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SONHOS DE ROBÔS / Isaac Asimov
SONHOS DE ROBÔS / Isaac Asimov

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

SONHOS DE ROBÔS

 

O PEQUENO ROBÔ DESAPARECIDO

As medidas de emergência na Hiperbase foram tomadas numa espécie de furioso tumulto - o equivalente muscular de uma convulsão histérica.

Tais medidas, por ordem cronológica e de desespero, foram:

1. Suspensão imediata de todo o trabalho no Propulsor Hiperatômico em toda a região do espaço ocupada pelas estações do 27º Grupamento Asteroidal.

2. Toda essa região do espaço foi imediatamente isolada do restante do Sistema, em termos práticos. Ninguém poderia entrar sem permissão. Ninguém poderia sair sob hipótese alguma.

3. Foram levados às pressas para a Hiperbase, numa navepatrulha especial do governo, a Dra. Susan Calvin e o Dr. Peter Bogert, respectivamente psicóloga-chefe e diretor matemático da United States Robots and Mechanical Men Corporation. Susan Calvin nunca tinha deixado a superfície da Terra até aquela data, e não era por vontade própria que acabava de fazê-lo. Numa era de Energia Atômica e às vésperas da criação de um Propulsor Hiperatômico, ela se mantinha discretamente provinciana. Aquela viagem não lhe agradava nem um pouco; ela não via razão para tanta urgência.

Cada linha de seu rosto sóbrio, de meia-idade, refletia isso durante o seu primeiro jantar na Hiperbase. O rosto pálido do Dr. Bogert, por sua vez, manteve o tempo inteiro uma expressão de total desamparo. O general-de-divisão Kallner, responsável pelo projeto, parecia um homem mergulhado num pesadelo. Não é de admirar, portanto, que a refeição transcorresse num clima fúnebre e que a reunião entre os três, iniciada logo em seguida, fosse igualmente sombria.

Kallner, de calva reluzente, vestindo uma farda de cerimônia um tanto inadequada para o momento, deu início à reunião com desajeitada franqueza.

- Esta é uma história das mais esquisitas, doutor... doutora... Fico muito grato que tenham concordado em vir tão apressadamente, sem muitas explicações. Vou tentar remediar isto agora. O fato, doutores, é que perdemos um robô. Todo o nosso trabalho está interrompido e vai permanecer assim até que ele seja localizado. Não conseguimos nada até agora, vamos precisar da ajuda de especialistas.

O general pareceu ter considerado esse apelo uma espécie de anticlimax, de modo que continuou, aflito:

- Não creio que seja necessário ressaltar a importância do trabalho que executamos aqui. Mais de oitenta por cento das verbas para pesquisa científica do ano passado

foram destinadas a este projeto e nós...

- Sim, sim, sabemos disso - disse o Dr. Bogert, em tom conciliador. - A U.S. Robots está recebendo uma soma considerável pela cessão dos nossos robôs.

Susan Calvin interferiu num tom claramente ácido:

- Gostaria muito de saber por que um simples robô é assim tão importante para o projeto e por que não foram capazes de encontrá-lo até agora.

O general voltou o rosto avermelhado em sua direção, umedecendo os lábios.

- Bem, de certa maneira, nós já o encontramos. - E, num tom mais carregado: - Deixem-me explicar. No momento em que o robô deixou de se apresentar, nós declaramos estado de emergência, todo o movimento na Hiperbase foi interrompido. Uma nave cargueira tinha chegado na véspera para trazer dois robôs para os nossos laboratórios.

Essa nave tinha sessenta e dois robôs do tipo... bem, do mesmo tipo, para serem entregues em outros lugares. Não há a menor dúvida quanto a esse número. Temos certeza absoluta.

- E daí?

- O robô desaparecido não foi encontrado em parte alguma, e posso lhes assegurar que seríamos capazes de encontrar nesta Base uma folha de grama, se aqui houvesse grama. Discutimos todas as possibilidades e tivemos a idéia de contar os robôs no interior da nave cargueira. Havia sessenta e três.

- Então o 63o. robô é o nosso filho pródigo? - Os olhos da Dra. Calvin se estreitaram um pouco.

- Sim. Só que não temos como distingui-lo dos demais.

A sala ficou mergulhada em silêncio. De repente o relógio elétrico soou onze vezes seguidas. A Dra. Calvin murmurou então:

- Muito interessante. - Os cantos de seus lábios se contraíram para baixo. Virando-se bruscamente para seu colega, ela disparou:

- Peter, o que está acontecendo aqui? Que tipo de robô está sendo utilizado na Hiperbase?

O Dr. Bogert hesitou e em seguida sorriu debilmente.

- Isso é um assunto muito delicado até agora, Susan.

