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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SINFONIA SOMBRIA / Christine Feehan
SINFONIA SOMBRIA / Christine Feehan

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

A névoa espessa estendia sua mão sobre o céu, afogando todo os sons. Afogando o som da conspiração. Do crime que espreita nas sombras da noite. De intenções escuras e malignas ocultas nos redemoinhos da bruma esbranquiçada e na mais negra penumbra. A névoa era a cobertura perfeita para o predador, que sulcava os céus silenciosamente em busca de sua presa. Tinha passado muito tempo sozinho, longe de seus semelhantes, lutando contra a insidiosa chamada do poder, a chamada do mal que lhe sussurrava ao ouvido, em cada minuto da vigília.

Lá longe, muito abaixo dele, ficavam os humanos, suas presas. Seus inimigos. Sabia do que eram capazes quando capturavam um exemplar de sua espécie, se chegassem a descobri-lo. Ainda despertava afogando-se no meio do sono, preso naqueles primeiros momentos conscientes de seu passado. Em seu corpo, sempre levaria as cicatrizes da tortura, mesmo quando fosse quase impossível deixar cicatrizes nos de sua espécie. Ele era um Cárpato, uma espécie tão antiga como o tempo, possuíam tremendos poderes para dominar o tempo, a terra, e mesmo os animais. Podia adotar outras formas e voar pelas alturas, podia correr com os lobos embora, sem uma luz que iluminasse sua escuridão, era presa fácil dos sussurros da tentação, da chamada do poder, daquilo que o faria sucumbir à maldade. Possuía a capacidade de encarnar-se em criaturas inertes e essa era a condição que muitos de sua espécie tinham escolhido.

 

 

 

 

Perambulava pelo mundo caçando o vampiro, procurando manter o equilíbrio num universo de solidão abjeta, tentando conservar a honra, quando acreditava tê-la perdido. E então chegou a seus ouvidos, a música. Provinha de um televisor em uma das lojas pelas quais tinha passado tarde aquela noite e a música o cativou, como nada havia cativado jamais. Aprosionou-o. Hipnotizou-o. Envolveu sua alma em notas áureas até que não pôde mais pensar, a não ser na música. Só ouvia aquela música ressoando em sua cabeça. Era tão poderoso, que chegava a mitigar a fome insaciável que sempre o acompanhava. Viajou até a Itália, atraído por ela. E ali ficou, por outras razões muito mais convincentes.

Voava pelos céus, sigiloso e a cada despertar dirigia para o mesmo ponto. Seu fino olfato captou a essência salina que trazia o mar, o combustível de um navio levado de um lado a outro, pelo fragor das ondas. O vento também lhe trouxe o aroma de um ser humano. Por um instante, de seus lábios brotou um grunhido surdo e os incisivos se alongaram, famintos. Com um gesto de desagrado. A maioria dos humanos se converteram em seus inimigos. Ainda assim, ele procurava seu amparo. Os humanos o usaram como isca, para atrair outros de sua espécie e quase haviam conseguido aniquilar à companheira de seu príncipe.

Sempre levaria consigo o estigma da vergonha. Aquilo sempre o impediria de sentir-se cômodo em sua terra natal e com outros de sua espécie. Jamais lhes rogaria que o perdoassem, porque não podia perdoar-se a si mesmo. A penitência que se imcolocou fora benéfica para os seus. Dedicou-se ativamente à caça de seu mortal inimigo, o vampiro e tinha enfrentado-o em incontáveis batalhas, mesmo que ele não tivesse vocação de guerreiro. Ia de um país a outro em uma caça implacável e sem misericórdia, decidido a liberar o mundo do mal que espreitava sua espécie. Cada execução o aproximava um pouco mais da loucura. Até que a música chegou a seus ouvidos.

À noite o agasalhou, abraçou-o como a um irmão. Na escuridão, seus olhos brilharam com o resplendor feroz de um predador em liberdade. Muito abaixo dele, notou as luzes das vilas, apagadas pela espessa névoa, as casas ao lado umas das outras e construídas precariamente nas colinas. Ao longe, logo que a vista alcançava, distinguia o palácio Scarletti, uma obra de arte construída há séculos.

Esse era a origem da música, o grande palácio. Os concertos e as óperas eram compostas e executadas em um piano perfeitamente afinado. Permaneceu nas cercanias, para ouvir a beleza daquelas obras. Primeiro, criadas e logo interpretadas. As notas apaziguavam e infundiam nele um fio de esperança. Chegou ao extremo de comprar vários CDs e um aparelho onde executá-los. Guardava ambos os tesouros nas profundezas de sua guarida, no refúgio que conservava para permanecer perto da mulher que sabia, pertencia só a ele.

Com apenas um olhar, a família dela sabia que ele era um ser perigoso. Intuíam nele o predador, mas Antonietta se sentia a salvo a seu lado. Era a única mulher que ele queria. A única mulher que teria.

Antonietta Scarletti tinha o olhar perdido nas elegantes vidraças de cor do palácio. Além das muralhas da vila, o vento gemia. Tocou o vidro com seus dedos sensíveis, seguindo o contorno dos desenhos que lhe eram tão familiares. Quando tentava, conseguia recordá-los, com suas vivas cores e suas imagens aterradoras. Aquele pensamento lhe arrancou uma risada sonora. De menina, as gárgulas e demônios que decoravam aquele palácio lhe infundiam um medo horrível. Agora, simplesmente apreciava sua beleza, apesar de que só podia vê-los com a ponta dos dedos.

Ali era seu lar e havia sido restaurado muitas vezes ao longo dos séculos, mas conservara a arquitetura gótica o mais fielmente possível ao original. Fascinava-a, os corredores secretos com suas armadilhas maquiavélicas, cada uma das pedras perfeitamente esculpidas que constituíam sua casa. Curiosamente, agora sentia sono. A maioria das noites perambulava acorde pelos longos corredores ou se sentava a tocar o piano e a música fluía de seu interior até as teclas, numa corrente de emoções que às vezes ameaçava tomá-a. Essa noite, com o uivo do vento e o mar golpeando contra as rochas dos penhascos, recolheu o cabelo numa trança e pensou em algum poeta escuro.

Tasha, sua prima, comentara durante o jantar, que começavam a aparecer fios brancos em seus longos cabelos. Antonietta era consciente do quanto era vaidosa com seu cabelo, mas aquilo era sua única chamada à glória e agora que começavam a aparecer os primeiros, era só questão de tempo para que se desaparecesse esse leve orgulho. Zombou de si mesma com uma risada suave, enquanto atravessava a sala sem vacilar, diretamente para o piano. Deslizou os dedos sobre as teclas, respondendo espontaneamente ao riso que nascia em seu coração.

Apesar de sua cegueira, Antonietta amava sua vida. Vivia-a tal como queria vivê-la. A música fluía para a noite. Uma chamada. Ela sabia que a música o chamava. Byron. Antonietta pensava nele dia e noite. Era uma obsessão secreta da qual não podia se desprender. O som de sua voz a tocava, como às vezes imaginava suas mãos tocando sua pele. O som era como uma carícia. Ele era sua única recriminação. O dinheiro e a fama permitiam a Antonietta levar a vida que quisesse, apesar de ter perdido a visão, mas também se elevava como uma barreira entre ela e qualquer homem. Inclusive com Byron. Sobretudo com Byron. Sua silenciosa aceitação, seu interesse permanente, absolutamente centrado nela, ameaçava envolvendo de uma vez, suas emoções e seu corpo e isso era algo que não podia se permitir.

Antonietta se sentou no tamborete e de repente sentiu o peso de seu corpo, com um cansaço inesperado. Seus dedos correram ágeis sobre as teclas de marfim. A música encheu o espaço, um amor não correspondido, uma paixão sem limites que não obtém resposta. Calor. Fogo. Uma sede que jamais seria saciada. Byron, o poeta escuro. Misterioso. Um homem que se prestava à elaboração de fantasias. Ignorava por completo sua idade. Freqüentemente ele respondia à chamada de sua música. Desde aquele dia a quatro meses, quando havia salvado seu querido avô de um acidente de carro, ele aparecia de repente na sala com ela, depois de ter burlado a segurança mediante algum subterfúgio, entrava e se sentava em silêncio enquanto ela tocava. Era um aspecto de sua obsessão que nunca questionava, nunca perguntava como ele conseguia entrar em sua casa, em seu salão de música. Antonietta sempre sabia o momento exato que Byron entrava, embora nunca ouvisse um só ruído. Sua família ignorava com que freqüência ele a visitava ou como aparecia no grande salão à última hora da noite e a acompanhava até a madrugada. Raramente conversava, só ouvia a música, embora em outras ocasiões jogassem xadrez ou conversavam sobre livros ou os problemas do mundo. Eram os momentos que ela mais gostava, quando se sentava a ouvir o som de sua voz.

Byron parecia ser um homem do Velho Mundo e falava com um sotaque que ela não conseguia identificar. Antonietta o imaginava como um príncipe cavalheiresco que ia a seu socorro, cada vez que ela se permitia impor suas fantasias juvenis. Ele quase nunca a tocava, mas não se manifestava quando ela o tocava, quando ela lia as expressões de seu rosto. Cada vez que ele se encontrava com ela na sala, ficava sem fôlego.

A música crescia ao contato com seus dedos, subindo a um crescente turbilhão de emoções. Byron, o amigo de seu avô. Outros membros da família desconfiavam dele e se sentiam irritados por sua presença. Quase todos abandonavam a sala pouco depois que ele entrava. Viam nele um ser perigoso. Antonietta pensava que ele podia ser, apesar de que com ela era sempre amável. Ela sentia que atrás daquela exterioridade aprazível de Byron, ocultava um predador arrojado. Esquadrinhando. Espreitando. Esperando o momento propício. E para ela só aumentava seu atrativo. A fantasia inalcançável. O príncipe perigoso e escuro espreitando na sombra… Observando-a… A ela.

Antonietta voltou a rir de suas absurdas fantasias. Ela projetava uma certa imagem ante o mundo, a imagem de uma pianista de grande renome, uma mulher segura de si mesma, uma respeitada compositora. Elaborava seus sonhos apaixonados e os convertia em sublimes notas musicais para expressar o fogo que ardia em seu interior, ali onde ninguém alcançava.

Seus dedos voltaram a deslizar sobre o teclado, bateram asas, brincaram e a música cobrou vida. Antonietta se extraviara em sua música e de repente, uma mão grossa lhe tampou a boca e a arrancou de seu tamborete.

Antonietta a mordeu com força e se debateu para acertar um golpe na face de seu assaltante. Mas então constatou que seu corpo pesava como se fosse de chumbo, adormecido, quase resistente a responder as suas ordens. Em lugar de golpear com força, logo que conseguiu tocar o homem. Precaveu-se de que lutava contra uma força muito superior a ela. O homem cheirava a álcool e hortelã. De repente, ele colocou um pano sobre seu nariz e a boca.

Antonietta tossiu, dobrando-se para livrar-se daquela substância de aroma insuportável. Sentiu que se enjoava e já não pôde se mover mais caindo num estado de semiconsciência. Deixou imediatamente de resistir e ficou imóvel, fingindo ter perdido os sentidos. O pano desapareceu e seu agressor a levantou.

Sentiu que a transportavam, que alguém respirava com dificuldade. Seu coração acelerou. Logo estava fora em meio a um frio agudo e ao vento que ululava. O mar encolerizado bramia com força, até que um véu de espuma molhou seu rosto.

Passaram alguns momentos antes que se precavesse de que não estavam sozinhos. Ouviu a voz de um homem, pastosa, incoerente, perguntando algo. Um calafrio percorreu suas costas. Junto a ela, alguém arrastava seu avô, indefeso em seus oitenta e dois anos, pelo atalho dos penhascos. Decidida a não permitir que lhe acontecesse nada, Antonietta lutou para recuperar-se, respirou profundamente para encher seus maltratados pulmões, muniu-se de forças e esperou o momento certo. Começou a cantar o nome para seus adentros, valendo-se dele como uma oração, uma letanía que invocava a força.

- Byron. Byron. Preciso de você agora. Apresse-se. Onde você está?

Byron Justicano voou em círculos por cima da pequena cidade antes de tomar o rumo do palácio. Enquanto sulcava o céu, sentiu uma fome voraz, o corpo lhe pedia para se alimentar, mas ele o ignorou, respondendo a uma sensação repentina e inquietante que lhe retorceu as vísceras. Alguma coisa estava acontecendo. Uma vibração intangível no ar fez com que se sentisse o drama que acontecia embaixo, nas rochas e grunhiu, doutrinando suas presas. Seus olhos brilharam com um fulgor avermelhado e ameaçador na escuridão da noite. De sua boca escapou um rugido selvagem, enquanto sulcava o céu a toda velocidade, acima do imponente palácio com suas múltiplas torres.

Acima dos numerosos terraços, aparecia uma torre alta e circular onde, segundo os rumores, mais de uma mulher fôra assassinada em tempos de um passado turvo, pelo qual o palácio havia recebido o duvidoso nome do Palácio Della Morte. Umas gárgulas aladas o olhavam com olhos vazios através da névoa pesada e branca, com uma aparência quase irreal, criaturas que apareciam em bando, por todo o muro. O enorme castelo se elevava sobre os abruptos penhascos, dominando as águas turbulentas, escuro e agourento, com os olhos vazios de suas estátuas sempre vigilantes.

Os bosques onde antigamente cresciam plantas e árvores silvestres e servira de refúgio a muitos animais, haviam desaparecido há tempo, substituídos por pastos e vinhedos. Byron preferia a liberdade dos bosques e as montanhas de sua terra natal, onde podia correr com os lobos se desejasse, mas a necessidade de proteger quem habitava o palácio, se converteu para ele em uma atividade absorvente.

A sensação de perigo se tornou mais intensa, até se converter numa escura premonição da qual não podia se desprender. Byron aumentou a velocidade de seu vôo, cruzou o céu como uma flecha, voando baixo por cima dos enormes domínios. O palácio apareceu de repente em meio a bruma, uma arquitetura de uma época perdida no tempo, construído de pedra e vidros coloridos, quase vivo em meio da agitada névoa. Ignorando as velhas estátuas e as janelas iluminadas, esquadrinhou a névoa com outros tantos olhos.

A princípio ouviu a voz sussurrando. Byron. Byron. Byron. Onde está? Ela nunca havia recorrido a uma comunicação telepática com ele. Ele nunca havia bebido de seu sangue, mas ouvia suas palavras com claridade e por isso, imaginou que sua aflição devia ser grande para chegar até ele.

Os tridentes demoníacos de um relâmpago estalaram como chicotadas de uma nuvem a outra, com uma fúria que ele não podia conter. Antonietta estava em perigo! Alguém se atrevera a ameaçá-la. Os céus rugiram, os trovões rasgaram as nuvens e desvelaram a fúria vestida de chamas. Ele respirou fundo, lutando por controlar essa apreensão elementar que sentia por sua sorte. A terra agora reagia, agitando-se em meio a convulsões, à medida que sua ira aumentava.

Byron voou ainda mais rápido para a caverna e as rochas escarpadas, com o pulso batendo ao ritmo das ondas. O vento mudou e trouxe consigo o eco perdido de um grito. Seu coração quase deixou de pulsar. Era o ruído da agonia, da morte. Voou no mesmo nível das águas, já sem temor que o divisassem e descobrissem nele o predador. As ondas se elevavam para as alturas, soltavam sua espuma e caíam com estrondo, furiosas, clamando pelo sacrifício de uma criatura viva.

- Byron! - Dsta vez, ela pronunciou seu nome em voz alta, sua única salvação, enquanto as nuvens fiavam seus fios escuros e a bruma se tornava mais densa, como se quisesse abortar qualquer intenção de fuga. - Nos ajude. - O vento impulsionou aquele grito desesperado por cima das ondas revoltas e o trouxe diretamente a seus ouvidos.

Havia medo na voz, suave, musical e viva, consciente de seu destino. Sabia que ele estava perto, como sempre parecia saber. Antonietta Scarletti. A herdeira da fortuna dos Scarletti. Alma criadora da música mais bela que o mundo conhecia e proprietária do Palácio Scarletti, um monumento de incalculável valor. O Palácio della Morte. Byron temia que a maldição do palácio propiciasse a morte de Antonietta e estava decidido a impedir.

Seu grito de auxílio deu vida às cores da noite, fortes, vivas e concentradas, onde durante tanto tempo reinara um tom cinza opressivo. Seu coração vacilou, titubeou, como sempre acontecia ante aquele dom inesperado. Acontecia o mesmo em cada vez que ouvia sua voz, cada vez que ela pronunciava seu nome com voz aveludada. Quando iluminava seu mundo com cores e vivos detalhes que ele havia perdido há muito tempo.

Byron voou tão baixo que as ondas encrespadas os salpifacem. Um vôo reto para a origem de sua voz. Além dos redemoinhos de névoa, Byron divisou Dom Giovanni Scarletti que caía nas ávidas águas, procurando desesperadamente um apoio entre as rochas. As ondas golpearam o ancião com dureza e arrastaram-no como se fosse uma pequena alga. A espuma das águas se fechou por cima de sua cabeça e o engoliu.

- Byron! - A chamada se repetia. Inconfundível. Sabia que ouviria essa voz ressoando para sempre em seus sonhos, como um eco.

Então a viu sobre as rochas escarpadas, perto da beirada dos penhascos, lutando contra um homem atarracado. A seus pés, embaixo, a água estrelava contra as rochas, alcançando cada vez maiores alturas, como se quisesse arrastá-la a suas profundezas. Só a fúria crescente da tempestade e os tremores, cujas ondas reverberavam através do penhasco, impediam que o assaltante de Antonietta a lançasse ao mar. O homem vacilou, esteve a ponto de cair, mas não deixou de lutar com ela. Estalaram relâmpagos a seu redor, chicotadas de energia que explodiram numa chuva de faíscas incandescentes. O trovão rugiu com tal intensidade, que o homem lançou um grito de terror.

As presas apareceram, assassinas em Byron e o escuro veneno se revolveu em suas vísceras. Num instante, ele chegou onde estavam e arrastando o homem para trás, separou-o dela. Com a ferocidade de sua natureza animal, com o furor de sua natureza humana, sacudiu o agressor de Antonietta e suas mãos se fecharam em torno de seu pescoço. Ouviu-se um rangido sinistro, sonoro, mesmo acima do mar que rugia fazendo-se eco de sua ira.

Byron soltou o corpo com um gesto de indeferencia e deixou que a carcaça, já sem vida, caísse. Virou-se rapidamente para Antonietta. Ela tentava se afastar deles, caminhando com os braços estirados para diante, apalpando por onde ia. Não havia nada mais que espaço vazio diante dela e mais abaixo, o mar inchando-se e bramando com fúria irrefreável.

—Pare! Não se mova, não dê um passo mais! —A ordem rasgou o ar da noite, chegou até ela no alto dos penhascos. Confiando em que ela obedeceria a firme ordem, Byron se lançou diretamente para as águas. Mergulhou fundo, no abismo frio e negro até que seus dedos encontraram a gola da camisa do ancião, segurou-o com força e se impulsionou com todo o vigor de suas pernas para levá-lo à superfície.

Byron surgiu das águas, impulsionado diretamente para o alto e em seu vôo estreitou o corpo inerte do ancião contra o seu. A bruma branca se espessou e Virou em torno dele como uma capa viva, criando um escudo que o protegia de olhares indiscretos. O ancião se afogava e lutava para respirar, por viver. Segurou-se convulsivamente em Byron, apenas consciente de onde estava, incapaz de acreditar que voava pelos ares. Dom Giovanni, o avô de Antonietta, fechou com força os olhos enquanto seu peito se agitava e a água salgada brotava de sua boca. A água escorria das rochas E molhavam os dois, misturando-se com as gotas de névoa no ar, quando Byron poosou sua carga na terra.

O ancião começou a rezar em voz alta em sua própria língua, pedindo aos anjos que o salvassem, mas em nenhum momento abriu os olhos.

Antoniettavirou para o ponto de onde provinha o ruído, mas continuou perigosamente perto da beira do penhasco, onde se encontrava, quando Byron gritou sua ordem. Byron depositou com cuidado o ancião sobre o chão, longe do perigo e correu para pegar Antonietta em seus braços. Nos braços da segurança. Estreitou-a, sabendo-a a salvo, respirou fundo e se obrigou a controlar sua raiva e seu temo, para acalmar a violenta tempestade.

Apesar de suas roupas estarem molhadas, ela se aconchegou junto a ele. Apalpando, encontrou seu rosto sem vacilar e desenhou um mapa de seus traços com o toque amoroso de seus dedos.

—Sabia que você viria. Nosso anjo da guarda. E meu avô? Nonno está bem? Ouvi quando caía no mar. Não pude alcançá-lo. Minha cegueira não me permitiu chegar até ele e ajudar. — Ela virou a cabeça para, de onde vinha à tosse e os gemidos do ancião, as lágrimas brilhando em seus olhos enormes e escuros.

— Ele ficará bem, Antonietta, - assegurou Byron, — não permitirei que seja de outra maneira. – Ele não suportava ver aquelas lágrimas aparecendo em seus olhos.

—Você o salvou, não é verdade, Byron? Por isso está molhado. Sempre vem a nós quando temos problemas. Obrigado. Não poderia viver sem meu avô. — Ela ficou nas pontas dos pés, seu corpo suave e flexível, derretendo-se contra o corpo robusto de Byron e alheia à roupa molhada, aproximou a boca do canto de seus lábios.

Aquele pequeno tributo o sacudiu até o mais fundo de seu ser. O fogo espalhou-se por suas veias, cada uma de suas células reagiram, procurando-a. Necessitado. Faminto. Seus braços endureceram por um instante, possessivos. Byron tinha que ser consciente e lembrar de sua própria força. Tinha que lembrar que ela ignorava quem era ele, ou o que ele era.

Byron a levantou nos braços, agasalhando-a com seu próprio corpo. Antonietta tremia sob o vento forte.

—Está ferida, Antonietta? Ele te fez mal? —Era uma pergunta singela.

—Não, só assustada. Muito assustada.

— Por que estavam no penhasco? — Ele falou com voz mais firme do que queria. — Onde está o resto de sua família?

Ela percorreu seu rosto com os dedos, numa exploração íntima. Havia apalpado-o em muitas ocasiões, mas agora parecia diferente ou possivelmente era por que ele estava muito consciente dela.

—Alguém me tapou a boca e o nariz com um pano e me arrastou para fora. Tive muito medo pelo Nonno. Lembro-me que ouvi o mar. —De seus dedos emanaram diminutas chamas que lhe lamberam a pele, quando ela tocou sua face e lhe percorreu a fronte. - O mar estava enfurecido, muito parecido, como soa sua voz agora. Não pude chegar até o Nonno e o ouvi cair pelo penhasco. — Guardou silêncio um momento e apoiou a cabeça em seu ombro. - Tive que lutar contra o homem que me arrastou até aqui fora. Queria me lançar ao mar, a mim também. —A voz de Antonietta tremia, mas ela fazia o possível por recuperar a compostura.

—Disse alguma coisa?

Ela negou com um gesto da cabeça.

—Não o reconheci em nada. Estou segura de que nunca veio ao palácio. Ninguém nos disse nada, só tentaram nos lançar à água.

Byron a deixou descansar no chão junto ao ancião.

—Quero ver como está seu avô. Acredito que engoliu meio oceano. Não se mova. Aqui encima é perigoso. Estamos no alto dos penhascos e se a terra cedesse, aqui na margem, poderia te matar. —Ele não suportava ver aquela inocência em sua face, sua confiança infantil. Sabia que ela o pertencia, mas uma vez mais, havia falhado em seu encargo de velar pela segurança de quem havia jurado proteger. — Agora, embora não se dê conta, Antonietta, você está em estado de choque. Não se mova —murmurou, — fique aqui e respire por mim.

Byron vinha de uma raça antiga, uma espécie que podia aspirar à imortalidade. Tinha conhecido o passar do tempo e sido testemunha de como sua raça tinha chegado aos limites da extinção. Sem mulheres e sem crianças, era impossível viver outra existência que não fosse triste e desolada. A menos que a pessoa tivesse a sorte de encontrar sua outra metade, a companheira de toda uma vida. Antonietta Scarletti era sua companheira. Ele sabia com absoluta certeza. Ela provinha de uma antiga estirpe de telepatas, pessoas dotadas com talentos além do normal, a primeira vista. Byron escutara freqüentemente a história de sua família. Sabia que muitos dos antepassados de Antonietta, homem e mulheres haviam sido notáveis telepatas e médicos. Só um humano telepata podia converter-se em companheiro de um espécime da antiga raça dos Cárpatos e Antonietta Scarletti era uma telepata que possuía uma força extraordinária.

Dom Giovanni tentava sentar-se, com o peito agitado e lutando para recuperar o fôlego. Segurou os ombros de Byron, com mãos crispadas.

—Como soube quando tinha que vir? O mar tinha reclamado minha vida, mas você me trouxe de volta. —Os dentes dele se chocavam, de frio e seu corpo magro se sacudia com espasmos descontrolados. — É a segunda vez que me salva a vida.

Byron o sustentou, com um gesto de cuidado.

—Não fale tanto, querido amigo. Vejamos o que posso fazer por você, para acabar com esses tremores.

Antonietta não via Byron, mas como sempre a intrigava, o som de sua voz. Era um som belo e sedutor, muito parecido à sinfonia musical que sempre se repetia em sua cabeça. Queria pensar nele como o amigo de seu avô, mas ficava difícil quando ouvia sua voz e desejava até o mínimo contato físico entre eles.

Antonietta sabia, fazia anos, que não era o tipo de mulher que os homens olham por razões alheias a sua fortuna. O orgulho dos Scarletti era muito vivo nela para deixar que a amassem por seu dinheiro. Não acreditava que os homens pudessem comprar, embora sabia que muitas mulheres de sua condição faziam precisamente isso. Ela não era nenhuma jovenzinha para sonhar com príncipes encantados. Era uma mulher em plena maturidade, com uma figura voluptuosa e um rosto deformado, produto da explosão que a tinha cegado. Em seu caso, não haveria amantes agraciados montados em corcéis brancos e dispostos a levá-la para longe e viver intermináveis noites de amor. Antonietta era uma mulher prática, uma pianista e compositora de êxito, que vertia todos seus sonhos na música, onde correspondiam. Apalpou cuidadosamente seu avô, para vê-lo, para assegurar-se de que sobrevivera a sua imersão no mar. Suas mãos encontraram Byron. Deixou descansar os dedos brandamente no dorso de sua mão. Ele nunca expressava mal-estar quando ela o tocava. Nunca reagia com gestos de rechaço ou impaciência com ela. Seguiu com o que estava fazendo, enquanto pegava suas mãos e ouvia o ritmo lento e uniforme de sua respiração, até que seus próprios batimentos frenéticos se acalmaram para lhe seguir o ritmo.

As mãos de Byron geravam um enorme calor. Ela imaginava que fluía como um vinho antigo e nobre nas veias de seu avô, devolvendo lentamente sua vida. Não se atrevia a falar, mas sentia. Ouvia sua respiração, os batimentos de seu coração. Apesar de sua cegueira, via coisas invisíveis para outras pessoas. Sabia que Byron era muito mais que um ser mortal. Ele era um homem que fazia milagres. Via-o com extraordinária claridade, através das pontas de seus dedos, que apoiava ligeiramente no dorso das mãos de Byron.

Ele fechou os olhos e se abstraiu de todos os sentidos e essências da noite. Era difícil ir além desse contato com a mulher com quem sempre sonhava, mas em seu exame havia detectado alguma coisa nos pulmões do ancião. Dom Giovanni era muito velho e frágil para lutar contra uma infecção ou uma pneumonia. Byron se separou de seu corpo e liberou seu espírito para penetrar no corpo do ancião, estendido sobre as rochas. Como os de sua espécie, quando curava, fazia-o de dentro para fora. Realizou uma detalhada exploração, decidido a dar ao avô de Antonietta todos os anos de vida que fosse possível.

O vento soprava por cima dos penhascos, penetrando pelas dobras do vestido de Antonietta, apesar de Byron se situar entre ela e o vento. Antonietta sentia o calor que irradiava de Byron para seu avô. Mas havia outra coisa, algo ainda mais estranho. Compreendeu que Byron Justicano tinha deixado seu corpo e entrara no de seu avô. Não precisava de olhos para ver o milagre de um autêntico curandeiro. Percebia. Sentia a energia e o calor. Sabia que a concentração devia ser total e não fez nada que pudesse distraí-lo. Ficou sentada no frio penetrante e deu graças ao céu de que Byron tivesse ido velar por sua família.

— Ele sofreu um envenenamento. — A voz grave de Byron, a sobressaltou. — São pequenas quantidades, como se estivessem alimentando-o diariamente, mas o veneno se alojou nos músculos e tecidos.

—Não pode ser —negou Antonietta. — Deve estar equivocado. Quem iria fazer mal ao Nonno? Todos o querem na família. E como poderia acontecer algo assim, por acidente? Deve estar equivocado.

— Quando era jovem e impetuoso, equivocava-me, Antonietta. Agora tenho muito mais cuidado com as coisas que digo e faço. Nas coisas que avalio e chamo de minhas. Sou muito cuidadoso quando se trata de minhas amizades. Envenenaram Dom Giovanni, como aconteceu a um de seus antepassados. Acaso não é essa a lenda da família Scarletti? —Antonietta estremeceu e afastou as mãos, esperando que ele não notasse sua reação.

—Sim, faz séculos, outro Dom Giovanni, um de nossos ancestrais e sua jovem sobrinha foram envenenados. Mandaram procurar alguém para curá-los e se apresentou Nicoletta. Ele a converteu em sua noiva. Não acredito nas maldições, Byron. Não há nenhuma maldição que pesa sobre minha casa ou minha família. —Ela afirmou, abraçando a seu avô.

—E eu te digo que em seu organismo há um veneno que acabará matando-o, se acumular. Também há restos de um sonífero. Quando examinar você, estou seguro de que encontrarei as mesmas substâncias.

—Crê que meu cozinheiro tenta me matar? —Antonietta colheu com força a mão seu avô, sua serenidade pendente por um fio. – É ridículo, Byron. Não teria nada a ganhar. Enrico trabalhou para nós desde que eu era menina e é um homem completamente dedicado e fiel a todos os membros da família Scarletti.

—Eu não falei de seu cozinheiro, Antonietta —respondeu ele, paciente—. Pode ser que essa seja sua interpretação, mas não é a minha. —Ao ver que ela guardava um obstinado silêncio, Byron expressou sua exasperação com um suspiro. — Tenho que eliminar o veneno no organismo de seu avô. E logo me ocuparei de voce. — Seus dentes brilharam na escuridão, mas ela não viu, só ouviu a ameaça em sua voz.

Antonietta estremeceu, consciente de que sabia muito pouca coisa a respeito dele.

—Byron. —Pronunciou seu nome para conservar a calma, para lembrar que ele sempre tinha sido bom com ela. Alguém que vigiava seus passos. Antonietta sempre estivera a salvo com ele. Não permitiria que as seqüelas daquele ataque a fizessem perder a calma e nem infundissem temor ante o homem que a havia resgatado. — É verdade que os acidente sempre foram uma maldição na história da família Scarletti. Houve intrigas políticas e de outras formas. - Nossa família sempre teve um enorme poder e muito dinheiro.

—Seus pais morreram ao explodir o iate. Você ficou cega, Antonietta. Foi uma questão de sorte que um pescador se encontrasse perto e a salvasse antes que o mar desse conta de você.

—Um acidente... — Ela pronunciou as palavras como um sussurro, embora o que preestendia era transmitir certeza.

—Você quer acreditar que foi um acidente, mas sabe outras coisas. - Havia algo cortante na vom de Byron. Antonietta teve a impressão de que ele queria que visse a realidade.

Ela não queria falar da explosão no iate que a tinha deixado cega e também órfã. Sentia culpa e medo e muitas outras emoções e aquela porta seguia firmemente enclausurada em sua lembrança.

—Quem é ele? —Sabia que seu assaltante havia morrido. Deveria sentir medo ante a maneira de Byron matar, tão expedito e certeiro. Mas a verdade era que estava agradecida.

—Não tenho idéia, mas é impossível que tenha atuado sozinho. Alguém deve ter drogado vocês, alguém do palácio. Para trazê-los até aqui encima, tinham que ser duas pessoas. Não fica tão longe, mas o caminho é abrupto e com os dois drogados, não terá sido fácil. Teria mais sentido lança-los diretamente ao mar. Seguro que um deles tinha outras intenções.

—O que acontecerá a minha família, Byron? —perguntou Antonietta. — Pode ser que estejam indefesos ou que os tenham drogado enquanto dormiam e agora estejam nas mãos do destino. E nós aqui, conversando. Por favor, vá ver o que aconteceu a eles.

—É mais provável que tenham vindo procurar alguma coisa e não acredito que pretendam assassinar toda a família.

Antonietta ficou sem fôlego e levou uma mão ao pescoço.

—Temos muitos tesouros. Obras de arte de valor incalculável. Jóias e objetos de todos os tipos. Nossos navios transportam cargas secretas e as patenteiam se guardam nos escritórios do palácio e não nos armazens do porto, porque os sistemas de segurança são muito mais confiáveis. Poderiam estar procurando alguma coisa.

—Byron — Respirou Dom Giovanni. — Deve velar para que minha família esteja a salvo. Scarletti é um nome antigo e respeitado. Não podemos permitir que nenhuma dúvida manche nossa reputação. Vá e comprove que não tenham levado nada.

—Querem que eu os deixe aqui, desprotegidos, no penhasco? Seria muito perigoso. — Byron ajudou a levantar o ancião e atraiu a Antonietta para ele. — Levarei os dois ao palácio. Coloque seus braços ao redor de meu pescoço, Antonietta.

Ela quis protestar. Era muito pesada. Ele não poderia carregar os dois. Ao sentir sua impaciência, Antonietta guardou silêncio, seguiu suas instruções e colocou os braços ao redor do pescoço dele. Logo se apertou contra ele. O corpo musculoso de Byron era duro e ela nunca havia se sentido tão feminina, tão consciente de suas curvas e a suavidade. Foi como se derretesse ao contato com ele.

Antonietta se alegrou de que fosse noite e a escuridão ocultasse aquela sensação que estendia o rubor por todo seu corpo. Deveria pensar na honra do nome de sua família. E, em troca, pensava nele, Byron Justicano. Apertou-se com força contra ele e sentiu que seus pés perdiam contato com o chão. Seu avô lançou uma exclamação de terror e quando tentou resistir, Byron murmurou algo brandamente em seu ouvido, algo que Antonietta não captou, embora entendeu que ocultava uma ordem implícita. Seu avô baixou a cabeça e foi tal seu mutismo, que Antonietta acreditou que ele desmaiara.

Virou a face para o vento, relaxando, querendo saborear cada momento. Era cega, mas estava viva. Viva num mundo de sons e texturas ricas e excepcionais, e queria se entregar a tudo o que a vida podia lhe oferecer. Agora se deslocavam pelo espaço sulcando o céu, com o mar rugindo e trovejando sob deles, as nuvens arrastando-se acima de suas cabeças. E ela se sentia segura nos braços de Byron.

Aquela noite, que deveria ter sido a mais horrível de sua vida, convertera-se na experiência mais bela que já havia vivido.

—Byron. —Sussurrou seu nome com uma dor oculta, esperando que o vento arrastasse o som para longe, para o oceano, onde ninguém poderia ouvir seu desejo mais secreto.

Byron afundou a face na fragrância de seu pescoço enquanto rasgavam o ar em seu véu. Antonietta não tinha medo e eram escassas as situações em que Byron detectava nela o temor. Custava-lhe penetrar em seus pensamentos porque os padrões de seu cérebro eram diferentes, embora o conseguisse sem dificuldade, com a maioria dos humanos. Agora que seu coração recuperara o ritmo normal, admirava como Antonietta havia lutado por sua vida, no penhasco. Era uma mulher extraordinária, e lhe pertencia. Mas ela ainda não sabia.

Antonietta tinha um caráter forte e uma feroz motivação por ser ela mesma quem controlasse sua vida. Uma petição de mãos ao uso de sua gente, suspeitava Byron, não só seria rechaçada, mas também lhe causaria uma profunda tristeza. Anos atrás, tinha aprendido uma difícil lição ao tentar conseguir certas coisas com muita pressa, pensando em seu proveito, não nas conseqüências.

Antonietta era seu mundo. Byron não podia permanecer indiferente ante as próprias necessidades e impulsos, nem ante aos terríveis anseios de lhe dar o que ela queria. Poderia tê-la para ele, sabia. Não havia alternativa para nenhum dos dois, mas queria que ela viesse a ele por decisão própria. Que escolhesse a ele. Que escolhesse sua vida, seu mundo. E ainda mais, queria lhe dar tudo, o que suspeitava, que jamais ela tivera na vida. Queria que ela soubesse qual era seu valor como mulher. Não como uma Scarletti. Não como pianista. Não como magnata de uma companhia naval, mas como mulher.

—Tem medo? —Foi apenas uma pergunta pronunciada em um sussurro, metade em voz alta, metade mentalmente, embora sabia que não era medo o que ela sentia, só queria que ela se precavesse do que estava fazendo. Não havia lhe advertido e nem a protegido ante sua maneira de transporte. Podia ser cega, mas era mais consciente que qualquer outro ser humano que conhecia.

Antonietta sorriu com alegria.

—Como poderia ter medo, Byron? Estou com você. Não penso te perguntar como consegue voar até que coloque os pés, sã e salva na terra. — Ela respondera com toda a franqueza possível. Antonietta sentia uma brutal excitação. Se estava com medo, era só um medo do desconhecido. Voar pelos céus era um sonho, uma fantasia feita realidade. Seus sonhos infantis de voar eram tão vívidos, que freqüentemente acreditava ter sulcado os céus, à noite. — Eu adoraria poder ver tudo. — Disse ela com um toque de melancólica tristeza na voz, que não pôde ocultar e se envergonhou de que ele houvesse percebido. — Gostaria que tivesse tempo para me descrever tudo.

—Há uma maneira de que veja o que eu vejo. —Agora seu coração disparara. Assim que se deu conta, deixou que ele procurasse o compasso do de Antonietta. E logo conectá-los, coração com coração. Ela se segurou nele ele com mais força. Pela primeira vez, virou a cabeça para seu pescoço. Ele sentiu a respiração morna e seu corpo reagiu endurecendo-se, antecipando-se.

—O que disse? —Agora era o coração de Antonietta que galopava. Byron podia operar milagres. Curar. Ir a uma chamada de auxílio do outro lado do mar enfurecido. Inundar-se nas águas turbulentas, tirar de suas profundezas um homem que se afogava e levá-lo até um refúgio. Voar pelo céu da noite com dois adultos, como se não pesassem mais que crianças. Não se atrevia a esperar o impossível.

Falava em voz baixa, mas tinha os lábios apertados contra sua pele. Contra sua pulsação. O corpo de Byron ardia, pulsava de necessidade, de desejo. Ela pareceu não notar sua reação. Ele lutou contra o impulso de sua espécie, que começava a se apoderar dele e afastou a cabeça, longe da tentação que ela oferecia. Não podia lhe responder alongando os incisivos nem lhe demonstrando que a desejava com todo seu ser.

Felizmente, encontravam-se perto do enorme palácio. Byron concentrou sua atenção em saber onde estavam os seres humanos, embaixo. Passeou o olhar pela mansão e as terras vizinhas. Ainda vibravam no ar as seqüelas da violência, mas se o segundo assaltante a voltara para a casa, para procurar a patente dos transportes ou os tesouros da família Scarletti, já teria conseguido o que queria e desaparecido há tempo. Ou possivelmente se encontrava na cama, fingindo que dormia. Byron não detectou presença inimiga no interior do recinto amuralhado.

Os membros da família dormiam tranquilamente. O palácio inteiro parecia alheio ao ataque que Antonietta e Dom Giovanni acabavam de sofrer. No coração de Byron nascia uma suspeita.

 

Byron não deixou Dom Giovanni e Antonietta até entrar nos aposentos do ancião.

—Teria que ter soado o alarme. —disse Antonietta. — Deveria ter se ativado com os intrusos. Como entraram? Como você entra?

—Não da mesma maneira que eles. — Respondeu Byron, totalmente seguro do que dizia. — Neste momento não há intrusos dentro do palácio.

—Você não pode saber. —Protestou Antonietta. — Há mais de cem aposentosa nesta casa. Poderiam se esconder em qualquer lugar. Você não olhou o escritório!

—Voltarei a olhar mais tarde, só para me inteirar de por onde entraram. Não há intrusos, só sua família, todos em suas respectivas camas. — Respondeu Byron, paciente. — Dom Giovanni está se congelando, depois de cair na água e desse vento que gela os ossos. Está baixando sua temperatura a um ritmo alarmante. Vá a seu quartoe tome um banho quente, Antonietta. - Disse, com voz brusca e cortante enquanto começava a despir o ancião. — Está tremendo de frio.

—Eu não gosto que me dêem ordens. - Respondeu Antonietta batendo os dentes, apesar de sua desesperada intençãos de evitar. Estava congelada. - Dom Giovanni é meu avô e é minha responsabilidade.

—Então, o trate com a dignidade que se merece. —A voz de Byron se tornou tão suave, que sua textura era como veludo. Antonietta estremeceu.

Ela deu um passo para trás. Por um momento, sentiu um nó na garganta que ameaçava afoga-la. Ardiam seus olhos. Não chorava em anos.

Ele tomou com firmeza seu queixo.

—Não quero parecer brusco, mas não temos tempo a perder. Se te ofendi, sinto muito. O coração de seu avô está muito fraco e sua resistência diminuiu, apesar de meus cuidados. —Inclinou a cabeça para ela e aproximou a boca de seus lábios, com a leveza de uma pluma, apenas um toque. Ela sentiu que a emoção chegava a seus pés e um calor na boca do estômago. Foi incapaz, por um momento, de pensar com claridade nem pôde lembrar por que queria chorar.

—Porque alguém tentou matar a você e a seu avô. — Respondeu ele em seu lugar. - Alguém o envenenou e provavelmente também a você. Alguem drogou voces dois. Está cansada e com frio e eu fui brusco ao te falar. Qualquer pessoa choraria, Antonietta. Eu me ocuparei de Dom Giovanni enquanto você toma um banho quente e se deite.

A voz de Byron era tão terna que a Antonietta sentiu o coração bater apressado e as lágrimas dançarem em seus olhos. Ele afastou a mão e ela se voltou para sair, cativada pela beleza de sua voz, pelo bálsamo de sua sabedoria.

- Obrigado, Byron, mas pode ser que meu Nonno precise de minha ajuda no banheiro. Não posso vê-lo, sou cega, já sabe. —Byron era a única pessoa que nunca parecia precaver-se de sua cegueira.

Byron lançou a camisa suja de Dom Giovanni para um lado.

—Não tem por que atender a tudo, minha cara. Agora, vá. Ocuparei-me dele e farei com que se sinta cômodo.

—Vá. —Dom Giovanni assinalou com mão trêmula para a porta. – Faça o que ele diz, Toni, vá tomar um banho. Eu estarei bem. Na verdade, podem ir os dois. Quero cuide dela por mim, Byron. Ocupe-se de que ela se abrigue com algo quente.

—Nonno! —Antonietta estava surpreendida. – Posso ser cega, mas te asseguro que Byron não é. Não acredito que ele se possa ocupar de mim, no banheiro.

—Quero que alguém a proteja. O que acontecerá se eles voltarem? —Dom Giovanni ignorou os protestos de sua neta. - Não se separe dela em nenhum momento.

—Não importa se voltarem, Dom Giovanni. Não voltarão a colocar as mãos em cima a sua neta novamente.

Byron se inclinou para Antonietta e ela sentiu, pela primeira vez, que ele tremia. A raiva era um ser vivo que respirava no aposento, com eles. O ar se tornou mais denso, converteu-se em numa massa pesada, numa nuvem escura de energia, que ficava difícil respirar.

No interior de Byron, a fera rugiu pedindo sua liberação, reclamando seu castigo. Pedia-lhe que ele a levasse onde nada mais poderia lhe fazer mal.

—Estará muito mais segura no banheiro a sós que comigo montando guarda, cara. Agora, me deixe para que possa atender a seu avô. —Sua voz foi como uma promessa. Um voto. Uma absoluta convicção.

Antonietta custava manter um pouco de dignidade enquanto os dentes tiritavam e ela tremia. Mas era uma Scarletti e elevou o queixo.

—Terá que avisar à polícia. Se não me equivoquei, há um cadáver no penhasco.

—Um cadáver? —Dom Giovanni se afundou numa cadeira, enquanto Byron tirava seus sapatos e meias, molhados. - O cadáver de quem?

Byron encolheu os ombros, como se não desse importância.

—Um deles tentou lançar Antonietta no mar. Possivelmente o tratei com muita rudeza. Estava furioso e temia por sua vida. Provavelmente não medi minha força.

Dom Giovanni sacudiu a cabeça.

—É preferível que o cadáver tenha caído ao mar e que nós não saibamos nada do que aconteceu. Voces lutaram e ele caiu. É preferível não se arriscar com a polícia quando se trata de uma morte.

—Nonno! —exclamou Antonietta, surpreendida.

—Se ficar aí parada com a roupa molhada e tremendo como uma folha, eu mesmo te levarei para o banheiro e te colocarei na banheira. —advertiu Byron. - Não me faço responsável pelo que possa acontecer depois. E não cometa o engano de pensar que estou brincando.

Antonietta sentiu que o coração acelerava em seu peito, ao ouvir a advertência. Colocou todo seu empenho em adotar uma atitude irritada, para logo depois tocar a mão do avô e abandonar apressadamente o quarto.

—Nunca lhe tira os olhos de cima dela, Byron. - Disse Dom Giovanni, com gesto de aprovação. - Sempre quis um homem como você para ela. É uma mulher de muito caráter. —Os olhos avermelhados do avô o olhavam fixamente. - Poderiam lhe fazer mal.

—Eu não, Dom Giovanni, nunca. —Byron ajudou o ancião a sentar-se. - Apóie-se em mim e o levarei até o banheiro.

—Estou muito fraco para me levantar sozinho. - Reconheceu Dom Giovanni, envergonhado.

—Não o deixarei cair, querido amigo. – E em lugar de tomar a liberdade de pegá-lo nos braços, Byron deixou que o ancião avançasse com passos hesitantes e cruzasse o aposento até o banheiro. Sabia instintivamente que o orgulho de Dom Giovanni insistiria naquela pequena amostra de independência, embora estivesse muito fraco para caminhar sem ajuda. - Foi uma noite tremenda. Sem dúvida, notou que sua vida e a de sua neta correm perigo. Ela precisa de amparo e você também precisará.

Dom Giovanni suspirou enquanto alongava os dedos encrespados para abrir a porta do box.

—É uma garota muito teimosa. Dependi muito dela e agora ela se sente responsável por todos nós. Não irá contratar um guarda-costas.

—Eu sei. —Byron ajudou ao ancião a se despir e regulou a temperatura da água. - Mas será necessário. Não posso estar presente a maior parte do dia. Por que alguém queria ver os dois, mortos?

Dom Giovanni voltou o rosto para a ducha enquanto o jorro de água começava a lhe esquentar o resto do corpo. Byron atuava com toda naturalidade, permitindo que o ancião se apoiasse nele, enquanto a água molhava-os. Esperou até que Dom Giovanni deixasse de tremer antes de desligar o chuveiro e envolvê-lo com uma toalha.

Os Cárpatos sabiam regular a temperatura de seus corpos e não demoravam mais que um momento para secar suas roupas. O ancião apenas se deu conta, quanto Byron o ajudava a colocar o pijama e entrar na cama.

—Vá vê-la, Byron. Assegure-se de que não aconteceu nada a ela.

—Farei isso - Lhe assegurou ele. - Agora durma e não se preocupe. —Com sua voz hipnótica, ele acabou de persuadir ao ancião.

—O que acontecerá aos outros? Com meus outros netos? Você se certificará de que eles se encontram a salvo? E meus bisnetos? —Dom Giovanni mal conseguiu pronunciar as últimas palavras.

—Agora, durma. —Byron o pressionou com outro gentil empurrão de sua força mental. Cobriu-o com as mantas.

Ao ver que ao velho Scarletti custava conciliar o sono, Byron entoou o antigo canto ritual dos curadores, enquanto se ocupava de que todo rastro de veneno desaparecesse do organismo de Dom Giovanni. A operação demorou mais do que calculara, porque ele se esmerou em fortalecer os órgãos internos.

—Não morrerá em muitos anos, velho amigo. - Murmurou ao sentar-se. Olhou a seu redor atentamente, deixando que seus sentidos se desdobrassem e chegassem a todos os lugares daquela longa sucessão de aposentos. – Faz pouco que o conheço, Dom Giovanni, mas é uma pessoa importante para mim e para sua neta. Tenho um grande respeito por você. — ele inclinou-se e aproximou seus lábios do ouvido do ancião. - Viverá e será forte.

Alguém tinha estado recentemente no quarto de Dom Giovanni. Alguém que pertencia, ou possivelmente não, à família Scarletti. Ainda restavam reminiscências do aroma no quarto. Byron esquadrinhou e examinou em profundezas, em busca de algo que pudesse ter efeitos letais em Dom Giovanni. Não detectou organismos vivos, sequer uma aranha venenosa. O intruso tirara o ancião fora de sua cama, não teria demorara mais do que um instante em dopá-lo e teria voltado para o quarto depois de ter jogado Dom Giovanni do penhasco. Byron deduziu que se tratava de um membro da família ou de um criado que pernoitava no palácio, embora o aroma não lhe era familiar. Do contrário, o intruso teria saído imediatamente depois de voltar, o qual não tinha sentido.

Byron modificou seu aspecto e adotou a forma de um enorme lobo de pelagem avermelhada e marrom escura. Elevou o focinho para voltar a cheirar o aposento. Em seguida torceu os lábios com um grunhido. Era um aroma sutil, mas aí estava. Era selvagem, felino. Um predador. Isso explicava a fuga veloz. Será que havia um vampiro que participava de uma trama contra a família Scarletti? Um vampiro teria tomado o sangue do ancião, não o arrojado ao amar. Os vampiros eram seres malignos e desejavam o sofrimento eterno de quem os rodeava.

O lobo procurou pelo palácio. Como entraria um intruso na casa, sem ativar o sofisticado sistema de alarme? Byron se converteu em névoa, como faziam os seus, e penetrou por uma janela entreaberta, em um dos muitos aposentos vazios. Qualquer vampiro poderia fazer o mesmo. O lobo subiu trotando a escada curva da ala leste do palácio, onde os primos de Antonietta possuíam suas dependências.

Antonietta abriu a porta de seu quarto empurrando-a com a palma da mão. Deslocou-se com muita pressa e se alegrou de que o pequeno Vicent não tivessem deixado seus brinquedos onde ela pudesse tropeçar com eles. Normalmente, cuidavam bastante desses detalhes, mas os pequenos às vezes os esqueciam. Antonietta se machucara em mais de uma ocasião e depois de tropeçar em um deles, seu orgulho ficara ferido. Em uma dessas ocasiões, teria se precipitado escada abaixo, se Justine não estivesse perto para sujeitá-la. Vicent negou que tivesse deixado os brinquedos na escada, mas seu pai, Franco castigara-o. Marieta, a mãe de Vicent, retorcia as mãos e chorava, pelo terrível castigo infligido a seu filho, mas por sua vez, Franco dera a última palavra, furioso porque Antonietta estivera a ponto de cair pelas escadas de mármore.

Com gesto pensativo, Antonietta fechou a pesada porta de sua suíte e se apoiou contra ela. Ocorreu-lhe que possivelmente Vicent havia dito a verdade. Alguém bem poderia ter colocado os brinquedos no alto da escada, com a esperança de provocar um acidente.

- Nossa! Aqui estou eu, pensando em conspirações.

Produziu-se um breve silêncio. Byron se assombrou de que ela utilizasse com tanta facilidade aquela forma íntima de comunicação entre os casais. Era uma telepata com notáveis poderes, além de outras coisas. Freqüentemente o chamava com sua música, embora não se desse conta. Por fim, começa a entender o que acontecia a seu redor. Fechar os olhos voluntariamente ante uma possível ameaça não é uma atitude sábia.

Antonietta começou a desabotoar lentamente os pequenos botões de sua blusa. Tremiam-lhe os dedos de frio e possivelmente, também de medo e a operação se fazia difícil.

- Poderia vir a te ajudar.

Antonietta ficou sem fôlego. Virou-se, como se pudesse olhar pelo quarto e ter uma visão dele em seu mundo de trevas.

Sua risada era suave. Sedutora.

- À noite me pertence. Saio das sombras. Posso estar em qualquer parte. Inclusive aí no quarto com você, te ajudando quando se despe.

Aquela voz era como um feitiço, acariciava-lhe como fogo líquido que a percorria por inteira e se acumulava como uma necessidade dolorosa.

- Sempre sei quando está no quarto comigo e não o está neste momento. - Antonietta deixou de tremer e se deu conta de que sorria, apesar dos acontecimentos daquela noite e da grave situação. Byron estava comunicando calor deliberadamente e conseguindo que ela relaxasse.- Não acredito que contar com sua ajuda para me despir seja uma idéia especialmente brilhante. O que está fazendo?

- A idéia de te ajudar a se despir me tira o fôlego.

Antonietta guardou silêncio. Deixou sua blusa no respaldo de uma cadeira. Com os dedos, percorreu a seda, desejando tocar o peito de Byron. A imagem dele ajudando-a se despir, também lhe tirava o fôlego. O fôlego e a fala. Não conseguia pensar com claridade. Tirou-se a fita do cabelo e começou a desfazer a trança enquanto caminhava para o banheiro.

- Estou inspecionando o palácio para ver que intenções tinham os intrusos e também darei uma olhada em seus primos para me certificar de que não os envenenaram ou drogaram. Uma pergunta muito mais interessante é o que faz você?

- Estou soltando o cabelo.

Byron fechou os olhos e aspirou fundo, como se pudesse arrancar sua essência do fundo de sua alma. Hvia algo de muito erótico na imagem de uma mulher soltando o cabelo. – Tirou a calça?

- A blusa. – Respondeu, Antonietta, sem vacilar. Era parte de seu mundo de sonhos. Ele estava longe e era uma diversão inofensiva. Distraía-a do terror de ter estado a ponto de morrer nas mãos de um assassino. De alguém que a odiava muito, a ponto de planejar sua morte. Com a ponta dos dedos, ela acariciou os seios até o mamilo. Doía-lhe não sentir seu contato. Jamais tinha desejado tanto um homem. - Não tem sentido.

- Tem todo o sentido.

Antonietta jamais havia falado assim com um homem, sequer com um amante. Jamais havia se ruborizado, gaguejado e nem deliberadamente tentado um homem. Byron jamais lhe dera a entender que se interessava por ela como algo mais que uma amiga. Possivelmente fizesse papel ridículo, mas não importava. Byron era uma obsessão.

Enquanto avançava pelo chão de ladrilhos do banheiro, imagens de cores saltaram ante seus olhos, sem aviso. Matizes de vermelho e amarelo intenso. Ela deixou escapar um grito e cobriu os olhos, instintivamente. As cores eram tão fortes que os olhos doeram e lhe provocaram enjôo.

- O que houve?

Ela estava desorientada, paralisada, não sabia dizer em que lugar do quarto se encontrava.

- Vejo... Cores. Vermelhas e amarelos. Como imagens de calor.

- Respire fundo, seu coração está pulsando muito rápido. Não há perigo. Deixe que se desvaneçam as imagens. Pode ser que tenha visto o que eu estava vendo. Nossa conexão é muito intensa. - Byron teve que reprimir um grunhido de ameaça, o pelo lhe arrepiava no lombo. Voltou a mudar até adotar seu aspecto humano e se inclinou sobre o primo de Antonietta, que dormia.

Com cautela, Antonietta abriu os olhos e viu a reconfortante escuridão. - Deu-me náusea. Que curioso. - Antonietta encheu sua banheira privada e jogou sais perfumados na água. Queria sentir-se bela essa noite. Precisava sentir-se bela.

- Onde você está? - Não queria estar a sós. Apesar de sua ufania, assustavam-lhe os acontecimentos daquela noite e desejava o consolo da poderosa presença de Byron. Tirou a calça molhada e a deixou sobre a penteadeira. O singelo ato de tirar a roupa íntima de renda a fez sentir-se feminina. Uma sereia tentadora.

Entrou no banheiro, afundou-se na tão ansiada água quente e deixou descansar a cabeça na beirada da banheira.

- Estou observando a sua primo, Paul. Está profundamente adormecido e não acredito que seja um sono normal. Terei que examiná-lo. As janelas de seus aposentos estão fechadas?

Seus seios flutuavam sobre a água fragrante, enquanto se relaxava.

- Não pensei em comprová-las. Antes de me deitar, darei uma olhada.

- Sentiu algum cheiro estranho? De algum felino selvagem. Um espécime grande. - Antonietta se sentou, a água se condensou em gotas que deslizaram por sua pele. - Por que pensaria isso? Por que me pergunta isso?

Byron guardou silêncio e pensou em sua forma de falar. Havia um medo latente em sua voz. Havia medo em sua mente, embora suas barreiras estavam intactas e eram sólidas. Por um momento, pensou em pressioná-la para conseguir a informação que necessitava, mas ela era sua companheira e ele tinha aprendido muito bem, os perigos que podiam conduzir a manipulação. Paciência, lembrou a si mesmo. Acima de tudo, um Cárpato macho sabia perseverar.

Antonietta não podia escapar dele agora que a encontrara. Não pensara na possibilidade de que o perigo aninhasse em sua própria casa.

- Byron? Por que acredita que cheira a felino selvagem?

Em sua voz apareceu uma profunda ansiedade. Pela primeira vez, Byron desejou ver imagens de seu entorno através dos olhos dela. Sentia as texturas, mas não havia imagens em que se apoiar. Tinha que se valer das sensações. As emoções ainda lhe eram estranhas, tinham algo de embriagador. Tornavam-no perigoso e o empurravam para o limiar do descontrole.

- Sinto o cheiro de um felino aqui, neste quarto. Senti o mesmo cheiro, da mesma criatura, no quarto de seu avô. - Respondeu Byron, dizendo a verdade, porque falava com sua companheira, mas seu instinto lhe dizia que Antonietta sabia de algo que ele ignorava.

- Está com o Paul ou com Franco?

- Com o Paul.

Outro longo silencio. Byron aguçou seu poderoso ouvido até localizar seu quarto. A água da banheira salpicava como se Antonietta estivesse agitada. Ele fechou os olhos com um leve grunhido, imaginando seu exuberante corpo nu flutuando na água de essências aromáticas. Seu cabelo sedoso se espalharia na água, uma imagem que jamais poderia resistir.

De repente todo seu corpo enrijeceu, até lhe provocar uma dor penetrante. Antonietta. Quanto a desejava. E quanto lhe custava esperar. Deleitava-se com o prazer de cada instante em sua companhia. E sentia que sua criatividade, ausente há tanto tempo, agora renascia graças a ela.

- É Paul? Cheira a felino?- Havia certa reserva em sua voz, como se pudesse trair a alguém… Ou a algo muito prezado para ela. Também havia uma nota subjacente de temor. Tentava dissimulá-lo, mas era perceptível.

Byron se inclinou sobre o Paul, esquadrinhou cada centímetro de seu corpo, prestando atenção a suas unhas, seus braços, procurando arranhões, qualquer indício de que tinha participado do ataque contra Dom Giovanni e sua neta. No interior do antebraço esquerdo tinha um longo arranhão. Parecia recente e feroz.

- Byron! Por favor, me diga, ele cheira a felino?

O palácio Scarletti e a família que o habitava possuía quase tantos segredos, como os seus. Byron respirou fundo. O aroma do felino invadia a quarto. Era difícil saber se aquela essência emanava de Paul.

- Não faço idéia. Aqui dentro o aroma é muito intenso. Se não for de Paul, o felino esteve aqui. Voces possuem gatos grandes ou sabem de alguém que os tenha?

Um ligeiro ruído no andar inferior, o distraiu imediatamente. Elevou a cabeça como uma mola e seus olhos escuros brilharam com uma repentina ameaça. Alguém subia pela escada longa e curvada. Pisadas suaves e sigilosas. Furtivas. Byron distinguiu com claridade o toque contra o grosso corrimão. Um sorriso imperceptível de lobo apareceu em sua boca. Não saiu para olhar, mas se limitou a esperar na escuridão, que sua presa viesse a ele.

- Certamente que não.

Os passos haviam chegado ao primeiro patamar. Quem quer que fosse vacilou e logo se dirigiu para os aposentos que Paul ocupava. Byron se encolheu na sombra. Apareceram seus compridos incisivos e quando a porta abriu, a luz difusa do corredor deu a seus olhos uma cor feroz de vermelho sanguinolento.

Reconheceu-a imediatamente. A fiel criada de Antonietta, Justine Travis, entrou cautelosamente no dormitório e fechou a porta a suas costas. Deu alguns passos até o centro do quarto, mas parou, sem se atrever a ir até a cama.

—Paul?

O silêncio foi à única resposta. O homem na cama não se moveu. Byron estava seguro de que o haviam drogado, mas teria que verificar. Em qualquer caso, isso não significava que fosse inocente. Um homem despachado poderia cometer um assassinato e depois se drogar para fingir que ele também correra perigo.

A fome se agitou nele, uma necessidade escura e terrível que se apoderava, implacável. Byron não se alimentara e tinha gastado uma energia considerável ao resgatar Dom Giovanni das profundezas do mar. A cura o havia esgotado e depois de liberar o ancião do veneno que atacava seu frágil organismo, suas vísceras rugiam, famintas e insatisfeitas. Ouvia a chamada do sangue espesso correndo por suas veias, cheias da vida, que precisavam suas células desnutridas. Moveu-se e num abrir e fechar de olhos estava atrás do Justine. Esta estava com o cabelo preso, separado do pescoço, que ficava exposto. Agora Byron via a pulsação latente.       Justine lançou um suspiro e retorceu as mãos, claramente agitada.

—Paul, acorde. Tenho que falar com você. Lamento que tenhamos discutido, mas tem que entender que não posso me arriscar a perder meu emprego. — Ela levou a mão ao pescoço, num movimento defensivo, como se intuisse o predador perto dela. Sabe que faria tudo para te ajudar. Encontraremos outra maneira de conseguir o dinheiro. Eu te ajudarei. Asseguro-lhe.

Paul não respondeu e continuou imóvel na cama.

Justine soluçou baixinho.

—Não falava a sério quando te disse que nosso caso terminado. Encontrarei uma maneira de te ajudar, Paul. Não faça nada precipitado até que me ocorra o que possamos fazer. Sabe que sua vida seria uma miséria se fizesse algo que machucasse ou traísse sua família. —Ele esperou um momento. - Por favor, Paul, me responda. — Quando Paul não respondeu nem se virou para ela, Justine apertou a mão fechada contra a boca, para afogar seus soluços.

Uma sombra escura caiu sobre ela e Justine estremeceu e virou, com os olhos cheios de terror. O predador na sombra falou suavemente, sussurrou-lhe uma ordem enquanto a rodeava com seus braços. Ela inclinou a cabeça e o olhou, presa.

Byron fitou sua face. Sua mente era um caos transbordante de pensamentos sobre Paul. De quanto o amava, de como não queria trair Antonietta, mas… Agora sorriu e não havia humor naquele sorriso, só uma exibição de presas.

—É uma pessoa traiçoeira por natureza e optaste pela aliança equivocada. —Na voz de Byron havia uma chicotada de desprezo e sob aquele escuro enfeitiço, Justine estremeceu. Byron inclinou a cabeça, os dentes penetraram a carne suave e ele bebeu.

                                      

Antonietta saiu do banho e se envolveu com uma toalha grossa. Caminhou dez passos exatos até a penteadeira e se sentou na cadeira e segurou a escova que sempre se encontrava à direita. O cabo era frio e se ajustava à mão como se fosse feito para ela. Era uma relíquia do passado, mas lhe fascinava e ela a usava todas as noites para alisar o cabelo. Ao passar a escova pela longa cabeleira, sentiu uma palpitação no pescoço, um ardor que queimava sua pulsação, de repente acelerada.

Com um sobressalto, Antonietta soltou a escova e cobriu o pescoço, procurando instintivamente Byron. Não encontrou seu poeta repousado e tranqüilo, mas uma fera desatada de fome demoníaca, em meio de a um festim, absorvendo a energia e vitalidade de uma criatura viva. De um ser humano… de repente, a visão se interrompeu.

Sentindo que se afogava, Antonietta levou as mãos trêmulas ao pescoço, enquanto tentava captar mentalmente o significado daquela fera escura e sombria, que rugia ansiando se liberar. Teria se conectado com o felino selvagem que Byron sentira o cheiro no quarto de seu primo? Ou era sua imaginação que estava lhe pregando peças?

Sentia-se cansada e atemorizada e precisava de consolo. Onde ele estava? Por que não tinha vindo procurá-la? - Byron! - Chamou-o bruscamente, aterrada pela violência com que precisava dele, presa entre o desejo de que ele viesse a seu resgate e a esperança de que se mantesse afastado. Essa noite se sentia fraca, talvez não seria capaz de resisti-lo. E o último que queria era destruir sua amizade, comportando-se como uma mulher pueril.

Byron ouviu a chamada de sua adorada Antonietta, como um eco que penetrava em sua mente. Que lhe chegava ao coração e tomava sua alma. De repente, tomou consciência e soube onde se encontrava e o que fazia. Apressou-se a passar a língua pelo pescoço do Justine e fechar as diminutas marcas. Elevou lentamente a cabeça, com um esforço enorme, para suportar o forte enjôo que sentia por causa da infusão de fresca vitalidade. Pensando em Antonietta, que gostava de Justine, foi mais amável que o habitual ao deixar à mulher no chão e apoiá-la contra a parede.

- Estou aqui.

Antonietta não podia acreditar no alívio que a tomou e se apoderou de seu corpo e sua cabeça. - Pensei, por um momento, que acontecia algo horrível.- Ela procurou sua escova no chão. Seus dedos a encontraram. A toalha caiu e seu corpo ficou exposto ao ar frio.

Fora, a chuva começou a golpear contra os vidros coloridos. Antonietta atravessou o quarto. Com os pés nus, os ladrilhos de mármore eram frios. Ela estava com o corpo quente e se ruborizou em apenas pensar que ele pudesse entrar inesperadamente e vê-la. Ignorava por que o som de sua voz a fazia sentir-se tão feminina. Dava-lhe vontade de tentá-lo e seduzi-lo. Ele sempre era tão frio e tranqüilo e ela desejava que pelo menos uma vez, ele perdesse o controle.

- Estou um pouco nervosa e agitada esta noite. - Reconheceu Antonietta aproximando-se nua, das vidraças coloridas, ouvindo o barulho da chuva e logo levantou os braços como uma oferenda aos deuses da fantasia e dos sonhos. – Tragam-no até mim! Que ele venha para mim esta noite. Quero sentir que me olhou como uma mulher e não como uma conta bancária.

- Deveria estar na cama. Entre seus macios lençóis e não passeando por seu quarto.Trate de que cuidar de sua saúde.

Como ele podia afetá-la tanto, com uma simples voz? Como podia lhe deixar com o corpo ardente, dolorido e necessitado de um só homem? Era algo que não conseguia entender. Afastou-se da janela e se dirigiu sem titubear para o grande armário. Um dia, num ataque de generosidade, Tasha havia lhe presenteado com uma linda camisola de renda branca, um objeto que Antonietta nunca usara antes. A colocou, deixando que o tecido deslizasse por sua pele, como se estivesse vivo, agudizando seus sentidos e exacerbando as urgentes necessidades de seu corpo. Era uma camisola feita para seduzir. Para tentar. Ajustava-se a cada curva. Sentia-se como uma bela tentação.

- Cuidar de minha saúde? Que prosaico.

- Está muito nervosa e agitada. Eu também. Poderia ser uma combinação perigosa.

Antonietta recolheu o cabelo, deleitando-se com a sensação da renda que acariciava sua pele.

- É isso o que pensa? É provável que tenha razão. Sinto-me muito estranha e custa me reconhecereu mesma. Com um suspiro, retirou as mantas e se deslizou entre os lençóis.

Byron se inclinou para verificar o pulso de Justine. Ela estava bem, só um pouco enjoada. Sussurrou em seu ouvido, um cântico tranqüilizador e plantou nela a idéia de voltar para seu quarto sem lembrar de sua visita a Paul. Justine obedeceu como uma sonâmbula, sob seu enfeitiço hipnótico e ao sair, fechou a porta.

- Certamente se sentirá indisposta durante algum tempo e com toda razão. Byron voltou a inclinar-se sobre o Paul. O primo de antonietta. Um traidor que possivelmente tramava sua morte. Sentiu por um momento o impulso de esmagá-lo com a força de seus punhos, um impulso que quase o dominou. Inclinou-se ainda mais e os incisivos se alongaram quando ele se aproximou da pulsação no pescoço de Paul. Se bebesse do sangue de Paul, não seria difícil ler seus pensamentos.

- Byron! - A voz aguda de Antonietta revelava seu temor. - Tenho uma terrível sensação de que vai fazer mal a meu primo. Prometa-me que não fará.

Byron fechou os olhos, respirou profunda e pausadamente parar sossegar os demônios que pugnavam por liberar-se. A conexão era muito estreita. Ela saberia. Sentiria. – Está se deixando levar por sua imaginação, Antonietta.

- Por que sempre me chama Antonietta? Todos outros me chamam de Toni.-     Byron se concentrou no som de alívio em sua voz. Antonietta, seu vínculo com a sensatez e o controle, quando suas emoções eram tão poderosas como o mar enfurecido. - Sua família a chama de Toni. Todos outros, de signorina Scarletti, um título de muito respeito.

- Isso não me explica por que você não me chama de Toni.

- Antonietta é seu nome e é um belo nome. – Byron respondeu, sem afetação.

Ela entrecerrou as pálpebras. Estava cansada e o ritmo regular da chuva começava a adormecê-la. As palavras de Byron não eram especialmente românticas e nem brilhantes, sequer poéticas, mas Antonietta pensava nelas dessa maneira.- Sua voz é hipnótica. Poderia te ouvir sempre.

- Isso é bom. É agradável saber que estamos progredindo.

- Não sei por que de repente lhe conto isto. Soube a primeira vez que ouvi sua voz. Poderia ficar sentada e te ouvir sempre. E quando você vai embora, ouço-a música em minha mente, em meu corpo e sei que é sua. Pertence a você mais do que me pertence.

- É o elogio mais bonito que me têm feito. - Byron saiu do quarto do Paul e se dirigiu so terceiro andar onde vivia Franco Scarletti com sua mulher e seus dois filhos. - Decidi que você precisa de um cão, Antonietta.

Antonietta riu. - Só te poderia ocorrer a você, que preciso de um cão. Sou cega. Para que me serviria um cão? E espero que não esteja pensando em um cão guia de cegos. Não sei absolutamente nada sobre esses animais. Sempre se mostraram distantes comigo.

Byron percebeu o interesse implícito na voz de Antonietta e sorriu. - Ainda não conheceste o cão adequado. O mundo animal é único e assombroso. O cão adequado é um companheiro de incalculável valor. Podem ser animais fiéis e dóceis. O cão adequado te escolhe, tece vínculos e trabalha com você.

- Qual seria o cão adequado para mim, em sua opinião?

Byron se inclinou por cima da pequena dormia, inocente e tranquila, em sua cama. A idéia de um intruso que fizesse mal à menina arrancou dele, um grunhido. Neste quarto o aroma do felino era intenso. Quando teve a certeza de que não havia nem drogas nem veneno em seu organismo, examinou as janelas procurando possíveis pontos de entrada. O felino poderia ter saltado das almenas, para uma janela aberta. Não encontrou indícios da presença de intrusos nos aposentos das crianças. Dirigiu-se à quarto dos pais, tomando a precaução de fazer-se invisível ao olho humano.

Borzois, certamente. São excelentes caçadores e pertencem a uma raça que se conservou pura ao longo dos séculos. Estavam acostumados a ser os escolhidos pela realeza e aqui no palácio, sem dúvida se sentiriam em casa. Os borzois eram caçadores de lobos. Em uma ocasião, quando era um jovem Cárpato e ainda não dominava de todo, seus poderes, enquanto praticava as mudanças de forma com Jacques, seu melhor amigo, dois borzois os descobrira quando se transformavam em lobos, no meio de um campo. Os borzois eram caçadores velozes e silenciosos e os perseguiram, implacáveis. Naquela época, nenhum dos dois dominava muito bem a arte de mudar de forma e com muita dificuldade conseguiram chegar às árvores e encarapitar-se torpemente nos galhos superiores. Jacques estivera a ponto de cair da árvore, preso por um ataque de risada. Os dois demoraram um bom tempo para diminuir suas pulsações e se conectar com os borzois. Desde aquele episódio, Byron tinha um enorme respeito por aqueles animais que possuíam o coração de um leão e a natureza nobre de uma ovelha.

