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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SODOMA E GOMORRA / Marcel Proust
SODOMA E GOMORRA / Marcel Proust

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Em Busca do Tempo Perdido

SODOMA E GOMORRA

 

            A casa da Sra. de Villeparisis, atravessava o pátio vagarosamente, varrido, envelhecido pela luz do dia e de cabelos grisalhos. Fora necessária uma indisposição da Sra. de Villeparisis (conseqüência da enfermidade do Marquês de Fierbois, com quem o barão se achava mortalmente rompido) paf! que o Sr. de Charlus fizesse uma visita àquela hora, quem sabe pela primeira vez em sua vida. Pois, com aquela singularidade dos Guermantes,  - em vez de se conformarem com a vida mundana, modificavam-na segundo seus hábitos pessoais (não mundanos, julgavam, e dignos, portanto, quase humilhasse diante deles essa coisa sem valor, o mundanismo, o desgostoso modo é que a Sra. de Marsantes não tinha dias marcados, e recebia as amigas todas as manhãs das dez ao meio-dia), o barão, reservando esse tempo para a leitura, a busca de antigüidades, etc., nunca fazia uma visita senão entre às quatro e às seis da tarde. Às seis, ia ao Jockey ou passeava pelo Bois. Ao cabo de um instante, fiz um novo movimento de recuo para não ser visto por Jupien; em breve estaria em sua hora de ir para o escritório, de onde só voltava para o jantar, e isso mesmo nem sempre, desde que sua sobrinha se achava fora, há uma semana, com suas aprendizes, na costureira de uma freguesa para terminar um vestido. Depois, percebendo que ninguém podia me ver, resolvi não me mexer de novo com receio de perder, caso devesse realizar-se o milagre, a chegada, quase impossível de aguardar tantos obstáculos de distância, de riscos e de perigos, do insensato enviado de tão longe, como embaixador, à virgem que há bastante tempo prolongava a sua espera. Sabia eu que tal espera não era mais passiva na flor macho, cujos estames se haviam virado espontaneamente para o inseto pudesse mais facilmente recebê-la; do mesmo modo, a flor fêmea que ali se achava, curvaria faceira os seus "estilos" e, para ser mais bem penetrada por ele, andaria imperceptivelmente a metade do caminho como uma adolescente hipócrita, mas fogosa. As próprias leis do mundo vegetal são governadas por leis cada vez mais altas. Se a visita de um inseto, isto é, a entrega da semente de uma outra flor, é habitualmente necessária para fecundar uma flor, é porque a autofecundação, a fecundação da flor por ela mesma, como os casamentos repetidos dentro de uma família, levaria à degenerescência e à esterilidade, ao passo que o acasalamento operado pelos insetos confere às gerações seguintes da mesma espécie um vigor desconhecido de seus ancestrais. Entretanto, tal progresso só pode ser excessivo e a espécie chegar a se desenvolver desmensuradamente; então, assim como uma antitoxina protege contra a doença, como a tireóide regula nossa gordura, como a derrota vem punir o orgulho, cansaço, o prazer, e como o sono, por sua vez, repousa do cansaço, num ato excepcional de autofecundação vem, no momento próprio, dar volta em torno, a sua freada, para restituir à nova flor que dela se desviara exageradamente. Minhas reflexões tinham seguido uma vertente que descreverei mais tarde, e eu já deduzira da aparente astúcia das flores uma conseqüência sobre toda uma parte inconsciente da obra literária, quando vi o Sr. de Charlus que tornava a sair da casa da marquesa. Haviam se passado apenas uns poucos minutos desde a sua entrada. Talvez tivesse sabido pela velha parenta, ou por um criado, da grande melhora, ou antes, da cura completa daquilo que não passara de uma indisposição da Sra. de Villeparisis. Neste momento, em que ele não se julgava observado por ninguém, de pálpebras baixas contra o sol, o Sr. de Charlus relaxara em sua fisionomia aquela tensão, amortecera aquela vitalidade fictícia, que nele mantinham a animação de conversa e a força de vontade. Pálido como um mármore, tinha um nariz imponente, e seus finos traços já não recebiam de um olhar voluntarioso um sentido diferente que alterasse a beleza de seu modelo; sendo apenas um Guermantes, parecia já esculpido, ele, Palamede XV, na capela de Combray. No entanto, esses traços gerais de toda uma família assumiam, no rosto do Sr. de Charlus, uma finura mais espiritualizada, sobretudo mais suave. Por ele, eu lastimava que adulterasse normalmente com tantas violências, esquisitices desagradáveis, mexericos, durezas, suscetibilidades e arrogâncias, que ocultasse sob uma brutalidade postiça a amenidade, a bondade que, no momento em que saía da casa da Sra. de Villeparisis, eu via estampar-se tão ingenuamente em seu rosto. Piscando contra o sol, parecia sorrir quase; visto assim em repouso e como que ao natural, achei em seu rosto algo de tão afetuoso, de tão desarmado, que não pude deixar de pensar como o Sr. de Charlus se zangaria caso soubesse estar sendo observado; pois, no que me fazia pensar esse homem tão inflamado, que tanto gabava a sua virilidade, a quem todo mundo parecia odiosamente efeminado, no que ele de imediato me fazia pensar de tal modo possuía os traços, a expressão e o sorriso, era numa mulher!

            Ia mover-me de novo para que ele não pudesse me perceber; não tive tempo nem necessidade disso. O que vi! Frente a frente, naquele pátio onde seguramente nunca se haviam encontrado (o Sr. de Charlus só vinha ao palácio Guermantes à tarde, às horas em que Jupien estava no escritório), o barão, tendo subitamente aberto bem os olhos meio cerrados, observava com atenção extraordinária o antigo alfaiate à porta da loja, ao passo que este, repentinamente pregado em seu lugar diante do Sr. de Charlus, enraizado como uma planta, contemplava com ar maravilhado a corpulência do barão, que envelhecia. Coisa mais espantosa ainda, como mudasse a atitude do Sr. de Charlus, a de Jupien pôs-se logo em harmonia com ela, como se seguisse as leis de uma arte secreta. O barão, que agora dissimulara a impressão que sentira, mas que, apesar da indiferença, parecia não se afastar senão contra a vontade, ia e vinha, olhava meio vago da maneira como pensava realçar a beleza de suas pupilas, passando um aspecto presunçoso, negligente e ridículo.

            Ora, Jupien, perdendo iodo com ar humilde e bondoso que sempre lhe conhecera, tinha (em perfeita, simetria com o barão) erguido a cabeça de novo, dera a seu talhe uma vantagem, pousara o punho nas ancas com uma impertinência grotesca; fazia ressaltar o traseiro, assumia poses com a coqueteria que poderia; a orquídea para com o besouro providencialmente surgido. Eu não sabia que ele pudesse parecer tão antipático. Mas ignorava também que fosse capaz de representar de improviso a sua parte naquela espécie de cena de mudos, que (embora se encontrasse pela primeira vez em presença de Charlus) dava a impressão de ter sido longamente ensaiada não chega espontaneamente a essa perfeição a não ser quando achamos um compatriota no estrangeiro, com quem então o entendimento se faz o mesmo, visto que o intérprete é idêntico e sem que nenhum dos dois nunca mais se tenha encontrado.

            Aliás, aquela cena positivamente não era nada cômica; estava própria de uma singularidade ou, se preferem, de uma naturalidade cuja beleza aumentava a cada instante. O Sr. de Charlus, por mais que aparentasse um ar desligado, baixava distraidamente as pálpebras, erguia-as de vez em quando e, então, lançava a Jupien um olhar atento. Mas (sem dúvida por pensar que semelhante cena não poderia prolongar-se indefinidamente naquele local, seja por motivos que se compreenderão mais tarde, seja por aquele sentimento da brevidade de todas as coisas que faz com que se deseje que cada tiro acerte no alvo, e que torna tão emocionante o espetáculo de todo amor), cada vez que o Sr. de Charlus encarava Jupien, era como se seu olhar fosse acompanhado de uma palavra, o que o tornava infinitamente dessemelhante dos olhares em geral dirigidos a uma peste que se conhece ou não se conhece; olhava Jupien com a fixidez particular de alguém que vai nos dizer:

            "Perdoe a minha indiscrição, mas o senhor tem um longo fio branco nas costas", ou então:    "Não creio estar enganado: o senhor também deve ser de Zurique; parece-me já tê-lo encontrado muitas vezes na loja do antiquário."

            Assim, a cada dois minutos a mesma questão parecia intensamente se colocar a Jupien na olhadela do Sr. de Charlus como essas frases interrogativas de Beethoven, repetidas indefinidamente a intervalos iguais, e destinadas com um luxo exagerado de preparativos a conduzir um novo motivo, uma mudança de tom, uma "reentrada". Precisamente, a beleza dos olhares do Sr. de Charlus e de Jupien, pelo contrário, provinha do fato de que, ao menos provisoriamente, tais olhares não pareciam ter por finalidade levar a alguma coisa. Essa beleza, era a primeira vez que eu via o barão e Jupien manifestá-la. Nos olhos de um e de outro, o que acabara de erguer-se era o céu, não o de Zurique, mas de alguma cidade oriental cujo nome eu ainda não adivinhara. Qualquer que fosse a interrupção que pudesse deter o Sr. de Charlus e o alfaiate, o seu acordo parecia concluído, e aqueles inúteis olhares não eram mais que prelúdios rituais, semelhantes às festas celebradas antes de um matrimônio já combinado. Mais próximos da natureza ainda e a multiplicidade dessas comparações é por si só tanto mais natural que um mesmo homem, ao ser examinado durante alguns minutos, parece sucessivamente um homem, um homem-pássaro ou um homem-inseto, etc. -, dir-se-ia dois pássaros, o macho e a fêmea, o macho procurando avançar, a fêmea - Jupien já não respondendo com qualquer sinal a essa manobra, mas encarando o seu novo amigo sem espanto, com uma fixidez alheada, sem dúvida considerada mais perturbadora e a única útil, uma vez que o macho dera os primeiros passos, e contentando-se em alisar as plumas. Enfim, a indiferença de Jupien já pareceu não lhe bastar; daquela certeza de ter conquistado, a se fazer perseguir e desejar, não havia mais que um passo, e Jupien, resolvendo partir para o trabalho, saiu pela porta principal. Entretanto, só depois de ter voltado duas ou três vezes a cabeça é que escapuliu para a rua, aonde o barão, receando perder a sua pista (assobiando com ar fanfarrão, não sem gritar um "até logo" ao porteiro, que, meio bêbado e ocupado em atender a visitantes num quartinho atrás da cozinha, nem sequer o ouviu), correu vivamente para alcançá-lo. No mesmo instante em que o Sr. de Charlus atravessava a porta zumbindo como um grande besouro, um outro, este verdadeiro, entrava no pátio. Quem sabe não era este o esperado há tanto tempo pela orquídea, e que vinha trazer-lhe o pólen tão raro sem o qual ela continuaria virgem? Porém, fui desviado ao seguir as evoluções do inseto, pois, após alguns instantes, prendendo mais a minha atenção, Jupien (talvez para apanhar um pacote que levou mais tarde, e que esquecera na emoção que lhe causara o aparecimento do Sr. de Charlus, talvez apenas por um motivo mais natural), Jupien voltou, seguido pelo barão. Este, disposto a apressar as coisas, pediu fogo ao alfaiate, mas observou logo:

            - Peço-lhe fogo, mas vejo que esqueci meus charutos.

            - As leis da hospitalidade prevaleceram sobre as regras da coqueteria. - Entre, vai ter tudo o que quiser - disse o alfaiate, em cuja fisionomia o desdém cedeu lugar ao contentamento. A porta da loja voltou a fechar-se atrás deles e não pude ouvir mais nada. Perdera de vista o besouro, não sabia se ele era o inseto necessário à orquídea, mas já não duvidava, quanto a um inseto bem raro e a uma flor cativa, da milagrosa possibilidade da conjunção, quando o Sr. de Charlus (simples comparação no tocante aos acasos providenciais, sejam quais forem, e sem a menor pretensão científica de relacionar certas leis da botânica com aquilo que às vezes se chama impropriamente a homossexualidade), que, há muito tempo, só vinha a esta casa às horas em que Jupien estava ausente, pela casualidade de uma indisposição da Sra. de Villeparisis, encontrara o alfaiate e, com ele, a boa fortuna reservada aos homens do gênero do barão por uma dessas criaturas que até podem ser, como se verá, infinitamente mais jovens que Jupien, e mais belas, o homem predestinado para que aqueles tenham a sua parte de volúpia neste mundo: o homem que só ama os velhos.

            Aliás, o que acabo de dizer aqui é o que só haveria de compreender alguns minutos mais tarde, de tal modo aderem à realidade essas propriedades de ser invisível, até que uma circunstância a tenha despojado delas. Em todo caso, no momento sentia-me bastante aborrecido por não mais ouvir a conversa do velho coleteiro com o barão. Percebi então a loja para alugar, separada da de Jupien apenas por um tabique bastante delgado. Para chegar até ela, bastava subir ao nosso apartamento, ir à cozinha, descer a escada de serviço até os porões, segui-los internamente em toda a extensão do pátio e, chegado à altura do subsolo, em que há poucos meses o marceneiro ainda serrava a sua madeira, e onde Jupien tencionava pôr o seu carvão, subir os poucos degraus que davam acesso ao interior da loja. Assim, todo o caminho se faria às escondidas, eu não seria visto por ninguém. Era o meio mais prudente. Não foi o que adotei, mas, indo ao longo das paredes, contornei o pátio ao ar livre, procurando não ser visto. Se não o fui, penso que o devo mais ao acaso que à cautela. Quanto ao fato de me haver arriscado a semelhante imprudência, quando o caminho pelos porões era tão seguro, vejo três razões possíveis, caso haja alguma. Primeiro, a impaciência. Depois, talvez, uma recordação obscura do episódio de Montjouvain, escondido diante da janela da Srta. Vinteuil. De fato, as coisas desse gênero, a que assisti, tiveram sempre, no cenário, o caráter mais imprudente e menos verossímil, como se tais revelações só devessem constituir a recompensa de um ato cheio de riscos, embora em parte clandestino. Por fim, mal ouso confessar a terceira razão, devido a seu caráter de infantilidade, que foi, segundo creio, inconscientemente determinante. Desde que, para seguir e ver desmentidos os princípios militares de Saint-Loup, eu acompanhara em minúcias a guerra dos Boers, fora levado a reler antigas histórias de explorações, de viagens. Tais histórias me haviam apaixonado, e aplicava-as à vida corrente para criar mais ânimo. Quando as crises me forçavam a ficar vários dias e várias noites seguidas não apenas sem dormir, mas sem me deitar, sem comer nem beber, no instante em que o sofrimento e a exaustão chegavam a tal ponto que eu achava nunca mais me livraria deles, então eu pensava num determinado viajante atirado à praia, intoxicado por ervas daninhas, tremendo de febre em suas roupas ensopadas pela água do mar, e que, no entanto, sentia-se melhor ao fim de dois dias e retomava o caminho ao acaso, em busca de quaisquer habitantes que talvez fossem antropófagos. Seu exemplo me fortificava, dava-me esperança, e eu sentia vergonha de ter desanimado por um momento. Lembrando os bôers que, tendo pela frente exércitos ingleses, não temiam se expor no instante em que era necessário atravessar regiões de campo raso antes de encontrar um cerrado, eu pensava:

            "Tinha graça que eu fosse mais pusilânime, quando o teatro das operações é simplesmente o nosso próprio pátio, e quando eu, que me bati em duelo tantas vezes sem nenhum medo, devido ao Caso Dreyfus, o único ferro que tenha a temer é o do olhar dos vizinhos, que têm mais que fazer que olhar para o pátio."

            Mas, quando entrei na loja, evitando ao máximo fazer estalar o assoalho, dando-me conta de que o mais leve rumor da loja de Jupien era ouvido no aposento em que eu estava, pensei o quanto Jupien e o Sr. de Charlus tinham sido imprudentes e como o acaso lhes fora providencial. Não ousava mexer-me. O palafreneiro dos Guermantes, aproveitando sem dúvida a ausência deles, transportara para a sala em que me encontrava uma escada de mão, guardada até então na estrebaria. E, se eu subisse nela, poderia abrir os postigos e ouvir como se estivesse na própria loja de Jupien. Mas receei fazer barulho. Além do mais, era inútil. Nem tive mesmo de lamentar só haver chegado ao meu aposento ao fim de alguns minutos. Pois, conforme o que ouvi nos primeiros instantes no de Jupien, e que não passaram de sons inarticulados, suponho que foram ditas poucas palavras. É verdade que aqueles sons eram tão violentos que, se não tivessem sido sempre repetidos uma oitava mais alta por um gemido paralelo, eu poderia julgar que uma pessoa degolava outra junto de mim, e que, a seguir, o assassino e sua vítima ressuscitada tomavam um banho para apagar os sinais do crime. Mais tarde concluí que existe uma coisa tão ruidosa como a dor: é o prazer, sobretudo quando a ele se ajuntam - na falta do receio de ter filhos, o que não podia ser o caso atual, apesar do exemplo inconvincente da Legenda Áurea preocupações imediatas de propriedade. Por fim, ao cabo de meia hora, aproximadamente (durante a qual eu subira a escada com pés de gato, para espreitar pelo postigo, que, não abri), iniciou-se uma conversação.

            Jupien recusava, decidido, o dinheiro que o Sr. de Charlus queria lhe oferecer.

            Depois, o barão deu um passo para fora da loja.

            - Por que você usa o queixo rapado desse modo? - disse Jupien ao Sr. de Charlus em tom carinhoso. - É tão bonito uma bela barba!

            - Puf! É detestável - deu o barão. -

            Entretanto, demorava-se ainda no limiar da porta e Jupien informações sobre o bairro. Não sabe nada acerca do vendedor de castanhas da esquina? Não, não o da esquerda, este é um horror, mais no lado par, um rapagão bem moreno. E o farmacêutico de frente tem um ciclista muito gentil que leva os seus medicamentos.

            Essas perguntas notadamente aborreceram a Jupien, pois, erguendo-se com o despeito de grande amante traída, respondeu:

            - Vejo que tem no coração volúpia!

            Proferida em tom doloroso, glacial e amaneirado, esta censura foi claramente sensível ao Sr. de Charlus, que, para desfazer a má impressão que sua ansiedade produzira, dirigiu a Jupien, baixinho demais para que eu distinguisse bem as palavras, uma rogativa que, sem dúvida, exigiria que eles continuassem sem sua permanência na loja, o que sensibilizou o alfaiate o bastante para dissipar-lhe a mágoa, pois ele ficou olhando o rosto do barão, gordo, congestionado sob os seus cabelos grisalhos, com o ar inundado de felicidade de alguém cujo amor-próprio acaba de ser profundamente lisonjeado decidindo conceder ao Sr. de Charlus o que este lhe pedia, Jupien, fez algumas observações faltosas de distinção, como:

            - Puxa, que bunda! - disse ao barão com ar risonho, emocionado, superior e grato:

            - Bem, vamos lá, seu garotão!

            - Se insisto na questão do condutor de bonde - prosseguiu de Charlus com tenacidade -, é que, fora tudo o mais, poderia ter interesse para a volta. Acontece-me, realmente, como ao califa que corria Bagdá disfarçado em simples mercador, condescender em seguir alguma criaturinha cuja silhueta me agrade.

            Fiz aqui a mesma observação que tinha feito sobre Bergotte. Se alguma vez ele tivesse de responder diante de um tribunal, empregaria não frases próprias para convencer os juízes, mas essas frases bergotescas que seu temperamento literário especial sugeriria naturalmente e lhe daria prazer em empregá-las. Semelhante o Sr. de Charlus, falando ao alfaiate, servia-se da mesma linguagem que empregaria com as pessoas mundanas do seu meio, até exagerando os tiques, ou porque a timidez contra a qual se esforçava por lutar a um orgulho excessivo, ou porque, impedindo-o de se dominar sentimo-nos mais inibidos diante de alguém que não pertence ao meio, ela o forçava a revelar, a desnudar sua natureza, que, de fé orgulhosa e um tanto louca, como dizia a Sra. de Guermantes.

            - Para perder seu rastro - continuou ele como um professorzinho, um jovem e belo médico, no mesmo bonde da criaturinha, de quem mesmo no feminino para seguir a regra (como se diz, falando que Vossa Alteza está bem-disposta?). Se ela muda de bonde, faço, tal os micróbios da peste, a coisa incrível chamada "baldeação", tomo um número que, ainda que o entreguem a mim, nem sempre é o número 1! Assim, mudo até três ou quatro vezes de "carro". Por vezes arribo às onze horas da noite para chegar em Orléans, é preciso voltar! Se se tratasse apenas da garantia de Orléans! Mas uma vez, por exemplo, não tendo podido entabular conversa antes, fui mesmo até Orléans, num desses vagões horríveis em que se tem por vista inteira, em meio a triângulos de trabalhos manuais ditos "de malha", a fotografia das principais obras-primas de arquitetura da rede ferroviária. Só restava um lugar vago, e eu tinha à minha frente, como monumento histórico, uma "vista" da catedral de Orléans, que é a mais feia da França, e tão cansativa de olhar, assim a contragosto, como se me tivessem obrigado a olhar as suas torres na bolinha de vidro de uma dessas canetas óticas que produzem oftalmias. Desci nos Aubrais ao mesmo tempo que a minha criaturinha, que, ai de mim, tinha toda a família à espera na plataforma (quando supunha tivesse todos os defeitos, menos o de possuir uma família)! Só tive como consolo, enquanto esperava o trem que me levaria de volta a Paris, a casa de Diane de Poitiers. Por mais que ela tivesse enfeitiçado a um de meus régios antepassados, eu teria preferido uma beleza mais viva. Por isso, para remediar o aborrecimento desses regressos solitários, é que eu gostaria muito de conhecer algum servente dos vagões-leito, um motorista de ônibus. Aliás, não fique chocado - concluiu o barão -, tudo isto é uma questão de gênero. O que diz respeito aos jovens da alta sociedade, por exemplo, não desejo nenhuma posse física, mas não fico tranqüilo enquanto não lhes toco, não quero dizer materialmente, enquanto não lhes toco a corda sensível. Uma vez que, em lugar de deixar minhas cartas sem resposta, um rapaz não cessa mais de me escrever, e está à minha disposição moral, fico sossegado, ou pelo menos ficaria se logo não me dominasse a preocupação por um outro. Muito curioso, não é mesmo? A propósito de jovens da alta sociedade, não conhece algum dentre os que vêm aqui?

            - Não, meu boneco. Ah, sim, um moreno, bem alto, de monóculo, que ri sempre e vive se voltando.

            - Não percebo quem você quer dizer. -

            Jupien completou o retrato, o Sr. de Charlus não conseguia descobrir de quem se tratava, pois ignorava que o antigo coleteiro era uma dessas pessoas, mais numerosas do que se julga, que não lembram a cor dos cabelos das pessoas a quem conhecem pouco. Mas para mim, que sabia dessa fraqueza de Jupien, que trocava moreno por louro, o retrato me pareceu relacionar-se precisamente com o duque de Châtellerault.

            - Voltando aos jovens que não são do povo - continuou o barão -, no momento a minha cabeça está virada por um estranho rapaz, um jovem burguês inteligente, que se mostra a meu respeito de uma descortesia incrível. Não faz a menor idéia da prodigiosa personagem que sou e do vibrião microse que ele representa. Afinal, que importa! Esse burrinho pode zurrar o quiser diante de minhas augustas vestes de bispo.

            - Bispo! Exclamou Jupien, que nada compreendera das últimas frases que o Sr. de Charlus acabava de pronunciar, mas a quem a palavra "bispo" deixara estupefato - Mas isto não vai bem com a religião - disse ele.

            - Tenho três papas, na família - respondeu o Sr. de Charlus e o direito a me vestir em público, devido a um título cardinalício, já que a sobrinha do meu tio-avô trouxe a meu avô o título de duque, que lhe foi substituído. Vejo que metáforas o deixam surdo e que a história da França lhe é indiferente, de resto -acrescentou, talvez menos à maneira de conclusão do que só uma advertência -, essa atração que exercem sobre mim os rapazes me fogem, naturalmente de medo, pois apenas o respeito lhes encerra a bestialidade para gritarem que me amam, exige, da parte deles, uma posição eminente. Contudo, a sua fingida indiferença pode produzir, apesar disso - um efeito diretamente contrário. Tolamente prolongada, ela me causa dó. Para dar um exemplo numa classe que lhe será mais familiar: quando fizeram reparos em meu palácio, a fim de que não se sentissem enciumadas todas as duquesas que disputavam a honra de poder dizer que me haviam hospedado, fui passar alguns dias "de hotel", como se costuma dizer. Um dos camareiros era meu conhecido; mostrei-lhe um curioso boy que fechava as portinholas e se mantinha refratário às minhas propostas. Por fim exasperado, para lhe provar que minhas intenções eram puras, mandei oferecer-lhe uma quantia ridiculamente elevada, unicamente para que ele subisse e me falasse por cinco minutos no meu quarto. Esperei-o inutilmente. Tomei-lhe então uma tal repugnância que saí pela porta de serviço, para não enxergar de novo a cara daquele safado. Soube depois que nunca lera nenhuma de minhas cartas, que tinham sido interceptadas. A primeira pelo camareiro do meu andar, que era invejoso; a segunda, pelo porteiro do dia, que era virtuoso; a terceira, pelo porteiro da noite, que ambicionava o jovem boy e dormia com ele à hora em que Diana se levantava. Nem por isso deixou de persistir a minha repugnância; e, se me houvessem trazido o boy como um simples despojo de caça numa salva de prata, eu o poria num vômito. Porém, o mal é que temos falado de coisas sérias e agora está tudo acabado entre nós, quanto ao que eu esperava. Mas você pode me prestar muitos serviços, intervir; mesmo que não, só esta idéia já devolve um certo ânimo, e sinto que nada acabou.

            Desde o começo desta cena, para os meus olhos arregalados operara-se uma revolução no Sr. de Charlus, tão completa, tão imediata como se ele tivesse sido tocado por uma varinha mágica. Até então, que não compreendera, não tinha visto. O vício (fala-se deste modo por comodidade de linguagem), o vício de cada um o acompanha à maneira daquele gênio, que era invisível para os homens enquanto ignoravam a sua presença. A bondade, a artimanha, o nome, as relações mundanas não se deixam descobrir, e cada qual as traz escondidas. O próprio Ulisses a princípio não reconheceu Atenéia. Mas os deuses são imediatamente perceptíveis aos deuses, o semelhante o é bem depressa a seu semelhante, e assim o fora ainda o Sr. de Charlus a Jupien. Até aqui eu me encontrara em presença do Sr. de Charlus da mesma forma que um homem distraído, que, diante de uma mulher grávida em cujo talhe pesadão não reparou, enquanto ela lhe repete sorrindo:

            - Sim, estou meio cansada agora teima em lhe perguntar, indiscreto:

            - Mas o que sente a senhora? -

            Até que quando alguém lhe diz:

            - Está grávida e aí. - de súbito, percebe o ventre e não verá mais que este. É a razão que abre os olhos; um engano dissipado nos confere um sentido a mais.

            As pessoas que não gostam de reportar-se, como exemplos dessa lei, aos senhores de Charlus de seu conhecimento, de quem por muito tempo não tinham desconfiado até o instante em que, sobre a lisa superfície do indivíduo semelhante aos outros, tenham chegado a aparecer, traçados com uma tinta até então invisível, os caracteres que compõem a palavra cara aos antigos gregos, não têm, para se convencerem de que o mundo que os rodeia lhes aparece primeiramente nu, desprovido de mil ornatos que ele oferece a outros mais cientes, senão que relembrar quantas vezes na vida lhes aconteceu estarem a ponto de cometer uma gafe. Nada, no rosto privado de caracteres desse ou daquele homem, podia lhes fazer supor que ele era exatamente o irmão ou o noivo, ou o amante de uma mulher de quem iam exclamar:

            - É uma anta! -

            Mas então, por sorte, uma palavra que lhes sussurra um vizinho faz parar em seus lábios o termo fatal. Logo aparecem, como um Mane Thecel Fares, estas palavras: ele é o noivo, ou ele é o irmão, ou ele é o amante da mulher que não convém que se chame diante dele:

            - É uma anta. -

            E só essa nova noção arrastará consigo todo um reagrupamento, a retirada ou o avanço da fração das noções, dali em diante completadas, que se possuíam acerca do resto da família.             Ao Sr. de Charlus era baldado que se acoplasse um outro ser, que o diferenciasse dos demais homens, como no centauro o cavalo; era baldado que este ser fizesse um só corpo com o barão; eu nunca o havia percebido. Agora o abstrato se materializara, e o ser enfim compreendido perdera logo o poder de continuar invisível, e a transmutação do Sr. de Charlus numa pessoa nova era tão completa que não só os contrastes do seu rosto, de sua voz, mas, retrospectivamente, também os próprios altos e baixos de suas relações comigo, tudo o que até então havia parecido incoerente ao meu espanto tornava-se inteligível, mostrava-se evidente, como uma frase, que não percebe qualquer sentido enquanto permanece decomposta em letras arranjadas ao acaso, exprimem-se os caracteres se acham recolocados na ordem correta, um pensamento que já não poderá ser esquecido. Além do mais, eu compreendia agora por que, ainda há pouco quando o vira sair da casa da Sra. de Villeparisis, pudera achar que o Sr. de Charlus tinha um jeito de mulher: pois era uma! Pertencia à raça daquelas criaturas, menos contraditórias que parecem, cujo ideal é viril, justamente porque seu temperamento é feminino, e que na vida são semelhantes outros homens, porém apenas na aparência; aí onde cada um traz constantemente, nesses olhos com os quais vê todas as coisas no universo, uma silhueta gravada na pupila não é para eles a de uma ninfa, mas de um efeboy. Raça sobre a qual pesa uma maldição e que tem de viver na mentira e na penúria, pois que se tem por punível e vergonhoso, por inconfessável, o falho desejo, o que é para cada criatura a doçura máxima de viver; que deve renegar seu Deus, visto que, mesmo os cristãos, quando comparecem como açoitados à barra do tribunal, é-lhes necessário, diante do Cristo e em seu nome defenderem-se como de uma calúnia daquilo que é a sua própria vida! Filhos sem mãe, à qual são obrigados a mentir mesmo à hora de lhe fechar os olhos; amigos sem amizades, apesar de todas as que inspiram o seu encanto reconhecido com freqüência e das que seu coração, em geral bondoso, sentiria; porém, podem chamar-se amizades essas relações que só  vegetam a favor de uma mentira e de onde os faria rejeitar com desgosto primeiro impulso de confiança e de sinceridade que se sentissem tentados a ter, a menos que se dirijam a um espírito imparcial, e até mesmo simpático, mas que então, perturbado a respeito deles por uma psicologia convencional, fará derivar do vício confessado o mesmo afeto que lhe é estranho, assim como alguns juízes pressupõem e desculpam mais facilmente o assassínio entre os invertidos e a traição entre os judeus por raridades extraídas do pecado original e da fatalidade da raça? Enfim pelo menos conforme a primeira teoria que à conta deles eu esboçava então, teoria a seguir veremos modificar-se, e na qual isto os irritaria mais que tudo essa contradição não se ocultasse a seus olhos pela própria ilusão que fazia ver e viver amantes a quem está quase fechada a possibilidade de amor, cuja esperança lhes dá forças para suportar tantos riscos e solidão; visto que justamente estão apaixonados por um homem que não teria de mulher, um homem que não seria invertido e que, por conseguinte, pode amá-los; de modo que o seu desejo permaneceria insaciável para perder-se o dinheiro, não lhes entregasse verdadeiros homens e se a imaginação não acabasse por fazê-los tomar por homens de verdade os invertidos a quem se prostituem. Sem honra, senão precária; sem liberdade, senão provisória, até a descoberta do crime; sem posição que não seja instável, como para o poeta, festejado na véspera em todos os salões, aplaudido em todos os teatros de Londres e, no dia seguinte, expulso de todos os quartos, sem poder achar um travesseiro onde repousar a cabeça, dando voltas à pedra de amolar como no verso do Poema "A cólera de Sansão", de Alfred de Vigny (1797-1863) como Sansão, ele fica repetindo:

            ''Os dois sexos morrerão cada qual por seu lado; excluídos até, salvo nos dias de grande infelicidade, em que a maioria se reúne ao redor de sua vítima”; como os judeus ao redor de Dreyfus de toda simpatia, e às vezes da sociedade, de seus semelhantes, aos quais dão o desgosto de ver que são, pintados num espelho que, não os adulando mais, acusa todas as taras que não tinham desejado notar em si mesmos e que os faz compreenderem que aquilo a que denominam amor (e a que, brincando com a palavra, haviam anexado, por sentido social, tudo quanto a poesia, a pintura, a música, a cavalaria, o ascetismo tinham podido acrescentar ao amor) decorre não de um ideal de beleza que tenham escolhido, mas de uma enfermidade incurável; como ainda os judeus (salvo uns poucos que só desejam conviver com os de sua raça, e têm sempre nos lábios as palavras rituais e os gracejos consagrados), fugindo uns dos outros, buscando os que lhes são mais contrários, que não querem saber deles, perdoando as suas zombarias, embriagando-se com suas complacências; mas ainda assim unidos a seus semelhantes pelo ostracismo que os fere, o opróbrio em que caíram, tendo acabado por adquirir, graças a uma perseguição idêntica à de Israel, os caracteres físicos e morais de uma raça, às vezes bela, freqüentemente horrível, encontrando apesar de todas as troças com que o mais mesclado, mais assimilado à raça adversa, é relativamente, em aparência, o menos invertido, cobre aquele que simplesmente continuou a sê-lo um descanso no convívio de seus semelhantes, e até um apoio na existência, até que, negando sempre formarem uma raça (cujo nome é a maior injúria), os que conseguem ocultar que a ela pertencem, desmascaram-nos de boa vontade, não tanto para lhes causar dano, coisa que não detestam, quanto para se desculparem, e indo buscar, como um médico pesquisa o apendicite, a inversão até na História, tendo prazer em lembrar que Sócrates era um deles, como os israelitas dizem que, era judeu, sem pensar que não havia anormais quando o homossexual a regra, nem anticristãos antes de Jesus Cristo, que só o opróbrio no crime, pois só deixou de subsistir para aqueles que eram refratários de toda pregação, a todo exemplo, a todo castigo, em virtude de uma distinção inata e de tal modo especial que repugna mais aos outros homens daquele que possa vir acompanhado de altas qualidades morais) do que vícios que se contradizem, como o roubo, a crueldade, a má-fé, mais compreendidos e, portanto, mais desculpados pelo comum dos homens; - formando uma franco-maçonaria bem mais extensa, mais eficaz e suspeita que a das lojas, pois repousa numa identidade de gostos, aparências, de hábitos, de perigos, de aprendizagem, de saber, de tráfico; glossários, e na qual os próprios membros que aspiram a não ser conhecidos logo se reconhecem por traços naturais ou de convenção, involuntárias ou intencionais, que assinalam ao mendigo um de seus semelhantes o grão-senhor que lhe fecha a porta de seu carro; ao pai, no noivo da filha; ao que desejara curar-se, confessar-se, defender-se, no médico, no pai, no advogado a quem recorreu; todos forçados a proteger o seu segredo; tendo a sua parte no segredo dos outros, de que o restante da humanidade - não suspeita e que faz com que os mais inverossímeis romances de aventuras lhes pareçam verdadeiros; pois, nessa vida romanesca, anacrônica; o embaixador é amigo do preso; o príncipe, com uma certa liberdade dos que lhe confere a educação aristocrática e que um pequeno-burguês medroso não teria, ao sair da casa da duquesa, vai se entender como apache; parte reprovada da coletividade humana, porém parte importante, que se suspeita onde não está, ostensiva, insolente, impune onde é adivinhada; contando com adeptos por toda a parte, no povo, no exército, no templo, na penitenciária, no trono; vivendo enfim, ao menos um grande número, na intimidade cariciosa e arriscada dos homens da outra parte, provocando-os, brincando com eles ao falar do seu vício como se não fosse seu; jogo que se torna fácil pela cegueira ou pela falsidade dos outros, já que pode se prolongar durante anos até o dia do escândalo, em que domadores são devorados; até então obrigados a ocultar a sua vida, a virar os olhos de onde gostariam de fixá-los, a fixá-los de onde gostariam de desviá-los, de mudar o gênero de muitos adjetivos em seu vocabulário; o freio social em comparação com o freio interior que seu vício, ou o que denomina impropriamente desse modo, lhes impõe não mais em relação à outros mas a si mesmos, e de maneira que a eles próprios não pareça vício. Porém alguns, mais práticos, mais apressados, que não têm de pechinchar e de renunciar à simplificação da vida e a esse ganha tempo que pode resultar da cooperação, formaram duas sociedades, das quais a segunda é composta exclusivamente de criaturas semelhantes a eles. Isto é chocante naqueles que são pobres e vêm da província, sem relações de amizade, sem outra coisa a não ser a ambição de um dia se transformarem num médico ou advogado célebre, cujo espírito ainda está vazio de opiniões, cujo corpo é destituído das maneiras que eles esperam tornar bem depressa, assim como comprariam móveis, para seu quartinho do Quartier latin, de acordo com o que notassem e copiassem dos que já "venceram" na profissão útil e séria em que sonham se encaixar e tornar-se ilustres; nestes, seu gosto especial, herdado sem que soubessem, como a inclinação para o desenho, para a música, à cegueira, é talvez a única originalidade viva, despótica, e que em certas noites força-os a não comparecerem a determinada reunião, proveitosa à sua carreira, com pessoas das quais, para o resto, adotam os modos de falar, de pensar, de se vestir, de se pentear. Em seu bairro, onde sem isto só convivem com colegas, mestres ou algum conterrâneo já triunfante e que os protege, logo descobriram outros rapazes de quem o mesmo gosto especial os aproxima, como numa aldeia se ligam o professor secundário e o tabelião, ambos amantes da música de câmara e do marfim da Idade Média; aplicando ao objeto de sua distração o mesmo instinto utilitário, o mesmo espírito profissional que os norteia em sua carreira, reencontram-nos em sessões onde não se admite nenhum profano, desses que congregam amadores de antigas caixas de rapé, de estampas japonesas, de flores raras; e onde, devido ao prazer de se instruir, da utilidade das trocas e do temor das competições, reinam a um tempo, como numa Bolsa de Selos, a estreita harmonia dos especialistas e as ferozes rivalidades dos colecionadores. Aliás, ninguém no café onde eles têm sua mesa sabe que reunião é aquela, se se trata de uma sociedade de pesca, se é de secretários de redação, ou de filhos do Indra, de tal modo sua compostura é correta, o seu aspecto reservado e frio; a tal ponto que não ousam olhar senão às escondidas para os rapazes da moda, os jovens "leões" que, a poucos metros de distância, fazem estardalhaço de suas amantes, e entre os quais os que os admiram sem ousar erguer a vista saberão, vinte anos depois, quando uns estiverem às vésperas de entrar para uma academia, e outros forem sisudos homens de clube, que o mais sedutor, agora um corpulento e grisalho Charlus, era de fato igual a eles, mas em outra parte, em outro mundo, sob outros símbolos externos, com sinais estranhos, cuja diferença os induziu à erro. Porém, os agrupamentos são mais ou menos avançados; e, como a União das Esquerdas difere da Federação Socialista e determinada sociedade de música de Mendelssohn da Schola Cantorum, certas noites, em outra mesa, há extremistas que deixam aparecer um bracelete sob o punho da camisa, às vezes um colar pela do colarinho, forçam, com seus olhares insistentes, seus cacarejos, carícias entre si, um grupo de colegiais a fugir rapidamente, e são dos, com uma polidez em que se incuba a indignação, por um garçon, como nas noites em que serve a dreyfusistas, ficaria satisfeito em chamar a polícia se não lhe fosse conveniente guardar as gorjetas.

            São semelhantes organizações profissionais que o espírito o gosto dos solitários, e sem demasiado artifício de uma parte, já que só faz imitar os próprios solitários que julgam que nada difere de mais organizado do que aquilo que lhes parece um amor incompreendido; todavia com algum artifício, pois essas diferentes classes correspondem, tanto como a tipos psicológicos diversos, a momentos sucessivos de evolução patológica ou apenas social. E, com efeito, é bem raro quando um dia ou outro, não seja em tais organizações que os solitários acabem por fundir-se, às vezes por simples lassidão, por comodidade (como os mais avessos a tais coisas acabem por mandar instalar, receber ou por comprar na casa Potin). Ali, eles são em geral muito mal recebidos pois, em sua vida relativamente pura, a falta de experiência, a saturação pelos devaneios a que estão reduzidos marcaram mais fortemente aquelas características especiais de afeminamento que os profissionais buscaram apagar. E é preciso confessar que, em alguns desses renegados, a mulher não só está internamente unida ao homem, mas hediondamente visível; agitados como estão em um espasmo de história; por um riso agudo que lhes convulsiona os joelhos e as mãos, e não ressentem ao comum dos homens mais do que esses macacos de olhos cólicos e olheiras fundas, de pés compreensíveis, que vestem fraque e gravata preta. De modo que esses novos recrutas são julgados, por que no entanto são menos castos, de convivência comprometedora, difícil a sua admissão; entretanto, são aceitos, beneficiando-se então dessas facilidades, pelas quais o comércio e as grandes empresas têm transformado a vida das pessoas, tornando-lhes acessíveis mercadorias até muito caras; até mesmo difíceis de encontrar, e que agora os substituem com a superabundância daquilo que eles sozinhos não tinham chegado a descobrir nas maiores multidões. Porém, mesmo com esses exultantes instáveis, a coação social é ainda pesada demais para alguns deles, sobretudo entre aqueles em que não exerce efeito o freio mental; acham ainda mais estranho do que é o seu tipo de amor. Não deixemos de lado aqueles que, como o caráter excepcional de sua ação os faz pensar serem

superiores a elas, desprezam as mulheres, do homossexualismo o privilégio dos grandes gênios e das épocas; e, quando buscam fazer compartilhar o seu gosto, é menos com os que lhes parecem predispostos a isso, como o morfinômano à morfina, do que com aqueles a quem julgam dignos, por zelo apostólico, como outros pregam o sionismo, a recusa ao serviço militar, o saint-simonismo, o vegetarianismo e a anarquia. Alguns, se são surpreendidos de manhã, deitados ainda, exibem uma admirável cabeça de mulher, de tanto que a expressão é geral e simboliza todo o sexo; até os cabelos o afirmam; soltos, sua inflexão é tão feminina, eles caem tão naturalmente em caracóis sobre o rosto, que a gente se espanta de que a jovem, a mocinha Galatéia, que mal desperta no inconsciente desse corpo de homem em que está encerrada, tenha sabido tão engenhosamente, por si mesma, sem tê-lo aprendido de ninguém, desfrutar das menores saídas de sua prisão e encontrar o que era necessário à sua vida. Evidentemente, o moço que possui essa maravilhosa cabeça não diz:

            "Sou uma mulher."

            E, mesmo se (por tantas razões possíveis) ele vive com uma mulher, pode lhe negar seja uma, jurar-lhe que nunca teve relações com homens. Que ela o contemple como acabamos de o mostrar, deitado no leito, de pijama, braços despidos, despido o pescoço sob os cabelos negros. O pijama tornou-se uma camisola de mulher, a cabeça, a de uma linda espanhola. A amante se assombra dessas confidências feitas aos seus olhares, mais verdadeiras do que o poderiam ser as palavras, e até os atos; e que os próprios atos, se é que já não o fizeram, não poderão deixar de confirmar, pois toda criatura segue em busca do seu prazer; e, se essa criatura não é excessivamente viciosa, procura-o num sexo oposto ao seu. Ora, para o invertido, o vício principia não quando trava relações (pois há demasiados motivos que podem comandá-las), mas quando ele procura o seu prazer nas mulheres. O moço a quem acabamos de descrever era tão manifestamente uma mulher, que as mulheres que o olhavam com desejo eram votadas ao mesmo desapontamento (a menos que se tratasse de um gosto especial) daquelas que, nas comédias de Shakespeare, ficam decepcionadas com uma moça disfarçada que se faz passar por um adolescente. O engano é igual, o próprio invertido o sabe, e adivinha a desilusão que a mulher há de sentir logo que tombe o disfarce, e percebe o quanto esse erro sobre o sexo é uma fonte de poesia fantasiosa. Além disso, mesmo que confesse à sua amante exigente (se ela não é gomorriana):

            "Eu sou uma mulher", dentro dele, todavia, com que artimanhas, com que agilidade, com que obstinação de planta trepadora, a mulher inconsciente e visível busca o órgão masculino! Basta olhar essa cabeleira encaracolada sobre o travesseiro branco para compreender que, à noite, se este moço escapa por entre os dedos de seus pais, apesar deles, apesar de si mesmo, será para ir procurar mulheres. Sua amante pode castigá-lo, trancá-lo; na manhã seguinte, o homem-fêmea terá achado um modo de se enamorar com um homem, como a campânula arremessa as gavinhas onde tiver um ancinho ou uma enxada. Por que o motivo, admirando no rosto do homem as delicadezas que nos tocam, uma graça, um ar natural na amabilidade como os homens não possuem, ficaríamos desolados ao saber que esse moço procura boxeadores? Trata-se de aspectos diversos de uma mesma realidade. E mesmo aquilo que nos repugna é o mais tocante, mais até que todas as delicadezas, pois representa um admirável esforço inconsciente da natureza: o reconhecimento do sexo por si mesmo, apesar da escamoteação do sexo, surge como a tentativa inconfessa de evadir-sepis aquilo que um erro inicial da sociedade colocou longe de si. Alguns, tiveram sem dúvida a mais tímida infância, quase não se preocupam com o tipo de material de prazer que recebem, contanto que possam relacioná-lo com um rosto masculino. Ao passo que outros, certamente por terem sentido mais agressivos, dão a seu prazer material localizações imperiosas. Ofenderiam talvez, com suas confissões, o tipo mediano das pessoas. Talvez vivam menos exclusivamente sob o signo de Saturno, pois, para as mulheres não estão totalmente excluídas como para os primeiros; relativamente a estes, aqueles não existiriam sem a conversação, a coqueteria dos amores intelectuais. Mas os segundos procuram aquelas que amam as mulheres, que podem conseguir-lhes algum moço, aumentar o prazer que sentem em se encontrar com eles; e bem mais, eles podem, da mesma forma, ter com elas o mesmo prazer que desfrutariam com um homem. Daí decorre que, no caso dos que amam os primeiros, o ciúme só é aguçado pelo prazer que poderiam ter com um homem e que é o único a lhes parecer uma traição, visto que não participam do amor das mulheres, não praticaram senão por hábito e para reservar-se a possibilidade do casamento imaginando tão parcamente o prazer que este pode proporcionar, que não podem tolerar que aquele a quem amam o desfrute; ao passo que os segundos inspiram com freqüência o ciúme devido a seus amores com mulheres. Pois, nas relações que mantêm com elas, representam, para a mulher que ama as mulheres, o papel de uma outra mulher, e a mulher lhes oferece, ao mesmo tempo, mais ou menos aquilo que eles encontram num homem, de modo que o amigo ciumento sofre por sentir aquele a quem unido àquela que para ele é quase um homem, ao mesmo tempo que quase deixam lhe escapar, visto que, para essas mulheres, é algo que ele reconhece, uma espécie de mulher. Tampouco não falemos desses jovens doidivanas que, por uma espécie de infantilidade, para amofinar os atuais; melindrar os pais, se empenham em escolher roupas que parecem vestido; pintar os lábios e sombrear os olhos; deixemo-los de lado, pois são os mesmos que voltaremos a encontrar quando tiverem sofrido cruelmente demais por sua afetação, passando toda uma vida a tentar reparar em vão, com um aspecto severo, protestante, o dano que causaram a si próprios à época em que eram arrastados pelo mesmo demônio que impele algumas moças do faubourg Saint-Germain a viverem de maneira escandalosa, a romper com todos os costumes, a achincalhar sua família, até o dia em que se dedicam, com perseverança e sem sucesso, a subir de novo a vertente que antes lhes parecera tão divertido descer ou melhor, que não tinham podido evitar descer. Deixemos enfim para mais tarde aqueles que fizeram um pacto com Gomorra. Falaremos deles quando o Sr. de Charlus os conhecer. Deixemos todos esses, de uma variedade ou outra, que aparecerão por sua vez, e, para terminar esta primeira exposição, digamos só uma palavra acerca de quem tínhamos começado a falar agora há pouco, os solitários. Julgando o seu vício mais excepcional do que é, foram viver sozinhos no dia em que o descobriram, depois de o ter trazido consigo por muito tempo sem o conhecer, muito mais tempo apenas do que outros. Pois a princípio ninguém sabe que é invertido, ou poeta, ou esnobe, ou malvado. Certo colegial que aprendia versos de amor ou olhava imagens obscenas, se então se apertava contra um camarada, imaginava-se apenas a comungar com ele num mesmo desejo de mulher. Como acreditaria não ser idêntico a todos, quando reconhece a substância daquilo que sente ao ler a Sra. de Lafayette, Racine, Baudelaire, Walter Scott, ao passo que ainda é bastante incapaz de observar a si mesmo para se dar conta daquilo que acrescenta de sua palavra, e de que, se o sentimento é igual, o seu objeto é diferente, pois a quem ele deseja é Rob Roy e não Diana Vernon? Para muitos, por uma prudência defensiva do instinto que precede a visão mais clara da inteligência, o espelho e as paredes de seu quarto desaparecem sob os cromos que representam atrizes; fazem versos desse tipo:

            “Só amo a Cloé neste mundo. Ela é divina, ela é loura; E de amor meu coração se inunda.”

            Precisaríamos, por isso, situar no começo dessas vidas um gosto que a seguir não encontraríamos neles, como aqueles caracóis louros das crianças que logo após se tornam mais castanhos? Quem sabe se as fotografias de mulheres não são um início de hipocrisia, e também um início de horror aos demais invertidos? Mas os solitários são precisamente, aqueles a quem a hipocrisia é dolorosa. Talvez o exemplo dos judeus, de colônia diferente, ainda não seja suficientemente vigoroso para explicar como a educação tem pouca influência sobre eles, e com que arte acaba por voltar, não talvez a alguma coisa tão simplesmente atroz como o doido (a que os doidos, sejam quais forem as precauções tomadas, sempre são salvos do rio aonde se atiraram, se envenenam, compram um revólver, etc), mas a uma vida de que os homens da outra raça não só compreendem, não imaginam e odeiam os prazeres necessários, mas cujo freqüente perigo e a vergonha permanente lhes causariam horror; vez, para descrevê-los, é preciso pensar, senão nos animais que não domesticam, nos leõezinhos, pretensamente domados, mas que continha sendo leões, pelo menos nos negros, a quem exaspera a existência incontrolável dos brancos, e que preferem os riscos da vida selvagem e suas manias incompreensíveis. Quando chegar o dia em que se descobrirem incapazes, a um tempo, de mentir aos outros e de mentir a si próprios, ao pai, para viver no campo, fugindo a seus semelhantes (que julgam ser numerosos) por horror à monstruosidade ou receio da tentação, e da humanidade por vergonha. Jamais alcançando a verdadeira maturidade mergulhados na melancolia, de vez em quando, num domingo sem lua; dar um passeio por um caminho até chegar a uma encruzilhada, onde, que hajam dito uma só palavra, foi esperá-los um de seus amigos de infância que mora num castelo vizinho. E eles recomeçam os jogos de antigamente, sobre a relva, de noite, sem trocar palavra. Durante a semana vêem na casa de um ou do outro, conversam sobre qualquer coisa, sem alusão ao que se passou, exatamente como se não houvessem feito; não devessem tornar a fazer coisa alguma, a não ser, em suas relações: pouco de frieza, ironia, irritabilidade e rancor, por vezes ódio. Depois o vizinho parte para uma dura viagem a cavalo em lombo de mula, escalando, deita-se na neve; seu amigo, que identifica o próprio vício com um fraqueza de temperamento, e com a vida caseira e tímida, compreende que o vício não mais poderá viver em seu amigo emancipado a milhares de metros acima do nível do mar. E, de fato, o outro se casa. No entanto, abandonado não se cura (apesar dos casos em que se verá que a inversão sexual é curável). Exige que seja ele próprio a receber de manhã, o creme fresco das mãos do moço leiteiro e, nas tardes em que desejos o agitam demais, perde-se pelas ruas até ensinar o caminho a bêbado, até ajeitar a camisa de um cego. Sem dúvida, a vida de certo invertido parece mudar às vezes, o seu vício (como se diz) já não surgem seus hábitos; porém, nada se perde: uma jóia escondida se acha; quando a quantidade de urina de um enfermo diminui, é porque ele transpira mais, porém é necessário que sempre se produza a excreção. Um dia esse homossexual perde um primo jovem e, pela sua mágoa inconsolável, compreendemos que era para esse amor, talvez casto, e de que se empenhava mais em conservar a estima do que em obter a posse, que os desejos haviam passado por transferência, assim como num orçamento, sem que se mude nada no total, certas despesas são transferidas para outro exercício. Como se dá no caso dos doentes, em quem uma crise de urticária faz desaparecer por uns tempos as suas indisposições habituais, o amor puro a um parente jovem parece, no invertido, ter momentaneamente substituído, por metástase, certos hábitos que retomarão, um dia ou outro, o lugar do mal vicariante e curado.

            Entretanto, o vizinho casado do solitário regressou; diante da beleza da jovem esposa e da ternura com que seu marido a trata, no dia em que o amigo é forçado a convidá-los para jantar, sente vergonha do passado. Já em estado interessante, ela deve voltar cedo, deixando seu marido; este, quando chega a hora de voltar, pede que o acompanhe a seu amigo, o qual a princípio não alimenta qualquer suspeita, mas que na encruzilhada, sem que troquem uma só palavra, se vê atirado à grama pelo alpinista que em breve será pai. E os encontros recomeçam até o dia em que vem instalar-se, não longe dali, um primo da jovem senhora, com quem agora vai passear sempre o marido. E este, se o abandonado o visita, buscando aproximar-se dele, furibundo, repele-o, indignado de que o outro não tenha tido o tato de pressentir o nojo que ele lhe inspira de agora em diante. Todavia, em certa ocasião apresenta-se um desconhecido enviado pelo vizinho infiel; porém, muito atarefado, o abandonado não pode recebê-lo, e só mais tarde compreende com que objetivo o estranho viera.

            Então, isolado, o solitário enlanguesce. Não tem outro prazer senão ir ao balneário vizinho para pedir informações a um determinado funcionário das estradas de ferro. Mas este recebeu uma promoção e foi nomeado para a outra extremidade da França; o solitário não mais poderá ir lhe perguntar o horário dos trens, o preço das passagens de primeira classe, e, antes de voltar para sonhar em sua torre, como Griselda, demora-se na praia, como uma estranha Andrômeda que nenhum Argonauta virá libertar, como uma medusa estéril que há de morrer sobre a areia, ou então permanece preguiçosamente na plataforma, antes da partida do trem, a lançar à multidão de viajantes um olhar que parecerá indiferente, desdenhoso ou distraído aos de uma outra raça, mas que, como o clarão luminoso de que são providos alguns insetos para atrair os da mesma espécie, ou como o néctar que certas flores oferecem para atrair os insetos que hão de fecundá-las não enganaria o amador quase sem encontrar um prazer bastante singular, bem difícil de situar, que lhe é oferecido, o confrade com quem nem especialista poderia falar no idioma insólito; quando muito, algum mapa da pilha da estação pareceria interessar-se por esse idioma, mas apenas para obter uma vantagem material, como aqueles que, no College de France, sala em que o professor de sânscrito fala sem audiência, vão seguir outros, mas unicamente para se aquecerem. Medusa! Orquídea! Quando eu seguia o meu instinto, em Balbec, a medusa me repugnava; mas, se eu soubesse observá-la, como Michelet, do ponto de vista da história natural da estética, veria uma deliciosa girândola azul-celeste. Acaso não são como veludo transparente de suas pétalas, como que as orquídeas cor-de-malva do mar? Como tantas criaturas dos reinos animal e vegetal como a planta que produziria a baunilha, mas que, porque nela o órgão masculino está separado do feminino por uma membrana, permanece estável se os beija-flores ou certas abelhas minúsculas não transportarem o pólen de uns a outros, ou se o homem não as fecundar artificialmente; e aqui a palavra "fecundação" deve ser tomada em seu sentido moral, já que, no sentido físico, a união do macho com o macho é estéril, mas não é indiferente que um indivíduo possa encontrar o único prazer que ele seja suscetível de desfrutar, e que "aqui neste mundo toda criatura" possa dar a alguém, "sua música, sua flama ou seu perfume". O Sr. de Charlus era desses homens que podem ser chamados excepcionais, pois, por mais numerosos que sejam, a satisfação de suas carências sexuais, tão fácil no caso dos outros independe da coincidência de um número excessivo de condições e que são muito difíceis de encontrar. Para os homens como o Sr. de Charlus e com a ressalva dos arranjos que vão aparecendo aos poucos e que já se pode pressentir, exigidos pela necessidade de prazer que se resigna a consentimentos incompletos-, o amor mútuo, afora as dificuldades tão grandes, por vezes insuperáveis, que encontra no comum das criaturas, acrescenta-lhes outras tão especiais, que aquilo que é sempre bem raro para todos torna-se, no caso deles, quase impossível, e, se ocorre um encontro verdadeiramente auspicioso para eles, ou que a natureza assim lhes faz pareceu a sua felicidade, bem mais ainda que a do amoroso normal, possui algo de extraordinário, de selecionado, de profundamente necessário. O ódio dos Capuletos e dos Montecchios não era nada diante dos estorvos de todo gênero que foram vencidos, das eliminações especiais que a natureza teve de fazer aos acasos, já bem raros, que conduzem ao amor, antes que um antigo coleteiro, que contava partir calmamente para seu escritório, vacile deslumbrado, ante um cinqüentão que está principiando a engordar. Esse Romeu e essa Julieta podem julgar, com todo o direito, que seu amor não é o capricho de um instante, mas uma verdadeira predestinação preparada pelas harmonias de seu temperamento, não só pelo seu temperamento próprio, mas também pelo de seus ascendentes, pela sua mais longínqua hereditariedade, a tal ponto que a criatura que a eles se ajunta lhes pertence desde antes do nascimento, e os atraiu com uma força comparável à que dirige os mundos em que passamos nossas vidas anteriores.

            O Sr. de Charlus distraíra-me de ver se o besouro levava à orquídea o pólen que ela aguardava há tanto tempo, e que ela só tinha oportunidade de receber graças a um acaso tão improvável que se poderia chamá-lo de uma espécie de milagre. Mas era igualmente um milagre aquele a que eu acabava de assistir, quase do mesmo gênero e não menos prodigioso. Desde que considerei o encontro desse ponto de vista, tudo me pareceu impregnado de beleza. As mais extraordinárias artimanhas que a natureza tem inventado para obrigar os insetos a assegurarem a fecundação das flores que, sem eles, não poderiam sê-lo, porque a flor macho está muito afastada da flor fêmea, ou que, se é o vento que deve assegurar o transporte do pólen, torna-o muito mais fácil de se desprender da flor macho, muito mais fácil de ser apanhado de passagem pela flor fêmea, suprimindo a secreção do néctar, que já não é útil, visto não haver insetos para atrair, e até o brilho das corolas que os atraem, e o ardil que, para que a flor seja reservada ao pólen apropriado, que somente nela pode germinar, lhe faz segregar um licor que a imuniza contra os demais pólens não me pareciam mais maravilhosos que a existência da subvariedade dos invertidos, destinada a assegurar os prazeres ao amor invertido que envelhece: os homens que são atraídos não por todos os homens, porém devido a um fenômeno de correspondência e de harmonia comparável aos que regulam a fecundação das flores heterostiladas trimorfas como o Lythrum salicaria unicamente pelos homens muito mais velhos que eles. Desta subvariedade Jupien acabava de me fornecer um exemplo, todavia menos surpreendente que outros que todo herborizador humano, todo botânico moral, poderá observar apesar de sua raridade, e que lhes apresentará um frágil rapaz que espera os avanços de um robusto e barrigudo qüinquagenário, ficando tão indiferente aos avanços de outros jovens como ficam estéreis as flores hermafroditas de estilete curto da Primula veris, enquanto só são fecundadas por outras Primula veris também de estilete curto, ao passo que recebem alegremente o pólen das Primula veris de estilete comprido.

            Aliás, no que se referia ao Sr. de Charlus, percebi mais adiante que, para ele, havia diversos tipos de conjunções, das quais algumas, por sua multiplicidade, sua instantaneidade apenas visível, e principalmente pela falta de contato entre os dois atores, lembravam ainda mais essas flores que são fecundadas num jardim pelo pólen de flor vizinha que elas nunca hão de tocar. Com efeito, havia certas visitas a quem lhe bastava fazer vir até sua casa, manter durante algumas sob o domínio de sua palavra, para que seu desejo, aceso em algum controle, se satisfizesse. Por simples palavras a conjunção se realizava; simplesmente como pode realizar-se entre os infusórios. Às vezes, ocorrera sem dúvida comigo na noite em que fora chamado por ele depois do jantar dos Guermantes, a saciedade viera graças a uma violenta reprimenda que o barão lançara em rosto do visitante, como certas flores em virtude de um impulso, borrifam a distância o inseto inconscientemente cúmplice e desavisado. O Sr. de Charlus, passando de dominado à dominador, sentia-se depurado de sua inquietação e, calmo, mandava de volta o visitante que logo deixara de lhe parecer desejável. Enfim, como a própria inversão decorre de que o invertido está demasiadamente próximo da mulher para poder ter relações proveitosas com ela, enquadra-se de modo numa lei mais importante que faz com que tantas flores hermafroditas permaneçam infecundas, ou seja, a da esterilidade da autofecundação a verdade que os invertidos que estão em busca de um macho contenta muitas vezes com um invertido tão efeminado quanto eles. Mas basta não pertencerem ao sexo feminino, do qual possuem um embrião de que podem se utilizar, o que acontece com tantas flores hermafroditas e até em determinados animais hermafroditas, como o caramujo, que não podem ser fecundados por si mesmos, mas podem sê-lo por outros hermafroditas-, daí que os invertidos, que gostam de se dizer originários do Antigo Osíris ou da idade de ouro da Grécia, remontariam ainda mais além àquelas e de ensaio em que não existiam nem as flores dióicas nem os animais unissexuados, àquele hermafroditismo inicial, de que parecem conservar vestígios alguns rudimentos de órgãos masculinos na anatomia da mulher e de órgãos femininos na anatomia do homem. Eu achava a mímica de Jupien e de Charlus, a princípio tão incompreensível para mim, tão curiosa como aqueles gestos tentadores dirigidos aos insetos, conforme as flores ditas compostas, alçando os semiflósculos de seus capítulo para serem vistas de mais longe, como certa flor heterostilada que oferece seus estames, recurvando-os para dar passagem aos insetos, ou que oferece uma ablução, e simplesmente, também, nos perfumes do néctar; no brilho das corolas, que naquele momento atraíam insetos a partir daquele dia; o Sr. de Charlus devia mudar a hora de suas visitas à Sra. de Villeparisis, não que não pudesse ver Jupien em outro lugar e cômodo, mas porque, tanto quanto para mim, o sol da tarde e as flores do arbusto estavam sem dúvida ligados à sua recordação. Além disso, se contentou em recomendar os Jupien à Sra. de Villeparisis, à duquesa de Guermantes, a toda uma brilhante freguesia que foi tanto mais assídua junto à jovem bordadeira, quanto as poucas damas que haviam resistido ou apenas demorado foram, da parte do barão, objeto de terríveis represálias, ou para que servissem de exemplo, ou porque houvessem despertado o seu furor e se revoltassem contra seus projetos de dominação. O barão tornou o negócio de Jupien cada vez mais lucrativo até torná-lo definitivamente como secretário e estabelecê-lo nas condições que mais tarde veremos.

            - Ah, é um homem feliz, esse Jupien! - dizia Françoise, que tinha tendência a diminuir ou a

exagerar as bondades alheias, conforme visassem a ela ou aos outros. Aliás, neste caso ela não precisava exagerar e nem sentia inveja, pois gostava sinceramente de Jupien.

            - Ah, é um homem tão bom - o barão acrescentava -, tão distinto, tão devoto, tão correto! Se eu tivesse uma filha casadoura e pertencesse à sociedade rica, eu a daria ao barão de olhos fechados.

            - Mas, Françoise - dizia docemente minha mãe -, essa sua filha teria muitos maridos. Lembre-se de que já a prometeu a Jupien.

            - Ora essa! - respondia Françoise. - Esse é outro que faria bem feliz a uma mulher. Não importa que haja ricos e pobres, isto não quer dizer nada para a natureza. O barão e Jupien são exatamente o mesmo tipo de pessoas.

            Além do mais, eu então exagerava muito, diante daquela primeira revelação, o caráter eletivo de uma conjunção tão selecionada. Decerto, cada uma das pessoas idênticas ao Sr. de Charlus é uma criatura extraordinária, visto que, se não faz concessões às possibilidades da vida, procura essencialmente o amor de um homem da outra raça, ou seja, de um homem que ama as mulheres (e que, conseqüentemente, não poderá amá-lo); contrariamente ao que eu achava no pátio, onde acabava de ver Jupien girar em torno do Sr. de Charlus como a orquídea a fazer avanços ao besouro, essas criaturas de exceção, que lastimamos, formam uma multidão, como o veremos no decorrer desta obra, por um motivo que só deverá ser revelado no fim, e eles próprios se lamentam antes por serem excessivamente numerosos do que escassos. Pois os dois anjos que foram colocados às portas de Sodoma para saber se os habitantes, segundo diz o Gênesis, haviam feito inteiramente todas aquelas coisas cujo clamor subira até o Eterno tinham sido, e só podemos nos alegrar por isso, muito mal escolhidos pelo Senhor, o qual só deveria ter confiado a tarefa a um sodomita. Àquele, as desculpas:

            "Pai de seis filhos, tenho duas amantes, etc." não o teria feito abaixar benevolamente a espada flamejante e suavizar as sanções. Teria respondido: "Sim, e tua mulher sofre as torturas do ciúme. Mas, ainda que essas mulheres não tenham sido escolhidas por ti em Gomorra, tu passas as noites com um tropeiro do Hebron."

            E imediatamente o teria feito caminhar até a cidade que ia ser destruída pela chuva de fogo e de água. Ao contrário, deixaram fugir todos os sodomitas envergonhados, mesmo ao verem um rapaz, eles virassem a cabeça como a mulher de Loth, serem, por isso, transformados como ela em estátuas de sal. De modo que tiveram uma descendência numerosa, na qual o gesto se fez costume semelhante ao das mulheres debochadas que, dando a impressão de uma prateleira de calçados por detrás de uma vitrine, desviam a cabeça um estudante. Esses descendentes dos sodomitas, tão numerosos que se pode aplicar outro versículo do Gênesis: "se alguém puder contar a poeira da terra, poderá igualmente contar essa posteridade", fixaram-se em toda a terra, têm tido acesso a todas as profissões e entram com tanta facilidade nos clubes mais fechados que, quando um sodomita neles admitido, as bolas pretas ali são na maioria de sodomitas, mas que têm cuidado de incriminar a sodomia, como se tivessem herdado a mentira; permitiu a seus ancestrais abandonarem a cidade maldita. É possível regressem a ela um dia. Com certeza formam, em todos os países; colônia oriental, cultivada, musical, maledicente, que possui qualidades encantadoras e defeitos insuportáveis. Vê-lo-emos de modo mais aprofundado ao correr das páginas seguintes; mas quisemos prevenir o erro fato que consistiria, tal como se encorajou um movimento sionista, em criar um movimento sodomita e reconstruir Sodoma. Ora, tão logo chegassem os sodomitas abandonariam a cidade para não parecer pertencerem à ela tomariam a esposa, sustentariam amantes em outras cidades, onde, aliás encontrariam todas as distrações convenientes. Só iriam a Sodoma nos dias de extrema necessidade, quando a cidade estivesse vazia, nesses tempos em que a fome faz o lobo deixar a selva, ou seja, tudo se passaria como em Londres, em Berlim, em Roma, em Petrogrado ou em Paris.

            Em todo caso, naquele dia, antes de minha visita à duquesa, eu não ia tão longe em meus pensamentos, e estava desolado por ter perdido a vez, ao prestar atenção na conjunção Jupien-Charlus, a chance de ver a fecundação da flor pelo besouro.

 

O Sr. de Charlus em sociedade. - Um médico. - Face característica da Sra. de Vaugoubert. - A Sra. d'Arpajon, o repuxo de Hubert Robert e a alegria do grão-duque Wladimir. - A Sra. d Amoncourt, a Sra. de Citri, a Sra. de Saint-Euverte, etc. - Curiosa palestra entre Swann e o príncipe de Guermantes. - Albertine ao telefone. - Visitas enquanto espero minha segunda e última viagem a Balbec. - Chegada a Balbec. - Ciúme em relação a Albertine. - As intermitências do coração.

            Como não tinha pressa em chegar àquele sarau dos Guermantes a que não estava certo de que fora convidado, fiquei à toa na rua; porém, o dia de verão não parecia ter mais pressa do que eu em se mover. Embora já fossem mais de nove horas, era ainda esse dia que, sobre a Praça da Concórdia, dava ao obelisco de Luxor um aspecto de nougat cor-de-rosa. Depois, modificou-lhe o matiz e mudou-o em matéria metálica, de modo que o obelisco tornou-se não só mais precioso, mas também pareceu adelgaçado e quase flexível. Imaginava-se que poderiam torcê-lo, que talvez já houvessem falseado ligeiramente aquela jóia. A lua estava agora no céu como um quarto de laranja delicadamente descascada, conquanto meio amassada. Porém, mais tarde devia ser feita do ouro mais resistente. Encolhida sozinha atrás dela, uma pobre estrelinha ia servir de companhia única à lua solitária, ao passo que esta, sempre a proteger a sua amiga, porém mais ousada e indo na dianteira, brandiria como uma arma irresistível, como um símbolo oriental, o seu amplo e maravilhoso crescente de ouro.

            Diante do palácio da princesa de Guermantes, encontrei o duque de Châtellerault; já não me lembrava que meia hora antes ainda me perseguia o receio que em breve iria dominar-me de novo de comparecer sem ter sido convidado. Inquietamo-nos, e é por vezes muito depois da hora do perigo esquecida graças à distração, que nos lembramos de nosso desassossego. Cumprimentei o jovem duque e entrei no palácio. Mas aqui, faz-se antes necessário que eu aponte uma circunstância mínima, que permitirá se compreenda um fato que se seguirá em breve. Existia alguém que, nesta noite como nas noites precedentes, pensava muito no duque de Châtellerault, aliás sem suspeitar de quem se tratava: era o porteiro da Sra. de Guermantes, a quem por esse tempo chamava-se "o ladrador". O Sr. de Châtellerault, bem longe de ser um dos íntimos da princesa visto ser um de seus primos-, era recebido em seu salão pela primeira vez. Seus pais, brigados com ela por dez anos, tinham-se se reconciliado há duas semanas e, forçados a se ausentarem de Paris, haviam encarregado o filho de representá-los. Ora, alguns dias antes, o porteiro da princesa encontrara nos Champs-Élysées um jovem a quem achara encantador, mas que não lhe fora possível identificar. Não que o jovem não se mostrasse tão amável como generoso. Todos os favores que o porteiro imaginara ter de ceder a um senhor tão moço, ele, ao contrário, os havia recebido. Mas o Sr. de Châtellerault era tão medroso quanto imprudente; e tanto mais decidido estava a guardar o incógnito por ignorar de quem se tratava; teria medo bem maior, embora sem fundamento, se o tivesse conhecido. Limitara-se a se fazer passar por um inglês, e a todas as perguntas apaixonadas do porteiro, desejoso de reencontrar uma pessoa a quem tanto devia em prazer e liberalidades, o duque se restringira a responder, ao longo da avenida Gabriel: "l do not speak french."       

            Se bem que, apesar de tudo devido à origem materna de seu primo-, o duque de Guermantes afetasse achar um nadinha de CourvoisicK no salão da princesa de Guermantes-Baviera, em geral julgava-se o espírito de iniciativa e a superioridade intelectual dessa dama conforme uma inovação que não se encontrava em nenhuma outra parte naquele meio. Após o jantar, e qualquer que fosse a importância da reunião que deveria seguir-se os assentos, na casa da princesa de Guermantes, achavam-se dispostos de tal maneira a formar pequenos grupos que, se necessário, davam-se as costas. A princesa então evidenciava o seu sentido social indo sentar-se como por preferência sua, em um deles. De resto, ela não temia eleger atrair um membro de outro grupo. Se, por exemplo, ela fizera notar ao Sr. Detaille, que naturalmente concordara, como a Sra. de Villemur, cuja posição em outro grupo a fazia ser vista de costas, possuía uma bela nuca, a princesa não hesitava em erguer a voz:

            - Sra. de Villemur, o Sr. Detaille, como grande pintor que é, está admirando o seu pescoço. A Sra. de Villemur sentia naquilo um convite direto à conversação; com a destreza que dá o hábito da equitação, fazia sua cadeira girar lentamente num arco de três quartos de círculo e, sem incomodar em nada os vizinhos, ficava quase de frente para a princesa.

            - Não conhece o Sr. Detaille? - perguntava a dona da casa, a quem não bastava a hábil e recatada conversão de sua conviva.

            - Não o conheço, mas conheço as suas obras. - respondia a Sra. de Villemur com o ar de respeito, insinuante e oportuno, que muitos lhe invejavam, enquanto dirigia ao famoso pintor, que a interpelação não lhe bastara para apresentá-lo de maneira formal, um cumprimento imperceptível.

            - Venha, Sr. Detaille - dizia a princesa; vou apresentá-lo à Sra. de Villemur. -

            Esta, então, empregava tanto engenho para abrir espaço ao autor do Sonho como há pouco em se virar para ele. E a princesa avançou uma cadeira para si própria; de fato, só interpelara a Sra. de Villemur para ter um pretexto de largar o primeiro grupo, onde passara os dez minutos regulamentares, e conceder ao segundo igual duração de presença. Em três quartos de hora, todos os grupos tinham recebido a sua visita, que parecia ter sido guiada, de cada vez, somente pelo imprevisto e pelas predileções, mas tivera por objetivo sobretudo pôr em relevo com que naturalidade "uma grande dama sabia receber". Mas agora os convidados do sarau começavam a chegar, e a dona da casa se havia sentado não longe da porta altiva e empertigada, em sua majestade quase régia, os olhos flamejantes de incandescência própria entre duas Altezas sem beleza e a embaixatriz da Espanha.

            Eu era o último da fila, atrás de uns convidados que tinham chegado um pouco antes de mim. À minha frente estava a princesa, cuja formosura, entre tantas outras, não é só o que me faz recordar essa festa. Mas o rosto da dona da casa era tão perfeito, cinzelado como uma tão linda medalha, que conservou para mim uma virtude comemorativa. A princesa tinha o hábito de dizer aos convidados, ao encontra-los alguns dias antes de seus saraus:

            - O senhor virá, não é mesmo? - como se estivesse grandemente desejosa de conversar com eles. Mas como, pelo contrário, não tinha nada para lhes falar quando chegavam junto dela, contentava-se, sem se erguer, em interromper por um instante a sua vã conversação com as duas Altezas e a embaixatriz e agradecer, dizendo:

            - Foi gentil em ter vindo -, não que achasse que o convidado dera provas de gentileza ao comparecer, mas para aumentar ainda a sua; e logo, devolvendo-o à correnteza, acrescentava: - Encontrará o Sr. de Guermantes à entrada dos jardins de modo que o convidado saía e a deixava tranqüila. Para alguns até, ela nem dizia nada, contentando-se em lhes mostrar seus admiráveis olhos de ônix, como se tivessem vindo exclusivamente para uma exposição de pedras preciosas.

            A primeira pessoa a passar antes de mim era o duque de Châtellerault. Tendo de corresponder a todos os sorrisos, a todos os apertos de mão que lhe vinham do salão, ele não reparara no porteiro. Mas, desde o primeiro instante, o porteiro o reconhecera. Aquela identidade que tanto desejara saber, num momento iria conhecê-la. Perguntando ao seu criado da antevéspera qual o nome que devia anunciar, o porteiro não estava; mas comovido, julgava-se indiscreto, indelicado. Parecia-lhe que ia revelar a todos (que no entanto não desconfiariam de coisa alguma) um segredo que era o culpado de surpreender daquele modo e expor em público: ouvir a resposta do convidado:

            - O duque de Châtellerault -, sentiu perturbado por tamanho orgulho que emudeceu por um instante. O duque o encarou, reconheceu-o, viu-se perdido, ao passo que o criado, que se lembrara e conhecia perfeitamente o seu cerimonial para completar por si mesmo um apelativo tão modesto, gritou com a energia profissional que se aveludam com uma ternura íntima:

            - Sua Alteza Monsenhor o duque de Châtellerault -

            Mas agora era a minha vez de ser anunciado. Absorvido na contemplação da dona da casa que ainda não me vira, nem pensara nas funções terríveis para mim, conquanto de modo diverso do que para o Sr. Châtellerault desse porteiro vestido de preto como um carrasco, cercado de uma tropa de lacaios das mais ridentes librés, robustos latagões prontos para agarrarem um intruso e pô-lo porta afora. O porteiro perguntou meu nome; dei-lhe tão maquinalmente como o condenado à morte se deixa prender ao cepo. De imediato ele ergueu majestosamente a cabeça e, antes que eu tivesse podido implorar-lhe que me anunciasse a meia voz a fim de resguardar meu amor-próprio, caso não fosse convidado, e o da princesa de Guermantes, caso o fosse, berrou as sílabas inquietadoras com uma força capaz de abalar a abóbada do palácio.

            O ilustre Huxley (aquele cujo sobrinho ocupa atualmente um cume preponderante no universo da literatura inglesa) conta que uma de suas doentes não mais tinha coragem de freqüentar a sociedade, pois muitas vezes, na própria poltrona que lhe indicavam com um gesto cortês, ela via sentado um velho senhor. Estava bem certa de que, ou o gesto convidativo ou a presença do velho senhor, seria uma alucinação, pois não lhe designariam daquele modo uma poltrona ocupada. E, quando Huxley, para curá-la, obrigou-a a voltar a uma festa, ela teve um momento de penosa hesitação perguntando-se se o gesto amável que lhe faziam era a coisa real, ou se para obedecer a uma visão inexistente, ela iria em público sentar-se nos joelhos de um senhor de carne e osso. Sua breve incerteza foi cruel. Mais talvez do que a minha. A partir do momento em que ouvira o ribombar de ouvir meu nome, como o rumor prévio de um possível cataclismo, fui obrigado para em todo caso defender minha boa-fé e como se não estivesse atormentado por nenhuma dúvida, avançar para a princesa com ar resoluto.

            Ela me avistou quando eu estava a poucos passos de distância o que não me permitiu mais duvidar de que fora vítima de uma maquinação em vez de permanecer sentada como fazia quanto aos outros convidados, ergueu-se e veio ao meu encontro. Um segundo após, pude soltar o suspiro de alívio da doente de Huxley, quando, tendo resolvido sentar-se na poltrona, encontrou-a desocupada e compreendeu que o velho senhor é que era uma alucinação. A princesa acabava de me estender a mão, sorrindo. Ficou de pé durante alguns momentos, com o tipo de graça particular à estância de Malherbe que termina assim:

            E os Anjos para honrá-los se levantam.

            Ela se desculpou pelo fato de a duquesa ainda não ter chegado, como se eu devesse me aborrecer sem a presença dela. Para me fazer esse cumprimento, ela executou a meu redor, segurando-me a mão, um giro cheio de graça, em cujo turbilhão eu me sentia arrastado. Quase esperava que ela me entregasse então, como uma condutora de cotillon (dança), uma bengala de cabo de marfim ou um relógio-pulseira. Na verdade, não me deu nada disso e, como se em lugar de dançar o bóston tivesse antes ouvido um sacrossanto quarteto de Beethoven, cujos sublimes acentos temesse perturbar, parou nesse ponto a conversa, ou melhor, não a principiou e, ainda radiante de me ter visto entrar, limitou-se a indicar o local onde se encontrava o príncipe.

            Afastei-me dela e não mais tive coragem de me aproximar, sentindo que ela não tinha absolutamente nada a me dizer e que, em sua imensa boa vontade, aquela mulher maravilhosamente alta e bela, nobre como o eram tantas grandes damas que subiram tão altivamente ao cadafalso, não poderia, sem ousar oferecer-me água de erva-cidreira, senão repetir-me o que já me havia dito duas vezes:

            - O senhor encontrará o príncipe no jardim. -

            Ora, ir ao encontro do príncipe seria sentir renascer minhas dúvidas sob forma diversa. Em todo caso, precisava encontrar alguém que me apresentasse. Ouvia-se, dominando todas as conversações, o inesgotável falatório do Sr. de Charlus, que estava conversando com Sua Excelência o duque de Sidonia, com quem acabava de travar conhecimento. De profissão para profissão, nós nos adivinhamos, e de vício para vício também. O Sr. de Charlus e o Sr. de Sidonia tinham de imediato farejado cada um o do outro, que, quanto a ambos, era, em sociedade, o de serem monologadores, a ponto de não poderem suportar nenhuma interrupção. Tendo logo percebido que o mal era sem remédio, como diz um célebre soneto, tomaram a resolução não de se calar, mas de falar cada qual sem cuidar do que o outro dizia, o que provocara aquele rumor confuso, produzido nas comédias de Moliere por vários personagens que falam ao mesmo tempo coisas diferentes. O barão, sua voz estrepitosa, estava certo, aliás, de que teria a vantagem, que cobria a voz fraca do Sr. de Sidonia, sem no entanto desencorajar a este, quando o Sr. de Charlus

retomava fôlego por um instante, o intervalo era preenchido pelo sussurro do nobre da Espanha, que continuara imperturbavelmente o seu discurso. Bem que eu podia pedir ao Sr. de Charlus que me apresentasse ao príncipe de Guermantes, mas receava (com sobra das razões) que ele se irritasse comigo. Eu agira com ele da maneira mais ingrata, desdenhando pela segunda vez os seus oferecimentos, nem lhe dando sinal de vida desde a noite em que me reconduzira tão afetuosamente à minha casa. E no entanto não dava de modo algum, como desculpa prévia, a cena que acabara de ver, naquela mesma tarde, entre ele e Jupien. Não suspeitava nada de parecido. É verdade que pouco tempo antes, como meus pais me censurassem a preguiça e por ainda não ter escrito um bilhete ao Sr. de Chary eu os censurara violentamente por quererem que aceitasse propostas deste nestas. Mas somente a cólera e o desejo de achar a frase que lhes podia ser mais desagradável é que me haviam ditado aquela resposta mentirosa. Na realidade, eu nada imaginara de sensual, nem sequer de sentimental, sob as ofertas do barão. Dissera aquilo a meus pais como simples besteira. Mas às vezes o futuro nos habita sem que o saibamos, e nossas palavras que crêem mentir estão descrevendo uma realidade que se aproxima. O Sr. de Charlus decerto perdoaria minha ingratidão. Mas o que o deixaria furioso é que a minha presença esta noite na casa da princesa de Guermantes, como fazia algum tempo na casa da prima desta, parecia desprezar a solene declaração:

            - Não se entra nesses salões senão por mera intermédio. -

            Falta grave, crime por ventura irreparável, eu não seguira a ordem hierárquica. O Sr. de Charlus sabia muito bem que os raios que brandia contra aqueles que não se curvavam às suas ordens, ou a quem criara rancor, começavam a ser tidos, para muita gente, por mais ódio que ele lhes imprimisse, por raios de cartolina, e já não tinham forças de expulsar fosse quem fosse de lugar algum. Mas talvez julgasse que seu poder diminuído grande ainda, permanecia intacto aos olhos dos novatos como eu. Assim não julguei muito apropriado pedir-lhe um favor numa festa em que só a minha presença parecia um irônico desmentido a suas pretensões.

