realidade com o fim de interromper a conversa, que lhe desagradava.

Pela minha parte, já sabia o que desejava; e como demais ia perdendo     terreno nas boas graças de Tomás, do que não tinha desejos,     aceitei a diversão, fui ajudá-lo no ingénuo passatempo,     em que ele fingia entreter-se, e assim nos divertimos durante alguns minutos.

Passado tempo, e a uma proposta sua, seguimos caminho para casa. Tive ocasião     de lhe dirigir de novo a palavra.

— Que projectos forma relativos ao seu futuro? — Projectos?      — Sim; a que carreira se destina? — Ah! não sei bem. Dantes     falavam em me mandarem para Coimbra. Talvez que essa ideia esquecesse.

— O que talvez estimaria.

Fitou-me com desconfiança, respondendo: — Pode ser —      e depois continuou: — Contudo era a vontade de meu pai, e se minha mãe     o exigir... Sabe que nunca lhe pude desobedecer em coisa nenhuma? Tinha na     voz uma sensível comoção ao dizer isto; se o sentimento     filial, se outro, o dominava então, não o pude saber.

— Pelo que ontem ouvi dizer a sua mãe e a alguém mais     da companhia — continuei — julgo que esses projectos se discutem     de novo actualmente.

— Deveras ? Porque não mo terão dito ? — e calou-se     preocupado por um sentimento que parecia mortificá-lo.

— Não há no Porto uma escola onde se estude também?      — perquntou- me em seguida.

— Conforme. Para que estudos se inclina mais? Encolheu os ombros em     sinal de completa indiferença, e prossemos no nosso caminho silenciosamente.

Chegámos enfim à porta da gradaria que fechava o pomar, onde     encontrámos com o médico, personagem esguia e descarnada, que     poderia servir de exemplar para estudos de osteologia seca. Uma mumificação     progressiva quase lhe permitia já livre passagem através dos     varões de ferro e inutilizava o uso da porta, que, apesar disso, Tomás     se apressou em abrir-lhe, mais por delicadeza que por necessidade.

— Bons dias, meu pequeno cliente — disse ele, dirigindo-se a     Tomás e enviando-me ao mesmo tempo uma cerimoniática reverência.

Um sorriso de inofensiva zombaria se deslizou nos lábios de Tomás,     ao contemplar o doutor, — Então já de volta da sua excursão     clínica, doutor Madrugada ? bem esforços faz por desmentir o     vita brevis, que sempre traz na boca.

— É preceito higiénico, que observo religiosamente;     deito-me às oito horas, para às quatro me levantar. Isto auxilia     a boa distribuição dos humores e a cocção das     matérias pecantes.

O aspecto do doutor não era muito lisonjeiro à teoria, ou     tudo naquele corpo era matéria pecante; pois de facto dir-se-ia ter     passado todo ele por uma cocção verdadeira.

— E as suas dores de cabeça? — acrescentou, voltando-se     para Tomás.

— Vão-me sendo infiéis e ameaçam deixar-me, as     ingratas.

— Ruinzinho ! Isso já podia estar fora.—E voltando-se     para mim: — Ora diga, uma cefaleia com um fundo pletórico, devida     evidentemente à confluência dos humores para a cabeça,     coisa própria da idade, qual o tratamento racional que exige? Salta     aos olhos dos leigos.

Apesar disso não saltou aos meus, o que me granjeou uma reputação     duvidosa na mente do ilustre adversário das matérias pecantes,     de cuja algaravia eu não pudera perceber palavra.

— Não há que ver — respondeu ele por mim, e com     certo azedume — a sangria, a sangria e só a sangria.

Depois, dirigindo-se a Tomás: — E como está a mamã     ? — Vai ver — disse este, abrindo a porta da sala do jantar, onde     havíamos já chegado.

Depois de uma luta de delicadezas e recíproca troca de zumbaias entre     mim e o médico, consegui fazê-lo entrar adiante e penetrámos     na sala.

Justamente naquele momento acabava a senhora de Entre Arroios de pregar     aos criados o seu duodécimo recado, tarefa que sob o nome de canseiras     de casa, encetava pela manhã para terminar à noite.

 

A nossa chegada desanuviaram-se as feições contraídas     da senhora de Entre Arroios; desceu uma oitava ao tom da voz, e, adiando para     mais tarde a explosão de suas justas iras, justas deviam de ser, saudou     o médico com o epíteto mais amável que lhe ocorreu, passando     a informar-se, como alma caritativa que era afinal de contas, dos clientes     mais pobres do Hipócrates campesino, os quais ela tantas vezes com     cuidados, mais poderosos do que as drogas medicinais, lhe auxiliava a curar.

Eu no entretanto dirigira-me com Tomás para a janela, onde, para     dizer alguma coisa, me pus a exaltar a paisagem, realmente bela, que se goz.-.va     dali.

Tomás parecia escutar-me com prazer; fez coro comigo, e com is ardor     do que eu, exprimia o seu entusiasmo por as belezas do campo — Pode     acreditar — disse-lhe no decurso da conversa — que ontem, ainda     que extenuado pela fadiga da jornada, passei algumas horas absorvido na contemplação     de toda esta cena, fantasticamente alumiada pela claridade de um magnífico     luar de Julho? Estas palavras, pronunciadas sem intenção, produziram     em Tomás um efeito, que, antes de as concluir, eu já notava     e que me não foi difícil explicar.

Vi-o estremecer, e olhando-me de um modo especial: — Ontem ? a que     horas ? — perguntou-me, com mal difarçada curiosidade.

Mentir não me era fácil.

— Depois da ceia,.. Das onze horas para a meia-noite.

— E de onde ? de que janela ? — Dacolá! — e apontei     para o pavilhão.

Os olhos de Tomás seguiram essa direcção, daí     voltaram-se na do seu quarto, e, depois de curta reflexão mental, fitou-me     um olhar tão fixo, que, sem saber bem porquê, desviei o meu.     Traí-me.

Ele também me havia sondado.

Corou um pouco, e depois, como se abraçasse uma súbita resolução,     perguntou-me com vivacidade notável: — E que viu ? Adivinhei     logo o sentido da pergunta, mas fingi ignorá-lo, respondendo: —      Todos estes mil efeitos, que nos surpreendem e que não sei descrever;     contrastes admiráveis de sombra e luz...

— Pois que mais ? Eu achava-me em uma posição falsa,     e que não poderia sustentar por muito tempo, pois confesso não     serem grandes os meus talentos para dissimular.

— Então, além disso, não viu mais nada? —      insistia Tomás — nem acolá? — e apontava para a     janela do quarto.

A interpelação era muito directa desta vez, para lhe resistir;     desde que o vi lançar assim as cartas na mesa, julguei melhor imitá-lo.

— Alguma coisa, é verdade, mas... também viu? —      acrescentei meia voz.

— Se era eu mesmo.

Soube então quanto nos vale esta interjeição em casos     apertados.

Ganha-se tempo com ela, sem arriscar um passo que possa comprometer- nos.   

— É verdade; que quer ? — continuou Tomás como     se tivesse pressa de me explicar o seu procedimento. Eu também amo     a natureza.

Extasio-me ao respirar de noite o ar embalsamado dos bosques, sob um tecto     de verdura, através do qual se descobrem, cintilam e resplandecem as     estrelas, parecendo reflectir-se na terra nesses milhares de insectos que     das asas luminosas despedem fogos, tão fugitivos como os pensamentos     que a essa hora nos atravessam o espírito. Às vezes, acredite,     chego a imaginar que de todos os lados me surgem as formas vagas e vaporosas     que idealiza a poética imaginação do nosso povo e que     imprimem nas singelas narrações dos campos, nas canções     entoadas à hora das ceifas, ou junto do lar, um encanto indefinível.

Talvez me julgue criança se lhe disser que um dos meus maiores prazeres     nesta vida é, em uma noite como a de ontem, na espessura das devesas,     de onde escute o murmurar de um ribeiro vizinho e veja desenhar- se no chão,     em formas fantásticas e movediças, a folhagem que os raios da     Lua a custo podem atravessar, em uma noite assim, ouvir contar uma dessas     histórias de fadas, que em pequeno tanto me entretinham e ainda hoje     me deleitam, e mais já tenho perto de dezasseis anos ! Mas contadas     por quem, essas histórias ? — perguntei, talvez impertinentemente.

Tomás hesitou em responder, e murmurou não sei que palavras     ininteligíveis, terminando por estas: — Pouco importa. É     uma questão secundária essa.

— Perdão; mas não penso eu assim — acrescentei,     decidido a não me contentar com uma resposta tão evasiva. —      Compreendo que possa encontrar nisso grande prazer, e até, para lhe     falar verdade, era esse um passatempo que me não desagradaria de todo,     concordo; mas exigiria que os narradores fossem de duas classes apenas: ou     uma destas velhas, que parece terem sido criadas só para narrarem contos     e que o tempo respeita já com o fim de transmitir suas memórias     ãs gerações que surgem; ou então, e melhor ainda,     uns lábios femininos, uma voz com o timbre dos quinze ou vinte anos,     que muita vez chegue a fazer-nos esquecer do conto para só nos lembrarmos     da contadora.

Os mesmos sinais de impaciência, que por mais de uma vez havia oferecido     a fisionomia de Tomás, de novo se lhe manifestaram, mais profundamente     que nunca e, como se me não tivesse compreendido, continuou, dizendo:      — Eu não tenho contudo a liberdade de satisfazer estes desejos,     a não ser da maneira que viu ontem.

— Um tanto arriscada.

— Pode ser. Mas o receio exagerado que minha mãe tem ao ar     da noite — e acentuou estas palavras, sorrindo — fez-me perder     a esperança de obter a sua permissão para satisfazer em mim     este capricho, se não é uma verdadeira necessidade; mas capricho     ou necessidade em todo o caso incompreensível para ela. Eis o motivo     por que me sirvo de um estrataqema, um tanto singular e talvez ridículo.

— Diga antes perigoso.

— Ora! parece-lhe ? Se o que me dizia Tomás era verdade, não     era contudo ainda a verdade inteira; — pressentia-o. Dei, apesar disso,     à minha fisionomia um ar de convencimento, que me pareceu tranquilizá-lo.

Apressou-se em tomar a questão em tom jovial, rindo-se das suas próprias     façanhas acrobáticas e esforçando-se por se mostrar mais     criança do que era efectivamente, para tirar toda a importância     à cena da véspera.

Houve enfim uma pausa na nossa conversação, que permitiu nos     chegasse aos ouvidos o fim do diálogo travado entre D. Margarida e     o doutor, o qual até ali nos passara desapercebido.

— Pobre homem! — dizia a senhora de Entre Arroios, profundamente     compungida — e deu-lhe assim de repente ? — De um momento para     o outro. Ainda esta manhã, quando a filha partiu para a vila, estava     ele de perfeita saúde.

— E não dá esperanças ? — Hum! aquele...     Receio que em poucas horas entroixe e parta.

— Pobre Paulina! Estas palavras exerceram em Tomás, distraído     até então, um efeito mágico.

Ainda bem não haviam saído dos lábios de D. Margarida,     já ele, abandonando subitamente o lugar onde nos achávamos ambos,     estava no meio dos dois, sobremaneira inquieto, e podendo a custo perguntar     à mãe: — Que é? que aconteceu? Se ainda fosse mistério     para mim o segredo de Tomás, ser-me-ia neste momento revelado, tal     era a expressão da sua fisionomia. A minha atenção achava-se     naturalmente atraída para a cena.

— Olha, não sabes, Tomás? — respondeu D. Margarida,     suspirando — o pai da Paulina, a leiteirita dos Casais, conheces ? Tomás     não pôde reprimir um movimento de impaciência, que o denunciava.

— Sim, sim, e depois ? — Diz agora o doutor que, quando vinha,     o encontrou expirando, com um mal que lhe deu de repente.

— É possível ?! — Infelizmente.

— E... a filha? — Julgo que ainda o ignora, pois tinha já     partido para a vila, como costuma todas as manhãs.

Tomás olhou para, o doutor, que, lendo uma folha do Porto, abanou     silenciosamente a cabeça, em sinal de confirmação.

— É preciso lá ir — foram as primeiras palavras     de Tomás, depois de um instante de reflexão.

Por única resposta a Sr.* D. Margarida dirigiu-se para o gabinete.

Tomás deteve-a.

— A mãe não espera hoje ninguém para jantar ?      — Sim, mas...

— Irá logo então ; agora deixe-me ir só. E, sem     esperar outra resposta, encaminhou-se rapidamente para a porta e saiu da sala.

Ao passar por baixo da janela, onde eu ainda me conservava presenciando     toda esta cena, o nome de Paulina, saindo-lhe dos lábios, chegou- me     distintamente aos ouvidos.

 

Asenhora de Entre Arroios viu-o sair sem tentar impedi-lo, e, abanando lentamente     a cabeça, murmurou comovida: — Pobre filho! Tem o coração     de um anjo! O médico, sem despregar os olhos da folha, fez ouvir um     ininteligível monossílabo com pretensões a partícula     afirmativa.

D. Margarida conhecia o doutor, e por via de regra não o procurava     em momentos de expansão e de sentimentalismo; por isso preferiu dirigir-se     a mim, e recostando-se ao parapeito da janela, de onde eu observava ainda     Tomás, que já se perdia por entre os desvios das avenidas, continuou:      — Não faz ideia, Sr. D... como aquela alma sensível se     aflige, quando algum infortúnio sucede que ele não possa remediar.

— Seu filho tem nobres sentimentos, minha senhora; pude-o avaliar     agora e suspeitava-o, desde que trocámos as primeiras palavras esta     manhã.

— Meu pobre Tomás! e lembrar-me que, talvez bem cedo, tenha     de me separar dele! — Uma ausência momentânea é compensada     de sobra pela alegria da volta.

— Da volta! mas quando entre nós e essa volta estão     ainda anos, e quando se tem uma saúde tão delicada como a de     Tomás! — Oh! minha senhora, isso são temores de mãe.     A constituição do Tomazinho é até vigorosa, e     senão o doutor que o diga.

— Pois sim! e aquela melancolia ? — Eu achei-o jovial.

— Ai, enganou-se. Está assim um momento e ele aí principia     a entristecer, a entristecer, a entristecer, que me corta o coração     só em olhar para ele.

— Que quer, minha senhora? São coisas dos quinze anos. As recordações     de V. Ex." não lhe dizem nada a este respeito?

— Sei ao que se quer referir; mas não vejo fundamentos... Vivemos     aqui isolados...

— Por isso mesmo, minha senhora. Há coisas que o coração     nos ensina, ainda quando longe dos objectos que lhas possam fazer lembrar.

Quanto mais...

— E quer saber ? — acrescentou em tom de mistério a senhora     de Entre Arroios, inclinando-se ao meu ouvido — vou confiar-lhe um segredo,     que a ninguém ainda disse e que espero a ninguém há-de     dizer também.

— Pode crê-lo, minha senhora.

— Tomás é poeta! — continuou ela, baixando ainda     mais a voz e quase com uma expressão de terror.

— Ah! não vejo nisso grande mal; e até, para lhe falar     verdade, minha senhora, eu já o suspeitava.

— Sim? e pensa...

— Penso, minha senhora, que os poetas são almas privilegiadas,     que Deus criou para entoar seus louvores, quer os cantos se lhe elevem nos     templos como o incenso dos turíbulos, quer se derramem, como o perfume     das flores, por toda a natureza.

— Mas aqui todos me dizem que os poetas são uns loucos, extravagantes,     e que o seu fim nunca é bom! — Vossa excelência gosta de     flores ? — Muito! — E que lhe dizem delas essas pessoas ? —      Nem sequer falam em semelhante coisa, que eu saiba.

— Pois os poetas, minha senhora, são as flores da humanidade.

A senhora de Entre Arroios pareceu reflectir nestas palavras, e respirou     enfim como se se visse livre de um pesadelo.

— O senhor também é poeta ? Foi a pergunta que em seguida     me fez.

— Não tenho essa fortuna, minha senhora.

— Mas entende de versos ? — Leio-os com prazer.

— Ora então espere.

E saiu da sala.

A Sr.ª D. Margarida apresentara-se-me agora sob um aspecto novo, em     que não pude deixar de admirá-la.

Até ali vira nela encarnado o tipo, não direi ridículo,     mas vulgar e prosaico da dona da casa, que eleva à altura de questões     diplomáticas as pequeninas misérias de uma vida doméstica,     deslizada das sete horas da manhã às dez da noite, sem nenhum     acidente sério, que viesse alterar-lhe a monótona serenidade.     Agora, porém, via-a transformada, purificada pelo amor de mãe,     que lhe fazia vibrar o coração em harmonia com os mais delicados     sentimentos, e dotava-lhe a inteligência de uma penetração     superior à esfera acanhada de suas habituais ocupações.

Como o sopro ae vida que no seio da crisálida, a faz, em um momento     dado, voar borboleta, o amor materno operava nesta criatura, que me parecera     vulgar, uma metamorfose que às vezes a tornava em um ser verdadeiramente     superior.

A senhora de Entre Arroios voltou à sala, trazendo na mão     um pequeno papel dobrado, que ao passar pelo doutor, o qual naquele momento     principiava a leitura de um segundo periódico, teve o cuidado de ocultar     com uma espécie de temor quase infantil.

Chegando junto de mim passou-mo para as mãos, dizendo: — Tomás     esqueceu isso um dia de manhã sobre a mesa do quarto.

Encontrei-o, quando o arrumava, li-o e não entendi bem. Como ele     depois nunca pareceu dar pela falta, resolvi guardá-lo. Isto foi há     perto de três meses, justamente pelo tempo, e é isto que me dá     canseira, em que ele principiou a ter aquelas dores de cabeça, que     o perseguem tanto. Pois pode acreditar que de então para cá     não passa uma noite sem que eu me ponha a ler este papel, e o caso     é que em alguns pontos já pude entendê-lo melhor.

Eu desdobrei o papel e li as seguintes estâncias, escritas com uma     letra rápida e como por uma mão convulsa, mas sem uma única     emenda: adivinhava-se, ao vê-la, que fora escrita com rapidez em um     instante de inspiração:

Flor dos campos, flor singela,     Pra quem guardas tuas cores ?     Deus criou-te entre verdores     Só pra os campos enfeitar?     Desconhecem-te a beleza     Outras flores que ta invejam,     E as brisas, se te balejam,     Não o sabem revelar.

— Ora repare — disse, interrompendo-me, a senhora de Entre Arroios      — porque me parece que esta flor, de que aqui se fala, não é     bem uma flor.

— Sorri-me à observação, e continuei:

Ha tanto que corro os prados     Por sobre viçosas relvas !     Tantas flores pelas selvas,     Tantas no monte encontrei!     , Há tanto ! e porque só hoje     Alva cecém da campina,     Quis a minha ingrata sina     Que te encontrasse? Não sei.

- Vê, não lhe parece estranho? - ponderou de novo a senhora de Entre Arroios      - mas leia, leia.

Não sei. O peito agitado,     Seus segredos não revela,     Se o ver-te foi minha estrela,     Se é sorte pensar em ti...     Pensarei, sim; tua imagem     Há-de seguir-me incessante,     Em ti só, flor vicejante,     Pensarei, já que te vi.

Novo gesto de D. Margarida; eu continuei:

À noite nos arvoredos,     Onde formas vaporosas     Vagueiam misteriosas,     Irei procurar-te, a sós,     De manhã quando no outeiro     Surja a chama matutina     Já o teu nome...

Havia aqui um espaço deixado em branco e completava a estância:

Repetirá minha voz.

— Tenho-me matado para ver se adivinho o nome da flor que aí     falta, mas não vejo.

Eu, que como o leitor deve supor, não encontrei grande dificuldade     em completar o verso, disse sorrindo-me para a senhora de Entre Arroios: —      Preciso seria que primeiro assentássemos se, como vossa excelência     disse há pouco, esta flor é bem uma flor — e preparava-me     para continuar a leitura, quando se abriu a porta de par em par, e deu passagem     à figura rubicunda e esférica do abade, que saudou a assembleia     com o seu habitual: — Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

— Ámen — respondeu a Sr.a D. Margarida, enquanto que,     apertando- me o braço com vivacidade, tacitamente me instava a esconder     o fatal papel, revelador do delito poético de Tomás.

Este sentimento de delicado pudor, que inspirava àquela mãe     o ocultar dos olhos de seus prosaicos convivas os devaneios literários     de uma imaginação de quinze anos, devaneios, cujo sentido, quase     enigmático, ela própria mais adivinhara do que compreendera,     tinha o que quer que era de tocante, que me comoveu.

Apressei-me pois a esconder o papel, como se partilhasse também dos     mesmos terrores, e respondi ao abade que me havia dirigido não sei     que pergunta, que por insignificante me esqueceu já.

O médico havia neste momento acabado de se pôr em dia com os     acontecimentos europeus.

Depois de esvoaçar por todas as nações do mundo civilizado,     aquele pensamento repousava agora, talvez, a ponderar nos destinos do Grão-Sultão     e da Porta.

O abade odiava os jornais políticos, como odiava todas as coisas cujo     uso não se remontasse ao antigo sistema governamental, de que era,     e se confessava, aferrado partidário.

Entre ele e o médico, que militara no cerco do Porto, e fora ferido     em um ataque às linhas, ao saltar um muro para observar o espectáculo     mais de longe, ferida que provavelmente hoje lhe valerá uma pensão     vitalícia, havia constantemente hostilidade súpita, que se traía     nas mais pequenas coisas e que a menor faísca fazia rebentar em terríveis     explosões, as quais só o ânimo pacificador de D. Margarida,     conseguia apaziguar.

— Quid curas, doctor? — disse o abade, aproximando-se do antagonista     com afabilidade felina.

O doutor com os olhos no chão, as pernas cruzadas e os beiços     fazendo tromba, parecia calcular mentalmente a área do pavimento da     sala; às palavras do abade levantou a cabeça.

— Oh! reverendíssimo! pensava agora em uma importante medida,     que actualmente se discute nas câmaras: é relativa aos morgados.

Uma tosse seca e significativa foi a resposta do reverendo egresso.

— As câmaras! — continuou, acentuando a palavra com ênfase      — era de uma vez um dragão de cem cabeças... Não     sabe o que diz a fábula? — Sei só o que diz a história      — respondeu o doutor, já um tanto desabrido.

— Que muitas vezes é fabulosa — redarguiu o abade, saboreando     com delícia uma pitada.

D. Margarida, pressentindo a tempestade iminente, acudiu a interrompê-los.

— Sabe, sr. frei Domingos, que temos hoje uns ovos de recheio, que     espero há-de apreciar? — Ovos de recheio! Deveras ? Oh! minha     rica senhora D. Margarida; semper hortos, nomenque tuum, laudes que manebunt,     com mais razão do que a honra, o nome e os louvores de Dido, que afinal     de contas... não se lembrou de apresentar a Eneias ovos de recheio.

Ah! ah! ah! — acrescentou, rindo-se ainda mais pela promessa dos ovos,     do que pela graça que dissera.

— E hoje, meus senhores — continuou D. Margarida — havemos     de acabar de decidir a respeito do Tomazinho. Aqui está o Sr. D...,     que nos ajudará com o seu conselho.

O médico, que naquele momento limpava os óculos, colocou-os     de novo sobre o nariz, e olhando para mim directamente, como ainda até     ali o não havia feito, perguntou-me: — O senhor é formado     ? Tem algum curso ? — Não, senhor — respondi imediatamente.

Pareceu-me que no seu conceito desci cinquenta por cento, depois da resposta...     Voltou-me as costas sem cerimónia, e, com a familiaridade que lhe dava     uma convivência de longos anos, tirou do bufete um par de ameixas secas     e foi saboreá-las para a janela.

0 abade encarregou-se de continuar a inquirição principiada.

— Mas vossa senhoria — disse-me ele com voz melífica      — tem seguido alguns estudos? — Possuo leves rudimentos de alguns.

— Cultiva a literatura ? — Aprecio-a imperfeitamente.

— Quem são os seus autores favoritos ? — Encontro sempre     grande dificuldade em responder a uma interpelação desse género.     Não sei. Admiro tanto Balzac, como Walter Scott, como Alfredo de Vigny;     extasio-me com uma das mais arrojadas estrofes de Byron, de Vítor Hugo     ou Musset, tanto como me extasio com um dos sentimentais poemas de Lamartine.

Respondi com a maior ingenuidade e vi a estupefacção desenhar-      se no rosto do abade a cada um dos nomes que ia pronunciando, para ele mais     indecifráveis que os do festim de Baltasar. Quando cheguei ao último     carregou o sobrolho e preparou-se para falar.

Escutei.

— Que disse? Lamartine? Não é um jacobino? Parece-me     que tenho ideia de...

Não pude responder com receio de perder a gravidade.

Vendo o meu silêncio, continuou: — Sim, não tem que ver,     é o próprio; um dos vermelhos, um pedreiro-livre, dos tais senhores     da égalité! — e acentuou sarcàsticamente a sílaba     final. — Com que então... admira isso? Aqui abriu a caixa de     rapé, fungou uma abundante pitada, assoou-se, e, depois de soltar um     suspiro ab imo pectore, voltou-me as costas, murmurando não sei que     verso de Virgílio ou de Horácio, que provavelmente não     me lisonjearia muito se fosse ouvido.

Neste momento a Sr.ª D. Margarida anunciou a chegada do terceiro conviva.     Era o Dr. Teófilo, personagem exótica, cujos olhos pardacentos,     como que envergonhados de se verem tão feios, fugiam um 'do outro,     confinando-se no ângulo mais extremo de umas escalavradas órbitas.

O Dr. Teófilo, acalentando de há muito as mais fagueiras esperanças,     na mão em segunda mão da senhora de Entre Arroios — trocadilho     de sua lavra, muito festejado pelo autor — cada dia intentava novas     finezas, sem nunca atinar com aquela que esperava lhe havia de valer a entrega     da praça e da guarnição.

Desta vez trazia pendente da mão esquerda uma trouxa, que prometia     grande surpresa para o dessert, ocasião escolhida sempre por ele para     as suas ofertas amorosamente ambiciosas.

— Já era retardatário ao que vejo — exclamou o     doutor, ao encarar com os outros dois frequentadores dos jantares de Entre     Arroios. — A justiça é sempre a última a chegar      — resmungou o médico, explorando de novo, e com igual sucesso,     o bufete, que exercia sobre ele uma manifesta atracção.

O Dr. Teófilo, imperturbável por índole e por cálculo     profissional, respondeu amavelmente: — Onde a ciência e a religião     existem, não se faz esperar a justiça.

O doutor era uma espécie de mediador plástico, perdoem-me     os filósofos se rebaixo o termo, entre os dois elementos heterogéneos     do abade e do médico.

A Sr." D. Margarida, à imitação dos fabricantes     de instrumentos de física, que entremeiam o ouro entre a prata e a     platina, na constru ção de certas lâminas, para podê-las     sujeitar à acção do calor, servia- se do doutor para     que a soldadura do abade e do médico não rompessem também     no calor da discussão.

Era a vez do advogado se dirigir a mim.

— E como vai o hóspede ? — Encantado com a hospedagem.

— Belíssimo! — disse o doutor, pronunciando esta palavra     portuguesa, como se tivesse necessidade de ser italiana.

D. Margarida, no ânimo de quem eu havia conquistado terreno, depois     da nossa rápida conversação, encetou a meu respeito uma     apologia, que a modéstia me obriga a calar, e que teve um efeito exactamente     contrário ao que talvez a boa senhora esperava. De facto o doutor,     ao notar o fogo com que D. Margarida fazia o meu panegírico, mostrou-se     inquieto: olhou para mim de um modo particular, depois para ela, depois de     novo para mim, e, como sem consciência do que fazia, aproximou-se da     mesa e bebeu até à última gota um copo de água     que encontrou à mão. Caso realmente extraordinário na     sua vida, porquanto o doutor nunca pudera concordar com Píndaro, a     respeito das excelências da água.

Percebi que o ciúme aguilhoava o coração do erudito     intérprete do Digesto.

Que popularidade! Em poucos minutos conseguira tornar-me antipático     aos três comensais de D. Margarida! Mas o meio-dia chegara enfim, hora     consagrada desde tempos imemoriais em Entre Arroios à solenidade gastronómica,     a que se dá o nome de jantar.

No campo o meio-dia adivinha-se independente de relógios. Um silêncio     mais profundo, um não sei que particular na luz do Sol, uma cor uniforme     que parece tingir a paisagem, no-lo anunciam. Depois temos a voz do estômago,     esta poderosa voz mais real que a do sangue, a qual os romancistas contudo     admitem como facto incontroverso.

O estômago quer aos seus hábitos, como víscera burguesa     que é; uma vez afeito a comer ao meio-dia, exaspera-se quando lhe tardam,     e agitando-se no abdómen dá a conhecer à economia as     suas necessidades imperiosas. Foi a razão pela qual o abade, escutando     o apetite, este irmão mais novo da fome, jovial como criança,     mas cujo humor se azeda com a idade, se aproximou da janela, contemplou os     ares e voltando-se, soltou estas palavras, que vieram dar a razão dos     bocejos continuados do médico, de suas frequentes visitas ao bufete,     e dos suspiros melodiosamente melancólicos do doutor: — Isto     deve ser meio-dia.

— Há-de ser — disse D. Margarida — vou mandar tirar     o jantar; Tomás provavelmente janta mais tarde.

Estas palavras foram acolhidas com geral satisfação.

E o jantar veio para a mesa; rompeu a agradável orquestra de garfos     e facas, para muito boa gente mais harmoniosa que as melhores partituras de     Bellini ou Donizetti; e todos empreendemos, como aliados, uma batalha, cujos     destinos não podiam ser duvidosos.

O médico e o abade esqueceram por um pouco a recíproca antipatia;     contudo esta afabilidade diminuía na razão directa do apetite.

A sopa, eram quase amigos, ao cozido, tolerantes apenas; mas quando chegou     o prato de meio, já os primeiros assomos de hostilidade começavam     a transparecer. Um frango guisado foi o pomo da discórdia.

Eis o caso: A entrada triunfal da ave de Marte fora saudada com verdadeiro     entusiasmo, e, depois de a admirar em globo, cada um em detalhe a admirava     no prato.

— Excelente molho! — disse o abade, embebendo nele enormes fatias     de pão trigo, galicismo gastronómico que, seja dito de passagem,     causa delícias a muitos severos puritanos.

— Eu sou partidário dos molhos — exclamou o doutor, seguindo     o exemplo dado pelo vizinho.

O médico para contradizer, disse-os anti-higiénicos; mas não     ficava atrás dos antagonistas na gloriosa cruzada contra este inimigo     dos estômagos humanos.

— A história dos molhos — acrescentou o abade, limpando     ao guardanapo os beiços besuntados — anda a par da civilização.     Os heróis de Homero desconheciam o verdadeiro molho; Virgílio     fala-nos de carne assada no espeto, veribusque trementia figunt; scilicet     víscera, mas nunca em molhos; Anacreonte...

— O abade podia muito bem empreender uma obra em que provasse...

— Os molhos ? É a obra que estou empreendendo. Eh! eh! eh!      — Não; porém que a florescência dos estados prendia     nos aperfeiçoamentos dos molhos — terminou o médico, sorrindo.

O doutor, que previu tempestade, tomou a palavra: — Mas de facto,     há aqui uma fusão de substâncias, que formam um todo delicioso.

— É o gosto do cravo, da pimenta, do açafrão,     da salsa, do alho; é tudo isto e não ó nada disto —      parafraseou o abade. — É um verdadeiro sistema constitucional      — disse o médico, que tomava posse do seu temperamento ; e acrescentou     : — O absolutismo, a predominância de um elemento único     é sempre mau em molhos, como em política.

O abade tremeu.

O doutor concedeu uma risada de aprovação à burlesca     comparação do médico.

Isto acabou de transtornar o egresso: — Bem me parecia, doutor, que     vós outros avaliais as coisas em política pelas leis de gastronomia!     Bom é tudo aquilo que satisfaz o estômago.

— Sem causar indigestão — respondeu o médico,     com imperturbável sangue-frio.

A cólera do abade subia ao seu auge. Estava fulo.

— O vosso sistema de molhos em política, doutor, tem só     o inconveniente de encher o Governo de nódoas.

O abade, superior à sua época, manejava já então     o calembur, em que muito pouco se falava ainda por cá.

Como ninguém se rira do gracejo, acompanhou-o ele de uma gargalhada     fradesca, de grau superior à homérica.

D. Margarida, inquieta pela ausência prolongada de Tomás, não     dava fé da tempestade, que se aglomerava sombria, nem pensava em intervenção.

Ensaiou-a o doutor, e enchendo os copos: — Vá — exclamou      — à saúde da fusão dos partidos e dos...

O abade não o deixou concluir.

— Também o doutor! Isto fez-me lembrar o tu quoque de César.

O doutor sentou-se desanimado.

Frei Domingos perdera de todo a cabeça; os olhos injectados caíram     sobre mim; não lhe escapei, inocente vítima que era! —      Falta o senhor lá, o que me disse que preferia aos poetas antigos as     poesias de... Robespierre ou não sei que outro herói.

D. Margarida compreendeu enfim a necessidade de intervir e não lhe     foi difícil.

— Abade, eis os ovos de recheio.

Foi água que caiu na fervura.

Tudo serenou, e cedo os ovos foram, no rigor da palavra, absorvidos.

O resto do jantar correu sem outra novidade, a não ser a saudação     geral, que vitoriou a surpresa do doutor, a qual, desta vez, consistiu em     uma dúzia das decantadas frigideiras de Braga, a mais apetitosa concepção     dos pasteleiros da augusta cidade Cesária.

 

ACABADO o jantar e dita a oração de graças, a senhora     de Entre Arroios, depois de nos dar as boas tardes do estilo, chamou a atenção     dos circunstantes, pedindo que se passasse a discutir o futuro de Tomazinho.

O médico, depois de fazer uma última provisão de ameixas     secas, que ele sustentava serem estomacais, deu o assentimento; imitou-o,     em ambas as coisas, o abade, apesar da mútua animadversão, e     contentando- se o doutor de se prover de palitos, passámos todos para     o salão contíguo, que era o lugar de honra da casa e escolhido     pela Sr.' D. Margarida de propósito para aumentar a solenidade do acto.

A senhora de Entre Arroios tomou a cadeira da presidência; todos se     sentaram, só eu que, preocupado pela súbita doença do     pai de Paulina, tinha pouca vontade de entrar na discussão, me conservei     um pouco de lado, sem que ninguém se lembrasse de me chamar, nem a     senhora de Entre Arroios, a qual provavelmente me quis facilitar o ensejo     de terminar a leitura da poesia de Tomás.

O aposento em que nos achávamos era uma vasta sala rectangular, forrada     por um papel de cor escura que, absorvendo os raios luminosos, lhe dava um     aspecto sombrio e triste, apesar das duas amplas janelas de peitoril, que     abriam sobre o pomar; por cima do fogão de lousa, artisticamente cinzelado,     pendia um espelho de moldura dourada, mas já em parte enegrecida pelo     tempo; toda a mobília era pesada e antiga; o tapete, que forrava o     pavimento, revelava longos anos de serviço nas cores meio desbotadas,     e no fio da urdidura já em algumas partes descoberto. Em uma das paredes     laterais, fronteira à porta por onde entráramos, notava-se,     em caixilho cuidadosamente conservado, um retrato a óleo de grandeza     natural e de correcto desenho.

Representava um velho de nobre fisionomia, vestido com a farda da marinha     portuguesa, e em cujo peito se divisava, distintivo de lealdade e valor, uma     pequena fita azul em fivela de prata.

Era o retrato do pai de Tomás, velho militar, que havia combatido     sob o comando de Napier, e voltara à terra, onde nascera, coberto de     anos e de cicatrizes honrosas, para procurar no seio da família uma     morte sossegada.

A pintura era de um discípulo de Vieira Portuense, amigo íntimo     do velho marinheiro e seu hóspede durante uma viagem que fizera pelo     Minho. Não quisera o artista perder a ocasião de reproduzir     com o pincel um desses tipos de soldado do mar, que de dia para dia mais se     vao perdendo na nossa terra, outrora berço e escola de navegadores.

D. Margarida tinha para com este retrato uma veneração quase     supersticiosa. Amara extremosamente o marido; porém, como de ordinário     acontece entre caracteres de força desigual, este amor fora nela misturado     com um sentimento de respeito, que ainda conservava pela memória dele.

Aquele olhar grave e severo, tão perfeitamente reproduzido na tela,     parecia ainda exercer sobre a senhora de Entre Arroios a mesma influência,     que exercera em vida.

Se por acaso e involuntariamente fazia chorar o pequeno Tomás, já     não ousava erguer os olhos na presença deste retrato, como se     temesse encontrar-lhe mais severidade na expressão; mas se, pelo contrário,     alguma coisa acontecia, que fizesse sorrir o filho — se as carícias     lhe estancavam as lágrimas, olhava-o, esperando quase vê-lo sorrir     também. De pequeno costumara Tomás a vir todas as manhãs     saudar a imagem do pai; e dir-se-ia estranhar que este lhe não retribuísse     a saudação em bênçãos.

Neste momento a mãe carinhosa parecia invocar a memória daquele,     que lhe fora tão caro, para que velasse pelo interesse do filho; na     presença deste retrato, sob os olhares melancólicos daquela     nobre figura, que se dissera contemplá-la ainda com amor, a pobre senhora     achava-se mais forte; era este o templo onde a sacerdotisa recebia a inspiração     que lhe iluminava o espírito; fora deste recinto a senhora de Entre     Arroios sentia-se apeada do pedestal, e despojada de não sei que auréola     que a circundava ali.

Desde que nos viu todos dispostos a escutá-la, disse-nos que enfim     se achava decidida, ainda que com o coração despedaçado,     a cumprir a vontade do marido, o qual sempre revelara desejos de que Tomás     seguisse os estudos; que julgava ser a idade, a que chegara o filho, aquela     em que convinha pensar na realização deste projecto, e que por     isso pedia aos seus amigos, os quais folgava ver ali reunidos, que assentassem     por uma vez qual das carreiras conviria a Tomazinho e quando se deveria marcar     o dia da partida. E, ao dizer isto, a voz trémula e lacrimosa da pobre     mãe revelava uma profunda comoção.

Houve silêncio na sala.

— Então ? — continuou ela, conseguindo dominar o sentimento      — que decidem ? O que deve estudar o Tomazinho ? — A medicina.

— A jurisprudência.

— A teologia.

Bradaram a um tempo o médico, o advogado e o abade.

— Jesus, Maria! mas concordem em uma coisa. Ele não há-de     estudar tudo isso. A sua opinião, dada por essa forma, de nada me vale.

Decidam-se por uma.

— Pela jurisprudência.

— Pela medicina.

— Pela teologia.

Repetia o coro.

— Valha-me Deus ! — dizia a senhora de Entre Arroios, toda aflita,     O advogado continuou: — A jurisprudência. Sr.ª D. Margarida,     é o sustentáculo da sociedade! — A medicina, minha senhora      — replicou o médico — é a âncora da humanidade!      — A teologia é o esteio da religião ! — disse por     sua vez o abade, em tom de oráculo.

— E disso tudo que é que se tira ? — exclamou a mãe     desesperada.

— O que se tira? — balbuciou o abade.

— Pois que se há-de tirar? — redarguiu o médico.

E ambos pareciam repetir silenciosamente a si mesmos a pergunta, sem atinarem     com a resposta desejada.

— Tira-se, minha senhora — respondeu enfim o advogado, que era     homem para estes apertos — que a jurisprudência é a mais     nobre das profissões, a ciência mais útil, o mais valioso     conhecimento. O jurisconsulto é um benemérito da Pátria     e da humanidade, cuja o devera glorificar e render-lhe preito; — quem     mais útil do que ele, já, quando instituindo leis que devam     regular os povos, já, quando...

Eu estava resolvido a conservar-me mudo espectador deste conciliábulo,     que tinha muito de soberanamente ridículo; porém, a perspectiva     das legiões de já quandos, que antevira no discurso do orador,     e um olhar expressivo da senhora de Entre Arroios, fez-me mudar de resolução,     e decidi-me a intervir.

— Dá-me licença? O doutor parou, visivelmente contrariado.

O humor dos outros membros do conselho não me foi, ao que pude julgar,     mais favorável; para eles era um intruso e atrevido.

— Não sabemos se... — foram as palavras que acolheram     a minha intervenção, ao passo que, olhando para D. Margarida,     os três pareciam emprazá-la tacitamente a conter a minha ousadia.     A senhora de Entre Arroios mostrou, porém, desta vez uma firmeza, nela     pouco vulgar, e que espantou os eloquentes oradores além de toda a     medida.

— O Sr. D... — disse ela — é um homem de bem e     digno de toda a minha confiança. Julgo que a opinião dele merece     ser escutada, visto que há tanto tempo os senhores discutem esta matéria     sem que ainda fosse possível aproximá-los de um acordo, que     desejo, e a que, de qualquer maneira que seja, hoje é preciso chegar.     Fale, Sr. D..., a qual das opiniões se inclina? — A nenhuma,     minha senhora.

Sensação na assembleia; eu não cedi a palavra.

— E peço a V. Ex.ª — continuei — que de maneira     nenhuma suponha que intervenho com o intuito de me pronunciar a respeito de     uma carreira que possa convir a Tomazinho. Conhecendo-lhe as inclinações,     pela natural penetração de mãe, melhor do que nós     o poderá V. Ex.* decidir. Mas nem eu penso que se trate aqui de uma     criança incapaz de julgar por si das próprias conveniências     e aptidões. O filho de V. Ex.* tem quase dezasseis anos, e é     demais uma inteligência adulta; parece-me por isso extravagante que     se esteja agora aqui talhando um futuro, talvez já concebido bem diferente     pela principal pessoa interessada. Eu voto que, em vez de nos consultar, consulte     V. Ex.» directamente Tomazinho.

Estas palavras levantaram uma celeuma tal na assembleia, que me não     foi possível ouvir a resposta de D. Margarida.

— Que extravagância! — Que singular opinião! —      Pois um menor...

.— O senhor é tão criança como ele.

— Onde se ouviu semelhante coisa? — Quae te dementia cepit!     Esta era do abade.

— São doutrinas perigosas.

— Subversivas.

— Anti-sociais.

— Republicanas.

Outra do reverendo.

— Mostra ignorância do código.

— Uma criança senhora sua! E a vozearia era já tal,     que fazia estremecer a sala.