Jamais tinha visto um animal parecido com os borzois e diziam que a Rainha Vitória tinha acertado ao pedir que aquelas criaturas habitassem o Palácio Real. Havia-lhe causado uma grande tristeza inteirar-se do massacre perpetrada contra aqueles animais tão inteligentes, letais, embora nobres, quando os camponeses se rebelaram e destruíram tudo o que levasse a marca da realeza. Talvez se identificassem com eles, pois que sua espécie também era perseguida e eles também podiam ser letais e nobres. Byron não sabia por que, mas os borzois sempre estavam presentes em seu pensamento. Mais que qualquer outra coisa, desejava que Antonietta experimentasse esses vínculos e essa fidelidade e que, de uma vez, gozasse do amparo de um animal tão único.

Não era fácil lhe contar sua própria passagem com os borzois, de modo que escolheu outra. - Em uma ocasião vi um borzoi macho proteger sua proprietária, simplesmente porque ela tinha ferido isto um pé gravemente. Ele ficava a seu lado quando a via coxear, deixava que se apoiasse nele enquanto caminhava e se negava a deixá-la durante todo o dia, renunciando até às caçadas, atividade para a qual nasceram foram criados. Levam a caça no sangue e ainda assim, a devoção por sua companheira era superior. São animais extraordinários.

- Você tem cães?

- Não, mas se os tivesse, seriam borzois. Viajo muito e seria injusto com o animal, mas se algum dia tivesse a sorte de dizer que tenho um lar, terei vários exemplares.

Franco Scarletti dormia voltado para sua mulher, um braço por cima dela como se a guardasse para si. Marita, sua mulher, estava virada para o outro lado, e mesmo em seu sono tinha uma expressão amargurada em seu rosto. O ar no quarto era frio e Byron encontrou a janela aberta em seguida. A pesar do vento, ainda cheirava a felino. O animal havia visitado franco e Marita, como fizera com outros.

Com um grunhido ameaçador, Byron se dirigiu para os aposentos de Tasha. A ela, pertencia à ala que circundava a temida torre onde diziam que um Scarletti estrangulara sua mulher e tinha batido em seu amante até matá-lo. Todos os aposentos de Tasha tinham o mesmo penetrante aroma. O animal demorara um longo tempo naquela ala do palácio. Como tinha observado em Franco, Marita e seus filhos, em Tasha também não havia rastro de veneno ou drogas.

Restavam ainda a cozinha e o cozinheiro. O acre e penetrante aroma de felino encheu totalmente seus pulmões, estava presente em cada canto dos aposentos privados do cozinheiro e na cozinha.

- Antonietta?- Ela estava quase adormecida e por alguma razão, a Byron pareceu mais sensual que nunca. Imaginou-a estendida na cama, esperando-o, o corpo ardente e úmido e sedento pelo dele. Deixou escapar um suave grunhido. Antonietta flertava com ele de longe, mas sempre guardava certa distância, mesmo durante suas inumeras conversas a sós. Ela não estava acostumada a se mostrar coquete com os homens, ainda bem, porque ele sentia que nele havia uma veia ciumenta.

- Ainda estou acorde, pensando na idéia de ter um cão. Não sei se cuidaria bem dele, mas seria agradável não estar sempre tão sozinha.

- Sim, seria agradável. - Respondeu ele, de todo coração, diretamente da alma. Alegrou-se em saber que ela estava acorde. Ainda restavam algumas coisas pendentes. Não podia abandonar o corpo no penhasco. Dom Giovanni tinha razão. Não era conveniente dar à polícia muito que pensar. Entretanto, Byron queria ver Antonietta. Tinha que vê-la. Tocá-la. Sentir sua pele macia ao contato de suas mãos. Saber que estava viva e a salvo.

 

—Como conseguiu entrar? —Antonietta não queria gritar, apesar de que ele a despertara bruscamente de seu sono. Em qualquer caso, sabia perfeitamente quem estava sentado aos pés de sua cama. Preocupava-lhe mais, não ter colocado os óculos escuros, para ocultar suas horríveis cicatrizes ou que seu cabelo estivesse despenteado, depois de tanto se agitar na cama. Estava esperando. Desejando que ele viesse até ela, para lhe contar como estava seu avô. Uma coisa era manter uma conversa com ele à distância, com ou sem paquera e outra muito diferente, era tê-lo seu quarto, em carne e osso. Em seu quarto. Agora que realmente ele estava ali, sua camisola de renda parecia uma escolha ridícula. Não queria que ele pensasse que a colocara por ele, embora fosse o motivo. Tampouco colocaria o roupão, com o qual seria maior a atenção que ele prestaria, a sua escassa vestimenta.

—Deveria ter medo de mim, Antonietta. - Foi a recriminação de Byron. - Não tem nenhum sentido da sobrevivência.

Antonietta se sentou com cautela e ficou sem fôlego quando ele roçou seu seio estirar braço para acomodar seus travesseiros. Seu corpo inteiro esquentou. Ele não se desculpou por aquele contato. Ao contrário, suas mãos seguiram e lhe arrumaram os cabelos espalhados. Esse contato íntimo mal a deixava respirar. Pensou que, com toda segurança, tinha sido uma casualidade e ficou sentada com as mãos cruzadas. Para não deixá-losentir como ardia seu corpo, elevou o queixo e se concentrou em adotar um ar sério.

—Tenho um grande sentido da sobrevivência. – Negou. - E tive a serenidade suficiente para te chamar quando meu avô caiu no mar.

—Seu avô não caiu ao mar, Antonietta. Empurraram-no. Sabe que alguém drogou voces dois e os levou ao penhasco. E sabe que alguém contratou esses homens. Isto não pode continuar. Não permitirei. —Havia uma clara vontade em sua voz. - Não basta apenas desejar que este atentado contra sua vida não existiu.

Algo na bela voz, a fez sentir um calafrio. Byron era sempre tão tranqüilo. Imaginava-o como um anjo moreno, pensativo e misterioso, enviado a velar por ela e seu avô. E, entretanto, agora ele falava como se fosse perigoso. Antonietta fez um esforço por sorrir.

—Eu não me limito a desejar que as coisas desapareçam, Byron, eu enfrento-as. De mim depende este palácio e minha família confia em mim. Não estou acostumada a defraudá-los fingindo, nem acreditando que basta com um simples desejos.

—Então deixe de fechar os olhos ante a possibilidade de que alguém a queira ver morta.

—Está brigando comigo, como se eu fosse uma menina. Nem me lembro mais da última vez que alguém se atreveu a falar comigo assim. Você tevete a audácia de me dizer o que fazer, em minha própria casa. Algo que ninguém se atreveu a fazer desde que era pequena.

—Está se congelando, Antonietta e começo a sentir uma tentação irresistível de te colocar na banheira com água quente e te dar um banho dos pés a cabeça.

O coração dela bateu forte. O som de sua voz era uma carícia, um toque de dedos percorrendo seu corpo. Por um momento, foi incapaz de pensar, sequer de respirar. Antonietta apertou com força os dedos para impedir que tremessem ou que se soltassem, para deixar que suas mãos acariciassem o peito masculino. - Teria sido uma experiência inesquecível, Byron. - Tentou sorrir, frívola, temendo que desta vez, sua risada se convertesse num grasnido rouco. Sentia a intensidade de seu olhar lhe queimando a face. Um fogo lento começou a consumir seu corpo.

—Nem imagina a experiência que seria. —Seu tom de voz era descaradamente sexual. Era inconfundível.

Ele estava flertando com ela. A idéia lhe pareceu de uma vez, exasperante e terrível.

- Preciso de meus óculos escuros. — Não suportava a idéia de que ele visse seus olhos mortos, que visse suas cicatrizes, enquanto ela se inflamava ouvindo sua voz.

— Por que? A quarto está às escuras. Nem sequer há um raio de luar capaz de penetrar as nuvens esta noite. Só estamos você e eu. — Ele Roçou-lhe a face com dedos leves como uma pluma. Depois, seguiu para as maçãs do rosto, sua boca larga e generosa. Havia algo de possessivo em sua maneira de tocá-la, o evidente interesse de um homem.

Antonietta respirou fundo e se afundou nos travesseiros.

—O que faz?

—Estou tocando você. Sentindo sua pele. Pode que esta noite não a tenha assustado, mas me aterrou. Tenho que saber que está a salvo, de modo que não faça nada e me deixe fazer.

—Byron, o que diz não tem sentido. Certamente que estou a salvo. Estou aqui no palácio, segura em minha cama e graças a você. — Ela tentava ser prática. Antonietta sempre era uma pessoa prática, mesmo na cama e vestida com uma coquete camisola de renda.

Byron a atraiu para si. Tocou os lábios dela com os seus e a terra tremeu. Deslocou-se de seu eixo. Ele ficou imóvel. Antonietta se derretia. Byron ardia. O beijo se fez mais profundo e se transformou fogo. Era terno, mas ardente e implacável ao mesmo tempo. O mundo explodiu em calor, fogo. As faíscas saltaram de uma pele a outra, criaram um arco entre eles. O relâmpago dançava em suas veias.

Antonietta simplesmente se fundiu a ele, pertenceu-lhe. Sempre havia lhe pertencido. Byron, seu poeta escuro e pensativo com sua voz de veludo e seus misteriosos procedimentos. Entregou-se a ele, abraçando a magia daquele momento, vertendo em sua resposta, a paixão fogosa que brotava nela como de uma fonte, compassando o batimento de seus corações, uma chama após outra.

Do fundo da garganta de Byron escapou um gemido, mais parecido de uma fera que a um homem. Ele afastou a cabeça, poucos centímetros dela.

—Tem alguma idéia do que provoca em mim?

Seu fôlego era quente sobre a pele de Antonietta. Com os lábios, roçou o canto de sua boca. Uma carícia? Uma provocação? Não fazia idéia. Antonietta negou com a cabeça, tocando os lábios ardentes para confirmar que não estava sonhando.

—Como poderia suspeitar? Jamais disse uma palavra insinuando que se sente atraído por mim. —Não era fácil falar e nem manter uma aparência de normalidade, quando o desejava com cada fibra de seu ser.

—Atraído por você? —Havia um toque de brincadeira em sua voz - Dificilmente chamaria atração o que sinto quando me encontro perto de você. Queimo por você. Cada segundo de minha existência. Consumo-me por você.

Antonietta se separou dele e afundou-se ainda mais nos travesseiros. Levou os dedos trêmulos aos lábios. Ainda podia saboreá-lo. Ainda o sentia no fundo de si mesma como se ele tivesse transpassado sua pele e se envolvido em torno de seu coração.

—Jamais disse nenhuma palavra! Jamais!

A música se fazia em sua mente, notas claras e melódicas que imploravam liberdade. Ela distinguia as notas mais agudas. As notas que desafinavam. Os estrondos repentinos dos tons, que lançavam uma nota discordante.

- Após tanto tempo, de repente você decide que me deseja? Devo pensar que isso não tem nada a ver com quem sou? Só por minha face bonita? — Ela obrigou-se a pronunciar a detestável acusação, quando tudo lhe pedia silênciar-se, tomar o que ele oferecia pela razão que fosse. Possivelmente, teria tomado se fosse qualquer outro, em lugar de Byron.

Precaveu-se do movimento, quando ele se sentou da cama, mas não ouviu um só ruído. O silêncio se prolongou até que ela ficou a ponto de deixar cair às lágrimas que queimavam seus olhos. Mas, ao contrário, elevou o queixo e esperou. - Que fosse ao inferno por deixá-la em ridículo.

—Jamais pensei que fosse uma covarde. — Seu tom de voz era reflexivo, não acusador—. Tem muita confiança em você mesma. Vi você se apresentar diante de dez mil pessoas. A vi sair sozinha do palco, sem ajuda.

Antonietta percebia o toque de admiração em sua voz. Imaginava-o junto janela de vidros coloridos, dando-lhe as costas, situado onde a clara ressonância de suas palavras ficasse ligeiramente afogada. Colocara de propósito, a camisola de renda branca, com esperança de seduzi-lo e agora estava mais irritada consigo mesma que com a reação dele. Era essa uma atitude covarde? Nunca pensava isso de si mesma.

—A primeira vez que te vi foi num concerto. Não podia tirar os olhos de você. Estava tão bela, com as luzes sobre seu cabelo resplandecente. Aproximou-se diretamente ao piano, com uma confiança absoluta, sem vacilar. Lembro-me fiquei sem respiração e você ainda não havia tocado uma só nota.

Sua voz se afastou da janela, para a porta. O coração de Antonietta pulsava descompassadamente, aterrorizada pela idéia de que ele a deixasse para não voltar. Não sabia quase nada a respeito dele, Byron. O homem dos mistérios. O homem que convertia seus sonhos em realidade.

—Já aparecem em mim, meus primeiros cabelos brancos e não sou uma mulher muito agraciada, Byron, mas te agradeço. — Ela levou a mão ao pescoço para ocultar seu pulso acelerado. Ele havia dito que lhe cortava o fôlego em apenas vê-la e, em troca, ela ficava sem fôlego só em ouví-lo.

Ele sorriu. Era uma reação surpreendente, o último ela esperava, dado seu precário estado emocional.

— Por que diz que aparecem seus primeiros cabelos brancos? Tem um cabelo que brilha como as asas de um corvo. Se tiver algum fio prateado, só ressalta a profundezas e exuberância de sua cor. Ninguém tem um cabelo tão belo.

Antonietta ficou presa pela sinceridade de suas palavras. Procurou em seu criado mudo, os óculos escuros, sentindo-se mais nua sem aquela máscara para seus olhos, que com a camisola de renda que apenas a cobria. Byron não a ajudou, como normalmente faria. Sempre era o cavalheiro perfeito, abria-lhe a porta e aproximava as coisas disimuladamente, sem dizer uma palavra.

—Como estava meu avô? —Deveria ter perguntando em seguida, em vez de reagir a sua presença como uma colegial. Queria deixar de ser o centro da atenção, que sua reação passasse despercebida. – Ficou muito tempo com ele?

— Dom Giovanni está bem. Extraí-lhe o veneno do corpo e agora dorme tranqüilo. Também examinei os outros membros da família.

Depois dos óculos escuros, Antonietta fechou os olhos, sentindo-se mais ridícula que nunca. Era capaz de entrar num palco, sentir-se proprietária da cena, mas em sua própria casa, com este homem, sentia-se como uma tola. Ele exercia um efeito estranho nela. Não queria pensar que ele estivera em um quarto, a sós com sua prima Tasha. Tentou conservar um aspecto tranqüilo.

—Envenenaram algum deles? —Tentava não pensar em Byron inclinando-se sobre Tasha em seu leito, porque recordava a eloqüência com que os homens falavam do corpo perfeito de sua prima.

— Por estranho que pareça, sim. Há rastro do mesmo veneno no organismo de Paul. Pequenas quantidades. Também o drogaram, como Dom Giovanni e conforme suspeito, como a você. Isso não implica que seja um inocente. Na realidade, parece curioso que o tenham drogado, mas não o tenham levado até o penhasco.

Byron havia se aproximado. Ela não suportava ficar na cama, sentada ali, impotente enquanto ele se passeava como um tigre por seu quarto. Afastou os cobertores, com a intenção de sentar-se, mas com o silêncio surpreendente de um felino à espreita, ele já estava junto a sua cama. Sentiu a presença de seu corpo e o calor que despredia. Com a mão, roçou sem querer, sua coxa. Todo o seu corpo reagiu. O calor se alastraou e se converteu em uma sensação agradável. Aquela era possivelmente a pior noite de sua vida. Ao menos, a mais vergonhosa.

Antonietta engoliu com dificuldade.

—Drogaram e envenenou Paul? Está seguro? — Antonietta se inquietou ao perceber o grunhido leve em sua voz, quando ele pronunciou o nome de Paul. Ocultava uma ameaça e ela sentiu medo.

—Sim, envenenaram-no. Quero examinar você e não só pelo rastro de soníferos, mas também de veneno. Acredito que terá que aceitar que se trata de um ataque pessoal contra você e seu avô e, possivelmente, contra Paul, embora não imagino por que a ele não tentaram lançá-lo no mar. Suponho que teria representado uma ameaça mais contundente que você. Também procurei no palácio. Alguém esteve mexendo nas gavetas de seu escritório e deixou tudo remexido. Mas suspeito que fizeram isto, para que a polícia não descubra que o que aconteceu realmente esta noite possa qualificar-se de atentado contra suas vidas.

—Ainda estava acorde, lembro-me que tinha sono, embora estou acostumada a me deitar de madrugada. —Antonietta não pôde evitar o ligeiro rubor que espalhou por seu rosto. Byron tomaria conhecimento de seus horários de sono, melhor que qualquer outra pessoa. Possivelmente entraram pensando que estaríamos adormecidos, mas o Nonno e eu ainda estávamos acordados. Possivelmente tentaram nos matar porque mostrou medo.

—Isso não é o que realmente crê. Quando conheci Dom Giovanni, seu carro saiu da estrada numa curva do penhasco e quase caía para as rochas. Consegui tirá-lo segundos antes que o carro se arrebentasse lá embaixo. Ele teve sorte que eu estava passando por ali.

—Falharam os freios. São coisas que acontecem, Byron. — Mas agora, ela começava a pensar que ele possivelmente tinha razão. - Por alguém iria querer matar o Nonno? Todo mundo gosta dele!

—Pelo dinheiro. Segundo minha experiência com os humanos, quase sempre o motivo é o dinheiro. E você e seu avô têm muito mais dinheiro que a maioria das pessoas.

“Minha experiência com os humanos”. Tinha chegado a conhecer Byron em todos seus misteriosos aspectos? Agora ele utilizara essa expressão, deliberadamente. Como tinha aproximado dela, deliberadamente. E como se referiu ao resgate impossível de seu avô. Lembrava-se bem da história. Dom Giovanni contava a quem queria ouvir, o relato absurdo e totalmente incrível de seu resgate do veículo, enquanto se despencava do alto do penhasco. A porta fôra arrancada pelas dobradiças no ar e ele sustraído e transportado até o penhasco, por Byron, seu flamejante amigo. Byron se limitava a sorrir quando ouvia a história, sem confirmar nem negar o impossível. Quanto a ela, tinha chegado a acreditar.

Esta noite, ele a transportara pelo vento e as nuvens. Havia sentido o ar na face seus pés não haviam tocado o chão. Por mais ridículo ou impossível que parecesse, estava segura de que ele a carregara voando pelo céu. Se ele fosse capaz de fazer isso, podia tirar seu avô de um carro que despencava no vazio. Um conto de fadas. Mas ela vivia num conto de fadas e sabia que tudo era possível.

Antonietta esfregou a têmpora, esforçando-se em ordenar seus pensamentos e concentrar-se na ameaça contra sua vida e a de seu avô.

— Você insinua que alguém de minha própria família, um de meus seres queridos, tentou matar meu Nonno? O que tentaria me matar também? Matar até mesmo Paul?

Byron lhe acariciou a fronte com a ponta dos dedos, arrumou-lhe o cabelo atrás das orelhas e tirou os óculos escuros. Encostou os dedos em suas têmporas e até que cessaram os batimentos do coração.

— Acredito que ao menos deveria pensar nessa possibilidade, Antonietta. A ninguém agrada suspeitar de seus entes queridos, quando se trata destas coisas, mas a avareza e o ciúme são pecados que arrastaram muitas pessoas ao assassinato. —Deslizou a mão até apoiá-la em seu ombro, com suavidade, mas pressionando-a contra os lençóis. - Seu avô é dono de uma empresa de muito êxito. Você herdou as ações de seu pai, todas suas propriedades e de fato, possui mais ações que qualquer outro membro da família. Não é nenhum segredo que seu avô depende de seus conselhos. Seu primo, Paul, não demonstrou interesse algum pela empresa. Franco, trabalha muito, mas cometeu um grave engano quando fez caso de sua mulher e envenenou sua cabeça com suas constantes recriminações. Seu avô nunca confiou nele desde que se soube que havia cobrado uma boa soma de dinheiro em troca de informação confidencial sobre os contratos. Isso, todo mundo sabe, minha cara, foi um escândalo de ressonância pública. Tasha não tem nenhum interesse na empresa, não vacilaria em vendê-la e seria capaz de gastar todo o dinheiro em um ano. Uma vez mais, não é nenhum segredo que seu avô tem a intenção de lhe deixar tudo. Se o fizer, teria mais ações da empresa que os outros, a menos que eles se unissem e somassem forças.

— Você está se esquecendo que sou cega? Seria muito difícil para mim, administrar a empresa com este defeito. Minha dependência de outras pessoas seria excessiva.

—E m seu caso não é uma desvantagem, Antonietta. Nas reuniões, poderá se sentar tranqüilamente, sem falar. Eles lhe tratam como se fosse surda além de cega, e isso te permite recolher informação. Utiliza-o como uma vantagem.

—Como sabe essas coisas? — Inquiriu ela e levou instintivamente a mão ao pescoço, possivelmente para ocultar as pulsações que a delatavam. Que mais sabia ele, a respeito dela? Havia muitos recursos que Antonietta utilizava no escritório de seu avô e quando se tratava de conseguir certos resultados, jogava mão de métodos que era preferível não saber nem comentar.

— E tem Justine Travis. Ela é seu olhar e seus ouvidos e ao que parece é completamente fiel.

—Justine é um tesouro. – Concordou Antonietta. - Tive que entrevistar a centenas que se apresentaram para o posto de assistente e estou muito satisfeita de ter esperado até encontrar a pessoa perfeita. —Inclinou a cabeça e franziu o cenho quando um frio repentino percorreu suas costas. O ar no quarto ficou imóvel. Era como se o palácio inteiro tivesse deixado de respirar. - O que quer dizer com, parece que fiel? Não tenho nenhuma dúvida. A Justine pago um salário excelente e, além disso, é minha amiga e confidente. Foi durante anos e confio nela.

— É verdade que é fiel? Ela tem você como confidente? Conta para você sua vida pessoal?

Antonietta ouvia o vento que aumentava e fazia vibrar a enorme janela de vicro.

—Justine é uma pessoa muito reservada, como eu. Não compartilhamos todos os detalhes.

— Sabia que ela tem uma relação com o Paul? — Byron formulou a pergunta pausadamente, atento à expressão de Antonietta, sabendo que a feria, mas também que não havia outro meio de lhe fazer entender que estava rodeada de pessoas que amava e que tinham razões para trai-la. Inclusive ele tinha planos ocultos, planos que ela não aprovaria, mas que, ele sabia, eram necessários.

Antonietta sentiu a pontada de dor no coração, mas manteve o queixo em alto. Sentia o peso de seu olhar, sabia que ele estaria registrando cada matiz de sua expressão. Não queria lhe dar a entender que havia ganhado um ponto. Seu sentido do olfato se afinou. Em mais de uma ocasião, teria jurado que Paul estava no quarto e se equivocava. Entendeu que seu aroma também devia estar em Justine.

— Minha assistente tem direito a ter as relações que deseje. E isso inclui Paul.

—Embora isso atente contra sua fidelidade?

—Confio em Justine. Está comigo há anos. E devo assinalar que te conheço há muito pouco tempo.

Ele voltou a sorrir, uma resposta inesperada. Ao parecer, sua reação não o ofendera, mas fizera ele achar graça.

—Acredito que tem um radar para saber quem são seus aliados e essa é uma das razões pela qual seu avô prefere que seja você quem participa nos grandes negócios.

—Se isso for o que pensa, Byron, então não faz falta que me conte coisas de minha família. —Apesar de sua intenção de manter um tom neutro, suas palavras soaram vagamente altivas, inclusive a seus próprios ouvidos.

—Sim, mas sua família é um assunto totalmente diferente. Nega-te a prestar atenção a seu sistema de alarme.

—Tenho um sistema de alarme?

—Claro que tem. Suspeito que também tem outros dons que lhe são vantajosos. — Com a mão apoiada no ombro dela, Byron a mantinha imobilizada e a impedia de se sentar, pois se preparava para examinar seu organismo, para ver se havia rastro de soníferos e constatar se, como seu avô, havia sido envenenada. Antonietta não protestou ao se ver deitada na cama, ante essa demonstração evidente de que Byron era capaz de hipnotizar a qualquer pessoa. Jamais tinha permitido que ninguém ditasse seus movimentos, mas agora, não conseguia pronunciar nenhuma só palavra de protesto. E como sabia ele dessas coisas?

—Quem é você, Byron?

Seguiu um breve silêncio. Foi como se o quarto se enchesse de uma fragrância de flores. Ela inalou a essência, guardou-a em seus pulmões. Havia várias velas acesas, soube por um leve aroma, que uma delas não era familiar.

—Neste preciso momento, cara, sou seu curandeiro.

Antonietta se deixou cair contra os travesseiros quando ele pediu. Não pôde evitar cobrir os olhos com uma mão.

— Por que faz isso? —perguntou Byron. Tirando a mão suavemente, ele acariciou a área em volta de seus olhos.

Por um momento, ela esteve segura de que ele percorria os rastros de suas cicatrizes. Não se atrevia a respirar. A terra deixou de girar, como quando ele a tinha beijado. Levantou uma mão para segurá-lo.

—Eu não gosto que olhem minhas cicatrizes.

—Cicatrizes? Refere a estas linhas pequenas e tão finas que precisaria de um microscópio para vê-las - Byron se aproximou ainda mais e se inclinou até que ela sentiu seu hálito quente no rosto. Ela sabia que ele escrutinava seus olhos, mas só atinava a pensar em sua boca, tão perto. - Eu tenho cicatrizes muito piores. Incomodam-lhe as imperfeições físicas?

Produziu-se um silêncio. Seus lábios, suaves como o veludo, tocaram-lhe os olhos, com uma ternura deliciosa. Ao cabo de um momento, sem poder pronunciar uma palavra, ela se esforçou para respirar.

—Não, certamente que não. Como poderia me incomodar uma imperfeição física, se posso ver, Byron? —Antonietta não queria que ele a visse como uma mulher superficial que se preocupava com as cicatrizes de outra pessoa. - Sei que meu rosto é um desastre, desde o acidente. – Ela encolheu os ombros, como se queria lhe subtrair importância. - Aconteceu faz muito tempo e aprendi a viver com isso.

Byron relaxou na cama junto a ela. Agora começava a entender.

—Alguém te disse que você tinha cicatrizes. - Não queria nem imaginar como seria difícil para uma pequena perder seus pais, ficar cega e ouvir alguém lhe dizer que tem terríveis cicatrizes.

—Eu quis saber. - Disse ela, para eximir de culpa, sua prima.

— Mentiram a você. Não tem que me dizer quem te contou essa mentira. Sei quem é. Tasha tem uma língua viperina quando acredita que outra mulher recebe mais atenção que ela. Entendo como você deve ter se sentido. É uma mulher bela, tem talento e não teme o trabalho. —Com a ponta do dedo, ele voltou a lhe tocar a pele. - Tem várias linhas brancas, mas muito finas ao longo da parte exterior de seu olho direito. Não se podem notar, a menos que as busque expressamente. Em volta de seu olho esquerdo, há várias linhas brancas muito pequenas, também pouco visíveis. Há uma cicatriz maior que vai da têmpora até perto do olho. Não é feia, mas é mais longa que as outras. - Byron conservava deliberadamente um tom clínico. Sentiu o repentino impulso de dirigir-se ao quarto de Tasha e lhe ensinar, para que soubesse de verdade, como uma cicatriz podia desfigurar. Seguiu com o dedo a linha mais longa, mostrando a Antonietta a suave curva. - Em alguns países, quando se fabrica um artefato para o lar é acrescentado um pequeno defeito, porque acreditam que se o objeto fabricado for muito perfeito, uma maldição cairá sobre o fabricante.

Antonietta sorriu.

—Dificilmente poderia se dizer que não tenho defeitos, Byron.

—Possivelmente outras pessoas não comportam sua opinião.

Ela não pensava falar disso.

—Que aspecto têm meus olhos? — Não sabia se acreditar ou não a respeito das cicatrizes. Byron possuia uma maneira de falar que fazia quase impossível suspeitar que mentisse, embora sua intenção fosse lhe levantar o ânimo. Tasha seria capazde manter viva uma mentira durante anos? Antonietta nunca havia perguntado a seu avô a respeito de sua face, depois de que Tasha gritara, alarmada, exclamando que as cicatrizes eram horríveis. - Disseram que o cirurgião plástico não conseguira reparar minha face. Um nó lhe apertava a garganta com a dolorosa lembrança daquela confissão.

— Seus olhos são grandes e muito negros. Seus sílios são incrivelmente longos. Eu acho-os lindos. - Byron observava os enormes olhos, tentando sem êxito, manter um aspecto clínico. - Tem as maçãs do rosto proeminentes e uma belíssima boca. Confesso que tive minha dose de fantasias com sua boca.

Antonietta sentiu que seu corpo inteiro ruborizava. E se excitou ao saber das fantasias com sua boca.

—Por que, de repente, conta-me todas estas coisas?

Ele encolheu os ombros, sem se importar que ela não pudesse vê-lo.

—Talvez porque esta noite você me assustaste. Talvez porque deveríamos ser honestos um com o outro e se poderia interpretar meu silêncio como uma forma de engano. Em qualquer caso, não posso estar com você durante o dia. Queria que pensasse seriamente em contratar a um guarda-costas.

Antonietta ficou rígida. A mão de Byron deslizou por sua sedosa cabeleira até seu ombro com uma suavidade deliciosa.

— Antes de protestar, ouça-me. É capaz de investigar e encontrar você mesma um guarda-costas. Se não quiser se incomodar, eu encontrarei. Tenho alguns contatos. Estou disposto a passar minhas noites aqui com você, te cuidando, mas não posso estar sempre presente. Se aceitar, ajudará muito a aliviar minhas preocupações.

Antonietta sabia instintivamente que não lhe contava tudo. Em sua voz havia uma nota de alarme, algo que não podia definir com certeza. Ela era uma Scarletti, e os Scarletti tinham uma maneira de ver as coisas que outros desconheciam. Byron estava lhe dando um ultimato. Não era algo que lhe agradava fazer, mas estava decidido a seguir um caminho que ela não via, em toda sua profundeza. Um caminho com o qual não estaria de acordo, disso estava segura.

Ficou em silêncio, e sentiu o peso de seu corpo quando ele se estendeu sobre ela. Também sentiu seu calor.

—Não é de tudo, um humano. — Antonietta pronunciou as palavras antes que pudesse censurá-las. Antes que pudesse deter-se. Um desafio. Uma exigência. Um engano.

O silêncio se prolongou. Cresceu. Ela sabia que era deliberado. Uma recriminação por sua audácia. A seu poeta escuro, não gostava de perguntas. Fora, o vento soprou contra as vidraças. Sussurrou, agourento. Antonietta, sempre sensível às vibrações, sentiu que um calafrio lhe percorria as costas. Crispou os dedos sob as mantas, mas conservou uma expressão serena. Não havia nada que a comovesse. Não se intimidava ante a autoridade nem ante as ameaças. Ela era sua própria lei. Ele podia lançar tudo os olhares de desaprovação que quisesse.

—É uma Scarletti. Pergunto-me se é de todo, humana. Que é você? —Byron deslizou as mãos até seu pescoço e acariciou a pulsação, rapidamente.

Seu contato a hipnotizou. Deslumbrou-a, desequilibrou-a quando o que mais precisava era manter os sentidos alertas.

—Bem... É a história que todos contamos a nossos filhos. - Respondeu, querendo lhe dar certa leveza à conversa. Desejava acreditar que o vento que uivava e vibrava com tanta persistência contra suas janelas era a causa de seu calafrio. - Pode ser que te interesse ouvir essa versão. Há alguns relevos nos túneis secretos e escuras referências nos jornais. São suficientes para pensar que há algo de verdade no absurdo relato. —Sua intenção era distraí-lo, conseguir que ficasse com ela só um pouco mais. Mas começava a revelar coisas que talvez não devesse.

— Me conte esse conto.

—Deixe-me sentar? — Que ele aceitasse como uma história divertida, antes de dormir.

Byron continuava com a mão em seu pescoço, os longos dedos abertos, apoiando a mãos na protuberância suave de seus seios, apenas cobertos pela camisola de renda. Ela sentia o calor de sua mão, a cada movimento de sua respiração. Estava se tornando difícil respirar, quase impossível.

—Não, vou beijar você.

Ele pronunciou as palavras junto ao canto de seus lábios. Ela sentiu a suavidade, a antecipação, os músculos esticando-se e uma sensação estranha roçando seu ventre. Estava com a respiração presa no peito. Ficaria esperando como uma Sabina cativa, esperando seus lábios? Esperar que ele tomasse posse de seu coração e de sua alma? Instintivamente, com as duas mãos tentou rechaçar o contato com seu peito. Tocou-o com as palmas das mãos e sentiu a dureza de seus músculos e o calor.

Não havia maneira de rechaçá-lo. De repente, suas forças a abandonaram e sentiu que se derretia num desejo tão intenso que a fez sacudir-se. Desejava-o com cada grama de suas forças, as vontades dele apareciam de um nada e a consumiam, arrebatavam-lhe até a última gota de sensatez e só a deixavam com uma urgente necessidade. Atinou em pronunciar um gemido de protesto. Ou uma prece para receber seu escuro abraço. Sabia que tinha nascido para ele, para que ele a estreitasse em seus braços. Byron estava proibido para ela, pela natureza de sua condição, pelo que ela era. Também por quem e o que era ele. Mas isso não importava. Nesse instante, na escuridão de seu quarto, com o vento levando seu protesto, Antonietta simplesmente se entregou a seus cuidados. E tomou o que estava desejando.

Com os lábios procurou seu pescoço. Provou o sabor de sua pele. Respirou sua essência. Com a leveza de uma pluma, deslizou até seu pescoço e sua garganta. Com um gesto de ousadia, mordiscou-lhe o queixo. Sentiu a reação de seu corpo que endurecia e aumentava contra ela, os dois presos um só abraço.

As mãos de Byron se fecharam em torno dela, enredou-as em seu cabelo e aproximou sua cabeça da dele.

—Está segura de que é isto o que quer? — Ele pedia que o respondesse com a verdade. Exigia a verdade. - Não há maneira de voltar atrás, Antonietta. Não renunciarei a você. Nego-me a voltar a assumir o papel de amigo de seu avô e ter com você nada mais que conversas educadas.

—Quero que me beije, Byron. – Ela disse, mais segura do que jamais havia estado em sua vida. - Sonhei com seus beijos.

A boca de Byron era quente, dura e possessiva. Era tudo o que ela sempre sonhara. O calor perfeito que ardia nele, que ardia nela. Byron a devorava, beijando-a como se nunca pudesse se saciar. Ela podia se perder nessa paixão ardente. Sabia que podia. Simplesmente se inflamar e elevar-se com o vento, como as nuvens e o céu noturno, onde voaria livre das intrigas e os dramas de cada dia.

—Byron. — Sussurrou seu nome, no calor aveludado de sua boca, com as mãos na longa e abundante cabeleira de Byron, enredando-se nela, mostrando-se tão possessiva como ele.

Ele fechou a mão sobre seu seio e ela deixou que as chamas se propagassem por seu corpo. Sua boca abandonou a de Antonietta e deixou um rastro de beijos até seu pescoço. Sentiu-lhe sua pulsação pulso com a língua, enquanto acariciava seu seio sobre a fina renda e seu mamilo endurecido.

Antonietta se afogava no prazer e na excitação. Quanto tempo sonhara com ele? Do primeiro momento que ouviu sua voz, sabia que seria um amante perfeito. Um amante por instinto.

A boca de Byron seguiu explorando e sua língua substituiu o polegar, atrasando-se no mamilo e ela reagiu segurando em seu cabelo com força. Sua boca era quente e selvagem e bebia intensamente, sua necessidade. Antonietta ouviu seu próprio gemido, um suave sussurro de desejo, que nasceu de seus seios ardentes e penetrou seu interior, lhe espessando o sangue. O apetite e a necessidade eram intensos e terríveis, tão intensos que chegou a se assustar. Jamais se sentira tão ardente, jamais seu corpo tão dono de sua mente. Não podia deixar de se entregar mais profundamente a sua boca, nem impedir que escapassem de sua garganta, os breves e urgentes gemidos.

Byron afastou a boca de seus seios e ela deixou escapar um gemido de desolação. Ele a abraçou com força e a atraiu para si. O coração pulsava com força, desbocado, ela seguiu o ritmo, com seus próprios batimentos. Soltou um gemido de desejo quando, com os dentes, ele começou a acariciar a pulsação de seu pescoço. O desejo explodia em seu sangue com o mais leve toque dos dentes dele. Jamais tinha imaginado pudesse ser tão excitante.

Ele sussurrava. Ela não captava as palavras, mas as intuía. Inquieta e nervosa, ardia de vontade de encontrar satisfação. De possuí-lo. Virou-se em seus braços, incapaz de se manter quieta, enquanto inflamava cada centímetro de sua pele. Mas ele não tinha pressa e continuou explorando-a com os lábios, até chegar à seus seios. Antonietta voltou a sentir seus dentes e a sensção foi enorme, tomando toda sua mente. Um desejo quente e líquido fremia de seu sexo. Seus músculos se contraíram e nesse momento, um relâmpago incandescente estalou em seu interior, numa dor fulgurante, que precedeu o mais absoluto prazer. Com um gesto instintivo, Antonietta segurou a cabeça dele, para atraí-lo, como se ele a pertencesse. Como se fossem duas metades do mesmo ser, agora unidas, fundidas pele com pele, sangre com sangue. Ouviu sua voz, apenas um sussurro, palavras doces pronunciadas num dialeto que ela não conhecia, apesar de sua familiaridade com várias línguas. Mas, as palavras não importavam, só o som de sua voz que invadia sua guarda e marcava a fogo, seu nome no coração. Na alma.

Ela não desejava seu nome marcado no coração. Desejava um amante sem amarras. O terrível encantamento que ele tinha arrojado começava a envolver em algo impossível para ela. Quis resistir e lutar quis voltar a respirar, a encontrar uma maneira de que seu cérebro embotado voltasse a se ativar.

Byron fechou com a língua, os diminutos rastros esussurrou, ordenou-lhe que deixasse sua resistência e se afundasse ainda mais em seu encantamento. Ela deixou sua cabeça penderpara trás contra seu homem e ele não pôde resistir à tentação de seu pescoço. O sabor era o que ele esperava. Uma mulher valente e doce. Uma mistura conflitiva de confiança em si mesma e dúvida dele. A contradição entre a inocência e a experiência.

Ele virou-a em seus braços, com o corpo endurecido até a dor, sabendo o que estava a ponto de fazer. Abriu a camisa, olhou para uma das mãos até que uma de suas unhas se alongou, cortante como uma navalha. Com um certeiro movimento, abriu um corte no peito e a fez beber dele, apertando a boca contra sua pele, sussurrando uma segunda ordem.

Ao primeiro contato dos lábios de Antonietta, ele jogou a cabeça para trás, preso no êxtase, sacudido pela reação ante seu contato, ante a visão de seu rosto, sublime naquela penumbra. Ante a cabeleira abundante que brilhava como uma nuvem escura. Byron aprendera a ser paciente ao longo dos últimos anos, uma virtude que tinha cultivado com firmeza e que agora entesourava. Antonietta o despojara de sua autodisciplina. Ele a desejava, pior ainda, precisava dela. A averiguou tudo o que queria sobre ela e sabia que Antonietta nunca parava para pensar numa relação permanente. Não se importaria em tê-lo como amante, mas não estava acostumada a pensar em matrimônio e nem em vínculos eternos.

Seu primeiro pensamento foi simplesmente tomá-la, mas descartou esse impulso imediatamente, negou-se a atuar como um egoísta, a cometer um engano que pudesse lhe causar mal. Havia decidido cortejá-la até o momento em que a vira lutando por sua própria vida, no penhasco. O mais importante era sua segurança e ele pertencia a terra, seria impossível protegê-la durante as horas do dia. De modo que se via obrigado a prenê-los um ao outro, antes que ela estivesse disposta a aceitar sua condição.

Sua mente o sacudiu com o esforço, para não pronunciar as palavras rituais que os uniria para toda a vida. Ela tinha que permanecer na superfície e ele teria que voltar para subsolo enquanto o sol estivesse no céu. Tremendo de necessidade, Byron deteve o intercâmbio no momento preciso em que se consumava entre eles, o verdadeiro vínculo.

Era relativamente fácil seguir e ler os pensamentos da maioria dos seres humanos, mas com a Antonietta e muitos membros de sua família, era mais difícil. Não era só a família Scarletti, mas também várias pessoas na cidade e alguns criados do palácio. Os padrões de seu cérebro não eram normais. Se ele superasse as barreiras, eles se inteirariam de sua presença, saberiam que ele poeria ler seus pensamentos e arrebatar suas lembranças. Ele tinha que entender seus curiosos padrões cerebrais antes de tentar alguma coisa que depois, possivelmente lamentaria. Ignorava de tudo, o que outras diferenças caracterizavam as pessoas da região. Com o vínculo de sangue que tinha criado com Antonietta, poderia encontrá-la facilmente em qualquer parte e se comunicar mentalmente com ela, quando quisesse. Não havia maneira dela pudesse escapar e seria mais fácil protegê-la, se fosse necessário. Era a única verdadeira solução e o único jeito seguro que podia pensar para garantir seu amparo.

—Acorde, Antonietta. - Ordenou com voz suave.

Ela o olhou pestanejando com seus enormes olhos escuros, quase como se não pudesse enfocá-los bem. Com os dedos encontrou seus lábios sem vacilar.

—Jamais ninguém me beijou assim. Acredito que se tivéssemos continuado, teria me inflamado.

—Isso não pode ser. A noite quase acabou e ainda tenho que te examinar e ver se existe rastro do veneno. Quando fizer o amor com você, Antonietta, desejo ter tempo para fazer como se deve.

Ela franziu o cenho.

—Disse quando fizer amor? Não diz se?

—Não acredito que haja dúvidas de que nós dois queremos a mesma coisa. —Ele devolveu-a brandamente à cama, sem deixar de acariciar seus seios. - Descansa tranqüila e deixe-me assegurar de que não há veneno em seu organismo nem rastros do sonífero.

Antonietta desejava vê-lo. Tinha a impressão de uma grande força, de um homem alto e de ombros longos. Tasha havia lhe dito que Byron era atraente e tinha o cabelo comprido. Sua prima havia mencionado especialmente seu torso e seu apertado traseiro. Curiosamente, ela o sentia de outra forma. Seu ouvido, sempre tão agudo, parecia ainda mais. Estava ainda mais alerta à presença de Byron, a cada um de seus movimentos, sabendo o lugar exato que ocupava no quarto.

—Durma, Antonietta. Amanhã sua família estará aqui para te pedir o de sempre e você deverá estar recuperada.

Ela deixou cair lentamente às pálpebras, quase como se ele tivesse ordenado. Sentiu que recuperava a energia, intuiu o calor e a força e soube em que momento ele havia penetrado em seu organismo, para descobrir se a tinham envenenado como seu avô.

—Byron. —Murmurou seu nome porque deslizava para o sono, apesar de querer permanecer junto a ele, não queria deixá-lo ir embora, naquela noite mágica.

—Não se preocupe, cara, ninguém terá a ocasião de te fazer mal. Nem a você nem a seu avô. Durma e descansa tranqüila.

Um pequeno sorriso apareceu no canto dos lábios.

— Não pensava que nenhum dos dois pudesse correr perigo. Eu pensava em você. – Logo, ela sucumbiu à chamada do sono, com seu nome nos lábios e seu sabor na boca.

 

—Antonietta, acorde! Se não acordar, chamarei o medico! —Tasha Scarletti-Fontaine não parava de sacudir sua prima. - Não estou de brincadeira, desperte agora mesmo! - Em sua voz aparecia o pânico.

Antonietta se moveu entre os lençóis e abriu os olhos. - O que está acontecendo, Tasha? – Ela estava com a voz pastosa e voltou a fechar as pálpebras e a cobrir seus olhos invidentes. Apoiou a cabeça nos travesseiros e se protegeu sob a roupa de cama. Estava muito cansada para se levantar. Tudo em seu corpo e mente pedia continuar dormindo pelo menos algumas horas mais. Era impossível que já tivesse anoitecido…

—Não, isso não! Antonietta Nicoletta Scarletti, acorde neste mesmo instante!

Notando que sua prima estava totalmente decidida, Antonietta fez um esforço supremo para sacudir a vontade de continuar dormindo.

— Por todos os céus, Tasha! Aconteceu alguma catástrofe da qual não tenham me informado? — Antonietta esfregou os olhos e se obrigou a se sentar, enquanto tentava desesperadamente entender de onde lhe vinha à idéia absurda de esperar que chegasse o crepúsculo. – Posso saber o que está acontecendo? —Ela ainda estava um pouco desorientada e adormecida, como se um véu lhe cobrisse o pensamento e não pudesse se lembrar de coisas importantes. Queria dormir para sempre.

Levou as mãos às orelhas. Seu ouvido estava tão agudo, que conseguia perceber o batimento regular do coração de Tasha. Como um tambor. Aquilo ameaçava enlouquece-la. A respiração de Tasha soava como uma rajada de vento. Fora, o mar trovejava e a chuva continuava caindo. Antonietta levou o travesseiro aos ouvidos, para abrandar os ruídos, antes de notar que os murmúrios que percebia eram, na realidade, conversas em alguma parte do palácio.

— Que está acontecendo? —Tasha estava indignada. - Te farei saber que já são quase quatro horas da tarde e ninguém pôde despertar. Nonno nos contou do roubo e disse que drogaram voces dois. Diz que os agressores o lançaram do penhasco. Que tolice mais absurda pensar que Byron Justicano lhe salvou a vida, tirando-o do fundo do mar. Ninguém poderia fazer algo assim. Acredito que Nonno esta se tornando senil. Enfim, a polícia espera sua versão dos fatos. E você, aqui dormindo todo o dia, como se não tivesse acontecido nada! E, se por acaso for pouco para você, Enrico desapareceu. O cozinheiro foi embora sem dizer uma palavra. E não temos nada para comer. A governanta está histérica.

Antonietta não imaginava à governanta, senhora Helena Vantizian, histérica. Helena era uma mulher de hábitos regulares, uma senhora paciente e bem preparada, perfeitamente capaz de comandar o palácio.

—Por que terá desaparecido Enrico? —Antonietta afastou o travesseiro de seus ouvidos, tentando baixar o volume dos ruídos, no ambiente. Só faltava que assobiassem em seus tímpanos.

— E eu o que sei o que pensa esse senhor ridículo? É tão característico em você escolher o tema menos interessante e menos importante de todos. Vieram as autoridades. Não me ouviu? Estiveram esperando todo o dia.

Antonietta teve um desejo irrefreável de rir, mas não estava do todo segura que o impulso nascesse da alegria. Era divertido que para Tasha fosse completamente normal dormir todos os dias, até meio-dia ou possivelmente a irritasse, o curioso fenômeno que afligia seu ouvido. Seguiu por um instante o ruído dos passos de um inseto que corria pelo chão. Fez um esforço para se concentrar na aflição de sua prima.

—Estão esperando? — Voltava paulatinamente para recompor o quadro desordenado de coisas que se amontoavam em sua mente. Não eram os detalhes de uma tentativa de assassinato, mas o prazer puro e sensual. Era Byron

—Nonno lhes disse que fossem embora. Disse que você tinha que descansar depois do que viveu ontem à noite. Às vezes, ele tem atitudes bruscas. Espero que fale com ele.

Antonietta reconheceu o toque de arrogância que aparecia na voz de Tasha.

—Já sabe perfeitamente que Nonno é perspicaz como poucos. — Mesmo assim, chegava a ser brusco quando acreditava que alguém se comportava como um idiota. Freqüentemente, ele era brusco com Tasha. - Por um momento pensei que estava preocupada comigo.

—Também pensei, mas eu não gosto de me preocupar, Antonietta e nem tenho vontade de que saiam horríveis rugas de preocupação, que tem pessoas sérias como você. E como se explica que sempre são voces que têm aventuras? Por que não tratam de matar a mim? — Sua voz tomou um tom agudo, uma espécie de lamento que obrigou Antonietta a tampar os ouvidos. - Não serve de nada falar com você sobre isto. Você é tão você. Olhe-se, está aí sentada com toda a calma do mundo. Eu seria uma vítima perfeita, estaria pálida e agitada e teria um ar interessante. Mas, olhando-a, diria que não te aconteceu nada de extraordinário.

- Acredite-me, Tasha. Não foi uma experiência particularmente divertida. Não precisa que alguém tente te matar, para que pareça uma mulher interessante. Você sempre consegue ser e sem problemas. Não tem por que ficar pálida e agitada. É uma mulher admirável.

Tasha rechaçou as palavras, evidentes para ela, com um gesto.

—Já sei... Já sei. – Suspirou. - A beleza nem sempre basta para atrair a atenção, Antonietta. A alguns homens só interessam as coisas absurdas, como os assassinatos. O que supõe que devo fazer? Contratar a alguém que me assassine só para chamar a atenção? — Ela começou a passear de um lado a outro do quarto, com passos rápidos e nervosos. - É ridículo pensar nesse homem que passa horas com você. E você, que nem sequer pode vê-lo! É simplesmente inconcebível.

—Byron? —Antonietta estava com dificuldade de seguir o diálogo de sua prima e ao mesmo tempo, controlar o volume de seu ouvido. O som dos saltos dos sapatos de Tasha reverberava em sua cabeça.

—Oh! Que homem odioso! Sabe que não suporto estar no mesmo quarto com ele. É rude e repugnante e o odeio. — Tasha olhava sua imagem refletida no espelho sobre a penteadeira. - Como é que tem um espelho aqui? Nunca entendi. —Ela ficou de lado olhou o ventre liso.

—Veio com os móveis. - Explicou Antonietta. - De que homem você fala? Não acostumo passar horas com nenhum homem. — Ela virou a cabeça para ocultar de sua prima, o rubor que de repente tingiu sua face. Não podia pensar muito nos momentos passados junto a Byron. Não nas reações que tinha tido com ele.

—O policial, Antonietta. - Disse Tasha, impaciente. - Pelo amor de Deus, se levante. Isto é importante.

—Tudo isto por um policial? — Perguntou Antonietta e suspirou com alívio e exasperação. - Natasha, você está comprometida e vai se casar. Tem um noivo. Um noivo muito rico, devo dizer.

— E o que tem a ver isso? Casarei-me com Christopher, mas ele é um aborrecido. E, além disso, é um ciumento. Isso acaba cansando. Sua vida não vai além da família, igreja e os negócios. Só sabe pensar nos navios e em religião.

—Sua família é proprietária da segunda companhia naval maior do mundo, Tasha — Observou Antonietta. - E na Itália, as famílias quase sempre estão muito unidas.

—Filhos de mamãe. - Disse Tasha, com uma careta de desprezo. - No caso de Christopher, de papai. Insistem em que tenho que acompanhá-lo à igreja.

— Você sabia que o noivado para ele significava que convertesse a sua religião.

—Mas não sabia que tinha que levar tão a sério. E ele vai e traz esse sacerdote espantoso todas as semanas, que acha que eu tenho que estudar. Bastaria ir e me sentar com ele durante a missa. Não tenho por que me aprender toda essa parafernália. Duvido que alguém tenha aprendido alguma vez. Em qualquer caso, por que não pode ser católico, como todos os outros? A quem importa qual é a verdadeira religião e quem rompeu com o que? É tudo um absurdo.

Antonietta voltou a suspirar.

—Não pode ter uma aventura com um policial se está comprometida com um dos homens mais poderosos do mundo. A imprensa acabaria por saber.

— Quem disse que é uma aventura? Ficaria com ele, é claro que sim. Ele tem o torso mais maravilhoso que possa imaginar. Nem sequer Byron tem um torso como o seu. Enfim, não tão perfeito. — Ela corrigiu-se, com um ruído desagradável.

Antonietta fingiu que não havia entendido.

—Não conheci o polícial, Tasha. Como poderia te dar uma opinião?

—Sabe perfeitamente bem que refiro a Byron!

— Por que você não gosta dele? — Perguntou Antonietta.

— Ele não me dirige o olhar. Nunca. Simplesmente, não é normal — asseverou Tasha. - Todos os homens me olham. E ele tem medo. Não há outra palavra para descrever. Tem os olhos planos e frios e olha às pessoas como se as penetrasse. Nunca sorri. —Tasha estremeceu. – Me lembra um tigre que vi uma vez no zoológico, passeando de um lado ao outro de sua jaula e me olhando sem pestanejar.

—Eu o vi sorrir.

— Ele mostra os dentes, o que não é a mesma coisa. - De repente deixou escapar uma exclamação afogada. - Antonietta! O que tem no pescoço? É uma mordida amorosa!

Antonietta sentiu a repentina queimação, uma pulsação tão forte no pescoço, que lhe provocou uma reação física imediata. Um fogo ardia em seu corpo e sentiu uma palpitação similar no baixo ventre. Por um momento, foi como se tivesse seu sabor na boca. Selvagem. Indomável. Um sonho escuro e erótico que seria preferível deixar para a noite, mas que persistia nas horas do dia. O batimento de seu coração se expandiu. Tentou não se ruborizar, lembrando a boca de Byron, quente, úmida e selvagem sobre sua pele. Levou uma das mãos ao pescoço, capturando seu beijo, conservando-o como uma leve carícia.

—É uma mordida amorosa! Ele esteve aqui com você, ontem à noite! - Era uma acusação em toda a regra, como se ela julgasse Antonietta por um delito. - Colocaste Byron Justicano em sua cama! —Tasha estava à beira da histeria. – Só com essa renda a te cobrir! Não tem nenhum pingo de decência?

—Tasha. —Antonietta se obrigou a conservar a calma quando, em realidade, desejava tirar sua prima do quarto quanto antes. - Você me comprou esta camisola. Coloco-a para dormir porque é cômoda e sempre pensei que você é um exemplo insuperável do bom gosto.

—Pois sim. É verdade. —Tasha parecia um pouco apaziguada. - Mas não tinha a intenção de que a colocasse para esse espanto de homem. Não é mais que um caçador de fortunas, a única coisa que ele persegue é seu dinheiro. Tanto tempo fingindo ser amigo do Nonno, quando sua verdadeira intenção era seduzir a uma mulher cega.

—Sempre tem que ser tão dramática, Tasha? Tenho trinta e sete anos. Alguma vez se perguntaste se já me deitei com um homem? Possivelmente se surpreenda saber, mas não é preciso enxergar para ter relações sexuais com alguém. —Antonietta colocou o roupão e seus óculos escuros. E eu não gosto que me diga que tenho cicatrizes horríveis. —Passou junto a sua prima, a caminho do banheiro. Deitar-se com ele, isso é o que deveria ter feito. Tinha sido uma idiota consumada por não se deitar com ele. Tudo era impreciso. Queria que Byron fizesse amor com ela, mas... Será que adormecera? A idéia era humilhante.

Tasha a seguiu.

—Isso faz anos, Toni. As cicatrizes eram piores, então. E você recebia a atenção de todo mundo. Pobre orfãzinha. Era como um filme. Imagina o que eu poderia ter feito com esse papel?

—Não era um papel, Tasha. —A exasperação era forte na voz de Antonietta apesar de seu esforço por mostrar-se paciente. - Perdi a minha mãe e meu pai. Foi horrível, uma tragédia.

—Já sei. Eu nasci para a tragédia.

—Você sofreu uma tragédia.

—Nada que valha a pena mencionar. - Objetou Tasha, com um gesto de indignação. - Ninguém tornou a pensar em suas cicatrizes.

— Eu pensava nelas cada vez que entrava num palco.

Tasha contemplava uma unha perfeitamente cuidada.

—Se não fosse tão vaidosa, sempre pensando em seu aspecto, sequer teria te acordado.

Antonietta teve que morder a língua para não assinalar que Tasha passava a metade do dia em frente ao espelho.

— Deveria ter dito que não eram graves. Que você não seja o centro das atenções a cada minuto de sua vida não é razão para me fazer mal.

—Ai! Pelos céus, Toni. Você já sabe o que sinto e isso faz anos. E sabe que custa para mim, superar esta necessidade de que me prodigalizem afeto constantemente. Meu psiquiatra me disse que é culpa de papai. Diz que Paul era o centro de toda a atenção.

— Ele não parava de te dar presentes. - Replicou Antonietta. - Foi sua pequena princesa. Dava a você, tudo o que pedia.

Tasha se afundou em uma poltrona, com grossas almofadas.

—Os presentes nunca podem substituir o afeto dos pais e você sabe perfeitamente que o mundo de papai eram os campos de pólo. Eu não suportava sujar os sapatos e ele nunca me perdoou por isso. E levava Paul a toda parte. —Tasha sempre se entregava a esses alardes de sofrimento com Antonietta, mas desta, ela não sentiu vontade de abandonar-se a eles.

—Não se pode dizer que não saiba reescrever o passado. O pobre Paul não sabia fazer nada bem. Passou anos tentando agradar o pai. —A verdadeira afeição do pai da Tasha e Paul eram as mulheres, não os campos de pólo, mas Antonietta se absteve de corrigir a versão que Tasha tinha do passado.

—E então Paul se deu por vencido e começou a jogar e a beber e a fazer todo o possível para desprestigiar o nome de nossa família. Ele gastou até o último centavo do que tinha herdado, primeiro de mamãe, depois de papai. E logo perdeu todo meu dinheiro. Papai tinha toda razão quando dizia que tinha um caráter fraco.

—Você mesma gastou a maior parte de seu dinheiro e logo insistiu naquele investimento. Eu te adverti que aquilo não oferecia garantias. Você sabia que investir equivalia a perder dinheiro, mas fez de todas maneiras.

Tasha se levantou, de um salto.

—Oooh! E você sabe do que sinto eu? Tudo o que tocas se converte em ouro. Não tem por que se vender a um homem.

—Você e Paul têm o suficiente para viver e sempre terá sua casa aqui, Tasha. Tampouco tem por que se vender. Adverti que não investisse seu dinheiro. Segundo me lembro, disse-lhe com toda claridade, mas você não queria ouvir. — Para impedir que a discussão continuasse, Antonietta fechou firmemente a porta do banheiro. Demorou tempo sob ducha, com a esperança de que Tasha desaparecesse antes que saísse para se vestir, embora sabia que era improvável. Sua prima se tornava tenaz quando havia um homem no meio, e pelo visto, a polícia tinha cometido o grande engano de enviar um detetive muito atraente. Não podia imaginar aonde teria ido o cozinheiro do palácio, mas estremeceu com um calafrio que lhe percorreu as costas, apesar da ducha quente. Byron estava seguro de que alguém colocava veneno na comida. Seria possível que houvesse uma relação entre isso e o desaparecimento de Enrico?

Antonietta apoiou por um momento a cabeça contra o azulejo da parede, deixando que a água escorresse por todo o corpo. Não entendia Byron, mas ele não teria assassinado Enrico. Não deixaria que Tasha, com todos seus dramas infundisse suspeitas nela. Suspirou enquanto fechava a água quente e se secou. Com a toalha, deteve-se num ponto de seu seio, que guardava o calor e palpitava reclamando atenção. Vestiu-se com cuidado e prendeu o cabelo. Para dar mais confiança em si mesma.

Tasha seguia no quarto. Antonietta cheirou seu perfume distinto e captou o roçar nervoso de sua roupa ao andar. Tasha não era uma pessoa paciente nem tranqüila e a espera teria sido difícil. Antonietta sorriu.

—Ainda está aqui? Deve ser por um motivo importante.

—Por fim! Poderia te se apressado, Toni. —Tasha a segurou pelo braço. - Sim, trata-se de algo importante, não tem idéia do quanto é importante. Tem que falar com o Nonno. E tem que me deixar entrar no quarto quando a polícia voltar para te interrogar.

— Falarei com ele. – Respondeu, Antonietta.

Fez-se um breve silêncio enquanto Tasha procurava as palavras adequadas.

—Não se irrite comigo. Sabe que sempre cuido de você. Não é uma pessoa tão mundana como eu embora, mais velha.

—Tasha, você se esquece que fazenos aniversário no mesmo dia?

Tasha deixou escapar um assobio para se livrar da ofensa.

— Não conhecia esta atitude em você, Toni. Está vendo? Esse homem já está colocando barreiras entre você e sua família!

—Não penso continuar conversando com você, Tasha. Eu não me meto em seus assuntos pessoais, por mais estranhos que me pareçam. A única coisa que te peço é que tenha o mesmo respeito comigo. O que eu faço é assunto meu, de ninguém mais. Não se atreva a voltar a mencionar Byron ante o resto da família.

—Falará com o Nonnon de minha parte? — Inquiriu Tasha.

—Já disse sim.

Ouviu-se uma sonorobatida na porta. Antonietta reconheceu a típica maneira de Marita de se anunciar. Marita fazia o possível para rodear-se de um halo de autoridade e importância, mesmo quando se tratava de assuntos menores.

—Entre, Marita. — Autorizou antonietta, pensando que dentro de mais um pouco, seu quarto acabaria invadido por todos os seus primos e primas.

—Meu marido, Franco, pediu que eu viesse vê-la, porque se preocupa por seu bem estar, Antonietta. — Marita pronunciou o formal anúncio, em voz alta. – Lembramos que você nunca dorme por tantas horas.

—Marita, você tem dez anos de casada com Franco. - Disse Tasha, com tom exasperado. - Sabemos que ele é seu marido. Tem que anunciar a cada vez que entra num quarto? Você tem sua própria identidade. Se fosse consultar o doutor Venshrank, não teria esta necessidade de se identificar tanto com Franco.

Marita manteve o queixo em alto.

—Só porque tenho dez anos de casada e sou feliz com meu marido e você já teve dois maridos e três noivos, não significa que tenha que ver um médico, Tasha. Franco é um homem bom e estou orgulhosa de ser sua mulher. Em qualquer caso, recordo a você, que também sou um membro da família, embora seja por matrimônio.

—É tão insegura... Disse Tasha, com expressão de desgosto. - Faz dez longos anos que pertence à família, tem dois filhos e se diria que já teria superado a triste realidade de pertencer a uma classe absolutamente inferior, de nula condição social, quando Franco a encontrou. Por nossa parte, superamos.

—Não comecem, vocês duas. Tenho que falar com a senhora Helena imediatamente e saber o que aconteceu ou podemos não ter o que comer durante os próximos dias. - Antonietta estava exasperada com as duas mulheres adultas, que não paravam de brigar.

— Marita o suportaria perfeitamente um dia ou dois, mas eu não sobreviveria. —Tasha apalpou o ventre liso com um gesto de carinho.

Marita esteve a ponto de soltar um grito de exasperação.

—Meu ventre está perfeitamente, apesar de dois filhos e você de nenhum.

—Basta! —Antonietta estava a ponto de gritar. - Não quero que volte a dizer isso a Tasha em minha presença, Marita.

—Sinto muito. Perdoe-me, Tasha. Toni tem razão, não deveria ter dito uma coisa assim.

—Não presta atenção a nada do que diz. - Respondeu Tasha, beligerante, embora com voz trêmula.

Marita se voltou para a Antonietta.

—Toni, a verdade é que tenho que falar com você. Trata-se de Franco. Agora está reunido com Nonno, e não quero que os interrompa. Tem que se certificar de que lhe dêem uma segunda oportunidade. Já é hora de que o Nonno reconheça o que vale e o recompense como merece. Franco deveria ser o vice-presidente e ter o respeito de todos.

—Já sabe que não tenho nenhuma influência nas decisões do Nonno, Marita.

—Só me prometa que não arruinará as possibilidades de Franco. Devo insistir, Antonietta. Sabe que Franco trabalha muito e merece mais do que Nonno lhe dá. Terei que poder perdoar um pequeno engano.

—Não foi um pequeno engano, como bem sabe, Marita. Você empurrou Franco até convertê-lo num homem amargurado, furioso e desejoso de seu respeito. Traiu sua família e a nossa empresa. Teve sorte de que não o denunciassem e de que Nonno atendesse aos rogos de Tasha e meus e o permitisse ficar. Se você se propõe voltar a empurrá-lo para que faça alguma coisa, que mais tarde lamentará, pense bem, Marita. Nonno não perdoará uma segunda traição, sequer pelas crianças e para que saiba, eu tampouco.

—Mas se você souber que renunciou a uma oferta estupenda para unir-se à empresa do Cristopher. Uma fusão seria benéfica para as duas empresas. Franco deu amostras de fidelidade, embora saiba que a fusão enriqueceria a nós todos.

—Já somos ricos, Marita. - Suspirou Antonietta. - Para nossa empresa não há benefício algum, uma fusão, só para os Demonesini. Sabe muito bem que o pai de Cristopher tentou me cortejar com a esperança de que se concretizasse a fusão.

—As famílias ficarão unidas quando Christopher se casar com Tasha.

Um forte estrondo, seguido de um grito de dor assustador, interrompeu às duas mulheres. Não havia dúvida alguma que era o grito prolongado de agonia de uma criança. Tasha se virou imediatamente para o ruído.

—É a pequena Margurite! — Quando gritou o nome, já saía correndo do quarto.

Os gritos, que provinham do andar de baixo, eram espantosos. Antonietta jamais ouvira nada parecido.

—A conteceu algo grave, de verdade.

—O que ela quer é atenção. — Marita tampou os ouvidos com as mãos, - Será melhor que Tasha a faça calar, nenhum Scarletti deveria fazer uma cena assim. É a influência de Tasha. Se Franco a ouve, virá correndo para ajudá-la, em lugar de seguir com seus assuntos como deve! — Mas enquanto se queixava, Marita já se afastava correndo.

Antonietta ouviu seu tom, não as palavras. Marita estava aterrada, sua respiração era uma sucessão de gemidos afogados. Antonietta a segurou pela mão quando ambas desceram apressadas pelo amplo corredor, para a origem dos gritos. Tiveram de diminuir o passo na longa escada, porque não queriam se arriscara dar um passo em falso. De repente, Marita soltou sua mão e se apoiou contra a parede. Antonietta ouviu Tasha acalmando à pequena de seis anos.

—Toni está aqui e se encarregará que venha o médico. Ele a deixará melhor. Sua mãe está aqui. Tudo dará cewrto. Pela direção da voz, Antonietta intuiu que Tasha estava sentada junto à menina, no começo da escada. Baixou com cuidado o último degrau e parou, temendo tropeçar com elas.

Marita lançou um grito, uma exclamação terrível, que se somou aos gritos de dor de Margurite. Ouviu-se um golpe seco, quando ela desabou.

—O que está acontecendo, Tasha?

—Não se preocupe com Marita. Desmaiou como sempre, quando apresenta uma crise. Venha, Toni. - Tasha lhe segurou a mão e a guiou até o chão junto à menina que chorava. Os gritos foram convertendo-se em soluços, enquanto Margurite tentava recuperar a calma. - É a perna direita. Diga-me, o que parece? Fique tranqüila, piccola, só demoraremos um momento em olhar e você sabe que Antonietta sempre tem muito cuidado. Sua mãe está bem. Só desmaiou. Já a viu fazer o mesmo em outras ocasiões. —Tasha não parava de dar beijos na cabeça da pequena e nas lágrimas do pequeno rosto. - Tome cuidado, Toni. Há escombros por toda parte.

Antonietta passou as mãos moderadamente, sobre a perna da criança. Teve um sobressalto quando sentiu o osso quebrado e exposto.

—Tasha tem razão, minha cara. Temos que chamar imediatamente o médico. É muito valente ficando aqui com Tasha. — Elevou a voz, sabendo que sua assistente, atraída pelos gritos, estaria perto. - Justine! Precisamos de uma ambulância imediatamente.

Justine Travis trabalhava há treze anos com ela, como assistente e sua função consistia em ser seus olhos e ouvidos naquela casa em constante transformação.

—É para já, signorina Scarletti! — Respondeu Justine de alguma parte do corredor. - Helena virá em seguida.

— Diga-lhes que é urgente! —Antonietta conservava a voz tranqüila, porque não queria alarmar Margurite. - Tente despertar Marita. E chame Franco.

—Bambina. Minha menina. - Gemia Marita. - Como pôde acontecer isto? Ela deixou que Helena a ajudasse levantar-se. - Há tanto sangue... Ficará aleijada por toda vida.

—Marita! —Tasha sussurrou. - Isso não ajuda em nada. Vá procurar Vicent. Deve estar assustado com os gritos de Margurite. Franco se ocupará dela.

—Sim, sim, tem razão, Tasha. — Marita levou uma mão ao ventre, voltou a cabeça e se sentiu doente. - Grazie, cuide de minha pobre menina.

Franco abraçou Tasha e a sua filha.

—Helena, leve Marita a seu quarto. Está com náuseas e isto aqui é muito para ela.

Helena obedeceu e segurou Marita pelos ombros, enquanto uma das criadas começava imediatamente a limpar o chão.

Tasha se balançava, tentando acalmar a menina e a si mesmo.

—Faça algo, Toni. Não suporto vê-la sofrer desta maneira. - Implorou Tasha, com um sussurro de voz. - Como pôde acontecer isto?

—Se apresse, Toni, alivie sua dor. - Pediu Franco.

—Me descreva o que vê.

—O brasão dos Scarletti que estava em cima da porta do Nonno caiu. Não conseguimos assegurá-lo? Margurite saía do quarto do Nonno e o escudo caiu sobre ela. Poderia tê-la matado. — Em sua voz, misturada aos soluços de Tasha, intuía-se a raiva. - Fui ver o Nonno e ele não estava.

Antonietta ficou rígida. Estavam realizando obras e ela havia estado com os inspetores durante o percurso da ala da casa onde vivia seu avô. Sabia que tinham prestado atenção especial ao brasão dos Scarletti, devido a seu enorme peso.

—Não toquem em nada. Deixaremos que a polícia jogue investigue.

De repente, a casa que Antonietta amava, a casa que lhe era tão familiar, começava a adquirir um ar sinistro.

Margurite estava sobre o colo de Tasha, lamentando-se de sua dor, enquanto seu pai lhe acariciava a face e o cabelo, murmurando o quanto a queria. Os dedos de Tasha se crisparam ao segurar Antonietta.

—Faça alguma coisa, tire a dor dela, Toni. Não suporto vê-la sofrer assim.

—Logo chegará à ambulância. - Murmurou Antonietta, mas conservou as mãos sobre a perna de Margurite. Respirou fundo e se concentrou, bloqueando os sons de suas queixas, bloqueando as emoções avassaladoras de quem estava no quarto. Deixou que tudo fluísse nela, a sua volta, até encontrar em seu interior a fonte profunda que podia liberar a energia, aquela poderosa energia que possuía por herança.

Antonietta sabia que Byron Justicano podia curar porque essa capacidade também pertencia ao legado de sua família. Ela não podia curar da mesma maneira que ele, mas sabia diagnosticar um mal e ajudar os seus a se recuperar. Sentiu que o calor aumentava, estendia-se, deslocava-se por seu corpo até suas mãos e depois, a perna da menina.

Quase em seguida, Margurite se acalmou, seus soluços se espaçaram e suavizaram em breves espasmos. Antonietta percebeu que grande parte da tensão de Tasha desvanecia.

Franco se inclinou e beijou sua prima. Estava com a face molhada pelas lágrimas.

—Grazie, Toni. Como gostaria de poder fazer isso.

Tasha abraçou Margurite contra seu corpo.

—A ambulância está em caminho, Antonietta. - Avisou Justine, enquanto abria passo entre os escombros. - Também dei parte à polícia. As porcas que seguram o escudo dos Scarletti estão completamente danificadas. Isto não foi um acidente. —Antes que Antonietta protestasse, Justine se apressou a tranqüilizá-la. - Não se preocupe, tomei cuidado que não tocar nada. Sei que não se pode mexer. – Ela ajoelhou-se junto a Antonietta, com um gesto quase protetor. - Isto não foi um acidente e aconteceu justo depois de ontem à noite, acredito que não deveria continuar se expondo ao perigo.

—Acredito que tenha razão, Justine. – Concordou Antonietta. - Por favor, chame Joie Sanders e lhe diga que preciso vê-la. Pergunte se ela estaria disposta a vir aqui.

—Ocuparei-me em seguida. Sanders é famosa por suas medidas de segurança, mas é muito difícil encontrá-la. Ela poderá recomendar alguém. Quer que cancele sua atuação da próxima semana?

Antonietta negou com um gesto da cabeça.

—Não, é por uma boa causa. Mas também quero que Nonno seja protegido. É importante, Justine. Ocupe-se de que nossa gente de segurança o vigie de perto até que possa resolver alguma coisa Sanders.

De repente, Dom Giovanni entrou na sala, com pressa, respirando com dificuldade depois da breve carreira.

—O que aconteceu? Franco, ela está bem? Sua voz, habitualmente autoritária, tremia.

—Vamos levá-la ao hospital, Nonno — Disse Franco, com voz suave.

- Sente-se, Nonno. - Disse Tasha, preocupada. - Toni lhe aliviou a dor e Margurite está melhor. – Ela se apressou em consolar a criança. – Você é muito valente, minha cara. Não é, Toni?