            Naquele momento fui detido por um homem bastante vulgar, o professor E***. Ficara surpreso ao avistar-me na casa dos Guermantes. Eu não o estava menos por encontrá-lo, pois jamais tinham visto, e a seguir nunca mais viram, na casa da princesa, uma pessoa do seu tipo. Acabara de curar o príncipe, que já tomara a extrema-unção, de uma pneumonia infecciosa; e o reconhecimento especial que tivera por ele a Sra. de Guermantes era motivo para que rompessem com os costumes e o convidassem. Como não conhecia absolutamente ninguém naqueles salões e não podia perambular a sós por ali indefinidamente, como um ministro da morte, sentiu, ao me reconhecer, pela primeira vez na vida, uma infinidade de coisas para me dizer, assumir uma atitude, e esta era uma das razões por que se dirigira a mim. Havia uma outra. Dava muita importância ao fato de jamais errar um diagnóstico. Ora, a sua clientela era tão numerosa que ele nem sempre se recordava muito bem, quando só vira uma vez o enfermo, se a doença seguira exatamente o curso que ele havia previsto. Talvez não se tenha esquecido de que, no momento do ataque da minha avó, eu a levara a sua casa, naquele entardecer em que ele se cobria de tantas condecorações. Depois de tanto tempo, já não se lembrava da participação que lhe haviam mandado à época.

            - A senhora sua avó já está morta, não? - perguntou-me num tom de voz em que uma quase certeza acalmava uma ligeira apreensão. - Ah, com efeito! Aliás, desde o primeiro minuto em que a vi, meu prognóstico fora totalmente sombrio, lembro-me bem.

            Foi assim que o professor E*** soube, ou tornou a saber, da morte da minha avó, e isso, devo dizê-lo em seu louvor, que é extensivo a todo o corpo médico, sem manifestar, sem talvez mesmo sentir, nenhuma satisfação. Os erros dos médicos são inumeráveis. Habitualmente, eles pecam por otimismo quanto ao regime, por pessimismo quanto ao desfecho.

            - Vinho? Em quantidade moderada não poderá lhe fazer mal; em suma, é um tônico... O prazer físico? Afinal é uma função. Permito-lhe sem abuso, o senhor compreende. O excesso é um defeito em tudo. -

            De súbito, que tentação para o doente o renunciar a essas duas fontes de ressurreição, a água e a castidade! Em compensação, se se tem algo no coração, se se tem albumina, etc., não se tem por muito tempo. De bom grado, perturbações graves, mas funcionais, são atribuídas a um câncer imaginário.

            Inútil continuar visitas que não saberiam refrear um mal inelutável. Que o enfermo, entregue a si mesmo, se imponha então um regime implacável e a seguir se cure, ou pelo menos sobreviva; o médico, saudado na avenida da ópera, quando o acreditava há muito no cemitério do Pere Lachaise, verá nesse cumprimento um gesto de maliciosa insolência. Um inocente passeio realizado diante de seu nariz e de suas barbas não provocaria mais cólera ao juiz que, dois anos antes, havia pronunciado uma sentença de morte contra o malandro, que parece não ter medo nenhum. Os médicos (não se trata de todos, é claro, e nós não omitimos, mentalmente, admiráveis exceções) em geral ficam mais descontentes, mais irritados, com a invalidação de seu diagnóstico do que satisfeitos com a sua execução. É o que, sem dúvida, explica que o professor E***, por mais que sentisse uma certa satisfação intelectual ao ver que não se enganara, só tenha me falado com tristeza da desgraça que atingira. Não lhe interessava abreviar a conversa, que o deixava desembaraçado, dando-lhe um motivo para ficar. Falou-me do calor excessivo que fazia, mas, embora fosse letrado e pudesse expressar-se em bom francês disse:

            - Não sofre com esta hipertermia? -

            É que a medicina fez ali, progressos em seus conhecimentos desde Moliere, porém nenhum em no vocabulário. Meu interlocutor acrescentou:

            - O que é preciso fazer são as sudações que causa esse tempo, sobretudo nos salões superaquecidos. O senhor poderá remediá-lo com o calor, quando voltar para casa e tiver vontade de beber (o que, evidentemente, significa bebidas quentes). -

            Devido à maneira como a minha avó tinha morrido, o assunto; interessava-me e eu lera recentemente no livro de um grande sábio que a transpiração era nociva aos rins, ao fazer passar pela pele, aquilo cuja saída está em outra parte. Deplorava eu aqueles dias de canícula em que minha avó morrera e não estava longe de incriminá-los. Não falei disso ao doutor E***, mas por si mesmo ele me disse:

            - A vantagem de um tempo excessivamente quente, em que a transpiração é muito abundante, é que os rins ficam tanto mais aliviados. - A medicina não é uma ciência exata -   Agarrado a mim, o professor E*** só desejava não me deixar a quem eu acabara de avistar, fazendo grandes reverências à princesa de Guermantes para a esquerda e a direita, depois de ter recuado um passo, o marquês de Vaugoubert. Recentemente o Sr. de Norpois nos apresentara, e eu esperava encontrar nele alguém que fosse capaz de me apresentar ao dono da festa. As proporções desta obra não me permitem explicar aqui por causa de quais incidentes da juventude o Sr. de Vaugoubert era um dos únicos homens do mundo (talvez o único) que estava, como se diz em Sodoma, "em confidências" com o Sr. de Charlus. Mas, se o nosso ministro junto ao rei Teodósio - possuía alguns dos defeitos do barão, era apenas como bem pálido reflexo. Era apenas sob uma forma infinitamente esmaecida, sentimental e simpática que ele apresentava essas alternâncias de simpatia e ódio pelas quais o desejo de seduzir e logo depois o receio igualmente imaginário de ser, senão desprezado, ao menos descoberto, faziam passar o barão. No entanto, o Sr. de Vaugoubert apresentava essas alternâncias, tornadas ridículas por uma castidade, um "platonismo" (aos quais, como grande ambicioso que era, sacrificara desde a época do concurso todo e qualquer prazer), sobretudo por sua nulidade intelectual. Mas, ao passo que no Sr. de Charlus os elogios imoderados eram clamados num verdadeiro assombro de conseqüência e temperados com as zombarias mais finas e mordazes, e que marcam um homem para sempre, no Sr. de Vaugoubert, pelo contrário, a simpatia era expressa com a banalidade de um homem de ínfima categoria, de um homem da alta sociedade e de um funcionário, os agravos (em geral inteiramente forjados, como no caso do barão) se exprimiam com uma malevolência sem tréguas, mas sem espírito, e que tanto mais chocava por estar habitualmente em contradição com o que o ministro dissera seis meses antes e talvez dissesse de novo tempos depois: regularidade na mudança que conferia uma poesia quase astronômica às diversas fases da vida do Sr. de Vaugoubert, embora, a não ser isso, ninguém menos que ele faria pensar num astro.

            O cumprimento que me fez não tinha nada do que o teria feito o Sr. de Charlus. A esse cumprimento o Sr. de Vaugoubert, além das mil maneiras que julgava serem as da sociedade e da diplomacia, dava um ar cavalheiresco, elegante, risonho, a fim de parecer, de um lado, encantado com a existência enquanto interiormente remoía os dissabores de uma carreira sem progressos e ameaçada por uma aposentadoria e, de outro lado, jovem, viril e atraente, enquanto via e nem mais ousava encarar no espelho as rugas a se fixarem nos contornos de um rosto que desejaria conservar cheio de seduções. Não é que desejasse conquistas efetivas, cuja simples idéia lhe dava medo devido ao que diriam, aos escândalos, às chantagens. Tendo passado de uma devassidão quase infantil à mais absoluta continência, que datava do dia em que pensara no Quai d'Orsay e quisera fazer uma grande carreira, tinha ele o aspecto de um animal enjaulado, lançando para todas as partes olhares que exprimiam medo, cobiça e estupidez. A sua era tamanha que ele não refletia que os malandros de sua adolescência já não eram garotos e que, quando um jornaleiro lhe gritava bem no seu nariz:

            - La Presse! mais ainda que de desejo, ele estremecia de pavor, julgando-se reconhecido e desmascarado.

            Mas, na falta dos prazeres sacrificados à ingratidão do Quai d'Orsay, o Sr. de Vaugoubert e por isso é que desejava agradar ainda tinha súbitos impulsos do coração. Deus sabe com quantas cartas ele aborrecia o ministério, de que artimanhas pessoais lançava mão, quantos adiantamentos operava sobre o crédito da Sra. de Vaugoubert (que, devido à sua corpulência, ao berço nobre e a seu ar masculino, e sobretudo por causa da mediocridade do marido, julgavam dotada de capacidades eminentes, preenchendo as verdadeiras funções de ministro), para fazer entrar para o pessoal da legação, sem qualquer motivo legítimo, um jovem destituído de todo mérito. É verdade que alguns meses, alguns anos mais tarde, de medo que o adido insignificante parecesse, sem sombra de má intenção, ter dado mostras de frieza para com seu chefe, este, achando-se desprezado ou traído, empregava o mesmo ardor histérico em puni-lo como outrora em favorecê-lo. Removia céus e terras para ser lembrado, e o diretor dos assuntos políticos recebia diariamente uma carta:

            "Que espera para desembaraçar desse atrevido? Faça-o trabalhar um pouco, no seu interesse que ele precisa é comer o pão que o diabo amassou."

            Por esse mal posto de adido junto ao rei Teodósio era pouco agradável. Mas, quanto ao resto, graças a seu perfeito bom-senso de homem de sociedade, o Vaugoubert era um dos melhores agentes do governo francês. Quando um homem pretensamente superior, Jacobino, que era sábio todas as coisas, o substituiu mais tarde, não tardou a estourar a guerra da França e o país no qual reinava o rei.

            Como o Sr. de Charlus, o Sr. de Vaugoubert não gostava de cumprimentar primeiro. Um e outro preferiam "responder", sempre receando falatório que aquele a que, não fosse isso, teriam estendido a mão pudesse ter ouvido a seu respeito desde que haviam se encontrado pela última vez. Quanto a mim, o Sr. de Vaugoubert não teve de formular semelhante questão, pois eu de fato tinha ido cumprimentá-lo primeiro, nem que fosse apenas pela diferença de idade. Respondeu-me com ar maravilhado e encantado, e seus olhos continuaram a se agitar como se de cada lado houvesse alfafa proibida de pastar. Pensei que fosse conveniente solicitar-lhe minha apresentação à Sra. de Vaugoubert, antes da apresentação ao príncipe de que só depois contava lhe falar. A idéia de me colocar em relações à esposa pareceu enchê-lo de alegria, tanto por si como por ela, e conduziu-me com passo deliberado em direção à marquesa. Chegando diante dela e designando-me com a mão e os olhos, com todos os sinais possíveis de consideração, permaneceu todavia mudo e se retirou, passados alguns segundos, com um ar buliçoso, para deixar-me a sós com sua mulher. Esta logo me estendera a mão, mas sem saber a quem se dirigia aqui gesto de amabilidade, e então compreendi que o Sr. de Vaugoubert se esquecera de dizer meu nome, talvez nem sequer me houvesse reconhecido, e sem querer, por polidez, confessá-lo, fizera a apresentação reduzir-se a uma espécie de pantomima. Assim eu não me achava mais avançado; como me falhei apresentar ao dono da casa por uma mulher que não sabia o meu nome. Ademais, via-me forçado a conversar por alguns instantes com a Sra. de Vaugoubert. E isto me aborrecia sob dois aspectos. Não pretendia eternizar-me naquela festa, pois combinara com Albertine (dera-lhe um camarote para a Fedra) que ela viria visitar-me um pouco antes da meia-noite. Claro que de modo nenhum estava enamorado dela; fazendo-a vir naquela noite, eu obedecia a um desejo sensual apenas, embora estivéssemos, naquela época tórrida do ano em que a sensualidade liberada visita mais bom grado os órgãos do gosto, procura principalmente o frescor. Mais do beijo de uma moça, a sensualidade precisa de uma laranjada, de um banho, e até mesmo de contemplar aquela lua descascada e suculenta que saciava a sede do céu.

            Entretanto, contava desembaraçar-me, ao lado de Albertine que aliás me lembrava a frescura das ondas; das mágoas que não deixariam de me ocasionar muitos daqueles rostos encantadores (pois a festa que a princesa dava era tanto de moças como de senhoras). Por outro lado, o rosto da imponente Sra. de Vaugoubert, bourboniano e inexpressivo, nada tinha que atraísse.

            Dizia-se no Ministério, sem qualquer sombra de malícia, que em casa era o marido que vestia saias e a mulher que usava calças. Ora, havia mais verdade nisso do que se imaginava. A Sra. de Vaugoubert era um homem. Se fora sempre assim, ou se se tornara tal como a via, pouco importa; pois, num caso ou noutro, estamos diante de um dos mais emocionantes milagres da natureza, e que, principalmente o segundo, fazem o reino humano assemelhar-se ao reino das flores. Na primeira hipótese se a futura Sra. de Vaugoubert sempre fora tão pesadamente macha; a natureza, com um ardil benfazejo e diabólico, dá à moça o aspecto enganador de um homem. E o adolescente, que não gosta de mulheres e quer curar-se, acha com alegria este subterfúgio de descobrir uma noiva que lhe representa um estivador. No caso contrário, se a mulher não possuía antes as características masculinas, ela as adquire pouco a pouco para agradar ao marido, até inconscientemente, por esse gênero de mimetismo que faz com que certas flores adquiram a aparência dos insetos que desejam atrair. A mágoa de não ser amada, de não ser um homem, acaba fazendo-a viril. Mesmo fora do caso que nos ocupa, quem não notou de que modo os casais mais dentro da normalidade acabam por se parecer, e às vezes até a intercambiar as suas qualidades? Um antigo chanceler alemão, o príncipe de Bülow, casara-se com uma italiana. Com o tempo, no Pincio, notou-se o quanto o marido germânico adquirira a finesse italiana, e a princesa italiana a rudeza germânica. Para sair até um ponto excêntrico das leis que traçamos, todos conhecem um eminente diplomata francês, cuja origem só era lembrada por seu nome, um dos mais ilustres do Oriente. Ao amadurecer, ao envelhecer, revelou-se nele o oriental de que jamais haviam suspeitado, e, vendo-o, lamenta-se a ausência do que o fez que o completaria.           Para voltar aos costumes bastante ignorados do embaixador, cuja silhueta ancestralmente expressa da qual acabamos de evocar, a Sra. de Vaugoubert realizava o tipo adquirido ou predestinado cuja imagem imortal é a princesa palatina, sempre em roupa de montar, e que, tendo tomado ao marido mais que a virilidade, esposando os defeitos dos homens que não gostam de mulheres, denuncia em suas cartas de comadre as relações que tiveram entre si todos os grão-senhores da corte de Luís XIV. Uma dessas que se acrescentam ainda ao ar masculino de mulheres como a de Vaugoubert é que o abandono em que são deixadas por seus maridos a vergonha que sentem por isso fazem murchar pouco a pouco tudo que nelas é próprio da mulher. Acabam por adquirir as qualidades e os defeitos que o marido não possui. À medida que eles são mais frívolos, mais efeminados, mais indiscretos, elas se tornam como que a efígie sem as virtudes que o esposo deveria possuir. Traços de opróbrio, de aborrecimento, de indignação obscuros no rosto da Sra. de Vaugoubert. Infelizmente eu sentia que ela me observava com interesse e curiosidade como um desses rapazes que agradavam de Vaugoubert e que ela tanto desejaria ser, agora que seu marido envelhecendo, preferia a juventude. Olhava-me com a atenção dessas provincianas que, num catálogo de loja de novidades, copiam o taillear, adequado à linda criatura desenhada (na realidade, a mesma em todas páginas, mas ilusoriamente multiplicada em criaturas diferentes, pelo grau diversidade de poses e à variedade dos vestidos). A atração vegetal que impelia para mim a Sra. de Vaugoubert era tão forte que chegou ao ponto de segurar-me pelo braço para que a levasse beber um copo de laranjada. Desvencilhei-me, porém, alegando que, visto que precisava sair e ainda não fora apresentado ao dono da casa. A distância que me separava da entrada dos jardins, onde conversava com algumas pessoas, não era muito grande, porém mais medo do que para transpô-la, me fosse necessário expor-me à fogo contínuo.

            Muitas mulheres, por meio de quem me parecia possível obter apresentação, estavam no jardim, onde, fingindo uma admiração exaltada não sabiam bem o que fazer. As festas desse tipo são em geral atentas; só têm realidade no dia seguinte, quando ocupam a atenção das pessoas que não foram convidadas. Se um verdadeiro escritor, destituído de amor-próprio de tantos literatos, ao ler o artigo de um crítico que se lhe testemunhou a maior admiração, vê citados os nomes de autores medíocres, mas não o seu, não tem tempo de se deter no que poderia ser ele um motivo de espanto: seus livros o reclamam. Mas uma mulher da sociedade não tem o que fazer e, vendo no fígaro:

            "Ontem o príncipe e a princesa de Guermantes deram uma grande reunião noturna, etc.", exclama: Como! Há três dias conversei durante uma hora com Marie-Gilbert sem que ela me dissesse nada! E quebra a cabeça para adivinhar o que pode ter feito contra os Guermantes. É preciso esclarecer que, no que dizia respeito às festas da princesa, o espanto era às vezes tão grande entre os convidados como entre os que não tinham estado presentes. Pois os convites explodiam no momento em que menos os esperavam, e apelavam para pessoas que a Sra. De Guermantes havia esquecido durante anos. E quase todas as pessoas da alta sociedade são tão insignificantes que cada um de seus pares não toma, para avaliá-las, senão a medida de sua amabilidade: convidado, estima-as; excluído, detesta-as. Quanto a estes últimos, se, de fato, a princesa, mesmo se fossem seus amigos, não os convidava, devia-se isto muitas vezes ao temor de descontentar "Palamede", que os havia excomungado. Assim, eu podia ter certeza de que ela não falara de mim ao Sr. de Charlus, sem o que não me encontraria ali. Ele estava agora diante do jardim, ao lado do embaixador da Alemanha, reclinado na rampa da grande escadaria que levava ao palácio, de forma que os convidados, apesar das três ou quatro admiradoras que tinham se agrupado em torno do barão e quase o ocultavam, eram obrigados a vir cumprimentá-lo. Ele retribuía declinando o nome das pessoas. E sucessivamente ouvia-se:

            - Boa-noite, Sr. du Hazay; boa-noite, Sra. da La Tour du Pin-Verclause; boa-noite, Sra. de La Tour du Pin-Gouvernet; boa-noite, Philibert; boa-noite, minha cara embaixatriz, etc. -

            Isto formava um cacarejo contínuo, interrompido por recomendações benévolas ou perguntas (cujas respostas não ouvia), que o Sr. de Charlus fazia num tom adocicado, artificial, a fim de testemunhar a indiferença, e benigno:

            - Tomem cuidado para que a menina não sinta frio, os jardins são sempre um tanto úmidos. Boa-noite, Sra. de Brantes. Boa-noite, Sra. de Mecklembourg. E a menina veio? Com aquele encantador vestido cor-de-rosa? Boa-noite, Saint-Géran. -

            Certamente ele sentia orgulho nessa atitude. O Sr. de Charlus sabia que era um Guermantes que ocupava um lugar proeminente naquela festa. Mas não havia só orgulho, e essa mesma palavra festa evocava, para o homem de dotes estéticos, o sentido luxuoso, curioso, que essa reunião pode ter se é dada não na casa de pessoas da alta sociedade, mas num quadro de Carpaccio ou de Veronese. É mesmo mais provável que o príncipe alemão, que o Sr. de Charlus era, devesse antes imaginar a festa que se desenrola em Tannhâuser, e a si mesmo como o Margrave, tendo, à entrada da Warburg, uma boa palavra de condescendência para cada convidado, enquanto a sua passagem pelo castelo ou pelo parque é saudada pela longa frase, cem vezes repetida, da famosa "Marcha". No entanto, precisava decidir-me. Percebia perfeitamente, sob as árvores, mulheres a quem estava mais ou menos ligado, mas elas pareciam transformadas, pois estavam na casa da princesa e não na de sua prima, e eu as via sentadas não diante de um prato de Saxe, mas sob os galhos de um castanheiro. A elegância do ambiente não contava para, mesmo que fosse infinitamente menor que na casa de "Oriane", eu, sentido perturbação igual. Desde que a eletricidade se extinga em salão e devamos substituí-la por lampiões a óleo, tudo nos parece maior. Arrancou-me da minha incerteza a Sra. de Souvré:

            - Boa-noite - disse vindo ao meu encontro. - Faz muito tempo que não vê a duquesa de Guermantes? - Ela primava em dar a esse tipo de frase uma entonação provava que não as dizia por simples tolice, como as pessoas que, não sabendo de que falar, abordam-nos mil vezes citando uma relação freqüentemente muito vaga. Ao contrário, teve ela um sutil fio condutor de olhar, que significava:

            "Não creia que o não reconheci. O senhor é o rapaz que vi na casa da duquesa de Guermantes. Lembro-me muito bem. Infelizmente, a proteção que estendia sobre mim aquela frase de aparência estúpida e de intenção delicada era extremamente frágil e desvaneceu logo que pretendi usá-la. A Sra. de Souvré possuía a arte, caso se tratasse de apoiar uma solicitação junto a alguém importante, de parecer ao mesmo tempo, aos olhos do solicitante, que o estava recomendando e, aos olhos da alta personagem, que não o estava recomendando, de modo que os gesto de duplo sentido lhe abria um crédito de reconhecimento quanto a este último, sem lhe criar nenhum débito em relação ao outro. Animada, pelas boas graças desta senhora a lhe pedir que me apresentasse ao Sr. De Guermantes, ela aproveitou um instante em que os olhos do dono da casa não estavam voltados para nós, tomou-me maternalmente pelos ombros e sorrindo à figura virada do príncipe que não podia vê-la, impeliu-me com um movimento pretensamente protetor e voluntariamente ineficaz, que me deixou imóvel quase no meu ponto de partida. Tal é a covardia das pessoas da sociedade. Maior ainda foi a de uma dama que veio me cumprimentar, chamando-me pelo meu nome. Eu procurava achar o seu enquanto lhe falava; lembrava-me muito bem de haver jantado com ela, lembrava-me das palavras que ela dissera. Porém, minha atenção, voltada para a região interior onde existiam essas lembranças dela, não podia descobrir-lhe o nome. Entretanto ele se achava ali. Meu pensamento se empenhara numa espécie de jogo com ele para captar-lhe os contornos, a letra pela qual se principiava, e, por fim, iluminá-lo por completo. Era trabalho perdido. Ela, sentia mais ou menos a sua massa, o seu peso, mas, quanto às suas formas, confrontando-as com o tenebroso cativo agachado na noite interna dizia eu comigo: "Não é isto." Decerto o meu espírito teria podido criar mais difíceis apelativos. Por desgraça, não era caso de criar e sim de produzir. Toda ação do espírito é facilitada se não está submetida ao esquecimento. Ali eu era forçado a me submeter. Por fim, de um golpe, o nome surgiu inteiro:

            "Senhora d'Arpajon".

            Estou errado em dizer que ele veio, pois julgo não me surgiu numa propulsão de si mesmo. Tampouco penso que as ligeiras e numerosas lembranças que se relacionavam com essa dama, e às quais eu não cessava de pedir que me ajudassem (por exortações do tipo desta: "Vamos, esta dama é que é amiga da Sra. de Souvré, que experimenta em relação a Victor Hugo uma admiração tão ingênua, mesclada de tanto pasmo e horror"), não creio que todas essas lembranças, revoando entre mim e seu nome, tenham servido no que quer que fosse para fazê-lo flutuar. Nesse grande "esconde-esconde" que se brinca na memória, quando se deseja encontrar um nome, não existe uma série de aproximações graduadas. Não se vê coisa alguma, e depois, de súbito, aparece o nome exato e bem diferente daquilo que julgávamos adivinhar. Não foi ele que veio até nós. Não, creio antes que, à medida que vivemos, passamos o nosso tempo a nos afastar da zona em que um nome é nítido, e era por um exercício da minha vontade e de minha atenção, que aumentava a acuidade de meu olhar interior, que de chofre eu havia perfurado a semi-obscuridade e visto com clareza. Em todo caso, se há transições entre o esquecimento e a lembrança, então essas transições são inconscientes. Pois os nomes de etapas por que passamos, antes de achar o nome verdadeiro, são falsos e em nada nos aproximam dele. Nem chegam a ser propriamente nomes, mas, muitas vezes, simples consoantes, e que não se achariam no nome reencontrado. Aliás, esse trabalho do espírito, passando do nada à realidade, é tão misterioso que é possível que, afinal, essas consoantes falsas sejam degraus prévios, desajeitadamente colocados para ajudar-nos a alcançar o nome correto. "Tudo isto, dirá o leitor, nada me informa acerca da falta de complacência dessa dama; mas, já que vos demorastes tanto tempo, deixai-me, senhor autor, fazer-vos perder mais um minuto para dizer que é lastimável que, jovem como éreis (ou como era o vosso herói caso não seja vós), já tivésseis tão pouca memória a ponto de não poder lembrar-vos do nome de uma dama que conhecíeis tão bem." De fato, é lastimável, senhor leitor. E mais triste do que pensais, quando se sente aí o anúncio da época em que os nomes e as palavras desaparecerão da zona clara do pensamento, e onde será preciso renunciar para sempre a dizer para nós mesmos os nomes daqueles a quem melhor conhecemos. É lastimável, com efeito, que desde a juventude se necessite desse trabalho para reencontrar nomes que se conhecem bem. Mas, se essa deficiência só ocorresse quanto aos nomes mal conhecidos, muito naturalmente olvidados, e de que ninguém se dá ao trabalho de tentar recordar, tal deficiência não deixaria de ter suas vantagens. "E quais são, se me fazeis o favor?" Bem, meu senhor, é que só o mal faz a gente reparar e aprender, permitindo decompor os mecanismos sem isso, não conheceríamos. Um homem que todas as noites tomba uma massa no seu leito e não vive mais até o momento de acordar se erguer, por acaso esse homem pensará alguma vez em fazer, se não descobertas, ao menos pequeninas observações sobre o sono? Mal ele se dorme. Um pouco de insônia não é inútil para dar valor ao projetar alguma luz sobre essa noite. Uma memória sem falhas não é excitante muito poderoso para estudar os fenômenos da memória. "E. a Sra. d'Arpajon vos apresentará ao príncipe?" Não, mas calai-vos e deixe-me retomar minha narrativa.

            A Sra. d'Arpajon foi mais covarde ainda que a Sra. de Souvré, sua covardia tinha mais desculpas. Ela sabia que sempre tivera pouca poder na sociedade. Semelhante poder fora ainda mais debilitado pela ação que tivera com o duque de Guermantes; o abandono deste dera-lhe o golpe de misericórdia. O mau humor que lhe causou o meu pedido de apresentação ao príncipe fê-la manter um silêncio que teve a ingenuidade de acreditar ser um sinal de não ter ouvido o que eu dissera. Nem mesmo percebeu que a cólera a fazia franzir as sobrancelhas. Ou talvez, ao contrário, houvesse percebido e não se preocupasse com a contradição; servindo-se dela para a aula de discrição que podia me dar sem muita graça seria, quero dizer, uma aula muda e que nem por isso era menos elogiosa. Além do mais, a Sra. d'Arpajon estava muito contrariada; muitos olhares se haviam erguido para um balcão renascentista, em cujo ângulo em lugar de estátuas monumentais que se colocavam tanto por essa casa, debruçava-se, não menos escultural do que elas, a magnífica duquesa de Surgis-le-Duc, a que acabava de suceder à Sra. d'Arpajon no coração de Basin de Guermantes. Sob o leve tule branco que a abrigava do frescor da noite, via-se, flexível, o seu corpo sedutor de Vitória. Eu só podia recorrer ao Sr. de Charlus, que voltara para uma peça do andar térreo que dava para o jardim. Tive todo o tempo; já que ele fingia estar absorvido numa simulada de que lhe permitia dar a impressão de não ver as pessoas para admirar a intencional e artística simplicidade de seu fraque; em uns detalhes que só um costureiro teria percebido, tinha o aspecto de uma "Harmonia" em preto e branco de Whistler; ou melhor, preto, branco e vermelho, pois o Sr. de Charlus trazia, suspensa por uma larga fita à camisa, a cruz em esmalte branco, preto e vermelho de cavaleiro da ordem religiosa de Malta. Nesse momento, a partida do barão foi interrompida Sra. de Gallardon, conduzindo seu sobrinho, o visconde de Courvoisier; rapaz de belo rosto e de ar impertinente:

            - Meu primo - disse ela permita-me que lhe apresente meu sobrinho Adalbert. Adalbert, tu sabes, famoso tio Palamede de quem sempre ouves falar.

            - Boa-noite, senhora de Gallardon - respondeu o Sr. de Charlus. E acrescentou, sem mesmo olhar para o rapaz:

            - Boa-noite, senhor - com ar emburrado e um tom de voz tão violentamente descortês que todo mundo ficou estupefato. Talvez o Sr. de Charlus, sabendo que a Sra. de Gallardon tinha dúvidas sobre seus costumes e não pudera certa vez resistir ao prazer de lhes fazer alusão, fizesse questão de cortar de vez tudo o que ela poderia fantasiar acerca de uma acolhida amável a seu sobrinho, ao mesmo tempo que fazia uma retumbante profissão de indiferença quanto aos jovens; talvez não tivesse achado que o dito Adalbert correspondesse com aspecto suficientemente respeitoso às palavras da tia; talvez, desejoso de mais tarde fazer seus avanços a um primo tão agradável, quisesse obter as vantagens de uma agressão prévia, como os soberanos que, antes de principiar uma ação diplomática, apóiam-na com uma ação militar.

            Não seria tão difícil como eu achava que o Sr. de Charlus concordasse com o meu pedido de apresentação. Por um lado, no decurso dos últimos vinte anos, esse Dom Quixote lutara contra tantos moinhos de vento (muitas vezes parentes que ele pretendia terem se comportado mal com ele), com tanta freqüência proibira alguém "como pessoa impossível de ser recebida" em casa de tais ou quais Guermantes, que estes começavam a ter medo de que os indispusesse com todas as pessoas de quem gostavam, que os privasse até a morte da convivência de alguns estreantes que lhes despertavam a curiosidade, para esposar os rancores trovejantes porém inexplicáveis de um cunhado ou primo que desejaria que por ele abandonassem mulher, irmão e filhos. Mais inteligente que os outros Guermantes, o Sr. de Charlus percebia de que só levavam em conta as suas proibições uma vez em duas, e, antecipando o futuro, temendo que um dia fosse dele que se privassem, começara a contemporizar, a baixar seus preços, como se diz. Além do mais, se possuía a faculdade de dar por meses ou anos uma vida idêntica a uma pessoa detestada a esta não teria tolerado que fizessem um convite e seria antes capaz de se bater como um carregador contra uma rainha, dado que para ele não mais contava a qualidade de quem se lhe opunha. Em compensação era possuído de freqüentes explosões de cólera para que não fossem muito fragmentárias.

            "Imbecil! Idiota! Hão de pô-lo no seu lugar, varrê-lo para o esgoto onde, infelizmente, não será inofensivo para a higiene da cidade!" berrava, mesmo sozinho em casa, à leitura de uma carta que julgava irreverente, ou lembrando-se de uma frase que lhe haviam repetido. Mas uma nova cólera contra um segundo imbecil dissipava a outra, e, por menos que o primeiro se mostrasse diferente, a crise que ele havia ocasionado era esquecida, não tendo duração suficiente para formar uma base de ódio sobre a qual se pudesse construir. Desse modo, talvez eu tivesse, apesar de seu mau humor contrário, obtido sucesso junto a ele, quando lhe pedi que me apresentasse o príncipe, caso não tivesse tido a infeliz idéia de acrescentar por escrúpulo e para que ele não pudesse me atribuir a indelicadeza de ter entrado ao acaso, contando com ele para ficar na festa:

            - O senhor sabe que os conheço muito bem; a princesa foi muito amável comigo.

            - Pois bem; o senhor os conhece, em que precisa de mim para ser apresentado?- respondeu-me em tom cortante; voltando-me as costas, retomou a posição fingido ler um anúncio, do embaixador da Alemanha e um personagem que eu não conhecia.      

            Então, do fundo daqueles jardins onde outrora o duque criava animais raros, chegou-me, pelas portas escancaradas, o rumor de aspirar que hauria tantas elegâncias e nada queria perder. O ruído se aproximou, caminhei casualmente em sua direção, tanto que a expressão "boa-noite" foi sussurrada ao meu ouvido pelo Sr. de Bréauté, não com som ferroso e embotado de uma faca passada pelo amolador, e menos como o grito do pequeno javali devastador de terras cultivadas, mas, a voz de um possível salvador. Menos potente que a Sra. de Souvré, menos profundamente atingido do que ela de imprestabilidade, muito menos à vontade com o príncipe do que o era a Sra. d'Arpajon, talvez alimentando ilusões quanto à minha situação no meio dos Guermantes, ou talvez a conhecendo melhor que eu. Tive entretanto, nos primeiros segundos, a dificuldade de captar sua atenção, pois, com as narinas dilatadas ele olhava para todos os lados, assestando curiosamente o seu movimento, como se se achasse em presença de quinhentas obras-primas. Mas, escutado o meu pedido, acolheu-o com satisfação, conduziu-me para o príncipe e me apresentou com ar guloso, cerimonioso e vulgar, como lhe passasse, recomendando-os, um prato de sequilhos. Tanto a acolhida do duque de Guermantes era, quando ele o queria, amável, cheia de camaradagem, cordial e familiar, quanto achei o do príncipe comedidor, solene, altivo. Mal me sorriu, pronunciou gravemente:

            "Senhor."

            Muitas vezes eu ouvira o duque zombar da arrogância do primo. Mas, desde as primeiras palavras que este me disse e que, por sua frieza e seriedade, faziam inteiro contraste com a linguagem de Basin, compreendi de imediato homem fundamentalmente desdenhoso era o duque, que nos falava desde a primeira visita "de igual para igual", e que, dos dois primos, o príncipe, era verdadeiramente simples. Descobri em sua reserva um sentimento não direi de igualdade, o que teria sido inconcebível nele, mas pelo menos da consideração que se pode ter para com um inferior, como acontece em todos os meios fortemente hierarquizados; no Palais por exemplo, numa faculdade, onde um procurador-geral ou um "deão", conscientes de seu alto cargo, escondem talvez muito mais simplicidade real e, quando os conhecemos melhor, mais bondade, simplicidade verdadeira, cordialidade, em sua altivez tradicional, que os outros mais modernos na afetação de uma camaradagem divertida.

            - Pretende seguir a carreira do senhor seu pai? - indagou ele com ar distante, porém interessado.

            Respondi sumariamente à sua pergunta, compreendendo que só a fizera por delicadeza, e me afastei para deixá-lo acolher os novos visitantes.

            Reparei que Swann, quis falar-lhe, mas naquele momento vi que o príncipe de Guermantes, em vez de receber no mesmo sítio o cumprimento do marido de Odette, arrastara-o logo, com a força de uma bomba aspiradora, para o fundo do jardim, para, segundo algumas pessoas afirmaram, "pô-lo porta afora".

            Estava de tal maneira distraído na sociedade que só dois dias depois é que soube, pelos jornais, que uma orquestra tcheca havia tocado a noite toda e que, de minuto em minuto, se haviam sucedido fogos de bengala; recuperei um pouco de atenção à idéia de ir ver o célebre repuxo de Hubert Robert. Numa clareira reservada para belas árvores, das quais diversas eram tão antigas quanto ele, a gente o avistava de longe, afastado, esbelto, imóvel, duro, só deixando ser agitada pela brisa a queda mais leve de seu penacho pálido e fremente. O século XVIII havia depurado a elegância de suas linhas, mas, fixando o estilo do repuxo, parecia ter-lhe estancado a vida; àquela distância, tinha-se antes a impressão de arte que a sensação de água. A própria neblina úmida que se acumulava permanentemente no seu topo conservava o caráter do seu tempo, como as nuvens que no céu se juntam ao redor dos palácios de Versalhes. De perto, no entanto, percebia a gente que, sempre respeitando o desenho previamente traçado como as pedras de um palácio antigo, eram águas sempre novas que, lançando-se e querendo obedecer às ordens antigas do arquiteto, só as cumpriam exatamente parecendo violá-las, pois somente os seus mil saltos esparsos poderiam dar, à distância, a impressão de um único jato. Este, na realidade, era tão freqüentes vezes interrompido quanto à dispersão da queda, ao passo que, de longe, me havia parecido inflexível, denso, de uma continuidade sem lacunas. Um pouco mais de perto, via-se que tal continuidade, toda linear na aparência, era assegurada a todos os pontos da ascensão do jato, por toda parte em que ele deveria quebrar-se, pela entrada em linha, pela retomada lateral de um jato paralelo que subia mais alto que o primeiro e era ele próprio, a uma altura maior, mas já fatigante para ele, ultrapassado por um terceiro. De perto, gotas sem força recaíam da coluna de água, cruzando na passagem com suas irmãs que subiam e, às vezes, esborrifadas num remoinho do ar perturbado por aquele esguicho sem trégua; flutuavam antes de mergulharem no tanque. Contrariavam com suas ações, com sua trajetória em sentido inverso, e esfumavam com seu vapor a retidão e a tensão daquele tecido, carregando acima de si nuvem oblonga feita de milhares de gotículas, mas aparentemente pintadas de castanho dourado e imutável, que subia, infringente, imóvel, impelida, rápida, para reunir-se às nuvens do céu. Infelizmente, um pé-de-vento estava para arremessá-la obliquamente à terra; às vezes, até um simples jato desobediente divergia e, se não se mantivesse a uma distância respeitada molharia até os ossos a turba imprudente e contemplativa.

            Um desses pequenos acidentes, que só aconteciam no momento e que a brisa refrescava, foi bastante desagradável. Fizeram crer à Sra. d'Arpajon que o duque de Guermantes que na verdade ainda não chegara estava com a Sra. de Surgis nas galerias de mármore róseo, a que tinha acesso pela dupla série de colunas, cavada no interior, que se erguia das calçadas do tanque. Pois bem, no momento em que a Sra. d'Arpajon ia meter-se por uma das colunas, uma forte rajada de brisa morna tomou repuxo e alagou tão inteiramente a bela dama que, caindo a água de seu decote para dentro do vestido, ficou ela tão encharcada como se lhe tivessem dado um banho. E logo, não longe dela, um grunhido compassado retumbou com força bastante para poder se fazer ouvir por todo um exército que, entretanto, periodicamente prolongado como se fosse dirigido não em conjunto, mas sucessivamente a cada parte das tropas; era o grão-duque Wladimir que ria com todas as forças ao ver a imersão da Sra. d'Arpajon, uma das coisas mais divertidas, gostava ele de dizer depois, a que havia assistido em toda a sua vida. Como algumas pessoas compassivas mostrassem ao moscovita que uma palavra de pêsames de sua parte seria talvez merecida e daria prazer àquela dama que, apesar dos quarenta anos bem puxados, e enquanto se enxugava com sua écharpe, sem pedir ajuda a ninguém, se livrava contudo da água que molhava maliciosamente a calçada da fonte, o grão-duque, aliás dotado de bom coração, julgou dever concordar; e logo que os últimos dobrados militares do riso se extinguiram, ouviu-se um novo ribombar ainda mais violento que o outro.

            - Bravo, minha velha! - gritou ele batendo palmas como no teatro.

            A Sra. d'Arpajon não se sensibilizou de que lhe elogiassem a habilidade em detrimento de sua juventude; como se alguém lhe dissesse, ensurdecido pelo barulho da água, que o trovejar de Monsenhor no entanto dominava:

            - Creio que Sua Alteza Imperial lhe disse algo.

            - Não, - respondeu ela - foi à Sra. de Souvré.

            Atravessei os jardins e subi a escadaria onde a ausência do príncipe, que desaparecera na companhia de Swann, engrossava ao redor do Sr. de Charlus a chusma de convidados, assim como, quando Luís XIV não se encontrava em Versalhes, havia mais pessoas com Monsieur, seu irmão. Fui detido na passagem pelo barão, enquanto atrás de mim duas damas e um rapaz se aproximavam dele para cumprimentá-lo.

            - É gentil vê-lo aqui - disse-me ele estendendo a mão. - Boa noite, senhora de La Tremoïlle, boa-noite, minha cara Herminie. -

            Mas sem dúvida, a lembrança daquilo que me dissera acerca de seu papel de chefe no palácio Guermantes dava-lhe o desejo de parecer sentir, em relação a quem o descontentara mas que não tinha podido impedir, uma satisfação à qual a sua impertinência de grão-senhor e sua euforia de histérico conferiram imediatamente uma forma excessiva de ironia:

            - É gentil - repetiu – mas, principalmente muito engraçado. -

            E pôs-se a gargalhar, parecendo ao mesmo tempo testemunhar a sua alegria e a impotência da palavra humana em expressá-la; entretanto, algumas pessoas, sabendo o quanto era, a um tempo, de difícil acesso e dado a "tiradas" insolentes, aproximavam-se curiosas e, com uma pressa quase indecente, por pouco não se punham a correr.

            - Vamos, não se aborreça - disse ele, tocando-me suavemente no ombro -, sabe perfeitamente que o estimo bastante. Boa-noite, Antioche, boa-noite, Louis-René. Já foi ver o repuxo? - perguntou-me num tom mais afirmativo que indagador. - Bem bonito, não é mesmo? É maravilhoso. Poderia naturalmente ser bem melhor ainda, se se suprimissem algumas coisas, e então não haveria nada semelhante na França. Mas tal como é, já está entre os melhores. Bréauté lhe dirá que erraram em colocar lampiões, para tentar fazer esquecer que foi ele quem teve esta idéia absurda. Mas, em suma, só conseguiu enfeia-lo muito pouco. É muito mais difícil desfigurar uma obra-prima do que criá-la. Aliás, já desconfiávamos vagamente que Bréauté fosse menos poderoso que Hubert Robert.

            Retomei a fila de visitantes que entravam no palácio.

            - Faz muito tempo que viu minha deliciosa prima Oriane? - perguntou a princesa, que havia pouco desertara sua poltrona na entrada, e com quem eu voltava para os salões.

            - Ela deve vir esta noite, vimo-nos à tarde - acrescentou a dona da casa. - Ela me prometeu. Aliás, creio que o senhor jantará com nós duas na casa da rainha da Itália, na embaixada, quinta-feira. Estarão presentes todas as Altezas possíveis, será muito intimidante.

            De modo algum podiam intimidar a princesa de Guermantes, cujos salões fervilhavam delas, e que dizia:

            - Meus Coburguinhos como se dissesse: - Meus cãezinhos.

            Assim, a Sra. de Guermantes disse:

            - Será muito intimidante por simples tolice, que, entre as pessoas mundanas, ainda supera a vaidade.

            Sobre sua própria genealogia, ela sabia ainda menos que um suplente da História. No que se referia às suas relações, timbrava em mostrar que conhecia os apelidos que lhes haviam dado. Tendo-me perguntado se eu estaria na semana seguinte em casa da marquesa de La Pommeliere, a qual seguidamente chamavam "la Pomme" (a Maçã), a princesa, obtendo de uma resposta negativa, calou por uns momentos. Depois, sem nenhum outro motivo que uma exibição intencional de erudição involuntária, de qualidade e de conformidade ao espírito geral, acrescentou:

            - É uma mulher muito agradável, a Pomme!

            Enquanto a princesa conversava comigo, faziam precisa entrada o duque e a duquesa de Guermantes. Mas não pude ir primeiro ao encontro deles, pois fui apanhado no caminho pela embaixatriz da Turquia a qual, apontando-me a dona da casa que eu acabava de deixar, segurando-me pelo braço:

            - Ah, que mulher deliciosa é a princesa; ser superior a todos nós! Parece-me que, se eu fosse homem - acrescentou ela num tom com um pouco de baixeza e de sensualidade orientais -, consagraria minha vida à essa criatura celestial. -

            Respondi que de fato ela parecia encantadora, mas que conhecia mais a sua prima, a duquesa.

            - Mas, não há relação nenhuma - disse a embaixatriz. - Oriane é uma encantadora mulher da sociedade que tira o seu espírito de Mémé e de Babal, ao que Marie-Gilbert é alguém.

            Não gosto muito que me digam assim sem rodeios o que devo pensar das pessoas que conheço. E não havia razão nenhuma para que a  embaixatriz da Turquia emitisse sobre o valor da duquesa de Guermantes: juízo mais correto que o meu. Por outro lado, o que também explicava minha irritação contra a embaixatriz é que as falhas de um simples conhecido, e até de um amigo, são para nós verdadeiros venenos, contra os quais felizmente somos "mitridatizados".

[Mitridatização ou mitridatismo, é a imunização relativa ou tolerância à ingestão de certas substâncias tóxicas ou venenosas, por meio de doses inicialmente pequenas, depois sucessivamente aumentadas de determinado veneno. O nome provém de Mitridates VI Eupátor, rei do Ponto (c. 130 - 63 a.C.). (Nota do tradutor)]

            Mas, sem recorrer ao mínimo aparato de comparação científica e falar de anafilaxia, digamos que, no seio de nossas relações amistosas ou puramente mundanas, existe uma hostilidade momentaneamente curada, porém recorrente por acessos. Habitualmente, sofre-se pouco com tais venenos, quando se trata de pessoas naturais: - Dizendo "Babai" e "Mémé", para designar pessoas que não conhecia, a embaixatriz da Turquia suspendia os efeitos do "mitridatismo" que ao contrário o faziam tolerável à mim. Irritava-me, o que era tanto mais injusto; visto que ela não falava assim para que acreditassem que era íntima de “Mémé", mas por causa de uma instrução muito superficial, que a fazia nomear esses nobres segundo o que julgava ser o costume do país. Fizera o seu curso em alguns meses e não se submetera à provas. Mas, refletindo nisso, achava um outro motivo para o meu desprazer de ficar junto da embaixatriz. Não fazia muito tempo que, na casa de "Oriane", essa mesma personalidade diplomática me havia dito, com ar sério e compenetrado, que a princesa de Guermantes era-lhe francamente antipática. Achei bom não deter-me nessa reviravolta: fora causada pelo convite para a festa daquela noite. A embaixatriz estava sendo perfeitamente sincera ao dizer que a princesa de Guermantes era uma criatura sublime. Sempre pensara desse modo. Mas, não tendo sido até então convidada para a casa da princesa, julgara dever atribuir a esse gênero de não-convite a forma de uma abstenção voluntária por princípios. Agora, que fora convidada e verossimilmente o seria daí em diante, sua simpatia podia exprimir-se livremente. Não há necessidade, para explicar três quartos das opiniões que se fazem sobre as pessoas, de ir até o despeito amoroso, à exclusão do poder político. O juízo permanece incerto: um convite recusado ou recebido o determina. Além disso, a embaixatriz da Turquia, como dizia a duquesa de Guermantes, que repassara comigo a inspeção dos salões, "fazia bem". Sobretudo, era muito útil. As verdadeiras estrelas da sociedade se cansam de comparecer a ela. Quem estiver curioso por avistá-las deve em geral emigrar para um outro hemisfério, onde elas estão mais ou menos sozinhas. Mas as mulheres semelhantes à embaixatriz sendo todas recentes na sociedade, não deixam de nela brilhar, por assim dizer, por toda parte ao mesmo tempo. São úteis para esse tipo de representações que se denominam sarau, festa mundana, e às quais antes se fariam arrastar, moribundas, do que faltariam. São as figurantes com as quais sempre se pode contar, ardorosas para nunca perder uma festa. Assim, os rapazes tolos, ignorando que se trata de falsas estrelas, vêem nelas as rainhas da elegância, ao passo que seria preciso uma aula para explicar-lhes em virtude de quais motivos a Sra. Standish, desconhecida deles e pintando almofadas, longe da sociedade, era pelo menos tão grande dama como a duquesa de Doudeauville.

            Na vida cotidiana, os olhos da duquesa de Guermantes eram distraídos e um tanto melancólicos; fazia brilhá-los apenas de uma chama espiritual cada vez que tinha de cumprimentar algum amigo, exatamente como se este fosse uma frase de espírito, uma tirada encantadora, um presente para delicados, cuja degustação pusesse uma expressão de finura e de alegria no rosto do conhecedor. Mas, no caso dos grandes saraus, como tivesse demasiados cumprimentos a fazer, achava que seria fatigante, depois de cada um deles, apagar a luz de cada vez. Tal como uma gulosa literatura, indo ao teatro para assistir a uma novidade no meio da cena, testemunha sua certeza de não passar uma noite aborrecida; enquanto entrega seus pertences à zeladora, os lábios programados para um sorriso sagaz, o olhar avivado para uma aprovação maliciosa; assim era que, desde a sua chegada, a duquesa acendia a luz para toda noite. E ao passo que ela entregava a sua capa noturna, de um magnífico vermelho de Tiepolo, a qual deixou ver uma verdadeira gargantilha a qual lhe tapava o pescoço, depois de ter lançado ao vestido um último e rápido olhar; minucioso e repleto de costureira, que é o de uma mulher da sociedade, Oriane assegurou-se quanto ao cintilar dos olhos não menos do que suas outras jóias. Debalde algumas "boas línguas", como o Sr. Jouville, se precipitaram para o duque a fim de impedi-lo de entrar:

            - Então o senhor ignora que o pobre Mamá está à morte? Acabam de lhe dar a extrema-unção.

            - Sei, sei - respondeu o Sr. de Guermantes, afastando os aborrecidos para poder entrar. - Oviático produziu um grande efeito - acrescentou, sorrindo de prazer à lembrança do baile à fantasia ao qual estava decidido a não faltar, depois do sarau do príncipe.

            - Não queríamos que soubessem que tínhamos voltado - disse-me a duquesa. Não importava que a princesa houvesse previamente desmentido essa afirmativa de contar-me que vira rapidamente a prima, que lhe prometera comparecer; e o duque, após um longo olhar com que prostrara a esposa durante cinco minutos:

            - Contei a Oriane as suas dúvidas. -

            Agora que ela via que tinham fundamento e que não precisava dar nenhum passo a respeito para tentar dissipá-las, declarava-as absurdas e gracejou longamente comigo.

            - Que idéia achar que não fora convidado! A gente é sempre convidado depois. Acha que não poderia fazê-lo ser convidado à casa da minha prima? -

            Devo dizer que ela, depois disso, fez seguidamente coisa bem mais difíceis por mim; não obstante, evitei tomar suas palavras no sentido de que eu fora muito reservado. Começava a conhecer o valor exato da linguagem falada ou muda da amabilidade aristocrática, amabilidade que se sente feliz em lançar um bálsamo sobre o sentimento de inferioridade daqueles com os quais se exerce, mas não a ponto de dissipá-lo, nesse caso não mais teria razão de ser. "Mas o senhor é nosso igual, senão melhor", pareciam dizer os Guermantes; e diziam-no da maneira mais gentil que se possa imaginar, para serem amados, admirados, mas não para serem acreditados; que a gente desvelasse o caráter fictício dessa amabilidade é o que eles denominavam ser bem-educado; considerar real a amabilidade era a má educação. Aliás, recebi pouco tempo depois uma lição que acabou por me informar, com a mais perfeita exatidão, a extensão e os limites de certas formas de amabilidade aristocrática. Era numa matinê dada pela duquesa de Montmorency para a rainha da Inglaterra; houve uma espécie de pequeno cortejo para ir ao buffet, e à frente caminhava a soberana, dando o braço ao duque de Guermantes. Cheguei nesse momento. Com sua mão livre, o duque me fez, a menos de quarenta metros de distância, mil acenos de chamada e de amizade e que pareciam querer dizer que podia aproximar-me sem receio, que não seria comido cru em vez dos sanduíches. Mas eu, que começava a me aperfeiçoar na linguagem das cortes, em vez de me aproximar sequer de um passo, nesses quarenta metros de distância, inclinei-me profundamente, mas sem sorrir, como o teria feito diante de alguém que mal conhecesse, e depois continuei meu caminho na direção oposta. Poderia ter escrito uma obra-prima, que os Guermantes me honrariam menos do que por essa saudação. Não só não passou despercebida aos olhos do duque, que naquele dia teve de responder a mais de quinhentas pessoas, mas também aos da duquesa, a qual, tendo encontrado minha mãe, contou-lhe o caso, evitando dizer-lhe que eu procedera mal, que deveria ter me aproximado; disse-lhe que seu marido ficara encantado com minha saudação, na qual era impossível fazer entrar mais coisas. Não cessaram de encontrar naquela saudação todas as qualidades, sem mencionar todavia a que parecera a mais preciosa, a saber, que fora discreta, e não deixaram igualmente de me fazer cumprimentos que eu compreendi serem ainda menos uma recompensa pelo passado do que uma indicação para o futuro, à maneira da que é delicadamente fornecida aos alunos pelo diretor de um estabelecimento de educação:

            - Não se esqueçam, meus caros meninos, que estes prêmios são menos para vocês que para seus pais, a fim de que eles os matriculem no próximo ano. -

            Assim é que a Sra. de Guermantes, quando alguém de um mundo diferente entrava no seu meio, elogiava diante dele as pessoas discretas "que a gente encontra quando vai procurá-las e que se fazem esquecer no resto do tempo", como se avisa de um modo indireto a um criado que cheira mal que os banhos são perfeitos para a saúde.

            Enquanto eu conversava com a Sra. de Guermantes, antes mesmo que ela tivesse deixado o vestíbulo, ouvi uma voz que, no futuro, devia discernir sem erro possível. Era, no caso particular, a do Sr. de Vaugoubert conversando com o Sr. de Charlus. Um clínico não precisa que o doente em observação erga a camisa, nem de ouvir a sua respiração, a voz é suficiente. Quantas vezes mais tarde fiquei impressionado, num salão, pela entonação ou o riso de determinado homem, que no entanto copiava exatamente a linguagem de sua profissão ou as maneiras do seu ambiente, afetando uma distinção severa ou uma familiaridade vulgar, mas cuja voz falsa bastava para assinalar:

            "é um Charlus" ao meu ouvido treinado como o diapasão de um afinador! Naquele momento, passou todo o pessoal embaixada, saudando o Sr. de Charlus. Se bem que minha descoberta do gênero de doença em questão datasse apenas daquele mes (quando avistara o Sr. de Charlus e Jupien), eu não teria tido necessidade de fazer perguntas nem de auscultar para emitir um diagnóstico.

            Sr. de Vaugoubert, conversando com o Sr. de Charlus, pareceu incerto: tudo, deveria saber do que se tratava, após as dúvidas da adolescência invertido julga-se o único de seu tipo no universo; só mais tarde outro exagero que a única exceção é o homem normal. Porém, ansioso e timorato, o Sr. de Vaugoubert não se entregava há muito tempo que para ele teria sido o prazer. A carreira diplomática tivera sobre ele efeito de uma ordenação religiosa. Combinada com a assiduidade à E. de Ciências Políticas, ela o votara desde os seus vinte anos à castidade cristã. Assim como cada sentido perde força e vivacidade, atrofiando quando não é posto para funcionar, o Sr. de Vaugoubert, da mesma forma que o homem civilizado já não seria capaz dos exercícios de força em acuidade do ouvido do homem das cavernas, tinha perdido a perspicácia especial que raramente se encontrava em falta no Sr. de Charlus; e, mesas oficiais, seja em Paris, seja no estrangeiro, o ministro pleni-potentário não chegava sequer a reconhecer aqueles que, sob o disfarce do uniforme, eram no fundo seus iguais. Alguns nomes pronunciados pelo Sr. de Charlus, indignado se os citassem por seus gostos, mas sempre se divertindo em fazer conhecer os dos outros, causaram no Sr. de Vaugoubert um espanto delicioso. Não que depois de tantos anos ele sonhasse em desfrutar de alguma oportunidade feliz. Porém, essas revelações rápidas, semelhantes àquelas que nas tragédias de Racine mostram a Atália e a Abrler que Jonas pertence à raça de Davi, que Ester, sentada na púrpura, tem pais judeus, mudando o aspecto da alegação de X... ou de determinado serviço do Ministério das Relações Exteriores, tornavam retrospectivamente esses palácios tão misteriosos como o templo de Jerusalém ou a sala do trono de Susa. Diante daquela embaixada, cujo pessoal jovem foi inteiro apertar a mão do Sr. de Charlus, o Sr. de Vaugoubert assumiu o ar maravilhado de Elisa ao exclamar, em Esther:

            Céus! Que numeroso enxame de inocentes beldades se oferta a meus olhos em multidão e sai de todos os lados! Que amável pudor em seus rostos se espelha!

            Depois, desejoso de ser mais "bem informado", lançou risonho ao Sr. de Charlus um olhar tolamente interrogativo e concupiscente:

            - Mas é claro! - disse o Sr. de Charlus, com o ar douto de um erudito falando a um ignaro. E logo o Sr. de Vaugoubert (o que muito irritou o Sr. de Charlus) não tirou mais os olhos daqueles jovens secretários, que o embaixador de X na França, velho reincidente, não escolhera ao acaso. O Sr. de Vaugoubert calava-se; eu via apenas os seus olhares. Mas, habituado desde a infância a atribuir, mesmo ao que é mudo, a linguagem dos clássicos, eu fazia com que os olhos do Sr. de Vaugoubert dissessem os versos com que Ester explica a Elisa que Mardoqueu, zeloso por sua religião, se empenhou em colocar a serviço da rainha somente moças que professassem o mesmo credo. Entretanto o seu amor pela nossa nação povoou este palácio de filhas de Sião, Jovens e tenras flores pela sorte agitadas, sob um céu estrangeiro, como eu, transplantadas. Em local isolado de testemunhas profanas, Ele (o excelente embaixador) empenha seu estudo e seus cuidados em formá-las. Por fim o Sr. de Vaugoubert falou sem ser pelo olhar.

            - Quem sabe - disse com melancolia se, no país em que vivo, não existe a mesma coisa?

            - É provável - respondeu o Sr. de Charlus -, a começar pelo rei Teodósio, conquanto eu não saiba nada de positivo a seu respeito. - Oh! Isso não! - Então não devia ser permitido que parecesse tanto. E é todo cheio de maneiras. É o gênero "mimoso", o tipo que eu mais detesto. Eu não teria coragem de me mostrar em sua companhia na rua. Além disso, o senhor deve muito bem conhecê-lo pelo que é; é conhecido como o lobo branco. - O senhor se engana completamente a seu respeito. Aliás, ele é encantador. No dia em que foi assinado o acordo com a França, o rei me beijou. Nunca fiquei tão emocionado. - Era a ocasião para o senhor lhe dizer o que desejava. - Oh, meu Deus, que horror! Se ele suspeitasse! Mas quanto a isso não tenho receio. - Palavras que ouvi, pois estava pouco afastado, e que fizeram com que recitasse mentalmente:

            “Até hoje o rei ignora quem sou, E este segredo mantém presa a minha língua.”

            Esse diálogo meio mudo, meio falado só durara poucos instantes e eu apenas dera alguns passos no salão com a duquesa de Guermantes quando uma pequena senhora morena, extremamente bonita, a deteve:

            - Desejava tanto vê-la! D'Annunzio a avistou de um camarote; escreveu à princesa de T*** uma carta em que disse que jamais vira algo tão belo. Ele daria toda a sua vida por dez minutos de conversação com a senhora. Em todo caso, mesmo que não possa ou não queira, a carta está em meu poder. Seria preciso marcar-me um encontro. Há certas coisas que não posso dizer aqui. Vejo que o senhor não me reconhece - acrescentou dirigindo-se a mim -; conheci-o na casa da princesa de Parma a qual eu nunca tinha ido. O imperador da Rússia gostaria que seu pai fosse enviado à Petersburgo. Se pudesse comparecer na terça-feira, justamente Isvolski estará lá, falaria com o senhor. Tenho um presente para lhe dar querida - acrescentou, voltando-se para a duquesa - e que não daria a nenhuma outra pessoa. Os manuscritos de três peças de Ibsen, que ele mandou pelo seu velho enfermeiro. Guardarei um e lhe darei os outros.

            O duque de Guermantes não estava encantado com tais ofertas. Como não tinha certeza se Ibsen ou d'Annunzio eram vivos ou mortos; via os escritores e os dramaturgos indo visitar sua mulher e pondo-a em suas obras. As pessoas da sociedade facilmente imaginam os livros como sendo uma espécie de cubo, do qual uma das faces é retirada, de modo que o autor se apressa em "fazer entrar" lá dentro as pessoas que encontra. É claro que se trata de um procedimento desleal, e não passam de gente de pouca importância. Certo, não seria aborrecido vê-los "de passagem", graças a eles, se lemos um livro ou um artigo, conhecemos "o reverso cartas", podemos "levantar as máscaras". Apesar de tudo, o mais prudente é limitarmo-nos aos autores mortos. O Sr. de Guermantes apenas achava "perfeitamente conveniente" o senhor que fazia os necrológicos no Le Gaur; este, pelo menos, contentava-se em citar o nome do Sr. de Guermantes no alto das pessoas relacionadas, "notadamente" nos enterros em que assinara o livro de presença. Quando preferia que seu nome não figurasse, em vez de assinar o duque enviava uma carta de pêsames à família do falecido, testemunhando-lhe os seus sentimentos. Que essa família pudesse publicar no jornal:

            "Entre as cartas recebidas, citemos a do duque de Guermantes, etc.", aquilo não era culpa do noticiarista, e sim do filho, irmão ou pai da morta, que o duque qualificava de arrivistas, e com quem daí em diante, estava decidido a não ter mais relações (o que denominavas, não conhecendo bem o sentido das locuções, "ter contas a ajustar"). Por certo que os nomes de Ibsen e d'Annunzio, e sua sobrevivência; fizeram franzir as sobrancelhas do duque, que ainda não estava muito longe de nós para não ter ouvido as amabilidades diversas da Sra. Timoléon d'Amoncourt. Era uma mulher encantadora, de um espírito, como sua beleza, tão deslumbrante, que só um dos dois teria conseguido agradar. Mas, nascida fora do meio em que agora vivia, só tendo aspirado a princípio a um salão literário, amiga sucessivamente de modo algum amante, pois era de costumes muito puros e exclusivamente de cada grande escritor que lhe dava todos os seus manuscritos e escrevia livros para ela; e, tendo-a o acaso introduzido no faubourg Saint-Germain, esses privilégios literários lhe valeram naquele meio. E agora desfrutava de uma posição que a eximia de outras graças além da sua presença espalhava. Mas, habituada outrora à esperteza, às manobras, aos serviços, perseverava neles, embora não fossem mais necessários. Tinha sempre um segredo de Estado para revelar, um potentado a nos dar a conhecer, a aquarela de um mestre a nos oferecer. Em todas essas atrações inúteis havia um pouco de mentira, mas eles faziam de sua vida uma comédia de uma complicação cintilante e era exato que ela conseguia nomear prefeitos e generais. Sempre caminhando a meu lado, a duquesa de Guermantes deixava a luminosidade azulada dos olhos flutuar à sua frente, porém no vago, a fim de evitar as pessoas com quem não queria entrar em contato e das quais por vezes adivinhava, de longe, o obstáculo ameaçador. Avançávamos entre uma dupla sebe de convidados, que, sabendo que jamais conheceriam "Oriane", desejavam ao menos, como curiosidade, mostrá-la à própria esposa:

            - Ursule, depressa, depressa, vem ver a senhora de Guermantes, que está conversando com esse rapaz. -

            E sentia-se que não faltava muito para que trepassem nas cadeiras para ver melhor, como na parada de 14 de julho ou no Grand Prix. Não é que a duquesa de Guermantes tivesse um salão mais aristocrático do que sua prima. O da primeira era freqüentado por pessoas que a segunda jamais quis convidar, principalmente por causa de seu marido. Jamais teria recebido a Sra. Alphonse de Rothschild, que, amiga íntima da Sra. de La Trémoïlle e da Sra. de Sagan, como a própria Oriane, freqüentava muito a casa desta última. O mesmo ocorria também com o barão Hirsch, que o príncipe de Gales levara a sua casa, mas não à casa da princesa, a quem teria desgostado com isso, e igualmente com algumas grandes notoriedades bonapartistas ou até republicanas, que interessavam à duquesa, mas que o príncipe, realista convicto, não teria desejado receber. Visto que seu anti-semitismo era também de princípios, não se dobrava diante de nenhuma elegância, por mais acreditada que fosse, e se recebia Swann, de quem era o amigo de sempre, sendo aliás o único dos Guermantes que o chamava de Swann e não de Charles, é que, sabendo que a avó de Swann, protestante casada com um judeu, tinha sido amante do duque de Berri, tentava de vez em quando acreditar na lenda que fazia o pai de Swann um filho natural do príncipe. Nessa hipótese, que todavia falsa, Swann, filho de um católico, o qual por sua vez era filho de Bourbon e de uma católica, nada tinha que não fosse cristão.

            - Como, você não conhece estes esplendores? - perguntou a duquesa, ao falar-me do lugar em que nos achávamos. Mas, depois de celebrado o "palácio" da prima, apressou-se a acrescentar que preferia mil vezes "seu humilde casebre". - Aqui, é admirável para uma visita. Mas morreria de desgosto se me fosse necessário ficar dormindo em quartos onde aconteceram tantos fatos históricos. Isso me causaria o efeito de ter ficado após o fechamento, de ter sido esquecida, no castelo de Bloiag Fontainebleau ou até no Louvre, e de ter, como único recurso contra a Alteza, murmurar para mim mesma que estou no quarto em que Monalde foi assassinado. Como camomila, é insuficiente. Veja, ali está a Sra. Saint-Euverte. Jantamos há pouco em sua casa. Como ela dá amanhã a grande recepção anual, pensava que ela teria ido dormir. Mas ela não parece perder uma festa. Se esta tivesse lugar no campo, ela viria numa carroça, mas não deixaria de comparecer.

            Na realidade, a Sra. de Saint-Euverte viera naquela noite, menos pelo prazer de não faltar a uma festa em casa dos outros do que para assegurar o sucesso da sua, recrutar os últimos aderentes e, de qualquer maneira, passar in extremis a revista das tropas que, no dia seguinte, deixariam evoluir brilhantemente no seu garden-party. Pois já não era de poucos anos que os convidados das festas Saint-Euverte não eram mais os mesmos de antigamente. As notabilidades femininas do meio Guermantes, tão disseminadas então, cumuladas de gentileza pela dona da casa, tinham poucos levado suas amigas. Ao mesmo tempo, por um trabalho paralelamente progressivo, mas em sentido inverso, a Sra. de Saint-Euverte reduzira, ano após ano, o número das pessoas desconhecidas do mundo elegante. Deixava-se de ver uma, depois outra. Durante algum tempo funcionou o sistema de "fornadas", que permitia, graças às festas sobre as quais se fazia social, convidar os renegados para que se divertissem entre eles, o que pensava de convidá-los com as pessoas do primeiro nível. De que podiam queixar-se? Não tinham (panem et circenses) bolinhos e um belo programa musical? Assim, de alguma forma em simetria com as duas duquesas exiladas, que outrora, quando estreara o salão Saint-Euverte, tinham sustentado, como duas cariátides, a abóbada oscilante, nos últimos anos mescladas à alta sociedade, não se distinguiram mais que duas pessoas heterogêneas: a velha Sra. de Cambremer e a mulher de um arquiteto linda voz, à qual era-se freqüentemente obrigado a pedir que cantasse. Não conhecendo mais ninguém na casa da Sra. de Saint-Euverte, chorando suas companheiras perdidas, sentindo que incomodavam, pareciam estar quase morrendo de frio como duas andorinhas que não emigraram a tempo. Assim, no ano seguinte não foram convidadas; a Sra. de Franquetot procurou batalhar em favor da prima que tanto apreciava a música. Mas, como não pôde obter para ela uma resposta mais explícita que estas palavras:

            "Mas sempre se pode entrar para ouvir a música que lhe agrade, não há nenhum crime nisto!", a Sra. de Cambremer não julgou o convite muito insistente, e desistiu.

            Diante dessa transmutação, operada pela Sra. de Saint-Euverte, de um salão de leprosos em um salão de grandes damas (a última forma, de aparência ultra-chique, que ele havia assumido), podia causar espanto que a pessoa que daria no dia seguinte a festa mais brilhante da temporada precisasse, na véspera, dirigir um supremo apelo às suas tropas. Mas é que a preeminência do salão Saint-Euverte só existia para aqueles cuja vida mundana consiste apenas em ler a notícia das matinês e dos saraus, no Le Gaulois ou no Fígaro, sem jamais terem ido a nenhum deles. A esses mundanos, que só vêem a sociedade no jornal, a enumeração das embaixatrizes da Inglaterra, da Áustria, etc., das duquesas d'Uzes, de La Trémoille, etc., etc. bastava para que imaginassem de bom grado o salão Saint-Euverte como o primeiro de Paris, quando de fato era dos últimos. Não que as notícias fossem mentirosas. A maioria das personalidades citadas tinham estado presentes. Mas cada uma comparecera à custa de súplicas, finezas, serviços prestados, e tendo o sentimento de honrar infinitamente a Sra. de Saint-Euverte. Tais salões, mais evitados que procurados, e aonde só se vai de encomenda, por assim dizer, só iludem as leitoras da seção de "Mundanismo". Passam por alto uma festa verdadeiramente elegante, em que uma dona de casa, podendo ter todas as duquesas, que ardem por estar "entre os eleitos", só convida a duas ou três, e não manda pôr o nome de seus convidados no jornal. Assim essas mulheres, desconhecendo ou desdenhando o poder que assumiu a publicidade atualmente, são elegantes para a rainha da Espanha, mas desconhecidas da multidão, porque a primeira sabe, e a segunda ignora quem elas são.

            A Sra. de Saint-Euverte não era dessas mulheres e, como boa apanhadora, vinha colher para o dia seguinte tudo quanto era convidado. O Sr. de Charlus não o era, havia se recusado sempre a ir à casa dela. Porém estava rompido com tanta gente que a Sra. de Saint-Euverte podia atribuir aquilo ao temperamento do barão.

            Decerto, se ali houvesse apenas Oriane, a Sra. de Saint-Euverte não teria necessidade de incomodar-se, pois o convite fora feito de viva voz e, além disso, aceito com essa enganosa e encantadora boa vontade, no ciclo da qual triunfam os acadêmicos de cuja casa o candidato sai em nado e sem duvidar que possa contar com seu voto. Mas não havia somente ela. O príncipe de Agrigento compareceria? E a Sra. de Durfort? Aliás para vigiar sua colheita, a Sra. de Saint-Euverte julgara mais útil e conveniente transportar-se em pessoa; insinuante com uns, imperativa com outros, apresentava para todos, com palavras encobertas, divertimentos inimagináveis não poderiam ver de novo, e a cada um prometia que haveria de achar em sua casa a pessoa a quem desejava, ou o personagem que precisava encontrar. E essa espécie de função de que estava investida uma vez por ano; assim como certas magistraturas da antigüidade; de pessoa que no dia seguinte dará o mais considerável garden-party da temporada conferia-lhe momentânea autoridade. Suas listas estavam feitas e terminadas, de modo que, percorrendo os salões da princesa com lentidão para derramar sucessivamente em cada ouvido:

            - Não se esqueça de mim amanhã -, ela desfrutava da glória efêmera de desviar os olhos, continuando sorrir; se percebia alguma feiosa a evitar ou algum fidalgote que uma camaradagem escolar fizera ser admitido em casa de "Gilbert", e cuja presença em seu garden-party não somaria nada. Preferia não lhe falar para por a dizer em seguida:

            - Fiz meus convites de modo verbal e infelizmente não o encontrei. -

            Assim ela, simples Saint-Euverte, fazia com seus esquadrinhadores uma triagem na composição do sarau da princesa. E procedendo dessa forma, julgava-se uma verdadeira duquesa de Guermantes. É preciso dizer que esta última tampouco dispunha, como se poderia acreditar, da liberdade de seus sorrisos e cumprimentos. Por um lado sem dúvida, quando os recusava, era voluntariamente:

            - Mas ela me aborrece - dizia. - Será que vou ser obrigada a lhe falar do seu sarau que durara uma hora inteira?

            Viu-se passar uma duquesa bem morena, cuja feiúra e estupidez assim como certos desvios de conduta, tinham exilado não da sociedade, mas de algumas intimidades elegantes.

            - Ah! - sussurrou a Sra. Guermantes, com o golpe de vista preciso e desabusado do conhecedor a quem se mostra uma jóia falsa - recebe-se isto, aqui?! -

            Pelo simples aspecto da dama meio estragada, e cujo rosto estava coberto de sinais de pêlos negros, a Sra. de Guermantes avaliava a medíocre cotação daquele sarau. Fora educada com aquela dama, mas cessara todas as relações com ela; só respondeu ao seu cumprimento com uma inclinação de cabeça bastante seca.

            - Não compreendo - disse-me, como para se desculpar que Marie-Gilbert nos convide com toda essa lama. Pode-se dizer que aqui há de todas as paróquias. Era muito mais bem organizado na casa Mélanie Pourtales. Podia ter o Santo Sínodo e o Templo do Oratório, se bem lhe aprouvisse, mas pelo menos não nos mandavam convidar nesses dias. -

            Mas, em grande parte, era por timidez, por medo de ter uma cena com o marido, que não queria que ela convidasse artistas, etc. ("Marie-Gilbert" protegia muitos deles, e era preciso tomar cuidado para não ser abordada por uma ilustre cantora alemã), e também por um certo receio quanto ao nacionalismo, que a duquesa, possuidora como o Sr. de Charlus do espírito dos Guermantes, desprezava do ponto de vista mundano (pois agora, para glorificar o Estado-Maior, faziam passar um general plebeu adiante de certos duques), mas ao qual, entretanto, como sabia que era considerada mal pensante, fazia amplas concessões, a ponto de recear ter de estender a mão a Swann nesse ambiente anti-semita. Sob este aspecto, logo se sentiu tranqüilizada, pois soube que o príncipe não deixara Swann entrar e tivera com ele "uma espécie de altercação". Não se animava a ter de conversar em público com o "pobre Charles", a quem preferia estimar na intimidade.

            - E agora aquela outra ali? - exclamou a Sra. de Guermantes ao ver uma pequena dama de ar um tanto estranho, num vestido negro de tal modo simples que se poderia dizer tratar-se de uma desgraçada, lhe fazer, bem como o seu marido, um grande cumprimento. Não a reconheceu e, tendo dessas insolências, empertigou-se como que ofendida e olhou sem responder: - Quem é essa pessoa, Basin? - indagou com ar de espanto, ao passo que o Sr. de Guermantes, para desculpar a descortesia da mulher, cumprimentava a dama e apertava a mão do marido.

            - Mas é a Sra. de Chaussepierre, você foi muito descortês. Não sei o que Chaussepierre. O sobrinho da velha Chanlivault.

            - Não conheço nada disso. Quem é a mulher, por que está me cumprimentando?

            - Ora, você conhece muito bem, é a filha da Sra. de Charleval, Henriette Montmorency.

            - Ah, mas conheci muito bem a sua mãe, ela era encantadora, muito espirituosa. Por que se casou com essas pessoas que eu não conheço? Você disse que ela se chama Sra. de Chaussepierre? - disse Oriane, escondendo esta última palavra com ar interrogativo e como se receasse enganar-se.

            O duque lançou-lhe um olhar duro.

            - Chamar-se Chaussepierre não é tão ridículo como você parece imaginar! O velho Chaussepierre era irmão da Charleval, de quem já falei, da Sra. de Sennecour e da viscondessa du Merlerault. São pessoas de elite.

            - Ah, chega! - exclamou a duquesa, que, como domadora, não queria dar nunca a impressão de que se intimidava com os olhares devoradores da fera. - Basin, você faz a minha alegria. Não sei aonde foi descobrir esses nomes, mas dou-lhe todos os meus cumprimentos. Se eu ignorava Chaussepierre, li Balzac, você não é o único, e li até Labiche. Aprecio Chanlivault, não odeio Charleval, mas confesso que du Merlerault é a obra-prima. Além disso, confessemos que Chaussepierre também não está! Você colecionou tudo isso, não é possível! O senhor que deseja escrever um livro - disse-me ela deveria conservar Charleval e du Merlerault; - não encontrará nada melhor.

            - Ele vai é simplesmente arranjar um processo e irá para a cadeia; você lhe dá muitos maus conselhos, Oriane. - Espero que ele tenha à sua disposição pessoas mais jovens, se tem vontade de pedir maus conselhos, e sobretudo de segui-los. Mas se não tenciona fazer coleção pior que um livro! -

            Bem longe de nós, uma altiva e maravilhosa moça destacava suavemente num vestido branco, todo diamantes e tule. A Sra. de Guermantes a observou enquanto ela falava diante de todo um grupo fascinado pela sua beleza.

            - A sua irmã por toda parte é a mais bonita e está encantadora esta noite - disse ela, enquanto pegava uma cadeira, ao príncipe de Chimay que passava. O coronel de Froberville (seu tio era  o general do mesmo nome) veio sentar-se ao nosso lado, assim como o Sr. de Bréauté, ao passo que o Sr. de Vaugoubert, requebrando-se (por um excesso de polidez que conservava mesmo quando jogava tênis, onde à força de pedir licença às pessoas notáveis, antes de rebater a bola, fazia inevitavelmente com que o seu lado perdesse a partida), voltava para junto do Sr. de Charlus (até então quase embrulhado na saia imensa da condessa Molé - que ele fazia profissão de admirar entre todas as mulheres), e por acaso no momento em que vários membros de uma nova missão diplomática em Paris cumprimentavam o barão. À vista de um jovem secretário de ar particularmente inteligente, o Sr. de Vaugoubert fixou no Sr. de Charlus um sorriso onde visivelmente desabrochava uma só pergunta. De bom grado, talvez, Sr. de Charlus comprometeria alguém; mas sentir-se ele próprio comprometido por esse sorriso que partia de outro e que só podia ter um sentido; o exasperou.

            - Não sei absolutamente nada; peço-lhe que guarde sua curiosidade para si mesmo, pois ela me deixa mais que frio. Além disso, neste caso particular, o senhor comete um engano lamentável. Creio que este jovem é absolutamente o contrário. -

            Aqui, o Sr. de Charlus, irritado por ter sido denunciado por um tolo, não dizia a verdade. O secretário, se o barão tivesse dito a verdade, teria feito exceção naquela embaixada. De fato, ela era composta de personalidades bem diferentes, várias extremamente medíocres, de modo que, se buscassem o motivo pelo qual tinham sido escolhidas, só poderiam descobrir a inversão. E, pondo à testa dessa pequena Sodoma diplomática um embaixador que, ao contrário, apreciava as mulheres com um exagero cômico de galã de revista e que manobrava em regra o seu batalhão de travestis, pareciam ter obedecido à lei dos contrastes. Apesar do que via, não acreditava na inversão. Disto deu provas imediatas, casando sua irmã com um encarregado de negócios a quem julgava, erroneamente, um conquistador. Desde então, tornou-se um tanto incômodo e foi em breve substituído por uma Excelência nova que assegurou a homogeneidade do conjunto. Outras embaixadas procuraram rivalizar com esta, mas não puderam disputar-lhe o prêmio (como no concurso geral, onde um certo liceu o obtém sempre), e foi necessário que se passassem mais de dez anos antes que, tendo-se introduzido adidos heterogêneos naquele todo tão perfeito, uma outra pudesse enfim arrebatar-lhe a funesta palma e andar na frente.

            Tranqüilizada quanto ao receio de ter de conversar com Swann, a Sra. de Guermantes sentia apenas curiosidade sobre o assunto da conversa que ele tivera com o dono da casa.

            - Sabe qual foi o assunto? - indagou o duque ao Sr. de Bréauté.

            - Ouvi dizer - respondeu este que era a respeito de um pequeno ato que o escritor Bergotte fizera representar na casa deles. Aliás, era arrebatador. Mas parece que o ator se caracterizara de Gilbert, a quem o Sr. Bergotte quisera de fato retratar.

            - Vejam só, teria me divertido muito ao ver Gilbert ser representado - disse a duquesa sorrindo sonhadoramente.

            - Foi sobre essa pequena representação - continuou o Sr. de Bréauté, avançando sua mandíbula de roedor que Gilbert pediu explicações a Swann, que se contentou em responder, o que todo mundo achou muito espirituoso:

            "- Mas de jeito nenhum, não se assemelha em nada com o senhor; o senhor é muito mais ridículo!"

            - Aliás, parece - prosseguiu o Sr. de Bréauté que aquela pecinha era deliciosa. A Sra. Molé estava presente e se divertiu bastante.

            - Como? A Sra. Molé vai lá? - perguntou a duquesa espantada.

            - Ah, certamente foi Mémé quem arrumou isso!

            - É o que sempre acaba acontecendo com esses locais. Todo mundo, um belo dia, começa a ir lá e eu, que me excluo voluntariamente por princípio, fico sozinha a me aborrecer no meu canto. -

            Desde a narrativa que acabava de lhe fazer o Sr. de Bréauté, a duquesa de Guermantes (se não sobre o salão Swann, ao menos sobre a hipótese de encontrar-se com Swann dentro de um instante) já havia adotado, como se vê, um novo ponto de vista.

            - A explicação que o senhor nos dá - disse ao Sr. de Bréauté o coronel de Froberville - é totalmente forjada. Tenho meus motivos para dizê-lo. O príncipe, pura e simplesmente, fez um escândalo diante de Swann, dando-lhe a entender, como diziam nossos pais, que não mais se mostrasse em sua casa, considerando as opiniões que defende. E, no meu parecer, o tio Gilbert teve mil vezes razão, não só de fazer aquela cena, mas deveria ter rompido há mais de seis meses com um dreyfusista confesso.

            O pobre Sr. de Vaugoubert, transformado desta vez de péssimo jogador de tênis numa verdadeira bola de tênis que arremessamos descuidados, viu-se projetado na direção da duquesa de Guermantes, a quem, deu suas homenagens. Foi bastante mal recebido, pois Oriane convencida de que todos os diplomatas ou políticos de seu convívio eram uns palermas.

            O Sr. de Froberville forçosamente se beneficiara com a situação favorável que, desde pouco tempo, se formara a respeito dos militares da sociedade. Infelizmente, se a mulher com quem se casara era parenta legítima dos Guermantes, era uma parenta extremamente pobre, e ele próprio havia perdido a sua fortuna, eles quase não tinham relações; e eram dessas pessoas que são deixadas de lado a não ser nos menos importantes, quando lhes ocorria perderem ou casar um parente. Então faziam verdadeiramente parte da comunhão da alta sociedade, como católicos que só o são de nome e se aproximam da santa mesa apenas uma vez por ano. Sua situação material teria sido mesmo desgraçada se a Sra. de Saint-Euverte, fiel à afeição que dedicara ao falecido general Froberville, não ajudasse o casal de todas as maneiras, fornecendo distrações às duas meninas. Mas o coronel, que passava por rapaz, não era uma alma agradecida. Tinha inveja dos esplendores da benfeitora que não deixava de elogiá-los sem cessar e sem medidas; no garden-party anual era para ele, sua mulher e suas filhas um prazer maravilhoso a que não faltariam por todo o ouro do mundo, mas um prazer envenenado pelo pensamento das alegrias de orgulho que dele tirava a Sra. de Saint-Euverte. O anúncio desse garden-party nos jornais, que a seguir, dei uma descrição detalhada, acrescentavam de modo maquiavélico:

            "Voltaremos a essa bela festa", os detalhes complementares sobre as toaletes, dados durante vários dias seguidos, tudo isto fazia tão mal aos Frobervilles, que eles, bastante privados de prazeres e sabendo que podiam contar com os daquela festa, chegavam, todos os anos, a desejar que o mau tempo lhe prejudicasse o êxito, consultavam o barômetro e antegozavam, deliciados, os primórdios de uma tempestade que pudesse fazer gorar a festa.

            - Não discutirei política com você, Froberville - disse o Sr. de Guermantes -; mas, no que tange a Swann, posso dizer com franqueza que sua conduta a nosso respeito foi inqualificável. Apadrinhado na sociedade antigamente por nós, e pelo duque de Chartres, dizem-me que é abertamente dreyfusista. Nunca teria acreditado nisso da parte dele, ele que é um fino gourmet, um espírito positivo, um colecionador, apreciador de livros antigos, membro do Jockey, um homem rodeado da consideração geral, um conhecedor de boas firmas e que nos enviava o melhor vinho do porto que se pode beber, um diletante, um pai de família. Ah, fui bem enganado. Não falo de mim; é voz corrente que sou uma velha besta, opinião que não conta, uma espécie de pobre-diabo, mas ao menos por Oriane ele não deveria ter feito isso, devia ter desaprovado abertamente os judeus e os sectários do condenado.

