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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SOB A REDOMA / Stephen King
SOB A REDOMA / Stephen King

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "VT"

 

 

 

 

 

 

O AVIÃO E A MARMOTA

A dois mil pés, onde Claudette Sanders recebia uma aula de vôo, a cidade de Chester’s Mill cintilava à luz da manhã como algo que acabou de ficar pronto e de ser ali pousado. Os carros rodavam pela rua principal, relampejando piscadelas de sol. A torre da Igreja Congregacional parecia tão aguda que poderia furar o céu imaculado. O sol correu pela superfície do riacho Prestile quando o Seneca V o sobrevoou, avião e água cortando a cidade na mesma rota diagonal.

— Chuck, acho que estou vendo dois meninos ao lado da Ponte da Paz! Pescando! — O seu próprio deleite a fez rir. As aulas de vôo eram cortesia do marido, primeiro vereador da cidade. Embora, na sua opinião, se Deus quisesse que o homem voasse, teria lhe dado asas, Andy era um homem fácil de convencer, e Claudette acabou conseguindo o que queria. Ela adorou a experiência desde o princípio. Mas não era só divertimento; era euforia. Aquele era o primeiro dia em que entendia mesmo por que voar era tão bom. Por que era tão legal.

Chuck Thompson, o instrutor, tocou o manche de leve e apontou o painel de instrumentos.

- Não duvido - disse ele -, mas vamos manter o lado branco para cima, Claudie, tudo bem?

- Desculpe, desculpe.

- Não há de quê. - Há anos ele ensinava aquilo às pessoas e gostava de alunos como Claudie, que ficavam ansiosos para aprender coisas novas. Logo, logo ela custaria um bom dinheiro a Andy Sanders; adorara o Seneca e já tinha dito que queria um igualzinho, só que novo. Isso representava algo por volta de um milhão de dólares. Embora não fosse exatamente mimada, era inegável que Claudie Sanders tinha gostos caros que para Andy - homem de sorte! - não era difícil satisfazer.

Chuck também gostava de dias como aquele: visibilidade ilimitada, sem vento, condições perfeitas para ensinar. Ainda assim o Seneca balançou de leve quando ela exagerou na correção.

- Você está se esquecendo dos pensamentos felizes. Não faça isso. Chegue a 120. Vamos pela rodovia 119. E desça para 900.

Ela assim fez, o equilíbrio do Seneca novamente perfeito. Chuck relaxou.

Sobrevoaram a loja de carros usados de Jim Rennie e depois a cidade ficou para trás. Havia campos dos dois lados da 119 e árvores ardendo em cores. A sombra cruciforme do Seneca voou pelo asfalto, uma asa escura roçou rapidamente um homem-formiga com uma mochila nas costas. O homem-formiga olhou por cima e acenou. Chuck acenou de volta, embora soubesse que o sujeito não conseguiria vê-lo.

- Que dia danado de lindo! - exclamou Claudie. E Chuck riu.

A vida deles duraria mais quarenta segundos.

 

A marmota veio bamboleando pelo acostamento da rodovia 119, na direção de Cheste's Mill, embora a cidade ainda estivesse a 2,5 quilômetros e até mesmo a loja de carros usados de Jim Rennie não passasse de uma série de raios de sol faiscantes e arrumados em fila no lugar onde a estrada se curvava para a esquerda. A marmota planejara (na medida em que se pode dizer que marmotas planejam) voltar para a floresta muito antes de chegar ali. Mas, por enquanto, o acostamento estava agradável. O animal estava muito mais longe da toca do que pretendia, mas o sol lhe aquecia as costas e os aromas nítidos no nariz formavam imagens rudimentares - não quadros completos - no cérebro.

A marmota parou e se ergueu um instante nas patas traseiras. Os olhos não eram tão bons quanto antigamente, mas ainda serviam para perceber um humano andando na sua direção lá no outro acostamento.

Decidiu avançar mais um pouco ainda assim. Às vezes humanos deixavam para trás coisas boas de comer.

O animal era um sujeito velho e gordo. Nos bons tempos, atacara muitas latas de lixo e conhecia o caminho até o lixão de Chester's Mill tão bem quanto os três túneis da sua toca; sempre havia coisa boa para comer no lixão. Ele sacolejava no ritmo complacente dos velhos, observando o humano que andava do outro lado da estrada.

O homem parou. A marmota percebeu que fora avistada. À direita e logo à frente havia uma bétula caída. Ia se esconder debaixo dela, esperar que o homem passasse e depois investigar se havia algo saboroso para...

A marmota chegou até esse ponto nos seus pensamentos - e deu mais três passos bomboleante - embora tivesse sido cortada ao meio. Então caiu à beira da estrada. O sangue jorrou e palpitou; as tripas tombaram na terra; as pernas traseiras deram dois chutes rápidos e pararam.

O seu último pensamento antes da escuridão que vem para todos nós, marmotas e seres humanos: O que aconteceu?

 

Todas as agulhas do painel de controle caíram como mortas.

- Ei, o que foi isso? - disse Claudie Sanders. Ela se virou para Chuck. Os olhos estavam arregalados, mas não havia pânico neles, só perplexidade. Não houve tempo para pânico.

Chuck não teve tempo de ver o painel de controle. Viu o nariz do Seneca se amassar na sua direção. Aí viu as duas hélices se desintegrarem.

Não houve tempo para ver mais. Não houve tempo para nada. O Seneca explodiu acima da rodovia 119 e fez chover fogo no campo. Também choveram pedaços de corpos. Um antebraço fumegante - de Claudete - pousou com um ruído surdo ao lado da marmota perfeitamente dividida.

Era 21 de outubro.

 

BARBIE

Barbie começou a se sentir melhor assim que passou pelo Food City e deixou para trás o centro da cidade. Quando viu a placa que dizia VOCÊ ESTÁ SAINDO DA CIDADE DE CHESTER’S MILL VOLTE LOGO!, se sentiu ainda melhor. Estava contente de ir embora, e não só porque levara uma bela duma surra em Mill. Era o simples ir em frente que o alegrava. Ele vinha perambulando debaixo da sua nuvenzinha cinzenta particular havia ao menos 15 dias antes de receber aquela merda no estacionamento do bar do Dipper.

— Basicamente, eu sou só um andarilho — disse e riu. — Um andarilho a caminho do Céu Aberto. — Ora bolas, por que não? Montana! Ou Wyoming. A fodona Rapid City, em Dakota do Sul. Qualquer lugar, menos aqui.

Ouviu um motor se aproximar, se virou, agora andando de costas — e levantou o polegar. O que viu era uma linda combinação: uma picape Ford velha e suja com uma loura jovem e viçosa atrás do volante. Louro acinzentado, o louro de que mais gostava. Barbie deu o seu sorriso mais envolvente. moça que dirigia a picape respondeu com um dos dela, e ai meu Deus se ela tivesse um tiquinho mais que 19 ele comeria o seu último contra-cheque do Rosa Mosqueta. Jovem demais para um cavalheiro de trinta primaveras, sem dúvida, mas perfeitamente legal, como diziam na época da sua juventude alimentada a milho em Iowa.

O veículo desacelerou, ele começou a correr na sua direção... e depois a picape acelerou de novo. Ela lhe deu mais uma olhada rápida ao passar. O sorriso ainda estava no rosto, mas se tornara um sorriso arrependido. Tive uma cólica cerebral ali por um minuto, disse o sorriso, mas agora recuperei a sanidade.

E Barbie achou ter meio que a reconhecido, embora fosse impossível dizer com certeza; as manhãs de domingo no Mosqueta eram sempre um hospício.

Mas ele achou que a vira com um homem mais velho, talvez o pai, os dois com o rosto quase todo enterrado em cadernos do Sunday Times. Se pudesse ter falado com ela quando passou, Barbie teria dito: Se confiou em mim para preparar a sua linguiça com ovos, com certeza podia confiar em mim para me dar carona por alguns quilômetros.

Mas é claro que não teve chance e simplesmente ergueu a mão numa saudaçãozinha sem ofensas. As luzes de ré da picape piscaram, como se ela estivesse reconsiderando. Depois se apagaram e o veículo se foi a toda.

Nos dias seguintes, quando as coisas em Mill começaram a ir de mal a pior, ele repassaria várias vezes esse instantezinho ao sol quente de outubro. Era naquele segundo piscar de reconsideração das luzes de ré em que ele pensava... como se no fim das contas ela o tivesse reconhecido. É o cozinheiro do Rosa Mosqueta, tenho quase certeza. Talvez eu devesse...

Mas talvez fosse um abismo em que homens melhores do que ele tivessem caído. Se ela tivesse reconsiderado, tudo na sua vida daí para a frente teria mudado. Porque ela deve ter conseguido sair; nunca mais ele viu a loura de rosto viçoso nem o Ford F-150 velho e sujo. Ela deve ter atravessado a fronteira da cidade de Chester’s Mill minutos (ou até segundos) antes que fosse fechada. Se estivesse com ela, estaria fora, são e salvo.

A menos, é claro, pensaria ele depois, quando o sono não vinha, que a parada para me recolher fosse o suficiente para ser tarde demais. Nesse caso, provavelmente eu não estaria mais aqui. Nem ela. Porque o limite de velocidade naquela direção na 119 é de 80 quilômetros por hora. E a 80 quilômetros por hora...

Nesse ponto, ele sempre pensava no avião.

 

O avião o sobrevoou logo depois que ele passou pela loja de carros usados de Jim Rennie, lugar pelo qual Barbie não tinha amor nenhum. Não que tivesse comprado ali algum calhambeque (havia mais de ano que ele não tinha carro, vendera o último em Punta Gorda, na Flórida). Era só que Jim Rennie Jr. fora um dos caras daquela noite no estacionamento do Dipper. Um mauricinho que precisava provar alguma coisa, e o que não conseguia provar sozinho provava em grupo. Na experiência de Barbie, era assim que os Jim Juniors do mundo faziam as coisas.

Mas agora isso ficara para trás. A loja de Jim Rennie, Jim Junior, o Rosa Mosqueta (Amêijoa Frita é a Nossa Especialidade! Sempre “Inteiras”, Nunca “Fatiadas”), Angie McCain, Andy Sanders. O pacote todo, inclusive o Dipper. (Surras no Estacionamento são a Nossa Especialidade!) Tudo para trás. E à frente? Ora, os portões da América. Adeus, cidadezinha do Maine, olá, Céu Aberto.

Ou talvez, que inferno, ele voltasse para o Sul. Por mais bonito que fosse aquele dia específico, o inverno se escondia a uma ou duas páginas do calendário. O Sul seria bom. Ele nunca fora a Muscle Shoals e gostava do som do nome. Aquilo é que era poesia, Muscle Shoals, os Baixios Musculosos, e a ideia o alegrou tanto que, quando escutou o aviãozinho se aproximar, olhou para cima e acenou com força e exuberância. Esperava em troca um abanar de asas, mas não o recebeu, embora o avião voasse devagar a baixa altitude. Barbie achou que deviam ser turistas — era um belo dia para eles, com as árvores em chamas — ou talvez algum garoto tirando o brevê, com medo demais de estragar tudo para dar importância a pedestres como Dale Barbara. Mas ele lhes desejava tudo de bom. Turistas ou um garoto ainda a seis semanas do primeiro voo solo, Barbie lhes desejava tudo de bom. Era um belo dia e cada passo para longe de Chester’s Mill o deixava melhor. Panacas demais em Mil!, e além disso viajar fazia bem à alma.

Talvez mudar-se em outubro devesse ser lei, pensou. Novo lema nacional: TODO MUNDO PARTE EM OUTUBRO. Receba a sua Licença para Fazer as Malas em agosto, de uma semana de aviso prévio em meados de setembro e então...

Ele parou. Não muito longe à frente, do outro lado da estrada, havia uma marmota. Uma marmota danada de gorda. Lustrosa e petulante, também. Em vez de fugir correndo para o capim alto, continuava a avançar. Havia uma bétula caída com metade da copa no acostamento, e Barbie apostava que a marmota correria ali para baixo e esperaria que o bípede grande e mau fosse embora. Caso contrário, os dois se cruzariam, como andarilhos que eram, um de quatro patas indo para o Norte, o de duas, para o Sul. Barbie esperava que isso acontecesse. Seria legal.

Essas idéias passaram pela cabeça de Barbie em segundos; a sombra do avião ainda estava entre ele e a marmota, uma cruz preta correndo pela estrada. Então duas coisas aconteceram quase ao mesmo tempo.

A primeira foi a marmota. Estava inteira, e então estava em dois pedaços. Ambos se contorciam e sangravam. Barbie parou, a boca aberta com a articulação do maxilar subitamente frouxa. Foi como se a lâmina de uma guilhotina invisível tivesse caído. E foi então que, diretamente acima da marmota cortada, o pequeno avião explodiu.

 

Barbie olhou para cima. Caía do céu uma versão digna do Mundo Bizarro do lindo aviãozinho que segundos antes passara acima dele. Pétalas vermelho-alaranjadas de fogo pendiam retorcidas no ar lá em cima, uma flor que ainda se abria, uma rosa Desastre Americano. A fumaça subia em rolos do avião em queda.

Algo bateu na estrada e espalhou nacos de asfalto antes de girar como bêbado no capim alto à esquerda. Uma hélice.

Se tivesse ricocheteado pro meu lado...

Barbie teve uma rápida visão de ser cortado ao meio — como a pobre marmota — e virou-se para correr. Alguma coisa fez tum na sua frente e ele gritou. Mas não era a outra hélice; era uma perna de homem vestida de jeans. Ele não conseguiu ver sangue, mas a costura lateral se abrira, revelando carne branca e pelo preto e crespo.

Não havia pé.

Barbie sentiu que corria em câmera lenta. Viu apenas um dos seus pés, calçado com uma bota velha e gasta, se erguer e bater no chão. Então desapareceu atrás dele quando o outro pé foi para a frente. Tudo devagar, devagar. Como assistir ao replay de um cara tentando chegar à segunda base num jogo de beisebol.

Houve um barulhão oco e tremendo atrás dele, seguido pelo trovão de uma explosão secundária e por um golpe de calor que o atingiu do calcanhar à nuca. Isso o empurrou no caminho como uma mão quente. Depois todos os pensamentos se foram e só havia no corpo a necessidade bruta de sobreviver.

Dale Barbara correu para salvar sua vida.

 

Uns 100 metros estrada abaixo, a grande mão quente virou mão fantasma, embora o cheiro de gasolina queimada — além de um fedor mais doce que só podia ser uma mistura de plástico derretido e carne assada — fosse forte, levado até ele pela brisa leve. Barbie correu mais uns 60 metros, parou e deu meia-volta Ofegava. Não achou que fosse a corrida; não fumava e estava em boa forma (bom... mais ou menos; as costelas do lado direito ainda doíam da surra no estacionamento do Dipper). Achou que era terror e desalento. Poderia ter sido morto por pedaços de avião caídos — não só a hélice fugida — ou morrido queimado. Foi por pura sorte que não.

Então viu algo que fez a respiração rápida parar boquiaberta. Endireitou o corpo, olhando o local do acidente. A estrada estava coalhada de destroços — era mesmo de espantar que ele não tivesse sido atingido e ao menos ferido. Uma asa retorcida jazia à direita; a outra asa apontava à esquerda, entre os rabos-de-gato não aparados, perto de onde a hélice fugida fora descansar. Além da calça vestida de jeans, ele viu um braço cortado. A mão parecia apontar para uma cabeça, como se dissesse Aquela é minha. Uma cabeça de mulher, a julgar pelo cabelo, Os fios elétricos que passavam ao lado da estrada tinham sido cortados. Estalavam e se retorciam no acostamento.

Além da cabeça e do braço, estava o tubo retorcido da fuselagem do avião. Barbie conseguiu ler NJ3. Se havia mais, fora arrancado.

Mas não foi nada disso que atraiu os seus olhos e interrompeu a respiração. A rosa Desastre agora se fora, mas ainda havia fogo no céu. Combustível em chamas, sem dúvida. Mas...

Mas escorria pelo ar num lençol fino. Além e através dele, Barbie conseguia ver o campo do Maine — ainda pacífico, ainda sem reagir, mas ainda assim em movimento. Tremulando como o ar acima de um incinerador ou de um barril em chamas. Como se alguém jogasse gasolina numa vidraça e depois pusesse fogo.

Quase hipnotizado — era assim que ele se sentia, ao menos —Barbie começou a andar de volta para o local do acidente.

 

O primeiro impulso foi cobrir os pedaços de corpos, mas havia muitos. Agora conseguia ver outra perna (essa de calça verde) e um tronco de mulher preso numa moita de zimbro. Poderia tirar a camisa e abri-la sobre a cabeça da mulher, mas e depois? Bem, havia duas camisas a mais na mochila...

Um carro vinha da direção de Motton, a próxima cidade ao sul. Uma picape das menores, e vindo rápido. Alguém ouvira o acidente ou vira o relâmpago. Ajuda. Graças a Deus, ajuda. Cruzando a linha branca, mantendo-se bem longe do fogo que ainda corria do céu com aquele jeito esquisito de água na vidraça, Barbie balançou os braços acima da cabeça, cruzando-os em grandes X.

O motorista buzinou uma vez em resposta, depois pisou com força no freio, largando mais de 10 metros de borracha. Saiu do carro quase antes de o seu pequeno Toyota verde parar, um sujeito alto e magro, de cabelo comprido e grisalho ondulado e usando um boné de beisebol dos Sea Dogs. Correu para o lado da estrada, querendo contornar a principal cachoeira de fogo.

— O que aconteceu? — gritou. — Que merda foi...

Então bateu em alguma coisa. Com força. Não havia nada lá, mas Barbie viu o nariz do cara se dobrar de lado quando quebrou. O homem ricocheteou do nada, sangrando pela boca, pelo nariz e pela testa. Caiu de costas e depois conseguiu se sentar. Encarou Barbie com olhos perplexos e indagadores enquanto o sangue do nariz e da boca cascateava pela frente da camisa, e Barbie o encarou de volta.

 

JUNIOR E ANGIE

Os dois meninos que pescavam perto da Ponte da Paz não olharam para cima quando o avião passou no céu, mas Junior Rennie sim. Estava um quarteirão mais abaixo, na rua Prestile, e reconheceu o som. Era o Seneca V de Chuck Thompson. Olhou para cima, viu o avião e depois baixou a cabeça depressa quando o sol forte que brilhava entre as árvores mandou-lhe um raio de agonia nos olhos. Outra dor de cabeça. Vinha tendo várias ultimamente. Às vezes o remédio acabava com ela. Às vezes, em especial nos últimos três ou quatro meses, não.

Enxaqueca, disse o dr. Haskell. Junior só sabia que doía como o fim do mundo e com luz forte piorava, ainda mais quando estava incubando. Às vezes pensava nas formigas que ele e Frank DeLesseps tinham queimado quando crianças. Usava-se uma lente de aumento para focalizar o sol nelas enquanto se arrastavam para dentro e para fora do formigueiro. O resultado eram formigandantes refogadas. Só que agora, quando a dor de cabeça estava incubando, o cérebro era o formigueiro e os olhos viravam lentes de aumento gêmeas.

Tinha 21 anos. Teria de aguentar aquilo até os 45, quando o dr. Haskell disse que elas podiam sumir sozinhas?

Talvez. Mas nessa manhã a dor de cabeça não ia impedi-lo. Talvez a visão do 4Runner de Henry McCain ou do Prius de LaDonna McCain na rua o tivesse feito; nesse caso, ele talvez tivesse dado meia-volta, voltado para casa, tomado outro Imitrex e se deitado no quarto com as cortinas fechadas e uma compressa fria na testa. Talvez sentindo a dor começar a diminuir enquanto a enxaqueca descarrilava, mas provavelmente não. Quando aquelas aranhas negras se instalavam pra valer...

Ele olhou para cima outra vez, agora franzindo os olhos contra a luz odiosa, mas o Seneca sumira, e até o zumbido do motor (também irritante — todos os sons eram irritantes quando a cabeça dele estava daquele jeito infernal) estava sumindo. Chuck Thompson com algum candidato a voador ou voadora. E, embora não tivesse nada contra Chuck — mal o conhecia —, Junior desejou com ferocidade súbita e infantil que o aluno de Chuck fodesse tudo e derrubasse o avião.

De preferência no meio da loja de carros do pai dele.

Outro soluço enjoado de dor se contorceu pela sua cabeça, mas mesmo assim ele subiu os degraus até a porta da casa dos McCain. Aquilo tinha que ser feito. Aquela merda já estava mais do que atrasada. Angie precisava de uma lição.

Mas só uma liçãozinha. Não vá perder o controle.

Como se convocada, a voz da mãe respondeu. Aquela voz enlouquecedora e complacente. Junior sempre foi um menino mal-humorado, mas agora está se controlando muito melhor. Não é, Junior?

Bom. Caramba. Ele estava, ao menos. O futebol havia ajudado. Mas agora não havia futebol. Agora não havia nem faculdade. Em vez disso, havia dor de cabeça. E com ela ele se sentia um filho da puta malvado.

Não vá perder o controle.

Não. Mas ele ia falar com ela, com ou sem dor de cabeça.

E, como diz o velho ditado, talvez tivesse de falar com a mão. Quem sabe? Se fizesse Angie se sentir pior, talvez se sentisse melhor.

Junior tocou a campainha.

 

Angie McCain tinha acabado de sair do chuveiro. Enfiou o roupão, amarrou o cinto e enrolou a toalha no cabelo molhado. “Tô indo”, gritou, quase trotando escada abaixo até o primeiro andar. Havia um leve sorriso no seu rosto. Era Frankie, tinha quase certeza de que só podia ser Frankie. Finalmente as coisas começavam a melhorar. O babaca do chapeiro (bonitão, mas ainda assim babaca) tinha ido embora da cidade ou estava de saída, e os pais dela tinham viajado. Junte os dois e o que se tem é um sinal de Deus de que as coisas estavam começando a melhorar. Ela e Frankie poderiam deixar todo o lixo para trás e recomeçar.

Ela sabia exatamente como agir: abrir a porta e depois abrir o roupão. Bem ali, à luz da manhã de sábado, quando qualquer um que passasse poderia ver. Ela tomaria cuidado para Frankie ser o primeiro, é claro; não tinha a mínima intenção de fazer o velho e gordo sr. Wicker corar se ele é que tivesse tocado a campainha com um pacote ou uma carta registrada; mas ainda faltava ao menos meia hora para o correio.

Não, era Frankie. Tinha certeza.

Ela abriu a porta, o sorrisinho se abrindo num sorriso de boas-vindas — talvez não afortunado, porque os dentes eram bem acavalados e do tamanho de um chiclete jumbo. Uma das mãos estava no cinto do roupão. Mas ela não puxou. Porque não era Frankie. Era Junior, e ele parecia tão zangado...

Ela já vira esse olhar sinistro — muitas vezes, na verdade —, mas nunca tão sinistro desde o oitavo ano, quando Junior quebrou o braço do filho dos Dupree. O viadinho ousara balançar o bundão na quadra de basquete da praça da cidade e pedir para jogar. E ela imaginava que a mesma tempestade devia ter estado estampada na cara de Junior na outra noite, no estacionamento do Dipper, mas é claro que ela não estava lá, só tinha ouvido falar. Todo mundo em Mill ouvira falar. Ela fora chamada para conversar com o chefe Perkins, aquele maldito Barbie estivera lá, e aquilo também acabara por vazar.

— Junior? Junior, o que...

Então ele lhe deu um tapa, e o pensamento praticamente parou.

 

Ele não pôs muita força naquele primeiro, porque ainda estava à porta e não havia muito espaço para girar; só conseguiu puxar o braço para trás e dar uma meia-trava. Podia nem tê-la atingido (ao menos não para começar) se ela não estivesse sorrindo — meu Deus, aqueles dentes lhe davam arrepios desde o primário — e não o tivesse chamado de Junior.

É claro que todo mundo na cidade o chamava de Junior, ele pensava em si como Junior, mas ele nunca percebera como odiava aquilo, como odiava aquilo a ponto de ter vontade de morrer num monte de vermes, até ouvir aquilo sair por entre os dentes de lápides mal-assombradas da piranha que lhe causara tanto problema. Aquele som lhe atravessou a cabeça como o raio de sol quando ele ergueu os olhos para ver o avião.

Mas como tapa meia-trava, até que não foi tão ruim. Ela saiu tropeçando para trás contra o pilar da escada e a toalha voou do cabelo. Tocos castanhos molhados caíram em volta das bochechas, deixando-a parecida com a Medusa. O sorriso fora substituído por um olhar de surpresa espantada, e Junior viu um pingo de sangue escorrer pelo canto da boca. Isso era bom. Isso era ótimo.

A piranha merecia sangrar pelo que fizera. Tanto problema, não só para ele mas também para Frankie, Mel e Carter.

A voz da mãe na cabeça: Não vá perder o controle, querido. Estava morta e ainda não parava de dar conselhos. Dê uma lição nela, mas só uma liçãozinha.

E ele podia mesmo ter conseguido, mas aí o roupão se abriu e ela estava nua por baixo. Ele conseguiu ver o retalho escuro de pelos por cima do parque de diversões, o maldito parque de diversões comichoso que causara todo aquele problema de merda; quando a gente pensa bem, esses parques causam todos os problemas de merda do mundo, e a cabeça dele pulsava, batia, socava, esmagava, rachava. Era como se fosse virar uma explosão termonuclear a qualquer momento. Uma nuvenzinha perfeita em forma de cogumelo sairia de cada orelha pouco antes de tudo explodir acima do pescoço, e Junior Rennie (que não sabia que tinha um tumor no cérebro — o velho asmático do dr. Haskell nunca sequer pensou na possibilidade, não num rapaz saudável que mal saíra da adolescência) enlouqueceu. Não foi uma manhã de sorte para Claudette Sanders nem para Chuck Thompson; de fato, não foi uma manhã de sorte para ninguém em Chester’s Mill.

Mas poucos tiveram tanto azar quanto a ex-namorada de Frank DeLesseps.

 

Ela teve mais dois pensamentos semicoerentes quando se encostou no pilar da escada e viu os olhos arregalados dele e o jeito como mordia a língua — mordia com tanta força que os dentes afundavam nela.

Ele está maluco. Tenho que chamar a polícia antes que ele me machuque de verdade.

Ela se virou para correr pelo hall de entrada até a cozinha, onde poderia puxar o fone da parede, teclar 911 e só então começar a gritar. Deu dois passos e tropeçou na toalha que enrolara no cabelo. Recuperou o equilíbrio depressa — fora chefe de torcida no secundário e a habilidade não a abandonara —, mas já era tarde demais. A cabeça caiu para trás e os pés dela voaram na frente. Ele a agarrara pelo cabelo.

Ele a puxou contra o corpo. Ardia, como se estivesse com muita febre. Ela conseguia sentir o coração dele bater: corre-corre, fugindo consigo mesmo.

— Sua piranha mentirosa! — berrou ele diretamente no ouvido dela. Isso fez um espeto de dor lhe entrar fundo na cabeça. Ela também gritou, mas o som parecia leve e inconsequente em comparação com o dele. Então os braços dele se envolveram na cintura dela e ela foi impelida pelo corredor numa velocidade louca, com apenas as pontas dos dedos dos pés tocando o carpete. A ideia de ser o enfeite do capô de um carro em fuga lhe passou pela mente, e então estavam na cozinha, cheia de sol brilhante.

Junior gritou de novo. Dessa vez não de raiva, mas de dor.

 

A luz o estava matando, fritava os seus miolos uivantes, mas ele não deixou que isso o detivesse. Tarde demais para isso agora.

Ele a jogou direto no tampo de fórmica da mesa da cozinha sem desacelerar. A mesa a atingiu no estômago, depois escorregou e bateu na parede. O açucareiro, o saleiro e o pimenteiro saíram voando, O fôlego saiu de dentro dela com um grande som de sopro. Segurando-a pela cintura com uma das mãos e pelos tocos molhados do cabelo com a outra, Junior a girou e a jogou contra a geladeira. Ela a atingiu com uma pancada que derrubou quase todos os ímãs da porta. O rosto estava tonto e pálido feito papel. Agora ela sangrava pelo nariz e pelo lábio superior. O sangue era brilhante contra a pele branca. Ele viu os olhos dela se dirigirem para o bloco de açougueiro cheio de facas na bancada da pia e, quando ela tentou se erguer, ele enfiou o joelho no meio do rosto dela, com força. Houve um som abafado de esmagamento, como se alguém deixasse cair uma peça grande de porcelana — uma travessa, talvez — em outra sala.

Era isso que eu devia ter feito com Dale Barbara, pensou ele e deu um passo atrás com a base da palma das mãos apertada contra as têmporas pulsantes. Lágrimas dos olhos cheios d’água transbordaram pelas faces. Ele mordera a língua com força — o sangue escorria pelo queixo e respingava no chão —, mas Junior não sabia disso, A dor na cabeça era intensa demais.

Angie estava caída com o rosto para baixo entre os ímãs de geladeira. O maior deles dizia O QUE ENTRA NA SUA BOCA HOJE VISITA O SEU CU AMANHÃ. Ele achou que ela estava desmaiada, mas de repente ela começou a tremer pelo corpo todo. Os dedos tremiam como se ela se preparasse para tocar alguma coisa complexa no piano. (O único instrumento que essa piranha já tocou foi a flauta de carne, pensou ele.) Então as pernas dela começaram a se debater, e os braços logo em seguida. Agora parecia que Angie tentava nadar para longe dele. Estava tendo uma maldita convulsão.

— Para com isso! — berrou ele. Então, quando ela se cagou toda: — Para com isso! Para com isso, sua piranha!

Ele caiu de joelhos, um de cada lado da cabeça dela, que agora balançava de um lado para o outro. A testa dela batia repetidamente no azulejo, como um daqueles jóqueis de camelo saudando Má.

— Para com isso! Puta que pariu, para com isso!

Ela começou a soltar um grunhido. Era surpreendentemente alto. Jesus, e se alguém a escutasse? E se ele fosse pego ali? Isso não seria como explicar ao pai por que largara a faculdade (coisa que Junior ainda não conseguira tomar coragem para fazer.) Dessa vez, seria pior do que ter a mesada cortada em 75% por causa daquela maldita briga com o chapeiro — a briga que esta piranha inútil tinha instigado. Dessa vez Big Jim Rennie não conseguiria enrolar o chefe Perkins e os bobalhões locais. Essa poderia ser...

De repente a imagem das paredes verdes e taciturnas da Penitenciária Estadual de Shawshank surgiu na sua cabeça. Ele não podia ir para lá, tinha a vida inteira pela frente. Mas iria. Mesmo que fizesse ela se calar agora, iria. Porque ela falaria depois. E a cara dela, que parecia muito pior do que a de Barbie depois da briga no estacionamento, falaria por ela.

A menos que ele a calasse completamente.

Junior a agarrou pelo cabelo e a ajudou a bater a cabeça contra o piso. Esperava que isso a fizesse desmaiar para que ele pudesse terminar... bem, o que quer que fosse... mas a convulsão só se intensificou. Ela começou a bater os pés contra a geladeira e o resto dos ímãs caiu feito chuva.

Ele largou o cabelo e a agarrou pela garganta. Disse “Sinto muito, Ange, não era para ter sido assim”. Mas não sentia muito. Só estava apavorado, com dor e convencido de que a luta dela naquela cozinha terrivelmente iluminada nunca acabaria. Os dedos dele já estavam se cansando. Quem diria que era tão difícil esganar uma pessoa?

Em algum lugar, bem longe, ao sul, houve uma explosão. Como se alguém disparasse uma arma muito grande. Junior não prestou atenção. O que Junior fez foi redobrar a força, e finalmente a agitação de Angie começou a diminuir. Em algum lugar muito mais próximo — na casa, neste andar — começou um sonzinho de sino. Ele ergueu os olhos arregalados, a princípio certo de que era a campainha. Alguém ouvira a confusão e a polícia estava ali. A cabeça explodia, parecia que tinha deslocado todos os dedos, e tudo à toa. Uma imagem terrível lhe passou pela cabeça: Junior Rennie escoltado, entrando no tribunal do condado de Castle para ouvir a acusação com a jaqueta de algum guarda sobre a cabeça.

Então reconheceu o som. Era o mesmo barulho que o computador fazia quando a luz acabava e o no-break ligava.

Bing... Bing... Bing...

Serviço de quarto, quero um quarto, pensou e continuou esganando. Agora ela estava parada, mas ele continuou mais um minuto com a cabeça virada de lado, tentando evitar o cheiro da merda dela. Era bem a cara dela mesmo deixar um presente de despedida asqueroso daqueles! Era bem a cara delas todas! Mulheres! Mulheres e seus parques de diversão! Não passavam de formigueiros cobertos de pelo! E diziam que os homens é que eram o problema!

 

Ele estava parado ao lado do corpo ensanguentado, cagado e sem dúvida morto, se perguntando o que fazer agora, quando houve outra explosão distante ao sul. Uma arma, não; alto demais. Uma explosão. Talvez o aviãozinho bonitinho de Chuck Thompson tivesse mesmo caído. Não era impossível; num dia em que só se queria gritar com alguém — quebrar alguma coisinha no máximo — e ela acabava te fazendo matar ela, tudo era possível.

Uma sirene da polícia começou a uivar. Junior tinha certeza de que era por causa dele. Alguém olhara pela janela e o vira esganá-la. Isso o forçou a agir. Desceu o corredor até a porta da frente, chegou até a toalha que arrancara do cabelo dela com aquele primeiro tapa e parou. Eles viriam por aqui, seria exatamente por aqui que viriam. Parariam na frente, aquelas luzes novas e brilhantes de LED mandando flechas de dor pela carne urrante do seu pobre cérebro...

Ele se virou e voltou correndo para a cozinha. Olhou para baixo antes de passar sobre o corpo de Angie, não pôde evitar. No primeiro ano, às vezes ele e Frank puxavam as tranças dela e ela punha a língua para fora e envesgava os olhos. Agora os olhos estavam saindo das órbitas como bolas de gude antigas e a boca estava cheia de sangue.

Eu é que fiz isso? Fiz mesmo?

Fez. Fez sim. E até aquela única olhada passageira bastou para explicar por quê. A merda daqueles dentes. Aqueles picadores imensos.

Uma segunda sirene se uniu à primeira, depois uma terceira. Mas estavam indo embora. Obrigado, Jesus, estavam indo embora. Seguiam para o sul pela rua principal rumo àquele barulho de explosão.

Ainda assim, Junior não desacelerou. Escapou pelo quintal dos fundos da casa dos McCain, sem perceber que teria berrado a sua culpa de alguma coisa a quem estivesse olhando (ninguém estava). Além dos tomateiros de LaDonna, havia uma cerca alta de madeira e um portão. Havia um cadeado, mas estava aberto, pendurado nas argolas. Quando era garoto e às vezes ficava por ali, Junior nunca o vira fechado.

Abriu o portão. Dava para um matagal e um caminho que levava até o borbulhar amortecido do riacho Prestile. Certa vez, aos 13 anos, Junior espiara Frank e Angie em pé naquele caminho se beijando, os braços dela em torno do pescoço dele, a mão dele sobre o seio dela, e entendeu que a infância estava quase acabando.

Ele se inclinou e vomitou na água corrente. As manchas de sol na água eram malévolas, horríveis. Então a visão clareou o bastante para ele ver a Ponte da Paz à direita. Os meninos pescadores tinham ido embora, mas, enquanto ele olhava, dois carros da polícia desceram correndo o morro da praça.

O apito da cidade disparou. O gerador da Câmara dos Vereadores tinha sido ligado como acontecia nas quedas de luz, fazendo o apito transmitir os muitos decibéis da sua mensagem de desastre. Junior gemeu e tampou os ouvidos.

Na verdade, a Ponte da Paz era apenas um caminho coberto para pedestres, agora decrépito e desconjuntado. O nome verdadeiro era Passagem Alvin Chester, mas virara Ponte da Paz em 1969, quando alguns garotos (na época houve boatos na cidade sobre quais seriam) pintaram no lado dela um grande símbolo da paz azul. Ainda estava lá, embora desbotado como um fantasma. Nos últimos dez anos, a Ponte da Paz fora condenada. A polícia fechara as duas pontas com fita escrito NÃO PASSE, mas é claro que ainda era usada. Duas ou três noites por semana, membros da Brigada de Bobalhões do Chefe Perkins acendiam as lanternas ali, sempre numa ponta ou na outra, nunca nas duas. Não queriam prender os moleques que bebiam e namoravam, só assustá-los para que fossem embora. Todo ano, na assembleia da cidade, alguém solicitava que a Ponte da Paz fosse demolida e outro solicitava que fosse reformada, e ambas as moções eram engavetadas. Parecia que a cidade tinha a sua vontade secreta, e essa vontade secreta era de que a Ponte da Paz continuasse exatamente como estava.

Hoje, Junior Rennie ficou contente por isso.

Foi se arrastando pela margem norte do Prestile até chegar debaixo da ponte — as sirenes da polícia agora se esvaindo, o apito da cidade alto como nunca — e subiu até a rua Strout. Olhou para os dois lados e depois passou pela placa que dizia SEM SAÍDA, PONTE FECHADA. Mergulhou por debaixo da fita amarela cruzada rumo às sombras. O sol brilhava pelo teto furado, deixando cair tostões de luz nas tábuas gastas do assoalho, mas depois do fulgor daquela cozinha dos infernos havia ali uma escuridão abençoada. Pombos trocavam palavras doces nas vigas do telhado. Latas de cerveja e garrafas de Brandy Allen sabor café estavam espalhadas pelas laterais de madeira.

Nunca vou conseguir me livrar disso. Não sei se deixei algo meu sob as unhas dela, não consigo lembrar se ela me pegou ou não, mas o meu sangue está lá. E as impressões digitais. Só tenho mesmo duas opções: fugir ou me entregar.

Não, havia uma terceira. Ele podia se matar.

Tinha que ir para casa. Tinha que fechar todas as cortinas do quarto e transformá-lo numa caverna. Tomar outro Imitrex, deitar-se, talvez dormir um pouco. Então talvez conseguisse pensar. E se fossem buscá-lo enquanto estivesse dormindo? Ora, isso o pouparia do problema de escolher a Porta nº 1, a Porta nº 2 ou a Porta nº 3.

Junior atravessou a praça da cidade. Quando alguém — algum velho que ele mal reconheceu — lhe agarrou o braço e perguntou: “O que aconteceu, Junior? O que está havendo?”, ele só balançou a cabeça, afastou a mão do velho e continuou andando.

Atrás dele, o apito da cidade berrava como o fim do mundo.

 

ESTRADAS E ATALHOS

Havia um jornal semanal em Chester’s Mill chamado Democrata. O que era informação enganosa, já que proprietário e gerente — ambos os cargos exercidos pela temível Julia Shumway — eram republicanos até os ossos. O cabeçalho era mais ou menos assim:

    

O DEMOCRATA DE CHESTER’S MILL

Fund. 1890

Servindo à “Cidadezinha que Parece uma Bota!”

    

Mas o lema também era informação enganosa. Chester’s Mill não parecia uma bota; parecia a meia esportiva de uma criança, imunda a ponto de ficar em pé sozinha. Embora tocada a sudoeste (o calcanhar da bota) pela maior e mais próspera Castle Rock, na verdade Mill era cercada por quatro cidades de área maior mas população menor: Motton, ao sul e sudeste; Harlow a leste e nordeste; o distrito TR-90, não incorporado a nenhuma delas, ao norte; e Tarker’s Mills a oeste. Às vezes chamavam Chester e Tarker de Mills Gêmeas, e, na época em que as fábricas de tecido do centro e do oeste do Maine funcionavam a todo vapor, as duas transformavam o riacho Prestile num esgoto poluído e sem peixes que mudava de cor quase todo dia de acordo com o local. Naquele tempo, podia-se sair de Tarker numa canoa em água verde e estar num amarelo vivo quando passasse por Chester’s Mill para chegar a Motton. Além disso, se a canoa fosse de madeira, a tinta chegava abaixo da linha d’água.

Mas a última dessas lucrativas fábricas de poluição havia fechado em 1979. As cores esquisitas haviam abandonado o Prestile e os peixes haviam voltado, mas se serviam ou não para consumo humano ainda era tema de debate. (O Democrata votava “Ai!”)

A população da cidade era sazonal. Entre o Memorial Day, no final de maio, e o Labor Day, no início de setembro, era de quase 15 mil habitantes. No resto do ano, ficava só um pouquinho acima ou abaixo de 2 mil, dependendo do equilíbrio de mortes e nascimentos no Catherine Russell, considerado o melhor hospital ao norte de Lewiston.

Se alguém perguntasse aos veranistas quantas estradas levavam a Mill, a maioria diria que eram duas: a rodovia 117, que ia de Norway a South Paris, e a rodovia 119, que passava pelo centro de Castle Rock a caminho de Lewiston.

Os moradores há mais ou menos dez anos poderiam citar ao menos mais oito, todas asfaltadas com duas pistas, desde as estradas da Serra Negra e do Corte Fundo, que iam para Harlow, até a estrada do Belo Vale (é, tão bela quanto o nome), que ia para o norte até o TR-90.

Os residentes há trinta anos ou mais, se lhes dessem tempo para pensar no caso (talvez na salinha dos fundos do Brownie’s, onde ainda havia um fogão a lenha), poderiam citar mais uma dúzia, com nomes sagrados (estrada do Riacho de Deus) e profanos (estrada da Bostinha, marcada nos mapas cartográficos apenas com um número).

No dia que ficaria conhecido como Dia da Redoma, o morador mais antigo de Chester’s Mill era Clayton Brassey. Também era o morador mais antigo do condado de Castle e por isso detentor da Bengala do Boston Post. Infelizmente, já não sabia mais o que era uma Bengala do Boston Post, nem mesmo quem ele era. Às vezes, confundia a tataraneta Neil com a esposa, que morrera havia quarenta anos, e três anos antes o Democrata parara de fazer com ele a entrevista anual do “morador mais antigo”. (Na última ocasião, quando lhe perguntaram o segredo da longevidade, Clayton respondeu: “Cadê o meu jantar de batizado?”) A senilidade começou a se instalar pouco depois do centésimo aniversário; em 21 de outubro passado, ele fez 105 anos. Já havia sido marceneiro especializado em sancas, armários e balaústres. Nesses últimos dias, as suas especialidades eram comer gelatina sem enfiá-la no nariz e às vezes conseguir chegar ao banheiro para soltar na privada meia dúzia de pelotas manchadas de sangue.

Mas nos bons tempos — ali pelos 85 anos, digamos — ele conseguia citar quase todas as estradas que entravam e saíam de Chester’s Mill, e o total era de 34. A maioria era de terra, muitas estavam esquecidas e quase todas estas serpenteavam por emaranhados profundos de florestas secundárias pertencentes à Diamond Match, à Continental Paper Company e à American Timber.

E pouco antes do meio-dia do Dia da Redoma, todas foram fechadas.

 

Na maioria dessas estradas, não aconteceu nada tão espetacular quanto a explosão do Seneca V e o desastre seguinte com o caminhão carregado de madeira, mas houve problemas. É claro que houve. Se o equivalente a um muro de pedra invisível surge de repente em volta de uma cidade inteira, tem de haver problemas.

No mesmíssimo instante em que a marmota caiu em dois pedaços, um espantalho fez o mesmo na plantação de abóboras de Eddie Chalmers, não muito longe da estrada do Belo Vale. O espantalho estava exatamente sobre a linha que separava Mill do TR-90. A sua postura dividida sempre havia divertido Eddie, que chamava o seu amedrontador de pássaros de Espantalho Sem Terra — Sr. EST, para resumir. Metade do sr. EST caiu em Mill; a outra caiu “no TR”, como diziam os moradores locais.

Segundos depois, um bando de corvos que seguia para as abóboras de Eddie (os corvos nunca tiveram medo do sr. EST) bateu em alguma coisa onde antes nunca houvera nada. A maioria quebrou o bico e caiu numa massa preta na estrada do Belo Vale e nos campos dos dois lados. Por toda parte, de ambos os lados da Redoma, pássaros se chocaram e caíram mortos; os corpos seriam uma das maneiras para delinear finalmente a nova barreira.

Na estrada do Riacho de Deus, Bob Roux arrancava batatas. Parou para voltar para o almoço (mais conhecido como “janta” naquela região), sentado no velho trator Deere e escutando a música do iPod novinho em folha, presente da mulher no aniversário que seria o seu último. A casa ficava a apenas 800 metros do campo onde trabalhava, mas, infelizmente para ele, o campo ficava em Motton e a casa, em Chester’s Mill. Ele bateu na barreira a 25 km/h enquanto escutava James Blunt cantar You’re Beautiful. Não segurava com firmeza o volante do trator porque dava para ver o caminho todo até a casa e não havia nada no meio. Assim, quando o trator parou com o choque, com o arrancador de batatas se erguendo atrás e batendo no chão com força, Bob foi lançado à frente por sobre o bloco do motor e bateu direto na Redoma. O iPod explodiu no largo bolso da frente do macacão jeans, mas isso ele nunca sentiu. Quebrou o pescoço e fraturou o crânio naquele nada em que colidiu e morreu na terra pouco depois, ao lado da roda alta do trator que ainda girava. Todos sabem que nada roda melhor do que um Deere.

 

Em nenhum ponto a estrada de Motton passava mesmo por Motton; ela ficava dentro dos limites da cidade de Chester’s Mill. Ali havia novas residências numa área que se chamava Eastchester desde 1975, mais ou menos. Os donos eram trintões e quarentões que iam trabalhar em Lewiston-Auburn, onde tinham empregos bem pagos, geralmente burocráticos. Todas aquelas residências ficavam em Mil!, mas muitos quintais estavam em Motton. Foi o caso de Jack e Myra Evans, na estrada de Motton, 379. Myra tinha uma horta atrás da casa e, embora a maior parte dos produtos tivesse sido colhida, ainda havia umas gordas abóboras Blue Hubbard, além das morangas restantes (e muito podres). Ela estendeu o braço para uma delas quando a Redoma caiu e, embora os joelhos estivessem em Chester’s Mill, por acaso ela estendia a mão para uma Blue Hubbard que crescia a uns 30 centímetros além da fronteira de Motton.

Não gritou, pois não houve dor. Não de início. Foi rápido, afiado e limpo demais para isso.

Jack Evans estava na cozinha, batendo ovos para a omelete do almoço. O LCD Soundsystem tocava North American Scum e Jack cantava junto quando uma vozinha disse o seu nome atrás dele. A princípio, ele não reconheceu a voz como pertencente àquela que era sua esposa havia 14 anos; parecia a voz de uma criança. Mas, quando se virou, viu que era mesmo Myra. Ela estava em pé à porta, segurando o braço direito junto ao corpo. Trouxera lama para o chão, o que não era coisa dela. Em geral, ela tirava os sapatos da horta na soleira. A mão esquerda, envolta numa luva de jardinagem imunda, segurava a mão direita, e uma coisa vermelha corria pelos dedos enlameados. Primeiro ele pensou suco de cranberry, mas só por um segundo. Era sangue. Jack deixou cair a terrina que segurava. Ela se estilhaçou no chão.

Myra disse o seu nome de novo naquela vozinha pequena e trêmula de criança.

— O que aconteceu? Myra, o que aconteceu com você?

— Foi um acidente — disse ela e lhe mostrou a mão direita. Só que não havia luva direita de jardinagem enlameada para combinar com a esquerda, nem mão direita. Só um toco a jorrar. Ela lhe deu um sorriso fraco e disse “Opa”. Os olhos rolaram para cima e ficaram brancos. A frente dos jeans de jardinagem escureceu quando a urina correu. Então os joelhos também cederam e ela caiu. O sangue que jorrava do pulso aberto — um corte de aula de anatomia — misturou-se com os ovos batidos derramados no chão.

Quando Jack se ajoelhou ao lado dela, um caco da terrina entrou profundamente no seu joelho. Ele mal notou, embora fosse vir a mancar daquela perna pelo resto da vida. Agarrou o braço dela e apertou. O jorro terrível de sangue do pulso se reduziu, mas não parou. Ele arrancou o cinto da calça e o prendeu em torno do antebraço. Isso funcionou, mas ele não conseguiu apertar bem o cinto; a volta estava muito longe da fivela.

— Jesus Cristo — disse ele à cozinha vazia. — Jesus Cristo.

Percebeu que estava mais escuro do que antes. A luz tinha se apagado. Dava para ouvir o computador no escritório tocando o seu chamado de angústia. O LCD Soundsystem estava bem, porque a caixinha de som da pia tinha pilhas. Não que Jack desse alguma importância; perdera o gosto pelo techno.

Sangue demais. Demais.

As perguntas sobre como ela perdera a mão foram embora da sua mente. Tinha preocupações mais imediatas. Não podia soltar o torniquete para pegar o telefone; ela voltaria a sangrar e podia já estar perto de perder sangue demais. Ela teria de ir com ele. Ele tentou puxá-la pela camisa, mas primeiro ela saiu da. calça e depois o colarinho começou a enforcá-la — ele ouviu a respiração ficar mais forte. Então, ele enrolou a mão no cabelo castanho e comprido e a puxou até o telefone como um homem das cavernas.

Era um celular e funcionou. Ele discou 911 e estava ocupado.

— Não é possível! — gritou para a cozinha vazia cujas luzes estavam apagadas (embora na caixa de som o grupo continuasse a tocar). — A merda do 911 não pode estar ocupado!

Ele apertou redial.

Ocupado.

Jack ficou sentado na cozinha com as costas contra a pia, segurando o torniquete com o máximo de força, fitando o sangue e os ovos batidos no chão, apertando periodicamente redial no telefone, sempre recebendo o mesmo dâ-dâ-dâ estúpido. Alguma coisa explodiu não muito longe, mas ele mal ouviu por causa da música, que estava mesmo alta (e ele nunca escutou a explosão do Seneca). Queria desligar a música, mas para alcançar a caixa de som teria de erguer Myra. Erguer ou largar o cinto por dois ou três segundos. Ele não queria fazer nada disso. E ficou ali sentado e North American Scum deu lugar a SomeGreat e Someone Great deu lugar a All My Friends, e depois de mais algumas músicas finalmente o CD, que se chamava Sound of Silver, acabou. Quando acabou, quando houve silêncio, a não ser pelas sirenes da polícia a distância e pelo tilintar interminável do computador ali perto, Jack percebeu que a esposa não respirava mais.

Mas eu ia fazer o almoço, pensou. Um bom almoço, daqueles que a gente não teria vergonha de convidar Martha Stewart para comer.

Encostado na pia, ainda segurando o cinto (reabrir os dedos seria intensamente doloroso), a perna inferior direita das calças escurecendo com o sangue do joelho lacerado, Jack Evans embalou a cabeça da esposa contra o peito e começou a chorar.

    

Não muito longe dali, numa estrada abandonada da floresta de que nem mesmo o velho Clay Brassey se lembraria, um veado comia brotos tenros à beira do charco Prestile. Por acaso o pescoço estava espichado por sobre o limite da cidade de Motton e, quando a Redoma caiu, a sua cabeça tombou. Foi cortada com tanta perfeição que a façanha poderia ter sido realizada com a lâmina de uma guilhotina.

 

Demos a volta na forma de meia que é Chester’s Mill e voltamos à rodovia 119. E, graças à magia da narração, nem um instante se passou desde que o sujeito sessentão do Toyota bateu de cara em algo invisível mas muito duro e quebrou o nariz. Ele está sentado e encara Dale Barbara com total perplexidade. Uma gaivota, provavelmente na viagem diária de volta do bufê saboroso do lixão da cidade de Motton para o lixão levemente menos saboroso do depósito de Chester’s Mill, despenca feito pedra e cai a menos de um metro do boné dos Sea Dogs do sessentão, que o pega, limpa e põe de volta na cabeça.

Os dois homens erguem os olhos para onde veio o pássaro e vêem mais uma coisa incompreensível num dia que acabaria cheio delas.

 

O primeiro pensamento de Barbie foi estar vendo uma imagem residual da explosão do avião, do jeito que às vezes a gente vê um grande ponto azul flutuando depois que alguém dispara um flash perto da nossa cara. Só que não era um ponto, não era azul e, em vez de continuar flutuando quando ele olhava em outra direção — nesse caso, na do seu novo conhecido —, o borrão que pendia no ar ficava exatamente onde estava.

Sea Dogs erguia e esfregava os olhos. Parecia ter esquecido o nariz quebrado, os lábios inchados, a testa que sangrava. Ficou em pé, quase perdendo o equilíbrio por virar muito o pescoço para trás.

— O que é aquilo? — perguntou. — Que diabos é aquilo, moço?

Uma grande mancha preta — em forma de chama de vela, se a gente usasse mesmo a imaginação — descobria o céu azul.

— Será... uma nuvem? — perguntou Sea Dogs. A voz duvidosa sugeria que sabia que não.

Barbie respondeu:

— Acho... — Ele realmente não queria se ouvir dizendo aquilo. — Acho que foi onde o avião bateu.

— Acha o quê? — perguntou Sea Dogs, mas, antes que Barbie pudesse responder, um pássaro preto de bom tamanho passou a uns 15 metros de altura. Não bateu em nada — nada que conseguissem ver, ao menos — e caiu não muito longe da gaivota.

— Viu isso? — perguntou Sea Dogs.

Barbie fez que sim e apontou a área de capim seco em chamas à esquerda. Aquele e os dois ou três trechos à direita da estrada soltavam grossas colunas de fumaça negra para se unir à fumaça que subia dos pedaços do Seneca desmembrado, mas o fogo não se espalharia; chovera muito na véspera e o mato ainda estava úmido. Foi uma sorte, senão haveria fogo no mato correndo em ambas as direções.

— Está vendo aquilo? — perguntou Barbie a Sea Dogs.

— Não dá pra acreditar — disse Sea Dogs depois de dar uma boa olhada. O fogo queimara um pedaço de mato de uns 20 metros de lado, avançando até ficar quase em frente ao ponto onde Barbie e Sea Dogs se encaravam. E ali se espalhava — para oeste até a beira da estrada, para leste rumo ao hectare e meio de pasto de um criador de gado de leite —, não de forma irregular, não do jeito como o fogo costuma avançar no mato, um pouco mais à frente num ponto, um tiquinho para trás noutro — mas como se seguisse uma régua.

Outra gaivota veio voando na direção deles, essa no rumo de Motton em vez de Mill.

— Olha lá — disse Sea Dogs. — Olha aquele pássaro.

— Talvez não sofra nada — disse Barbie, erguendo os olhos e protegendo-os com a mão. — Talvez o que tem ali só impeça que eles passem se vierem do sul.

— A julgar pelo avião destruído ali, duvido — disse Sea Dogs. Falava com a voz sonhadora dos homens profundamente perplexos.

A gaivota que ia para fora bateu na barreira e caiu diretamente dentro do maior pedaço do avião em chamas.

— Impede a passagem deles nos dois sentidos — disse Sea Dogs. Falava com a voz dos homens que recebem a confirmação de uma convicção muito forte, mas ainda não provada. — É um tipo de campo de força, como nos filmes de Star Trick.

— Trek — disse Barbie.

— Hein?

— Ai, caralho! — disse Barbie. Olhava por sobre o ombro de Sea Dogs.

— Hein? — Sea Dogs olhou por cima do próprio ombro. — Puta que pariu!

Lá vinha um caminhão de lenha. Um dos grandes, carregado com troncos imensos bem acima do limite legal de peso. Também vinha bem acima do limite de velocidade. Barbie tentou calcular qual seria a distância necessária para um monstro daqueles parar e não conseguiu nem começar a imaginar.

Sea Dogs saiu correndo rumo ao Toyota, que estacionara atravessado na linha branca tracejada do meio da estrada. O sujeito atrás do volante do caminhão — talvez cheio de bola, talvez fumado de metanfetamina, talvez só jovem, com pressa, se sentindo imortal — o viu e meteu a mão na buzina. Não ia desacelerar.

— Vai se foder! — gritou Sea Dogs ao se jogar atrás no volante. Ligou o motor e tirou o Toyota da estrada de ré com a porta do motorista batendo. A pequena picape caiu na vala à beira da estrada com o nariz quadrado apontado para o céu. Sea Dogs saiu no instante seguinte. Tropeçou, caiu sobre o joelho e depois saiu correndo pelo campo.

Barbie, pensando no avião e nos pássaros — pensando naquele esquisito borrão preto que poderia ter sido o ponto de impacto do avião — também correu para o pasto, dando um pique primeiro pelas chamas baixas e pouco entusiasmadas que soltavam baforadas de cinza preta. Viu um tênis de homem — grande demais para ser de mulher — com o pé do homem ainda dentro.

Piloto, pensou. E depois: Tenho que parar de correr desse jeito.

— DEVAGAR, SEU IDIOTA! — gritou Sea Dogs para o caminhão com voz fina e em pânico, mas era tarde demais para tais instruções. Barbie, olhando para trás por sobre o ombro (impossível não olhar), achou que o caubói do caminhão tentou frear no último minuto. Deve ter visto os destroços do avião. Seja como for, não adiantou. Bateu no lado de Motton da Redoma a mais de 90 por hora, levando uma carga de quase 18 toneladas de troncos. A cabine se desintegrou ao parar de repente. O reboque sobrecarregado, prisioneiro da física, continuou avançando. Os tanques de combustível foram jogados debaixo dos troncos, se esfacelando e soltando fagulhas. Quando explodiram, a carga já estava no ar, caindo por sobre onde estivera a cabine, agora um acordeão de metal verde. Os troncos jorraram para a frente e para cima, atingiram a barreira invisível e ricochetearam em todas as direções. Fogo e fumaça preta ferveram para o alto num penacho grosso. Houve um baque terrível que rolou pelo dia como um rochedo. Depois choveram troncos sobre o lado de Motton, caindo na estrada e nos campos em volta como um enorme pega-varetas. Um deles atingiu o teto da picape de Sea Dogs e o esmagou, derramando o para-brisa no capô num borrifo de migalhas de diamante. Outro caiu bem na frente do próprio Sea Dogs.

Barbie parou de correr e só ficou olhando.

Sea Dogs se pôs de pé, caiu, se segurou no tronco que quase lhe esmagou a vida e se levantou de novo. Ficou ali, oscilando de olhos arregalados. Barbie correu na direção dele e, depois de 12 passos, bateu em algo que parecia um muro de tijolos. Cambaleou para trás e sentiu um calor descer do nariz por sobre os lábios. Limpou um punhado de sangue, olhou-o sem acreditar e depois passou a mão na camisa.

Agora vinham carros de ambas as direções, de Motton e de Chester’s Mill. Três figuras correndo, embora ainda pequenas, cortavam caminho pelo pasto vindas de uma casa de fazenda na outra ponta. Vários carros buzinavam, como se isso pudesse resolver todos os problemas. O primeiro carro a chegar pelo lado de Motton parou no acostamento, bem antes do caminhão em chamas. Duas mulheres desceram do carro e pararam boquiabertas com a coluna de fogo e fumaça, protegendo os olhos com as mãos.

 

— Merda — disse Sea Dogs. Falava com voz miúda e sem fôlego. Aproximou-se de Barbie pelo campo, traçando uma diagonal prudente para o leste, para longe da pira ardente. O caminhoneiro podia estar sobrecarregado e correndo demais, pensou Barbie, mas ao menos recebera um funeral de viking.

— Viu onde aquele tronco caiu? Quase me matou. Esmagado feito barata.

— Tem celular? — Barbie teve de levantar a voz para ser ouvido acima do caminhão, que ardia furiosamente.

— Na picape — disse Sea Dogs. — Vou tentar buscar se você quiser.

— Não, espera — respondeu Barbie. Ele percebeu, com alívio súbito, que tudo aquilo podia ser um sonho do tipo irracional em que andar de bicicleta debaixo d’água ou falar da vida sexual numa língua que a gente nunca estudou parece normal.

A primeira pessoa a chegar do seu lado da barreira foi um sujeito gorducho numa velha picape GM. Barbie o reconheceu do Rosa Mosqueta: Ernie Calvert, ex-gerente do Food City, agora aposentado. De olhos arregalados, Ernie fitava a bagunça em chamas na estrada, mas estava com o celular na mão e não parava de falar. Barbie mal conseguia escutá-lo acima do rugido do caminhão incendiado, mas entendeu “Parece bem ruim” e imaginou que Ernie falava com a polícia. Ou com os bombeiros. Se fossem os bombeiros, Barbie esperava que fossem de Castle Rock. Havia dois carros-pipa no minúsculo corpo de bombeiros de Chester’s Mill, mas Barbie achou que, se aparecessem por ali, o máximo que conseguiriam seria apagar um fogo no mato que ia se apagar sozinho dali a pouco. O caminhão em chamas estava perto, mas Barbie achou que não conseguiriam chegar até ele.

É um sonho, disse consigo mesmo. Se ficar dizendo isso o tempo todo, você consegue agir.

Às duas mulheres do lado de Motton tinha se juntado meia dúzia de homens que também protegiam os olhos. Agora havia carros estacionados em ambos os acostamentos. Mais gente saía deles e se unia à multidão. O mesmo acontecia do lado de Barbie. Era como se dois camelódromos concorrentes, ambos cheios de pechinchas suculentas, tivessem sido abertos ali: um no lado de Motton, outro no lado de Chester’s Mill.

O trio da fazenda chegou — o fazendeiro e os filhos adolescentes. Os meninos corriam facilmente, o fazendeiro vinha corado e ofegante.

— Caralho! — disse o menino mais velho, e o pai lhe deu um tapa na cabeça. O garoto nem notou. Os olhos pareciam saltar. O menino mais novo estendeu a mão e, quando o mais velho a segurou, o menor começou a chorar.

— O que aconteceu aqui? — perguntou o fazendeiro a Barbie, parando para uma inspiração profunda entre aconteceu e aqui.

Barbie o ignorou. Avançou devagar na direção de Sea Dogs com a mão direita erguida num gesto de pare. Sem falar, Sea Dogs fez o mesmo. Quando se aproximou do lugar onde sabia que estava a barreira — só precisava olhar aquela estranha borda reta de chão queimado —, Barbie foi mais devagar. Já batera com a cara; não queria que isso acontecesse de novo.

De repente, foi varrido por um calafrio. O arrepio o percorreu dos tornozelos à nuca, onde os cabelos se mexeram e tentaram se erguer. Seu saco vibrou como um diapasão e, por um instante, houve um gosto metálico azedo na boca.

A um metro e meio dele — um metro e meio e cada vez mais perto — os olhos já arregalados de Sea Dogs se arregalaram ainda mais.

— Sentiu?

— Senti — respondeu Barbie. — Mas já passou. E você?

— Também — concordou Sea Dogs.

As mãos estendidas não chegaram a se tocar, e mais uma vez Barbie pensou numa vidraça: pôr a mão de dentro contra a mão de algum amigo do lado de fora, os dedos juntos mas sem se tocar.

Ele puxou a mão de volta. Era a que usara para limpar o sangue do nariz, e ele viu a forma vermelha dos próprios dedos pendendo no ar. Enquanto olhava, o sangue começou a se coagular. Como faria num vidro.

— Santo Deus, o que é isso? — sussurrou Sea Dogs.

Barbie não sabia a resposta. Antes que conseguisse dizer alguma coisa, Ernie Calvert lhe deu um tapinha nas costas.

— Liguei pra polícia — disse. — Estão vindo, mas ninguém atende no Corpo de Bombeiros; só uma gravação que me manda ligar para Castle Rock.

— Certo, faz isso — disse Barbie. Então outra ave despencou a uns 6 metros, caindo no pasto do fazendeiro e sumindo. Ver isso trouxe uma nova idéia à mente de Barbie, talvez provocada pelo tempo que passou carregando uma arma do outro lado do mundo. — Mas antes, acho que é melhor chamar a Guarda Aérea Nacional, lá em Bangor.

Ernie olhou-o boquiaberto.

— A Guarda?

- Chester’s Mill — disse Barbie. — E acho melhor que façam isso logo.

 

MONTE DE PASSARINHO MORTO

O chefe de polícia de Mill não ouviu nenhuma das explosões, embora estivesse ao ar livre, varrendo folhas no gramado da sua casa na rua Morin. O rádio portátil estava em cima do capô do Honda da mulher, tocando música sacra da WCJK (as letras queriam dizer Christ is King, Cristo é Rei, e os habitantes mais jovens da cidade a chamavam de Rádio Jesus). Além disso, a audição dele não era mais como antigamente. A de ninguém de 67 anos seria.

Mas ele escutou a primeira sirene a cortar o dia; os ouvidos estavam tão afinados àquele som quanto os de uma mãe ao choro do filho. Howard Perkins sabia até qual era o carro e quem dirigia. Só o Três e o Quatro tinham as sirenes antigas, mas Johnny Trent levara o Três para Castle Rock com o Corpo de Bombeiros para aquele maldito exercício de treinamento. “Queima controlada”, era como diziam, embora na verdade fossem homens adultos se divertindo. Então era o carro Quatro, um dos dois Dodges que restavam, e Henry Morrison estaria dirigindo.

Ele parou de varrer e ficou em pé, a cabeça inclinada. A sirene começou a sumir e ele voltou a varrer. Brenda surgiu na varanda. Quase todo mundo em Mil! o chamava de Duke — o apelido era herança dos dias de escola, quando nunca perdia um filme de John Wayne que passasse no Star — mas logo depois de casados Brenda passara a chamá-lo pelo outro apelido. Aquele de que ele não gostava.

— Howie, a luz acabou. E houve explosões.

Howie. Sempre Howie. Mais parecia um cão latindo. Ele tentava aguentar com paciência cristã — ora, ele era um cristão paciente —, mas às vezes se perguntava se aquele apelido não era responsável, ao menos em parte, pelo aparelhinho que agora levava no peito.

— O quê?

Ela ergueu os olhos para o céu, marchou até o rádio no capô do carro e apertou o botão de desligar, cortando o Coral Norman Luboff no meio de Que amigo temos em Jesus.

— Quantas vezes já te disse para não botar essa coisa no capô do meu carro? Você vai arranhar tudo e o valor de revenda vai cair.

— Desculpa, Bren. O que foi que você disse?

— A luz acabou. E alguma coisa explodiu. Deve ser por isso que Johnny Trent está por aí.

— É o Henry — disse ele. — Johnny foi pra Rock com os bombeiros.

— Bom, seja quem for...

Outra sirene disparou, essa do tipo mais novo que Duke Perkins chamava de Passarinho. Devia ser o Dois, Jackie Wettington. Só podia ser Jackie, enquanto Randolph ficava cuidando do balcão, recostado na cadeira com os pés em cima da mesa, lendo o Democrata. Ou sentado na privada. Peter Randolph era um bom policial e sabia ser duro quando necessário, mas Duke não gostava dele. Em parte por ser bem óbvio que era um homem de Jim Rennie, em parte porque Randolph às vezes era mais duro do que o necessário, mas principalmente porque ele o achava preguiçoso, e Duke Perkins não suportava policiais preguiçosos.

Brenda o encarava com olhos arregalados. Fazia 43 anos que era mulher de policial e sabia que duas explosões, duas sirenes e falta de luz não podiam ser boa coisa. Se o gramado fosse varrido naquele fim de semana — ou se Howie fosse escutar o seu querido Twin Mills Wildcats enfrentar o time de futebol americano de Castle Rock —, ela ficaria surpresa.

— É melhor entrar — disse ela. — Alguma coisa aconteceu. Espero que ninguém tenha morrido.

Ele tirou o celular do cinto. Aquela maldita coisa ficava ali pendurada feito sanguessuga de manhã à noite, mas ele tinha que admitir que era prático. Não ia ligar, só ficou parado olhando, à espera de que tocasse.

Então, outra sirene de Passarinho disparou: o carro Um. Finalmente, Randolph na rua. O que significava coisa muito grave. Duke achou que o telefone não tocaria mais e ia colocá-lo de volta no cinto quando tocou. Era Stacey Moggin.

— Stacey? — Ele sabia que não precisava berrar naquela coisa, Brenda já lhe dissera cem vezes, mas não conseguia evitar. — O que você está fazendo na delegacia num sábado de man...