Em vão tentava defender-me, em vão D, Margarida se esforçada     a pedir-me silêncio; a irritação fazia bramir os três     argumentadores, ligados excepcionalmente contra o inimigo comum, que, por     graça especial, haviam encarnado na minha pessoa.

Durava e prometia perpetuar-se esta algazarra infernal, quando a porta do     salão se abriu violentamente, e Tomás apareceu no limiar.

fazendo de súbito, e como por encanto, cessar todo o ruído.

A cena era de um efeito teatral.

Tomás, mais que nunca excessivamente pálido, com os lábios     trémulos, e os olhos como pisados de chorar, parou por algum tempo     à entrada da sala e correu com a vista os circunstantes, que todos     permaneceram mudos debaixo do olhar daquele que, momentos antes, tratavam     de criança. Naquela fisionomia enérgica haviam pela primeira     vez reconhecido o homem.

A expressão do pai acentuava-se profundamente nas feições     do filho. A senhora de Entre Arroios, vendo-o, juntou as mãos e elevou     os olhos para o retrato do marido. Dir-se-ia que acreditava em uma aparição.

Tomás entrou para a sala.

— Sei do que se trata — disse com voz alterada — agradeço     o incómodo que têm tomado por minha causa, meus senhores; porém,     dispenso tal intervenção.

E voltando-se para a mãe: — Minha mãe, o meu destino     está nas suas mãos. A mãe sabe que tudo quanto de si     me vier eu o receberei, como costumo receber as suas bênçãos,     de joelhos e com gratidão. — E ajoelhando diante dela beijou-lhe     afectuosamente a mão.

As lágrimas saltavam pelas faces da pobre senhora.

Tomás ergueu-se e, enxugando os olhos também, continuou: —      Mas não falemos por ora nisto. De uma coisa mais grave lhe vinha falar,     mãe.

Eu quis deixar o quarto e consegui que os outros fingissem imitar- me.

— Não, não, fiquem — exclamou Tomás, detendo-nos     com um gesto — o que eu tenho a dizer a minha mãe não     me envergonha; antes estimo tê-los por testemunhas.

— Jesus, meu filho! que tens tu, que me assustas? — Não     é nada — disse Tomás cada vez mais dominado por uma comoção     desconhecida; e depois continuou: — É que o seu doente, doutor,     acaba de me expirar nos braços. Paulina está órfã.

Passado um momento de silenciosa hesitação, acrescentou com     voz lenta e firme: — E Paulina é desde hoje minha desposada.

NÃO sei de coisa alguma que pudesse determinar nesta ocasião     um espanto igual ao que produziram as palavras de Tomás.

A mais viva surpresa se desenhava no rosto dos circunstantes.

Eu mesmo, que tinha motivos para menos do que os outros me maravilhar, não     pude reprimir um gesto de admiração, ao ouvir aquelas poucas     palavras pronunciadas com voz tão segura, que bem denunciava a resolução     inabalável que as ditara.

A senhora de Entre Arroios olhava para o filho, como se ainda lhe parecesse     um sonho o que tinha ouvido, e desejasse assegurar-se da realidade.

— É uma dívida sagrada, minha mãe — continuou     Tomás — contrai- a junto do leito de um moribundo e sobre a cabeça     de uma órfã; contraí-a, invocando o nome daquele, que     parece dacolá olhar-me e compreender-me.—E apontava para o retrato     do pai; depois continuou mais baixo: — Contraí-a inspirado pelo     amor.

Estas últimas palavras explicaram melhor a D. Margarida o acontecido     ; mas a revelação assustava-a, sem talvez bem saber porquê.

A pobre senhora escondeu a cabeça entre as mãos, murmurando     com voz sumida: — Jesus, meu Deus! — E assim se conservou alguns     minutos.

Tomás não despregava os olhos da mãe, como se das primeiras     palavras, que ela pronunciasse, lhe dependesse a vida.

O resto das personagens desta cena, entre as quais me incluo também,     não se sentia à vontade.

Tudo se devia decidir entre a mãe e o filho. Há nas famílias     acontecimentos, em que toda a intervenção de um estranho é     inconveniente.

Nenhum de nós ousava falar, e conservávamos a imobilidade     de um quadro vivo.

No fim de alguns minutos, D. Margarida ergueu a cabeça. Impressionou-      me o ar de nobreza e de resolução que se lhe lia no rosto. Era     uma nova metamorfose desta mulher singular.

— É promessa sagrada, meu filho — disse ela — há-de     cumprir-se.

E fitou os olhos no retrato do marido, como se daí lhe viera a inspiração.

— Ó minha mãe! — exclamou Tomás, ajoelhando     diante dela.

D. Margarida susteve-o com a mão.

, — Não sejamos todos crianças, Tomás. Escuta,     que não consinto sem condições.

— Não preciso sabê-las para me sujeitar a elas.

— O Sr. D...—continuou D. Margarida, olhando para mim —      disse-me ter de partir amanhã já para o Porto; hás-de     acompanhá-lo; e daí tu próprio escolherás a carreira     que mais te agradar seguir.

— Amanhã? já! — É preciso. A vontade de     teu pai é tão sagrada como a tua promessa, filho. É tempo     de a cumprir; e há mais que o deveria ter feito.

— Seja... mas...

Tomás hesitou ao continuar; a mãe, porém, adivinhou     o resto; atraiu-o a si, estreitou-o nos braços, e, beijando-lhe a fronte     com o maior carinho, disse-lhe a meia voz: — Descansa; ela será     minha filha.

Estas palavras fizeram rebentar as lágrimas a Tomás.

— Oh! obrigado; o coração dizia-me que a mãe     me não havia de querer mal por isso.

— Querer-te mal, filho! — E, depois, afastando-o: — Não     é verdade, Sr. D..., que nos fará o obséquio de acompanhar     Tomás? — Tudo em que a puder servir, minha senhora.

E de novo recaímos em silêncio.

Os convidados apressaram-se em abandonar esta casa, onde respiravam uma     atmosfera de constrangimento.

À noite todos na aldeia sabiam do ocorrido, e cada qual comentava     a seu modo a criancice de Tomás, como eles diziam, e a leviandade da     mãe. Outros viam na resolução de D. Margarida, em mandar     viajar o filho, um meio de desfazer as dificuldades; porque era impossível     que essa paixão despropositada, pensavam eles, resistisse a uma ausência     de anos.

De mim não sei que disseram; mas é de crer, atendendo a que     os propaladores dos boatos eram os três meus afeiçoados, que     não fosse muito cristãmente tratado.

Ficando sós, a mãe, o filho e eu, não rompemos o silêncio,     que se manteve durante horas; todos talvez pensando no ocorrido, e todos à     porfia evitando a menor alusão que pudesse recordá-lo.

Tomás despediu-se ãs nove horas da mãe, que o beijou     com o afecto costumado. Dispunha-me também a deixar a sala, quando     um sinal da senhora de Entre Arroios me obrigou a ficar.

Tudo revelava nela uma serenidade de espírito que me fazia cismar.     Depois de assegurar-se de que ninguém escutava, D. Margarida sentou-se     junto de mim e perguntou-me: —'Então que lhe parece tudo isto?      — Para lhe falar verdade, minha senhora, conquanto receie que este acontecimento     seja talvez funesto ao futuro de seu filho, não posso deixar de admirar-lhe     a nobreza de carácter.

— Está como eu. Pode crê-lo ? Isto que a outra mãe     traria a desesperação talvez, quase que me dá júbilo.     Contudo reconheço que é um passo grave, e preciso impedir que     tenha graves consequências.

— Eu julgo ter compreendido os projectos de V. Ex.*.

— Talvez não — disse ela, quase sorrindo.

— Uma ausência demorada amortece certos sentimentos, e faz esquecer     promessas que em um momento de exaltação...

— Não o espero, e se por acaso meu filho se esquecesse, cumpriria     a mim lembrar-lho; e eu lho lembraria, acredite. Se foi loucura, tanto pior,     que tem de ser escravo dela.

— Mas Paulina mesma, talvez...

— Esquecer Tomás! Havia tanta candura neste brado de vaidade     maternal, que não tive coração para continuar a exprimir-lhe     as minhas dúvidas.

— Não, não; o meu desígnio é outro—continuou     ela—mas por enquanto é secreto. O que lhe peço é     que use de toda a sua influência com Tomás para o decidir a partir     para o estrangeiro. Que vá estudar à França, à     Inglaterra, à Alemanha, onde quiser e o que quiser, mas que saia do     reino e se demore por fora. Quatro, cinco a seis anos.

É essencial.

— Não posso compreender com que vistas...

— É o meu segredo — disse ela, sorrindo.—Promete?      — Tudo quanto desejar, minha senhora. Reconheço em V. Ex.' uma     superioridade...

— Nada de lisonjas, se não quer perder a minha confiança.

— V. Ex." deve ter notado que é a primeira vez que lhe     falo assim; é porque há pouco ainda principiei a compreendê-la     e a admirá-la.

— Bem; façamos aliança. Mas, antes, quero perguntar-lhe     uma coisa: que me diga o que lhe parece mais para recear nesta resolução     de Tomás? — Receio que aquela paixão seja nele uma das     muitas ilusões de uma idade tão tenra como a sua; e que cedo...   

A senhora de Entre Arroios interrompeu-me com um gesto de impaciência     e negação.

— Cedo não; tarde, tarde, que é o pior! Olhe, ai vai     o que eu penso: Tomás ama sinceramente Paulina, acredito-o. Esta paixão,     longe dela, aumentará talvez. As cenas que a santificaram, em uma alma     como a dele, deixam vestígios, que o tempo não desfaz. Meu filho,     verá, há-de voltar-nos tanto ou mais amante do que partiu. Mas     depois? Paulina pode satisfazer-lhe ao coração, e enquanto o     coração reinar, Tomás será feliz. Porém,     quando chegar a vez da inteligência? e olhe que há-de chegar     também; como poderá a pobre rapariga bastar àquela cabeça     que eu já suspeitava, e agora vejo claramente ser toda de fogo? Creia-me,     Sr. D..., a infelicidade destas ligações desiguais está     toda aqui.

— Estou inteiramente de acordo, minha senhora, e admiro tanta penetração.

E dizia a verdade. Esta mulher, como as aparições de certos     contos de fadas, de momento para momento assumia a meus olhos maiores proporções.     Ela que na véspera me parecera vulgar no meio de quase ridículas     tribulações da vida doméstica, que já momentos     antes admirara quando, incitada pelo amor maternal, se esforçava em     penetrar o sentido das expressões vagas e figuradas de uma poesia amorosa;     agora surpreendia-me pela profundeza de vistas, com que antevia no futuro     os sentimentos do filho; a mãe, cujos dotes vinham todos do coração,     previra que a inteligência não se satisfaz só com sentimentos,     e, na desigualdade de educação de Tomás e Paulina, encontrava     a causa da infelicidade de ambos.

E que tentava ela para evitar o mal? É o que não pude saber     então, baldados os esforços que fiz para o adivinhar.

Depois de mais algumas palavras, trocadas entre ambos, a senhora de Entre     Arroios levantou-se, e, estendendo-me a mão afectuosamente, disse com     um sorriso: — Vá dormir, Sr. D..., que eu vou pensar no futuro     de meu filho.

Não me foi muito fácil conciliar o sono. O ânimo, sobressaltado     pelas cenas que tinha presenciado, mal me permitia o repouso.

No dia seguinte levantei-me cedo. Desci à sala, onde já encontrei     D. Margarida fazendo preparativos para a partida de Tomás.

Exigências, a que não podia faltar, me obrigavam de facto a     partir naquela manhã para o Porto, bem mais depressa do que contava     e, direi, até, do que desejava.

A senhora de Entre Arroios mostrava-se preocupada, mas não aflita.     A despeito das leves rugas, que lhe sulcavam a fronte, entrevia- se-lhe um     fundo de serenidade na fisionomia, que me fez julgar que a noite fora fiel     desta vez à sua fama de boa conselheira. Ao ver-me, D. Margarida exclamou;      — Que pressa de nos deixar, Sr. D..., são seis horas e já     erguido 1 — E porque não há-de antes dizer V. Ex."     que foi para gozar por lis tempo da sua companhia que assim madruguei? —      Porque é tão lisonjeiro que me custa a acreditar. Passou bem      — Optimamente. V. Ex." é que, se me não engano, dormiu     pouco.

— Não dormi nada.

— E aproveitou ao menos a vigília? — Espero que sim.

Tomás juntou-se connosco. As faces abatidas, os olhos vermelhos,     as feições decompostas, denunciavam que ele também não     havia dormido.

A vista dos preparativos da partida não pôde reprimir um suspiro.

Depois de cumprimentar a mãe, dirigiu-se à janela para ocultar     as lágrimas, que lhe vieram aos olhos.

D. Margarida saiu igualmente comovida.

Eu reuni-me a ele.

— Deve-lhe ser custosa esta separação ? Abanou a cabeça     afirmativamente. A comoção impedia-lhe o falar.

— São alguns anos de provação — continuei      — para depois apreciar melhor a ventura.

— Alguns anos! Como diz isso! E que hei-de eu fazer durante esse tempo?      — O estudo o distrairá.

— O estudo! Pois julga que assim como estou poderei entregar-me a     algum estudo sério ? — E porque não ? — Se soubesse...     Parto com o desespero no coração.

— Não diga desespero, pois não tem a esperança     no futuro? A senhora D. Margarida terminara enfim os preparativos de jornada,     sem que a menor omissão se pudesse notar à sua previdência     maternal. E quanta resignação lhe não fora precisa! Passámos     à sala do almoço, e cada vez a tristeza a tornar-se maior! Fazia     lembrar um destes dias de Inverno, em que a escuridade cresce, cresce cada     vez mais até rebentar a chuva.

A mãe e o filho surpreendiam-se por vezes, olhando um para o outro,     com os olhos arrasados de lágrimas.

Enfim o momento chegou.

Tive eu de anunciá-lo; de outro modo quando chegaria ? — Vamos     ? vi-me forçado a dizer.

Um olhar, dolorosamente expressivo, trocado entre os dois, seguiu-se a esta     palavra.

— Adeus, meu filho! — disse a senhora de Entre Arroios, desfalecendo-      lhe a voz.

O resto imaginai-o como a experiência vo-lo terá mostrado,     se não sois privilegiados do destino.

Um abraço prolongado, em que mãe e filho se cobriram de lágrimas     e beijos, anunciou aquela primeira separação.

— Então, então, Tomás, mostra-te homem —      dizia a senhora de Entre Arroios, sufocada em pranto — isto é     uma criancice. Dentro em poucos anos voltarás e... hás-de ser     feliz, prometo-te.

— Adeus, mãe, adeus. Pense em mim e lembre-se de... de Paulina,      — E qual é a mãe que se não lembra de seus filhos     ? Tomás desprendeu-se-lhe afinal dos braços e dirigiu-se comigo,     que não partia também sem saudades, para a próxima estação     das diligências do Porto.

Da casa de Entre Arroios avistava-se, em uma grande extensão, o caminho     que seguíamos ambos, e assim, a cada passo, parávamos na carreira,     para que Tomás lançasse mais uma vez um olhar de despedida àquelas     janelas, com as quais tantas recordações deixava, e de onde     a mãe lhe enviava o último adeus.

Perdemo-las enfim de vista, e por largo tempo caminhámos silenciosamente     ao lado um do outro.

O caminho que seguíamos, estreito e orlado de silvas, conduziu- nos     a um pequeno largo, coberto de relva, no centro do qual se elevava um cruzeiro     de pedra. Frondosos carvalhos assombravam este lugar solitário e imprimiam-lhe     um aspecto verdadeiramente pitoresco.

Quando nos aproximávamos, pareceu-me divisar no pedestal da cruz     um vulto, que a meia obscuridade, que se conservava ali, me não deixou     reconhecer logo. Tomás, com os olhos abaixados, não atentara     nele.

Mais perto percebi esta forma mover-se, atraída, ao que parecia,     pelo ruído dos nossos passos; ao ver-nos, ergueu-se subitamente e reconheci-      a.

Era Paulina.

Se na véspera já admirara a figura graciosa da pequena leiteira,     tingida com o rubor da modéstia, mais me surpreendeu desta vez a sua     fisionomia, verdadeiramente bela, desmaiada pela palidez do sofrimento. Os     cabelos soltos, as mãos juntas, nas faces vestígios de lágrimas     recentes, assim naquele lugar e aos pés da cruz, recordava uma dessas     virgens, cuja fé e martírios valeram tantas páginas de     verdadeira poesia aos anais da religião cristã.

Tomás, como se escutasse uma voz interior, elevou nesse momento a     cabeça e contemplou com amor a aparição.

Paulina, rápida como o relâmpago, correu para ele e cingiu-o     com os braços, cuja alvura, pouco vulgar no campo, mais realçava     ainda sobre o escuro dos vestidos de luto.

A minha presença não reprimiu este acesso de violenta paixão.

— Sei tudo! — disse ela, sufocada pelo choro. — Sei tudo,     Tomás! Olha, até aqui amei-te com um amor de criança,     mas agora — acrescentou, desviando-lhe da fronte os cabelos com movimentos     quase febris — agora, hei-de amar-te como uma mulher, adorar-te... como     escrava.

E, unindo os seus lábios aos dele, confirmou esta singela confissão     por um ardente beijo.

— Paulina! — disse Tomás quase em delírio.

— Mas para que partes ? — continuou Paulina em tom de voz sada     de meiga exprobração.

— Era vontade de meu pai.

— E eu, Tomás, que farei eu só aqui? — disse a     pobre rapariga, afastando brandamente de si a fronte do amante e olhando-o     com ^pressão de saudade inquieta.

— Então, Paulina, queres tirar-me o ânimo de...

Estas palavras operaram súbita transformação em Paulina.     Estremeceu como se acordasse de um sonho importuno, ergueu a cabeça,     enxugou os olhos com as mãos, e afastando para trás as negras     tranças, disse com um sorriso forçado e a voz abafada e trémula:      — Não, parte, parte! — E, como receando comover-se de novo,     desprendeu-se por gracioso movimento dos braços de Tomás, e     desapareceu.

— Paulina! — exclamou Tomás, como tentando segui-la.

— Deixe-a partir! — disse-lhe eu — não tornará     menos amarga a despedida, prolongando-a.

— Oh! meu amigo — murmurou Tomás, apertando-me a mão.

Era a primeira vez que me concedera este título, que nunca depois     me negou.

Dentro de alguns minutos partíamos silenciosos para o Porto, sentados     um ao lado do outro em um dos bancos da diligência da manhã.

 

TOMÁS demorou-se pouco tempo no Porto. Indiferente a tudo, desde a     sua partida de Entre Arroios, facilmente se resolveu a embarcar para Paris,     quando, cumprindo a recomendação de D. Margarida, o animei a     seguir ali um curso qualquer, demorando-se com esse fim os anos que lhe fossem     necessários. Dentro de um mês, acompanhei-o a bordo de um navio     que partia para o Havre de Grace.

Tomás parecia deixar em Portugal as esperanças de felicidade.

Ao despedir-se de mim, o seu desalento era completo.

Escrevi a senhora de Entre Arroios a dar-lhe parte do acontecido, e relatando-lhe     até à menor particularidade a partida do filho.

Recebi em resposta uma carta, na qual ela, depois de me agradecer exageradamente     este pouco que eu havia feito por Tomás, me dizia que, achando a casa     de Entre Arroios insuportável, depois da partida do filho, resolvera     fazer uma excursão durante a ausência dele, para iludir saudades.     Não sabia ainda para onde iria, e que tempo se demoraria na viagem,     e por isso me avisava que não lhe escrevesse, antes de primeiro receber     carta sua.

voltar a Entre Arroios, e minhas próprias canseiras, reunidas j acção     do tempo, foram combatendo em mim cada vez mais a memória das cenas,     que, no curto espaço de três dias, eu presenciara, e que me haviam     feito participar dos sentimentos de uma família, pouco antes para mim     desconhecida.

De Tomás nada mais pude saber, do que de sua mãe.

Depois de uma carta, ainda repassada de saudades, em que me noticiava sua     chegada a Paris e a resolução que tomara de seguir o curso na     faculdade de medicina, enchendo o resto a falar-me de Paulina, não     soube mais notícias dele.

Alguns portugueses chegados de Paris, a quem interroguei, não o tinham     visto, ou davam-me a seu respeito informações inexactas.

Assim se passaram seis anos.

Um dia, chegando a casa, recebi uma carta que me viera pelo paquete; trazia     o carimbo de Saint-Nazaire.

Abri-a, ignorando quem me escrevia, tão remota, confesso-o, me andava     já a ideia do pequeno Tomás, em quem me habituara quase a não     pensar.

Contudo, a carta era dele, e concebida assim: «Meu caro D...

«Com razão me deve supor uma criatura bem desagradecida.

«Nem eu sei como justificar-me do conceito. Contudo não me     chame volúvel, não pense que os fulgores de Paris puderam ofuscar     na minha memória as cenas da pátria, e principalmente as últimas,     que em um momento decidiram do futuro da minha vida inteira. Não julgue,     se não quer ser injusto também. Ainda a saudade me fala delas,     e a esperança me faz palpitar o coração, mostrando-me     próxima a época de ver realizados aqueles meus antigos sonhos      — sonhos que nunca me abandonaram, felizmente. Não lhe tenho     escrito, não me pergunte porquê, que mal lho poderei dizer. Não     me absolverá sem penitência? A esperança faz parte da     bagagem do pecador; eu não desanimo.

«Estou em Saint-Nazaire. Não me foi possível partir     como desejava neste paquete, o que espero fazer para o seguinte.

«Conto, pois, abraçá-lo dentro em pouco, convidando-o     desde já a acompanhar-me a Entre Arroios, para assistir à inauguração     da minha felicidade.

«Paulina espera-me. Minha mãe tem-me escrito e informado, mês     por mês, do viver de toda a minha gente em Entre Arroios. Os dias continuam     a correr-lhe ali naquela santa placidez em que eu fui criado e onde só     vejo a minha felicidade, se nisso não consiste a felicidade de todos,     Adeus; breve conversaremos.

«P. S.— Que cabeça a minha! Ia-me esquecendo participar-lhe     que me formei em Medicina. Satisfiz a vontade de meu pai. Pude relacionar-      me com algumas das principais capacidades literárias e cientificas     de Paris, e acho-me um pouco pior de uma impertinente doença que daí     trouxe — a poesia. Adeus, adeus; hei-de falar-lhe com mais vagar de     minhas viagens pela França, e de outras ainda mais do meu gosto, por     um mundo menos real.

«Seu afeiçoado, Tomás de A velar.»

Esta carta trouxe-me novamente à recordação todas as     cenas passadas em Entre Arroios.

Seis anos tinham decorrido, os seis anos que D. Margarida marcara à     ausência de Tomás. O que se passara durante este tempo e o que     se ia passar agora? Tomás via eu, com verdadeiro prazer, que se não     esquecera em Paris da sua desposada de Entre Arroios.

Mas o que sobretudo me maravilhou foi o ter D. Margarida escrito ao filho     por todos os paquetes, descrevendo-lhe a vida de Entre Arroios, a qual correra,     segundo me dizia Tomás, com a placidez costumada.

Logo não havia ela, como me tinha dito, abandonado a aldeia.

Porque não me escreveria então? Por mais que cismasse, não     me foi possível encontrar explicação satisfatória,     e não pensei mais nisso.

Passado um mês, entrava Tomás no meu quarto e apertava-me nos     braços com verdadeira alegria.

Algumas alterações sofrera nele a fisionomia durante os anos     que vivêramos separados. O rosto perdera a expressão infantil     que tinha ainda em Entre Arroios, quando pela primeira vez o conheci: era     agora uma face mais varonil, mas tão nobre e inteligente como dantes.

— Então, mon cher docteur—disse-lhe eu — ei-lo     de volta? e sem que toda a sua ciência, ao que parece, tenha conseguido     curá-lo de uma doença de coração, com que partiu.

— Venho pior, muito pior — respondeu-me sorrindo.

— Deveras ? Pois confesso que receei nos aparecesse curado.

— Receio bem pouco lisonjeiro para o meu carácter.

— Isto não é questão de carácter. São     mistérios do coração, que eu desculpo e respeito quase.

— Seja o que quiser. Agora vamos a saber: está disposto a acompanhar-     me a Entre Arroios ? — Da melhor vontade, — Partimos amanhã     ? — Hoje que queira.

— Seja hoje.

Passámos o dia juntos. Contou-me a sua vida em Paris, vida exemplar     para um rapaz daquela idade; seus felizes sucessos na Escola de Medicina,     onde fora reputado entre os melhores, e suas pequenas fortunas literárias,     como afrancesadamente ele dizia.

Tomás voltava com uma instrução sólida, uma     superioridade de vistas, um gosto apurado, que me fizeram lembrar dos receios     da senhora de Entre Arroios.

Como poderia de facto esta inteligência satisfazer-se com o espirito     inculto de uma rapariga aldeã, depois de saciados os primeiros ardores     da paixão? O plano de D. Margarida piorara a situação,     ao que me parecia, exagerando a desigualdade.

Dei a entender isto mesmo a Tomás, ele sorriu.

— Sossegue — respondeu-me — vi lá por fora muitas     mulheres, a quem d espírito havia estragado, alienando-as aos gozos     de família, para me inquietar por tão pouco.

Conquanto reconhecesse algum fundo de verdade nestas palavras, as minhas     apreensões não se desvaneceram totalmente.

Estivemos à noite no teatro, onde pude admirar ainda melhor a extensão     e variedade dos conhecimentos artísticos de Tomás.

Saindo do teatro, introduzimo-nos em um cupé, e por aquele mesmo     caminho que, seis anos antes, seguíramos em direcção     oposta e com bem diversos sentimentos, dirigimo-nos para Entre Arroios.

Ao romper da manhã avistávamos os telhados das primeiras casas     da aldeia.

O tecto elevado de Entre Arroios, com a sua alta clarabóia, não     tardou também a despontar no horizonte.

O olhar de Tomás brilhava neste momento, o sangue afluía-lhe     ãs faces, palpitava-lhe o coração com violência.

— Conheço-vos ! conheço-vos ! — dizia ele —      árvores da minha infância! Conheço-te, berço dos     meus primeiros anos e que espero serás o descanso dos últimos.     Nenhum monumento, nenhum espectáculo grandioso das capitais que percorri     me fez esquecer de vós, testemunhas da minha ventura e dos meus primeiros     sonhos de amor. Oh! meu amigo ! — continuou,  apertando-me a     mão — sou verdadeiramente feliz. Parece-me que deixei aqui a     minha vida, e que a adquiro de novo ao respirar estes ares conhecidos, estes     perfumes férteis em memórias de outros tempos.

E emudeceu, caindo em lânguida contemplação.

Estas cenas também me recordavam o passado; e o passado mostra-se-nos     sempre através de um véu de saudades.

A aldeia, como todas as aldeias, sofrera poucas mudanças no espaço     de seis anos.

As mesmas árvores, as mesmas sebes, os mesmos ribeiros e pontes,     tudo fazia reviver em Tomás a memória dos primeiros anos.

Apeámo-nos para melhor gozar destas cenas, que tanto nos impresonavam.

Ao chegarmos ao lugar, onde Paulina ultimamente nos aparecera, Tomás     parou a contemplar o humilde cruzeiro com um fervor quase religioso.

— Lembra-se ? — disse-me, sorrindo.

— Como se fosse agora! — Tem razão. Ao chegar aqui parece-me     impossível que tenham já passado seis anos da minha vida! É     como se acordara de um sonho de momentos.

Continuámos no nosso caminho até ao portão da quinta     de Entre Arroios; ao levantar o braço para tocar a sineta, as forças     abandonaram-no e deixou-o pender, como exausto por esforço prolongado.

A comoção dominara-o completamente.

Toquei eu. Respondeu-nos a voz conhecida dos mesmos cães.

Seguiram-se-lhe os passos trôpegos de um velho criado, o mais antigo     na casa de Tomás, e companheiro do pai nas tormentas do mar e na refrega     dos combates. Hoje, imitando Cincinato, deixara a espada pela enxada, que     o bom homem pensava, como o poeta, ser:

Morgado e não pena dos filhos de Adão.

Ao encarar-nos, o velho hortelão fez um gesto de surpresa e levou     a mão ao chapéu para nos cumprimentar; mas, afirmando-se melhor     em Tomás, reconheceu-o, e arrojando a incrível distância     o chapéu que já empunhava, gritou abrindo os braços:      — Ai o Sr. Tomazinho! E, esquecendo toda a etiqueta, levantou-o ao ar,     como lhe fazia em criança. Tomás correspondeu com efusão     ao cumprimento.

— Minha senhora! minha senhora! — bradou o velho — aqui     está o senhor...

A mão de Tomás interrompeu-lhe as palavras. Ele meditara uma     surpresa.

Mas que mais era preciso para avisar o coração de mãe?     A porta da casa abriu-se, e, com uma agilidade superior à sua idade,     D. Margarida percorria em um momento a avenida, que a separava de nós,     e caía nos braços do filho.

Eu, que naturalmente nem fora ainda notado, vi então avançar     não menos alvoroçada, porém mais tímida, a poética     aparição do cruzeiro, Paulina. Vestida ainda à camponesa,     porém com um gosto e elegância pouco vulgares, parecia-me uma     dessas pastoras ideais que sonhava a poesia do século de Luís     XIV, sonho tantas vezes contado em idílios, sonetos e madrigais.

Não direi que Paulina fosse mais bela do que quando a deixara mos,     mas o que havia era um não sei que particular naquela fisionomia, que     me impressionava, sem poder dar a razão disto.

O sangue dos vinte anos, que animava agora em mulher a criança de     então, explicava muito, mas não me explicava tudo.

Em vez de saltar, como outrora, ao colo de Tomás com uma confiança     toda infantil, parara interdita, trémula, contemplando-o com ar apaixonado,     invejando talvez aqueles beijos que D. Margarida lhe roubava, mas não     ousando disputar-lhos. Esta, porém, depois de dar expansão ao     próprio júbilo, abriu o coração a sentimentos     menos egoístas e pôs em prática o que eu considero como     a décima quinta obra de misericórdia: reunir os que se amam.     Assim, depois de um último beijo, a boa mãe tomou pela mão     Paulina e impeliu-a para os braços de Tomás, dizendo simplesmente:      — Ei-la.

Tomás pareceu fascinado pela beleza da sua desposada. Talvez que     experimentasse ao vê-la a mesma impressão que eu já sentira.

Não foi com a antiga confiança, antes com um sentimento de     respeito que a cingiu ao seio e a beijou na fronte, beijo, que apesar de tudo,     não deixou de a fazer corar excessivamente.

O resto desta cena adivinha-se, que eu sou tão incapaz de descrever     as alegrias da volta, como as tristezas da partida.

 

SATISFEITOS os primeiros transportes do amor materno, D. Margarida concedeu-me     atenção, e mostrou-se para comigo tão afectuosa como     dantes.

Desculpou-se como pôde, de me não haver escrito, e não     tocou em os seus projectos de viagens, evitando habilmente falar-me nisso,     quando eu para aí tentava dirigir as minhas investigações.

Tomás veio encontrar algumas mudanças nos hábitos da     casa.

Faltava ali o abade, que havia um ano tinha morrido de ataque apopléctico,     consecutivo a uma indigestão de lagosta. Pobre homem! vivera para o     estômago e o ingrato sacrificou-o! Era destino! Ele pertencera a um     mosteiro de beneditinos, célebres por um invento gastronómico.

Melhor que ninguém aprendera ali a preparar a decantada farinha de     S. Bento, substancial gulodice, com que os bons monges de Santo Tirso aplacavam,     segundo diz a lenda, as iras estomacais de um monarca português, e segundo     o bom senso afirma, as iras, não menos temerosas, das suas próprias     vísceras monásticas.

Seja-lhe mais leve a terra, do que lhe foi o último banquete.

Notava-se também a falta do doutor Teófilo, que, desesperando     de levar a efeito o consórcio com D. Margarida, dirigia actualmente     as suas amáveis atenções a uma rica brasileira das proximidades,     nutrindo o amor com mandioca e banana.

O médico era dos três o único presente, e se não     receasse abusar da força da concepção do leitor, pedir-lhe-ia     que o imaginasse mais magro ainda, do que quando pela primeira vez lho apresentei.     Empregava ele os maiores esforços para não falar diante de Tomás     em assuntos de medicina. Renovava de algum modo a fábula do estatuário     e

... on le vit fremir le premier Et redouter son propre ouvrage

que obra sua dizia ele ser a formatura de Tomás.

A aldeia não ficou pouco surpreendida, quando, passados dias, se     anunciou o próximo casamento de Tomás com Paulina...

Julgava-se já isso coisa esquecida. A nova estalou pois no meio do     círculo como uma bomba, e conjuntamente em frase vulgar, estalou uma     castanha na boca a muitos pais e mães de família, produtores     e expositores de jeunes filles à marier, nesta pequena exposição     de Entre Arroios.

O médico, visivelmente contrariado, informou-se logo se Tomás     tencionava persistir na aldeia, depois de tomar novo estado. Tomás     respondeu que sim, porém, como para o acalmar, acrescentou que não     estava disposto a exercer a clínica, a não ser gratuitamente     aos pobres.

O nosso Esculápio não morria de amores por esta parte da clientela,     e por isso louvou excessivamente a caridade do novo doutor, e esquecendo até     o habitual laconismo, citou, no ardor do entusiasmo, Hipócrates recusando     os presentes de Artaxerxes, facto da vida do médico de Cós,     que o bom do homem, lá para com seus botões, julgava redonda     parvoíce.

A família de Entre Arroios passou a viver uma vida toda interior     e a gozar de uma serenidade que me deliciava.

Paulina mostrava-se terna, sensível e ingénua como dantes.     Tomás parecia idolatrá-la. Ao serão, enquanto ela trabalhava     em costura e a Sr.» D. Margarida, cuja vista cansada já lhe não     permitia essas folias, dobava meadas com os movimentos regulados de um autómato.     Tomás, sentado defronte delas, descrevia, até aos mínimos     pormenores, a sua vida em Paris. A mãe escutava-o encantada. Por vezes     as duas mulheres suspendiam o trabalho, para seguirem a narração     nos pontos mais interessantes; por vezes D. Margarida trocava com Paulina,     a quem votava uma afeição verdadeiramente maternal, um olhar     e um sorriso, cuja significação eu não podia decifrar.

Conservei-me nesta casa até ao casamento de Tomás, que se     efectuou passados quinze dias.

Foi um facto notável na aldeia.

Não se falou em outra coisa por muito tempo senão no jovem     doutor, e na fidalga, conduzindo pela mão ao altar a Paulina, vestida     ainda com os costumes do lugar, apenas mais artisticamente dispostos que os     das outras raparigas em quem esta particularidade, compensada pelas maneiras     modestas da noiva, longe de lhe atrair invejas, antes parecia despertar simpatias.

A senhora de Entre Arroios andava nesse dia visivelmente satisfeita.

— E os seus receios, minha senhora? — disse-lhe eu, em um momento     que estivemos sós.

— Cuida que os perdi já? — respondeu-me sorrindo.

— Pois acaso?...

— Receio como dantes.

— Então...

— Acabe.

— Mas compreendo a alegria de V. Ex." neste momento, porque...

— Pareçe-lhe uma mãe desnaturada; não é     isso ? — Não digo tanto, mas...

— Com o tempo falaremos.

E riu-se.

Na tarde desse mesmo dia, que era um domingo, percebendo que havia alegria     suficiente naquela casa, para que a minha ausência pudesse ser muito     sentida, despedi-me dos noivos e da senhora de Entre Arroios, e montei a cavalo     para o Porto.

Ao sair de uma encruzilhada ouvi atrás de mim passos de cavalgadura.

Voltei-me; era a tradicional mula do médico, com seu descarnado senhor,     cujas pernas retesadas e divergentes, lhe davam aparência de um ipsilo     voltado.

— Então já de partida, meu caro ? — exclamou de     longe ao avistar- me.

Esperei-o e caminhámos a par pela estrada.

— É verdade. Deixei a felicidade a substituir-me. Espero que     se não queixarão da troca.

— Então sempre casou o Tomazito? Eu não pude assistir;     tive um recado com pressa. E então que me diz de toda esta história?      — Digo que o Tomás fez a sua felicidade.

— Ora não me venha com isso. A rapariga não tem nada     de seu, e aquele rapaz podia aspirar a um bom casamento.

— Bom em que sentido ? — Essa é boa! Olhe que isto de     casar é uma coisa séria.

— Não duvido e nem julgo que o Tomás o fizesse a rir.     O doutor sabe tão bem como eu os pormenores deste casamento...

— Romances! O que me admira é a D. Margarida! Nunca esperei     dela...

— Ora, meu caro senhor, isso não é assim. A mãe     e o filho tiveram muito tempo para pensar nisto. Não foi um passo inconsiderado.

— Mas se eu lhe digo que D. Margarida não tem a cabeça     em seu lugar ! — Ah! não sabia! — Pois é facto.     Não me dirá o senhor o que ela fez durante cinco anos? —      O que ela fez ? .— Sim; debalde penso nisso. Quebro a cabeça     e não acho nada I Sorri-me da ingenuidade da confissão.

— Então não acha nada ? — E quebra a cabeça?     É verdade.

— É mau sinal — não pude deixar de observar a     meia voz.

— Mas o senhor não me diz o que fez D. Margarida? — teimava     ele.

— Mas o que havia ela de fazer ? O que dantes fazia.

— E aquela viagem ! — Que viagem? — Uma viagem de cinco     anos.

— Ah! pois D. Margarida...

— Um mês depois do pequeno partir, saiu também da terra     com Paulinita, e lá andaram cinco anos... sabe Deus por onde.

— É singular! mas ela disse-nos que...

— Se eu lhe afianço que ela não tem o juízo em     seu lugar! Nisto chegámos ao ponto onde nos devíamos separar.     O doudespediu- se de mim, firmemente convencido de que a família de     Entre Arroios não era forte em senso comum, e que aliás abundava     nele.

Conquanto eu não adoptasse absolutamente esta opinião, nem     em uma nem na outra parte, não podia deixar de reflectir no carácter     excêntrico da senhora de Entre Arroios e na causa deste segredo, que     ela parecia querer manter a respeito da sua viagem; segredo que só     a sua muita táctica e o isolamento em que vivia a família lhe     poderia assegurar por muito tempo.

Cheguei ao Porto com as melhores disposições, e em breve deixei     de pensar no carácter e mistérios da senhora de Entre Arroios,     os quais me satisfiz em explicar por um dos muitos caprichos de mulher; explicação,     que à semelhança de muitas teorias em ciência, deixava     o facto na mesma obscuridade.

Tomás, todo absorvido pela sua felicidade, não me escreveu     por muito tempo. Nem tive durante um longo período, notícias     de Entre Arroios.

Um dia apareceu-me finalmente uma carta de Tomás, na qual ele se     dizia extremamente venturoso; só lamentava não me ver a seu     lado e pediu-me que o visitasse breve.

Não me foi possível aceder então ao convite, Pouco     tempo depois recebi segunda carta. Os mesmos protestos de felicidade e lastimava     que não houvesse nas imediações ninguém com quem     se conviver. Havia aí um parágrafo que me deu que cismar; era     assim: «...e agora o Inverno aproxima-se. Já mo andam a anunciar     estas pesadas nuvens de mau agouro, que obscurecem a cada passo a limpidez     do céu. Confesso-lhe que me assusta um pouco esta perspectiva.

Com o Inverno vêm as noites compridas. Não me dirá no     que as hei-de passar aqui?» — Noites compridas? — disse     eu comigo ao ler, e lembraram-me as apreensões da senhora de Entre     Arroios.

A estas seguiram-se outras cartas, nas quais Tomás me falava largamente     de assuntos de literatura, de artes e de ciências. Eram verdadeiras     expansões de um homem de talento, que de ordinário se vê     obrigado a sufocá-las.

Na última deixava-me entrever vagamente a ideia de uma próxima     viagem ao Porto.

Estes sintomas principiavam a inquietar-me, quando passados dois meses recebi     uma pequena carta de D. Margarida, que continha estas palavras apenas: «Meu     caro Sr. D...

«Olhe que os meus receios principiam a realizar-se. Convido-o a que     venha examinar o meu doente e talvez a presenciar a cura.

«Sua dedicada, Margarida de Avelar.»

Esta carta, quase enigmática, excitou a minha curiosidade e foi com     o mais vivo interesse que nessa mesma tarde tomei bilhete nas diligências     e parti para Entre Arroios.

A primeira pessoa que encontrei foi Tomás passeando em uma alameda     vizinha com um livro na mão.

Ao ver-me deu quase um grito de surpresa e abraçou-me com efusão.     A minha presença parecia satisfazer nele uma necessidade.

Apresentou-me logo à mãe, que, ao cumprimentar-me, sorriu     e me fez sinal de não falar a Tomás na carta que eu recebera     dela.

Paulina também me acolheu com agrado, e, contra o que eu receava,     pareceu-me Intimamente satisfeita.

Era bela como sempre. Tomás mostrava-se em extremo afectuoso para     com ela. As vezes contemplava-a em uma tácita adoração     e quase em êxtase; mas um suspiro vinha quase sempre terminar esta contemplação     silenciosa.

Seria Prometeu ambicionando o fogo do Céu para animar a estátua     ? A senhora de Entre Arroios, nestes momentos, olhava-me com um sorriso, como     de vaidade satisfeita.

Ela via naquele suspiro realizada a sua profecia; mas eu avaliava muito bem     a boa índole desta excelente senhora e a grandeza do seu amor maternal,     para acreditar que isto lhe causasse o menor prazer, se ela não tivesse     algum meio, meio que em vão tentei descobrir, para evitar-lhe as consequências.

Tomás saiu comigo, a instâncias da mãe e de Paulina,     que ambas mostravam bastante empenho em que empreendêssemos este passeio.

Só com Tomás, que se despediu de sua mulher com um beijo afectuoso,     tentei sondar a profundidade da doença, como lhe chamava a senhora     de Entre Arroios.

— Vejo que se realizaram todos os seus votos; pode enfim zer-se feliz.

— Sim; extremamente feliz.

— Não tem nada que o penalize ? — Nada — respondeu     em tom mais baixo e suspirando.

— Seja franco. Tem alguma coisa ? — Porque diz isso ? —      Porque o acho preocupado. Triste quase.