            - Sim, depois da amizade que sempre lhe testemunhou a minha mulher - prosseguiu o duque, que evidentemente considerava que condenar Dreyfus por alta traição, fosse qual fosse a opinião que se tivesse intimamente quanto à sua culpabilidade, constituía uma espécie de agradecimento pelo modo como se fora recebido no faubourg Saint-Germain ele deveria ter retirado sua solidariedade. Pois, perguntem a Oriane, ela sentia verdadeira amizade por ele. -

            A duquesa, pensando que um tom ingênuo e calmo daria um valor mais sincero e dramático às suas palavras, disse com uma voz de colegial, como se deixasse simplesmente sair a verdade de sua boca e apenas dando aos olhos uma expressão um tanto melancólica:

            - Mas é verdade, não tenho motivo algum para ocultar que sentia um afeto sincero por Charles!

            - Vejam, não a obriguei a falar. E, depois disso, ele leva a ingratidão ao ponto de ser dreyfusista!

            - A propósito de dreyfusistas - disse eu -, parece que o príncipe Von o é.

            - Ah, o senhor faz bem em me falar dele! - exclamou o Sr. de Guermantes -; já ia esquecendo que ele me pediu para vir jantar segunda-feira. Mas seja ele dreyfusista ou não, pouco me importa, visto que é estrangeiro. É-me perfeitamente indiferente. No caso de um francês, a coisa muda de figura. É verdade que Swann é judeu. Mas até o dia de hoje desculpe-me Froberville eu tinha tido a fraqueza de crer que um judeu pudesse ser francês, quero dizer, um judeu honrado, homem da alta sociedade. Ora, Swann era exatamente isto, em toda a extensão da palavra. Pois bem, ele me obriga a reconhecer que me enganei, visto que toma o partido de Dreyfus (que, culpado ou não, de modo algum faz parte do seu meio, e a quem jamais teria encontrado) contra uma sociedade que o havia adotado, que o tratara como a um dos seus. Não há o que negar, nós todos éramos fiadores de Swann, eu teria jurado pelo seu patriotismo como pelo meu. Ah, ele nos recompensa muito mal. Confesso que nunca esperaria isso de sua parte. Julgava-o melhor. Ele tinha espírito (em seu gênero, bem entendido). Bem sei que já cometera a insanidade de seu casamento vergonhoso. Olhem, sabem a que pessoa o casamento de Swann fez muito mal? A minha mulher. Oriane muitas vezes tem o que eu chamaria afetação de insensibilidade. Mas, no fundo, ela sente com uma intensidade extraordinária.

            A Sra. de Guermantes, encantada com essa análise do seu caráter, escutava-o com ar modesto, mas não dizia uma só palavra, por escrúpulo de aquiescer com o elogio, sobretudo com receio de interrompê-lo. O Sr. de Guermantes poderia falar uma hora a esse respeito que ela teria se mexido ainda menos do que se lhe tocassem música.

            - Pois bem! Lembro-me quando ela soube do casamento de Swann, sentiu-se magoada; achou, aquilo era malfeito da parte de alguém a quem tínhamos testemunhado amizade. Ela gostava muito de Swann; ficou muito desgostosa. Não é mesmo, Oriane? -

            A Sra. de Guermantes julgou dever responder a uma apelação tão direta, sobre um assunto que lhe permitiria, sem que desobedecesse, confirmar os louvores que sentia estar acabados. Num tom simples, e com um ar tanto mais estudado quanto desejaria parecer ela disse com uma doçura reservada:

            - É verdade, Basin não se engana. -

            - E, no entanto, ainda não era a mesma coisa. Que querem, é o amor, embora, na minha opinião, deva permanecer dentro de certos limites. Eu ainda poderia desculpar um rapaz, um fedelho que se deixa abalar por utopias. Porém Swann, um homem inteligente, de uma delicadeza comprovada, um fino conhecedor de quadros, um familiar do duque de Chartres, do próprio Gilbert! -

            O tom que o Sr. de Guermantes empregou era aliás perfeitamente simpático, sem sombra da vulgaridade que muitas vezes demonstrava. Falava com uma tristeza levemente indignada, porém tudo nele respirava aquela doce gravidade que faz o encanto untuoso de certas personagens de Rembrandt, por exemplo o burgo-mestre. Sentia-se que a questão da imoralidade da conduta de Swann no Caso Dreyfus nem mesmo se apresentava ao duque, de tão fora de dúvida que estava; sentia-se nele a aflição de um pai que vê um de seus filhos, pecar cuja educação fez os maiores sacrifícios, arruinar voluntariamente a magnífica situação que lhe proporcionara e desonrar um nome respeitado com desatinos que os princípios ou preconceitos da família não podem admitir. É verdade que o Sr. de Guermantes não havia manifestado outrora um espanto de tal modo profundo e doloroso ao saber que Saint-Loup era dreyfusista. Mas, primeiro, considerava o sobrinho um rapaz no mau caminho e de quem nada poderia espantar enquanto não se emendasse; ao pai que Swann era o que o Sr. de Guermantes chamava "um homem ponderado, uma pessoa que desfrutava de uma posição de primeira ordem". Depois principalmente, passara-se um período bastante longo, durante o qual do ponto de vista histórico, os acontecimentos pareceram em parte ajudar a tese dreyfusista, a oposição antidreyfusista havia redobrado de violência e, de puramente política a princípio, tornara-se social. Era agora questão de militarismo, de patriotismo, e as ondas de cólera erguidas à sociedade, tinham tido tempo de adquirir aquela força que jamais têm, começo de uma tempestade.

            - Vejam - continuou o Sr. de Guermantes - mesmo do ponto de vista de seus caros judeus, já que faz questão aberta de apoiá-los, Swann cometeu um disparate de alcance incalculável. Achava que todos eles estão secretamente unidos e, de alguma forma, são obrigados a prestar auxílio a alguém de sua raça, mesmo se não o conhecem. É um perigo público. Evidentemente, temos sido indulgentes demais, e o deslize de Swann terá tanto mais repercussão porque ele era estimado, e até recebido, sendo de certo modo quase que o único judeu que conhecíamos. Poderá dizer-se: Ab uno disce omnes. ["Do latim:. "Por um só julga a todos." Palavras da Eneida, de Virgílio. (N. do T)] (A satisfação de ter descoberto na memória, no momento adequado, uma citação tão oportuna bastou para iluminar com um sorriso orgulhoso a melancolia do grão-senhor traído.)

            Sentia eu grande vontade de saber o que se passara exatamente entre Swann e o príncipe, e de ver o primeiro, caso ainda não houvesse deixado a festa.

            - Eu lhe direi - falou-me a duquesa, a quem eu externara este meu desejo - que, quanto a mim, não faço muita questão de vê-lo, pois parece, segundo o que me disseram há pouco na casa da Sra. de Saint-Euverte, que ele desejaria, antes de morrer, que eu conhecesse a sua mulher e sua filha. Meu Deus, tenho uma pena infinita de que esteja doente, mas primeiro espero que não seja tão grave assim. Depois, afinal isso não é um motivo, porque de fato seria fácil demais. Bastava que um escritor sem talento dissesse: "Vote a meu favor na Academia, porque minha mulher vai morrer e eu quero dar-lhe esta última alegria." Não haveria mais salões se a gente fosse obrigada a conhecer todos os agonizantes. Meu cocheiro poderia alegar: "Minha filha está muito mal, faça com que eu seja recebido na casa da princesa de Parma." Adoro Charles e me dá

muita pena fazer-lhe uma recusa. Assim, é por isso que prefiro evitar que ele me peça. Espero de todo o meu coração que ele não esteja para morrer, como afirma, mas, se isso de fato se verificar, não seria para mim o momento oportuno de conhecer essas duas criaturas que me privaram do mais agradável de meus amigos durante quinze anos, e que ele me deixaria por nada, uma vez que eu nem sequer poderia aproveitar-me disso para vê-lo, pois estaria morto!

            Mas o Sr. de Bréauté não cessara de ruminar o desmentido que lhe fizera o coronel de Froberville.

            - Não duvido da exatidão de seu relato, meu caro amigo - disse ele -, mas a minha versão era de boa fonte. Foi o príncipe de La Tour d'Auvergne que me contou.

            - Espanta-me que um erudito como o senhor diga ainda príncipe de La Tour d'Auvergne -interrompeu o duque de Guermantes -; o senhor sabe muito bem que ele absolutamente não o é. Só existe um membro dessa família. É o duque de Bouillon, tio de Oriane.

            - O irmão da Sra. de Villeparisis? - perguntei, lembrando-me de que esta era uma Srta. de Bouillon.

            - Perfeitamente. Oriane, a duquesa de Lambresac, a está cumprimentando.

            De fato, via-se, por instantes, formar-se e passar como uma estrela cadente um débil sorriso destinado pela duquesa de Lambresac à alguma pessoa que ela havia reconhecido. Tal sorriso, no entanto, em vez de precisar-se numa afirmação ativa, numa linguagem muda; porém, mergulhava quase de imediato numa espécie de êxtase ideal que não distinguia nada, ao passo que a cabeça se inclinava num gesto de bênção beatífica, lembrando o que inclina para a multidão de comungantes prelado já meio senil. A Sra. de Lambresac não o era de modo algum, eu já conhecia esse tipo especial de distinção antiquada. Em Combray Paris, todas as amigas de minha avó tinham o hábito de cumprimentar, numa reunião mundana, com um aspecto tão seráfico feito se tivessem visto alguém de seu conhecimento na igreja, no momento da elevação ou durante um enterro, e lhe atirassem molemente um cumprimento que terminasse em reza. Ora, uma frase do Sr. de Guermantes ia completar a comparação que eu fazia.

            - Mas o senhor viu o duque de Bouillon - disse-me ele - Estava saindo da biblioteca quando o senhor ia entrando. Era um homem baixinho e de cabelos brancos. -

            Fora ele quem eu tomara por um pequeno-burguês de Combray, e cuja semelhança com a Sra. de Villeparisis eu descobria agora, pensando nele. A parecença das saudações dissipadas da duquesa de Lambresac com as das amigas de minha avó tinham começado a me interessar, ao mostrar-me que, nos meios estreitos e fechados, sejam da pequena burguesia ou da alta nobreza, subsistem às maneiras antigas, permitindo-nos, como a um arqueólogo, recuperar o que podia ser a educação e a parte da alma que ela reflete no tempo do visconde d'Arlincourt e de Loisa Puget. A perfeita conformidade de aparência de um pequeno-burguês de Combray de sua idade e o duque de Bouillon, lembrava-me melhor agora (o que já me impressionara tanto quando vira a avô materna de Saint-Loup, o duque de La Rochefoucauld, num estereótipo em que ele era exatamente igual ao meu tio-avô, tanto no rosto como no aspecto e nos modos de ser) que as diferenças sociais, e até individuais, fundem-se a distância na uniformidade de uma época. A verdade é que a semelhança dos trajes e também a reverberação, pela fisionomia ao espírito da época ocupam numa pessoa um lugar sensivelmente mais importante que o de sua casta, a qual só tem papel considerável no amor-próprio do interessado e na imaginação dos outros, de forma que não é preciso percorrer as galerias do Louvre para perceber que um grão-senhor do tempo de Luís Filipe é menos diferente de um burguês do tempo de Luís Filipe, que de um grão-senhor do tempo de Luís XIV.

            Neste momento, um músico bávaro de longos cabelos, que a princesa de Guermantes protegia, saudou Oriane. Esta respondeu com uma inclinação de cabeça, mas o duque, furioso por ver sua mulher cumprimentar alguém a quem ele não conhecia, que tinha modos singulares e que, tanto quanto o Sr. de Guermantes julgava saber, era de muito má reputação, virou-se para a mulher com ar terrível e interrogativo, como se dissesse:

            - ''Quem é esse ostrogodo?"

            A situação da pobre Sra. de Guermantes já era bastante complicada e, se o músico tivesse tido um pouco de piedade dessa esposa mártir, teria se afastado bem depressa. Mas, fosse por desejo de não permanecer debaixo da humilhação que lhe acabava de ser infligida em público, no meio dos mais velhos amigos do círculo do duque, cuja presença talvez tivesse justamente motivado um pouco a sua silenciosa inclinação, e para mostrar que era de direito, e não sem conhecê-la, que havia saudado a Sra. de Guermantes, fosse por obedecer à inspiração obscura e irresistível da gafe que o levara a aplicar a própria letra do protocolo num momento em que devia antes restringir-se ao espírito; o músico se aproximou ainda mais da Sra. de Guermantes e lhe disse:

            - Sra. duquesa, gostaria de solicitar a honra de ser apresentado ao duque. -

            A Sra. de Guermantes era bem infeliz.

            Mas enfim, por mais que fosse uma esposa traída, ainda assim era a duquesa de Guermantes e não podia parecer destituída do direito de apresentar ao marido as pessoas que conhecia.

            - Basin - disse ela; permita que lhe apresente o Sr. d'Herweck.

            - Não lhe pergunto se irá amanhã à casa da Sra. de Saint-Euverte - disse o coronel de Froberville à Sra. de Guermantes, para dissipar a penosa impressão produzida pela solicitação intempestiva do Sr. d'Herweck. - Paris inteira vai estar lá. -

            Entretanto, virando-se num só movimento e como de uma só peça para o músico indiscreto, o duque de Guermantes, enfrentando-o monumental, mudo, enfurecido, como Júpiter entronado, permaneceu imóvel desse jeito por alguns segundos, os olhos flamejando de cólera e de espanto, os cabelos frisados parecendo sair de uma cratera. Depois, como no transporte de um impulso que só a polidez solicitada lhe permitia cumprir, e após ter dado a impressão, por sua atitude de desafio, de atestar a toda a assistência que não conhecia o músico bávaro, cruzando às costas as duas mãos enluvadas de branco, inclinou-se para diante e fez ao músico uma saudação tão profunda, cheia de tanta estupefação e raiva, tão brusca, tão violenta, que o artista, tremendo, recuou, inclinando-se para não receber uma cabeçada no ventre.

            - Mas é que justamente não estarei em Paris - respondeu a duquesa ao coronel de Froberville. - Dir-lhe-ei (não deveria confessa-lo) que cheguei à minha idade sem conhecer os vitrais de Montfort-l'Amaury. É vergonhoso, mas é assim. Então, para reparar essa ignorância culpável, prometi ir vê-los amanhã. -

            O Sr. de Bréauté sorriu com finura. De fato, compreendera; se a duquesa pudera ficar até a sua idade sem conhecer os vitrais de Montfort-l'Amaury, essa visita artística não assumia de súbito o caráter urgente de uma intervenção cirúrgica e teria podido sem risco, depois adiada durante mais de vinte e cinco anos, sofrer um atraso de vinte e quatro horas. O projeto da duquesa era simplesmente o decreto baixado, à Sra. dos Guermantes, de que o salão Saint-Euverte decididamente não era casa verdadeiramente distinta, mas uma casa em que a gente era dada para depois se enfeitarem conosco na crônica social do Gaulois casa que distinguiria com um selo de suprema elegância àquelas (aquilo menos aquela, caso se tratasse de uma só) que ali não seriam visto o delicado prazer do Sr. de Bréauté, duplicado pelo prazer poético pelas pessoas da alta sociedade ao verem a Sra. de Guermantes; coisas que sua posição menos elevada não lhes permitia imitar, mas simples visão lhes provocava o sorriso do camponês ligado à sua terra; que vê homens mais livres e mais afortunados passarem acima de sua cabeça, esse prazer delicado não tinha qualquer relação com o encantamento dissimulado, porém desvairado, que logo experimentou o Sr Froberville. Os esforços que o Sr. de Froberville fazia para que não ouvissem seu riso tinham-no feito ficar vermelho como um galo e, apesar disso; entrecortando as palavras com soluços de hilaridade, que ele exclamou tom misericordioso:

            - Oh, pobre tia Saint-Euverte, ela vai ficar doente causa disso! Não, a infeliz não vai ter a sua duquesa. Que golpe! Essa é de matar! - acrescentou, torcendo-se de riso. E na sua embriaguez não deixou de socorrer-se dos pés e esfregar as mãos. Sorrindo com um só nos cantos da boca ao Sr. de Froberville, de quem apreciava as más intenções, mas nem por isso menos sentia um tédio mortal, a Sra. Guermantes acabou por se decidir a abandoná-lo.       

            - Escute, vou ser obrigada a me despedir do senhor - disse-lhe a duquesa, erguendo-se com ar de resignação melancólica, e como se representasse uma desgraça para ela. Ao encanto de seus olhos azuis, voz docemente musical fazia pensar na queixa poética de uma fada. - Ele quer que eu vá ficar um pouco com Marie. -

            Na realidade, estava farta de ouvir Froberville, o qual não cessava de invejá-la por ir a Montfort-l'Amaury, quando ela sabia muito bem que era a primeira vez que ele ouvia falar daqueles vitrais, e que, por outro lado, não perderia por nada no mundo uma reunião na casa da Sra. de Saint-Euverte.

            - Adeus, mal pude lhe falar assim mesmo na sociedade, a gente mal se vê, não diz as coisas que gostaria de dizer. Aliás, dá-se o mesmo em toda parte na vida. Esperemos após a morte que as coisas sejam mais bem arranjadas. Pelo menos, não haverá necessidade de estar sempre a decotar-se. E mesmo assim, quem sabe? Talvez a gente exiba os ossos e os vermes para as grandes recepções. Por que não? Olhem só a tia Rampillon; acham muita diferença entre isso e um esqueleto de vestido de baile? É verdade que ela tem todos os direitos, pois já completou no mínimo cem anos. Era já um dos monstros sagrados diante de quem eu me recusava a inclinar-me quando estreei na sociedade. Julgava-a morta há muito tempo, o que, aliás, seria a única explicação para o espetáculo que nos oferece. É impressionante e litúrgico. Puro Campo-Santo!-

            A duquesa deixara Froberville; ele se reaproximou:

            - Queria dizer-lhe uma última palavra. -

            Um tanto irritada:

            - O que deseja ainda? - disse-lhe ela com altivez.

            E ele, receando que no último instante ela desistisse de Montfort-l'Amaury:

            - Não tive coragem de lhe falar por causa da Sra. de Saint-Euverte, para não magoá-la, mas já que não tenciona ir até lá, posso lhe dizer que estou feliz pela senhora, pois há sarampo na casa dela!

            - Oh, meu Deus! - exclamou Oriane, que tinha medo de doenças.

            - Mas quanto a mim não quer dizer nada, pois eu já tive sarampo. Não se tem sarampo duas vezes. - São os médicos que dizem isto. Conheço pessoas que já tiveram até quatro vezes. Enfim, está avisada. -

            Quanto a ele, seria preciso que tivesse de fato esse sarampo fictício, e que ficasse preso ao leito para se resignar a faltar à festa Saint-Euverte, esperada há tantos meses. Teria o prazer de ali ver tantas elegâncias! O maior prazer de constatar certas coisas goradas e, principalmente, o de poder durante muito tempo vangloriar-se de ter convivido com as primeiras e, exagerando-as ou inventando-as, deplorar as segundas.

            Aproveitei que a duquesa se afastara a fim de também sair dali; fui para o fumoir, procurando informar-me acerca de Swann.

            - Não creia numa só palavra do que falou Babal - disse-me a Sra. de Guermantes. - Jamais

a pequena Molé teria ido se enfiar lá. Dizem isso para nos atrair. Não recebem ninguém e não são convidados a parte alguma. Ele mesmo o confessa: "Ficamos os dois sozinhos junto à lareira." Como ele diz sempre nós, não como o rei, mas em nome da mulher, não insisto. Mas estou bem informada - acrescentou a duquesa.

            Cruzamos por dois jovens cuja grande e dissemelhante beleza se originava de uma mesma mulher. Eram os dois filhos da Sra. de Surgis, a nova amante do duque de Guermantes. Resplandeciam das perfeições da mãe, mas cada um de perfeição diversa. Para um havia passado, ondulante num corpo viril, a régia imponência da Sra. de Surgis, e a mesma palidez ardente, arruivada e sacra afluía às faces marmóreas da mãe e desse filho; mas seu irmão havia recebido a fronte grega, o nariz perfeito, o pescoço de estátua, os olhos infinitos. Feita assim de presentes diversos que a deusa havia repartido, essa dupla beleza oferecia o prazer abstrato de pensar que sua causa estava fora deles; dir-se-ia os principais atributos da mãe se haviam encarnado em dois corpos aparentes: que um dos jovens tinha a estatura e a tez de sua mãe, e o seu olhar, como os seres divinos que eram apenas a força e a beleza de Júpiter ou de Minerva. Cheios de respeito pelo Sr. de Guermantes, diziam:

            - É um grande amigo de nossos pais. -

            O mais velho, no entanto, achou que era prudente não vir cumprimentar a duquesa, de quem conhecia a inimizade por sua mãe, sem talvez compreender-lhe o motivo. Ao passar por nós, desviou ligeiramente a cabeça. O mais novo, que imitava o irmão, porque, sendo estúpido e além disso míope, não podia ter opinião pessoal, inclinou a cabeça no mesmo ângulo e ambos foram para a sala de jogos, um atrás do outro, semelhantes a duas figuras alegóricas.

            No momento de chegar àquela sala, fui detido pela marquesa Citri, ainda bonita, mas quase soltando espuma pela boca, de raiva. De parentesco bastante nobre, procurara e conseguira fazer um belo casamento ao desposar o Sr. de Citri, cuja bisavó era uma Aumale-Lorraine. Mas ao mesmo tempo que experimentara essa satisfação, seu temperamento negativista lhe fizera criar horror às pessoas da alta sociedade, o que não excluía absolutamente a vida mundana. Não só, numa recepção, ela zombava de todo mundo; como também semelhante zombaria continha algo de tão violento que o progresso do seu riso não era bastante áspero e se transformava num assovio gutural:

            - Ah! - disse ela, apontando para a duquesa de Guermantes que acabara de a deixar e já estava um pouco distante. - O que me transtorna é que eu possa levar essa vida. -

            Seriam essas palavras de uma santa furibunda, que se espanta de que os gentios não cheguem por si mesmos à verdade ou de uma anarquista sequiosa de carnificina? Em todo caso, essa apóstrofe era tão pouco justificada quanto possível. Primeiro, a "vida que levava" a Sra. de Guermantes diferia muito pouco (salvo a indignação) da da Sra. Citri. Esta se mostrava estupefata

de ver a duquesa capaz deste sacrifício mortal: assistir a uma recepção de Marie-Gilbert. É necessário dizer que, no caso em apreço, a Sra. de Citri gostava muito da princesa, que na verdade era muito bondosa, e sabia que lhe dava muita satisfação em comparecer à sua festa. Assim, para estar presente, dispensara naquela noite uma bailarina que julgava ser genial e que devia iniciá-la nos mistérios da coreografia russa. Um outro motivo que tirava todo valor à raiva concentrada Sra. de Citri, ao ver Oriane cumprimentar este ou aquele convidado, é que a Sra. de Guermantes, embora em estado bem menos avançado, apresentava os mesmos sintomas do mal que assolava a Sra. de Citri. Viu-se que ela carregava os seus germes de nascença. Afinal, mais inteligente que a Sra. de Citri, a duquesa teria tido mais direitos do que a outra a esse niilismo (que era somente mundano), mas é verdade que certas qualidades antes ajudam a suportar os defeitos do próximo do que contribuem para que se sofra com eles; e um homem de grande talento habitualmente prestará menos atenção às asneiras de outrem do que o faria um tolo. Já descrevemos longamente o tipo de espírito da duquesa para provar que, se nada tinha em comum com uma alta inteligência, era ao menos dotada de espírito, um espírito apto a utilizar (como um tradutor) diferentes formas de sintaxe. Ora, nada disso parecia autorizar a Sra. de Citri a desprezar qualidades tão parecidas com as dela. Ela achava todo mundo idiota, mas, em sua conversação e nas cartas, mostrava-se ainda inferior às pessoas que tratava com tanto desdém. Além disso, sentia uma tal necessidade de destruir que, após ter mais ou menos renunciado à sociedade, os prazeres que então buscou, sofreram sucessivamente o seu terrível poder dissolvente. Depois de ter deixado as recepções para freqüentar sessões musicais, pôs-se a dizer:

            - Gostam de ouvir música? Ah, meu Deus, isso depende dos momentos. Mas como pode ser aborrecido! Ah, Beethoven, que barbeiro! - quanto a Wagner, e depois quanto a Franck, Debussy, ela nem se dava ao trabalho de dizer "que barbeiro", contentando-se em passar a mão pelo rosto como um barbeiro. Em breve, tudo se tornou aborrecido.

            - São tão aborrecidas as coisas bonitas! Ah, os quadros, são de a gente ficar louco! Como vocês tinham razão, é aborrecido escrever cartas! -

            Finalmente, foi a própria vida que ela nos declarou ser uma coisa enfadonha, sem que se soubesse com certeza de onde tirava o seu termo de comparação. Não sei se é por causa do que a duquesa de Guermantes, no primeiro dia em que jantei em sua casa, disse acerca dessa peça, mas a sala de jogos, ou fumoir, com seu pavimento ilustrado, suas trípodes, suas figuras de deuses e de animais que nos olhavam, as esfinges ao comprido dos braços das cadeiras, e sobretudo a imensa mesa de mármore ou mosaico esmaltado, coberta de signos simbólicos mais ou menos imitados da arte etrusca e egípcia, aquela sala de jogos teve sobre mim o efeito de uma

verdadeira câmara mágica. Ora, numa cadeira próxima da mesa refulgente e augúrio, o Sr. de Charlus, sem tocar em nenhuma carta, insensível ao que se passava a seu redor, incapaz de perceber que eu acabara de entrar, parecia exatamente um mágico que aplicasse todo o poder de sua vontade e de seu raciocínio em elaborar um horóscopo. Não apenas, como a uma Pítia sobre uma trípode, os olhos lhe saíam das órbitas, mas, para que nada viesse distraí-lo dos trabalhos que exigiam a cessação dos movimentos mais simples, ele (tal como um calculador que não quer fazer outra coisa enquanto não tiver resolvido o seu problema) depusera à sua frente o charuto ainda há pouco trazia na boca, não tendo agora liberdade de espírito para fumá-lo. Vendo as duas divindades agachadas que tinha em seus braços da poltrona colocada à sua frente, poder-se-ia acreditar que o barão buscava descobrir o enigma da Esfinge, não fosse antes o enigma de um jovem vivo Édipo, assentado precisamente naquela poltrona, onde se instalara para jogar. Ora, a figura à qual o Sr. de Charlus aplicava, e como tal contém todas as suas faculdades espirituais e que na verdade não era daquela como de hábito se estudam conforme a geometria, era a que lhe propunham as listras do rosto do jovem marquês de Surgis; parecia, tão profundamente o Sr. de Charlus estava absorto diante dela, alguma palavra cifrada, alguma artimanha, algum problema de álgebra de que procurava desvendar o enigma ou achar a fórmula. Diante dele, os signos sibilinos e as figuras inscritas na tábua da Lei pareciam o engrimanço que ia permitir ao velho feitio saber em que sentido se orientariam os destinos do jovem. De súbito percebeu que eu o observava. Ergueu a cabeça como se saísse de um devaneio e me sorriu, enrubescendo. Neste instante, o outro filho da Sra. Surgis reuniu-se ao que estava jogando, para olhar as suas cartas. Quando o Sr. de Charlus soube por mim que eram irmãos, seu rosto não pode simular a admiração que lhe inspirava uma família criadora de obras tão esplêndidas e diferentes. E o que ainda aumentaria o entusiasmo do barão seria saber que os dois filhos da Sra. de Surgis-le-Duc não eram apenas da mesma mãe, e sim do mesmo pai. Os filhos de Júpiter dissemelhantes, mas isto decorre de que ele desposou primeiro Métis, o destino era dar à luz aos filhos com juízo, depois Têmis, e a seguir Eurín Latona, e por último somente Juno. Mas de um só pai a Sra. de Surgis fizera nascer dois filhos que haviam recebido as suas belezas, porém belezas diferentes. Por fim, tive o prazer de que Swann entrasse naquela sala bem vasta, tanto que a princípio ele não me viu. Prazer mesclado de uma tristeza que os demais convidados talvez não sentissem, mas entre eles consistia naquela espécie de fascinação exercida pelas formas inesperadas e singulares de uma morte próxima, de uma morte que, diz o povo, já se tem no rosto. E foi com uma estupefação quase mal-educada onde entrava a curiosidade indiscreta, a crueldade, um regresso um pouco inquieto e preocupado sobre si mesmo (a um tempo mistura de suave mari-magno ["É doce, no vasto mar"] e de memento-guia pu/vis guia pu/vis es et in pu/verem reverteris ["Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó voltarás." (N, do T)]  teria dito Robert), que todos os olhos se fixaram naquele rosto cujas faces a doença cavara de tal modo, como uma lua minguante, que, a não ser de um certo ângulo, sem dúvida aquele sob o qual Swann se observava, rodavam como um cenário inconsistente ao qual uma ilusão de ótica pode somente conferir a aparência de espessura. Seja por causa da ausência dessas faces, que não mais estavam ali para diminuí-lo, seja que a arteriosclerose, que também é uma intoxicação, o avermelhasse como o teria feito a embriaguez ou o deformasse como o faria a morfina, o nariz de polichinelo de Swann, durante longo tempo incorporado a um rosto agradável, parecia agora enorme, intumescido, carmesim, antes o nariz de um velho hebreu que o de um curioso Valois. Além disso, nele talvez, naqueles últimos dias, a raça fazia reaparecer mais acentuadamente o tipo físico que a caracteriza, ao mesmo tempo que o sentimento de uma solidariedade moral com os outros judeus, solidariedade que Swann parecia haver esquecido a vida inteira, e que, enxertados uns sobre os outros, a doença mortal, o Caso Dreyfus, a propaganda anti-semita haviam despertado. Existem alguns judeus, muito finos no entanto e mundanos delicados, nos quais permanecem de reserva e nos bastidores, a fim de fazer sua entrada numa determinada hora de suas vidas, como numa peça, um grosseirão e um profeta. Swann chegara à idade do profeta. Certamente com sua figura de onde, sob a ação da doença, segmentos inteiros haviam desaparecido como num bloco de gelo que se derrete e do qual caem paredes inteiras, ele mudara muito. Mas eu não podia evitar de ficar impressionado ao ver o quanto mais mudara ele em relação a mim. Aquele homem excelente, culto, que eu estava bem longe de aborrecer-me ao encontrar, não conseguia eu compreender como pudera antigamente impregná-lo de um mistério tal que seu aparecimento nos Champs-Élysées me fazia bater o coração, a ponto de eu ter vergonha de me aproximar de sua pelerine forrada de seda, e que, à porta do apartamento em que morava uma tal criatura, eu não podia bater sem ser possuído de uma perturbação e de um tremor infinitos. Tudo isto havia desaparecido não só de sua residência, mas também de sua pessoa, e a idéia de conversar com ele podia me ser agradável ou não, mas não afetava em nada o meu sistema nervoso. E, além disso, como havia mudado desde aquela mesma hora; em suma, poucas horas mais cedo em que o encontrara no gabir duque de Guermantes! Teria tido realmente uma cena com o príncipe que o deixara transtornado? A suposição não era necessária. Os menores  traços exigidos a alguém que está muito enfermo depressa se tornam parecidos a um esgotamento excessivo. Por pouco que seja exposto, já fatigado, aonde for mesmo num sarau, sua fisionomia se decompõe e azulesce, como se dá uma pêra madura demais em menos de vinte e quatro horas, ou como prestes a talhar. Ademais, a cabeleira de Swann apresentava falhas alguns pontos e, como dizia a Sra. de Guermantes, precisava de um forno pois tinha o ar canforado, e mal canforado. Eu ia atravessar o fumoir e falar com Swann quando, infelizmente, uma mão se abateu sobre meu ombro:

            - Bom dia, meu caro, estou em Paris por quarenta e oito horas. Passei na tua casa e me disseram que estavas aqui, de forma que é a ti que a minha tia da honra da minha presença em sua festa. -

            Era Robert Saint-Loup. Disse-lhe, quanto achava bonita aquela casa.

            - Sim, faz o gênero do monumento histórico. Quanto a mim, acho-a aborrecida. Não fiquemos perto do Palamede, senão ele nos pega. Como a Sra. Molé (pois é ela quem dá saída atualmente) acaba de sair, ele se encontra inteiramente desamparado. Parece que era um verdadeiro espetáculo, ele não arredou um só instante, só a deixou quando a pôs no carro. Não lhe quero mal por isso; apenas acho engraçado que o meu conselho de família, que sempre se mostrou tão severo comigo, seja composto precisamente dos parentes que mais fizeram das suas, a começar pelo mais pandego de todos, o meu tio Charlus, que é meu suplente de tutor, que teve tantas mulheres como Dom Juan e que em sua idade não entrega os pontos. Cogitou-se por um momento de me nomearem um conselho judiciário. Acho que, quando todos esses velhos peraltas se reuniam para examinar o assunto, fazendo-me vir para me passar lição de moral e dizer que eu dava desgostos à minha mãe, não deviam poder olhar uns para os outros sem rir. Examinarás a composição do conselho: parece que escolheram precisamente aqueles que mais andaram levantando saias. -

            Pondo de lado o Sr. de Charlus, a cujo respeito o esperto do meu amigo já não me parecia justificado, mas por outros motivos, aliás deviam modificar-se mais tarde em meu espírito; Robert não tinha razão em julgar extraordinário que lições de sensatez fossem dadas a um jovem por parentes que haviam feito loucuras, ou as faziam ainda. Mesmo que o atavismo e as parecenças de família fossem as únicas causas em jogo, é inevitável que o tio que prega o sermão tenha mais ou menos os mesmos defeitos que o sobrinho a quem foi encarregado repreender. O tio, aliás, não põe nisso nenhuma hipocrisia, enganado está pela faculdade que têm os homens de acreditar, em cada nova circunstância, que se trata de "outra coisa", faculdade que lhes permite adotar erros artísticos, políticos, etc.; sem se aperceberem de que são os mesmos que tomaram por verdades, dez anos antes, a propósito de uma outra escola de pintura, que condenavam, de um outro caso político, que juravam merecer o seu ódio, de que se afastaram, e que esposam sem os reconhecer sob um novo disfarce. Além disso, mesmo que as faltas do tio sejam diferentes das do sobrinho, ainda assim a hereditariedade pode não menos constituir em certa medida a lei causal, pois o efeito nem sempre se parece à causa, como a cópia ao original, e até mesmo se as faltas do tio são piores, ele pode perfeitamente achá-las menos graves. Quando o Sr. de Charlus acabava de fazer advertências indignadas a Robert, que, aliás, naquela época, não conhecia os verdadeiros gostos do tio, e mesmo que fosse ainda naquela em que o barão afrontava os próprios gostos, poderia ele ter sido perfeitamente sincero ao considerar, do ponto de vista do homem mundano, que Robert era infinitamente mais culpável que ele. Pois Robert não chegara quase a ser banido de seu mundo, quando seu tio fora encarregado de fazê-lo recobrar a razão? Pois não faltara pouco para que fosse recusado no Jockey? Não era ele objeto de escárnio pelas loucas despesas que fazia por uma mulher da pior categoria, por suas amizades com pessoas, escritores, atores, judeus, dos quais nenhum pertencia a seu mundo, por suas opiniões que não se diferençavam das de um traidor, pela mágoa que causava a todos os seus? E em que podia se comparar essa vida escandalosa à do Sr. de Charlus, que soubera, até agora, não só conservar mais ainda engrandecer a sua posição de Guermantes, sendo na sociedade uma criatura absolutamente privilegiada, solicitada, adulada pelos grupos mais seletos, e que, casado com uma princesa de Bourbon, mulher eminente, soubera fazê-la feliz, e votara à sua memória um culto mais fervoroso, mais exato do que o que se tem de hábito entre os mundanos, e também fora tão bom marido como filho extremoso?

            - Mas estás bem certo de que o Sr. de Charlus possui tantas amantes? - indaguei, não evidentemente com a diabólica intenção de revelar a Robert o segredo que havia surpreendido, mas todavia irritado por vê-lo sustentar um engano com tanta certeza e suficiência. Ele se contentou em dar de ombros, como resposta, ao que julgava ingenuidade de minha parte.

            - Aliás, não o censuro; acho que tem toda a razão. -

            E principiou a esboçar para mim uma teoria que lhe teria dado horror em Balbec (onde não se limitava a invectivar os sedutores, parecendo-lhe a morte a única pena proporcional ao crime). É que então ainda era apaixonado e ciumento. Chegou ao ponto de me fazer o elogio dos bordéis.             - Só lá é que se encontra chinelo para o pé, o que chamamos no regimento o seu gabarito. - mostrava por esse tipo de locais o desagrado que manifestara em quando eu fizera alusão a eles, e, ouvindo-o agora, disse-lhe que fora quem me levara a um deles; mas Robert me respondeu que esse do Bloch devia ser "extremamente vulgar, o paraíso dos pobres".

            - Isso depende, afinal de contas; onde é que fica? -

            Mostrei-me confuso, lembrava-me que, de fato, era lá que se entregava por um luís aquela que Robert tanto amara.

            - Em todo caso, vou te fazer conhecer outros, melhores, aonde vão mulheres incríveis. -

            Ao ouvir-me expressar de que me levasse o mais cedo possível aos bordéis que conhecia e que de fato deviam ser bem superiores ao que me indicara Bloch, Robert relatou com sinceridade não poder fazê-lo dessa vez, visto que regressava no dia seguinte.

            - Ficará para a minha próxima temporada - disse. - Até há moças - acrescentou com ar misterioso. - Há uma senhorita creio que d'Orgeville, ainda vou te dizer com exatidão, que é filha de uma família das melhores; a mãe é mais ou menos La Croix-l'Évêque, são gente fina, e até um pouco parentes, salvo engano, da tia Oriane. Aliás, só de ver a garota sente-se que é filha de pessoas distintas (senti estender-se por momento, sobre a voz de Robert, a sombra do gênio de Guermantes, passou como uma nuvem, mas a grande altura e sem se deter). Parece mesmo um caso sensacional. Os pais estão sempre doentes e não podem ocupar-se dela. Que diabo! A menina procura não se aborrecer e eu conto contigo para distrair essa criança!

            - Ah, e quando votarás?

            - Não sei, não fazes questão absoluta de duquesas (o título de duquesa é, na aristocracia, o único a designar uma posição especialmente brilhante, como para o povo, o de princesa), há, em outro gênero, a principal camareira da Sra. Putbus.        

            Nesse momento, a Sra. de Surgis entrou na sala de jogos à procura dos filhos. Ao avistá-la, o Sr. de Charlus foi ao seu encontro com tal amabilidade que a marquesa ficou tanto mais agradavelmente surpreendida por esperar uma grande frieza da parte do barão, o qual o tempo todo se arvorara em protetor de Oriane e o único da família muitas vezes por demais complacente às exigências do duque por causa de sua doença e por ciúme quanto à duquesa a manter impiedosamente a distância as amantes do irmão. Assim, a Sra. de Surgis compreenderia muito bem as razões da atitude que temia da parte do barão, mas de modo algum suspeitou dos motivos da acolhida inteiramente oposta que dele acontecesse. Ele lhe falou com admiração do retrato que Jacquet fizera dela antigamente. Essa admiração chegou mesmo a exaltar-se a um entusiasmo que em parte era interessado para impedir que a marquesa se afastasse para "fisgá-la", como dizia Robert dos exércitos inimigos dos quais se deseja forçar manter engajados os efetivos em um determinado ponto, talvez fosse igualmente sincero. Pois, se todos se compraziam em admirar nos filhos o porte de rainha e os olhos da Sra. de Surgis, o barão podia experimentar um prazer inverso, mas igualmente vivo, de reencontrar esses encantos reunidos em feixe na mãe deles, como num retrato que por si mesmo não inspira desejos, mas alimenta, com a admiração estética que inspira, os desejos que revela. Estes vinham, retrospectivamente, dar um encanto voluptuoso ao próprio retrato de Jacquet e, naquele momento, o barão o teria adquirido de bom grado para nele estudar a genealogia fisiológica dos dois jovens Surgis.

            - Vês que eu não exagerava - disse Robert. - Repara um pouco na solicitude do tio para com a Sra. de Surgis. E até isso me espanta. Se Oriane soubesse, ficaria furiosa. Francamente, há bastantes mulheres para que ele se lance justamente sobre essa – acrescentou.

            Como todas as pessoas que não estão apaixonadas, imaginava que se escolhe a pessoa que se ama após mil deliberações e segundo qualidades e conveniências diversas. Aliás, completamente enganado a respeito do tio, que julgava dado às mulheres, Robert, em seu rancor, falava do Sr. de Charlus com excessiva leviandade. Não se é sempre impunemente o sobrinho de alguém. Muitas vezes é por seu intermédio que um hábito hereditário se transmite mais cedo ou mais tarde. Assim, podia-se fazer toda uma galeria de retratos que tivesse por título o da comédia alemã tio e sobrinho, onde se veria o tio zelando ciumento, embora involuntariamente, para que o sobrinho acabasse por se parecer com ele. Acrescentarei até que essa galeria ficaria incompleta se nela não fizessem figurar os tios que não têm qualquer parentesco real, sendo apenas tios da esposa do sobrinho. Os senhores de Charlus estão, de fato, de tal modo convencidos de serem os únicos bons esposos, e mais, os únicos de quem uma mulher jamais terá ciúmes, que em geral, por afeição à sobrinha, fazem-na casar também com um Charlus. O que enreda todo o fio das semelhanças. E ao afeto pela sobrinha se junta às vezes o afeto igualmente pelo seu noivo. Tais matrimônios não são raros, e muitas vezes são os que se chamam felizes.

            - De que falávamos? Ah, dessa alta, loura, a camareira da Sra. Putbus. Ela também gosta das mulheres, mas creio que isso pouco te importa; posso te dizer com franqueza, nunca vi uma criatura tão linda.

            - Imagino-a bastante Giorgione, não?

            - Loucamente Giorgione! Ah, se eu tivesse tempo de ficar em Paris, quantas coisas magníficas para fazer! E depois, passa-se a uma outra. Pois, quanto ao amor, estás vendo, é uma brincadeira, estou bem curado. -

            Percebi logo, com surpresa, que ele não estava menos curado da literatura, enquanto que era apenas sobre os ratos que me parecera desabusado no nosso último encontro ("É quase um canalha & Cia.", me dissera), o que se podia explicar por seu jurado rancor relativamente a certos amigos de Rachel. De fato, tinham-na vencido de que jamais teria talento se deixasse Robert, "homem de raça", assumir influência sobre ela, e, junto com ela, zombavam dele nos jantares que ele lhes oferecia. Mas, na realidade, o amor de Robert pelas letras nada tinha de profundo, não emanava de sua natureza verdadeira, não passava de um derivado de seu amor por Rachel e se fizera com esta, ao mesmo tempo que seu horror aos gozadores e seu respeito religioso pela virtude das mulheres.

            - Que ar estranho têm aqueles dois rapazes! Olhe essa curiosa paixão pelo jogo, marquesa. - disse o Sr. de Charlus, designando à Sra Surgis os seus dois filhos, como se ignorasse absolutamente quem endeusava. - Devem ser dois orientais, têm certos traços característicos, talvez são turcos - acrescentou, a um tempo para confirmar ainda sua fingida inocência, testemunhar uma vaga antipatia que, quando a seguir cedesse o posto à amabilidade, provaria que esta se endereçava unicamente à idade dos filhos da Sra. de Surgis, tendo principiado apenas no momento em que o barão soubera de quem se tratavam. Talvez também o Sr. de Charlus, de quem a insolência era um dom natural que ele sentia satisfação em exercer, aproveitasse o minuto em que dava amostras de ignorar quem eram os dois rapazes para se divertir à custa da Sra. de Surgis e se entregar às suas troças costumeiras, como Scapin aproveita o disfarce de seu amo para lhe dar umas belas pauladas.       

            - São meus filhos - disse a Sra. de Surgis, com um rubor que não mostraria se fosse mais esperta sem ser mais virtuosa. Teria então compreendido que o ar de indiferença absoluta, ou de zombaria, que o Sr. de Charlus manifestava a respeito de um rapaz não era mais sincero que sua admiração bem superficial que testemunhava a uma mulher, e não expressava o verdadeiro fundo de sua natureza. Aquela a quem poderia indefinidamente lançar as frases mais lisonjeiras sentiria ciúmes do olhar que o barão, enquanto lhe falava, ia lançando a um homem que em seguida fingia não ter notado. Pois esse olhar era um olhar diferente daqueles que o Sr. de Charlus reservava para as mulheres; um olhar especial, vindo das profundezas e que mesmo num sarau não podia deixar de se dirigir aos jovens, como os olhares de um costureiro que revelam sua profissão pelo modo imediato que eles têm de se dirigir às roupas.

            - Oh, como é curioso - respondeu o Sr. de Charlus não sem insolência, dando a impressão de obrigar seu pensamento a cumprir um longo trajeto para levá-lo a uma realidade tão diversa da que ele fingira ter suposto. - Mas eu não os conhecia - acrescentou, temendo ter ido longe demais na expressão de antipatia e, assim, ter paralisado na marquesa a intenção de lhe apresentar os filhos.

            - Permitiria que os apresentasse ao senhor? - indagou timidamente a Sra. de Surgis.

            - Ora, meu Deus! Como não? Mas olhe, eu talvez não seja uma pessoa tão divertida para rapazes tão jovens - entoou o Sr. de Charlus com o ar de hesitação e de frieza de alguém que deixa que lhe arranquem uma cortesia.

            - Arnulphe, Victurnien, venham depressa - chamou a Sra. de Surgis.

            Victurnien ergueu-se com decisão.

            Arnulphe, sem ver mais longe que o irmão, seguiu-o docilmente.

            - Eis agora a vez dos filhos - comentou Robert. - É de morrer de rir. Ele procura agradar até o cachorro da casa. E é tanto mais engraçado, visto que meu tio detesta os gigolôs. E olha como os ouve com seriedade. Se fosse eu quem os quisesse apresentar, logo ele me mandaria plantar batatas. Escuta, vou ter de cumprimentar Oriane. Tenho tão pouco tempo para ficar em Paris que quero tentar ver aqui todas as pessoas a quem teria de deixar cartões de visita, não fosse isso.

            - Como parecem ser bem-educados, como têm boas maneiras - ia dizendo o Sr. de Charlus.

            - O senhor acha? - respondia a Sra. de Surgis, encantada.

            Tendo Swann me avistado, aproximou-se de Saint-Loup e de mim. A alegria judaica era nele menos refinada que os gracejos de homem mundano.

            - Boa-noite - disse-nos.

            - Meu Deus, nós três juntos, vão pensar que é uma reunião do sindicato. Por pouco não vão procurar onde está a caixa! -

            Não percebera que o Sr. de Beaucerfeuil estava às suas costas e o escutava. O general involuntariamente franziu as sobrancelhas. Ouvíamos a voz do Sr. de Charlus bem perto de nós:

            - Como? O senhor se chama Victurnien, como no Gabinete das Antigüidades? - dizia o barão a fim de prolongar a conversa com os dois rapazes.

            - De Balzac, sim - respondeu o mais velho dos Surgis, que jamais lera uma linha sequer desse romancista, mas a quem seu professor havia assinalado, dias antes, a semelhança de seu prenome com o de d'Esgrignon. A Sra. de Surgis estava encantada por ver o filho brilhar e o Sr. de Charlus extasiado ante tanta ciência.

            - Parece que Loubet está conosco, isso de fonte seguríssima - disse a Saint-Loup, mas desta vez em voz mais baixa para não ser ouvido pelo general, Swann, para quem as relações republicanas de sua mulher se tornavam mais interessantes desde que o Caso Dreyfus era o centro de suas preocupações. - Digo-lhe isto porque sei que, no fundo, o senhor está do nosso lado.

            - Mas nem tanto assim; o senhor se engana completamente - respondeu Robert. - Trata-se de um caso mal conduzido, ao qual lamento muito ter me associado. Não tinha nada que me meter. Se pudesse começar, ficaria à parte. Sou soldado e antes de tudo pelo exército. Se ficar um momento com o Sr. Swann, estarei contigo daqui a pouco. Vou ver minha tia. -

            Mas percebi que era com a Srta. d'Ambresac que ele ia conversar e desgostei-me à idéia de que me houvesse mentido acerca de seu possível noivado. Tranqüilizei-me ao saber que Robert lhe fora apresentado a meia hora pela Sra. de Marsantes, que desejava esse casamento, pois os d'Ambresac eram muito ricos.       

            - Por fim - disse o Sr. de Charlus à Sra. de Surgis encontrei um rapaz instruído, que leu, que sabe quem é Balzac. E isso me causa muito mais satisfação por tê-lo conhecido justamente onde isso se faz mais raro, em casa de um de meus parentes, em casa de um dos nossos -acrescentou sublinhando essas palavras.

            Por mais que aparentassem achar todos, homens iguais, os Guermantes, nas grandes ocasiões em que se achavam com pessoas "bem nascidas", e sobretudo menos "bem nascidas", a desejavam e podiam lisonjear, não hesitavam em extrair as velhas lembranças de família.

            - Antigamente - continuou o barão - aristocratas significava os melhores, pela inteligência, pelo coração. Ora, eis o primeiro dentre nós que vejo conhecer quem seja Victurnien d'Esgrignon. Aliás, estou admirado quando digo o primeiro. Há também um Polignac e um Montesquiou. -acrescentou o Sr. de Charlus, que sabia que essa dupla assimilação devia inebriar a marquesa. - Além disso, os seus filhos têm a quem puxar; o avô materno deles possuía uma coleção célebre do século XVIII. Trar-lhe-ei a minha se me quiser dar o prazer de ir almoçar comigo um dia - disse ao jovem Victurnien. - Vou lhe mostrar uma curiosa edição do Gabinete das Antigüidades com correções da mão do próprio Balzac. Ficarei encantado em comparar os dois Victurnien.        

            Eu não podia decidir-me a deixar Swann. Ele atingira aquela grande fadiga em que o corpo de um enfermo não é mais que uma retorta onde se processam reações químicas. Seu rosto estava marcado por pequenos pontos azuis da Prússia, que davam a impressão de não pertencer ao mundo dos vivos, e desprendiam esse tipo de odor que, no colégio, depois das "experiências", torna tão desagradável a permanência numa sala de aula de "Ciências". Perguntei-lhe se não tivera uma longa conversa com o príncipe de Guermantes e se não queria me contar de que se tratara.

            - Sim - disse ele -, mas atenda primeiro ao Sr. de Charlus e à Sra. de Surgis. Eu esperarei aqui.

            Com efeito, o Sr. de Charlus propusera à Sra. de Surgis deixar, aquele aposento excessivamente abafado e irem sentar-se por um momento em outro, e, para tanto, não pedira aos dois filhos que acompanhasse a mãe, porém a mim. Desse modo, ele dava a impressão de não ligar aos dois jovens, após tê-los seduzido. Ademais, me fazia uma polidez fácil, pois a Sra. de Surgis-le-Duc era bem mal-vista. Infelizmente, apenas nos sentáramos num vão sem saída, ocorreu passar a Sra. de Saint-Euverte, alvo das zombarias do barão. Ela, talvez para dissimular, ou desdenhar abertamente os maus sentimentos que inspirava ao Sr. de Charlus, e sobretudo para mostrar que era íntima de uma dama que conversava tão familiarmente com ele, fez um cumprimento desdenhosamente amigável àquela beldade famosa, que lhe respondeu olhando com o rabo do olho para o Sr. de Charlus com um sorriso zombeteiro. Mas o vão era tão estreito que, quando a Sra. de Saint-Euverte quis, atrás de nós, continuar a pescar seus convidados para o dia seguinte, achou-se presa e não pôde se livrar facilmente, momento precioso que o Sr. de Charlus, desejoso de fazer brilhar sua verve insolente aos olhos da mãe dos dois jovens, tratou cuidadosamente de aproveitar. Uma pergunta idiota que lhe fiz sem malícia forneceu-lhe motivo para um triunfal completo de que a pobre da Sra. de Saint-Euverte, quase imobilizada atrás de nós, não podia perder uma só palavra.

            - Imagine que este jovem impertinente - disse ele, designando-me à Sra. de Surgis acaba de me perguntar, sem a menor preocupação que se deve ter para ocultar esse gênero de necessidade, se eu ia à casa da Sra. de Saint-Euverte, ou seja, o mesmo, conforme creio, se eu tinha cólicas. Em todo caso, tentaria me aliviar num local mais confortável do que na casa de uma pessoa que, se tenho boa memória, celebrava o centenário quando estreei na sociedade, isto é, não na casa dela. E, no entanto, quem mais do que ela seria interessante de ouvir? Quantas recordações históricas, vistas e vividas, do tempo do Primeiro Império e da Restauração, e também quantas histórias íntimas que certamente nada tinham de Saint ("santo"), mas deveriam ser muito vertes ("verdes"), a julgar pelas ágeis coxas da venerável saltadeira! O que me impediria de interrogá-la acerca dessas épocas apaixonantes é a sensibilidade de meu aparelho olfativo. A proximidade desta senhora é bastante. De repente digo para mim mesmo: "Oh, meu Deus! Rebentaram minha latrina!" e é simplesmente a marquesa que acaba de abrir a boca para fazer um convite. E compreendam que, se tivesse a infelicidade de ir à casa dela, a latrina se multiplicaria em um formidável tonel de dejetos. Entretanto, ela carrega um nome místico que sempre me faz pensar, com júbilo, embora ela tenha há muito passado pela data de seu jubileu, naquele verso estúpido, dito "deliqüescente": Ah, verde, como era verde a minha alma nesse dia... Mas preciso de uma verdura mais limpa. Dizem-me que a cavadora infatigável dá garden Parties. Quanto a mim, chamo a isso "convites para passear nos esgotos". Será que a senhora há de querer ir sujar-se lá? - perguntou ele à Surgis, que dessa vez sentiu-se constrangida. Pois, querendo fingir ao barão que lá não ia, e sabendo que daria dias de sua vida para não faltar a uma matinê Saint-Euverte, venceu a dificuldade pela média, isto é, incerteza. Tal incerteza assumiu uma forma tão imbecilmente diletante e mesquinhamente vulgar, que o Sr. de Charlus, não receando ofender a de Surgis, à qual todavia desejava agradar, pôs-se a rir para lhe mostrar "aquilo não colava".

            - Admiro sempre as pessoas que fazem planos - disse - muitas vezes desisto na última hora. Há um caso de vestido de verão, pode mudar as coisas. Agirei sob a inspiração do momento.

            De minha parte, estava indignado com o abominável discurso do Sr. de Charlus. Desejaria acumular de bens a doadora de garden-parties. Infelizmente na sociedade, como no mundo político, as vítimas são tão covardes que não se pode querer mal aos carrascos por muito tempo. A Sra. Saint-Euverte, que lograra retirar-se do vão cuja entrada impedíamos, roçou involuntariamente pelo barão de passagem e, por um reflexo de esnobismo que aniquilava nela toda a cólera, talvez até na esperança de tal tipo de abordagem que não devia ser a primeira tentativa:

            - Oh, perdão - senhor de Charlus! exclamou -, espero não o ter machucado como se se ajoelhasse diante de seu mestre.

            Este só se dignou a responder com um largo sorriso irônico e concedeu apenas um "boa-noite" que, como se só se desse conta da presença da marquesa quando ela o saudara primeiro, era um insulto a mais. Enfim, com um servilismo supremo, do qual sofria por ela, a Sra. de Saint-Euverte se aproximou de mim e, tomando-me à parte, disse-me ao ouvido:

            - Mas, que foi que eu fiz ao Sr. de Charlus? Dizem que não me acha bastante chique para ele - ajuntou, rindo à bandeiras despregadas.

            Permaneci sério. Por um lado, achava estúpido que ela parecesse acreditar, ou quisesse fazer crer, que ninguém de fato era tão chique feito ela. Por outro lado, as pessoas que riem com tanta força do que falaram, e que não é engraçado, tomando a seu cargo a hilaridade, dispensara- nos desse modo de participar dela.

            - Outros asseguram que ele está ofendido porque não o tenho convidado. Mas ele não me encoraja muito. Dá impressão de estar amuado comigo (a expressão pareceu-me fraca). Procure sabê-lo e venha dizer se vai amanhã. E, se ele sentir remorsos e quiser acompanhá-lo, traga-o. Para todo pecado, misericórdia. Isso até me daria bastante prazer, por causa da Sto. de Surgis, a quem o fato aborreceria. Dou-lhe carta branca. O senhor tem faro mais fino para essas coisas, e eu não quero dar a impressão de mendigar convidados. Em todo caso, conto absolutamente com o senhor.

            Imaginei que Swann devia cansar-se de me aguardar. Além disso, não queria voltar muito tarde para casa, devido a Albertine, e, despedindo-me da Sra. de Surgis e do Sr. de Charlus, fui ao encontro do meu doente na sala de jogos. Perguntei-lhe se o que dissera ao príncipe, na conversa que tiveram no jardim, fora exatamente o que o Sr. de Bréauté (não lhe disse o nome) nos contara e se relacionava com uma pecinha de Bergotte. Ele desatou a rir:

            - Não há nisso uma só palavra de verdade, uma única sequer; foi tudo inteiramente inventado e teria sido completamente idiota. Na verdade, é inaudita essa geração espontânea do erro. Não pergunto quem lhe disse isto, mas seria de fato curioso, num quadro tão delimitado quanto este, remontar de pessoa em pessoa para saber como tal coisa se formou. De resto, como pode interessar às outras pessoas o que o príncipe me falou? As pessoas são bastante curiosas. Por mim, nunca fui curioso, a não ser quando estive apaixonado e quando fui ciumento. E pelo muito que me adiantou! O senhor é ciumento? -

            Disse a Swann que jamais sentira ciúmes, que nem mesmo sabia de que se tratava.

            - Pois bem, felicito-o. Quando se tem um pouquinho de ciúme, isso não chega a ser desagradável sob dois pontos de vista. De um lado, porque permite às pessoas que não são curiosas interessarem-se pela vida das outras pessoas, ou pelo menos de uma outra. E depois, porque faz muito bem sentir a doçura de possuir, de subir no carro com uma mulher, de não deixá-la ir sozinha. Isto, porém, ocorre apenas nos primeiros tempos do mal ou quando a cura está quase completa. No intervalo, é o mais atroz dos suplícios. Aliás, mesmo as duas doçuras de que lhe falo, devo lhe dizer que pouco as conheci: a primeira, por culpa da minha natureza, que não é capaz de reflexões muito prolongadas; a segunda, por causa das circunstâncias, por culpa da minha mulher, quero dizer, das mulheres de quem estive enciumado. Mas não importa. Mesmo quando a gente não liga mais às coisas, não é absolutamente indiferente que nos tenham importado, porque era sempre por motivos que aos outros escapavam. Percebemos que está em nós apenas a lembrança desses sentimentos; em nós é que é preciso entrar para contemplá-la. Não caçoe muito desse jargão idealista, mas o que quero dizer é que tenho amado muito a vida e amado muito as artes. Pois bem, agora que estou um tanto cansado para viver com os outros, esses antigos sentimentos tão pessoais, tão meus, parecem-me, o que é a mania de todos os colecionadores, muito preciosos. Abro o coração para mim mesmo como uma espécie de vitrina, contemplo um a um tantos amores que os outros não terão conhecido. E dessa coleção, à qual estou agora ainda mais ligado do que às outras, digo-me, um tanto como Mazarino quanto a seus livros, mas, enfim, sem qualquer angústia, que será bem aborrecido deixar tudo isto. Mas vamos à conversa com o príncipe, não a contaria senão a uma só pessoa e essa pessoa vai ser o senhor. - Eu não podia ouvi-lo sem ser impelido pela conversa que o Sr. de Charlus, que voltara à sala de jogos, proferia indefinidamente bem perto de nós.

            - E o senhor também lê? O que faz? - perguntou ele ao conde Arnulphe, que nem sequer conhecia o livro de Balzac. Mas sua miopia, como ele visse tudo muito diminuído, dava o aspecto de quem enxerga de muito longe, de modo que, rara poesias deus grego escultural, em suas pupilas se inscreviam como que distintas estrelas misteriosas.

            - E se fôssemos dar alguns passos pelo jardim, senhor - disse a Swann, enquanto o conde Arnulphe, com voz vacilante que parecia indiferente que seu desenvolvimento, ao menos mental, não era completo, respondeu ao Sr. de Charlus com uma precisão ingênua e complacente:

            - Oh, no meu caso é antes o golfe, o tênis, o balão, a corrida a pé, e sobretudo o jóquei.

            Da mesma forma Minerva, tendo-se subdividido, deixara de ser, numa determinada cidade, a deusa da Sabedoria e encarnara uma parte de si mesma em uma divindade puramente esportiva, hípica, "Athenas Hippia". Também ia a Saint-Moritz para esquiar, pois Palas Tritogenéia freqüentava altos cimos e capturava os cavaleiros.

            - Ah! - respondeu o Sr. de Charlus; com o sorriso transcendente do intelectual que nem se dá ao trabalho de dissimular sua zombaria, mas que, além disso, sente-se tão superior aos outros e despreza de tal modo a inteligência dos que são menos tolos, mal os diferencia dos que o são mais, uma vez que lhe possam ser agradáveis de outra maneira. Falando a Arnulphe, o Sr. de Charlus achava que lhe conferia por isso mesmo uma superioridade que todos deveriam invejar e reconhecer.

            - Não - respondeu-me Swann; -estou cansado demais para caminhar; é preferível que nos sentemos em algum canto, já não agüento ficar de pé. -

            Era verdade; e, no entanto, começar a conversar já lhe deu uma certa vivacidade. É que na fadiga mais real existe, sobretudo entre às pessoas nervosas, uma parcela que depende da atenção e que só se conserva através da memória. Ficamos subitamente cansados logo que começamos conversar, e para nos refazermos da fadiga basta esquecê-la. De certo Swann não era exatamente um desses fatigados exaustos que, chegam abatidos, desfeitos, não se agüentando mais nas pernas, reanimam-se numa conversa como uma flor na água e podem, durante horas, esgotar nas próprias palavras forças que infelizmente não transmitem aos que os escutam e que parecem cada vez mais abatidos à medida que o conversador se sente mais recuperado. Mas Swann pertencia àquela forte raça judia, de energia vital e resistência à morte parecem participar os próprios indivíduo atacados cada qual de doenças particulares, como ela própria o é a perseguição, eles se debatem indefinidamente em agonias terríveis que podem prolongar-se além de todo limite verossímil, quando já não se vê mais que uma barba de profeta encimada por um nariz imenso que se dilata para haurir os últimos fôlegos, antes da hora das orações rituais e quando principia o desfile pontual dos parentes afastados que avançam com movimentos mecânicos, como num friso assírio.

            Fomos nos sentar, mas antes de se afastar do grupo que o Sr. de Charlus formava com os dois jovens e a mãe destes, Swann não pôde evitar lançar, sobre o corpete da Sra. de Surgis, longos olhares de conhecedor, dilatados e concupiscentes. Colocou o monóculo para observar melhor e, sempre falando comigo, de vez em quando deixava cair um olhar na direção daquela dama.

            - Eis, palavra por palavra, a minha conversa com o príncipe - disse-me logo que nos sentamos; e, se está lembrado do que lhe disse há pouco, verá por que o escolhi para confidente. E depois, também, por uma outra razão que um dia o senhor saberá. "- Meu caro Swann disse-me

o príncipe de Guermantes -, o senhor há de me desculpar se tenho dado a impressão de evitá-lo desde algum tempo. (Eu absolutamente não percebera nada, pois andava doente e fugia de todo o mundo.) Em primeiro lugar, tinha ouvido dizer, e bem previa, que o senhor tinha opiniões inteiramente opostas às minhas acerca do caso desgraçado que divide o nosso país. Ora, ser-me-ia muito penoso que as professasse diante de mim. Meu nervosismo era tão grande que a princesa, tendo ouvido há dois anos, o seu cunhado, o grão-duque de Hesse, dizer que Dreyfus era inocente, não se contentara em rebater a afirmativa com vivacidade, mas também não a repetira para mim, com receio de me contrariar. Quase na mesma ocasião, o príncipe real da Suécia viera a Paris e, tendo provavelmente ouvido dizer que a imperatriz Eugênia era dreyfusista, confundira-a com a princesa (estranha confusão, há de convir, entre uma mulher da estirpe da minha esposa e uma espanhola, muito menos bem-nascida do que se diz, e casada com um simples Bonaparte) e lhe havia dito: 'Princesa, estou duplamente feliz em vê-la, pois sei que professa as mesmas idéias que eu sobre o Caso Dreyfus, o que não me espanta, visto que Vossa Alteza é bávara.' O que acarretara ao príncipe esta resposta: 'Monsenhor, não passo de uma princesa francesa, e penso como todos os meus compatriotas.' Ora, meu caro Swann, há cerca de um ano e meio, uma conversa que tive com o general de Beauserfeuil fez-me suspeitar de que, não propriamente um erro, porém graves irregularidades haviam sido cometidas no desenrolar do processo."

            Fomos interrompidos (Swann fazia questão de que não lhe ouvissem a narrativa) pela voz do Sr. de Charlus que (aliás, sem se incomodar conosco) passava reconduzindo a Sra. de Surgis e se deteve para retê-la ainda mais, fosse por causa dos filhos dela, ou por esse desejo próprio dos Guermantes de não ver acabar o minuto atual, desejo que os agulhava numa espécie de ansiosa inércia. Swann revelou-me a problema um pouco depois, algo que para mim tirou ao nome de Surgis-le-Duca poesia que eu lhe atribuíra. A marquesa de Surgis-le-Duc tinha uma ação mundana muito maior, alianças muito mais belas que seu primo, conde de Surgis, que, pobre, vivia em suas terras. Mas a palavra findava o título, "le Duc", de modo algum tinha a origem que eu lhe emprestava e que me fizera aproximá-lo, na minha imaginação, de Bourg-l'A Bois-le-Roi, etc.. Simplesmente um conde de Surgis desposara, durante a Restauração, a filha de um industrial riquíssimo, Sr. Leduc, ou Le Duc, próprio filho de um fabricante de produtos químicos, o homem mais rico do seu tempo, e que era para da França. O rei Carlos X havia criado para si e o filho nascido desse casamento o marquesado de Surgis-le-Duc, pois o marquesado de Surgis já existia na família. O acréscimo do nome burguês impedira esse ramo de se aliar, por causa da enorme fortuna, às primeiras famílias do reino. E a marquesa atual de Surgis-le-Duc, de grande nascimento, poderia ter uma situação de primeira ordem. Um demônio de perversidade a impelira, desdenhando sua situação já feita, a abandonar o lar conjugal, a viver da maneira mais escandalosa. Depois, o mundo desdenhava por ela há vinte anos, quando estava a seus pés, lhe faltara cruelmente, quando fazia dez anos que ninguém mais a saudava, a não ser as amigas fiéis, e ela empreendera reconquistar laboriosamente, peça por peça o que possuía ao nascer (reviravoltas que não são raras).

            Quanto aos grãos-senhores seus parentes, por ela outrora renegados e que por sua vez a tinham renegado, desculpava a marquesa a satisfação que teria em trazê-los para si própria com as recordações da infância que poderia evocar com eles. E, dizendo isto para dissimular o seu esnobismo, mentia talvez menos do que julgava. - Basin, é toda a minha juventude! dizia ela no dia em que o duque lhe voltara. E, de fato, era pouco verdadeiro. Porém, ela calculara mal ao escolhê-lo como amante. Todas as amigas da duquesa de Guermantes iam tomar partido por ela assim, a Sra. de Surgis desceria pela segunda vez àquele despenhadeiro que tanto lhe custara subir.

            - Pois bem! - estava lhe dizendo o Sr. de Charlus que fazia questão de prolongar a conversa. - Deponha as minhas homenagens ao pé do belo retrato. Como vai ele? Que é feito dele?

            - Mas - respondeu a Sra. de Surgis - o senhor sabe que já não o tenho: meu marido não ficou satisfeito com ele.

            - Não ficou satisfeito? Uma das obras-primas nossa época, igual à duquesa de Châteauroux, de Nattier, e que aliás pretendia fixar uma não menos majestosa e assassina deusa! Oh, a pequena gola azul! É de se dizer que Vermeer nunca pintou um tecido com tanta maestria, não o digamos muito alto para que Swann não nos ataque com a intenção de vingar o seu pintor predileto, o mestre de Delft. -

            A marquesa, virando-se, dirigiu um sorriso e estendeu a mão a Swann, que se erguera para cumprimentá-la. Mas quase sem dissimulação, ou porque uma vida já adiantada lhe tirasse a vontade moral daquilo, pela indiferença à opinião, ou o vigor físico de o fazer, pela excitação do desejo e o enfraquecimento da energia que ajuda a ocultá-lo, logo que Swann, ao apertar a mão da marquesa, viu tão de perto e por cima o seu colo, mergulhou um olhar atento, sério, absorto, quase preocupado, nas profundezas do corpinho, e suas narinas, que o perfume da mulher inebriava, palpitaram como uma borboleta prestes a pousar na flor entrevista. Bruscamente, ele se subtraiu à vertigem que sentira, e a própria Sra. de Surgis, embora constrangida, reprimiu um hausto profundo, de tal modo o desejo é contagioso às vezes.

            - O pintor ficou melindrado - disse ela ao Sr. de Charlus e o levou de volta. Disseram que estava agora na casa de Diane de Saint-Euverte.

            - Jamais acreditarei - replicou o barão - que uma obra-prima tenha tão mau gosto.

            - Ele lhe fala do seu retrato. Quanto a mim, eu lhe falaria tão bem como Charlus desse retrato - disse-me Swann, afetando um tom arrastado e vulgar e seguindo com os olhos o par que se afastava. - E isto certamente me daria muito mais prazer do que a Charlus - acrescentou. Perguntei-lhe se o que se dizia sobre o Sr. de Charlus era verdade, no que, aliás, mentia duplamente, pois, se não sabia que alguma vez houvessem falado naquilo, em compensação sabia muito bem, desde pouco tempo, que aquilo a que me referia era verdadeiro. Swann deu de ombros como se eu tivesse proferido um absurdo.

            - É um amigo delicioso. Mas preciso acrescentar que é puramente platônico? Ele é mais sentimental que os outros, eis tudo; por outro lado, como nunca vai muito longe com as mulheres, isto deu uma espécie de crédito aos rumores insensatos a que o senhor quer se referir. Talvez Charlus ame muito os seus amigos, mas fique certo de que isso, aliás, nunca se passou a não ser na sua cabeça e no seu coração. Enfim, talvez tenhamos dois segundos de tranqüilidade. Portanto, - o príncipe de Guermantes continuou: "Confessar-lhe-ei que semelhante idéia de uma possível ilegalidade na condução do processo era-me extremamente penosa devido ao culto que o senhor sabe que tenho pelo exército; voltei a falar no assunto com o general e, infelizmente, não tive mais qualquer dúvida a respeito. Direi francamente que, em tudo isso, a idéia de que um inocente poderia sofrer a mais infamante das penas nem sequer me ocorrera. Porém, atormentado pela idéia da ilegalidade, pus-me a estudar o que não quisera ler, e eis que as dúvidas, desta vez não só sobre a ilegalidade, mas também sobre a inocência, começaram a assediar-me. Julguei preferível não nisso à princesa. Deus sabe como ela se tornou tão francesa quanto. Apesar de tudo, desde o dia em que a desposei, tive tanta coqueteria a mostrar-lhe a nossa França em toda a sua beleza, e aquilo que, para ela possui de mais esplêndido, o seu exército, que me era cruel de dar-lhe parte das minhas suspeitas que, na verdade, só atingiam aos oficiais. Mas pertenço a uma família de militares; não queria crer que alguns oficiais pudessem estar enganados. Voltei a falar do assunto Beauserfeuil; ele me confessou que haviam sido urdidas maquinações culposas, que o borderô talvez não fosse de Dreyfus, mas que existia evidências de sua culpabilidade. Era o documento Henry. E, alguns meses depois, sabia-se que se tratava de um documento falso. Desde então escondido da princesa, pus-me a ler todos os dias Le Siecle, Vaurme; em breve não tive mais dúvida alguma, já não podia dormir. Externei meus sofrimentos morais ao nosso amigo, o abade Poiré, no qual encontrei espanto a mesma convicção, e por meio dele mandei rezar missas em intenção de Dreyfus, de sua desgraçada mulher e de seus filhos. Nesse mesmo tempo, uma manhã em que ia ao quarto da princesa, vi a sua camareira esconder alguma coisa na mão. Perguntei-lhe rindo o que era, mas ela enrubesceu e não quis dizer-me de que se tratava. Eu tinha a maior confiança, mas esse incidente me deixou muito perturbado (e, sem dúvida, também a princesa, a quem sua camareira o narrou decerto), pois minha querida mal me falou durante o almoço que se seguiu. Naquele dia, perguntei ao abade Poiré se poderia rezar no dia seguinte a minha missa por Dreyfus. Bom! - exclamou Swann em voz baixa, interrompendo-se. Ergui a cabeça e vi o duque de Guermantes dirigindo-se a nós.

            - Perdão por incomodá-los, meus filhos. Meu rapaz - disse ele para mim -, sou delegado da parte de Oriane. Marie e Gilbert lhe pediram que fique para cear com eles na companhia de apenas cinco ou seis pessoas: a princesa de Hesse, a Sra. de Ligne, a Sra. de Tarente, a Sra. de Chevreuse e a duquesa d'Arenbe. Infelizmente não podemos ficar, pois temos de ir a uma espécie de reunião dançante. -

            Eu o escutava, porém cada vez que temos algo a fazer no momento determinado, encarregamos, dentro de nós próprios, um certo personagem habituado a esse tipo de ocupação, de vigiar a hora e de advertir a tempo. Esse servidor interno me lembrou, como eu lhe havia, dido horas antes, que Albertine, naquele instante bem longe de meu pensamento, deveria ir à minha casa logo após o teatro. Assim, recusei convite. Não é que não me agradasse estar na casa da princesa de Guermantes. Desse modo, os homens podem desfrutar de diversos gêneros de prazer verdadeiro é aquele pelo qual abandonam o outro. Mas esse último, se é aparente, ou apenas só aparente, pode iludir quanto ao primeiro, sossega ou despista os ciumentos, faz extraviar-se o julgamento da sociedade. E no entanto, bastaria, para que o sacrificássemos a outro, um pouco de felicidade ou de sofrimento. Às vezes, uma terceira ordem de prazeres mais graves, porém mais essenciais, ainda não existe para nós, e sua virtualidade só se expressa despertando mágoas e desânimos. Entretanto, é a esses prazeres que nos entregamos mais tarde. Para dar um exemplo inteiramente secundário, um militar em época de paz sacrificará a vida mundana ao amor, mas, declarada a guerra (e mesmo sem que seja necessário fazer intervir a idéia de um dever patriótico), o amor à paixão de se bater, mais forte que o amor. Por mais que Swann dissesse que se sentia feliz em me contar sua história, eu bem percebia que sua conversação comigo, devido ao adiantado da hora, e porque ele estava demasiado enfermo, era um daqueles cansaços dos quais aqueles que sabem que se matam nas vigílias ou nos excessos têm, ao voltar para casa, um remorso exasperado, semelhante ao que têm, da louca despesa que mais uma vez acabam de fazer, os pródigos, que entretanto não conseguirão evitar, no dia seguinte, jogar dinheiro pela janela. A partir de um certo grau de enfraquecimento, seja causado pela doença, seja pela idade, todo prazer roubado ao sono, fora dos hábitos, todo desregramento, torna-se tedioso. O conversador continua a falar por polidez, por excitação, porém sabe que já passou a hora em que ainda poderia adormecer, e sabe também das censuras que dirigirá a si mesmo durante a insônia e o cansaço que irão se seguir. Aliás, até mesmo o prazer momentâneo já se acabou; o corpo e o espírito estão por demais destituídos de suas forças para acolher agradavelmente o que parece uma diversão a seu interlocutor. Assemelham-se a um apartamento num dia de partida ou de mudança, onde são verdadeiras maçadas as visitas que a gente recebe sentado nas malas, os olhos fixos no relógio da sala.

            - Enfim sós - disse-me ele; nem sei mais onde estava. Disse-lhe, não é mesmo?, que o príncipe havia perguntado ao abade Poiré se este podia mandar rezar a sua missa por Dreyfus. "Não", me respondeu o abade (digo-lhe - disse Swann, - porque é o príncipe que me fala, compreende?), "pois tenho uma outra missa que, esta manhã, encarregaram-me igualmente por ele. - Como disse-lhe existe outro católico além de mim que esteja convencido da sua inocência? - Pode-se crer. - Mas a convicção desse outro partidário deve ser menos antiga do que a minha. -No entanto, esse partidário já me mandava rezar missas quando o senhor ainda julgava que Dreyfus era culpado. - Ah, bem vejo que não é alguém do nosso meio. - Pelo contrário! - Na verdade, há dreyfusistas entre nós? O senhor me intriga; se o conheço, gostaria de me lançar sobre esse pássaro raro. - O senhor o conhece, ele se chama - A princesa de Guermantes. Enquanto eu receava dar suas opiniões nacionalistas e a fé francesa da minha querida ela tivera medo de alarmar minhas opiniões religiosas, meus sentimentos patrióticos. Mas, por seu lado, pensava como eu, embora desde muito tempo antes de mim. E aquilo que sua camareira ocultava ao entrar no quarto, o que ela ia lhe comprar todas as manhãs, era L'Aurore. Meu Swann, desde esse momento pensei no prazer que lhe daria ao dizer todas as minhas idéias eram, a tal respeito, aparentadas às suas; perdão não o ter dito antes. Se se recorda do silêncio que guardei diante da cena, não se espantará que ter idéias iguais às suas me haveria então, respeitado ainda mais de sua pessoa do que pensar diferentemente. Pois tais assuntos era-me infinitamente penoso de abordar. Quanto mais creio qual erro, que até mesmo crimes foram cometidos, mais sangro no meu afinco pelo exército. Teria imaginado que opiniões semelhantes às minhas levariam longe de lhe inspirar a mesma dor, quando me disseram outro dia quanto o senhor reprovava com energia as injúrias ao exército e que os dreyfusistas aceitassem aliar-se aos insultadores. Isto decidiu-me; admitir que me foi cruel confessar o que penso acerca de certos oficiais, feliz ou poucos numerosos, mas é um alívio não precisar mais manter-me longe do senhor e, principalmente, que o senhor tenha compreendido que, se permiti alimentar outros sentimentos, é que não duvidava quanto ao bem fundamentado da sentença. Desde que tive uma dúvida, só podia desejar uma coisa: a reparação do erro." Confesso-lhe que estas palavras do príncipe de Guermantes me deixaram profundamente comovido. Se o conhecesse como eu, se soubesse de onde ele teve de vir para chegar a esse ponto sentiria admiração por ele, e ele a merece. Além disso, sua opinião me espanta, é uma natureza tão direita! -

            Swann esquecia que, de falara-me justo o contrário, que as opiniões naquele Caso Dreyfus eram comandadas pelo atavismo. Quando muito, fizera exceção para a inteligência, porque em Saint-Loup ela chegara a vencer o atavismo e a fazer ditar um dreyfusista. Ora, acabava de ver que essa vitória fora de curta duração e que Saint-Loup passara para o campo adversário. Portanto, essa retidão de coração que ele dava agora o papel atribuído há pouco à inteligência. Na realidade, descobrimos sempre tarde demais que nossos adversários tinham um motivo para pertencer ao partido em que estão, e que depende do que possa haver de justo nesse partido, e que os que pensam como nós o fazem porque isto os obrigou a inteligência, caso sua natureza moral for muito baixa para ser invocada, ou sua retidão, se for tão frágil a sua agudeza.

            Swann agora julgava indistintamente inteligentes aqueles que eram de sua opinião, seu velho amigo o príncipe de Guermantes e meu colega Bloch, a quem mantivera afastado até então, e que ele convidava para almoçar. Swann interessou muito a Bloch ao lhe dizer que o príncipe de Guermantes era dreyfusista.

            - Precisamos pedir a ele que assine as nossas listas em defesa de Picquart; com um nome como o seu, o efeito seria formidável. -

            Porém Swann, aliando à sua ardente convicção de israelita a moderação diplomática do mundano, de que sobre modo adquirira os hábitos para poder tão tardiamente desfazer-se deles, recusou-se a autorizar Bloch a enviar ao príncipe, mesmo como que espontaneamente, uma circular para que fosse assinada.

            - Ele não pode fazer isso, não convém pedir-lhe o impossível - repetia Swann. - Eis um homem encantador que percorreu milhares de léguas para chegar até nós. Ele pode nos ser muito útil. Se assinasse a sua lista, ele simplesmente se comprometeria junto aos seus, seria repreendido por nossa causa, talvez se arrependesse de suas confidências e não faria mais nenhuma. -

            Mais ainda, Swann recusou-se a assinar o próprio nome. Achava-o hebraico demais para não causar um mau efeito. E depois, se aprovava tudo quanto dissesse respeito à revisão do processo, não queria de modo algum ser envolvido na campanha antimilitarista. Usava, o que jamais fizera até então, a condecoração que ganhara, como todo jovem mobilizado em 1870, e acrescentou ao seu testamento um codicilo para solicitar que, contrariamente às disposições precedentes, fossem dadas honras militares ao seu grau de cavaleiro da Legião de Honra. O que reuniu em torno da igreja de Combray um verdadeiro batalhão desses cavaleiros, sobre cujo futuro chorava Françoise antigamente, quando sentia a perspectiva de uma guerra. Numa palavra, Swann recusou-se a assinar a circular, de modo que, se passava por um dreyfusista radical aos olhos de muitos, meu colega considerou-o militarista e frouxo, infectado de nacionalismo.

            Swann deixou-me sem me apertar a mão, para não ser obrigado a fazer despedidas naquela sala onde possuía tantos amigos, porém me disse:

            - O senhor deveria ir ver sua amiga Gilberte. Ela cresceu de fato e mudou muito; o senhor não a reconheceria. Ela ficaria tão feliz! -

            Eu já não amava Gilberte. Para mim, ela era como uma morta que se chorou por muito tempo; depois veio o esquecimento e, se ela ressuscitasse, não mais poderia inserir-se numa vida que já não era feita para ela. Não tinha mais vontade de vê-la, e nem mesmo aquela vontade de lhe mostrar que não fazia questão de vê-la e que cada dia, no tempo em que a amava, prometia a mim mesmo testemunhar-lhe quando a deixasse de amar. Assim, não mais procurando afetar, diante de Gilberte, ter desejado de todo o meu coração voltar a encontrá-la, e de ter sido impedido de fazê-lo, como se diz, devido a circunstâncias independentes da minha vontade, que só ocorrem, de fato, ao menos com certa continuidade, quando a vontade não se lhes opõe, bem longe de acolher com reservas o convite de Swann, não o deixei sem que me houvesse prometido explicar em detalhes à sua filha os contratempos que me haviam privado, e ainda me privariam de ir vê-la.

            - Aliás, vou escrever-lhe daqui a pouco ao voltar para casa. - acrescentei. - Mas diga-lhe que é uma carta de ameaça, pois dentro um ou dois meses estarei totalmente livre, e então, ela que trema, estarei em sua casa com a mesma freqüência de antigamente.

            Antes de deixar Swann, disse-lhe uma palavra sobre sua saúde.

            - Não, a coisa não está tão má assim - respondeu-me. - Além disso, como lhe dizia, ando muito cansado e aceito antecipadamente, com resignação o que possa acontecer. Unicamente, confesso que seria bem irritante morrer antes do fim do Caso Dreyfus. Todos esses canalhas têm mais de mostrar o trunfo no bolso. Não duvido que finalmente sejam vencidos, mas afinal, são muito poderosos, têm apoio em toda parte. No momento em que tudo parece correr bem, tudo se arrebenta. Bem que desejaria viver bastante para ver Dreyfus reabilitado e Picquart coronel.       