—Muito. - Disse Antonietta e beijou a cabeça de Margurite, guardando o contato com a perna dela, na esperança de manter a dor.

A menina tentou, até que conseguiu abraçar Antonietta.

— Então sou uma verdadeira Scarletti?

Tasha estalou a língua e se virou para lançar um olhar de irritação para Franco. Estava irritada porque a menina, com as contínuas recriminações de Marita, estava tornando-se insegura.

—Sempre foi uma Scarletti, Margurite. É uma menina valente e maravilhosa e todos nós a adoramos. Não é verdade que é adorável, Toni? Franco?

—Margurite, é uma Scarletti dos pés a cabeça. - Afirmou Antonietta sem vacilar.

—Sempre pareceu comigo, Margurite. - Disse Franco e beijou a sua filha na cabeça. - Não é verdade, Nonno?

—Tem os olhos de seu pai e sua boa disposição. - Assegurou o ancião.

—Signorina Scarletti, a ambulância chegou. - Anunciou Helena, fazendo entrar os carregadores de maca.

—Grazie, Helena. - Disse Antonietta. Confiava que Justine guiaria o pessoal médico entre os escombros, até a menina.

Depois de examiná-la e de uma breve conversa com Franco, decidiram que levariam Margurite ao hospital, onde poderiam tratar a fratura da perna, como convinha.

—Por favor, que ela não sofra mais. - Implorou Tasha, abraçando à menina com gesto protetor. - Esperamos muito que viessem e ela tem muito medo.

—Cuidaremos de que doa o menos possível. - Disse o enfermeiro. - Podemos lhe dar algo para a dor, quando a movermos.

Antonietta esperou que Margurite estivesse acomodada na ambulância com seu pai e Tasha que se dirigiu ao hospital.

—Justine, se assegure de que ninguém toque em nada e que as criadas não limpem o chão, antes que venha a polícia chegue.

Sabia que a governanta estava perto, por seu ligeiro perfume.

—Helena, me conte de Enrico. O que sabe sobre seu desaparecimento?

—Nada, signorina, só que não estava em seu quarto. Não levaram nada, deixaram suas roupas e seus objetos pessoais. Ontem à noite ele preparou os menus para hoje e falamos do que precisávamos na cozinha. Tomamos uma taça de vinho por volta das dez horas e ele se retirou para seus aposentos, como sempre. Esta manhã não apareceu para preparar a comida e mandei a uma das criadas para buscá-lo. Não estava em seu quarto. Assim que soube, fui pessoalmente buscá-lo. Tudo estava como sempre.

—Alguém soube alguma coisa dele? Tem uma amante?

—Não. — O suspiro da Helena foi bem audível e Antonietta não conseguiu mitigar sua sonoridade. Tudo era exageradamente ruidoso, inclusive o toque dos sapatos sobre assoalho. Eram ruídos que a distraíam, porque ouvia até o zumbido dos insetos e os rangidos da casa. Ouviu um trovão à distância e fora, a chuva que continuava com seu tamborilar regular.

— Seria capaz de sair assim? Jamais fez algo parecido em todos os anos que está conosco. Esta é sua casa. Alguém sabe onde foi? Seus amigos? Alguém de fora do palácio?

—Sinto muito, signorina, mas Enrico só vivia aqui. O pessoal do palácio era sua família. Esta é sua casa. Não saía nem ia a outros lugares. - Insistiu Helena. - Sei porque Enrico me disse muitas vezes que prefere o palácio. As noites, ele está acostumado a passear pelos jardins e olhar as esculturas. Adorava a arquitetura e pensava que era um privilégio viver neste lugar.

—Procuraram por todo o parque? Pode ser que se tenha se sentido doente e se encontre indefeso em algum lugar.

—Me teria que ter ocorrido, signorina. - Reconheceu Helena. - Farei que os criados procurem em seguida.

—Um de meus primos teria que ter pensado nisso. - Corrigiu Antonietta. Às vezes se perguntava em que mundo vivia as pessoas de sua família. Acaso pensavam que o palácio se organizava sozinho, por arte de magia? Nem sequer Dom Giovanni tinha pensado em procurar o pobre Enrico nas imediações da casa. Era absurdo que o cozinheiro tivesse abandonado todos os seus pertences. - Obrigado, Helena, assim que souber de alguma coisa, por favor, comunique-me. Enquanto isso, há alguém que possa ajudar na cozinha? Já sei que você está muito ocupada e não quero que te encarregar disso. Que Justine chame alguém que o substitua, se não houver nenhuma criada que possa.

—Direi ao Alfredo que cuide de tudo, até que Enrico volte. - Avisou Helena. - É um bom cozinheiro e trabalhou com o Enrico, os últimos sete anos. Gosta de fazer as coisas a sua maneira e é um pouco complicado. Freqüentemente se deita com dores de cabeça e espasmos, mas estou segura de que poderá se arrumar até que Enrico volte. E meu sobrinho, Esteben. Se lembrar, contratamo ele para trabalhar como aprendiz na cozinha faz algum tempo. Pode ocupar o posto de Alfredo enquanto isso.

—Está segura, Helena? Alfredo precisará de alguém que seja rápido e eficiente. Lembro de um par de queixas sobre Esteben. Parece que não agradava seu trabalho.

- Oh! Não. Signorina. Esteben está muito agradecido. O que aconteceu é que tinha um encontro com uma garota e pediu umas horas livres, mas Enrico negou. Tiveram uma pequena briga, mas Esteben só queria impressionar seu amor. Ele entende muito bem a importância de seu trabalho.

Antonietta assentiu com um gesto da cabeça.

—Justine, por favor, diga ao contador que pague o que corresponde a ele.

—Sim, certamente. Tomarei nota. Agora deveria ir ver seu avô. Está muito agitado. Não sei se ele tomou seu remédio para o coração, mas estava muito irritado.

—De acordo. —Antonietta apoiou a mão ligeiramente no braço de Justine. - Obrigado por tudo o que faz por mim, Justine. Quero que saiba que a considero uma pessoa insubstituível, como amiga e como assistente.

—Sei, Toni. - Justine era menos formal quando estavam a sós. - Eu adoro este trabalho e o palácio também. Eu adoro viajar pelo mundo com você. E, sobre tudo, agora voces são a família que nunca tive, de modo que o sentimento é mútuo. Justine se deslocava com segurança, movendo-se rapidamente para se esquivar de qualquer objeto que encontrava em seu caminho e Antonietta não vacilava em segui-la. — Me senti muito angustiada ao me inteirar de que lhe atacaram ontem à noite. É verdade?

—Sim. —Antonietta inclinou a cabeça. – Se não fosse por Byron, Nonno e eu estaríamos perdidos.

— Por que, alguem iria querer fazer mal a você ou a seu avô?

— Por que queria alguém fazer mal a meus pais? —Tinha pronunciado as palavras antes de poder reprimi-lase elas ficaram suspensas no ar, entre as duas mulheres, enquanto avançavam pelo labiríntico corredor para a ala onde estavam os escritórios.

—Jamais ouvi você dizer isso. - Disse Justine. - Nenhuma só vez. Acreditava que a explosão tinha sido um acidente. Não ficou arquivado como acidente?

—Não. —Esse simples reconhecimento foi apenas um sussurro. Não, não tinha sido um acidente, mas ela nunca reconheceria, nem a si mesma, nem a ninguém. Alguém tinha manipulado o iate da familia para fazê-lo explodir em alto mar. Mas a explosão não tinha conseguido queimar nem afundar as provas. Um navio de pesca nas redondezas salvara da água, à garota de cinco anos, cega pela explosão. Antonietta nunca pudera ver o relatório, nem achava que fosse necessário. Se a polícia não tinha averiguado quem havia destruído sua família, O que podia fazer uma menina? E quando a menina se feito maior, não quizera olhar para trás.

—Chamarei imediatamente Joie Sanders. - Avisou Justine, alarmada, - Acredita que se encontra ante um perigo iminente? Não penso te deixar sozinha.

Antonietta percebeu aquele tom feroz e protetor na voz de Justine e sorriu. Era exatamente o mesmo tom que Tasha havia usado com Margurite.

—Não se preocupe, chegaremos ao fundo de tudo isto. - Lhe assegurou. - Estarei bem protegida. Agora me preocupam mais as crianças.

 

—Como está, Franco, Toni? - Perguntou Dom Giovanni, visivelmente inquieto. - Pobre Margurite. Teria que ter ido ao hospital com voces.

—Nonno, não tinha sentido que fôssemos todos. Agora ela está dormindo, e Marita ficará com ela esta noite.

—O médico acredita que poderá voltar para casa amanhã. - Acrescentou Franco. - Não há por que estarem preocupados.

Dom Giovanni lançou a seu neto um olhar carregado de ira.

—Não me trate como se fora um ancião, Franco. Estou extremamente preocupado porque alguém entrou em minha casa ontem à noite e tentou assassinar minha neta e a também a mim. E me preocupa que minha pequena bisneta tenha sofrido um ferimento no que provavelmente não foi um acidente. E, além disso, preocupa-me que você pretenda me roubar minha empresa.

Franco deixou escapar um suspiro e cruzou a quarto para servir uma bebida.

— Foi uma noite longa, Nonno. Acredito que não estou em condições para discutir. Toni, como se sente você depois de sua horrível experiência ontem à noite? Deveria ter despertado imediatamente. E como não despertava, assustei-me.

—Ao menos desta vez Franco tem razão. Toni, não volte a nos dar um susto como esse. - Disse Dom Giovanni, com semblante severo.

—Não foi idéia minha sair para lutar, com um homem no penhasco, Nonno. Teria preferido minha cama macia e quente. - Queria converter a discussão pendente numa brincadeira. Franco estava exausto depois do transe de ver sua filha ferida gravemente. Dom Giovanni estava irritado consigo mesmo por não ter tido a força para acompanhar a sua bisneta ao hospital. - Também eu gostaria de tomar uma bebida, Franco. - No momento em que falou, o ancião sentiu o ventre se contrair. - Um pouco de água, por favor.

—Enquanto você dormia em seu quarto, seu primo se dedicava a me ameaçar. O que pensa disso, Toni? Meu único neto, uma víbora traiçoeira.

—Sabe perfeitamente bem que não te ameacei, Nonno. - Protestou Franco.

—Nonno. - Disse Antonietta, armando-se de paciência. - Franco nunca o ameaçaria. Diga-me, por que está tão preocupado? Não é recomendável para seu coração.

Dom Giovanni levantou as mãos no ar, em sinal de desgosto e esteve a ponto de bater em sua neta, com aquele gesto inoportuno.

—Estas idéias de fusão. De me tirar da presidencia. Esse é o tipo de lealdade que este menino me demonstra, depois de eu aceitar que ele voltasse. Desprestigiou nosso nome o que pôde, vendeu nossa família e eu voltei a acolhê-lo entre nós. E, entretanto, volto a surpreendê-lo a ponto de me saltar à garganta, como uma víbora.

—Eu não fiz isso. - Negou Franco. - Toni, jamais disse ou fiz nada disso. Só lhe disse que se estávamos em desacordo num assunto tão importante, terei que pedir opinião ao resto da família. Por outro lado, paguei com acréscimo os enganos que cometi no passado. Trabalhei dia e noite por muito pouco em troca. — Elevou a mão para deter as objeções de seu avô. - Já sei que merecia ser expulso e trabalhar em troca de nada para pagar meus enganos do passado, mas já tenho feito isso. Isto é algo totalmente diferente. A família tem suas próprias idéias sobre este assunto da fusão.

Dom Giovanni manifestou seu desagrado com um grunhido.

—Fala você com ele, Toni. Como vai levar a direção de uma empresa se tiver medo de assumir o comando? Se tiver que consultar o resto da família? Que tipo de líder é esse? Meu Deus! Perderíamos todo o negócio em um mês!

—Isso não é justo, Nonno. Nunca insinuaste que eu poderia dirigir a empresa. Se pensasse que tenho uma oportunidade…

—O que? — Perguntou Dom Giovanni, exigente. - Faria seu trabalho? Esperaria eu morrer e logo causaria a ruína de todo aquilo pelo que trabalhei? Venderia-se ao pirata Desmonesini? A semente do demônio? — Perguntou, pronunciando o nome de seu rival mais próximo, como se cuspisse.

Antonieta teve que intervir.

—Nonno, se acalme. Terá um ataque se continuar assim. Não há maneira de te substituir como presidente sem meus votos e eu nunca faria isso. Franco tampouco quer te tirar do meio. Só quer que escute sem prejuízos, a opinião de outra pessoa além da tua. —Segurou a taça que Franco oferecia e com a ponta dos dedos, comprovou a quantidade de líquido para não derramá-lo. De repente, do nada, sentiu a presença inesperada de Byron. Ele estava perto. Percebia. Era uma sensação estranha saber que estava acordado. Ele havia deixado seu sono e a procurava, como se estivessem tão conectados que ela soubesse o momento exato que ele abrira os olhos.

- Boa noite. Está bem? Sent tua falta.

Antonietta ouviu aquelas palavras com claridade. Deslizou por sua mente, como diminutas asas de borboleta. Seus músculos se contraíram, se crisparam, como à espera de alguma coisa. Sua voz era como veludo em sua pele. Ouvia seu primo e seu avô discutindo a distância, mas seu corpo, todo seu ser estava dependente da chegada de Byron.

Não a surpreendeu que ele voltasse a falar telepáticamente com ela, mas era muito incômodo ter uma reação física desse tipo, ante a presença íntima de sua voz. Tentou comunicar-se mentalmente com ele, seguiu o rastro de sua voz até encontrá-lo. Até senti-lo e se conectar com a força que necessitava.

- O palácio é um caos. Houve um acidente terrível. A pobre Margurite foi visitar o Nonn, e o brasão da família caiu sobre sua perna. Tem uma dupla fratura e a levaram para o hospital. Marita está com ela agora. Justine pensa que os parafusos foram danificados de propósito. E, além disso, desapareceu nosso cozinheiro.

Seguiu um breve silêncio. Antonietta se deu conta de que continha a respiração.

- Chegarei logo, Antonietta. Já sei que está preocupada com a pequena Margurite. Irei visitá-la esta noite no hospital e verei se posso ajudá-la de algum jeito.

- Obrigado. Todos estamos muito preocupados. Pedi que procurassem Enrico pelos jardins do palácio, mas não há nem rastro dele.

Antonietta bebeu um gole de água e descobriu que não tinha vontade de comer nem de beber.

- Eu não gosto que seu cozinheiro continue desaparecido, depois do que vi ontem à noite. Estou seguro de que alguém está colocando veneno em sua comida, a tempo.

- Você sabia que Enrico tinha desaparecido ontem à noite?

- Não estava em seu quarto.

Antonietta não queria ter aquela conversa com ele. Queria saber se tinha pensado nela, se ainda ardia por ela. Se despertara consumido pelo desejo dela.

- Sim, isso é o que aconteceu. - Byron respondeu a seus pensamentos, com um tom de voz apaixonado. - E sigo me consumindo. Não posso esperar o momento de estar a seu lado. Mas antes devo me alimentar. Quero estar em plena posse de minhas forças quando for ao palácio.

De repente, Antonietta se deu conta de que estava sorrindo em meio à azeda discussão de seu primo e seu avô. Soube que bastava buscá-lo mentalmente para que ele estivesse com ela. Abraçou o pensamento, quis entesourá-lo, assombrada de que ele lhe desse tanta importância. Surpresa de que prestasse tanta importância a Byron. E de que ele pudesse lhe dar a segurança de que tudo se arrumaria.

—Está prestando atenção, Toni? — Inquiriu Franco. - Isto se converteu num assunto muito sério e ao Nonno não resta mais remedio que assumir. Pode ser que não queira me pagar um salário decente, mas terá que ouvir a voz da razão.

—Não tenho que ouvir ninguém, jovenzinho. Tirei nossa empresa de águas turbulentas em mais de uma ocasião e saímos mais fortalecidos que nunca. Para nós, não há benefício algum nesta fusão. Se fosse um Scarletti de verdade, olharia mais à frente, sobre tudo mais à frente do atrativo do dinheiro e entenderia o que nos jogamos realmente com esta oferta.

Antonietta se situou deliberadamente entre seu avô e seu primo.

—A empresa Demonesini precisa de alguém que a livre de apuros e pretendem que nós cumpramos esse papel, Franco. É isso. Investiguei sua empresa exaustivamente. Não têm liquidez e sofreu um grave golpe ao peder um de seus mercantes.

Antonietta apalpava a tensão que reinava na sala. Deu as costas a seu avô e se virou para seu primo com um sorriso deliberado nos lábios, decidida a mudar de assunto.

—Franco, tem alguma idéia de onde poderia estar Enrico? Helena diz que ele não tem mulher e que é raro que saia do palácio.

Franco negou com a cabeça.

— Falei com os criados e com os policiais quando vieram esta manhã. Deixamos registrarem o quarto de Enrico.

Uma suave batida à porta anunciou a chegada de Helena.

— Perdão, mas a senhora Marita está ao telefone, a menina Margurite quer dizer boa noite a seu pai. A senhora Marita diz que Margurite está sob os efeitos da medicação, senhor Franco e temo que dormirá, se pedir que espere até você devolva a chamada.

— Desculpe-me, Nonno, sei que esta reunião é importante, mas tenho que falar com minha bambina. Não quero que durma sem meu, boa noite.

—Entendo perfeitamente. - Concedeu Dom Giovanni, insinuando com um gesto que podia sair da sala.

Produziu-se um momento de silêncio.

—Só ela pode converter esse homem em alguém digno. Não posso deixar de lhe ter simpatia por isso. Ainda assim, me custa acreditar que tenha nos traído.

Antonietta aproximou a mão, até encontrar o braço de seu avô.

—Franco tem muitas qualidades, Nonno. Só que teve a má sorte de apaixonar-se profundamente por uma mulher que nunca está satisfeita.

Enquanto falava, antonietta pensava Byron. Queria voltar a tocá-lo. Voltar a sentir a sensação inédita em seu ventre. Quem era Byron? Um estranho com voz de mando, com ar tranqüilo e auto-suficiente, saído de uma noite de tempestade quando mais precisava. Antonietta não tinha nem idéia de onde ele vivia, ignorava onde passava suas horas. Sequer sabia se tinha outra mulher em alguma parte.

—Franco é teimoso, Toni. – Disse, Dom Giovanni. - É ambicioso. E tem uma mulher muito ambiciosa. É uma combinação que pode ser mortal.

—Nonno, - protestou Antonietta, num esforço para continuar a conversa. - Franco cometeu um engano e sabe disso. Aconteceu há anos, quando era jovem e influenciável. Estava louco por Marita e fazia o que ela pedia. Stefan Desmonesini e Cristopher sabem ser encantadores e persuasivos. Franco simplesmente caiu na armadilha de pensar que eram seus amigos.

Dom Giovanni suspirou ruidosamente e se sentou em uma cadeira.

—E Tasha convidou à víbora, para nossa casa.

—Nonno. —Havia um toque de diversão na voz de Antonietta. - Crescemos com Cristopher. Ele vem aqui desde pequeno e esteve presente em todos os acontecimentos de nossa família. Não é nenhuma víbora e trabalha sem parar.

—Tasha não foi nada sensata. Ele não é o homem adequado para ela. E ela sabe o incômodo que sinto quando seu pai está presente.

Antonietta captou a preocupação e a inquietação na voz de seu avô. Parecia cansado e velho.

—Estou acostumada a vê-lo, Nonno. Está em todas as obras de beneficência e em todas as funções que atendemos. Sempre me verá como a mulher que rechaçou suas propostas quando todas as demais se sentiam fascinadas a seu lado.

— Ele te ofereceu matrimônio. - Recordou Dom Giovanni, ouvindo a nota de desgosto em sua voz. - Sempre pensou que só pretendia ter seu dinheiro, mas ele já tinha suficiente. Por que resistia a acreditar que se tratava de uma oferta genuína?

Como podia explicar uma aversão que não tinha sentido?

— Pensava em minhas cicatrizes, em meu sobrepeso e em minha fealdade, Nonno, jamais me ocorreu que um homem me queira pelo que sou.

—Isso é um disparate!

—Mas é o que sentia naquele momento. Era muito insegura.

A governanta bateu na porta pela segunda vez.

—Signorina Scarletti? A polícia e os agentes chegaram e querem falar com você. Pedi-lhes que esperem na estufa.

—Obrigado, Helena. Não demorarei.

—Enquanto isso, a signorina Tasha está com eles. — Helena falava com uma voz sem inflexões, mas não custava muito perceber seu alarme e consternação por ter deixado a Tasha a sós com os agentes. Tasha era uma pessoa imprevisível e isso toda a família sabia e cada um dos criados.

—Não tive a oportunidade de falar com você sobre o que passou ontem à noite. - Protestou Dom Giovanni. - Mas suponho que não tem alternativa, que ir. Se deixar que Tasha fale com a polícia, prenderão a todos.

Antonietta deu alguns tapinhas sobre a perna de seu avô.

—Nonno, Tasha se comportou maravilhosamente com Margurite.

—É verdade que ela quer muito a aquela criatura. – Concordou Dom Giovanni. - Byron te disse se viria esta noite? Não sei onde vive e a polícia queria ouvir sua versão dos fatos. Tenho a impressão de que ninguém acreditou que ele tenha se lançado ao mar para tirar um ancião em perigo.

Antonietta não pode evitar um ligeiro sorriso.

—Estou segura de que não demorará em chegar, Nonno. – Ela beijou o avô. - Qualquer pessoa faria o que fosse para te salvar. É o tesouro da família.

Byron acomodou o jovem contra o muro e este ficou enjoado e sem saber o que havia acontecido, embora não estava ferido gravemente. Sentindo-se plenamente revigorado, Byron voou para o alto, mudando de forma em pleno vôo, algo que jamais tinha feito, sequer vinte anos antes. Com a caça de vampiros, tinha desenvolvido uma faceta dura, uma certa frieza ante o fogo e uma confiança absoluta em sua capacidade para dirigir situações difíceis, embora não o preparara para uma mulher como Antonietta.

Certamente, seu primeiro impulso tinha sido raptá-la, reclamá-la com as palavras rituais e deixar que a natureza seguisse seu curso. Mas se mostrara precavido, depois de ter aprendido com as experiências de toda uma vida de impetuosidades. Depois de ter sido capturado, torturado e utilizado como isca, numa tentativa de assassinarem o príncipe e a sua companheira Raven e depois de destruir sua relação com seu melhor amigo, Jacques Dubrinsky, agora acreditava na cautela, na paciência e na importância de refletir a fundo sobre os dilemas. Com sua vida de enganos a suas costas, não estava disposto a se arriscar mais.

Estava decidido a conhecer Antonietta. Infelizmente, os membros da família Scarletti tinham, do nascimento, uma barreira protetora incorporada em suas mentes. Ele não podia passear por seus pensamentos e inteirar-se de tudo o que terei que saber. Por isso, decidiu tomar tempo, se infiltrar no palácio através de sua amizade com Dom Giovanni. Esperando. Esperando-a. Então entendeu que ela precisava saber-se dona da situação. Precisava de independência. Queria que a cortejasse e a conquistasse se tinha que fazê-la feliz.

Byron suspirou brandamente, deixando que o vento levasse o som de volta ao mar. A tentativa de assassinato mudara tudo. Ele tinha que velar, para que ela estivesse protegida dia e noite. Precisava chegar a ela mentalmente quando quisesse, saber o que estava acontecendo a todo o momento.

Uma vez mais, desceu do céu até o lugar onde tinha deixado seu presente para ela. Conhecia Antonietta o bastante para saber que ela aceitaria seu presente, gostasse ou não. Ela era muito bem educada, para rechaçar um presente.

O cão era a imagem da mais nobre elegância. No momento em que Byron vira o animal, admirara a pureza de suas formas sutis. O borzoi era sempre elegante, estivesse em movimento ou totalmente quieto. Byron sabia que, segundo a teoria, os borzoi eram uma raça que datava de seiscentos a oitocentos anos. Ele sabia por experiência pessoal que não era de todo correta. A raça havia sobrevivido, possivelmente depois de ter sido modificada, mas ainda permanecido inteira. Byron se inclinou sobre o cão, segurou-lhe a cabeça entre as mãos e olhou em seus olhos escuros e amáveis.

—Esta é sua casa, Celt, se assim quiser. Ela está aqui. Antonietta será sua nova companheira e te amará e respeitará como merece. Admirará você como eu e entenderá que é livre de ficar ou de ir. O cão e Byron se entendiam. Ele sabia que o animal era nobre, mas que possuía um coração feroz.

Celt era o exemplar mais fino de borzoi que Byron tinha visto em sua vida. A cabeça do cão falava de sua inteligência. Celt refletiam o autêntico coração da raça.

—Terá que esperar no jardim até que eu fale com ela. - Explicou Byron em voz alta. - Está chovendo e sei que é incômodo, mas te protegerei dos elementos tempo que precisar. Já sabe que há pessoas que serão pouco amáveis com você. – Ele avisou, acariciando a cabeça do cão. Quando chegou às orelhas, as arranhou. - Eu não confio em nenhum deles e você tampouco deveria. Terá que se ocupar em protegê-la. Mostre-se prudente ante as amostras de amizade.

Sentiu que o animal o respondia, que a compreensão e o afeto fluía entre ele e se sentiu duplamente agradecido a Antonietta, por ela lhe devolver suas emoções.

O perfil alto e robusto de Byron brilhou um momento, quase translúcido sob a chuva e logo se esfumou, deixando só umas gotas na cortina de água. Achou por onde penetrar na casa, através de uma das janelas do segundo andar que permanecia entreaberta. Em seguida percebeu a tensão que reinava no imenso palácio. O medo e a raiva vibravam no ar, até alcançar os enormes tetos, até as almenas e ao longo de seus muros.

Byron deslizou pelas salas amplas e marmóreas, desceu pela longa escada para inspecionar os danos nos aposentos privados de Dom Giovanni. Havia duas pessoas recolhendo provas e depositando algums parafusos e polcas em bolsas de plástico. Em seguida soube que aquilo não tinha sido um acidente, mas a intenção deliberada de fazer mal a alguém, muito provavelmente ao ancião.

Ouviu o pequeno Vicent que se queixava, num pranto, inquieto pela ausência de sua irmã. Franco tranqüilizava o menino, cantando suavemente, assegurando que a pequena Margurite e sua mãe voltariam na manhã seguinte.

Mais que qualquer outra coisa, Byron desejava ver Antonietta. Uma sensação estranha de ansiedade lhe rondava o coração. Começava a descobrir que as emoções eram perigosas. Estimulantes, mas bastante perigosas.

Não demorou em encontrar Antonietta, num lugar espaçoso cheio de plantas e delimitado por paredes de vidro. Uma grande fonte dominava o centro daquele ambiente, rodeado de cômodos bancos e pequenas cadeiras e mesas dispostas para um encontro. Além das paredes de vidro, a noite estava escura e os ventos arrastavam a chuva fazendo-a chocar contra as janelas e mais embaixo, o rugido do mar que não cessava e acompanhava o aviso distante dos trovões.

Viu um homem uniformizado, sentado muito perto de Antonietta. Pequeno, mas muito musculoso, olhava-a com expressão de simpatia. Os olhos escuros passeavam por seu corpo, com um prazer evidente. Byron grunhiu, um som quase inaudível. O homem levantou a cabeça e olhou pelo quarto, com atitude repentinamente alerta.

Antonietta sorriu e elevou o queixo, inalando, aspirando a essência de Byron nos pulmões.

—Por favor, sente-se capitão, não precisa ser tão formal. —Antonietta caminhava com segurança pelo labirinto de plantas e móveis, sabendo onde estava cada obstáculo e evitando-os com elegância. Aproximou-se de uma cadeira e se sentou com as mãos cruzadas sobre a saia.

—Signorina Scarletti, espero que tenha descansado bem depois do transe de ontem à noite. —O homem falava com voz tão melosa, que fez crescer os incisivos de Byron. - Sou o capitão Diego Vantilla, a seu serviço. – Disse o homem, agarrando a mão de Antonietta e inclinando-se até que seus lábios lhe roçaram a pele.

Uma faísca elétrica percorreu o dorso de sua mão até converter-se numa pequena chicotada de luz, que o acertou nos lábios. Diego deu um salto, soltou a mão e a levou à boca. Oculto atrás de uma exuberante samambaia, Byron descansava com o quadril apoiado na parede, em meio de várias plantas de enormes folhas quase tão altas como ele. Cruzou os braços e olhou para o policial, com enorme satisfação.

Tasha olhou para sua prima, indignada.

—Por favor, sente-se Diego. Já sei que é errado, mas posso lhe chamar Diego? É mais fácil que capitão Vantilla. - Asseverou, insinuando um sorriso coquete ao mesmo tempo em que oferecia a mão e se sentava na cadeira junto a Antonietta. - Minha prima ficou muito afetada pelos sucessos de ontem à noite e precisa de mim a seu lado, para consolá-la. —Tasha goataria de ter passado alguns minutos com o atraente oficial, mas Antonietta chegara assim que recebeu o aviso de Helena.

—Isso é compreensível, signora Fontaine. - Respondeu Diego, assentindo com um gesto da cabeça.

Tasha sorriu docemente.

—Scarletti Fontaine. – Ela o corrigiu, mas você pode me chamar de Tasha. É como me chamam os amigos.

—Grazie, signorina. - Respondeu Diego, que continuava claramente concentrado em Antonietta. - Teria que ouvir sua versão do que aconteceu ontem à noite. Dom Giovanni está convencido de que eram dois os assaltantes e que você e ele foram drogados e arrastados até o alto do penhasco.

Antonietta assentiu com um gesto da cabeça.

— Eu estava tocando o piano, mas me senti estranha, extranhamente cansada, e os braços e o corpo pesados. Ouvi um ruído e logo alguém me colocou um pano na boca. Resisti até que entendi que a substância no pano me deixaria inconsciente, de modo que fingi desmaiar. Tiraram-me seguida do palácio. Ouvi que o outro homem arrastava meu avô. Não podia reconhecer quem eram, as vozes e os aromas me eram alheios. Quando conheço alguém, quase sempre sou capaz de reconhecê-lo, mas esses homens eram estranhos. Chamei Byron. Não sei por que, mas quando comecei a resistir, chamei Byron Justicano.

— Por que chamou esse homem? Sabia que ele estava perto?

Antonietta ouviu o tom agudo de alerta em sua voz e sorriu. O policial de Tasha não estava em condições de brincar ou fazer algum joguinho, com um homem como Byron. Encolheu os ombros.

—Simplesmente pronunciei seu nome como um talismã. Para me sentir segura. E é assim. Dá-me segurança.

Tasha expressou seu desprezo com um muxoxo sonoro, para atrair a atenção do inspetor.

—Entendo. - Disse este, quando era evidente que não enestendia. - Por favor, continue.

—Ouvi que meu avô caía no mar e lutei com todas minhas forças, mas não sabia como ajudá-lo. Então chegou Byron. Lutou com o homem que me atacava e me disse que ficasse quieta. Eu ouvia o vento que soprava violentamente e as ondas enfurecidas. A tempestade era feroz e até o chão se sacudia e tremia sob nossos pés. E foi então que Byron salvou a meu avô e conseguiu que ele voltasse a respirar, ao lhe tirar a água dos pulmões. Os dois estavam molhados e todos sentíamos muito frio. – Disse ela, estremecendo-se com a lembrança. - Não posso lhe dar uma descrição dos homens, embora o que me levava era alto e muito forte. Tinha o cabelo curto e era muito musculoso.

—E onde está esse homem agora? Onde está o homem que a atacou?

—Acredito que está morto. Não estou segura.

Produziu-se um breve silêncio.

—Não entendo como esse homem, esse Byron Justicano, foi capaz de levar a seu avô até a borda. São muitos metros, do penhasco até o mar lá abaixo. Duvido que de noite seja possível sobreviver a uma queda no mar. E ontem à noite as ondas eram altas e a tempestade muito forte.

Voltou a fazer silêncio. O ar se espessava. Uma sombra cresceu no interior da sala. Tasha e o policial trocaram olhares nervosos. Ambos sentiram que arrepiavam os cabelos da nuca, como resposta à repentina ameaça que se pressentiam no ambiente. Tasha esfregou os braços, presa de um súbito calafrio.

Antonietta encolheu tranqüilamente os ombros, como se não desse conta.

—Você me perguntou que aconteceu e eu contei. É assunto seu se quer me acreditar ou não.

— Por que não nos chamaram imediatamente?

—Foi o que fizemos. Eu chamei o médico para meu avô e depois fui ao meu quarto para tomar banho. Estava amanhecendo. Lamento ter adormecido, mas estávamos exaustos. Sem dúvida a governanta deve tê-lo acompanhado ao salão de música e terá lhe mostrado de onde levaram meu avô e o lugar no penhasco.

—Sim, mas não pudemos despertá-los. Nem a você e nem a seu avô e o lugar do penhasco expõe mais pergunta que respostas. Há rastros de luta, inclusive de alguém que tenha caído pelo penhasco. Vimos o lugar onde esteve deitado seu avô, e se observam os rastros de alguém que esteve ajoelhado junto a ele. Mas é impossível signorina Scarletti, que um homem tire do mar, alguém que está se afogando e o leve para o alto do penhasco. Por que levar seu avô de volta ao penhasco? Essa é a pergunta.

—Possivelmente porque uma mulher cega, que estava sozinha em meio a uma feroz tempestade e a beira de um precipício, também precisasse de ajuda.

—Acredito que eu posso ajudar, senhor. Disse Tasha e sua voz era um sutil convite. - Este homem de que Nonno tanto fala, Byron Justicano, é um estranho entre nós. É um caçador de fortunas que pretende ter os bens de minha prima. Ela vale muito dinheiro, o palácio, a companhia naval, sua fundação. Isto todo mundo sabe. E ele aparece nos momentos mais oportunos. Como poderia ter resgatado um homem do mar? Como podia salvar Antonietta ao mesmo tempo? Não vê que é uma história ridícula? Não me cabe nenhuma dúvida de que ele está comprometido. E já viu que Antonietta acredita que o assaltante está morto. Morto pela própria mão de Byron e possivelmente afogado no mesmo mar que quase levou minha prima. —Tasha deixou escapar um pequeno soluço e segurou Antonietta pela mão. - É um sedutor de inocentes e um professor do crime. Tem que salvar a todos nós desse homem. Sei que posso contar com a generosidade que vejo em seus olhos. De outra maneira, não há esperanças de salvar minha querida prima desse indivíduo.

Antonietta teria se colocado a sorrir, se não tivesse perdido a voz. Estava boquiaberta e incapaz de articular algum som. Tasha tinha facilidade para inventar histórias que dependiam de seu ânimo ou de seus interesses. Acabava de assinalar Byron como suspeito ao policial. E traíra a confiança de Antonietta sem pensar duas vezes.

Antonietta voltou à cabeça em direção Byron.

- Está aqui, não é? Ouviste as mentiras que minha prima contou ao capitão a respeito de você. Lamento que te cause problemas. O que ela pretende é que ele a veja como uma mulher.

- Não te inquiete por mim, Antonietta. Sou perfeitamente capaz de cuidar de mim mesmo.

Havia um toque de irritação em sua voz e Antonietta teve a imagem de dentes que se fechavam de repente. Foi uma imagem tão intensa que acreditou ver um lobo enorme e peludo olhando sua presa. Estava na sala e tinha todos os sentidos alertas. Como era possível que Tasha fora tão indolente para condená-lo, quando estava na mesmo aposento com eles?

Byron se aventurou pelas numerosas curvas da estufa até aparecer atrás da folhagem frondosa, em suportes de vasos. Surgiu entre a vegetação, com o olhar fixo no policial, no que plantou a lembrança de uma apresentação transmitida com toda tranquilidade. Não se incomodou em modificar nada na lembrança de Tasha. Ela também tinha o intrincado padrão dos Scarletti no cérebro. Além disso, queria surpreendê-la, ver seu desconforto, porque havia incomodado Antonietta.

—Boa noite. Ele saudou educadamente. - Temo que Tasha não faz mais que falar de suas inseguranças, capitão. Irrita-se com facilidade e, além disso, esta noite a pequena Margurite teve um acidente. Byron parou em frente a ela, tomo a mão de Antonietta que Tasha sustentava na sua e a levou aos lábios. Um movimento lento e sem pressa. Tranqüilo, deliberada e abertamente possessivo. Permaneceu um bom momento, acariciando a pele suave da mão dela.

Byron se virou e olhou para Tasha. Sob a luz difusa da estufa, de seus olhos nasceu um brilho avermelhado e seus dentes brilharam com uma brancura assombrosa e por um instante, Tasha acreditou ver presas longas e afiadas, similares as de um lobo. Pestanejou e viu que ele sorria, inclinando-se com gesto cortês e encantador.

—Tasha, querida, lamento que tenha sofrido tanto por sua prima, mas não há por que ficar histérica. Asseguro-te que está a salvo e o capitão e eu nos ocuparemos de que continue assim. —Sua voz era suave como o veludo, uma mistura de sutil humor e arrogância, embora atraente.

Byron concentrou toda a força de sua voz e seu olhar hipnótico no capitão.

— Não é tão difícil de acreditar, porque as provas apóiam todas e cada uma das palavras de Dom Giovanni e de Antonietta. Certamente, eles estão acima de qualquer recriminação e você não confia neles. Está extremamente preocupado em protegê-los. Porque somos bons amigos e você sabe que também me inquieta, deseja unir-se a mim e compartilhar comigo tudo o que sabe sobre este ataque que ela sofreu, porque quer me ajudar a protegê-los. —Em sua voz havia tal pureza e bondade que era impossível fazer outra coisa que assentir.

Tasha olhou para os dois, horrorizada. Byron voltou a lhe mostrar os dentes.

Diego deu alguns toques amigáveis no ombro de Byron.

—Me alegro de que tenha vindo, querido amigo, ou poderíamos ter sido testemunhas de uma tragédia muito mais grave. Signora Scarletti Fontaine, é evidente que Byron salvou seu avô e sua prima de uma morte segura. Sua família lhe deve muito.

Antonietta se deixou balançar pela voz aveludada de Byron, mas se deu conta de que não lembrava de suas palavras com toda precisão. Só o tom da voz, o tom perfeito e puro. Elevou o queixo. - É isso que me faz?

- O que te faço?

A risada implícita em seu tom, a fez rilhar os dentes. Às vezes, a diversão masculina podia ser muito volátil. - Hipnotizar-me com sua voz para obter minha plena cooperação.

- Tenho toda a intenção de te hipnotizar com meus beijos. Minha voz não funciona com você. Quem dera que assim fosse. Tornaria realidade meu sonho mais desejado.

Antonietta não pensava em aprofundar nisso. Era incômodo estar sentada com outras pessoas e manter ao mesmo tempo, uma conversa privada e íntima que beirava a sensualidade.

—Você tem a informação que precisava, capitão? — Sua pergunta ia dirigida ao policial, mas seus pensamentos estavam absortos em Byron. Era consciente de sua presença com cada célula de seu corpo. Era uma obsessão. Uma sensação incomoda, que preferia não ter.

- Eu me sinto igual a você. - Byron voltava a lembrá-la que podia ler seus pensamentos. Antonietta era uma mulher orgulhosa e Byron sabia perfeitamente que desejar um homem a faria sentir-se vulnerável e inquieta.

Tasha se sentou de sopetão, com os braços cruzados.

—Já? Não pensa em fazer mais pergunta? Advirto-lhe que Byron Justicano não é o que parece. Como entrou nesta casa? Como está acostumado a entrar? Por que não pergunta a ele?

Byron se virou franzindo o escuro cenho. Tasha voltou a captar aquele fulgor avermelhado, como uma advertência diabólica. Ele olhou diretamente em seus olhos.

—Converto-me em pequenas moléculas e passo por baixo das portas. Tome cuidado de não deixar a janela de seu quarto, aberta. Nunca se sabe o que pode entrar. Disse Byron sorrindo e o capitão o imitou.

Antonietta não disse uma palavra. Ignorava como Byron burlava o moderno sistema de segurança. Simplesmente aparecia em um quarto. Ela sabia imediatamente quando ele chegava, embora outros não parecessem reconhecer sua presença. Sua entrada sempre era silenciosa e instantânea. Antonietta não lembrava de vê-lo abrir uma porta, exceto quando se encontravam nos jardins. - Como entroue? Acreditava saber, mas ainda assim, não pode se materializar sem mais nem menos, em um quarto. Antonietta teve a impressão de que alguém sorria e, entretanto, não ouviu a risada. E não respondeu.

—Isto não tem nenhuma graça, Byron. - Respondeu Tasha bruscamente. E tampouco é uma resposta. Onde vive? Qual é sua direção? Como se explica que ninguém saiba onde vive? - Tasha bateu com o pe no chão e lançou a Diego, um olhar de irritação. - Ao menos terá contado sua direção? Seria capaz de ser amigo dele e tomar parte de um complô para ficar com a fortuna de minha prima?

—Byron não poderia herdar nada se eu morrer, Tasha. - Disse Antonietta colocando-se de pé, sabendo que a deixariam passar pelo o atalho aberto entre flores e arbustos. - Será você quem herdará tudo. Duvido muito que minha morte, ou a do Nonno possa trazer algum beneficio a Byron.

—O que diz? — Chiou Tasha. - Do que me acusa? Acaso foi eu que te arrastou para o penhasco para te lançar na água? O que está insinuando?

—Digo que deixe Byron em paz. Arriscou sua vida para salvar o Nonno e salvar a mim. Não tem sentido que siga adiante com isto.

Poucas pessoas discutiam com Antonietta quando ficava séria. Sequer Tasha. Com a face marcada por um rubor furioso, ela abandonou a estufa. Seu olhar era de vingança.

Byron segurou a mão a Antonietta.

—Precisa saber algo mais, Diego? — Sua voz era amistosa, cheia de camaradagem. - Por favor, nos conte o que sabe.

—Temo que não seja muito. — O capitão respondeu imediatamente às palavras de Byron. - Sequer encontramos o cadáver do homem com quem lutou para salvar a signorina Scarletti. Não está nos penhascos, embora seja possível que tenha caído no mar.

—Acredito que deve ter batido a cabeça ao cair. Não voltou a se levantar, mas eu tive que levar Dom Giovanni ao palácio e não me detive para ver o que tinha ocorrido, como deveria ter feito. — Byron falava tranqüilamente, com um gesto inocente, encolhendo os ombros, que traduzia seu pesar. - Tudo aconteceu muito depressa.

—Assim é como está acostumado a ser. — Diego suspirou e ficou olhando por onde saiu Tasha. – Ela é uma mulher atraente.

Byron sentiu que Antonietta apertava sua mão.

—Sim, ele é. – Respondeu. - Tasha adora crianças e está muito angustiada pelo acidente de Margurite. Você acredita que há alguma relação entre isso e a agressão que sofremos meu avô e eu?

—Estou seguro de que havia intenção de causar mal a seu avô. - Afirmou Diego.

—E as câmaras de segurança? Não se vê algo nas fitas que mostre como entraram ou como puderam se mover com tanta facilidade pelo palácio sem ativar o alarme? — Perguntou Byron, tranqüilo. Sentiu que Antonietta estremecia ligeiramente e a atraiu para si, para protegê-la.

—Tinham que saber o código para entrar na casa e onde estava o painel de controle para desativar o sistema.

Produziu-se um breve silêncio. Antonietta fazia o possível para não se poiar em Byron. Não queria revelar suas emoções, embora no fundo desejava gritar, exasperada por essa traição. Alguém do palácio tinha ajudado a seus agressores. Apoiou a cabeça nos ombros de Byron. Sob seus óculos escuros, apertou com força os olhos para aliviar a dor que rasgava seu coração. Alguém de sua própria família. E ela amava-os com toda a alma, com todas suas peculiaridades. Pensar que um deles participava de uma conspiração para assassinar Dom Giovanni era inconcebível.

- Aprendi nesta longa vida, a nunca me apressar em tirar conclusões.

Sua voz era como uma carícia em sua mente, avivava um calor e uma esperança no fundo de seu ser, onde abriram um buraco enorme e angustiante. Sem mais, com poucas palavras e sua voz mágica, Byron tinha conseguido curá-la.

—Signorina? Acredito que deve ter muito cuidado até que descubramos quem está por trás deste atentado contra você e Dom Giovanni. - Avisou Diego.

Byron cuidou que Diego olhava seguidamente para o corredor, fora da estufa, onde Tasha passeava de um lado a outro. Ele inclinou-se para o homem e o olhou diretamente nos olhos, para reforçar a convincente sensação de amizade e confiança.

—É uma boa idéia, Antonietta, acredito que é um conselho muito sábio, que vá com cuidado. Acabamos, Diego? Possivelmente Tasha queira te convidar para uma xícara de chá, enquanto conversa com o pessoal da cozinha sobre o desaparecimento do Enrico. – Ele disse e voltou a estreitar a Antonietta.

—Estou segura de que Tasha estará disposta. — Conveio Antonietta. Mais que nada, queria estar a sós com Byron. Precisava estar a sós com ele.

—Acredito que seria o mais indicado. – Concordou Diego, sem duvidas. - Obrigado por seu tempo, signorina Scarletti. Manterei-me em contato com você.

Antonietta deixou que Byron lhe retivesse a mão, embora normalmente se empenhasse em caminhar sozinha. Era proibido mover os móveis no palácio e ela sabia onde se encontrava cada planta, cada cadeira e mesa, na estufa. Byron Justicano estava sob seu amparo. Queria deixar muito claro a sua família, que teriam que aceitar a presença dele em sua casa e em sua vida.

—Por favor, venha comigo, capitão. Tasha está aqui fora. — Não custava muito identificar os passos nervosos no corredor e Antonietta conhecia sua prima. Se pensasse no visível interesse que tinha manifestado sua prima pelo policial, Tasha não podia estar muito longe.

Byron abriu a porta e se afastou para deixar que Antonietta o precedesse. Quando passou, sussurro-lhe ao ouvido:

—Trouxe-te uma surpresa.

Tasha se virou imediatamente, quando os viu sair da estufa. Seus grandes olhos escuros estavam fixos em Diego.

—Você tem alguma idéia de quem está fazendo isto?

—Ainda não, signora.

—Tasha! — Disse ela, com uma careta perfeita. - Se não me chamar de Tasha, temo que não lhe responderei. Signora Scarletti Fontaine é muito formal. —Ignorando Byron, ela se aproximou de Antonietta e a beijou na bochecha. – Oh! Sinto muito, prima. Já sabe por que. - Sussurrou. Suas palavras foram apenas audíveis, mas Byron as ouviu com claridade.

Antonietta assentiu com um gesto da cabeça.

—Tasha, teria um momento para acompanhar o capitão à cozinha e pedir ao pessoal que coopere com ele? Byron me trouxe uma surpresa e espero que não se importe em ajudar a Diego no que ele precisar, para completar seu relatório.

O rosto Tasha se iluminou.

—Certamente, Antonietta. Diego, por favor, venha comigo. – Ela passou a mão pelo braço do Capitão e lhe sorriu para que ela não afastasse o olhar dela.

 

— Irei vê-la, - assegurou Byron - mas neste momento a mãe está com ela e seria preferível que vá visitá-la quando estiver sozinha. Não posso me pôr a curá-la diante de seus pais, nem dos médicos. Pensariam que sou o diabo.

—Suponho que tem razão. – Concordou Antonietta com um ligeiro sorriso.

—Acredito que deveria olhar à surpresa que te trouxe. Faz um bom tempo que te espera, aí fora.

— Trouxeste para alguém? — Por um momento, o coração bateu forte em seu peito. Byron tinha um filho? Apesar de suas freqüentes visitas, sabia muito pouca coisa a respeito dele. No fim, o que Tasha dizia tinha certo sentido, porque ninguém sabia onde ele vivia ou quem era.

— Por dizê-lo de algum jeito. - Respondeu Byron, enigmático. - O jardim da entrada... Ele está nos está esperando.

—Deveria ter pedido que entrasse. - Disse Antonietta.

—Eu trouxe para você e espero que diga o mesmo quando o conhecer. —Byron abriu a porta e mostrou-lhe ao borzoi.

Celt fez sua entrada com passo majestoso. Fiel a sua palavra, Byron o protegera da tempestade e agora ele luzia uma pelagem totalmente seca. Dirigiu-se para a Antonietta e como se soubesse de sua cegueira, colocou a cabeça sob sua mão e fixou o olhar nela com ar de devoção. Byron sorriu.

—Sabia que você gostaria imediatamente. Disse Byron a Celt.

Antonietta afundou os dedos na sedosa pelagem, tomada pela surpresa.

—Um cão? Trouxeste-me um cão?

—Não é um cão qualquer. —Byron fechou a porta para que não entrassem as rajadas de chuva e vento; - Celt é um companheiro e um protetor. Sabe quando não deve incomodar e, entretanto, sempre estará com você, completamente entregue. Sempre que este cão estiver com você, se alguma vez precisar de mim, poderei te ajudar, mesmo que me encontre longe. Observou atentamente a face de Antonietta para captar qualquer sinal de inquietação ante suas palavras. Não era lógico que ela aceitasse sem mais, essas diferenças e, entretanto, era como se nunca o questionasse.

Antonietta se ajoelhou e passou as mãos pelo poderoso peito e o lombo do cão.

—É muito grande. E tem todo o jeito de ser um grande corredor. Como poderei lhe dar o exercício que necessita? — Ela queria ficar com o animal. Assim que apalpou sua maciez e percorreu o focinho alongado, na palma de sua mão, soube que havia uma conexão. Aquele cão estava destinado a ser dela. Queria-o com toda a alma, mas ao mesmo tempo, era consciente de suas limitações. - Quero que seja feliz. – Ela disse ao animal.

—Celt. Ele se chama Celt. Os borzoi não ficam com alguém se não são felizes. É sua, a decisão e a julgar em como ele se colocou a seu lado, acredito que já está tomada. Precisa descansar e recuperar forças. Seu antigo dono o maltratava. Ao que parece, Celt era propriedade de uma jovem que teve a desgraça de se casar com o homem errado. Encontrei-o encerrado num canil diminuto onde mal podia ficar em pé e estava morto de fome.

—Que coisa mais horrível. Dá para notar suas costelas. - Disse Antonietta e esfregou com carinho, as orelhas sedosas. – Ele se recuperará e ficará forte, Grazie, Byron. De verdade. Dá-me vontade de chorar ante um presente tão maravilhoso. Como o encontrou?

Byron encolheu os ombros, como se não tivesse maior importância.

—Ouvi sua chamada. É um cão forte, mas extremamente nobre. Obedecerá todas as suas ordens, inclusive atacará embora não haja necessidade. Velará por ti quando eu não puder estar a seu lado. Contratou um guarda-costas?

—Justine se ocupará disso. Conheço uma mulher que tem uma agência internacional. A conheci há vários anos e fiquei impressionada. É dos Estados Unidos, mas seu pessoal é gente capacitada. São profissionais que dominam várias línguas. Estou segura de que a pessoa que me mandar será a indicada. —Antonietta deixou que o cão a explorasse, sabendo que os aromas são importantes no mundo animal. – Então você se chama Celt. Eu sou Antonietta. Jamais tive um animal de companhia, então, por favor, terá que me suportar. Farei tudo o que possa para aprender depressa, a lidar com você.

— ele Não é um animal de companhia. - Corrigiu Byron. - Te dará amparo e a acompanhará, mas ele escolhe livremente com quem deseja ficar. Pode se conectar comigo, assim é possível que você possa se conectar com ele. Os padrões cerebrais são diferentes, mas se praticar poderá captar seus sinais. Não são mais que correntes elétricas.

—Nunca parei para pensar como funciona, nem como se pode usar a telepatia com os animais. Pode captar seus sentimentos?

—Certamente. Ele capta os nossos. Um animal fica nervoso se uma criança chorar ou se seu companheiro estiver em apuros ou em perigo. Verá.

—Obrigado, Byron. É uma surpresa maravilhosa. — Antonietta abraçou o animal, tentando lembrar a última vez que tinha recebido um presente. Seus primos acreditavam que ela podia ter tudo o que quisesse, de modo que nunca se incomodavam. – Terá que me dizer como fazer exercício com ele.

—Acredito que Margurite gostará muito. - Disse Byron. – ela tem uma afinidade natural com os animais. Observei que atrai às criaturas selvagens.

—É verdade? —Antonietta estava assombrada. - Ninguém jamais me disse nada, sequer Justine e ela é como se fosse meus olhos aqui no palácio. — Com uma mão sobre a cabeça do cão, Antonietta elevou o queixo e olhou Byron. - Quando estávamos no penhasco, o que quis dizer, quando me disse que havia uma maneira de que eu visse através de você? Faz coisas incríveis. Existe uma maneira de recuperar a visão?

Byron deixou escapar um lento suspiro e também acariciou a pelagem sedosa do cão.

—É uma pergunta difícil, Antonietta. Não está certo mentir a sua companheira. Sim, eu posso te ajudar a ver através de meus olhos, mas não seria permanente. Poderia ver o que eu vejo, mediante nosso vínculo mental. Sempre e quando eu estivee com você, compartilhando meus olhos, poderia ver. Qualquer outra coisa é algo muito diferente e neste momento não tenho todas as respostas.

Suas palavras a desconcertaram, mas a idéia de ver era muito interessante para mudar de assunto.

—Poderia ver de verdade? Veria a pequena Margurite? Meu avô? A meus primos? A você? Poderia me ver em um espelho?

—Sim, mas se sentiria desorientada. Seu corpo não está acostumado a orientar-se por sinais visuais e se confundiria. Seria preferível começar com algo singelo enquanto fica totalmente quieta. Se mover, aumentaria seu desconcerto. —Ele teve vontade de tomá-la nos braços e estreitá-la enquanto lhe explicava, porque intuía que ela estava confusa. E era assombroso como ele se inquietava ao perceber essa confusão.

Antonietta respirou fundo.

—Deixarei Celt em meu quarto e o apresentarei à família quando as coisas estiverem mais calmas. - As palavras de Byron davam voltas em sua cabeça sem cessar e ela tentava lhes dar um sentido. Queria resolver o enigma que ele não quisera lhe revelar. Tentava imaginar a faculdade de ver, embora fosse através dos olhos de Byron.

Surpreendeu-se ao notar que o cão se situou imediatamente a seu lado quando começou a caminhar. Caminhava tranqüilo, sem interpor-se e sempre junto a ela.

—Se ele atravessar em sua frente é que quer que você pare, e sempre será por alguma coisa. - Disse Byron. - Seria conveniente que aprendesse a se conectar com ele, já que também pode ser seus olhos.

—Eu não gosto de me apoiar em ninguém, se posso evitar. - Confessou Antonietta. - Me faz mais dependente.

—Apóia-se em Justine. –Ele disse, com voz cuidadosamente neutra. - Celt não é mais que um instrumento diferente e também um companheiro. Possivelmente descubra que te dará ainda mais liberdade e independência. Em qualquer caso, com ele a seu lado, sentirei-me tranqüilo durante as horas em que não estou com você. Agora precisa descansar, mas verá que se criarem um vínculo, Celt sentirá a necessidade de estar com você a maior parte do tempo, para te acompanhar.

Antonietta voltou a abraçar o cão.

—Não se preocupe, Byron, desfrutarei de cada momento que passar com ele. — Subiram a escada e continuaram pelo longo corredor até suas dependências. Depois de uma breve inspeção dos aposentos, Celt se instalou como se estivesse em sua casa. Antonietta se deu conta de que Byron tinha fechado as portas, para que ficassem a sós.

—Você se irrita que eu não te faça perguntas sobre sua vida?

— Por que aceita minhas diferenças com tanta facilidade, Antonietta? —Inquiriu Byron, curioso. - Se superasse sua barreira mental, leria seus pensamentos como fazem os companheiros, mas quero te respeitar e esperar até que deseje compartilhar seus pensamentos comigo. Se não me falar, não tenho maneira de saber o que está pensando. —Decidiu não acrescentar uma frase sobre os machos humanos, que eram incapazes de ler a mente de suas mulheres.

Antonietta acariciou as orelhas sedosas do cão.

—Conhece a história dos Scarletti e o palácio? Sabia que a construção está cheia de túneis secretos? Contêm os tesouros dos Scarletti e também seus segredos. Quero te mostrar algo. – ela disse e se inclinou novamente para abraçar o cão. - Fique aqui, que estará mais abrigado.

—Não está pensando em entrar nesses túneis, está Antonietta? Contaram-me que são perigosos. Dizem que há armadilhas mortais que saem das paredes e do chão.

Ela deslizou a mão ao longo da parte inferior da parede até encontrar o mecanismo que abria a porta oculta que conduzia a estreita passagem.

—A passagem secreta é algo mais que uma maneira de escapar pelo mar. – Ela disse. Nossa família a usou durante gerações para ocultar valiosos objetos antigos que os conquistadores, os governantes ou até mesmo a Igreja poderiam cobiçar.

—Com todas estas armadilhas, não tem medo de dar um passo em falso e morrer? — Byron não estava gostando que Antonietta se deslocasse por esses corredores escuros com sua confiança habitual, sabendo que havia folhas mortalmente afiadas que esperavam ocultas, o passo dos intrusos.

Antonietta riu, com tranquilidade.

—Faz anos que tiraram as facas, precisamente por essa razão. Já não tínhamos que escapar pelo mar, quando os invasores nos perseguiam, de modo que para a segurança dos membros mais incautos da família, as armadilhas foram desmontadas. —Ela segurou-lhe a mão e sorriu. - É bastante seguro. Venha comigo. Na escuridão me encontro em casa e não deixarei que aconteça nada. Aqui dentro há algo que descobri faz algum tempo. Para mim vale mais que todo o ouro e todas as obras de arte que se conservam nas salas secretas.

—Está segura de que desmontaram as armadilhas?

—Sim, também os Scarletti tiveram que se adaptar à idade moderna. Instalamos eletricidade no corredor. Precisamos para o sistema de fechamento da câmara couraçada e para a luz.

Seu sorriso era suave. Como podia alguém resistir a sua risada, sobre tudo ele?

Byron segurou a mão que ela oferecia e se internou na escura passagem, Ela não acendeu as luzes no labirinto de corredores. Não precisavam de uma luz, e aquilo dizia algo do quanto o conhecia, porque não se incomodou em procurar uma.

— Na noite em que morreram meus pais, sabia que algo tinha acontecido. Despertei e não podia respirar. Saí aà Coberta do iate e chamei-os, mas não me ouviram. Saí correndo e ouvi o tic-tac do relógio. Mais tarde, quando contei ao Nonno, disse-me que eu havia imaginado. Mas eu sabia que não era minha imaginação. Sabia que havia uma bomba no iate. Saltei na água quando ela explodiu.

A porta se fechou com força a suas costas, deixando-os isolados no estreito túnel. Estavam totalmente às escuras. Nenhuma luz se filtrava nesse labirinto. O corredor era tão estreito que Byron quase tocava com os ombros, os lados.

—É possível que o tenha ouvido e sentido, Antonietta. Muitas pessoas possuem um alarme interior e até uma espécie de radar.

—Durante anos me culpei pelo que tinha acontecido. Eu os abandonei. Não subiram a coberta quando gritei que havia perigo. Não sei por que, mas não subiram. — Ela conduzia Byron e se afastaram da galeria mais longa. - Foi à primeira vez que senti à fera.

Byron sentiu que Antonieta enterrava os dedos em sua mão e em seguida, a estreitou nos braços.

—Você era uma menina, Antonietta, só tinha cinco anos. Você mesma quase não conseguiu escapar da morte. Como aconteceram as coisas, certamente duvidou, e por isso a explosão a alcançou.

Ela passou a mão pelo peito de Byron, em lentas carícias e seus dedos tremeram.

—Sei... Agora. As crianças têm a tendência a se culparem. Virei-me quando vi que não haviam subido e gritei para que andassem depressa. —Apoiou por um momento a cabeça contra seu peito. - Era muito pequena para subir às cordas e passar para o outro lado, mas senti algo, uma força que se agitava em meu interior. Crescia e se estendia. Era noite fechada, não havia lua e estava escuro. As águas eram negras. De repente, senti que algo se movia sob minha pele, quase como se estivesse vivo e me provocou uma ardência horrível. E então vi tudo. Não era uma visão normal, era diferente, mas de repente a noite clareou. Ouvi que minha mãe dizia algo a meu pai. Dizia que voltaria em seguida, que ia ver o que estava acontecendo comigo. Pensava que eu havia tido um pesadelo. Mas já era muito tarde. Subi às cordas do corrimão. Um só salto. Foi tão fácil e logo o mundo se tornou branco e logo vermelho e depois tudo escureceu.

Byron sentia que em Antonietta pulsava um profundo pesar. Não importava que suas lembraanças se remontassem há tantos anos atrás, porque em sua mente estavam tão vivos como o dia em que aconteceram. Voltou a estreitá-la com força e afundou a face em sua cabeleira sedosa.

—Me alegro de que tenha sobrevivido, Antonietta. Lamento que tenha perdido seus pais. - Uma vez mais, ele tentou derrubar aquela barreira mental, sempre presente. Desejava conhecer suas lembranças. Desejava ter acesso a esse poder interior. A suas orígens.

—Eram pais maravilhosos. Raramente ficavam um sem o outro. Tinham uma relação muito estreita e sempre davam a impressão de que compartilhavam algum segredo. Venha comigo, quero te mostrar algo. —Deu um passo adiante e lhe puxou pela mão. - Jamais contei a alguem o que aconteceu realmente naquela noite. Sei que diriam que estou louca. Nasci com o dom dos Scarletti, para a cura. E muitos de nós, temos o dom da telepatia, embora nossa capacidade seja limitada. Nunca pude me comunicar com ninguém com tanta claridade como com você. —Ela deteve-se no meio da longa passagem e passou a mão pela parte superior da parede. - Quando descobri esta sala, estava coberta de teias de aranha. Acredito que ninguém vêm aqui a anos.

Byron procurou a mão de Antonietta, deslizou os dedos sobre o oco desgastado pelos séculos, até encontrar o mecanismo oculto que dava acesso à sala. A porta se abriu e no interior uma luz se acendeu automaticamente. Um ar umido e rançoso chegou até eles. Byron a envolveu em seus braços para evitar aquela o cheiro insalubre, enquanto lançava um sopro de ar para a sala e criava uma leve rajada de vento com os braços. Esperou até assegurar-se de que já se podia respirar e deixou Antonietta passar.

—Como tem faz isso? Eu posso fazer umas quantas coisas, mas não posso voar com dois adultos sobre os penhascos e baixar até o palácio por esse caminho estreito. Juro que nossos pés não tocaram o chão e você foi com tanta velocidade, que o vento soprava em nossa face. Eu posso tirar forças, às vezes, tenho imagens térmicas, suponho que muito parecidas com os infravermelhos, mas não posso fazer as coisas que você faz. Como na outra noite, que me assustaram. Não era como ver. Era outra coisa.

Antonietta entrou na pequena sala. Byron a seguiu. Não era maior que um armário embutido, longo e estreito. Nas paredes esculpidas, do chão ao teto, apareceu uma mescla de símbolos, imagens e escritura antiga.

—É a história de minha família. - Disse ela. - Nossa herança, quem sou. E depois que Nonno me ensinou a vir nesta sala, não tornei a ter medo de mim mesma. —Inclinou a cabeça para ele. - E jamais teria medo de você. —Com um gesto, assinalou a parede. – Eis aqui o gato que procurava ontem à noite. Os felinos Scarletti.

Byron se aproximou da parede e seguiu com as pontas dos dedos, o intrincado relevo, como tinha feito ela, ao “ler” as imagens. Eram figuras de jaguares, de homens e mulheres que eram jaguares e humanos ao mesmo tempo, capturados para a eternidade, num momento de transição. Os relevos mais antigos eram gastos, mas detalhados. Os desenhos posteriores eram belos, como se os artesões tivessem investido um enorme trabalho em sua criação.

—Isto é incrível, Antonietta. Alguém mais viu isto?

—Não, pensei que era melhor guardar segredo.

Byron estava de acordo com ela. Os conteúdos da sala poderiam ser muito prejudiciais para os Scarletti e sua posição na sociedade. Mesmo assim, aquela relação tão secretamente guardada da saga dos Scarletti era importante para seu povo. Seus dedos voaram sobre a superfície da parede, lendo o mais rapidamente possível.

—De modo que esta é a razão pela que não teme minhas diferenças e as aceita tão facilmente.

—Soube em seguida que tinha que ser um dos machos e que seu ramo sangüíneo devia ser mais poderoso que o meu. – Ela aspirou fundo e deixou escapar um suspiro. - Já sei que não ficará, Byron e não me importa. De verdade, não importa. Não desejo me casar. Estou muito contente com minha vida tal como é. Jamais desejei ter uma relação permanente com um homem. Ter um amante é outra coisa completamente diferente. Pode ficar o tempo que desejar e acredito que tudo será como foi pedido para os dois.

Ele se virou, devagar, apoiou o quadril contra a parede de relevos e cruzou de braços. Produziu-se um longo silencio.

—Então, não se importará quando eu te deixar?

Antonietta captou o suave grunhido oculto na voz dele, os dentes que rilhavam. Teve um calafrio e pela primeira vez, sentiu um ligeiro desassossego. Byron parecia um homem tranqüilo e gentil, de maneiras antigas e clássicas. Recordou como ele havia segurado seu agressor, depois o rangido perceptível dos ossos se quebrando. Com que indolência tinha arrojado aquele corpo inerte para um lado. Nem sequer se aproximara para comprovar se o homem continuava vivo, porque já sabia que estava morto.

—E bem... É evidente, tenho lido muitas vezes. Entendo perfeitamente a necessidade de perambular, que têm os machos desta espécie. Confesso que aceito o inevitável e não quero que se sinta mal por isso. —Enquanto falava, Antonietta deu um passo para trás e levou a mão instintivamente ao pescoço, protegendo-se. Estava com a pulsação acelerada, como se chamasse Byron. A marca que ele havia deixado na noite anterior palpitava e queimava.

—Há coisas que são inevitáveis, mas duvido que seja o que você imagina. —Byron estirou o braço com gesto intrascendente, quase com preguiça e a segurou pela nuca, para atraí-la. Ela se deixou levar, embora com certa reticência e deu um pequeno passo adiante para ceder a sua demanda e logo outro, até que sentiu o calor de seu corpo através da fina barreira de sua roupa.

— Por que tem raiva?

Byron ardia de raiva de só pensar que ela pudesse estar tão segura de que ele a deixaria. De que quereria deixá-la. Irritava-lhe, que Antonietta se mostrasse tão condescendente, inclusive agradecida, de que ele a deixasse. Quis mitigar aquele caldo de emoções que bulia em seu foro interno. Aquele caminho conduzia ao desastre.

—Neste mural conta que um grupo de mulheres e crianças chegaram procurando um refúgio. Havia só alguns machos, a maioria velhos ou muito jovens, mas as mulheres não tinham homens que as protegessem. Queriam viver nas terras dos Scarletti, sob o amparo da família. Eram estrangeiros, vindos de uma terra distante. Pessoas de costumes estranhos. Aqui diz que estas mulheres tinham grandes dons de telepatia. E eram curandeiras. E todas podiam mudar

Antonietta assentiu com um gesto da cabeça. Byron já não a imobilizava, só uma ligeira pressão, quase suave, em torno de seu pescoço, mas a tensão seguia vibrando no ar, entre os dois.

—Nesta imagem se vê com toda claridade um felino grande.

—O jaguar. - Disse ele. - Ouvi falar desta espécie. Estão quase extintos. Os machos se negavam a ficar com as fêmeas e com o tempo, as fêmeas adotaram maridos humanos. A raça se debilitou ao longo dos séculos.

Ela voltou a assentir.

—Às vezes, sinto o felino em meu interior. Advertindo-me. Tenho o sentido do olfato muito agudo. Sou cega, mas quando aparece minha natureza selvagem, vejo cores de tons vermelhos, amarelos e brancos. Imagens de calor. Quando ontem à noite você disse que cheirava ao felino, pensei que possivelmente acontece o mesmo a um de meus primos e então já não sou uma criatura tão excepcional. É verdade, Byron. Este é o motivo do trato entre os Scarletti e as mulheres da aldeia. Eles queriam o dom do jaguar para si mesmos. Alguns dos homens Scarletti se casaram com essas mulheres, há quem conserva um componente muito forte no sangue, outros não. Tenho lido estes muros com cuidado. É verdade que os homens abandonaram às mulheres. Elas estavam dispostas a conviver com os humanos porque seus homens jamais ficavam. Deixavam-na prenhes e desapareciam, inclusive em tempos de guerra, fome e pragas. Foi assim que as mulheres se voltaram para nossa raça em busca de companhia, de amor e de uma família.

—Como fizeram em outros lugares. - Demarcou Byron.

—Nos velhos tempos, as mulheres tinham escassos direitos e menos amparo, mas no mundo de hoje somos capazes de cuidar de nossos filhos e lhes dar o que precisam. Eu tenho uma vida folgada e jamais pensei que conheceria alguém que me atraísse tanto. Francamente, Byron, só quero dizer que se esperava ou desejava um amante, só era por períodos breves.

Ele respirou, cheio de contrariedade.

—Sinto muito, mas não é o que eu espero nem desejo, Antonietta. Não sou um jaguar. Os meus não abandonam às mulheres por questões de conveniência ou vontade de ver mundo. Quando nos unimos, fazemos por vida. Para toda a eternidade. Eu não desejo menos, nem tampouco aceitarei menos. Tem muito a aprender a respeito de quem sou e o que sou. — Seu olhar escuro vagava obsessivamente por seu rosto.

Ela sentiu o impacto, a intensidade de seu olhar que a queimava por dentro. De repente, lembrou-se da escuridão sufocante em que vivia. Só entre os estreitos muros daquele espaço, era muito tarde para lembrar que sabia muito pouco do homem que agora estava tão perto. Ignorava tudo de sua família, de sua herança, de seu coração. Ele sempre estava sozinho e era muito reservado, muito atento, mas também podia voltar-se extremamente violento se precisasse.

—Quem é você, Byron? — Perguntou num sussurro rouco, tingido de medo quando mais precisava se sentir segura. – Diga-me, então, quem é. Me diga o que é. Se não é um jaguar, como eu, o que é? — Contendo a respiração, ela levou a mão ao ventre, trêmula.

Com o polegar, Byron lhe subiu o queixo. Ela sentiu seu hálito na face. Quente. Insinuante. Ele se aproximou e roçou o canto dos lábios com a boca, com uma suavidade aveludada. Ele era tão persuasivo que Antonietta sentiu seu coração se acelerar.

—Sou seu companheiro. Sou o guardião de seu coração e você do meu. —Foram palavras sussurradas junto a seus olhos. Os lábios de Byron baixaram novamente por sua face até encontrar sua boca. Doce. Insistente, leve como uma pluma, mas com toda a força para lhe roubar o fôlego. E a fala, a prudência. Sua mente só lhe permitia pensar em seu desejo. De tê-lo para ela.

Suas palavras soavam estranhas, quase solenes, mas isso não impediu que voltasse sua boca para ele e nem que o desejasse com cada célula de seu corpo. Byron. Tinha sonhado com ele durante tantas noites solitárias. Sonhos eróticos e apaixonados de sexo selvagem e de prazer em cuja existência, realmente, não acreditava. Ele esmagou seus lábios contra os dela, devorando-a com sua boca quente, masculina e excitante, na escuridão do quarto secreto, onde seus ancestrais decoravam os muros.

Fundiram-se um no outro, duas metades do mesmo todo. Uma mistura de fogo e eletricidade. A terra se remexeu misteriosamente sob seus pés. Ele a atraiu para si, e os dois corpos casaram estreitamente um no outro, a estampagem de cada músculo de Byron, na pele suave dela. Ele sabia como se sentiria Antonietta, cheia de um desejo hipnótico. O rio da paixão cresceu nela até encontrar seus desejos mais escuros. Byron soubera no momento em que chegaram a seus ouvidos, as primeiras notas deliciosas de sua música.

Antonietta colocou os braços no pescoço dele e ela devorou num universo de fome e paixão e luz, conduziu-a até a fonte primitiva de sua música. De seus gozos e dores e seus sonhos eróticos mais intensos. De cada gota de seu desejo. Antonietta não podia resistir a suas ânsias de sentir o calor insólito de sua pele. Deslizou as mãos sob a camisa dele, para acariciar o contorno de seus músculos. Ardia na dor do desejo e seu corpo se tornava líquido e faminto.

—Byron. —Murmurou seu nome com voz de sereia. Um convite ao paraíso.

Ele segurou o lábio inferior de antonietta, com os dentes.

—Quer que eu te faça o amor, Antonietta? Seria tão singelo para ti. Nenhum vínculo. Nenhum amor entre nós para nos estorvar. — Ele acariciou o seio firme e com o polegar, incitou o mamilo até endurecê-lo. Inclinou a cabeça, cedendo à tentação oculta atravéz do tecido de sua blusa. Seus seios eram exuberantes e cheios. Ela possuía as curvas de uma mulher, um corpo formoso. Sua boca se fechou, quente e úmida, sobre aquele seio luxurioso e sugou, até que Antonietta lançou a cabeça para trás e o segurou pelo cabelo para aproximá-lo ainda mais.

