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SHOGUN – Volume I / James Clavell
SHOGUN – Volume I / James Clavell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

SHOGUN – Volume I

Primeira Parte

 

A ventania atingiu-o com violência, ele sentiu-lhe fundo a vergastada e soube que se não atracassem dentro de três dias, morreriam todos. Mortes demais nesta viagem, pensou, sou piloto-mor de uma frota morta. De cinco navios sobrou um — vinte e oito homens de uma tripulação de cento e sete -, e agora apenas dez podem andar e o resto está às portas da morte, o capitão-mor entre eles. Não há comida, quase não há água e a que há é salobra e lodosa.

O nome dele era John Blackthorne. Estava sozinho no convés, à exceção do vigia no gurupês - Salamon, o mudo -, que se encolhia a sotavento, perscrutando o mar à sua frente.

O navio adernou com uma rajada repentina e Blackthorne agarrou-se ao braço da cadeira de convés amarrada perto do timão, no tombadilho, até que ele se aprumasse, os costados rangendo. Ele era o Erasmus, de duzentas e sessenta toneladas, uma belonave mercante de três mastros, proveniente de Rotterdam, armado com vinte canhões e único sobrevivente da primeira frota expedicionária enviada da Neerlândia para devastar o inimigo no Novo Mundo. Os primeiros navios holandeses a violar os segredos do estreito de Magalhães. Quatrocentos e noventa e seis homens, todos voluntários. Todos holandeses, com exceção de três ingleses - dois pilotos, um oficial. Suas ordens: saquêar as possessões espanholas e portuguesas no Novo Mundo e incendiá-las; estabelecer concessões de comércio permanentes; descobrir novas ilhas no oceano Pacífico que pudessem servir como bases permanentes e reivindicar o território para a Neerlândia; e, dentro de três anos, voltar para casa.

A Neerlândia protestante estava em guerra com a Espanha católica há mais de quatro décadas, combatendo para se livrar do julgo de seus odiados senhores espanhóis. A Neerlândia, às vezes chamada de Holanda, Terra dos Holandeses ou Países Baixos, ainda era legalmente parte do império espanhol. A Inglaterra, sua única aliada, o primeiro país da cristandade a romper com a corte papal em Roma e a tornar-se protestante uns setenta e tantos anos antes, também estava em guerra com a Espanha nos últimos vinte anos, e se aliara abertamente aos holandeses há uma década.

O vento avivou-se ainda mais e o navio balançou. Estava navegando sem velas, exceto pelo joanete, para tempestades. Ainda assim, a maré e a tempestade impeliam-no com força rumo ao horizonte enegrecido. Há mais tempestade lá, disse Blackthorne a si mesmo, e mais recifes e mais bancos de areia. E mar desconhecido. Bom. Enfrentei o mar a vida toda e sempre venci. Vencerei sempre.

Primeiro piloto inglês a atravessar o estreito de Magalhães.

Sim, o primeiro — e o primeiro a singrar aquelas águas asiáticas -, não considerando alguns bastardos portugueses ou espanhóis sem mãe, que ainda pensam que são os donos do mundo.

Primeiro inglês naqueles mares...

Tantos primeiros. Sim. E tantas mortes para derrotá-los.

Provou o vento novamente, cheirou-o, mas não havia indício de terra. Sondou o oceano, mas estava de um cinza sombrio e ameaçador. Nem um punhado de algas ou alguma mancha parda para dar sinal de algum banco de areia. Viu a crista de outro recife, longe, a estibordo, mas isso não lhe disse nada. Fazia um mês agora que esses afloramentos o ameaçavam, mas nem um vislumbre de terra. Esse infinito do oceano, pensou. Bom. É para isso que você foi treinado - navegar em mar desconhecido, fazer mapas dele e voltar para casa. A quantos dias de casa? Um ano, onze meses e dois dias. O último desembarque, no Chile, cento e trinta e três dias à popa, do outro lado do oceano que Magalhães cruzou pela primeira vez oitenta anos atrás, chamado Pacífico.

Blackthorne estava faminto, e tinha a boca e o corpo doídos por causa do escorbuto. Forçou os olhos para examinar a bússola, e o cérebro para calcular uma posição aproximada. Uma vez que a situação estivesse registrada no seu portulano - seu manual de mar -, ele estaria salvo nessa mancha de oceano. E se estivesse a salvo, seu navio também o estaria, e então, juntos, poderiam encontrar o Japão, ou mesmo o rei cristão Prestes João e seu império dourado que, segundo a lenda, se estendia ao norte de Catai, fosse onde fosse que Catai ficasse.

E com a minha parte das riquezas, velejarei de novo, rumo oeste, para casa, primeiro piloto inglês a jamais circunavegar o globo, e nunca abandonarei o lar novamente. Nunca. Pela cabeça do meu filho!

A chicotada do vento interrompeu seu devaneio e manteve-o desperto. Dormir agora seria tolice. Você nunca acordará desse sono, pensou, e esticou os braços para relaxar os músculos das costas com cãibras e estreitou mais a capa junto ao corpo. Viu que as velas estavam ajustadas e o timão amarrado com segurança.

O vigia do gurupês estava acordado. Então, pacientemente, afundou na cadeira e rezou por terra.

- Vá para baixo. Fico com este turno de vigia, se lhe agrada. - O terceiro imediato, Hendrik Specz, estava se içando para o passadiço, o rosto acinzentado de cansaço, os olhos encovados, a pele amarelada e com pústulas. Encostou-se pesadamente contra a bitácula para se firmar, sentindo um pouco de ânsia de vômito.

- Cristo abençoado, mijo no dia em que saí da Holanda!

- Onde está o imediato, Hendrik?

- No beliche dele. Não pode sair do beliche de scheit vull. E não sairá, pelo menos antes do Dia do Juízo.

- E o capitão-mor?

- Gemendo por comida e água. - Hendrik cuspiu. - Disse-lhe que vou assar um capão para ele e lhe levar numa bandeja de prata, com uma garrafa de conhaque para ajudar o frango a descer. Scheit-huist! Coot!

- Cale a boca!

- Vou calar, piloto. Mas ele é um imbecil roído de vermes, e morreremos por causa dele. - O jovem teve ânsias e cuspiu um catarro mosqueado. - Que Cristo abençoado me ajude!

- Vá para baixo. Volte ao amanhecer.

Hendrik arriou pesadamente sobre a outra cadeira de convés.

- Há o fedor da morte lá embaixo. Fico de vigia, se lhe agrada. Qual é a rota?

- Qualquer lugar para onde o vento nos leve.

- Onde está a terra que você nos prometeu? Onde está o Japão, onde está, pergunto eu?

- Em frente.

- Sempre em frente! Gottinhimmel, não fazia parte das nossas ordens navegar para o desconhecido. Devíamos estar de volta a casa nesta altura, a salvo, de barriga cheia, não à caça de fogo-de-santelmo.

- Vá para baixo ou cale essa boca!

Sombriamente, Hendrik desviou o olhar do homem alto e barbado. Onde estamos agora? queria perguntar. Por que não posso ver o portulano secreto? Mas sabia que não se fazem essas perguntas a um piloto, particularmente a este. Ainda assim, pensou, gostaria de estar tão forte e saudável como quando parti da Holanda. Então não esperaria. Esmagaria seus olhos cinza-azulados agora e arrebentaria esse meio sorriso de enlouquecer no rosto dele e o mandaria para o inferno, que é o que você merece. Aí eu seria capitão-piloto e teríamos um neerlandês comandando o navio — não um estrangeiro -, e os segredos estariam seguros para nós. Porque logo estaremos em guerra contra você, inglês. Queremos a mesma coisa: dominar o mar, controlar todas as rotas de comércio, dominar o Novo Mundo, e estrangular a Espanha.

- Talvez o Japão não exista - resmungou Hendrik. - É uma lenda Gottbewonden.

- Existe. Entre as latitudes trinta e quarenta norte. Agora cale a boca ou vá para baixo.

- Há morte lá embaixo, piloto - resmungou Hendrik, e olhou para a frente, como que devaneando. Blackthorne mudou de posição na sua cadeira de convés, o corpo doendo mais hoje. Você tem mais sorte do que a maioria, pensou, mais sorte do que Hendrik. Não, não mais sorte. Você é mais cuidadoso. Guardou suas frutas, enquanto os outros consumiram as deles despreocupadamente. Contra as suas advertências. Portanto agora o seu escorbuto ainda está brando, enquanto os outros têm hemorragias constantes, diarréia, os olhos injetados e lacrimejantes, e os dentes perdidos ou soltos na cabeça. Por que será que os homens nunca aprendem?

Sabia que todos o temiam, até o capitão-mor, e que a maioria o odiava. Mas isso era normal, pois era o piloto quem comandava no mar; era ele quem determinava a rota e dirigia o navio, ele quem os trazia de porto em porto.

Qualquer viagem, hoje, era perigosa, porque as poucas cartas de navegação que existiam eram tão vagas que se tornavam praticamente inúteis. E não havia absolutamente nenhum modo de determinar a longitude.

- Descubra como determinar a longitude e você será o homem mais rico do mundo - dissera-lhe seu velho professor, Alban Caradoc. — A rainha, que Deus a abençoe, lhe dará dez mil libras e um ducado pela resposta ao enigma. Os portugueses comedores de bosta lhe darão mais: um galeão de ouro. E os espanhóis sem mãe lhe darão vinte! Se não tem terra à vista, você está sempre perdido, mocinho. - Caradoc fizera uma pausa e meneara lentamente a cabeça, como sempre.

- Você está perdido, mocinho. A menos que...

- A menos que tenha um portulano! - exclamara Blackthorne alegremente, sabendo que aprendera bem a lição. Estava com treze anos naquela altura e já fazia um ano que era aprendiz de Alban Caradoc, piloto e construtor naval, que se transformara no pai que ele perdera, e que nunca lhe batera, mas ensinara, a ele e aos outros rapazes, os segredos da construção naval e da intimidade com o mar.

Um portulano era um livrinho que continha a observação detalhada de um piloto que estivera lá antes. Registrava percursos por bússolas magnéticas entre portos e cabos, promontórios e canais. Assentava a sondagem, profundidades e cor da água, e a natureza do leito do mar. Continha o como-chegamos-lá-e-como-voltamos: o tempo das tempestades e o de ventos propícios; onde querenar o navio e onde abastecer de água; onde havia amigos e onde inimigos; bancos de areia, recifes, marés, céus; numa palavra, todo o necessário para uma viagem segura.

Os ingleses, holandeses e franceses tinham portulanos para suas próprias águas, mas as águas do resto do mundo tinham sido navegadas apenas por capitães de Portugal e Espanha, e esses dois países consideravam todos os portulanos secretos. Portulanos que revelavam os caminhos marítimos do Novo Mundo ou elucidavam os mistérios do estreito de Magalhães e do cabo da Boa Esperança - ambos descobertas portuguesas -, e desse modo os caminhos marítimos para a Ásia, eram guardados como tesouros nacionais pelos portugueses e espanhóis, e procurados com igual ferocidade pelos inimigos holandeses e ingleses.

Mas um portulano era apenas tão bom quanto o piloto que o escrevera, o escriba que o copiara a mão, o raríssimo impressor que o imprimira, ou o acadêmico que o traduzira. Um portulano podia, por isso, conter erros. Até erros intencionais. Um piloto nunca sabia com certeza até que tivesse estado lá pessoalmente.

Pelo menos uma vez.

Ao mar o piloto era o líder, o único guia, o árbitro final do navio e da tripulação. Sozinho, comandava do tombadilho.

Isso é vinho forte, disse Blackthorne a si mesmo. E uma vez provado, era para não ser esquecido nunca, ser procurado sempre, o sempre necessário. É uma das coisas que mantêm a gente viva, enquanto outros morrem.

Levantou-se e satisfez suas necessidades nos embornais. Mais tarde a areia esgotou na ampulheta ao lado da bitácula, ele virou-a o       tocou o sino do navio.

- Pode ficar acordado, Hendrik?

- Sim. Sim, acho que sim.

- Mandarei alguém para substituir o vigia do gurupês. Veja que ele fique ao vento e não a sotavento. Isso o manterá atento e desperto. — Por um momento perguntou a si mesmo se não deveria virar o navio contra o vento e seguir para a noite, mas decidiu em contrário, desceu para a gaiúta e abriu a porta do castelo de proa. A cabina se estendia por toda a largura do navio, e tinha beliches e espaços de redes para cento e vinte homens. O calor envolveu-o, ele se sentiu grato por isso e ignorou o mau cheiro sempre presente, vindo dos porões abaixo. Nenhum dos vinte e tantos homens moveu-se do seu beliche.

- Vá para cima, Maetsukker - disse em holandês, a língua franca dos Países Baixos, que ele falava perfeitamente, assim como o português, o espanhol e o latim.

- Estou às portas da morte - disse o homenzinho de feições astutas, encolhendo-se mais fundo no beliche. - Estou doente. Olhe, o escorbuto levou todos os meus dentes. Que Jesus nos ajude, vamos todos morrer! Não fosse por você, estaríamos todos em casa agora, a salvo! Sou um mercador. Não sou um marujo.

Não faço parte da tripulação... Pegue algum outro. Johann está... — Deu um berro quando Blackthorne o arrancou para fora do beliche e o arremessou contra a porta. Sua boca ficou salpicada de sangue e ele, completamente atordoado. Um pontapé brutal no lado fê-lo sair da letargia.

- Ponha a cara lá em cima e fique lá até morrer ou até que desembarquemos.

O homem escancarou a porta com um puxão e fugiu agoniado.

Blackthorne olhou os outros. Sustentaram-lhe o olhar fixamente.

- Como está se sentindo, Johann?

- Razoavelmente, piloto. Talvez eu viva.

Johann Vinck tinha quarenta e três anos, era o chefe de artilharia e imediato do contramestre, o homem mais velho a bordo. Estava sem cabelos e sem dentes, da cor de um carvalho velho o igualmente forte. Seis anos antes navegara com Blackthorne na malfadada busca da passagem nordeste, e cada um conhecia a capacidade do outro.

- Na sua idade a maioria dos homens já morreu, de modo que você está à frente de todos nós. - Blackthorne tinha trinta e seis.

Vinck sorriu melancolicamente.

- É o conhaque, piloto, isso mais a fornicação e a vida santa que levei.

Ninguém riu. Então alguém apontou para um beliche.

- Piloto, o contramestre morreu.

- Então levem o corpo para cima! Lavem-no e fechem-lhe os olhos! Você, você e você!

Os homens desta vez saíram rapidamente dos beliches e, juntos, meio arrastaram, meio carregaram o cadáver para fora da cabina.

- Pegue o quarto do amanhecer, Vinck. E Ginsel, você é vigia da proa.

- Sim, senhor.

Blackthorne voltou ao convés.

Viu que Hendrik ainda estava acordado, que o navio estava em ordem. O vigia substituído, Salamon, cambaleou à sua frente, mais morto do que vivo, os olhos inchados e vermelhos por causa do vento. Blackthorne atravessou o convés até a outra porta e desceu. O passadiço levava à grande cabina na popa, que era alojamento e paiol do capitão-mor. Essa cabina ficava a estibordo, e a outra, a bombordo, geralmente se destinava aos três imediatos.

Agora era compartilhada por Baccus van Nekk, o chefe dos mercadores, Hendrik, o terceiro imediato, e o rapaz, Croocq. Estavam todos muito doentes.

Dirigiu-se para a cabina grande. O capitão-mor, Paulus Spillbergen, estava deitado semiconsciente no beliche. Era um homem pequeno, corado, normalmente muito gordo, mas agora muito magro, a pele da barriga pendendo frouxamente em dobras. Blackthorne pegou um frasco de água de uma gaveta secreta e ajudou-o a tomar um pouco.

- Obrigado - disse Spillbergen fracamente. - Onde está a terra? Onde está a terra?

- À frente - replicou o outro, já sem acreditar nisso, depois guardou o frasco de água, fez-se surdo aos lamentos e partiu, sentindo renovar-se o ódio pelo capitão.

Há quase um ano, exatamente, haviam atingido a Terra do Fogo, com ventos favoráveis à travessia do desconhecido no estreito de Magalhães. Mas o capitão-mor ordenara um desembarque para procurar ouro e riquezas.

- Jesus Cristo, olhe para terra, capitão-mor! Não há riqueza alguma nesses ermos.

- A lenda diz que é rica em ouro e podemos reivindicar a terra para a gloriosa Neerlândia.

- Os espanhóis têm soldados aqui há cinqüenta anos.

Talvez. Mas talvez não tão ao sul, piloto-mor.

- Neste sul remoto, as estações são invertidas. Maio, junho, julho e agosto são de inverno rigoroso. O portulano diz que a época é crítica para atravessar o estreito. Os ventos mudam dentro de poucas semanas, depois teremos que ficar aqui e o inverno aqui dura meses.

- Quantas semanas, piloto?

- O portulano fala em oito. Mas as estações não são sempre iguais...

- Então exploraremos por umas duas semanas. Isso nos dá muito tempo, e depois, se necessário, iremos para o norte novamente e saquêaremos mais algumas cidades, hein, cavalheiros?

Temos que tentar agora, capitão-mor. Os espanhóis têm muito poucos navios de guerra no Pacífico. Digo que temos que ir em frente agora.

Mas o capitão-mor o ignorara e colocara o assunto à votação dos outros capitães não dos outros pilotos, um inglês e três holandeses -, e conduzira inúteis incursões de pilhagem a terra.

Os ventos mudaram cedo naquele ano e eles tiveram que passar o inverno lá, o capitão-mor com medo de seguir para o norte por causa das frotas espanholas. Passaram-se quatro meses até que pudessem velejar. Nessa altura, cento e cinqüenta e seis homens haviam morrido de inanição, frio e defluxo, e os outros estavam comendo as peles de bezerro que cobriam os cordames.

As terríveis tempestades dentro do estreito dispersaram a esquadra. O Erasmus foi o único navio que apareceu no local de encontro, ao largo do Chile. Esperaram um mês pelos outros e depois, com os espanhóis se aproximando, zarparam rumo ao desconhecido. O portulano secreto se detinha no Chile.

Blackthorne voltou pelo corredor e destrancou a porta da sua cabina, trancando-a de novo atrás de si. A cabina era de vigas baixas, pequena e arrumada, e ele teve que se curvar ao cruzá-la para se sentar à sua escrivaninha. Destrancou uma gaveta e desembrulhou com todo o cuidado a última das maçãs que armazenara tão cuidadosamente por todo o caminho desde a ilha Santa Maria, ao largo do Chile. A fruta estava machucada, minúscula, com bolor na parte estragada. Ele cortou um quarto. Havia alguns vermes dentro. Comeu-os junto com a polpa, atento à velha lenda do mar de que os vermes de maçã eram exatamente tão eficazes contra o escorbuto quanto a própria fruta, e que, esfregados nas gengivas, ajudavam a impedir que os dentes caíssem. Mastigou suavemente, porque os dentes doíam e as gengivas estavam sensíveis e inflamadas, depois tomou uns goles de água do odre de vinho. Tinha um gosto salobro. Em seguida embrulhou o resto da maçã e fechou-o a chave.

Um rato correu nas sombras, delineado pela lanterna de óleo pendurada acima da cabeça de Blackthorne. Os costados rangeram agradavelmente. Algumas baratas se atropelaram pelo chão.

Estou cansado. Estou muito cansado.

Deu uma olhada no beliche. Comprido, estreito, o convidativo colchão de palha.

Estou tão cansado.

Vá dormir uma hora, disse a sua metade má. Dez minutos, que sejam, e você estará revigorado por uma semana. Faz dias que você só dorme algumas horas, e a maior parte disso lá em cima, ao frio. Você tem que dormir. Dormir. Eles contam com você...

- Não vou dormir, durmo amanhã - disse ele em voz alta, e fez força com a mão para destrancar o baú e tirar o portulano.

Viu que o outro, em português, estava seguro e intacto, e isso o deixou contente. Pegou uma pena limpa e começou a escrever:

"12 de abril de 1600. Quinta hora. Crepúsculo. 133.° dia desde a ilha Santa Maria, Chile, no grau 32 norte da linha de latitude.

Mar ainda alto, vento forte e o navio mastreado como antes. Cor do mar de um monótono cinza esverdeado e insondável. Ainda estamos correndo com o vento num curso de 270 graus, virando para nor-noroeste, avançando rapidamente, cerca de duas léguas, cada uma de três milhas, por hora. Grandes recifes em forma de triângulo foram avistados a meio grau de longitude apontando para nordeste em direção norte, a meia légua de distância.

"Três homens morreram de escorbuto à noite: Joris, veleiro, Reiss, artilheiro, e o segundo imediato, De Haan. Depois de encomendar-lhes as almas a Deus, visto que o capitão-mor ainda está doente, lancei-os ao mar sem mortalhas, pois não havia ninguém para fazê-las. Hoje o Contramestre Rijckloff morreu.

"Não pude medir o desvio do sol ao meio-dia de hoje, novamente por causa da nebulosidade. Mas calculo que ainda estejamos na rota e que o desembarque no Japão ocorra logo..."

- Mas quão logo? - perguntou à lanterna que pendia acima de sua cabeça, oscilando com o jogo do navio. Como fazer uma carta? Deve haver um modo, disse ele a si mesmo pela milionésima vez. Como determinar a longitude? Deve haver um modo. Como conservar os vegetais frescos? O que é escorbuto?...

- Dizem que é um defluxo do mar, rapaz - dissera Alban Caradoc. Era um homem generoso, de ventre avantajado, com uma encaracolada barba grisalha.

- Mas não se podem ferver as verduras e conservar o caldo?

- Estragam, mocinho. Ninguém jamais descobriu um modo de armazená-las.

- Dizem que Francis Drake vai zarpar em breve.

- Não. Você não pode ir, menino.

- Tenho quase catorze anos. Você deixou Tim e Watt se engajarem e Drake precisa de pilotos aprendizes.

- Eles têm dezesseis anos. Você só tem treze.

- Dizem que ele vai tentar atravessar o estreito de Magalhães, depois subir a costa para a região inexplorada, para as Califórnias, para encontrar os estreitos de Amian, que unem o Pacífico ao Atlântico. Das Califórnias, para a Terra Nova e para a passagem noroeste finalmente...

- A suposta passagem noroeste, mocinho. Ninguém comprovou essa lenda ainda.

- Ele fará isso. É almirante agora e seremos o primeiro navio inglês a atravessar o estreito de Magalhães, o primeiro no Pacífico, o primeiro. Nunca terei outra chance como essa.

- Oh, sim, terá, e ele nunca violará o segredo do caminho de Magalhães, a menos que possa roubar um portulano ou capturar um piloto português para guiá-lo. Quantas vezes eu preciso lhe dizer: um piloto tem que ter paciência. Aprenda paciência, menino. Você tem...

- Por favor?

- Não.

- Por quê?

- Porque ele ficará fora dois, três anos, talvez mais. Os fracos e os jovens ficarão com a pior comida e com o mínimo de água. E dos navios que vão, só o dele retornará. Você nunca sobreviveria, menino.

- Então vou me engajar apenas para o navio dele. Sou forte. Ele me aceitará!

- Ouça, menino, estive com Drake no Judith, seu navio de cinqüenta toneladas, em San Juan de Ulua, quando nós e o Almirante Hawkins, que estava no Minion, abrimos nosso caminho a força para fora da enseada, por entre os espanhóis comedores de bosta. Estávamos comerciando escravos da Guiné para o Spanish Main 1, mas não tínhamos licença espanhola para o comércio e eles lograram Hawkins e armaram uma cilada para a nossa esquadra. Tinham treze navios grandes, nós, seis. Afundamos três dos deles, e eles nos afundaram o Swallow, o Angel, o Caravelle e o Jesus of Lubeck. Oh, sim, Drake conseguiu nos arrancar da emboscada e nos trouxe para casa. Com onze homens a bordo para contar a história. Hawkins tinha quinze. Isso de quatrocentos e oito excelentes lobos-do-mar. Drake é inclemente, menino. Quer glória e ouro, mas só para si, e muitos homens morreram para provar isso.

- Mas eu não morrerei. Serei um dos...

- Não. Você é aprendiz por doze anos. Tem mais dez, depois está livre. Mas até lá, até 1588, vai aprender como construir navios e como comandá-los. Obedecerá a Alban Caradoc, mestre construtor naval, piloto e membro da Trinity House, ou nunca terá uma licença. E se não tiver uma licença, jamais pilotará qualquer navio em águas inglesas, nunca comandará o tombadilho de qualquer navio inglês em quaisquer águas, porque essa foi a lei do bom Rei Harry, Deus conserve a sua alma. Foi lei da grande prostituta Maria Tudor, que sua alma esteja no inferno, é lei da rainha, que ela possa reinar para sempre, é lei da Inglaterra, e é a melhor lei marítima que jamais existiu.

Blackthorne lembrou-se de como odiara seu mestre então, e odiara a Trinity House, o monopólio criado por Henrique VIII em 1514 para o treinamento e licenciamento de todos os pilotos e mestres ingleses, e odiara seus doze anos de semi-escravidão, sem os quais sabia que nunca conseguiria a única coisa no mundo que queria. E odiara Alban Caradoc ainda mais quando, para glória eterna de Drake, este e sua corveta de cem toneladas, a Golden Hind, voltaram miraculosamente à Inglaterra após desaparecerem por três anos, o primeiro navio inglês a circunavegar o globo, trazendo a bordo o saquê mais rico jamais trazido àquelas praias: um incrível milhão e meio de esterlinos em ouro, prata e especiarias.

Que quatro dos cinco navios estivessem perdidos e oito em cada dez homens estivessem perdidos, e Tim e Watt estivessem perdidos, e um piloto português capturado houvesse conduzido a expedição para Drake através de Magalhães para o Pacífico, não lhe diminuíram o ódio; que Drake tivesse enforcado um oficial, excomungado o Capelão Fletcher e fracassado na tentativa de encontrar a passagem noroeste não diminuíram a admiração nacional por ele. A rainha tomou cinqüenta por cento do tesouro e o armou cavaleiro. A pequena nobreza e os comerciantes que haviam levantado o dinheiro para a expedição receberam trezentos por cento de lucro e suplicaram para subscrever a sua próxima viagem de corsário. E todos os marujos imploraram para navegar com ele, porque ele realmente conseguia pilhagem, realmente voltava para casa, e, com a parte de cada um no butim, os poucos felizardos que sobrevivessem estariam ricos pela vida toda. Eu teria sobrevivido, disse Blackthorne a si mesmo. Teria. E minha parte do tesouro depois teria sido suficiente para.. .

- Rotz vooruiiiiiiiiiit! Recife à frente!

De imediato ele mais sentiu do que ouviu o grito. Depois, misturado à ventania, ouviu novamente o grito lamentoso.

Saiu da cabina, subiu a gaiúta até o tombadilho, o coração martelando, a garganta ressecada. Era noite escura agora, chovia torrencialmente, e ele momentaneamente exultou, pois sabia que os coletores de chuva, de lona, feitos há tantas semanas atrás, logo estariam transbordando. Abriu a boca à chuva quase horizontal e provou-lhe a doçura, depois voltou as costas às rajadas de água e vento.

Viu que Hendrik estava paralisado de terror. O vigia do gurupês, Maetsukker, agachado perto da proa, gritava incoerentemente, apontando para a frente. Então também olhou para além do navio.

O recife estava umas poucas duzentas jardas à frente, grandes garras negras marteladas pelo mar faminto. A linha espumante de rebentação se estendia a bombordo e estibordo, quebrada intermitentemente. O temporal levantava imensas faixas de espuma e as atirava contra a escuridão da noite. Uma adriça de vante rompeu-se e o topo do mastro mais alto e imponente foi arrebatado.

O mastro estremeceu na base, mas agüentou, e o mar continuou impelindo o navio inexoravelmente para a morte.

- Todas as mãos no convés! - berrou Blackthorne, e tocou o sino com violência.

O barulho arrancou Hendrik do seu estupor.

- Estamos perdidos! — gritou em holandês. — Oh, que Jesus nos ajude!

- Ponha a tripulação no convés, seu bastardo! Você estava dormindo! Vocês dois estavam dormindo! - Blackthorne empurrou-o na direção da gaiúta, agarrou-se ao timão, soltou-lhe a amarra de proteção dos raios, amarrou-se e girou o timão com dificuldade para bombordo.

Aplicou toda a sua força contra o leme que disparava, impelido pela torrente. O navio estremeceu inteiro, depois a proa começou a pender com rapidez cada vez maior à medida que o vento a forçava para baixo. Os joanetes de tempestade enfunaram e corajosamente tentaram carregar todo o peso do navio, e todas as cordas agüentaram o esforço, rangendo. O mar elevou-se acima deles e estavam avançando paralelamente ao recife quando Blackthorne viu o vagalhão. Berrou um aviso aos homens que estavam vindo do castelo de proa e agarrou-se para salvar a vida.

O mar se abateu sobre o navio, que adernou, e Blackthorne pensou que aquilo era o fim, mas o barco se sacudiu como um terrier molhado e voltou para fora da depressão. A água caía em cascatas através dos embornais e ele ofegava, respirando com dificuldade. Viu que o cadáver do contramestre, colocado no convés para sepultamento no dia seguinte, se fora, e que a onda seguinte se aproximava ainda mais forte. Quando os atingiu, apanhou Hendrik e o ergueu, resfolegante e lutando. Outra onda estrondeou através do convés. Blackthorne passou um braço pelos raios do timão e a água passou por ele. Hendrik estava cinqüenta jardas a bombordo. A retração da água tragou-o, depois um vagalhão gigantesco atirou-o acima do navio, manteve-o lá por um instante, gritando, depois levou-o, reduziu-o a pasta contra a crista de um rochedo e o devorou. O navio apontou para o mar, tentando avançar. Outra adriça cedeu e a roldana e o guincho giraram furiosamente, até se enroscar com o cordame.

Vinck e outro homem se arrastaram pelo tombadilho e se debruçaram sobre o timão, para ajudar. Blackthorne podia ver o recife intruso a estibordo, mais perto agora. À frente e a bombordo havia mais afloramentos, mas ele viu brechas aqui e ali.

- Suba, Vinck! Traquetes, ho!

Pé ante pé Vinck e dois marujos se arrastaram para os ovens do cordame do mastro de proa, enquanto outros, embaixo, se inclinavam sobre as cordas para lhes dar uma mão.

- Atenção à frente! - berrou Blackthorne.

O mar espumava ao longo do convés. Levou outro homem e trouxe o cadáver do contramestre novamente para bordo. A proa elevou-se fora da água e veio abaixo mais uma vez, trazendo mais água para bordo. Vinck e os outros homens amaldiçoaram a vela que escapara das cordas. Abruptamente ela enfunou, soltando um estouro como uma canhonada quando o vento a inflou, e o navio deu uma guinada.

Vinck e seus ajudantes ficaram pendurados lá, balançando sobre o mar, depois começaram sua descida.

- Recife, recife à frente! - berrou Vinck.

Blackthorne e o outro homem giraram o timão para estibordo. O navio hesitou, depois virou e soltou um guincho quando os rochedos, ligeiramente à flor da água, lhe encontraram o costado. Mas foi um golpe oblíquo e a ponta do rochedo esmigalhou-se. Os costados permaneceram ilesos e os homens a bordo começaram a respirar mais uma vez. Blackthorne viu uma brecha no recife à frente e dirigiu o navio para ela. O vento estava mais forte agora, o mar mais furioso. O navio desviou com uma rajada e o timão escapou-lhe das mãos. Juntos agarraram-no e lhe estabeleceram a rota de novo, mas ele se sacudiu e girou como bêbado. O mar inundou o convés e irrompeu contra o castelo de proa, esmagando um homem contra o tabique, o convés inteiro alagado como o de cima.

- As bombas! - gritou Blackthorne. Viu dois homens descerem.

A chuva açoitava-lhe o rosto e ele mantinha os olhos meio fechados por causa da dor. A luz da bitácula e a da popa tinham-se apagado há muito. Depois, quando outra rajada atirou o navio para mais longe de sua rota, o marujo escorregou e novamente o timão escapou do aperto. O homem guinchou quando um raio do leme lhe esmagou o lado da cabeça e o prostrou à mercê do mar.

Blackthorne puxou-o para cima e segurou-o até que o vagalhão espumante passasse. Então viu que o homem estava morto e deixou-o afundar-se na cadeira de convés, até que a onda seguinte varreu-o de lá.

O corte através do recife estava três pontos a barlavento e, por mais que tentasse, Blackthorne não conseguia alcançá-lo. Procurou desesperadamente um outro canal, mas sabia que não havia nenhum, de modo que deixou o navio virar para sotavento momentaneamente para ganhar velocidade, depois virou-o com dificuldade para barlavento novamente. A embarcação conseguiu se pôr na rota e manteve o curso.

Houve um estremecimento lamentoso, atormentado, quando a quilha raspou nas saliências aguçadas embaixo, e todos a bordo imaginaram ver os costados de carvalho rebentar em pedaços e o mar jorrar. O navio oscilou para a frente, fora de controle agora.

Blackthorne gritou por ajuda mas ninguém o ouviu, então bateu-se sozinho com o timão, contra o mar. Foi atirado para o lado uma vez, mas tateou de volta e agarrou-o novamente, perguntando na sua mente anuviada como o leme sobrevivera tanto tempo.

Na parte mais estreita do passo, o mar se transformou num redemoinho, dirigido pela borrasca e cercado pelos rochedos.

Ondas imensas se esmagavam contra o recife, depois retrocediam oscilantes para combater o intruso, até que começaram a lutar entre si e atacaram de todos os quadrantes da bússola. O navio foi sugado para o turbilhão, adernando e indefeso.

- Mijo em você, tempestade! - enfureceu-se Blackthorne.

- Tire suas mãos do meu navio!

O timão escapou de novo e atirou-o para longe. O convés balançou de modo a causar náuseas. O gurupês atingiu um rochedo e despedaçou-se, parte do cordame com ele. O navio se aprumou. O mastro de proa estava retesado como um arco e trincou com um estalo. Os homens no convés lançaram-se ao cordame com machados para cortá-lo a esmo, enquanto o navio se debatia pelo canal enraivecido. Soltaram o mastro com alguns golpes e ele caiu para o lado, levando um homem consigo, apanhado no emaranhado de cordas. O homem gritou, mas não havia nada que os outros pudessem fazer, então observaram quando ele e o mastro apareceram e desapareceram, depois não voltaram mais.

Vinck e os outros que estavam à esquerda olharam para trás, para o tombadilho, e viram Blackthorne desafiando a tempestade como um louco. Persignaram-se e redobraram suas preces, alguns chorando de medo e temerosos pela própria vida.

O estreito alargou-se por um instante e o navio diminuiu a marcha, mas à frente estreitou-se agourentamente de novo e os rochedos pareceram crescer, para se elevarem acima deles. A correnteza ricocheteou para um lado, levando o navio consigo, virou-o de través novamente e lançou-o com violência para a destruição.

Blackthorne parou de amaldiçoar a tempestade, forçou o timão para bombordo e pendurou-se nele, seus músculos contraídos ante o esforço. Mas o navio não reconhecia mais o seu leme, tampouco o mar.

- Vire, sua prostituta do inferno! - ofegou ele, sua força esgotando-se rapidamente. - Ajudem-me!

A correnteza acelerou e ele sentiu o coração prestes a estourar, mas ainda se esforçou contra a pressão do mar. Tentou manter os olhos atentos, mas sua visão vacilou, as cores erradas e fanadas. O navio estava na garganta e morto, mas exatamente nesse momento a quilha se esmagou num baixio de lama. O choque virou-lhe a proa. O leme cedeu à força do mar. E então o vento e o mar uniram-se para ajudar e, juntos, lançaram-no para a frente do vento, fazendo-o disparar através do estreito para a segurança. Para a baía à frente.

 

Blackthorne acordou de repente. Por um instante pensou estar sonhando, pois se encontrava em terra firme e num quarto inacreditável. Pequeno, muito limpo e coberto de esteiras macias.

Ele estava deitado num espesso acolchoado, com outro atirado por cima do corpo. O teto era de cedro polido e as paredes, de ripas de cedro, em quadrados, revestidas com um papel opaco que tornava a luz suave e agradável. Ao lado dele havia uma bandeja vermelha com tigelinhas. Uma delas continha legumes cozidos, frios, que ele devorou avidamente, quase sem notar o sabor picante. Outra continha uma sopa de peixe, e ele a tomou de um trago.

Outra ainda estava cheia de um mingau grosso de trigo ou cevada, de que ele deu cabo rapidamente, comendo com os dedos. A água numa cuia de formato curioso estava morna e com um gosto estranho - levemente amargo, mas saboroso.

Então notou o crucifixo no nicho.

Esta casa é espanhola ou portuguesa, pensou, contrariado.

Isto será o Japão ou Catai?

Um painel da parede abriu-se deslizando. Uma mulher de meia-idade, atarracada, rosto redondo, estava ajoelhada ao lado da porta, curvando-se e sorrindo. Tinha a pele dourada, os olhos pretos e estreitos, e o longo cabelo negro habilmente arrumado no alto da cabeça. Vestia um quimono de seda cinza, meias soquetes brancas com uma sola grossa, e uma larga faixa púrpura na cintura.

- Goshujinsama, gokibun wa ikaga desu ka? - disse ela.

Esperou enquanto ele a fitava inexpressivamente, depois disse a mesma coisa outra vez.

- Estamos no Japão? - perguntou ele. - Japão? Ou Catai?

Ela fixou-lhe o olhar sem compreender, e disse uma outra coisa que ele não conseguiu entender. Nisso percebeu que estava nu. Sua roupa não estava à vista. Por meio de sinais, mostrou a ela que queria se vestir. Depois apontou para as tigelas de comida e ela entendeu que ele ainda estava com fome.

Sorriu, curvou-se e correu a porta.

Ele deitou-se de costas, exausto, com a desagradável e nauseante imobilidade do chão fazendo sua cabeça rodar. Com um esforço, tentou se recompor. Lembro de estar lançando a âncora, pensou. Com Vinck. Acho que era Vinck. Estávamos numa enseada, o navio havia se chocado contra um banco de areia e parado.

Podíamos ouvir as ondas quebrando na praia, mas estava tudo a salvo. Havia luzes em terra e depois eu estava na minha cabina e na escuridão. Não me lembro de nada. Depois havia luzes na escuridão e vozes estranhas. Eu estava falando inglês, depois português. Um dos nativos falava um pouco de português. Ou será que era um português? Não, acho que era nativo. Perguntei a ele onde estávamos? Não lembro. Em seguida estávamos de volta ao recife, o vagalhão surgiu outra vez, fui arrastado para o mar e para o afogamento — estava gelado -, não, o mar estava morno, parecia uma cama de seda, com a espessura de uma braça. Devem ter me carregado para terra firme e colocado aqui.

- Deve ter sido esta cama que me pareceu tão macia e quente - disse em voz alta. - Nunca tinha dormido sobre seda antes. - Sua fraqueza o dominou e ele dormiu um sono sem sonhos.

Quando despertou, havia mais comida em tigelas de louça e sua roupa estava ali ao lado, numa pilha caprichosa. Fora lavada, passada e remendada com pontos minúsculos, perfeitos.

Mas sua faca desaparecera, assim como suas chaves.

É melhor arrumar uma faca, e logo, pensou ele. Ou uma pistola.

Seus olhos toparam com o crucifixo. Apesar da veneração, sentiu crescer a excitação. A vida toda ouvira histórias contadas por pilotos e marinheiros sobre as riquezas inacreditáveis do império secreto de Portugal no Oriente, sobre como haviam convertido os pagãos ao catolicismo e assim os reduziram à escravidão, sobre o lugar onde o ouro era tão fácil de conseguir quanto lingotes de ferro, e as esmeraldas, rubis, diamantes e safiras eram tão abundantes quanto seixos numa praia.

Se o que se refere ao catolicismo for verdade, disse ele a si mesmo, talvez o resto também seja. O resto sobre as riquezas.

Sim. Mas quanto mais depressa eu estiver armado, de volta ao Erasmus e atrás do canhão, melhor.

Comeu, vestiu-se e ergueu-se vacilante, sentindo-se fora de seu elemento como sempre acontecia quando estava em terra.

Faltavam as botas. Dirigiu-se para a porta, cambaleando ligeiramente, e estendeu uma mão para se apoiar, mas os frágeis quadrados de ripas não agüentaram seu peso e se despedaçaram, rasgando o papel. Ele se aprumou. No corredor, a mulher fitava-o de olhos arregalados, horrorizada.

- Desculpe - disse ele, estranhamente embaraçado com a própria falta de jeito. A pureza do quarto fora de certo modo maculada. — Onde estão minhas botas?

A mulher o encarava sem compreender. Então, pacientemente, ele repetiu a pergunta acompanhando-a de sinais, e ela se precipitou para uma passagem, ajoelhou-se, abriu outra porta de ripas, e fez-lhe sinal que a seguisse. Havia vozes nas proximidades, e o som de água corrente. Ele atravessou a porta e encontrou-se em outro cômodo, também quase sem mobília. Abria-se para uma varanda com degraus que levavam a um pequeno jardim cercado por um muro alto. Ao lado dessa entrada principal estavam duas velhas, três crianças de quimono vermelho e um velho, obviamente um jardineiro, com um ancinho na mão. Imediatamente todos se curvaram com gravidade e mantiveram a cabeça baixa.

Para seu assombro, Blackthorne viu que o velho, à exceção de uma tanga estreita, mínima, que mal e mal lhe cobria o sexo, estava nu.

- Dia - disse ele, sem saber o que dizer.

Eles permaneceram imóveis, ainda curvados.

Confuso, ele os observou, depois, desajeitadamente, curvou-se também. Todos se endireitaram e lhe sorriram. O velho inclinou-se mais uma vez e voltou a seu trabalho no jardim. As crianças olharam-no atentamente e, rindo, saíram correndo. As velhas desapareceram no interior da casa. Mas ele podia sentir-lhes os olhos pregados nele.

Viu as botas ao pé da escada. Mas antes que pudesse pegá-las, a mulher de meia-idade já estava de joelhos, para seu constrangimento, ajudando-o a calçá-las.

- Obrigado - disse ele. Pensou um instante e depois apontou para si mesmo: - Blackthorne - disse vagarosamente - Blackthorne. - Em seguida apontou para ela: - Qual é o seu nome?

Ela o olhava sem compreender.

- Black-thorne - repetiu ele com cuidado, apontando-se, e depois apontando para ela: - Qual é o seu nome?

Ela franziu o cenho e depois, num transbordamento de compreensão, apontou para si mesma e disse: - Onna! Onna!

- Onna! - repetiu ele, ambos orgulhosos de si mesmos.

- Onna.

Ela assentiu, feliz:

- Onna!

O jardim não se parecia com nada que ele tivesse visto antes: uma pequena cascata, um riacho, uma pontezinha, caminhos de seixos, cuidados com esmero, rochas, flores e arbustos. É tão limpo, pensou ele. Tão caprichoso.

- Incrível! - disse.

- Nquerrrriv? — repetiu ela, solícita.

- Nada - disse ele. Depois, sem saber o que mais podia fazer, afastou-a com um gesto. Obediente, ela curvou-se polidamente e deixou-o.

Blackthorne sentou-se ao sol cálido, encostado a um mourão.

Sentindo-se muito fraco, ficou observando o velho arrancar ervas daninhas de um jardim já completamente sem ervas daninhas.

Gostaria de saber onde estão os outros. Será que o capitão-mor ainda está vivo? Quantos dias será que eu dormi? Lembro que acordei, comi e dormi de novo, uma comida tão desagradável quanto os sonhos.

As crianças passaram alvoroçadas, correndo umas atrás das outras, e a nudez do jardineiro fez com que Blackthorne se sentisse embaraçado por elas, pois quando o homem se dobrava ou se abaixava podia-se ver tudo, e ele estava pasmo de que as crianças parecessem não notar. Por cima do muro viu os telhados de telhas e de colmo de outras construções e, bem a distância, altas montanhas. Um vento fresco varria o céu, fazendo avançar os cúmulos. Havia abelhas à procura de alimento e fazia um dia de primavera adorável. Seu corpo implorava por mais sono, mas ele se obrigou a levantar e dirigiu-se para o portão do jardim. O jardineiro sorriu, curvou-se, correu a abrir o portão, curvou-se e fechou-o atrás dele.

A aldeia erguia-se em torno da enseada em forma de crescente, voltada para leste, umas duzentas casas talvez, diferentes de todas as que já vira, aninhadas ao pé da montanha que se estendia até a praia. Acima havia campos dispostos em plataformas e estradas de cascalho, rumando para o norte e para o sul.

Abaixo, o lado que dava para o mar era pavimentado com pedras arredondadas, e havia uma rampa de lançamento, também de pedra, indo da praia até o mar. uma enseada boa e segura, um quebra-mar de pedra, homens e mulheres limpando peixe e tecendo redes, um barco de projeto inigualável sendo construído no lado norte. A leste e ao sul, ao largo, havia ilhas. Os recifes deviam estar ali, ou além do horizonte.

Na enseada havia muitos outros barcos de formas esquisitas, na maioria embarcações de pesca, alguns com uma vela grande, vários a remo — os remadores mantinham-se em pé e empurravam a água, ao invés de estarem sentados e puxando a água, como ele teria feito. Alguns dos barcos dirigiam-se para mar aberto, outros apontavam para o embarcadouro de madeira, e o Erasmus fora ancorado com habilidade, a cinqüenta jardas da praia, em boa profundidade, com três cabos na proa. Quem fez isso? perguntou Blackthorne a si mesmo. Havia barcos dos lados do navio, e ele podia ver nativos a bordo. Mas nenhum dos seus companheiros. Onde poderiam estar?

Olhou em torno na aldeia e tomou consciência das muitas pessoas que o observavam. Quando viram que ele as havia notado, todas se curvaram e, ainda pouco â vontade, ele curvou-se em retribuição. Reiniciou-se uma atividade feliz e eles passaram de um lado para o outro, parando, regateando, curvando-se uns para os outros, aparentemente esquecidos dele, como muitas borboletas multicores. Mas ele sentiu olhos a estudá-lo de cada janela e desvão de porta enquanto caminhava para a praia.

O que há com eles que parece tão esquisito? perguntou a si mesmo. Não é só a roupa e o comportamento. É... eles não têm armas, pensou, atônito. Nada de espadas ou pistolas! Por que será?

Lojas abertas, repletas de mercadorias estranhas e fardos, alinhavam-se na ruazinha. O soalho das lojas era elevado e os vendedores e compradores ajoelhavam-se ou acocoravam-se nos limpos soalhos de madeira. Ele viu que a maioria usava tamancos ou sandálias de junco, alguns as mesmas meias brancas com sola grossa, cortadas entre o artelho grosso e o artelho seguinte para segurar as correias, mas todos deixavam os tamancos e as sandálias do lado de fora. Os que estavam descalços limpavam os pés e deslizavam em sandálias limpas, de uso interno, à espera deles.

Isso é muito sensato, se se pensa na coisa, disse Blackthorne a si mesmo, admirado.

Então viu o homem aproximando-se e o medo fluiu-lhe, nauseante, dos testículos para o estômago. O padre era obviamente português ou espanhol, e embora seu manto ondeante fosse alaranjado não havia dúvida alguma quanto ao rosário e ao crucifixo ao cinto, ou quanto à fria hostilidade em seu rosto. O manto estava sujo da viagem e as botas em estilo europeu manchadas de lama. Olhava a enseada, para o Erasmus, e Blackthorne sabia que ele devia reconhecer o navio como holandês ou inglês, novo para a maioria dos mares, mais delgado e veloz, um navio mercante de combate, copiado e melhorado a partir dos navios piratas ingleses que haviam causado tanta devastação ao Spanish Main.

Com o padre estavam dez nativos, de cabelos e olhos pretos, um vestido como ele, exceto por ter chinelos de tiras. Os outros usavam mantos multicoloridos ou calças folgadas ou simplesmente tangas. Mas nenhum deles estava armado.

Blackthorne quis correr enquanto havia tempo, mas sabia que não tinha forças para isso e não havia lugar algum onde se esconder. Sua altura, o tamanho e a cor dos cabelos o tornavam discrepante naquele mundo. Pôs-se de costas contra o muro.

- Quem é você? - disse o padre em português. Era um homem magro, moreno, bem nutrido, com seus vinte e cinco anos, e uma longa barba.

- Quem é você? - disse Blackthorne, sustentando-lhe o olhar.

- Aquele é um navio pirata neerlandês. Você é um herege holandês. São piratas. Deus tenha piedade de vocês!

- Não somos piratas. Somos pacíficos mercadores, exceto para os nossos inimigos. Sou o piloto daquele navio. Quem é você?

- Padre Sebastio. Como foi que chegou aqui? Como?

- Fomos atirados na praia. Que lugar é este? O Japão?

- Sim, o Japão, Nippon - disse o padre com impaciência.

Voltou-se para um dos homens, mais velho do que os demais, pequeno e magro, com braços fortes e mãos calejadas, o alto da cabeça raspado e o resto do cabelo puxado para cima num rabo fininho, tão grisalho quanto suas sobrancelhas. O padre falou-lhe num japonês vacilante, apontando para Blackthorne. Ficaram todos chocados e um deles fez o sinal-da-cruz, protegendo-se.

- Holandeses são hereges, rebeldes e piratas. Qual é o seu nome?

- Este povoado é português?

Os olhos do padre estavam duros e injetados.

- O chefe da aldeia diz que avisou as autoridades sobre você. Seus pecados deram cabo de você. Onde está o resto da sua tripulação?

- Fomos desviados da rota. Só precisamos de comida, água e tempo para consertar o nosso navio. Depois partiremos. Podemos pagar cada.. .

- Onde está o resto da sua tripulação?

- Não sei. A bordo. Acho que estão a bordo.

O padre interrogou novamente o chefe, que respondeu e gesticulou para a outra extremidade da aldeia, explicando detalhadamente. O padre voltou-se para Blackthorne.

- Aqui os criminosos são crucificados, piloto. Você vai morrer. O daimio está vindo com os samurais. Deus tenha piedade de você.

- O que é "daimio"?

- Um senhor feudal. É o dono desta província toda. Como você chegou aqui?

- E "samurais"?

- Guerreiros, soldados, membros da casta guerreira - disse o padre, com irritação crescente. - De onde veio e quem é você?

- Não reconheço o seu sotaque - disse Blackthorne, para desconcertá-lo. - Você é espanhol?

- Sou português - enfureceu-se o padre, mordendo a isca. - Já lhe disse, sou o Padre Sebastio, de Portugal. Onde você aprendeu um português tão bom, hein?

- Mas Portugal e Espanha são o mesmo país, agora - disse Blackthorne, com escárnio. - Vocês têm o mesmo rei.

- Somos uma nação separada. Somos um povo diferente. Sempre fomos. Hasteamos nossa própria bandeira. Nossas possessões ultramarinas são separadas, sim, separadas. O Rei Filipe concordou com isso quando roubou meu país. - O Padre Sebastio controlou-se com esforço, os dedos tremendo. - Tomou meu país à força de armas há vinte anos! Seus soldados e aquele tirano espanhol gerado pelo Demônio, Duque de Alba, aniquilaram o nosso verdadeiro rei. Que vá! Agora o filho de Filipe reina, mas também não é nosso verdadeiro rei. Brevemente teremos o nosso próprio rei de volta. - E acrescentou, maldoso: - Você sabe que isso é verdade. O que o perverso Alba fez ao seu país, fez ao meu.

- Isso é mentira. Alba foi um flagelo na Neerlândia, mas nunca a conquistou. Ela ainda é livre. Sempre será. Mas em Portugal ele esmagou um pequeno exército e o país todo capitulou. Não há coragem. Vocês podiam expulsar os espanhóis, se quisessem, mas nunca o farão. Não têm cojones. Exceto para queimar inocentes em nome de Deus.

- Que Deus o queime no fogo do inferno por toda a eternidade - vociferou o padre. - Satã vaga pelo mundo, mas será aniquilado. Os hereges serão aniquilados. Você é maldito diante de Deus!

Malgrado seu, Blackthorne sentiu o terror religioso começar a se erguer dentro dele.

- Os padres não têm o ouvido de Deus, nem falam com a sua voz. Somos livres do seu julgo miserável, e vamos permanecer livres!

Fazia só quarenta anos que Maria Tudor, a Sanguinária, fora rainha da Inglaterra e o espanhol Filipe II, o Cruel, seu marido.

Essa filha de Henrique VIII, profundamente religiosa, trouxera de volta à Inglaterra os padres católicos, os inquisidores, os julgamentos de heresia e o domínio do papa estrangeiro, e revogara as restrições do pai e as mudanças históricas da Igreja de Roma na Inglaterra, contra a vontade da maioria. Reinara durante cinco anos, e o reino fora dilacerado pelo ódio, o medo e a carnificina.

Mas havia morrido e Elizabeth se tornara rainha aos vinte e quatro anos. Blackthorne sentia-se pleno de admiração e amor filial quando pensava em Elizabeth. Fazia quarenta anos que ela guerreava contra o mundo. Havia superado e batido papas, o Santo Império Romano, a França e a Espanha, todos juntos.

Excomungada, desprezada, injuriada no exterior, levou-nos para a enseada — a salvo, fortes, independentes.

- Somos livres - disse Blackthorne ao padre. - Vocês estão arruinados. Temos nossas próprias escolas agora, nossos livros, nossa Bíblia, nossa Igreja. Vocês, espanhóis, são todos iguais. Lixo! Vocês, frades, são todos iguais. Adoradores de ídolos!

O padre ergueu o crucifixo e segurou-o entre si e Blackthorne como um escudo.

- Oh, Deus, proteja-nos deste mal! Não sou espanhol, já lhe disse! Sou português. E não sou frade. Sou irmão da Sociedade de Jesus!

- Ah, um deles, um jesuíta!

- Sim. Que Deus tenha piedade da sua alma! - O Padre Sebastio disse rispidamente alguma coisa em japonês e os homens lançaram-se na direção de Blackthorne. Este se apoiou contra o muro e atingiu um homem com força, mas os outros caíram-lhe em cima como um enxame e ele se sentiu sufocar.

- Nanigoto da?

Abruptamente a escaramuça cessou.

O jovem estava a dez passos de distância. Usava calções, tamancos e um quimono leve, e trazia duas espadas embainhadas presas ao cinto. Uma parecia uma adaga. A outra, uma espada para ser manejada com as duas mãos, mortífera, era comprida e ligeiramente curva. O homem tinha a mão direita casualmente sobre o punho dela.

- Nanigoto da? - perguntou rudemente, e como ninguém respondesse instantaneamente: - NANIGOTO DA?

Os japoneses caíram de joelhos, cabeça inclinada até o pó.

Somente o padre permaneceu em pé. Fez uma mesura e começou a explicar vacilante, mas o homem, desdenhoso, ignorou-o rudemente e apontou para o chefe:

- Mura!

Mura, o chefe da aldeia, manteve a cabeça baixa e começou a explicar rapidamente. Apontou várias vezes para Blackthorne, uma para o navio e duas para o padre. Agora não havia movimento algum na rua. Todas as pessoas visíveis estavam ajoelhadas o de cabeça bem baixa. O chefe terminou.

Arrogantemente o homem armado fez algumas perguntas, a que o outro respondeu com deferência e presteza. Então o soldado disse algo ao chefe, acenou com desprezo declarado para o padre, depois para Blackthorne, e o homem grisalho traduziu para o padre, que enrubesceu.

O homem que era uma cabeça mais baixo e muito mais jovem do que Blackthorne, com um belo rosto ligeiramente marcado de varíola, fixou o olhar no estrangeiro:

- Onushi ittai doko kara kitanda? Doko no kuni no monoda?

Disse o padre, nervosamente:

- Kasigi Omi-san pergunta de onde você vem e qual é a sua nacionalidade.

- O Sr. Omisan é o daimio? - perguntou Blackthorne, com medo das espadas, malgrado seu.

- Não. É um samurai, o - encarregado da aldeia. O sobrenome dele é Kasigi. Omi é o nome. Aqui eles sempre põem o sobrenome na frente. "San" significa "honorável", e se acrescenta a todos os nomes como polidez. Você faria melhor aprendendo a ser polido e tratando de encontrar bons modos rapidamente. Aqui não se tolera falta de modos. — Sua voz tornou-se cortante. — Responda logo, vamos!

- Amsterdã. Sou inglês.

O choque do Padre Sebastio foi evidente. Disse "inglês, Inglaterra" ao samurai e iniciou uma explicação, mas Omi, impaciente, interrompeu-o abruptamente e vociferou uma torrente de palavras.

- Omi-san pergunta se você é o comandante. O chefe da aldeia diz que só alguns de vocês, hereges, estão vivos, e a maioria está doente. Há um capitão-mor?

- Sou o comandante - respondeu Blackthorne, ainda que, na verdade, agora que estavam em terra, o capitão-mor estivesse no comando. - Estou no comando - acrescentou, sabendo que o Capitão-Mor Spillbergen não podia comandar nada, em terra ou em curso, mesmo quando estava apto e bem.

Outra enxurrada de palavras do samurai.

- Omi-san diz que, como você é o comandante, tem permissão para andar pela aldeia livremente, por onde quiser, até que o senhor dele chegue. O senhor dele, o daimio, decidirá a sua sorte. Até lá você tem permissão para viver como hóspede na casa do chefe da aldeia e para ir e vir como lhe convier. Mas não deve sair da aldeia. Seus homens estão confinados na casa onde se encontram e não estão autorizados a deixá-la. Compreendeu?

- Sim. Onde está a minha tripulação?

O Padre Sebastio apontou vagamente para um amontoado de casas perto de um desembarcadouro, obviamente desolado com a decisão e a impaciência de Omi.

- Lá! Aproveite sua liberdade, pirata. Seu mal deu cabo de...

- Wakarimasu ka? - disse Omi diretamente a Blackthorne.

- Ele disse: "Você compreende?"

- Como é "sim" em japonês?

O Padre Sebastio disse ao samurai:

- Wakarimasu.

Desdenhosamente, Omi afastou-se com um gesto. Todos se curvaram profundamente. Exceto um homem, que se ergueu deliberadamente, sem se curvar.

Com uma velocidade cegante, a espada mortífera descreveu um sibilante arco prateado no ar e a cabeça do homem tombou-lhe de sobre os ombros, e uma fonte de sangue jorrou sobre a terra. O corpo agitou-se algumas vezes até ficar imóvel. Involuntariamente o padre havia recuado um passo. Ninguém mais na rua movera um músculo. Permaneciam de cabeça baixa e imóveis. Blackthorne estava rígido, horrorizado.

Omi pôs o pé descuidadamente sobre o cadáver.

- Ikinasai! - disse, gesticulando para que se fossem.

Os homens à sua frente curvaram-se de novo, até o chão.

Depois ergueram-se e se afastaram, impassíveis. A rua começou a se esvaziar. E as lojas. O Padre Sebastio baixou os olhos para o corpo. Gravemente fez o sinal-da-cruz sobre ele e disse:

- In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. - Devolveu o olhar do samurai, sem medo agora.

- Ikinasai! - A ponta da espada que surgira de repente continuava no corpo. Após um longo momento o padre voltou-se e afastou-se. Com dignidade. Omi observou-o um instante, depois deu uma olhada a Blackthorne. Este recuou e, quando se viu a uma distância segura, dobrou rapidamente uma esquina e desapareceu.

Omi começou a rir ruidosamente. A rua estava vazia agora.

Quando a risada se esgotou, ele agarrou a espada com ambas as mãos e começou metodicamente a cortar o corpo em pedacinhos.

Blackthorne estava num pequeno barco, o barqueiro remando alegremente em direção ao Erasmus. Não tivera dificuldade em conseguir o barco e podia ver homens no convés principal. Eram todos samurais. Alguns tinham peitoral de aço, mas a maioria usava simples quimonos, como eram chamados os trajes, e as duas espadas. Todos usavam o cabelo do mesmo jeito: o topo da cabeça raspado e o cabelo, atrás e dos lados, reunido num rabo, com óleo, depois dobrado sobre a coroa e habilmente amarrado. Apenas os samurais podiam usar esse estilo e, para eles, era obrigatório. Apenas os samurais podiam usar as duas espadas - sempre a comprida, mortífera, para ser usada com as duas mãos, e a curta, parecida com adaga -, e para eles as espadas eram obrigatórias.

Os samurais alinharam-se ao longo das amuradas do navio dele, observando-o.

Cheio de inquietação, subiu ao passadiço e dirigiu-se para o convés. Um samurai, mais elaboradamente vestido do que os outros, veio-lhe ao encontro e curvou-se. Blackthorne aprendera bem e correspondeu à reverência de maneira idêntica, e todo mundo no convés sorriu cordialmente. Ele ainda sentia o horror da matança repentina na rua, e os sorrisos deles não lhe acalmaram os pressentimentos. Foi até a gaiúta e parou abruptamente. Colada na porta, de lado a lado, havia uma larga faixa de seda vermelha e, ao lado dela, um pequeno sinal numa escrita estranha e coleante. Hesitou, examinou a outra porta, mas também essa estava lacrada com uma faixa semelhante, e havia um sinal igual pregado ao tabique.

Estendeu a mão para remover a seda.

- Hotte oke! - Para deixar a coisa absolutamente clara, o samurai de guarda meneou a cabeça. Já não estava sorrindo.

- Mas este navio é meu e eu... - Blackthorne conteve a própria ansiedade, de olhos nas espadas. Tenho que ir lá para baixo, pensou. Tenho que pegar os portulanos, o meu e o secreto.

Jesus Cristo, se forem encontrados e dados aos padres ou aos japoneses, estamos liquidados. Qualquer tribunal do mundo - afora na Inglaterra e na Neerlândia - nos condenaria como piratas com essa evidência. Meu portulano dá datas, lugares, quantidades de saquês pilhados, o número de mortos nos nossos três desembarques nas Américas e na África espanhola, o número de igrejas saquêadas, e como queimamos cidades e embarcações. E o português?

Esse é a nossa sentença de morte, pois naturalmente foi roubado.

No mínimo fora comprado de um traidor português, e pela lei deles qualquer estrangeiro apanhado de posse de qualquer dos portulanos deles, para não mencionar um que desvendasse o estreito de Magalhães, devia ser morto imediatamente. E se o portulano fosse encontrado a bordo de um navio inimigo, o navio devia ser queimado e todos a bordo executados sem piedade.

- Nanno yoo da? - disse um dos samurais.

- Você fala português? - perguntou Blackthorne nessa língua.

O homem resmungou:

- Wakarimasen.

Um outro se aproximou e respeitosamente falou ao chefe, que assentiu concordando.

- Portugueis amigu - disse o samurai em português com um sotaque pesado. Abriu o alto do quimono e mostrou o pequeno crucifixo de madeira que lhe pendia ao pescoço.

- Cristão! - Apontou para si mesmo e sorriu. - Cristão.

- Apontou para Blackthorne: - Cristão, ka?

Blackthorne hesitou, assentiu:

- Cristão.

- Portugueis?

- Inglês.

O homem tagarelou com o chefe, depois ambos deram de ombros e olharam para ele:

- Portugueis?

Blackthorne balançou a cabeça, não querendo discordar deles em nada.

- Meus amigos? Onde?

O samurai apontou na direção da extremidade leste da aldeia.

- Amigos.

- Este é o meu navio. Quero ir lá embaixo. - Disse isso de várias maneiras e com sinais, e eles compreenderam.

- Ah, so desu! Kinjiru! - disseram enfaticamente, indicando os avisos, e sorriram.

Estava absolutamente claro que ele não era autorizado a descer. "Kinjiru" deve significar "proibido", pensou Blackthorne irritado. Bem, que vá para o inferno! Agarrou o trinco da porta e abriu-a parcialmente.

- KINJIRU!

Fizeram-no voltar-se com um empurrão para encará-los. Suas espadas estavam meio desembainhadas. Imóveis os dois homens esperaram que ele mudasse de idéia. Alguns outros, no convés, observavam impassíveis.

Blackthorne sabia que não tinha opção a não ser recuar, de modo que sacudiu os ombros e afastou-se para examinar as amarras e o navio o melhor que podia. As velas esfarrapadas estavam arriadas e amarradas. Mas as cordas eram diferentes de quaisquer outras que, já tivesse visto, de modo que presumiu que tivessem sido os japoneses que haviam posto a embarcação em segurança.

Começou a descer o passadiço e parou. Suou frio quando viu todos a fitá-lo malevolamente e pensou: Jesus Cristo, como pude ser tão estúpido! Curvou-se polidamente e imediatamente a hostilidade desvaneceu-se e todos se curvaram, novamente sorridentes.

Mas ele ainda sentia o suor escorrendo-lhe pela espinha e odiou tudo o que se relacionava ao Japão, desejou estar com a sua tripulação, de volta a bordo, armado, e ao largo.

- Pelo Senhor Jesus, acho que você está errado, piloto - disse Vinck. Seu sorriso desdentado era largo e obsceno. - Se a gente conseguir suportar a lavagem que eles chamam de comida, este é o melhor lugar onde já estive. Tive duas mulheres em três dias e elas são como coelhos. Fazem qualquer coisa desde que a gente lhes mostre como.

- Tem razão. Mas não se pode fazer nada sem carne ou conhaque. Nem por muito tempo. Estou esgotado, e só pude dar uma - disse Maetsukker, contraindo o rosto estreito. - Esses bastardos amarelos não vão compreender que precisamos de carne, cerveja e pão. E conhaque ou vinho.

- Isso é o pior! Senhor Jesus, meu reino por um grogue!

- Baccus van Nekk estava cheio de melancolia. Aproximou-se, parou junto de Blackthorne e examinou-o atentamente. Era muito míope e perdera o último par de óculos na tempestade. Mas mesmo com eles, sempre parava tão perto das pessoas quanto possível. Era chefe dos mercadores, tesoureiros e representante da Companhia das Índias Orientais Holandesas, que havia levantado o dinheiro para a viagem. - Estamos em terra, a salvo, e ainda não bebi nada! Nem uma linda gota! Terrível. Você conseguiu alguma bebida, piloto?

- Não. - Blackthorne não gostava que ninguém ficasse tão perto, mas Baccus era um amigo e quase cego, por isso não se afastou.

- Só água quente com ervas.

- Eles simplesmente não vão compreender o que é grogue. Nada para beber além de água quente e ervas. Que o bom Deus nos ajude! Imagine se não houver álcool no país todo! - Suas sobrancelhas se ergueram. - Faça-me um enorme favor, piloto, peça alguma bebida, sim?

Blackthorne encontrara a casa que lhes fora designada na extremidade oriental da aldeia. O guarda samurai o deixara passar, mas seus homens confirmaram que não podiam sair além do portão do jardim. A casa tinha muitos cômodos, como a sua, mas era maior e equipada com muitos criados de idades variadas, tanto homens quanto mulheres.

Onze de seus homens estavam vivos. Os mortos tinham sido levados pelos japoneses. Generosas porções de verduras frescas haviam começado a afugentar o escorbuto, e todos eles, exceto dois, estavam sarando rapidamente. Aqueles dois tinham sangue nos intestinos e hemorragias nas vísceras. Vinck lhes fizera uma sangria, mas isso não ajudara. Esperava que morressem ao anoitecer. O capitão-mor, em outro quarto, ainda estava muito doente.

Sonk, o cozinheiro, um homenzinho atarracado, estava dizendo com uma risada:

- É bom aqui, como diz Johann, piloto, com exceção da comida e de não haver grogue. Está tudo bem com os nativos desde que não se ande de sapatos na casa deles. Esses bastardinhos amarelos ficam loucos se a gente não tira o sapato.

- Ouçam - disse Blackthorne -, há um padre aqui. Um jesuíta.

- Jesus Cristo! - As pilhérias desapareceram completamente quando ele lhes falou sobre o padre e sobre a decapitação.

- Por que ele cortou a cabeça do homem, piloto?

- Não sei.

- É melhor voltarmos para bordo. Se os papistas nos pegam em terra...

Havia um medo intenso na sala agora. Salamon, o mudo, observava Blackthorne. Mexia a boca, uma bolha de catarro aparecendo nos cantos.

- Não, Salamon, não há engano algum - disse Blackthorne gentilmente, respondendo à pergunta silenciosa. - Ele disse que era jesuíta.

- Cristo, jesuíta, dominicano, ou seja, que diabo for, não faz a mínima diferença - disse Vinck. - É melhor voltarmos para bordo. Piloto, você pede àquele samurai, hein?

- Estamos nas mãos de Deus - disse Jan Roper. Era um dos mercadores aventureiros, um homem jovem, de olhos apertados, com uma testa alta e um nariz fino. - Ele nos protegerá contra os adoradores de Satã.

Vinck olhou para Blackthorne.

- E quanto aos portugueses, piloto? Viu algum por aí?

- Não. Não há sinal algum deles na aldeia.

- Vão todos se aglomerar aqui assim que souberem de nós. - Maetsukker disse isso por todos e o jovem Croocq deixou escapar um gemido.

- Sim, e se há um padre, tem que haver outros. - Ginsel lambeu os lábios secos. - E depois, os amaldiçoados conquistadores deles nunca estão muito longe.

- Tem razão - acrescentou Vinck, inquieto. - Eles são como piolhos.

- Jesus Cristo! Papistas! - resmungou alguém. - E conquistadores!

- Mas estamos no Japão, piloto? - perguntou Van Nekk.

- Ele lhe disse isso?

- Sim. Por quê?

Van Nekk aproximou-se e baixou a voz.

- Se os padres estão aqui e alguns nativos são católicos, talvez a outra parte seja verdade, a que fala de riquezas, ouro, prata e pedras preciosas. - Um silêncio se abateu sobre eles. - Viu alguma coisa, piloto? Algum ouro? Alguma gema nos nativos, ou ouro?

- Não. Nada. - Blackthorne pensou um instante. - Não lembro de ter visto. Nenhum colar, pérola ou bracelete. Ouçam, há mais uma coisa a dizer-lhes. Fui a bordo do Erasmus, mas ele está lacrado. - Relatou o que acontecera e a ansiedade deles aumentou.

- Jesus, se não podemos voltar para bordo e há padres em terra e papistas... Temos que dar o fora daqui. - A voz de Maetsukker começou a tremer. - Piloto, o que vamos fazer? Vão nos queimar! Conquistadores... esses bastardos vão saber como usar as espadas.

- Estamos nas mãos de Deus - lembrou Jan Roper confiantemente. - Ele nos protegerá do Anticristo. Foi essa a promessa dele. Não há nada a temer.

- O modo como o samurai Omi-san gritou com o padre... tenho certeza de que o odeia - disse Blackthorne. - Isso é bom, hein? O que eu gostaria de saber é por que o padre não estava usando os trajes normais. Por que o manto alaranjado? Nunca vi isso antes.