            Depois que Swann foi embora, voltei para o grande salão onde, encontrava essa princesa de Guermantes à qual eu não sabia então que dia haveria de estar tão ligado. A paixão que ela teve pelo Sr. de Charlus, não se revelou a princípio para mim. Notei apenas que o barão, a partir de certa época e sem tomar pela princesa nenhuma dessas inimizades que nele não causavam espécie, mesmo continuando a dedicar-lhe tanta má afeição talvez, parecia descontente e irritado cada vez que lhe falavam dela. Jamais incluía o seu nome na lista de pessoas com quem desejava jantar. É verdade que, antes disso, eu ouvira um homem da sociedade muito maldoso, dizer que a princesa estava completamente mudada, ela estava apaixonada pelo Sr. de Charlus, mas essa maledicência me parecia absurda e me havia indignado. Bem que eu notara, com espanto, que quando contava algo que me dizia respeito, se no meio da narrativa aparecia o Sr. de Charlus, a atenção da princesa punha-se logo nesse grau mais próximo que é o de um doente, o qual, ao ouvir-nos falar de nós mesmos, conseqüentemente de modo distraído e despreocupado, reconhece de chofre numa palavra, o nome do mal de que está sofrendo, o que, ao mesmo tempo, o alegra e desperta-lhe o interesse. Assim, se lhe dizia: "Justamente Sr. de Charlus me contava...", a princesa retomava nas mãos as rédeas frouxas de sua atenção. E certa vez, tendo eu dito diante dela que o Sr. Charlus sentia uma afeição bastante viva por determinada pessoa, vi o espanto surgir nos olhos da princesa aquela expressão diversa e momentânea que traça nas pupilas como que o sulco de uma rachadura, e que provém de um pensamento que nossas palavras, sem querer, despertaram na criatura a quem falamos, pensamento secreto que não se há de traduzir por palavras, mas que subirá das profundezas por nós remexidas à superfície um instante alterada do olhar. Mas, se minhas palavras tinham emocionado a princesa, eu não adivinhara de que modo. Aliás, pouco depois ela começou a me falar do Sr. de Charlus e quase sem rodeios. Se aludia aos rumores que raras pessoas faziam correr acerca do barão, era apenas como as absurdas e infames invenções. Mas, por outro lado, dizia:

            - Acho que uma mulher que se apaixona por um homem de valor imenso como Palamede também deveria ter bastante largueza de visão, bastante devotamento, para aceitá-lo e compreendê-lo como um todo, tal como é, para respeitar sua liberdade, suas fantasias, procurar unicamente amenizar-lhe as dificuldades e consolá-lo de suas mágoas. -

            Ora, com essas frases no entanto de tal modo vagas, a princesa de Guermantes revelava aquilo que buscava exaltar, da mesma forma como fazia às vezes o próprio Sr. de Charlus. Pois não ouvi tantas vezes este último dizer a pessoas até então incertas se ele era ou não caluniado: "Eu, que tive tantos altos e baixos na minha vida, que conheci toda espécie de gente, tanto reis como ladrões, e até, devo dizer, com uma leve preferência pelos ladrões, que tenho perseguido a beleza sob todas as suas formas, etc." e por essas palavras que ele julgava hábeis, e desmentindo rumores de cuja existência não suspeitavam (ou para conceder à verdade, por gosto, por cautela, por preocupação com a verossimilhança, uma parte que somente ele considerava mínima), tirava a uns as últimas dúvidas a seu respeito e inspirava as primeiras aos que ainda não as tinham alimentado. Pois o mais perigoso dos encobrimentos é o da própria falta no espírito do culpado. O conhecimento permanente que tem dela o impede de supor o quanto é geralmente ignorada, o quanto uma mentira completa seria facilmente aceita e, em compensação, de perceber a que grau de verdade principia a confissão, para os outros, nas palavras que acredita inocentes. E, por outro lado, agiria muito mal se tentasse abafá-la, pois não há vícios que não encontrem apoios complacentes na alta sociedade, e já se viu modificar todo o arranjo de um castelo para que dormisse uma irmã junto de sua irmã, logo que se soube que ela não a amava apenas como irmã. Mas o que me revelou de súbito o amor da princesa foi um fato particular, sobre o qual não insistirei aqui, pois faz parte da narrativa bem diversa em que o Sr. de Charlus deixou morrer uma rainha para não perder o cabeleireiro que devia frisá-lo, em proveito de um cobrador de ônibus diante do qual sentiu-se prodigiosamente intimidado. Entretanto, para terminar a respeito do amor da princesa, digamos qual foi o nada que me abriu os olhos. Naquilo eu estava sozinho no carro com ela. No momento em que passávamos diante de uma caixa postal, ela mandou parar. Não havia trazido lacaio, a meio uma carta do regalo e iniciou o movimento de descer a fim de ir à caixa. Eu quis detê-la, a princesa debateu-se um pouco, e já nos demos conta, um e outro, de que o nosso primeiro gesto fora, o seu comprometedor, por parecer que ocultava um segredo, o meu indiscreto, ao perceber essa ocultação. Foi ela quem se recobrou mais depressa. Fazendo-se muito vermelha subitamente, deu-me a carta, não mais tive coragem de recusá-la; porém, ao colocá-la na caixa, vi sem querer que era endereçada ao Sr. de Charlus.

            Voltando para trás e àquela primeira recepção na casa da princesa de Guermantes, fui fazer-lhe minhas despedidas, pois seus primos iam levar-me e tinham muita pressa. No entanto, o Sr. de Guermantes quis despedir-se do irmão. Tendo a Sra. de Surgis tido tempo, numa porta de dizer ao duque que o Sr. de Charlus fora encantador com ela e com seus filhos, essa grande amabilidade do irmão, a primeira que tivera em tal exposição de idéias, tocou profundamente Basin e despertou-lhe sentimentos; e na família que jamais adormeciam por muito tempo. No momento em que nos despedíamos da princesa, ele, sem agradecer expressamente ao Sr. de Charlus, fez questão de lhe exprimir o seu afeto, ou porque de fato tivesse dificuldades em contê-lo, ou porque o barão se lembrou de que o tipo de atitudes que tivera aquela noite não passaria despercebido aos olhos do irmão, do mesmo modo como, para lhe criar no futuro associações saudáveis, a gente dá açúcar a um cachorro que se pôs nas patas traseiras.

            - Ora bem, irmãozinho - disse o duque detendo o Sr. de Charlus e pegando-o docemente pelo braço -, é assim que se passa pelo irmão mais velho ser nem sequer dar boa-noite? Não te vejo mais, Mémé, e nem sabes como isto me faz falta. Procurando cartas antigas, encontrei justamente as da pobre mamãe, todas tão carinhosas contigo.

            - Obrigado, Basin - respondeu o Sr. de Charlus com voz alterada, pois nunca podia falar da mãe sem emoção.

            - Deverias te decidir a me deixar instalar um pavilhão para ti em Guermantes - prosseguiu o duque.

            - É lindo ver dois irmãos tão carinhosos um com o outro - disse a princesa a Oriane. - Ah, duvido que possam existir muitos irmãos como estes. Eu o convidarei com o barão - prometeu-me a duquesa. - Vocês não estão de mal?... Mas o que é que eles podem ter para se falar? -acrescentou em tom inquieto, pois ouviu indistintamente as palavras deles. Sempre tivera um certo ciúme do prazer que o Sr. de Guermantes experimentava em conversar com o irmão sobre um passado de que mantinha um tanto afastada a esposa. Esta sentia quando os dois estavam felizes por se acharem assim juntos e ela, não podendo mais conter sua impaciente curiosidade, ia para perto deles, sua chegada lhes causava desagrado. Mas, naquela noite, a esse habitual ciúme acrescentava-se outro. Pois, se a Sra. de Surgis contara ao Sr. de Guermantes as atenções de seu irmão, a fim de que fosse agradecê-las, ao mesmo tempo algumas amigas devotadas do casal Guermantes julgaram dever avisar a duquesa de que a amante de seu marido fora vista conversando com o irmão deste. E a Sra. de Guermantes se atormentava com isso.

            - Lembra-te como éramos felizes outrora em Guermantes - continuou o duque, dirigindo-se ao Sr. de Charlus. - Se aparecesses por lá algumas vezes no verão, poderíamos recomeçar a nossa boa vida. Lembras-te do velho Courveau: "por que é que Pascal é troublant?

            - Porque é trou... trou..." -  pronunciou o Sr. de Charlus como se respondesse ainda ao professor. - "E por que é que Pascal é troublé? Porque é trou... trou...

            - Muito bem, o senhor será aprovado, certamente receberá uma menção, e a senhora duquesa lhe dará um dicionário de chinês."

            - Pois tu te lembras, Basin, naquela época eu tinha uma paixão pela China.

            - Se me lembro, meu querido Mémé! E creio ver ainda o velho jarrão que te trouxera Hervey de Saint-Denis. Ameaçavas ir passar definitivamente a tua vida na China, de tão apaixonado que estavas por aquele país; já gostavas de fazer longas vagabundagens. Ah, foste um tipo especial, pois pode-se dizer que nunca, em coisa alguma, tiveste os mesmos gostos de todo mundo... -

            Mas apenas dissera tais palavras, o duque enrubesceu, pois conhecia, se não os costumes, ao menos a reputação do irmão. Como jamais lhe falara naquilo, estava tanto mais constrangido por ter dito algo que podia parecer relacionar-se com o caso, e mais ainda por ter se mostrado constrangido. Após um segundo de silêncio:

            - Quem sabe - disse ele para desfazer suas últimas palavras - se não estavas apaixonado por uma chinesa, antes de amar a tantas brancas, e lhes agradares, a julgar por uma certa dama a quem deste muita satisfação esta noite ao conversar com ela. Ela ficou encantada contigo.

            O duque havia prometido a si próprio não falar da Sra. de Surgis, mas, em meio à confusão que a gafe que acabara de cometer lançara nas suas idéias, apegara-se à mais próxima, que era justamente aquela que não devia aparecer na conversa, embora a tivesse motivado. Mas o Sr. de Charlus notara o rubor do irmão. E como os culpados que não desejam parecer embaraçados quando se fala diante deles do crime que pretendem não ter cometido, e julgam dever prolongar uma conversação perigosa:

            - Estou encantado - respondeu-lhe -; mas faço questão de reportar-me à tua frase anterior, que me parece profundamente verdadeira. Tu dizias que nunca tive as mesmas idéias de todo mundo, não dizias idéias, dizias gostos. Como é exato! Nunca tive em coisa alguma os gostos mundo; como é exato! Tu dizias que eu tinha gostos especiais.

            - Absolutamente não - protestou o Sr. de Guermantes, que de fato não disse palavras e talvez não acreditasse na realidade, no caso do irmão, só elas designam. E, além disso, julgar-se-ia por acaso no direito de comentá-lo devido à singularidades que, de qualquer maneira, tinham percebido bastante duvidosas ou bastante secretas para não prejudicar a excepcional posição de Charlus? Mais ainda, sentindo que essa posição do irmão ia colocar-se a serviço de suas amantes, o duque dizia consigo que aquilo bem valia algumas complacências em troca; se tivesse, no momento, conhecido alguma ligação "especial" do irmão, ele, na esperança do apoio que o irmão lhe daria, esperança unida à piedosa lembrança do tempo passado, teria passado por cima, fechando os olhos a tudo, caso necessário, até estenderia a mão.

            - Vamos, Basin; boa-noite, Pamede. - disse a duquesa, roída de raiva e de curiosidade; -se resolveram passar a noite aqui, é melhor que fiquemos para a ceia. Faz meia hora que nos deixam de pé, a Marie e a mim. -

            O duque deixou o irmão a um abraço significativo; e nós três descemos a escadaria imensa do palácio da princesa. Dos dois lados, nos degraus mais altos, espalhavam-se casais que esperavam que seu carro aparecesse. Ereta, isolada, ladeada por mim e pelo marido, a duquesa mantinha-se à esquerda da escadaria, já envolta em seu manto à Tiepolo, o broche de rubis fechando-lhe a garganta, devorada pelos olhos das mulheres e dos homens, que procuravam surpreender o segredo da sua beleza e da sua elegância. Esperando o seu carro no mesmo degrau da escada da Sra. de Guermantes, mas na extremidade oposta, a Srt. de Gallardon, que desde muito perdera toda a esperança de ser um dia visitada por sua prima, virava as costas para não parecer vê-la, e sobretudo para não oferecer a prova de que esta não a cumprimentava. A Sra. de Gallardon estava de muito mau humor, pois os senhores que a acompanhavam tinham julgado dever falar-lhe de Oriane:

            - Absolutamente, não faço questão nenhuma de vê-la - respondera-lhes; aliás, avistei-a há pouco, ela principia a envelhecer; parece que não consegue se acostumar. O próprio Basin foi quem disse. E bem o compreendo, pois, como não possui inteligência, é malvada e tem maus modos, percebe que, quando lhe faltar a beleza, não terá mais absolutamente nada.

            Eu pusera meu sobretudo, o que o Sr. de Guermantes, que receava gripes, censurou ao descer comigo, por causa do calor que fazia. E a geração de nobres, que mais ou menos havia passado por monsenhor Saint-Loup, fala um francês tão ruim (à exceção dos Castellane), que o duque assim exprimiu seu pensamento:

            - É preferível não estar coberto antes de ir para fora, pelo menos em tese geral.

            Revejo toda esta saída, revejo, se não é por engano que coloco esta cena na escadaria, retrato destacado de seu quadro, o príncipe de Sagan, para quem seria essa a última recepção mundana, descobrir-se para render suas homenagens à duquesa, com uma revolução tão ampla do chapéu alto na mão de branco enluvada, combinando com a gardênia da botoeira, que a gente se espantava de que não fosse um chapéu de feltro, ornado de plumas, do Antigo Regime, do qual várias figuras ancestrais estavam perfeitamente reproduzidas na daquele grão-senhor.

            Pouco se deteve junto dela, porém mesmo as suas atitudes de um momento bastavam para compor todo um quadro vivo e como que uma cena histórica. Por outro lado, como está morto desde então e eu mal o avistara quando vivo, de tal modo tornou-se para mim um personagem histórico, ao menos da história mundana, que ocorre espantar-me ao pensar que uma mulher e um homem de meu conhecimento sejam sua irmã e seu sobrinho.

            Enquanto descíamos as escadas, ia subindo, com um ar de fadiga que bem lhe assentava, uma mulher aparentando quarenta anos, mas que deveria ter mais. Era a princesa d'Orvillers, filha natural, conforme diziam, do duque de Parma, e cuja voz suave se escondia num vago acento austríaco. Ela avançava, alta, inclinada, num vestido de seda branco e florido, deixando ofegar o colo delicioso, palpitante e exausto através de um colar de diamantes e de safiras. Sempre sacudindo a cabeça como uma potranca real que se embaraçasse com seu cabresto de pérolas, de valor inestimável e de peso incômodo, pousava aqui e ali os olhares doces e encantadores, de um azul que, à medida que principiava a desgastar-se, tornava-se ainda mais acariciante e fazia à maioria dos convidados que se retiravam um aceno amigável de cabeça.

            - Que bela hora arranjou para chegar, Paulette! - disse a duquesa.

            - Ah, lamento muito! Mas na verdade não houve possibilidade material - respondeu a princesa d'Orvillers, que tomara emprestado à duquesa de Guermantes esse gênero de frases, mas acrescentava-lhe a sua doçura natural e o ar de sinceridade conferido pela energia de um acento vagamente doce numa voz tão suave. Ela dava a impressão de aludir a contratempos de vida muito longos para narrar, e não vulgarmente às recepções, embora naquele momento regressasse de várias delas. Mas não eram estas que a forçavam a vir tão tarde. Como o príncipe de Guermantes houvesse impedido sua mulher, durante longos anos, de receber a Sra. d'Orvillers, esta, quando foi levantada a proibição, contentara-se em responder aos convites, para não dar a entender que estava sequiosa por eles, com simples cartões de visitas deixados no palácio. Ao fim de dois ou três anos de utilização desse método, ela própria comparecia, mais tarde, como se estivesse voltando do teatro. Dessa forma, dava a impressão de não ligar a mínima para a recepção, nem de ser vista ali, simplesmente fazendo uma visita ao príncipe e à princesa somente por simpatia, no momento em que, tendo já ido embora três quartos dos convidados, ela "gozaria mais a presença deles".

            - Oriane, de fato, - ao último degrau resmungou a Sra. de Gallardon. - Não compreendo como Basin a deixa falar à Sra. d'Orvillers. Não é o Sr. de Gallardon que me permitiria fazer isto. -   Quanto a mim, reconhecera na Sra. d'Orvillers mulher que, perto do palácio Guermantes, lançara-me longos olfatos, langorosos, virava-se, parava diante das vitrines das lojas. A Sra. de. Guermantes me apresentou; a Sra. d'Orvillers foi encantadora, nem muito amável nem constrangida. Olhou-me como a todo mundo com seus olhos verdes... Porém nunca mais, quando a encontrasse, eu deveria receber parte de um só daqueles avanços em que ela parecia oferecer-se. Existem olhares especiais que parecem nos reconhecer, e que um rapaz só recebe de certas mulheres e de certos homens até o dia em que nos conhecem e ficam sabendo que somos amigos de pessoas a que também estão ligados.       

            Anunciaram que o carro já avançara. A Sra. de Guermantes puxou a saia vermelha, como para descer a escada e subir ao carro, mas, animada talvez pelo remorso, ou pelo desejo de agradar e, sobretudo, de aproveitar a brevidade que o impedimento material de prolongá-lo impunha um ato tão tedioso, olhou para a Sra. de Gallardon; depois, como se somente então a tivesse avistado, atravessou todo o comprimento do degrau até descer e, tendo chegado à prima deslumbrada, estendeu-lhe a mão.

            - Há quanto tempo! - disse-lhe a duquesa que, para não ser obrigada a desenvolver tudo o que se continha de pesar e de desculpas legítimas nessa fórmula, voltou-se com ar assustado para o duque, o qual, de fato, tinha descido comigo em direção ao carro, esbravejava ao ver que a mulher seguira em direção à Sra. de Gallardon e interrompia a circulação dos outro carros.

            - Oriane ainda está mesmo muito bonita! - disse a Sra. do Gallardon. - Fazem-me rir as pessoas quando dizem que não nos damos bem; por motivos em que não precisamos meter os outros, podemos ficar anos e anos sem nos vermos; mas temos bastantes recordações comuns para que possamos algum dia ficar afastadas, e, no fundo, ela bem sabe que a estimo ainda mais que muitas pessoas a quem vê todos os dias e que nos são do seu sangue. -

            A Sra. de Gallardon era na verdade como esposos amorosos desdenhados que a todo transe querem fazer acreditar que e mais amados do que aqueles escolhidos por sua bela. E pelos elos que, sem se preocupar com a contradição com o que havia dito pouco antes, ela prodigalizava ao falar da duquesa de Guermantes provava indiretamente que esta possuía a fundo as normas que devem orientar em sua carreira a uma rainha da elegância, a qual, na ocasião mesma em que seu vestido mais maravilhoso excita, além da admiração, a inveja, deve saber atravessar uma escadaria inteira para desarmá-la.

            - Pelo menos, presta atenção para não molhar os sapatos - (pois havia caído uma breve pancada de chuva) - disse o duque, que ainda estava furioso por ter esperado.

            Durante a volta, devido à exigüidade do cupê, os sapatos vermelhos se achavam forçosamente pouco afastados dos meus; e a Sra. de Guermantes, receando até que me houvessem tocado, disse ao duque:

            - Este rapaz vai ser obrigado a dizer-me, como em não sei mais qual caricatura: "Senhora, diga logo que me ama, mas não pise meus pés desse jeito." -

            Aliás, meus pensamentos andavam bem longe da Sra. de Guermantes. Desde que Saint-Loup me falara de uma moça de alta linhagem que freqüentava um bordel e da camareira da baronesa Putbus, era nessas duas pessoas que, em bloco, se resumiam os desejos que me inspiravam diariamente tantas beldades de ambas as classes; de uma parte, as vulgares e magníficas, as majestosas camareiras de casa nobre, cheias de orgulho, e que dizem "nós" ao falar das duquesas; de outra parte, aquelas moças de que às vezes me bastava, mesmo sem as ter visto passar de carro ou a pé, ter lido o nome num noticiário de baile para me enamorar delas e, depois de procurar conscienciosamente no anuário dos castelos o lugar onde passavam o verão (muitas vezes deixando-me iludir por um nome parecido), sonhar, alternativamente, ir habitar as planícies do Oeste, as dunas do Norte e os bosques de pinheirais do Sul. Mas, por mais que fundisse inteira toda a matéria carnal mais requintada para compor, conforme o ideal que me traçara Saint-Loup, a jovem leviana e a camareira da Sra. Putbus, faltava às minhas duas beldades possíveis aquilo que eu ignoraria enquanto as não tivesse visto: o caráter individual. Em vão eu devia esgotar-me para tentar imaginar, durante os meses em que o meu desejo se dirigia de preferência às moças, como era feita e quem seria aquela de quem Saint-Loup me havia falado; e, durante os meses em que teria preferido uma camareira, a da Sra. Putbus. Mas que tranqüilidade, depois de ter sido perpetuamente perturbado por meus desejos inquietos, por tantas criaturas fugitivas de quem muitas vezes nem mesmo sabia os nomes, que de todo jeito eram tão difíceis de encontrar, e mais ainda de conhecer, impossíveis talvez de conquistar, o haver reservado, de toda essa beleza esparsa, fugidia, anônima, dois espécimes de elite, munidos de sua ficha identificadora, e que eu pelo menos tinha certeza de conseguir quando quisesse! Adiava a hora de entregar-me a esse duplo prazer, como adiava a do trabalho, mas a certeza de quando quisesse quase me dispensava de agarrá-lo, como esses compridos soporíferos que é bastante ter ao alcance da mão para não precisar deles e adormecer. No universo inteiro eu não desejava mais que, mulheres das quais, é verdade, não conseguia imaginar o rosto, mas quem Saint-Loup me ensinara os nomes e garantira a complacência modo que, se por suas palavras de há pouco havia fornecido um trabalho à minha imaginação, em compensação proporcionara um aprazível descanso, um repouso duradouro à minha vontade.

            - Pois bem - disse-me a duquesa. - Fora os bailes, não poder lhe ser útil de algum modo? Encontrou algum salão onde deseja quem apresente? -

            Respondi-lhe que temia que o único que desejava conhecer não fosse suficientemente distinto para ela.

            - Qual é? - indagou ela com voz rouca e ameaçadora, sem quase abrir a boca.

            - A baronesa Putbus -

            Desta vez, ela fingiu verdadeira cólera.

            - Ah, não! Isso é que não. Está zombando de mim. Nem sei mesmo por qual acaso sei o nome desse camelo. Pois ela é o lodo da sociedade. É como se o senhor me dissesse que o apresentasse à minha caixeira. E, mesmo assim, não; a minha caixeira é encantadora. Você é meio doido, meu pobre rapaz. Em todo caso peço-lhe por favor, seja polido para com as pessoas a quem o apresento deixe-lhes cartões, vá visitá-las e não lhes fale da baronesa Putbus, que é desconhecida. -

            Perguntei-lhe se a Sra. d'Orvillers não era um tanto leviana.

            - Oh, de jeito nenhum, o senhor está confundindo, ela seria antes presunçosa. Não é mesmo, Basin?

            - Sim; de qualquer modo, creio que nunca houve o que dizer a seu respeito - disse o duque. - Não quer ir conosco ao baile à fantasia? - perguntou-me - Eu lhe emprestaria um manto veneziano e sei de alguém que terá enorme satisfação com isso; primeiro a Oriane, é escusado dizer, mas estou me referindo à princesa de Parma. Todo o tempo ela entoa os seus louvores, só jura pelo senhor. O amigo tem a sorte visto ser a princesa um tanto madura de que ela seja de uma pudicícia absoluta. Não fosse isso, certamente o tomaria como chichisbéu, como se dizia na minha juventude, uma espécie de cavaleiro servidor.

            Eu não fiz questão do baile à fantasia, mas do encontro com Albertine. Portanto, recusei. O carro havia parado, o lacaio bateu no portão principal, os cavalos escarvaram até que ele fosse escancarado, e o carril penetrou no pátio.

            - Até mais ver - disse o duque.

            - Às vezes, tenho lastimado morar assim tão perto de Marie - disse a duquesa porque; gosto muito dela, gosto um pouquinho menos de vê-la. Mas nunca lastimo essa proximidade tanto como esta noite, pois isto me faz ficar tão pouco tempo em sua companhia.

            - Vamos, Oriane, nada de discursos. -

            A duquesa desejaria que eu entrasse por um momento em sua casa. Riu muito, bem como o duque, quando eu disse que não podia porque uma moça devia me fazer uma visita precisamente àquela hora.

            - O senhor tem uma hora muito divertida para receber suas visitas - disse a duquesa.

            - Vamos, minha querida, despachemo-nos - disse o Sr. de Guermantes à mulher. - Faltam quinze para a meia-noite e é hora de a gente se fantasiar... -

            Diante da porta, severamente guardada por elas, ele topou com as duas damas de bengala que não tinham receado descer de suas alturas a fim de evitar um escândalo.

            - Basin, fizemos questão de preveni-lo, por medo de que seja visto nesse baile: o pobre Amanien acaba de morrer faz uma hora. -

            O duque teve um instante de alarme. Via a famosa festa evaporar-se para ele desde o momento em que, devido àquelas malditas montanhesas, era advertido da morte do Sr. d'Osmond. Mas recuperou-se rápido e atirou às duas primas esta frase em que expressava, com a determinação de não renunciar a um prazer, a sua incapacidade de assimilar exatamente os volteios da língua francesa:

            - Está morto! Mas não, estão exagerando, exagerando! -

            E sem mais se ocupar das duas parentas que, munidas de seus alpenstocks, iam fazer a escalada dentro da noite, ele se precipitou em busca de notícias, interrogando o seu criado de quarto:

            - Meu capacete já chegou?

            - Sim, senhor duque.

            - Tem um buraco por onde se possa respirar? Não tenho vontade de ficar asfixiado, que diabo!

            - Sim, senhor duque.

            - Ah, maldição! Esta é uma noite de desgraças! Oriane, esqueci de perguntar a Babal se os sapatos de polainas eram para você!

            - Mas meu querido, já que o roupeiro da ópera Cômica está aí, ele nos dirá. Por mim, não creio que possa combinar com suas esporas.

            - Vamos procurar o roupeiro - disse o duque. - Adeus, meu rapaz; gostaria de convidá-lo para entrar conosco, enquanto experimentamos as fantasias, para diverti-lo. Mas ficaríamos conversando, já vai dar meia-noite e é preciso que não cheguemos atrasados para que a festa seja completa.

            Eu também tinha pressa de deixar o Sr. e a Sra. de Guermantes o mais rápido possível. Fedra terminava cerca das onze e meia. Pelo tempo decorrido, Albertine já devia ter chegado. Fui direto a Françoise:

            - A Srta. Albertine está aí?

            - Ninguém chegou.

            Meu Deus, isto queria dizer que ninguém viria? Sentia-me atormentado, a visita de Albertine parecia-me agora tanto mais desejável, por ser menos certa. Françoise também estava aborrecida, mas por um motivo inteiramente diverso. Acabava de instalar sua filha à mesa para uma refeição suculenta. Mas, ao ouvir-me chegar, vendo que lhe faltava tempo para tirar os pratos e preparar as agulhas e a linha, como se se tratasse de uma costura e não de uma ceia, disse-me:

            - Ela acaba de tomar umas colheradas de sopa; obriguei-a a chupar uns frutos - para reduzir assim a quase nada a refeição da filha, e como se fosse culposa a abundância. Mesmo no almoço ou no jantar, se eu cometesse a falta de entrar na cozinha, Françoise fingia que tinham terminado e até desculpava dizendo:

            "Eu tinha querido comer um pedaço", ou "umboca '' - Mas a gente logo se tranqüilizava ao ver a multidão de pratos que, enchiam a mesa e que Françoise, surpreendida pela minha súbita entrada; como um malfeitor que ela não era, não tivera tempo de fazer desaparecer. Depois, acrescentou:

            - Vamos, vai te deitar, já trabalhaste demasiado - (pois queria que a filha desse a impressão não só de não nos custar - de viver de privações, mas também de se matar de trabalho por nossa causa). - Não fazes mais que atravancar a cozinha e sobretudo incomoda o patrão que espera a visita. Vamos, sobe - prosseguiu, como se fosse obrigada a usar de autoridade para mandar a filha dormir, a qual, uma vez que estava gorada a ceia, estava ali por estar, e que, se eu tivesse permanecido ali mais cinco minutos, teria saído por si mesma. E voltando-se para com o belo francês popular e no entanto meio individual, que era o seu:

            - Pois não vê o patrão que a vontade de dormir lhe desfaz a cara? -

            Eu ficara encantado por não ter de conversar com a filha de Françoise. Já disse que ela era de uma região bem próxima da de sua prima; no entanto, bem diferente pela natureza do terreno, das culturas, do dia-a-dia; principalmente por certas particularidades dos habitantes. Assim, a "açougueira" e a sobrinha de Françoise não se davam nada bem, mas tinham algo em comum: quando saíam a recado, demoravam-se horas "na casa da marquês” ou "na casa da prima", sendo incapazes de terminar uma conversação, em cujo transcorrer se dissipava o motivo que as havia feito sair, de tal modo que se lhes perguntavam, ao regressarem:

            - E então, o Sr. marquês de Norpois estará visível às seis e quinze? - elas nem mesmo batiam na testa dizendo:

            - Ah, esqueci mas: - Ah, não entendi que o patrão tinha perguntado isso, pensei que era só para cumprimentar o senhor marquês" - Se elas "perdiam a cabeça" desse jeito quanto a uma coisa dita uma hora antes, em compensação era impossível tirar-lhes da cabeça o que tinha ouvido a irmã ou a prima dizerem uma vez. Assim, se a "açougueira" ouvira dizer que os ingleses nos tinham feito a guerra em 1870 ao mesmo tempo que os prussianos (e por mais que eu lhe explicasse que aquilo era sonho), a cada três semanas me repetia no decurso de uma conversa:

            - E por causa dessa guerra que os ingleses nos fizeram em 1870, ao mesmo tempo que os prussianos.

            - Mas eu já lhe disse cem vezes que você está enganada. -

            Ela respondia, o que deixava claro que nada abalava a sua convicção:

            - Em todo caso, não é motivo para lhes querer mal. Desde 1870, muita ocorreu debaixo das pontes, etc. -

            Uma outra vez, pregando uma guerra contra a Inglaterra, que eu desaprovava, dizia:

            - Decerto, sempre é melhor não haver guerra. Mas, visto que é necessário, é preferível começar logo. Como explicava a mana há pouco, desde essa guerra que os ingleses nos fizeram em 1870, os tratados comerciais nos arruínam. Depois de os termos derrotado, não se deixará mais entrar na França um só inglês sem pagar trezentos francos de entrada, como nós fazemos agora para ir à Inglaterra.

            Tal era, além de grande honestidade e, quando falavam, de uma surda obstinação em não se deixarem interromper, em recomeçarem vinte vezes do ponto em que por acaso eram interrompidas, o que acabava por dar às suas frases a solidez inabalável de uma fuga de Bach, o caráter dos habitantes daquela terrinha, que não contava mais de quinhentos, orlada de castanheiros, salgueiros, campos de batatas e de beterrabas. Ao contrário, a filha de Françoise falava, julgando-se uma mulher moderna e fora dos caminhos muito batidos, a gíria parisiense e não perdia nenhum dos gracejos adjuntos. Tendo-lhe dito Françoise que eu chegava da casa de uma princesa:

            - Ah, sem dúvida uma princesa de fancaria. -

            Vendo que eu esperava uma visita, fingiu julgar que me chamava Charles. Respondi-lhe ingenuamente que não, o que lhe permitiu encaixar:

            - Ah, era o que eu pensava!

            “E dizia comigo Charles attend (charlatan)."

[Trocadilho muito conhecido, seriam as pretensas palavras que teria pronunciado o rei Luís XVIII, agonizante, a seus médicos: - Allons, linissons-en, Charles attend ("Vamos, acabemos com isso, Carlos espera"), aludindo à inépcia dos médicos (charlatans) e à pressa de Carlos X em subir ao trono (Charles attend). (N. do T)]

 

            Não era de muito bom gosto. Mas fiquei menos indiferente quando, como consolo pelo atraso de Albertine, ela me disse:

            - Acho que o senhor pode esperá-la sentado. Ela não vem mais. Ah, as nossas gigoletes de hoje!

            Assim, o seu linguajar diferia do da mãe; mas o que é mais curioso, a fala de sua mãe diferia da de sua avó, natural de Bailleau-le-Pin, que era bem próximo da região de Françoise. No entanto, os dialetos diferiam ligeiramente como as duas paisagens. A região da mãe de Françoise, em declive e descendo para um barranco, era povoada de salgueiros. E, muito longe dali, pelo contrário, havia na França uma pequena região onde se falava quase exatamente o mesmo dialeto que em Méséglise. Fiz essa descoberta ao mesmo tempo que aquilo me aborreceu. Com efeito, certa vez achei Françoise em animada conversa com uma camareira da casa, que era dessa região e falava aquele dialeto. Elas quase se compreendiam, eu não as compreendia absolutamente, elas o sabiam, e nem por isso deixavam de conversar, com a desculpa, acreditavam, da alegria de serem conterrâneas; embora nascidas tão longe uma da outra, diante de mim naquela língua estranha, como quando não se deseja ser compreendido. Esses pitorescos estudos de geografia lingüística e de camaradagem, prossegui todas as semanas na cozinha, sem que eu sentisse nenhum prazer naquilo. Como, de cada vez que se abria o portão principal, o porteiro apertava um botão elétrico que iluminava a escada, e como todos os locatários já estivessem em casa, deixei imediatamente a cozinha e voltei a sentar na antecâmara para espiar, ali onde a cortina um pouco estreita, que não cobria inteiramente a porta envidraçada de nosso apartamento, deixei passar a sombria raia vertical formada pela semi-obscuridade da escada; para que de repente, essa raia se tornasse de um amarelo dourado, é que Albertine acabara de entrar embaixo e em dois minutos estaria junto de mim; nenhuma outra pessoa podia chegar àquela hora. E eu permanecia, sem poder desviar os olhos da raia que se obstinava em continuar sombria; debruçava-me todo para estar certo de ver bem; porém, por mais que olhasse o negro traço vertical, apesar de meu desejo apaixonado, não me concedia contentamento embriagador que eu teria tido se o visse mudar-se, por súbito encantamento significativo, numa luminosa barra de ouro. Era inquietação demais por causa dessa Albertine, em quem não havia pensado sequer três minutos durante o sarau Guermantes! Porém, despertando os sentimentos de espera que outrora experimentara a respeito de outras moças principalmente Gilberte, quando ela demorava a chegar, a possível privação de um simples prazer físico causava-me um cruel sofrimento moral.

            Tive de voltar para o quarto. Françoise me seguiu. Como eu estivesse de volta da recepção, ela achava inútil que eu guardasse a rosa de botoeira, e veio tirá-la. Seu gesto, fazendo-me lembrar que Albertine podia não vir mais e obrigando-me também a confessar que desejava estar elegante para ela, provocou-me uma irritação que foi duplicada pelo fato que havia machucado a flor enquanto me desprendia violentamente. Palavras de Françoise:

            - Seria melhor deixar que a tirasse em vez de estragá-la desse jeito. -

            Aliás, suas menores palavras me exasperavam. Enquanto a gente espera, sofre tanto com a ausência de quem está lembrando que não pode suportar a presença de outra pessoa.

            Depois que Françoise saiu do quarto, pensei que, se chegara a essa coqueteria em relação a Albertine, era uma pena que tivesse mostrado tantas vezes a ela tão mal barbeado, com uma barba de muitos dias, nas noites em que a deixava vir para recomeçar nossas carícias. Sentia que, despreocupada de mim, ela me deixava sozinho. Para embelezar pouco o meu quarto, caso Albertine ainda viesse, e porque era uma das coisas mais belas que eu possuía, voltei a colocar pela primeira vez em muitos anos, sobre a mesa que ficava junto da cama, aquele porta-papéis ornado de turquesas que Gilberte me encomendara para envolver a plaquete de Bergotte e que, durante tanto tempo, quisera eu guardar comigo enquanto dormia, ao lado da bolinha de ágata. Além disso, talvez tanto como Albertine, ainda não chegada, sua presença naquele momento em um "alhures" que ela evidentemente achara mais agradável e que eu não conhecia causava-me um sentimento doloroso que, apesar do que eu dissera há uma hora apenas a Swann, acerca da minha incapacidade de sentir ciúmes, teria se transformado, se visse a minha amiga a intervalos menos longos, numa ansiosa necessidade de saber onde e com quem ela passava o tempo. Não me animava a mandar um recado à casa de Albertine, era muito tarde, mas, na esperança de que, ceando talvez com amigas num café, ela tivesse a idéia de me telefonar, torci o interruptor e, restabelecendo a comunicação no meu quarto, cortei-a entre a central e o quarto do porteiro, a que estava normalmente ligado àquela hora. Ter um receptor no corredorzinho para onde dava o quarto de Françoise teria sido mais simples, menos incômodo, porém inútil. Os progressos da civilização permitem a cada um manifestar qualidades insuspeitadas ou vícios novos que os tornam mais caros ou mais insuportáveis a seus amigos. Foi assim que a descoberta de Edison permitira à Françoise adquirir um defeito a mais, que era o de se recusar a servir-se do telefone, por mais urgência ou utilidade que houvesse nisso. Ela encontrava um jeito de se furtar quando queriam lhe ensinar a usá-lo, como outros fogem no momento de serem vacinados. Assim, o telefone estava instalado no meu quarto e, para que não incomodasse meus pais, sua campainha fora substituída por um simples rumor de torniquete. De medo de não ouvi-lo, eu não me movia. Minha imobilidade era tal que, pela primeira vez depois de meses, reparei no tique-taque da pêndula. Françoise veio arrumar as coisas. Conversava comigo, mas eu detestava aquela conversa, sob cuja continuidade uniformemente banal meus sentimentos se alteravam de minuto a minuto, passando do temor à ansiedade, da ansiedade à decepção completa. Diversamente das palavras vagamente satisfeitas que me julgava obrigado a dirigir-lhe, sentia tão infeliz a minha fisionomia que pretextei estar sofrendo de um reumatismo para explicar a discordância entre minha indiferença simulada e aquela expressão dolorosa; além disso, temia que as palavras pronunciadas por Françoise, aliás a meia voz (não por causa de Albertine, pois ela julgava passada há muito a hora de sua possível chegada), me impedissem de ouvir o apelo salvador que não viria mais. Françoise foi se deitar; despedi-a com uma rude brandura, para que o que ela faria ao sair não abafasse o do telefone.

            Recomecei a sofrer; quando estamos esperando, do ouvido que recolhe os ruídos do espírito que os despoja e analisa, e do espírito ao coração, a quem ele emite seus resultados, o duplo trajeto é tão rápido que nós nem sequer pudemos perceber sua duração, e parece que estamos ouvindo direto com o coração.

            Eu era torturado pela incessante reincidência do desejo, se mais ansioso e jamais satisfeito, de um rumor de chamada; eis que chegando ao ponto culminante de uma ascensão atormentada pelas esperanças de minha angústia solitária, do fundo da Paris populosa e noturna, próxima de mim, ao lado de minha biblioteca, ouvi de repente, uma mecânica sublime, como no Tristão a écharpe agitada ou a flauta de cana do pastor - ruído de pião do telefone.

            Levantei-me depressa; era Albertine.

            - Não incomodo ao telefone numa hora destas?

            - Claro que não... - disse, reprimindo a alegria, pois o que ela dizia acerca da hora indevida sem dúvida era para se desculpar por vir num momento tão tardio, e não que viesse.

            - Você vem? - perguntei num tom indiferente.

            - Claro que não, se você não tem necessidade absoluta de mim.

            Uma parte de mim à qual a outra queria se juntar estava em Albertine. Era preciso que ela viesse, mas no começo eu não lhe disse nada; como estávamos em comunicação, disse para mim mesmo que poderia sempre obrigá-la, no último instante, ou a vir até minha casa, ou a me deixar correr até a sua.

            - Sim, estou perto de casa - disse ela; e um pouco longe da sua. Não tinha lido bem o seu recado. Acabei de relê-lo e pensei que você não estivesse me esperando. -

            Percebi que ela mentia e agitado na minha fúria, mais ainda pela necessidade de incomodá-la do que de vê-la é que desejava obrigá-la a vir. Mas queria primeiro recusar o que pretendia obter dentro de instantes. Mas onde estava ela? Às suas palavras misturavam-se outros sons: a buzina de um ciclista, a voz de uma mulher que cantava, uma fanfarra distante ressoavam tão distintamente como a voz querida, como para me mostrar que era mesmo Albertine em seu meio até que estava perto de mim naquele momento, como um torrão de terra com o qual foram trazidas todas as gramíneas que o cercavam. Os mesmos ruídos que eu ouvia também feriam seus ouvidos e estorvavam sua atenção pormenores de verdade, estranhos ao assunto, inúteis em si mesmos, mais necessários para nos revelar a evidência do milagre; vestígios sóbrios e encantadores, descritivos de alguma rua parisiense, vestígios igualmente intensos e cruéis de um sarau desconhecido que, à saída da Fedra, havia impedido Albertine de vir até minha casa.

            - Começo prevenindo-a de que não é para que você venha, pois a essa hora você me deixaria muito constrangido - disse-lhe; - estou caindo de sono. E depois, afinal, há um monte de complicações. Faço questão de lhe dizer que não havia mal-entendido possível em meu bilhete. Você me havia respondido que estava combinado. Então, se você não tinha compreendido, o que é que queria dizer com isso?

            - Eu disse que estava combinado, apenas já não me lembrava bem do que fora combinado. Mas vejo que você está aborrecido e isto me incomoda. Lamento ter ido à Fedra. Se tivesse adivinhado que ia causar tantos transtornos... - acrescentou, como todas as pessoas que, sendo culpadas de uma coisa, aparentam crer que é uma outra coisa que lhes censuram.

            - Fedra não tem nada a ver com o meu descontentamento, visto que fui eu quem lhe aconselhou que fosse.

            - Então você ficou aborrecido comigo; é pena que já seja tão tarde esta noite; não fosse isso eu teria ido a sua casa, mas irei amanhã ou depois de amanhã para me desculpar.

            - Oh, não! Albertine, peço-lhe; depois de ter-me feito perder uma noite, deixe-me ao menos em paz nos dias seguintes. Não estarei livre nos próximos quinze dias, ou três semanas. Escute, se lhe aborrece nos separarmos com uma impressão de cólera, e, no fundo, talvez tenha razão, então ainda prefiro, cansaço por cansaço, já que a esperei até esta hora e que você ainda está na rua, que venha imediatamente, vou tomar café para despertar.

            - Não seria possível deixar isto para amanhã? Porque a dificuldade... -

            Ao ouvir estas palavras de desculpa, pronunciadas como se ela não viesse, senti que, ao desejo de rever o rosto aveludado que já em Balbec orientava todos os meus dias para o momento em que, diante do mar cor-de-malva de setembro, eu estaria ao lado daquela rósea flor, tentava dolorosamente unir-se um elemento bem diverso. Essa tremenda necessidade de uma criatura, eu aprendera a conhecê-la em Combray a respeito de minha mãe, e até ao ponto de desejar morrer se ela me mandava dizer por Françoise que não poderia subir. Esse esforço do antigo sentimento para se combinar e fazer apenas um só elemento com o outro, mais recente, e que tinha somente como objeto a superfície colorida, a rósea carnação de uma flor de praia, esse esforço muitas vezes leva apenas (no sentido químico) a um corpo novo, que pode durar pouco mais que alguns instantes. Naquela noite ao menos, e por muito tempo ainda, os dois elementos permaneceram dissociados. Mas, já às últimas palavras ouvidas pelo telefone, comecei a compreender que a vida de Albertine estava situada (sem dúvida não do ponto de vista material) a uma tal distância de mim que me seriam necessárias sempre explorações fatigantes para lhe pôr a mão em cima; mais ainda: estava organizada como fortificações de campanha e, para maior segurança, com o tipo daquelas a que bem mais tarde adquiriu-se o hábito de tornar "camufladas". Aliás, Albertine, em um nível mais elevado do dela fazia parte desse tipo de pessoas a quem a porteira promete ao portador entregar a carta quando voltar para casa até o dia em que descobrimos que precisamente ela (a pessoa encontrada fora e a que demos permissão de escrever) é que é a porteira, de modo que ela mora mais na portaria na casa que nos indicou (a qual, por sua vez é um pequeno bordel do qual a porteira é a cafetina) ou então dá o endereço de um prédio onde é conhecida por cúmplices que não revelam seu segredo, de onde lhe farão chegar as nossas cartas, mas onde esta reside, onde, quando muito, deixou suas coisas. Existências dispostas sobre cinco ou seis linhas estratégicas, de maneira que, quando se deseja conhecer essa mulher, bate-se muito à direita, ou muito à esquerda, muito adiante, ou muito atrás, podendo-se ignorar tudo durante meses. Quanto a Albertine, eu sentia que jamais aprenderia coisa alguma, que a multiplicidade entremeada de detalhes reais e de fatos mentirosos eu chegaria a me desembaraçar. E que isto seria sempre assim, a menos que a colocasse na prisão (porém, foge-se) até o fim. Naquela noite, essa conecção fez passar através de mim não mais que uma inquietude, mas eu sentia fremir como que uma antecipação de longos sofrimentos.

            - Claro que não respondi; já lhe disse que não estaria antes de três semanas, e muito menos amanhã que em qualquer outro - disse.

            - Bem, então... tenho que andar depressa... é aborrecido, pois estou na casa de uma amiga que... -

            Eu sentia que ela não acreditara que eu aceitaria sua proposta de vir, a qual, pois, não era sincera, e quis colocá-la entre a espada e a parede.

            - Que me importa a sua amiga? Venha ou não venha, você é quem decide, não sou eu quem lhe pede para vir, foi você quem propôs.

            - Não se zangue, vou pegar um fiacre e estarei em sua casa dentro de dez minutos. Assim, dessa Paris de cujas profundezas noturnas emanava até meu quarto, medindo o raio de ação de um ser longínquo, mensagem invisível, o que ia surgir e aparecer após essa primeira anunciação era aquela Albertine que eu havia conhecido outrora sob o céu da Balbec, quando os garçons do Grande Hotel, ao porem a mesa, eram ofuscados pela luz do poente, quando, estando as vidraças totalmente abertas, a aragem imperceptível do entardecer corria livremente da praia, onde demoravam os últimos passeantes, para a enorme sala de jantar onde ainda não se haviam sentado os primeiros comensais, e quando, no espelho; colocado por detrás do balcão, passava o reflexo rubro do casco e se deitava ao ficar por muito tempo o reflexo cinzento da fumaça do último vapor de Rivebelle. Eu já não me perguntava o que poderia ter atrasado Albertine quando Françoise entrou no meu quarto e disse:

            - A senhorita Albertine está aí -, se respondi sem nem mesmo mover a cabeça, foi apenas para dissimular:

            - Como, a Srta. Albertine vem tão tarde? -

            Mas então, erguendo os olhos para Françoise, como na curiosidade de que sua resposta devia corroborar a aparente sinceridade de minha pergunta, percebi, com admiração e furor, que, capaz de rivalizar com a própria Berma na arte de fazer falar as roupas inanimadas e as feições do rosto, Françoise soubera "ensinar" ao seu corpete, a seus cabelos, cujos fios mais brancos tinham sido trazidos à superfície, exibidos como uma certidão de nascimento, a seu pescoço encurvado pela fadiga e pela obediência. Eles a lamentavam por ter sido arrancada ao sono e à tepidez do leito, no meio da noite, na sua idade, obrigada a se vestir às pressas, arriscando-se a pegar uma pneumonia. Assim, temendo ter dado a impressão de desculpar-me pela chegada tardia de Albertine, disse:

            - Em todo caso, estou muito contente por ela ter vindo, não podia ser melhor e deixei explodir minha profunda alegria. Que não ficou muito tempo sem mistura, quando ouvi a resposta de Françoise. Esta, sem proferir nenhuma queixa, parecendo mesmo sufocar da melhor maneira uma tosse irresistível, e apenas cruzando o xale como se tivesse frio, começou a me contar tudo o que dissera a Albertine, não tendo esquecido de lhe pedir notícias da tia.

            - Justamente dizia eu que o patrão devia recear que a senhorita não viesse mais, pois isto não são horas de chegar, daqui a pouco será de manhã. Mas ela devia estar em lugares onde se divertia bastante, pois não só não falou que estava contrariada por ter feito o patrão esperar, como também me respondeu com ar de pouco-caso: - Antes tarde que nunca! - E Françoise acrescentou estas palavras que me partiram o coração: - Falando desse modo, ela se denunciou. Talvez tivesse desejado fingir, mas...

            Eu não tinha de que ficar espantado. Acabo de dizer que raramente Françoise se justificava, nos recados que lhe incumbiam, se não do que havia dito e sobre o que discorria de bom grado, ao menos da resposta esperada. Mas se, por exceção, ela nos repetia as frases que nossos amigos tinham dito, por mais curtas que fossem, em geral arranjava um meio, graças à expressão se necessário, ao tom com que assegurava terem sido acompanhadas, para lhes atribuir algo de ferino. A rigor, aceitava ter sofrido um insulto de um fornecedor a cujo estabelecimento a tínhamos enviado, insulto, aliás, provavelmente imaginário, desde que, dirigindo-se a ela, que nos representava, que falara em nosso nome, tal insulto nos atingisse de ricochete. Só restava responder-lhe que compreendera mal, que estava atacada de mania de perseguição, e que todos os comerciantes não se achavam unidos contra ela. Aliás, seus sentimentos pouco me importavam. Não ocorria o mesmo com os de Albertine. Ao repetir-me estas palavras: - Antes tarde que nunca! -, Françoise lembrou-me logo os amigos em cuja companhia Albertine terminara sua noite, divertindo-se ali, e bem mais do que comigo.

            - Ela é cômica, tem um chapeuzinho achatado e, com seus olhos graúdos, isto lhe dá um ar engraçado, principalmente, sua capa, que faria melhor se mandasse para a cerzidora, pois está toda comida. Ela me diverte - acrescentou, como se zombasse de Albert Françoise dificilmente compartilhava de minhas impressões, mas experimentava um vivo desejo de fazer conhecer as suas. Eu nem mesmo queria parecer compreender que esse riso significava o desdém e a zombaria, - para rebater golpe por golpe, respondi a Françoise, muito embora não conhecesse o chapeuzinho de que ela falava:

            - O que você chama "chapeuzinho achatado" é algo simplesmente encantador...

            - Quer dizer que é três vezes nada - disse Françoise exprimindo desta vez com franqueza de um verdadeiro desprezo. Então (num tom suave e moderado, para que minha resposta mentirosa parecesse a expressão, não da minha cólera, mas da verdade, e entretanto sem perder tempo, para não fazer Albertine esperar), dirigi à Françoise estas palavras cruéis:

            - Você é muito boa – disse melosamente - você é gentil, você tem mil qualidades, mas está no mesmo ponto que no dia em que chegou a Paris, tanto para entender de coisas de toilette como para pronunciar de modo correto as palavras e não cometer erros. -

            E esta censura era particularmente estúpida, pois as palavras francesas, de que somos tão orgulhosos de pronunciar corretamente, não passam elas mesmas de "erros" cometidos por bocas gaulesas que pronunciavam arrevesadamente o latim ou o saxão, não passando a nossa língua da pronúncia defeituosa de algumas outras. O gênio lingüístico é o estado vivo, o passado e o futuro do francês, eis o que deveria interessar nos erros de Françoise. A "cerzidora" em vez de "cerzideira" não seria tão curioso como aqueles animais sobreviventes de épocas remotas, como baleia ou a girafa, e que nos mostram os estágios que a vida animal atravessou? - E acrescentei      - Já que você, depois de tantos anos, ainda não aprendeu, quer dizer que jamais aprenderá. Console-se, pois isto a impede de ser uma excelente pessoa e de preparar às maravilhas: bifes; geléia e mais uma infinidade de coisas. O chapéu que você acha simpático é copiado de um chapéu da princesa de Guermantes que custou quinhentos francos. Aliás, pretendo em breve oferecer um outro ainda mais belo à Srta. Albertine.

            Eu sabia que o que mais podia aborrecer a Françoise, que eu gastasse dinheiro com pessoas de quem ela não gostava. Respondeu-me com algumas palavras que uma brusca sufocação tornou inteligíveis. Quando mais tarde soube que ela sofria do coração, quanto remorso não senti por jamais me recusar ao prazer feroz e estéril de retrucar desse modo às suas palavras! Ademais, Françoise detestava Albertine porque esta, sendo pobre, não poderia aumentar o que Françoise chamava minhas superioridades. Sorria benévola cada vez que eu era convidado pela Sra. de Villeparisis. Em troca, indignava-se por Albertine não praticar a reciprocidade. Eu fora obrigado a inventar supostos presentes dados por esta e em cuja existência Françoise jamais dera o menor sinal de fé. Essa falta de reciprocidade a chocava sobretudo em matéria alimentar. Que Albertine aceitasse jantares de mamãe, se não éramos convidados para ir à casa da Sra. Bontemps (a qual, no entanto, passava a metade do tempo fora de Paris, já que o marido aceitava "postos" como outrora, quando estava farto do ministério), isto lhe parecia da parte de minha amiga uma indelicadeza que ela indiretamente punia, recitando esta quadrinha corrente em Combray:

            Mangeons mon pain, - Je le veux bien. - Mangeons le tien. - Je n'ai plus faim.

["Comamos o meu pão, / Com todo o prazer. /Comamos o teu. /- Já não tenho fome." (N. do T)]

            Fingi que estava escrevendo.

            - A quem escreve? - perguntou Albertine entrando.

            - A uma bela amiga minha, Gilberte Swann. Não a conhece?

            - Não.

            Desisti de fazer a Albertine algumas perguntas sobre a sua noitada, sentia que lhe faria censuras e que não teríamos tempo, em vista do adiantado da hora, de nos reconciliarmos o bastante para passar aos beijos e carícias. Assim, foi com eles que eu quis começar desde o primeiro minuto. Além disso, se estava mais calmo, nem por essa razão me sentia feliz. A perda de toda bússola, de toda orientação, que caracteriza a espera, subsiste mesmo após a vinda da pessoa esperada e, substituindo em nós a calma em que imaginávamos a sua chegada com tanto prazer, impede-nos de sentir o menor prazer que seja. Ali estava Albertine; meus nervos destroçados, continuando com sua agitação, esperavam-na ainda.

            - Posso dar-lhe um bom beijo, Albertine?

            - Tantos quantos quiser - disse ela com toda a sua bondade. Eu nunca a vira tão bonita.

            - Mais um ainda? Mas você sabe que isto me dá um prazer imenso.

            - E a mim, ainda mil vezes mais - respondeu ela. - Oh, que linda pasta de papéis você tem aí!

            - Leve-a, dou-lhe como lembrança.

            - Você é tão gentil...

            Ficaríamos para sempre curados do romantismo, se, para se pensar naquela a qual amamos, procurássemos ser aquele que seremos quando não mais amamos. O porta-papéis, a bolinha de ágata de Gilberte, tudo isso recebeu outrora a sua importância apenas de um estado puramente interior, visto; agora eram para mim um porta-papéis e uma bolinha quaisquer.

            Perguntei a Albertine se não queria beber.

            - Parece-me que laranjas e água - disse-me ela - Seria perfeito.

            Assim, pude destacar com seus beijos aquele frescor que me parecia superior a eles, na casa da princesa de Guermantes. E a laranja espremida na água parecia entregar, à medida que ia bebendo, a vida secreta de seu amadurecimento, sua feliz mistura contra certos estados desse corpo humano que pertence a um reino diverso, sua impotência em fazê-lo viver, mas em compensação os jogos irrigadores pelos quais lhe podia ser favorável, sem mistérios revelados; desfruta à minha sensação, mas de modo algum à minha inteligência.      

            Depois que Albertine saiu, lembrei-me que prometera à Swann escrever à Gilberte e achei mais gentil fazê-lo imediatamente. Foi sem emoção, e como que escrevendo a última linha de um tedioso dever de aulas; que tracei sobre o envelope o nome de Gilberte Swann com que outrora cobrira meus cadernos para dar-me a ilusão de que me correspondia com ela. E eu, se era eu quem antigamente escrevia esse nome, agora a tarefa estava entregue, pelo hábito, a um desses numerosos secretários de que ela se utiliza. Aquele podia, com tanto mais calma, escrever o nome de Gilberte visto que, posto em mim recentemente pelo hábito, recém-colocado a serviço, não conhecera Gilberte e sabia apenas, sem emprestar realidade nenhuma a essas palavras, porque me ouvira falar delas, que se tratava de uma jovem da qual estivera enamorado. Não podia acusá-lo de secura. O indivíduo que eu era agora dela era a "testemunha" mais bem escolhida para compreender o que ela própria havia sido. O porta-papéis e a bolinha de ágata tinham-se tornam, simplesmente para mim, relativamente a Albertine, o que haviam sido à Gilberte, o que teriam sido para toda criatura que não tivesse lançada sobre eles o reflexo de uma chama interior. Mas agora, havia em mim uma nova perturbação, que alterava, por sua vez, o verdadeiro poder das coisas e das palavras. E, como Albertine me dissesse, ainda para me agradecer:

            - Gosto tanto de turquesas! - respondi-lhe:

            - Não deixe morrer estas que estou confiando-lhe-, assim como às pedras, o futuro da nossa amizade, que no entanto, não era mais capaz de inspirar a Albertine um sentimento do quanto fora de conservar aquele que me unira outrora a Gilberte.

            Aconteceu por essa época um fenômeno que só merece ser mencionado porque se encontra em todos os períodos importantes da História. No momento mesmo em que eu escrevia à Gilberte, o Sr. de Guermantes, mal tendo regressado do baile à fantasia, ainda adornado com seu capacete, pensava que no dia seguinte se veria forçado a estar oficialmente de luto, e decidiu antecipar em oito dias a estação de águas que deveria fazer. Quando voltou, três semanas depois (e para adiantar, visto que apenas acabo de escrever a minha carta à Gilberte), os amigos do duque que o tinham visto, tão indiferente a princípio, tornar-se um antidreyfusista furioso, ficaram mudos de surpresa ao ouvi-lo (como se a estação de águas não tivesse agido unicamente na bexiga) responder-lhes:

            - Pois bem, o processo será revisado e ele vai ser absolvido; não se pode condenar um homem contra o qual nada existe. Já viram alguma vez um gagá como Froberville? Um oficial preparando os franceses para a matança (quer dizer, para a guerra)! Época estranha! -

            Ora, nesse intervalo o duque de Guermantes conhecera na estação de águas três senhoras encantadoras (uma princesa italiana e suas duas cunhadas). Ouvindo-as dizer algumas palavras sobre os livros que liam, sobre uma peça que se representava no Cassino, o duque de súbito compreendera que tinha a haver-se com mulheres de intelectualidade superior e com quem, como dizia, não dispunha de forças. Nem por isso ficara menos contente de ser convidado pela princesa para jogar bridge. Porém mal chegara à casa desta, como lhe dissesse, no fervor de seu antidreyfusismo sem matizes:

            - Pois bem, não nos falam mais da revisão do famoso Caso Dreyfus -, grande fora a sua estupefação ao ouvir a princesa e as cunhadas afirmarem:

            - Nunca esteve tão próxima a revisão. É impossível manter na prisão quem nada fez.

            - Há?

            Há balbuciara a princípio o duque, como diante da descoberta de uma alcunha esquisita, que fosse usada numa casa para ridicularizar alguém que até então julgasse inteligente. Mas ao cabo de alguns dias, como por covardia e espírito de imitação a gente grita:

            - Olá, Jojotte! - sem saber por quê, a um grande artista a quem ouvimos chamar desse modo naquela casa, o duque, ainda bem constrangido pelo novo costume, entretanto dizia:

            - De fato, se não há nada contra ele. -

            As três damas encantadoras achavam que ele não se acostumava muito rápido e o maltratavam um pouco.

            - Mas no fundo, nenhuma pessoa um pouco inteligente poderia acreditar que houvesse algo contra ele. -

            De cada vez que surgia um fato "esmagador" contra Dreyfus, e o duque, julgando que aquilo iria convertê-las, vinha anunciá-lo, as três damas encantadoras riam muito e não tinham problemas, com uma grande finura de dialética, em mostrar-lhe que o argumento era sem valor e inteiramente ridículo. O duque voltara a Paris como um dreyfusista enraivecido. E com certeza nós não pretendemos que as três damas encantadoras fossem naquele caso mensageiras da verdade. Mas é de notar que a cada dez anos, quando se deixou um homem cheio de uma verdadeira convicção, ocorre que sendo inteligente, uma solitária dama encantadora entre no seu caminho e que ao fim de alguns meses o conduza à opiniões contrárias. Nesse ponto há muitos países que se comportam como o homem; muitos países aos quais deixaram cheios de ódio contra um povo e passados seis meses, mudaram de sentimento e desfizeram suas alianças.

            Durante algum tempo não vi mais Albertine, mas continuei, a visitar à Sra. de Guermantes, que já não falava à minha imaginação, ao palácio das fadas e suas residências, tão inseparáveis delas como, do molusco que fabricou e nela se abriga, a valva de nácar ou de esmalte, ou o torreão guarnecido de ameias de sua concha. Eu não saberia classificar melhor; sendo a dificuldade do problema tão insignificante, como impossível não de resolver, mas também de colocar. Antes da dama, era preciso abordar o palácio das fadas. Ora, uma recebia todos os dias após o almoço de verão; mesmo antes de chegar a sua casa, era necessário baixar a capota do fiacre, tão intenso era o sol, cuja lembrança, sem que eu me dê conta, ia entrar na impressão total. Pensava unicamente em ir ao CoaraIa-Reine; na verdade, antes de chegar à reunião de que um homem desconhece teria talvez zombado, eu sentia, como numa viagem pela Itália, um deslumbramento, um deleite de que o palácio não mais se separaria-: minha memória. Ademais, devido ao calor da estação e da hora, fechara hermeticamente os postigos nos vastos salões retangulares do andar térreo onde recebia. No princípio eu não reconhecia bem a dona de suas visitas, nem mesmo a duquesa de Guermantes que, com sua voz rouca, me pedia que fosse sentar-me junto dela, numa poltrona Beauvais que representava O Rapto de Europa. Depois distinguia, nas redes, as amplas tapeçarias do século XVIII que representavam barcos com mastros floridos de malvas-rosas, sob as quais eu me achava, não como no palácio do Sena, mas de Netuno, à margem do rio Oceano, onde a duquesa de Guermantes se transformava numa espécie de divindade da água. Não acabaria mais, se fosse enumerar todos os salões diferentes deste. Este exemplo basta para mostrar que eu incluía, nos juízos mundos de impressões poéticas que nunca levava em consideração no mundo de calcular o total, de modo que, quando avaliava os méritos de um salão, nunca era exato. Claro que essas causas de erro estavam longe de serem as únicas, mas não tenho mais tempo, antes de minha partida para Balbec (onde, para minha infelicidade, vou fazer uma segunda temporada que também seria a última), de iniciar pinturas da alta sociedade que terão seu lugar bem interiormente. Digamos apenas que àquela primeira falsa razão (minha relativamente frívola e que fazia supor o apego à sociedade) de minha carta à Gilberte e da volta aos Swann que ela parecia indicar, poderia Odette acrescentar tão inexatamente uma segunda. Não pensei até agora nos aspectos diferentes que a sociedade apresenta para uma mesma pessoa, senão supondo que o mundo não muda: se a mesma dama que não conhece ninguém vai à casa de todos, e uma outra, que desfrutava de uma posição dominante é desprezada, sentimo-nos tentados a ver nisso unicamente os altos e baixos puramente pessoais que, de quando em vez, trazem a uma mesma sociedade, em virtude de especulações na Bolsa, uma ruína estrondosa ou um enriquecimento inesperado. Ora, não é somente isso. Numa certa medida, as manifestações mundanas (muito inferiores aos movimentos artísticos, às crises políticas, à evolução que leva o gosto do público para o teatro de idéias, e depois para a pintura impressionista, para a música alemã e complexa, depois para a música russa e simples, ou para as idéias sociais, as idéias de justiça, a reação religiosa, o sobressalto patriótico, são entretanto o seu reflexo remoto, partido, incerto, perturbado e mutável. De forma que até mesmo os salões não podem ser pintados numa imobilidade estática que, até agora, pôde ser conveniente ao estudo dos caracteres, os quais deverão também ser como que apanhados em um movimento quase histórico. O gosto pelas novidades, que leva os homens da sociedade, mais ou menos sinceramente ávidos de se informarem sobre a evolução intelectual, a freqüentarem os meios em que podem segui-la, fá-los habitualmente preferir alguma dona-de-casa até então inédita, que representa ainda bem frescas as esperanças de mentalidade superior, tão murchas e ressequidas nas mulheres que exerceram durante muito tempo o poder mundano, daquelas de quem conhecem os pontos fracos e fortes e que já não lhes falam à imaginação. E assim, cada época acha-se personificada em mulheres novas, num novo grupo de mulheres que, estreitamente ligadas ao que aguça as curiosidades mais novas, parecem, na sua toilette, surgir apenas naquele momento, como uma espécie desconhecida provinda do último dilúvio, beldades irresistíveis de cada novo Consulado, de cada novo Diretório. Porém, muitas vezes as novas donas de casa são simplesmente, como certos estadistas em seu primeiro ministério mas que há quarenta anos batiam em todas as portas sem que lhes abrissem, mulheres que não eram conhecidas da sociedade, mas que nem por isso recebiam menos, há muito tempo, e à falta de melhor, alguns "raros íntimos". Decerto, nem sempre era este o caso e quando, com a prodigiosa florescência dos balés russos, sucessivamente reveladora de Bakst, de Nijinski, de Benois, do gênio de Stravinski, a princesa Yourbeletieff, jovem madrinha de todos esses novos grandes homens, apareceu trazendo na cabeça uma imensa e trêmula aigrette, desconhecida das parisienses e que elas todas procuraram imitar; pôde-se crer que essa maravilhosa criatura fora trazida pelos russos em suas bagagens inumeráveis e como se fosse o seu mais precioso tesouro; mas, quando a seu lado, em seu proscênio, virmos assistir todas as apresentações dos "Russos", como uma verdadeira fada, tão desconhecida da aristocracia, a Sra. Verdurin, poderemos responder às pessoas da sociedade, que facilmente supuseram a Sra. Verdurin fora desembarcada com a trupe de Diaghilev, que esta senhora já existira em espécie bem diversa e passara por avatares diferentes, de que aquele não disse senão pelo fato de ser o primeiro que afinal trazia, daí em diante assessorado e em marcha cada vez mais rápida, o sucesso durante tanto tempo infrutiferamente esperado pela Patroa. Quanto à Sra. Swann, de fato a atividade que ela representava não tinha o mesmo caráter coletivo. Seu mundo cristalizara-se em torno de um homem, um moribundo, que havia passado quase de súbito, na ocasião em que seu talento se esgotava, da obscuridade à glória retumbante. Era imensa a admiração pelas obras de Bergotte. Ele passava o dia inteiro sendo exibido na casa da Sra. Swann, que superava um homem influente:

            - Eu lhe falarei; e ele vai lhe escrever um artigo. -

            De resto, ele estava em condições de fazê-lo, e até mesmo de redigir um pequeno ato para a Sra. Swann. Mais perto da morte, andava pouco menos mal do que no tempo em que vinha saber notícias da minha avó. É que grandes sofrimentos físicos lhe haviam imposto um regime; a doença é o mais ouvido dos médicos: à bondade e ao saber fazem-se amenas promessas; ao sofrimento, obedece-se.      

            Decerto o pequeno clã dos Verdurin possuía atualmente um ressentimento muito mais vivo que o salão ligeiramente nacionalista, ainda mais literário, e sobretudo bergótico, da Sra. Swann. O pequeno clã era de fato o centro ativo de uma longa crise política que chegara a seu máximo de intensidade: o dreyfusismo. Mas as pessoas da sociedade eram na maioria de tal modo anti-revisionistas, que um salão dreyfusista parecia algo tão impossível como, em outra época, um salão da Comuna. A princesa Caprarola, que travara conhecimento com a Sra. Verdurin durante uma grande exposição que esta organizara, bem que lhe fora fazer uma longa visita na esperança de desencaminhar alguns elementos interessantes do pequeno clã e agregá-los a seu próprio salão, visita no decurso da qual a princesa (representando em miniatura as duquesas de Guermantes) tomavam em contrapartida das opiniões recebidas, declarara idiotas as pessoas do mundo, o que a Sra. Verdurin achara de uma grande coragem. Mas essa coragem não iria mais tarde ao ponto de ousar, sob o fogo dos olhares das damas nacionalistas, saudar a Sra. Verdurin nas corridas de Balbec. Quanto à Sra. Swann, ao contrário, os antidreyfusistas lhe agradeciam o ser "bem pensante", o que lhe atribuía um duplo mérito, por ser casada com um judeu. Não obstante, as pessoas que jamais tinham ido à sua casa imaginavam que ela recebia somente alguns israelitas obscuros e alunos de Bergotte. Assim, classificam-se mulheres muito mais qualificadas que a Sra. Swann no último degrau da escala social, ou por causa de suas origens, ou porque não gostam de jantares na cidade e dos saraus onde nunca são vistas, o que é falsamente atribuído ao fato de que não teriam sido convidadas, seja porque elas nunca falam de suas amizades mundanas, mas apenas de arte e literatura, seja porque as pessoas escondem o fato de que vão à casa delas, ou então ocultam que as recebem para não se mostrarem impolidas com os outros; enfim, por mil razões que acabam por fazer de tal ou qual dentre elas, aos olhos de alguns, a mulher que não se recebe. Assim ocorria com Odette. A Sra. d'Épinoy, por ocasião de uma subscrição que desejava fazer para a Patrie française, tendo de ir visitá-la, como teria entrado na casa de sua vendedora, aliás convencida de que só encontraria rostos, nem sequer desprezíveis, mas desconhecidos, estacou diante da porta que se abrira não para o salão que imaginava, mas para uma sala mágica onde, como que devido a uma mudança à vista numa féerie, reconheceu nas figurantes sedutoras, meio estendidas nos divãs, sentadas em poltronas, chamando a dona da casa pelo seu nome de batismo, as altezas e duquesas que ela própria, princesa d'Épinoy, tinha muita dificuldade em atrair à sua própria casa, e às quais naquele momento, sob os olhos benévolos de Odette, o marquês du Lau, o conde Louis de Turenne, o príncipe Borghese e o duque d'Estrées, trazendo laranjada e bolinhos, serviam de criados e escanções. Como a princesa d'Épinoy colocava, sem se aperceber de tal, a qualidade mundana no interior das criaturas, viu-se obrigada a desencarnar a Sra. Swann e a reencarná-la em uma mulher elegante. A ignorância da vida real que levam as mulheres que não a expõem nos jornais estende assim sobre certas situações (contribuindo desse modo para diversificar os salões) um véu de mistério. Quanto a Odette, no começo, alguns homens da mais alta sociedade, curiosos de conhecer Bergotte, tinham estado em sua casa para um jantar íntimo. Ela tivera o tato, recentemente adquirido, de não divulgá-lo; ali eles encontravam talvez recordação do "pequeno núcleo", do qual Odette, desde o cisma, conservara as tradições a mesa posta, etc.. Odette levava-os com Bergotte, a quem isto aliás acabava de matar, às estréias interessantes. Eles falaram dela a algumas mulheres do seu mundo capazes de se interessar com tanta novidade. Estavam elas persuadidas de que Odette, íntima de Bergotte, mais ou menos havia colaborado em suas obras, e a julgavam mil vezes mais inteligente que as mulheres mais notáveis do Faubourg, pelo mesmo motivo porque punham toda sua esperança política em certos republicanos legítimos como o Sr. De o Sr. Deschanel, ao passo que viam a França no abismo se fosse chamado ao pessoal monarquista a quem não recebiam para jantar, aos Charlus aos Doudeauville, etc. Esta mudança da posição de Odette cumpriu-se a parte dela com uma discrição que a tornava cada vez mais rápida e secreta mas não a deixava absolutamente suspeitar do público, inclinado pelas crônicas do Gaulois o progresso ou a decadência de um salão de modo que um dia, no ensaio geral de uma peça de Bergotte dado numa das salas mais elegantes em benefício de uma obra de caridade, foi um verdadeiro lance teatral quando se viu, no camarote da frente, que era o outro, virem sentar-se, ao lado da Sra. Swann, a Sra. de Marsantes e que, pelo apagamento progressivo da duquesa de Guermantes (faltando honrarias e anulando-se ao menor esforço), estava se tornando a leoa, a rainha da época: a condessa Molé. "Quando nem adivinhávamos quando e havia começado a subir, disseram de Odette, no momento em que, se viu entrar a condessa Molé no camarote, "ela atingiu o último degrau." De maneira que a Sra. Swann podia crer que era por esnobismo que eu me reaproximara de sua filha. Odette, apesar de suas brilhantes amigas, nem por isso deixou de ouvir a peça com extrema atenção, como se estivesse ali apenas para escutá-la, da mesma maneira como antigamente atravessava o Bois por higiene e para fazer exercício. Homens que outrora eram menos solícitos em redor chegaram-se ao balcão incomodando a toda a gente, para suspenderem-se à sua mão a fim de se aproximar do círculo imponente que ela se cercava. Odette, com um sorriso antes de amabilidade que de ironia, respondia pacientemente às suas perguntas, afetando mais calma do que pensavam e que era talvez sincera, pois tal exibição não passava de exibição tardia de uma intimidade habitual e discretamente oculta. Por detrás daquelas três damas, atraindo todas as atenções, estava Bergotte cercado pelo príncipe de Agrigento, pelo conde Louis de Turenne e pelo marquillo de Bréauté. E é fácil compreender que, para os homens que eram recebidos em toda parte e que não mais podiam esperar uma superestimação senão da busca de originalidade, essa demonstração que pensavam dar de seus valor ao se deixarem atrair por uma dona-de-casa tida como grande intelectual e junto a quem esperavam encontrar todos os dramaturgos e romancistas em voga, era mais viva e excitante do que aqueles saraus em casa da princesa de Guermantes, que, sem nenhum programa ou atração nova sucediam-se há tantos anos, mais ou menos iguais ao que tão longamente descrevemos. Naquele grande mundo dos Guermantes, de onde a curiosidade se afastava um pouco, as novas modas intelectuais não se enganavam em divertimentos à sua imagem, como nessas pecinhas de Bergotte escritas para a Sra. Swann, como nas verdadeiras sessões de Salvação pública (se a alta sociedade pudesse interessar-se pelo Caso Dreyfus) onde, na casa da Sra. Verdurin, se reuniam Picquart, Clemenceau, Zola, Reinach e Labori. Gilberte também contribuía para a situação da mãe, pois um tio de Swann acabava de lhe deixar cerca de oitenta milhões, o que fazia com que o faubourg Saint-Germain começasse a pensar nela. O reverso da medalha era que Swann, de resto agonizante, professava opiniões dreyfusistas, porém isto não prejudicava a mulher e até lhe prestava serviço. Não a prejudicava porque diziam:

            - Ele é esclerosado, idiota, a gente não liga para ele, só a sua mulher é que importa, e ela é encantadora. -

            Porém até o dreyfusismo de Swann era útil à Odette. Entregue a si mesma, ela talvez fizesse às mulheres elegantes concessões que a perderiam. Ao passo que nas noites em que arrastava o marido para jantar no faubourg Saint-Germain, Swann, ficando ferozmente no seu canto, não se constrangia em dizer em voz alta, caso visse Odette fazer-se apresentar a alguma dama nacionalista:

            - Ora, Odette, você está louca. Peço-lhe que fique quieta. Seria uma baixeza de sua parte fazer-se apresentar a anti-semitas. Eu a proíbo. -

            As pessoas mundanas, a quem todos acorrem, não estão acostumadas a tanto orgulho nem a tamanha falta de educação. Pela primeira vez viam alguém que se julgava "mais" que elas. Comentavam-se esses resmungos de Swann, e os cartões dobrados choviam na casa de Odette. Quando esta estava de visita à casa da Sra. d'Arpajon, criava-se um vivo e simpático movimento de curiosidade.

            - Não se aborreceu por tê-la apresentado? - dizia a Sra. d'Arpajon. - Ela é muito gentil. Foi Marie de Marsantes quem me deu a conhecê-la.

            - Não, pelo contrário, parece que ela é o que há de mais inteligente; é encantadora. Eu até desejava encontrá-la. Diga-me onde ela mora. -

            A Sra d'Arpajon dizia à Sra. Swann que se divertira bastante na casa desta na antevéspera e que, por ela, abandonara com alegria a Sra. de Saint-Euverte. E era verdade, pois preferir a Sra. Swann era mostrar-se inteligente, como ir a um concerto em vez de comparecer a um chá. Mas, quando a Sra. de Saint-Euverte ia à casa da Sra. d'Arpajon ao mesmo tempo que Odette, como a Sra. de Saint-Euverte era muito esnobe e a Sra. d'Arpajon, embora a tratasse de cima, fazia questão de manter suas recepções, esta não apresentava Odette para que a Sra. de Saint-Euverte não soubesse de quem se tratava. A marquesa imaginava que deveria ser alguma princesa que saía muito pouco, visto que não a conhecia, e prolongava a visita, respondia indiretamente ao que Odette dizia, mas a Sra. d'Arpajon permanecia de ferro. E, quando a Sra. de Saint-Euverte, derrotada, ia embora:

            - Eu não lhe apresentei - dizia a dona da casa à Odette - porque a gente; gosta muito de ir à casa dela e ela convida imensamente; você não poderia se livrar.

            - Oh, isso não tem importância - dizia Odette. Mas manteve a idéia de que não gostavam de ir à casa da Sra. de Saint-Euverte, o que até certo ponto era verdade, e daí concluiu que possuía uma situação muito superior à Sra. de Saint-Euverte, conquanto a posição dela fosse muito boa e Odette ainda não tivesse nenhuma. Ela não percebia isso e, embora todas as amigas da Sra. de Guermantes tivessem relações com a Sra. d'Arpajon, quando esta convidava a Sra. Swann, Odette dizia com ar escrupuloso:

            - Vou à casa da Sra. d'Arpajon, mas vocês vão me achar muito antiquada; isto me deixa contrariada por causa da Sra. de Guermantes - (que, aliás, ela não conhecia. Os homens distintos pensavam que o fato da Sra. Swann conhecer certas pessoas da alta sociedade se atribuía a que ela fosse uma mulher superior, provavelmente uma grande musicista, e que ir à sua casa seria uma espécie de título extra-mundano, como para um duque ser doutor em ciências. As mulheres completamente nulas eram atraídas para Odette por uma razão oposta; sabendo que ela ia ao concerto Colonne e se declarava wagneriana, concluíam daí que devia ser uma "farsista" e ficavam muito entusiasmadas à idéia de conhecê-la. Mas, pouco seguras de sua própria situação, temiam comprometer-se em público parecendo estar ligadas à Odette e, se num concerto de caridade viam a Sra. Swann, desviavam o rosto, achando impossível cumprimentar, aos olhos da Sra. de Rochochouart, uma mulher que era bem capaz de ter ido à Bayreuth o que significava capaz de levar uma vida desregrada.

            Toda pessoa em visita a outra fazia-se diferente. Sem falar das maravilhosas metamorfoses que assim se efetuavam entre as fadas na reunião da Sra. Swann, o Sr. de Bréauté. Subitamente valorizado pela ausência de pessoas que de hábito o rodeavam, pelo ar de satisfação que tinha de se encontrar tão bem ali, como se, em vez de ir a uma festa, tivesse posto os óculos para encerrar-se a fim de ler La Revoe des Deux Mondes, pelo rito misterioso que parecia cumprir vindo visitar Odette, o próprio Sr. de Bréauté dava a impressão de um novo homem. Eu teria dado muito para ver quais alterações sofreria a duquesa de Montmorency-Luxembourg naquele meio novo. Mas ela era uma das pessoas a quem nunca se poderia apresentar à Odette. A Sra. de Montmorency, muito mais benevolente para com Oriane do que esta o era quanto a ela, espantava-me bastante ao dizer a propósito da Sra. de Guermantes:

            - Ela conhece pessoas de espírito, todos gostam dela, e creio que, se tivesse tido um pouco mais de coerência, chegaria formar um salão. A verdade é que não liga para isso, está coberta de razão e é feliz assim, requisitada por todos. -

            Se a Sra. de Guermantes não tinha um "salão", então o que era um "salão"? A estupefação em que me lançaram tais palavras não era maior do que aquela que causei à Sra. de Guermantes ao lhe dizer que apreciava bastante ir à casa da Sra. de Montmorency. Oriane achava-a uma velha cretina.

            - Quanto a mim, vá lá - dizia ela -, sou forçada a isso, é minha tia; mas você! Ela nem sequer sabe atrair as pessoas agradáveis. -

            A Sra. de Guermantes não percebia que as pessoas agradáveis deixavam-me frio, que, quando ela me dizia "salão Arpajon", eu via uma borboleta amarela, e "salão Swann" (a Sra. Swann recebia em casa, no inverno, das seis às sete), uma borboleta preta de asas mosqueadas de neve. Ainda este último salão, que não o era, a duquesa o julgava, conquanto inacessível para ela, dispensável para mim, devido às "pessoas de espírito". Mas a Sra. de Luxembourg! Se eu já houvesse "produzido" algo que me fizesse ser notado, ela teria concluído que uma dose de esnobismo pode aliar-se ao talento. E levei ao cúmulo a sua decepção: confessei-lhe que não ia à casa da Sra. de Montmorency (como ela acreditava) para "tomar apontamentos" e "fazer um estudo". A Sra. de Guermantes, de resto, não se enganava mais que os romancistas mundanos que analisam cruelmente, de fora, as ações de um esnobe ou de quem é tido como tal, mas jamais se colocam no seu interior, na época em que floresce na imaginação toda uma primavera social. Eu mesmo, quando quis saber que tipo tão grande de prazer sentiria em ir à casa da Sra. de Montmorency, fiquei um tanto desapontado. No faubourg Saint-Germain, ela morava numa velha casa cheia de pavilhões separados por pequenos jardins. Debaixo da abóbada, uma estatueta atribuída a Falconet representava uma fonte, de onde, aliás, escorria uma umidade permanente. Um pouco mais longe, a porteira, com os olhos sempre vermelhos, fosse por desgostos, fosse por neurastenia, enxaqueca ou gripe, jamais respondia, limitando-se a fazer um gesto vago indicando que a duquesa se encontrava em casa e deixava cair das pálpebras algumas gotas sobre uma taça repleta de miosótis. O prazer que me dava observar a estatueta, porque ela me lembrava um pequeno jardineiro em gesso que havia num jardim de Combray, não era nada comparado ao que me causavam a grande escadaria úmida e sonora, cheia de ecos, como a de certos estabelecimentos de banhos de outrora, os vasos cheios de cinerárias azul sobre azul na antecâmara, e sobretudo o toque da campainha, que era exatamente o do quarto de Eulalie. Esse toque levava ao auge o meu entusiasmo; mas parecia-me por demais humilde para que o pudesse explicar à Sra. de Montmorency, de modo que essa dama me via sempre num deslumbramento de cuja causa nunca suspeitou.

 

                                            AS INTERMITÊNCIAS DO CORAÇÃO

            Minha segunda chegada a Balbec foi bem diversa da primeira o gerente fora em pessoa me esperar em Pont-à-Couleuvre, repetindo o quanto considerava os hóspedes titulares, o que me fez recear que ele me via enobrecido, até que compreendi que, na obscuridade de sua memória gramatical, titular significava simplesmente "preferido". Aliás, à medida que aprendia novos idiomas, falava pior os idiomas anteriores.

            Anunciou que me reservara um quarto bem no alto do hotel.

            - Espero - disse, - que o senhor não veja nisso falta de cortesia; aborrecia-me dar-lhe um quarto do qual o senhor é indigno, porém o fiz em relação aos barulhos, pois assim não terá ninguém por cima a lhe cansar os trépanos (em vez de rt - “panos"). Fique tranqüilo, mandarei fechar as janelas para que elas não incomodem. Nesse ponto, sou intolerável - (tais palavras não exprimiam o seu pensamento, que era o de que o achariam sempre inexorável a esse respeito. Mas talvez perfeitamente o de seus camareiros. Aliás, os quartos eram da primeira estada. Não eram inferiores, mas eu havia subido na estima do gerente. Poderia mandar acender a lareira se quisesse (pois eu partira pela Páscoa, por ordem dos médicos), mas ele receava não houvesse "fixuras” no teto.

            - Sobretudo, espere sempre, para acender uma fogueira, quando a anterior esteja consumada (em vez de "consumida"). Pois é importante evitar incendiar a lareira, tanto mais que para alegrar um pouco, mandei colocar por cima um grande vaso de porcelana chinesa que isso poderia danificar.