— Oh! É engano.

— E quer que lhe diga o que o preocupa? — Mas...

— Oiça e fale depois.

— Pois diga.

— Há-de permitir me a franqueza.

— Exijo-a.

— Um pouco rude.

— Não lhe admito outra.

— Não tem direito para tanto, porque também a não     usa comigo.

— Prometo-lha depois de ouvi-lo.

— Seja, e aí vai o que eu penso: se vou cometer uma indiscrição,     perdoe-ma. O senhor casou por paixão e paixão violenta, que     se não desvaneceu em seis anos de ausência. Sua mulher é     bela, como poucas, extremosa e afável; possui um coração     formado para simpatizar com o seu; saberá consolá-lo nas penas,     exultar com as suas alegrias, receber e compreender as efusões do sentimento,     mas...

— Mas ? — interrogou Tomás, com olhar de inquietação.

— Mas uma alma como a sua, Tomás, é mais exigente.

— Não, não é.

— Oiça. Há momentos em que isso lhe basta, em que essa     reciprocidade, essa harmonia de sentimentos lhe parece a suprema ventura;     bem sei. Mas há outros em que a inteligência aspira a encontrar-      se com uma inteligência que o aprecie; ambiciona voar, engrandecer-      se, elevar-se e não quereria achar-se só no espaço, desejaria     outra para marcharem unidas, e essa outra não pode ser a de Paulina.

— Podia, se...

— Se se dessem circunstâncias, que se não realizaram.

— Há um fundo de verdade nisso que diz — respondeu Tomás      — mas creia ainda assim que sou menos merecedor de exprobração,     do que lhe parece talvez. Sim, é certo; lamento às vezes que     Paulina não tivesse recebido uma educação superior, não     por ambicionar quem possa satisfazer-me a vaidade de ser compreendido, apreciado,     como diz; de estranhos pouco me importaria isso, mas por desejar ser em tudo     compreendido por ela, tornar mais íntima esta identificação     das nossas existências. Não lhe parece menos egoísta este     sentimento assim ? — Por certo.

— E depois, sabe o que me consola ? É que esta necessidade     de efusões é fictícia; as únicas verdadeiras e     irresistíveis são as do coração.

Eu creio que ele sobrevive à inteligência. Alguns médicos     chamaram- lhe o ultimum moriens; assim o considero também, referindo-lhe     a vida dos afectos. Com a idade, as exigências do coração     duram ainda, enquanto as da fantasia amortecem e acabam por se extinguir.

Isto em mim é uma crise que há-de passar; Paulina é     a única mulher que podia realizar neste mundo a minha felicidade.

— Acredito, mas isso não tira que a desejasse animada pela     luz da educação.

Torras ficou um pouco pensativo.

— Prometi ser franco — disse suspirando — hei-de sê-lo.     É uma verdade.

— Bem dizia sua mãe. A cabeça domina agora o coração.

— Minha mãe! — Há seis anos que previra isto mesmo.

— Ela? É verdade que certas palavras vagas, certos olhares     me davam a entender... e contudo eu próprio o duvidava ainda.

— Ânimo! É preciso vencer esse sentimento.

— Hei-de vencê-lo custe o que custar. Mas quando penso que aquela     voz se perdeu para a música, aquela inteligência para a poesia!...

que aquele gosto, naturalmente delicado, se não exerce em lidas dignas     dela!... quando me lembra de que aquele espírito, criado para voar,     se não eleva por falta de asas...

— Agora recordo-lhe o que me disse quando chegou de França,     lembra-se ? — o espírito aliena às vezes a mulher da vida     de família.

— Oh! mas Paulina... — e interrompendo-se subitamente.—      Vamos para casa. É pecar contra Deus ser tão exigente, quando     se é tão feliz.

Caminhámos longo tempo silenciosos e quase tristes.

Ao aproximarmo-nos do pomar, uma vaga harmonia chegou aos nossos ouvidos;     eram os sons de um piano.

D. Margarida introduzira esta inovação em Entre Arroios, depois.

que Tomás voltara de França, apesar de que só ele em     casa tirava o instrumento do silêncio, em que dias inteiros se conservava,     encostado à parede da sala principal, onde eu já uma vez me     encontrei com o leitor.

Ao ouvir os primeiros sons do piano, Tomás mostrou-se impaente.

— Ao que me parece, minha mãe recebeu visitas durante a nossa     ausência. Que impertinência! Mas à medida que nos aproximávamos,     as notas do instrumento tornavam-se mais distintas. A execução     revelava uma mão conhecedora.

Tomás parou a escutá-las.

— Meu Deus! — exclamou surpreendido — quem pode tocar     tão divinamente? De facto, quanto mais perto, mais sensível     se tornava a mestria com que as teclas, ordinariamente mudas, eram movidas     então, produzindo verdadeiros milagres de execução.

Uma voz feminina cedo acompanhou as harmonias do instrumento; cantava uma     destas toadas melancólicas que nos comovem até ao fundo da alma.

Tomás apertou-me violentamente o braço em que se apoiava.

— Escute! — e depois acrescentou a meia voz, e como para si     mesmo: — Paulina, se cantasse, devia cantar assim! Entremos.

Eu tive um sentimento de tristeza ao obedecer a este convite.

Esta mulher, quem quer que fosse, ia talvez exercer na imaginação     de Tomás uma influência funesta para Paulina. De facto, reparando     para ele, ao abrir a porta do salão, vi-o excessivamente agitado.

Entrámos.

A sala estava muito escura. Os últimos raios de um sol de Janeiro     a custo podiam atravessar as cortinas de fina garça, que guarneciam     as janelas.

Apenas me foi possível reconhecer D. Margarida, sentada ao lado do     piano e parecendo não dar pela nossa chegada, absorvida como estava     na contemplação da cantora.

Esta, voltada com as costas para nós, mostrava ser ainda jovem.

As tranças negras, artisticamente penteadas, realçavam sobre     o vestido branco, em que se viam realizados os mil caprichos da moda.

A música parecia enlevá-la. Mostrava-se dominada pelos sentimentos     que a canção exprimia. Cantando tristezas, a voz tinha modulações,     que revelavam lágrimas, e para o desespero era o grito partido do coração     ; para saudades dir-se-iam as notas maviosas da ave do crepúsculo para     esperanças o trinado das que anunciam alegres a madrugada.

A voz desta mulher fascinava! Parámos à porta, a ouvi-la;     a canção não se interrompeu e a letra tornou-se-nos inteligível.     Fora semanas antes escrita por Tomás, em um dos seus momentos de exaltação,     e em breve esquecida depois, como a tantas outras acontecia. Ao ouvir assim     exprimir pensamentos que concebera, e palavras que havia escrito, Tomás     adiantou-se pouco a pouco para a cantora. As pernas vacilavam-lhe, a palidez     aumentava, parecia sob a influência de uma fascinação     poderosa.

Mais vida! Meu Deus, mais vida!     Que a chama inda arde violenta,     E a alma, de viver sedenta,     Outros sonhos concebeu.

Ainda as derradeiras notas vibravam no espaço, já um grito     de surpresa, um grito inexprimível lhe interrompia as harmonias, e     Tomás recuava, exclamando: — Paulina! A cantora, que efectivamente     não era outra senão Paulina, afastou violentamente a cadeira     em que estivera sentada e lançou-se nos braços de Tomás.

A senhora de Entre Arroios chorava de comovida.

— Paulina, sim, Paulina — dizia a gentil menina, cobrindo o     marido de beijos. Paulina, que te compreende, que sempre te compreendeu, meu     pobre poeta, meu quase mártir! Aspiravas dar expansão à     tua inteligência e receavas fascinar-me; mas tu não sabes que     é à chama do teu espírito que eu me alento ? Querias     elevar-te às regiões, onde a fantasia te chamava, e receavas     despenhar-me da altura; mas ignoras que há muito eu te sigo aí,     que estou contigo onde te julgavas solitário? Pois sabe-o agora, quero     dizer-to assim, com os meus lábios unidos aos teus, quero gravar-to     no peito, quero... ser digna de ti. Os versos que de noite confiavas à     brisa, os cantos que a paixão te inspirava, recolhia-os eu no coração,     repetia-os de manhã como a oração matinal; a melodia     que encantasse teus ouvidos, guardava-a na memória, para a reproduzir     mais tarde, para a extrair em notas sonoras deste piano, companheiro inseparável     dos meus sonhos de felicidade, confidente de minhas esperanças no futuro;     as paisagens que te agradavam, pedia ao crayon que as reproduzisse; os livros,     que de preferência escolhias, lia-os e meditava-os na tua ausência,     para me encontrar contigo também nas regiões do pensamento,     para neles descobrir o caminho do teu espírito, como há tanto     conheço o do teu coração, para um dia, entre beijos,     te dizer como hoje, como agora te digo: Tomás, os teus pensamentos     são os meus, as tuas aspirações são as minhas!     Em qualquer direcção que elas te apontem, eu te acompanharei.

Partamos! E o entusiasmo animava as feições de Paulina, que     parecia inspirada.

— Isto é um milagre do Céu! — disse Tomás,     dominado pela comoção.

— Não, não, Tomás. É um milagre de uma     santa, é o milagre de jya... de nossa mãe! — De minha     mãe! — Não, meu filho — disse banhada em lágrimas     de alegria a senhora de Entre Arroios, apontando para Paulina — é     o milagre da inteligência dela.

— Minha mãe! Paulina! Oh! isto é de enlouquecer! Eu     aproximara-me da senhora de Entre Arroios com um movimento de admiração.     Compreendera enfim o mistério.

Os cinco anos de ausência de D. Margarida estavam explicados.

Tomás parecia duvidar ainda da realidade do que se passava neste     momento. Temia ainda um desengano depois da alucinação.

— Tu és Paulina?!... —dizia ele contemplando sua mulher.

A dúvida era fundada.

Paulina, a gentil camponesa, oferecia agora sob novos trajes, cuja elegância     e gosto mostravam que não desprezara o estudo da toilette enquanto     cultivara os dotes naturais do espírito, novo aspecto à sua     beleza.

Vendo-a, todos a diriam criada de pequena em um desses mimosos ninhos de     rendas, onde vivem a infância as mais delicadas mulheres, que surgem     depois borboletas, fracas em vigor, mas fortes pela fascinação     que exercem.

Tomás caía de surpresa em surpresa. Paulina levou-o ao seu     pequeno gabinete de estudo, no lugar mais remoto da casa, elegante santuário     por ele ignorado até então. Aí tudo o extasiou. A história     de seus poéticos amores ali renascia inteira; já em versos,     que perdera ou deixara incompletos, já em mimosos desenhos, onde o     lápis reproduzia os sítios mais queridos dos dois, todos aqueles     onde se prendia uma recordação e uma saudade; em flores, em     retratos, em mil pequenos nadas, com que se escreve a história de uns     amores e que de futuro no-la recordam fielmente.

Enquanto Tomás e Paulina se esqueciam assim em amenas recordações,     eu ouvia da senhora de Entre Arroios uma mais exacta explicação     do milagre.

Logo depois da partida de Tomás, D. Margarida, obedecendo ao pensamento     que tivera desde que lhe fora manifesta a paixão do filho, chamou Paulina     para junto de si e fez-lhe compreender a necessidade de se elevar pela educação     até à altura de Tomás, para assegurar a felicidade do     seu porvir. A inteligência de Paulina, esclarecida pelo amor, compreendeu     e aceitou com efusão o oferecimento da senhora de Entre Arroios.

Foram viver para Lisboa, sem o comunicarem a Tomás, que pela astúcia     de D. Margarida continuou a receber cartas, pouco verdadeiras, datadas de     Entre Arroios.

D. Margarida não se poupou a despesas para tornar Paulina perfeita     nas artes e nas línguas. A inteligência natural da pobre menina,     o ardor com que se votava ao estudo excederam toda a expectativa e surpreenderam     os mestres. Em Lisboa corria-se com avidez para as soirées, aliás     raras, onde Paulina cantava.

A tarefa que D. Margarida principiara, tendo só em vista a feli.

cidade do filho, completou-a com todo o amor do artista que se revê     na sua obra.

Dentro de cinco anos Paulina era digna de Tomás.

A senhora de Entre Arroios não quis revelar a metamorfose da pequena     leiteira, que para todos se conservou mistério. Era um bem desculpável     amor-próprio, que desejava fazer sentir assim mais a necessidade da     sua obra.

— E demais, quem sabe? — dizia ela, e eu admirava ainda neste     ponto a sua penetração — quem sabe se Tomás sentiria     então a mesma alegria, que sentiu agora? Ele amava Paulina tal como     lhe aparecera havia seis anos; se a visse outra, se a visse mudada, talvez     interiormente sentisse certo desgosto. Hoje era outra coisa. Viu como ele     aceitou a transformação? E depois, aqui para nós —      continuava a boa mãe com um sorriso espirituoso — de quando em     quando não são de todo más estas metamorfoses entre casados.     Avivam a luz, que se amortece.

Espero que não seja esta a última de Paulina, e a seguinte     há-de ser ainda mais poderosa. Verá.

— Outro mistério, Sr.* D. Margarida? De que última quer     falar? — Não temos mistério nenhum, homem. A última     é a que é de esperar. A metamorfose da esposa em mãe.

Nisto entravam na sala a nova Paulina, como lhe chamava a senhora de Entre     Arroios, e Tomás, o qual se mostrou esta noite mais espirituoso que     nunca.

Ele tinha razão. A inteligência de Paulina só precisava     de asas para voar ao lado da sua. Era um espectáculo interessante vê-los     agora librarem-se no espaço e pairarem nas mais elevadas regiões,     e D. Margarida, permita-se uma comparação que então me     ocorreu, como o inventor dos primeiros aeróstatos, vendo-os cá     de baixo subir, orgulhosa da sua obra.

Passei alguns dias ainda com esta família, regenerada quase, e, ao     partir, trazia mais saudades do que nunca.

Tomás é feliz ainda hoje. Agora escreve-me poucas vezes, e     não se lembra de que são compridas as noites de Inverno.

Paulina satisfaz-lhe às ambições de glória,     como às ambições de amor. Se às vezes aspira a     um espaço mais vasto para escrever seu nome, algumas páginas     de seus escritos inéditos aparecem nas colunas dos jornais da época     e são geralmente admiradas. Mas cedo se desengana que esta glória     é menos real do que a primeira, e volta contente à sua feliz     obscuridade.

D. Margarida é venturosa; descansa hoje a inteligência de seis     anos de esforços. É nas crises que toda a grandeza do seu carácter     se revela; agora entretém-se já um pouco a apoquentar os criados     e encarrega-se de dar parte às leitoras do nascimento de um menino,     que ela sustenta ser a cara do pai.

Eu, pela minha parte, quando nos embates continuados da vida me sinto desanimar,     vou passar oito dias com a família de Entre Arroios, e venho curado.

 

DESDE que uma crença consegue radicar-se verdadeiramente na imaginação     do povo, difícil é ao poder dos séculos ou à evidência     dos factos desarraigá-la. Parece que à medida que um por um     se vão quebrando os laços que a prendiam à razão     e diminuindo a plausibilidade que dos espíritos sensatos a fazia ainda     aceitar, mais atractivos ela ostenta à fantasia popular, sempre afeiçoada     ao maravilhoso e impelida a correr atrás de uma destas sedutoras ilusões,     como as crianças a perseguirem as borboletas através das campinas.

Quando o povo vê fugir, por inverosímil, do campo da discussão     um facto controvertido, é quanto mais se apressa a recebê-lo     como dogma, a adoptá-lo com a cegueira da fé; é então     que o transmite aos filhos, à maneira de um novo artigo do seu credo     religioso, e olha para o que se atreve a levantar a mão iconoclasta     contra esses vagos objectos do seu culto ideal como para um ímpio,     digno da fulminação celeste.

De historiadores e biógrafos se ri; não há provas nem     documentos que valham para lhe fazer ver as coisas diferentes de como as imaginou     ; mais vezes aqueles cedem até, sacrificando a exactidão à     poesia, e admitindo em seus escritos a colaboração da pena popular.     Por isso nas crónicas dos tempos passados é através das     lendas que se pode procurar a história. Adornada com as galas e louçainhas     do maravilhoso, é que o povo se apraz de acolher a tradição.     Despida às mãos do historiador austero, parece afectar-lhe tão     escandalosamente a vista, como a dos mais castos monges da Tebaida as formas     nuas de tentadoras aparições.

Igualmente, ao lado da biografia exacta de um indivíduo, ainda dos     mais obscuros, o povo refere de ordinário outra, menos documentada     talvez, porém sempre mais curiosa.

Com olhar perscrutador penetra o seio das famílias a descobrir aí     factos recônditos, pequenos incidentes da vida doméstica, onde,     mais facilmente do que nos da vida pública, se reflectem os caracteres     e as índoles.

Não julgueis que lhe basta a enumeração das batalhas,     dos feitos brilhantes, dos serviços humanitários, dos actos     civis do herói do dia; quer vê-lo em família, depois de     despir a farda, a toga ou os arminhos, para envergar o modesto robe de chambre;     aspira a devassar-lhe no modo de viver intimo e a estudar-lhe os hábitos;     obriga a personagem da história a representar diante de si o papel     de filho, de irmão, de amante, de esposo e de pai no drama da vida,     e é então que mais interesse lhe excita, é então     que aplaude; e quando lhe falecem as informações, inventa, recorre     ao inesgotável tesouro da imaginação senão a alguma     coisa de mais seguro. E nisto é o povo verdadeiramente admirável     ! Há o que quer que é sobrenatural na maneira por que se lhe     revelam às vezes segredos, sabidos apenas por duas pessoas, interessadas     ambas em conservá-los ignorados ; não espera por provas, satisfaz-se     já com indícios ; pronuncia-se, quando os mais prudentes hesitam,     e, devemos confessá-lo, se em certos casos esta antecipação     o leva ao erro, muitas vezes também, ou quase sempre, por caminhos     misteriosos, o conduz a verdade.

Os boatos! Aí temos um desses problemas que desafiam toda a ciência     humana. De onde partiram estas, deixem-me assim chamar-lhes, emanações     subtis que aspiramos todos, os crédulos e os espíritos fortes,     os ignorantes e os ilustrados, como todos contraímos a epidemia, cujo     foco se desconhece? Suscita-se ãs vezes sobre qualquer indivíduo     uma opinião que se diz pública, somente porque cada qual em     particular se não atreve a reconhecê-la por sua; os factos conhecidos     da vida desse homem parece desmentirem-na, todas as aparências lhe são     contrárias, é humanamente impossível encontrar algures     os fundamentos dessa crença, nascida não se sabe onde, propagada     não se sabe como; e contudo persiste. Porquê? Quem o pode dizer?     É, a meu ver, um facto da ordem de outros que observa o naturalista     na história dos animais. É um fenómeno de instinto Na     aproximação do Inverno, as aves viajoras reúnem-se em     bandos para desertarem das paragens que parecia oferecerem-lhes ainda por     algum tempo os últimos calores de uma estação favorável.

Que indício lhes revelou o perigo ? Quem lhes apontou o caminho de     mais amenas regiões ? O instinto, respondem os filósofos; e     a mesma lesposta obtereis, se o interrogardes sobre tantos outros maravilhosos     actos que nos surpreendem, nos costumes de certas famílias zoológicas.

Concedam, pois, também ao povo instintos, instintos que o fazem adivinhar     factos ocultos, como a ave pressente o Inverno, instintos sobre os quais se     elevam juízos, que a razão prudente repele ao princípio,     mas que tantas vezes o futuro vem confirmar mais tarde.

O povo tem uma fisiologia especial, que ainda está por escrever; concurso     de individualidades tão heterogéneas, dá uma resultante,     cuja noção não nos pode vir só do conhecimento     isolado dos componentes.

Quem o fosse estudar por uma análise minuciosa, quem, por um quase     processo anatómico o decompusesse em elementos, para um a um os examinar     com escrupuloso cuidado, não o teria compreendido; não seria     mais feliz do que se procurasse resolver o problema da vida dissecando um     cadáver, e aplicando o microscópio a cada fibra de seus tecidos     e órgãos. Onde os homens se reúnem em povo, uma influência     oculta se lhes associa: uma como inteligência comum, daí os enigmas     da multidão.

A solução destes enigmas não a procurem portanto nos     indivíduos, que neles não reside; está na entidade colectiva;     assim como o modo de reagir do sal neutro não se encontra no ácido,     nem na base, seus elementos únicos; é o resultado da combinação.

Sirvam estas reflexões de prefácio ao caso modesto e obscuro     que vamos narrar e que as exemplifica.

Por uma das tais vozes interiores, que entretém o povo dos mais recatados     mistérios da vida de família, como se linguareiro duende lhos     andasse segredando ao ouvido, era que em uma pequena cidade da província     do Minho, havia muito se tornara opinião geral que Cipriano Martins,     octogenário que vivia miseravelmente na mais estreita e mal esclarecida     rua do menos limpo e povoado bairro daquela já de si não muito     apetecível terra, não obstante tais aparências pouco inculcadoras,     possuía fabulosas riquezas, e era devorado pela mais sórdida     e inqualificável sovinice.

Nada podia modificar a opinião pública a este respeito; era     absoluta, geral, intransigente, incapaz de vacilar, estável no seu     posto, que defendia heroicamente contra o ataque combinado de todas as aparências     ; sublime de pertinácia, admirável de resistência.

Nunca experimentara destas oscilações vulgares nas mais enraizadas     crenças; nunca passara por as alternativas de desfavor que até     as ideias mais generosas sofrem no correr das épocas, nunca; nem quando     os aguçados cotovelos do velho Cipriano rompiam escandalosamente através     das mangas coçadas e beneméritas do seu casacão de saragoça;     nem quando aos olhos dos comentadores se patenteavam as laceradas plantas...     das botas colossais de que o nosso Harpagão usava, ou as numerosas     cicatrizes — vestígios honrosos de longos anos de assinalados     serviços — que lhe crivavam as calças, onde cada fábrica     de tecidos tinha um espécime de seus produtos combinados todos em artístico     mosaico.

Cada vez que o inofensivo tema dos longos e pouco misericordiosos comentários     populares, entrava em uma loja a comprar os parcos materiais de sua diária     alimentação e estendia a mão para receber os trocos miúdos,     aos quais, como outro qualquer, tinha direitos incontestáveis e garantidos     por lei, havia nos circunstantes certo resfolegar de mofa que, ao voltar costas     o velho, degenerava em bem significativas e nada equívocas exclamações.

— Olhem o unhas de fome! — Sume-te, porco! — É     capaz de se enforcar por um vintém ! — Se lhe caísse um     pataco ao Inferno, atirava-se lá para apanhá-lo, o tinhoso.

— Sovina! — A pobre irmã morre à míngua     por causa da mesquinhez deste tesoureiro do Diabo.

— Come duas sardinhas barrentas, e cozinha só de três     em três dias para não fazer despesa em lenha! Podem crê-lo     ? — Junta, junta, para outros to gastarem! — O peso do teu cofre     é que te há-de afogar na caldeira de Pêro Botelho! E assim     por diante iam as apóstrofes, cada qual mais lisonjeira para a reputação     do modesto velho, cujos nervos felizmente se não supraexcitavam com     tais estímulos.

Tinha uns invejáveis nervos o Sr. Cipriano! a única das suas     qualidades que lhe podiam invejar as leitoras.

Não há vício menos popular do que o da avareza, pela     razão de serem poucos os que com ele lucram.

Assim Cipriano Martins era uma personagem antipática para os seus     compatriotas.

Mas quem lhe vira o dinheiro? quem lhe descobrira a riqueza? Neste momento     cada qual, interrogado à parte, encolhia os ombros, prolongava os beiços,     enrugava a fronte, e respondia: — Diz-se.

Santa palavra! salvatério das asserções arrojadas!     como a consciência fica tranquila quando, após uma afirmação,     cuja responsabilidade não quer, a boca oficiosa te pronuncia! Descendente     em linha recta daquele traditur dos historiadores romanos, tu és, como     teu ilustre avô, o melhor e mais universal excipiente, em que se administram     ao público fortes doses de boatos, que ele engole de mais boamente     do que quantas pílulas tem arredondado de Hipócrates para cá     os dedos dos boticários ou apregoado os Holloways de todos os tempos.

Cipriano Martins tinha uma vez por ano as suas liberalidades, circunstância     que, longe de amenizar a rudeza dos juízos públicos a seu respeito,     antes a exacerbava; pois de facto nunca mais alto subiam as murmurações     como quando em sexta-feira santa saía das algibeiras do sóbrio     velho para as dos pobres da freguesia a quantia realmente importante de...     cem réis em moedas de cinco.

Então é que era ouvir o povo.

— Arrancou hoje cem fibras do coração.

— Tem para chorar cem dias, o velho.

— E para jejuar outros tantos.

— Se isto assim continua, aparece-nos de alguma vez o homem enforcado     em sábado de Aleluia.

— Melhor, escusa o povo de queimar outro Judas.

Quando se entra na via das concessões é necessário     não dar passos acanhados; sob pena de aumentar ainda mais a indisposição     dos ânimos.

Consideração esta de longo alcance político, não     obstante as aparências modestas que a revestem aqui.

Cipriano Martins caiu doente, e não chamou médico.

A câmara, que adoptava o pensamento público sobre o estado     financeiro do seu patrício, recusava inscrevê-lo no quadro dos     pobres, razão pela qual o não visitou o médico de partido.

A câmara andou assisada nisto e mostrou-se convencida da seguinte     verdade, saída da boca de um grande vulto político: «Quando     os governos não tomam espontaneamente a iniciativa no movimento das     massas, são arrastados por ela.» Ora a câmara, que era     o governo e não pouco respeitável, não tinha grande vontade     de ser arrastada; um dos vereadores, mais que todos, em cuja caixa de rapé     estava representado em gravura o fim trágico de Mazeppa, sentia de     si para si um estremeção de grande desconforto só de     ouvir o termo. Por isso, a câmara adoptou a opinião das massas,     Esta subiu ao auge da indignação, vendo Cipriano desprezar a     medicina.

— Olhem o miserável a regatear às portas da morte o     preço da vida! — O homem tem razão — respondeu o     barbeiro, a quem por consenso unânime fora decretado o diploma de espirituoso     da terra — o homem tem razão, que bem conhece quão pouco     ela lhe vale.

Este dito do ilustrado superintendente das mais respeitáveis barbas     da freguesia foi repetido em todos os círculos com geral aplauso; e     a reputação de aguçado satírico, de que há     muito gozava o digno colega de Figaro, aumentou, se de aumento era susceptível     ainda.

Cipriano Martins morreu, e então é que a curiosidade pública     se pôs alerta, e, para entreter o tempo de espera, prestou ouvidos às     historietas da imaginação. Esta fez o seu dever, nada deixando     a desejar.

Cipriano a cerrar os olhos, e o público mais do que nunca a tomá-lo     à sua conta. Discutiu-se-lhe a herança, avaliou-se-lhe a fortuna,     apontaram- se os herdeiros, inventaram-se testamentos, fantasiaram-se cláusulas     absurdas, anteviram-se demandas, devassaram-se esconderijos, arrombaram-se     cofres, desenterraram-se riquezas monstruosas; isto tudo durante vinte e quatro     horas, no fim das quais nem riquezas, nem esconderijos, nem cofres, nem herança,     nem testamento, nem cláusulas e, por conseguinte, nem herdeiros nem     demandas vieram justificar a geral expectativa.

Foi um desapontamento, que, a falar verdade, custou a digerir; os melhores     estômagos imparam com ele e mais de uma vez foi regurgitado.

E toda aquela boa gente se punha então a ruminá-lo de seu     vagar, sem que o fizesse mais digerível.

A irmã do morto, que de si para si nunca nutrira grandes esperanças,     porque nunca tivera fé nas riquezas do mano, apresentou-se nesse mesmo     dia, chorando, em casa do administrador a pedir-lhe que providenciasse para     se fazer o enterro do velho Cipriano, pois, nas gavetas, só lhe encontrara     uns cobres, que não bastavam para as despesas exigidas pela solenidade.

O administrador viera céptico de Coimbra, doença que apanhara     nas margens do Mondego e que pelos modos se lhe tornara crónica no     concelho, que, como diziam os jornais da época, tão dignamente     administrava. Por isso olhou para a pobre Maquelina — pois era esse     o nome dela — através dos vidros da luneta pendente, ao mesmo     tempo que o mais incrédulo sorriso, que o espelho lhe aconselhara,     vinha encrespar-lhe espirituosamente o lábio superior. Ao desbaste     de crenças, que este magistrado sofrera, tinha por felicidade sobrevivido     entre poucas a crença no espelho, um dos principais conselheiros a     quem devia a manutenção da dignidade administrativa.

— Com que então só uns cobritos, diz vossemecê,     hem? O bacharel fizera a descoberta de que este hem lhe dava às palavras     certa melodia de bom gosto, e por isso o adoptara.

— Eis tudo quanto possuo — respondeu Maquelina, mostrando em     patacos um cruzado, quando muito — V. S.ª bem vê —      continuou — meu irmão tinha o seu pequeno negócio de socos,     há muito em decadência; ele, coitado, estava velho e não     queria oficiais... e agora com a moléstia... por mais economias que     a gente fizesse, sempre eram despesas certas e nenhum dinheiro a apurar.

O administrador teve aqui um movimento de lábios, expressivo de inveterada     descrença; e como para mais depressa se livrar do contacto de um ser     humano, respondeu secamente: — Faça, se quiser, um requerimento     à câmara, porque seu irmão não figura no quadro     dos pobres.

E mais não disse.

Maquelina à palavra requerimento empalideceu. Fazer um requerimento     é um negócio importante, um passo difícil na vida destes     seres inofensivos e alheios a processos judiciais, a cuja confraria pertencia     a boa mulher.

Mas que remédio! Saiu dali e procurou o presidente da câmara.

Era este um gordo merceeiro, cuja cabeça se podia dizer um vulcão     de medidas tendentes todas ao melhoramento público e progresso social.     Durante a sua feliz administração dos negócios municipais,     contava actos realmente surpreendentes de tino governativo.

Seja-me lícito citar aqui alguns factos da vida pública deste     não aproveitado estadista.

Os moradores de uma rua estreita, onde os beirais dos telhados fronteiros     quase se encontravam a ponto de interceptarem a passagem da luz solar, queixavam-se     da mania, desenvolvida em alguns vizinhos, de cultivarem frondosos arbustos     nas sacadas das habitações, com grande incómodo e prejuízo     dos queixosos, para os quais anoitecia mais depressa, graças à     sombra impenetrável que projectavam os folhudos ramos na já     de si pouco esclarecida rua. O sábio edil legislou à vista disso:      «Ficam proibidas as árvores em todos os lugares onde a vegetação     seja impossível.» Eu penso que se Montesquieu tivesse notícia     desta lei havia de apreciá-la, pela admirável concordância     com as da imutável natureza.

De outra vez os contribuintes pacíficos que habitavam próximo     aos arrabaldes, lamentaram-se, em termos legais, pelas incómodas harmonias,     com que todas as manhãs os despertavam os carreteiros com a infernal     chiadeira de impertinentes carros. Pensava aquela boa gente que a sinfonia     de ouverture da criação não perdia nada se lhe suprimissem     da orquestra o pouco harmonioso instrumento. Atendendo à justa reclamação     dos povos, o judicioso funcionário promulgou que: «Todos os carros     que chiassem contra as posturas municipais, pagassem dois mil-réis     de multa, sendo metade para o denunciante, dado o caso de serem ouvidos».

Já se vê que chiar contra as posturas era coisa séria;     a câmara tinha susceptibilidades e ofendida chegava a multar... os carros.

Quando esta medida se discutiu em plena vereação, um dos camaristas     levantou-se e deu mostras de querer falar.

— Peço a palavra, sr. presidente.

— Tem a palavra o ilustre colega.

— Eu desejava que se fosse mais severo contra os perturbadores do     sono público e se desse maior alcance a esta medida policial, multando     todo o carro que chiar, quer seja ouvido, quer não.

O conselho, atendendo porém a que não convinha ser demasiado     ríspido com os povos e que os carros não sendo ouvidos, pouco     podiam incomodar, adoptou a cláusula do autor do projecto, rejeitando     a emenda.

E foi muito bem considerado.

Outra ocasião ainda, ouvindo o nosso homem discutirem dois bacharéis,     classe de sábios que sempre respeitou, sobre a conveniência das     Rodas, e vendo-os acordes na necessidade de importantes e radicais reformas     nestes estabelecimentos, veio para casa pensativo, e o cérebro, fecundado     por aquela ideia, lidou toda a noite em gestação mental, tendo     no fim o seu bom sucesso, porquanto pela manhã c magistrado municipal     apresentou à aprovação dos colegas a seguinte medida     regulamentar:

«Toda a mãe que expuser seu filho sem um bilhete do município,     fica tacitamente encarregada da educação deste.» A entender-se     gramaticalmente a coisa, rude tarefa cabia à pobre da mãe, superior     ao esforço humano.

Esta medida de um incomensurável alcance económico, por um     triz ia passando.

Mas emperrou no advérbio tacitamente, que de facto era a maior palavra     do período e que o legislador empregara para o arredondar; ele tinha     lá suas ideias a respeito de estilo, não obstante viver antes     das últimas reformas dos liceus, na qual pelos modos este assunto foi     regulado de uma vez para sempre. Se a lacónica definição     de Buffon é verdadeira, se o estilo é o homem, ninguém     de facto como o nosso vereador podia fazer períodos mais rotundos.     Mas o corpo camarário viu na frase não sei que sentido maquiavélico,     e mostrou escrúpulos.

Em vão o digno chefe de tão respeitável corporação,     com aquela abnegação quase estóica que o caracterizava,     se prontificou a substituir esse advérbio por outro qualquer, sem escolha,     tais como: restritamente, completamente, impreterivelmente, categoricamente,     etc, etc; ele só queria salvar a beleza da forma; não houve     de que, o conselho, entrando uma vez no caminho da desconfiança, não     tinha por costume recuar.

Esteve ainda assim, vai não vai, a resolver-se pela adopção     do categoricamente, agradado da eufonia da palavra; mas enfim nem esse admitiu,     e a medida foi rejeitada.

Era pois diante deste vasto talento governativo que Maquelina fora enviada     a implorar um diploma de pobre.

Louvado seja Deus! até isto se implora! — Mas — observou     o judicioso presidente ao ouvi-la — pobre é todo aquele que não     tem dinheiro.

Maquelina concordou. Pudera não.

A definição satisfazia a todos os preceitos mencionados no     Genuense; curta, clara, etc, etc; e mais o nosso vereador não estudara     lógica.

O homem continuou: E segundo é voz e fama vocês têm mundos     e fundos.

Aqui principiava Maquelina a discordar, por infelicidade sua.

Em única resposta mostrou os cobres que trazia.

— Eis a minha riqueza.

— Pois sim, pois sim... mas... olhe, disso não quero eu saber.

É pobre ? Peça ao pároco e ao regedor um atestado,     e depois,.. depois...

isso é com a junta de paróquia.

— Mas...

— Adeus, minha amiga, temos conversado.

E o oráculo emudeceu.

Maquelina ao sair levava uma cara, que seria a sua justificação,     se o vereador acreditasse na ciência dos fisionomistas; mas parece-me     poder atestar o contrário. O bom homem chamaria tolo a Laváter,     se o tivesse conhecido.

Dali passou Maquelina a casa do pároco.

Eram horas da sesta e o reverendo dormia; único ponto de contacto     que tinha com Homero.

E que sonol Bem pudera de seus paroquiais flancos elevar-se toda a bem provida     árvore de Jessé, que está representada na nave direita     da igreja dos Franciscanos no Porto, que ele rivalizaria em impassibilidade     com aquele venerável patriarca, que a sustenta.

Quando o foram acordar, o pastor daqueles povos resmungou, moveu-se, voltou-se     para o outro lado e... continuou a dormir. À segunda tentativa, tornou     a resmungar, tornou a mover-se, a voltar-se para o outro lado e... tornou     a dormir; à terceira, sentou-se na cama, esfregou os olhos, abriu a     boca estrepitosamente e não deu acordo de si; pôs-se a olhar     depois para o travesseiro com visíveis tentações de se     precipitar de novo nele; obstou-o a criada, que voltou a chamá- lo     â vida real. Então seguiu-se o descer do leito, o evacuar dos     pulmões obstruídos por um catarro crónico, o fungar de     uma farta pitada, e enfim apareceu o homem em toda a magnitude da sua...

gordura.

Dizem que o erguer do leito é a ocasião em que os monarcas     são mais acessíveis a pedidos; o nosso abade, conquanto também     cabeça coroada, não se parecia neste particular com suas majestades;     pelo contrário, se havia para ele horas de mau humor eram as que se     seguiam ao momento em que a inexorável força das circunstâncias     o obrigava a emergir de entre os lençóis, oceano, onde voluntariamente     aquele sol e mergulhava.

— Oh! oh! — bradou o indolente levita ao ver Maquelina —      então foi-se o homem? — Assim o quis Nosso Senhor.

— E vamos a saber, quanto se herdou ? Maquelina exibiu os quatrocentos     réis, que era todo o espólio em metal.

— Histórias da Maria Carocha — resmungou o abade zangado.

— É isto que digo a V. S.*: meu irmão...

— Não me venha contar tonilhos. Diga lá o que quer?     Maquelina expôs o fim da visita.

O padre arregalou os olhos.

— Ui! Essa é de barbas! Eu hei-de atestar que você é     pobre! Maquelina fez um sinal afirmativo.

— Ora, santinha, ora. E para isso fez-me acordar de um sono que...     que...

— Mas, sr. abade, é a verdade que V. S.* atesta, e senão     diga-me onde me encontra a riqueza? — Seu irmão há-de     ter deixado somas fabulosas I — Pois venha V. Rev.ma ver e dirá     depois. Jesus, meu Deus, procurem, procurem, oxalá que achassem, meu     divino Pai do Céu — Enfim, mulher, não me meta em trabalhos;     vá ter-se com o regedor, e eu, o mais que posso fazer, é confirmar     lá na junta o que ele certificar.

Maquelina passou à regedoria.

O regedor era taberneiro, e naquele momento o seu duplo estabelecimento     estava atulhado de fregueses.

As largas mãos deste vigilador da ordem pública distribuíam     simultaneamente vinho e justiça aos circunstantes, e mais amplas medidas     de justiça que de vinho a acreditarmos os consumidores.

A entrada de Maquelina causou sensação.

O regedor, em pleno gozo do seu funcionalismo, dignou-se interrogar a irmã     do falecido, e os olhos da importante autoridade, pondo nela: — Então     que a traz por aqui, Sr.* Maquelina? — disse com voz benigna. —      Não é bonito andar assim já pela rua, quando tem seu     irmão morto em casa. Que há-de dizer o público ?! Não     sei de nada mais delicado, do que é este ser misterioso e respeitável     por excelência, a que se dá o nome de público.

É singular como todos tomam a peito manter-lhe a veneração     devida e se doem às mais levas infracções que esta sofre.     Grita-se contra um facto escandaloso, pateia-se no teatro uma produção     imoral, fulmina-se um procedimento menos honesto, em respeito ao público,     já se sabe. Não me ofendi eu, nem vós, nem eles; interrogai-os     um por um, nenhum se dará por ofendido, mas todos vos responderão     com a fórmula: «e o público!» Porém valha-nos     Deus, o público é exactamente constituído por mim, por     ti, por vós todos que assim respondeis; como é, pois, que de     elementos tão pouco susceptíveis resulta um produto tão     melindroso? Cada qual no gabinete lê uma obra de duvidosa moralidade,     ri-se, diverte-se com a leitura, e ninguém quererá admitir que     ele lhe possa ter causado o menor prejuízo. Aí temos portanto     uma obra inofensiva ; pois não é tal; antes a vemos proclamar     um verdadeiro veneno servido pela imprensa ao público, um miasma que     se ergue dos prelos, um fermento de dissolução de costumes,     e outros nomes igualmente feios. A não vermos nestes factos a confirmação     daquelas ideias, que nas primeiras páginas expendi, não sei     que outra solução razoável daremos ao problema.

É certo, porém, que o público, citado pelo regedor,     achava-se exactamente nestas circunstancias. Todos os presentes abanavam a     cabeça em sinal de aprovação; nenhum pela sua parte se     mostrava escandalizado com o extemporâneo aparecimento de Maquelina,     mas o complexo pelos modos sofria muito com isso.

A referida observação da autoridade humedeceram-se os olhos     de Maquelina.

— E que lhe hei-de eu fazer, Sr. Bento Maria ? Quem é pobre...

Houve sussurro na assembleia; o adjectivo parecia beliscar o auditório.

— Pobre! É sempre o mesmo estribilho — disseram algumas     vozes.

O regedor serenou o tumulto, dirigindo-se a Maquelina.

— Bem, deixemos agora isso. O que a traz por aqui? Maquelina explicou-se.

A indignação dos circunstantes rebentou.

— Sempre é desaforo! — Também é preciso     ter descaramento.

— É digna do irmão, já vejo.

— A alma do sovina meteu-se-lhe no corpo.

— Quem esconjura esta mulher ?  O regedor principiou a franzir     a testa.

— Ora vejam a pobrezinha.

— Nosso Senhor a favoreça, irmã.

— Ora já viram! O regedor levantou-se.

— Quem enterra o mano ? — Forte perda, se fica de fora! —      Aquele nem os bichos o querem.

— Leva rumor! Ai, que eu...—rugiu por entre dentes o regedor,     e todos imediatamente... silent, arrectisque auribus adstant.

Pudera; o ai, que eu... do Sr. Bento Maria não ficou a dever nada     ao célebre quos ego... de Neptuno. O regedor sabia, como Virgílio,     o valor de eloquentes reticências.

Em auxílio da ordem veio de mais a observação de um     circunstante, dotado de sentimentos mais humanitários.

— A mulher tem razão, coitadinha, se o miserável deixou     tudo escondido.

As massas são fáceis de impressionar. O alvitre modificou     as opiniões.

-— É assim, é assim.

— Pobre criatura! — Que vale tê-lo, se se não sabe     aonde ? Por este tê-lo entendia-se dinheiro; é de facto o substantivo     que mais elipses suporta; tão presente o trazem na ideia, que não     necessita estar nas orações antecedentes, para ser subentendido.

— Sim, sim, ela tem razão, é pobre, é...