- Sim, é curioso - disse Van Nekk.

Blackthorne encarou-o:

- Talvez a posição deles aqui não seja forte. Isso poderia nos ajudar enormemente.

- O que devemos fazer, piloto? - perguntou Ginsel.

- Ter paciência e esperar até que o chefe deles, o daimio, chegue. Ele nos deixará partir. Por que não? Não lhe fizemos mal algum. Temos mercadorias para comerciar. Não somos piratas. Não temos nada a temer.

- Absolutamente certo, e não se esqueçam de que o piloto disse que os selvagens não são todos papistas - disse Van Nekk, mais para encorajar a si mesmo do que aos outros. - Sim. É bom que os samurais odeiem o padre. E são os samurais que estão armados. Não é tão mau assim, hein? Simplesmente estar atentos aos samurais e recuperar nossas armas, é essa a idéia. Estaremos a bordo antes que vocês se dêem conta.

- O que acontecerá se o daimio for papista? - perguntou Jan Roper.

Ninguém lhe respondeu. Depois Ginsel disse:

- Piloto, o homem com a espada? Ele cortou o outro em pedaços, depois de lhe arrancar a cabeça?

- Sim.

- Cristo! São bárbaros! Lunáticos! - Ginsel era um jovem alto, de boa aparência, braços curtos e pernas muito arqueadas. - O escorbuto lhe levara todos os dentes. - Depois que lhe arrancou a cabeça fora, os outros simplesmente se afastaram? Sem dizer nada?

- Sim.

- Jesus Cristo, um homem desarmado, assassinado assim? Por que ele fez isso? Por que o matou?

- Não sei, Ginsel. Mas você nunca viu tamanha rapidez. Num momento a espada estava embainhada, no momento seguinte a cabeça do homem estava rolando.

- Deus nos proteja!

- Meu amado Senhor Jesus - murmurou Van Nekk -, se não pudermos voltar ao navio... Deus amaldiçoe aquela tempestade, sinto-me tão indefeso sem os óculos!

- Quantos samurais estavam a bordo, piloto? — perguntou Ginsel.

- Vinte e dois no convés. Mas havia mais na praia.

- A ira do Senhor recairá sobre os pagãos e pecadores, e eles arderão no inferno por toda a eternidade.

- Gostaria de ter certeza disso, Jan Roper - disse Blackthorne, um nervosismo na voz, como se sentisse o medo de que a vingança de Deus se derramasse pela sala. Estava muito cansado e queria dormir.

- Pode ter certeza, piloto. Oh, sim, eu tenho. Rezo para que seus olhos se abram para a verdade de Deus. Para que você venha a entender que estamos aqui apenas por sua causa, o que restou de nós.

- O quê? - disse Blackthorne perigosamente.

- Por que foi, realmente, que você convenceu o capitão-mor a tentar encontrar o Japão? Não fazia parte das nossas ordens. Devíamos pilhar o Novo Mundo, levar a guerra para dentro das fronteiras do inimigo, depois ir para casa.

- Havia navios espanhóis ao sul e ao norte, e lugar algum para onde fugir. Perdeu a memória junto com os miolos?

Tivemos que navegar para oeste, era a nossa única chance.

- Em momento algum eu vi inimigos, piloto. Nenhum de nós viu.

- Ora, vamos, Jan - disse Van Nekk, cansado. - O piloto fez o que julgou melhor. Claro que os espanhóis estavam lá.

- Sim, essa é a verdade, e estávamos a milhares de léguas de quaisquer amigos e em águas inimigas, por Deus! - falou Vinck rapidamente. - Essa é a verdade de Deus, e a verdade de Deus foi que pusemos a coisa em votação. Nós todos dissemos sim.

- Eu não.

- A mim ninguém perguntou - disse Sonk.

- Oh, Jesus Cristo!

- Acalme-se, Johann - disse Van Nekk, tentando aliviar a tensão. - Somos os primeiros a atingir o Japão. Lembram-se das histórias todas, hein? Se conservarmos os miolos, estaremos ricos. Temos mercadorias para comerciar e há ouro aqui, tem que haver. Onde mais poderíamos vender nossa carga? Não lá no Novo Mundo, caçados e acossados. Estavam nos caçando e os espanhóis sabiam que estávamos ao largo de Santa Maria. Tivemos que abandonar o Chile e não havia como escapar de volta através do estreito — claro que eles estariam de tocaia à nossa espera, claro que estariam! Não, aqui estava a nossa única chance e foi uma boa idéia. Nossa carga trocada por especiarias, ouro e prata, hein? Pensem no lucro - o normal é de mil vezes. Estamos nas ilhas das especiarias. Vocês conhecem as riquezas do Japão e de Catai, vocês sempre ouviram falar nelas. Nós todos ouvimos. Por que outro motivo nós todos nos engajamos? Ficaremos ricos, vocês verão!

- Somos homens mortos, como os outros todos. Estamos na terra de Satã.

- Cale a boca, Roper! - disse Vinck, zangado. - O piloto agiu certo. Não é culpa dele que os outros tenham morrido, não é culpa dele. Sempre morrem homens nestas viagens.

Os olhos de Jan Roper estavam injetados, as pupilas minúsculas.

- Sim, Deus guarde a alma deles. Meu irmão foi um.

Blackthorne olhou dentro daqueles olhos fanáticos, odiando Jan Roper. Interiormente perguntava a si mesmo se realmente havia navegado para oeste a fim de se esquivar dos navios inimigos. Ou teria sido porque ele era o primeiro inglês atravessando o estreito, o primeiro em posição, pronto e capaz de penetrar para oeste, e por isso o primeiro com a chance de circunavegar o globo?

- Os outros não morreram por causa da sua ambição, piloto? Deus o castigará! - sibilou Jan Roper.

- Agora cale a boca. - A palavra de Blackthorne foi gentil e final.

Jan Roper sustentou-lhe o olhar com a mesma cara gelada de traços acentuados, mas ficou de boca fechada.

- Bom. - Blackthorne sentou-se pesadamente no chão e apoiou-se contra um dos pilares.

- O que devemos fazer, piloto?

- Esperar e sarar. O chefe deles virá logo, então teremos tudo arranjado.

Vinck olhava para o jardim lá fora, para o samurai sentado imóvel sobre os calcanhares, ao lado do portão.

- Olhem aquele bastardo. Está lá há horas, nunca se mexe, nunca diz nada, nem cutuca o nariz.

- Mas ele não representa problema algum, Johann. Nenhum em absoluto - disse Van Nekk.

- Sim, mas tudo o que fizemos até agora foi dormir, fornicar e comer a lavagem.

- Piloto, ele é apenas um homem. Nós somos dez - disse Ginsel tranqüilamente.

- Pensei nisso. Mas ainda não estamos bem o suficiente. Vai levar uma semana para que o escorbuto passe - respondeu Blackthorne, preocupado. - Há muitos deles a bordo. Eu não gostaria de me ocupar sequer de um sem uma lança ou uma pistola. Vocês são vigiados à noite?

- Sim. Trocam a guarda três ou quatro vezes. Alguém viu uma sentinela pegar no sono? - perguntou Van Nekk.

Balançaram a cabeça.

- Poderíamos estar a bordo esta noite - disse Jan Roper. - Com a ajuda de Deus subjugaremos os pagãos e tomaremos o navio.

- Limpe a merda dos seus ouvidos! O piloto acabou de lhe dizer! Você não ouve? - exclamou Vinck, contrariado.

- Está certo - concordou Pieterzoon, um artilheiro. - Pare de importunar o velho Vinck!

Os olhos de Jan Roper apertaram-se ainda mais.

- Cuidado com a sua alma, Johann Vinck. E com a sua, Hans Pieterzoon. O Dia do Juízo se aproxima. - Afastou-se e foi sentar na varanda.

Van Nekk rompeu o silêncio.

- Tudo vai dar certo. Vocês verão.

- Roper está certo. Foi a ganância que nos pôs aqui - disse o jovem Croocq, a voz trêmula. - Foi o castigo de Deus que...

- Pare com isso!

O rapaz estremeceu.

- Sim, piloto. Desculpe, mas bem... - Maximilian Croocq era o mais novo deles, tinha só dezesseis anos, e fora engajado para a viagem porque seu pai era o capitão de um dos navios e eles iam fazer fortuna. Mas vira o pai ter uma péssima morte quando saquêaram a cidade espanhola de Santa Magdellana, na Argentina. O butim fora bom, e ele vira o que era estupro e o experimentara, odiando a si mesmo, saturado de cheiro de sangue e de matança. Mais tarde vira morrer mais amigos seus e os cinco navios tornarem-se um, e agora se sentia como o mais velho de todos. - Desculpe. Desculpe.

- Há quanto tempo estamos em terra, Baccus? - perguntou Blackthorne.

- Este é o terceiro dia. - Van Nekk aproximou-se de novo, pôs-se de cócoras. - Não me lembro da chegada com muita clareza, mas quando acordei os selvagens estavam por todo o navio. Mas muito polidos e gentis. Deram-nos comida e água quente. Levaram embora os mortos e lançaram as âncoras. Não lembro muito, mas acho que nos rebocaram para um ancoradouro seguro. Você delirava quando o carregaram para a praia. Quisemos conservá-lo conosco, mas não deixaram. Um deles falava algumas palavras em português. Parecia ser o chefe, tinha o cabelo grisalho. Não entendia "piloto-mor", mas conhecia "capitão". Ficou absolutamente claro que ele queria que o nosso "capitão" tivesse alojamento diferente do nosso, mas disse que não precisávamos nos preocupar, porque você seria bem cuidado. Nós também. Depois nos guiou para cá, a maioria veio carregada, e disse que devíamos ficar dentro de casa até que o capitão dele viesse. Não queríamos deixar que o levassem, mas não havia nada que pudéssemos fazer. Você perguntará ao chefe sobre vinho ou conhaque, piloto? - Van Nekk lambeu os lábios, sedento, e acrescentou: - Agora que penso nisso, ele também mencionou "daimio". O que vai acontecer quando o daimio chegar?

- Alguém tem uma faca ou pistola?

- Não - disse Van Nekk, coçando distraído os piolhos na cabeça. - Levaram todas as nossas roupas para limpar e ficaram com as armas. Não pensei nada sobre isso na hora. Também pegaram minhas chaves, assim como a minha pistola. Eu tinha todas as minhas chaves numa argola. A da sala forte, da caixa-forte e do paiol.

- Está tudo muito bem trancado a bordo. Não é preciso se preocupar com isso.

- Não gosto de estar sem as minhas chaves. Fico muito nervoso. Malditos olhos os meus. Eu saberia como usar um conhaque bem agorinha. Até um frasco de cerveja.

- Jesus! O samiri cortou-o em pedaços, foi? - disse Sonk a ninguém em particular.

- Pelo amor de Deus, cale a boca. É "samurai". Você sozinho é suficiente para fazer um homem se borrar todo - disse Ginsel.

- Espero que aquele padre bastardo não venha aqui - disse Vinck.

- Estamos seguros nas mãos do bom Deus. - Van Nekk ainda estava tentando soar confiante. - Quando o daimio vier, seremos libertados. Recuperaremos nosso barco e nossas armas. Vocês verão. Venderemos toda a nossa mercadoria e voltaremos à Holanda e a salvo, depois de termos dado a volta ao mundo, os primeiros holandeses a conseguirem isso. Os católicos irão para o inferno e isso é o fim da história.

- Não, não é - disse Vinck. - Papistas fazem a minha pele se arrepiar toda. Não posso evitar isso. Isso e a idéia de conquistadores. Acha que chegarão em grande número, piloto?

- Não sei. Diria que sim! Gostaria que tivéssemos toda a nossa esquadra aqui.

- Pobres bastardos - disse Vinck. - Pelo menos estamos vivos.

- Talvez tenham voltado para casa - disse Maetsukker.

- Talvez tenham voltado de Magalhães, quando a tempestade nos dispersou.

- Espero que você esteja certo - disse Blackthorne. - Mas acho que estão completamente perdidos.

Ginsel estremeceu.

- Pelo menos estamos vivos.

- Com papistas aqui e esses pagãos miseráveis, eu não daria um peido de puta velha pelas nossas vidas.

- Maldito o dia em que saí da Holanda! - disse Pieterzoon.

- Maldito grogue! Se eu não estivesse mais bêbado do que a cadela de um violinista, ainda estaria em Amsterdã, com a minha velha.

- Amaldiçoe o que quiser, Pieterzoon. Mas não a bebida. É a substância da vida.

- Eu diria que estamos num cano de esgoto, enterrados até o queixo, e a maré está subindo depressa. - Vinck girou os olhos nas órbitas. - Sim, muito depressa.

- Nunca pensei que atingiríamos terra - disse Maetsukker. Parecia-se com um furão, exceto que não tinha dentes. Nunca. E menos ainda o Japão. Papistas nojentos e fedorentos! Nunca sairemos vivos daqui! Gostaria que tivéssemos algumas armas. Que desembarque podre! Eu não quis dizer nada, piloto - apressou-se a esclarecer, quando Blackthorne o olhou -, apenas má sorte, isso é tudo.

Mais tarde os criados lhes trouxeram comida de novo. Sempre a mesma coisa: verduras - cozidas e cruas - com um pouco de vinagre, sopa de peixe e o mingau de trigo ou cevada. Todos desprezaram os pedacinhos de peixe cru e pediram carne e bebida. Mas não foram compreendidos, e depois, quase ao pôr-do-sol, Blackthorne foi embora. Cansara-se dos medos deles, dos ódios e obscenidades. Disse-lhes que voltaria após o amanhecer.

Nas ruas estreitas, as lojas estavam movimentadas. Achou a sua rua e o portão da casa. As manchas na terra tinham sido varridas e o corpo desaparecera. É quase como se eu tivesse sonhado a coisa toda, pensou. O portão do jardim abriu-se antes que ele pudesse tocá-lo.

O velho jardineiro, ainda de tanga, embora o vento estivesse fresco, sorriu e curvou-se.

- Konbanwa.

- Alô - disse Blackthorne, sem pensar. Subiu os degraus, parou, lembrando-se das botas. Tirou-as e foi descalço até a varanda e o quarto. Atravessou um corredor, mas não conseguiu encontrar seu quarto.

- Onna! - chamou.

Apareceu uma velha.

- Hai?

- Onde está Onna?

A velha franziu o cenho e apontou para si mesma.

- Onna?

- Oh, pelo amor de Deus - disse Blackthorne, irritado.

- Onde é o meu quarto? Onde está Onna? - Correu outra porta de treliça. Quatro japoneses estavam sentados no chão em torno de uma mesa, comendo. Ele reconheceu um deles como o homem grisalho, o chefe da aldeia, que estivera com o padre. Todos se inclinaram. - Oh, perdão! - disse ele, e fechou a porta.

- Onna! - chamou.

A mulher pensou um instante, depois chamou-o com um gesto. Ele a seguiu por outro corredor. Ela puxou uma porta para o lado. Ele reconheceu seu quarto pelo crucifixo. Os acolchoados já estavam estendidos.

- Obrigado - disse, aliviado. - Agora, vá buscar Onna!

A velha afastou-se, silenciosa. Ele sentou-se, a cabeça e o corpo doendo, e desejou que houvesse uma cadeira, perguntando a si mesmo onde as guardavam. Como chegar a bordo? Como conseguir algumas armas? Deve haver um modo. Ouviu passos abafados voltando e viu três mulheres agora, a velha, uma garota de rosto redondo, e a de meia-idade.

A velha apontou para a garota, que parecia um pouco assustada.

- Onna.

- Não. - Blackthorne levantou-se, mal-humorado, e sacudiu um dedo na frente da mulher de meia-idade. - Esta é Onna, por Deus! Você não sabe seu nome? Onna! Estou com fome. Posso comer alguma coisa? - Esfregou o estômago, parodiando fome. Elas se entreolharam. Então a mulher de meia-idade sacudiu os ombros, disse alguma coisa que fez as outras rir, foi até a cama e começou a se despir. As outras duas se acocoraram, de olhos arregalados e expectantes.

Blackthorne estava apavorado.

- O que está fazendo?

- Ikimasho! - disse ela, puxando para o lado a larga faixa de cintura e abrindo o quimono. Tinha os seios chatos e murchos, e uma vasta barriga. Estava absolutamente claro que ela ia se pôr na cama. Ele balançou a cabeça, disse-lhe que se vestisse, pegou-lhe o braço e começaram todos a tagarelar e a gesticular, e a mulher a ficar bastante zangada. Tirou a longa combinação e, nua, tentou voltar para a cama. O alvoroço se interrompeu e todas se curvaram quando o chefe da aldeia chegou silenciosamente pelo corredor.

- Nanda? Nanda? - perguntou.

A velha explicou o que estava acontecendo.

- Você quer esta mulher? - perguntou, incrédulo, num português com sotaque pesado, quase incompreensível, apontando para a mulher nua.

- Não. Não, claro que não. Só queria que Onna me trouxesse comida. - Blackthorne apontou-a impaciente. - Onna!

- "Onna" quer dizer "mulher". - O japonês apontou para cada uma: - Onna, onna, onna. Você quer onna?

Blackthorne sacudiu a cabeça, cansado.

- Não. Não, obrigado. Cometi um engano. Desculpe. Qual é o nome dela?

- Por favor?

- Qual é o nome dela?

- Ah! Namae é Haku. Haku.

- Haku?

- Hai. Haku!

- Desculpe, Haku-san. Pensei que "onna" fosse seu nome.

O homem explicou a Haku e ela não ficou nem um pouco satisfeita. Mas ele disse alguma coisa e elas todas olharam para Blackthorne, riram por trás das mãos e saíram. Haku afastou-se nua, levando o quimono no braço, com uma vasta dose de dignidade.

- Obrigado - disse Blackthorne, furioso com a própria estupidez.

- Esta minha casa. Meu namae Mura.

- Mura-san. O meu é Blackthorne.

- Por favor?

- Meu namae. Blackthorne.

- Ah, Berr-rakk-fon. - Mura tentou várias vezes, mas não conseguiu dizer o nome. Acabou desistindo e continuou a estudar o colosso à sua frente. Era o primeiro bárbaro que via, com exceção do Padre Sebastio e do outro padre, muitos anos atrás. Mas de qualquer modo, pensou, os padres têm cabelo e olhos pretos e altura normal. Mas este homem alto, de cabelo dourado, barba dourada, olhos azuis e uma estranha palidez na pele onde ela é coberta e uma vermelhidão onde é exposta. Surpreendente! Eu pensava que todos os homens tivessem cabelo preto e olhos escuros. Nós todos temos. Os chineses têm, e a China não é o mundo todo, com exceção da terra dos bárbaros portugueses do sul? Surpreendente! E por que o Padre Sebastio odeia tanto este homem? Porque é um adorador de Satã? Eu não pensaria isso, porque o Padre Sebastio poderia expulsar o Diabo se quisesse. Puxa, nunca tinha visto o bom padre tão zangado! Nunca. Surpreendente! Olhos azuis e cabelo dourado são a marca de Satã?

Mura olhou Blackthorne e lembrou-se de como tentara interrogá-lo a bordo do navio e depois, quando este capitão ficara inconsciente, resolvera trazê-lo para sua casa porque era o líder e devia merecer consideração especial. Haviam-no deitado sobre o acolchoado e o despiram, muito curiosos.

- As partes sem par dele certamente são impressionantes, neh? - dissera Saiko, a mãe de Mura. - Pergunto a mim mesma quão grandes não devem ser quando eretas.

- Grandes - respondera ele, e todos riram, a mãe, a esposa, os amigos, os criados e o médico.

- Suponho que as mulheres deles devam ser... devam ser igualmente dotadas - dissera Niji, sua esposa.

- Que absurdo, garota - dissera a mãe. - Um bom número das nossas cortesãs poderiam alegremente fazer a acomodação necessária. - Meneou a cabeça, espantada. - Nunca tinha visto nada como ele em toda a minha vida. Muito esquisito mesmo, neh?

Lavaram-no e ele não saíra do estado de coma. O médico não achara prudente mergulhá-lo num banho propriamente dito até que despertasse. — Talvez devêssemos nos lembrar, Mura-san, de que não sabemos como o bárbaro realmente é - dissera com cauteloso bom senso. — Sinto muito, mas poderíamos matá-lo por engano. Obviamente ele está no limite de suas forças. Devemos praticar a paciência.

- Mas e os piolhos no cabelo dele? - perguntara Mura.

- Por enquanto terão que ficar aí. Compreendo que todos os bárbaros os tenham. Sinto muito, mas eu aconselharia paciência.

- O senhor não acha que poderíamos ao menos lavar a cabeça dele? - dissera a esposa. - Seríamos muito cuidadosas. Tenho certeza de que a senhora supervisionaria nossos pobres esforços. Isso ajudaria o bárbaro e manteria nossa casa limpa.

- Concordo. Podem lavar a cabeça dele - dissera a mãe com determinação. - Mas eu certamente gostaria de saber qual é o tamanho dele quando ereto.

Agora Mura deu uma olhada para baixo da cintura de Blackthorne involuntariamente. Depois se lembrou do que o padre lhes dissera sobre aqueles satanistas e piratas. Deus, o Pai, nos proteja deste mal, pensou. Se soubesse que ele era tão terrível, nunca o teria trazido para a minha casa. Não, disse a si mesmo. Você é obrigado a tratá-lo como um hóspede especial até que Omi-san determine outra coisa. Mas você teve bom senso ao mandar avisar o padre e Omi-san imediatamente. Muito bom senso. Você é o chefe, você protegeu a aldeia e você, sozinho, é responsável. Sim. E Omi-san o responsabilizará pela morte desta manhã e pela impertinência do morto, e com toda a razão.

- Não seja estúpido, Tamazaki! Está pondo em risco o bom nome da aldeia, neh? - prevenira ele uma dúzia de vezes ao amigo, o pescador. — Pare com a sua intolerância. Omi-san não tem opção a não ser escarnecer dos cristãos. O nosso daimio não detesta cristãos? O que mais Omi-san pode fazer?

- Nada, concordo, Mura-san, por favor, desculpe-me. - Tamazaki sempre respondera assim formalmente. - Mas os budistas devem ter mais tolerância, neh? Os dois não são zen-budistas? - O zen-budismo era auto-disciplinador; contava fortemente com a auto-ajuda e a meditação para encontrar a Iluminação. A maioria dos samurais pertencia à seita zen-budista, já que ela convinha perfeitamente, parecia até destinada a um guerreiro orgulhoso, que buscava a morte.

- Sim, o budismo ensina a tolerância. Mas quantas vezes eu preciso lembrar-lhe que eles são samurais, e isto é Izu e não Kyushu, e mesmo que fosse Kyushu, você ainda seria o errado. Sempre. Neh?

- Sim. Por favor, desculpe-me, sei que estou errado. Mas algumas vezes sinto que não posso viver com a minha humilhação interior quando Omi-san é tão insultante para com a verdadeira fé.

E agora, Tamazaki, você está morto por sua própria escolha, porque insultou Omi-san não se curvando simplesmente porque ele disse "... este malcheiroso padre da religião estrangeira". Ainda que o padre realmente cheire e a verdadeira fé seja estrangeira. Meu pobre amigo. A verdade não vai alimentar sua família agora ou remover o estigma da minha aldeia. Oh, Madona, abençoe o meu velho amigo e dê-lhe a alegria do paraíso.

Espero muitos problemas com Omi-san, disse Mura a si mesmo. E como se isso não fosse mau o bastante, agora ainda vem o nosso daimio.

Uma ansiedade penetrante o invadia sempre que pensava no seu senhor feudal, Kasigi Yabu, daimio de Izu, tio de Omi — a crueldade e a falta de honra do homem, o modo como trapaceava com todas as aldeias quanto à parte justa de cada uma na pesca e na colheita, e o peso opressivo do seu governo. Quando a guerra chegar, perguntou Mura a si mesmo, por que lado Yabu vai se declarar, o do Senhor Ishido ou o do Senhor Toranaga? Estamos numa armadilha entre os gigantes, e empenhados com ambos.

Ao norte, Toranaga, o maior general vivo, senhor de Kwanto, as Oito Províncias, o daimio mais importante da terra, general chefe dos exércitos do leste; a oeste, os domínios de Ishido, senhor do castelo de Osaka, conquistador da Coréia, protetor do herdeiro, general-chefe dos exércitos do oeste. E ao norte, o Tokaido, a grande estrada costeira, que une Yedo, capital de Toranaga, a Osaka, capital de Ishido - trezentas milhas para oeste sobre as quais suas legiões têm que marchar.

Quem vencerá a guerra? Ninguém. Porque a guerra deles vai envolver o império novamente, as alianças se romperão, províncias lutarão contra províncias, até ser aldeia contra aldeia, como sempre foi. Exceto nos últimos dez anos. Nos últimos dez anos, inacreditavelmente, houvera uma ausência de guerra chamada paz por todo o império, pela primeira vez na história. Eu estava começando a gostar da paz, pensou Mura.

Mas o homem que fez a paz está morto. O soldado camponês que se tornou samurai e depois general e depois o maior general e finalmente o taicum, o absoluto Senhor Protetor do Japão, está morto há um ano, e seu filho de sete anos de idade é jovem demais para herdar o poder supremo. Assim, o menino, como nós, é um refém. Entre os gigantes. E a guerra é inevitável. Agora nem mesmo o taicum pode proteger seu amado filho, sua dinastia, sua herança, ou seu império.

Talvez seja como deve ser. O taicum conquistou a terra, fez a paz, forçou todos os daimios a abaixar-se como camponeses à sua frente, reorganizou feudos conforme a própria veneta - promovendo alguns, dissolvendo outros - e depois morreu. Era um gigante entre pigmeus. Mas talvez esteja certo que toda a sua obra e grandeza morressem com ele. O homem não é apenas uma flor levada pelo vento, e somente as montanhas, o mar, as estrelas e esta Terra dos Deuses são reais e duradouros?

Estamos todos numa armadilha e isso é um fato; a guerra virá logo, e isso é um fato; Yabu decidirá sozinho de que lado estamos, e isso é um fato; a aldeia será sempre uma aldeia, porque os campos macios são ricos, o mar abundante, e esse é um último fato.

Mura trouxe a mente firmemente de volta ao pirata bárbaro à sua frente. Você é um demônio, enviado para nos flagelar, pensou, e só nos causou problemas desde que chegou. Não podia ter escolhido outra aldeia?

- O capitão-san quer onna? - perguntou solicitamente. Por sugestão sua, o conselho da aldeia fizera arranjos materiais para os bárbaros, tanto por polidez quanto por ser um meio simples de mantê-los ocupados até que as autoridades chegassem. Que a aldeia se entretivesse com as histórias subseqüentes das ligações, mais do que se compensasse pelo dinheiro que tivera de ser investido.

- Onna - repetiu, naturalmente presumindo que, como o pirata estava de pé, ficaria igualmente contente de se pôr de bruços, sua Lança Sagrada calidamente envolvida antes de dormir, e de qualquer modo tinham-se feito todos os preparativos.

- Não! - Blackthorne queria apenas dormir. Mas como sabia que precisava que aquele homem estivesse do seu lado, forçou um sorriso, indicou o crucifixo.

- Você é cristão?

Mura assentiu.

- Cristão.

- Eu sou cristão.

- Padre diz não. Não cristão.

- Sou cristão. Não católico. Mas ainda sou cristão.

Mura não conseguiu compreender. E não houve como Blackthorne pudesse explicar, embora tentasse muito.

- Quer onna?

- O ... o dimio ... quando vem?

- Dimio? Não entende.

- Dimio ... ah, quero dizer, daimio.

- Ah, daimio. Hai, daimio! - Mura sacudiu os ombros. - Daimio vem quando vem. Dormir. Primeiro limpar. Por favor.

- O quê?

- Limpar. Banho, por favor.

- Não entendo.

Mura chegou mais perto e franziu o nariz com desagrado.

- Fede. Mau. Como todos os portugueis. Banho. Esta casa limpa.

- Tomo banho quando tiver vontade e não cheiro mal! - encolerizou-se Blackthorne. - Todo mundo sabe que os banhos são perigosos. Você quer que eu pegue o defluxo? Acha que sou algum maldito estúpido? Suma daqui e me deixe dormir!

- Banho! - ordenou Mura, chocado com a explosão de raiva do bárbaro, o cúmulo dos maus modos. E não era só que o bárbaro cheirasse mal, como de fato cheirava, mas, pelo que lhe constava, fazia três dias que ele não se banhava corretamente, e a cortesã com toda a razão se recusaria a deitar-se com ele, por maior que fosse a sua paga. Esses estrangeiros horríveis, pensou.

Surpreendente! Como seus hábitos são surpreendentemente imundos! Não importa. Sou o responsável por você. Você aprenderá bons modos. Vai tomar banho como um ser humano e a Mãe vai saber aquilo que quer saber. — Banho!

- Agora saia antes que eu o arrebente em pedaços! - Blackthorne encarou-o furioso, gesticulando para que se fosse.

Houve uma pausa momentânea e os outros três japoneses apareceram com três das mulheres. Mura explicou resumidamente o que estava acontecendo, depois disse a Blackthorne com determinação:

- Banho. Por favor.

- Fora!

Mura avançou sozinho para dentro do quarto. Blackthorne levantou o braço para a frente, não querendo ferir o homem, só para empurrá-lo. De repente soltou um berro de dor. De algum modo Mura lhe atingira o cotovelo com o lado da mão e agora o braço de Blackthorne pendia, momentaneamente paralisado. Furioso, atacou. Mas o quarto rodou, ele caiu de cara no chão, houve outra dor paralisante, penetrante, nas suas costas e ele não pôde se mover.

- Por Deus... - Tentou levantar-se, mas as pernas se curvaram ao seu peso. Depois, calmamente, Mura estendeu o dedo pequeno, mas duro como ferro, e tocou um centro nervoso na nuca de Blackthorne. Houve uma dor ofuscante.

- Meu bom Jesus...

- Banho? Por favor?

- Sim, sim - ofegou Blackthorne através de sua agonia, atônito de ter sido dominado com tanta facilidade por um homem tão minúsculo e agora jazer indefeso como qualquer criança, pronto para ter a garganta cortada.

Anos antes Mura aprendera as artes do judô e caratê, assim como a lutar com espada e lança. Isso fora quando ele era um guerreiro e lutara por Nakamura, o general camponês, o taicum - muito antes de o taicum tornar-se taicum -, quando os camponeses podiam ser samurais e os samurais podiam ser camponeses, ou artesãos, ou mesmo modestos mercadores, e guerreiros novamente. Estranho, pensou Mura distraidamente, olhando para o gigante caído, que praticamente a primeira coisa que o taicum tenha feito quando se tornou todo-poderoso tenha sido ordenar que todos os camponeses deixassem de ser soldados e imediatamente depusessem todas as armas. O taicum lhes; proibira as armas para sempre e estabelecera o sistema de castas imutáveis, que agora controlava todas as vidas no império: os samurais acima de todos, abaixo deles os camponeses, depois os artesãos, em seguida os mercadores, seguidos pelos atores, os párias e os bandidos, e finalmente, na base da escala, os eta, os não-humanos, os que lidavam com corpos mortos, com a defumação do couro e a manipulação de animais mortos, que também eram os carrascos públicos, os mutiladores e os que marcavam com ferro quente. Claro que todo bárbaro estava abaixo de consideração nessa escala.

- Por favor, desculpe-me, capitão-san - disse Mura, fazendo uma profunda reverência, envergonhado pela perda de dignidade do bárbaro, que jazia deitado ali, gemendo como um bebê de peito. Sim, sinto muito, pensou, mas tinha que ser feito. Você me provocou além de tudo o que era razoável, mesmo para um bárbaro. Grita como um lunático, perturba minha mãe, rompe a tranqüilidade de minha casa, incomoda os criados, e minha esposa já teve que substituir uma porta shoji. Eu não podia permitir que a sua óbvia falta de educação continuasse sem oposição. Ou permitir-lhe ir contra os meus desejos na minha própria casa. Na realidade é para o seu próprio bem. E depois, não é tão mau assim, porque vocês, bárbaros, na realidade não têm dignidade a perder. Exceto os padres - eles são diferentes. Ainda cheiram horrivelmente, mas são os ungidos de Deus, o Pai, portanto têm muita dignidade. Mas você... você é um mentiroso e um pirata.

Não tem honra. Que surpreendente! Bradando ser cristão! Infelizmente isso não vai ajudá-lo em absoluto. O nosso daimio odeia a verdadeira fé e os bárbaros, e os tolera só porque tem que tolerá-los. Mas você não é português nem cristão, portanto não é protegido pela lei, neh? Assim, ainda que você seja um homem morto, ou pelo menos um homem mutilado, é meu dever fazer que você siga o seu destino estando limpo.

- Banho muito bom!

Ajudou os outros homens a carregar Blackthorne, ainda entorpecido, através da casa, pelo jardim, ao longo de um caminho coberto do qual ele sentia muito orgulho, e para dentro da casa de banho. As mulheres vinham atrás.

Tornou-se uma das grandes experiências de sua vida. Na época soube que contaria e recontaria a história aos amigos incrédulos, esvaziando barris de saquê quente, como era chamado o vinho nacional do Japão; aos seus companheiros mais velhos, pescadores, aldeães, aos filhos deles, que também não lhe acreditariam de imediato. Mas-eles, por sua vez, regalariam os próprios filhos com o relato, e o nome de Mura, o pescador, viveria para sempre na aldeia de Anjiro, que ficava na província de Izu, na costa sudeste da ilha principal de Honshu. Tudo porque ele, Mura, o pescador, teve a boa fortuna de ser chefe da aldeia no primeiro ano após a morte do taicum e, portanto, temporariamente, responsável pelo chefe dos estranhos bárbaros que surgiram do mar oriental.

 

- O daimio, Kasigi Yabu, senhor de Izu, quer saber quem é você, de onde vem, como chegou aqui e que atos de pirataria cometeu - disse o Padre Sebastio.

- Continuo lhe dizendo que não somos piratas. - A manhã estava clara e quente, e Blackthorne estava ajoelhado diante da plataforma na praça da aldeia, a cabeça ainda doendo por causa da pancada. Conserve a calma e ponha o cérebro a funcionar, disse a si mesmo. Você está em julgamento pela vida de todos.

Você é o porta-voz e isso é tudo. O jesuíta é hostil, é o único intérprete disponível, e você não tem meios de saber o que ele está dizendo, só pode ter certeza de que ele não vai ajudá-lo... "Ponha. os miolos a trabalhar, rapaz", quase podia ouvir o velho Alban Caradoc dizendo. "É quando a tempestade está pior e o mar mais terrível que você precisa dos seus miolos especiais. É isso que o mantém vivo e mantém vivo o seu navio - se você é o piloto. Ponha os miolos a funcionar e tome seu suco todos os dias... "

O suco de hoje é bile, pensou Blackthorne de cara fechada.

Por que ouço a voz de Alban com tanta clareza?

- Primeiro diga ao daimio que estamos em guerra, que somos inimigos - disse. - Diga-lhe que a Inglaterra e a Neerlândia estão em guerra com a Espanha e Portugal.

- Previno-o de novo para simplesmente falar e não torcer os fatos. A Neerlândia, ou Holanda, Zelândia, Províncias Unidas, ou seja, como for que vocês, imundos rebeldes holandeses, a chamem, é uma pequena província revoltosa do império espanhol. Você é o líder de traidores que se encontram em estado de insurreição contra o rei legítimo.

- A Inglaterra está em guerra e a Neerlândia está sep... - Blackthorne não continuou porque o padre não estava mais ouvindo, e sim traduzindo.

O daimio estava sobre a plataforma, baixo, atarracado e dominador. Ajoelhara-se confortavelmente, os calcanhares cuidadosamente dobrados sob o corpo, ladeado por quatro lugar-tenentes, um dos quais era Kasigi Omi, seu sobrinho e vassalo. Todos usavam quimonos de seda e, sobre ele, sobrecotas ornadas, com cintos largos apertando-os até a altura do peito e imensos ombros engomados. E as inevitáveis espadas.

Mura estava ajoelhado sobre o pó. Era o único aldeão presente, e os únicos outros espectadores eram os cinqüenta samurais que tinham vindo com o daimio. Sentavam-se em filas disciplinadas, silenciosas. A tripulação do navio estava atrás de Blackthorne e, como ele, todos de joelhos, com guardas por perto. Tiveram que carregar o capitão-mor consigo quando foram mandados para ali, embora ele ainda estivesse passando pessimamente. Autorizaram-no a permanecer deitado, ainda em semi-coma. Blackthorne e todos os outros se curvaram quando chegaram diante do daimio, mas isso não fora suficiente. Os samurais os fizeram ajoelhar-se à força e empurraram-lhes a cabeça até o pó, à maneira dos camponeses. Ele tentara resistir e gritara ao padre que explicasse que o costume deles não era aquele, que ele era o líder e um emissário de seu país e devia ser tratado como tal. Mas o cabo de uma lança o fizera cambalear. Seus homens se agruparam para um ataque impulsivo, mas ele lhes gritara que parassem e ajoelhassem.

Felizmente obedeceram. O daimio proferiu alguma coisa gutural e o padre traduziu isso como uma advertência para que ele dissesse a verdade, e a dissesse rapidamente. Blackthorne pedira uma cadeira, mas o padre disse que os japoneses não usavam cadeiras e não havia nenhuma no Japão.

Blackthorne estava concentrado no padre enquanto este falava com o daimio, procurando um indício, uma passagem entre os recifes.

Há arrogância e crueldade no rosto do daimio, pensou. Aposto como é um verdadeiro bastardo. O japonês do padre não é fluente. Ah, viu isso? Irritação e impaciência. O daimio pediu outra palavra, uma palavra mais clara? Acho que sim. Por que o jesuíta está usando vestes alaranjadas? O daimio é católico?

Olhe, o jesuíta é muito respeitoso e está suando um bocado. Aposto que o daimio não é católico. Preste atenção! Talvez ele não seja católico. Se for, não lhe dará acolhida alguma. Como será que você pode usar esse bastardo miserável? Como falar diretamente com ele? Como é que você vai lidar com o padre? Como desacreditá-lo? Qual é a isca? Vamos, pense! Você sabe o suficiente sobre jesuítas...

- O daimio diz para você se apressar e responder às perguntas dele.

- Sim. Claro, desculpe. Meu nome é John Blackthorne. Sou inglês, piloto-mor de uma frota neerlandesa. Nosso porto de partida é Amsterdã.

- Frota? Que frota! Está mentindo. Não há frota alguma. Por que um inglês é piloto de um navio holandês?

- Tudo na sua hora. Primeiro, por favor, traduza o que eu disse. Vamos!

Blackthorne decidiu jogar. Sua voz endureceu abruptamente e rompeu o calor da manhã.

- Que vá! Primeiro traduza o que eu disse, espanhol! Agora!

O padre corou.

- Sou português! Já lhe disse. Responda à pergunta.

- Estou aqui para falar com o daimio, não com você. Traduza o que eu disse. seu lixo sem mãe! - Blackthorne viu o padre avermelhar-se ainda mais e sentiu que isso não passara despercebido ao daimio. Seja prudente, preveniu a si mesmo. Esse bastardo amarelo vai cortá-lo em pedaços mais depressa do que um cardume de tubarões se você passar da conta. - Diga ao senhor daimio! - Blackthorne fez deliberadamente uma profunda reverência para a plataforma e sentiu um suor gelado começar a porejar enquanto se comprometia irreversivelmente com o rumo da sua ação.

O Padre Sebastio sabia que seu treinamento deveria fazê-lo impermeável aos insultos do pirata e ao plano evidente de desacreditá-lo frente ao daimio. Mas pela primeira vez isso não ocorreu e ele se sentiu perdido. Quando o mensageiro de Mura levara a notícia do navio à sua missão na província vizinha, ele ficara agitado com as implicações. Não pode ser holandês nem inglês! - pensara. Nunca houvera um navio herético no Pacífico, com exceção dos do arquidiabólico corsário Drake, e nunca ali na Ásia. As rotas eram secretas e guardadas. Ele se preparara imediatamente para partir e enviara uma mensagem urgente, por pombo-correio, a seu superior em Osaka, desejando ter podido consultá-lo primeiro, sabendo que era jovem, quase inexperiente o novo no Japão, há uns escassos dois anos ali, ainda não ordenado e sem competência para lidar com essa emergência. Correra para Anjiro, esperando e rezando para que a notícia não fosse verdadeira. Mas o navio era holandês e o piloto, inglês, e toda a sua repugnância pelas satânicas heresias de Lutero, Calvino, Henrique VIII e a arquiinimiga Elizabeth, filha bastarda deste último, o dominara completamente. E ainda lhe anuviara o discernimento.

- Padre, traduza o que o pirata disse - ouviu o daimio dizer.

Ó bendita mãe de Deus, ajude-me a fazer a sua vontade. Ajude-me a ser forte diante do daimio, dê-me o dom das línguas e deixe-me convertê-lo à verdadeira fé.

O Padre Sebastio reuniu toda a habilidade que tinha e começou a falar com mais confiança.

Blackthorne ouviu com cuidado, tentando distinguir as palavras e os significados. O padre falou "Inglaterra", "Blackthorne", o apontou para o navio, lindamente ancorado na baía.

- Como chegou aqui? - perguntou o Padre Sebastio.

- Pelo estreito de Magalhães. Estamos a cento e trinta e seis dias de lá. Diga ao daimio...

- Está mentindo. O estreito de Magalhães é secreto. Você veio pela África e índia. Você terá que dizer a verdade de qualquer modo. Usam tortura aqui.

- O estreito era secreto! Um português nos vendeu um portulano. Um dos seus vendeu vocês por um pouco do ouro de Judas. Vocês são todos estrume! Agora os navios de guerra ingleses, e holandeses, conhecem o caminho através do Pacífico. Há uma esquadra - vinte navios de linha ingleses, navios de guerra com sessenta canhões - atacando Manila bem neste instante. O seu império está acabado!

- Está mentindo!

Sim, pensou Blackthorne, sabendo que não havia meio de provar a mentira exceto indo até Manila.

- Essa esquadra vai devastar as suas rotas marítimas e aniquilar as suas colônias. Há outra esquadra holandesa com chegada aqui prevista para qualquer semana. O porco luso-espanhol está de volta ao chiqueiro, e o pênis do seu geral jesuíta está no ânus dele, que é o lugar onde deve estar! - Voltou-se e curvou-se para o daimio.

- Deus o amaldiçoe e à sua boca imunda!

- Ano mono wa nani o moshite oru! - vociferou o daimio com impaciência.

O sacerdote falou mais rápida e asperamente, e citou "Magalhães" e "Manila", mas Blackthorne achou que o daimio e seus lugar-tenentes não pareciam compreender com muita clareza.

Yabu estava se cansando daquele julgamento. Olhou para a enseada, para o navio que o obcecava desde que recebera a mensagem secreta de Omi, e perguntou novamente a si mesmo se aquele era o presente dos deuses que esperava.

- Já inspecionou a carga, Omi-san? - perguntara assim que chegara naquela manhã, respingado de lama e muito cansado.

- Não, senhor. Achei melhor lacrar o navio até que o senhor viesse pessoalmente, mas os porões estão cheios de engradados e fardos. Espero ter agido corretamente. Aqui estão todas as chaves. Confisquei-as.

- Bom. - Yabu viera de Yedo, capital de Toranaga, a mais de cem milhas de distância, com a urgência de um mensageiro, furtivamente, e com grande risco pessoal, e era vital que regressasse tão rapidamente quanto viera. A jornada levara quase dois dias por estradas enlameadas e riachos transbordantes devido à primavera, parcialmente a cavalo e parcialmente de palanquim.

- Irei até o navio imediatamente.

- Deveria ver os estrangeiros, senhor - dissera Omi com uma risada. - São inacreditáveis. A maioria tem olhos azuis, como gatos siameses, e cabelo dourado. Mas a melhor notícia é que eles são piratas...

Omi lhe falara sobre o padre, sobre o que este relatara a respeito daqueles corsários, o que o pirata dissera e o que acontecera; a animação de Yabu triplicara. Dominara a impaciência para ir a bordo e quebrar os lacres. Em vez disso tomara um banho, trocara a roupa e ordenara que os bárbaros fossem trazidos à sua presença.

- Você, padre - disse com voz cortante, praticamente incapaz de compreender o mau japonês do sacerdote. - Por que ele está tão furioso com você?

- Ele é mau. Pirata. Adora o Diabo.

Yabu inclinou-se para Omi, o homem à sua esquerda.

- Você entende o que ele está dizendo, sobrinho? Está mentindo? O que acha?

- Não sei, senhor. Quem sabe no que é que os bárbaros realmente acreditam? Imagino que o padre acha que o pirata é adorador do Diabo. Claro que isso tudo é um absurdo.

Yabu deu as costas ao padre, detestando-o. Gostaria de poder crucificá-lo hoje e apagar o cristianismo dos seus domínios de uma vez por todas. Mas não podia. Embora ele e todos os outros daimios tivessem poder total em seus respectivos territórios, ainda estavam sujeitos à autoridade superior do conselho de regentes, a junta militar dirigente à qual o taicum legara legalmente o poder durante a minoridade de seu filho, e sujeitos também aos editos que o taicum emitira em vida, que ainda estavam todos legalmente em vigor. Um desses, promulgado anos antes, tratava dos bárbaros portugueses e ordenava que fossem todos protegidos e que, dentro dos limites do bom senso, sua religião devia ser tolerada e seus padres autorizados, dentro dos limites do bom senso, a fazer prosélitos e a converter.

- Você, padre! O que mais o pirata disse? O que estava lhe dizendo? Vamos! Perdeu a língua?

- Pirata diz coisas ruins. Ruins. Sobre mais velejares de guerra piratas, muitos.

- O que quer dizer com "velejares de guerra"?

- Desculpe, senhor, não entendo.

- Velejares de guerra não faz sentido, neh?

- Ah! Pirata diz outros guerra barcos estar em Manila, nas Filipinas.

- Omi-san, você compreende o que ele está dizendo?

- Não, senhor. A pronúncia é assustadora, é quase uma linguagem desarticulada. Está dizendo que há mais navios piratas a leste do Japão?

- Você, padre! Esses navios piratas estão ao largo da nossa costa? A leste? Hein?

- Sim, senhor. Mas acho que ele mente. Falou em Manila.

- Não compreendo. Onde é Manila?

- A leste. Uma viagem de muitos dias.

- Se aparecerem navios piratas aqui, daremos a eles uma agradável acolhida, seja Manila onde for.

- Por favor, desculpe-me, não o compreendo.

- Não importa - disse Yabu, com a paciência esgotada.

Já decidira que os estrangeiros deviam morrer e antecipava com prazer essa perspectiva. Obviamente aqueles homens não se incluíam no edito do taicum, que especificava "bárbaros portugueses", e de qualquer modo eram piratas. Pelo que podia se lembrar, sempre odiara os bárbaros, seu mau cheiro, sua imundície e seus nojentos hábitos de comer carne, sua religião estúpida, sua arrogância, e suas maneiras detestáveis. Mais do que isso, ele se sentia humilhado, como todos os daimios, pela opressão deles sobre a Terra dos deuses. Fazia séculos que existia um estado de guerra entre China e Japão. A China não permitia o comércio. A seda chinesa era vital para tornar suportável o longo, quente e úmido verão japonês. Durante gerações apenas uma quantidade mínima de seda contrabandeada escorregara pelas malhas da fiscalização, para ser encontrada no Japão a um custo enorme. Então, sessenta e tantos anos atrás, os primeiros bárbaros chegaram. O imperador chinês em Pequim deu-lhes uma minúscula base permanente em Macau, no sul da China, e concordou em comerciar seda por prata. O Japão tinha prata em abundância. Logo o comércio estava florescendo. Ambos os países prosperaram. Os intermediários, os portugueses, enriqueciam, e seus padres - jesuítas na maioria - logo se tornaram vitais para o comércio. Só eles haviam tentado aprender japonês e chinês, e por isso podiam agir como negociadores e intérpretes. À medida que o comércio foi crescendo, os padres foram se tornando mais essenciais. Agora o comércio anual era imenso e tocava a vida de cada samurai. De modo que os padres tinham que ser tolerados, assim como a difusão da sua religião, ou os bárbaros levantariam âncoras e o comércio cessaria.

Havia atualmente uma grande quantidade de daimios cristãos importantes, e muitas centenas de milhares de convertidos, na maioria em Kyushu, a ilha meridional que ficava mais próxima da China e abrigava o porto português de Nagasaki. Sim, pensou Yabu, temos que tolerar os padres e os portugueses, mas não estes bárbaros, os novos, os inacreditáveis homens de cabelo dourado e olhos azuis. Sentiu-se invadido pela animação. Agora, finalmente, poderia satisfazer a curiosidade de saber como um bárbaro morreria quando submetido à tortura. E tinha onze homens, onze testes diferentes, para experimentar. Nunca se interrogara por que a agonia dos outros o agradava. Apenas sabia que agradava e que por isso era algo a procurar e a gozar.

- Este navio, estrangeiro, não português e pirata - disse Yabu -, está confiscado com tudo o que contém. Todos os piratas estão condenados à... - Ficou boquiaberto quando viu o chefe dos piratas subitamente saltar para cima do padre, arrancar-lhe o crucifixo de madeira do cinto, quebrá-lo em pedaços e atirá-los no chão, depois gritar bem alto alguma coisa. Quando os guardas se lançaram para ele, espadas em riste, o pirata imediatamente caiu de joelhos e fez-lhe uma profunda reverência.

- Parem! Não o matem! - Yabu estava atônito de que alguém pudesse ter a impertinência de agir com tal falta de educação na sua frente. - Esses bárbaros são absolutamente inacreditáveis!

- Sim - disse Omi, a mente fervilhando com as questões que aquela atitude implicava.

O padre ainda estava ajoelhado, contemplando fixamente os pedaços da cruz. Todos viram-no estender a mão, trêmula, e recolher o lenho violado. Disse alguma coisa ao pirata em voz baixa, quase gentil. Seus olhos se fecharam, as mãos se postaram e os lábios começaram a mover-se lentamente. O chefe pirata olhava os japoneses imóvel, os olhos azul-pálidos sem piscar, felinos, diante da sua tripulação.

- Omi-san - disse Yabu -, primeiro quero ir até o navio, depois começaremos. - Sua voz se turvou quando ele contemplou o prazer que prometera a si mesmo. - Quero começar com aquele de cabelo vermelho ali na ponta, o homem baixinho.

Omi inclinou-se mais, para chegar mais perto, e baixou a voz excitada.

- Por favor, desculpe-me, mas isso nunca aconteceu antes, senhor. Desde que os bárbaros portugueses chegaram aqui.

O crucifixo não é o símbolo sagrado deles? Não são sempre respeitosos com os padres? Exatamente como os nossos cristãos? Os padres não têm controle absoluto sobre eles?

- Vá direto ao ponto.

- Nós todos detestamos os portugueses, senhor. Exceto os cristãos entre nós, neh? Talvez esses bárbaros lhe sejam de mais valia vivos do que mortos.

- Como?

- Porque são únicos. São anticristãos! Talvez um homem sábio pudesse encontrar um meio de usar o ódio deles - ou a irreligiosidade - a nosso favor. São propriedade sua, pode fazer com eles o que quiser. Neh?

Sim. E quero-os sob tortura, pensou Yabu. Sim, mas você pode gozar disso a qualquer momento. Ouça Omi. É um bom conselheiro. Mas merece confiança agora? Será que tem um motivo secreto para dizer isso? Pense.

- Ikawa Jikkyu é cristão - ouviu o sobrinho dizer, citando o seu odiado inimigo, um dos parentes e aliados de Ishido, assentado nos seus limites ocidentais. — Não é lá que esse padre imundo tem o seu lar? Talvez estes bárbaros pudessem lhe dar a chave para abrir toda a província de Ikawa. Talvez a de Ishido. Talvez até a do Senhor Toranaga - acrescentou Omi delicadamente.

Yabu estudou o rosto de Omi, tentando alcançar o que estava por trás dele. Depois desviou o olhar para o navio. Não tinha dúvida alguma, agora, de que fora enviado pelos deuses. Sim.

Mas como um presente ou como um flagelo?

Renunciou ao próprio prazer pela segurança do seu clã.

- Concordo. Mas primeiro baixe a crista desses piratas. Ensine-lhes boas maneiras. Especialmente a ele.

 

- Pela morte do bom Jesus! - resmungou Vinck.

- Devíamos fazer uma prece - disse Van Nekk.

- Acabamos de fazer uma.

- Talvez fosse melhor fazermos outra. Senhor Deus no paraíso, eu saberia como usar uma pinta de conhaque agora!

Estavam amontoados numa cela profunda, uma das muitas que os pescadores usavam para armazenar peixe seco ao sol. Os samurais os haviam arrebanhado através da praça, desceram uma escada, e agora estavam trancados no subterrâneo. A cela tinha cinco passos de comprimento, cinco de largura e quatro de altura, com chão e paredes de terra. O teto era feito de pranchas de madeira com um pé de terra em cima e um único alçapão.

- Saia de cima do meu pé, seu gorila amaldiçoado!

- Cale a boca, seu apanhador de merda! - disse Pieterzoon amavelmente. - Ei, Vinck, afaste-se um pouco, seu velho peido desdentado, você ocupa mais espaço do que qualquer um! Por Deus, eu poderia usar uma cerveja gelada! Afaste-se.

- Não posso, Pieterzoon. Estamos mais apertados aqui do que a bunda de uma virgem.

- É o capitão-mor. Ficou com o espaço todo. Dêem-lhe um empurrão. Acordem-no! - disse Maetsukker.

- Hein? O que é que há? Deixem-me em paz. O que está acontecendo? Estou doente. Tenho que ficar deitado. Onde estamos?

- Deixem-no em paz. Ele está doente. Vamos, Maetsukker, levante-se, pelo amor de Deus. - Zangado, Vinck empurrou Maetsukker e atirou-o contra a parede. Não havia espaço suficiente para todos se deitarem, ou mesmo sentarem confortavelmente, ao mesmo tempo. O capitão-mor, Paulus Spillbergen, estava deitado ao comprido sob o alçapão, onde havia o melhor ar, a cabeça apoiada no seu capote enrolado. Blackthorne estava encostado a um canto, olhando fixamente para o alçapão. A tripulação o deixara em paz e permanecera à distância dele, preocupada, da melhor maneira que pudera, reconhecendo-lhe, de longa experiência, o estado de espírito e a violência tempestuosa e explosiva que sempre espreitava logo abaixo da sua aparência tranqüila.

Maetsukker perdeu o controle e desferiu um soco na virilha de Vinck.

- Deixe-me em paz ou eu o mato, seu bastardo!

Vinck voou para cima dele, mas Blackthorne agarrou a ambos e bateu-lhes a cabeça contra a parede.

- Calem-se, todos vocês - disse calmamente. Fizeram o que lhes foi ordenado. - Vamos nos dividir em grupos. Um grupo dorme, outro senta, e outro fica em pé. Spillbergen fica deitado até se recuperar. Aquele canto é a latrina. - Dividiu-os. Quando se reorganizaram, a situação tornou-se mais suportável. Temos que dar o fora daqui dentro de um dia ou estaremos fracos demais, pensou Blackthorne. Quando descerem a escada para nos trazer comida ou água. Terá que ser esta noite ou amanhã à noite.

Por que nos puseram aqui? Não representamos ameaça. Poderíamos ajudar o daimio. Será que ele vai compreender? Era o meu único meio de mostrar-lhe que o padre é o nosso verdadeiro inimigo. Será que vai compreender? O padre compreendeu.

- Talvez Deus possa perdoar-lhe pelo sacrilégio, mas eu não - dissera o Padre Sebastio, muito calmamente. - Não descansarei enquanto você e o seu mal não forem aniquilados.

O suor pingava-lhe pelas faces e o queixo. Enxugou-o distraidamente, ouvidos sintonizados na cela, como ficavam quando ele estava a bordo e dormindo, ou de guarda e devaneando: apenas para tentar ouvir o perigo antes que ele ocorresse.

Temos que dar o fora daqui e tomar o navio. Gostaria de saber o que Felicity está fazendo. E as crianças. Vejamos, Tudor tem sete anos agora e Lisbeth... Estamos a um ano, onze meses e seis dias de Amsterdã, mais trinta e sete dias abastecendo e vindo de Chatham para cá, mais os onze dias de idade que ela já tinha antes do embarque em Chatham. É essa a idade dela, exatamente - se tudo estiver bem. Deve estar. Felicity estará cozinhando, tomando precauções, limpando e tagarelando enquanto as crianças crescem, tão fortes e destemidas quanto a mãe. Será ótimo estar em casa de novo, caminharmos juntos pela praia e pelas florestas e clareiras e pela beleza que é a Inglaterra.

Através dos anos ele se treinara a pensar neles como personagens de uma peça. Pessoas que a gente amou e por quem sofreu, numa peça que não termina nunca. De outro modo a dor de estar longe seria excessiva. Quase que podia contar os dias que passara em casa nos onze anos de casamento. Poucos, pensou, muito poucos. - É uma vida dura para uma mulher, Felicity - ele lhe dissera antes. E ela dissera: - Qualquer vida é dura para uma mulher. - Tinha dezessete anos então, era alta, seu cabelo era comprido e sensu...

Seus ouvidos lhe disseram para se acautelar.

Os homens estavam sentados, encostados ou tentando dormir.

Vinck e Pieterzoon, bons amigos, conversavam tranqüilamente.

Van Nekk, como os outros, fitava o espaço. Spillbergen estava meio desperto, e Blackthorne pensou que o homem era mais forte do que deixara qualquer um crer.

Houve um súbito silêncio quando ouviram os passos acima da cabeça. Os passos pararam. Vozes abafadas, ásperas, numa língua de sons estranhos. Blackthorne pensou reconhecer a voz do samurai - Omi-san? Sim, era esse o nome dele -, mas não conseguiu ter certeza. Num instante as vozes cessaram e os passos se afastaram.

- Acha que vão nos alimentar, piloto? - disse Sonk.

- Sim.

- Eu saberia o que fazer com um drinque. Uma cerveja gelada, por Deus - disse Pieterzoon.

- Cale a boca - disse Vinck. - Você sozinho é suficiente para fazer um homem tranqüilo transpirar.

Blackthorne tinha consciência da sua camisa encharcada. E do mau cheiro. Pelo Senhor Deus, eu tomaria um banho, pensou, o repentinamente sorriu, lembrando-se.

Mura e os outros o haviam carregado para dentro da sala quente naquele dia e o deitaram num banco de pedra, com os membros ainda adormecidos e movendo-se lentamente.

As três mulheres, lideradas pela velha, começaram a despi-lo o ele tentara detê-las, mas cada vez que se movia um dos homens lhe apertava um nervo e o deixava impotente; apesar do muito que xingou e praguejou, continuaram a despi-lo até deixá-lo nu.

Não que se sentisse envergonhado de ficar nu na frente de uma mulher, acontecia simplesmente que o ato de despir-se era sempre realizado privadamente e esse era o costume. Além disso, não gostava de ser despido por ninguém, especialmente por aqueles nativos incivilizados. Mas ser despido publicamente como um bebê indefeso e lavado como um bebê com água quente, contendo sabão o perfume, enquanto todos tagarelavam e sorriam vendo-o de costas, era demais. Depois tivera uma ereção e, quanto mais tentava impedir que acontecesse, pior se tornava - pelo menos foi o que pensou, mas as mulheres não. Os olhos delas cresceram e ele começou a corar. Jesus, Senhor Deus, Um e único, não posso estar corando, mas estava e isso pareceu aumentar-lhe o tamanho. A velha bateu palmas de admiração e disse alguma coisa a que todos assentiram com mais veemência.

Mura dissera com enorme gravidade:

- Capitão-san, Mãe-san lhe agradece, o melhor dia da vida dela, agora morre feliz! - e inclinaram-se, ele e os outros, ao mesmo tempo. Foi nessa altura que Blackthorne percebeu o cômico da situação e começou a rir. Os outros ficaram surpresos, depois se puseram a rir também, a risada levou-lhe a potência embora, a velha ficou um pouco triste, e disse isso, o que o fez rir ainda mais, assim como a todos. Em seguida deitaram-no gentilmente no imenso calor da água profunda, que ele não conseguiu suportar muito tempo; estenderam-no ofegante sobre o banco mais uma vez. As mulheres o enxugaram e depois apareceu um velho cego. Blackthorne jamais conhecera massagem. Inicialmente tentara resistir aos dedos esquadrinhadores, mas depois deixou-se seduzir pela mágica deles o se viu quase como uni gato enquanto os dedos descobriam as nodosidades e davam passagem ao sangue ou ao elixir que espreitava por sob pele, músculos e tendões.

Depois ajudaram-no a ir para a cama, estranhamente fraco, meio em sonho, e a garota estava lá. Foi paciente com ele, e depois de dormir, quando ele teve força, tomou-a com cuidado.

Não lhe perguntou o nome e de manhã, quando Mura, tenso o muito assustado, o arrancara ao sono, ela já se tinha ido.

Blackthorne suspirou. A vida é maravilhosa, pensou.

Na cela, Spillbergen gemia novamente, Maetsukker embalava-lhe a cabeça e lamentava-se não de dor, mas de medo, e o rapaz Croocq estava a ponto de estourar. Jan Roper disse:

- Há algum motivo para sorrir, piloto?

- Vá para o inferno.

- Com todo o respeito, piloto - disse Van Nekk cuidadosamente, trazendo à tona o que estava em primeiro lugar na cabeça de todos -, você foi muito imprudente atacando o padre na frente do miserável bastardo amarelo.

Houve um assentimento geral, embora expresso com precaução.

- Se não tivesse feito isso, acho que não estaríamos nesta pocilga imunda. - Van Nekk não se aproximou de Blackthorne.

- Tudo o que você tem a fazer é pôr a cabeça no pó quando o lorde bastardo estiver por perto e eles ficarão tão mansos quanto cordeiros.

Esperou uma resposta, mas Blackthorne não deu nenhuma, simplesmente voltou-se para o alçapão. Foi como se ninguém tivesse dito nada. A apreensão deles aumentou.

Paulus Spilibergen ergueu-se sobre um cotovelo com dificuldade.

- Do que é que você está falando, Baccus?

Van Nekk, com os olhos doendo mais do que nunca, foi até ele e explicou sobre o padre e a cruz, o que acontecera e por que estavam ali.

- Sim, isso foi perigoso, piloto-mor - disse Spillbergen. - Sim, eu diria que foi absolutamente errado. Passem-me um pouco de água. Agora os jesuítas não vão nos deixar em paz em hipótese alguma.

- Você devia ter quebrado o pescoço dele, piloto. Porque de qualquer modo os jesuítas não vão nos deixar em paz - disse Jan Roper. - São piolhos imundos, e estamos aqui neste buraco fedorento por castigo de Deus.

- Isso é absurdo, Roper - disse Spillbergen. - Estamos aqui porq...

- É um castigo de Deus! Devíamos ter queimado todas as igrejas em Santa Magdellana e não apenas duas. Devíamos ter queimado. Fossas de Satã!

Spillbergen, fracamente, afastou uma mosca com um tapa.

- As tropas espanholas estavam se reagrupando e nos excediam em quinze para um. Dêem-me um pouco de água! Saquêamos a cidade, conseguimos o butim e esfregamos o nariz deles no pó.

Se tivéssemos ficado lá, teríamos sido mortos. Pelo amor de Deus, alguém me dê um pouco de água. Teríamos sido todos mortos se não tivéssemos rec...

- Que importa isso quando se está fazendo a obra de Deus? Faltamos a ele.

- Talvez estejamos aqui para fazer a obra de Deus - disse Van Nekk, apaziguador, pois Roper era um bom homem, embora fervoroso, um mercador esperto e sócio de seu filho. - Talvez possamos mostrar aos nativos daqui o erro das suas práticas. Talvez possamos convertê-los à verdadeira fé.

- Absolutamente - — disse Spillbergen. Ainda se sentia fraco, mas sua força estava voltando. - Acho que você devia ter consultado Baccus, piloto-mor. Afinal ele é o mercador-chefe. É muito bom para negociar com selvagens. Passem a água, eu disse!

- Não há água, Paulus. - O abatimento de Van Nekk aumentou. - Não nos deram nem comida nem água. Não nos deram nem um pote para mijar.

- Bem, peça um! E água! Deus do paraíso, estou com sede.

- Peça água! Você!

- Eu? - perguntou Vinck.

- Sim. Você!

Vinck olhou para Blackthorne, mas Blackthorne simplesmente observava o alçapão, distraído, de modo que Vinck parou embaixo da abertura e gritou:

- Ei! Você aí em cima! Dê-nos água! Queremos comida e água!

Não houve resposta. Ele gritou de novo. Nenhuma resposta.

Os outros gradualmente se puseram a gritar também. Todos, exceto Blackthorne. Logo o pânico e a náusea do confinamento exíguo se insinuou na voz deles e começaram a uivar como lobos.

O alçapão se abriu. Omi olhou-os lá embaixo. A seu lado estava Mura. E o padre.

- Água! E comida, por Deus! Tirem-nos daqui! - E logo se puseram todos a berrar novamente.

Omi fez um gesto para Mura, que assentiu e se afastou. Um momento depois, voltou com outro pescador, carregando um grande barril entre eles. Esvaziaram-lhe o conteúdo - peixe podre e água do mar - sobre a cabeça dos prisioneiros.

Os homens se espalharam na cela, tentaram escapar, mas nenhum conseguiu. Spillbergen ficou soterrado, quase sufocado. Alguns homens escorregaram e foram pisados. Blackthorne não se moveu do canto onde estava. Simplesmente encarou Omi, odiando-o.

Então Omi começou a falar. Houve um silêncio amedrontado, rompido por algumas tossidelas e pelas ânsias de vômito de Spillbergen. Quando Omi terminou, o padre surgiu na abertura, nervoso.

- As ordens de Kasigi-Omi são estas: vocês começarão a se comportar como seres humanos decentes. Vocês não farão mais barulho. Se fizerem, da próxima vez serão esvaziados na cela cinco barris. Depois dez, depois vinte. Receberão comida e água duas vezes por dia. Quando tiverem aprendido a se comportar, terão permissão para subir ao mundo dos homens. O Senhor Yabu graciosamente poupou-lhes a vida, estipulando que vocês o sirvam com lealdade. Todos menos um. Um deve morrer. Ao crepúsculo. Vocês devem escolher quem morrerá. Mas você - apontou para Blackthorne - não deve ser escolhido. - Ansioso, o padre tomou fôlego profundamente, fez uma meia mesura ao samurai, e recuou.

Omi perscrutou o buraco lá embaixo. Podia ver os olhos de Blackthorne e sentiu-lhe o ódio. Vai levar muito tempo para domar o espírito desse homem, pensou. Não importa. Há bastante tempo.

O alçapão foi fechado com força.

 

Yabu deitou-se no banho quente, mais contente e confiante do que jamais estivera na vida. O navio pusera à mostra sua riqueza e essa riqueza dava-lhe um poder que ele nunca sonhara possível.

- Quero que tudo seja levado para terra amanhã - dissera.

- Recoloquem os mosquetes nos engradados. Camuflem tudo com redes ou sacos de aniagem.

Quinhentos mosquetes, pensou exultante. Com mais pólvora e balas do que Toranaga tem em todas as Oito Províncias. E vinte canhões. Cinco mil balas de canhão, uma abundância de munição. Tudo da melhor qualidade européia.

- Mura, você providenciará carregadores. Igurashi-san, quero todo este armamento, inclusive os canhões, no meu castelo de Mishima o mais breve possível e em segredo. Você será responsável.

- Sim, senhor. - Estavam no porão principal do navio, e todos o fitavam boquiabertos: Igurashi, um homem alto, flexível, de um olho só, seu principal assistente, Zukimoto, seu mestre quarteleiro, junto com dez aldeães cobertos de suor que haviam aberto os engradados sob a supervisão de Mura, e sua guarda pessoal de quatro samurais. Sabia que eles não compreendiam a sua alegria ou a necessidade de agirem às ocultas. Bom, pensou.

Quando os portugueses chegaram pela primeira vez ao Japão, em 1542, introduziram os mosquetes e a pólvora. Dezoito meses depois os japoneses os estavam fabricando. A qualidade não era tão boa quanto a do equivalente europeu, mas isso não tinha importância, porque as armas foram consideradas meramente como uma novidade e, por um longo tempo, usadas apenas para a caça - e mesmo para isso os arcos eram muito mais precisos. Além disso, o mais importante, a arte bélica japonesa era quase ritual: combate individual corpo a corpo, sendo a espada a arma mais honrosa. O uso de armas de fogo foi considerado covarde e desonroso, e completamente contra o código dos samurais, o bushido, o Caminho do Guerreiro, que compelia os samurais a lutar com honra, viver com honra, e morrer com honra; a ter uma eterna e inquestionável lealdade ao seu senhor feudal; a não temer a morte - procurá-la, mesmo, em seu serviço; e a ter orgulho do próprio nome e mantê-lo imaculado.

Durante anos Yabu tivera uma teoria secreta. Finalmente, pensou exultante, você pode desenvolvê-la e pô-la em prática.

Quinhentos samurais escolhidos, armados com mosquetes, mas treinados como uma unidade, atuando como ponta de lança para os seus doze mil soldados convencionais, apoiados por vinte canhões usados de um modo especial por homens especiais, igualmente treinados como uma unidade. Uma nova estratégia para uma nova era! Na guerra que se aproxima, as armas de fogo talvez sejam decisivas!

E o bushido? perguntavam-lhe sempre os espíritos de seus ancestrais.

E o bushido? perguntava-lhes ele sempre de volta.

Nunca lhe responderam.

Nunca, nem em seus sonhos mais extravagantes, pensara que jamais teria recursos para conseguir quinhentas armas. Mas agora as tinha de graça e só ele sabia como usá-las. Mas a favor de que lado? O de Toranaga ou de Ishido? Ou deveria esperar, e talvez ser o eventual vencedor?

- Igurashi-san, você viajará à noite e manterá segurança estrita.

- Sim, senhor.

- Isto deve permanecer em segredo, Mura, ou a aldeia será eliminada.

- Não se dirá nada, senhor. Posso falar pela minha aldeia. Não posso falar pela viagem ou por outras aldeias. Quem pode saber onde há espiões? Mas por nós nada será dito.

Depois Yabu fora até a sala-forte. Continha o que presumiu que fosse pilhagem pirata: placas de ouro e prata, cálices, candelabros e ornamentos, algumas pinturas religiosas em molduras ornamentadas. Um baú continha roupas de mulher, elaboradamente bordadas a fio de ouro e pedras coloridas.