            Informou-me, com muita tristeza, da morte do presidente da Ordem dos Advogados de Cherburgo.

            - Era um velho experiente - disse-me ele (provavelmente por "espertalhão"), e deu-me a entender que seu fim foi antecipado por uma vida de "devastações", o que significava "devassidões".

            - Há já algum tempo eu notava que, após o jantar, ele cochichava no salão (sem dúvida em vez de "cochilava"). Ultimamente, havia mudado de tal forma que, se não soubessem que era ele, ao vê-lo não tinha nada de reconhecido (em vez de "reconhecível", sem dúvida).

            - Compensação feliz, o presidente do conselho de Caen acabava de receber a "chibata" de comandante da Legião de Honra. Certamente que ele tem capacidade, mas creio que a deram sobretudo por sua grande "impotência".

            Aliás, voltavam a falar dessa "decoração" no Écho de Paris da véspera, do qual o gerente lera apenas "o primeiro parafo" (em vez de "parágrafo"). A política do Sr. Caillaux estava bem arranjada.

            - De resto, acho que eles têm razão - disse ele. - Ele nos põe demais sob a cópula da Alemanha (sob a "cúpula").

            Como esse tipo de assunto, tratado por um hoteleiro, me parecia tedioso, deixei de escutá-lo. Pensava nas imagens as quais me haviam decidido voltar a Balbec. Eram bem diferentes das de outrora, a visão que eu vinha buscar era tão esplêndida como a primeira era brumosa; não deviam me decepcionar menos. As imagens escolhidas pela lembrança são tão arbitrárias, tão estreitas, tão inatingíveis como as que a imaginação havia formado e a realidade destruíra. Não há motivo para que, fora de nós, um local de verdade possua de preferência os quadros da memória do que os do sonho. E depois, uma nova realidade nos fará talvez esquecer, e até mesmo detestar, os desejos em virtude dos quais tínhamos partido. Aqueles que me haviam feito partir para Balbec se relacionavam em parte com o fato de que os Verdurin (de cujos convites jamais me aproveitara, e que certamente ficariam felizes por me receberem, caso eu fosse ao campo a fim de desculpar-me de nunca lhes ter feito uma visita em Paris), sabendo que vários fiéis passariam as férias naquela costa, e tendo por isso alugado para toda a temporada um dos castelos do Sr. de Cambremer (La Raspeliere), enviei, feito um verdadeiro doido, o nosso jovem lacaio para se informar se essa dama levaria a sua camareira à Balbec. Eram onze horas da noite. O porteiro levou muito tempo para abrir e por milagre não mandou passear o meu mensageiro, não mandou chamar a polícia, contentando-se em recebê-lo muito mal, dando-lhe porém a informação desejada. Disse que de fato a camareira principal acompanharia a patroa, primeiro às águas da Alemanha, depois a Biarritz e, finalmente, à casa da Sra. Verdurin. Desde então eu me tranqüilizara, ficando satisfeito por ter aquele pão no forno. Podia dispensar-me dessas buscas nas ruas onde estava desprovido, junto às belezas que encontrava, desse cartão de recomendação que seria, ao lado do "Giorgione", o ter jantado na mesma noite com sua patroa, na casa dos Verdurin. Além disso, ela faria talvez melhor idéia a meu respeito, ainda mais sabendo que eu conhecia não somente os burgueses locatários de La Raspeliere como também seus proprietários, e principalmente Saint-Loup, que, não podendo me recomendar a distância à camareira (esta ignorava o nome de Robert), escrevera para mim uma calorosa carta aos Cambremer. Pensava que, afora toda a utilidade de que me poderiam ser, a Sra. de Cambremer, a nora nascida em Legrandin, haveria de interessar-me para conversar.

            - É uma mulher inteligente - me assegurara - Até certo ponto, naturalmente. Ela não te dirá coisas definitivas (as coisas "definitivas" tinham sido substituídas pelas coisas "sublimes" por Robert, que modificava, a cada cinco ou seis anos, algumas de suas expressões prediletas, sempre conservando as principais), mas é uma natureza, ela tem personalidade e intuição; diz a propósito a palavra exata. De vez em quando é enervante, solta asneiras para "bancar gente fina", o que é tanto mais ridículo, visto que nada é menos elegante que os Cambremer; nem sempre está atualizada, mas enfim, é uma das pessoas mais suportáveis de se freqüentar.

            Logo que lhes chegou às mãos a recomendação de Robert à Cambremer, fosse pelo esnobismo que os fazia desejar indiretamente serem amáveis com Saint-Loup, fosse por gratidão pelo que ele fizera por um de seus sobrinhos em Doncieres, e mais provavelmente, sobretudo, por bondade e tradições hospitaleiras, tinham escrito longas cartas pedindo que, morasse com eles e, se preferia ser mais independente, oferecendo-se para procurar um quarto. Quando Saint-Loup lhes objetou que eu ficaria no Grande Hotel de Balbec, responderam que ao menos esperavam uma visita desde a minha chegada e, se ela demorasse demais, não deixariam de me procurar para convidar-me à freqüentar os seus garden-parties.

            Sem dúvida, nada ligava de modo essencial a camareira da Sra. Putbus à região de Balbec; ali, ela não seria para mim como a camponesa que eu, sozinho na estrada de Méséglise, chamara tantas vezes em vão com todas as forças do meu desejo.

            Mas há muito eu já deixara de tentar extrair de uma mulher como; que a raiz quadrada de seu desconhecido, o qual não resistia muitas vezes a uma simples apresentação. Pelo menos em Balbec, aonde eu não ia há muito tempo, teria essa vantagem na falta da relação necessária que não existia entre a região e aquela mulher; a de que o sentimento da realidade não me seria suprimido ali pelo hábito, como em Paris, onde, seja em, minha própria casa, seja num quarto conhecido, o prazer junto de uma mulher não podia me dar por um só instante a ilusão de que, em meio às coisas cotidianas, me abria acesso a uma vida nova. (Pois, se o hábito é, uma segunda natureza, ele nos impede de conhecer a primeira, da qual não tem nem as crueldades nem os encantos.) Ora, essa ilusão, eu a teria talvez numa região nova onde a sensibilidade renasce ante um raio de sol, e onde, justamente acabaria de exaltar-me a camareira que eu desejava; porém iremos ver que as circunstâncias não só impedirão que essa mulher vá à Balbec, mas também que eu nada temeria tanto quanto a sua provável chegada; de modo que este objetivo principal da minha viagem não foi alcançado, nem mesmo perseguido. Decerto a Sra. Putbus não deveria ir tão cedo à casa dos Verdurin naquela temporada; mas tais prazeres escolhidos podem estar distantes desde que sua vinda esteja assegurada e que, durante a sua espera, possamos entregar-nos, daqui até lá, à preguiça de tentar agradar e à impotência de amar. Além disso, eu não ia a Balbec com um espírito tão pouco prático feito da primeira vez; há sempre menos egoísmo na imaginação pura do que na recordação; e eu sabia que ia precisamente me encontrar num desses lugares em que pululam as belas desconhecidas. Uma praia não as oferece menos que um salão de baile; eu pensava previamente nos passeios diante do hotel, sobre o molhe, com o mesmo tipo de prazer que a Sra. de Guermantes me proporcionaria se, em vez de me mandar convidar para brilhantes jantares, sugerisse mais vezes o meu nome, para as listas de cavalheiros, às donas-de-casa que davam bailes. Travar relações femininas em Balbec me seria tão fácil quanto difícil me fora antigamente, pois agora tinha ali tantos apoios e conhecimentos como era destituído deles na minha primeira viagem.

            Fui arrancado de meus devaneios pela voz do gerente, cujas dissertações políticas não havia escutado. Mudando de assunto, falou-me da alegria do presidente do conselho de Caen ao saber da minha chegada, e que viria visitar-me no quarto na mesma noite. A idéia dessa visita me assustou de tal maneira pois principiava a sentir-me esgotado, que lhe implorei que a evitasse (o que me prometeu) e, para maior segurança, que mandasse seus empregados montarem guarda no meu andar, na primeira noite.

            O gerente parecia não apreciá-los muito.

            - Sou obrigado o tempo todo a correr atrás deles, pois falta-lhes inércia demais. Se eu não estivesse aí, eles não se mexeriam. Vou colocar o ascensorista de plantão na sua porta. - Perguntei se este era afinal "chefe dos grooms".

            - Ainda não é bem velho na casa - respondeu-me. - Tem companheiros mais velhos que ele. Isso causaria protestos. Em todas as coisas é necessário “granulações.”("gradações"). Reconheço que ele possui uma boa aptitude (em vez de "atitude") diante de seu ascensor. Mas ainda é um pouco jovem para situações semelhantes. Isto faria contraste com os outros, que são bem antigos. Falta-lhe um pouco de seriedade, que é a qualidade primitiva (sem dúvida, a qualidade primordial, a qualidade mais importante). É preciso que seja mais repensável (meu interlocutor queria dizer responsável). De resto, só pode confiar em mim. Conheço o assunto. Antes de tomar meus galões como gerente do Grande Hotel, fiz minhas primeiras armas às ordens do Sr. Paillard. -

            Essa comparação impressionou-me e agradeci ao gerente o ter vindo em pessoa até Pont-à-Couleuvre.

            - Ora, de nada. Isto só me fez perder um tempo infinito (em vez de "ínfimo"). - Além disso, já tínhamos chegado.

            Forte perturbação de todo o meu ser. Desde a primeira noite, como eu sofresse de uma violenta crise de fadiga cardíaca, tratando de vencer meu sofrimento, abaixei-me com prudência e bem devagar para tirar os sapatos. Porém mal tocara o primeiro botão de minha botina, meu peito inchou-se, repleto de uma presença desconhecida, divina, soluços me sacudiram, lágrimas me rolaram dos olhos. A criatura que vinha em meu socorro, me salvava da secura da alma, era aquela que, muitos anos antes, num momento de aflição e solitude idênticas, num momento em que eu não mais possuía de mim, havia entrado e me devolvera a mim mesmo, pois, era eu e mais do que eu (o continente que é mais que o conteúdo e como ela me trazia). Eu acabava de perceber, em minha memória, debruçado sobre minha fadiga, o rosto preocupado, terno e desapontado de minha avó, assim como estivera na primeira noite da chegada; o rosto de minha avó; daquela que eu me espantara e censurara de lamentar tão pouco e que dela só possuía o nome, mas de minha avó verdadeira, de quem, pela primeira vez desde os Champs-Élysées onde ela tivera o seu ataque, eu encontrara a realidade viva numa lembrança involuntária e completa. Essa realidade, não existe para nós enquanto não for recriada pelo nosso pensamento (todos os homens que participassem de uma gigantesca batalha seriam grandes poetas épicos). E assim, num desejo louco de me precipitar em seus braços, era apenas naquele instante (mais de um ano após o seu falecimento devido a esse anacronismo que muitas vezes impede o calendário dos fatos de coincidir com o dos sentimentos) que eu acabava de saber que a estava morta. Muitas vezes falara eu nela desde esse momento, e até pensara nela, mas sob as minhas palavras e pensamentos de rapaz ingrato, egoísta e cruel, nunca houvera nada que se assemelhasse à minha avó, pois que, na minha leviandade, no meu amor pelo prazer, no meu hábito de vê-la enferma, eu continha em mim apenas em estado virtual a lembrança do que ela havia sido. Em qualquer momento que a consideremos, nossa alma total só tem um valor quase fictício, apesar do saldo numeroso de suas riquezas, pois ora umas, ora outras são indisponíveis, quer se trate de riquezas efetivas ou de riquezas da imaginação; e para mim, por exemplo, tanto as do antigo nome de Guermantes, como aquelas, bem mais graves, da verdadeira lembrança de minha avó. Pois às perturbações da memória estão ligadas as intermitências do coração. É sem dúvida a existência do nosso corpo, para nós semelhante a um vaso em que estaria encerrada a nossa espiritualidade, que nos induz a supor que todos os nossos bens interiores, nossas alegrias passadas, todas as nossas dores estão perpetuamente sob nossa posse. Talvez também seja incorreto crer que nos fujam ou que retornem. Em todo caso, se permanecem dentro de nós, na maior parte do tempo ficam num domínio desconhecido onde não têm nenhuma utilidade para nós, e onde até os mais comuns são recalcados por lembranças de ordem diferente e que excluem toda simultaneidade com eles na consciência. Mas, se o quadro de sensações em que estão conservados se recupera, têm por sua vez aquele mesmo poder de expulsar tudo o que lhes é incompatível, de instalar sozinho em nós o eu que lhes deu vida. Ora, como esse que eu acabara subitamente de tornar-me não havia existido desde aquela noite remota em que minha avó me despira quando da minha chegada a Balbec, foi bem naturalmente, não depois do dia atual, que esse eu ignorava, mas como se houvesse no tempo séries diversas e paralelas sem solução de continuidade, logo após a primeira noite de outrora, que aderi ao instante em que minha avó se debruçara sobre mim.

            O eu que eu era então, e que desaparecera durante tanto tempo, estava de novo tão perto de mim que me parecia ouvir ainda as palavras que tinham imediatamente precedido e que no entanto não passavam de um sonho, como um homem mal desperto julga perceber bem pertinho os rumores de seu sonho que se desvanece. Eu já não era senão aquela criatura que buscava refugiar-se nos braços de sua avó, a apagar com beijos os vestígios de suas mágoas, essa criatura que, quando eu era este ou aquele que em mim se haviam sucedido desde algum tempo, eu teria, para imaginar, tanta dificuldade que agora me seria necessário fazer esforços, aliás inúteis, para voltar a sentir os desejos e as alegrias de um daqueles que eu já não era, pelo menos por algum tempo. Lembrava-me como, uma hora antes do momento em que minha avó se inclinara desse modo, em seu chambre, para as minhas botinhas, vagando eu na rua sufocante de calor, diante da confeitaria, achara que jamais poderia, dada a necessidade que sentia de beijá-la, esperar a hora que ainda devia passar sem ela. E agora que essa mesma necessidade renascia, sabia que poderia esperar horas e horas, que ela nunca mais estaria a meu lado; não fazia mais que descobri-lo porque, sentindo-a pela primeira vez, viva, verdadeira, enchendo meu coração a ponto de parti-lo, reencontrando-a enfim, acabava de saber que a perdera para sempre. Perdida para sempre; eu não podia compreender e me exercitava em sofrer a dor dessa contradição: de um lado, uma existência, uma ternura, sobreviventes em mim tais como as havia conhecido, ou seja, feitas para mim, um amor onde tudo achava de tal modo em mim o seu complemento, seu objetivo, sua direção constante, que o gênio de grandes homens, todos os gênios que pudessem ter existido desde o começo do mundo não teriam valido para a minha avó um só de meus defeitos; e de outro lado, logo que eu revivera essa felicidade como atual, senti-la atravessada pela certeza, que se lançava como uma dor física à repetição, de um nada que havia apagado minha imagem dessa ternura, que havia destruído essa existência, abolido retrospectivamente nossa mútua predestinação e feito de minha avó, no momento em que a reencontrava como num espelho, uma simples estranha que um acaso fizera passar alguns anos junto de mim, como poderia ter sido junto de qualquer outro, mas para quem, antes e depois, eu não era nada e não seria nada.

            Em vez dos prazeres que tivera desde algum tempo, o único que seria possível desgrudar nesse momento teria sido, retocando o passado, diminuir as dores que a minha avó sentira antigamente. Ora, eu não lembrava apenas naquele chambre, vestimenta apropriada, a ponto de se ter quase simbólica, às fadigas, sem dúvida malsãs, mas igualmente suave que ela tomava por mim; pouco a pouco, eis que me lembrava de todas as ocasiões em que eu havia aproveitado, mostrando-lhe, exagerando, se necessário, os meus sofrimentos, para lhe causar uma dor que eu logo imaginava desfeita pelos meus beijos, como se a minha ternura fosse tão capaz, a minha felicidade, de fazer a sua. E pior que isto, eu que agora já não percebia felicidade a não ser encontrando-a espalhada em minha lembrança sobre os planos daquele rosto modelados e inclinados pelo carinho, encara outrora uma fúria insensata em tentar extirpar-lhe até os menores prazeres, como naquele dia em que Saint-Loup tirara a fotografia de minha avó; e quando, tendo dificuldade de dissimular a puerilidade quase ridícula e sua coqueteria em posar com seu chapéu de abas largas, numa penúria apropriada, deixara-me levar a proferir uns resmungos impacientes o ferir que, sentira-o por uma contração de sua face, tinham atingido o alvo; era em mim que tais resmungos feriam agora, era impossível para sempre o consolo de mil beijos. Porém nunca mais eu poderia apagar aquela contração de sua face, nem esse sofrimento do seu coração, ou melhor, do meu. Pois, como os mortos não mais existem senão em nós, é em nós mesmos que batem sem cessar quando nos obstinamos a recordar os golpes que lhes assentamos. Por mais cruéis que fossem essas dores, eu me ligava a elas com todas as forças, pois sentia perfeitamente que elas eram o efeito da recordação de minha avó, a prova de que essa lembrança que eu tinha estava bastante presente em mim. Sentia que só a recordava de fato através da dor e desejaria que se encravassem mais solidamente ainda aqueles pregos que cravavam a sua memória. Não buscava tornar mais suave o sofrimento, embelezá-lo, fingir que minha avó estava apenas ausente e momentaneamente invisível, ao dirigir à sua fotografia (a que fora tirada por Saint-Loup e eu trazia comigo) palavras e rogativas como a um ser separado de nós por uma indissolúvel harmonia. Jamais o fiz, pois não só estava empenhado em sofrer, mas também em respeitar a originalidade do meu sofrimento tal como o havia sentido de súbito, sem querer, e que desejava continuar sofrendo; seguindo suas próprias leis, a cada vez que voltasse essa contradição estranha da sobrevivência e do nada entrecruzados em mim. Essa imposição dolorosa e atualmente incompreensível, eu não sabia, é claro, se algum dia poderia arrancar-lhe um pouco de verdade, mas sim que esse pouco de verdade, se alguma vez o pudesse extrair, só poderia ser dela, tão particular, tão espontânea, que não fora traçada pela minha inteligência nem atenuada pela minha pusilanimidade, mas que a própria morte, a brusca revelação da morte, como um raio, abrira em mim um duplo e misterioso sulco, segundo um gráfico sobrenatural, inumano.

(Quanto a olvidar minha avó, em que eu vivera até agora, nem mesmo podia sonhar em ligar-me a ele para lhe extrair a verdade; porquanto em si mesmo não passava de uma negação, do enfraquecimento das idéias, incapazes de recriar um momento real da vida e obrigadas a substituí-lo por imagens convencionais e indiferentes.)

            Talvez, entretanto, o instinto de conservação, a engenhosidade da inteligência que nos preserva da dor, já começasse a reconstruir sobre ruínas ainda fumegantes, a colocar os primeiros alicerces de sua obra útil e nefasta, e eu desfrutasse por demais a doçura de me lembrar tais e tais opiniões da criatura querida, lembrá-las como se ela pudesse tê-las ainda, como se ela existisse, como se eu continuasse a existir para ela. Porém, logo que cheguei a adormecer, nessa hora, mais verídica, em que meus olhos se fechavam às coisas de fora, o mundo do sono (em cujo limiar a inteligência e a vontade, momentaneamente paralisadas, não mais podiam disputar-me à crueldade de minhas impressões verdadeiras) refletiu, refratou a dolorosa síntese da sobrevivência e do nada, na profundeza orgânica, tornada translúcida, das vísceras misteriosamente iluminadas. Mundo do sono, onde o conhecimento interno, posto sob a dependência das perturbações de nossos órgãos, acelera o ritmo do coração ou da respiração, pois que uma mesma dose de terror, de tristeza, de remorso, age com centuplicada força se é desse modo injetada em nossas veias; logo que, para percorrermos as artérias da cidade subterrânea, sulcamos as águas escuras do nosso próprio sangue como por um Letes interior de dobras sêxtuplas, surgem-nos grandes figuras solenes, abordam-nos e nos abandonam, deixando-nos em lágrimas. Em vão procurei minha avó, assim que desembarquei sob os pórticos sombrios; no entanto sabia que ela existia ainda, mas de uma vida diminuída, tão pálida como a da recordação; a escuridão aumentava, assim como o vento; tardava meu pai, que devia conduzir-me à presença dela. De repente, faltou-me a respiração, senti o coração como que endurecido, acabava de me lembrar que desde longas semanas me esquecera de escrever à minha avó. Que deveria ela pensar de mim? "Meu Deus", dizia comigo, "como não deve estar infeliz nesse pequeno quarto que alugaram para ela, tão pequeno como para uma antiga criada, onde ela está sozinha com a guarda que puseram para cuidá-la e onde ela não pode se mexer, pois está sempre um tanto paralisada e não quis se levantar uma só vez! Ela deve acreditar que a esqueço desde que morreu, como deve se sentir sozinha e abandonada! Oh! Preciso correr para vê-la, não posso esperar um segundo, não posso esperar que meu pai chegue, mas onde? Como pude esquecer o endereço? Contanto que ela ainda me reconheça! Como pude esquecê-la durante meses?" Está escuro, não encontrarei, o vento impede de prosseguir; mas eis meu pai que passeia à minha frente; grito-lhe: “Onde está minha avó? Dê-me o endereço. Ela está bem? Tem certeza de que não lhe falta nada? - Claro que não - responde meu pai -, podes ficar tranqüilo. Seu guarda é uma pessoa muito organizada. De vez em quando manda-se uma pequena quantia para que lhe seja possível comprar-lhe o estritamente necessário. Às vezes ela pergunta o que é feito de ti. Disseram-lhe até que ias escrever um livro. Ela pareceu contente. Enxugou uma lágrima. Então julguei lembrar-me que, um pouco antes de sua morte, minha avó me dissera, soluçando, com ar humilde, como uma velha que o criado expulsa, como uma estranha: "Hás de permitir que, mesmo assim, te vejo algumas vezes, não passes muitos anos sem me visitar. Pensa que fostes meu netinho e que as avós não esquecem." Revendo aquele rosto tão submisso, tão suave, tão infeliz, que ela possuía, queria correr logo para ela e dizer-lhe aquilo que deveria ter dito então: "Mas, avó, tu me verás quantas vezes quiseres, só tenho a ti neste mundo, não te deixarei nunca mais.” Como a deve ter feito soluçar o meu silêncio, durante todos esses meses em que não fui até lá onde ela está deitada! O que não terá imaginado? E foi também soluçando que disse a meu pai: - Depressa, depressa, o endereço, leva-me até lá. Mas ele: - É que... não sei se poderás vê-la. Depois, sabes, está muito fraca, muito fraca, já não é mais ela mesma, creio que isto vai ser até penoso para ti. E não me lembro do número exato da avenida. - Mas dize-me, tu que sabes, não é verdade que os mortos não vivem mais. Mesmo assim, não é verdade, apesar do que se diz, visto que a minha avó existe ainda. Meu pai sorriu tristemente: Oh, bem pouco, sabes bem pouco. Creio que farias melhor em não ir até lá. Não lhe falta nada tudo está em ordem. - Mas ela fica muitas vezes sozinha? - Sim, mas é preferível isto para ela. É preferível que não pense, só poderia lhe fazer mal. Freqüentemente faz mal pensar. Aliás, tu sabes, está muito abatida. Deixar-te-ei a indicação precisa para que possas ir até lá; não vejo o que poderias fazer ali e não creio que o guarda permitiria que a visses. - No entanto, sabes bem que viverei sempre junto dela, cervos, cervos, Francis Jammes. Porém já atravessara de volta o rio de tenebrosos meandros, regressara à superfície onde se abre o mundo dos vivos; de forma que, se ainda repetia: "Francis Jammes, cervos, cervos", a seqüência dessas palavras não me oferecia o sentido límpido e a lógica que exprimiam tão naturalmente para mim há um instante apenas, e que não mais podia recordar. Já nem sequer percebia por que a palavra Aias, que meu pai dissera há pouco, significara de imediato: "Cuidado com o frio", sem qualquer dúvida possível. Esquecera-me de fechar os postigos e decerto o dia claro me havia despertado. Mas não pude suportar ter debaixo dos olhos aquelas ondas do mar que minha avó outrora podia contemplar durante horas; a nova imagem de sua beleza indiferente era logo completada pela idéia de que ela não as via mais; desejaria tapar os ouvidos ao seu rumor, pois agora a plenitude luminosa da praia cavava um vazio em meu peito; tudo parecia dizer-me, como aquelas alamedas e gramados de um jardim público onde outrora me perdera dela, quando era bem pequeno: "Não a vimos", e, sob o redondo céu pálido e divino, eu me sentia oprimido, como debaixo de uma imensa cúpula azulada que fechasse um horizonte no qual não estava a minha avó. Para não ver mais coisa alguma, desviei-me para o lado da parede, mas, ai de mim, o que ficava à minha frente era aquele tabique que antigamente servia, entre nós, de mensageiro matinal; aquele tabique tão dócil como um violino para traduzir todos os matizes de um sentimento, que dizia tão exatamente à minha avó o meu temor a um tempo de despertá-la e, se já estivesse acordada, de não ser ouvido por ela e de que ela não se animasse a mover-se, e, logo depois, como a réplica de um segundo instrumento, me anunciava a sua vinda e me convidava ao sossego. Não tinha coragem de me aproximar dessa divisória mais que de um piano em que minha avó teria tocado e que vibraria ainda com seu toque. Sabia que poderia agora bater até com mais força, que nada mais conseguiria despertá-la, que eu não ouviria resposta alguma, que minha avó não mais viria. E eu nada mais pedia a Deus, se existe um paraíso, senão poder bater naquela divisória as três pancadinhas que minha avó reconheceria entre mil, e às quais responderia por essas três outras pancadinhas que queriam dizer: "Não te inquietes, meu ratinho, compreendo que estejas impaciente, mas já estou indo", e que me deixasse ficar com ela por toda a eternidade, que não seria bastante longa para nós dois.

            O gerente veio indagar se eu não queria descer. De qualquer modo, havia cuidado do meu "posto" na sala de jantar. Como não me visse, receara que estivesse com minhas sufocações de antigamente. Esperava que aquilo não passasse de pequena "dor de garganta" e me garantiu ter ouvido dizer que era acalmada com o auxílio do que ele denominava o "calipto". Entregou-me um bilhete de Albertine. Ela não deveria vir a Balbec este ano, mas, tendo mudado de intenção, estava há três dias, não exatamente em Balbec, mas a dez minutos de trem numa estação vizinha. Temendo que eu estivesse cansado da viagem, abstivera-se na primeira noite, mas mandava perguntar quando poderia recebê-la. Informei-me se ela tinha vindo em pessoa, não para vê-la, mas para cuidar de não a ver; respondeu-me o gerente. Mas ela queria que fosse o mais cedo possível; a menos que o senhor não tenha motivos absolutamente "necessito” , senhor vê concluiu que todo mundo aqui o deseja, em definitivo. Mas eu não queria ver ninguém.

            No entanto na véspera, à chegada, sentira-me retomado pelo canto indolente da vida dos banhos de mar. O mesmo ascensorista silencioso, desta vez por respeito, não por desdém, e rubro de prazer, pusera o elevador em andamento. Erguendo-me ao longo da coluna que subia, para atravessar o que outrora fora para mim o mistério de um hotel desconhecido, onde, quando se chega, turista sem proteção e sem prestígio, um hóspede que se recolhe ao quarto, cada moça que desce para jantar, cada um que passa nos corredores estranhamente delineados, e a jovem chega da América com sua dama de companhia e que desce para jantar levantam sobre nós um olhar onde não se lê nada daquilo que nos agradaria. Dessa vez, ao contrário, eu experimentava o prazer bem repousante de subir no hotel conhecido, onde me sentia em casa, onde mais uma vez cumpria aquela operação de começar sempre, mais longa, mais difícil que o revirar das pálpebras, e que consiste em pousar nas coisas a alma que nos é familiar em vez das que nos aterrorizava. Seria necessário agora, disse eu comigo, sem suspeitar da brusca mudança da alma que me esperava; sempre há outros hotéis onde jantaria pela primeira vez, onde o hábito ainda não teria matado em cada andar, diante de cada porta, o terrífico dragão que parecia velar por uma existência encantada, onde teria eu de aproximar-me dessas mulheres desconhecidas que os palácios, os cassinos, as praias à maneira de vastos politiqueiros, não fazem mais que reunir e obrigar a viver em comum?

            Agradara-me até que o aborrecido presidente do conselho tivesse tanta pressa de me ver; observava, no primeiro dia, as vagas, as cadeias das montanhas; do azul do mar, suas geleiras e cascatas; sua elevação e sua majestade negligente apenas ao sentir, pela primeira vez em muitos anos, ao lavar as mãos, esse cheiro especial dos sabonetes, excessivamente perfumados, do Grande Hotel, o qual, parecendo pertencer, a um tempo, elos do momento presente à estada passada, flutuava entre eles como o encanto real de uma vida particular à qual só se volta para mudar a gravata. Quando os cortinados da cama, muito finos, muito leves e muito amplos, impossíveis de bordar, de prender, e que permaneciam estufados em torno das cobertas; em volutas moventes, me entristeceriam outrora. Somente embalaram na redonda incômoda e bojuda de suas velas, o sol glorioso e cheio de esperanças da primeira manhã. Mas este não teve tempo de aparecer. Na primeira noite, a atroz e divina presença havia ressuscitado. Pedi ao gerente que saísse, e que não deixasse entrar ninguém. Disse-lhe que ficaria deitado e recusei sua oferta de mandar buscar na farmácia a excelente droga. Gostou da minha recusa, pois temia que os hóspedes ficassem incomodados pelo cheiro do "calipto". O que me valeu este cumprimento:

            - O senhor está em dia - (queria dizer "certo"), e essa recomendação: - Cuidado para não se sujar à porta, pois mandei "untar" as fechaduras, e, se um empregado se permitisse bater em seu quarto, seria "moído" de pancadas. E que isto fique estabelecido, pois não gosto de "repetições" (evidentemente aquilo significava: "não gosto de dizer duas vezes a mesma coisa"). Apenas uma observação: não quer que lhe mande subir um pouco de vinho velho do qual tenho lá embaixo uma burrica (sem dúvida por barrica)? Não lha trarei sobre uma salva de prata como a cabeça de “lonathan" (João Batista) e previno-lhe que não se trata de um Château-Lafite, mas é mais ou menos equívoco (em vez de "equivalente"). E como é leve, poderiam lhe preparar um pequeno linguado. -           Recusei tudo, mas assombrou-me ouvir o nome do peixe (sole) ser pronunciado como o da árvore (saule, salgueiro), por um homem que deveria ter encomendado tantos em sua vida.

            Apesar das promessas do gerente, pouco depois me trouxeram o cartão de visitas dobrado da marquesa de Cambremer. Tendo vindo visitar-me, a velha senhora mandara perguntar se me achava presente, e, ao saber que minha chegada datava apenas da véspera, e que eu estava adoentado, ela não insistira, e (sem dúvida não sem parar na farmácia ou na mercearia, onde o lacaio, saltando da sege, entrava para pagar alguma conta ou comprar mantimentos) voltara a partir para Féterne, na sua velha caleche de oito molas tirada por dois cavalos. Aliás, bem freqüentemente se ouvia o rodar e se admirava o aparato da sua caleche nas ruas de Balbec e de algumas outras pequenas localidades da costa, situadas entre Balbec e Féterne. Não que essas paradas nas lojas de fornecedores fossem o objetivo desses passeios. Ao contrário, o objetivo era algum chá ou garden-party, na casa de um fidalgo provinciano ou de um burguês bastante indignos da marquesa. Porém esta, embora dominasse de muito alto, pelo nascimento e pela fortuna, a pequena nobreza das vizinhanças, possuía, em sua bondade e simplicidade perfeitas, tanto receio de decepcionar alguém que a convidasse, que comparecia às mais insignificantes reuniões mundanas dos arredores. Decerto, em vez de rodar tanto para vir escutar, no calor do salãozinho sufocante, uma cantora em geral sem talento e que, a qualidade de grande dama da região e musicista famosa, era preciso felicitar com exagero, a Sra. de Cambremer teria preferido ir dar um passeio ou permanecer nos maravilhosos jardins de Féterne, onde a mansa de uma pequena baía vem morrer em meio às flores. Mas ela sabia que sua vinda provável fora anunciada pelo dono da casa, fosse este nobre, ou um burguês de Maineville-la-Teinturiere ou de Chattoncourt-e-gueilleux. Ora, se a Sra. de Cambremer tinha saído nesse dia sem fazer presença na festa, este ou aquele convidado, vindo de alguma praiazinha que se estendem à beira-mar, pudera ouvir e ver a caleche da marquesa, o que anularia a desculpa de não ter podido deixar Féterne. Por outro lado, por mais que esses donos de casa vissem a Sra. de Cambremer comparecer aos concertos dados em casa de pessoas onde eles a consideravam deslocada, a pequena diminuição que, a seus olhos, era por esse efeito infligida à posição da boníssima marquesa, desaparecia logo que eram os que a recebiam, e era febrilmente que se indagavam se a teriam ou não para o seu chá. Que alívio para as inquietações sentidas durante vários dias, se, depois do primeiro trecho cantado pela filha dos donos da casa, ou por algum amador em férias, um convidado anunciava (sinal infalível de que a marquesa compareceria à vesperal) ter visto os cavalos da famosa caleche, parados diante do relojoeiro ou do farmacêutico! Então a Sra. de Cambremer (que de fato não demoraria a entrar junto com sua nora, os convidados naquele momento hospedados em sua casa e que ela pedira permissão, com que alegria concedida para trazer) retomava todo o seu brilho aos olhos dos donos da casa, para quem a recompensa de sua esperada viram talvez fosse a causa determinante e inconfessa da decisão que haviam tomado há um mês: infligirem-se a balbúrdia e a despesa para dar um vesperal. Vendo a marquesa presente a seu chá, recordavam, não mais sua complacência em comparecer ao dos vizinhos pouco qualificados, numa antigüidade de sua família, o luxo de seu castelo, a descortesia de sua nora nascida Legrandin que, por sua arrogância, realçava a bonomia, um tanto antiquada da sogra. Já acreditavam ler, nas notas sociais do Guermantes, o tópico que eles próprios cozinhariam em família, todas as portas fechadas à chave, sobre "o pequeno recanto da Bretanha onde a gente se diverte de fato, a vesperal ultra-secreta que só se dissolveu depois que se ter dos donos da casa a promessa de que em breve dariam outra". Todos os dias esperavam o jornal, ansiosos por não terem visto ainda figurar nele sua vesperal, temendo haver conseguido a Sra. de Cambremer apenas por seus convidados, não para a multidão dos leitores. Por fim chegava o bendito:

            "A temporada está excepcionalmente brilhante este ano em Balbec. A moda são os pequenos concertos das tardes, etc.."

            Graças a Deus, o nome da Sra. de Cambremer fora bem grafado e "citado ao acaso", mas ao alto. Restava apenas parecer aborrecido com essa indiscrição dos jornais, que podia causar rixas com pessoas a quem não fora possível convidar, e perguntar hipocritamente à Sra. de Cambremer quem fora capaz da perfídia de enviar aquele eco, ao que a marquesa, benevolente e grande dama, dizia:

            - Compreendo que isto os aborreça, mas quanto a mim fiquei muito feliz que soubessem que estava em casa dos senhores.

            No cartão que me enviou, a Sra. de Cambremer havia escrito que dava uma vesperal dois dias depois. E certamente há apenas dois dias, por mais cansado que estivesse da vida mundana, teria sido um verdadeiro prazer para mim desfrutá-la transplantada para aqueles jardins onde cresciam em plena terra, graças à exposição de Féterne; as figueiras, as palmeiras, os canteiros de rosas, e até ao mar, muitas vezes de um azul e de um sossego mediterrâneos e no qual o pequeno iate dos proprietários, antes do começo da festa, ia apanhar, nas praias do outro lado da baía, os convidados mais importantes, e que, com seus toldos estendidos contra o sol, servia de refeitório, quando todos já haviam chegado, e voltava à tardinha para reconduzir aqueles que trouxera. Luxo encantador, mas tão dispendioso que, em parte, a fim de cortar as despesas que ele acarretava, é que a Sra. de Cambremer havia procurado aumentar seus rendimentos de diversas maneiras, principalmente alugando pela primeira vez uma de suas propriedades, bem diferente de Féterne: La Raspeliere. Sim, dois dias antes, o quanto uma vesperal dessas, povoada de pequenos nobres desconhecidos, num ambiente novo, não teria me distraído da "alta roda" parisiense! Mas agora os prazeres não tinham mais nenhum sentido para mim. Assim, escrevi à Sra. de Cambremer para desculpar-me, da mesma forma como, uma hora antes, mandara despedir Albertine: o desgosto abolira em mim a possibilidade do desejo, de modo tão completo como uma febre muito alta tira o apetite. Minha mãe devia chegar no dia seguinte. Parecia-me que era menos indigno de viver junto dela, que a compreenderia melhor agora que toda uma vida estranha e degradante dera lugar ao retorno das lancinantes lembranças que cingiam e enobreciam minha alma e a sua de coroas de espinhos. Acreditava-o assim; na realidade, há muita distância entre os desgostos verdadeiros, como era o de mamãe que literalmente nos tiram a vida por muito tempo, às vezes para sempre, quando se perde a criatura amada -, e os demais desgostos, apesar de tudo passageiros, como devia ser o meu, que se vão tão depressa como tarde chegaram, que só são conhecidos muito tempo depois do acontecimento porque, para senti-los, houve necessidade de os "compreender"; desgostos como tantas pessoas os experimenta dos quais o que atualmente me torturava só se diferenciava pela modalidade da lembrança involuntária.

            Quanto a um desgosto tão profundo como o de minha mãe, eu devia conhecê-lo um dia, e o veremos na continuação desta narrativa; mas, era agora e nem assim que eu o imaginava. Não obstante, como recitador que deveria conhecer o seu papel e estar no seu posto há muito; que apareceu apenas no último segundo e, tendo lido somente uma vez o que tem a dizer, sabe dissimular com extrema habilidade ao chegar o momento em que deve dar a réplica; para que ninguém perceba o atraso do meu desgosto, inteiramente novo, permitiu-me, quando minha mãe chegou, que lhe falasse como se tivesse sido sempre o mesmo. Apenas imaginou que a vista daqueles lugares onde eu tinha estado com minha avó (e aliás não era isto) o havia despertado. Então pela primeira vez, e porque eu sentia uma dor que nada era, ao lado da sua, mas que me abria os olhos, dei-me conta, com terror, do que ela podia sofrer. Pela primeira vez compreendi que aquele olhar fixo e sem lágrimas (o que fazia com que Françoise pouco lamentasse), que ela apresentava desde a morte de minha avó, estava preso naquela incompreensível contradição da lembrança e do nada. Além disso, embora sempre com seus véus negros, mais vestidos naquela região nova, mais me impressionava a transformação que se fizera nela. Não é muito dizer que havia perdido toda a alegria; fundida, fixa numa espécie de imagem implorando; ela parecia ter medo de ofender com movimento excessivamente brusco, com um tom de voz alto demais, a dolorosa presença que não a abandonava. Mas principalmente, desde que vi entrar com seu manto de crepe, percebi o que me havia escapado em Paris; que já não era minha mãe quem eu tinha diante dos olhos: mas minha avó. Como nas famílias reais e ducais, à morte do chefe, o filho assume o seu título e, de duque de Orléans, de príncipe de Tarento, ou de príncipe des Laumes, torna-se rei da França, duque de La Trémoille, duque Guermantes, assim muitas vezes, devido a um acontecimento de outra ordem e de mais profunda origem, o morto se apodera do vivo, que se torna seu sucessor análogo, o continuador de sua vida interrompida. Talvez a grande mágoa que se segue, numa filha como era mamãe, à morte da sua não faça mais que romper mais cedo a crisálida, apressar a metamorfose do aparecimento de um ser que trazemos em nós, e que, sem essa crise faz queimar as etapas e saltar de um pulo os períodos, só teria sobrevivido mais lentamente. Talvez, na saudade daquela que já não existe, haja espécie de sugestão que acaba por trazer às nossas feições semelhança que aliás, teríamos em potencial, e sobretudo talvez haja uma parado nossa atividade mais particularmente individual (em minha mãe, o bom senso, a alegria zombeteira que lhe vinha do pai), que não receávamos exercer enquanto vivia o ser amado, mesmo que fosse às suas custas, e que contrabalançava o caráter que havíamos herdado exclusivamente dele. Uma vez que a pessoa amada está morta, sentiríamos escrúpulos em ser outra, não mais admiramos senão o que ela era, o que já éramos, porém misturado à outra coisa, e que vamos unicamente ser de hoje em diante. É neste sentido (e não naquele tão vago, tão falso, em que é geralmente entendido) que se pode dizer que a morte não é inútil, que o morto continua a agir sobre nós. Trata-se até mais que um vivo porque, sendo a verdadeira realidade apreendida apenas pelo espírito, só conhecemos de fato o que somos obrigados a recriar pelo pensamento, aquilo que a vida cotidiana nos oculta... Enfim, neste culto da dor pelos nossos mortos, devotamos uma idolatria pelo que eles amaram. Não só minha mãe não podia separar-se da bolsa de minha avó, que se tornara mais preciosa do que se fosse de safiras e diamantes, de seu regalo, de todos aqueles vestuários que ainda mais acentuavam a semelhança de aspecto entre elas, mas até mesmo dos volumes da Sra. de Sévigné que minha avó trazia sempre consigo, exemplares que minha mãe não trocaria nem mesmo pelo próprio manuscrito das Cartas.      Antigamente, ela gracejava com a mãe, que jamais lhe escrevia sem citar uma frase da Sra. de Sévigné ou da Sra. de Beausergent. Em cada uma das três cartas que recebi de mamãe antes de sua chegada a Balbec, ela citou a Sra. de Sévigné, como se essas três cartas não tivessem sido endereçadas por ela a mim, mas por minha avó a ela. Quis descer e ir até o molhe para ver aquela praia de que minha avó lhe falava todos os dias ao lhe escrever. Segurando a sombrinha da mãe, eu a vi pela janela adiantar-se, toda de preto, com passos tímidos, piedosos, pela areia que os pés queridos haviam pisado antes dela, e dava a impressão de ir em busca de uma morta que as ondas deviam trazer. Para não deixá-la jantar sozinha, tive de descer com ela. O presidente do conselho e a viúva do presidente da Ordem dos Advogados fizeram-se apresentar. E tudo o que se relacionava com minha avó era-lhe tão sensível, que ela se sentiu infinitamente tocada e conservou sempre a recordação e o reconhecimento pelo que lhe disse o presidente do conselho, como ao contrário sofreu com indignação o fato de que a viúva do presidente da Ordem dos Advogados não tivesse tido uma só palavra em lembrança da morta. Na realidade, o presidente do conselho não se preocupava com ela mais do que a viúva. As palavras comovidas de um, recebera como o silêncio da outra, embora minha mãe pusesse entre ambos uma grande distância, não passavam da forma diversa de exprimir aquela indiferença que nos inspiram os mortos. Creio, porém, que minha mãe achou principalmente doçura nas palavras em que, contra a minha vontade deixei passar um pouco do meu sofrimento. Aquilo só conseguia deixar minha mãe feliz (apesar de todo o carinho que sentia por mim), como tudo o que assegurasse à minha avó uma sobrevivência nos corações. Nos dias seguintes, minha mãe descia para sentar-se na praia, para fazer exatamente o que sua mãe fizera, e de quem lia os dois livros preferidos: as Memórias da de Beausergent e as Cartas, da Sra. de Sévigné. Ela, e nenhum de nós teria suportado que chamassem a esta última de "espirituosa marquesa"; nem a La Fontaine de "le Bonhomme". Mas, quando lia nas cartas as palavras "minha filha", julgava ouvir sua mãe lhe falando.

            Teve o azar, numa dessas peregrinações em que não queria ser perturbada, de encontrar na praia uma senhora de Combray, seguida das filhas. Creio que seu nome era Sra. Poussin. Mas entre nós só a chamávamos de "Vais ver o que te acontece", pois era com essa frase perpétua que repetia advertindo as filhas para os males que acarretariam às mesmas; por exemplo, dizia a uma delas que esfregava os olhos: "Quando tiveres uma boa oftalmia, vais ver o que te acontece." De longe, dirigia à mamãe longas saudações lacrimosas, mas não de condolências, e sim gênero de educação. Não tivéssemos perdido a minha avó, e só teríamos motivo de estar felizes, ela teria feito o mesmo. Vivia bastante retirada em Combray, num imenso jardim, nunca achava nada bastante suave e impunha suavizações até às palavras e nomes próprios da língua francesa. Achava muito duro chamar de "colher" à peça de prata em que se servisse do seu xarope e, em conseqüência, só dizia "coler"; teria receio de maltratar o doce cantor de Telêmaco chamando-o rudemente Fénelon como o fazia eu mesmo, com conhecimento de causa, pois tinha por amigo a criatura mais inteligente, mais bondosa e de maior coragem, inesquecível para quantos o conheceram, Bertrand de Fénelon e ela só dizia "Fénélon", achando que o acento agudo lhe acrescentava alguma suavidade. O genro desta Sra. Poussin, menos suave, e cujo nome esqueci de todo, sendo notório em Combray, ocorreu-lhe carregar com a caixa, fazendo principalmente o meu tio perder uma quantia respeitável.

            Mas como a maioria das pessoas de Combray dava-se tão bem com os outros membros da família, disso não resultou qualquer frieza, contentando-se elas em lamentar a Sra. Poussin. Ela não costumava receber, mas, cada vez que alguém passava pelas grades do seu jardim, parava para admirar suas admiráveis sombras, sem poder distinguir mais nada. Ela absolutamente não nos incomodou em Balbec, onde só a vi uma vez, no momento em que estava dizendo à filha, que roía as unhas:

            - Quando tiveres um boi, panarício, vais ver o que te acontece.

            Enquanto mamãe lia na praia, eu ficava sozinho no quarto. Recordava-me dos últimos tempos de vida da minha avó e tudo o que se relacionava com eles, a porta da escadaria, que se mantivera aberta quando tínhamos saído para o nosso último passeio. Em contraste com tudo aquilo, o resto do mundo apenas parecia real, e o meu sofrimento o envenenava todo. Por fim, minha mãe exigiu que eu saísse. Mas a cada passo, algum aspecto esquecido do cassino, da rua em que, esperando-a na primeira noite, eu caminhara até o monumento de Duguay-Trouin, impedia-me de ir adiante, como um vento contra o qual não se pode lutar; baixava os olhos para não ver. E, depois de recobrar um pouco de força, voltava para o hotel, para o hotel onde sabia que, de agora em diante, era impossível, por mais que esperasse, encontrar minha avó, minha avó que eu encontrara outrora, na primeira noite da chegada.

            Como era a primeira vez que saía, muitos criados que ainda não me conheciam me olharam com curiosidade. Na própria entrada do hotel, um jovem groom tirou o boné para me saudar, recolocando-o com presteza. Acreditei que Aimé, segundo sua própria expressão, lhe "passara a senha" para que me cumprimentasse. Mas no mesmo instante percebi que o tirava novamente para outra pessoa que chegava. A verdade era que aquele rapaz não sabia fazer outra coisa na vida senão tirar e pôr o boné, e o fazia extremamente bem. Tendo compreendido que era incapaz de outra coisa e que excedia naquilo, cumpria-o o maior número possível de vezes por dia, o que lhe valia da parte dos hóspedes uma simpatia discreta mas generalizada, uma grande simpatia igualmente da parte do porteiro a quem incumbia o trabalho de contratar os grooms, e que, até achar esse pássaro raro, não pudera encontrar um só que não despedisse em menos de oito dias, para grande espanto de Aimé, que dizia:

            - No entanto, nesse ofício só se exige que sejam corteses, não deveria ser tão difícil. -

            O gerente também fazia questão de que tivesse o que ele chamava uma bela "presença", querendo dizer que ali permanecessem, ou porque se referisse mesmo a uma boa “presença."

            O aspecto do gramado que se estendia por detrás do hotel fora modificado pela criação de algumas platibandas floridas e a retirada não só de um arbusto exótico, mas também do groom que, naquele primeiro ano, decorava exteriormente a entrada com o tronco flexível do seu talhe e o colorido curioso de sua cabeleira. Havia seguido uma condessa polonesa que o tomara como secretário, nisso imitando seus dois irmãos mais velhos e a irmã datilógrafa, arrancados ao hotel por personalidades de regiões e sexos diversos, que haviam se encantado com o charme deles. Permanecia apenas o irmão caçula ninguém queria por ser estrábico. Sentia-se muito feliz quando a polonesa e os protetores dos outros dois vinham passar algum tempo hotel de Balbec. Pois, apesar de invejar os irmãos, amava-os e podia durante algumas semanas, cultivar sentimentos de família.

            A abadessa Fontevrault não tinha por acaso o hábito, deixando as suas monjas compartilhar a hospitalidade que Luís XIV oferecia àquela outra Mortemantf, amante, à Sra. de Montespan? Quanto a ele, era o primeiro ano em Balbec; ainda não me conhecia, mas, tendo ouvido seus companheiros mais antigos, quando me diziam a palavra senhor, acrescentar-lhe ao nome, imitou-os desde a primeira vez com ar de satisfação, fosse para manifestar o seu conhecimento relativamente a uma personalidade, que julguei conhecida; fosse para se conformar a um uso que ignorava cinco minutos antes; mas, ao qual lhe parecia indispensável não faltar. Eu compreendi muito bem o encanto que aquele grande palácio poderia oferecer às pessoas. Estava erguido como um teatro, e um compartimento que animava até a curvatura da abóbada. Ainda que o hóspede não fosse uma espécie de espectador, estava permanentemente mesclado ao espetáculo; não apenas como nesses teatros em que os atores representem uma cena na platéia; mas, como se a vida do espectador se desenrolasse em meio às suntuosidades da cena. O jogador de tênis podia regressar; o casaco de flanela branca, que o porteiro teria vestido; a casaca azul, com gola de prata para lhe dar a correspondência. Se este jogador de tênis não desejava subir a pé, nem por isto estava menos misturado aos atores, tendo ao seu lado, para acionar o elevador, o ascensorista também ricamente uniformizado. Os corredores dos andares entremostravam uma fuga de camareiras e mensageiras, belas de encontro ao mar como o friso das Panatenifdb, e até aos seus quartinhos aonde chegavam por sábios desvios os apresentadores da beleza feminina ancila. Embaixo, dominava o elemento masculino, fazendo desse hotel, devido à extrema e ociosa juventude dos empregados, como que uma espécie de tragédia judeu-cristã que se encorpasse fosse perpetuamente representada. Assim, não podia deixar de dizer aos mesmos, ao vê-los, não certamente os versos de Racine que me vieram ao espírito na casa da princesa de Guermantes, enquanto o Sr. de Vaugoubest contemplava os jovens secretários da embaixada que saudavam o Sr. de Charlus, porém outros versos do mesmo Racine, desta vez não de Esther, mas de Athalie; pois desde o hall, o que no século XVII se chamava Pórticos, mantinha-se "um povo florescente" de jovens grooms, especialmente à hora das refeições, como os jovens israelitas dos coros de Racine. Não creio que um só deles pudesse dar sequer a vaga resposta que Jonas encontra para Atália, quando esta indaga ao príncipe menino:

            "Qual é, pois, o seu emprego?", visto não terem nenhum. Quando muito, se perguntassem a qualquer deles, como a velha rainha:

            “Mas de que se ocupa toda essa gente encerrada neste lugar?" -poderia ter dito:

            "Vejo a ordem pomposa destas cerimônias e para elas contribuo."

            Às vezes, uma das jovens figurantes caminhava na direção de algum personagem mais importante, porém logo essa jovem beldade voltava para o coro e, a menos que não fosse o instante de uma pausa contemplativa, todos entrelaçavam suas evoluções inúteis, respeitosas, decorativas e cotidianas. Pois, a não ser em seus "dias de folga", longe do mundo educado e não franqueando o vestíbulo, levavam a mesma existência eclesiástica dos levitas em Athalie, e diante desse "grupo jovem e fiel"," representando ao pé dos degraus cobertos de magníficos tapetes, eu podia indagar-me se penetrava no Grande Hotel de Balbec ou no templo de Salomão.

            Subia diretamente para o quarto. Meus pensamentos estavam ligados habitualmente aos últimos dias da enfermidade de minha avó, a seus sofrimentos, que eu revivia, acrescentando-lhes esse elemento, ainda mais difícil de suportar que o próprio sofrimento alheio e aos quais é ajuntado por nossa piedade cruel; quando julgamos estar apenas recriando as dores de um ser querido, nossa piedade as exagera; mas talvez seja ela que detenha a verdade, mais do que a consciência que têm dessas dores aqueles que as sofrem, e aos quais é oculta essa tristeza de suas vidas, que a piedade vê e com que se desespera. Todavia, a minha piedade teria, num novo impulso, ultrapassado os sofrimentos de minha avó se eu então tivesse sabido aquilo que ignorei por muito tempo; que, na véspera de sua morte, num instante de consciência e assegurando-se de que eu não me achava ali, ela pegara a mão de mamãe e, depois de lhe ter colado os lábios febris, lhe dissera:

            "Adeus, minha filha, adeus para sempre."

            Talvez também seja essa lembrança que minha mãe nunca mais deixou de encarar tão fixamente. Depois, voltavam-me as doces recordações. Ela era a minha avó e eu o seu neto. As expressões de sua fisionomia pareciam escritas só para mim; ela estava em toda a minha vida, os outros só existiam relativamente a ela, no julgamento que ela me fazia a seu respeito; mas nossas relações foram por demais fugidias para não terem sido acidentes. Ela já não me conhece, eu jamais voltarei a vê-la. Não tínhamos sido quase exclusivamente um para o outro, tratava-se de uma estranha. Essa estranha, eu a contemplava na fotografia tirada por Saint-Loup. Mamãe encontrara Albertine, insistira comigo para que a visse, por causa das amabilidades que dissera a respeito de minha avó e de mim. Marquei-lhe um encontro. Preveni o gerente para que a fizesse esperar no salão. Disse-na que já a conhecia de muito, a ela e a suas amigas, bem antes que houvessem atingido a “Idade da pureza", mas que estava aborrecido, devido às coisas que tinham dito sobre o hotel.

            - Não devem ser muito "ilustradas" para falarem assim. A menos que as tenham caluniado.             Compreendi facilmente que "pureza" fora dito em vez de "puberdade" .

            Esperando a hora de ir ao encontro de Albertine, mantinha os olhos fixos; como sobre um desenho que a gente acaba por não ver mais, de tanto olhar, na fotografia tirada por Saint-Loup, quando subitamente pensei novo:

            "É a avó, sou seu neto", como um amnésico redescobre seu nome, como um doente muda de personalidade.

            Françoise entrou para me dizer que Albertine já chegara e, vendo a fotografia:

            - Pobre Senhora, é realmente ela, até no sinalzinho do rosto; no dia em que o marquês a fotografou, ela tinha estado bem doente, por duas vezes passou mal. "Principalmente Françoise", tinha me dito, "é preciso que meu neto não o saiba" - ela o escondia bem, estava sempre alegre em sociedade. Unicamente, por exemplo, eu achava que às vezes ela parecia ter o espírito um pouco monótono . Mas isso passava depressa. E depois ela me disse assim: "Se um dia me acontecer alguma coisa, é preciso que ele tenha um retrato meu. Nunca mandei tirar nenhum." Então, mandou-me perguntar ao senhor, mas recomendando-lhe que não contasse ao patrão que fora ela que o pediu se ele não poderia lhe tirar a foto. Mas, quando voltei para dizer se ela não queria mais, porque se achava com aparência muito ruim. "É aí pior", disse-me, "do que não ter fotografia nenhuma." Mas, como ela era boba, acabou por se arrumar tão bem, pondo um grande chapéu de abas largas, que já não parecia mais desfigurada do que quando se achava " em pleno dia claro. Estava bem satisfeita com sua fotografia, pois naquele momento não acreditava que fosse voltar de Balbec. Por mais que lhe dissesse: "Patroa, não deve falar desse jeito, não gosto de ouvi-la falar assim", aquilo estava na sua cabeça. E, diabos, fazia vários dias que ela não podia comer. Era por isso que deixava o patrão ir jantar bem longe com o senhor marquês. Então, em vez de ir para a mesa, fingia estar lendo e, logo que o carro do marquês saía, ela subia para se deitar. Havia dias em que desejava prevenir a patroa para que viesse vê-la ainda. E depois tinha medo de assustá-la, já que não lhe dissera nada. "É melhor que ela fique com o marido, não é mesmo, Françoise?" - Olhando-me, Françoise perguntou bruscamente se me "sentia indisposto".             Disse-lhe que não; e ela:

            - E depois me prende aqui para conversar. Talvez sua visita já tenha chegado. Preciso descer. Não é uma pessoa para aqui. E estabanada como é, poderia ter ido embora. Ela não gosta de esperar. Ah, agora a senhorita Albertine é alguém.

            - Está enganada, Françoise, ela está muito bem, está até bem demais para aqui. Mas vá avisá-la de que não poderei vê-la hoje.

            Quantas exclamações apiedadas eu teria despertado em Françoise, caso ela me tivesse visto chorar! Ocultei-me cuidadosamente. Sem isto, eu teria tido a sua simpatia. Mas dei-lhe a minha. Não nos colocamos bastante no coração dessas pobres camareiras que não podem nos ver chorar, como se chorar nos fizesse mal; ou talvez lhes fizesse mal; Françoise me dissera quando eu era pequeno:

            - Não chore assim, não gosto de vê-lo chorar desse jeito. -

            Não apreciamos as grandes frases, as declarações, e erramos; assim, fechamos o coração ao patético rural, à lenda que a pobre criada, despedida talvez injustamente por furto, muito pálida, subitamente mais humilde como se se tratasse de um crime a ser acusada, desenrola, invocando a honestidade do pai, os princípios da mãe, os conselhos da avó. É claro que essas mesmas criadas que não podem suportar nossas lágrimas, sem escrúpulo, nos farão apanhar um resfriado porque a camareira do andar de baixo gosta das correntes de ar e não seria cortês suprimi-las. Pois é necessário que mesmo aqueles que têm razão, como Françoise, também estejam errados, para fazer da justiça uma coisa impossível. Até os humildes prazeres das criadas provocam ou a recusa ou a zombaria dos patrões. Pois é sempre um nada, mas ingenuamente sentimental, anti-higiênico. Assim, elas podem dizer:

            - Como, a mim que só peço isso o ano inteiro, eles me negam! -

            E no entanto os patrões concordariam com muito mais, desde que não seja estúpido e perigoso para elas ou para eles. Certamente, à humildade da pobre camareira trêmula, prestes a confessar o que não praticara, dizendo "partirei esta noite, se preciso for", não é possível resistir. Mas também é preciso saber não permanecer insensível, apesar da banalidade solene e ameaçadora das coisas que ela diz, sua herança materna e a dignidade da "roça", diante de uma velha cozinheira, criada na vida e numa ascendência honrosas, empunhando a vassoura como mastro, levando o seu papel para o trágico, entrecortando-o de choros, instigando-se majestosamente.

            Naquele dia recordei ou imaginei tais coisas e relacionei-as com a nossa velha criada e, desde então, apesar de tudo que pôde fazer a Albertine, amei Françoise com uma afeição, é verdade, intermitente, mas do mais forte gênero, o que tem por base a piedade. Decerto, sofri o dia inteiro ficando diante da fotografia de minha avó. Ela me torturava. Entretanto, menos do que o fez a visita do gerente a noite. Como lhe falasse de minha avó e ele me renovasse suas condolências, ouvi-o dizer-me (pois gostava de empregar os termos que pronunciava mal):

            - É como no dia em que a Senhora sua avó teve aqui simécope; quis avisá-lo porque, devido aos hóspedes, o senhor compreende, podia dar prejuízo à casa. Teria sido preferível que ela partisse naquela mesma noite. Mas suplicou-me que nada dissesse e me prometeu que não teria mais simécope ou que, logo à primeira, iria embora. Entretanto, o chefe do andar me comunicou que ela teve uma outra. Mas, enfim, os senhores eram antigos hóspedes que a gente procurava satisfazer, e já que ninguém se queixou... -

            Portanto, minha avó tivera síncopes e as escondia de mim. Talvez no momento mesmo em que eu fora menos gentil para com ela, quando era obrigada, sempre sofrendo, a prestar atenção para mostrar-se de bom humor para não me irritar e parecer estar de boa saúde, a fim de não ser despejada do hotel. Simécope era uma palavra que, assim pronunciada, eu jamais teria imaginado que, aplicada a outros, talvez tivesse parecido ridícula, mas que, em sua estranha novidade sonora, é semelhante à de uma dissonância original, permaneceu sendo, durante muito tempo, o que era capaz de despertar em mim as mais dolorosas sensações.

            No dia seguinte fui, a pedido de mamãe, estender-me um pouco na areia, ou melhor, nas dunas, ali onde se fica escondido por suas ondulações, e onde sabia que Albertine e suas amigas não poderiam me encontrar. Minhas pálpebras, abaixadas, só deixavam passar uma única luz, inteiramente cor-de-rosa, a das paredes internas dos olhos. Depois se fecharam completamente. Então minha avó me apareceu sentada numa poltrona. Muito fraquinha, parecia viver menos que qualquer outra pessoa. Entretanto ouvia-a respirar; às vezes, um sinal mostrava que ela compreendera o que dizíamos, meu pai e eu. Mas, por mais que a beijasse, não conseguia despertar um olhar de afeição em seus olhos, um pouco de cor em suas faces. Ausente de si mesma, dava a impressão de não me amar, de não me conhecer, talvez mesmo de não me ver. Eu não podia adivinhar o segredo de sua indiferença, do seu abatimento, de seu descontentamento silencioso. Arrastei meu pai à parte.

            - Contudo, estás vendo - disse-lhe -, não há o que dizer, ela percebeu perfeitamente cada coisa. É a ilusão completa da vida. Se se pudesse mandar vir o teu primo que pretende que os mortos não vivem! Faz mais de um ano que ela está morta e afinal vive sempre. Mas por que não deseja me beijar? - Olha, sua pobre cabeça cai de novo. - Achas mesmo que isso poderia lhe fazer mal, que ela poderia morrer ainda mais? Não é possível que já não me ame. Por mais que a beije, será que ela não me sorrirá nunca mais?

            - Que queres, os mortos são os mortos.

            Alguns dias depois, a fotografia tirada por Saint-Loup era doce de olhar; já não despertava a recordação do que me dissera Françoise porque essa recordação não me deixara mais e eu me habituara a ela. Mas, diante da idéia que eu me fazia de seu estado tão grave e doloroso daquele dia, a foto, aproveitando ainda as manhas que tivera a minha avó e que logravam enganar-me até quando me foram reveladas, mostrava-a tão elegante, tão despreocupada, debaixo do chapéu que ocultava um pouco o seu rosto, que eu a via menos infeliz e de melhor saúde do que imaginara. E no entanto suas faces, tendo mantido à sua revelia uma expressão própria, algo de plúmbeo, de esgazeado, como o olhar de um animal que se sentisse já escolhido e designado, minha avó exibia um ar de condenada à morte, um ar involuntariamente sombrio, inconscientemente trágico, que me escapava, mas que impedia mamãe de olhar jamais para aquela fotografia, essa fotografia que lhe parecia menos uma fotografia de sua mãe do que a de sua doença, de um insulto que essa doença fazia ao rosto brutalmente esbofeteado de minha avó.

            Depois, um dia decidi-me mandar dizer a Albertine que a receberia em breve. É que, numa manhã de grande calor prematuro, os milhares de gritos das crianças que brincavam, dos banhistas que se divertiam, dos jornaleiros, tinham-me descrito em traços de fogo, em labaredas entrelaçadas, a praia ardente que as pequenas ondas vinham, uma a uma, banhar de seu frescor; começara então o concerto sinfônico misturado ao barulho das águas, no qual os violinos vibravam como um enxame de abelhas disperso sobre o mar. E logo eu desejara ouvir novamente o riso de Albertine, rever suas amigas, aquelas mocinhas que se destacavam contra as ondas e que tinham ficado em minha lembrança como o encanto inseparável, a flora característica de Balbec; e resolvera mandar por Françoise um recado a Albertine, para a semana próxima, enquanto o mar, subindo suavemente a cada rebentar das ondas, cobria inteiramente de rolamentos de cristal a melodia cujas frases surgiam separadas umas das outras, como aqueles anjos tocadores de alaúde que, no topo da catedral italiana, erguem-se por entre as cristas de pórfiro azul e de jaspe espumante. Mas, no dia em que Albertine veio, o tempo se arruinara de novo, refrescara, e além disso não tinha oportunidade de ouvir sua risada; ela estava de muito mau humor.

            - Basta! Está insuportável este ano - disse ela. - Vou tratar de não mexer muito. Sabe que estou aqui desde a Páscoa, já faz mais de um mês não há ninguém. Se acha que é bem divertido isso...

            Apesar da chuva e do céu que mudava a cada instante, depois de ter acompanhado Albertine até Épreville, pois ela fazia, segundo sua expressão, "o vai-vem'' entre essa pequena praia, onde estava a vivenda da Sra. Bontemps-Incarville, onde fora "tomada em pensão" pelos pais de Rosemonde, saí para passear sozinho por aquela grande estrada pela qual tomava o carro da Sra. de Villeparisis quando íamos passear com minha avó; poças d'água, que o sol que brilhava não havia secado, tornavam o solo um verdadeiro lamaçal, e eu pensava em minha avó, que outrora não podia dar dois passos sem se enlamear. Mas, quando cheguei à estrada, foi um deslumbramento. Ali onde eu não vira com minha avó, no mês de agosto, mais do que folhas  cortadas; que a localização das macieiras, estavam elas agora em plena floração a perder de vista, de um luxo inaudito, os pés na lama e em vestido de baile sem tomar precauções para não estragar o cetim róseo mais maravilhoso que já se viu e que o sol fazia brilhar; o horizonte remoto do mar fornecia às macieiras uma espécie de pano de fundo de estampa japonesa; se eu erguia a cabeça para contemplar o céu por entre as flores, que faziam parecer quase violento o seu azul tranqüilo; elas pareciam afastar-se para mostrar a profundidade daquele paraíso. Sob esse azul, uma brisa leve, porém fria, fazia tremular ligeiramente os ramos avermelhados. Borboletas azuis vinham pousar nos ramos e saltitavam por entre as flores, indulgentes, como se um amador de exotismos e de cores houvesse criado artificialmente aquela beleza viva. Mas emocionava até às lágrimas porque, embora fosse bem longe em seus efeitos de arte refinada, sentia-se que era natural, que aquelas macieiras estavam ali, em pleno campo, como camponeses numa estrada real da França. Depois, aos raios de sol sucederam da chuva; riscaram todo o horizonte e encerraram a fila de macieiras em sua rede cinzenta. Mas estas continuavam a erguer a sua beleza, florida, rósea, ao vento que se tornara glacial sob o aguaceiro que caía: era um dia de primavera.

 

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin.

            No meu receio de que o prazer que tivera naquele passeio solitário enfraquecesse em mim a lembrança de minha avó, procurei reavivá-la pensando num certo sofrimento moral que ela tivesse tido; a meu apelo, tal sofrimento buscava construir-se em meu coração, onde alicerçava seus imensos pilares; mas meu coração, sem dúvida, era muito pequeno para ele, eu não tinha forças para carregar comigo uma dor tão grande, minha atenção se esquivava no momento em que se reformava toda, e seus arcos desabavam antes de se juntarem, como desabam as ondas antes de ter formado a sua abóbada.

            Entretanto, apenas pelos meus sonhos quando estava adormecido, eu poderia compreender que minha mágoa pela morte de minha avó ia diminuindo, pois neles parecia menos oprimida pela idéia que eu me fazia de seu nada. Via-a sempre enferma, mas em vias de se restabelecer; achava-a melhor. E, se ela aludisse ao que havia sofrido, eu lhe fechava os lábios com meus beijos e lhe garantia que agora estava curada para sempre. Teria desejado fazer que os céticos constatassem que a morte é na verdade uma doença da qual nos restabelecemos. Apenas, já não achava em minha avó a rica espontaneidade de antigamente. Suas palavras não passavam de uma resposta dócil, enfraquecida, quase um simples eco das minhas; ela não era mais que o reflexo de meu próprio pensamento.

            Incapaz como ainda me encontrava experimentando de novo um desejo físico, Albertine recomeçava, no entanto, inspirar-me como que um desejo de felicidade. Certos sonhos de ternura compartilhada, sempre flutuantes em nós, aliam-se de bom grado por uma espécie de afinidade à lembrança (desde que esta já se tenha tornado um tanto vaga) de uma mulher com quem tenhamos desfrutado prazeres. Este sentimento me recordava aspectos do rosto de Albertine, mais doces, menos alegres, bem diversos dos que o desejo físico teria evocado; e, como era também menos do que este último, eu teria de boa vontade adiado sua realização para o inverno seguinte, sem procurar rever Albertine em Balbec antes de partida. Porém, mesmo em meio a um desgosto ainda vivo, o desejo renasce. De minha cama, onde me faziam permanecer por muito tempo o repouso, todos os dias, eu desejava que Albertine viesse recomeçar no jogos de outrora. Não se vê, no próprio quarto em que perderam os esposos em breve de novo enlaçados darem um irmão ao pequeno morto? Eu tentava distrair-me desse desejo indo à janela a fim de contemplar o mar desse dia. Como no primeiro ano, os mares, de um dia para o outro, raramente eram os mesmos. Mas, além disso, de modo algum, assemelhavam aos daquele primeiro ano, fosse porque agora era a primavera com seus temporais, fosse porque, mesmo que eu tivesse vindo na mesma data da primeira vez, tempos diversos, mais mutáveis, teriam desaconselhado aquele litoral a certos mares indolentes, vaporosos e ágeis que eu vira dormir na praia durante os dias mais quentes. Ergue imperceptivelmente o seio azulado com suave palpitação, fosse principalmente porque meus olhos, instruídos por Elstir para reter precisamente os elementos que outrora eu voluntariamente eliminava, contemplavam longamente o que no primeiro ano não sabiam ver. Essa oposição, que então impressionava tanto, entre os passeios agrestes que dava com a Sra. Villeparisis e aquela vizinhança fluida, inacessível e mitológica, do oceano, já não existia para mim. E, pelo contrário, em certos dias o próprio mar me parecia agora quase rural.          Nos dias bem raros de verdadeiro bom tempo, o calor traçara na água, como através dos campos, uma estrada poeirenta e branca, por detrás da qual se erguia, como um campanário da aldeia, a fina ponta de um barco de pesca. Um rebocador, de que só a chaminé, fumegava ao longe como uma usina afastada, ao passo que sozinho no horizonte, um quadrado branco e inflado, pintado sem dúvida por uma vela, mas que parecia compacto e um tanto calcário, lembrava um ângulo ensolarado de alguma construção isolada, hospital ou escola. Nuvens e o vento, nos dias em que a eles se juntava o sol, rematavam, não o erro de julgamento, pelo menos a ilusão do primeiro olhar, que ele desperta na imaginação. Pois a alternância de espaços de cores nitidamente recortadas como as que resultam, no campo, da continuidade de culturas diferentes, as desigualdades ásperas, amarelas e mel, lamacentas da superfície marinha, as colheitas, os declives que escondia da vista um barco, onde uma equipagem de hábeis marinheiros parecia ceifar, tudo isso nos dias tempestuosos fazia do oceano algo de tão variado, tão consistente, tão acidentado, tão populoso, tão civilizado como caminho carroçável pelo qual eu passeava outrora, como não tardaria a passear agora. E uma vez, não mais podendo resistir ao meu desejo, em vez de voltar a deitar-me, vesti-me e fui procurar Albertine em Incarville. Pediria que me acompanhasse até Douville, onde iria fazer em Féterne uma visita à Sra. de Cambremer e, na La Raspeliere, uma visita à Sra. Verdurin. Durante esse tempo, Albertine me aguardaria na praia e voltaríamos juntos à noite. Fui tomar o trenzinho local, de que aprendera outrora, com Albertine e suas amigas, todos os apelidos que lhe davam na região, onde era chamado o Tortuoso, por causa de suas voltas inumeráveis; ora o Calhambeque, porque não avançava; Transatlântico, por causa de uma terrível sirena que possuía, para que os passageiros embarcassem; Decauville e Funi, embora não fosse de forma alguma um funicular, mas porque subia a falésia, nem sequer, a rigor, um Decauville, mas por possuir uma bitola de 60; o B.A.G., porque ia de Balbec a Grattevast passando por Angerville, Tram; e o T.S.N., porque fazia parte da linha dos tramways do sul da Normandia. Instalei-me num vagão onde estava sozinho; fazia um sol esplêndido, a gente abafava; baixei o estore azul, que não deixou passar mais que uma réstia de sol. Porém logo vi a minha avó, exatamente como se havia sentado no trem à nossa partida de Paris para Balbec, quando, na mágoa de me ver tomar cerveja, preferira não olhar, fechar os olhos e dar a impressão de estar dormindo. Eu, que antigamente não podia suportar a mágoa que ela sentia quando meu avô tomava conhaque, infligira-lhe esta, não apenas a de me ver tomar, a convite de outro, uma bebida que ela considerava funesta para mim, mas forçara-a a deixar-me livre para beber à vontade; mais ainda, por meus acessos de cólera, minhas crises de sufocação, eu a forçara a ajudar-me, a aconselhar-me que o fizesse, numa resignação suprema da qual guardava na memória a imagem muda, desesperada, de olhos fechados para não ver. Uma tal lembrança, como um toque de varinha mágica, me recuperara a alma que eu estava em vias de perder fazia algum tempo; que poderia eu fazer de Rosemonde (Albertine?), quando meus lábios inteiros eram percorridos unicamente pelo desejo desesperado de beijar uma morta? Que poderia eu dizer aos Cambremer e aos Verdurin, quando meu coração batia com tanta força porque, nele, reformava a cada instante a dor que minha avó sofrera? Não pude permanecer naquele vagão. Logo que o trem parou em Maineville-la-Teinturiere, desci, renunciando aos meus projetos. Maineville adquirira desde algum tempo uma considerável importância e uma reputação especial, porque um gerente de numerosos cassinos, comerciante de bem-estar, mandara construir, não longe dali, com um luxo de mau; capaz de rivalizar com o de um palácio, um estabelecimento ao qual iremos, e que era, para falar francamente, a primeira casa pública para trato elegante que se teve idéia de construir nas costas da França. Na verdade cada porto tem a sua, porém boa apenas para marinheiro e amadores do pitoresco, a quem diverte ver, bem perto da igreja a patroa quase tão velha, venerável e musgosa, postar-se diante de sua mal-afamada à espera do regresso dos barcos de pesca.

            Afastando-me da deslumbrante casa de "prazer", insolente, erguida ali apesar dos protestos das famílias debalde endereçados ao feito, atingi a falésia e por ali segui os tortuosos caminhos em direção à Balbec. Ouvi sem responder os apelos dos espinheiros-alvos. Vizinhos ricos das flores das macieiras, eles as achavam bem pesadas, embora reconhecendo a pele fresca das filhas, de pétalas róseas, desses fabricantes de cidra. Sabiam que, menos ricamente dotadas, eram no tanto, mais procuradas e que lhes bastava, para agradarem, uma branca amarrotada.

            Quando cheguei, o porteiro do hotel entregou-me um convite para um enterro assinado: pelo marquês e a marquesa de Gonneville, o visconde e a viscondessa d'Amfreville, o conde e a condessa de Berneville, o marquês e a marquesa de Graincourt, o conde d'Amenoncourt, a condessa de Mainville, o conde e a condessa de Franquetot, a condessa de Chaverny, nascida d'Aigleville, e que afinal compreendi porque me fora enviado, ao reconhecer os nomes da marquesa de Cambremer, e quando vi que a morta era uma prima dos Cambremers chamada Éléonore-Euphrasie-Humbertine de Cambremer, condessa de Criquetot. Em toda a extensão dessa família provinciana, cuja enumeração enchia linhas finas e cerradas, não havia um só burguês, e aliás nem um título conhecido, mas todo o grupo e subgrupo de nobres da região que faziam ressoar seus nomes em todos os lugares interessantes das redondezas com alegres finais em villie, em court, vezes mais surdos (em tot). Vestidos com a telha de seu castelo; ou com reboco de sua igreja, a cabeça vacilante mal ultrapassando a abóbada da construção central, e unicamente para ornarem-se com a clarabóia; ou as armações do telhado em forma de cone, davam a impressão de terem ressoado o toque de reunião de todas as belas aldeias escalonadas ou dispersas num raio de cinqüenta léguas e de as terem disposto em armação cerrada, sem uma só lacuna, sem um intruso, no tabuleiro retangular e compacto do convite aristocrático bordado de preto.

            Minha mãe tornara a subir para seu quarto, meditando na carta da Sra. de Sévigné:

            "Não visito nenhum dos que desejam me divertir; palavras encobertas, o que eles querem é impedir-me de pensar em você e isso me ofende", porque o presidente do conselho lhe dissera que deveria distrair-se. Ele me sussurrou:

            - É a princesa de Parma. -

            Meu temor dissipou-se ao ver que a mulher que o magistrado me indicava não tinha qualquer relação com Sua Alteza Real. Mas, como esta mandara reservar um quarto para passar a noite ao voltar da casa da princesa de Luxemburgo, a notícia teve, para muitos, o efeito de fazê-los tomar pela princesa de Parma toda nova dama recém-chegada e, para mim, o de fazer-me subir e ficar fechado em meu sótão. Não gostaria de estar ali sozinho. Eram apenas quatro horas. Pedi a Françoise que fosse buscar Albertine, para que viesse passar comigo o final da tarde.

            Creio que mentiria se dissesse que já principiara a dolorosa e perpétua desconfiança que Albertine devia me inspirar, e com maior razão o caráter especial, sobretudo gomorriano, que deveria revestir essa desconfiança. Decerto, desde aquele dia, mas que não era o primeiro minha espera foi um tanto ansiosa. Françoise, logo que partiu, demorou tanto tempo que comecei a desesperar. Não havia acendido a lâmpada. Quase não havia claridade. O vento fazia estalar a bandeira do cassino. E, mais débil ainda que o silêncio da praia, por onde o mar subia, e como uma voz que traduzisse e aumentasse a vagarosa enervante daquela hora inquieta e falsa, um realejo parado diante do hotel tocava valsas vienenses. Por fim Françoise chegou, mas sozinha.

            - Fui o mais rápido que pude, mas ela não queria vir porque não se achava bem penteada. Se não ficou uma hora se empoando, cinco minutos é que não foi. Vai ser uma verdadeira perfumaria aqui. Ela vem, ficou para trás para se arrumar diante do espelho. Pensava já encontrá-la aqui. -

            Ainda se passou longo tempo antes que Albertine chegasse. Porém a alegria e a amabilidade que demonstrou dessa vez dissiparam a minha tristeza. Anunciou-me (ao contrário do que havia dito outro dia) que ficaria por toda a temporada e perguntou se não poderíamos, como no primeiro ano, ver-nos todos os dias. Disse-lhe que naquele momento estava triste demais e que seria melhor mandar buscá-la de vez em quando, no último instante, como em Paris.

            - Se alguma vez sentir-se aflito ou o coração o aconselhar, não hesite -disse ela -, mande me buscar, virei depressa; e, se não recear que isso faça escândalo no hotel, permanecerei o tempo que quiser. -

            Ao trazê-la, Françoise ostentara um ar feliz, como cada vez que se dava a um trabalho por mim e conseguia me agradar. Mas Albertine em si não entrava em nada nessa alegria, e já no dia seguinte Françoise devia me dizer estas palavras profundas:

            - O patrão não deveria ver essa moça; bem sei o tipo de caráter que ela tem, vai lhe dar desgostos.

            Reconduzindo Albertine, vi pela sala de jantar iluminada a princesa de Parma. Limitei-me a olhá-la, cuidando em não ser visto. Mas confesso: achei uma certa grandeza na régia polidez que me fizera sorrir na casa Guermantes. É um princípio que os soberanos estejam em sua casa à parte, e o protocolo o traduz em usos mortos e sem valor, como àquela que o dono da casa fique de chapéu na mão em sua própria realeza, para mostrar que não está mais em sua casa, mas na do príncipe; essa idéia, a princesa de Parma talvez não a formulasse, porém estava tão imbuída que todos os seus atos, espontaneamente inventados circunstâncias a traduziam. Quando se ergueu da mesa, deu uma cativa gorjeta a Aimé como se este estivesse ali apenas para servi-la recompensasse, ao deixar um castelo, um mordomo afeto a seu ser. Aliás, não se contentou com a gorjeta; mas, com um sorriso gracioso dirigiu-lhe algumas palavras amáveis e lisonjeiras de que sua mãe a abastecera. Um pouco mais, e ela lhe teria dito que, quanto mais bem dirigido o hotel, tanto mais florescente a Normandia, e que de todos os países do mundo ela preferia a França. Outra moeda deslizou das mãos da princesa para o copeiro que ela mandara chamar e a quem fez questão de exprimir seu contentamento, como um general que acaba de fazer uma revista. Naquele momento, o ascensorista viera dar uma resposta; ganhou uma frase, um sorriso e uma gorjeta, tudo isso misturado às palavras, estímulo, humildes, destinadas a lhes provar que ela não era mais que um deles. Como Aimé, o copeiro, o ascensorista e os demais julgaram, pouco polido não sorrir de orelha a orelha a uma pessoa que lhes sorria, ela foi em breve cercada por um grupo de criados, com quem conversou demoradamente; como tais maneiras eram desacostumadas nos palácios, pessoas que passavam pela praia, ignorando o seu nome, acreditaram estar vendo uma habituée de Balbec, e que, devido a uma extração medíocre; a um interesse profissional (talvez fosse a esposa de um corretor) era menos diferente da criadagem que seus clientes verdadeiramente elegantes. Quanto a mim, pensei no palácio de Parma, nos conselhos religiosos, meios políticos dados a essa princesa, que lidava com o povo; como se devesse conciliar-lhe as graças para reinar um dia; mais ainda, como se já reinasse.

            Voltei para o meu quarto, mas ali não me achava sozinho. Ouvia alguém tocando com suavidade trechos de Schumann. Com certeza ocorre as pessoas, mesmo aquelas a quem mais amamos, saturam-se com a tristeza ou a irritação que provém de nós. Entretanto, existe algo que tem capacidade de exasperar que pessoa alguma consegue atingir: Albertine me fizera anotar as datas em que deveria ausentar-se à casa de amigas durante alguns dias, e fizera-me também escrever os endereços para o caso que eu tivesse necessidade dela numa dessas noites, pois nenhuma residia muito longe. Isto fez com que, para achá-la, de moça em moça, bem naturalmente se foi formando a meu redor um laço de flores. Ouso confessar que muitas de suas amigas, eu não a amava ainda, me proporcionaram, numa ou noutra praia, alguns instantes de prazer. Essas jovens companheiras benevolentes não me pareciam muito numerosas. Mas ultimamente voltei a pensar nisso, seus nomes me regressaram.

            Contei que, somente naquela temporada, doze me concederam seus frívolos favores. Um nome a mais me acudiu logo, totalizando treze. Tive então uma espécie de medo infantil de permanecer nesse número. Ai de mim, pensava que havia esquecido a primeira, Albertine, que já não estava e foi a décima quarta.