- Sim - emendou ela. - Até agora. Mas há sessenta e três robôs idênticos, um dos quais se está tentando identificar, e não se conseguiu fazer isso até agora. Por quê? Por que nos trouxeram até aqui?

A voz de Bogert assumiu um tom resignado.

- Dê-me chance de explicar tudo, Susan. O fato é que a Hiperbase está utilizando um certo número de robôs cujos cérebros não receberam a gravação completa da Primeira Lei da Robótica.

- Não receberam a gravação completa...? - A Dra. Calvin deixou-se afundar na poltrona. - Estou começando a perceber. Quantos?

- Poucos. Foi tudo autorizado pelo governo, era impossível vazar qualquer informação. Ninguém tinha conhecimento disso, a não ser algumas pessoas em postos-chave diretamente ligadas ao projeto. Resolveram não incluir você, Susan, e eu não pude fazer nada.

O general o interrompeu, com uma voz que já tinha recuperado o tom de autoridade:

- Posso me encarregar das explicações. Eu não sabia que a senhora não estava a par da situação, Dra. Calvin. Creio que não preciso lembrar-lhe a forte oposição que ainda existe na Terra contra a existência dos robôs. O único argumento dos governos contra os Fundamentalistas radicais é o fato de o cérebro dos robô obedecer necessariamente à Primeira Lei, o que torna impossível a qualquer um deles causar mal a um ser humano, em qualquer circunstância. No entanto, precisávamos de robôs de outro tipo e determinamos a fabricação de alguns NS-2, os Nestores, com uma versão modificada da Primeira Lei. Para manter o segredo, todos os Nestores são fabricados sem número de série, e os exemplares modificados nos são entregues ao mesmo tempo que uma remessa de robôs normais. É claro que esses robôs modificados recebem instruções, gravadas em seus cérebros, para não revelarem essa condição a pessoas não autorizadas.  O general sorriu embaraçado.

 - E isso agora está se voltando contra nós.

- O senhor é uma pessoa autorizada - observou carrancuda a Dra. Calvin. - Imagino que tenha interrogado pessoalmente os robôs.

- Claro - assentiu o general. - Todos os sessenta e três negam que tenham trabalhado aqui. Um deles está mentindo.

- Talvez o robô que vocês procuram mostre sinais de uso. Os outros, pelo que entendi, são recém-saídos da fábrica.

- O robô que buscamos chegou no mês passado. Ele e os outros dois que acabamos de receber seriam os últimos de que iríamos precisar. Ele não tem sinais de uso.

O general balançou a cabeça devagar e seus olhos voltaram a exibir uma expressão de terror.

- Dra. Calvin, não podemos autorizar a partida desse cargueiro. Se chegar ao conhecimento público a existência de robôs não controlados pela Primeira Lei...

A frase ficou incompleta, como era de se esperar.

- Destrua todos - disse em tom cortante a Dra. Calvin. - E acabou-se o problema.

O canto da boca de Bogert se contraiu.

- São sessenta e três robôs a trinta mil dólares cada um - disse ele. - Receio que a U.S. Robots não possa ver com simpatia essa proposta. Vamos ter que tentar alguma outra coisa, Susan, antes de começar a destruir seja lá o que for.

- Se é assim, vamos aos fatos - retrucou ela. - Qual é exatamente a vantagem que esses robôs modificados trazem para a Hiperbase? O que foi que deu origem a tudo isto, general?

Kallner franziu a testa e passou a palma da mão por ela bem devagar, de baixo para cima.

- Estávamos tendo problemas com os demais robôs - disse ele. - Acontece que nossos homens lidam constantemente com grandes doses de radiação. É perigoso, mas tomamos todas as precauções necessárias. Tivemos apenas dois acidentes desde o início do projeto e nenhum dos dois fatal. O problema é que não somos capazes de explicar isto a um robô comum. A Primeira Lei diz textualmente: "Nenhum robô pode fazer mal a um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra qualquer mal."

"É muito simples, Dra. Calvin. Quando era necessário que um dos nossos técnicos se expusesse por alguns momentos a uma carga não muito intensa de raios gama, que não lhe traria nenhum problema fisiológico, o robô mais próximo se precipitava em seu socorro. Quando a radiação não era muito forte ele conseguia seu intento, mas o trabalho não podia prosseguir enquanto todos os robôs não fossem retirados do local. Mas se a carga era um pouco mais intensa, o robô não chegava sequer a alcançar o técnico: seu cérebro positrônico entrava em colapso devido ao banho de raios gama, e lá estávamos nós sem um robô caríssimo e difícil de ser substituído.