— Não estou, estou em casa. Peter me ligou e pediu que eu ligasse pra você, foi lá na 119 e foi feio. Ele disse... um avião e um caminhão bateram. — Ela parecia em dúvida. — Não sei como aconteceu, mas...

Um avião. Jesus. Cinco minutos antes, ou talvez um pouco mais, enquanto varria folhas e cantava junto com Sois tão grande...

— Stacey, foi o Chuck Thompson? Eu vi aquele Piper novo dele no ar. Voando bem baixo.

— Não sei, chefe, já disse tudo o que o Peter me disse.

Brenda não era boba; já tirava o carro dela do caminho para que ele pudesse levar o carro oficial verde-escuro até a rua. Ela pusera o rádio ao lado da pequena pilha de folhas varridas.

— Certo, Stace. Está sem luz aí do seu lado também?

— Está, e sem telefone fixo. Estou no celular. Deve ser grave, né?

— Espero que não. Pode dar uma olhada na delegacia? Aposto que aquilo lá está vazio e destrancado.

— Chego lá em cinco minutos. Você me encontra na base.

— Positivo.

Enquanto Brenda voltava pela entrada de carros, o apito da cidade disparou, com aquele som de sobe e desce que sempre deixava Duke Perkins com um aperto na boca do estômago. Ainda assim, ele parou para abraçar Brenda. Ela nunca esqueceu que ele parou para fazer aquilo.

— Não se preocupa com isso, Brennie. Está programado para disparar quando a queda de luz é geral. Vai parar em três minutos. Ou quatro. Esqueci quantos.

— Eu sei, mas detesto mesmo assim. Aquele idiota do Andy Sanders ligou o apito no 11 de Setembro, lembra? Como se fossem fazer um atentado suicida aqui.

Duke fez que sim. Andy Sanders era um idiota. Infelizmente, também era o primeiro vereador, um boneco de ventríloquo sentado no colo de Big Jim Rennie.

— Querida, tenho que ir.

— Eu sei. — Mas ela o seguiu até o carro. — O que foi? Você já sabe?

— Stacy disse que um caminhão e um avião bateram na 119.

Brenda deu um sorriso hesitante.

— Isso é piada, né?

— Não se o avião teve problemas no motor e tentou pousar na estrada — disse Duke. O sorrisinho dela sumiu e a mão fechada pousou entre os seios, uma linguagem corporal que ele conhecia bem. Ele entrou no veículo e, embora o carro oficial fosse relativamente novo, assim mesmo sentou no molde da própria bunda. Duke Perkins não era um peso-pena.

— No seu dia de folga! — exclamou ela. — Que vergonha! E quando você já podia estar com aposentadoria integral!

— Eles adoram me fazer trabalhar quando estou com o pijama de sábado — disse ele e sorriu para ela. Era trabalho aquele sorriso. Dava a impressão de que o dia seria longo. — É sempre assim, Senhor, é sempre assim. Você pode deixar uns sanduíches pra mim na geladeira?

— Um só. Você está engordando demais. Até o dr. Haskell disse isso e ele nunca dá bronca em ninguém.

— Um só, então. — Ele pôs a alavanca em R e depois a colocou de volta em P. Inclinou-se para fora da janela e ela percebeu que ele queria um beijo. Ela lhe deu um dos bons com o apito da cidade berrando através do ar frio de outubro, e ele acariciou o lado do pescoço dela enquanto as bocas estavam juntas, coisa que sempre a deixava arrepiada e agora ele raramente fazia.

O toque dele ali ao sol: isso ela também nunca esqueceu.

Enquanto ele descia até a rua, ela gritou alguma coisa. Ele entendeu parte, mas não tudo. Tinha mesmo de dar uma olhada na audição. Usar um aparelho de surdez se necessário. Embora provavelmente fosse a última gota de que Randolph e Big Jim precisavam para lhe dar um bom chute na bunda velha.

Duke freou e se inclinou para fora outra vez.

— Tomar cuidado com o meu o quê?

— O marca-passo! — Ela praticamente berrou. Rindo. Exasperada. Ainda sentindo a mão dele no pescoço, acariciando a pele que ainda era lisa e firme ontem mesmo; era o que parecia a ela. Ou talvez fosse na véspera, quando ouviam KC & the Sunshine Band em vez de a Rádio Jesus.

— Ah, pode apostar! — gritou ele de volta e foi embora. Quando ela o viu de novo, ele estava morto.

 

Billy e Wanda Debec nunca ouviram a dupla explosão porque estavam na rodovia 117 e porque estavam discutindo. A briga começou de um jeito bem simples, com Wanda observando que o dia estava lindo e Billy respondendo que estava com dor de cabeça e não sabia por que tinham de ir à feira de usados de Oxford Hills; ia ser o mesmo lixo todo detonado de sempre.

Wanda disse que ele não estaria com dor de cabeça se não tivesse tomado uma dúzia de cervejas na noite anterior.

Billy perguntou a ela se contara as latas no lixo reciclável (por mais que se calibrasse, Billy bebia em casa e sempre punha as latas no lixo reciclável; essas coisas, além do trabalho de eletricista, eram o seu orgulho).

Ela disse que sim, que podia apostar. Além disso...

Eles conseguiram chegar até a Feira de Patel em Castle Rock, tendo avançado de Você bebe demais, Billy e Você me enche demais, Wanda para Bem que minha mãe me disse pra não casar com você e Por que você tem que ser tão escrota. Esse virara um dueto bem manjado nos últimos dois anos de um casamento de quatro, mas naquela manhã, de repente, Billy sentiu ter chegado ao limite. Embicou no amplo estacionamento asfaltado da feira sem ligar a seta nem desacelerar e voltou para a 117 sem dar uma única olhada no retrovisor, muito menos por sobre o ombro. Atrás dele na estrada, Nora Robichaud buzinou. Elsa Andrews, sua melhor amiga, fez um muxoxo desaprovador. As duas mulheres, ambas enfermeiras aposentadas, trocaram olhares, mas nenhuma palavra. Eram amigas fazia tempo demais para que precisassem de palavras em situações assim.

Enquanto isso, Wanda perguntou a Billy onde ele pensava que ia.

Billy disse para casa tirar um cochilo. Ela que fosse à merda da feira sozinha.

Wanda observou que ele quase bateu naquelas duas senhoras (ditas senhoras agora ficando depressa para trás; Nora Robichaud achava que, na falta de alguma excelente razão, velocidades acima de 65 km/h eram obra do demônio).

Billy observou que Wanda parecia com a mãe dela e falava igual.

Wanda lhe pediu que esclarecesse o que queria dizer com aquilo.

Billy disse que mãe e filha tinham bunda gorda e língua bipartida bem no meio.

Wanda disse a Billy que ele estava de ressaca.

Billy disse a Wanda que ela era feia.

Era uma troca de sentimentos justa e completa, e quando cruzaram o limite entre Castle Rock e Motton, na direção de uma barreira invisível surgida não muito depois de Wanda iniciar a animada discussão ao dizer que o dia estava lindo, Billy passava dos 90, quase a velocidade máxima do velho Chevy de Wanda.

— Que fumaça é aquela? — perguntou Wanda de repente, apontando para nordeste, na direção da 119.

— Não sei — disse ele. — Será que a minha sogra peidou? — Isso o fez rir e ele começou a gargalhar.

Wanda Debec percebeu que, finalmente, bastava. Quase num passe de mágica, aquilo deixou o mundo e o futuro mais claros. Ela ia se virar para ele, as palavras Quero o divórcio na ponta da língua, quando chegaram ao limite entre Motton e Chester’s Mill e bateram na barreira. O velho Chevy era equipado com airbags, mas o de Billy não se abriu e o de Wanda não se abriu completamente. O volante afundou o peito de Billy; a coluna de direção lhe esmagou o coração; ele morreu quase instantaneamente.

A cabeça de Wanda colidiu com o painel, e o deslocamento súbito e catastrófico do bloco do motor do carro lhe quebrou uma das pernas (a esquerda) e um dos braços (o direito). Ela não percebeu dor nenhuma, só a buzina tocando, o carro de repente em diagonal no meio da estrada com a frente esmagada e a visão toda vermelha.

Quando Nora Robichaud e Elsa Andrews fizeram a curva logo ao sul (já discutiam animadamente a fumaça que subia a nordeste havia vários minutos e parabenizavam-se por ter tomado a estrada menos movimentada naquela manhã), Wanda Debec se arrastava pela faixa branca apoiada nos cotovelos. O sangue corria pelo rosto e quase o cobria. Ela fora meio escalpelada por um pedaço do para-brisa destruído e uma imensa dobra de pele pendia sobre a face esquerda como uma mandíbula fora do lugar.

Nora e Elsa se entreolharam horrorizadas.

— Que cagada no pijama! — disse Nora, e isso foi tudo o que se falou entre elas. Elsa desceu assim que o carro parou e correu para a mulher que cambaleava. Para uma senhora idosa (acabara de fazer 70 anos), Elsa era de uma agilidade notável.

Nora desligou o carro e se juntou à amiga. Juntas, levaram Wanda até o velho mas cuidadíssimo Mercedes de Norma, O casaco de Wanda passara de marrom a um tom baço e enlameado; parecia que mergulhara as mãos em tinta vermelha.

— C’dê o Billy? — perguntou ela, e Nora viu que quase todos os dentes da pobre mulher tinham caído. Três deles estavam presos na frente do casaco ensanguentado. — C’dê o Billy, tá vindo? Qu’houv’?

— O Billy tá bem, e você também — disse Nora e fez uma pergunta a Elsa com os olhos. Elsa fez que sim e correu para o Chevy agora parcialmente obscurecido pelo vapor que saía do radiador rompido. Uma olhada pela porta aberta do carona, pendurada por uma dobradiça, bastou para dizer a Elsa, enfermeira por quase quarenta anos (último empregador: DR Ron Haskell, em que DR significa Débil Retardado), que Billy não estava nada bem. A moça com metade do cabelo pendurado de cabeça para baixo ao lado da cabeça agora era viúva.

Elsa voltou ao Mercedes e sentou-se no banco de trás ao lado da moça, que estava semi-inconsciente.

— Ele morreu e ela logo vai morrer também se a gente não chegar rapidinho ao Cathy Russell — disse ela a Nora.

— Guenta aí, então — disse Nora e afundou o pé. O Mercedes tinha um motor potente e avançou. Nora se desviou habilmente do Chevrolet Debec e bateu na barreira invisível enquanto ainda acelerava. Pela primeira vez em vinte anos, Nora se esquecera de pôr o cinto de segurança e saiu pelo para-brisa, onde quebrou o nariz na barreira invisível, igualzinho a Bob Roux. A moça foi lançada entre os bancos da frente do Mercedes e pelo para-brisa estilhaçado, e caiu de cara no capô com as pernas manchadas de sangue abertas. Estava descalça. Os mocassins (comprados na última feira de usados de Oxford Hills a que fora) tinham caído no primeiro acidente.

Elsa Andrews bateu nas costas do assento do motorista e ricocheteou, tonta, mas no geral intacta. A princípio, a porta ficou emperrada, mas se abriu quando a forçou com o ombro. Ela desceu do carro e olhou os destroços. As poças de sangue. O Chevy esmagado, ainda fumegando de leve.

— O que aconteceu? — perguntou. Essa também fora a pergunta de Wanda, embora Elsa não se lembrasse. Ficou parada em meio à bagunça de cromo e vidro ensanguentado, depois pôs as costas da mão esquerda na testa, como se quisesse ver se estava com febre.

— O que aconteceu? O que acabou de acontecer? Nora? Norita? Cadê você, querida?

Então ela viu a amiga e soltou um grito de horror e pesar. Um corvo que observava do alto de um pinheiro no lado de Mill da barreira grasnou uma vez, um grito que soou como um muxoxo de riso desdenhoso.

As pernas de Elsa amoleceram. Ela recuou até que o traseiro bateu na frente esmagada do Mercedes.

— Norita — disse ela. — Ah, querida. — Algo lhe cutucou a nuca. Não tinha certeza, mas achou que devia ser um cacho do cabelo da moça ferida. Só que agora, claro, era a moça morta.

E a pobre e doce Nora, com quem às vezes trocara goles ilícitos de gim ou vodca na lavanderia do Cathy Russell, as duas rindo como meninas que saem para acampar. Os olhos de Nora estavam arregalados, fitando o sol brilhante do meio-dia, e a cabeça virada num ângulo horrível, como se tivesse morrido tentando olhar por sobre o ombro para ver se Elsa estava bem.

Elsa, que estava bem — “apenas abalada”, como diziam de alguns sobreviventes sortudos no seu tempo de pronto-socorro —, começou a chorar. Deslizou pelo lado do carro (rasgando o casaco numa ponta de metal) e sentou-se no asfalto da 117. Ainda estava lá sentada e ainda chorando quando Barbie e o seu novo amigo de boné dos Sea Dogs deram com ela.

 

Acontece que Sea Dogs era Paul Gendron, vendedor de carros do norte do estado que havia dois anos se aposentara e fora morar na fazenda dos pais em Motton. Barbie soube disso e muito mais sobre Gendron entre a partida dos dois da cena do acidente na 119 e a descoberta de outro — não tão espetacular mas ainda bem horrendo — no lugar onde a rodovia 117 entrava em Mill. Barbie estaria mais que disposto a apertar a mão de Gendron, mas delicadezas como aquela teriam de permanecer suspensas até que encontrassem o lugar onde terminava a barreira invisível.

Ernie Calvert conseguira falar com a Guarda Aérea Nacional em Bangor, mas fora posto na espera antes que conseguisse dizer por que ligava. Enquanto isso, as sirenes que se aproximavam anunciavam a chegada iminente da lei local.

— Só não esperem os bombeiros — disse o fazendeiro que viera correndo com os filhos pelo campo. O nome dele era Alden Dinsmore, e ainda tentava recuperar o fôlego. — Estão lá em Castle Rock, queimando uma casa para treinar. Poderiam ter um bom treino bem aq... — Então ele viu o filho caçula se aproximar do ponto onde a marca ensanguentada da mão de Barbie parecia estar secando, pendurada apenas no ar ensolarado. — Rory, sai daí!

Rory, cheio de curiosidade, o ignorou. Estendeu a mão e bateu no ar, logo à direita da marca da mão de Barbie. Mas antes Barbie viu a pele do braço do garoto, debaixo das mangas esfarrapadas do moletom cortado dos Wildcats, se arrepiar. Havia algo ali, algo que disparava quando a gente chegava perto. O único lugar onde Barbie tivera sensação parecida fora perto do grande gerador elétrico de Avon, na Flórida, aonde certa vez fora dar uns amassos numa moça.

O som do punho do garoto foi como uma batidinha na lateral de uma travessa de pirex. Silenciou a pequena multidão falante de espectadores que fitavam os restos ardentes do caminhão (e, em alguns casos, tiravam fotos com os celulares).

— Que balde de merda! — disse alguém.

Alden Dinsmore arrastou o filho pelo colarinho esfarrapado do moletom e lhe deu um tapa atrás da cabeça, como há pouco fizera com o irmão mais velho.

— Nunca mais faça isso! — gritou Dinsmore, sacudindo o menino. — Nunca mais faça isso, quando não souber o que é!

— Pai, é que nem uma parede de vidro! É...

Dinsmore o sacudiu mais um pouco. Ainda ofegava, e Barbie temeu por seu coração.

— Nunca mais! — repetiu e empurrou o garoto contra o irmão mais velho. — Toma conta desse idiota, Olhe.

— Sim, senhor — disse Olhe e fez uma careta para o irmão.

Barbie olhou na direção de Mill. Agora podia ver as luzes piscantes de um carro da polícia se aproximarem, mas bem à frente dele — como se escoltasse os policiais em virtude de alguma autoridade superior — havia um grande veículo preto que parecia um caixão sobre rodas. O Hummer de Big Jim Rennie. Foi como se os inchaços e escoriações da briga no estacionamento do Dipper pulsassem de empatia ao ver aquilo.

É claro que Rennie Pai não estivera lá, mas o filho fora o principal instigador, e Big Jim protegera Junior. Se para isso fosse preciso dificultar a vida de um chapeiro itinerante em Mill — dificultar o suficiente para que o dito chapeiro decidisse simplesmente desmontar acampamento e sair da cidade —, melhor ainda.

Barbie não queria estar ali quando Big Jim chegasse. Ainda mais com a polícia. O chefe Perkins o tratara bem, mas aquele outro — Randolph — o olhara como se Dale Barbara fosse bosta de cachorro num sapato social.

Barbie virou-se para Sea Dogs e perguntou:

— Interessado num passeio? Você do seu lado, eu do meu? Ver até onde essa coisa vai?

— E sair daqui antes que chegue aquele barulhento lá? — Gendron também vira o Hummer chegando. — Meu amigo, tô nessa. Leste ou oeste?

 

Foram para oeste, rumo à rodovia 117, e não acharam o fim da barreira, mas viram as maravilhas que criou ao descer. Ramos de árvores tinham sido cortados, criando caminhos para o céu onde antes não havia. Tocos de árvore cortados ao meio. E havia cadáveres emplumados por toda parte.

— Monte de passarinho morto — disse Gendron. Ajeitou o boné na cabeça com mãos que tremiam de leve. O rosto estava pálido. — Nunca vi tantos.

— Você está bem? — perguntou Barbie.

— Fisicamente? É, acho que sim. Mentalmente, é como se eu estivesse maluco. E você?

— Também — disse Barbie.

Três quilômetros a oeste da 119, chegaram à estrada do Riacho de Deus e ao corpo de Bob Roux, caído ao lado do trator, que ainda funcionava. Barbie se moveu instintivamente na direção do homem caído e mais uma vez bateu na barreira... só que dessa vez se lembrou no último segundo e desacelerou a tempo de não ensanguentar o nariz outra vez.

Gendron se ajoelhou e tocou o pescoço grotescamente inclinado do fazendeiro.

— Morto.

— O que é esse monte de coisa em torno dele? Esses caquinhos brancos?

Gendron pegou o pedaço maior.

— Acho que é uma daquelas traquitanas de música de computador. Deve ter quebrado quando ele bateu no... — Ele fez um gesto. — O troço aí.

Vindo da cidade, começou uma algazarra, mais alta e rouca do que o apito da cidade.

Gendron olhou rapidamente naquela direção.

— Sirene de incêndio — disse. — Não vai adiantar muito.

— Os bombeiros estão vindo de Castle Rock — disse Barbie. — Dá para ouvir.

— É? Então seus ouvidos estão melhores que os meus. Me diz o seu nome de novo, amigo.

— Dale Barbara. Barbie pros amigos.

— Então, Barbie, e agora?

— Continuar, acho. Não podemos fazer mais nada por esse cara.

— Pois é, não podemos nem chamar ninguém — disse Gendron com pesar. — Não com o meu celular lá no carro. E você, não tem celular?

Barbie tinha, mas o largara no apartamento agora vago, junto com meias, camisas, calças e roupa de baixo. Partira para o mundo só com a roupa do corpo, pois não havia nada de Chester’s Mill que quisesse levar. A não ser algumas boas lembranças, e para essas não precisava de mala nem mochila.

Tudo aquilo era complicado demais para explicar a um estranho, e ele apenas fez que não com a cabeça.

Havia uma manta velha sobre o assento do Deere. Gendron desligou o trator, pegou a manta e cobriu o corpo.

— Espero que estivesse ouvindo algo de que gostava quando aconteceu — disse Gendron.

— É — disse Barbie.

— Vem. Vamos até o fim desse sei lá o quê. Quero apertar sua mão. Posso até me emocionar e te dar um abraço.

 

Pouco depois de descobrir o corpo de Roux — agora estavam bem perto do desastre da 117, embora nenhum dos dois soubesse — chegaram a um riachinho. Os dois ficaram ali um instante, cada um de um lado da barreira, observando com espanto e silêncio.

Finalmente, Gendron disse:

— Deus todo-poderoso.

— Como está do seu lado? — perguntou Barbie. No dele, só via a água se erguer e se espalhar pelo mato. Era como se o riacho encontrasse uma represa invisível.

— Não sei descrever. Nunca vi algo assim. — Gendron parou, coçando as duas bochechas, esticando para baixo o rosto já comprido, até ficar meio parecido com o gritador no quadro de Edvard Munch. — Já vi sim. Uma vez. Mais ou menos. Quando levei uns peixinhos dourados pro aniversário de 6 anos da minha filha. Ou talvez naquele ano fossem 7. Levei da loja até a casa num saco plástico, e é isso que parece: água no fundo de um saco plástico. Só que reta em vez de curva. A água se empilha contra essa... coisa e depois escorre pra lá e pra cá do seu lado.

— Não passa nada?

Gendron se curvou, as mãos nos joelhos, e franziu os olhos.

— É, parece que um pouco passa. Mas não muito, só um fiozinho. E nada do lixo que a água traz. Sabe, gravetos e folhas, essas coisas.

Os dois foram em frente, Gendron do lado dele, Barbie do seu. Mas, até então, nenhum dos dois pensara em termos de dentro e fora. Não tinha lhes ocorrido que a barreira podia não ter fim.

 

Então chegaram à rodovia 117, onde houvera outro acidente horrível — dois carros e ao menos duas mortes de que Barbie pudesse se certificar. Achou que havia outra vítima curvada atrás do volante de um Chevrolet velho praticamente destruído, Só que dessa vez também havia uma sobrevivente, sentada ao lado de um Mercedes-Benz esmagado, com a cabeça abaixada. Paul Gendron correu até ela, enquanto Barbie só podia ficar ali e observar. A mulher viu Gendron e lutou para se levantar.

— Não, senhora, nada disso, nem tenta fazer isso — disse ele.

— Acho que estou bem — disse ela. — Só... sabe como é, meio abalada. — Por alguma razão, isso a fez rir, embora o rosto estivesse inchado de lágrimas.

Naquele momento, apareceu outro carro vindo bem devagar, dirigido por um velhote que encabeçava um desfile de mais quatro motoristas, sem dúvida impacientes. Ele viu o acidente e parou. Os carros atrás dele também pararam.

Elsa Andrews estava em pé agora, e suficientemente a par de tudo para Fazer aquela que seria a pergunta do dia:

— No que a gente bateu? Não foi no outro carro, Nora contornou o outro carro.

Gendron respondeu com total sinceridade.

— Não sei, dona.

— Pergunta se ela tem celular — disse Barbie. Depois, gritou para os espectadores reunidos. — Ei! Quem tem celular?

— Eu tenho, moço — disse uma mulher, mas, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, todos ouviram se aproximar um som uâp-uâp-uâp. Era um helicóptero. Barbie e Gendron trocaram olhares chocados.

O helicóptero era azul e branco e voava baixo. Fazia um ângulo na direção do pilar de fumaça que marcava o caminhão batido na 119, mas o ar estava perfeitamente claro, com aquele efeito quase de lente de aumento que os melhores dias do norte da Nova Inglaterra parecem causar, e Barbie conseguiu ler com facilidade o grande 13 azul na lateral. E ver o olho do logotipo da rede de TV CBS. Era um helicóptero de reportagem, vindo de Portland. Já devia estar na área, pensou Barbie. E era um dia perfeito para filmar um acidente suculento para o noticiário das seis.

— Ah, não — gemeu Gendron, sombreando os olhos. Depois, gritou: — Voltem, seus idiotas! Voltem!

Barbie se uniu a ele.

— Não! Para! Sai daí!

Claro que foi inútil. Mais inútil ainda era ele agitar os braços em grandes gestos de “sai daí”.

Perplexa, Elsa olhou Gendron e Barbie.

O helicóptero baixou até o nível das árvores e parou.

— Acho que vai ficar tudo bem — respirou Gendron. — O pessoal de lá também deve estar acenando. O piloto deve ter visto...

Mas aí o helicóptero se virou para o norte, na intenção de fazer a curva por sobre o pasto de Alden Dinsmore para ter um ponto de vista diferente, e bateu na barreira. Barbie viu uma das hélices se quebrar. O helicóptero mergulhou, caiu e girou, tudo ao mesmo tempo. Depois, explodiu, fazendo chover fogo na estrada e nos campos do outro lado da barreira.

O lado de Gendron.

O lado de fora.

 

Na casa onde fora criado, Junior Rennie se esgueirou feito ladrão. Ou um fantasma. Estava vazia, é claro; o pai devia estar lá no gigantesco pátio de carros usados da rodovia 119 — que Frank, amigo de Junior, chamava às vezes de Sagrado Tabernáculo dos Sem Entrada — e nos últimos quatro anos Francine Rennie não saía mais do Cemitério Serra Aprazível. O apito da cidade se calara, e as sirenes da polícia tinham sumido em algum lugar ao sul. A casa estava num silêncio abençoado.

Ele tomou dois Imitrex, deixou a roupa no chão e entrou no chuveiro. Quando saiu, viu que havia sangue na camisa e nas calças. Não cuidaria disso agora. Chutou a roupa para debaixo da cama, puxou as cortinas, se enfiou no leito e puxou a coberta por sobre a cabeça, como fazia quando criança, com medo do monstro do armário. Ficou ali deitado tremendo, a cabeça gongando com todos os sinos do inferno.

Cochilava quando a sirene de incêndio disparou, sacudindo-o para acordar. Começou a tremer de novo, mas a dor de cabeça estava melhor. Dormiria um pouco e depois pensaria no que fazer. Matar-se ainda parecia de longe a melhor opção. Porque iam pegá-lo. Ele não poderia nem voltar e fazer a limpa; não teria tempo antes que Henry ou LaDonna McCain voltassem das tarefas de sábado. Poderia fugir — talvez — mas só quando a cabeça parasse de doer. E é claro que teria que se vestir. Não dá para começar a vida de fugitivo nu feito uma isca.

No geral, matar-se provavelmente seria melhor. Só que aí o filho da puta do chapeiro é que venceria. E quando se pensa pra valer no caso, tudo aquilo tinha sido culpa da porra do chapeiro.

No mesmo instante o apito de incêndio parou. Junior dormiu com as cobertas sobre a cabeça. Quando acordou, eram nove da noite. A dor de cabeça sumira.

E a casa ainda estava vazia.

 

SURUMBAMBA

Quando pisou no freio e parou o seu Alpha Hummer H3 (cor: Pérola Negra; acessórios: tudo que você puder imaginar), Big Jim Rennie estava três minutos inteiros à frente dos policiais da cidade, exatamente do jeito que ele gostava. Sempre à frente da concorrência, esse era o lema de Rennie.

Ernie Calvert ainda estava ao telefone, mas ergueu a mão numa saudação meia boca. O cabelo estava despenteado e ele parecia quase insano de empolgação.

— Oi, Big Jim, consegui falar com eles!

— Com eles quem? — perguntou Rennie, sem prestar muita atenção. Olhava a pira ainda ardente do caminhão e os destroços do que, claramente, era um avião. Aquela bagunça poderia ser como um olho roxo na cidade, ainda mais com os dois carros de bombeiros novos em Rock. Um exercício de treinamento que ele aprovara.., mas a assinatura de Andy Sanders é que estava nos documentos, porque Andy era o primeiro vereador. Isso era bom. Rennie era um crente convicto no Quociente de Protegibilidade, como costumava dizer, e ser segundo vereador era um excelente exemplo da ação desse quociente; tinha-se todo o poder (ao menos quando o primeiro vereador era um zero à esquerda como Sanders), mas raramente se levava a culpa quando algo dava errado.

E isso era o que Rennie, que entregara o coração a Jesus aos 16 anos e não usava palavras chulas, chamava de “surumbamba”. Era preciso tomar providências. Era preciso impor o controle. E não dava para contar com aquele cu velho do Howard Perkins para isso. Perkins talvez tivesse sido um chefe de polícia adequadíssimo vinte anos atrás, mas este era um novo século.

O cenho de Rennie se franziu ainda mais quando ele examinou o local. Espectadores demais. É claro que sempre eram demais em situações como aquela; todo mundo adora sangue e destruição. E alguns pareciam praticar um jogo muito esquisito: ver até que ponto conseguiam se inclinar, ou coisa parecida.

Muito esquisito.

— Ei, vocês, se afastem daí! — gritou. Tinha uma voz boa para dar ordens, alta e confiante. — Aí é local de acidente!

Ernie Calvert — outro idiota, a cidade estava cheia deles, Rennie supunha que todas as cidades eram assim — lhe puxou a manga. Parecia mais empolgado do que nunca.

— Consegui falar com a Guarda Aérea Nacional, Big Jim, e...

— Com quem? Com o quê? Do que você está falando?

— A Guarda Aérea Nacional!

Cada vez pior. Gente brincando e esse idiota chamando a...

— Ernie, por que você ligou para eles, pelo amor de Deus?

— Porque ele disse... o cara disse... — Mas Ernie não se lembrava exatamente do que Barbie dissera, por isso continuou. — Bom, seja como for, o coronel da Guarda Aérea escutou o que eu contei e aí me pôs em contato com o escritório da Segurança Interna em Portland. Direto!

Rennie bateu as mãos nas bochechas, o que fazia muito quando estava exasperado. Ficava parecendo Jack Benny, o humorista, mas com olhos frios. Como ele, Big Jim contava piadas de vez em quando (sempre piadas limpas). Contava piadas porque vendia carros e sabia que políticos devem contar piadas, ainda mais em época de eleições. Assim, mantinha um pequeno estoque rotativo de “graças” (no sentido de “Aí, pessoal, querem ouvir uma graça?”). Decorava-as como o turista em terra estranha escolherá frases para situações como Onde fica o banheiro ou Tem hotel com internet nessa aldeia?

Mas agora ele não fez piada.

— Segurança Interna! Pra que, com todos os diabos melequentos? — Melequento era, de longe, o vitupério favorito de Rennie.

— Porque o rapaz disse que tem alguma coisa ali na estrada. E tem, Jim! Uma coisa que não dá pra ver! Dá para se encostar nela! Está vendo? Estão fazendo isso ali. Ou... se você jogar uma pedra, ela bate e volta! Veja! — Ernie catou uma pedra e jogou. Rennie não se deu ao trabalho de olhar para onde a pedra foi; avaliou que, se atingisse um dos espectadores, o sujeito berraria. — O caminhão bateu nela... nessa coisa aí... e o avião também! E aí o cara me disse que...

— Calma. De que cara exatamente estamos falando?

— É um rapaz — disse Rory Dinsmore. — Cozinheiro do Rosa Mosqueta. Quem pede um hambúrguer meio mal-passado, é ele que faz. O meu pai disse que é dificílimo conseguir o ponto certo, porque ninguém sabe preparar, mas esse cara sabe. — O rosto dele se abriu num sorriso de doçura extraordinária. — Eu sei o nome dele.

— Cala a boca, Roar — avisou o irmão. O rosto do sr. Rennie se fechara. Na experiência de Olhe Dinsmore, era assim que ficavam os professores logo antes de castigar a gente com uma semana de suspensão.

Rory, entretanto, nem deu atenção.

— É um nome de menina! É Baaarbara.

Bem quando penso que não vou mais ouvir falar dele, aquele melequento aparece de novo, pensou Rennie. Aquela droga daquele imprestável inútil.

Ele se virou para Ernie Calvert. A polícia estava quase chegando, mas Rennie achou que tinha tempo de dar fim a esse último resto de maluquice provocada por Barbara. Não que Rennie o visse por ali. Nem esperava por isso, não mesmo. Coisa mesmo de Barbara, sair se metendo, criar confusão e depois fugir.

— Ernie — disse ele —, você foi mal informado.

Alden Dinsmore se intrometeu.

— Sr. Rennie, não sei como o senhor pode dizer isso quando nem sabe qual a informação.

Rennie sorriu para ele. Ao menos, retesou os lábios.

— Eu conheço Dale Barbara, Alden; essa informação eu tenho. — E se virou para Ernie Calvert. — Agora, se você...

— Psiu — disse Calvert, erguendo a mão. — Atenderam.

Big Jim Rennie não gostava de psiu, ainda mais de um gerente de mercearia aposentado. Puxou o telefone da mão de Ernie como se ele fosse um ajudante que o segurasse só para isso.

Uma voz no celular disse: “Quem fala?” Só duas palavras, mas foram suficientes para Rennie saber que tratava com um burocrata filho da mãe. O Senhor sabia que ele tratara com muitos desses nas suas três décadas como autoridade municipal, e os federais eram os piores.

— Aqui fala James Rennie, segundo vereador de Chester’s Mill. E o senhor, quem é?

— Donald Wozniak, Segurança Interna. Sei que o senhor tem algum tipo de problema aí na auto-estrada 119. Algum tipo de interdição.

Interdição? Interdição? Que tipo de linguagem era aquela num policial federal?

— O senhor está mal informado — disse Rennie. — O que temos é um avião, um avião civil, um avião local, que tentou pousar na estrada e bateu num caminhão. A situação está totalmente sob controle. Não precisamos da ajuda do Departamento de Segurança Interna.

— Senhor Rennie — disse o fazendeiro —, não foi isso que aconteceu.

Rennie o dispensou com a mão e começou a andar na direção do primeiro carro da polícia. Hank Morrison estava descendo. Grande, 1,95 metro, mais ou menos, mas basicamente inútil. E, atrás dele, a moça dos peitões. Wettington era o sobrenome e era pior que inútil: boca esperta dominada por cabeça burra. Mas, atrás dela, Peter Randolph estava estacionando. Randolph era o vice-chefe, o tipo de homem de que Rennie gostava. Um homem que fazia acontecer. Se Randolph estivesse de plantão na noite em que Junior se meteu em encrencas naquele diabo de bar estúpido, Big Jim duvidava que o sr. Dale Barbara ainda estivesse na cidade hoje para criar problemas. Na verdade, o sr. Barbara poderia estar atrás das grades lá em Rock. O que Rennie acharia ótimo.

Enquanto isso, o homem da Segurança Interna — será que eles têm coragem de se dizer agentes? — ainda enchia a paciência.

Rennie o interrompeu.

— Obrigado pelo seu interesse, sr. Wozner, mas já resolvemos o caso. — Apertou o botão END sem se despedir. Depois, jogou o telefone de volta para Ernie Calvert.

— Jim, acho que isso não foi muito inteligente.

Rennie o ignorou e observou Randolph parar atrás da perua da tal Wettington, as luzes do teto piscando. Pensou em andar até lá para receber Randolph e rejeitou a ideia antes que se formasse inteiramente na cabeça. Que Randolph fosse até ele. Era assim que devia funcionar. E como funcionaria, por Deus.

 

— Big Jim — disse Randolph. — O que aconteceu aqui?

— Acho que é óbvio — disse Big Jim. — O avião de Chuck Thompson teve uma discussãozinha com um caminhão. Parece que a briga empatou. — Agora ele conseguia ouvir as sirenes vindo de Castle Rock. Quase com certeza do corpo de bombeiros (Rennie esperou que os seus dois carros novos — e caríssimos — estivessem entre eles; seria melhor que ninguém percebesse que os caminhões novos estavam fora da cidade quando a surumbamba aconteceu). As ambulâncias e a polícia viriam logo atrás.

— Não foi isso que aconteceu — disse, teimoso, Alden Dinsmore. — Eu estava na horta ali do lado e vi o avião simplesmente...

— Melhor afastar essas pessoas daqui, não acha? — perguntou Rennie a Randolph, apontando os curiosos. Havia um bom número deles ao lado do caminhão, mantendo distância prudente dos restos ardentes, e mais ainda no lado de Mill. Começava a parecer uma convenção.

Randolph se dirigiu a Morrison e Wettington.

— Hank — disse ele e apontou os espectadores de Mill. Alguns tinham começado a examinar os pedaços espalhados do avião de Thompson. Havia gritos de horror quando mais partes do corpo eram descobertas.

— Falou — disse Morrison e se pôs em ação.

Randolph indicou a Wettington os espectadores ao lado do caminhão.

— Jackie, você cuida... — Mas aí Randolph se interrompeu.

Os amantes de desastres no lado sul do acidente estavam em pé no pasto de um lado da estrada e até os joelhos nos arbustos do outro lado. As bocas abertas lhes davam um ar de interesse estúpido que Rennie conhecia muito bem; via-o todo dia em rostos isolados e em massa todo mês de março, na assembléia da cidade. Só que aquelas pessoas não estavam olhando o caminhão em chamas. E agora Peter Randolph, que com certeza não era burro (brilhante também não, faltava muito para isso, mas ao menos sabia de que lado do pão ficava a manteiga), olhava o mesmo lugar que o resto deles, e com a mesma expressão de espanto, boquiaberto. E Jackie Wettington também.

Era a fumaça que o resto olhava. A fumaça que subia do caminhão em chamas.

Era escura e oleosa. As pessoas a favor do vento deviam estar quase sufocando com ela, ainda mais com a leve brisa que soprava do sul, mas não estavam. E Rennie viu o porquê. Era difícil acreditar, mas viu direitinho. A fumaça realmente seguia para o norte, ao menos a princípio, mas depois fazia uma curva, quase um ângulo reto, e subia reto para o céu como se numa chaminé. E deixava para trás um resíduo marrom-escuro. Uma longa mancha que parecia flutuar no ar.

Jim Rennie sacudiu a cabeça para limpar a imagem, mas ainda estava lá quando parou.

— O que é isso? — perguntou Randolph. A sua voz estava suave de espanto.

Dinsmore, o fazendeiro, se colocou diante de Randolph.

— Aquele cara — apontando para Ernie Calvert — estava falando no telefone com o Departamento de Segurança Interna, e esse cara — apontando para Rennie num gesto teatral de tribunal de que Rennie não gostou nada — tirou o telefone da mão dele e desligou! Ele não devia ter feito isso, Pete. Porque isso aí não foi uma batida. O avião não estava nem perto do chão. Eu vi. Estava cobrindo umas plantas contra a geada e vi.

— Eu também vi — disse Rory, e dessa vez foi o irmão Olhe que estapeou as costas da cabeça de Rory. Rory começou a choramingar.

Alden Dinsmore disse:

– Ele bateu em alguma coisa. Na mesma coisa em que o caminhão bateu. Está ali, dá para tocar. Aquele rapaz, o cozinheiro, disse que era preciso criar uma zona de voo proibido aí e tinha razão. Mas o sr. Rennie — apontando Rennie de novo como se achasse que era um danado de um Perry Mason em vez de um sujeito que ganhava o pão de cada dia aplicando tubos de sucção no peitinho das vacas — nem quis falar. Só desligou.

Rennie não se rebaixou a responder.

— Estamos perdendo tempo — disse a Randolph. Aproximando-se um pouco mais e falando quase num sussurro, acrescentou: — O chefe está vindo. O meu conselho seria parecer esperto e controlar esse lugar antes que ele chegue. — Ele lançou ao fazendeiro um olhar frio e momentâneo. — Mais tarde você pode pegar o depoimento das testemunhas.

Mas o enlouquecedor foi que Alden Dinsmore teve a última palavra.

— Aquele tal de Barber estava certo. Ele estava certo e Rennie estava errado.

Rennie marcou Alden Dinsmore para providências futuras. Mais cedo ou mais tarde, os fazendeiros sempre recorriam aos vereadores de chapéu na mão — querendo um direito de passagem, uma exceção no zoneamento, alguma coisa —e quando o sr. Dinsmore voltasse a aparecer, não teria facilidade, se Rennie pudesse interferir. E em geral interferia.

Controla o local! — disse a Randolph.

— Jackie, afasta aquelas pessoas — disse o vice-chefe, apontando os curiosos do lado do acidente do caminhão. — Marca o perímetro.

— Senhor, eu acho que aquelas pessoas na verdade estão em Motton...

— Não me importa, afasta todo mundo. — Randolph deu uma olhada por sobre o ombro para onde Duke Perkins se esforçava para sair do carro verde de chefe — carro que Randolph sonhava em estacionar na sua porta. E estacionaria, com a ajuda de Big Jim Rennie. Dali a três anos no máximo. — A polícia de Castle Rock vai te agradecer quando chegar aqui, pode acreditar.

— E aquilo... — Ela apontou a mancha de fumaça, que ainda se espalhava. Vistas através dela, as árvores coloridas de outubro pareciam de um cinza escuro uniforme e o céu tinha um tom insalubre e amarelado de azul.

— Fica longe daquilo — disse Randolph e foi ajudar Hank Morrison a marcar o perímetro no lado de Chester’s Mill. Mas primeiro precisava falar com Perk.

Jackie se aproximou das pessoas ao lado do caminhão. A multidão daquele lado crescia sem parar enquanto os que tinham chegado primeiro usavam o celular.

Alguns tinham apagado pequenos incêndios no mato, o que era bom, mas agora estavam simplesmente por ali, olhando. Ela usou o mesmo gesto de enxotar que Hank usava no lado de Mill e recitou o mesmo mantra.

— Pra trás, pessoal, já acabou tudo, não tem nada pra ver que vocês ainda não viram, liberem a estrada pros bombeiros e pra polícia, pra trás, liberem a área, vão pra casa, pra t...

Ela bateu em alguma coisa. Rennie não fazia ideia do que era, mas pôde ver o resultado. A aba do quepe dela bateu primeiro. Curvou-se e o quepe caiu para trás. Um instante depois, aqueles peitos insolentes dela — um par de obuses melequentos, era o que eram — se achataram. Em seguida, o nariz dela se esmagou e soltou um jato de sangue que respingou em alguma coisa... e começou a escorrer em pingos longos, como tinta na parede. Ela caiu sobre as nádegas bem acolchoadas com uma expressão de choque no rosto.

Nisso, o danado do fazendeiro meteu o nariz.

— Viu? O que foi que eu disse?

Randolph e Morrison não tinham visto. Perkins também não; os três estavam confabulando junto ao capô do carro do chefe. Rennie pensou rapidamente em ir até Wettington, mas outros faziam isso e, além disso, ela ainda estava um pouco perto demais da coisa em que tinha batido. Em vez disso, correu na direção dos homens, o rosto determinado e a barriga grande e dura projetando autoridade do tipo bota-pra-quebrar. No caminho, reservou um olhar para Dinsmore, o fazendeiro.

— Chefe — disse ele, se enfiando entre Morrison e Randolph.

— Big Jim — disse Perkins, cumprimentando com a cabeça. — Estou vendo que não perdeu tempo.

Talvez fosse ironia, mas Rennie, macaco velho e matreiro, não ia morder a isca.

— Acho que tem mais coisa acontecendo aqui do que parece. Acho melhor alguém entrar em contato com o Departamento de Segurança Interna. — Fez uma pausa, com a seriedade que a ocasião pedia. — Não quero dizer que há terrorismo envolvido... mas não diria que não há.

 

Duke Perkins olhou para além de Big Jim. Ernie Calvert e Johnny Carver, dono do Posto de Gasolina & Mercearia Mill, ajudavam Jackie a se levantar. Ela estava tonta e o nariz sangrava, mas, fora isso, parecia bem. Ainda assim, toda aquela situação era esquisita. É claro que qualquer acidente com vítimas era um pouco assim, mas ali havia mais coisa errada.

Por exemplo, o avião não estava tentando pousar. Havia pedaços demais, espalhados demais, para que ele acreditasse nisso. E os espectadores. Também não fazia sentido. Randolph não notara, mas Duke Perkins sim. Eles deveriam ter formado uma única aglomeração grande e espalhada. Era como sempre acontecia, como consolo diante da morte. Só que ali eles tinham formado duas aglomerações, e a que ficava para lá do limite de Motton estava estranhamente próxima do caminhão ainda em chamas. Não que houvesse perigo, na avaliação dele... mas por que não vinham para cá?

Os primeiros caminhões dos bombeiros fizeram a curva ao sul. Três deles. Duke ficou contente ao ver que o segundo da fila tinha CORPO DE BOMBEIROS DE CHESTER’S MILL — CARRO Nº 2 pintado em dourado na lateral. A multidão se afastou mais para dentro do mato, para lhes dar espaço. Duke voltou a atenção para Rennie.

— O que aconteceu aqui? Você sabe?

Rennie abriu a boca para responder, mas antes que começasse Ernie Calvert falou.

— Há uma barreira cruzando a estrada. Não dá para ver, mas está lá, chefe. O caminhão bateu nela. O avião também.

— É isso aí! — exclamou Dinsmore.

— A policial Wettington também bateu — disse Johnny Carver. — Sorte que ela estava andando devagar. — Ele pusera o braço em torno de Jackie, que parecia meio tonta. Duke observou o sangue dela na manga da jaqueta ENCHI O TANQUE NO POSTO MILL de Carver.

No lado de Motton, outro caminhão dos bombeiros chegou. Os dois primeiros formaram um V e bloquearam a estrada. Os bombeiros já pulavam e desenrolavam mangueiras. Duke conseguiu ouvir o gemido de uma ambulância vinda de Castle Rock. Cadê a nossa?, perguntou a si mesmo. Será que também fora para aquele maldito treinamento? Ele não gostou de pensar naquilo. Quem, no seu juízo perfeito, mandaria uma ambulância para uma casa vazia em chamas?

— Parece haver uma barreira invisível... — começou Rennie.

— É, já percebi — disse Duke. — Não sei o que é direito, mas já entendi. — Ele se afastou de Rennie e foi até a policial que sangrava, sem ver o vermelho-escuro que inundou o rosto do primeiro vereador com aquele fora.

— Jackie? — perguntou Duke, tocando-a de leve no ombro. — Está tudo bem?

— Está. — Ela tocou o nariz, cujo fluxo de sangue estancava. — Será que quebrou? Não parece quebrado.

— Não quebrou, mas vai inchar. Mas deve estar bom na época do Baile da Colheita.

Ela esboçou um leve sorriso.

— Chefe — disse Rennie —, acho mesmo que devíamos chamar alguém. Se não for a Segurança Interna — pensando melhor, parece meio radical —, então talvez a Polícia Estadual...

Duke o afastou. Foi educado, mas inequívoco. Quase um empurrão. Rennie fechou as mãos em punho e as abriu de novo. Subira na vida empurrando e não sendo empurrado, mas isso não alterava o fato de que punho fechado era coisa de idiotas. Bastava olhar o próprio filho. Ainda assim, ofensas tinham de ser anotadas e resolvidas. Em geral, mais tarde... mas às vezes mais tarde era melhor.

Mais doce.

— Peter! — gritou Duke a Randolph. — Chama o posto de saúde e pergunta onde diabos está a nossa ambulância! Eu quero ela aqui!

— O Morrison pode fazer isso — disse Randolph. Ele pegara a câmera no carro e tirava fotos da cena.

— Você pode fazer isso, e já.

— Chefe, eu acho que Jackie não está tão mal assim, e ninguém mais...

— Quando eu quiser a sua opinião, eu peço, Peter.

Randolph começou a olhar de cara feia até ver a expressão no rosto de Duke. Jogou a câmera de volta no banco da frente do carro e pegou o celular.

— Como foi isso, Jackie? — perguntou Duke.

— Não sei. Primeiro veio uma sensação esquisita, como quando se encosta sem querer nos pinos da tomada na hora em que liga na parede. Passou, mas aí eu bati... caramba, não sei no que foi que eu bati.

Um som de aahh veio dos espectadores. Os bombeiros tinham dirigido as mangueiras para o caminhão em chamas, mas além dele parte da espuma voltava. Batia em alguma coisa e jorrava de volta, criando um arco-íris no ar. Duke nunca vira nada parecido na vida.., a não ser no lava-carros, quando se olham os jatos de alta pressão baterem no para-brisa.

Depois, viu também um arco-íris no lado de Mill: um pequeno. Uma espectadora — Lissa Jamieson, bibliotecária da cidade — foi na direção dele.

— Lissa, se afasta daí! — gritou Duke.

Ela o ignorou. Era como se estivesse hipnotizada. Ficou a centímetros de onde um jato de alta pressão batia no ar e voltava, com as mãos abertas.

Ele conseguiu ver gotas de umidade faiscarem no cabelo dela, puxado para trás e preso num coque na nuca. O pequeno arco-íris se rompeu e voltou a se formar atrás dela.

— É só névoa! — gritou ela, parecendo extasiada. — Toda aquela água lá e aqui só tem uma névoa! Como a de um umidificador.

Peter Randolph afastou o celular e balançou a cabeça.

— Tem sinal, mas a ligação não completa. Acho que todos esses espectadores — ele fez um grande arco com o braço — misturaram tudo.

Duke não sabia se isso era possível, mas era verdade que quase todos os que via falavam ao celular ou tiravam fotos. Quer dizer, a não ser Lissa, que ainda fazia a sua imitação de ninfa dos bosques.

— Vai pegar ela — disse Duke a Randolph. — Puxa ela de volta antes que decida tirar os cristais ou coisa assim.

A cara de Randolph sugeriu que essas missões estavam muito abaixo do nível do seu salário, mas foi. Duke deu uma risada. Foi curta, mas genuína.

— Pelo amor de Deus, qual foi a graça? — perguntou Rennie. Mais policiais do Condado de Castle surgiam no lado de Motton. Se Perkins não ficasse atento, Castle Rock iria acabar controlando tudo aquilo. E recebendo os malditos créditos.

Duke parou de rir, mas ainda sorria. Sem-vergonha.

— É uma surumbamba — disse ele. — Não é essa a sua palavra, Big Jim? E, na minha experiência, às vezes rir é a única maneira de lidar com uma surumbamba.

— Não sei do que você está falando! — Rennie quase gritou. Os filhos de Dinsmore se afastaram dele e ficaram junto do pai.

— Eu sei. — disse Duke suavemente. — E tudo bem. Agora você só precisa entender que eu sou a principal autoridade da lei no local, ao menos até que o xerife do condado chegue aqui, e você é um vereador. Não tem nenhuma autoridade oficial, logo, eu gostaria que se afastasse.

Duke ergueu a voz e apontou para onde o policial Henry Morrison esticava a fita amarela, contornando para isso dois pedaços maiores da fuselagem do avião.

— Eu gostaria que todos se afastassem e nos deixassem trabalhar! Sigam o vereador Rennie. Ele vai levar vocês pra trás da fita amarela.

— Não gostei disso, Duke — disse Rennie.

— Que Deus te abençoe, mas eu não dou a mínima — disse Duke. — Se afasta daqui, Big Jim. Fica pra lá da fita. Não há por que o Henry passar a fita duas vezes.

— Chefe Perkins, não se esqueça de como falou comigo hoje. Porque eu não vou me esquecer.

Rennie foi pisando duro na direção da fita. Os outros espectadores o seguiram, a maioria olhando por sobre o ombro para observar os borrifos d’água que vinham da barreira suja de diesel e formavam uma linha de umidade na estrada. Alguns mais espertos (Ernie Calvert, por exemplo) já tinham notado que a linha seguia com exatidão a fronteira entre Motton e Mill.

Rennie sentiu a tentação infantil de romper com o peito a fita cuidadosamente esticada por Hank Morrison, mas se conteve. No entanto, não ia dar a volta para sujar a calça Land’s End nas bardanas do mato. Tinha custado sessenta dólares. Passou por baixo, erguendo a fita com a mão. A barriga tornava impossível se abaixar muito.

Atrás dele, Duke caminhava lentamente na direção do lugar onde Jackie sofrera a colisão. Mantinha uma das mãos estendidas diante do corpo, como o cego que tateia o caminho numa sala desconhecida.

Foi aqui que ela caiu... e aqui...

Ele sentiu a energia que ela descreveu, mas, em vez de passar, ela se aprofundou numa dor dilacerante no oco do ombro esquerdo. Ele só teve tempo de recordar a última coisa que Brenda dissera — Toma cuidado com o seu marca-passo — e então o aparelho lhe explodiu no peito com força bastante para romper o moletom dos Wildcats que vestira naquela manhã em homenagem ao jogo da tarde. Sangue, retalhos de algodão e pedacinhos de carne atingiram a barreira.

A multidão fez aaaaahh.

Duke tentou dizer o nome da esposa e não conseguiu, mas viu o rosto dela com clareza na mente. Ela sorria.

Depois, escuridão.

 

O garoto era Benny Drake, 14 anos, e um dos Razors. Os Razors eram um clube de skate pequeno mas dedicado, desdenhado pela polícia local mas na verdade nada ilegal, apesar da exigência de providências quanto a isso por parte dos vereadores Rennie e Sanders (na última assembleia da cidade em março, essa mesma dupla dinâmica conseguiu postergar um item do orçamento que financiaria uma área segura para skatistas no parque da cidade, atrás do coreto).

O adulto era Eric “Rusty” Everett, de 37 anos, auxiliar médico que trabalhava com o dr. Ron Haskell, que Rusty costumava chamar de Maravilhoso Mágico de Oz. Porque, explicaria ele (se pudesse revelar tamanha deslealdade a alguém que não fosse a mulher), ele costuma ficar atrás da cortina enquanto eu faço o serviço.

Agora ele verificava a validade da última vacina contra tétano do jovem Drake. Outono de 2009, ótimo. Ainda mais considerando-se que o jovem Drake tinha levado a maior vaca numa pista de cimento e arrebentado a batata da perna. Não um desastre total, mas bem pior que uma simples ralação no asfalto.

— A luz voltou, cara — disse o jovem Drake.

— Gerador, cara — disse Rusty. — Serve pro hospital e pro posto de saúde. Radical, né?

— Clássico — concordou o jovem Drake.

Por um instante o adulto e o adolescente olharam sem falar a ferida de 15 centímetros na panturrilha de Benny Drake. Limpa da terra e do sangue, parecia feia mas não mais absolutamente horrível. O apito da cidade tinha parado, mas longe, a distância, dava para ouvir as sirenes. Depois o apito de incêndio disparou, fazendo ambos pularem.

A ambulância vai sair, pensou Rusty. Certeza absoluta. Twitch e Everett atacam outra vez. Melhor acabar logo com isso.

A não ser pelo fato de que o rosto do garoto estava muito branco, e Rusty achou que havia lágrimas a ponto de escorrer de seus olhos.

— Com medo? — perguntou Rusty.

— Um pouco — disse Benny Drake. — Mamãe vai me descascar.

— É disso que você tem medo? — Porque apostava que Benny Drake já tinha sido descascado algumas vezes. Tipo muitas vezes, cara.

— Hum... será que vai doer muito?

Rusty estava escondendo a seringa. Agora, injetou 3cm3 de xilocaína e epinefrina — um composto amortecedor que ele ainda chamava de novocaína. Demorou para infiltrar a ferida, para não machucar o menino mais do que o necessário.

— Mais ou menos assim.

— U-hu! — disse Benny. — Firmeza, neném. Na moral.

Ferrugem riu.

— Fez o full pipe antes da vaca? — Como skatista aposentado há muito tempo, estava sinceramente interessado.

— Só half pipe, mas foi sinistro! — disse Benny, se alegrando. — Quantos pontos você acha que precisa? Norrie Calvert levou 12 quando se estabacou em Oxford no verão.

— Menos, menos — disse Rusty. Conhecia Norrie, uma minigótica cuja suprema aspiração parecia ser suicidar-se num skate antes de pegar a primeira barriga. Ele apertou perto do machucado com a ponta da agulha da seringa.

— Dá pra sentir?

— Dá, sim, cara, e como dá. Aí, ouviu esse pancadão pra lá? — Benny apontou vagamente para o sul, sentado na mesa de exames só de cueca, sangrando na cobertura de papel.

— Não — disse Rusty. Na verdade, ouvira dois: não pancadões, mas, como temia, explosões. Tinha que se apressar. E cadê o Mágico de Oz? Fazendo a ronda, segundo Ginny. O que provavelmente queria dizer cochilando na sala dos médicos do Cathy Russell. Era lá que o Maravilhoso Mágico fazia a maioria das rondas hoje em dia.

— E agora, dá pra sentir? — Rusty cutucou de novo com a agulha. — Não olha, olhar é roubar.

— Não, cara, nada. Cê tá me zoando.

— Tô não. Você tá anestesiado. — Em mais de um sentido, pensou Rusty. — Então lá vamos nós. Deita, relaxa e boa viagem pelas Linhas Aéreas Cathy Russell. — Ele passou soro fisiológico esterilizado na ferida, cortou a pele solta com o seu bisturi de estimação, o nº 10. — Seis pontos com o melhor nylon 4-0.

— Show — disse o garoto. E depois: — Acho que vou vomitar.

Rusty lhe entregou uma cuba de êmese, conhecida nessas circunstâncias como vasilha de vômito.

— Usa isso. Se desmaiar, vai ser por sua conta e risco.

Benny não desmaiou. Também não vomitou. Rusty punha uma compressa de gaze esterilizada sobre a ferida quando veio uma batidinha na porta, seguida pela cabeça de Ginny Tomlinson.

— Posso falar com você um minuto?

— Não se preocupa comigo — disse Benny. — Eu sou como um radical... livre. — Viadinho insolente.

— No corredor, Rusty? — disse Ginny. Não deu nem uma olhada no garoto.

— Volto logo, Benny. Fica aí sentado e descansa.

— Relax. Sem estresse.

Rusty seguiu Ginny até o corredor.

— Hora da ambulância? — perguntou. Atrás de Ginny, na sala de espera ensolarada, a mãe de Benny olhava de cara feia um livrinho com um casal romântico na capa.

Ginny fez que sim.

— Na 119, na fronteira da cidade com Tarker. Tem outro acidente na outra fronteira da cidade, em Motton, mas disseram que todos os envolvidos naquele já eram. Colisão de avião com caminhão. O avião estava tentando pousar.

— Tá de sacanagem comigo!

Alva Drake olhou em volta, franzindo a testa, e depois voltou ao livro. Ou, ao menos, a olhar para ele, enquanto tentava decidir se o marido a apoiaria se tentasse prender Benny em casa até os 18 anos.

— Não é pouca merda, não — disse Ginny. — Tem notícias de outras colisões também...

— Que esquisito.

— ... mas o sujeito na fronteira de Tarker ainda está vivo. Acho que capotou com um caminhão de entregas. Uma confusão. Twitch está esperando.

— Você termina o garoto?

— Pode deixar. Anda, vai.

— E o dr. Rayburn?

— Tava com pacientes no Stephens Memorial. — Era o hospital de Norway-South Paris. — Ele tá a caminho, Rusty. Vai.

Ele parou no meio do caminho para dizer à sra. Drake que Benny estava bem. Alva não pareceu ficar muito alegre com a notícia, mas agradeceu. Dougie Twitchell — Twitch — estava fumando um cigarro e tomando sol, sentado no para-choque da antiquada ambulância que Jim Rennie e os seus parceiros vereadores continuavam não trocando. Segurava o PX portátil, que pululava de falação: vozes estourando como pipoca e pulando umas por cima das outras.

— Joga fora esse canudo cancerígeno e vamos embora — disse Rusty — Você sabe aonde a gente vai, né?

Twitch deu um peteleco na guimba. Apesar do apelido (“convulsão”), era o enfermeiro mais calmo que Rusty conhecia, e isso já era grande coisa.

— Eu sei o que o Gin-Gin te contou: fronteira entre Tarker e Chester, certo?

— Isso. Caminhão virado.

— Pois é, os planos mudaram. Vamos pro outro lado. — Ele apontou o horizonte sul, onde subia um pilar grosso e preto de fumaça. — Já teve vontade de ver um avião caído?

— Já vi — disse Rusty — No serviço militar. Dois caras. Dava pra passar no pão o que restou. Isso bastou, maluco. Ginny disse que estão todos mortos por lá, então por quê...

— Talvez sim, talvez não — disse Twitch —, mas agora Perkins está mal e pode não ter morrido.

— O chefe Perkins?

— Esse mesmo. Acho que o prognóstico não é bom se o marca-passo explodiu no peito dele, que é o que o Peter Randolph está dizendo, mas ele é o Chefe de Polícia. Líder Destemido.

—Twitch. Amigo. Um marca-passo não explode assim. É totalmente impossível.

— Então talvez ele ainda esteja vivo e a gente possa fazer uma boa ação — disse Twitch. A meio caminho do capô da ambulância, ele pegou o maço de cigarros.

— Você não vai fumar na ambulância — disse Rusty

Twitch o olhou com tristeza.

— A menos que a gente divida.

Twitch suspirou e lhe passou o maço.

— Ah, Marlboro — disse Rusty. — O meu aperitivo predileto.

— Assim você me mata — disse Twitch.

 

Passaram direto pelo sinal vermelho em que a rodovia 117 desembocava na 119, no centro da cidade, a sirene aos berros, os dois fumando como demônios (com as janelas abertas, que era o procedimento padrão), escutando o blá-blá-blá do rádio. Rusty não entendia quase nada, mas uma coisa era clara: teria de trabalhar até bem depois das quatro horas.

— Cara, não sei o que aconteceu — disse Twitch —, mas isso é fato: a gente vai ver um genuíno desastre de avião. Depois do fato, é verdade, mas a cavalo dado não se olham os dentes.

— Twitch, você é doente.

Havia muito trânsito, a maior parte indo para o Sul. Alguns podiam mesmo ter o que fazer por lá, mas Rusty achou que a maioria era de moscas humanas atraídas pelo cheiro de sangue. Twitch passou por uma fila de quatro carros sem problema nenhum; a pista da 119 que seguia para o Norte estava estranhamente vazia.

— Olha! — disse Twitch, apontando. — Helicóptero da TV! Vamos aparecer no noticiário das seis, Grande Rusty! Paramédicos heróicos lutam para....

Mas foi aí que o voo da imaginação de Dougie Twitchell terminou. À frente deles — no local do acidente, presumiu Rusty — o helicóptero deu uma ré súbita. Por um momento, deu para ler o número 13 pintado do lado e ver o olho do logotipo da CBS. Depois ele explodiu, fazendo chover fogo do céu sem nuvens do início da tarde.

Twitch gritou:

— Jesus, me desculpa! Não era a sério! — E então, como criança, fazendo doer o coração de Rusty mesmo com o choque: — Retiro tudo!

 

— Tenho que voltar — disse Gendron. Tirou o boné dos Sea Dogs e limpou com ele o rosto pálido, sujo, ensanguentado. O nariz inchara até parecer o polegar de um gigante. Os olhos espiavam no meio de círculos escuros. — Sinto muito, mas o meu nariz está doendo demais, e... sabe, não sou mais tão jovem quanto antigamente. Além disso... — Ele ergueu os braços e os deixou cair. Estavam um de frente para o outro e Barbie daria um bom abraço no sujeito e uns tapinhas nas costas, se fosse possível.

— Um choque no sistema, não é? — perguntou a Gendron. Este soltou uma gargalhada.

— Aquele helicóptero foi o toque final. — E ambos olharam a nova coluna de fumaça.

Barbie e Gendron tinham vindo do local do acidente na 117 depois de assegurar que as testemunhas chamassem o socorro para Elsa Andrews, a única sobrevivente. Ao menos, ela não parecia muito ferida, embora o coração estivesse obviamente partido com a perda da amiga.

— Então volta. Devagar. Não se apressa. Descansa quando precisar.

— Vai em frente?

— Vou.

— Ainda acha que vai encontrar o final?

Barbie ficou um instante em silêncio. A princípio tivera certeza, mas agora...

— Espero que sim — disse.

— Então, boa sorte. — Gendron cumprimentou Barbie com o boné antes de colocá-lo de volta na cabeça. — Espero apertar a sua mão antes que o dia termine.

— Eu também — disse Barbie. E parou. Andara pensando. — Você pode me fazer um favor, se conseguir usar o celular?

— Claro.

— Liga pra base do Exército em Fort Benning. Pede pra falar com o oficial de ligação e diz pra ele que precisa entrar em contato com o coronel James O. Cox. Diz que é urgente, que está ligando em nome do capitão Dale Barbara. Guardou tudo?

— Dale Barbara. É você. James Cox é o outro. Guardei.

— Se conseguir falar com ele... Não tenho certeza de que vai conseguir, mas se... Diz a ele o que está acontecendo aqui. Diz que, se ninguém entrou em contato com a Segurança Interna, que é pra ele fazer isso. Pode me fazer esse favor?

Gendron fez que sim.

— Pode deixar, vou tentar. Boa sorte, soldado.

Barbie preferiria não ser mais chamado assim, mas fez um esboço de continência com o dedo na testa. Depois foi em frente, procurando o que não achava mais que encontraria.

 

Encontrou uma estrada na floresta mais ou menos paralela à barreira. Estava cheia de mato e sem uso, mas bem melhor do que abrir caminho entre arbustos e espinheiros. De vez em quando, desviava-se para oeste, tateando a barreira entre Chester’s Mill e o mundo externo. Estava sempre lá.

Quando chegou ao ponto em que a 119 entrava na cidade-irmã de Tarker’s Mills, Barbie parou. O motorista do caminhão de entregas virado fora levado por algum bom samaritano do outro lado da barreira, mas o caminhão lá estava, bloqueando a estrada como um grande animal morto. As portas traseiras tinham se aberto com o impacto. O asfalto estava coberto de embalagens de bolinhos recheados, rocamboles, pãezinhos e biscoitos de manteiga de amendoim. Havia um rapaz com uma camiseta de George Strait sentado num toco, comendo um desses últimos. Tinha um celular na mão. Ergueu os olhos para Barbie.

— Oi. Você veio de... — e apontou vagamente para trás de Barbie. Parecia cansado, amedrontado e desiludido.

— Do outro lado da cidade — disse Barbie. — Isso.

— Uma parede invisível no caminho todo? Fronteira fechada?

— É.

O rapaz fez que sim e apertou um botão no celular.

— Dusty? Ainda está aí? — Escutou um pouco mais e continuou. — Certo. — Desligou o aparelho. — Eu e o meu amigo Dusty começamos a leste daqui. Nos dividimos. Ele foi pro Sul. Estamos mantendo contato por telefone. Quando conseguimos, claro. Agora ele está lá onde o helicóptero caiu. Diz que está enchendo de gente por lá.

Barbie podia apostar que sim.

— Nenhuma abertura nessa coisa em nenhum lugar do seu lado?

O rapaz fez que não. Não disse mais nada, nem precisava. Podiam ter deixado passar alguma abertura, Barbie sabia que era possível — buracos do tamanho de janelas ou de portas —, mas duvidava.

Achou que estavam isolados.

 

E PRO TIME NÓS TORCEMOS

Barbie voltou andando pela rodovia 119 até o centro da cidade, uma distância de uns 5 quilômetros. Quando chegou lá, eram seis horas. A rua principal estava quase deserta, mas viva com o rugido dos geradores; dúzias deles, pelo som. O semáforo no cruzamento da 119 com a 117 estava apagado, mas o Rosa Mosqueta estava aceso e lotado. Olhando pela vitrine grande da frente, Barbie viu que todas as mesas estavam ocupadas. Mas, quando entrou, não ouviu nenhuma das conversas de sempre: política, os Red Sox, a economia local, os Patriots, carros e picapes recém-comprados, os Celtics, o preço da gasolina, os Bruins, ferramentas elétricas recém-compradas, os Twin Mills Wildcats. E também nada dos risos de sempre.

Havia um televisor sobre o balcão e todos assistiam. Barbie observou, com aquela sensação de descrença e deslocamento que todos os que realmente se veem no local de um grande desastre devem sentir, que Anderson Cooper, da CNN, estava na rodovia 119 com a massa ainda fumegante do caminhão destruído ao fundo.

A própria Rose atendia às mesas, correndo às vezes de volta ao balcão para receber um pedido. Cachos finos escapavam da rede e pendiam em torno do rosto. Ela parecia cansada e estressada. O balcão deveria ser território de Angie McCain das quatro até fechar, mas Barbie não viu sinal dela naquela hora. Talvez estivesse fora da cidade quando a barreira caiu. Se assim fosse, talvez não voltasse ao balcão por um bom tempo.

Anson Wheeler — que Rosie sempre chamava só de “garoto”, embora o rapaz tivesse ao menos 25 anos — pilotava a chapa e Barbie se apavorou ao pensar o que Anse faria com algo mais complicado que feijão com salsicha, o especial tradicional de sábado do Rosa Mosqueta. Coitado do rapaz ou garota que pedisse no jantar comida de café da manhã e tivesse de enfrentar os ovos fritos nucleares de Anson. Ainda assim, era bom que estivesse ali, porque além da falta de Angie também não havia sinal de Dodee Sanders. Embora essa aí não precisasse de um desastre para faltar ao trabalho. Não era exatamente preguiçosa, mas se distraía à toa. E na hora de pensar... caramba, o que dizer? O pai dela — Andy Sanders, primeiro vereador de Mill — jamais seria candidato à Mensa, a associação de quem tem QI elevado, mas perto de Dodee era um Einstein.