O regedor enfarinhado nas praxes constitucionais, não era homem que     fosse de encontro à opinião dos fregueses e, portanto, depois     de concentrar por algum tempo o espírito, operação que     nem por isso lhe aumentou demasiado a energia, passou o seguinte atestado,     modelo de diplomacia e de exactidão ortográfica: «Eu Bento     maria do portal, regidor de esta freguesia atesto im como maquilina rosa martins,     solteira, de esta Cidade, não tem, aberes para lazer, as despesas do     intero do seu irmon cepreano cujo consta ter dinheiro. Mas o quecerto é     que por morte se não incontrou i se é berdadeiro o dito do bulgo     o debe ter, nalgum iscondrijo, que ainda se não inchergou. E por ser     berdade o que Açupra, atesto e mo diserem pessoas diganas para mim     de todo o Creto, pacei esta que juro.

«Dada em esta Cidade a 12 de Janeiro de...

«Bento maria do portal.»

Bento Maria era decididamente o funcionário público de mais     expediente e de mais arrojadas medidas que existia então na cidade,     Depois de mais algumas dificuldades e tropeços sempre se conseguiu     enterrar, à ordem da junta de paróquia, o velho Cipriano, o     qual de outra maneira bem teria de ficar fora do seio da terra, por não     haver deixado dinheiro.

Todos estes acontecimentos, longe de desvanecerem os boatos das ocultas     e sonhadas riquezas de Cipriano, os aumentaram, e deram lugar a duas versões     diferentes.

Uns, mas eram a minoria, lançavam em rosto à pobre Maquelina     o mesmo que haviam imputado ao irmão; outros, porém, viam nela     uma vítima, ainda além da campa, da sórdida avareza do     incorrigível octogenário.

Só Maquelina é que rejeitava urna e outra crença. Sabia-se     inocente e não se acreditava vítima. E lutando com a idade avançada,     tirava forças da fraqueza e ia provendo conforme podia ao seu sustento     quotidiano.

Não pôde, porém, resistir inteiramente às insinuações     dos que falavam em tesouros enterrados, e as portas da casa abriram-se de     par em par a uma junta de inquérito, presidida pelo regedor, a qual,     pelos mais escusos recantos, e a grande profundidade no quintal procurou o     decantado tesouro, sem no fim colher frutos de tantos esforços.

E as coisas conservaram-se por muito tempo neste pouco agradável     statu quo.

Um dia, porém, pioraram longe de se desanuviarem, as circunstâncias     de Maquelina.

Um sobrinho seu, filho de uma irmã que morrera jovem, voltou do Brasil     e, contra o que era de esperar, vinha como partira, isto é, com a riqueza     de Job na desgraça.

A história deste rapaz é uma história longa e curiosa,     que desta vez não contarei ao leitor.

Uma manhã, pois, quando Maquelina estava meditando em não     sei que medida de economia doméstica, importantíssima para a     melhor direcção de suas mesquinhas finanças, entrou-lhe     pela porta dentro um rapaz magro, espigado, de fisionomia denunciadora de     sofrimentos, o qual lhe estendia as mãos, dizendo:

— Bons dias, madrinha, então não me conhece? —      Santa Maria! Querem ver que... És tu, Agostinho? — Eu, eu mesmo.

A boa Maquelina saltou-lhe ao pescoço e devorou-o de beijos.

O rapaz viu-se em talas e com ameaças de asfixia.

Depois veio um pensamento à tia Maquelina, pensamento um pouco interesseiro     é verdade, mas desculpem-na, e não ma principiem já por     isso a olhar com maus olhos; todos como ela o teriam, e, o que pior é,     a poucos viria apenas em segundo lugar e só muito após dos espontâneos     impulsos de uma afeição desinteressada: «o rapaz vinha     Brasil... e o Brasil sempre é o Brasil» foi a ideia que lhe voou     pelo — Então — disse ela, movida por essa ideia—      vens... rico! Agostinho voltou os bolsos do avesso por única resposta.

Maquelina juntou as mãos e não deu palavra.

E para quê? Queriam ainda de parte a parte mímica mais expressiva!     .— Vim para não morrer de fome.

Aqui benzeu-se a boa da tia.

— Embarquei como moço de navio por não ter dinheiro     para a passagem.

Neste ponto persignou-se.

— E agora venho pedir-lhe — continuou o sobrinho — que     me receba em casa até... até... arranjar modo de vida.

Maquelina, quando, junto da pia baptismal do pequeno Agostínho, se     declarara madrinha, à face da Igreja, do filho querido de sua irmã,     tinha já concebido uma alta ideia da missão que desde aquele     momento ia adoptar por sua e para com o recém-nascido, que sustentava     nos braços; nem foram para ela simples palavras de formalidade as que     em tom de prédica ouvira ao pároco, sobre os seus deveres futuros.

«Na falta dos pais, dissera ele, aos padrinhos compete a vigilância     e a educação das crianças, que sob a sua protecção     entrarem no grémio da Igreja católica». Ora os pais de     Agostinho lá se tinham já partido para melhor morada, e Maquelina,     que, eminentemente escrupulosa em negócios de consciência, se     julgava por ela obrigada a cumprir até ãs últimas extremidades     os seus deveres de cristã, tinha de mais a mais um coração     farto para afeições e sentimento.

Fechou, pois, os olhos aos sacrifícios futuros e aceitou a companhia     do afilhado.

— Ele me ajudará também — dizia consigo mesmo     a boa mulher, como se quisesse colorir com um pensamento egoísta o     impulso que lhe viera directamente do coração.

Nós temos destas coisas.

Mas o certo é que, apesar da melhor vontade, em pouco podia Agostinho     auxiliar a madrinha.

Auxiliar de que maneira?

Emprego não o pôde ele obter. Naquela cidade, como em muitas     outras terras do reino, não se vêem com bons olhos os infelizes     que voltam do Brasil pobres. Lá parece uma prova de pouco espírito     e da nenhuma aptidão a essa boa gente um semelhante sucesso. O Brasil     é, para ela, como o campo de batalha. Ou volta-se de lá vitorioso,     ou morre-se combatendo. Fugir é de covardes.

E ora aí têm os leitores a razão por que dois meses     depois da chegada de Agostinho, era ainda Maquelina quem só provia     às despesas da casa, as quais, como era de supor, tinham aumentado;     desenvolvendo a pobre velha esforços sublimes para um duplo resultado:     obter meios de subsistência e ocultar ao sobrinho os imensos sacrifícios,     a que para isso se sujeitava.

Mas Agostinho suspeitava-os e afligia-se.

Um dia falou à madrinha nas vozes que corriam ainda sobre as riquezas     do defunto. Maquelina sorriu tristemente, respondendo: — Pois procura-as.

Agostinho deitou-se à obra com calma, revolveu de novo o quintal     a mais de um metro de profundidade, despregou as tábuas do soalho,     sondou as paredes, trepou aos mais altos escaninhos da casa... tudo foi inútil.

Disse adeus ainda a essa ilusão. O que lhe valeu foi estar já     costumado a despedir-se delas. A primeira vez custa mais.

No entretanto os esforços e vigílias de Maquelina arruinaram-lhe     a saúde. Lutou braço a braço com a doença como     lutara com a fome.

Lutas heróicas que passam ignoradas, enquanto tantas outras, muito     menos merecedoras das honras da epopeia, são extremamente celebradas     em oitava rima.

Afinal caiu vencida no leito, e então é que o futuro se lhe     mostrou carregado.

A pobre mulher não se iludia nem sobre a gravidade da sua moléstia,     nem sobre as consequências da sua morte.

Que seria de Agostinho? Agostinho, a quem ela amava já como se amam     os entes fracos que vieram procurar a nossa protecção, com esse     amor bem mais intenso mesmo do que o votado aos seres que nos protegem.

Porque o primeiro lisonjeia o nosso orgulho, e o segundo, esse, revela a     nossa inferioridade.

Coisas humanas.

O futuro de Agostinho era a ideia negra de Maquelina; como ela ficaria contente     por morrer se não fora isso! Mas agora custava-lhe; esta lembrança     aumentava-lhe a doença. Que diria ela à irmã, quando     no Céu lhe pedisse novas do filho? Que o deixara na miséria?     E era isso de boa madrinha? E estes pensamentos e apreensões definhavam-na     a olhos vistos.

Agostinho aterrou-se, e reconheceu então tudo quanto tinha havido     de heróica,abnegação no procedimento da tia.

O seu coração de homem teve um movimento pelo qual procurou     libertar-se da espécie de colapso em que infortúnios continuados     o haviam lançado. Agostinho curvara a cabeça sob a corrente     de desgraças que sem interrupção haviam sucedido na sua     vida; agora tentava e l e v á - l a em um último esforço.

— É preciso tentar fortuna — dizia ele consigo —      amanhã de nhã sairei a pedir trabalho, a tudo me quero sujeitar,     a tudo.

E adormeceu com este pensamento, sonhando daí a pouco em uma mina     de ouro, onde ao fim de muita fadiga, só conseguiu extrair enormes     pedras de carvão.

O leitor pode imaginar toda a agradável voluptuosidade de sememte     sonho.

Por a manhã ergueu-se disposto a realizar o projecto da véspera;     mas foi encontrar a tia em um estado tão assustador, que não     teve imo para abandoná-la.

— Não tem de ser! — disse consigo Agostinho, a quem a     desgraça ase tornara fatalista.

Maquelina mostrava-se de facto em risco iminente.

O facultativo de partido veio vê-la; pois Maquelina havia enfim conseguido     entrar no quadro dos pobres.

Tomou-lhe um pulso, depois o outro; deu-lhe três pancadas do lado     direito do tórax, igual número do esquerdo; pousou-lhe o ouvido     sobre as descarnadas costelas, e, como se escutasse lá dentro os passos     da morte, ergueu-se e fez um gesto de descontentamento visível.

Receitou um chá de alteia e saiu.

Agostinho esperava-o à porta.

— Então ? O médico puxou pelo relógio, ao qual     principiou a dar corda, dizendo com a indiferença profissional: —      Como àquela máquina se não dá corda como a esta,     pára dentro em poucas horas.

Agostinho sentiu subirem-lhe as lágrimas aos olhos.

O médico voltou-se ainda de novo para dizer: — Eu escuso de     cá voltar, agora o padre.

Estas palavras, ditas em tom mais alto e da maneira mais natural possível,     como as sabem dizer alguns adeptos da ciência hipocrática, que     se jactam de fortes, chegaram aos ouvidos de Maquelina, que juntou as mãos,     e, erguendo os olhos ao Céu, disse com voz débil: — Aqui     está a serva do Senhor, cumpra-se em mim a sua santíssima vontade.

Quando Agostinho entrou no quarto, encontrou-a resignada.

Nessa mesma tarde confessou-se e sacramentou-se aquela pobre de Cristo.

Na cidade dizia-se: — Coitada! o irmão matou-a. Morre de fome     e fadiga e com dinheiro em casa.

Era forte cisma a do povo.

Mas há dessas teimas.

Ao pé da noite pediu Maquelina um chá para mitigar a sede     Naquele dia não se acendera ainda o lume em casa. Agostinho esquecera-      se de comer, e se se lembrasse não sei bem o que teria sucedido, Melhor     foi que se não lembrasse.

Agostinho correu à cozinha, reuniu a custo alguns cavacos já     meio queimados para acender o lume, e voltou à sala.

Maquelina dava-lhe instruções da cama.

— Ainda achaste lenha ? — Achei, sim, madrinha.

— Bem; ora agora... Essa lamparina está acesa ainda? —      Está, madrinha, está, pois não vê.

— Não, filho, já a não vejo.

Havia neste já uma significação que comoveu Agostinho.

Ela continuava: — Encontraste carqueja ?...

— Não, madrinha... mas...

— Valha-me Deus — disse ela, lutando já com dificuldades     para se fazer ouvir. —Olha, sabes, aí... na gaveta do toucador...     está uma papelada de que... às vezes me sirvo para economizar.     Acende alguma na... lamparina e... Ai! — terminou ela com um suspiro,     que o longo esforço que tinha feito para falar lhe tornara necessário;     e depois em voz mais baixa acrescentou: — Louvado seja o Senhor, a que     estado eu cheguei! Agostinho abriu a gaveta.

— Aí — continuou Maquelina com voz sumida e trémula.

— Achaste? bem... ora agora...

Agostinho inflamou à chama escassa da lamparina um dos papéis     que tirara do velho toucador da tia.

— Isso — disse esta satisfeita por se ver compreendida.

Ãs sombras indistintas que reinavam no aposento sucedeu a claridade     da lavareda, mas foi de pouca duração. Ainda não teria     ardido metade do papel, já Agostinho, soltando um grito inexprimível,     o atirava ao chão, abafava-o com os pés, precipitando ao mesmo     tempo pela vivacidade do movimento a lamparina, que se fez em pedaços.

A escuridade tornou-se completa.

— Que foi, santo nome de Jesus! que foi, Agostinho? — dizia     assustada Maquelina, erguendo-se a meio corpo.

— Que papéis eram estes, minha madrinha? — Eu sei lá,     filho; mas que foi ? valha-me o Senhor, — Uma luz! uma luz! —      bradou Agostinho fora de si; e saiu repentinamente da casa, atravessou a rua,     enfiou pela primeira porta que encontrou aberta, galgou um lanço de     escadas, penetrou em um quarto onde trabalhavam pacificamente algumas mulheres,     apoderou-se da luz que viu no meio da mesa, em volta da qual elas se formavam     em círculo, e sem dar uma única palavra, saiu arrebatado, deixando     em completa estupefacção as circunstantes, que só passados     minutos voltaram a si, para correrem atrás do mancebo, que parecia     possesso.

Agostinho entrou de novo no quarto da tia moribunda, aproximou- se do lugar     onde deixara os restos do papel meio consumido, apanhou-o, examinou-o com     escrupulosa atenção, depois correu à gaveta do toucador,     sujeitou a igual exame os outros papéis semelhantes que ai estavam     a monte.

— Por amor de Deus, madrinha... mas... de onde vieram estes papéis     ? — exclamou ele, ao passo que um por um os passava em revista.

Maquelina, apoiada no braço convulso e com os olhos espantados, olhava     para o sobrinho estupefacta.

— Eram do mano, o Senhor o tenha em glória; guardava-os naquela     arca; ele sempre me disse que de nada valiam, e agora que eu me via precisada     ia-os queimando, para...

— Mas, valha-nos a Virgem! era uma riqueza inteira que queimava assim!      — Que dizes tu, filho? Os combustíveis da tia Maquelina eram     nem mais nem menos que boas e excelentes notas de banco, às quais o     velho Cipriano reduzira os seus haveres, porque o amedrontava o tinir do dinheiro     metáico, como chamariz de ladrões: enquanto que por outro lado     nunca se pudera resignar a separar-se do seu querido capital, em cuja contemplação     saboreava aquela doce voluptuosidade, só dos avarentos conhecida.

Quando se procedeu a investigações em casa de Maquelina para     descobrir o tesouro oculto, esqueceram-se, como quase sempre acontece",     de examinar os lugares, por onde deviam ter principiado; enquanto profundavam     a terra e escavavam as paredes, ninguém se lembrou de abrir a pequena     gaveta, que nem chave tinha sequer, e onde Maquelina alojara toda a riqueza.     Mas quem o podia supor! O instinto do povo não o enganara desta vez.

Cipriano era de facto rico. Vivera uma vida de privações,     praticou um negócio de alta usura debaixo das maiores cautelas e mistério     impenetrável; aí está explicada a sua riqueza.

É receita infalível para chegar ao mesmo resultado; as pessoas,     a quem não nausearem os ingredientes, adoptem-na, porque não     falha.

Desconfiando de todos, da própria irmã desconfiava, e dava-lhe     por isso a entender que de nenhuma importância eram os papéis     que ela ãs vezes por acaso chegara a descobrir.

Maquelina era ignorante, e nem imaginava sequer que se pudesse ter uma riqueza     em papéis. Na sua inteligência, como na das crianças,     a ideia de riqueza andava associada à de muito dinheiro em ouro e prata:     gavetas, cómodas, caixas e burras cheias dele ; e por isso ia queimando     agora lentamente aquele tesouro que o irmão acumulara; e isto com o     fim de poupar carqueja !

Cleópatra, brindando os amantes com soluções de pérolas     preciosas, não conseguiu ser mais magnifica.

Era um passatempo de milionário o de Maquelina.

Se Deus lhe prolongasse a vida, até onde iria aquela monstruosa combustão?     Que soma enorme seria aniquilada! E ainda assim quanto não consumiria!     Nunca se pôde calcular.

Há o quer que é de sublime neste quadro. Uma mulher velha,     caquética, esfomeada, agonizante, tendo ao alcance do braço     uma riqueza, como ela nem sequer concebera nos seus mais ambiciosos sonhos,     e queimando-a! A notícia inesperada, que recebia agora, imprimiu àquela     existência o derradeiro abalo. A alma, já quase desapegada do     corpo, abandonou-o de todo e partiu.

À meia-noite morreu a santa criatura, contente, porque deixara rico     o sobrinho e afilhado, único parente que possuía na terra.

Ainda assim, quando se divulgou a notícia, o que, graças à     comunicabilidade das mulheres a quem Agostinho usurpara a luz, e que foram     as primeiras a sabê-la, se não fez esperar muito, houve quem     se penteasse como herdeiro.

Faria rir se expusesse aqui os fundamentos das pretensões desta gente,     e eu não quero fazer rir o leitor a quem peço antes uma lágrima     para a memória de Maquelina.

Não seguiremos agora a história de Agostinho, que se modela     por a de todos os homens ricos.

Apenas direi que por suas especulações comerciais conseguiu     multiplicar o capital tão inesperadamente herdado, e hoje é     milionário.

Vejam o instinto do povo!

 

A tia Filomela era uma pobre mulher, que eu conheci em outro tempo, muito     enrugada, muito magrinha, com a coluna vertebral como a do homem das cortesias     do método Castilho; queixo e nariz prolongando-se-lhe em promontórios     agudos e a fazerem lembrar os crescentes sob os minaretes das mesquitas ;     olhos abertos para o mundo, somente quanto bastava para lhe descobrir as vaidades,     e a cabeça incessantemente animada por um movimento convulsivo, que     junto ao sorriso contínuo e quase irónico que se lhe estampara     nos lábios, dava à fisionomia de ordinário meditativa     da velha, não sei que vislumbre de filosofia céptica, que impressionava     quantos a viam.

Os hábitos da tia Filomela atingiam o sublime da parcimônia.

Uma sociedade inglesa de temperança não hesitaria em lhe conferir     diploma de sócia honorária, se deles tivesse notícia.

A voz estava em flagrante antagonismo com o nome melodioso, que predilecções,     provavelmente maternas, lhe tinham dado na pia baptismal.

De facto, a tia Filomela — a culpa não era sua — faria     corar de vergonha o rouxinol, seu harmonioso homónimo, se isto de corar     não fosse esquisito atributo da espécie humana.

Eu não posso comparar o timbre daquela voz a ruído algum conhecido     na natureza; em mim produzia o mesmo desconsolado efeito que me causa aos     nervos o roçar de metal agudo sobre uma mesa de mármore polido.

Ouvindo falar algum tempo a tia Filomela, ficava-me a doer o peito, e o     pulso subia a um algarismo em que principiava a revelar aspirações     a febre.

Se me obrigassem a viver com ela muito tempo, estou que morreria ético,

Um dia falei nisto a um médico e ele explicou-me o fenômeno     por uma palavra inexplicável.

Chamou-lhe uma idiossincrasia.

Eu dei-me por satisfeito. A coisa não era para manos.

Quando eu, com a minha idiossincrasia, conheci a tia Filomela, gozava a     mulher de uma reputação, que, a falar verdade, não se     podia dizer das mais lisonjeiras.

A gente da vizinhança — as vizinhanças na aldeia compreendem-se     em um círculo de três léguas de raio — teimava a     pés juntos que ela mantinha sinistras relações com os     espíritos ruins, que aos sábados não faltava às     soirées do Diabo, e enfim que era a pobre velha nem mais nem menos     do que uma ladina e famigerada feiticeira.

Punge-me ter de arquivar aqui, forçado como sou pela veraci.

dade de cronista, que a origem principal de semelhantes boatos a fui encontrar     na parte bela e amável do sexo, do qual a tia Filomela era um .

espécime avariado.

A beleza e a juventude fazem disto. As que as possuem, orgulhosas de seus     dotes sedutores, invejam-se e odeiam-se mútua e cordialmente ; ao mesmo     tempo que desprezam e caluniam as desfavorecidas nesse ponto pela nem sempre     muito imparcial natureza.

Consolação suavemente consoladora para as leitoras feias,     que não incorrem pelo menos em um destes pecados.

Foi efectivamente a uma conversa de raparigas que eu devi a revelação     da íntima correspondência entre a tia Filomela e os espíritos     das trevas.

Disse-mo Luisita, tomando certo ar de misteriosa seriedade, tal como a natureza     do assunto o reclamava.

Luisita era uma galante rapariga dos arredores.

O diminutivo com que a designo aqui, e que era o adoptado por todos, vale     mais do que qualquer minuciosa descrição.

Nós, os peninsulares, não empregamos indiferentemente as variedades     de diminutivos, que possui em abundância a nossa língua.

Entre uma mulher a quem chamamos Luisita, e outra que nos valeu a mais doce     denominação de Luisinha, vai uma diferença considerável;     diferença de tipo, diferença de hábitos, diferença     de carácter.

Uma será meiga, ingénua e sensível, quase sempre loura     e alva, corando à menor palavra que lhe dirigirdes, baixando os olhos     confusa, se a fitardes um momento, pronta a chorar de saudade, e tendo não     sei que de triste até nas intensas alegrias; na outra, pelo contrário,     encontrareis certa petulância e travessura, que arrostarão com     vossos olhares mais impertinentes, um rosto provocador, risos prontos e francamente     joviais, movimentos vivos, respostas fáceis e naturalmente epigramáticas;     uma zombaria a cada galanteio; a cada fineza, uma reflexão, que nos     desconcerta, e revelando sempre, até por entre lágrimas, um     fundo inesgotável de contagiosa alegria.

Tal era Luisita. Tal a conheci eu naquele tempo. Tinha ela então dezoito     anos; era baixa, trigueira, de olhos negros e engraçados; ninguém     passava por ela na estrada que involuntariamente se não voltasse depois     para a seguir com a vista. Adivinhava-o e lisonjeava-se com isso. Subitamente     voltava-se também para surpreender em flagrante os numerosos contempladores,     e poucas vezes podia reprimir uma risada, se conseguia perceber que os mortificara     com a descoberta.

O rosto dela era o mais gracioso conjunto de imperfeições,     que pode perturbar a cabeça dos menos predispostos para influências     de tal ordem.

A natureza folga, de quando em quando, de pregar destas pirraças     aos profundos conhecedores da arte, que imaginaram ter descoberto as verdadeiras     leis do belo, em suas variadas manifestações. Apresenta- lhes     uma dessas figuras de mulher que não resistem à análise,     incorrectas e repreensíveis segundo as regras da arte e, a despeito     de todas as teorias e sistemas, mau grado todos os princípios fundamentais     de estética ou de plástica, inspira-lhes com elas as mais endiabradas     paixões que podem transformar o juízo destes absolutos legisladores     da coisa menos legislável do mundo.

Impressionados a seu pesar como os severos apreciadores de música,     de mal consigo mesmo quando, em contradições com os sistemas     a priori, se deixam entusiasmar pelos inspirados defeitos de Verdi, os tais     artistas filósofos são então de uma inconsequência     que me delicia.

É para ver como estes frios analistas, sempre prontos a pretender     encontrar em certas combinações de curvas, certo contraste de     cores, certa proporção de diâmetros, a razão de     ser da beleza, e a causa única das sensações que ela     inspira, param confundidos diante de uma dessas sedutoras irregularidades,     que, despedaçando os moldes acanhados onde julgavam conter o poder     criador do belo, lhes revela a cópia de recursos de que, em suas felizes     infracções desses imaginários códigos, a natureza     dispõe ainda a ocultas da pretensiosa arte.

Diante de tão misteriosas sínteses, que de uma maneira desconhecida     assim profundamente nos afectam, é que a análise, destruindo     tudo, à força de tudo querer decompor, se mostra pequena e incompleta.

Mas estava eu falando da Luisita que mal suspeita, por certo, ter servido     de tema a considerações desta ordem.

Simpática rapariga aquela! Misto de ruindade e de candura, de timidez     e de astúcia; carácter caprichoso e às vezes impertinente     sobre um fundo de inexcedível bondade, agradava-me por isso mesmo.

A bondade excessiva, sempre coerente consigo, as abnegações     completas, aproximam-se demasiado da perfeição angélica;     são muito isentas de cor terrena, para nos inspirar outro sentimento     que não seja o da veneração. Interessam-nos mais estes     caracteres, que parece tocarem por um lado no Céu sem de todo se desprenderem     da Terra, por onde justamente se acham em mais íntima relação     connosco.

Lado frágil e vulnerável, que maiores simpatias nos desperta,     A avezinha que todos nós mais amamos é a que ferida na asa,     não eleva voos a grande altura do solo.

Ao menos eu por mim declaro-me mais sujeito a ser impressionado por estes     caracteres mistos de mulher e de anjo, e ãs vezes até com seus     ressaibos de demónio.

Fazem-me lembrar — porque o não direi ? — as felizes     combinações que a cada passo realizam os confeiteiros, associando     corno correctivo a adstringência de um ácido à excessiva     e às vezes enjoativa doçura das massas de pastelaria.

Perdoem-me o comezinho da comparação e deixem-me continuar.

Dizia eu que fora de Luisita que obtivera as primeiras informações     sobre a vida escandalosa da tia Filomela.

E por sinal que ia ficando de mal comigo ao divisar-me nos lábios,     ao passo que falava, um sorriso de incredulidade.

— O senhor ri-se ? — disse-me ela com um gesto de contrariedade     e uma ruga de mau humor a sulcar-lhe a fronte, o que dava à fisionomia     a mais adorável expressão de cólera feminina que se pode     imaginar — é dos tais que não acredita em feiticeiros     ? — Se acredito! Tanto que ando enfeitiçado.

— Anda? — continuou ela, tomando já um aspecto todo risonho     por aquela extrema mobilidade de feições que possuía,     a par de igual mobilidade de carácter — vire o casaco do avesso     ; dizem que é remédio pronto.

— Do avesso trago eu o coração, a julgar pela desordem     que sinto cá dentro.

— Sim? Então quem lho voltou? — Olhe que não foi     a tia Filomela, isso lhe juro eu. Há feiticeiras na terra, mas são     de outra casta.

— Vamos então a saber. Conte-nos isso. Quem são essas     feiticeiras ? — disse a minha gentil interlocutora a provocar o cumprimento     que pressentia.

Saboreei um prazer de deuses em lhe não dar esse gosto e respondi-      lhe: — As feiticeiras são estas árvores, estas flores,     estas campinas e montes, estas tardes e madrugadas, que tão enfeitiçado     me trazem que não há tirar-me daqui.

Ela compreendeu, porém, a táctica e respondeu-me com uma gargalhada     provocadora,

 

ESTA cena passava-se na tarde de um domingo e no largo onde se reunia para     dançar, rir, cantar e falar de amores, a parte jovem da população;     e para rezar, dormir e falar do passado e das vidas alheias, a outra porção     mais favorecida de anos e menos de descuidosa alegria.

Deste lugar, situado na encruzilhada dos quatro principais caminhos que     atravessavam a aldeia, estendia-se a vista, do lado ocidental, em uma série     extensa de várzeas e de campinas divididas em quarteirões, regulares     como os tabuleiros de um jardim, por longas fileiras de choupos, que as vides,     enleando-se-lhes nos ramos, guarneciam com pendentes e viçosos festões.

A diferente qualidade ou vigor de plantações e o diverso grau     de cultura desses numerosos campos, em que se repartia a planície,     davam a cada um deles uma aparência particular, quebrando agradavelmente     a ordinária monotonia dos terrenos pouco acidentados.

A natureza empregara na tela os mil cambiantes da cor verde, própria     às paisagens campestres, e, por um segredo de colorido que a arte mal     pôde ainda imitar, soubera introduzir, na pintura em mosaico dessas     vicejantes alcatifas, no meio de uma uniformidade aparente, a mais aprazível     variedade.

Aqui e além elevados castanheiros, frondosos carvalhos ou oliveiras     verde-pálidas formavam pequenos bosques em volta de uma ou de outra     habitação isolada, como para ocultar o mistério de alguma     existência obscura que se deslizasse ali e concentrar no seio da família     o grato calor dos lares domésticos que alimenta e vigora os mais afectuosos     sentimentos do coração humano.

Cada uma dessas habitações solitárias, assim envolvidas     na sombra dos olivais, dos soutos ou das devesas, assim recatadas e discretas,     como aquelas pessoas naturalmente pouco expansivas que se calam com suas alegrias     e experimentam no gozá-las em silêncio a mais casta voluptuosidade,     me parecia encerrar um poema inteiro de íntimas felicidades. A cada     uma delas associava a minha imaginação, obedecendo a não     sei que irresistível necessidade de fantasia, uma vida de tranquilos     e inefáveis prazeres, cuja só concepção me deleitava.

E como para que às comoções agradáveis que toda     esta cena despertava, não faltasse certa melancolia, que se insinua     em nossos mais delicados sentimentos, lá estava a suscitar-ma, junto     da igreja paroquial, o cemitério da aldeia, sem a magnificência     dos mausoléus, mas com a poesia da tristeza; sem longas ruas assombradas     por cedros e ciprestes, mas abundante em rosais sempre floridos, que, balouçados     pelo vento, cobriam de pétalas desfolhadas as campas mais humildes     e obscuras, onde nem sempre a amizade depusera sequer a devida homenagem de     uma flor.

Mais longe, principiava o terreno, em suave declive, a elevar-se como nos     degraus sucessivos de um extenso anfiteatro e sempre tão rico de vegetação,     tão revestido de árvores e de relva, que dava ao país     naquele ponto a pitoresca aparência de um vasto cabaz a trasbordar de     verdura e de flores.

Nesta graciosa corrente de pequenas colinas, que circundavam a planície,     divisavam-se as povoações vizinhas, como pequenos pontos brancos     dispersos ou amontoados, por entre os arvoredos da encosta.

De cada uma delas começava já então a erguer-se o fumo     dos lares em colunas densas e tortuosas, que cedo se misturavam, difundiam,     rasgavam em mil pequenas nuvens irregulares, dissolvendo-se por fim em uma     atmosfera de vapores, que pouco a pouco, como em transparente sendal, envolvia     toda a paisagem.

Mais distante, ainda no extremo do horizonte, desenhavam-se em grandes sombras,     vagamente contornadas sobre o claro do céu, iluminado àquela     hora pelos últimos raios do Sol no ocaso, cordilheiras de remotas serras     que, tingidas por a uniforme cor azulada das paisagens longínquas,     mais pareciam pesados cúmulos de nuvens surgindo ameaçadoras     do ocidente.

Quase sempre as coroavam altas neves, onde o sol, reflectindo-se, produzia     surpreendentes efeitos de óptica, simulando fantásticos palácios     de pórfiro e pedrarias. Daí se precipitavam as torrentes, que     pouco a pouco, descendo nos vales e enleando-os nas malhas de uma rede complicada     de arroios cristalinos, trocavam a primitiva impetuosidade, ao despenharem-se,     como cataratas, em fragosas ribanceiras, por um sereno deslizar entre silvados     e relvas, que apenas denunciava um confuso murmúrio.

Se, depois de ter assim contemplado este panorama risonho e aprazível,     voltássemos os olhos para o lado do oriente, reconheceríamos     um desses contrastes, a que é tão afeiçoada a natureza     nos países onde mais inesgotável se mostra em seus recursos     de artista; uma dessas rápidas mutações de cena, que     deleitam, variando, de momento para momento, as impressões que produzem.

De facto, a perspectiva era deste lado mais limitada, ainda que absolutamente     não menos bela.

Logo a pequena distância principiava o terreno a assumir uma rápida     inclinação, perdendo ao mesmo tempo a amenidade e vigor da vegetação     dos vales para revestir a severa e melancólica beleza das paisagens     alpestres.

Na base desta colina, tão diversa das que do lado oposto parecia     sorrirem-lhe envolvidas em seus vistosos mantos de folhagem, vinham expirar     as últimas oliveiras, já pálidas e débeis, como     se o vento das montanhas lhes consumira o vigor. À cor viçosa     da relva sucedia pouco a pouco o verde sombrio das giestas e do tojo; suas     tristes flores amarelas aos variegados matizes com que se adornam os campos;     às sombras densas e impenetráveis das devesas, as sombras enganadoras     dos pinhais; o gemer melancólico das rolas, o grito louco dos gaios,     aos alegres gorjeios que ressoam nos vales, e o cheiro activo das resinas,     aos brandos aromas das flores do prado.

Ao topo deste monte, em toda a extensão do qual nenhum vestígio     de cultura e animação interrompia, por espaços sequer,     o aspecto selvagem e de completo isolamento que nele imediatamente nos impressionava,     condizia, descrevendo longas sinuosidades, um cami nho íngreme e quase     intransitável, comprimido entre elevadas paredes deste terreno argiloso     de cor ensanguentada, de onde raro brota uma planta, ou nasce sempre estiolada     e débil, desfolhando-se ao menor sopro de aragem que por momentos a     agite.

Iminente a esse caminho, no qual em pleno dia penetravam apenas os raios     de um pálido crepúsculo, e a mais de meia encosta do monte,     existia a casa da tia Filomela, que não desdizia, na sua aparência     de miséria e tristeza, da paisagem que lhe servia como de fundo de     quadro.

Fora esta casa solitária no meio de um pinheiral sombrio, que, contrastando     fortemente com a amenidade da perspectiva fronteira, onde tudo era vida e     cultura, me atraíra a atenção e dera lugar ao diálogo,     no qual a personalidade da pobre mulher começava a ser discutida, não     demasiado lisonjeiramente para ela.

A conversa travada entre mim e Luisita pouco a pouco se generalizou ; e     tão popular era o assunto, que todos tomaram parte nela, interrompendo     as danças, dando tréguas às violas, e sacrificando-lhe     até os trocadilhos amorosos, com que mutuamente se mimoseavam os namorados.

A minha incredulidade aumentou o ardor e vivacidade das insistências     ; longe por isso de aproveitar à pobre Filomela, antes a ia prejudicando.

— É ver, é ver — dizia uma morena, apertando debaixo     da barba o lenço escarlate, que com o movimento da dança se     lhe havia desatado — logo que veio para aqui aquela bruxa, foi um morrer     de crianças como nunca se viu.

— E os carneiros do ti'Zé da Nora, que em menos de quinze dias     lhe morreram todos, mirrados como um torresmo? — acrescentava outra,     levando aos dentes, alvos como o marfim, uma laranja que principiava a descascar.

— E os pregos que lançou pela boca fora a tia do João     dos Moinhos ? — Ora nem que ela lançasse pregos! isto pode lá     ser! — disse, simulando cepticismo, um rubicundo mocetão de vinte     anos, que alimentava para estas coisas no fundo da alma a mais fervorosa crença.

— Não ? pois pergunta-o ao sr. doutor, que saiu de casa dela     a benzer-se e a dizer que não era aquilo doença de médicos.

— É verdade, é verdade. E foi lá o sr. abade     fazer-lhe os exorcismos.

— Qual? o novo? — Não, o antigo, que Deus haja. O novo     sim, olha, olha o outro| — Esse bem se ha nestas coisas.

— Assim Deus me perdoe, como ele me parece bruxo.

— Estás doida, rapariga! — Eu digo isto. Pois não     vêem como fala de mano a mano com ela? — Se fosse bruxo, não     faria as esmolas que faz — redarguiu Luisita, obedecendo aos seus bons     instintos.

— Nanja eu que lhas quisesse.

— Que dizes tu, mulher, que dizes? Ora o Senhor te não castigue,      — Ámen. Mas então para que conversa ele com a tia Filomela,     sabendo de que casta ela é? Como lá diz o outro: «Quem     não quer ser lobo...».

— Ele sabe lá se ela é bruxa! — Pois não     lho dizem todos, e não repara que nunca ouve missa, e nem sequer vai     à igreja? Eu vi Luisita quase disposta a tomar a defesa da tia Filomela.

A contradição irritava-a e instigava-a a reagir com toda a     força de sua natural impaciência.

Uma das circunstantes, porém, trouxe novo artigo de acusação     contra a velha Filomela, e conseguiu reunir de novo as opiniões, que     a questão do reitor havia dividido.

— Sabem vocês, a minha capa nova? fui-a encontrar toda às     tesouradas depois de uma terça-feira em que passei pela tia Filomela     lá em baixo nas presas.

— Credo! e tornaste a trazê-la, rapariga? — Deus me livre     I — E não coseste o bruxedo? — Ainda não. Como é     que isso se faz ? — É preciso ferver toda a roupa em uma panela     que ainda não tenha servido, e barrá-la muito bem com lodo e...

— Não — acrescentou uma outra — antes lançam-se     na água sete pedras de sal, com a mão esquerda.

— Isso é depois...

— Não, senhora, é antes.

— Vem-me ensinar a mim, que o vi fazer à Joana do Viúvo,     quando lhe embruxaram o sobrinho.

— Sim, mas também a Joana não diz as palavras que dizia     a Rosa do Emídio, e sem elas não se faz nada, ah! — Se     não diz essas, diz outras.

—E que palavras são?—perguntou a proprietária     da capa enfeitiçada.

— As da Joana são assim:

Tarrenego esp'rito imundo,     Vai-te pra os fogos eternos,     Lá no fundo, bem no fundo,     Das profundas dos infernos.

Agua quente da panela     Ferva esta roupa bem cedo,     Fervida seja com ela     A bruxa com seu bruxedo.

— Como é o resto?... A bruxa com seu bruxedo... a bruxa com     seu bruxedo — repetia a rapariga, vasculhando em vao a memória     para achar o resto da cantilena imprecatória da Joana do Viúvo     vedes, não me lembra, mas é assim uma coisa.

— Mas há-de ser dito com um ramo de alecrim bento na mão,     fazendo três cruzes no ar a cada verso.

— Isso já se sabe.

Outra aventurou do lado o seguinte alvitre: — Diz que também     o que é muito bom contra as feiticeiras, diz que é a hortelã     verde do monte.

— Ora isso é para matar saudades. Quando o nosso Zé     foi para o Brasil, minha mãe coseu-lhe hortelã no forro do colete,     porque o pobre rapaz, coitadinho, ia esmorecido de todo.

— Eu cá do que sempre uso é de figas de azeviche —      opinou outra, exibindo, como prova do seu dito, um dos objectos mencionados.

— Sim, que não chuparam as bruxas o pequeno da Tomásia,     e mais tinha no pescoço uma figa que lhe dera a madrinha.

— O pequeno da Tomásia morreu de uma febre.

— Boa febre! Pois não se viu a olhos vistos ! Podiam-se-lhe     contar as marcas que lhe deixaram as feiticeiras. Tinha o corpinho todo sarapintado     de nódoas roxas, que era mesmo uma pena vê-lo.

— Eu desde que uma tarde, era já ao lusco-fusco, vi rondar     a tia Filomela, com pés de lã, em volta da casa de Tomásia,     logo me deu uma pancada no coração.

— E eu que tantas vezes lhe disse: — Tomásia, tu tem     cautela com o teu filho! — não sei o que me dizia o que tinha     de suceder.

— A rapariga também era desmazelada — observava outra,     mantendo a conversa no tom de maledicência em que já ia afinada.     Deixava andar sozinha aquela criança, ainda a engatinhar, em termos     de lhe acontecer alguma desgraça. Quantas vezes a fui eu tirar da ribanceira     e quase a rolar por ela abaixo? — Não, eu sempre digo que há     mães também! — Depois então é que é     o gritar: Ai o rico filho da minha alma! como ela gritava, que era até     uma vergonha.

— Ora, uma vergonha sim! isso é bom de dizer, mas coitado de     quem os tem! — E como o outro que diz: aquilo sempre é sangue     do nosso sangue.

— Mas então que olhem por eles; não é só     quando morrem que...

— A gente, enquanto eles têm saúde, nem bem sabe o amor     que lhes tem; depois é que tudo são aflições.

— Isso lá é assim, é.

— Malditas bruxas — diziam algumas vozes, como se fora um estribilho     de canção.

— Nessa mesma noite em que morreu o pequeno, foi que elas apareceram     ao Luís do Canha.

— Ai, então apareceram-lhe as bruxas alguma noite? —      Pois não o sabias, mulher? — Eu não! — Admira! Tanto     se falou nisso.

— Mas então como foi? Eu não sei de nada.

— Foi uma noite em que o Luís do Canha veio mais tarde da cidade,     e não encontrou companhia. Era num sábado. Ao passar nos Telheiros,     pareceu-lhe ouvir o barulho de lavadeiras a bater a roupa nas presas.

O rapazinho, admirado de que se lavasse àquelas horas, parou um pouco     e pôs-se a olhar para baixo.

— E que viu ? — perguntaram-lhe em coro umas poucas de vozes     com uma inflexão em que se revelava o mais vivo interesse.

— Muitas sombras assim como fumo a correr de um lado para o outro,     à roda, à roda, como folhas secas em dia de ventania. E logo     umas risadas e umas vozes que chamavam por ele: — Luís! Luís!     onde vais tão tarde? espera, espera, ouve um recado. — O pobre     rapaz sentiu que se lhe arrepiavam os cabelos da cabeça e deitou a     correr com toda a pressa que pôde.

«E aquelas risadas a persegui-lo. Ele a correr, e as vozes a chamá-      lo ; depois apareceram-lhe umas sombras negras, altas como gigantes, que fugiam     a esconder-se por entre as árvores, fazendo um barulho como o do vento     nos pinheirais, e umas luzinhas a aparecer e a desaparecer, a aparecer e a     desaparecer. Quando passou nos moinhos, viu à beira do riacho assim     como um corpo morto, embrulhado em um pano branco, e a gritar: — Ai     quem me acode ! ai quem me acode! — E assim o seguiram e perseguiram,     até que o rapazinho chegando ao pé da igreja, disse: —      Valha-me Nossa Senhora do Amparo! valha-me Nossa Senhora do Amparo, minha     madrinha! — Tudo então desapareceu.

— Credo! disse uma das ouvintes, benzendo-se — se fosse isso     comigo... eu sei lá?... já tinha morrido de susto.