Antonietta sentiu que os joelhos fraquejavam e lançou um grito, pressentindo que teria um orgasmo ali mesmo, com o toque de sua boca. Ele seguiu com a língua, pelo vale de seus seios, até o pescoço.

—É isto o que quer? Só uma relação física? — Disse Byron, elevando a cabeça e ela sentiu que seus olhos a queimavam. - Só isto te basta?

Antonietta lhe segurou o cabelo, quase desesperada para atraí-lo de volta. Não tinha por que se sentir culpada, mas era precisamente o que estava sentindo, culpa.

—No passado, sempre foi suficiente. - Disse, em tom desafiador e se envergonhou em seguida de ter cedido a sua provocação, porque o que ela fazia ou preferia fazer não era assunto dele.

Byron se endireitou lentamente e afastou as mãos. Separou-se dela, deixou-a fria, só e desamparada.

—Para mim não é suficiente.

Antonietta se levou uma mão trêmula à cabeça e retrocedeu.

—Não é possível que deseje uma relação permanente e duradoura comigo. Sequer me conhece.

—Isso não é do tudo, uma verdade, Antonietta. Há muito poucas coisas de você que eu não conheça. Levei tempo, te observando tranqüilamente em sua casa, te ouvindo. Ouvindo tua música, te observando com sua família. Conheço-a muito melhor do que pensa. Você não perdeu seu tempo para me conhecer. Pensava que podia me ter como amante e que seu mundo perfeito continuaria intacto. Não teria que fazer absolutamente nada embora, a verdade seja, sempre há mudanças e conseqüências.

Para Antonietta, não agradava se ver através do olhar de Byron. Sentia-se superficial e egoísta.

—Não há nada de mal em que uma mulher tenha um espírito prático, Byron. Os homens têm amantes e as abandonam sempre. Isso vem acontecendo há séculos. Eu sou uma pessoa prática, mas não sou insensível às emoções. Tenho uma família que depende de mim e tenho uma carreira. Não se dá conta de que o que te digo tem sentido? Você não está apaixonado por mim. — Era um desafio para que ele mentisse e lhe dissesse que estava apaixonado.

Ele deu um passo para trás, mas logo voltou a se aproximar. Ela intuiu sua sombra naquele recinto escuro. Sentiu sua presença e não era o homem com que se encontrava sempre, não o homem doce e atento. Era um predador perigoso que a espreitava nos estreitos corredores do palácio Scarletti. Percebeu a imagem de lábios abrindo-se, um grunhido silencioso e garras afiadas.

—O que sabe você do que sinto ou não sinto? — Sua voz era um sussurro, quase inaudível, mas ainda assim, havia algo nela que aumentou seu temor.

Antonietta estirou uma mão para frente. Uma prova. Byron a segurou e a apertou contra seu peito. Ela sentiu que o coração lhe pulsava com força. Era um ritmo perfeito e Antonietta sentiu que seu próprio coração queria imitá-lo.

—Não era minha intenção ferir você. – Ela se aproximou. - Isso é o que tenho feito, não? Ofendi você ao dizer que não queria uma relação permanente. Não queria que soasse dessa maneira. — Por que tinha tido tanto medo? Como podia pensar que Byron, com suas maneiras impecáveis poderia ser outra coisa que um ser generoso e atento? Depois de seu pesadelo na outra noite, as fantasias transbordavam em sua imaginação.

—A nenhum homem agrada que lhe digam tão alegremente que tem prazo de validade. - Disse Byron. - É um golpe duro para o ego. – Ele acrescentou e levou os dedos de Antonietta, à boca.

Antonietta esperava um beijo breve, mas seus dedos ficaram presos na boca de Byron. Estava quente e úmida e ela sentiu a mesma sensação de quando ele tinha beijado seus seios. Pensou que suas pernas não a sustentariam, que se derreteria no chão.

—Acredito que tenho os hormônios muito agitados, Byron. —Não lhe restava outra defesa, que o humor. - Se continuar assim terei que pensar em te rasgar a camisa.

—Não acredito que isso possa me deter, Antonietta. - Respondeu ele, com um toque de riso na voz e mordiscou-lhe o dedo, seguiu até polegar. - Como descobriu esta sala? Não vem com muita freqüencia por aqui, não é?

Em sua voz aparecia uma leve curiosidade, mas ela teve a impressão de que ele esperava sua resposta. Que seu tom de voz não coincidia com suas emoções.

—Durante quase toda minha vida pude ler às pessoas, Byron. Sempre pensei que era por minha cegueira e porque tinha que utilizar outros sentidos para me orientar. Você é muito difícil porque não diz grande coisa e não posso confiar em sua voz para intuir suas emoções. — Ela levantou a mão para tocar sua face e leu brandamente em sua expressão, com a ponta dos dedos.

—Eu jamais fui cego, Antonietta, embora durante muito tempo não via cores. Via o mundo em matizes de cinza, branco e negro. É um traço dos machos de minha espécie. A maioria perde a capacidade de ver em cor, quando adquirem todo seu poder, mas eu demorei muito mais.

Byron parecia tão triste que Antonietta cedeu ao impulso de se aproximar dele.

—O que aconteceu? No que pensa?

—No passado... Há muito tempo, em um amigo da infância. Mais que um amigo. Em meu mundo, nossos irmãos podem ser bastante maiores. Meu amigo era minha família. Nunca estivemos muito longe um do outro e graças a ele, a vida era suportável. Eu trabalhava com pedras preciosas e Jacques também tentava de vez em quando. — Ele sorriu ao lembrar as travessuras de Jacques. Byron era um rastreador de gemas, capaz de cantar até que as pedras incrustadas nas profundezas da terra saíssem à luz e Jacques o acompanhava freqüentemente às cavernas mais profundas. - Meu amigo desapareceu durante muitos anos e o demos por morto. A partir desse momento, minha vida se converteu num inferno. Sentia-me sozinho, e possivelmente até me zanguei com ele, por morrer e me abandonar. Sentia-me perdido, sem um rumo na vida. Até que, um dia, vi uma mulher. Vi-a em cores. Dava-me conta de que era ruiva, e que tinha os olhos verdes. Quando isso acontece, o macho de nossa espécie sabe que ela é a mulher. Mas eu não via ninguém nem nada mais em cor, o qual não tinha sentido se ela era minha companheira, por que as cores dizem que a encontramos. Eu teria que ter sabido, deveria haver tomado tempo para pensar, mas naquela época a paciência não era uma de minhas virtudes.

A tristeza lhe pesava como um fardo enorme, uma grande dor. Antonietta sentiu no coração, pesou-lhe na alma, mas guardou silêncio, esperando que ele continuasse. Suspeitou que Byron jamais tinha contado essa historia a alguem. Byron se virou para beijar a ponta de seus dedos.

—Mais tarde, dei-me conta, de que meu amigo Jacques e eu estávamos tão unidos, que comecei a ter visões que nasciam de sua mente. Tinham torturado Jacques e ele estava à beira da loucura. Não se lembrava de nenhum de nós, de modo que nesse momento não me ocorreu que seguia conectado a ele, que seguia vendo através de seus olhos como tínhamos feito tantas vezes no passado, intercambiando pulhérias sobre nossos respectivos caminhos. Mas quando por fim entendi o que acontecia, era muito tarde. Tinha arruinado nossa amizade e infundido nele uma profunda desconfiança, em mim. Ele tinha precisado de mim e eu o tinha defraudado. Arrependi-me amargamente desses dias de imprudência.

—É uma história triste, Byron. Espero que seu amigo esteja melhor agora. E se era um amigo tão próximo, estou segura de que quando se curar te perdoará pelo que seja que tenha feito.

—A conexão entre nós segue viva se um dos dois queira recorrer a ela, mas eu já não podia ver em cores. Minha vida voltou a ser uma existência de cinzas e sombras. Até que a conheci.

Ela falou de maneira tão aberta e com tanta franqueza que chegou ao coração de Antonietta. “Até que a conheci”. Certamente era sua voz que se impregnava nela, com tanta profundidade.

—O que mudou? — Perguntou, com um nó na garganta. Antonietta se brindou a si mesmo uma severa advertência. Byron era um homem, como outros homens, que viria e iria, como todos. Pouco importava suas doces palavras se, com o tempo, na assinatura do acordo prenupcial, sempre aparecia o verdadeiro fim que perseguiam. E nunca era ela, Antonietta, a mulher.

—Minha vida inteira. — Foi sua breve resposta.

E aí, em meio a mais absoluta escuridão, ela quis lhe acreditar.

— Me beije, Byron. Beije-me. — Deslizou os braços em torno de seu pescoço e se apertou contra ele. Uma oferenda. Uma sede e uma necessidade. Talvez ela preferisse que Byron não fosse um homem especial, não queria acreditar que fosse diferente dos outros, mas precisava que ela a beijasse. E ela jamais tinha sentido necessidade de alguem.

Ele murmurou algo numa língua que ela nunca tinha ouvido e inclinou a cabeça. Seus lábios voltaram a acariciar seu rosto, em sutil assalto contra os sentidos. Antonietta sentiu que uma força enorme a aproximava dele, apertando-a contra seus quadris. Juntos, os lábios brincavam. Ele lhe mordiscando o lábio inferior, numa tentação suave que deixou Antonietta incapacitada para resistir, por mais que quisesse.

Ela começou esfregar-se nele, seduzindo-o com movimentos deliberados. Quando Byron estava com ela, tão perto, não pensava em mais nada. Em outras coisas. Ansiava tê-lo, como um viciado anseia ter uma dose de droga.

—Uma compulsão. – Murmurou. – è o que voce é, um bruxo que me lançou um encantamento.

—E eu pensava que era o contrário. - Sussurrou ele, logo lhe roçando a boca.

Antes que ela pudesse responder, ele tomou posse dela com seus lábios e o mundo se virou. Não importava a escuridão, porque através de seus globos oculares explodiu uma sucessão de cores. Sob seus pés, a terra tremeu e ela se segurou a ele. Já não podia respirar, mas Byron era o único ar que precisava. Antonietta se apertou contra ele e o surpreendeu com sua reação, porque seu corpo se tornou suave e se rendeu, desejosa.

—Nunca tinha me acontecido algo assim.

Ele voltou a beijá-la. Profundamente, faminto. Como se ela fosse a única mulher no mundo e ele precisasse beijá-la. Precisasse beijá-la. E então, bruscamente, levantou a cabeça. Seus olhos refulgiram como duas faíscas ardentes, quando olhou por cima de sua cabeça e por um instante, brilharam suas brancas presas na escuridão absoluta do labirinto.

—Alguém se aproxima. – Ele a avisou. Em sua voz não havia ameaça, mas ela intuiu um leve indício da violência, inerente nele. Uma fera que clamava por sua liberação, que lutava por supremacia, mas Byron não abandonava seu aspecto tranqüilo e ela o sentiu como uma serenidade própria.

Todos seus sentidos se alertaram e Byron respirou fundo, como se pudesse cheirar o inimigo.

—Jamais ninguém vem por aqui, Byron. - Sussurrou ela. - Guardamos os tesouros, as obras de arte e as jóias. As salas foram desenhadas para conservar tudo à temperatura adequada. Ninguém da família entra aqui sem a prévia autorização do Nonno ou a minha.

Ele aproximou os lábios a seus ouvidos.

—Há alguém no túnel e se move com sigilo, não caminha com muita segurança. Duvido que tenha conseguido autorização. — Ele viu o resplendor de uma luz que se aproximava deles. - Vem para cá. Posso nos ocultar para que não nos veja, mas o corredor é muito estreito e topará conosco. Teremos que nos esconder no quarto dos relevos e fechar a porta.

Byron sentiu que Antonietta reagia a suas palavras com a respiração acelerada e que crispava os dedos num gesto involuntário. O braço com que Byron a protegia, endureceu.

—Comigo estará a salvo. Sei que o espaço é pequeno, mas posso sair, se falhar o mecanismo de abertura.

Havia uma segurança absoluta em sua voz. Antonietta não podia falar de um mundo de escuridão sufocante. De despertar afogada, sem poder respirar e com a garganta fechada, lutando desesperadamente por ar. O coração pulsava com violência alarmante. Assentiu sem dizer uma palavra, porque não confiava em sua própria voz. Aborrecia o medo paralizador que, indevidamente, apoderava-se dela quando se encontrava em terreno desconhecido.

Byron a levou até o estreito quarto e fechou a porta, isolando-os no interior. Aproximou-se de Antonietta com atitude protetora. Com a porta fechada, desapareceu a luz e os segredos dos Scarletti Ficaram ocultos como faziam há séculos. Na escuridão, percorreu as paredes com a ponta dos dedos. Os relevos eram suaves e precisos, uma obra de arte que superava a mera função de crônica das sucessivas gerações. Apalpou a figura de um ser que mudava de aspecto, primeiro humano, depois metade humano e metade felino e logo, plenamente um felino. O Jaguar. O triste final de uma espécie. O sangue se diluiu tanto, que restou um punhado de indivíduos com plenas faculdades. Tantas espécies desaparecidas ou quase desaparecidas da face da terra.

Os dedos de Antonietta encontraram sua face e voltaram a percorrer o formoso perfil de seus lábios. - Se não é um jaguar, o que é, Byron? – Ela recorreu por instinto, a essa forma mais íntima de comunicação Em alguma parte, do outro lado da parede, alguém se aventurava pela passagem, com suas próprias intenções secretas.

- Sou da terra. Meu povo existe desde o começo dos tempos, sob uma ou outra forma.

- Então, é verdade que muda de forma! Pode fazê-lo, não é? - Antonietta não que conseguia dominar sua emoção.

O fôlego de Byron era quente sobre seu rosto. Com os lábios, roçou-lhe o rosto. - Se respondesse que sim, influiria de algum jeito para que pensasse em mim e me incluísse na herança genética dos Scarletti? - Byron seguia os passos furtivos e ouviu que chegavam ao longo de seu esconderijo.

- Não tem nenhuma graça. - Mas a vontade de rir estava a flor de pele, pura alegria. Era verdade. Não tinha perdido a razão, como estava acostumado a imaginar quando a fera surgia nela com força, rugindo por ser liberada. - Sou muito velha para pensar na maternidade. - Disse Antonietta, para recuperar a seriedade. Era muito velha para desejar uma relação permanente, ainda que Byron a intrigasse, embora a fizesse sentir-se bela e jovem e a enchesse de felicidade. Era um capricho, uma atração física, uma ilusão que logo passaria. Tinha que passar logo.

Ele deslizou a mão pela exuberante cabeleira, pesando a volumosa trança na mão. - Você não sabe o que é ser mais velha, Antonietta.

Por seu tom de voz, ela adivinhava que Byron se divertia. - Quero saber quem está aí fora. É um homem e é de sua família. Normalmente, posso ler os pensamentos dos humanos, mas a influência do jaguar é dominante nesta parte da casa. Pressinto que é Paul, mas me custa ler no pensamento dos habitantes deste lugar, mais que o costume. Se insistir, ele dará conta de minha presença. Mas posso segui-lo e averiguar que intenções têm.

Antonietta teve que morder os dedos com força, para não protestar. Tinha entrado nesse labirinto de túneis centenas de vezes. Era ridículo ter medo de ficar sozinha. Poderia voltar facilmente para se quarto assim que saísse daquele lugar. Seria Byron quem correria o perigo de ficar preso no intrincado labirinto que percorria os muitos níveis do palácio Scarletti.

- Pode ler os pensamentos das pessoas? Acreditava que só acontecia comigo, que você e eu tínhamos uma espécie de telepatia. Pode ler o pensamento de qualquer pessoa?

- E você não? Nas reuniões da junta, quando seu avô insiste em te levar com ele, não ouve o que outros pensam? - Antes que ela respondesse, ele deu uns tapinhas nas costas da mão. - Não demorarei a voltar.

Antonietta abriu a boca. Não sabia se era para assentir ou para protestar, mas ele desapareceu. Há pouco, ele estava ali com ela, todo corpo quente e inteiro e de repente, desapareceu. Não tinham mudado de posição para abrir a entrada da parede. Estirou as mãos, explorou atentamente as quatro paredes. Byron simplesmente desaparecera. Absolutamente em silencio e sem deixar rastro.

Ela tampoua boca com as mãos e desconcertada, apoiou-se na parede que conservava a história de seus ancestrais. Quem é? Deslizou os dedos sobre a parede, procurando cada palavra, cada símbolo e cada imagem com a esperança de encontrar outras formas de mutação dos seus. Nada dava a entender que alguém pudesse desaparecer sem mais. Ela acreditava nas mutações físicas, mas desaparecer por completo era uma questão diferente. Por que a inquietava tanto, essa capacidade de esfumar de Byron, quando tinha sentido tanto alívio descobrir a história do passado de sua família?

 

Antonietta levou um susto enorme, quando sentiu o corpo de Byron, de repente, junto a ela nos estreitos limites. Esmagou-se contra a parede ao sentir seu enorme corpo junto a ela e em seguida lhe apalpou a face com os dedos para ler sua expressão, seguindo as linhas de seu rosto familiar. Por mais freqüente que fosse esse gesto, ele nunca se sobressaltava, nunca parecia se importar.

—Byron. —Pronunciou seu nome em voz alta, agradecendo por ele voltar e desejosa de saber todos seus segredos.

—Assustei você? — Perguntou ele e a beijou no canto dos lábios, deixando uma réstia de flamas pelo pescoço, a modo de desculpa. - É Paul.

Antonietta ficou quieta.

—Paul. — Ela disse o nome de seu primo, em voz alta. - Ele nunca entra no labirinto. Jamais olhou jamais um mapa. Não suporta os espaços fechados. Seu pai estava acostumado a encerrá-lo num armário, quando se zangava com ele. O que acontecia quase sempre. Está seguro que é ele? O que o faria mudar para entrar aqui? — Com os dedos estendidos, procurou o mecanismo oculto para abrir a porta oculta na parede. – É certo que se perderá aqui dentro. A menos que tenha o mapa, e a chave, poderia perder-se por vários dias.

—Pode que lhe sirva de lição. - Disse Byron, com voz grave. - Não está tramando nadade bom.

—Isso você não sabe. — A porta se abriu sem chiar e Byron soube que Antonietta ia à sala com a freqüência suficiente para ter o mecanismo bem lubrificado. Adivinhava-se nela esse tom levemente arrogante que sempre o fazia sorrir. Seguiu-a por volta de um dos túneis do labirinto. - Por onde ele foi?

—À esquerda. — Aproximou seus lábios ao ouvido dela. - O que há à esquerda?

—A abóbada. Como terá se informado disso? Só Nonno e eu conhecemos o lugar exato onde está a abóbada. É impossível que se dirija para lá. - Embora lhe pesasse, em sua voz aparecia sua incerteza.

—Possivelmente alguém o ajudou. Quando vem aqui para trabalhar no catálogo, não a acompanham um par de olhos? Atreveria-me dizer que Justine sabe exatamente como chegar à câmara couraçada.

—Ela não...

—Está apaixonada por ele. — Byron seguia Antonietta pelo estreito corredor do túnel, com o fôlego preso a sua nuca. Seu calor abrigava Antonietta. – O que não faria você pelo homem que ama, Antonietta? Trairia sua família? Seus amigos? Não faria tudo o que ele pedisse?

—O homem que eu amar não me pedirá que traia minha família e nem meus amigos. — Antonietta levantou o queixo, avançando segura entre as curvas do labirinto. - Se me pedisse isso, então não mereceria que o amasse, não acredita?

—Como sabe para onde vamos?

—Conto os passos. Tenho tudo memorizado.

—É assombrosa. —Havia uma sincera admiração em suas palavras e na inflexão de sua voz.

Aquele elogio, dito de maneira tão genuína, a fez resplandecer por dentro. Ninguém lhe dizia coisas assim. Ninguém fazia esse tipo de elogios pessoais. Nem sequer seu avô. Seu talento como música e compositora era algo que todos davam por certo. Dom Giovanni se limitava a encolher os ombros e dizia que com todas as lições que tinha recebido, entendia que ela fosse uma das melhores concertistas do mundo. Um Scarletti jamais podia ser segundo.

Byron apoiou a mão na cintura de Antonietta, mas o gesto gerava tanto calor, tanto desejo, que sentiu que sua pele se derretia sob seu contato. Tanta cercania física a distraía e a impedia de se concentrar, Antonietta desfrutava com a intensidade de seu desejo. Era algo que jamais tinha experimentado em seus trinta e sete anos. Chegara a acreditar que jamais experimentaria. Estava decidida a desfrutar de cada momento com ele, se pudesse, sempre que o tivesse, embora estivesse nos escuros labirintos do palácio Scarletti, com o idiota de seu primo procurando a abóbada oculta, às escondidas.

Antonietta sentiu a pressão do ar que provinha de uma porta aberta. Instintivamente diminuiu o passo e suas pegadas se tornaram suaves. Só então se deu conta de que, apesar da proximidade, não ouvia Byron. Sentia sua mão derretendo-se em suas costas e seu hálito sobre a pele, mas ele se movia com tanto sigilo que, se não contasse com a acuidade de seus sentidos, Antonietta jamais saberia que ele estava alí.

Seu coração pulsava em sinal de alarme. Sentiu um pesar profundo. Nem tanto pelo que seu primo se proposto, mas porque Justine o ajudara. Sua Justine. Os olhos e ouvidos de Antonietta no palácio. No mundo dos negócios e de sua profissão. Confiava plenamente em Justine. Tinha que confiar. Ao ver a porta aberta, da abóbada, partiu seu coração e destruiu a confiança tão dificilmente concedida.

Observando-a, Byron sentiu sua dor. Sua Antonietta, que amava a seus primos e a Justine e confiava neles. Fazia deles seu mundo e, entretanto, eles não paravam para pensar em quantos sacrifícios exigiam dela. A raiva lhe revolveu as vísceras, uma emoção quente e desmedida que espessou o ar no labirinto e se tornou difícil respirar. A tensão aumentou até que a energia pura percorreu os túneis como um anúncio do perigo.

Ao olhar além de Antonietta, para a abóbada, Byron viu Paul inspecionando diversos objetos de ouro. Diversas vezes, segurou um navio de ouro maciço, de intrincados detalhes e o devolveu a seu lugar. Era grande e não havia maneira de ocultá-lo sob a camisa. – Ele está se fazendo com os tesouros dos Scarletti. Neste momento não pode escolher entre um navio de ouro ou um colar de rubis e diamantes. – Mesmo naquela distância, Byron reconheceu a peça belíssima. Havia trabalhado naquele colar com supremo cuidado e suas mãos tinham lavrado até obter o intrincado engaste das valiosas gemas. Aquilo ocorrera há séculos. E enquanto trabalhava, pensava em sua comnpanheira e o elaborara com infinito cuidado, sabendo que o fabricava para a noiva de uma figura importante do mundo da política. Fascinava-lhe e o intrigav, a que uma noiva da família Scarletti tivesse levado a criação dele. Um assobio seco e carregado de ira ficou preso em sua garganta, ao ver o Paul pegando o colar, com suas mãos ansiosas de riqueza.

Byron pensou um instante, mas compartilhou as imagens, apesar de suas reservas.

Antonietta emitiu um ruído, uma suave exclamação de angústia. Lembrava-se daquele colar, uma das poucas coisas que tinham ficado em sua memória, dos dias em que ainda podia ver. Adorara aquele colar, havia ficado fascinada. Agora, se indignava ao ver que seu primo o sustraía, despojando sua família de sua elegância. Aquele pequeno gemido de angústia agitou o demônio que já rugia em Byron, para ser liberado.

Paul se virou, alarmado, com uma careta de medo e decisão, no rosto. Ao voltar-se, brilhou o pequeno objeto metálico que sustentava na mão. O tempo parou, até se converter em um túnel, quando Byron se dissolveu em moléculas e voltou a materializar-se entre Paul e Antonietta.

A descarga que Byron recebeu no peito foi tão descomunal que o lançou para trás, esmagou-o contra Antonietta e projetou os dois contra a parede oposta. Naquele estreito corredor, a explosão foi ensurdecedora. À bala perfurou o peito, saiu pelas costas e acertou Antonietta no ombro. Quando ele caiu sobre ela, protegendo-a com seu corpo, tentou concentrar-se em Paul, concentrar-se em sua garganta e em cortar seu fluxo de ar. Não podia deixar Antonietta indefesa e vulnerável, a sós com o traidor de seu primo.

Paul começou a se afogar e quase caiu de joelhos. A arma em seus dedos intumescidos oscilou de maneira alarmante. Byron sentiu sua visão nublar. Estava perdendo muito sangue e muito rápido. Se não conseguisse fechar o ferimento, não poderia se recuperar. O instinto animal o fez virar-se quando viu Celt que se aproxima correndo para eles.

O borzoi havia intuído seu mau transe e com o focinho, tinha conseguido abrir a porta secreta. Fiel a sua natureza de caçador silencioso, o animal se aproximou a toda carreira, percorrendo o longo trecho que os separava, como uma máquina bem lubrificada. Tinha os olhos fixos e concentrados em sua presa. Pouco importava que fosse humana. Celt saltou por cima de Byron e Antonietta, equilibrou-se sobre Paul e com uma mordida, rasgou-lhe o braço que sustentava arma. Paul lançou um grito de dor e a deixou cair.

—Antonietta! Não sabia que era você! — Gritou Paul, tentando manter o cão a raia. Tinha o braço ferido por vários cortes infligidos pelas presas afiadas de Celt. - Diga que pare, chame o cão!

—Celt! —Antonietta impos sua voz mais autoritária. Não via o que acontecia a seu redor. O corpo inerte de Byron jazia sobre ela, esmagando-a contra o chão. Doía-lhe as costas e o ombro. - Basta Celt! Paul, se você fizer um só movimento, para mim ou Byron, mandarei Celt atacá-lo e não voltarei a chamá-lo. — Antonietta ignorava o que tinha acontecido, mas cheirava o sangue. Seus sensíveis dedos tocaram um líquido quente e pegajoso.

— Foi um acidente. Não sabia que era você. A arma disparou sozinha. Assustei-me. — Paul se precaveu de que balbuciava incoerências e deu alguns passos em direção a sua prima.

O borzoi estava situado entre os dois, à cabeça estirada para diante, o olhar alerta, ainda disposto a saltar sobre a presa. Paul ficou onde estava.

—Ele não me deixa aproximar de você e Byron está sangrando. Deus! Antonietta, acredito que o matei.

—Disparou nele? —Antonietta tentava controlar a histeria e o pânico. - Deixe de se queixar e me ajude a salvá-lo.

— O cão…

—O cão te destroçará se não fazer exatamente o que digo! Vêem aqui agora mesmo e mova-o. Será melhor que tenha muito cuidado, Paul. Se Byron morrer, passará o resto de sua vida entre grades. Não moverei nem um dedo para te ajudar!

—Repito, Antonietta... — Paul passou junto ao cão. - Não tinha intenção de disparar em ninguém. Não sabia com o que me encontraria aqui embaixo, de modo que trouxe com que me proteger. Nunca tinha vindo aos túneis, nem sequer de pequeno.

Antonietta sentiu que o corpo de Byron se movia e deixava de esmagá-la e saiu de baixo dele.

—Cometeste uma estupidez trazendo uma arma. Em qualquer caso, de onde arrumou uma arma? Por que tinha que trazê-la?

Antonietta apalpava desesperadamente para encontrar o ferimento, enquanto procurava o pulso de Byron.

Paul gemeu, espantado.

—Está morto, Antonietta, não tem pulso.

Ela lhe deu um forte empurrão.

—Afaste-se dele! Não está morto. Não deixarei que morra. Byron! Não se atreva a me deixar sozinha. Volte! Maldito seja, Paul, como pudeste fazer isto?

Ela tampouco encontrava o pulso e por um instante, seu mundo parou. Não tinha ar para respirar. Suas cordas vocais não respondiam Não havia nada. Um vazio. Um vazio escuro onde antes existia a vida, risos e sua música.

Algo turvou seu pensamento. Uma voz que lhe sussurrava de muito longe. Que a acalmava. Dizia-lhe que não era verdade. - Tenho que vê-lo. - Foram as primeiras palavras que entendeu.- Olhe-o. Tenho que vê-lo. - Jamais tinha ouvido essa voz, mas era rouca e convincente e insistia em ser obedecida. Falava sua língua, mas com um sotaque bem marcado.

Antonietta respirou fundo, deixou sair o ar de seus pulmões e segurou Byron para conseguir que a olhasse. Obrigou-se a seguir o caminho por onde orientava aquela voz distante. Não perderia o tempo com seus temores. Teve a sensação de que o sentido de toda sua vida se derramava com o sangue sobre os ladrilhos daquele labirinto. Não se importava com nada, exceto salvar Byron. - Sou cega. Não posso mostrar o que vejo.- O borzoi aproximou o focinho de sua face, possivelmente para lhe lembrar que estava ali.

- Tem um cão a seu lado? Era o cão de Byron? Agora, já o tenho. Sim, o ferimento é grave. Não está morto, mas fechou seu sistema para conservar o sangue. Precisará de cuidados especiais. Tem ajuda?

- Meu primo, Paul. O que disparou em Byron.

Seguiu um momento de silêncio e Celt mudou de posição, cravando seus olhos escuros em Paul.

—Eu não gosto de como esse cão me está olhando. - Advertiu seu primo. - Parece que quer se lançar a meu pescoço.

—Deveria deixar. - Respondeu Antonietta, com voz seca. Estava enfurecida porque Paul se atrevia a pedir simpatia.

—Podem encontrar um pouco de terra perto de voces? Uma terra que seja fértil? Terão que fazer um emplastro para curar o ferimento. A bala saiu pelas costa e lhe deixou um buraco. Você também está ferida no ombro.

— Vou procurar ajuda, Antonietta. Precisaremos de um médico. - Avisou Paul com tom decidido. - Acredito que à bala também te acertou.

Ela não o ouviu, concentrada na voz. - Diga-me o que devo fazer. - Tinha que acreditar naquela voz longínqua. - Quem é você?

- Sou Jacques. Byron tem família nos arredores. Se puder tirá-lo ao ar livre, deverão cuidar dele.

— Eu quero cuidá-lo. - Mas Antonietta já se sentava e atirava o peso de Byron, tentando arrastá-lo pelo túnel. O cão segurou Byron pela jaqueta e acrescentou sua força, a dela.

—Que demônios está fazendo? — Perguntou Paul. – Ele está morto, Antonietta. Temos que procurar atenção médica para você.

—Você me ajude. - Disse ela, cortante. - Não diga uma palavra ou posso pegar essa arma e disparar em você, com minhas próprias mãos! Não posso acreditar que tenha trazido isso para minha casa.

— Tem gente que me quer fazer mal. - Confessou Paul, inclinando-se para arrastar Byron. - Tenho problemas com um pessoal, a quem devo dinheiro. São o tipo de gente com os quais não queria encontrar, se não estiver armado.

—Eu acreditava que havia deixado de jogar, Paul.

—Não estamos indo à direção errada? Dirigimo-nos para baixo, para a enseada.

—É para lá que vamos.

— Não pensará em se desfazer do corpo, Antonietta? Quero dizer, temos que informar à polícia. Também poderia ter matado você. Temos que lhes entregar o corpo... Deveríamos lhes entregar o corpo... Embora, se o encontrassem no mar ou se nunca o encontrassem…

—Não está morto. - Resmungou ela. – Cale essa boca e se concentre. Temos que tirá-lo daqui.

—O que diz é absurdo, Antonietta. - Disse Paul, mas continuou ajudando a arrastar o corpo pelo chão, até que sentiram a brisa do mar.

Foi trabalhoso, mas Antonietta, Paul e o borzoi conseguiram tirar Byron para fora. A chuva, em rajadas, caía sem cessar e logo todos estavam molhados, a mercê das chicotadas do vento.

—Vá procurar terra, Paul. Quero uma terra fértil e que não seja arenosa. Traga-me terra boa.

Paul murmurou algo e sacudiu a cabeça, mas fez o que sua prima pedia. Tirou a camisa para trazer a terra que encontrou nos canteiros de flores, que o jardineiro tinha plantado acima, na enseada. Sabia perfeitamente que Antonietta tinha poderes notáveis como curandeira, mas sequer ela podia devolver vida. Voltou correndo para seu lado e se ajoelhou para observar enquanto ela estancava com terra, a hemorragia, pela frente e por trás.

—Embora consega que se recupere, morreria de gangrena.

—Não me parece divertido. — Antonietta ansiava voltar a ouvir a voz, para sentir-se segura. - Estamos fora, perto da enseada. Tampei os ferimentos com terra, mas ele não responde.

- Chame-o. Ele a ouvirá.

Antonietta não vacilou. Suas vísceras ardiam e ela estava com vontade de gritar e continuar gritando. Queria que o vento levasse para o mar, seu terror e o medo que a dominava. Não queria voltar a sentir-se tão aterrada, tão vazia e morta. Inclinou-se sobre Byron. Protegendo sua face da chuva. - Byron... Byron abra os olhos. - Com mão trêmula, ela afastou-lhe o cabelo, numa leve carícia. - Não me deixe agora que acabo de te encontrar. Acorde antes que eu me coloque a chorar e a gritar, a implorar como uma criança. Tenho muito medo e preciso de você.

Byron recobrou consciência, ao som de muitas vozes. A princípio, não podia distingui-las. Alguém cantava na antiga língua. E Antonietta, que o chamava imperiosamente, de volta a ela. Alguém gritava seu nome. Reconheceu a voz de sua irmã Eleanor. Parecia estar perto, mas ele sabia que estavam longe. A voz de um homem o chamou, pausadamente, mas com autoridade. Era Jacques. Byron estava seguro que delirava. Não falava, telepáticamente com Jacques, em anos.

—Talvez eu esteja morrendo de verdade. - Murmurou em voz alta, a fim de comprovar que ainda possuía voz.

—Não, não está morto! Não permitirei. - Respondeu Antonietta com voz firme. Foi tão grande seu alívio, que realmente ele se sentiu doente.

A dor se estendeu por seu corpo e antes que estivesse plenamente consciente, dela. Antonietta sentiu falta de ar e se segurou desesperadamente nele.

— Você precisa de um médico, urgente. Perdeste muito sangue, Byron. Parecia que estava morto, sequer encontrei seu pulso.

—Não Preciso de um médico, mas não me importaria em estrangular seu primo. Era você, quem ele tentava matar? Ou a mim ou aos dois? — Byron tinha se precavido da presença de Paul ajoelhado junto a Antonietta. Ele estava muito pálido e movia a cabeça, negando. Também observou que Celt estava em posição de ataque frontal, se por acaso fosse necessário. O cão estava totalmente em alerta e observava cada movimento de Paul. Os olhos negros de Byron voltaram a fixar-se no rosto pálido de Antonietta. Ela estava com olheiras escuras e sangue em toda a roupa. Demorou um momento, para ele se dar conta de que nem tudo o sangue era dela.

—Antonietta, está ferida! — Byron tentou se sentar, apesar da debilidade que o mantinha prostrado. O mundo girou de maneira alarmante e um fio de sangue fluiu de seu abdômen. Com os dedos, encontrou o rasgo no ombro de Antonietta e os manteve alí, sem movê-los. Curiosamente, seu contato aliviou a dor.

Antonietta o afastou com um gesto.

—Não é nada, fique aquieto. Seu amigo Jacques me disse que você tem família nos arredores. Disse que viriam te buscar.

—Ignorava que os meus estivessem perto. Vá para casa. Que Celt fique com você. Eu virei assim que possa. Vá, Antonietta ou te resfriará. Precisa que um médico examine teu ferimento no ombro.

—Não penso em te deixar sozinho.

Byron a fez calar com um gesto da mão. A chuva seguia caindo. As ondas estalavam e trovejavam sem parar. Paul seguia de joelhos, imóvel, incapaz de se mover ou falar. Celt estava perto dele, o olhar ferozmente em alerta. Byron procurou Antonietta. Ninguém mais importava. Nada mais importava. Nem sequer seu corpo ferido. Atraiu-a para ele e com a boca procurou seu ferimento. Não tinha energia suficiente para abandonar seu corpo e entrar no dela, mas dedicou um tempo precioso a lhe curar o ombro.

Byron se deixou cair para trás, exausto, observando como seu sangue empapava a terra. Doía-lhe o ferimento e a dor intensificava quando se movia, mas não se importava tanto, como ver Antonietta livre de seu transe e observou que ela se movia com mais facilidade e que se apagavam as marcas de dor em seu rosto.

Paul tentou se aproximar, agora que havia recuperado sua mobilidade. Piscou várias vezes, tentando lembrar o que tinha acontecido. Só viu o rosto quase translúcido de Byron voltado para ele. Se antes o sangue lhe manchava os lábios, havia desaparecido arrastado pela chuva.

—Lamento haver disparado, Byron. A arma disparou sozinha.

— E se Byron não tivesse saltado para interpor-se, teria me acertado. - Disse Antonietta, lançando ao primo, um olhar furioso.

—Nonno vai me mandar embora. - Disse Paul.

—Sou eu quem madará. – Corrigiu-lhe Antonietta, furiosa. – Acredita, de verdade, que basta um pedindo desculpas?- Antonietta tremia, mas preferiu pensar que se devia mais à raiva e à indignação, que ao medo.

Byron lhe segurou a mão, levou seus dedos à boca. - É provável que sim, mas já verá que as coisas não são tão simples. Por favor, faça o que digo e vá. Alguém virá me buscar.

Celt ficou tenso e levantou a cabeça com um olhar vigilante. Nuvens negras cobriram o céu e escureceram até a chuva, antes prateada, agora negra. O mar bramou, enfurecido, Virou com a força de um redemoinho e se elevou formando torres de espuma para a lua velada pelas nuvens. Uma ave de rapina de garras curvas e afiadas como navalhas, voou em círculos acima do pequeno grupo na enseada. O vento aumentou até se converter num uivo. Longe, na distância, ouviu-se que animais respondiam.

A chuva estava frenética e agitada pela repentina fúria da tempestade. O descomunal mocho pousou em uma árvore acima do atalho que conduzia à enseada, a vários metros deles. Os céus se abriram, a chuva caiu em um manto espesso e a ave ficou oculta. Ao limpar a névoa, eles viram que um homem caminhava pelo atalho, para eles. Estava envolto por uma capa negra e longa, que o vento agitava a seu redor e tinha a face oculta por um capuz. Em lugar de caminhar, dava a impressão de que deslizava pelo chão, sem que seus pés chegassem a tocá-lo. Deteve-se a pouca distância deles, seu perfil vago e indefinido sob a chuva prateada.

Byron se sentou com esforço e estirou a mão para o desconhecido, como uma advertência. Segurou Antonietta pelo braço.

—Agora, vá. Pegue Paul e voltem para o labirinto. Não está a salvo aqui. Faça o que te digo e rápido. —Suas palavras foram como uma ordem, imprimiam uma autoridade em sua voz, que obrigava seu cumprimento.

Havia algo tão convincente nas palavras de Byron que Antonietta segurou Paul pelo braço sem protestar e voltou a toda pressa para o labirinto dos Scarletti. Celt ficou um momento escrutinando aquela figura imóvel na distância, mas em seguida seguiu Antonietta e desapareceu na escura caverna.

Os dois homens se olharam em silêncio. Byron se sentou, apoiado em um braço trêmulo. O sangue brotava, deslizava pela areia, tingindo a de um vermelho escuro. Com um último esforço, conseguiu ficar de pé.

— Não seja insensato, não esbanje sua energia. — Na voz havia um poder inconfundível. Era tranqüila, quase suave, mas se adivinhava nela, a força da natureza.

Byron não afastou a vista do homem que se aproximava, enquanto recuperava sua força. Um relâmpago rasgou o céu, iluminou a terra e revelou o sangue que se espalhava sobre a areia.

—Não o reconheço. Vimo-nos antes? — Byron sabia que nunca tinha visto aquele ser estranho, de idade indefinida. Seus olhos resplandeciam como o fogo e em seu rosto se adivinhavam os rastros das grandes penúrias.

—Sua família não está o bastante perto para vir em sua ajuda a tempo. —A voz era tranqüila, de um tom limpo e sedoso. - Te ofereço meu sangue livremente para que possa viver.

Byron sabia que até o mais diabólico e ardiloso dos vampiros podia parecer nobre e virtuoso. Eram professores na arte do engano. Sem tirar os olhos de cima do estranho, assentiu levemente com a cabeça, enquanto procurava seu amigo Jacques.

- Conhece-o?

Havia passado anos desde que entrara pela última vez naquele atalho familiar, para chegar ao amigo da infância. Sentiu-se estranho, rígido, mas era um passo que devia dar. Sua prodigiosa força escorreu até o chão em um fio de sangue, deixando-o debilitado e à deriva. Além disso, tinha que proteger Antonietta. Tinha que viver e derrotar a qualquer vampiro para protegê-la.

- Deve ser um dos antigos enviados de meu pai. Não o reconheço, nem jurou fidelidade a nosso príncipe. Soube que foram enviavam antigos, para atravessarem o mar, para prestar seu amparo onde pudessem. Agora os chamaram para que voltem para casa. - Jacques foi precavido em sua resposta. - Não desmaie. Concentre-se, nele.

Byron deixou escapar uma risada. - Acaso posso decidir quando não desmaiar? Você, o que pensa?

O estranho se aproximou dele. Era um homem alto com um olhar antigo, um sorriso vago e desprovido de humor.

— Eu diria que deveria permanecer alerta para que seu amigo, que me observa de perto, possa continuar te cuidando, como é devido. Meu nome é Dominic. — Ele inclinou-se num gesto de respeito, mas bem próprio do Velho Mundo. – Estou há muito tempo ausente de nossa terra. É um dos primeiros que vejo, em muito tempo.

— Sou Byron e te agradeço a ajuda. - Respondeu Byron, em tom grave. - Te saudaria como corresponde aos grandes guerreiros, mas temo que desabaria. — Um ligeiro sorriso apagou a dor de sua face.

—Não é preciso. Somos irmãos. Com isso basta. — Com um gesto firme, Dominic mordeu a própria mãos, abriu um corte e a aproximou da boca de Byron. – Estou indo ver nosso príncipe e a constatar com meus próprios olhos, se é verdade que sua mulher é humana.

O sangue fluiu pelas células famintas de Byron, alagando-as de sangue antigo, puro e forte. Ele bebeu com avidez, tentando se moderar. A repentina dose de sangue o golpeou com uma força descomunal. A descarga de energia o enjoou e o sacudiu inteiro.

—O borzoi é um bom guardião de sua companheira. Teria me atacado ante um gesto indevido meu, embora tenha reconhecido que gênero de criatura, sou. Havia me esquecido de sua lealdade e seu grande coração. Agradeço-te a lembrança.

Byron descansou sobre a terra, sentiu que ela o agasalhava. Que o consolava. Com um gesto de cortesia, fechou a ferimento de Dominic.

—Faz muito tempo que caças?

—Muito tempo. Debilitei-me e agora teria que dormir, mas devo levar as novas a nosso príncipe. Há uma força diabólica que varre a terra. É algo sutil. Tão sutil que não posso encontrar a fonte, por mais que procure pelo mundo. Agora, ameaça a nosso príncipe e nosso povo. Ameaça nossa existência e nosso modo de vida. Devo adverti-lo e continuar a busca de minha família perdida.

Byron sentiu que o sangue o revigorava. Fazia tanto tempo que não recebia sangue de um dos seus, que quase havia esquecido a descarga daquele vigor que o marcava.

— Sua família perdida? Sabe o príncipe que um dos nossos desapareceu?

Dominic se inclinou e segurou Byron em braços como se não pesasse mais que um menino.

—Minha irmã era aprendiz de um grande bruxo. Tinha habilidades assombrosas e sob sua tutela, tornou-se perita em muitos cultos que os nossos perderam. — Dominic mudou de aspecto sem deixar de sustentar firmemente Byron e se elevou pelos céus, procurando um refúgio, da tempestade.

Aquelas palavras despertaram longínquas lembranças, um conto de fadas que contavam os seus, de magos e bruxos que ensinavam defesas e encantamentos a seu povo. Byron fechou os olhos e deixou que o cansaço o invadisse. Quis conectar com sua outra metade. Com sua alma.

- Antonietta? Encontra-se bem? Examinaram-lhe o ferimento?

- Byron, deixei-te sozinho. Não me lembro do que aconteceu. Por que te deixei sozinho? - A voz de Antonietta era lacrimosa. Parecia triste, agitada. Não se parecia em nada sua companheira, tão segura de si. - Como posso ter feito algo tão horrível? Por meu primo? Para salvar meu primo? Não me lembro por que te deixei.

- Conserve a calma, minha cara. Estou bem. Pedi-te que me deixasse para que os meus pudessem me curar, a nossa maneira. Teria sido muito complicado que um médico visse meus ferimentos. Teriam insistido em chamar à polícia. É melhor assim.

- Não, não é melhor! Soube que algo nos ameaçava, intuía-o. Desatou a tempestade e fazia fri, e você perdeu muito sangue. Tasha desandou a gritar assim que me viu, estava toda manchada com seu sangue. Deveria ter ficado com você, para te proteger. Para te salvar. Tenho poderes.

Byron sorriu. Nem sequer uma Scarletti, com sua peculiar herança, tinha poderes suficientes. Enviou-lhe uma onda de suavidade e de amor. - Estarei com você manhã à noite. Não se separe de Celt. Não poderá se comunicar comigo, até o crepúsculo de amanhã, assim não te assuste se me buscar e eu não te responder.

- Preciso te tocar. Saber que está realmente vivo.

A conexão se desvanecia. Antonietta tentou desesperadamente prender-se ao fio que os unia. Byron perdeu e recuperou a consciência varia vezes, enquanto Dominic se internava com ele por um labirinto de cavernas, no lugar mais profundo da terra.

— Dormiremos aqui esta noite.

A um gesto de Dominic, a terra se abriu e este depositou Byron em uma fenda fresca e acolhedora.

— Me conte coisas de sua família. Como a perdeste? — Perguntou Byron. Despertou-se para procurar a companhia daquele amigo, um dos seus.

—Sou caçador de vampiros. Nasci caçador.

—Não é meu caso.

Dominic encolheu os ombros.

—Aquele que caça quando essa condição não pertence a sua herança deve ser respeitado como guerreiro. É o único ofício que conheci, inclusive em minha juventude. Foram tempos escuros, muito antes que as guerras destruíssem a maioria dos nossos. Minha irmã aprendeu muitas coisas, até o príncipe Vlad a consultava. Há quem dizia que sabia demais. Outros, que ela se voltou contra seu povo, com a ambição de reinar, acreditando que era seu direito.

—Leva em ti o sangue do caçador de dragões. — Byron apoiou a cabeça na terra macia e olhou para homem que tinha compartilhado com ele, seu sangue. - Quando não era mais que um jovenzinho estava acostumado a ir a casa onde voces viveram. As talhas e as pinturas eram muito bonitas. Eu desejava poder criar essas maravilhas. Isso aconteceu há muito tempo.

—Ainda está em pé a velha casa? Seria um milagre voltar a vê-la.

— Por respeito a sua linhagem. - Disse Byron. - Não foi tocado ou mudado nada, com a intenção de conservá-la para ti ou para qualquer dos seus, se houvesse sobreviventes.

—Minha irmã foi leal ao príncipe Vlad e a nosso povo. Nenhum caçador de dragões traiu jamais aos nossos. Nenhum se converteu em vampiro. Não descansarei até encontrar quem raptou a minha irmã e recuperar a honra de nossa família.

—Nunca ouvi rumores que o sangue do caçador de dragões estivesse manchado. - Respondeu Byron. Observou Dominic abranger toda a caverna com um movimento da mão até que nasceram pequenas luzes. O desconhecido segurou um pó de uma pequena caixa e o soprou sobre a caverna. Era uma essência aromática e relaxante.

—Agradeço que em minha ausência nunca se mencionasse. —Dominic se ajoelhou junto Byron e começou a pegar punhados de terra. Misturou-a, a um segundo pó e a própria saliva. – Precisará de mais sangue, antes de voltar para a terra. O ferimento é bastante severo e ofendeu seus órgãos internos. Como é possível que tenha caçado vampiros e esse macho humano tenha conseguido te ferir?

Se havia recriminação nas palavras do Dominic, Byron não prestou atenção, só uma leve curiosidade por saber como um ser humano conseguia ferir um caçador Cárpato.

— Possivelmente seja melhor artesão que caçador.

— Observei que em muitas pessoas dos arredores, há estranhas barreiras mentais. É melhor que pegue sua companheira e abandone este lugar. Leve-a para nossa terra. Com o tempo ela se acostumará e deixará de estar zangada com você. — Dominic ajudou Byron a se inclinar, para aplicar o emplaste no ferimento aberto, das costas. - Um artesão que se converteu em um caçador para ajudar os seus, sempre será bem-vindo, junto ao fogo dos guerreiros. Os artesãos são meticulosos e metódicos. É uma honra conhecer alguém como você. — Com supremo cuidado, Dominic ajudou Byron a se recostar.

—O príncipe encontrou sua companheira já faz algum tempo. - Disse Byron, para responder ao estranho, com sua própria notícia. - Ao que parece, algumas mulheres possuem dotes telepáticos e podem ser convertidas com êxito, sem temor que enlouqueçam.

— Ouvi esse rumor. Como é possível?

—Acredito que essas mulheres com poderes telepáticos que encontramos são descendentes da raça dos jaguares.

Dominic voltou a misturar a terra rica com seus pós e sua saliva, para aplicar um emplaste no peito de Byron.

—Acreditava que os únicos que tinham sobrevivido, se refugiaram no fundo da selva.

—Não são verdadeiros jaguares, mas têm seu sangue. Isso explicaria por que as mulheres são compatíveis com nossa raça. Os jaguares podiam mudar e tinham múltiplos poderes, como os nossos. — Byron fechou os olhos. - Pensa seguir seu caminho amanhã?

—Quando entrar o sol. Não encontrei vampiros nesta região. - Respondeu Dominic. - Terei que empreender viagem assim que me levante. Você se curará aqui na terra e estará a salvo durante vários dias.

—Teria que despertar amanhã a noite. Antonietta sofre muito. Não quero deixá-la sozinha.

—Não estará completamente restabelecido, mas me assegurarei de que desperte.

O olhar de Byron se prendeu daqueles olhos penetrantes.

—Seus olhos são verdes. — Não só verdes, mas também brilhantes, de um verde metálico. Inquietantes. Olhos que vêem até a alma. - Deveria ter me lembrado que é a herança do caçador de dragões. O olhar dos videntes.

—Agora estou cansado, Byron. Não vejo tudo o que deveria ver. Quando encontrar as respostas que procuro, seguirei os meus, para a próxima vida.

—Ou quando encontrar sua companheira. Em meu caso, não acreditava possível e, entretanto, não há dúvida de que Antonietta é minha outra metade.

—Minha linhagem quase desapareceu. Rhiannon e eu fomos os últimos de nossa família. Duvido que qualquer dos dois tenha tido tanta sorte. Agora, durma e despertará completamente novo. Transmitirei suas saudações a nosso príncipe e lhe informarei que logo virá uma mulher a unir-se a nossas filas. Essa notícia por si só é motivo de celebração.

—Estou agradecido por sua gentileza e por me ter salvado a vida.

Dominic o saudou com uma longa vênia, à maneira dos Cárpatos. —Agora tem que dormir e me deixar curar estes graves ferimentos.

Byron voltou a ouvir as vozes. Muitas vozes de homens e mulheres que entoavam o cântico do ritual da cura. – Durma, velho amigo, estamos com você, e velaremos por você enquanto nosso irmão cura seu corpo. - Aquela solitária voz de camaradagem o fez remontar-se ao tempo, quando corria livre com os lobos, encarapitava-se nas árvores mais altas e era só um menino que brincava com seu amigo. Deixou-se levar e as vozes que o apaziguavam se perderam na distância. Só uma voz feminina ainda sussurrava: - Volte para mim.

 

As portas de suas dependências continuavam fechadas, como estiveram o resto do dia. Antonietta não desejava ver ninguém. Nem sequer Dom Giovanni havia conseguido convence-la que abrisse. Os segundos acompanhavam o tictac do relógio, ressoando como batimentos de seu coração. Longos minutos que não terminavam, horas, dias. Não suportava a idéia de continuar vivendo sem ele. Byron, seu poeta escuro. Havia perdido-o, antes de ter a oportunidade de conhecê-lo e aquela dor superava seu entendimento.

A dor fazia estragos nela, consumia-a. Isolara-a de sua prima, de sua família. De Justine. Tinha rechaçado o consolo que todos ofereciam. Só permitiu que Celt ficasse com ela, enquanto chorava e lançava objetos pelo quarto, de uma maneira pouco apropriada nela. Seu pranto era uma tempestade de lágrimas, clamava aos céus amaldiçoando, porque alguém deixara uma arma a seu primo. Durante essas horas, o cão passeava junto a ela, orientava-a entre os objetos que havia arrojado e oferecia sua cabeça com um gesto de entrega, para consolá-la e demonstrar sua amizade.

A música se converteu em melancolia, às notas voaram e se espalharam pelos longos salões, até que todos os habitantes da casa guardaram um silêncio, que parecia um duelo. Até as crianças falavam em sussurros e Marita os fazia calar. Uma tragédia se abatia sobre o palácio. Antonietta, sangue de seu sangue, sua protetora, a única Scarletti que fôra constante em suas vidas, estava destroçada como nunca havia estado. Por um homem. Pior ainda, por um homem que eles temiam. A sinfonia continuava seu curso interminável, uma corrente de lágrimas e angústia, até que os criados começaram a chorar.

Fora, além da multiplicidade de cores das belas janelas coloridas, a tempestade passara. Mas as nuvens rodavam pelos céus, escurecendo a lua e apagando as estrelas, até que as gárgulas e as criaturas aladas das almenas e muros, se converteram em sombras sinistras.

Antonietta sentia a música embargando-a, as emoções implacáveis e sem piedade, um vulcão em permanente erupção. Continuava tocando, incapaz de parar. E de repente, sentiu o peso de mãos sobre os ombros, o hálito quente no pescoço, o contato de seus lábios nos cabelos. E seus dedos ficaram suspensos sobre as teclas. Depois da intensidade e a força rasgada daquela música, seguiu uma brusca quietude. O palácio inteiro ficou em silêncio, um silêncio que se tornou amedrontador, após tantas horas de improvisação apaixonada.

Antonietta permaneceu imóvel sobre o tamborete, sem se atrever a acreditar que ele estava ali, com ela, que por fim tinha voltado, depois daquelas intermináveis horas de temor e dor. Foi como se o coração deixasse de pulsar e o mundo se reduzise a essas mãos. Ao calor de sua pele. A suavidade de sua respiração e aos batimentos de seu coração. Antonietta sentiu que seu coração esvaziou, até encontrar o ritmo de Byron. Pulsando em perfeita sincronia. Virou-se, desesperada e lançou os braços em seu pescoço, seu grito afogado pela boca de Byron que se abateu sobre ela.

Byron saboreou suas lágrimas, degustou o amor e o reconhecimento. Percorreu-lhe o rosto com os lábios, logo com os olhos, memorizou seus traços pronunciados, a pequena covinha do queixo, até voltar e apropriar-se de seus lábios. Era uma mistura de ardor, fogo e desejo. A terra tremeu sob seus pés. Ela tirou sua camisa, desesperada por encontrar seu peito, para ver com as pontas dos dedos. Era quase impossível esperar e afastou o tecido que lhe cobria a pele enquanto devolvia os beijos, assediando a boca de seu homem, dizendo sem palavras tudo o que desejava.

Com um movimento dos ombros, Byron se desprendeu da camisa e deixou seu torso nu ante a incursão de Antonietta, que não parava de enchê-lo de beijos. Beijos frenéticos, longos e embriagadores. Ela procurou em cada centímetro de seu peito, em cada um dos músculos bem definidos, as costelas e a estreita cintura. Encontrou a cicatriz e descobriu que, depois de vinte e quatro horas, ela estava quase curado de tudo e balbuciou alarmada, no calor de sua boca.

- Ela quase o matou. Pensei que havia morrido. – Ela quase não podia falar em voz alta, com a boca ocupada em lhe morder o queixo e seguir pelo pescoço, até o peito.

   - Eu disse que viveria. Lamento que tenha sofrido tanto. - Byron fechou os olhos, jogou a cabeça para trás e envolveu as mãos na cabeleira sedosa de Antonietta, enquanto ela tirava sua calça.

- Preciso tocar cada centímetro de sua pele e saber que está vivo e aqui comigo. Não quero voltar a me sentir assim, nunca! – Agora, ela o provava com a língua. As texturas, o tato e o sabor eram os sentidos importantes para ela naquele estado de excitação que a embargava, uma mistura de apetite sexual e emoções intensas. Antonietta queria tocá-lo, explorá-lo e saboreá-lo.

- E seu ombro?- Byron tirou o penhoar dela, que caiu flutuando ao chão, num suave amontado de renda. As tiras de sua camisola eram diminutas e ele também as afastou, até que estas deslizaram e caíram.

Antonietta não notou ou sentiu. Esfregou o rosto contra seu peito e seu abdômen. Ele tirou a tiara de sua longa cabeleira que, uma vez liberada, espalhou-se sobre seus ombros, sedosa e incitante, ao contato com sua pele.

—Antonietta. — Byron murmurava seu nome, numa mistura rouca de apetite e necessidade, ao iniciar sua própria inspeção. O ferimento no ombro de Antonietta quase tinha fechado, embora ainda estivesse bem marcado. Por sorte, a bala tinha perdido força ao transpassar seu próprio corpo. O projétil havia se alojado no ombro, num ferimento pouco profundo e Byron havia extraído com os lábios, ao curá-la, ainda na enseada. O músculo não estava prejudicado, mas ele se inclinou para acariciar com os lábios, o ferimento.

- Não é nada. Não faço idéia de como conseguiu se colocar em minha frente, nesse estreito corredor, mas me salvou a vida. - Antonietta continuava acariciando-o, agora com a paciência de uma amante, a protuberância de seus quadris e suas nádegas, até deslocar-se para suas coxas.

—Isso me excita... - Murmurou Byron, entre dentes. Em qualquer caso era tarde. Ela pegava seu membro em toda sua extensão e com a ponta dos dedos, memorizava a textura e a forma da volumosa ereção, com lentidão. As chamas dançaram sobre Byron. Antonietta possuía dedos fortes e seguros, nada hesitantes. Sabia exatamente o que queria e percorreu-o em todo seu comprimento. Seus dedos dançando e tocando com o mesmo virtuosismo que fazia ao piano.

Byron sentiu os pulmões a ponto de explodir. Estirou-se inteiro e contraiu todos os músculos, em reação ao toque de suas carícias.

- Preciso disto, Byron. Quero conhecer cada centímetro de você. Pode me possuir depois, mas me deixe fazer isto. - Ela não esperou uma resposta. Começou com suaves mordidas em seu ventre, saboreando-lhe a pele. Acariciou o membro ereto e sentiu prazer ao ver que este endurecia ainda mais.

Ele deixou escapar um único som, de tortura e êxtase, quando Antonietta o acolheu com a boca macia e úmida e o sugou com ardor.

—Antonietta. —Sua voz era rouca e a respiração entrecortada – Deus! Mulher! Não posso acreditar. - Seus dedos voltaram a encontrar os cabelos de antonietta e a sustentaram contra ele, enquanto seus quadris encontravam um ritmo suave que com muita dificuldade suportava. Era uma doce tortura. O fogo queimou seu ventre e se estendeu por todo o corpo, até que as chamas o consumiram e o fragor em seus ouvidos se uniu ao fragor da fera interior que clamava por seus direitos.

A necessidade de reclamar sua companheira surgiu num impulso intenso, mais intenso que qualquer apetite sexual. Sentiu que os incisivos se alongavam e afastou a face da tentação da pele suave, vulnerável e nua. As chamas o lambiam e todas as boas intenções se desvaneciam.

—Antonietta, você está em perigo. — Logo que conseguiu pronunciar a advertência, levantou-lhe a cabeça, para reconhecer que conservava um instinto básico de sobrevivência. Ele sozinho não podia salvá-la. Tinha esperado muito por ela. Antonietta estivera a ponto de morrer ante seus olhos, em mais de uma vez. Byron se sentia renhido com sua própria natureza ao cortejá-la a maneira dos humanos.

Antonietta levantou a cabeça. Parecia uma sereia sexual e atraente, uma tentação selvagem e desinibida, com os longos cabelos que lhe caíam como uma cascata.

—Você nunca será o perigo.

Seguiu um grunhido de advertência surdo. Byron manteve a face afastada.

— Minha intenção é te proteger.

— Não quero amparo, Byron. Não preciso. Sou uma mulher amadurecida e responsável por mim mesma. Sei o que quero e quero você. Quero fazer amor com você. — Suas mãos não deixavam de acariciá-lo e de brincar com ele. Beijou-lhe o ventre, erguendo-se beijou seu peito e se aproximou para mordiscar-lhe o queixo.

Byron a sentia, apertada contra ele, dentro dele, seu corpo suave e flexível, uma oferenda voluntariosa. O sangue de Antonietta o chamava, doce, quente e aditiva, uma poção elaborada só para ele. Antonietta. Companheira. “Você é minha. Procurei-te toda uma eternidade”.

— Não partirei tranqüilamente na noite. Não acredita que farei isso, Antonieta. Não sou um jaguar. Não será fácil se desfazer de mim, se descobrir que a aborreço.

Ela rodeou o pescoço dele com os braços e fez encaixar seu corpo no dele.

—Agora quer me assustar, como se fosse um perseguidor. Só quero que faça amor comigo. Não se importaria que falássemos de nosso futuro, mais tarde?

Seu aroma era irresistível. Limpo, fresco e tentador. Tinha a cabeça inclinada para trás e seu pescoço o chamava. Byron afundou a face nela. Na tentação. Com a língua encontrou o pulso, sentiu o batimento do coração, na saliencia da veia. Aquele ritmo penetrou seu corpo e o fez estremecer-se de prazer. De fome. Seu desejo era tão intenso que o consumia. Com os dentes, roçou a pele onde lhe pulsava a veia. Aspirou profundamente sua essência.

—O que importa é que você saiba que tentei te cortejar a maneira dos seus. —Fechou os olhos, esta vez ardendo de necessidade.

—Acredito que tem feito um trabalho admirável. – Ela provocou e se esfregou contra ele, como faria um gato, ronronando.

Quando ele deslizou a boca sobre seu pescoço, deixou um rastro de fogo, de vibrantes chamas. Com os dentes, arranhou-a. Os braços endurecidos e possessivos. Seu corpo revivia em contato com ela, duro e cheio de vida, de energia e apetite. Correspondia-se com a fome que fervia em suas veias. Com a boca, reatou sua incursãoaté hipnotizá-la.

A reação espontânea de Antonietta foi fechar-se. O calor se difundiu, aumentou como um incêndio desatado, uma tempestade de fogo de necessidades e de emoções mais intensas do que ela queria reconhecer. Sentiu uma dor que imediatamente cedeu a um prazer erótico, que se apoderou de seu corpo, de seu coração e sua alma, Byron a levantou, como se não fosse mais que uma pluma, como se fosse seu mundo. Ela acreditou que flutuava ao atravessar o quarto, um sonho de paixão como nunca havia conhecido.

Ele murmurou e as carícias de sua língua, apagaram a dor de seu pescoço, quando ele a deixou sobre a cama e a cobriu com seu corpo. Deixou vagar a boca sobre sua face e seus olhos até chegar a seus lábios. - Como pôde imaginar que não te amaria? - Mordiscou-lhe o queixo e seguiu ligeiramente pelo pescoço, lhe deixando um rastro de fogo até os seios.

Antonietta deixou escapar um gemido, arqueou-se contra ele, pedindo mais. Segurou-lhe a cabeça e estremeceu, tomada pela deliciosa necessidade. O desejo aumentou, levando-a por diante, até que ardeu em sensações de que Byron a penetrasse. Ardia, precisava de alívio.

—Byron, não espere. — Tentou atrai-lo para ela procurando-o, freneticamente. Byron se mantinha paciente, enquanto explorava deliciosamente todo seu corpo com as mãos, memorizando cada detalhe, deixando a marca desse corpo em sua alma, até o final dos tempos.

Quando ele aproximou a boca de seu ventre e desceu para explorar o triângulo aveludado, Antonietta fechou os olhos tomada de um prazer tão intenso, que confinava com a dor. Sentia um desejo frenético de possuí-lo, de senti-lo profundamente dentro dela. Era uma necessidade tão intensa que a fez tremer. Onde quer que ele a tocasse ou beijasse, sentia dor e ardia por ter mais.

Byron lhe separou as pernas. Ela esperou, sem respirar e de repente, soltou um gemido dolente quando ele a provou, quando se esfregou nela, a acariciou e despertou seu corpo para a vida. Ela pronunciou seu nome como uma prece implorante, entre soluços. Antonietta jamais desejara ninguém assim. Byron. Só ele podia completá-la. Seus dedos encontraram os lençóis de seda e se fecharam com força quando a varreu, a onda de êxtase. Então segurou a cabeça dele, porque não podia, porque não queria se consumir sozinha.

Byron levantou a cabeça, deslizou-se por cima dela até encaixar os quadris meigamente no de Antonietta, como se voltasse para casa. Ela estava úmida, quente e excitada e ele deixou escapar um gemido rouco, de alegria, quando penetrou nela lentamente, centímetro a centímetro.

O corpo inteiro tremeu de prazer. Segurou-lhe o quadril e penetrou-a intensamente, profundamente. Um refúgio seguro. Seu mundo mudava para sempre. Deixou de vagar pela terra, sozinho. Jamais voltaria a conhecer a solidão, porque Antonietta mudara seu mundo. Ela lhe trouxera a luz em meio a sua escuridão implacável. Levantou os quadris, querendo que ela o acolhesse inteiro.

Antonietta sentiu que seu corpo inteiro vibrava despertando para a vida, pensou que morreria de êxtase. Nada a preparara para a força e a intensidade de seus orgasmos com Byron. Nunca esperara por esse presente. Nenhuma experiência podia comparar-se. Chegou a soluçar, com os sentidos tão exacerbados e o corpo tão sensível que cada movimento fazia estalar nela, chicotadas de prazer.

Seu mundo se estreitou até abranger um só homem. Um só ser, movendo-se em perfeita sintonia com o seu. O sangue cantou em suas veias e a pulsação retumbou em seus ouvidos. A música alcançou-a, quando ele jogou a cabeça para trás e seu corpo penetrou profundamente nela, impulsos longos e duros destinados a fundi-los, duas metades do mesmo todo. Antonietta pensou que gritaria com aquela intensidade, com a alegria escura e insondável que a dominou. A voz de Byron se fundiu com a sua ou possivelmente só aconteceu em sua imaginação, era impossível saber. Só existia o calor e o fogo e aquela fusão intensa, até que ambos ficaram exaustos, extenuados entre os lençóis.

Tremendo de prazer, Byron aproximou os lábios do ouvido de Antonietta e sussurrou uma ordem. Sua unha cresceu, afiada como uma navalha e lentamente ele abriu um corte no peito. Segurou a boca a Antonieta e a aproximou de sua pele. O primeiro contato de seus lábios, cortou sua respiração e chicotadas de luz estalaram em suas veias. Ouviu as palavras que ricocheteavam em sua mente. Em seu coração. Em sua alma. Palavras que clamavam em ser pronunciadas em voz alta. A fera levantou a cabeça, desvelou suas garras e lançou um rugido feroz reclamando sua companheira. – Eu te amo... Amo-te, Antonietta. - Respirou profundo e pausadamente pelos dois, tentando se controlar, enquanto se debatia em sua luta contra a loucura.

—Reclamo-te como minha companheira. Pertenço a você. Ofereço-te minha vida. Dou-te meu amparo, minha aliança, meu coração, minha alma e meu corpo. Protegerei tudo o que é teu. Sua vida, sua felicidade e seu bem-estar estarão acima dos meus. É minha companheira e está unida a mim para toda a eternidade e sempre sob meus cuidados.

Agora ele sentia os vínculos que os uniam, milhões de fios que os algemavam para toda a eternidade. Tudo em seu interior mudou e se assentou. Sentiu que a paz invadia seu coração e seu espírito. Com um gesto suave, impediu-a de conrinuar bebendo mais sangue do que exigia um autêntico intercâmbio. Despertou-a do longo transe, com um beijo longo e embriagador, anulando a confusão que reinava em sua mente e vertendo toda a intensidade de suas emoções nesse beijo.

Antonietta colocou os braços em seu pescoço e devolveu cada um de seus beijos, deleitando-se com seu membro, enterra profundamente dentro de seu corpo.

—Jamais me senti assim em minha vida. Jamais. —Por um instante, ela sentiu a reminiscência de um sabor peculiar na boca, não desagradável, mas tampouco familiar, embora se desvaneceu em seguida e o fogo voltou a arder, fora de controle.

—Parece surpresa. - Disse ele, lhe afundando a boca em seu pescoço. - Diria que não tinha grandes expectativas.

Ela sorriu e havia verdadeira alegria em sua voz.

—Tinha grandes expectativas, sim e você cumpriu com todas e cada uma delas. — Desejava abraçá-lo para sempre. Alisou-lhe o cabelo, baixou as mãos até as costas e voltou para acariciar o peito.

—Vire-se. Quero ver você. Ainda não posso acreditar que esteja vivo. Estava convencida de que havia morrido. Tentei me conectar a você uma e outra vez, mas não conseguia.

Muito a seu pesar, Byron saiu dela, se separaram. Ele se sentiu como se o tivessem despojado de uma parte vital.

—Acredito que terei que voltar a fazer amor com você, Antonietta. —Ela encontrou o ferimento em seu peito.

—Teria que estar morto.

—Sim. Meu parente me salvou a vida me dando seu sangue. Onde está Paúl? Interrogaram-no?

Ela aproximou os lábios do ferimento.

—Eu não. Não suportaria falar com nenhum deles. Não queria ter que ouvir suas desculpas. — De repente, ela estremeceu. - Não me tinha dado conta de que faz frio aqui dentro.

—Eu, estranha vez sinto frio. Acenderei um fogo e poderemos nos sentar em frente à lareira. – Ele levantou-se e com um gesto suave puxou-a pela mão.

—Não tenho nada para colocar e não posso passear nua, assim sem mais. —A imagem de Byron olhando-a, a alarmou. Pela primeira vez, teve realmente gana de saber que aspecto tinha.

—Claro que pode. Não precisa de roupa alguma. - Disse ele, pausadamente. - Prefiro admirar seu corpo. É belo. A mulher é um milagre de maravilhosas curvas. E me dá a oportunidade de te tocar sempre que quero. — Com a palma aberta, percorreu-lhe o perfil dos seios, seguiu pela leve curva de seu ventre e permaneceu um momento incendiário, entre seu escuro triângulo. Deslizou o dedo em seu interior, brincou e a acariciou até que, úmida e quente, ela respondeu, montada sobre sua mão com um suspiro de surpresa. - É o que adoro em você. Ecxcita-se com tanta rapidez comigo.

Antonietta ficou sem fôlego quando um orgasmo tomou seu corpo.

—Sempre desfrutei do sexo, mas não tinha idéia de que podia ser assim. Ignorava-o de verdade. Chega a assustar, por quão maravilhoso é. Assusta, mas é aditivo.

—Parece-me bem. - Disse ele, com evidente satisfação.

—Não posso ficar assim, nua, enquanto você me olha. Faz frio aqui dentro. —O corpo dela vibrava, pulsava cheio de vida e de prazer.

Byron levou os dedos à boca.

—Tem bom sabor, sabia? Acenderei um fogo. As poltronas são cômodas e podemos nos acomodar e conversarmos. Queria saber como recebeu Dom Giovanni, a notícia de que Paúl não só disparou em mim, mas também em você. – Ele assinalou com um gesto da mão, a enorme lareira e as chamas brotaram e começaram a lamber os troncos. – É claro que informaram seu avô. Estava ferida e eles chamaram o médico para que te curasse adequadamente.

—Não foi preciso que me curassem. A bala já tinha sido extraída e o ferimento estava quase fechado. Foi você, não é?

Ele tocou-lhe o ombro, um contato apenas perceptível.

—Jamais te abandonaria se a visse sofrendo. Sabia que demoraria para voltar, mas pensei que sua família insistiria em chamar um médico para assegurar-se de sua saúde.

Antonietta tinha a certeza de que Byron não se movera, não havia se inclinado sobre o fogo e, entretanto, assim que pronunciou as palavras, ela sentiu a suavidade das chamas. Cheirou uma fragrância maravilhosa e aromática.

—O que é isso?

—São velas. Meu povo conhece as virtudes da aromaterapia. Você e eu poderíamos ser beneficiados de uns quantos cuidados e de mais energia. — ele voltou a acariciar o ombro nu, em volta do ferimento e permaneceu um momento quieto, até que ela sentiu os efeitos balsâmicos. – Seu primo tem muita sorte de estar vivo. — Ele teria sido capaz de degolar Paúl, por ter estado tão perto de fazer mal a Antonietta.