- Fundirei a prata e o ouro em lingotes e os porei no tesouro - dissera Zukimoto. Era um homem hábil, pedante, na casa dos quarenta anos, que não era samurai. Anos antes fora um sacerdote-guerreiro budista, mas o taicum, o Senhor Protetor, havia aniquilado o seu mosteiro numa campanha para expurgar a terra de certos mosteiros e seitas budistas de guerreiros militantes, que não aprovavam sua soberania absoluta. Por meio de suborno Zukimoto conseguira escapar daquela morte prematura e se tornara mascate, em seguida um pequeno mercador de arroz. Há dez anos juntara-se ao comissariado de Yabu e agora era indispensável.

- Quanto às roupas, talvez o fio de ouro e as gemas tenham valor. Com a sua permissão, vou mandar empacotá-las e enviá-las a Nagasaki, com alguma coisa mais que eu possa aproveitar. - O porto de Nagasaki, na costa extremo-meridional da ilha de Kyushu, ao sul, era o entreposto e mercado legal dos portugueses. - Os bárbaros talvez paguem bem por essas bugigangas.

- Bom. E quanto aos fardos no outro porão?

- Todos contém um tecido pesado. Praticamente inútil para nós, senhor, sem nenhum valor comercial em absoluto. Mas isto deve agradar-lhe. - Zukimoto abrira a caixa-forte. A caixa continha vinte mil moedas de prata cunhadas. Dobrões espanhóis. Da melhor qualidade.

Yabu mexeu-se na água. Enxugou o suor do rosto e do pescoço com a toalhinha branca e mergulhou mais fundo no banho quente perfumado. Se há três dias, disse ele a si mesmo, um adivinho tivesse antecipado que tudo isto aconteceria, você lhe teria comido a língua por dizer mentiras impossíveis.

Três dias atrás ele estava em Yedo, a capital de Toranaga. A mensagem de Omi chegara ao pôr-do-sol. Evidentemente o navio tinha que ser investigado de imediato. Mas Toranaga ainda se encontrava em Osaka para a confrontação final com o Senhor General Ishido e, na sua ausência, convidara Yabu e todos os daimios amigos da vizinhança a esperar até que retornasse. Um convite assim não podia ser recusado sem sinistros resultados.

Yabu sabia que ele e os outros daimios independentes e respectivas famílias eram meramente proteção adicional à segurança de Toranaga e, embora naturalmente a palavra jamais devesse ser usada, eram reféns contra o regresso de Toranaga da inexpugnável fortaleza do inimigo em Osaka, onde o encontro estava se realizando. Toranaga era presidente do conselho de regentes que o taicum designara no seu leito de morte para governar o império durante a minoridade de seu filho Yaemon, agora com sete anos de idade. Havia cinco regentes, todos eminentes daimios, mas apenas Toranaga e Ishido tinham poder efetivo.

Yabu considerara cuidadosamente todas as razões para ir a Anjiro, os riscos envolvidos, e as razões para ficar. Depois mandara chamar a esposa e a consorte favorita. Uma consorte era uma amante formal, legal. Um homem podia ter tantas quantas quisesse, mas apenas uma esposa de cada vez.

- Meu sobrinho Omi acaba de me enviar uma mensagem secreta falando que um navio bárbaro aportou em Anjiro.

- Um dos Navios Negros? - perguntara a esposa, excitada.

Referia-se aos imensos e incrivelmente ricos navios mercantes que, levados pelas monções, cobriam anualmente o percurso entre Nagasaki e a colônia portuguesa de Macau, que ficava a quase mil milhas ao sul, na China continental.

- Não. Mas talvez seja rico também. Vou partir imediatamente. Você deve dizer que fiquei doente e não posso ser perturbado por motivo algum. Estarei de volta dentro de cinco dias.

- Isso é incrivelmente perigoso - advertiu-o a esposa. - O Senhor Toranaga deu ordens específicas para que ficássemos. Estou certa de que ele fará outro acordo com Ishido e é poderoso demais para ser insultado. Senhor, nunca poderíamos ter certeza de que ninguém suspeitaria da verdade, há espiões por toda parte. Se Toranaga regressasse e descobrisse que o senhor partiu, sua ausência seria mal interpretada. Seus inimigos lhe envenenariam a mente contra o senhor.

- Sim - acrescentara a consorte. - Por favor, desculpe-me, mas o Senhor Toranaga nunca acreditaria que o senhor lhe desobedeceu apenas para examinar um navio bárbaro. Por favor, mande outra pessoa.

- Mas não se trata de um navio bárbaro comum. Não é português. Ouçam-me. Omi diz que é de um país diferente. Os homens falam entre si uma língua de som diferente, e têm olhos azuis e cabelos dourados.

- Omi-san ficou louco. Ou tomou saquê demais - dissera a esposa.

- Isto é importante demais para brincadeiras, tanto dele quanto suas.

A esposa se curvara, pedira desculpas e dissera que ele estava absolutamente certo em corrigi-la, mas que a observação não visava à troça. Ela era uma mulher pequena, magra, dez anos mais velha do que ele, que lhe dera um filho por ano durante oito anos até que seu útero murchasse, e dos filhos, cinco foram homens. Três haviam-se tornado guerreiros e morrido bravamente na guerra contra a China. Outro se tornara sacerdote budista e o último, agora com dezenove anos, era desprezado pelo pai.

A esposa, Senhora Yuriko, era a única mulher que ele jamais temera, a única a que jamais dera valor - com exceção da mãe, já falecida -, e que governava a casa com açoite de seda.

- Desculpe-me novamente, por favor - disse ela. – Omi-san entrou em pormenores sobre a carga?

- Não. Não a examinou, Yuriko-san. Diz que, como o navio era tão incomum, lacrou-o imediatamente. Nunca houve um navio não português, neh? Diz também que é um navio de guerra. Com vinte canhões nos conveses.

- Ah! Então alguém deve ir imediatamente.

- Vou eu mesmo.

- Por favor, reconsidere. Mande Mizuno. Seu irmão é inteligente e prudente. Imploro-lhe que não vá.

- Mizuno é fraco e não merece confiança.

- Então ordene-lhe que cometa seppuku e dê um jeito nele - disse ela asperamente. Seppuku, às vezes chamado de haraquiri, o suicídio ritual por estripamento, era o único modo de um samurai expiar com honra uma vergonha, um pecado, ou uma falta, e era prerrogativa exclusiva da casta dos samurais. Todos eles - tanto homens quanto mulheres - eram preparados desde a infância, tanto para o ato mesmo quanto para participar da cerimônia como auxiliar. As mulheres cometiam seppuku somente com uma faca na garganta.

- Mais tarde, não agora - disse Yabu à esposa.

- Então mande Zukimoto. Ele, com certeza, merece confiança.

- Se Toranaga não tivesse ordenado que todas as esposas e consortes também permanecessem aqui, eu mandaria você. Mas isso também seria muito arriscado. Tenho que ir. Não tenho opção. Yuriko-san, você me diz que meu tesouro está vazio. Diz que não tenho mais crédito com os imundos usurários. Zukimoto diz que estamos cobrando o imposto máximo dos meus camponeses. Preciso ter mais cavalos, equipamentos, armas, e mais samurais. Talvez o navio forneça os meios.

- As ordens do Senhor Toranaga foram absolutamente claras, senhor. Se ele voltar e descobrir...

- Sim. Se ele voltar, senhora. Ainda acho que ele se colocou numa armadilha. O Senhor Ishido tem oitenta mil samurais apenas no Castelo de Osaka e em torno dele. Toranaga ir até lá com umas poucas centenas de homens foi atitude de um louco.

- Ele é muito astuto para se arriscar desnecessariamente - disse ela confiante.

- Se eu fosse Ishido e o tivesse no meu laço, eu o mataria imediatamente.

- Sim - disse Yuriko -, mas a mãe do herdeiro ainda está como refém em Yedo até que Toranaga regresse. O Senhor General Ishido não vai ousar tocar em Toranaga até que ela esteja de volta, em segurança, a Osaka.

- Eu o mataria. Não faz diferença que a Senhora Ochiba viva ou morra. O herdeiro está a salvo em Osaka. Com Toranaga morto, a sucessão é certa. Toranaga é a única ameaça real ao herdeiro, o único com a possibilidade de usar o conselho de regentes, usurpar o poder do taicum e matar o menino.

- Por favor, desculpe-me, senhor, mas talvez o Senhor General Ishido consiga o apoio dos outros três regentes e desacredite Toranaga, e esse é o fim de Toranaga, neh? - disse a consorte.

- Sim, senhora, se Ishido pudesse ele o faria, mas não acho que possa. Ainda. Nem Toranaga. O taicum escolheu os cinco regentes de modo muito inteligente. Desprezaram-se tanto, uns aos outros, que é quase impossível se porem de acordo em qualquer coisa. - Antes de tomar o poder, os cinco grandes daimios haviam publicamente jurado fidelidade eterna ao taicum moribundo, ao seu filho e aos seus desígnios. Haviam prestado juramentos públicos, sagrados, de concordar quanto a um critério de unanimidade no conselho, e feito o voto de entregar o reino intacto a Yaemon quando este atingisse o décimo quinto aniversário. - Critério de unanimidade significa que nada pode ser realmente mudado até que Yaemon herde.

- Mas algum dia, senhor, quatro regentes se unirão contra um, por ciúme, medo ou ambição, neh? Os quatro vão distorcer as ordens do taicum o suficiente para conseguirem a guerra, neh?

- Sim. Mas será uma guerra curta, senhora, e esse um sempre será esmagado e suas terras divididas pelos vencedores, que terão, então, que designar um quinto regente e, com o tempo, serão quatro contra um e novamente um será esmagado e suas terras confiscadas, tudo conforme o que o taicum planejou. Meu único problema é decidir quem será o um desta vez, Ishido ou Toranaga.

- É Toranaga quem vai ficar isolado.

- Por quê?

- Os outros o temem demais porque todos sabem que ele, secretamente, quer ser shogun, por mais que proteste o contrário.

Shogun era o último posto que um mortal podia atingir no Japão. "Shogun" significava supremo ditador militar. Apenas um daimio de cada vez podia possuir o título. E apenas Sua Alteza Imperial, o imperador reinante, o Divino Filho do Céu, que vivia segregado com as famílias imperiais em Kyoto, podia outorgar o título.

Com a atribuição do título de shogun, vinha o poder absoluto - o selo e o mandato do imperador. O shogun governava em nome do imperador. Todo poder derivava do imperador, porque ele descendia diretamente dos deuses. Portanto, todo daimio que se opusesse ao shogun estava automaticamente em revolta contra o trono, era imediatamente banido e todas as suas terras confiscadas.

O imperador reinante era adorado como divindade porque era descendente em linha direta da deusa do Sol, Amaterasu Omikami, um dos filhos dos deuses Izanagi e Izanami, que, do firmamento, haviam formado as ilhas do Japão. Por direito divino, o imperador reinante possuía toda a terra, reinava e era obedecido sem contestação. Mas na prática há mais de seis séculos o poder efetivo provinha de trás do trono.

Seis séculos atrás houvera um cisma quando duas das três grandes famílias samurais rivais, semi-reais - Minowara, Fujimoto e Takashima -, apoiaram pretendentes rivais ao trono e mergulharam o reino numa guerra civil. Depois de sessenta anos os Minowara prevaleceram sobre os Takashima, e os Fujimoto, a família que permanecera neutra, esperaram sua vez.

A partir daí, ciosamente preservando o próprio poder, os shoguns Minowara dominaram o reino, decretaram a hereditariedade do seu shogunato e começaram a casar algumas filhas com a linhagem imperial. O imperador e toda a corte imperial eram mantidos completamente isolados em palácios e jardins murados no pequeno enclave de Kyoto, muitas vezes na penúria, com as atividades perpetuamente limitadas a observar os rituais de xinto, a antiga religião animista do Japão, e a ocupações intelectuais, tais como caligrafia, pintura, filosofia e poesia.

A corte do Filho do Céu era fácil de dominar porque, embora possuísse toda a terra, não tinha rendimento. Somente os daimios, samurais, possuíam rendimentos e o direito a cobrar impostos.

Era por isso então que, embora todos os membros da corte imperial estivessem acima de todos os samurais em posição, viviam de um estipêndio atribuído à corte conforme o capricho do shogun, do kwampaku — o conselheiro-chefe civil — ou da junta militar governante no momento. Poucos eram generosos. Alguns imperadores tiveram até que negociar as próprias assinaturas por comida.

Muitas vezes não havia dinheiro suficiente para uma coroação. Os shoguns Minowara acabaram perdendo o poder para outros, os descendentes dos Takashima ou dos Fujimoto. E como as guerras civis continuassem ferrenhas através dos séculos, o imperador tornou-se cada vez mais um instrumento do daimio que fosse forte o bastante para tomar posse física de Kyoto. No momento em que o novo conquistador de Kyoto massacrava o shogun reinante e sua linhagem, devia - desde que fosse Minowara, Takashima ou Fujimoto -, com humildade, jurar fidelidade ao trono e, submisso, convidar o impotente imperador a lhe conceder o agora vago posto de shogun. Depois, como seus antecessores, tentaria estender o próprio poder para fora de Kyoto até ser, por sua vez engolido por outro. Imperadores casavam-se, abdicavam ou ascendiam ao trono conforme o capricho do shogun. Mas sempre a estirpe do imperador reinante permanecia inviolada e contínua.

De modo que o shogun era todo-poderoso. Até ser derrubado. Muitos foram depostos através dos séculos, enquanto o império se fragmentava em várias facções menores. Nos últimos cem anos, nenhum daimio isolado tivera poder suficiente para se tornar shogun. Doze anos antes o General Nakamura, camponês, tivera o poder e obtivera o mandato do atual imperador, Go Nijo.

Mas Nakamura não pôde ocupar o cargo de shogun, apesar do muito que o desejara, porque nascera camponês. Tivera que se contentar com o título civil, muito inferior, de kwampaku, conselheiro-chefe, e mais tarde, quando renunciara a esse título em favor do filho menor de idade, Yaemon - embora conservando o poder, como era de hábito -, tivera que se contentar com o de taicum. Por costume histórico, somente os descendentes das prolíferas, antigas e semidivinas famílias Minowara, Takashima e Fujimoto tinham direito ao posto de shogun.

Toranaga descendia dos Minowara. Yabu podia traçar a própria linhagem até um vago ramo secundário da família Takashima, o suficiente para uma conexão, se ele algum dia pudesse se tornar supremo.

- Iê, senhora - disse Yabu -, claro que Toranaga quer ser shogun, mas nunca conseguirá. Os outros regentes o desprezam e temem. Neutralizam-no, conforme planejou o taicum. - Inclinou-se para frente e estudou a esposa atentamente. - Você diz que Toranaga vai perder para Ishido?

- Ficará isolado, sim. Mas no final não acho que perderá, senhor. Imploro-lhe que não desobedeça ao Senhor Toranaga, e não saia de Yedo apenas para examinar o navio bárbaro, não importa quão incomum Omi diga que ele é. Por favor, mande Zukimoto a Anjiro.

- E se o navio contiver um tesouro? Prata ou ouro? Você confiaria em Zukimoto ou em qualquer um dos nossos oficiais?

- Não - dissera a esposa.

Então, naquela noite, ele se insinuara para fora de Yedo secretamente, com apenas quinze homens, e agora tinha riqueza e poder para além de todos os seus sonhos, e cativos inigualáveis, um dos quais ia morrer naquela noite. Providenciara para que uma cortesã e um menino estivessem prontos para mais tarde.

Ao amanhecer, no dia seguinte, retornaria a Yedo. Ao pôr-do-sol, no dia seguinte, as armas e o tesouro iniciariam sua viagem secreta.

As armas! pensou ele, exultante. As armas e o plano, juntos, me darão poder para fazer Ishido vencer, ou Toranaga, seja quem for que eu escolha. Então me tornarei um regente, no lugar do perdedor, neh? Depois o regente mais poderoso. Por que não até shogun? Sim. Tudo é possível agora.

Deixou-se devanear agradavelmente. Como usar as vinte mil moedas de prata? Posso reconstruir o calabouço do castelo. E comprar cavalos especiais -para os canhões. E expandir a nossa rede de espionagem. E quanto a Ikawa Jikkyu? Será que mil moedas seriam suficientes para subornar os cozinheiros de Ikawa Jikkyu para envenená-lo? Mais que suficientes! Quinhentas, talvez até cem moedas, nas mãos certas, fosse muito. Nas mãos de quem?

O sol vespertino infiltrava-se obliquamente pela pequena janela aberta na parede de pedra. A água do banho estava muito quente, aquecida por uma lareira a lenha construída na parede interna. A casa era de Omi e se erguia numa pequena colina que dominava a aldeia e a enseada. O jardim dentro de seus muros era esmerado, sereno e suficiente.

A porta da sala de banho se abriu. O homem cego inclinou-se.

- Kasigi Omi-san me mandou, senhor. Sou Suwo, o massagista dele. - Era alto, muito magro e velho, com o rosto enrugado.

- Bom. - Yabu sempre tivera horror a ficar cego. Pelo que podia se lembrar, sempre tivera sonhos em que acordava na escuridão, sabendo que era dia, abrindo a boca para gritar, sabendo que era desonroso gritar, mas gritando assim mesmo. Depois o despertar verdadeiro e o suor escorrendo. Mas esse horror à cegueira pareceu aumentar-lhe o prazer de ser massageado pelo cego.

Viu a cicatriz de corte na têmpora direita do homem e a fenda profunda no crânio, logo abaixo dela. É um corte de espada, disse a si mesmo. Será que foi isso que causou a cegueira? Será que ele já foi samurai um dia? De quem? Será que é um espião?

Yabu sabia que o homem fora revistado muito cuidadosamente pelos seus guardas antes de ser autorizado a entrar, portanto não temia uma arma oculta. Sua estimada espada comprida estava ao seu alcance, uma lâmina antiga feita pelo mestre espadeiro Murasama. Observou o velho tirar o quimono de algodão e pendurá-lo sem procurar o suporte. Tinha mais cicatrizes de espada no peito. Sua tanga estava muito limpa. Ajoelhou-se, esperando pacientemente.

Yabu saiu do banho quando o outro ficou pronto e deitou-se no banco de pedra. O velho enxugou Yabu cuidadosamente, passou óleo perfumado nas mãos e começou a massagear os músculos do pescoço e das costas do daimio.

A tensão começou a desaparecer à medida que os dedos muito fortes se moviam sobre Yabu, esquadrinhando em profundidade com surpreendente habilidade.

- Isso é bom. Muito bom - disse um momento depois.

- Obrigado, Yabu-sama - disse Suwo. "Suma", que significava "senhor", era uma cortesia obrigatória quando alguém se dirigia a um superior.

- Você serve Omi-san há muito tempo?

- Há três anos, senhor. Ele é muito gentil com um homem velho.

- E antes disso?

- Vaguei de aldeia em aldeia. Alguns dias aqui, meio ano ali, como uma borboleta na brisa de verão. - A voz de Suwo era tão calmante quanto suas mãos. Decidira que o daimio queria conversar e esperou pacientemente pela próxima pergunta. Parte da sua arte era saber o que lhe era exigido e quando. Às vezes seus ouvidos lhe diziam isso, mas na maior parte delas eram os dedos que pareciam destrancar o segredo da mente do homem ou da mulher. Seus dedos estavam lhe dizendo que se acautelasse contra aquele homem, que ele era perigoso e inconstante, por volta dos quarenta anos, bom cavaleiro e excelente espadachim. Além disso que seu fígado estava mal e ele morreria dentro de dois anos. O saquê, e provavelmente os afrodisíacos, o matariam. - O senhor é forte para a sua idade, Yabu-sama.

- Você também. Quantos anos tem, Suwo?

O velho riu, mas seus dedos não paravam nunca.

- Sou o homem mais velho do mundo, do meu mundo. Todas as pessoas que conheci estão mortas há muito tempo. Devo ter mais de oitenta anos, não estou certo. Servi o Senhor Yoshi Chikitada, avô do Senhor Toranaga, quando o feudo do clã não era maior do que esta aldeia. Até me encontrava no acampamento no dia em que foi assassinado.

Yabu deliberadamente manteve o corpo relaxado com um esforço de vontade, mas sua mente se aguçou e ele começou a ouvir atentamente.

- Aquele foi um dia horrível, Yabu-sama. Não sei qual era a minha idade, mas minha voz ainda era firme. O assassino foi Obata Hiro, um filho do aliado mais poderoso dele. Talvez o senhor conheça a história, como o jovem decepou a cabeça do Senhor Chikitada com um único golpe de espada. Era uma lâmina Murasama, e foi isso o que deu início à superstição de que todas as lâminas Murasama trazem azar para o clã Yoshi.

Será que ele está me contando isso por causa da minha espada Murasama? - perguntou Yabu a si mesmo. Muita gente sabe que eu tenho uma. Ou é apenas um velho, lembrando-se de um dia especial na sua longa vida?

- Como era o avô de Toranaga? - perguntou, simulando falta de interesse, testando Suwo.

- Alto, Yabu-sama. Mais alto do que o senhor e muito mais magro quando o conheci. Tinha vinte e cinco anos no dia em que morreu. - A voz de Suwo animou-se. - Yabu-sama, ele aos doze anos já era um guerreiro, e nosso suserano aos quinze, quando seu pai foi morto numa escaramuça. Naquela época o Senhor Chikitada era casado e já havia gerado um filho. Foi uma pena que ele tivesse que morrer. Obata Hiro era amigo dele, assim como vassalo, tinha dezessete anos, mas alguém lhe envenenou a mente, dizendo que Chikitada planejara matar-lhe o pai traiçoeiramente. Claro que eram tudo mentiras, mas isso não trouxe Chikitada de volta para nos guiar. O jovem Obata ajoelhou-se diante do corpo e inclinou-se três vezes. Disse que fizera aquilo por respeito filial ao pai e agora desejava reparar o insulto a nós e ao nosso clã cometendo seppuku. Deram-lhe permissão. Primeiro lavou a cabeça de Chikitada com as próprias mãos e colocou-a em posição de reverência. Depois se rasgou de lado a lado e morreu bravamente com grande cerimônia, um dos nossos homens agindo como auxiliar e removendo-lhe a cabeça com um único golpe. Mais tarde o pai veio buscar a cabeça do filho e a espada Murasama. As coisas ficaram ruins para nós. O único filho do Senhor Chikitada foi levado como refém para algum lugar e sobre nossa parte do clã se abateram tempos de desgraça. Isso foi...

- Você está mentindo, velho. Você nunca esteve lá. - Yabu se voltara e estava encarando o homem, que ficara paralisado instantaneamente. - A espada foi quebrada e destruída depois da morte de Obata.

- Não, Yabu-sama. Essa é a lenda. Eu vi o pai chegar e pegar a cabeça e a espada. Quem quereria destruir uma obra de arte como aquela? Teria sido sacrilégio. O pai dele a recuperou.

- O que fez com ela?

- Ninguém sabe. Alguns dizem que a atirou no mar porque gostava do nosso Senhor Chikitada e o honrava como a um irmão. Outros dizem que a enterrou e que está à espera do neto, Yoshi Toranaga.

- O que você acha que ele fez com ela?

- Atirou-a no mar.

- Você viu?

- Não.

Yabu deitou-se novamente e os dedos recomeçaram o trabalho. O pensamento de que mais alguém sabia que a espada não fora quebrada excitou-o estranhamente. Você devia matar Suwo, disse a si mesmo. Por quê? Como poderia um cego reconhecer a lâmina? É parecida com qualquer outra lâmina Murasama, e o punho e a bainha foram trocados muitas vezes, ao longo dos anos. Ninguém pode saber que a sua espada é a espada, que passou de mão em mão com sigilo crescente à medida que o poder de Toranaga foi aumentando. Por que matar Suwo? O fato de ele estar vivo acrescenta um atrativo a mais, estimula você. Deixe-o vivo, você pode matá-lo a qualquer momento. Com a espada.

Esse pensamento agradou a Yabu enquanto se deixava devanear mais uma vez, muito confortavelmente. Um dia, breve, prometeu a si mesmo, serei poderoso o bastante para usar minha lâmina Murasama na presença de Toranaga. Um dia, talvez, contarei a ele a história da minha espada.

- O que aconteceu depois? - perguntou, querendo ser embalado pela voz do velho.

- Simplesmente caímos num período de desgraça. Aquele foi o ano da grande carestia, e com a morte do meu amo, fiquei ronin. - Os ronins eram samurais ou camponeses-soldados, sem terra ou sem amo, que, devido a desonra ou perda do amo, eram forçados a perambular pela terra até que algum outro senhor aceitasse seus serviços. Era difícil para um ronin encontrar novo trabalho. A comida era escassa, quase todos os homens eram soldados, e os estrangeiros raramente mereciam confiança. A maioria dos bandos de salteadores e corsários que infestavam a terra e a costa eram ronins. - Aquele ano foi muito ruim, assim como o ano seguinte. Combati para todo mundo, uma batalha aqui, uma escaramuça ali. Comida era a minha paga. Então ouvi dizer que havia comida em abundância em Kyushu e comecei a me dirigir para oeste. Naquele inverno encontrei um santuário. Dei um jeito para ser contratado por um mosteiro budista como guarda. Combati por eles durante meio ano, protegendo o mosteiro e seus campos de arroz contra os bandidos. O mosteiro ficava perto de Osaka e, naquela época, muito tempo antes de o taicum destruir a maior parte deles, os bandidos eram tão numerosos quanto mosquitos de brejo. Um dia caímos numa emboscada e fui abandonado como morto. Uns monges me acharam e curaram meu ferimento. Mas não puderam me devolver a vista. - Seus dedos se aprofundavam cada vez mais. - Colocaram-me junto de um monge cego, que me ensinou a fazer massagem e a ver de novo com os dedos. Agora meus dedos me dizem mais do que meus olhos diziam, acho.

"A última coisa que me lembro de ter visto com os olhos foi a boca escancarada do bandido e seus dedos macerados, a espada como um arco resplandecente e depois, depois do golpe, o aroma de flores. Vi o perfume em todas as suas cores, Yabu-sama. Isso tudo foi há muito tempo, muito antes de os bárbaros chegarem à nossa terra, cinqüenta, sessenta anos atrás, mas eu vi as cores do perfume. Vi o nirvana, acho, e num momento fugacíssimo, o rosto de Buda. A cegueira é um preço baixo para uma dádiva assim, neh?"

Não houve resposta. Suwo não esperava que houvesse. Yabu estava dormindo, conforme o planejado. Gostou da minha história, Yabu-sama? - perguntou Suwo silenciosamente, divertido como um velho devia estar. Foi tudo verdade, menos uma coisa. O mosteiro não ficava perto de Osaka, mas do outro lado da sua fronteira ocidental. O nome do monge? Su, tio do seu inimigo, Ikawa Jikkyu.

Eu poderia quebrar-lhe o pescoço com tanta facilidade, pensou. Seria um favor para Omi-san. Seria uma bênção para a aldeia. E retribuiria, em minúscula medida, a dádiva do meu benfeitor. Devo fazê-lo agora? Ou mais tarde?

 

Spillbergen estendeu as hastes de palha de milho, enfeixadas, o rosto retesado.

- Quem quer pegar primeiro?

Ninguém respondeu. Blackthorne parecia estar cochilando, encostado ao canto de onde não se movera. Era quase crepúsculo.

- Alguém tem que pegar primeiro - irritou-se Spillbergen.

- Vamos, não há muito tempo.

Haviam lhes dado comida e um barril de água, e outro barril como latrina. Mas nada com que lavar o lixo fedorento ou com que se limparem. E as moscas apareceram. O ar estava fétido, a terra lamacenta. A maioria dos homens se despira até a cintura, suando de calor. E de medo.

Spillbergen olhou de rosto em rosto. Voltou a Blackthorne.

- Por que você foi eliminado? Hein? Por quê?

Os olhos se abriram, estavam gelados.

- Pela última vez: eu ... não ... sei ...

- Não é justo. Não é justo.

Blackthorne voltou ao devaneio. Deve haver um meio de dar o fora daqui. Deve haver um meio de recuperar o navio. Aquele bastardo vai nos matar a todos no final, isso é tão certo como haver uma estrela do norte. Não há muito tempo, e fui eliminado porque eles têm algum fétido plano especial para mim.

Quando o alçapão se fechara, haviam todos olhado para ele, o alguém dissera:

- O que vamos fazer?

- Não sei - respondera ele.

- Por que você não deve ser escolhido?

- Não sei.

- Que o Senhor Jesus nos ajude - choramingara alguém.

- Tratem de dar um jeito nessa sujeira - ordenara ele.

- Empilhem a imundície ali!

- Não temos esfregões ou...

- Usem as mãos!

Fizeram como lhes ordenou, com ele os ajudando, e limparam o capitão-mor da melhor maneira que puderam.

- Você se sentirá bem agora.

- Como... como vamos escolher alguém? - perguntou Spillbergen.

- Não vamos. Vamos lutar com eles.

- Com quê?

- Iremos como ovelhas para o açougueiro? Você irá?

- Não seja ridículo, eles não me querem, não seria certo que eu fosse o escolhido.

- Por quê? - perguntou Vinck.

- Sou o capitão-mor.

- Com todo o respeito, senhor - disse Vinck ironicamente -, talvez devesse se oferecer como voluntário. Faz parte da sua posição.

- Ótima sugestão - disse Pieterzoon. - Apóio a proposta, por Deus!

Houve um assentimento geral e todos pensaram: Senhor Jesus, qualquer um, menos eu.Spillbergen começara a gritar e a dar ordens, mas viu os olhos impiedosos. Então parou e olhou firme para o chão, nauseado. Depois disse:

- Não. Não... não seria justo que alguém se oferecesse como voluntário. Vamos... nós... vamos tirar à sorte. Palhas, a que for mais curta do que as outras. Poremos nossas mãos... nos poremos nas mãos de Deus. Piloto, você segura as palhas.

- Não. Não quero ter nada a ver com isso. Digo que devemos combater.

- Eles nos matarão a todos. Você ouviu o que o samurai disse: nossas vidas serão poupadas, menos uma. - Spillbergen enxugou o suor do rosto e uma nuvem de moscas se levantou, para pousar de novo.

- Dêem-me água. É melhor que morra um do que todos nós.

Van Nekk encheu a cuia no barril e deu-a a Spillbergen.

- Somos dez. Incluindo você, Paulus - disse ele. - As possibilidades são boas.

- Muito bom, a menos que você seja o escolhido. - Vinck deu uma olhada em Blackthorne. - Podemos enfrentar aquelas espadas?

- Você consegue ir mansinho para o torturador se for o escolhido?

- Não sei.

- Vamos tirar à sorte - disse Van Nekk. - Deixemos que Deus decida.

- Pobre Deus! - disse Blackthorne. - As imbecilidades pelas quais é responsabilizado!

- De que outro modo escolher, então? - gritou alguém.

- Não escolhemos.

- Faremos como Paulus diz. Ele é o capitão-mor - disse Van Nekk. - Tiraremos à sorte. É melhor para a maioria. Vamos votar. Somos todos a favor?

Todos disseram que sim. Menos Vinck.

- Estou com o piloto. Para o inferno com essas palhas imundas!

Vinck acabara sendo persuadido. Jan Roper, o calvinista, conduzira as preces. Spillbergen quebrou os dez pedaços de palha com exatidão. Depois partiu um deles ao meio. Van Nekk, Pieterzoon, Sonk, Maetsukker, Ginsel, Jan Roper, Salamon, Maximillian Croocq e Vinck.

- Quem quer pegar o primeiro? - repetiu ele.

- Como vamos saber se... se aquele que pegar a palha errada, a curta, irá? Como vamos saber? - A voz de Maetsukker estava inflamada de terror.

- Não vamos saber. Não com certeza. Devíamos saber com certeza - disse Croocq, o rapaz.

- Isso é fácil - disse Jan Roper. - Juremos que o faremos em nome de Deus. Em nome dele. Mo... morrer pelos outros em nome dele. Então não há motivo de preocupação. O ungido como cordeiro de Deus irá diretamente para a glória eterna.

Todos concordaram.

- Vamos, Vinck. Faça como Roper diz.

- Muito bem. - Os lábios de Vinck estavam ressecados.

- Se... se... for eu... juro por Deus que irei com eles se... se eu pegar a palha errada. Em nome de Deus.

Todos o imitaram. Maetsukker estava tão assustado, que teve que ser instigado antes de afundar de volta no pântano do pesadelo que estava vivendo.

Sonk escolheu primeiro. Pieterzoon foi o segundo. Depois Jan Roper, em seguida Salamon e Croocq. Spillbergen sentiu-se morrer, porque haviam combinado que ele não escolheria e ficaria com a última palha, e agora as probabilidades estavam se tornando terríveis.

Ginsel estava salvo. Restavam quatro.

Maetsukker chorava abertamente, mas empurrou Vinck para o lado e pegou uma palha. Não conseguiu acreditar que não era ele o escolhido.

O pulso de Spillbergen tremia e Croocq ajudou-o a firmar o braço. Fezes escorriam-lhe despercebidas pelas pernas abaixo.

- Qual eu pego? - perguntava Van Nekk a si mesmo, desesperado. Oh, Deus me ajude! Mal podia ver as palhas através da névoa da sua miopia. Se ao menos pudesse ver, talvez tivesse uma pista para escolher. Qual?

Pegou a palha e trouxe-a bem junto aos olhos, para ver sua condenação com clareza. Mas a palha não era curta.

Vinck observou os próprios dedos escolhendo a penúltima palha, ela caiu no chão, mas todos viram que era a mais curta.

Spillbergen abriu a mão apertada e todos viram que a última palha era comprida. O capitão-mor desmaiou.

Ficaram todos olhando fixamente para Vinck. Desamparado, ele os olhou, sem os ver. Meio que sacudiu os ombros, meio que sorriu, afastou as moscas, distraído. E caiu. Abriram espaço para ele, mantendo-se a distância como se fosse um leproso.

Blackthorne ajoelhou-se no lodo, ao lado de Spillbergen.

- Está morto? - perguntou Van Nekk, numa voz quase inaudível.

Vinck soltou uma gargalhada estrepitosa, que os acabrunhou a todos, e parou, tão violentamente quanto começara.

- Sou eu quem... quem está morto - disse. - Estou morto!

- Não tenha medo. Você é o ungido de Deus. Está nas mãos de Deus - disse Jan Roper, a voz confiante.

- Sim - disse Van Nekk. - Não tenha medo.

- É fácil agora, não é? - Os olhos de Vinck foram de rosto em rosto, mas nenhum conseguiu sustentar-lhes a fixidez. Somente Blackthorne não desviou o olhar.

- Traga água, Vinck - disse tranqüilamente. - Vá até o barril e traga água. Vá.

Vinck encarou-o. Depois pegou a cuia, encheu-a de água e deu-a a ele.

- Senhor Jesus Deus, piloto - murmurou -, o que vou fazer?

- Primeiro me ajude com Paulus, Vinck! Faça o que eu digo! Ele vai ficar bom?

Vinck pôs de lado a própria aflição, ajudado pela calma de Blackthorne. O pulso de Spillbergen estava fraco. Vinck ouviu-lhe o coração, separou as pálpebras e observou um momento.

- Não sei, piloto. Jesus, não consigo pensar adequadamente. O coração dele está bem, acho eu. Precisa de uma sangria, mas... mas não tenho como... eu... eu ... não posso me concentrar... Dê-me... - Parou, exausto, sentou-se contra a parede. Um tremor começou a torturá-lo.

O alçapão se abriu.

Omi erguia-se cáustico contra o céu, seu quimono avermelhado pelo sol morrendo.

Vinck tentou mover as pernas, mas não conseguiu. Havia encarado a morte muitas vezes na vida, mas nunca como desta vez, passivamente. Fora decretada pelas palhas. Por que eu? urrava o seu cérebro. Não sou pior do que os outros e sou melhor do que muitos. Amado Deus do paraíso, por que eu?

Haviam baixado uma escada. Omi fez sinal para que o escolhido subisse, e rápido.

- Isogi! Vamos!

Van.Nekk e Jan Roper rezavam em silêncio, de olhos fechados. Pieterzoon não conseguia olhar. Blackthorne olhava fixamente para Omi e seus homens.

- Isogi! - vociferou Omi novamente.

Mais uma vez Vinck tentou se levantar.

- Ajude-me, alguém. Ajudem-me a me levantar!

Pieterzoon, que estava mais perto, curvou-se e passou a mão sob o braço de Vinck, ajudando-o a se erguer. Então Blackthorne foi para o pé da escada, os dois pés plantados firmemente na lama.

- Kinjiru! - berrou, usando a palavra do navio. Um arquejo precipitou-se pela cela. A mão de Omi apertou o punho da espada e ele se aproximou da escada. Imediatamente Blackthorne a girou, desafiando Omi a pôr um pé ali. - Kinjiru! - disse de novo.

Omi parou.

- O que está acontecendo? - perguntou Spillbergen, assustado, assim como todos os demais.

- Disse-lhe que é proibido! Nenhum homem da minha tripulação vai caminhar para a morte sem uma luta.

- Mas... mas nós combinamos!

- Eu não.

- Você ficou louco!

- Está certo, piloto - sussurrou Vinck. - Eu... nós combinamos e era justo. É a vontade de Deus. Eu vou... é... - Encaminhou-se às apalpadelas para o pé da escada mas Blackthorne permaneceu implacavelmente no caminho, encarando Omi.

- Você não vai sem uma luta. Ninguém vai.

- Afaste-se da escada, piloto! Estou lhe ordenando! - Spillbergen ficou tremulamente no seu canto, tão longe da abertura quanto possível. Sua voz soou estridente:

- Piloto!

Mas Blackthorne não estava ouvindo.

- Preparem-se!

Omi recuou um passo e gritou ordens ríspidas a seus homens.

 

Imediatamente um samurai, seguido de perto por dois outros, começou a descer os degraus, espadas desembainhadas. Blackthorne girou a escada e investiu contra o homem da dianteira, tentando estrangulá-lo e desviando-se do violento golpe de espada.

- Ajudem! Vamos! Pelas suas vidas!

Blackthorne mudou de posição para arrancar o homem dos degraus, enquanto o segundo homem se atirava para baixo. Vinck saiu de seu estado cataléptico e se lançou contra o samurai, frenético. Interceptou o golpe que teria cortado fora o pulso de Blackthorne, segurou o braço que empunhava a espada e esmagou o outro punho contra a virilha do homem. O samurai resfolegou o chutou com raiva. Vinck mal pareceu notar o golpe. Subiu os degraus e se atirou ao homem pela posse da espada, suas unhas partindo para arrancar-lhe os olhos. Os outros dois samurais estavam contidos pelo espaço limitado e por Blackthorne, mas um pontapé de um deles apanhou Vinck no rosto e ele cambaleou.

O samurai na escada desferiu um golpe contra Blackthorne, errou, então a tripulação inteira se arremessou contra a escada.

Croocq martelou o punho contra o peito do pé do samurai o sentiu um ossinho ceder. O homem tentou atirar a espada para fora do buraco - não queria armar o inimigo - e tombou pesadamente na lama. Vinck e Pieterzoon caíram em cima dele. O samurai invasor revidou ferozmente quando os outros acorreram para cima dele. Blackthorne agarrou a adaga do japonês e começou a subir a escada, Croocq, Jan Roper e Salamon atrás dele.

Ambos os samurais recuaram e permaneceram à entrada, com as espadas assassinas perversamente a postos. Blackthorne sabia que sua adaga era inútil contra as espadas. Ainda assim atacou, os outros dando-lhe cobertura de perto. No momento em que sua cabeça surgiu acima do solo, uma das espadas passou vibrando, errando por uma fração de polegada. Um pontapé violento de um samurai que permanecera invisível até então atirou-o de novo no subterrâneo.

Ele voltou e saltou de novo, evitando a massa de homens engalfinhados que tentavam subjugar o samurai no lodo fedorento. Vinck chutou o homem na nuca e ele cedeu, molemente. Vinck martelou-o mais e mais, até que Blackthorne o puxasse para trás.

- Não o mate, podemos usá-lo como refém! - gritou, e torceu desesperadamente a escada, tentando puxá-la para dentro da cela. Mas era comprida demais. Lá em cima, à entrada do alçapão, os outros samurais de Omi esperavam impassíveis.

- Pelo amor de Deus, piloto. Pare com isso! - ofegou Spillbergen. - Vão nos matar a todos, você nos matará a todos! Alguém o detenha!

Omi estava gritando mais ordens, e mãos fortes lá em cima impediram Blackthorne de bloquear a entrada com a escada.

- Cuidado! - gritou.

Três samurais, de faca na mão e usando apenas tangas, saltaram agilmente para dentro da cela. Os dois primeiros, esquecidos do próprio risco, deliberadamente estatelaram-se sobre Blackthorne, atirando-o indefeso ao chão, depois atacaram-no ferozmente.

Blackthorne foi esmagado pela força dos homens. Não podia usar a faca, sentia sua vontade de lutar diminuir e desejou ter a habilidade de Mura na luta desarmada. Desamparado, sabia que não poderia sobreviver muito tempo mais, mas fez um esforço final e conseguiu libertar um braço. A pancada violenta de uma mão dura como rocha ribombou-lhe na cabeça e outra explodiu-lhe cores no cérebro, mas ele ainda conseguiu revidar.

Vinck estava prestes a arrancar os olhos de um dos samurais quando o terceiro saltou-lhe em cima. Maetsukker gritou quando uma adaga lhe fez um talho no braço. Van Nekk investia às cegas e Pieterzoon dizia:

- Pelo amor de Cristo, bata neles, não em mim -, mas o mercador não ouvia, pois estava devorado pelo terror.

Blackthorne agarrou um dos samurais pela garganta, as mãos escorregadias devido ao suor e ao lodo, e estava quase de pé como um touro enlouquecido, tentando livrar-se deles, quando houve um último golpe e ele mergulhou na escuridão. Os três samurais abriram caminho a pontapés e a tripulação, agora sem líder, recuou do círculo perfurante das três adagas. Os samurais agora dominavam a cela com suas adagas rodopiantes, não tentando matar ou mutilar, mas apenas forçar os homens ofegantes e assustados contra as paredes, para longe da escada onde Blackthorne e o primeiro samurai jaziam inertes.

Omi desceu arrogantemente para o buraco e agarrou o homem mais próximo, que era Pieterzoon. Deu-lhe um tranco na direção da escada. Pieterzoon gritou e tentou desvencilhar-se do aperto de Omi, mas uma faca retalhou-lhe o pulso e outra abriu-lhe o braço. Implacavelmente, o marujo aos berros foi impelido para a escada.

- Que Cristo me ajude, não sou eu quem vai, não sou eu, não sou eu... - Pieterzoon tinha os dois pés no degrau e recuava para cima e para longe do sofrimento das facas, depois gritou: - Ajudem-me, pelo amor de Deus! - uma última vez, virou-se e precipitou-se alucinado para fora.

Omi seguiu-o sem se apressar.

Um samurai retirou-se. Depois outro. O terceiro apanhou a faca que Blackthorne usara. Voltou as costas desdenhosamente, passou por cima do corpo prostrado do companheiro inconsciente, e subiu.

A escada foi puxada para cima. Ar, céu e luz desapareceram.

Os ferrolhos foram passados com estrépito. Agora havia apenas escuridão, e nela peitos arquejantes, corações disparados, suor correndo e o mau cheiro. As moscas voltaram.

Por um momento ninguém se moveu. Jan Roper tinha um pequeno corte na face, Maetsukker sangrava muito, os outros se encontravam em estado de choque. Exceto Salamon. Abriu caminho às apalpadelas até Blackthorne, puxou-o para longe do samurai inconsciente. Moveu a boca, emitindo sons guturais, e apontou para a água. Croocq foi buscar um pouco numa cuia, ajudou-o a apoiar Blackthorne, ainda inanimado, contra a parede.

Juntos começaram a limpar a sujeira do rosto dele.

- Quando aqueles bastardos... quando lhe saltaram em cima, pensei ouvir o pescoço ou o ombro dele ceder - disse o rapaz, arfando. - Ele parece um cadáver, Jesus!

Sonk forçou-se a se levantar e aproximou-se deles. Cuidadosamente moveu a cabeça de Blackthorne de um lado para o outro, apalpou-lhe os ombros.

- Parece em ordem. Temos que esperar até que ele volte a si para dizer.

- Oh, Deus - começou Vinck a se lamuriar. - Pobre Pieterzoon... estou condenado... estou condenado ...

- Você estava indo. O piloto o deteve. Você estava indo como prometeu, eu vi, por Deus. - Sonk sacudiu Vinck, mas ele não prestou atenção. - Eu vi você, Vinck. - Voltou-se para Spillbergen, afastando as moscas. - Não foi isso mesmo que aconteceu?

- Sim, ele estava indo. Vinck, pare de se lamentar! A culpa foi do piloto. Dêem-me água.

Jan Roper apanhou água com a cuia, bebeu-a e passou um pouco no corte do rosto.

- Vinck devia ter ido. Era o cordeiro de Deus. Recebeu o sacramento. Agora a alma dele está perdida. Oh, Deus tenha piedade, ele arderá por toda a eternidade.

- Dêem-me água - choramingou o capitão-mor.

Van Nekk pegou a cuia de Jan Roper e passou-a a Spillbergen.

- Não foi culpa de Vinck - disse, cansado. - Ele não conseguia se levantar, você não se lembra? Pediu que alguém o ajudasse. Eu estava com tanto medo que também não conseguia me mexer, e não era eu quem tinha que ir.

- A culpa não foi de Vinck - disse Spillbergen. - Não. Foi dele.

Todos olharam para Blackthorne.

- Ele está louco.

- Todos os ingleses são loucos - disse Sonk. - Já conheceram algum que não fosse? Arranhe a superfície e você encontrará um maníaco... e um pirata.

- Bastardos, todos eles! - disse Ginsel.

- Não, não todos eles - disse Van Nekk. - O piloto estava só fazendo o que achava certo. Ele nos protegeu e nos trouxe por dez mil léguas.

- Protegeu-nos! Éramos quinhentos quando começamos, e cinco navios. Agora há nove de nós!

- Não foi por culpa dele que a esquadra se separou. Não foi culpa dele que as tempestades nos jogassem...

- Não fosse por ele, teríamos ficado no Novo Mundo, por Deus. Foi ele quem disse que podíamos chegar ao Japão. E pelo amor de Jesus, olhem onde estamos agora.

- Concordamos em tentar atingir o Japão. Todos concordamos - disse Van Nekk, exausto. - Todos votamos.

- Sim. Mas foi ele quem nos convenceu.

- Cuidado! - Ginsel apontou para o samurai, que estava se mexendo e gemendo. Sonk rapidamente deslizou para cima dele, esmagando-lhe o punho no maxilar. O homem apagou-se de novo.

- Pela morte de Cristo! Para que os bastardos o deixaram aqui? Poderiam tê-lo carregado para fora facilmente. Não podíamos fazer nada.

- Acha que pensaram que ele estivesse morto?

- Não sei! Devem tê-lo visto. Por Jesus, eu tomaria uma cerveja gelada! - disse Sonk.

- Não bata nele de novo, Sonk, não o mate. É um refém.

- Croocq olhou para Vinck, que se apertara contra a parede, trancado no seu lamuriento ódio por si mesmo. - Deus nos ajude a todos. O que farão com Pieterzoon? O que farão conosco?

- A culpa é do piloto - disse Jan Roper. - Só dele.

Van Nekk, compassivo, observou Blackthorne atentamente.

- Agora não importa. Importa? De quem é ou de quem foi a culpa?

Maetsukker cambaleava, o sangue ainda correndo pelo antebraço.

- Estou ferido, alguém me ajude.

Salamon fez um torniquete com um pedaço da camisa e estancou o sangue. O corte no bíceps de Maetsukker era profundo, mas nenhuma veia ou artéria fora cortada. As moscas começaram a importunar o ferido.

- Malditas moscas! E Deus amaldiçoe o piloto com o inferno - disse Maetsukker. - Estava combinado. Mas, oh, não, ele tinha que salvar Vinck! Agora o sangue de Pieterzoon está nas mãos dele e nós todos sofreremos por causa dele.

- Cale a boca! Ele disse que nenhum homem da tripulação ...

Houve passos em cima. O alçapão abriu-se. Aldeães começaram a esvaziar barris de peixe podre e água do mar na cela. Quando o chão ficou inundado até seis polegadas de altura, pararam.

 

Os gritos começaram quando a lua ia alta.

Yabu estava ajoelhado no jardim interno da casa de Omi.

Imóvel. Observava o luar batendo na árvore florida, os ramos de azeviche contra o céu mais claro, as flores em cachos, agora ligeiramente matizadas. Uma pétala caiu em espiral e ele pensou:

 

"Beleza

Não é menor

Por cair

Na brisa".

 

Outra pétala pousou. O vento suspirou e levou outra. A árvore tinha mal e mal a altura de um homem, enfiada entre rochas cobertas de musgo que pareciam ter crescido da terra, tão inteligentemente haviam sido colocadas.

Yabu precisou de toda a sua vontade para se concentrar na árvore, no céu e na noite, para sentir o toque suave do vento, aspirar-lhe o perfume do mar, para pensar em poemas e, ao mesmo tempo, manter os ouvidos atentos ao sofrimento. Sua coluna parecia flexível. Apenas a vontade o fazia esculpido como as rochas. Essa lucidez dava-lhe um nível de sensualidade indizível.

E esta noite era mais forte e mais violenta do que jamais fora.

- Omi-san, quanto tempo nosso senhor ficará lá? - perguntou a mãe de Omi num sussurro assustado, dentro da casa.

- Não sei.

- Os gritos são terríveis. Quando vão parar?

- Não sei - disse Omi.

Estavam sentados atrás de uma tela, no segundo melhor quarto. O melhor quarto, o da mãe, fora cedido a Yabu, e estes dois quartos davam para o jardim que ele construíra com tanto esforço. Podiam ver Yabu através da gelosia, a árvore traçando-lhe desenhos rígidos no rosto, o luar reluzindo nos punhos de suas espadas.

Estava usando um haori escuro, um gibão, sobre o quimono escuro.

- Quero ir dormir - disse a mulher, tremendo. - Mas não posso dormir com todo esse barulho. Quando vai terminar?

- Não sei. Seja paciente, mãe - disse Omi suavemente.

- O barulho, cessará logo. Amanhã o Senhor Yabu voltará para Yedo. Por favor, seja paciente. - Mas Omi sabia que a tortura continuaria até o amanhecer. Fora planejada assim.

Tentou se concentrar. Como seu senhor feudal meditava em meio aos gritos, tentou novamente seguir-lhe o exemplo. Mas o berro seguinte o trouxe de volta e ele pensou: Não posso, não posso, ainda não. Não tenho o controle dele, ou o poder.

Isso é poder? perguntou a si mesmo.

Podia ver claramente o rosto de Yabu. Tentou ler a estranha expressão na face do daimio: o leve retorcer dos lábios cheios com um salpico de saliva nos cantos, olhos transformados em fendas escuras, movendo-se apenas com as pétalas. É quase como se ele estivesse a ponto de atingir um orgasmo, sem se tocar. Isso é possível? Era a primeira vez que Omi se via em contato íntimo com o tio, pois era um elo muito secundário na cadeia do clã, e seu feudo de Anjiro, bem como a área circundante, pobre e sem importância. Omi era o mais novo de três filhos, e o pai, Mizuno, tinha seis irmãos. Yabu era o mais velho, o chefe do clã Kasigi; Mizuno era o segundo filho. Omi estava com vinte e um anos e tinha um filho bebê.

- Onde está a sua miserável esposa? - sussurrou a velha, queixosa. - Quero que ela me esfregue as costas e os ombros.

- Ela teve que ir visitar o pai, não se lembra? Ele está muito doente, mãe. Deixe-me fazê-lo para a senhora.

- Não. Você pode mandar chamar uma empregada daqui a pouco. Sua esposa não tem consideração. Poderia ter esperado alguns dias. Faço todo esse trajeto desde Yedo para visitá-los. Levei duas semanas fazendo uma viagem terrível, e o que acontece? Estou aqui há apenas uma semana e ela parte. Devia ter esperado! Boa para nada, isso é o que ela é. Seu pai cometeu um péssimo engano arranjando o seu casamento com ela. Você deveria dizer a ela que ficasse longe definitivamente. Divorcie-se dessa boa-para-nada de uma vez por todas. Não sabe nem me fazer uma massagem nas costas de modo adequado. Esses gritos medonhos! Por que não param?

- Vão parar. Muito brevemente.

- Você devia lhe dar uma boa surra.

- Sim. - Omi pensou na esposa, Midori, e o coração deu um pulo no peito. Era tão bonita, agradável, gentil e inteligente, tinha uma voz tão clara e sua música era tão boa quanto a de qualquer cortesã de Izu.

- Midori-san, você deve partir imediatamente - dissera-lhe ele em particular.

- Omi-san, meu pai não está tão doente assim, e meu lugar é aqui, servindo sua mãe, neh? - respondera ela. - Se nosso daimio vai chegar, esta casa tem que ser preparada. Oh, Omi-san, isto é tão importante, o momento mais importante de toda a sua vida de devoção, neh? Se o Senhor Yabu ficar impressionado, talvez lhe dê um feudo melhor, você merece tanto! Se qualquer coisa acontecesse enquanto eu estivesse longe, eu nunca me perdoaria, e esta é a primeira vez que você tem uma oportunidade de se superar e ela deve ser bem sucedida. Ele tem que vir. Por favor, há tanta coisa para fazer!

- Sim, mas eu gostaria que você partisse imediatamente, Midori-san. Fique só dois dias, depois volte correndo para casa.

Ela rogara, mas ele insistira, e ela partira. Quisera-a longe de Anjiro antes que Yabu chegasse e enquanto o homem fosse um hóspede em sua casa. Não que o daimio fosse se atrever a tocá-la sem permissão — isso era impensável, porque ele, Omi, teria então o direito, a honra e o dever, por lei, de destruir o daimio. Mas notara Yabu a observá-la logo depois de se casarem, em Yedo, e quisera afastar uma possível fonte de irritação, tudo o que pudesse perturbar ou estorvar seu senhor enquanto estivesse ali. Era tão importante impressionar Yabu-sama com sua lealdade filial, sua precaução e sua opinião. E por enquanto tudo tivera um êxito que ultrapassava a possibilidade. O navio fora um achado, a tripulação, outro. Tudo era perfeito.

- Pedi ao kami da nossa casa que zele por você - dissera Midori antes de se ir, referindo-se ao espírito xintó particular que tinha a casa deles a seu cuidado -, e mandei uma oferenda ao templo budista, para preces. Disse a Suwo que se exceda em perfeição, e mandei um recado a Kiku-san. Oh, Omi-san, por favor, deixe-me ficar.

Ele sorrira e a pusera a caminho, com lágrimas a borrar-lhe a maquilagem.

Omi sentia-se triste por estar sem ela, mas contente de que tivesse partido. Os gritos a teriam feito sofrer muitíssimo.

Sua mãe estremeceu com o tormento que o vento trazia, moveu-se ligeiramente para minorar a dor nos ombros, sentindo as juntas péssimas. É a brisa marítima do oeste, pensou. No entanto, aqui é melhor do que em Yedo. Pantanoso demais lá, e mosquitos demais também.

Podia apenas ver o suave contorno de Yabu no jardim. Secretamente ela o odiava e queria vê-lo morto. Uma vez que Yabu estivesse morto, Mizuno, seu marido, seria daimio de Izu e chefiaria o clã. Isso seria excelente, pensou ela. Então todos os outros irmãos, esposas e filhos seriam subservientes a ela e, naturalmente, Mizuno-san faria de Omi o herdeiro, quando Yabu morresse e se fosse. Outra dor no pescoço a fez mover-se ligeiramente.

- Vou chamar Kiku-san - disse Omi, referindo-se à cortesã que esperava pacientemente por Yabu no quarto ao lado, com o menino. - Ela é muito, muito hábil.

- Estou bem, apenas cansada, neh? Oh, muito bem. Ela pode me fazer uma massagem.

Omi dirigiu-se ao quarto ao lado. A cama estava pronta. Consistia em cobertores de cima e de baixo chamados futons, colocados sobre o chão de esteiras. Kiku curvou-se, tentou sorrir e murmurou que ficaria honrada em tentar usar sua modesta habilidade na muito honorável mãe da casa. Estava até mais pálida do que de costume e Omi podia ver que os gritos também a estavam desgastando. O menino estava tentando não demonstrar o próprio medo.

Quando os gritos começaram, Omi tivera que usar a sua habilidade para persuadi-la a ficar.

- Oh, Omi-san, não posso suportar, é terrível. Sinto muito, por favor, deixe-me ir. Quero tapar os ouvidos, mas o som me passa pelas mãos. Pobre homem, é terrível - dissera ela.

- Por favor, Kiku-san, por favor, seja paciente. Yabu-sama ordenou isso, neh? Não há nada que se possa fazer. Vai parar logo.

- É demais, Omi-san. Não posso suportar.

Por um costume inviolado, dinheiro em si não podia comprar uma garota se ela, ou seu patrão, quisesse se recusar ao cliente, fosse ele quem fosse. Kiku era uma cortesã de primeira classe, a mais famosa de Izu, e embora Omi estivesse convencido de que ela sequer se comparava a uma cortesã de segunda classe de Yedo, Osaka ou Kyoto, ali estava no auge, devidamente orgulhosa e exclusiva. E ainda que ele tivesse combinado com a patroa dela, a Mama-san Gyoko, pagar cinco vezes o preço habitual, ainda não tinha certeza de que Kiku ficaria.

Agora observava-lhe os dedos ligeiros no pescoço de sua mãe.

Era linda, pequenina, a pele quase translúcida e muito macia.

Normalmente ela estaria fervilhando de interesse pela vida. Mas como poderia um tal brinquedo estar feliz sob a opressão dos gritos, perguntou ele a si mesmo. Ficou a apreciá-la, saboreando-lhe o corpo, a tepidez...

Abruptamente os gritos pararam.

Omi escutou, a boca meio aberta, esforçando-se por apreender o mais leve ruído, esperando. Notou que os dedos de Kiku pararam, a mãe não reclamou, escutando com a mesma atenção.

Olhou pela gelosia para Yabu. O daimio permanecia imóvel como uma estátua.

- Omi-san! - chamou Yabu finalmente.

Omi levantou-se, foi até a varanda encerada e curvou-se.

- Sim, senhor.

- Vá ver o que aconteceu.

Omi inclinou-se novamente e atravessou o jardim, saindo para o caminho calçado com seixos minúsculos que descia a colina até a aldeia e levava à praia. A distância podia ver o fogo de um dos desembarcadouros e os homens ao lado dele. E, na praça que dava para o mar, o alçapão do buraco e quatro guardas.

Andando em direção à aldeia, viu que o navio dos bárbaros estava seguro nas âncoras, com lâmpadas de óleo nos conveses e nos botes. Aldeães - homens, mulheres e crianças - ainda estavam desembarcando a carga, e barcos de pesca e botes iam e vinham como muitos pirilampos. Fardos e engradados empilhavam-se em ordem na praia. Sete canhões já se encontravam lá e outro estava sendo rebocado por cordas de um bote para uma rampa, depois para a areia. Ele estremeceu, embora o vento não estivesse nada frio. Normalmente os aldeães estariam cantando enquanto trabalhavam, tanto de felicidade quanto para ajudá-los a puxar em uníssono. Mas naquela noite a aldeia estava inusitadamente silenciosa, embora todas as casas estivessem acordadas e cada mão estivesse sendo utilizada, mesmo a mais doente. Pessoas se apressavam de um lado para o outro, faziam mesuras e rapidamente seguiam em frente de novo. Silêncio. Até os cães estavam quietos.

Isto nunca foi assim, pensou ele, com a mão desnecessariamente apertada sobre a espada. É quase como se o kami da nossa aldeia nos tivesse abandonado.

Mura veio da praia ao seu encontro, prevenido desde o momento em que Omi abrira o portão do jardim. Fez uma reverência.

- Boa noite, Omi-sama. O navio estará descarregado por volta do meio-dia.

- O bárbaro morreu?

- Não sei, Omi-sama. Vou até lá e descubro imediatamente.

- Pode vir comigo.

Obedientemente, Mura o seguiu, meio passo atrás. Omi ficou curiosamente contente com a sua companhia.

- Pelo meio-dia, você disse? - perguntou Omi, não gostando do silêncio.

- Sim. Está tudo correndo bem.

- E a camuflagem?

Mura apontou para grupos de velhas e crianças que estavam tecendo esteiras rústicas, Suwo com elas.

- Podemos desmontar os canhões e cobri-los. Precisaremos de no mínimo dez homens para carregar cada um. Igurashi-san mandou chamar mais carregadores na aldeia vizinha. Bom. Estou me empenhando para que o sigilo seja mantido, senhor. Igurashi-san vai convencê-los da necessidade disso, neh?

- Omi-sama, teremos que gastar todos os nossos sacos de arroz, toda a nossa linha, todas as nossas redes, e toda a nossa palha para esteiras.

- E daí?

- Como vamos pescar ou enfardar a nossa colheita, depois?

- Encontrarão um jeito - A voz de Omi endureceu. - O imposto de vocês foi aumentado em metade para esta estação. Yabu-san ordenou isso esta noite.

- Já pagamos o imposto deste ano, e o próximo.

- Isso é privilégio de camponês, Mura. Pescar, arar, colher e pagar impostos. Não é?

- Sim, Omi-sama - disse Mura calmamente.

- Um chefe de aldeia que não consegue controlar sua aldeia é um objeto inútil, neh?

- Sim, Omi-sama.

- Aquele aldeão. Era um louco e um insultante. Há outros como ele?

- Nenhum, Omi-sama.

- Espero que não. Maus modos são imperdoáveis. A família dele fica multada no valor de um koku de arroz. Em peixe, arroz, cereais ou outra coisa. A ser pago dentro de três luas.

- Sim, Omi-sama.

Tanto Mura quanto Omi, o samurai, sabiam que a soma estava totalmente além dos meios da família. Havia apenas o barco de pesca e o meio hectare de arroz que os três irmãos Tamazaki — agora dois — compartilhavam com as esposas, quatro filhos e três filhas, e a viúva de Tamazaki e três filhos. Um koku de arroz era uma medida que se aproximava à quantidade de arroz necessária para manter viva uma família durante um ano. Cerca de cinco alqueires. Talvez trezentas e cinqüenta libras de arroz. Todos os pagamentos no reino eram medidos por kokus. E todos os impostos.

- Onde é que esta Terra dos deuses vai parar se nos esquecermos dos bons modos? - perguntou Omi. - Tanto para com os que estão abaixo de nós quanto para com os que estão acima?

- Sim, Omi-sama. - Mura estava calculando onde conseguir aquele koku, porque a aldeia teria que pagá-lo se a família não pudesse. E onde obter sacos de arroz, linha e redes. Alguns poderiam ser aproveitados da viagem. Teriam que pedir dinheiro emprestado. O chefe da aldeia vizinha devia-lhe um favor. Ah! A filha mais velha de Tamazaki não é uma belezinha de seis anos, e seis anos não é uma idade perfeita para uma menina ser vendida? E o melhor mercador de crianças em toda Izu não é o terceiro primo da irmã de minha mãe, o avarento e detestável bruxo velho? Mura suspirou, sabendo que agora tinha uma série de furiosas sessões de ajustes pela frente. Não importa, pensou. Talvez a criança traga até dois kokus. Com certeza vale muito mais.

- Peço desculpas pela conduta inconveniente de Tamazaki e peço-lhe perdão - disse.

- Foi inconveniência dele, não sua - replicou Omi, de modo igualmente polido.

Mas ambos sabiam que era responsabilidade de Mura e seria melhor que não houvesse outros Tamazaki. No entanto, ficaram ambos satisfeitos. Um pedido de desculpas fora oferecido, aceito, mas recusado. Assim a honra dos dois homens estava satisfeita.

Dobraram a esquina do desembarcadouro e pararam. Omi hesitou, depois afastou Mura com um gesto. O chefe da aldeia curvou-se e partiu, agradecido.

- Ele está morto, Zukimoto?

- Não, Omi-san. Só desmaiou de novo.

Omi dirigiu-se ao grande caldeirão de ferro que a aldeia usava para derreter a gordura das baleias que às vezes apanhavam em alto-mar, nos meses de inverno, ou para derreter cola de peixe, uma atividade da aldeia.

O bárbaro estava mergulhado até os ombros na água fervendo. Tinha o rosto púrpura, os lábios repuxados para trás sobre os dentes estragados.

Ao pôr-do-sol Omi observara Zukimoto, arrotando vaidade, supervisionar enquanto o bárbaro era amarrado como uma galinha, os braços em torno dos joelhos, as mãos frouxamente junto dos pés, e colocado em água gelada. O tempo todo o bárbaro baixinho de cabelo vermelho com que Yabu quisera começar havia balbuciado, rido e chorado, o padre cristão lá, no começo, sussurrando suas malditas orações. Depois o fogo começara a ser atiçado. Yabu não estivera na praia, mas suas ordens tinham sido específicas e foram seguidas diligentemente. O bárbaro começara a gritar e delirar, depois tentara bater a cabeça contra a beirada de ferro do caldeirão, coisa que o impediram de fazer. Depois veio mais oração, choro, desmaio, despertar, guinchos de pânico, antes que a dor realmente começasse. Omi tentara assistir como assistiria à imolação de uma mosca, tentando não ver o homem. Mas não conseguira e fora embora o mais depressa possível. Descobrira que não apreciava a tortura. Não havia dignidade nela, concluíra, contente pela oportunidade de saber a verdade, já que nunca presenciara torturas antes. Não havia dignidade nem para o torturado nem para o torturador. Removia a dignidade, e sem essa dignidade qual era a finalidade última da vida? perguntou a si mesmo.

Zukimoto calmamente cutucou a carne parcialmente cozida das pernas do homem com um bastão, como se faria com um peixe cozinhado em fogo brando para ver se estava pronto. — Ele voltará a si logo. Extraordinário o tempo que está durando. Não acho que sejam feitos como nós. Muito interessante, hein? — disse Zukimoto.

- Não - disse Omi, detestando-o.

Zukimoto ficou imediatamente em guarda e sua untuosidade reapareceu. - Não quis dizer nada, Omi-san - disse com uma profunda reverência. - Absolutamente nada.

- Claro. O Senhor Yabu está contente de que você tenha trabalhado tão bem. Deve exigir grande habilidade não alimentar o fogo em demasia e ao mesmo tempo alimentá-lo o suficiente.

- É muito gentil, Omi-san.

- Já tinha feito isso antes?

- Não deste modo. Mas o Senhor Yabu me honra com seus favores. Simplesmente procuro agradá-lo.

- Ele quer saber quanto tempo o homem viverá.

- Até o amanhecer. Com cuidado.

Omi estudou o caldeirão pensativamente. Depois caminhou da praia para a praça. Todos os samurais se levantaram e se curvaram.

- Está tudo tranqüilo lá embaixo, Omi-san - disse um deles com uma risada, dando uma batida no alçapão. - Primeiro houve um pouco de conversa, parecia zangada, e algumas pancadas. Depois, dois deles, talvez mais, se puseram a choramingar como crianças assustadas. Mas estão quietos há muito tempo.

Omi escutou. Ouviu a lama patinhar e um sussurro distante.

Um gemido ocasional.

- E Masijiro? - perguntou, citando o samurai que, por ordem sua, fora deixado lá embaixo.

- Não sabemos, Omi-san. Não chamou nem uma vez, isso é certo. Provavelmente está morto.

Que ousadia de Masijiro ser tão inútil, pensou Omi. Ser subjugado por homens indefesos, a maioria doente! Repugnante! Melhor que esteja morto.

- Nada de comida ou água amanhã. Ao meio-dia removam os corpos, neh? E quero que o líder seja trazido para cima. Sozinho.

- Sim, Omi-san.

Omi voltou para a fogueira e esperou até que o bárbaro abrisse os olhos. Depois regressou ao jardim e relatou o que Zukimoto dissera, a tortura mais uma vez vindo penetrante com o vento.

- Você olhou para os olhos do bárbaro?

- Sim, Yabu-sama.

Omi estava ajoelhado atrás do daimio, a dez passos. Yabu permanecera imóvel. O luar lançava sombras sobre o quimono dele e fazia um falo do punho da espada.

- O que... o que você viu?

- Loucura. A essência da loucura. Nunca vi olhos como aqueles. E terror sem limites.

Três pétalas caíram suavemente.

- Faça um poema sobre ele.

Omi tentou forçar o cérebro a trabalhar. Depois, desejando ser mais adequado, disse:

 

            - Seus olhos

            Eram simplesmente o fim

            Do inferno...

            Toda dor

            Articulada.

 

Os berros vinham em lufadas, mais vagos agora, parecendo que a distância tornava essa diminuição de intensidade mais cruel.

Depois de um instante, Yabu disse:

 

            - Se você permite

            Que o calafrio penetre

            No profundo, fundo âmago

            Você se torna um com eles,

            Inarticulado

 

Omi pensou sobre isso um longo instante, em meio à beleza da noite.

 

Pouco antes da primeira luz da manhã, os gritos cessaram.

A mãe de Omi dormiu. Yabu também.

A aldeia ainda estava agitada ao amanhecer. Ainda restavam quatro canhões para trazer à praia, cinqüenta barriletes de pólvora, mil balas de canhão.

Kiku estava deitada sob o cobertor, olhando as sombras na parede shoji. Não dormira, embora estivesse mais exausta do que nunca. Os roncos resfolegantes da velha no quarto contíguo abafavam a suave e profunda respiração do daimio ao seu lado. O menino dormia silenciosamente nos outros cobertores, um braço passado sobre os olhos por causa da luz.

Um leve tremor percorreu o corpo de Yabu e Kiku susteve o fôlego. Mas ele continuou dormindo e isso a agradou, pois sabia que muito breve poderia partir sem o perturbar. Enquanto esperava pacientemente, forçou-se a pensar em coisas agradáveis. "Lembre-se sempre, criança", inculcara nela sua primeira professora, "de que ter maus pensamentos é realmente a coisa mais fácil do mundo. Se você deixar a mente por conta própria, ela vai sugá-la para baixo, numa infelicidade sempre crescente. Ter bons pensamentos, porém, exige esforço. Isso é uma das coisas de que a disciplina - treinamento - trata. Portanto treine sua mente para se deter em perfumes doces, o toque desta seda, tenras gotas de chuva contra o shoji, a curva deste arranjo de flores, a tranqüilidade do amanhecer. Depois, finalmente, você não precisará fazer um esforço tão grande e isso será de valor para você mesma, um valor para a nossa profissão - e trará honra para o nosso mundo, o mundo do salgueiro."