— Pouco faltou ao Luís, que andava parecia enterrado em vida.

— Bom dinheiro gastou o pai para lhe tirar o mau olhado.

— Foram todos a pé ao Senhor de Matosinhos, com um vela do     tamanho do rapaz, e só então é que ele ficou bom.

— Santo nome de Jesus! nunca vi terra tão azada a bruxas como     esta nossa! — E o homem da Teresa dos palheiros? aquilo é feitiço     ou não é feitiço? — Que feitiço? que feitiço?      — exclamou uma gorda rapariga, que tinha motivos pessoais para não     simpatizar com a tal Teresa dos palheiros— que queriam vocês que     ele fizesse com uma mulher daquelas?

— Então que tem a mulher, criatura?! Tu também!...

— Isso; perguntem-no a mim, que há-de ser preciso. Ora já     viram! — Mas diz lá o que tem ? — O pobre do homem a trabalhar     como um mouro, e ela a gastarlhe tudo em roupinhas e gibões.

— Isso é feitiço que nos espera a todos — disse     o principal tocador de viola da aldeia, apertando uma cravelha do instrumento,     e experimentando nas cordas, irritantemente melodiosas, o grau de afinação.

Estas palavras consideradas ofensivas pela parte feminina do auditório,     suscitaram uma discussão em que foram postos em paralelo os defeitos     e qualidades dos dois sexos, de ambos os lados, com apaixonada parcialidade.

 

0vento que soprava do lado do monte trouxe-nos neste momento aos ouvidos     bem distinta, apesar da distância, a voz da tia Filomela, com aquele     timbre particular e penetrante, que já lhe conhecemos.

Chamava pelo seu gato preto, magro quadrúpede, que a junta de inspecção     do exército, de que fala a Gaticânea, excluiria, por incapaz     do serviço militar.

Este gato era um gravíssimo indício da criminalidade da tia     Filomela.

Sempre que eu o via, regozjava-me interiormente por se terem apagado havia     muito as fogueiras do Santo Ofício. Se elas ainda existissem, não     sei eu se a tia Filomela com semelhante fama e com semelhante gato, haveria     escapado ao processo de torrefacção com que naqueles infelizes     tempos se apurava a fé.

— Então, visto isso — perguntei a Luisita — aquele     gato é o Diabo? — Cruzes ! — exclamou ela, como correctivo     ao feio nome que eu não hesitara em proferir, e depois acrescentou:      — e não o diga a mangar, é ver como esse mafarrico anda     em guerra aberta com os outros gatos e dá cresta de quantos pilha.

— Ah! pelo que vejo, o Diabo ocupa-se agora em baixos mesteres.

Voltou-se contra os gatos! Que decadência! — Está a brincar     ? — Não, falo sério. Ora diga, a menina acredita deveras     que o Diabo lhe dê para embirrar com os gatos ? Quem a persuadiu de     semelhante coisa? — Não sei. Vejo que não crê no     que lhe digo, Pois faz mal.

— Mas vamos cá, a tia Filomela, então...

— Para quê se não quer acreditar ?

— Quem lhe disse que não quero ? Eu só desejava que mostrasse     a razão por que ela é bruxa.

A rapariga fez um gesto de impaciência.

— Bem sei que me vai dizer que ela é feia e velha... Ora aí     está o que eu não posso admitir...

Estas palavras granjearam-me uma estrondosa gargalhada.

— Então acha-a bonita e nova ? E diz que não está     enfeitiçado! Ah! ah! ah!...

— Valha-me Deus! Não é isso. O que eu não admito     é que as bruxas sejam feias. As que me enfeitiçam são     outras.

— Ai, isso é cantiga ? — E tomando um ar còmicamente     sisudo, continuou: — Ora mas fique sabendo que a tia filomela em certas     noites, berra de maneira que se ouve no povoado.

— Histórias! Afinal há-de ser o pavão da quinta     das Cerdeiras.

Luisita encolheu os ombros expressivamente e prosseguiu sem mais resposta:      — Acende-se às vezes em casa dela, lá por altas horas,     um lume vermelho...

— Que faria se fosse azul! Aí está a justificação     da boa mulher, vê ? O lume do Inferno é azulado; não sabe     que é de enxofre ? Luisita olhou para mim, meia a rir-se meia despeitada.

— Como assim! Para que me hei-de estar a cansar ? Sabe que mais ?     Espere pelo sábado, ponha-se à espreita, e verá bonitas     coisas.

— Lembrou bem; hei-de observar uma noite a tia Filomela.

— Nem a mangar diga isso.

— Digo-o muito sério.

— Credo ! Deus o livre! — E depois hei-de contar-lhe o que me     sucedeu.

— Não, se tal fizesse, nada me contaria depois.

— E porque não ? — Porque estaria morto.

— Santo nome de Deus! que sorte tão negra! sempre tem coisas!      — E não se fia! — Aposto até que a tia Filomela     me há-de dar de cear.

— Não diga isso, que até é pecado.

— Que mandamento ofendo eu? — Vamos, agora falo sério.     Os senhores da cidade têm tolices e pode muito bem dar-lhe na cabeça     essa extravagância. Olhe que não é uma história     o que lhe digo; a tia Filomela sai muita vez de noite e anda pelos montes     feita em uma luzinha, e de mês a mês vem visitá-la um homem     de má catadura. Há quem o tenha visto; entra e sai logo.

— E então quem é esse homem ? — O demo ou coisa     que lhe pertence; vem dar-lhe parte da grande assembleia de bruxas.

— Ah! reúnem-se mensalmente ? É para discussão     dos estatutos ?

O bom humor da minha interlocutora havia-se esgotado; fez um movimento de     não dissimulada impaciência, encresparam-se-lhe os lábios     em um sorriso de generosa comiseração, e depois de me fitar     por alguns instantes, voltou-me as costas, deixando-me entregue à minha     ímpia incredulidade.

Foi bem feito!

 

Mas O caso é que haviam conseguido excitar-me o interesse pela tia     Filomela, em quem até ali mal atentara sequer.

Eu tinha então vinte anos, e nesta idade não há imaginação     tão de gelo que não medite o seu romance. Todos nós pagamos     esse tributo à violência de nossos sentimentos, à facilidade     de nossas impressões e tendências que então sentimos para     uma vida mais ideal, menos comprimida nos moldes estreitos da realidade.

Nem sequer esses romances se transportam aos livros, nem sequer desenvolvem     em capítulos, ou revestem uma forma literária qualquer; muitos     são os que abortam, os que não recebem a encarnação     da escrita; tanto pior para a literatura, que fica assim privada talvez de     seus mais perfeitos primores de arte.

Quer-me parecer que a literatura realizada até hoje, seria apenas     um fraco reflexo desta que, assim concebida um momento, se destrói     em gérmen e não passa dos primeiros lineamentos embrionários.

Porque nem sempre a improdução é prova de absoluta     esterilidade.

— O que há de mais misterioso, de mais admirável e eternamente     incompreensível para inteligências humanas — a concepção      — é uma faculdade menos privativamente concedida do que se julga     talvez; mas condições secundárias podem e vêm muitas     vezes aniquilar-lhes os produtos logo à nascença, como um defeito     de organização sacrifica ao primeiro desenvolvimento o gérmen     de um futuro ser. Muitos que pressentem as delícias e voluptuosidades     da concepção, não podem vencer as fadigas penosas do     trabalho que executa e que reveste esses filhos da fantasia criadora, da forma     que os torna visíveis.

Em meu espírito laborava então esta necessidade de criar um     mundo imaginário, onde vivesse mais à vontade do que no mundo     real. Tal é quase sempre a origem de tantos romances escritos —      e de mais ainda fantasiados apenas — que nos ocupam as vigílias     da juventude e às vezes reflectem o colorido mágico em nossos     mais deliciosos sonhos.

Debaixo dessa poderosa influência é que eu via então     as coisas, os homens e a natureza; eram essas ideias que me tinham acompanhado     ao campo e me faziam perceber na sombra dos bosques, nas cambiantes das flores,     nos indefinidos murmúrios das brisas embalsamadas da folhagem viçosa,     mistérios de luz, de harmonias e de perfumes não sentidos por     outros; invisível atmosfera de poesia e de ideal em que tudo parecia     envolver-se a meus olhos, que me fazia conceber um drama, depois de ouvir     a narração de um suicídio; imaginar uma alegria, um poema     talvez, ao saber da morte de uma rapariga de quinze anos; que me mostrava     um Chatterton, em cada escritor pálido ; — uma Diana Vernon,     em cada amazona a cavalo; — um Antony, em cada enjeitado ; — uma     Graziela, em cada filha de pescador; — uma indiana, em cada crioula;     em cada criada de servir, uma Genoveva; e até um segundo Quasímodo,     em um pobre sineiro que conheci na Sé do Porto.

Feliz tempo aquele! Via uma rapariga a chorar, um velho sentado, ao pôr     do Sol, debaixo de uma árvore, um grupo de crianças brincando     à borda de um regato, uma mãe amamentando o seu primeiro filhinho,     um artista de blouse a ler nas horas de' desranso à porta da oficina,     uma costureira serandando à luz do candeeiro — eram outros tantos     romances que imaginava ; sempre romances, romances em tudo, romances por toda     a parte.

A dificuldade estava na escolha. Felizmente que nunca me meti a averiguar     como filósofo por que chorava a rapariga, em que pensava o velho, o     que diziam as crianças, o que ia no coração da mãe,     que livro lia o artista, e os hábitos e vida íntima da costureira;     talvez que se me desse a esse trabalho, me reservasse a realidade bem desagradáveis     desilusões; por isso o encarregava todo à fantasia.

Imaginem, pois, o efeito que as palavras de Luisita e das companheiras deviam     ter produzido no meu espírito, assim predisposto para concepções     desta ordem.

Passeios nocturnos, gritos desentoados, visitas misteriosas, luzes avermelhadas,     um casebre solitário, uma velha decrépita, um gato negro...     que preciosidades! «Ó pobre tia Filomela, que tiveste a desventura     de, mal o imaginando talvez, te revestires de aparências românticas,     és minha presa! já te não livras das garras do romancista,     ávido de assuntos, sequioso de situações, guloso de tipos!     Tens a imprudência de seres um tipo, e julgas que hás-de ficar     assim ignorada e esquecida nas quatro paredes dessa miserável habitação;     cá estou eu para te ir procurar, como o naturalista, arrancando da     concha bivalve o inofensivo molusco e sujeitando-o à sua classificação.     Vou eu também classificar-te. Quero saber a espécie e família     da fauna romântica a que pertences. E se fosses uma espécie nova!»      Isto pensava eu comigo mesmo, seguindo caminho de casa ao passo que tomava     vulto no meu espírito o projecto de uma visita à protagonista     dos- contos fabulosos, que havia muito corriam na aldeia de boca em boca,     assumindo cada vez maiores e mais imponentes proporções.

Outro qualquer a quem esta mesma ideia tivesse preocupado, procuraria realizá-la     da maneira mais simples, visitando de dia, e sob o primeiro pretexto admissível,     a mulher que dera azo a tantas discussões e boatos; mas a fantasia,     sob cujo domínio eu me regulava então, exigia mais. Exigia que     a visita se efectuasse de noite, através de incómodos e perigos,     à luz das estrelas, quando piassem todas as aves tristes, e se passassem     tenebrosos mistérios.

Meus hábitos de comodidades reagiam, é verdade, contra estas     instigações da fantasia; mas não tão valorosamente     que não ficassem vencidos afinal.

Eram, pois, onze horas da noite, quando, envolvido misteriosamente em uma     ampla capa, como os conspiradores no teatro, dei princípio a esta minha     excursão romântico-artística, esforçando-me por     não ser observado, para não excitar curiosidades, sempre fáceis     na aldeia e sempre desagradáveis para quem é objecto delas.

Ora a noite prestou-se voluntariamente à colaboração     do romance: pois se houve noite escura, ventosa, abundante de nuvens que pareciam     montanhas, de clarões sinistros, que semelhavam incêndios, de     ruídos estranhos que lembravam um pandemónio, foi aquela.

Pouco conhecedor ainda do terreno, tive de mais a mais a romântica     felicidade de me extraviar, e, depois de um quarto de hora de jornada, adquiri     a consoladora certeza de que andava errando cada vez mais longe do lugar a     que me dirigia.

No entretanto, o vento redobrava de violência; acumulou imensas nuvens     sobre a minha cabeça e como se umas contra as outras as espremesse,     à maneira de esponjas embebidas, vazou-as sobre mim bom uma quase destruidora     impetuosidade.

Debaixo de uma chuva daquelas, metamorfoseiam-se os países; os mais     amenos revestem um aspecto medonho, tétrico; vales que, vistos à     luz do Sol, fariam imaginar idílios e inspirariam poesias pastoris     aos estros mais rebeldes, assumem nestes instantes as cores sombrias e carregadas,     que empregavam outrora os poetas épicos para pintar a entrada das regiões     infernais, onde, como complemento de educação, iam uma vez na     vida os heróis de suas epopeias, como hoje vão a Paris os filhos-famílias     de classes abastadas.

Naquela noite, para mim de humildes recordações, tudo parecia     mudado; revolviam-se torrentes impetuosas, onde momentos havia se deslizavam     regatos; despenhavam-se cataratas, de onde pouco antes caia apenas, sacudida     pelo vento, a folhagem seca; profundavam-se lagos onde verdejavam lameiros;     e as águas subindo galgavam as pontes campestres, tornando-as em restingas,     os outeiros em ilhas, e os passeadores nocturnos, como eu, em náufragos     ou em Robinsons Crusoés em completa incomunicabilidade com o resto     dos viventes.

Imaginem, pois, minhas aventurosas manobras, para me guiar sem bússola     através daqueles arquipélagos insidiosos, no meio daquelas sombras     ameaçadoras e claridades pérfidas. Ainda hoje não sei     por que milagre do instinto consegui encontrar-me depois de muito molhado     e enlameado, no fim da minha jornada e à porta da tia Filomela.

Obra da inteligência é que por certo não foi; a cabeça     tinha abdicado e concedido plenos poderes às pernas, que se não     mostraram indignas de confiança.

Estas abdicações são ãs vezes mais profícuas     do que geralmente se julga.

Eu pelo menos lucrei naquela noite consideravelmente com elas.

Achara-me enfim no antro da sibila; a Circe ia apresentar-se a meus olhos,     rodeada dos indispensáveis utensílios da sua arte; em companhia     dos animais, colaboradores natos de magias e esconjuros, envolvida em uma     atmosfera de fumo exalado das fornalhas, onde se destilam em retortas e alambiques     filtros subtis que envenenam a alma, espécie de venenos de que os toxicologistas     nada puderam ainda saber, e que não figuram em nenhum dos seus catálogos.     A minha imaginação fazia-me esperar, senão absolutamente,     pelo menos alguma coisa de anilogo. O tipo de Norma, que Walter Scott imortalizou,     embora apequenada por a influência despoetizadora deste século     material, supunha eu ir encontrá-lo dentro da miserável casa,     à qual depois de muitos trabalhos e perigos conseguira aportar.

 

Acasa da tia Filomela — já que ela tinha a vaidosa pretensão     de assim a denominar — era de umas dimensões que permitiriam     a qualquer homem de menos que mediana estatura e nenhumas disposições     ginásticas, trepar da rua ao telhado sem mais auxílio que o     dos braços e das mãos. A porta obrigava a curvarem-se os visitantes     menos corpulentos que lhe transpusessem o limiar e a prestarem assim, em uma     reverência forçada, homenagem à hospitalidade, boa ou     má, da inquilina. Há portas que valem um tratado de educação.

"janelas não tinha. Era luxo de arquitectura esse, que não     merecera a aprovação do construtor. Por o mesmo processo de     simplificação suprimira ele a chaminé, confiando às     inumaráveis fendas do telhado e das paredes o cuidado de dar ao fumo     a conveniente saída. No seu entender, isto de chaminés era uma     espécie de excrescência arquitectónica, que desviava a     arte da pureza primitiva.

Outras muitas reformas introduzira na construção do edifício     o artista, sempre em harmonia com as suas ideias simplificadoras, tendo só     em vista o estritamente necessário e cortando pela raiz no supérfluo.

Era no século dezanove, um fiel reprodutor da arquitectura das primitivas     idades.

A chuva e o mau tempo haviam-me sugerido um excelente pretexto para reclamar     a hospitalidade da tia Filomela.

Em uma noite assim, nem uma bruxa poderia recusar-se a recolher qualquer     viandante, surpreendido, como eu, pelas iras atmosféricas.

Bati por isso à porta, e conheci, vendo-a ceder, que não estava     fechada.

Contudo não recebi resposta.

À segunda tentativa não obtive mais satisfatórios resultados.

Decidi-me a entreabri-la cautelosamente até que por uma estreita     fresta pudesse observar o interior do aposento.

A primeira tentativa foi baldada, pela quase completa obscuridade que havia     dentro. Afazendo, porém, a vista ao ténue clarão, que     ainda se espalhava no lar, pude enfim conseguir algum resultado.

A pequena área que compreendia o recinto e a simplicidade na mobília,     facilitaram-me o exame, e cedo adquiri a certeza de que estava desabitado      — a não ser que a inquilina, usando dos poderes sobrenaturais     que lhe atribuíam, se tivesse metamorfoseado em alguma coisa invisível.

Como a chuva no entretanto redobrava, julguei conveniente aproveitar- me     daquela porta aberta e entrar nos obscuros domínios da sibila.

A sala assumia a múltipla função de quarto de dormir,     casa de jantar, de trabalho, cozinha e estufa.

Aí se encontravam as insígnias deste complicado mester.

Via-se ao fundo, sobre carunchosos bancos de pinho, a miserável e     esfarrapada enxerga, recoberta apenas de uma manta, cuja primitiva cor poderia     ser objecto de longas discussões académicas; sobre o lar, e     rodeado de brasas amortecidas, um púcaro de barro negro, como o que     se fabrica nos arredores do Porto, substituía, com algum desapontamento     da minha parte, todas as imaginadas retortas, cadinhos e alambiques; fronteira     à cama uma avantajada caixa de pinho assumia as importantes atribuições     de mesa de jantar, segundo o fazia crer a boroa de milho negro meia partida,     a toalha dobrada, a bilha de água e o serviço de louça,     pela maior parte inválido, que a guarneciam.

Duas cadeiras mancas, de aspecto tristonho e, como um veterano mutilado,     ricas talvez só de recordações passadas, uma roca ainda     rodeada de estopa grosseira, um sarilho desguarnecido e, junto à porta,     velhos e ferrugentos utensílios de folha-de-flandres, onde vegetavam     cidreiras, arrudas, salva, erva-de-nossa-senhora e outros símplices     de medicina caseira, completavam quase todo o inventário.

Junto do borralho dois pequenos pontos luminosos de fulgor fosfórico     e sinistro me atraíram a atenção, Eram os olhos do gato     negro que, fitando-me, parecia espiar-me os movimentos com suspeitosa curiosidade.

No meio desta humilíssima e despretensiosa mobília, uma só     coisa me impressionou.

Sobre o prateleiro — tosca tábua de pinho firmada em dois longos     pregos introduzidos na parede e elevada por a tia Filomela à categoria     de despensa e aparador — divisava-se, ao lado de alguns objectos indispensáveis     ao seu limitado trato culinário, uma fileira de pequenos embrulhos,     de dimensões quase uniformes, e cujo papel acetinado contrastava tanto     com o aspecto da miséria daquele recinto como um diamante que se pregasse     nos andrajos de um mendigo.

Do exame desses volumes, uns já amarelados, outros conservando ainda     toda a alvura e nitidez do papel de boa fabricação, coligia-      se haverem sido ali dispostos em épocas sucessivas.

A minha curiosidade pôs-se a fermentar à vista deles.

Valor, pelo menos estimativo, devia o conteúdo, qualquer que fosse,     ter para a possuidora, que tão cuidadosamente o resguardava com aparente     solicitude, da qual nenhum objecto mais se lhe mostrava merecedor; mas por     outro lado, aquela desassombrada negligência com que os deixava expostos     ãs vistas, desafiando a curiosidade, que é tantas vezes prelúdio     ao desejo da possessão, esta casa abandonada de noite, esta porta nem     sequer cerrada, contrariavam as minhas conjecturas ; a não ser que     a tia Filomela confiasse demasiado na sua pouca popularidade e na repulsão     que inspirava para temer visitas importunas, sobretudo àquelas horas     da noite.

O que seria e de onde viera aquilo ? perguntava eu a mim próprio,     sem de mim próprio receber resposta.

Evidentemente não fora da caixa da tia Filomela que tinham saído     as belas folhas de papel velin que envolviam os misteriosos conteúdos.

Tive tentações de me aproximar, para os sujeitar a exame mais     minucioso; porém — confessarei aqui uma puerilidade minha —      os olhos do gato fizeram-me recuar. Não sei que a sangue-frio se possa     cometer uma acção repreensível, quando um gato nos olha     assim. Afinal de contas, é uma testumunha. Que importa que não     revele o segredo; mas sabe-o, e sempre que vos vir, rosnará lá     consigo — rosnar é o termo próprio — o que quer     que seja pouco lisonjeiro ao vosso carácter.

Não deve ser um martírio horrível vermo-nos de tal     forma compreendidos por um gato e quase na sua dependência? A mim pelo     menos aqueles dois olhos imóveis e observadores incutiram-me respeito,     não tive forças para arrostar com eles.

Mas onde estaria a estas horas a tia Filomela? Luisita havia-me falado de     uns célebres passeios nocturnos, em que ela se transformava em luminária;     e em uma noite daquelas, a falar verdade, a coisa tinha pouco de natural e     explicável pelas razões ordinárias que determinam os     nossos actos. Não se poderia dizer que a tia Filomela não tivesse     dado motivos justificatórios da reputação que havia granjeado.

Enquanto eu fazia estas considerações e completava o meu exame     sobre o interior da habitação, onde já principiava a     penetrar em grossas gotas a chuva, que lhe desabara no telhado, chegou-me     aos ouvidos um ruído particular que vinha de fora.

Antes que eu tivesse tempo de meditar o plano de qualquer apresentação     conveniente, a porta abriu-se... mas em vez da tia Filomela, que eu esperava,     entrou, juntamente com uma rajada de vento, que avivou a chama no lar, um     homem todo embuçado em um comprido gabão de saragoça,     com longas botas de montar e chapéu de abas largas derrubado sobre     a fronte. O aspecto, celeridade de movimentos e repentina aparição     deste homem tinha de facto alguma coisa extraordinária, que logo me     fez reconhecer nele a personagem suspeita, cujas visitas tão gravemente     desacreditavam no conceito público a tia Filomela. Em todo ele se revelava     certo ar de mistério e um quase receio de ser surpreendido, que imediatamente     me impressionou.

Como por instinto recuei, e envolvendo-me nas sombras do mais escuro canto     da sala, observei sem ser observado.

O homem, sempre rápido e cauteloso, aproximou-se do prateleiro, onde     a longa fileira dos tais embrulhos se achava disposta, e parou alguns instantes,     como que a enumerá-los.

A ideia que neste momento me passou pelo espírito, foi pouco lisonjeira     para a misteriosa personagem, que de um modo tão inesperado se havia     introduzido na mesma casa, onde, também não pouco estranhamente,     eu me encontrava àquelas horas.

Imaginei-o um ladrão e agourava mal do destino dos tais objectos     assim deixados em absoluta indefensão pela possuidora.

Mas, no momento em que já estava meditando a maneira de intervir     para me opor a esta repugnante infracção das leis de propriedade,     o homem, depois de sacudir lentamente a cabeça e encolher os ombros      — sinal inequívoco de profundas reflexões mentais —      tirou do bolso um volume em tudo igual aos já existentes, e, pousando-o     ao lado deles, saiu da sala com a mesma presteza com que o tinha visto entrar.

Isso acabou de me surpreender. Eu já não estava muito longe     de crer piamente nas revelações de Luisita e abjurar, na presença     desta cena misteriosa, a minha antiga incredulidade.

Os espíritos fortes sofrem em casos assim abalos formidáveis.

Eu achava-me em tais disposições de ânimo, que já     imaginava encontrar o que quer que era sobrenatural nos sons que naquele momento     produziam: o vento pelas fendas inumeráveis da casa, a água     a ferver sobre o lar, o respirar ruidoso do gato, e o cair cadenciado da chuva,     filtrada através do telhado.

 

MOMENTOS depois, novamente escutei o ruído de passos, mas desta vez     vagarosos e trôpegos, e as minhas vistas, seguindo a direcção     da porta, encontraram, destacando-se no fundo escuro do limiar, a figura pálida     e macilenta da tia Filomela.

Trazia na mão direita um pequeno lampião, que era provavelmente     ao que se reduzia a tão comentada luzinha do monte. Achava-me na presença     da bruxa do pinhal!

A divindade descera enfim ao templo.

A posição que eu continuava ocupando, envolvendo-me em uma     quase completa escuridão, evitou que a tia Filomela me descobrisse     logo ao entrar.

— Isto é um dilúvio! — dizia ela consigo, fechando     a porta. — E agora a lenha assim molhada vai-me sufocar com o fumo.

E, aproximando-se do lar, deixou cair do avental, que trazia sobraçado,     um montão de lenha miúda, que provavelmente andara toda a noite     apanhando no pinhal.

O gato, vendo a sua senhora próxima de si, soltou um grunhido surdo,     e, curvando desmesuradamente o dorso, principiou a espreguiçar- se     com voluptuosa languidez.

— Olá, Fusco! — disse a tia Filomela, batendo-lhe amigavelmente     na cabeça. — Então estás com frio, meu velho ?     Deixa que te vou acender uma fogueira, que nem para um magusto.

E, enquanto escolhia a mais seca lenha da regaçada que pudera obter     nas suas explorações, a velha, com a tal voz de que eu já     falei, pôs-se a cantar — cantar aquilo ! — uma cantiga usada     nos arredores e cuja letra extravagante e até burlesca, conhecida talvez     de muitos dos meus leitores, dizia assim:

— Donde vens, ó velha ? — Venho do eirado. — Que trazes na cesta ? — Bacalhau salgado. — Ai, oh I ai, que eu morro     Que eu estou pra morrer,     Nos teus braços, linda,     Bem pudera ser,     Bem pudera ser,     Ó meu bem.

E este em prolongava-se em uma nota indefinida, nasal, monótona, rouca,     desafinada e melancólica, que nem eu posso descrever o efeito que me     produzia.

A ária, a cantora, o lugar, as meias trevas que ali reinavam, o adiantado     da noite, e a tempestade lá fora em um crescendo furioso, tudo concorria     para me impressionar desagradavelmente.

E, no entretanto, estava dando tratos à imaginação     para descobrir a maneira mais conveniente de fazer, junto da tia Filomela,     a minha apresentação em forma.

A cantora continuava sempre na mesma toada o estribilho.

Depois levantou-se para avivar com os dedos a luz do lampião, que     suspendera em um prego da parede. Quando de novo ia a entregar- se ao trabalho     interrompido, deu de repente com os olhos em mim e involuntariamente recuou     por um movimento de surpresa.

Fui por isso constrangido a apresentar-me.

— Tia Filomela — disse adiantando-me — a noite surpreendeu-me     no pinheiral, e com a noite a trovoada; passei por aqui, vi a porta aberta,     umas brasas no lar, e não pude resistir-lhes. Peço desculpa...

Enquanto eu falava, a tia Filomela medira-me com os olhos de alto a baixo     e imediatamente se lhe desvaneceu no rosto a primeira expressão de     espanto, que se manifestara ao ver-me.

Foi já com a voz cheia de segurança e de completa impassibilidade     que me respondeu: — Fez bem; era uma imprudência meter-se assim     ao caminho.

aquilo nas azenhas está um mar. E para quem não conhece os     sítios, tanto pior. O que eu sinto é ter tão má     casa para o receber.

Em seguida foi a um canto procurar a menos manca das duas únicas     cadeiras que possuía, estendendo-lhe em cima uma velha, mas lavada     toalha de linho, e oferecendo-ma, acrescentou: — Faça o favor     de se sentar e perdoe.

— Obrigada, tia Filomela, não se incomode por minha causa.     Continue no seu trabalho. Estava a escolher a lenha, peço-lhe que continue.

— Então se me dá licença... É que, vê     o senhor? —prosseguiu ela, deitando-se de novo ao serviço —      esta lenha assim húmida levanta um fumo, que sufoca a gente. É     preciso primeiro chegá-la ao ar do lume para a secar. Não tem     dúvida, que por hoje pouca me é precisa já. Sabe o senhor?     Cá a gente prepara depressa os seus cozinhados, não temos vagar     para temperos. Uma fervura faz um caldo, um cinzeiro coze um ovo, um tijolo     quente assa uma sardinha ou uma febra de bacalhau.

Eh! eh! eh! É que nós também não tínhamos     tempo para mais.

Não se vive para cozinhar, cozinha-se para viver. Não é     assim? Lá os senhores foram criados em outra educação,     não admira. A desgraça está quando se nasce pobre e se     tem gostos e vaidade de rico.

É a perda da criatura.

E, fazendo esta reflexão, a velha, que aliás não mostrava     primar em laconismo, calou-se por algum tempo, parecendo absorvida por um     pensamento doloroso.

— Mas, tia Filomela, o seu sistema de fazer provisão de lenha     é que me não parece dos melhores — disse-lhe eu passado     tempo. — Não lhe era preferível para isso a luz do Sol     à desse lampião, que nada alumia? A tia Filomela meneou a cabeça     ao ouvir-me.

— O senhor diz bem. Mas não sabe que de dia estão todos     esses caminhos por aí cheios de rapaziada, que não me deixa     em sossego.

Crianças, coitadas! Mas quando se tem sessenta e quatro anos como     eu, a paciência vai fugindo e nem sempre se ouvem com a humildade, que     Deus manda, as injúrias, mesmo que venham da boca das crianças.

Melhor é fazer por não ouvi-las. De noite deixam-me ao menos     em paz. Se todos têm medo de mim! Vê o senhor? Por coisa nenhuma     do mundo, pessoa destes arredores quereria entrar, como o senhor entrou, na     casa da tia Filomela, e então a que horas! Logo que vi aqui gente conheci     que era de fora da terra.

— E de onde provém esse medo ? — Ora! pois não     sabe que me chamam a bruxa do pinhal ? Eh! eh! Havia neste riso um fundo de     tristeza, que me compungiu.

— Contudo, tia Filomela, faz mal em deixar assim desamparada esta     casa; da mesma maneira que eu entrei, outros o podem fazer...

— Que entrem; não serei eu que lhes feche a minha porta. Nunca     a fechei em tempos mais felizes, quando me podia recear dos maus; hoje seria     uma loucura.

— Mas olhe, tia Filomela; vou dizer-lhe uma coisa.

— Diga.

— Quando eu me aproximava, pareceu-me ver sair daqui alguém     que, pela figura, mostrava ser um homem corpulento e de aspecto suspeitoso      — disse eu, não querendo revelar ainda de todo a cena que presenciara.

Ao ouvir estas palavras, a tia Filomela desviou os olhos na direcção     do prateleiro e fixou-os por algum tempo na fileira dos pequenos embrulhos     que me haviam já por vezes atraído a atenção.

— Ah! mais outro! — disse ela a meia voz, ao passo que se lhe     desenhava nos lábios um sorriso amargo e quase sarcástico —      continuam ! eles se cansarão. — E voltando-se para mim: —      Viu sair há muito esse homem? — Haverá alguns minutos.

— Só eu o não hei-de ver um dia? queria dizer-lhe...—E     de repente, como fugindo à corrente de pensamentos que a arrebatava,     continuou em tom muito diverso: — Sempre está um tempo! Louvado     seja Deus! Parece que arrebentou alguma nuvem. O senhor há-de vir muito     molhado. — E, acto contínuo, apalpando-me a roupa, acrescentou     com uma exclamação de surpresa pouco melodiosa; — Santo     nome de Jesus! vem num lago! chegue-se aqui mais para junto do lume! —      Deixe, tia Filomela, deixe; isto não me faz mal nenhum.

— Que diz ? Há lá coisa como a roupa molhada no corpo     ? — É um reumatismo certo. A água é inimiga dos     ossos — acrescentou ela em tom aforístico. Eu observei-lhe: —      Pois olhe, tia Filomela, hoje usam os médicos lá por a cidade,     mandar tomar aos doentes banhos de chuva, até para moléstias     dos ossos, se me não engano.

A tia Filomela encolheu os ombros.

— Isso... os médicos de hoje! Olhe, senhor — continuou     ela, avivando por meu respeito a labareda no lar — eu bem sei que sou     uma ignorante; mas toda a minha vida vi tratar as bexigas com agasalho e chás     para fazer suar; porque, vê o senhor? com o suor saem cá para     fora todos os maus humores e o veneno que anda na massa do sangue.

Pois, senhores, não mandou o médico da minha terra, o Senhor     lhe perdoe, abrir as janelas e arejar o quarto de um pobrezinho que estava     com bexigas! Em termos delas se assanharem, que foi afinal o que aconteceu.

Por isso dizem... Eu cá, olhe, vê aquelas panelas? Aí     está a minha medicina. A gente há-de morrer quando tiver os     seus dias contados, e os médicos não servem senão para     fazer uma pessoa gastar dinheiro.

Este cepticismo médico da tia Filomela era talvez o único     ponto pelo qual ela se podia dizer uma pessoa da sua época. Ainda assim,     com uma diferença importante, é que nela esta descrença     sobreviveria ao menos, creio eu, aos prelúdios da mais insignificante     indisposição.

— Mas, tia Filomela — disse-lhe eu aproximando-me do fogo —      Deus manda-nos olhar pela nossa saúde, e então...

— É fazer por não estar doente, é fazer por não     estar doente, porque depois o remédio é entregarmo-nos nas mãos     do Senhor. Sai para acolá, Fusco — acrescentou ela, desviando     o gato, que se lhe viera roçar voluptuosamente pelo vestido; e daí     a pouco: — Quer o senhor um chá de cidreira ? — Agradecido,     tia Filomela.

— Olhe que ainda tem que ir para longe.

— Pois sabe onde eu moro ? — O senhor é o hóspede     que chegou há dias à quinta do senhor beneficiado; não     é ? — Exactamente.

— Logo me pareceu. Não sei como se meteu ao caminho com uma     noite destas.

— Fui à caça e...

A velha pôs-se a olhar em roda significativamente, e fez-me compreender     que havia dito uma tolice. Andar à caça com uma simples vara     de castanho, um longo capote e àquelas horas, era de facto uma esquisitice     inexplicável. Emendei o melhor que pude o desacerto, acrescentando:      — Enviei a arma para casa por o criado, e persuadindo-me que conhecia     melhor os caminhos, perdi-me.

— A caça é um mau divertimento — disse a tia Filomela,     dispondo o braseiro para a operação culinária. —      Já têm sucedido muitas desgraças por causa dela. Um tio     meu, que Deus tenha em glória, aliás muito bom cristão     e temente a Deus, ia fazendo uma morte por via da caça.

Muitas vezes lho ouvi eu contar, quando era pequena. Andava caçando     ele e um primo, que depois foi para o Brasil, e lá casou — e     por sinal que não encontrou a felicidade que esperava; era já     quase noite, e tinham-se separado um do outro, quando meu tio, ao atravessar     uns campos, julgou ouvir o rumorejar de folhas em uns silvados vizinhos, e     suspeitando ser caça escondida, preparou a espingarda e aproximou-se;     mais perto, pareceu-lhe ver por entre as folhas bulir uma coisa escura, e     ainda que pelo adiantado da hora não pudesse bem afirmar-se, não     teve dúvida que seria alguma ave, e, fazendo a pontaria, preparava-se     já para disparar, quando viu sair detrás do silvado, onde se     escondera para lhe meter um susto, o primo que lhe gritou: — Ai, João,     que me matas ! —Meu tio deixou cair logo a arma e ficou como morto.     Pois desde então nunca mais o viram caçar. E muitas vezes dizia,     ainda me lembro bem, que nem com armas vazias era prudente brincar; porque     o demo é capaz até de carregar uma tranca.

Passado algum tempo de meditativo silêncio, a velha acrescentou: —      E depois, que mal nos fazem os passarinhos do Senhor? — E, dizendo isto,     estendia na pedra quente do lar duas sardinhas, que deviam constituir a parte     principal da refeição da noite, — A tia Filomela tem razão;     mas também, que mal nos faziam as pobres sardinhas, que se vão     agora tostar nesse brasido e que já exalam daí um cheiro, que     me faz crescer água na boca? — Apetecem-lhe ? — Convidam.

— Estão às suas ordens.

— Agradeço, mas a tia Filomela tem-nas para a ceia e eu não     quero...

— Graças a Deus, que ainda ali estão mais. — E,     sem esperar nova observação da minha parte, estendeu ao lado     das duas já meio assadas, outras curvas e azuladas, que pareciam, segundo     a frase das vareiras, ainda a saltar vivas.

E dentro de alguns minutos achava-me eu ao lado da tia Filomela, participando     da sua mais que sóbria refeição.

Não há nada para aumentar a intimidade entre duas pessoas     como um repasto em comum.

O estômago é um grande conciliador; tem um poder persuasivo     tal, que poucos corações lhe resistem, quando ele prega a concórdia      — o que sempre fez, estando satisfeito. Cedendo, pois, à familiaridade     que pouco a pouco entre nós se estabelecera, perguntei à tia     Filomela pormenores do seu modo de viver actual.

— A minha vida conta-se como um padre-nosso rezado. Fio, apanho lenha     e farrapos, e com isso vou vivendo. Não é preciso muito para     uma mulher da minha idade se sustentar, e por isso...

— E está há muito nesta terra ? — Há cinco     anos.

— Até aí onde residia ? Em vez de me responder, pôs-se     a olhar para mim daquela maneira particular às pessoas abstractas,     que nos dá a conhecer, sem ilusão possível, a nenhuma     atenção que prestaram à pergunta.

— Veio de longe para aqui ? — insisti eu.

— De muito longe.

— Admira como nessa idade ainda se resolveu a mudar de terra.

De ordinário há raízes a prenderem-nos aos lugares     onde nascemos e onde passámos os nossos primeiros anos, e é     sempre doloroso cortar pelas raízes.

— É, é, mas...

Há reticências que são mais definitivas do que um ponto     final.

Tudo está em lhes dar certa modulação, como aquela     que eu ouvi neste momento à tia Filomela.

Percebi que por esse lado se me fechara a porta a indicações     ulteriores, e tomei outra direcção.

— Então é esta a sua morada ? — Como vê.     Aqui durmo, aqui janto, aqui trabalho e aqui hei-de morrer.

— Quem sabe ? — Sim, quem sabe ? diz bem o senhor. Mal pensaria     eu há seis anos que tão longes terras me haviam de guardar os     ossos.

A melancolia da observação conseguira até disfarçar     aos meus ouvidos o timbre desagradável daquela voz.

Pus-me a olhar para esta mulher por algum tempo em silêncio.

Suspeitava que eia devia ter sofrido no passado, mas havia naqueles lábios     uma espécie de enérgica constrição, que me tirava     a esperança de poder extrair de lá o menor segredo, se segredo     houvesse.

Levantei-me e principiei a passear no quarto. Ela conservou-se sentada,     de braços cruzados, balanceando o corpo com vagaroso movimento e como     sem consciência da minha presença ali. Parei, com intenção,     diante do prateleiro, que tanto me excitava ainda a curiosidade.

Esta táctica da minha parte não me valeu, porém, mais     satisfatórios sucessos.

— Tia Filomela! — exclamei enfim ex-abrupto, impaciente já     com tanta indiferença; — Senhor! — Este papel vem de longe     ? — Que papel ? — O destes pequenos volumes.

— Ah! Pareceu-me alguma coisa embaraçada com a pergunta, e     respondeu, suspirando: — Nem eu sei...

— São por certo objectos da cidade; encomendas, não!      — Talvez...

Olhei para ela, fingindo uma surpresa que estas hesitações     e respostas ambíguas me tivessem causado; ela acrescentou: —      Da cidade vêm, mas... não encomendados.

Na maneira por que pronunciou aquele — encomendados — adivinhava-      se um pensamento oculto que não pude, porém, determinar.

— Aí tens, Fusco — disse ela em seguida, dando ao gato     os restos da nossa modesta refeição.—Vá, hoje podes     regalar-te Depois, chegando à porta, continuou: — Felizmente     que lá vai já o mau tempo. O vento virou ao norte.

Maneira muito delicada de dar a entender que iam sendo horas de terminar     a minha visita.

Aceitei a advertência.

— Tia Filomela — disse-lhe eu — é tempo de me retirar;     mas não posso consentir que a minha visita lhe fique sendo pesada.     As suas posses não são grandes, consinta-me por isso que eu     remunere.., A tia Filomela fez um gesto com a cabeça respondendo: —      Eu sou de uma família pobre, mas na qual se ensinava às crianças     a não vender a hospitalidade.—E depois sorrindo acrescentou:--      São costumes de soberba que trouxe para a desgraça. Muito boas     noites, meu senhor, e Deus o guie.

— Mas, tia Filomela...

— Adeus, adeus. E olhe se vai cair, tenha cautela.

Não havia que lutar da minha parte; correspondi-lhe ãs boas     noites e pus-me a caminho de casa.

 

BONITO ! — dizia eu comigo mesmo enquanto ia vencendo o melhor que     podia as sucessivas dificuldades que parecia de momento para momento surgirem-me     debaixo dos pés. — Passo uma hora na presença desta mulher     enigmática, suspeito-lhe um segredo, vejo que há na existência     dela um mistério, e retiro-me sem ter penetrado este carácter,     sem haver decifrado este enigma. Quando hei-de eu ser observador ? A balda     dos rapazes naquele tempo eram estas aspirações a profundos     conhecedores do coração humano. Deus perdoe a Balzac, que foi     o autor involuntário dessa mania, que afinal de contas não passava     de impertinente. Todo o adolescente imberbe se considerava talhado a molde     para analista do coração, e colocava-se diante de qualquer pessoa     com o sobrecenho contraído, o olhar fixo e o ar gravemente sisudo,     que caracteriza o observador pur sang.

Dessa época data o uso imoderado das lunetas, não reclamadas     por defeitos visuais, mas como emblema de espírito analítico     e investigador.

Um suposto estudo de caracteres era o que mais tempo absorvia aos rapazes     nas universidades e nas academias. Pospunham-se, com grande desespero dos     professores, os Laplaces, os Savignys, os Says, os Richerands e os Hufelands,     ao Balzac, George Sand e a todos os romancistas da escola filosófica.