"Tentamos discutir o assunto com eles. O argumento deles era que um ser humano estava arriscando a própria vida quando se expunha aos raios gama, e o fato de poder fazê-lo sem riscos, durante meia hora, não queria dizer nada. Suponhamos, diziam os robôs, que ele se distraísse e ficasse ali durante uma hora inteira?! Eles não podiam permitir esse risco. Tentamos mostrar que eles estavam arriscando suas próprias vidas para eliminar um perigo extremamente remoto. Mas a auto-preservação é apenas a Terceira Lei da Robótica; a Primeira Lei tem predominância sobre ela. Tentamos proibir os robôs de se submeterem aos raios gama sob qualquer pretexto, mas a obediência aos humanos é apenas a Segunda Lei da Robótica. A Primeira Lei, a segurança dos humanos, vem antes. A situação era esta, Dra. Calvin: ou abríamos mão dos robôs, ou fazíamos alguma coisa com a Primeira Lei. E decidimos correr o risco.

- Não acredito - disse a Dra. Calvin - que tenham achado possível remover a Primeira Lei.

- Não a removemos, apenas a modificamos - disse Kallner. - Mandamos construir cérebros positrônicos que continham apenas o aspecto positivo da Lei, ou seja: Nenhum robô pode fazer mal a um ser humano. E isso é tudo. Eles não são compelidos a evitar o perigo que vem de uma fonte externa, como os raios gama, no caso. Não é assim, Dr. Bogert?

- Correto - disse o matemático.

- E essa - inquiriu a Dra. Calvin - é a única diferença entre os tais robôs e os modelos NS-2 convencionais? A única diferença, Peter?

- A única diferença, Susan.

A Dra. Calvin ficou de pé e anunciou em tom resoluto:

- Vou dormir agora. Dentro de oito horas quero entrevistar pessoalmente as pessoas que viram esse tal robô pela última vez. E de agora em diante, general Kallner, se a responsabilidade sobre este caso vai ficar nas minhas mãos, quero ter autoridade plena e ilimitada sobre os rumos desta investigação.

 

Por duas horas de uma lassidão pouco confortável Susan Calvin não experimentou nada que se assemelhasse ao sono. Eram 07:00 horas, hora local, quando ela tocou à porta de Bogert para constatar que ele também já estava de pé. Aparentemente tinha se dado o trabalho de trazer um robe-de-chambre para a Hiperbase, pois estava vestido com ele. Colocou a tesourinha de unhas sobre a mesa quando a Dra. Calvin entrou no aposento.

- Estava esperando você aparecer - disse com voz tranqüila. - Imagino que esteja furiosa com tudo isto.

- Estou.

- Sinto muito, mas não pude evitar. Quando recebemos o chamado urgente da Hiperbase adivinhei que era algo relativo aos Nestores modificados, mas o que eu podia fazer? Não podia abrir o jogo com você durante a viagem, como gostaria, porque afinal podia tratar-se de algum outro problema. Esse assunto da modificação é de alta segurança.

- Deviam ter me informado - resmungou a Dra. Calvin. - A U.S. Robots não pode fazer esse tipo de mudança num cérebro positrônico sem consultar um psicólogo.

Bogert ergueu as sobrancelhas e suspirou.

- Seja razoável, Susan. Isso não teria feito a menor diferença. Num assunto como este o governo não iria recuar diante de nada. Eles querem o Propulsor Hiperatômico; os físicos etéricos querem robôs que não causem problemas. Esses robôs teriam que ser fabricados ainda que isso significasse uma ligeira alteração na Primeira Lei. Tivemos que admitir que do ponto de vista estritamente técnico isso era possível. Eles juraram de pés juntos que iriam precisar de apenas uma dúzia desses robôs, que eles seriam utilizados apenas na Hiperbase, e que seriam destruídos no momento em que o Propulsor estivesse pronto, tudo isso debaixo das mais severas medidas de segurança. Insistiram em que tudo fosse mantido em segredo. E a situação é esta.

- Eu teria pedido demissão - disse a Dra. Calvin por entre os dentes.

- Não adiantaria de nada. Por um lado o governo oferecia uma fortuna à empresa, e por outro lado a ameaçava com a possibilidade de uma legislação anti-robôs, em caso de recusa. Ficamos num beco sem saída; agora estamos num beco mais estreito ainda. Se este caso se tornar público, Kallner e o governo vão passar um mau pedaço, mas a U.S. Robots vai sofrer o diabo.

A psicóloga o fitou bem de frente.

- Peter, você não está percebendo o real significado disto tudo? Não entende o que significa a remoção da Primeira Lei? Não é apenas uma questão de segredo de Estado.

- Sei muito bem o que isto significa, não sou criança. Significa uma instabilidade completa para os robôs, por não haver nenhuma solução não-imaginária no Campo Positrônico de Equações.