—Meu primo é um idiota. Não tenho nem idéia do que farei com ele.

—Pode ler o pensamento de seus parentes da mesma maneira que os escuta nas reuniões? Possivelmente, na próxima vez, deveríamos averiguar o que se tem entre mãos.

—Eu não me dedico a ouvir às escondidas. - Negou ela. - Simplesmente ouço. Há uma diferença. Inteirar-me do que pensam meus primos? Por que faria isso? Já sei o que pensam e me dá bastante medo só em contemplar o que fazem - O sorriso apagou em seu rosto. - Acredito na privacidade, Byron. Não queria ter que ler os pensamentos íntimos de meus familiares.

— Entendo-a. - Byron se acomodou na cadeira de macias almofadas e se recostou contra o respaldo. - É perfeitamente legítimo ouvir as conversas de negócios, recorrendo a seu fino ouvido. É um dom que a maioria dos humanos não possui, por certo, mas não é igual ouvir à família. — Em sua voz apareceu uma leve ameaça e Antonietta sentiu um calafrio. Sabia que com ele nunca estaria em perigo, mas às vezes Byron se parecia mais a um animal selvagem, um animal não domesticado que rondava e espreitava e era capaz de uma grande violência.

Antonietta se acomodou na cadeira, em frente a ele. A suavidade do fogo a envolveu e desvaneceu o estremecimento que seguiu ao medo.

—Quando você fala assim, reconheço que não soa bem, mas essas empresas são o sustento de nossa família e de nossas terras. Para o Nonno, custa cada vez mais lembrar os detalhes. Tive que detê-lo em várias ocasiões para que não firmasse contratos que haveriam nos prejudicados. Felizmente, temos bons advogados e Justine lê tudo para mim, de modo que temos benefícios, mas se eu não os ouvisse, poderíamos ter problemas. — Ela deixou escapar um suspiro que reverberou no silêncio da sala. Fora, a chuva caía suavemente sobre a cristaleira, uma suavidade que se correspondia à melancolia. - Tinha a esperança de que Paul mostrasse algum interesse na empresa.

Havia algo de muito excitante, em estar sentada e nua frente à lareira. Antonietta sentia o olhar de Byron, cálida e intenso e totalmente pendente dela.

—Eu me preocuparia, se de verdade ele mostrasse algum interesse pela empresa. Com essa arma, Paul apontava para você.

— Foi um acidente. Estou segura de que foi. Paul reconheceu que cometeu graves enganos. Deve dinheiro a pessoas que, segundo ele, adotarão métodos mais duros se ele não pagar o que deve. Comprou uma pistola, mas não sabia como usá-la. Falei com o Justine...

Byron assentiu com um gesto da cabeça.

—Ah, sim. A fiel Justine, em quem sempre poderemos depositar nossa confiança.

Antonietta o olhou, franzindo o cenho.

—Estas pessoas são minha família, Byron. Entendo que tiveste um gesto maravilhoso em não ir à polícia e denunciar Paúl. Não tem nem idéia de quanto o agradeço isso. Paul poderia ser preso e nós sabemos que não tem nenhuma possibilidade se isso acontecer. - Sem se dar conta, Antonietta jogou a cabeça para trás e com o gesto, ofereceu-lhe os generosos seios. - Deveria vê-lo, quando éramos jovens. Eu gostaria que o tivesse conhecido. Tem uma mente brilhante e quando era menino, era uma maravilha. Seu pai lhe tirou toda a confiança em si mesmo e até a vontade de tentar fazer coisas. Está claro que os adultos sempre conseguem arruinar a vida das crianças,

Pela primeira vez, Byron sorriu.

— Isso é verdade. Minha irmã acolheu um menino faz alguns anos. Com o tempo, ele mostrou ser um amontoado de problemas. Certamente, Eleanor pensa que ele é um anjo e é absolutamente indulgente. — Byron não pôde resistir ao convite silencioso e segurou-lhe um dos seios na mão e começou a acariciá-lo.

— Você tem uma irmã? —Antonietta estava surpresa. Byron nunca falava de seu passado nem de seu futuro. E nunca falava de sua família. - Na outra noite, aquele homem, Jacques, disse que sua família estava nos arredores. —Antonietta se sentia extremamente sensível. Não queria que Byron parasse, jamais. Precisava de seu contato, dessa sua maneira de sempre ter que tocá-la. Era uma sensação aditiva.

—Acaso acredita que meus pais me encontraram debaixo de uma pedra? Também tenho cunhados. —Byron a soltou, inclinou-se para trás, estirou as pernas em direção à lareira e observou como a luz das chamas dançava sobre o rosto e o corpo dela. - Tem uma pele formosa. - Disse. As palavras saíram de seus lábios antes que pudesse evitar. As observações pessoais deixavam Antonietta incômodada.

Surpreendeu-a, a franqueza de sua voz. Era impossível não sentir tanto prazer.

—Grazie. Alegro-me que saiba.

Ele se inclinou e segurou sua mão.

—Minha irmã, Eleanor, perdeu vários filhos e foi muito duro para ela. Teve um filho e conseguiu criá-lo e fazer dele um homem bastante decente. Agradaria-te. Vlad, o companheiro... O marido de Eleanor ocupou-se dele com mão firme, quando Eleanor se tornava indulgente.

—Por que não usa a palavra marido? Sempre diz companheira.

—Em minha língua, no mundo de meu povo, referimos a nossa companheira como companheira. À diferença dos jaguares, unimo-nos para toda a vida. Não para um prazer momentâneo. Consideramos que a arte de fazer amor e fazer feliz a nossa companheira é um dever para toda a vida.

Havia algo extremamente maligno em sua voz, quase um desafio.

Antonietta teve a impressão de que ele sorria. E decidiu que o melhor seria ser discreta.

— Então você tem um sobrinho. —Agora, ela estava plenamente consciente de que os dedos dele, a acariciavam. Byron acariciou o interior de suas mãos. Até então, ela não tinha idéia do que podia ser a mãos. Em seguida se derretia interiormente.

—Sim, Eleanor conseguiu ficar grávida. Benjamin. Benj era… É… um milagre para todos nós. Está crescendo que é uma maravilha e todos estamos muito orgulhosos. Pertenço a uma família de artesãos. Benjamin prefere trabalhar com pedras preciosas, como eu sempre tenho feito. Eu gostaria de te levar às cavernas onde poderia escolher uma gema, de uma das paredes da rocha. — Em sua voz aparecia a saudade.

—Fascinaria-me ir com você a uma caverna. Ainda continua fazendo jóias?

—Tenho planos para voltar a começar, agora que a encontrei. Ao ver você sentada, com o cabelo sobre seus ombros e a luz do fogo dançar sobre seus seios, sinto-me inspirado. Queria fazer um colar de fogo e gelo para adornar seu pescoço.

Suas palavras despertaram nela a autêntica sensação de frescor das pedras preciosas em contato com a pele e levou a mão ao pescoço, como se esperasse encontrar um colar de ouro, diamantes e rubis.

—Eu gostaria de usar uma jóia que você tenha desenhado.

—Fabricarei algo muito belo, que vá bem com sua pele e seu cabelo. Será um autêntico prazer.

—Seu sobrinho também faz jóias? — Antonietta se deleitava sentindo o olhar de Byron fixa nela. Não precisava ver para saber que ele a olhava. Havia superado a vergonha. Ao contrário, agora queria que ele a olhasse. Desejava que ele sentisse uma fome devoradora por ela. Como o que ela sentia por ele. Estava até difícil concentrar-se na conversa. Estava muito ocupada pensando em montar sobre ele, na cadeira que ocupava frente à lareira.

—Ele começou a trabalhar como aprendiz. Não o vejo a algum tempo, mas Eleanor também tem o jovem Josef e ele é outro conto. Sua mãe biológica já era velha quando deu a luz e morreu uma hora depois do parto. Eleanor e Vlad se ofereceram imediatamente para adotá-lo. Deidre, a irmã de Vlad e seu marido, Tienn foram os primeiros escolhidos para cuidar dele, mas Deidre tinha perdido tantos filhos que Tienn temia que se o bebê não sobrevivesse, seria um golpe muito duro para ela. Os pais sofrem muito quando perdem tantos filhos. Muitos de nossos filhos não sobrevivem além dos primeiros meses.

—Não posso imaginar como seria perder Margurite e pensar que nem sequer é minha filha. - Disse Antonietta. - Quanto lamento por sua irmã e sua cunhada. Há tantas pessoas que têm filhos sem realmente desejar e ao contrário, há tantos que os desejam e que não podem tê-los.

— E você? Quer ter filhos?

Ela encolheu os ombros.

—Houve um tempo em que sonhei com filhos. Acredito que acontece com a maioria das mulheres, Byron. Mas, eu tinha responsabilidades e minha carreira estava separando. Nunca conheci um homem que fosse o bastante atraente para pensar em compartilhar toda uma vida com ele e embora pensei em ter um filho só decidi que seria como um engano para ele. Freqüentemente tenho que sair em excursão ou solicitam minha presença quando tocam uma de minhas óperas ou sempre estou ocupada com os negócios de minha família. Resta-me pouco tempo para dedicar a um filho.

—Entendo.

Por alguma razão, Antonietta se sentiu, de repente, na defensiva. Era uma reação ridícula, posto que não havia inflexão alguma na voz de Byron que fizesse pensar em uma ameaça, mas teve a sensação de que ele se equivocava ao interpretar suas palavras. Ao longo dos anos, Antonietta tinha aprendido a viver sem ver, a julgar as reações pelas vozes e até pela tensão que vibrava no ar. Mas com Byron não conseguia e isso a confundia, a fazia sentir-se vulnerável. Afastou sua mão, consciente de que ele sentia seu pulso acelerado, nas mãos.

—Entende? Seria um milagre, porque que poucas pessoas têm uma idéia acertada do que foi minha vida.

—Entretanto, eu não sou a maioria das pessoas, não é verdade? — Em sua voz havia um leve indício de diversão.

—Não, é verdade. - Conveio ela. - É alguém muito especial. Se não é um jaguar e não é de todo humano, o que é Byron? O que é exatamente? E não me dê respostas estranhas ou absurdas.

—Sou um Cárpato, das montanhas daquela região. Meu povo é tão antigo como o tempo e somos da terra. Voces têm suas lendas de vampiros, de homens lobos e jaguares, nós pertencemos a esse reino. — Era uma resposta honesta, o tipo de resposta que daria a sua companheira. Byron não deixava de olhá-la e interpretava suas expressões, na escuridão.

—Sei que é diferente, Byron. É curioso. A imagem dos jaguares é algo que me vem com naturalidade à mente, mas um homem lobo ou um vampiro me parece uma aberração. — Ela deixou escapar uma risada apagada. - Por que será? Por que aceitaria tão facilmente uma realidade, mas me negaria a dar crédito à outra?

—Os Cárpatos não são homens lobos e nem vampiros. Somos uma espécie em perigo de extinção, que lutamos por nosso lugar no mundo.

Ela pensou atentamente nessas palavras, analisou-as em busca de um significado oculto.

—Você se parece com alguma dessas espécies? É certo que pode mudar, como os jaguares. Levei a cabo uma longa investigação sobre as lendas e a mitologia do povo jaguar. Você pode mudar? Eu não posso. Às vezes sinto que se insinúa em mim e sei que há algo em meu interior, mas não basta uma mera ordem para consegui-lo. Invoquei o poder da fera, mas jamais consegui que se expresse em toda sua dimensão.

—Sim. Eu posso mudar.

Antonietta não esperava que Byron reconhecesse. Aquela idéia era absurda e a atemorizava-a. Respirou fundo e perguntou:

—Pode voar?

—Sim, já sabe que posso. Não apaguei que sua memória.

Antonietta estava sentada na penumbra, onde se sentia agora, muito cômoda e esperou segundos longos em silêncio, para dar o tempo de assimilar o que ele confessava. Voar. Sentiu que seu coração se acelerava com a idéia, embora sua natureza humana albergava certas reservas.

—Seria um presente esplêndido. - Não podia vê-lo, mas o olhou diretamente. - Para um presente tão maravilhoso, o preço deve ser muito alto.

Byron a olhou e quis sorrir. Antonieta estava sentada em frente a ele. Era sua companheira. Sua pele nua brilhava a luz do fogo. Seu mundo de cores dançou frente a seus olhos. Experimentava emoções tão primárias e intensas que não podia controlar. Que preço pagara? Séculos de existência marginalizada, um mundo cinza e de desesperança. O sussurro interminável do mal que o chamava. Os minutos, as horas, dias e anos intermináveis de abjeta solidão. A existência de Antonietta fizera tudo desaparecer, de repente.

—Vivo, Antonietta. Tenho uma maneira de viver e a vivo. Não é nem bom nem mau ser como sou. Simplesmente sou. Aceito o que sou e estou orgulhoso de meu povo. Somos gente de honra, somos fiéis e possuímos muitos outros traços de fortaleza, mas também temos debilidades, como qualquer outra raça. Não posso viver à luz do sol. Faria-me muito mal. Por isso não posso estar com você para te cuidar em certas horas do dia. — Quando ele falava, era como se desse às coisas por certo. - Sou capaz de ver a beleza na noite é meu mundo, minha existência e a adoro. Quero compartilhar meu mundo com você para que nunca tenha medo vivendo nele. Para que veja sua beleza por si mesma e não só por mim.

Antonietta ignorava se eram as coisas que Byron dizia ou como as dizia, mas interiormente se derretia. Desejava-o. Queria envolver-se em seu interior, no fundo de seu coração e sua alma. E desejava ver seu mundo, conhecer seus limites. Quando disse que a noite era bela, sua voz era quase um ronronar. Ela vivia na escuridão e então queria vê-la.

Já não podia resistir à tentação. Simplesmente se levantou e deu uns quantos passos até ficar frente a ele. Byron não a decepcionou. Estendeu a mão para ela tal como Antonietta havia imaginado, deslizou-a pela coxa, acariciando o interior de sua perna com dedos sensíveis, peritos. Ela respondeu imediatamente acolhendo-o, quente e líquida, uma antecipação ávida do feitiço mágico que a esperava.

Byron a atraiu para ele e ela respondeu, em pé entre suas pernas, enquanto ele a encontrava, úmida. Antonietta viu luzes em seu olhar interior, um desdobramento de brilhantes cores, com o corpo palpitando de prazer. Byron deslizou os dedos em seu interior e os músculos dela o acolheram.

—Quando estou com você, Byron, sinto como se voássemos juntos. —Antonietta teve que se segurar a ele, para não perder o equilíbrio, quando sentiu que as pernas fraquejavam. Empurrou os quadris contra sua mão, desejando-o.

Impaciente, deu um passo adiante e se colocou aberta sobre suas coxas, de modo que ele não teve alternativa, que lhe dar o que ela mais necessitava. Antonietta sentia que sua fome aumentava, uma fome quase voraz, um apetite insaciável que só podia se aplacar provisoriamente. Estendeu-se sobre Byron. Ele estava grosso e duro e penetrou-a lentamente, enchendo-a, abrindo-a. Era incrível e perfeito, era tudo o que ela desejava.

Seus seios roçaram o peito de Byron, sua cabeleira caiu abandonada, quando começou a mover-se com seu ritmo de dança, com toda a paixão vulcânica que desatou nela, esperando. Esperando Byron. Montou-o com dureza, mas lenta, tomando seu tempo, procurando dar aos dois, um prazer delicioso. Em seus ouvidos chegou o ruído do vento. Dos batimentos de seu coração. De sussurros na distância. Antonietta sentia tudo. A textura de sua pele, a forma de seus ossos, a definição de seus músculos e o gozo interminável de um orgasmo que os estremeceu, numa harmonia absoluta.

 

Ela afundou a cabeça em seu peito.

—É muito curioso, mas posso ouvir tudo o que dizem, como se estivéssemos no mesmo quarto. Sempre tive bom ouvido. Pensava que era por minha cegueira ou possivelmente, por descender do povo dos jaguares. —Em sua voz se adivinhava a incerteza.

—Queria ter tempo para ler em profundezas, a história do povo jaguar. Acredito que é muito relevante para minha gente. Tenho todo tipo de perguntas a te fazer, mas suponho que podem esperar. - Byron se inclinou, acariciou as mechas sedosas e afastou o cabelo dela da face. Inclinou-se ainda mais, para lhe deixar beijos leves como plumas, do queixo até o pescoço e a incitante curva dos seios.

Antonietta fechou os olhos quando se sentiu presa de ondas de prazer, que a varreram de dentro para fora. Adorava cada momento que passava com Byron. Nada na vida a tinha preparado para as sensações que ele despertava nela. Poderia ouvir o som de sua voz para sempre. E gozar com o contato de sua pele.

—Meu ouvido está melhorando. – Disse e agora, se adivinhava certa diversão em sua voz.

—Isso é bom. Alguém se aproxima de sua porta. Não queria que a surpreendessem em uma posição tão comprometedora. — A boca de Byron se fechou sobre seu peito e Antonietta sentiu o calor e o fogo explorando em seu interior.

Alguém chamou brandamente à porta.

—Antonietta, por favor, me deixe entrar. Temos que conversar. Tem que me deixar explicar. Acredito que nossa amizade, depois de tantos anos, merece-se ao menos isso.

Antonietta se tornou rígida para ouvir a voz implorante de Justine. Byron elevou a cabeça, num gesto de alerta e se inclinou para beijá-la brandamente.

—Insistirão em ver você.

—Antonietta, por favor. Tem que me deixar explicar. Paul está destroçado. Toda sua família está sofrendo. Por favor, abra a porta.

Antonietta fez uma careta ao ouvir o nome de seu primo, como um golpe à boca do estômago e se sentiu doente.

—Não quero ver ninguém. Não sei o que sinto por eles neste momento. - Murmurou e afundou a face no pescoço de Byron, esperando que Justine se fosse.

—Feriu-te. Ela feriu você, mais que Paul. - Disse Byron e lhe afastou uma mecha da face.

—Paul é um fraco. Contenta-se em autocompadecer e isso é o que cheguei a esperar dele. Mas Justine é forte é uma líder e sempre foi minha confidente mais próxima. Mas me arrancou algo importante que jamais poderei recuperar. O pior de tudo é que nem se dá conta. O que ela significava para mim não era o mesmo que eu para ela. —Antonietta ficou ouvindo os passos que se afastavam. - Francamente, não sei o que lhe direi. Quando me ponho a pensar nisso, acabo chorando. Não odeia as emoções? Elas servem para danificar tudo.

Ele continuou beijando-a.

—Sempre tiveste emoções. Durante um tempo, eu precisava delas. Prefiro ter sentimentos, qualquer tipo de sensações, embora seja em excesso.

—Inclusive a traição? E a dor?

— Pelo menos você é capaz de amar o suficiente para sentir amor e traição. Em qualquer caso, acredito que Justine se arrependerá do tem feito e entende que algo se perdeu entre vocês.

- Como se explica que possamos ouvi-los, Byron? Eles estão embaixo, acredito que na estufa. Como é possível que os ouçamos? Por que não vão todos dormir e me deixam tranqüila?

—Porque, cara, você é importante para eles e porque a amam. Só demonstram que estão preocupados.

—Desejaria que só por esta noite nos deixassem em paz.

Ouviram outros passos e desta vez, inconfundivelmente decididos, que subiam pela escada. Ouviram quando se aproximaram da porta, o golpe esta vez foi de autoridade.

—Antonietta, minha cara, tem que abrir à porta imediatamente ou utilizarei a chave mestra que Helena me deu e a abrirei. Falo sério. Quero saber se está bem. Não tem que falar comigo, mas tem que me deixar entrar. O Nonno e as crianças estão assustados. — Era Tasha e parecia firmemente decidida.

—Ela abrirá a porta. Tasha não está acostumada a fazer falsas advertências. Estou nua e o quarto está… Bem... É evidente. Qualquer Pessoa verá o que estamos fazendo —disse Antonietta, com uma ameaça de pânico.

Byron elevou uma mão em direção ao banheiro. Ouviu-se imediatamente, o ruído da água enchendo a banheira. O penetrante aroma de seus amores se dissipou e foi substituído pela fragrância dos sais de banho preferimentos de Antonietta. Byron inclinou a cabeça e se começou a beijá-la por toda parte.

—Posso te dar um agradável e refrescante banho. Sei que está desejando. Deixarei entrar Tasha e a manterei ocupada até que esteja preparada para falar com ela.

Antonietta se deslizou sobre seus joelhos e se sentou.

—Nesse caso, por favor, se vista. Não quero que de repente, Tasha pense que está tão quente que tem que possuí-lo. Grazie. Surpreende-me o quanto é atento. - Deixar que ele dirigisse os detalhes era uma amostra do aborrecimento que sentia com sua família, como era deixá-lo a sós com sua prima enquanto, ela tomava seu banho.

Byron esperou até que Antonietta fechou a porta antes de se aproximar, de abrir a porta a Tasha. Com outro gesto da mão, arrumou a cama e ele se vestiu a maneira dos seus. Abriu a porta, no momento em que Tasha colocava a chave na fechadura.

Tasha lançou um grito. Um grito de espanto e horror. Levou-se a mão rapidamente à boca, os olhos exageradamente abertos.

—Mas… Todos pensávamos que havia morrido. – Disse ela, com um sussurro de voz. - Graças ao bom Deus que Paul não o matou.

Byron deu um passo para trás e a deixou entrar, com um gesto de cortesia. Celt se aproximou da recém chegada e logo seguiu sua ama ao banheiro, deixando claro que permanecia alerta. A porta fechada não representou problema, porque o borzoi fez girar a maçaneta com suas poderosas mandíbulas e desapareceu no meio do vapor.

—Antonietta está tomando um banho. Acredito ajudará a tranqüilizar-se e facilitará o diálogo com sua família. - Aventurou Byron. Seguiu o borzoi para o outro lado do quarto e fechou a porta para dar total privacidade a Antonietta. Esperava dar tempo a Tasha para recuperar-se. Estava tão pálida que Byron temeu que sofresse um desmaio.

—Não fazia idéia de que estava aqui ou não teria interrompido. – Disse ela e o olhou sob seus longos cílios. Em seus olhos escuros havia uma mistura de cautela e alívio. - Antonietta estava destroçada pelo que aconteceu. Já sabe e se culpava por ter te deixado quando estava ferido tão gravemente. Paul tampouco lembra por que o abandonaram.

Tasha deixou escapar um suspiro e deu alguns passos para se afastar dele, colocando distância entre eles para se recuperar do impacto. Tasha sempre se sentia incômoda ante a presença de Byron e perto, no quarto de sua prima, ele pareceu-lhe mais imponente que nunca. Pigarreou, nervosa.

—Já sei que não fui muito acolhedora contigo, mas é evidente que Antonietta sente alguma coisa por você. Se não se importar, queria começar tudo de novo.

Byron a olhou, franzindo o cenho. Suas palavras eram forçadas e sua voz ocultava um desprezo latente.

— Por que essa mudança de atitude? Não tem por que fingir comigo se o que quer é impedir que prendam Paul. Não informarei o incidente para a polícia. Tem que agradecer sua prima.

Nos lábios de Tasha, apareceu inesperadamente um breve sorriso.

—Não estima muito a nenhum de nós, não é?

Byron não respondeu e se limitou a cruzar a quarto até a janela de cores.

— Por que não gosta de mim, Tasha?

Ela sorriu, embora não havia nem pingo de humor em sua risada.

—Porque é a primeira ameaça real que surge entre nós.

Ele se virou e a olhou franzindo o cenho, seus olhos escuros um pouco confusos.

—Eu não sou uma ameaça para voces. Você é a prima de Antonietta. A menos que pensasse em fazer mal de algum jeito, faria tudo o que está em mim para a proteger. Por que teria que ser uma ameaça?

Ela virou rapidamente a cabeça, mas não antes que ele percebesse o brilho de lágrimas em seus olhos.

—Isso é tão típico em você. – Tasha respondeu, com um gesto da mão, como se quisesse deixá-lo correr.

- Diga-me. - Desta vez, sua voz era pausada e convincente. Se ela não cooperava com um ligeiro empurrão, ele não tinha problemas para superar suas barreiras mentais e inteirar-se de suas cabalas. No que a ele tocava, a família de Antonietta merecia pouca consideração.

—Me olhe, Byron. Nunca me olhaste. Sou bela, tenho um corpo absolutamente perfeito. – Ela disse, com um tom amargo. – É só o que vêem quando me olham. Jamais olham mais à frente para verem a mim. E se o fazem, não tenho talento como Antonietta e nem sou um cérebro como Paul. Não posso ter filhos como Marita. Quando Cristopher descubrir que sou estéril, vai se desfazer de mim ou buscará uma amante com quem terá um filho. E embora não o faça, assim que minha beleza se apague, algo que acontecerá com o tempo, ele me abandonará. Nonno quase não me tolera e Paul está muito ocupado compadecendo-se de si mesmo. Franco não se fixa em mim. Para que se incomodar? Eu não posso falar de ações e negócios com ele. — Ela pegou um vidro de perfume de sua prima e aspirou o aroma. - Antonietta é a única a quem importo. Ela não sabe que aspecto tenho e me quer pelo que sou. Incondicionalmente. Nem sequer meus pais me deram isso. Certamente que você é uma ameaça para mim. Interessa-lhe de verdade, não é um capricho passageiro.

Com essas palavras, voltou-se para fitá-lo.

—Vejo que é um homem perigoso, qualquer um vê. Tem pintado em sua face, entretanto, sei que nunca faria mal a antonietta. Mas a separará de nós. Tem algo de estranho, que eu lute por minha própria sorte? Sem ela não tenho mais ninguém. —Não havia autocomiseração em sua voz, só a verdade nua.

—Acredito que se tem em bem pouca estima, Tasha. É verdade que nunca a vi mais que como a prima de Antonietta. Apaixonei-me por ela, no momento em que a vi. Soube imediatamente que ela havia nascido para mim, que era minha outra metade. —Byron sorriu, um sorriso sincero—. Por favor, me perdoe por não me dar o tempo de te conhecer melhor. Antonietta é meu mundo e isso significa que qualquer pessoa que pertença a seu mundo também pertence ao meu. Não tenho intenção de fazer nada que a entristeça e você é muito importante para ela.

—É verdade que tem certo encanto. —Tasha fez um esforço para sorrir, contra a corrente de seus sentimentos.

—E você tem muitos traços admiráveis que parece não ver como virtudes. É maravilhosa com as crianças. Preferem você, à própria mãe.

—Ainda não entendo o que acontece com Marita. - Reconheceu Tasha. - Penso muito nela e me pergunto por que não é feliz. Se eu tivesse dois filhos e um marido que me quisesse, não precisaria de nada mais.

—Nem de dinheiro? — Inquiriu ele, franzindo o cenho.

—Sempre tive dinheiro, simplesmente foi parte de minha vida. Não sei como não tê-lo, mas jamais me tem feito feliz.

—De modo que seu maior desejo não é ter mais dinheiro? — Havia na voz de Byron uma qualidade sedosa, uma voz hipnótica e antiga. Tasha inclinou a cabeça para ele, o olhar de repente sonhador.

—Meu maior desejo é ter um filho. Quero poder sustentar um bebê em meus braços. Poder amá-lo. Seria uma boa mãe. Teria gostado de ter essa oportunidade.

— Passei por cima muitas coisas devido a minha ignorância, Tasha. É uma mulher especial.

Tasha lhe devolveu um sorriso tímido.

—Só por isso, suponho, podemos declarar uma trégua entre nós.

—Para mim seria uma grande alegria.

—Obrigado por dizer que sou importante para Antonietta. – Disse ela, passeando o olhar pelo quarto. - Como conseguiu entrar sem que nenhum de nós o visse? Acredito que é por isso todos têm um pouco de medo de você. Ninguém jamais o vê entrar ou sair.

Ele respondeu com um sorriso.

— Como o famoso fantasma.

Tasha respirou fundo.

—Você pensa mesmo, que Paul tinha a intenção de matar Antonietta? Acredita que ele é capaz de matá-la e ao Nonno, por uma dívida de jogo? — Ela formulou as duas perguntas, precipitadamente. Byron vacilou e mediu suas palavras ao falar.

—Quando estão assustadas, as pessoas fazem coisas que normalmente não fariam. É possível que alguém o tenha ameaçado e ele esteja desesperado. Espero que não, mas você o conhece melhor que ninguém. O que pensa?

—Queria que falássemos de Marita, não de meu irmão. Ela sim tem sede de dinheiro e de posição social. Nem sequer se dá conta do que tem, porque tem tanta vontade de possuir mais.

Era um comentário típico da Tasha, um comentário que Byron teria esperado de sua parte, mas agora que a conhecia melhor, via que aquela mulher simplesmente dizia as coisas pelo efeito que tinham, não porque pensasse a sério. Era um costume ou possivelmente, um mecanismo de defesa. Byron não sabia qual dos dois, mas tampouco importava muito.

—Antes, Paul era um encanto. Agora apenas o reconheço. Ele é capaz de se aproveitar de qualquer pessoa. – Ela disse e olhou as mãos. - Se o tivesse conhecido antes, jamais pensaria que tentasse fazer mal a Antonietta.

—Ainda assim, pensa que Paul decidiu lhe fazer mal. Diga-me uma coisa, se algo acontecesse a seu avô, quem herdaria tudo?

—O grosso de sua fortuna, será Antonietta. Por isso sei, pode ser que esse dinheiro já esteja em seu nome, mas o resttante de nós, receberíamos vários milhões cada um.

—Vários milhões cada um? Tanto assim? Cada um de voces?

—Sim, claro que sim. Não sei exatamente quanto vale o Nonno, mas é muito. É um homem muito rico. Cada um de nós receberia suficiente para toda uma vida, inclusive uma quantidade excessiva.

—De modo que todos se beneficiariam economicamente se Dom Giovanni morresse? E se algo acontecesse a Antonietta, há um testamento?

—Certamente, um Scarletti não vai pelo mundo sem ter um testamento. - Disse Tasha, mas parecia incômoda. - A verdade é que não sei quem herdaria, mas é possível que a maior parte me tocasse .

—Entendo.

Duas manchas rubras tingiram as bochechas de Tasha. De seus enormes olhos brotou uma labareda.

—Como se atreve! O que insinuas? Acaso está me acusando?

Ele elevou uma mão, para acalmar a irada resposta.

—Só perguntava, Tasha. Não tenho idéia de quem quer fazer mal a sua prima, mas duvido muito que você fizesse algo assim por dinheiro. Possivelmente por inveja. Mas não por dinheiro. — Byron pensou que o mais prudente seria guardar para si, certas idéias.

—O que acontece aqui? — Perguntou Antonietta, que de repente saiu dobanheiro, fragrante e atraente.

Byron sentiu-se afetado. Tudo em Antonietta brilhava de dentro para fora. Segurou-lhe a mão e a levou aos lábios.

—Tasha e eu estamos nos conhecendo melhor. Por seu bem, decidimos assinar uma trégua.

Tasha passou junto Byron e abraçou a sua prima.

—Estava preocupada com você, Toni.

—Eu também estava preocupada comigo. - Reconheceu Antonietta. - Pensava sinceramente que se algo acontecesse com Byron, não poderia seguir adiante. —Ela devolveu o abraço a Tasha e sentiu o tremor que sacudia o corpo de sua prima.

—É muito sensível, Antonietta. Deveria ter tomado minhas precauções. - Disse Byron. - Será outro dos dons dos Scarletti. — O primeiro intercâmbio de sangue os havia unido e aproximado do perigo e se quase a havia matado de dor, que conseqüências poderia ter o segundo intercâmbio? Byron franziu o cenho, porque a idéia de repente se tornou preocupante.

—É evidente que Byron se encontra vivo e bem. - Assinalou Tasha. - Não pode voltar a adoecer de dor dessa maneira, Toni. O pobre Nonno não pode mais sofrer. Tem que ir vê-lo ou não ele não se deitará.

—Irei, Tasha. Até que soube que Byron estava são e salvo e fora de perigo, não me atrevi a pensar em ninguém. Também tenho que ir ver Margurite. Está mais feliz agora que está em casa? Encontra-se melhor esta noite, Tasha? Dói-lhe menos?

—Está muito intranqüila. Marita não deixa de lhe dizer que os Scarletti não choram, que não exageram, que deveria aproveitar o tempo e seu isolamento para estudar e encher a cabeça de grandes coisas. Como explicar o que acontece a essa mulher? — Tasha não ocultava sua exasperação. - Passei várias horas lendo para Margurite e brincando com ela, mas Marita nem sequer a deixa ver televisão. Quer que Margurite leia. Franco não consegue convence-la do contrário e olhe que tentou, porque os ouvi discutir. Se voltasse dar uma olhada nela e pudesse acelerar sua recuperação, seria maravilhoso.

Byron intrigava aquela maneira de dar por certo os dons dos Scarletti. Era uma parte natural de suas vidas, como acontecia com suas próprias faculdades. E eles se serviam disso com toda naturalidade.

— Byron possui certas virtudes curativas. Ele se ocupou de meu ombro, embora naquele momento sua própria vida corria perigo. - Disse Antonietta. - Possivelmente nós dois possamos acelerar sua recuperação. Quanto a Marita, diria que está obcecada que Margurite se converta numa grande estudiosa, mas se esqueceu que deixá-la viver sua infância.

—É verdade. - Conveio Tasha e suspirou. - Francamente, Antonietta, parece como se tudo estivesse caindo. Esta noite pedi a Helena que trouxesse uma bandeja de comida para o Nonno e ele parecia resistente a comer. Não deixava de murmurar coisas e juraria que disse que eu tentava envenená-lo. Negou quando o enfrentei, mas te juro que foi o que disse e não provou o jantar. O mais desatinado é que Paul fez exatamente o mesmo. Levei a bandeja a seu quarto e ele a lançou contra a parede e disse que eu tentava envenená-lo. – Ela repetiu e elevou os braços. - Não sei como os agüenta. Dois minutos depois, comportava-se como se tivesse sido eu quem atirou a bandeja.

— Por que levou pessoalmente a comida a seu avô e a seu irmão? —Perguntou Byron. - Nunca em sua vida fez algo assim.

Tasha lhe devolveu um olhar de raiva.

—Simplesmente tentava ocupar o lugar de Antonietta. Nonno estava muito inquieto e não tinha comido durante o dia, de modo que insisti em lhe levar uma bandeja de comida.

—Onde está a comida? Levaram para a cozinha? —Inquiriu Byron, quase com um grunhido de voz. Antonietta se Vvrou para ele bruscamente, com olhar interrogante.

—E eu que sei? — Respondeu Tasha, encolhendo os ombros. - Não acredita que fui eu quem limpou toda essa desordem, certamente que não. Pedi a Helena que se encarregasse. E não acredito que tenha guardado a comida. Tem que tê-la atirado no lixo. —Tasha arqueou as sobrancelhas. - Suponho que não tem fome. Do contrário, por favor, não coma do lixo. Temos comida suficiente na geladeira.

—Parece-me que sua trégua não tem longa vida, Tasha.

—Não quando você se comporta como um cretino. - Ela disse, olhando Byron por cima do ombro. - Freqüentemente ajudo com o que é preciso, no palácio. Por que não haveria de fazê-lo?

Antonietta decidiu intervir.

—O que aconteceu com Enrico? Sabe-se algo de nosso cozinheiro desaparecido? — Inquiriu ela e passou a mão pelo braço de Byron para retê-lo a seu lado. Assim que Byron ouviu sobre Dom Giovanni e a estranha conduta de Paul, Antonietta intuiu que conhecia os motivos de sua conduta.

- Conte-me o que passou.

- Antes, deixe-me ir à cozinha e fazer uma pequena investigação.

- Acredita que havia veneno na comida, não é? Como poderiam saber, os dois?

—Enrico continua desaparecido. Esse simpático inspetor da polícia voltou, mas certamente, não podíamos deixar que se inteirasse do que havia acontecido, Então o entretivemos um momento, deixamo s ele olhar o quarto de Enrico e logo ele foi embora. - Havia certo pesar na voz de Tasha. - É uma pessoa muito agradável, Antonietta. E adora ópera. Eu lhe disse que para sua próxima atuação, tentaria conseguir umas boas entradas e ele concordou, mas só se eu o acompanhasse.

—Mantiveste-o longe de Paul?

—Paul não quis sair de seu quarto exceto para falar com o Nonno. Não queria ver ninguem, mas Justine entrou e saiu várias vezes. Eu não tinha a menor intenção de deixar que o inspetor falasse com ele. Paul estava muito alterado e eu temia que fosse se entregar. - Tasha lançou um olhar de cautela Byron. - É verdade que não pensa em denunciá-lo à polícia?

—Não, Tasha. Não tenho nenhuma intenção de denunciar seu irmão.

—Grazie, Byron. É um homem muito generoso.

—Não confunda minhas intenções com a boa vontade. —Havia um indício de irritação na voz de Byron e por um momento, os dentes brilharam, brancos como os de um lobo. Uma flama intensa ardeu em seu olhar, dando a suas pupilas o brilho do fogo.

Tasha ficou boquiaberta e deu um passo para trás, enquanto levava a mão ao pescoço, como se fosse se proteger. Pestanejou para afugentar a imagem e se sentiu ridícula quando constatou que era Byron, quem a olhava com seus olhos escuros, tão familiares. Mas a olhava fixamente. Sem pestanejar. Parecia-se muito com o olhar de um predador.

Celt, que permanecia junto a Antonietta, baixou a cabeça, com o olhar concentrado em Byron e com a pelagem arrepiada. O caçador supremo sempre presente.

Antonietta apoiou uma mão no ombro de Tasha.

—O que aconteceu? E não me responda, que não é nada. - Com um gesto suave, ela tocou a cabeça do cão, para acalmá-lo. - Celt intui algo, possivelmente um animal selvagem. - Você cheira a felino, Byron?

Tasha vacilou.

— Minha atitude é ridícula. Por um momento, Byron me assustou. Lembrou-me um… — ela começou a falar e se calou. Não se atrevia a falar de lobos.

Byron respondeu com uma inclinação.

—Não tinha a intenção de te alarmar, Tasha. Simplesmente, não quero que tenha uma impressão equivocada. Paul quase matou Antonietta. Se for ele o responsável pelos ataques que sofremos, não sairá ileso. Eu mesmo me ocuparei disso. E se for inocente e são outros, encontrarei-os. - Celt cheira o mutante que há em mim. Não se preocupe. Não há perigo perto de nós.

Tasha entendeu que as palavras de Byron eram algo mais que uma simples brincadeira. Algo mais que uma simples ameaça. Tinha pensado bem cada palavra e havia pronunciando-as, com absoluta convicção. Aquela idéia acelerou seu coração. Em sua maneira de falar, adivinhava-se uma vontade justiceira.

—Descerei até a cozinha, vou investigar e logo me encontrarei com vocês duas no quarto de Margurite. “Celt, me perdoe, meu amigo. É o lobo que se apropria de mim quando intuo que o perigo ronda Antonietta”. Byron colocou a palma da mão no focinho do cão e lhe permitiu cheirar aquele amálgama de essências. A postura alerta de Celt mudou em seguida e desapareceu a tensão dele, embora permanecesse perto de Antonietta, vigilante.

—Celt já é uma parte importante de minha vida e não imagino o que faria sem ele — Disse Antonietta.

— Ele tem uma grande devoção a você. - Observou Tasha, - mas é muito grande e dá um pouco de medo. Nunca tivemos um cão aqui no palácio. Margurite vai adorar. É bom com crianças?

—Celt adora crianças. Um borzoi é um elemento muito importante em uma família. É um companheiro e um protetor ao mesmo tempo. Acredite-me, as crianças o adorarão. - Assegurou Byron e inclinou-se para lhe acariciar a orelha e tocou Antonietta. Imediatamente, produziu-se uma corrente elétrica entre os dois. A tensão sexual que se propagou pelo quarto era assombrosa.

Antonietta se esfregou contra Byron, ligeiramente, como uma gata feliz, estirando-se. Byron inclinou a cabeça para ela. Ela se sentiu invadida por um calor repentino. Colocou os braços em seu pescoço e colou sua boca a dele. O mundo desapareceu por um instante. Existia calor, fogo e a sensação do corpo duro e masculino de Byron apertado contra ela. Tasha entreabriu os olhos querendo mostrar seu desconforto. Emitiu um suave grunhido, que transmitia seu desgosto. Byron fez Antonietta conduzir-se até a vidraça colorida. Era como se fosse devorá-la, enquanto se alimentava de sua boca, com uma fome voraz. Tasha pestanejou, porque estava sendo difícil ver o casal. A luz da lua refletiu contra o cristal e foi como se desdobrasse um ligeiro véu em volta de Antonietta e Byron. Tasha fechou as mãos com força, até cravar as unhas nas palmas.

Sentia os olhos dele fixos nela. Escuros. Pensativos. Cheios de especulações. Envolta pelos braços de Byron, Antonietta não podia ver, mas ele levantou a cabeça com um gesto de alerta, como se sentisse perigo. E Antonietta sentiu o cabelo arrepiar, como resposta à intensidade de seu olhar. Tasha estremeceu e se dirigiu rapidamente para a porta.

—Venha, Toni? É muito tarde. Nonno já deve ter se deitado.

—Certamente que irei. - Havia uma multidão de segredos na voz de Antonietta. Voltou a beijar Byron. - Não demorarei.

—Leve Celt. — A voz de Byron foi como uma ordem. Havia dissimulado a ordem que pulsava em suas palavras e Antonietta não vacilou, embora franzisse o cenho. Estava acostumada a fazer o que gostava e a tomar suas próprias decisões e eram poucas as pessoas que se atreviam a dizer o que ela devia fazer.

—Toni! — Voltou a chamar Tasha, impaciente.

Antonietta tocou Byron com a ponta dos dedos, o mais ligeiro toque, que delatava camaradagem. Sabia perfeitamente que Tasha, apesar de sua trégua, manifestava sua desaprovação. - É uma mulher temperamental.

- É uma mulher mental.

Antonietta sorriu. Tasha lançou um olhar carregado de ira a Byron, suspeitando que os dois sussurravam, que zombavam de seu ciúme. Adiantou-se, para pegar sua prima pelo braço, com toda a intenção de tirá-la daquele quarto. Mas, Celt havia se colocado entre elas. Seus olhos escuros pareciam à inocência.

—Me dá vontade de te dar um chute. - Disse Tasha e fechou a porta do quarto de Antonietta com mais força que o necessário. O que queria de verdade era fechar a porta no nariz de Byron.

— Por que quereria me dar um chute? - Perguntou Antonietta quando a seguiu pelo amplo corredor.

— Em você, não. Nesse cão idiota e nesse homem que te cerca de todos os lados. Que tipo de conduta é essa, Toni? Deveria conservar certa dignidade. Não deveria se expor ao ridículo dessa maneira por um homem.

A chicotada de desprezo implícito na voz de Tasha provocou uma careta de desgosto em Antonietta.

—Encontrava-me em meus próprios aposentos, de maneira que não vejo como poderia ficar em ridículo.

—Atua como uma adolescente namoradeira. Dá vergonha. E esse cão é muito desagradável. É muito grande e sempre se mete no meio. Para que precisa de um cão? Não sei no que estava pensando Byron quando o deu de presente. Se Marita descobrir que é perigoso será um inferno.

— Por que pensariam que é perigoso? — Perguntou Antonietta, sem se importar que sua exasperação se manifestasse. - Pode ser que você não goste de Byron, Tasha, mas não arme problemas com Celt, só por rancor.

—Eu nunca sou rancorosa. - Alegou Tasha e deu alguns passos nervosos para mostrar sua contrariedade. - Passa cinco minutos com um homem e se volta contra sua própria família. Espero que se dê conta de que está cheia de caprichos. É horrível ver como se põe em ridículo. Mas, por favor, não tem por que ouvir meus conselhos.

—Eu não ouvi nenhum conselho. - Disse Antonietta. - Só amargura. —Inesperadamente, Tasha soltou uma risada.

—Isso não deixa de ser verdade. Tenho tanto ciúmes que poderia arrancar os olhos desse homem. Quero ser protagonista de uma história de amor. De um drama. De alguma coisa. Alguém tenta te assassinar, Paul dispara em você. Encerra-se durante todo o dia. Tudo tão perfeito, o palácio em silêncio e nós afetados por sua dor. Logo venho e encontro um homem em seu quarto e você, absolutamente radiante. É suficiente para que dê vontade de me lançar das almenas, pela inveja que me dá. Bem... – Ela se corrigiu, - do balcão de abaixo é claro.

—É um homem maravilhoso. - Disse Antonietta. Estava sendo fácil caminhar com Celt a seu lado e com sua postura, o cão a orientava muito melhor do que jamais a orientara Justine.

—Estou segura de que isso é o que pensa. Assusta-me, Toni e não sei por que. Paul me disse que ele te salvou a vida arriscando a propria e, entretanto, continua me dando medo. Há algo nele que não está bem.

—Para mim, tudo nele está bem. - Confessou Antonietta, enquanto desciam a longa escada curva, com absoluta confiança. Às vezes lhe dava a impressão de que Celt compartilhava sua visão com ela. Não era o mesmo que ver, mas sabia perfeitamente por onde caminhar, como se o borzoi a orientasse, transmitindo imagens mentais.

Tasha a reteve colocando uma mão em seu braço, antes de entrar nos aposentos de Dom Giovanni.

—Que fazia Paul no labirinto? E por que tinha uma arma? Ele disse?

—Deve dinheiro a uns tipos perigosos. Disse que comprou a pistola para se proteger. E que foi até a abóbada secreta para roubar os tesouros dos Scarletti e empenhá-los. Assim pagaria suas dívidas.

Tasha sacudiu a cabeça com um gesto de tristeza.

—Pensava que Paul havia deixado o jogo. Ele nos prometeu. Não me disse que precisava de dinheiro. Consultou você? Ou Dom Giovanni? Por que tomaria a decisão de roubar à família? — Ela perguntou, sentando-se nos degraus da escada. – Sinto muito, Toni. Não sabia. Imaginava que viria falar comigo, se estivesse com problemas. Dá-me muita vergonha.

Antonietta ouviu que ela soluçava. Colocou a mão no ombro dela, com a intenção de consolá-la.

—Você não é responsável por Paul, Tasha. Ele é uma pessoa adulta e sabe tomar suas próprias decisões. Terá que enfrentar isto. Quase matou Byron e a mim. É de esperar que reflita sobre o que aconteceu e consiga ajuda antes que seja tarde.

Tasha elevou a cabeça e limpou as lágrimas, cuidando sua maquiagem.

—Tem que dizer a verdade ao Nonno.

Antonietta deixou escapar um suspiro.

—Suponho que sim, mas tampouco morro de vontade. - Onde está? – Ela procurou por Byron. Queria que alguém a consolasse. Uma discussão com seu avô sobre o destino de Paul era mais do que podia suportar nesse momento. Tinha um desejo louco de voltar para o quarto e se encerrar ali e seqüestrar Byron.

- Estou na cozinha, procurando alguma chave. Acredito que precisaria de um pouco mais de treinamento para me tornar um detetive.

Antonietta envolveu-se em sua risada, como um escudo invisível.

- Eu gosto da idéia de que me seqüestre. Sobre tudo se as portas estivessem fechadas e sua família se ausentasse uns quantos dias. Nos restos da comida no lixo, há rastros da mesma substância que encontrei em você, em seu avô e em Paul.

O sorriso de Antonietta desvaneceu. Se fosse verdade o que dizia Byron, alguém em sua própria casa tentava matar os três. - Está seguro de que não está equivocado? Está totalmente seguro?

- Minha cara, jamais a alarmaria sem um motivo. - Byron lhe transmitiu uma onda de calor e confiança. - Vá ver seu avô. Está preocupado e precisa dormir. Poderá discutir o destino de Paul mais tarde.

— Vou ver o Nonno, Tasha. Quer vir comigo?

—Não, acredito que ficarei aqui a me compadecer de mim mesma. Nos encontraremos no quarto de Margurite. Prometi que dormiria com ela esta noite.

—Você não suporta, Tasha. Sempre detestou dormir em outra cama que não fosse a tua. Margurite já bem grandinha, para dormir sozinha em seu quarto.

—Eu sei. É que ela me parece muito frágil. Na casa há muitos ruídos e com o assalto de ontem à noite e todo o escândalo quando a feriram, está assustada. Não acontecerá nada se ficar uma só noite.

—A menos que Marita te descubra. - Advertiu Antonietta.

Tasha emitiu um ruído desagradável.

—O dia que não puder enfrentar Marita, terei que renegar de meu sangue Scarletti.

—Me deixe alguns minutos a sós com o Nonno e depois nos vemos novamente. - Antonietta parou junto a sua prima e o silêncio do palácio se abateu sobre elas. - Enquanto isso, você pensa nestas coisas e será melhor que se proponha a fazer um esforço e gostar de Byron, porque ele ficará.

Tasha respirou fundo.

—Suponho que não está pensando em matrimônio. Em algo permanente. Ele não é mais que um brinquedo, algo para se divertir. Sabe que nunca poderia ser mais que isso para você. Há muitas coisas em jogo.

—Refere-se ao dinheiro?

—Não, não só ao dinheiro. - Disse Tasha e com um gesto das mãos, abrangeu todo o palácio. – Tudo isto. Nós todos.

Antonietta não respondeu. Sentia a tranqüilidade de Byron. A espera.

—Agradeço-lhe tanta compreensão, prima. — Não pensava em dar essa satisfação a nenhum dos dois. Entrou para ver seu avô. Não era nada difícil, pois se lembrava que Byron a esperava, para acompanhá-la nas horas que restavam da longa noite.

 

Byron despertou nas profundezas da terra, com a voz de Antonietta que o chamava. Com o som de sua música invocando-o. Permaneceu em seu rico leito de terra, ouvindo o ritmo de seu coração sincronizado com o dela, com sua música. A terra a sua volta bulia de vida, o zumbido dos insetos, a água que corria entre as pedras e tudo se acrescentava às melodias que ela criava só para ele.

- Por que não me responde?

O coração bateu forte em seu peito, ao ouvir a voz entrecortada.

- Estou aqui com você.

- Aqui não é onde estava quando dormi. Deixoue-me sozinha. Despertei e não estava. Não pensei que faria... Que copulasse comigo e logo iria embora.

Ele estava deitado com o quente abraço da terra, ouvindo os matizes de sua voz e prestava especial atenção às sombras que se insinuavam em seu pensamento. Sentia uma paz imensa. Antonietta estava unida a ele. Pertencia a ele. Tinha idéias que não coincidiam de tudo com as suas, mas os laços entre ambos já haviam nascido e se estreitavam a cada encontro. Foi uma sorte que ela despertasse com ele. De não ter poder chegar até Byron, seu mal-estar era enorme.

Seus dentes brancos brilharam ante o indício de aborrecimento em sua voz.

- Copular? Pode ser que você tenha copulado comigo, mas quanto a mim, eu fiz amor com você, a cada fôlego de meu peito. É você que não deseja emoções entre nós. – Ele estirou-se, sabendo que ela sentiria seu movimento depravado e tranqüilo. - Adverti-te que a separação podia ser difícil. Sente os efeitos?

Seguiu um breve silêncio. - Difícil? Eu não utilizei essa palavra. Sequer a pensei. Por mim, você pode dormir onde queira. - Antonietta falava como uma rainha, altiva, com um tom muito próprio dos Scarletti. E ao que parecia, tremia de raiva.

O sorriso de Byron se alargou. A terra se desprendeu dele, permitindo flutuar livre e logo se limpar e se vestir, impecavelmente. - É muito compresiva com nossas diferenças. Grazie, Antonietta, por sua compreensão.

Voltou a sentir que ela se inibia, um distanciamento silencioso, enquanto tentava se recompor. - Que diferenças? Quando nos deitamos ontem à noite não mencionou nenhuma diferença. Dormi durante todo o dia e pensei que despertaria com você a meu lado. Esperava te encontrar junto a mim ao despertar. Possivelmente lhe crescem chifres durante o sono. É por isso que se ausentou, para que eu não visse que não é humano?

Aquele pequeno broto de humor lhe derreteu a alma. – Nunca me aprofundei nisso, mas as possibilidades são infinitas.

- Não será que é casado?

- Ai, que coisa você pergunta. Sou seu companheiro para toda a vida. Não posso estar com outra mulher. Temo que esteja a mim para sempre. Com chifres e tudo. - Tentou alcançá-la mentalmente, atrai-la para ele. - Preferiria mil vezes despertar com você nos braços. Posso-te trazer para minha casa esta noite. Você poderá compartilhar minha cama.

Ela intuiu uma armadilha. Ele a sentia movendo-se por seus pensamentos, tocando-os. Demorou só um momento em se dar conta do que fazia e de quão fácil era. Antonietta se refugiou no silêncio e se afastou ainda mais dele.

- Bem? - Insistiu ele, provocando-a.

- É tão encantado que suponho que não posso resistir a você. - Antonietta suspirou deliberadamente. - Deveria, mas não acredito que possa. Prefiro dormir em minha própria cama e ter você aqui comigo. Pense numa boa razão para me dar, por escapulir como um cão durante a noite, ou o dia, ou quando tenha ido. Mas tomara que seja boa. E que seja acreditável.

Byron sorriu. Começou a flutuar para cima, até que encontrou a lareira e lentamente e sem esforço se elevou para os céus noturnos. - Quer ficar em sua casa onde sente que tem o poder. Não acredita que não entendo suas intenções.

Antonietta teve um sobressalto. - Está voando. Sinto, como se estivesse com você. Está voando pelo ar, não é verdade? Queria voar com você.

- Estou voando, de fato, estou planejando. É uma sensação prazerosa, mas nunca como compartilhar sua cama.

- As palavras bonitas não o ajudarão a sair desta confusão.

- Sei que me ajudarão. - Agora Byron sorriu sem disfarces, feliz.

- Está voltando para mim? Se assim for, pode me levar com você esta noite, para voar, como castigo por ter me abandonado nesta cama enorme.

- Segue deitada e ainda está totalmente nua. - A imagem de Antonietta, esperando-o, quente e suave, tirou-lhe o fôlego. Pensar que o queria junto a ela. Que estivesse pensando nele. – Pensa em mim, Antonietta? Sonha comigo?

- Sempre. Sonhei com você desde que apareceu em minha vida.

- Honra-me com suas palavras. Não demorarei para chegar.

Byron saiu disparado para as alturas quando desdobrou as asas e se transformou em coruja. Voou em círculos por cima do mar, gozando da luz da lua que se espalhava sobre a superfície ondulada. Tinha que se alimentar. Não estava totalmente curado, mas não podia ficar naquela terra de virtudes curativas quando Antonietta estava em perigo. Embora Celt a vigiasse, Byron não deixava de sentir-se inquieto quando estava longe dela.

Ela precisava de referências para saber quem ela era ou que intenções tinha. Ele havia se acostumado a aquelas estranhas defesas em seu cérebro e as superava com facilidade. Antonietta o desejava, até o aceitava, mas não pensava no futuro. Nunca. Aquilo não entrava em seu domínio do possível.

Ao divisar uma presa, Byron voou em círculos mais baixos e logo, deixou-se cair em silencio com o olhar fixo na vítima. Ao equilibrar-se na terra e pegar de surpresa o homem que agora o olhava horrorizado, sorriu. Para Antonietta havia umas quantas surpresas. Alguém tinha que sacudir aquele seu mundo tão ordenado.

Bebeu em abundância, deixando-se embriagar por aquela energia e então se permitiu sentir, só um momento, aquele poder absoluto. Se não fosse pela presença de Antonietta, teria cedido com facilidade ao estímulo daquela voz interior que o reclamava. Ela o chamaria de volta como o tinha feito no passado, sem saber, com sua música. Ele não se encontrava tão perto do limite como a maioria dos caçadores. Byron, raraz vezes se via obrigado a matar e, entretanto, o impulso de sentir o poder absoluto era intenso, ainda mais quando sabia distinguir entre o bem e o mal.

- Sente-se muito triste.

Sua voz o surpreendeu e ele quase deixou cair sua presa. Antonietta parecia uma presença próxima. E estava preocupada. Com um gesto suave, fechou as pequenas incisões delatoras e deixou p homem no chão.

- Há alguns momentos estava feliz. O que aconteceu, Byron? Posso ir até você, se você não pode vir. Diga-me onde posso te encontrar.

Aquela voz, suave e inquieta, o fez estremecer. - Venho para ti. Só pensava nos meus, alguns deles tristemente desaparecidos.

- Ande logo. Estou ansiosa para te ver.

Ele voltou a elevar-se e se deslocou, veloz, para o palácio Scarletti. As torres redondas apareceram por cima da bruma e das nuvens, desvelando o castelo de pedra, ciumento guardião de segredos. De repente, Byron se precaveu de uma presença, de alguém, possivelmente um semelhante, que compartilhava os céus com ele. Era uma fêmea. Alguém familiar. Uma coruja desceu com as asas desdobradas, do outro lado da torre e o tocou, com suas plumas. Eleanor! Sua irmã, desaparecida há muitos anos. Byron desceu para o centro do labirinto e fez gestos a sua irmã, para que o imitasse. Segurou-a nos braços, quando em um brilho, ela recuperou sua essência. Abraçou-a com força e afundou a face em seu pescoço.

—Como é que vieste parar nessas terras? Não posso acreditar que esteja forte e em forma. Tinha tanto medo por você. Ainda estávamos muito longe de você, quando sentimos que caía. Eu desmaiei e o pobre Vlad teve que me atender. Eu queria que ele me deixasse e fosse em sua ajuda, mas ele me disse que não conseguiria chegar antes do amanhecer. Agradeço tanto que um dos nossos estivesse perto. Não o reconheci quando nos abriu sua mente. Quem era?

—Tenho que reconhecer que eu também estou muito agradecido. Era um antigo e tinha um sangue muito rico e curativo. Dominic, dos caçadores de dragões.

Eleanor se separou dele.

—Um caçador de dragões? — Ela perguntou e levou a mão ao pescoço, como se quisesse se proteger. - Não tinha ouvido esse nome em muito, muito tempo. Traz-me a lembrança de antigas guerras.

—Isso não é mais que um conto, Eleanor. - Disse Byron. - Se parece muito ao que contam os humanos, sobre os homens lobos e os vampiros. Ninguém o entendeu bem. Inventam histórias com o passar do tempo. Pensam ou possivelmente viram um lobo ou um vampiro e sua imaginação se ocupa de elaborar o resto. O resultado são esses contos ridículos que têm agora. Acredito que aconteceu um pouco parecido com os nossos e as histórias dos magos.

—Quisesse que fosse assim, Byron, mas os magos eram bem reais. Nossas raças viviam muito estreitamente naquele tempo, trabalhavam juntas pelo bem do planeta. Os magos eram poderosos e grandes videntes. Estudavam a magia e os fenômenos da terra, tal como nós fazíamos. Muitas de nossas defesas nasceram de seus conhecimentos. Muitos dos nossos estudaram com eles. Infelizmente, o poder corrompe. — Ela afastou o cabelo da face de seu irmão, tocou-lhe o peito para assegurar-se de que estava vivo e se estava bem. - Não me lembro que Dominic estivesse relacionado com os magos, mas sua irmã sim. Tinha um talento incrível… —A voz de Eleanor se apagou e deu um passo para trás, para fitá-lo com seus olhos escuros. - Parece recuperado, completamente curado e é um milagre. Tem um aspecto muito diferente. Possivelmente mais forte e parece feliz.

—Encontrei-a, Eleanor. Finalmente, encontrei a minha companheira. Está aqui, neste palácio, é concertista de piano, Antonietta Scarletti. É uma mulher assombrosa.

Eleanor voltou a lançar os braços em seu pescoço.

—Me alegro por você, meu irmão. Tem que nos apresentar. Reclamaste-a? Já contaste a nosso príncipe? Quando a levará em casa?

Produziu-se um breve silêncio quando Byron abraçou Eleanor uma segunda vez, agradecido pela corrente de amor que sentia por ela. Agradecido de poder vê-la e sentir. Antonietta lhe tinha dado esse dom. Um presente inapreciável de emoções e de intensas cores.

—Byron? —Eleanor o olhava sabendo muito bem o que estava em jogo. - Não a converteste. —Disse ela, numa afirmação, quase uma acusação. – Precisamos de todas as mulheres possíveis. Sabe que necessitamos desesperadamente dessas mulheres. E você sofreu muito tempo. Sem dúvida sua companheira quer estar com você.

Byron sorriu, um sorriso lupino, quase uma exibição de suas presas.

—Ela tem a absurda idéia de que viveremos algum tempo juntos e que logo se desprenderá de mim.

Eleanor lhe lançou um olhar inquisitivo. Seu irmão tinha algo que não tinha visto antes.

—O que estas tramando?

—Antonietta tem que encontrar seu próprio caminho para mim. Está acostumada a um certo estilo de vida, é ela quem manda no palácio e sua família depende dela. Também está segura aí. Pouco importa que seja cega. Sua vida tem um rumo definido e ela tem a intenção de seguir adiante. Ainda não se deu conta de que seu caminho se cruzou com o meu. Mas se dará conta cedo ou tarde.

—Quanto tempo pensa esperar?

—Esperar o que? Antonietta está unida a mim. Tenho-a sob meu amparo. Dispus o necessário para sua segurança e encontrarei a quem está ameaçando-a. Pertence-me de corpo e alma. Só tem que entender com quem viverá quando tomar a decisão.

—Suponho que voltará com ela para nossa terra. - Disse Eleanor outra vez, como uma afirmação e Byron sorriu.

—Me alegro em ver você. Onde está Vlad? Suponho que seu companheiro não deixou você viajar desprotegida.

—Ainda sei cuidar de mim mesma. – Lembrou Eleanor. - Vlad está comigo. Viemos com Josef, que queria visitar outros países e conhecer o mundo. Pensamos que seria conveniente acompanhá-lo.

—Josef? —pronunciou o nome com uma espécie de grasnido. - Não trouxe aquela criatura horrível com você? Não a este lugar, perto do palácio?

—Byron, lembre-se que é seu sobrinho. - Protestou Eleanor e deixou-se cair no banco de mármore, lançando a seu irmão, um olhar de ira. - Que reação horrível!

—Benj é meu sobrinho. Reconheço-o com todo o prazer do mundo, mas Josef é um assunto muito diferente. Não há laços sangüíneos entre nós.

—É meu filho. Adotei-o quando Luzia morreu no parto. Não o quero menos que a Benj. Sei que às vezes fica difícil…

—Difícil! Aquele menino é um perigo. Luzia não tinha por que ter outro filho. Era tão velha, uma anciã que passava a maior parte de seus dias na terra, não queria enfrentar às mudanças a seu redor. Não tinha a menor intenção de viver num mundo moderno. No que estaria pensando ao embarcar nessa aventura?

—Pensava na sobrevivência de nosso povo, Byron. Parece-me que é excessivamente duro e você não era assim.

—Não é que seja duro, Eleanor, só digo a verdade. Aquele menino não tem feito mais que se meter em confusões desde que deu seus primeiros passos.

—Era órfão, Byron. Perdeu seus pais no dia que nasceu.

—Quase todos perdemos alguém, Eleanor e ele nem conheceu luzia e Rodaniver. Você e Vlad são seus pais e ninguém poderia tê-lo amado mais. Luzia e Rodaniver viviam no passado. Teriam convertido a existência desse menino num inferno e você sabe. E agora é ele quem faz um inferno, das nossas.

—Byron! —exclamou Eleanor, retorcendo-as mãos. - Josef precisa de amor e compreensão. Deveria fazer um esforço por ele, orientá-lo pelo bom caminho.

—Começo a suspeitar que há algo mais que puro azar neste encontro. Não é casualidade que tenha vindo à Itália, não é? — No fundo dos olhos escuros, adivinhou-se um brilho.

Eleanor desviou o olhar.

—Apesar do que diz, Josef é seu sobrinho e acredito que deveria se interessar por seu futuro. O que deseja é pintar. Itália é um país maravilhoso para pintar. Benj estava muito ocupado e não pôde nos acompanhar e Josef ainda precisa de alguém que se dele ocupe. E já que você está aqui…

—Não! Rotundamente não! Não posso me ocupar de um menino. E não quero vê-lo nem perto do palácio. - Disse Byron, com um estremecimento, não dissimulado. – Veste calças dez vezes maiores que ele. Quando o levou para Mikhail, ficou parado na frente de nosso príncipe e sua companheira, com essas calças largas e com aqueles anéis nos lábios, nariz e sobrancelha. – Ele lembrou e sacudiu a cabeça. - Não quero nem saber se os levava em outras partes de sua anatomia, mas cada vez que abria a boca, via uma coisa horrível enganchada na sua língua. E o pior de tudo é que quis montar uma peça para eles e você deixou. Eu prefiro Mozart e Chopin, ópera e até blues, mas não suporto o rap. Como era aquela horrível canção que ele inventou? Ainda a ouço em meus pesadelos. Lembro-me que cuspia por toda parte e fazia ruídos estranhos antes que nos desse de presente, a letra de suas canções. — Byron mostrou os dentes deslumbrantemente brancos, os incisivos aparecendo, como se fosse engolir aquelas letras. - Era tão vergonhoso que não posso e nem poderei esquecer: «eu sou o hombre/El homem que não pode ver/un homem invisível, que você deveria temer/garras e olhos de gato/tu sangue em meus manos/salgo de noite com a lua no alto do cielo/soy um mounstro que chupa sangue, sou uma visão horripilante». Vi a face do príncipe, quando ela cantava a parte do monstro que chupa sangue e o estribilho de «quero te chupar o sangue, o sangue, o sangue». — Byron sentiu vontade de rir com as lembranças, algo que não tinha feito até aquele momento. - A única coisa de bom que aconteceu, foi Jacques. Não via rir em anos. Foi à razão pela que perdoei Josef, por essa maneira tão extravagante de chamar a atenção.

—Mas, Byron, ele tem um talento extraordinário. Inclusive naquela época, quando só era um menino, era muito criativo. — Seguiu um breve silêncio. Eleanor estava exasperada ante a atitude de seu irmão. - Só tinha quinze anos e era uma idade muito difícil. Agora é muito maior.

—Não me venha com contos, querida irmã. Soube que ele andava todo vestido de negro, com uma capa, que vivia nas tumbas dos cemitérios com um grupo de seus amigos humanos. Ouvi dizer que ele tinha tantos anéis pendurando nos lábios, que era impossível vê-lo sem que desse vontade de rir.

—É muito injusto, Byron. Pelo amor de Deus! Todas as crianças experimentam esse tipo de coisas. Ele estava passando por seu período Gótico. Bem, assim que Vlad chama. Mas isso foi há muito tempo e ele só tinha dezessete anos. E você sabe que, segundo nossas normas, nessa idade ele é só um menino. É seu sobrinho, Byron e quer visitar outros países. Não te prejudicaria em nada mostrar certo interesse por ele. Temos que prestar mais atenção.

—Dá-me igual que seja só um menino. A filha do príncipe se viu obrigada a aceitar um companheiro quando era só uma menina e soube estar à altura.

Eleanor emitiu um estalo de desagrado.

—E você sabe perfeitamente qual é minha opinião a respeito. Como pode se atrever o príncipe, a sacrificar a infância de sua própria filha? Aquilo foi uma aberração. Tentaram fazê-la maior deliberadamente e a deixaram sozinha, com alguns guardas que a vigiavam em segredo. Merecia ter uma infância. Mikhail viveu tanto tempo com os humanos e Raven era humana, de modo que esqueceram que a infância de nossos filhos é mais prolongada. Aos cinqüenta anos, ainda não alcançaram a plenitude de seu poder.

—Teríamos perdido Gregori, nosso melhor curador e com o tempo, Savannah. Isso você sabe, Eleanor. Vocês mulheres levantaram as armas, mas na verdade, o príncipe não tinha alternativa.

—Nenhum menino pode aprender tudo o que necessita em tão pouco tempo. Teve sorte de poder mudar ou inclusive de se proteger. Raven até posso perdoar. Ela nasceu humana e pensa no envelhecimento como os humanos. Mas Mikhail estava desesperado por salvar sua segunda linhagem. A nenhuma de nós, jamais nos obrigaram a viver com um macho, quando ainda éramos meninas. Mikhail decidiu arbitrariamente introduzir a prática de trazer para os homens, quando chegavam à idade de dezoito anos com a esperança de encontrar casais. E aconteceu que sua filha foi à primeira. Aos duzentos anos já se considerava que alguém era maior, mas não um bebê de dezoito. Foi espantoso. Não é de estranhar que Savannah entrasse em pânico e fugisse de nossa terra. Sei que seu pai enviou alguém para protegê-la, ao igual a Gregori, mas a verdade é que a deixaram sozinha, para ajudá-la a maturar. Não conheço nenhuma só mulher que não tenha protestado por tal aberração. Nosso príncipe não valoriza sua própria filha, acima de seus amigos.

Byron suspirou.

—Dificilmente se pode culpar Mikhail pela extinção de nossa raça. — Aquela era uma discussão de longa data e ele esperava que Eleanor a tivesse superado. - Espero que não o acuse de ser o responsável por que as mulheres não possam alimentar nossos filhos de maneira natural.

Eleanor teve a humildade de parecer ligeiramente envergonhada.

—Ignoro por que já não podemos produzir o alimento perfeito para nossos filhos. Falamos muito disso e Shea investigou em profundamente. - Em sua voz apareceram as lágrimas. Soluçava por seu povo, pelas mães e os bebês que tinham perdido tanto.

Byron colocou uma mão em seu ombro.

—Não queria deixar triste, Eleanor. Pode estar segura de que nossos homens não culpam nossas mulheres desta tragédia. — Ele beijou-a na fronte, em silenciosa desculpa. - O que acontece a um de nós, acontece a todos. Cada uma das crianças salvas, da maneira que seja, cada companheira encontrada, cada homem salvo, inclusive a gastos da infância é um passo adiante para nosso povo. Savannah era muito jovem. Todos sabemos, mas ela soube estar à altura. Possivelmente era seu ramo sangüíneo, simplesmente é uma mulher extraordinária, mas Gregori a cuidará, a protegerá e a ajudará a aprender o que for necessário.

Eleanor esfregou a face.

—Já sei que ele a cuidará e sei que o que precisam. Mas nossos filhos já sofreram muito. Muitos morrem. É algo tão simples, alimentar e cuidar de uma criança e ainda assim, nós que somos da terra, não podemos lhe brindar com este bem tão elementar. Tampouco podemos nos dar o luxo de lhes tirar nada mais. Se precisarem de cinqüenta anos para maturar o suficiente e enfrentarem sozinhos, o mundo, que assim seja. É o menos que se pode dar a um menino.

—Certamente, tem razão, Eleanor. Não tenho nenhuma dúvida de que Shea e Gregori encontrarão uma solução que permitirá a nossas mulheres conceber filhos e não perdê-los. E com isso, serão capazes de alimentá-los com seus próprios corpos, como é natural.

—Lembra que Celeste e Eric tiveram um filho quando nós tivemos Benj e ele não sobreviveu. Tornaram a tentar e tornaram a perder o filho. Ela está muito perturbada e Eric a levou para longe, para lhe ajudar a superar a perda. Já sei o que é ver morrer um filho, ter um vazio no coração que nunca desaparecerá. É doloroso ver meus amigos sofrer da mesma maneira. A irmã de Vlad, Dreire, passa cada vez mais tempo nas vísceras da terra. Temo que a perderemos se ficar grávida e voltar a abortar. Tienn se negou a voltar a tentar e como eu, teme que ela dita a entregar-se ao amanhecer. — Eleanor acariciou a face de seu irmão. Precisava desse contato com ele. - Me alegro tanto de que tenha encontrado sua companheira. Cuide-a. Viva para ela. E ela certamente viverá para você e com isso bastará.

—Tenho minhas esperanças, Eleanor.

—Que bom! Já eu gostaria que assim fosse. Possivelmente se tivéssemos a sabedoria dos bruxos ou se tivéssemos seu poder, encontraríamos uma maneira, mas a guerra entre nossos povos destruiu todos os vínculos. Se algum deles sobreviveu, tem-nos ódio profundo e seu desejo é destruir nossa raça.

O vento açoitou as árvores e elas se balançaram e se agitaram na brisa. Os arbustos do labirinto estremeceram. Eleanor fez um gesto para subtrair importância a suas palavras.

—Não era minha intenção. Enche-me de alegria saber de você. É bom que voltemos a estar juntos, como uma família, você com sua jovem amiga. Josef adorará conhecê-la. Dê-lhe uma oportunidade, Byron e verá que maravilha de menino ele é.

—Faço todo o possível por deixar uma boa impressão em Antonietta. - Disse este, suspirando. – Não gostaria que ela visse Josef com sua capa negra e suas calças largas, cantando rap.

—Era um menino e isso aconteceu faz muito tempo. Todas as crianças experimentam coisas novas. Ela o encontrará encantador.