Eu andava um pouco imbuído do mal da época; para que hei-de     negá-lo? Não obstante nunca ter sido dos mais crentes nesses     tais olhares, com privilégio de estiletes, que vos vão direitos     ao coração, para desalojar debaixo da mais imperceptível     prega onde se aninhara, o vosso sentimento predominante, a mola oculta do     vosso carácter, adoptara contudo também as minhas teorias a     tal respeito; tão boas como outras que ouvia expender nas mesas de     mármore e no seio da atmosfera asfixiante dos nossos botequins. Por     vezes até cheguei a querer realizá-las na prática.

Ai, porém, é que me esperavam grandes desilusões, que     foram pouco a pouco abalando o aparatoso edifício da minha ciência     do coração humano.

De cada vez que ensaiava o poder perscrutador do meu olhar nas menos dissimuladas     criaturas do Senhor, chegava a resultados realmente pouco de animar, verdadeiros     disparates, que devera registar aqui para instrução e experiência     dos leitores. Porque sabido é que os disparates também encerram     instrução.

Uma das minhas derrotas mais completas acabava de experimentá- la     na presença da tia Filomela; e o mau humor, que resultara dal, seguira-me     até casa, onde cheguei depois da meia-noite.

Deitei-me descontente comigo e incapaz de tudo que fosse adormecer.

Quando, porém, me dispunha a realizar esta única aptidão     racional que sentia naquele momento, uma visita mo impediu.

Junto do meu quarto dormia o filho morgado da hospitaleira família     que me acolhera em casa; este rapaz, meu antigo condiscípulo e em quem     a tal bossa da análise do coração humano possuía     também um desenvolvimente extraordinário, era de mais a mais     sujeito a insónias ; e, por isso, percebendo-me no quarto, vestiu à     pressa o robe de chambre e veio visitar-me.

— Então ainda agora ?! — disse-me ao entrar e com maneira     de admirado. — Que diabo fizeste tu até estas horas, em uma terra     selvagem como é o meu pátrio ninho? Aposto que os olhos de alguma     patrícia...

— Adivinhaste. A causa da minha demora foi uma patrícia tua      — de adopção pelo menos.

— Ainda Luisita ? — Não; e desde já te previno     que te não dês ao trabalho de quereres adivinhar, porque nada     consegues.

— Porque nada consigo! Mas se eu me sinto habilitado para te fazer     inventário completo de todas as mulheres em circunstâncias de     se apanhar por causa delas um reumatismo para o resto da vida ? — Ainda     assim.

— É singular! — Olha, não quero abusar da minha     posição. A mulher por quem me sujeitei aos rigores desta endiabrada     noite, foi a tia Filomela.

— Quem é a tia Filomela? — A bruxa do pinhal.

— Estás a caçoar ? — Venho de casa dela, onde     ceei.

— E que diabo foste lá fazer ? — Estudá-la.

— Ah! e então ? — disse o meu amigo com um tom de voz     que mostrava achar de sobra justificada a minha excentricidade por um motivo     daqueles.

— O resultado da empresa fez-me lembrar de quando dantes, nos nossos     tempos de estudante, me sentava à banca com firmes tenções     de me pôr ao facto da lição do dia seguinte e, afinal,     sem bem saber como, ia-me deitar, deixando a pobre intacta, como a procurara.

— Pois olha, eu já estudei essa mulher e tenho o meu juízo     for.

mado a respeito dela.

— Ora, pois, vamos lá a ver isso. Mal sabes como eu estimo     sabê-lo. Principia.

O meu amigo acendeu um charuto, recostou-se na cadeira, ele.

vou os pés à altura do fogão, e expôs-me assim     o resultado do seu estudo: — O coração do homem...

— Perdão — disse eu interrompendo-o — poupa-me     a dissertação sobre o coração do homem em geral,     e limita-te ao da tia Filomela em particular, que já é bastante.

— Seja. A tia Filomela — continuou ele — ficou definida     para mim depois de alguns momentos de observação. Regra geral;     quando à aparências da miséria vires associadas as precauções     da riqueza, a desconfiança que acompanha a possessão, a reserva     do egoísmo, acredita que uma única solução pode     ter o problema do carácter do individuo em quem se observa esta, deixa-me     assim chamar-lhe, antinomia de manifestações.

— Chama-lhe o que quiseres e continua — disse eu bocejando.

— O sentimento que nele predomina — continuou o meu amigo —      deve ser de natureza a bastar a si mesmo para a sua satisfação     total, a tirar de si os meios de a realizar. Não aspira a irradiar-se;     pelo contrário, tende à concentração; não     é o farol que transmite em roda de si a luz a distâncias longínquas,     é o revérbero que reflecte os raios do foco para o foco de onde     partiram. O orgulho deleita-se em observar com o olhar de águia tudo     quanto lhe fica inferior; a glória folga de ver o reflexo do seu esplendor     nos semblantes extasiados; o amor é um som que reclama um eco... mas     há um sentimento que dispensa o concurso, que busca a solidão,     que intencionalmente semeia em volta de si as aversões — é     a avareza...

Eu nesta passagem adormeci e não sei por isso até que ponto     o meu amigo levou à evidência aquela suposta qualidade da tia     Filomela.

Sinto-o por não poder registar aqui uma bem elaborada dissertação     metafísica, que só podia pecar em exactidão e mais nada.

 

NÃO foi, porém, impunemente que arrostei na véspera     com a intempérie de uma noite ultra-romántica.

Na manhã do dia seguinte acordei rouco, a ponto de julgar prudente     não sair de casa.

Ao meio-dia, encontrei-me com Luisita, por aquele tempo empregada em não     sei que serviço campestre na quinta onde eu residia.

— Bons dias, Luisita — disse-lhe eu — vê o resultado     da feiticeira? Estou rouco. O bruxedo atacou-me a garganta.

— Que quer dizer? — Que visitei ontem à noite a tia Filomela...

— Ora! — Palavra de honra, e até me deu de cear com a     melhor vontade deste mundo.

— É impossível que se atrevesse...

— Posso jurar-lhe.

— E que viu lá? — perguntou a rapariga, fitando-me aterrada.

— Ora o que vi? A casa de uma pobre mulher que vive a mais santa vida     deste mundo, ela e o seu gato, animal de hábitos caseiros, muito amigo     do borralho e que para Diabo me parecia bem morigerado.

— Então não viu o cabo da vassoura ? — A falar     verdade, tanto não reparei; mas também, se isso é prova     de feitiçaria, aposto que nem a Luisita se salva! Ela riu-se.

— Olhe: quer então que lhe diga o único objecto menos     natural q u e descobri em casa da tia Filomela? — Foram as cartas ?      — Não. Ela não costuma dar partidas.

— Foram...

— Foram uns embrulhos de papel fino e do mais fino, postos em carreira     sobre um pobre prateleiro de pinho. Eram, pode dizer-se, a única riqueza     da casa.

— Ah! pois não sabe o que isso é ? I — Eu não.

— São os novelos I — Os novelos ? A expressão     da fisionomia com que a Luisita acompanhou aquela palavra foi tal que, não     obstante eu não lhe compreender bem a verdadeira significação,     não pude deixar de pela minha parte manifestar quase igual estupefacção.

— Mas que novelos ?

— Que novelos ? Os dela. Pois não sabe que as bruxas têm     todas uns novelos? — Ah! não sabia. E para que querem elas isso?      — É que todo o seu poder está ali, e quando morrem...

— Ah! então as bruxas também morrem ? — Morrem,     sim, que dúvida.

— E então que fazem elas quando morrem ? — Deixam os     novelos às pessoas que mais estimam.

— E é boa ou má a herança? — Deus nos livre     dela.

— E porquê ? morre-se também ? — Nada, não     senhor.

— Então ? — Fica-se sendo feiticeiro e...

— E acha isso mau ? — Está a brincar ? — Eu por     minha parte não se me dava, e Deus queira que a tia Filomela se lembre     de mim no testamento.

— Que diz, que diz? não repara que está dizendo um pecado?      — É ver como a tia Filomela lhes quer, aos tais novelos, que     tão resguardados os traz.

— Se neles está todo o seu condão, — Mas, por     outro lado, sai de noite e deixa-os assim tanto à vista, que tentam     os mais escrupulosos. Eu confesso que se não fosse o — Quem se     atreveria a tocar-lhes ? Não, que só a vista deles faz tremer.

— Eu não tremi.

— Ora! se os senhores são hereges! Esta reflexão tapou-me     a boca.

Luisita deixou-me para ir contar às amigas que a tia Filomela tinha     uns novelos, que eu os vira e que só de os ver ficara sem fala, a ponto     de ainda me achar rouco; e à semelhança das vizinhas de que     fala o Lafontaine, as ouvintes divulgaram a história de maneira que,     pouco tempo depois, me voltou aos ouvidos debaixo da seguinte versão     e tão transfigurada, que me custou a reconhecê-la.

A tia Filomela tinha uns novelos — isso era ponto incontestado.

Uma noite, passeando eu pelos campos, fora atraído para casa dela     por um cantar de sereias e por uma corça da alvura da neve; a corça     andava, andava, e eu, cego com tanta beleza, ia-a seguindo por montes e vales,     por abismos e ribanceiras, como se tudo fora planície, até que     à entrada da casa o canto das sereias transformou-se de repente em     uma surriada infernal e em um frenético bater de palmas, que atordoava;     a corça metamorfoseou-se ao mesmo tempo em um gato preto que me saltou     ao gasnete, e logo um bando de feiticeiras principiou a dançar em volta     de mim uma valsa diabólica. Eu caí logo a dormir, já     se sabe, e elas então a envolverem-me com o fio dos tais novelos e     com uma pressa que metia medo. Era porque antes da meia-noite devia a tarefa     ficar pronta e eu todo envolvido no fio e a servir de núcleo àquela     espécie de monelho. Então seria a morte certa, e elas poderiam     à vontade e sugar-me o sangue, do qual pelos modos tinham grande apetência.

Mas, por felicidade minha, no momento em que davam uma volta ao fio —      alguém dizia até ser a penúltima — soou a meia-noite,     e o canto terminou. O fio partiu com um estampido que parecia de uma bomba,     houve o fumo e o cheiro de enxofre do estilo, o gato preto fugiu por a trapeira,     as feiticeiras desapareceram feitas em morcegos, tia Filomela caiu redonda     no chão e eu achei-me em um pântano, metido em água até     ao pescoço e sem fala! Um pobre homem que passava tirou-me do atoleiro,     mas quase em perigo de vida. O que ninguém dizia era quem tinha sido     esse pobre homem que passava; razão pela qual não pude manifestar-lhe     o meu eterno reconhecimento, como fora do meu dever. Alguns acres- :entavam     ainda à laia de moralidade, que o motivo destas minhas desrenturas     fora a incredulidade que professara na véspera a respeito de bruxas     e feitiços. À pessoa de cuja boca recebi esta edição,     correcta e aumentada, da minha aventura nocturna, tentei debalde fazer compreender     toda a escandalosa falsidade dela. Quando negava, respondiam- me sorrindo,     que a memória não conserva estas coisas, sem que por isso elas     deixem .de ter existido. Contra tal modo de argumentar, não valiam     objecções Cumpria, pois, resignar-me com o papel que me tinham     distribuído naquela espécie de mágica de grande aparato     e revestir-me das romanescas aparências de Roberto de Normandia, de     endemoninhada memória.

Não era feio e tornava-me o herói da terra; porém custou-me     haver assim involuntariamente concorrido para aumentar a má reputação     de que havia muito gozava a tia Filomela, a qual desde então ficou     sendo universalmente odiada em todas aquelas freguesias circunvinhas.

Passaram-se quase duas semanas de continuado Inverno, durante ! quais raras     vezes saí, e essas apenas para casa do boticário, onde me divertia     a ouvir da boca dele como novidades, coisas que tinham já envelhecido     antes de eu partir da cidade, bem como profundas considerações     suas sobre o destino das nações europeias. Este botiirio era     um decidido amante da ordem, e professava por os perturbadores do equilíbrio     político um ódio francamente cordial. Eram dignas e se ouvir     as expressões virulentas e as frases acerbas de que se servia então.

Em matéria de revoluções pensava que as piores eram     as que procediam de baixo para cima. À de França chamava-lhe     um escândalo e sangue e de horrores; em relação ao poder     temporal do Papa dizia: que o melhor era não bulir no que está     quieto; lá os seus homens eram Palmerston, Palmela e o general Concha,     este—por acabar com a, patuleia — palavras suas. Falava vagamente     na dificultosa questão do Oriente, a qual, segundo ele, se poderia     resolver por um plano, que nunca pude conseguir que me revelasse; a respeito     da Polónia, muitas vezes lhe ouvi eu dizer: assim o quiseram, assim     o tenham, frase sibilina, que igualmente nunca desenvolveu.

Meses depois dos sucessos que vou narrando, indo visitá-lo, encontrei-      o muito entusiasmado com o engrandecimento das raças latinas ao qual,     à semelhança de grandes capacidades políticas, filia     ainda hoje todos os acontecimentos e que, segundo ele, é o pensamento     reservado de Napoleão. Palmerston, que para este seu entusiasta ainda     vive, promete sério apoio, sem o qual nada se faria, impondo só,     como condição, a anexação da Dinamarca à     Inglaterra.

Esta última novidade, cujo interesse político os leitores     devem apreciar, na qual o homem depositava a mais fervorosa crença,     viera- lhe, disse-me, de origem fidedigna.

Não sei se me será fiel a memória para poder reproduzir     aqui na Integra o substancioso diálogo, travado dessa vez entre mim     e este sábio diplomata.

— Verá! verá! — dizia-me o homem, aviando dez-réis     de farinha de linhaça a um freguês. — O ponto está     que eles queiram. As raças latinas hão-de tomar o lugar que     lhes compete.

— Não duvido.

— É certo. Napoleão III disse que havia de deixar assinalado     o seu império por essa grande obra.

— Mas como entende o senhor o engrandecimento das raças latinas     ? — É que tudo isto há-de vir a formar três grandes     impérios: a França com a Bélgica e a Holanda; a Itália     governada toda pelo Papa; e Portugal, ao qual se há-de dar a Espanha     e restituir o Brasil.

— Bonita combinação! E para quando será isso     ? — Não sei; mas fala-se em que Napoleão disse ao seu     ministro: Meu duque...

— Que duque era esse ? — Um dos ministros...

— Adiante.

O meu interlocutor pelos modos fazia duques natos a todos os ministros.

— Meu duque, o ano que vem há-de presenciar grandes acontecimentos.—      Real Senhor!—respondeu o ministro — saiba vossa majestade, que     aqui estamos nós para cumprir as suas ordens. E então o imperador,     batendo-lhe no ombro, disse-lhe: — Conto convosco! — É     importante essa notícia, mas que pensa disso Palmerston? — Palmerston     escreveu uma nota ao embaixador em Paris, na qual lhe dizia: «Milorde.     A Inglaterra não corta as asas às legítimas aspirações     dos povos, enquanto elas não espezinham os seus direitos nação     livre. Sede prudente e deixai marchar o progresso. Deus vos guarde.»      — E o embaixador em vista disso...

— Em vista disso, limitou-se a reclamar a anexação da     Dinamarca, por causa do equilíbrio.

— E consegue-o ? — Decerto que sim. Eles não querem descontentar     o velho lorde.

De uma vez, no conselho de ministros em Paris, houve quem dissesse, falando     de Palmerston: « Ora deixem lá o bom homem; daquela idade só     mete medo a crianças». E sabe o senhor o que disse o imperador?      — Eu não.

— As velhas raposas, meus senhores, são as mais ardilosas e     atrevidas.

E comunicando-me esta profunda sentença de Napoleão III, que     não sei por que via privativa lhe chegara ao conhecimento, o meu interlocutor,     piscando os olhos, assumia um ar de completa aquiescência, que devia     lisonjear Palmerston, se o tivesse observado.

Nisto interrompeu o discurso de política transcendente, para pesar     rneia onça de raspa de veado, e onça e meia de óleo de     rícino, e depois continua: — Muito se há-de ver em pouco     tempo! O latim há-de deixar de ser língua morta.

— Ah! pois ainda viremos a falar latim! — Decerto. Isso depois     é questão de anos. Em França já se estão     organizando os estudos dos liceus nesse sentido.

— Não será então mau irmos desde já recordando     o há muito abandonado Novo método! — Abandonado ? Não     por mim, que nunca dei de mão ao estudo dos clássicos latinos.

Era esta outra corda sensível do pobre homem: supunha-se um profundo     latinista, não obstante as continuadas silabadas com que deixava a     escorrer sangue a língua de Cícero e de Virgílio. Desculpe-     -se-me a ambiguidade da expressão.

Depois passou a convencer-me dos erros de palmatória que tinha cometido     o general Mac Clelan nas campanhas da América; falando de Garibaldi,     chamou-lhe um troca-tintas, e a respeito do México, disse-me, meneando     a cabeça com ar ponderoso: Eles hão-de pagar o que fizeram aos     Cristãos. — Como se vê, da latitude do México por     diante principiava a reinar grande cerração has ideias do nosso     diplomático.

Foi na instrutiva conversação deste ilustre pensador que passei     algumas horas dos quinze dias chuvosos e escuros que sucederam ao da minha     visita à bruxa do pinhal.

 

UMA tarde, em que o aspecto do céu se mostrava já mais favorá     vel, e uma extensa zona de púrpura, prenúncio certo de favo.

ráveis reformas meteorológicas, tingia todo o ocidente, onde     o sol acabava de mergulhar-se, dei maior latitude ao meu passeio, estendendo-      o até ao ponto principal da reunião das raparigas. Fui-as encontrar     juntas em grupo, voltadas para o lado do monte e aparentemente empenhadas     em uma discussão, que prometia ser interressante.

Aproximei-me.

— Nada, nada — dizia uma, como em conclusão dos argumentos     que extensamente acabara de expender — aquilo foi decerto coisa que     lhe sucedeu.

— Esperem, esperem — exclamava outra, fazendo o gesto de quem     procura alguma coisa na reminiscência — a última vez que     eu a vi foi... foi... ora deixem ver... foi ha seis dias, lá em baixo     nas azenhas.

Bem me lembra. Ia muito amarela e mal se podia arrastar. Pareceu- me até     que gemia.

— E que lhe disseste? — perguntou Luisita, interessada com as     palavras da companheira.

— Eu?! Se mais pudesse, mais corria. Arrenego tais encontros! Olhem     os meus pecados.

— E há muito que eu não vejo a luzinha pelo monte.

— Nem eu.

— Nem eu.

Disseram umas após outras, várias vozes.

— Há-de haver oito dias que a mim me disse a ti'Rosa do Aidro     que a mulher tinha decerto a espinhela caída — acrescentou, com     ar de quem comunica uma importante novidade, a mais trigueira das preopinantes.

— Al temos outra! Bem sabe a ti'Rosa também o que são     espinhelas caídas! — disse com mau humor a primeira que falara.

— Não, não sabe; que ela não tem o primo endireita     em Fiães, sim, — E anda a outra sempre a encher os ouvidos à     gente com o seu primo en-di-reita. Nem que nunca se visse um endireita senão     aquele! — Olhem! olhem! Põe-te agora a dizer mal dele também!      — Grande endireita, que deixou ficar mouco o nosso António, depois     de ganhar com ele um par de moedas.

— Sim? pois olha que nem os médicos da cidade têm que     lhe dizer.

— Credo! credo! Santo nome de Jesus! Nem que fosse algum doutor de     capelo!

Enquanto as duas continuavam discutindo a ciência ortopédica     do primo da ti'Rosa do Aidro, prosseguia o resto das circunstantes no assunto     primitivo.

— O que eu posso dizer é que há muito não vejo     sair fumo da casa dela.

— A mulher morreu decerto ou está para isso.

— E se se fosse ver? Também para a deixar assim... —      disse Luisita, como a aventurar uma opinião, que não tinha firmes     tenções de sustentar.

— Vá lá quem quiser, nanja eu — respondeu imediatamente     uma mocetona de constituição atlética.

— Ir lá?! Fazer o quê? Então vocês julgam     que se vai assim sem mais nem menos a uma casa daquelas? — Perguntem     ali ao senhor — dizia outra, designando-me com esto.

Estas palavras fizeram-me dar mais atenção à conversa.

— Quem lá entrasse, tinha logo o gato preto a saltar-lhe ao     pescoço.

A referência a esta evolução ginástica do gato     preto acabou de me demonstrar que se tratava da tia Filomela.

— Então que há de novo?— perguntei, aproximando-rne.—De     quem falavam? — É que pelos modos — respondeu-me uma das     do grupo — andam agora os demónios no pinhal.

— Fazendo o quê ? — Para levarem a alma da bruxa.

— De qual bruxa? — Da tia Filomela.

— Aí voltam as cismas! Mas que sucedeu à tia Filomela     ? — Há muito que não sai de casa e que se lhe não     vê fumegar o telhado. Aquilo ou está morta ou para breve.

— E então ninguém tem ido ou mandado ver ? — Quem     ? — Não que o que lá for não volta.

— Ora, sempre é levar muito longe a superstição!     Visto isso, há-de deixar-se morrer assim uma pobre velha ao desamparo?      — Deixe lá; aquelas têm por si outros poderes. Não     precisam de socorro da gente.

— Pelo que vejo, não há aqui ninguém que queira     ir ao pinhal saber da tia Filomela? Ninguém respondeu.

-—Pois bem, nesse caso vou eu.

— Olhe o que faz! — disseram algumas vozes, em tom de advertência.

— Ainda não escarmentou ? — murmuravam outras.

Luisita chegou-se a mim, e apertando-me o braço: — É     de mais! Isso é desafiar o Senhor.

— Ora adeus, Luisita.

— Não vê...

— Vamos, quando for velha há-de gostar que lhe chamem bruxa     e que a deixem morrer de fome e ao desamparo ? — Mas...

— Pois olhe, Luisita, se tem muito receio, reze por mim. Eu gosto     de ser recomendado aos santos por uma boca tão bonita.

Luisita não deu palavra, mas conheci-lhe no gesto que ficava agourando     grandes desgraças da minha excursão ao pinhal.

ACOMPANHADO dos responsos e comentários das circunstantes, | pus-me     pois a caminho da casa da tia Filomela, cuja sorte me estava profundamente     inquietando.

A noite aproximava-se, e uma neblina densa, levantando-se dos ' vales, ia     a pouco e pouco circunscrevendo em volta de mim o horizonte e estreitando-me     em um círculo cada vez mais cerrado de espessos nevoeiros.

O grupo das raparigas, que me seguiam com a vista, quando eu principiava     a subir a colina, cedo se me encobriu debaixo deste véu de vapores     impenetrável; circunstância que devia modificar profundamente     todas aquelas curiosidades femininas, ansiosas por gozar de longe do espectáculo,     que com grande risco do corpo e da alma eu lhes proporcionara.

Depois de ter andado alguns minutos, e quando subia já por um pedregoso     e alcantilado caminho de cabras, desenvolvendo todos os meus recursos ginásticos     para não rolar como uma avalancha até ao fundo da ribanceira     vizinha, pareceu-me perceber o ruído dos passos de alguém que,     a pequena distância, me precedia.

Apressei-me para poder alcançar quem quer que fosse e concluir em     companhia o resto da minha excursão. Em breve me foi dado consegui-lo.

A pessoa que assim caminhava adiante de mim, era o pároco da freguesia,     jovem sacerdote que eu mal conhecia ainda, mas cujas maneiras afáveis     e delicadas, e seriedade superior aos seus anos, me haviam feito já     simpatizar com ele. Vendo-me, parou a esperar-me.

— Por estes sítios! Agradam-lhe também os passeios dos     montes! — Não foi para passear que vim até aqui, mas para     socorrer uma pobre mulher, que a cega superstição desta gente     ia talvez deixar morrer ao desamparo. E quem sabe se ainda chegarei a tempo     ? O reitor olhou para mim, perguntando-me: — Refere-se a tia Filomela     ?

— Exactamente, a ela mesma.

— Então ofereço-lhe companhia, eu também me dirijo     para lá.

— Também ?! — É verdade, todas as sextas-feiras     essa pobre mulher me procurava.

Faltou-me esta semana, esperei-a ontem debalde e por isso nus-me a caminho     hoje, por igualmente recear alguma desgraça.

— Mas não é uma bárbara crença a deste     povo ? — Então que quer ? A ignorância é sempre     supersticiosa.

— Mas... e perdoe-me dizer-lhe isto, senhor reitor: não poderiam     algumas palavras da sua parte desvanecer essas abusões? O reitor sorriu     melancolicamente.

— E cuida que as não tenho dito ? Há apenas dois anos     que vim para esta abadia. O meu predecessor era, pelo que pude saber dele,     um santo homem, esmoler e honrado, mas de uma superstição grosseira,     eivado de erros e de preconceitos que a falta de instrução e     nenhuma cultura de espírito haviam feito pulular. Era ele o primeiro     a acreditar em todas as tradições de duendes e de almas penadas     e a usar de esconjuros, amuletos e ervas contra feitiços. Na residência     deparou-se-me uma abundante colecção desses objectos, com que     o bom do homem julgava prudente munir-se contra os ataques dos maus espíritos     e das feiticeiras. Faça ideia de como devia andar a imaginação     desta gente, quando um pároco, que residia aqui havia perto de dezoito     anos, lhe dava tais exemplos. Nos primeiros dias em que assumi as funções     paroquiais, percorrendo os papéis do meu antecessor, encontrei entre     outros documentos não pouco curiosos, nos quais ele registava várias     observações críticas a respeito dos seus paroquianos,     um que mais que todos me interessou. O conteúdo era, pondo agora de     parte a ortografia muito sua, pouco mais ou menos o seguinte: « Em Agosto     de 50 veio residir para esta minha paróquia, escrevera ele, uma velha     mulher que diz chamar-se Filomela — nome pouco de gente cristã     e baptizada. Vinha miseravelmente vestida e foi viver para uma pequena casa     do Pinhal. Ainda não procurou sacramentos e é de poucas falas.     Logo que ela aqui chegou principiaram a morrer crianças de um modo     nunca visto. Ficavam roxas e chupadinhas, que fazia dó. Depois deu     a mortandade nos carneiros, que calam nos campos como tordos. Bem se vê     que a mulher é suspeita. Pelos modos, ouve-se por altas horas em casa     dela gritos agudos, e de noite corre fadário nos montes feita em uma     luzinha. De quando em quando, vem visitá-la um homem de má catadura.     Tudo faz crer ser ela bruxa refinada.

Há tempo, falando-lhe, ouvi-lhe palavras sacrílegas. É     ovelha que já não espero salvar.» Assim terminava o original     apontamento do pobre cura, o qual, como é de crer, me excitou mais     interesse ainda, do que simples curiosidade. Indaguei de várias pessoas     relativamente a Filomela, e pude então reconhecer como se haviam já     arreigado nestas imaginações incultas as ideias supersticiosas     do pároco. As informações, que me foi possível     colher, representavam-me de facto Filomela como um ente sobrenatural em relação     íntima com os espíritos maléficos e dotada de poderes     extraordinários para evocar as almas dos mortos em pecado e outros     absurdos semelhantes.

Quis desvanecer esses preconceitos, combati-os como pude; consegui apenas     ser daí por diante olhado com suspeita pelo povo, que via na minha     incredulidade uma espécie de heresia. Decidi-me a procurar a tão     falada tia Filomela. O que fui encontrar, procurando-a, deve supô-lo     o senhor, que, pelo que vejo, mostra conhecê-la também.

Uma desgraçada e nada mais. — Filomela veio de longe para aqui,     O motivo desta emigração foi uma desgraça de família,     que ela me revelou sob o sigilo da confissão. Quando chegou a esta     terra, trazia a pobre mulher no coração o desespero, e nos lábios     a blasfémia que o delírio lhe arrancava.

Se não tivesse encontrado um pároco sem preconceitos, que     compreendesse as causas daquele estado doloroso, que tentasse sanar as feridas,     ainda gotejantes de sangue, daquele coração aflito, a cura seria     fácil. Mas o desprezo de que se viu rodeada exacerbou-lhe os padecimentos     e, cada vez mais entregue ao infortúnio, ia perdendo até os     sentimentos religiosos, que por tanto tempo haviam sido seu único e     eficaz auxílio. Uma epidemia de garrotilho, que fez mil vítimas     nas crianças, e não sei que moléstia que por aqueles     tempos grassou no gado, chegando a sacrificar rebanhos inteiros, vieram concorrer     para arreigar estas superstições, que tão amarga tornaram     a sorte, já mal-aventurada, da pobre Filomela. Quando pela primeira     vez lhe falei, senti-me desanimar; confesso a verdade, tão desesperada     a vi, que julguei ter chegado tarde: pareceu-me que seriam baldados todos     os esforços para chamar de novo à comunhão das ideias     cristãs aquela pobre alma abatida pelo infortúnio. Enganei-me     todavia; consegui- o em pouco tempo, e hoje é uma das mais religiosas     criaturas da minha freguesia.

— O que não evita continuar a ser olhada como bruxa e cruelmente     odiada.

O reitor notou, sorrindo.: — E o melhor da história é     que nem todos me poupam também; aqui onde me vê, tenho adquirido     a minha reputaçãozinha de feiticeiro ou coisa parecida.

À verdade desta observação servia de testemunho a conversa     que eu ouvira dias antes ãs raparigas do lugar a respeito do reitor.

Tínhamos enfim chegado à porta da humilde habitação     da imaginária bruxa, quando perguntei ao meu companheiro o que ele     conjecturava dos pequenos embrulhos de papel, a que Luisita chamara os novelos     da tia Filomela.

Ouvindo esta pergunta, o jovem reitor olhou para mim tristemente, e com     uma voz reveladora da verdadeira comoção, respondeu- me:

— Isso resume quase toda a história desta mulher. É um     ente sin- [ar e tão digno de respeito e estima, como de compaixão.

Foi o único esclarecimento que obtive.

Entrámos enfim no quarto da tia Filomela.

 

ERA já noite fechada; a última claridade do dia desmaiara a     pouco e pouco no ocidente, apenas agora tingido de uma uniforme cor de violeta.     Do lado oriental principiava a surgir a Lua por detrás dos pinheiros,     que se desenhavam em negro sobre o fundo de nuvens em que o astro difundira     um colorido inimitável. A única porta da habitação     da tia Filomela ficava voltada para este lado, e os raios do luar, penetrando     por ela, davam a todo o recinto um aspecto indefinível de tristeza     e de pavor.

Parámos no limiar, escutando se algum ruído nos advertia da     presença da solitária velha, cuja vida tão desfavoravelmente     comentada estava sendo em toda a aldeia e seus arredores.

Reinava o mais completo silêncio.

— Saiu talvez — disse eu, enquanto que outra coisa bem diversa     e pressagiava o coração.

— Saiu ou... quem sabe? — respondeu-me o reitor, expressando     esta hesitação o mesmo triste pressentimento que eu tivera.

Demos alguns passos dentro da sala. — O mesmo silêncio.

— Tia Filomela! — exclamei então, erguendo a voz.

Ninguém me respondeu.

Guiados pelo luar, chegámos ao fundo do quarto, onde sabíamos     estar situado o leito da pobre mulher.

Então pudemos distinguir uma forma alvacenta, como de corpo animado,     que involuntariamente nos fez recuar de terror.

Vencemos, porém, este primeiro movimento de repulsão e apromámo-      nos.

Era ela! a tia Filomela, regelada, hirta, com os braços pendidos     ora do leito, os olhos abertos, a vista fixa, imóveis e contraídos     os lábios e as faces mais emaciadas e pálidas que nunca! —      Que desgraça! — exclamou o moço reitor, juntando as mãos.

— Pobre mulher, morta, morta assim I Palpando-lhe o peito, julguei     sentir ainda bater-lhe frouxo e compassado o coração.

— Morta, ainda não — disse ao reitor, comunicando-lhe     a minha descoberta — parece-me perceberem-se-lhe ainda uns restos de     vida prestes talvez a abandoná-la de todo.

Como para confirmar a verdade das minhas palavras, a mísera fez um     movimento, e com uma voz sumida perguntou: — Quem é que está     aqui ? — É o senhor reitor — respondi-lhe, curvando-me     sobre o leito — Ah! pois veio ?! — disse a pobre mulher, em cujo     rosto per.

cebi desenhar-se uma expressão de suprema felicidade. — Ainda     bem, ainda bem! Onde está ele? . — Estou aqui — disse o     reitor com a voz presa pela comoção que experimentava.

Filomela 'agarrou-se-lhe à mão.

— Como foi bom em vir! Não me deixe, enquanto não estiver     morta, não? Tenho tido medo de me ver só. Como é triste     ver-se a gente morrer só, só... sem amigos, sem ninguém     que chore, sem ninguém que console! Nunca pensei que chegaria a isto,     meu Deus! — Sossegue. Aqui nos tem. Mas não há-de morrer     ainda.

— Morro, morro, eu sinto que morro, e ainda bem que assim é,     Viver como tenho vivido há anos é pior, muito pior. Eles cuidavam     que a feiticeira... como sempre me chamavam, coitados! não sofria por     se ver assim aborrecida e desprezada; ai, se sofria! se soubessem a minha     vida toda!...—E depois, interrompendo-se, apertou com violência     a mão do reitor, bradando como sufocada: — Senhor reitor, ai,     senhor reitor, a sua bênção depressa, eu sinto que vou     morrer. Sinto, sinto! E erguia-se com a contracção enérgica     da última agonia.

O reitor, após uma fervorosa oração, elevou os olhos     ao Céu e abençoou a moribunda, que na aparência se diria     já cadáver.

De repente, ainda meia erguida e sustentada por nós ambos, e com     o olhar vago, as mãos juntas e os lábios desmaiados e trémulos,     ela principiou murmurando uma prece, cujas palavras não pude perceber.

O reitor observava-lhe os movimentos com um gesto de compaixão e     em voz baixa rezava também as orações da agonia.

A meia claridade que reinava no aposento, reflectindo-se naquele triste     grupo, aumentava-lhe o aspecto lúgubre e melancólico, e infundia     no ânimo não sei que íntimo e religioso pavor.

Passados alguns instantes, em que eu só podia ouvir o respirar ansiado     da agonizante e o murmurar das orações do reitor, aquela elevou     a voz e interrompendo-se a cada passo, extenuada pelo esforço, principiou     dizendo como em delírio: — Era o meu dever; não era, senhor     reitor? Olhe, ele aí está todo. — E apontava para os objectos     do prateleiro. —Não lhes toquei...

Se vier... diga-lhe... que eu cumpri o meu juramento... mas que lhe perdoei...     Já agora...

Calou-se por algum tempo; depois, com a voz cada vez mais sumida, acrescentou     com aquela carinhosa meiguice, só das crianças e dos doentes     conhecida: — Deitam-me para baixo ? deitam ?

Ajudámo-la a deitar.

— Assim — continuou eia — obrigada. Ai, sinto-me tão     fraca...

parece-me que vou dormir. Se me apagassem aquela tocha? Não sei para     que a acenderam.

Coloquei-me diante da porta, para encobrir aos seus olhos a claridade da     Lua, que parecia incomodá-la.

— Ora agora, não façam ruído, porque tenho sono     e bem conheço que vou dormir... bem conheço...

Fechou os olhos por algum tempo, abrindo-os logo depois angustiada.

— Ai, não estou bem! Por quem são, virem-me, virem-me     para o outro lado.

Voltámo-la como ela desejava.

— Ah!—disse depois, suspirando profundamente.—Agora sim...

estou bem! Estava morta.

O reitor caiu de joelhos junto daquele pobre leito, abandonado de todos.

Deste recinto, que os boatos da aldeia faziam habitado por espíritos     malignos, acabava de subir ao Céu a alma de uma santa criatura.

A impressão que me causou toda esta cena, manteve-me imóvel     e silencioso, fitos os olhos naquela mulher que se finara, e no sacerdote     que murmurava ao lado dela, e quase soluçando, as orações     mortuárias.

Pouco a pouco um tumulto de vozes e passos apressados, que havia já     alguns instantes me chegava confusamente aos ouvidos, veio distrair-me a atenção.     Por as frestas da porta, que o vento tinha cerrado, percebia-se um clarão     avermelhado, que, projectando-se na parede fronteira e no leito onde jazia     o cadáver, dava ainda, se era possível, à cena mais sinistra     aparência.

O sussurro ia-se de momento para momento fazendo mais distinto.

Era evidente que procuravam a casa da tia Filomela.

Receoso de que as ideias supersticiosas do povo e a aversão que lhe     inspirava a suposta bruxa o conduzissem a algum acto de violência, ao     qual a minha demora, decerto interpretada para mal, servisse de pretexto,     corri para a porta com o fim de evitar, se fosse possível ainda, a     profanação de um cadáver.

Nesse mesmo instante, porém, reconheci a voz de Luisita, exclamando     : — É aí.

E imediatamente a porta abriu-se com violência, penetrando logo no     interior o clarão de muitos archotes acesos, sustentados por criados     de libré, cuja figura e trajo não eram conhecidos na aldeia.

Ainda eu não voltara a mim da surpresa que o inesperado da cena me     produzira, quando vi sair de entre a multidão, que parecia afastar-se     com respeito para lhe dar passagem, uma mulher elegante, distintamente vestida     e que pelas formas e vivacidade de movimentos supus ser ainda jovem. Encobria-lhe     as feições um comprido véu de cor escura, mas não     tão discretamente, que lhe não denunciasse a beleza, ainda que     deixando muito a adivinhar.

Entrou na sala com passos rápidos e agitada; e, encontrando-se de     frente comigo, disse-me, juntando as mãos e com um gesto em que se     reconhecia uma não simulada ansiedade: — Ainda vive ? —      Está morta — respondeu o reitor, em pé junto à     cabeceira do leito; e, na inflexão de voz, com que pronunciou estas     palavras, julguei reconhecer não sei que tom de severidade, que me     impressionou.

Esta notícia pareceu fulminar a desconhecida.

Levou as mãos ao seio e soltou um gemido, tão profundamente     expressivo de dolorosa angústia, que me fez subir as lágrimas     aos olhos.

Depois, como cedendo a atracção irresistível, correu     ao leito, apoderou-se de uma das mãos regeladas da morta, e pousando-lhe     os lábios, caiu de joelhos, bradando entre soluços que lhe sufocavam     a voz: — Minha mãe! oh! minha pobre mãe! O meu espanto     era completo. Olhei para o reitor. Vi-o imóvel e mudo, presenciando     com gesto austero e impassível esta cena comovente.

Quem era pois esta mulher, a chorar assim junto do cadáver da infeliz     que tão esquecida vivera, mais aborrecida do que estimada, e tanto     ao desamparo vira aproximar-se-lhe a hora da agonia final ? — Minha     mãe — continuava a pobre senhora ainda de joelhos — agora     que eu vinha receber as suas bênçãos, agora que eu me     julgava feliz, que esperava enxugar-lhe as lágrimas e obter o seu perdão...

para que me castiga assim, morrendo sem me perdoar? — Perdoou-lhe     ! — disse o reitor com voz firme e austera.

A recém-chegada ergueu os olhos para ele, mas como se compreendesse     a severidade daquele olhar, que parecia desafiar o seu, baixou-os imediatamente,     perguntando lacrimosa e trémula: — Viu-a morrer ? — Assisti-lhe     até ao último suspiro.

— E ela falou-lhe de mim ? — Havia-me contado a sua história.

— Disse-lhe...

— Tudo.

— E perdoou-me ? — De todo o coração.

— Mas ignorava que eu havia enfim conseguido merecer-lho, esse perdão     que tantas vezes lhe implorei.

— Mais grato será a Deus. — Ô minha mãe!     pobre mãe! Se eu te escutasse ao menos as últimas palavras.     Quero vê-la. Como aqui está escuro! Uma luz, uma luz.

Um dos criados aproximou-se com o archote. A jovem senhora desviou então     o véu que a encobria até ali, patenteando o rosto, verdadeiramente     deslumbrante de beleza, e que naquele momento as lágrimas mais faziam     realçar.

Fitando os olhos no aspecto macilento e decomposto da mãe, soltou     um grito dilacerante, e cobrindo o rosto com as mãos, desatou em soluços,     que comoviam o coração de quantos os escutavam.

— Jesus, meu Deus! O que fizeram seis anos de infortúnio! Oh     desgraçada de mim! Pobre mãe! — continuou ela, cobrindo     de beijos aquelas faces já frias. — Como não sofreste,     para assim envelhecer em seis anos! Seis anos? Aqui, só, neste monte,     nesta casa, tão mal abrigada, tão mal vestida! Mas... Jesus,     meu Deus... acaso...— e pôs-se a olhar em volta de si com a vista     perturbada.

O reitor, que pareceu compreender aquela interrogação muda,     segurou-lhe no braço, e encaminhando-a para junto do prateleiro, onde     se divisavam os misteriosos volumes de que tenho falado, disse- -lhe, apontando     para eles: — Olhe. Sua infeliz mãe morreu pobre e desamparada.

A aflita senhora, olhando para os objectos que lhe designava o reitor, fez-se     pálida e pareceu prestes a desfalecer.

— Meu Deus! ai, meu Deus!—bradou, torcendo as mãos —      a minha culpa foi pois tamanha que merecesse este castigo? O reitor mostrou-se     comovido, ouvindo este grito de não fingido desespero, e pela primeira     vez se desarmou da fria insensibilidade, que eu até então estranhara     nele.

— Perdoou-lhe, senhora. Sossegue. E se o que ela havia tanto desejava,     para lhe estender os braços de mãe, se realizou enfim, confie     que do Céu, onde está, o saberá, como o poderia saber     na Terra, que para sempre deixou.

A filha da tia Filomela, depois de mais uma vez abraçar o cadáver     da mãe, chamou os criados, que entraram no aposento. Junto com eles     vinha Luisita, cuja curiosidade pudera enfim abafar os supersticiosos terrores.

— Procurem pousada na aldeia — disse-lhes a senhora, dominando     ainda a custo a comoção — e mandem-me alguma mulher que     queira ficar hoje comigo aqui.

Espanto entre a criadagem.

A senhora continuou: — Aqui, junto do corpo de minha querida mãe.

E, dizendo isto, corriam-lhe as lágrimas pelo rosto abaixo.

— Fico eu, senhora — disse Luisita, adiantando-se e chorando     também.