- Sim... matematicamente. Mas podemos transportar isso para termos psicológicos mais simples. Todas as formas de vida, Peter, reagem contra a dominação, seja consciente ou não. Se a dominação é exercida por um inferior, ou por alguém que se supõe inferior, essa reação é ainda mais forte. Um robô é superior a um ser humano do ponto de vista físico e, em certos aspectos, do ponto de vista mental. O que o faz, então, submeter-se ao papel de escravo? Apenas a Primeira Lei! Ora... sem isso um robô mataria o primeiro ser humano que tentasse lhe dar uma ordem. Você vem falar em instabilidade? Pense bem.

- Susan - disse Bogert, que parecia divertir-se um pouco, concordo que há uma certa base para esse seu Complexo de Frankenstein... daí o fato de se colocar a Primeira Lei acima das outras. Mas a Lei, torno a repetir, não foi removida. Foi apenas modificada.

- E quanto à estabilidade do cérebro?

O matemático contraiu os lábios e admitiu:

- Sofreu uma redução, concordo, mas dentro da margem de segurança. Os primeiros Nestores foram entregues à Hiperbase nove meses atrás e até agora nada de errado tinha acontecido. E mesmo este fato envolve apenas o medo de ser descoberto, não representou nenhum risco para seres humanos.

- Então muito bem. Vamos ver o que nos reserva esta reunião de daqui a pouco.

Bogert acompanhou-a até a porta e fez uma careta expressiva depois que ela saiu. Não via razão para mudar a opinião que tinha sobre a doutora: uma mulher frustrada e cheia de azedume.

Quanto aos pensamentos de Susan Calvin, já não incluíam Bogert. Há muitos anos ela o tinha rotulado em definitivo como um sujeito escorregadio e cheio de pretensão.

 

Gerald Black tinha se formado em física etérica um ano atrás e, como toda uma geração de físicos, tinha se engajado imediatamente nos projetos relacionados ao Propulsor.

Agora ele dava um toque pessoal às reuniões da Hiperbase: em seu guarda-pó branco cheio de manchas, tinha uma aparência um tanto rebelde e completamente desconcertada.

Seu corpo sólido parecia sobrecarregado de energia. Ele retorcia nervosamente os dedos, que pareciam capazes de vergar uma barra de ferro.

O general Kallner sentava-se ao seu lado, e os dois doutores da U.S. Robots do lado oposto da mesa.

- Fui informado - disse Black - de que sou a última pessoa a ver o Nestor 10 antes do seu desaparecimento. Imagino que querem me fazer perguntas a respeito disso.

A Dra. Calvin o olhou com interesse.

- Parece que você está meio em dúvida, rapaz. Então não tem certeza de que foi o último a vê-lo?

- Ele trabalhava comigo, doutora, nos geradores de campo, e estava comigo na manhã em que desapareceu. Não sei se alguém chegou a avistá-lo até o meio-dia. Até agora ninguém admitiu.

- Acha que alguém está mentindo?

- Não foi isso que eu disse. Mas também não quero ser culpado por tudo isto.

- Não é de culpa que estamos falando. O robô fez o que fez porque os robôs têm sua própria maneira de agir. Nossa tarefa aqui é encontrar o Nestor 10, Sr. Black, todo o restante é secundário. Vejamos: se o senhor trabalhava com o robô, provavelmente o conhece melhor do que qualquer outra pessoa. Notou algo estranho nele? Já tinha trabalhado com outros robôs antes disso?

- Trabalhei com outros robôs que temos aqui... o tipo comum. Os Nestores não são muito diferentes deles, apenas são bem mais hábeis... e mais irritantes.

- Irritantes? Como assim?

- Bem, talvez a culpa não seja deles. O trabalho aqui é muito duro, a maioria de nós fica meio impaciente. Mexer o tempo todo com o hiperespaço não é brincadeira. - Black sorriu, como que aliviado em poder confessar aquilo. - O tempo todo nós corremos o risco de abrir uma fenda no continuum do espaço-tempo comum e sumir através dela, com nave, asteróides e tudo. Um negócio maluco, não é mesmo? Não admira que a gente esteja às vezes com os nervos alterados. Mas com esses Nestores é diferente.

Eles são curiosos, são calmos, não esquentam a cabeça com nada. É o bastante para fazer a gente perder o juízo de vez em quando. Quando a gente quer que eles façam alguma coisa com urgência eles não se apressam nem um pouco. Às vezes eu preferiria trabalhar sem eles.

- Você disse que eles não se apressam? Alguma vez já se recusaram a cumprir ordens?