Na TV, pousavam helicópteros atrás de Anderson Cooper, soprando o seu cabelo branco e charmoso e quase lhe afogando a voz. Os helicópteros pareciam Pave Lows. Barbie andara bastante neles enquanto servia no Iraque. Agora um oficial do Exército havia entrado no quadro, coberto o microfone de Cooper com a mão enluvada e falava ao ouvido do repórter.

Os fregueses reunidos no Rosa Mosqueta murmuraram entre si. Barbie entendeu a inquietação. Ele mesmo a sentiu. Quando um homem fardado cobria o microfone de um repórter famoso da TV sem nem pedir licença, sem dúvida era o Fim dos Tempos.

O sujeito do Exército — um coronel, mas não o seu coronel, ver Cox completaria a sensação de deslocamento mental de Barbie — terminou o que tinha a dizer. A luva fez um barulho ventoso quando a tirou do microfone. Saiu da visão da câmera, o rosto num vazio impassível. Barbie reconheceu o jeito: um pau-mandado do Exército.

Cooper dizia: “A imprensa está sendo avisada de que temos que recuar um quilômetro até uma loja de beira de estrada chamada Raymond’s Roadside Store.” Os fregueses murmuraram em discordância. Todos conheciam a Raymond’s Roadside em Motton, onde a placa na vitrine dizia CERVEJA GELADA SANDUÍCHES QUENTES ISCA FRESCA. “Essa área, a menos de 100 metros do que estamos chamando de barreira por falta de nome melhor, foi declarada de segurança nacional. Continuaremos nossa cobertura assim que possível, mas agora voltamos a Washington, Wolf.”

A chamada na faixa vermelha abaixo da tomada ao vivo dizia ÚLTIMAS NOTÍCIAS CIDADE DO MAINE ISOLADA O MISTÉRIO AUMENTA. E, no canto superior direito, em vermelho, a palavra GRAVE piscava como o letreiro de neon de um bar. Tome Cerveja Grave, pensou Barbie e quase riu.

Wolf Blitzer ocupou o lugar de Anderson Cooper. Rose tinha uma queda por Blitzer e à tarde, nos dias da semana, só deixava sintonizarem a TV no programa dele; ela o chamava de “meu Wolfie”. Esta noite Wolfie usava gravata, mas o nó estava malfeito e Barbie achou que o resto da roupa parecia caseira demais.

— Recapitulando a nossa reportagem — disse o Wolfie de Rose —, hoje, mais ou menos à uma da tarde...

— Foi antes disso, bem antes — disse alguém.

— E Myra Evans, é verdade? — perguntou mais alguém. — Está morta mesmo?

— Está — respondeu Fernald Bowie. O único agente funerário da cidade, Stewart Bowie, era o irmão mais velho de Fern. Fern às vezes o ajudava quando estava sóbrio, e naquela noite parecia sóbrio. Sóbrio de tão chocado. — Agora calem a boca que eu quero ouvir.

Barbie também queria, porque agora Wolfie tratava da questão que mais o preocupava e dizia o que ele queria saber: que o espaço aéreo acima de Chester’s Mill fora declarado zona proibida ao tráfego aéreo. Na verdade, todo o oeste do Maine e leste de New Hampshire, de Lewiston-Auburn até North Conway, era zona proibida. O presidente estava sendo informado. E, pela primeira vez em nove anos, a cor do Alerta Nacional de Ameaças tinha passado do laranja.

Julia Shumway, proprietária e editora do Democrata, deu uma olhada em Barbie quando este passou pela sua mesa. Então o sorrisinho preso e sigiloso que era a sua especialidade, quase marca registrada, piscou-lhe no rosto.

— Parece que Chester’s Mill não quer que o senhor vá embora, sr. Barbara.

— Está parecendo — concordou Barbie. Ela saber que ele tentara ir embora, e por quê, não o surpreendeu. Ele passara tempo suficiente em Mill para saber que Julia Shumway sabia tudo o que valia a pena saber.

Rose o viu enquanto servia feijão com salsicha (mais uma relíquia defumada que um dia fora uma costeleta de porco) a um grupo de seis amontoados numa mesa para quatro. Ficou paralisada com um prato em cada mão e mais dois no braço, olhos arregalados. Depois, sorriu. Foi daqueles cheios de felicidade e alívio indisfarçáveis e alegrou o coração dele.

Isso é que é um lar, pensou ele. Macacos me mordam se não é.

— Santo molho, Dale Barbara, não esperava nunca mais ver você!

— Ainda tem o meu avental? — perguntou Barbie. Com certa timidez. Afinal de contas, Rose o acolhera, só um andarilho com algumas referências rabiscadas na mochila, e lhe dera emprego. Ela lhe dissera que entendia perfeitamente por que ele achava que tinha que cair fora, que não era bom ter o pai de Junior Rennie como inimigo, mas Barbie ainda sentia que a deixara numa enrascada.

Rose pousou a carga de pratos em qualquer lugar onde houvesse lugar para eles e correu para Barbie. Era uma mulherzinha gorducha e teve de ficar na ponta dos pés para abraçá-lo, mas conseguiu.

— Estou tão feliz, mas tão feliz de ver você! — cochichou. Barbie a abraçou também e lhe deu um beijo no alto da cabeça.

— Big Jim e Junior não vão ficar — disse. Mas ao menos não havia nenhum Rennie ali; a isso ele tinha de ser grato. Barbie sabia muito bem que, ao menos por enquanto, ele ficara ainda mais interessante para os millenses reunidos do que a própria cidade natal deles na TV nacional.

— Big Jim Rennie que venha! — disse ela. Barbie riu, achando graça da ferocidade, mas contente com a sua discrição. Ela ainda cochichava: — Achei que você tivesse ido embora.

— Quase fui, mas saí atrasado.

— Você viu... aquilo?

— Vi. Depois te conto. — Ele a soltou, afastou-a à distância de um braço e pensou: Rose, se você tivesse dez anos a menos... ou mesmo cinco...

— E então, posso pegar o meu avental?

Ela limpou os cantos dos olhos e fez que sim.

— Por favor, pega de volta. Tira o Anson de lá antes que ele mate todo mundo.

Barbie lhe fez uma continência, contornou o balcão, entrou na cozinha e mandou Anson Wheeler para a frente, dizendo-lhe que cuidasse dos pedidos e da limpeza antes de ajudar Rose no salão. Anson se afastou da chapa com um suspiro de alívio. Antes de ir para o balcão, apertou com as duas mãos a mão direita de Barbie.

— Graças a Deus, cara. Nunca vi tanta correria. Estava perdidinho.

— Não se preocupe. Vamos alimentar os 5 mil.

Anson, pouco conhecedor da Bíblia, não entendeu.

— Hein?

— Nada, nada.

A campainha que ficava no canto da entrada do balcão tocou.

— Pedido! — gritou Rose.

Barbie agarrou uma espátula antes de pegar a comanda — a chapa estava uma bagunça, sempre ficava assim quando Anson se entregava àquelas mudanças cataclísmicas induzidas pelo calor a que dava o nome de cozinhar —, enfiou o avental na cabeça, amarrou nas costas e olhou o armário acima da pia. Estava cheio de bonés de beisebol, que serviam de chapéu de chef para os chapeiros do Rosa Mosqueta. Escolheu um dos Sea Dogs em homenagem a Paul Gendron (agora nos braços dos seus, esperava Barbie), enfiou-o na cabeça com a aba para trás e estalou os dedos.

Então, pegou a primeira comanda e foi trabalhar.

 

Às 21h15, mais de uma hora depois do horário normal de fechar aos sábados, Rose levou até a porta os últimos fregueses. Barbie trancou-a e virou a plaquinha de ABERTO para FECHADO. Observou aqueles últimos quatro ou cinco atravessarem a rua até o parque da cidade, onde havia umas cinquenta pessoas reunidas conversando. Olhavam para o sul, onde uma grande luz branca formava uma bolha acima da 119. Não as luzes da TV avaliou Barbie; era o Exército americano, criando e patrulhando um perímetro. E como patrulhar um perímetro à noite? Ora, pondo sentinelas e iluminando a terra de ninguém, é claro.

Terra de ninguém. O som daquilo não lhe agradava.

Por outro lado, a rua principal estava estranhamente escura. Havia luz elétrica brilhando em alguns prédios onde os geradores funcionavam e lâmpadas de emergência a pilha acesas na Loja de Departamentos Burpee, no Posto de Gasolina & Mercearia, na Livraria e Sebo Mill, no Food City, no pé do morro da rua principal e meia dúzia de outras, mas as luzes da rua estavam apagadas e viam-se velas acesas na maioria das janelas do segundo andar, onde havia apartamentos.

Rose sentou-se à mesa do meio do salão, fumando um cigarro (proibido em locais públicos, mas Barbie jamais denunciaria). Tirou a rede do cabelo e deu a Barbie um sorriso cansado quando ele se sentou diante dela. Atrás deles, Anson limpava o balcão, o cabelo comprido até os ombros, agora libertado do boné dos Red Sox.

— Achei que o 4 de Julho era pesado, mas hoje foi pior — disse Rose. — Se você não tivesse aparecido, eu estaria encolhida ali no canto, berrando pela minha mãe.

— Passou uma loura num F-150 — disse Barbie, sorrindo ao lembrar. — Quase me deu uma carona. Se tivesse dado, talvez eu estivesse longe. Por outro lado, o que aconteceu com Chuck Thompson e aquela mulher no avião podia ter acontecido comigo. — O nome de Thompson aparecera na cobertura da CNN; a mulher não fora identificada.

Mas Rose sabia.

— Era Claudette Sanders. Tenho quase certeza. Dodee me disse ontem que a mãe dela teria aula hoje.

Havia um prato de batatas fritas entre eles na mesa. Barbie ia estender a mão para pegar uma delas. Nisso, parou. De repente, não queria mais batata frita. Não queria mais nada. E a poça vermelha na beira do prato estava mais parecida com sangue do que com ketchup.

— Então foi por isso que Dodee não veio.

Rose deu de ombros.

— Pode ser. Não tenho certeza. Não tive notícias dela. E nem esperava, com os telefones desligados.

Barbie supôs que ela quisesse dizer os telefones fixos, mas até lá na cozinha ouvira pessoas se queixando de dificuldades com o celular. A maioria supôs que fosse porque todo mundo tentava usá-los ao mesmo tempo, sobrecarregando as áreas de cobertura. Outros achavam que o fluxo de jornalistas — talvez já fossem centenas, com Nokias, Motorolas, iPhones e BlackBerries — era a causa do problema. Barbie tinha uma suspeita pior; era uma situação de segurança nacional, afinal de contas, numa época em que o país inteiro estava paranoico com o terrorismo. Algumas chamadas se completavam, mas cada vez menos conforme a noite avançava.

— É claro — disse Rose — que Dodee, com aquela cabeça de vento, também pode ter achado uma brilhante ideia matar o serviço e ir ao Shopping Auburn.

— O sr. Sanders sabe que era Claudette que estava no avião?

— Não tenho certeza, mas ficaria muito espantada se ainda não soubesse.

— E ela cantou, numa vozinha pequena mas afinada: “Esta cidade onde nós vivemos...”

Barbie sorriu um pouco e cantou de volta o verso seguinte: “É pequena, filho, e pro time nós torcemos.” Era de uma canção antiga de James McMurtry que, no verão anterior, ganhara nova e misteriosa popularidade por dois meses em algumas estações de rádio do oeste do Maine que tocavam música country. Não a WCIK, é claro; James McMurtry não era o tipo de artista apoiado pela Rádio Jesus.

Rose apontou as batatas fritas.

— Não vai comer mais?

— Não. Perdi o apetite.

Barbie também não caía de amores por Andy Sanders com o seu eterno sorriso nem por Dodee, a Doidinha, que quase com certeza ajudara a querida amiga Angie a espalhar o boato que provocara o problema de Barbie no Dipper, mas a ideia de que aqueles pedaços de corpo (era a perna vestida de verde que o olho da mente não parava de querer ver) pertenceram à mãe de Dodee... à esposa do primeiro vereador...

— Eu também — disse Rose e apagou o cigarro no ketchup. Ele fez um pfisss e, por um momento horrível, Barbie achou que ia vomitar. Virou a cabeça e fitou pela vitrine a rua principal, embora não houvesse nada para ver ali. Olhando de dentro, estava tudo escuro.

— O presidente vai falar à meia-noite — anunciou Anson do balcão. Atrás dele, vinha o gemido baixo e constante da lavadora de louça. Ocorreu a Barbie que a grande e velha Hobart poderia estar fazendo o último serviço, ao menos por algum tempo. Teria de convencer Rosie disso. Ela relutaria, mas entenderia a razão. Era uma mulher prática e inteligente.

A mãe de Dodee Sanders. Jesus. Qual será a probabilidade?

Ele percebeu que a probabilidade não era tão pequena assim. Se não fosse a sra. Sanders, poderia ter sido qualquer um que ele conhecia. É pequena a cidade, filho, e pro time nós torcemos.

— Chega de presidente pra mim por hoje — disse Rose. — Ele vai ter que cuidar sozinho da América Salve Salve. Cinco horas é bem cedo. — Aos domingos, o Rosa Mosqueta só abria às sete da manhã, mas havia os preparativos. Sempre os preparativos. E nos domingos, isso queria dizer pãezinhos de canela. — Se quiserem, fiquem aí pra assistir. Só não se esqueçam de trancar tudo antes de ir embora. Na frente e nos fundos. — Ela começou a se levantar.

— Rose, temos que conversar sobre amanhã — disse Barbie.

— Nã-nã-ni-nã-não, amanhã é outro dia. Deixa pra lá agora, Barbie. Cada coisa a seu tempo. — Mas ela deve ter visto alguma coisa na cara dele, porque voltou a se sentar. — Tudo bem, por que essa cara horrível?

— Quando foi a última vez que você comprou gás?

— Semana passada. Estamos com bom estoque. É só por isso que você está preocupado?

Não era, mas fora onde a preocupação começara. Barbie fez as contas. O Rosa Mosqueta tinha dois cilindros ligados. Cada um com capacidade de 1.230 ou 1.325 litros, ele não se lembrava direito. Verificaria pela manhã, mas se Rose estava certa, tinham mais de 2.200 litros à disposição. Isso era bom. Um pouco de sorte num dia que fora de um azar espetacular para a cidade como um todo. Mas não havia como saber quanto azar ainda estava por vir. E 2.200 litros de gás não durariam para sempre.

— Qual a taxa de consumo? — perguntou ele. — Você faz idéia?

— Qual a importância disso?

— É que agora o seu gerador está fazendo este lugar funcionar. Lâmpadas, fogão, geladeira, bombas. O aquecedor, também, se ficar frio e ele entrar em ação. E para isso o gerador está queimando gás.

Ficaram em silêncio um instante, ouvindo o rugido constante do Ronda quase novo atrás do restaurante.

Anson Wheeler veio e sentou-se.

— O gerador usa 7,5 litros de gás por hora com 60% de utilização — disse ele.

— Como você sabe disso? — perguntou Barbie.

— Li na etiqueta. Com tudo ligado, como estamos desde o meio-dia, quando a luz acabou, provavelmente são 11 litros por hora. Talvez um pouco mais.

A reação de Rose foi imediata.

— Anse, apaga todas as luzes menos as da cozinha. Agora mesmo. E baixa o termostato do aquecedor. — Ela reconsiderou. — Não, melhor desligar.

Barbie sorriu e lhe mostrou o polegar erguido. Ela entendera. Nem todo mundo em Mill entenderia. Nem todo mundo em Mill ia querer entender.

— Tudo bem.

Mas Anson parecia em dúvida.

— Você não acha que amanhã de manhã... amanhã à tarde, no máximo...?

— O presidente dos Estados Unidos vai fazer um discurso na televisão — disse Barbie. — À meia-noite. O que você acha, Anse?

— Acho que é melhor apagar a luz — foi a resposta.

— E o termostato, não se esqueça — disse Rose. Quando ele saiu correndo, ela disse a Barbie: — Vou fazer o mesmo em casa quando subir. — Viúva há dez anos ou mais, ela morava em cima do restaurante.

Barbie concordou. Ele virara uma das toalhinhas de mesa de papel (“Já visitou esses 20 pontos turísticos do Maine?”) e fazia contas no verso. De 100 a 115 litros de gás queimados desde o surgimento da barreira. Isso lhes deixava uns 2.100 litros. Se Rose conseguisse reduzir o gasto a 95 litros por dia, poderia, teoricamente, funcionar por três semanas. Se reduzisse para 75 litros por dia — o que talvez conseguisse fechando entre o café da manhã e o almoço e, novamente, entre o almoço e o jantar —, poderia continuar funcionando por quase um mês.

O que é ótimo, pensou. Porque se essa cidade não reabrir daqui a um mês, não vai restar mais nada para cozinhar.

— Em que está pensando? — perguntou Rose. — E que números são esses? Não estou entendendo nada.

— É porque vocês estão olhando de cabeça para baixo — disse Barbie e percebeu que todos os moradores da cidade fariam o mesmo. Eram números que ninguém gostaria de olhar de cabeça para cima.

Rose virou para si o rascunho improvisado de Barbie. Leu os números para si mesma. Então, ergueu a cabeça e, chocada, encarou Barbie. Nesse instante, Anson desligou quase todas as luzes e os dois ficaram se entreolhando numa penumbra que, ao menos para Barbie, era horrivelmente convincente. Aquela encrenca poderia ser séria.

— Vinte e oito dias? — perguntou ela. — Acha que precisamos planejar para quatro semanas?

— Não sei se sim nem se não, mas quando estava no Iraque alguém me arranjou um exemplar do Livro vermelho do camarada Mao. Eu o levava no bolso e li de cabo a rabo. A maior parte dele faz mais sentido que os nossos políticos nos seus melhores dias. Uma coisa que nunca esqueci foi: Torça pelo sol, mas construa diques. Acho que é o que nós... que você, quer dizer...

— Nós — disse ela e tocou a mão dele. Ele a virou e segurou a dela.

— Certo, nós. Acho que é pra isso que devemos planejar. O que significa fechar entre as refeições, reduzir o uso do forno — nada de pãezinhos de canela, por mais que eu adore tanto quanto todo mundo — e nada de lavadora de pratos. É velha e gasta energia demais. Sei que Dodee e Anson não vão gostar da ideia de lavar pratos à mão...

— Acho que por enquanto não podemos contar com a volta de Dodee, e talvez nunca mais. Não com a mãe morta. — Rose suspirou. — Quase torço para que ela tenha ido ao Shopping Auburn. Mas acho que tudo vai estar no jornal amanhã.

— Talvez. — Barbie não fazia ideia de quanta informação sairia ou entraria em Chester’s Mill caso a situação não se resolvesse logo, com alguma explicação racional. Talvez pouca. Achou que o famoso Cone do Silêncio de Maxwell Smart logo cairia sobre eles, se já não tivesse caído.

Anson voltou à mesa à qual Barbie e Rose estavam sentados. Vestira o casaco.

— Posso ir embora agora, Rose?

— Claro — disse ela. — Amanhã às seis?

— Não é meio tarde? — Ele sorriu e acrescentou: — Não que eu esteja me queixando.

— Vamos abrir mais tarde. — Ela hesitou. — E fechar entre as refeições.

— Sério? Legal. — O olhar dele passou para Barbie. — Você tem onde ficar hoje à noite? Porque pode ficar lá em casa. Sada foi pra Derry visitar a família. — Sada era a mulher de Anson.

Na verdade, Barbie tinha onde dormir, quase em frente, do outro lado da rua.

— Obrigado, vou voltar ao meu apartamento. Está pago até o fim do mês, então por que não? Hoje de manhã, deixei a chave com Petra Searles na farmácia antes de ir embora, mas tenho uma cópia no meu chaveiro.

— Certo. Até amanhã de manhã, Rose. Vai vir também, Barbie?

— Eu não perderia isso por nada.

O sorriso de Anson se ampliou.

— Excelente.

Quando ele saiu, Rose esfregou os olhos e olhou Barbie com tristeza.

— Quanto tempo isso vai durar? A sua melhor estimativa.

— Eu não tenho nenhuma estimativa, porque não sei o que aconteceu. Nem quando vai parar de acontecer.

Bem baixinho, Rose disse:

— Barbie, você está me assustando.

— Eu estou me assustando. Nós dois precisamos dormir. Tudo vai parecer melhor de manhã.

— Depois dessa discussão, por mais cansada que esteja, vou precisar de um sonífero para conseguir dormir — disse ela. — Mas graças a Deus você voltou.

Barbie lembrou o que pensara sobre suprimentos.

— Outra coisa. Se o Food City abrir amanhã...

— Eles sempre abrem domingo. Das dez às seis.

— Se abrirem amanhã, você vai ter que fazer compras.

— Mas a Sysco entrega... — Ela parou e o fitou com tristeza. — Na terça, mas a gente não pode contar com isso, não é? É claro que não.

— Não — disse ele. — Ainda que o errado se conserte de repente, o Exército pode deixar a cidade de quarentena, ao menos por um tempo.

— O que eu devo comprar?

— Tudo, principalmente carne. Carne, carne, carne. Se a loja abrir. Não sei se vai abrir. Jim Rennie pode convencer o gerente...

— Jack Cale. Ele assumiu quando Ernie Calvert se aposentou no ano passado.

— Pois Rennie pode convencer ele a fechar até segunda ordem. Ou fazer o chefe Perkins ordenar o fechamento.

— Você não soube? — perguntou Rose, e ao ver a cara de paisagem dele:

— Não, não soube. Duke Perkins morreu, Barbie. Morreu lá — e indicou o sul.

Barbie a fitou, espantado. Anson não desligara a televisão e, atrás deles, o Wolfie de Rose dizia mais uma vez ao mundo que uma força inexplicada segregara uma cidadezinha do oeste do Maine, que a área fora isolada pelas Forças Armadas, que os chefes do Estado-Maior conjunto estavam reunidos em Washington, que o presidente falaria ao país à meia-noite, mas enquanto isso pedia ao povo americano que se unisse a ele em oração pelos habitantes de Chester’s Mill.

 

— Pai? Pai?

Junior Rennie estava no alto da escada, a cabeça inclinada, escutando. Não houve resposta e a TV estava em silêncio. A esta hora o pai sempre já voltara do trabalho e estava diante da televisão. Nas noites de sábado, ele trocava a CNN e a FOX News pelo Animal Planet ou pelo History Channel. Mas não naquela noite. Junior pôs o relógio no ouvido para se assegurar de que ainda estava funcionando. Estava, e o horário que apontava fazia sentido pois estava escuro lá fora.

Uma ideia terrível lhe ocorreu: Big Jim podia estar com o chefe Perkins. Os dois, naquele minuto, podiam estar discutindo como prender Junior com o mínimo possível de confusão. E por que teriam esperado tanto? Para tirá-lo da cidade protegido pela escuridão. Para levá-lo para a cadeia lá em Castle Rock. Depois o julgamento. E depois?

Depois a penitenciária de Shawshank. Após alguns anos lá, provavelmente ele a chamaria só de Shank, como o resto dos assassinos, ladrões e sodomitas.

— Que estupidez — sussurrou ele, mas seria mesmo? Acordara pensando que matar Angie tinha sido só um sonho, tinha que ser, porque ele nunca mataria ninguém. Surrar, talvez, mas matar? Ridículo. Ele era... era... ora bolas, uma pessoa comum!

Então olhou as roupas debaixo da cama, viu o sangue nelas e tudo voltou. A toalha caindo do cabelo dela. A borboleta peluda, a estimulá-lo de certa forma. O som complicado de esmagamento detrás do rosto dela quando ele a atacou com o joelho. A chuva de ímãs de geladeira e o jeito como ela se debateu.

Mas aquilo não era eu. Aquilo era....

— Era a dor de cabeça. — Isso. Verdade. Mas quem acreditaria? Ele teria mais sorte se dissesse que tinha sido o mordomo. — Pai?

Nada. Não estava em casa. Nem na delegacia, conspirando contra ele. Não o seu pai. Ele não faria isso. Seu pai sempre dizia que a família vinha em primeiro lugar.

Mas a família vinha mesmo em primeiro lugar? É claro que ele dizia isso; afinal de contas, era cristão e dono de metade da WCIK; mas Junior achava que, para o pai, os Carros Usados de Jim Rennie vinham antes da família, e ser o primeiro vereador podia vir antes do Sagrado Tabernáculo dos Sem Entrada.

Junior podia ser — era possível — o terceiro da fila.

Ele percebeu (pela primeira vez na vida; foi um genuíno relâmpago de percepção) que só estava imaginando. Que talvez não conhecesse mesmo o pai.

Voltou ao quarto e acendeu a lâmpada do teto. Ela lançou uma luz estranha e instável, que brilhou com força e depois foi ficando mais fraca. Por um instante, Junior achou que havia algo errado nos seus olhos. Depois percebeu que dava para ouvir o gerador funcionando. E não só o da casa dele. A cidade estava sem luz. Sentiu uma onda de alívio. Uma grande falta de luz explicava tudo. Queria dizer que o pai provavelmente estava na sala de reuniões da Câmara de Vereadores, discutindo o problema com aqueles outros dois idiotas, Sanders e Grinnell. Talvez espetando alfinetes no mapão da cidade, imitando George Patton. Berrando com a Western Maine Power e chamando todos de monte de melequentos preguiçosos.

Junior pegou a roupa ensanguentada, tirou tudo do jeans — carteira, troco, chaves, pente, um comprimido extra para dor de cabeça — e redistribuiu nos bolsos da calça limpa. Desceu correndo, enfiou a roupa incriminadora na máquina de lavar, regulou para água quente, depois pensou melhor, ao lembrar uma coisa que a mãe lhe dissera quando ainda não tinha 10 anos: água fria para tirar manchas de sangue. Quando girou o botão para LAVAGEM FRIA/ENXÁGUE FRIO, Junior ficou pensando se teria sido naquela época que o pai começara com o hobby de foder com a secretária ou se ainda deixava o pênis melequento em casa.

Ligou a máquina e pensou no que fazer depois. Sem a dor de cabeça, descobriu que conseguia pensar.

Decidiu que, afinal de contas, devia voltar à casa de Angie. Não queria — Deus todo-poderoso, era a última coisa que queria fazer —, mas provavelmente devia examinar o local. Passar por lá e ver quantos carros da polícia havia. E se a van dos legistas do condado estava lá ou não. Os legistas eram a questão. Sabia disso porque via CSI. Já vira a grande van azul e branca antes de visitar o tribunal do condado com o pai. E se estivesse na casa dos McCain...

Vou fugir.

Isso. O mais depressa para o mais longe possível. Mas antes, voltaria para visitar o cofre no escritório do pai. O pai achava que Junior não sabia a combinação daquele cofre, mas ele sabia. Assim como sabia a senha do computador do pai, e portanto da queda do pai por assistir ao que Junior e Frank DeLesseps chamavam de biscoito recheado: duas negras, um branco. Havia muito dinheiro naquele cofre. Milhares de dólares.

E se você vir a van e voltar e ele estiver aqui?

A grana primeiro, então. A grana agora mesmo.

Ele entrou no escritório e, por um instante, achou ter visto o pai sentado na cadeira de espaldar alto onde assistia aos noticiários e documentários sobre a natureza. Adormecera ou... e se tivesse sofrido um enfarte? Nos últimos três anos, Big Jim tivera problemas cardíacos de vez em quando, principalmente arritmia. Costumava ir ao Cathy Russell e o dr. Haskell ou o dr. Rayburn lhe davam alguma coisa e ele voltava ao normal. Haskell adoraria fazer isso para sempre, mas Rayburn (que o pai chamava de “melequento que estudou demais”) finalmente insistira que Big Jim devia consultar um cardiologista do Hospital Central do Maine, em Lewiston. O cardiologista disse que ele precisava de um procedimento para acabar com aquele batimento irregular de uma vez por todas. Big Jim (que tinha pavor de hospital) disse que precisava conversar mais com Deus, e que chamava esse procedimento de oração. Enquanto isso, tomava os comprimidos e, nos últimos meses, parecia bem, mas agora... talvez...

— Pai?

Nenhuma resposta. Junior ligou o interruptor. A lâmpada do teto se acendeu com o mesmo brilho instável, mas desfez a sombra que Junior pensara ser a nuca do pai. Não ficaria tão triste assim se o carburador do pai travasse, mas no geral ficou contente por não ter sido naquela noite. Seria complicação demais.

Ainda assim, com grandes passos leves de cautela de desenho animado, andou até a parede em que ficava o cofre, esperando a luz dos faróis pela janela que anunciaria a volta do pai. Tirou o quadro que cobria o cofre (Jesus fazendo o Sermão da Montanha) e girou a combinação. Teve de girar duas vezes antes que a tranca cedesse, porque a mão tremia.

O cofre estava lotado de dinheiro e pilhas de folhas de papel que pareciam pergaminho com as palavras TÍTULO AO PORTADOR carimbadas. Junior assoviou baixinho. A última vez que abrira o cofre — para furtar cinquentinha para a Feira de Fryeburg, no ano anterior — havia muito dinheiro, mas bem menos do que isso. E nenhum TÍTULO AO PORTADOR. Pensou na placa da escrivaninha do pai na loja de carros: JESUS APROVARIA ESTE NEGÓCIO? Mesmo naquela angústia e medo, Junior encontrou tempo para se perguntar se Jesus aprovaria o negócio que o pai andara fazendo nos bastidores naqueles dias.

— Os negócios dele não importam, tenho que cuidar dos meus — disse em voz baixa. Pegou quinhentos em notas de cinquenta e vinte, começou a fechar o cofre, pensou melhor e pegou algumas de cem também. Dada a abundância obscena de grana ali dentro, o pai talvez nem notasse. Se notasse, era possível que entendesse por que Junior pegara. E talvez aprovasse. Como Big Jim sempre dizia, “Deus ajuda a quem se ajuda”.

Nesse espírito, Junior se ajudou com mais quatrocentos. Depois, fechou o cofre, girou o botão e pendurou Jesus de volta na parede. Agarrou um casaco no armário do saguão e saiu, enquanto o gerador rugia e a lavadora Maytag ensaboava o sangue de Angie das suas roupas.

 

Não havia ninguém na casa dos McCain.

Ninguém mesmo.

Junior se demorou no outro lado da rua, numa chuva moderada de folhas de bordo, sem saber se devia confiar no que via: a casa às escuras, o 4Runner de Henry McCain e o Prius de LaDonna ainda invisíveis. Parecia bom demais para ser verdade, bom além da conta.

Talvez estivessem no parque da cidade. Muita gente estava lá naquela noite. Deviam estar discutindo a falta de luz, embora Junior não conseguisse se lembrar de nenhuma reunião assim quando faltava luz; a maioria ia para casa dormir, com certeza de que, a menos que houvesse uma baita tempestade, a luz voltaria quando acordassem para tomar o café da manhã.

Talvez a causa da falta de luz fosse algum acidente espetacular, do tipo que os noticiários da TV anunciavam na cobertura normal. Junior tinha uma vaga lembrança de um cara que lhe perguntara o que estava acontecendo pouco depois do acidente de Angie. Seja como for, Junior tomara o cuidado de não falar com ninguém no caminho até ali. Andara pela rua principal de cabeça baixa, com a gola levantada (na verdade, quase trombara com Anson Wheeler quando saiu do Rosa Mosqueta). A luz da rua estava apagada e isso ajudava a preservar a sua anonimidade. Outro presente dos deuses.

E agora isso. Um terceiro presente. Um presente gigantesco. Seria mesmo possível que o corpo de Angie ainda não tivesse sido descoberto? Ou aquilo seria uma armadilha?

Junior imaginou o xerife do condado de Castle ou um detetive da polícia estadual dizendo: Só temos que ficar escondidos e esperar, rapazes. O criminoso sempre volta à cena do crime. Todo mundo sabe disso.

Bobagem de televisão. Ainda assim, enquanto atravessava a rua (impelido, ao que parecia, por uma força externa a ele), Junior não parava de esperar que refletores acendessem, espetando-o como uma borboleta num pedaço de cartolina; não parava de esperar que alguém gritasse, talvez num megafone:

“Pare onde está e levante as mãos!”

Nada aconteceu.

Quando chegou à entrada de carros da casa, coração disparado no peito e sangue batucando nas têmporas (mas sem dor de cabeça ainda, e isso era bom, bom sinal), a casa continuava escura e silenciosa. Nem o gerador rugia, embora houvesse um na casa vizinha à dos Grinnell.

Junior olhou por sobre o ombro e viu uma imensa bolha branca de luz se erguer acima das árvores. Alguma coisa ao sul da cidade, ou talvez lá em Motton. A fonte do acidente que fizera a energia cair? Provavelmente.

Foi até a porta dos fundos. A porta da frente ainda estaria destrancada se ninguém tivesse voltado desde o acidente de Angie, mas ele não queria entrar pela frente. Entraria se fosse preciso, mas talvez não. Afinal de contas, estava numa maré de sorte.

A maçaneta girou.

Junior enfiou a cabeça na cozinha e sentiu imediatamente o cheiro de sangue — um odor parecido com goma em spray, só que estragada. Disse: “Oi? Alô! Alguém em casa?” Quase certo que não, mas se houvesse, se por alguma possibilidade maluca Henry ou LaDonna tivessem estacionado no parque e voltado para casa a pé (sem ver a filha morta no chão da cozinha), ele gritaria. Claro! Gritaria e “descobriria o corpo”. Isso não ajudaria em nada com a temida van dos legistas, mas lhe daria um pouco de tempo.

— Alô! Sr. McCain? Sra. McCain? — Então, num relâmpago de inspiração: — Angie? Está em casa?

Ele a chamaria daquele jeito se a tivesse matado? Claro que não! Mas aí uma ideia terrível o trespassou. E se ela respondesse? Respondesse de onde jazia no chão? Respondesse com uma golfada de sangue?

— Toma jeito — murmurou. É, ele tinha que aguentar, mas era difícil. Ainda mais no escuro. Além disso, na Bíblia coisas daquelas aconteciam o tempo todo. Na Bíblia, às vezes as pessoas voltavam à vida, como os zumbis de A noite dos mortos-vivos.

— Alguém em casa?

Chongas. Niente.

Os olhos tinham se ajustado à penumbra, mas não o suficiente. Precisava de luz. Devia ter trazido uma lanterna de casa, mas era fácil esquecer essas coisas quando a gente está acostumado a só ligar o interruptor. Junior entrou na cozinha, passando por cima do corpo de Angie, e abriu uma das duas portas do outro lado. Era uma despensa. Dava para perceber as prateleiras de comida engarrafada e enlatada. Tentou a outra porta e teve mais sorte. Era a lavanderia. E a menos que se enganasse sobre o formato da coisa na prateleira logo à direita, ainda estava na maré de sorte.

Não se enganara. Era uma lanterna, boa e forte. Precisava ter cuidado ao acendê-la na cozinha — fechar as janelas seria uma idéia excelente — mas na lavanderia podia usá-la à vontade. Ali estava bem.

Sabão em pó. Água sanitária. Amaciante. Um balde e uma Feiticeira. Ótimo. Sem gerador, só haveria água fria, mas provavelmente seria suficiente para encher um balde na torneira, e depois, é claro, havia os vários vasos sanitários. E era fria a água que queria. Fria para o sangue.

Ele limparia como a dona de casa demoníaca que sua mãe já fora, atenta à exortação do marido: “casa limpa, mãos limpas, coração limpo”. Limparia o sangue. Depois limparia tudo o que se lembrasse de ter tocado e tudo o que poderia ter tocado sem se lembrar. Mas primeiro...

O corpo. Tinha que fazer alguma coisa com o corpo.

Junior decidiu que, por enquanto, a despensa serviria. Arrastou-a pelos braços e depois os soltou: flump. Em seguida, se pôs a trabalhar. Cantou entre dentes quando rearrumava os ímãs de geladeira e depois fechou as cortinas. Quando a torneira começou a falhar, já enchera o balde até quase transbordar. Outro bônus.

Ainda estava esfregando, o trabalho já adiantado mas longe de terminar, quando veio a batidinha na porta da frente.

Junior ergueu os olhos arregalados, os lábios franzidos num esgar de horror de quem não estava achando a menor graça.

— Angie? — Era uma moça, e chorava. — Angie, você tá aí? — Mais batidas, e então a porta se abriu. Parecia que a maré de sorte acabara. — Angie, por favor, esteja em casa. Vi o seu carro na garagem...

Merda. A garagem! Ele nunca conferira a merda da garagem!

— Angie? — Soluços de novo. Alguém que ele conhecia. Meu Deus, seria aquela idiota da Dodee Sanders? Era. — Angie, ela disse que a minha mãe morreu! A sra. Shumway disse que ela morreu!

Junior torceu para que ela fosse primeiro lá em cima olhar o quarto de Angie. Mas ela desceu o corredor na direção da cozinha, andando devagar e com cuidado no escuro.

— Angie? Tá na cozinha? Parece que eu vi uma luz.

A cabeça de Junior começava a doer de novo, e era culpa daquela bocetuda intrometida e maconheira. O que acontecesse depois... também seria culpa dela.

 

Dodee Sanders ainda estava meio doidona e um pouco bêbada; estava de ressaca; a mãe morrera; tateava no escuro o corredor da casa da melhor amiga; pisou em alguma coisa que deslizou debaixo dos pés e quase caiu de bunda pra cima. Agarrou-se no corrimão da escada, virou dois dedos dolorosamente para trás e gritou. Ela entendia mais ou menos tudo o que estava lhe acontecendo, mas ao mesmo tempo era impossível acreditar. Sentia que entrara numa dimensão paralela, como num filme de ficção científica.

Curvou-se para ver no que escorregara. Parecia uma toalha. Algum idiota deixara uma toalha no chão do corredor. Então achou que alguém se movia na escuridão à frente. Na cozinha.

— Angie? É você?

Nada. Ainda sentia que havia alguém ali, mas talvez não.

— Angie? — Ela avançou de novo, mantendo a mão direita que pulsava — os dedos iam inchar, ela achou que já estavam inchando — ao lado do corpo. Estendeu a mão esquerda à frente, tateando o ar escuro. — Angie, por favor, esteja aí! A minha mãe morreu, não é piada, a sra. Shumway me disse e ela não brinca, eu preciso de você!

O dia começara tão bem. Ela acordara cedo (bom... às dez; para ela, era cedo) e não tivera a mínima intenção de faltar ao trabalho. Aí Samantha Bushey ligou para dizer que comprara umas Bratz novas no e-Bay e perguntar se Dodee queria ir à casa dela para ajudar a torturá-las. Torturar Bratz era uma coisa que começara no segundo grau — compravam as bonecas em vendas de garagem, depois as enforcavam, enfiavam pregos naquela cabeça estúpida, banhavam-nas com fluido de isqueiro e punham fogo —, e Dodee sabia que já tinham passado da época, que agora eram adultas, ou quase. Era coisa de crianças.

Também um tanto sinistro, se for pensar bem. Mas o fato era que Sammy morava sozinha na estrada de Motton — era apenas um trailer, mas só dela, já que o marido tinha ido embora na primavera — e o Pequeno Walter dormia praticamente o dia inteiro. Além disso, Sammy costumava ter uma erva ótima. Dodee achava que arranjava com os caras com quem saía, O trailer dela era popular nos fins de semana. Mas o fato era que Dodee tinha resolvido largar a erva. Nunca mais, desde toda aquela confusão com o cozinheiro. Nunca mais já durava mais de uma semana no dia em que Sammy ligou.

— Você pode ficar com Jade e Yasmin — instigava Sammy. — E estou com um ótimo você-sabe-o-quê. — Ela sempre falava assim, como se quem ouvisse não fosse entender do que ela estava falando. — E a gente também pode você-sabe-o-quê.

Dodee também sabia o que era aquele você-sabe-o-quê e sentiu um arrepiozinho Lá Embaixo (na você-sabe-o-quê dela), muito embora aquilo também fosse coisa de criança e já devessem ter deixado para trás há muito tempo.

— Acho que não, Sam. Tenho que trabalhar às duas e...

— Yasmin está esperando — disse Sammy. — E você sabe que detesta aquela piranha.

Bom, isso era verdade. Yasmin era a mais piranha das Bratz, na opinião de Dodee. E ainda teria quatro horas antes das duas. Outro e, e daí se chegasse um pouco atrasada? Rose a demitiria? Quem mais aceitaria aquele emprego de merda?

— Certo. Mas só um pouco. E só porque eu odeio a Yasmin.

Sammy deu uma risadinha.

— Mas chega de você-sabe-o-quê. Nenhum dos você-sabe-o-quê.

— Sem problemas — disse Sammy. — Venha logo.

Então Dodee pegou o carro e foi, e é claro que descobriu que torturar Bratz não tinha graça quando não se estava meio doidona, então ficou meio doidona e Sammy também. Fizeram juntas uma cirurgia plástica em Yasmin com soda cáustica, que foi hilária. Aí Sammy quis mostrar a ela a camisolinha nova que comprara na Deb e, embora estivesse ficando meio gorducha, ainda estava ótima aos olhos de Dodee, talvez porque estavam meio doidas — chapadas, na verdade — e como o Pequeno Walter ainda dormia (o pai insistira em dar ao filho o nome de um velho cantor de blues, e todo aquele sono, uau, Dodee achava que o Pequeno Walter era retardado, o que não seria surpresa com o tanto de bagulho que Sam fumara quando estava grávida), acabaram indo para a cama de Sammy e praticando um pouco do velho você-sabe-o-quê. Depois dormiram, e quando Dodee acordou, o Pequeno Walter berrava — que merda, liga para o NewsCenter 6 — e já passava das cinco. Tarde demais para ir trabalhar e, além disso, Sam aparecera com uma garrafa de Johnnie Walker Black, e deram um trago, dois tragos, três-tragos-quatro, e Sammy decidiu que queria ver o que aconteceria com uma Baby Bratz no micro-ondas, só que a luz acabara.

Dodee voltara para a cidade a mais ou menos 25km/h, ainda alta e paranoica como nunca, olhando o tempo todo o retrovisor com medo da polícia, sabendo que se fosse parada seria por aquela piranha ruiva da Jackie Wettington. Ou o pai teria tirado uma folga da loja e sentiria o cheiro de bebida no seu hálito. Ou a máe estaria em casa, tão cansada daquela aula de voo estúpida que decidira ficar em casa em vez de ir ao Bingo Estrela do Oriente.

Deus, por favor, rezou. Por favor, me tira disso e eu nunca mais você-sabe-o-quê de novo. Nenhum dos você-sabe-o-quê. Nunca mais na vida.

Deus ouviu a oração dela. Não havia ninguém em casa. Lá também a luz acabara, mas naquele estado alterado Dodee nem notou. Subiu até o quarto, tirou as calças e a camisa e se deitou. Só uns minutinhos, disse a si mesma. Então jogou as roupas cheirando a beque na máquina de lavar e entrou no chuveiro. Estava com o cheiro do perfume de Sammy, que ela devia comprar aos litros no Burpee.

Só que, sem luz, não pôde ligar o despertador, e quando as batidas na porta a acordaram, já estava escuro. Ela agarrou o roupão e desceu, com certeza repentina de que seria a policial ruiva de peitão, que vinha prendê-la por dirigir alcoolizada. Talvez por provar maconha também. Dodee achava que aquele outro você-sabe-o-quê não era ilegal, mas não tinha certeza absoluta.

Não era Jackie Wettington. Era Julia Shumway, editora do Democrata. Estava com uma lanterna na mão. Jogou a luz no rosto de Dodee — que provavelmente estava inchado de sono, os olhos com certeza ainda vermelhos e o cabelo emaranhado — e a baixou de novo. A luz se refletiu o bastante para revelar o rosto de Julia, e Dodee viu ali uma solidariedade que a deixou confusa e assustada.

— Pobre menina — disse Julia. — Você não sabe, não é?

— Não sei o quê? — perguntara Dodee. Foi então que o sentimento de universo paralelo começou. — Não sei o quê?

E Julia Shumway contou a ela.

 

— Angie? Angie, por favo

Tateando pelo corredor. A mão pulsando. A cabeça pulsando. Ela podia ter procurado o pai — a sra. Shumway se oferecera para levá-la, começando pela Funerária Bowie —, mas o sangue gelou ao pensar naquele lugar. Além disso, era Angie que ela queria. Angie, que a abraçaria com força sem nenhum interesse em você-sabe-o-quê. Angie, que era a sua melhor amiga.

Uma sombra saiu da cozinha e se moveu depressa na sua direção.

— Você está aí, graças a Deus! — Ela começou a chorar mais alto e correu para a figura com os braços estendidos. — Ah, é horrível! Eu estou sendo punida por ser uma menina má, eu sei que estou!

A figura escura estendeu os braços, que não envolveram Dodee num abraço. Em vez disso, as mãos nas pontas dos braços se fecharam na sua garganta.

 

O BEM DA CIDADE, O BEM DO POVO

Andy Sanders estava mesmo na Funerária Bowie. Andara até lá levando uma carga pesada: perplexidade, pesar, o coração partido.

Estava sentado na Sala de Recordação I, a sua única companhia no caixão na frente da sala. Gertrude Evans, 87 anos (ou talvez 88) morrera de insuficiência cardíaca congestiva dois dias antes. Andy mandara um bilhete de pêsames, embora só Deus soubesse quem o recebera: o marido de Gert morrera havia uma década. Não importava. Ele sempre mandava pêsames quando um eleitor seu morria, um bilhete escrito à mão numa folha de papel cor de creme timbrado com GABINETE DO PRIMEIRO VEREADOR. Achava que fazia parte do seu dever.

Big Jim não dava importância a essas coisas. Big Jim vivia ocupado demais administrando o que chamava de “nosso negócio”, querendo dizer Chester’s Mill. Administrava a cidade como se fosse a sua ferrovia particular, na verdade, mas Andy nunca se ressentira disso; ele entendia que Big Jim era esperto. Entendia outra coisa também: sem Andrew DeLois Sanders, provavelmente Big Jim não seria eleito nem para dirigir a carrocinha. Big Jim sabia vender carros prometendo pechinchas de dar água na boca, financiamento facilitadíssimo e brindes como aspiradores de pó coreanos baratos, mas daquela vez que tentou obter a representação da Toyota, a empresa preferiu Will Freeman. Dadas as suas vendas e a localização na 119, Big Jim não conseguiu entender por que a Toyota fora tão estúpida.

Andy conseguia. Talvez não fosse o urso mais inteligente da floresta, mas sabia que Big um não tinha calor humano. Era um homem duro (alguns — os que se deram mal com aqueles financiamentos facilitadíssimos, por exemplo — diriam de coração duro) e persuasivo, mas também gelado. Andy, por sua vez, tinha calor humano para dar e vender. Quando fazia campanha na cidade na época das eleições, dizia a todos que ele e Big Jim eram como Tico e Teco, Batman e Robin, pão e manteiga, e que Chester’s Mill não seria a mesma sem os dois juntos (e o terceiro que por acaso pegasse carona — naquele momento, Andrea Grinnell, irmã de Rose Twitchell). Andy sempre gostara da parceria com Big Jim. Financeiramente, claro, ainda mais nos últimos dois ou três anos, mas também de coração. Big Jim sabia fazer as coisas e por que deveriam ser feitas. Estamos nisso a longo prazo, dizia. Fazemos isso pela cidade. Pelo povo. Pelo próprio bem deles. E isso era bom. Fazer o bem era bom.

Mas agora... nessa noite...

— Detestei aquelas aulas de voo desde o princípio — disse ele, e começou a chorar de novo. Logo soluçava ruidosamente, mas tudo bem, porque Brenda Perkins partira com lágrimas silenciosas depois de ver os restos mortais do marido e os irmãos Bowie estavam no andar térreo. Tinham muito trabalho a fazer (Andy entendia, de um jeito vago, que algo muito ruim acontecera). Fern Bowie saíra para fazer uma boquinha no Rosa Mosqueta e, quando voltasse, Andy tinha certeza de que o mandaria embora, mas Fern passou pelo corredor sem nem olhar para onde estava Andy, as mãos entre os joelhos, a gravata frouxa, o cabelo em desordem.

Fern descera para a “sala de trabalho”, como ele e o irmão Stewart costumavam dizer. (Horrível, horrível!) Duke Perkins estava lá. E também aquele maldito Chuck Thompson, que talvez não tivesse convencido a sua mulher a tomar aquelas aulas de voo, mas também não a convencera a desistir. Talvez houvesse outros lá também.

Claudette com certeza.

Andy soltou um gemido e apertou as mãos com mais força. Não conseguiria viver sem ela; não havia como viver sem ela. E não só porque a amava mais do que a própria vida. Era Claudette (junto com injeções regulares de dinheiro, não registradas e cada vez maiores, de Jim Rennie) que mantinha a drogaria funcionando; por conta própria, Andy teria falido antes da virada do século. Ele era especialista em pessoas, não em contas ou livros-caixa. Sua mulher era a especialista em números. Ou fora.

Quando o mais-que-perfeito ressoou na sua cabeça, Andy gemeu de novo.

Claudette e Big Jim tinham colaborado até para consertar os livros da cidade daquela vez em que o governo do estado fizera uma auditoria. Supostamente seria de surpresa, mas Big Jim soubera com antecedência. Não muita; só o suficiente para trabalharem com o programa de computador que Claudette chamava de DR. LIMPEZA, porque sempre produzia números limpos. Saíram daquela auditoria limpinhos da silva em vez de ir para a cadeia (o que não seria justo, já que o que faziam — quase tudo, na verdade — era para o próprio bem da cidade).

A verdade sobre Claudette Sanders era a seguinte: ela fora um Jim Rennie mais bonito, um Jim Rennie mais gentil, com quem ele podia dormir e a quem contava os seus segredos, e a vida sem ela era impensável.

Andy começou a chorar de novo, e foi então que Big Jim pôs a mão no seu ombro e apertou. Não o ouvira chegar, mas não levou um susto. Quase esperara a mão, porque o dono dela sempre aparecia quando Andy mais precisava.

Achei que o encontraria aqui — disse Big Jim. — Andy... parceiro... sinto muito, muito mesmo.

Andy se levantou com dificuldade, deixou os braços caírem em torno do corpanzil de Big Jim e começou a chorar no paletó do outro.

— Eu disse a ela que aquelas aulas eram perigosas! Eu disse a ela que Chuck Thompson era um panaca, igualzinho ao pai dele!

Big Jim lhe esfregou as costas com a palma consoladora.

— Eu sei. Mas agora ela está num lugar melhor, Andy. Hoje ela jantou com Jesus Cristo: rosbife, ervilhas frescas, purê de batata com molho! Que tal essa idéia? Você devia se agarrar a ela. Acha que a gente deveria orar?

— Isso! — soluçou Andy. — Isso, Big Jim! Ora comigo!

Ajoelharam-se e Big Jim rezou por muito tempo pela alma de Claudette Sanders (abaixo deles, na sala de trabalho, Stewart Bowie escutou, ergueu os olhos para o teto e observou: “Aquele homem caga por cima e por baixo”).

Depois de quatro ou cinco minutos de enxergamos através do espelho e quando eu era menino, pensava como menino (Andy não entendeu direito a pertinência desse último, mas não ligou; estar de joelhos com Big Jim já confortava), Rennie acabou — “Emnomedejesusamém” — e ajudou Andy a se levantar.

Cara a cara, peito a peito, Big Jim agarrou Andy pelo alto dos braços e o olhou nos olhos.

— Então, parceiro — disse. Sempre chamava Andy de parceiro quando a situação era grave. — Está pronto para trabalhar?

Andy o fitou em silêncio.

Big Jim fez que sim com a cabeça, como se Andy tivesse protestado de forma sensata (naquelas circunstâncias).

— Eu sei que é duro. Não é justo. Péssima hora para pedir. E você teria todo o direito, Deus sabe que teria, se me desse um soco bem na minha fuça melequenta. Mas às vezes a gente tem que pôr em primeiro lugar o bem-estar dos outros, não é verdade?

— O bem da cidade — disse Andy. Pela primeira vez desde que recebera a notícia de Claudie, viu uma nesga de luz.

Big Jim concordou. Estava com uma cara solene, mas os olhos brilhavam. Andy teve uma ideia estranha: ele parece dez anos mais novo.

— Está certo. Somos guardiões, parceiro. Guardiões do bem comum. Nem sempre é fácil, mas nunca é desnecessário. Mandei a tal Wettington caçar a Andrea. Disse a ela que levasse a Andrea para a sala de reuniões. Algemada, se for preciso. — Big Jim riu. — Ela vai estar lá. E o Pete Randolph está fazendo a lista de todos os policiais disponíveis na cidade. Não são suficientes. Temos que cuidar disso, parceiro. Se essa situação continuar, a autoridade vai ser fundamental. Então, o que você diz? Vai vestir a camisa por mim?

Andy fez que sim. Achou que isso afastaria a cabeça dele daquilo tudo. Mesmo que não afastasse, ele precisava dar uma de abelha e sair zumbindo. Olhar o caixão de Gert Evans estava começando a lhe dar arrepios. As lágrimas silenciosas da viúva do chefe lhe tinham arrepiado também. E não seria difícil. Ele só precisaria ficar sentado lá na mesa da sala de reuniões e erguer a mão quando Big Jim erguesse a dele. Andrea Grinnell, que nunca parecia totalmente acordada, faria o mesmo. Se fosse necessário implementar algum tipo de medida de emergência, Big um cuidaria disso. Big Jim cuidaria de tudo.

— Vamos — respondeu Andy.

Big Jim lhe deu um tapinha nas costas, jogou o braço sobre os ombros estreitos de Andy e o levou para fora da Sala das Recordações. Era um braço pesado. Carnudo. Mas era bom.

Ele nunca pensou na filha. No seu pesar, Andy Sanders se esqueceu completamente dela.

 

Julia Shumway andava devagar pela rua da Commonwealth, lar dos moradores mais ricos da cidade, rumo à rua principal. Depois de dez anos de divórcio feliz, morava em cima da redação do Democrata com Horace, o seu velho welsh corgi. Ela o batizara em homenagem ao grande sr. Greeley, recordado por um único lema — “Para o Oeste, rapaz, para o Oeste” —, mas cuja razão verdadeira para ser famoso, na cabeça de Julia, era o trabalho como editor de jornal. Se fizesse metade do que Greeley fizera no New York Tribune, Julia se consideraria um sucesso.

É claro que o Horace dela sempre a considerava um sucesso, o que fazia dele o melhor cão do mundo no entender de Julia. Ela o levaria para passear assim que chegasse em casa e depois melhoraria ainda mais a sua imagem aos olhos dele, espalhando uns pedacinhos do bife da véspera por cima da ração. Isso faria os dois se sentirem bem, e ela queria se sentir bem — com alguma coisa, qualquer coisa —, porque estava perturbada.

Esse estado não era novo para ela. Morara em Mill por todos os seus 43 anos e, nos dez últimos, gostara cada vez menos do que via na cidade natal. Estava preocupada com a decadência inexplicável do sistema de esgotos da cidade e da usina de tratamento de lixo, apesar de todo o dinheiro gasto com eles, com o fechamento iminente da Cloud Top, a estação de esqui da cidade, temia que James Rennie estivesse roubando da cidade mais do que ela suspeitava (e ela suspeitava que ele roubava muito há décadas). E, é claro, estava preocupada com essa coisa nova, que quase lhe parecia grande demais para ser compreendida. Toda vez que tentava entender aquilo, a cabeça se fixava numa parte pequena mas concreta: a incapacidade cada vez maior de usar o celular, por exemplo. E ela não recebera nenhuma ligação, o que era muito preocupante. O problema não eram amigos e parentes de fora da cidade tentando entrar em contato; ela deveria estar sendo bombardeada de ligações de outros jornais: o Sun, de Lewiston, o Press Herald, de Portland, talvez até o New York Times. Alguém mais em Mill estaria com o mesmo problema?

Ela devia ir à fronteira com Motton e ver com os próprios olhos. Se não pudesse usar o telefone para chamar Pete Freeman, o seu melhor fotógrafo, poderia tirar algumas fotos com a Nikon de Emergência, como dizia. Tinha sabido que agora havia uma espécie de zona de quarentena na barreira, no lado de Motton e de Tarker’s Mills — provavelmente no das outras cidades também —, mas sem dúvida conseguiria se aproximar pelo seu lado. Poderiam mandá-la embora, mas se a barreira era tão impenetrável quanto diziam, mandar seria o máximo que poderiam fazer.

— Paus e pedras podem quebrar meus ossos, mas palavras não me atingem — disse ela. A verdade absoluta. Se palavras pudessem feri-la, Jim Rennie a teria mandado para a UTI depois da reportagem que fez sobre aquela auditoria estadual ridícula de três anos atrás. Sem dúvida ele falara à vontade em processar o jornal, mas ficara na falação; ela chegou a pensar num editorial sobre o assunto, principalmente porque tinha um título ótimo: PROCESSO SUMIU, NINGUÉM SABE, NINGUÉM VIU.

Portanto, sim, estava preocupada. Fazia parte do serviço. Mas não estava acostumada a se preocupar com o próprio comportamento, e agora, parada na esquina entre a Comm e a Principal, estava preocupada. Em vez de entrar à esquerda na Principal, ela olhou para trás, para o caminho de onde viera. E falou no murmúrio baixo que costumava reservar para Horace: “Eu não devia ter deixado aquela garota sozinha.”

Julia não teria feito isso se tivesse ido de carro. Mas fora a pé e, além disso... Dodee fora tão insistente. Também havia um cheiro estranho. Maconha? Talvez. Não que Julia fizesse muita objeção. Fumara o seu quinhão no decorrer da vida. E talvez acalmasse a garota. Embotasse o fio da dor enquanto era mais afiado e com mais probabilidade de cortar.

— Não se preocupa comigo — dissera Dodee —, eu encontro o meu pai. Mas primeiro tenho que me vestir. — E indicou o roupão que usava.

— Posso esperar — respondera Julia... embora não quisesse esperar. Tinha uma longa noite à frente, começando com os deveres para com o cachorro. Horace devia estar quase estourando agora, pois perdera o passeio das cinco; e estaria com fome. Depois de cuidar disso, ela tinha mesmo que ir até aquilo que todos estavam chamando de barreira. Ver com os próprios olhos. Fotografar o que houvesse para ser fotografado.

E nem isso seria o fim. Teria que ver como publicar uma edição extra do Democrata. Para ela era importante, e achava que podia ser importante para a cidade. É claro que tudo isso podia acabar amanhã, mas Julia estava com a sensação — em parte na cabeça, em parte no coração — de que não acabaria. Ainda assim. Dodee Sanders não devia ter ficado sozinha. Parecia estar se aguentando, mas podia ser só choque e negação disfarçados de calma. E fuminho, claro. Mas ela fora coerente.

— Não precisa esperar. Não quero que espere.

— Não sei se ficar sozinha agora é aconselhável, querida.

— Eu vou para a casa da Angie — disse Dodee, e pareceu se alegrar um pouco com a idéia, embora as lágrimas continuassem a correr pelo rosto. — Ela vai comigo procurar o papai. — Ela fez que sim. — É a Angie que eu quero.

Na opinião de Julia, a menina dos McCain só tinha um tiquinho mais de bom-senso do que a outra, que herdara a aparência da mãe, mas, infelizmente, o cérebro do pai. Mas Angie era amiga e ninguém mais do que Dodee Sanders precisava de amigos naquela noite.

— Eu posso ir com você... — Sem vontade. Sabendo que, mesmo no seu atual estado de recentíssimo luto, a menina provavelmente conseguiria entender isso.

— Não, são só alguns quarteirões.

— Então...

— Sra. Shumway... a senhora tem certeza? Tem certeza de que a minha mãe...?

Com muita relutância, Julia assentira. Recebera de Ernie Calvert a confirmação do número da cauda do avião. Recebera dele outra coisa também, algo que seria mais adequado para a polícia. Julia teria insistido com Ernie para que ele lhes entregasse, não fosse a notícia consternadora de que Duke Perkins morrera e que aquele pilantra incompetente do Randolph estava no comando.

O que Ernie lhe deu foi a carteira de motorista de Claudette, manchada de sangue. Ficou no bolso de Julia enquanto ela esteve à soleira da porta dos Sanders e no seu bolso permaneceu. Ela a entregaria a Andy ou a essa mocinha pálida de cabelo despenteado quando chegasse a hora... mas a hora não era aquela.

— Obrigada — disse Dodee, com um tom de voz tristemente formal. — Agora, por favor, vai embora. Não quero ser grosseira, mas... — Não terminou a frase, só fechou a porta sobre ela.

E o que Julia Shumway fizera? Obedecera à ordem de uma mocinha de 20 anos tomada de tristeza que podia estar doidona demais para ser responsável por si mesma. Mas naquela noite havia outras responsabilidades, por mais duro que fosse. Horace, por exemplo. E o jornal. Todos podiam rir das fotos preto e branco granuladas de Pete Freeman e da cobertura completa de festas locais como a Noite Encantada da Dança da Escola Secundária Mill; podiam afirmar que só servia para forrar a caixinha do gato; mas precisavam dele, ainda mais quando acontecia algo de ruim. Julia queria que o jornal saísse amanhã, mesmo que tivesse de virar a noite. O que, com os dois repórteres regulares passando o fim de semana fora da cidade, provavelmente teria.

Julia viu que, na verdade, aguardava com expectativa esse desafio, e a cara triste de Dodee Sanders começou a escapulir da sua mente.

 

Horace olhou-a com reprovação quando ela entrou, mas não havia manchas molhadas no carpete nem pacotinhos marrons debaixo da cadeira do saguão — o lugar mágico que ele parecia considerar invisível para os olhos humanos. Ela lhe pôs a guia, levou-o lá fora e esperou pacientemente enquanto, cambaleando, ele mijava junto ao bueiro preferido; Horace tinha 15 anos, velho para um corgi. Enquanto ele se aliviava, ela fitou a bolha branca de luz no horizonte ao Sul. Parecia uma imagem saída de um filme de ficção científica de Steven Spielberg. Estava maior do que nunca e dava para ouvir o uupapa-uupa-uupa dos helicópteros, fraco mas constante. Chegou a ver a silhueta de um deles, passando veloz por aquele alto arco de brilho. Quantos malditos refletores será que tinham armado lá? Era como se o norte de Motton tivesse se transformado numa zona de pouso no Iraque.

Horace agora andava em círculos preguiçosos, farejando o lugar perfeito para terminar o ritual de eliminação da noite, fazendo aquela dança canina popularíssima, o Passo da Bosta. Julia aproveitou a oportunidade para experimentar o celular outra vez. Como acontecera tantas vezes naquela noite, recebeu a série normal de bipes... e depois, só o silêncio.

Vou ter que xerocar o jornal. O que significa uns 750 exemplares, no máximo.

Havia vinte anos que o Democrata não tinha gráfica própria. Até 2002, Julia levava a arte-final de cada semana até a gráfica View Printing, em Castle Rock, e agora nem precisava mais disso. Mandava as páginas por e-mail na noite de terça-feira, e o jornal pronto, embaladinho em plástico, era entregue pela gráfica antes das sete da manhã seguinte. Para Julia, que crescera lidando com correções a lápis e laudas datilografadas que “iam para o prego” depois de prontas, aquilo parecia mágica. E, como toda mágica, não muito confiável.

Naquela noite, a desconfiança se justificava. Talvez ainda pudesse enviar as páginas por e-mail para a gráfica, mas ninguém conseguiria entregar o jornal pronto pela manhã. Ela calculava que, de manhã, ninguém conseguiria chegar a menos de 8 quilômetros da fronteira de Mill. Nenhuma das fronteiras. Por sorte, havia um bom geradorzão na antiga sala da impressora, a máquina de xerox era um monstro e havia mais de quinhentas resmas de papel estocadas nos fundos. Se conseguisse que Pete Freeman a ajudasse... ou Tony Guay, que cobria esportes.

Enquanto isso, Horace finalmente assumira a posição. Quando terminou, ela entrou em ação com um saquinho verde chamado Doggie Doo, perguntando-se o que Horace Greeley pensaria de um mundo no qual catar da sarjeta bosta de cachorro, além de socialmente esperado, era também uma responsabilidade imposta pela lei. Ela achou que talvez tivesse se matado.

Depois de encher e fechar o saquinho, ela experimentou o telefone outra vez. Nada.

Levou Horace para dentro e lhe deu comida.

 

O celular tocou quando ela abotoava o casaco para ir de carro até a barreira. Estava com a câmera pendurada no ombro e quase a deixou cair ao remexer o bolso. Olhou o número e viu as palavras NÚMERO NÃO IDENTIFICADO.

— Alô? — disse, e devia haver alguma coisa na sua voz, porque Horace — que aguardava junto à porta, mais do que disposto a uma expedição noturna agora que estava limpo e alimentado — apontou as orelhas e virou a cabeça para olhá-la.

— Sra. Shumway? — Voz de homem. Abrupta. Oficial.

— Srta. Shumway. Com quem estou falando?

— Coronel James Cox, srta. Shumway. Exército dos Estados Unidos.

— E a que devo a honra da ligação? — Ela ouviu o sarcasmo na própria voz e não gostou, não era profissional, mas estava com medo, e o sarcasmo sempre fora sua reação ao medo.

— Preciso fazer contato com um homem chamado Dale Barbara. A senhorita conhece?

É claro que conhecia. E se surpreendera ao vê-lo no Mosqueta mais cedo. Ele era maluco de ainda estar na cidade? A própria Rose não dissera ontem mesmo que ele pedira demissão? A história de Dale Barbara era uma das centenas que Julia conhecia mas não publicava. Quem edita um jornal de cidade pequena fecha os olhos a muitas coisas complicadas. É preciso escolher as lutas. Do mesmo modo que tinha certeza de que Junior Rennie e os amigos escolhiam as deles. E ela duvidava muito que os boatos sobre Barbara e Angie, a melhor amiga de Dodee, fossem verdadeiros. No mínimo, achava que Barbara teria mais bom gosto.

— Srta. Shumway? — Ríspido. Oficial. Uma voz do lado de fora. Só por isso ela já não gostaria do dono da voz. — Está me ouvindo?

— Estou. É, eu conheço Dale Barbara. Trabalha como cozinheiro no restaurante da rua principal. Por quê?

— Parece que ele não tem celular e ninguém atende no restaurante...

— Está fechado...

— ... e os telefones fixos não funcionam, naturalmente.

— Nada parece funcionar direito na cidade hoje, coronel Cox. Inclusive os celulares. Mas notei que o senhor não teve dificuldade de me encontrar, o que me faz achar que talvez seus parceiros sejam os responsáveis. — Sua fúria, como o sarcasmo, vinda do medo, a surpreendeu. — O que o senhor fez? O que vocês fizeram?

— Nada. Até onde eu sei, nada.

Ela ficou tão surpresa que não conseguiu pensar no que dizer depois. O que era muito improvável na Julia Shumway que os antigos moradores de Mill conheciam.

— Quanto aos celulares, sim — disse ele. — As ligações de e para Chester’s Mill estão praticamente interrompidas agora. No interesse da segurança nacional. E com todo o devido respeito, a senhorita faria o mesmo no nosso lugar.

— Duvido muito.

— Duvida? — Ele parecia interessado, não zangado. — Numa situação sem precedentes na história do mundo e indicativa de tecnologias muito além do que nós ou qualquer pessoa consegue sequer entender?

Mais uma vez, ela se viu sem resposta.

— É importantíssimo que eu fale com o capitão Barbara — disse ele, voltando ao roteiro original. De certa forma, Julia ficou surpresa por ele ter saído tanto do padrão.

— Capitão Barbara?

— Reformado. A senhorita consegue encontrá-lo? Leve o celular. Vou lhe dar um número pra ligar. A ligação vai se completar.

— Por que eu, coronel Cox? Por que o senhor não ligou para a delegacia? Ou para algum dos vereadores? Acho que os três estão por aqui.