Pensou na gloriosa sensualidade do banho que tomaria em breve e que expulsaria aquela noite, e depois nas carícias calmantes das mãos de Suwo. Pensou nas risadas que daria com as outras garotas e com Gyoko-san, a Mama-san, quando trocariam tagarelices, rumores e histórias, e no quimono limpo, oh, tão limpo, que usaria naquela noite, o dourado com flores amarelas e verdes, e as fitas de cabelo que combinavam. Depois do banho, pentearia o cabelo e do dinheiro da noite passada haveria muito para saldar sua dívida com a patroa, Gyoko-san, algum para mandar ao pai, que era um camponês fazendeiro, e ainda algum para si mesma.

Logo encontraria seu amante e seria uma noite perfeita.

A vida é muito boa, pensou.

Sim. Mas é muito difícil afastar os gritos. Impossível. As outras garotas ficarão igualmente infelizes, e coitada de Gyoko-san! Mas não importa. Amanhã partiremos todas de Anjiro e voltaremos para casa, a nossa adorável casa de chá em Mishima, a maior cidade de Izu, que circunda o maior castelo do daimio em Izu, onde a vida começa e existe.

Que pena que a Senhora Midori tenha mandado me buscar. Seja séria, Kiku, disse a si mesma categoricamente. Você não deveria lamentar. Não está lamentando, neh? Foi uma honra servir o nosso senhor. Agora que você foi honrada, seu valor para Gyoko-san é maior do que nunca, neh? Foi uma experiência e agora você será conhecida como a Senhora da Noite dos Gritos e, se tiver sorte, alguém escreverá uma balada sobre você e talvez a balada seja cantada até em Yedo. Oh, isso seria muito bom!

Depois o seu amante certamente comprará o seu contrato, você estará segura e contente e terá filhos.

Ela sorriu para si mesma. Ah, que histórias os trovadores farão sobre esta noite, que serão contadas em todas as casas de chá de Izu. Sobre o senhor daimio, sentado imóvel em meio aos gritos, o suor escorrendo. O que foi que ele fez na cama? - todos quererão saber. E por que o menino? Como foi? O que foi que a Senhora Kiku fez e disse, e o que o Senhor Yabu fez e disse? O pilão sem par dele era insignificante ou farto? Foi uma vez, duas ou nenhuma? Nada aconteceu?

Mil perguntas. Mas nenhuma feita ou respondida diretamente, nunca. Isso é prudente, pensou Kiku. A primeira e última regra do mundo do salgueiro era sigilo absoluto, nunca falar sobre um cliente ou seus hábitos ou o que era pago, e assim ser completamente digna de confiança. Se alguma outra pessoa falasse, bem, era problema dela, mas com paredes de papel e casas tão pequenas, sempre havia histórias correndo da cama para a balada - nunca a verdade, sempre exageros, porque o povo é o povo, neh?

Mas nada da senhora. Uma sobrancelha arqueada talvez, ou um dar de ombros hesitante, um alisar delicado de um penteado perfeito ou de uma dobra do quimono era tudo o que se permitia.

E sempre suficiente, se a garota tivesse juízo.

Quando os gritos cessaram, Yabu permanecera como estátua ao luar pelo que parecera uma eternidade e depois se levantara. Imediatamente ela correra de volta para o outro quarto, o quimono de seda suspirando como o mar de meia-noite. O menino estava assustado, tentando não demonstrá-lo, e enxugou as lágrimas que a tortura causara. Ela lhe sorrira tranqüilizadora, forçando uma calma que não sentia. Então Yabu apareceu à porta. Estava banhado em suor, o rosto tenso e os olhos semicerrados. Kiku ajudou-o a tirar as espadas, depois o quimono encharcado e a tanga. Enxugou-o, ajudou-o a pôr um quimono fresco e amarrou o cinto de seda.

Começara a saudá-lo, mas ele lhe pusera um dedo gentil sobre os lábios. Depois se dirigira para a janela e olhara a lua declinando, como que enlevado, balançando-se levemente sobre os pés. Ela permaneceu tranqüila, sem medo, pois o que havia a temer? Ele era um homem e ela uma mulher, treinada para ser mulher, para dar prazer, do modo que fosse. Mas não para dar ou receber dor.

Havia outras cortesãs especializadas nessa forma de sensualidade.

Um apertão aqui e ali, talvez uma mordida, bem, isso era parte do prazer-dor de dar e receber, mas sempre dentro da razão, pois a honra estava envolvida e ela era uma dama do Mundo do Salgueiro de primeira classe, nunca para ser menosprezada, a ser sempre honrada. Mas parte do seu treinamento era saber como manter um homem dócil dentro dos limites. Às vezes um homem ficava indócil e então era terrível. Pois a dama estava sozinha. Sem direitos.

Seu penteado estava impecável com exceção de minúsculas mechas de cabelo, cuidadosamente soltas sobre as orelhas para sugerir um desalinho erótico, mas, ao mesmo tempo, para realçar a pureza do conjunto. O quimono vermelho e preto, axadrezado, bordado com o mais puro. verde, que lhe aumentava a brancura da pele, estava apertado à minúscula cintura por uma larga faixa rija, um obi, de um verde iridescente. Ela podia ouvir a arrebentação na praia agora e um vento leve que farfalhava o jardim.

Finalmente Yabu se voltara e olhara para ela, depois para o menino.

O menino tinha quinze anos, era o filho de um pescador local, aprendiz, no mosteiro das proximidades, de um monge budista que era artista, pintor e ilustrador de livros. O menino era um dos que gostavam de ganhar dinheiro, daqueles que apreciavam sexo com meninos e não com mulheres.

Yabu fez-lhe um gesto. Obedientemente o menino, que agora também superara o medo, afrouxou a faixa do quimono com uma elegância estudada. Não usava tanga mas uma combinação de mulher que chegava quase ao chão. Tinha o corpo macio, curvilíneo e quase sem pêlos. Kiku lembrou-se de como o quarto estivera tranqüilo, os três aproximados pela tranqüilidade e pelos gritos extintos, ela e o menino esperando que Yabu indicasse o que era ordenado. Yabu em pé ali entre os dois, balançando-se levemente, olhando de um para o outro.

Finalmente fizera um sinal para ela. Graciosamente ela desatara a fita do obi, desenrolara-o gentilmente e deixara-o cair. As dobras de seus três quimonos, leves como teia, abriram-se sussurrantes e revelaram a combinação que lhe acentuava os quadris.

Yabu se deitou e, a uma ordem sua, os dois se deitaram também, um de cada lado dele. Ele pôs-lhes as mãos sobre si e abraçou aos dois. Aqueceu-se rapidamente, mostrando-lhes como usar as unhas nos flancos dele, urgindo-os, seu rosto uma máscara, mais depressa, mais depressa e depois o estremecimento, o grito violento de dor absoluta. Por um instante, ficou deitado, arquejando, os olhos apertados, o peito arfante, depois se virara e quase instantaneamente caíra no sono.

No silêncio eles contiveram o fôlego, tentando esconder a própria surpresa. Acabara tão depressa.

O menino arqueara uma sobrancelha, espantado.

- Será que fomos inábeis, Kiku-san? Quero dizer, tudo aconteceu tão depressa - sussurrou ele.

- Fizemos tudo o que ele quis - disse ela.

- Ele certamente atingiu as nuvens e a chuva - disse o menino. - Pensei que a casa fosse desabar.

Ela sorriu.

- Sim.

- Estou contente. Primeiro fiquei com muito medo. É muito bom agradar.

Juntos, enxugaram Yabu gentilmente e cobriram-no com o acolchoado. Depois o menino deitou-se de costas langorosamente, meio apoiado num cotovelo e reprimindo um bocejo.

- Por que você não dorme também? - disse ela.

O menino puxou o quimono mais para junto do corpo e mudou de posição para ajoelhar diante dela, que estava sentada ao lado de Yabu, a mão direita acariciando suavemente o braço do daimio, acalmando seu sono trêmulo.

- Nunca tinha estado com um homem e uma mulher ao mesmo tempo, Kiku-san - sussurrou o menino.

- Nem eu.

O         menino franziu o cenho.

- Nunca estive com uma garota, também. Quero dizer, nunca me deitei com uma.

- Gostaria de ter a mim? - perguntou ela polidamente. - Se esperar um pouquinho, tenho certeza de que nosso senhor não acordará.

O         menino franziu a testa de novo. Depois:

- Sim, por favor -, e mais tarde: - Foi muito estranho, Senhora Kiku.

Ela sorriu interiormente.

- Qual você prefere?

O menino pensou um longo tempo, os dois deitados em paz, nos braços do outro.

- Este jeito dá muito mais trabalho.

Ela afundou a cabeça no ombro dele e beijou-lhe a nuca para esconder o sorriso.

- Você é um amante maravilhoso – sussurrou – Agora deve dormir, após tanto trabalho. - Acariciou-o até que pegasse no sono, depois deixou-o e foi para os outros acolchoados.

A outra cama estava fria. Ela não quis se mover para o calor de Yabu com receio de perturbá-lo. Logo seu lado estava quente.

As sombras da shoji estavam nítidas. Os homens são uns bebês, pensou ela. Tão cheios de orgulho tolo. Todo o sofrimento desta noite por uma coisa tão transitória. Por uma paixão que em si mesma não passa de uma ilusão, neh?

O menino mexeu-se no sono. Por que foi que você se ofereceu a ele? perguntou ela a si mesma. Pelo prazer dele - por ele e não por mim, embora tenha me divertido, passado o tempo e dado a ele a tranqüilidade de que necessitava. Por que você não dorme um pouquinho? Mais tarde. Dormirei mais tarde, disse a si mesma.

Quando chegou a hora, deslizou da tepidez e levantou-se. Seus quimonos se abriram num sussurro e o ar esfriou-lhe a pele. Rapidamente cingiu os trajes com perfeição e amarrou o obi. Um rápido, mas cuidadoso toque no penteado. E na maquilagem.

Partiu sem nenhum ruído.

O samurai de sentinela na entrada da varanda inclinou-se e ela retribuiu a reverência, e logo se encontrava à luz do amanhecer. Sua empregada estava à espera.

- Bom dia, Kiku-san.

- Bom dia.

O sol causou uma sensação ótima e lavou a noite. É muito bom estar viva, pensou ela.

Deslizou os pés para dentro das sandálias, abriu a sombrinha carmesim e atravessou o jardim, para o caminho que levava à aldeia, através da praça, à casa de chá que era sua residência temporária. A empregada seguiu-a.

- Bom dia, Kiku-san - chamou Mura, curvando-se. Estava descansando momentaneamente na varanda de sua casa, tomando chá, o fraco chá verde do Japão. Sua mãe o servia.

- Bom dia, Kiku-san - ecoou esta última.

- Bom dia, Mura-san. Bom dia, Saiko-san, a senhora está com ótima aparência - replicou Kiku.

- Como vai? - perguntou a mãe, seus velhíssimos olhos cravados na garota. - Que noite terrível! Tome um chá conosco, por favor. Você parece pálida, criança.

- Obrigada, mas, por favor, desculpe-me, preciso ir para casa agora. A senhora realmente me faz uma grande honra. Talvez mais tarde.

- Claro, Kiku-san. Você honra nossa aldeia com sua presença.

Kiku sorriu e fingiu não notar os olhares inquisitivos. Para deixar mais picante o dia deles, e o dela, fingiu uma dorzinha nas regiões inferiores.

Isto vai correr pela aldeia inteira, pensou feliz, enquanto se curvava, estremecia novamente e se afastava como se estivesse estoicamente dissimulando uma dor intensa, as dobras dos quimonos oscilando à perfeição, e a sombrinha inclinada para dar-lhe exatamente aquela luz mais maravilhosa. Estava muito contente de ter ganhado aquele quimono e a sombrinha. Num dia insípido o      efeito nunca teria sido tão dramático.

- Ah, pobre, pobre criança! É tão bonita, neh? Que vergonha! Terrível! - disse a mãe de Mura com um suspiro de cortar o coração.

- O que é terrível, Saiko-san? - perguntou a esposa de Mura, vindo para a varanda.

- Você não viu o sofrimento da pobre garota? Não viu como ela estava bravamente tentando escondê-lo? Pobre criança! Apenas dezessete anos e ter que passar por tudo isso!

- Ela tem dezoito anos - disse Mura secamente.

- Tudo o quê, senhora? - disse uma das empregadas ansiosamente, juntando-se a eles. A velha olhou em torno para ter certeza de que todos a escutavam e abaixando a voz: - Ouvi dizer - deixou escapar -, ouvi dizer que ela ficará... ficará inutilizada... por três meses.

- Oh, não! Pobre Kiku-san! Oh! Mas por quê?

- Ele usou os dentes. Fiquei sabendo da melhor fonte.

- Oh!

- Oh!

- Mas por que foi que ele quis o menino, senhora? Com certeza, ele não...

- Ah! Vão embora! De volta ao trabalho, boas-para-nada! Isto não é para os ouvidos de vocês! Vamos, fora, todas! O patrão e eu temos que conversar.

Enxotou-as todas da varanda. Até a esposa de Mura. E sorveu o chá, afável e muito contente.

Mura rompeu o silêncio.

- Dentes?

- Dentes. Corre o boato de que os gritos o fazem grande porque ele foi assustado por um dragão quando era pequeno - disse ela num fôlego só. - Ele sempre tem um menino junto para lembrá-lo de quando era menino, petrificado, mas na realidade o menino fica lá só para se deitar com ele, para exauri-lo - de outro modo ele arrancaria tudo com os dentes, pobre garota.

Mura suspirou. Foi até o pequeno telheiro ao lado do portão dianteiro e peidou involuntariamente quando começou a se aliviar no balde. Gostaria de saber o que realmente aconteceu, disse a si mesmo, excitado. Por que será que Kiku-san estava sofrendo? Talvez o daimio realmente use os dentes! Que extraordinário!

Saiu, sacudindo-se para não sujar a tanga, e rumou através da praça, profundamente absorto. Puxa, como eu gostaria de ter uma noite com a Senhora Kiku! Que homem não gostaria? Quanto será que Omi-san teve que pagar à Mama-san dela - que no final nós é que vamos ter que pagar? Dois kokus? Dizem que a Mama-san dela, Gyoko-san, pediu e obteve dez vezes a paga regular.

Conseguiu cinco kokus por uma noite. Kiku-san certamente valeria isso, neh? Corre o boato de que ela tem tanta prática aos dezoito anos quanto uma mulher duas vezes mais velha. Consta que é capaz de prolong... liih, que alegria ela é! Se fosse eu como eu começaria?

Distraidamente ajeitou-se dentro da tanga enquanto os pés o levavam para fora da praça, pelo caminho batido até o pátio de funeral.

A pira fora preparada. A delegação de cinco homens da aldeia já se encontrava lá.

Era o lugar mais agradável da aldeia, onde as brisas do mar eram mais frescas no verão e a vista, melhor. Perto ficava o santuário xintó da aldeia, um minúsculo telhado de palha sobre um pedestal para o kami, o espírito, que vivia ali, ou poderia querer viver ali, se lhe agradasse. Um teixo retorcido, plantado antes de a aldeia nascer, inclinava-se ao vento.

Mais tarde Omi subiu o caminho. Com ele vieram Zukimoto e quatro guardas. Manteve-se a distância. Quando se curvou formalmente para a pira e para o corpo amortalhado, quase desconjuntado, que jazia sobre ela, todos se curvaram com ele em homenagem ao bárbaro que morrera para que os companheiros pudessem viver.

A um sinal dele, Zukimoto avançou e acendeu a pira. Zukimoto havia pedido a Omi o privilégio e a honra lhe fora concedida. Curvou-se uma última vez. Depois, quando o fogo estava bem aceso, todos se afastaram.

 

Blackthorne mergulhou a mão na borra do barril, cuidadosamente mediu meia xícara de água e deu-a a Sonk. Sonk tentou tomá-la aos goles para fazê-la durar, a mão tremendo, mas não conseguiu. Sorveu de um trago o líquido morno, lamentando tê-lo feito no momento em que ele passou pela sua garganta ressecada, e tateou fatigado de volta a seu lugar junto da parede, passando por cima dos que estavam no turno de ficar deitado. O chão agora era um lodo profundo, o mau cheiro e as moscas hediondos. Uma tênue claridade chegava ao buraco através das ripas do alçapão.

Vinck era o seguinte na fila da água. Pegou sua xícara e ficou contemplando-a, sentado perto do barril, Spillbergen do outro lado.

- Obrigado - murmurou melancolicamente.

- Apresse-se! - disse Jan Roper, com o corte no rosto já supurando. Era o último na fila e, estando tão próximo, sua garganta o torturava. - Apresse-se, Vinck, pelo amor de Cristo!

- Desculpe. Pegue, tome você - murmurou Vinck, estendendo-lhe a xícara, esquecido das moscas que o cobriam.

- Beba, seu idiota! É a última que vai receber até o pôr-do-sol! Beba! - Jan Roper empurrou a xícara de volta para as mãos do homem. Vinck não levantou os olhos para ele, mas obedeceu, infeliz, e mais uma vez deslizou de volta ao seu inferno particular.

Jan Roper pegou sua xícara de água de Blackthorne. Fechou os olhos e fez uma oração de graças silenciosa. Era um dos que estavam em pé, sentindo doer os músculos das pernas. A xícara mal e mal continha dois goles.

Quando todos haviam recebido sua ração, Blackthorne afundou a mão no barril e sorveu agradecido. Tinha a boca e a língua ásperas, queimadas e cobertas de pó.

Estava infestado de moscas, suor e imundície. O peito e as costas estavam seriamente machucados.

Observou o samurai que fora deixado na cela. Estava amontoado contra a parede, entre Sonk e Croocq, ocupando tão pouco espaço quanto possível, e não se movia há horas. Fitava friamente o vazio, vestido só com a tanga, com escoriações violentas por todo o corpo, um grosso vergão em torno do pescoço.

Quando Blackthorne voltara a si, a cela se encontrava em  completa escuridão. Os gritos enchiam o buraco, e ele pensou que  tivesse morrido e estivesse nas sufocantes profundezas do inferno.  Sentiu-se sugado para uma lama viscosa e que causava arrepios  além de qualquer medida, gritara e farejara em pânico, incapaz  de respirar, até que, após uma eternidade, ouvisse: — Está tudo  bem, piloto, você não morreu, está tudo bem. Acorde, acorde,  pelo amor de Cristo, isto não é o inferno mas poderia muito bem  ser. Ó abençoado Senhor Jesus, ajude-nos a todos! Quando recuperou totalmente a consciência, contaram-lhe  sobre Pieterzoon e os barris de água do mar.

- Oh, Senhor Jesus, tire-nos daqui! - choramingou alguém.

- O que estão fazendo com o coitado do Pieterzoon? O que estão fazendo com ele? Oh, Deus nos ajude. Não posso agüentar esses gritos.

- Oh, Senhor, deixe o coitado morrer! Deixe-o morrer!

- Cristo Deus, pare esses gritos! Por favor, pare esses gritos!

O buraco e os gritos de Pieterzoon haviam dado a medida de todos, forçando-os a olhar para dentro de si mesmos. E nenhum homem gostara do que vira.

A escuridão ainda torna as coisas piores, pensara Blackthorne. Fora uma noite interminável no buraco.

Com o crepúsculo os gritos se extinguiram. Quando o amanhecer escoara até eles, viram o samurai esquecido.

- O que vamos fazer com ele? - perguntara Van Nekk.

- Não sei. Parece tão assustado quanto nós — dissera

Blackthorne, o coração latejando.

- É melhor que ele não comece nada, por Deus.

- Oh, Senhor Jesus, tirem-me daqui... - começou a voz de Croocq num crescendo. - Socooooooorro!

Van Nekk, que estava perto dele, sacudiu-o e acalmou-o.

- Está tudo bem, mocinho. Estamos nas mãos de Deus. Ele está zelando por nós.

- Olhem o meu braço - gemeu Maetsukker. O ferimento já havia supurado. Blackthorne levantou-se tremulamente. - Estaremos todos delirando como loucos dentro de um ou dois dias se não sairmos daqui - disse, a ninguém em particular.

- A água quase acabou - disse Van Nekk.

- Vamos racionar a que há. Um pouco agora, mais um pouco ao meio-dia. Com sorte haverá o suficiente para três turnos. Deus amaldiçoe todas as moscas!

Então encontrara a xícara e lhes dera uma ração, e agora estava sorvendo a sua, tentando fazê-la durar.

- E quanto a ele, o japonês? - disse Spillbergen. O capitão-mor passara melhor do que nunca durante a noite porque tapara os ouvidos aos gritos com um pouco de lama e, como estava ao lado do barril de água, cuidadosamente saciara a sede.

- O que vamos fazer com ele?

- Ele deveria receber um pouco de água - disse Van Nekk.

- Pois sim! - disse Sonk. - Digo que não deve receber coisa nenhuma.

Todos votaram e concordou-se em que o samurai não tomaria água.

- Não concordo - disse Blackthorne.

- Você não concorda com nada que a gente diga - disse Jan Roper.

- Ele é o inimigo. É um diabo pagão e quase nos matou.

- Você também quase me matou. Meia dúzia de vezes. Se o seu mosquete tivesse disparado em Santa Magdellana, você teria me estourado os miolos.

- Eu não estava mirando você. Estava mirando satanistas fedorentos.

- Eram sacerdotes desarmados. E havia tempo de sobra.

- Eu não estava mirando você.

- Você quase me matou meia dúzia de vezes, com a sua maldita raiva, sua maldita beatice e sua maldita estupidez!

- Blasfêmia é pecado mortal. Proferir o nome dele em vão é pecado. Estamos nas mãos dele, não nas suas. Você não é um rei e isto não é um navio. Não é nosso...

- Mas vai fazer o que eu disser!

Jan Roper olhou em torno da cela, inutilmente em busca de apoio.

- Faça o que quiser - disse sombriamente.

- Eu farei.

O samurai estava tão sedento quanto eles, mas meneou a cabeça à xícara que lhe foi oferecida. Blackthorne hesitou, colocou-a junto dos lábios inchados do samurai, mas o homem afastou-a com um golpe, entornando a água, e disse alguma coisa asperamente. Blackthorne preparou-se para aparar o golpe seguinte. Mas ele não veio nunca. O homem não tornou a se mover, simplesmente mergulhou o olhar no vazio.

- Ele está louco. São todos loucos - disse Spilibergen.

- Sobra mais água para nós. Bom - disse Jan Roper. - Deixem-no ir para o inferno, que é o que merece.

- Qual é o seu nome? Nami? - perguntou Blackthorne.

Repetiu de maneiras diferentes, mas o samurai parecia não ouvir. Deixaram-no em paz. Mas observavam-no como se fosse um escorpião. Ele não os olhava. Blackthorne tinha certeza de que o homem estava tentando tomar alguma decisão, mas não tinha idéia do que pudesse ser.

Que será que ele tem na cabeça? perguntou Blackthorne a si mesmo. Por que recusou a água? Por que foi deixado aqui? Será que foi um engano de Omi? Não é provável. Será que foi um plano? Não é provável. Poderíamos usá-lo para sair daqui?  Não é provável. O mundo inteiro é improvável, só é provável que vamos ficar aqui até que nos deixem sair... se deixarem. E se deixarem, o que virá a seguir? O que aconteceu a Pieterzoon?

As moscas enxameavam com o calor do dia.

Oh, Deus, como gostaria de me deitar, como gostaria de tomar aquele banho, não teriam que me carregar desta vez. Nunca tinha percebido como um banho é importante. Aquele velho cego com os dedos de aço! Eu poderia usá-lo por uma ou duas horas.

Que desperdício! Todos os nossos navios, homens e esforço para isto. Um fracasso total. Bem, quase. Alguns ainda estamos vivos.

- Piloto! - Van Nekk o estava sacudindo. - Você adormeceu. Ele... ele está se curvando para você há um minuto ou mais. - Fez um gesto para o samurai, que estava ajoelhado e de cabeça inclinada à sua frente.

Blackthorne esfregou a exaustão dos olhos. Fez um esforço e retribuiu a reverência.

- Hai? - disse bruscamente, lembrando-se da palavra japonesa para "sim".

O samurai segurou a faixa do seu quimono rasgado e enrolou-a em torno do pescoço. Ainda ajoelhado, deu uma ponta a Blackthorne e a outra a Sonk, baixou a cabeça e fez-lhes sinal para que a puxassem com força.

- Está com medo de que o estrangulemos - disse Sonk.

- Jesus Cristo, acho que isso é o que ele quer que façamos.

Blackthorne deixou cair o cinto e sacudiu a cabeça.

- Kinjiru - disse, pensando em como essa palavra era inútil. Como você diz a um homem que não fala a sua língua que é contra o seu código cometer assassínio, matar um homem desarmado, que você não é um executor, que o suicídio é condenado por Deus?

O samurai pediu de novo, claramente implorando-lhe, mas Blackthorne sacudiu a cabeça novamente.

- Kinjiru. - O homem olhou em torno ansiosamente. De repente se pôs em pé e mergulhou a cabeça bem fundo na latrina, tentando se afogar. Jan Roper e Sonk imediatamente puxaram-no para trás, sufocado e debatendo-se.

- Deixem-no - ordenou Blackthorne. Obedeceram. Ele apontou para a latrina.

- Samurai, se é isso o que você quer, vá em frente!

O homem estava com ânsias de vômitos, mas compreendeu.

Olhou para a tina repugnante e soube que não teria forças para manter a cabeça lá o tempo suficiente. Na mais profunda infelicidade, voltou a seu lugar junto da parede.

- Jesus - murmurou alguém.

Blackthorne raspou meia xícara de água no barril, levantou-se, sentindo as juntas rijas, aproximou-se do japonês e ofereceu-lhe a água. Ele olhou para além da xícara.

- Pergunto a mim mesmo quanto tempo ele consegue agüentar - disse Blackthorne.

- Para sempre - disse Jan Roper. - São animais. Não são humanos.

- Pelo amor de Cristo, quanto tempo mais vão nos manter aqui? - perguntou Ginsel.

- O tempo que quiserem.

- Teremos que fazer qualquer coisa que eles queiram - disse Van Nekk. - Teremos que fazer, se quisermos continuar vivos e sair deste buraco do inferno. Não teremos, piloto?

- Sim. - Blackthorne avaliou, agradecido, as sombras do sol. - É pleno meio-dia, o turno muda.

Spillbergen, Maetsukker e Sonk começaram a se queixar, mas ele os fez levantar-se com imprecações e quando haviam todos se redistribuído, deitou-se agradavelmente. A lama era repelente e as moscas piores que nunca, mas o prazer de poder estirar-se por inteiro foi enorme.

O que fizeram com Pieterzoon? - perguntou a si mesmo, sentindo a fadiga tragá-lo. Oh, Deus nos ajude a sair daqui. Estou com tanto medo!

Ouviram passos lá em cima. O alçapão se abriu. O padre apareceu, ladeado de samurais.

- Piloto. Você deve subir. Deve subir sozinho - disse ele.

 

Todos os olhos no poço se dirigiram para Blackthorne.

- O que querem comigo?

- Não sei - disse o Padre Sebastio gravemente. - Mas você deve subir imediatamente.

Blackthorne sabia que não tinha escolha, mas não queria se afastar da parede protetora, tentando reunir mais força.

- O que aconteceu com Pieterzoon?

O padre contou. Blackthorne traduziu para os outros que não falavam português.

- O Senhor tenha piedade dele - sussurrou Van Nekk por sobre o silêncio horrorizado. - Pobre homem. Pobre homem.

- Sinto muito. Não houve nada que eu pudesse fazer - disse o padre com uma grande tristeza. - Não acho que ele me reconhecesse ou a qualquer outro no momento em que o puseram na água. Já havia perdido o juízo. Dei-lhe absolvição e rezei por ele. Talvez, com a piedade de Deus... In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. Amém. - Fez o sinal-da-cruz sobre a cela. - Imploro-lhes que renunciem às suas heresias e serão aceitos de  volta na fé de Deus. Piloto, você tem que subir.

- Não nos deixe, piloto, pelo amor de Deus! - gritou Croocq.

Vinck cambaleou rumo à escada e começou a subir.

- Podem pegar a mim, não ao piloto. Eu, não ele. Diga-lhe... - Parou, desamparado, os dois pés nos degraus. Uma longa lança  estava a uma polegada de sua cabeça. Tentou agarrar-lhe o cabo, mas o samurai estava preparado e se Vinck não tivesse saltado, teria sido empalado.

Esse mesmo samurai apontou para Blackthorne e fez-lhe sinal que subisse. Rudemente. Blackthorne continuou imóvel. Outro samurai empurrou um longo bastão farpado para dentro da cela e tentou fisgar Blackthorne.

Ninguém se moveu para ajudar Blackthorne exceto o samurai na cela. Agarrou a fisga rapidamente e disse alguma coisa, ríspido, ao homem lá em cima, que hesitou; depois olhou para Blackthorne, deu de ombros e falou:

- Que foi que ele disse?

O padre respondeu:

- É um dito japonês: "O destino de um homem é o destino de um homem, e a vida não passa de uma ilusão".

Blackthorne fez um gesto de cabeça ao samurai e se dirigiu para a escada sem olhar para trás. Subiu. Quando se viu em plena luz do sol, semicerrou os olhos por causa da dolorosa claridade, os joelhos cederam e ele desabou sobre a terra arenosa. Omi estava de um lado. O padre e Mura erguiam-se perto dos quatro samurais. Alguns aldeães a distância olharam um momento, depois deram as costas e se foram.

Ninguém o ajudou.

Oh, Deus, dê-me força, orou Blackthorne. Tenho que me pôr de pé e fingir ser forte. É a única coisa que eles respeitam. Ser forte. Não demonstrar medo. Por favor, ajude-me.

Rangeu os dentes, tomou impulso contra a terra e levantou-se, oscilando ligeiramente.

- Que diabo você quer de mim, seu bastardinho sifilítico? - disse diretamente a Omi, depois acrescentou para o padre: - Diga ao bastardo que eu sou um daimio no meu país e que espécie de tratamento é este? Diga-lhe que não queremos briga com ele. Diga-lhe que nos deixe sair ou será pior para ele. Diga-lhe que sou um daimio, por Deus. Sou herdeiro de Sir William de Micklehaven, possa o bastardo estar morto há muito tempo. Diga-lhe!

A noite fora terrível para o Padre Sebastio. Mas durante a vigília ele viera a sentir a presença de Deus e ganhara uma segurança que nunca experimentara antes. Agora sabia que poderia ser um instrumento de Deus contra os pagãos, que estava escudado contra os pagãos e a astúcia do pirata. De algum modo sabia que aquela noite fora uma preparação, uma encruzilhada  para ele.

— Diga-lhe.

O padre disse em japonês:

-O pirata diz que é um senhor em seu país. - Ouviu a resposta de Omi. – Omi-san diz que não importa se você é um rei no seu país. Aqui você vive na  dependência do capricho do Senhor Yabu, você e todos os seus homens.

- Diga-lhe que ele é um bosta.

- Você deveria tomar cuidado e não insultá-lo.

Omi começou a falar de novo.

- Omi-san diz que vão lhe dar um banho. E comida e bebida. Se se comportar, não será posto de volta no buraco.

- E os meus homens?

O padre perguntou a Omi.

- Vão continuar lá embaixo.

- Então diga-lhe que vá para o inferno. - Blackthorne encaminhou-se para a escada, para voltar para baixo. Dois dos samurais o impediram e, embora lutasse, dominaram-no facilmente. Omi falou ao padre, depois a seus homens. Soltaram-no e  Blackthorne quase caiu.

- Omi-san diz que, a menos que você se comporte, outro dos seus homens será trazido para cima. Há muita lenha e muita água.

Se eu concordar agora, pensou Blackthorne, eles terão encontrado o meio de me controlar e ficarei em poder deles para sempre. Mas o que importa isso? Estou em poder deles agora e, no final, terei que fazer o que quiserem. Van Nekk tinha razão. Terei que fazer qualquer coisa.

- O que ele quer que eu faça? O que quer dizer com "comportar-me"?

- Omi-san diz que significa obedecer. Fazer o que lhe disserem que faça. Comer excremento, se for necessário.

- Diga-lhe que vá para o inferno. Diga-lhe que mijo em cima dele e em cima do país dele inteiro. E em cima do daimio dele.

- Recomendo que concorde com...

- Diga-lhe o que eu disse, exatamente, por Deus!

- Muito bem, mas eu o preveni, piloto.

Omi ouviu o padre. Os nós na mão sobre a espada embranqueceram. Todos os seus homens mudaram de posição, inquietos, com os olhos apunhalando Blackthorne. Então, calmamente, Omi deu uma ordem.

Imediatamente dois samurais desceram ao buraco e trouxeram Croocq, o rapaz. Arrastaram-no até o caldeirão, amarraram-no, enquanto outros traziam lenha e água. Puseram o rapaz petrificado no caldeirão cheio até a borda e acenderam o fogo.

Blackthorne olhava os movimentos de boca de Croocq, que não conseguia emitir som, e o terror que o dominava por completo. A vida não tem valor em absoluto para essa gente, pensou.

Deus os amaldiçoe com o inferno, vão ferver Croocq e isso é tão certo quanto eu estar nesta terra esquecida por Deus. A fumaça se elevava da areia. Gaivotas grasnavam em torno dos barcos de pesca. Um pedaço de lenha da fogueira caiu e foi  chutado de volta por um samurai.

- Diga-lhe que pare - disse Blackthorne. - Peça-lhe que pare.

- Omi-san diz: Você concorda em se comportar?

- Sim.

- Obedecerá a todas as ordens?

- Na medida do possível, sim.

Omi falou novamente. O Padre Sebastio fez uma pergunta e ele assentiu.

- Ele quer que você responda diretamente a ele. A palavra japonesa para "sim" é "hai". Ele pergunta se você obedecerá a todas as ordens.

- Na medida do possível, -.

O fogo estava começando a esquentar a água e um gemido nauseado irrompeu da boca do rapaz. As chamas do fogo aceso sobre os tijolos sob o ferro lambiam o metal. Mais madeira foi empilhada.

- Omi-san diz que você se deite. Imediatamente.

Blackthorne fez conforme o ordenado.

- Omi-san diz que não o insultou pessoalmente, nem havia motivo algum para que você o insultasse. Como você é um bárbaro e ainda não sabe proceder melhor, não será morto. Mas aprenderá bons modos. Compreende?

- Sim.

- Ele quer que você responda diretamente a ele.

Houve um grito lamentoso do rapaz. Durou momentos intermináveis e então o rapaz desmaiou. Um dos samurais segurou-lhe a cabeça fora da água.

Blackthorne olhou para Omi. Lembre-se, ordenou a si mesmo, lembre-se de que o rapaz está nas suas mãos, a vida de todos os seus homens está nas suas mãos. Sim, começou a metade má dele, mas não há garantia de que o bastardo vá respeitar um acordo.

- Compreende?

- Hai.

Viu Omi levantar o quimono e puxar o pênis para fora da tanga. Esperava que o homem lhe urinasse no rosto. Mas Omi não fez isso. Urinou-lhe nas costas. Pelo Senhor Deus, jurou Blackthorne a si mesmo, eu me lembrarei deste dia e de algum  modo, em algum lugar, Omi pagará.

- Omi-san diz que é falta de educação você dizer que vai mijar em cima de alguém. Muita falta de educação. É falta de educação e muita estupidez dizer que vai mijar em cima de alguém quando você está desarmado. É muita falta de educação e uma estupidez ainda maior dizer que vai mijar em cima de alguém quando está desarmado, impotente e despreparado para permitir que seus amigos, sua família ou seja quem for morra primeiro. - Blackthorne não disse nada. Não desviava os olhos de Omi.

- Wakarimasu ka? - disse Omi.

- Ele pergunta se você compreende.

- Hai.

- Okiro.

- Diz para você se levantar.

Blackthorne se levantou, uma dor martelando-lhe a cabeça. Tinha os olhos pregados em Omi e Omi sustentava-lhe o olhar.

- Você irá com Mura e obedecerá às ordens dele.

Blackthorne não retrucou nada.

- Omi-san diz: você concorda em se comportar?

- Wakarimasu ka? - perguntou Omi rispidamente.

- Hai. - Blackthorne estava medindo a distância entre si e Omi. Já podia sentir os próprios dedos no pescoço e no rosto do homem, e rezou para ser rápido e forte o bastante para arrancar os olhos de Omi antes que o tirassem de cima dele. - E o  rapaz? - perguntou.

O padre falou com Omi, hesitante.

Omi deu uma olhada no caldeirão. A água ainda estava apenas morna. O rapaz desmaiara, mas estava incólume.

- Tirem-no daí - ordenou. - Tragam um médico se for preciso.

Seus homens obedeceram. Viu Blackthorne se dirigir para o rapaz e auscultar-lhe o coração. Omi fez um gesto para o padre.

- Diga ao chefe que o jovem também pode ficar fora do buraco hoje. Se o chefe se comportar e o jovem se comportar, outro bárbaro talvez saia do buraco amanhã. Depois outros. Talvez. Ou mais de um. Depende de como se comportem os que estiverem aqui em cima. Mas você - olhou para Blackthorne - é responsável pela mínima infração a qualquer regra ou ordem. Compreende?

Depois de o padre traduzir, Omi ouviu o bárbaro dizer "sim" e viu parte da raiva sanguínea e vítrea desaparecer-lhe dos olhos.

Mas o ódio permaneceu. Que tolice, pensou Omi, e quanta ingenuidade ser tão aberto. Pergunto a mim mesmo o que ele não teria feito se eu tivesse jogado mais tempo, fingido voltar atrás na minha promessa ou restringido o que prometera.

- Padre, qual é mesmo o nome dele? Diga devagar.

Ouviu o padre dizer o nome diversas vezes, mas ainda lhe soava como linguagem inarticulada.

- Você consegue dizer? - perguntou a um de seus homens.

- Não, Omi-san.

- Padre, diga-lhe que daqui em diante o nome dele é Anjin - Piloto -, neh? Quando merecer, será chamado de Anjin-san. Explique-lhe que não existem sons na nossa língua para dizermos o verdadeiro nome dele. - Omi acrescentou secamente: - Convença-o de que isto não tem a intenção de ser insultante. Adeus, Anjin, por enquanto.

Todos se curvaram para ele. Retribuiu a saudação polidamente e se afastou. Quando estava bem longe da praça e certo de que ninguém o observava, permitiu-se dar um largo sorriso. Domar o chefe dos bárbaros tão rapidamente! Ter percebido imediatamente como dominá-lo, e a eles!

Como esses bárbaros são extraordinários, pensou. Iiilh, quanto mais depressa o Anjin falar a nossa língua, melhor. Então saberemos como esmagar os bárbaros cristãos de uma vez por todas!

 

- Por que você não lhe urinou na cara? - perguntou Yabu.

- Primeiro pretendia fazer isso, senhor. Mas o piloto ainda é um animal indomado, totalmente perigoso. Fazer isso, bem, para nós, tocar o rosto de um homem é o pior dos insultos, neh? Então raciocinei que se o insultasse tão profundamente ele perderia o controle. De modo que lhe urinei nas costas, o que acho que foi suficiente.

Estavam sentados na varanda de sua casa, sobre almofadas de seda. A mãe de Omi servia o chá com toda a cerimônia - fora bem treinada para isso, quando jovem. Ofereceu a xícara com uma reverência a Yabu. Este curvou-se e polidamente ofereceu-a a Omi, que naturalmente recusou com uma reverência mais profunda; então Yabu aceitou-a e sorveu a bebida com prazer, sentindo-se completo.

- Estou muito impressionado com você, Omi-san - disse. - Seu raciocínio é excepcional. O modo como você planejou e lidou com toda essa história foi esplêndido.

- É muito gentil, senhor. Meus esforços poderiam ter sido muito melhores, muito melhores.

- Onde foi que aprendeu tanto sobre a mente dos bárbaros?

- Quando tinha catorze anos, tive um professor durante um ano, um monge chamado Jiro. Tinha sido padre cristão, pelo menos um aprendiz de padre, mas felizmente percebera os erros dessa estupidez. Nunca me esqueci de uma coisa que ele me contou. Disse que a religião cristã era vulnerável porque ensinava que a divindade principal, Jesus, disse que todas as pessoas deviam amar-se mutuamente. Não ensinou nada sobre honra ou dever, apenas amor. E também que a vida era sagrada. "Não matarás", neh? E outras tolices. Esses novos bárbaros bradam ser cristãos também, embora o padre negue isso, então pensei que talvez sejam apenas de uma seita diferente, e essa é a causa da inimizade deles, exatamente como algumas seitas budistas que se odeiam entre si. Achei que, se eles "se amam uns aos outros", talvez pudéssemos controlar o líder tirando a vida ou mesmo ameaçando  tirar a vida de um de seus homens. - Omi sabia que essa conversa era perigosa por causa da morte sob tortura, a morte infame. Sentiu a advertência não pronunciada de sua mãe atravessando o espaço entre eles.

- Mais chá, Yabu-sama? - perguntou ela.

- Obrigado - disse Yabu. - Está muito bom, muito.

- Obrigada, senhor. Mas, Omi-san, o bárbaro está definitivamente dominado? - perguntou, mudando o rumo da conversa.

- Talvez você devesse dizer ao nosso senhor se acha que isso é temporário ou permanente.

Omi hesitou.

- Temporário. Mas acho que ele deveria aprender a nossa língua o mais depressa possível. Isso é muito importante para o senhor. Provavelmente terá que destruir um ou dois para manter a ele e ao resto sob controle, mas até lá ele terá aprendido como se comportar. Uma vez que possa falar diretamente com ele, Yabu-sama, poderá usar-lhe o conhecimento. Se o que o padre disse é verdade - que ele pilotou o navio por dez mil ris -, ele deve ser mais do que só um pouco inteligente.

- Você é mais do que só um pouco inteligente. - Yabu riu. - Você fica encarregado desses animais. Omi-san, treinador de homens!

Omi riu com ele.

- Tentarei, senhor.

- Seu feudo fica aumentado de quinhentos kokus para três mil. Você terá controle sobre vinte ris. - Uma ri, era uma medida de distância, aproximadamente uma milha. - Como símbolo da minha afeição, quando voltar a Yedo lhe mandarei dois cavalos, vinte quimonos de seda, uma armadura, duas espadas, e armamento suficiente para equipar mais cem samurais, que você recrutará. Quando a guerra vier, você se reunirá imediatamente ao meu estado-maior pessoal, na qualidade de hatamoto. - Yabu estava se sentindo expansivo: hatamoto era um assistente pessoal especial de um daimio, que tinha o direito de se aproximar do senhor e de usar espadas na presença dele. Estava encantado com Omi e sentia-se descansado, até renascido. Dormira deliciosamente bem. Ao despertar, estava sozinho, o que era de esperar, pois ele não pedira nem à garota nem ao menino que ficassem. Tomara um pouco de chá e comera frugalmente uma sopa de arroz. Depois um banho e a massagem de Suwo.

Foi uma experiência maravilhosa, pensou. Nunca me havia sentido tão próximo da natureza, das árvores, das montanhas e da terra, da incalculável tristeza da vida e sua transitoriedade. Os gritos haviam rematado tudo à perfeição.

- Omi-san, há uma rocha no meu jardim em Mishima que eu gostaria que você aceitasse, também para comemorar este acontecimento, esta noite maravilhosa e nossa boa fortuna. Vou mandá-la com as outras coisas - disse ele. - A pedra vem de Kyushu. Dei-lhe o nome de "A Pedra da Espera", porque estávamos esperando que o senhor taicum ordenasse um ataque quando a encontrei. Isso foi, oh, há quinze anos. Eu fazia parte do exército dele que esmagou os rebeldes e dominou a ilha.

- O senhor me concede muita honra.

- Por que não colocá-la aqui, no seu jardim, e rebatizá-la? Por que não chamá-la de "A Pedra da Paz do Bárbaro", para comemorar a noite e a interminável espera de paz pela qual o bárbaro passou?

- Talvez eu possa ser autorizado a chamá-la de "A Pedra da Felicidade", para lembrar a mim e a meus descendentes das honras que o senhor me faz, tio?

- Não, o melhor é simplesmente chamá-la de " Bárbaro à Espera". Sim, gosto disso. Isso nos aproxima muito mais, a ele e a mim. Ele estava esperando, assim como eu estava esperando. Eu vivi, ele morreu. - Yabu olhou para o jardim, meditando. - Bom, "O Bárbaro à Espera"! Gosto do nome. Há uns curiosos salpicos num lado da rocha que me lembram lágrimas, e veios de quartzo azul mesclado com um tom avermelhado que me lembram a carne, a impermanência da carne! - Yabu suspirou, desfrutando a própria melancolia. Depois acrescentou: - É bom para um homem plantar uma pedra e dar-lhe um nome. O bárbaro levou muito tempo para morrer, neh? Talvez ele venha ao mundo novamente como japonês, para compensá-lo pelo sofrimento. Não seria maravilhoso? Então um dia, talvez, seus descendentes veriam a pedra e ficariam contentes.

Omi emitiu uma profusão de agradecimentos sinceros, e protestou que nunca merecera tanta bondade. Yabu sabia que a bondade não era maior do que a merecida. Poderia facilmente ter dado mais, mas lembrara-se do velho adágio de que sempre se pode aumentar um feudo, mas reduzi-lo causa inimizade. E traição.

- Oku-san - disse ele à mulher, dando-lhe o título de Mãe Honorável -, meu irmão deveria ter-me falado mais cedo sobre as grandes qualidades de seu filho mais novo. Omi-san teria progredido muitíssimo mais. Meu irmão é reservado demais, descuidado demais.

- Meu marido zela demais pelo senhor para preocupá-lo, meu senhor - replicou ela, consciente da crítica subjacente. Estou contente de que meu filho tenha tido uma oportunidade de servi-lo e que lhe tenha agradado. Meu filho simplesmente cumpriu o próprio dever, neh? É nosso dever - de Mizuno-san e de todos nós - servir.

Ouviram o tropel de cavalos subindo a colina. Igurashi, assistente-chefe de Yabu, transpôs o jardim a passos largos.

- Está tudo pronto, senhor. Se deseja voltar para Yedo rapidamente, devíamos partir agora.

- Bom. Omi-san, você e seus homens irão com o comboio e darão assistência a Igurashi-san até vê-lo entrar em segurança no castelo.

Yabu viu uma sombra atravessar o rosto de Omi.

- O que é?

- Só estava pensando nos bárbaros.

- Deixe alguns guardas para eles. Comparados ao comboio, não têm importância alguma. Faça o que quiser com eles. Ponha-os de volta no buraco, faça como quiser. Quando e se você obtiver alguma coisa útil deles, mande-me um recado.

- Sim, senhor - retrucou Omi. - Deixarei dez samurais e instruções específicas com Mura. Eles não vão causar dano em cinco ou seis dias. O que deseja que se faça com o navio?

- Mantenha-o em segurança aqui. Você é responsável por ele, naturalmente. Zukimoto mandou cartas a um negociante em Nagasaki para oferecer-lhe a compra aos portugueses. Os portugueses podem vir buscá-lo.

Omi hesitou.

- Talvez devesse conservar o navio, senhor, e fazer os bárbaros treinar alguns dos nossos marinheiros para manejá-lo.

- Para que preciso de navios bárbaros? - riu Yabu zombeteiramente. - Devo me tornar um imundo mercador?

- Claro que não, senhor - disse Omi rapidamente. - Simplesmente pensei que Zukimoto poderia encontrar um uso para um vaso assim.

- Para que preciso de um navio mercante?

- O padre diz que é um navio de guerra, senhor. Parecia com medo dele. Quando a guerra começar, um navio de guerra poderia...

- Nossa guerra será realizada em terra. O mar é para mercadores, que são todos usurários imundos, para piratas ou para pescadores. - Yabu levantou-se e começou a descer os degraus em direção ao portão do jardim, onde um samurai segurava a rédea de seu cavalo. Parou e olhou fixamente para o mar. Sentiu os joelhos enfraquecer. Omi seguiu-lhe o olhar.

Um navio estava contornando o promontório. Era uma grande galera com uma infinidade de remos, o mais veloz dos vasos costeiros japoneses porque não dependia nem do vento nem da maré. A bandeira no topo do mastro ostentava o escudo de Toranaga.

 

Toda Hiromatsu, chefe supremo das províncias de Sagami e Kokuzé, o general e conselheiro de mais confiança de Toranaga, comandante-chefe de todos os seus exércitos, desceu a passos largos pela prancha de desembarque até o desembarcadouro, sozinho. Era alto para um japonês, pouco menos de seis pés, um homem de compleição taurina com maciços maxilares, que carregava seus sessenta e sete anos com vigor. Seu quimono militar era de um marrom severo, com exceção dos cinco pequenos escudos Toranaga - três ramos de flores de bambu entrelaçados. Usava um peitoral lustroso e protetores de braços de aço. Apenas a espada curta lhe pendia da cintura. A outra, a mortífera, ele a levava frouxamente na mão. Estava pronto a desembainhá-la e matar imediatamente para proteger seu suserano. Tinha esse costume desde os quinze anos de idade.

Ninguém, nem mesmo o taicum, conseguira mudá-lo.

Um ano antes, quando o taicum morrera, Hiromatsu se tornara vassalo de Toranaga. Toranaga lhe dera Sagami e Kokuzé, duas das suas oito províncias, para governar, quinhentos mil kokus anuais, e também o deixara conservar o seu hábito. Hiromatsu era ótimo em matar.

Ao longo da praia alinhavam-se todos os aldeães - homens, mulheres, crianças -, de joelhos e cabeça baixa. Diante deles, os samurais em filas disciplinadas, formais. Yabu estava à frente, com seus lugar-tenentes.

Se Yabu fosse uma mulher ou um homem mais fraco, sabia que estaria batendo no peito, gemendo e arrancando os cabelos. Era coincidência demais. Pois o famoso Toda Hiromatsu estar ali, naquele dia, significava que Yabu fora traído - ou em Yedo, por alguém da sua casa, ou ali, em Anjiro, por Omi, um dos homens de Omi ou um dos aldeães. Fora surpreendido em desobediência. Um inimigo tirara partido do seu interesse pelo navio.

Ajoelhou-se, curvou-se e todos os samurais o imitaram. Amaldiçoou o navio e quem navegava nele.

- Ah, Yabu-sama - ouviu Hiromatsu dizer, e viu-o ajoelhar-se na esteira que fora estendida para ele e retribuir a mesura.

Mas a reverência foi menos profunda que o correto e Hiromatsu não esperou que ele se curvasse de novo, de modo que soube, sem que lhe dissessem, que se encontrava em seriíssimo perigo. Viu o general sentar-se sobre os calcanhares. "Punho de Aço" era como o chamavam pelas costas. Apenas Toranaga ou um dos três conselheiros teria o privilégio de hastear a bandeira de Toranaga. Por que enviar um general tão importante no meu encalço?

- O senhor me honra vindo a uma das minhas pobres aldeias, Hiromatsu-sama - disse.

- Meu senhor me enviou. - Hiromatsu era conhecido pela sua rudeza. Não tinha nem malícia nem astúcia, apenas uma fidelidade absoluta a seu suserano.

- Estou honrado e muito contente - disse Yabu. - Precipitei-me de Yedo para cá por causa do navio bárbaro.

- O Senhor Toranaga convidou todos os daimios amigos a esperar em Yedo até que ele regressasse de Osaka.

- Como está o nosso senhor? Espero que esteja tudo bem com ele.

- Quanto mais depressa o Senhor Toranaga estiver a salvo em seu castelo de Yedo, melhor. Quanto mais depressa o conflito com Ishido for declarado e nós reunirmos nossos exércitos, investirmos contra o Castelo de Osaka e o queimarmos até os tijolos, melhor. - Os maxilares do velho se avermelhavam à medida que sua ansiedade por Toranaga aumentava; odiava estar longe dele.

O taicum construíra o Castelo de Osaka para ser invulnerável. Era o maior do império, com masmorras e fossos interligados, castelos menores, torres e pontes, e espaço para oitenta mil soldados dentro de seus muros. Em torno dos muros e na cidade imensa estavam outros exércitos, igualmente disciplinados e igualmente bem armados, todos fanáticos partidários de Yaemon, o herdeiro.

- Eu lhe disse uma dúzia de vezes que era louco em se pôr nas mãos de Ishido. Doido!

- O Senhor Toranaga tinha que ir, neh? Não tinha escolha. - O taicum ordenara que o conselho de regentes, que governava em nome de Yaemon, se reunisse por dez dias no mínimo duas vezes por ano e sempre no Castelo de Osaka, trazendo consigo um máximo de quinhentos secretários para dentro dos muros. E todos os outros daimios ficavam igualmente obrigados a visitar o castelo com as respectivas famílias, para prestar homenagem ao herdeiro, também duas vezes por ano. Assim eram todos controlados, ficavam todos indefesos parte do ano, todos os anos. - O  encontro estava marcado, neh? Se ele não fosse seria traição, neh?

- Traição contra quem? - Hiromatsu ficou ainda mais vermelho. - Ishido está tentando isolar nosso amo. Ouça, se eu tivesse Ishido em meu poder como ele tem o Senhor Toranaga, eu não hesitaria um momento, fossem quais fossem os riscos. A cabeça de Ishido lhe teria sido arrancada dos ombros há muito tempo, e seu espírito estaria à espera do renascimento. - Involuntariamente o general estava torcendo a bainha da espada que carregava na mão esquerda. A direita, áspera e calosa, esperava pronta, no colo. Ele estudou o Erasmus. - Onde estão os canhões?

- Mandei trazê-los para terra. Por segurança. Toranaga-sama vai fazer outro acordo com Ishido?

- Quando parti de Osaka, tudo estava tranqüilo. O conselho se reuniria dentro de três dias.

- O conflito vai se tornar declarado?

- Eu gostaria que sim. Mas e o meu senhor? Se quiser fazer  um acordo, fará. - Hiromatsu olhou de novo para Yabu. - Ele ordenou que todos os daimios aliados o esperassem em Yedo. Até  que regressasse. Isto não é Yedo.

- Sim. Achei que o navio era importante o bastante para a nossa causa para que o investigasse imediatamente.

- Não havia necessidade, Yabu-san. Deveria ter mais confiança. Nada acontece sem o conhecimento do nosso amo. Ele teria mandado alguém para investigar. Aconteceu de mandar a mim. Há quanto tempo o senhor está aqui?

- Um dia e uma noite.

- Então levou dois dias para vir de Yedo?

- Sim.

- Veio muito depressa. Merece ser cumprimentado.

Para ganhar tempo Yabu começou a contar a Hiromatsu sobre sua marcha forçada. Mas tinha a mente em outros assuntos mais vitais. Quem seria o espião? Como Toranaga recebera a informação sobre o navio tão rapidamente quanto ele? E quem falara a Toranaga sobre a sua partida? Como poderia manobrar agora e lidar com Hiromatsu?

Hiromatsu ouviu-o, depois disse penetrantemente:

- O Senhor Toranaga confiscou o navio e todo o conteúdo.

Um silêncio chocado varreu a praia. Estavam em Izu, feudo de Yabu, e Toranaga não tinha direitos ali. Nem Hiromatsu tinha qualquer direito de ordenar qualquer coisa. A mão de Yabu se  apertou sobre a espada.

Hiromatsu esperava com calma estudada. Fizera exatamente como Toranaga ordenara e agora estava comprometido. Era matar ou ser morto, implacavelmente.

Yabu sabia que agora também devia se comprometer. Não havia mais o que esperar. Se se recusasse a ceder o navio, teria  que matar Hiromatsu Punho de Aço, porque Hiromatsu Punho de Aço jamais partiria sem ele. Havia talvez uns duzentos samurais de elite na galera atracada ao cais. Também teriam que morrer. Poderia convidá-los a desembarcar, iludi-los e em poucas horas poderia facilmente ter samurais suficientes em Anjiro para dominá-los a todos, pois ele era um mestre na emboscada. Mas isso forçaria Toranaga a enviar tropas contra Izu. Você será engolido, disse Yabu a si mesmo, a menos que Ishido venha socorrê-lo. E por que Ishido deveria socorrê-lo quando seu inimigo Ikawa Jikkyu é parente dele e quer Izu para si? Matar Hiromatsu  abrirá as hostilidades, porque Toranaga terá um motivo de honra para investir contra você, o que forçaria a mão de Ishido, e Izu seria o primeiro campo de batalha.

E as minhas armas? Minhas lindas armas e meu belo plano?  Perderei minha chance de imortalidade para sempre se tiver que  cedê-los a Toranaga.

Tinha a mão sobre a espada Murasama. Sentia o sangue no braço da espada e a cegante premência de começar. Descartara imediatamente a possibilidade de não mencionar os mosquetes. Se  houvera traição quanto à notícia do navio, certamente também  houvera quanto à especificação da carga. Mas como Toranaga obteve a notícia tão depressa? Por pombo-correio! É a única resposta. De Yedo ou daqui? Quem possui pombos-correio aqui? Por que eu não tenho um serviço assim? É culpa de Zukimoto, ele  devia ter pensado nisso, neh? Decida-se. Guerra ou não?

Yabu invocou a má vontade de Buda, de todos os kamis, de  todos os deuses que jamais existiram ou ainda estavam por ser  inventados sobre o homem ou os homens que o haviam traído,  sobre seus pais e seus descendentes em dez mil gerações. E cedeu.

- O Senhor Toranaga não pode confiscar o navio porque já é um presente para ele. Ditei uma carta com essa finalidade. Não foi, Zukimoto?

- Sim, senhor.

- Claro que se o Senhor Toranaga quiser considerá-lo confiscado, ele pode. Mas era para ser um presente. - Yabu ficou contente de ouvir que sua voz soava autêntica. - Ele ficará feliz com o butim.

- Agradeço-lhe em nome do meu amo. – Novamente Hiromatsu se maravilhava com a antevisão de Toranaga. Este havia predito que isso aconteceria e que não haveria luta. "Não acredito", dissera Hiromatsu. "Nenhum daimio suportaria tal  usurpação dos seus direitos. Yabu não suportará. Eu certamente não suportaria. Nem mesmo do senhor." "Mas você teria obedecido às ordens e me teria falado sobre o navio", respondera Toranaga. "Yabu deve ser manobrado, neh? Preciso da violência e da astúcia dele. Neutraliza Ikawa Jikkyu e defende meu flanco."

Ali na praia, sob o sol forte, Hiromatsu forçou-se a fazer uma reverência polida, detestando a própria duplicidade.

- O Senhor Toranaga ficará encantado com a sua generosidade.

Yabu observava-o de perto.

- Não é um navio português.

- Sim. Foi o que ouvimos dizer.

- E é pirata. - Viu os olhos do general estreitarem-se.

- Hein?

Enquanto lhe contava o que o padre dissera, Yabu pensava: Se isso for novidade para você como foi para mim, não significa que Toranaga teve a mesma informação original que eu? Mas se você conhecer o conteúdo do navio, então o espião é Omi, um dos samurais dele ou um aldeão.

- Há uma grande abundância de tecido. Algum dinheiro. Mosquetes, pólvora e munição.

Hiromatsu hesitou. Depois disse:

- O tecido é seda chinesa?

- Não, Hiromatsu-san - disse Yabu, usando o "san".

Eram ambos igualmente daimios. Mas agora que ele estava magnanimamente "dando" o navio, sentia-se seguro o suficiente para usar o termo menos respeitoso. Gostou de ver que a palavra não passou despercebida pelo homem mais velho. Sou daimio de Izu, pelo sol, pela lua e pelas estrelas!

- É muito incomum, um tecido grosso, pesado, totalmente inútil para nós - disse. - Mandei trazer para terra tudo o que valia a pena aproveitar.

- Bom. Por favor, ponha tudo a bordo do meu navio.

- O quê? - As vísceras de Yabu quase explodiram.

- Tudo. Imediatamente.

- Agora?

- Sim. Sinto muito, mas o senhor naturalmente compreenderá que quero retornar a Osaka o mais depressa possível.

- Sim, mas... mas haverá espaço para tudo?

- Ponha os canhões de volta no navio bárbaro e lacre o navio. Dentro de três dias chegarão barcos para rebocá-lo até Yedo. Quanto aos mosquetes, pólvora e munição, há... - Hiromatsu parou, evitando a armadilha que repentinamente percebeu estar preparada para ele.

"Há espaço suficiente para os quinhentos mosquetes", dissera-lhe Toranaga. "E para toda a pólvora e os vinte mil dobrões de prata. Deixe os canhões no convés do navio e o tecido nos porões. Deixe Yabu falar à vontade mas dê-lhe ordens, não lhe dê tempo  para pensar. Não fique irritado ou impaciente com ele. Preciso dele, mas quero essas armas e esse navio. Cuidado porque ele vai tentar pegá-lo numa armadilha a fim de fazê-lo revelar que conhece a carga com exatidão. Ele não deve descobrir o nosso  espião."

Hiromatsu amaldiçoou a própria inabilidade para jogar esses jogos necessários.

- Quanto ao espaço necessário - disse abruptamente -, talvez o senhor devesse me dizer. E qual é a carga, exatamente? Quantos mosquetes, quanta munição, e assim por  diante? O metal está em barras ou em moedas? É prata ou ouro?

- Zukimoto!

- Sim, Yabu-sama.

- Traga a lista do conteúdo. - Cuido de você mais tarde, pensou Yabu. Zukimoto saiu correndo.- Deve estar cansado, Hiromatsu-san. Talvez tomasse um chá? Preparamos acomodações para o senhor. Os banhos são totalmente inadequados, mas talvez um o refrescasse um pouco.

- Obrigado. O senhor é muito previdente. Um pouco de chá e um banho seriam excelentes. Mais tarde. Primeiro conte-me tudo o que aconteceu desde que o navio chegou aqui.

Yabu contou-lhe os fatos, omitindo a parte sobre a cortesã e o menino, que não tinha importância. Por ordem de Yabu, Omi contou a sua história, exceto a sua conversa particular com Yabu. E Mura contou a sua, excluindo a parte sobre a ereção de Anjin, o que, raciocinou Mura, embora interessante, poderia ofender Hiromatsu, cujas ereções, na idade dele, devem ser poucas e espaçadas. Hiromatsu olhou para a coluna de fumaça que ainda se erguia da pira.

- Quantos piratas sobraram?

- Dez, senhor, incluindo o líder - disse Omi.

- Onde está ele agora?

- Na casa de Mura.

- O que ele fez? Qual foi a primeira coisa que fez lá depois de sair do buraco?

- Foi direto para a casa de banho, senhor - disse Mura rapidamente. - Agora está dormindo, senhor, como um morto.

- Não precisou carregá-lo desta vez?

- Não, senhor.

- Parece que ele aprende depressa. - Hiromatsu deu uma olhada em Omi, novamente. - Acha que podem ser ensinados a se comportar?

- Não. Não com certeza, Hiromatsu-sama.

- Você poderia limpar a urina de um inimigo das suas costas?

- Não, senhor.

- Nem eu. Nunca. Os bárbaros são muito estranhos. - Hiromatsu voltou a atenção para o navio. - Quem vai supervisionar o carregamento?

- Meu sobrinho, Omi-san.

- Bom. Omi-san, quero partir antes do pôr-do-sol. Meu capitão o ajudará a ser muito rápido. Dentro de três bastões. - A unidade de tempo era o tempo que um bastão de incenso padrão levava para queimar, aproximadamente uma hora.

- Sim, senhor.

- Por que não vem comigo para Osaka, Yabu-san? - disse Hiromatsu, como se se tratasse de um pensamento repentino. - O Senhor Toranaga ficaria encantado em receber todas estas coisas das suas mãos. Pessoalmente. Por favor, há bastante espaço. - Quando Yabu começou a protestar, permitiu-lhe que continuasse por um tempo, conforme Toranaga ordenara, e depois disse, conforme Toranaga ordenara: - Eu insisto. Em nome do Senhor Toranaga, eu insisto. Sua generosidade precisa ser recompensada.

Com a minha cabeça e as minhas terras? perguntou Yabu a si mesmo amargamente, sabendo que não havia nada que pudesse fazer agora senão aceitar agradecido.

- Obrigado. Ficaria honrado.

- Bom. Muito bem, está tudo feito - disse Punho de Aço com um alívio evidente. - Agora um pouco de chá. E um banho.

Polidamente Yabu conduziu-o pela colina, até a casa de Omi. O velho foi lavado e esfregado e depois se deitou agradavelmente no calor e no vapor. Mais tarde as mãos de Suwo o puseram novo. Um pouco de arroz, peixe cru e verduras em conservas, consumidos frugalmente a sós. Chá bebido em boa porcelana.  Um rápido cochilo sem sonhos.

Após três bastões a shoji se abriu. A guarda pessoal sabia muito bem que não devia entrar no quarto sem ser convidada; Hiromatsu já estava acordado e a espada meio desembainhada o           pronta.

- Yabu-sama está esperando lá fora, senhor. Diz que o navio está carregado.

- Excelente.

Hiromatsu se dirigiu para a varanda e satisfez suas necessidades no balde.

- Seus homens são muito eficientes, Yabu-san.

- Os seus homens ajudaram, Hiromatsu-san. São mais que eficientes. - Sim, e pela altura do sol, é bom que sejam mesmo, pensou Hiromatsu, depois disse cordialmente: - Nada como uma boa urinada quando se está com a bexiga cheia, já que há muito vigor atrás do jato. Neh? Faz a gente se sentir jovem novamente. Na minha idade é preciso sentir-se jovem. - Afrouxou a tanga confortavelmente, esperando que Yabu fizesse alguma observação cortês em anuência, mas não houve nenhuma. Sentiu a irritação começar a erguer-se, mas refreou-a. - Mande levar o líder pirata para o meu navio.

- O quê?

- O senhor foi muito generoso fazendo presente do navio o do conteúdo. A tripulação é conteúdo. Portanto leve o líder pirata para Osaka. O Senhor Toranaga quer vê-lo. Naturalmente o senhor faz o que quiser com o resto deles. Mas durante a sua  ausência, por favor providencie para que os seus assistentes entendam que os bárbaros são propriedade do meu amo e que é melhor que haja nove em bom estado de saúde, vivos e aqui quando ele  os quiser.

 

Yabu correu para o molhe, onde Omi deveria estar. Quando deixara Hiromatsu no banho, havia subido o caminho que passava, sinuoso, perto do pátio de funeral. Ali se curvara rapidamente para a pira e continuara, ladeando os campos em degraus de trigo e frutas, para finalmente dar num pequeno altiplano bem acima da aldeia. Um bem cuidado santuário de kami guardava aquele lugar agradável. Uma árvore antiga provia sombra e tranqüilidade. Fora até lá para acalmar a raiva o   para pensar. Não se atrevera a se aproximar do navio, de Omi ou de seus homens porque sabia que teria ordenado que a maioria, se não todos, cometessem seppuku, o que teria sido um desperdício, e teria massacrado a aldeia, o que teria sido tolice - somente camponeses apanhavam peixe e cultivavam o arroz que produzia a riqueza dos samurais.

Enquanto estivera sentado, encolerizara-se sozinho e tentara estimular o cérebro, o sol declinou e dissipou a névoa do mar.

As nuvens que encobriam as montanhas distantes a oeste se fragmentaram por um instante e ele vira a beleza dos altos picos cobertos de neve. A vista o acalmara e ele começara a relaxar e a pensar num plano.

Ponha os seus espiões para descobrir o espião, disse a si mesmo. Nada do que Hiromatsu disse indicou se o traidor é daqui ou de Yedo. Em Osaka você tem amigos poderosos, o próprio Senhor Ishido entre eles. Talvez um deles possa descobrir esse espírito maligno. Mas mande uma mensagem secreta à sua esposa, para o caso de o informante estar lá. E quanto a Omi?

Deixar à responsabilidade dele encontrar o informante aqui? Será ele o informante? Não é provável, mas não é impossível. É mais que provável que a traição tenha começado em Yedo. Uma questão de tempo. Se Toranaga, em Osaka, recebeu a informação no momento em que o navio chegou aqui, então Hiromatsu teria vindo para cá antes. Você tem informantes em Yedo. Deixe-os provar o próprio valor.

E quanto aos bárbaros? Agora são o seu único lucro do navio. Como é que você pode usá-los? Espere, Omi não lhe deu a resposta? Poderia usar o conhecimento que eles têm do mar o        dos navios para negociar com Toranaga pelas armas, neh?

Outra possibilidade: tornar-se vassalo de Toranaga completamente. Dar-lhe o seu plano. Pedir-lhe que o autorize a liderar o Regimento das Armas - para glória dele. Mas um vassalo não deve nunca esperar que seu senhor o recompense por seus serviços ou mesmo os reconheça. Servir é um dever, dever é samurai, samurai é imortalidade. Seria o melhor caminho, pensou Yabu, o melhor. Mas eu posso realmente ser vassalo dele? Ou de Ishido?

Não, isso é impensável. Aliado sim, vassalo não.

Bom, então os bárbaros são um recurso no final das contas. Omi tem razão novamente. Sentira-se mais tranqüilo e então, quando chegara a hora e um mensageiro lhe trouxera a informação de que o navio estava carregado, dirigira-se a Hiromatsu para descobrir que perdera até os bárbaros.

Estava espumando de raiva quando chegou ao molhe.

- Omi-san!

- Sim, Yabu-sama?

- Traga o líder bárbaro aqui. Vou levá-lo para Osaka. Quanto às ordens, veja que sejam todas bem cumpridas enquanto eu estiver fora. Quero-os em boas condições e bem-comportados. Use o buraco, se for preciso.

Desde que a galera chegara, a mente de Omi se encontrava em confusão e ele se sentia muito preocupado pela segurança de Yabu.

- Deixe-me ir também, senhor, Talvez eu possa ajudar.

- Não, agora quero que você tome conta dos bárbaros.

- Por favor. Talvez, de algum modo insignificante, eu possa retribuir sua gentileza para comigo.

- Não há necessidade - disse Yabu, mais afavelmente do que gostaria. Lembrou-se de que aumentara o rendimento de Omi para três mil kokus e ampliara seu feudo por causa da prata e das armas. Que agora haviam desaparecido. Mas vira o interesse do jovem e sentira uma cordialidade involuntária. Com vassalos assim, eu vou cavar um império, prometeu a si mesmo. Omi vai comandar uma das unidades quando eu recuperar minhas armas. - Quando a guerra vier, bem, terei um trabalho muito importante para você, Omi-san. Agora vá e traga o bárbaro.

Omi levou quatro guardas consigo. E Mura para traduzir.

 

Blackthorne foi arrancado do sono. Precisou de um minuto para clarear a mente. Quando a névoa se dissipou, Omi estava olhando fixamente para ele.