—Encantador? — Inquiriu Byron, olhando-a com uma careta. - Segundo me lembro, o seu encantador consistia em dormir em cemitérios e lançar-se dentro de um fosso, em concertos onde os cantores arrancavam os dentes e as cabeças de criaturas vivas. Falo sério, Eleanor, esse menino precisa de um pouco de disciplina. Não tenho nenhuma intenção de lutar com seus problemas. Certamente, agora não. Daria-lhe um par de bofetadas nas orelhas desse menino, com a esperança de que se comportasse como um ser racional.

O suspiro da Eleanor foi eloqüente.

—Byron, Josef deixou de ser um amontoado de problemas e você continua pensando em términos humanos. Esteve muito tempo ausente.

—É? E a maquiagem? Sei muito bem que tingiu o cabelo de todas as cores. Não vejo o que tem isso, mantendo um perfil baixo e reintegrando-se na sociedade.

—Quem te contou isso? Não posso acreditar que alguém tenha contado isso. As velhas intrigas de sempre. Esse foi seu período andrógino. A verdade é que ele se integrou com jovens de sua idade. Todas as crianças têm que encontrar a si mesmos, Byron. - Eleanor estava indignada por conta de seu filho.

Vlad, o cunhado de Byron, que sofria esta realidade a fazia tempo, havia contado a ele, com um grande sentimento de frustração, mas Byron pensou que, neste caso a discrição era o mais indicado. Não queria ver Eleanor zangada com seu companheiro. Obrigou-se a sorrir.

—O que acontece é que neste momento, tenho intenção de cortejar minha companheira e não tenho tempo de me ocupar de um jovenzinho.

—Temos que conhecê-la. - Disse Eleanor, saltando ante essa oportunidade que a brindava. - Estou ansiosa por ver como é.

Byron segurou a mão de sua irmã e a fez levantar-se.

—Sabe que gostaria que você e Vlad conhecessem Antonietta, mas a idéia de que Josef se aproxime dela ou de sua família, me causa pavor.

—Enfrentaste vampiros, Byron. Bem poderia enfrentar teu sobrinho.

Byron voltou a suspirar. Não havia maneira de ganhar e ele sabia. Não importava que fosse um caçador de vampiros ou um macho Cárpato na plenitude de suas forças. Eleanor era sua irmã e igual à maioria das mulheres Cárpatos, sempre conseguia o que queria. Mais lhe valia economizar discussão.

—Será um prazer apresentar todos a Antonietta, mas terá que me dar um tempo para me acostumar à idéia de que Josef está entre nós. Não quero que faça loucuras.

—Claro que não. – Concordou Eleanor, que voltou a sorrir generosamente. - Já se alimentou esta noite?

—Sim, agora vou ver Antonietta. Contarei a ela, que chegou minha família e certamente ela os convidará a sua casa. Estão acontecendo muitas coisas. Alguém está tendando matá-la a ela e a seu avô.

Eleanor emitiu uma espécie de assobio, um lento e comprido som de censura, e seus olhos escuros se acenderam com um brilho perigoso.

—Vá com ela e tire-a imediatamente desse lugar, Byron. No que está pensando?

Ele respondeu com uma risada.

—Você é uma contradição em carne viva, Eleanor. Por um lado, diz que os direitos de Savannah foram pisoteados. E você, uma mulher que se elevou em armas, mas por outro, minha companheira não tem nada que dizer quando se trata de decidir o que fazer ou aonde ir.

—Se algo acontecer a ela, também acontecerá a você. - Advertiu Eleanor.

— E não acontece os mesmo com Gregori e Savannah?

Ela respondeu mostrando os dentes.

—Gregori não é meu irmão caçula. Vá ver sua companheira antes que eu te dê umas bofetadas, como impertinente.

— Guarde as bofetadas para esse meu sobrinho. – Byron se inclinou para beijá-la na ponta do nariz. - Tem onde ficar?

— Alugamos uma vila. Josef queria “saborear a vida”, como diz ele e Vlad encontrou um lugar onde poderemos ficar e estar seguros. Será bem-vindo se quer ficar conosco. Josef se entusiasmará. Ele instalou seus quadros no balcão e tem um aspecto muito boêmio com sua boina. E você? Onde descansa?

—Na terra.

—Deve ter o aspecto de um ser humano bem respeitável, Byron. Já me ocuparei de encontrar um lugar apropriado para você. Não se preocupe, encontrarei algo muito adequado e você poderá levar sua companheira para um lugar seguro.

—Grazie, não havia pensado nisso. Comunique-me, quando o encontrar. Falarei com você depois de ver Antonietta. Não detectei rastro dos vampiros nos arredores, mas isso não significa que não estejam entre nós. Cuide-se, Eleanor.

—Você também. Estou muito contente em vê-lo. Não demore muito em trazer sua companheira a nosso mundo, Byron. Pertence a nossa terra. Sempre pertenceste. Impô-aw uma condenação e deixou nosso povo para lutar contra os vampiros, quando seu verdadeiro ofício é o de um autêntico artesão, um artesão com grandes talentos.

—Tenho saudades voltar a manipular o ouro e a prata, sentir os metais na mão, encontrar a pedra perfeita nas cavernas sagradas. — Byron sorriu com olhos tristes. - Às vezes me surpreendo desenhando jóias mentalmente, quando deveria estar ocupado em coisas mais importantes. Agora que encontrei Antonietta, desejaria criar para ela, uma peça magnífica.

—Nosso povo tem em grande estima, todos os artesãos, Byron. - Lhe lembrou Eleanor. - Especialmente um professor na arte de encontrar pedras preciosas.

—É um mundo que não tem igual. Ninguém pode entender, a menos que tenha nascido para o ofício. As emoções voltam a despertar em mim necessidades que queria não ter.

—Seu ofício sempre precisará de você, Byron. É um professor como nosso povo não vê a séculos. O príncipe me diz freqüentemente, que você é o único a quem ele poderia encomendar o desenho do presente perfeito para Raven. Não pedirá a ninguém mais.

—Está tão seguro de que voltarei?

—Assim esperam todos.

—Poucos homens têm a sorte de ter uma irmã como você. Nos vemos mais tarde.

A forma sólida de Byron se dissolveu em pequenas gotas e como uma leve corrente de vento, afastou-se do labirinto para o imponente palácio.

Voou em círculos por cima de torres e almenas, deslizou entre as esculturas das gárgulas aladas e se deixou cair no segundo andar, em uma janela que estava acostumado a ver entreaberta. De repente percebeu lá abaixo, um movimento no caminho estreito e serpenteante, que subia para o monte. Um atalho que se afastava do palácio e da cidade. Normalmente, não teria prestado atenção, mas havia algo furtivo em como Marita, a mulher de Franco Scarletti, subia pelo atalho. Em lugar de seguir o atalho aberto, mantinha-se deliberadamente à sombra das árvores. Byron entendeu que ela tentava evitar que a vissem do palácio.

Voltou a voar em círculos e flutuou entre as nuvens. Manteve a mulher em seu campo visual, enquanto ela entrava e saía da franja de árvores. Viu que Marita, tensa e encurvada, virava sem cessar a direita e esquerda, lançando olhares nervosos. Levava um pequeno pacote, envolto em papel marrom. Subiu pelo caminho mais difícil que serpenteava trabalhosamente, afastando-se da cidade e dos penhascos, para o interior, sempre ascendente.

Byron sentiu o aroma do felino. Era um aroma selvagem, penetrante e maligno. Seu aspecto preguiçoso se desvaneceu por completo e seus sentidos se alertaram. Rasgou o ar para o pequeno bosque, antes de chegar à cúpula. Uma densa linha de árvores se estendia. Byron voou, girando em torno dos troncos. Chegou-lhe o forte aroma, abaixo no bosque. Um felino grande se esfregou por um bom momento contra o tronco e se estirou entre os ramos. O vento mudou e foi como um sussurro destinado a Byron. Trazia consigo o aroma do sangue recém derramado. Aquele aroma, com um gosto de cobre impregnou o ar e se agitou com o vento.

De repente Marita lançou um gritou. O chiado espantou os pássaros, que abandonaram sua proteção noturna e por um momento, só se ouviu o ruído ensurdecedor do bater de asas. Os morcegos giravam e caíam fazendo acrobacias. Byron se moveu entre eles e adotou sua forma para passar inadvertido e poder seguir o rastro do felino. Sabia que algo o havia alertado de sua presença. Sabia que também tinha saído a caçar.

O grito se interrompeu bruscamente. Byron se viu obrigado a renunciar sua busca e assegurar-se de que não corria perigo. Encontrou Marita no chão. As folhas das árvores estavam manchadas com uma substância escura e brilhante que caía dos ramos ao chão, e por cima do corpo inerte dela.

Byron se deixou baixar a terra, com um bater de asas ligeiro, porque não queria deixar rastros. O corpo destroçado e sangruento de um homem estava pendurado numa bifurcação do ramo. A luz da lua revelou o torso, escurecido pelo sangue. Marita jazia aos pés da árvore e Byron se inclinou para ver se estava ferida. Parecia respirar sem dificuldade. O pacote tinha caído de sua mão e ele o colocou no bolso do casaco sem nenhum tipo de escrúpulos.

Não queria era ter que baixar a montanha com a mulher nas costas, como os humanos e, além disso, perder tempo com uma mulher que sofria um ataque de histeria. Marita era capaz de desatar o pânico em todo o palácio e até em toda a cidade. Byron examinou a vítima e deduziu que devia ter uns trinta e tantos anos. Uma morte implacável, aberta em canal, pelas garras de um animal selvagem e parcialmente devorada. A morte tinha acontecido não fazia mais de uma hora. Marita havia pisado no sangue, escorregou e caiu. Ao que parecia, o susto tinha sido muito para ela.

O felino estivera perto, muito perto e intuíra a cercania de um predador. E fugira. Byron podia seguir os rastros do jaguar, mas não podia deixar que Marita despertasse no meio do sangue.

Com um suspiro de resignação, tirou-a daquela imundície e começou a baixar a montanha com ela nas costas.

Quase imediatamente, Marita começou a voltar em si, gemendo de medo e dor. Byron a deixou no chão, deu um passo para trás para lhe dar espaço e ficou esperando. Ela se avivou um instante, sentou-se e olhou a roupa manchada de sangue. Voltou a lançar um grito agudo. Byron esperou, mas ela não parava de gritar, até que revirou os olhos e começou novamente a desvanecer-se.

—Marita. — Pronunciou seu nome com tom brusco, reprimindo um impulso. - Está a salvo. Ninguém pode te fazer mal.

Ela o olhou pestanejando sem parar e agitando as mãos, descontroladamente.

—Você viu? Esse corpo? Era atroz. – Disse ela e estremeceu, - Absolutamente atroz.

—Deixe que eu te leve em casa e informaremos à polícia. – Ele falou, oferecendo a mão para que ela se levantasse.

Marita obedeceu a ordem implícita em sua voz e estendeu a mão.

—O que faz aqui acima, tão longe do palácio e tão tarde de noite? — Seu tom de voz era doce e suave, uma cadência pura que a tranqüilizou e Marita sentiu que podia confiar nele. Mas logo franziu o cenho e se agitou dando amostras de resistência, embora não pôde impedir que seus lábios pronunciassem a verdade.

—Tinha que me encontrar com alguém. Com um homem.

—Um amante?

—Sim. Não. Não deve contar-lhe a ninguém. A ninguém. – Ela repetiu e voltou a chorar, numa corrente de lágrimas. Voltou a sentar-se e se cobriu o rosto.

Exasperado, Byron lhe nublou o pensamento e decidiu pegá-la nos braços. Voou pelos ares até cobrir a longa distância que os separava do palácio. Já não suportava os gritos e prantos daquela mulher. Queria ver Antonietta, tocá-la, e saber que ela o esperava, tão ansiosa em vê-lo como ele a ela.

 

Byron levou a Marita até a entrada principal do palácio com suas enormes colunas e sua escada de mármore. A essa hora da noite, as portas estavam fechadas, e Byron sacudiu violentamente o aldabón. Sustentou Marita em pé e sussurrou uma ordem para despertá-la, não sem antes plantar nela a lembrança de uma rápida descida pelo caminho do monte.

Helena abriu a porta. Lançou um olhar a Marita coberta de sangue e lançou um grito estridente. Duas criadas que recolhiam suas coisas, para voltar para casa, relevaram em seus gritos e as exclamações ressonaram por todo o palácio, até chegar aos andares superiores. Marita voltou a estalar em prantos, clamando misericórdia pelos mortos e por todos os que há essa hora, podiam ouvi-la. Colava-se em Byron como imantada, guardava-o como seu prisioneiro no meio do drama.

       - Antonietta. Companheira, me resgate. Já não posso suportar estas mulheres histéricas, nem um minuto mais. Onde está?

Ela respondeu-lhe uma voz pausada, como de costume. - Onde você estava quando despertei e encontrei minha cama vazia?

Byron entreabriu os olhos com um suspiro. A casa inteira despertou, com uma loucura generalizada. Helena fez Marita entrar e começou a falar tão precipitadamente que Byron mal a entendia. Por um breve instante, viu-se livre. Mas Marita voltou a desmaiar. Ele reagiu como um cavalheiro e a segurou antes que ela batesse com a cabeça no frio mármore do chão.

- Não acredita que eu também me mereço um pouco de simpatia?

- O que aconteceu?

- Marita encontrou um cadáver lá encima, no bosque.

- Um cadáver? Que horríve! Agora entendo por que veio com esse ataque.

- Já estava a um bom tempo, morto. Não tem por que reagir assim. Não viu como o degolaram.

- Como o degolaram? Pobre Marita, compreendo por que está tão alterada.

- Alterada não é a palavra que eu usaria. E o que tem contra mim? Sou um homem sensível, mas não vejo que demonstra nenhuma simpatia por meus nervos, quando ela fica a gritar como uma louca.

- Sensível? Você, que viu o cadáver e não reage?

Antonietta.

- A vítima era Enrico? Ele continua desaparecido.

Byron esperou um momento antes de responder. Antonietta parecia verdadeiramente horrorizada. Não tinha por que se unir às outras mulheres, com sua histeria e seus gritos destemperados.

- Eu não fico histérica. - E, depois de um breve silêncio. - Nunca.

Agora, ele se aproximava. A entrada estava cheia de mulheres que falavam, choramingavam e gritavam. Byron pensou que se meteria num bom apuro se não o resgatassem logo. Marita inclinava todo seu peso contra ele e o segurava com mãos trêmulas.

- Antonietta. Apresse-se! Vejo que está com toda a calma do mundo.

Franco se aproximou correndo e viu sua mulher coberta de sangue, desmaiada e nos braços de Byron. Não duvidou um instante. Investiu contra este, com os punhos erguidos e quase acertou Marita na cabeça, quando ela se intercolocou e tentou desesperadamente segurar sua mão para impedi-lo.

—Basta. — Byron pronunciou a ordem entre dentes. Foi apenas audível, mas sua intensidade varreu a sala. Os objetos se moveram em seus lugares. Os quadros se sacudiram nas paredes e logo ficaram quietos.

Produziu-se um silêncio imediato. Ninguém se moveu nem falou. Um vento varreu a sala, um alarido de protesto. Antonietta entrou correndo, com Celt a seu lado.

—Byron, feche a porta. O ar é frio e a pobre Marita está em estado de choque. Helena, depressa, prepare um banho quente para Marita. Franco, leve-a para cima agora. Eu informarei à polícia da terrível tragédia que aconteceu no bosque.

O mundo estreitou e se curvou até que a visão de Byron se concentrou e a sala desapareceu. As mulheres desapareceram. Franco também. Não havia ninguém mais que Antonietta, que se aproximava. Não pôde evitar fixar o olhar nela. Em sua voz sempre se adivinhava a segurança, mas agora sua maneira de falar era ainda mais convincente. Antonietta parecia envolta num halo de luz. O sangue Cárpato em seu organismo já começava a potencializar sua beleza natural. Investiu-se de autoridade como se fosse sua pele. Digna e segura no meio do caos que reinava a sua volta. Aquilo o fez sentir-se feliz e lhe deu paz interior. Sentiu-se inteiro.

Sua família respondeu a aquela voz. Marita se deixou ir nos braços de seu marido. Paul e Justine chegaram juntos e com olhos desmesuradamente abertos. Tasha permaneceu perto da entrada e não deixava de lançar olhares de suspeita, em Byron.

—Ele me salvou. — Marita ocultou seu rosto no peito de Franco. - Não suporto o sangue deste homem em cima meu. Foi horrível.

Franco olhou Byron.

—Grazie. Devo-te uma.

Byron se dirigiu sem vacilar para a Antonietta. Diante de toda a família, segurou-a em braços, estreitou-a até que os dois corações pulsaram ao uníssono. Havia uma possesisvidade absoluta no abraço de Byron, como um claro sinal para outros de que ele estava com Antonietta para ficar. Ela respondeu sem duvidar, abraçou-o e ofereceu seus lábios, para que ele a beijasse.

Ele inclinou a cabeça. Seus lábios eram quentes, suaves e acolhedores. Sua boca era quente e úmida, exótica. Por um momento, todo o resto se reduziu a um segundo plano. Antonietta tinha sabor de mel e especiarias. A amor e risos.

—Que curioso que sempre você apareça quando um de nós está em perigo. - Murmurou Tasha, embora todos a ouvissem. Lançou um olhar de ira a Byron.

Byron elevou a cabeça para olhá-la e seus escuros olhos arderam, até que apareceram suas presas ao sorrir. Tinha chegado o momento dar um basta à prima Tasha e seus perversos jogos com Antonietta. Se ela queria jogar sem regras, ele estava mais que disposto. Tasha estava acostumada entreter-se, amargurando a vida de Antonietta. Byron pensou que não lhe faria nenhum mal, provar uma dose de seu próprio veneno.

Tasha ficou boquiaberta e deu um passo para trás e se benzia. Quando voltou a olhar, viu que o sorriso de Byron era um sorriso normal em um rosto atraente. O brilho vermelho que tinha visto chamejar na profundeza de seus olhos era só um reflexo das muitas velas acesas, na entrada.

Tasha estremeceu, mas se aproximou com passo firme de sua prima, com os olhos escuros que refletiam sua indignação.

—Como é que de repente você encontrou Marita e um cadáver, Byron? — Seu tom de voz era de aberto desafio.

—Graças a Deus que a encontrou, Byron. - Disse Antonietta. Tocando levemente em Tasha. - Tem que chamar polícia. Diga que houve um acidente horrível no bosque. Peça que enviem o inspetor, porque nossa gente já está acostumada a ele e já que todos estão nervosos, eu apreciaria se ele viesse pessoalmente.

- Sinto-a muito inquieta. O que está lhe fazendo?

- O que estou lhe fazendo? Ela me acusou que assaltar Marita.

Antonietta aceitou seu comentário com um leve gesto.

- Isso é muito próprio dela, dar o primeiro golpe quando está alterada ou quando tem medo de alguma coisa.

Byron apertou os dentes. - A prima Tasha precisa aprender boas maneiras.

Tasha quase se equilibrou sobre o telefone. Tinha esquecido sua determinação de salvar a Antonietta de sua loucura, só pela esperança de voltar a se encontrar com o atraente inspetor de polícia.

—Certamente, Antonietta.

—Paul, vá ver o Nonno e conte o que aconteceu. Não quero que ele se altere mais que o necessário.

Franco se afastou com Marita, que não parava de soluçar. Helena os seguiu, animando Marita com frases incompreensíveis e promessas de um banho quente.

Byron decidiu que tinha chegado o momento de dizer basta. Apesar de sua cegueira, Antonietta sabia quem estava pressente e tinha tomado imediatamente o comando da situação. Era incrível. O coração pulsava forte e ele teve que se acalmar. Era seu coração e estava orgulhoso dela. Divertia-lhe e o alegrava ler seus pensamentos confusos, quando pensava nele. Ela acreditava que vivia uma aventura passageira, que ele seguiria seu caminho e ela seguiria adiante com sua vida. Antonietta tinha demorado a chegar à conclusão de que não queria se separar dele, embora conservasse essa expectativa. Não tinham opção, mas ela não podia saber. E ele não tinha intenção alguma de agravar sua resistência, iluminando suas idéias.

Antonietta se aproximou ainda mais e se estreitou contra ele, apoiando-se em sua fortaleza, em meio da histeria reinante. Esfregou a face contra seu peito, mas de repente ficou paralisada e deu um passo atrás. - Estiveste com outra mulher. - A acusação brotou como uma afirmação e as palavras foram como um brilho em sua mente, da cor das chamas. Era outra traição e Antonietta estava irada. Byron percebeu a onda de ira misturada a uma dor feroz.

- Jamais haverá outra mulher. Jamais. Não para mim. – Ele falou com seu tom mais puro, um tom incapaz de pronunciar uma só mentira.

—Antonietta. – Interrompeu Justine. - Temos que falar, nós todos. Paul, você, Byron e eu. Não podemos deixar que isto continue.

Antonietta elevou o queixo, inclinando-se levemente para Byron, como se procurasse amparo ou consolo. Aquele gesto leve e delator, o fez derreter por dentro. Passou o braço pela cintura dela, como se a colocasse a salvo da agressão de Justine e da traição de Paul. Byron intuía que Antonietta queria acreditar, que queria acreditar nele apesar do que lhe ditava o bom sentido.

—Não é o momento para me explicar o que fez, Justine. Estou muito zangada e doída para ouvir qualquer de um de voces. Quanto aos disparos de Paul, ainda não sei que decisão tomarei, mas lhes aconselho que quando a polícia chegar, evitem falar com eles. — Havia em seu tom de voz, um leve indício de soberba, que Byron começava a reconhecer como um elemento de defesa, mais que de ataque.

- Ainda há cheiro em você.

Ele se inclinou e lhe beijou a ponta do nariz.

- Minha irmã chegou de minha terra. Está numa vila perto da cidade e do mar, uma casa que conseguiu para ela, seu companheiro e seu filho. Acredito que já falamos sobre Josef e suas peculiaridades. Pois o que agora quer é pintar, de modo que seus pais facilitaram as coisas.

Aquela suspeita em seu pensamento se desvaneceu em seguida. Antonietta lançou os braços em seu pescoço.

- Sinto muito. Não sei por que duvidei que você.

- A traição é uma maneira de viver em sua família, Antonietta. Não na minha. Digo só para que se sinta segura. É normal que chegue à conclusão, se despertar a meu lado e sentir o cheiro de outra mulher.

Justine viu Paul que se dirigia a toda pressa ao quarto de seu avô e antes de segui-lo, plantou-se em frente Antonietta, cuidando-se em não olhar para Byron.

—Antonietta, cometi um engano lamentável, mas não pode jogar fora treze anos de amizade. Sabe que é minha família, a única que tenho. Isto é muito doloroso para mim.

Byron deslizou uma mão para aliviar a repentina tensão na nuca de Antonietta. Seus dedos eram suaves e seu pensamento a apaziguou e conseguiu evitar um estremecimento de raiva e dor.

Antonietta guardou silêncio um momento.

—Me alegro de que seja doloroso para você, Justine. Assim deveria ser. É doloroso para mim, saber que seria capaz de trair tudo o que tínhamos, só porque se deita com meu primo. Não posso imaginar que o homem que amo me peça que faça uma coisa assim, e se me pedisse isso, não imagino me convertendo em sua cúmplice nem ficando com ele. Paul usa às pessoas. Tem muita facilidade, mas suponho que já sabia isso quando decidiu participar deste assunto.

Justine se ruborizou e evitou olhar Byron. Seus lábios tremeram por um instante, mas em seguida ela levantou a cabeça, deu meia volta e desapareceu. Byron a olhou e observou que ela estava com as costas completamente rígida e os punhos apertados.

—O que fará com ela? — Perguntou a Antonietta e deslizou a mão da nuca até suas costas, sem deixar de massageá-la.

—Não tenho idéia. Deveria despedi-la, dizer que pegue suas coisas e vá embora, mas não sei se atuar por despeito ou por um sentido de retidão nos negócios. Justine tem direito a cometer enganos, como qualquer pessoa.

Traição. A palavra foi como um relâmpago em sua mente, uma queimação intensa e ardente que deixou um rastro de fumaça negra e um mau sabor em sua boca. Byron não agradou nem um nem outro, mas o sentido da lealdade e a responsabilidade de Antonietta para com sua família e seus amigos era enorme. Ele queria entender por que ela os estimava tanto. Queria ver em sua família as mesmas virtudes que ela via. Queria cuidar deles como Antonietta. Dom Giovanni se ganhou seu respeito e sua lealdade. Mas Byron duvidava de que acontecesse o mesmo com outros, embora estava decidido a dar a todos uma oportunidade.

—Queria que algum dia chegasse a querer minha família, Byron. - Confessou Antonietta.

Se quisesse, Byron podia compartilhar suas idéias e vê-los como ela os via, mas não queria que nada nublasse seus sentidos quando se tratava de sua família.

—De algum jeito, encontraremos uma solução.

—É verdade que sua irmã veio, Byron? — Antonietta não queria pensar nem em Paul nem em Justine.

—Sim. Não se alegre tanto. Ela veio com o jovem Josef e esse só basta para que comecemos a procurar onde nos esconder. Se acredita que sua família é excêntrica, não conheceste Josef.

—Têm que trazê-los para um jantar. Amanhã à noite. Poderá convidá-los, não? — Ela perguntou e esfregou a face em seus ombros, como o faria uma gata. - Então poderei conhecer famoso Josef. Eu adoraria conhecê-lo.

Ele gemeu deliberadamente, para fazê-la rir.

—O que você quer é que eu sofra.

—Também há algo disso, já que o diz.

—Será que servirá de alguma coisa para Tasha, saber que meus pais não me encontraram debaixo de uma pedra? — Perguntou ele, com um sotaque irônico.

Ela inclinou a cabeça para trás, como se pudesse vê-lo através de seus óculos escuros.

—A verdade é que pensa completamente igual ao que Tasha pensa de você.

—Não me importa especialmente. Nunca me importou, seja de uma maneira ou outra. Isso acaso muda o que sou ou quem sou? Minha honra exige um certo código de conduta. Não posso mudá-lo sem mais para satisfazer a qualquer pessoa.

—Realmente pode ler o pensamento de outros? Literalmente? Às vezes tenho uma idéia, como um pensamento ou uma imagem na cabeça e sei que me vem de outra pessoa, mas não posso ler em seu pensamento. - Confessou Antonietta. Aquilo era uma súbita amostra de confiança, já que Antonietta estava acostumada ser muito discreta quando se tratava de seus dons extraordinários.

Ele deixou que os dedos se entrelaçassem, levou sua mão aos lábios e mordiscou os dedos.

—Vêem sentar um momento comigo na estufa. Depois de todos esses gritos, será bom ter um momento de paz antes que chegue a polícia.

Ela o seguiu, intrigada com a idéia de que Byron fosse capaz de ler as mentes das pessoas. Ambos estavam conectados, isso ela sabia, mas havia uma diferença. Ele podia ouvir os pensamento de outros.

—Isso é o que faz? — Perguntou ela, presa de curiosidade. - Ouve seus pensamentos?

—Posso fazer uma varredura de suas mentes. – Byron assentiu, sustentando a porta com um gesto de cortesia, ansioso de estar a sós com ela. Precisava estar a sós com ela. - Não é tão fácil nesta região, como com a maioria das pessoas, nem tampouco com sua família. Voces têm defesas inatas, uns mais que outros. Suspeito que se deve a seu ramo sangüíneo. Marita é bastante fácil. Percebi a imagem de um homem. É evidente que ia encontrar se com ele.

—Isso não pode ser. - Voltou a negar Antonietta. - Asseguro, Byron. Marita adora a Franco, vive obcecada por ele. Jamais faria nada para perdê-lo. Adora pertencer à família Scarletti quase tanto como adora Franco. Jamais teria uma aventura. É isso o que insinua? Jamais acreditaria algo assim dela.

—E por que seria o amor à única razão pela qual uma mulher se encontraria clandestinamente com um homem?

Antonietta se deixou conduzir até uma cadeira de almofadas macias e emfrente à pequena cascata. Adorava aquela poltrona, não por sua comodidade, mas porque sentia o fino vapor da água, no rosto.

—Tem razão. Certamente, não tinha nada a ver com uma aventura. Poderia haver muitas razões.

—Ouça, Antonietta. Ela ia encontrar se com um homem. Ia entregar lhe um pacote. Por isso sei que era o homem que encontramos degolado no bosque.

Antonietta teve um estremecimento. Byron falava com tanta naturalidade, embora se tratasse da infidelidade ou de uma morte brutal. Seus dedos na nuca eram relaxantes, amáveis, inclusive ternos.

—Para começar, duvido que Marita tenha ido encontrar-se com um homem. E de que pacote fala? Não tinha mencionado nenhum pacote. — Celt lhe buscou a palma da mão com o focinho e ela reagiu acariciando suas orelhas sedosas.

—Em meio de todo o alvoroço, Marita esqueceu que levava um pacote, mas aposto que se lembrará quando limpar a cabeça do medo e do desgosto que passou. Não queria que a vissem. Era algo muito importante para ela.

—Isto eu não gosto. Sinto-me como se estivesse no centro da uma grande conspiração. Não tenho idéia do que acontece a minha volta, nem sequer por que.

—Eu recolhi o pacote quando Marita desmaiou.

—Ela desmaiou? Isso faz muito bem. Tasha tem ciúmes e gostaria de saber desmaiar com elegância. Duvido que algo possa fazer que eu me desmaie.

Ele se inclinou para ela, beijou-a com força, possessivo.

—Eu posso fazer com que desmaie, se quiser.

Antonietta estava fascinada por essa voz. Perversa. O riso em seu pensamento. Em seu coração. Havia algo nele que recompunha seu mundo, à perfeição.

—Tenho sérias dúvidas.

—Tomarei isso como um desafio.

—Abriu o pacote? — Perguntou Antonietta. Queria ignorá-lo. Era a única coisa sensata que podia fazer, porque quando ela falava, despertava nela sutis chamas que lhe lambiam a pele.

—Estava esperando estar com você. – Byron tirou o pacote de envoltório marrom da jaqueta e o fez girar nas mãos e o papel rangeu, como os incitando a abri-lo.

—Quer que o abra?

— Você penetrou na mente de Paul, Byron? — Perguntou ela, a voz de repente tensa. Segurou-o pelo braço. – Ele tentou me matar? Eu quero bem a Paul. Acredito que não poderia suportar a idéia de que pretenda me assassinar. Ou pior ainda, de que pretenda fazer mal ao Nonno.

Por um instante, ele sentiu uma violência cega que lhe revolvia as vísceras e não pôde impedir essa reação, a seu mal-estar. Segurou-a pelo queixo.

—Eu gostaria de te levar para longe deste lugar e desta gente. Poderíamos nos amar e viver e nunca olhar para trás. Se pronunciasse a palavra chave.

Ela o ouviu mentalmente. Sentiu suas palavras na alma. Byron era algo mágico para ela. Se tivesse que explicar, não saberia como, mas adorava estar com ele. Não só por alguns momentos fugazes. Não. Queria estar com ele para sempre. Em seus braços. Ouvindo sua voz. Agradava-lhe seu senso de humor. Ele agradava-a em todos os aspectos.

—Este é meu lar. - Replicou e em sua voz apareceu certo pesar. - Quero minha família. Trabalhei duro em minha carreira. Seria feliz aqui, comigo?

Ele sentiu que lhe retorciam as vísceras. A dúvida em sua voz o fez deixar de um lado o pacote, levantou-a da cadeira e a segurou em seus braços.

—Posso ser feliz em qualquer lugar, Antonietta, sempre e quando estiver com você.

—Eu não sei quem você é, essa é a verdade.

—Acaso importa? Amará-me igual, suponho. Poderá me amar? Acaso importa que não seja um jaguar? Ou um ser humano? Poderia compartilhar meu pensamento e saber que pertenço a terra, que sou um macho Cárpato, que tenho um sentido da honra e integridade? Acaso não pode ver o que represento? — Ele acariciou-lhe a face com a ponta dos dedos, seguiu pelos braços e deslizou pelo interior de sua blusa branca de renda. Sua pele era morna e incitante. Uma tentação luxuriosa e exuberante para que ele a ignorasse. Segurou-lhe o seio na mão e deslizou o polegar até acariciar o mamilo. - Celt, agradeceríamos um pouco de privacidade.

O borzoi se virou, afastou-se e se deitou a alguns metros mais à frente, sem dúvida pensando que seus amos estavam loucos.

—Alguém pode nos ver? —Antonietta sentia que o desejo fazia fraquejar seus joelhos, toda ela tomada por uma sensação ardente. Como era possível que desejasse Byron, que o necessitasse com todo seu instinto? Tão completamente? Chegava a lhe infundir verdadeiro medo, pensar que podia se descontrolar tanto ante seu mero contato. Era uma reação tão imprópria de alguém que pensava cada um de seus movimentos e planejava tudo até o último detalhe.

—Acaso importa? — Perguntou ele. - Diga-Me, Antonietta, ainda gostará de mim, se eu não ser o que espera?

Ela se apertou contra a mão que lhe sustentava o seio e se deleitou nesse seu gesto de responder ao toque de Byron com todo seu corpo. Atrás de seus óculos escuros, seus olhos se fecharam.

—Não tem nada que ver com o que espero. Este desejo terrível que tenho de você, não é o que imaginava. Estou desesperada para ter você.

-Eu também me sinto desesperado.

—Está-me distraindo do pacote.

—Não vamos nos esquecer do ditoso pacote. – Ele disse e se inclinou para beijá-la ligeiramente, sem deixar de massageá-la. - Não posso tirar as mãos de cima de você. E sabe que tento. Mas não o consigo.

Antonietta se sentiu fascinada, seu corpo se deleitava sob as suaves carícias de Byron. Queria possuí-lo ali mesmo, nesse mesmo momento, na estufa com suas paredes de vidro e suas plantas suspensas. Com a cascata ao fundo e os corpos entrelaçados.

—Não está colaborando... Ele disse e confirmou a Antonietta podia ler facilmente seu pensamento.

—Alguém poderia nos ver, Byron! Podem entrar por surpresa e nos descobrir, não? — O pacote começava a se transformar numa lembrança distante. Pensou que deveria sentir vergonha por ele lercada um de seus pensamentos, de seus eróticos pensamentos, mas não, ao contrário, se sentia agradecida. Queria que Byron a possuísse, queria sentir seu corpo penetrando fundo e duro nela.

Ele substituiu sua mão, com a boca. Antonietta deixou escapar um gemido, com aquela onda de sensações que a invadia. Segurou-lhe a cabeça com as duas mãos para levá-la ao seio. De repente, despertou nela uma fome voraz e sentiu suas pernas tremerem.

— Byron, o que está acontecendo comigo? Eu não sou assim. — Antonietta era uma mulher fria e segura de si mesmo, sempre capaz de dirigir suas relações com os amantes. Jamais se comportava como uma chama que de repente ardia e desatava com a força bruta de um vulcão. Jamais era alheia a sua volta, estava sempre atenta se por acaso alguém a observava. Era uma pessoa privada. O sexo nunca tinha sido tão intenso, tão voraz. O mais importante no mundo para ela, nesse preciso momento era arrancar como pudesse, a roupa Byron.

Ele tirou os óculos e o deixou de um lado.

—Ninguém pode nos ver, Antonietta. Ninguém. E se houvesse alguém na sala conosco, eu posso nos tornar invisível a seus olhos. – Ele assegurou com voz rouca. Tirou-lhe a blusa por cima da cabeça e suspirou ante a visão de seus seios. Ante a necessidade dela, todos seus sentidos se exacerbaram. Agora a sentia através daquele vínculo mental, aquela pressão terrível que crescia nela. O calor. O fogo trêmulo.

Antonietta estremeceu.

—O que me faz? Sinto-o na mente, sinto o mesmo que você. - Havia uma insinuação de perigo em seu apetite. Em sua necessidade. Seu corpo estava pesado, pleno e grosso e se apertava com força contra ela. E estava nu. Ela encontrou suas costas e seguiu a curva de seus músculos. Seu pescoço palpitava e lhe queimava. Sentiu que no seio esquerdo também havia algo que pulsava e queimava. No mais fundo de sua mente, aconteciam diminutas explosões, balançando-a, debilitando-a.

Byron lhe tirou as calças e a calcinha de renda seguiu o mesmo caminho.

—Mantenha seus braços em volta de meu pescoço. Segure-se, Antonietta.

Ela quis protestar. Deveria ter protestado se houvesse um grama de decência nela, pensou. Mas o segurou firmemente pelo pescoço. Ele a levantou sem esforço, como se não pesasse mais que uma pluma.

—Isto é uma loucura. Como é possível que te deseje desta maneira? —Antonietta se sentia muito pesada para fazer acrobacias durante o amor.

—Rodeie meu quadril com as pernas.

Aquele matiz de sua voz a desarmou, obedeceu Byron. Seu corpo ficou aberto e vulnerável a sua incursão. Deixou escapar um gemido rouco, quando ele a pressionou contra seu sexo intumescido. Foram ondas sob ondas, de sensações que a embargavam, que embargavam a ele. Agora se sentia, através de sua mente. Quente. Úmida. Lubrificada. Reagiu como a maciez da seda quando ele a penetrou, mas se estreitou com força a sua volta, abraçando o membro denso. Pensou que gritaria, presa do êxtase. Mas era ele, que a chamava mentalmente. Foi um estremecimento de prazer e ele a envolvia, estava em cima dela e através dela. Sentia-se através dele. Byron se moveu e a penetrou com força. Profundamente. Ela se levantou, valendo-se de sua força, o prendeu e deslizou-se ao longo dele com deliciosa lentidão, prestando especial atenção à reação que provocava nele.

Ardendo por ela, Byron sentiu que sua respiração se prendia. Antonietta aceitou o próprio poder com um gesto muito feminino e tomou a iniciativa. Começou a amá-lo, buscando-o mentalmente para que ele a guiasse, procurando o movimento perfeito, com os músculos apertados e segurando-se a ele com força. Era o céu. O paraíso. Não queriam que acabasse jamais.

Ele segurou suas nádegas para levantá-la em sua carreira selvagem, levando a paixão a um ponto mais à frente, enquanto as chamas passeavam por seus corpos, lambendo os dos pés à cabeça. Nada importava, exceto as ondas de prazer que os invadiam. A pressão continuava subindo. Ela sentia que se acumulava nele como um vulcão antes da erupção. Ele se sentia nela, como uma tempestade descomunal.

Antonietta estreitou o abraço em volta do pescoço dele e se inclinando, mordeu-o no ombro, quando ele investiu com mais profundidade, puxando-a para baixo, para encontrar-se com ele que subia. As chamas crepitaram. Antonietta viu que as cores estalavam dentro de seus olhos. Eram os olhos dele. Não importava. Sua mente estava solidamente ancorada na dele, seu corpo compartilhando o seu. A terra a seu redor estremeceu e com um fôlego vital, explodiu em milhares de pontos de luz.

Antonietta descansou sobre seu ombro, exausta, sem saber se podia se mover, perguntando-se por que os dois diluíram em água no chão. A única energia da qual pôde fazer uso, foi usada para acariciar longamente com a língua, a mordida no ombro de Byron. Percorreu as diminutas marcas com a língua.

—Mordi você.

—Não parece arrependida.

—Penso que terá sido uma vingança. Estou segura de que você mordeu meu pescoço na primeira vez que fizemos amor.

A risada sonora de Byron provocou em Antonietta, uma vibração elétrica. Com a mesma rapidez, sentiu a iminência de outro orgasmo. Aproveitou, saboreando cada estremecimento.

—Poderia ficar aqui para sempre.

—Não me importaria. - Conveio ele. - Mas, temos companhia.

A porta do estufa chiou ao se abrir e ficou aberta por um momento. O ar fresco circulou pela sala, levando o aroma da mistura de seu amor, dispersando-o imediatamente. Os vaporizadores automáticos começaram a lançar seu orvalho sobre as plantas.

—Onde estão eles? —Perguntou Tasha. - Juraria que entraram aqui. – Ela disse ao inspetor de polícia. - Antonietta? Byron? Diego veio vê-los. Espero que não se importe que o chame de Diego? —Ela virou-se para o Capitão e perguntou com voz sensual e incitante.

Byron depositou brandamente Antonietta no chão, sustentou-a até que suas pernas pararam de tremer e ela pôde ficar em pé.

—Aí está o cão. - Tasha falou, ao ver o Celt. - Antonietta não vai a parte alguma sem esse cão, desde que ele chegou. Ela deve estar aqui dentro, em alguma parte. Adora plantas exóticas.

Antonietta ficou completamente quieta e afundou a face no ombro de Byron. Estava nua e só uma enorme planta a separava de sua prima e do policial. Com suas mãos enormes, Byron a segurava pelas nádegas e a estreitava com força. - Não podem nos ver aqui. Não tema, não nos verão.

Antonietta permaneceu em silencio na escuridão enquanto se vestia. Chutou a calça, quendo Byron deslizou a mão entre suas pernas e introduziu um dedo em seu interior e csussurrou. - Desejo estar a sós com você, minha cara. Lamento que nunca possamos estar sozinhos. - Byron a explorava. Os músculos femininos, excitados, contraíram-se para acolhê-lo. Antonietta prendeu-se a ele, quando sentiu que reacendia se.

O cabelo de Byron lhe roçou a face quando ele se inclinou para ajudá-la a se vestir. - É minha companheira, sempre cuidarei de você. – Ele estava completamente vestido.

- Não acredito que possa respirar. Leve-me para cima. Estaremos juntos.

Byron aproximou a boca de seus lábios, num beijo longo.

—E isto de onde saiu? — Perguntou Tasha, pegando o pacote que tinha ficado no chão. Havia uma mancha de sangue no pacote marrom.

- Temo que é muito tarde, meu amor. - Byron os deslocou e os dois apareceram juntos, caminhando atrás de uma enorme palmeira. - Tasha encontrou o pacote e temos que saber o que há no interior. Temos que nos mostrar.

Antonietta tentou adotar um semblante tranqüilo e desenvolto. Ninguém diria que há poucos momentos, estava amando desaforadamente. Agora estava a ponto de gargalhar, algo que não estava acostumado a fazer. Quase nem se reconhecia.

—Obrigado, Tasha. - Disse Byron, pegando o pacote de suas mãos e entregando a Antonietta. - Não sabíamos onde o havíamos deixado. - Olá, inspetor Vantilla. – Ele se inclinou para saudar o Capitão.

—Justicano! É uma sorte que estivesse perto, para resgatar à senhora Scarletti.

Tasha reagiu com um estalo de desgosto.

—Diego, acaso não ouviu nenhuma palavra do que eu disse? O que fazia no bosque tão tarde de noite, Byron?

—Tasha, parece-me que está indo muito longe. - —Antonietta disse, com voz pausada. – Gostaria que parasse com isso. Aqui há muito mais em jogo que seu mesquinho ciúme.

—Chame como quer. - Respondeu Tasha. - Esse homem é perigoso e me nego a permitir que tenha uma relação com ele.

Byron escrutinou o rosto acalorado. Tasha se sentia humilhada frente ao inspetor de polícia e mesmo assim insistia, apesar das advertências de Antonietta. Aquilo não parecia corresponder a seu sentido da sobrevivência. - É possível que ela tenha medo de você?

- Você é o que lê as mentes.

- Ela se daria conta. Se eu for além de suas defesas, precaveria-se de minha presença. Não estou seguro de poder lhe nublar a memória o tempo suficiente, para que valha a pena.

- Quem sabe por que Tasha faz e diz essas coisas? - Antonietta parecia cansada e Byron a segurou pela cintura e a atraiu para ele, protegendo-a junto ao ritmo compassado de seu coração.

—Não parece surpreso, inspetor. - Disse Byron. - É o primeiro assassinato? Por favor, nos conte o que sabe.

O inspetor revirou os cabelos, um sinal inconfundível de seu nervosismo.

—Não é a primeira pessoa que mataram desta maneira.

—Quer dizer com isso que sabia da existência desta criatura e não nos advertiu? — Antonietta estava indignada.

— Saiu nos Jornais, signorina. Pedimos a colaboração dos melhores caçadores, mas não encontramos o felino.

—Enquanto isso, a mulher de meu primo poderia ter morrido. É completamente inaceitável. — Havia uma leve chicotada na voz de Antonietta. - Meus empregados têm que caminhar da cidade até minha casa todos os dias. Não quero que nenhum deles sofra a horrível sorte de perecer sob as garras de um animal selvagem.

—É no que mais vale a pena não pensar. - Cconfirmou Tasha, com um estremecimento. - Marita tinha sangue por toda parte. Não é de se surpreender que tenha desmaiado.

—Ninguém deveria sair sozinho à noite. - Disse o inspetor, cravando em Tasha com um olhar acentuado. - Não devem ter motivos para ir ao bosque até que tenhamos encontrado este animal. Acredito que o homem que encontramos é um dos guardiães da propriedade. O senhor Franco Scarletti o identificou.

—Oh! Não. - Disse Antonietta, cravando os dedos na mão de Byron e mantendo-os fechados com força. - Um de nossos empregados? Teremos que contratar uma empresa de segurança que escolte nossos empregados de volta a suas casas, até que encontrem essa fera.

—E isto acontece há muito tempo? — Interveio Byron. Sua voz era uma ordem para dizer a verdade.

—Infelizmente, sim. Em outras regiões, há algum tempo. O primeiro achado foi o corpo de uma moça com o pescoço esmagado, à beira do mar. Temos uma placa de gesso com os rastros. Foi identificado como um jaguar dos grandes. Até esse momento, a opinião generalizada era que alguém possuía um destes felinos como mascote e que um dia escapou ou igual a muitos outros, quando se aprovou a legislação sobre animais exóticos para companhia. Abandonaram-no, uma noite qualquer.

Tasha se deixou cair na cadeira.

—Nossa propriedade é muito grande, tem os bosques mais selvagens e o pequeno Vicent e Margurite sempre brincam no labirinto. Correm um grande perigo, sem saberem.

Diego lhe respondeu, colocando a mão em seu ombro, com gesto amistoso.

—Tenho três filhos em casa. Minha mãe cuida deles e é uma senhora de idade e frágil. Dei ordens para que não saiam, mas os dois maiores escapam. Preocupa-me. A verdade é que entendo como se sente. As mortes se produziram num rádio de mais de cento e cinqüenta quilômetros. Não conseguimos armar o quebra-cabeça.

—E quando começou nesta região, Diego? — Inquiriu Tasha.

—O primeiro cadáver foi encontrado em nossa região faz quase dois anos. Certamente, procuramos, mas não encontramos nada. Antes, foram encontrados dois cadáveres mais, mas se pensou que já estavam mortos e que haviam sido devorados por animais selvagens. Demoramos um tempo para entender que podia ser um felino que caçava humanos.

—E o que diz sua mulher de tudo isto? Por que ela não fica com as crianças? — Perguntou Tasha. A pergunta era inesperada e Diego respondeu sinceramente antes que pudessem impedir-lhe. - Minha mulher não queria as crianças nem queria ter um marido polícial. Abandonou-nos depois de que nasceu a bambina e não quer voltar a vê-los. — Era uma confissão dolorosa para ele e em seus olhos escuros brilhou uma mistura de humilhação e raiva.

—Pobres pequenos, abandonados e não desejados. - Disse Tasha, com voz triste.

—Eu sim os quero. – falou Diego. - Não precisam de uma mulher que não os ame.

 

—Sinto muito, minha cara. São folhas de uma partitura.

Antonietta aspirou profundamente. Encontravam-se finalmente na privacidade de seu estudio, com as portas fechadas. Tasha ficara para entreter o capitão e com todos os problemas ainda pendentes, Antonietta pensava que jamais se encontraria a sós com Byron. A curiosidade a estava matando. Também estavam matando a vontade de estar a sós com ele.

— Minha música? Ela pensava levar a música de minha casa e entregar a outra pessoa? — Antonietta tinha a sensação de que era alheia a seu próprio corpo. Sentia-se febril. Incompleta. Afastou-se de Byron para que ele não se precavesse.

—Não. Não é tua. Estas folhas são muito antigas. Temo que se as tocarem, se desintegrarão entre os dedos.

Antonietta ficou totalmente quieta e se levou à mão ao pescoço.

—Eu sei o que é. Como ela terá conseguido? Deveriam estar na caixa forte do Nonno. E ele é o único que tem a combinação. Ao menos, eles não deveriam saber, acredite-me. Nonno jamais daria a conhecer esse segredo. A existência dessa partitura nem sequer se conhece fora de nosso círculo familiar.

Byron se inclinou para trás na cadeira e estirou as pernas para as chamas que dançavam na lareira. - São valiosas?

—É claro que são valiosas. É uma obra autêntica, uma obra original do compositor George Friedrich Händel. De jovem, Händel visitou a Itália e é obvio, era convidado com freqüência aqui ao palácio. Naquela época, a família Scarletti já tinha poder e riquezas e era amante da música. Händel era um talento excepcional. Nenhum artista teria rechaçado um convite como esse. Esteve aqui, em várias ocasiões, durante os três ou quatro anos que viveu na Itália. Deixou muitas notas e um diário. Também deixou partituras de cantatas e óperas, inclusive oratórios. Entretanto, nosso tesouro maior é uma ópera completa composta por Händel para a família Scarletti. Ele não estava contente com ela. Dizia que carecia da paixão italiana e não queria que a conservassem. Nossa família se comprometeu a não dar a conhecer nem no futuro. A palavra dos Scarletti é sagrada. Guardamos essa promessa durante gerações.

Byron tinha começado a assobiar uma melodia.

— George Fiedrich Händel. Tinha esquecido que esteve na Itália. – Disse. - Em 1710 viajou a Hannover, segundo me lembro, mas partiu quase imediatamente para Londres. Sua ópera, Rinaldo, estreou no ano seguinte.

—Você estudou Händel? — Perguntou uma assombrada, Antonietta.

Byron olhou as mãos, surpreso por ter cometido esse deslize. —Eu gosto de sua obra. - Disse, precavido.

—A mim também. Händel voltou anos mais tarde, em busca de artistas e de intérpretes. Sabia que em seus últimos dias, ele ficou cego? — Antonietta arqueou as costas, tentando aliviar parte da pressão que se acumulava em suas articulações.

—Ouvi falar.

Era como se sua voz a envolvesse num manto de seda e veludo. Antonietta sacudiu a cabeça.

—Tenho que guardar essa partitura em algum lugar seguro. Falarei com Nonno amanhã. Faz tempo que ele se retirou. Foi dormir. Quanto a mim, dá-me a impressão de que a cada dia me levanto mais tarde e perco as atividades da casa. —Segurou o pacote de suas mãos, evitando tocá-lo. - Voltarei em seguida. Vou guardar isto na caixa de segurança da passagem secreta. Não acredito que Marita o encontre ali.

— Paul poderia encontrá-lo. — Byron se sentou, um movimento preguiçoso e fluido. - Te acompanho.

Ela já se encontrava na porta do corredor. O último que queria era compartilhar com Byron o espaço fechado.

—Fique um momento e relaxe. - Disse, fazendo todo o possível por adotar um ar tranqüilo. - Não demorarei.

—Não me importa ir. Tenho vontade de voltar a olhar a parede com os relevos. – Ele se estreitou contra ela. Antonietta sentiu o calor de seu corpo.

Aceleraram o passo e penetraram no labirinto de túneis, sem vacilar. Byron se movia silenciosamente, como sempre, mas ela estava muito dependente dele. Quase sentia os músculos sob seus dedos ansiosos. Imagens eróticas dançavam em sua cabeça. Desejava-o com cada célula de seu corpo. E ele parecia tão… ausente… Tão desinteressado.

Queria destroçar o pacote que tinha nas mãos, rasgar com as unhas. Seus passos ressonavam nos antigos ladrilhos de mármore e sua respiração parecia muito sonora. Estava com o coração acelerado e a boca seca. Contava os passos em silencio para si mesma, girando bruscamente a cada curva.

—Nossa história tem aspectos muito pitorescos. — Fazia o possível para puxar conversa, se isso era o que ele desejava. Uma conversa sobre história.

Byron a seguia em silêncio. Respirando em sua nuca. Com um aroma agradável. Fazendo notar sua presença, quando descansava a mão em sua costa. Queimando-a através da roupa. Marcando-a. Reclamando-a.

—Sei que estudou os relevos no muro. Decifraste os primeiros signos? Penso que as primeiras talhas deveriam ser fascinantes. — Byron sentia a agitação que se apoderava dela. Quando conseguiu a penetrar em sua mente, descobriu um caos. Não havia um único pensamento. Antonietta estava confusa e zangada. Pensativa e de mau humor. Era como o começo de uma grande tempestade. Ela era sua companheira e quaisquer fossem suas necessidades, ele proveria. Sabia perfeitamente que Antonietta achava a história de sua família intrigante. Esperava distraí-la, por um momento.

Antonietta levou o pacote ao peito e o estreitou.

— Dediquei algum tempo a estudar a entrada correspondente à primeira noiva. Não estava sozinha. Seu marido também realizou parte das talhas. Acredito que foi idéia dela. Acredito que desejava que sua família conhecesse os dons que ele lhes legava. Ele estava muito intrigado com a idéia de mudar. Os primeiros relevos são quase todos, mutações. Mulheres e mesmo alguns homens que se transformavam em jaguares. Os primeiros esboços são muito antigos, certamente, mas estão muito detalhados. Acredito que revelam mais segredos que as talhas posteriores. — Antonietta se obrigou a respirar no calor opressivo da passagem. Se ao menos Byron não respirasse em sua nuca, poderia pensar com mais claridade.

—Nas épocas posteriores, nas mais modernas, há algum testemunho que fale de mutações?

Ela arranhou a pele que ardia e parou em frente ao que parecia uma parede sólida. Passou a palma da mão pela suave superfície. Roçou os dedos de Byron, segurou-lhe a mão e o guiou instintivamente por volta das três depressões que ocultavam os segredos. Era um reconhecimento de confiança e ele soube, mesmo antes que ela.

O muro retrocedeu silenciosamente e revelou a caixa forte. Era evidente que ela conhecia a seqüência de números no painel. Antonietta pulsou várias teclas atentamente. Abriu a porta da câmara couraçada. Estava às escuras. Todo o passadiço estava completamente às escuras, mas Antonietta não precisava a luz. Naquele mundo de trevas, encontrava-se. Byron estava impressionado com sua assombrosa capacidade para saber exatamente onde se encontrava cada coisa.

—Eu não as vi. Acredito que o sangue se misturou muito com o tempo.

—Acredita que um de seus primos é capaz de mudar? — Perguntou Byron, com uma voz sem inflexões.

Antonietta não se moveu enquanto agitava as mãos no interior da câmara couraçada.

—Um de meus primos? — Repetiu, como se a idéia a inquietasse. - Não acredito, Byron, que um deles seja essa criatura que degola gente inocente. É uma possibilidade que só em imaginar, me deixa doente.

—O felino deixou o rastro de seu aroma no interior do palácio. Estavam nos aposentos de seu avô. Esta partitura estava guardava na caixa privada de Dom Giovanni. Se alguém que pode mudar estava procurando-a…

Ela lançou as preciosas folhas no interior da câmara e fechou-a, de repente.

—Não quero nem pensar que alguém de minha família seja capaz de matar a sangue frio.

—Uma vez convertido em predador selvagem é muito difícil controlar os impulsos. Diz-se, que alguns mutantes sequer reconhecem seu lado humano. E alguns animais são muito mais difíceis de controlar que outros.

Antonietta se inclinou para diante e descansou a testa contra a porta dourada da câmara.

—Eu queria tocar essa música. — Foi uma confissão, pronunciada de chôfre. - Se ouvir música, sem importar o difícil ou intrincada que seja, posso tocá-la, mas não posso ver. Tinha que pedir a Justine que me lesse isso. Pode imaginar o quanto foi difícil para nós decifrar a partitura, todo o tempo que investimos nisso. Dom Giovanni sabia, certamente. Foi ele quem me deu isso, mas eu tinha que conservá-la zelosamente. Cada noite devolvia-a em seu quarto, mas qualquer pessoa pode ter visto Justine e eu trabalhando nela.

Ao inclinar-se para diante, suas nádegas ficaram em contato direto com Byron. Ele se estreitou contra ela, duro, grosso e masculino. Antonietta poderia ter gritado de frustração, mas sua pele ardia de desejo. Sentia que seu corpo estava estreito e alheio. Sentou-se imediatamente para evitar o contato e se afastou dele para retornar à sala dos relevos. Era consciente de seu próprio corpo, do vaivém de seus quadris, da dor em seus seios. Era uma loucura que não podia dominar.

—Antonietta, quando entro em contato com sua mente, está confusa e inquieta. Queria ajudar, se me permite acessar a você. - Se não a ajudasse, Byron pensava passar por cima dessa barreira. Não podia suportar vê-la tão alterada. Já havia intercambiado sangue duas vezes. O sangue Cárpato agudizaba os sentidos e a mudava, mas ante sua barreira, ele ignorava o que outras mudanças podiam provocar o sangue.

—Prefiro solucionar meus próprios problemas. – Ela disse. - Sinto parecer brusca. É como se tudo estivesse vindo em cima de mim.

—Quando se tem um companheiro, cara. Compartilha seus problemas.

—Eu ainda não estou acostumada a um companheiro. - Confessou Antonietta, suavizando a voz, desejando não feri-lo-o. - Eu tento, Byron. Realmente tento. Nunca tive estes sentimentos e jamais senti tão intensamente tudo o que me rodeia. É inquietante. E jamais estive tão consciente da presença de um homem antes. - Byron entendeu esse pensamento muito feminino. Ainda não aceitava o poder e a força do vínculo entre eles. Era diferente de qualquer outra coisa que tivesse vivido. Intimidava-a e lhe amedrontava. Duas emoções que Antonietta Scarletti não conhecia bem. Byron a seguiu em silencio até os relevos na parede.

A porta se abriu e as luzes se acenderam automaticamente, iluminando as colunas, do chão ao teto. Cheias de imagens, palavras e símbolos esculpidos no muro, elas eram similares aos hieróglifos egípcios.

Antonietta percorreu com a palma da mão um dos desenhos.

—Imagina o quanto demoraram para fazer isto? E seguirá aqui até o final dos tempos, a menos que o palácio seja destruído. Algum dia, talvez dentro de cem anos, outro Scarletti entrará nesta sala e verá o que aconteceu antes que ele.

Byron começou a ler, totalmente absorto no drama que se desenrolava ante seus olhos. Uma atrás da outra, as noivas eram selecionadas entre os habitantes da pequena aldeia do povo jaguar. Havia umas quantas lacunas e à medida que as gerações perdiam contato com os objetivos originais dos Scarletti, as noivas da aldeia começavam a escassear, até que o ramo sangüíneo voltou a diluir-se. Muitas noivas não estavam satisfeitas com seus maridos e os ciúmes e intrigas haviam dominado o palácio ao longo dos séculos. Algumas, amavam muito a seus maridos. Muitas possuíam o dom de curar e o dom da telepatia. As últimas histórias pareciam assinalar que a telepatia era comum entre os Scarletti.

—Isto é fascinante, Antonietta.

—Estava acostumado a vir aqui quando era mais jovem. Sabia ler no muro e conhecia a maioria das crônicas, embora não podia ver. Fazia-me sentir independente. Certamente, posso ler braile, mas a maioria dos documentos comerciais não está escrita em braile para mim, de modo que dependo de Justine para os leia.

Justine a traíra. Como poderia confiar nela com informação tão importante e confidencial? Byron deslizou a mão até encontrar a de Antonietta. Fundiu-se mentalmente com ela para sentir a dor que retorcia seu coração. Antonietta já não confiava em seu julgamento. Já não confiava no sexto sentido que utilizava para relacionar-se com as pessoas. Justine lhe causara mais dano do que Byron suspeitara, inicialmente.

—E agora não pode confiar nela.

- Não posso confiar em ninguém. - Aquelas palavras não invocadas ressonaram em sua mente. Ela rechaçou-as, imediatamente.

—Não me compadeço de mim mesma, Byron. Faz muito tempo aprendi a recolher as partes quebradas e seguir adiante. O que acontece é que me sinto como se pisasse em areias movediças e a cada passo que dou, caminhe por onde caminhe, é como se afundasse. Quero pisar em terra firme.

Ele levou a mão a seu coração.

— Antonietta, eu estou aqui.

Ela tentou retirar a mão.

—O que sei de você? Quer confiança absoluta. Quer que mude toda minha vida por você.

Byron não soltou a mão. O jaguar nela estava perto. Cauteloso. Desejando escapar. A mulher que havia nela se sentia exatamente da mesma maneira. Perseguida. Acossada. Ela não tinha idéia do quanto ele queria mudar em sua vida, mas estava com a sensação de que era perigoso para ela. Aqueles eram os instintos do jaguar e nela eram poderosos.

—Quero estar em sua vida sim. Não penso negar. Funda-se completamente comigo. Suas respostas estão em minha mente.

Antonietta retirou a mão, com o coração lhe pulsando rapidamente. Suas palavras eram sempre uma tentação. Sua voz, sempre um convite ao pecado e ela sucumbia a essa luxúria que não podia controlar. Uma luxúria que não desejava.

—O ar aqui dentro é sufocante. - Disse, com a respiração entrecortada e a voz rouca. Não pensava fundir-se com ele nem deixar que Byron tivesse acesso às imagens que enchiam sua cabeça. Seria humilhante.

Virou-se bruscamente para voltar para seu quarto. Byron saiu da sala dos relevos e permitiu que a porta se fechasse. Não demorou em alcançá-la e permaneceu perto dela, querendo aliviar seu sofrimento, mas sem saber exatamente como. Os aposentos amplos pareciam frios, depois do mormaço dos túneis. Antonietta suspirou aliviada. Estremeceu e cruzou de braços para ocultar os mamilos que endureciam ao roçar contra a renda do soutien, a cada passo que dava. Não disse uma palavra quando o fogo na lareira, de repente, tomou vida, segura de que Byron tinha interpretado mal seu gesto e pensava que estava com frio.

—Copiou a partitura do Händel, Antonietta? — Perguntou Byron, quando se sentou em sua poltrona favorita. Celt permanecia no chão de seu quarto. Byron podia vê-lo através da porta aberta. O borzoi não se moveu e não estava acostumado a fazer, quando era Byron quem vigiava.

Antonietta estirou os braços por cima da cabeça. Sentia o corpo pesado e sensível. Cheirava a fragrância masculina de Byron e por alguma razão, sentia que esta a chamava. Era perfeitamente consciente de sua presença, a poucos metros. O interlúdio na estufa fôra breve e feroz, mas não o suficiente. Começou a passear pela sala, presa do desassossego e da irritação. Sentia os seios cheios e queria que ele prestasse atenção. Toda sua pele ardia, pedindo alivio.

—Sim. Para me assegurar de que jamais se perderia. Aquela cópia valeria muito dinheiro embora não fosse mais que pela partitura. É uma obra original, não é imitação de nenhum outro compositor, mas jamais valeria tanto como a de seu próprio punho e letra.

—É possível que Marita tivesse acesso à combinação da caixa forte de Dom Giovanni?

—Não. Ele jamais a daria nem a ela nem a Franco. Conheço o Nonno. Não é um homem crédulo, desde que franco vendeu informações à família Demonesini. — O fogo crepitou. Byron se virou e ela ouviu o roçar de sua roupa. Tinha vontade de gritar. – Acredita que o ataque contra Nonno e contra mim na outra noite pode ter algo a ver com a partitura ddeo Händel?

—Acredito que é provável. Seria muita coincidência que não fosse. Aqueles homens procuravam alguma coisa e estiveram uns bons momentos nos aposentos do Nonno.

A voz de Byron estava matando-a. Roçava-lhe a pele como o veludo, como milhares de línguas de fogo. Não se acreditava capaz de suportar um momento mais. Quis obrigar-se, a se controlar. Teria que mandar Byron para casa e colocar distância entre os dois. Que fossem quilômetros. Talvez oceanos de distância.

—Ninguém sabe da existência desta obra, nem sequer os da família. Franco poderia ter contado a Marita, mas eu nem sequer o ouvi perguntar a respeito dela. Alguém tem que tê-la visto, quando eu me empenhava em tocá-la. — Com um gesto de abandono, ela tirou as presilhas do cabelo e este esparramou por suas costas, num vívido desdobramento que refletia suas estranhas emoções. - Faz calor aqui dentro, não deveríamos estar com o fogo aceso.

—Vêem aqui, Antonietta. — Byron falou com suavidade, mas ela ouviu a ordem implícita em sua voz, a qual a fez rilhar os dentes.

— Por que? Eu digo que faz calor e você quer que vá para seu lado. – Ela disse e deu uns passos para se afastar dele, desejando arrancar a pele.

—Sente-se incômoda.

Antonietta tinha um desejo desenquadrado de ajoelhar-se entre as pernas de Byron e arrancar sua calça. Com sua boca lhe mostraria o quão incômoda estava. Imaginava como se sentiria ao vê-lo crescer, duro e grosso. A sua mercê. Mas não lhe daria trégua, não enquanto ele a fizesse sentir esse descontrole e a deixava tão ofegante. Manteve a distância, mostrando cautela ante aquilo que não entendia.

—Vêem aqui — Sussurrou ele. Sua maneira de ordenar era suave, mas imperiosa. Dava-lhe medo, porque estava com vontade de obedecer. Ainda assim, quis resistir e negou a se mover. Negou-se a ceder ante o que acontecesse.

—O que está acontecendo? O que tem de errado em mim? — Sentia que suas entranhas queimavam, que ansiavam por alívio.

Byron voltou a se contactar com ela mentalmente, uma sombra que se ocultava, enquanto seu pensamento se desenquadrava e girava entre imagens eróticas balizadas por uma fome terrível e insaciável.

— Suspeito que seja uma combinação de várias coisas, Antonietta. Não entendo por que não posso te ajudar a aliviar seu sofrimento. — Basta que me diga do que se trata.

Byron suspirou.

— Os Cárpatos se aparelham com freqüência. Observei que está muito sensível. Suspeito que ante as espécies dos Cárpatos e o gêne jaguar que está em seu sangue, está sentindo… No cio.

—Não sou um animal, para estar no cio. Suas palavras não me aliviam em nada, muito obrigado.

—Acaso a idéia de emparelhar-se comigo é tão desagradável?

—Não distorça minhas palavras. Não disse isso. Se quiser me ajudar, por que não me distrai? — ela estalou os dedos, inspiradas por uma idéia repentina. - Queria ver, Byron. Ver através de seus olhos. Disse que poderia e quero tentá-lo.

—Está segura de que isso é o que quer? Não será fácil.

Ela levantou o queixo.

—Não me importa. Quero tentá-lo.

—Ao princípio ficará desorientada. Terá que ir além de seus sentidos e se valer dos meus. Sentirá que seu corpo o rechaça. As imagens estarão em sua mente, mas tal como eu as vejo.

—Não me importa desde que possa ver. — Em sua voz vibrava uma clara determinação.

—Terá que se fundir completamente comigo. O que eu veja e sinta, também sentirá você. Se se sentir incômoda, se desprenda de minha mente. Isso poderá controlar. Observou que aumentou seu poder e sua sensibilidade ante as coisas que a rodeiam?

— Por que acontece isso?

—É minha companheira. À medida que nossas vidas se fundem, também se fundem nossos corpos. Reclamei-te com o vínculo ritual e agora estamos unidos em corpo e alma. — Em sua voz se ocultava uma espécie de sorriso. - Nesta idade moderna, suponho que tudo isto soa melodramático e antiquado.

—Para mim, não — Ela disse e de repente vacilou, como se tivesse medo. - O que tenho que fazer?

Ele se aproximou, porque tinha entendido que Antonietta estava a ponto de chorar. A intensidade de sua necessidade sexual era avassaladora. Desconcertava-a ter que ajustar sem cessar o volume dos sons que chegavam a seus ouvidos e lutar com a separação, sem entender por que. Byron se situou atrás dela, passou as mãos pela cintura fina e a estreitou. Antonietta estremeceu.

—De verdade, pode fazer isso? —perguntou.

Ele sentiu o leve estremecimento que percorreu o corpo dela.

—Estarei com você. Lembre-se que não verá por seus próprios olhos. Tem que se fundir completamente e ver através dos meus. Eu posso usar Celt ou a qualquer pessoa com quem tem um vínculo especial para ver, mesmo à distância. Nós temos um vínculo forte. Não há com o que se preocupar. Posso conseguir nos manter unidos e poderá ver.

—Não estou segura de que entenda, mas quero tentar. - Antonietta parecia assustada, mas decidida. Segurou as mãos de Byron. - Diga o que tenho que fazer.

—Deixe-se me alcançar. Já conhece o caminho. É como fazer amor, fundir as mentes por completo. Só deixe que aconteça.

Antonietta respirou, para se acalmar. Dava-lhe terror pensar que teria efeito ou não. Lentamente tirou os óculos escuros. Com a ponta dos dedos tocou os olhos. E logo sentiu Byron. Movendo-se no interior de sua mente. Olhando em lugares onde não queria que ninguém espionasse. Separou-se bruscamente dele.

—Não tema, bela. Não procuro provas que a incriminem. Você também está em minha cabeça. Isto funciona nos dois sentidos, se nos respeitarmos. Tente novamente e desta vez, relaxe.

Antonietta enterrou os dedos no dorso da mão dele e deixou seu pensamento procurá-lo. Permitiu que suas barreiras desaparecessem, para se fundir. Era uma sensação peculiar, não de todo desagradável, uma mistura de duas personalidades. Esperou, com a respiração contida. De repente, um brilho de cores dançou ante seus olhos. Crus. Vibrantes. Muitos. Gritou e levou a mão aos olhos. As cores não desapareceram.

—Aceita-os e deixa-os fluir.

Ela tentou e sentiu que seu ventre se revolvia. Tentou distinguir algo impreciso na distância. Byron estava se concentrando em algo. Ela deu um passo para trás, apertando-se contra ele. Porém, se obrigou a manter os olhos abertos. Não estava segura de que fosse necessário, agora entendia que a visão era a de Byron, não a sua própria, porém desejava senti-lo como se fosse ela. Os contornos começaram a esclarecer. Voltou a retorcer seu ventre. Tudo estava em um plano inclinado e girava.

—Isto não funciona. Não acredito que esteja fazendo bem. Tudo dá voltas muito rápidas.

— Segure minhas mãos com força. Tente se ancorar. Não são seus olhos, Antonietta. São os meus. Não precisa da ponta de seus dedos para dizer a seu cérebro o que está vendo.

Uma sombra dançou nas paredes. Ela se encolheu como se quisesse se proteger.

—É uma sombra, a luz do fogo que se reflete na parede. Pode colocar a mão através da sombra. Concentre-se. Vou enfocar nossa visão para ver alguma coisa. Celt deitado tranqüilamente junto a sua cama. Quero que o veja.

Antonietta lutava contra uma verdadeira sensação de vertigem. Virou a cabeça e os objetos irromperam ante seus olhos como fogos de artifício.

—Não funciona! — Exclamou e se levou a mão ao estômago revolto. – Acho que estou enjoando.

—Não, não está enjoada. Podemos parar, se quer. – Ele sugeriu, segurando as mãos dela com força. - Só tem que olhar para Celt. Olhe-o. — Antonietta era uma Scarletti. Os membros de sua família nunca retrocediam ante um desafio.

—Posso fazê-lo.

Concentrou-se naquele objeto distante e impreciso. O borzoi levantou a cabeça e se voltou. Ela não desviou o olhar. A imagem começou a se esclarecer. Era Celt. Deitado em sua cama. Era enorme e negro, nobre. Antonietta não sabia calcular a distância e estirou a mão, acreditando que ele estava o bastante perto, para tocá-lo.

—Está do outro lado do quarto.

—É belo. Quero ver a cara dele... Mostre-me sua face.

Ele utilizou o espelho da penteadeira e se olhou. Ela estirou as mãos para provar, deslocando os dedos sobre seu rosto, percorrendo o familiar território. Byron era muito atraente, os olhos hipnóticos, a boca desejável como um pecado, a mandíbula forte. Fascinou-lhe, seu cabelo, embora estivesse preso.

Examinaram diversos objetos no quarto, desde sua cama de colunas, até as vidraças coloridas.

—Não quero que se canse. Quero que veja você mesma.

Antonietta negou com um gesto da cabeça. Byron a segurava por trás, apertando-se com força contra ela. Quase não podia respirar, tocada pela intensidade do desejo dele. O pensamento de Byron se fundiu totalmente e a sensação era diferente a tudo o que jamais vivera. Não saberia quanto tempo seria capaz de estar junto a ele, sem tocá-lo. Ainda mais, depois de lhe ver o rosto. E a idéia de ver-se a si mesma era inquietante. Ainda assim, picava-lhe a curiosidade.

—Sabe o que é um espelho? — Insistiu Byron. – Lembra-se dos tempos de sua infância? Pode ver seu próprio reflexo. Quero que se veja.

—Gostaria de não... - Disse ela, com a boca seca.