— Nem tentei. Cresci numa cidade pequena, srta. Shumway...

— Ponto pra você.

— ... e, na minha experiência, nas cidades pequenas os políticos sabem um pouco, os policiais sabem muito e o editor do jornal local sabe tudo.

Isso a fez rir contra a vontade.

— Por que se preocupar em telefonar se vocês dois podem se encontrar frente a frente? Comigo como acompanhante, é claro. Eu vou até o meu lado da barreira, estava de saída quando o senhor ligou. Procuro Barbie e...

— Ele ainda é chamado assim, é? — Cox parecia divertido.

— Vou procurá-lo e levo ele comigo. Podemos ter uma minientrevista coletiva.

— Não estou no Maine. Estou em Washington. Com os chefes do Estado-Maior conjunto.

— Isso é pra me impressionar? — Embora impressionasse um pouco.

— Srta. Shumway, estou ocupado e provavelmente a senhora também. Assim, no interesse de resolver essa coisa...

— O senhor acha isso possível?

— Pode parar — disse ele. — Sem dúvida a senhorita foi repórter antes de ser editora e tenho certeza de que fazer perguntas é natural para a senhorita, mas agora o tempo é um fator importante. A senhorita vai fazer o que pedi?

— Faço. Mas se quer ele, vai ter a mim também. Vamos até a 119 e telefonamos de lá.

— Não — disse ele.

— Tudo bem — disse ela, amigável. — Foi muito bom conversar com o senhor, coronel...

— Deixe eu acabar. O seu lado da 119 está totalmente TOFU. Isso significa...

— Conheço a expressão, coronel, já li muito Tom Clancy. O que exatamente o senhor quer dizer em relação à rodovia 119?

— Desculpe a vulgaridade, mas é que aquilo lá parece a noite de estréia de um bordel gratuito. Metade da cidade estacionou carros e picapes nos dois lados da estrada e no pasto de um criador de gado de leite.

Ela pousou a câmera no chão, pegou um bloco de notas no bolso do casaco e rabiscou Cel. James Cox e Como noite de estreia de bordel gratuito. Depois acrescentou fazenda Dinsmore? É, provavelmente ele estava falando da propriedade de Alden Dinsmore.

— Tudo bem — disse ela —, o que o senhor sugere?

— Olha, a senhorita tem toda a razão, não posso impedir que vá até lá. — Ele suspirou, o som parecendo indicar que o mundo era injusto. — E não posso impedir que a senhorita publique isso no seu jornal, embora ache que não importa, já que ninguém fora de Chester’s Mill vai ver.

Ela parou de sorrir.

— O senhor se incomodaria de explicar isso?

— Eu me incomodaria sim, e a senhorita vai entender por conta própria. A minha sugestão é que, se quer ver a barreira, embora na verdade não dê para ver, como acredito que já lhe disseram, é melhor levar o capitão Barbara até onde ela corta a estrada municipal número 3. Conhece a estrada municipal número 3?

Por um instante, não. Depois percebeu do que ele falava e riu.

— Alguma coisa engraçada, srta. Shumway?

— Em Mill, o pessoal chama de Estrada da Bostinha. Porque na estação das chuvas é uma bosta de estrada.

— Muito interessante.

— Nenhuma multidão na Bostinha, então?

— Nenhuma agora.

— Tudo bem. — Ela pôs o bloco no bolso e pegou a câmera. Horace continuava a aguardar com paciência junto à porta.

— Ótimo. Quando posso aguardar a sua ligação? Ou melhor, a ligação do Barbie no seu celular?

Ela olhou o relógio e viu que acabava de passar das dez. Em nome de Deus, como ficara tão tarde tão cedo?

— Vamos estar lá por volta de dez e meia, supondo que eu consiga encontrá-lo. E acho que eu consigo.

— Tudo bem. Diz pra ele que o Ken disse oi. É uma...

— Uma brincadeira, certo, eu entendi. Alguém vai nos encontrar?

Houve uma pausa. Quando ele falou de novo, ela sentiu a relutância. — Vai haver luzes, sentinelas e soldados cuidando de um bloqueio na estrada, mas receberam ordens de não falar com os moradores.

— Não falar... por quê? Em nome de Deus, por quê?

— Se essa situação não se resolver, srta. Shumway, tudo isso vai ficar claro. A maior parte a senhorita, que parece ser muito inteligente, vai entender sozinha.

— Bom, foda-se muito, coronel! — gritou ela, ferida. Na porta, Horace espetou as orelhas.

Cox riu, um grande riso nada ofendido.

— Certo, minha senhora, escutei muito bem. Dez e meia?

Ela ficou tentada a dizer não, mas é claro que não seria possível.

— Dez e meia. Supondo que eu o encontre. Ligo para o senhor?

— A senhorita ou ele, mas é com ele que eu preciso falar. Vou aguardar com a mão no telefone.

— Então me dá o número mágico. — Ela prendeu o telefone contra o ombro e remexeu no bolso de novo atrás do bloco. É claro que a gente sempre precisa do bloco outra vez depois de guardá-lo; é um fato da vida quando se é repórter, coisa que ela era agora. De novo. O número que ele lhe deu a assustou mais do que tudo o que dissera. O código de área era 000.

— Mais uma coisa, srta. Shumway: a senhorita usa marca-passo? Aparelho auditivo? Algo do tipo?

— Não. Por quê?

Ela pensou que ele não ia responder, mas respondeu.

— Perto da Redoma, há uma certa interferência. Não faz mal nenhum para a maioria das pessoas, que sente só um choque elétrico leve que some um ou dois segundos depois, mas com os aparelhos eletrônicos é um inferno. Alguns desligam; a maioria dos celulares, por exemplo, se chegarem a menos de um metro e meio; e outros explodem. Se a senhorita levar um gravador, ele vai desligar. Já um iPod ou algo sofisticado como um BlackBerry pode explodir.

— O marca-passo do chefe Perkins explodiu? Foi isso que matou ele?

— Dez e meia. Leva o Barbie e não esquece do recado de que o Ken disse oi. Ele desligou, deixando Julia em silêncio ao lado do cachorro. Ela tentou ligar para a irmã em Lewiston. Os números tocaram... e nada. Silêncio total, como antes.

A Redoma, pensou ela. — No final, ele não falou barreira; ele falou Redoma.

 

Barbie tirara a camisa e estava sentado na cama para desamarrar o tênis quando veio a batidinha na porta, à qual se chegava subindo um lance externo de escada ao lado da Drogaria Sanders. A batida não foi bem-vinda. Ele andara quase o dia inteiro, depois vestira um avental e cozinhara quase a noite inteira. Estava exausto.

E se fosse Junior com alguns amigos, prontos a lhe preparar uma festa de boas-vindas? Podia-se dizer que era improvável e até paranoico, mas o dia fora um festival de improbabilidades. Além disso, Junior, Frank DeLesseps e o resto da turma estavam entre os poucos que ele não vira naquela noite no Mosqueta. Achou que deviam estar na 119 ou na 117 xeretando, mas de repente alguém lhes dissera que ele voltara à cidade e tivessem planejado algo para mais tarde. Tipo agora.

A batida soou de novo. Barbie se levantou e pôs a mão sobre a TV portátil. Não era lá uma arma, mas causaria algum dano se jogada no primeiro que tentasse passar pela porta. Havia uma vara de madeira no armário, mas os três cômodos eram pequenos e ela era comprida demais para ser girada com eficiência. Também havia o canivete suíço do Exército, mas ele não ia cortar nada. Não a menos que tivesse que...

— Sr. Barbara? — Era uma voz de mulher. — Barbie? Está em casa?

Ele tirou a mão da TV e atravessou a cozinhazinha.

— Quem é? — Mas enquanto perguntava, reconheceu a voz.

— Julia Shumway. Tenho um recado de alguém que quer falar com você. Ele me mandou dizer que o Ken disse oi.

Barbie abriu a porta e a deixou entrar.    

 

Na sala de reuniões revestida de pinho no subsolo da Câmara de Vereadores de Chester’s Mill, o rugido do gerador lá dos fundos (um idoso Kelvinator) era só um zumbido amortecido. A mesa no meio da sala era de um belo bordo vermelho, polida até brilhar, com 3,5 metros de comprimento. Naquela noite, a maioria das cadeiras que a cercavam estava vazia. Os quatro presentes à Reunião de Avaliação de Emergência, como dizia Big Jim, estavam amontoados numa das pontas. O próprio Big Jim, embora fosse só o segundo vereador, estava à cabeceira da mesa. Atrás dele havia um mapa mostrando a meia de atletismo do formato da cidade.

Os presentes eram os vereadores e Peter Randolph, chefe de polícia em exercício. O único que parecia inteiramente atento era Rennie. Randolph parecia chocado e apavorado. Andy Sanders, naturalmente, estava tonto de pesar. E Andrea Grinnell — uma versão obesa e grisalha de Rose, a irmã mais nova — parecia apenas tonta. Isso não era novo.

Quatro ou cinco anos antes, numa manhã de janeiro, Andrea escorregara na calçada coberta de gelo a caminho de verificar a caixa do correio. Caíra com força suficiente para rachar dois discos nas costas (estar com uns 35 ou 40 quilos a mais com certeza não ajudou). O dr. Haskell receitara OxyContin, aquele novo remédio milagroso, para aliviar a dor que, sem dúvida, era excruciante. E desde então ela o tomava. Graças ao bom amigo Andy, dono da drogaria local, Big Jim sabia que Andrea começara tomando 40mg por dia e que agora chegara a 400 mg. Era uma informação útil.

Big Jim disse:

— Devido à terrível perda do Andy, vou presidir essa reunião se ninguém se opuser. Todos sentimos muito, Andy.

— Pode apostar, senhor — disse Randolph.

— Obrigado — disse Andy e, quando Andrea lhe cobriu rapidamente a mão com a dela, os seus olhos voltaram a se encher de lágrimas.

— Agora, todos temos uma ideia do que aconteceu aqui — disse Big Jim —, embora ninguém na cidade ainda entenda...

— Aposto que ninguém fora da cidade também — disse Andrea.

Big Jim a ignorou.

— ... e a presença militar não parece disposta a se comunicar com as autoridades eleitas da cidade.

— Problema com os telefones, senhor — disse Randolph. Ele era bastante íntimo de todas aquelas pessoas; de fato, considerava Big Jim um amigo, mas ali na sala achava melhor usar senhor e senhora. Perkins fizera o mesmo e, ao menos nisso, provavelmente o velho tinha razão.

Big Jim acenou com a mão como se enxotasse uma mosca incômoda.

— Alguém podia ter ido até o lado de Motton ou Tarker e mandado me chamar, nos chamar, e ninguém se dispôs a fazer isso.

— Senhor, a situação ainda é muito... hã... fluída.

— Sem dúvida, sem dúvida. E é bem possível que por isso ninguém tenha nos deixado a par até agora. Pode ser, é verdade, e oro para que seja essa a resposta. Espero que todos estejam orando.

Todos concordaram devidamente.

— Mas agora... — Big Jim olhou em volta muito sério. Ele se sentia sério. Mas também se sentia empolgado. E pronto. Não achava impossível que a sua foto saísse na capa da revista Time antes do fim do ano. Os desastres, ainda mais do tipo provocado por terroristas, nem sempre eram completamente ruins. Veja só o que fizeram por Rudy Giuliani. — Agora, senhora e senhores, acho que temos que encarar a possibilidade bem real de estarmos por nossa conta e risco.

Andrea cobriu a boca com a mão. Os olhos brilharam, de medo ou excesso de analgésico. Talvez ambos.

— Será mesmo, Jim?

— Torcer pelo melhor, se preparar para o pior, é o que Claudette sempre diz. — disse Andy, numa voz de profunda meditação. — Dizia, quer dizer. Ela me fez um belo café da manhã hoje. Ovos mexidos e um resto de queijo para tacos. Meu Deus!

As lágrimas, que tinham diminuído, começaram a jorrar de novo. Mais uma vez, Andrea cobriu a mão dele. Dessa vez, Andy a segurou. Andy e Andrea, pensou Big Jim, e um sorriso fino amassou a metade inferior do rosto carnudo. Os Irmãos Burraldos.

— Torcer pelo melhor, planejar para o pior — disse ele. — Que bom conselho. Neste caso, o pior pode significar dias isolados do mundo exterior. Ou uma semana. Talvez até um mês. — Na verdade, ele não acreditava nisso, mas fariam mais rápido o que ele queria se ficassem com medo.

Andrea repetiu:

— Será mesmo?

— Simplesmente não sabemos — disse Big Jim. Ao menos, essa era a verdade nua e crua. — Como saber?

— Talvez devêssemos fechar o Food City — disse Randolph. — Ao menos por enquanto. Caso contrário, vai encher que nem antes de uma nevasca.

Rennie estava irritado. Tinha uma pauta e isso estava nela, mas não em primeiro lugar.

— Ou talvez não seja boa ideia — disse Randolph, ao ler o rosto do segundo vereador.

— Na verdade, Pete, não acho que seja boa ideia — disse Big Jim. — Mesmo princípio de nunca declarar feriado bancário quando há pouco dinheiro circulando. Só se provoca uma corrida.

— Estamos falando em fechar os bancos também? — perguntou Andy. — O que fazer com os caixas eletrônicos? Tem um no Brownie’s... no Posto de Gasolina & Mercearia Mill... na minha drogaria, naturalmente... — Ele parecia vago, e de repente se animou. — Acho até que vi um no Posto de Saúde, embora não tenha muita certeza.

Rennie se perguntou se Andrea andara emprestando ao outro algum comprimido.

— Só estava fazendo uma metáfora, Andy. — Mantendo a voz baixa e gentil. Era bem o tipo de coisa a esperar quando as pessoas fugiam da pauta. — Numa situação dessas, comida é dinheiro, por assim dizer. O que eu estou dizendo é que os negócios devem continuar como sempre. Isso vai manter a população tranquila.

— Ah — disse Randolph. Isso ele entendia. — Captei.

— Mas é preciso conversar com o gerente do supermercado... Como é o nome dele? Cade?

— Cale — disse Randolph. — Jack Cale.

— E também com Johnny Carver do Posto e Mercearia e... quem é que administra o Brownie’s depois que o Dil Brown morreu?

— Velma Winter — disse Andrea. — Ela é de fora, mas é bem legal. Rennie gostou de ver Randolph escrevendo os nomes na sua caderneta.

— Diz a essas três pessoas que cerveja e destilados estão proibidos até segunda ordem. — O seu rosto se apertou numa expressão de prazer bem assustadora. — E o Dipper está fechado.

— Muita gente não vai gostar dessa lei seca — disse Randolph. — Gente como Sam Verdreaux. — Verdreaux era o pau-d’água mais famoso da cidade, exemplo perfeito, na opinião de Big Jim, de por que a Lei Seca original nunca deveria ter sido revogada.

— Sam e os outros como ele vão ter que se aguentar quando os seus estoques pessoais de cerveja e pinga acabarem. Não podemos ter metade da cidade se embebedando como se fosse véspera de ano-novo.

— Por que não? — perguntou Andrea. — Vão acabar com o estoque existente e aí, pronto.

— E se saírem quebrando tudo enquanto isso?

Andrea se calou. Não conseguia entender por que sairiam quebrando tudo — não se tivessem comida —, mas ela já descobrira que, em geral, discutir com Jim Rennie era improdutivo e sempre cansativo.

— Vou mandar alguns rapazes falarem com eles — disse Randolph.

— Conversa pessoalmente com Tommy e Willow Anderson. — Os Anderson eram os donos do Dipper’s. — Eles podem criar problemas. — Ele baixou a voz. — Radicais.

Randolph concordou.

— Radicais de esquerda. Penduraram no bar um retrato do tio Barack.

— Exatamente. — E, ele não precisava dizer, Duke Perkins deixava aqueles dois hippies melequentos continuarem com os bailes e o rock aos berros e a bebedeira até uma da manhã. Protegia os dois. E veja o problema que isso causou para o meu filho e os amigos dele. Virou-se para Andy Sanders. — Além disso, tranca muito bem todos os remédios controlados. Sem Nasonex nem Lyrica, esse tipo de coisa. Você sabe o que eu quero dizer.

— Tudo o que as pessoas usam pra ficarem doidonas — disse Andy — já tá bem trancado. — Parecia pouco à vontade com esse rumo da conversa. Rennie sabia por que, mas não se preocupava agora com os seus vários interesses comerciais; eles tinham assuntos mais urgentes.

— Ainda assim é melhor tomar mais precauções.

Andrea parecia alarmada. Andy lhe deu tapinhas amistosos na mão.

— Não se preocupa — disse —, sempre temos o suficiente para cuidar de quem realmente precisa.

Andrea sorriu para ele.

— A questão é: essa cidade vai se manter sóbria até o final da crise — disse Big Jim. — Estamos de acordo? Levantem as mãos.

As mãos se levantaram.

— Agora — disse Rennie — posso voltar pra onde eu queria começar? — Olhou para Randolph, que abriu ambas as mãos num gesto que dizia, ao mesmo tempo, vá em frente e sinto muito.

— Precisamos admitir que a população tem razão de estar assustada. E quem está assustado acaba aprontando, com ou sem bebida.

Andrea olhou o console à direita de Big Jim: interruptores que controlavam a TV, a rádio AM/FM e o sistema de gravação embutido, inovação que Big Jim detestava.

— Aquilo não devia estar ligado?

— Não vejo necessidade.

O bendito sistema de gravação (sombras de Richard Nixon) fora ideia de um paramédico intrometido chamado Eric Everett, um filho da putinski de uns 30 e poucos anos conhecido na cidade como Rusty. Everett levantara a ideia da idiotice do sistema de gravação nas reuniões da Câmara havia dois anos, apresentando-a como um grande salto à frente. A proposta fora uma surpresa malvista por Rennie, que raramente se surpreendia, ainda mais com quem não fosse da política.

Big Jim dissera que o custo seria proibitivo. Essa tática costumava funcionar com ianques pães-duros, mas não daquela vez; Everett apresentara números, provavelmente fornecidos por Duke Perkins, mostrando que o governo federal pagaria 80%. Um Troço Qualquer de Auxílio a Desastres; um resto dos anos gastadores de Clinton. Rennie se vira vencido.

Isso não era algo frequente e ele não gostou, mas estava na política há muito mais tempo do que Eric “Rusty” Everett cutucava próstatas e sabia que havia uma grande diferença entre perder uma batalha e perder a guerra.

— Então alguém não deveria fazer uma ata? — perguntou Andrea timidamente.

— Acho melhor manter isso informal, por enquanto — disse Big Jim.

— Só entre nós quatro.

— Bom... se você acha...

— Dois podem manter segredo quando um deles está morto — disse Andy, sonhador.

— Isso mesmo, parceiro — disse Rennie, como se fizesse sentido. Virou-se para Randolph. — Eu diria que a nossa maior preocupação, a nossa maior responsabilidade pra com a cidade, é manter a ordem enquanto a crise durar. O que significa polícia.

— Exatamente! — disse Randolph espertamente.

— Agora, tenho certeza de que o chefe Perkins está nos olhando lá de cima...

— Com a minha mulher — disse Andy. — Com Claudie. — Deu uma assoada no nariz catarrento que Big Jim preferiria dispensar. Ainda assim, deu tapinhas amistosos na mão livre de Andy.

— Isso mesmo, Andy, os dois juntos, banhados na glória de Jesus. Mas pra nós aqui na Terra... Pete, que força você consegue reunir?

Big Jim sabia a resposta. Sabia a resposta de quase todas as suas perguntas. Assim a vida era mais simples. Havia 18 policiais lotados em Chester’s Mill, 12 em horário integral, seis em meio expediente (estes últimos com mais de 60 anos, o que deixava o seu serviço muito atraente de tão barato).

Daqueles 18, ele tinha certeza de que cinco dos que trabalhavam em horário integral estavam fora da cidade: tinham ido ao jogo de futebol da escola secundária naquele dia com a mulher e a família ou à queima controlada em Castle Rock. Um sexto, o chefe Perkins, estava morto. E, embora jamais falasse mal dos mortos, Rennie tinha certeza de que a cidade estava bem melhor com Perkins no paraíso do que ali, tentando controlar uma surumbamba bem além da sua capacidade limitada.

— Vou lhes dizer uma coisa, amigos — disse Randolph —, não é tanta assim. Temos Henry Morrison e Jackie Wettington, que foram comigo ao Código Três inicial. Temos também Rupe Libby, Fred Denton e George Frederick, embora ele esteja com tanta asma que não sei se vai ser útil. Estava planejando se aposentar mais cedo no final desse ano.

— Coitado do George — disse Andy. — Ele praticamente vive à base de Advair.

— E, como sabem, Marty Arsenault e Toby Whelan não estão lá muito bem hoje em dia. A única de meio expediente que posso dizer que está em forma é Linda Everett. Com aquele maldito exercício dos bombeiros e o jogo de futebol, isso não podia ter acontecido em hora pior.

— Linda Everett? — perguntou Andrea, um pouco interessada. — A mulher de Rusty?

— Pffff! — Big Jim costumava dizer pfff quando estava irritado. — É só uma guarda de trânsito metida a besta.

— Sim, senhor — disse Randolph —, mas se qualificou na prova de tiro ao alvo em Rock no ano passado e tem armamento. Não há razão para ela não usá-lo e trabalhar. Talvez não em horário integral, os Everett têm filhos, mas ela pode ajudar. Afinal de contas, é uma crise.

— Sem dúvida, sem dúvida. — Mas imagine se Rennie ia querer ver Everetts pulando feito boneco de mola em todo canto para onde ele se virasse. Conclusão: não queria a mulher daquele melequento na equipe principal. Ainda mais porque ela ainda era bem nova, 30 anos, no máximo, e bonita pra diabo. Ele tinha certeza de que seria má influência sobre os outros homens. Mulheres bonitas sempre são. Wettington e os seus peitos bombásticos já eram ruins demais.

— Então — disse Randolph —, dos 18 só ficaram oito.

— Você esqueceu de se contar — disse Andrea.

Randolph bateu o punho na testa, como se tentasse fazer o cérebro pegar no tranco.

— Ah, claro. Certo. Nove.

— Não basta — disse Rennie. — Precisamos engordar a tropa. Só temporariamente, entende, até que essa situação se resolva.

— Em quem você está pensando, senhor? — perguntou Randolph.

— No meu filho, pra começar.

— Junior? — Andrea ergueu as sobrancelhas. — Ele nem tem idade pra votar... ou tem?

Big Jim visualizou rapidamente o cérebro de Andrea: 15% de sites de compra prediletos, 80% de receptores de ópio, 2% de memória e 3% de verdadeiro processo de pensamento. Mas era com aquilo que ele teria que trabalhar. E, disse a si mesmo, a estupidez dos parceiros torna a vida mais simples.

— Na verdade, já tem 21 anos. Faz 22 em novembro. E por sorte ou pela graça de Deus, veio da faculdade pra passar o fim de semana em casa.

Peter Randolph sabia que Junior Rennie viera da faculdade permanentemente; vira isso escrito no caderno telefônico da sala do falecido chefe no início da semana, embora não soubesse como Duke obtivera a informação nem por que a achara importante a ponto de anotá-la. Havia outra coisa escrita também: Problemas comportamentais?

Mas provavelmente não era uma boa hora para passar essa informação a Big Jim.

Rennie continuava, agora com a voz entusiasmada do apresentador de um programa de auditório que anuncia um prêmio especialmente suculento na Rodada de Bônus.

— E Junior tem três amigos que também seriam adequados: Frank DeLesseps, Melvin Searles e Carter Thibodeau.

Mais uma vez, Andrea ficou inquieta.

— Hum... esses não eram os garotos... os rapazes... envolvidos naquela altercação no Dipper’s...?

Big Jim lhe deu um sorriso de ferocidade táo afável que Andrea se encolheu na cadeira.

— Aquela história foi exagerada. E provocada pelo álcool, como a maioria dos problemas. Além disso, o tal Barbara é que provocou. E por isso não houve acusações. Foi uma bobagem. Estou errado, Peter?

— De jeito nenhum — disse Randolph, embora ele também parecesse inquieto.

— Todos eles têm ao menos 21 anos e acredito que Carter Thibodeau tenha 23.

Thibodeau tinha mesmo 23 anos e estava trabalhando em meio expediente como mecânico no Posto de Gasolina & Mercearia Mill. Fora demitido de dois empregos anteriores — questões de temperamento, disseram a Randolph —, mas parecia ter se acalmado no posto. Johnny dizia que nunca vira ninguém com tanto jeito para sistemas de exaustão e sistema elétrico.

— Todos já caçaram juntos, têm boa pontaria...

— Torça para que ninguém tenha que comprovar isso — disse Andrea.

— Ninguém vai atirar em ninguém, Andrea, e ninguém está sugerindo que esses rapazes se tornem policiais em horário integral. O que eu estou dizendo é que precisamos completar um plantel extremamente desfalcado, e logo. O que acha, chefe? Podem trabalhar até que a crise acabe e nós os pagaremos com o fundo de contingência.

Randolph não gostava da ideia de Junior andando armado pelas ruas de Chester’s Mill — Junior com os possíveis problemas comportamentais —, mas também não gostava da ideia de enfrentar Big Jim. E poderia mesmo ser boa ideia ter mais alguns homens à mão. Mesmo que fossem jovens. Ele não previa problemas na cidade, mas poderiam controlar a multidão onde as principais estradas chegavam à barreira. Se a barreira ainda estivesse lá. E se não estivesse? Problema resolvido.

Deu um sorriso de jogador do mesmo time.

— Sabe, acho que é uma ótima ideia, senhor. Manda eles pra delegacia amanhã às dez...

— Às nove seria melhor, Pete.

— Às nove está bom — disse Andy com a sua voz sonhadora.

— Algo mais a discutir? — perguntou Rennie.

Não havia mais nada. Andrea estava com cara de quem teria algo a dizer, mas não conseguia se lembrar do que era.

— Então vou fazer a pergunta — disse Rennie. — A comissão vai pedir ao chefe interino Randolph que aceite Junior, Frank DeLesseps, Melvin Searles e Carter Thibodeau como policiais com salário mínimo da categoria? Sendo que o período de serviço vai durar até a solução dessa situação maluca? Os que estiverem a favor, votem do jeito normal.

Todos levantaram a mão.

— A medida está aprov...

Ele foi interrompido por duas explosões que pareciam tiros. Todos pularam. Então veio a terceira, e Rennie, que trabalhara com motores quase a vida toda, reconheceu o que eram.

— Relaxa, gente. É só a descarga. O gerador está limpando a gargan...

O idoso gerador explodiu uma quarta vez e desligou. A luz se apagou, deixando-os por um instante num negrume estígio. Andrea guinchou.

À esquerda dele, Andy Sanders disse:

— Meu Deus, Jim, o gás...

Rennie estendeu a mão livre e segurou o braço de Andy. Andy se calou. Quando Rennie começou a relaxar a mão, a luz voltou à sala comprida revestida de pinho. Não as luzes fortes do teto, mas as lâmpadas quadradas de emergência montadas nos cantos. Sob o seu brilho fraco, os rostos reunidos na ponta da mesa de reuniões pareciam amarelos e anos mais velhos. Pareciam assustados. Até Big Jim Rennie parecia assustado.

— Sem problemas — disse Randolph, com uma animação que parecia fabricada e não orgânica. — O botijão secou, só isso. Tem bastante no depósito da cidade.

Andy deu uma olhada em Big Jim. Não foi mais do que um passar de olhos, mas Rennie achou que Andrea tinha visto, O que ela poderia vir a entender era outra questão.

Ela esquecerá depois da próxima dose de Oxy, disse a si mesmo. Pela manhã, com certeza.

Enquanto isso, o suprimento de gás da cidade — ou a sua falta — não o preocupava muito. Cuidaria da situação quando fosse necessário.

— Certo, parceiros, sei que estão tão ansiosos quanto eu para sair daqui, então vamos para o próximo ponto. Acho que devíamos confirmar o Pete oficialmente como nosso chefe de polícia interino.

— Claro, por que não? — perguntou Andy. Parecia cansado.

— Se não há mais discussões — disse Big Jim —, eu vou fazer a pergunta. — Votaram como ele queria que votassem.

Sempre votavam.

    

Junior estava sentado no degrau da frente da grande casa dos Rennie na rua Mill quando as luzes do Hummer do pai surgiram pela entrada de automóveis. Junior estava em paz. A dor de cabeça não voltara. Angie e Dodee foram guardadas na despensa dos McCain, onde estariam bem — ao menos por algum tempo. O dinheiro que pegara estava de volta ao cofre do pai. Tinha uma arma no bolso — o 38 de coronha de madrepérola que o pai lhe dera quando fez 18 anos. Agora, ele e o pai conversariam. Junior escutaria com muita atenção o que o Rei dos Sem Entrada tivesse a dizer. Se sentisse que o pai sabia o que ele, Junior, fizera — ele não via como seria possível, mas o pai sabia tanto —, Junior o mataria. Depois disso, apontaria a arma para si mesmo. Porque não haveria como fugir, não naquela noite. Talvez nem amanhã. No caminho de volta, parara no parque da cidade e escutara as conversas que havia por lá. O que diziam era loucura, mas a grande bolha de luz ao sul — e a outra menor a sudoeste, por onde a 117 seguia para Castle Rock — indicava que, naquela noite, por acaso, a loucura podia ser verdade.

A porta do Hummer se abriu e bateu. O pai andou na direção dele, a pasta batendo na coxa. Não parecia desconfiado, cansado nem zangado. Sentou-se ao lado de Junior no degrau sem dizer palavra. Então, num gesto que pegou Junior totalmente de surpresa, pôs a mão na nuca do rapaz e apertou de leve.

— Já soube? — perguntou.

— Um pouco — disse Junior. — Mas não entendi.

— Nenhum de nós entendeu. Acho que agora vão vir uns dias difíceis enquanto isso se resolve. Por isso, tenho que te pedir uma coisa.

— O que é? — A mão de Junior se fechou na coronha da pistola.

— Você vai fazer sua parte? Você e os seus amigos? Frankie? Carter e o garoto Searles?

Junior ficou calado, aguardando. Que merda era aquela?

— Agora Peter Randolph é o chefe interino. Vai precisar de gente para completar o efetivo da polícia. Homens bons. Está disposto a trabalhar como policial até essa maldita surumbamba acabar?

Junior sentiu uma vontade louca de gritar de riso. Ou de triunfo. Ou ambos. A mão de Big Jim ainda estava na sua nuca. Não apertava. Não beliscava. Quase... acariciava.

Junior soltou a arma no bolso. Ocorreu-lhe que ainda estava com sorte — a maré de sorte mais sortuda de todas.

Naquele dia, matara duas garotas que conhecia desde a infância. No dia seguinte, seria um policial da cidade.

— Claro, pai — disse ele. — Se precisa de nós, estamos aí. — E, pela primeira vez em quatro anos, talvez (senão mais), beijou o rosto do pai.

 

ORAÇÕES

Barbie e Julia Shumway não falaram muito; não havia muito a dizer. O carro deles, pelo que Barbie podia ver, era o único na estrada, mas saía luz da maioria das janelas dos sítios depois que se afastaram da cidade. Lá, onde sempre havia trabalho a fazer e ninguém confiava muito na empresa de energia elétrica, quase todos tinham gerador. Quando passaram pela torre da WCIK, as duas lâmpadas vermelhas no alto piscavam como sempre. A cruz elétrica na frente do prédio do pequeno estúdio também estava iluminada, um farol branco e brilhante na escuridão. Acima dela, as estrelas transbordavam pelo céu na profusão extravagante de sempre, uma catarata sem fim de energia que não precisava de gerador.

— Eu costumava vir pescar por aqui — disse Barbie. — É tranquilo.

— Dava sorte?

— Muita, mas às vezes o ar cheira como a cueca suja dos deuses. Adubo ou sei lá. Nunca ousei comer o que eu pescava.

— Adubo não; bosta mental. Também chamada de cheiro da retidão moral. — Como assim?

Ela apontou a forma de uma torre escura que bloqueava as estrelas.

— A Igreja do Sagrado Cristo Redentor — disse ela. — São os donos da WCIK ali atrás. Também chamada de Rádio Jesus.

Ele deu de ombros.

— Acho que eu já vi a torre. E conheço a estação. Meio difícil não conhecer quando se mora aqui e se tem rádio. Fundamentalista?

— Fazem os batistas mais empedernidos parecerem frouxos. Eu sou da Congregacional. Não suporto Lester Coggins, detesto todo aquele ha-ha-você-vai-pro-inferno-a-gente-não. Cada qual com seu cada qual, sei lá. Embora eu já tenha me perguntado muitas vezes como é que eles conseguem ter uma estação de rádio de 50 mil watts.

— Oferendas de amor?

Ela fez um muxoxo.

— Talvez eu devesse perguntar ao Jim Rennie. Ele é diácono.

Julia tinha um Prius Hybrid bem-cuidado, carro que Barbie não esperaria de uma republicana empedernida e dona de jornal (embora achasse que combinava com uma frequentadora da Primeira Igreja Congregacional). Mas era silencioso e o rádio funcionava. O único problema é que, ali, no lado oeste da cidade, o sinal da WCIK era tão forte que cobria tudo na faixa de FM. E naquela noite eles transmitiam uma merda sacra tocada num acordeão que feria a cabeça de Barbie. Parecia polca tocada por uma orquestra morrendo de peste bubônica.

— Por que você não muda pra AM? perguntou ela.

Foi o que ele fez e só achou blá-blá-blá noturno até encontrar uma estação esportiva quase no fim do dial. Ali, soube que, antes do jogo entre os Red Sox e os Mariners em Fenway Park, houve um minuto de silêncio pelas vítimas do que o locutor chamou de “evento no oeste do Maine”.

— Evento — disse Julia. — Típico de locutor esportivo de rádio. Melhor desligar.

Menos de 2 quilômetros depois da igreja, começaram a ver um brilho entre as árvores. Chegaram a uma curva e à claridade de holofotes quase do tamanho dos refletores das pré-estreias de Hollywood. Dois apontavam na direção deles; outros dois estavam virados para cima. Cada buraco da estrada se destacava em nítido relevo. Os troncos das bétulas pareciam fantasmas estreitos. Barbie sentiu que entravam num filme noir do final dos anos 1940.

— Para, para, para — disse ele. — Não é bom chegar mais perto. Parece que não tem nada lá, mas pode acreditar que tem. Deve explodir toda a parte eletrônica do seu carrinho, no mínimo.

Ela parou e os dois desceram. Por um instante, ficaram só em pé na frente do carro, franzindo os olhos para a luz forte. Julia ergueu uma das mãos para proteger os olhos.

Estacionados além das luzes, um de frente para o outro, havia dois caminhões militares com a carroceria coberta de lona marrom. Por precaução, tinham colocado cavaletes na estrada, os pés escorados com sacos de areia. Rugiam motores continuamente na escuridão — não um gerador, mas vários. Barbie viu cabos elétricos grossos que se afastavam dos holofotes e entravam na floresta, onde outras luzes brilhavam entre as árvores.

— Vão iluminar o perímetro — disse ele, e girou o dedo no ar, como um juiz de beisebol indicando a corrida à base principal. — Luzes em torno da cidade inteira, iluminando pra dentro e pra cima.

— Por que pra cima?

— Pra alertar e afastar o tráfego aéreo. Quer dizer, se algum avião passar por aqui. Aposto que estão preocupados principalmente com esta noite. Amanhã vão ter o espaço aéreo de Mill tão fechado quanto um saco de dinheiro do Tio Patinhas.

No lado escuro dos holofotes, mas visíveis pela luz que escapava pela traseira, havia meia dúzia de soldados armados em posição de descanso, de costas para eles. Deviam ter ouvido a aproximação do carro, com todo aquele silêncio, mas nenhum deles olhou em volta.

— Ei, rapazes! — gritou Julia.

Nenhum se virou. Barbie não esperava que se virassem — no caminho, Julia contara a Barbie o que Cox lhe dissera —, mas tinha que tentar. E como sabia ler as insígnias, sabia o que tentar. O Exército poderia comandar o espetáculo — o envolvimento de Cox indicava isso — mas esses camaradas não eram do Exército.

— Oi, fuzileiros! — gritou.

Nada. Barbie se aproximou. Viu uma linha horizontal escura pendendo no ar acima da estrada, mas a ignorou por enquanto. Estava mais interessado nos homens que guardavam a barreira. Ou a Redoma. Julia dissera que Cox a chamara de Redoma.

— Estou surpreso de ver vocês do Reconhecimento aqui na terrinha — disse ele, chegando um pouco mais perto. — Aquele probleminha no Afeganistão já acabou, é?

Nada. Chegou mais perto. O barulho áspero da terra sob os sapatos parecia muito alto.

— Está cheio de viadinhos no Reconhecimento, me falaram. Estou mesmo aliviado, sabe? Se a situação fosse mesmo ruim, teriam mandado os Rangers.

— Isca de puta — murmurou um deles.

Não era muito, mas Barbie se sentiu encorajado.

— Calma, calma, parceiros, calma, vamos conversar.

Nada mais. E ele não queria chegar ainda mais perto da barreira (ou da Redoma). A pele não se arrepiou e os pelinhos da nuca não ficaram em pé, mas ele sabia que a coisa estava ali. Dava para sentir.

E dava para ver: aquela tira pendendo no ar. Ele não sabia que cor teria à luz do dia, mas adivinhava ser vermelha, a cor do perigo. Era tinta spray e ele apostaria tudo o que tinha no banco (atualmente, pouco mais de 5 mil dólares) que dava a volta na barreira toda.

Como uma listra numa manga de camisa, pensou.

Fechou o punho e bateu no seu lado da tira, produzindo de novo aquele som de nó de dedo em vidro. Um dos fuzileiros pulou.

Julia começou:

— Não sei se é uma boa...

Barbie a ignorou. Estava começando a se zangar. Parte dele esperara o dia todo para se zangar e ali estava a oportunidade. Ele sabia que não adiantava descarregar naqueles rapazes — eram apenas figurantes —, mas era difícil se controlar.

— Ei, fuzileiros! Ajudem um irmão.

— Desiste, parceiro. — Embora quem falava não se virasse, Barbie sabia que era o comandante daquele grupinho. Reconheceu o tom de voz, ele mesmo o usara. Muitas vezes. — Temos as nossas ordens, logo ajude você um irmão. Em outra ocasião, em outro lugar, eu adoraria te pagar uma cerveja ou te dar um chute na bunda. Mas não aqui, não agora. O que você diz?

— Tudo bem — disse Barbie. — Mas vendo que estamos todos do mesmo lado, não tenho que gostar. — Virou-se para Julia. — Está com o celular?

Ela o entregou.

— Você devia arranjar um. Estão fazendo muito sucesso.

— Eu tenho — disse Barbie. — Um descartável, comprei baratinho na Best Buy. Quase nunca usei. Deixei na gaveta quando tentei sair da cidade. Não vi por que não deixar lá hoje.

Ela lhe entregou o dela.

— Acho que você mesmo vai ter que teclar o número. Tenho muito o que fazer. — Ela ergueu a voz para que os soldados em pé além das luzes brilhantes conseguissem escutá-la. — Sou editora do jornal local, afinal de contas, e quero algumas fotos. — Ela levantou a voz mais um pouquinho. — Ainda mais de alguns soldados de costas para uma cidade em dificuldades.

— Minha senhora, espero que não faça isso — disse o comandante. Era um sujeito grandalhão, de costas largas.

— Vem me impedir — convidou ela.

— Acho que a senhora sabe que nós não podemos fazer isso — disse ele.

— Quanto a estarmos de costas, são essas as nossas ordens.

— Fuzileiro — disse ela —, pode pegar as suas ordens, enrolar bem enroladinhas, dobrar bem dobradinhas e enfiar onde a qualidade do ar é questionável. — À luz brilhante, Barbie viu algo notável: a boca de Julia numa linha dura e implacável e os olhos cheios de lágrimas.

Enquanto Barbie teclava o número com o estranho código de área, ela pegou a câmera e começou a tirar fotos. O flash não era muito forte comparado com os grandes holofotes alimentados por geradores, mas Barbie viu os soldados se encolherem cada vez que disparava. Devem estar torcendo para a maldita insígnia não aparecer, pensou.

 

O coronel James O. Cox, do Exército dos Estados Unidos, dissera que ficaria sentado com a mão no fone às dez e meia. Barbie e Julia Shumway tinham se atrasado um pouco e Barbie só telefonou quando eram 22h40, mas a mão de Cox devia mesmo estar no fone, porque o aparelho só deu meio toque e o antigo chefe de Barbie disse: “Alô, Ken falando.”

Barbie ainda estava zangado, mas riu assim mesmo.

— Sim, senhor. E continuo a ser a puta que fica com toda a merda boa.

Cox também riu, pensando, sem dúvida, que tinham começado bem.

— Como vai, capitão Barbara?

— Vou bem, senhor. Mas, com todo o respeito, agora é só Dale Barbara. As únicas coisas que eu capitaneio hoje em dia são a chapa e as fritadeiras do restaurante local e não estou a fim de conversa fiada. Estou perplexo, senhor, e como só vejo as costas de um monte de fuzileiros isca de puta que não querem se virar para me olhar nos olhos, também estou bem pê da vida.

— Entendido. E você precisa entender uma coisa do meu lado. Se houvesse alguma coisa que todos esses homens pudessem fazer para ajudar ou dar fim a essa situação, você estaria olhando para a cara e não para a bunda deles. Acredita nisso?

— Estou escutando, senhor. — O que não era exatamente uma resposta.

Julia ainda tirava fotos. Barbie foi para a beira da estrada. Dessa nova posição, via uma barraca montada além dos caminhões. Também o que poderia ser uma pequena barraca-refeitório e um estacionamento cheio de mais caminhões. Os fuzileiros montavam um acampamento ali e, provavelmente, outros maiores onde as rodovias 119 e 117 saíam da cidade. Isso indicava permanência. O seu coração se entristeceu.

— A jornalista está aí? — perguntou Cox.

— Está aqui. Tirando fotos. E, senhor, transparência total, o que o senhor me contar, eu conto pra ela. Agora eu estou deste lado.

Julia parou o que fazia por tempo bastante para dar a Barbie um sorrisinho.

— Entendido, capitão.

— Senhor, me chamar assim não lhe faz ganhar pontos.

— Tudo bem, então só Barbie. Assim fica melhor?

— Sim, senhor.

— Quanto ao que a senhorita decidir publicar.., pelo bem dos moradores dessa sua cidadezinha, espero que ela tenha bom-senso suficiente na hora de escolher.

— Eu aposto que ela tem, sim.

— E se ela mandar imagens por e-mail pra alguém de fora — alguma revista semanal ou o New York Times, por exemplo —, talvez vocês venham a ver sua internet seguir o mesmo caminho dos telefones fixos.

— Senhor, isso é sujeira da gro...

— A decisão seria tomada bem acima do meu posto. Só estou avisando.

— Eu digo a ela suspirou Barbie.

— Me diz o quê? — perguntou Julia.

— Que se você tentar transmitir essas fotos, eles podem descontar na cidade impedindo o acesso à internet.

     Julia fez um gesto que Barbie não costumava associar com belas damas republicanas. Ele retornou sua atenção para o celular.

— Quanto o senhor pode me contar?

— Tudo o que eu sei — disse Cox.

— Obrigado, senhor. — Embora Barbie duvidasse que Cox fosse mesmo contar tudo. O Exército nunca contava tudo o que sabia. Ou que pensava que sabia.

— Estamos chamando a coisa de Redoma — disse Cox —, mas não é uma Redoma. Ao menos, não achamos que seja. Achamos que é uma cápsula cujas bordas se encaixam exatamente nas fronteiras da cidade. E entenda-se esse “exatamente” de forma literal.

— O senhor sabe até que altura vai?

— Parece chegar a uns 14.300 metros, por aí. Não sabemos se o topo é plano ou se é arredondado. Ao menos não por enquanto.

Barbie não disse nada. Estava embasbacado.

— E a profundidade... ninguém sabe. Agora só podemos dizer que é de mais de 300 metros. Essa é a profundidade atual de uma escavação que estamos fazendo na fronteira entre Chester’s Mill e o distrito não incorporado ao norte.

— TR-90. — Aos ouvidos de Barbie, a sua voz soou baixa e apática.

— Isso. Começamos num poço de cascalho que já tinha uns 12 metros. Vi imagens espectrográficas que não dá pra entender. Camadas longas de rochas metamórficas cortadas ao meio. Não há lacuna, mas dá pra ver a mudança onde a parte norte da camada caiu um pouquinho. Verificamos os registros do sismógrafo da estação meteorológica de Portland e bingo. Houve um pequeno abalo às 11h44 da manhã. Dois ponto um na escala Richter. Foi quando aconteceu.

— Ótimo — disse Barbie. Achou ter sido sarcástico, mas estava espantado e perplexo demais para ter certeza.

— Nada disso é conclusivo, mas é convincente. É claro que a exploração mal começou, mas por enquanto parece que a coisa tanto desce quanto sobe. E se sobe 8 quilômetros...

— Como o senhor sabe? Radar?

— Negativo, essa coisa não aparece no radar. Não há como saber que está ali até bater nela ou até chegar tão perto que não dá pra parar. O custo humano quando a coisa subiu foi baixíssimo, mas houve um inferno de pássaros mortos em volta. Dentro e fora.

— Eu sei. Já vi. — Julia acabara de tirar as fotos. Estava em pé ao lado dele, escutando a conversa de Barbie. — Então, como o senhor sabe até que altura vai? Laser?

— Não, ele também passa. Temos usado mísseis com ogivas vazias. Desde as quatro da tarde, estamos fazendo sortidas de aviões F-15A decolando de Bangor. Fico surpreso de você não ter escutado.

— Posso ter ouvido alguma coisa — disse Barbie. — Mas a minha cabeça estava ocupada com outras questões. — Como o avião. E o caminhão. Os mortos na rodovia 117. Parte do baixíssimo custo humano.

— Eles ricocheteavam... então a 14.300 metros e tal, zípete-zum, lá foram eles. Cá entre nós, fico surpreso de não termos perdido nenhum daqueles pilotos de caça.

— Vocês já a sobrevoaram?

— Há menos de duas horas. Missão bem-sucedida.

— Quem fez isso, coronel?

— Não sabemos.

— Fomos nós? É alguma experiência que deu errado? Ou, que Deus nos ajude, algum tipo de experiência? O senhor me deve a verdade. O senhor deve a verdade a essa cidade. Esse povo está apavorado.

— Compreensível. Mas não fomos nós.

— Se fôssemos, o senhor saberia?

Cox hesitou. Quando voltou a falar, a voz estava mais baixa.

— Temos boas fontes no meu departamento. Quando peidam na Agência de Segurança Nacional, a gente escuta. O mesmo acontece no Grupo Nove, em Langley, e em mais alguns negociozinhos de que você nunca ouviu falar.

Era possível que Cox estivesse falando a verdade. E era possível que não. Era um cumpridor do seu dever, afinal de contas; se estivesse de sentinela ali naquele frio escuro de outono com o resto dos fuzileiros isca de puta, Cox também estaria em pé de costas. Não gostaria, mas ordens são ordens.

— Alguma possibilidade de que seja um tipo de fenômeno natural? — perguntou Barbie.

— Que se ajusta exatamente às fronteiras humanas de uma cidade inteira? Cada buraco, cada cantinho? O que você acha?

— Eu tinha que perguntar. É permeável? O senhor sabe?

— A água passa — disse Cox. — Ao menos um pouco.

— Como é possível? — Embora ele tivesse visto com os próprios olhos o jeito estranho como a água se comportava; ele e Gendron tinham visto.

— Não sabemos, como poderíamos? — Cox parecia exasperado. — Estamos trabalhando nisso há menos de 12 horas. Todos estão trocando tapinhas nas costas só por terem descoberto até que altura vai. Podemos descobrir, mas por enquanto não sabemos.

— Ar?

— Ar passa bastante. Montamos uma estação de monitoramento onde a sua cidade faz limite com... hum.... — Barbie ouviu de leve o farfalhar do papel. — Harlow. Fizeram o que chamam de “teste de sopro”. Acho que devem medir a pressão do ar que sai comparada à do ar que ricocheteia. Seja como for, o ar passa, e muito mais do que água, mas os cientistas dizem que a passagem não é completa. Isso vai foder de vez o clima de vocês, parceiro, mas ninguém sabe quanto nem como. Ora, talvez transforme Chester’s Mill em Paim Springs. — Ele deu um risinho bastante fraco.

— Particulados? — Barbie achou que sabia essa resposta.

— Nada — disse Cox. — Matéria particulada não passa. Ao menos, não achamos que passe. E preste atenção, isso acontece em ambos os sentidos. Se a matéria particulada não entra, também não sai. Isso significa que a emissão dos automóveis...

— Ninguém tem muito espaço pra dirigir. Chester’s Mill talvez tenha 6,5 quilômetros na parte mais larga. Na diagonal... — Ele olhou para Julia.

— Onze, no máximo — disse ela.

— Também não achamos que os poluentes do aquecimento sejam um grande problema — disse Cox. — Tenho certeza de que todos na cidade têm um bom sistema de aquecimento a gasolina bem caro; hoje, na Arábia Saudita, eles usam adesivos nos carros dizendo “Eu Coração a Nova Inglaterra”; mas esses sistemas modernos precisam de eletricidade pra fornecer uma fagulha constante. Provavelmente a reserva de gasolina é boa, considerando que a temporada de aquecimento das casas ainda não começou, mas acho que não lhes será muito útil. A longo prazo, isso pode ser bom, do ponto de vista da poluição.

— Acha mesmo? Vem cá quando estiver 30 graus abaixo de zero com o vento soprando a... — Ele parou um instante. — O vento vai soprar?

— Não sabemos — disse Cox. — Me pergunta amanhã e talvez eu tenha ao menos uma teoria.

— Podemos queimar lenha — disse Julia. — Diz isso a ele.

— A srta. Shumway diz que podemos queimar lenha.

— É preciso tomar cuidado com isso, capitão Barbara... Barbie. Claro que vocês têm muita madeira aí e não precisam de eletricidade pra queimá-la, mas lenha produz cinza. Que inferno, produz carcinógenos.

— A temporada de aquecimento aqui começa... — Barbie olhou para Julia.

— Quinze de novembro — disse ela. — Mais ou menos.

— A srta. Shumway diz meados de novembro. Então me diga que vão resolver isso até lá.

— Só posso dizer que vamos tentar ao máximo. O que me leva à razão dessa conversa. Todos os geniozinhos, os que conseguimos reunir até agora, concordam que lidamos com um campo de força...

— Como o de Star Trick — disse Barbie. — Teletransporte, Snotty.

— Como é?

— Nada, nada. Continue, senhor.

— Todos concordam que campos de força não aparecem à toa. Alguma coisa próxima ao campo ou no meio dele tem de gerá-lo. O nosso pessoal acha que o centro é mais provável. “Como o cabo de um guarda-chuva”, disse um deles.

— O senhor acha que é trabalho interno?

— Achamos que é uma possibilidade. E acontece de termos um soldado condecorado na cidade...

Ex-soldado, pensou Barbie. E as condecorações mergulharam no Golfo do México faz 18 meses. Mas ficou com a ideia de que o seu tempo de serviço acabara de ser ampliado, quisesse ou não. Mantido por exigência popular, como se costuma dizer.

— ... cuja especialidade no Iraque era achar fábricas de bombas da Al-Qaeda Achar e fechar.

Pois é. Basicamente, outro gerador. Ele pensou em todos aqueles pelos quais Julia Shumway e ele tinham passado no caminho até ali, rugindo no escuro, fornecendo luz e calor. Consumindo gás. Percebeu que gás e baterias, mais ainda do que comida, tinham se tornado o novo padrão-ouro de Chester’s Mill. De uma coisa ele sabia: a população queimaria lenha. Se esfriasse e o gás acabasse, queimariam muita. Madeira de lei, madeira barata, madeira velha. E que se fodessem os carcinógenos.

— Não seria como os geradores que estão funcionando no seu lado do mundo agora à noite — disse Cox. — A coisa capaz de fazer isso... não sabemos como seria, nem quem conseguiria construir um troço desses.

— Mas o Tio Sammy quer — disse Barbie. Segurava o celular com tanta força que quase conseguiria quebrá-lo. — Na verdade é essa a prioridade, não é, senhor? Porque uma coisa dessas poderia mudar o mundo. Os moradores da cidade são estritamente secundários. Efeito colateral, na verdade.

— Ah, não sejamos melodramáticos — disse Cox. — Nesse caso, os nossos interesses coincidem. Ache o gerador, se é que ele existe. Ache do jeito que achou aquelas fábricas de bombas e o desligue. Problema resolvido.

— Se estiver aqui.

— Se estiver aí, isso. Vai tentar?

— Tenho opção?

— Não que eu saiba, mas sou militar de carreira. Pra nós, livre-arbítrio não é opção.

— Ken, esse é o treinamento de incêndio mais fodido que você já me arranjou.

Cox demorou para responder. Embora houvesse silêncio na linha (a não ser por um leve zumbido agudo que poderia significar que a conversa estava sendo gravada), Barbie quase conseguia ouvir o outro pensando. Depois, Cox disse:

— É verdade, mas você ainda fica com toda a merda boa, seu puto.

Barbie riu. Não conseguiu segurar.

 

No caminho de volta, ao passar pela forma escura que era a Igreja do Sagrado Cristo Redentor, ele se virou para Julia. À luz das lâmpadas do painel, o rosto dela parecia cansado e solene.

— Não vou te pedir que guarde segredo sobre tudo isso — disse ele —, mas acho que você deveria se calar sobre uma coisa.

— O gerador que pode ou não estar na cidade. — Ela tirou uma das mãos do volante, esticou-a para trás e passou-a na cabeça de Horace, como se para consolar e tranquilizar.

— É.

— Porque se houver um gerador criando o campo, criando a Redoma do seu coronel, então alguém deve estar cuidando dele. Alguém daqui.

— Cox não disse isso, mas tenho certeza de que é o que ele acha.

— Isso eu guardo. E não vou mandar nenhuma foto por e-mail.

— Ótimo.

— Afinal, elas têm que sair primeiro no Democrata. — Julia continuou acariciando o cachorro. Gente que dirigia com uma mão só costumava deixar Barbie nervoso, mas não naquela noite. A Bostinha e a 119 eram só deles. — Também entendo que às vezes o bem maior é mais importante do que uma ótima reportagem. Ao contrário do New York Times.

— Na mosca — disse Barbie.

— E se você encontrar o gerador, não vou ter que passar muitos dias fazendo compras no Food City Detesto aquele lugar. — Ela pareceu se espantar. — Acha que vão abrir amanhã?

     — Eu diria que sim. As pessoas podem demorar pra entender a nova ordem quando a velha se altera.

— Acho melhor fazer umas comprinhas dominicais disse ela, pensativa.

— Aproveita pra dar um alô a Rose Twitchell. Provavelmente ela vai estar com o fiel Anson Wheeler. — Ao recordar o conselho que dera a Rose, riu e disse: — Carne, carne, carne.

— Como é?

— Se você tem um gerador em casa...

— Claro que eu tenho, moro em cima do jornal. Não é uma casa; é um ótimo apartamento. O gerador foi dedução fiscal. — Ela disse isso com orgulho.

— Então compra carne. Carne e enlatados, enlatados e carne.

Ela pensou um pouco. O centro da cidade estava logo à frente. Havia bem menos luzes do que de costume, mas ainda eram muitas. Por quanto tempo?, pensou Barbie. E Julia perguntou:

— O seu coronel te deu alguma idéia de como achar esse gerador?

— Nenhuma — disse Barbie. — Achar merda sempre foi o meu serviço. Disso, ele sabe. — Ele parou e perguntou: — Você acha que poderia ter algum contador Geiger na cidade?

— Eu sei que tem. No subsolo da Câmara de Vereadores. Na verdade, o subsubsolo, por assim dizer. Tem um abrigo antirradiação lá.

— Tá brincando!

Ela riu.

— Que nada, Sherlock. Fiz uma reportagem sobre ele há três anos. Pete Freeman tirou as fotos. No subsolo tem uma sala de reuniões grande e uma cozinhazinha. O abrigo fica meio lance de escadas abaixo da cozinha. De bom tamanho. Construído na década de 1950, quando o capital especulativo era todo investido aqui e sobrava dinheiro.

— A hora final — disse Barbie.

— É, é isso aí, e também Alas, Babylon. É um lugar bem deprimente. As fotos do Pete me lembraram o bunker do Führer pouco antes do fim. Tem uma espécie de despensa, prateleiras e mais prateleiras de enlatados, e meia dúzia de catres. E alguns equipamentos fornecidos pelo governo, como um contador Geiger.

— Os enlatados devem estar uma delícia depois de cinquenta anos.

— Na verdade eles renovam o estoque de vez em quando. Tem até um pequeno gerador que foi ligado depois do 11 de Setembro. Na prestação de contas da cidade, dá pra ver a dotação do abrigo a cada quatro anos. Eram uns trezentos dólares. Hoje são seiscentos. Você já tem o seu contador Geiger. — Ela lhe deu uma olhada rápida. — Claro que James Rennie cuida de tudo o que é da Câmara como se fosse propriedade pessoal, do sótão ao abrigo antirradiação, e vai querer saber pra que você quer o contador.

— Big Jim Rennie não vai saber — disse ele.

Ela aceitou sem comentários.

— Quer ir comigo até a redação? Assistir ao discurso do presidente enquanto começo a compor o jornal? Vai ser um serviço sujo e rápido, isso eu posso dizer. Uma reportagem, meia dúzia de fotos pra consumo local, nada de anúncio de Liquidação de Outono na Burpee.

Barbie pensou no caso. Estaria ocupado no dia seguinte, não só cozinhando como fazendo perguntas. Voltando ao velho serviço, tudo outra vez, à moda antiga. Por outro lado, se voltasse à sua casa em cima da drogaria, conseguiria dormir?

— Tudo bem. Provavelmente eu não deveria dizer isso, mas tenho muito talento pra office boy. E também faço um belo café.

— Moço, está contratado. — Ela ergueu do volante a mão direita aberta e Barbie bateu nela, palma contra palma.

— Posso perguntar mais uma coisa? Estritamente pra não ser publicada?

— Claro — disse ele.

— Esse gerador de ficção científica. Você acha que vai encontrar?

Barbie pensou bem enquanto ela estacionava ao lado da fachada que abrigava a redação do Democrata.

— Não — disse, finalmente. — Seria fácil demais.

Ela deu um suspiro e concordou. Depois, segurou os dedos dele.

— Acha que ajudaria se eu rezasse pelo seu sucesso?

— Mal não vai fazer — respondeu Barbie.

 

No Dia da Redoma, só havia duas igrejas em Chester’s Mill; ambas ofereciam mercadoria do ramo protestante (embora de maneiras bem diferentes). Os católicos iam à igreja de Nossa Senhora das Águas Serenas, em Motton, e os cerca de dez ou 12 judeus à Congregação Beth Shalom, em Castle Rock, quando sentiam necessidade de consolo espiritual. Já houvera uma igreja Unitária, mas morrera por abandono no final da década de 1980. Todos concordavam que, mesmo assim, era uma coisa meio hippie. Agora o prédio abrigava a livraria Novos e Usados Mill.

Naquela noite, os dois pastores de Chester’s Mill estavam “presos pelo joelho”, como dizia Big Jim Rennie, mas o modo de falar, o estado de espírito e as expectativas eram muito diferentes.

A reverenda Piper Libby, que cuidava do seu rebanho no púlpito da Primeira Igreja Congregacional, não acreditava mais em Deus, embora não dividisse isso com seus congregantes. Lester Coggins, por sua vez, acreditava a ponto de martírio ou loucura (duas palavras para a mesma coisa, talvez).

A reverenda Libby, ainda com roupas caseiras — e ainda bastante bonita, mesmo aos 45 anos, para ficar bem com elas —, ajoelhou-se diante do altar em quase total escuridão (a Congregacional não tinha gerador), com Clover, o seu pastor-alemão, deitado atrás dela com o focinho nas patas e os olhos a meio-pau.

— Olá, Não-Está — disse Piper. Não-Está era o nome particular que ela vinha dando a Deus. No início do outono, fora o Grande Talvez. No verão, o

Onipotente Pode-Ser. Ela gostara desse; tinha certa graça. — Você sabe a minha situação... Devia saber, já tenho Lhe enchido bastante os ouvidos... Mas não é disso que vim falar hoje. O que talvez seja um alívio pra Você.

Ela suspirou.

— Estamos numa confusão aqui, Amigo. Espero que Você entenda, porque eu certamente não. Mas nós dois sabemos que amanhã isso aqui vai estar cheio de gente atrás de ajuda contra desastres celestes.

Fazia silêncio dentro da igreja e do lado de fora. “Silêncio demais”, como dizem nos filmes antigos. Ela já vira Mill tão silenciosa numa noite de sábado? Não havia trânsito e as batidas graves da banda de fim de semana que estivesse tocando no Dipper’s (sempre anunciada como DIRETO DE BOSTON!) estavam ausentes.

— Não vou Lhe pedir que me mostre a Sua vontade, porque não estou mais convencida de que Você tenha mesmo vontade. Mas na possibilidade improvável de que Você esteja aí, afinal de contas, sempre há a possibilidade, fico muito contente de admitir, por favor, me ajude a dizer algo útil. Esperança não no paraíso, mas bem aqui na Terra. Porque... — Ela não se surpreendeu ao notar que começara a chorar. Agora ela chorava muito, embora sempre sozinha. Os habitantes da Nova Inglaterra desaprovavam com veemência lágrimas públicas de políticos e religiosos.

Clover, sentindo a angústia dela, gemeu. Piper lhe disse que se calasse e se virou de volta para o altar. Ela costumava pensar na cruz que havia ali como a versão religiosa da gravatinha da Chevrolet, um logotipo que só passara a existir porque alguém vira o desenho no papel de parede de um quarto de hotel em Paris cem anos antes e gostara dele. Quem considerava divinos aqueles símbolos só podia ser lunático.

Ainda assim, perseverou.

— Porque, como tenho certeza de que Você sabe, a Terra é o que nós temos. Do que temos certeza. Eu quero ajudar o meu povo. Esse é o meu trabalho e eu ainda quero fazê-lo. Supondo que Você esteja aí e que Se importa, pressupostos frágeis, admito, então, por favor, me ajude. Amém.

Ela se levantou. Não tinha lanterna, mas não previa dificuldades para encontrar a saída sem esbarrar em nada. Conhecia o lugar passo a passo e obstáculo a obstáculo. E também o amava. Não se enganava a respeito da falta de fé nem do amor teimoso a essa idéia.

— Vamos, Clove — disse ela. — Presidente daqui a meia hora. O outro Grande Não-Está. A gente pode ouvir no rádio do carro.

Clover a seguiu placidamente, sem se perturbar com questões de fé.

 

Lá na estrada da Bostinha (sempre chamada de Número Três pelos fiéis da Sagrado Redentor), havia uma cena muito mais dinâmica, sob brilhante luz elétrica. A casa de culto de Lester Coggins possuía um gerador tão novo que as etiquetas de transporte ainda estavam coladas na lateral laranja vivo. Ficava em abrigo próprio, também pintado de laranja, ao lado do depósito atrás da igreja.

Lester era um homem de 50 anos tão bem-conservado — tanto pela genética quanto pelo esforço extenuante de cuidar do templo do corpo — que não parecia ter mais de 35 (as aplicações criteriosas de xampu tonalizante masculino ajudavam nesse aspecto). Naquela noite, vestia apenas um short de ginástica com ORAL ROBERTS GOLDEN EAGLES escrito na perna direita, e quase todos os músculos do corpo se destacavam.

Durante os cultos (dos quais havia cinco por semana), Lester orava num tremolo extasiado de pastor televisivo, transformando o nome do Cara Lá de Cima numa coisa que parecia saída de um pedal de wah-wah com excesso de amplificação: não Deus, mas DEU-UEU-UEU-UEUS! Nas orações particulares, às vezes ele caía na mesma cadência sem perceber. Mas quando estava profundamente perturbado, quando precisava mesmo se aconselhar com o Deus de Moisés e Abraão, Aquele que viajara de dia como um pilar de fumaça e à noite como um pilar de fogo, Lester fazia o seu lado da conversa num grunhido profundo que o fazia parecer um cão prestes a atacar um intruso. Não sabia disso porque não havia ninguém na vida para ouvi-lo orar. Piper Libby era viúva, perdera o marido e os dois filhos pequenos num acidente há três anos; Lester Coggins era um solteirão que, quando adolescente, tivera pesadelos masturbatórios em que erguia os olhos para ver Maria Madalena em pé à porta do seu quarto.

A igreja era quase tão nova quanto o gerador, construída de madeira de bordo, vermelha e cara. Também era simples a ponto de ser dura. Atrás das costas nuas de Lester, estendia-se uma fila tripla de bancos sob um teto de vigas. A frente dele, ficava o púlpito: apenas um leitoril com uma Bíblia e uma grande cruz de sequóia pendurada diante de uma cortina de púrpura real. O balcão do coro ficava acima, à direita, com instrumentos musicais — inclusive a Stratocaster que o próprio Lester tocava às vezes — agrupados num canto.

— Deus, ouvi minha oração — disse Lester na sua voz grunhida de estou-mesmo-orando. Numa das mãos, segurava um pedaço de corda pesada com 12 nós, um nó para cada discípulo. O nono nó, o que significava Judas, fora pintado de preto. — Deus, ouvi a minha oração, peço em nome de Jesus crucificado e subido aos céus.

Ele começou a açoitar as próprias costas com a corda, primeiro sobre o ombro esquerdo, depois sobre o direito, o braço se erguendo e dobrando num movimento suave. Os bíceps e deltoides nada desprezíveis começaram a suar. Quando atingia a pele já com muitas cicatrizes, a corda com nós produzia um barulho de batedor de carpetes. Ele já fizera isso muitas vezes, mas nunca com tanta força.

— Deus, ouvi a minha oração! Deus, ouvi a minha oração! Deus, ouvi a minha oração! Deus, ouvi a minha oração!

Tap e tap e tap e tap. A ferroada como fogo, como urtiga. A afundar pelas estradas e retornos dos seus miseráveis nervos humanos. Ao mesmo tempo terríveis e terrivelmente satisfatórios.

— Senhor, pecamos nesta cidade, e sou o maior dos pecadores. Dei ouvidos a Jim Rennie e acreditei nas suas mentiras. Sim, acreditei, e eis o preço, e agora é como já foi. Não é apenas um que paga pelo pecado de um, mas muitos. O Senhor se enraivece devagar, mas quando a Vossa fúria vem, é como as tempestades que varrem o trigal, baixando não só uma haste, mas todas. Semeei o vento e colhi tempestade, não só para um, mas para muitos.

Havia outros pecados e outros pecadores em Mill — ele sabia disso, não era ingênuo, praguejavam, dançavam, trepavam, usavam drogas sobre as quais ele sabia demais — e sem dúvida mereciam ser punidos, ser flagelados, mas isso era verdade em todas as cidades, com certeza, e esta era a única que fora isolada para esse terrível ato de Deus.

Ainda assim... ainda assim... seria possível que essa estranha maldição não se devesse ao seu pecado? Sim. Possível. Mas não provável.

— Senhor, preciso saber o que fazer. Estou na encruzilhada. Se a Vossa vontade for que eu suba neste púlpito amanhã de manhã e confesse o que aquele homem me levou a fazer — os pecados que cometemos juntos, os pecados de que participei sozinho —, então o farei. Mas isso seria o fim do meu ministério, e é difícil para mim acreditar que seja essa a Vossa vontade numa hora tão decisiva. Se a Vossa vontade for que eu espere... espere para ver o que acontece depois... espere e ore com o meu rebanho para que esse fardo nos seja tirado... então farei. A Vossa vontade será cumprida, Senhor. Agora e sempre.

Ele parou a flagelação (conseguia sentir gotas quentes e confortadoras correndo pelas costas fluas; vários nós da corda tinham começado a ficar vermelhos) e virou o rosto manchado de lágrimas para as vigas do teto.