            Para retomar o fio da narrativa, eu anotara os nomes e endereços das moças onde a encontraria nos tais dias em que ela não estivesse em Incarville, mas imaginara que aproveitaria melhor esses dias indo à casa da Sra. Verdurin. Além disso, nossos desejos por mulheres diferentes não têm sempre a mesma intensidade. Em determinada noite não podemos passar sem uma que, depois disso, não nos perturbará durante um ou dois meses. Ademais, além das causas de alternância de que não é aqui o lugar de estudar, depois das grandes fadigas carnais, a mulher cuja imagem freqüenta a nossa momentânea senilidade; é uma mulher a quem quase não faríamos mais que beijar na fronte. Quanto a Albertine, eu a via raramente, e apenas em tardes muito espaçadas, quando não podia passar sem ela. Se um tal desejo me possuísse quando ela estivesse longe demais de Balbec para que Françoise pudesse ir a seu encontro, eu enviava o ascensorista a Épreville, a La Sogne, a Saint-Frichoux, pedindo-lhe que terminasse um pouco mais cedo o seu trabalho. Ele entrava em meu quarto, mas deixando a porta aberta, pois, embora cumprisse conscienciosamente com seu "batente", que era bem pesado, e consistia em numerosas limpezas desde as cinco da manhã, não podia resolver-se ao esforço de fechar uma porta e, se lhe observassem que estava aberta, voltava e, fazendo um esforço máximo, encostava-a de leve. Com o orgulho democrático que o caracterizava e ao qual não atingem em suas carreiras liberais os membros de profissões um tanto numerosas, advogados, médicos, que somente a um outro advogado, homem de letras ou médico chamam:

            - Meu confrade -, ele, usando com razão um termo reservado aos corpos restritos, como as academias por exemplo, me dizia, falando de um groom que era ascensorista uma vez a cada dois dias:

            - Vou tratar de ser substituído por meu colega. -

            Esse orgulho não o impedia, com o objetivo de melhorar o que denominava seus vencimentos, de aceitar remunerações pelos recados, o que fizera Françoise criar-lhe horror:

            - Sim, da primeira vez que a gente o vê é capaz de dar a hóstia sem confissão; mas há dias em que ele é cortês como a de uma prisão. Todos eles são caça-níqueis. -

            Categoria em que ela as vezes havia classificado Eulalie e onde infelizmente, por todas as doenças que aquilo um dia deveria trazer, ela já colocava Albertine, pois muitas vezes vinha pedir a mamãe, para a minha amiga pouco afortunada, miúdos, ninharias, o que Françoise achava indesculpável, porque a Sra. Bontemps só tinha uma criada para fazer tudo. Bem depressa, o ascensorista, tirando o que eu chamaria a sua libré e que ele denominava sua casaca, aparecia de bengala e chapéu de palha, cuidando do seu andar porte erguido, pois a mãe lhe recomendara que nunca assumisse o, -"operário" ou groom. Da mesma forma que, graças aos livros, a ciência„ acessível a um operário que não é mais operário depois que findou seu trabalho, assim, graças ao chapéu de palha e ao par de luvas, a elegância tornou-se acessível ao ascensorista, o qual, deixando à noite de fazer aos hóspedes, julgava-se, como um jovem cirurgião que despiu o jaleco; o sargento Saint-Loup sem o uniforme, um perfeito mundano. Aliás, não destituído de ambição, nem tampouco de talento para manipular a sua gaiola e nos deixar entre dois andares. Mas sua linguagem era defeituosa. Acreditava na sua ambição porque, referindo-se ao porteiro, de quem dependia:

            - Meu porteiro - falava, com o mesmo tom que um homem, que possuindo em Paris o que o groom teria chamado "um hotel particular", falava do seu porteiro. Quanto à linguagem do ascensorista, é curioso que algo que ouvia um hóspede dizer cinqüenta vezes por dia "elevador", nunca pudesse ser ele próprio senão "ascensor". Certas coisas nesse ascensorista eram muito irritantes: qualquer coisa que eu lhe dissesse, ele me interrompia e numa locução, "é claro!", ou "logo vi!", que parecia significar ou que minha observação era de uma tal evidência que todo mundo a teria feito, ou então atribuir a si o mérito, como se ele é que me chamasse a atenção ao fato. "É claro!" ou "logo vi!", proferidos com a maior energia, retornava de dois em dois minutos à sua boca, a propósito de coisas que nunca teriam ocorrido, o que irritava tanto que logo me punha a dizer o contrário para lhe mostrar que não compreendia nada. Mas à minha segunda aflição, embora não fosse conciliável com a primeira, ele também não deixava de retrucar: "É claro!", ou "logo vi!", como se estas palavras fossem inevitáveis. Também dificilmente lhe perdoava que empregasse certos termos seu ofício, e que, por isso mesmo, seriam perfeitamente adequados no sentido próprio, apenas no sentido figurado, o que lhes dava uma intenção espirituosa bem tola; por exemplo, o verbo pedalar. Ele nunca o usava quando fazia uma corrida de bicicleta. Mas se, a pé, correra para chegar na hora para indicar que havia caminhado depressa dizia:

            - Como pedalei! -

            O ascensorista era antes baixinho, malfeito de corpo e muito feio. Isso não impedia que, cada vez que lhe falavam de um rapaz alto, esbelto e fino, ele dissesse:

            - Ah, sim, sei, um que é bem do meu tamanho. -

            E um dia em que esperava uma resposta sua, como alguém subisse a escada, eu, ao ruído dos passos, abrira com impaciência a porta do quarto e vira um groom, belo como Endimião, os traços incrivelmente perfeitos, que vinha a chamado de uma dama que eu não conhecia. Quando o ascensorista regressou, ao lhe dizer com que impaciência eu havia esperado a sua resposta, contei que julgara que era ele quem subia, mas que se tratava de um groom do Hotel da Normandia. E ele disse:

            - Ah, sim, sei quem é, só existe um, um rapaz do meu tamanho. De cara, também se parece muito comigo, de tal modo que poderiam nos tomar um pelo outro, dir-se-ia que é meu irmão. -

            Enfim, queria parecer ter compreendido tudo desde o primeiro instante, o que fazia com que, logo que lhe recomendassem alguma coisa, dissesse:

            - Sim, sim, sim, sim, sim, compreendo muito bem com uma clareza e um tom inteligente que me iludiram por algum tempo; mas as pessoas, à medida que a gente as conhece, são como um metal mergulhado numa mistura alteradora, e aos poucos vemo-las perderem suas qualidades (como às vezes seus defeitos). Antes de lhe fazer minhas recomendações, vi que deixara aberta a porta; chamei-lhe a atenção, receava que nos ouvissem; condescendeu ao meu desejo e voltou, após ter diminuído a abertura.

            - É para agradá-lo. Mas não há ninguém neste andar senão nós dois.

            E logo ouvi passar uma pessoa, depois duas, e depois três. Isso me irritava por causa da possível indiscrição, mas sobretudo porque via que aquilo não o admirava de maneira nenhuma e se tratava de um vai-vém normal.

            - Sim, é a camareira do lado que vai buscar suas coisas. Oh, não tem importância, é o copeiro que traz as suas chaves. Não, não, não é nada, o senhor pode falar, é meu colega que vai pegar no serviço. -

            E, como todos os motivos que as pessoas tinham para passar não diminuíssem o meu aborrecimento pelo fato de que podiam me ouvir, diante de minhas ordens formais ele foi, não fechar a porta, pois isto estava acima das forças daquele ciclista que desejava uma moto, mas empurrá-la um bocadinho mais.

            - Assim ficaremos tranqüilos. -

            Estávamos tranqüilos de tal maneira que uma americana entrou e saiu, desculpando-se por se haver enganado de quarto.

            - Você vai me trazer essa moça - disse eu, depois de ter eu próprio batido a porta com toda a força, o que levou um outro groom a verificar se não havia uma janela aberta.

            - Você se lembra bem: Srta. Albertine Simonet. Aliás, está no envelope. Você só precisa lhe dizer que isto vem de minha parte. Ela virá de muito bom grado - acrescentei para encorajá-lo e não me humilhar demais.

            - É claro! -

            Mas não, ao contrário, não é nada natural que vir de Berneville até aqui.

            - Com grado. É muito incômodo venha de bom grado que venha consigo. - Sim, sim, sim, sim, compreendo! -

            Você lhe dizendo: “muito bem” - respondia ele, com esse tom preciso e fino que há muito "boa impressão", porque eu sabia que era a qual já deixara de me causar a nitidez aparente, muita estupidez e indeterminação. Mecânico recobria-se.       

            - Não ficarei fora por muito tempo – dizia-

            - A que horas terá voltado?

            O ascensorista que, levando ao extremo a regra ditada por Bélise para evitar reincidência do mesmo compasso, contentava-se sempre com uma só negativa.

            - Posso muito bem ir até lá. Justamente as saídas tinham sido suspensas há pouco porque havia um almoço de vinte talheres. E era a minha vez de sair à tardinha. É justo que eu saia um pouco esta noite. Levo a minha bicicleta. Assim irei depressa. -

            E uma hora depois ele chegava sozinho dizendo:

            - O senhor esperou bastante, o porteiro não vai ficar aborrecido comigo? - Ah, obrigado, o senhor Paul? Não sabe onde estive. Nem o chefe da portaria tem nada a dizer. -

            Mas certa vez em que lhe dissera:

            - É absolutamente necessário, que a traga -, ele me falou sorrindo:

            - O senhor sabe que não a encontrei. Ela não está aí. E não pude permanecer por muito tempo; tinha medo, de ser como o meu colega, que foi enviado do hotel - (pois o ascensorista, que dizia reentrar no caso de uma profissão na qual se entra pela primeira vez: "eu gostaria muito de reentrar para os Correios", em compensação, fosse para adoçar a coisa, se se tratasse dele, fosse para insinuá-la mais adocicada e perfidamente, se se tratasse de outrem, suprimia o re inicial. Não era por maldade que ele sorria, e dizia:

            "sei que ele foi enviado sim por timidez.”

            Julgava diminuir a importância de sua falta, levando-a na brincadeira.

            Da mesma forma, se me havia dito:

            - O senhor sabe que não a encontrei não era porque julgasse que eu de fato já o sabia. Pelo contrário, não duvidava que eu o ignorasse e, principalmente, assustava-se como para evitar a si próprio as angústias que, isso causaria. Assim, dizia "o senhor sabe" pretendia ao pronunciar as frases destinadas a revelar-me aquilo. Jamais nos deveríamos encolerizar contra aqueles que, apanhados em falta por nós, põem-se a troçar. Eles procedem assim não porque zombem, mas por tremerem à idéia de que possamos estar descontentes. Testemunhemos uma grande piedade, demonstremos uma grande ternura por aqueles que riem. Semelhante a um verdadeiro acesso, a perturbação do ascensorista lhe trouxera não apenas um rubor apoplético, mas também uma alteração da linguagem, que subitamente se tornara familiar. Acabou por explicar-me que Albertine não estava em Épreville, que deveria regressar somente às nove horas e que se às vezes, o que significava por acaso, voltasse mais cedo, lhe dariam o meu recado e, em todo caso, ela estaria comigo antes de uma da madrugada.

            Aliás, ainda não foi naquela noite que principiou a tomar consistência a minha cruel desconfiança. Não, para dizê-lo de imediato e embora o caso haja ocorrido somente algumas semanas depois, ela nasceu de uma observação de Cottard. Naquele dia, Albertine e suas amigas tinham desejado arrastar-me ao cassino de Incarville, e por sorte minha eu não as teria encontrado (pois queria fazer uma visita à Sra. Verdurin que me convidara várias vezes) se não fosse detido exatamente em Incarville por uma pane no trem que ia demorar algum tempo para ser reparada. Andando de um lado para o outro à espera de que terminassem, encontrei-me de súbito frente a frente com o doutor Cottard, que fora a Incarville para dar uma consulta. Hesitei quase em cumprimentá-lo, visto que não respondera a nenhuma de minhas cartas. Mas a amabilidade não se manifesta em todo mundo da mesma forma. Não tendo sido restringido pela educação às mesmas regras fixas de polidez das pessoas da sociedade, Cottard era cheio de boas intenções que se ignoravam, que se negavam, até o dia em que ele tinha ocasião de manifestá-las. Desculpou-se, havia certamente recebido as minhas cartas, havia assinalado a minha presença aos Verdurin, que tinham muita vontade de me ver e a cuja casa me aconselhou que fosse. Queria mesmo levar-me até lá na mesma noite, pois ia pegar de volta o trenzinho local para jantar com eles. Como eu hesitasse e ele ainda dispunha de algum tempo para tomar o trem, pois a pane ia demorar para ser reparada, fi-lo entrar no pequeno cassino, um daqueles que me haviam parecido tão tristes na noite da minha primeira chegada, e agora estava cheio do tumulto das moças que, por falta de cavalheiro, dançavam juntas. Andrée veio ter comigo, deslizando; eu contava partir em breve com Cottard para a casa dos Verdurin, quando recusei definitivamente o seu oferecimento, possuído pelo desejo muito vivo de ficar com Albertine. É que acabava de ouvi-la rir. E esse riso evocava logo as carnações róseas, as perfumadas paredes, contra as quais parecia que acabara de se esfregar e de que o acre sensual e revelador como um aroma de gerânio, parecia transportar consigo algumas partículas quase imponderáveis, irritantes e secretas.

            Uma das moças que eu não conhecia sentou-se ao piano, e Andrée pediu a Albertine que valsasse com ela. Feliz, nesse pequeno cassino, por pensar que ia permanecer com aquelas moças, observei a Cottard como dançavam bem. Mas ele, do ponto de vista especial do médico, e com a educação de quem não levava em conta o fato de eu conhecer aquelas moças, às quais no entanto me vira cumprimentar, respondeu:

            - Sim, mas são bem imprudentes os pais que deixam as filhas adquirirem semelhante hábitos. Certamente eu não permitiria às minhas que viessem até aqui, ao menos são bonitas? Não distingo suas feições. Olhe - acrescenta mostrando-me Albertine e Andrée que valsavam lentamente, apertadas uma contra a outra -, esqueci o meu pince-nez e não enxergo bem, mas com certeza elas estão no auge do gozo. Não se sabe muito bem que é principalmente pelos seios que elas o experimentam. E repare, os seios delas tocam completamente. -

            De fato, o toque não cessara entre os de Andrée e os de Albertine.

            Não sei se elas ouviram ou adivinharam a reflexão, do Cottard, mas desligaram-se levemente uma da outra, sempre continuando a valsar. Nesse momento, Andrée disse uma palavra a Albertine, e esta riu com o mesmo riso penetrante e profundo que eu escutara há pouco. Mas a perturbação que me causou desta vez foi apenas cruel; Albertine dava impressão de mostrar desse modo, de fazer notar a Andrée, algum frêmito voluptuoso e secreto. Aquele riso soava como os primeiros ou os últimos acordes de uma festa desconhecida.

            Saí com Cottard, conversando com ele, distraído, só por instantes pensando na cena que acabava de presenciar. Não é que a conversa de Cottard fosse interessante. Naquele momento até se tornara azeda, pois acabávamos de ver o doutor Du Boulbon, que não nos percebeu. Ele viera passar algum tempo do outro lado da baía de Balbec, onde era muito consultado. Ora, Cottard, embora habitualmente declarasse que não praticava medicina nas férias, havia esperado formar nessa costa uma clientela de escol, a que Du Boulbon se constituía num obstáculo. Por certo o médico de Balbec não podia incomodar a Cottard. Não passava de um médico bastante consciencioso que sabia tudo e a quem não se podia falar no menor prurido sem que ele indicasse logo, numa fórmula complexa, a pomada, loção ou tingimento adequados. Como dizia Marie Gineste em seu bonito linguajar, ele sabia "encantar" as feridas e as chagas. Mas não tinha qualquer ilustração. E de fato já causara um pequeno aborrecimento a Cottard. Este, desde que desejara trocar sua cátedra pela de terapêutica, se fizera especialista em intoxicações, perigosa inovação da medicina que serve para renovar os rótulos dos farmacêuticos, dos quais todo produto é declarado inteiramente atóxico, ao contrário das drogas similares, e até desintoxicante. É a propaganda da moda; mal sobrevive, por baixo, em outras ilegíveis, como um débil vestígio de uma moda precedente, a afirmativa de que o produto foi cuidadosamente antisseptizado. As intoxicações também servem para que o doente se tranqüilize, ao saber alegremente que sua paralisia é apenas uma enfermidade tóxica.

            Ora, tendo um grão-duque vindo passar alguns dias em Balbec e estando com um olho extremamente inchado, mandara trazer Cottard, o qual, em troca de algumas cédulas de cem francos (o professor não se incomodava por menos), atribuíra a inflamação a um estado tóxico e prescrevera um regime desintoxicante. Visto que o olho não desinchava, o grão-duque recorreu ao médico ordinário de Balbec, o qual em cinco minutos retirou um grão de poeira. No dia seguinte não havia mais nada. Entretanto, um rival mais perigoso era uma celebridade em doenças nervosas.

            Era um homem rubro, jovial, a um tempo porque o convívio com o descontrole nervoso não o impedia de gozar de muito boa saúde, mas também para tranqüilizar seus doentes com o riso grosso de seus bons-dias e de seu até logo, pronto para ajudar com seus braços de atleta a lhes vestir mais tarde a camisa-de-força. Não obstante, quando se conversava com ele em sociedade, fosse de política ou de literatura, ele escutava com uma benevolência atenta, como se indagasse: "De que se trata?", sem se pronunciar de imediato, como se se tratasse de uma consulta. Mas enfim, este, fosse qual fosse o talento que tivesse, era um especialista. Assim, toda a raiva de Cottard recaía sobre Du Boulbon. Aliás, deixei logo o professor amigo dos Verdurin, para recolher-me, prometendo ir vê-los.

            Era profundo o mal que me haviam feito suas palavras no tocante a Albertine e Andrée. Mas os piores sofrimentos não foram sentidos por mim de imediato, como ocorre com esses venenos que só agem depois de um certo tempo.

            Albertine não veio na noite em que o ascensorista fora buscá-la, apesar da segurança deste. Por certo, os encantos de uma pessoa são uma causa menos comum de amor que uma frase do tipo desta:

            "Não, esta noite não estarei livre."

            Não se dá atenção a essa frase se se está em presença de amigos; estamos alegres toda a noite, não nos preocupamos com determinada imagem; durante esse tempo, ela está mergulhada na mistura necessária; ao regressar, encontra-se o clichê pronto e perfeitamente nítido. Percebe-se que a vida já não é aquela que se teria deixado por uma ninharia na véspera, pois, se continuamos a não temer a morte, não mais temos coragem de pensar na separação. Além disso, não a partir de uma da madrugada (hora que o ascensorista havia fixado), mas das três horas, não mais experimentei como outrora o sofrimento de sentir diminuir as minhas chances de que ela aparecesse. A certeza de que não viria trouxe-me um sossego absoluto, alívio; essa noite era simplesmente uma noite como tantas outras em geral eu não a via, e dessa idéia eu começava. E desde então, destacando-se à esse Nada aceito, tornava-se doce o pensamento de que a veria no dia seguinte ou em outros dias. Às vezes, nessas noites de espera, a angústia agia como a um remédio que se tomou. Falsamente interpretada por aquele que sofre, julga ele estar angustiado por causa daquela que não vem. Em tal caso o amor nasce, como certas doenças nervosas, da explicação incorreta de um mal penoso. Explicação que não é útil retificar, pelo menos no que concerne ao amor, sentimento que é sempre errôneo, seja qual for a sua causa.       

            No dia seguinte, quando Albertine me escreveu dizendo que acabava de voltar a Épreville, e portanto não recebera a tempo o meu recado, e viria, se eu o permitisse, visitar-me à noite por detrás das palavras da carta, como por trás das que me dissera uma vez ao telefone; julgamos sentir a presença de prazeres e de criaturas que ela teria preferido a mim. Mais uma vez fui inteiramente abalado pela dolorosa curiosidade de saber o que poderia ela ter feito, devido ao amor latente que sempre trazemos dentro de nós; durante um momento, cheguei a acreditar que esse amor iria ligar-me a Albertine, porém ele se contentou em fremir dentro de mim; e seus últimos ruídos se extinguiram sem que se pusesse em marcha.

            Eu havia compreendido mal, na minha primeira estada em Balbec, o caráter de Albertine e talvez o mesmo tivesse acontecido com Andrée. Achara ser frivolidade ingênua de sua parte, se todas as nossas súplicas não conseguiam retê-la e fazê-la faltar a um garden-party, a um passeio em lombo de burro, a um piquenique.

            Em minha segunda estada em Balbec; suspeitei que essa frivolidade era apenas aparente, o garden-party um biombo, senão uma invenção. Ocorria, sob formas diversas, o seguinte (entendo a coisa vista por mim, do meu lado do vidro que de modo algum era transparente, e sem que pudesse saber o que havia de verdadeiro do outro lado): Albertine me fazia os mais apaixonados protestos de ternura. Vigiava a hora porque precisava fazer uma visita a uma dama que recebia, ao que parece, todos os dias às cinco da tarde em Infreville. Atormentado por uma suspeita e aliás sentindo-me adoentado, pedia a Albertine, suplicava-lhe que permanecesse comigo. Era impossível (e ela até nem tinha mais que cinco minutos para ficar), pois aquilo aborreceria a tal dama, pouco hospitaleira e suscetível, e, ao que dizia à Albertine, enfadonha.

            - Mas pode-se perfeitamente deixar de fazer uma visita.

            - Não, minha tia me ensinou que é necessário ser polido com todos.

            - Mas eu a tenho visto não ser polida muitas vezes.

            - Não é a mesma coisa, essa dama iria me querer mal e haveria de me intrigar com minha tia. E já não estou assim em tão boas relações com ela. E ela faz questão de que eu visite essa dama ao menos uma vez.

            - Mas já que ela recebe todos os dias. -

            Aí Albertine, apanhada em contradição, modificava o motivo:

            - Claro que recebe todos os dias. Mas hoje marquei um encontro com algumas amigas na casa dela. Assim, a gente se aborrece menos.

            - Então, Albertine, você prefere a dama e suas amigas a mim, já que, para não deixar de fazer uma visita aborrecida, prefere largar-me sozinho, doente e desolado?

            - Pouco me importaria que a visita fosse aborrecida, mas é em atenção à elas. Vou trazê-las de volta no meu carro. Sem isso elas não teriam nenhum meio de transporte. -

            Observei à Albertine que havia trens de Infreville até às dez horas da noite.

            - É verdade, mas você sabe que é possível que nos peçam para ficar para a ceia. Ela é muito hospitaleira.

            - Muito bem, você recusará.

            - Vou aborrecer ainda mais a minha tia.

            - De resto, você pode cear e tomar o trem das dez horas.

            - Fica meio apertado.

            - Então nunca posso ir jantar no centro da cidade e voltar de trem. Mas olhe, Albertine, vamos fazer algo bem simples: sinto que o ar livre me fará bem; e, já que você não pode deixar de visitar essa dama, vou acompanhá-la até Infreville. Não tenha medo, não irei até a Tour Élisabeth (a vivenda da tal dama), não verei nem a dama nem suas amigas. -

            Albertine parecia ter recebido um tremendo golpe. Suas palavras saíam entrecortadas. Disse que os banhos de mar não lhe agradavam.

            - Mas aborrece-lhe que eu a acompanhe?

            - Como é que pode dizer uma coisa dessas? Bem sabe que o meu maior prazer é sair com você. -

            Uma brusca reviravolta se operara.

            - Já que vamos passear juntos - disse ela -, por que não irmos para o outro lado de Balbec, poderíamos jantar juntos. Seria tão bom. No fundo, aquela costa é muito mais bonita. Começo

a detestar Infreville e o resto, esses lugarezinhos de cor verde-espinafre.

            - Mas a amiga de sua tia ficará aborrecida se você não for visitá-la.

            - Pois bem, ela se acalmará.

            - Não, não convém aborrecer as pessoas.

            - Mas ela nem sequer perceberá; recebe todos os dias. Tanto faz que eu vá amanhã, depois de amanhã, dentro de oito dias ou em duas semanas.

            - E suas amigas?

            - Oh, elas já me deixaram na mão em várias ocasiões. Agora é a minha vez.

            - Mas para o lado que você propõe, não há trem depois das nove.

            - Muito bem, que belo negócio! Nove horas é perfeito. E depois, a gente nunca precisa se preocupar com o problema de volta. Sempre haveremos de encontrar uma charrete, uma bicicleta, e, faltando tudo isso, temos nossas pernas.

            - Sempre havemos de encontrar? Como você anda depressa, Albertine! Para os lados de Infreville, onde as pequenas estações de madeira são coladas umas às outras, sim. Mas do lado oposto não é a mesma coisa.

            - Mesmo desse lado. Prometo trazê-lo de volta são e salvo. -

            Eu sentia que, por mim, Albertine renunciava a alguma coisa já combinada que ela não queria me revelar, e que haveria alguém que ficaria infeliz como eu estava. Vendo que o que desejara não era possível, pois queria acompanhá-la, renunciava francamente a isso. Sabia que não era irremediável. Pois, como as mulheres que têm várias coisas na vida, possuía esse ponto de apoio que jamais enfraquece: a dúvida e o ciúme. Por certo ela não procurava excitá-los, pelo contrário. Mas os enamorados tão suspicazes que imediatamente farejam a mentira. De modo que Albertine, não sendo melhor que qualquer outra, sabia por experiência (nem desconfiar que o devia ao ciúme) que sempre estava segura de encontrar as pessoas a quem uma noite deixara esperando. A pessoa desconhecida que ela abandonava por mim sofreria, iria amá-la ainda mais (Albertine não sabia que era por isso), e, para não continuar a sofrer, voaria por si mesma para junto dela, como eu o teria feito. Mas eu não quero causar desgostos, nem me cansar, nem entrar no terrível caminho das investigações, da vigilância multiforme, inumerável.

            - Não, Albertine, não quero estragar o seu prazer, vá para a casa de sua dama de Infreville; ou enfim, para a casa da pessoa de quem ela é o pseudônimo, pouco me importa. O verdadeiro motivo pelo qual não saio com você é que você não deseja, que o passeio que você daria comigo não é o que gostaria de dar; a prova é que você se contradisse mais de cinco vezes sem perceber. -

            Pobre Albertine receou que suas contradições, de que não percebera tivessem sido mais graves, não lembrando exatamente as mentiras que havia pregado:

            - É bem possível que eu tenha caído em contradições. O ar marinho me tira todo o raciocínio. Troquei os nomes o tempo inteiro. -

            O que me provou que ela agora não teria necessidade de muitas doces afirmações para que eu acreditasse no que dizia voltei a sentir a dor de um ferimento ao ouvir esta confissão do que eu só vagamente havia suposto:

            - Pois bem, está combinado, vou embora - disse ela num tom trágico, não sem olhar a hora para ver se não estava atrasada para o outro, agora que eu lhe fornecia o pretexto para não passar a noite comigo. - Você é muito mau. Modifico tudo para passar uma noite boa com você e é você não quer e ainda me acusa de mentirosa. Nunca o tinha visto ser tão cruel. O mar será o meu túmulo. Não o verei nunca mais. (Meu coração bateu à estas palavras, apesar de eu estar certo de que ela voltaria no dia seguinte o que aconteceu.) Vou me afogar, vou lançar-me às águas. - Como Safo! - Mais um insulto; você tem dúvidas não só sobre o que digo, mas também sobre o que faço.

            - Mas, minha pequena, juro que não tinha nenhuma intenção, você sabe que Safo se precipitou no mar.

            - Sim, sim, você não tem nenhuma confiança em mim. -

            Albertine viu que faltavam vinte minutos para as oito na pêndula; receou atrasar-se para o que tinha de fazer e, preferindo a despedida mais breve (da qual, de resto, desculpou-se ao vir visitar-me no dia seguinte; provavelmente nesse dia a outra pessoa não estava livre), fugiu em passos rápidos gritando:

            - Adeus para sempre - com ar desolado. E talvez estivesse mesmo desolada. Pois, sabendo melhor do que eu o que fazia naquele instante, ao mesmo tempo mais severa e mais indulgente consigo própria do que eu era com ela, talvez ainda assim duvidasse de que eu não a quisesse receber mais, em vista da maneira como me havia deixado. Ora, creio que ela fazia mesmo questão de mim, a ponto de a outra pessoa estar mais enciumada que eu próprio.

            Dias depois, em Balbec, como estivéssemos na sala de dança do cassino, entraram a irmã e a prima de Bloch, que se haviam tornado ambas muito bonitas, mas a quem não cumprimentei por causa de minhas amigas, pois a mais jovem, a prima, com o conhecimento de todos, vivia com a atriz a quem havia conhecido por ocasião da minha primeira temporada. A uma alusão que fiz à meia-voz, Andrée me disse:

            - Oh, sob esse aspecto eu sou como Albertine: não há nada que me dê tanto horror quanto isso.

            Quanto a Albertine, pondo-se a conversar comigo no canapé em que estávamos sentados, dera as costas às duas moças de maus costumes. E no entanto eu havia reparado que antes desse movimento, na ocasião em que a Srta. Bloch e sua prima tinham aparecido, passara pelos olhos de minha amiga essa atenção brusca e profunda que por vezes conferia ao rosto malicioso de Albertine um ar sério, até mesmo grave, deixando-a triste depois. Porém, logo volvera para mim os seus olhos, que entretanto permaneceram singularmente imóveis e sonhadores. Tendo a Srta. Bloch e sua prima acabado por ir-se embora, depois de rirem muito alto e soltarem gritos inconvenientes, perguntei a Albertine se a lourinha (a que era amiga da atriz) não era a mesma pessoa que na véspera ganhara o prêmio do desfile de carros de flores.

            - Ah, não sei - disse Albertine -, uma delas é loura? Digo-lhe que elas me interessam muito pouco, nunca as observei. Uma delas é loura? - indagou com ar interrogativo e desligado às três amigas. Referindo-se a pessoas que Albertine encontrava todos os dias no molhe, essa ignorância me pareceu muito excessiva para não ser fingida.

            - Elas também não parecem nos olhar muito - disse eu a Albertine, talvez na hipótese, que no entanto não considerava de modo consciente, de que Albertine gostasse de mulheres, e, a fim de lhe tirar toda a pena, mostrando-lhe que não havia atraído a atenção delas e que, de um modo geral, não é costume, mesmo entre as mais viciosas, preocuparem-se com mocinhas que desconhecem.

            - Não nos olharam? - respondeu Albertine irrefletidamente. - Não fizeram outra coisa o tempo todo.

            - Mas você não podia saber - disse eu -, estava de costas para elas.

            - Pois bem, e aquilo ali? - retrucou ela, mostrando-me, encaixado na parede à nossa frente, um grande espelho que eu não havia notado e no qual eu entendia agora que minha amiga, sem parar de falar, não cessara de pregar seus belos olhos cheios, preocupação.

            A partir do dia em que Cottard entrou comigo no pequeno cassino de Incarville, ainda que não partilhasse da opinião que ele emitira, Albertine já não me pareceu a mesma; sua vista causava-me cólera. Eu próprio havia mudado tanto quanto ela me parecia outra. Deixara de lhe querer bem; sua presença, na sua ausência quando isso lhe podia ser repetido, falava dela da maneira mais ferina. Contudo, havia tréguas.

            Um dia, soube que Albertine e Andrée tinham aceitado um convite de Elstir. Não duvidando que haviam feito porque poderiam na volta se divertir, como alunas de internato, imitando as moças de maus costumes, achando nisso um prazer inconfesso de virgens que me apertava o coração, sem avisar, para constrangê-las e privar Albertine do prazer com que contava, cheguei de improviso na casa de Elstir. Mas ali só encontrei Andrée. Albertine escolhera outro dia, quando a tia deveria comparecer. Então pensei comigo que Cottard devia ter se enganado; a impressão favorável que me produzira a presença da Andrée sem sua amiga prolongava-se e alimentava em mim disposições mais amenas acerca de Albertine. Mas estas não duraram mais do que frágil boa saúde dessas pessoas delicadas, sujeitas a melhoras passageiras, a quem basta um nada para fazê-las ter uma recaída. Albertine incitava Andrée a brincadeiras que, sem irem muito longe, não eram talvez inteiramente inocentes; padecendo dessa suspeita, terminava por afastá-la. Sentia-me curado, a suspeita renascia sob outra forma. Acabava de ver Andrée, num daqueles movimentos graciosos que lhe eram particulares, pousar carinhosamente a cabeça no ombro de Albertine, beijar-lhe o pescoço entrecerrando os olhos; ou então, elas haviam trocado uma piscadela; uma palavra escapara a alguém que as vira juntas a caminho do banho; pequenos nadas feito os que flutuam de modo habitual na atmosfera ambiente, onde a maioria das pessoas os absorvem o dia inteiro sem que sua saúde se ressinta disso, ou que o seu humor se altere, mas que são mórbidos e geradores de novos sofrimentos para uma criatura que já está predisposta a tanto. Às vezes até, sem que eu tivesse voltado a ver Albertine, sem que ninguém me falasse dela, eu reencontrava na memória uma pose de Albertine junto de Gisele que então me havia parecido inocente; era o que, bastava agora para destruir a calma que eu pudera achar, não tinha sequer, a necessidade de ir respirar lá fora os germes perigosos, pois, como diria Cottard, intoxicara a mim mesmo. Pensava então em tudo o que soubesse acerca do amor de Swann por Odette, da maneira como Swann fora enganado em toda a sua vida. No fundo, a hipótese que me fez construir aos poucos todo o caráter de Albertine e interpretar dolorosamente cada instante de uma vida que eu não podia controlar por completo foi a Swann, tal como me haviam contado que era. Essas narrativas contribuíram para fazer com que, no futuro, minha imaginação se entregasse ao jogo de supor que Albertine poderia, ao invés de ser uma boa moça, ter a mesma imoralidade, a mesma capacidade de enganar de uma antiga cocote, e pensava em todos os sofrimentos que, nesse caso, teriam me esperado se a devesse amar alguma vez.

            Um dia, estando nós reunidos no molhe diante do Grande Hotel, acabava de dirigir a Albertine as palavras mais duras e mais humilhantes, e Rosemonde dizia:

            - Ah, como você mudou com ela! Antigamente, tudo era para ela, ela é que segurava as rédeas; agora não é boa nem para os cães comerem. -

            Para ressaltar ainda mais a minha atitude quanto a Albertine, eu estava dirigindo todas as amabilidades possíveis a Andrée, que, se era atingida pelo mesmo vício, me parecia mais desculpável por ser doente e neurastênica, quando vimos desembocar, ao trotezinho de seus dois cavalos, na rua perpendicular ao molhe em cuja esquina estávamos, a caleche da Sra. de Cambremer. O presidente do conselho, que naquele momento avançava para nós, afastou-se de um salto, quando reconheceu o carro, para não ser visto em nossa companhia; depois, quando pensou que os olhares da marquesa podiam cruzar com os seus, inclinou-se com um enorme cumprimento de chapéu. Mas o carro, em vez de continuar pela rua de La Mer, como parecia provável, desapareceu por detrás da entrada do hotel. Passaram-se mais ou menos dez minutos, quando o ascensorista, todo esbaforido, veio me avisar:

            - É a marquesa de Cambremer, que veio até aqui visitar o senhor. Subi a seu quarto, procurei no salão de leitura, não podia encontrar o senhor. Felizmente que tive a idéia de olhar a praia. -

            Mal acabara de falar, quando, seguida de sua nora e de um senhor muito cerimonioso, caminhou para mim a marquesa, provavelmente de volta de uma vesperal ou de um chá nas vizinhanças, e toda encurvada sob o peso, menos da velhice que da multidão de objetos de luxo, dos quais ela achava mais amável e mais digno de sua estirpe estar recoberta, a fim de parecer o mais "vestida" possível às pessoas a quem vinha visitar. Em suma, era esse "desembarque" dos Cambremer no hotel que tanto receava a minha avó outrora, quando queria que se deixasse Legrandin na ignorância de que talvez fôssemos a Balbec. Então mamãe ria dos temores inspirados por um acontecimento que ela julgava impossível. Eis que, enfim, ele se produzia, entretanto por outras vias e sem que Legrandin contribuísse em nada para isso.

            - Posso ficar, se não estou incomodando? - perguntou Albertine (em cujos olhos permaneciam, causadas pelas coisas cruéis que eu acabara de dizer-lhe, algumas lágrimas que notei sem parecer vê-las, mas não regozijar-me com elas). - Teria alguma coisa para lhe dizer. -         Um chapéu de plumas, encimado por um alfinete de safira, estava colocado de qualquer jeito sobre a peruca da Sra. de Cambremer, como uma insígnia cuja exibição é necessária, mas suficiente, o local indiferente, a elegância convencional e a imobilidade inútil. Apesar do calor, a boa senhora vestira uma mantilha de azeviche semelhante a uma dalmática, sobre a qual caía uma estola de arminho cujo porte parecia estar em relação, não com a temperatura e a estação, mas com o caráter da cerimônia. E sobre o peito da Sra. de Cambremer, uma coroa de baronesa, ligada a uma correntinha, pendia a maneira de uma cruz peitoral.

            O cavalheiro era um famoso advogado de Paris, de família nobre, que fora passar três dias na casa dos Cambremes. Era um desses homens a quem a consumada experiência profissional faz com que desprezem um pouco sua profissão e que dizem, por exemplo:

            "Sou eu que advogo bem; portanto, já não me diverte advogar", ou: "Não me interessa mais operar; sei que opero bem."

            Inteligentes, artistas, vêem em torno de sua maturidade, fortemente recompensada pelo sucesso; brilhante "inteligência", essa natureza de "artista" que os confrades lhes reconhecem e que lhes confere um certo gosto e discernimento. Apaixonam-se pela partitura, não de um grande artista, mas de um artista contudo bem distinto, para a aquisição de cujas obras empregam os gordos dividendos que lhes traz sua carreira. Le Sidaner era o artista eleito pelo amigo dos Cambremer, o qual aliás era bem agradável. Falava bem dos livros, mas não das obras dos verdadeiros mestres, daqueles que dominaram a si próprios. O único defeito constrangedor desse diletante era o de empregar certas frases feitas com insistência, por exemplo: "na maior parte", o que dava àquilo de que ele queria falar algo de importante e de incompleto.

            A Sra. de Cambremer, segundo ela me disse, aproveitara uma vesperal de amigos seus perto de Balbec para visitar-me, como havia prometido a Robert de Saint-Loup.

            - O senhor sabe que dentro em pouco ele deve vir passar alguns dias aqui na região. Seu tio Charlus está veraneando em casa da cunhada, a duquesa de Luxemburgo, e o Sr. de Saint-Loup aproveitará a ocasião para, ao mesmo tempo, ir cumprimentar a tia e rever seu antigo regimento, onde é muito querido, muito estimado. Muitas vezes recebemos oficiais que nos falam dele sem poupar elogios. Como seria agradável que o senhor e ele nos dessem o prazer de ir a Féterne. -

            Apresentei-lhe Albertine e suas amigas. A Sra. de Cambremer nos apresentou à sua nora. Esta, glacial como era com a pequena nobreza que a vizinhança de Féterne a obrigava a freqüentar; cheia de reserva por medo de comprometer-se, estendeu-me ao contrário a mão com um sorriso radiante, plena de segurança e de alegria diante de um amigo de Robert de Saint-Loup, e que este, com mais finura mundana do que desejaria aparentar, lhe havia dito ser muito ligado aos Guermantes. Assim, ao contrário de sua sogra, a Sra. de Cambremer ostentava dois tipos de polidez completamente diversos. Teria sido quando muito o primeiro, seco, insuportável, que ela teria me concedido se eu a conhecesse através de seu irmão Legrandin. Mas para um amigo dos Guermantes ela não possuía sorrisos que bastassem. A peça mais cômoda do hotel para recepção era o salão de leitura, esse lugar outrora tão terrível onde agora eu entrava dez vezes por dia, saindo livremente, feito dono, como esses loucos mansos, há tanto tempo pensionistas de um asilo que o médico lhes confiou a chave do mesmo. Assim, ofereci-me à Sra. de Cambremer para conduzi-la até lá. E, como aquele salão já não me inspirava timidez e não mais oferecia encantos, porque a face das coisas muda para nós como a das pessoas, foi sem perturbação que lhe fiz aquela proposta. Mas ela a recusou, preferindo ficar fora, e nós nos sentamos ao ar livre, no terraço do hotel. Ali encontrei e recolhi um livro da Sra. de Sévigné que mamãe não tivera tempo de levar em sua fuga precipitada, ao perceber que visitas chegavam para mim. Assim como a minha avó, ela temia essas invasões de estranhos e, de medo de não mais poder escapar, se se deixasse cercar, fugia com uma rapidez que fazia sempre, meu pai e eu, zombarmos dela. A Sra. de Cambremer segurava na mão, junto com o cabo da sombrinha, várias bolsas bordadas, uma cestinha, uma carteira dourada de onde pendiam fios de grenats e um lenço de renda. Creio que lhe seria mais cômodo colocá-los sobre uma cadeira; mas sentia que teria sido inconveniente e inútil pedir-lhe que abandonasse os ornamentos de sua turnê pastoral e de seu sacerdócio mundano. Contemplávamos o mar calmo onde flutuavam gaivotas esparsas como corolas brancas.

            Por causa do nível de simples medium a que nos degrada a conversação mundana, e também o nosso desejo de agradar, não com o auxílio de qualidades ignoradas por nós mesmos, mas daquilo que julgamos ser apreciado pelos que se acham conosco, instintivamente me pus a falar à Sra. de Cambremer, nascida Legrandin, da mesma forma que o teria feito seu irmão.

            - Elas possuem - disse-lhe eu, referindo-me às gaivotas - uma imobilidade e uma brancura de ninféias. -

            E com efeito elas pareciam oferecer um alvo inerte às pequenas ondas que as balançavam a ponto de que estas, por contraste, davam a impressão de ir em sua perseguição, de modo intencional e animadas de vida própria. A velha marquesa não se cansava de elogiar a soberba vista do oceano que tínhamos em Balbec e me invejava, ela que de La Raspeliere (onde aliás não residia naquele ano) só via as ondas de muito longe. Possuía dois hábitos singulares, que resultavam a um tempo de seu exaltado amor às artes (sobretudo pela música e de sua insuficiência dentária. De cada vez que falava de estética, as glândulas salivares, como as de certos animais na época do cio, entram numa fase de hipersecreção tal, que a boca desdentada da velha dama deixava passar, nos cantos dos lábios cobertos de um leve buço, algumas gotas cujo lugar não era ali. Logo em seguida, ela as engolia com um suspiro, como alguém que recobra a respiração. Enfim, se se tratasse de um bem grande beleza musical, ela em seu entusiasmo erguia os braços e proferia alguns juízos sumários, energicamente mastigados e, se necessária, nasais. Ora, eu jamais pensara que a praia vulgar de Balbec pudesse oferecer na verdade uma "vista de mar", e as simples palavras da Sra. de Cambremer mudavam minhas idéias a respeito. Em compensação, e isso eu lhe disse, sempre ouvira celebrar a vista única de La Raspeliere, situada no topo da colina e de onde, num grande salão de duas lareiras, uma fila inteira de janelas olha, do fundo dos jardins entre as folhagens, o mar até além de Balbec, e outra fila, para o vale.

            - Como o senhor é amável e como está bem dito: o mar entre as folhagens. É encantador. Dir-se-ia... um leque...

            Senti, a uma profunda respiração destinada a engolir a saliva e a secura do buço, que o cumprimento era sincero. Mas a marquesa nascida Legrandin permaneceu fria para mostrar seu desdém não pelas minhas palavras, mas pelas da sogra. Além disso, não só desprezava a inteligência desta, como deplorava a sua amabilidade, sempre receando que as pessoas não fizessem uma alta idéia dos Cambremer.

            - E como é bonito o nome - disse eu. - Gostaria de saber a origem de todos esses nomes. - Quanto a esse posso lhe dizer - respondeu com doçura a velha dama. É uma residência de família, da minha avó Arrachepel; não é uma família ilustre, mas boa e antiga família provinciana.

            - Como, não é ilustre? - interrompeu secamente sua nora. - Um vitral inteiro da catedral de Bayeux está cheio de suas armas, e a principal igreja de Avranches contém seus monumentos funerários. Se esses velhos nomes o divertem - acrescentou -, o senhor chega com um ano de atraso. Tínhamos conseguido nomear para, curato de Criquetot, apesar de todas as dificuldades que existem para mudança de diocese, o decano de uma região onde pessoalmente possuo terras, muito longe daqui, em Combray, onde o bom padre sentia que estava ficando neurastênico. Infelizmente o ar marinho não foi bom para sua idade avançada; sua neurastenia aumentou e ele acabou voltando para Combray. Mas, enquanto foi nosso vizinho, divertiu-se em ir consultar todas as velhas cartas e escreveu uma pequena brochura bastante curiosa sobre os nomes da região. Aliás, isso lhe deu no gosto, pois parece que ele ocupa seus últimos anos em escrever uma grande obra sobre Combray e redondezas. Vou enviar-lhe a sua brochura sobre as cercanias de Féterne. É um trabalho de beneditino. Nela o senhor lerá coisas muito interessantes sobre a nossa velha Raspeliere, de que a minha sogra fala tão modestamente.

            - Em todo caso, este ano - respondeu a velha marquesa - La Raspeliere não é mais nossa e não me pertence. Mas sente-se que o senhor possui uma natureza de pintor; deveria desenhar, e eu gostaria muito de lhe mostrar Féterne, que é bem melhor que La Raspeliere. -

            Pois, desde que os Cambremer haviam alugado esta última residência aos Verdurin, sua posição dominante deixara bruscamente de lhes parecer o que havia sido para eles durante tantos anos, isto é, com a vantagem única na região de ter vista a um tempo para o mar e para o vale, em compensação lhes dera de golpe e de contragolpe o inconveniente de que era preciso sempre subir e descer para chegar e sair. Em suma, julgar-se-ia que, se a Sra. de Cambremer a alugara, fora menos para aumentar suas rendas do que para poupar seus cavalos. E ela dizia-se encantada de poder enfim ter o tempo todo o mar tão pertinho, em Féterne, ela que durante tanto tempo, esquecendo os dois meses que ali passava, só o vira do alto e como que num panorama.

            - Descubro-o na minha idade - dizia - e como o aproveito! Isto me faz tão bem! Alugaria La Raspeliere por um nada a fim de ser constrangida a morar em Féterne.

            - Para retornar a assuntos mais interessantes - prosseguiu a irmã de Legrandin, que dizia "Minha mãe" à velha marquesa, mas com o passar dos anos assumira maneiras insolentes com ela -, o senhor falava de ninféias; penso que conhece as que Claude Monet pintou. Que gênio! Isto me interessa tanto mais que, perto de Combray, esse lugar onde lhe disse que possuía terras... -

            Mas ela preferiu não falar muito de Combray.

            - Ah, certamente é a série de que nos falou Elistir, o maior dos pintores contemporâneos! -exclamou Albertine que nada dissera até então.

            - Ah! Vê-se que a senhorita ama as artes - gritou a velha marquesa que, numa respiração profunda, reabsorveu um jato de saliva.

            - Permita-me preferir-lhe Le Sidaner, senhorita - disse sorrindo o advogado, com um ar de conhecedor. E, como antigamente havia apreciado ou vira apreciar certas "audácias" de Elstir, acrescentou: - Elstir era dotado, chegou quase até a fazer parte da vanguarda, mas não sei por que cessou de segui-la, estragou sua vida. -

            A Sra. de Cambremer deu razão ao advogado no que dizia respeito a Elistir, mas, para grande desgosto de seu convidado, igualou Monet a Le Sidaner. Não se pode dizer que ela fosse idiota; transbordava de uma inteligência que eu sentia ser-me completamente inútil. Precisamente o sol, declinando, fazia as gaivotas serem agora amareladas, como as ninféias em outra tela dessa mesma série de Monet. Eu disse que a conhecia e (continuando a imitar a linguagem do irmão, cujo nome ainda não me atrevera a declarar) acrescentei que era uma pena não ter ela tido a idéia de vir na véspera, pois, à mesma hora, era uma luz de Poussin o que ela poderia ter admirado. Diante de um fidalgote normando, desconhecido dos Guermantes, e que lhe dissesse que deveria ter vindo na véspera, a Sra. de Cambremer-Legrandin decerto se empertigaria com ar ofendido. Mas ainda que eu pudesse ter sido bem mais familiar, ela só se derramaria numa doçura mole e sumarenta; no calor daquele belo fim de tarde, eu podia fartar-me à vontade no grande bolo de mel que tão raramente era a Sra. de Cambremer e que substituiu os bolinhos que não tive a lembrança de oferecer. Mas o nome de Poussin, sem alterar a amenidade da mulher mundana, ergueu os protestos da diletante. Ouvindo esse nome, a Sra. de Cambremer, por seis vezes, que quase nenhum intervalo separava, deu esse estalido de língua contra o céu da boca que serve para indicar, a uma criança que fez uma asneira, ao mesmo tempo uma censura por ter começado e a proibição de continuar.

            - Em nome do céu, depois de um pintor como Monet, que é certamente um gênio, não vá nomear um velho rotineiro e sem talento como Poussin. Eu lhe direi sem rodeios que o considero o mais paulificante dos barbeiros. Que é que o senhor quer, não consigo chamar aquilo de pintura. Monet, Degas, Manet, sim, são pintores! É muito curioso - acrescentou ela, fixando um olhar escrutador e deslumbrado num ponto vago do espaço, onde percebia o próprio pensamento -, é muito curioso, antigamente eu preferia Manet. Agora, sempre admiro Manet, está claro, mas creio que lhe prefiro talvez Monet, ainda. Ah, as catedrais! -

            Ela punha tanto escrúpulo quanto complacência em me informar acerca da evolução sofrida pelo seu gosto. E sentia-se que as fases por que havia passado esse gosto não eram, segundo ela, menos importantes que as diversas maneiras do próprio Monet. Aliás, eu não tinha que me sentir lisonjeado que ela me confidenciasse as suas admirações, pois, mesmo diante da mais tacanha provinciana, ela não podia ficar cinco minutos sem experimentar a necessidade de confessá-las. Quando uma senhora nobre de Avranches, que não teria sido capaz de distinguir Mozart de Wagner, dizia diante da Sra. de Cambremer:

            - Não tivemos nenhuma novidade interessante na nossa temporada em Paris, fomos uma vez à ópera-Cômica, onde representavam Pelléas et Mélisande, é horrível!

            A Sra. de Cambremer não só fervia como também sentia necessidade de gritar:

            - Mas pelo contrário, é uma pequena obra-prima! e de discutir.

            Era talvez um hábito de Combray, adquirido junto às irmãs de minha avó, que chamavam àquilo "combater por uma boa causa", e que apreciavam os jantares em que, todas as semanas, sabiam que teriam de defender seus deuses contra os filisteus. Da mesma forma, a Sra. de Cambremer gostava de "ativar o sangue", "engalfinhando-se" sobre arte, como outros sobre política. Ela tomava o partido de Debussy como tomaria o de uma amiga sua a quem houvessem acusado de má conduta. Entretanto, devia compreender muito bem que, ao dizer:

            "Mas não, é uma pequena obra-prima", não podia improvisar, junto à pessoa a quem punha em seu devido lugar, toda a evolução da cultura artística, ao termo da qual ficassem de acordo sem ter necessidade de discutir.

            - Será preciso que eu pergunte a Le Sidaner o que ele pensa de Poussin - disse-me o advogado. - É uma pessoa fechada, silenciosa, mas saberei muito bem fazê-lo falar.

            - Aliás - continuou a Sra. de Cambremer -, tenho horror aos ocasos, é romântico, é pura ópera. É por isso que detesto a casa de minha sogra, com suas plantas do Sul. O senhor verá, aquilo parece um parque de Monte-Carlo. É por isso que prefiro o seu litoral; é mais triste, mais sincero. Há um pequeno caminho de onde não se vê o mar. Nos dias de chuva, só tem lama; é todo um mundo. É como em Veneza, detesto o Grande Canal e não conheço nada mais tocante que as pequenas ruelas. De resto, é uma questão de ambiência.

            - Mas - disse-lhe eu, sentindo que a única maneira de reabilitar Poussin aos olhos da Sra. de Cambremer era informá-la de que ele voltara a estar na moda -, o Sr. Degas assegura que não conhece nada mais belo que os Poussins de Chantilly.

            - Oh, eu não conheço esses de Chantilly - disse a Sra. de Cambremer, que não queria ser de opinião diversa da de Degas -, mas posso falar dos do Louvre que são uns horrores.

            - Ele também os admira imensamente.

            - Será necessário que os veja de novo. Tudo isto é um pouco antigo na minha cabeça -respondeu ela após um instante de silêncio, e, como se o juízo favorável que em breve certamente iria fazer acerca de Poussin devesse depender não da notícia que eu acabara de lhe dar, mas do exame suplementar e desta vez definitivo a que tencionava submeter os Poussins do Louvre para ter a faculdade de reconsiderar seu julgamento. Contentando-me com o que era um começo de retratação, visto que se ela ainda não admirava os Poussins, guardava-se para uma deliberação posterior, eu, para não deixá-la por mais tempo na tortura, disse a sua sogra o quanto me haviam falado das admiráveis flores de Féterne. Modestamente, ela se referiu ao jardinzinho de cultivo que possuía nos fundos e aonde, pela manhã, empurrando uma porta, ela ia de chambre dar de comer a seus pavões, procurar ovos já postos e colher zínias ou rosas que, no centro da mesa, dando aos ovos à Ia crême ou às frituras uma orla de flores, recordavam-lhe as suas alamedas.

            - É verdade que temos muitas rosas - disse ela. - Nosso roseiral está quase um pouco perto demais da casa; há dias em que me dá dor de cabeça. É mais agradável no terraço da Raspeliere, onde o vento traz o aroma das flores porém menos inebriante. -

            Voltei-me para a sua nora:

            -Completamente Péleas. - disse-lhe para conformar sua afeição pelo modernismo.

            - Esse perfume de rosas subindo até o terraço é puro. É tão forte na partitura que eu, como tenho fever e de rose-rever, espirrava cada vez que ouvia a cena. - Que obra de mestre! - exclamou a Sra. de Cambremer. - Sou doida de ciúmes! -, aproximando-se de mim com gestos de uma mulher selvagem. Como se quisesse me fazer agrados, usando os dedos para tocar as notas imaginárias; a cantarolar alguma coisa que supus ser para ela os adeus de Péleas; e continuou com uma insistência veemente, como se fosse importante que a Sra. de Cambremer me recordasse naquele momento a  cena ou antes, talvez, me mostrasse que se lembrava. -Acredito até ser mais belo que Parsifal – acrescentou - porque no Parsifal junta-se às belezas um certo halo de frases melódicas, portanto caducas, já que são melódicas.

            - Sei que é uma grande musicista, senhora - disse-lhe à dama. - Gostaria muito de ouvi-la. - A Sra. de Cambremer-Legrandin contemplou o mar para não tomar parte na conversa. Considerando-se que o que a sogra gostava não era música, julgava o talento dela, um dos mais notáveis na realidade que lhe atribuíam, do mesmo modo sem interesse. É verdade que era aluna ainda viva de Chopin; declarava com razão que a maneira de tocar, o "sentimento" do Mestre não se transmitira através dela à Sra. de Cambremer; mas tocar como Chopin estava longe de ser uma referência para a irmã de Legrandin, que ninguém desprezava tanto como o músico polonês. - Oh! elas estão voando! - exclamou Albertine mostrando as gaivotas que, desembaraçando-se por um momento de seu incógnito de flores, subiam todas juntas para o sol.

            - Suas asas gigantes as impedem de andar - disse a Sra. de Cambremer, confundindo as gaivotas com o albatroz.

            - Gosto muito delas, via-as em Amsterdã - disse Albertine - Elas sentem o mar, vêm aspira-lo até através das pedras da rua.

            - Ah, esteve na Holanda, conhece os Vermeer? Indagou imperiosamente a Sra. de Cambremer, e no mesmo tom com que teria perguntado: "Conhece os Guermantes?", pois o esnobismo, mudando de lado muda de acento.

            Albertine respondeu que não: achava que se tratava de pessoas vivas. Porém isso passou despercebido.

            -Eu ficaria contente de lhe tocar uma música - disse-me a Sra. de Cambremer. - Mas, eu toco apenas algumas coisas que já não interessam à sua geração. Fui educada no culto de Chopin - disse ela em voz baixa para a nora não ouvir; ela sabia que esta achava que Chopin, nada tinha a ver com música; toca-lo bem ou mal eram expressões destituídas de significado. A nora reconhecia que a sogra era dotada de técnica, embelezava as passagens.

            - Jamais me farão afirmar que ela é musicista - concluía a Sra. de Cambremer-Legrandin.             Como se julgava "avançada" e (em arte apenas) "nunca demais à esquerda", dizia, pensava não só que a música progride, mas também que o faz numa única direção, e que Debussy era uma espécie de super-Wagner, ainda um pouco mais avançado que Wagner. Não percebia que, se Debussy não era tão independente de Wagner; como ela própria deveria acreditar dentro de alguns anos, pois enfim a gente se serve das armas conquistadas para terminar de livrar-se daquele a quem momentaneamente venceu, ele no entanto, buscava, após a saciedade que se começava a sentir das obras muito completas, onde tudo está expresso, contentar a necessidade oposta. É claro que teorias sustentavam momentaneamente essa reação, semelhantes àquelas que, em política, correm em apoio às leis contra as congregações, as guerras no Oriente (ensino contra a natureza, perigo amarelo, etc., etc.). Dizia-se que numa época de pressa era conveniente uma arte rápida, exatamente como se teria dito que a guerra futura não podia durar mais que uma quinzena, ou que, com as estradas de ferro, seriam abandonados os pequenos recantos caros às diligências a que o automóvel, entretanto, deveria restituir todas as honras. Recomendava-se que não se cansasse a atenção do auditório, como se não dispuséssemos de atenções diferentes, das quais compete justamente ao artista despertar as mais elevadas. Pois aqueles que bocejam de cansaço depois de dez linhas de um artigo medíocre haviam refeito, todos os anos, a viagem à Bayreuth a fim de ouvir a Tetralogia. Aliás, chegaria o dia em que, durante algum tempo, Debussy seria declarado tão frágil quanto Massenet, e as emoções de Mélisande rebaixadas ao nível das de Manon. Pois as teorias e as escolas, como os micróbios e os glóbulos, entredevoram-se e garantem, com sua luta, a continuidade da vida. Mas esse tempo ainda não havia chegado.

            Como na Bolsa, quando ocorre um movimento de alta, e toda uma categoria de valores se aproveita disso, certo número de autores desdenhados se beneficia com a reação, ou porque não mereciam esse desdém, ou simplesmente o que permitia dizer que uma novidade os realçava: - Porque nele haviam incorrido. E ia-se até buscar, num passado solitário, alguns talentos independentes sobre cuja reputação não parecia dever influir o movimento atual, mas cujo nome dizia-se que um dos mestres novos o citava com benevolência. Muitas vezes era porque um mestre, fosse qual fosse, por mais exclusiva que deva ser sua escola, julga de acordo com seu sentimento original, render justiça ao talento onde quer que se encontre; e até menos ao talento, a alguma inspiração agradável que teve outrora, se liga a um instante amado de sua adolescência. Outras vezes, certos artistas de outra época exibem, num simples trecho realizado, que se assemelha ao que o mestre aos poucos percebeu que ele o desejou fazer. Então, enxerga nesse antigo como que um precursor; a nele, sob outra forma, um esforço parcial e momentaneamente fraternos trechos de Turner na obra de Poussin, uma frase de Flaubert em Montesquieu. E às vezes também, o rumor da predileção do mestre era o resultado de um engano, nascido não se sabe onde e divulgado na escola. Mas ao ser citado, beneficiava-se então da firma sob cuja proteção entrara justamente a tempo, pois, se existe alguma liberdade, um gosto genuíno, na arte é do mestre, as escolas, essas, só se dirigem no sentido da teoria. Fora assim que o espírito, seguindo seu curso habitual que avança por uma direção inclinando-se uma vez num sentido, na vez seguinte em sentido contrário; havia trazido luz do alto sobre um certo número de obras, às quais havia necessidade de justiça, ou de renovação, ou o gosto de Debussy, ou seu capricho, ou algum propósito que ele talvez não tivera, havia acrescentado de Chopin. Enaltecidas pelos juízes nos quais se tinha inteira confiança; beneficiando-se da admiração que Pelléas excitava, encontraram nela brilho novo; e mesmo aqueles que não as tinham ouvido novamente, estavam tão desejosos de as amar que o faziam sem querer; embora com ilusão de liberdade. Mas a Sra. de Cambremer-Legrandin ficava uma parte do ano na província. Mesmo em Paris, doente, ela vivia muito presa no quarto. É verdade que o inconveniente podia sobretudo se fazer sentir à escolha das expressões que a Sra. de Cambremer julgava estarem na moda, e que antes se conformariam melhor à linguagem escrita, nuança que não discernia, pois tirava-as mais da leitura que da conversação. Esta é tão necessária para o conhecimento exato das opiniões como as expressões novas. Entretanto, esse rejuvenescimento dos Noturnos ainda não era anunciado pelos críticos. A novidade só se transmitira pelas conversações "jovens". Permanecia ignorada da Sra. de Cambremer-Legrandin. Dei-me prazer de fazê-la ciente, porém dirigindo-me para tanto à sua sogra, e no bilhar, quando, para atingir uma bola, joga-se pela beirada, de Chopin, bem longe de estar fora de moda, era o compositor preferido Debussy.

            - Vejam só! É divertido. - disse-me sorrindo a nora, como se tudo aquilo não passasse de um paradoxo criado pelo autor de Pelléas.

            Agora era certo que ela só ouviria Chopin com respeito e até com prazer de ouvir minhas palavras, que acabavam de fazer soar a hora da libertação da velha marquesa, puseram-lhe no rosto uma expressão de reconhecimento por mim, e sobretudo de alegria. Seus olhos brilharam como os de Latude na peça denominada “Latude, ou Trinta e cinco anos de cativeiro," e seu peito aspirou o ar marinho com aquela dilatação que Beethoven tão bem assinalou no Fidelio, quando seus prisioneiros por fim respiram "este ar que vivifica". Julguei que ela ia pousar no meu rosto os lábios com seu buço.

            - Como, o senhor gosta de Chopin? Ele gosta de Chopin, ele gosta de Chopin! - exclamou ela num acasalamento apaixonado, como se dissesse: "Como, o senhor conhece também a Sra. de Francquetot?", com a diferença de que minhas relações com a Sra. de Francquetot lhe teriam sido profundamente indiferentes, ao passo que o meu conhecimento de Chopin lançou-a numa espécie de delírio artístico. A hipersecreção salivar não bastou mais. Não tendo nem mesmo procurado compreender o papel de Debussy na reinvenção de Chopin, sentiu apenas que meu juízo era favorável. O entusiasmo musical a arrebatou:

            - Élodie! Élodie! Ele gosta de Chopin. -

            Seus seios se soergueram e os braços agitaram-se no ar.

            - Ah, bem que eu senti que o senhor era músico exclamou. - Hhartista como o senhor é, compreendo que goste. É tão belo! -

            E sua voz era tão pedregosa como se, para exprimir seu ardor por Chopin, ele houvesse, imitando Demóstenes, enchido a boca com os pedregulhos da praia. Por fim veio o refluxo, atingindo até o pequeno véu que ela não teve tempo de pôr a salvo e foi traspassado; e afinal a marquesa enxugou com seu lenço bordado a baba de espuma com que sua lembrança de Chopin

acabava de lhe umedecer o buço.

            - Meu Deus - disse-me a Sra. de Cambremer-Legrandin -, acho que minha sogra está bastante atrasada; esquece que temos de jantar em casa do meu tio de Ch'nouville. E além disso, Cancan não gosta de esperar. -

            "Cancan" ficou incompreensível para mim e pensei que talvez se tratasse de um cachorro. Mas, quanto aos primos de Ch'nouville, eis o que ocorria. Com o passar do tempo, amortecera na jovem marquesa o prazer de pronunciar-lhes o nome dessa maneira. E no entanto fora para desfrutá-lo que ela antigamente decidira casar-se. Em outros grupos mundanos, quando se falava dos Chenouville, o costume era (ao menos de cada vez que a partícula vinha precedida de um nome que terminasse por vogal, pois em caso contrário era-se obrigado a apoiar-se no de, visto recusar-se a língua a pronunciar Madam' d' Ch'nonceaux) que fosse sacrificado o e mudo da partícula. Dizia-se:

            "Senhor d' Chenouville".

            Entre os Cambremer a tradição era inversa, mas igualmente imperiosa. Era o e mudo de Chenouville que se suprimia em todos os casos. Que o nome fosse precedido de "meu primo" ou de "minha prima", era sempre de "Ch'nouville" e nunca de Chenouville. (No caso do pai desses Chenouvilles, dizia-se "notre onc/e" noite; pois não se era bastante refinado em Féterne para pronunciar "noite” como teriam feito os Guermantes, cuja algaravia intencional, suprimiu consoantes e nacionalizando os nomes estrangeiros, era tão difícil de dizer como o francês antigo ou o dialeto moderno.) Toda pessoa que entrasse para a família Cambremer recebia logo, sobre essa questão dos Ch'nouville, uma advertência da qual a Srta. Legrandin não tivera necessidade. Uma vez em visita, ouvindo uma moça dizer:

            "Minha tia d'Uzai", "mon onk de Ray”; ela não reconhecera de imediato esses nomes ilustres que tinha o h -kj - de pronunciar: Uzes e Rohan; sentira o espanto, o embaraço e a vergonha de alguém que tem à sua frente, na mesa, um utensílio recentemente inventado de que não conhece o uso e com o qual não tem coragem de começar a comer. Mas, na noite e no dia seguinte, repetira deliciada: "minha tia d',tJ -y - com aquela supressão do s final, supressão que a deixara estupefata na véspera, mas que agora lhe parecia tão vulgar não conhecer que, tendo suas amigas lhe falado de um busto da duquesa d'Uzes, a Srta. Legradin lhe respondera mal-humorada, e num tom altivo:

            - Você poderia ao responder como é correto: "Mame d'Uzai". -

            Desde então compreendo que, em virtude da transmutação das matérias consistentes em elementos cada vez mais sutis, a fortuna considerável e tão honradamente adquirida que herdara do pai, a educação completa que havia recebido, sua assiduidade à Sorbonne, tanto às aulas de Caro como às de Brunetiere, e aos concertos Lamoureux, tudo isso devia volatilizar-se, encontrar sua sublimação última no prazer de dizer um dia: "minha tia d'Uzai". Isso não exclui de seu espírito a idéia de que continuaria a freqüentar, ao menos nos primeiros tempos após o matrimônio, não certas amigas de quem gostava; e que não estava resignada a sacrificar, porém determinadas outras de quem não gostava e às quais desejava poder dizer (pois se casara para aquilo)-; lhe apresentar minha tia d'Uzai; e, quando viu que essa aliança era, extremamente difícil:      - Vou apresentá-la à minha tia de Ch'nouville. - Vou levá-la para jantar com os Uzai. -

            Seu casamento com o Sr. de Cambremer, dera-lhe a oportunidade de dizer a primeira dessas frases, mas não a segunda, visto que a sociedade que seus sogros freqüentavam não era aquela que ela havia julgado e com a qual continuava a sonhar. E, depois de me ter dito de Saint-Loup (para tal adotando uma expressão do próprio Robert, se, para conversar com ela, eu falava como Legrandin, por uma sugestão inversa ela me respondia no linguajar de Robert, que não sabia ser tom de empréstimo a Rachel), aproximando o polegar do indicador, entrecerrando os olhos como se encarasse algo infinitamente delicado conseguira capturar:

            - Ele tem uma bela qualidade de espírito! Elogiou-o com tanto calor que poderiam achar que estava apaixonada por ele (aliás, tinham cochichado que outrora, quando estava em Doncieres, Robert fora seu amante), mas na verdade simplesmente para que eu o confirmasse e chegar a isto:

            - O senhor é muito ligado à duquesa de Guermantes. Estou doente, quase não saio, e sei que ela permanece confinada num círculo de amigos seletos, o que acho muito bom, e assim conheço-a muito pouco, mas sei que é uma mulher absolutamente superior. -

            Sabendo que a Sra. de Cambremer mal a conhecia, e para me fazer tão pequeno quanto ela, ladeei esse assunto e respondi à marquesa que havia conhecido principalmente o seu irmão, Sr. Legrandin. A este nome, ela assumiu o mesmo ar evasivo que eu tivera para com a Sra. de Guermantes, mas acrescentando-lhe uma expressão de descontentamento, pois pensou que eu dissera aquilo para humilhar, não a mim, mas a ela. Estaria roída pelo desespero de ter nascido Legrandin? Pelo menos, era o que afirmavam as irmãs e cunhadas do marido, nobres damas provincianas que não conheciam ninguém e não sabiam coisa alguma, invejavam a inteligência da Sra. de Cambremer, sua instrução, sua fortuna, os dotes físicos que ostentara antes de cair enferma.

            - Ela não pensa em outra coisa, é isto que a está matando - diziam essas maldosas quando falavam da Sra. de Cambremer a qualquer pessoa, mas de preferência a um plebeu, para que este, se era presumido e estúpido, desse mais valor à gentileza com que o tratavam, com essa afirmativa do que possui a plebe de vergonhoso, ou então, se era tímido e fino, e aplicasse as palavras a si mesmo, para terem o prazer, sempre recebendo-o bem, de lhe fazerem indiretamente uma insolência. Mas, se essas damas julgavam falar a verdade em respeito à cunhada, enganavam-se. Tanto menos sofria esta por ter nascido Legrandin, visto haver perdido a lembrança de o ter sido. Sentiu-se melindrada por eu ter lhe devolvido tal lembrança e calou-se como se não tivesse compreendido nada, não julgando necessária uma precisão, nem mesmo uma confirmação de minha parte.

            - Nossos parentes não são a causa principal do encurtamento da nossa visita - disse-me a velha Sra. de Cambremer, que provavelmente estava mais farta que sua nora quanto ao prazer que há em dizer: "Ch'nouville". - Mas, para não cansá-lo com muita gente, este senhor - disse ela mostrando o advogado não ousou trazer aqui a esposa e o filho. Eles passeiam na praia à nossa espera e já devem começar a se aborrecer. -

            Pedi que os indicassem exatamente e corri para buscá-los. A mulher tinha um rosto redondo como certas flores da família das ranunculáceas e, no canto dos olhos, um signo vegetal bastante considerável. E, já que as gerações humanas conservam seus caracteres como uma família de plantas, da mesma forma que no rosto murcho da mãe, o mesmo sinal, que poderia auxiliar na classificação de uma variedade, inchava-se sob o olho do filho; minha solicitude para com sua mulher e seu filho comoveu o advogado. Manifestou interesse pela minha estada em Balbec.

            - O senhor encontrar-se um tanto deslocado, pois aqui a maioria é de estrangeiros. E, enquanto falava, ia me olhando, pois, não gostando de estrangeiras embora muitos deles fossem seus clientes, queria assegurar-se de que eu não era hostil à sua xenofobia, caso em que teria batido em retirada, dizendo:

            - Naturalmente, a Sra. X pode ser uma mulher encantadora. É uma questão de princípios. -             Como, à época, eu não tinha nenhuma opinião acerca dos estrangeiros, não testemunhei desaprovação, e ele se sentiu em terreno seguro. Chegou a me convidar para que fosse um dia à sua casa, em Paris, a fim de ver sua coleção de Le Sidaner, e arrastar comigo os Cambremer, dos quais evidentemente julgava que eu fosse íntimo.

            - Eu o convidaria junto com Le Sidaner - disse-me ele, convencido de que eu só viveria na expectativa desse dia bendito. - O senhor verá que homem especial. E seus quadros o deixarão encantado. É claro que não posso rivalizar com os grandes colecionadores, mas creio que sou eu quem possui a maior quantidade de suas telas preferidas. Isso lhe interessará tanto mais, ao voltar de Balbec, por serem marinhas, pelo menos na maior parte. -

            A mulher e o filho, constituídos da natureza vegetal, escutavam com recolhimento. Sentia-se que em Paris a sua residência era uma espécie de templo de Le Sidaner. Esses gêneros de templo não são inúteis. Quando o deus tem dúvidas sobre si próprio, tapa com facilidade as fissuras de sua opinião com os testemunhos irrecusáveis de criaturas que devotaram a vida à sua obra.

            A um sinal de sua nora, a Sra. de Cambremer ia se levantando e me dizia:

            - Já que o senhor não quer instalar-se em Féterne, não gostaria pelo menos de vir jantar um dia na semana, amanhã, por exemplo? - E em sua benevolência, para decidir-me, acrescentou: - O senhor reencontrará o conde de Crisenoy - que eu absolutamente não havia perdido, pela simples razão de que não o conhecia. Ela ainda começava a fazer brilhar a meus olhos novas tentações, porém estacou de repente. O presidente do conselho que, ao regressar, soubera que ela estava no hotel, procurara-a sorrateiramente por toda parte, e ficara vigiando; fingindo encontrá-la por acaso, veio apresentar-lhe suas homenagens. Compreendi que a Sra. de Cambremer não desejava estender a ele o convite para o almoço que acabava de me fazer. No entanto, ele a conhecia há bem mais tempo do que eu, sendo há vários anos um dos convivas de costume das vesperais de Féterne que eu tanto invejava durante minha primeira estada em Balbec. Mas a antigüidade não é tudo para as pessoas mundanas. E de muito bom grado reservam os almoços para as relações novas que ainda espicaçam a sua curiosidade, sobretudo quando chegam precedidas de uma recomendação calorosa e de prestígio como a de Saint-Loup. A Sra. de Cambremer calculou que o presidente do conselho não tinha ouvido o que ela dissera, mas, para acalmar os remorsos que sentia, dirigiu-lhe as frases mais amáveis. No ensolaramento que afogava no horizonte a costa dourada de Rivebelle, habitualmente invisível, discernimos, mal destacados do azul luminoso, saindo das águas, róseos, argentinos, imperceptíveis, os pequenos sinos do ângelus que ressoavam nos arredores de Féterne.

            - Isto ainda é bastante Pelléas - observei à Sra. de Cambremer-Legrandin. - Sabe a que cena quero me referir?

            - Creio que sim. -

            Mas "não sei coisa nenhuma" era o que proclamavam a sua voz e seu rosto, que não se ajustavam a qualquer lembrança, e o seu sorriso sem apoio, no ar. A velha marquesa não se recobrava do pasmo de que os sinos chegassem até nós e ergueu-se, pensando na hora:

            - Mas na verdade - disse eu -, em geral, aqui de Balbec não se enxerga essa costa e nada se ouve também. É preciso que o tempo tenha mudado e haja bem alargado o horizonte. A não ser que os sinos venham buscá-la, pois estou vendo que eles a fazem partir; são para a senhora a sineta do jantar. -

            O presidente do conselho, pouco sensível ao toque dos sinos, espiava furtivamente o molhe, entristecendo-se por vê-lo tão deserto aquela tarde.

            - O senhor é um verdadeiro poeta - disse-me a Sra. de Cambremer. - Percebe-se que é tão vibrante, tão artista... Venha que vou lhe tocar Chopin - acrescentou, erguendo os braços com ar extasiado e pronunciando as palavras com uma voz rouca, que parecia deslocar pedregulhos. Depois veio a deglutição da saliva, e a velha dama enxugou instintivamente com o lenço a leve escovinha, dita à americana, do seu buço.

            O presidente do conselho, sem querer, me prestou um grande serviço dando o braço à marquesa para conduzi-la ao carro, pois certa vulgaridade de ousadia e de gosto pela ostentação dita uma conduta que outros hesitariam em assumir, e que está longe de desagradar na vida mundana. Além disso, depois de tantos anos, estava muito mais habituado do que eu. Bendizendo-o, não tive coragem de imitá-lo e caminhei ao lado da Sra. de Cambremer-Legrandin,

que quis ver o livro que eu trazia na mão. O nome da Sra. de Sévigné fê-la fazer uma careta; e, empregando uma palavra que havia lido em certos jornais, mas que, falada e posta no feminino, e aplicada a um escritor do século XVII, dava um efeito esquisito, ela me perguntou:

            - Acha-a verdadeiramente talentosa?

            A velha marquesa deu ao lacaio o endereço de uma pastelaria aonde precisava ir antes de voltar à estrada, rósea da poeira da tarde, em que azulavam em forma de garupa os rochedos escalonados. Perguntou a seu velho cocheiro se um dos cavalos, que era friorento, fora suficientemente agasalhado, se o casco de outro não o incomodava.

            - Vou escrever-lhe para combinarmos - disse-me ela a meia voz. - Vi que o senhor conversava sobre literatura com minha nora, ela é adorável - acrescentou, embora não pensasse desse modo; mas havia adquirido o hábito conservado por bondade de o dizer para que seu filho não desse a impressão de ter feito um casamento por dinheiro.

            - E depois - aduziu num último mastigamento entusiasta - ela é tão harrtthisstta! -

            Em seguida subiu para o carro, balançando a cabeça, erguendo o cabo da sombrinha, e voltou pelas ruas de Balbec, sobrecarregada dos ornamentos de seu sacerdócio, como um velho bispo em viagem de crisma.

            - Ela o convidou para almoçar - disse-me severamente o presidente do conselho quando o carro se afastou e eu voltei com minhas amigas. - Estamos estremecidos. Julga que me descuido dela. Diabos, sou fácil de tratar, sempre estou aí para responder: "Presente." Mas quiseram tomar conta de mim. Ah, então - acrescentou com ar finório e erguendo o dedo como alguém que distingue e argumenta isso eu não permito. É atentar contra a liberdade de minhas férias. Fui obrigado a dizer: "Chega!" O senhor parece estar muito bem com ela. Quando atingir a minha idade, verá que a sociedade é bem pouco e lamentará ter dado tanta importância a essas ninharias. Bem, vou dar uma volta antes do jantar. Adeus, crianças - gritou, como se já estivesse distante cinqüenta passos.

            Quando me despedi de Rosemonde e de Gisele, viram elas com espanto que Albertine, parada, não as seguia.

            - E então, Albertine, que estás fazendo? Não sabes que horas são? - Voltem - respondeu-lhes Albertine com autoridade. - Preciso falar com ele - acrescentou, apontando-me com ar submisso. Rosemonde e Gisele me olharam, penetradas de um novo respeito por mim. Era delicioso sentir que, por um momento ao menos, aos próprios olhos de Rosemonde e de Gisele, eu era para Albertine algo de mais importante que a hora de regressar, que suas amigas, e podia até mesmo ter com ela graves segredos aos quais era impossível misturá-las.

            - Quer dizer que não te veremos esta noite?

            - Não sei, depende dele. Em todo caso, até amanhã.

            - Subamos para o meu quarto - disse-lhe eu depois que as amigas se afastaram. Tomamos o elevador; ela se manteve em silêncio diante do ascensorista. O hábito de ser obrigado a recorrer à observação pessoal e à dedução para conhecer os assuntos particulares dos patrões, essas pessoas estranhas que conversam entre si e não lhes falam, desenvolve entre os "empregados" (como o ascensorista denominava os criados) um grande poder de adivinhação, maior do que entre os "patrões". Os órgãos se atrofiam ou tornam-se mais robustos ou mais sutis, conforme aumenta ou diminui a necessidade de seu uso. Desde que existem estradas de ferro, a necessidade de não perder o trem nos ensinou a prestar atenção nos minutos, enquanto que, entre os antigos romanos, cuja astronomia era não só mais sumária; mas cuja vida era também menos apressada, a noção não dos minutos, mas até das horas fixas, mal existia. Assim, o ascensorista compreendera e esperava contar aos camaradas que Albertine e eu estávamos preocupados. Mas ele nos falava sem parar porque era destituído de tato. Entretanto, eu via desenhar-se em seu rosto, substituindo a impressão habitual de alegria e amizade com que me fazia subir pelo elevador, um raro aspecto de abatimento e inquietação. Como lhe ignorava a causa, para tentar distraí-lo, apesar de mais preocupado com Albertine, disse-lhe que a dama que acabara de partir se chamava marquesa de Cambremer e não de Camembert. No andar pelo qual passávamos então, avistei, carregando um travesseiro, uma camareira horrível que me saudou com respeito, esperando uma gorjeta à saída. Gostaria eu de saber se fora ela que tanto havia desejado na noite da minha primeira chegada a Balbec, mas nunca pude ter certeza. O ascensorista jurou-me, com a sinceridade da maioria dos falsos testemunhos, mas sem abandonar seu ar desesperado, que fora mesmo sob o nome de Camembert que a marquesa lhe pedira que a anunciasse. E, para falar a verdade, era natural que tivesse entendido um nome que já conhecia. Além disso, tendo sobre a nobreza e a natureza dos nomes com que se fazem os títulos noções extremamente vagas, que são as de muita gente que não é ascensorista, o nome de Camembert lhe parecera tanto mais verossímil, porque, sendo aquele queijo universalmente conhecido, não seria de espantar que se houvesse extraído um marquesado de um renome tão glorioso, a menos que não fosse o do marquesado que desse a sua celebridade ao queijo. Todavia, como reparava que eu não queria parecer que me enganava, e sabia que os patrões gostam de ver obedecidos seus caprichos mais fúteis e aceitas suas mentiras mais evidentes, prometeu-me, como bom criado, passar a dizer Cambremer. É verdade que nenhum lojista da cidade ou nenhum camponês das redondezas, onde o nome e a pessoa dos Cambremer eram perfeitamente conhecidos, jamais poderiam cometer o erro do ascensorista. Mas o pessoal do Grande Hotel de Balbec absolutamente não era da região. Provinha diretamente, com todo o material, de Biarritz, Nice e Monte-Carlo, uma parte tendo sido encaminhada para Deauville, outra para Dinard e a terceira reservada para Balbec. Mas a dor angustiosa do ascensorista não fez mais que crescer. Para que ele assim se esquecesse de me testemunhar o seu devotamento com os sorrisos costumeiros, era preciso que lhe tivesse acontecido alguma desgraça. Talvez tivesse sido "enviado". Prometi a mim mesmo, nesse caso, tentar conseguir que ele permanecesse no emprego, pois o gerente me garantira que ratificaria tudo o que eu decidisse em rei, - ao seu pessoal. - O senhor pode fazer sempre o que desejar, eu autorizo previamente. -

            De súbito, como acabasse de sair do elevador, comparara a aflição e o ar desesperado do ascensorista. Por causa da presença de Albertine, eu não lhe dera os cem sous que tinha o hábito de lhe pôr na mão, ao subir. E esse imbecil, em vez de entender que eu não queria fazer alarde de gorjetas diante de terceiros, começara a tremer, supondo que aquilo estava acabado de uma vez por todas, que nunca mais lhe daria  - Pensava que eu caíra no "desvio" (como teria dito o duque de Guermantes tal suposição não lhe inspirava nenhuma piedade por mim, mas uma terrível decepção egoísta. Disse comigo que eu era menos desarrazoado do que achava minha mãe, quando não ousava deixar de dar um dia a soma exagerada, mas febrilmente esperada, que dera na véspera. Mas também sendo dado até ali por mim, e sem qualquer dúvida, ao habitual ar de alegria em que não hesitava em ver um sinal de simpatia pareceu-me desmentir segura significação. Ao ver o ascensorista, no seu desespero, prestes de atirar do quinto andar, perguntei-me se (caso se achassem respectivamente trocadas as nossas condições sociais, por exemplo, devido a uma revogação) em vez de manobrar gentilmente para mim o elevador, o ascensorista se transformasse num burguês, eu não teria me jogado, e se não há certas classes do povo mais duplicidade que entre os mundanos; mas sem dúvida, reserva-se para a nossa ausência as frases desfavoráveis, de onde a atitude a nosso respeito não seria insultuosa se fôssemos inferiores.

            No entanto, não se pode dizer que no hotel de Balbec o ascensorista fosse o mais interesseiro. Sob esse aspecto, o pessoal dividia-se em duas categorias: por um lado, os que faziam diferenças entre os hóspedes mais sensíveis à gorjeta razoável de um velho nobre (aliás, em condição de evitar-lhes os vinte e oito dias de convocação, recomendando-lhes ao general de Beautrillis) do que às larguezas despropositadas de um rasto, que revelava nisso mesmo uma falta de experiência que só diante dele se chamava bondade. Por outro lado, aqueles para quem nobreza, inteligência, celebridade, situação, maneiras era algo inexistente, coberto por uma cifra; para esses, só havia uma hierarquia, o dinheiro que se tem, ou melhor, se é dado. Talvez o próprio Aimé, que, devido ao grande número de hotéis que servira, afirmava possuir uma grande sabedoria mundana, pertencesse à essa categoria. Quando muito, dava um toque social e de conhecimento das famílias a esse gênero de apreciação, dizendo, por exemplo, da princesa de Luxemburgo:

            - Há muito dinheiro ali? (o ponto de interrogação para informar-se ou para controlar definitivamente as informações que tomara antes de conseguir para um freguês um cozinheiro para Paris; ou lhe garantir uma mesa à esquerda, à entrada, com vista para o mar, em Balbec). Apesar disso, embora não desprovido de interesse, não o teria exibido da maneira tolamente desesperada do ascensorista. Aliás, a ingenuidade deste último talvez simplificasse as coisas. A comodidade de um grande hotel, de uma casa como o era antigamente a de Rachel e que, sem intermediários, à face até então glacial de um empregado ou de uma mulher, a vista de uma cédula de cem francos, e com mais forte razão uma de mil, mesmo dada uma vez ou outra, traz um sorriso e oferecimentos. Pelo contrário, na política, nas relações de amante para amante, há muita coisa colocada entre o dinheiro e a docilidade. Tantas coisas que mesmo aqueles em quem o dinheiro afinal desperta o sorriso são amiúde incapazes de acompanhar o processo interno que os liga, e se julgam e são mais delicados. E depois, isso filtra a conversação polida dos "Já sei o que me resta fazer: amanhã vão me encontrar no necrotério." Assim, encontram-se na sociedade polida poucos romancistas, poetas, todas essas criaturas sublimes que falam justamente do que não convém falar.