- Oh, não - disse rápido Black. - Eles sempre obedecem. Mas às vezes dizem que estamos fazendo algo errado. Podem não saber nada sobre o assunto além do que nós mesmos lhes ensinamos, mas isso não os impede de dar opinião. Posso estar imaginando coisas, mas tenho a impressão de que os outros sujeitos também têm esse tipo de problema com seus Nestores.

O general Kallner pigarreou ameaçadoramente.

- Por que motivo nenhuma queixa a respeito disso chegou aos meus ouvidos, Sr. Black?

O rosto do jovem físico avermelhou-se instantaneamente.

- Nós não pretendíamos de fato dispensar os robôs, senhor, e além disso não sabíamos como essas... bem, como essas pequenas reclamações seriam recebidas.

Bogert interferiu, com suavidade:

- E na manhã em que o Nestor 10 desapareceu, Sr. Black? Aconteceu alguma coisa de excepcional?

A sala ficou em silêncio. com um gesto mínimo a Dra. Calvin bloqueou o comentário que Kallner estava prestes a fazer e esperou pacientemente. Por fim, Black começou a falar, a voz embargada pela irritação.

- Tive um aborrecimento com ele. Eu tinha acabado de quebrar um tubo de Kimball naquela manhã e isso me fez perder cinco dias de trabalho; meus prazos estavam todos estourados; fazia duas semanas que eu não recebia correspondência.

E aí o Nestor veio me pedir para repetir um experimento que eu tinha abandonado há mais de um mês. Ele vivia o tempo inteiro me aborrecendo com este assunto, eu já não agüentava. Mandei-o embora. Daí em diante não o avistei mais.

- Mandou-o embora? - O interesse da Dra. Calvin recrudesceu. - Nestas palavras exatas? Disse: Vá embora! Por favor, tente lembrar exatamente as palavras que usou.

Uma complicada batalha mental parecia estar se travando dentro do jovem físico; depois de apoiar a cabeça por alguns instantes na palma da mão ele ergueu o rosto e disse, em tom desafiador;

- Eu falei: Desapareça! Bogert deu uma risada seca: - E foi o que ele fez, não é mesmo?

Mas a Dra. Calvin não estava satisfeita e insistiu, com tato:

- Agora estamos chegando ao ponto mais importante, Sr. Black. Os detalhes, contudo, são fundamentais. Quando lidamos com robôs, basta uma palavra, um gesto, uma determinada ênfase para fazer uma enorme diferença. Por exemplo... o senhor certamente não disse apenas essa única palavra, não é mesmo? Pela descrição que nos deu, seu estado de ânimo naquele instante não era dos mais amenos. Talvez o senhor tenha dito mais alguma coisa. O jovem ficou ainda mais vermelho.

- Eu... Bem, eu posso ter dito... duas ou três coisas a mais.

- Sim? E o quê, exatamente?

- Oh, eu não lembro exatamente o quê. Em todo caso, eu não poderia repetir. A senhora sabe como é quando a gente está irritado. - Deu uma risada que mal conseguiu passar pela garganta contraída. - Eu tenho uma linguagem meio solta, sabe como é.

- Não há problema - disse a doutora com imperturbável serenidade. - Estou aqui na condição de psicóloga. Gostaria que o senhor repetisse exatamente o que disse, com a maior fidelidade possível e no mesmo tom de voz que usou na ocasião.

Black olhou para o general em busca de apoio e não recebeu nenhum. Seus olhos se arregalaram.

- Não posso - disse ele.

- O senhor deve.

- Suponhamos - disse Bogert, que mal conseguia ocultar o quanto aquilo o divertia, suponhamos que o senhor se dirija a mim enquanto fala. Talvez isso facilite as coisas.

O rapaz voltou o rosto rubro na direção de Bogert e engoliu em seco.

- Bom. Eu disse... - A voz lhe faltou por um instante, mas ele se recompôs e tentou outra vez. - Eu disse...

Ele encheu os pulmões de ar e começou a emitir uma longa e acelerada cascata de sílabas. Quando terminou, o ar parecia carregado de eletricidade, e concluiu, quase

em lágrimas:

-...Mais ou menos isto. Posso tê-lo chamado dessas coisas numa ordem diferente, talvez tenha aumentado ou diminuído alguma coisa, mas no geral foi isso que falei. Um ligeiro rubor acusou alguma reação por parte da psicóloga.

- Percebo o significado da maior parte dos termos que empregou - disse ela. - Os restantes, suponho, são igualmente depreciativos.

- Creio que sim - disse o atormentado Black.

- E para concluir o senhor mandou-o desaparecer.

- Eu disse apenas no sentido figurado.

- Entendo. Tenho certeza de que não cabe nenhuma ação disciplinar contra o senhor.