— Porque esse povo precisa de mim, Senhor. O Senhor sabe que precisam, agora mais do que nunca. Então... se for da Vossa vontade que essa taça seja removida dos meus lábios... por favor, dai-me um sinal.

Ele esperou. E então, o Senhor Deus disse a Lester Coggins:

— Vou mostrar-te um sinal. Vá até a tua Bíblia, como fizeste quando criança depois daqueles teus sonhos horríveis.

— Agora mesmo — disse Lester. — Agorinha mesmo.

Ele pendurou no pescoço a corda com nós, que lhe imprimiu no peito e nos ombros uma ferradura de sangue, e depois subiu ao púlpito com mais sangue escorrendo pelo oco da espinha e umedecendo a faixa elástica do short.

Ficou no púlpito como se fosse pregar (embora nunca, nem nos piores pesadelos, tivesse sonhado em pregar com tão pouca roupa), fechou Bíblia que ali estava aberta e depois os olhos.

— Senhor, a Vossa vontade será feita. Peço em nome do Vosso filho crucificado em vergonha e que ascendeu para a glória.

E o Senhor disse:

— Abre o Meu Livro e vê o que vês.

Lester fez o que lhe diziam (tomando cuidado para não abrir a grande Bíblia perto demais do meio — aquele era um serviço para o Antigo Testamento). Mergulhou o dedo na página não vista, depois abriu os olhos e se curvou para olhar. Era o segundo capítulo do Deuteronômio, versículo 28. E leu:

“O Senhor te ferirá com loucura, com cegueira e com pasmo de coração.”

Pasmo do coração provavelmente era bom, mas no total aquilo não era encorajador. Nem claro. Então o Senhor falou de novo e disse:

— Não pare aí, Lester.

Ele leu o versículo 29:

— Apalparás ao meio-dia...

— Sim, Senhor, sim — disse entredentes e continuou lendo.

— ... como o cego apalpa nas trevas, e não prosperarás nos teus caminhos; serás oprimido e roubado todos os dias, e não haverá quem te salve.

— Ficarei cego? — perguntou Lester, a sua voz grunhida de oração subindo de leve. — Oh, Senhor, por favor, não fazeis isso... mas se for vontade a Vossa vontade...

Então o Senhor lhe falou de novo e disse:

— Levantou-se do lado burro da cama hoje, Lester?

Os olhos dele se arregalaram. Era a voz de Deus, mas a frase era uma das favoritas da sua mãe. Um verdadeiro milagre.

— Não, Senhor, não.

— Então olha de novo, O que estou a te mostrar?

— Algo sobre loucura. Ou cegueira.

— Qual dos dois crês mais provável?

Lester examinou os versículos. A única palavra repetida era cego.

— É isso... Senhor, é este o meu sinal?

O Senhor respondeu, dizendo:

— Em verdade, sim, mas não a tua cegueira; pois agora os teus olhos veem com mais clareza. Procura tu o cego que enlouqueceu. Quando o vires, dirás à tua congregação o que Rennie andou aprontando por aí e o teu papel nisso. Os dois devem contar. Falaremos mais sobre isso, mas, por enquanto, Lester, vai dormir. Estás pingando no chão.

Lester foi, mas antes limpou os pequenos respingos de sangue na madeira de lei atrás do púlpito. Fez isso de joelhos. Não orou enquanto trabalhava, mas meditou sobre os versículos. Sentiu-se muito melhor.

Por enquanto, falaria apenas em termos gerais sobre os pecados que poderiam ter trazido aquela barreira desconhecida entre Mill e o mundo exterior; mas procuraria o sinal. Um cego ou cega que enlouquecera, em verdade, sim.

 

Brenda Perkins escutava a WCIK porque o marido gostava (tinha gostado), mas jamais poria os pés dentro da Igreja do Sagrado Redentor. Era congregacionista até os ossos e fazia questão de que o marido fosse com ela.

Tinha feito questão. Howie só entraria mais uma vez na igreja. Deitado lá, sem saber de nada, enquanto Piper Libby pregava a sua elegia fúnebre.

Essa percepção, tão nítida e imutável, a atingiu. Pela primeira vez desde que recebera a notícia, Brenda relaxou e gemeu. Talvez porque agora podia. Agora estava sozinha.

Na televisão, o presidente — parecendo solene e assustadoramente velho — dizia:

— Meus compatriotas americanos, vocês querem respostas. E prometo lhes dar respostas assim que as tiver. Nessa questão, não haverá segredos. A minha janela para os eventos será a sua janela. Esta é a minha promessa solene...

— Claro, e você tem uma ponte pra me vender — disse Brenda, e isso a fez chorar ainda mais, porque era uma das frases de Howie. Desligou a TV e deixou o controle remoto cair no chão. Teve vontade de pisar nele e quebrá-lo mas não o fez, principalmente porque conseguia ver Howie balançando a cabeça e lhe dizendo para não ser boba.

Em vez disso, entrou no pequeno escritório dele, querendo tocá-lo de algum jeito enquanto sua presença ali ainda estivesse fresca. Precisava tocá-lo. Nos fundos, o gerador roncava. Gordo e contente, teria dito Howie. Ela detestara a despesa com aquilo quando Howie o encomendara após o 11 de Setembro (Só pra prevenir, dissera), mas agora se arrependia de todas as palavras irritadas que dissera a respeito. Sentir saudades dele no escuro teria sido ainda mais terrível, mais solitário.

A mesa dele estava vazia, a não ser pelo laptop, que estava aberto. O protetor de tela era a foto de um antigo jogo da Liga Juvenil de Beisebol. Howie e Chip, então com 11 ou 12 anos, usavam as camisetas verdes dos Monarcas da Drogaria Sanders; a foto fora tirada no ano em que Howie e Rusty Everett levaram o time da Sanders à final do campeonato estadual. Chip estava com o braço em torno do pai e Brenda abraçava os dois. Um dia bom. Mas frágil. Frágil como uma taça de cristal. Quem saberia disso na época, quando ainda era possível esperar um pouco?

Ela ainda não conseguira entrar em contato com Chip, e a idéia desse telefonema — supondo que conseguisse dá-lo — a descompôs completamente. Aos soluços, caiu de joelhos ao lado da escrivaninha do marido. Não fechou as mãos; ficou com as mãos postas, palma contra palma, como fazia quando criança, ajoelhada com o pijama de flanela ao lado da cama, recitando o mantra Deus abençoe a mamãe, Deus abençoe o papai, Deus abençoe o meu peixinho dourado que ainda não tem nome.

— Deus, aqui é Brenda. Não quero ele de volta... quer dizer, querer eu quero, mas sei que o Senhor não pode fazer isso. Só me dê forças pra aguentar isso, ok? E eu queria saber se... Não sei se é blasfêmia ou não, provavelmente é, mas eu queria saber se... Se o Senhor deixaria ele falar comigo mais uma vez. Talvez me tocar mais uma vez, como hoje de manhã.

Ao pensar nisso — os dedos dele na pele dela sob o sol —, ela chorou ainda mais.

— Eu sei. O Senhor não lida com espíritos, só com o Espírito Santo, é claro, mas quem sabe num sonho? Sei que é pedir muito, mas... Ah, Senhor, tenho um buraco tão grande dentro de mim agora. Não sabia que as pessoas podiam ter buracos assim e tenho medo de cair lá dentro. Se o Senhor fizer isso por mim, faço qualquer coisa pelo Senhor. O Senhor só precisa pedir. Por favor, Senhor, só um toque. Ou uma palavra. Mesmo que seja num sonho. — Ela respirou fundo e molhado. — Obrigada. A vossa vontade será feita, é claro. Quer eu goste ou não. — Ela deu um risinho fraco. — Amém.

Ela abriu os olhos e se levantou, segurando a escrivaninha para se apoiar. Uma das mãos esbarrou no computador e a tela se iluminou de repente. Ele sempre se esquecia de desligá-lo, mas ao menos o mantinha na tomada para que a bateria não se esgotasse. E mantinha a área de trabalho bem mais arrumada do que ela fazia; a dela estava sempre cheia de arquivos baixados e lembretes eletrônicos. Na área de trabalho de Howie, sempre havia só três pastas empilhadas abaixo do ícone do disco rígido: ATUAL, onde ficavam relatórios das investigações em andamento; TRIBUNAL, onde ficava a lista de quem (inclusive ele) teria que prestar depoimento, onde e por quê. A terceira pasta era MANSÃO DA RUA MORIN, onde ele guardava tudo que tivesse a ver com a casa. Ela achou que, se abrisse esta, talvez achasse algo sobre o gerador, e seria bom saber como mantê-lo funcionando pelo maior tempo possível. Provavelmente Henry Morrison, da delegacia, não se incomodaria de mudar o cilindro de gás, mas e se não houvesse outro para trocar? Nesse caso, ela teria que comprar mais no Burpee ou no Posto de Gasolina & Mercearia antes que acabassem.

Ela pôs o dedo no mousepad e parou. Havia uma quarta pasta na tela, escondidinha lá no canto esquerdo. Nunca a vira antes. Brenda tentou se lembrar da última vez em que olhara a tela desse computador mas não conseguiu.

VADER era o nome da pasta.

Bom, só havia uma única pessoa na cidade que Howie chamava de Vader, como em Darth Vader: Big Jim Rennie.

Curiosa, ela levou o cursor à pasta e clicou duas vezes, para ver se era protegida por senha.

Era. Tentou WILDCATS, que abria a pasta ATUAL (ele não se incomodava em proteger TRIBUNAL), e funcionou. Na pasta havia dois documentos. Um se chamava INVESTIGAÇÃO EM ANDAMENTO. O outro era um PDF chamado CARTA DE PROGEM. Em “howiês”, isso queria dizer procurador-geral do estado do Maine. Ela clicou.

Brenda examinou a carta do procurador-geral com espanto cada vez maior, enquanto as lágrimas secavam no rosto. A primeira coisa em que os olhos caíram foi a saudação: não Prezado Chefe de Polícia Perkins, mas Caro Duke.

Embora a carta fosse redigida em “advoguês” e não em “howiês”, algumas expressões se destacaram como se estivessem negritadas. Apropriação indébita de bens e serviços municipais foi a primeira. Envolvimento do vereador Sanders parece praticamente certo foi a segunda. Em seguida, Essa prevaricação é mais ampla e profunda do que imaginávamos há três meses.

E, quase no final, parecendo não só em negrito como em maiúsculas: PRODUÇÃO E VENDA DE DROGAS ILÍCITAS.

Parecia que a sua oração fora atendida e de um jeito completamente inesperado. Brenda sentou-se na cadeira de Howie, clicou em INVESTIGAÇÃO EM ANDAMENTO na pasta VADER e deixou o marido falar com ela.

 

O discurso do presidente — longo em consolo, curto em informações — terminou à 0h21. Rusty Everett assistiu a ele no saguão do terceiro andar do hospital, deu uma última olhada nos gráficos e foi para casa. Na carreira médica, já chegara ao fim do dia mais cansado do que naquele, mas nunca se sentira mais desanimado nem mais preocupado com o futuro.

A casa estava às escuras. Ele e Linda tinham discutido a compra de um gerador no ano passado (e no ano anterior) porque sempre faltava luz em Chester’s Mill quatro ou cinco dias em cada inverno e, em geral, também umas duas vezes no verão; a Western Maine Power não era uma empresa de energia elétrica muito confiável. A conclusão fora que simplesmente não tinham como pagar. Talvez se Lin conseguisse ser efetivada em tempo integral na polícia, mas nenhum dos dois queria isso enquanto as meninas ainda fossem pequenas.

Ao menos temos um bom fogão e uma pilha de lenha daquelas. Se precisarmos.

Havia uma lanterna no porta-luvas, mas quando a acendeu ela emitiu uma luz fraca por cinco segundos e morreu. Rusty murmurou um palavrão e disse a si mesmo que precisava comprar pilhas amanhã — ou hoje mais tarde. Supondo que as lojas abrissem.

Se mesmo depois de 12 anos eu não encontrar o meu caminho por aqui, sou um macaco.

É, bem. Ele se sentia meio como um macaco naquela noite — um recém-capturado e trancado numa jaula no zoológico. O cheiro ao menos era o mesmo. Talvez um banho antes de dormir...

Nada disso. Sem luz, sem banho.

Era uma noite clara e, embora não houvesse lua, havia um bilhão de estrelas acima da casa, com a mesma cara de sempre. Talvez a barreira não existisse por cima. O presidente não falara dessa questão, e talvez os encarregados de investigar ainda não soubessem. Se Mill estivesse no fundo de um poço recém-criado em vez de presa debaixo de alguma campânula esquisita, talvez tudo desse certo. O governo poderia lançar suprimentos de avião. Sem dúvida, se o país podia gastar centenas de bilhões de dólares para salvar empresas, podia mandar de paraquedas alguns bolinhos prontos e alguns geradores bobos.

Subiu os degraus do pórtico tirando o chaveiro do bolso, mas quando chegou à porta viu algo pendurado em cima da fechadura. Curvou-se, franzindo os olhos, e sorriu. Era uma minilanterna. Na Liquidação de Verão da Burpee, Linda comprara seis por cinco pratas. Na época, ele achou que era uma despesa idiota e se lembrava até de pensar: As mulheres compram coisas em liquidação pela mesma razão que os homens escalam montanhas: porque estão lá.

Uma argolinha de metal saía da parte de baixo da lanterna. Passando por ela, estava o cadarço de um dos seus tênis velhos. Um bilhete tinha sido colado no cadarço com fita adesiva. Ele o tirou e jogou a luz em cima.

 

Oi, meu doce. Espero que esteja bem. As Jotinhas finalmente dormiram. Preocupadas e nervosas, mas acabaram capotando. Tenho que trabalhar amanhã o dia todo e é o dia todo mesmo, de 7 às 7, diz Peter Randolph (o novo chefe — AI). Marta Edmunds disse que ia ficar com as meninas, que Deus a abençoe. Tenta não me acordar. (Embora talvez eu não esteja dormindo.) Temo que dias dificeis virão, mas a gente sobrevive. Muita comida na despensa, graças a Deus.

Querido, sei que você está cansado, mas pode dar uma volta com a Audrey? Ela ainda está fazendo aquele Ganido Esquisito dela. Será que ela sabia que isso ia acontecer? Dizem que os cães conseguem sentir os terremotos, de repente...?

Judy Jannie dizem que amam o papai. Eu também.

Amanhã a gente dá um jeito a conversar, não é? Conversar e dar uma conferida. Estou meio assustada.

Lin

    

Ele também estava assustado e nada contente de a esposa ter que trabalhar 12 horas no dia seguinte quando ele teria que trabalhar 16 e até mais. E também nada contente de Judy e Janelle passarem o dia todo com Marta quando elas sem dúvida também estariam assustadas.

Mas o que o deixava menos contente ainda era ter que levar a golden retriever para passear quase à uma da manhã. Achava possível que ela tivesse sentido a chegada da barreira; sabia que os cães eram sensíveis a muitos fenômenos iminentes, não só a terremotos. Só que, se assim fosse, aquilo que ele e Linda chamavam de Ganido Esquisito devia ter acabado, certo? Naquela noite, no caminho de volta, os outros cachorros da cidade estavam quietíssimos. Sem latidos, sem uivos. Também não ouvira outros relatos de cães fazendo o Ganido Esquisito.

Talvez esteja dormindo na caminha ao lado do fogão, pensou ele ao destrancar a porta da cozinha.

Audrey não estava dormindo. Foi direto até ele, não pulando alegre como sempre — Você chegou! Você chegou! Ah, graças a Deus, você chegou! —, mas deslizando, quase se esgueirando, com o rabo enfiado entre as pernas, como se esperasse um golpe (que nunca recebera) em vez de um carinho na cabeça. E, isso mesmo, ela estava de novo fazendo o Ganido Esquisito. Na verdade, isso vinha de antes da barreira. Ela parava uns 15 dias e Rusty começava a esperar que tivesse acabado; então começava de novo, às vezes baixinho, às vezes alto. Hoje era alto — ou talvez só parecesse alto na cozinha escura em que as luzinhas digitais do fogão e do micro-ondas estavam apagadas e a lâmpada que Linda costumava deixar acesa acima da pia, escura.

— Para com isso, menina — disse ele. — Você vai acordar a casa inteira.

Mas Audrey não parou. Forçou a cabeça suavemente contra o joelho dele e o olhou dentro do facho de luz brilhante e estreito que ele trazia na mão direita. Ele juraria que o olhar era pidão.

— Tudo bem — disse ele. — Tudo bem, tudo bem. Passeio.

A guia pendia de um gancho ao lado da porta da despensa. Quando foi pegá-la (pendurando a lanterna no pescoço pelo cadarço), ela meneava na frente dele, mais como gato do que como cachorro. Se não fosse a lanterna, ele teria tropeçado nela. Seria um final grandioso para aquele dia de merda.

— Só um minuto, só um minuto, espera.

Mas ela latiu para ele e recuou.

— Quieta, Audrey! Quieta!

Em vez de se calar, ela latiu de novo, o som alto e chocante na casa adormecida. Ele levou um susto. Audrey correu para a frente, agarrou com os dentes a perna da calça dele e começou a andar de ré para o saguão, tentando paxá-lo junto.

Agora curioso, Rusty se deixou levar. Quando viu que ele ia, Audrey o soltou e correu para a escada. Subiu dois degraus, olhou para trás e latiu de novo.

Uma luz se acendeu no andar de cima, no quarto deles.

— Rusty? — Era Lin, a voz meio tonta.

— Sou eu sim — gritou ele, o mais baixo que pôde. — Na verdade, é a Audrey.

Ele seguiu o cachorro escada acima. Em vez de subir do jeito puladinho de sempre, Audrey parava toda hora para olhar para trás. Para quem tem cachorro, a expressão do animal costuma ser perfeitamente legível, e o que Rusty via agora era ansiedade. As orelhas de Audrey estavam caídas, o rabo ainda entre as pernas. O Ganido Esquisito subira para um novo nível. De repente, Rusty imaginou que houvesse um ladrão na casa. A porta da cozinha estava trancada, Lin costumava ser boa nisso de trancar tudo quando ficava sozinha com as meninas, mas...

Linda chegou ao alto da escada, amarrando o roupão de atoalhado. Audrey a viu e latiu de novo. Um latido de sai da minha frente.

— Audi, para com isso! — disse ela, mas Audrey passou correndo, esbarrando na perna direita de Lin com força suficiente para derrubá-la contra a parede. Então, desceu o corredor na direção do quarto das meninas, onde tudo ainda estava em silêncio.

Lin pescou a sua minilanterna no bolso do roupão.

— Meu Deus do céu...

— Acho melhor você voltar pro quarto — disse Rusty.

— Porra nenhuma! — Ela correu à frente dele, o facho claro da lanterninha pulando.

As meninas tinham 7 e 5 anos e, recentemente, tinham entrado na “fase da privacidade feminina”, como dizia Lin. Audrey chegou à porta delas, ergueu-se e começou a arranhá-la com as patas da frente.

Rusty alcançou Lin assim que ela abriu a porta. Audrey entrou num pulo, sem sequer olhar a cama de Judy. A menina de 5 anos estava profundamente adormecida.

Janelle não dormia. Nem estava acordada. Rusty entendeu tudo assim que o facho das duas lanternas convergiu sobre ela e se xingou por não ter notado antes o que acontecia, o que devia acontecer desde agosto, talvez até desde julho. Porque o comportamento de Audrey — o Ganido Esquisito — estava bem documentado. Ele simplesmente não vira a verdade bem diante do nariz.

Janelle, de olhos abertos mas totalmente virados para cima, não estava em convulsão — graças a Deus —, mas tremia toda. Derrubara a coberta com os pés, provavelmente no início, e com o facho duplo das lanternas dava para ver a mancha úmida na calça do pijama. A ponta dos dedos se mexia, como se ela se preparasse para tocar piano.

Audrey sentou-se ao lado da cama, fitando a mocinha com atenção enlevada.

— O que tá havendo com ela? — gritou Linda.

Na outra cara, Judy se mexeu e falou.

— Mãe? Tá na hora do café? Perdi o ônibus?

— Ela está tendo um ataque — disse Rusty

— Ora, ajuda ela! gritou Linda. — Faz alguma coisa! Ela vai morrer?

— Não — disse Rusty. A parte do seu cérebro que continuava analítica sabia, quase com certeza, que era só epilepsia menor, como deviam ter sido os outros ataques, senão já saberiam. Mas era diferente quando a vítima era da família.

Judy sentou-se de repente na cama, jogando bichos de pelúcia para todo lado. Os olhos estavam arregalados e apavorados e não se consolou muito quando Linda a arrancou da cama e a abraçou com força.

— Faz ela parar! Faz ela parar, Rusty!

Se fosse epilepsia menor, pararia sozinha.

Por favor, Senhor, faça com que pare sozinha, pensou ele.

Pôs as palmas das mãos no lado da cabeça de Jan, que tremia e se agitava, e tentou girá-la para cima, para garantir que as vias aéreas continuassem abertas. A princípio, não conseguiu; o maldito travesseiro de espuma lutava com ele. Jogou-o no chão. Ele bateu em Audrey ao cair, mas ela nem se mexeu e só manteve o olhar enlevado.

Então Rusty conseguiu inclinar para trás a cabeça de Jannie e ouvi-la respirar. Não era rápido; também não havia nenhuma ânsia por oxigênio.

— Mãe, o que tá acontecendo com a Jan Jan? — perguntou Judy, começando a chorar. — Ela tá maluca? Tá doente?

     — Maluca, não, e só um pouco doente. — Rusty se espantou com a calma da sua voz. — Por que você não vai com a mamãe lá pra nossa...

— Não! — gritaram as duas juntas, na harmonia perfeita de um dueto.

— Tudo bem — disse ele —, mas fiquem quietas. Não assustem ela quando acordar, porque é capaz de já estar assustada. Um pouco assustada — emendou. — Boa menina, Audi. Muito, muito boa menina.

Esses cumprimentos costumavam provocar em Audrey paroxismos de alegria, mas não naquela noite. Ela sequer balançou o rabo. Então, de repente, a cadela soltou um latidinho e se deitou, pousando o focinho numa das patas. Segundos depois, os tremores de Jan sumiram e os olhos se fecharam.

— Que coisa! — disse Rusty

— O quê? — Agora Linda estava sentada na beira da cama de Judy com a menina no colo. — O quê?

— Acabou — disse Rusty

Mas não tinha acabado. Ainda não. Quando Jannie voltou a abrir os olhos, eles estavam normais, mas não o viram.

— A Grande Abóbora! — gritou Janelle. — É culpa da Grande Abóbora! Você tem que parar a Grande Abóbora!

Rusty a sacudiu de leve.

— Você estava sonhando, Jannie. Um pesadelo, acho. Mas acabou e você está bem.

Por um instante ela ainda não estava totalmente ali, embora os olhos mudassem e ele soubesse que agora ela o via e ouvia.

— Acaba com o Halloween, papai! Você tem que acabar com o Halloween!

— Pode deixar, querida, O Halloween acabou. Completamente.

Ela piscou e depois ergueu a mão para afastar da testa o cabelo suado e embaraçado.

— O quê? Por quê? Eu ia ser a Princesa Leia! Por que tudo tem que dar errado na minha vida? — Ela começou a chorar.

Linda se aproximou — com Judy atrás, segurando a barra do roupão da mãe — e pegou Janelle no colo.

— Você ainda pode ser a Princesa Leia, querida, eu prometo.

Jan olhava os pais com espanto, desconfiança e medo crescente.

— O que vocês estão fazendo aqui? E por que ela tá acordada? — Apontando Judy.

— Você mijou na cama — disse Judy, metida, e quando Jan notou, notou e começou a chorar mais alto, Rusty teve vontade de dar umas boas palmadas em Judy. Ele se sentia um pai bastante esclarecido geralmente (ainda mais se comparado aos que costumava ver se esgueirando no Posto de Saúde com os filhos de braço quebrado e olho roxo), mas não naquela noite.

— Não importa — disse Rusty, abraçando Jan com força. — Não foi sua culpa. Você teve um probleminha, mas agora já acabou.

— Ela tem que ir pro hospital? — perguntou Linda.

— Só pro Posto de Saúde, e não agora. Amanhã de manhã. Vou dar um jeito nisso com os remédios certos.

— INJEÇÃO, NÃO! — berrou Jannie e começou a chorar com mais força ainda. Rusty adorou aquele som. Era um som saudável. Forte.

— Nada de injeção, querida. Comprimidos.

— Tem certeza? — perguntou Lin.

Rusty olhou a cadela, agora deitada calmamente com o focinho na pata esquecida de todo o drama.

— A Audrey tem certeza — disse ele. — É melhor ela passar a noite aqui com as meninas.

— Oba! — gritou Judy. Caiu de joelhos e abraçou Audi com extravagância.

Rusty pôs o braço em volta da esposa. Ela descansou a cabeça no ombro dele, como se estivesse cansada demais para sustentá-la.

— Por que agora? — perguntou ela. Por que agora?

— Não sei. Só temos que agradecer porque foi só epilepsia menor.

Nessa questão, a sua oração fora atendida.

 

LOUCURA, CEGUEIRA E PASMO DO CORAÇÃO

Joe Espantalho não acordou cedo; ficou acordado até tarde. A noite inteira, na verdade.

Esse seria Joseph McClatchey, 13 anos, também chamado de Rei dos Geeks e Esqueleto, morador da rua Mill, 19. Com 1,85m e 68kg, era mesmo esquelético. E era um incontestável crânio. Joe só ficou na oitava série porque os pais eram terminantemente contrários à prática de “pular” de ano.

Ele não se importou. Os amigos (para um gênio magrela de 13 anos, os tinha em número surpreendente) estavam lá. Além disso, os deveres eram facílimos e havia muitos computadores para mexer; no Maine, cada aluno do secundário ganhava o seu. É claro que alguns dos melhores sites eram bloqueados, mas Joe não demorou a vencer esses pequenos incômodos. Ele não tinha problemas em dividir a informação com os amigos mais íntimos, entre os quais estavam aqueles dois intrépidos jiraias do skate, Norrie Calvert e Benny Drake. (No período de estudo diário na biblioteca, Benny gostava especialmente de surfar pelo site Louras de Calcinha Branca.) Sem dúvida, o segredo compartilhado explicava parte da popularidade de Joe, mas não toda; os garotos simplesmente o achavam gente boa. O adesivo colado na sua mochila provavelmente era o que chegava mais perto de explicar o porquê. Dizia COMBATER O PODER ESTABELECIDO.

Joe era um aluno nota 10, armador confiável e às vezes brilhante do time de basquete da escola secundária (vaga na universidade ainda no sétimo ano!) e um craque no futebol. Sabia tocar piano e dois anos antes ganhara o segundo lugar no Concurso Natalino de Talentos da Cidade com uma dança descontraída e hilariante para “Redneck Woman”, de Gretchen Wilson. Fez os adultos da plateia aplaudirem e gritarem de tanto rir. Lissa Jamieson, bibliotecária-chefe da cidade, disse a ele que, se quisesse, podia ganhar a vida com aquilo, mas ser Napoleon Dynamite quando crescesse não era a ambição de Joe.

— Foi roubado — dissera Sam McClatchey, olhando entristecido a medalha de segundo lugar do filho. Devia ser mesmo verdade; o vencedor daquele ano fora Dougie Twitchell, que vinha a ser irmão da terceira vereadora. Twitch fizera malabarismo com uma dúzia de bastões, cantando Moon River.

Joe não se importara se havia sido ou não roubado. Perdera o interesse pela dança, assim como perdia o interesse pela maioria das coisas logo que as dominava até certo ponto. Mesmo o amor pelo basquete, que no quinto ano achara que seria eterno, estava passando.

Só a paixão pela internet, aquela galáxia eletrônica de possibilidades infinitas, não parecia esfriar.

A sua ambição, que não contava nem aos pais, era ser presidente dos Estados Unidos. Talvez, pensava às vezes, eu faça a dança de Napoleon Dynamite na cerimônia de posse. Aquela merda ficaria no YouTube pra sempre.

Joe ficou a noite toda na internet no dia em que a Redoma surgiu. Os McClatchey não tinham gerador, mas o laptop de Joe estava carregado e pronto para funcionar. Além disso, ele tinha meia dúzia de baterias de reserva. Incentivara os outros sete ou oito garotos do seu clube informal de computação a também ter baterias a mais, e ele sabia onde haveria outras caso necessário. Talvez nem fosse; a escola tinha um excelente gerador e ele achava que conseguiria recarregar lá sem problemas. Mesmo que a Escola Secundária Mill fechasse, o zelador, sr. Allnut, sem dúvida o ajudaria; o sr. Allnut também era fã de lourasdecalcinhabranca.com. Sem falar dos downloads de música country que Joe Espantalho lhe arranjava de graça.

Naquela primeira noite, Joe praticamente esgotou a sua conexão wi-fi indo de blog em blog com a agilidade nervosa do sapo que pula em pedras quentes. Cada blog era mais terrível que o anterior. Os fatos eram poucos, as teorias da conspiração vicejavam. Joe concordava com o pai e a mãe, que chamavam os teóricos da conspiração mais esquisitos que viviam na (e pela) internet de “malucos paranoicos”, mas também acreditava na ideia de que, quando se vê um monte de bosta de cavalo, é porque há algum pônei ali pela vizinhança.

No que o Dia da Redoma se transformava em Dia Dois, todos os blogs sugeriam a mesma coisa: o pônei, neste caso, não era o terrorismo, os invasores do espaço nem o Grande Cthulhu, mas o conhecido complexo industrial-militar. Os detalhes variavam de um site a outro, mas três teorias básicas surgiam em todos. Uma era que a Redoma consistia em algum tipo de experiência insensível na qual os moradores de Chester’s Mill eram porquinhos-da-índia. Outra, que era uma experiência que dera errado e fugira ao controle (“exatamente como naquele filme O nevoeiro”, escreveu um blogueiro). A terceira era que não havia experiência alguma, só um pretexto criado friamente para justificar a guerra com os pretensos inimigos dos Estados Unidos. “E VENCEREMOS!”, escreveu ToidjaSo87. “Porque, com essa nova arma, QUEM VAI NOS ENCARAR? Meus amigos, NÓS VIRAMOS OS NEW ENGLAND PATRIOTS [Equipe de futebol americano da região metropolitana de Boston] DAS NAÇÕES!!!!”

Joe não sabia se alguma dessas teorias era verdadeira. Ele não se importava muito. O que lhe interessava era o denominador comum a todas, o governo.

Era hora de uma manifestação, que naturalmente ele comandaria. E também não na cidade, mas lá na rodovia 119, onde poderiam esfregá-la no nariz do Sistema. No início talvez fosse só a turma de Joe, mas a coisa cresceria. Disso ele não tinha dúvida. O Sistema provavelmente ainda mantinha longe as tropas da imprensa, mas mesmo com 13 anos Joe era esperto o bastante para saber que isso não tinha tanta importância assim. Porque havia gente dentro daquelas fardas e cérebros pensantes atrás de ao menos algumas caras sem expressão. A presença militar como um todo podia representar o Sistema, mas haveria indivíduos escondidos no todo e alguns seriam blogueiros secretos. Espalhariam a notícia e alguns talvez acompanhassem seus relatos com fotos tiradas com o celular: Joe McClatchey e os amigos com cartazes dizendo ACABEM COM O SEGREDO, PAREM COM A EXPERIÊNCIA, LIBERTEM CHESTER’S MILL etc. etc.

— Preciso pôr cartazes na cidade também — murmurou. Mas isso não seria problema. Todos os seus camaradas tinham impressora. E bicicleta.

Joe Espantalho começou a mandar e-mails à primeira luz da aurora. Logo faria a ronda na sua bicicleta e pediria a Benny Drake que o ajudasse. Talvez Norrie Calvert também. Em geral, os membros do grupo de Joe se levantavam tarde nos fins de semana, mas Joe achou que todo mundo na cidade acordaria cedo naquela manhã. Sem dúvida o Sistema logo derrubaria a internet, como fizera com os celulares, mas por enquanto ela era a arma de Joe, a arma do povo.

Era hora de combater o poder.

 

— Parceiros, levantem a mão — disse Peter Randolph. Estava cansado, com os olhos inchados, em pé diante dos novos recrutas, mas também sentia uma certa felicidade carrancuda. O carro verde de chefe estava no estacionamento da delegacia, o tanque recém-enchido e pronto para sair. Agora era dele.

Os novos recrutas — Randolph pretendia chamá-los de Policiais Especiais no relato formal aos vereadores — ergueram a mão, obedientes. Na verdade, eram cinco, e um não era um rapaz, e sim uma moça robusta chamada Georgia Roux. Era cabeleireira desempregada e namorada de Carter Thibodeau. Junior sugerira ao pai que talvez devessem incluir uma moça para que todos ficassem contentes, e Big Jim concordara na mesma hora. A princípio, Randolph resistiu à ideia, mas quando Big Jim presenteou o novo chefe com o seu mais feroz sorriso, Randolph cedeu.

E tinha que admitir, enquanto recebia o juramento (com alguns policiais regulares como plateia), que eles sem dúvida pareciam durões o bastante. Junior perdera alguns quilos no verão passado e não estava nem perto do peso que tinha quando era um dos atacantes do time de futebol americano da escola, mas ainda contava com uns 85 quilos, e os outros, inclusive a moça, eram autênticos atletas.

Iam repetindo as palavras depois dele, frase por frase: Junior na extrema esquerda, ao lado do amigo Frankie DeLesseps; depois Thibodeau e a moça Roux; Melvin Searles na outra ponta. Searles exibia um sorriso vago de vou-à festa-da-cidade Randolph apagaria rapidinho aquela merda da cara dele se tivesse três semanas para treinar os garotos (droga, uma já resolvia), mas não tinha.

A única coisa em que ele não cedera a Big Jim fora na questão das armas de fogo. Rennie as defendera, insistindo que aqueles eram “jovens equilibrados, tementes a Deus” e dizendo que ele mesmo as forneceria, se necessário.

Randolph fizera que não.

— A situação é instável demais. Vejamos primeiro como eles se comportam.

— Se um deles se machucar enquanto você vê como se comportam...

— Ninguém vai se machucar, Big Jim — disse Randolph, torcendo para estar certo. — Aqui é Chester’s Mill. Se fosse Nova York, talvez fosse diferente.

 

Então Randolph disse:

— E, da melhor maneira possível, protegerei e servirei ao povo desta cidade.

Eles repetiram com tanta doçura quanto uma turma da Escola Dominical no Dia dos Pais. Até Searles, com o seu sorriso ausente, fez tudo direito. E pareciam bons. Nada de armas, ainda, mas ao menos tinham rádios. Cassetetes também. Stacey Moggin (que também cumpriria um turno na rua) achara camisas do fardamento para todos, menos para Carter Thibodeau. Não tinham nada que coubesse nele porque os ombros eram largos demais, mas a camisa azul simples que trouxera de casa parecia boa. Não era o fardamento regular, mas estava limpa. E a insígnia prateada presa no bolso esquerdo transmitia a mensagem necessária.

Talvez desse certo.

— E que Deus me ajude — disse Randolph.

— E que Deus me ajude — repetiram.

Com o canto do olho, Randolph viu a porta se abrir. Era Big Jim. Juntou-se nos fundos da sala a Henry Morrison, ao fungante George Frederick, a Fred Denton e ao olhar desconfiado de Jackie Wettington. Randolph sabia que Rennie estava lá para assistir ao juramento do filho. E como ainda estava sem graça por ter se recusado a dar armas aos novos rapazes (recusar qualquer coisa a Big Jim ia contra a natureza politicamente afinada de Randolph), o novo chefe então improvisou para agradar ao segundo vereador.

— E não vou levar desaforo pra casa.

— E não vou levar desaforo pra casa! — repetiram. Com entusiasmo. Agora todos sorrindo. Ansiosos. Prontos para ir à rua.

Big Jim fazia que sim e lhe mostrava o polegar erguido. Randolph sentiu-se expandir, sem saber que essas palavras se voltariam contra ele: Não vou levar desaforo pra casa.

 

Naquela manhã, quando Julia Shumway entrou no Rosa Mosqueta, a maior parte dos que foram tomar o café da manhã já tinha ido para a igreja ou para o fórum improvisado ria praça. Eram nove horas. Barbie estava sozinho; nem Dodee Sanders nem Angie McCain tinham aparecido, o que não surpreendeu ninguém. Rose fora ao Food City. Anson fora com ela. Seria bom se voltassem cheios de mantimentos, mas Barbie só acreditaria quando visse as mercadorias.

— Estamos fechados até o almoço — disse ele —, mas temos café.

— E pãozinho de canela? — perguntou Julia, esperançosa.

Barbie negou com a cabeça.

— Rose não fez. Pra preservar o gerador o máximo possível.

— Faz sentido — disse ela. — Só café, então.

Ele levara consigo a garrafa térmica e serviu o café.

— Você parece cansada.

— Barbie, todo mundo tá parecendo cansado hoje. E apavorado.

— Como vai o jornal?

— Tinha esperança de que saísse às dez, mas parece que só às três da tarde mesmo. O primeiro Democrata extra desde que o Prestile transbordou em 2003.

— Problemas de produção?

— Não, desde que o meu gerador continue funcionando. Só quero ir ao mercado pra ver se surge uma multidão. E fazer a reportagem, se surgir. Pete Freeman já está lá pra tirar fotos.

Barbie não gostava daquela palavra, multid4o.

— Jesus, espero que se comportem.

— Vão se comportar; aqui é Mill, afinal de contas, não Nova York.

Barbie não estava bem certo de que, sob estresse, houvesse tanta diferença assim entre ratos do campo e ratos da cidade, mas ficou de boca fechada. Ela conhecia os moradores melhor do que ele.

E Julia, como se lesse a mente dele:

— É claro que eu posso estar errada. Por isso mandei Pete. — Ela olhou em volta. Ainda havia algumas pessoas no balcão da frente, terminando os ovos e o café, e é claro que a mesa grande dos fundos — a “mesa do papo furado” em língua ianque — estava cheia de velhos ruminando o que acontecera e discutindo o que poderia acontecer depois. No entanto, o centro do restaurante era só dela e de Barbie.

— Tenho algumas coisas pra te contar — disse ela em voz baixa. — Para de esvoaçar feito Willie the Waiter [Personagem animado de um anúncio de cerveja da década de 1940] e senta.

Foi o que Barbie fez, e serviu-se de café. Era o fundo da garrafa e tinha gosto de óleo diesel... mas é claro que era no fundo da garrafa que ficava o grosso da cafeína.

Julia enfiou a mão no bolso do vestido, tirou o celular e o passou para ele.

— O seu amigo Cox ligou de novo às sete da manhã. Aposto que também não dormiu muito ontem à noite. Pediu que eu te desse isso. Não sabia que você tem o seu.

Barbie deixou o telefone ficar onde estava.

 

— Se ele já espera um relatório, superestimou demais a minha capacidade.

— Ele não disse isso. Disse que, se precisasse falar com você, queria poder conseguir.

Isso fez Barbie decidir. Empurrou o celular para ela de volta. Ela o pegou, sem parecer surpresa.

— Disse também que, se ele não te der notícias até as cinco da tarde, você devia telefonar. Ele vai ter mais informações. Quer o número com o DDD esquisito?

Ele suspirou.

— Quero.

Ela o escreveu num guardanapo: numerozinhos bonitos.

— Acho que vão tentar alguma coisa.

— O quê?

— Ele não disse; foi só uma sensação que eu tive de que tem várias opções na mesa.

— Ah, deve ter. O que mais você tá pensando?

— Quem disse que tou pensando alguma coisa?

— Foi só uma sensação que eu tive — disse ele, sorrindo.

— Certo, o contador Geiger.

— Tava pensando em conversar com Al Timmons sobre isso. — Ad era o zelador da Câmara de Vereadores, freguês do Rosa Mosqueta. Barbie tinha boas relações com ele.

Julia fez que não.

— Não? Por que não?

— Adivinha quem fez a AI um empréstimo pessoal sem juros pra mandar o filho caçula pra Universidade Herança Cristã do Alabama?

— Seria Jim Rennie?

— Isso. Agora vamos ao Show do Milhão, onde quem sabe ganha! Adivinha quem assinou os papéis do limpa-neve de Ad?

— Imagino que também tenha sido Jim Rennie.

— Correto. E como você é o cocô de cachorro que o vereador Rennie não consegue tirar da sola do sapato, pedir ajuda a quem deve favores a ele talvez não seja boa ideia. — Ela se inclinou à frente. — Mas também acontece que eu sei quem tem todas as chaves do reino: Câmara de Vereadores, hospital, posto de saúde, escolas, é só escolher.

— Quem?

— O falecido chefe de polícia. E acontece que eu conheço muito bem a mulher... a viúva dele. Ela não tem nenhum amor por James Rennie. Além disso, sabe guardar segredo quando alguém a convence de que é preciso.

— Julia, o marido dela ainda nem esfriou.

Julia pensou na lúgubre salinha de velório dos Bowie e fez uma careta de tristeza e desagrado.

— Talvez não, mas provavelmente já está na temperatura ambiente. Mas eu entendo o seu ponto de vista e aplaudo a sua compaixão. Só que... — Ela agarrou a mão dele. Isso surpreendeu Barbie, mas não lhe desagradou. — Essas não são circunstâncias comuns. E por mais que esteja de coração partido, Brenda Perkins vai entender. Você tem um serviço a fazer. Eu posso convencer ela disso. Você é o infiltrado.

— O infiltrado — disse Barbie e, de repente, lhe vieram duas lembranças mal recebidas: um ginásio em Fallujah e um iraquiano aos prantos, praticamente nu a não ser pelo hijab que se desenrolava. Depois daquele dia e daquele ginásio, ele perdera a vontade de ser um infiltrado. Mas ali ele era.

— Então eu...

Era uma manhã quente demais para outubro e, embora a porta agora estivesse trancada (as pessoas podiam sair, mas não entrar), as janelas estavam abertas. Pelas que davam para a rua principal, veio um barulho metálico oco e um grito de dor. Foi seguido por gritos de protesto.

Barbie e Julia se entreolharam por cima das xícaras de café, com a mesma expressão apreensiva de surpresa.

Está começando agora, pensou Barbie. Sabia que não era verdade; começara ontem, quando a Redoma caíra, mas ao mesmo tempo tinha certeza de que era verdade.

As pessoas no balcão correram até a porta. Barbie se levantou para se juntar a eles, e Julia foi atrás.

Na rua, na ponta norte da praça da cidade, o sino da torre da Primeira Igreja Congregacional começou a tocar, convocando os fiéis para o culto.

 

Junior Rennie estava se sentindo ótimo. Não tivera nenhuma sombra de dor de cabeça naquela manhã e o café da manhã estava quietinho no estômago. Achou que conseguiria até almoçar. Isso era bom. Ele não se dava muito bem com comida ultimamente; na metade das vezes, bastava olhar para sentir ânsia de vômito. Mas não naquela manhã. Panquecas com bacon, cara.

Se é o apocalipse, pensou, devia ter vindo mais cedo.

Cada Policial Especial fora posto para trabalhar em dupla com alguém da força regular em tempo integral. Junior tirou Freddy Denton, e isso também era bom. Denton, cada vez mais calvo mas ainda em forma aos 50 anos, era um durão famoso... mas havia exceções. Fora presidente do Wildcat Boosters Club quando Junior jogava futebol americano na escola secundária e diziam que nunca penalizara nenhum jogador da escola. Junior não podia falar por todos, mas sabia que Frankie DeLesseps fora salvo por Freddy uma vez e ele mesmo já ouvira duas vezes o velho “Não vou expulsar você dessa vez mas da próxima vá mais devagar”. Junior podia ter sido posto para trabalhar com Wettington, que não entendia de futebol americano e devia achar que first down queria dizer finalmente deixar um cara meter nela. Ela tinha um belo airbag, mas já ouviu falar em zé-mane? Além disso, ele não gostara muito do olhar gelado que ela lhe lançara após o juramento, quando ele e Freddy passaram por ela a caminho da rua.

Tenho pra você um espacinho sobrando na despensa. se se meter comigo, Jackie, pensou, e riu. Meu Deus, o calor e a luz no rosto eram tão bons! Há quanto tempo não se sentia tão bem?

Freddy o olhou.

— Qual é a graça, Junes?

— Nada, nada — disse Junior. — Estou numa maré de sorte, é só isso.

O serviço — ao menos naquela manhã — era patrulhar a pé a rua principal (“Para anunciar a nossa presença”, dissera Randolph), subindo por um lado, descendo pelo outro. Um trabalho bastante agradável sob o sol quente de outubro.

Estavam passando pelo Posto & Mercearia Mill quando ouviram vozes acaloradas lá dentro. Uma era de Johnny Carver, o sócio-gerente. A outra era arrastada demais para Junior identificar, mas Freddy Denton ergueu os olhos para o céu.

— Sam Relaxado Verdreaux, era só o que faltava — disse. — Que merda! E náo são nem nove e meia da manhã.

— Quem é Sam Verdreaux? — perguntou Junior.

A boca de Freddy se franziu numa linha branca que Junior conhecia desde a época em que jogavam futebol. Era a cara de Que merda, muita coisa pra explicar. E também Que merda, pra que que eu fui falar?

— Junes, você não conhece ainda a fina flor da sociedade de Mill. Mas já, já vai ser apresentado.

Carver dizia:

— Eu sei que já passou das nove, Sammy, e estou vendo que você tem dinheiro, mas não posso mais te vender vinho. Nem agora de manhã, nem à tarde, nem à noite. Talvez nem amanhã, a menos que essa confusão se resolva. Isso é coisa do Randolph. Ele é o novo chefe.

— É merda nenhuma! — respondeu a outra voz, mas tão arrastada que chegou aos ouvidos de Junior como se fosse Emélnium. — Pete Randolph é só resto de bosta no cu de Duke Perkins.

— Duke morreu e Randolph proibiu a venda de bebida. Sinto muito, Sam.

— Só uma garrafinha de T-Bird — gemeu Sam. Soumagarrfimtebâr. — Preciso dela. Eeee eu vou pagar. Vamos lá. Há quanto tempo eu sou seu freguês?

— Ah, merda. — Embora soasse enojado de si mesmo, Johnny estava se virando para olhar o mostruário comprido de cerveja e vinho quando Junior e Freddy vieram pelo corredor. Provavelmente, ele decidira que uma única garrafa daquele vinho barato seria um preço baixo a pagar para tirar da loja o velho pé de cana, ainda mais porque havia outros fregueses olhando e esperando ansiosos o desenrolar dos acontecimentos.

O cartaz escrito à mão com letras de imprensa no caixa dizia terminatemente NENHUMA VENDA DE BEBIDA ALCOÓLICA ATÉ SEGUNDA ORDEM, mas ainda assim o babaca estendia a mão para as bebidas, a dona no meio. Era ali que ficava a pinga barata. Junior estava na polícia há menos de duas horas, mas sabia que aquilo era má ideia. Se Carver cedesse ao pau-d’água desgrenhado, outros fregueses menos nojentos exigiriam o mesmo privilégio.

Freddy Denton aparentemente concordava.

— Não faz isso — disse a Johnny Carver. E a Verdreaux, que o encarava com olhos vermelhos de toupeira pega num incêndio no mato: — Não sei se você tem neurônios suficientes no cérebro pra ler o cartaz, mas eu sei que ouviu ele falar: nada de bebida hoje. Então, chispa. Fora. Está empesteando a loja.

— Seu guarda, o senhor não pode fazer isso — disse Sam, erguendo-se até o alto do seu 1,65m. Usava calças de sarja imundas, uma camiseta do Led Zeppelin, mocassins velhos com o calcanhar arrebentado. Parecia que o cabelo fora cortado pela última vez quando Bush II ia bem nas pesquisas. — Tenho os meus direitos. É um país livre. Está escrito assim na Constituição da Independência.

A Constituição foi cancelada em Mill — disse Junior, sem a mínima idéia de que era uma profecia. — Então, sebo nas canelas e fora. — Meu deus, como se sentia bem! Num único dia passara de tristeza e fatalidade a euforia e animação!

— Mas...

Sam ficou um momento ali parado com o lábio inferior tremendo, tentando arranjar mais argumentos. Junior observou com nojo e fascínio que os olhos do velho fodido se enchiam de lágrimas. Sam ergueu as mãos, que tremiam muito mais do que a boca frouxa. Só tinha mais um argumento a apresentar, mas era difícil de falar diante de uma plateia. Como era preciso, falou.

— Eu preciso mesmo, Johnny. Não é brincadeira. Só um pouco, pra parar de tremer. Vai durar bastante. E eu não vou aprontar nada. Juro pela minha mãe. Só vou pra casa. — Para Sam Relaxado, a casa era um barraco no fundo de um terreno horrivelmente nu com peças de carros velhos aqui e ali.

- Talvez eu devesse... — começou Johnny Carver.

Freddy o ignorou.

— Relaxado, nunca que uma garrafa durou na sua mão.

— Não me chama assim! — gritou Sam Verdreaux. As lágrimas transbordaram dos olhos e deslizaram pelo rosto.

— A sua calça está aberta, vovô — disse Junior, e quando Sam olhou para a braguilha das calças imundas, Junior enfiou o dedo pela parte mole sob o queixo do velho e lhe torceu o nariz. Um truque de escola primária, sem dúvida, mas não perdera o encanto. Junior chegou a dizer o que então diziam: “Roupa encardida, fuça torcida!”

Freddy Denton riu. Algumas pessoas também. Até Johnny Carver sorriu, embora parecesse não sentir muita vontade.

— Fora daqui, Relaxado — disse Freddy. — Está um lindo dia. Você não vai querer perdê-lo na cadeia.

Mas alguma coisa — talvez ser chamado de Relaxado, talvez ter o nariz torcido, talvez ambos — reacendeu parte da antiga fúria que espantara e amedrontara os parceiros de Sam quando ele era lenhador no lado canadense do Merimachee, quarenta anos antes. O tremor sumiu dos lábios e das mãos, ao menos temporariamente. Os olhos arderam sobre Junior, e ele soltou um ruído encatarrado mas inegavelmente desdenhoso ao limpar a garganta. Quando falou, a voz não se arrastava mais.

— Vai se foder, garoto. Você não é da polícia e nem futebol americano sabia jogar. Dizem que nunca chegou nem ao time reserva da faculdade.

O olhar passou para o policial Denton.

— E você, Guarda Belo. A venda aos domingos é legal depois das nove horas. É assim desde a década de 1970 e acabou a história.

Agora era para Johnny Carver que olhava. O sorriso de Johnny sumira e os fregueses que assistiam fizeram silêncio total. Uma mulher levou a mão à garganta.

— Tenho dinheiro, meio circulante, e vou levar o que é meu.

Começou a contornar o balcão. Junior o agarrou pelas costas da camisa e pelo traseiro da calça, girou-o e o levou para a frente da loja.

— Ei! — gritava Sam, enquanto os pés pedalavam sobre as velhas tábuas enceradas. — Tira as mãos de mim! Tira essas mãos de merda...

Pela porta, descendo os degraus, Junior segurava o velho à sua frente. Era leve como um saco de penas. E, Jesus, ele estava peidando! Pou-pou-pou, como uma maldita metralhadora.

A caminhonete fechada de Stubby Norman estava estacionada junto ao meio-fio, aquela com COMPRO E VENDO MÓVEIS e ANTIGUIDADES PELO MELHOR PREÇO nas laterais. O próprio Stubby estava ao lado dela, boquiaberto. Junior não hesitou. Jogou o velho bêbado que não parava de falar na lateral do veículo, de cabeça. A chapa metálica soltou um belo BONNG!

Só ocorreu a Junior que poderia ter matado aquela bosta fedorenta quando Sam Relaxado caiu feito pedra, metade na calçada, metade na sarjeta. Mas era preciso mais do que um choque na lateral de uma caminhonete velha para matar Sam Verdreaux. Ou para calá-lo. Ele berrou e depois passou a gritar. Ficou de joelhos. Jorrava escarlate pelo rosto, vindo do couro cabeludo, onde a pele se abrira. Ele limpou um pouco, olhou, descrente, e depois ergueu os dedos que pingavam.

O trânsito de pedestres na calçada parara tão completamente que alguém poderia achar que era um jogo de estátuas. Os pedestres fitavam de olhos arregalados o homem ajoelhado que mostrava a palma cheia de sangue.

— Vou processar essa merda de cidade por violência policial! — vociferou Sam. — E EU VOU GANHAR!

Freddy desceu os degraus da loja e ficou ao lado de Junior.

— Vamos lá, pode dizer — falou Junior.

— Dizer o quê?

— Que eu exagerei.

— Exagerou o caralho. Você ouviu o que o Pete disse: Não leve desaforo pra casa. Parceiro, isso começa aqui e agora.

Parceiro! O coração de Junior se alegrou com a palavra.

— Você não pode me expulsar se eu tenho dinheiro! — rugia Sam. — Não pode me bater! Sou um cidadão americano! Vou te levar pro tribunal!

— Boa sorte, então — disse Freddy. — O tribunal fica em Castle Rock e, pelo que eu sei, a estrada que vai até lá foi bloqueada.

Ele pôs o velho de pé. O nariz de Sam também sangrava e o fluxo transformara a camisa num babador vermelho. Freddy enfiou a mão nas costas da calça para pegar um par de algemas plásticas (Tenho que arranjar uma dessas, pensou Junior com admiração). Um instante depois, estavam nos pulsos de Sam.

Freddy olhou as testemunhas em volta — as que estavam na rua, as que lotavam a entrada do Posto & Mercearia.

— Este homem está sendo preso por perturbar a paz, interferir com o trabalho da Polícia e tentar um ataque! — disse com uma voz de cometa que Junior lembrava muito bem da época do campo de futebol. Gritada da lateral do campo, nunca deixara de irritá-lo. Agora, soava deliciosa.

Acho que eu estou crescendo, pensou Junior.

— Também está sendo preso por violar a nova lei seca baixada pelo chefe Randolph. Olhem bem! — Freddy sacudiu Sam. Voou sangue do rosto e do cabelo imundo de Sam. — Estamos numa situação de crise, amigos, mas há um novo xerife na cidade e ele pretende cuidar de tudo. É melhor se acostumar, entender e aprender a gostar. É o meu conselho. É só seguir e tenho certeza de que nós passaremos por essa situação sem problemas. Resistam e... — Ele apontou as mãos de Sam, algemadas com plástico às costas.

Algumas pessoas chegaram a aplaudir. Para Junior Rennie, o som foi como água fresca num dia quente. Então, quando Freddy começou a levar o velho ensanguentado à força pela rua, Junior sentiu os olhos caírem sobre ele. Uma sensação tão nítida que poderiam ser dedos a lhe cutucar a nuca. Ele se virou e lá estava Dale Barbara. Em pé com a editora do jornal a olhá-lo com olhos neutros. Barbara, que batera bastante nele naquela noite no estacionamento. Que machucara todos os três, antes que o peso dos números finalmente começasse a virar a situação.

A sensação boa de Junior começou a ir embora. Quase conseguia senti-la voando pelo alto da cabeça, como se fosse um passarinho. Ou morcegos de uma torre.

— O que você tá fazendo aqui? — perguntou a Barbara.

— Tenho uma pergunta melhor — disse Julia Shumway, lançando mão do seu sorrisinho apertado. — O que você tá fazendo, agredindo um homem com um quarto do seu peso e três vezes a sua idade?

Junior não conseguiu pensar em nada para dizer. Sentiu o sangue lhe corar o rosto e se espalhar pelas bochechas. De repente, viu a piranha do jornal na despensa dos McCain, fazendo companhia a Angie e Dodee. Barbara, também. Talvez deitado em cima da piranha do jornal, como se estivessem no meio do rala e rola.

Freddy veio salvar Junior. Falou com calma. Usava a cara impassível de policial conhecida no mundo inteiro.

— Qualquer problema com a atuação da polícia deve ser levado ao novo chefe, senhora. Enquanto isso, é bom lembrar que, por enquanto, estamos por conta própria. Às vezes, quando se está por conta própria, é preciso se estabelecerem certos exemplos.

— Às vezes, quando se está por conta própria, as pessoas fazem coisas de que se arrependem depois — respondeu Julia. — Em geral quando a investigação começa.

Os cantos da boca de Freddy viraram para baixo. Depois ele arrastou Sam pela calçada.

Junior olhou Barbie mais um instante e disse:

— É bom ter cuidado com essa sua boca perto de mim. E cuidado com o que faz. — Ele tocou de propósito a nova insígnia brilhante com o polegar. — Perkins morreu e eu sou a lei.

— Junior — disse Barbie —, você não parece muito bem. Está doente?

Junior o encarou com olhos um tanto arregalados. Depois se virou e foi atrás do novo parceiro. Os punhos estavam cerrados.

 

Em tempo de crise, a população tende a recorrer aos familiares em busca de consolo. Isso é verdade tanto para os religiosos quanto para os pagãos. Naquela manhã não houve surpresas para os fiéis de Chester’s Mill: Piper Libby pregou a esperança na Congregacional, e Lester Coggins pregou o fogo do inferno na Sagrado Cristo Redentor. Ambas as igrejas estavam lotadas.

O sermão de Piper foi sobre o Evangelho de João: Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei a vós, que também vós vos ameis uns aos outros. Ela disse aos que enchiam os bancos da Igreja Congregacional que a oração era importante em épocas de crise — o consolo da oração, o poder da oração —, mas que também era importante ajudar os outros, contar com os outros e amar os outros.

— Deus nos põe à prova com coisas que não entendemos — disse ela. — Às vezes, é uma doença. Às vezes, é a morte inesperada de um ente querido. — Ela olhou com solidariedade para Brenda Perkins, sentada de cabeça baixa e com as mãos no colo do vestido preto. — E agora há uma barreira inexplicável que nos isolou do mundo exterior. Não a entendemos, mas também não entendemos a doença, a dor nem a morte inesperada de pessoas boas. Perguntamos a Deus por que, e no Antigo Testamento a resposta é aquela que Ele deu a Jó: “Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra?” E no Novo Testamento, o mais esclarecido, eis a resposta que Jesus deu aos seus discípulos: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” É o que temos que fazer hoje e todos os dias até que essa coisa acabe: nos amarmos uns aos outros. Ajudar uns aos outros. E aguardar que a prova termine, como sempre acontece com as provas de Deus.

O sermão de Lester Coggins veio de Números (seção da Bíblia em que o otimismo não é a tônica): Estareis pecando contra o SENHOR; e estai certos de que vosso pecado vos há de atingir.

Como Piper, Lester mencionou o conceito da prova — um sucesso eclesiástico em todas as surumbambas da história —, mas seu tema principal tinha a ver com o contágio do pecado e como Deus cuidava dessas infecções, que parecia espremê-las com os Seus Dedos do mesmo modo que um homem espremia uma espinha incômoda até que o pus espirrasse como Colgate santo.

E como, mesmo à luz clara de uma linda manhã de outubro, ainda estava mais do que meio convencido de ser seu o pecado pelo qual a cidade estava sendo punida, Lester foi de uma eloquência especial. Houve lágrimas em muitos olhos e soavam gritos de “Sim, Senhor!” do canto de um amém a outro. Às vezes, quando estava inspirado assim, grandes ideias novas ocorriam a Lester ainda enquanto pregava. Uma delas foi naquele dia, e ele a proferiu imediatamente, sem muita pausa para pensar. Não precisava pensar. Algumas coisas são simplesmente claras demais, faiscantes demais, para não estarem certas.

— Esta tarde, vou até onde a rodovia 119 cruza o misterioso Portão de Deus — disse ele.

— Sim, Jesus! — gritou uma mulher em lágrimas. Outros bateram palmas ou as ergueram em testemunho.

— Por volta das duas horas. Vou me ajoelhar lá naquele pasto, pois é, e vou orar a Deus para que nos livre dessa aflição.

Dessa vez os gritos de Sim, Senhor e Sim, Jesus e Glória a Deus foram mais altos.

— Mas antes — Lester ergueu a mão com que açoitara as costas nuas na escuridão da noite. — Antes, vou orar sobre o PECADO que causou essa DOR e essa TRISTEZA e essa AFLIÇÃO! Se estiver sozinho, talvez Deus não me escute. Se estiver com dois, ou três, ou mesmo cinco, talvez Deus NEM ASSIM me escute, podem dizer amém.

Podiam. Disseram. Todos agora erguiam as mãos e balançavam de um lado para o outro, presos naquela febre do bom Deus.

— Mas se TODOS VOCÊS forem... se formos orar em círculo bem ali no capim de Deus, sob o céu azul de Deus... à vista dos soldados que eles dizem que guardam a obra da Mão justa de Deus... se TODOS VOCÊS forem, se NÓS TODOS formos orar juntos, então talvez consigamos chegar ao fundo desse pecado e arrastá-lo para a luz, para que morra, e fazer um milagre de Deus Todo-Poderoso! VOCÊS IRÃO? VOCÊS SE AJOELHARÃO COMIGO?

É claro que iriam. É claro que se ajoelhariam. Todos gostam de uma honesta reunião de oração perante Deus nos bons e nos maus tempos. E quando a banda tocou Whate’er My God Ordains is Right (“Tudo o que Deus ordena está certo”, em sol, com Lester na guitarra solo), cantaram até quase levantar o teto.

Jim Rennie estava lá, claro; fora Big Jim que organizara a carreata.

 

FIM DO SEGREDO!

LIBERTEM CHESTER’S MILL!

MANIFESTEM-SE! !!!

    

ONDE? Na Fazenda Dinsmore, na rodovia 119 (Basta procurar o CAMINHÃO BATIDO e os AGENTES MILITARES DA OPRESSÃO)!

QUANDO? 14 horas, HOO (Hora da Opressão de Outono)!

QUEM? VOCÊ e todos os Amigos que puder trazer! Diga que QUEREMOS CONTAR À MÍDIA A NOSSA HISTÓRIA! Diga que QUEREMOS SABER QUEM FEZ ISSO CONOSCO!

E POR QUÊ!

Principalmente, diga que QUEREMOS SAIR!!!

Esta cidade É NOSSA! Temos que lutar por ela! TEMOS QUE TOMÁ-LA DE VOLTA!!!!

Há alguns cartazes disponíveis, mas é melhor trazer o seu (e lembre-se: palavrões são contraproducentes).

 

COMBATER O PODER!

DERRUBAR O SISTEMA!

 

Comitê pela Libertação de Chester’s Mill

 

Na cidade, quem mais poderia adotar como lema pessoal a antiga frase de Nietzsche — “O que não me mata me torna mais forte” — era Romeo Burpee, um trambiqueiro com topetão de Elvis tiozão e botas pontudas de elástico lateral. Devia o nome à mãe franco-americana romântica; o sobrenome ao pai ianque e inflexível, prático até os ossos secos de pão-duro. Romeo sobrevivera à infância de insultos impiedosos — fora umas surras de vez em quando — e se tornara o homem mais rico da cidade. (Quer dizer... não, Big Jim era o homem mais rico da cidade, mas boa parte da sua riqueza tinha necessariamente de ficar escondida.) Rommie possuía a maior e mais lucrativa loja de departamentos independente de todo o estado. Na década de 1980, os seus possíveis sócios no empreendimento lhe disseram que estava louco de usar um nome tão feio quanto Burpee, que mais parecia um arroto. A resposta de Rommie foi que, se o nome não fizera mal à Burpee Seeds, não faria mal a ele. E agora o maior sucesso do verão eram camisetas com QUE TAL UM AÇAÍ NO BURPEE? escrito. Viram só, seus banqueiros sem imaginação?

Em boa medida, ele tivera sucesso ao reconhecer a grande oportunidade e persegui-la impiedosamente. Por volta das dez horas daquela manhã de domingo — pouco depois de ver Sam Relaxado ser arrastado para a delegacia — outra grande oportunidade surgiu. Como sempre acontece quando a gente está de olho nelas.

Romeo observou crianças colando cartazes. Feitos em computador e com aparência muito profissional. Os garotos — a maioria de bicicleta, alguns de skate — faziam um bom trabalho para cobrir a rua principal. Uma manifestação de protesto na 119. Romeu ficou imaginando de quem fora aquela ideia.

Alcançou um deles e perguntou.

— Foi ideia minha — disse Joe McClatchey.

— Sério?

— Claro que é sério — disse Joe.

Rommie deu Cinco pratas ao garoto, ignorando os seus protestos e enfiando a nota no fundo do bolso das costas dele. Valia a pena pagar por informações. Rommie achou que o povo iria à manifestação do garoto. Todos adoravam exprimir o medo, a frustração e a raiva virtuosa.

Pouco depois de mandar Joe Espantalho continuar, Romeo começou a ouvir gente falando sobre uma reunião de oração à tarde, comandada pelo pastor Coggins. Mesma bendita hora, mesmo bendito local.

Com certeza era um sinal. Que dizia: OPORTUNIDADE DE VENDAS AQUI.

Romeo entrou na loja, onde os negócios iam devagar. Quem foi às compras naquele domingo estava no Food City ou no Posto & Mercearia Mill. E eram minoria. A maioria estava na igreja ou em casa assistindo ao noticiário. Toby Manning estava atrás da registradora assistindo à CNN numa televisãozinha a pilha.

— Desliga essa charlatã e fecha a registradora — disse Romeo.

— O senhor tem certeza?

— Tenho. Pega a tenda grande no depósito. Manda a Lily ajudar.

— A tenda da Liquidação de Verão?

— Essa é a fofa — disse Romeo. — Vamos armá-la lá naquele capinzal onde caiu o avião do Chuck Thompson.

— O pasto do Alden Dinsmore? E se ele quiser dinheiro?

— A gente paga. — Romeo estava calculando. A loja vendia de tudo, inclusive produtos alimentícios com desconto, e havia mais ou menos umas mil embalagens de salsicha em oferta no congelador industrial dos fundos da loja. Ele as comprara da Happy Boy HQ, em Rhode Island (empresa agora falecida, um pequeno problema com micróbios, graças a Deus não E. coli), esperando vendê-las a moradores e turistas que estivessem planejando churras cos para o 4 de Julho. Não vendera tanto quanto esperava graças à maldita recessão, mas as guardara mesmo assim, com a teimosia do macaco que segura uma castanha. E agora, talvez...

Sirva-os naquelas varetinhas de jardim de Taiwan, pensou ele. Ainda tenho um bilhão daquela bosta. É só dar um nome bonitinho, como Frank-A-Ma-B0b5. Além disso, tinham talvez umas cem caixinhas de pó para limonada e laranjada Yummy Tummy, outro item com desconto que até então dera prejuízo.

— Vamos levar também a churrasqueira a gás. — Agora a cabeça dele funcionava como uma máquina de somar, e era assim que Romeo gostava que funcionasse.

- Toby começava a se empolgar.    

— No que o senhor está pensando, sr. Burpee?

Rommie foi inventariar tudo o que achava que teria de registrar como prejuízo. Aqueles cata-ventos baratinhos... o resto dos fogos do 4 de Julho... as balas velhas que estava guardando para o Halloween...

— Toby — disse ele —, vamos fazer a maior festa ao ar livre que essa cidade já viu. Anda. Temos muito a fazer.

 

Rusty fazia a ronda no hospital com o dr. Haskell quando o walkie-talkie que Linda insistira que levasse zumbiu no bolso.

A voz dela estava baixinha, mas nítida.

— Rusty, tenho mesmo que ir trabalhar. Randolph disse que parece que metade da cidade vai lá para a barreira da 119 hoje à tarde, alguns pra uma reunião de oração, outros pra uma manifestação. Romeo Burpee vai montar uma tenda e vender cachorro-quente, por isso pode esperar um monte de pacientes com gastroenterite hoje à noite.

Rusty gemeu.

— Vou ter que deixar as meninas com a Marta mesmo. — Linda parecia preocupada e na defensiva, uma mulher que sabia que, de repente, não era suficiente para cuidar de tudo. — Vou explicar a ela o problema da Jannie.

— Certo. — Ele sabia que, se lhe dissesse para ficar em casa, ela ficaria... e só conseguiria preocupá-la, bem na hora em que as preocupações começavam a diminuir um pouco. E se uma multidão aparecesse mesmo por lá, ela seria necessária.