            Logo que ficamos sozinhos e fomos pelo corredor, Albertine disse:

            - Que é que você tem contra mim? -

            Minha dureza para com ela fora mais penosa para mim mesmo? Não passaria, de minha parte, de uma astúcia inconsciente para levar minha amiga, perante mim, àquela atitude de temor e de súplica que me permitiria interrogá-la, e talvez ficar sabendo qual das duas hipóteses que eu há muito formava a seu respeito era a verdadeira? Sempre é certo que, quando ouvi sua pergunta, senti-me subitamente feliz como alguém que alcança um objetivo há muito desejado. Antes de responder, levei-a até minha porta. Esta, abrindo-se, fez refluir a luz cor-de-rosa que enchia o quarto e mudava a musselina branca das cortinas estendidas sobre a noite num tom de aurora. Cheguei à janela; as gaivotas haviam pousado novamente nas ondas; mas agora eram róseas. Fi-lo reparar a Albertine.

            - Não mude de assunto, seja franco comigo - disse ela.

            Menti. Declarei-lhe que ela devia ouvir primeiro uma confissão, a de uma grande paixão que eu tivera fazia algum tempo por Andrée, e o fiz com uma simplicidade e uma franqueza dignas do teatro, mas que na vida só temos para com os amores que já não sentimos. Retomando a mentira que pregara à Gilberte antes de minha primeira estada em Balbec, porém variando-a, e para melhor me fazer acreditado por ela quando lhe dizia agora que não a amava, fui ao ponto de deixar escapar que outrora estivera prestes a enamorar-me dela, mas que muito tempo se passara, que ela para mim não era mais que uma boa camarada e que, mesmo que o quisesse, já não me teria sido possível experimentar de novo a seu respeito sentimentos mais ardentes. Além disso, apoiando-me assim, diante de Albertine, nesses protestos de frieza para com ela, eu só fazia devido a uma circunstância e de um fim particulares tornar mais sensível, acentuar com mais intensidade esse ritmo binário que o amor adota em todos aqueles que duvidam demais de si mesmos para crer que uma mulher possa amá-los um dia; também que eles a possam amar de verdade. Conhecem-se o bastante para saber que, junto das mais diferentes, experimentavam as mesmas esperanças, as mesmas angústias, inventavam os mesmos romances, pronunciam as mesmas palavras, para igualmente se darem conta de que seus sentimentos e ações não se relacionam estreita e necessariamente com a mulher amada, mas passam a seu lado, salpicam-na, circundam-na com fluxo que se lança ao longo dos rochedos, e o sentimento de sua própria instabilidade ainda faz aumentar neles a desconfiança de que essa mulher, por quem tanto gostariam de ser amados, não os ama em absoluto. Porém, faria o acaso, visto que ela é apenas um simples acidente colocado diante do jorrar dos nossos desejos, que fôssemos nós mesmos o objetivo; dos desejos dela? Assim, mesmo tendo necessidade de expandir para ela esses sentimentos, tão diversos dos sentimentos simplesmente humanos que nosso próximo nos inspira, esses sentimentos tão especiais que são os sentimentos amorosos, depois de ter dado um passo adiante, confessando àquela a quem amamos a nossa ternura por ela, nossas esperanças, e temendo desagradar-lhe, também confusos por sentir que a linguagem que lhe falamos não se formou expressamente para ela, que nos serviu; e servirá para outras, que se ela não nos ama não poderá nos compreender; e que então falamos com falta de gosto, com o impudor do pedante, que dirige às pessoas ignorantes frases sutis que não são para elas, esse terror, essa vergonha, trazem o contra-ritmo, o refluxo, a necessidade ainda que recuando a princípio, retirando vivamente a simpatia primeiro confessada de retomar a ofensiva e de recuperar a estima, a autoridade; o ritmo duplo é perceptível nos diversos períodos de um mesmo amor, em todos os períodos correspondentes de amores similares, em todas as criaturas que melhor se analisam do que se prezam.

            No entanto, se estava um pouco mais vigorosamente acentuado que de hábito naquele discurso que eu fazia à Albertine era apenas para me permitir passar mais rápida e energicamente ao ritmo oposto que minha ternura escondia.

            Como Albertine tivesse dificuldade em acreditar que lhe dizia sobre minha impossibilidade de a amar de novo, por causa do tão longo intervalo, apoiei o que chamava de esquisitice do meu temperamento; dos exemplos tirados de pessoas a quem, por culpa delas ou minha, havia deixado passar a hora de as amar, sem poder, por mais que o desejasse encontrá-la depois. Assim, dava a um tempo a impressão de me desculpar com ela, como de uma indelicadeza, dessa incapacidade de recomeçar a amá-la, e de procurar fazê-la compreender os motivos psicológicos daquilo como se me fossem peculiares. Porém, explicando-me desse modo, e estendendo-me sobre o caso de Gilberte, com quem fora de fato rigorosamente verdadeiro o que o era muito pouco aplicado em relação a Albertine, não fazia mais que tornar minhas asserções tão plausíveis; quanto fingia acreditar que não o fossem. Sentindo que Albertine apreciava o que julgava ser "o meu modo franco de falar" e reconhecendo em minhas deduções a clareza da evidência; desculpei-me do primeiro, dizendo que bem sabia que a gente sempre desagradava ao dizer a verdade; e que esta, aliás, deveria parecer-lhe incompreensível. Ao contrário, ela me agradeceu a sinceridade e acrescentou que, quanto ao resto, compreendia às maravilhas um estado de espírito tão freqüente e tão natural.

            Confessando a Albertine um sentimento imaginário por Andrée e por ela própria uma indiferença que, para parecer totalmente sincera e sem exagero, assegurei-lhe incidentalmente, como por escrúpulo de polidez, não dever ser tomada muito ao pé da letra, pude enfim, sem recear que Albertine lhe suspeitasse amor, falar-lhe com uma doçura que há muito me recusava e que me pareceu deliciosa. Quase acariciei a minha confidente; falando de sua amiga, a quem amava, vinham-me lágrimas aos olhos. Mas, vindo aos fatos, disse-lhe por fim que ela sabia o que era o amor, suas suscetibilidades, seus sofrimentos e que talvez, como já velha amiga minha, se empenhasse em fazer cessar as grandes mágoas que me causava, não diretamente, pois não era ela que eu amava, se ousava repeti-lo sem constrangê-la, mas indiretamente, atingindo-me em meu amor por Andrée. Interrompi-me para olhar e mostrar a Albertine um grande pássaro solitário e apressado que, longe, à nossa frente, fustigando o ar com as batidas regulares de suas asas, passava rapidamente por sobre a praia, aqui e ali manchada de reflexos semelhantes a pedacinhos de papel vermelho rasgados, e atravessava-a em todo o comprimento, sem diminuir o vôo, sem desviar sua atenção, sem mudar de caminho, como um emissário que vai levar bem longe uma mensagem urgente e de importância capital.

            - Ele ao menos vai direto ao fim - comentou Albertine em tom de censura.

            - Você me diz isso porque não sabe o que eu desejaria dizer-lhe. Mas é tão difícil que prefiro desistir; estou certo de que você se aborreceria; e tudo só ficaria nisso: eu não seria mais feliz em nada com aquela a quem amo de fato e teria perdido uma boa camarada.

            - Mas eu lhe juro que não me aborreceria. -

            Tinha ela um ar tão suave, tão tristemente dócil e como que esperasse de mim a sua felicidade, que eu mal me segurava para não beijá-la e beijá-la quase com o mesmo tipo de prazer que sentiria em beijar minha mãe naquele rosto novo que já não oferecia a face alerta e ruborizada de uma gatinha teimosa e perversa, de narizinho róseo e arrebitado, mas parecia, na plenitude de sua tristeza acabrunhada, todo fundido na bondade em amplas vazas escorridas e pendentes. Abstraindo o meu amor como uma loucura crônica sem reação com ela, pondo-me no seu lugar, eu me enternecia diante daquela boa moça habituada a que tivessem consigo atitudes amáveis e leais, e que bom rapaz que julgara que eu podia ser para ela, a perseguia desde algumas semanas; perseguições que haviam atingido por fim o seu ponto culminante. Por colocar-me num ponto de vista puramente humano, exterior à nós dois e de onde o meu amor ciumento se desvanecia, é que sentia por Albertine essa profunda piedade, que seria menor se não a amasse. De resto, na oscilação ritmada que vai da declaração à briga (o meio mais seguro, o mais eficazmente perigoso para formar, por movimentos opostos e sucessivos, um nó que não se desata e nos prende solidamente a uma pessoa), no seio do movimento de retração que constitui um dos dois elementos do ritmo, para que distinguir ainda os refluxos da piedade humana que opostos ao amor, embora tendo talvez inconscientemente a mesma causa em todo caso produzem os mesmos efeitos? Ao nos lembrarmos mais tarde do total de tudo o que fizemos por uma mulher, percebemos muitas vezes que os atos inspirados pelo desejo de mostrar que amamos, de nos fazer amados, de obter favores, não ocupam mais espaço do que os devidos à necessidade humana de reparar os erros relativos à criatura amada, por simples dever moral, como se não mais a amássemos.

            - Mas afinal, que poderei ter feito? - indagou Albertine.

            Bateram; era o ascensorista; a tia de Albertine, que passava de carro pelo hotel, havia parado para ver se por acaso ela não se achava ali e levá-la de volta. Albertine mandou dizer que não podia descer, que fossem jantar sem esperá-la, que não sabia a que horas chegaria à casa.

            - Mas sua tia não vai ficar aborrecida?

            - Imagine! Ela vai compreender muito bem. -

            Assim, portanto, ao menos naquele momento, como talvez jamais houvesse outro, um encontro comigo acontecia ser, aos olhos de Albertine, devido às circunstâncias, algo de uma tão evidente importância que devia superar tudo o mais, e ao qual, reportando-se instintivamente sem dúvida a uma jurisprudência familiar, enumerando certas conjunturas em que, quando estava em jogo a carreira do Sr. Bontemps não haviam desistido diante de uma viagem, minha amiga tinha a certeza de que sua tia acharia muito natural ver sacrificada a hora do jantar. Essa hora remota que ela passava sem mim, com os seus, Albertine dava-me agora, fazendo-a deslizar até mim; eu podia utilizá-la à vontade. Acabei pois, ousar dizer-lhe o que me haviam contado do seu gênero de vida e que apesar da aversão profunda que me inspiravam as mulheres portadoras do mesmo vício, eu não me incomodara até que me haviam dito o nome de sua cúmplice, e que ela facilmente podia compreender, tendo em vista o quanto eu amava Andrée, como deveria ter sofrido. Talvez fora mais hábil dizer que também me haviam nomeado outras mulheres, que me eram indiferentes. Mas a brusca e terrível revelação que me fizera Cottard entrara em mim dilacerando-me, tal e qual, inteira, sem mais nada. E assim como, antes, eu jamais teria por mim mesmo a idéia de que Albertine amava Andrée, ou que pelo menos pudesse ter brincadeiras cariciosas com ela, caso Cottard não me houvesse chamado a atenção para a sua atitude ao valsar, da mesma forma não soubera passar deste pensamento ao outro, para mim totalmente diverso, de que Albertine pudesse ter com outras mulheres, que não Andrée, relações a que nem o afeto serviria de desculpa. Albertine, antes mesmo de me jurar que aquilo não era verdade, manifestou, como toda pessoa a quem acabam de falar dela desse modo, cólera, aborrecimento e, em relação ao caluniador desconhecido, a raivosa curiosidade de saber quem era e o desejo de ser confrontada com ele para poder confundi-lo. Mas garantiu-me que, pelo menos a mim, não me queria mal por isso.

            - Se isso fosse verdade, eu lhe teria confessado. Mas tanto eu como Andrée temos horror dessas coisas. Não chegamos à nossa idade sem ver mulheres de cabelos curtos, que têm maneiras masculinas e são do gênero que você diz. E não há nada que mais nos revolte.

            Albertine só me dava a sua palavra, peremptória e sem provas. Mas era justamente o que melhor podia me acalmar, pois o ciúme pertence a essa família de dúvidas doentias que cedem muito mais à energia de uma afirmativa do que à sua verossimilhança. É aliás próprio do amor tornar-nos a um tempo mais desconfiados e mais crédulos, fazer-nos suspeitar, mais depressa do que o faríamos quanto a uma outra, daquela a quem amamos, e mais facilmente acreditar em suas negações. É preciso amar para preocupar-se com que não existam apenas mulheres honestas, ou melhor, para reparar nisso, e é preciso também amar para desejar que existam, isto é, para ter certeza de que existem. É humano buscar a dor e logo livrar-se dela. As proposições capazes de o conseguir facilmente nos parecem verdadeiras, não se discute muito sobre um calmante que produz efeito. E depois, por múltipla que seja a criatura que amamos, pode em todo caso apresentar-nos duas personalidades essenciais conforme nos surja como nossa, ou com seus desejos voltados para outrem. A primeira dessas personalidades possui a força particular que nos impede de crer na realidade da segunda, o segredo específico para acalmar os sofrimentos que esta última provocou. A criatura amada é sucessivamente o mal e o remédio que suspende e agrava o mal. Sem dúvida, há muito tempo, pela força que exercia em minha imaginação e minha faculdade sensitiva o exemplo de Swann, eu estava preparado para julgar verdadeiro o que receava em vez daquilo que teria desejado. Assiti a doçura trazida pelas afirmações de Albertine esteve a um passo de me comprometer porque me lembrei da história de Odette. Mas disse a mim, mesmo que, se era justo considerar o pior não só quando, para comprometer os sofrimentos de Swann tentara colocar-me em seu lugar, mas também agora que se tratava de mim mesmo, buscando a verdade como se fosse de outro. Todavia não era preciso que, por crueldade para comigo, tratasse do que escolhe o local em que talvez seja mais útil, mas também onde o sol está mais exposto, eu chegasse ao erro de julgar uma suposição; mais ficara verdadeira que as outras, só porque era a mais dolorosa. Não haveria uma boa família burguesa, e Odette, verdadeiramente, entre Albertine, era moça de muito abismos, abandonada pela mãe desde a infância? A palavra de uma não podia ser comparada com a de outra. Além disso, Albertine não tinha em mentir-me com o mesmo interesse que Odette a Swann. E ainda a este, Odette havia contado o que Albertine acabara de negar. Eu teria portanto, cometido uma falha de raciocínio tão grave, embora inversa como a que me inclinasse uma hipótese apenas porque esta me fazia sofrer menos que as outras, separasse sem levar em consideração essas diferenças de fato nas outras situações; e reconstituindo a vida real de minha amiga unicamente segundo o que soubera acerca da de Odette. Tinha diante de mim uma nova Albertine, vislumbrada por mim diversas vezes, em minha primeira estadia em Balbec; em que de fato tinha sido sincera e bondosa; uma Albertine que, por afeição a mim, acabava por perdoar minhas suspeitas tratando de dissipá-las. Fez-me sentar a seu lado na cama. Agradeci-lhe o que havia dito, assegurei-lhe que estávamos reconciliados; que não seria mais duro com ela. Disse-lhe que, de qualquer modo deveria voltar para jantar em casa. Ela me perguntou se não me sentia bem assim. E, puxando a minha cabeça para uma carícia como jamais me fizera, que isso se devia à nossa rusga terminada. Passou ligeiramente a língua sobre meus lábios, o qual tentava entreabrir; mas não os descerrei.

            - Como és mau. - disse ela.

            Devia ter ido embora naquela mesma noite sem jamais tornar a vê-la. Desde então percebi que o amor não era compartilhado; porque existem pessoas para quem não existe amor compartilhado. Um pode gostar da felicidade daquele simulacro que me era dado nesses momentos únicos; nos quais a bondade da mulher, ou o seu capricho ao acaso, dizem sobre nosso desejos, numa perfeita coincidência, as palavras e as mesmas ações como se fôssemos verdadeiramente, amados. Sábio seria considerar com curiosidade uma pequena parcela de ventura, na falta da qual eu morreria sem ter suspeitado o que pode ser essa ventura para os corações menos difíceis ou mais favorecidos; supor que ela fazia parte de uma felicidade vasta e duradoura que só me aparecia naquele ponto; e, para que o dia seguinte não desse um desmentido a esse fingimento, não procurar pedir um favor a mais depois daquele que só fora alcançado devido a um artifício de um minuto de exceção. Deveria ter deixado Balbec, fechar-me na solidão e nela permanecer em harmonia com as últimas vibrações da voz que eu soubera por um instante fazer amorosa, e da qual só exigiria que nunca mais se dirigisse a mim, por medo de que, com uma palavra nova que daí em diante só poderia ser diferente, ela viesse ferir com uma dissonância o silêncio sensitivo onde, como que graças a um pedal, a tonalidade da ventura poderia sobreviver em mim por muito tempo.

            Tranqüilizado pela minha explicação com Albertine, recomecei a viver mais junto de minha mãe. Ela gostava de me falar docemente do tempo em que minha avó era mais jovem. Temendo que eu me censurasse pelas tristezas com que poderia ter ensombrado o fim daquela vida, ela voltava de bom grado aos anos em que meus primeiros estudos haviam causado a minha avó alegrias que até então me foram sempre ocultadas. Falávamos de novo sobre Combray. Minha mãe me disse que lá pelo menos eu lia e que em Balbec deveria fazer o mesmo, caso não escrevesse. Respondi que, justamente para me rodear das lembranças de Combray e dos belos pratos pintados, gostaria de reler As Mil e Uma Noites. Como outrora, em Combray, quando ela me dava livros de aniversário, foi às escondidas, para me fazer uma surpresa, que minha mãe mandou buscar, ao mesmo tempo, As Mil e Uma Noites, de Galland, e As Mil Noites e Uma Noite, de Mardrus. Mas depois de haver lançado um olhar sobre as duas traduções, minha mãe bem gostaria que eu me limitasse à de Galland, conquanto temesse influenciar-me devido ao seu respeito pela liberdade intelectual, ao receio de intervir desastradamente na vida de meu pensamento, e ao sentimento de que, sendo mulher, julgava faltar-lhe, por um lado, a necessária competência literária, e, por outro, achava que não devia julgar as leituras de um rapaz de acordo com aquilo que a chocava. Lendo certos contos, revoltara-se com a imoralidade do assunto e a crueza da expressão. Mas sobretudo, conservando preciosamente como relíquias não apenas o broche, a sombrinha, a capa e o volume da Sra. de Sévigné, mas também os hábitos de pensamento e linguagem de sua mãe, procurando em qualquer ocasião a opinião que esta teria dado, minha mãe não podia duvidar da condenação que minha avó teria pronunciado contra o livro de Mardrus. Lembrava-se que em Combray, enquanto que, antes de partir para os lados de Méséglise, eu lia Augustin Thierry, minha avó, contente pelas minhas leituras e meus passeios, indignava-se entretanto ao ver aquele, cujo nome permanecia ligado a este hemistíquio: "Reina, após, Meroveu" chamado Merowig; recusar-se Carolíngios em vez de Carlovíngios, aos quais permanecia fiel. Enfim eu lhe contara o que minha avó tinha pensado dos nomes gregos que segundo Leconte de Lisle, dava aos deuses de Homero, chegando até a um dever religioso a adoção da ortografia grega para as coisas mais simples, achando que nisso consistia o talento literário. Tendo, por exemplo, que dizer numa carta que o vinho bebido em sua casa era um verdadeiro néctar, ele escrevia "um verdadeiro nektar", com k, o que lhe permitia troça de Lamartine. Ora, se uma Odisséia, de onde estivessem ausentes os nomes de Ulisses e de Minerva, já não era para a minha avó a Odisséia, que diria então se visse já deformado na capa o título de suas Mil e Uma Noites, não mais encontrando, transcritos exatamente como ela o tempo todo se habituara a dizê-los, os nomes imortalmente familiares de Sherazade, de Dinazarda, e onde, eles próprios desbalizados, se é que se pode aplicar o vocábulo à histórias muçulmanas, o encantador Califa e os poderosos Gênios; os mal se reconheciam, sendo denominados, um o "Khalifat", os outros "Gennis"? No entanto, minha mãe entregou-me as duas obras, e eu lhe disse que as leria nos dias em que estivesse cansado demais para passear. Aliás, tais dias não eram muito freqüentes. Como antigamente, íamos merendar "em grupo", Albertine, suas amigas e eu, no rochedo ou na granja Marie-Antoinette. Havia ocasiões, porém, em que Albertine me dava este grande prazer. Dizia-me:

            - Hoje eu quero estar um pouco sozinha com você, será mais agradável que fiquemos os dois juntos. -

            Então dizia que tinha coisas a fazer, de que aliás não precisava prestar contas, e para que as outras, se fossem sem nós passear e merendar, não pudessem nos encontrar, íamos sozinhos, como dois amantes, à Bagatelle ou à Croix d'Heulan, ao passo que o grupo, que jamais teria tido a idéia de nos procurar por lá, aonde nunca ia, permanecia indefinidamente em Marie-Antoinette, na esperança de ver-nos chegar.

            Lembro-me dos dias quentes de então, em que da testa dos empregados da granja, que trabalhavam ao sol, caía uma gota de suor, vertical, regular, intermitente, como a gota d'água de um reservatório, e se alternava com a queda do fruto maduro que se desprendia da árvore nos cercados vizinhos; continuam sendo, ainda hoje, junto com esse mistério de uma mulher oculta, a parte mais consistente de todo amor que se me apresente. Uma mulher de quem me falam e na qual não pensaria um só instante, eis que modifico todos os encontros da semana para conhecê-la, se se trata de uma semana em que faz um tempo daqueles, se devo vê-la nalguma granja isolada. Por mais que saiba que esse tipo de tempo e de encontro não são dela, são todavia a isca bem conhecida a mim, a que me deixo prender e que basta para me agarrar. Sei que essa mulher, num tempo frio, numa cidade, poderia tê-la desejado, mas sem a companhia de um sentimento romanesco, sem me apaixonar; o amor nem por isso é menos forte, uma vez que me encadeou graças às circunstâncias; apenas é mais melancólico, como na vida se tornam os nossos sentimentos pelas pessoas, à medida que mais percebemos a parte cada vez menor que elas representam para os mesmos, e que o amor novo, que desejaríamos fosse tão durável, abreviado como nossa própria vida, será o último.

            Havia ainda poucas pessoas da sociedade em Balbec, poucas moças. Às vezes eu via uma ou outra, parada na praia, sem atrativo, e que no entanto muitas coincidências pareciam atestar ser a mesma de quem eu me desesperava por não poder me aproximar no momento em que ela saía com as amigas do carrossel ou da aula de ginástica. Se era a mesma (e eu evitava falar nisso a Albertine), a moça que eu julgara inebriante não existia. Mas eu não conseguia ter certeza, pois o rosto dessas moças não ocupava na praia uma dimensão, não oferecia uma forma permanente, contraído, dilatado, transformado como era pela minha própria expectativa, pela inquietação do meu desejo, ou por um bem-estar que se basta a si mesmo, pelos vestidos diferentes que trajam, pela rapidez de seu passo ou pela sua imobilidade. Todavia, bem de perto, duas ou três me pareciam adoráveis. Cada vez que via uma destas, tinha vontade de levá-las para a avenida dos Tamaris, ou para as dunas, ou, melhor ainda, para os rochedos. Mas ainda que no desejo, em comparação com a indiferença, já entre aquela audácia que é um verdadeiro começo unilateral de realização, mesmo assim, entre o meu desejo e a ação, que seria o meu pedido para beijá-la, havia todo o "branco" indefinido da hesitação e da timidez. Então eu entrava na confeitaria, bebia, um após outro, sete a oito cálices de vinho do porto. Em seguida, em vez do intervalo impossível de preencher entre o meu desejo e a ação, o efeito do álcool traçava uma linha que os reunia a ambos. Não havia mais lugar para o temor ou a hesitação. Parecia-me que a moça ia voar para mim. Eu ia até ela, e por si sós iam saindo de meus lábios estas palavras:

            - Gostaria de passear com você. Não quer que a leve aos rochedos? Lá ninguém nos incomoda, lá atrás do bosquezinho que abriga do vento a casa desmontável, atualmente desabitada... -

            Todas as dificuldades da vida estavam aplainadas, já não havia obstáculos para o enlaçamento de nossos corpos. Pelo menos, não para mim. Pois para ela, que não havia bebido, eles não tinham sido volatilizados. Se o tivesse feito, o universo perderia alguma realidade a seus olhos, e mesmo assim, o sonho longamente acariciado que então lhe pareceria de súbito realizável talvez absolutamente não fosse o de cair nos meus braços.

            Não só as moças eram pouco numerosas, mas, naquela estação; ainda não era "a estação", ficavam por pouco tempo. Lembro-me de uma tez rubra de olhos verdes, duas faces coradas, e cujo rosado duplo se assemelhava aos grãos alados de certas árvores. Não sei que brisa a trouxera a Balbec e que outra a levara embora. Foi de modo brusco que durante vários dias senti um desgosto que me atrevi a confessar à Albertine, quando compreendi que ela se fora para sempre.        

            É preciso dizer que muitas delas eram moças que eu ou absolutamente não conhecia, ou deixara de ver há muitos anos. Freqüentemente, antes de me encontrar com elas, eu lhes escrevia. Se a sua resposta fazia crer num possível amor, que alegria! No começo de uma amizade, uma mulher, e até mesmo se esta amizade não se deve realizar em seguida, não é possível separar-se dessas primeiras cartas recebidas. Desejaria tê-las o tempo todo conosco, como lindas flores recebidas, ainda bem frescas, e que não cessamos de contemplar senão para respirá-las de mais perto. A frase que sabemos de cor é agradável de reler e, naquelas menos literalmente apreendidas, desejamos verificar o grau de ternura de uma expressão. Escreveu ela: "Votre chere lettre"? Pequena decepção na doçura que respiramos e que deve ser atribuída a uma leitura muito rápida; à escrita ilegível da correspondente; ela não escreveu: "et votre chere leHres, mas: "en voyant cette lettre". Mas o restante é tão carinhoso. Oh! Quanta flores iguais chegam amanhã! Depois, isto apenas não é bastante; é preciso confrontar, às palavras escritas, os olhares, a voz. Marcamos encontro, e sem que ela talvez tenha mudado ali onde julgávamos, pela descrição feita; ou pela recordação pessoal, encontrar a fada Viviane, achamos o Gato de Botas. Mesmo assim, marcamos encontro para o dia seguinte, pois apesar de tudo é ela e o que desejávamos era ela. Ora, esses desejos por uma mulher com quem se sonhou não tornam absolutamente necessária a beleza de um determinado traço. Tais desejos são apenas o desejo de uma criatura; vagos como o perfume, assim como o estoraque era o desejo de Protiera, o açafrão o desejo etéreo, as substâncias aromáticas o desejo de Hera, a mirra o perfume das nuvens, o maná o desejo de Nicéia, o incenso perfume do mar. Mas estes perfumes cantados pelos hinos órficos são bem menos numerosos do que as divindades a quem adoram. A mirra é o perfume das nuvens; mas também de Protógonos, de Netuno, de Nereu, de Leteo; o incenso é o perfume do mar, mas também da bela Dicéia, de Têmis, de Circe, das nove musas, de Éos, de Mnemósina, do Dia, de Dikaiosuné. Quanto ao estoraque, o maná e as substâncias aromáticas, seria um não acabar de dizer as divindades que os inspiram, de tão numerosas que são. Anfíetes possui todos os perfumes, exceto o incenso; e Gaia rejeita apenas as favas e as substâncias aromáticas. Assim, eram desse tipo os desejos que eu tinha dessas moças. Menos numerosos do que elas, mudavam-se em decepções e tristezas bem semelhantes umas às outras. Eu jamais quis a mirra. Reservei-a para Jupien e para a princesa de Guermantes, pois ela é o desejo de Protógonos, "o de dois sexos, tendo o mugido do touro, de inumeráveis orgias, memorável, inenarrável, descendo, cheio de júbilo, para os sacrifícios dos orgiofantas".

            Mas em breve a estação atingiu o auge; todos os dias era uma chegada nova e, para a freqüência de súbito crescente de meus passeios, que substituía a leitura agradável das Mil e Uma Noites, havia uma causa desprovida de prazer e que os envenenava a todos. A praia estava agora povoada de moças; e, como a idéia que me havia sugerido Cottard, embora não me despertasse novas suspeitas, tornara-me frágil e sensível a esse respeito, e cauteloso para não deixá-las formarem-se em mim; quando uma jovem chegava a Balbec eu me sentia pouco à vontade, propunha a Albertine as excursões mais afastadas, para que ela não pudesse travar conhecimento e, até, se fosse possível, nem sequer visse a recém-chegada. Naturalmente, temia ainda mais aquelas cujos maus costumes eram bem conhecidos, ou de quem se sabia a má reputação; tentava persuadir a minha amiga de que essa má reputação não se baseava em nada, era caluniosa, talvez por um medo inconfesso, ainda inconsciente, de que ela procurasse unir-se à

depravada, ou que lamentasse não poder procurá-la por minha causa, ou que julgasse, pelo número de exemplos, que um vício tão disseminado não seria condenável. Negando-o em cada culpada, eu chegava a pretender nada menos que o lesbianismo não existia. Albertine adotava a minha incredulidade quanto ao vício desta ou daquela:

            - Não, creio que é só atitude; ela quer se mostrar. -

            Mas então eu quase lamentava ter repugnado pela inocência, pois desagradava-me que Albertine, tão severa antigamente, pudesse achar que essa "atitude" fosse algo de muito lisonjeiro, vantajoso, para que uma mulher isenta desses gostos procurasse fingi-los. Gostaria que mulher nenhuma chegasse mais a Balbec; tremia ao pensar que, como era reais ou menos a época em que a Sra. Putbus devia chegar à casa dos Verdurin, sua camareira, cujas preferências Saint-Loup não me ocultara, poderia vir excursionar até a praia e, se fosse num dia em que eu não estivesse junto de Albertine, tentar corrompê-la. Chegava a indagar de mim mesmo, já que Cottard não me ocultara que os Verdurin me apreciavam muito, e, embora não querendo parecer que corriam atrás de mim, como ele dizia, fariam tudo para que eu fosse à casa deles, senão poderia, mentir ante a promessa de levar-lhes em Paris todos os Guermantes do mundo, obter da Sra. Verdurin que, sob qualquer pretexto, ela avisasse a Sra. Putbus que lhe seria impossível conservar em sua casa a camareira e a mandasse de volta o mais rápido possível.

            Apesar desses pensamentos e como era sobretudo a presença Andrée que me inquietava, a tranqüilidade que me haviam trazido as palavras de Albertine durava ainda um pouco. Aliás, eu sabia que em breve teria menos necessidade dela, pois Andrée deveria partir com Gisele e Rosemonde, quase no momento em que todo mundo chegava, não tendo que ficar junto de Albertine mais que algumas semanas. Durante estas, aliás, Albertine pareceu combinar tudo o que fazia, tudo o que dizia, com vistas à destruir minhas suspeitas, se ainda me ficava alguma, ou impedi-las de renascerem. Arranjava-se para nunca ficar sozinha com Andrée e insistia quando voltávamos, para que eu a acompanhasse até a sua porta; e que fosse buscá-la quando devíamos sair. Entretanto, de seu lado, Andrée procedia de igual maneira, parecia evitar ver Albertine. E esse aparente conluio entre elas não era o único sinal de que Albertine deveria ter posto sua amiga ao corrente de nossa conversação, pedindo-lhe que tivesse a gentileza de acalmar minhas suspeitas absurdas.

            Por essa época, ocorreu no Grande Hotel de Balbec um escândalo que não foi próprio para mudar a inclinação dos meus tormentos. A relação que Bloch mantinha há algum tempo, com uma antiga atriz, relações secretas que em breve não lhes bastaram mais. O serem vistas parecia-lhes acrescentar alguma perversidade a seu prazer; desejavam que os olhares de todos se banhassem em seus perigosos embates. Isto começou com carícias, que afinal podiam ser atribuídas à intimidade de amigas, no salão de jogo; em torno da mesa de bacará. Depois, atreveram-se a mais. E por fim, uma tarde, num canto nem mesmo escuro do grande salão de dança, sobre um canapé, não se constrangeram mais do que se estivessem em sua casa. Dois oficiais, que estavam não longe dali com suas esposas, foram queixar-se ao gerente. Por um momento, julgou-se que o seu protesto teria alguma eficácia. Mas tinham contra si o fato de que, tendo vindo por uma noite de Netteholme, onde moravam, a Balbec, não podiam ser úteis em nada ao gerente. Ao passo que, mesmo sem que ela soubesse, e ainda que o gerente lhe fizesse alguma observação, pairava sobre a Srta. Bloch a proteção do Sr. Nissim Bernard. Convém dizer por quê. O Sr. Nissim Bernard praticava no mais alto grau as virtudes da família. Todos os anos alugava em Balbec uma vivenda magnífica para o seu sobrinho, e nenhum convite poderia impedi-lo de voltar para jantar em sua casa, que na verdade era a deles. Mas nunca almoçava em casa. Todos os dias estava ao meio-dia no Grande Hotel. É que ele sustentava, como outros, a um figurante de ópera, um "empregado", bem semelhante a esses grooms de que falamos, e que nos fazia pensar nos jovens israelitas de Esther e de Athalie. A falar a verdade, os quarenta anos que separavam o Sr. Nissim Bernard do jovem empregado deveriam preservar este de um contato pouco amável. Porém, como diz Racine com tanta sabedoria nos mesmos coros: Mon Dieu, qu'une vertu naissante Parmi tant de périls marche à pas incertains! Qu'une âme qui te cherche et veut être innocente Trouve d'obstacle à ses desseins! ["Meu Deus, como uma virtude nascente, entre tantos perigos, anda a passo inseguro! Uma alma que te procura e quer ser inocente, quantos obstáculos encontra para os seus desígnios!" (Athalie, ato II, cena IX). (N, do T)]

            O jovem empregado, por mais que fosse "longe do mundo criado", no Templo-Palácio de Balbec, não seguira o conselho de Joad: Sur la richesse et l'or ne mets point ton appui.["Não busques apoio no ouro ou nas riquezas." (Cit. modif. de Athalie, ato IV, cena II) (N. do T) " Athalie, ato II, cena IX. (N. do T)]

            Talvez achasse uma desculpa, dizendo: "Os pecadores cobrem a terra." Fosse como fosse, e embora o Sr. Nissim Bernard não esperasse um prazo tão curto, logo ao primeiro dia:

Et soit frayeur encor ou pour le caresser De ses bras innocents il se sentit presser."

[- "E fosse ainda por terror ou para acariciá-lo, sentiu-se apertado por seus braços inocentes." (Cit. modif. de Athalie, ato I, cena II). (N. do T)]

            E, desde o segundo dia, o Sr. Nissim Bernard, passeando o empregado, "a aproximação contagiosa lhe alterava a inocência". Desde então, a vida do jovem havia mudado.

            Era em vão que ele carregava o pão e o sal, como lhe mandava o seu chefe, todo o seu rosto cantava:

De fleurs en fleurs, de plaisirs en plaisirs Promenons nos désirs. De nos ans passagers le nombre est incertain. Hâtons-nous aujourd'hui de jouir de la viel L'honneur et les emplois Sont le prix d'une aveugle et douce obéissance, Pour la triste innocence Qui viendrait élever la voix.

["De flores em flores, de prazeres em prazeres, passeemos nossos desejos. Incerto é o número de nossos anos passageiros. Apressemo-nos a gozar a vida hoje! A honra e os empregos são o preço de uma e doce obediência. Pela triste inocência quem viria erguer a voz?" (Citações modif. de Athalie, ato li, ce IX e ato III, cena VIII). (N. do T)

 

            Desde esse dia, o Sr. Nissim Bernard jamais deixara de vir ocupar sua mesa no almoço (como o teria feito à orquestra alguém que sustenta uma figurante, figurante essa de um gênero fortemente caracterizado e que ainda espera o seu Degas). O prazer do Sr. Nissim Bernard era seguir na sala de jantar, e até às longínquas perspectivas onde, sob sua palmeira, se assentava o caixa, as evoluções do adolescente atencioso no serviço, no serviço de todos e menos no do Sr. Nissim Bernard; desde que este o sustentava, fosse porque o jovem menino do coro não julgasse necessário manifestar a mesma gentileza a alguém de quem se sabia suficientemente amado, fosse por que tal amor o irritasse ou que temesse que, uma vez descoberto, lhe fizesse perder outras ocasiões. Mas, até mesmo essa frieza agradava ao Sr. Nissim Bernard, por tudo o que ela dissimulava. Seja por atavismo hebraico ou pela profanação do sentimento cristão, singularmente se deleitava com a cerimônia raciniana, fosse judia ou católica. Caso se tratasse de uma verdadeira representação de Esther ou de Athalie, o Sr. Nissim Bernard teria lamentado que a diferença de séculos não lhe tivesse permitido conhecer o autor, Jean Racine, a fim de obter um papel maior para o seu protegido. Mas, como a cerimônia do almoço não provinha de nenhum escritor, ele se contentava em estar em bons termos com o gerente e com Aimé para que o "jovem israelita" fosse promovido às funções desejadas, de subchefe ou até mesmo de chefe; graduado. Tinham-lhe sido oferecidas as de despenseiro. Mas o Sr. Bernard o obrigou a recusá-la, pois assim não poderia mais vir vê-lo, todos os dias, correndo pelo refeitório verde e fazer-se servir por ele como um estranho. Tal prazer era tão forte que todos os anos o Sr. Bernard regressava a Balbec e almoçava fora, hábitos em que o Sr. Bloch via, no primeiro, um gosto poético pela claridade e os ocasos daquela costa preferida a todas as outras; e, no segundo, uma inveterada mania de velho celibatário.

            A falar a verdade, esse engano dos parentes do Sr. Nissim Bernard, os quais não desconfiavam do motivo real de sua volta a Balbec todos os anos, e do que a pedante sra. Bloch denominava as suas infidelidades culinárias, esse engano era uma verdade mais profunda e do segundo grau. Pois o próprio Sr. Nissim Bernard ignorava o que podia entrar de amor à praia de Balbec, da vista marítima que se tem do restaurante, e dos hábitos maníacos, no seu gosto de sustentar, como a uma figurante de ópera de outra espécie, a que ainda faltasse um Degas, um dos empregados da casa que também eram "meninas". Assim, o Sr. Bernard mantinha excelentes relações com o gerente daquele teatro que era o hotel de Balbec, e com o diretor de cena e regente Aimé, cujo papel em todo esse negócio não era dos mais claros. Um dia, dar-se-iam intrigas para conseguir um grande papel, talvez uma posição de mordomo. Enquanto esperava, o prazer do Sr. Nissim Bernard, por mais poético e sossegadamente contemplativo que fosse, tinha um tanto das características desses homens mulherengos que sempre sabem. Swann outrora, por exemplo que, indo a uma festa, encontrarão a sua amante. Mal o Sr. Bernard se assentasse, já veria o objeto de seus anseios avançar em cena, trazendo na mão frutas ou charutos numa bandeja. Assim todas as manhãs, após haver beijado a sobrinha, ter se inquietado com os trabalhos de meu amigo Bloch e dado de comer torrões de açúcar na palma estendida a seus cavalos, febrilmente se apressava a chegar para almoçar no Grande Hotel. A casa poderia estar em chamas, sua sobrinha ter um ataque, que mesmo assim sem dúvida ele sairia.

            Receava, como a uma peste, um resfriado que o pusesse de cama pois era hipocondríaco e que houvesse necessidade de mandar pedir a Aimé que lhe enviasse para sua casa, antes da hora da refeição, o seu jovem amigo.

            Aliás, ele gostava do labirinto de corredores, gabinetes secretos, salões, vestiários, despensas e galerias que era o hotel de Balbec. Por atavismo de oriental amava os serralhos e, quando saía à noite, viam-no explorar-lhe às escondidas os esconderijos. Ao passo que, arriscando-se até o subsolo e apesar de tudo procurando não ser visto e evitar o escândalo, o Sr. Nissim Bernard, em sua busca de jovens levitas, lembrava estes versos de La Juive: Ô Dieu de nos peres/ Parmi nous descends/ Cache nos mysteres A Toei/ des méchantsils

["ó Deus. dos nossos, pais, desce entre. nós; oculta, nossos mistérios aos olhos, dos malvados!"        Juive 1, A Judia, ópera de Halévy. (N. do T)]

            Eu, ao contrário, subia para o quarto de duas irmãs que tinham acompanhado a Balbec, como camareiras, uma velha dama estrangeira. Era o que a linguagem dos hotéis denominava "mensageiras", e a de Françoise, que pensava que um mensageiro [courrier] ou uma mensageira [courriere] e - ali para fazer recados [courses], "recadeiras" [coursieres]. Quanto aos hotéis, conservaram-se com mais nobreza no tempo em que se cantava: "É o mensageiro de gabinete."       

            Apesar da dificuldade que um hóspede encontrava para ir aos quartos das camareiras, e reciprocamente, eu bem depressa liguei-me em amizade muito viva com estas duas pessoas: Srta. Marie Gineste e Sra. Célesté Albaret. Nascidas ao sopé das altas montanhas da região central da França, à beira de regatos e de torrentes (a água passava mesmo sob a casa da família, onde girava um moinho, e que fora devastada diversas vezes pela inundação), elas pareciam ter-lhes conservado a natureza. Marie Gineste a mais regularmente rápida e sacudida; Céleste Albaret, mais vagarosa e perseguida, parada como um lago, porém com terríveis acessos de efervescência em que o seu furor lembrava o perigo das enchentes e dos turbilhões ligados que arrastam tudo, devastam tudo. Vinham ver-me diversas vezes pela manhã, quando eu ainda estava deitado. Jamais conheci pessoas tão voluntariamente ignorantes, que não haviam aprendido absolutamente nada na escola, e cuja linguagem, no entanto, possuía algo de tão literário que, sem o natural quase selvagem de seu tom, a gente poderia julgar afetadas as suas palavras. Com uma familiaridade que não aperfeiçôo, apesar dos elogios (que não estão aqui para me louvar, mas para louvar o gênio estranho de Céleste) e das críticas, igualmente falsas, mas muito sinceras, que estas frases parecem comportar a meu respeito, enquanto eu mergulhava pãezinhos no meu leite, Céleste me dizia:

            - Ó diabinho preto de cabelo de galo, ó que profunda malícia! Não sei em que pensava sua mãe quando o fez, pois o senhor é igual a um pássaro. Olha, Marie, não parece até que ele alisa as penas, e vira o pescoço com facilidade? Tem um ar tão leve que parece estar aprendendo a voar. Ah, o senhor tem sorte de que aqueles que o geraram o tenham feito nascer entre os ricos; que seria do senhor, perdulário como é? Olha como ele joga fora o pãozinho só porque tocou na cama. Bem, agora derramou o leite, espere que vou lhe pôr um guardanapo, pois o senhor não saberia colocá-lo sozinho; nunca vi ninguém tão bobo e desajeitado como o senhor. -

            Ouvia-se então o ruído mais regular de torrente de Marie Gineste que, furiosa, fazia reprimendas à irmã:

            - Ora, Céleste, não vais calar a boca? Estás louca para falares ao senhor desse modo? -             Céleste limitava-se a sorrir; e, como eu detestava que pusessem um guardanapo:

            - Mas não, Marie! Vê só, olha como se ergue feito uma serpente. Uma verdadeira serpente, estou dizendo. -

            Aliás, ela era pródiga em comparações zoológicas, pois, segundo dizia, não se sabia quando eu estava dormindo, eu revoluteava a noite inteira como uma borboleta e de dia era tão rápido como aqueles esquilos, "sabes Marie, como se vêem na nossa casa, tão ágeis que mesmo com os olhos não é possível segui-los." -

            - Mas, Céleste, sabes que ele não gosta de pôr guardanapo quando está comendo.

            - Não é que não goste, é para mostrar que não lhe podem mudar a vontade. É um senhor, e quer que saibam que é um senhor. Trocam-lhe os lençóis dez vezes se for preciso, e ele não se incomoda. Os de ontem, tudo bem, mas os de hoje, mal acabam de ser colocados e já precisam de troca; ah, eu tinha razão em dizer que ele não foi feito para nascer entre os pobres. Olha, seus cabelos se eriçam, incham-se de cólera como as penas dos pássaros. Pobre avezinha! -

            Aqui não era só Marie que protestava, mas também eu, pois de modo algum me sentia um senhor. Mas Céleste jamais acreditava na sinceridade da minha modéstia e, cortando-me a palavra:

            - Ah, novelo! Ah, doçura! Ah, perfídia! Astuto entre os astutos, safado entre os safados! Ah, Moliere! - (Era o único nome de escritor que conhecia, mas aplicava-o a mim, significando com isso alguém que seria ao mesmo tempo capaz de compor e representar peças.)

            - Céleste! - gritava imperiosamente Marie, que, ignorando o nome de Moliere, temia que se tratasse de uma nova injúria. Céleste se limitava a sorrir:

            - Então não viste na sua gaveta a fotografia dele, quando criança? Queria nos fazer acreditar que o vestiam sempre de modo muito simples. E ali, com sua bengalinha, a gente só enxerga peles e rendas, como um príncipe nunca teve. Mas isso não é nada diante de sua imensa majestade e de sua bondade ainda mais profunda.

            - Então - estrugia a torrente Marie - agora deste para mexer em suas gavetas? -

            Para acalmar os temores de Marie, perguntei-lhe o que pensava do que fazia o Sr. Nissim Bernard.

            - Ah, senhor, é dessas coisas que eu não poderia acreditar que existissem: foi preciso vir para cá e, levando vantagem sobre Céleste por uma vez, com uma palavra mais profunda: - Ah, veja, senhor, nunca se sabe o que pode acontecer numa vida. -

            Para mudar de assunto, falava-lhe da vida de meu pai, que trabalhava dia e noite.

            - Ah, senhor, são vidas em que não se reserva nada para si mesmo, nem um minuto, nem um prazer; tudo, inteiramente tudo, é um sacrificar-se para os outros, são vidas doadas... Olha, Céleste, que distinção só para pousar a mão no cobertor e pegar o seu pãozinho! Ele pode fazer as coisas mais insignificantes e é como se toda a nobreza da França se deslocasse em cada um de seus movimentos.

            Aniquilado por esse retrato tão pouco verídico, mantinha-me calado; Céleste via nisso uma nova artimanha:

            - Ah, fronte que tens um ar tão puro e que escondes tantas coisas, faces amigas e frescas como o fino de uma amêndoa, mãozinhas de cetim bem felpudo, unhas como garras; - Olha, Marie, observa-o beber o leite com um recato que me dá vontade de rezar minha oração. Que ar sério! Deveriam tirar o seu retrato neste monento. Ele tem tudo das crianças. Foi de beber leite como elas que conservam a pele clara? Ah, juventude! Ah, linda pele! O senhor jamais há de envelhecer. Tem sorte, nunca terá de erguer a mão contra ninguém, pois tem olhos de quem sabe impor a sua vontade. E agora ficou furioso. Pôs-se de pé direito como uma evidência.       

            Françoise absolutamente não gostava que elas, a quem chamava duas adulonas, viessem conversar desse modo comigo. O gerente, que espreitava tudo através dos empregados, chegou a me observar gravemente que não era digno de um hóspede conversar com mensageiras. Eu, que achava as "adulonas" superiores a todas as hóspedes do hotel, limitei-me a desatar a rir na sua cara, convencido de que ele não compreenderia as minhas explicações. E as duas irmãs voltavam.

            - Observa, Marie, os seus traços finos. O miniatura perfeita, mais linda que a mais preciosa

que se veria numa vitrina, pois possui movimentos, e palavras que é da gente ficar escutando dias e noites.

            Era milagre que uma dama estrangeira tivesse podido trazê-las, pois, sem saber história nem geografia, elas detestavam francamente os ingleses, os alemães, os russos, os italianos, a "escória" dos estrangeiros e, com exceções, só gostavam de franceses. Seu rosto de tal modo havia conservado a umidade do barro maleável de seus rios, que, quando se falava num estrangeiro que estava no hotel, Céleste e Marie, para repetir o que ele havia dito, aplicavam sobre os próprios rostos o rosto dele, seus lábios transformavam-se nos lábios dele, seus olhos eram os olhos dele, e a gente gostaria de guardar essas admiráveis máscaras de teatro. A própria Céleste parecendo repetir apenas o que dissera o gerente ou algum de meus amigos, inseria em seu pequeno relato frases fictícias, onde estavam pintados maliciosamente todos os defeitos de Bloch ou do presidente do conselho etc., sem parecer que o fazia. Sob a forma de relatório de uma simples comissão de que se houvesse atenciosamente encarregado, era um retrato inimitável. Elas nunca liam nada, nem mesmo um jornal. No entanto, um dia acharam na minha cama um volume. Eram os poemas admiráveis, menos obscuros, de Saint-Léger Léger. Céleste leu algumas páginas e me disse:

            - Mas o senhor tem certeza de que são mesmo versos, não seriam antes adivinhações? -

            Evidentemente, para uma pessoa que aprendera na infância uma única poesia: Ici bas tous /es /fias meurent ["Aqui todos os Idas morrem"]," havia falta de transição. Creio que sua obstinação em nada aprender provinha um pouco de sua terra malsã. Eram no entanto tão dotadas como um poeta e com mais modéstia do que eles em geral. Pois, se Céleste havia dito algo de notável que eu, não me lembrando bem, pedia que me repetisse, ela garantia tê-lo esquecido.

            Elas nunca lerão livros, mas também nunca os escreverão.

            Françoise ficou grandemente impressionada ao saber que os dois irmãos dessas mulheres tão simples haviam desposado, um, a sobrinha do arcebispo de Tours, o outro, uma parenta do bispo de Rodez. Para o gerente, nada disso teria qualquer significado. Às vezes, Céleste censurava o marido por não compreendê-la, e eu espantava-me que ele pudesse suportá-la. Pois em certos momentos, fremente, furiosa, destruindo tudo, ela era detestável. Pretende-se que o líqüido salgado que é o nosso sangue não passa da sobrevivência interna do elemento marinho primitivo. Da mesma maneira, julgo que Céleste, não só em seus furores, mas também em suas horas de depressão, conservava o ritmo dos regatos de sua terra. Quando estava esgotada, era ao jeito deles: estava verdadeiramente seca. Então nada poderia revivificá-la. Depois, subitamente, a circulação retornava a seu alto corpo leve e magnífico. A água corria na transparência opalina de sua pele azulada. Ela sorria ao sol e se fazia mais azul ainda. Nesses momentos, era verdadeiramente celeste.

            Conquanto a família Bloch que jamais houvesse desconfiado do motivo pelo qual o tio nunca almoçava em casa, aceitando isso desde o começo como uma mania de velho celibatário, talvez devido às exigências da ligação com alguma atriz, tudo quanto se referisse ao Sr. Nissim Bernard era tabu para o gerente do hotel de Balbec. E eis a razão por que, sem nem mesmo referi-lo ao tio, ele finalmente não se atrevera a censurar a sobrinha, recomendando-lhe contudo uma certa circunspecção. Ora, a moça e sua amiga, que durante alguns dias tinham se julgado excluídas do cassino e do Grande Hotel, vendo que tudo se ajeitava, ficaram felizes por mostrar aos pais de família, que as mantinham à parte, que podiam se permitir tudo impunemente. É claro que não foram ao ponto de renovar a cena pública que revoltara a todos. Mas pouco a pouco os seus modos reapareceram insensivelmente. E, numa noite em que eu saía do cassino já meio apagado, com Albertine e Bloch, a quem havíamos encontrado, elas passaram abraçadas, sem parar de se beijar, e, ao cruzarem por nós, soltaram cacarejos, risos e gritos indecentes. Bloch baixou os olhos para não parecer ter reconhecido a irmã, e eu me sentia torturado ao pensar que aquela linguagem particular e atroz se dirigia talvez a Albertine.

            Outro incidente ainda mais fixou minhas preocupações sobre o lado de Gomorra. Eu havia visto na praia uma bela jovem esguia e pálida, cujos olhos, ao redor do centro, dispunham raios tão geometricamente luminosos que se pensava, diante de seu olhar, em alguma constelação. Pensava eu o quanto essa moça era mais bonita que Albertine e como não seria mais sábio renunciar à outra. Todavia, o rosto dessa mulher passara pela plaina invisível de uma vida de grande baixeza; da constante aceitação de experiências vulgares; tanto que seus olhos, apesar de mais nobres que o restante da fisionomia, não deviam irradiar senão apetites e desejos. Ora, no dia seguinte, estando essa jovem bem longe de nós no cassino, vi que ela não cessava de pousar em Albertine os fogos alternados e giratórios de seus olhares. Dir-se-ia que lhe fazia sinais como com a ajuda de um farol. Torturava-me que minha amiga visse que lhe prestavam tamanha atenção; temia que esses olhares incessantemente iluminados tivessem o sentido convencional de um encontro de amor para o dia seguinte. Quem sabe? Esse encontro talvez não fosse o primeiro. A jovem de olhos radiosos poderia ter vindo num outro ano a Balbec. Talvez porque Albertine já tivesse cedido à seus desejos, ou aos de uma amiga, é que ela se permitia endereçar-lhe aqueles sinais brilhantes. Faziam então mais do que reclamar alguma coisa para o presente; autorizavam-se para isso com os bons momentos do passado. Nesse caso, tal encontro não devia ser o primeiro, mas a conseqüência de passeios dados juntos em outros anos. E de fato, os olhares não diziam: "Queres?"

            Logo que a jovem avistara Albertine, voltara a cabeça inteiramente para ela e fizera luzir em sua direção olhares repletos de memória, como se receasse e sentisse espanto de que minha amiga não lembrasse. Albertine, que a via muito bem, permaneceu imóvel, com fleuma, de modo que a outra, com o mesmo grau de discrição de um homem que, vendo a antiga amante com um amante novo, deixou de olhá-la, não mais se ocupando de sua pessoa como se ela não existisse.       

            Mas, alguns dias depois, tive a prova dos gostos dessa jovem; também, da probabilidade de que ela tivesse conhecido Albertine antigamente. Muitas vezes, quando na sala do cassino duas moças se desejavam produzia-se como que um fenômeno luminoso, uma espécie de corredor fosforescente que ia de uma para outra. Digamos, de passagem, que é com o auxílio de tais materializações, mesmo que imponderáveis, por esses signos astrais que inflamam toda uma parte da atmosfera, que Gomorra, dispersa, tende, em cada cidade, em cada aldeia, a reunir seus membros separados, para reconstituir a cidade bíblica, ao passo que em toda parte prosseguem idênticos esforços, ainda que em vista de uma construção intermitente, por meio dos nostálgicos, hipócritas e, às vezes, corajosos exilados de Sodoma.

            Uma vez vi a desconhecida que Albertine parecia não reconhecer, justo num momento em que passava a prima de Bloch. Os olhos da jovem resplandeceram, mas via-se bem que ela não conhecia a moça israelita. Via-a pela primeira vez, sentia um desejo, e nada de dúvidas, de modo algum a mesma certeza que experimentara quanto a Albertine. Albertine com cuja camaradagem de tal modo deveria ter contado que, diante de sua frieza, sentira a surpresa de um estrangeiro habituado a Paris, mas que nela não mora e que, tendo regressado para ali passar algumas semanas, em vez do teatrinho onde se acostumara a passar boas noitadas, vê que construíram um banco.

            A prima de Bloch foi sentar-se a uma mesa, onde se pôs a folhear uma revista. Em breve a jovem foi sentar-se ao lado dela, com ar distraído. Mas, debaixo da mesa, poderia ver-se, dali a pouco, tocarem-se os seus pés, depois suas pernas e suas mãos, que estavam entrelaçadas. As palavras seguiram-se, travou-se a conversação, e o ingênuo marido da jovem senhora, que a procurava por todo lado, espantou-se de vê-la fazendo projetos para a mesma noite com uma moça que ele não conhecia. Sua mulher lhe apresentou como amiga de infância a prima de Bloch, sob um nome inteligível, pois havia esquecido de lhe perguntar como se chamava. Mas a presença do marido fez avançar um passo mais a intimidade delas, pois passaram a tratar-se por tu, visto que se haviam conhecido no internato de freiras, incidente do qual deram boas risadas mais tarde, bem como do marido enganado, com uma alegria que deu oportunidade a novas carícias.

            Quanto a Albertine, não posso afirmar que em parte alguma, no cassino ou na praia, ela tivesse maneiras tão livres com uma moça. Achava-lhe até um excesso de frieza e de insignificância, que parecia, mais que da boa educação, um ardil destinado a eliminar as suspeitas. A determinada moça, ela possuía um modo rápido, frio e decente de responder em voz bem alta:

            - Sim, eu irei ao tênis mais ou menos às cinco. Vou tomar banho amanhã de manhã cerca das oito horas -, e de deixar imediatamente a pessoa a quem acabara de dizer isto, a qual parecia terrivelmente querer dizer outra coisa, marcar um encontro, ou melhor, depois de o ter combinado em voz baixa, dizer alto aquela frase, na verdade insignificante, para "não se fazer notar". E, quando, em seguida, eu a via pegar a bicicleta e sair na disparada, não podia evitar de pensar que ela ia encontrar-se com aquela a quem mal falara.

            De qualquer modo, quando alguma jovem senhora muito formosa, descia do automóvel na praia, Albertine não podia deixar de virar-se. E explicava logo:

            - Eu estava olhando a bandeira nova que puseram na porta de banho. Poderiam ter gastado mais. A outra já era bem vagabunda.  - de fato esta é ainda pior.

            Uma vez Albertine não se limitou à frieza e só contribuiu para me deixar mais infeliz. Sabia que eu ficava aborrecido com a probabilidade dela encontrar-se às vezes com uma amiga de sua tia, que era "de maus costumes" e, de vez em quando, vinha passar dois ou três dias em casa da Sra. Bontemps. Gentilmente, Albertine me dissera que não mais a cumprimentaria. E, quando essa mulher ia a Incarville, Albertine dizia:

            - A propósito, sabe que ela está aqui? Já não lhe disseram? como para me mostrar que ela não a via às escondidas.

            Num dia em que me dizia isso, acrescentou:

            - Sim, encontrei-a na praia e, de propósito, por grosseria, quem lhe dei um encontrão ao passar por ela. Deixei-a desarrumada.

            Quando Albertine disse isso, voltou-me à memória uma frase da Sra. Bontemps,: - qual jamais pensara de novo, aquela em que havia dito, diante de mim a Sra. Swann, o quanto a sua sobrinha Albertine era atrevida, como se tratasse de uma qualidade, e como Albertine dissera a não sei mais qual mulher de funcionário que o pai desta fora um ajudante de cozinha. Mas uma palavra da mulher a quem amamos não se conserva por muito tempo em sua pureza; ela se corrompe, deteriora-se. Uma ou duas noites depois, voltei a pensar na frase de Albertine e já não foi a má educação de quem se orgulhava e que só podia causar um sorriso o que essa frase me pareceu significar mais outra coisa, e que Albertine, talvez mesmo sem uma finalidade precisa, para irritar os sentidos daquela dama ou lembrar-lhe maldosamente antigas propostas, talvez aceitas outrora, roçara rapidamente por ela e, pensando que eu talvez o tivesse sabido porque fora em público, quisera desse modo evitar previamente uma interpretação desfavorável. Aliás, os ciúmes que me causavam as mulheres que talvez andassem com Albertine iam cessar de repente.

            Estávamos, Albertine e eu, diante da estação do trenzinho locar Balbec. Tínhamos tomado o ônibus do hotel por causa do mau tempo. Longe de nós encontrava-se o Sr. Nissim Bernard, que estava com um machucado. Fazia algum tempo que vinha enganando o menino do Athalie com o rapaz de uma granja muito freqüentada das vizinhanças de Cerejeiras. Esse rapaz rubro, de feições rudes, era exatamente como tivesse um tomate no lugar da cabeça. Um tomate exatamente igual servia de cabeça a seu irmão gêmeo. Para o contemplador desinteressado, há muito de belo nessas semelhanças perfeitas de dois gêmeos, que a natureza, como se se houvesse momentaneamente industrializado, parece produzir em série. Infelizmente, o ponto de vista do Sr. Nissim Bernard era diferente, e essa parecença era exterior apenas. O tomate não se comprazia freneticamente em fazer com exclusividade as delícias das damas, e o tomate não detestava condescender aos gostos de certos senhores. Ora, cada vez que, sacudido, assim como que por um reflexo, pela lembrança das boas horas passadas com o tomate número um, o Sr. Bernard se apresentava em Às Cerejeiras, míope como era (e, aliás, a miopia não era necessária para confundi-los), o velho israelita, representando o Anfitrião sem o saber, dirigia-se ao irmão gêmeo, dizendo:

            - Queres marcar um encontro para esta noite? - recebia logo uma surra vigorosa. Chegou até a renovar-se no decurso de uma mesma refeição, em que ele continuava com o outro as frases começadas com o primeiro. Por fim, aquilo acabou por aborrecê-lo de tal modo que, por associação de idéias, se enjoou dos tomates, mesmo dos comestíveis, e, se ouvia a seu lado, no Grande Hotel, um viajante encomendá-los, sussurrava-lhe:

            - Desculpe-me, senhor, por dirigir-me a sua pessoa sem conhecê-lo. Porém ouvi que encomendou tomates. Eles estão podres hoje. Digo-lhe isto no seu interesse, pois por mim tanto faz, nunca os como.

            O estrangeiro agradecia com efusão àquele vizinho filantropo e desinteressado, chamava o garçom, fingia mudar de idéia:

            - Não, decididamente nada de tomates. -

            Aimé, que conhecia a cena, ria-se por dentro e pensava: "É um velho astuto esse Sr. Bernard; ainda achou um meio de mudar o prato."

            O Sr. Bernard, à espera do trem atrasado, não fazia questão nenhuma de cumprimentar a Albertine e a mim, por causa do olho machucado. E nós muito menos ainda de lhe falar. Todavia isso teria sido quase inevitável se, naquele momento, uma bicicleta não arremetesse contra nós a toda velocidade; dela saltou o ascensorista, sem fôlego. A Sra. Verdurin havia telefonado pouco depois da nossa partida para que eu fosse jantar em sua casa, dali a dois dias; logo veremos o porquê. Depois de me dar os detalhes do telefonema, o ascensorista nos deixou e, como esses "empregados" democratas que afetam ser independentes em relação aos burgueses, e entre eles restabelecem o princípio de autoridade, querendo dizer que o porteiro e o cocheiro poderiam ficar descontentes se ele se atrasasse, acrescentou:

            - Já vou indo por causa dos chefes.

            As amigas de Albertine estavam fora por algum tempo. Eu desejava distraí-la. Supondo que ela ficaria feliz em passar as tardes só comigo em Balbec, sabia eu contudo que a felicidade nunca se deixa possuir inteiramente, e que Albertine, ainda na idade (que certas pessoas jamais ultrapassam) em que não se descobriu que essa imperfeição decorre de quem experimenta a felicidade e não de quem a proporciona, talvez fosse tentada a atribuir a mim a causa da sua decepção. Preferia que ela a imputasse às circunstâncias que, por mim combinadas, não nos dariam a oportunidade de estarmos a sós, impedindo-a de ficar sem mim no cassino e no molhe! Assim, pedira-lhe naquele dia que me acompanhasse à Doncieres, aonde iria visitar Saint-Loup. Com o mesmo objetivo de deixá-la ocupada, aconselhava-lhe a pintura, que ela havia aprendido outrora. Trabalhando, ela não se indagaria se era feliz ou infeliz. De bom grado a levaria igualmente, dê vez em quando, para jantar na casa dos Verdurin e dos Cambremer, os quais certamente receberiam de boa vontade uma amiga apresentada por mim; mas primeiro era necessário que tivesse a certeza de que a Sra. Putbus ainda não chegara a La Raspeliere. Só no próprio local é que poderia certificar-me; e, como sabia por antecipação que dois dias depois Albertine seria obrigada a ir aos arredores com sua tia, aproveitara a ocasião para enviar um despacho à Sra. Verdurin, perguntando se poderia me receber na quarta-feira. Se a Sra. Putbus se achasse presente, eu daria um jeito para ver a sua camareira, assegurar-me se não seria arriscado que ela fosse a Balbec e, nesse caso, saber quando, para levar Albertine bem longe dali nesse dia. O trenzinho local, dando uma volta inexistente quando eu e minha avó o havíamos tomado, passava agora por Doncieres-la-Goupil, grande estação de onde partiam os trens importantes e principalmente o expresso em que eu tinha vindo de Paris para visitar Saint-Loup, e no qual voltara. E, devido ao mau tempo, o ônibus do Grande Hotel nos conduziu, a mim e a Albertine, à estação do bondinho, Balbec-Plage.

            O trenzinho ainda não havia chegado, porém via-se, ocioso e lento, o penacho de fumo que ele deixara no caminho e que agora, reduzido a seus escassos meios de nuvem pouco móvel, subia devagar as verdes vertentes da falésia de Criquetot. Por fim o trenzinho, a que o fumo havia precedido para assumir a direção vertical, chegou por sua vez, lentamente. Os viajantes que iam tomá-lo afastaram-se para lhe dar lugar; mas sem apressar-se, sabendo que lidavam com um andarilho complacente, quase humano, e que, guiado como a bicicleta de um novato pelos sinais condescendentes do chefe da estação, sob a tutela poderosa do mecânico, não se arriscava a atropelar ninguém e pararia onde quisessem.

            Meu despacho explicava o telefonema dos Verdurin e chegava tanto mais a propósito, pois a quarta-feira (dentro de dois dias) era dia de jantar de gala, tanto em La Raspeliere como em Paris, o que eu ignorava. A Sra. Verdurin não dava "jantares", mas tinha "quartas-feiras". As quartas-feiras eram obras de arte. Sabendo que não tinham rival em parte alguma, a Sra. Verdurin introduzia matizes entre elas.

            - Esta última quarta-feira não valia a anterior - dizia. - Mas creio que a próxima será uma das mais bem-sucedidas que já dei. -

            Chegava por vezes a confessar:

            - Esta quarta não estava à altura das outras. Em compensação, reservo-lhes uma grande surpresa para a próxima. -

            Nas últimas semanas da temporada de Paris, antes de partir para o campo, a Patroa anunciava o fim das quartas-feiras. Era uma ocasião para estimular os fiéis:

            - Há somente três quartas, só faltam duas - dizia, com o mesmo tom de que se o mundo estivesse por acabar. - Não vá perder a quarta-feira próxima de encerramento. -

            Mas esse encerramento era fictício, pois ela avisava:

            - Agora, oficialmente não há mais quartas-feiras. Foi a última quarta deste ano. Mas em todo caso estarei aqui na quarta. Daremos uma quarta-feira íntima; quem sabe? Essas pequenas quartas íntimas talvez sejam as mais agradáveis. -

            Na Raspeliere, as quartas eram forçosamente restritas, e como, segundo se houvesse encontrado um amigo de passagem, fora este convidado para tal ou qual dia, quase todos os dias eram quarta-feira.

            - Não me recordo bem do nome dos convidados, mas sei que lá está a Sra. Marquesa de Camembert - dissera-me o ascensorista.

            A lembrança de nossas explicações relativas aos Cambremer não chegara a suplantar definitivamente a da palavra antiga, cujas sílabas familiares e plenas de sentido vinham em socorro do jovem empregado quando ele se mostrava embaraçado com esse nome difícil, e eram imediatamente preferidas e readotadas por ele, não por preguiça e como um velho hábito inextirpável, mas por causa da necessidade de lógica e de clareza que elas satisfaziam.

            Apressamo-nos a procurar um vagão vazio, onde eu pudesse beijar Albertine durante todo o trajeto. Não o tendo encontrado, subimos para um compartimento onde já se achava instalada uma dama de cara imensa, velha e feia, de expressão masculina, muito endomingada, e que lia a Revue des Deux Mondes. Malgrado sua vulgaridade, era pretensiosa em seus gestos, e eu me diverti em indagar a mim mesmo a que categoria social ela podia pertencer; concluí de imediato que devia se tratar de alguma gerente de uma grande casa de tolerância, uma alcoviteira em viagem. Suas maneiras e seu rosto o proclamavam. Apenas, eu ignorava até então que tais senhoras lessem La Revue des Deux Mondes. Albertine mostrou-me, sorrindo, não sem piscar o olho. A dama tinha um aspecto muito digno; e, como de minha parte eu trazia em mim a consciência de que estava convidado para dali a dois dias, no ponto final da linha da pequena estrada de ferro. Para ir à casa da célebre Sra. Verdurin, de que era esperado numa estação intermediária por Robert de Saint-Loup e que, um pouco mais adiante, daria um grande prazer à Sra. de Cambremer, indo parar em Féterne, meus olhos cintilaram de ironia ao considerar essa dama importante que parecia crer que, devido a seu vestido rebuscado, às plumas do seu chapéu e a sua Revue des Deux Mondes, era um personagem mais considerável do que eu. Esperava que essa dama não permanecesse por muito mais tempo que o Sr. Nissim Bernard e que descesse pelo menos em Toutainville; mas não. O trem parou em Épreville, ela ficou sentada. O mesmo ocorreu em Montmartin-sur-Mer, em Parville-la-Bingard, em Incarville, de modo que, por desespero, quando o trem deixou Saint-Frichoux, que era a última estação antes de Doncieres, comecei a abraçar Albertine sem mais me ocupar com essa dama.

            Em Doncieres, Saint-Loup tinha vindo esperar-me na gare, com as maiores dificuldades, disse-me, pois, parando na casa da tia, meu telegrama só lhe chegara às mãos há poucos instantes, e ele só podia dedicar-me uma hora, visto não ter conseguido distribuir seu tempo com antecipação. Ai de mim, essa hora me pareceu bastante longa, pois mal desceu do vagão Albertine só cuidou de Saint-Loup. Não conversava comigo, mal me respondia se lhe dirigia a palavra, repelia-me quando me aproximava dela. Em compensação, com Robert, ria o seu riso feiticeiro, falava-lhe com volubilidade, brincava com o cão que ele trazia e, ao mesmo tempo que acariciava o animal, roçava de propósito em seu dono. Lembrei-me de que, no dia em que Albertine deixara-se beijar por mim pela primeira vez, eu tivera um sorriso de gratidão pelo sedutor desconhecido que operara nela uma tão profunda modificação, simplificando tanto a minha tarefa. Pensava nele agora com horror. Robert devia ter percebido que Albertine não me era indiferente, pois não respondeu às suas provocações, o que a pôs de mau humor contra mim; depois, ele me falou como se eu estivesse sozinho, o que, quando ela o notou, me fez subir na sua estima. Robert me perguntou se eu não queria tentar encontrar, entre os amigos com os quais me fazia jantar todas as noites em Doncieres, quando eu lá estivera, aqueles que ainda se achavam ali. E, como ele próprio incidia no gênero de pretensão irritante que reprovava:

            - De que te serve tê-los encantado com tanta perseverança se não queres revê-los? -, declinei de sua proposta porquanto não desejava correr o risco de me afastar de Albertine, mas também porque agora estava desligado deles. Deles, quer dizer, de mim. Desejamos apaixonadamente que exista uma outra vida na qual seríamos iguais ao que somos nesta. Mas não refletimos que, mesmo sem esperar essa outra vida, somos nesta, ao fim de alguns anos, infiéis ao que havíamos sido; ao que desejaríamos de nós mesmos; como dessas pessoas com quem fomos ligados, mas que há muito já não vemos; por exemplo, os amigos de Saint-Loup, que tanto me agradava encontrar todas as noites no faisan; cuja conversa só seria para mim agora importuna e constrangedora. A tal respeito, e porque preferi não ir e encontrar lá o que me havia agradado, um passeio a Doncieres poderia como que me prefigurar a chegada ao paraíso. Sonha-se muito com o paraíso, ou melhor, com numerosos paraísos sucessivos, mas todos eles são, bem antes da morte, paraísos perdidos e onde a gente se sentiria perdido.

            Saint-Loup nos deixou na gare.

            - Mas vais ter cerca de uma hora de espera - disse. - Se a passares aqui, verás sem dúvida o meu tio Charlus, que em breve há de tomar o trem para Paris, dez minutos antes do teu. Já me despedi dele, pois sou obrigado a regressar antes da hora do seu trem. Não pude lhe falar de ti visto que ainda não lera o teu telegrama. -

            As censuras que fiz a Albertine depois que Saint-Loup nos deixou, ela me respondeu que desejara, com sua frieza para comigo, dissipar a idéia que ele pudesse ter tido se, no momento da parada do trem, me tivesse visto inclinado sobre ela e com o braço a enlaçar o seu talhe. De fato, ele havia reparado nessa posição (coisa que eu não percebera, pois do contrário me colocaria mais corretamente ao lado de Albertine) e tivera tempo de me dizer ao ouvido:

            - É isso... essas meninas tão bestinhas de que me falaste e que não queriam freqüentar a Srta. de Stermaria porque achavam que não se comportava bem? -

            Eu dissera com efeito a Robert, e muito sinceramente, quando fora de Paris para visitá-lo em Doncieres, e como voltássemos a falar de Balbec, que nada havia a fazer com Albertine, que ela era a virtude em pessoa. E agora que, por mim mesmo, há muito tempo, soubera que aquilo era falso, desejava ainda mais que Robert acreditasse que era verdade. Bastaria dizer a Robert que amava Albertine. Robert era dessas criaturas que sabem renunciar a um prazer para poupar ao amigo sofrimentos que continuaria sentindo como se fossem seus.

            - Sim, ela é muito criança. Mas não sabes nada sobre ela? - acrescentei com inquietação.

            - Nada, a não ser que os vi abraçados como dois amantes.

            - Sua atitude não dissipava nada - disse eu a Albertine quando Saint-Loup nos deixou.

            - É verdade concordou ela; fui desajeitada, magoei-o, sinto-me bem mais infeliz que você. Verá que nunca mais será assim; perdoe-me - disse ela, estendendo-me a mão com ar triste.         Nesse momento, do fundo da sala de espera onde estávamos sentados, vi passar lentamente, seguido a certa distância por um empregado que carregava suas malas, o Sr. de Charlus. Em Paris, onde eu só o encontrava em reuniões festivas, imóvel, apertado numa casaca preta, mantido em direção vertical por seu aprumo orgulhoso, seu impulso para agradar, pelo brilho da conversa, eu não me dava conta do quanto ele havia envelhecido. Agora, num terno claro de viagem que o fazia parecer mais gordo, em marcha e bamboleando-se, balançando um ventre barrigudo e um traseiro quase simbólico, a crueldade do dia claro decompunha, em arrebique sobre os lábios, em pó-de-arroz fixado pelo cold-cream na ponta do nariz, em negro nos bigodes tingidos cuja cor de ébano contrastava com os cabelos grisalhos, tudo aquilo que pareceria, sob as luzes, a animação da tez numa pessoa ainda jovem.

            Enquanto conversava com ele, mas brevemente, por causa do seu trem, eu olhava para o vagão de Albertine para lhe fazer sinal de que já iria ao seu encontro. Quando desviei a cabeça para o Sr. de Charlus, ele me pediu que lhe fizesse o favor de chamar um militar, parente seu, que estava do outro lado da via férrea, exatamente como se fosse subir no nosso trem, mas em sentido oposto, na direção que se afastava de Balbec.

            - Ele faz parte da banda do regimento - disse o Sr. de Charlus. - Como o senhor tem a sorte de ser muito jovem e eu o aborrecimento de ser bastante velho, bem pode poupar-me atravessar a linha e ir até lá... -

            Senti-me no dever de ir até o militar apontado e, com efeito, vi, pelas liras bordadas na sua gola, que pertencia à banda. Mas, no momento em que eu ia prestar contas do meu recado, qual não foi minha surpresa e, posso dizer, o meu prazer ao reconhecer Morel, o filho do lacaio de meu tio e que me recordava tantas coisas! Esqueci de dar o recado do Sr. de Charlus.

            - Como! Está em Doncieres?

            - Sim, e incorporaram-me à banda, a serviço das baterias. -

            Mas ele me falou isso num tom seco e altivo. Tornara-se muito posudo e, evidentemente, a minha vista, lembrando-lhe a profissão do pai, não lhe era agradável. De súbito, vi o Sr. de Charlus arremeter contra nós. Meu atraso claramente o impacientara.

            - Eu gostaria de ouvir um pouco de música esta noite - disse ele a Morel sem mais rodeios; -dou quinhentos francos pelo recital, isto poderia talvez interessar um de seus amigos, se é que os tem na banda. -

            Por mais que eu conhecesse a insolência do Sr. de Charlus, fiquei estupefato que ele nem sequer desse bom-dia a seu jovem amigo. Aliás, o barão não me deu tempo para refletir. Estendendo-me a mão, afetuosamente, disse:

            - Até logo, meu caro - para indicar que eu nada mais tinha a fazer ali. De resto, eu já deixara por muito tempo sozinha a minha querida Albertine.

            - Veja - disse-lhe eu, subindo para o vagão -, a vida dos banhos de mar e a vida de viagens fazem-me compreender que o teatro do mundo dispõe de menos cenários que de atores, e de menos atores que de "situações".

            - A propósito de que está dizendo isso?

            - É que o Sr. de Charlus acabou de me pedir que lhe chamasse um de seus amigos, o qual, justo nesse instante, na gare, reconheci como sendo um dos meus. -

            Porém, dizendo isso, perguntava a mim mesmo de que modo o barão podia conhecer Morel. A desproporção social, em que a princípio não havia pensado, era imensa. Primeiro, tive a idéia de que seria por meio de Jupien, cuja filha, estão lembrados, parecera enamorar-se do violinista. Entretanto, o que espantava era que, devendo viajar para Paris dentro de cinco minutos, o barão pedisse para ouvir música em Doncieres. Revendo, porém, na lembrança a filha de Jupien, eu começava a achar que os "reconhecimentos", pobre expediente de obras fictícias, ao contrário, talvez exprimissem uma parte importante da vida, se a gente soubesse chegar ao verdadeiro romanesco, quando tive subitamente uma revelação e compreendi que fora bem ingênuo. O Sr. de Charlus por nada neste mundo conhecia Morel, nem este ao Sr. de Charlus, o qual, deslumbrado mas também tímido, ante um militar que, no entanto, só ostentava liras, requisitara-me, em sua emoção, para lhe trazer aquele a quem não imaginava que eu conhecesse. Em todo caso, a oferta dos quinhentos francos deveria, para Morel, ter substituído a ausência de relações anteriores, pois vi que continuavam a conversar, sem cuidar que se achavam ao lado do nosso trem. E, lembrando-me de como o Sr. de Charlus se dirigira a Morel e a mim, eu percebia a sua semelhança com certos parentes seus, quando apanhavam uma mulher na rua. Unicamente, o objeto visado mudara de sexo. A partir de uma certa idade, e até se se efetuam em nós evoluções diferentes, mais nos tornamos nós mesmos, mais se acentuam os traços de família. Pois a natureza, continuando harmoniosamente a trama de sua tapeçaria, interrompe a monotonia da composição graças à variedade das figuras intercaladas. Aliás, a altivez com que o Sr. de Charlus medira de alto a baixo o violinista é relativa conforme o ponto de vista em que nos coloquemos. Teria sido entendida pela maioria das pessoas da sociedade, que se inclinavam diante dele, mas não pelo chefe de polícia que, alguns anos depois, mandaria vigiá-lo.

            - O trem de Paris já deu sinal, senhor - disse o empregado que carregava as malas.

            - Mas eu não vou tomar o trem, ponha tudo isso no depósito, que diabo! - retrucou o Sr. de Charlus, dando vinte francos ao empregado, que ficou estupefato com a reviravolta e encantado com a gorjeta. Tal generosidade logo atraiu uma vendedora de flores:

            - Fique com estes cravos, olhe esta bela rosa, meu bom senhor, vai lhe trazer felicidade. - O Sr. de Charlus, impaciente, estendeu-lhe quarenta sous, em troca do que a mulher ofereceu suas bênçãos e, de novo, as flores.

            - Meu Deus, se ela nos deixasse em paz - disse o Sr. de Charlus, dirigindo-se num tom irônico e gemendo, como se fosse uma pessoa enervada, a Morel, a quem achava uma certa doçura em solicitar apoio. - O que temos a nos dizer já é bem complicado. -

            Visto que o carregador do trem ainda não estava muito longe, talvez o Sr. de Charlus não quisesse ter uma audiência numerosa, talvez essas frases incidentais permitissem à sua timidez altiva não abordar muito diretamente o pedido de um encontro. O músico, voltando-se para a vendedora de flores com ar franco, imperativo e decidido, ergueu-lhe uma palma que a repelia e dava a entender que não queriam as suas flores e que ela desse o fora o quanto antes. Com deslumbramento, o Sr. de Charlus viu esse gesto autoritário e viril, feito pela mão graciosa para a qual ele ainda pareceria muito pesado, muito maciçamente brutal, com uma firmeza e um desembaraço precoces, que conferiam a esse adolescente ainda imberbe o ar de um jovem Davi, capaz de assumir um combate contra Golias. A admiração do barão era involuntariamente, mesclada desse sorriso que experimentamos ao ver numa criança uma expressão sisuda acima de sua idade.

            - Eis alguém por quem desejaria ser acompanhado em minhas viagens e auxiliado em meus negócios. Como me simplificaria a vida! - disse consigo o Sr. de Charlus.

            Partiu o trem de Paris (que o barão não tomou). Depois, subimos para o nosso, Albertine e eu, sem que eu ficasse sabendo o que fora feito de Morel e do Sr. de Charlus.

            - Nunca mais devemos brigar; novamente lhe peço que me perdoe - voltou a dizer Albertine, aludindo ao incidente Saint-Loup. - Precisamos ser sempre amáveis um com o outro continuou com ternura. - Quanto ao seu amigo Saint-Loup, se acha que ele não interessa no que quer que seja, engana-se redondamente. O que me agrada nele é que parece gostar muito de você.

            - É muito bom rapaz - disse eu, evitando atribuir a Robert qualidades superiores imaginárias, como por amizade não teria deixado de fazer caso se tratasse de outra pessoa que não Albertine. - É uma criatura excelente, franca, devotada, leal, com quem se pode contar para tudo. -

            Dizendo isto, eu me limitava, tolhido pelo ciúmes, a falar a verdade sobre Saint-Loup, mas era a verdade mesmo o que eu exprimia. Pois fora exatamente nos mesmos termos que se expressara a Sra. de Villeparisis para me falar dele, quando eu ainda não o conhecia, e o imaginava tão diferente, tão altaneiro, e dizia comigo:

            "Acham-no bom por que é um grão-senhor."

            Da mesma forma, quando ela me dissera:

            "Ele ficaria tão feliz", eu pensara depois de o ter avistado diante do hotel, pronto para guiar, que as palavras de sua tia eram pura banalidade mundana, destinadas a me lisonjear. E a seguir havia percebido que ela falara sinceramente, pensando no que me interessava, nas minhas leituras, e por saber que era daquilo que Saint-Loup gostava, como me devia suceder dizer sinceramente a alguém que estava escrevendo a história de seu antepassado La Rochefoucauld, autor das Máximas, e que desejaria pedir conselhos à Robert:

            - Ele ficaria muito feliz. É que eu aprendera a conhecê-lo. Mas, ao vê-lo pela primeira vez, não acreditara que uma inteligência aparentemente minha pudesse envolver-se em tanta elegância exterior de indumentária suas atitudes. Devido a sua plumagem, eu o julgara um ser de outra espécie.