D. Margarida—que tal era, como depois soube, o nome da senhora —      viu estas lágrimas, e recompensou-lhas com um beijo afectuoso!

O bom coração de Luisita ganhara neste momento uma grands vitória     sobre a sua má cabeça.

Os criados voltaram à aldeia, comentando cada qual a seu modo o sucedido.

Eu vim para casa só. O reitor ia retirar-se comigo, quando D, Margarida     lhe disse com voz triste: — Quer ouvir o resto da minha história,     senhor reitor? Preciso da sua absolvição e dos seus conselhos.

O reitor anuiu Eram seis horas da manhã do dia seguinte, quando me     vieram acordar, dizendo-me que era procurado.

— Por quem ? — Por o senhor reitor.

Apressei-me a descer à sala, onde efectivamente o reitor me estava     esperando.

— A que devo a felicidade desta visita? — Reclamo os seus serviços.

— Estou a sua disposição.

— Trata-se de umas exéquias solenes à tia Filomela;     coisa, a falar a verdade, tão rara na aldeia, que me vejo embaraçado     para lhe dar expediente. Não tenho conhecimentos na cidade e portanto...

— Deixe isso a meu cuidado. Escrevo a um amigo meu, muito visto nestas     coisas, e que espero se sairá bem do negócio.

— Então acompanha-me à residência para alguns     esclarecimentos e mais almoçará comigo? — As ordens.

Vesti-me e segui o reitor.

A residência não ficava distante; demos aviamento ao necessário.

De lá mesmo escrevi uma carta a um amigo do Porto, encomendando-     -lhe os aprestos para as exéquias, e após subi para o quarto     do reitor, quarto modestamente mobilado, sem trastes de luxo, mas com uma     simplicidade que revelava bom gosto.

Em uma só coisa desdizia este quarto dos hábitos singelos     de vida do jovem sacerdote: era na livraria, bastante fornecida e selecta,     e que, pela desordem em que a vi, conjecturei não gozar de prolongados     remansos.

Junto à cabeceira do leito e ao lado do velador encontrei, ainda     aberto, o Génio do Cristianismo, outros livros, porém, menos     ortodoxos, cobriam a mesa, as cadeiras e até o pavimento. Fácil     me foi descobrir a um lado o Jocelyn, mencionado pela cúria no Index     librorum prohibitorum; junto dele, o Eurico, de igual imoralidade; mais além,     os Lusíadas — não obstante a sua escandalosa amálgama     de religiões; sobre o Paradise lost, o pagão do Homero; ao lado     dos Mártires, a Eneida; de envolta com a Crónica de S. Domingos     e a Vida do Arcebispo, a História dos Girondinos; a Guerra dos trinta     anos, em contacto íntimo com os Anais da propagação da     fé; o Memorial de Santa Helena, ao pé da Imitação     de Jesus Cristo; e o Teatro de Vítor Hugo, de Schiller e de Garrett,     não muito longe dos Sermões de Vieira, das obras de Fénelon     e Nova Floresta de Bernardes.

O reitor vendo-me a examinar a biblioteca corou e disse-me com certo enleio:      — Ainda me não pude desfazer dos antigos hábitos. Leituras     dos meus primeiros anos e dos tempos de rapaz, pouco próprias talvez     hoje . À batina só fica bem o Breviário.

— Não se justifique para comigo, porque não lhe admito     a culpa.

O Breviário de per si nem sempre é bom conselheiro, Haja a     vista ao seu predecessor, que pelos modos não tinha cometido esse pecado,     que parece estar a pesar-lhe na consciência.

O reitor sorriu.

Sentámo-nos à mesa para almoçar, e no entretanto disse-me     o reitor com expressão de sentida melancolia: — Vai saber a história     da Filomela. Quer ouvi-la? Fiz-lhe sinal de que o desejava.

— É muito curta. Esta desgraçada mulher vivia a oito     léguas daqui com uma filha única, que lhe ficara da idade de     seis anos, quando o marido, morto em uma dessas lutas civis que assolaram     o reino, a deixou na mais triste e indefesa viuvez. Os sacrifícios     que fez a pobre mãe para evitar a miséria, que temia menos por     si do que por a tenra criança de quem era o único amparo, foram     imensos e só talvez bem compreendidos por quem, como nós outros     párocos, vive em contacto com esta infortunada gente, para a qual cada     dia, cada instante de vida é uma vitória ganha sobre a adversidade.     Trabalhava de noite e de dia; à luz do Sol, como à luz da lâmpada;     nas longas e frias noites de Inverno, como nas formosas noites de Estio; sempre     curvada à mesa do trabalho, sempre vergada sob o peso de tão     dolorosa cruz! Assim passaram muitos anos daquela existência de amor     e de abnegação, assim se exauriram as forças e o vigor     daquela mãe extremosa; e o resto de vida que lhe não absorvia     o trabalho, consumia-lho a maternidade, difundia-se nos mil desvelos e carícias,     com que rodeava o berço da inocente; — com os adornos de afectos,     já que lhe escasseavam os da riqueza que para ela só invejara.     A filha crescia, sorrindo no meio da miséria e desconhecendo-a; ignorância     feliz dos primeiros anos, comparável à da flor, que desabrocha     à borda do abismo. Vivia dos sacrifícios e abnegação     da mãe, e de tão pequena vivera deles, que desaprendera a apreciá-los     por essa involuntária ingratidão dos filhos, que mais parece     uma lei a que obedecem os afectos humanos. Crescia em idade e em formosura     a ponto de ser o enlevo dos habitantes do lugar. Aos dezoito anos, fascinava;     falava-se dela léguas ao redor. Foi a desgraça da mãe,     que então se revia ainda em tanta beleza, à semelhança     dessas crianças imprudentes que se debruçam na corrente fascinadas     pela limpidez que lhes reflecte o céu.

«O filho de uma rica família das proximidades viu a inexperiente     rapariga, apaixonou-se por ela, confessou-lhe o seu amor, soube fazer-se correspondido,     e um dia... Margarida desaparecia de casa. Espalhou-se a nova na aldeia; a     mãe esteve quase louca, muito tempo correu corno perdida por todos     os lugares, encontravam-na de noite e de dia; às vezes adormecida de     cansaço nos marcos das estradas; até que depois a perderam de     vista na aldeia e disseram-na morta.

« Foi então que veio para aqui com o desespero no coração,     alueinada a ponto de blasfemar; por isso o velho reitor, como já lhe     disse, a julgou possessa. A crença espalhou-se, a coincidência     de certos sucessos parecia justificá-la; e esta desgraçada mãe,     só digna de compaixão, viu-se repelida, odiada e desprezada     de todos! «No entretanto a filha, que cedera à sedução,     inquieta pela sorte da mãe, procurava-a. Soube do seu desaparecimento     da aldeia, enviou emissários para averiguarem o lugar da sua nova residência,     se é que ela ainda existia. Foi feliz em tais pesquisas. Vieram da     parte da filha procurar Filomela, trazendo-lhe cartas dela; a pobre mãe,     cujo coração todo se alvoroçava só de vê-las,     rejeitou-as sem sequer as ler, dizendo: — que nunca essa malfadada voltasse     para junto de si enquanto não tivesse purificado pelas bênçãos     da Igreja o erro da sua juventude, — Esta obstinada recusa, fundada     em um arreigado sentimento de honra e decoro, dilacerava o coração     das duas! «O amante de Margarida era de nobres e generosos sentimentos;     mas, sujeito à vontade de uma família cheia dos preconceitos     de nobreza e das distinções jerárquicas, nem ao menos     ousava falar-lhe em uma união, que ele também cordialmente desejava.

«Margarida quis acudir à miséria da mãe, enviando-lhe     algumas somas de dinheiro. Filomela rejeitou-lhas, dizendo que antes quereria     morrer de fome, do que viver de vergonha. A filha propôs-lhe abandonar     o amante, voltar para junto dela e trabalhar para lhe sustentar a velhice;     repeliu igualmente a oferta, com a mesma pertinaz firmeza com que tinha rejeitado     as outras.

«Isto há-de parecer-lhe talvez um mal-entendido rigor, mas     verá que se baseava no afecto profundo que alimentava no coração.

«Margarida recorreu então a um piedoso expediente. Sabendo     que Filomela saía a miúdo e que nunca se dava ao trabalho de     fechar a porta da pobre casa, mandava todos os meses um criado de confiança     a espiar o momento em que ela estivesse fora, para lhe remeter os socorros     pecuniários. Era quase sempre de noite que isto se efectuava, pois     Filomela para evitar os insultos com que a perseguiam, raras vezes saía     de dia. Este homem entrava-lhe então em casa, pousava o dinheiro de     Margarida sobre um prateleiro que havia na sala; eram os embrulhos, de que     me falava ontem.

— Os novelos da tia Filomela, como me dizia Luisita. Adiante, —      Filomela suspeitava a procedência da remessa e por isso nem lhe tocou.     Quatro anos sucessivos, mês por mês, se renovou a oferta; enfileiravam-se     os pequenos rolos de dinheiro, que o mensageiro religiosamente depunha no     lugar costumado, e Filomela nem ao menos sabia a quanto montava já     a soma assim acumulada. O criado, que estraara esta abstenção     da velha, comunicou tudo ao amo. Este, porém, para não afligir     Margarida, recomendou-lhe segredo e ordenou-lhe que continuasse de igual forma     a cumprir a sua missão. As somas sucediam- se e Filomela, que tantas     vezes lutava com a necessidade, deixars no mesmo sítio em que as encontrara.

«Quando a conheci, contou-me tudo. Os instintos religiosos, renascendo     nela, aumentavam-lhe mais ainda os escrúpulos e firmavam-na em suas     resoluções. Se alguma vez eu lhe falava em perdoar à     filha, a nobre mulher respondia-me, soluçando: «—Isso me     diz há muito o coração, senhor reitor, mas se eu o fizesse,     a infeliz vinha-se-me lançar nos braços, e esse homem, que a     ama ainda, esquecê-la-ia em breve e com ela as promessas que lhe jurou.     Ele não é mau. E se para que eu perdoe, souber necessária     a reparação, tarde ou cedo lha dará.

«Eu não confiava muito nisso, mas como teria alma de tirá-la     desta crença? «Os socorros que recusara à filha recebia-os     com humildade das minhas mãos. Sabia da repugnância que lhe tinham     na aldeia, e nunca por isso de dia ali desceu mais. Quis obrigá-la     a ir à missa, não o pude conseguir. Havia no carácter     desta mulher um misto de firmeza e timidez notável! — Essa gente,     coitadinha — dizia ela muitas vezes — não assistiria com     fervor à missa se me vissem a seu lado. — E contudo afligia-se     por ser privada de assistir ao santo sacrifício.

«Lancei mão de um expediente. Há aí por detrás     do monte uma pequena capela abandonada há muito. Um dia na semana lá     ia eu celebrar missa só para a pobre mulher. O meu ajudante, que era     o sacristão, é talvez o único homem na aldeia que não     participa já da opinião do público a respeito da tia     Filomela. Coitada! não pôde ver na Terra realizado o seu mais     ardente desejo! Quando expirava, corria a filha a seus braços a dar-lhe     alvoroçada a notícia de que as orações de tantos     anos haviam sido ouvidas. Fora enfim recebida como esposa pelo homem que motivara     estas desgraças. Por morte do pai e atingindo a maioridade, ele não     quis retardar muito tempo a realização do desejo de ambos.

«O fim já o não ignora. A filha inconsolável     quer satisfazer para com a mãe a dívida contraída, por     meio de umas exéquias solenes na igreja paroquial. O dinheiro acumulado     e intacto das sucessivas mesadas que enviou a Filomela e que monta à     quantia de novecentos mil- -réis vai ser distribuído pelos pobres     da freguesia, sendo eu o encarregado da distribuição.

«Aí tem a história da tia Filomela, de cujo sigilo fui     remido por a filha, que divulgando-a pretende justificar a memória     da mãe, tão caluniada em vida.—E, erguendo-se da mesa     do almoço, o reitor acrescentou: — Era uma santa!

 

ESTA história divulgou-se: mas não fui eu que a contei a Luisita     cuja crença nos feitiços da tia Filomela ficara muito abalada     depois da triste cena a que assistira, foi, como já disse, a unica     que ousou passar a noite com a filha da defunta. Como é de crer, não     era para dormir que aí se achavam as duas. Conversaram, e D. Marga.

rida, simpatizando com a sua jovem companheira, contou-lhe toda a história.

No dia seguinte, Luisita, um pouco com o desejo de desvanecer as más     opiniões da aldeia a respeito da tia Filomela, pôs-se à     obra, e dentro em pouco era o facto de todos sabido.

Fez-se justiça, ainda que tardia, a Filomela, e já corriam     todos para a casinha do pinhal, como para uma ermida de Senhora aparecida     Duas velhas beatas disputaram, quase a murro, a posse do gato, que no resto     da vida se tornou o mais benquisto da aldeia. A fantasia popular, tão     fecunda em inventar lendas milagrosas, como traças de Satanás     e de seus adeptos, refere agora virtudes da tia Filomela, que deixavam a perder     de vista as antigas façanhas de feiticeira que lhe atribuíam.

Também me ri muito com o meu amigo da sua espantosa ciência     do coração humano.

Aquela monumental dissertação era de uma solidez de alicerces     formidável, só tinha o pequeno defeito de ser completamente     inexacta.

Oito dias depois faziam-se esplêndidas exéquias à tia     Filomela; assistiu toda a gente do lugar. Foi coisa ali nunca vista.

Após fez o reitor a distribuição das esmolas, colhendo     as bênçãos dos pobres, que choravam de alegria.

À porta da igreja encontrei Luisita a limpar os olhos comovida pelo     acto edificante que presenciara.

— Então, Luisita — disse-lhe eu aproximando-me —      e os novelos da tia Filomela? A engraçada rapariga levantou para mim     os olhos mal enxutos, sorriu melancolicamente e não deu resposta.

— Abençoados novelos — acrescentei eu — que deram     para tecer tantas camisas aos pobres

 

NO tempo em que principiei a ir ao teatro, estavam muito em moda os dramas     em cinco actos com o complemento de uma farsa.

As plateias, os camarotes, as galerias e até a fleumática     orquestra, depois de carpirem, com sensibilidade, não fingida, as infaustas     e tenebrosas aventuras do herói ou da heroína do primeiro dos     espectáculos exibidos, acalmavam o sobressalto nervoso, que de tão     continuados sustos lhes ficara, rindo a bandeiras despregadas, à custa     do velho iludido, tipo predilecto da veia cómica de então.

O amor extemporâneo de um velho, os seus ciúmes insofridos,     os seus acessos de cólera quase epilépticos e a intriga combinada     contra ele entre a ingénua, vítima principal dessa paixão     incómoda; o amante preferido e o criado astuto que dirigia o enredo,     tentado pela bolsa recheada do galã e pela mão nívea     da lacaia, propícia aos amores da ama: — tal era de facto o eterno     e inesgotável tema glosado, com mais ou menos variantes, pelos Plautos     e Terêncios da época.

A moda viera não sei se da Itália se da Espanha, mas generalizava-      se rápida e extraordinariamente.

Beaumarchais foi um dos que a seguiram em França e com extrema felicidade;     outros modelaram por os dele esses tipos genéricos, sem os quais quase     se não concebia comédia, e por mais desgraciosos que lhes saíssem     os arremedos, tinham a certeza de os verem bem acolhidos.

O nosso António Xavier não se pode dizer dos mais infelizes     na tentativa; o seu Manuel Mendes, de popularíssima memória,     bem mereceu os aplausos que o público tão generoso lhe prodigalizou.

Por muito tempo as plateias saboreavam estes acepipes teatrais, sem que     da repetição se enfastiassem.

Eram já tão suas conhecidas as personagens, que custou deveras     a desabituá-las delas; como que se não entendiam com outras.

Queriam-se com o seu Pantaleão ou Lançarote, tutor decrépito     desastradamente apaixonado por uma pupila, que só tinha a malícia     indispensável para o enganar a cada momento; reviam-se na figura elegante     dos Leandros e Florindos, cujos conceituosos requebros pieguices amorosas     escutavam com ouvidos complacentes; as jovia lidades e astúcias do     criado, os seus diálogos equívocos com a lacaia as suas arlequinadas     e tramóias a bem da causa comum, tudo saudavam com a mais decidida     e clamorosa simpatia, A acção seguia entre aplausos contínuos     o curso regular.

Cada esforço que o velho fazia para o bom êxito dos seus projectos     amorosos, pervertia-lho a fatalidade em desserviço deles, e na cena     final, quase sempre a das escrituras, quando se preparava para dar a batalha     decisiva que devia coroar-lhe a constância, não desmen-.

tida entre desenganos e reveses, todos, até o próprio tabelião,     se cons-.

piravam contra ele, e o malfadado via, no meio de risadas gerais passar     a pupila para os braços do amante, que, nesse momento solene deixava     cair o nariz de papelão, valioso auxiliar da última façanha     Entrava-se em explicações, patenteava-se à vítima     a trama minu.

ciosa da intriga, e ele acabava por perdoar e, o que mais é, tomava     a sua conta o moralizar o facto.

Redobravam os aplausos; o casamento final justificava os meios, nem sempre     demasiado lícitos, empregados para o fazer vingar; os espectadores     retiravam-se satisfeitos, e tendo por essa forma afugen.

tado as disposições para pesadelos e sonhos angustiosos, que     o drama lhes produzira, ceavam bem e dormiam melhor.

Ora sucedia já então um caso extraordinário comigo:     era que, ao contrário da maioria, senão da unanimidade dos espectadores,     não exceptuando até os incursos no mesmo ridículo que     se pretendia corrigir assim, dava-me para ter pena do velho em vez de me rir     das suas tribulações.

A plateia conseguia suavizar as impressões penosas do drama com as     jocosas peripécias de uma paixão... macróbia; a mim ficava-me     uma melancolia interior, mais duradoura e sentida, do que a proveniente da     catástrofe do quinto acto.

Não obstante os acessórios caricatos, de que autores e actores     sobrecarregavam esses tipos, para os quais de tão inexorável     severidade era a Tália da época, eu achava-lhes não sei     que de interessante e, direi até, poético, que ofuscava tudo     o mais, e não me deixava rir, Rir, porquê? Não era antes     para magoar e comover o drama psicológico que, através de episódios     risíveis, se desenvolvia ali? A história de uma paixão     sem futuro, funesta ao coração que a alimenta, não é     mais digna de lágrimas que de escárnio? Debaixo das vestes de     polichinelo, que o público iludido saudava de gargalhadas e apupos,     eu não via mais do que um desgraçado, através da máscara     truanesca do comediante parecia-me a cada passo divisar um olhar de tristeza     que me vinha direito ao coração.

Que querem ? Mau é que se façam dessas abstracções;     o efeito é depois inevitável.

Experimentai por vós; não vos lembreis da casaca esguia, do     calção engelhado, do sapato de monstruosa fivela, do impertinente     rabicho da cabeleira, da colossal caixa do tabaco, todas as noites tirados     do guarda-roupa do teatro para adornarem esses tipos, e auxiliarem a efeito     cómico da produção — muita vez mais devido a tais     acessórios do que ao sal que a temperava — não atenteis     nas rugas, profusa e burlescamente distribuídas pela mão exercitada     do caracterizador; ou melhor ainda, concebei, se podeis, aquela alma independente     de todos os desfavoráveis acidentes corpóreos, e ao vê-la     lutando com uma dessas paixões violentas, devoradoras, que são     a sua máxima manifestação de vigor e de vida; e humilhada,     ridicularizada, escarnecida, porque o corpo que a subjuga, envelheceu primeiro     do que ela; porque regelou o sangue enquanto o espírito se inflamava     em impetuosas lavaredas; porque se enrugou a fronte, quando o coração     se expandia com maior força de afectos; dizei depois, em consciência,     se tendes ânimo para vos rirdes desse espectáculo! E a prova     de que o ridículo está todo nos acessórios, de que é     mais para comover e impressionar dolorosamente do que para alegrar o fenómeno     moral que em tese absoluta condenavam às risadas da plateia, é     que, pouco tempo depois, via-se no teatro um amor de velho, com todas as exaltações,     com todas as esperanças, com todos os receios e desesperos de um amor     de rapaz e, apesar das barbas brancas do amante ancião, ninguém     se sentiu disposto a sorrir.

Para salvar do ridículo a Rui Gomes da Silva do drama de Vítor     Hugo, bastaram as vestes negras e severas do fidalgo espanhol da corte de     Carlos V, as armaduras de cavaleiro pendentes da sala de armas, a galeria     de retratos de uma longa série de heróis seus antepassados ;     o amor não conseguiu apequenar esse vulto, que a velhice, o orgulho     e a firmeza de carácter faziam terrivelmente grande. E contudo não     passava de um velho apaixonado o altivo rival de Hernâni.

Na sua presença, porém, os espectadores estremeciam em vez     de sorrir; fácil lhes seria prever que essa mesma paixão, olhada     ainda por outro aspecto, os poderia fazer chorar.

Porque não? Pois comove-nos o desespero impotente do cego, rodeado     das magnificências da natureza, que pressente sem as poder gozar, e     para compreender as quais tinha alma superiormente formada; a alucinação     do veterano, à voz do clarim arrebatado em ardor marcial, e que se     ergue impetuoso para correr ao chamamento da pátria, esquecendo por     instantes que o braço mutilado já não pode suster a espada,     que tantas vezes gloriosamente brandiu; o desalento do poeta, cujos sublimados     anelos o alheiam da vida real, que em seu positivismo o sacrifica, que morre     como Chatterton, consumido pelo fogo do próprio génio, impossível     de existir em uma sociedade ainda não organizada para o conter em si;     interessam-nos todas estas lutas, todos estes antagonismos, todos estes conflitos,     em que se desvanecem ilusões; assistimos atentos a todo o embate solene     de afectos encontrados, simpatiza mos com todas as aspirações     reprimidas e instintos naturais subjugados por alheias resistências,     e só havemos de ser inflexíveis e só havemos de rir ao     vermos aquele outro triste e doloroso combater da alma com o corpo; só     nos não há-de comover a mágoa, o desespero dessa jovem     cativa, olhando através das grades de uma velha prisão o céu     azul, os prados verdes e as flores perfumadas que a enamoram? Insul tá-la-emos     quando, como o rouxinol aprisionado, se despedaçar em delírio     de encontro aos ferros que a retêm? É uma grave injustiça.     O espectáculo é mais dramático do que geralmente o têm     querido fazer.

Há nos variados episódios da mitologia pagã situações     comoventes, que estas me fazem recordar. A cada passo, ali, o amante, no auge     de uma paixão violenta, perseguindo como louco pelos desvios e recessos     das florestas, a ninfa fugitiva, no momento em que julga possuí- la,     em que estende os braços para lhe enlaçar a cintura e aproxima     os lábios ardentes para oscular-lhe as faces afogueadas de cansaço     e de pejo, sente um estranho torpor adormentar-lhe os membros, um frio glacial     circular-lhe nas veias, e, súbito o coração, ainda em     alvoroços de amor, é comprimido pela rigidez do lenho que o     invade; os braços, que agita aflito, alongam-se-lhe em ramos; os cabelos,     que o terror levanta, transformam-se-lhe em folhagem e vigorosas raízes,     prendendo- o ao solo, tornam permanente a imobilidade que o susto principiou.

Mas os instintos de amor que o perdem, não se apagam após     a transformação; a nova árvore, conservando latente o     fogo que lhe deu a origem, experimenta um doloroso estremecimento todas as     vezes que a ninfa — outrora esquiva —vem agora recostar-se lânguida     à sua sombra, e, cheia de uma confiança mais para desesperar     do que todos os passados terrores e apreensões, se entrega aí     descuidada a gratos sonhos de amor.

Pobre alma namorada! a forma que reveste, é agora a sua eterna condenação,     nem de esperanças se pode nutrir, já, a triste ! escravizada     pela matéria, concentra o seu padecer, pois nem manifestá-lo     lhe é dado.

O que devem sentir esses malfadados heróis do variadíssimo     poema mitológico, os mesmos desesperos, os mesmos desalentos, as mesmas     angústias, sentem na realidade aqueles, em que a caducidade do corpo     precedeu a do espírito, que, rico de aspirações juvenis,     é vítima delas, porque até o revelá-las lhes é     defeso.

E se o vaso já gasto estala então sob a pressão do     forte impulso a que pretende resistir, nem ao menos comiseração     há-de inspirar, o que sucumbe assim? Dolorosos infortúnios estes!     As poucas cenas que se seguem, esboçam ligeiramente a história     de um desses malfadados, de que o mundo se ri por hábito, como de outras     tantas coisas sérias, que deviam merecer-lhe a compaixão e o     respeito até.

Se a conseguir narrar, sem que um sorriso, obedecendo a esse habito apareça     nos lábios do leitor, terei realizado o meu principal intento.

TÃO sei o nome da localidade onde o facto se passou.

Lembra-me só que era no Outono, nessa quadra de melancolia, em que     desmaia o azul nos céus, em que o verde das selvas empalidece e os     ventos arrebatam em turbilhões rápidos, ao longo das avenidas,     onde já rareiam as sombras, a folhagem seca, que crepita sob os pés     do caminhante.

Corriam impetuosas nas levadas as águas que fertilizam os vales,     A hora do crepúsculo fazia mais que nunca cismar. Com as primeiras     nuvens do sul, numerosos bandos de andorinhas intimidadas atravessavam os     ares, procurando climas, onde lhes sorrisse ainda a Primavera.

O sítio era ameno, próprio para se gozar dali esse belo espectáculo     da natureza. Uma colina elevando-se graciosa do meio de uma amplíssima     e vicejante bacia. No vale, que a cerca, tudo em mosaicos de verdura; prados     extensos, veigas, devesas, choupais a banharem-se na água, arroios     serpeando por entre a relva, espraiando-se além em pequenos lagos,     despenhando-se ruidosos dos açudes, ora a esconderem- se por detrás     de umbrosos cômoros, ora patentes na planície, a retratarem as     rosas, as últimas borboletas errantes, as nuvens e o rosto alegre das     lavadeiras.

Pela encosta entrelaçavam os ramos vigorosos carvalhos seculares,     cujo tronco rugoso e carcomido revestiam as heras e os musgos; de espaço     a espaço, cortava o caminho um desses gigantes derrubados, nutrindo     dos restos já sem vida a vegetação nascente que lhe rompia     do seio; os algares da corrente, ocultos por um denso tecido de fetos, de     giestas e de tojos, denunciavam-se apenas pelo ruído da água,     descendo no leito pedregoso; ouvia-se o rastejar do réptil, fugindo     ao rumor das passadas, mas difícil seria igualmente percebê-lo     entre as folhas soltas e crestadas que alastravam o chão.

Em cima, na planura onde conduziam os tortuosos caminhos que ladeavam a     colina, erguia-se de entre a espessura dos álamos sussurrantes, uma     pequena capela, que sustentando a cruz sobranceira às franças     das mais elevadas árvores, parecia estender a todas as várzeas     e povoados que dominava dali, a influência salutar e benéfica     desse símbolo da redenção.

Quando, ao declinar da tarde, soavam do alto da torre lateral os toques     da ave-maria, em todas as aldeias abrigadas junto à base da colina,     nas mais pobres choupanas como nas mais fartas herdades do vale, nenhuma cabeça     ficava por descobrir, nenhuns lábios deixavam de murmurar reverentes     a saudação angélica; e se os ventos levavam o som harmonioso     e plangente do pequeno sino até às longínquas cordilheiras     de serras que, como indistintas massas azuladas limitavam circularmente aquele     horizonte vastíssimo, os serranos, dispersos com os rebanhos pelos     pascigos, ou encerrados nas choças colmadas das montanhas, volviam     saudosos as vistas para o ponto branco de onde lhes chegavam aos ouvidos aqueles     sons quase a esvaecerem-se, e recordavam- se suspirando da devota romaria     que todos os anos os levava ali, junto do altar da milagrosa Senhora da Saúde,     sob cuja invocação fora levantada a capela.

As romarias! as romarias! gratas recordações, únicas     talvez, daquela pobre gente da serra! As horas rápidas de gozo, que     um só desses dias de festa lhe dá, compensam-lhe de sobra as     continuadas fadigas da vida tão trabalhada e penosa. Em torno à     pequena ermida, onde cada ano afluem de tão longe essas piedosas peregrinações     de devotos, parece esvoaçar de contínuo uma turba de espíritos     alados que nos segredam histórias de tantos amores, nascidos ali e     ali santificados, junto ao altar onde as dádivas votivas dos menos     esperançados se amontoam, a velar pelo seu destino e propiciar-lhes     o Céu.

De quantas incertezas, de quantas esperanças, de quantas alegrias     e apreensões não sois vós sabedoras, despidas paredes     desses templos singelos, onde faltam os ornamentos da arte e as sumptuosidades     do culto, mas que as crenças populares engrandecem e as lendas tradicionais,     que de velhos a crianças se transmitem, perfumam de poesia! Que de     orações fervorosas, rude mas eloquente linguagem daquelas almas     de crenças robustas, têm sussurrado no estreito recinto desses     muros! que olhares de místico enlevo erguidos até à imagem     do altar, à qual o grosseiro da escultura parece aumentar ainda o prestígio!     E não vos hão-de fitar saudosas as vistas dos romeiros, rústicas     ermidas, depositárias dos mais ardentes votos da sua alma? Árvores,     que as rodeais, poderiam desconhecer-vos no horizonte ou confundir- vos com     outras os olhos do pastor errante ou do lavrador curvado, quando o coração     lhes diz que sois vós, vós que de longe lhes acenais, com as     ramas agitadas, como para os alentar no trabalho com a esperança de     um outro dia de gozo? A fantasia voa-lhes como as aves a ocultar-se na espessura     desses bosques, onde com elas volteia namorada pelas mais solitárias     moutas e pelas arborizadas margens dos ribeiros.

Destes lugares celebrados assim pela devoção e simpatia popular,     poucos tão ricos de tradições piedosas, como a colina,     em cujo cimo estava, como dissemos, erigida a capela de Nossa Senhora da Saúde.

Cada família dos arredores tinha a sua lenda de milagres a referir-      lhe. Uma romagem à Senhora no dia consagrado passava por a suprema     medicina. Não havia mal que aquela intercessão não remediasse,     ou fosse doença verdadeira ou, o que é pior, desses males de     coração, que ainda são mais pertinazes, que ainda fazem     mais padecer.

Diziam-no as inumeráveis histórias que aos serões as     velhas contavam às crianças para lhes robustecer a fé,     e algumas das quais tão singulares e miraculosas eram, que até     do púlpito as repetiam os pregadores.

A fama estendera-se e tanto, que de ano para ano aumentava a afluência     dos ansiosos de benefício; muitos dos quais, convencendo-se de que     não menos capaz do milagre devia ser aquela atmosfera salutarmente     vivificada por uma abundante vegetação, por ali se deixavam     ficar, associando assim a higiene com as devoções.

Por isso, o viandante, que agora seguia as pitorescas veredas, pelas quais     o monte era em diversos sentidos irregularmente cortado, via, em toda a entensão     da encosta, a aparecerem-lhe e desaparecerem- lhe sucessivamente por entre     a verdura, casas de risonha aparência, dispersas ou reunidas em graciosos     grupos, com as paredes alvíssimas, as portas verdes e os telhados vermelhos     e cercadas de bonitos jardins, tão recendentes de perfumes na Primavera,     que aromatizavam em redor todos os caminhos.

A maior parte destas casas era habitada por uma população     flutuante de valetudinários ou convalescentes, que procuravam vigorar     forças, respirando a pleno seio o ar purificado e livre das montanhas     e dos bosques.

Pela manhã, quando as névoas principiavam a dissipar-se e,     por entre a folhagem das árvores, o sol penetrava mais fomentador de     vida e ia evaporar o orvalho que ainda rociava as ervas dos caminhos, viam-se     subir a colina, a passos vagarosos e com frequentes pausas, esses pálidos     doentes, que pareciam renascer só ao receberem aquelas auras embalsamadas     pelos perfumes das flores, e suavizadas pelos primeiros calores da manhã.

Era o velho quebrantado e trémulo, parando a meio caminho da ladeira     que subia, a fitar o céu, como se de antemão procurasse decifrar     o problema que em breve teria de resolver; o mancebo, inquieto e pensativo,     de aspirações ardentes e subidas e em tão alto grau,     que no empenho de as realizar lhe faleceram as forças e no forte da     luta sentia-se sucumbir; a virgem, meiga e melancólica, como uma das     mais ideais criações ossiânicas, errante por entre as     árvores seculares ou pendida à borda das correntes, escondendo     uma lágrima ou simulando um sorriso, manifestações diversas     na aparência e ambas denunciadoras tantas vezes de uma grande tristeza     interior; a mãe, jovem e doente, em torno à qual brincava um     bando de crianças alegres e cheias de vida, ignorando, as inocentes,     que todo o seu destino, que as suas alegrias ou as suas dores no futuro dependiam     agora daquelas árvores, onde se balanceavam risonhas, daquelas virações,     que lhes açoutavam os cabelos soltos e anelados.

Assim, pois, o lutar da vida e da morte era o que por toda a parte se via.     Contrastes de esperança e de desalento, antíteses de sorrisos     e de lágrimas.formavam a feição mais característica     do quadro.

O cair das folhas, o desenflorar da relva, os gemidos das aves, e as sombras     errantes que as nuvens projectavam pelos campos, tudo parecia harmonizar-se     tristemente com o cismar interrogativo do velho, com o suspirar do mancebo,     com as lágrimas da donzela e com o abraço convulso da mãe,     cingindo ao seio, em um frenético movimento, as cabeças louras     das crianças que lhe sorriam.

Era a vida a declinar: a consciência de um fim próximo a reprimir     aspirações a um longo futuro de mais prazeres e gozos.

Vacilantes entre um passado risonho e um porvir tenebroso e incerto, entre     a saudade do que foi e o medo do que há-de ser, esses pobres desconfortados     sorriam ainda, animavam-se, davam uns aos outros esperanças que não     sentiam em si.

Às vezes desaparecia de entre eles um rosto conhecido, e fechava-      se uma casa.

Resolvera-se para esse o problema, terminava a incerteza. Ou o arrebatara     a morte aos seus mistérios ou o restituirá a saúde às     suas alegrias. E, conforme uma ou outra dessas soluções, assim     o desalento ou a esperança se divisavam por dias no rosto dos companheiros     que ficavam.

Letras gravadas nos troncos das árvores atestavam as recordações     saudosas dos que tinham passado ali. Os sovereiros e as faias eram os confidentes     silenciosos de muita paixão secreta, de muita ilusão desvanecida,     de muito coração despedaçado. Quantas lágrimas     eles teriam sentido correr, ao receberem aquelas enigmáticas memórias     de um ser ausente que chorava também, ou, amarga ideia e quase sempre     mais verdadeira, que se esquecia e por isso mesmo mais amado era ainda! Mistérios     do coração ! Estas letras, destinadas a durar talvez mais do     que a mão que as gravava, documentavam muita história triste,     dramas ignorados, cujo último acto se representara nesses sítios,     que assim conservavam dele os derradeiros vestígios.

Nas paredes caiadas da capela do monte o lápis reproduzira memórias     iguais às que se viam gravadas nos troncos, e outras menos concisas,     que mais facilmente traíam o pensamento que as ditara.

Inscrições inumeráveis, irregulares, amontoadas, por     vezes ilegíveis, cobriam-nas até à altura a que podia     atingir o braço.

Frases cortadas, exprimindo muito, mas deixando ainda mais a adivinhar;     confrontações de nomes, que denunciavam uma história     inteira; dúvidas formuladas, indício de violentos e terríveis     estados da alma; apóstrofes ímpias, ditadas pelo desespero;     cânticos reverentes, inspirados pela resignação e pela     fé... — de tudo se via ali.

A elegia junto à ode; a saudade e logo após a esperança;     o cepticismo que fazia estremecer a crença consoladora, expressos por     todas as formas, concebidos dos modos mais variados, narravam eloquentemente     a história do coração humano nos mais solenes momentos     da sua vida tumultuosa e apaixonada.

Era mais do que curiosa a leitura daquele álbum singular; era instrutiva     e altamente filosófica.

Se se pudessem reunir todos esses fragmentos dispersos, completar as frases     interrompidas, preencher as lacunas, adivinhar o nexo misterioso de certas     ideias, aparentemente sem relação lógica que as fizesse     dependentes, ter-se-ia instituído um profundo estudo psicológico     e a mais perfeita análise dos afectos que dominam a existência     do homem.

Por mais de um motivo se tornava, pois, curioso o lugar, onde as exigências     da narração me obrigaram a transportar imaginariamente o leitor.

 

ROMPERA alegre a madrugada de um dos mais belos dias do Outono.

O orvalho gotejava ainda das folhas das árvores sacudidas pela brisa     matinal, e as gotas límpidas e oscilantes pareciam metamorfo- Bear-se     em rubis, safiras e esmeraldas ao refractar os raios da luz solar.

Era encantador o aspecto da colina naquela manhã; semelhava a donzela     que, brincando, desenfiou o seu colar de brilhantes e os soltou em desordem     pelos cabelos, pelo seio e pelo regaço, de onde, ao menor movimento,     lhe rolam até caírem no chão.

Os primeiros calores do dia erguiam já dos vales o sendal de névoas     que os envolvera, e, dissipando-as na atmosfera, temperavam de tintas mais     suaves o azul-escuro do céu.

Sobrepostas às serranias que limitavam o horizonte, divisavam-se     grandes massas de nuvens, cujos reflexos à luz oriental lhes dava a     aparência dos altos gelos que coroam as cristas das montanhas.

Iludidas por estes simulacros de Primavera, as próprias plantas pareciam     renascer. A seiva afluía-lhes de novo aos ramos despidos, e desenvolvendo-lhes     os gomos, revestia-as de folhas, desabrochando- -lhes os botões enfeitava-as     de flores, e os insectos, surgindo uma vez ainda do letargo insipiente, adejavam     em torno à corola humedecida que lhes patenteava os nectários.

Sorria a natureza ainda, mas havia o que quer que era meigo e melancólico     naquele sorrir. Eram como as alegrias plácidas do enfermo, vítima     de uma doença fatal, a quem a mais efémera remissão fez     conceber os prazeres da convalescença, mas sem que o possa iludir.

Ameaças permanentes no meio desta tranquilidade geral, eram, no horizonte,     as nuvens, como aguardando só por um sinal para invadirem o espaço,     e um rumor longínquo e monótono que de quando em quando os ventos     traziam aos ouvidos, como o grito de fera aprisionada — a voz profética     do mar pregoando tormentas durante a bonança que momentaneamente reinava.

A vida do campo manifestava-se toda nas eiras e nos celeiros onde se entesouravam     as riquezas do lavrador.

Risos, cantares, vozearias confusas, com que por toda a parte na planície     se acompanhavam os diferentes trabalhos das colheitas, chegavam, como mal     distinto burburinho, ao alto da colina, onde em compensação     reinava o silêncio solene e imponente, silêncio não absoluto,     porque falam os bosques e as torrentes, porque falam as aves e os insectos;     mas em que se não ouve a voz humana — o silêncio da solidão.

De facto a colina podia dizer-se deserta.

Era cedo ainda para o passeio matinal da pequena colónia d enfermos     que a habitava.

O doutor Jacob Granada recomendava-lhes que evitassem os nevoeiros da manhã,     e poucos ousariam infringir as ordenações do velho médico,     que no tocante à execução dos seus preceitos dava provas     de uma intolerância despótica.

Jacob Granada era um destes homens singulares, que desde primeira entrevista     nos deixam uma impressão profunda e indelével e cujo trato continuado,     a não se lhe opor convenientemente uma von tade inflexível e     uma grande força de carácter, tende a dar-lhes um predomínio     tal sobre os ânimos, que difícil é mais tarde subtrair-se     qual quer, que por algum tempo se lhe sujeitou a tão poderosa influência     Se o poder magnético tal como o concebem os mais crédulos e     ardentes apologistas da fantástica arte de Mesmer, fosse uma realidade     e não uma simples criação de visionários, decerto     possuiria Jacob Granada essa faculdade superior no grau mais elevado.

A inegável influência moral de caracteres como estes sobre     os menos rijamente temperados explica, e até de alguma sorte justifica,     a origem dessa singular doutrina, que a aura popular, favorável a todas     as ideias novas e extravagantes, tão extraordinariamente propagou.

Em Jacob Granada auxiliava ainda a influência dessas qualidades morais,     um conjunto de caracteres fisiognomónicos, que não podia deixar     de ferir a imaginação menos sujeita a impressões desta     ordem.

. . Os lineamentos predominantes da raça israelita, da qual a família     dele originariamente procedia, desenhavam-se-lhe acentuados nas feições     angulosas e expressivas, imprímindo-lhes um cunho de nacionalidade,     cuja interpretação não podia enganar.

Sobre a fronte, estreita mas elevada, alvejavam-lhe em raras e desordenadas     madeixas, as mais formosas cãs que ainda adornaram uma cabeça     de ancião. Os lábios, delgados e deprimidos nos ângulos     por contracção habitual, denunciavam longos hábitos de     reflexão e de reserva, que efectivamente lhe estavam na índole.     No nariz havia completa e absoluta conformidade com o do tipo judaico, e os     olhos pequenos, mas de uma vivacidade de fogo, exprimiam a inteligência     e subtileza de espírito, que um conhecimento ulterior não desmentia     nele..

Era excessivamente magro e um tanto curvado pelas fadigas do estudo e pelo     peso de sessenta anos de vida trabalhada por incessantes esforços físicos     e intelectuais; não obstante, nunca deixara de observar os mesmos hábitos     laboriosos, que eram já para ele imperiosa necessidade.

Ao romper do dia o jornaleiro encontrava-o nos caminhos com o vestido negro     e singelo, no qual conseguia combinar certa severidade com um não estudado     desalinho, e correspondendo sempre às saudações por uma     frase invariável, ou um simples e distraído movimento de cabeça.

Os cuidados de que Jacob Granada rodeava os seus doentes, ainda que salutares,     pesavam como um jugo, impertinente até para os de ânimo mais     dócil e submisso. Quem se confiasse à ciência do velho     facultativo tinha de depositar previamente nas mãos dele toda a liberdade     de acção e de pensamento durante o tempo por que se prolongasse     a moléstia.

Exigia que o doente pensasse pela cabeça do médico, que não     formasse uma só resolução sem expressamente lhe ser autorizada     pelas prescrições regulamentares que para cada qual instituía.