O general Kallner não parecia ter tanta certeza, mas a um olhar da Dra. Calvin ele se limitou a fazer um gesto aborrecido com a cabeça e dizer:

- Pode retirar-se, Sr. Black. Obrigado por sua cooperação.

A Dra. Calvin precisou de cinco horas para entrevistar os 63 robôs. Foram cinco horas de irritante repetição; de robôs idênticos substituindo-se uns aos outros de modo interminável; de perguntas A, B, C e D; de uma expressão cuidadosamente afável, um tom de voz cuidadosamente neutro, uma atmosfera cuidadosamente cordial; e um gravador oculto.

Quando acabou, a psicóloga sentia-se como se toda a vitalidade tivesse sido sugada de seu corpo.

Bogert a esperava e a fitou cheio de expectativa quando ela atirou a bobina do gravador sobre a mesa de plástico.

Ela balançou a cabeça.

- Parecem todos rigorosamente iguais - disse. - Eu não poderia dizer...

- Não pode descobrir isso com uma simples entrevista, Susan - disse Bogert. - Precisamos analisar a gravação.

A interpretação matemática das reações verbais dos robôs é, em geral, um dos ramos mais intrincados da análise robótica. Requer uma equipe de técnicos especializados e a ajuda de avançados computadores. Bogert sabia disso. E o disse em alto e bom som, com irritação contida, depois de ter escutado cada série de respostas, anotando as variações verbais, rabiscando os gráficos dos intervalos entre as respostas.

- Não há nenhuma anomalia visível, Susan. As variações na escolha do vocabulário e o tempo de reação em cada resposta estão dentro dos limites dos grupos de freqüência habituais. Precisamos usar métodos mais sofisticados. Eles devem ter computadores aqui, e... não. - Ele franziu a testa e começou a mordiscar a unha do polegar.

- Não podemos usar computadores, a informação iria vazar em pouco tempo. Talvez se...

A Dra. Calvin o interrompeu com um gesto impaciente:

- Por favor, Peter. Isto não é um dos seus quebra-cabeças de laboratório. Se não pudermos identificar o Nestor modificado através de uma diferença evidente, algo visível a olho nu sem possibilidade de erro, nada feito. Não podemos correr o risco de errar e permitir que ele nos escape. Não basta assinalar num gráfico uma irregularidade infinitesimal. Já lhe disse: se não pudermos avançar mais do que isto, será preferível destruir todos eles. Só assim teremos certeza. Já falou com os outros Nestores modificados?

- Sim - replicou Bogert. - E não há nada de errado com eles. Talvez demonstrem uma cordialidade um pouco acima do normal, mais nada. Responderam minhas perguntas e demonstraram orgulho pelos seus conhecimentos... exceto os dois recém-chegados, que ainda não tiveram tempo de aprender física etérica. Deram algumas risadas bem-humoradas pela minha ignorância quanto a algumas das especializações técnicas utilizadas aqui. - Encolheu os ombros. - Suponho que isso é uma das causas do ressentimento que os técnicos daqui têm em relação aos Nestores. Esses robôs parecem muito dispostos a impressionar todo mundo com a exibição de seus conhecimentos.

- Você não podia tentar algumas Reações Planares para ver se houve alguma deterioração, alguma mudança em sua estrutura mental desde a fabricação?

- Não tentei isto ainda, mas posso fazê-lo. - Bogert balançou o dedo na direção dela. - Você está ficando nervosa, Susan. Não vejo por que dramatizar tanto as coisas. Eles são fundamentalmente inofensivos.

- São mesmo? - A Dra. Calvin inflamou-se. - Será que são? Então você não reconhece que um deles está mentindo? Um desses sessenta e três robôs que acabei de entrevistar mentiu deliberadamente depois de receber as ordens mais severas para dizer a verdade. Isso indica uma anormalidade profundamente enraizada. É algo apavorante.

Peter Bogert cerrou os dentes e depois disse: - Nada disso. Veja bem: o Nestor 10 recebeu ordens para desaparecer. Estas ordens lhe foram dadas com a máxima urgência pela pessoa diretamente encarregada de comandá-lo. É impossível contrabalançar essa ordem, seja alegando uma urgência maior ou uma autoridade mais elevada. É claro que o robô continuará tentando cumprir as ordens que recebeu. Na verdade eu chego a admirar sua engenhosidade. Se um robô recebe a ordem de desaparecer, não pode haver tática melhor do que misturar-se a um grupo de robôs idênticos a ele.