A visão era a de Byron. Antonietta vivia suas relações sexuais a partir do tato, mas ele possuía todos os sentidos. Queria que ela experimentasse as mesmas sensações que ele, olhando seu corpo.

— Olhe-se, Antonietta. Não tema a ti mesma.

—Tenho medo. Seja o que for, levarei a imagem comigo o resto de minha vida.

—Confia em mim. Confia em como a vejo.

Apesar de suas reticências, Antonietta elevou a cabeça e olhou no espelho. Uma desconhecida a observava. Estava como cabelo solto, que lhe caía pelos ombros feito cascata, negro e brilhante. Seus olhos eram enormes e negros. Viu as pequenas cicatrizes brancas perto dos olhos, quando a observou durante um longo tempo. Possuía uma boca grande e generosa, com uma ligeira curva nos cantos. A pele era perfeita, deslumbrante. Tinha o corpo voluptuoso de uma mulher.

Antonietta estirou uma mão para o reflexo. Logo, tocou a face, maravilhada. Passou a ponta dos dedos pelo rosto, tentando reconhecer seus próprios traços. Voltou a estirar a mão para o espelho, apalpou a superfície dura e Lisa. Depois, tocou-se o cabelo.

—Ninguém é tão bela. Eu não sou assim. Não pode ser eu.

—Assim é como você me parece. - Afirmou ele com voz suave, junto a seu ouvido.

Fundidos como estavam um no outro, ela intuiu sua excitação. A necessidade de vê-la assim. Byron se inflamara ao pensar nela nua, na frente do espelho. Havia algo de embriagador em sua capacidade de fazer que a desejasse tanto. Ela já se sentia inflamada até o inexprimível. Levá-lo às mímicas alturas de sua febre era ainda mais excitante.

—Tire a blusa, Antonietta. Olhe-se, tal como eu a vejo. — Byron era a tentação em pessoa. O domínio que envolvia com seus braços. Ela o via no espelho. O cabelo escuro brilhando a luz do fogo, os traços duros e angulosos. O olhar que via sobre sua imagem no espelho, queimava. Um olhar marcado pela posse e a esperança.

Antonietta segurou a blusa e a tirou pela cabeça. Por um momento, a imagem se tornou imprecisa. Sentiu que Byron ficava sem fôlego. Seus seios estavam emoldurados por um objeto de renda. Era estranho ver-se a si mesma, ver-se e sentir através dos olhos de um homem. Byron estava violentamente excitado. Ela o sentia, na grossa envergadura de seu membro pressionando contra suas nádegas.

— Tire o soutien.

Ela desejava tirar. Queria que ele a desejasse dessa maneira. Queria vê-lo excitado, os traços duros pela necessidade e por uma determinação implacável. Procurou o fecho dianteiro, enquanto ele roçava os mamilos com a palma da mão. Ante esse breve contato, um relâmpago estalou em suas veias. A renda caiu. Seus seios fifacem nus, firmes e tentadores. Byron procurou as mãos de Antonietta e as levou a própria carne desejosa.

—Sinta como você é suave. Sinta o mesmo que eu, quando a toco. Esta é você, Antonietta. Bela, perfeita e minha. — Ela segurou os seios nas mãos, enquanto ele as mantinha em seu lugar, com as suas. Era a mais erótica sensação que já sentira.

Sem deixar de olhar seu reflexo no espelho, virou apenas a cabeça para soltar o cabelo, que caiu sobre seus ombros nus, como uma cascata. Byron começou lentamente a lhe acariciar os seios. Com o polegar excitou seus mamilos até convertê-los em desejo desenfreado. O cabelo sedoso não fez mais que potênciar o efeito em sua pele. Antonietta foi incapaz de evitar o gemido que escapou de sua boca. Byron esfregou o queixo sem barbear, em seu pescoço.

—Agora me dirá se não é bela. Assim é como meus olhos a vêem. — Byron lhe soltou as mãos e explorou sua cintura e manteve o olhar fixo no espelho.

Antonietta olhou as próprias mãos sobre os seios, viu como ele descia sua calça lentamente. Ao mesmo tempo, tirou-lhe a tanga e a deixou nua. Ela abandonou sua roupa e simplesmente se contemplou, maravilhada, as pernas, a curva de seus quadris. Parecia impossível que aquela mulher do espelho fosse ela.

Byron permanecia atrás dela, totalmente vestido e com as mãos lhe percorria e acariciava. Cada uma de suas carícias desatava ondas de desejo que se apoderavam dela até que se retorceu de necessidade. Viu como as mãos dele subiam até suas coxas, com os longos dedos aproximando-se do pequeno triângulo escuro. Apertou os músculos e seus joelhos fraquejaram. Ela a mordiscou e subiu para seu pescoço. Com a língua, provou seu pulso frenético. Enquanto isso, ele mantinha os olhos abertos. Olhando-a. Permitindo-a olhar.

— Vou me mover a seu redor. Por um momento, sua visão será imprecisa, mas então minhas lembranças serão suas lembranças e nos verá juntos. —Voltou a deslizar as mãos para cima e lhe segurou os seios.

— Tire a roupa, Byron. Quero ver você. Antonieta disse, com a respiração entrecortada, até a seus próprios ouvidos.

—Eu não me vejo tal como eu gostaria que você me visse. — Havia um toque de ironia em sua voz, mas em frente ao espelho com ela olhando-o, desfez-se da roupa à maneira dos seus. Antonietta ficou atônita.

—Como tem fez isso?

—Sou Cárpato. A roupa é feita de fibras naturais ou é simplesmente ilusão, o que seja mais fácil.

Byron tentava olhar-se, com objetividade, ver seu corpo como uma mulher poderia vê-lo e sentir prazer. Seus músculos eram sutis, mas definidos. Possuía ombros largos e quadris estreitos. Sua ereção, grossa e poderosa, ansiava encontrar o caminho para o mais fundo de Antonietta. Produziu-se um breve silêncio, enquanto ele esperava sua resposta. Quando esta chegou, ela não estava preparada para a onda de excitação sexual, de calor ardente que se apoderou de seu corpo e sua mente. O prazer de ver seu corpo nu.

Byron deu um passo para o lado, cuidando-se em manter o olhar fixo no espelho. Seus dedos eram longos, as mãos de um artista. É nunca tinha prestado atenção neles, mas em contraste com a pele de Antonietta, agora via sua forma e tamanho.

—É muito belo, Byron. — Antonietta observou como ele levantava o braço e enredava os dedos nos cabelos escuros. - Não posso acreditar que esteja realmente vendo. Eu gostaria que não acabasse jamais.

—Estou me movendo a sua volta. Não deixe de olhar o espelho e procure nos manter fundidos mentalmente. Pensa que será uma imagem imprecisa e a verá distorcida, mas não durará. — Ele moveu-se a seu redor, olhando-se a si mesmo por cima do seu ombro. Viu os músculos escuros de suas nádegas relaxar-se e contrair-se, sentiu o repentino ardor úmido e o prazer exacerbado de Antonietta. Seu olhar se deteve em seus seios.

Antonietta se inclinou, e fechou os olhos, mas não pôde bloquear a sensação estranha de enjôo que se apoderou dela. Mesclaram-se as sombras e os contornos. Quis protestar com uma exclamação. Ele lambeu seu mamilo. Uma vez. Duas vezes. Tomou-lhe o seio na boca e o sugou com paixão, estimulando o mamilo com a língua. Ela quase teve um movimento convulsivo, segurou-lhe a cabeça com as mãos e olhou as sombras cinzas e negras no espelho, enquanto a açoitavam sucessivas ondas de poderosas sensações.

Via os dois juntos, imagens nítidas que ele transmitia. Byron alimentando-se de seu seio. Devorando todo o corpo, ansioso por ele e sem pedir desculpas. Suas mãos lhe percorreram todo o corpo, seus dedos totalmente abertos para abranger cada parte de pele que encontrava. Roçava-a com os lábios, acariciava-a e logo seus seios, suas nádegas e deslizou a mão sobre seu ventre até deixar descansar os dedos no triangulo de cachos espessos e escuros.

—Não me importa ser uma gata no cio. – Ela abriu-se ainda mais, para convidá-lo.

Ele esbanjou cuidados especiais sobre seus seios, enquanto nascia um calor líquido em seu baixo ventre, intensificando a sensação dela se sentir quente e úmida e não pôde deixar de mover os quadris, impulsionada por um intenso desejo. Quando ele deixou de lhe beijar o seio, ela murmurou um protesto, mas logo observou, fascinada, quando sua boca se deslocou, lhe roçando levemente o corpo até a cintura e depois, mais abaixo, até o umbigo. Deteve-se por alguns momentos, lambendo-a brandamente, recolhendo com a mão o calor que se espalhava por suas entranhas.

—Não posso respirar. – Reclamou ela, ansiosa por possuí-lo. Não parava de mover as mãos, seguindo o contorno de seus músculos definidos, querendo prodigalizar carícias, enquanto conservava a imagem dos dois juntos. – Estou me consumindo, Byron.

No reflexo do espelho, ela viu quando ele se ajoelhou frente a ela e sem pressa, rodeou-lhe os quadris com os braços e a atraiu para ele. Seu cérebro quase explodiu com os aromas, os gostos e as sensações que dispararam através de seus sentidos fundidos e suas mentes unidas. Ouviu o próprio breve grito quando ele penetrou a língua em seu interior.

Antonietta o aproximou dela, empurrou os quadris para ele, enquanto as lágrimas lhe banhavam o rosto. Aquela intimidade compartilhada multiplicou seu apetite sexual. Agora sentia toda a enérgica plenitude de Byron, a pressão que se acumulava e a ameaça. Sentiu sua natureza possessiva. Seu desejo implacável de possuí-la, de atá-la para toda a eternidade. Duas metades da mesma unidade. Sentiu a fome de Byron. Sua necessidade de convertê-la, de convencê-la de tudo.

Ela tentou se prender a aquele pensamento estranho, mas sentiu que todo o corpo estremecia, num orgasmo selvagem e luxurioso que a transportou para outra dimensão. Sua visão desapareceu quando ele a segurou nos braços e atravessou o quarto com ela, até sua cama. Antonietta mal podia respirar e seus músculos se convulsionaram quando a penetrou com força. Selvagem.

Encheu-a por completo, até o fundo, sustentando-a com força pelos quadris, sujeitando-a enquanto investia implacável, sem misericórdia, lhe urgindo que o acolhesse até o último centímetro. Pele com pele. Coração com coração. Byron se apoderou de seu corpo e ofereceu o seu como se o possuído fosse ele. Faminto dela, sem estar jamais satisfeito. Como se nunca pudesse estar satisfeito.

Antonietta não queria soltar o cabo que o prendia em sua mente. Byron estava em todas partes. Dentro dela, envolvendo-a, como uma parte dela. Quando estava sozinha, em seus sonhos mais ousados, com os dedos no teclado do piano, permitia que a intensidade de sua paixão derramasse, se permitia imaginar a conexão entre um homem e uma mulher. Quaisquer que fossem as necessidades estranhas que tinham açoitado seu corpo durante a noite, todo o sofrimento valia a pena pelo tempo que tinha permanecido em seus braços.

Antonietta se segurou a ele, sujeitou-se com força quando ele penetrou profundo. Queria tê-lo ainda mais fundo, onde a pressão se acumulou e continuou, até que ela começou a arder, uma tempestade de fogo que não podia controlar.

—Byron. — Sussurrou seu nome quando seus músculos se apertaram convulsivamente em torno dele. Quando ele estremeceu tentando prolongar-se. Uma última sacudida os lançou a beira do precipício.

Seguraram-se um ao outro, lutando por respirar, tentando acalmar os corações galopantes.

Byron não se moveu e seu corpo se fundiu nela. Permaneceram entrelaçados, tal como estavam destinados.

- Antonietta, o meu amor. Dou-te todo meu amor.

Agora ela conhecia seu rosto, até mais vividamente que antes. Conhecia cada detalhe que tinha ficado gravado em sua memória, tanto pela exploração de suas mãos, como pelas visões que lhe tinha irradiado Byron. Ele murmurava em seu pescoço e suas palavras chegavam diretamente a seu coração. Antonietta temeu. Sentia que se apaixonara perdidamente por seu poeta escuro. Deslizou os braços a pelo corpo másculo, apertando-o contra ela, desejando que ele nunca a deixasse. Durante toda a noite se manteve abraçada a ele. Cada vez que ele despertava para voltar a amá-la, ela respondia com paixão. Adorava aqueles suaves sussurros, os risos que estalavam uníssonos e desejava que esses momentos compartilhados jamais chegassem ao fim.

 

- Byron. - Antonietta pronunciou seu nome, com voz seca e imperiosa. - Onde está meu príncipe azul quando estou em perigo? Acorde!

Os olhos de um predador a observavam com um só e único objetivo. Antonietta percebeu a profunda maldade que ardia nesse olhar. Com um movimento lento, sentou-se na beirada da cama. Envolveu-se nos lençóis para cobrir-se até o pescoço e com a mão procurou instintivamente, o cão. O borzoi guardava silêncio, mas ela sentiu a tensão latente no animal. Celt estava alerta, e sua postura era a de um caçador à espreita. Era noite e Antonietta não sabia de onde vinha à certeza, mas era noite. Havia tornado a dormir durante o dia. Algo terrível e perigoso espreitava o balcão exterior, tentando entrar como fosse e ela sentiu uma energia escura e maligna que se espalhava pelo quarto.

- Estou com você. Mantenha-se conectada com Celt. - Byron falava com voz tranqüila.

Ouviu que algo pesado golpeava a janela de cores. Que empurrava, arranhando sem cessar, com intenção de entrar. De um salto, o cão se precipitou para a janela, uma fera protetora e feroz que se preparava para o assalto, mostrando as presas. A respiração que Antonietta ouvia o outro lado das grossas paredes era algo horrível. Era como o ar soprando em um túnel. Eram passos silenciosos, mas Antonietta ouvia o fofo contato das pegadas no chão, cruzando o balcão, as garras que arranhavam o batente da janela.

- Está na janela e tenta entrar. Não posso segurar Celt. Agora ele está andando ao longo das janelas. Tenho medo, Byron. - Antonietta vestiu o penhoar. Sentiu o cheiro penetrante de um felino grande e pesado e sentiu que se afogava. – Ele busca-me. Não é a qualquer um de minha família. Ele busca a mim. Não quero ficar histérica, mas sinto que vem me buscar.

O corpo ardia sob a pele, algo muito parecido a sensação que aterrorizara quando menina, ao precaver-se de que no iate de seus pais havia uma bomba. Seus sentidos se afinaram ainda mais. Tinha a cabeça limpa e através de um efeito túnel, percebia e amplificava todos os sons. As cores brilhavam, vermelhas e amarelas, intensas e vívidas. Antonietta não podia apagá-las. Via tudo, mas não com os olhos, mas com outros sentidos e as cores ficavam flutuando em sua mente. De repente, elas adotaram a forma imprecisa, mas reconhecível de um animal de grande porte. Grandes manchas de vermelho no peito e no abdômen, rodeado de sombras de cor laranja que se desvaneciam até parecer-se com um amarelo brilhante. Viu o rastro de uma pata, um amarelo que se convertia em azul e logo desaparecia e então soube que estava vendo o calor corporal. As imagens térmicas se modificavam enquanto o animal ia de janela em janela, apalpando e arranhando e cravando as garras para entrar.

- Eu o vi. É um jaguar. É grande.

- Celt seguirá seus movimentos. Você abandone o quarto. Vá para os aposentos de Franco e fica com ele até que eu chegue. Chegarei logo.

A Antonietta não havia por que dar instruções. A feroz maldade que se respirava do outro lado das grossas paredes do palácio era alarmante. Era um ódio negro que podia apalpar. Uma necessidade de entrar em matar.

—Celt, venha comigo. – Ela disse e abriu a porta de repente.

O felino gemeu. Um som desagradável que se converteu num uivo de raiva agudo. Ao intuir que ela escapava, lançou-se contra vidraça de cores, mais perto da porta. Ela ouviu o terrível golpe quando o pesado corpo se chocou contra a superfície de vidro e chumbo, decidido a entrar. E, em seguida, o ruído ameaçador de algo que se quebrava. Celt grunhiu. Antonietta ouviu um rangido quando o borzoi fechou suas poderosas mandíbulas e mordeu algo que ela não queria identificar. Mais que ouvir, sentiu que o cão sacudia grosseiramente a cabeça.

- Abandone o quarto. Ele manterá o felino na janela. Feche a porta quando sair.

- Não deixarei Celt só aí dentro. O jaguar é uma fera má. Percebo, com claridade.- Ela queria arrastar ao cão para fora, mas nada do que dissesse nem ordenasse, conseguia afastá-lo da janela.

- Faça o que eu disse. - Byron falou com voz suave, mas com um tom grave que penetrou no fundo de sua mente e a obrigou a obedecer, embora ela insistisse em não abandonar seu cão, deixá-lo só ante o perigo.

Byron irrompeu das vísceras da terra, numa nuvem de vapor escuro que flutuou no céu. Uma parte de sua mente seguiu a Antonietta por seu percurso pelo palácio, descendo a escada e através dos longos corredores de aposentos para a ala onde Franco e Marita tinham suas dependências. Outra parte dele permaneceu conectado com Celt. O borzoi se segurou ao focinho do felino, cravou-lhe as afiadas presas e dando um salto para trás, soltou-o. O jaguar retrocedeu com um espantoso uivo de dor.

O cão perseguiu o felino até a janela do outro lado. Uma vez fora, no balcão, o jaguar deu um salto para o telhado, encontrou um cabo e se encarapitou as almenas, correu pelo estreito beiral até chegar à torre, até que Celt o perdeu de vista. O borzoi ia e vinha entre as janelas sem descanso.

- Vá procurar Antonietta. Eu o caçarei.

Byron sabia que havia chegado tarde. O felino lhe levava vantagem. Ao que parecia, algum sistema interno alertara a criatura, de que um predador andava a espreita. Byron só esperava uma pista, um pequeno engano que o guiasse até a guarida do felino. O aroma e o rastro estariam frescos. Não tinha alternativa que descobrir a origem daquele novo perigo para a Antonietta. Por que todos a queriam morta?

O borzoi abriu sem dificuldades a porta que dava para dependências de Antonietta e seguiu seu rastro pelo palácio, farejando. Aquilo tranqüilizou Byron, que concentrou toda sua atenção na caça do jaguar. O felino devia dispor de um esconderijo em alguma parte, a menos que fosse um membro da família de Antonietta. Se esse era o caso, podia dar meia volta e entrar no palácio, depois de adotar uma forma humana.

- Se for um de meus primos, como você tão claramente suspeita, por que não entrou pelo palácio para me atacar de dentro? E não acredito que você sairá com as tuas depois de me ordenar abandonar meu quarto, com o Celt. Teremos que ter uma longa conversa a respeito do que poderíamos chamar de limites.

Ele ignorou seu comentário e se concentrou em suas intenções. - No que está pensando Antonietta? Nem se atreva a rondar pelo palácio.

- Não entende? Se o felino estiver aí fora e todos os meus primos estão em seus aposentos, não pode ser um deles. Irei ver franco e Marita e se estiverem em casa, procurarei Paul e Tasha.

Byron lançou imprecações em várias línguas. - Não fará nada disso. Onde está esse cão? Por que não está com você?

- Ele está aqui e não arme tanto escândalo. - Antonietta bateu na porta de deu primo. Apesar de já ter anoitecido era bastante cedo para que não estivessem acordados. - Byron! Deus! Convidou sua família para o jantar esta noite? - Como era possível que o ouvesse se esquecido? Depois de dizer a Helena, na noite anterior, Antonietta não tinha falado com ela para saber se tudo estava certo.

- Fiz o que me pediu, mas não se preocupe. Não me custará nada anular o conviteser. Pelo bem de todos, pode que seja melhor. Gostaria que sua família não se visse obrigada a conhecer jovem Josef.

- Não. Nem se atreva a anular o convite. Não permitirei que um animal selvagem me prive da possibilidade de conhecer sua família.

Franco abriu a porta e ela se sobressaltou.

—Veio ver Margurite? Hoje ela está melhor. Comprei-lhe um computador e acredito que é a idéia perfeita para diverti-la. — Ele beijou a sua prima na face e a convidou para entrar. – Ela ficará encantada em ver seu cão. As duas crianças já estão fascinadas por ele.

—Onde está Marita? — Perguntou Antonietta, enquanto saudava Vicent e atravessava o quarto para beijar Margurite. Celt ofereceu o focinho para as crianças, como demonstração de carinho.

—Saiu para procurar algum programa educativo. - Disse Franco. - Esteve muito agitada desde que se encontrou com esse… — Murmurou ele, lançando um olhar a sua filha. - Já sabe. Ela está alterada.

— Foi uma experiência aterradora para ela.

—E ela é muito sensível e está muito tensa.

Muito instável. A palavra se apresentou antes que pudesse censurá-la. E percebeu o eco imediato em Byron, que compartilhava sua opinião.

—Tinha esquecido de te dizer que a família de Byron se encontra na comarca e que os convidei para jantar esta noite. Se puderem, eu gostaria de muito que você e sua família estivessem presentes. – Ela segurou a mão de Margurite. - Como se sente, bambina? Dói muito?

Margurite negou com um gesto da cabeça.

—Byron vem à noite e me faz alguma coisa quando estou chorando e a perna deixa de doer. É melhor do que esse medicamento que me dá sono.

—Eu não estava informado disso. - Confessou Franco.

—É que você dorme. - Respondeu Margurite, inocente.

—Quando se trata de aliviar a dor, Byron pode mais que eu. - Explicou Antonietta. - Tenho que me ocupar dos detalhes do jantar desta noite, mas queria me assegurar que soubesse que temos visitas.

Franco riu.

—Quem sabe se o pessoal não a tomaria mais a sério, se andasse pela casa com algo mais que ele penhoar, Antonietta. Cada dia que passa, dorme mais horas durante o dia. Certamente, voces artistas têm horários curiosos.

—É verdade. - Disse ela e o beijou ao passar por ele. - Em qualquer caso, você nos amas igual.

—Assim é. Agradeça a Byron por ajudar Margurite. Assistiremos a seu jantar esta noite e lhe daremos todo o apoio dos Scarletti. Não se preocupe.

— Celt pode ficar comigo? — Perguntou Margurite.

Em seu íntimo, sentiu Byron, esperando sem dizer uma palavra. Não protestou nem colocou objeções, mas ela sentia que prendia a respiração. A preocupação que manifestava por lhe dar segurança.

—Já veremos se ele quer vir te visitar mais tarde. - Prometeu à menina. - Ainda terei que me valer dele. – Ela estirou a mão para acariciar as orelhas sedosas do cão. Era verdade que o borzoi lhe dava mais independência. Jamais teria entrado nos aposentos de Franco sem ele, porque temia que, num de seus arrebatamentos decorativos, Marita tivesse deslocado os móveis ou porque as crianças às vezes deixavam brinquedos esparramados pelo chão. Celt lhe permitia esquivar de todos os objetos como se não estivessem.

- No bosque encontrei o aroma recente do felino. Vi rastros ao redor do jardim e no pátio traseiro, especialmente. O animal tentou entrar através da cristaleira. Há rastros muito claros na porta, como se ele tivesse tentado derrubá-la. E todo o marco está cheio de arranhões.

Antonietta cruzou o comprido corredor que separava os aposentos de Franco, dos de Tasha. Parou ao ouvir uns soluços. Antonietta franziu o cenho e chamou rapidamente, à porta de sua prima. Tasha era capaz de destroçar uma pessoa com sua língua viperina, mas raras vezes a via chorar.

Produziu-se um silêncio imediato. Antonietta ouviu o roçar das malhas e tentou abrir. Estava fechado.

—Tasha. O que está acontecendo?

—Nada, Toni, vá embora.

—Nem pense nisso. Abra a porta ou irei procurar a chave mestra. —Experimentou um ligeiro alarme, porque Tasha nunca se encerrava em seu quarto.

—Há alguém aí com você?

—Só Celt. O que está acontecendo Tasha? Assusta-me.

Byron intuiu que aumentava a ansiedade de Antonietta. Detectou uma sombra que lhe rondava o pensamento, enquanto percorria os terrenos em busca do jaguar. Os felinos eram conhecidos por seu sigilo e sua capacidade de se ocultar. Byron estava seguro de que este era mais hábil que a maioria.

A porta se abriu lentamente. Tasha deu um passo para trás para permitir que sua prima entrasse e voltou a fechar rapidamente com chave.

—Cuidado com a cadeira, Toni. Só um minuto, deixe que eu a mova. Não me dei conta de que estava deslocada.

Antonietta, que era sensível a todos os matizes, ouviu o tremor na voz de Tasha, embora fosse evidente que ela fazia o possível por dissimulá-lo.

- Algo aconteceu, Byron. Ela sempre me conta tudo. Conta-me cada detalhe. Nunca se comporta desta maneira.

- Peça a Celt que a olhe.- Byron se concentrou, servindo-se das imagens transmitidas pelo animal. Tasha tinha o rosto inchado e umedecido pelas lágrimas. Olhou mais de perto e a ira lhe revolveu nas vísceras. Verá com a ponta dos dedos, carinho. Alguém bateu nela. Está com o olho inchado e o lado esquerdo da face machucado.

Antonietta segurou sua prima pela mão e se aproximou dela.

—Quem se atreveu a fazer isto? — Perguntou, logo que roçou a ponta dos dedos em sua face, para não provocar mais dor. - Teria que ter vindo me ver imediatamente. Teria te ajudado.

—Sentia-me muito humilhada. - Confessou Tasha e voltou a ter um ataque de choro. - Não queria que me vissem, nem que soubessem. E você ainda estava na cama com… Esse homem. – Ela disse, pronunciando as últimas palavras como se fosse uma acusação.

—Cristopher te fez isto?

—Veio me ver hoje, como todos os dias, com suas exigências. Não gosta de como visto. Que quer que mude de penteado. Que não sei nada de arte. A lista de meus defeitos é interminável e nem sequer conhece o mais horrível de todos. – Ela disse, com um soluço. Tasha abraçou Antonietta e chorou em seu ombro como se tivessem quebrado seu coração.

Antonietta a abraçou. Até Celt se aproximou das pernas de Tasha, querendo consolá-la.

—Suponho que o terá mandado para o inferno.

—Por isso ele me bateu. Estava furioso quando lhe devolvi seu anel. Disse que não me permitiria romper o compromisso. Disse-me coisas horríveis. — Ela elevou a cabeça e levou a mão de Antonietta ao quadril. - Pegou tão forte que caí e então me ele me chutou.

A ira brotou de um nada e Antonietta se estremeceu sob sua intensidade. Não sabia se era sua própria reação ou se estava tão profundamente fundida a Byron que a ira que sentia era a dele. A combinação era mortífera.

—Seria capaz de vender o palácio antes de permitir que essa fera de homem volte a se aproximar de você. Nonno pensaria o mesmo eu, e Franco e Paul também. Eu mesma queria dar umas sacudidas nesse Cristopher.

Segurou-lhe um lado da face, concentrada em reunir sua força interior. - Byron, me ajude. - Sabia que ele a ajudaria, que seu poder de cura era enorme e que, ao somar-se ao dele, acabaria com todos as dores. Sentiu como ele se movia em seu interior. Acumulando forças, conectando-se a Tasha. Antonietta ouviu um cântico suave, palavras de uma língua que não identificou, apesar de que estava familiarizada com muitas.

Tasha se afastou quando sentiu diminuir a terrível dor no rosto e logo, quase se desvaneceu de tudo. Levou a mão à face.

—Sinto-me melhor. Grazie, Toni. —Tasha passeava de um lado para outro mechendo no cabelo, angustiada. - Cristopher poderia nos criar problemas. Poderia criar problemas ao Nonno. Disse que armaria um escândalo. Nossa família não pode se dar o luxo de mais escândalos.

—Os Scarletti nasceram para se ver envoltos em escândalos. Acredito que deveríamos chamar seu atraente capitão e denunciar Cristopher Demonesini. Pode ser que consigamos que esse rato passe umas horas na cadeia.

—Só quero esquecer que alguma vez tive algo a ver com ele.

—Não me surpreende que tenha abusado de você. Cristopher cresceu pensando que tinha direito a tudo o que quisesse. Lamento que tenha te feito mal, Tasha, mas a verdade é que agradeço por ter terminado com ele.

—E eu quisesse que você terminasse com Byron. Não que compare Cristopher a Byron, mas ele me assusta mais do que jamais poderia me assustar Cristopher. Quero que me prometa que tomará cuidado. Há algo estranho nele. Por que não sabemos nada de sua vida?

—Esta noite sua família vem para jantar. Sua irmã, seu marido e seu filho. Poderemos fazer todo tipo de perguntas.

—Esta noite? — Perguntou Tasha com voz aguda e se cobriu a face com as mãos. - Como é possível que seja justo hoje, Toni? — Ela disse, lamentando. - Eu gostaria de conhecer sua família. Mas não me posso sentar à mesa com esta cara. Tem que recebê-los para jantar, justo esta noite? Não podem esperar uma ou duas semanas?

—Tasha, estão de visita na região. Sabe muito bem que não posso pedir que esperem. Sempre quiseste protagonizar um drama. Deveríamos convidar o capitão para jantar também. É a oportunidade perfeita. E eu tenho que me vestir. Esta noite, quero ter um aspecto especial e não quero pedir a Justine que me ajude.

Tasha segurou uma mão a Antonietta.

—Certamente, eu te ajudarei. Mas não convide Diego. Não quero que me veja assim.

—Ainda não falei a Paul sobre o jantar e tenho que falar com Helena. Quero verificar que tudo esteja a ponto.

—Chamarei a Helena e lhe direi que se reúna conosco em seus aposentos. Paul saiu. Saiu quando Cristopher chegava.

Antonietta sentiu um calafrio nas costas. - Byron? - Buscou-o, precisando do alívio de sua presença.

- Estou aqui, cara. Sempre estou com você. Paul sai freqüentemente. Não prova nada.

Antonietta ouviu os batimentos de seu coração. Seu medo desvaneceu. - Obrigado Byron. Parece que sempre pensa o mais indicado.

—Teremos que nos apressar. —Tasha voltou a se olhar no espelho. - Já não me dói tanto, mas tenho um aspecto horrível. Vamos, antes que mude de opinião. Vamos encontrar um vestido perfeito para esta noite.

Antonietta apressou o passo, subiu a escada, com Celt a seu lado e Tasha na frente. Helena esperava a sua porta, tentando ocultar o melhor possível sua exasperação ante essa ingerencia de Antonietta.

—Estou segura de que tudo está bem, signorina.

—Entá, perfeito. - Respondeu Tasha. - Só queria verificar, Helena. Já pode voltar para o que estava fazendo.

- Você foi muito rude. – Antonietta falou, quando a governanta desapareceu a toda pressa.

—Ela foi rude. Deveria saber que você nunca arma problemas. Isto deve ser importante para você ou não estaria tão preocupada.

—Não estou armando problemas.

- Sim, está.

Antonietta abriu com cautela a porta de seu quarto e permitiu que Celt entrasse primeiro. Quando o borzoi não deu sinais de alarme, ela entrou, mais confiada. - Ninguém lhe perguntou isso.

Ele respondeu com uma gargalhada.

—Toni, a janela. —Tasha se aproximou de um dos grandes vidros da janela, que dobrara para o interio. – O que qconteceu?

—Aquele felino tentou entrar. Byron está fora, o buscando.

—Que aterrador. Chamaste Diego?

—Não, nem pensei em chamar à polícia. Saí correndo do quarto.

—Teremos que fazer com que reparem isto. Enquanto isso, possivelmente deveríamos colocar grades, para maior segurança. —Tasha abriu de um golpe, as portas do armário. - Algo feminino, mas não muito sexy.

- Você fica sexy com qualquer coisa que vista. – A voz de Byron em sua mente, era amorosa.

- Não esta noite.

Na realidade, sabia que não se vestiria para a família de Byron. Vestiriaa-se para ele. Queria parecer feminina e bela. Queria que sua imagem correspondesse a da mulher que tinha visto no espelho.

—Aquele conjunto longo, o de seda azul com o pequeno bolero de botões de pérolas. - Decidiu Tasha. – Será a imagem perfeita. Pianista, mulher de negócios, entretanto, feminina.

- Vestido comprido, Byron. Não tem nada de excitante.

- Esta noite, durante o jantar, pensarei naquele soutien de renda que não cobre nada. E em sua tanguinha. Naquele pequeno e precioso objeto que me persegue mentalmente, a cada minuto de minha vigília.

- Preocupa-me. Mas me preocupa ainda mais que eu goste de sua maneira de pensar. Encontrou o jaguar? Paul não está, mas Tasha e Franco, sim.

- O felino rondou perto da enseada e mais abaixo, nas cercanias da caverna onde se encontra a entrada ao túnel. Os rastros se afastavam do palácio e logo voltavam, mas a água apagou o aroma. Apresse-se e se vista. Sua governanta está atentando seu chef.

O jaguar se valeu da água para confundir o rastro dos aromas. Byron não conseguiu encontrar um, a partir e a enseada. Havia uma mistura de diferentes aromas humanos e era impossível distinguir entre todos eles, um que fosse capaz de mudar. Dissimulando sua presença, voou para o balcão de Antonietta, enquanto enviava um rápido aviso a Celt, para que o borzoi não se inquietasse nem alarmasse as mulheres. O mal em uma das janelas era considerável. O jaguar tinha tentado forçar a entrada do quarto. Não havia dúvida de que sua vítima era Antonietta.

Byron crispou os dedos sobre a balaustrada. Para Antonietta havia acabado o tempo. E ele não podia se dar o luxo de esperar, quando a espreitava um inimigo dessa natureza. Tinha que permanecer a seu lado.

- O que está acontecendo? Está muito triste. Venha para perto de mim e deixe de pensar em coisas que entristecem. Não me aconteceu nada, nem me acontecerá nada. Lembre-se que me deu Celt de presente.

Aquela voz o encheu de felicidade e, entretanto, era como se lhe rompesse o coração. Tinha que encontrar uma maneira de convencê-la. Queria que ela escolhesse sua vida. Que o amasse o suficiente, para escolhê-lo. Sua família e sua música eram seu mundo, mas tinha que haver uma maneira dele lhe dar tudo e, mesmo assim, compartilhar a vida com ela e protegê-la.

- Byron, o que está acontecendo? Eu falo de meus problemas com você. Quero que faça o mesmo comigo.

Havia uma ameaça de dor em seus pensamentos. Byron se sentou. - Mais tarde. Depois que conheçer minha família. Teremos muito tempo para conversar.

Byron entrou por uma greta na janela, como um fio de névoa que entrava no quarto e depois, por baixo da porta para chegar ao corredor, de modo que quando ela saiu, ele a estava esperando. Até se lembrara em se vestir especialmente para ela.

Tasha virou a cabeça e por uma vez, não falou com ele. Ele a viu ruborizar quando apertou a mão de Antonietta e se afastou a toda pressa. Ele permaneceu onde estava, contemplando sua companheira. Naquele momento, soube que sempre experimentaria essa sensação de encantamento, cada vez que a olhasse. De regozijo ante sua existência. Ali estava ela, com um vestido azul que se aderia a suas curvas e ondeva como se estivesse vivo, quando ela caminhava. Por um momento, ele ficou sem fala, incapaz de armar suas idéias.

—O cozinheiro está muito irritado?

Ele pigarreou, sem tirar os olhos de cima dela. Era evidente que Antonietta não fazia idéia do efeito que causava nele e talvez, fosse melhor assim.

—Ouça, pode ouvi-lo discutindo com a governanta e seu assistente.

Antonietta descobriu que podia ouvi-los. Só bastava ficar atenta. Na cozinha, desatava uma discussão acalorada.

—A vida alguma vez é fácil? — Concluiu Byron, com um sussurro e segurou a mão dela. Celt se situou junto a eles e desceram até a enorme cozinha. Havia várias pessoas ocupadas e o aroma do pão assado e dos molhos, impregnava o ambiente. Todos calaram quando os viram entrar.

—Acredito que não temos nenhum problema aqui. - Disse Antonietta, com um sorriso forçado. - Dispomos de muito pouco tempo para preparar este jantar. Nossos convidados chegarão a qualquer momento e tudo deve estar perfeito. Já dei o visto ao menu e pedi que usassem a toalha de renda irlandêsa e nossa melhor baixela. O palácio tem que estar impecável. Se precisarem pedir as criadas que façam horas extras, por favor, avisem que serão recompensadas. - Durante um momento ela vacilou, acostumada como estava a que Justine se ocupasse dos detalhes e agora não sabia bem como proceder. Normalmente se limitava a dar ordens básicas, a Helena.

A governanta ruborizou.

— Sou perfeitamente capaz de me ocupar desses assuntos, signorina. – Ela disse, com voz tensa. - Possivelmente perdeu sua confiança em minhas capacidades para dirigir o pessoal?

—Não. Certamente que não, Helena. - Se apressou em responder, Antonietta. - Só que este jantar é muito importante para mim. Ouvi dizer que o cozinheiro não estava de acordo com o menu.

- Bela, a verdade é que minha família se contentará com qualquer coisa que lhes servir. Importa pouco. O motivo da visita é conhecer você. - Byron deixou descansar a mão em Antonietta, esperando acalmar sua agitação ante a perspectiva de conhecer sua família. - Estão muito felizes porque a encontrei. Desejam lhe dar boas vindas, a nossa família. Eleanor ficou muito contente quando contei que estávamos unidos.

- A mim, importa. - Antonietta estava distraída e não lhe prestava atenção.

Byron deslizou a mão até seu braço e encontrou seus dedos, até que fifcassem entrelaçados.

—Signorina. - Helena se pronunciou e mudou de postura com um gesto nervoso. - A toalha de renda irlandesa desapareceu. Quando pedi que fossem buscá-la, para que fosse preparada a mesa do salão de jantar, a criada me disse que não a encontrou, que desapareceu. A toalha de renda Medici é muito bonita.

—Desaparecida? O que está acontecendo? Como pode desaparecer a toalha de renda irlandesa? Pertencia a minha mãe. — Byron colocou a mão no ombro dela. Antonietta estava atuando com muito rigor e estava deixando seu pessoal nervoso, embora a única que se angustiava ante a perspectiva de conhecer sua família era ela. Além disso, entendeu imediatamente a importância que a toalha tinha para ela.

—Sinto muito, signorina. Entendo-a, farei com que a procurem novamente, mas se não a encontrarmos, tem que haver uma alternativa. - Avisou Helena, cuja voz se adivinhava um certo desespero.

—Quero que tudo esteja perfeito, Helena. Não pode ser que a família de Byron venha jantar em minha casa e não tenhamos a toalha de renda irlandês na mesa.

—Sinto muito, signorina Antonietta. Procurareu na lavanderia, imediatamente. — a governanta fez um sinal ao cozinheiro e seu assistente para que se apressassem.

—Perdão... Esta família... Bem, seus convidados especiais, - falou - Esteben, o ajudante. - são relações de negócios ou som amizades? Ou possivelmente as duas coisas?

Alfredo, o chef, foi às nuvens, ao ouvir a pergunta. O homem agitou os braços e deu um tapa na orelha de Esteben.

—Jamais se pergunta uma coisa dessas, a signorina.

Antonietta ouviu o impacto surdo que produziu o tapa de Alfredo e fez uma careta.

—Alfredo! — Exclamou, em tom de feroz reprimenda. - Não faça isto! Por favor, em minha casa se absterá de agredir alguem. Deveria sabe que não permito que minha gente se agrida dessa maneira.

—Pensei que teria importância para o menu, Alfredo. - Explicou Esteben, se desculpando. - Peço desculpas, signorina.

—Não há nada a perdoar, Esteben. - Disse Antonietta, se colocando a frente de seu cozinheiro, com os braços em riste. - Pode ou não pode organizar este jantar, Alfredo? Sim ou não?

Havia um toque de claro desafio em sua voz. Byron também percebeu um ponto de desespero. O jantar não importava nada a sua família, mas importava a Antonietta. Concentrou-se no chef. Por um instante, ele viu brilhar em seu olhar, uma chama diabólica.

Alfredo olhou para Antonietta e logo para Byron. Limpou o olhar e ergueu as mãos, num gesto de passividade.

—Certamente, signorina. Se desejar que eu troque o menu, farei com gosto.

—Bem. Grazie, Alfredo. Não pode imaginar o quanto é importante para mim, esse jantar. Sairei daqui, para que ponha mãos à obra. – Ela disse e deu meia volta. Segurou a mão de Byron—. Alegro-me muito em ter solucionado este assunto. Estou muito nervosa.

Byron levou sua mão aos lábios e mordiscou seus dedos.

—Não tem por que. Eleanor se prenderá em você, quando a vir. Como poderia ser de outra maneira? Vlad é um homem muito tranqüilo, um homem de temperamento estável. Adora Eleanor e lhe dá quase tudo o que quer.

—É ourives como você? É artesão?

—A sua maneira, sim. Eu possuo um dom especial para encontrar as pedras preciosas, chamando-as. A gema perfeita para cada peça que desenho. Vlad não gosta do desenho de jóias. Prefere a escultura. Suas obras são muito valorizadas. Eleanor se agradou muito ao saber que ele era um artesão. Jamais poderia ser feliz junto a um caçador.

—Caçador? O que caçam?

Byron deveria ter imaginado que ela prestaria atenção no que dissera. Ele estava se tornando muito familiar com ela. Antonietta estava tão conectada a ele, que Byron não sabia mais onde começava ele e onde terminava ela. Começava a se dar conta de quão unidos chegam ser os casais.

—Deveria ter utilizado a palavra, executor. O trabalho de Vlad é muito parecido ao do capitão Diego. Explicarei quando tivermos mais tempo.

Antonietta alongou as mãos e as colocou diante da face, enquanto com seus dedos sensíveis, percorria o rosto dele, seguindo cada um de seus traços.

—Sim, acredito que terá que me explicar isso Byron. Não só está com o cenho franzido, mas também intuo que tem certas reservas. Temos muitas coisas do que falar, não é verdade? Por exemplo, onde estão os limites.

Ele respondeu com uma careta.

—Só disse, porque me preocupa sua segurança.

—Isso não é o que quero ouvir.

—Nosso contato mental está se convertendo numa dor de cabeça.

—Só quando tenta me ocultar às coisas. Estou ansiosa por conhecer sua família. Especialmente sua irmã. Suponho que ela poderá me contar histórias maravilhosas sobre sua infância. Ela poderá me dizer, se algum dia você se inteirará do significado da palavra limite.

Ele respondeu com um grunhido.

—Eleanor tem tendência a inventar as coisas.

Antonietta sorriu.

—Está mentindo para mim. O mais provável é que ela não tenha necessidade de inventar nada. Estou ansiosa por saber como você foi quando era pequeno.

—Antonietta, detestaria ter que te pegar como se fosse um pacote, na presença das duas famílias e ter que te levar para cima, mas te asseguro que isso é o que acontecerá se você mencionar minha infância, mesmo uma só vez.

Antonietta se sentia transbordante de alegria. Como era possível que algum dia tivesse conseguido viver sem a emoção de compartilhar? Sem a presença de Byron em sua vida?

—Não se atreveria. Dá a casualidade, de que sou uma famosa pianista. Sou uma pessoa muito respeitável e esse tipo de coisas não se faz.

—Dá a casualidade de que é uma pianista mundialmente famosa, mas isso será o que acontecerá se você se atrever.

—Se pensa agir como um menino, simplesmente esperarei até que Eleanor e eu estejamos a sós, para lhe perguntar sobre todos os detalhes humilhantes de sua infância. Também comentarei sua tendência a mandar e a exigir que as coisas sejam feitas a sua maneira. Possivelmente, ela me dê alguma idéia de como remediar esse pequeno defeito seu.

Byron voltou a pegar sua mão. Não tinha intenção alguma de deixar Eleanor a sós com a Antonietta.

— Já te disse o quanto você me fascina como fica esse vestido?

—Não, mas pode me dizer isso se isso for o que quer. Queria estar muito bonita para sua família.

—Está bela. Tentadora. Poderia te raptar agora mesmo. – Ele falou, sonhador. Construiu uma imagem mental, prestando grande atenção aos detalhes. - Antonietta deitada nua na cama, seu cabelo como uma nuvem de seda espalhada sobre o travesseiro, enquanto ele afundava a cabeça entre suas coxas e ela se retorcia de prazer.

Antonietta ruborizou e teve que se abanar com a mão.

—Pare agora mesmo! Sua família está a ponto de chegar e tenho muitas coisas do que me ocupar.

—Pensava que tinha que se ocupar de mim. — Escondendo-se atrás do móvel mais próximo, Byron levou a mão de Antonietta a seu membro. Estava duro como uma rocha.

Antonietta esfregou o grosso vulto.

—Pobre criança, ninguém se ocupa dele. Se não tivesse o costume de me abandonar quando estou dormindo, possivelmente sentiria mais simpatia. — Seus dedos dançaram ao longo do membro rígido, numa promessa tentadora. Mordiscou-lhe o queixo. - Mas, tal como estão as coisas, não estou com nenhuma simpatia por você. – Ela disse e se afastou sorrindo. Seu vestido girando à altura dos tornozelos. - Onde se colocou Helena? Tem que comprovar se as salas estão totalmente limpas. O que acontecerá sua família quiser dar uma volta pelo palácio?

Byron se deu conta, que caminhar era doloroso.

—Não penso em deixar que me torture desta maneira, Antonietta. — Ela sorriu mais ainda. Um riso suave e tão contagioso que ele se surpreendeu sorrindo.

- Deixe de se preocupar. Minha família vem conhecer você, Antonietta, não o palácio. Não importa o que prepare para o jantar. De qualquer modo, eles a acharão encantadora. Confie em mim. Procurei você por muito tempo e eles estão emocionados porque, afinal, te encontrei. E Helena foi procurar a toalha desaparecida.

Byron diminuiu a marcha e caminhou junto a ela pelo amplo corredor. Quando passaram junto ao estudio de música, ouviram que um objeto que se estrelava contra o chão de mármore. Também ouviram partes de algo que se quebrava, após cair no chão.

Antonietta se virou para a fonte do ruído, alarmada.

—O que é isso? Espero que não seja outra crise. Sua família chegará a qualquer momento.

—Ninguém deveria entrar em seu estudio. Pensei que era seu espaço privado. – Byron disse com voz suave, apenas um murmúrio.

Antonietta ficou rígida. Estava tão distraída com a idéia de conhecer a família de Byron, que não parou para pensar que alguém poderia estar mexendo em suas coisas.

—O mais provável é que seja Vicent. Está tão aborrecido porque não pode brincar com Margurite. — Vicent nunca havia entrado em seu estudio. A sala, com sua acústica perfeita era um espaço proibido a todos os habitantes da casa, enquanto Antonietta estava compondo, que era quase sempre.

—Duvido que seja o pequeno Vicent. Fique aqui com Celt. — Byron varreu o estudo de música com o olhar e em seguida soube quem era e o que procurava tão freneticamente entre as partituras.

—Marita. Disse Antonietta, com voz afogada, porque tinha captado a imagem mental de Byron. – É certo que busca a peça de Händel. Não penso ficar aqui enquanto você enfrenta minha cunhada. Se ela dispuser a trair a família, quero saber que está acontecendo.

Byron estava assombrado. Antonietta entrava e saía de seu pensamento com a facilidade de uma perita. A telepatia era algo tão natural nela, que não lhe temia, absolutamente.

—Parece que há vidros quebrados pelo chão. Não quero que te façam mal.

—Estou de sapatos.

Ele lançou um olhar ao suave couro italiano de seu calçado.

—Sandálias e com os dedos descobertos. Não pode se dizer que sejam sapatos.

Ela deixou escapar um grunhido que traduzia seu mal-estar. Vestira-se com o maior cuidado, tentando ter o melhor aspecto possível para apresentar-se ante a família dele. Mas era como se tudo funcionasse ao contrário. E agora, Marita remexia em suas coisas.

Byron se moveu com sigilo e se ocultou aos olhos de Marita. Viu que a mulher estava atarefada, abrindo uma gaveta atrás de outra e inspecionando os conteúdos.

- O que ela está fazendo?

- Busca alguma coisa. - Byron se contactou mentalmente com Marita, com idéia de desvelar suas intenções e ao mesmo tempo, fundindo-se com Antonietta.

Marita chorava silenciosamentye, enquanto murmurava orações e procurava entre papéis e partituras.

—Tenho a certeza que é a partitura do Händel. – Falou Antonietta. Byron se apressou a mostrar sua presença, quando Marita se virou. Ela gritou e cobriu o rosto com as mãos.

—Não grite. - Ordenou ele, entre dentes, por puro instinto de preservação.

—Por que está fazendo isto, Marita? É uma Scarletti. Se você ou Franco precisam de dinheiro, por que não veio falar comigo? - Perguntou Antonietta, magoada. - Não a entendo.

—Franco não sabe nada disto. Não pode saber. Por favor, Toni, não conte nada disto a ele.

O enorme aldabón da entrada principal ressonou em todo o palácio. Antonietta segurou o braço de Byron.

— Eles chegaram. Tenho que fazer vir uma criada e limpar imediatamente estes cacos de vidros.

—O que pensa fazer, Toni? — Perguntou Marita. - Se contar a Franco o que tenho feito, destruirá meu matrimônio. Ele vai se separar de mim. Sabe que separará.

   —Eu não posso intervir nas decisões de Franco, Marita. Tentaste roubar um importante tesouro de nossa família. A quem pensava levar?

—Não posso dizer.

A imagem sulcou sua mente como um brilho. E o desprezo se apropriou dela. Desprezo e temor. Fundida com Byron, Antonietta recolheu a imagem mental da Marita.

—A dom Demonesini? Pensava entregar a esse homem horrível, um dos tesouros dos Scarletti?

—Como pôde saber? Eu não disse nada. Jamais pronunciaria seu nome, o nome do demônio em pessoa. - Disse Marita e se benzeu várias vezes.

Uma onda de desconcerto e temor chegou desde todas as direções. No corredor ressonaram passos apressados de uma pessoa.

—Signorina Antonietta, que o bom Deus tenha piedade de nós. —Era Helena que entrou correndo na sala, com a respiração entrecortada e agitando as mãos desesperadamente. – Encontramos! Encontramos Enrico. Estava no duto da lavanderia, envolto na toalha de renda irlandesa.

Atrás de Helena apareceu uma criada.

—Signorina Antonietta, acabo de lhes pedir ao Sr. Vlad e Sra.. Eleanor Belandrake e a seu filho, Josef, que a esperassem no salão da estufa.

 

O silêncio era ensurdecedor. Byron abraçou Antonietta pelos ombros, para tranqüilizá-la.

—Suponho que Enrico esteja morto. — ele teve um repentino impulso de sorrir, diante a situação ridícula, mas sabia que Antonietta não apreciaria seu senso de humor.

— Deus! – Helena levou a mão à boca. - Quando as criadas foram procurar a toalha desaparecida, o aroma era tão forte...

— Por Deus! Economize essa parte, por favor, Helena. - Pediu Antonietta, elevando uma mão para sossegá-la. - Não pode ser que esteja acontecendo tudo isto, Byron. Não posso receber sua família para um jantar, com um cadáver na lavanderia. O que devo fazer? Pobre Enrico. Era um homem corpulento. Nem imagino como pode ter acabado lá.

—Está entupindo o… - Acrescentou Elena. - Não sei como o tiraremos.

—Falarei com minha irmã e seu marido, Antonietta. Estou segura de que entenderão. Chame o capitão Diego e o informe de que encontramos o cozinheiro.

- Falaremos com Marita mais tarde, quando as coisas se acalmaram. Sinto por seu cozinheiro e pela toalha de sua mãe.

—É impossível voltar atrás com o do convite a sua família. —Antonietta estava horrorizada. - Pobre Enrico. Era um homem muito só, mas aqui era mais um da casa.

Marita ficou boquiaberta quando entrou Franco, vestido com um traje cinza escuro.

—Os rumores viajam rápido pelo palácio. Tasha está informando à polícia e pediu que sejam discretos e utilizem a entrada de serviço. Nonno está com seus convidados, entretendo-os no estufa. —Franco lhe deu um leve aperto no ombro de sua prima, como amostra de simpatia. - Conseguiremos, Toni. Não entre em pânico. Marita, deixei Vicent e Margurite vendo um filme enquanto jantamos. Por favor, apresse-se. Este jantar significa muito para Toni e não podemos falhar.

—Não podemos nos sentar para jantar com um cadáver na lavanderia. - Objetou Marita.

—Dom Giovanni está explicando neste mesmo momento que tivemos uma desgraça no palácio. Enrico viveu aqui toda sua vida. É um dos nossos e nos ocuparemos dele. Toni, voce está muito bonita. Vá com Byron e se reúna com sua família. Entendo que na cozinha estão todos histéricos. Descerei e me assegurarei de que o cozinheiro novo, como se chama... ?

—Alfredo. – Respondeu, Antonietta.

—Assegurarei-me de que Alfredo se tranqüilize e não nos falte. Eu me ocuparei disto, Toni. Sei o que significa para voce. Marita, faça o que digo. —Ele lançou um olhar em torno do aposento e notou os cacos de vidros no chão e os papéis nas mãos de Marita.

Esta olhou com ar desesperado para Antonietta e Byron, como se eles pudessem salvá-la, logo se virou e saiu apressada do estudio.

—Helena, chame às criadas e se assegure de que limpem esta sala. - Ordenou Franco.

—Sim, senhor Scarletti.

Franco segurou a mão de Antonietta.

—Tudo se arranjará, Toni. Juntos poderemos superar, como sempre tem feito nossa família. A família de Byron ficará encantada com você.

—Apesar do cadáver na lavanderia, envolto na toalha de renda irlandêsa de minha mãe. - Disse Antonietta, com um toque de ironia. - Não posso acreditar que tenha acontecido isto. Pobre Enrico. Quem iria lhe fazer mal?

Byron a estreitou nos braços.

—Descobriremos, Antonictta. Prometo-lhe. Já não podemos fazer grande coisa por ele. Venha conhecer minha família. Não lhes importará o mínimo, se não haver jantar. Vieram te conhecer, não comer. Bela, não desespere. Sei que tinha muito afeto por Enrico, intuo-o em seu coração. O comportamento de Marita não é o que parece. Li sua mente e sei que não deseja dinheiro. Detesta e teme este homem. Não sei por que. É uma pessoa muito emocional e além dessa intensidade, custa-me ver a verdadeira razão pela que se apoderou da partitura de Händel. Quando tiver tempo, analisaremos suas lembranças e averiguaremos o que está acontecendo.

Antonietta apoiou a cabeça em seu peito.

—Sinto-me, como se minha vida inteira estivesse de pernas para o ar. Franco, voce viu Tasha? Você conhece o Cristopher desde que era menino. Sabia que era capaz de algo assim?

Franco negou com um gesto da cabeça.

—Penso chamá-lo na conversa, amanhã.

—Não será necessário, Franco. — Byron falou com voz calma, mas nela havia implícita uma ordem. - Eu falarei com o Cristopher Demonesini sobre como se tratam as mulheres. Você tem muito que arriscar, eu não tenho uma reputação a proteger.

—Nenhum dos dois vai falar com Cristopher. – Replicou Antonietta, com firmeza. — Acredito que o homem mais indicado é capitão Vantilla.

Os dois homens se olharam, por cima de Antonietta. Byron a segurou pelo braço e saíram tranqüilamente do estudo, com Franco a seu lado, no momento em que uma criada entrava rapidamente, para recolher os cacos de vidro.

—Sabe perfeitamente, que Demonesini tem muito dinheiro para que o condenem por um delito, embora a vítima tenha sido Tasha. - Disse Byron.

—Então o arruinaremos no plano social e financeiro. - Concluiu Antonietta, com semblante sério. — Seus negócios já correm sérios perigos. Não custará tanto dar um empurrão para lançá-los ao vazio. Ninguém pode infligir dano impunemente, a minha família.

—Fala como uma autêntica Scarletti. – Franco se pronunciou. - Que seja um aviso para voce. - Byron. Somos gente que saboreia a vingança.

— Retribuição. - Corrigiu Antonietta. - Justiça. Não é precisamente igual à vingança. Pergunte ao Nonno. Estou segura de que ele te dará a mesma opinião.

- Falo sério, Byron. Tudo isto me toca profundamente. Como se atreve esse homem horripilante, a agredir minha prima e pensar que sua vida pode continuar como se nada acontecesse?

- Eu não disse nada, bela.

- Só quero que saiba do que sou capaz. Possivelmente disso, voce não me ache tão atraente. - Antonietta falava como se estivesse lançando um desafio.

Byron se inclinou, para roçar a canto de seus lábios. - Ao contrário, acredito que encontrará perfeitamente seu lugar entre minha gente. - Em sua voz havia um toque de humor.

Franco pigarreou.

—Curiosamente, minha querida prima, estou de acordo com você no caso de retribuição. Irei à cozinha a me ocupar de Alfredo. Esperarei até que o capitão chegue, de modo que possa falar com ele sem que seja armado drama.

—Grazie, Franco, realmente agradeço sua ajuda. —Antonietta estendeu a mão e sua primo a segurou como amostra de simpatia.

— Cuide dela, Byron.

—Será um prazer. — Byron segurou a mão a Antonietta em seu braço e seguiu com ela através das salas do palácio. - Lamento verdadeiramente, sobre a toalha. Quando um ser querido morre, nos apegamos às coisas que eles apreciavam.

—Já sei que é ridículo sentir-se irritada por uma coisa assim, quando o pobre do Enrico acaba de morrer em nossa casa. - Suspirou Antonietta. - Me sinto ridícula em pensar na toalha.

—Tenho um medalhão que fiz para minha mãe. Era um menino ainda e certamente hoje não o consideraria uma boa peça, mas ela adorava. Sempre o colocava. Mais tarde, quando aperfeiçoei meu ofício e lhe dei de presente outras peças muito mais valiosas, ela continuou usando o medalhão. — Byron ouviu a risada de sua irmã, que falava em voz baixa com Dom Giovanni. Aquilo despertou nele uma terrível saudade.

—Byron? — Antonietta se detera bruscamente, justo às portas da estufa. - Já sei que não falo sobre o que sinto, porque me custa colocar em palavras, mas voce é muito importante para mim. —Em seguida negou com a cabeça. - Isso não é o que queria dizer.

Ela parecia à beira das lagrimas e ele a estreitou em seus braços.

—Já sei o que sente por mim, cara. Sinto o mesmo por você, lembra-se? Estamos conectados. Não tem que me dizer com palavras. Com o tempo, elas virão.

—Só queria que soubesse.

Byron lhe segurou o queixo e a fez olhá-lo nos olhos.

—Já sei. – Ele aproximou os lábios de sua face, baixou lentamente, até seus lábios. Estreitou-a, fechando os braços possessivamente, aventurando a língua até a canto de seus lábios, até que ela se abriu para ele. Não lhe deu oportunidade de se separar, nenhuma possibilidade de ser um beijo casto. Byron se apoderou dela com um apetite desenfreado. Desejava-a com cada fibra de seu ser e esvaziou a intensidade de sua necessidade, nesse beijo. Queria que Antonietta se sentisse amada, que se sentisse bela e segura. Segura dele e dos sentimentos que albergava por ela.

O fogo se apoderou de ambos, imediatamente. Seu corpo reagiu engrossando-se, endurecendo-se. Ardia em desejos de tomá-la. No fundo de sua natureza, a fera sempre presente elevou a cabeça e lançou um rugido em demanda, de sua companheira. De seus direitos. Byron deslizou as mãos pelas costas de antonietta e seguiu o contorno de sua cintura, memorizou a curva de seus quadris e encontrou suas nádegas. Antonietta usava uma de suas delicadas e excitantes tangas. Não havia nem indício da malha sob a seda de seu vestido.

Byron aprofundou no beijo e esqueceu tudo, exceto da paixão ardente e desenfreada de sua boca. De seu corpo. Atraiu-a ainda mais para si, deixando a estampagem de sua necessidade, de toda a extensão de sua dureza, em sua carne suave. Manteve-a assim, deleitando-se enquanto ela movia os quadris, ansiosa por ele, procurando saciar seu apetite. Ele não podia deixar de beijá-la, sua boca cada vez mais quente e persuasiva.

- Quer escapar comigo? Agora mesmo?

Um assobio interrompeu de repente, as imagens eróticas na mente de Byron. Mesmo unidos como estavam em um só, ouviram.

- Minha mãe! Tio Byron! Papai, olhe isso. Eles estão aí fora e tio Byron está muito brincalhão. Jamais pensei que o veria assim. Qualquer pessoa diria que estão aponto de se derreter.

Antonietta se separou, boquiaberta e alarmada.

—Quem é esse, Byron e por que o ouço?

Ele acariciou sua cabeça.

—Tem que ser meu sobrinho, que não conhece as boas maneiras. Está absolutamente segura de que quer que o presente? Posso lhe pedir que vá embora. – Avisou ele, esperançado. - Me salvaria da mortificação que sem dúvida sofrerei, se insistir em seguir adiante.

—Como é possível que o tenha ouvido em minha cabeça? Ele está na estufa, entretanto, ouço-o como a voce. Não estou acostumada a ouvir todo mundo falando em minha cabeça. — Era evidente que a idéia a incomodava.

—Não da mesma maneira. As pessoas de meu povo são grandes telepatas. Os casais têm sua própria longitude de onda, uma espécie de canal privado, se quiser. Nossas mentes se fundiram e meu sobrinho falou pela via normal que utilizam os meus. Você o ouviu, através de mim, assim como utilizou meus olhos para ver.

—É incrível. Os membros de minha família são telepatas, mas não a esse ponto. Vamos entrar? Não quero ser uma má anfitriã, agora que seu sobrinho nos anunciou.

—Esse menino tem que aprender boas maneiras. — Byron se separou mentalmente de Antonietta e mandou uma reprimenda privada a sua irmã. - Eleanor, Josef está muito crescido para comportar-se como um menino. Quero que mais tarde tenhamos uma conversa.

- Só está um pouco excitado, Byron. Não te vê a anos.

- Eleanor, ele falou da mesma maneira que ouviu de um ser humano. Colocou em perigo nosso povo, com uma conduta desse tipo. Não se pode tolera, e você sabe disso.

—Está murmurando. Além disso, está com o semblante fechado.

—Quando conhecer meu sobrinho, você também ficará assim. - Advertiu ele. Com um suspiro de resignação, abriu as portas da estufa. As mãos, os dedos entrelaçados com força.

—Está se convertendo num grande bebê. – Ela disse.

— Bem! Está chegando minha neta, Antonietta. - Disse Dom Giovanni e se sentou rapidamente. - Antonietta, nossos convidados chegaram. Byron, me alegro em vê-lo. Sua irmã é uma mulher encantadora.

—Obrigado, Dom Giovanni. - Disse Eleanor, levantando-se. Abraçou seu irmão e tomou a mão de Antonietta. - Não pode imaginar o que significa para mim, conhecê-la.

—Minha irmã Eleanor, seu marido Vlad e meu sobrinho Josef. Anunciou Byron. -Apresento Antonietta Scarletti. — A tensão de Byron se comunicou a Antonietta, que apertou com força seus dedos.

—Quero que me chamem Toni. – Ela falou.

—É um prazer te conhecer, Antonietta. - Respondeu Vlad. Ao dirigir-se a seu filho, baixou a voz. - Josef, pedi que tirasse essa boina.

—Ela é cega, não pode vê-la. - Respondeu Josef, também sussurrando.

- Meu sobrinho está com uma dessas boinas ridículas, uma túnica e um lenço. É evidente que acredita que assim se parece um pintor. – Byron, se cuidava muito em manter uma comunicação mental privada, com Antonietta. O que ele não queria era que Eleanor soubesse que estava descrevendo o traje de seu sobrinho, a sua companheira.

—Sou cega, Josef, não surda. - Disse Antonietta, sorrindo. - Me alegro em te conhecer. Seu tio me falou muito de voce. Diz que tem um grande talento musical.

- Mentirosa! Se arrependerá por ter dito isso.

Antonietta ouviu a queixa rasgada de Byron. Teve uma imagem dele estrangulando-a. Teve que tampar a boca, para não continuar sorrindo. Byron a fazia sentir-se viva, com sua maneira de provocá-la, de compartilhar com ela suas inquietações mais íntimas. Além disso, tomava com muita leveza, aquela poderosa comunicação telepática entre os dois.

—Josef tem muito talento. - Conveio Eleanor. - Viemos à Itália, porque ele tem vontade de pintar este belo país.

—O palácio é muito bonito. - Josef, estava entusiasmado. - Eu adoraria poder pintá-lo.

—Certamente é bem-vindo quando quiser voltar. - Convidou Dom Giovanni. - O pátio é o lugar indicado para ter uma boa perspectiva de sua arquitetura.

—Obrigado, senhor, agradeço seu convite.

Byron apertou os dentes, em sinal de frustração. Não queria que Josef dedicasse mais tempo, do estritamente necessário, em visitar a família Scarletti. Agora, ouvia a polícia lá abaixo, interrogando à governanta. Alfredo estava beira da histeria e falava tão rápido, que custava entender o que dizia. Byron era perfeitamente consciente de que sua família podia ouvir tudo, mas reataram uma agradável conversa com Dom Giovanni e Antonietta, como se fossem totalmente alheios ao drama que desenrolava no andar inferior.

Deixou que a conversa fluísse em torno dele, enquanto Eleanor tentava em vão fazer falar com Antonietta. Esta estava muito pendente da polícia que nesse momento se encontrava na casa. Com sua vívida imaginação, via Enrico entupindo o duto da lavanderia e voltava a sentir a mesma angústia.

Nesse momento, aconteceu um tumulto em frente à porta acristalada do pátio, que distraiu a atenção de Byron, que ouviu o grito de surpresa de Franco, de repente silêncio. Em seguida, passos que percorriam o palácio, alguém chamando Tasha. Um grito de Justine, em surdina.

- Alguma coisa aconteceu.

- Que outro desastre terá ocorrido? - Quis gritar Antonietta, presa da frustração.

Franco abriu a porta do estufa, sorriu a seus convidados e se aproximou de sua prima.

—Tem que dever ver Paul, imediatamente. - Sussurrou em seu ouvido. - É urgente, Tom, Apresse-se.

- Sabe o que aconteceu?- Antonietta havia se voltado imediatamente para Byron.

Byron lhe segurou o braço enquanto lançava um sorriso a sua irmã.

—Por favor, nos desculpem por alguns minutos. Estou seguro de que Dom Giovanni e os outros poderão entretê-los em nossa ausência. Em seguida, ele respondeu, Antonietta. - Paul está ferido. É grave. Franco está muito preocupado e Tasha está chorando. Justine transmite um medo enorme.- Orientou-a para que saíssem rapidamente da sala e subissem depressa às dependências do Paul.

Ouviam os soluços apagados de Tasha e murmúrios de outras vozes. De repente, a voz da Tasha se elevou sobre as demais, alarmada.

—Temos que chamar um médico, Paul. Se não, morrerá.

— Vá procurar a Antonietta. Ela se ocupará disto. - Respondeu Paul, com voz fraca.

—Isso não é nada razoável, Tasha. – Falou Justinme. - Você é sua irmã. Chame um médico. Voces, os Scarletti são teimosos. É que não entendem? Paul está morrendo. Se o deixarem morrer, juro que denunciarei a todos.

Antonietta e Byron entraram no vestíbulo. A porta do quarto estava totalmente aberta. Tasha e Justine se agitavam entorno da cama. - Há sangue por toda parte. Antonietta. Se for o sangue de Paul, perdeu muito.

A voz serena de Byron a tranqüilizou. Antonietta respirou fundo e se aproximou da cama, com gesto seguro.

—Paul, o que tem fez?

—Tenho que falar com você a sós, Toni.

—Paul... — Protestou Justine. - Toni, por favor, rogo-lhe, chame um médico. Ele diz que não, mas ainda não é muito tarde. Não pode ser.

—Um médico não poderia ajudá-lo, Justine e você sabe disso. - Disse Byron, com voz suave e um toque tão hipnótico, como seu olhar. - Deixe que Antonietta se ocupe disso.

Tasha enlaçou Justine pela cintura.

—Toni pode ajudá-lo. Deixe-a, Justine. Estamos desperdiçando tempo que Paul não tem. — Ela saiu com Justine do quarto e fechou a porta com firmeza.

- Eleanor, preciso de ervas. Apresse-se. Vlad, também precisarei de sua ajuda. - Byron não tentava ocultar sua comunicação, de Antonietta. Ela tinha todo o direito de saber que a vida do Paul corria sério perigo.

—O que está acontecendo, Paul? —Antonietta tinha começado a inspecionar o corpo apalpando-o. Byron se aproximou e aplicou pressão ao ferimento mais grave.

—Deram-lhe várias punhaladas, Antonietta. Ele precisará de sangue rapidamente. Posso ajudá-lo. Eleanor me trará o que preciso.

—Tenho que lhe dizer, Toni. – Paul falou, segurando Antonietta pelo braço.

—Não fale até que tenhamos detido a hemorragia.

—É muito tarde e você sabe. Sempre sabe. Isto é importante.

—Fique quieta, Paul. - Resmungou Antonietta. - Não penso deixar que se mova. Byron, faça o que tenha que fazer.

—Tenho que lhe dar sangue, Antonietta. — Byron tranqüilizou Paul com um gesto da mão e conrinuou aplicando pressão aos ferimentos. - Se o fizer, estaremos conectados para sempre. Entende?

—Quero que o salve. Não me importa como o faça. — Antonietta acariciou o cabelo de Paul. – Quero-o, como se fosse meu irmão.

—Não tem que dizer nada mais, companheira. Feche a porta. Ninguém deve entrar neste quarto. Deixe Celt vigiando. Depois, abra a janela alguns centímetros.

—Sua irmã...

—Ela saberá como entrar. Logo chegará. Sente-se junto a Paul e me escute quando falo. Quero que colabore. É uma curadora muito poderosa.

Antonietta não entendia, mas havia uma urgência inconfundível em sua voz. Confiava em Byron, como não podia confiar em ninguém mais. Fechou a porta, deu uma ordem a Celt e abriu a janela como havia indicado Byron.

Quase imediatamente, Byron viu a névoa que penetrava pelo interstício.

—Eleanor. Boa garota. Vá para o outro lado. Tente estancar os ferimentos. Antonietta, colocarei suas mãos sobre ele e terá que empurrar com força. Tenho que ter as mãos livres. – Ele acrescentou e lhe guiou as mãos até colocá-las sobre o ventre de Paul.

Antonietta sentiu o calor do sangue. Percebeu um aroma estranho e sedativo. Sabia que Eleanor estava junto a ela. Não a importava, como ela entrara por uma porta fechada ou por que Byron pensava que podia ajudá-los, só pensava em salvar Paul. Fundiu-se com Byron, decidida a seguir seus movimentos. Byron havia se desprendido de seu próprio corpo e Antonietta sentiu que seu espírito ficara livre. Sua energia, branca incandescente, aproximou-se de Paul. Era estranho sentir o quanto estava mal seu primo. Começava a afastar-se deles e sua energia era imensamente leve. Antonietta sentiu que seu coração pulsava com força, quando entendeu que Paul começava a se apagar. Obrigou-se a permanecer quieta e em silêncio, a confiar em Byron. Sentia sua determinação e sua segurança.

Ouviu vozes que entoavam um cântico numa língua antiga. Pareciam-lhe familiares. Quando soube que encontrara em sua mente, a pronúncia adequada, uniu sua voz às demais. Durante todo aquele transe, não deixou de se concentrar em comunicar energia a Byron. Sua tarefa o desgastava física e mentalmente. Começou a fechar os ferimentos, com gestos meticulosos, do interior para o exterior, prestando especial atenção nos mínimos detalhes e eliminando as bactérias dos cortes, para evitar infecções.

Antonietta pressentiu uma presença feminina, que se unia a eles e ajudava Byron enquanto cantavam. Uma terceira figura. Vlad, forte e seguro, acrescentou um fluxo estável de energia aos que trabalhavam para salvar Paul. Eleanor permaneceu em segundo plano, quando Byron finalmente se retirou. Antonietta aproveitou para lavar-se, no banheiro de Paul e se sentiu ligeiramente enjoada com todo aquele sangue, que a manchava. Voltou rapidamente para junto de Byron.

—Antonietta, tenho que lhe dar meu sangue. Nem sequer uma transfusão humana o salvaria. Está segura de que poderá viver com esta decisão? Possivelmente seria preferível que interrompesse o contato comigo enquanto me ocupo disto.

—Eu te seguirei. Sei que o faz por mim. O menos que posso fazer é te proporcionar energia. – Ela disse e estirou a mão para encontrar seu rosto, sem vacilar. - Sei que está cansado e acredito que tem medo de que, seja o que faça, eu me zangarei, mas não é assim. Confio em você, Byron.