— Obrigada — disse ela. — Obrigada por compreender.

— Só não esquece de mandar a cachorra pra Marta junto com as meninas — disse Rusty. — Você sabe o que o Haskell disse.

O dr. Ron Haskell — O Mágico — fora superprestativo com a família Everett naquela manhã. Fora superprestativo desde o início da crise, na verdade. Rusty nunca esperaria isso, mas estava muito grato. E podia ver, pelos olhos inchados e pela boca frouxa do velho, que Haskell estava pagando o preço. O Mágico era velho demais para crises médicas; hoje em dia, cochilar no saguão do terceiro andar estava mais de acordo com a sua velocidade. Mas, além de Ginny Tomlinson e Twitch, agora eram só Rusty e O Mágico para proteger o forte. Por muito azar, a Redoma caíra numa linda manhã de fim de semana na qual quem podia sair da cidade tinha saído.

Haskell, embora com quase 70 anos, ficara no hospital com Rusty até as 11 da noite anterior, quando Rusty literalmente o empurrou porta afora, e voltara às sete da manhã, quando Rusty e Linda chegaram com as filhas. E também com Audrey, que pareceu aceitar com bastante calma o novo ambiente do Cathy Russell. Judy e Janelle entraram ladeando a grande golden retriever, tocando-a para se tranquilizar. Janelle parecia apavoradíssima.

— O que há com o cachorro? — perguntou Haskell e, quando Rusty lhe explicou, fez um sinal de cabeça e disse a Janelle: — Vamos dar uma olhada, querida.

— Vai doer? — perguntou Janelle apreensiva.

— Hmmm... Será que ganhar bala depois de eu olhar os seus olhos dói?

Quando o exame acabou, os adultos deixaram as duas meninas e a cachorra no consultório e foram para o corredor. Os ombros de Haskell estavam caídos. O cabelo parecia ter embranquecido da noite para o dia.

— Qual o diagnóstico, Rusty? — perguntou Haskell.

— Epilepsia menor. Acho que causada por nervosismo e preocupação, mas Audi vem fazendo aquele Ganido Esquisito há meses.

— Certo. Vamos começar com Zarontin. Concorda?

— Concordo. — Rusty ficou comovido por ser consultado. Começava a se arrepender das coisas feias que dissera e pensara sobre Haskell.

— E mantenha o cachorro com ela, certo?

— Claro.

— Ela vai ficar bem, Ron? — perguntou Linda. Ainda não planejava trabalhar; planejava passar o dia em atividades tranquilas com as meninas.

— Ela está bem — disse Haskell. — Muitas crianças têm ataques de epilepsia menor. A maioria só tem um ou dois. Outras têm mais, por alguns anos, e depois eles passam. Raramente há danos duradouros.

Linda pareceu aliviada. Rusty torceu para que ela nunca viesse a saber o que Haskell não estava lhe contando: que, em vez de encontrar o caminho para sair da mata neurológica, algumas crianças sem sorte se afundavam mais, avançando para a epilepsia maior. E os ataques da epilepsia maior podem causar danos. Podem matar.

Agora, depois de terminar a ronda da manhã (só meia dúzia de pacientes um deles uma nova mamãe sem complicações) e torcer por uma xícara de café antes de correr para o Posto de Saúde, essa ligação de Linda.

— Tenho certeza de que a Marta vai gostar de ficar com Audi — disse ela.

— Ótimo. Você vai ficar com o rádio da polícia enquanto estiver de serviço, não é?

— Vou, claro.

— Então deixa o seu pessoal com a Marta. Combinem um canal de comunicação. Se acontecer alguma coisa com a Janelle, eu vou correndo.

— Tá bem. Obrigada, querido. Você não teria um jeito de dar uma chegada lá hoje à tarde?

Enquanto pensava nisso, Rusty viu Dougie Twitchell descer o corredor. Tinha um cigarro enfiado atrás da orelha e andava daquele jeito não-dou-a-mínima de sempre, mas Rusty viu preocupação no seu rosto.

— Talvez eu consiga matar o trabalho por uma hora. Mas não prometo.

— Tudo bem, mas seria tão bom ver você...

— Também acho. Toma cuidado. E fala pra todo mundo pra não comer cachorro-quente. Provavelmente faz 10 mil anos que estão guardados no congelador do Burpee.

É salsicha de mastodonte — disse Linda. — Câmbio e desligo, meu doce. Te procuro.

Rusty enfiou o walkie-talkie no bolso do guarda-pó branco e se virou para Twitch.

— O que há? E tira esse cigarro da orelha. Isso aqui é um hospital.

Twitch catou o cigarro do seu local de descanso e o olhou.

— Eu ia fumar junto do depósito.

— Má idéia — disse Rusty — É lá que ficam guardados os cilindros de gás.

— Foi isso que eu vim te contar. A maioria deles sumiu.

— Bobagem. Aquelas coisas são imensas. Não me lembro se contêm 11 mil ou 19 mil litros.

— O que você quer dizer? Que eu esqueci de olhar atrás da porta?

Rusty começou a esfregar as têmporas.

— Se eles, sejam quem forem, levarem mais de três ou quatro dias pra acabar com esse campo de força, vamos precisar de muito gás.

Até parece que eu não sei — disse Twitch. — De acordo com a ficha na porta, devia ter sete daqueles bichinhos, mas só tem dois. — Ele guardou o cigarro no bolso do guarda-pó branco. — Olhei o outro depósito só pra ter certeza, achei que alguém tivesse transferido os cilindros...

— Por que fariam isso?

Não sei, Ó Grande Sábio. De qualquer jeito, o outro é o depósito dos suprimentos mais importantes do hospital: material de jardinagem. Lá as ferramentas estão todas presentes e contadas, mas a bosta do adubo sumiu.

Rusty não dava a mínima para o adubo; estava preocupado com o gás.

— Bom, na hora do vamos ver, arranjamos mais no depósito da cidade.

— Você vai ter que brigar com o Rennie.

— Quando o Cathy Russell talvez seja a única opção se aquele coração dele travar? Duvido. Acha que tem possibilidade de eu dar uma escapulida hoje à tarde?

— Isso é com O Mágico. Parece que agora ele é o oficial comandante.

— Onde ele está?

— Dormindo no saguão. Ronca feito um condenado. Quer... acordar ele?

— Não — disse Rusty. — Deixa ele dormir. E de Mágico eu não chamo ele mais. Depois do que trabalhou desde que essa merda caiu, acho que merece coisa melhor.

— Tudo bem, sensei. Você atingiu um novo nível de iluminação.

— É isso aí, gafanhoto — disse Rusty.

 

Agora, veja isso; veja muito bem.

São 14h40 de outro dia lindíssimo e maravilhoso de outono em Chester’s Mill. Se a imprensa não tivesse sido afastada, estaria no paraíso das oportunidades para fotos — e não só porque as árvores estão totalmente em chamas. Os moradores presos na cidade migraram em massa para o pasto das vacas de Alden Dinsmore. Alden combinou uma taxa de uso com Romeo Burpee: seiscentos dólares. Ambos estão contentes, o fazendeiro porque arrancou do comerciante bem mais do que a oferta inicial de duzentos dólares, Romeo porque pagaria mil se pressionado.

Dos manifestantes e dos que clamam por Jesus, Alden não recebeu um único tostão furado. Mas isso não significa que não vá cobrar; o fazendeiro Dinsmore nasceu à noite, mas não ontem à noite. Quando essa oportunidade apareceu, ele demarcou uma grande área de estacionamento logo ao norte do local onde na véspera os fragmentos do avião de Chuck Thompson encontraram o seu descanso; e lá estacionou a mulher (Shelley), o filho mais velho (Ollie; você se lembra de Ollie) e o empregado (Manuel Ortega, um ianque sem greencard tão bom quanto todos os outros). Alden está cobrando cinco dólares por carro, uma fortuna para um pequeno produtor de leite que, nos últimos dois anos, mal conseguiu manter a fazenda longe das mãos do Keyhole Bank. Houve queixas sobre a cobrança, mas não muitas; cobram mais pelo estacionamento na Feira de Fryeburg e, a menos que quisessem estacionar à beira da estrada — já tomada nos dois lados pelos que chegaram cedo — e depois de andar quase um quilômetro até onde tudo acontecia, não tinham opção.

E que cena estranha e variada! Um circo de três picadeiros, sem dúvida, com os cidadãos comuns de Mill no papel de astros. Quando Barbie chega com Rose e Anse Wheeler (o restaurante fechou de novo, reabrirá para o jantar — só sanduíches frios, nada de chapa), os três fitam a cena em silêncio boquiabertos. Tanto Julia Shumway quanto Pete Freeman tiram fotos. Julia para o bastante para dar a Barbie o seu sorriso atraente mas um tanto voltado para dentro.

— Belo espetáculo, não acha?

Barbie sorri.

— Sim, senhora.

No primeiro picadeiro desse circo, temos os moradores que responderam aos cartazes pendurados por Joe Espantalho e seus voluntários. O quórum da manifestação foi bem satisfatório, quase duzentos, e os sessenta cartazes que os garotos fizeram (o mais popular: DEIXA A GENTE SAIR, PORRA!!) foram distribuídos em segundos. Por sorte, muitos trouxeram mesmo cartazes próprios. O favorito de Joe é o que tem grades de cadeia pintadas sobre um mapa de Mill. Lissa Jamieson não se limita a segurá-lo e o sacode agressivamente para baixo e para cima. Jack Evans está lá, pálido e triste. Seu cartaz é uma colagem de fotografias da mulher que sangrou até a morte na véspera. E grita: QUEM MATOU A MINHA MULHER? Joe Espantalho sente pena dele... mas que cartaz fantástico! Se a imprensa pudesse ver aquele, cagaria toda nas calças de felicidade.

Joe organizou os manifestantes num grande círculo que gira bem diante da Redoma, marcada por uma linha de passarinhos mortos no lado de Chester’s Mill (os do lado de Motton foram removidos pelos militares). O círculo dá à turma de Joe — é como ele vê aquelas pessoas — a oportunidade de brandir os seus cartazes para os guardas ali postados, que mantêm as costas resoluta e enlouquecedoramente viradas. Joe também distribuiu “palavras de ordem” impressas. Ele as escreveu com Norrie Calvert, a skatista ídola de Benny Drake. Além de ser sinistra em cima da pranchinha, Norrie fazia umas rimas simples mas massa, tá ligado? Uma delas é: Rá-rá-rá! Ril-ril-ril! Libertem logo Chester’s Mill! Outra: Foram vocês! Foram vocês! Confessem de uma vez! Joe, com verdadeira relutância, vetara outra obra-prima de Norrie que dizia: Fomos amordaçados! Fomos amordaçados! Cadê a imprensa, seus viados?

— A gente tem que ser politicamente correto nisso — foi o que dissera a ela. Agora o que ele está pensando é se Norrie Calvert é jovem demais para beijar. E se ela usaria a língua se ele a beijasse. Ele nunca beijou uma garota, mas se iam todos morrer como insetos famintos presos debaixo de um Tupperware, talvez fosse melhor beijar essa enquanto havia tempo.

No segundo picadeiro, está o círculo de orações do pastor Coggins. Estão realmente recebendo dons de Deus. E, numa bela demonstração de détente eclesiástica, o coro da Sagrado Redentor foi aumentado por uma dúzia de homens e mulheres do coro da Congregacional. Cantam Poderosa fortaleza é o nosso Deus, e um bom número de habitantes não afiliados que conhecem a letra cantam junto. As vozes sobem para o imaculado céu azul, e as exortações agudas de Lester e os améns e aleluias de apoio do círculo de fiéis entretecem o canto em contraponto perfeito (embora não em harmonia — isso seria ir longe demais). O círculo de orações não para de crescer, com outros moradores se ajoelhando para orar também, deixando temporariamente os pecados de lado para erguer as mãos dadas em súplica. Os soldados lhes viraram as costas; Deus, talvez não.

Mas o picadeiro central do circo é o maior e o mais extraordinário. Romeo Burpee armou a tenda da Liquidação de Verão bem longe da Redoma e 60 metros a leste do círculo de oração, calculando o local com base na leve brisa que sopra. Quer se assegurar de que a fumaça da sua fila de churrasqueiras portáteis chegue tanto aos que oram quanto aos que protestam. A única concessão ao aspecto religioso da tarde é mandar Toby Manning desligar o gravador, que berrava aquela música de James McMurtry sobre viver em cidade pequena; não combinou bem com How Great Thou Art e Won’t You Come to Jesus. O negócio vai bem e só vai melhorar. Disso Romeo tem certeza. Os cachorros-quentes — que degelam enquanto assam — podem incomodar certas barrigas mais tarde, mas têm o cheiro perfeito no sol quente da tarde; cheiro de quermesse de bairro, e não de grude da cadeia. As crianças correm brandindo cata-ventos e ameaçando pôr fogo no capim de Dinsmore com as estrelinhas que sobraram do 4 de Julho. Há copinhos de papel vazio que continham refresco cítrico em pó (horrível) ou café feito às pressas (pior ainda) jogados por toda parte. Mais tarde, Romeo mandará Toby Manning pagar dez pratas a algum garoto, talvez o de Dinsmore, para catar o lixo. Relações com a comunidade, sempre importantes. Agora, porém, Romeo está totalmente focado na caixa registradora improvisada, uma embalagem de papelão que já conteve papel higiênico Charm. Recebe verdinhas compridas e devolve prata curta: é o jeito americano de fazer negócios, meu bem. Cobra quatro pilas por cachorro-quente e quem disse que ninguém pagaria? Espera fazer ao menos 3 mil até o pôr do sol, talvez muito mais.

E vejam! Eis Rusty Everett! Conseguiu sair, afinal! Que bom! Ele quase gostaria de ter ido buscar as meninas — com certeza elas se divertiriam aqui, e ver tanta gente se divertindo poderia reduzir o medo —, mas talvez fosse empolgação demais para Jannie.

Avista Linda ao mesmo tempo que ela o vê e começa a acenar freneticamente, quase dando pulinhos. Com o cabelo preso nas tranças robustas de Policial Destemida que quase sempre usa quando trabalha, Lin parece uma líder de torcida da oitava série. Está em pé com Rose, irmã de Twitch, e o rapaz que prepara os pedidos no restaurante. Rusty fica um pouco surpreso; achava que Barbara tinha saído da cidade. Pegou o lado ruim de Big Jim Rennie. Uma briga de bar, foi o que disseram a Rusty, embora não estivesse de plantão quando os participantes chegaram para ser remendados. Ótimo para Rusty. Ele já tinha remendado o seu quinhão de fregueses do Dipper’s.

Ele abraça a esposa, lhe beija a boca e depois tasca um beijo no rosto de Rose. Aperta a mão do cozinheiro e é reapresentado.

— Olha aqueles cachorros-quentes — lamenta Rusty — Oh, céus.

— É melhor preparar os penicos, doutor — diz Barbie, e todos riem. É espantoso rir nessas circunstâncias, mas não são os únicos... e, meu bom Deus, por que não? Quem não consegue rir quando a situação vai mal, rir e fazer uma festinha, está morto ou a fim de morrer.

— Isso é divertido — diz Rose, sem saber que a diversão logo acabará. Um Frisbee passa voando. Ela o agarra no ar e o lança de volta a Benny Drake, que pula para pegá-lo e depois gira para jogá-lo para Norrie Calvert, que o pega pelas costas, a exibida! O círculo de orações ora. O coro misto, que agora realmente encontrou a voz certa, passou para o eterno campeão de audiência Avante, soldados cristãos. Uma menina, no máximo a idade de Judy, a saia esvoaçando em torno dos joelhos gorduchos, passa com uma estrelinha numa das mãos e um copinho da limonada horrorosa na outra. Os manifestantes giram e regiram num círculo cada vez maior, entoando Rá-rá-rá! Ril-ril-ril! Libertem logo Chester Mill! No céu, nuvens fofinhas com a parte inferior sombreada flutuam para o norte vindas de Motton... e depois se dividem ao se aproximar dos soldados, contornando a Redoma. O céu diretamente acima é de um azul sem nuvens nem falhas. No pasto de Dinsmore, há quem estude essas nuvens e se pergunte como será o futuro da chuva em Chester’s Mill, mas isso ninguém fala em voz alta.

— Queria saber se a gente ainda vai estar se divertindo domingo que vem — diz Barbie.

Linda Everett o olha. Não é um olhar amistoso.

— Claro que você acha que antes disso...

Rose a interrompe.

— Olha lá. Aquele garoto não devia estar dirigindo aquele carrinho tão depressa, vai acabar virando. Detesto esses quadriciclos.

Todos olham o pequeno veículo de pneu-balão e o veem cortar uma diagonal pelo feno branco de outubro. Não na direção deles exatamente, mas com certeza na direção da Redoma. Vai depressa demais. Alguns soldados escutam o motor se aproximar e finalmente se viram.

— Jesus Cristo, não permita que ele bata — gemeu Linda Everett.

Rory Dinsmore não bate. Seria melhor se tivesse batido.

    

As idéias são como micróbios de resfriado: mais cedo ou mais tarde, alguém pega. Os chefes do Estado-Maior conjunto já tinham contraído aquela: fora ventilada em várias reuniões das quais participou o coronel James O. Cox, antigo chefe de Barbie. Mais cedo ou mais tarde, alguém em Mill acabaria contaminado pela mesma idéia, e não era de todo surpreendente que esse alguém fosse Rory Dinsmore, de longe a ferramenta mais afiada da caixa da família Dinsmore (“Não sei de onde ele tirou isso”, disse Shelley Dinsmore quando Rory levou para casa o primeiro boletim nota 10... e com voz mais preocupada do que orgulhosa). Se morasse na cidade — e se tivesse computador, o que não tinha —, Rory sem dúvida, participaria do grupo de Joe Espantalho McClatchey.

Rory fora proibido de comparecer ao festival/reunião de oração/manifestação; em vez de comer cachorros-quentes esquisitos e ajudar no estacionamento, o pai lhe deu a ordem de ficar em casa e alimentar as vacas. Quando terminou, teria de untar os seus úberes com pomada de lanolina, serviço que ele detestava. “E quando aquelas tetas estiverem lisinhas e brilhantes”, disse o pai, “pode varrer os celeiros e amarrar alguns fardos de feno”.

Ele estava sendo castigado por se aproximar da Redoma ontem depois que o pai proibiu expressamente. E realmente batendo nela, pelo amor de Deus. Dessa vez, apelar à mãe, coisa que quase sempre funcionava, não adiantou.

— Você podia ter morrido — disse Shelley. — Além disso, o seu pai disse que você falou coisa feia.

— Eu só disse o nome do cozinheiro! — protestou Rory, e por isso o pai mais uma vez lhe deu a maior bronca, enquanto Olhe olhava com aprovação calada e presunçosa.

— Você é esperto demais para o seu próprio bem — disse Alden.

Em segurança atrás do pai, Ollie lhe mostrou a língua. Mas Shelley viu... e deu a maior bronca em Ollie. No entanto, não lhe proibiu os prazeres e atrações da feira improvisada daquela tarde.

— E não encosta naquele maldito tratorzinho — disse Alden, apontando o quadriciclo estacionado na sombra entre os estábulos 1 e 2. — Se precisar mexer com o feno, carrega. Vai deixar você mais forte. — Pouco depois, os Dinsmore burros saíram juntos, cruzando o pasto rumo à tenda de Romeo. O esperto ficou para trás com um forcado e um pote de pomada de lanolina do tamanho de um vaso de flores.

Rory cumpriu as tarefas de mau humor mas com atenção; a mente veloz às vezes o punha em encrencas, mas apesar de tudo era um bom filho, e a idéia de fugir às tarefas-castigo nunca lhe passou pela cabeça. A princípio, nada lhe passou pela cabeça. Ele estava naquele estado de graça em que a cabeça fica quase vazia e que às vezes é solo muito fértil; é a terra na qual, de repente, brotam os nossos sonhos mais vistosos e as maiores ideias (tanto as boas quanto as terrivelmente más), geralmente já crescidas. Mas sempre há uma cadeia de associações.

Quando começou a varrer o corredor principal do celeiro 1 (ele resolveu deixar o odioso untar das tetas para o final), Rory escutou um rápido pop-pôu-pá que só podia ser uma fieira de traques. Soava um pouco como tiros de espingarda. Isso o fez pensar na espingarda .30-.30 do pai, pendurada no armário da frente. Os meninos eram proibidos de tocá-la, a não ser sob estrita supervisão — praticando tiro ao alvo ou na temporada de caça —, mas ninguém trancava o armário e a munição ficava na prateleira de cima.

E veio a idéia. Rory pensou: Eu poderia abrir um buraco naquela coisa. Talvez estourá-la. Viu uma imagem bem clara e nítida de tocar uma bola de encher com um fósforo.

Largou a vassoura e correu para casa. Como muita gente inteligente (em especial crianças inteligentes), o seu ponto forte era a inspiração, não a reflexão. Se tivesse uma ideia daquelas (o que seria bem improvável), o irmão mais velho pensaria: se um avião não conseguiu passar, nem um caminhão a toda, qual a chance de uma bala? Também poderia ter raciocinado: Já estou de castigo por desobedecer, e isso é desobediência elevada à nona potência.

Bom.., não, Olhe provavelmente não pensaria assim. A capacidade matemática de Olhe se encerrara na multiplicação simples.

Rory, no entanto, já aprendia a álgebra do pré-vestibular, e matando a pau. Se lhe perguntassem como uma bala conseguiria o que um caminhão e um avião não tinham conseguido, ele diria que o efeito do impacto de uma Winchester Elite XP3 seria muito maior do que o deles. Fazia sentido. Por um lado, a velocidade seria maior. Por outro, o impacto propriamente dito estaria concentrado na ponta de uma bala de 11 gramas. Estava certo de que funcionaria. Tinha a elegância inquestionável de uma equação algébrica.

Rory viu o seu rosto sorridente (mas modesto, é claro) na primeira página do jornal USA Today; entrevistado em programas noturnos; sentado num balão enfeitado de flores num desfile em sua homenagem, com meninas do tipo rainha do baile a cercá-lo (provavelmente de vestido tomara que caia, talvez de maiô), enquanto ele acenava para a multidão e o confete caía em ondas. Ele seria O MENINO QUE SALVOU CHESTER’S MILL!

Pegou a espingarda no armário, buscou a escadinha e agarrou uma caixa de munição da prateleira. Enfiou dois cartuchos na culatra (um de reserva) e depois saiu correndo com a espingarda acima da cabeça como um rebelista vencedor (mas é preciso admitir: travou a alavanca de segurança sem sequer pensar). A chave do quadriciclo Yamaha que o tinham proibido de dirigir estava pendurada com as outras chaves no celeiro 1. Ele segurou o chaveiro com os dentes enquanto, com cordóes elásticos, prendia a espingarda na traseira do quadriciclo. Ficou se perguntando se haveria algum som quando furasse a Redoma. Talvez devesse ter pegado os protetores de ouvido na prateleira de cima do armário, mas voltar para buscá-los era impensável; tinha que fazer aquilo agora.

É assim com as grandes ideias.

Ele contornou o celeiro 2 com o quadriciclo, parando apenas o suficiente para avaliar a multidão no pasto. Empolgado como estava, sabia que não devia se dirigir para onde a Redoma atravessava a estrada (e onde as manchas das colisões de ontem ainda pendiam como sujeira numa vidraça não lavada). Alguém poderia detê-lo antes que estourasse a Redoma. Aí, em vez de ser O MENINO QUE SALVOU CHESTER’S MILL, acabaria sendo O MENINO QUE ESPREMEU TETAS DE VACA POR UM ANO. É, e na primeira semana teria que fazer isso de joelhos, com a bunda doída demais para sentar. Alguém acabaria recebendo o crédito pela sua grande ideia.

Então, seguiu numa diagonal que o levaria até a Redoma a uns 500 metros da tenda, marcando o lugar de parar pelas marcas esmagadas no feno. Essas ele sabia que tinham sido feitas pelos passarinhos caídos. Viu os soldados estacionados naquela área se virarem com o barulho do quadriciclo que se aproximava. Ouviu gritos de aviso do povo na feira e nas orações. O canto do hino parou discordante.

O pior de tudo: ele viu o pai acenar para ele o boné sujo da John Deere e berrar “RORY PUTA QUE PARIU PARA!”

Rory fora longe demais para parar e, bom filho ou não, não queria parar. O quadriciclo bateu num montinho e ele pulou no assento, segurando-se com ambas as mãos e rindo feito doido. O seu boné da Deere estava virado para trás e ele nem se lembrava de tê-lo virado. O quadriciclo adernou mas decidiu ficar em pé. Quase lá agora, e um dos soldados fardados também lhe gritava que parasse.

Rory parou e tão de repente que quase deu uma cambalhota sobre o corrimão do Yamaha. Esqueceu de pôr o veículo no neutro e o tratorzinho deu um sacolejo à frente, chegando a bater na Redoma antes de parar. Rory ouviu o barulho do metal amassado e o do farol se estilhaçando.

Os soldados, com medo de serem atingidos pelo veículo (o olho que não vê nada para deter o objeto que se aproxima desperta instintos fortes), pularam para os lados, deixando um belo buraco e poupando Rory da necessidade de lhes dizer que se afastassem de uma possível explosão. Queria ser herói, mas não queria matar nem machucar ninguém com isso.

Tinha que se apressar. As pessoas mais próximas do ponto no qual parara eram as que estavam no estacionamento e amontoadas em torno da tenda da Liquidação de Verão, e corriam como doidas. O pai e o irmão estavam entre eles, ambos gritando para que não fizesse o que planejava fazer.

Rory soltou a espingarda dos elásticos, apoiou a coronha no ombro e mirou a barreira invisível, um metro e meio acima de um trio de pardais mortos.

— Não, garoto, má ideia! — berrou um dos soldados.

Rory não lhe deu atenção, porque era uma boa ideia. As pessoas da tenda e do estacionamento já estavam perto. Alguém — foi Lester Coggins, que corria muito melhor do que tocava guitarra — gritou:

— Em nome de Deus, filho, não faz isso!

Rory puxou o gatilho. Não; só tentou. A trava de segurança ainda estava no lugar. Ele olhou por sobre o ombro e viu o pastor alto e magro da igreja dos bíblias ultrapassar o pai ofegante e de cara vermelha. A fralda da camisa de Lester saíra da calça e flutuava. Os olhos dele estavam arregalados. O chapeiro do Rosa Mosqueta vinha logo atrás. Agora estavam a menos de 60 metros e parecia que o reverendo engatara a quarta marcha.

Rory soltou a trava.

— Não, garoto, não!— gritou o soldado outra vez, ao mesmo tempo que se agachava do seu lado da Redoma e erguia as mãos abertas.

 

Rory não lhe deu atenção. É assim com as grandes idéias. Atirou.

Infelizmente para Rory, foi um tiro perfeito. O projétil de alto impacto atingiu a Redoma a queima-roupa, ricocheteou e voltou feito uma bola de borracha numa corda. Rory não sentiu dor imediata, mas um imenso lençol de luz branca lhe encheu a cabeça quando o menor dos dois fragmentos do projétil lhe arrancou o olho esquerdo e se abrigou no cérebro. O sangue voou num jorro e depois correu pelos seus dedos quando ele caiu de joelhos, agarrando o rosto.

— Estou cego! Estou cego! — gritava o menino, e imediatamente Lester pensou no versículo em que o seu dedo caíra: loucura, cegueira e pasmo do coração.

— Estou cego! Estou cego!

Lester afastou as mãos do menino e viu o buraco cheio e vermelho. Os restos do olho pendiam na bochecha de Rory. Quando virou a cabeça para Lester, os restos respingados caíram no capim.

Lester teve um momento para abrigar a criança nos braços antes que o pai chegasse e o arrancasse dele. Tudo bem. Era assim que devia ser. Lester pecara e pedira orientação ao Senhor. A orientação fora dada, a resposta fornecida. Agora sabia o que tinha que fazer quanto aos pecados a que fora levado por James Rennie.

Uma criança cega lhe mostrara o caminho.

 

PIOR NÃO É IMPOSSÍVEL

Mais tarde, Rusty Everett se lembraria é da confusão. A única imagem que se destacou com total clareza foi o tronco nu do pastor Coggins: carne branca como barriga de peixe e as costelas bem marcadas.

Barbie, entretanto — talvez por ter sido encarregado pelo coronel Cox de voltar ao papel de investigador —, viu tudo. E a sua lembrança mais clara não foi de Coggins sem camisa; foi de Melvin Searles lhe apontando o dedo e depois inclinando a cabeça de leve — linguagem de sinais que todo homem reconhece como Isso não vai ficar assim, neném.

O que todos os outros recordaram — o que fez com que entendessem a situação da cidade talvez mais do que todo o resto — foram os gritos do pai a segurar nos braços o menino ferido e ensanguentado e a mãe berrando “Ele está bem, Alden? ELE ESTÁ BEM?” enquanto se esforçava para levar os 20 quilos a mais do seu corpanzil até a cena.

Barbie viu Rusty Everett abrir caminho à força no círculo que se juntava em torno do menino e se unir aos dois homens ajoelhados, Alden e Lester. Alden embalava o filho nos braços enquanto o pastor Coggins fitava tão boquiaberto quanto um portão com a dobradiça quebrada. A mulher de Rusty estava logo atrás dele. Rusty caiu de joelhos entre Alden e Lester e tentou tirar do rosto as mãos do menino. Alden — o que não surpreende, na opinião de Barbie — prontamente lhe deu um soco. O nariz de Rusty começou a sangrar.

— Não! Deixa ele ajudar! berrou a mulher do auxiliar médico.

Linda, pensou Barbie. O nome dela é Linda, e ela é policial.

— Não, Alden! Não! — Linda pôs a mão no ombro do fazendeiro e ele se virou, parecendo prestes a socá-la. Todo o bom-senso sumira do seu rosto; era um animal protegendo a cria. Barbie avançou para segurar o punho dele caso o fazendeiro o erguesse e, depois, teve uma ideia melhor.

— Médico, aqui! — gritou, curvando-se diante do rosto de Alden e tentando tirar Linda do seu campo de visão.

— Médico! Médico, méd... — Barbie foi puxado para trás pelo colarinho e girado. Teve tempo apenas de registrar Mel Searles, um dos amigos de Junior, e perceber que usava a camisa azul da farda e uma insígnia. Pior é impossível, pensou Barbie, mas, para provar que estava errado, Searles o socou no rosto, como fizera naquela noite no estacionamento do Dipper’s. Errou o nariz de Barbie, que provavelmente era o alvo, mas amassou os seus lábios contra os dentes.

Searles afastou o punho para bater de novo, mas Jackie Wettington — a parceira de má vontade de Mel naquele dia — lhe agarrou o braço antes.

— Não faça isso! — berrou ela. — Policial, não faça isso!

Por um instante, a questão ficou pendente. Então Olhe Dinsmore, seguido de perto pela mãe que ofegava e soluçava, passou entre eles, forçando Searles a dar um passo atrás.

Searles baixou o punho.

— Tá bem — disse. — Mas você está numa cena de crime, panaca. Cena de investigação policial. Qualquer coisa assim.

Barbie limpou o sangue da boca com o punho e pensou: Pior não é impossível. Essa é que é a merda — não é.

 

A única parte que Rusty escutou foi Barbie gritando médico. Agora ele mesmo disse.

— Médico, sr. Dinsmore. Rusty Everett. O senhor me conhece. Deixa eu olhar o menino.

— Deixa, Alden! — gritou Shelley. — Deixa ele cuidar do Rory!

Alden soltou um pouco o garoto, que, de joelhos, balançava de frente para trás, a calça jeans encharcada de sangue. Rory cobrira o rosto com as mãos de novo. Rusty as segurou — com jeitinho, com jeitinho é melhor — e as puxou para baixo. Torcera para que não fosse tão ruim quanto temia, mas a órbita estava vazia e em carne viva, despejando sangue. E o cérebro atrás daquela órbita estava bastante ferido. A novidade foi que o olho que restava virou insensível para o céu, fitando o nada.

Rusty começou a tirar a camisa, mas o pregador já tirara a sua. O torso de Coggins, magro e branco na frente, riscado de vergões vermelhos nas costas, escorria suor. Ele a estendeu.

— Não — disse Rusty. — Rasga, rasga.

Por um instante, Lester não pescou. Então rasgou a camisa ao meio. O resto do contingente da polícia vinha chegando, e alguns policiais regulares — Henry Morrison, George Frederick, Jackie Wettington, Freddy Denton — berravam para que os novos recrutas ajudassem a fazer a multidão recuar, a abrir espaço. Os recém-contratados o fizeram, com entusiasmo. Algumas das pessoas amontoadas foram derrubadas, inclusive Samantha Bushey, famosa torturadora de Bratz. Sammy levava o Pequeno Walter num canguru e, quando caiu de bunda, os dois começaram a urrar. Junior Rennie passou por cima dela mal lhe dando uma olhada e agarrou a mãe de Rory, quase erguendo do chão a mãe do menino ferido antes que Freddy Denton o detivesse.

— Não, Junior, não! Essa é a mãe do garoto! Solta ela!

— Brutalidade policial! — berrou Sammy Bushey de onde estava caída no capim. — Brutalidade poli...

Georgia Roux, a mais nova contratada no que havia se tornado o departamento de polícia de Peter Randolph, chegou com Carter Thibodeau (de mãos dadas, aliás). Georgia enfiou a bota num dos seios de Sammy — não foi bem um pontapé — e disse:

— Cala a boca, sapata.

Junior largou a mãe de Rory e foi ficar com Mel, Carter e Georgia. Fitavam Barbie. Junior somou os seus olhos aos deles, achando que o chapeiro era como uma moeda azarada que aparecia toda hora. Achou que Barbie ficaria muito bem numa cela, ao lado de Sam Relaxado. Também achou que ser policial sempre fora o seu destino; com certeza ajudara a reduzir a dor de cabeça.

Rusty pegou metade da camisa rasgada de Lester e a rasgou de novo. Dobrou um pedaço, começou a colocá-lo sobre a ferida aberta no rosto do menino; mudou de ideia e o entregou ao pai.

— Segura isso na...

As palavras mal saíram; a garganta estava cheia do sangue do nariz socado. Rusty pigarreou, virou a cabeça, cuspiu um catarro meio coagulado no capim e tentou de novo.

— Segura isso sobre a ferida, pai. Faz pressão. Mão na nuca e aperta.

Tonto mas obediente, Alden Dinsmore fez o que lhe mandavam. Na mesma hora, o curativo improvisado ficou vermelho, mas ainda assim o homem parecia mais calmo. Ter o que fazer ajudava. Geralmente ajudava.

Rusty jogou o pedaço restante para Lester. “Mais!”, disse, e Lester começou a rasgar a camisa em pedaços menores. Rusty ergueu a mão de Dinsmore e removeu o primeiro pedaço, que agora estava encharcado e inútil. Shelley Dinsmore guinchou ao ver a órbita vazia.

— Ah, meu menino! Meu menino!

Peter Randolph chegou correndo, bufando e ofegante. Ainda assim, estava bem à frente de Big Jim, que, ciente de que seu coração era meio deficiente, se arrastava pelo declive do pasto por sobre o capim que o resto da multidão pisoteara e transformara em caminho largo. Pensava na surumbamba que aquilo virara. No futuro, só haveria reuniões da cidade com licença oficial. E se tivesse algo a ver com isso (teria; sempre tinha), seria bem difícil obter uma licença.

— Afasta mais essa gente! — grunhiu Randolph ao policial Morrison. E, quando Henry foi cumprir a ordem: — Pra trás, gente! Precisamos de ar!

Morrison vociferou:

— Policiais, formem um cordão! Empurrem todos pra trás! Quem resistir, algema nele!

A multidão começou a dar uma lenta marcha a ré. Barbie se demorou.

— Sr. Everett... Rusty... precisa de ajuda? Está tudo bem?

— Tudo — disse Rusty, e a sua cara disse a Barbie tudo o que precisava saber: o auxiliar médico estava bem, só o nariz machucado, O garoto não estava e jamais estaria, mesmo que sobrevivesse. Rusty aplicou outra compressa limpa na órbita cheia de sangue do menino e pôs a mão do pai sobre ela outra vez.

— Nuca — disse. — Aperta com força. Com força.

Barbie começou a recuar, mas aí o garoto falou.

 

— É Halloween. Você não pode... a gente não pode...

Rusty parou no ato de dobrar outro pedaço da camisa numa compressa. De repente, estava de volta ao quarto das filhas, ouvindo Janelle gritar É culpa da Grande Abóbora!

Ergueu os olhos para Linda. Ela também escutara. Os olhos dela estavam arregalados, a cor fugira das faces antes coradas.

— Linda! — Rusty gritou com ela. — Pega o walkie-talkie! Liga pro hospital! Fala pro Twitch pra trazer a ambulância...

— O fogo! — gritou Rory Dinsmore numa voz aguda e trêmula. Lester o encarava como Moisés devia ter encarado a sarça ardente. — O fogo! O ônibus pegou fogo! Tá todo mundo gritando! Cuidado com o Halloween!

Agora a multidão estava em silêncio, ouvindo a criança delirar. Até Jim Rennie escutou ao chegar ao fim da multidáo e começar a abrir caminho com cotoveladas.

— Linda! — gritou Rusty. — Pega o walkie-talkie! Precisamos da ambulância!

Ela despertou visivelmente, como se alguém acabasse de bater palmas na frente do seu rosto. Puxou o walkie-talkie do cinto.

Rory caiu para a frente no capim amassado e começou a ter uma convulsão.

— O que está acontecendo? — Esse era o pai.

— Deus do céu, ele vai morrer! — Essa era a mãe.

Rusty virou a criança, que tremia e se contorcia (tentando não pensar em Jannie enquanto o fazia, mas isso, óbvio, era impossível), e virou o queixo do garoto para cima, para manter abertas as vias aéreas.

— Vem cá, pai — disse a Alden. — Não me deixa na mão agora. Aperta a nuca. Pressão na ferida. Vamos parar o sangramento.

A compressão podia fazer afundar ainda mais o fragmento que arrancara o olho do garoto, mas Rusty se preocuparia com isso depois. Isso se o garoto não morresse ali mesmo no capim.

Ali perto — mas, ah, tão longe — um dos soldados finalmente falou. Mal saído da adolescência, parecia triste e aterrorizado.

— Nós tentamos detê-lo. Ele não quis ouvir. Não pudemos fazer nada. Pete Freeman, a Nikon pendurada pela correia perto do joelho, presenteou o jovem guerreiro com um sorriso de amargura singular.

— Acho que a gente sabe disso. Se não sabíamos antes, agora com certeza sabemos.

 

Antes que Barbie pudesse se misturar à multidão, Mel Searles o agarrou pelo braço.

— Tira as mãos de mim — disse Barbie pacificamente.

Searles lhe mostrou os dentes na sua versão de sorriso.

— Só sonhando, seu filho da mãe. — Então, levantou a voz. — Chefe. Ei, chefe!

Peter Randolph virou-se para ele com impaciência, franzindo o cenho.

— Esse cara interferiu comigo enquanto eu tentava controlar o local. Posso prender?

Randolph abriu a boca, possivelmente para dizer Não me faz perder tempo. Então, olhou em volta. Jim Rennie finalmente chegara até o grupinho que observava Everett trabalhar com o menino. Rennie deu a Barbie o olhar vazio de um réptil numa pedra; depois, olhou de volta para Randolph e, de leve, concordou com a cabeça.

Mel viu. O sorriso se ampliou.

— Jackie? Policial Wettington, quer dizer. Pode me emprestar as algemas?

Junior e o resto do seu grupo também sorriam. Isso era melhor do que olhar um garoto sangrando e muito melhor que policiar um monte de santos do pau oco e malucos com cartazes.

— A vingança é doce, Baaaar-bie — disse Junior.

Jackie parecia insegura.

— Pete... Chefe, quero dizer... Acho que o cara só estava tentando aju...

— Algema ele — disse Randolph. — Depois verificamos o que ele estava tentando fazer. Enquanto isso, quero limpar essa bagunça. — Ergueu a voz. — Acabou, gente! Já se divertiram, e vejam só no que deu! Agora, pra casa!

Jackie removia do cinto o par de algemas de plástico (não tinha a mínima intenção de entregá-las a Mel Searles, ela mesma as colocaria) quando Julia Shumway falou. Ela estava logo atrás de Randolph e Big Jim (na verdade, Big Jim lhe dera uma cotovelada no caminho até onde tudo acontecia).

— Eu não faria isso, chefe Randolph, a menos que o senhor queira ver o Departamento de Polícia se envergonhar na primeira página do Democrata. — Ela usava o seu sorriso de Mona Lisa. — Com o senhor tão novo no cargo e tal.

— Do que você está falando? — perguntou Randolph. O cenho estava ainda mais franzido, transformando o rosto numa série de fendas desagradáveis.

Julia ergueu a câmera, uma versão um pouco mais antiga da de Pete Freeman.

— Tenho várias fotos do sr. Barbara ajudando Rusty Everett com o menino ferido, algumas do policial Searles puxando o sr. Barbara sem nenhuma razão visível... e uma do policial Searles socando o sr. Barbara na boca. Também sem nenhuma razão visível. Não sou muito boa fotógrafa, mas essa saiu mesmo ótima. Quer ver, chefe Randolph? É fácil, a câmera é digital.

A admiração de Barbie por ela se aprofundou porque achou que era blefe. Se tirara fotos, por que segurava a tampa da lente na mão esquerda, como se tivesse acabado de tirá-la?

— É mentira, chefe — disse Mel. — Ele tentou me bater. Pergunta ao Junior.

— Acho que as minhas fotos vão mostrar que o jovem sr. Rennie estava tentando controlar a multidão e estava de costas quando o soco ocorreu — disse Julia.

Randolph a olhou com raiva.

— Eu poderia confiscar a sua câmera — disse ele. — Como prova.

— Claro que poderia — concordou ela alegremente —, e Pete Freeman tiraria uma foto sua fazendo isso. Aí o senhor poderia tirar a câmera do Pete... Mas todo mundo aqui veria.

— De que lado você está, Julia? — perguntou Big Jim. Usava o seu sorriso feroz: o sorriso de um tubarão prestes a arrancar um pedaço da bunda de algum nadador gorducho.

Julia virou para ele o seu sorriso, os olhos acima tão inocentes e inquisidores quanto os de uma criança.

— Existem lados, James? Além daquele lá — ela apontou os soldados que assistiam — e o daqui?

Big Jim a mediu, os lábios agora se curvando para o outro lado, um sorriso invertido. Depois, abanou a mão enojada para Randolph.

— Vamos deixar isso pra lá, sr. Barbara — disse Randolph. — Cabeça quente.

— Obrigado — disse Barbie.

Jackie pegou o braço do seu jovem parceiro irritado.

— Vamos, policial Searles. Essa parte acabou. Vamos mandar esse pessoal de volta.

Searles foi com ela, mas não antes de se virar para Barbie e fazer o gesto: dedo para cima, a cabeça levemente inclinada. Isso não vai ficar assim, neném.

Jack Evans e Toby Manning, ajudante de Rommie, surgiram com uma maca improvisada, feita de lona e mastros de barraca. Rommie abrira a boca para perguntar o que eles pensavam que estavam fazendo e depois a fechou. O dia no campo fora cancelado mesmo, então que importava?

 

Quem tinha carro entrou no seu. E aí todos tentaram ir embora ao mesmo tempo.

Previsível, pensou Joe McClatchey. Totalmente previsível.

A maioria dos policiais foi trabalhar para desfazer o engarrafamento resultante, embora até o grupo de garotos (Joe estava em pé com Benny Drake e Norrie Calvert) percebesse que o novo e aperfeiçoado pelotão não tinha idéia do que estava fazendo. O som dos xingamentos dos borne era nítido no ar de verão (“Não sabe dar marcha a ré nessa merda, caralho!). Apesar da confusão, ninguém metia a mão na buzina. Provavelmente, a maioria estava atordoada demais para buzinar.

— Olha esses idiotas — disse Benny. — Quantos litros de gasolina vocês acham que eles estão queimando pela descarga? Parece que acham que o estoque não vai acabar nunca.

— Pode crer — disse Norrie. Era durona, uma garota rock’n’roll de cidade pequena com um mullet de cantor country, mas agora parecia pálida, triste e assustada. Pegou a mão de Benny. O coração de Joe Espantalho se partiu, mas logo se remendou quando ela pegou a dele também.

— Lá vai o cara que quase foi preso — disse Benny, apontando com a mão livre. Barbie e a dona do jornal atravessavam o pasto rumo ao estacionamento improvisado com mais 60 ou 80 pessoas, algumas arrastando desanimadas os cartazes de protesto.

— A Maria Jornalista lá não tava tirando foto nenhuma, sabia? — disse Joe Espantalho. — Eu tava bem atrás dela. Sagaz ela.

— É — disse Benny —, mas eu não queria estar no lugar dele. Até essa merda acabar, a polícia pode fazer o que quiser.

Era verdade, refletiu Joe. E os policiais novos não eram nada legais. Junior Rennie, por exemplo. A história da prisão de Sam Relaxado já corria pela cidade.

— O que é que você quer dizer? — perguntou Norrie a Benny.

— Por enquanto nada. Por enquanto ainda está tudo legal. — Ele reconsiderou. — Bem legal. Mas se isso continua... lembram do Senhor das moscas? — Tinham lido na aula de inglês.

— “Mata a porca” — entoou Benny. — “Corta a garganta dela. Bate com força.” Muita gente chama os canas de porco, mas vou dizer o que eu acho; acho que os canas acham os porcos quando a merda é feia. Talvez porque eles também fiquem com medo.

Norrie Calvert começou a chorar. Joe Espantalho pôs o braço em volta dela. Com cuidado, como se achasse que esse tipo de coisa podia fazer os dois explodirem, mas ela virou o rosto para a camisa dele e o abraçou. Foi um abraço de um braço só, porque com o outro ela ainda segurava a mão de Benny. Joe achou que nunca sentira em toda sua vida nada tão estranhamente emocionante quanto as lágrimas dela molhando a camisa dele. Por cima da cabeça da garota, deu a Benny um olhar de reprovação.

— Desculpa, cara — disse Benny e deu um tapinha nas costas dela. — Sem medo.

— O olho dele foi arrancado! — ela chorava. As palavras eram abafadas pelo peito de Joe. Depois ela o largou. — Isso não tem mais graça. Isso não tem graça.

— Não. — Joe falou como se descobrisse uma grande verdade. — Não tem.

— Olha — disse Benny. Era a ambulância. Twitch sacolejava pelo pasto de Dinsmore com as luzes vermelhas do teto piscando. A irmã dele, dona do Rosa Mosqueta, caminhava na frente, guiando-o em torno dos buracos piores. Uma ambulância no capinzal, sob o céu claro de uma tarde de outubro: era o toque final.

De repente, Joe Espantalho não queria mais protestar. Também não queria exatamente ir para casa.

Naquele momento, a única coisa que queria no mundo era sair da cidade.

 

Julia se enfiou atrás do volante do carro mas não deu a partida; ficariam ali algum tempo e não fazia sentido gastar gasolina. Inclinou-se por cima de Barbie, abriu o porta-luvas e pegou um velho maço de cigarros American Spirits.

— Suprimento de emergência — disse à guisa de desculpa. — Quer um?

Ele fez que não.

— Incomoda? Porque eu posso esperar.

Ele fez que não outra vez. Acendeu o cigarro e soprou a fumaça pela janela aberta. Ainda estava quente — um verdadeiro veranico, sem dúvida —, mas não ficaria assim. Mais uma semana ou duas e o clima ia piorar, como diziam os antigos. Ou talvez não, pensou. Diabos, quem sabe? Se a Redoma continuasse ali, ela não tinha dúvida de que muitos meteorologistas considerariam a questão do clima ali dentro, mas e daí? Os Yodas do Weather Channel não conseguiam prever nem para que lado ia uma nevasca e, na opinião de Julia, mereciam tanto crédito quanto os gênios políticos que tagarelavam o dia todo na mesa do papo furado do Rosa Mosqueta.

— Obrigado por falar naquela hora — disse ele. — Você me salvou o lombo.

— Notícia quente, meu caro: seu lombo ainda está no fumeiro. Vai fazer o que da próxima vez? Mandar seu amigo Cox chamar a União Americana de Liberdade Civil? Talvez eles até se interessem, mas acho que ninguém do escritório de Portland vai vir a Chester’s Mill tão cedo.

— Não seja tão pessimista. A Redoma pode ser soprada pro mar agora à noite. Ou só se dissipar. A gente não sabe.

— Sem chance. Isso é coisa do governo, de algum governo, e aposto que seu coronel Cox sabe disso.

Barbie ficou calado. Acreditara em Cox quando este dissera que os Estados Unidos não eram responsáveis pela Redoma. Não porque Cox fosse necessariamente digno de confiança, mas porque Barbie não achava que os Estados Unidos tivessem a tecnologia necessária. Nem os outros países, aliás. Mas o que ele sabia? O seu último serviço fora ameaçar iraquianos assustados. Às vezes com a arma encostada na cabeça deles.

Frankie DeLesseps, amigo de Junior, estava na rodovia 119 ajudando a orientar o tráfego. Usava a camisa azul do uniforme com calças jeans; provavelmente na sede do departamento não havia calças da farda do tamanho dele. Era alto o filho da puta. E Julia viu, com receio, que usava uma arma no quadril. Menor do que os Glocks usados pela polícia regular de MilI, provavelmente pertencia a ele, mas ainda assim era uma arma.

— Vai fazer o que se a Juventude Hitlerista for atrás de você? — perguntou, erguendo o queixo na direção de Frankie. — Boa sorte se quiser se queixar de brutalidade policial quando eles te prenderem e decidirem terminar o que começaram. Só tem dois advogados na cidade. Um está senil e o outro tem um Porsche Boxster que o Jim Rennie conseguiu pra ele com desconto. É isso que me contaram.

— Eu sei me cuidar.

— Ah, que macho.

— O que houve com o seu jornal? Parecia pronto quando eu saí ontem à noite.

— Tecnicamente, você saiu hoje de manhã. E tá pronto, sim. O Pete, eu e alguns amigos vamos cuidar pra que seja distribuído. Só não vi razão pra começar com três quartos da cidade vazios. Quer ser entregador de jornal voluntário?

— Gostaria, mas tenho que fazer um zilhão de sanduíches. Hoje à noite só vai ter comida fria no restaurante.

— Talvez eu dê uma passada lá. — Ela jogou pela janela o cigarro, apenas meio fumado. Depois de pensar um instante, saiu do carro e o apagou com o pé.

Começar um incêndio ali no mato seco não seria bom, ainda mais com os novos caminhões de bombeiro da cidade presos em Castle Rock.

— Passei mais cedo pela casa do chefe Perkins — disse ela ao sentar-se de novo atrás do volante. — Só que, é claro, agora é só da Brenda.

— Como ela está?

— Terrível. Mas quando disse que você queria falar com ela e que era importante, embora eu não dissesse o assunto, ela concordou. Depois de anoitecer deve ser melhor. Acho que o seu amigo vai estar impaciente...

— Para de chamar o Cox de meu amigo. Ele não é meu amigo.

Os dois observaram em silêncio o menino ferido ser posto na parte de trás da ambulância. Os soldados também observavam. Provavelmente contra as ordens, e isso fez Julia sentir-se um pouco melhor a respeito deles. A ambulância começou a corcovear no caminho de volta pelo pasto, as luzes piscando.

— Isso é horrível — disse ela com voz fraca.

Barbie pôs o braço em torno dos ombros dela. Ela se tensionou um instante e depois relaxou. Olhando bem para a frente — para a ambulância, que agora entrava numa pista aberta no meio da rodovia 119 —, disse:

— E se eles me fecharem, amigo? E se o Rennie e a sua polícia de estimação decidirem fechar o meu jornalzinho?

— Isso não vai acontecer — disse Barbie. Mas ficou pensando. Se aquilo durasse muito tempo, achou que, em Chester’s Mill, todos os dias poderiam se transformar no Dia em que Tudo Pode Acontecer.

— Ela estava pensando em outra coisa — disse Julia Shumway.

— A sra. Perkins?

— É. Em vários aspectos, foi uma conversa estranhíssima.

— Ela está de luto pelo marido — disse Barbie. — O luto deixa as pessoas estranhas. Eu disse oi pro Jack Evans, a mulher dele morreu ontem, quando a Redoma caiu, e ele me olhou como se não me conhecesse, embora desde a primavera passada eu sirva a ele o meu famoso bolo de carne das quartas-feiras.

— Conheço Brenda Perkins desde que ela era Brenda Morse — disse Julia. — Quase quarenta anos. Achei que ela ia me dizer o que incomodava ela... mas não disse.

Barbie apontou a estrada.

— Acho que agora dá pra ir.

Quando Julia ligou o motor, o celular trinou. Ela quase deixou cair a bolsa na pressa de achá-lo. Ouviu e depois o entregou a Barbie com o seu sorriso irônico.

— Pra você, chefe.

Era Cox, e Cox tinha algo a dizer. Bastante coisa, na verdade. Barbie o interrompeu o suficiente para lhe dizer o que acontecera com o menino que agora seguia para o Cathy Russell, mas Cox não fez ou não quis fazer relação entre a história de Rory Dinsmore e o que falava. Escutou com toda a educação e depois continuou. Ao terminar, fez a Barbie uma pergunta que seria uma ordem se Barbie ainda usasse farda e ainda estivesse sob o seu comando.

— Senhor, eu entendo o que perguntou, mas o senhor não entende a... Acho que dá pra chamar de situação política daqui. E o meu pequeno papel nela. Tive alguns problemas antes dessa história da Redoma e...

— Nós sabemos tudo sobre isso — disse Cox. — Uma altercação com o filho do segundo vereador e alguns amigos dele. Você quase foi preso, de acordo com o que está na minha pasta.

Uma pasta. Agora ele tem uma pasta. Que Deus me ajude.

— São informações boas até certo ponto — disse Barbie —, mas eu vou lhe dar um pouco mais. Uma, o chefe de polícia que impediu que eu fosse preso morreu na 119, não muito longe de onde eu estou falando, na verdade...

Baixinho, num mundo que agora não podia visitar, Barbie ouviu um farfalhar de papel. De repente, sentiu que gostaria de matar o coronel James O. Cox com as próprias mãos, simplesmente porque o coronel James O. Cox podia ir ao McDonald’s quando quisesse e ele, Dale Barbara, não.

— Nós sabemos tudo sobre isso também — disse Cox. — Problema com o marca-passo.

— Dois — continuou Barbie —, o novo chefe, que é amiguinho íntimo do único membro poderoso da Câmara de Vereadores dessa cidade, contratou uns policiais novos. São os caras que tentaram me arrancar a cabeça dos ombros no estacionamento da boate local.

— Você vai ter que se elevar acima disso, certo, coronel?

— Está me chamando de coronel por quê? O senhor é o coronel.

— Parabéns — disse Cox. — Além de se realistar a serviço do seu país, você recebeu uma promoção absolutamente estonteante.

— Não! — gritou Barbie. Julia o olhou apreensiva mas ele mal notou. — Não, não quero!

— Pois é, mas recebeu — disse Cox calmamente. Vou mandar por e-mail pra sua amiga editora uma cópia da papelada básica antes de derrubarmos a internet da sua pobre cidadezinha.

— Derrubar? Você não pode derrubar a internet assim!

— A papelada foi assinada pelo presidente da República em pessoa. Vai dizer não a ele? Parece que ele fica meio irritado quando é contrariado.

Barbie não respondeu. A sua mente era um turbilhão.

— Você precisa conversar com os vereadores e com o chefe de polícia — disse Cox. — Precisa dizer a eles que o presidente impôs estado de sítio em Chester’s Mill e que você é o oficial comandante. Tenho certeza de que vai sofrer alguma resistência inicial, mas as informações que eu acabei de dar ajudarão a fazer de você o intermediário entre a cidade e o mundo exterior. E eu conheço o seu poder de persuasão. Pude vê-lo em primeira mão no Iraque.

— Senhor — disse ele, passando a mão no cabelo. — O senhor entendeu completamente errado a situação daqui. — Sua orelha pulsava devido ao maldito celular. — É como se o senhor entendesse a idéia da Redoma, mas não o que está acontecendo nessa cidade por causa dela. E não se passaram nem trinta horas.

— Então me ajude a entender.

O senhor diz que o presidente quer que eu faça isso. Suponha que eu ligasse pra lá e mandasse ele tomar no cu?

Julia o olhava horrorizada, e na verdade isso o inspirou.

— Suponha mesmo que eu dissesse que sou um agente infiltrado da Al-Qaed e que o meu plano é matar ele. Pôu, uma bala na cabeça. Que tal?

— Tenente Barbara... coronel Barbara, perdão... pode parar por aí.

Barbie achava que ainda não.

— Ele poderia mandar o FBI me prender? O Serviço Secreto? O maldito Exército Vermelho? Não, senhor. Não poderia.

— Nós temos planos de mudar isso, como já expliquei. — Cox não parecia mais à vontade e bem-humorado, só um velho ranzinza conversando com outro.

— E se der certo, pode mandar o órgão federal da sua preferência vir me prender. Mas se nós continuarmos isolados, quem aqui vai me dar ouvidos? Mete isso na cabeça: essa cidade se isolou. Não só dos Estados Unidos, mas do mundo inteiro. Não há nada que possamos fazer, nem nós nem o senhor.

Baixinho, Cox disse:

— Nós estamos tentando ajudar vocês.

— O senhor diz isso e eu quase acredito. E o resto das pessoas daqui? Quando olham pra ver que tipo de ajuda os impostos deles trazem, veem soldados montando guarda virados de costas. Que bela mensagem isso transmite

— Você está falando muito pra quem disse não.

— Não estou dizendo não. Mas estou só a uns dois passos de ser preso, e me proclamar comandante provisório não vai ajudar.

— Suponhamos que eu telefone pro primeiro vereador... qual é o nome dele... Sanders... e conte pra ele...

— Foi o que eu quis dizer sobre o pouco que o senhor sabe. É como o Iraque de novo, só que dessa vez o senhor está em Washington em vez de estar no local, e parece tão por fora quanto o resto dos soldados de poltrona. Escuta bem, senhor: pouca informação é pior do que nenhuma.

— Pouco aprendizado é perigoso — disse Julia, sonhadora.

— Se não é o Sanders, quem é?

— James Rennie. O segundo vereador. Ele é o chefáo por aqui.

Houve uma pausa. Depois, Cox disse:

— Talvez nós possamos deixar a internet no ar. De qualquer forma, há entre nós quem ache que derrubá-la é pura reação por reflexo.

— Por que você pensaria isso? — perguntou Barbie. — Vocês não sabem que se deixarem que a gente acesse a internet a receita do pão de amora da tia Sarah vai acabar sendo revelada?

Julia sentou-se bem ereta e fez com a boca: Querem cortar a internet? Barbie levantou um dedo na direção dela — Espera.

— Escuta, Barbie. Suponhamos que a gente ligue pra esse tal de Rennie pra dizer que a internet vai ser cortada, sinto muito, situação de crise, medidas extremas etc. etc. Então você pode convencer ele da sua utilidade fazendo com que a gente mude de idéia.

Barbie pensou no caso. Podia dar certo. Por algum tempo, ao menos. Ou não.

— Além disso — disse Cox, animado —, você vai dar outras informações pra eles. Talvez salve algumas vidas, mas com certeza vai poupar muita gente do maior susto das suas vidas.

— Os celulares liberados também, além da internet — disse Barbie.

— Aí é difícil. Acho que eu consigo manter a internet pra vocês, mas... escuta aqui, cara. No comitê que preside essa bagunça tem ao menos uns cinco ao estilo Curtis LeMay [General da Força Aérea americana. Famoso por ter idealizado os planos de bombardeio sistemático a cidades japonesas na Segunda Guerra Mundial] e pra eles todo mundo em Chester’s Mill é terrorista até prova em contrário.

— O que esses terroristas hipotéticos podem fazer pra prejudicar os Estados Unidos? Fazer um atentado suicida contra a Igreja Congregacional?

— Barbie, você está ensinando missa ao vigário.

É claro que provavelmente era verdade.

— Vai tentar?

— Vou ter que falar com o senhor depois sobre isso. Espera o meu telefonema antes de agir. Antes, tenho que conversar com a viúva do falecido chefe de polícia.

Cox insistiu.

— Não vai contar pra ninguém a parte da nossa conversa sobre a negociação, certo?

Novamente, Barbie se espantou ao ver como até Cox — um livre-pensador, pelo padrão militar — não conseguia entender direito as mudanças que a Redoma já provocara. Ali, o tipo de segredo de Cox não tinha mais importância.

Nós contra eles, pensou Barbie. Agora, somos nós contra eles. Quer dizer, a menos que a ideia maluca deles dê certo.

— Senhor, preciso mesmo continuar a conversa depois; esse celular está com um caso grave de bateria fraca. — Mentira que contou sem remorsos. — E o senhor precisa esperar que eu converse com o senhor antes de falar com mais alguém.

— Só não se esqueça, o Big Bang está marcado para amanhã às 13h. Se quiser manter a viabilidade, é melhor se adiantar.

Manter a viabilidade. Outra expressão sem sentido debaixo da Redoma. A menos que fosse aplicada a ter gás para o gerador.

— A gente conversa — disse Barbie. Bateu o telefone antes que Cox dissesse mais alguma coisa. A 119 agora estava quase limpa, embora DeLesseps ainda estivesse ali, de braços cruzados, encostado no seu carrão antigo e potente. Quando Julia passou pelo Nova, Barbie viu um adesivo em que estava escrito BUNDA, BAGULHO OU BUFUNFA — CARONA NÃO É DE GRAÇA. E uma lâmpada giratória magnética da polícia no painel. Achou que o contraste resumia tudo o que estava errado em Chester’s Mill agora.

Enquanto voltavam, Barbie lhe contou tudo o que Cox dissera.

— Na verdade, o que eles estão planejando não é muito diferente do que aquele garoto acabou de tentar — disse ela, com voz consternada.

— Bom, é um pouco diferente — disse Barbie. — O garoto tentou com uma espingarda. Eles arranjaram um míssil Cruise. Melhor chamar de teoria do Big Bang.

Ela sorriu. Não era o sorriso de sempre; perplexo e descorado, deixava-a com 60 anos em vez de 43.

— Acho que vou publicar outro número do jornal antes do que eu pensava.

— Extra, extra, leiam tudo! — concordou Barbie.

 

— Oi, Sammy — disse alguém. — Como vai?

Samantha Bushey não reconheceu a voz e se virou na sua direção com cautela, amarrando o canguru enquanto se virava. O Pequeno Walter dormia e pesava uma tonelada. O traseiro doía da queda e os seus sentimentos também estavam feridos — aquela maldita Georgia Roux chamara ela de sapata. Georgia Roux, que viera se lamuriar perto do trailer de Sammy mais de uma vez tentando arranjar um papelote de pó para ela e para o monstro musculoso com quem andava.

Era o pai de Dodee. Sammy falara com ele milhares de vezes, mas não lhe reconhecera a voz; mal o reconhecera. Parecia velho e triste — alquebrado, de certo modo. Sequer olhou para os peitos dela, o que era sempre a primeira coisa.

— Oi, sr. Sanders. Caramba, nem vi o senhor na... — Ela fez um gesto na direção do pasto amassado e da tenda grande, agora meio despencada parecendo desamparada. Embora não tanto quanto o sr. Sanders.

— Eu estava sentado na sombra. — A mesma voz hesitante, saindo por um sorriso ferido que parecia pedir desculpas e era duro de se ver. — Mas tomei alguma coisa. Não está quente pra outubro? Caramba, como está. Achei que era uma tarde gostosa, uma verdadeira tarde da cidade, até que aquele menino...

Carácoles, ele estava chorando.

— Sinto muitíssimo sobre a sua mulher, sr. Sanders.

— Obrigado, Sammy. É muita gentileza sua. Quer que eu leve o bebê até o carro pra você? Acho que já dá pra ir embora, a estrada está quase vazia.

Essa oferta Sammy não poderia recusar, ainda que ele estivesse chorando. Ela tirou o Pequeno Walter do canguru — era como pegar um bolão de massa de pão morna — e o entregou. O Pequeno Walter abriu os olhos, deu um sorriso vidrado, arrotou e voltou a dormir.

— Acho que ele está com a fralda cheia — disse o sr. Sanders.

— É, ele é uma máquina regular de bosta. Esse é o Pequeno Walter!

— Walter é um belo nome à moda antiga.

— Obrigada. — Dizer a ele que o primeiro nome do bebê na verdade era Pequeno não parecia valer a pena... e ela tinha certeza de que já conversara com ele sobre isso, afinal de contas. Ele só não lembrava. Andar com ele assim, ainda que ele levasse o bebê, foi o final mais corta-barato possível para a tarde mais corta-barato possível. Ao menos ele acertara quanto ao trânsito: o empurra-empurra automotivo finalmente se desfizera. Sammy se perguntou quanto tempo demoraria para a cidade toda voltar a andar de bicicleta.

— Nunca gostei da ideia de ela andar naquele avião — disse o sr. Sanders. Parecia estar continuando o assunto de alguma conversa anterior. — Às vezes cheguei até a me perguntar se a Claudie estava dormindo com aquele cara.

A mãe de Dodee dormindo com Chuck Thompson? Sammy ficou ao mesmo tempo chocada e curiosa.

— Provavelmente não — disse ele, e suspirou. — Seja como for, agora não importa. Você viu a Dodee? Ela não voltou pra casa ontem à noite.

Sammy quase disse Claro, ontem à tarde. Mas se a Dodete não tinha passado a noite em casa, contar isso só deixaria ainda mais preocupado o papaizete da Dodete. E faria Sammy ter uma longa conversa com um cara que tinha lágrimas correndo pelo rosto e catarro pendurado na narina. Não seria legal.

Tinham chegado ao carro dela, um Chevrolet velho com câncer na caixa de ar. Ela pegou o Pequeno Walter e fez uma careta com o cheiro. Não havia só um pacote na fralda, aquilo era um caminhão cheio!

— Não, sr. Sanders, não vi.

Ele fez que sim e depois limpou o nariz com as costas da mão. O catarro pendurado sumiu, ou ao menos foi para outro lugar. Aquilo foi um alívio.

— Provavelmente foi ao shopping com a Angie McCain e depois ao Peg’s da tia em Sabattus, e aí não conseguiu voltar à cidade.

— É, provavelmente é isso. — E quando Dodee aparecesse bem ali em Mill, ele teria uma surpresa agradável. Deus sabia que ele a merecia. Sammy abriu a porta do carro e pôs o Pequeno Walter no banco do carona. Desistira da cadeirinha meses atrás. Atrapalhava demais. Além disso, ela era uma motorista muito cuidadosa.

— Foi bom ver você, Sammy. — Uma pausa. — Você vai orar pela minha mulher?

— Ahhh... claro, sr. Sanders, sem problema.

Ela começou a entrar no carro e se lembrou de duas coisas: que Georgia Roux lhe chutara o peito com aquela maldita bota de motoqueiro — provavelmente com força suficiente para deixar uma mancha roxa — e que Andy Sanders, de coração partido ou não, era o primeiro vereador da cidade.

— Sr. Sanders?

— Diga, Sammy.

— Alguns policiais foram muito violentos por aqui. O senhor podia tomar alguma providência. Sabe, antes que saia do controle.

O sorriso infeliz dele não mudou.

— Pois é, Sammy, entendo como vocês, jovens, veem a polícia... Eu também já fui jovem. Mas temos uma situação bem complicada aqui. E quanto mais depressa impusermos um pouco de autoridade, melhor pra todos. Você entende, não é?

— Claro — disse Sammy. O que ela entendia é que o pesar, por mais genuíno que fosse, não parecia impedir o jorro de bobagens dos políticos. — Até logo, a gente se vê.

— Eles formam uma boa equipe — disse Andy, vagamente. — Pete Randolph vai cuidar para que todos trabalhem juntos. Vistam a mesma camisa. Façam... hã... a mesma dança. Protejam e sirvam, sabe como é.