- Sim, sim, claro que você o admira. Estou vendo que você se diverte com isto tudo, Peter, talvez porque ainda não tenha entendido o que se passa. Você por acaso é um roboticista? Esses robôs dão uma importância enorme ao que consideram superioridade. Você mesmo acabou de dizer isto. Subconscientemente, eles acham que os seres humanos são inferiores, e a Primeira Lei, que nos protege deles, está incompleta. Isso os torna instáveis. E então aparece um jovem cientista dizendo a um robô que desapareça, e dizendo isso com uma série de manifestações verbais de desprezo, repulsa e irritação. Tudo bem... o robô obedece à ordem que recebeu, mas há um ressentimento subconsciente. Para ele vai ser mais importante do que nunca provar que é superior ao humano, apesar dos insultos terríveis que sofreu. Talvez isso se torne tão importante que o que restou da Primeira Lei pode não ser o bastante.

- Ora, Susan. Como é que um robô pode, na Terra ou em qualquer outro ponto do espaço, entender o sentido dos palavrões usados por Black? No cérebro de um robô não há registro de linguagem obscena.

- O registro original não é tudo - retrucou a doutora. - Os robôs têm capacidade de aprender, seu... seu idiota. - Nesse ponto Bogert percebeu que ela havia perdido a calma. Ela prosseguiu com impaciência: - Não acha que ele pode entender, pelo tom usado por Black, que aquelas palavras não eram propriamente de elogio? Não imagina que ele pode ter ouvido algumas daquelas palavras antes e lembrar em que contexto elas foram ditas?

- Está bem - exclamou Bogert, elevando também a voz. - E você quer ter a bondade de me dizer de que modo um robô modificado pode causar mal a um ser humano, por mais ofendido que esteja, por mais desejoso de demonstrar a própria superioridade?

- Se eu lhe disser, você guardará segredo?

- Sim.

Estavam ambos debruçados sobre a mesa, frente a frente, cravando um no outro os olhos enraivecidos.

- Está bem - disse a psicóloga. - Se um robô modificado largasse um enorme peso diretamente sobre um ser humano, ele não estaria violando a Primeira Lei, caso tivesse a certeza de que sua força física e sua rapidez de reação seriam suficientes para afastar o peso de sua trajetória antes que ele atingisse o homem. No entanto, a partir do momento em que o peso se desprendesse de suas mãos, ele deixaria de ser o elemento ativo nesse fato: esse elemento passaria a ser a mera força da gravidade.

O robô poderia então mudar de idéia e, por simples omissão, permitir que o peso atingisse o homem. Essa sua Primeira Lei modificada dá margem a isto.

- Isso é um tremendo vôo de imaginação.

- É algo que minha profissão requer de vez em quando. Peter, não vamos brigar. Temos que agir. Você conhece a natureza exata do estímulo que levou esse robô a desaparecer. Você tem os registros das gravações originais de seu cérebro. Quero que você me diga se é possível que o Nestor tenha um comportamento como este que acabei de descrever. Não este exemplo específico, veja bem, mas se ele é capaz desse tipo de atitude. Quero uma resposta urgente.

- E enquanto isto...

- Enquanto isto, vamos fazer alguns testes práticos para verificar o funcionamento da Primeira Lei.

 

A seu próprio pedido, Gerald Black estava encarregado de supervisionar a construção dos cubículos de madeira que como num passe de mágica começavam a se erguer ao longo de um semicírculo no vasto espaço em forma de abóbada do Edifício de Radiação n° 2. Em sua maioria os operários trabalhavam em silêncio, mas muitos deles estavam visivelmente perplexos diante da necessidade de instalar 63 fotocélulas ao longo da construção.

Um deles sentou-se ao lado de Black, tirou o chapéu e limpou o suor da testa com um antebraço sardento.

Black o cumprimentou com um gesto de cabeça.

- Como vão as coisas, Walensky?

Walensky encolheu os ombros e acendeu um charuto.

- Tudo limpeza. Mas o que está havendo, hem, doutor? Primeiro, três dias todo mundo de braços cruzados, sem fazer nada. Aí de repente começa essa loucura toda.

Ele inclinou-se para trás, apoiado nos cotovelos, e soltou uma baforada.

Black moveu as sobrancelhas e disse:

- Vieram dois roboticistas da Terra. Lembra dos problemas que a gente teve com a mania dos robôs de entrarem nos campos de raios gama e do trabalho que nos davam para tirá-los dali?

- Sei. E daí? Vamos receber novos robôs?

- Deverão ocorrer umas substituições, mas parece que a parte mais importante é uma espécie de treinamento. Parece que o pessoal da fábrica está interessado em testar robôs que não são muito atingidos por raios gama.

- De qualquer maneira é engraçado, parar todo o trabalho no Propulsor por causa dessa história de robôs. Pensei que nada fosse mais importante do que o Propulsor.

- Eu também, mas quem decide é o pessoal lá de cima. Eu faço o que eles mandam. Acho que é tudo uma questão de política entre eles.