Um dos samurais puxara o acolchoado de cima dele, outro o sacudira para despertá-lo, os outros dois seguravam varas de bambu, finas e de aparência maligna. Mura tinha um rolo curto  de corda na mão.

Mura ajoelhou-se e curvou-se.

- Konnichi wa. Bom dia.

- Konnichi wa. — Blackthorne se pôs de joelhos também e, embora estivesse nu, curvou-se com igual polidez. É somente uma cortesia, disse a si mesmo. É costume deles e eles fazem reverência por educação, de modo que não há vergonha nisso. A nudez é ignorada, isso também é um costume deles, e também não há vergonha na nudez.

- Anjin? Por favor, vestir - disse Mura.

Anjin? Ah, lembro agora. O padre disse que eles não conseguem pronunciar o meu nome, então me deram o nome de "Anjin", que significa "piloto", sem a intenção de insultar. E serei chamado de Anjin-san - Sr. Piloto - quando merecer.

Não olhe para Omi, advertiu a si mesmo. Ainda não. Não se lembre da praça da aldeia, de Omi, de Croocq e de Pieterzoon.

Uma coisa de cada vez. É isso o que você vai fazer. Foi o que você jurou diante de Deus: uma coisa de cada vez. A vingança será minha, por Deus.

Blackthorne viu que suas roupas tinham sido limpas de novo e abençoou quem as limpara. Despojara-se delas na casa de banho como se estivessem contaminadas de peste. Fizera-os esfregar-lhe  as costas três vezes. Com a esponja mais áspera e com pedra-pomes. Mas ainda sentia a urina queimando.

Desviou os olhos de Mura e fitou Omi. Sentiu um prazer envolvente por saber que seu inimigo estava vivo e perto dele. Curvou-se, imitando mesuras que já vira, e manteve-se na posição um instante.

- Konnichi wa, Omi-san - disse. Não há vergonha alguma em falar a língua deles, nem em dizer "bom dia" ou em fazer uma reverência primeiro, como é hábito deles.

Omi retribuiu a reverência.

Blackthorne notou que não foi exatamente igual à sua, mas por enquanto bastava.

- Konnichi wa, Anjin - disse Omi.

A voz era cortês, mas não o suficiente.

- Anjin-san! - Blackthorne olhou diretamente para ele.

Suas vontades se chocaram e Omi foi desafiado como um homem o é jogando cartas ou dados. Pago para ver: não tem educação?

- Konnichi wa, Anjin-san - disse Omi finalmente, com um breve sorriso.

Blackthorne vestiu-se rapidamente.

Vestiu calças folgadas e um codpiece[1], meias, camisa e casaco, o longo cabelo em ordem, amarrado num rabo, e a barba aparada com a tesoura que o barbeiro lhe emprestara.

- Hai, Omi-san? - perguntou Blackthorne quando terminou de se vestir, sentindo-se melhor mas muito cauteloso, desejando ter mais palavras para usar.

- Por favor, mão - disse Mura.

Blackthorne não compreendeu e disse isso com sinais. Mura ergueu as próprias mãos e parodiou o ato de amarrá-las.

- Mão, por favor.

- Não. - Blackthorne disse diretamente a Omi e balançou a cabeça.

- Não é necessário - disse em inglês -, não é necessário em absoluto. Dei a minha palavra. - Manteve a voz gentil e razoável, depois acrescentou com rudeza, imitando Omi: - Wakarimasu ka, Omi-san?

Omi riu. Depois disse:

- Hai, Anjin-san. Wakarimasu. - Voltou-se e saiu.

Mura e os outros arregalaram os olhos, atônitos. Blackthorne seguiu Omi para o sol. Suas botas tinham sido limpas. Antes que pudesse enfiá-las, a empregada "Onna" já estava de joelhos, ajudando-o.

- Obrigado, Haku-san - disse ele, lembrando-se do verdadeiro nome dela. Qual é a palavra para "obrigado"? perguntou a si mesmo. Caminhou na direção do portão, Omi na frente.

Estou atrás de você, seu maldito bast... Espere um minuto! Lembra-se do que prometeu a si mesmo? E por que xingá-lo, mesmo interiormente? Ele não o xinga. Imprecações são para os fracos ou para os imbecis. Não são?

Uma coisa de cada vez. Já basta que você esteja atrás dele. Você sabe disso claramente e ele também. Não cometa erros, ele sabe disso muito claramente.

 

Os quatro samurais ladeavam Blackthorne na descida da colina, a enseada ainda oculta, Mura discretamente dez passos atrás, Omi na frente.

Será que vão me levar para o subterrâneo novamente? perguntou-se Blackthorne. Por que queriam me amarrar as mãos?  Omi não disse ontem — Jesus Cristo, foi ontem só? -: "Se você se comportar pode ficar fora do buraco. Se se comportar, amanhã outro homem poderá ser tirado do buraco. Talvez. E até mais  homens, talvez"? Não foi isso o que ele disse? Eu me comportei?  Gostaria de saber como Croocq está. O rapaz estava vivo quando o carregaram para a casa onde a tripulação ficou primeiro.

Blackthorne sentia-se melhor hoje. O banho, o sono e a comida fresca haviam começado a recuperá-lo. Sabia que se fosse cuidadoso e pudesse descansar, dormir e comer, dentro de um mês estaria em condições de correr ou nadar uma milha, comandar um navio de combate e levá-lo à volta do mundo.

Não pense nisso ainda! Simplesmente preserve a sua força. Um mês não é muito para se esperar, hein?

A caminhada colina abaixo e através da aldeia o estava fatigando. Você é mais fraco do que pensava... Não, você é mais forte do que pensava, ordenou a si mesmo.

Os mastros do Erasmus salientavam-se acima dos telhados de cerâmica e Blackthorne sentiu o coração acelerar. Adiante a rua fazia uma curva, acompanhando o contorno do flanco da colina, descia até a praça e terminava. Um palanquim com cortinas parado ao sol. Quatro carregadores em tangas sumárias de cócoras ao lado dele, distraidamente cutucando os dentes. No momento em que viram Omi puseram-se de joelhos, fazendo uma longa e profunda reverência.

Omi mal lhes fez um gesto de cabeça quando passou por eles, mas nesse momento uma garota atravessou o portão, indo para o palanquim, e ele parou. Blackthorne susteve o fôlego e também parou.

Uma jovem empregada veio correndo segurar uma sombrinha verde para dar sombra à garota. Omi curvou-se, a garota retribuiu, o    se puseram a conversar alegremente, a imponente arrogância de Omi desaparecida.

A garota usava um quimono cor de pêssego, uma larga faixa de ouro à cintura e sandálias com tiras de ouro. Blackthorne notou o olhar que ela lhe deu. Era claro que ela e Omi falavam a seu respeito. Não sabia como reagir, ou o que fazer, de modo que não fez nada além de esperar pacientemente, exultando com a vista dela, sua pureza e o calor da sua presença. Perguntou a si mesmo se ela e Omi eram amantes, ou se ela era a esposa de Omi, e pensou: Ela existe realmente?

Omi perguntou-lhe alguma coisa e ela respondeu, agitando o leque verde que cintilou tenuemente e dançou à luz do sol, sua  risada musical, sua extraordinária delicadeza. Omi também estava sorrindo, depois deu meia-volta sobre os calcanhares e se afastou a passos largos, novamente samurai.

Blackthorne seguiu-o. Viu que os olhos dela se detinham nele quando passou e disse:

- Konnichi wa.

- Konnichi wa, Anjin-san - respondeu ela, e sua voz o comoveu. Tinha mal e mal cinco pés de altura e era perfeita.

Quando se curvou ligeiramente, a brisa agitou a seda do quimono e mostrou um vislumbre de quimono interior escarlate, o que ele achou surpreendentemente erótico.

O perfume da garota ainda o rodeava quando ele dobrou a esquina. Viu o alçapão e o Erasmus. E a galera. A garota desapareceu-lhe da mente. Por que as nossas vigias de armas estão  vazias? Onde estão nossos canhões e, em nome de Cristo, o que uma galera de escravos está fazendo aqui, o que aconteceu no  buraco?

Uma coisa de cada vez.

Primeiro, o Erasmus: o toco do mastro de proa que a tempestade havia arrebatado sobressaía de modo desagradável. Isso não importa, pensou ele. Poderíamos zarpar facilmente. Poderíamos soltar as amarras - a brisa noturna e a maré nos levariam silenciosamente e poderíamos carenar amanhã, bem longe desta  ilha minúscula. Meio dia para assentar o mastro sobressalente e  então todas as velas enfeixadas e rumo ao alto-mar! Talvez fosse  melhor não lançar ferros mas escapar para águas mais seguras. Mas quem tripularia? Você não pode levar o navio sozinho. De onde veio esse navio de escravos? E por que está aqui? Podia ver aglomerados de samurais e marinheiros lá embaixo, no desembarcadouro. O vaso com sessenta remos - trinta de cada lado - estava em ordem e equilibrado, os remos ensarilhados com cuidado, prontos para partida imediata. Ele estremeceu  involuntariamente. A última vez que vira uma galera fora ao  largo da Costa do Ouro, dois anos antes, quando sua esquadra zarpara, os cinco navios juntos. Era um rico navio mercante costeiro, português, fugindo dele contra o vento. O Erasmus não pôde  alcançá-lo, capturá-lo nem afundá-lo.

Blackthorne conhecia bem a costa norte-africana. Fora piloto e capitão durante dez anos da London Company of Barbary Merchants, a sociedade anônima que equipava navios mercantes de combate para romper o bloqueio espanhol e comerciar com a costa da Barbaria. Pilotara para a África setentrional e ocidental, para o sul até Lagos, para o norte e o leste através do traiçoeiro estreito de Gibraltar - sempre patrulhado pelos espanhóis -, até Salerno, no reine de Nápoles. O Mediterrâneo era perigoso para a navegação inglesa e holandesa. O inimigo espanhol e português estava lá maciçamente e, pior que isso, os otomanos, os turcos infiéis, infestavam a região com galeras de escravos e navios  de combate.

Essas viagens tinham sido muito proveitosas e ele pudera comprar seu próprio navio, um brigue de cento e cinqüenta toneladas, para fazer comércio por conta própria. Mas fora afundado por ordem sua e ele perdera tudo. Tinham sido surpreendidos a sotavento, numa calmaria ao largo da Sardenha, quando a galera  turca saíra do sol. A luta fora cruel e depois, pelo crepúsculo, o esporão da nau inimiga atingira-lhes a popa e eles foram abordados rapidamente. Ele nunca esquecera o grito penetrante: "Allahhhhhhhhhhhhhhhh!", quando os corsários saltaram as amuradas. Estavam armados com espadas e mosquetes. Ele havia reagrupado seus homens e o primeiro ataque fora rechaçado, mas o segundo os subjugou e ele ordenara que incendiassem o paiol de armas. Com o navio em chamas, resolveu que era melhor morrer do que ser posto aos remos. Sempre tivera um terror mortal  por ser capturado vivo e ser transformado em escravo de galera - o que não era um destino inusitado para um marujo capturado.

Quando o paiol foi pelos ares, a explosão arrancou a quilha do navio e destruiu parte da galera corsária. Na confusão que se seguiu, ele conseguiu nadar para a chalupa e escapar com quatro tripulantes. Foi preciso deixar para trás os que não conseguiram  nadar com ele, e ainda se lembrava dos gritos por ajuda, em nome  de Deus. Mas Deus virara o rosto para aqueles homens naquele dia, portanto pereceram ou foram postos aos remos. Deus mantivera o rosto voltado para Blackthorne e os quatro homens, e eles conseguiram atingir Cagliari, na Sardenha. De lá rumaram para  casa, sem um tostão.

Isso fora há oito anos, o mesmo ano em que a peste irrompera de novo em Londres. Peste, carestia e tumultos de desempregados famintos. Seu irmão mais novo e família tinham sido destruídos. Seu primogênito também perecera. Mas no inverno a  peste sumiu, ele conseguiu um novo navio com facilidade e partiu  para o mar, a fim de refazer fortuna. Primeiro para a London Company of Barbary Merchants. Depois uma viagem às índias Ocidentais, à caça de espanhóis. Em seguida, um pouco mais rico, navegara para Kees Veerman, o holandês, na sua segunda viagem  em busca da lendária passagem nordeste para Catai e as ilhas das  Especiarias, na Ásia, que se supunha existirem nos mares de Gelo, ao norte da Rússia czarista. Procuraram durante dois anos, então Kees Veerman morrera nos desertos árticos, assim como oitenta  por cento da tripulação, e Blackthorne dera meia-volta, levando  o resto dos homens para casa. Então, há três anos, fora seduzido pela recentemente formada Companhia das índias Orientais  Holandesas e pedira para pilotar sua primeira expedição ao Novo Mundo. Comentava-se à boca pequena que eles haviam adquirido, a um custo imenso, um portulano português contrabandeado que  supostamente revelava os segredos do estreito de Magalhães, e queriam pô-lo à prova. Naturalmente os mercadores holandeses  teriam preferido usar um dos seus próprios pilotos, mas não havia nenhum que se comparasse em qualidade com os ingleses treinados pela monopolística Trinity House, e o valor espantoso do portulano forçou-os a arriscar com Blackthorne. Mas ele fora a melhor escolha: era o melhor piloto protestante vivo, sua mãe fora  holandesa e ele falava holandês perfeitamente. Blackthorne concordara, entusiasmado, aceitara os quinze por cento do lucro total  como paga, e, como era de costume, jurara solenemente, diante  de Deus, fidelidade à companhia, fazendo o voto de levar a esquadra e de trazê-la de volta para casa.

Por Deus, vou levar o Erasmus de volta, pensou Blackthorne.

E com tantos homens quantos ele deixar vivos.

Atravessavam a praça agora. Ele desviou os olhos da galera e viu os três samurais guardando o alçapão. Estavam comendo em tigelas, manejando habilmente os pauzinhos que Blackthorne os vira usando muitas vezes mas com que não conseguia lidar.

- Omi-san! - Por meio de sinais, explicou que queria ir até o alçapão, só para dar um alô aos amigos. Só por um instante. Mas Omi balançou a cabeça, disse alguma coisa que ele não compreendeu e continuou através da praça, para a praia lá embaixo, passando pelo caldeirão e em frente, rumo ao molhe.

Blackthorne seguiu-o obedientemente. Uma coisa de cada vez, disse a si mesmo. Seja paciente.

Quando atingiram o quebra-mar, Omi voltou-se e chamou os guardas do buraco. Blackthorne viu-os abrir o alçapão e descer. Um deles fez um sinal a aldeães, que trouxeram a escada e um barril cheio de água fresca e o carregaram para baixo. O vazio foi trazido para cima. Assim como a latrina.

Aí está! Se você for paciente e aceitar o jogo com as regras deles, pode ajudar a sua tripulação, pensou ele com satisfação.

Havia grupos de samurais reunidos perto da galera. Um homem alto, velho, mantinha-se à parte. Pela deferência que o Daimio Yabu lhe demonstrava, e pelo modo como os outros saltavam à sua mais ligeira observação, Blackthorne imediatamente percebeu a sua importância. Será que é o rei deles? perguntou a si mesmo.

Omi ajoelhou-se com humildade. O velho fez uma meia mesura, voltou os olhos para Blackthorne.

Reunindo tanta dignidade quanto conseguiu, Blackthorne ajoelhou-se, estendeu as mãos sobre o chão de areia do quebra-mar, como Omi fizera, e se curvou tão baixo quanto o samurai.

- Konnichi wa, sama — disse polidamente.

Viu o velho fazer uma meia mesura novamente. Houve uma discussão entre Yabu, o velho e Omi. Yabu falou a Mura. Mura apontou para a galera.

- Anjin-san. Por favor, lá.

- Por quê?

- Vá! Agora. Vá!

Blackthorne sentiu o pânico despertar.

- Por quê?

- Isogi! - comandou Omi, fazendo-lhe um gesto na direção da galera.

- Não, eu não...

Houve uma ordem imediata de Omi, quatro samurais caíram em cima de Blackthorne e lhe seguraram os braços para trás. Mura estendeu a corda e começou a atar-lhe as mãos as costas.

- Seus filhos das putas! - gritou Blackthorne. - Eu não vou subir a bordo desse maldito navio de escravos!

- Nossa Senhora! Deixem-no em paz. Ei, seus macacos bebedores de mijo, deixem o bastardo em paz! Kinjiru, neh? Ele é o piloto? O anjin, ka?

Blackthorne mal podia crer nos próprios ouvidos. Aquela linguagem violenta e injuriosa, em português, viera do convés da galera. Então viu o homem começar a descer a prancha de desembarque. Tão alto quanto ele e mais ou menos da mesma idade, mas de cabelo preto e olhos escuros e descuidadamente vestido com roupas de marujo, florete do lado, pistolas ao cinto. Um crucifixo cravejado de pedras preciosas pendia-lhe do pescoço. Usava um gorro vistoso e um sorriso rasgava-lhe o rosto.

- Você é o piloto? O piloto do holandês?

- Sim - Blackthorne ouviu-se responder.

- Bom. Bom. Eu sou Vasco Rodrigues, piloto desta galera! - Voltou-se para o velho e falou uma mistura de japonês e português, chamando-o ora de macaco-sama, ora de Toda-sama, que, pelo modo como pronunciava, soava "Toady-sama". Por duas vezes sacou da pistola, apontou enfaticamente para Blackthorne e enfiou-a de volta no cinto, falando em japonês escabrosamente entremeado de vulgaridades em português de sarjeta, que somente homens do mar compreenderiam.

Hiromatsu falou brevemente, os samurais soltaram Blackthorne e Mura o desamarrou.

- Assim é melhor. Ouça, piloto, este homem é como um rei. Disse-lhe que fico responsável por você e que lhe arrebentaria a cabeça, tão depressa quanto vou beber com você! — Rodrigues curvou-se para Hiromatsu, depois sorriu para Blackthorne.

- Curve-se para o bastardo-sama.

Como que em sonho, Blackthorne fez o que lhe dizia o outro.

- Você faz isso como um japona - disse Rodrigues com um sorriso irônico. - É mesmo o piloto?

- Sim.

- Qual é a latitude de The Lizard?

- Quarenta e nove graus e cinqüenta e seis minutos norte, e cuidado com os recifes situados a sul-sudoeste.

- Você é o piloto, por Deus! - Rodrigues apertou a mão de Blackthorne calorosamente. - Venha a bordo. Há comida, conhaque, vinho e grogue. Todos os pilotos deviam amar todos os pilotos, que são o esperma da terra. Amém! Certo?

- Sim - disse Blackthorne fracamente.

- Quando ouvi dizer que íamos levar um piloto conosco, eu disse: ótimo. Faz anos que não tenho o prazer de falar com um verdadeiro piloto. Venha a bordo. Como foi que você passou por Malaca, sua cobra? Como evitou as nossas patrulhas no oceano Indico, hein? O portulano, de quem você roubou?

- Para onde vão me levar?

- Para Osaka. O grão-senhor e alto executor em pessoa quer vê-lo.

Blackthorne sentiu voltar o pânico.

- Quem?

- Toranaga! Senhor das Oito Províncias, fiquem elas onde o Diabo quiser! O daimio-chefe do Japão. Um daimio é como um rei ou um senhor feudal, mas melhor. São todos déspotas.

- O que ele quer comigo?

- Não sei, mas é por isso que estamos aqui, e se Toranaga quer vê-lo, piloto, ele o verá. Dizem que ele tem um milhão desses fanáticos de olhos oblíquos que morreriam pela honra de lhe limpar a bunda se ele fesolvesse que o prazer dele era esse! "Toranaga quer que você traga o piloto, Vasco", disse o intérprete dele. "Traga o piloto e a carga do navio. Leve o velho Toda Hiromatsu lá para examinar o navio e..." Oh, sim, piloto, foi tudo confiscado, pelo que ouvi, o navio e tudo o que está dentro.

- Confiscado?

- Pode ser um boato. Os japonas às vezes confiscam coisas com uma mão e as devolvem com a outra, ou fingem que nunca deram a ordem. É difícil compreender esses bastardinhos sifilíticos!

Blackthorne sentiu os olhos gelados dos japoneses cravados nele e tentou ocultar o medo. Rodrigues seguiu-lhe o olhar.

- Sim, estão ficando impacientes. Já falamos o bastante. Venha a bordo. - Voltou-se, mas Blackthorne o deteve.

- E os meus amigos, a minha tripulação?

- Hein?

Blackthorne contou-lhe rapidamente sobre o buraco. Rodrigues interrogou Omi num japonês estropiado.

- Diz que eles ficarão bem. Ouça, não há nada que você ou eu possamos fazer agora. Você terá que esperar... nunca se pode saber com um japona. Eles têm seis caras e três corações. - Rodrigues fez uma reverência como um cortesão europeu a Hiromatsu. - É assim que fazemos no Japão. Como se estivéssemos na corte daquele fornicador do Filipe II, que Deus leve logo aquele espanhol para o túmulo. - Mostrou-lhe o caminho para o convés. Para surpresa de Blackthorne, não havia correntes nem escravos.

- Qual é o problema? Está doente? - perguntou Rodrigues.

- Não. Pensei que isto fosse um navio de escravos.

- Não os têm no Japão. Nem nas minas. É loucura, mas é isso. Você nunca viu doidos como estes e eu dei a volta ao mundo três vezes. Temos remadores samurais. São soldados, soldados pessoais do sodomita velho... e você nunca viu escravos remando melhor ou homens lutando melhor. - Rodrigues riu. - Põem a bunda diante dos remos e eu os incito para ver esses pederastas sangrar. Nunca desistem. Fizemos o caminho todo de Osaka até aqui, trezentas e tantas milhas marítimas, em quarenta horas. Desça. Vamos zarpar brevemente. Tem certeza de que está bem?

- Sim. Sim, acho que sim. - Blackthorne estava olhando para o Erasmus, atracado a cem jardas. - Piloto, não há um jeito de ir a bordo, há? Não me deixaram voltar a bordo, não tenho roupas e eles lacraram o navio no momento em que chegamos. Por favor?

Rodrigues examinou atentamente o navio.

- Quando foi que perderam o mastro de proa?

- Pouco antes de desembarcarmos aqui.

- Ainda há um sobressalente a bordo?

- Sim.

- Qual é o porto de origem?

- Rotterdam.

- Foi construído lá?

- Sim.

- Estive lá. Bancos de areia péssimos mas uma boa enseada. Tem boas linhas, o seu navio. É novo... nunca tinha visto um desse tipo antes. Nossa Senhora, deve ser veloz, muito veloz. Muito difícil de lidar. - Rodrigues olhou para ele. - Você pode pegar o equipamento rapidamente? - Pegou o marcador de meia hora, de vidro e areia, ao lado da ampulheta, ambos presos à bitácula, e virou-o.

- Sim. - Blackthorne tentou evitar que lhe transparecesse no rosto a esperança crescente que sentia.

- Haveria uma condição, piloto. Nada de armas, nas mangas ou em qualquer lugar. Sua palavra de piloto. Eu disse aos macacos que seria responsável por você.

- Concordo. - Blackthorne olhou a areia caindo silenciosamente pelo gargalo do marcador de tempo.

- Eu lhe estouro a cabeça, piloto ou não, se houver o simples cheiro de trapaça, ou corto-lhe a garganta. Se eu concordar.

- Dou-lhe minha palavra, de piloto para piloto, por Deus. E sífilis nos espanhóis!

Rodrigues sorriu e bateu-lhe ruidosa e cordialmente nas costas.

- Estou começando a gostar de você, Inglês.

- Como sabe que sou inglês? - perguntou Blackthorne, sabendo que o seu português era perfeito e que nada que tivesse dito poderia diferenciá-lo de um holandês.

- Sou um adivinho. Todos os pilotos não são? - Rodrigues riu.

- Conversou com o padre? O Padre Sebastio lhe disse?

- Não converso com padres se posso evitar. Uma vez por semana é mais que suficiente para qualquer homem. - Rodrigues cuspiu com destreza nos embornais e foi para o passadiço de bombordo, que dava para o quebra-mar. — Toady-sama! Ikimasho ka?

- Ikimasho, Rodrigu-san. Ima!

- Será ima. - Rodrigues olhou para Blackthorne pensativamente. - "Ima" significa "agora", "imediatamente". Vamos partir imediatamente, Inglês.

A areia já fizera um montinho no fundo do vidro.

- Quer pedir a ele, por favor? Se posso ir a bordo do meu navio?

- Não, Inglês. Não pedirei porra nenhuma!

Blackthorne repentinamente se sentiu vazio. E muito velho.

Observou Rodrigues ir até a grade do tombadilho e berrar para um pequeno e distinto marujo que se encontrava no convés elevado da proa.

- Ei, capitão-san. Ikimasho? Traga os samurais para bordo, ima! Ima, wakarimasu ka?

- Hai, Anjin-san.

Imediatamente Rodrigues tocou o sino do navio sonoramente seis vezes e o capitão-san começou a gritar ordens aos marujos e samurais em terra e a bordo. Acorreram todos para o convés, a fim de se prepararem para a partida, e, na confusão disciplinada, controlada, Rodrigues tranqüilamente pegou o braço de Blackthorne e o empurrou na direção do passadiço de estibordo, longe da praia.

- Há um escaler lá embaixo, Inglês. Não se mova depressa, não olhe em torno, e não preste atenção a não ser em mim. Se eu lhe disser que volte, faça-o rapidamente.

Blackthorne atravessou o convés, desceu a escada do costado, dirigindo-se para o pequeno bote japonês. Ouviu vozes zangadas atrás dele e sentiu os cabelos na nuca levantando-se, pois havia muitos samurais por todo o navio, alguns armados com arcos e flechas, poucos com mosquetes.

- Não é preciso se preocupar com ele, capitão-san, sou responsável. Eu, Rodrigu-san, ichi ban Anjin-san, pela Virgem! Wakarimasu ka? - A voz de Rodrigues dominava as outras vozes, mas elas estavam ficando cada vez mais zangadas.

Blackthorne estava quase no escaler agora e viu que não havia cavilhas de remos. Não sei remar como eles, disse a si mesmo. Não posso usar o bote! P longe demais para nadar. Ou não é?

Hesitou, examinando a distância. Se dispusesse de todo o vigor, não teria esperado um instante. Mas agora?

Ouviu pés se atropelarem escada abaixo atrás dele e lutou contra o impulso de se virar.

- Sente na popa - ouviu Rodrigues dizer com urgência. - Apresse-se!

Fez o que lhe dizia o outro, que saltou agilmente, agarrou os remos e, ainda em pé, remou com grande habilidade.

Um samurai estava no topo da escada, muito perturbado, com dois outros ao seu lado, arcos preparados. O capitão samurai chamou, inconfundivelmente acenando para que voltassem.

A algumas jardas do vaso, Rodrigues voltou-se.

- Vou até lá - gritou, apontando para o Erasmus. - Ponha os samurais a bordo! - Deu as costas resolutamente ao seu navio e continuou remando, empurrando os remos à moda japonesa. - Se eles puserem flechas nos arcos, me diga! Vigie-os cuidadosamente! O que estão fazendo agora?

- O capitão está muito zangado. Você não vai se meter em apuros, vai?

- Se não zarparmos na hora, o velho Toady pode ter motivo de queixa. O que aqueles arqueiros estão fazendo?

- Nada. Estão escutando o que ele diz. Ele parece indeciso. Não. Agora um deles está puxando uma seta.

Rodrigues preparou-se para parar.

- Nossa Senhora, eles têm pontaria demais para a gente arriscar qualquer coisa! A seta ainda está no arco?

- Sim... mas espere um momento! O capitão está... alguém se aproximou dele, um marujo, acho. Parece que está perguntando alguma coisa sobre o navio. O capitão está olhando para nós. Disse alguma coisa ao homem com a seta. Agora o homem a está guardando. O marujo está apontando para alguma coisa no convés.

Rodrigues arriscou uma olhada rápida e furtiva para ter certeza e respirou com mais facilidade.

- É um dos imediatos. Vai levar a nossa meia hora toda para acomodar os remadores.

Blackthorne esperou, a distância aumentou.

- O capitão está olhando para nós novamente. Não, está tudo bem. Ele se foi. Mas um dos samurais está nos vigiando.

- Deixe que vigie. - Rodrigues relaxou mas não diminuiu o ritmo nem olhou para trás. - Não gosto de ficar de costas para samurais, não quando eles estão de armas nas mãos. O que não quer dizer que alguma vez eu tenha visto um dos bastardos desarmado. São todos bastardos!

- Por quê?

- Eles adoram matar, Inglês. O costume é até dormirem com as espadas. Este país é ótimo mas os samurais são perigosos como víboras e muito mais vis.

- Por quê?

- Não sei, Inglês, mas são - replicou Rodrigues, contente de conversar com alguém da sua espécie. - Claro, todos os japonas são diferentes de nós, não sentem dor ou frio como a gente, mas os samurais são ainda piores. Não têm medo de nada, e menos ainda da morte. Por quê? Só Deus sabe, mas é a verdade. Se os superiores deles dizem "mate", eles matam, "morra", eles caem em cima das espadas ou rasgam a própria barriga. Matam e morrem tão facilmente quanto nós mijamos. As mulheres samurais também, Inglês. Matam para proteger o amo, que é como chamam os maridos aqui, ou matam a si mesmas se lhes disserem que façam isso. Fazem isso cortando a garganta. Aqui um samurai pode ordenar à esposa que se mate e ela tem que fazer isso, por lei. Jesus, Nossa Senhora, as mulheres são uma coisa diferente, uma espécie diferente, Inglês, não há nada na Terra como elas, mas os homens... Samurais são répteis e o mais seguro a fazer é tratá-los como cobras venenosas. Você está bem agora?

- Sim, obrigado. Um pouco fraco, mas bem.

- Como foi a sua viagem?

- Dura. Quanto a eles, os samurais, como fazem para se tornar samurais? Simplesmente pegam duas espadas e fazem aquele corte de cabelo?

- É preciso nascer samurai. Claro, há todos os níveis de samurai, de daimios, no topo, até o que chamamos de soldado raso, na base. Na maior parte é hereditário, como conosco. Antigamente, assim me disseram, era a mesma coisa que na Europa de hoje: camponeses podiam ser soldados e soldados camponeses, com cavaleiros hereditários e nobres armados cavaleiros. Alguns soldados camponeses chegaram ao mais alto grau. O taicum foi um.

- Quem é ele?

- O grande déspota, o dirigente do Japão todo, o grande assassino de todos os tempos. Eu lhe falo dele um dia. Morreu há um ano e agora está ardendo no inferno. - Rodrigues cuspiu no mar. - Hoje em dia você tem que nascer samurai para ser um  deles. É tudo hereditário, Inglês. Nossa Senhora, você não tem idéia de quanto valor eles dão a herança, família, nível e aparência. Você viu como Omi se curva diante daquele diabo de Yabu, e ambos rastejam na frente do velho Toady-sama. "Samurai" vem da palavra japonesa que significa "servir". Mas embora todos se curvem e se desmanchem em rapapés diante do superior, são todos samurais igualmente, com privilégios especiais de samurai. O que está acontecendo a bordo?

- O capitão está tagarelando com outro samurai e apontando para nós. O que há de especial com eles?

- Aqui os samurais governam tudo, possuem tudo. Têm seu próprio código de honra e conjunto de regras. Arrogantes? Nossa Senhora, você não faz idéia! O mais inferior deles pode matar legalmente qualquer não-samurai, qualquer homem, mulher ou criança, por qualquer razão ou nenhuma razão. Podem matar, legalmente, só para testar o fio das malditas espadas deles, já os vi fazer isso, e têm as melhores espadas do mundo. Melhor do que aço de Damasco. O que aquele fornicador está fazendo agora?

- Só olhando. Está com o arco nas costas agora. - Blackthorne estremeceu. - Odeio aqueles bastardos mais do que aos  espanhóis.

Novamente Rodrigues riu enquanto remava.

- Para dizer a verdade, eles me talham o mijo também! Mas se você quer ficar rico depressa, tem que trabalhar com eles, porque possuem tudo. Tem certeza de que está bem?

- Sim, obrigado. O que você estava dizendo? Os samurais possuem tudo?

- Sim. O país todo está dividido em castas, como na índia. Samurais no topo, camponeses os seguintes em importância. - Rodrigues cuspiu no mar. Só os camponeses podem possuir terra. Compreende? Mas a produção é todinha dos samurais. São donos do arroz todo, que é a única safra importante, e dão uma parte aos camponeses. Somente os samurais têm permissão para carregar armas. Para todo mundo, exceto para um samurai, atacar um samurai é rebelião, punível com morte instantânea. E qualquer um que veja um ataque assim e não o comunique na hora é igualmente responsável, assim como as viúvas, e mesmo as crianças. A família toda é condenada à morte se não comunica o que viu. Por Nossa Senhora, eles são cria de Satã, os samurais! Vi crianças sendo retalhadas em pedacinhos. - Rodrigues pigarreou e cuspiu. - Ainda assim, se você sabe uma ou duas coisas, este  lugar é o paraíso na terra. - Ele deu uma olhada para trás, para a galera, a fim de se tranqüilizar, depois sorriu, irônico. - Bem, Inglês, nada como um passeio de bote em torno da baía, hein?

Blackthorne riu. Os anos se desvaneceram quando ele se regalou com o movimento familiar das ondas, o cheiro de sal marinho, gaivotas grasnando e brincando no céu, a sensação de liberdade, a sensação de estar chegando depois de muito, muito tempo.

- Pensei que você não fosse me ajudar a ir até o Erasmus!

-— Esse é o problema com todos os ingleses. Não têm paciência. Ouça, aqui você não pede nada aos japoneses - samurais ou outros, é tudo a mesma coisa. Se fizer, eles vão hesitar, depois perguntar ao superior pela decisão. Aqui você tem que agir. Claro - sua risada sincera atravessou as ondas -, às vezes você pode ser morto se age errado.

- Você rema muito bem. Estava perguntando a mim mesmo como usar os remos quando você chegou.

- Você não acha que eu o deixaria ir sozinho, acha? Qual é o seu nome?

- Blackthorne. John Blackthorne.

- Já esteve no norte alguma vez, Inglês? No norte longínquo?

- Estive com Kees Veerman no Der Lifle. Há oito anos.Foi a segunda viagem dele para encontrar a passagem nordeste. Por quê?

- Gostaria de ouvir sobre isso, e sobre todos os lugares onde você esteve. Acha que algum dia encontrarão o caminho? O caminho setentrional para a Ásia, a leste ou oeste?

- Sim. Vocês e os espanhóis bloqueiam ambas as rotas meridionais, de modo que teremos que encontrá-lo. Sim, encontraremos. Ou os holandeses. Por quê?

- E você pilotou pela costa da Barbaria, hein?

- Sim. Por quê?

- E conhece Trípoli?

- A maioria dos pilotos já esteve lá. Por quê?

- Pensei que já o tinha visto uma vez. Sim, foi em Trípoli. Alguém me apontou você. O famoso piloto inglês. Que foi com o explorador holandês, Kees Veerman, até os mares de Gelo, e que uma vez foi capitão com Drake, hein? Na Armada? Que idade tinha na época?

- Vinte e quatro. O que você estava fazendo em Trípoli?

- Estava pilotando um navio pirata inglês. Meu navio tinha sido pego nas índias por aquele pirata, Morrow, Henry Morrow. Queimou meu navio até a linha d'água depois de tê-lo saquêado, e ofereceu-me o lugar de piloto... o dele estava inutilizado, disse ele... sabe como é. Ele queria ir dali (estávamos nos abastecendo de água ao largo de Hispaniola quando ele nos capturou) para o sul, ao longo do Spanish Main, depois de volta através do Atlântico para tentar interceptar, perto das Canárias, o barco espanhol do carregamento anual de ouro, depois seguir em frente através do estreito de Trípoli, caso o perdêssemos, para procurar outras presas, depois para o norte novamente, para a Inglaterra. Fez a oferta usual de libertar meus companheiros, dar-lhes comida e botes em troca, se eu me juntasse a ele. Eu disse: "Claro, por que não? Desde que não peguemos nenhum navio português, que você me desembarque perto de Lisboa e não roube meus portulanos". Discutimos muito, como de hábito, você sabe como é. Então jurei por Nossa Senhora, ambos juramos pela cruz, e estava feito. Tivemos uma boa viagem e alguns gordos mercadores espanhóis caíram na nossa rede. Quando estávamos ao largo de Lisboa, ele me pediu que ficasse a bordo, deu-me o recado habitual da boa Rainha Bess, de como ela pagaria uma recompensa principesca a qualquer piloto português que se juntasse a ela e ensinasse a habilidade aos outros pilotos de Trinity House, e de como daria cinco mil guinéus pelo portulano do estreito de Magalhães, ou do cabo da Boa Esperança. - Ele tinha o sorriso largo, dentes brancos e fortes, e o bigode e a barba pretos bem tratados. - Eu não os tinha. Pelo menos foi o que lhe disse. Morrow cumpriu a palavra, como todos os piratas deveriam cumprir. Desembarcou-me com os meus portulanos. Claro que mandara copiá-los, já que ele mesmo não sabia ler nem escrever. Até me deu minha parte do dinheiro. Já navegou com ele alguma vez, Inglês?

- Não. A rainha o armou cavaleiro anos atrás. Nunca servi em nenhum dos navios dele. Fico contente de saber que foi justo com você.

Estavam se aproximando do Erasmus. Samurais observavamnos lá de cima, de modo esquisito.

- Essa foi a segunda vez que pilotei para hereges. Na primeira vez não tive tanta sorte.

- Oh?

Rodrigues fixou os remos, o bote desviou habilmente para o lado e ele se agarrou às cordas de abordagem.

- Suba, mas deixe a conversa comigo.

Blackthorne começou a subir enquanto o outro piloto amarrava o bote com segurança. Rodrigues foi o primeiro no convés. Curvou-se como um cortesão.

- Konnichi wa a todos os samas comedores de grama!

Havia quatro samurais no convés. Blackthorne reconheceu um deles como um guarda do alçapão. Embaraçados, curvaram-se rigidamente para o português. Blackthorne imitou a este último, sentindo-se desajeitado; teria preferido curvar-se corretamente.

Rodrigues caminhou diretamente para a escada da gaiúta. Os lacres estavam em perfeita ordem, no lugar. Um dos samurais o interceptou.

- Kinjiru, gomen nasai. É proibido, sinto muito.

- Kinjiru, hein? - disse o português, abertamente não impressionado. - Sou Rodrigu-san, anjin de Toda Hiromatsu-sama. Este lacre - apontou para o selo vermelho com a escrita esquisita -, Toda Hiromatsu-sama, ka?

- Iyé - disse o samurai, sacudindo a cabeça. - Kasigi Yabu-sama!

- IYE? - disse Rodrigues. - Kasigi Yabu-sama? Sou de Toda Hiromatsu-sama, que é rei mais importante do que o sodomita do seu, e Toady-sama é de Toranaga, que é o maior sodomita-sama do mundo todo. Neh? - Arrancou o selo da porta,  levou uma mão a uma das pistolas. As espadas estavam meio fora das bainhas, e ele disse calmamente a Blackthorne: - Prepare-se para abandonar o navio - e ao samurai disse grosseiramente: - Toranaga-sama! - Apontou com a mão esquerda a bandeira que tremulava no topo do mastro do seu navio.- Wakarimasu ka?

Os samurais hesitaram, as espadas prontas. Blackthorne preparou-se para mergulhar.

- Toranaga-sama! - Rodrigues lançou o pé contra a porta, o trinco estalou e a porta se abriu com violência. - WAKARIMASU KA?

- Wakarimasu, Anjin-san. - Rapidamente os samurais largaram as espadas, curvaram-se, pediram desculpas, curvaram-se novamente e Rodrigues disse roucamente: - Assim é melhor - e foi em frente.

- Jesus Cristo, Rodrigues - disse Blackthorne quando se viram no convés inferior. - Você faz isso sempre e se safa?

- Faço com muita freqüência - disse o português, enxugando o suor da testa -, até quando seria preferível nunca ter começado.

Blackthorne encostou-se ao tabique.

- Sinto como se alguém me tivesse dado um pontapé no estômago.

- É o único jeito. Você tem que agir como um rei. Ainda assim, com um samurai, nunca se pode saber. São tão perigosos quanto um padre mijado com uma vela na bunda, sentado em cima de um barrilete de pólvora quase cheio!

- O que foi que disse a eles?

- Toda Hiromatsu é conselheiro-chefe de Toranaga, é um daimio maior do que o daimio local. Foi por isso que cederam.

- Como é ele, Toranaga?

- É uma longa história, Inglês. - Rodrigues sentou num degrau, tirou a bota e esfregou o tornozelo. - Quase quebrei o pé na sua porta comida de piolhos.

- Não estava trancada. Você poderia simplesmente tê-la aberto.

- Eu sei. Mas não teria sido tão eficaz. Pela Virgem abençoada, você tem muito que aprender!

- Você me ensinará?

Rodrigues calçou a bota nova.

- Isso depende - disse.

- De quê?

- Teremos que ver, não? Fui só eu que falei até agora, o que é justo: eu estou bem, você não. Logo chegará a sua vez. Qual é a sua cabina?

Blackthorne estudou-o por um momento. O cheiro embaixo dos conveses era denso, estragado.

- Obrigado por me ajudar a vir a bordo.

Seguiu em direção à popa. A porta estava destrancada. A cabina fora revistada e tudo o que era removível fora levado. Não havia livros, roupas, instrumentos ou penas. Seu baú também estava destrancado. E vazio.

Branco de raiva, dirigiu-se para a cabina grande, Rodrigues observando-o atentamente. Até o compartimento secreto fora descoberto e pilhado.

- Levaram tudo. Filhos de piolhos infestados de peste!

- O que você esperava?

- Não sei. Pensei... com os lacres... — Blackthorne foi até a sala forte. Estava nua. Assim como o paiol. Os porões continham apenas os fardos de tecido de lã. - Deus amaldiçoe os japonas! - Voltou à sua cabina e fechou o baú com estrépito.

- Onde estão? - perguntou Rodrigues.

- O quê?

- Os seus portulanos. Onde estão os seus portulanos?

Blackthorne olhou-o penetrantemente.

- Nenhum piloto se preocuparia com roupas. Você veio aqui por causa dos portulanos. Não veio?

- Sim.

- Por que está tão surpreso, Inglês? Por que você acha que eu vim a bordo? Para ajudá-lo a pegar mais trapos? Estão todos puídos e você precisará de outros. Tenho um monte para você. Mas onde estão os portulanos?

- Sumiram. Estavam no meu baú.

- Não vou roubá-los, Inglês. Só quero lê-los. E copiá-los, se for necessário. Cuidarei deles como se fossem os meus, portanto não precisa se preocupar. - A voz endureceu. - Por favor, pegue-os, Inglês, só nos resta pouco tempo.

- Não posso. Sumiram. Estavam no meu baú.

- Você não os teria deixado aí, vindo para um porto estrangeiro. Não se esqueceria da primeira regra de um piloto: escondê-los cuidadosamente, e deixar apenas cópias falsas desprotegidas. Vamos!

- Foram roubados!

- Não acredito em você. Mas admitirei que os tenha escondido muito bem. Procurei durante horas e não encontrei nem sombra deles.

- O quê?

- Por que tão surpreso, Inglês? Está com a cabeça enfiada na bunda? Naturalmente vim de Osaka até aqui para examinar os seus portulanos!

- Você já esteve a bordo?

- Nossa Senhora! - disse Rodrigues com impaciência. - Sim, claro, duas ou três horas atrás, com Hiromatsu, que queria dar uma olhada. Ele rompeu os lacres e depois, quando fomos embora, o daimio local lacrou o navio de novo. Apresse-se, por Deus. A areia está esgotando.

- Foram roubados! - Blackthorne contou-lhe como haviam chegado e como despertara em terra. Depois chutou o baú para o outro lado da sala, enfurecido com os homens que haviam saquêado o seu navio. - Foram roubados! Todas as minhas cartas! Todos os meus portulanos! Tenho cópias de alguns na Inglaterra, mas o meu portulano desta viagem sumiu e o... — Ele se deteve.

- E o portulano português? Vamos, Inglês, tinha que ser português.

- Sim, e o português sumiu também. - Controle-se, pensou. Sumiram e acabou. Quem será que os tem? Os japoneses? Ou será que os deram ao padre? Sem os portulanos e as cartas você não pode pilotar de volta para casa. Nunca chegará a casa... Isso não é verdade. Pode voltar com cuidado, e uma sorte enorme... Não seja ridículo! Está a meio caminho em torno do globo, em terra inimiga, em mãos inimigas, e não tem nem portulano nem cartas. - Oh, Jesus, dê-me forças!

Rodrigues observava-o atentamente. Finalmente disse:

- Sinto muito por você, Inglês. Sei como se sente. Aconteceu comigo uma vez. Foi um inglês também, o ladrão. Possa o navio dele estar no fundo do mar e ele estar ardendo no inferno para sempre. Vamos, vamos voltar.

 

Omi e os outros esperaram no molhe até que a galera contornasse o promontório e desaparecesse. Para oeste, laivos de noite já manchavam o céu carmesim. Para leste, a noite unia céu e mar, sem horizonte.

- Mura, quanto tempo vai levar para recolocar todos os canhões no navio?

- Se passarmos a noite trabalhando, pelo meio-dia de amanhã estará terminado, Omi-san. Se começarmos ao amanhecer, terminaremos bem antes do pôr-do-sol. Seria mais seguro trabalhar durante o dia.

- Trabalhem durante a noite. Tragam o padre ao buraco imediatamente.

Omi deu uma olhada em Igurashi, o primeiro lugar-tenente de Yabu, que ainda estava olhando na direção do promontório, o rosto tenso, a lívida cicatriz sobre a cavidade do seu olho vazado lugubremente ensombrecida. - Seria bem-vindo se ficasse, Igurashi-san. Minha casa é pobre, mas talvez possamos recebê-lo confortavelmente.

- Obrigado - disse o homem mais velho, voltando-se para ele -, mas nosso amo disse que eu retornasse a Yedo imediatamente, portanto retornarei imediatamente. - Sua preocupação transparecia ainda mais. - Gostaria de estar naquela galera.

- Sim.

- Odeio a idéia de Yabu-sama estar a bordo com apenas dois homens. Odeio.

- Sim.

Apontou para o Erasmus. - Um navio do Demônio, é isso o que é! Tanta riqueza, depois nada.

- Será com certeza? Será que o Senhor Toranaga não ficará satisfeito, enormemente satisfeito, com o presente do Senhor Yabu?

- Aquele ladrão de províncias é tão cheio de si e da própria importância que não vai sequer notar o montante de prata que roubou do nosso amo. Onde estão os seus miolos?

- Presumo que tenha sido apenas a preocupação com um possível perigo contra o nosso senhor que o induziu a fazer essa observação.

- Tem razão, Omi-san. Não tive a intenção de insultar.

- Você foi muito inteligente e útil para o nosso amo. Talvez também tenha razão quanto a Toranaga - disse Igurashi, mas estava pensando. Aproveite a sua riqueza recente, seu pobre tolo! Conheço meu amo melhor do que você, e o seu feudo aumentado não lhe fará bem em absoluto. A sua promoção teria sido uma retribuição justa pelo navio, o dinheiro e as armas. Mas agora isso tudo 'sumiu. E por sua causa, meu amo está em perigo. Você mandou a mensagem e o tentou, dizendo: "Veja os bárbaros primeiro". Deveríamos ter partido ontem. Sim, então meu amo estaria longe daqui agora, em segurança, com o dinheiro e as armas. Você é um traidor? Está agindo para si mesmo ou para o seu estúpido pai, ou para um inimigo?,Para Toranaga, talvez? Não importa. Pode acreditar em mim, Omi, seu jovem tolo comedor de bosta, você e o seu ramo do clã Kasigi não vão durar muito nesta terra. Eu lhe diria isso na cara, mas então teria que matá-lo e isso seria menosprezar a confiança do meu amo. É ele quem deve dizer quando, não eu. - Obrigado pela sua hospitalidade, Omi-san - disse. - Ficarei ansioso por revê-lo em breve, mas agora vou me pôr a caminho.

- Faria uma coisa para mim, por favor? Transmita os meus respeitos a meu pai. Eu ficaria muito agradecido.

- Eu ficaria muito feliz em fazer isso. Ele é um excelente homem. E ainda não cumprimentei a você pelo novo feudo.

- O senhor é muito gentil.

- Obrigado novamente, Omi-san. - Ergueu a mão numa saudação amigável, fez um gesto aos seus homens, e conduziu a falange de cavaleiros para fora da aldeia.

Omi foi até o buraco. O padre estava lá. Omi podia ver que o homem estava zangado e esperou que ele fizesse alguma coisa abertamente, publicamente, para trucidá-lo.

- Padre, diga aos bárbaros que subam, um de cada vez. Diga-lhes que o Senhor Yabu disse que eles podem viver novamente no mundo dos homens. - Omi mantinha a linguagem deliberadamente simples. - Mas à menor infração a uma regra, dois deles serão colocados de novo no buraco. Eles devem se comportar e obedecer a todas as ordens. Está claro?

- Sim.

Omi fez o padre repetir. Quando teve certeza de que o homem sabia tudo corretamente, fê-lo falar para dentro do buraco. Os homens subiram, um a um. Estavam todos atemorizados. Alguns tiveram que ser ajudados. Um homem estava sentindo dores fortes e gritava sempre que alguém lhe tocava o braço.

- Devia haver nove.

- Um está morto. O corpo está lá embaixo, no buraco - disse o padre.

Omi pensou um instante.

- Mura, queime o cadáver e  conserve as cinzas junto com as do outro bárbaro. Ponha esses  homens na mesma casa onde estavam antes. Dê-lhes muita verdura e peixe. E sopa de cevada e frutas. Mande lavá-los. Eles fedem. Padre, diga-lhes que, se se comportarem e obedecerem, continuarão recebendo comida.

Omi observou e ouviu cuidadosamente. Viu-os reagir com reconhecimento e pensou, com desprezo: Que estúpidos! Privo-os por apenas dois dias, depois concedo-lhes uma ninharia e agora eles comeriam bosta, realmente comeriam. - Mura, ensine-os a se curvar adequadamente e leve-os daqui.

Depois voltou-se para o padre. - Bem?

- Eu vou agora. Vou minha casa. Deixo Anjiro.

- É melhor que parta e fique longe para sempre, você e  todos os padres como você. Talvez a próxima vez que venha ao  meu feudo seja porque alguns dos meus camponeses cristãos ou  vassalos estejam pensando em traição - disse, usando a ameaça  velada e o estratagema clássico que os samurais anticristãos usavam para controlar a difusão indiscriminada do dogma estrangeiro  nos seus feudos, pois, embora os padres estrangeiros fossem protegidos, os japoneses convertidos não o eram.

- Cristãos bons japoneses. Sempre. Somente bons vassalos. Nunca tiveram maus pensamentos. Não.

- Fico contente em ouvir isso. Não se esqueça de que o meu feudo se estende a vinte ris em todas as direções. Compreendeu?

- Compreendo. Sim. Compreendo muito bem.

Viu o padre curvar-se rigidamente - até os padres bárbaros deveriam ter boas maneiras - e se afastar.

- Omi-san? - disse um dos seus samurais. Era jovem e muito bonito.

- Sim?

- Por favor, desculpe-me, sei que não se esqueceu, mas Masijiro-san ainda está no buraco. - Omi se aproximou do alçapão e olhou fixamente para o samurai lá embaixo. Imediatamente o homem se pôs de joelhos, curvando-se respeitoso.

Os dois dias o haviam envelhecido. Omi sopesou seu serviço passado e o valor futuro. Então pegou a adaga do cinto do jovem samurai e atirou-a no buraco.

Ao pé da escada, Masijiro arregalou os olhos para a faca, não acreditando no que via. Lágrimas começaram a correr-lhe pelo rosto.

- Não mereço esta honra, Omi-san - disse abjetamente.

- Sim.

- Obrigado.

O jovem samurai ao lado de Omi disse:

- Posso, por favor, pedir que ele seja autorizado a cometer seppuku aqui, na praia?

- Ele falhou lá dentro. Fica lá dentro. Ordene aos aldeões que encham o buraco. Eliminem qualquer vestígio dele. Os bárbaros o conspurcaram.

 

Kiku riu e balançou a cabeça.

- Não, Orni-san, sinto muito, por favor, nada de mais saquê para mim ou o meu cabelo vai desabar, eu vou desabar, e então onde estaríamos?

- Eu desabaria com você e nós nos deitaríamos e estaríamos no nirvana, fora de nós mesmos - disse Omi, feliz, a cabeça girando por causa do vinho.

- Ah, mas eu estaria roncando, e o senhor não pode se deitar com uma horrível garota bêbada que ronca e ter muito prazer nisso. Certamente não, sinto muito. Oh, não, Omi-sama do Novo Feudo Enorme, o senhor merece muito mais do que isso! - Ela verteu outro dedal do vinho quente no minúsculo cálice de porcelana e ofereceu-o com as duas mãos, o indicador e o polegar esquerdos delicadamente segurando o cálice, o indicador direito tocando-lhe a face inferior. - Aqui está, porque o senhor é maravilhoso!

Ele aceitou e bebeu, apreciando o calor e o sabor adocicado da bebida.

- Estou tão contente por ter conseguido convencê-la a ficar um dia extra, neh? Você é tão bonita, Kiku-san.

- O senhor é bonito, e o prazer é meu. - Os olhos dela dançavam à luz da vela encerrada numa flor de papel e bambu que pendia da viga de cedro. Aquele era o melhor conjunto de quartos na casa de chá perto da praça. Ela se inclinou para servir-lhe mais arroz da tigela simples de madeira que estava sobre a mesa baixa laqueada na frente dele, mas Omi sacudiu a cabeça.

- Não, não, obrigado.

- Devia comer mais, um homem forte como o senhor.

- Estou satisfeito, realmente.

Ele não retribuiu o oferecimento porque ela mal havia tocado a pequena salada - pepinos cortados em fatias finas e minúsculos rabanetes esculpidos, em conserva no vinagre doce -, que fora tudo o que aceitara da refeição toda. Tinha havido pedacinhos de peixe cru sobre bolas de arroz em papa, sopa, a salada, e verduras frescas servidas com um molho picante de soja e gengibre. E arroz. Ela bateu palmas suavemente e a shoji foi aberta imediatamente pela sua empregada particular.

- Sim, ama?

- Suisen, leve todas estas coisas embora e traga mais saquê e outro bule de chá. E frutas. O saquê deve estar mais quente do que da última vez. Vamos, boa-para-nada! - Tentou soar imperiosa.

Suisen tinha catorze anos, era meiga, ansiosa por agradar, e uma aprendiz de cortesã. Estava com Kiku há dois anos e Kiku era responsável pelo seu treinamento. Com um esforço, Kiku afastou os olhos do puro arroz branco que adoraria ter comido e ignorou a própria fome. Você comeu antes de chegar e comerá depois, lembrou-se a si mesma. Sim, mas ainda assim é tão pouco! "Ah, mas as damas têm um apetite minúsculo, realmente minúsculo", costumava dizer sua professora. "Os hóspedes comem e bebem - quanto mais melhor. As damas não, e certamente nunca com os hóspedes. Como podem conversar ou entreter ou tocar o samisen ou dançar se estiverem enchendo a boca? Você comerá mais tarde, seja paciente. Concentre-se no seu hóspede."

Enquanto observava Suisen criticamente, avaliando-lhe a habilidade, contava histórias a Omi para fazê-lo rir e esquecer o mundo exterior. A jovem se ajoelhou ao lado dele, arrumou as tigelinhas e os pauzinhos sobre a bandeja de laca numa disposição agradável, conforme fora ensinada. Depois pegou o frasco de saquê vazio, inclinou-o para ter certeza de que estava vazio - teria sido muita falta de educação sacudi-lo -, em seguida se levantou com a bandeja, levando-a silenciosamente até a porta shoji, ajoelhou-se, pôs a bandeja no chão, abriu a porta, levantou-se, atravessou a porta, ajoelhou-se de novo, levantou a bandeja, colocou-a no chão novamente, do lado de fora, sempre em silêncio, e fechou a porta completamente.

- Realmente preciso arrumar outra criada - disse Kiku, sem estar descontente. Essa cor fica bem nela, estava pensando. Preciso mandar buscar mais um pouco dessa seda em Yedo. Que vergonha ser tão cara! Não importa, com todo o dinheiro que foi dado a Gyoko-san pela noite passada e por hoje, haverá mais que o suficiente, da minha parte, para comprar para a pequena Suisen vinte quimonos. É uma criança tão meiga, e realmente muito graciosa. - Ela faz tanto barulho... perturba o aposento todo ... sinto muito.

- Não a notei. Só a você - disse Omi, terminando o vinho. Kiku agitou o leque, seu sorriso iluminando-lhe o rosto. - O senhor faz que eu me sinta muito bem, Omi-san. Sim. E amada.

Suisen trouxe o saquê rapidamente. E o chá. A ama verteu no cálice um pouco de vinho para Omi e passou-o a ele. A jovenzinha discretamente encheu os cálices. Não derramou uma gota e achou que o som que o líquido fazia caindo no cálice tinha exatamente o timbre suave que devia ter, por isso suspirou intimamente, com um alívio imenso, sentou-se sobre os calcanhares, e esperou.

Kiku estava contando uma história divertida que ouvira de uma das amigas em Mishima, e Omi ria. Enquanto fazia isso, ela pegou uma das pequenas laranjas e, usando as longas unhas, abriu-a como se fosse uma flor, os gomos da fruta as pétalas, as divisões da pele as folhas. Removeu um gomo do núcleo e ofereceu-o com as duas mãos, como se fosse o modo usual de uma dama servir a fruta ao seu convidado.

- Aceita uma laranja, Omi-san?

A primeira reação de Omi foi dizer: Não posso destruir essa beleza. Mas isso seria inepto, pensou ele, deslumbrado pelo talento dela. Como posso cumprimentá-la, e à sua anônima professora? Como posso retribuir a felicidade que ela me deu deixando-me ver-lhe os dedos criar uma coisa tão preciosa e no entanto tão efêmera?

Segurou a flor nas mãos um instante, depois agilmente removeu quatro gomos equidistantes uns dos outros, e comeu-os com prazer. Isso deixou uma nova flor. Ele removeu mais quatro gomos, criando um terceiro desenho floral. Em seguida pegou um gomo e moveu um segundo, de modo que os três remanescentes ainda fizessem outra flor. Então pegou dois gomos e recolocou o último no centro da base da laranja, como se fosse uma lua crescente dentro de um sol. Comeu um muito lentamente. Quando terminou, pôs o outro no centro da mão e ofereceu a ela. - Este você deve aceitar porque é o penúltimo. É o meu presente para você.

Suisen mal podia respirar. Para que era o último?

Kiku pegou a fruta e comeu-a. Era a melhor que jamais provara.

- Este último - disse Omi, colocando a flor inteira gravemente sobre a palma da mão direita - é o meu presente aos deuses, sejam eles quem forem, estejam onde estiverem. Nunca comerei esta fruta novamente, a menos que venha das suas mãos.

- Isso é demais, Omi-san! - disse Kiku-san. - Liberto-o do seu voto! Isso foi dito sob a influência do kami que vive em todas as garrafas de saquê!

- Recuso-me a ser libertado.

Estavam os dois muito felizes juntos.

- Suisen - disse ela -, deixe-nos agora. E por favor, criança, por favor, tente fazê-lo com graça.

- Sim, ama. - A jovem dirigiu-se para o aposento contíguo e examinou se os futons estavam meticulosamente em ordem, os instrumentos do amor' e as pérolas do prazer perto, à mão, e as flores perfeitas. Uma ruga imperceptível foi alisada na coberta já alisada. Depois, satisfeita, Suisen se sentou, suspirou de alívio, abanou-se com o leque lilás para diminuir o calor do rosto, e esperou, contente.

No cômodo ao lado, que era o mais requintado da casa de chá, o único com um jardim só seu, Kiku pegou o longo samisen.

Era de três cordas, parecido com uma guitarra, e o primeiro acorde sublime de Kiku encheu o quarto. Depois ela começou a cantar. Primeiro suave, depois penetrante, suave de novo, depois mais baixo, mais suave suspirando suavemente, sempre suavemente, ela cantou sobre o amor, o amor não correspondido, a felicidade e a tristeza.

- Ama? - O sussurro não teria perturbado o mais leve dos sonos, mas Suisen sabia que a ama preferia não dormir depois das nuvens e da chuva, mesmo que a chuva fosse forte. Preferia descansar, meio desperta, em meio à tranqüilidade.

- Sim, Sui-chan? - sussurrou Kiku tão quietamente quanto a criada, usando "chan", como se faria com uma criança favorita.

- A esposa de Omi-san voltou. O palanquim dela acabou de subir pelo caminho em direção de casa.

Kiku deu uma olhada em Omi. Tinha o pescoço confortavelmente apoiado sobre o travesseiro de madeira macia, os braços cruzados. Seu corpo era forte e sem marcas, a pele firme e dourada, com reflexos aqui e ali. Ela o acariciou suavemente, o suficiente para fazer o toque passar-lhe para o sonho, mas não o suficiente para despertá-lo. Depois deslizou de sob o acolchoado e passou o quimono em torno do corpo.

Levou muito pouco tempo para refazer a maquilagem enquanto Suisen lhe penteava e escovava o cabelo e o amarrava de novo no estilo shimoda. Depois patroa e empregada caminharam silenciosamente pelo corredor, saíram para a varanda, atravessaram o jardim e dirigiram-se para a praça. Havia botes, como pirilampos, cobrindo o percurso entre o navio bárbaro e o quebra-mar, onde ainda havia sete canhões para serem carregados. A noite ainda ia alta, faltava muito para o amanhecer.

As duas mulheres passaram rápidas e silenciosas ao longo da estreita alameda entre um amontoado de casas e começaram a subir o caminho.

Carregadores exaustos e cobertos de suor recuperavam as forças junto do palanquim no topo da colina, do lado de fora da casa de Orni. Kiku não bateu no portão do jardim. Havia velas acesas na casa e criados correndo de um lado para o outro. Fez um gesto para Suisen, que imediatamente se dirigiu para a varanda, para a porta dianteira, bateu e esperou. Num instante a porta se abriu. A criada assentiu com a cabeça e desapareceu. Outro instante e a criada voltou. Chamou Kiku com um aceno e fez uma profunda reverência quando esta passou com dignidade. Outra criada precipitou-se na frente e abriu a shoji do melhor aposento.

A cama da mãe de Omi estava intacta. Ninguém dormira ali. A mãe estava sentada, rigidamente ereta, perto do pequeno nicho que sustentava o arranjo de flores. Uma pequena janela shoji abria-se para o jardim. Midori, esposa de Omi, estava em frente à sogra.

Kiku ajoelhou-se. Faz só uma noite que eu estive aqui, aterrorizada na noite dos gritos? Curvou-se, primeiro para a mãe de Omi, depois para a esposa, sentindo a tensão entre as duas mulheres. Por que será que há sempre tanta violência entre sogra e nora? perguntou a si mesma. A nora não se torna sogra, um dia? Por que então ela sempre trata a própria nora com língua viperina e faz da vida dela uma miséria, e por que a garota faz o mesmo quando chega a sua vez? Ninguém aprende?

- Sinto muito perturbá-la, Ama-san.

- É muito bem-vinda, Kiku-san - replicou a velha. - Não há problema algum, espero?

- Oh, não, mas eu não sabia se a senhora gostaria ou não que eu despertasse seu filho - disse, já sabendo a resposta.

- Achei que era melhor perguntar-lhe, já que - voltou-se, sorriu, curvou-se ligeiramente para Midori, de quem gostava muito - a senhora voltou.

- E muito gentil, Kiku-san   disse a velha -, e muito previdente. Não, deixe-o em paz.

- Muito bem. Por favor, desculpe por perturbá-la assim, mas achei que era melhor perguntar. Midori-san, espero que a viagem não tenha sido muito má.

- É lamentável, mas foi horrível - disse Midori. - Estou contente de estar de volta e odiei estar longe. Meu marido está  bem?

- Sim, muito bem. Riu muito esta noite e pareceu estar feliz. Comeu e bebeu frugalmente e está dormindo sonoramente.

- A Ama-san estava começando a me contar algumas das coisas terríveis que aconteceram enquanto estive fora e...

- Você não devia ter ido. Era necessária aqui - interrompeu a velha, com rancor na voz. - Ou talvez não. Talvez devesse ter ficado longe definitivamente. Talvez você tenha trazido um mau kami para a nossa casa junto com a sua roupa de cama.

- Eu nunca faria isso, Ama-san - disse Midori pacientemente. - Por favor, acredite que eu preferiria me matar a trazer a mais leve mácula ao seu bom nome. Por favor, perdoe-me por ter estado ausente e pelos meus erros. Sinto muito.

- Desde que aquele navio diabólico chegou aqui só tivemos problemas. Isso é mau karni. Muito mau. E onde você estava quando foi necessária? Tagarelando em Mishima, enchendo a barriga e bebendo saquê.

- Meu pai morreu, Ama-san. Um dia antes de eu chegar.

- Hum, você não teve nem a cortesia ou a previdência de estar junto do leito de morte de seu pai. Quanto mais depressa você deixar nossa casa permanentemente, melhor para todos nós. Quero chá. Temos uma hóspede aqui e você nem se lembrou o suficiente da sua educação para oferecer-lhe um refrigério!

- Foi pedido, imediatamente, no momento em que ela...

- Não chegou imediatamente! - A shoji se abriu. Uma empregada, nervosa, trouxe chá e alguns doces. Primeiro Midori serviu a velha, que imprecou asperamente contra a criada e deu uma dentada sem dentes num doce, sorvendo ruidosamente a sua bebida. - Deve desculpar a criada, Kiku-san - disse. - O chá está sem gosto. Sem gosto! E escaldante. Suponho que só se pode esperar que isso aconteça nesta casa.

- Tome, por favor, fique com o meu. - Midori soprou gentilmente sobre o chá para esfriá-lo.

A velha pegou-o com má vontade.

- Por que não ser correto da primeira vez? - Mergulhou num silêncio mal-humorado.

- O que pensa de tudo isso? - perguntou Midori a Kiku.

- O navio, Yabu-sama e Toda Hiromatsu-sama?

- Não sei o que pensar. Quanto aos bárbaros, quem sabe? Certamente são uma extraordinária coleção de homens. E o grande daimio, Punho de Aço? É muito curioso que tenha chegado quase ao mesmo tempo que o Senhor Yabu, neh? Bem, a senhora deve me desculpar, não, por favor, preciso ir embora.

- Oh, não, Kiku-san, não quero nem ouvir falar nisso.

- Aí está, Midori-san - interrompeu a velha com impaciência. - Nossa hóspede está desconfortável e o chá, terrível.

- Oh, o chá é suficiente para mim, Ama-san, realmente. Não, se me desculparem, estou um pouco cansada. Talvez antes de partir, amanhã, eu possa ser autorizada a vir vê-las. É sempre um imenso prazer conversar com as senhoras.

A velha permitiu-se ser bajulada e Kiku seguiu Midori à varanda e ao jardim.

- Kiku-san, você é tão atenciosa - disse Midori, segurando-lhe o braço, aquecida pela beleza dela. - Foi muito gentil de sua parte, obrigada.

Kiku deu uma olhada para trás, para a casa, e arrepiou-se:

- Ela é sempre assim?

- Hoje foi cortês, comparada a algumas vezes. Se não fosse por Omi e por meu filho, juro que lhe sacudiria o pó de sob meus pés, rasparia a cabeça e me tornaria monja. Mas tenho Omi e o meu filho, e isso compensa tudo. Só agradeço a todos os  kamis por isso. Felizmente Ama-san prefere Yedo e não consegue  ficar muito tempo longe de lá. - Midori sorriu tristemente. -  A gente se treina para não ouvir, você sabe como é. - Suspirou, muito bonita ao luar. - Mas isso não tem importância. Conte-me  o que aconteceu desde que parti.

Fora por isso que Kiku viera à casa com tanta urgência, pois obviamente nem a mãe nem a esposa gostariam que o sono de Omi fosse perturbado. Viera para contar tudo à adorável Senhora Midori, de modo que ela pudesse ajudar a proteger Kasigi Omi, assim como ela mesma tentaria fazê-lo. Contou-lhe tudo o que sabia, exceto o que acontecera no quarto com Yabu. Acrescentou os rumores que ouvira e as histórias que as outras garotas lhe haviam passado ou inventado. E tudo o que Omi lhe dissera - suas esperanças e temores e planos -, tudo sobre ele, exceto o que acontecera no quarto naquela noite. Sabia que isso não era importante para a esposa.

- Tenho medo, Kiku-san, medo pelo meu marido.

- Tudo o que ele aconselhou foi sábio, senhora. Acho que tudo o que fez foi correto. O Senhor Yabu não recompensa ninguém levianamente e três mil kokus é um aumento respeitável.

- Mas o navio é do Senhor Toranaga agora, e todo aquele dinheiro.

- Sim, mas Yabu-sama oferecer o navio como presente foi uma idéia de gênio. Omi-san deu a idéia a Yabu, e certamente isso em si já é pagamento suficiente, neh? Omi-san deve ser reconhecido como um vassalo proeminente. - Kiku torceu a verdade só um pouquinho, sabendo que Omi estava em grande perigo, e toda a sua casa. O que tem que ser será, lembrou a si mesma. Mas não há mal em desanuviar o rosto de uma bela mulher.

- Sim, posso ver isso - disse Midori. Faça que isso seja verdade, rezou. Por favor, faça que isso seja verdade. Abraçou a garota, os olhos cheios de lágrimas. - Obrigada. Você é muito gentil, Kiku-san, muito gentil. - Ela tinha dezessete anos.

 

- O que acha, Inglês?

- Acho que vai haver uma tempestade.

- Quando?

- Antes do pôr-do-sol.

Era quase meio-dia e os dois estavam em pé no tombadilho da galera, sob um céu de chumbo. Era o segundo dia ao mar.

- Se este navio fosse seu, o que você faria?

- A que distância estamos do nosso ponto de chegada? perguntou Blackthorne.

- Chegaremos depois do pôr-do-sol.

- A que distância estamos da terra mais próxima?

- Quatro ou cinco horas, Inglês. Mas correr para um abrigo vai nos custar meio dia e não posso me permitir isso. O que você faria?

Blackthorne pensou um instante. Durante a primeira noite a galera rumara velozmente para o sul, seguindo a costa leste da península de Izu, ajudada pela grande vela do mastro no meio do navio. Quando passaram diante do cabo mais ao sul, cabo Ito, Rodrigues estabelecera a rota oeste-sul-oeste, e trocara a segurança da costa por mar aberto, rumando para o cabo Shinto, a duzentas milhas.