A completa resignação da vontade própria na sua, a     inteira abstenção de tudo quanto fossem perguntas ou objecções     sobre o tratamento seguido, a cega observância dos preceitos, aparentemente     mais insignificantes, que tivessem sido aconselhados por ele, eram as condições     fora das quais se não encarregava de tratamento algum; e à menor     infracção, declinava de si a incumbência, para nunca mais     a assumir.

Este despotismo médico valia ao doutor Jacob uma clientela numerosíssima     e inspirava uma confiança ilimitada na sua medicina.

Escutavam-no e obedeciam-lhe como a um oráculo, e os mais ousados     temiam de contrariá-lo ou de lhe fazer sequer uma dessas observações,     ãs vezes tão absurdas, que todo o doente se julga autorizado     a dirigir ao seu assistente.

As formas ásperas e sarcásticas com que Jacob Granada respondia     às mais tímidas interpelações, nas quais via sempre     uma tentativa de revolta, tiravam a vontade de as reproduzir.

Ora, para os homens que têm de viver com as multidões, este     procedimento é sempre fecundo em resultados.

Apresentar-nos perante elas como dominadores, como espíritos fortes     não dispostos à menor concessão, é de alguma sorte     revelar-lhes a consciência da nossa superioridade e desarmá-las     para a resistência; pelo contrário, encará-las tímidos,     aceitar-lhes observações, respeitar- -Ihes repugnâncias,     afagar-lhes tendências e simpatias, é fazer confissão     de fraqueza, estender a cabeça ao jugo dos caprichos delas, o suficiente     para nos desprestigiar e quebrar-nos as forças para o momento da acção.

Ou por índole ou por cálculo, havia Jacob Granada evitado     o desprestígio e exercia sobre a sociedade, que o rodeava, um império     absoluto.

Era por isso que os doentes daquela pequena colónia médica     confiada à sua direcção, não tinham ainda ousado     aventurar os primei ros passos sobre a relva húmida dos caminhos, não     obstante o aspecto convidativo da manhã, e contentavam-se, limpando     o vapor conden sado pelo frio nos vidros das janelas, em olhar através     deles, com os rostos descorados, para aquelas árvores que de fora os     seduziam Desta escrupulosa observância de um dos seus preceitos higié     nicos se podia convencer por os próprios olhos o inflexível     doutor que, ao contrário dos doentes e em oposição com     as prescrições que instituía, havia muito passeava nas     ruas irregulares e relvosas da ala meda que circundava a capela.

Não obstante a satisfação que desta fiel obediência     parecia dever resultar-lhe, não eram desanuviadas naquele momento as     feições do velho médico.

Uma profunda preocupação de espirito revelava-se-lhe nas rugas     mais acentuadas que lhe sulcavam longitudinalmente a fronte, na maior contracção     dos lábios e na rapidez e irregularidade do andar, interrompido por     pausas súbitas e movimentos impacientes.

Às vezes soltavam-se-lhe do peito, que se elevava em agitação     febril, suspiros mal reprimidos; e os punhos cerravam-se-lhe em contracções     nervosas; outras, um profundo desalento abatia-lhe a fronte, e os braços     descaíam-lhe como desfalecidos ao lado do tronco.

De quando em quando parava, parecendo absorvido na contemplação     de um objecto qualquer, como se nele descobrisse alguma coisa de misterioso     e estranho que o confundia; abaixava-se rapidamente para apanhar uma flor     cortada e esquecida no chão, e logo depois arrojava-a de si com enfado     visível; corria com ansiedade para a árvore, em cujo tronco     divisava uma inicial aberta de véspera, e cedo afastava-se dela, como     se a observação o contrariasse. Qualquer pequeno ruído     o fazia voltar em sobressalto; parava perturbado, depois, sacudindo a cabeça     por um movimento cheio de frenesi, recaía mais profundamente ainda     na turbação anterior. Palavras sem nexo, imperceptíveis,     incapazes de lhe trair o pensamento, saíam-lhe dos lábios e     faziam-no estremecer, como se outro as pronunciasse.

Ora, para quem conhecesse ou julgasse conhecer o doutor Jacob, era muito     para estranhar o seu estado extraordinariamente febril naquela manhã.

À impassibilidade profissional, que a opinião comum se apraz     atribuir a todos os médicos, reunia de facto Jacob Granada um temperamento     naturalmente apático, um sangue-frio nunca desmentido nos lances mais     patéticos e comoventes.

Gozava até entre os colegas de uma reputação de alma     empedernida, que ele se não dava ao trabalho de desvanecer.

Viam-no sorrir no momento em que, sob os golpes vagarosos e intrépidos     do seu escalpelo, os operados se estorciam em convulsões desesperadas;     observavam-lhe as feições inalteráveis quando, à     cabeceira do amigo agonizante, percebia no sucessivo decair do pulso e na     decomposição do rosto, o termo iminente de uma vida que se lhe     supunha cara. Tinha sempre a mesma dureza de maneiras, a mesma franqueza,     às vezes cruel, para com todos, qualquer que fosse a idade, o sexo     e condição. Não sabia de carícias para as crianças,     de delicadezas para as mulheres, de afabilidades para os pobres, de contemplações     para com os tímidos, de respeitos para a velhice. Todos eram doentes     para ele, e ele para todos médico e nada mais; mas o médico     que diagnostica, que receita, que opera, e não afaga, não lisonjeia,     não consola os doentes; que, sabendo-se necessário, não     ambiciona tornar-se desejado; que não recua no emprego de um meio salutar     pela lembrança do padecimento que suscita; que vela pela saúde     dos seus enfermos, mas zomba da sensibilidade deles.

Costumara-se a fazer o bem, como o cumprimento de um dever de que a razão     o convencera, mas supunham-no incapaz de experimentar aquela suave satisfação     que de tal prática resulta às almas mais delicadas.

Vivia só, não conhecia um único parente, evitava relações     íntimas, afugentava-as pela maneira glacial com que recebia as tentativas     dos poucos que as procuravam.

Tinha sempre um sorriso de zombaria para os padecimentos morais, em cuja     existência não acreditava.

Para ele tudo eram lesões, tudo órgãos alterados, tudo     perturbações materiais. À medicina psicológica     dos médicos espiritualistas devia os seus melhores epigramas. Não     havia doença de poeta ou de amante platónico, para a qual não     formulasse.

Era um desapiedado adversário desse vaporoso fantasma, que persegue     actualmente as mais delicadas organizações femininas —      o nervoso; ou o recebia com um sorriso de céptico, ou instituía     contra ele uma ordem de meios curativos capaz de aterrar inimigos, muito mais     reais e palpáveis.

Inteiramente indiferente ao conceito público, não observava     as modas em coisa nenhuma, não se justificava de arguições,     nem recebia conselhos.

Finalmente, tinha a reputação de grande médico, mas     de homem insociável e de verdadeira alma de mármore.

Era pois excepcional aquela profunda inquietação.

Fundira-se o gelo daquele ânimo impassível? Houvera enfim um     estímulo que despertara essa sensibilidade, entorpecida até     então? Assim parecia.

Quem o visse agora pela primeira vez,hesitaria em receber como verdadeiro     o conceito que geralmente se fazia do seu carácter e que acabamos de     esboçar aqui.

Não é dos temperamentos frios e impassíveis essa excitação     febril, esse movimento sem causa, sem norma, sem pensamento regulador que     o agitava; antes se revelava em tudo isso uma poderosa sensibilidade, ou nova     nele ou pelo menos ignorada.

Por muito tempo durou ainda o estado de inquietação e sobressalto,     que tão excepcionalmente revelava naquela manhã o fleumático     doutor Jacob.

Corriam os momentos consagrados por ele de ordinário às tarefas     clínicas, e, como se uma força irresistível o retivesse     ali, prosseguia naquela marcha rápida e desordenada, só interrompida     de quando em quando por gestos e movimentos mais desordenados ainda.

Mudando, porém, quase sem consciência do que fazia, a direcção     ao passeio, e encaminhando-se para um dos lados da capela que até então     lhe ficara oculto, estremeceu e instintivamente recuou alguns passos, como     se uma súbita e terrível aparição lhe surgira     dali.

Depois, com os olhos fitos, os lábios entreabertos e o corpo inclinado,     permaneceu em suspensão quase extática, e que formava notável     contraste com a turbação anterior.

Quem assim lhe absorvera tão profundamente a atenção     era uma mulher jovem, de estatura esbeltamente elevada e de formas airosas,     realçada por as amplas dobras de um vestuário elegante, a qual     naquele momento parecia atentamente ocupada em acrescentar na parede da capela,     mais uma inscrição, às tantas que existiam já.

A descoberta impressionaria Jacob Granada por ver nela uma flagrante infracção     de preceitos médicos, cometida por uma das mais rebeldes doentes da     colónia? Com dificuldade se convenceria que fosse essa a causa de tão     extraordinária surpresa quem nesse momento lhe estudasse a fisionomia     com alguma atenção.

De facto era notável a mudança.

O ar de sombria severidade, que lhe era habitual, desvaneceu-se como por     encanto, e um sorriso, fenómeno raro naquele semblante carregado, suavizando-lhe     a dureza típica dos contornos, pela primeira vez o mostrou capaz de     uma expressão de afabilidade e de brandura que ninguém conhecia     nele.

No olhar havia chamas que contradiziam a frieza de que fazia ostentação,     nos lábios uns visos de bondade a protestarem contra a velha reputação     de rispidez que adquirira Era uma metamorfose completa, A mulher que, sem     o saber, se tornara o objecto deste silencioso exame e a causa talvez de uma     profunda revolução naquele espírito que se julgava morto     para as impressões violentas, continuava, no entretanto, escrevendo     com uma rapidez que parecia querer acompanhar a dos pensamentos que lhe acudiam.

Afirmar-lhe a beleza, mas desistir da tenção de a caracterizar,     é o mais que pode fazer quem não possuir o segredo de certas     fisionomias que nos impressionam, que nos entusiasmam, por não sei     que fatal influxo que parece irradiar-se delas. Está o mistério     na palidez diáfana do rosto? no quebrar voluptuoso de uma vista cheia     de languidez? no ondeado elegante de tranças negras e macias? na inexprimível     melodia de certas inflexões de voz? em um arfar de seio prometedor     de delícias ? Quem o pode dizer ? A influência sente-se; não     se explica.

O belo que a arte, em qualquer das suas manifestações, consegue     realizar, ainda se estuda, ainda de alguma maneira responde ãs interrogações     analíticas do artista filósofo.

O pintor consegue pelo estudo entrever o mistério que faz grandes     as obras dos mestres; o musico, o segredo de harmonia das mais sublimes composições     da sua arte.

Mas o belo na natureza é mais independente dessas leis que a meditação     sobre os grandes modelos pode descobrir e que há muito a arte formulou.     Vemos aí a cada passo dissonâncias que agradam e arrebatam; combinações     de cores, em que a vista, mau grado as leis do colorido artístico,     se repousa deliciada; fisionomias que seduzem, a despeito dos reverenciados     moldes gregos, que a arte admira como a suprema manifestação     da beleza humana e que a natureza infinitas vezes com felicidade despreza.

Descrever fielmente uma dessas belezas misteriosas, analisá-la feição     por feição, é tentativa infrutífera.

Do todo é que procede o encanto, uma vista única o concebe,     um estudo minucioso desconhece-o.

Pintam-se as flores, mas os perfumes subtraem-se ao pincel; ora a beleza     feminina tem como as flores o aroma que inebria; a mais exacta descrição     não o pode reproduzir.

E a beleza de Valentina mais que todas, tão dependente como era da     vida que a animava, seria pàlidamente concebida pela cópia mais     fiel.

O que nela mais fascinava era de facto a quase cintilação     daquele olhar eloquente, as caprichosas contracções dos lábios,     os movimentos graciosos da cabeça, que ora inclinava lânguida,     ora erguia com vivacidade nervosa, o rubor intenso e a profunda palidez que     alternadamente à menor causa lhe invadiam as faces, todos estes efeitos     de um carácter por natureza móvel, de uma sensibilidade extrema,     que a primeira observação revela, mas que páginas inteiras     não bastariam para descrever.

Dir-se-ia a personificação de um capricho, mas de um desses     caprichos que, se com exigências nos revoltam, com atractivos nos desarmam.     Na volubilidade das feições, no arrojo do penteado, nas graças     do vestir negligente, na leviandade com que tratava as coisas sérias     e a sisudez que lhe mereciam outras insignificantes e pueris, denunciava-se     a todo o momento aquela índole essencialmente feminina.

Confiando-se aos cuidados médicos do doutor Jacob, era pois de prever     que, por impulsos desse génio indomável, se revoltasse contra     a vontade despótica que ele pretendia exercer sobre todos os seus doentes.

Efectivamente ninguém lhe tinha ainda mostrado uma tal insubordinação,     mas também ninguém encontrara ainda da parte do médico     israelita tão absoluta tolerância.

Só Valentina se atrevia a discutir com ele o valor de algumas prescrições,     só ela abusava dos epigramas sobre médicos e medicina, que Jacob     Granada de ninguém escutava impassível, como fervoroso crente     que era na realidade da sua ciência.

O fanatismo médico que anatematizava Rabelais, Molière, Bocage     e a turba menos famosa dos que todos os dias insulsamente lhes parodiam e     parafraseiam os epigramas, despojava-se da sua severidade para acolher com     um sorriso as alusões satíricas de Valentina, que fazia do seu     cepticismo gala.

Esta condescendência excepcional no doutor fora já detidamente     comentada nos círculos onde se discutiam os sucessos mais notáveis     daquele monótono mas salutífero viver da aldeia.

Os espíritos mais malignos aventuravam insinuações,     tanto mais jovialmente recebidas, quanto menor era a plausibilidade delas.

Riam-se do engraçado da suposição, como de um disparate     irrealizável ; mas a fama de inflexibilidade e dureza de Jacob Granada     nem de leve se sentia abalada pelo roçar destes gracejos que lhe voejavam     em torno.

Abriu-se uma excepção a respeito de Valentina. A natureza     humana havia de revelar a sua fraqueza originária alguma vez.

Todas as invulnerabilidades são como as de Aquiles; há sempre     um calcanhar que as atraiçoa.

Mas uma simples condescendência, um assomo de delicadeza para com     uma mulher jovem e elegante, não contradiz uma reputação     que mil provas solidamente firmaram.

As imunidades, de que Valentina gozava, acabaram por ser olhadas com o indiferentismo     com que recebemos todos os factos consumados. Ninguém contudo se sentia     com forças para repetir a experiência.

Um dos motivos da revolta mais frequentes em Valentina eram as ideias um     pouco materialistas do seu facultativo.

Com grande espanto e quase terror dos que a escutavam, a cada passo se arvorava     em defesa dos padecimentos morais, em cuja existência Jacob Granada     parecia não acreditar.

. — Desafio-o, meu caro doutor — disse-lhe ela uma vez, armando-      se de um dos seus sorrisos mais provocadores — desafio-o a que me aponte     com o dedo a lesão física que me trouxe aqui ou me diga ao ouvido     a droga medicinal que me deve curar. Rio-me interiormente sempre que o vejo     tomar-me o pulso, inspeccionar-me a língua, auscultar-me o palpitar     do coração e sentar-se para formular. Eu sei mais da minha doença     do que lhe podem ensinar todos esses livros de grande formato, que folheia     até altas horas.

Creia-me, doutor, se quiser ser médico eminente, estude menos a anatomia     do coração ou espirifualize-a. Olhe que nem todos os padecimentos     dele são aneurismas ou lesões semelhantes.

Estas palavras, que em outra boca teriam provocado uma explosão no     génio irascível e intolerante do clínico, foram desta     vez acolhidas com um sorriso singular, como até ali ninguém     tinha ainda observado nos lábios do doutor, e seguido de um silêncio     reflexivo muito parecido a completa abstracção.

Desde o momento em que pela primeira vez colheu este animador resultado,     Valentina declarou-se emancipada da salutar mas pesada tutela do velho médico.

É assim que a vimos infringindo com todo o sangue-frio uma das prescrições     do doutor, e ainda desta vez a tolerância excepcional do ríspido     facultativo para com ela não fora desmentida.

Não era com mudas estupefacções e arroubamentos quase     extáticos que Jacob Granada costumava receber os delitos desta natureza.

O facto, com outro qualquer, obrigá-lo-ia a romper em um acesso de     indignação, que mais se lhe coadunava com a índole do     que aquele transportado enlevo em que ficara absorvido.

Um movimento inesperado de Valentina fê-lo enfim instintivamente recuar;     a não ser isso, alheio a tudo o mais que o rodeava, o que o poderia     chamar a si?

 

PROCUROU então o abrigo das árvores, para dali, sem ser reconhecido,     poder continuar a observá-la.

Valentina, ignorando-se espionada, entregava-se em plena liberdade ao trabalho     de composição literária, no qual parecia empenhar todas     as suas faculdades.

Ora escrevia com velocidade, como se a ideia, logo ao despontar, se modelasse     imediatamente na forma desejada; outras vezes interrompia- se e inclinava     a cabeça, como se lutando interiormente com uma dificuldade imprevista;     mas a impaciência natural daquele espírito não lhe permitia     longa hesitação; afastava-se então da capela com gesto     de enfado, para voltar de novo, forçando a vontade, que por instinto     se revoltava contra toda a espécie de sujeição.

Jacob Granada não perdia um só desses movimentos: seguia-os     com avidez.

Uma poderosa fascinação parecia ter-se apoderado dele.

Dir-se-ia arrebatado em êxtase de fervoroso culto.

Não seriam, pois, infundadas as inocentes alusões, que a tolerância     sem exemplo do velho doutor para com Valentina havia suscitado ?

Rebentariam enfim os afectos daquele terreno árido ? Agora que as     neves da velhice lhe branquejavam na fronte, é que se derreteria o     gelo que tanto tempo lhe pesara no coração? Talvez ele próprio     se interrogasse sobre a estranha comoção que o dominava, nova     para os seus sessenta anos de vida isolada, e hesitasse em determinar-lhe     a causa.

Recuava talvez naquele momento diante da explicação que a     consciência lhe murmurava, e queria iludir-se sobre a fatal influência     a que cedia.

Grandes deviam ser os combates interiores que se travavam naquela alma forte     de toda a vida acumulada durante uma juventude vazia de afectos.

O rosto recebia o reflexo dessa luta, assumindo alternadamente as mais diversas     expressões; ora iluminavam-no os raios da esperança, outras     vezes assombrava-o uma nuvem de desalento.

Preparava-se talvez mais uma vítima para o longo martirológio     moral, menos que o outro celebrado em panegíricos, menos recompensado     pela compaixão mundana; porque quando a vista do sangue, o flagelar     das carnes e o estalar dos ossos não fala aos sentidos da multidão,     não há sentimentos para compreender provações,     lágrimas para chorar infortúnios, ãs vezes não     menos dolorosos.

Os mártires obscuros das paixões morrem contendo em si mesmo     os instrumentos da sua tortura. É o próprio coração     que cingem do cilício angustiante, é interior a lavareda que     os consome; lá dentro se lhes prepara a cicuta que os há-de     abrasar. Por isso só almas delicadamente perspicazes lhes assistem     ao suplício, só delas, e bem poucas são, podem esperar     os lamentos e as simpatias; das outras, em vez de lágrimas, recebem     muitas vezes os risos; em vez de alentos, motejos.

A multidão piedosa chora à vista das chagas sangrentas do     Cristo; mas não compreende as intensas amarguras morais daquele espírito     divino, que via a negação das suas sublimes ideias de paz e     de amor no suplício a que sucumbia; aflige-a a coroa da irrisão     pelo pungir dos espinhos que a formavam; mas não suspeita que outra     angústia, mais acerba ainda, despertava no Mártir em quem a     cingiram.

Almas martirizadas, padecei sofrendo, sucumbi sem um queixume; rir-se-iam     de vós se vos lamentásseis.

Vossos infortúnios não são compreendidos; mais vale     ocultá-los, como se tivésseis de envergonhar-vos deles.

Jacob Granada devia saber que tal seria o futuro daquela paixão —      e era paixão o que sentia em si? — se um dia aquelas revelações,     tímidas ainda, do coração comovido chegassem a pronunciar     o segredo que ele mesmo tremia de suspeitar.

O amor valer-lhe-ia uma condenação.

Ceder-lhe — era perder-se; resistir — seria possível?

Jacob Granada lutava, lutava como um desesperado, porque tinha consciência     do perigo. Mas a atracção era poderosa, a fascinação     enleava-o, arrebatava-o.

A força, com que resistia, devia tornar mais impetuosa a queda, se     afinal chegasse a fraquear.

Absorvido por estes pensamentos, agitando no espírito a tremenda     questão que o preocupava, permaneceu imóvel a contemplar Valentina,     até que a viu caminhar, afastar-se, sumir-se por entre as árvores     da alameda. Então, como se acordando sobressaltado de um profundo letargo,     olhou em roda de si e correu, com uma ansiedade de alucinado, para o lugar     onde observara essa encantadora visão.

Foi sob o domínio de um estranho desassossego que pôde ler     as seguintes quadras que aí encontrou escritas:

Fugi, andorinhas; em mais longes plagas     Buscai outras praias, florestas e o céu,     Que é triste o bramido que soltam as vagas     E um vento pressago nos bosques gemeu.

Fugi, namoradas das flores e estrelas,     Olhai: estes campos sem flores estão,     E cedo os espaços, à voz das procelas,     Sinistros, cerrados, sem luz ficarão.

Fugi, apresaai-vos, alados viajantes,     Em bandos ligeiros os mares cruzai.     Por outros países, por selvas distantes,     Mais flores e aromas, mais luz procurai.

Deixai estes montes, de neve c'roados,     As selvas despidas, e as folhas sem cor,     As grossas torrentes e os troncos quebrados     E os vales cobertos de denso vapor.

E quando, mais tarde, na verde campina,     As rosas voltarem com viço a florir,     E as serras, despidas da intensa neblina,     Virentes, formosas, se virem surgir;

E quando deslizem na praia arenosa     Mais lentas, mais brandas, as vagas do mar     E das laranjeiras de copa frondosa     Caírem as flores do chão do pomar;

E quando fugirem, informes, pesadas,     As nuvens sombrias que se erguem do sul.     Correndo dispersas e em flocos rasgadas     Nos plainos imensos de um límpido azul:

Voltai; nova quadra de amores vos chama;     Dos climas distantes pra estes parti;     Então tudo é vida, já tudo se inflama,     Há luz, há perfumes, faltais vós aqui!

Voltai, >que de novo serão florescentes     As selvas, os prados, o monte, os vergéis;     Quietas as brisas, as águas dormentes     Nos lagos tranquilos de novo vereis.

Só eu, que vos sigo com vistas saudosa     Ao vosso desterro, dos mares além.     Já quando no prado brotarem as rosas,     Talvez não reviva co'as rosas também,

Ai, não, não revivo, que o vento do Outono     Gemendo angustiado nas brenhas do vai,     Convida-me ao leito do plácido sono,     E as nénias entoa do meu funeral.

Eu morro ! Na chama do Sol que declina,     Bem sinto o presságio dum próximo fim.     Se um dia voltardes à voasa colina,     ó doces amigas! lembrai-vos de mim;

Daquela que, triste, vagando no olmedo,     O adeus da partida vos veio dizer.     Quem sabe das campas o oculto segredo?     Talvez vossos cantos eu possa entender.

Talvez que, ao ouvir-vos a queixa sentida     Quebrando das noites a triste mudez,     À sombra dos cedros da escura avenida     Acorde, a escutar-vos ainda uma vez.

O doutor Jacob acabou de ler estas quadras, aparentemente ditadas por uma     intensa melancolia e por o desalento quebrantador daquele espírito     juvenil, e como se quisesse obedecer a um pensamento fugitivo antes que a     reflexão lho fizesse abandonar, escreveu imediatamente por baixo do     último verso desta poesia, que não pudera ler com indiferença,     as seguintes linhas: «Voltarão as andorinhas e as flores, e os     sorrisos e as esperanças voltarão com elas. O desalento aos     vinte anos! o desalento quando se é jovem e bela! Efémera ficção.

«Enquanto se pode alimentar uma esperança, enquanto não     é irrisório todo o fantasiar futuros, a desventura é     uma nuvem passageira, e através dela radia sempre a aurora de uma existência     melhor.

Lamentar infortúnios imaginários e ter os olhos fechados para     os infortúnios irremediáveis que com uma palavra se fez nascer!     Não. É preciso ao menos que o saiba. Mitigue-lhe o mal que a     ilude o saber que há males maiores. Escute. Há um homem que     a ama, que lhe votou o mais verdadeiro culto que ainda sentiu no coração.     E este sentimento, de que se ufana por ser o mais puro, o mais sagrado de     quantos tem alimentado; esta paixão, que devia ser a sua glória,     causa o seu maior tormento. Desde que a confessasse, em vez de o respeitarem     por a ter concebido tão elevada, tão nobre, tão ideal,     condena-lo-iam ao desprezo e ao escárnio. Gloriando-se interiormente     dela, o desgraçado não ousaria proclamá-la. A fatalidade     persegue-o. Sufocar essa paixão que o devora e sucumbir sem a esperança     de que um dia o poderão lamentar! «A morrer por ela e o mundo     a rir-lhe na sepultura, se suspeitasse a causa que o arrastou ali! «      Ele não olha com saudade para as andorinhas que partem, para as flores     que murcham, para o Sol que declina; não as desejara tornar a ver nem     que o viessem evocar da campa, quando gozasse já do único sono     tranquilo que lhe restava agora dormir.

«Este sim que é o verdadeiro infortúnio! Peça     à imaginação que lhe faça conceber essa tortura     e, se tem um coração generoso, chore por ela; mas não     procure conhecê-la, seria obrigada a rir e, rindo, a cometer uma impiedade.»      Acabando de escrever estas palavras, Jacob Granada abandonou aqueles sítios     com a precipitação de um criminoso que se afasta do lugar do     delito.

DIAS depois escrevia Valentina a uma das suas amigas a seguinte carta: «Minha     querida: Deves supor-me morta. Um silêncio de meses depois de partir     ara a aldeia autoriza um necrológio. Pois enganas-te; vivo, vivo como     nunca vivi, como nunca supus que se vivia no mundo. Eu bem suspeitava que     havia de existir algures uma outra vida melhor para mim do que a que passávamos     ai; o contrário disto era dotar o autor da criação e     um poder imaginativo inferior ao dos nossos romancistas, cujos planos na vida     me agradavam mais; confesso-o. De facto existia. Tive a felicidade de encontra-la.     Estou salva! «Os ares livres, o cheiro balsâmico dos pinheiros,     a pureza das águas, a sadia simplicidade da cozinha campestre, os hábitos     regulares, vigílias moderadas, sonos convenientes, dirás tu,     quase disposta a fazer as pazes com a higiene, essa impertinente que nos amargurava     a existência, clamando contra os nossos mais queridos passatempos e     formulando absurdas regras de bem viver.

«Não te iludas porém. Olha que nada disso me salvou.

«Sentia-tne definhar no meio dessa feliz combinação     de circunstâncias salutiferas e não obstante o uso moderado que     fazia das drogas medicinais.

«Se eu bem sabia que a minha doença não estava no pulmão,     não estava nos nervos, não estava no sangue, como eles dizem     I

«O doutor Jacob, esse talmude encarnado, que me fitou logo a primeira     vez um olhar que parecia não dever encontrar obstáculo até     ao mais íntimo da alma, como se enganava também! «Queria     reconstituir-me o sangue, dizia ele; esta agitação febril que     me atormentava acalmaria depois; mas dizia-me isto tão distraído     que parecia não acreditar muito na opinião que formulava.

«Sabes que mais? A respeito dos médicos, como de outras muitas     coisas, os romancistas e dramaturgos tornaram-me o gosto muito difícil     de contentar.

«Onde está esse ideal do médico que sabe curar com uma     palavra, com um gesto, sem ser por o intermédio de um récipe,     de umas pílulas ou de um xarope ? o médico que aprendeu a calcular     o valor de uma comoção de espírito, que faz uso conveniente     das qualidades morais dos seus doentes ? Em parte nenhuma. E eu que tinha     a simplicidade de acreditar na verosimilhança dos lances curativos,     deixa-me assim chamar-lhes, que observava nos teatros! Foi uma outra ilusão     que perdi. Paciência.

«Jacob Granada não forma excepção à regra.

«É um homem abominável no seu positivismo este doutor!     Para ele tudo são congestões, hipertrofias, inflamações,     que sei eu?...

«Seria capaz de sangrar um poeta no ardor de composição     literária, a título de uma congestão cerebral.

«Ora eu é que não podia aceitar para mim semelhante     ideia_de lesão. Repugnava-me.

«Porque me interroga só o pulso? dizia-lhe; porque me não     interroga o pensamento, a imaginação? Não sabe que tenho     vinte anos? não sabe que penso, que sonho, que concebo e que a diferença     entre as minhas concepções e a realidade me pode fazer padecer?     Não vê que é toda afectiva a minha doença? Quer     curar-me com ópio, com ferro, com tónicos e calmantes? Olhe     o que faz. Não se lhe importe com o meu sangue, importe-se com o meu     espírito, com as minhas fantasias, com as minhas crenças. Complete     a sua ciência. Os seus livros de medicina não lhe falam de uma     doença que consiste apenas em anelos não realizados ? Dê     a isso um nome grego e terá feito uma descoberta.

«O velho médico ouvia-me calado. Ou não me entendia,     ou cismava ainda na lesão orgânica de que à força     me queria fazer presente, e nem atenção me dera.

«Mas eu dizia-lhe a verdade; e a prova... Ouve: «Lembras-te     daquelas heroinas dos contos de fadas, que tanto nos entretinham em crianças?     Eram umas princesas muito bonitas, muito ricas, muito sábias, mas vítimas     de uma doença desconhecida. Vinham os médicos de todas as partes     do mundo, visitavam-nas os sábios mais afamados, os cofres de el-rei,     seu pai, traziam dos mais longínquos países as drogas medicinais     que a ciência aconselhara; e ninguém lhes atinava com a moléstia,     e nada lhes realizava a cura. A menina definhava-se a olhos vistos, já     nem sabia sorrir, era uma cerração de tristeza aquela, que nenhum     raio de Sol atravessava.

«Um dia, porém... Recordas-te do que acontecia? Era o ponto     culminante do interesse. Chegava um pastor, um Adónis em beleza, desculpa-      me a referência mitológica, de rosto imberbe, de cabelos louros,     de sorrir angélico, e com um pomo silvestre, um ramo de flores do campo     ou com os sons rudes da sua frauta pastoril, fazia o milagre.

Trazia o sorriso aos lábios da menina, o colorido às faces     desmaiadas, a vida ao coração desfalecido... ai, o coração     sobretudo. Já ela erguia a cabeça, que até ali pendera     em morbidez, já não procurava a solidão, já não     aborrecia o mundo, os enfeites, as riquezas. Mas fora o pomo, o ramo de flores,     os sons da frauta que produziram o fenómeno? Qual! Fora o mesmo portador,     o pastor desconhecido que um oculto pressentimento trouxera ali. Amava, está     explicada a cura. Restava inclinar-se do alto do seu trono para estender a     mão agradecida ao simpático salvador, ajudá-lo a subir     os degraus, e sentá-lo a seu lado, trémulo de sobressalto e     de amor, e... era de uma vez um príncipe.

«Eis a minha história também, feitas as devidas alterações     no que diz respeito à beleza, à sabedoria e jerarquia da heroína.     Pelo menos, se não é ainda a minha história, parte dela     se realizou já.

«Imagina que parti daí perdida. Parecia-me que tudo estava     a findar para mim. Era um mal interior que me ralava, que me inquietava, que     me impedia repousar. Impacientavam-me as distracções, sufocava-me     a atmosfera das salas de baile e dos teatros, aborrecia-me a sociedade, sorria-me     a ideia da solidão de um claustro. Tenho a alma morta, dizia eu comigo,     como lhe há-de sobreviver o resto? Olha que acreditava sinceramente     que me tinha morrido a alma.

«Suscitei apreensões nas minhas amigas. Lembra-me que me impuseste     a medicina com desusada severidade. A medicina! Eu bem sabia o que ela viria     fazer, mas obedeci. Ares! ares! — exclamou ela — julgo que para     se ver livre de mim, como de quem suspeitava poucas probabilidades de vitória.     Ares! ares! — repetiste tu e o coro das pessoas que se interessavam     por mim. Foi-me forçoso condescender.

«Dias depois rendia preito e homenagem à pouco tratável     ciência do doutor Jacob Granada, actual superintendente da minha saúde.

«Respirei a plenos pulmões o ar que me aconselhavam; rompi     com os meus hábitos de indolência para saudar as madrugadas,     realmente bonitas, que se gozam aqui; soltei os cabelos às brisas salutares,     embalsamadas pelos aromas dos campos, mas a vida da natureza, cujo contágio     procurava, não se me comunicou. Era o mesmo desfalecimento, a mesma     impaciência, a mesma inexplicável mobilidade.

«Forçava-me a sorrir, a gracejar, divertia-me a educar convenientemente     o carácter inflexível do meu facultativo; mas cá dentro     tinha o mal que me pungia.

«Uma manhã... atende agora, que chegou o momento solene; uma     manhã impressionaram-me tão dolorosamente os sinais de decadência,     que, não obstante a amenidão do dia, eu por toda a parte reco,     nhecia no campo que, precisando de dar expansão àquela melancolia     para que me não matasse, fiz versos.

«Para outra vez tos enviarei; deixei-os escritos na parede de uma     capela, único sistema de publicidade que está em voga por aqui     Despedia-me das andorinhas que eu via partir, e despedia-me para sempre, porque     um pressentimento me dizia que o Outono me seria fatal, «Quem me observava,     quando eu escrevia? Não sei. Mas, dias depois, voltando ao sítio,     onde me acometeu este acesso literário de desesperação,     vi que alguém mo havia comentado. Li. Suspeitas o que era? «Uma     declaração de amor. Sou amada, ouves? compreendes? Amada e por     um homem que não conheço. Há na sua existência     um mistério; seu amor, que ele diz nobre, puro, com o qual se engrandece,     de que se orgulha, não o pode revelar, porque o mundo o condenaria     à irrisão. Tanto maior é a pureza dele, tanto maior seria     o escárnio que atrairia sobre si se o revelasse. Aí tens um     enigma; sabes decifrá- lo? Tenho pensado muito nisto e, olha, julgo     que adivinhei' «É a história da princesa.

«É algum pobre rapaz, entusiasta como um poeta, tímido     como uma criança, mas de origem obscura e a quem aterra o meu apelido     aristocrático.

«Julga-me tão alta, tão elevada em meus pergaminhos,     que me riria do seu amor como de uma irreverência censurável.

«Concebes uma loucura assim? Os soberbos são eles que, nobilitados     pela inteligência, nem por causa do amor a sujeitam ao que julgam uma     humilhação! « O meu interessante incógnito! Se     soubesse com que vontade eu rasparia os meus pergaminhos nobiliários     para escrever neles aquela declaração de amor! «Alma de     sensitiva, cujos delicados instintos têm vigorado na solidão     destas devesas; imaginação exaltada pelo contemplar das estrelas,     que parece cintilarem aqui mais animadas, dotadas de não sei que inteligência     para nos compreender; ele, a ingénua criança, treme do mundo     que não conhece, receia manchar a alvura das suas penas de cisne na     lama em que patinham esses gansos que lha invejam! «Como se o amor não     fosse a corrente límpida que lhe havia de restituir a nitidez! Incrédulo!     Ama-me e desconfia de mim! Ele que me salva... porque estou salva, disse-to,     e por ele, por ele só! — ele, que me salva, julga que me envergonharia     do seu amor! Oferece-me um culto reverente, sincero, apaixonado, ideal, e     teme que eu desvie a cabeça do incenso que me inebria! O mundo! o mundo!     pois repara- se lá no mundo quando se ama? Se as harmonias do coração     nos arrebatam, pode lá ouvir-se o sussurrar da multidão! «Vais     julgar-me louca, se te disser que o amo. 

«É verdade; não o conheço, não suspeito sequer     quem seja; mas «Deve ser belo; porque a alma pura tem reflexos de que     depende o que há na beleza de mais ideal.

«Triste de quem os não percebe, fere-os uma cegueira que os     pode encaminhar ao precipício; deve ser belo, assegura-mo a candura     aqueles sentimentos, o ideal daquele amor.

«Sei que o amo, adivinho que o hei-de amar. Por isso estou salva;     por isso te disse que vivia como nunca, como nem sabia que se vivesse.

«Estava cansada de galanteios, precisava de amor.

«As flores artificiais das salas de baile iludem-nos por momentos,     mas a ausência de perfume atraiçoa-as e logo se patenteia a arte     que as teceu; mas as flores, como a violeta, em vão se ocultam na relva     das campinas, denuncia-as o aroma que exalam, e são essas as que nos     seduzem.

«Sabe-lo tão bem como eu, tu a quem não iludem as adulações      «Estes elegantes de casaca, de cabelos frisados, de luva branca, que     se meneiam, que se torcem, que vergam e adejam, como importunos mosquitos,     em volta das nossas cadeiras, sibilando-nos insulsas galantarias; que nos     falam no tempo ao ouvido, para se darem aparências de intimidade, que     nos fazem o favor de uma risada da moda a cada sensaboria que pronunciamos;     esses leões terríveis que, carregando o sobrolho, imaginam ter     fascinado uma mulher...; ninguém lhes pode querer mal, coitados, mas     também quem os poderá tomar a sério ? «Aí     está explicada a minha isenção até ao dia em que     recebi esta prova de um misterioso amor.

«Compreendes como se pode amar por inspiração, não     é verdade ? Não te rirás desse sentimento que a leitura     daquelas linhas me inspirou, pois não? «Então digo-te     mais, digo-te que o animei. Ontem mesmo, em seguida às suas palavras     escrevi estas, que formulam um convite, o qual espero me não será     rejeitado. Submeto-as à tua censura.

«— Quem possui sentimentos que em sua consciência o nobilitam,     não pode envergonhar-se deles. Se eu fiz nascer o mal, tenho direito     a conhecê-lo. E não possui a liberdade de recusar-se à     confissão inteira, quem não hesitou ao exprimir as primeiras     queixas. Preciso um nome. Não sei de distâncias que prevaleçam     quando a correspondência de afectos trabalha por anulá-la; rio-me     dos preconceitos que o mundo respeita; e quando um sentimento é verdadeiramente     nobre, tenho faculdades para lhe apreciar a nobreza e sensibilidade bastante     para lhe não poder ser indiferente.» «Fiz mal escrevendo     isto? Pode ser, mas não me arrependo. Quero alentar essa alma tímida     que me votou um culto desinteressado, mostrar- me a seus olhos tal qual sou     e... —porque te não direi tudo, a ti, que és a minha melhor     confidente? — quero amá-lo. Se o meu amor lhe pode dar ventura,     hei-de torná-lo venturoso.

«Espero que em breve te comunicarei o resultado da minha entrevista.

Julgo-a inevitável.

«Diz-me se tens os mesmos pressentimentos da tua

«Valentim.»

 

Anoite estava tépida e tranquila, como se fora uma noite de Estio,     Os raios de luar esplêndido, internando-se pela espessura das árvores,     desenhavam no chão das alamedas ornatos irregulares, que apenas um     ligeiro tremor agitava.

Os últimos clarões do crepúsculo apavonavam ainda o     ocidente, onde acabara de esconder-se a estrela da tarde.

Muitos dos doentes do doutor Jacob, aproveitando-se da excepcional temperatura     daquela noite de Outono, passeavam a conversar por entre as árvores,     ou contemplavam silenciosos os variados efeitos da luz nos acidentes do terreno.

Valentina, afastando-se de toda a companhia, fora sentar-se nos degraus     da capela, junto da qual a vimos pela primeira vez. Na fisionomia, na atitude,     na distracção com que parecia fitar o disco luminoso da Lua,     por entre as folhas dos álamos, denunciava-se-lhe uma profunda inquietação.     A mesma influência, sob cujo domínio escrevera a carta que no     capítulo antecedente reproduzimos, ainda se não tinha desvanecido.

A mão oculta que lhe havia dirigido aquela veemente confissão     de um amor sem esperança era-lhe desconhecida.

Ao primeiro convite não respondera o misterioso escritor.

O carácter de Valentina não lhe permitia, porém, desistir     facilmente de uma resolução formada. Recuar depois dos primeiros     passos era um sacrifício, para que se não sentia de ânimo.

Depois, a fantasia criara-lhe um romance, um desses devaneios de vinte anos,     em que todo o nosso imaginar se concentra; paraíso de luz e de flores,     fora do qual tudo se nos mostra árido e obscuro. Já não     podia aceitar a realidade, depois de alguns momentos passados em livre devanear.

Insistiu e a novo emprazamento obteve uma resposta formulada apenas por     estas palavras: «Veja que me pede um sacrifício imenso. Não     sabe o que promete.

Assim, ainda posso iludir-me; depois... a confirmação das     minhas suspeitas ser-me-ia fatal.» Esta resposta não era de natureza     a modificar a tenção da caprichosa convalescente, antes lhe     exacerbou a impaciência natural, sobcuja inspiração escreveu     as seguintes palavras no mesmo lugar onde toda esta singular correspondência     havia sido arquivada: «Um culto sem fé! Como posso acreditá-lo     ? Duvidar dos meus sentimentos e querer que não duvide da sinceridade     dos seus! Hoje saberei o que devo julgar. Aqui hei-de estar uma vez mais ainda      — a ultima, se esperar em vão. Procurarei esquecer-me depois.»      Quando de tarde Valentina voltou a este lugar, uma só palavra resumia     a resposta que esperava: «Virei.» E era por isso que, à     medida que iam correndo os momentos e aproximando-se a entrevista que ela     havia exigido, uma vaga preocupação se lhe apoderava do espírito,     como se só agora ponderasse na importância do passo, que com     tanta leviandade havia dado.

Encontrar-se a sós com um homem desconhecido, que procurava ocultar-se     e temia o mundo, como se estigma indelével estivesse chamando sobre     ele o desprezo ou quem sabe se o castigo, fora uma grande imprudência!     E tal vulto tomavam às vezes estas apreensões no ânimo     de Valentina, que, ferida de terror, erguia-se como para fugir destes lugares,     de onde julgava ver já levantarem-se espectros assustadores. Em breve,