Ele se inclinou para ela e roçou levemente seus lábios. Antonietta vivia na escuridão, mas experimentava todas as sensações devido à estreita conexão entre os dois. Sentiu a dor aguda quando ele abriu a mãos num corte profundo e palpitante. Sentiu que a boca de Paul se pegava a ela e que o líquido vital fluía do corpo de Byron. O impacto da visão a atordoou, envolveu-a como uma defesa, por um breve instante. Tentou superar a barreira protetora. Deu-se conta, de que Byron abrira suas veias, com os próprios dentes. E de que Paul devorava aquele sangue, em lugar de ser submetido a uma transfusão. De que o aroma do sangue lhe produzia um apetite que não entendia, em si mesma. Em lugar de experimentar rechaço, estava fascinada. Também era consciente de que Byron vigiava sua reação. Antonietta elevou o queixo e continuou cantando, lutou contra suas reações humanas e se concentrou no que faziam. Salvar a vida de seu primo. Byron tinha corrido um enorme risco ao lhe dar a conhecer sua verdadeira natureza. Ele havia lhe confiado um segredo, ainda maior que o seu. Ela era da linhagem dos jaguares. Ele era algo completamente diferente. Um pouco temido pelos seres humanos. Era um... Vampiro.

- Não! - O protesto de Byron foi imediato. - Isso nunca. Não sou uma criatura inerte.

Antonietta voltou a se apoiar nele, segurou-lhe a face com ambas as mãos. Enquanto seu primo se nutria dele, ela encontrou sua boca. – Surpreende-me, Byron. - Antonietta verteu toda sua gratidão e seus sentimentos, por confusos que fossem, naquele beijo, tentando lhe dizer sem palavras, o quanto significava para ela que ele confiasse nela o suficiente para salvar a vida de Paul recorrendo ao único médio possível.

Por um instante, umas lágrimas apareceram nos olhos de Byron. Teve que desviar o olhar de sua irmã e sua companheira. Antonietta lhe dera um presente ainda mais prodigioso que ver em cores. Tinha-lhe dado à aceitação.

—Não mais, Byron. – Vlad falou, de repente. - Já está muito fraco. Antonietta sentiu vacilar, sua energia esgotada, o organismo vazado de sua prodigiosa força. Byron deu uns passos hesitantes e se deixou cair bruscamente na cadeira, apesar dela tentar sustentá-lo.

—O que está acontecendo, Eleanor? Vlad? Digam-me, o que acontece com Byron? — O pânico se apoderou rapidamente dela, com um medo terrível agasalhado no coração.

—Esta noite ele não se alimentou. - Explicou tranqüilamente, Vlad. - A cura que ele realizou e graças a qual Paul continuará vivo, porque ele lhe deu sangue, tem um preço. Eu me ocuparei de suas necessidades. Eleanor também precisará de ajuda. É muito valente, Antonietta.

—Eu não ajudei em nada. Se Byron precisar de sangue, posso lhe dar o meu.

Seguiu-se um repentino silêncio no quarto. Inclusive Eleanor, no íntimo de Paul, ficou quieta.

— Minha cara, você rouba-me o coração, com sua generosidade. Vlad poderá me providenciar o que necessito.

——Vlad não é sua companheira. Eu sim. Sou perfeitamente capaz de te dar o que precisa. — Respondeu ela, com o pescoço palpitando, queimando. Os seios doíam. A fome sexual se revolveu no fundo de seu ventre e difundiu um calor lento, que ardeu por todo seu corpo. Sentiu que aflorava a excitação e ao mesmo tempo, Antonietta tentava se explicar, por que sentia essa necessidade de lhe dar seu sangue.

Byron a estreitou em seus braços.

—Não há ninguém como você, bela. Na verdade, a idéia de que me dê seu sangue, me enche de um desejo que não me atrevo nem a nomear. Não estamos sozinhos. Deixe que Vlad dê seu poderoso sangue e quando estivermos a sós, agradecerei como é devido.

Ela percebia a mesma intensidade do apetite sexual, desesperado em sua voz.

—Acaso o sangue do Vlad é mais poderoso que o meu? Qual é a diferença? — Perguntou, tentando ignorar o fogo que desatou como resposta, em sua corrente sangüínea.

—Sim, seu sangue me dará energia rapidamente.

—O que se sente?

— Funda-se comigo, Antonietta. - Disse Byron e a segurou pela cintura, enquanto levava o braço de Vlad à boca.

O golpe de energia o encheu totalmente e a ela também. Uma energia que alimentava seu organismo faminto. Células e tecidos, músculos e ossos se apoderaram avidamente daquele fluido vital. Antonietta tentou desprender-se, quis invocar o horror como resposta ao ver Byron bebendo sangue, mas também viu a força, sentiu a força. Quando ele acabou de tomar o que precisava, ela se deu conta de que não respirava.

—Como detém a hemorragia?

— Fechamos as incisões com a língua. O agente cicatrizante sela o ferimento e se quisermos, a própria pele.

Antonietta sentiu que ruborizava. Em seu pescoço tinha observado uma mordida. Tasha a vira.

—Alimentaste-se de meu sangue, não é?

—Certamente, é minha companheira. — Com um gesto decidido, Byron a segurou pela nuca e a atraiu para ele. Com a boca tomou posse dela, compartilhando o sabor e a força do sangue Cárpato. Com a língua entrou em sua boca, enredou-a com a sua, como num acoplamento primário, enquanto os sentidos de Antonietta despertavam para a vida, a sobrecarga latente em cada terminação nervosa.

Eleanor se retirou do corpo de Paul e se resentiu em sua própria essência. Ela também sentia a fadiga, depois de sua incursão num corpo alheio.

—Conseguimos, Antonietta. Ele viverá. Vlad abraçou a sua companheira.

—É capaz de verdadeiros milagres, Eleanor.

—É verdade. – Conveio Byron. – Agradeço aos dois. Não poderia ter salvado Paul, sem sua ajuda.

—Por isso vejo, meu jantar foi um autêntico fracasso. Suponho que guardarão uma péssima impressão de minha família. — Antonietta pensou que se Eleanor e Vlad tinham o ouvido tão agudo como Byron, teriam ouvido a polícia interrogando o pessoal, depois de ter isolado a cena do crime. - Pobre Enrico, merecia algo melhor que acabar num duto da lavanderia. Não tenho faço do que acontece em minha própria casa.

—Ao menos o amortalharam com a melhor toalha.

—Isso não tem nenhuma graça.

Vlad continuava sustentando Eleanor, firmemente nos braços.

—Bem-vinda à família, Antonietta. Foi um prazer conhecê-la. Tenho que levar minha companheira e cuidar dela.

—Agradeço-lhes, sua ajuda. Espero que quando voltarmos a nos encontrar, as coisas tenham voltado à normalidade.

—Até então.

Antonietta aguçou o ouvido, mas não ouviu passos. Soube que eles haviam abandonado a quarto.

—Como o fazem? Simplesmente se desvanecem no ar? Não têm o costume de usar as portas?

—Ensinarei a você. – Byron aproximou uma cadeira da beirada da cama. - A partir de agora, Paul será diferente, mais alerta, como você. Seu ouvido, sua vista, todos os seus sentidos serão mais agudos. E sempre poderei contactar com ele mentalmente. Será uma via diferente da nossa, mas a conexão existirá.

—Inteiraste-se do que lhe aconteceu?

—Despertarei ele por um momento, para que possa falar com ele. Estará fraco. Seu corpo não tem a capacidade de se curar tão rapidamente como o meu. – Ele explicou e lhe segurou a mão. - Sei que tem muitas perguntas a me fazer. Responderei-as todas, antes que acabe a noite. - Lhe assegurou e levou seus dedos aos lábios. Mordiscou-lhe as sensíveis pontas dos dedos e depois se virou para Paul. - Paul, volte para nós. Descansará mais tarde, mas agora tem que falar com Antonietta. É muito importante para você, lhe contar a verdade.

Antonietta ouviu a ordem implícita naquela voz e se surpreendeu quando a reconheceu pelo que era.

—Hipnotiza-o com a voz, não é?

—Sim, quando me proponho a isso.

Paul se agitou ligeiramente e gemeu.

—Toni?

—Estou aqui, Paul. — Antonietta liberou uma mão, para apoiá-la em seu primo. – Você viverá, mas não deve se mover muito.

— Tive um sono estranho.

—Já sei. Às vezes acontece isso. Paul, como aconteceu tudo isto? Conte-me. Temos que falar com a polícia.

—Não, não pode fazer isso, Toni. Prometa-me. Por favor, me prometa que não falará com a polícia. – Ele pediu e sua agitação aumentou. Byron colocou uma mão em seu ombro, o qual o acalmou imediatamente.

— Conte-nos, Paul. Nos ocuparemos do que seja necessário. – Ele usou sua conexão com antonietta - Não volte a mencionar à polícia. Danificará-se tudo o que fizemos.

—Já sei que pensava que eu estava roubando à família, Toni. Não a culpo por isso. Minha intenção era que acreditasse que havia voltado a jogar.

— Por que, Paul? — Na voz de Antonietta se adivinhava a dor no coração.

Os dedos de Byron se fecharam ligeiramente em torno da nuca de Antonietta e ele começou uma lenta e balsâmica massagem, para lhe aliviar a tensão.

—Há alguns meses fui a uma festa num iate. O dono tinha um quadro exposto, de muito valor. Era um de nossos quadros, Toni. Fui imediatamente denunciá-lo à polícia e me informaram que há meses investigavam o roubo de tesouros artísticos em casas de famílias importantes. Eu sabia que tinha que haver alguém em nossa família que ajudasse a quem estivesse por trás dos roubos. Ninguém sabia o caminho para a câmara couraçada e muito menos o código para entrar, exceto você, Nonno e Justine. Eu sabia que você e Nonno jamais venderiam nossa família. De modo que me propus como voluntário para ajudar à polícia a encontrar aos ladrões.

—Paul, no que estaria pensando?

— Era a pessoa perfeita. Já possuía uma má reputação. Sempre andava precisando de dinheiro. Portanto, era uma coberta verossímil. Foi bastante natural começar a prestar atenção no que fazia Justine. —A voz do Paul era fraca e sua respiração trabalhosa. - Ela era uma das suspeitas, a única pessoa que tinha acesso a todos os códigos de segurança. E que conheceria o caminho às salas de arte e à câmara couraçada.

—Isto é muito duro para você. Disse Antonietta. - Falaremos disso mais tarde, quando tiver recuperado.

Paul deixou descansar sua mão sobre a de Antonietta.

—Apaixonei-me por ela, Toni. Sei que está zangada com ela e que é provável que mereça ir para a cadeia, mas eu te peço que a deixe ir. Diga-lhe que volte para os Estados Unidos. Mas não a coloque na cadeia.

Byron sacudiu a cabeça. - Justine não está implicada em nenhuma conspiração além de tentar ajudar Paul a encontrar uma maneira de pagar suas dívidas de jogo. Nunca roubou nada da família Scarletti. A diferença dos de sua família, que é bastante fácil ler os pensamentos dela.

—Jamais teria suspeitado algo dela. Depois de todos estes anos, por que se decidiria de repente a roubar? — Perguntou Antonietta ao Paul.

—Tem que ser ela. Não pode ser ninguém mais. - Disse Paul. - Ela tinha acesso a tudo. E foi ela a que me fez um mapa da câmara e me deu o código de acesso.

—E você estava disposto a morrer em lugar de ir para um hospital, para que ela não fosse para a cadeia? A mentir e deixar que o acusassem de roubo, em lugar de Justine? Paul, não tem as coisas claras. Deveria ter vindo falar comigo, imediatamente.

- Antonietta, Justine não roubou. Ela arrependeu-se de ter dado a Paul os códigos e o mapa. Ela queria lhe dar dinheiro, mas ele se negou. Justine pensou que Paul se colocara numa confusão e queria que ele lhe contasse, mas ele rechaçou essa alternativa. Convenceu Justine de que o ameaçavam. Os tipos a quem devia dinheiro. É evidente que Paul pensou que ela o introduziria no bando de ladrões, mas ela fez o único que podia fazer. Deu-lhe um mapa e os códigos. Pensei que tinha sido uma traição a sua amizade. Mas só era isso. Jutine não está relacionada com os ladrões.

—Não penso entregar Justine à polícia, Paul. Mas tem que me dizer quem fez isto a você. Eles sim terão que pagar.

—Não se coloque nisso, Toni. Essa gente não anda com rodeios.

- Ele não viu a seus agressores. Não sabe nada sobre os homens que o assaltaram. Para ele o mais importante é proteger Justine.

—Deixa-o dormir. Pedirei a Tasha e Justine que fiquem com ele esta noite e o vigiem. Já devem ter contado ao Nonno. Não imagino Franco guardando notícia.

- Sabe que Marita é provavelmente quem está roubando e entregando os objetos a terceiros. E sabe que a pessoa com quem ela iria se reunir para entregar a partitura de Händel era Demonesini pai.

- Franco ficará destroçado se isso vir à tona. - Antonietta se dirigiu ao vestíbulo enquanto Byron colocava ao Paul em um profundo sono. Tasha e Justine entraram precipitadamente no quarto, com Franco e Dom Giovanni seguindo os passos.

—Ele está vivo. - Informou Antonietta, - Conseguimos com muita dificuldade. Tem que dormir. E precisa de muito líquido. Poderiam limpá-lo e arrumar a cama? Nós dois estamos esgotados. Byron tem capacidades curativas superiores às minhas e fez a maior parte do trabalho.

—Eu gostaria de levar Antonietta a minha casa, onde possa descansar. - Acrescentou Byron, antes de se voltar para Antonietta.

- Não posso ir a nenhum lugar. Tenho que ficar.

- Paul não despertará até que voltemos. Só o necessário para que elas lhe dêem de beber.

- Estão acontecendo muitas coisas.

- Preciso de você esta noite, Antonietta.

—Sua irmã e sua família se desculparam. - Explicou Dom Giovanni. - Se deram conta de que estávamos passando por um mau momento. Temo que não lhes demos uma boa impressão, filho.

—Eles entendem. - Assegurou Byron. - Os policiais partiram?

— Interrogaram a todos, exceto ao Paul e a voces dois. Dissemos que Paul tinha saído e que voces estariam aqui amanhã. - Disse Franco.

—Agradeço a voces. Não acredito que tivesse agüentado mais perguntas.

Byron segurou firmemente a mão de Antonietta.

—Boa noite a todos, voltaremos amanhã, no anoitecer.

 

—Que fazemos? — Antonietta levantou a cabeça e o vento açoitou seu rosto. Não saía as almenas há anos. Era muito perigoso. Embora estivesse junto de Byron, estava assustada. Um só passo em falso e cairia para uma morte segura. Ao aspirar, sentiu a vaga reminiscência do aroma de felino. A imagem do jaguar rondando pelos arredores ou de que nesse mesmo momento estivesse observando-os, era aterradora.

—A levarei voando. Disse que queria experimentar. O céu está espaçoso, há um pouco de névoa que começa a se formar. Acredito que gostará, depois de uma noite de tantos sobressaltos.

Ela se precaveu de seu tom de voz, não prestou atenção no que ele dizia.

—O que acontece, Byron?

Por toda resposta, ele a estreitou e afundou a face em seu pescoço.

—Tenho que cuidar de você, Antonietta. Sua segurança sempre está acima de qualquer outra coisa. Sua aceitação do que sou e de quem sou, significa tudo para mim. Quero te dar algo especial. Algo que se lembrará para sempre.

Ele apalpou-lhe a face. Cada vez que ela lia sua expressão, descobria nesse gesto, uma amostra de intimidade. Ficava a lembrança de uma carícia em sua pele, embora Antonietta não soubesse. Ele sabia que ela intuía sua apreensão ante o que viria. Estava muito conectada a ele. Havia acontecido muita coisa depois do despertar e ainda havia outras provas a superar.

—Se voar é algo tão memorável, por que teme por mim?

Pela primeira vez, ele a segurou pelas mãoss, afastando-as da face e estreitando-as contra seu peito. Apoiou a testa em sua cabeça.

—Tenho que falar de mim, com você esta noite, sobre o que significa ser minha companheira. Para os dois.

—E teme que possivelmente eu não o aceite? Já aceitei. Não direi que não tenho milhares de perguntas, mas como posso ter medo do que é, se você não tem medo de mim, ainda mais agora que um felino selvagem sai a rondar e a matar pessoas? Às vezes sinto o jaguar que vive em mim. A pele literalmente me arde por mudar. Temo que pense que o assassino é alguém de minha família, possivelmente Paul?

—Não é Paul. Ou se é, não tem lembranças de ter adotado a forma de um jaguar.

Antonietta relaxou os ombros, aliviada.

—Estava com tanto medo. Não sei o que pensar de Paul e de seu estranho comportamento. Por que acreditaria que podia ajudar à polícia a descobrir um bando de ladrões profissionais? Acredite-me, conheço bem Paul e não é dele, atuar de agente. Mas sim é bem dele que queira ficar aqui, em vez de ir a um hospital. E logo convencer a todos de que não pode ir. Tudo porque quer salvar Justine da cadeia. —Antonietta sacudiu a cabeça, perplexa. - Nonno jamais deixaria a Paul, o cargo da empresa naval, por mais competente que seja. Nos momentos decisivos, ele sempre tomará uma decisão emocional.

—Você não deseja o negócio. —A cabeleira de Antonietta era suave, sua pele uma tentação muito poderosa. Byron tirou delas, seus óculos escuros, para beijar suas pálpebras.

—Não, eu sou uma artista. Quero me dedicar a compor. Suponho que sou uma egoísta. Na realidade, não me agrada absolutamente ter que interromper o que estou fazendo para assistir reuniões de negócios que não acabam nunca. Paul tem capacidade, mas não a personalidade para isso.

Byron segurou o queixo dela e virou suaa face, para fitá-la.

—Fascina-me, beijar você. Poderia passar uma vida inteira só te beijando.

—É curioso, pois eu sinto o mesmo. – Ela ofereceu os lábios e deixou que a magia entrasse em cena. A brisa que vinha do mar era fria e penetrante e atuava ao o contrário das chamas que nasciam do contato entre os dois. Uma sombra passou acima deles, uma leve silhueta cinza que cobriu a lua. Byron sentiu imediatamente, que não estavam sozinhos. Virou-se e protegeu Antonietta, ficando a sua frente. - Não te mova. Não faça ruído.

- O que houve?

- Ainda não sei.

Em atitude de alerta, Byron varreu com o olhar o espaço circundante em busca de possíveis inimigos. Não havia sinais do vampiro nem rastro do jaguar. Algo se movia acima deles, sobre as almenas e a torre que se elevava sobre suas cabeças.

Byron enfocou o olhar para procurar, de um lado a outro sem parar, esquadrinhando cada centímetro das almenas e do telhado.

De repente, percebeu um ligeiro movimento pela extremidade do olho e ficou paralisado. A gárgula acima deles o olhava e seus olhos eram duas brasas vermelhas. Produziu-se um sonoro rangido quando a cabeça gigantesca e esculpida na pedra, virou ligeiramente e desdobrou as asas, de uns dois metros, preparando-se para elevar o vôo.

Antonietta fincou as unhas na camisa de Byron, por trás. Conectou-se imediatamente com ele. Não via a cena como ele, mas tinha uma aguda impressão do que acontecia.

- É impossível. Essas gárgulas não estão vivas. Têm olhos de pedra. Nem sequer há gemas nelas que capturem ou reflitam a luz. E tampouco podem desdobrar as asas nem girar a cabeça.

Tem toda a razão, Antonietta. - Aquele tom grave em sua voz, a fez estremecer-se. - Só conheço uma pessoa capaz de me agastar uma brincadeira como esta.

Byron se concentrou na gárgula. A cabeça seguiu girando, até ficar olhando para o telhado. Quando completou um giro, o enorme bico se abriu com um bocejo, e apareceram dentes enormes. O focinho se fechou de repente, numa mordida selvagem de advertência. Josef lançou um grito e deu um salto para trás, onde Byron pôde vê-lo.

—Quase me arrancou uma perna. – Ele se queixou.

—Era o que queria. - Respondeu Byron, tranqüilo. – Na próxima vez que tente me pegar desprevenido, me assegurarei de que a gárgula te arranque um braço.

Com gesto abatido, Josef se sentou no lombo da gárgula.

—Não consigo. Com todas as vezes que tentei que um objeto inanimado se mova, é sempre como se chiasse. Se tivesse conseguido ser mais suave, não saberia que era eu.

Quando Antonietta percebeu que Byron se preparava para dar um sermão em seu sobrinho, dissuadiu-o com uma leve pressão da mão.

—Parece um truque muito difícil, Josef. Acredito que qualquer um teria problemas para que a escultura de uma gárgula se movesse.

—Pensei que fosse cega. - Disse Josef.

—Nunca sou tão cega quando estou com Byron. Capto as imagens através dele ou fico precavida do que acontece a meu redor. Não deveria estar fora há estas horas. Não sei se Byron advertiu, mas há um jaguar solto que está aracando às pessoas. Falo sério. Acredito que a sua mãe não gostaria de lamentar sua perda.

—Sei cuidar de mim mesmo. - Assegurou Josef. - Você sabe mudar?

—Não, não sei, mas acho interessante.

—É difícil fazer isso, sozinho. Eu pratico muito, mas ainda me equivoco. Por que não tentaste ainda?

—Não sou como você.

—Claro que é. É a companheira de Byron. É...

—Josef. —Havia uma advertência latente na voz de Byron. - Já basta. Volte para a vila. Antonietta tem razão. Não está seguro a estas horas aqui fora. - E completou, para antonietta. - Embora acredite que seria mais provável que sofra mais mal por culpa minha que nas mãos de qualquer outro.

- Só é um menino.

- Isso é o que Eleanor não deixa de me lembrar.

—Não posso ir com você, tio Byron? Minha mãe não me deixa fazer nada. Deu-me vontade de subir nos muros da vila e ela começou a gritar como uma louca. Se correr, posso saltar muito alto, mas não consigo dominar a ascensão por uma parede vertical. Tenho que utilizar as garras de pés e mãos.

—É porque tenta se valer do corpo. - Byron, suspirou com paciência. - Utilize sua mente. Está muito dependente do aspecto físico.

Antonietta estremeceu. O vento lançava rajadas gélidas. Byron tirou a jaqueta em seguida e a envolveu com ela. Antonietta se surpreendeu de sua suavidade.

—Volte para a vila, Josef. Trabalharei amanhã com você em algumas destas coisas, embora tenha que se lembrar que não deve utilizar estes dons e nem pensar neles se os nossos não estão presentes. Trata-se de se integrar, Josef. - Byron fazia todo o possível por não falar como um parente insuportável.

—Não há ninguém mais por aqui. Estava tão ocupado beijando Antonietta que pensei que podia fazer uma brincadeira com voces.

—Tem muita sorte de que eu não tenha arrojado uma descarga elétrica em você. Volte para casa. Quero estar a sós com minha companheira.

Josef lançou um comprido suspiro.

—Nunca posso me divertir. Não é justo que sempre me digam que tenho que esperar para aprender as coisas.

- Já basta! - Byron lançou aquela ordem silenciosa entre dentes. – Faça o que te digo.

Josef se sentou com um ar extremamente petulante. Estremeceu com brilho, diversas vezes, mas não aconteceu nada. Byron fechou os olhos e elevou uma oração silenciosa de paciência.

—Josef, conserve a imagem em sua mente.

—Papai sempre o faz por mim.

—Então, como conseguiste subir aqui, para começar? Se eu fizer em seu lugar, nunca aprenderá.

Antonietta se apoiou em Byron.

—Se pensa em me levar para voar, poderíamos acompanhá-lo até em casa, o que acha?

Byron a beijou na têmpora.

—É uma mulher muito certa.

—Obrigado por se dar conta. —Antonietta estendeu a mão para Josef. – Venha conosco. Byron me levará para voar. Nunca provei.

—Eu adotarei a forma de um dragão alado. Assim poderei te manter perto de mim. Se ficar assustada, baixaremos imediatamente para a terra.

—Terá escamas?

—Sim, posso ter escamas.

—Da cor que eu queira?

Byron riu.

—Que cor quer?

—Quando era pequena, minha mãe sempre me lia um livro onde o dragão tinha escamas azuis iridescentes. Eu adorava como soava. Ainda imagino o dragão que reluzia em tons azuis de aquarela, igual ao livro. É uma lembrança muito vívida.

—Então seu dragão será de cor azul iridescente. - Concedeu ele e a estreitou para beijá-la no pescoço.

—Posso montar no lombo do dragão? Em todos os livro há um cavaleiro sobre o dragão. Só o pobre idiota que se deixa comer viaja preso nas garras. —Antonietta intuía o roçar dos dentes de Byron, fechados, indo e vindo sobre a pulsação de pescoço. Toda ela respondeu estirando-se. Havia algo hipnótico e erótico naquele movimento. Quando ele mordiscava seu pescoço, injetava dardos de fogo nas veias.

— Não quero correr o risco de que caia. — Murmurou aquelas palavras em sua nuca e Antonietta sentiu o hálito quente na pele fria. Seus dentes se fecharam sobre sua pulsação e se atrasaram moderadamente, enquanto o desejo queimava como brasa, no interior dela,

—Não cairei, Byron. Afirmarei-me com força. Por favor, me deixe prová-lo.

Como podia lhe negar alguma coisa, nem o mínimo desejo, sabendo o que o esperava?

—Sentiria-me muito desgraçado se por algum motivo, caísse no vazio, Antonietta.

—É verdade que às vezes se coloca a grunhir como um urso.

—Eu também quero ser dragão. - Disse Josef. - Nunca fiz algo assim. Seria muito.

Byron elevou as mãos ao céu, derrotado.

—Conecte-se com a imagem que encontrar em minha mente, Josef. E se assegure de conservá-la antes que saia do telhado. Não pode se distrair. É uma fera grande, muito diferente de um pássaro. Não é tão fácil porque não nos é familiar. Estude os detalhes em minha mente e não se desprenda dessa imagem em nenhum momento. Quero que permaneça perto de mim em caso de que tenha problemas.

—Realmente é um homem muito doce, Byron — Disse Antonietta, sorrindo.

—Não me olhe assim, cara. Quando sorri, não posso me concentrar. Se Josef sofrer o menor arranhão, minha irmã me arrancaria à cabeça. E se algo acontecesse a você, não sei o que faria.

A risada com que ela respondeu aquele tom de lamento, se perdeu entre as nuvens.

—Estou emocionada. Converta-se em meu dragão e vamos voar.

Byron não esperou mais. Temia que poderia mudar de opinião, se pensasse muito no que podia acontecer. Começou a se transformar e projetou a imagem detalhada do dragão de asas azuis iridescentes, para seu sobrinho. Com cuidado, para não golpear casualmente Antonietta, o enorme dragão se abaixou para que ela pudesse montar sobre seu lombo.

Antonietta respirou lentamente e se aproximou daquele vulto descomunal. O lombo era frio, tinha escamas e se parecia muito a uma serpente pitón que havia tocado numa ocasião.

—Byron, isto é incrível. — Ela sentiu que as lágrimas queimavam seus olhos, ante aquele presente inesperado. Nem em seus sonhos mais fantásticos, imaginara uma oportunidade como aquela. Demorou para se acomodar, apalpando para reconhecer o poderoso lombo, o pescoço, inclusive a cabeça fendida, com seus dedos. - É belo. É perfeito. Jamais esquecerei este momento. - Subiu sobre a pata que ele lhe oferecia. Custou-lhe várias tentativas para subir no lombo do dragão. Uma vez encima, descobriu uma pequena cadeira de montar e estribos para afirmar os pés. Sentiu-se fascinada pelos cuidados que Byron lhe prodigalizava. Byron pensava até no último detalhe, para que todo se tornasse mais fácil. Inclinou-se para frente e abraçou ao dragão pelo pescoço e logo empunhou firmemente as rédeas. —Estou preparada, Byron. Vamos.

O dragão elevou o vôo com grande precaução, temeroso de fazer mal a seu cavaleiro. - Josef? Está preparado? - O dragão menor, encarapitado no teto da torre, desdobrou as asas e se agitou para prová-las.

Antonietta riu a sentir a rajada de ar. Soube que Byron estendia as asas. Voltou a mover-se com cautela, mas era um autêntico dragão, com asas de enormes dimensões. Quando ele se lançou ao ar da almena, ela não estava preparada para aquele vazio no estômago. Segurou-se no pescoço do dragão com um gesto repentino, respirando rapidamente.

- Posso te sustentar, cara.

Antonietta se obrigou a se endireitar e a encontrar o movimento da fera que montava. Logo levantou a face e olhou o céu. - Não, não pode ser. Vou voar por mim mesma. É fascinante. - E isso fez.

Era uma experiência única sulcar os céus, as enormes asas batendo e agitando o ar e a cada momento, ela era consciente do dragão mítico com suas escamas azuis iridescentes. Era um conto de fadas tornado realidade. - Pode cuspir fogo? Poderíamos voar por cima do palácio dos Demonesini e chamuscar umas mechas do cabelo de Cristopher.

Byron sentiu essa risada de Antonietta reverberar em seu corpo de dragão, percorrendo-o de cima abaixo. Em seu interior, Byron sentiu que a excitação se apropriava de seus sentidos.

Antonietta estava transbordante de alegria. O vento agitava em todas direções, o cabelo dela, que lhe açoitava a face, tirava-lhe a fala e a fazia chorar. Não podia ver o céu da noite, mas imaginava as estrelas brilhando acima de sua cabeça, como pedras preciosas. Inclinou-se sobre o pescoço do dragão, pedindo que voasse mais rápido.

- Olhe-me, tio Byron.

Josef tentou dar um giro e o dragão menor se aproximou perigosamente do maior e Byron se viu obrigado a realizar uma brusca manobra para evitar uma colisão no ar. Antonietta se segurou das rédeas quando seus quadris perderam contato com o lombo do dragão, Byron subiu com ela para devolvê-la na cadeira, antes que perdesse cabo. Ela apertou as pernas com força e com o coração na garganta. - Estou bem. Isto é fantástico. Sinto-me tão viva. - Disse-o tudo muito rapidamente, como se intuisse a ira de Byron contra seu sobrinho.

Josef porem, não se precaveu do que tinha feito, continuou fazendo piruetas, deixando-se cair velozmente e girando bruscamente, quase fazendo cambalhotas no ar. Imediatamente perdeu a orientação. A vertigem se apoderou dele e o pânico substituiu a imagem que tinha na cabeça. Começou a cair em rapidamente.

Byron, com ajuda de suas longas asas acrescentou velocidade a seu vôo e saiu atrás do jovem. - Tome cuidado, Antonietta. Ele está caindo. Tentarei pegá-lo com as garras. Deveria deixar que os abutres o comessem.

Byron apanhou ao jovem em sua queda. Mas quando Josef viu a prodigiosa cabeça fendida, as enormes faces e suas fileiras de dentes afiados, se assustou. Golpeou o dragão no focinho, debateu-se furiosamente contra as garras e conseguiu escapar dele.

Byron lançou uma imprecação e se lançou atrás, até que conseguiu situar-se abaixo de seu sobrinho. - Dirigirei-o para a parte da cauda. Tente ajudá-lo, mas não caia.

Josef caiu sobre o lombo do dragão e ricocheteou pela cauda. Antonietta já tinha soltado as rédeas e procurou instintivamente as suas costas. Alcançou a camisa do Josef, segurou-a e não a soltou.

O peso do moço quase a arrancou do lombo do dragão, mas Byron, no interior daquela grande massa, modificou suas formas para ajudá-la a estabilizar-se e não cair. Josef se segurou no dragão e se apoiou com força.

Encarapitou-se até ficar atrás de Antonietta e a segurou firmemente pela cintura. Surpreendeu-lhe o tamanho e a força daquele adolescente. Não parecia que fosse um menino o que ia sentado, atras dela. Parecia um homem adulto.

- Que idade tem seu sobrinho?

Em anos humanos, vinte e dois anos. Em nossa noção do tempo, não é mais que um menino. Um menino que ainda tem que aprender com os adultos. Mudar é difícil. A maioria dos pais mostram-lhes a imagem, até que este aprenda a prestar atencão nos detalhes. Tem que funcionar em vários nívei,s de uma vez. Quando aprender isto, serei eu a te mostre a imagem.

- Não tenho habilidade para mudar, Byron. A verdade é que não tento. Às vezes, sinto o jaguar muito perto em meu interior, mas não posso conseguir a mudança, embora tente.

Antonietta estava agradecida pela jaqueta de Byron e o calor constante que esta gerava, enquanto sulcavam os céus. Notou que o dragão voava em espirais de longos círculos rasantes até que parou, batendo as asas violentamente. Josef deslizou até o balcão da vila e o dragão voltou a empreender o vôo.

Antonietta se inclinou para frente e abraçou ao dragão pelo pescoço.

—Não quero que isto acabe jamais. Acredito que deveríamos voar toda à noite.

Byron estava agradecido de que Eleanor tivesse conseguido uma segunda vila, menor e muito mais afastada, para ele e sua companheira. Não queria levar Antonietta a uma cova nas profundezas da terra e explicar sua vida. Explicar-lhe no que se converteria. Preferia um ambiente tranqüilo onde ela se sentisse cômoda e completamente à vontade. Enviou a sua irmã, um silencioso agradecimento por sua consideração. Ignorava como ela havia conseguido a vila em tão pouco tempo, mas Eleanor sempre era eficiente.

O dragão pousou no amplo terraço que fazia vista para o mar. Antonietta o viu baixar as asas e esperou a que o dragão lhe oferecesse a pata. Encontrou terra firme quando Byron voltou a adotar sua forma humana. Lançou um grito de alegria e jogou os braços ao seu pescoço.

—Grazie. Não pode imaginar o que isto significou para mim. Pode ser que eu sinta vontade de aprender a voar.

Ele a segurou pela nuca e a estreitou em seus braços.

—Terei que ensiná-la.

—Sigo sem entender por que é tão difícil para o Josef, entretanto, você não tem problemas para mudar. Eu percebia sua imagem com claridade.

—Porque eu a projetava para você. Parece muito com respirar. Não pensamos na mecânica da respiração, mas seu cérebro dita uma ordem a seus pulmões e tudo funciona em segundo plano, enquanto seguimos funcionando normalmente. Mudar é diferente. Tem que controlá-lo, mesmo quando faz outras coisas. Os detalhes têm que ser o mais importante em sua mente aconteça o que acontecer. Os Cárpatos têm que pensar em vários níveis de uma vez. E nossos filhos têm que aprender tudo isto. Não são destrezas inatas. Certamente, alguns são mais hábeis que outros. E também temos nossos gênios.

Byron seguia lhe massageando o pescoço. Havia um certo sentimento possessivo nesse contato e Antonietta levantou as mãos e pegou as mãos dele. Byron a havia feito viver a experiência mais extraordinária de sua vida. Pressionou-se contra ele e se voltou para contemplá-lo e lhe dar toda sua confiança. Para lhe dar seu amor e acolhê-lo.

Byron gemeu brandamente, levantou-a e a estreitou contra seu peito.

—Neste momento, quero fazer amor com você, mais que qualquer outra coisa no mundo.

— Você fala como se fosse algo ruim. Eu também o desejo. — Antonietta apalpou os lábios sutilmente desenhados. Fascinava-lhe a forma e a textura de sua boca. Seu sabor. Todas suas terminações nervosas se ativaram depois daquele fantástico rodeio pelos céus. Ela o desejava tanto ou mais do que ele podia desejá-la.

Byron a levou para o interior da casa. Eleanor havia lhe assegurado que tinha pelo menos um quarto disponível para dormir. Ele se moveu sem vacilar entre os móveis, como se o espaço o fosse familiar e encontrou a escada de caracol que dava para o luxuoso quarto do porão. As janelas estavam protegidas por ricas cortinas de veludo. O quarto era amplo, com uma parte piso estava recoberto por um grosso carpete. Num nível mais abaixo havia uma banheira de mármore com um intrincado desenho de mosaicos.

—Esta é sua casa? — Antonietta se sentiu intrigada por sua repentina reserva. Estava tão acostumada a constante presença mental de Byron, que sua retirada a inquietou. - Já que não vim com Celt, me descreva a disposição da sala. Memorizo bastante bem e assim evitarei acidentes. Detesto tropeçar em cadeiras. É muito pouco estético.

Em lugar de fazê-lo rir, suas palavras pareceram aumentar a tensão que adivinhava em Byron. Ele deixou-a no chão, junto à cama. Ela apalpou a grossa colcha com a palma da mão.

—Jamais deixaria que tropeçasse. – Ele disse e lhe transmitiu em seguida, o mapa mental do quarto.

Ela sorriu.

—Não, certamente que não me deixaria. Bonito quarto. Não me importaria de me colocar na banheira, depois de passear ao ar livre, de noite. E você?

Byron remexeu o cabelo com gesto nervoso, mas abriu as torneiras antes de sentar-se na beirada da cama.

Antonietta estudou o mapa do quarto em sua cabeça e logo caminhou lentamente por toda parte, até chegar ao único degrau que lhe permitia sentar-se à beira da banheira.

— Por que está tão preocupado, Byron? — O temor de Antonietta não era que Byron pensasse em abandonar a relação, mas que pensasse que ela queria. - Acaso é porque teve que dar sangue a meu primo? — Antonietta tirou a jaqueta, dobrou-a cuidadosamente. - Também pode falar comigo. Quer falar, mas tem problemas para saber como me explicar isso tudo. É tão difícil conversar comigo? Lembre-se que eu estava presente. Roguei a você, que salvasse Paul. Crê que agora o reprovarei por ter conseguido o impossível?

Byron levantou a cabeça para olhá-la.

—Não sei o que tenho feito na vida para te merecer, Antonietta. É uma mulher verdadeiramente excepcional.

Ela riu, incitante. Uma sereia sedutora que o tentava com a sexualidade de sua voz. Ele ficou imediatamente hipnotizado quando a observou desprender-se lentamente de suas sandálias. Havia algo de muito feminino no modo em que ela passou a mão pelas pernas.

—Há algum homem que mereça uma mulher? Teria que pensar. Ainda assim, você é definitivamente minha escolha. — Ela inclinou-se para o ruído da água que corria e introduziu a mão para provar a profundeza.

—Meu povo existe graças ao sangue de outros. É assim que nos alimentamos. A comida nos deixa doentes, especialmente a carne. Podemos nos obrigar a comer, mas é incômodo. A maioria das vezes passamos a impressão de que comemos. Se consumirmos mantimentos, temos que nos desfazer dos conteúdos o mais breve possível. — Byron procurava conservar um tom de voz tranqüilo, mas tinha o olhar ardente fixo em seu rosto, escrutinando-a para observá-la, até a menor reação.

—Entendo. Não me mentia quando me dizia que a sua família não importaria o jantar. Estava ansiosa sem motivo algum. – Ela confessou e um sorriso irônico lhe curvou os lábios. - Não te parece que isso dá certa perspectiva às coisas?

Byron conservou um ligeiro contato mental com ela, uma mera sombra que seguia suas reações. Ela captou o que ele disse sem julgá-lo. Logo, tamborilou os dedos sobre o mármore.

—Então você tem presas? Como os vampiros nos livros? — Ela perguntou levando a mão à veia que lhe pulsava no pescoço

—Quando tenho que me alimentar, meus incisivos se alongam. – Ele falou, sem deixar de olhá-la.

Antonietta fechou a água.

—Tem música neste quarto?

A pergunta era inesperada e surpreendeu Byron.

— Ouviste o que eu disse? — Ele perguntou.

—Claro que o ouvi. Direi o que acontece, Byron. Antes que continuemos, terá que me contar algumas coisas importantes sobre sua vida.

—O fato de que eu tenha prêsas, pode parecer relevante para certas pessoas, Antonietta. – Ele foi paciente, se perguntando se por acaso não havia perdido a razão. Começava a sentir uma frenética agitação A seus olhos, Antonietta era tão bela, tão valente. Ardia de desejo de abraçá-la. Tinha refletido e decidido que lhe explicaria sobre sua herança, que a tranqüilizaria com toda a ternura do mundo, embora não desse a impressão de que Antonietta tivesse necessidade de que a tranqüilizasse. Não nesse momento.

—Suponho que sim, mas me importa mais a escolha da música. Posso viver com certas coisas, mas a música é minha vida. Se tivesse gosto ruim, por exemplo, teria que voltar a pensar nesta aventura.

Byron voltou a passar a mão no cabelo, presa de uma agitação crescente.

—Isso é outra coisa. O nosso não é uma aventura. Ante meu povo, ante mim mesmo, já somos marido e mulher. E ainda mais. Estamos unidos para toda a eternidade. O ritual de união se celebrou.

Ela se voltou para ele, olhando-o diretamente, como se pudesse vê-lo.

—E onde estava eu durante o ritual de união? A verdade é que não me lembro do que me conta. E já que estamos, me poderia explicar isso.

Esse olhar sem vacilar de Antonietta, o sacudiu. Ela parecia serena, sentada a beira da banheira.

—Uma mulher fica unida a seu companheiro quando ele recita as antigas palavras do vínculo. O poder dessas palavras é como uma estampagem em todos os homens de nossa espécie, antes de nascer. Somos duas metades de um tudo. Quando se pronunciam essas palavras, as almas se convertem em uma, cumprem com seu destino e nenhuma das duas pode permanecer longe da outra, por muito tempo.

—E isto se faz sem o conhecimento ou consentimento da mulher? — O tom de Antonietta era tranqüilo. Afundou a mão na água e deixou uma esteira de ondas na superfície.

—Temos muito poucas mulheres. Nossa raça está à beira da extinção. Temos descoberto que algumas poucas e estranhas mulheres possuem uma capacidade telepática. Nascem para converter-se no complemento de um macho Cárpato.

—De modo que, sem seu conhecimento ou consentimento, atam às mulheres a vocês. - Repetiu ela.

—O macho tem pouco que dizer no assunto se decide sobreviver. Ela é a luz de nossa escuridão. Não podemos sentir emoções nem ver cores sem a influência da mulher. Há muitos machos de nossa espécie que se converteram em vampiros ou se entregaram ao amanhecer porque não encontravam a sua companheira. É nosso dever velar para que nossa espécie sobreviva. Os casais se pertencem mutuamente.

Ela assentiu com um gesto da cabeça, mas ele percebeu o brilho da ira.

—Os machos têm uma opção, Byron. Sempre há uma opção. A razão pela qual não me acordo até o pôr-do-sol se deve a você, certo? E o fato de que meu ouvido e meu olfato estejam agudizados, também se deve a você.

— Intercambiamos sangue em duas ocasiões. Os casais precisam intercambiar sangue durante o acoplamento.

—Eu sou como você? Por isso Josef estava tão convencido de que eu podia mudar?

—Ainda não. É preciso três intercâmbios de sangue para converter um ser humano. Aqueles humanos têm que poder de se comunicarpor telepatia. Você é muito mais sensível que a maioria.

—Por isso me trouxeste aqui esta noite. Tem a intenção de me converter em alguém como você. Por isso está tão aflito.

—Queria esperar, Antonietta. Queria que você mesma tomasse a decisão.

—O que te fez mudar de parecer? — Perguntou ela, sentando-se e tirando a roupa por cima da cabeça, com um só movimento. Havia uma espécie de curiosidade em sua voz, mas Byron não detectou uma autêntica censura. Nenhum temor real. De fato, Antonietta parecia muito segura de si mesma. Ela dobrou sua veste e a colocou sobre a jaqueta e ficou frente a ele com seu soutien de renda azul e sua saia longa.

Byron se distraiu com a leve reação dela. Também lhe distraíram seus seios, a tentação oculta embaixo daquela renda quase transparente. Observou-a tirar as presilhas do cabelo e liberar sua longa cabeleira. Seus seios se agitaram, incitantes.

—Byron, o que te fez mudar de parecer? Por que decidiu me trazer aqui esta noite e me converter sem que eu tenha nem arte nem parte. — Antonietta se desfez de sua saia longa e ficou só com sua diminuta tanga.

Ele demorou um momento para recuperar a fala e ordenar suas idéias, ante a intensidade desse broto de luxúria.

—O jaguar, esta noite. Eu não estava lá para te proteger. Dei-te de presente Celt, mas não basta confiar no borzoi. Tenho que estar seguro de que se encontra a salvo. — Inclusive a seus próprios ouvidos, sua voz parecia afogada. Teve que conter a respiração ante a visão da pele nua e brilhante.

— Por que não pode ficar comigo no palácio?

—Porque não temos o mesmo sono. Para o mundo e para você, pareceria que eu estou morto. Você desperta e acredita que estou morto, sua dor poderia ser uma ameaça para sua vida. Já teve uma pequena amostra disso quando Paul disparou em mim. Também sou muito vulnerável durante as horas do dia. No palácio, não poderia te proteger como quisesse. Nem a voce nem a mim.

Byron sentiu que se coração parava no peito, quando ela lhe deu as costas, dobrando apenas a cintura para desprender a diminuta tanga. Não soube em que momento se deslocou, mas de repente se encontrou do outro lado do quarto, acariciando as nádegas firmes.

Antonietta se apoiou sobre os ladrilhos dobrando-se como uma gata.

— E acredita que se me converter igual a você, me liberaria do perigo do jaguar? — Byron a acariciava por toda parte, deslizava-se em suas fendas secretas e a estava convertendo em lava. Inclinou-se para lhe dar um beijo nas costas.

—Sabia que estaria a salvo, Antonietta.

Havia absoluta convicção em sua voz e em seu pensamento. Ele deslizou a mão entre as coxas, obrigando-a a separar as pernas. Sua roupa roçou a pele sensível. Antonietta respondeu de boa vontade a seu desejo. —Agrada-te o sabor de meu sangue?

Byron sentiu que endureceu todo seu corpo, excitando-o até a dor.

—Tenta me seduzir, Antonietta.

—Me alegro de que tenha se dado conta, Byron. Detestaria pensar que só me trouxeste aqui com a intenção de me salvar de uma felina selvagem. – Antonietta disse e retrocedeu contra ele, esfregando seu traseiro com uma lentidão deliciosa, sobre o grosso vulto sob a braguilha. Deixou escapar um doce gemido de prazer, quando Byron introduziu o dedo em sua dobra feminina e a penetrou fundo, mordiscando suas nádegas.

—Quero que beba meu sangue agora, Byron. E desta vez quero sentr.

Aquela voz rouca com que manifestou sua atração era a experiência mais sexualmente excitante que Byron vivia. Lentamente, ela retirou o dedo de seu interior e a fez voltar-se para ele.

— Está falando sério, Antonietta? Não tem medo?

—Não quero um intercâmbio, só quero ver como é. Para ser franca, a idéia me excita e não sei por que. Deveria estar espantada. Senti-me mal quando Vlad te deu seu sangue. Queria que fosse eu a fazê-lo. Sentia-me como se tivesse que ser eu, a que te providenciasse tudo o que precisa. – Antonietta falou e deslizou a mão sob a camisa dele. - Tire a roupa, não precisamos dela.

—Não. — Byron a segurou pela nuca e a beijou com força, enquanto se desprendia de sua roupa. Agora suas peles se tocavam. Ele descobriu que experimentava um apetite irrefreável, como se tivesse o corpo inteiro fosse um nó. Apoderou-se implacavelmente de sua boca e sentiu que o ardor de Antonietta se igualava ao dele. As línguas se enredaram. As mãos estavam em todas as partes, tocando, explorando, reclamando. Desesperadas pelo tato e o sabor. Ardendo.

Quando ele deixou sua boca para encher de beijos seu pescoço e os seios, ela lançou a cabeça para trás, arqueou o corpo para encontrar sua boca ávida. Byron sabia que tinha chegado a um ponto que não havia retorno, que seus incisivos já começavam a se alongar. Teve de redobrar sua atenção, enquanto sugava e mordiscava os mamilos endurecidos.

Ela respirava apenas com a excitação, com a antecipação. Todo o corpo pulsando de fome, de calor. A respiração de Byron em seu pescoço lhe arrepirou ao limite e seios doíam, o ventre tomava vida, com fortes pulsações. Ele passou a língua por sua pele. Com os dentes, arranhou-a docemente, com ternura.

Byron a segurou em seus braços para ampará-la e protegê-la com seu corpo.

—Antonietta, está segura de que isto é o que quer? Posso te economizar a experiência se tiver medo.

—Se tenho medo? Necessito-o, tanto como você. Morro por ter você, Byron. Penso em você a cada minuto do dia. Quero saber tudo sobre você. Quero saber como seria minha vida. Não alcanço compreender tudo o que me oferece. – Disse ela, sentindo que seu corpo vibrava devido à tensão sexual.

Byron lhe encontrou a pulsação com os dentes e sua língua vibrou sobre aquele ponto, até que ela deixou de respirar. Sentiu que o amor brotava, alagava-o, misturando-se com a luxúria, com a fome de Eros.

—Amo-te — Murmurou ele, com voz baixa e cravou profundamente os dentes nela.

 

Antonietta lançou um grito e suas pernas quase cederam, ao sentir aquela dor de um branco incandescente, que lhe percorria o corpo como uma chicotada e que imediatamente dava lugar a um prazer que a consumia. Byron havia se fundido mentalmente com ela e agora Antonietta percebia sua reação ao beber seu sangue. Um gosto quente. Saciando uma fome que era quase impossível de saciar. Em suas veias estalaram relâmpagos, longas chicotadas que assobiaram e crepitaram até deixá-los em brasas. Antonietta o segurava com força, possessiva. Tinha que possui-lo. Tinha que sentir seu corpo sob seus dedos. Tinha que deixá-lo penetrar no mais fundo de seu ser.

- Não o faça. Se transpassar o limite, não poderei me controlar.

Byron não tinha por que advertir-la Ela sabia. Antonietta não queria que Byron se controlasse. Queria que ele ardesse e se consumisse como ela. Queria ver sua necessidade. Sua fome. Que estivesse tão dependente dela, que todo o resto perdia sua importância. Deslizou as mãos sobre seus ombros longos, seguindo os contornos de seu peito e seu ventre, até encontrar a grossa plenitude de sua ereção.

Sentiu a descarga que ele e logo ela, ao contato de seus dedos. A intensidade de seu desejo a fez tremer. Começou a acariciá-lo, a excitá-lo e seus dedos dançaram sobre o prepúcio aveludado até que sentiu que no ventre de Byron se desatava uma bola de fogo.

Byron lambeu as pequenas incisões, segurou-lhe o queixo e seus lábios se encontraram. Ela degustou o sabor e a especiaria doce do sangue, a paixão de seu beijo. E se alimentaram um do outro, os dois tentando freneticamente aproximar-se ainda mais, até que Byron a levou para a parede, onde a sustentou, sem que suas mãos deixassem de acariciá-la por toda parte. Antonietta levantou uma perna para lhe rodear o quadril, tentando que os corpos casassem à perfeição, desejosa de que ele a penetrasse.

Não era suficiente. A tempestade aumentou, feroz, grosseiramente fora de controle e com tanto ardor que tinham que se procurar mutuamente. Ela queria compartilhar sua pele. Precisava senti-lo dentro. Ele tinha que tocá-la centímetro a centímetro, ouvir sua respiração acelerada, os leves gemidos que emitia quando suas mãos se aventuravam por cada um dos interstícios que a faziam se retorcer de prazer.

Fora, o vento açoitou as janelas. Os relâmpagos iluminaram o céu e os trovões retumbaram, caíram como bombas que sacudiam a terra. O céu escuro se acendeu e brotaram faíscas de fogo, numa chuva de pedras preciosas que caíam das estrelas para o mar enfurecido.

Byron a levou até o tapete, porque foi incapaz de chegar à cama. Seu corpo fervia, raivoso e seu intelecto havia sido anulado pelo voraz apetite de Antonietta. Obedeceu sem vacilar a seu impulso de explorá-la intimamente e deixou o éden de seus lábios para derramar uma chuva de beijos sobre seus seios e seu ventre, brincando com seu umbigo, levantando os quadris e beijando-a, até afundar por fim, a língua nela.

Antonietta gritou, presa de um orgasmo tão intenso que lhe sacudiu os quadris. Ele agüentou, sustentando-a em seus poderosos braços, atrasando-se e excitando-a, lambendo com calculada paixão ao redor de seu ponto mais quente até que ela retorceu-se, insaciável. Assim que ele a tocava, seu corpo entrava numa espiral desenfreada, ainda mais intensa que a anterior.

Byron aproximou ainda mais os quadris dos dela, pressionando com força em seu sexo úmido e lubrificado. Ouvia seu coração acelerado e via Antonietta se debater sobre o carpete, empurrando-se para ele, querendo impalar-se, em busca de alívio. Ele desejava conservar essa imagem em sua mente até o final dos tempos. O cabelo escuro em maravilhoso contraste com o carpete branco, o corpo abandonado, avermelhado pela excitação, seus seios numa visão embriagadora e a suave imploração em sua voz quando pediu que tomasse posse dela.

E ele, com um movimento duro e profundo, encheu-a com toda sua grossa envergadura, só pelo prazer de voltar a ouvir seus gritos. Antonietta sempre se mostrava desinibida com ele, selvagem e apaixonada, desejando-o com cada fibra de seu ser. Com suas mentes tão estreitamente fundidas, Byron sentia em cada momento o desejo que a consumia. Sabia exatamente o que Antonietta queria e a com cada movimento, entrava profundamente. O chão de carpete não os segurava mais, embora suas investidas encontrassem a resistência, não era suficiente.

Antonietta se segurou a ele, aproximou-o ainda mais, elevando os quadris para encontrá-lo num rodeio sensual e primitivo. Ignorava em que momento acabava um orgasmo e começava o seguinte. Sentiu o corpo inteiro varrido por uma maré que não se detinha, cada onda mais poderosa que a anterior e ainda assim, nunca era suficiente porque o apetite era insaciável. Ela cravou as unhas nas costas de Byron, apertando os quadris para aproximá-lo, enquanto ela se levantava para ir a seu encontro, sacudindo-se, escrava de um prazer delirante e absoluto.

Byron se deleitava com sua maneira de entregar-se por completo, sem reservas. Sentia todo o corpo inchado, além de suas expectativas e um rugido nos ouvidos, uma tempestade escura de apetite sexual que se apoderava dele. - Quero que ouça as palavras, minha amada. Quero, que saiba o que te dou, o que você me dá. Este é o ritual do emparelhamento. O poder para restabelecer as duas metades de nossas almas e as convertêlas em uma unidade. Reivindico-te como minha companheira. Pertenço a você. Ofereço-te minha vida. Ofereço-te meu amparo, minha aliança, meu coração, minha alma e meu corpo. Serei o guardião de tudo aquilo que você entesoure. Velarei por sua vida, sua felicidade e seu bem-estar, que sempre estarão acima de mim mesmo, até o final dos tempos. Você é minha companheira, está unida a mim para toda a eternidade e sempre protegida por mim.

O sexo de antonietta estava apertado e quente e num roçar aveludado que fazia Byron enlouquecer e o sacudia uma descarga de fogo que nascia em alguma parte, nos dedos dos pés e lhe subia por todo o corpo como a investida de um aríete. Antonietta o acolheu ainda mais profundamente, agüentando com seus quadris, a fúria de suas investidas, até que ficaram soldados em meio da poderosa explosão. Byron pensou que se desintegraria e quis segurar-se em Antonietta, com o que restava de sua prudência.

Antonietta jazia sob ele, esfregando seus bíceps com os dedos, explorando a forma e o contorno de seus músculos enquanto tentava recuperar a respiração e o equilíbrio. Byron afundou a cabeça em seu pescoço e com os lábios lhe acalmou a pulsação. Estava, tão profundamente nela, que Antonietta teve a certeza de que estavam soldados para sempre.

—Será que sabemos o que significa a expressão “tomar-lhe com calma e pouco a pouco?” — Perguntou, com um tom carregado de humor. - Em um momento pensei que íamos colocar fogo no quarto.

—Tenho a pele chamuscada. - Disse ele e se apoiou em um cotovelo, para aliviá-la de seu peso, enquanto com a outra mão lhe acariciava um seio.

Antonietta sentiu os estertores da reação em todo o corpo.

—Não se atreva a respirar sobre mim. Derreti-me aqui no carpete. — Suas pálpebras se fecharam lentamente. - E ficarei adormecida aqui no chão e quero despertar com você ainda dentro de mim. – Ela confessou, com um suspiro feliz. – Pode ser que você seja o melhor amante da história universal.

Ele inclinou a cabeça para a tentação de seus seios e com a língua brincou em volta de seu mamilo. Sorriu quando ela reagiu apertando-se ao redor de seu membro.

—Pode ser que seja? — Perguntou ele e lhe sugou o seio, para castigá-la, sorrindo quando ela voltou a levantar os quadris e sentir o orgasmo que se aproximava. - Sempre responde à perfeição, Antonietta. – Byron falou, sentindo o corpo suave e generoso o acolher com gosto.

Ela colocou os dedos no cabelo negro, enquanto ele explorava seus seios com toda a avidez de seus lábios.

—Pensa passar a noite esbanjando atenção sobre meus seios? Não é que me queixe, mas me está deixando louca. Não posso me permitir estar mais quente. Agora entendo as causas de certos casos estranhos de combustão espontânea.

—Estava pensando que poderia passar a noite me entretendo com outras partes de sua anatomia. - Respondeu ele. - Decidi que quero provar todas as maneiras possíveis de fazer amor com você. Como se chama aquele famoso livro, com todas aquelas posições e conselhos secretos?

Ela acariciou-lhe o cabelo e com as sacudidas da risada, seus músculos se contraíram intimamente em torno dele.

—E bem, não esta noite. Esta noite terá que inventar uma maneira de me levar até a banheira, sem que caiamos e nos esparramemos pelo chão.

—Já estamos no chão. Em qualquer caso, me obrigaria a abandonar esta posição em cima de você, quando acreditava ter encontrado um lar. É a mulher mais ardente de toda a face da terra e penso ficar exatamente onde estou.

—Você é um preguiçoso. Prometo fazer amor com você toda a noite toda, mas se não me refrescar com um pouco de água, pode ser que não seja capaz de cumprir a promessa. Digamos que nos... Hum... Usamos de muito rigor. — Por um instante, Antonietta manteve a cabeça junto a seu peito, sentindo as ondas de prazer em que se deleitava. Era como habitar um casulo, de deleites sensuais.

Byron beijou o mamilo com um suave suspiro de lamento.

—Suponho que tenha razão.

—Quando voltarmos para a cama deixarei que se divirta tudo o que queira. Pode tornar realidade, todas as suas fantasias. — Antonietta o tinha visitado mentalmente e era testemunha de suas fantasias e agora se excitava ao conhecer suas intenções. - Eu gostaria de ter sua energia, mas não é assim. Tenho que descansar. Não quero adoecer.

—Minha saliva contém um agente curativo. Não temos que nos preocupar por isso. Não deixarei que se sinta incômoda. – Ele disse e começou a abandoná-la brandamente. Ela reagiu enrijecendo os músculos, aderindo-se a ele, tentado que não se retirasse. Byron a beijou na garganta. - Vê? Nem sequer seu corpo quer que nos separemos.

—Não preste atenção. - Disse ela e lançou os braços no pescoço dele, quando ele a levantou para acolhê-la contra seu peito. - Não posso me mover. Pode ser que não consiga nunca mais.

A água na banheira estava quente e borbulhante e ele a banhou por toda parte, até as mais sensíveis. A sensação agora parecia carregada de erotismo. Antonietta deixou escapar um suspiro.

—Isto é uma maravilha. Tem velas?

—Se você quiser.

—Não posso vê-las, mas se forem aromáticas, sempre é agradável.

Quase imediatamente, uma fragrância de madressilva e chuva o quarto. Antonietta sorriu e deixou as pernas flutuarem até a superfície, os braços abertos como se quisesse abraçar a atmosfera daquele ambiente.

—Meu bruxo particular.

A água acariciava seus seios, o umbigo, o triângulo de cachos escuros, a sombra entre as pernas. Byron se inclinou para trás e a observou, sentindo uma emoção peculiar na boca do estômago. Antonietta estava tão estreitamente unida a ele, tão engastada em seu coração e em sua alma e ele ignorava como tinha acontecido. Somente o feito dela observá-lo era como uma lança aguda. Era uma sensação estranha, uma dor física, um sofrimento amoroso quando a contemplava.

—Agora me dirá que tipo de música você gosta? — Perguntou Antonietta, flutuando na água que corria suavemente, deixando que a cabeleira se desdobrasse a seu redor, como algas. Com a cabeça, encostou contra o peito de Byron. Os braços se entrelaçaram para que ele, que a sustentara, enquanto a água borbulhava sobre sua pele delicada.

—Josef elaborou uma versão especialmente interessante, do rap.

Antonietta o fitou boquiaberta, sem dissimular seu alarme. Afundou-se sob a água enquanto murmurava um protesto. Ele a segurou e a tirou a superfície, com uma risada suave e zombadora.

—Tenho toda sua música. - Lhe assegurou.

—Foi uma reposta perversa. - Disse Antonietta. – Em contrapartida, devo lembrar a você que não utilizamos anticoncepcionais. Sequer penso nisso quando estou com você, o qual é um absurdo, porque sempre fui uma pessoa responsável. Não posso ver sua face e espero que esteja franzindo o cenho.

Ele segurou a mão dela e com seus dedos seguiu o desenho de seus lábios.

—Tem a impressão de que estou franzindo o cenho?

Ela retirou bruscamente a mão.

—É impossível te irritar. É provável que se estivesse grávida, você se sentiria ditoso, o qual não é nada razoável.

—Eu gostaria que esperasse até que se convertesse.

Antonietta se sentou, aproximou-se da cadeira pequena junto a ele.

—Toda esta história da conversão me soa a vampirismo. Que diferença há?

—Os vampiros são seres totalmente perversos, Antonietta. Os machos Cárpatos perdem as emoções por volta dos duzentos anos, em plena idade adulta. Nesse momento, começam a experimentar a atração do poder, o impulso de sentir a emoção da morte. Somos predadores, com alguns traços animais. Podemos ser perigosos quando nos provocam, mas não matamos indiscriminadamente. Os vampiros vivem para causar dor e tortura a outros seres e ao final, a morte. Nós tomamos o sangue, mas não fazemos mal a nossas vítimas. Os vampiros matam pela adrenalina no sangue e pelo impulso de poder, uma emoção passageira, quando matam. O dever de nossos caçadores é levar estes machos ante a justiça e proteger a nossa especie, ocultando sua existência.

—Isso era o que queria dizer quando falava de caçador. Um caçador de vampiros.

—Sim, entre outras coisas. Eu me dediquei a isso, mas não é minha vocação.

—Algo que teria que agradecer. Quanto tempo voces podem viver?

Ele encolheu os ombros, num gesto de preguiça que fez deslizar a água sobre sua pele. Segurou um pé de Antonietta e o fez descansar sobre sua coxa, para massageá-lo.

—A menos que se produza um ferimento mortal e ninguém possa nos providenciar sangue, podemos viver todo o tempo que queiramos.

—De modo que se eu fosse como você, viveria, mas veria morrer minha família e com o passar do tempo, a seus descendentes.

—Desgraçadamente, são momentos difíceis que todos vivemos. Perdemos pessoas queridas, mas isso acontece a todo mundo. Dom Giovanni não viverá para sempre. Algum dia terá que enfrentar a sua morte, aconteça o que acontecer. E a pequena Margurite poderia ter morrido quando caiu o escudo sobre ela. Na vida, tudo pode acontecer. - Byron sentenciou e deslizou a mão pela a pantorrilha de Antonietta.

Antonieta se afundou mais ainda na água, para estender a perna.

—Isso é verdade. É algo indiscutível. E não poderia estar acordada durante as horas do dia?

—Não e sua pele teria que se aclimar lentamente ao amanhece, antes que pudesse estar fora, durante essas horas do dia.

—Mas teria a você.

—É minha companheira, Antonietta. Sempre me terá.

—Os homens sempre abandonam às mulheres, Byron. Está me pedindo que mude todo meu modo de vida por você. Amo minha família. Amo o palácio. Não quero deixar meu lar. E não quero abandonar minha carreira. A música é o que me define, define quem sou e o que sou.

—Os casais não podem se abandonar. E eu não te peço que renuncie sua carreira nem que deixe seu lar. Há Cárpatos que vivem com seres humanos e levam uma vida normal.

—Como funciona a conversão?

—Intercambiamos sangue três vezes. O sangue afeta seus órgãos, remodela-os e te muda até que se transforme em quem deveria ser. Já se advertem certos sinais.

Ela brincou ausente, com a água, arrebentando as bolhas que flutuavam a seu redor.

—E o que acontece com minha vista? Ultimamente, aconteceram as coisas mais estranhas. Vi brilhos de luz, sombras, inclusive cores, já que percebo a temperatura dos corpos. Pensei que era porque estamos tão estreitamente conectados.

Byron refletiu.

—Eu via cores através de Jacques. Não eram minhas lembranças à fonte das imagens, mas a visão que tinha de sua companheira. Isso é pouco habitual. Procuramos as lembranças para sentir emoções, mas, como regra, não funciona dessa maneira com a visão. Possivelmente há algo em minha linhagem que permite que isso aconteça. Eu diria que recuperará a visão à medida que o sangue cure e adote uma nova forma. Nossos olhos são diferentes, estão mais adaptados à visão noturna. Acaso a idéia de voltar a ver é mais tentadora que a decisão de estar comigo?

Antonieta respondeu sorrindo.

—Falas como um machista. É uma reflexão tão infantil.

Ele puxou a perna dela, até que ela se inundou. Antonieta retirou a perna e inverteu sua posição sob a água, até que deu com a cabeça contra seu ventre. Rodeou-lhe a cintura com os braços para afastar-se e deixou descansar a cabeça sobre seu colo, enquanto sua boca se fechava sobre o membro flutuante.

Byron observou a riqueza daquela cabeleira sedosa que flutuava na água cheia de bolhas. Antonieta o acariciava com tanto desvelo, que não demorou em dirigir sua atenção sobre ela. Sua língua dançava, brincando com ele, esfregando-o até que todo seu corpo tremeu. Era como se Antonietta estivesse a ponto de lhe arrancar um vulcão de sei íntimo. O sangue lhe espessou, até que todas suas terminações nervosas se concentrassem onde Antonietta o atormentava com sua boca quente e apaixonada. Sentiu que as sensações intensas o impediam de respirar e nesse momento, ela saiu à superfície em busca de ar, como uma ninfa da água, que brincava com ele.

—Vêm aqui, mulher desenquadrada. - Ele se estirou para alcançá-la e atrai-la. - Viveremos em sua casa com sua família. Você viajará pelo mundo tocando sua música para seu público e eu voltarei a trabalhar na arte das pedras preciosas, de acordo com a vida. Os casais são para toda a eternidade, Antonietta. Podemos nos casar à maneira dos seus e viver e dissimular que envelhecemos. Pode acontecer que em certos momentos tenhamos que partir, mas sempre voltaremos se você desejar.

Ela inclinou a cabeça e um leve sorriso de sereia lhe desenhou os lábios.

— Você pode conseguir que não me sinta incômoda e que possamos fazer amor toda a noite?

—Absolutamente.

—Acredito que preciso de uma prova antes que me comprometa a mais mordidas.

Por toda resposta, ele a levantou e a sentou na beira da banheira. Separou-lhe as coxas o suficiente para lhe pôr as pernas sobre seus ombros.

—É um desafio ao qual não posso resistir. – Ele inclinou a cabeça para ela, explorando com suaves mordiscadas, o interior de suas coxas, exalando sua respiração sobre a entrada vulnerável. Segurou-a pelos quadris e a deslizou para sua boca, até que ela lançou um grito e lhe segurou com força, para sujeitar-se.

Antonietta jogou a cabeça para trás. Os seios doíam de tão inchados que estavam. Todos os músculos de seu corpo se enrijeceram. Byron fazia coisas incríveis com a língua, enquanto se aventurava mais à frente. Por onde a tocasse, aplacava-a e ao mesmo tempo, aumentava seu prazer. Seu corpo conrinuou enrijecendo, enrolando-se como uma mola. Agora estava úmida e quente, esperando-o, impaciente. Queria gritar com a maravilha e a beleza das alturas aonde ele a transportava. E, ainda assim, queria mais, continuava desejando mais.

Byron elevou a cabeça, aproximou a boca da sua, para que ela compartilhasse seu sabor, entrando com a língua até encontrar a sua. Continuando, fez ela virar e se inclinar.

—É prova suficiente? Posso te dar mais. – Ele avisou e lhe segurou os seios nas mãos, enquanto se apertava contra suas nádegas, mostrando deliberadamente a turgidez de seu desejo. - Quer mais?

Antonietta se inclinou para trás, tentando-o, para que ele se afundasse nela. Byron esquivou sua mão, voltou a esfregar-se contra ela e a lhe morder o traseiro. Antonietta quis dar meia volta, sabendo que os dois podiam brincar. Byron a sustentou contra a banheira e segurou-a pelos quadris e entrou em seu apertado sexo, com deliciosa lentidão.

—Havia dito com calma e pouco a pouco, lembra-se?

Seu membro era tão grosso que ela o sentia pressionando-a, empurrando além de suas paredes, enquanto o toque lento a elevava aos limites da loucura.

—Eu não disse isso. Estou segura de que não disse; - Byron era extraordinariamente forte e a sustentava com um abraço, mas impossível de romper, enquanto continuava movendo-se com investidas tranqüilas e prolongadas. Cada vez que ele a penetrava, ela estremecia de prazer. Teve que permanecer completamente imóvel, enquanto ele a tomava.

Deixou de continuar lutando para tê-lo e deixou que o prazer a invadisse em sucessivas ondas. Sentiu que os seios se endureciam a não mais poder, a cada movimento, Byron enriquecia sua experiência, fiel a sua intenção. Antonietta procurou um contato mental com ele para que compartilhassem cada um de seus orgasmos, para ensinar a beleza de seu abandono, à excitação e ao fogo. Para entregar-se a ele. Sentia que Byron se excitava muito mais, se ela estimulava, agarrando-o com força e arrastando-o a beira do abismo.

Quando recuperou a respiração, Antonietta sorriu porque ele deu um passo para trás e a atraiu para a água espumosa.

—Estamos enganchados para sempre? Minhas pernas estão esgotadas e não fui eu quem fez esforço. — As bolhas da água lhe acariciavam as nádegas, buliam entre seus corpos e excitavam sua íntima natureza feminina. - Espero que saiba que nunca me convencerá recorrendo ao sexo. Pode tentar e espero que tente, mas tomarei minhas decisões sobre a base de outras coisas. Coisas importantes, como o tipo de música que você gosta. — De repente, seu sorriso desvaneceu e ela ficou completamente quieta.

Byron deslizou para fora dela, Virou-a para fitá-la e conservou as mãos sobre seus quadris.

—O que está acontecendo, Antonietta?

—Tenho alguma alternativa, Byron? Acaso está me perguntando se eu desejo esta conversão ou só me explicando, porque tem a intenção de me converter, sem importar o que eu pense?

Depois de formular a pergunta, ela cravou as unhas em seus braços. Ele sentiu o batimento de seu coração, percebeu o ritmo desacompasado e temeroso. Com a mão, a segurou pela nuca.

—Trouxe você aqui com toda a intenção de convertê-la. - Disse, com voz pausada. - Meu primeiro dever para você e para meu povo é te proteger.

—Tenho que me sentar. – Ela disse. Faltava-lhe ar e sentiu que suas pernas se convertiam em gelatina. Apalpou a suas costas para encontrar um dos assentos. Byron a ajudou a sentar-se. – Feche as torneiras. - pediu ela.

Ele obedeceu e o quarto de repente ficou em silêncio. Antonietta juntou os joelhos e os abraçou.

—Tem alguma idéia do quanto vulnerável pode se sentir uma mulher? E eu sou uma mulher forte, não estou acostumada a me assustar, mas sou o bastante inteligente para permanecer em uma situação que me seja propícia. Consegui fazer a maioria das coisas que queria, mas sempre me assegurei que me rodear de pessoas de confiança. A cegueira me faz ainda mais vulnerável. Posso te dar uma bofetada na face e sair daqui como a rainha do drama. Embora, claro se tropeçar numa cadeira, estragaria o efeito.

—Tem vontade de me dar uma bofetada?

Ela afastou o cabelo molhado da face.

—Não, mas quero que me deixe tomar minhas próprias decisões. O que me pede não tem nada de banal. É inclusive mais importante que o matrimônio e eu pensava que jamais me casaria.

— Por que não tese casaria, Antonietta?

Ela respondeu encolhendo os ombros. A água continuava quente e o que ela precisava agora era de calor.

—Como poderia saber se um homem me quer pelo que sou? Não sirvo para nada como você me vê. Tenho uns quilos a mais e é verdade que tenho cicatrizes. Não são as cicatrizes que Tasha havia descrito, mas estão aí. Vivi muito de perto o dano que pode provocar um matrimônio mal realizado. Paul e Tasha sofreram muito. Não faz idéia. Seu pai era um mulherengo. – Ela esfregou a face. – Deitou-se com todas as criadas do palácio e com qualquer outra mulher que conseguisse seduzir. Sempre saía nos Jornais sensacionalistas. Não se importava onde estava nem quem o via. Era capaz de ter rela&cce