- Normalmente numa galera como esta acompanhamos a costa, por segurança - dissera Rodrigues -, mas isso toma tempo demais e o tempo é importante. Toranaga me pediu que levasse Toady a Anjiro e voltasse. Rapidamente. Há um prêmio para mim se formos bem rápidos. Um dos pilotos deles seria exatamente tão bom quanto eu num trajeto curto como este, mas o pobre filho de uma puta morreria de medo de levar um daimio tão importante quanto o Toady, particularmente longe da vista de terra. Eles não são de oceano, os japoneses. Ótimos piratas, lutadores e marinheiros costeiros. Mas o mar alto os assusta. O velho taicum até fez uma lei dizendo que os poucos navios oceânicos japoneses viajem sempre com pilotos portugueses a bordo. Essa lei ainda está em vigor.

- Por que ele fez isso?

Rodrigues dera de ombros.

- Talvez alguém lhe tenha sugerido.

- Quem?

- O seu portulano roubado, Inglês, o português. De quem era?

- Não sei. Não havia nome nele, nenhuma assinatura.

- Onde o conseguiu?

- Do mercador-chefe da Companhia Holandesa das índias Orientais.

- De onde ele conseguiu?

Blackthorne sacudira os ombros. A risada de Rodrigues não continha humor.

- Bem, nunca esperei que você me dissesse, mas seja quem for que o tenha roubado e vendido, espero que queime no fogo do inferno para sempre!

- Você é empregado desse Toranaga, Rodrigues?

- Não. Estávamos só visitando Osaka, o meu capitão e eu. Isto foi só um favor para Toranaga. Meu capitão me ofereceu voluntariamente. Sou piloto do... - Rodrigues se detivera. - Sempre esqueço que você é inimigo, Inglês.

- Portugal e Inglaterra foram aliados durante séculos.

- Mas agora não somos. Vá lá para baixo, Inglês. Você está cansado, eu também, e homens cansados cometem erros. Volte para o convés quando estiver descansado.

Blackthorne descera para a cabina do piloto e se deitara no beliche. O portulano de Rodrigues para a viagem encontrava-se sobre a arca que estava presa ao tabique do mesmo modo que a cadeira do piloto no tombadilho. O livro tinha capa de couro e era muito usado, mas Blackthorne não o abriu.

- Por que deixá-lo aí? - havia perguntado antes.

- Se não deixar, você vai procurá-lo. Mas estando aí você não o tocará, nem o olhará, sem ser convidado. Você é um piloto, não um mercador ou soldado corrupto e ladrão.

- Vou lê-lo. Você faria isso.

- Não sem ser convidado, Inglês. Nenhum piloto faria isso. Nem eu faria!

Blackthorne olhara o livro um instante, depois fechara os  olhos. Dormiu profundamente, aquele dia todo e parte da noite.  Faltava pouco para o amanhecer quando despertou, como sempre.  Levou tempo para se acostumar ao movimento desajeitado da  galera e à batida do tambor que mantinha os remos movendo-se  como um só. Estava confortavelmente deitado de costas, os braços sob a cabeça. Pensou no seu navio e afastou a preocupação  quanto ao que aconteceria quando chegassem a Osaka. Uma coisa  de cada vez. Pense em Felicity, em Tudor, no lar. Não, agora não.

Pense que se os outros portugueses são como Rodrigues, você tem uma boa chance agora. Vai pegar um navio de volta para casa. Pilotos não são inimigos, e dane-se o resto! Mas você não pode  dizer isso, mocinho. Você é inglês, o herege odiado e anticristo. Os católicos são os donos deste mundo. Eram os donos. Agora,  nós e os holandeses vamos esmagá-los.

Que absurdo tudo isso! Católicos, protestantes, calvinistas, luteranos e todas as outras merdas iguais. Você devia ter nascido católico. Foi só o destino que levou seu pai para a Holanda, onde conheceu uma mulher, Anneke van Croste, que se tornou mulher dele, e onde viu católicos espanhóis, padres espanhóis e a Inquisição pela primeira vez. Ainda bem que ele abriu os olhos, pensou  Blackthorne. Ainda bem que os meus estão abertos.

Depois foi para o convés. Rodrigues estava sentado na sua cadeira, os olhos estriados de vermelho pela falta de sono, dois marujos japoneses ao leme como antes.

- Posso pegar este turno para você?

- Como se sente, Inglês?

- Descansado. Posso pegar o turno para você? - Blackthorne viu Rodrigues medindo-o. - Eu o acordo se o vento mudar, ou outra coisa acontecer.

- Obrigado, Inglês. Sim, vou dormir um pouco. Mantenha esta rota. Quando virar a ampulheta, vá quatro graus mais para oeste, na virada seguinte, mais seis, sempre para oeste. Terá que apontar a nova rota na bússola para o timoneiro. Wakarimasu ka?

- Hai! - Blackthorne riu. - Quatro pontos para oeste.

- Desça, piloto, o seu beliche é confortável.

Mas Vasco Rodrigues não desceu. Simplesmente puxou a sua capa mais para junto do corpo e instalou-se mais profundamente na cadeira do convés. Pouco antes da virada da ampulheta, despertou momentaneamente, examinou a mudança de rota sem se mover e imediatamente caiu no sono de novo. Uma hora, quando o vento virou, ele despertou e, vendo que não havia perigo, novamente adormeceu.

Hiromatsu e Yabu vieram ao convés durante a manhã.

Backthorne notou a surpresa deles ao vê-lo pilotando o navio e Rodrigues dormindo. Não falaram com ele, mas voltaram à conversa que estavam tendo e, mais tarde, desceram novamente.

Por volta do meio-dia Rodrigues se levantou da cadeira de convés para olhar na direção nordeste, farejando o vento, todos os sentidos concentrados. Os dois homens estudaram o mar, o céu e as nuvens invasoras.

- O que você faria, Inglês, se este fosse o seu navio? -

disse Rodrigues novamente.

- Eu escaparia para a costa se soubesse onde ela está, para o ponto mais próximo. Esta nave não vai agüentar muita água e há uma tempestade bem ali. A umas quatro horas daqui.

- Não pode ser taifun - resmungou Rodrigues.

- O quê?

- Taifun. São imensos vendavais, as piores tempestades que você jamais viu. Mas não estamos na época de taifun.

- Quando é a época?

- Não é agora, inimigo. - Rodrigues riu. - Não, não agora. Mas isso poderia ser mau o bastante, de modo que vou aceitar o seu conselho. Mude a rota para norte.

Enquanto Blackthorne mostrava o novo curso e o timoneiro virava o navio com destreza, Rodrigues foi até a amurada e gritou para o capitão:

- Isogi! Capitão-san. Wakarimasu ka?

- Isogi, hai!

- O que é isso? Apresse-se?

Os cantos dos olhos de Rodrigues se enrugaram, risonhos.

- Não faz mal que você saiba um pouco de japonês, hein? Claro, Inglês, "isogi" quer dizer "apressar-se". Tudo de que você precisa aqui são umas dez palavras e então você pode fazer esses sodomitas cagarem se quiser. Se forem as palavras certas, é claro, e se eles estiverem com disposição. Vou descer agora, para comer alguma coisa.

- Você também cozinha?

- No Japão, todo homem civilizado tem que cozinhar, ou tem que treinar pessoalmente um dos macacos para cozinhar, senão morre de fome. Tudo o que comem é peixe cru e verduras cruas num vinagre doce de conserva. Mas a vida aqui pode ser incrível se você souber como.

- "Incrível" é bom ou mau?

- Na maioria das vezes é muito bom, mas às vezes é terrivelmente mau. Tudo depende de como a gente se sente, e você faz perguntas demais. - Rodrigues foi lá para baixo. Trancou a porta de sua cabina o cuidadosamente examinou o fecho da sua arca. O fio de cabelo que colocara sutilmente continuava lá. E um fio semelhante, igualmente invisível para qualquer um menos para ele, que colocara na capa do portulano, também permanecia intacto.

Não se pode ser cuidadoso demais neste mundo, pensou Rodrigues. Será que há algum perigo em que ele saiba que você é o      piloto da Nao del Trato, o grande Navio Negro que vem de Macau este ano? Talvez. Porque então você teria que explicar que o navio é um leviatã, um dos maiores e mais ricos navios do mundo, mais de mil e seiscentas toneladas. Você poderia se sentir tentado a falar-lhe sobre a carga, sobre comércio e sobre Macau, e  todo tipo de coisas esclarecedoras que são muitíssimo particulares e  muitíssimo secretas. Mas estamos em guerra, nós contra os ingleses o holandeses.

Abriu o fecho bem oleado e tirou seu portulano particular para verificar algumas posições para a enseada mais próxima e seus olhos viram o pacote lacrado que o Padre Sebastio lhe dera pouco antes de deixarem Anjiro. Será que isso contém os portulanos do inglês? - perguntou a si mesmo novamente.

Sopesou o pacote e olhou os lacres jesuítas, altamente tentado a rompê-los. Blackthorne lhe contara que a esquadra holandesa viera pelo estreito de Magalhães e pouca coisa mais. O inglês faz muitas perguntas e não fala nada voluntariamente, pensou Rodrigues. É astuto, inteligente e perigoso.

Será que isto são os portulanos dele ou não? Se forem, que serventia têm para os santos padres?

Estremeceu ao pensar em jesuítas, franciscanos, dominicanos, em todos os monges e padres e na Inquisição. Há padres bons e maus, na maior parte maus, mas ainda assim são padres. A Igreja tem que ter padres, e sem eles para interceder por nós somos ovelhas perdidas neste mundo satânico. Oh, Nossa Senhora, proteja-me do mal e dos maus padres!

Ainda na enseada de Anjiro, Rodrigues estava na sua cabina com Blackthorne, quando a porta se abrira e o Padre Sebastio entrara sem ser convidado. Os dois tinham comido e bebido, e as sobras ainda se encontravam nas tigelas de madeira.

- Você reparte o pão com hereges? - perguntara o padre.

- É perigoso comer com eles. São infectos. Ele lhe disse que é pirata?

- É cristão ser cavalheiro com os inimigos, padre. Quando estive nas mãos deles, foram justos comigo. Só estou retribuindo a caridade deles. - Havia se ajoelhado e beijado a cruz do padre. Depois se levantara e, oferecendo vinho, dissera: - Em que posso ajudá-lo?

- Quero ir para Osaka. No navio.

- Vou perguntar a eles imediatamente. - Saíra, perguntara ao capitão, e a solicitação subira gradualmente até Toda Hiromatsu, que respondera que Toranaga não dissera nada sobre levar um padre estrangeiro de Anjiro, de modo que lamentava não poder levar o padre estrangeiro de Anjiro.

O Padre Sebastio quisera conversar em particular com ele, então mandara o inglês para o convés e depois, na intimidade da cabina, o padre lhe exibira o pacote lacrado.

- Gostaria que entregasse isto ao padre-lnspetor.

- Não sei se Sua Eminência ainda estará em Osaka quando eu chegar lá. - Rodrigues não gostava de ser portador de segredos jesuítas. - Talvez eu tenha que voltar para Nagasaki. Meu capitão-mor pode ter me deixado ordens.

- Então entregue ao Padre Alvito. Certifique-se de que vai entregar isto apenas nas mãos dele.

- Muito bem - dissera ele.

- Quando foi que se confessou pela última vez, meu filho?

- No domingo, padre.

- Gostaria de se confessar agora?

- Sim, obrigado. - Ficara agradecido de que o padre lhe perguntasse, pois nunca se sabia quando é que a vida da gente dependia do mar, e depois da confissão se sentira muito melhor, como sempre.

Agora na cabina, Rodrigues recolocou o pacote no lugar, enormemente tentado. Por que o Padre Alvito? O Padre Martim Alvito era o principal negociador comercial e fora intérprete pessoal do taicum durante muitos anos e, por isso, íntimo da maioria dos daimios influentes. O Padre Alvito se alternava entre Nagasaki e Osaka e era um dos pouquíssimos homens, e o único europeu, que tivera acesso ao taicum a qualquer momento - um homem enormemente inteligente, que falava um japonês perfeito e conhecia mais sobre eles e seu modo de vida do que qualquer outro homem na Ásia. Agora era o mediador português mais influente junto ao conselho de regentes, junto a Ishido e Toranaga em particular.

Só os jesuítas para colocar um de seus homens numa posição vital assim, pensou Rodrigues com admiração. Certamente não fosse pela Companhia de Jesus a torrente da heresia nunca teria parado, Portugal e Espanha poderiam ter-se tornado protestantes e teríamos perdido nossa alma imortal para sempre. Minha Nossa Senhora!

- Por que você pensa em padres o tempo todo? - perguntou Rodrigues a si mesmo em voz alta. - Sabe que isso o deixa nervoso! - Sim. Mas ainda assim, por que o Padre Alvito? Se o pacote contém os portulanos, destina-se a um dos daimios cristãos, a Ishido, a Toranaga? Ou simplesmente a Sua Eminência, o padre-lnspetor? Ou ao meu capitão-mor? Ou os portulanos serão enviados a Roma, para os espanhóis? Por que o Padre Alvito?

O Padre Sebastio poderia facilmente ter dito que o entregasse a qualquer um dos outros jesuítas.

E por que Toranaga quer o inglês?

No meu coração sei que devo matar Blackthorne. É o inimigo, é um herege. Mas há alguma coisa mais. Tenho a sensação de que esse inglês é um perigo para todos nós. Por que devo pensar isso? É um piloto, um ótimo piloto. Forte, inteligente. Um bom homem. Não há nada com que se preocupar. Então por que estou com medo? Gosto muito dele, mas sinto que deveria matá-lo rapidamente, e quanto mais depressa melhor. Não por raiva. Só para nos proteger. Por quê? Tenho medo dele.

O que fazer? Deixá-lo nas mãos de Deus? A tempestade está se aproximando e vai ser péssima.

- Deus me amaldiçoe e à minha falta de miolos! Por que não tenho mais facilidade em saber o que fazer?

A tempestade chegou antes do pôr-do-sol e reteve-os em mar alto. A terra estava a dez milhas de distância. A baía para onde se precipitavam ficava em frente e era abrigo suficiente. Não havia bancos de areia ou recifes entre os quais navegar, mas dez milhas eram dez milhas e o mar estava se avolumando rapidamente, impelido pelo vento saturado de chuva.

A ventania soprava de nordeste, atingindo-os a estibordo, e mudava perversamente de direção, quando rajadas se lançavam em torvelinho de leste e de norte, desordenadamente, o mar bravíssimo. A rota era noroeste, de modo que estavam bem em meio às vagas, balançando furiosamente, ora na depressão entre duas ondas, ora na crista. A galera era de estrutura rasa e fora construída para velocidade e águas calmas, e embora os remadores fossem resolutos e muito disciplinados, era difícil manter os remos no mar e o impulso regular.

- Você terá que fixar- os remos e correr com o vento - gritou Blackthorne.

- Talvez, mas ainda não! Onde estão os seus cojones, Inglês?

- Estão onde devem estar, por Deus, e onde quero que fiquem!

Os dois homens sabiam que se virassem contra o vento nunca poderiam avançar contra a tempestade, de modo que a maré e o vento os levariam para longe do refúgio e para alto-mar. Se corressem com o vento, a maré e o vento os levariam para longe do refúgio e para alto-mar igualmente, só que mais depressa. Ao sul ficava a Grande Fossa. Não havia terra ao sul por mil milhas, ou, se não se tivesse sorte, por mil léguas.

Estavam presos a cordas amarradas à bitácula e satisfeitos de si quando o convés arfou e jogou. Os dois se agarraram às amuradas e montaram nelas.

Até o momento, a água ainda não chegara a bordo. O navio estava pesadamente carregado e afundava mais na água do que qualquer um dos dois gostaria. Rodrigues se preparara adequadamente nas horas de espera. Fora tudo fixado com sarrafos, os homens prevenidos. Hiromatsu e Yabu disseram que ficariam embaixo por um tempo, mas depois vieram para o convés. Rodrigues dera de ombros e lhes dissera claramente que seria muito perigoso. Tinha certeza de que não compreenderam.

- O que é que eles vão fazer? - perguntara Blackthorne.

- Quem é que sabe, Inglês? Mas não vão chorar de medo, pode ter certeza.

No poço do convés principal, os remadores davam duro. Normalmente haveria dois homens em cada remo, mas Rodrigues ordenara três, por uma questão de força, segurança e velocidade.

Havia outros esperando sob os conveses para render esses remadores quando ele desse ordem. Na coberta de proa o capitão mestre dos remos era experimentado e sua batida era lenta, sincronizada com as ondas. A galera continuava avançando, embora a cada momento a batida parecesse mais pronunciada e o restabelecimento da normalidade mais lento. Depois as rajadas se tornaram intermitentes e fizeram o mestre dos remos perder o ritmo.

- Atenção à frente! - gritaram Blackthorne e Rodrigues quase no mesmo fôlego. A galera jogou com violência, vinte remos impeliram o ar em vez de o mar e foi o caos a bordo. O primeiro vagalhão abalroara o navio e a amurada de bombordo fora arrastada pela água.

- Vá lá para a frente! - ordenou Rodrigues. - Faça-os armar os remos a meia altura de cada lado! Minha Nossa Senhora, depressa, depressa!

Blackthorne sabia que sem a corda salva-vidas poderia facilmente ser lançado ao mar. Mas os remos tinham que ser armados ou estariam todos perdidos.

Soltou o nó e investiu com dificuldade pelo convés escorregadio e nauseante, descendo a escadinha para o convés principal.

Abruptamente a galera deu uma guinada e ele foi arrastado para baixo, suas pernas levadas por alguns remadores que também haviam soltado as cordas de segurança para tentar, arduamente, controlar os remos. A amurada estava sob água e um homem foi lançado ao mar. Blackthorne deixou-se ir também. Sua mão agarrou a amurada, seus tendões se estiraram, mas ele agüentou; depois a outra mão alcançou a borda e, sufocando, ele forçou o corpo para trás. Seus pés encontraram o convés e ele se sacudiu, agradecendo a Deus, e pensando: lá se foi a sua sétima vida. Alban Caradoc sempre dissera que um bom piloto tinha que ser como um gato, exceto que tinha que ter no mínimo dez vidas, enquanto um gato se satisfazia com nove.

Um homem estava a seus pés e ele o arrancou ao repuxo do mar, segurou-o até que estivesse a salvo, depois ajudou-o a voltar a seu lugar. Olhou para trás para amaldiçoar Rodrigues por deixar o timão escapar-lhe das mãos. Rodrigues acenou, apontou e gritou, o grito engolido por uma lufada. Blackthorne viu que a rota havia mudado. Agora estavam quase contra o vento, e percebeu que a guinada fora planejada. É prudente, pensou. Isso nos dará um intervalo para nos organizarmos, mas o bastardo poderia ter me prevenido. Não gosto de perder vidas desnecessariamente.

Respondeu ao aceno e se lançou ao trabalho de recompor os remadores. A voga se interrompera totalmente, exceto pelos dois remos mais à frente, que os mantinham contra o vento. Com sinais e berros, Blackthorne conseguiu que armassem os remos, dobrou os homens que estavam trabalhando, e foi novamente para a popa. Os homens eram estóicos e embora alguns estivessem muito enjoados ficaram e esperaram pela ordem seguinte. A baía estava mais próxima, mas ainda parecia a um milhão de léguas de distância. Para nordeste o céu estava escuro. A chuva açoitava-os e as rajadas de vento se tornavam mais fortes. No Erasmus Blackthorne não se teria preocupado. Poderiam ter atingido a enseada com facilidade ou poderiam ter voltado despreocupadamente para a rota real, avançando para o seu ponto de  chegada correto. Seu navio fora construído e mastreado para enfrentar o vento. Esta galera não.

- O que acha, Inglês?

- Faça o que quiser, não importa o que eu pense - gritou ele contra o vento. - Mas o navio não vai agüentar muita água e iremos para o fundo como uma pedra, e na próxima vez que eu for até a proa, avise-me que está pondo o navio contra o vento. Melhor ainda: ponha-o a barlavento enquanto eu estiver com a minha corda e então nós dois chegaremos a porto seguro.

- Foi a mão de Deus, Inglês. Uma onda lhe deu um empurrão na traseira e fê-lo girar.

- Isso quase me atirou ao mar.

- Eu vi. - Blackthorne estava medindo o desvio. - Se permanecermos neste curso, nunca chegaremos à baía. Passaremos velozmente pelo promontório a uma milha ou mais.

- Vou ficar contra o vento. Depois, quando o tempo estiver adequado, vamos nos arremessar para a praia. Sabe nadar?

- Sim.

- Bom. Eu nunca aprendi. Perigoso demais. Melhor afundar rapidamente do que aos poucos, hein? - Rodrigues estremeceu involuntariamente. - Bendita Nossa Senhora, proteja-me de um túmulo de água! Esta porca barriguda e prostituta deste navio vai chegar à enseada esta noite! Tem que chegar. Meu nariz diz que se virarmos e corrermos, vamos nos atrapalhar. Estamos carregados demais.

- Alivie a carga. Atire-a ao mar.

- O Rei Toady nunca concordaria. Tem que chegar com ela, senão não faz diferença que chegue.

- Pergunte-lhe.

- Nossa Senhora, você é surdo? Eu lhe disse! Sei que ele não concordará! - Rodrigues aproximou-se mais do timoneiro e certificou-se de que ele compreendera que devia manter-se contra o vento de qualquer jeito.

- Vigie-os, Inglês! Você está com o comando. - Desamarrou a sua corda e desceu a escadinha pisando firme. Os remadores olharam-no atentamente enquanto ele se dirigia ao capitão-san no convés de popa para explicar por meio de sinais e com palavras o plano que tinha em mente. Hiromatsu e Yabu vieram ao convés. O capitão-san explicou-lhes o plano. Estavam ambos pálidos, mas permaneciam impassíveis e não haviam vomitado. Olharam na direção da terra, através da chuva, sacudiram os ombros e foram para baixo novamente.

Blackthorne contemplava a baía a bombordo. Sabia que o plano era perigoso. Teriam que esperar até passar pelo promontório, depois teriam que se pôr a sotavento, virar para noroeste novamente e lutar pela vida. A vela não os ajudaria. Teria que ser a força deles somente. O lado meridional da baía era todo denteado de rochedos e recifes. Se eles calculassem mal o tempo, seriam atirados contra a praia ali e destroçados.

- Inglês, ponha-se à proa!

O português estava fazendo-lhe sinais. Postou-se na proa.

- E quanto à vela? - gritou Rodrigues.

- Não. Vai prejudicar mais do que ajudar.

- Fique aqui, então. Se a batida do capitão enfraquecer, ou se o perdermos, você toma o lugar dele. Está certo?

- Nunca manobrei um destes antes, nunca controlei remos. Mas tentarei.

Rodrigues olhou em direção à terra. O promontório aparecia e desaparecia na chuva impulsora. Logo teria que investir. Os vagalhões estavam crescendo e já havia jatos de espuma desprendendo-se das cristas. A corrida entre os promontórios parecia péssima. Esta vai ser imunda, pensou ele. Depois cuspiu e decidiu-se.

- Vá para a popa, Inglês. Pegue o leme. Quando eu fizer sinal, vá oeste-norte-oeste para aquele ponto. Está vendo?

- Sim.

- Não hesite e mantenha esse curso. Observe-me com atenção. Este sinal significa virar a bombordo, este para trás, este mantenha o passo.

- Muito bem.

- Pela Virgem, você vai esperar as minhas ordens e obedecer a elas?

- Quer que eu pegue o leme ou não?

Rodrigues sabia que estava numa armadilha.

- Tenho que confiar em você, Inglês, e detesto isso. Vá para a popa. - Viu Blackthorne ler o que ele tinha por trás dos olhos e se afastar. Depois mudou de idéia e chamou por ele: - Ei, seu pirata arrogante! Vá com Deus!

Blackthorne voltou-se, agradecido:

- Você também, espanhol!

- Mijo em todos os espanhóis e longa vida para Portugal!

- Mantenha o passo!

Atingiram a enseada, mas sem Rodrigues. Foi atirado ao mar quando a sua corda se partiu.

O navio estava prestes a se pôr em segurança, quando o vagalhão veio de norte e, embora tivessem agüentado muita água até então, inclusive perdendo o capitão japonês, agora foram inundados e impelidos para trás, na direção da praia infestada de rochedos.

Blackthorne viu quando Rodrigues se foi e ficou a olhá-lo, ofegando, e debatendo-se no mar encrespado. A tempestade e a maré haviam-nos levado bem longe para o lado sul da baía e estavam quase sobre os rochedos, todos a bordo sabendo que o navio estava perdido.

Quando Rodrigues foi varrido para o lado, Blackthorne atirou-lhe um salva-vidas de madeira. O português debateu-se na direção do salva-vidas mas o mar arrastou-o para fora do seu alcance. Um remo espatifou-se contra ele, que o agarrou. A chuva golpeava com violência e a última coisa que Blackthorne viu de Rodrigues foi um braço e o remo quebrado e, bem à frente, a rebentação enfurecida contra a praia atormentada. Poderia ter mergulhado, nadado até ele e sobrevivido, talvez, havia tempo, talvez, mas seu primeiro e último dever era para com o navio e seu navio estava em perigo.

Então, deu as costas a Rodrigues.

O vagalhão levara alguns remadores consigo e outros estavam lutando para preencher os lugares vazios. Um imediato havia bravamente desatado a corda de segurança. Saltou para a coberta de proa, se amarrou e reiniciou a batida. O líder do cantochão também recomeçou, os remadores tentaram impor ordem ao caos.

- Isogiiiiiiii! - gritou Blackthorne, lembrando-se da palavra. Atirou seu peso sobre o leme para ajudar a pôr a proa mais contra o vento, depois foi para a amurada e bateu o tempo, gritando um-dois-um-dois e tentando encorajar a tripulação.

- Vamos, seus bastardos, puuuuuuuuuxem!

A galera estava sobre os rochedos, pelo menos os rochedos estavam bem junto à popa, a bombordo e a estibordo. Os remos afundavam e puxavam, mas o navio continuava não fazendo caminho, o vento e a maré venciam, arrastando-o sensivelmente para trás.

- Vamos, puxem, seus bastardos! - gritou novamente Blackthorne, a mão batendo a cadência.

Os remadores extraíram forças dele. Primeiro agüentaram a parada com o mar. Depois conquistaram-no. O navio afastou-se dos rochedos. Blackthorne manteve o curso para a praia a sotavento. Pouco depois encontravam-se em águas mais calmas. O vendaval continuava, mas bem acima deles. A tempestade continuava, mas longe, em alto-mar.

- Lancem a âncora de estibordo!

Ninguém compreendeu as palavras, mas todos os marujos sabiam o que ele queria. Correram para cumprir a ordem. A âncora desceu com estrépito. Ele deixou o navio adernar levemente para testar a firmeza do leito marítimo, e o imediato e os remadores compreenderam a manobra.

- Lancem a âncora de bombordo!

Quando o navio ficou em segurança, ele olhou em direção à popa. A linha da praia mal podia ser vista através da chuva. Ele avaliou o mar e considerou as possibilidades.

O portulano português está lá embaixo, pensou, extenuado. Posso pilotar o navio até Osaka. Poderia pilotá-lo de volta a Anjiro. Mas você agiu corretamente desobedecendo a ele? Não desobedeci a Rodrigues. Eu estava no tombadilho. Sozinho.

- Vire para sul - gritara Rodrigues quando o vento e a maré os lançaram perigosamente perto das rochas. - Vire e corra com o vento!

- Não! - gritara ele de volta, acreditando que a única chance que tinham era tentar atingir a enseada e que em mar aberto estariam perdidos.           - A gente consegue!

- Deus o amaldiçoe, vai matar a todos nós!

Mas não matei ninguém, pensou Blackthorne. Rodrigues, você sabia e eu sabia que a responsabilidade de decidir era minha - se houvesse tempo para uma decisão. Eu estava certo. O navio está salvo. Nada mais importa.

Acenou para o imediato, que veio correndo da coberta de proa. Os dois timoneiros estavam prostrados, braços e pernas quase arrancados das juntas. Os remadores pareciam cadáveres, caídos sobre os remos. Outros, igualmente enfraquecidos, vieram lá de baixo para ajudar. Hiromatsu e Yabu, ambos muito abalados, foram ajudados a subir ao convés, mas uma vez chegados lá, mantiveram-se ambos eretos.

- Hai, Anjin-san? - perguntou o imediato. Era um homem de meia-idade, com os dentes brancos e fortes e um rosto largo e castigado pelo tempo. Tinha uma contusão lívida marcando-lhe a face no ponto onde o mar o havia martelado contra a amurada.

- Você agiu muito bem - disse Blackthorne, não se importando com o fato de que suas palavras não seriam compreendidas. Sabia que o tom seria claro, assim como o seu sorriso.

- Sim, muito bem. Você é capitão-san agora. Wakarimasu? Você! Capitão-san!

O homem arregalou os olhos para ele, boquiaberto, depois curvou-se para dissimular tanto a surpresa quanto o prazer.

- Wakarimasu, Anjin-san. Hai. Arigato goziemashita.

- Ouça, capitão-san - disse Blackthorne -, dê comida e bebida aos homens. Comida quente. Vamos passar a noite aqui. - Por meio de sinais, fê-lo compreender.

Imediatamente o novo capitão se virou e gritou com nova autoridade. Imediatamente os marujos correram para obedecer-lhe. Muito orgulhoso, o novo capitão olhou para o tombadilho.

Gostaria de poder falar a sua língua bárbara, pensou, feliz. Então poderia agradecer-lhe, Anjin-san, por ter salvado o navio e a vida do nosso Senhor Hiromatsu. A sua mágica deu-nos novas forças. Sem ela não teríamos escapado. Você talvez seja pirata, mas é um grande marujo, e enquanto for o piloto eu lhe obedecerei com a minha vida. Não sou digno de ser capitão, mas tentarei merecer a sua confiança.

- O que quer que eu faça em seguida? - perguntou.

Blackthorne estava olhando por cima do costado. O leito marítimo estava turvo. Mentalmente tomou algumas posições e quando teve certeza de que as âncoras não haviam se soltado e o mar era seguro, disse:

- Desça o esquife. E arrume um bom remador.

Novamente com sinais e palavras, Blackthorne fê-lo compreender. O esquife foi descido e tripulado imediatamente.

Blackthorne dirigiu-se para a amurada e teria descido pelo costado se uma voz áspera não o detivesse. Olhou em torno. Hiromatsu estava ali, com Yabu ao lado.

O velho estava muito contundido em torno do pescoço e nos ombros, mas ainda segurava a espada comprida. Yabu punha sangue pelo nariz, tinha o rosto machucado, o quimono manchado,e tentava estancar o fluxo com um pedacinho de pano. Estavam ambos impassíveis, aparentemente inconscientes dos próprios ferimentos e do vento frio.

Blackthorne curvou-se polidamente.

- Hai, Toda-sama?

As palavras ásperas se repetiram, o velho apontou com a espada para o esquife e balançou a cabeça.

- Rodrigu-san lá!      Blackthorne apontou para a praia ao sul como resposta. - Vou olhar!

- Iyé! - Hiromatsu meneou a cabeça de novo e falou, visivelmente recusando a sua permissão por causa do perigo.

- Sou Anjin-san deste puto deste navio e se quero ir até a praia, vou até a praia. - Blackthorne manteve a voz muito polida, mas forte, e era igualmente óbvio o que queria dizer. - Sei que esse esquife não vai agüentar nesse mar. Hai! Mas vou até a praia naquele ponto. Está vendo aquele ponto, Hiromatsu-sama?

Ao lado daquela pequena rocha. Vou começar a contornar o promontório ali. Não tenho pressa de morrer e não tenho lugar algum para onde fugir. Quero recuperar o corpo de Rodrigu-san. - Passou uma perna por sobre o costado. A espada embainhada moveu-se uma fração. Ele gelou. Mas seu olhar fixo estava tranqüilo, o rosto decidido.

Hiromatsu encontrava-se num dilema. Podia compreender que o pirata queria encontrar o corpo de Rodrigu-san, mas era perigoso ir até lá, e o Senhor Toranaga lhe dissera que levasse o bárbaro em segurança, portanto ele seria levado em segurança. Estava igualmente claro que o homem pretendia ir.

Vira-o durante a tempestade, em pé no convés inclinado, como um kami maligno do mar, destemido, em seu elemento, fazendo parte da tempestade, e pensara com severidade: é melhor ter esse homem e todos os bárbaros como ele em terra, onde podemos lidar com eles. No mar estamos em suas mãos.

Podia ver que o pirata estava impaciente. Como são insultantes, disse a si mesmo. Ainda assim eu devia agradecer-lhe. Todos estão dizendo que foi o único responsável por trazer o navio para a enseada, que Rodrigu-anjin perdeu a coragem e deixou que fôssemos carregados para longe da costa, mas você manteve o curso. Sim. Se tivéssemos rumado para o largo certamente teríamos soçobrado e então eu teria falhado a meu amo. Oh! Buda, proteja-me disso! Sentia doer todas as juntas. Estava exausto devido ao esforço que lhe fora exigido para permanecer estóico diante de seus homens, de Yabu, da tripulação, e mesmo do bárbaro. Oh! Buda. Estou tão cansado. Gostaria de poder deitar num banho, ficar lá um bom tempo... e ter um dia de sossego, sem sofrimento. Só um dia. Pare com esses seus estúpidos pensamentos de mulher! Você sofre há quase sessenta anos. O que é o sofrimento para um homem? Um privilégio! Dissimular a dor é a medida de um homem. Agradeça a Buda por ainda estar vivo para proteger seu amo, quando você deveria estar morto uma centena de vezes. Agradeço a Buda. Mas odeio o mar. Odeio o frio. E odeio a dor.

- Fique onde está, Anjin-san - disse, apontando com a bainha da espada para ser mais claro, desanimadamente divertido com o fogo de um azul gelado nos olhos do homem. Quando teve certeza de que o homem compreendera, deu uma olhada no imediato. - Onde estamos? De quem é este feudo?

- Não sei, senhor. Acho que estamos em algum ponto da província de Ise. Poderíamos mandar alguém à aldeia mais próxima.

- Você pode nos pilotar até Osaka?

- Desde que fiquemos muito perto da praia, senhor, e que vamos lentamente, com grande cautela. Não conheço estas águas e nunca poderia garantir a sua segurança. Não tenho conhecimento suficiente e não há ninguém a bordo, senhor, que tenha. Exceto esse piloto. Se dependesse de mim, eu o aconselharia a ir por terra. Poderíamos conseguir-lhe cavalos ou palanquins.

Hiromatsu sacudiu a cabeça irascivelmente. Ir por terra estava fora de questão. Tomaria tempo demais o caminho era montanhoso e havia poucas estradas - e teriam que atravessar muitos territórios controlados por aliados de Ishido, o inimigo.

Além desse perigo, havia também os numerosos grupos de bandidos, que infestavam os desfiladeiros. Isso significava que ele teria que levar todos os seus homens. Poderia abrir caminho a força entre os bandidos, certamente, mas nunca conseguiria forçar uma passagem se Ishido ou seus aliados resolvessem impedi-lo. Tudo isso o atrasaria ainda mais, e suas ordens eram entregar a carga, o bárbaro e Yabu, rapidamente e em segurança.

- Se acompanharmos a costa, quanto tempo levaremos?

- Não sei, senhor. Quatro ou cinco dias, talvez mais. Eu

me sentiria muito inseguro, não sou capitão, sinto muito.

O que significa, pensou Hiromatsu, que preciso da cooperação deste bárbaro. Para impedi-lo de ir até a praia, terei que mandar amarrá-lo. E quem sabe se, amarrado, ele vai cooperar?

- Quanto tempo teremos que ficar aqui?

- O piloto disse a noite toda.

- A tempestade terá acabado então?

- É o que deve acontecer, senhor, mas nunca se sabe.

Hiromatsu estudou a costa montanhosa, depois o piloto, vacilando.

- Posso oferecer uma sugestão, Hiromatsu-san? - disse Yabu.

- Sim, sim, naturalmente - disse o outro com impaciência.

- Como parece que precisamos da cooperação do piloto para nos levar a Osaka, por que não deixá-lo ir até a praia, mas com homens para protegê-lo, e ordenar que voltem antes do pôr-do-sol? Quanto a ir por terra, concordo que seria perigoso demais para o senhor. Eu nunca me perdoaria se alguma coisa lhe acontecesse. Uma vez que a tempestade se dissipe, o senhor estará mais seguro no navio e chegará a Osaka muito mais depressa, neh? Com certeza, pelo crepúsculo de amanhã.

Relutante, Hiromatsu assentiu.

- Muito bem. - Chamou um samurai com um gesto. -Takatashi-san! Pegue seis homens e vá com o piloto. Traga o corpo do português de volta se conseguirem encontrá-lo. Mas se um cílio que seja deste bárbaro for lesado você e os seus homens cometerão seppuku imediatamente.

- Sim, senhor.

- E mande dois homens à aldeia mais próxima para descobrir onde é, exatamente, que estamos e no feudo de quem.

- Sim, senhor.

- Com a sua permissão, Hiromatsu-san, vou comandar o destacamento até a praia - disse Yabu. - Se chegássemos a Osaka sem o pirata, eu ficaria tão envergonhado que me sentiria obrigado a me matar. Gostaria de ter a honra de executar as suas ordens.

Hiromatsu assentiu, intimamente surpreso de que Yabu resolvesse enfrentar por si um perigo como aquele. E desceu para o convés inferior.

Quando Blackthorne entendeu que Yabu ia até a praia com ele, sua pulsação se acelerou. Eu tinha esquecido Pieterzoon, a minha tripulação, o buraco - e os gritos, Omi ou qualquer parte do que aconteceu. Cuidado com a sua vida, bastardo.

 

Rapidamente se encontraram em terra. Blackthorne pretendia chefiar a expedição, mas Yabu usurpou-lhe a posição e impôs uma  marcha forçada, que ele teve dificuldade em acompanhar. Os outros seis samurais vigiavam-no cuidadosamente. Não tenho lugar algum para fugir, seus imbecis, pensou ele, interpretando mal a preocupação deles, enquanto seus olhos automaticamente esquadrinhavam a baía, à procura de bancos de areia ou recifes escondidos, medindo posições, guardando coisas importantes na cabeça para uma futura transcrição.

O caminho levou-os primeiro ao longo da praia de cascalho, depois a uma pequena subida sobre rochas polidas pelo mar, até uma vereda que ladeava o penhasco e se insinuava precariamente em torno do promontório, ao sul. A chuva havia parado, mas não a ventania. Quanto mais perto chegavam da língua de terra, totalmente exposta, mais alto a rebentação - atirando-se contra os rochedos lá embaixo - respingava no ar. Logo se viram encharcados.

Embora Blackthorne estivesse sentindo frio, Yabu e os outros, que tinham os quimonos leves descuidadamente franzidos pelos cintos, não pareciam ser afetados pela umidade nem pelo frio. Deve ser como Rodrigues disse, pensou ele, sentindo o medo voltar. Os japoneses simplesmente não são feitos como nós. Não sentem frio, fome, privações ou ferimentos como nós. Comparados a nós, são mais como animais, de nervos embotados. Acima deles o penhasco se elevava a duzentos pés. A areia estava a cinqüenta pés abaixo. Além e em toda a volta havia montanhas e nem uma casa ou cabana em toda a área da baía. Isso não era de surpreender, pois não havia espaço para campos, os seixos da praia rapidamente transformando-se em rochas e depois em montanha de granito, com árvores nas vertentes mais altas.

Muito insegura, de superfície movediça, a vereda descia e subia ao longo da face do penhasco. Blackthorne caminhava inclinando-se contra o vento, e notou que as pernas de Yabu eram fortes e musculosas. Escorregue, seu filho de uma puta, pensou ele. Escorregue, arrebente-se nas rochas lá embaixo. Será que isso o faria gritar? O que o faria gritar?

Com um esforço, desviou os olhos de Yabu e voltou a sondar a praia. Cada fenda, cada greta, cada fresta. A espuma no vento continuava a açoitar e arrancou-lhe lágrimas. O mar se derramava de um lado e de outro, redemoinhava, arrastava-se em torvelinho.

Ele sabia que havia uma esperança mínima de encontrar Rodrigues, haveria muitas cavernas e lugares escondidos que nunca poderiam ser investigados. Mas precisava vir à praia para tentar.

Devia a Rodrigues a tentativa. Todos os pilotos rezavam por uma morte em terra e um sepultamento em terra. Todos eles já haviam visto demasiados cadáveres inchados pelo mar, cadáveres meio comidos e cadáveres mutilados pelos caranguejos.

Contornaram o promontório e se detiveram a sotavento. Não havia necessidade de ir mais além. Se o corpo não estava a barlavento, então estava escondido ou fora engolido ou já carregado para o alto-mar, para o abismo. A meia milha de distância, uma pequena aldeia de pescadores aninhava-se na praia branca de espuma. Yabu fez sinal a dois samurais. Imediatamente eles se curvaram e saíram correndo naquela direção. Uma última olhada, depois Yabu enxugou a chuva do rosto, relanceou o olhar para Blackthorne e fez sinal para retornarem. Blackthorne assentiu e reiniciaram a caminhada. Yabu à frente, os outros samurais ainda a observá-lo cuidadosamente, e novamente ele pensou em como eram estúpidos.

Então, quando estavam a meio caminho de volta, viram Rodrigues.

O corpo estava preso numa fenda entre duas grandes rochas, acima da rebentação, mas parcialmente atingido por ela. Um braço estava esticado para a frente. O outro ainda estava agarrado ao remo quebrado, que se movia levemente com o fluxo e refluxo da água. Foi esse movimento que atraiu a atenção de Blackthorne quando se inclinou contra o vento, arrastando-se com dificuldade no rastro de Yabu.

O único caminho para baixo era por sobre o abrupto penhasco. A descida seria de apenas cinqüenta ou sessenta pés, mas era um declive íngreme e quase não havia apoios para os pés.

o a maré? - perguntou Blackthorne a si mesmo. Está subindo, não descendo. Vai levá-lo de volta para o mar. Jesus, a coisa parece que está feia lá embaixo. E agora?

Aproximou-se mais da borda e imediatamente Yabu lhe cortou o caminho, balançando a cabeça, e os outros samurais o rodearam.

- Só estou tentando olhar melhor, pelo amor de Cristo! Não estou tentando escapar! Para onde, diabos, eu posso fugir?

Recuou um pouco e olhou atentamente para baixo. Os outros lhe seguiram o olhar e tagarelaram entre si, Yabu falando mais que todos. Não há chance alguma, decidiu Blackthorne. É perigoso demais. Voltaremos ao amanhecer, com cordas. Se estiver aqui, estará aqui, e eu o sepultarei em terra. Relutantemente, voltou-se e, fazendo isso, a beirada do penhasco desmoronou e ele começou a escorregar. Imediatamente Yabu e os outros o agarraram e o puxaram de volta, e foi quando, num átimo, percebeu que estavam preocupados apenas com a sua segurança. Só estão tentando me proteger!

Por que me quereriam a salvo? Por causa de Tora...? Como era o nome? Toranaga? Por causa dele? Sim, mas também, talvez, porque não há mais ninguém a bordo para o porque me deixaram vir à praia, por isso que cederam? Sim, deve ser. Então, agora, tenho poder sobre o navio, sobre o velho daimio, e sobre este bastardo. Como posso usá-lo?

Ele descontraiu-se, agradeceu-lhes e deixou os olhos vagar lá embaixo.

- Temos que pegá-lo, Yabu-san. Hai! O único caminho é este. Sobre o penhasco. Eu o trarei para cima, eu, Anjin-san! - Novamente avançou como se fosse descer e novamente o retiveram. Então disse com preocupação fingida: - Temos que pegar Rodrigu-san. Olhem! Não temos tempo, a claridade está sumindo.

- Iyé, Anjin-san - disse Yabu.

Blackthorne erguia-se sobranceiro a Yabu.

- Se não vai me deixar ir, Yabu-san, então mande um de seus homens. Ou vá você mesmo. Você!

O vento feria-os com violência, uivando contra a face do penhasco. Viu Yabu olhar para baixo, avaliando a descida e a luz enfraquecida, e soube que Yabu estava fisgado. Caiu na armadilha, bastardo, sua vaidade lhe preparou uma armadilha. Se descer até lá, vai se machucar. Mas não se mate, por favor, só quebre as pernas ou os tornozelos. Depois se afogue.

Um samurai começou a descer mas Yabu ordenou-lhe que voltasse.

- Volte ao navio. Traga algumas cordas imediatamente - disse ele. O homem saiu correndo. Yabu descalçou as sandálias de tiras com um chute. Tirou as espadas do cinto e colocou-as em segurança. - Vigiem-nas e vigiem o bárbaro. Se alguma coisa acontecer a ele ou a elas, eu os faço sentar-se em cima das suas próprias espadas.

- Por favor, deixe-me ir, Yabu-sama - disse Takatashi. - Se o senhor se ferir ou se perder eu...

- Acha que pode ter êxito onde eu falhe? Não, senhor, naturalmente que não.

- Bom.

- Por favor, espere pelas cordas, então. Nunca me perdoarei se alguma coisa lhe acontecer. - Takatashi era baixo e sólido, com uma barba cheia.

Por que não esperar ás cordas? perguntou Yabu a si mesmo. Seria razoável, sim. Mas não seria inteligente. Olhou para Blackthorne e assentiu brevemente. Sabia que fora desafiado. Contara com isso. E tivera esperança de que acontecesse. Por isso me ofereci para esta missão, Anjin-san, disse ele a si mesmo, silenciosamente divertido. Você realmente é muito simples, Omi tinha razão.

Yabu despiu o quimono ensopado e, vestido somente com a tanga, dirigiu-se para a borda do penhasco e testou-a com as solas dos seus tabis de algodão - seus sapatos-meias. É melhor ficar com eles, pensou, sentindo sua vontade e seu corpo, forjados por uma vida toda de treinamento a que todo samurai tinha que se submeter, dominar o frio que o trespassava. Os tabis me darão uma preensão mais firme - por um tempo. Você vai precisar de toda a força e habilidade para chegar lá embaixo vivo. Vale a pena?

Durante a tempestade e a arremetida para a praia, ele subira ao convés e, sem que Blackthorne notasse, tomara lugar aos remos. Prazerosamente, usara sua força com os remadores, detestando o miasma lá embaixo e o enjôo que sentia. Resolvera que era melhor morrer ao ar do que sufocado lá embaixo.

Trabalhando com os outros ao frio, começara a observar os pilotos. Vira claramente que, ao mar, o navio e todos a bordo estavam em poder daqueles dois homens. Os pilotos se encontravam no seu elemento, cavalgando os conveses arfantes tão descuidadamente quanto ele um cavalo a galope. Nenhum japonês a bordo se igualava a eles. Em habilidade, coragem ou conhecimento. E gradualmente essa consciência havia gerado um conceito grandioso: modernos navios bárbaros cheios de samurais, pilotados por samurais, capitaneados por samurais, manobrados por samurais. Samurais dele.

Se eu tivesse de começo três navios bárbaros, poderia facilmente controlar as rotas marítimas entre Yedo e Osaka. Baseado em Izu, poderia estrangular toda a navegação ou deixá-la passar. Portanto, praticamente todo o arroz e toda a seda. Não seria eu, então, um árbitro entre Toranaga e Ishido? No mínimo, no mínimo, não seria um equilíbrio entre eles?

Nenhum daimio jamais gostara do mar.

Nenhum daimio tem navios ou pilotos.

Com exceção de mim.

Eu tenho um navio - tive um navio - e agora poderia ter meu navio de volta - se for esperto. Tenho um piloto e, conseqüentemente, um treinador de pilotos, se conseguir afastá-lo de Toranaga. Se conseguir dominá-lo. Uma vez que se torne meu vassalo, por vontade própria, treinará meus homens. E construirá navios.

Mas como torná-lo um autêntico vassalo? O buraco não lhe dobrou o espírito.

Primeiro, isolá-lo e mantê-lo isolado - não foi isso o que Omi disse? Depois esse piloto seria persuadido a aprender boas maneiras e falar japonês. Sim. Omi é muito esperto. Esperto demais, talvez - pensarei em Omi mais tarde. Concentre-se no piloto. Como dominar um bárbaro, um cristão comedor de imundície?

O que foi que Omi disse? "Eles dão valor à vida. Sua divindade principal, Jesus Cristo, ensina-os a se amarem uns aos outros e a darem valor à vida." Eu poderia devolver-lhe a vida? Poupá-la, sim, isso seria muito bom. Como dobrá-lo?

Yabu ficara tão dominado pela animação, que mal notara o movimento do navio ou os vagalhões. Uma onda cascateou aos borbotões sobre ele. Viu-a envolver o piloto. Mas não havia medo no homem, em absoluto. Yabu ficou atônito. Como é que alguém que humildemente permitira a um inimigo urinar-lhe nas costas podia salvar a vida de um insignificante vassalo? Como é que aquele homem podia ter a força para esquecer tal desonra eterna o manter-se ereto ali no tombadilho, invocando os deuses do mar para a batalha, como um herói lendário - e para salvar os mesmos inimigos? E depois, quando o vagalhão arrastara o português e            eles estavam todos se debatendo, o Anjin-san miraculosamente rira da morte e dera-lhes a força para se afastarem dos rochedos.

Nunca os entenderei, pensou.

À beira do penhasco, Yabu olhou para trás uma última vez. Ah, Anjin-san, sei que está pensando que me encaminho para a morte, que me pegou numa armadilha. Sei que você mesmo não iria até lá embaixo. Estive a observá-lo bem de perto. Mas cresci nas montanhas e aqui no Japão escalamos por orgulho e por prazer. Por isso desço agora nos meus termos, não nos seus. Tentarei, e     se morrer não tem importância. Mas se tiver êxito, então você, enquanto homem, saberá que sou melhor que você, nos seus termos. E se eu trouxer o corpo de volta, você estará igualmente endividado comigo.

Você será meu vassalo, Anjin-San.

Desceu pelo lado do penhasco com grande habilidade. Quando estava a meio caminho, escorregou. Sua mão esquerda agarrou-se em uma saliência. Isso lhe deteve a queda, e ele oscilou entre a vida e a morte. Seus dedos se enterraram profundamente quando sentiu que a saliência ruía e fincou os dedos dos pés numa fenda, lutando por outro apoio. Quando o da mão esquerda rachou os pés encontraram uma greta, agüentaram-se ali, ele abraçou o penhasco desesperadamente, ainda desequilibrado, comprimindo-se contra ele a procura de apoios. Então a fenda onde fincara a ponta dos pés não resistiu. Embora conseguisse agarrar outra saliência com as duas mãos, dez pés abaixo, e ficasse suspenso momentaneamente, esta também cedeu. Ele caiu os últimos vinte pés.

Havia se preparado da melhor maneira para isso e tombou sobre os pés como um gato, rolando sobre a face inclinada do rochedo para amortecer o choque. Parou ofegante e enrolado em torno de si. Apertou os braços lacerados ao redor da cabeça, protegendo-se da avalanche de pedras que poderia seguir. Mas não houve avalancha. Sacudiu a cabeça para desanuviá-la e levantou-se. Um tornozelo estava torcido. Uma dor abrasante percorria-lhe a perna até as entranhas e o suor começou a correr. Os artelhos e as unhas das mãos sangravam, mas isso era de se esperar.

Não há dor. Você não vai sentir dor. Ponha-se de pé e ereto. O bárbaro está olhando.

Uma coluna de salpicos ensopou-o e o frio ajudou a suavizar a dor. Com precaução, ele deslizou sobre os seixos polidos pelo mar, moveu-se lenta e cuidadosamente através das fendas e viu-se junto ao corpo.

Abruptamente Yabu percebeu que o homem ainda estava vivo. Certificou-se disso, depois sentou-se um instante. Você o quer vivo ou morto? O que é melhor?

Um caranguejo abriu passagem de sob uma rocha e estelou-se no mar. Ondas precipitavam-se de roldão. Yabu sentiu o sal dilacerar-lhe os ferimentos. O que é melhor, que viva ou que morra?

Levantou-se precariamente e gritou:

- Takatashi-san! O piloto ainda está vivo! Vá até o navio, traga uma padiola e um médico, se houver um a bordo!

As palavras de Takatashi lhe chegaram fracamente contra o vento:

- Sim senhor – e as que disse a seus homens, quando abalou em disparada: - Vigiem o bárbaro, não deixem que nada lhe aconteça!

Yabu contemplou a galera, flutuando sobre as âncoras suavemente. O outro samurai que ele mandara buscar cordas já estava ao lado dos esquifes. Viu quando o homem saltou para dentro de um, que foi descido. Sorriu para si mesmo, olhou para trás. Blackthorne se aproximava da borda do penhasco e gritava para ele com insistência.

O que está tentando dizer? Perguntou-se Yabu. Viu o piloto apontar para o mar, mas isso não lhe disse nada. O mar estava violento e forte, mas não diferente de antes.

Yabu desistiu de entender e voltou a atenção para Rodrigues. Com dificuldade, soltou o homem das rochas, tirando-o da rebentação. A respiração do português estava irregular, mas o coração parecia forte. Havia muitas escoriações. Um osso lascado salientava-se através da pele da barriga da perna esquerda. O ombro direito parecia deslocado. Yabu procurou vestígios de hemorragia em algum dos ferimentos, mas não encontrou nenhuma. Se não estiver ferido por dentro, talvez viva, pensou.

O daimio fora ferido inúmeras vezes e vira muitos morrendo ou sendo feridos para não ter atingido certa dose de habilidade diagnóstica. Se Rodrigu se mantiver aquecido, concluiu ele, tomar saquê, ervas fortes, muitos banhos quentes, viverá. Talvez não volte a andar, mas viverá. Sim. Quero que este homem viva. Se não puder andar, não importa. Talvez até seja melhor. Terei um piloto reserva – este homem certamente me deve a vida. Se o pirata não cooperar, talvez eu possa usar este aqui. Valeria a pena fingir tornar-me cristão? Será que isso os traria, a ambos, para mim?

O que Omi faria?

Esse é inteligente, Omi. Inteligente demais? Omi vê demais e rápido demais. Se pode ver tão longe, deve perceber que seu pai chefiaria o clã se eu desaparecesse – meu filho ainda é inexperiente demais para sobreviver sozinho -, e depois do pai, o próprio Omi. Neh?

O que fazer com Omi?

Digamos que eu dê Omi aos bárbaros. Como brinquedo.

Que tal isso?

Ouviu muitos gritos ansiosos lá em cima. Então entendeu o que o bárbaro estivera apontando. A maré! A maré estava se aproximando velozmente. Já estava ultrapassando a rocha adiante. Ele se arrastou penosamente mais para cima e estremeceu com uma pontada de dor no tornozelo. Qualquer outra saída ao longo da praia estava bloqueada pelo mar. Viu que a marca da maré no penhasco estava acima da altura de um homem em cima da base.

Olhou para o esquife. Ainda estava perto do navio. Na praia, Takatashi ainda ia correndo. As cordas não vão chegar a tempo, disse a si mesmo.

Seus olhos esquadrinharam a área diligentemente. Não havia como subir o penhasco. Nenhum rochedo oferecia abrigo. Nenhuma caverna. Dentro da água havia saliências, mas ele nunca conseguiria alcançá-las. Não sabia nadar e nao havia nada para usar como jangada.

Os homens lá em cima observavam-no. O bárbaro apontou para os afloramentos dentro do mar e fez movimentos de natação, mas ele balançou a cabeça. Procurou cuidadosamente de novo. Nada.

Não há escapatória, pensou. Você agora está comprometido com a morte. Prepare-se.

Karma, disse a si mesmo, e deu as costas para eles, acomodando-se mais confortavelmente, e usufruindo a iluminação que lhe adveio subitamente. Último dia, último mar, última luz, último prazer, último tudo. Que belos o mar, o céu, o frio e o sal. Começou a pensar no poema-canção final que deveria compor agora, por hábito. Sentiu-se afortunado. Tinha tempo para pensar claramente.

Blackthorne estava gritando:

- Ouça, seu filho de uma puta! Encontre uma saliência, tem que haver uma saliência em algum lugar!

Os samurais lhe barravam a frente, fitando-o como se fosse louco. Estava claro para eles que não havia saída e que Yabu estava simplesmente se preparando para uma morte suave, como eles fariam se estivessem lá. E ressentiam-se daqueles desvarios como sabiam que Yabu se ressentiria.

- Procurem ali embaixo, todos vocês. Talvez haja uma saliência! - Um deles aproximou-se da borda, olhou para baixo, sacudiu os ombros, e falou aos companheiros, que também sacudiram os ombros. Cada vez que Blackthorne tentava se aproximar mais da borda para procurar uma saída eles o detinham. Ele poderia facilmente ter empurrado um deles para a morte e sentiu-se tentado a isso. Mas compreendeu-os e aos seus problemas. Pense num modo de ajudar aquele bastardo. Você tem que salvá-lo, para salvar Rodrigues.

- Ei, seu japona miserável, mijão, bunda-mole! El, Kasigi Yabu! Onde estão os seus cojones? Não desista! Só os covardes desistem! Você é um homem ou uma ovelha? - Mas Yabu não prestava atenção. Estava tão imóvel quanto a rocha sobre a qual se sentara.

Blackthorne pegou uma pedra e atirou-a nele. Caiu despercebida na água e os samurais gritaram zangados com Blackthorne. Sabia que a qualquer momento eles iriam lhe cair em cima e amarrá-lo. Mas como poderiam fazer isso? Não têm corda...

Corda! Arranje uma corda! Sabe fazer uma corda!

Seus olhos toparam com o quimono de Yabu. Começou a rasgá-lo em tiras, testando-lhes a força. A seda era muito forte.

- Vamos! - ordenou aos samurais, tirando a própria camisa.

- Façam uma corda. Hai?

Eles compreenderam. Rapidamente desataram os cintos, despiram os quimonos e imitaram-no. Ele começou a unir as extremidades e os cintos.

Enquanto terminavam a corda, Blackthorne cuidadosamente se deitou e avançou lentamente por sobre a borda, fazendo dois deles segurar-lhe os tornozelos por medida de segurança. Não precisava da ajuda deles, mas quis tranqüilizá-los.

Estendeu a cabeça tão longe quanto pôde, consciente da preocupação deles. Depois começou a investigar como se faz ao mar. Quadrante por quadrante. Usando cada ângulo da sua visão, mas principalmente os laterais.

Uma busca completa. Nada.

Mais uma vez.

Nada.

De novo.

O que é aquilo? Bem acima da linha da maré? É uma rachadura no penhasco? Ou uma sombra?

Blackthorne mudou de posição, agudamente consciente de que o mar já havia quase coberto a rocha onde Yabu estava sentado, e quase todas as outras entre ele e a base do penhasco. Agora podia ver melhor e apontou.

- Ali! O que é aquilo?

Um dos samurais estava de quatro e seguiu o dedo esticado de Blackthorne, mas não viu nada.

- Ali! Não é uma saliência?

Com as mãos, formou a saliência e com dois dedos fez um homem. Pôs o homem em pé sobre a saliência e, com outro dedo, fez um longo fardo sobre o ombro do homem, de modo que agora havia um homem sobre a saliência - aquela saliência - com outro sobre o ombro.

- Depressa! Isogi! Façam-no compreender. Kasigi Yabusama! Wakarimasu ka?

O homem arrastou-se para cima e falou rapidamente com os  outros, que também olharam. Agora todos viam a saliência. E  começaram a gritar. Nenhum movimento de Yabu. Parecia uma  pedra. Continuaram e Blackthorne juntou seus gritos aos deles,  mas era como se não emitissem som algum. Um deles falou brevemente aos outros, todos assentiram e se  curvaram. Ele retribuiu a reverência. Então, com um repentino  grito de " Bansaüüüü!", atirou-se do penhasco lançando-se para a  morte. Yabu saiu violentamente do seu transe, olhou em torno  atarantado e arrastou-se mais para cima. Os outros samurais gritaram e apontaram, mas Blackthorne não ouvia nem via nada  senão o cadáver que jazia lá embaixo, já sendo levado pelo mar.  Que espécie de homens são esses? pensava. Isso foi coragem  ou somente insanidade? Aquele homem deliberadamente cometeu  suicídio apenas com a finalidade, possivelmente remota, de atrair  a atenção de outro homem que havia capitulado. Não faz sentido!  Eles não fazem sentido.

Viu Yabu cambalear. Esperou que ele rastejasse para a segurança abandonando Rodrigues. Isso é o que eu teria feito. É?  Não sei. Mas Yabu meio engatinhou, meio deslizou, arrastando o  homem inconsciente através dos baixios invadidos pela rebentação  até a base do penhasco. Encontrou a saliência. Tinha mal e mal  um pé de largura. Penosamente empurrou Rodrigues para lá,  quase o perdendo uma vez, depois puxou a si mesmo.

A corda tinha vinte pés de comprimento. Rapidamente os  samurais acrescentaram as tangas. Agora, se Yabu se pusesse ereto,  mal poderia tocar-lhe a ponta.

Eles gritaram para encorajá-lo e se puseram à espera.

Apesar do ódio, Blackthorne teve que admirar a coragem de Yabu. Por uma meia dúzia de vezes as ondas quase o tragaram. Por duas vezes Rodrigues esteve perdido, mas de cada vez Yabu arrastou-o de volta, segurando-lhe a cabeça fora da água sôfrega, muito depois do ponto em que Blackthorne sabia que ele mesmo teria desistido. De onde você tira a coragem, Yabu? É gerada pelo Demônio? Em todos vocês?

Para descer, em primeiro lugar, fora necessário coragem. Primeiro Blackthorne pensara que Yabu agira por bravata. Mas logo vira que o homem estava enfrentando o penhasco e quase vencendo. Depois amortecera a queda tão agilmente quanto qualquer acrobata. E capitulara com dignidade.

Jesus Cristo, admiro esse bastardo, e detesto-o.

Por quase uma hora Yabu resistiu ao mar e ao seu corpo fraquejando, e então, ao crepúsculo, Takatashi voltou com as cordas. Fizeram uma espécie de berço e o escorregaram pelo penhasco com uma habilidade que Blackthorne nunca vira em terra.

Rapidamente Rodrigues foi trazido para cima. Blackthorne teria tentado socorrê-lo, mas um japonês com cabelo cortado rente já estava de joelhos ao lado dele. Ficou observando enquanto aquele homem, obviamente um médico, examinava a perna quebrada. Depois um samurai segurou os ombros de Rodrigues enquanto o doutor apoiava o seu peso sobre o pé e o osso deslizava de volta sob a carne. Seus dedos sondaram a perna, apertaram, apoiaram e amarraram-na à tala. Começou a enrolar ervas de aparência insalubre em torno do ferimento inflamado, quando Yabu foi trazido para cima.

O daimio recusou qualquer ajuda, mandou o médico de volta para Rodrigues com um gesto, sentou-se e esperou.

Blackthorne olhou para ele. Yabu sentiu-lhe os olhos. Os dois homens se encararam.

- Obrigado -— disse Blackthorne finalmente, apontando para Rodrigues. - Obrigado por salvar-lhe a vida. Obrigado, Yabu-san. - Curvou-se vagarosamente. Isto é pela sua coragem, seu filho de olhos pretos de uma puta de merda apodrecida!

Yabu retribuiu a reverência de modo igualmente rígido. Mas por dentro sorria.

 

A viagem da baía para Osaka foi rotineira. Os portulanos de Rodrigues eram explícitos e muito precisos. Durante a primeira noite, Rodrigues recuperara a consciência. No começo achou que estivesse morto, mas a dor logo o fez pensar diferente.

- Eles endireitaram a sua perna e enfaixaram-na - disse Blackthorne. - E enfaixaram o ombro também. Estava deslocado. Não vão lhe fazer uma sangria, por mais que eu tenha tentado convencê-los.

- Quando chegar a Osaka os jesuítas podem fazer isso. - Os atormentados olhos de Rodrigues cravaram-se nele. - Como vim parar aqui, Inglês? Lembro-me de ser atirado ao mar, e nada mais.

Blackthorne contou-lhe.

- Então agora lhe devo a vida. Deus o amaldiçoe.

- Do tombadilho parecia que podíamos atingir a baía. Da proa, o seu ângulo de visão era alguns graus diferente. A onda foi má sorte.

- Isso não me preocupa, Inglês. Você estava no tombadilho e tinha o timão. Ambos sabíamos disso. Não, amaldiçôo você com o inferno porque agora lhe devo uma vida. Nossa Senhora, minha perna! - Lágrimas brotaram-lhe por causa da dor e Blackthorne deu-lhe uma caneca de grogue. Velou-o a noite toda. A tempestade arrefeceu. O médico japonês veio várias vezes: forçou Rodrigues a tomar um remédio quente, colocou-lhe toalhas quentes sobre a testa e abriu as vigias. Cada vez que o médico ia embora Blackthorne as fechava, pois todo mundo sabia que a doença era conduzida pelo ar, que quanto mais firmemente fechada estivesse a cabina, mais segura e saudável seria para um homem tão mal quanto Rodrigues.

Finalmente o médico gritou com ele e postou um samurai junto às vigias, que permaneceram abertas.

Ao amanhecer Blackthorne foi para o convés. Hiromatsu e Yabu estavam ambos lá. Fez-lhes uma mesura como um cortesão.

- Konnichi Wa. Osaka?

Retribuíram-lhe a saudação. –

- Osaka. Hai, Anjin-san - disse Hiromatsu.

- Hai! Isogi, Hiromatsu-sama. Capitão-san! Levantar ferros!

- Hai, Anjin-san.

Sorriu involuntariamente para Yabu. Yabu correspondeu ao sorriso, depois afastou-se coxeando. É um homem fantástico, pensou Blackthorne, embora seja um demônio e um assassino. Você também não é assassino? Sim, mas não desse jeito, disse a si mesmo.

Blackthorne pilotou o navio até Osaka com facilidade. A viagem durou aquele dia e aquela noite, e pouco antes do amanhecer do dia seguinte encontravam-se próximos das entradas de Osaka.

Um piloto japonês subiu a bordo para levar o navio ao ancoradouro e Blackthorne, aliviado da responsabilidade, desceu, satisfeito, para dormir. Mais tarde o capitão acordou-o com uma sacudidela, curvou-se e gesticulou que Blackthorne devia se preparar para ir com Hiromatsu assim que atracassem.

- Wakarimasu ka, Anjin-san?

- Hai.

O marujo foi embora. Blackthorne estirou os músculos das costas, doloridos, então viu Rodrigues a observá-lo.

- Como se sente?

- Bem, Inglês. Considerando que a minha perna está em chamas, minha cabeça estourando, quero mijar, e minha língua está com o gosto que deve ter um barril de bosta de porco!

Blackthorne deu-lhe o urinol, depois esvaziou-o pela vigia. Tornou a encher a caneca com grogue.

- Você é uma enfermeira abominável, Inglês. É por causa do seu coração preto. - Rodrigues riu e foi bom ouvi-lo rir novamente. Seus olhos se dirigiram para o portulano que estava aberto sobre a mesa, e para a sua arca. Viu que fora destrancada. - Eu lhe dei a chave?

- Não. Eu revistei você. Precisava do portulano verdadeiro. Disse-lhe isso quando acordou na primeira noite.

- É justo. Não me lembro, mas é justo. Ouça, Inglês, pergunte a qualquer jesuíta por Vasco Rodrigues em Osaka e eles o guiarão até mim. Venha me ver... e poderá tirar uma cópia do meu portulano, se quiser.

- Obrigado. Já tirei uma cópia. Pelo menos copiei o que pude, e li o resto com todo o cuidado.

- Puta que o pariu! - disse Rodrigues em espanhol.

- A sua.

Rodrigues voltou a falar português.

- Falar espanhol me dá ânsia de vômito, embora se possa praguejar melhor nessa língua do que em qualquer outra. Há um pacote na minha arca. Dê-me, por favor.

- O que tem os lacres jesuítas?

- Sim.

Ele lhe deu o pacote. Rodrigues examinou-o, apalpou os selos intactos, depois pareceu mudar de idéia, pôs o pacote sobre o áspero cobertor sob o qual estava deitado, e recostou a cabeça de novo.

- Ah, Inglês, a vida é tão estranha!

- Por quê?

- Se eu viver, será por causa da graça de Deus, ajudado por um herege e por um japonês. Mande o comedor de grama descer, de modo que eu possa agradecer-lhe, hem?

- Agora?

- Mais tarde.

- Está bem.

- Essa sua esquadra, essa que você diz que está atacando Manila, a de que você falou com o padre... qual é a verdade, Inglês?

- Uma esquadra de navios nossos vai destroçar o seu império na Ásia.

- Existe uma esquadra?

- Claro.

- Quantos navios estavam na sua esquadra?

- Cinco. O resto está ao largo, a uma semana mais ou menos. Vim na frente para sondar terreno e fui apanhado pela tempestade.

- Mais mentiras, Inglês. Mas não me importo... contei meus captores. Não há tantas mentiras quanto você aos algum nem esquadra.

- Espere e verá.

- Esperarei. - Rodrigues bebeu lentamente.

Blackthorne espreguiçou-se e foi até a vigia, querendo parar com aquela conversa, e olhou para a praia e a cidade lá fora.

- Pensei que Londres fosse a maior cidade do mundo, mas comparada a Osaka é uma cidadezinha.

- Eles têm dúzias de cidades como esta - disse Rodrigues, contente também por parar o jogo de gato e rato, que, sem tortura, nunca levaria a nada. - Miyako, a capital, ou Kyoto, como é chamada às vezes, é a maior cidade do império, mais de duas vezes o tamanho de Osaka, assim dizem. Depois vem Yedo, capital de Toranaga. Nunca estive lá, assim como nenhum padre e nenhum português. Toranaga mantém a cidade dele trancada, uma cidade proibida. No entanto - acrescentou Rodrigues, deitando-se no beliche e fechando os olhos, o rosto tenso de dor -, no entanto isso não é diferente do resto. O Japão todo está oficialmente proibido para nós, com exceção dos portos de Nagasaki e Hirado. Nossos padres não prestam muita atenção às ordens, no que agem acertadamente, e vão aonde lhes agrada ir. Mas nós, marujos, não podemos, nem os mercadores, a menos que seja com um passe especial dos regentes, ou de um grande daimio, como Toranaga. Qualquer daimio pode apreender um dos nossos navios - como Toranaga fez com o seu - fora de Nagasaki ou Hirado. É a lei deles.

- Quer descansar agora?