— Claro — disse Samantha. A dança de proteger e servir, com um chutinho nos peitos de vez em quando. Ela se afastou com o Pequeno Walter dormindo de novo no assento. O cheiro de bosta de bebê era terrível. Ela abriu as janelas e olhou pelo retrovisor, O sr. Sanders ainda estava em pé no estacionamento improvisado, agora quase totalmente deserto. Ergueu a mão para ela.

Sammy ergueu a sua, pensando onde Dodee passara a noite se não fora para casa. Depois deixou para lá — na verdade não era da conta dela — e ligou o rádio. A única coisa que pegava bem era a Rádio Jesus, e ela desligou.

Quando ergueu os olhos, Frankie DeLesseps estava em pé na estrada diante dela com a mão erguida, como um policial de verdade. Ela teve de pisar fundo no freio para não o atingir e depois pôs a mão no bebê para impedir que caísse. O Pequeno Walter acordou e começou a berrar.

— Olha só o que você fez! — gritou ela com Frankie (com quem já ficara por dois dias no secundário, quando Angie foi para o acampamento da fanfarra). — O bebê quase caiu no chão!

— Cadê a cadeirinha? — Frankie se inclinou na janela, os bíceps destacados. Músculos grandes, pinto pequeno, esse era Frankie DeLesseps. No que dizia respeito a Sammy, Angie podia ficar com ele.

— Não é da sua conta.

Um policial de verdade poderia ter-lhe dado uma multa — pelo desrespeito à autoridade e pela lei da cadeirinha —, mas Frankie só sorriu.

—Viu a Angie?

— Não. — Dessa vez era verdade. — Vai ver ficou presa fora da cidade.

— Embora, para Sammy, quem estava na cidade é que estava preso.

— E a Dodee?

Sammy disse não de novo. Foi praticamente obrigada, porque Frankie poderia conversar com o sr. Sanders.

— O carro da Angie está na casa dela — disse Frankie. — Eu olhei a garagem.

— Grande coisa. Podem ter ido a algum lugar no Kia da Dodee.

Ele pareceu pensar a respeito. Agora estavam quase sozinhos. O engarrafamento era só lembrança. Então, ele disse:

   — A Georgia machucou seu melãozinho, neném? — E, antes que ela pudesse responder, ele estendeu a mão e lhe agarrou o peito. Sem gentileza nenhuma também. — Quer um beijinho pra melhorar?

Ela lhe deu um tapa na mão. À sua direita, o Pequeno Walter berrava e berrava. Às vezes, ela queria entender por que Deus inventara de fazer os homens, queria mesmo! Sempre berrando ou agarrando, agarrando ou berrando.

Agora Frankie não sorria.

— É melhor você ficar na sua — disse ele. — A situação agora é outra.

— Vai fazer o quê? Me prender?

— Vou pensar em coisa melhor — disse ele. — Anda, vai embora. E se vir a Angie, diz que eu quero falar com ela.

Ela foi embora, zangada e — não gostava de admitir isso a si mesma, mas era verdade — um pouco assustada. Menos de um quilômetro adiante, estacionou e trocou a fralda do Pequeno Walter. Havia uma sacola para fraldas sujas atrás, mas ela estava irritada demais para dar bola para isso. Jogou a Pamper cagada na beira da estrada, não muito longe da grande placa que dizia:

 

JIM RENNIE CARROS USADOS

NACIONAIS & IMPORTADOS

FACILITAMOS O PAGAMENTO!

COM BIG JIM NEGOCIANDO, QUEM ENTRA A PÉ

JÁ SAI RODANDO!

    

Passou por alguns garotos de bicicleta e se perguntou de novo quanto tempo levaria para que todos as usassem. Só que não chegaria a tanto. Alguém resolveria aquilo antes, como acontece naqueles filmes de desastre a que ela gostava de assistir na televisão quando estava doidona: vulcões em erupção em Los Angeles, zumbis em Nova York. E quando a situação voltasse ao normal, Frankie e Carter Thibodeau iam voltar ao que eram: zé-manés de cidade pequena sem grana nenhuma no bolso. Mas, até lá, era melhor ficar na dela.

No fim das contas, ainda bem que mantivera a boca fechada sobre Dodee.

 

Rusty escutou o monitor de pressão arterial começar a bipar freneticamente e viu que iam perder o menino. Na verdade, iam perdê-lo desde a ambulância — diabos, desde o instante em que o ricochete o atingira —, mas o som do monitor transformou a verdade em manchete. Rory devia ter sido levado de helicóptero na mesma hora, direto lá do lugar onde, com tanta infelicidade, se ferira. Em vez disso, estava numa sala de cirurgia subequipada e quente demais (o ar-condicionado fora desligado para economizar o gerador), operado por um médico que devia ter se aposentado anos antes, um auxiliar que nunca assistira um caso de neurocirurgia e uma única enfermeira exausta que agora falava.

— Fibrilação, dr. Haskell.

O monitor cardíaco também cantava. Agora era um coro.

— Eu sei, Ginny. Eu que matei. — Ele parou. — Quer dizer, escutei. Jesus.

Por um momento, ele e Rusty se entreolharam por sobre a forma do menino envolta em lençóis. Os olhos de Haskell estavam límpidos e atentos — esse não era o mesmo burocrata equipado de estetoscópio que passara os últimos anos se arrastando por quartos e corredores do Cathy Russell como um fantasma opaco —, mas ele parecia terrivelmente velho e frágil.

— Tentamos — disse Rusty.

Na verdade, Haskell fizera mais que tentar; lembrara a Rusty um daqueles romances de esportes que adorava quando garoto em que o arremessador mais velho sai do banco para um último arremesso e a glória no sétimo jogo da World Series. Mas só Rusty e Ginny Tomlinson haviam restado na arquibancada, e dessa vez não haveria final feliz para o velho cavalo de batalha.

Rusty instalara o soro fisiológico, acrescentando manitol para reduzir o edema cerebral. Haskell saíra correndo da sala de cirurgia para fazer o hemograma no laboratório na outra ponta do corredor. Tinha que ser Haskell; Rusty não era qualificado e não havia técnicos de laboratório. O Catherine Russell agora estava com pavorosa escassez de pessoal. Rusty achou que o menino podia ser a primeira prestação do que a cidade acabaria tendo que pagar pela falta de profissionais.

Piorou. O menino era A negativo e não havia esse tipo de sangue no pequeno estoque. Mas tinham O negativo, doador universal, e deram quatro unidades a Rory, deixando exatamente nove no estoque. Provavelmente, dar o sangue ao menino fora o mesmo que jogá-lo pelo ralo da pia, mas isso ninguém disse. Enquanto o menino recebia a transfusão, Haskell mandou Ginny até o cubículo do tamanho de um armário que servia de biblioteca para o hospital. Ela voltou com um exemplar em frangalhos de Neurocirurgia: uma visão geral. Haskell operou com o livro ao lado, um otoscópio sobre as páginas para mantê-las abertas. Rusty achou que nunca esqueceria o gemido do serrote, o cheiro do pó de osso no ar estranhamente quente ou o coágulo de sangue gelificado que escorreu depois que Haskell removeu o tampão.

Por alguns minutos, Rusty chegara a se permitir esperanças. Com a pressão do hematoma aliviada pelo orifício, os sinais vitais de Rory se estabilizaram — ou tentaram. Então, enquanto Haskell decidia se o fragmento de bala estava ao alcance, tudo começou a piorar de novo e rápido.

Rusty pensou nos pais, que aguardavam cheios de esperança e desespero. Agora, em vez de levar Rory na maca para fora da sala de cirurgia, rumo à UTI do Cathy Russell, onde os pais poderiam entrar um pouco para vê-lo, parecia que Rory faria uma viagem direto para o necrotério.

— Se fosse uma situação comum, eu deixaria ligados os aparelhos de manutenção da vida e conversaria com os pais sobre doação de órgãos — disse Haskell. — Mas é claro que, se fosse uma situação comum, ele não estaria aqui. E mesmo que estivesse, eu não tentaria operá-lo usando um... um maldito manual de automóvel. — Ele pegou o otoscópio e o jogou do outro lado da sala de cirurgia. Bateu nos azulejos verdes, lascou um deles e caiu no chão.

— Epinefrina, doutor? — perguntou Ginny. Calma, fria e controlada... mas parecia cansada a ponto de cair ali mesmo.

— Não fui claro? Não vou prolongar a agonia do menino. — Haskell estendeu a mão para o interruptor vermelho atrás do respirador. Algum espertinho, Twitch, talvez, colara um pequeno adesivo escrito HURRA! — Você se opõe, Rusty?

Rusty pensou no caso e depois, lentamente, fez que não com a cabeça. O reflexo plantar fora positivo, indicando lesão cerebral grave, mas o principal era que ali não havia chance. Nunca houvera, na verdade.

Haskell desligou o interruptor. Rory Dinsmore respirou uma vez sozinho, com dificuldade, pareceu tentar uma segunda vez e desistiu.

— A hora é... — Haskell olhou o grande relógio na parede. — Cinco e quinze da tarde. Anota isso como hora do óbito, Ginny?

— Anoto, doutor.

Haskell tirou a máscara, e Rusty notou, preocupado, que os lábios do velho estavam azuis.

— Vamos sair daqui — disse ele. — O calor está me matando.

Mas não era o calor; era o coração. Ele caiu no meio do corredor, a caminho de dar a má notícia a Alden e Shelley Dinsmore. No fim das contas, Rusty acabou ministrando epinefrina, mas não adiantou. Nem a massagem cardíaca. Nem o ressuscitador.

Hora do óbito, 17h49. Ron Haskell sobreviveu ao seu último paciente por 34 minutos cravados. Rusty sentou-se no chão, encostado na parede. Ginny dera a notícia aos pais de Rory; de onde estava sentado, com o rosto nas mãos, dava para Rusty ouvir os guinchos de tristeza e pesar da mãe. Ressoavam pelo hospital quase vazio. Era como se nunca fossem parar.

 

Barbie pensou que a viúva do chefe devia ter sido uma mulher belíssima. Mesmo agora, com círculos escuros em torno dos olhos e uma escolha de roupas indiferente (jeans desbotados e uma camisa que sem dúvida era de pijama), Brenda Perkins chamava a atenção. Ele pensou que, talvez, as pessoas inteligentes raramente perdessem a boa aparência — isso se a tivessem, claro — e viu a luz límpida da inteligência nos seus olhos. Viu outra coisa, também. Ela podia estar de luto, mas isso não lhe matara a curiosidade. E naquele momento o objeto dessa curiosidade era ele.

Por sobre o ombro, ela olhou o carro de Julia que se afastava na direção da rua e ergueu as mãos: Aonde você vai?

Julia se inclinou para fora da janela e gritou:

— Tenho que cuidar da publicação do jornal! Também tenho que ir ao Rosa Mosqueta pra dar a má notícia ao Anson Wheeler: hoje ele é responsável pelos sanduíches! Não se preocupa, Bren, o Barbie é de confiança!

E antes que Brenda pudesse responder ou fazer objeção, Julia desceu a rua Morin, uma mulher com uma missão. Barbie preferiria ter ido com ela, tendo como único objetivo a criação de quarenta sanduíches mistos de presunto e queijo e quarenta de atum.

Com a partida de Julia, Brenda voltou à inspeção. Estavam em lados opostos da porta de tela. Barbie se sentiu como um candidato a emprego numa entrevista difícil.

— É mesmo? — perguntou Brenda.

— O quê, senhora?

— De confiança?

Barbie pensou no caso. Dois dias antes, diria que era, é claro que era, mas naquela tarde sentia-se mais como o soldado de Fallujah do que como o chapeiro de Chester’s Mill. Preferiu dizer que era bem treinado, o que a fez sorrir.

— Bom, quanto a isso eu mesma é que vou ter que tirar conclusões — disse ela. — Muito embora minha capacidade de avaliação não esteja boa. Sofri uma perda.

— Eu sei, senhora. Sinto muitíssimo.

— Obrigada. O enterro vai ser amanhã. Vai sair daquela funerariazinha Bowie furreca que continua de pé sei lá como, já que todo mundo da cidade usa a Crosman, em Castle Rock. O povo chama o estabelecimento do Stewart Bowie de Celeiro de Enterros do Bowie. Stewart é um idiota e o irmão Fernald é pior ainda, mas agora eles são tudo o que temos. Tudo o que eu tenho. — Ela suspirou como uma mulher diante de uma tarefa imensa. E por que não?, pensou Barbie. A morte de um ente querido pode significar muitas coisas, e trabalho é uma delas, sem dúvida.

Ela o surpreendeu saindo para a varanda com ele.

— Venha até os fundos comigo, sr. Barbara. Posso convidar o senhor pra entrar depois, mas só quando estiver tranquila a seu respeito. Em geral, eu aceitaria sem discutir a referência que Julia deu do seu caráter, mas essa não é uma situação comum. — Ela o levava pela lateral da casa, pela grama bem aparada e bem varrida, sem as folhas de outono. À direita havia uma cerca de tábuas para separar os Perkins da casa vizinha; à esquerda, havia canteiros de flores bem-cuidados.

— As flores eram jurisdição do meu marido. Talvez o senhor ache um passatempo estranho pra um homem da lei.

— Na verdade, não acho, não.

— Também nunca achei. O que nos deixa na minoria. Cidades pequenas abrigam imaginações pequenas. Grace Metalious e Sherwood Anderson tinham razão nisso. Além disso — continuou ela enquanto contornavam o canto atrás da casa e entravam num quintal confortável —, aqui vai ficar claro mais tempo. Tenho gerador, mas pifou hoje cedo. Acho que acabou o gás. Tenho um cilindro extra, mas não sei trocar. Eu implicava com Howie por causa do gerador. Ele queria me ensinar a cuidar, eu me recusava a aprender. Era mais por pirraça. — Uma lágrima desceu de um olho e pelo rosto. Ela a limpou sem dar muita bola. — Eu pediria desculpas a ele agora se pudesse. Admitiria que ele estava certo. Mas não posso fazer isso, né?

Barbie sabia reconhecer uma pergunta retórica.

— Se for só o cilindro — disse ele —, eu posso trocar.

— Obrigada — disse ela, levando-o até uma mesa de jardim com uma caixa térmica ao lado. — Ia pedir ao Henry Morrison que fizesse isso e ia comprar mais cilindros no Burpee, mas, quando cheguei à rua hoje à tarde, o Burpee estava fechado e Henry tinha ido para o pasto do Dinsmore, junto com todo mundo. Acha que consigo comprar mais cilindros amanhã?

— Talvez — disse Barbie. Na verdade, duvidava disso.

— Soube do garotinho — disse ela. — Gina Buffalino, da casa aqui ao lado, veio me contar. Fiquei tristíssima. Será que ele sobrevive?

— Não sei. — E, porque a intuição lhe disse que a sinceridade seria o caminho mais curto para a confiança (por mais provisória que fosse) dessa mulher, acrescentou: — Acho que não.

— Não. — Ela suspirou e limpou os olhos de novo. — Não, achei que foi bem grave. — Ela abriu a caixa térmica. — Tenho água e Diet Coke. Era o único refrigerante que eu deixava o Howie tomar. Qual o senhor prefere?

— Água, senhora.

Ela abriu duas garrafas de Poland Spring e os dois beberam. Ela o fitou com os olhos tristemente curiosos.

— Julia me contou que o senhor quer a chave da prefeitura. Eu entendo por que o senhor quer. Também entendo por que não quer que Jim Rennie saiba...

— Talvez tenha que saber. A situação mudou. Sabe...

Ela ergueu a mão e balançou a cabeça. Barbie parou.

— Antes de tudo, eu quero que me fale do problema que teve com Junior e a turma dele.

— Senhora, o seu marido não...

— Howie raramente falava dos casos dele, mas desse ele falou. Acho que ele ficou muito incomodado. Quero ver se sua história bate com a dele. Se bater, podemos falar de outras coisas. Caso contrário, vou pedir ao senhor que saia daqui, embora possa levar a sua garrafa d’água.

Barbie apontou o cubículo vermelho no canto esquerdo da casa.

— É o gerador?

— É.

— Se eu trocar o cilindro enquanto conversamos, a senhora consegue me escutar?

— Claro.

— E quer a história toda, né?

— Isso mesmo. E se me chamar de senhora outra vez, vou ter que te dar um soco.

A porta do pequeno abrigo do gerador estava fechada com um trinco de latão brilhante. O homem que até ontem morara ali cuidava bem das suas coisas... embora fosse uma pena aquele cilindro único. Barbie decidiu que, qualquer que fosse o andamento da conversa, se encarregaria de tentar lhe arranjar mais alguns amanhã.

Enquanto isso, disse consigo, diz pra ela tudo o que ela quer saber sobre aquela noite. Mas seria mais fácil falar de costas para ela; não gostaria de dizer que o problema começara porque Angie McCain o vira como uma amizade colorida ligeiramente madura.

Regra da transparência, lembrou a si mesmo, e contou a sua história.

O que ele lembrava com mais clareza do verão passado era a música de James McMurtry que parecia tocar em todo lugar — Talkin’ at the Texaco era o nome. E o verso que lembrava com mais clareza era o que dizia que, em uma cidade pequena, “cada um sabe seu lugar”. Quando Angie começou a ficar perto demais dele enquanto preparava os lanches ou encostar o seio no braço dele enquanto se esticava para pegar alguma coisa que poderia ter pedido a ele que pegasse, o verso lhe veio à cabeça. Ele sabia quem era o namorado dela e sabia que Frankie DeLesseps fazia parte da estrutura de poder da cidade, mesmo que fosse só em função da amizade com o filho de Big Jim Rennie. Dale Barbara, por outro lado, não passava de um sujeito sem eira nem beira. No esquema de coisas de Chester’s Mill, ele não tinha lugar.

Certa noite, ela envolveu o quadril dele com a mão e lhe deu um apertãozinho na virilha. Ele reagiu e viu, pelo sorriso maroto dela, que ela sentira a sua reação.

— Pode fazer também, se quiser — disse ela. Estavam na cozinha, e ela torcera um pouquinho para cima a bainha da minissaia, lhe dando um vislumbre da calcinha rosa de babadinhos. — É mais do que justo.

— Eu passo — disse ele, e ela lhe mostrou a língua.

Ele vira esse tipo de coisa em meia dúzia de cozinhas de restaurante, chegara a ir na onda de vez em quando. Podia ser só o desejo passageiro de uma mocinha por um parceiro de trabalho mais velho e de aparência moderadamente boa. Mas aí Angie e Frankie terminaram e, certa noite, quando Barbie levava o lixo para a caçamba dos fundos antes de fechar, ela chegou com vontade.

Ele se virou e ela estava lá, passando os braços pelos ombros dele e beijando-o. No início, ele correspondeu. Angie soltou um dos braços o suficiente para pegar a mão dele e colocá-la sobre o seio esquerdo. Isso lhe despertou o cérebro. Era um seio bom, jovem e firme. Também era encrenca. Ela era encrenca. Ele tentou recuar e, quando ela ficou pendurada por uma mão só (as unhas agora fincadas na sua nuca) e tentou forçar os quadris contra ele, ele a empurrou com um pouco mais de força do que pretendia. Ela caiu contra a caçamba de lixo, encarou-o com raiva, tocou a traseira da calça jeans e o encarou com mais raiva ainda.

— Obrigada! Agora fiquei com a calça toda suja!

— Você devia saber a hora de largar — disse ele suavemente.

— Você gostou!

— Talvez — foi a resposta —, mas eu não gosto de você. — E quando ele viu a mágoa e a raiva se aprofundarem no rosto dela, acrescentou: — Quer dizer, eu gosto mas não desse jeito. — Mas claro que as pessoas acabam dizendo o que realmente querem dizer quando estão abaladas.

Quatro noites depois, no Dipper’s, alguém despejou um copo de cerveja nas costas da sua camisa. Ele se virou e viu Frankie DeLesseps.

— Gostou disso, Baaarbie? Se gostou, eu faço de novo; hoje é a noite de dois paus a jarra. É claro, se não gostou a gente pode ir lá fora.

— Não sei o que ela te contou, mas está errado — disse Barbie. A jukebox tocava... não era a música de McMurtry, mas foi o que ele escutou na cabeça: Cada um sabe seu lugar.

— O que ela me contou é que ela disse não e você continuou e comeu ela assim mesmo. Quanto mais do que ela você pesa? Quarenta quilos? Pra mim isso tem cara de estupro.

— Eu não fiz isso. — Sabia que provavelmente não adiantava.

— Quer ir lá fora, seu filho da puta, ou é covarde demais?

— Covarde demais — disse Barbie, e, para sua surpresa, Frankie se afastou. Barbie decidiu que já tivera cerveja e música demais naquela noite e estava se levantando para ir embora quando Frankie voltou, dessa vez não com um copo, mas com uma jarra.

— Não faz isso — disse Barbie, mas é claro que Frankie não lhe deu atenção. Direto no rosto. Uma chuveirada de Bud Light. Várias pessoas meio bêbadas riram e aplaudiram.

— Agora a gente pode ir lá fora e acertar as contas — disse Frankie —, senão eu posso esperar. A última chamada vem aí, Baaarbie.

Barbie foi, percebendo que se não fosse naquela hora seria depois, e acreditando que, se derrubasse Frankie logo, antes que muita gente visse, tudo acabaria. Poderia até pedir desculpas e dizer que nunca comera Angie. Não acrescentaria que Angie dera em cima dele, embora achasse que muita gente sabia (Rose e Anson com certeza). Talvez, com o nariz sangrando para acordá-lo Frankie visse o que, para Barbie, era muito óbvio: essa era a idéia de retribuição daquela babaca.

A princípio, pareceu que daria certo. Frankie estava com pés firmes no cascalho, a sombra jogada em duas direções pelo brilho das lâmpadas de sódio dos dois lados do estacionamento, os punhos erguidos feito um boxeador. Mau, forte e estúpido: só mais um brigão de cidade pequena. Acostumado a derrubar adversários com um único golpe forte e depois catá-los e lhes dar um monte de golpes pequenos até pedirem arrego.

Ele avançou e soltou a sua arma não tão secreta assim: um uppercut que Barbie evitou com o expediente simples de inclinar a cabeça um pouquinho para o lado. Barbie contra-atacou com um soco direto no plexo solar. Frankie caiu com uma expressão de espanto no rosto.

— Isso não é necess... — começou Barbie, e foi então que Junior Rennie o atingiu por trás, nos rins, provavelmente com as mãos unidas para formar um único punho grande. Barbie tropeçou para a frente e encontrou Carter Thibodeau pelo caminho, que saía do meio de dois carros e lhe deu um chute circular. Poderia ter quebrado o maxilar se acertasse, mas Barbie ergueu o braço a tempo. Isso explicava o pior dos hematomas, ainda num amarelo nada bonito quando ele tentou sair da cidade no Dia da Redoma.

Ele se virou de lado, vendo que fora uma emboscada planejada e sabendo que tinha que cair fora antes que alguém se ferisse de verdade. Não necessariamente ele. Não tinha problema em correr; não era orgulhoso. Deu três passos antes que Melvin Searles lhe pusesse o pé na frente. Barbie caiu de cara no cascalho e os pontapés começaram. Ele cobriu a cabeça, mas um temporal de botas lhe golpeou as pernas, a bunda, os braços. Uma o pegou bem nas costelas, pouco antes de ele conseguir se ajoelhar atrás da caminhonete fechada de móveis usados de Stubby Norman.

Então o bom-senso lhe fugiu e ele parou de pensar em sair correndo. Levantou-se, encarou os outros e lhes estendeu as mãos, as palmas para cima, Os dedos se agitando. Chamando. O lugar onde estava agora era estreito. Teriam de vir um por um.

Junior tentou primeiro; seu entusiasmo foi recompensado com um chute na barriga. Barbie estava de Nike e não de bota, mas o chute foi forte e Junior se curvou atrás da caminhonete, tentando respirar. Frankie passou por cima dele e Barbie o atingiu duas vezes no rosto — golpes doloridos, mas não fortes o bastante para quebrar nada. O bom-senso começara a se reafirmar.

O cascalho rangeu. Ele se virou a tempo de pegar o que vinha de Thibodeau, que dera a volta por trás dele. O golpe o atingiu na têmpora. Barbie viu estrelas. (“Ou talvez uma delas fosse um cometa”, disse a Brenda, abrindo a válvula do novo cilindro de gás.) Thibodeau veio e Barbie deu-lhe um chute Forte na canela. O sorriso de Thibodeau virou careta. Caiu de joelhos, parecendo um jogador de futebol americano a segurar a bola para uma tentativa de gol de campo. Mas quem segura a bola não costuma agarrar o tornozelo.

Absurdamente, Carter Thibodeau gritou:

— Lutador sujo filho da puta!

— Olha quem fa... — foi o que Barbie conseguiu dizer até Melvin Searles lhe meter o cotovelo em volta do pescoço. Barbie jogou o seu cotovelo para trás rumo ao abdômen de Searles e ouviu o grunhido de ar escapando. Sentiu o cheiro também: cerveja, cigarro, Slim Jims. Estava se virando, sabendo que provavelmente Thibodeau pularia sobre ele de novo antes que pudesse abrir caminho à força para sair do corredor entre carros para onde recuara, já sem se importar. O rosto latejava, as costelas latejavam, e de repente decidiu — parecia sensato — mandar os quatro para o hospital. Eles poderiam discutir o que era ou não luta suja quando assinassem o gesso uns dos outros.

Foi então que o chefe Perkins, chamado por Tommy ou Willow Anderson, donos do bar, entrou no estacionamento com faróis acesos e a luz do teto piscando para lá e para cá. Os brigões foram iluminados como atores num palco.

Perkins tocou a sirene uma vez; ela fez meio uóóinn e morreu. Saiu do carro, erguendo o cinto por sobre a sua considerável circunferência.

— Muito cedo na semana pra isso, né, gente?

Ao que Junior Rennie respondeu.

 

Isso Brenda não precisava que ele contasse; ouvira de Howie e não ficara surpresa. Desde criança, o garoto de Big Jim era um mentiroso fluente, ainda mais se seu interesse estava em jogo.

— Ao que ele respondeu: “Foi o chapeiro que começou.” Acertei?

— Na mosca. — Barbie apertou o botão para ligar o gerador, que rugiu, vivo. Sorriu para ela, embora sentisse o rosto corar. A história que acabara de contar não era sua favorita. Embora provavelmente a preferisse àquela outra do ginásio em Fallujah. — É isso aí: luz, câmera, ação.

— Obrigada. Quanto tempo vai durar?

— Só uns dois dias, mas talvez até lá esteja resolvido.

— Ou não. Acho que você sabe o que te salvou de uma viagem até a cadeia do condado naquela noite.

— Claro — respondeu Barbie. — O seu marido viu acontecer. Quatro contra um. Era meio difícil não ver.

— Qualquer outro policial talvez não visse, mesmo estando bem na frente dos olhos. E foi sorte Howie estar de plantão naquela noite; era dia de George Frederick, que não foi trabalhar por estar com dor de estômago. — Ela fez uma pausa. — Chamemos de providência em vez de sorte.

— Tem razão — concordou Barbie.

— Quer entrar, sr. Barbara?

— Por que não sentamos aqui? Se a senhora não se incomodar. Está agradável.

— Por mim, tudo bem. O tempo logo vai esfriar. Será?

Barbie disse que não sabia.

— Quando Howie levou vocês todos pra delegacia, DeLesseps disse a ele que o senhor estuprou Angie McCain. Foi isso o que aconteceu?

— Essa foi a primeira versão dele. Depois ele disse que talvez não fosse bem estupro, mas ela se assustou e me mandou parar, e eu não parei. Isso seria estupro em segundo grau, eu acho.

Ela deu um sorrisinho.

— Que nenhuma feminista lhe ouça dizer que há graus de estupro.

— É, melhor não. Seja como for, o seu marido me levou pra sala de interrogatório — cuja identidade secreta parece ser a de armário de vassouras...

Brenda deu uma gargalhada.

— ... e depois fez a Angie entrar. Mandou ela sentar de modo a me olhar nos olhos Putz, a gente estava quase colado. É preciso preparo mental pra mentir sobre coisas importantes, ainda mais quando se é jovem. Eu descobri isso no Exército. O seu marido também sabia disso. Disse a ela que o caso iria pro tribunal. Explicou a pena por falso testemunho. Resumindo a história, ela desmentiu tudo. Disse que não houve nem sexo, quanto mais estupro.

— Howie tinha um lema: “A razão antes da lei.” Era a base do jeito como ele cuidava de tudo. Não vai ser como Peter Randolph vai cuidar de tudo, não só porque ele é meio confuso das idéias, mas em especial porque não vai ser capaz de lidar com o Rennie. Meu marido era. Howie disse que, quando a notícia da sua... discussão... chegou ao sr. Rennie, ele insistiu pra que você fosse julgado por alguma coisa. Ficou furioso. Sabia disso?

— Não. — Mas não ficou surpreso.      

— Howie disse ao sr. Rennie que, se aquilo chegasse ao tribunal, ele cuidaria pra que tudo chegasse, inclusive os quatro contra um no estacionamento. Acrescentou que um bom advogado de defesa talvez até conseguisse incluir no caso algumas histórias de Frankie e Junior no colégio. Houve várias, embora nada parecido com o que aconteceu a você.

Ela balançou a cabeça.

— Junior Rennie nunca foi um grande garoto, mas era relativamente inofensivo. Foi no último ano, mais ou menos, que ele mudou. Howie percebeu e ficou incomodado. Descobri que Howie sabia coisas sobre o filho e sobre o pai... — Ela se interrompeu. Barbie pôde ver que ela ponderava se continuava ou não e decidiu que não. Como esposa da autoridade policial de uma cidade pequena, ela aprendera a ser discreta, e era um hábito difícil de desaprender.

— Howie aconselhou você a sair da cidade antes que Rennie achasse outro modo de criar problemas, não foi? Imagino que você foi pego por essa tal Redoma antes que conseguisse.

— Sim e sim. Posso tomar aquela Diet Coke agora, sra. Perkins?

— Me chame de Brenda. E eu te chamarei de Barbie, se o nome é esse. Por favor, sirva-se.

Barbie se serviu.

— Você quer a chave do abrigo antirradiação pra pegar o contador Geiger. Eu posso e vou lhe ajudar nisso. Mas parece que você disse que Jim Rennie tem que saber, e com essa ideia eu me incomodo. Talvez seja o pesar nublando a minha cabeça, mas eu não entendo... Por que você quer entrar numa disputa e bater de frente com ele? Big Jim entra em pânico quando qualquer um desafia a autoridade dele, e de você ele já não gosta, pra começar. Nem lhe deve nenhum favor. Se o meu marido ainda fosse o chefe, talvez vocês dois pudessem ir falar juntos com Rennie. Acho que eu até gostaria disso. — Ela se inclinou à frente, olhando-o muito séria com os seus olhos cercados de uma mancha escura. — Mas Howie se foi, e é provável que você acabe numa cela em vez de sair por aí atrás de um gerador misterioso.

— Eu sei disso tudo, mas tem algo novo. A Força Aérea vai lançar uni míssil Cruise na Redoma às 13 horas de amanhã.

— Ai, meu Jesus.

— Já lançaram outros mísseis, mas só pra determinar até que altura vai a barreira. O radar não serve pra isso. E tinham ogiva oca. Este vai ter uma ogiva bem cheia. Tipo arrasa-forte.

Ela empalideceu visivelmente.

— Em que parte da cidade vão lançar o míssil?

— O ponto de impacto vai ser onde a Redoma corta a estrada da Bostinha. Julia e eu estivemos lá ontem à noite. Vai explodir a um metro e meio do chão.

Ela abriu a boca num espanto nada elegante.

— Não é possível!

— Infelizmente é. Vão lançar de um B-52, que vai seguir uma rota pré-programada. Quero dizer realmente programada. Até cada elevaçãozinha, cada buraco, depois que chega à altura do alvo. Essas coisas são estranhíssimas. Se explodir e não passar, todo mundo da cidade só vai levar um baita susto; vai soar como o fim do mundo. Mas se passar...

A mão dela foi para a garganta.

— Qual vai ser o estrago? Barbie, não há caminhão de bombeiros aqui!

— Eu tenho certeza de que eles terão equipamento contra incêndio de prontidão. Quanto ao estrago? — Ele deu de ombros. — A área toda vai ter que ser evacuada, isso não se discute.

— É sensato? Isso que estão planejando é sensato?

— Essa pergunta é irrelevante, sra... Brenda. Já tomaram a decisão. Mas isso não é o pior. — E, ao ver a expressão dela: — Pra mim, não pra cidade. Fui promovido a coronel. Por ordem do presidente da República.

Ela ergueu os olhos para o céu.

— Que bom.

— Esperam de mim que declare estado de sítio e, basicamente, assuma o controle de Chester’s Mill. Jim Rennie não vai adorar saber disso?

Ela o surpreendeu caindo na gargalhada. E Barbie se surpreendeu rindo também.

— Entende o meu problema? A cidade não precisa saber do empréstimo do contador Geiger, mas precisa saber do míssil que vem nessa direção. Julia Shumway vai espalhar a notícia se eu não fizer isso, mas as autoridades precisam saber por mim. Porque...

— Eu sei por quê. — Graças ao sol que se avermelhava, o rosto de Brenda perdera a palidez. Mas ela esfregava os braços sem pensar. — Pra você impor a sua autoridade aqui... que é o que o seu superior quer que você faça...

— Acho que o Cox é mais como um parceiro agora — disse Barbie.

Ela suspirou.

— Andrea Grinnell. Vamos levar o problema até ela. Depois conversarmos com Rennie e Andy Sanders juntos. Ao menos vamos ser mais numerosos, três contra dois.

— A irmã de Rose? Por quê?

— Não sabia que ela é a terceira vereadora da cidade? — E, quando ele Fez que não: — Não fique tão sem graça. Muitos não sabem, embora ela ocupe o cargo há vários anos. Pros dois homens, ela não passa de um carimbo, ou seja, pra Rennie, já que Andy Sanders também é um carimbo... E ela tem... problemas.., mas no fundo é durona. Ou era.

— Que problemas?

Ele achou que ela guardaria aquilo para si, mas não.

— Dependência de drogas. Analgésicos. Não sei até que ponto.

— E acho que ela compra os remédios na farmácia de Sanders.

— É. Sei que não é uma solução perfeita e você vai ter que tomar muito cuidado, mas... por pura conveniência, Jim Rennie pode ser obrigado a aceitar por algum tempo sua colaboração. Quanto à sua real liderança? — Ela balançou negativamente a cabeça. — Ele vai limpar a bunda com qualquer declaração de estado de sítio, seja ou não assinada pelo presidente. Eu... — Ela se calou. Os olhos dela olhavam para atrás dele e se arregalavam.

— Sra. Perkins? Brenda? O que é?

— Ai — disse ela. — Ai, meu Deus!

Barbie se virou para olhar e também ficou calado de espanto. O sol se punha vermelho como costumava acontecer no fim da tarde, depois de dias quentes, bonitos e sem chuva. Mas nunca na vida ele vira um pôr do sol como aquele. Fazia idéia de que os únicos que viam coisas assim eram os que estavam na vizinhança de violentas erupções vulcânicas.

Não, pensou. Nem eles. Isso é novo em folha.

O sol que se punha não era uma bola. Era uma forma imensa de gravata-borboleta vermelha, com um centro circular ardente. O céu a oeste estava manchado como se coberto por uma fina película de sangue, que se tornava alaranjado ao subir. O horizonte era quase invisível através daquele brilho nebuloso.

— Jesus Cristo, é como tentar olhar pelo para-brisa sujo quando a gente dirige na direção do sol — disse ela.

E é claro que era, só que a Redoma era o para-brisa. Começara a juntar poeira e pólen. Poluentes também. E ia piorar.

Vamos ter que lavá-la, pensou ele, e imaginou filas de voluntários com baldes e panos. Absurdo. Como a lavariam até 12 metros de altura? Ou trinta? Ou trezentos?

— Isso tem que acabar — sussurrou ela. — Liga pra eles e diz pra lançarem o maior míssil possível, e danem-se as consequências. Porque isso tem que acabar.

Barbie não disse nada. Não estava bem certo de que conseguiria falar mesmo que tivesse algo a dizer, Aquele brilho vasto e empoeirado lhe roubara as palavras. Era como olhar através de uma escotilha para o inferno.

 

NIUC-NIUC-NIUC

Jim Rennie e Andy Sanders assistiram ao estranho pôr do sol nos degraus da Funerária Bowie. Tinham que ir para a outra “Reunião de Avaliação de Emergência” às sete horas na Câmara de Vereadores, e Big Jim queria chegar cedo para se preparar, mas por ora ficaram onde estavam observando o dia morrer a sua morte estranha e manchada.

— Parece o fim do mundo — disse Andy com voz baixa e espantada.

— Bobagem! — retrucou Big Jim, e se sua voz soara ríspida até para ele, era porque um pensamento similar vinha lhe passando pela cabeça. Pela primeira vez desde que a Redoma caíra, lhe ocorrera que a situação poderia estar além da capacidade deles de administrar, a capacidade dele de administrar, e rejeitava a idéia com fina. — Você está vendo Jesus Cristo Nosso Senhor descer dos céus?

— Não — admitiu Andy. O que via eram moradores da cidade que conhecia desde sempre agrupados na rua principal, sem falar, só observando aquele estranho pôr do sol com a mão protegendo os olhos.

— Está me vendo? — insistiu Big Jim.

Andy se virou para ele.

— Claro que sim — disse. Meio perplexo. — Claro que sim, Big Jim.

— Então eu não fui Arrebatado — concluiu Big Jim. — Eu entreguei o meu coração a Jesus anos atrás e, se fosse o Fim dos Dias, eu não estaria aqui.

Nem você, certo?

— Acho que não — respondeu Andy, mas estava em dúvida. Se fossem Salvos, lavados no Sangue do Cordeiro, por que tinham acabado de conversar com Stewart Bowie sobre fechar o “seu negocinho”, como dizia Big Jim? E como tinham entrado num negócio daqueles, para começar? O que uma fábrica de metanfetamina tem a ver com ser Salvo?

Se perguntasse a Big Jim, Andy sabia qual seria a resposta: às vezes, os fins justificam os meios. Nesse caso, os fins haviam parecido admiráveis um dia: a nova Igreja do Sagrado Redentor (a velha era pouco mais que um barraco de tábuas com uma cruz de madeira em cima); a estação de rádio que salvara só Deus sabia quantas almas; os 10% que pagavam de dízimo — os cheques emitidos prudentemente por um banco das ilhas Cayman — à Sociedade Missionária Senhor Jesus para ajudar os “irmãozinhos marrons”, como dizia o pastor Coggins.

Mas ao olhar aquele imenso pôr do sol borrado que parecia indicar que todas as questões humanas eram minúsculas e desimportantes, Andy teve que admitir que essas coisas não passavam de desculpas. Sem o dinheiro da metanfetamina, sua farmácia teria falido seis anos atrás. Mesma coisa com a funerária. Mesma coisa — provavelmente, embora o homem ao seu lado jamais fosse admitir — com os Carros Usados de Jim Rennie.

— Eu sei o que você está pensando, parceiro — disse Big Jim.

Andy ergueu os olhos para ele timidamente. Big Jim sorria.., mas não o sorriso feroz. Esse era gentil, compreensivo. Andy sorriu de volta, ou tentou. Devia muito a Big Jim. Só que agora coisas como a farmácia e o BMW de Claudie pareciam bem menos importantes. De que adiantava um BMW, mesmo com estacionamento automático e aparelhagem de som ativada por voz, para uma esposa morta?

Quando isso acabar e a Dodee voltar, eu vou dar o BMW pra ela, decidiu Andy. É o que a Claudie teria gostado.

Big Jim ergueu a mão de dedos grossos para o sol em declínio que parecia se espalhar pelo céu a oeste como um grande ovo envenenado.

— Você fica achando que tudo isso é culpa nossa, de certa forma. Que Deus está punindo a gente por sustentar a cidade quando os tempos eram difíceis. E isso simplesmente não é verdade, parceiro. Isso não é obra de Deus. Se você dissesse que a derrota no Vietnã foi obra de Deus o aviso de Deus de que os Estados Unidos estavam se perdendo no caminho espiritual, eu teria que concordar. Se dissesse que o 11 de Setembro foi a reação do Ser Supremo à nossa Suprema Corte, que disse às criancinhas para não começarem mais o dia com uma oração ao Deus que as criou, eu teria que aceitar. Mas Deus punir Chester’s Mill porque nós não quisemos acabar como mais um pontinho moribundo na estrada, tipo Jay ou Millinocket? — Ele fez que não. — Não, senhor. Não.

— Nós também pusemos um bom troco no bolso — disse Andy timidamente.

Isso era verdade. Tinham feito mais que promover suas empresas e estender a mão amiga aos irmãozinhos marrons; Andy tinha conta pessoal nas ilhas Cayman. E para cada dólar que Andy tinha — ou os Bowie, aliás —, ele apostaria que Big Jim guardara três. Talvez até quatro.

— “Pois o operário é digno do seu sustento” — disse Big Jim com voz pedante, mas gentil. — Mateus, 10, 10. — Ele deixou de citar o versículo anterior: Não vos pro vereis de ouro, nem de prata, nem de cobre, em vossos cintos.

Olhou o relógio.

— Por falar em trabalho, parceiro, é melhor a gente ir andando. Temos muito a decidir. — Ele começou a andar. Andy foi atrás, sem tirar os olhos do pôr do sol, que ainda era luminoso o bastante para fazê-lo pensar em carne contaminada. Então Big Jim parou de novo.

— Seja como for, você ouviu Stewart; fechamos aquilo lá. “Tudo acabado e abotoado”, como disse o menininho depois da primeira mijada. Ele mesmo falou com o Chef.

— Aquele cara — disse Andy com azedume.

Big Jim deu uma risadinha.

— Não se preocupa com o Phil. Nós estamos fechados e vamos ficar fechados até a crise acabar. Na verdade, esse pode ser o sinal de que devemos fechar para sempre. Um sinal do Todo-poderoso.

— Seria bom — disse Andy. Mas ele teve uma ideia deprimente: se a Redoma sumisse, Big Jim mudaria de idéia, e quando isso acontecesse, Andy iria junto. Stewart Bowie e o irmão Fernald também. Ansiosamente. Em parte porque o dinheiro era inacreditável, sem impostos, ainda por cima, e em parte porque estavam naquilo até o pescoço. Ele se lembrou de algo que uma estrela do cinema disse há muito tempo: “Quando descobri que não gostava de atuar, estava rica demais para parar.”

— Não se preocupa tanto — aconselhou Big Jim. — Vamos trazer o gás de volta à cidade daqui a uns 15 dias, quer essa situação da Redoma se resolva, quer não. A gente usa os caminhões de areia da cidade. Sabe dirigir com câmbio manual, não sabe?

— Sei — respondeu Andy com tristeza.

— É — alegrou-se Big Jim quando teve uma ideia — podemos usar o rabecão do Stewie! Aí podemos trazer alguns cilindros mais cedo ainda!

Andy nada disse. Odiava a ideia de terem se apropriado (era a palavra que Big Jim usava) de tanto gás de várias fontes da cidade, mas parecera a maneira mais segura. Estavam fabricando em grande escala e precisavam ferver muito e dissipar muitos gases ruins. Big Jim ressaltara que comprar gás em grande quantidade podia chamar a atenção. Bem como comprar grande quantidade dos vários medicamentos que compunham aquele lixo podia chamar a atenção e causar problemas.

Ter uma farmácia ajudara muito, embora o volume de pedidos de coisas como Robitussin e Sudafed deixasse Andy terrivelmente nervoso. Ele achava que aquilo seria a queda deles, se queda houvesse. Até agora nunca pensara no imenso reservatório de gás atrás do estúdio da WCIK.

— Por sinal, vamos ter muita eletricidade na Câmara hoje. — Big Jim falou com o ar de quem revela uma surpresa agradável. — Eu disse ao Randolph pra mandar o meu filho e o amigo dele, Frankie, ao hospital pegar um cilindro deles pro nosso gerador.

Andy ficou alarmado.

— Mas nós já pegamos...

— Eu sei — disse Rennie, consolador. — Eu sei que nós pegamos. Não se preocupa com o Cathy Russell, eles têm bastante por enquanto.

— Você podia ter buscado um na rádio... tem tanto lá...

— Era mais perto — disse Big Jim. — E mais seguro. Pete Randolph é um dos nossos, mas isso não quer dizer que eu queira que ele saiba do nosso negocinho. Nem agora nem nunca.

Isso deixou Andy ainda mais certo de que Big Jim não queria de fato desistir da fábrica.

— Jim, se começarmos a trazer o gás de volta pra cidade, onde a gente vai dizer que estava? Vamos contar ao povo que a Fada do Gás levou e depois mudou de ideia e devolveu?

Rennie franziu a testa.

— Tá achando engraçado, parceiro?

— Não! Acho assustador!

— Eu tenho um plano. Vamos anunciar um depósito de combustível da cidade e racionar o gás conforme necessário. Óleo combustível pra aquecimento também, se conseguirmos descobrir como usar sem eletricidade. Detesto a ideia de racionamento, é antiamericana até os ossos, mas é como a história da formiga e do gafanhoto, sabe. Tem melequentos na cidade que iam usar tudo num mês e depois vir gritando pra nós cuidarmos deles ao primeiro sinal de uma onda de frio!

— Você não acha que isso vai durar um mês, acha?

— Claro que não, mas é como se dizia no passado: torcer pelo melhor, se preparar pro pior.

Andy pensou em ressaltar que já tinham usado boa quantidade dos suprimentos da cidade para fazer cristal, mas sabia o que Big Jim diria: Como é que íamos saber?

É claro que não havia como. Quem, no seu juízo perfeito, esperaria essa redução súbita de todos os recursos? Planejamos para mais do que suficiente. Era o jeito americano. Insuficiente era um insulto à mente e ao espírito.

— Você não é o único que não vai gostar da ideia de racionamento — comentou Andy.

— É pra isso que temos polícia. Sei que todos lamentamos a morte do Howie Perkins, mas agora ele está com Jesus e nós temos Pete Randolph. Que vai ser melhor pra cidade nessa situação. Porque ele atende. — Big Jim apontou o dedo para Andy. — Os moradores de uma cidade como essa, de qualquer cidade, aliás, não passam de crianças quando se trata do interesse próprio. Quantas vezes eu já disse isso?

— Várias — respondeu Andy, e suspirou.

— E o que nós temos que mandar crianças fazerem?

— Comer as verduras se quiserem sobremesa.

— Exato! E às vezes isso significa estalar o chicote.

— Isso me lembra outra coisa — disse Andy. — Conversei com Sammy Bushey lá no pasto de Dinsmore... uma das amigas da Dodee. Ela disse que um dos policiais foi muito duro por lá. Duro demais. É preciso conversar sobre isso com o chefe Randolph.

     Jim lhe franziu a testa.

     — Você esperava o que, parceiro? Luvas de pelica? Quase houve um quebra-quebra por lá. Quase tivemos um melequento dum quebra-quebra bem aqui em Chester’s Mill.

     — Eu sei disso, você tá certo, mas é que...

     — Eu conheço essa moça Bushey. Conheço a família inteira. Usuários de drogas, ladrões de carros, contraventores, caloteiros e sonegadores. Do tipo que a gente costumava chamar de lixo branco pobre antes que passasse a ser politicamente incorreto. É nessa gente que temos que ficar de olho agora. Essas mesmas pessoas. São elas que vão acabar com a cidade se tiverem um fiapo de oportunidade. É isso que você quer?

     — Não, é claro que não...

     Mas Big Jim estava empolgado.

     — Toda cidade tem as suas formigas, o que é bom, e os seus gafanhotos, que não são tão bons, mas nós podemos conviver com eles porque os entendemos e podemos obrigar que façam o que é melhor pra eles, mesmo que seja preciso apertar um pouco. Mas toda cidade também tem os seus enxames de gafanho05, como na Bíblia, e é isso que são as pessoas como os Bushey. É nessa hora que temos que baixar o sarrafo. Você pode não gostar, eu posso não gostar, mas a liberdade pessoal vai ter que dar uma voltinha até isso acabar. E vamos nos sacrificar também. Não vamos fechar o nosso negocinho?

Andy não queria ressaltar que, na verdade, eles não tinham opção, já que não havia como enviar a mercadoria para fora da cidade, e preferiu um simples sim. Não queria discutir mais e temia a reunião iminente, que poderia se arrastar até a meia-noite. Ele só queria ir para a sua casa vazia, tomar uma bebida forte e depois se deitar e pensar em Claudie e chorar até dormir.

— O importante agora, parceiro, é manter a situação equilibrada. Isso significa lei, ordem e supervisão. Nossa supervisão, porque não somos gafanhotos, somos formigas. Formigas-soldados.

Big Jim pensou melhor. Quando falou de novo, o tom de voz era bem profissional.

— Estou repensando a decisão de manter o Food City aberto como sempre. Não estou dizendo que vamos fechá-lo, ao menos não agora, mas temos que ficar de olho nele nos próximos dias. Como um falcão melequento. O mesmo com o Posto e Mercearia. E pode não ser má ideia nos apropriarmos de alguns alimentos mais perecíveis para o nosso...

Ele parou, franzindo os olhos nos degraus da Câmara de Vereadores. Não acreditava no que via e ergueu a mão para bloquear o pôr do sol. Ainda estavam lá: Brenda Perkins e Dale Barbara, aquele coisa-ruim criador de caso. E não sozinhos. Sentada entre eles, e conversando animada com a viúva do chefe Perkins, estava Andrea Grinnell, a terceira vereadora. Pareciam estar passando folhas de papel de mão em mão.

Big Jim não gostou daquilo.

Nem um pouco.

 

Ele começou a avançar, querendo dar fim à conversa, fosse qual fosse o assunto. Antes que desse meia dúzia de passos, um menino correu até ele. Era um dos filhos dos Killian. Era uma família de umas 12 pessoas vivendo numa granja dilapidada perto da fronteira da cidade com Tarker’s Mills. Nenhum dos garotos era muito inteligente — o que era de se esperar honestamente, levando em consideração os pais de cujas pobres entranhas tinham brotado —, mas todos eram membros bem-vistos da Sagrado Redentor; todos Salvos, em outras palavras. Este era o Ronnie... ao menos foi o que Rennie pensou, mas era difícil ter certeza. Todos tinham a mesma cabecinha redonda, as mesmas sobrancelhas salientes e o nariz adunco.

O menino usava uma camiseta esfarrapada da WCIK e trazia um bilhete.

— Ô, sr. Rennie! — chamou ele. — Caramba, procurei o senhor pela cidade toda!

— Acho que não tenho tempo agora pra conversar com você, Ronnie

— disse Big Jim. Ainda olhava o trio sentado nos degraus da Câmara. Os Três Patetas do coisa-ruim. — Talvez ama...

— É Richie, sr. Rennie. Ronnie é o meu irmão.

— Richie. É claro. Agora, se me dá licença... — Big Jim continuou andando.

Andy pegou o bilhete do menino e alcançou Rennie antes que chegasse ao trio sentado nos degraus.

— É melhor dar uma olhada nisso.

O que Big Jim olhou primeiro foi o rosto de Andy, mais contraído e preocupado do que nunca. Depois, pegou o bilhete.

 

James

Preciso vê-lo hoje à noite. Deus falou comigo. Agora eu preciso falar com você antes de me dirigir à cidade. Por favor, responda. Richie Killian vai me entregar a sua mensagem.

Reverendo Lester Coggins

    

Não estava escrito Les; nem mesmo Lester. Não. Reverendo Lester Coggins. Isso não era bom. Por que, ah, por que tudo tinha que acontecer ao mesmo tempo?

O menino estava em pé diante da livraria, olhando lá para dentro com a camiseta desbotada e as calças jeans largas e meio caídas como um órfão do coisa-ruim. Big Jim lhe fez um sinal. O menino foi correndo, ansioso. Big Jim tirou do bolso a caneta (em cujo corpo estava escrito em ouro: “COMPRAR COM BIG JIM É GOSTOSO ASSIM”) e rabiscou uma resposta de quatro palavras: Meia-noite. Minha casa. Dobrou e entregou ao menino.

— Leva isso de volta pra ele. E não leia.

— Não vou ler! Sem chance! Deus te abençoe, sr. Rennie.

— A você também, filho. — Ele observou o menino sair correndo.

O que foi isso? — perguntou Andy. E, antes que Big Jim respondesse:

— A fábrica? Será a metan...

— Cala a boca. — Andy deu um passo atrás, chocado. Big Jim nunca o mandara se calar. A situação devia ser grave.

— Uma coisa de cada vez — disse Big Jim, e marchou rumo ao problema seguinte.

 

Ao ver Rennie se aproximar, o primeiro pensamento de Barbie foi: Ele anda como um homem que está doente e não sabe. Ele também andava como um homem que passara a vida se dando bem. Usava o seu mais carnívoro sorriso amistoso ao pegar as mãos de Brenda e apertá-las. Ela permitiu isso com calma e boa vontade.

— Brenda — disse ele. — Minhas mais profundas condolências. Eu devia ter ido visitar você antes... e é claro que eu vou ao funeral... mas andei meio ocupado. Todos andamos.

— Entendo — respondeu ela.

— Sentimos muita falta de Duke — disse Big Jim.

— Isso é verdade — interrompeu Andy, parando atrás de Big Jim: um rebocador na esteira de um transatlântico. — Sem dúvida.

— Muito obrigada aos dois.

— E embora eu adorasse discutir suas preocupações... Posso ver que você as tem... — O sorriso de Big Jim se alargou, embora não chegasse nem perto dos seus olhos. — Nós temos uma reunião muito importante. Andrea, você poderia ir na frente e arrumar aqueles arquivos?

Embora estivesse com quase 50 anos, naquele momento Andrea parecia uma criança pega roubando torta quente da janela. Começou a se levantar (fazendo uma careta de dor nas costas), mas Brenda lhe segurou o braço, e com firmeza. Andrea voltou a sentar-se.

Barbie percebeu que tanto Grinnell quanto Sanders estavam morrendo de medo. Não era a Redoma, ao menos não naquele momento; era Rennie. E pensou de novo: Pior não é impossível.

— Acho que é melhor você arranjar um tempinho pra nós, James — disse Brenda com voz agradável. — Sem dúvida você compreende que, se isso não fosse importante muito importante, eu estaria em casa, chorando o meu marido.

Big Jim se viu sem palavras, o que era raro. As pessoas na rua que tinham observado o pôr do sol agora observavam essa reunião improvisada. Talvez dando a Barbara uma importância que ele não merecia, simplesmente por estar sentado na proximidade da terceira vereadora da cidade e da viúva do falecido chefe de polícia. Os três passando de um para outro uma folha de papel como se fosse uma carta de Sua Santidade, o Papa. De quem fora a ideia daquela exibição pública? Da mulher de Perkins, é claro. Andrea não tinha inteligência suficiente. Nem coragem para se colocar no caminho dele daquele jeito tão público.

— Bom, talvez nós possamos lhe conceder alguns minutos. Não é, Andy?

— Claro — disse Andy. — Temos sempre alguns minutos para a sra. Perkins. Sinto muito por Duke.

— E sinto muito pela sua mulher — disse ela, muito séria.

Os olhos deles se cruzaram. Foi um genuíno Momento de Ternura que deixou Big Jim com vontade de arrancar os cabelos. Sabia que não devia permitir que tais sentimentos tomassem conta dele — fazia mal à pressão, e o que fazia mal à pressão fazia mal ao coração —, mas às vezes era difícil. Ainda mais quando acabara de receber um bilhete de um sujeito que sabia demais e agora acreditava que Deus queria que ele falasse à cidade. Se Big Jim estava certo a respeito do que andava pela cabeça de Coggins, esse assunto atual era fichinha.

Só que podia não ser fichinha. Porque Brenda Perkins nunca gostara dele, e Brenda Perkins era a viúva do homem que a cidade agora considerava — sem absolutamente nenhuma boa razão — um herói. A primeira coisa que tinha a fazer...

— Vamos entrar — disse. — Conversamos na sala de reuniões. — Seu olhar se voltou para Barbie. — O senhor faz parte disso, sr. Barbara? Porque não consigo imaginar por quê.

— Isso pode ajudar — respondeu Barbie, entregando-lhe as folhas de papel que estavam sendo passadas de mão em mão. — Já estive no Exército. Era tenente. Parece que prorrogaram o meu serviço militar. Também fui promovido.

Rennie pegou os papéis segurando-os pelo cantinho, como se estivessem muito quentes. A carta era bem mais elegante que o bilhete sujo que Richie Killian lhe entregara e de remetente bem mais conhecido. O cabeçalho dizia, simplesmente: DA CASA BRANCA. Tinha a data do dia.

Rennie tateou o papel. Uma profunda ruga vertical se formara entre as suas sobrancelhas densas.

— Esse não é o papel timbrado da Casa Branca.

É claro que é, seu idiota, Barbie sentiu vontade de dizer. Foi entregue uma hora atrás pelo esquadrão de elfos da FedEx. O doidinho filho da puta só precisou se teleportar para dentro da Redoma, sem problemas.

— Não, não é. — Barbie tentou manter a voz amistosa. — Chegou como PDF, pela internet. A sra. Shumway baixou e imprimiu.

Julia Shumway. Outra criadora de caso.

— Leia, James — disse Brenda com calma. — É importante. Big Jim leu.

 

Benny Drake, Norrie Calvert e Joe Espantalho McClatchey estavam diante da sede do Democrata de Chester’s Mill. Cada um com a sua lanterna. Benny e Joe levavam a deles na mão; a de Norrie estava enfiada no grande bolso da frente do casaco de moletom. Olhavam para a Câmara rua acima, onde parecia que várias pessoas — inclusive os três vereadores e o chapeiro do Rosa Mosqueta — faziam uma conferência.

— O que estará acontecendo? — perguntou Norrie.

— Merda de adultos — respondeu Benny, com supremo desinteresse e bateu à porta do jornal. Como ninguém atendeu, Joe passou por ele e experimentou a maçaneta. A porta se abriu. Na mesma hora ele soube que a sra. Shumway não tinha escutado os três; a copiadora funcionava à toda enquanto ela conversava com o repórter esportivo do jornal e o cara que andara tirando fotos do dia no campo.

Ela viu os garotos e acenou para que entrassem. As folhas de papel caíam rapidamente na bandeja da copiadora. Pete Freeman e Tony Guay se revezavam tirando-as e empilhando-as.

Aí estão vocês — disse Julia. — Estava com medo de que não viessem. Estamos quase prontos. Se a maldita copiadora não fizer cagada, é claro. — Joe, Benny e Norrie receberam com apreciação essa encantadora palavrinha cada um resolvendo usá-la assim que possível.

— Vocês pediram permissão aos seus pais? — perguntou Julia. — Não quero um monte de pais zangados no meu pescoço.

— Pedimos, sim — disse Norrie. —Todos nós.

Freeman amarrava com barbante um maço de papéis. E fazia um péssimo serviço, notou Norrie. Ela sabia dar cinco tipos de nós diferentes. E amarrar iscas de pesca. O pai lhe ensinara. Por sua vez, ela lhe mostrara como fazer um nosegrind na cerca e, quando ele caiu pela primeira vez, riu até as lágrimas correrem pelo rosto. Ela achava que tinha o melhor pai do universo.

— Quer que eu faça isso? — perguntou Norrie.

— Se você sabe fazer melhor, claro. — Pete se afastou.

Ela avançou, Joe e Benny bem juntos atrás. Então ela viu a grande manchete preta no número extra de uma folha só e parou.

— Que merda!

Assim que a palavra saiu ela pôs a mão na boca, mas Julia só concordou com a cabeça.

— É mesmo merda das mais autênticas. Espero que todos tenham vindo de bicicleta e espero que todos tenham cestinhas. Não dá pra carregar isso aí de skate.

— Foi o que você disse, foi como nós viemos — respondeu Joe. — A minha não tem cestinha, mas tem bagageiro.

— E eu amarro o fardo dele — disse Norrie.

Pete Freeman, que observava com admiração a menina amarrar rapidamente os fardos (com um laço que parecia uma borboleta), disse:

— Não duvido. Estão ótimos.

— É, eu sou demais — disse Norrie objetivamente.

— Trouxeram lanternas? — perguntou Julia.

— Trouxemos — responderam os três juntos.

— Ótimo. O Democrata não usa jornaleiros há trinta anos e não quero comemorar a volta do sistema com um de vocês atropelado na esquina da Principal ou da Prestile.

Isso ia ser mesmo muito chato — concordou Joe.

— Todas as casas e lojas das duas ruas recebem um exemplar, certo? Mais a Morin e a avenida Saint Anne. Depois disso, se espalhem. Façam o possível, mas quando for nove horas, vão pra casa. Deixem os que sobrarem nas esquinas. Ponham uma pedra em cima pra não voarem.

Benny olhou de novo a manchete:

 

 

ATENÇÃO, CHESTER’S MILL!

EXPLOSIVOS SERÃO DETONADOS NA BARREIRA!

SISTEMA DE LANÇAMENTOS DE MÍSSEIS CRUISE

RECOMENDADA A EVACUAÇÃO DA ZONA OESTE

    

— Duvido que dê certo — disse Joe, sombrio, examinando o mapa, obviamente desenhado à mão, na parte de baixo do jornal. A fronteira entre Chester’s Mill e Tarker’s Mills fora destacada em vermelho. Havia um X preto onde a estrada da Bostinha passava pelo limite da cidade. O X fora legendado como Ponto de Impacto.

— Sai pra lá, garoto — retrucou Tony Guay.

 

DA CASA BRANCA

Cumprimentos e saudações à CÂMARA DE VEREADORES DE CHESTER’S MILL:

Andrew Sanders

James P. Rennie

Andrea Grinnell

    

Caros senhores e senhora:

Em primeiro lugar, os saúdo e quero exprimir a profunda preocupação e os melhores votos do nosso país. O dia de amanhã foi declarado Dia de Oração nacional; em todo o país, igrejas vão estar abertas para que gente de todas as fés possa rezar pelos senhores e pelos que trabalham para entender e reverter o que ocorreu nas fronteiras da sua cidade. Quero assegurá-los de que não vamos descansar até que o povo de Chester’s Mill seja libertado e os responsáveis por sua prisão sejam punidos. Essa situação será resolvida, e logo: eis minha promessa aos senhores e ao povo de Chester’S Mill. Falo com todo o peso solene do meu cargo como seu comandante em chefe.

Em segundo lugar, esta carta apresenta aos senhores o coronel Dale Barbara, do Exército dos Estados Unidos. O cel. Barbara serviu no Iraque, onde foi condecorado com a Estrela de Bronze, a Medalha de Honra ao Mérito e duas medalhas Purple Heart. Foi chamado de volta ao Exército e promovido para que possa servir de canal entre os senhores e nós. Sei que, como americanos leais, os senhores lhe darão toda a assistência. E como o ajudarem, nós os ajudaremos.

A minha intenção original, de acordo com o conselho que recebi dos chefes do Estado-Maior conjunto e dos ministros de Defesa e de Segurança Interna, era proclamar o estado de sítio em Chester’s Mill e nomear o cel. Barbara governador militar provisório. Contudo, o cel. Barbara me assegurou que isso não será necessário. Ele afirma que espera toda cooperação dos vereadores e da polícia local. Acredita que seu cargo deveria ser de “aconselhamento e consentimento”. Eu concordei com a sua opinião, sujeita a revisões.

Em terceiro lugar, sei que os senhores estão preocupados com a incapacidade de telefonar para amigos e familiares. Compreendemos sua preocupação, mas é fundamental que mantenhamos esse “apagão telefônico” para reduzir o risco de troca de informações secretas entre Chester’s Mill e o exterior. Os senhores podem achar que é uma preocupação desnecessária; posso lhes garantir que não é. Não é impossível que alguém em Chester’s Mill tenha informações a respeito da barreira que cerca a cidade. Ligações “internas” serão completadas.

Em quarto lugar, continuaremos por enquanto a manter o apagão da imprensa, embora essa questão continue sujeita a revisões. Pode chegar uma hora em que seja benéfico que as autoridades da cidade e o cel. Barbara deem uma entrevista coletiva, mas por enquanto acreditamos que o fim rápido dessa crise tornará irrelevante esse encontro com a imprensa.

A minha quinta questão diz respeito à comunicação pela internet. Os chefes do Estado-Maior conjunto são extremamente favoráveis ao apagão temporário das comunicações por e-mail, e tendo a concordar com eles. Entretanto, o cel. Barbara apresentou fortes argumentos a favor de permitir aos cidadãos de Chester’s Mill que continuem a ter acesso à internet. Ele ressalta que o tráfego de e-mails pode ser legalmente acompanhado pela Agência de Segurança Nacional e que, na prática, essas comunicações podem ser censuradas com mais facilidade do que as transmissões de celulares. Como ele é o “nosso homem no local”, concordei nessa questão, em parte por razões humanitárias. No entanto, essa decisão também está sujeita a revisões; pode haver mudanças na política. O cel. Barbara participará integralmente de tais revisões e esperamos uma relação de trabalho tranquila entre ele e todas as autoridades da cidade.

Em sexto lugar, apresento-lhes uma boa possibilidade de que essa difícil prova possa terminar amanhã mesmo, às 13 horas. O cel. Barbara explicará a operação militar marcada para esse horário. Ele me assegura que, com os bons serviços dos senhores e da sra. Julia Shumway, proprietária do jornal local, será possível informar aos cidadãos de Chester’S Mill o que esperar.

E finalmente: os senhores são cidadãos dos Estados Unidos da América e jamais os abandonaremos. A nossa promessa mais firme, baseada nos nossos mais elevados ideais, é simples: nenhum homem, mulher ou criança ficará para trás. Todos os recursos que precisarmos empregar para dar fim ao seu confinamento serão utilizados. Todo dólar que for preciso gastar será gasto. Em troca, esperamos dos senhores fé e cooperação. Por favor, deem-nos ambos.

Com todas as orações e desejos de sucesso, sinceramente,

 

Qualquer que fosse o limpador de latrina escrevinhador que tivesse redigido aquilo para ele, o canalha o assinara em pessoas e usando os seus três nomes, inclusive o nome terrorista do meio. Big Jim não votara nele e, naquele momento, caso pudesse se teleportar até diante dele, sentia que ficaria contentíssimo de estrangulá-lo.

E Barbara.

O desejo mais profundo de Big Jim era assoviar para chamar Pete Randolph e trancar o Coronel Chapeiro numa cela. Dizer-lhe que poderia comandar a sua maldita ordem de estado de sítio do porão da delegacia, com Sam Verdreaux servindo de ajudante de ordens. Talvez Sam Relaxado conseguisse segurar o delirium tremens tempo suficiente para bater continência sem enfiar o polegar no olho.

Mas não agora. Não ainda. Algumas expressões da carta do Guardinha Preto em Chefe se destacavam:

E como o ajudarem nós os ajudaremos.

Uma relação de trabalho tranquila entre ele e todas as autoridades da cidade.

Essa decisão também está sujeita a revisões.

Esperamos dos senhores fé e cooperação.

Essa última era a mais comovente. Big Jim tinha certeza de que o filho da mãe pró-aborto não sabia nada sobre fé; para ele, aquela era apenas uma palavra da moda; mas quando falava de cooperação, ele sabia exatamente o que estava dizendo, e Jim Rennie também: a luva é de pelica, mas não se esqueça do punho de ferro dentro dela.

O presidente exprimia apoio e solidariedade (Rennie viu Grinnell, a drogada, realmente se encher de lágrimas ao ler a carta), mas quando se olhavam as entrelinhas, via-se a verdade. Era uma carta de ameaça pura e simples. Cooperem ou perdem a internet. Cooperem porque faremos uma lista dos bons e dos maus, e ninguém vai querer ficar do lado dos maus quando entrarmos. Porque nós vamos nos lembrar.

Coopera, parceiro. Senão já sabe.