            Agora era Albertine quem, um pouco talvez porque Saint-Loup, em consideração para comigo, a tratara de modo tão frio, me disse o que eu havia pensado outrora:

            - Ah, ele é tão devotado assim?! Percebo que acham sempre todas as virtudes nas pessoas quando elas saem do faubourg Saint-Germain. -

            Ora, que Saint-Loup pertencesse ao faubourg Saint-Germain era coisa em que eu não pensara uma só vez sequer em todos esses anos, quando, despojando-se de seu prestígio, ele me manifestara as suas virtudes. Mudança de perspectiva para contemplar os seres, já mais impressionante na amizade que nas simples relações sociais, mas quanto mais ainda no amor, onde o desejo, numa escala tão vasta, aumenta em tamanhas proporções os menores sinais de frieza, que bem menos me seria necessário do que a que possuía de início Saint-Loup, para que eu me acreditasse desde o começo desdenhado por Albertine, para que imaginasse suas amigas como criaturas maravilhosamente inumanas e que só atribuísse à indulgência que se tem para com a beleza e para com uma certa elegância o juízo de Elstir, quando ele me dizia acerca do pequeno grupo, exatamente nos mesmos sentimentos que a Sra. de Villeparisis sobre Saint-Loup:      - São boas moças. -

            Ora, esse julgamento não era o que eu de bom grado faria ao ouvir Albertine dizer:

            - Em todo caso, devotado ou não, espero não mais tornar a vê-lo, já que ele causou desavença entre nós. Não devemos mais brigar. Não é justo. -

            Considerando que Albertine parecera ter desejado Saint-Loup, eu me sentia mais ou menos curado por algum tempo da idéia de que ela amava as mulheres, o que se me afigurava inconciliável. E, diante do impermeável de Albertine, no qual ela parecia tornar-se uma outra pessoa, a infatigável irradiação das tardes chuvosas, e que, colante, maleável e cinzento naquela ocasião, parecia menos proteger seu vestuário contra a água do que ter sido encharcado por ela e ligar-se ao corpo de minha amiga, como que para modelar-lhe as formas para um escultor, arranquei aquela túnica que esposava zelosamente um colo desejado e, puxando Albertine ao meu encontro:

            Mais toi, ne veux-tu pas, voyageuse indolente, Rêver sor mon épaule en y posant ton front?" [Senão queres, viajante indolente, sonhar no meu ombro, nele pousando a tua fronte?" (Poema "La maison du berger" [A casa do pastor] de Alfred de Vigny). (N. do T)]

- Disse-lhe, tomando sua cabeça em minhas mãos e lhe mostrando as grandes campinas inundadas e mudas que se estendiam no entardecer até o horizonte fechado pelas cadeias paralelas de longínquos e azulados vales.

            Dois dias depois, na quarta-feira famosa, nesse mesmo trem que acabava de tomar em Balbec para ir jantar a Raspeliére, tinha especial interesse em não perdê-lo à Cottard no Graincourt-Saint-Vast, onde um novo chamado telefônico da senhora de Verdurin me tinha indicado que encontraria. Devia subir no trem e me indicar onde  achar  os  carros  que  se  mandavam  à  estação,  de Raspeliére. Por isso, como o trem não se detinha mais que um instante em Graincourt, primeira estação depois de Doncières, localizei-me de antemão na portinhola, a tal ponto temia não vê-lo em Cottard ou que não me visse. Vãos temores! Não tinha advertido até onde o pequeno clã moldava seus membros conforme um mesmo tipo; estes  além disso,  esperavam  na  plataforma  em  grande  traje  de  ornamento  e  se reconheciam em seguida por certa expressão de segurança, elegância e familiaridade,  com as  olhadas  que  franqueavam  as  filas  apertadas  do público  vulgar,  como  um  espaço  livre  e  sem  obstáculos  à  vista, espreitavam a chegada de algum confrade que tinha tomado o trem na estação anterior e faiscavam já pela próxima conversação. Esse sinal de seleção que já tinha marcado aos membros do pequeno grupo,  pelo  costume  de  comerem  juntos,  não  só  os  distinguia quando  eram  numerosos  e  constituíam  uma  força,  agrupados  e formando  uma  mancha  mais  brilhante  no meio  do  turbilhão de passageiros; o que Brichot chamava o Pecus; sobre cujos rostos opacos não podia ler-se nenhuma noção relativa aos Verdurin, nenhuma esperança  de  jantar  jamais  na  Raspeliére.  Por outra parte,  esses passageiros vulgares se interessaram menos que eu se diante deles  se  pronunciassem; e  apesar  da  notoriedade  adquirida  por alguns, os nomes desses fiéis que me assombrava ver; continuavam jantando fora de sua casa; sendo deste modo que vários já o faziam desde antes de meu nascimento, segundo os relatos que tinha ouvido, em uma época; uma vez suficientemente vaga e distante para que me tentasse exagerar seu afastamento. O contraste entre a continuação não só de sua existência, mas sim da plenitude de suas forças e o aniquilamento de tantos amigos que já tinha visto desaparecer aqui ou lá, dava-me essa mesma sensação que experimentamos quando na ultima hora dos jornais lêem precisamente a notícia que menos esperávamos; por exemplo a de um falecimento prematuro e que nos parece fortuito, porque os motivos resultantes nos são desconhecidos. Esse sentimento é que a morte não alcança uniformemente a todos os homens, mas que uma onda mais avançada de sua trágica crescente arrasta uma existência  situada  ao  nível  de  outras  que  por  muito  mais  tempo perdoarão as ondas sucessivas. Veremos, por outra parte, mais tarde, a diversidade de quão mortos circulam invisivelmente e são a causa do inesperado especial que apresentam as necrologias dos jornais. Além disso, via que com o tempo não só se revelam e se impõem dons  reais  que  possam  coexistir  com  a  pior  vulgaridade  de conversação, mas sim até indivíduos medíocres chegam à esses lugares. Vinculados na imaginação de nossa infância a alguns anciões célebres sem pensar que o seriam, certo número de anos mais tarde, seus discípulos convertidos em Mestres; e que agora inspiram o respeito e o temor que experimentavam antes. Mas se os nomes dos fiéis não eram conhecidos dos peitilhos, seu aspecto, entretanto, os fazia muito visíveis. Até no trem (quando ao azar uns e outros falavam o que poderiam fazer no dia, os reunia a todos), não tendo que recolher na estação seguinte mais que um solitário, o vagão em que se encontravam juntos, designado pelo cotovelo do escultor Ski, adornado pelo Tempo de Cottard, florescia de longe como um carro de luxo e recolhia na estação requerida ao companheiro atrasado. O único ao qual lhe tivessem escapado esses sinais de promissão, devido a  sua  semi-cegueira,  era  Brichot.  Mas  também  um  dos confrades assegurava voluntariamente a favor do cego, as funções de vigilante, e assim que a gente visse seu chapéu de palha, seu guarda-chuva  verde  e  seus  óculos  verdes,  encaminhava-o  com  pressa  e doçura para o compartimento eleito. De tal sorte que não havia exemplo de que um dos fiéis extraviasse dos outros no percurso do caminho, a menos que provocasse as mais graves suspeita de farra ou até de não ter viajado com o trem.. Às vezes se produzia o inverso: um fiel tinha afastado-se bastante, na tarde e, por conseguinte, fazia sozinho parte do percurso, antes de que o alcançasse o grupo; mas até isolado nessa forma, sendo único em sua espécie, não deixava de produzir, o mais freqüentemente, algum efeito. O futuro fazia o qual se dirigia o designava à pessoa sentada no banco de em frente, a que se dizia:

            - Deve ser alguém. - distinguia uma vaga auréola já em volto ao chapéu flexível de Cottard ou do escultor Ski, e não se assombrava,  a não ser  na metade  quando,  na  estação  seguinte, uma multidão elegante, se era seu ponto terminal, recebia o fiel na portinhola e o acompanhava por volta de um dos carros que esperavam, sendo todos cumprimentados até o chão pelo empregado de Doville; ou invadia o compartimento se era uma estação intermediária. Era o que fazia precipitadamente, porque alguns tinham chegado com atraso justo no momento em que o trem, já na estação, dispunha-se a sair de novo, o turbilhão que Cottard conduziu a passo redobrado até o vagão em cujas janelas tinha visto meus sinais. Brichot, que se encontrava entre esses fiéis, era-o muito mais no curso desses anos, em que outros  tinham  diminuído  sua assiduidade.  Sua  vista  se  debilitava progressivamente, e o tinha obrigado, até em Paris, a diminuir cada vez mais os trabalhos noturnos. Por outra parte, pouca simpatia tinha pela Nova Sorbonne, em que as idéias de exatidão científica à alemã começavam a prevalecer sobre o humanismo. Agora, limitava-se exclusivamente ao seu curso e às bancas de exame; dispunha também de muito mais tempo para se dedicar ao mundanismo, ou seja, às reuniões dos Verdurin, ou àquelas oferecidas às vezes aos Verdurin por um ou outro fiel, trêmulo de emoção. É verdade que em duas ocasiões o amor quase fizera o que os trabalhos já não podiam mais: desligar Brichot do pequeno clã. Contudo, a Sra. Verdurin, que "velava por sua sementeira" e, aliás, tendo se habituado a isso no interesse de seu salão, acabara por encontrar um prazer desinteressado nesse gênero de dramas e de execuções, fizera-o romper irremediavelmente com a pessoa perigosa, pois sabia, como ela mesma o afirmava, "para ordem em tudo" e "aplicar o ferro em brasa na ferida". Isto lhe fora tanto mais fácil no caso de uma das pessoas perigosas, que era simplesmente lavadeira de Brichot, e a Sra. Verdurin, que tinha livre acesso ao quinto andar do professor, rubra de orgulho quando se dignava a subir-lhe as escadas; não fizera mais que pôr no olho da rua aquela mulher de nada.

            Como dissera a Patroa a Brichot:

            - Uma mulher feito eu lhe faz a honra de vir à sua casa e o senhor recebe uma criatura dessas? -

            Brichot jamais esquecera o serviço que a Sra. Verdurin lhe havia prestado, ao impedir que sua velhice soçobrasse no lodo, e se lhe mostrava cada vez mais apegado, ao passo que, em contraste com essa renovada afeição e talvez devido a ele, a Patroa começava a se aborrecer com um fiel excessivamente dócil; com a obediência do qual estava certa por antecipação. Mas Brichot extraía de sua intimidade com os Verdurin um brilho que o distinguia entre todos os colegas da Sorbonne. Estes ficavam deslumbrados com a narrativa que Brichot lhes fazia de jantares aos quais nunca seriam convidados, com a menção nas revistas; ou o retrato exposto no Salão, que dele haviam feito este ou aquele escritor ou pintor famosos; cujo talento os titulares das outras cátedras da Faculdade de Letras prezavam; mas sem terem a menor possibilidade de chamar a atenção, enfim, com a própria elegância indumentária do filósofo mundano; elegância que a princípio haviam tomado por displicência, até que seu colega benevolamente lhes explicasse, que fica bem pousar a cartola no chão, no decorrer de uma visita, e não é adequada para os jantares no campo, por mais elegantes que sejam, onde convém que a substituam pelo chapéu de feltro que cai muito bem com o smoking. Durante os primeiros segundos em que o pequeno grupo se engolfou no vagão, nem sequer pude falar a Cottard, pois ele estava sufocado, menos por haver corrido para apanhar o trem do que pelo encantamento de tê-lo apanhado tão a tempo. Com isso, experimentava mais que a alegria de um êxito quase que a hilaridade de boa farsa.

            - Ah, essa é boa! - disse ele, ao se recobrar. - Um pouco mais... Puxa! Isto é o que se chamaria chegar a propósito! - acrescentou piscando o olho, não para indagar se a expressão era correta, pois agora transbordava de segurança, mas por satisfação. Por fim, conseguiu apresentar-me aos outros membros do pequeno clã. Aborreceu-me verificar que estavam quase todos vestindo o que em Paris se chama smoking. Eu havia esquecido que os Verdurin principiavam uma evolução tímida em direção à sociedade, atenuada pelo Caso Dreyfus, acelerada pela música "nova", evolução, aliás, desmentida por eles, e que continuariam a desmentir até que houvesse chegado a bom termo, como esses objetivos militares que um general só anuncia quando os alcançou, de modo a não parecer derrotado se lhe falharem. De outra parte, a sociedade estava bem preparada para ir a seu encontro. Eram ainda considerados como pessoas que ninguém da sociedade freqüentava, mas que pouco se importavam com isso. O salão Verdurin passava por um templo da música. Fora lá, diziam, que Vinteuil encontrara inspiração e encorajamento. Ora, se a sonata de Vinteuil continuava totalmente incompreendida e mais ou menos desconhecida, o seu nome, pronunciado como o do maior compositor contemporâneo, era dotado de um prestígio extraordinário. Enfim, tendo certos jovens do faubourg achado que deviam ser tão instruídos como os burgueses, havia três dentre eles que tinham aprendido música e junto aos quais a sonata de Vinteuil gozava de imensa reputação. De volta para casa, falavam nisso à mãe inteligente que os impelira a cultivar-se. E, interessando-se pelos estudos dos filhos, as mães, no concerto, olhavam com algum respeito a Sra. Verdurin, que, no camarote de primeira, seguia a partitura. Até aqui, esse mundanismo latente dos Verdurin só se traduzia por dois fatos. Por um lado, a Sra. de Verdurin dizia da princesa de Caprarola:

            - Ah! Essa é inteligente, é uma mulher agradável. O que não posso tolerar são os imbecis, as pessoas que me enfadam, isso me deixa louca. -

            O que faria pensar a alguém um pouco inteligente que a princesa de Caprarola, mulher da mais alta sociedade, fizera uma visita à Sra. Verdurin. Tinha até chegado a pronunciar seu nome por ocasião de uma visita de pêsames à Sra. Swann, após a morte do marido desta, e lhe perguntara se ela os conhecia.

            - Como diz? - retrucara Odette, com ar subitamente triste. - Verdurin. - Ah! Então sei -volvera ela desolada. - Não os conheço, ou melhor, conheço-os sem conhecer, são gente que vi outrora em casa de amigos, há muito tempo; são agradáveis. -

            Logo que a princesa de Caprarola partiu, Odette bem que desejaria ter dito simplesmente a verdade. Mas a mentira imediata era não o produto de seus cálculos, mas a revelação de seus temores, de seus desejos. Ela negava não o que seria hábil negar, mas o que desejaria fosse inexistente, mesmo que o interlocutor viesse a saber uma hora depois que de fato se tratava disso. Pouco depois readquiria a sua segurança e até a ir ao encontro das perguntas, dizendo, para não parecer que alheia chegava:

            - Mas como! A Sra. Verdurin? Conheci-a enormemente. Como receava a reação de humildade, feito uma grande dama que conta que pegam uma afetação.

            - Faz algum tempo, fala-se muito nos Verdurin - dizia a senhora no bonde.

            Odette, com um desdenhoso sorriso de duquesa, respondia:

            - Se ouve sim; parece-me de fato que se fala muito neles de tempos em tempos; claro que -há dessa gente nova chegando à sociedade sem pensar em tempos, e ela era uma das mais novas.

            - A princesa de Caprarola jantou conosco, ela mesmo - replicou a Sra. de Souvré.

            - Ah! - respondeu Odette, acentuando casa de Verdurin com seu sorriso. - Isto não me espanta. É sempre pela princesa que essas coisas principiam; e depois vai uma outra, a condessa Capraroli por exemplo. -

            Dizendo isto, Odette demonstrava um profundo desdém por essas duas grandes damas que tinham o hábito de inaugurar os salões recém abertos. No seu tom, sentia-se que isso queria dizer que tanto ela, Odette, como a Sra. de Souvré não se deixariam levar por uma coisa dessas. Depois da confissão feita pela Sra. Verdurin acerca da inteligência da princesa de Caprarola, o segundo sinal de que os Verdurin tinham consciência de seu futuro destino era que (sem o ter formalmente pedido, é claro) desejavam que viesse jantar em sua casa em traje de gala; o Sr. Verdurin poderia ser saudado sem constrangimento pela recepção; pois aquele que estava "em apuros" seu sobrinho estava agora em alta esfera.

            Entre os que subiram para o meu vagão em Graincourt, estava Saniette, que antigamente fora expulso da casa dos Verdurin por seu primo Forcheville, porém retornara. Seus defeitos, do ponto de vista mundano, eram outrora apesar das qualidades superiores, do mesmo tipo dos de Cottard: timidez, desejo de agradar, e foram poupados para consegui-lo. Mas se a vida, fazendo com que Cottard parecesse frio, de aparências de Trino seu desdém, de gravidade, que se acentuavam enquanto dizia suas proezas, diante dos alunos complacentes; e não em casa dos Verdurin (onde, pela sugestão que exercem revestidos minutos antigos, quando novamente nos achamos num ambiente sobrenatural), permanecera um pouco o mesmo; ao menos em sua clínica, no serviço do hospital, na Academia de Medicina, cavara um verdadeiro abismo entre o Cottard atual e o antigo. Esses mesmos defeitos, ao contrário, eram exagerados em Saniette, à medida que este procurava corrigi-los. Viam que era enfadonho muitas vezes, que não o escutavam, em vez de ir devagar como Cottard o teria feito, e forçar a atenção com sua autoridade; não somente procurava, com ar brincalhão, fazer-se perdoar de autoridade excessivamente sério de sua conversa, mas também apressava ao tom de locução, cortava, empregava abreviações para parecer menos longo, mais familiar com as coisas de que falava, e apenas conseguia, fazendo-as ininteligíveis, parecer interminável. Sua segurança não era como a de Cottard, que gelava seus doentes, os quais respondiam às pessoas que elogiavam a sua amenidade nos salões:

            - Não é mais o mesmo homem quando nos recebe em seu consultório, nós em plena luz, e ele na contraluz, o olhar penetrante. -

            A segurança de Saniette não se impunha, sentia-se que ocultava demasiada timidez, que bastaria um nada para pô-la em fuga. Saniette, a quem os amigos sempre diziam que desconfiava muito de si mesmo, e que de fato via pessoas (a quem julgava, com razão, bastante inferiores) obterem facilmente o sucesso que lhe era recusado, já não começava uma história sem sorrir do engraçado da mesma, com receio de que um ar de seriedade não valorizasse bastante a sua mercadoria. Às vezes, dando crédito à comicidade que ele próprio parecia achar no que ia dizer, faziam-lhe o favor de um silêncio geral. Mas a narrativa fracassava inteiramente. Um conviva dotado de bom coração deslizava por vezes a Saniette o estímulo privado, quase secreto, de um sorriso de aprovação, fazendo-o chegar furtivamente até ele, sem chamar atenção, como se deslizasse um bilhete. Mas ninguém ia ao ponto de assumir a responsabilidade, a arriscar a adesão pública de uma boa risada. Muito tempo depois de finda e liqüidada a história, Saniette, desolado, ficava sorrindo sozinho consigo mesmo, como se ainda desfrutasse nela, e para si próprio, o deleite que fingia achar bastante e que os demais não haviam sentido. Quanto ao escultor Ski, assim chamado por causa da dificuldade que sentiam de pronunciar o seu nome polonês, e porque ele próprio afetava, desde que vivia numa certa sociedade, não querer ser confundido com parentes em muito boa posição social, mas um tanto aborrecidos e muito numerosos, tinha, aos quarenta e cinco anos e bastante feio, uma espécie de criancice, de fantasia sonhadora que conservara por ter sido, até os dez anos, o mais arrebatador menino-prodígio do mundo, coqueluche de todas as damas. A Sra. Verdurin afirmava que ele era mais artista que Elstir. Aliás, Ski não possuía com aquele senão semelhanças meramente externas. Bastaram para que Elstir, que certa vez se encontrara com Ski, sentisse por ele a profunda repulsa que nos inspiram, mais ainda que as criaturas inteiramente opostas a nós, aqueles que se nos assemelham para pior, nos quais se ostenta o que possuímos de menos bom, os defeitos de que nos curamos, lembrando-nos de modo deplorável o que poderíamos ter parecido a certas pessoas antes que nos tornássemos o que somos. Mas a Sra. Verdurin achava que Ski tinha mais temperamento que Elstir porque não havia nenhuma arte para a qual ele não tivesse facilidade, e estava convencida de que ele poderia erguer essa facilidade até o talento, caso fosse menos preguiçoso. E, para a Patroa, essa preguiça parecia um dom a mais, sendo o contrário do trabalho, que ela julgava o quinhão das criaturas sem gênio. Ski pintava tudo o que quisesse sobre botões de punho ou bandeiras de portas. Cantava com voz de compositor, tocava de ouvido, dando no piano a impressão de orquestra, menos por seu virtuosismo do que pelos seus falsos baixos, que significavam a impotência dos dedos, para indicar que ali havia um pistão, que aliás imitava com a boca. Procurando as palavras ao falar, para fazer crer numa impressão curiosa, da mesma forma que retardava um acorde vibrado em seguida, dizendo:

            "Ping", para fazer sentir os cobres, passava por ser maravilhosamente inteligente, mas suas idéias na verdade se resumiam em duas ou três grandemente limitadas. Aborrecido com sua reputação de fantasioso; metera na cabeça mostrar que era uma pessoa prática, positiva, de onde lhe provinha uma afetação triunfante de falsa precisão, de falso bom-senso, agravados por sua falta de memória e pelas informações sempre inexatas. Seus movimentos de cabeça, de pescoço, de pernas teriam sido graciosos se ele ainda tivesse nove anos, cachos louros, uma grande gola de rendas e botinhas de couro vermelho. Tendo os dois chegado à estação de Graincourt antes da hora, como Cottard e Brichot, tinham ido dar uma volta, deixando Brichot na sala de espera. Quando Cottard quisera retornar, Ski respondera:

            - Nada de pressa. Hoje não é o trem local que passa, é o departamental. -

            Encantado por ver o efeito que essa nuança de precisão produzia em Cottard, acrescentou, falando de si mesmo:

            - Sim, porque Ski ama as artes, modela o barro, julgam que ele não é prático. Ninguém conhece a linha melhor que eu. -

            Não obstante, tinham voltado para a gare, quando de repente, percebendo a fumacinha do trenzinho que chegava, Cottard, dando um berro, gritara:

            - Não temos mais que correr desabaladamente. -

            Com efeito, tinham chegado justo a tempo, pois a diferença entre o trem local e o trem departamental só existira na cabeça de Ski.

            - Mas será que a princesa não está no trem? - perguntou Brichot com voz vibrante. Suas enormes lunetas, resplendentes como os refletores que os laringologistas prendem à testa para iluminar a garganta dos pacientes, pareciam ter emprestado sua vida aos olhos do professor e, talvez devido ao esforço que este fazia para acomodar sua visão a elas, pareciam, ainda que nos mais insignificantes momentos, olhar por si mesmas com uma atenção contínua e uma extraordinária fixidez. A doença, aliás, tirando aos poucos a vista a Brichot, revelara-lhe as belezas deste sentido, como tantas vezes é necessário que nos decidamos a separar-nos de um objeto, dá-lo de presente por exemplo, para que o contemplemos, lastimemos, admiremos.

            - Não, não, a princesa foi acompanhar até Maineville alguns convidados que tomavam o trem para Paris. Nem mesmo seria impossível que a Sra. Verdurin, que tinha o que fazer em Saint-Mars, estivesse com ela! Assim, viajaria conosco e trilharíamos juntos o caminho, seria agradável. Trataremos de abrir o olho em Maineville, e bem! Ah! Não tem importância, pode-se dizer que quase perdemos a carruagem.

            Quando vi o trem, fiquei siderado. É o que se chama chegar no momento psicológico. Imaginem se tivéssemos perdido o trem. A Sra. Verdurin, vendo que os carros chegavam sem nós: tableau! - acrescentou o doutor, que ainda não se refizera do susto.

            - Eis uma aventura nada vulgar. Então, Brichot, que diz da nossa escapadela? - indagou o doutor com certo orgulho.

            - Palavra de honra - respondeu Brichot; de fato, se você não tivesse achado o trem, teria sido, como diria o finado Villemain, um profundo golpe para o bando! -

            Mas eu, distraído desde os primeiros instantes por essa gente a quem não conhecia, lembrei-me de súbito do que Cottard me havia dito no salão de dança do pequeno cassino, e, como se um elo invisível pudesse reatar um órgão e as imagens da lembrança, a de Albertine, apoiando seus seios contra os de Andrée, causava-me uma dor terrível ao coração. Esse mal não durou muito; a idéia de eventuais relações entre Albertine e outras mulheres já não me parecia possível desde a antevéspera, quando as provocações que minha amiga fizera a Saint-Loup haviam excitado em mim um novo ciúme que fizera esquecer o primeiro. Eu tinha a ingenuidade das criaturas que julgam que um gosto obrigatoriamente exclui o outro. Em Arembouville, como o trem estivesse superlotado, entrou no nosso compartimento um granjeiro de macacão azul, que só possuía uma passagem de terceira. O doutor, achando que não se poderia deixar viajar a princesa em tal companhia, chamou um empregado, exibiu seu cartão de médico de uma grande companhia de estrada de ferro, e forçou o chefe da estação a mandar descer o granjeiro. Esta cena magoou tanto o bom coração e alarmou de tal modo a timidez de Saniette que, desde que a viu começar, temendo já, devido à quantidade de camponeses que se achavam na plataforma, que assumisse as proporções de uma insurreição popular, fingiu estar com dor de barriga e, para que não pudessem acusá-lo de ter sua parte de responsabilidade no ato de violência do doutor, enfiou pelo corredor pretextando encontrar o que Cottard denominava os waters. Não os achando, pôs-se a olhar a paisagem de outra extremidade do "tortinho".

            - Se são estas as suas estréias na casa da Sra. Verdurin, senhor - disse-me Brichot, que fazia questão de mostrar seus talentos a um "novato" -, verá que não existe ambiente onde melhor se sinta a "doçura de viver", como dizia um dos inventores do diletantismo, do que-me-importismo, de muitas palavras em "ismo" que estão na moda entre nossas snobinettes; quero referir-me ao senhor príncipe de Talleyrand. -

            Pois, quando falava desses grandes senhores do passado, achava espirituoso e "cor da época" fazer preceder seu título de príncipe, e dizia "senhor duque de La Rochefoucauld", "senhor cardeal de Retz", aos quais também chamava, de quando em vez: "Esse strugo for lifer de Gondi", "esse boulangista de Marcillac". E nunca deixava de chamar Montesquieu, com um sorriso, quando falava dele: "O senhor presidente Secondat de Montesquieu." Um mundano de espírito ficaria agastado com esse pedantismo que cheirava a escola. Mas, nas maneiras perfeitas de um mundano ao falar de um príncipe, existe igualmente um pedantismo que trai uma outra casta, aquela em que se faz preceder o nome de Guilherme de "o imperador" e no qual se fala na terceira pessoa a uma Alteza.

            - Ah, esse - prosseguiu Brichot, falando do "senhor príncipe de Talleyrand" -, é preciso saudá-lo de chapéu na mão. É um antepassado.

            - É um meio encantador - disse-me Cottard; - o senhor encontrará um pouco de tudo, pois a Sra. Verdurin não é exclusivista: sábios ilustres como Brichot, gente da alta nobreza, como, por exemplo, a princesa Sherbatoff, uma grande dama russa, amiga da grã-duquesa Eudoxie, e que só a visita mesmo às horas em que ninguém mais é recebido. -

            De fato, a grã-duquesa Eudoxie, embora não se incomodasse que a princesa Sherbatoff, que desde muito tempo não era mais recebida por ninguém, fosse à sua casa quando pudesse haver visitas, deixava-a vir somente bem cedinho, quando não tinha junto dela nenhum dos amigos aos quais teria sido tão desagradável encontrar a princesa, como constrangedor seria para esta. Como fazia três anos que, logo após ter deixado, feito uma manicure, a grã-duquesa, a Sra. Sherbatoff partia para a casa da Sra. Verdurin, que recém acabava de acordar, e não mais a largava, pode-se dizer que a fidelidade da princesa ultrapassava infinitamente até a de Brichot, entretanto tão assíduo a essas quartas-feiras, onde tinha o prazer de julgar-se, em Paris, uma espécie de Chateaubriand na Abbaye-aux-Bois, e onde, no campo, experimentava a ilusão de tornar-se o equivalente do que podia ser, na casa da Sra. du Châtelet, aquele a quem sempre chamava (com malícia e satisfação de letrado): "o Sr. de Voltaire". Sua falta de relações permitira à princesa Sherbatoff mostrar aos Verdurin, desde alguns anos, uma fidelidade que fazia dela mais que uma "fiel" comum, a fiel típica, o ideal que a Sra. Verdurin por muito tempo julgara inacessível e que agora, na idade crítica, achava por fim encarnada nessa nova recruta feminina. Por mais que os ciúmes torturassem a Patroa, não havia exemplo de que os mais assíduos de seus fiéis não a tivessem "largado" alguma vez. Os mais caseiros se deixavam tentar por uma viagem; os mais castos tinham tido uma aventura; os mais robustos podiam apanhar uma gripe; os mais ociosos estar ocupados durante as vinte e quatro horas; os mais indiferentes ir fechar os olhos da mãe agonizante. E era debalde que a Sra. Verdurin lhes dizia então, como a imperatriz romana, que ela era o único general a quem sua legião deveria obedecer, ou, como o Cristo ou o Kaiser, que aquele que amava o pai e a mãe tanto quanto a ela própria, e não estava pronto para deixá-los e segui-la, não era digno dela, que, em vez de se exaurir no leito ou se deixar enganar por uma prostituta, fariam melhor em permanecer junto dela, remédio único e única volúpia. Porém, o destino, que às vezes se compraz em embelezar o fim das existências muito prolongadas, fizera com que a Sra. Verdurin encontrasse a princesa Sherbatoff. Brigada com a família, exilada de seu país, conhecendo apenas a baronesa Putbus e a grã-duquesa Eudoxie, a cujas residências, como não tivesse vontade de encontrar as amigas da primeira, e visto que a segunda não desejava que suas amigas encontrassem a princesa, ela só comparecia às horas matinais, quando a Sra. Verdurin ainda estava dormindo, não se recordando de ter ficado de cama uma única vez desde os doze anos, quando tivera rubéola, tendo respondido no dia 31 de dezembro à Sra. Verdurin, que, inquieta por estar sozinha, lhe perguntara se não podia ficar, para dormir de improviso, apesar da passagem do ano:

            - Mas o que é que poderia me impedir de ficar, seja qual for o dia? Além disso, nesse dia a gente fica em família, e vocês são a minha família -, vivendo numa pensão e mudando de pensão quando os Verdurin se mudavam, seguindo-os em seus veraneios, a princesa realizara tão admiravelmente, para a Sra. Verdurin, o verso de Vigny: Toi seuie me parus ce qu'on cherche toujours.["Só tu me apareceste o que se busca sempre." (N. do T)]; que a presidenta do pequeno círculo, desejosa de assegurar-se uma "fiel" até a morte, pedira-lhe que a que morresse por último se fizesse enterrar ao lado da outra.

            Diante de estranhos entre os quais é preciso incluir sempre aquele a quem mais mentimos, porque é aquele por quem nos seria mais penoso ser desprezado: nós mesmos; a princesa Sherbatoff tinha o cuidado de representar suas três únicas amizades com a grã-duquesa, com os Verdurin e com a baronesa Putbus como as únicas, não devido a cataclismos independentes de sua vontade que as tivessem feito emergir em meio à destruição de tudo o mais, mas que uma livre escolha as fizera eleger de preferência a quaisquer outras, e às quais um certo gosto pela Sra. Verdurin. Eles conhecem todo mundo. E depois, pelo menos, não são grã-finos de meia-tigela. Têm peso. Em geral, avalia-se que a Sra. Verdurin tem uma fortuna de trinta e cinco milhões. Diabo! Trinta e cinco milhões já é alguma coisa! Assim, não é das que lambem a colher.            - O senhor me falava da duquesa de Guermantes. Vou lhe dizer a diferença: a Sra. Verdurin é uma grande dama; a duquesa de Guermantes provavelmente é uma simplória. Percebe bem a nuança, não é? Em todo caso, que os Guermantes compareçam ou não à casa da Sra. Verdurin, ela recebe, o que vale mais, os d'Sherbatoff, os d'Forcheville, e tutti quanti, pessoas da mais alta classe, toda a nobreza da França e de Navarra, a quem o senhor me verá falar de igual para igual. Aliás, esse gênero de pessoas de bom grado procura os príncipes da ciência -acrescentava com um sorriso de amor-próprio beato, levado a seus lábios pela satisfação orgulhosa, não porque a expressão, outrora aplicada aos Potain, aos Charcot, se aplicasse a ele agora, mas porque enfim sabia empregar como convinha todas as que o uso autoriza e que, depois de as ter estudado por muito tempo, ele dominava a fundo. Assim, após me haver citado a princesa Sherbatoff entre as pessoas que a Sra. Verdurin recebia, Cottard acrescentou, piscando o olho:

            - Vê o tipo da casa, compreende o que quero dizer? -

            Com isso, queria significar o que existe de mais grã-fino. Ora, receber uma dama russa que só conhecia a grã-duquesa Eudoxie era pouco. Porém, mesmo que a princesa Sherbatoff não a conhecesse, nem por isso diminuiria a opinião de Cottard quanto à suprema elegância do salão Verdurin e à sua alegria de ser recebido ali. O esplendor de que nos parecem revestidas as pessoas que freqüentamos não é mais intrínseco do que o dessas personagens de teatro, para cujo vestuário é inútil que um diretor gaste centenas de milhares de francos na compra de roupas autênticas e de jóias verdadeiras que não produzirão efeito algum, quando um grande decorador dará uma impressão de luxo mil vezes mais suntuoso, ao dirigir um raio fictício sobre um gibão de pano grosseiro, semeado de tampinhas de vidro e sobre um manto de papel. Certo homem terá passado a sua vida no meio dos graúdos da terra, que para ele não eram mais que fastidiosos parentes, ou relações aborrecidas, porque um hábito, contraído desde o berço, os despojara a seus olhos de todo prestígio. Mas, em compensação, basta que esse prestígio venha, por algum acaso, acrescentar-se às pessoas mais obscuras, para que incontáveis Cottards tenham vivido ofuscados por mulheres tituladas, cujo salão imaginavam ser o centro de elegâncias aristocráticas, e que nem ao menos eram o que representavam a Sra. de Villeparisis e suas amigas (grandes damas decaídas que a aristocracia que fora educada com elas não mais freqüentava); não, essas, cuja amizade foi o orgulho de tantas pessoas, se essa gente publicasse suas Memórias e desse o nome de tais mulheres e das que elas recebiam, ninguém, tanto a Sra. de Cambremer como a Sra. de Guermantes, poderia identificá-las. Mas que importa! Um Cottard, assim, tem sua baronesa ou sua marquesa, que, para ele, é "a baronesa" ou "a marquesa", como, em Marivaux, a baronesa de quem nunca se diz o nome e da qual não se tem a mínima idéia de que alguma vez tivesse tido um. Cottard tanto mais julga encontrar aí resumida a aristocracia a qual ignora essa dama como, quanto mais duvidosos são os títulos, mais as coroas ocupam lugar nas taças, na prataria, no papel de cartas, nas malas. Numerosos Cottards, que acreditaram passar suas vidas no coração do faubourg Saint-Germain, tiveram talvez sua imaginação mais encantada de sonhos feudais do que os que efetivamente viveram entre príncipes, da mesma forma que, para o pequeno comerciante que aos domingos vai por vezes visitar edifícios "dos velhos tempos", é às vezes naqueles em que todas as pedras são da nossa época, e cujas abóbadas foram pintadas de azul e semeadas de estrelas de ouro pelos discípulos de Viollet-le-Duc, que mais tem a sensação de Idade Média.

            - A princesa estará em Maineville. Viajará conosco. Mas não o apresentarei a ela de imediato. Será preferível que a Sra. Verdurin o faça. A menos que eu encontre uma oportunidade. Pode estar certo de que então a agarrarei pelos cabelos.

            - De que estavam falando? - perguntou Saniette, que fingia ter ido tomar um pouco de ar.

            - Eu citava a este cavalheiro - disse Brichot - uma frase que o senhor conhece bem, daquele que, na minha opinião, é o primeiro dos fins de século (do século XVIII, bem entendido), o supracitado Charles-Maurice, abade de Périgord. Começara prometendo tornar-se um bom jornalista. Mas desencaminhou-se, quero dizer, fez-se ministro! A vida tem dessas desgraças. Político aliás pouco escrupuloso, que, com desdéns de grão-senhor de raça, não se constrangia em trabalhar em suas horas pelo rei da Prússia, é o caso de se dizer, e morreu na pele de um centro-esquerda.

            Em Saint-Pierre-des-lfs subiu uma jovem esplêndida que, infelizmente, não fazia parte do pequeno grupo. Eu não podia desviar os olhos de sua carne de magnólia, de seus olhos pretos, da alta e admirável construção de suas formas. Passado um instante, ela quis abrir uma janela, pois fazia calor no compartimento, e, não desejando pedir licença a todos, como só eu não estivesse de capa, disse-me com voz rápida, fresca e risonha:

            - Não lhe incomoda o ar, cavalheiro? -

            Desejaria dizer-lhe:

            - Venha conosco à casa dos Verdurin ou: - Diga-me seu nome e seu endereço. - Respondi: - Não, o ar não me incomoda, senhorita. -

            E em seguida, sem se mover do lugar:

            - O fumo não incomoda seus amigos? e acendeu um cigarro. Na terceira estação, ela desceu de um salto. No dia seguinte, perguntei a Albertine quem poderia ser. Pois, estupidamente, julgando que só se pode amar a uma coisa, enciumado com a atitude de Albertine a respeito de Robert, sentia-me seguro quanto às mulheres. Albertine me disse, creio que sinceramente, que não sabia.

            - Gostaria tanto de tornar a vê-la! - exclamei.

            - Sossegue, a gente se encontra sempre de novo - observou Albertine.

            Nesse caso particular, ela se enganava; jamais voltei a ver nem a identificar a linda jovem do cigarro. De resto, veremos porque, durante muito tempo, tive de deixar de procurá-la. Mas não a esqueci. Muitas vezes me ocorre, ao pensar nela, ser tomado de um desejo louco. Mas esses retornos do desejo obrigam-nos a refletir que, se quiséssemos reencontrar essas moças com o mesmo prazer, seria também necessário regressar ao ano que depois foi seguido por dez outros durante os quais a moça perdeu o frescor. Às vezes, pode-se encontrar uma criatura, mas não abolir o tempo. Tudo isso até o dia, triste e imprevisto como uma noite de inverno, em que já não procuramos aquela moça, nem qualquer outra, e em que encontrá-la chegaria a assustar-nos. Pois já não sentimos atrativos suficientes para agradar, nem forças para amar. Não, é claro, que a gente esteja, no sentido próprio do termo, impotente. E, quanto a amar, amaríamos mais que nunca. Mas sentimos que se trata de uma empreitada demasiado grande para o pouco de forças que nos resta. O repouso eterno já dispôs intervalos em que não se pode sair nem falar. Pôr o pé no degrau devido é uma vitória, como não falhar no salto mortal. Ser visto nesse estado por uma mocinha a quem amamos, mesmo que tenhamos conservado o rosto e os cabelos louros de rapaz! Já não podemos nos arriscar ao cansaço de acompanhar o passo da juventude. Tanto pior se o desejo carnal reduplica ao invés de se amortecer! Trazem-nos então uma mulher a quem não nos preocupamos em agradar, que só por uma noite partilhará o nosso leito e que nunca mais veremos.

            - Devem continuar não tendo notícias do violinista - disse Cottard.

            De fato, o acontecimento do dia no pequeno clã era o "sumiço" do violinista predileto da Sra. Verdurin. Prestando serviço militar perto de Doncieres, ele vinha três vezes por semana jantar em La Raspeliere, pois tinha licença noturna. Ora, na antevéspera, pela primeira vez os fiéis não tinham conseguido descobri-lo no trem. Supusera-se que havia faltado. Mas embora a Sra. Verdurin tivesse mandado esperar o trem seguinte, e por fim o último, o carro voltara vazio.

            - Certamente, ele está preso, não há outra explicação para a sua fuga. Ah, diabos! Vocês sabem, no serviço militar, com esses rapazes, basta um sargento ranzinza.

            - Será tanto mais mortificante para a Sra. Verdurin - disse Brichot se ele "some" ainda esta noite, quando nossa amável anfitriã recebe para jantar, justamente pela primeira vez, os vizinhos que alugaram La Raspeliere, o marquês e a marquesa de Cambremer.

            - Esta noite, o marquês e a marquesa de Cambremer! - gritou Cottard. - Mas eu não sabia absolutamente nada. Naturalmente sabia, como todos vocês, que eles deveriam vir um dia, mas não imaginava que estivesse tão próximo. Diabos! - disse ele, voltando-se para mim: que foi que lhe disse: a princesa Sherbatoff, o marquês e a marquesa de Cambremer. - E depois de ter repetido esses nomes, embalando-se com sua melodia: - Bem vê que atiramos bem. Não importa -disse ele -, para quem está começando, o senhor acerta em cheio. Vai ser um espetáculo brilhante. - E, voltando-se para Brichot, acrescentou: - A Patroa deve estar furiosa. Já é hora de chegarmos para lhe dar auxílio. -

            Desde que a Sra. Verdurin estava na Raspeliere, afetava, diante dos fiéis, estar de fato na obrigação e no desespero de convidar uma vez os seus proprietários. Assim, dizia, teria melhores condições para o ano seguinte, e não o fazia senão por interesse. Mas pretendia ter tamanho horror, achar uma tal monstruosidade um jantar com pessoas que não fossem do pequeno grupo, que o adiava sempre. Aliás, se o jantar a assustava um pouco pelos motivos que ela proclamava, exagerando-os, por outro lado, encantava-a por razões de esnobismo que ela preferia calar. Portanto, era meio sincera, julgava o pequeno clã como algo de tão único no mundo, um desses conjuntos que levam séculos para que se constitua outro idêntico, que tremia à idéia de ver nele introduzidas essas pessoas provincianas, que ignoravam a Tetralogia e os Mestres, que não saberiam sustentar sua parte no concerto da conversação geral e eram capazes, comparecendo à casa da Sra. Verdurin, de destruir uma das famosas quartas-feiras, obras-primas incomparáveis e frágeis, semelhantes aos cristais de Veneza que uma nota desafinada basta para quebrar.

            - Além disso, devem ser o que há de mais anti-militaristas - dissera o Sr. Verdurin.

            - Ah, isso, por exemplo, pouco me importa, já faz muito tempo que falam nessa história -respondera a Sra. Verdurin, que, sinceramente dreyfusista, desejaria no entanto encontrar, na preponderância de seu salão dreyfusista, uma recompensa mundana. Ora, o dreyfusismo triunfava politicamente, mas não entre os mundanos. Labori, Reinach, Picquart e Zola continuavam sendo, para a gente mundana, uns traidores que só podiam afastá-los do pequeno núcleo. Assim, depois dessa incursão na política, a Sra. Verdurin fazia questão de regressar à arte. Aliás, d'Indy e Debussy não estavam "mal" no Caso Dreyfus?

            - No que tange ao Caso, não teríamos mais que colocá-los junto de Brichot - disse ela, pois o universitário era o único dos fiéis que tomara o partido do Estado-Maior, o que o fizera baixar muito na estima da Sra. Verdurin. - Não se é obrigado a falar eternamente do Caso Dreyfus. Não, a verdade é que os Cambremer me aborrecem. -

            Quanto aos fiéis, tão excitados pelo desejo inconfesso que tinham de conhecer os Cambremer como iludidos pelo aborrecimento representado que a Sra. Verdurin dizia sentir em recebê-los, retomavam todos os dois conversando com ela, os frágeis argumentos que ela própria invocava - favor desse convite, buscavam torná-los irresistíveis.

            - Decida-se de uma vez - repetia Cottard -, e terá as concessões quanto ao aluguel, eles que pagarão o jardineiro, e os senhores poderão utilizar-se do prado.

            - Tudo isso bem vale a pena de aborrecer-se por uma noite. Só falo disso no interesse - acrescentava, conquanto o coração lhe palpitasse uma vez, quando, no carro da Sra. Verdurin, havia cruzado com o da velha Sra. de Cambremer na estrada, e sobretudo ao ser humilhado pelos empregados da estrada de ferro, quando se encontrava perto do marquês, na estação. Por seu turno, os Cambremer, vivendo realmente muito longe do movimento mundano para poderem sequer suspeitar que certas mulheres elegantes falavam da Sra. Verdurin com alguma consideração, imaginavam que este era uma pessoa que só podia conhecer boêmios, não era nem mesmo intimamente casada, e que, no tocante a pessoas "bem nascidas", não veria nunca senão a eles, Cambremer. Resignavam-se a jantar na casa dela, ao menos para estarem em bons termos com uma locatária cujo retorno esperavam por numerosas temporadas, sobretudo desde que tinham sabido, no mês anterior, que ela havia acabado de herdar tantos milhões. Era em silêncio e sem gracejos de mau gosto que eles se preparavam para o dia falar. Os fiéis já não esperavam que eles comparecessem algum dia, pois a Sr. Verdurin tantas vezes fixara, diante deles, a data sempre mudada. Essas falsas resoluções objetivavam não só fazer ostentação do tédio que lhe provocava esse jantar, como também manter em suspense os membros do pequeno grupo que residiam nas vizinhanças e eram às vezes tentados a abandoná-la. Não que a Patroa adivinhasse que o "grande dia" lhes era tão agradável quanto a si própria, mas porque, tendo-os persuadido que tal jantar era para ela a mais terrível das maçadas, podia apelar para o seu devotamento.

            - Vocês não vão me deixar sozinha frente a frente com esses chineses! Pelo contrário, é preciso que sejamos em grande número para suportar o tédio. Naturalmente, não poderemos falar coisa alguma sobre o que nos interessa. Que querem, será uma quarta-feira malograda!

            - Com efeito - respondeu Brichot, dirigindo-se a mim-, creio que a Sra. Verdurin, que é muito inteligente e põe muita coqueteria na organização de suas quartas, não fazia questão de receber esses fidalgotes de grande linhagem mas sem espírito. Não pôde resolver-se a convidar a velha marquesa, mas resignou-se ao filho e à nora.

            - Ah, veremos a marquesa de Cambremer? - indagou Cottard com um sorriso em que julgou dever pôr um tanto de lascívia e afetação, embora ignorasse se a Sra. Cambremer era bonita ou não. Mas o título de marquesa lhe despertava imagens prestigiosas e galantes.

            - Ah! Conheço-a - informou Ski, que a encontrara uma vez quando passeava com a Sra. Verdurin.

            - Não a conhece no sentido bíblico? - perguntou o doutor, deslizando um olhar ambíguo por baixo do seu lorgnon, pois esse era um de seus gracejos favoritos.

            - Ela é inteligente - disse-me Ski. - Naturalmente continuou, vendo que eu ficava calado e acentuando, a sorrir, cada palavra -, ela é e não é inteligente; falta-lhe instrução, é frívola, mas tem o instinto das coisas belas. Ficará calada, mas jamais dirá uma asneira. E, além disso, possui uma linda coloração. Seria divertido pintar o seu retrato - acrescentou, entrecerrando os olhos como se a estivesse contemplando a posar diante dele. Como eu pensava exatamente o contrário daquilo que Ski exprimia com tantas nuanças, contentei-me em dizer que ela era a irmã de um engenheiro muito distinto, o Sr. Legrandin.

            - Pois bem, como vê, será apresentado a uma bela mulher - disse-me Brichot e nunca se sabe o que pode resultar daí. Cleópatra não era sequer uma grande dama, era a mulherzinha, a mulherzinha inconsciente e terrível do nosso Meilhac, e veja as conseqüências, não só para aquele palerma do Marco Antônio, mas também para o mundo antigo.

            - Já fui apresentado à Sra. de Cambremer -respondi.

            - Ah! Mas então vai se achar em terreno conhecido.

            - E tanto mais satisfeito ficarei em vê-la, pois ela me prometeu uma obra do antigo cura de Combray sobre todos os lugares desta região - respondi -, e vou poder lembrar-lhe sua promessa. Interesso-me por esse padre e também pelas etimologias.

            - Não confie muito nas que ele indica - observou Brichot; - a obra, de que existe um exemplar em La Raspeliere, e que me diverti em folhear, nada me diz que valha a pena; está repleta de erros. Vou lhe dar um exemplo. A palavra bricq entra na formação de uma grande quantidade de nomes de lugares das nossas redondezas. O bom eclesiástico teve a idéia, mais ou menos extravagante, de que ela provém de briga, altura, lugar fortificado. Ele a vê já nas povoações célticas, Latobriges, Nemetobriges, etc., e a segue até em nomes como Briand, Brion, etc. Para voltar à região que temos o prazer de atravessar neste momento com o senhor, Bricquebosc significaria o bosque da altitude; Bricqueville, a habitação da altura; Bricquebec, onde vamos parar em breve antes de chegar a Maineville, a altura perto do regato. Ora, não se trata absolutamente disso, pela razão de que bricq é a velha palavra norueguesa que significa simplesmente ponte. Assim também como fleur, que o protegido da Sra. de Cambremer se dá um trabalho infinito para ligar ora às palavras escandinavas floi, fio, ora aos termos irlandeses ae e aer, é, pelo contrário, sem dúvida nenhuma, o fjord dos dinamarqueses e significa porto. Da mesma forma, o excelente padre julga que a estação de Saint-Martin-le-Vêtu, vizinha a La Raspeliere, signo da Saint-Martin-le-Vieux (vetos). É certo que o vocábulo vieux desempenhou grande papel na toponímia desta região. Em geral, vieux procede de vadtel* e significa um vau, como no lugar chamado os Vieux. É o que os angloa chamavam ford (Oxford, Hereford). Mas, no caso particular, vieux provém não de vetus, mas de vastatus, lugar devastado e nu. Perto daqui, os senhores têm Sottevast, o vast de Setold, Brillevast, o vast de Berold. Tenho tanto mais certeza do erro do cura, pois antigamente Saint-Martin-le-Vieux se chamava Saint-Martin-du-Gast e até Saint-Martin-de-Terregate. Ora, o v e o g nessas palavras são a mesma letra. Diz-se devastar, mas também desgastar Jacheres e gâtines (do alto alemão wastinna) têm esse mesmo sentido; Terregate, portanto, é terra vasta. Quanto a Saint-Mars, outrora (honni soil qui mal y pense!) Saint-Merd, é Saint-Medardus, que ora é Saint-Médard; Saint-Mard, Saint-Marc, Cinq-Mars e até Dammas. Aliás, não convém esquecer que, bem perto daqui, lugares que trazem este mesmo nome de Mars atestam simplesmente uma origem pagã (o deus Marte) que permanece viva nesta região, mas que o santo homem se recusa a reconhecer. As colinas dedicadas aos deuses são especialmente bem numerosas, como a montanha de Júpiter (Jeumont). O seu cura não quer ver nada disso e, em compensação, por toda parte onde o cristianismo deixou vestígios, estes lhe escapam. Prolongou sua viagem até Loctudy, nome bárbaro, segundo ele, ao passo que se trata de Locus sancti Tudeni, e também não adivinhou, em Sammarcoles, Sanctus Martialis. O seu cura

-continuou Brichot, vendo que eu estava interessado em ouvir as palavras terminadas em hon, honre, holm do termo holl (hollus), colina, ao passo que elas provêm do norueguês holm, ilha, que o senhor bem conhece em Estocolmo, e que se espalhou em toda esta região: Houlme, Engohomme, Tahoume, Robehomme, Néhomme, Quettehou, etc. -

            Esses nomes me fizeram pensar no dia em que Albertine quisera ir a Amfreville-la-Bigot (do nome dos deuses de seus senhores sucessivos, me disse Brichot), e onde ela a seguir me propusera jantarmos juntos em Robehomme. Quanto a Montmartin, íamos passar por ela dentro de alguns instantes.

            - Néhomme não fica perto de Carquethuit e de Clitourps? -perguntei.

            - Perfeitamente. Néhomme é o holm, a ilha ou península do famoso visconde Nigel, cujo nome permaneceu igualmente em Néville. Carquethuit e Clitourps, de que o senhor fala, são, para o protegido da Sra. de Cambremer, ocasião de cometer outros erros. Sem dúvida, ele vê muito bem que carque é uma igreja, a Kirsche dos alemães. O senhor conhece Querqueville, Carquebut, para não falar em Dunquerque. Pois então seria preferível que parássemos nesta famosa palavra dun, que para os celtas significava uma elevação. E isso o senhor há de encontrar em toda a França. Seu abade se hipnotiza diante de Duneville. Mas no Eure-et-Loir teria encontrado Châteaudun; Dun-le-Roi, no Cher; Duneau, no Sarthe; Dun, no Ariege; Dune-les-Places, na Nievre, etc., etc.. Este dun fá-lo cometer um erro curioso no que concerne a Douville, onde desceremos e onde nos esperam os carros confortáveis da Sra. Verdurin. Douville, em latim donvilla, diz ele. De fato, Douville está ao sopé de grandes elevações. O seu cura, que sabe tudo, ainda assim percebe que cometeu um engano. Com efeito, leu, num antigo livro de registros, Domvilla. Então ele se retrata; Douville, segundo ele, é um feudo do abade, domino abbati, do monte Saint-Michel. Com isso, regozija-se, o que é bem estranho quando se pensa na vida escandalosa que, desde o capitulário de Saint-Clair-sur-Epte, levavam no monte Saint-Michel, e que não seria mais extraordinário do que ver o rei da Dinamarca suserano de todo este litoral, onde ele mandava celebrar muito mais o culto de Odin do que o do Cristo. Por outro lado, a suposição de que o n foi mudado para u não me choca e exige menos alteração do que o muito correto Lyon, que também deriva de dun (Lugdunum). Mas enfim, o abade se engana. Douville nunca foi Donville, e sim Doville, Eudonis Villa, a aldeia de Eudes. Douville se chamava antigamente Escalecliff, a escada da vertente. Por volta de 1233, Eudes le Bouteiller, senhor de Escalecliff, partiu para a Terra Santa; no momento da partida, mandou entregar à Igreja a abadia de Blanchelande. Troca de belos gestos: a aldeia tomou o seu nome, de onde atualmente Douville. Mas acrescento que a toponímia, em que aliás sou bastante ignaro, não é uma ciência exata; se não tivéssemos esse testemunho histórico, Douville poderia muito bem provir de Ouville, ou seja, as Águas. As formas em ai (Ai gues-Mortes), de aqua, mudam-se amiúde em eu, em ou. Ora, bem perto de Douville havia águas renomadas. Imagine então como estaria contente o cura por encontrar ali algum traço cristão, ainda que essa região pareça ter sido bastante difícil para evangelizar, visto que foi necessário que insistissem nela, sucessivamente, Santo Ursal, São Gofroi, São Barsanore, São Laurent de Brévedent, o qual por fim passou o encargo para os monges de Beaubec. Porém quanto a tuit, o autor se engana; vê aí uma forma de toft, cabana, como em Criquetot, Ectot, Yvetot, ao passo que se trata de thveit, roçado, arroteamento, como em Braquetuit, Le Thuit, Regnetuit, etc. Da mesma forma, se ele reconhece em Clitourps o thorp normando, que significa aldeia, quer que a primeira parte do nome derive de clivus, vertente, quando na realidade provém de cliff, rochedo. Mas seus erros mais grosseiros decorrem menos de sua ignorância do que de seus preconceitos. Por bom francês que a gente seja, devemos negar a evidência e tomar Saint-Laurent-en-Bray pelo sacerdote romano tão conhecido, quando se trata de São Lourenço O'Toole, arcebispo de Dublin? Porém, mais que o sentimento patriótico, o preconceito religioso do seu amigo fá-lo cometer graves deslizes. Assim, o senhor tem, longe dos nossos anfitriões de La Raspeliere, dois Montmartin, Montma - sur-Mer e Montmartin-en-Graignes. Quanto a Graignes, o bom cura não cometeu erro, viu perfeitamente que Graignes, em latim grania, em grego crer* significa charco, pântano; quantos Cresmays, Croen, Grenneville, Lengrorr não se poderiam citar? Mas, quanto a Montmartin, o seu pretenso lingüista quer absolutamente que se trate de paróquias dedicadas a São Martin. Fundamenta-se em que o santo é o padroeiro da cidade, mas não se dá conta de que só posteriormente foi tomado como tal; ou melhor, está cego por ódio ao paganismo; não quer ver que se teria dito Mont-Saint-Martin como se diz Mont-Saint-Michel, se se tratasse de São Martinho, ao passo que o nome de Montmartin se aplica de modo bem mais pagão a templos consagrados ao deus Marte, templos dos quais, é verdade, não possuímos outros vestígios, mas que a inconteste presença da vizinhança de vastos acampamentos romanos tornaria mais verossímeis, mesmo sem o nome de Montmartin, que elimina qualquer dúvida. O senhor vê que o livrinho que vai encontrar em La Raspeliere não é dos mais bem-feitos.

            - Objetei que em Combray, o cura nos ensinara com freqüência etimologias interessantes. Provavelmente, estava mais seguro em seu terreno, a viagem à Normandia o terá desambientado.

            - E não o terá curado - acrescentei - pois chegara neurastênico e partiu com reumatismo.

            - Ah! É culpa de neurastenia. Ele caiu da neurastenia na filologia, como teria dito meu boop mestre Poquelin. Diga então, Cottard, acha que a neurastenia possa ter uma influência nefasta sobre a filologia, a filologia uma influência calmante sobre a neurastenia, e a cura da neurastenia conduzir ao reumatismo?

[Alusão ao médico de Argan, em O Doente Imaginário, de Moliere. (N. do T)]

            - Perfeitamente, o reumatismo e a neurastenia são duas formas variantes do neurartritismo. Pode-se passar de uma a outra por metástase.

            - O eminente professor - disse Brichot - exprime-se, Deus me perdoe, num francês tão mesclado de latim e de grego como o poderia ter feito o próprio St. Purgon, de molieresca memória! Quanto a mim, meu tio, quero dizer nosso Sarcey nacional... -

            Porém não pôde terminar sua frase. O professor acabava de ter um sobressalto e dar um berro:

            - Caramba! - exclamou passando enfim à linguagem articulada - Já passamos por Maineville (hbl hê!) e até por Renneville. -

            Acabava de verificar que o trem parava em Saint-Mars-le-Vieux, onde quase todos os passageiros desciam.

            - No entanto, eles não devem ter queimado a parada. Não prestamos atenção, falando nos Cambremer.

            - Escute, Ski, olhe, vou lhe dizer "uma boa coisa" - disse Cottard, que se agradara dessa expressão utilizada em certos ambientes médicos. - A princesa deve estar no trem; não nos terá visto e deve ter subido para outro compartimento. Vamos à sua procura.

            - Contanto que tudo isso não vá trazer encrenca!

            E levou todos nós em busca da princesa Sherbatoff. Encontrou-a no canto de um vagão vazio, lendo La Revue des Deux-Mondes. Com receio de respostas grosseiras, adquirira há muitos anos o hábito de manter-se em seu lugar, ficar no seu cantinho, na vida como no trem, e de esperar para estender a mão a quem a cumprimentasse. Continuou a ler quando os fiéis entraram no vagão. Reconheci-a logo; essa mulher, que podia ter perdido sua posição social, mas nem por isso deixava de ser de elevado nascimento, que em todo caso era a pérola de um salão como o dos Verdurin, era a dama que, no mesmo trem, eu julgara na antevéspera poder ser uma dona de bordel. Sua personalidade social tão incerta imediatamente se me tornou clara quando soube o seu nome, como quando, após ter sofrido sobre uma adivinhação, descobre-se enfim a palavra que torna evidente tudo o que permanecia obscuro e que, para as pessoas, é o nome. Saber, dois dias após, que ela era a pessoa a cujo lado viajamos de trem, sem ter conseguido descobrir o seu nível social, é uma surpresa muito mais divertida do que ler na edição seguinte de uma revista a palavra-chave do enigma proposto no número anterior. Os grandes restaurantes, os cassinos, os "tortinhos" são o museu das famílias desses enigmas sociais.

            - Princesa, nós a perdemos em Maineville! Permite que tomemos lugar em seu compartimento?

            - Mas como não? - disse a princesa, que, ouvindo Cottard falar-lhe, só então ergueu da revista os olhos, que, como os do Sr. de Charlus, embora mais suaves, viam muito bem as pessoas de cuja presença ela parecia não tomar conhecimento. Cottard, pensando que o fato de ter sido convidado com os Cambremer, era para mim uma recomendação suficiente, ao fim de um instante tomou a decisão de me apresentar à princesa; esta se inclinou com extrema polidez, mas parecia pela primeira vez ouvir meu nome.

            - Diabo! - exclamou Cottard. - Minha mulher se esqueceu de trocar os botões do meu colete branco. Ah, as mulheres! Nunca pensam em nada. Jamais se case, está vendo? - disse-me ele. E, como este era um dos gracejos que julgava convenientes quando não se tinha o que dizer, olhou a princesa e os demais fiéis com o rabo do olho; estes, porque ele era professor e acadêmico, sorriram, admirando o seu bom humor e sua ausência de pose. A princesa nos informou que o jovem violinista já fora encontrado. Ficara de cama na véspera por causa de uma enxaqueca, mas compareceria à noite e levaria consigo um velho amigo de seu pai, que havia encontrado em Doncieres. A princesa ficara sabendo da nova pela Sra. Verdurin, com quem almoçara de manhã. - Disse-nos com uma voz breve, onde o rolar dos rr do acento russo era suave meio enrolado no fundo da garganta, como se fossem II e não rr.

            - Ah, senhora almoçou com ela esta manhã - disse Cottard à princesa, mas olhando para mim, pois essas palavras tinham por finalidade mostrar o quanto a princesa era íntima da Patroa. - A princesa, sim, é que é uma fiel!

            - Siri, gosto desse pequeno cilculo, inteligente, agladável, nada mau, muito simples, nada esnobe, e onde se tem espilito até a ponta das unhas.

            - Devo ter perdido a minha passagem, não a encontro - exclamou Cottard; aliás sem se inquietar além da medida. Sabia que em Douville, onde os landôs iam esperar-nos, o empregado o deixaria passar e nem por isso, cumprimentaria menos rasgadamente, a fim de dar, com tal saudação, explicação de sua indulgência, a saber, que ele reconhecera perfeitamente em Cottard um habitué dos Verdurin.

            - Não me levarão até a polícia por causa disso - concluiu o doutor.

            - O senhor dizia haver perto daqui umas águas famosas? - perguntei a Brichot. - Como é que se sabe?

            - O nome da próxima estação o atesta, entre muitos outros testemunhos. Ela se chama Fervaches.

            - Não compleendo bem o que ele quel dizel - enrolou a princesa num tom em que me teria dito, por gentileza:

            - Ele nos incomda, não é mesmo?

            - Mas, princesa, Fervaches quer dizer águas ferventes, fervida aquae... Mas, a propósito do jovem violinista - continuou Brichot - eu me esquecia de lhe dizer a grande novidade, Cottard. Sabia que o nosso pobre amigo Dechambre, o antigo pianista favorito da Sra. Verdurin, acaba de morrer? É terrível.

            - Ele ainda era jovem - respondeu Cottard -, mas devia cuidar do fígado, devia estar com alguma porcaria ali, andava com uma cara horrível faz algum tempo.

            - Mas não era assim tão jovem - disse Brichot. - No tempo em que Elstir e Swann iam à casa da Sra. Verdurin, Dechambre já era uma notoriedade parisiense, e, o que é espantoso, sem ter recebido no estrangeiro o batismo do sucesso. Ah! Ele não era um adepto do Evangelho segundo são Barnum [ Alusão a T Barnum, charlatão americano, dono de um circo muito famoso.]

            - Mas o senhor está confundindo, ele não podia ir à casa da Sra. Verdurin naquela ocasião, pois ainda andava de fraldas. - Mas, a menos que minha velha memória seja infiel, parece-me que Dechambre tocava a Sonata de Vinteuil para Swann, quando esse clubman, de relações cortadas com a aristocracia, ainda não imaginava que viria a ser o príncipe consorte aburguesado da nossa Odette nacional. -

            - É impossível, a Sonata de Vinteuil foi tocada na casa da Sra. Verdurin muito tempo depois que Swann deixara de comparecer a ela - disse o doutor, que, como as pessoas que trabalham muito e julgam dever reter várias coisas que imaginam lhes serão úteis, esquecem muitas outras, o que lhes permite se extasiarem diante da memória de pessoas que nada têm para fazer. - O senhor está prejudicando suas relações, mas no entanto não tem o miolo mole -disse o doutor sorrindo.

            Brichot convenceu-se de que estava errado. O trem parou. Estávamos na Sogne. Este nome intrigava-me.

            - Como gostaria de saber o que significavam todos esses nomes - disse eu a Cottard,

            - Ora, pergunte a Brichot, ele talvez saiba.

            - Mas a Sogne é a Cegonha, Siconia - respondeu Brichot, a quem eu ardia por fazer perguntas acerca de muitos outros nomes.

            Esquecendo-se de que fazia questão do seu "canto", a Sra. Sherbatoff ofereceu-me amavelmente trocar de lugar comigo para que eu pudesse conversar melhor com Brichot, a quem desejava indagar sobre outras etimologias que me interessavam, e assegurou ser-lhe indiferente viajar na frente, atrás, de pé, etc. Permanecia na defensiva enquanto ignorava as intenções dos recém-chegados, mas, quando reconheceu que eles eram amáveis, buscou de todas as formas agradar a cada um. Por fim o trem parou na estação de Douville-Féterne, que, estando situada mais ou menos à mesma distância das aldeias de Féterne e de Douville, trazia seus dois nomes devido a essa particularidade.

            - Caramba! - exclamou o doutor Cottard, quando chegamos à barreira onde nos tomavam as passagens e mal fingindo só então perceber a coisa. - Não consigo encontrar o meu tíquete, devo tê-lo perdido. -

            Mas o empregado, tirando o seu casquete, garantiu que aquilo não tinha importância e sorriu respeitosamente.

            A princesa (dando explicações ao cocheiro, como o faria uma espécie de dama de honra da Sra. Verdurin, a qual, por causa dos Cambremer, não pudera comparecer à gare, o que aliás era raro que fizesse) levou-me consigo para um dos carros, assim como a Brichot. Para no outro subiram o doutor, Saniette e Ski.

            O cocheiro, embora muito jovem, era o principal cocheiro dos Verdurin, o único a ter verdadeiramente o título de cocheiro; levava-os a todos os passeios de dia, pois conhecia todos os caminhos, e de noite ia buscar e trazer de volta os fiéis. Era acompanhado por cocheiros extras (que ele próprio escolhia) para caso de necessidade. Era um rapaz excelente, sóbrio e despachado, mas com um desses rostos melancólicos em que o olhar muito fixo mostrava que por uma ninharia punha-se bilioso e até mesmo com idéias negras. Mas, naquele momento, sentia-se muito feliz, pois conseguira colocar o irmão, outro excelente modelo de homem, na casa dos Verdurin. Primeiro atravessamos Douville. Pequenos outeiros relvados desciam até o mar em amplas pastagens, às quais a saturação da umidade e o sal davam uma espessura, uma suavidade, uma viveza de tons extremamente As ilhotas e chanfraduras de Rivebelle, muito mais aproximadas aqui do que em Balbec, davam a essa parte do mar o aspecto, novo para mim, de plano em relevo. Passamos por pequenos chalés, quase todos alugados por pintores; tomamos por uma vereda onde vacas, em liberdade, tão assustadiças como nossos cavalos, nos barraram a passagem por dez minutos; nos metemos pela estrada.

            - Mas em nome dos céus - disse Brichot de repente -, voltemos ao pobre Dechambre; acham que a Sra. Verdurin sabe? Por acaso lhe disseram? -

            A Sra. Verdurin, como quase todas as pessoas da sociedade, justamente porque necessitava da sociedade dos outros, não pensava mais nelas nem um só dia depois de mortas, pois não mais podiam comparecer às quartas, nem aos sábados, nem jantar de chambre. E não se podia dizer do pequeno clã, que nisso era a imagem de todos os salões, que se compunha mais de mortos que de vivos, visto que, desde que alguém morria, era como se nunca houvesse existido. Mas, para evitar aborrecimento de ter de falar dos defuntos, e até de suspender os jantares devido a um luto, coisa impossível para a Patroa, o Sr. Verdurin fingia que a morte dos fiéis afetava de tal modo a esposa que, no interesse de sua saúde, não convinha falar nisso. Além disso, e talvez justamente porque a morte dos outros lhe parecia um acidente tão vulgar e definitivo, a idéia de sua própria morte lhe causava horror e ela evitava toda reflexão que pudesse relacionar-se com isto. Quanto a Brichot, como era um homem excelente, e perfeitamente iludido com o que o Sr. Verdurin dizia da esposa, receava para a amiga as emoções de semelhante desgosto.

            - Sim, ela sabe de tudo desde hoje de manhã - disse a princesa; não foi possível ocultar-lhe.

            - Ah, com mil diabos! - gritou Brichot. - Ah, deve ter sido um choque terrível, um amigo de vinte e cinco anos! Eis um que era dos nossos!

            - É claro, é claro, mas o que quer? - disse Cottard. - São circunstâncias sempre penosas; mas a Sra. Verdurin é uma mulher forte, mais cerebral ainda do que emotiva.

            - Não sou inteiramente da opinião do doutor - disse a princesa, a quem decididamente seu modo rápido de falar, seu acento murmurado, davam um aspecto a um tempo amuado e rebelde. - A Sra. Verdurin, sob uma aparência fria, esconde tesouros de sensibilidade. O Sr. Verdurin me disse que teve muito trabalho para impedir que ela fosse a Paris para a cerimônia fúnebre; foi obrigado a fazê-la acreditar que tudo se realizaria no campo.

            - Ah, diabo! Ela queria ir a Paris. Mas sei muito bem que é uma mulher de coração, talvez até de coração demais. Pobre Dechambre! Como dizia a Sra. Verdurin há menos de dois meses: "Perto dele, Planté, Paderewski, e até Risler, nada fica de pé." Ah! Ele pôde afirmar, mais justamente do que aquele insignificante do Nero, que achou meios de lograr a própria ciência alemã: Quais artifex pereo!'' Mas ele, Dechambre, pelo menos deve ter morrido no cumprimento do sacerdócio, em odor de devoção beethoveniana; e corajosamente, não tenho dúvidas; em boa justiça, esse oficiante da música alemã teria merecido morrer celebrando a Missa em ré. Porém, de outra parte, era homem de acolher a morte com um trinado, pois esse intérprete de gênio encontrava às vezes, em sua ascendência de natural da Champagne aparisianado, audácias e elegâncias de garde-française.[“Meu artista morre comigo!". Segundo Suetónio, em suas Vidas dos Doze Césares, palavras do imperador romano Nero, ao ver que sua morte era inevitável.]

            Das alturas em que já estávamos, o mar não mais aparecia, assim como de Balbec, semelhante a ondulações de montanhas sublevadas, mas, ao contrário, como aparece de um pico, ou de uma estrada que contorna a montanha, uma geleira azulada, ou um planalto ofuscante, situados a uma altitude inferior. O recorte dos redemoinhos parecia imobilizado e ter desenhado para sempre os seus círculos concêntricos; e até o esmalte do mar, que insensivelmente mudava de cor, tomava, para o fundo da baía, onde se cavava um estuário, a brancura azulada de um leite onde pequenos barcos negros, que não andavam, pareciam presos como moscas. Achava eu que seria impossível descobrir em algum lugar um quadro mais amplo. Mas a cada volta uma parte nova se lhe acrescentava e, quando chegamos ao posto alfandegário de Douville, o espigão de rocha, que até então nos ocultara metade da baía, recolheu-se, e de súbito vi à minha esquerda um golfo tão profundo como aquele que tivera até o momento diante dos olhos, mas alterando-lhe as proporções e multiplicando-lhe a beleza. Naquele ponto tão elevado, o ar se tornava de uma vivacidade e de uma pureza que me embriagavam. Eu amava os Verdurin; que eles nos houvessem mandado um carro me parecia de uma bondade enternecedora. Desejaria beijar a princesa. Disse-lhe que jamais vira algo tão belo. Ela declarou amar também aquela região mais que qualquer outra. Mas eu percebia perfeitamente que para ela, como para os Verdurin, o importante era não contemplá-la como turistas, mas ali fazer boas refeições, receber uma sociedade que lhes agradasse, escrever cartas, ler, em suma viver, deixando passivamente a sua beleza banhá-los, em vez de fazerem dela o objeto de suas preocupações.

            Na alfândega, tendo o carro ali parado por um instante àquela tamanha altitude acima do mar, que, como de um pico, a vista do abismo azulado quase dava vertigens, abri a janela; o rumor, distintamente ouvido de cada onda que se quebrava, possuía, em sua doçura e nitidez, algo de sublime. Pois não era como um índice de medida que, invertendo nossas impressões habituais, nos mostra que as distâncias verticais podem, assimiladas às distâncias horizontais, ao contrário da representação que nosso espírito faz habitualmente delas; e que, aproximando assim de nuvens do céu, não são grandes; que são até menores para um rumor que as franquezas como fazia o daquelas pequenas ondas, pois o meio que precisa atravessar é mais puro? E com efeito, se recuamos apenas dois metros para trás da alfândega, não distinguimos mais esse rumor das ondas, a que duzentos metros de rocha não tinham roubado sua delicada, minuciosa e suave precisão. Dizia comigo que minha avó teria por ele aquela admiração que lhe inspiravam todas as manifestações da natureza ou da arte, em cuja simplicidade se lê a grandeza. Sentia-me enternecido pelo fato de que os Verdurin nos tivessem mandado buscar na gare. Disse-o à princesa, que pareceu achar que eu exagerava demais uma simples cortesia. Sei que mais tarde confessou a Cottard que me julgava muito entusiasta; ele lhe respondeu que eu era emotivo em excesso e que precisaria de calmantes e de fazer retiro. Eu mostrava à princesa cada árvore, cada casinha desabando sob suas casas; fazia com que admirasse tudo, gostaria de apertar ela própria contra meu coração. Disse-me ela que via que eu era dotado para a pintura, que deveria desenhar, que estava surpresa de que ainda não me houvessem dito. E confessou que de fato aquela região era pitoresca. Atravessamos a encarapitada no alto, a pequena aldeia de Englesqueville (Engleberti at disse-nos Brichot).

            - Mas tem certeza de que vai haver o jantar desta noite, princesa, apesar da morte de Dechambre? - acrescentou ele, sem pensar que a vinda dos carros em que estávamos já era uma resposta.

            - Sim! - disse a princesa -, o Sr. Veldulin até fez questão de que não fosse adiado, justamente para impedir sua mulher de "pensar". E depois, passados tantos anos em que ela nunca deixou de receber às quartas-feiras, essa mudança nos seus hábitos poderia impressioná-la. Está muito nervosa atualmente. O Sr. Verdurin estava particularmente feliz porque os senhores vinham jantar esta noite, pois sabia que isso seria uma grande distração para a Sra. Verdurin -disse a princesa, esquecendo o seu fingimento de não ter ouvido falar em mim. - Creio que os senhores farão bem em não falar de nada diante da Sra. Verdurin - acrescentou a princesa.

            - Ah! A senhora faz muito bem em avisar-me - respondeu ingenuamente Brichot: Transmitirei a recomendação a Cottard. -

            O carro parou por um instante. Tornou a partir, mas o ruído que as rodas faziam na aldeia havia cessado. Tínhamos entrado na aléia de honra de La Raspeliere, onde o Sr. Verdurin nos esperava no patamar.

            - Fiz bem em pôr o smoking - disse ele, constatando com prazer que os fiéis trajavam o seu - visto que recebo honra tão elegantes. -

            E, como eu me desculpasse pelo meu jaquetão:

            - Ora, é perfeito. Aqui são jantares entre camaradas. Eu poderia oferecer-lhe um de meus smokings, mas não lhe serviria. -

            O shake-hand cheio de emoção que, ao penetrar no vestíbulo da La Raspeliere, e à maneira de condolências pela morte do pianista, Brichot deu ao Patrão não causou nenhum comentário da parte deste. Falei-lhe da minha admiração por aquela terra.

            - Ah! Tanto melhor, e o senhor não viu nada, nós lhe mostraremos. Por que não passa algumas semanas aqui? O ar é excelente. -

            Brichot receava que seu aperto de mão não tivesse sido compreendido.

            - Pois bem! Esse pobre Dechambre! - disse, mas à meia-voz, temendo que a Sra. Verdurin não estivesse longe.

            - É horrível - respondeu alegremente o Sr. Verdurin.

            - Tão jovem - continuou Brichot. Irritado em perder tempo com essas inutilidades, o Sr. Verdurin replicou num tom apressado e com um gemido extremamente agudo, não de desgosto, mas de impaciência irritada:

            - Pois bem, sim, mas o que é que o senhor quer, não podemos fazer nada contra isso, não serão nossas palavras que haverão de ressuscitá-lo, não é mesmo? - E, voltando-lhe a ternura com a jovialidade: - Vamos, meu caro Brichot, largue depressa as suas coisas. Temos uma bouillabaisse que não pode esperar. Principalmente, em nome do céu, não vá falar de Dechambre à Sra. Verdurin! O senhor sabe que ela oculta muito o que sente, mas tem uma verdadeira doença de sensibilidade. Não, mas eu lhe juro que, quando soube que Dechambre estava morto, quase chorou - disse o Sr. Verdurin num tom profundamente irônico. Ouvindo-o, dir-se-ia ser necessária uma espécie de loucura para lamentar a morte de um amigo de trinta anos, e, por outro lado, a união perpétua do Sr. Verdurin com a esposa não ia, da parte dele, sem que ele sempre a julgasse, e que ela freqüentemente o irritava.

            - Se lhe falar nele, ainda vai acabar doente. É deplorável, três semanas depois de sua bronquite. Nesses casos, eu é que sou o enfermeiro. Compreenda que evito tais situações. Aflija-se no íntimo com o destino de Dechambre, o quanto quiser. Pense nisso, mas não fale no assunto. Eu gostava de Dechambre, mas não pode me querer mal por gostar ainda mais da minha mulher. Olhe, aí está Cottard, pode lhe perguntar. -

            E, de fato, ele sabia que um médico da família sabe prestar pequenos serviços, como, por

exemplo, prescrever que não é preciso sentir desgostos. Cottard, dócil, dissera à Patroa:

            - Agite-se desse modo, e amanhã me fará 39 graus de febre como teria dito à cozinheira: "Amanhã, você vai me preparar miúdos de vitela." À falta de curar, a medicina se ocupa em mudar o sentido dos verbos e dos pronomes.

            O Sr. Verdurin ficou feliz em constatar que Saniette, apesar das respostas grosseiras que havia sofrido na antevéspera, não desertara o pequeno núcleo. De fato, a Sra. Verdurin e seu marido tinham adquirido, na ociosidade, instintos cruéis a que não mais bastavam as grandes circunstâncias, muito raras. De fato, haviam conseguido indispor Odette com Swann, Brichot com a amante. Era claro que recomeçariam com outros. Na ocasião não se apresentava todos os dias. Ao passo que, devido à sua sensibilidade fremente e à sua timidez receosa e logo assustada, Saniette lhes oferecia um bode expiatório cotidiano. Assim, de medo que ele abandonasse, tinham o cuidado de convidá-lo com palavras amáveis e persuasivas, como fazem no liceu os veteranos e no regimento os antigos, em relação a um calouro a que desejam aliciar para agarrá-lo, com o fim único de o lisonjear e então pregar-lhe peças, quando ele não mais poderá escapar.

            - Principalmente - lembrou à Brichot Cottard, que não ouvira o Sr. Verdurin motus [mudo] diante da Sra. Verdurin.

            - Não tenha receio, Cottard, está lidando com um sábio, como diz Teócrito. Além disso, o Sr. Verdurin tem razão; para que servem nossos queixumes? - acrescentou; pois, capaz de assimilar as formas verbais e as idéias que elas lhe traziam; não tendo porém finura, admirara nas palavras do Sr. Verdurin o mais corajoso estoicismo. - Não importa, é um grande talento que desaparece.

            - Como, ainda estão falando de Dechambre? - indagou o Sr. Verdurin, que nos havia precedido e que, vendo que não o seguíamos, voltara para trás - Escute - disse ele a Brichot -, não é preciso exagerar em nada. Não é porque está morto que devemos transformá-lo no gênio que ele não era. Está entendido que ele tocava bem, estava principalmente bem adaptado aquele transplantado, não existe mais. Minha mulher entusiasmou-se por ele e foi a sua fama. Sabem como ela é. Direi mais, no interesse mesmo de sua reputação ele morreu no momento adequado, no ponto, como as lagostas de Caen, grelhadas conforme as receitas incomparáveis de Pampille, vão-se, espero (a menos que se eternizem com suas jeremíadas neste casbahaterto a todos os ventos). Não há de querer, no entanto, que todos nós rebentemos porque Dechambre está morto, e ainda por cima quando, há mais de um ano, via-se obrigado a fazer escalas antes de dar um concerto para reencontrar momentaneamente, bem momentaneamente, a sua agilidade. Aliás, irão ouvir esta noite, ou pelo menos encontrar, pois esse velhaco abandona muitas vezes, após o jantar, a arte pelas cartas, alguém que é um artista diferente de Dechambre, um rapazinho que minha mulher descobriu (como tinha descoberto Dechambre, e Paderewski, e o resto): Morel. Ele ainda não chegou, esse bugre. Vou ser obrigado a enviar um carro para esperar o último trem. Vem com um velho amigo de família com quem se encontrou a que o mata de aborrecimento, mas sem o qual, para não ter queixas do pai, seria obrigado a ficar em Doncieres para lhe fazer companhia: o barão de Charlus.

            Os fiéis entraram.

            O Sr. Verdurin, tendo ficado para trás comigo, enquanto eu me desfazia de minhas coisas, tomou-me pelo braço de brincadeira, como faz num jantar o dono da casa que não tem convidada para lhe oferecer o braço:

            - Fez boa viagem?

            - Sim, o Sr. Brichot ensinou-me coisas que me interessaram muito - disse eu, pensando nas etimologias, e porque ouvira dizer que os Verdurin sentiam muita admiração por Brichot.

            - Ficaria espantado se ele não lhe tivesse ensinado coisa alguma - disse o Sr. Verdurin; - é um homem tão apagado, que pouco fala das coisas que sabe. -

            Esse cumprimento não me pareceu muito justo.

            - Ele tem um ar encantador - disse eu.

            - Requintado, delicioso, nada de coisas malfeitas, fantasista, leve, minha mulher o adora, eu também! - respondeu o Sr. Verdurin num tom exagerado e como se recitasse uma lição. Só então compreendi que o que me dissera de Brichot era irônico. E me perguntei se o Sr. Verdurin, desde os tempos antigos de que ouvira falar, já não havia se livrado da tutela da mulher.

            O escultor ficou muito espantado ao saber que os Verdurin consentiam em receber o Sr. de Charlus. Ao passo que no faubourg Saint-Germain, onde o Sr. de Charlus era tão conhecido, jamais se falava dos seus costumes (ignorados da maioria, objeto de dúvida da parte de outros que preferiam acreditar em amizades exaltadas, mas platônicas, em imprudências e, por fim, cuidadosamente dissimulados pelos poucos bem informados, que davam de ombros quando alguma Gallardon malévola arriscava uma insinuação); tais costumes, conhecidos apenas por alguns íntimos, eram, ao contrário, diariamente censurados longe do meio em que ele vivia, como certos tiros de canhão que a gente só escuta após a interferência de uma zona de silêncio. Aliás, nesses meios burgueses e artísticos, onde ele passava por ser a própria encarnação da inversão sexual, sua grande posição mundana e suas altas origens eram totalmente ignoradas, por um fenômeno análogo ao que faz com que, entre o povo romeno, o nome de Ronsard seja conhecido como o de um grão-senhor, ao passo que sua obra poética é desconhecida. Mais ainda: na Romênia, a nobreza de Ronsard repousa num erro. Da mesma forma, se, no mundo dos pintores e dos comediantes, o Sr. de Charlus tinha tão má reputação, isto se dava porque o confundiam com um certo conde Leblois de Charlus, com quem não tinha o menor parentesco, ou era um parente muito distante, e que fora detido, talvez por engano, numa batida de polícia que ficou famosa. Em suma, todas as histórias que contavam acerca do Sr. de Charlus aplicavam-se ao falso. Muitos profissionais juravam ter tido relações com o Sr. de Charlus e o faziam de boa-fé, julgando que o falso Charlus era o verdadeiro, e o falso talvez favorecesse, meio por ostentaç