- Não, Inglês. Conversar é melhor. Ajuda a afastar a dor. Minha Nossa Senhora, que dor de cabeça! Não posso pensar claramente. Vamos conversar até você desembarcar. Venha aqui e me olhe - há muita coisa que quero lhe perguntar. Dê-me mais um pouco de grogue. Obrigado, obrigado, Inglês.

- Por que vocês são proibidos de ir aonde quiserem?

- O quê? Oh, aqui no Japão? Foi o taicum, foi ele que começou o problema todo. Desde que viemos pela primeira vez, em 1542, para dar início à obra de Deus e para trazer-lhes a civilização, nós e nossos padres podíamos nos mover livremente, mas, quando o taicum conseguiu o poder todo, começou com as proibições. Muitos acreditam... você poderia mudar minha perna de posição? Tire o cobertor de cima do meu pé, está queimando... sim... oh, minha Nossa Senhora, tenha cuidado.., aí, obrigado, Inglês. Sim, onde é que eu estava? Oh, sim... muitos acreditam que o taicum era o pênis de Satã. Há dez anos emitiu editos contra os santos padres, Inglês, e contra todos os que quisessem difundir a palavra de Deus. E baniu a todos, menos os mercadores, há uns dez, doze anos atrás. Foi antes de eu vir para estas águas. .. estou aqui há sete anos, para lá e para cá. Os santos padres dizem que foi por causa dos sacerdotes pagãos, os budistas, os fedorentos e invejosos adoradores de ídolos. Esses pagãos viraram o taicum contra os nossos santos padres, encheram-no de mentiras, quando já o haviam quase convertido. Sim, o grande assassino em pessoa quase teve a alma salva. Mas perdeu a oportunidade de salvação. Sim.. Em todo caso, ordenou que todos os nossos padres deixassem o Japão... Eu lhe disse que isso foi há uns dez anos e pouco?

Blackthorne assentiu com a cabeça, contente por deixá-lo divagar e contente por ouvir, desesperado por aprender.

- O taicum reuniu todos os padres em Nagasaki, pronto para embarcá-los para Macau com ordens escritas de nunca regressarem, sob pena de morte. Então, igualmente de repente, deixou-os todos em paz e não fez mais nada. Eu lhe disse que os japoneses são confusos. Sim, deixou-os em paz e logo estava tudo como antes, exceto que a maioria dos padres ficou em Kyushu, onde eram bem-vindos. Eu lhe contei que o Japão é feito de três grandes ilhas, Kyushu, Shikoku e Honshu? E milhares de ilhas pequenas. Há outra ilha bem ao norte - alguns dizem que já é continente -, chamada Hokkaido, mas só nativos peludos vivem lá.

"O Japão é um mundo de cabeça para baixo, Inglês. O Padre Alvito me contou que ficou tudo como se nada tivesse jamais acontecido. O taicum tão amigável quanto antes, embora nunca se tenha convertido. Mal e mal mandou fechar uma igreja e baniu só dois ou três dos daimios cristãos - mas isso foi só para se apoderar das terras deles - e nunca pôs em prática os editos de expulsão. Então, há três anos, ficou louco de novo e martirizou vinte e seis padres. Crucificou-os em Nagasaki. Por nenhuma razão. Era um maníaco, Inglês. Mas depois de assassinar os vinte e seis, não fez mais nada. Morreu logo depois. Foi a mão de Deus, Inglês. A maldição de Deus estava sobre ele e está sobre os seus descendentes. Tenho certeza disso."

- Vocês têm muitos convertidos aqui?

Mas Rodrigues não pareceu ouvir, perdido na sua própria semi-consciência.

- São animais, os japoneses. Contei-lhe sobre o Padre Alvito? É o intérprete, chamam-no de Tsukku-san, Sr. Intérprete. Era o intérprete do taicum, Inglês, agora é o intérprete oficial do conselho de regentes e fala japonês melhor do que muitos japoneses e sabe mais sobre eles do que qualquer homem vivo. Contou-me que há um monte de terra de cinqüenta pés de altura em Miyako, a capital, Inglês. O taicum tinha o nariz e as orelhas de todos os coreanos mortos na guerra reunidos e enterrados ali. A Coréia é parte do continente, e a oeste de Kyushu. É verdade! É verdade! Pela Virgem abençoada, nunca houve umassassino como ele, e são todos igualmente ruins. - Os olhos de Rodrigues estavam fechados e sua testa ardia.

- Vocês tem muitos convertidos? - perguntou Blackthorne de novo, com cuidado, querendo desesperadamente saber quantos inimigos havia ali. Para espanto seu, Rodrigues disse: - Centenas de milhares, e mais a cada ano. Desde a morte do taicum temos tido mais conversões do que nunca, e os que eram cristãos em segredo agora vão ã igreja abertamente. A maioria na ilha de Kyushu é católica agora. A maioria dos daimios de Kyushu são convertidos. Nagasaki é uma cidade católica, os jesuítas são os donos dela, dirigem-na e controlam o comércio. O comércio todo passa por Nagasaki. Temos uma catedral, uma dúzia de igrejas, e muitas mais espalhadas por Kyushu, mas ainda há poucas aqui na ilha principal, Honshu, e... - A dor o interrompeu novamente. Após um instante, continuou: - Há três ou quatro milhões de pessoas só em Kyushu. Serão todos católicos logo, logo. Há mais uns vinte e tantos milhões de japoneses nas ilhas e em breve...

- Isso não é possível! - Blackthorne imediatamente se amaldiçoou por interromper o fluxo de informações.

- Por que eu mentiria? Houve um recenseamento há dez anos. O Padre Alvito disse que foi ordenado pelo taicum e ele deve saber, pois estava lá. Por que mentiria? - Os olhos de Rodrigues estavam febris e ele estava perdendo o controle sobre a boca. - Isso é mais do que a população de Portugal todo, a Espanha toda, a França toda, a Neerlândia espanhola e a Inglaterra, tudo junto, e você quake poderia juntar aí o Santo Império Romano inteiro também!

Senhor Jesus, pensou Blackthorne, a Inglaterra toda não tem mais que trés milhões de habitantes. E isso inclui o País de Gales.Se há tantos japoneses assim, como vamos poder lidar com eles? Se há vinte milhões, isso significa que, se quisessem, poderiam facilmente reunir um exército com mais homens do que a nossa população inteira. E se são todos tão ferozes quanto os que eu vi - e por que não seriam? -, pelas chagas de Cristo, eles seriam imbatíveis. E se também são parcialmente católicos, e se os jesuítas estão aqui maciçamente, os efetivos deles aumentarão, e não há fanático que se compare a um convertido fanático. Então que chance temos nós e os holandeses na Ásia?

Absolutamente nenhuma.

- Se você acha que é muito - estava dizendo Rodrigues -, espere até ir à China. São todos amarelos lá, todos com cabelos e olhos pretos. Oh, Inglês, digo-lhe que você tem tanta novidade para aprender! Estive em Cantão no ano passado, nas vendas de seda. Cantão é uma cidade murada no sul da China, sobre o rio Pérola, ao norte da nossa Cidade do Nome de Deus, Macau. Há um milhão desses pagãos comedores de cachorros só dentro daqueles muros. A China tem mais gente do que todo o resto do mundo reunido. Deve ter. Pense nisso! - Um espasmo de dor percorreu-lhe o corpo e ele pressionou o estômago com a mão ilesa. - Tive alguma hemorragia? Em algum lugar?

- Não. Verifiquei isso. É só a sua perna e o ombro. Você não está ferido por dentro, Rodrigues, pelo menos não acho que esteja.

- Como está a perna? Muito mal?

- Foi lavada e limpa pelo mar. O corte estava limpo e a pele também, no momento.

- Você derramou conhaque em cima e acendeu fogo?

- Não. Eles não me deixariam. Ordenaram que eu me afastasse. Mas o médico parece saber o que está fazendo. A sua gente virá a bordo logo?

- Sim. Assim que atracarmos. Isso é mais que provável.

- Bom. você estava dizendo? Sobre a China e Cantão?

- Eu estava falando demais, talvez. Temos tempo bastante para falar nisso.

Blackthorne viu a mão ilesa do português brincar com o pacote lacrado e novamente perguntou a si mesmo que significado tinha aquilo.

- Sua perna vai ficar boa. Você vai saber disso no decorrer da semana.

- Sim, Inglês.

- Não acho que vá degenerar... não tem pus... você está pensando com clareza, de modo que o seu cérebro está em ordem.

Você ficará ótimo, Rodrigues.

- Ainda lhe devo a vida. - Um arrepio percorreu o português. - Quando estava me afogando, tudo em que podia pensar era nos caranguejos subindo e me entrando pelos olhos. Podia senti-los agitando-se dentro de mim, Inglês. Foi a terceira vez que fui atirado ao mar e de cada vez é pior.

- Fui posto a pique quatro vezes. Três por espanhóis.

A porta da cabina se abriu, o capitão inclinou-se e fez sinal para que Blackthorne subisse.

- Hai! - Blackthorne levantou-se. - você não me deve nada, Rodrigues - disse gentilmente. - Deu-me a vida e socorreu-me quando eu estava desesperado, e agradeço-lhe isso. Estamos quites.

- Talvez, mas ouça, Inglês, uma verdade para você, como pagamento parcial: nunca se esqueça de que os japoneses têm seis caras e três corações. É um ditado deles que um homem tem um falso coração na boca para que todo mundo veja, outro no peito para mostrar aos amigos muito especiais e à família, e o verdadeiro, o real, o secreto,' que nunca é conhecido por ninguém exceto por eles mesmos, escondido só Deus sabe onde. São traiçoeiros para além da crença.

- Por que Toranaga quer me ver?

- Não sei. Pela Virgem abençoada! Não sei. Volte para me ver, se puder.

- Sim. Boa sorte, espanhol!

- Espanhol é a mãe! Ainda assim, vá com Deus!

Blackthorne retribuiu o sorriso, sem reservas. Subiu para o convés e ficou atarantado com o impacto de Osaka, sua imensidade, o laborioso formigueiro humano, e o enorme castelo que dominava a cidade.

De dentro da vastidão do castelo vinha a beleza sublime do torreão - a torre central - com sete ou oito pavimentos de altura, coruchéus pontudos com telhados curvos em cada nível, as telhas todas douradas e os muros azuis. É ali que Toranaga deve estar, pensou, sentindo repentinamente uma farpa de gelo nas entranhas.

Um palanquim fechado levou-o a um casarão. Ali deram-lhe um banho, comeu, inevitavelmente a sopa de peixe, peixe cru e defumado, um pouco de verduras em conserva, e bebeu a água quente com ervas. Ao invés de sopa de trigo, esta casa ofereceu-lhe uma tigela de arroz. Ele só tinha visto arroz em Nápoles. Era branco e saudável, mas para ele insosso. Seu estômago gritava por carne e pão, pão fresco sequinho, pesado de manteiga, um bife de lombo, tortas, frangos, cerveja, ovos.

No dia seguinte uma criada veio buscá-lo. As roupas que Rodrigues lhe dera foram lavadas e passadas. Ela ficou olhando enquanto ele se vestia, e ajudou-o a calçar os sapatos-meias rabis. Do lado de fora havia um novo par de sandálias de tiras. Faltavam as botas. Ela balançou a cabeça e apontou pari as sandálias e depois para o palanquim com cortinas. Uma falange de samurais o rodeava. O chefe fez-lhe sinal que se apressasse e entrasse no palanquim.

Puseram-se em movimento imediatamente. As cortinas estavam hermeticamente fechadas. Após uma eternidade, o palanquim parou.

- Você não vai ficar com medo - disse ele em voz alta, e saiu.

O gigantesco portão de pedra do castelo estava à sua frente fixado a um muro de trinta pés, com ameias interligadas, bastiões o fortificações exteriores. A porta era imensa, com placas de ferro, e estava aberta, o rastrilho de ferro forjado levantado. Além havia uma ponte de madeira, com vinte passos de largura e duzentos de comprimento, que se estendia sobre o fosso e terminava numa enorme ponte levadiça, e outro portão, aberto no segundo muro, igualmente imenso.

Centenas de samurais estavam por toda parte. Todos usavam o mesmo uniforme cinza-escuro - quimonos presos com cinto, cada um com cinco pequenas insígnias circulares, uma em cada braço, uma de cada lado do peito e uma no meio das costas.

A insígnia era azul, aparentemente uma flor ou várias flores.

- Anjin-san!

Hiromatsu estava sentado rigidamente num palanquim aberto, levado por quatro carregadores de libré. Seu quimono era marrom-escuro, o cinto preto, o mesmo dos cinqüenta samurais que o rodeavam. Eles, igualmente, tinham cinco insígnias no quimono, mas escarlates, como a que tremulava no topo do mastro, o monograma de Toranaga. Esses samurais carregavam longas lanças, com minúsculas bandeiras na ponta.

Blackthorne curvou-se sem pensar, levado pela majestade de Hiromatsu. O velho curvou-se também, formalmente, a espada comprida solta, no colo, e fez-lhe sinal que o seguisse.

O oficial do portão avançou. Houve uma leitura cerimoniosa do papel que Hiromatsu lhe estendeu, muitas mesuras e olhares para Blackthorne. Em seguida passaram para a ponte, com uma escolta dos cinzentos engatando ao lado deles.

A superfície do fosso profundo estava cinqüenta pés abaixo. Estendia-se por cerca de trezentos passos até o outro lado, depois acompanhava os muros quando estes se voltavam para o norte. Senhor Deus, pensou Blackthorne, eu odiaria ter que tentar um ataque aqui. Os defensores poderiam deixar a guarnição do muro exterior perecer, queimar a ponte, e estariam a salvo lá dentro. Jesus, o muro externo deve ter aproximadamente uma milha quadrada e olhe, deve ter vinte, trinta pés de espessura - o de dentro também. E é construído com enormes blocos de pedra. Cada um deve ter dez pés por dez! No mínimo! Perfeitamente cortados e fixados no lugar sem argamassa. Devem pesar cinqüenta toneladas no mínimo. Melhor do que qualquer um que pudéssemos fazer. Armas de assédio? Certamente poderiam bombardear os muros externos, mas as armas defensoras revidariam o ataque com a mesma intensidade. Seria duro pegá-los aqui em cima, e não há nenhum ponto mais alto do qual arremessar granadas para dentro do castelo. Se o muro externo fosse tomado, os defensores ainda poderiam fazer os atacantes voar para longe das ameias. Mas mesmo que se pudessem colocar armas de assédio ali, voltá-las contra o muro seguinte e bombardeá-lo, não lhe causaria dano algum. Poderiam danificar o portão, mas para que serviria isso? Como se poderia cruzar o fosso? É vasto demais para os métodos normais. O castelo deve ser inexpugnável - com soldados suficientes. Quantos soldados há aqui? Quantos habitantes da cidade encontrariam abrigo lá dentro?

Faz a Torre de Londres parecer uma pocilga. E a Hampton Court toda caberia num canto!

No portão seguinte houve outra verificação cerimoniosa dos papéis. A estrada virou para a esquerda imediatamente, descendo uma vasta avenida alinhada de casas pesadamente fortificadas por trás de muros maiores e menores, facilmente defendíveis, depois se multiplicava num labirinto de degraus e caminhos. Depois havia outro portão e mais verificação, outro rastrilho e outro vasto fosso e novas voltas e volteios até que Blackthorne, que era um observador acurado, com uma extraordinária memória e senso de direção, se perdesse em hesitação numa confusão premeditada pelos planejadores do castelo. E o tempo todo inúmeros cinzentos os olhavam de taludes, trincheiras, ameias, parapeitos e bastiões. E havia mais deles em pé, guardando, marcando, treinando ou cuidando de cavalos em estábulos abertos. Soldados por toda parte, aos milhares. Todos bem armados e meticulosamente vestidos.

Blackthorne amaldiçoou a si mesmo por não ter sido esperto o bastante para arrancar mais coisas de Rodrigues. A parte a informação sobre o taicum e os convertidos, fornecidas já com muita vacilação, Rodrigues fora tão fechado quanto um homem deve ser - como você foi, evitando as perguntas dele.

Concentre-se. Procure indícios. O que há de especial neste castelo? É o maior. Não, alguma coisa diferente. O quê?

Os cinzentos são hostis aos marrons? Não posso dizer, são todos tão sérios.

Blackthorne observou-os cuidadosamente e se concentrou nos detalhes. A esquerda havia um jardim multicolorido, cuidadosamente tratado, com pequenas pontes e um minúsculo riacho. Os muros agora estavam mais próximos uns dos outros, as ruas mais estreitas. Estavam se aproximando do torreão. Não havia gente da cidade lá dentro, mas centenas de criados e... Nao há canhões! É isso que é diferente! Você não viu nem um canhão. Nem um.

Senhor Deus do paraíso, nenhum canhão... por isso não há armas de assédio! Se você tivesse armas modernas e os defensores não, conseguiria explodir os muros, as portas, lançar granadas no castelo, incendiá-lo e tomá-lo?

Não conseguiria atravessar o primeiro fosso.

Com armas de assédio você talvez tornasse as coisas difíceis para os defensores, mas eles poderiam resistir para sempre - se a guarnição fosse resoluta, se houvesse quantidade suficiente deles, com comida suficiente, água e munição.

Como atravessar os fossos? De barco? Balsas com torres?

Sua mente tentava delinear um plano quando o palanquim parou. Hiromatsu desceu. Estavam num estreito beco sem saída. Um imenso portão de madeira reforçada com ferro estava encravado no muro de vinte pés, que se fundia com as fortificações externas do local fortificado acima, ainda distante do torreão, que dali ficava oculto em grande parte. Ao contrário de todos os outros portões, este era guardado pelos marrons, os únicos que Blackthorne viu dentro do castelo. Era claro que ficaram mais que contentes de ver Hiromatsu.

Os cinzentos deram meia-volta e partiram. Blackthorne notou os olhares hostis que receberam dos marrons.

Então eles são inimigos!

O portão girou nos gonzos e ele seguiu o velho para dentro. Sozinho. Os outros samurais ficaram do lado de fora.

O pátio interno era guardado por mais marrons, assim como o jardim que ficava além. Cruzaram o jardim e entraram na fortaleza. Hiromatsu descalçou as sandálias e Blackthorne o imitou.

O corredor interno era ricamente atapetado com tatamis, as mesmas esteiras de junco, limpas e macias aos pés, que havia no chão de quase todas as casas, mesmo as mais pobres. Blackthorne já havia notado que eram todas do mesmo tamanho, cerca de seis pés por três.

E de se pensar, disse a si mesmo; nunca vi esteiras moldadas ou cortadas em grandes dimensões. E nunca encontrei um aposento de formato indefinido! Todos os cômodos até agora não eram exatamente quadrados ou retangulares? Claro! Isso quer dizer que todas as casas - ou cômodos - devem ser construídos para conter um número exato de esteiras. Por isso são todas de tamanho padrão! Que coisa estranha!

Subiram escadas em caracol, facilmente defendíveis, seguiram por outros corredores e mais escadas. Havia muitos guardas, sempre marrons. Raios de sol vindos das seteiras na parede traçavam desenhos intricados. Blackthorne podia ver que agora estavam bem acima dos três principais muros circundantes. A cidade e a enseada eram uma colcha desenhada lá embaixo.

O corredor dobrou uma esquina brusca e terminou cinqüenta passos à frente.

Blackthorne sentiu gosto de bile na boca. Não se preocupe, disse a si mesmo, vote já resolveu o que vai fazer. Está comprometido.

Uma multidão de samurais, com seu jovem oficial a frente, protegia a última porta — cada um deles com a mão direita sobre o punho da espada, a esquerda na bainha, todos imóveis e prontos, fitando os dois homens que se aproximavam.

Hiromatsu sentiu-se tranqüilizado pela prontidão deles. Selecionara pessoalmente aqueles guardas. Odiava o castelo e pensou novamente em como fora perigoso para Toranaga colocar-se em poder do inimigo. Assim que desembarcara, na véspera, acorrera ao encontro de Toranaga, para lhe contar o que acontecera e descobrir se ocorrera alguma coisa desfavorável na sua ausência, Mas continuava tudo tranqüilo, embora seus espiões sussurrassem sobre perigosas formações do inimigo a norte e a leste, e que seus principais aliados, os regentes Onoshi e Kiyama, os daimios cristãos mais importantes, iam se passar para Ishido. Hiromatsu trocara a guarda e as senhas, e novamente implorara a Toranaga que partisse, o que fora em vão.

A dez passos do oficial ele se deteve.

 

Yoshi Naga, oficial do turno, era um perigoso e arisco jovem de dezessete anos. - Bom dia, senhor. Seja bem-vindo.

- Obrigado. O Senhor Toranaga está a minha espera.

- Sim. - Mesmo que Hiromatsu não fosse esperado, Naga o teria admitido do mesmo modo. Toda Hiromatsu era uma das trés únicas pessoas no mundo que tinham permissão para se dirigir à presença de Toranaga de dia ou de noite, sem audiência marcada.

- Revistem o bárbaro - disse Naga. Era o quinto filho de Toranaga com uma das consortes, e idolatrava o pai.

Blackthorne submeteu-se quietamente, entendendo o que eles estavam fazendo. Os dois samurais eram muito habilidosos. Nada lhes teria escapado.

Naga fez sinal para o resto de seus homens. Moveram-se para o lado. Ele abriu pessoalmente a pesada porta.

Hiromatsu entrou na imensa sala de audiência. Pouco além da soleira, ajoelhou-se, colocou as espadas no chão a sua frente, estendeu as mãos no chão ao lado delas e inclinou profundamente a cabeça, esperando nessa posição abjeta.

Naga, sempre vigilante, indicou a Blackthorne que fizesse o mesmo. Blackthorne avançou. A sala tinha quarenta passos quadrados e dez de altura, com tatamis da melhor qualidade, impecáveis e com quatro dedos de espessura. Havia duas portas na parede oposta. Perto do estrado, num nicho, um pequeno vaso de cerâmica com um único ramo de flor de cerejeira, que enchia o quarto de cor e perfume.

Ambas as portas estavam guardadas. A dez passos do estrado, rodeando-o, encontravam-se mais vinte samurais, sentados de pernas cruzadas.

Toranaga estava sentado sobre uma única almofada no estrado. Estava tratando de uma pena quebrada na asa de um falcão encapuzado, tão delicadamente quanto um entalhador de marfim.

Nem ele nem ninguém na sala mostrou ter notado a presença de Hiromatsu ou prestado atenção a Blackthorne quando este avançou e parou ao lado do velho. Mas ao contrário de Hiromatsu, Blackthorne se inclinou como Rodrigues lhe mostrara, depois, tomando fôlego profundamente, sentou-se de pernas cruzadas e olhou fixamente para Toranaga.

Todos os olhos faiscaram na direção de Blackthorne.

Na soleira da porta, a mão de Naga estava sobre a espada. Hiromatsu já havia agarrado a sua, embora ainda estivesse de cabeça inclinada.

Blackthorne sentiu-se nu, mas se havia comprometido e agora só podia esperar. Rodrigues dissera: "Com os japoneses, você tem que agir como um rei", e embora aquilo não fosse agir como um rei, era mais que suficiente.

Toranaga levantou os olhos lentamente.

Uma gota de suor começou a brotar na têmpora de Blackthorne, quando tudo o que Rodrigues lhe dissera sobre os samurais pareceu se cristalizar naquele único homem. Sentiu o suor escorrer pouco a pouco pelo rosto até o queixo. Forçou-se a manter os olhos azuis firmes e sem piscar, o rosto calmo. o            olhar de Toranaga era igualmente fixo.

Blackthorne sentiu o poder quase esmagador do homem estender-se até ele. Forçou-se a contar até seis, lentamente, depois inclinou a cabeça e curvou-a levemente de novo, esboçando um pequeno e calmo sorriso.

Toranaga olhou-o brevemente, o rosto impassível, depois baixou o olhar e se concentrou novamente no que estava fazendo. A tensão na sala diminuiu.

O falcão não era do país e estava na plenitude. O treinador, um velho e enrugado samurai, estava de joelhos diante de Toranaga, segurando o falcão como se fosse algodão de vidro. Toranaga cortou a pena quebrada, mergulhou a minúscula agulha de bambu na cola e inseriu-a no cabo da pena, depois delicadamente enfiou a pena recém-cortada até a outra extremidade. Ajustou o ângulo até considerá-lo perfeito e amarrou-a com um fio de seda. Os minúsculos sinos nos pés do falcão retiniram e ele acalmou-lhe o medo.

Yoshi Toranaga, senhor de Kwanto - as Oito Províncias cabeça do clã Yoshi, general-chefe dos exércitos do leste, presidente do conselho de regentes, era um homem baixo com uma grande cintura e um largo nariz. Tinha as sobrancelhas espessas e escuras, o bigode e a barba ralos e salpicados de cinza. Os olhos dominavam-lhe o rosto. Tinha cinqüenta e oito anos e era forte para a idade. Usava um quimono simples, um uniforme marrom comum, com cinto de algodão. Mas suas espadas eram as melhores do mundo.

- Aí está, minha beleza - disse ele com uma ternura de amante. - Agora você está inteira de novo. - Acariciou a ave com uma pena enquanto ela se sentava sempre encapuzada no pulso enluvado do treinador. Ela se arrepiou e se alisou com o bico, satisfeita. - Vamos fazê-la voar ainda esta semana.

O treinador curvou-se e saiu.

Toranaga voltou os olhos para os dois homens à porta.

- Bem-vindo, Punho de Aço, estou contente em vê-lo - disse. - Então esse é o seu famoso bárbaro?

- Sim, senhor. - Hiromatsu aproximou-se, deixando as espadas na soleira conforme o costume, mas Toranaga insistiu para que ele as levasse consigo.

- Eu me sentiria desconfortável se você não as tivesse nas mãos - disse Toranaga.

Hiromatsu agradeceu-lhe. Ainda assim, sentou-se a cinco passos de distância. Por costume, nenhuma pessoa armada podia sentar-se mais perto do que isso de Toranaga. Na primeira fileira dos guardas estava Usagi, marido da neta de Hiromatsu, seu parente predileto, a quem este fez um breve aceno de cabeça. O jovem curvou-se profundamente, honrado e contente por ter sido notado. Talvez eu devesse adotá-lo formalmente, pensou Hiromatsu alegremente, aquecido pela lembrança da neta favorita e do primeiro bisneto, que lhe haviam apresentado no ano anterior.

- Como estão suas costas? - perguntou Toranaga solicitamente.

- Bem, obrigado, senhor. Mas devo dizer-lhe que estou contente por me ver fora daquele navio e em terra de novo.

- Ouvi dizer que você tem um novo brinquedo aqui com que passar as horas, neh?

O velho deu uma gargalhada.

- Só posso lhe dizer, senhor, que as horas não foram ociosas. Fazia anos que eu não tinha tanto trabalho.

Toranaga riu com ele. - Então deveríamos recompensá-la. Sua saúde é importante para mim. Posso mandar a ela um símbolo dos meus agradecimentos?

- Ah, Toranaga-sama, o senhor é tão gentil. - Hiromatsu ficou sério. - Poderia recompensar a todos nós, senhor, deixando este ninho de vespas imediatamente, e voltando para o seu castelo em Yedo, onde seus vassalos podem protegê-lo. Aqui estamos vulneráveis. A qualquer momento Ishido poderia...

- Partirei. Assim que a reunião do conselho de regentes termine. - Toranaga voltou-se e chamou com um gesto o português de rosto magro que estava pacientemente sentado à sua sombra. - Quer traduzir para mim agora, meu amigo?

- Certamente, senhor. - O padre tonsurado avançou e com uma graça vinda da prática ajoelhou-se em estilo japonês junto do estrado. Tinha o corpo tão enxuto quanto o rosto, os olhos escuros e líquidos, um ar de serena concentração ao seu redor. Usava meias tabis e um quimono ondeante que, nele, parecia estar na pessoa certa. Um rosário e uma cruz de ouro entalhado pendiam-lhe do cinto. Saudou Hiromatsu como a um igual, depois olhou amavelmente para Blackthorne.

- Meu nome é Martim Alvito, da Companhia de Jesus, piloto-mor. O Senhor Toranaga me pediu que lhe servisse de intérprete.

- Primeiro diga-lhe que somos inimigos e que...

- Tudo na sua hora - interrompeu-o o Padre Alvito suavemente. E acrescentou: - Podemos falar português, espanhol ou, naturalmente, latim, o que você preferir.

Blackthorne não tinha visto o padre até que o homem avançara. O estrado o escondera, e os outros samurais. Mas estivera à espera dele, prevenido por Rodrigues, e detestou o que viu: a elegância desenvolta, a aura de força e poder natural dos jesuítas. Presumira que o padre fosse muito mais velho, considerando sua posição influente e o que Rodrigues lhe falara dele. Mas eram praticamente da mesma idade, ele e o jesuíta. Talvez o padre fosse poucos anos mais velho.

- Português - disse ele, com severidade, esperando que isso pudesse lhe dar uma leve vantagem. - Você é português?

- Tenho esse privilégio.

- É mais jovem do que eu esperava.

- O Sr. Rodrigues é muito gentil. Dá-me mais crédito do que mereço. A você descreveu com perfeição. Assim como à sua bravura.

Blackthorne viu-o voltar-se e falar fluente e afavelmente com Toranaga um instante, e isso o perturbou ainda mais. Apenas Hiromatsu, de todos os homens na sala, ouviu e observou com atenção. Os outros fitavam o vazio, como se fossem de pedra.

- Agora, capitão-piloto, começaremos. Você, por favor, ouvirá tudo o que o Senhor Toranaga disser, sem interrupções - começou o Padre Alvito. - Depois responderá. Daqui em diante estarei traduzindo o que você disser quase simultaneamente, portanto, por favor, responda com grande cuidado.

- De que se trata? Não confio em você!

Imediatamente o Padre Alvito traduziu o que ele disse, e o rosto de Toranaga se turvou visivelmente.

Tenha cuidado, pensou Blackthorne, ele está brincando com você como com um peixe! Três guinéus de ouro contra um cent mascado como ele pode acabar com você. Traduza ele corretamente ou não, você tem que criar a impressão correta em Toranaga. Pode ser a única chance que você jamais tenha tido.

- Pode confiar em mim para traduzir exatamente o que você disser, da melhor maneira que eu puder. - A voz do padre era suave, sob controle absoluto. - Esta é a corte do Senhor Toranaga. Sou o intérprete oficial do conselho de regentes, do Senhor General Toranaga e do Senhor General Ishido. O Senhor Toranaga honra-me com sua confiança há muitos anos. Sugiro-lhe que responda com sinceridade porque posso lhe garantir que ele é um homem muito sagaz. Também devo assinalar que não sou o Padre Sebastio, que, talvez, é excessivamente zeloso e, infelizmente, não fala japonês muito bem nem tem muita experiência no Japão. A sua presença repentina afastou a graça de Deus para longe dele, que, lamentavelmente, permitiu que seu passado pessoal o dominasse - seus pais, irmãos e irmãs foram massacrados do modo mais hediondo na Neerlândia pelas suas... pelas forças do Príncipe de Orange. Peço que tenha indulgência e compaixão por ele. - Sorriu benevolamente. - A palavra japonesa para "inimigo" é "teki". Você pode usá-la se quiser. Se apontar para mim e usar essa palavra, o Senhor Toranaga compreenderá claramente o que quer dizer. Sim, sou seu inimigo, Capitão-Piloto John Blackthorne. Completamente. Mas não sou seu assassino. Isso você fará por si mesmo.

Blackthorne viu-o explicar a Toranaga o que dissera e ouviu a palavra "teki" várias vezes. Perguntou a si mesmo se realmente significava "inimigo". Claro que sim, pensou. Este homem não é como o outro.

- Por favor, por um momento esqueça que eu existo - disse o Padre Alvito. - Sou meramente um instrumento para transmitir as suas respostas ao Senhor Toranaga, exatamente como farei com as perguntas dele. - O Padre Alvito se acomodou, voltou-se para Toranaga e curvou-se polidamente.

Toranaga falou brevemente. O padre começou a traduzir quase simultaneamente, poucas palavras depois, com uma voz que era um perigoso espelho de inflexão e significado secreto.

- Por que você é inimigo de Tsukku-san, meu amigo e intérprete, que não é inimigo de ninguém? - O Padre Alvito acrescentou, à guisa de explicação: - Tsukku-san é o meu apelido, porque os japoneses também não conseguem pronunciar o meu nome. A língua deles não tem o som "l" nem "th". Tsukku é uma adaptação da palavra japonesa "tsuyaku", "interpretar". Por favor, responda à pergunta.

- Somos inimigos porque nossos países estão em guerra.

- Oh? Qual é o seu país?

- A Inglaterra.

- Onde fica?

- É um reino insular, mil milhas ao norte de Portugal. Portugal é parte de uma península na Europa.

- Há quanto tempo estão em guerra com Portugal?

- Desde que Portugal se tornou um Estado vassalo da Espanha. Isso foi em 1580, vinte anos atrás. A Espanha conquistou Portugal. Na realidade estamos em guerra com a Espanha. Estamos em guerra com ela há quase trinta anos.

Blackthorne notou a surpresa de Toranaga e seu olhar inquisitivo ao Padre Alvito, que fitava a distância serenamente.

- Diz que Portugal é parte da Espanha?

- Sim, Senhor Toranaga. Um Estado vassalo. A Espanha conquistou Portugal e agora são de fato o mesmo país, com o mesmo rei. Mas os portugueses são subservientes aos espanhóis em muitas partes do mundo e seus líderes são tratados como pessoas sem importância no império espanhol.

Houve um longo silêncio. Então Toranaga falou diretamente ao jesuíta, que sorriu e respondeu detalhadamente.

- O que ele disse? - perguntou Blackthorne rispidamente.

O Padre Alvito não respondeu, mas traduziu como antes, quase simultaneamente, imitando-lhe a inflexão, continuando o seu virtuosístico desempenho de interpretação. Toranaga respondeu diretamente a Blackthorne, com voz dura e cruel.

- O que eu disse não é da sua conta. Quando quiser que você saiba alguma coisa eu lhe direi.

- Sinto muito, Senhor Toranaga, não tinha a intenção de ser rude. Posso dizer-lhe que viemos em paz...

- Não pode me dizer nada no momento. Vai conter a língua até que eu lhe solicite uma resposta. Compreendeu?

- Sim.

Erro número um. Vigie-se. Você não pode cometer erros, disse ele a si mesmo.

- Por que estão em guerra com a Espanha? E com Portugal?

- Parcialmente porque a Espanha está inclinada a conquistar o mundo e nós, ingleses, e nossos aliados, os neerlandeses, recusamo-nos a ser conquistados. E parcialmente por causa das nossas religiões.

- Ah! Uma guerra religiosa? Qual é a sua religião?

- Sou cristão. Nossa igreja...

- Os portugueses e os espanhóis são cristãos! Você disse que sua religião era diferente. Qual é a sua religião?

- É a cristã. É difícil explicar de modo simples e rápido, Senhor Toranaga. São ambas...

- Não há necessidade de ser rápido, Senhor Piloto, apenas preciso. Tenho muito tempo. Sou muito paciente. Você é um homem culto, obviamente não é um camponês, portanto pode ser simples ou complicado conforme deseje, exatamente o necessário para ser claro. Se se desviar do ponto eu o trarei de volta. Estava dizendo?

- Minha religião é cristã. Há duas religiões cristãs importantes, a protestante e a católica. A maioria dos ingleses são protestantes.

- Adoram ao mesmo Deus, à Nossa Senhora e à Criança?

- Não, senhor. Não do modo como os católicos o fazem.

- O que ele quer saber? Será que é católico? Devo responder o que acho que ele quer saber ou o que acho que é verdade? Será que é anticristão? Mas ele não chamou o jesuíta de "meu amigo"?

Será que Toranaga é um simpatizante dos católicos, será que vai se tornar católico?

- Você acredita que Jesus é Deus?

- Acredito em Deus - disse ele cuidadosamente.

- Não se esquive a uma pergunta direta! Acredita que Jesus é Deus? Sim ou não?

Blackthorne sabia que em qualquer corte católica do mundo ele já teria sido condenado há muito por heresia. E na maioria das cortes protestantes, se não em todas. O simples fato de hesitar antes de responder a uma pergunta assim já era uma admissão de dúvida. Dúvida era heresia.

- Não se pode responder a perguntas sobre Deus com um "sim" ou "não". Tem que haver gradações de "sim" ou "não". Ninguém sabe com certeza sobre Deus até que esteja morto. Sim, acredito que Jesus era Deus, mas não, não sei com certeza até estar morto.

- Por que foi que você quebrou a cruz do padre quando chegou ao Japão?

Blackthorne não esperava essa pergunta. Toranaga sabe de tudo o que aconteceu desde que cheguei?

- Eu... eu queria mostrar ao Daimio Yabu que o jesuíta, o Padre Sebastio, o único intérprete que havia lá, que ele era meu inimigo, que não merecia crédito, pelo menos na minha opinião. Porque eu tinha certeza de que ele necessariamente não traduziria com exatidão, não como o Padre Alvito está fazendo agora. Acusou-nos de sermos piratas, por exemplo. Não somos piratas, viemos em paz.

- Ah, sim! Piratas. Voltarei à pirataria num instante. Você diz que ambas as seitas são cristãs, ambas veneram Jesus, o Cristo? A essência do ensinamento dele não é "amarem-se uns aos outros"?

- Sim.

- Então como podem ser inimigos?

- O credo deles... a versão deles do cristianismo é uma falsa interpretação das Escrituras.

- Ah! Finalmente estamos chegando a alguma coisa. Então vocês estão em guerra devido a uma diferença de opinião sobre o que é Deus e o que não e?

- Sim.

- É uma razão muito estúpida para fazer guerra.

- Concordo - disse Blackthorne. Olhou para o padre. - Concordo de todo o coração.

- Quantos navios tem a sua esquadra?

- Cinco.

- E você era o primeiro-piloto?

- Sim.

- Onde estão os outros?

- Ao mar - disse Blackthorne cuidadosamente, continuando a mentira e presumindo que Toranaga tivesse sido instruído por Alvito para perguntar certas coisas. - Fomos divididos por uma tempestade e dispersamo-nos. Onde estão exatamente eu não sei, senhor.

- Seus navios eram ingleses?

- Não, senhor, holandeses. Da Holanda.

- Por que um inglês está encarregado de navios holandeses?

- Isso não é raro, senhor. Somos aliados. Pilotos portugueses às vezes comandam navios e esquadras - espanhóis. Tomei conhecimento de que pilotos portugueses comandam alguns dos seus navios oceânicos, e por lei.

- Não há pilotos holandeses?

- Muitos, senhor. Mas para uma viagem tão longa os ingleses são mais experimentados.

- Mas por que você? Por que quiseram que você conduzisse os navios deles?

- Provavelmente porque minha mãe era holandesa, falo a língua fluentemente e sou experimentado. Fiquei contente com a oportunidade.

- Por quê?

- Foi a minha primeira oportunidade para singrar estas águas. Não havia navios ingleses planejando vir tão longe. Foi uma chance de circunavegar.

- Você pessoalmente, piloto, juntou-se à esquadra por causa da sua religião e para combater seus inimigos da Espanha e Portugal?

- Sou um piloto, senhor, antes de mais nada. Nenhum inglês ou holandês jamais esteve nestes mares antes. Somos principalmente uma esquadra mercante, embora tenhamos cartas de corso para atacar o inimigo do Novo Mundo. Viemos ao Japão para fazer comércio.

- O que são cartas de corso?

- Licenças legais emitidas pela coroa, ou governo, autorizando-nos a combater o inimigo.

- Ah, e os seus inimigos estão aqui. Planeja combatê-los aqui?

- Não sabíamos o que esperar quando chegássemos aqui, senhor. Viemos apenas para comerciar. Seu país é quase desconhecido, uma lenda. Os portugueses e espanhóis são muito sigilosos sobre esta área.

- Responda à pergunta: seus inimigos estão aqui. Planeja combatê-los aqui?

- Se eles me atacarem, sim.

Toranaga mudou de posição irritado.

- O que vocês fazem no mar ou em seus países é assunto de vocês. Mas aqui há uma lei para todos e os estrangeiros estão na nossa terra unicamente por permissão. Qualquer desordem ou rixa públicas são imediatamente punidas com morte. Nossas leis são claras e serão obedecidas. Compreendeu?

- Sim, senhor. Mas viemos em paz. Viemos para fazer comércio. Poderíamos. discutir o assunto, senhor? Preciso carenar o meu navio e fazer alguns reparos. Podemos pagar tudo. Depois há a quest...

- Quando eu quiser falar sobre comércio ou qualquer outra coisa eu lhe direi. Enquanto isso, por favor, limite-se a responder às perguntas. Portanto você se juntou à expedição para fazer comércio, por lucro, não por dever ou lealdade? Por dinheiro?

- Sim. É o nosso costume, senhor. Ser pago e ter uma parte do saq... do comércio todo e de todos os bens inimigos capturados.

- Então você é um mercenário?

- Fui contratado como primeiro-piloto para conduzir a expedição. Sim. - Blackthorne podia sentir a hostilidade de Toranaga, mas não compreendia por quê. O que foi que eu disse de errado? O padre não disse que eu assassinaria a mim mesmo? - É um hábito normal entre nós, Toranaga-sama - repetiu.

Toranaga começou a conversar com Hiromatsu e trocaram pontos de vista, ambos num acordo óbvio. Blackthorne pensou ver asco no rosto deles. Por quê? Obviamente era alguma coisa relacionada com "mercenário", pensou. O que há de errado nisso? As pessoas todas não são pagas? De que outro modo ganhar dinheiro suficiente para viver? Mesmo que se herde terra, ainda se...

- Você disse antes que veio para fazer comércio pacificamente - estava dizendo Toranaga. - Por que, então, carrega tantas armas e tanta pólvora, mosquetes e munição?

- Nossos inimigos espanhóis e portugueses são muito numerosos e fortes, Senhor Toranaga. Temos que nos proteger e ...

- Está dizendo que suas armas são meramente defensivas?

- Não. Usamo-las não só para nos proteger mas também para atacar nossos inimigos. E nós as produzimos em abundância para comércio, as armas de melhor qualidade do mundo. Talvez pudéssemos negociá-las com o senhor, ou outras mercadorias que trazemos.

- O que é um pirata?

- Um fora-da-lei. Um homem que rouba, mata ou pilha por lucro pessoal.

- Não é o mesmo que um mercenário? Não é isso que vote é? Um pirata e um chefe de piratas?

- Não. A verdade é que meus navios têm cartas de corso dos dirigentes legais da Holanda, autorizando-nos a combater em todos os mares e lugares dominados até agora pelos nossos inimigos. E a encontrar mercados para nossos produtos. Para os espanhóis e a maioria dos portugueses, sim, somos piratas, e hereges religiosos, mas, repito, a verdade é que não somos.

O Padre Alvito terminou de traduzir, depois começou a falar tranqüila mas firmemente, direto a Toranaga.

Como gostaria de poder falar assim diretamente também, pensou Blackthorne, blasfemando intimamente. Toranaga olhou para Hiromatsu e o velho fez algumas perguntas ao jesuíta, que respondeu prolixamente. Depois Toranaga se voltou para Blackthorne e sua voz tornou-se ainda mais severa.

- Tsukku-san diz que esses "holandeses", os neerlandeses, eram vassalos do rei espanhol até alguns anos atrás. É verdade?

- Sim.

- Em conseqüência, os neerlandeses, seus aliados, encontram-se em estado de rebelião contra o rei legal?

- Estão em luta contra os espanhóis, sim. Mas.. .

- Isso não é rebelião? Sim ou não?

- Sim. Mas há circunstâncias atenuantes. Sérias atenu...

- Não existem "circunstâncias atenuantes" quando se trata e rebelião contra um senhor soberano.

- A menos que se vença.

Toranaga olhou atentamente para ele. Depois riu estrondosamente. Disse alguma coisa a Hiromatsu no meio da gargalhada e Hiromatsu assentiu.

- Sim, Sr. Estrangeiro com o nome impossível, sim. Você citou o único fator atenuante. - Outra casquinada, depois o humor desapareceu de modo tão repentino como começara. Vocês vão vencer?

- Hai.

Toranaga falou novamente mas o padre não traduziu de imediato. Estava sorrindo de modo peculiar, os olhos fixos em Blackthorne. Suspirou e disse:

- Tem tanta certeza?

- Foi isso o que ele disse ou é o que você está dizendo?

- O Senhor Toranaga disse isso. Minha... ele disse isso.

- Sim. Diga-lhe que sim, tenho muita certeza. Posso explicar por quê?

O Padre Alvito falou com Toranaga muito mais tempo do que levaria para traduzir essa simples pergunta. Você está tão calmo quanto aparenta? - queria perguntar-lhe Blackthorne. Qual é a chave que o desvenda? Como o destruo?

Toranaga falou e tirou um leque da manga.

O Padre Alvito começou a traduzir novamente com a mesma descortesia sinistra, cheio de ironia.

- Sim, piloto, você pode me dizer por que acha que vencerá esta guerra.

Blackthorne tentou permanecer confiante, consciente de que o padre o estava dominando.

- Atualmente dominamos os mares da Europa, a maioria dos mares da Europa - disse, corrigindo se. Não se deixe arrebatar. Diga a verdade. Torça-a um pouco, exatamente como é certo que o jesuíta está fazendo, mas diga a verdade. - Nós, ingleses, esmagamos duas imensas armadas espanholas e portuguesas - invasões - e é pouco provável que eles sejam capazes de organizar outras. Nossa pequena ilha é uma fortaleza e estamos seguros agora. Nossa Marinha domina o mar. Nossos navios são mais rápidos, mais modernos, e mais bem armados. Com mais de cinqüenta anos de terror, Inquisição e carnificina, os espanhóis não venceram os holandeses. Nossos aliados estão ilesos e fortes e uma coisa mais: estão fazendo o império espanhol sangrar até a morte. Venceremos porque somos os donos dos mares e porque o rei espanhol, na sua vaidosa arrogância, não vai querer deixar livre um povo hostil.

- São os donos dos mares? Dos nossos também? Os que contornam nossas costas?

- Não, claro que não, Toranaga-sama. Não tive a intenção de ser arrogante. Referia-me, naturalmente, aos mares europeus, embora...

- Bom, fico contente de que isso esteja claro. Estava dizendo? Embora...?

- Apesar de que, em todos os altos-mares, logo estaremos varrendo o inimigo - disse Blackthorne claramente.

- Você disse "o inimigo". Talvez nós também sejamos seus inimigos? E então? Tentarão afundar nossos navios e nos assolar?

- Não posso conceber a idéia de ser seu inimigo.

- Eu posso, com muita facilidade. E então?

- Se o senhor viesse contra a minha terra, eu o atacaria e tentaria vencê-lo - disse Blackthorne.

- E se o seu governante ordenasse que nos atacasse aqui?

- Eu daria conselho em contrário. Veementemente. Nossa rainha daria ouvidos. Ela é ...

- Você é governado por uma rainha e não por um rei?

- Sim, Senhor Toranaga. Nossa rainha é sábia. Ela não daria... não poderia dar uma ordem tão imprudente.

- E se desse? Ou se o seu governante legal o fizesse?

- Então eu encomendaria a alma a Deus porque certamente morreria. De um modo ou de outro.

- Sim. Morreria. Você e todas as suas legiões. - Toranaga fez uma pausa. Em seguida perguntou: - Quanto tempo você levou para chegar aqui?

- Quase dois anos. Exatamente um ano, onze meses e dois dias. Uma distância marítima aproximada de quatro mil léguas, cada uma de três milhas.

O padre traduziu, depois acrescentou alguma coisa brevemente. Toranaga e Hiromatsu interrogaram o padre, que assentiu e respondeu.

Toranaga usava o leque pensativamente.

- Converti as medidas e o tempo, Capitão-Piloto Blackthorne, para as medidas deles - disse o padre polidamente.

- Obrigado.

Toranaga falou novamente:

- Como chegou aqui? Por que rota?

- Pelo estreito de Magalhães. Se dispusesse de meus mapas e portulanos, poderia lhe mostrar com clareza, mas foram roubados... foram removidos do meu navio com as minhas cartas de corso e todos os meus papéis. Se o senhor...

Blackthorne parou quando Toranaga falou bruscamente com Hiromatsu, que estava igualmente perturbado.

- Afirma que todos os seus papéis foram removidos... roubados?

- Sim.

- Isso é terrível, se for verdade. Abominamos o roubo no Nippon... Japão. A punição para roubo é a morte. O assunto será investigado instantaneamente. Parece incrível que qualquer japonês fizesse tal coisa, embora haja infames bandidos e piratas aqui e ali.

- Talvez só tenham sido tirados do lugar - disse Blackthorne. - E colocados em segurança em alguma outra parte. Mas são valiosos, Senhor Toranaga. Sem as minhas cartas marítimas, eu seria como um homem cego num labirinto. Gostaria que eu lhe explicasse minha rota?

- Sim, mas mais tarde. Primeiro diga-me por que percorreram toda essa distância.

- Viemos para comerciar, pacificamente - repetiu Blackthorne, contendo a impaciência. - Para comerciar e voltar para casa. Para fazê-lo mais rico e a nós mais ricos. E para tentar...

- Vocês mais ricos e nós mais ricos? O que é mais importante aí?

- Ambas as partes devem lucrar, naturalmente, e o comércio deve ser justo. Estamos visando ao comércio a longo prazo; ofereceremos termos melhores do que os dos portugueses e espanhóis, e um serviço melhor. Nossos mercadores...

Blackthorne parou ao ouvir o som de vozes altas do lado de fora da sala. Hiromatsu e metade dos guardas dirigiram-se imediatamente para a soleira, e os outros se moveram para formar um cerrado aglomerado de proteção ao estrado. Os samurais diante das portas internas puseram-se de prontidão, igualmente.

Toranaga não se movera. Falou ao Padre Alvito.

- Deve vir para cá, Capitão Blackthorne, para longe da porta - disse o padre com uma premência cuidadosamente contida. - Se dá valor à vida, não se mova repentinamente nem diga nada. - Moveu-se lentamente para a porta interna à esquerda e sentou-se perto dela.

Blackthorne curvou-se inquieto para Toranaga, que o ignorou, e caminhou com cautela na direção do padre, profundamente consciente de que sob aquele ponto de vista a entrevista fora um desastre.

- O que está acontecendo? - perguntou num sussurro ao se sentar.

Os guardas em torno se retesaram ameaçadores e o padre disse rapidamente alguma coisa para tranqüilizá-los.

- Será um homem morto na próxima vez que falar - disse a Blackthorne, pensando: quanto mais depressa, melhor. Com uma lentidão compassada, pegou um lenço da manga e enxugou o suor das mãos. Exigira-lhe todo o treinamento e resistência permanecer calmo e amável durante a entrevista do herege, que fora pior do que até o padre-lnspetor esperara.

- Você terá que estar presente? - perguntara o padre-lnspetor na noite anterior.

- Toranaga solicitou-me especificamente.

- Acho que é muito perigoso para você e para todos nós. Talvez pudéssemos pretextar uma doença. Se você estiver lá, terá que traduzir o que o pirata disser, e pelo que descreve o Padre Sebastio ele é um demônio na terra, tão astucioso quanto um judeu.

- É muito melhor que eu esteja lá, Eminência. Pelo menos serei capaz de interceptar as mentiras menos óbvias de Blackthorne.

- Por que será que veio até aqui? Por que agora, quando tudo estava se tornando perfeito de novo? Será que eles realmente têm outros navios no Pacífico? É possível que tenham enviado uma esquadra contra a Manila espanhola? Não que eu me importe um nadinha com essa cidade pestilenta ou qualquer uma das colônias espanholas nas Filipinas, mas uma esquadra inimiga no Pacífico! Isso teria terríveis implicações para nós na Ásia. E se ele conseguisse que Toranaga lhe desse ouvidos, ou Ishido, ou qualquer um dos daimios mais poderosos, bem, ficaria enormemente difícil, para dizer o mínimo.

- Blackthorne é um fato. Felizmente estamos numa posição de poder lidar com ele.

- Deus é meu juiz, mas eu quase acreditaria que os espanhóis, ou mais provavelmente os seus lacaios desencaminhados, os franciscanos e os beneditinos, deliberadamente o guiaram para cá a fim de nos importunar.

- Talvez tenham feito isso, Eminência. Não há nada que os monges não fariam para nos destruir. Mas é apenas ciúme por estarmos tendo êxito onde eles fracassam. Certamente Deus lhes mostrará o erro do seu procedimento! Talvez o inglês se "remova" por si mesmo antes de causar qualquer dano. Seus portulanos provam que ele é o que é. Um pirata e um líder de piratas!

- Leia-os para Toranaga, Martim. As partes onde ele descreve o saquê de povoados indefesos da África ao Chile, e a lista do saquê e toda a matança.

- Talvez devêssemos esperar, Eminência. Sempre podemos exibir os portulanos. Esperemos que ele se condene sem isso.

O Padre Alvito enxugou as palmas das mãos novamente.

Podia sentir os olhos de Blackthorne sobre ele. Deus tenha piedade de você, pensou. Pelo que disse hoje a Toranaga, sua vida não vale um níquel falsificado, e pior ainda, sua alma está além de qualquer redenção. Será crucificado, mesmo sem a evidência dos seus portulanos. Deveríamos mandá-los de volta ao Padre Sebastio, de modo que ele possa devolvê-los a Mura? O que faria Toranaga se os papéis nunca fossem descobertos? Não, isso seria perigoso demais para Mura.

A porta na extremidade mais afastada abriu-se com um estremecimento.

- O Senhor Ishido quer vê-lo, senhor - anunciou Naga.

- Ele... ele está aqui no corredor e quer vê-lo. Imediatamente, diz ele.

- Voltem a seus lugares, todos vocês - disse Toranaga aos seus homens. Foi imediatamente obedecido. Mas todos os samurais se sentaram encarando a porta, com Hiromatsu à testa deles, as espadas afrouxadas nas bainhas. - Naga-san, diga ao Senhor Ishido que ele é sempre bem-vindo. Peça-lhe que entre.

O homem alto entrou a passos largos na sala. Dez dos seus samurais - cinzentos - o seguiram, mas permaneceram à soleira e, a um sinal dele, sentaram-se de pernas cruzadas.

Toranaga curvou-se com uma formalidade precisa e a reverência foi retribuída com a mesma exatidão.

O Padre Alvito bendisse a própria sorte por estar presente.

O conflito pendente entre os dois líderes rivais afetaria completamente o curso do império e o futuro da Mãe Igreja no Japão, portanto qualquer indício ou informação que pudesse ajudar os jesuítas a decidir onde lançar sua influência seria de uma importância incomensurável. Ishido era zen-budista e fanaticamente anticristão, Toranaga era zen-budista e abertamente simpatizante.

Mas a maioria dos daimios cristãos apoiava Ishido, temendo justificadamente, acreditava o Padre Alvito - a ascendência de Toranaga. Os daimios cristãos achavam que, se Toranaga eliminasse a influência de Ishido do conselho de regentes, usurparia o poder todo para si. E uma vez que detivesse o poder, acreditavam eles, poria em execução os editos de expulsão do taicum e arrasaria a verdadeira fé. Se, no entanto, Toranaga fosse eliminado, a sucessão, uma débil sucessão, estaria garantida e a Mãe Igreja prosperaria.

Como a fidelidade dos daimios cristãos vacilava, semelhantemente ao que ocorria com todos os outros daimios da terra, e o equilíbrio do poder entre os dois líderes flutuasse continuamente, ninguém sabia com certeza que lado era, na realidade, o mais poderoso. Nem ele, o Padre Alvito, o europeu mais bem informado do império, podia dizer com certeza que lado os daimios cristãos realmente apoiariam quando o conflito se tornasse declarado, ou que facção prevaleceria.

Viu Toranaga descer do estrado, atravessando o círculo de segurança formado por seus homens.

- Bem-vindo, Senhor Ishido. Por favor, sente-se ali. - Toranaga fez um gesto na direção da única almofada sobre o estrado. - Gostaria que se sentisse confortável.

- Não, obrigado, Senhor Toranaga. - Ishido Kazunari era magro, moreno e muito vigoroso, um ano mais novo do que Toranaga. Eram inimigos de longa data. Oito mil samurais no interior e nos arredores do Castelo de Osaka atendiam às suas ordens, pois era o comandante da guarnição - e portanto o comandante da guarda pessoal do herdeiro -, general-chefe dos exércitos de oeste, conquistador da Coréia, membro do conselho de regentes, e antigamente inspetor-geral de todos os exércitos do falecido taicum, os quais, legalmente, eram compostos por todos os exércitos de todos os daimios no reino inteiro. - Não, obrigado - repetiu. - Ficaria embaraçado de estar confortável e o senhor não, neh? Um dia eu lhe tomarei a almofada, mas não hoje.

Uma torrente de cólera percorreu os marrons ante a ameaça implícita de Ishido, mas Toranaga respondeu amavelmente.

- Veio num momento muito oportuno. Eu estava acabando de entrevistar o novo bárbaro. Tsukku-san, por favor, diga-lhe que se levante.

O padre fez conforme o solicitado. Sentiu a hostilidade de Ishido vindo do outro lado da sala. Além de ser anticristão, Ishido sempre fora veemente na sua condenação a todos os europeus e queria o império totalmente fechado para eles. Ishido olhou para Blackthorne com acentuado desagrado.

- Ouvi dizer que era feio, mas não imaginava que fosse tanto. Corre o boato de que é pirata. É mesmo?

- O senhor pode duvidar disso? E também e mentiroso.

- Então, antes de crucificá-lo, deixe-o comigo por meio dia. O herdeiro poderia achar divertido vê-lo antes com a cabeça no lugar. - Ishido riu asperamente. - Ou talvez devesse ser ensinado a dançar como um urso, então o senhor poderia exibi-lo por todo o império: "O Monstro Vindo do Leste".

Embora fosse verdade que Blackthorne tivesse, singularmente, vindo dos mares orientais - ao contrário dos portugueses, que sempre vinham do sul e por isso eram chamados de bárbaros meridionais -, Ishido estava espalhafatosamente insinuando que Toranaga, que dominava as províncias orientais, era o verdadeiro monstro.

Mas Toranaga simplesmente sorriu, como se não tivesse compreendido.

- É um homem de muito humor, Senhor Ishido - disse. - Mas concordo em que quanto mais depressa o bárbaro for eliminado, melhor. É enfadonho, arrogante, fala grosso e de modo singular, sim, mas é de pouco valor, e sem educação. Naga-san, mande alguns homens e ponha-o com os criminosos comuns. Tsukku-san, diga-lhe que os acompanhe.

- Capitão-piloto, deve seguir esses homens.

- Para onde estou indo?

O padre hesitou. Estava contente por ter vencido, mas o adversário era corajoso e tinha uma alma imortal que ainda podia ser salva.

- Vai para a prisão - disse.

- Por quanto tempo?

- Não sei, meu filho. Até que o Senhor Toranaga resolva.

 

Enquanto observava o bárbaro deixar a sala, Toranaga desviou a mente pesarosamente da surpreendente entrevista e se atracou ao problema mais imediato de Ishido.

Toranaga havia resolvido não dispensar o padre, sabendo que isso enfureceria ainda mais Ishido, embora tivesse a certeza de que a presença contínua do padre poderia ser perigosa. Quanto menos os estrangeiros soubessem, melhor. Quanto menos qualquer pessoa souber, melhor, pensou ele. A influência de Tsukku-san sobre os daimios cristãos será a meu favor ou contra mim? Até hoje confiei nele implicitamente. Mas houve uns momentos estranhos com o bárbaro que ainda não compreendi.

Ishido deliberadamente não seguiu as cortesias habituais e foi instantaneamente ao ponto.

- Devo perguntar-lhe novamente: qual é a sua resposta ao conselho de regentes?

- Repito novamente: como presidente do conselho de regentes, não acredito que seja necessária qualquer resposta. Fiz algumas conexões de família secundárias que não têm importância. Nenhuma resposta se faz necessária.

- O senhor contratou o casamento de seu filho, Naga-san, com a filha do Senhor Masamune, o de uma de suas netas com o filho e herdeiro do Senhor Zataki, o de outra neta com o filho do Senhor Kiyama. Todos os casamentos se relacionam com senhores feudais ou com parentes próximos deles, portanto não são secundários e são absolutamente contrários às ordens de nosso amo.

- Nosso falecido amo, o taicum, morreu há um ano. Infelizmente. Sim. Lamento a morte do meu cunhado e preferiria que ainda estivesse vivo, guiando os destinos do império. - Toranaga acrescentou prazerosamente, revolvendo uma faca numa ferida permanente: - Se meu cunhado fosse vivo, não há dúvida de que aprovaria essas ligações de família. Suas instruções aplicavam-se aos casamentos que ameaçassem a sucessão da casa dele. Não ameaço a casa dele nem ao meu sobrinho Yaemon, o herdeiro. Estou satisfeito como senhor de Kwanto. Não procuro mais território. Estou em paz com meus vizinhos e desejo que a paz continue. Por Buda, não serei o primeiro a romper a paz.

Durante seis séculos o reino vivera alarmado por constantes guerras civis. Há trinta e cinco anos, um daimio menor, chamado Goroda. tomara posse de Kyoto, instigado principalmente por Toranaga. Nas duas décadas seguintes esse guerreiro miraculosamente dominara metade do Japão, erguera uma montanha de crânios e se declarara ditador - ainda sem poder suficiente para solicitar ao imperador reinante a concessão do título de shogun, embora descendesse vagamente de um ramo dos Fujimoto. Então, há dezesseis anos, Goroda fora assassinado por um de seus generais e seu poder caíra nas mãos de um príncipe vassalo e seu mais brilhante general, o camponês Nakamura.

Em quatro rápidos anos, o General Nakamura, auxiliado por Toranaga, Ishido e outros, aniquilou os descendentes de Goroda e colocou o Japão inteiro sob o seu controle absoluto e único, a primeira vez na história em que um homem dominava o reino todo. Triunfante, foi a Kyoto para se curvar diante de Go-Nijo, o Filho do Céu. Como nascera camponês, Nakamura tivera que aceitar o título menor de kwampaku, conselheiro-chefe, ao qual renunciou mais tarde em favor do filho, tomando para si o título de taicum. Mas todos os daimios se curvaram à sua frente, mesmo Toranaga. Inacreditavelmente, houvera paz completa durante doze anos. No ano passado o taicum morrera.

- Por Buda - repetiu Toranaga -, não serei o primeiro a romper a paz.

- Mas irá à guerra?

- Um homem sábio se prepara para a traição, neh? Há homens maus em todas as províncias. Alguns em altos postos. Ambos conhecemos a extensão ilimitada da traição no coração dos homens. - Toranaga retesou-se. - Onde o taicum deixou um legado de unidade, agora estamos divididos no meu leste e no seu oeste. O conselho de regentes está dividido. Os daimios estão em disputas. Um conselho não pode governar sequer uma aldeia infestada de caprichos e venetas, quanto mais um império. Quanto mais depressa o filho do taicum atingir a idade, melhor. Quanto mais depressa houver outro kwampaku, melhor.

- Ou talvez um shogun? - disse Ishido, de modo insinuante.

- Kwarnpaku, shogun ou taicum, o poder é o mesmo - disse Toranaga. - Qual e o valor real de um título? O poder é a única coisa importante. Goroda nunca se tornou shogun. Nakamura ficou mais que satisfeito como kwampaku e depois como taicum. Ele governava e isso é o que importa. Que importa que um dia meu cunhado tenha sido camponês? Que importa que minha família seja antiga? Que importa que o senhor seja de origem humilde? O senhor é um general, um suserano, até faz parte do conselho de regentes.

Importa muito, pensou Ishido. Você sabe disso. Eu sei. Cada daimio sabe. Até o taicum sabia. - Yaemon tem sete anos. Dentro de outros sete se tornará kwampaku. Até lá...

- Dentro de oito anos, General Ishido. É essa a nossa lei histórica. Quando meu sobrinho tiver quinze anos se tornará adulto e herdará. Até lá nós, os cinco regentes, governaremos em nome dele. Foi assim que nosso amo quis.

- Sim. E também ordenou que os regentes não tomassem reféns uns contra os outros. A Senhora Ochiba, a mãe do herdeiro, é refém no seu castelo de Yedo, contra a sua segurança aqui, e isso também viola a vontade dele. O senhor concordou formalmente em obedecer as cláusulas dele, assim como todos os regentes. Até assinou o documento com seu próprio sangue.

Toranaga suspirou.

- A Senhora Ochiba está visitando Yedo onde sua única irmã se encontra em trabalho de parto. A irmã dela é casada com meu filho e herdeiro. O lugar de meu filho é em Yedo enquanto eu estou aqui. Há coisa mais natural do que uma irmã visitar a outra num momento assim? Talvez eu já tenha meu primeiro neto, neh?

- A mãe do herdeiro é a senhora mais importante do império. Não deve estar em... - Ishido ia dizer "mãos inimigas", mas pensou melhor e continuou - numa cidade inabitual. - Fez uma pausa, depois acrescentou claramente: - O conselho gostaria que o senhor lhe ordenasse que voltasse para casa hoje.

Toranaga esquivou-se à armadilha.

- Repito, a Senhora Ochiba não é refém, portanto não está sob as minhas ordens, como nunca esteve.

- Então deixe-me colocar a coisa de modo diferente. O conselho solicita a presença dela em Osaka imediatamente.

- Quem solicita isso?

- Eu. O Senhor Sugiyama. O Senhor Onoshi e o Senhor Kiyama. E mais: todos concordamos em esperar aqui até que ela esteja de volta a Osaka. Eis as assinaturas deles.

Toranaga ficou lívido. Manipulara tanto o conselho para que a votação fosse sempre de dois a três e nunca fora capaz de vencer um quatro-a-um contra Ishido, mas tampouco Ishido conseguira isso contra ele. Quatro a um significava isolamento e calamidade. Por que Onoshi o desertara? E Kiyama? Ambos inimigos implacáveis, mesmo antes de se terem convertido à religião estrangeira.

E que influência tinha Ishido agora sobre eles?

Ishido sabia que abalara o inimigo. Mas faltava um movimento para tornar a vitória completa. Por isso pôs em prática o plano que havia combinado com Onoshi.

- Nós, regentes, estamos todos de acordo em que chegou o momento de acabar com aqueles que planejam usurpar o poder do meu amo e matar o herdeiro. Os traidores serão condenados. Serão exibidos nas ruas como criminosos comuns, com todos os descendentes, e depois serão executados como criminosos comuns, com todos os descendentes. Fujimoto, Takashima, origem humilde, origem ilustre - não importa quem. Até Minowara?

Um arquejo de cólera irrompeu de cada samurai de Toranaga, pois tal sacrilégio contra as famílias semi-reais era impensável. Foi quando o jovem samurai Usagi, marido da neta de Hiromatsu, pôs-se de pé, afogueado de raiva. Sacou a espada mortífera e saltou para cima de Ishido, a lâmina nua pronta para o            golpe de duas mãos.

Ishido estava preparado para o golpe de morte e não fez movimento algum para se defender. Era isto o que planejara, o que esperava, e seus homens tinham ordens para não interferir até que ele estivesse morto. Se ele, Ishido, fosse morto aqui, agora, por um samurai de Toranaga, a guarnição de Osaka inteira cairia sobre Toranaga legitimamente e o liquidaria, sem se importar com a refém. Depois a Senhora Ochiba seria eliminada em retaliação, pelos filhos de Toranaga, e os regentes remanescentes seriam forçados a mover-se em conjunto contra o clã Yoshi, que, isolado, seria aniquilado. Só então a sucessão do herdeiro estaria garantida e ele, Ishido, teria cumprido seu dever para com o taicum. Mas o golpe não veio. No último momento Usagi recuperou o controle e tremulamente embainhou a espada.

- Seu perdão, Senhor Toranaga - disse, ajoelhando-se miseravelmente. - Não pude suportar a vergonha de... de vê-lo ouvindo esses. .. esses insultos. Peço permissão... peço desculpas e... peço permissão para cometer seppuku imediatamente, pois não posso viver com essa vergonha.

Embora Toranaga tivesse permanecido imóvel, estivera pronto para interceptar o golpe e sabia que Hiromatsu e os outros se encontravam igualmente prontos, e que provavelmente Ishido só ficaria ferido. Também compreendia por que Ishido fora tão insultante e incitante. Vou lhe devolver isto e com juros bem elevados, Ishido, prometeu ele silenciosamente.

Toranaga voltou a atenção ao jovem ajoelhado.

- Como se atreve a deduzir que qualquer coisa que o Senhor Ishido tenha dito signifique, de algum modo, um insulto a mim? Claro que ele nunca seria tão descortês. Como se atreve a ouvir conversas que não lhe dizem respeito? Não, você não será autorizado a cometer seppuku. Isso é uma honra. Você será crucificado hoje, como um criminoso comum. Suas espadas serão quebradas e enterradas na aldeia eta. Seu filho será enterrado na aldeia eta. Sua cabeça será espetada a um chuço e exposta ao escárnio de toda a população, com um aviso: "Este homem nasceu samurai por engano. Seu nome cessou de existir!"

Com um esforço supremo, Usagi controlou a respiração, mas o suor o encharcava e a vergonha por isso o torturava. Inclinou-se para Toranaga, aceitando seu destino com calma aparente.

Hiromatsu avançou e arrancou as duas espadas da cintura do neto por afinidade.

- Senhor Toranaga - disse gravemente -, com a sua permissão verificarei pessoalmente que as suas ordens sejam cumpridas.

Toranaga assentiu.

O jovem curvou-se uma última vez e começou a se levantar, mas Hiromatsu o empurrou de volta ao chão.

- Os samurais andam - disse. - Os homens também. Mas você não é uma coisa nem outra. Vai rastejar para a morte.

Silenciosamente Usagi obedeceu.

E todos na sala se sentiram reconfortados pela força da autodisciplina do jovem agora, e pela dimensão da sua coragem. Ele renascerá samurai, disseram a si mesmos, satisfeitos.

 

Naquela noite Toranaga não conseguiu dormir. Isso era raro nele, porque normalmente podia adiar o problema mais premente para o dia seguinte, sabendo que, se estivesse vivo no dia seguinte, resolveria o problema com o melhor de sua habilidade. Descobrira há muito tempo, já, que o sono tranqüilo podia oferecer a resposta a muitos enigmas, e se não podia, que importância tinha, na realidade? A vida não era apenas uma gota de orvalho dentro de outra gota de orvalho?

Mas naquela noite havia uma infinidade de questões desconcertantes a ponderar.

O que vou fazer com relação a Ishido?

Por que Onoshi passou para o inimigo?

Como vou lidar com o conselho?

Será que os padres cristãos se intrometeram de novo?

De onde virá a próxima tentativa de assassinato?