Rennie pensou: nunca entregarei minha cidade a um chapeiro que ousou pôr as mãos no meu filho e depois ousou questionar a minha autoridade, isso nunca vai acontecer, seu macaco. Nunca.

Também pensou: Calma, pega leve.

Deixe o Coronel Chapeiro explicar o grande plano dos militares. Se funcionar, ótimo. Se não funcionar, o mais novo coronel do Exército americano vai descobrir um significado todo novo para a expressão no coração do território inimigo.

Big Jim sorriu e disse:

— Vamos entrar, que tal? Parece que temos muito a conversar.

 

Junior sentou-se no escuro com as suas namoradas.

Era estranho, até ele achou, mas também era um consolo.

Quando ele e os outros policiais novos voltaram à delegacia depois da cagada colossal no pasto de Dinsmore, Stacey Moggin (ainda fardada e com cara de cansada) lhes dissera que podiam cumprir mais um turno de quatro horas se quisessem. Ao menos por algum tempo, iria haver uma oferta generosa de horas extras, e quando chegasse a hora de a cidade pagar, dissera Stacey, ela tinha certeza de que também haveria um abono... provavelmente pago pelo governo dos Estados Unidos, cheio de gratidão.

Carter, Mel, Georgia Roux e Frank DeLesseps tinham todos concordado em cumprir as horas extras. Na verdade não foi pelo dinheiro; estavam se divertindo demais no serviço. Junior também, mas uma das suas dores de cabeça estava incubando. Aquilo era deprimente, depois de se sentir absolutamente fantástico o dia todo.

Ele dissera a Stacey que preferia não ir, se estivesse tudo bem. Ela lhe assegurou que estava, mas lembrou que ele teria que voltar ao serviço no dia seguinte às sete da manhã. “Nós vamos ter muito a fazer”, disse ela.

Na escada, Frankie puxou o cinto para cima e disse:

— Acho que vou dar uma passadinha na casa da Angie. Ela deve ter saído com a Dodee, mas detesto pensar que pode ter escorregado no chuveiro, pode estar lá paralisada ou coisa pior.

     Junior sentiu um bolo na garganta. Um pontinho branco começou a dançar na frente do olho esquerdo. Parecia dançar e rebolar no ritmo do coração, que acabara de se acelerar.

— Posso passar lá, se você quiser — disse a Frankie. — É caminho.

— Mesmo? Não se incomoda?

Junior fez que não. O ponto branco na frente do olho disparou loucamente, nauseante, quando ele balançou a cabeça. Depois voltou a se acalmar.

Frankie baixou a voz.

— Sammy Bushey discutiu comigo lá no pasto.

— Aquela arrombada — disse Junior.

— É claro. Ficou falando: “Vai fazer o que, me prender?” — Frankie subiu a voz num falsete irritado que arranhou os nervos de Junior. O ponto branco dançarino pareceu ficar mesmo vermelho e por um instante ele pensou em pôr as mãos ao redor do pescoço do velho amigo e apertar até lhe sufocar a vida, para que ele, Junior, nunca mais fosse submetido àquele falsete.

— Tava pensando — continuou Frankie — em dar uma ida até lá quando a gente for embora. Dar uma lição a ela. Sabe, “Respeite a polícia local”.

— Ela é uma vaca. E sapata também.

— Opa, melhor ainda. — Frankie parara, olhando o pôr do sol esquisito. — Até que essa coisa da Redoma tem um lado bom. A gente pode fazer quase tudo o que quiser. Ao menos por enquanto. Pensa só nisso, parceiro. — Frankie apertou a virilha.

— Claro — respondeu Junior —, mas não estou com muito tesão, não.

Só que agora ele estava. Quer dizer, mais ou menos. Não é que ele fosse foder com elas ou coisa assim, mas...

— Mas vocês ainda são as minhas namoradas — disse Junior na escuridão da despensa. Primeiro usou a lanterna, mas depois desligou. O escuro era melhor. — Vocês não acham?

Elas não responderam. Se respondessem, pensou Junior, eu teria um grande milagre pra contar pro papai e pro reverendo Coggins.

Ele estava encostado numa parede forrada de prateleiras cheias de enlatados. Apoiara Angie à sua direita e Dodee à esquerda. Ménage à trois, como diziam no fórum da Penthouse. As garotas não estavam tão bonitas assim com a lanterna acesa, o rosto inchado e os olhos salientes só escondidos em parte pelo cabelo solto, mas assim que ele a apagou... Ei! Pareciam até vivas!

Quer dizer, a não ser pelo cheiro. Começara a parecer uma mistura de merda velha e podridão. Mas não era ruim demais, porque havia outros cheiros mais agradáveis ali: café, chocolate, melado, frutas secas e, talvez, açúcar mascavo.

Também um leve aroma de perfume. De Dodee? De Angie? Ele não sabia. O que ele sabia era que a dor de cabeça voltara a melhorar e aquele incômodo ponto branco sumira. Baixou a mão e envolveu com ela o seio de Angie.

— Não se incomoda que eu faça isso, né, Ange? Eu sei que você é namorada do Frankie, mas vocês meio que terminaram, e além disso, é só uma pegadinha. E também.., detesto ter que te contar, mas acho que hoje à noite ele vai pular a cerca.

Tateou com a mão livre e achou uma das mãos de Dodee. Estava gelada, mas assim mesmo ele a pôs na virilha.

— Opa, Dodes — disse ele. — Que sem vergonha. Mas segue teu instinto, moça; põe pra fora teu lado mau.

Ele teria que enterrá-las, claro. Logo. A Redoma podia explodir como uma bolha de sabão, ou os cientistas dariam um jeito de dissolvê-la. Quando isso acontecesse, a cidade se encheria de investigadores. E se a Redoma permanecesse, haveria algum tipo de comitê para procurar comida indo de casa em casa atrás de suprimentos.

Logo. Mas não agora. Porque isso dava tranquilidade.

E era meio excitante. É claro que ninguém ia entender, mas ninguém tinha que entender. Porque...

— É o nosso segredinho — sussurrou Junior no escuro. — Não é, meninas?

Elas não responderam (embora fossem responder, na hora certa).

Junior ficou ali sentado abraçando as moças que assassinara e, em algum momento, adormeceu.

 

Quando Barbie e Brenda Perkins saíram da Câmara de Vereadores às 11 horas, a reunião ainda continuava. A princípio, os dois desceram a rua principal até a Morin sem falar muito. Ainda havia uma pequena pilha do número extra do Democrata na esquina da Principal com a Maple. Barbie puxou uma folha de sob a pedra que ancorava a pilha. Brenda tinha uma lanterninha na bolsa e jogou o facho sobre a manchete.

— Ver isso impresso devia tornar mais fácil acreditar, mas não — disse ela.

— Não — concordou ele.

— Você colaborou com a Julia nisso pra assegurar que James não tentasse esconder — afirmou ela. — Não foi?

Barbie fez que não.

— Ele nem tentaria, porque não seria possível. Quando o míssil acertar o alvo, vai fazer um barulhão infernal. Julia só queria ter certeza de que o Rennie não iria torcer a notícia a favor dele, seja lá como fosse. — Ele deu um tapinha na folha. — Pra ser totalmente franco, vejo isso como um seguro. O vereador Rennie vai pensar: “Se nisso ele estava à minha frente, que outras informações ele tem que eu não tenho?”

— James Rennie pode ser um adversário perigoso meu amigo. — Eles voltaram a andar. Brenda dobrou o jornal e o enfiou debaixo do braço. — O meu marido estava investigando ele.

— Por quê?

— Não sei quanto devo lhe contar — disse ela. — As opções parecem ser tudo ou nada. E Howie não tinha nenhuma prova concreta, disso eu sei. Embora estivesse bem perto.

— A questão não são as provas — disse Barbie. — A questão é ficar fora da cadeia se amanhã não der certo. Se o que você sabe pode me ajudar nisso...

— Se ficar fora da cadeia é sua única preocupação, estou decepcionada.

Não era só, e Barbie desconfiou que a viúva Perkins sabia. Ele prestara muita atenção à reunião, e embora Rennie tivesse se esforçado ao máximo para ser simpático e docemente sensato, ainda assim Barbie ficara horrorizado. Achou que, por trás dos ohs e ahs e céus, o homem era uma ave de rapina. Exerceria o controle até que lhe fosse arrancado; tomaria tudo o que fosse preciso até que o impedissem. Isso o tornava perigoso para todos, não só para Dale Barbara.

— Sra. Perkins...

— Brenda, esqueceu?

— Brenda, tudo bem. Digamos assim, Brenda: se a Redoma continuar onde está, essa cidade vai precisar de ajuda de alguém que não seja um vendedor de carros usados com delírios de grandeza. Não posso ajudar ninguém se eu estiver no calabouço.

— O meu marido acreditava que o Big Jim estava metendo a mão.

— Como? Em quê? E quanto?

— Vamos ver o que acontece com o míssil — disse ela. — Se não der certo, eu te conto tudo. Se der, vou conversar com a promotoria do condado quando a poeira baixar... e, nas palavras de Ricky Ricardo, de I love Lucy, James Rennie “vai ter muit’axplicar”.

— Você não é a única que está esperando pra ver o que acontece com o míssil. Hoje, o Rennie se fez de sonso. Se o Cruise ricochetear em vez de atravessar, acho que nós vamos ver o outro lado dele.

Ela desligou a lanterninha e ergueu os olhos.

— Olha as estrelas — disse ela. — Tão brilhantes. A Ursa Menor... Cassiopeia... a Ursa Maior. Todas iguais. Acho isso confortador. E você?

—Também.

Não disseram nada por algum tempo, só olhando a cintilação esparramada da Via Láctea.

— Mas elas sempre fazem com que eu me sinta bem pequena e bem... bem efêmera. — Ela riu e depois disse, com bastante timidez: — Se incomoda de me dar o braço, Barbie?

— De jeito nenhum.

Ela lhe segurou o cotovelo. Ele pôs a mão em cima da mão dela. Depois, a levou para casa.

 

Big Jim encerrou a reunião às 23h12 Peter Randolph lhes deu boa noite e foi embora. Planejava começar a evacuação do lado oeste da cidade às sete da manhã em ponto e esperava limpar toda a área em torno da estrada da Bostinha até o meio-dia. Andrea foi atrás, andando devagar, com as mãos apoiadas na parte inferior das costas. Era uma postura com a qual todos já estavam acostumados.

Embora a reunião com Lester Coggins não lhe saísse da cabeça (e dormir; ele não acharia ruim dormir um pouquinho), Big Jim lhe perguntou se poderia esperar mais alguns minutinhos.

Ela o olhou com cara de interrogação. Atrás dele, ostensivamente, Andy Sanders empilhava as pastas e as guardava no armário de aço cinzento.

E feche a porta — disse Big um com voz agradável.

Agora preocupada, ela fez o que ele mandava. Andy continuou a fazer o serviço doméstico do fim do dia, mas os ombros estavam caídos, como se quisesse se proteger de um golpe. Fosse lá o que fosse que Jim ia lhe contar, Andy já sabia. E, a julgar pela postura dele, não era coisa boa.

— Em que você está pensando Jim? — perguntou ela.

— Nada grave. — O que significava que era. — Mas me pareceu, Andrea, que você estava muito íntima daquele tal Barbara antes da reunião. Da Brenda também, aliás.

— Brenda? Isso é... — Ela ia dizer ridículo, mas isso parecia forte demais. — É bobagem. Conheço Brenda há trinta an...

— E o sr. Barbara há três meses. Isso se comer as panquecas e o bacon de alguém servir de base de conhecimento.

— Acho que agora ele é o coronel Barbara.

Big Jim sorriu.

— É difícil levar isso a sério quando a coisa mais próxima de fardamento que ele usa são jeans e camiseta.

— Você viu a carta do presidente.

— Vi alguma coisa que Julia Shumway poderia ter feito naquele computador coisa-ruim dela. Estou errado, Andy?

— Não — respondeu Andy, sem se virar. Ainda estava arrumando. E depois rearrumando o que já arrumara, ao que parecia.

— E supondo que fosse do presidente? — disse Big Jim. O sorriso que ela odiava se abria no seu rosto largo de queixo duplo. Andrea observou, com certo fascínio, que conseguia ver os pelos eriçados do queixo, talvez pela primeira vez, e entendeu por que Jim tomava tanto cuidado ao se barbear. Os tocos de pelo lhe davam um sinistro ar nixoniano.

— Bem... — Agora a preocupação era quase medo. Ela queria dizer a Jim que só estava sendo educada, mas na verdade fora um pouco mais, e adivinhou que Jim percebera. Ele percebia muita coisa. — Ora, ele é o comandante em chefe, não é?

Big Jim fez um gesto de pfff

— Sabe o que é um comandante, Andrea? Vou explicar. É alguém que merece lealdade e obediência porque pode oferecer recursos pra ajudar quem precisa. Devia ser uma troca justa.

— Isso! — concordou ela, ansiosa. — Recursos como esse tal míssel Cruiser.

— E se funcionar, vai estar tudo bem.

— Como poderia não funcionar? Ele disse que deve ter uma ogiva de meia tonelada!

— Se a gente considerar que não sabe nada sobre a Redoma, como vamos ter certeza? Como ter certeza de que não vai explodir a Redoma e só deixar uma cratera de um quilômetro de profundidade onde ficava Chester’s Mill?

Ela o olhou desalentada. Com as mãos na lombar, esfregando e amassando o lugar onde a dor morava.

— Bom, isso está nas mãos de Deus — disse ele. — E você tem razão, Andrea; pode dar certo. Mas se não der, estamos por nossa conta e risco, e, no que me diz respeito, um comandante em chefe incapaz de ajudar os seus cidadãos não vale uma gota de mijo num penico frio. Se não der certo, e se não nos mandar a todos pra Santa Glória, alguém vai ter que assumir o controle dessa cidade. E vai ser um vagabundo que o presidente tocou com a varinha mágica dele ou vão ser as autoridades eleitas e já no cargo? Está vendo onde eu quero chegar?

— O coronel Barbara me pareceu muito competente — sussurrou ela.

— Pare de chamar ele assim! — berrou Big Jim. Andy deixou cair uma pasta, e Andrea deu um passo atrás, soltando um guincho de medo ao mesmo tempo.

Depois se endireitou, recuperando por um instante parte do aço ianque que lhe dera coragem para concorrer a vereadora pela primeira vez.

— Não grite comigo, Jim Rennie. Conheço você desde que cortava figurinhas do catálogo da Sears no primeiro ano pra colar em papel pardo, portanto não grite.

— Ai, meu Deus, ficou ofendidinha. — O sorriso feroz agora se abria de orelha a orelha, animando a parte de cima do rosto numa máscara perturbadora de jovialidade. — Que pena, que meleca, né? Mas já é tarde e eu estou cansado e já gastei todo o meu estoque diário de xarope doce. Então presta bem atenção e não me obriga a repetir. Ele deu uma olhada no relógio. — São 23h35 e eu quero estar em casa à meia-noite.

— Não entendo o que você quer de mim!

Ele ergueu os olhos como se não conseguisse acreditar na estupidez dela.

— Em resumo? Quero saber se você vai ficar do meu lado, meu e de Andy, se essa ideia ridícula do míssil não der certo. E não do lado de um lavador de pratos recém-chegado.

Ela endireitou os ombros e soltou as costas. Conseguiu encarar os olhos dele, mas os lábios tremiam.

— E se eu achar que o coronel Barbara, ou o sr. Barbara, se preferir assim, está mais qualificado pra gerenciar uma situação de crise?

— Ah, nesse caso vou ter que concordar com o Grilo Falante — disse Big um. — Que a sua consciência seja o seu guia. — A voz dele se reduziu a um murmúrio que era mais assustador do que o berro. — Mas tem aqueles comprimidos que você toma. Aquele tal de OxyContin.

Andrea sentiu a pele esfriar.

— O que tem?

— Andy reservou um bom estoque pra você, mas se você apostar no cavalo errado nessa nossa corrida aqui, pode ser que os comprimidos sumam. Não é, Andy?

Andy começara a lavar a máquina de café. Parecia infeliz e não ousou cruzar o olhar com os olhos lacrimosos de Andrea, mas não havia hesitação na resposta.

— É — disse ele. — Num caso desses, talvez eu tenha que jogar eles no vaso sanitário da farmácia. É perigoso ter medicamentos como aquele com a cidade isolada e tudo o mais.

— Você não faria isso! — gritou ela. — Eu tenho receita!

— A única receita que você precisa é ficar ao lado de quem mais conhece essa cidade, Andrea — disse Big Jim gentilmente. — Por ora, é o único tipo de receita que vai te fazer bem.

— Jim, eu preciso dos meus comprimidos. — Ela escutou o choro na própria voz, como o da mãe nos últimos dias dela, quando ficara presa no leito, e detestou. — Preciso deles!

— Eu sei disso — disse Big Jim. — Deus lhe impôs uma dor muito grande. — Sem falar de uma quedinha por morfina, pensou ele.

— Basta fazer a coisa certa — recomendou Andy. Os olhos com olheiras escuras estavam tristes e sérios. — Jim sabe o que é melhor pra cidade, sempre soube. Nós não precisamos que ninguém de fora venha nos ensinar.

— Se eu ajudar, vou continuar a receber os meus comprimidos?

O rosto de Andy se acendeu num sorriso.

— Pode apostar! Posso até me encarregar de aumentar um tiquinho a dose. Digamos, mais 100 miligramas por dia? Será que ajuda? Parece que você não está se sentindo muito bem.

— Acho que um pouco mais seria bom — disse Andrea devagar. Baixou a cabeça. Não bebia nada, nem um copo de vinho, desde a noite da formatura do curso secundário em que passou muito mal, nunca fumara um baseado, jamais vira cocaína a não ser na TV Era boa pessoa. Muito boa pessoa. Então como caíra naquela arapuca? Levando um tombo ao pegar a correspondência? Era o que bastava pra transformar alguém em um viciado em drogas? Se fosse, que coisa injusta. Que coisa horrível. — Mas só 40 miligramas. Acho que mais 40 são suficientes.

— Tem certeza? — perguntou Big Jim.

Ela não tinha certeza nenhuma. Isso é que era o diabo.

— Oitenta, talvez — disse ela, e limpou as lágrimas do rosto. E, num sussurro: — Você está me chantageando.

O sussurro foi baixo, mas Big Jim escutou. Estendeu-lhe a mão. Ela se encolheu, mas Big Jim só lhe pegou a mão. Com gentileza.

— Não — disse ele. — Isso seria pecado. Nós estamos ajudando você. E tudo o que nós queremos em troca é que você nos ajude.

 

Ouviu-se um tum.

Fez Sammy levantar da cama mesmo depois de ter fumado meia trouxinha e bebido três cervejas de Phil antes de desmoronar às dez da noite. Sempre guardava uma dúzia de latinhas na geladeira e ainda pensava nelas como “cervejas de Phil”, embora ele tivesse sumido desde abril. Ela ouvira boatos de que ele ainda estava na cidade, mas não acreditou. Claro que, se ele ainda estivesse por ali, ela o teria visto alguma hora nos últimos seis meses, não teria? Era uma cidade pequena, como dizia aquela música.

Tum!

Isso a fez se sentar reta num pulo e tentar ouvir o choro do Pequeno Walter. Mas não ouviu, e pensou: Meu Deus, aquele maldito berço quebrou! E se ele não consegue nem chorar...

Ela jogou o cobertor para o lado e correu para a porta. Mas bateu na parede à esquerda. Quase caiu. Maldito escuro! Maldita empresa de energia! Maldito Phil, sumindo e a deixando assim, sem ninguém para cuidar dela quando caras como Frank DeLesseps a maltratavam e a assustavam e...

Tum!

Ela tateou o alto da cômoda e achou a lanterna. Ligou-a e correu para a porta. Começou a virar à esquerda no quarto onde o Pequeno Walter dormia, mas o tum soou de novo. Não vinha da esquerda, vinha da frente, do outro lado da bagunça da sala. Havia alguém na porta da frente do trailer. E agora vinham risos abafados. Quem estava lá já parecia meio bêbado.

Ela andou pela sala, a camiseta de dormir repuxada ao redor das coxas roliças (engordara um pouco depois que Phil fora embora, uns 20 quilos, mas quando essa merda da Redoma acabasse pretendia entrar no NutriSystem e voltar ao peso do tempo da escola) e abriu a porta.

Lanternas — quatro delas, e fortes — a atingiram no rosto. Detrás delas, vieram mais risos. Um daqueles risos mais parecia um niuc-niuc-niuc, como o de Curly, dos Três Patetas. Aquele ela reconheceu, porque o ouvira o tempo todo no curso secundário. Mel Searles.

— Olha só você! — disse Mel. — Toda bonita e sem ninguém pra chupar.

Mais risos. Sammy levantou o braço para proteger os olhos, mas não adiantou; as pessoas atrás das lanternas eram apenas sombras. Mas um daqueles risos parecia de mulher. Talvez isso fosse bom.

— Desliguem essas lanternas antes que eu fique cega! E calem a boca, vão acordar o bebê!

Mais risos, mais altos do que nunca, mas três das quatro lanternas se apagaram. Ela virou a sua lanterna para fora da porta, mas não se tranquilizou com o que viu. Frankie DeLesseps e Mel Searles ao lado de Carter Thibodeau e Georgia Roux. Georgia, a garota que pusera o pé no peito de Sammy naquela tarde e a chamara de sapata. Uma mulher, mas não uma mulher segura.

Estavam usando as insígnias. E estavam mesmo bêbados.

— O que vocês querem? Já é tarde.

— Queremos fumo — disse Georgia. — Você vende, então vende um pouco pra nós.

— Quero ficar alto que nem o Everest — disse Mel, e riu. Niuc-niuc-niuc.

— Não tenho mais — disse Sammy.

— Bobagem, isso aqui fede a maconha — disse Carter. — Vende um pouco pra nós. Não seja pentelha.

— É — disse Georgia. À luz da lanterna de Sammy, os olhos dela tinham um brilho prateado. — Não importa que a gente seja da polícia.

Todos morreram de rir com isso. Com certeza iam acordar o bebê.

— Não! — Sammy tentou fechar a porta. Thibodeau empurrou-a para abrir de novo. Fez isso com a mão apenas aberta, mais fácil, impossível, mas Sammy recuou aos trambolhões. Tropeçou no maldito trenzinho do Pequeno Walter e caiu de bunda pela segunda vez naquele dia. A barra da camiseta subiu.

— Oooh, calcinha rosa, tá esperando a namorada? — perguntou Geor gia, e todos caíram na gargalhada de novo. As lanternas que tinham sido apagadas se reacenderam sobre ela.

Sammy puxou a camiseta para baixo quase com força bastante para rasgar o decote. Aí, desequilibrada, se levantou, os fachos das lanternas dançando para cima e para baixo no seu corpo.

— Seja uma boa anfitriã e nos convide pra entrar — disse Frankie, entrando à força pela porta. — Muito obrigado. — O seu facho percorreu a sala. — Que chiqueiro.

— Um chiqueiro pra uma porca! — berrou Georgia, e todos caíram na gargalhada de novo. — Se eu fosse o Phil, voltava do sumiço só pra chutar essa sua bunda de merda! — Ela ergueu o punho; Carter Thibodeau bateu o punho no dela.

— Ele ainda tá escondido na rádio? — perguntou Mel. — Pirando a cachola? Ficando paranoico por Jesus?

— Não sei o que vocês... — Ela não tinha mais raiva, só medo. Aquele era o mesmo jeito desconexo com que as pessoas falavam nos pesadelos que vinham quando se fumava baseado com pó de anjo. — O Phil foi embora!

Os quatro visitantes se entreolharam e, depois, riram. O niuc-niuc-niuc idiota de Searles subiu acima dos outros.

— Foi-se! Escafedeu-se! — cacarejou Frankie.

— Ah, foi! — respondeu Carter, e depois eles bateram os punhos.

Georgia agarrou um monte de livros na prateleira de cima da estante de Sammy e deu uma olhada.

— Nora Roberts? Sandra Brown? Stephenie Meyer? Você lê esses troços? Não sabe que o bom é Harry Potter? — Ela ergueu os livros, depois afastou as mãos e os deixou cair no chão.

O bebê ainda não tinha acordado. Era um milagre.

— Se eu vender um baseado pra vocês, vocês vão embora? — perguntou Sammy.

— Claro — disse Frankie.

— E depressa — disse Carter. — Temos que trabalhar amanhã cedo. Destacamento de e-va-cu-ação. Então, tira essa bunda daí e vai pegar.

— Esperem aqui. — Ela foi até a quitinete e abriu o congelador, agora quente, tudo ia derreter, por alguma razão isso lhe deu vontade de chorar, e Pegou um dos sacos de 4 litros de fumo que guardava lá. Havia mais três.

Ela começou a se virar, mas alguém a agarrou antes que conseguisse e Outro lhe arrancou o saco da mão.

— Deixa eu ver aquela calcinha rosa de novo — disse Mel no seu ouvido. — Quero ver se tem DOMINGO escrito na bunda. — Ele levantou a camiseta dela até a cintura. — Não, não tem.

— Para com isso! Para!

Mel riu: Niuc-niuc-niuc.

O flash da lanterna feriu-lhe os olhos, mas ela reconheceu a cabeça estreita atrás: Frankie DeLesseps.

— Você me agrediu hoje — disse ele. — Além disso, me bateu e machucou o meu negocinho. E eu só fiz isso. — Ele estendeu a mão e agarrou de novo o peito dela.

Ela tentou se desviar, O facho de luz voltado para o rosto dela inclinou-se um instante para o teto. Depois desceu depressa. A dor lhe explodiu na cabeça. Ele batera nela com a lanterna.

— Ai! Ai, isso dói! PARA com isso!

— Que merda, não doeu nada. Você tem sorte de eu não te prender por vender maconha. Fica parada se não quiser levar outra.

— Esse fumo tá fedendo — disse Mel, com voz objetiva. Estava atrás dela, ainda segurando a camiseta.

— Ela também — disse Georgia.

— Vamos ter que confiscar a erva, sua vaaaca — disse Carter. — Sinto muito.

Frankie agarrara de novo o peito dela.

— Fica quieta. — Ele beliscou o mamilo. — Fica quieta!

A voz dele ficando rouca. A respiração mais rápida. Ela sabia onde aquilo ia parar. Fechou os olhos. Desde que o bebê não acorde, pensou ela. E que eles não façam mais. Não façam pior.

— Anda — disse Georgia. — Mostra pra ela o que ela tá perdendo desde que o Phil foi embora.

Frankie apontou a sala com a lanterna.

— Vai pro sofá. E abre as pernas.

— Não vai ler os direitos dela antes? — perguntou Mel, e riu. Niuc-niuc-niuc. Sammy achou que, se tivesse de escutar aquele riso mais uma vez, a cabeça explodiria. Mas partiu para o sofá, a cabeça baixa, os ombros caídos.

Carter a agarrou no caminho, virou-a e jogou o facho da lanterna de baixo para cima no próprio rosto, transformando-o numa máscara de duende.

— Vai contar isso pra alguém, Sammy?

— N-N-Não.

A máscara de duende fez que sim.

— É bom que seja assim. Porque ninguém vai mesmo acreditar em você. A não ser nós, é claro, e aí nós vamos ter que voltar e foder de verdade com você.

Frankie a empurrou para o sofá.

     — Fode ela — disse Georgia, excitada, jogando a luz sobre Sammy. — Fode essa piranha!

Os três rapazes a foderam. Frankie foi o primeiro, sussurrando “Você tem que aprender a ficar de boca fechada a não ser quando estiver de joelhos” enquanto metia nela.

Carter foi o seguinte. Enquanto a cavalgava, o Pequeno Walter acordou e começou a gritar.

— Cala a boca, garoto, vou ter que ler seus direitos! — berrou Mel Searles, e depois riu.

Niuc-niuc-niuc.

 

Era quase meia-noite.

Linda Everett dormia profundamente no seu lado da cama; tivera um dia exaustivo, tinha que trabalhar amanhã cedo (destacamento de e-va-cu-ação) e nem a preocupação com Janelle conseguiu mantê-la acordada. Não roncava exatamente, mas do seu lado da cama vinha um leve som de quip-quip-quip.

Rusty tivera um dia igualmente cansativo, mas não conseguia dormir e não era com Jan que estava preocupado. Achava que estaria bem, ao menos por enquanto. Conseguiria controlar as convulsões se não piorassem. Se o Zarontin da farmácia do hospital acabasse, conseguiria mais na farmácia Sanders.

Era no dr. Haskell que não parava de pensar. E em Rory Dinsmore, é claro. Rusty não parava de ver a órbita dilacerada e cheia de sangue no lugar onde ficava o olho do menino. Não parava de ouvir Ron Haskell dizer a Ginny Eu que matei. Quer dizer, escutei.

Só que ele tinha matado, de certa forma.

Ele se virou na cama, tentando deixar as lembranças para trás, e no lugar o que veio foi Rory murmurando É Halloween. Sobreposta, a voz da filha: É culpa da Grande Abóbora! Você tem que parar a Grande Abóbora!

A filha tivera uma convulsão. O menino Dinsmore recebera um ricochete de bala no olho e um fragmento no cérebro. O que isso revelava?

Não revelava nada, O que dizia aquele escocês em Lost? Não confunda coincidência com destino?

Talvez fosse isso. Talvez fosse. Mas Lost fora há muito tempo. O escocês talvez tivesse dito Não confunda destino com coincidência.

Ele se virou para o outro lado e dessa vez viu a manchete preta da página única do Democrata daquela noite: EXPLOSIVOS SERÃO DETONADOS NA BARREIRA!

Não adiantava. Por enquanto dormir estava fora de questão, e a pior coisa que se pode fazer numa situação dessas é tentar abrir caminho à força para a terra dos sonhos.

Lá embaixo havia ao menos metade do famoso pão de laranja e uva-do-monte que Linda fazia; ele o vira na bancada ao chegar. Rusty decidiu que comeria um pedaço na mesa da cozinha e folhearia o último número da American Family Physician. Se um artigo sobre coqueluche não lhe desse sono, nada mais daria.

Ele se levantou, um homem grande vestido com o pijama azul que era a sua roupa noturna de sempre, e saiu em silêncio, para não acordar Linda.

No meio da escada, parou e inclinou a cabeça.

Audrey gemia, baixinho e grave. No quarto das meninas. Rusty foi até lá e abriu a porta. A golden retriever, apenas uma forma indistinta entre as camas das meninas, se virou para olhá-lo e deu outro daqueles gemidos graves.

Judy estava deitada de lado com uma das mãos sob o rosto, respirando fundo e devagar. Com Jannie, a história era outra. Ela rolava inquieta de um lado para o outro, chutando a roupa de cama e murmurando. Rusty passou por cima do cachorro e sentou-se na cama, debaixo do mais novo pôster de boy band de Jannie.

Ela estava sonhando. Pela expressão perturbada, não era um sonho bom. E os murmúrios pareciam protestos. Rusty tentou entender as palavras mas antes que conseguisse ela parou.

Audrey gemeu de novo.

A camisola de Jan estava toda torcida. Rusty a endireitou, puxou as cobertas e afastou o cabelo da testa da menina. Os olhos dela se moviam rapidamente de um lado para o outro debaixo das pálpebras, mas ele não observou tremor dos membros, nenhum movimento dos dedos, nenhum estalo característico dos lábios. Sono REM e não convulsão, quase com certeza. O que levava a uma pergunta interessante: os cachorros também farejavam pesadelos?

Ele se curvou e beijou o rosto de Jan. Quando o fez, os olhos dela se abriram, mas ele não teve certeza de que ela o via. Poderia ser um sintoma de epilepsia menor, mas Rusty achou que não. Audi teria latido, disso ele teve certeza.

— Volta a dormir, querida — disse ele.

— Ele tem uma bola de beisebol dourada, papai.

— Eu sei, meu amor, volta a dormir.

— É uma bola má.

— Não. É boa. As bolas de beisebol são boas, ainda mais as douradas.

— Ah — disse ela.

— Volta a dormir.

— Tá bem, papai. — Ela se virou e fechou os olhos. Houve um instante de movimento debaixo das cobertas e depois ela ficou imóvel. Audrey, que ficara deitada no chão com a cabeça erguida a observá-los, pôs o focinho na pata e também adormeceu.

Rusty ficou ali sentado algum tempo, escutando a respiração das filhas, dizendo a si mesmo que na verdade não havia nada a temer, que as pessoas falavam dormindo nos sonhos o tempo todo. Disse a si mesmo que tudo estava bem; bastava olhar o cão adormecido no chão, se duvidasse; mas no meio da noite era difícil ser otimista. Quando ainda faltavam longas horas para a aurora, os maus pensamentos ganhavam carne e osso e começavam a caminhar. No meio da noite, os pensamentos viravam zumbis.

Ele decidiu que não queria o pão de laranja e uva-do-monte, afinal. Queria era se aconchegar junto da esposa adormecida na cama quente. Mas, antes de sair do quarto, fez um carinho na cabeça sedosa de Audrey.

— Fica de olho, menina — sussurrou. Audi abriu rapidamente os olhos e o fitou.

Ele pensou: golden retriever — uma cadela dourada. E, em seguida, a ligação perfeita: uma bola de beisebol dourada. Uma bola má.

Naquela noite, apesar da recém-descoberta privacidade feminina das garotas, Rusty deixou a porta delas aberta.

Lester Coggins estava sentado na varanda de Rennie quando Big Jim voltou. Lia a Bíblia com uma lanterna. Isso não deixou Big Jim inspirado com a devoção do reverendo; só piorou um humor que já não estava bom.

— Deus o abençoe, Jim — disse Coggins, se levantando. Quando Big Jim lhe estendeu a mão, Coggins a agarrou com o punho fervoroso e a apertou.

— Abençoe você também — respondeu Big Jim com coragem.

Coggins lhe deu um último aperto forte de mão e soltou.

— Jim, estou aqui porque tive uma revelação. Eu a pedi na noite passada, pois é, estava muito perturbado, e aconteceu hoje à tarde. Deus falou comigo, tanto pelas Escrituras quanto por meio daquele menininho.

— O garoto Dinsmore?

Coggins beijou as mãos cruzadas com um estalo barulhento e depois as ergueu para o céu.

— Esse mesmo. Rory Dinsmore. Que Deus o tenha por toda a eternidade.

— Ele está jantando com Jesus agora — disse Big Jim automaticamente. Examinava o reverendo à luz da própria lanterna e o que via não era bom. Embora a noite esfriasse rapidamente, o suor brilhava na pele de Coggins. Os olhos estavam arregalados, mostrando branco demais. O cabelo estava eriçado em cachos e guarda-chuvas despenteados. No geral, parecia alguém cujos parafusos estavam meio soltos e logo, logo cairiam.

Big Jim pensou: Isso não é bom.

— Sim — disse Coggins —, tenho certeza. Participando do grande banquete... entre os braços eternos...

Big Jim achou que seria difícil fazer as duas coisas ao mesmo tempo, mas ficou calado quanto a isso.

— E na verdade a morte dele teve um propósito, Jim. Foi isso que eu vim lhe contar.

— Pois me conte lá dentro — disse Big Jim, e antes que o ministro pudesse responder: — Viu o meu filho?

— Junior? Não.

— Há quanto tempo você está aqui? — Big Jim acendeu a luz do saguão abençoando o gerador.

— Uma hora. Talvez um pouco menos. Sentado no degrau... lendo... orando... meditando.

Rennie teve vontade de saber se alguém o vira, mas não perguntou. Coggins já estava nervoso, e uma pergunta dessas poderia deixá-lo mais nervoso ainda.

— Vamos pro escritório — disse ele, e mostrou o caminho, a cabeça baixa, arrastando-se devagar com os seus grandes passos planos. Visto de lembrava um urso vestido com roupas humanas, um urso velho e lento, ainda perigoso.

Além do quadro do Sermão da Montanha com o cofre atrás, havia muitíssimas placas nas paredes do escritório de Big Jim, premiando-o por vários atos de serviço comunitário. Havia ainda um retrato emoldurado de Big Jim apertando a mão de Sarah Palin e outro dele apertando a mão do Grande Número 3, Dale Earnhardt, quando o piloto fizera uma campanha para angariar fundos para alguma instituição de caridade para crianças no Crash-A-Rama anual de Oxford Plains. Havia até um retrato de Big Jim apertando a mão de Tiger Woods, que parecia um negro de alma branca.

     O único bibelô de lembrança sobre a escrivaninha era uma bola de beisebol banhada a ouro num berço de acrílico. Embaixo (também em acrílico), havia um autógrafo que dizia: Afim Rennie, muito obrigado pela ajuda na produção do Torneio Beneficente de Softball de 2007 do oeste do Maine! Estava assinado Bill “Spaceman” Lee.

Enquanto se sentava na cadeira de espaldar alto atrás da escrivaninha, Big Jim pegou a bola no berço e começou a jogar de uma mão para a outra. O objeto era bom de jogar, ainda mais quando ele estava um pouco nervoso: bonito e pesado, as costuras douradas batendo confortáveis contra a palma da mão. Às vezes, Big Jim se perguntava como seria ter uma bola de ouro maciço. Talvez cuidasse disso quando essa confusão da Redoma acabasse.

Coggins sentou-se do outro lado da escrivaninha, na cadeira dos clientes. A cadeira dos suplicantes. Que era onde Big Jim queria que ele ficasse. Os olhos do reverendo iam de um lado para o outro, como os de quem assiste a um jogo de tênis. Ou talvez ao cristal do hipnotizador.

— E agora, Lester, o que foi que aconteceu? Conta tudo. Mas sem se alongar muito, pode ser? Preciso dormir um pouco. Tenho muito a fazer amanhã.

— Vamos orar juntos primeiro, Jim?

Big Jim sorriu. Era o sorriso feroz, mas não na potência máxima. Ao menos ainda não.

— Por que não me põe a par do que há antes? Eu gosto de saber por que estou orando antes de me ajoelhar.

Lester se alongou, sim, mas Big Jim mal notou. Escutou com consternação cada vez maior e próxima do horror. A narrativa do reverendo foi desconjuntada e salpicada de citações bíblicas, mas a ideia básica era óbvia: ele decidira que o negocinho deles desagradara ao Senhor a ponto de Ele emborcar sobre a cidade toda uma grande terrina de vidro. Lester orara para saber o que fazer a respeito, flagelando-se ao mesmo tempo (a flagelação devia ter sido metafórica — Big Jim assim esperava, certamente), e o Senhor o levara a algum versículo da Bíblia sobre loucura, cegueira, castigo etc, etc.

— O Senhor disse que ia mim dá um sinal e...

— Mingau? — Big Jim ergueu as sobrancelhas grossas.

Lester o ignorou e foi em frente, suando como um homem com malária, os olhos ainda seguindo a bola dourada. Para lá... para cá.

— Foi como na época em que eu era adolescente e gozava na cama.

— Les, isso é... um pouco de informação demais. — Jogando a bola de uma mão para a outra.

— Deus disse que me mostraria cegueira, mas não a minha cegueira. E, hoje à tarde, naquele pasto, Ele me mostrou! Não mostrou?

— Bem, acho que é uma interpretação...

— Não! — Coggins pulou de pé. Começou a andar em círculos no tapete, a Bíblia na mão. Com a outra, puxava o cabelo. — Deus disse que, quando eu visse aquele sinal, teria que contar à congregação exatamente o que você vem apront...

— Só eu? — perguntou Big Jim. Fez isso com voz meditativa. Jogava a bola de uma mão para a outra um pouco mais depressa. Smac. Smac. Smac. De um lado para o outro, contra palmas que eram carnudas, mas ainda firmes.

— Não — disse Lester, com uma espécie de gemido. Ele andava mais depressa agora, sem mais olhar a bola. Brandia a Bíblia com a mão não ocupada pela tentativa de arrancar o cabelo pela raiz. No púlpito, quando ficava muito animado, às vezes também fazia aquilo. Na igreja ficava bom, mas ali era simplesmente enfurecedor. — Era você e eu e Roger Kalian, os irmãos Bowie e... — Ele baixou a voz. — E aquele outro, O Chef. Acho que aquele homem é louco. Se não era quando começou na primavera passada, sem dúvida hoje é.

Olha só quem fala, amiguinho, pensou Big Jim.

— Estamos todos envolvidos, mas sou eu e você que temos que confessar, Jim. Foi o que o Senhor me disse. É isso que significa a cegueira do menino; por isso ele morreu. Vamos confessar e queimar aquele Celeiro de Satanás atrás da igreja. Depois, Deus vai nos deixar sair.

— Você vai sair mesmo, Lester. Direto pra Penitenciária Estadual de Shawshank.

— Eu aceitarei a punição que Deus escolher. E satisfeito.

— E eu? Andy Sanders? Os irmãos Bowie? E Roger Killian! Ele tem nove filhos pra sustentar, acho! E se nós não ficarmos assim tão satisfeitos, Lester?

— Não posso fazer nada. — Agora, Lester começou a bater nos próprios ombros com a Bíblia. Para lá e para cá; primeiro um lado, depois o outro. Big Jim percebeu que sincronizava a bola de beisebol dourada com os golpes do pregador. Uac... e smac. Uac... e smac. Uac... e smac. — Sinto pelos filhos dos Killian, claro, mas... Êxodo, capítulo 20, versículo cinco: “Porque eu, o Senhor teu Deus, sou um Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração.” Temos que nos curvar a isso. Temos que limpar esse cancro, ainda que doa; endireitar o que fizemos de errado. Isso significa confissão e purificação. Purificação pelo fogo.

Big Jim ergueu a mão que não segurava a bola de beisebol dourada.

— Epa, epa, epa. Pensa no que você está dizendo. Em tempos normais, essa cidade depende de mim... e de você, é claro... Mas em época de crise, ela precisa de nós. — Ele se levantou, empurrando a cadeira para trás. Fora um dia comprido e terrível, ele estava cansado, e agora aquilo. Era o tipo da coisa que deixava um homem furioso.

— Pecamos — falava Coggins com teimosia, ainda se golpeando com a Bíblia. Como se achasse que não havia problema nenhum em tratar o Livro Sagrado de Deus daquele jeito.

— O que nós fizemos, Les, foi evitar que milhares de meninos passassem fome na África. Nós pagamos até para tratar as doenças infernais deles. Também construímos uma igreja nova e a estação de rádio cristã mais poderosa do nordeste.

— E forramos o bolso, não se esqueça disso! — guinchou Coggins. Dessa vez, ele se golpeou bem no rosto com o Livro Sagrado. Uma linha de sangue escorreu de uma das narinas. — Forramos o bolso com dinheiro imundo das drogas! — Ele se golpeou de novo. — E a Rádio Jesus é gerenciada por um lunático que cozinha o veneno que as crianças põem dentro das veias!

— Na verdade, eu acho que a maioria fuma.

— Isso é pra ser engraçado?

Big Jim contornou a escrivaninha. As têmporas pulsavam e uma cor de tijolo lhe surgia no rosto. Mas tentou mais uma vez, em voz baixa, como se falasse com uma criança que estivesse tendo um ataque.

— Lester, a cidade precisa da minha liderança. Se você sair abrindo a boca, não vou poder exercer essa liderança. Não que alguém vá acreditar em Você...

— Todos vão acreditar! — gritou Coggins. — Quando virem a oficina do demônio que eu permiti que você criasse atrás da minha igreja, todos vão acreditar! E, Jim, você não vê? Quando o pecado for conhecido.., quando a ferida estiver limpa... Deus vai remover a Sua barreira! A crise vai acabar! Eles não vão precisar da sua liderança!

Foi então que James P. Rennie explodiu.

— Eles sempre vão precisar dela! — rugiu, e girou a bola de beisebol no punho fechado.

Ela rasgou a pele da têmpora esquerda de Lester quando este se virou para encará-lo. O sangue escorreu pelo lado do rosto. O olho esquerdo brilhava no meio do sangue. Ele se inclinou à frente com as mãos estendidas. A Bíblia aberta bateu em Big Jim como uma boca balbuciante. O sangue tamborilou no tapete. O ombro esquerdo do suéter de Lester já estava ensopado.

— Não, essa não é a vontade do Se...

— É a minha vontade, seu inseto criador de caso. — Big Jim girou o punho de novo e dessa vez atingiu a testa do reverendo bem no meio. Big Jim sentiu o choque ir até o ombro do outro. Mas Lester ainda avançava cambaleando e brandindo a Bíblia. Parecia que tentava falar.

Big Jim deixou a bola cair ao seu lado. O ombro latejava. Agora o sangue se despejava no tapete e nem assim aquele filho da mãe caía; ainda avançava, tentando falar e cuspindo escarlate numa névoa fina.

Coggins trombou com a frente da escrivaninha — o sangue respingou no bloco que antes estava imaculado — e depois começou a escorregar ao longo dela. Big Jim tentou erguer a bola de novo e não conseguiu.

Eu sabia que todos aqueles lançamentos no colégio iam cobrar o preço algum dia, pensou.

Passou a bola para a mão esquerda e a girou de lado e para cima. Encontrou o queixo de Lester, tirando de prumo a parte inferior do rosto e espirrando mais sangue à luz não muito firme do lustre do teto. Algumas gotas atingiram o vidro leitoso.

— Dê! — gritou Lester. Ainda tentava se esgueirar em torno da escrivaninha. Big Jim recuou para o buraco dos joelhos.

— Pai?

Junior estava em pé na porta, olhos arregalados, boquiaberto.

— Dê! — disse Lester, e começou a patinar na direção da nova voz. Ergueu a Bíblia. — Dê... Dê... Dê-ê-USS...

— Não fica aí parado, me ajuda! — rugiu Big Jim para o filho.

Lester começou a cambalear na direção de Junior, balançando a Bíblia com extravagância para cima e para baixo. O suéter estava ensopado; as calças tinham ficado de um marrom lamacento; o rosto sumira, enterrado em sangue.

Junior correu para recebê-lo. Quando Lester começou a desmoronar, Junior o agarrou e o segurou em pé.

— Te peguei, reverendo Coggins, peguei, não se preocupe. — Então, Junior fechou as mãos em volta da garganta grudenta de sangue de Lester começou a apertar.

 

Cinco intermináveis minutos depois.

Big Jim sentou-se na sua cadeira — esparramou-se na sua cadeira — com a gravata, posta exatamente para a reunião, afrouxada e a camisa desabotoada. Massageava o troncudo peito esquerdo. Ali debaixo, o coração ainda galopava e disparava arritmias, mas não mostrava sinais de realmente entrar em parada cardíaca.

Junior saiu. A princípio, Rennie achou que ia buscar Randolph, o que seria um erro, mas ele estava tão sem fôlego que não conseguiu chamar o garoto de volta. Logo ele voltou sozinho, trazendo o encerado da traseira da picape. Big Jim observou Junior sacudi-lo no chão — de um jeito estranhamente profissional, como se já tivesse feito isso mil vezes. São todos aqueles filmes violentos a que eles assistem hoje em dia, pensou Big Jim. Esfregando a carne flácida que já fora tão firme e tão rija.

— Eu... ajudo... — ofegou, sabendo que não conseguiria.

— O senhor fica aí sentado e recupera o fôlego. — O filho, de joelhos, lhe deu um olhar obscuro e ilegível. Poderia haver amor nele, sem dúvida Big Jim torcia para que houvesse, mas também havia outras coisas.

Te peguei? Havia te peguei naquele olhar?

Junior rolou Lester para cima do encerado, O encerado estalou. Junior estudou o corpo, rolou-o um pouco mais e depois dobrou por cima dele a ponta do encerado. Era um encerado verde. Big Jim o comprara no Burpee. Comprara em oferta. Ele se lembrava de Toby Manning dizendo: O senhor está fazendo um negoção com esse encerado, sr. Rennie.

— Bíblia — disse Big Jim. Ainda ofegava, mas se sentia um pouco melhor. O coração se acalmando, graças a Deus. Quem adivinharia que a escalada ficaria tão íngreme depois dos 50? E pensou: Tenho que começar afazer exercícios, Voltar à forma. Deus só nos dá um corpo.

— Isso mesmo, boa lembrança — murmurou Junior. Agarrou a Bíblia ensanguentada, enfiou-a entre as coxas de Coggins e começou a enrolar o corpo.

— Ele entrou à força, filho. Estava doido.

— Claro. — Junior não parecia interessado naquilo. Parecia interessado em enrolar o corpo... e só.

— Era ele ou eu. Você tem que... — Outra tremidinha no peito. Jim abriu a boca para respirar, tossiu, socou o peito. O coração se acalmou de novo. — Você tem que levar ele pra Sagrado Redentor. Quando encontrarem ele, tem um cara... talvez... — Era no Chef que estava pensando, mas talvez dar um jeito de o Chef levar a culpa não fosse boa idéia. Chef Bushey sabia demais. Por outro lado, provavelmente resistiria à prisão. Nesse caso talvez não o pegassem vivo.

— Tenho um lugar melhor — disse Junior. Parecia sereno. — E se você tá pensando em jogar a culpa em alguém, tenho uma ideia melhor.

— Quem?

— A porra do Dale Barbara.

— Você sabe que não gosto desse tipo de palavreado...

Olhando-o por sobre o encerado, os olhos faiscantes, Junior disse de novo:

— A porra do... Dale... Barbara.

— Como?

— Ainda não sei. Mas é melhor lavar essa maldita bola de ouro se quer ficar com ela. E se livrar desse bloco aí.

Big Jim se levantou. Agora se sentia melhor.

— Você é um bom menino por ajudar assim o seu velho pai, Junior.

— Se o senhor diz — respondeu Junior. Agora havia uma grande panqueca verde no tapete. Com pés saindo pela ponta. Junior puxou o encerado por cima deles, mas a ponta não ficou. — Preciso de fita adesiva.

— Se não vai levar ele pra igreja, então onde...

— Não se preocupa — disse Junior. — É seguro. O reverendo pode ficar lá até a gente descobrir como pôr o Barbara no esquema.

— Vejamos o que acontece amanhã antes de a gente agir.

Junior o olhou com uma expressão de desprezo distante que Big Jim nunca vira. Ocorreu-lhe que agora o filho tinha muito poder sobre ele. Mas, com certeza, o seu próprio filho...

— Vamos ter que enterrar o tapete. Graças a Deus não é aquele carpete de parede a parede que você tinha antes. E o lado bom é que a maior parte da sujeira ficou nele. — Depois, levantou a panquecona e a levou pelo corredor. Dali a alguns minutos, Rennie ouviu a picape sair.

Big Jim pensou na bola de beisebol dourada. Eu devia me livrar disso também, pensou ele, mas sabia que não conseguiria. Era praticamente herança de família.

Além disso, qual seria o problema? Qual seria o problema, se estivesse limpa?

Quando Junior voltou, uma hora depois, a bola de beisebol dourada brilhava de novo no seu berço de acrílico.

 

ATAQUE DE MÍSSIL IMINENTE

“ATENÇÃO! AQUI FALA A POLÍCIA DE CHESTER’S MILL! ESTA ÁREA ESTÁ SENDO EVACUADA! SE ESTÁ ESCUTANDO, VENHA NA DIREÇÃO DA VOZ! ESTA ÁREA ESTÁ SENDO EVACUADA!”

Thurston Marshall e Carolyn Sturges sentaram-se na cama, escutando esse estranho alarido e entreolhando-se com olhos arregalados. Eram professores do Emerson College, em Boston: Thurston, catedrático de Inglês (e editor convidado do último número de Ploughshares); Carolyn, professora-assistente do mesmo departamento. Eram amantes já há seis meses e o botão estava longe de cair da roseira. Estavam na cabaninha que Thurston tinha em Chester Pond, que fica entre a estrada da Bostinha e o riacho Prestile. Tinham ido lá passar o fim de semana prolongado e ver as “folhas de outono” caírem, mas a maior parte da folhagem que admiraram desde a tarde de sexta-feira fora da variedade pubiana. Não havia TV na cabana; Thurston Marshall abominava. Havia rádio, mas não tinham ligado. Eram oito e meia da manhã de segunda-feira, 23 de outubro. Nenhum deles fazia a mínima ideia de que havia algo errado até aquela voz estridente os acordar.

“ATENÇÃO! AQUI FALA A POLÍCIA DE CHESTER’S MILL! A ÁREA...”

Mais perto. Se aproximando.

— Thurston! O bagulho! Onde você deixou?

— Fica tranquila — disse ele, mas o tremor na voz indicava que era incapaz de seguir o próprio conselho.

Era um homem alto e magro com um monte de cabelo grisalho que costumava amarrar num rabo de cavalo. Agora estava solto, quase nos ombros. Tinha 60 anos; Carolyn, 23.

— Todos esses acampamentozinhos ficam desertos nessa época do ano, eles só vão e voltam até a estrada da Bost...

Ela lhe deu um soco no ombro — nunca fizera isso antes.

— O carro está na entrada! Vão ver o carro!

Um hum, merda nasceu no rosto dele.

— ... EVACUADA! SE ESTÁ ESCUTANDO, VENHA NA DIREÇÃO DA VOZ! ATENÇÃO! ATENÇÃO! — Agora bem perto. Thurston ouvia outras vozes amplificadas também, gente usando megafone, policiais usando megafone, mas esse estava quase em cima deles. — A ÁREA ESTÁ SENDO EVAC... — Houve um momento de silêncio. E depois: — OLÁ, CABANA! SAIAM DAÍ! PRA FORA!

Ah, era um pesadelo.

— Onde você deixou o bagulho? — Ela o socou de novo.

O bagulho estava na sala. Num saco plástico agora semivazio, ao lado de um prato com o queijo e as bolachas da noite anterior. Se alguém entrasse, seria a primeira coisa que veria.

— AQUI É A POLÍCIA! NÃO ESTAMOS AQUI DE BOBEIRA! ESTA ÁREA ESTÁ SENDO EVACUADA! SE ESTIVEREM AÍ, SAIAM ANTES QUE A GENTE PRECISE ARRASTAR VOCÊS!

Porcos, pensou ele. Porcos de cidade pequena com cabeça de porco de cidade pequena.

Thurston pulou da cama e correu pelo quarto, o cabelo ao vento, a bunda magra contraída.

O avô construíra a cabana depois da Segunda Guerra Mundial e ela só tinha dois cômodos: um grande quarto que dava para o lago e a sala/cozinha. A luz vinha de um velho gerador Henske, que Thurston desligara antes de irem se deitar; seu ruído irregular não era exatamente romântico. As brasas do fogo da noite passada — não realmente necessário, mas très romantique — ainda piscavam de sono na lareira.

Talvez eu esteja errado, quem sabe eu pus o bagulho de volta na pasta...

Infelizmente, não. O bagulho estava lá, bem ao lado dos restos de queijo brie que tinham saboreado antes de começar a fodelança da véspera.

Ele correu até lá, e veio uma batidinha na porta. Não, uma martelada na porta.

— Um minutinho! — gritou Thurston, todo atrapalhado. Carolyn estava parada na porta do quarto enrolada num lençol, mas ele mal notou. A mente de Thurston, que ainda sofria de paranoia residual devido aos excessos da noite anterior, rolava com idéias desconexas: perda da cátedra, polícia do pensamento de 1984, perda da cátedra, a reação enojada dos três filhos (de duas esposas anteriores) e, é claro, perda da cátedra. — Um minutinho, um segundo, deixa eu me vestir...

Mas a porta se abriu, e, contrariando diretamente umas nove garantias constitucionais diferentes, dois rapazes entraram. Um tinha um megafone. Ambos usavam jeans e camisas azuis. Os jeans eram quase reconfortantes, mas as camisas tinham ombreiras e distintivos.

Não precisamos de porra de distintivo nenhum, pensou Thurston, entorpecido. [Alusão a um diálogo famoso do filme O tesouro de Sierra Madre (1948), de John Huston]

— Saiam daqui! — guinchou Carolyn.

— Dá só uma olhada, Junes — disse Frankie DeLesseps. — É Tesudo e Cachorra — Feitos Um Para o Outro.

Thurston agarrou o saco plástico, escondeu-o nas costas e o jogou na pia.

Junior observava o equipamento que essa ação revelou.

— É a piroca mais magra e comprida que já vi — disse. Parecia cansado e a aparência se justificava de forma honesta só dormira duas horas, mas se sentia bem, absolutamente ótimo como sempre. Nem vestígio de dor de cabeça.

Esse trabalho combinava com ele.

— FORA! — berrou Carolyn.

— É melhor calar a boca, querida, e vestir alguma coisa — disse Frankie. — Todo mundo desse lado da cidade está sendo evacuado.

— Essa casa é nossa! CAI FORA, SEU MERDA!

Frankie estava sorrindo. Nisso, parou. Passou pelo homem magro e nu parado junto à pia (tremendo junto à pia seria mais exato) e agarrou Carolyn pelos ombros. Deu-lhe uma sacudida forte.

— Não seja desbocada, querida. Estou tentando evitar que você acabe fritando o seu cu. Você e o seu namor...

— Tira as mãos de mim! Você vai pra cadeia por isso! O meu pai é advogado! Ela tentou lhe dar um tapa. Frankie, que não era de acordar cedo, nunca fora, lhe agarrou a mão e a dobrou para trás. A força não foi muita, mas Carolyn gritou. O lençol caiu no chão.

— Epa! Que baita airbag! — confidenciou Junior ao boquiaberto Thurston Marshall. — Consegue dar conta disso, velhinho?

 

— Vistam-se, vocês dois — disse Frankie. — Não sei até que ponto vocês são burros, mas bastante burros devem ser, porque ainda estão aqui. Não sabem que...

Ele parou. Olhou do rosto da mulher para o do homem. Ambos igualmente aterrorizados. Igualmente desconcertados.

— Junior! — disse.

— O quê?

— A Peituda da Silva e o enrugadinho não sabem o que está acontecendo.

— Não ouse me chamar de nenhum nome sexista, seu...

Junior ergueu a mão.

— Senhora, vá se vestir. Os senhores têm que sair daqui. A Força Aérea dos Estados Unidos vai disparar um míssil Cruise contra esta parte da cidade... — ele olhou o relógio — em pouco menos de cinco horas.

— VOCÊ TÁ LOUCO? — berrou Carolyn.

Junior deu um profundo suspiro. Ele achava que agora entendia um pouco melhor aquilo de ser policial. Era um ótimo emprego, mas como as pessoa eram estúpidas.

— Se ricochetear, a senhora só vai ouvir uma explosão forte. Talvez faça a senhora mijar nas calças, se estiver de calças, mas não vai machucar ninguém. Mas, se passar, o mais provável é que a senhora seja grelhada, já que é um míssil bem grande e os senhores estão a menos de 3 quilômetros do lugar onde dizem que será o ponto de impacto.

— Ricochetear no que, seu idiota? — perguntou Thurston. Com o bagulho jogado na pia, ele agora usava uma das mãos para cobrir as partes pudendas... ou ao menos tentava; sua máquina do amor era mesmo muito comprida e magra.

— A Redoma — disse Frankie. — E não gostei do seu jeito de falar. — Deu um passo comprido à frente e socou no estômago o atual editor convidado de Ploughshares. Thurston soltou um uuufe áspero, se dobrou para a frente, cambaleou, quase se aguentou de pé, caiu de joelhos e vomitou o equivalente a uma xícara de gosma branca e fina que ainda cheirava a queijo brie.

Carolyn segurava o pulso que inchava.

— Você vai pra cadeia por isso — prometeu ela a Junior, com voz baixa e trêmula. — Bush e Cheney já foram faz tempo. Isso aqui não é mais os Estados Unidos da Coréia do Norte.

— Eu sei — disse Junior, com paciência admirável para quem pensava que não seria nada mau estrangular um pouquinho; havia um escuro monstro-de-gila no seu cérebro que achava que uma estranguladinha seria o modo perfeito de começar o dia.

Mas não. Não. Ele tinha que cumprir o seu papel e terminar a evacuação. Tinha feito o Juramento do Dever, ou o que quer que fosse aquela merda lá.

— Eu sei disso — repetiu ele. — Mas o que vocês imbecis de Massachusetts não sabem é que também não estão mais nos Estados Unidos da América. Agora vocês estão no Reino de Chester e, se não se comportarem direitinho, vão acabar nas Masmorras de Chester. Juro. Sem telefone, sem advogado, sem devido processo legal. Estamos tentando salvar a vida de vocês aqui. São burros demais para entender isso?

Ela o encarava, espantada. Thurston tentou se levantar, não conseguiu e rastejou na direção dela. Frankie o ajudou com um chute no traseiro. Thurston gritou de choque e dor.

— Isso é por nos atrasar, vovô — disse Frankie. — Admiro o seu bom gosto pra garotas, mas nós temos muito que fazer.

Junior olhou a moça. Bela boca. Lábios de Angelina. Apostava que ela conseguiria, como dizia o outro, chupar o cromado de um engate de trailer.

— Se ele não conseguir se vestir sozinho, ajuda ele. Temos que verificar mais quatro cabanas e, quando voltarmos, é bom vocês estarem naquele Volvo de vocês a caminho da cidade.

— Não estou entendendo nada! — choramingou Carolyn.

— Não me espanta — disse Frankie, pescando na pia o saco de maconha. — Não sabia que esse troço deixa a gente estúpido? Ela começou a chorar.

— Não se preocupe — disse Frankie. — Vou confiscar e daqui a alguns dias, pronto, vocês voltam a ficar espertos sozinhos.

— Você nem leu os nossos direitos — chorava ela.

Junior se espantou. Depois, riu.

— Vocês têm o direito de saírem correndo daqui e calarem a porra da boca, ti? Nessa situação, são os únicos direitos que vocês têm. Entendido?

Frankie examinava a erva confiscada.

— Junior — disse —, quase não tem semente aqui. É da boa!

Thurston alcançara Carolyn. Levantou-se, peidando alto ao se erguer. Junior e Frankie se entreolharam. Tentaram se segurar — afinal de contas, eram homens da lei — e não conseguiram. Caíram na gargalhada ao mesmo tempo.

— Charlie Trombone voltou à cidade! — berrou Frankie, e os dois bateram nas palmas das mãos um do outro.

Thurston e Carolyn, na porta do quarto, cobriam a nudez mútua num abraço, encarando os intrusos que não paravam de rir. Ao fundo, como vozes num pesadelo, os megafones continuavam a anunciar que a área estava sendo evacuada. ora a maioria das vozes amplificadas recuava na direção da Bostinha.

Não quero ver esse carro quando voltarmos — disse Junior. — Ou eu fodo com vocês.

Eles saíram. Carolyn se vestiu e ajudou Thurston — o estômago doía demais para que ele se curvasse e calçasse os sapatos. Quando terminaram, os dois choravam. No carro, no caminho que levava à estrada da Bostinha, Carolyn tentou falar com o pai pelo celular. Só obteve silêncio.

No cruzamento da Bostinha com a 119, havia um carro da polícia estacionado no meio da estrada. Uma policial robusta de cabelo vermelho apontou para o acostamento sem asfalto e acenou para que o usassem. Em vez disso, Carolyn parou e desceu. Ergueu o pulso inchado.

— Nós fomos atacados! Por dois caras que diziam ser policiais! Um se chama Junior e o outro, Frankie! Eles...

— Tira o teu cu daqui, senão quem vai atacar vocês sou eu — disse Georgia Roux. — E eu estou falando sério, queridinha.

Carolyn a fitou, espantada. Enquanto ela dormia, o mundo inteiro virara de cabeça para baixo e caíra num episódio de Além da imaginação. Só podia ser; nenhuma explicação fazia sentido. A qualquer momento, ouviriam a voz de Rod Serling.

Ela voltou ao Volvo (o adesivo no para-choque, desbotado mas ainda legível: OBAMA 2012! SIM, NÓS AINDA PODEMOS) e contornou o carro da polícia. Havia outro policial mais velho lá dentro, verificando itens numa prancheta. Ela pensou em apelar para ele, depois achou melhor não.

— Tenta o rádio — disse ela. — Vamos ver se está mesmo acontecendo alguma coisa.

Thurston ligou o rádio e só captou Elvis Presley e os Jordanaires, cantando How Great Thou Arte.

Carolyn desligou o rádio, pensou em dizer O pesadelo está oficialmente completo, mas não disse. Só queria cair fora de Estranhópolis o mais depressa possível.

 

No mapa, a estradinha de Chester Pond era uma linha fina parecida com um anzol, quase inexistente. Depois de sair da cabana dos Marshall, Junior e Frankie ficaram por algum tempo sentados no carro de Frankie, estudando o mapa.

— Não deve ter mais ninguém pra lá — disse Frankie. — Não nessa época do ano. O que você acha? Ligamos o foda-se e voltamos pra cidade? — Ele apontou o polegar para a cabana. — Eles já devem estar indo, e se não estiverem, quem dá a mínima?

Junior pensou no caso um instante e depois fez que não. Tinham feito o Juramento do Dever. Além disso, ele não estava com vontade de voltar e enfrentar o pai enchendo o saco dele para saber o que fizera com o corpo do reverendo. Agora Coggins fazia companhia às namoradas na despensa dos McCain, mas o pai não tinha necessidade de saber disso. Ao menos não até o velho descobrir como culpar Barbara por aquilo. E Junior acreditava que o pai descobriria. Big Jim Rennie era ótimo nisso de jogar a culpa nos outros.

Agora não importa nem que ele descubra que eu larguei a faculdade, pensou Junior, porque eu sei de coisa pior sobre ele. Muito pior.

Não que largar a faculdade parecesse muito importante agora; era trocado miúdo comparado ao que estava acontecendo em Mill. Mas ainda assim era preciso ter cuidado. Junior não achava o pai incapaz de jogar a culpa nele, se a situação exigisse.

— Junior? Terra chamando Junior...

— Tou aqui — disse ele, um pouco irritado.

— Voltamos pra cidade?

— Vamos conferir as outras cabanas. São menos de 500 metros e, se a gente voltar pra cidade, o Randolph vai arranjar alguma coisa pra gente fazer.

— Eu queria fazer uma boquinha.

— Onde? No Mosqueta? Quer veneno de rato nos ovos mexidos, cortesia de Dale Barbara?

— Ele não ousaria.

— Tem certeza?

— Tá bom, tá bom. — Frankie ligou o carro e voltou para a estradinha de terra. As folhas de cores vivas pendiam imóveis das árvores, e o ar parecia sufocante. Mais para julho do que para outubro. — Mas é melhor que aqueles imbecis de Massachusetts tenham ido embora quando a gente voltar, ou eu vou ter que apresentar a Peituda da Silva ao meu vingador de capacete.

— Pode deixar que eu seguro ela — disse Junior. — Iipii-ai-ai, filha da puta.

 

As três primeiras cabanas estavam visivelmente vazias; eles nem se deram ao trabalho de descer do carro. A essa altura, a estradinha de terra se resumia a um par de marcas de pneus com uma lombada coberta de capim entre elas. As árvores a cobriam dos dois lados e alguns galhos mais baixos quase raspavam o teto do carro.

— Acho que a última é logo depois dessa curva — disse Frankie. — A estrada acaba nesse ancoradourozinho de mer...

— Cuidado! — berrou Junior.

Saíram da curva e havia dois garotos, um menino e uma menina, em pé na estrada. Não fizeram nenhuma tentativa de sair da frente. O rosto deles estava vazio, chocado. Se Frankie não tivesse medo de destruir o sistema de exaustão do Toyota na lombada do meio da estradinha, se estivesse indo um tiquinho mais depressa que fosse, teria atropelado os dois. Em vez disso, meteu o pé no freio e o carro parou a meio metro deles.

— Meu Deus, foi quase — disse. — Acho que eu vou ter um enfarte.

— Se o meu pai não teve, você também não vai ter — disse Junior.

— Há?

— Nada, nada.

Junior saiu do carro. As crianças ainda estavam ali. A menina era mais alta e mais velha. Talvez 9 anos. O menino parecia ter uns 5. O rosto dos dois estava sujo e pálido. Ela segurava a mão dele. Ergueu os olhos para Junior, mas o menino olhava à frente, como se examinasse algo interessante no farol do Toyota do lado do motorista.

Junior viu o terror no rosto dela e se ajoelhou bem à sua frente.

— Tá tudo bem, querida?

Foi o menino que respondeu. Falou enquanto ainda examinava o farol.