Quando devo tratar de Yabu?

E que devo fazer com o bárbaro?

Será que disse a verdade?

Curioso que o bárbaro tenha vindo dos mares orientais bem nesta época. Será um presságio? Será que é o karma dele ser a faísca que acenderá o barrilete de pólvora?

"Karma" era uma palavra indiana adotada pelos japoneses, parte da filosofia budista que se referia ao destino de uma pessoa nesta vida, seu destino imutavelmente fixado pelos feitos realizados numa vida prévia, dando os bons atos uma posição melhor nestes estratos de vida e os maus, o inverso. Exatamente como os feitos desta vida afetariam o renascimento seguinte. Uma pessoa estava sempre renascendo neste mundo de lágrimas até, finalmente, depois de padecer, sofrer e aprender ao longo de muitas vidas, se tornar perfeito, quando ia para o nirvana, o Lugar da Paz Perfeita, e não precisava sofrer o renascimento nunca mais.

Estranho que Buda ou algum outro deus ou talvez apenas o karma tivesse trazido o Anjin-san para o feudo de Yabu. Estranho que tivesse aportado na aldeia exata onde Mura, o líder secreto do sistema de espionagem de Izu, se instalara tantos anos atrás, bem às vistas do taicum e do pai de Yabu, corroído de sífilis. Estranho que Tsukku-san estivesse ali em Osaka para interpretar e não em Nagasaki, onde normalmente se encontraria. Que também o padre chefe dos cristãos estivesse em Osaka, assim como o capitão-mor dos portugueses. Estranho que o piloto, Rodrigues, também estivesse disponível para levar Hiromatsu a Anjiro, a tempo para capturar o bárbaro com vida e tomar posse das armas. Depois há Kasigi Omi, filho do homem que me dará a cabeça de Yabu a um simples dobrar de dedinho meu.

Como a vida é bela e como é triste! Como é fugaz, sem passado nem futuro, apenas um infindável agora.

Toranaga suspirou. Uma coisa é certa: o bárbaro nunca partirá. Nem vivo nem morto. É parte do reino para sempre.

Seus ouvidos perceberam o som quase imperceptível de passos se aproximando e sua espada se preparou. Todas as noites ele mudava de quarto de dormir, mudava os guardas e a senha ao acaso, prevenindo-se contra os assassinos que estavam à espera. Os passos se detiveram do lado de fora da shoji. Então ouviu a voz de Hiromatsu e o começo da senha:

- Se a verdade já está clara, para que serve a meditação?

- E se a verdade estiver oculta? - disse Toranaga.

- Já está clara - respondeu Hiromatsu corretamente. A citação era do velho professor de tantrismo, Saraha.

- Entre. - Só quando Toranaga viu, realmente, que se tratava do seu conselheiro foi que a espada descansou. - Sente-se.

- Disseram-me que o senhor não estava dormindo. Pensei que pudesse precisar de alguma coisa.

- Não. Obrigado. – Toranaga observou os sulcos mais acentuados em torno dos olhos do velho. – Estou contente que esteja aqui, velho amigo.

- Tem certeza de que está bem?

- Oh, sim.

- Então vou deixá-lo. Sinto tê-lo perturbado, senhor.

- Não, por favor, entre, estou contente de que tenha vindo. Sente-se.

O velho se sentou ao lado da porta, as costas eretas.

- Redobrei a guarda.

- Ótimo.

Pouco depois Hiromatsu disse:

- Quanto àquele louco, foi tudo executado conforme o senhor ordenou. Tudo.

- Obrigado.

- A mulher dele, minha neta, logo que ficou sabendo da sentença, pediu-me permissão para se matar, para acompanhar o marido e o filho ao Grande Vazio. Recusei e ordenei-lhe que esperasse, aguardando a sua aprovação. - Hiromatsu sangrava por dentro. Como a vida é terrível!

- Agiu corretamente.

- Peço-lhe formalmente permissão para pôr fim à vida. O que ele fez colocou o senhor em perigo mortal, mas o erro foi meu. Deveria ter descoberto a nulidade dele. Falhei ao senhor.

- Você não pode cometer seppuku.

- Por favor. Peço-lhe permissão formalmente.

- Não. Você é necessário vivo.

- Obedecerei. Mas por favor aceite as minhas desculpas.

- Suas desculpas estão aceitas.

Depois de um instante Toranaga disse:

- E quanto ao bárbaro?

- Muitas coisas, senhor. Primeiro: se o senhor não tivesse estado à espera do bárbaro hoje, estaria falcoando desde a primeira luz do dia, e Ishido nunca o teria enredado num encontro tão repulsivo. O senhor não tem escolha agora, senão declarar guerra a ele. Isso se conseguir sair deste castelo e voltar a Yedo.

- Segundo?

- E terceiro e quadragésimo terceiro e centésimo quadragésimo terceiro? Não sou de modo algum tão inteligente quanto o senhor, mas até eu pude ver que tudo em que fomos induzidos a crer pelos bárbaros meridionais não é verdadeiro. - Hiromatsu estava contente por falar. Ajudava a mitigar a dor. - Mas se há duas religiões cristãs que se odeiam mutuamente, e se os portugueses são parte de uma nação espanhola maior, e se o país deste novo bárbaro - seja lá como se chame - está em guerra com ambos e os vencer, e se esse mesmo país é uma nação insular como a nossa, e, o maior "se" de todos, se ele estiver dizendo a verdade e o padre tiver dito exatamente o que o bárbaro disse... Bem, o senhor pode reunir todos esses "se" e extrair-lhes um sentido, e um plano. Eu não consigo, sinto muito. Só sei o que vi em Anjiro e a bordo do navio. Que o Anjin-san é muito forte de cabeça - fraco de corpo atualmente, embora isso talvez se deva à longa viagem - e no domínio do mar. Não compreendo nada sobre ele. Como poderia ser todas essas coisas e, no entanto, permitir que um homem lhe urinasse nas costas? Por que salvou a vida de Yabu depois do que o homem lhe fez, e também a vida do seu inimigo confesso, o português Rodrigu? Minha cabeça roda com tantas perguntas como se eu estivesse encharcado de saquê. - Hiromatsu fez uma pausa. Estava absolutamente exausto. - Mas acho que devíamos mantê-lo em terra, e a todos como ele, se outros o seguirem, e matá-los a todos muito rapidamente.

- E quanto a Yabu?

- Ordene que ele cometa seppuku esta noite.

- Por quê?

- Não tem boas maneiras. O senhor previu o que ele faria quando eu chegasse a Anjiro. Ia roubar a sua propriedade. E é um mentiroso. Não se de ao trabalho de recebê-lo amanhã, conforme foi combinado. Ao invés disso, deixe-me levar-lhe sua ordem agora. O senhor terá que matá-lo mais cedo ou mais tarde. Melhor agora quando ele está acessível, sem nenhum de seus vassalos a rodeá-lo. Aconselho-o a não perder tempo.

Houve uma batida suave na porta interna.

- Tora-chan?

Toranaga sorriu como sempre fazia ao ouvir aquela voz muito especial, com aquele diminutivo especial.

- Sim, Kiri-san?

- Tomei a liberdade, senhor, de trazer chá para o senhor e seu convidado. Posso entrar?

- Sim.

Os dois homens retribuíram-lhe a reverência. Kiri fechou a porta e se ocupou em servir a bebida. Tinha cinqüenta e três anos, uma pessoa farta, responsável pelas damas de companhia de Toranaga. Kiritsubo-noh-Toshiko, apelidada de Kiri, a dama mais velha da sua corte. Tinha o cabelo com salpicos grisalhos, o peito generoso, mas o rosto cintilante com uma alegria eterna.

- Não devia estar acordado, não, não a esta hora da noite, Tora-chan! Logo vai amanhecer e suponho que aí o senhor sairá para as colinas com seus falcões, neh? Precisa dormir!

- Sim, Kiri-chan! - Toranaga deu-lhe um tapinha no vasto traseiro afetuosamente.

- Por favor, não me chame de Kiri-chan! - Kiri riu. - Sou uma velha e preciso de muito respeito. Suas outras damas já me dão problemas suficientes. Kiritsubo-Toshiko-san, se lhe apraz, meu Senhor Yoshi Toranaga-noh-Chikitada!

- Aí está, Hiromatsu. Depois de vinte anos ela ainda tenta me dominar.

- Desculpe, mas são mais de trinta anos, Tora-sama - disse ela com orgulho. - E o senhor era tão manejável na época quanto é agora!

Quando Toranaga estava na casa dos vinte anos, fora retido como refém pelo despótico Ikawa Tadazaki, senhor de Suruga e Totomi, pai do atual Ikawa Jikkyu, inimigo de Yabu. O samurai responsável pelo bom comportamento de Toranaga acabara de tomar Kiritsubo como segunda esposa. Ela estava com dezessete anos então. O samurai, assim como a esposa, havia tratado Toranaga com generosidade, dera-lhe sábios conselhos, e depois, quando Toranaga se rebelara contra Tadazaki e se juntara a Goroda, seguira-o com muitos guerreiros e lutara bravamente ao lado dele. Mais tarde, no combate pela capital, o marido de Kiri fora morto. Toranaga pedira-lhe que se tornasse uma de suas consortes e ela aceitara, contente. Naqueles dias ela não era gorda. Mas era igualmente protetora e igualmente sábia. Tinha dezenove anos, ele vinte e quatro, e desde então se tornara o centro da sua vida doméstica. Kiri era muito perspicaz e muito eficiente. Dirigia-lhe a casa e mantinha-a sem problemas.

Tão sem problemas quanto qualquer casa com mulheres poderia ser, pensou Toranaga.

- Está engordando - disse ele, sem se importar com que ela estivesse gorda.

- Senhor Toranaga! Na frente do Senhor Toda! Oh, sinto muito, tenho que cometer seppuku, ou no mínimo raspar a cabeça e me tornar monja! E eu que pensei que ainda fosse jovem e esbelta! - Ela explodiu numa gargalhada. - Na realidade concordo em que tenho um traseiro gordo, mas o que posso fazer? Simplesmente gosto de comer e isso é problema de Buda e o meu karma, neh? - Ela ofereceu o chá. - Aqui está. Agora me retiro. Gostaria que eu mandasse a Senhora Sazuko?

- Não, minha zelosa Kiri-san, não, obrigado. Vamos conversar um pouco, depois vou dormir.

- Boa noite, Tora-sama. Um sono suave e sem sonhos.

- Ela se curvou para ele, para Hiromatsu, e saiu.

Eles sorveram o chá, degustando-o.

- Sempre lamentei - disse Toranaga - que não tivéssemos tido um filho, Kiri-san e eu. Uma vez ela concebeu, mas abortou. Foi quando estivemos na batalha de Nagakudé.

- Ah, aquela.

- Sim.

Isso foi pouco depois de o ditador Goroda ser assassinado, quando o General Nakamura - o futuro taicum - tentava consolidar todo o poder nas próprias mãos. Naquela época a questão ainda estava pendente, e Toranaga apoiava um dos filhos de Goroda, o herdeiro legal. Nakamura investiu contra Toranaga perto da pequena aldeia de Nagakudé, seu exército foi rechaçado e dispersado e ele perdeu a batalha. Toranaga recuou inteligentemente, perseguido por um novo exército, agora comandado para Nakamura por Hiromatsu. Mas Toranaga evitou a armadilha e escapou para as suas províncias, com o seu exército intacto, pronto para lutar de novo. Cinqüenta mil homens morreram em Nagakudé, muito poucos dos quais eram de Toranaga. Na sua sabedoria, o futuro taicum susteve a guerra civil contra Toranaga, embora tivesse condição de vencer. Nagakudé foi a única batalha que o taicum jamais perdeu e Toranaga o único general que jamais o derrotou.

- Estou contente por nunca termos travado combate, senhor - disse Hiromatsu.

- Sim.

- O senhor teria vencido.

- Não. O taicum era o maior general e o mais sábio, o homem mais inteligente que jamais houve.

Hiromatsu sorriu.

- Sim. Com exceção do senhor.

- Não. Engano seu. Foi por isso que me tornei vassalo dele.

- Lamento que tenha morrido.

- Sim.

- E Goroda? Era um excelente homem, neh? Tantos homens bons mortos. - Hiromatsu inconscientemente virou e torceu a bainha gasta. - O senhor terá que investir contra Ishido. Isso forçará cada daimio a tomar posição de uma vez por todas. Acabaremos vencendo a guerra. Então o senhor poderá dissolver o conselho e tornar-se shogun.

- Não busco essa honra - disse Toranaga de modo cortante. - Quantas vezes preciso dizer-lhe?

- Seu perdão, senhor. Mas sinto que seria melhor para o Japão.

- Isso é traição.

- Contra quem, senhor? Contra o taicum? Ele está morto. Contra suas últimas vontades e testamento? É um pedaço de papel. Contra o menino Yaemon? Yaemon é o filho de um camponês que usurpou o poder e a herança de um general cujos herdeiros ele massacrou. Éramos aliados de Goroda, depois vassalos do taicum. Sim. Mas estão ambos completamente mortos.

- Você aconselharia isso se fosse um dos regentes?

- Não. Mas não sou um dos regentes, e estou muito contente. Sou apenas seu vassalo. Tomei posição há um ano. Fiz isso voluntariamente.

- Por quê? - Toranaga nunca lhe perguntara isso antes.

- Porque o senhor é um homem, porque é Minowara e porque fará o que for mais sábio. O que disse a Ishido é verdade: não somos um povo para ser governado por um comitê. Necessitamos de um líder. A quem, dos cinco regentes, eu deveria ter

escolhido para servir? Ao Senhor Onoshi? Sim, é um homem muito sábio, e um bom general. Mas é cristão e um mutilado, tem a carne tão apodrecida pela lepra que cheira mal a cinqüenta passos. Ao Senhor Sugiyama? É o daimio mais rico, de uma família tão antiga quanto a sua. Mas é um vira-casaca sem entranhas e nós o conhecemos há uma eternidade. Ao Senhor Kiyama? Sábio, corajoso, um grande general, e um velho camarada. Mas também é cristão, e acho que já temos deuses bastantes nesta Terra dos Deuses para não sermos arrogantes ao ponto de adorar a apenas um. Ishido? Detesto esse lixo camponês traiçoeiro desde que o conheço e a única razão por que nunca o matei é que ele era o cão do taicum. - Seu rosto coriáceo fendeu-se num sorriso. - Então, o senhor ve, Yoshi Toranaga-noh-Minowara, o senhor não me deixou escolha.

- E se eu for contra o seu conselho? Se manipular o conselho de regentes, até Ishido, e puser Yaemon no poder?

- Qualquer coisa que o senhor faça é sábia. Mas todos os regentes gostariam de vê-lo morto. A verdade é essa. Sou pela guerra imediata. Imediata. Antes que o isolem. Ou, mais provavelmente, o assassinem.

Toranaga pensou em seus inimigos. Eram poderosos e abundantes.

Precisaria de três semanas inteiras para regressar a Yedo, viajando pela estrada Tokaido, a principal, que acompanhava a costa entre Yedo e Osaka. Ir de navio era mais perigoso, e talvez consumisse mais tempo, exceto de galera, que podia viajar contra o vento e a maré.

A mente de Toranaga deteve-se de novo no plano pelo qual se decidira. Não via defeito algum nele.

- Ouvi dizer em segredo, ontem, que a mãe de Ishido está visitando o neto em Nagoya - disse, e Hiromatsu imediatamente se pôs atento. Nagoya era uma imensa cidade-estado, ainda não comprometida com nenhum lado. - A senhora poderia ser "convidada" pelo prior a visitar o Templo Johji. Para ver as flores de cerejeira.

- Imediatamente - disse Hiromatsu. - Por pombo-correio. - O Templo Johji era famoso por três coisas: sua avenida de cerejeiras, a militância de seus monges zen-budistas, e a sua fidelidade declarada e perene a Toranaga, que, anos antes, pagara a construção do templo e se responsabilizava pela sua manutenção desde então. - As flores já terão passado do auge, mas ela estará lá amanhã. Não duvido que a veneranda senhora quererá ficar alguns dias, o lugar é tão calmante. O neto deveria ir também, neh?

- Não, apenas ela. Isso faria o "convite" do prior parecer óbvio demais. Em seguida, mande uma mensagem secreta a meu filho, Sudara: "Deixo Osaka no momento em que o conselho concluir esta sessão - dentro de quatro dias". Mande-a por mensageiro e confirme por pombo-correio amanhã.

A desaprovação de Hiromatsu era flagrante.

- Então posso ordenar a vinda de dez mil homens imediatamente? Para Osaka?

- Não. Os que estão aqui bastam. Obrigado, velho amigo, acho que vou dormir agora.

Hiromatsu levantou-se e estirou os ombros. A soleira da porta, disse:

- Posso dar a Fujiko, minha neta, permissão para se matar?

- Não.

- Mas Fujiko é samurai, senhor, e o senhor sabe como são as mães em relação aos filhos. A criança era o primeiro filho dela.

- Fujiko pode ter muitos filhos. Que idade tem? Dezoito, quase dezenove? Encontrarei um novo marido para ela.

Hiromatsu balançou a cabeça.

- Não aceitará nenhum. Conheço-a bem demais. Seu desejo mais profundo é pôr fim à vida. Por favor?

- Diga à sua neta que não aprovo mortes inúteis. A permissão está recusada.

Finalmente Hiromatsu se curvou, e começou a se retirar.

- Quanto tempo o bárbaro viveria na prisão? - perguntou Toranaga.

Hiromatsu não se voltou.

- Depende de quão violento lutador ele é.

- Obrigado. Boa noite, Hiromatsu. - Quando teve certeza de estar sozinho, disse calmamente: - Kiri-san?

A porta interna se abriu, ela entrou e se ajoelhou.

- Mande uma mensagem a Sudara imediatamente: "Está tudo bem". Mande por pombos de corrida. Solte três ao mesmo tempo ao amanhecer. Ao meio-dia faça o mesmo novamente.

- Sim, senhor. - Ela saiu.

Um conseguirá passar, pensou. Pelo menos quatro serão abatidos por flechas, espiões ou falcões. Mas a menos que Ishido tenha desvendado o nosso código, a mensagem não vai significar nada para ele.

O código era muito particular. Quatro pessoas o conheciam. O filho mais velho, Noboru; o segundo filho e herdeiro, Sudara; Kiri; e ele mesmo. Decifrada, a mensagem significava: "Ignorar todas as outras mensagens. Acionar o plano 5". Conforme arranjos prévios, o plano 5 continha ordens de reunir todos os líderes do clã Yoshi e seus conselheiros mais dignos de confiança imediatamente na capital, Yedo, e de mobilizar para a guerra. A expressão em código que indicava a guerra era "Céu Carmesim". Caso ele fosse assassinado, ou capturado, Céu Carmesim tornava-se inexorável e desencadeava a guerra - um imediato e fanático assalto contra Kyoto, conduzido por Sudara, o herdeiro, com todas as legiões, para tomar posse daquela cidade e do imperador fantoche. Isso seria acompanhado de insurreições secretas e meticulosamente planejadas em cinqüenta províncias que tinham sido preparadas ao longo dos anos para tal eventualidade. Todos os alvos, caminhos, cidades, castelos, pontes, tinham sido selecionados há muito tempo. Havia armas, homens e determinação suficientes para levar a coisa a efeito.

É um bom plano, pensou Toranaga. Mas fracassará se eu mesmo não o comandar. Sudara falhará. Não devido à falta de empenho, coragem, inteligência, nem por causa de traição. Meramente porque Sudara ainda não tem conhecimento ou experiência suficientes e não vai conseguir levar consigo um número suficiente de daimios não comprometidos. E também porque o Castelo de Osaka e o herdeiro, Yaemon, erguem-se invioláveis no caminho, o ponto de fusão de toda a inimizade e inveja que mereci em cinqüenta e dois anos de guerra.

A guerra de Toranaga começara quando ele tinha seis anos o fora mantido como refém num acampamento inimigo, depois libertado, depois capturado por outros inimigos, novamente feito refém, e isso até ter doze anos. Aos doze comandara sua primeira patrulha e vencera sua primeira batalha.

Tantas batalhas. Nenhuma perdida. Mas tantos inimigos. Que agora estão se agrupando.

Sudara falhará. Você é o único que poderia vencer com Céu Carmesim, talvez. O taicum poderia fazê-lo, totalmente. Mas seria melhor não ter que pôr em prática Céu Carmesim.

 

Para Blackthorne foi um amanhecer infernal. Estava travando uma luta de morte com um prisioneiro. O prêmio era uma xícara de sopa de aveia. Os dois homens estavam despidos. Sempre que um condenado era colocado naquela vasta cela de madeira o de um único andar, suas roupas eram levadas embora. Um homem vestido ocupava mais espaço e as roupas podiam esconder armas.

A sala escura e sufocante tinha cinqüenta passos de comprimento e dez de largura, e estava abarrotada de japoneses nus e transpirando. A luz se filtrava escassamente através das pranchas o vigas que compunham os muros e o teto baixo.

Blackthorne mal e mal conseguia ficar ereto. Tinha a pele machucada e arranhada pelas unhas quebradas do homem e pelo madeirame das paredes. Finalmente foi de cabeça contra o rosto do homem, agarrou-o pelo pescoço e martelou-lhe a cabeça contra as vigas, até fazê-lo perder os sentidos. Depois atirou o corpo para o lado, investiu por entre a massa transpirando, para o lugar que reclamara no canto, e se preparou para outro ataque.

Acontecera que ao amanhecer fora hora de refeição e os guardas começaram a passar as xícaras de sopa de aveia e água pela pequena abertura. Era o primeiro alimento que lhes era dado desde que ele fora posto ali ao crepúsculo da véspera. A fila para comida e água fora excepcionalmente calma. Sem disciplina ninguém comeria. Então aquele homem simiesco - barba por fazer, imundo, coberto de piolhos - lhe dera um soco nos rins e lhe tomara a ração, enquanto os outros esperavam para ver o que ia acontecer. Mas Blackthorne já participara de um sem-número de rixas no mar para ser derrotado com um golpe traiçoeiro, portanto fingiu estar indefeso, depois deu um pontapé com maldade e a luta se travou.

Agora, no canto, Blackthorne viu, para espanto seu, que um dos homens lhe oferecia a xícara de sopa e a de água que ele presumira perdidas. Pegou-as e agradeceu ao homem.

Os cantos eram as áreas mais escolhidas. Uma viga corria ao longo do chão de terra, dividindo a sala em duas seções. Em cada seção havia três fileiras de homens, duas se encarando mutuamente, as costas contra a parede ou a viga, a terceira entre elas. Apenas os fracos e os doentes ficavam na fileira central. Quando os homens mais fortes, nas fileiras externas, queriam esticar as pernas, tinham que fazê-lo por cima dos que estavam no meio.

Blackthorne viu dois cadáveres, inchados e cobertos de moscas, numa das filas do meio. Mas os homens enfraquecidos e moribundos ao redor pareciam ignorá-los. Não conseguia enxergar à distância na escuridão abafada. O sol já estava ressecando a madeira. Havia latrinas mas o mau cheiro era terrível porque os doentes se haviam sujado e aos lugares onde se acotovelavam.

De vez em quando guardas abriam a porta de ferro e chamavam nomes. Os homens curvavam-se para os companheiros e saíam, mas logo eram trazidos outros e o espaço era novamente ocupado. Todos os prisioneiros pareciam ter aceitado a sua sorte e tentavam, da melhor maneira que podiam, viver altruisticamente em paz com os vizinhos imediatos.

Um homem contra a parede começou a vomitar. Foi rapidamente empurrado para a fileira do meio e tombou, meio sufocado, sob o peso das pernas.

Blackthorne teve que fechar os olhos e lutar para controlar o próprio terror e claustrofobia. Bastardo de Toranaga! Rezo para ter a oportunidade de pô-lo aqui dentro um dia.

Guardas bastardos! Na noite anterior, quando lhe ordenaram que se despisse, lutara com amargo desespero, sabendo que estava derrotado e lutando só porque se recusava a capitular passivamente. E depois fora empurrado porta adentro.

Havia quatro blocos de celas como aquele. Ficavam nos limites da cidade, numa construção por trás de altos muros de pedra. Fora dos muros havia uma área isolada de terra batida, à margem do rio. Cinco cruzes erguiam-se ali. Vários homens e uma mulher, todos nus, tinham sido amarrados de pernas abertas às traves pelos pulsos e tornozelos, e Blackthorne, enquanto caminhava pelo perímetro, seguindo seus guardas samurais, vira executores com longas lanças enfiá-las no peito das vítimas, enquanto a multidão escarnecia.

Depois os cinco foram descidos, mais cinco foram içados, alguns samurais avançaram e picaram os cadáveres em pedaços com as longas espadas, rindo o tempo todo em que faziam isso.

Bastardos sanguinários, podres, ralé!

Sem que ninguém notasse, o homem com quem Blackthorne lutara estava voltando a si. Jazia na fila do meio. O sangue coagulara de cada lado do rosto dele e o nariz estava esmagado. Repentinamente pulou para cima de Blackthorne, ignorando os homens no seu caminho. Blackthorne viu-o no último momento, aparou freneticamente a investida furiosa e o prostrou por terra. Os prisioneiros sobre quem ele caiu amaldiçoaram-no e um deles, lerdo e com a compleição de um buldogue, atingiu-o violentamente na nuca com o lado da mão. Houve um estalo seco e a cabeça do homem cedeu.

O homem buldogue levantou a cabeça meio raspada pelo topete eriçado e infestado de piolhos e deixou-a cair. Levantou os olhos para Blackthorne, disse alguma coisa guturalmente, sorriu com as gengivas nuas, desdentadas, e sacudiu os ombros.

- Obrigado - disse Blackthorne, lutando para respirar, grato por seu atacante não ter a habilidade de Mura no combate desarmado. - Meu namu Anjin-san - disse, apontando para si mesmo. - Você?

- Ah, so desu! Anjin-san! - O buldogue apontou para si mesmo e tomou fôlego. - Minikui.

- Minikui-san?

- Hai - e acrescentou uma torrente de palavras em japonês.

Blackthorne sacudiu os ombros, cansado.

- Wakarimasen. Não entendi.

- Ah, so desu! O buldogue conversou brevemente com os vizinhos. Depois também sacudiu os ombros, Blackthorne o imitou e juntos ergueram o morto e o colocaram com os outros cadáveres. Quando voltaram ao canto, ninguém lhes tomara o lugar,

A maioria dos prisioneiros estava dormindo ou espasmodicamente tentando dormir.

Blackthorne sentiu-se imundo, péssimo e às portas da morte. Não se preocupe, disse a si mesmo, você ainda tem um longo caminho pela frente antes de morrer... Não, não vou poder viver muito tempo neste buraco do inferno. Há homens demais. Oh, Deus, faça-me sair! Por que a sala está subindo e descendo assim, o aquele é Rodrigues que vem flutuando das profundezas com tenazes movendo-se no lugar dos olhos? Não consigo respirar, não consigo respirar. Tenho que dar o fora daqui, por favor, por favor, não ponham mais lenha na fogueira e o que você está fazendo aqui, jovem Croocq, pensei que o tivessem deixado ir. Pensei que tivesse voltado para a aldeia, mas agora estamos aqui na aldeia, o como foi que cheguei aqui - está tão frio e há aquela garota, tão bonita, lá embaixo, perto do cais, mas por que a estão arrastando para a praia, o samurai nu, Omi, rindo, lá? Por que para a areia, marcas de sangue na areia, todos nus, eu nu, feiticeiras, aldeães e crianças, e há o caldeirão e estamos no caldeirão e não, não ponham mais lenha, não ponham mais lenha, estou me afogando num líquido imundo, oh, Deus, oh, Deus, oh, Deus, estou morrendo, morrendo, morrendo "In nomine Patris et Filii et Spiritui Sancti". Este é o último sacramento e você é católico, somos todos católicos, e você vai arder ou se afogar em mijo e arder no fogo, o fogo, o fogo, o logo...

Arrastou-se para fora do pesadelo, os ouvidos explodindo com o tranqüilo caráter decisivo do último sacramento. Por um momento não soube se estava desperto ou adormecido porque seus incrédulos ouvidos ouviram a bênção em latim novamente e seus incrédulos olhos estavam vendo um velho e enrugado espantalho de europeu dobrado sobre a fileira do meio, a quinze passos de distância. O velho desdentado tinha um longo cabelo imundo, uma barba emaranhada,' unhas quebradas e usava um camisolão puído o sujo. Tinha uma mão levantada como uma garra de abutre e segurava a cruz de madeira acima do corpo meio oculto. Um raio de sol iluminou-o momentaneamente. Depois ele fechou os olhos do homem, murmurou uma prece e levantou os olhos. Viu Blackthorne olhando-o fixamente.

- Mãe de Deus, você é real? - disse o homem, numa voz baixa e áspera, falando um espanhol grosseiro, de camponês, e persignando-se.

- Sim - disse Blackthorne em espanhol. - Quem é você?

O velho aproximou-se às apalpadelas, resmungando consigo mesmo. Os outros deixaram-no passar, pisando-os ou pulando-os, sem dizer palavra. Ele sustentou o olhar de Blackthorne com olhos reumosos, o rosto verruguento.

- Oh, Virgem abençoada, o señor é real. Quem é? Sou... Sou o Frei... Frei Domingo... Domingo... Domingo da Sagrada... Sagrada Ordem de São Francisco. .. a Ordem. .. - por um instante suas palavras se tornaram uma confusão de japonês, latim e espanhol. A cabeça dele estremeceu e ele enxugou a saliva sempre presente que lhe escorria para o queixo. - O señor é real?

- Sim, sou real. - Blackthorne se sentiu aliviado.

O padre murmurou outra ave-maria, as lágrimas correndo-lhe pelas faces.

Beijou a cruz repetidamente e se teria posto de joelhos se houvesse espaço. O buldogue sacudiu o vizinho para acordá-lo e ambos se puseram de cócoras para dar espaço suficiente para que o padre se sentasse.

- Pelo abençoado São Francisco, minhas preces foram atendidas. Pensei estar vendo outra aparição, señor, um fantasma. Sim, um mau espírito. Vi tantos, tantos... há quanto tempo o señor está aqui? É difícil ver na escuridão e meus olhos não são bons... Há quanto tempo?

- Desde ontem. E o senhor?

- Não sei, señor. Muito tempo. Fui posto aqui em setembro, no ano do Senhor de 1558.

- Estamos em maio agora. De 1600.

- 1600?

Um gemido distraiu a atenção do monge. Levantou-se e abriu caminho por sobre os corpos como uma aranha, encorajando um homem aqui, tocando outro ali, no seu japonês fluente. Não conseguiu encontrar o moribundo, de modo que sussurrou os últimos ritos na direção daquela parte da cela e abençoou a todos, com o que ninguém se importou.

- Venha comigo, meu filho.

Sem esperar, o monge coxeou ao longo da prisão, através do amontoado de homens, na escuridão. Blackthorne hesitou, não querendo sair do seu lugar. Mas acabou se levantando e o seguiu. A dez passos, olhou para trás. Seu lugar desaparecera. Parecia impossível que ele alguma vez tivesse estado ali.

Continuou por todo o comprimento do barraco. No canto oposto havia, inacreditavelmente, um espaço aberto. Exatamente o         espaço suficiente para um homem pequeno se deitar. Continha alguns potes e tigelas e uma velha esteira de palha.

Frei Domingo avançou por entre os homens até o espaço o chamou-o com um gesto. Os japoneses ao redor olhavam silenciosos, deixando Blackthorne passar.

- E o meu rebanho, señor. São todos meus filhos em Jesus abençoado. Converti a tantos aqui... este, João, aquele, Marcos, o Matusalém... - O velho parou para tomar fôlego. - Estou muito cansado. Cansado. Tenho que... tenho... - Suas palavras foram-se arrastando e ele adormeceu.

Ao crepúsculo chegou mais comida. Quando Blackthorne começou a se levantar, um dos japoneses das proximidades fez-lhe sinal que ficasse sentado e trouxe-lhe uma tigela bem cheia. Outro homem gentilmente acordou o padre com um tapinha, oferecendo a comida.

- Iyé - disse o velho, balançando a cabeça, um sorriso no rosto, e empurrou a tigela de volta às mãos do homem.

- Iyé, Farddah-sama.

O padre permitiu-se ser persuadido e comeu um pouco, depois se levantou, as juntas estalando, e estendeu a tigela a um dos que estavam na fileira do centro. Esse homem tocou a mão do padre com a testa e foi abençoado.

- Estou tão contente por ver outra pessoa da minha espécie - disse o padre, sentando-se novamente ao lado de Blackthorne, sua voz de camponês abafada e sibilante. Apontou debilmente para a outra extremidade da cela. - Uma de minhas ovelhas disse que o señor usou a palavra "piloto", "anjin". O señor é piloto?

- Sim.

- Há outros da sua tripulação aqui?

- Não, estou só. Por que está aqui?

- Se está só... o señor veio de Manila?

- Não. Nunca estive na Ásia antes - disse Blackthorne cuidadosamente, num excelente espanhol. - Foi minha primeira viagem como piloto. Fui... fui desviado da rota. Por que o senhor está aqui?

- Os jesuítas me puseram aqui, meu filho. Os jesuítas e suas imundas mentiras. O señor se desviou da rota? Não é espanhol, não... nem português... - O monge perscrutou-o desconfiado, e Blackthorne foi rodeado pela sua respiração malcheirosa. - O navio era português? Diga a verdade, diante de Deus!

- Não era, padre. Não era português. Diante de Deus!

- Oh, Virgem abençoada, obrigado! Por favor, desculpe-me, señor. Tive medo... sou velho, doente e estúpido. Seu navio era espanhol, vindo de onde? Estou tão contente... de onde o señor e, originalmente? Da Flandres espanhola? Ou do ducado de Brandenburgo, talvez? De algum lugar nos nossos domínios na Germania? Oh, é tão bom falar minha abençoada língua materna de novo! O señor naufragou como nós? Depois foi perfidamente atirado nesta prisão, falsamente acusado por aqueles diabólicos jesuítas? Que Deus os amaldiçoe e lhes mostre o erro de sua traição!

- Os olhos dele cintilaram ferozmente. - O señor disse que nunca esteve na Ásia antes?

- Não.

- Se nunca esteve na Ásia antes, então será como uma criança na escuridão. Sim, há tanta coisa para dizer! O señor sabe que os jesuítas são meramente comerciantes, mercadores de armas e usurários? Que controlam toda a seda que é comerciada aqui, todo o comércio com a China? Que o Navio Negro anual vale um milhão em ouro? Que forçaram Sua Santidade a conceder-lhes poder total sobre a Ásia - a eles e a seus cães, os portugueses? Que todas as outras religiões são proibidas aqui? Os jesuítas negociam ouro, comprando e vendendo por lucro - para eles e para os pagãos -, contra as ordens diretas de Sua Santidade o Papa Clemente, do Rei Filipe, e contra as leis desta terra? Que eles secretamente contrabandeiam armas para o Japão, para os reis cristãos aqui, incitando-os à rebelião? Que se imiscuem em política, são alcoviteiros dos reis, mentem, trapaceiam e prestam falso testemunho contra nós! Que o superior deles em pessoa enviou uma mensagem secreta ao nosso vice-rei espanhol em Luzón pedindo-lhe conquistadores para conquistar a terra - imploraram por uma invasão espanhola para ocultar mais erros dos portugueses. Todos os nossos problemas podem ser atribuídos a eles, señor. Foram os jesuítas que mentiram, trapacearam e espalharam veneno contra a Espanha e o nosso amado Rei Filipe! Suas mentiras me colocaram aqui e causaram o martírio de vinte e seis santos padres! Pensam que só porque fui camponês um dia, não compreendo... mas sei ler e escrever, señor, sei ler e escrever! Fui um dos secretários de Sua Excelência, o vice-rei. Pensam que nós, franciscanos, não compreendemos... - Neste ponto ele irrompeu noutra mistura de espanhol e latim.

O espírito de Blackthorne ressuscitou, sua curiosidade aguçada com o que o padre dissera. Que armas? Que ouro? Que comércio? Que Navio Negro? Um milhão? Que invasão? Que reis cristãos?

Você não está iludindo esse coitado doente? - perguntou si mesmo. Ele pensa que você é um amigo, não um inimigo.

Não menti para ele.

Mas não deixou implícito que era amigo?

Respondi-lhe diretamente.

Mas disse voluntariamente alguma coisa?

Não.

Isso é justo?

É a primeira regra de sobrevivência em águas inimigas: não dizer nada voluntariamente.

O furor do monge aumentou de intensidade. Os japoneses próximos mudaram de posição inquietos. Um deles se levantou, sacudiu o padre gentilmente e falou com ele. Frei Domingo gradualmente saiu do acesso de cólera, os olhos clarearam. Olhou para Blackthorne com reconhecimento, respondeu ao japonês, e acalmou o resto.

- Sinto muito, señor - disse, sem fôlego. - Eles... eles acharam que eu estava zangado com.., com o señor. Deus me perdoe minha raiva tola! Só estava... que vá, os jesuítas vêm do inferno, junto com os hereges e pagãos. Posso lhe contar muita coisa sobre eles. - O monge enxugou a baba do queixo e tentou se acalmar. Apertou o peito para aliviar a dor ali. - O señor estava dizendo? Seu navio foi atirado na praia?

- Sim. De certo modo. Encalhado - respondeu Blackthorne. Mudou as pernas de posição com todo o cuidado. Os homens que estavam observando e ouvindo deram-lhe mais espaço. Um se levantou e fez-lhe sinal que se esticasse. - Obrigado - disse ele imediatamente. - Oh, como se diz "obrigado", padre?

- "Domo". As vezes se diz "arigato". Uma mulher tem que ser muito polida. Diz "arigato goziemashita".

- Obrigado. Qual é o nome dele? - Blackthorne indicou o homem que se levantara.

- Esse é González.

- Mas qual é o nome japonês?

- Ah, sim! Akabo. Mas isso só significa "carregador", señor. Eles não têm nome. Só os samurais têm.

- O quê?

- Só os samurais têm nomes, prenomes e sobrenomes. E a lei deles, señor. Todos os outros têm que se satisfazer com o nome do que são: carregador, pescador, cozinheiro, executor, fazendeiro, e assim por diante. Os filhos e filhas praticamente são apenas Primeira Filha, Segunda Filha, Primeiro Filho, e assim por diante. As vezes chamam um homem de "pescador que mora perto do olmo" ou "pescador com os olhos maus". - O monge sacudiu os ombros e reprimiu um bocejo. - Os japoneses comuns não têm direito de usar nome. As prostitutas dão a si mesmas nomes como Carpa, Lua, Pétala, Enguia, Estrela. E estranho, señor, mas é a lei deles. Nós lhes damos nomes cristãos, nomes verdadeiros, quando os batizamos, trazendo-lhes a salvação e a palavra de Deus... - Suas palavras ficaram no ar e ele adormeceu.

- Domo, Akabo-san - dìsse Blackthorne ao carregador.

O homem sorriu acanhado, curvou-se e respirou fundo.

Mais tarde o monge despertou, disse uma prece rápida e se coçou.

- Só ontem, o señor disse? Chegou aqui só ontem? O que aconteceu com o señor?

- Quando desembarcamos, havia um jesuíta lá - disse Blackthorne. - Mas o senhor, padre, estava dizendo que foi acusado? O que lhe aconteceu? E ao seu navio?

- Nosso navio? O señor estava vindo de Manila, como nós? Ou... oh, que tolice a minha! Agora me lembro, o señor foi desviado da rota, vindo de casa, e nunca esteve na Ásia antes. Pelo abençoado corpo de Cristo, é tão bom conversar com um homem civilizado de novo, na minha abençoada língua materna! Que vá, faz tanto tempo. Minha cabeça dói, dói, señor. Nosso navio? Estávamos voltando para casa finalmente. Voltando de Manila para Acapulco, na terra de Cortez, o México, de lá, por

terra, até Vera Cruz. Em seguida outro navio e a travessia do Atlântico, depois de muito, muito tempo, para casa. Minha aldeia é fora de Madri, señor, nas montanhas. Chama-se Santa Verônica. Estive fora quarenta anos, señor. No Novo Mundo, no México, e nas Filipinas. Sempre com nossos gloriosos conquistadores, que a Virgem vele por eles! Eu estava em Luzón quando destruímos o rei nativo pagão, Lumalon, conquistamos Luzón e assim levamos a palavra de Deus às Filipinas. Muitos dos nossos convertidos japoneses lutaram conosco, señor. Que combatentes! isso foi em 1575. A Mãe Igreja está bem plantada lá, meu filho, e nunca se viu um jesuíta ou português imundo. Vim para o Japão por quase dois anos, depois tive que partir para Manila de novo, quando os jesuítas nos traíram.

O monge parou e fechou os olhos, devaneando. Mais tarde voltou à conversa de novo e como faziam os velhos às vezes continuou como se nuca tivesse adormecido.

- Meu navio era o grande galeão San Felipe. Levava uma carga de especiaria, ouro e prata, e dinheiro no valor de um milhão e meio de pesos de prata. Uma das grandes tempestades nos pegou e nos atirou às praias de Shikoku. Nosso navio quebrou a quilha no banco de areia no terceiro dia; nessa altura já tínhamos desembarcado nossos lingotes e a maior parte da carga. Então chegou o aviso de que estava tudo confiscado, confiscado pelo próprio taicum, que nós éramos piratas e ... – Ele parou ante o silêncio repentino.

A porta de ferro da cela havia-se aberto.

Guardas começaram a chamar nomes da lista. O buldogue, o homem que ajudara Blackthorne, foi um dos chamados. Caminhou para fora e não olhou para trás. Um dos homens no círculo também foi escolhido. Akabo. Akabo ajoelhou-se diante do monge, que o abençoou, fez o sinal-da-cruz sobre ele e rapidamente lhe ministrou o último sacramento. O homem beijou a crruz e se afastou.

A porta se fechou de novo.

- Vão executá-lo? – perguntou Blackthorne.

- Sim, o calvário dele está do outro lado da porta. Que a Santa Virgem lhe tome a alma rapidamente e lhe dê a recompensa eterna.

- O que fez aquele homem?

- Infringiu a lei... a lei deles, señor. Os japoneses são um povo simples. E muito severo. Só reconhecem realmente uma única punição: a morte. Na cruz, por estrangulamento ou decapitação. Pelo crime de incêndio culposo, a pena é de morte no fogo. Praticamente não tem outra punição. Banimento às vezes, ou corte de cabelo para as mulheres. Mas – o velho – quase sempre é a morte.

- Esqueceu-se do aprisionamento.

As unhas do monge cutucaram distraidamente as crostas no braço. – Não é punição, meu filho. Para eles, a prisão é apenas um lugar provisório onde manter o homem até que decidam a sentença. Só os culpados vem para cá. E por muito pouco tempo.

- Isso é absurdo. E o senhor? Está aqui há um ano, quase dois.

- Um dia virão me buscar, como a todos os outros. Isto não é mais que um lugar de repouso entre o inferno na terra e a glória da vida eterna.

- Não acredito no senhor.

- Não tenha medo, meu filho. É a vontade de Deus. Estou aqui, posso ouvi-lo em confissão, dar-lhe a absolvição e torná-lo perfeito. A glória da vida eterna está a uns poucos cem passos e momentos de distância daquela porta. O señor gostaria que eu ouvisse sua confissão agora?

- Não... não, obrigado. Agora não – Blackthorne olhou para a porta de ferro. Alguém já tentou escapar daqui?

- Por que fariam isso? Não há para onde fugir... nenhum lugar onde se esconder. As autoridades são muito severas. Qualquer pessoa que ajude um condenado fugitivo ou mesmo um homem que cometa um crime... – Apontou vagamente para a ponta do barraco. – Gonzáles... Akabo... o homem que nos... nos deixou. É um kaga. Ele me disse...

- O que é um kaga?

- Oh, os portadores, señor, os que carregam os palanquins numa vara. Ele nos contou que o parceiro roubou um lenço de seda de um freguês, pobre sujeito, e porque ele não comunicou o roubo, a vida dele também está perdida. O señor pode me acreditar: o homem que escapar, ou mesmo ajudar alguém a escapar, poderia perder a vida e toda a família também. São muito severos, señor.

- É por isso então que vão todos para a execução como ovelhas?

- Não há escolha. É a vontade de Deus.

Não se encolerize, não entre em pânico, advertiu Blackthorne a si mesmo. Seja paciente. Você pode pensar num jeito. Nem tudo o que o padre diz é verdade. Ele está perturbado. Quem não estaria, depois de tanto tempo?

- Estas prisões são novas para eles, señor – estava dizendo o monge. – O táicum instituiu as prisões aqui a poucos anos, pelo que dizem. Antes dele não havia nenhuma; quando um homem era apanhado, confessava o crime e era executado.

- E se não confessasse?

- Todo mundo confessa... o quanto antes, melhor, señor. É o mesmo que no nosso mundo, quando se é apanhado.

O monge dormiu um pouco, coçando-se e resmungando durante o sono. Quando despertou, Blackthorne disse:

- Por favor, diga-me padre, como é que os malditos jesuítas colocam um homem de Deus neste buraco pestilento.

- Não há muito a dizer e há tudo. Depois que os homens do taicum vieram e tomaram todo o nosso dinheiro e mercadorias, nosso capitão-mor insistiu em ir à capital para protestar. Não havia motivo para o confisco. Não éramos súditos de Sua Majestade Imperial Católica o Rei Filipe da Espanha, governante do maior e mais rico império do mundo? O monarca mais poderoso do mundo? Não éramos amigos? O taicum não estava pedindo à Manila espanhola que comerciasse diretamente com o Japão, para quebrar o infame monopólio dos portugueses? Era tudo um engano, o confisco. Tinha que ser.

"Fui com o nosso capitão-mor porque sabia falar um pouco de japonês - não muito naquele tempo. Señor, o San Felipe perdeu o rumo e veio -dar em terra em outubro de 1597. Os jesuítas - um se chamava Padre Martim Alvito - ousaram se oferecer para servirem de mediadores nossos, lá em Kyoto, a capital. O despropósito! Nosso superior franciscano, Frei Braganza, estava na capital, e era um embaixador - um verdadeiro embaixador da Espanha na corte do taicum! O abençoado Frei Braganza estava na capital, em Kyoto, há cinco anos, señor. O próprio taicum, pessoalmente, pedira ao nosso vice-rei em Manila que enviasse monges franciscanos e um embaixador para o Japão. Então o abençoado Frei Braganza veio. E nós, señor, nós do San Felipe, sabíamos que ele merecia confiança, que não era como os jesuítas”.

"Depois de muitos e muitos dias de espera, tivemos uma entrevista com o taicum - era um homenzinho minúsculo, horroroso, señor -, e pedimos que nos devolvesse nossas mercadorias e nos desse outro navio, ou passagem em outro, pelo que o nosso capitão-mor se prontificou a pagar generosamente. A entrevista transcorreu bem, achamos nós, e o taicum nos dispensou. Dirigimo-nos ao nosso monastério em Kyoto e esperamos, e nos meses seguintes, enquanto esperávamos pela decisão dele, continuamos a levar a palavra de Deus aos pagãos. Realizávamos os nossos serviços abertamente, não como ladrões na noite, como fazem os jesuítas." A voz de Frei Domingo estava cortante de desdém”.

"Usávamos nossos hábitos e paramentos, não íamos disfarçados de sacerdotes nativos, como eles fazem. Levamos a Palavra ao povo, aos defeituosos, aos doentes e aos pobres, não como os jesuítas, que só mantêm relações com príncipes. Nossas congregações aumentaram. Tínhamos um hospital para leprosos, nossa própria igreja, e o nosso rebanho prosperava, señor. Grandemente. Estávamos prestes a converter muitos dos reis deles e então, um dia, fomos traídos”.

"Um dia, em janeiro, nós, franciscanos, fomos todos levados diante do magistrado e acusados sob determinação pessoal do taicum, señor, acusados de violadores da lei deles, perturbadores da paz, e condenados à morte por crucificação. Havia quarenta e três de nós. Nossas igrejas .espalhadas pelo país deviam ser destruídas, todas as nossas congregações deviam ser dissolvidas, as franciscanas, não as jesuíticas, señor. Só nós, señor. Fomos falsamente acusados. Os jesuítas envenenaram os ouvidos do taicum e o convenceram de que éramos conquistadores, que queríamos invadir estas praias, quando foram os jesuítas que imploraram a Sua Excelência, o nosso vice-rei, que enviasse um exército de Manila. Vi a carta pessoalmente! Do superior deles! São demônios que fingem servir à Igreja e a Cristo, mas servem apenas a si mesmos. Cobiçam o poder, poder a qualquer preço. Escondem-se por trás de uma capa de pobreza e devoção, mas embaixo disso alimentam-se como reis e acumulam fortunas. Que vá, señor, a verdade é que eles estavam com inveja das nossas congregações, inveja da nossa igreja, inveja da nossa verdade e do nosso modo de vida. O daimio de Hizen, Dom Francisco - o nome japonês é Harima Tadao, mas foi batizado como Dom Francisco -, intercedeu por nós. Ele é como um rei, todos os daimios são como reis, e ele é franciscano e intercedeu por nós, mas em vão”.

"No fim, vinte e seis foram martirizados. Seis espanhóis, dezessete dos nossos noviços japoneses, e três outros. O abençoado Braganza foi um deles, e havia três meninos entre os noviços. Oh, señor, os fiéis estiveram lá aos milhares naquele dia. Cinqüenta, cem mil pessoas assistiram ao martírio abençoado em Nagasaki, disseram-me. Foi um triste dia frio de fevereiro e um triste ano também. Foi o ano dos terremotos, dos tufões, enchentes, tempestades, incêndios, foi o ano em que a mão de Deus se abateu pesada sobre o grande assassino e até pôs abaixo o grande castelo dele, Fushimi, fazendo a terra tremer. Foi aterrorizante mas maravilhoso presenciar o dedo de Deus punindo pagãos e pecadores”.

"Assim eles foram martirizados, seis bons espanhóis. Nosso rebanho e nossa igreja foram devastados e o hospital, fechado. As lágrimas escorriam pelo rosto do velho. "Eu... eu fui um dos escolhidos para o martírio, mas... mas a honra não seria minha. Fizeram-nos vir caminhando de Kyoto e quando chegamos a Osaka puseram alguns de nós numa das nossas missões aqui e o resto... o resto teve uma orelha cortada, depois teve que desfilar pelas ruas como criminosos comuns. Então puseram os abençoados irmãos a caminhar para oeste. Durante um mês. A jornada abençoada terminou numa colina chamada Nishizaki, que domina a grande enseada de Nagasaki. Implorei ao samurai que me deixasse ir com eles, señor, mas ele me ordenou que voltasse à missão aqui em Osaka. Por nenhuma razão. E então, meses mais tarde, fomos colocados nesta cela. Éramos três, acho que éramos três, mas eu era o único espanhol. Os outros eram noviços, nossos irmãos leigos, japoneses. Alguns dias depois os guardas chamaram o nome deles. Mas nunca chamaram o meu. Talvez seja a vontade de Deus, señor, ou talvez aqueles jesuítas imundos me deixem vivo apenas para me torturar — eles, que me tiraram a chance de ser martirizado junto com os meus. É duro, señor, ser paciente. Tão difícil..."

O velho monge fechou os olhos, rezou e chorou até pegar no sono.

Embora quisesse muito, Blackthorne não conseguiu dormir, mesmo já sendo noite. Sentia a carne arrepiar-se com as mordidas de piolhos. A cabeça fervilhando de terror.

Sabia, com uma terrível clareza, que não havia meio de escapar. Sentia-se subjugado e no limiar da morte. Na altura em que a noite se tornou mais escura, o terror o engoliu, e, pela primeira vez na vida, ele cedeu e chorou.

- Sim, meu filho? - murmurou o monge. - O que é?

- Nada, nada - disse Blackthorne, com o coração ribombando. - Durma de novo.

- Não é preciso ter medo. Estamos todos nas mãos de Deus - disse o monge, e adormeceu novamente.

O grande terror cedeu lugar a um terror com que se podia viver. Sairei daqui de algum modo, disse Blackthorne a si mesmo, tentando acreditar na mentira. Ao amanhecer chegou comida e água. Blackthorne estava mais forte agora. Estupidez ceder assim, advertiu-se ele. Estúpido, fraco e perigoso. Não faça isso de novo ou você começa a definhar, fica louco e morre com certeza. Colocarão você na terceira fileira e você morrerá. Tenha cuidado, seja paciente e vigie-se.

- Como está hoje, señor?

- Ótimo, obrigado, padre. E o senhor?

- Razoavelmente bem, obrigado.

- Como digo isso em japonês?

- Domo, genki desu.

- Domo, genki desu. Ontem, padre, o senhor esteve falando sobre os Navios Negros portugueses... como são eles? Já viu algum?

- Oh, sim, señor. São os maiores navios do mundo, quase duas mil toneladas. São necessários duzentos homens e rapazes para tripular um, señor, e com tripulação e passageiros o total seria de quase mil almas. Disseram-me que esses galeões navegam bem a barlavento mas se arrastam quando o vento vem de través.

- Quantos canhões eles levam?

- As vezes vinte ou trinta, em três conveses.

Frei Domingo estava contente por responder a perguntas, conversar e ensinar, e Blackthorne estava igualmente contente de ouvir e aprender. O conhecimento desconexo do monge era inestimável e abrangia muita coisa.

- Não, señor - estava dizendo agora. - "Domo" é "obrigado" e "doto" é "por favor". "Agua" é "mizu". Lembre-se sempre de que os japoneses dão muito valor às boas maneiras e à cortesia. Uma vez, quando eu estava em Nagasaki... Oh, se ao menos eu tivesse tinta, uma pena e papel! Ah, já sei... aqui, desenhe as palavras no pó, isso o ajudará a se lembrar...

- Domo - disse Blackthorne. Depois de memorizar mais algumas palavras, perguntou: - Há quanto tempo os portugueses estão aqui?

- Oh, a terra foi descoberta em 1542, señor, o ano em que nasci. Foram três homens: Da Mota, Peixoto e o nome do outro não consigo lembrar. Eram todos comerciantes portugueses, fazendo comércio ao longo das costas da China e provenientes de um porto no Sião. O señor já esteve no Sião?

- Não.

- Ah, há muito que ver na Ásia. Esses três homens estavam comerciando, mas foram apanhados por uma grande tempestade, um tufão, atirados para fora da rota e atracaram em segurança em Tanegashima, em Kyushu. Foi a primeira vez que um europeu pôs os pés em solo japonês, e imediatamente o comércio começou. Poucos anos mais tarde, Francisco Xavier, um dos membros fundadores dos jesuítas, chegou aqui. Isso foi em 1549... um mau ano para o Japão, señor. Um dos nossos irmãos deveria ter vindo primeiro, então teríamos nós herdado este reino, não os portugueses. Francisco Xavier morreu três anos depois, na China, sozinho e desamparado... Já lhe disse, señor, que já há um jesuíta na corte do imperador da China, num lugar chamado Pequim?... Oh, devia ver Manila, señor, e as Filipinas! Temos quatro catedrais, quase três mil conquistadores e perto de seis mil soldados japoneses espalhados pelas ilhas, e três mil irmãos...

A mente de Blackthorne encheu-se de fatos e palavras e frases japonesas. Perguntou sobre a vida no Japão, os daimios, os samurais, o comércio, Nagasaki, guerra, paz, jesuítas, franciscanos, portugueses na Ásia, Manila espanhola, e sempre mais sobre o Navio Negro que vinha anualmente de Macau. Durante três dias e três noites Blackthorne sentou-se junto ao Frei Domingo, interrogou, ouviu, aprendeu, dormiu com pesadelos, para despertar e fazer mais perguntas e obter mais informações.

Então, no quarto dia, chamaram seu nome.

- Anjin-san!

 

Em meio ao silêncio absoluto, Blackthorne pôs-se de pé.

- Sua confissão, meu filho, faça-a rapidamente.

- Eu... eu não acho... eu... - Blackthorne percebeu, no torpor da sua mente, que estava falando inglês, então apertou os lábios com força e começou a caminhar. O monge ergueu-se com dificuldade, supondo que as palavras dele fossem holandesas ou alemãs, agarrou-lhe o pulso, coxeando ao seu lado.

- Rápido, señor. Eu lhe darei a absolvição. Seja rápido, pela sua alma imortal. Faça-a rapidamente, simplesmente, que o señor confessa diante de Deus todas as coisas passadas e presentes...

Estavam se aproximando do portão de ferro, o monge segurando-se a Blackthorne com uma força surpreendente.

- Faça-a agora! A Virgem abençoada velará pelo señor!

Blackthorne puxou o braço com um repelão, e disse asperamente em espanhol:

- Vá com Deus, padre.

A porta se fechou com estrépito atrás dele.

O dia estava incrivelmente fresco e agradável, as nuvens serpeando ao vento suave que soprava de sudeste.

Ele inalou o ar a grandes sorvos, o ar limpo, glorioso, e sentiu o sangue precipitar-se pelas veias. A alegria de viver invadiu-o.

Vários prisioneiros despidos estavam no pátio junto com um oficial, carcereiros munidos de lanças, etas, e um grupo de samurais. O oficial vestia um quimono escuro, um manto com ombros engomados, em forma de asas, e um pequeno chapéu escuro. Esse homem deteve-se diante do primeiro prisioneiro, leu um rolo de

papel muito fino e, quando acabou, cada homem começou a caminhar lenta e penosamente atrás dos seus guardiões, em direção às grandes portas do pátio. Blackthorne foi o último. Ao contrário dos outros, deram-lhe uma tanga, um quimono de algodão e tamancos de tiras. E seus guardas eram samurais.

Resolvera escapar no momento em que ultrapassassem o portão, mas quando se aproximaram da soleira, os samurais o rodearam mais de perto e o fecharam no círculo. Atingiram a passagem juntos. Uma vasta multidão observava, asseada e bem vestida, com sombrinhas carmesins, amarelas e douradas. Já havia um homem amarrado a uma das cruzes que se erguiam contra o céu. Ao lado de cada cruz dois etas esperavam, com as longas lanças cintilando ao sol.

O passo de Blackthorne retardou-se. Os samurais se chegaram mais, apressando-o. Entorpecido, ele pensou que seria melhor morrer agora, rapidamente, então preparou a mão para dar um bote sobre a espada mais próxima. Mas não houve oportunidade que pudesse aproveitar, porque os samurais desviaram da arena e caminharam na direção do perímetro urbano, dirigindo-se para as ruas que levavam à cidade e, depois, rumo ao castelo.

Blackthorne esperou, mal e mal respirando, querendo ter certeza. Atravessaram a multidão, que recuou e se curvou, atingiram uma rua e agora não havia engano algum.

Blackthorne sentiu-se renascer. Quando conseguiu falar, disse:

- Aonde estamos indo? -, sem se importar com que as palavras não seriam compreendidas ou com o fato de estar falando inglês. Estava delirante. Seus passos mal tocavam o chão, as tiras dos tamancos não estavam desconfortáveis, o contato do quimono não era desagradável. Na realidade, sentia-se muito bem, pensou. Um pouco leve demais, talvez, mas num dia excelente como este... exatamente o tipo de coisa para se usar ao tombadilho!

- Por Deus, é maravilhoso falar inglês de novo - disse ele ao samurai. - Jesus Cristo, pensei que fosse um homem morto. Lá se foi a minha oitava vida. Sabiam disso, amigos velhos? Agora só tenho mais uma. Bem, não importa! Os pilotos têm dez vidas no mínimo, como Alban Caradoc costumava dizer. - Os samurais pareciam estar se irritando com aquela conversa incompreensível. Controle-se, disse Blackthorne a si mesmo. Não vá fazê-los mais suscetíveis do que já são.

Notou então que todos os samurais eram cinzentos. Homens de Ishido. Ele havia perguntado ao Padre Alvito o nome do homem que se opunha a Toranaga. Alvito dissera "Ishido". Isso fora pouco antes de lhe ordenarem que se levantasse e o levarem embora. Todos os cinzentos são homens de Ishido? E todos os marrons de Toranaga?

- Aonde estamos indo? Para lá? - Apontou o castelo, que pairava acima da cidade. - Para lá, hai?

- Hai - assentiu o líder com cabeça de bala de canhão, a barba grisalha.

O que será que Ishido quer comigo? - perguntou-se Blackthorne.

O líder dobrou outra rua, sempre se afastando da enseada. Foi quando Blackthorne o viu: um pequeno brigue português, com a bandeira azul e branca oscilando à brisa, dez canhões no convés principal. O Erasmus poderia pegá-lo facilmente, disse Blackthorne a si mesmo. Como estará a minha tripulação? O que estarão fazendo lá na aldeia? Pelo sangue de Cristo, gostaria de vê-los. Fiquei tão contente em deixá-los naquele dia e voltar para a minha casa, onde estava Onna - Haku -, a casa de... como era o nome? Ah, sim, Mura-san. E a garota, aquela na minha cama, e a outra, a beleza de anjo que conversou naquele dia com Omi-san? A do sonho que também estava dentro do caldeirão.

Mas para que lembrar esse absurdo? Enfraquece a mente. "Você tem que ser muito forte de cabeça para viver com o mar", dissera Alban Caradoc. Coitado do Alban.

Alban Caradoc sempre parecera imenso, quase divino, vendo tudo, sabendo tudo, por tantos anos. Mas morrera aterrorizado. Fora no sétimo dia da Armada. Blackthorne estava comandando um brigue de cem toneladas partido de Portsmouth, transportando armas e pólvora, munição e comida para os galeões de guerra de Drake, ao largo de Dover, que acossavam e cortavam a esquadra inimiga que vinha atacando o canal na direção de Dunquerque, onde se encontravam as legiões espanholas, esperando para baldear e partir rumo à conquista da Inglaterra.

A grande esquadra espanhola fora devastada pelas tempestades e pelos navios de guerra mais odiosos, velozes e ágeis que Drake e Howard jamais haviam construído.

Blackthorne se encontrava num ataque turbilhonante perto da nau capitânea do Almirante Howard, Renown, quando o vento mudara, revigorado por um temporal, de rajadas monstruosas, e ele tivera que decidir entre tentar seguir a barlavento para escapar a canhonada que irromperia do grande galeão Santa Cruz, bem à frente, ou correr com o vento sozinho, através da esquadra inimiga, visto que o restante dos navios de Howard já havia dado meia-volta, rumando mais para o norte.

- Rumo norte a barlavento! - gritara Alban Caradoc. Ele estava com o co-piloto. Blackthorne era o capitão-piloto e o responsável, no seu primeiro comando. Alban Caradoc insistira em vir para a luta, embora não tivesse o direito de estar a bordo, exceto pelo fato de ser inglês e todos os ingleses terem o direito de estar a bordo naquele período sombrio da história.

- Pare aí! - ordenara Blackthorne e girara a cana do leme para sul, rumando para a boca da esquadra inimiga, sabendo que o     outro caminho os condenaria aos canhões do galeão, que agora se erguia sobranceiro à sua frente.

Então foram para o sul, correndo com o vento, por entre os galeões. A canhonada de três conveses do Santa Cruz passou-lhes acima da cabeça com segurança, e Blackthorne disparou duas salvas contra o inimigo, picadas de pulgas num vaso tão imenso. Em seguida se lançou de vento em popa através do centro da formação inimiga.

Os galeões de cada lado não queriam disparar contra aquele navio solitário, pois as descargas poderiam danificar uns aos outros, por isso os canhões permaneceram silenciosos. O navio de Blackthorne estava atravessando e escapando quando uma canhonada do Madre de Dios os acertou em cheio. Os dois mastros tombaram como setas, homens enredados na mastreação. A metade a estibordo do convés principal desaparecera, havia mortos o  moribundos por toda parte.

Ele vira Alban Caradoc deitado contra uma carreta de canhão despedaçada, incrivelmente minúsculo sem as pernas. Acorrera para lá, soerguera o velho marujo cujos olhos quase lhe saltavam das órbitas e que soltava gritos horríveis.

- Oh, Cristo, não quero morrer, não quero morrer, socorro, ajudem-me, ajudem-me ajudem-me, ajudem-me, oh, Jesus Cristo, a dor, socooooorro! - Blackthorne sabia que só havia uma coisa a fazer por Alban Caradoc: pegou uma malagueta e bateu com toda a força.

Então, semanas mais tarde, teve que contar a Felicity que o pai dela morrera. Só lhe disse que Alban Caradoc fora morto instantaneamente. Não lhe contou que tinha sangue nas mãos, sangue que jamais sairia...

Blackthorne e os samurais atravessavam agora uma rua larga e sinuosa. Não havia lojas, apenas casas, de um lado e de outro, cada uma dentro do seu terreno e atrás de cercas altas, tudo - casas, cercas e a rua mesma - surpreendentemente limpo.

Essa limpeza parecia inacreditável a Blackthorne porque em Londres -nas cidades grandes e pequenas da Inglaterra - e da Europa - lixo, fezes noturnas e urina eram atirados nas ruas, para serem varridos ou deixados amontoar-se até que os pedestres, carros e cavalos já não pudessem passar. Só então a maioria dos municípios talvez providenciasse a limpeza. Os varredores de Londres eram grandes manadas de porcos conduzidos através das principais vias públicas durante a noite. Mas quem, na maior parte, fazia a limpeza de Londres eram os ratos, as matilhas de cães o gatos selvagens, assim como os incêndios. E as moscas.

Mas Osaka era muito diferente. Como é que fazem? perguntou-se ele. Não há o conteúdo de urinóis, montes de bosta de cavalo, sulcos de rodas, nada de imundície ou refugo de qualquer espécie. Apenas terra socada, varrida e limpa. Muros de madeira o casas de madeira, tudo brilhante e tratado com esmero. E onde estão os bandos de pedintes e aleijados que infestam cada cidade da cristandade? E os bandos de salteadores e jovens selvagens que inevitavelmente estariam se esgueirando nas sombras?

As pessoas que passavam curvavam-se polidamente, algumas se ajoelhavam. Carregadores de kaga apressavam-se levando palanquins ou as kagas de um passageiro só. Grupos de samurais - cinzentos, nunca marrons - caminhavam pelas ruas despreocupadamente.

Estavam subindo uma rua ladeada de lojas quando as pernas de Blackthorne cederam. Ele tombou pesadamente e caiu de quatro.

Os samurais o ajudaram a se levantar mas, no momento, suas forças o haviam abandonado e ele não conseguiria andar.

- Gomen nasai, dozo ga matsu. Sinto muito, por favor, espere - disse ele, com cãibra nas pernas. Esfregou os músculos da barriga da perna e bendisse Frei Domingo pelas coisas inestimáveis que lhe ensinara.

O líder dos samurais olhou para ele e falou demoradamente.

- Gomen nasai, nihon go ga hanase-masen. Sinto muito, não falo japonês - respondeu Blackthorne, lentamente mas com clareza. - Dozo, ga-matsu.

- Ah! So desu, Anjin-san. Wakarimasu - disse o homem, compreendendo-o. Deu uma ordem áspera e um dos samurais saiu correndo. Dali a pouco Blackthorne se levantou, tentou caminhar, penosamente, mas o chefe dos samurais disse: - Iyé - e fez-lhe sinal que esperasse.

Logo o samurai voltou com quatro carregadores semidespidos e uma kaga. Os samurais mostraram a Blackthorne como se recostar e se segurar na correia que pendia da vara central.

O grupo se pôs a caminho novamente. Logo Blackthorne recuperou as forças e teria preferido voltar a andar, mas sabia que ainda estava fraco. Preciso descansar um pouco, pensou. Não tenho reservas. Preciso de um banho e de comida. Comida verdadeira.

Subiram largos degraus que uniam uma rua a outra e entraram em outro setor residencial que ladeava um bosque compacto, com árvores altas, e recortado de caminhos. Blackthorne apreciou muitíssimo estar longe das ruas, o gramado macio e bem cuidado, o caminho que se insinuava por entre as árvores.

Quando já se haviam aprofundado no bosque, outro grupo de uns trinta e tantos cinzentos se aproximou, surgido de uma curva à frente. Avançaram, pararam, e após o cerimonial habitual dos capitães se saudando, os olhos de todos voltaram-se para Blackthorne. Houve um vaivém de perguntas e respostas e depois, quando esses homens começaram a se reagrupar para partir, o líder deles calmamente puxou a espada e cravou-a no líder dos samurais de Blackthorne. Simultaneamente o novo grupo caiu sobre o resto dos samurais. A emboscada foi tão repentina e tão bem planejada que os dez cinzentos foram todos mortos quase ao mesmo instante. Nem um deles teve tempo de sacar a espada.

Os carregadores da kaga estavam de joelhos, aterrorizados, com a testa apertada contra a grama. Blackthorne erguia-se ao lado deles.

O capitão-samurai, um homem forte com um vasto ventre, mandou sentinelas para cada extremidade do caminho. Os outros reuniram as espadas dos mortos. O tempo todo os homens não prestaram atenção alguma a Blackthorne, até que ele começou a recuar. Imediatamente houve uma ordem sibilante do capitão, claramente significando que ele ficasse onde estava.

A uma outra ordem, todos os cinzentos despiram os quimonos uniformes. Por baixo usavam uma heterogênea coleção de trapos e quimonos velhos. Todos cobriram o rosto com máscaras que já estavam amarradas em torno do pescoço de cada um. Um homem apanhou os uniformes cinza e sumiu com eles no bosque.

Devem ser bandidos, pensou Blackthorne. Senão, por que as máscaras? O que querem comigo?

Os bandidos conversaram tranqüilamente entre si, vigiando-o enquanto limpavam as espadas nas roupas dos samurais mortos.

- Anjin-san? Hai? - Os olhos do capitão acima da máscara de pano eram redondos, negros e perscrutantes.

- Hai -. replicou Blackthorns, sentindo a pele arrepiar-se.

O homem apontou para o chão, obviamente lhe dizendo que não se mexesse.

- Wakarimasu ka?

- Hai.

Mediram-no de alto a baixo. Então uma das sentinelas avançadas - já sem uniforme, mas mascarado, como todos os outros - surgiu dos arbustos um instante, a uns cem passos de distância. Acenou e desapareceu de novo.

Imediatamente os homens rodearam Blackthorne, preparando-se para partir. O capitão bandido fixou o olhar nos carregadores, que tremiam como cães de um dono cruel, e afundou-lhes a cabeça ainda mais na grama.

Então vociferou uma ordem. Os quatro lentamente levantaram a cabeça, incrédulos. Novamente a mesma ordem. Eles se curvaram, recuaram rastejando, depois, simultaneamente, deram às pernas e sumiram por entre o cerrado.

O bandido sorriu satisfeito e fez sinal a Blackthorne que começasse a andar de volta à cidade.<