- Estou sabendo - concordou o eletricista, sorrindo e piscando um olho esperto.  - Alguém é amigo de alguém em Washington, e tal... Mas enquanto meu pagamento sair em dia isso é tudo que me interessa. Não tenho nada a ver com o Propulsor. Mas afinal, o que é isto que vão fazer aqui?

- Está perguntando a mim?! Só sei que trouxeram uma porção de robôs com eles, mais de sessenta, e parece que vão medir reações. É tudo que sei.

- Vai levar quanto tempo?

- Bem que eu queria saber.

- Deixa pra lá - disse Walensky, com sarcasmo. - Meu dinheiro saindo no dia certo eles podem fazer o que quiserem.

Black sentiu-se silenciosamente satisfeito. Que aquela versão se espalhasse por entre o pessoal. Era uma versão inofensiva e próxima o bastante da verdade para aplacar o apetite da curiosidade de qualquer um.

 

Um homem estava sentado numa cadeira, imóvel, calado. Um peso desabou lá do alto em sua direção, mas foi desviado no derradeiro momento pelo disparo sincronizado de um raio de força. Em 63 cubículos de madeira, 63 robôs NS-2 que contemplavam a cena saltaram para a frente na fração de segundo que precedeu o desvio do peso; e sessenta e três fotocélulas colocadas um metro e meio à frente de sua posição inicial foram acionadas, fazendo com que 63 agulhas dessem um pequeno salto e essa variação fosse registrada num gráfico sobre o papel.

O peso foi içado para o alto, e voltou a cair. Depois foi mais uma vez içado e caiu novamente. Depois...

Dez vezes.

Dez vezes os robôs saltaram para a frente e pararam, enquanto o homem permanecia sentado em segurança.

 

O general Kallner não usava seu uniforme de cerimônia completo desde a primeira reunião com os dois representantes da U.S. Robots. Naquele momento estava usando uma camisa azul-cinza com o colarinho desabotoado e a gravata preta pendendo frouxa sobre o peito.

Lançou um olhar esperançoso para Bogert, que mantinha uma aparência impecável e cujo único sinal visível de tensão era o brilho de suor nas têmporas.

- E então? - disse o general. - O que está tentando descobrir?

- Uma diferença que talvez acabe sendo pequena demais para nos ser útil - disse Bogert. - Para sessenta e dois desses robôs a necessidade de correr em socorro de um ser humano aparentemente em perigo é aquilo que, em robótica, chamamos de reação forçada. Como pôde ver, mesmo quando os robôs sabiam que nada iria acontecer àquele indivíduo... e depois da terceira ou quarta repetição eles já teriam percebido isso... eles não podiam reagir de outra forma.

- E daí?

- Acontece que o 63? robô, o Nestor modificado, não possui uma tal compulsão. Ele é livre para decidir. Caso ele quisesse, poderia ter permanecido imóvel em seu lugar. Infelizmente... - nesse ponto a voz de Bogert não conseguiu esconder sua decepção - .. .não foi assim que ele agiu.

- E por quê?

Bogert encolheu os ombros.

- Creio que a Dra. Calvin nos dirá isso assim que se reunir a nós, provavelmente com alguma interpretação tremendamente pessimista. Às vezes ela me incomoda um pouco os nervos.

- É uma mulher muito preparada, não é? - indagou o general, com uma repentina expressão de inquietude.

- Oh, sim - disse Bogert, jovial. - É preparadíssima. Entende de robôs como se fosse um deles; creio que isso se deve à antipatia que tem pelos seres humanos. O problema é que, psicóloga ou não, é uma mulher muito neurótica. Tem tendências paranóicas. Não a leve muito a sério. - Ele espalhou sobre a mesa uma pilha de papéis cheios de gráficos semelhantes. - Veja, general. No caso individual de cada robô, o intervalo de tempo entre a queda do peso e a conclusão do seu movimento até a fotocélula tende a decrescer à medida que os testes vão se repetindo. Existe uma relação matemática definida para exprimir isso; qualquer variação  nessa relação indicaria uma  anormalidade  no  cérebro positrônico. Infelizmente, tudo aqui tem uma aparência perfeitamente normal.

- Mas se o nosso Nestor 10 não estava obedecendo a uma reação forçada, por que sua curva é igual à dos outros? Não entendo.

- É muito simples. As reações dos robôs não são análogas às reações humanas, o que no caso é uma pena. Num ser humano, uma ação voluntária é muito mais lenta do que uma ação reflexa. Mas não é isso que se dá com os robôs: com eles é apenas uma questão de liberdade de escolha entre reação livre e reação forçada, mas a velocidade das duas é praticamente a mesma. O que eu esperava, para falar a verdade, era que o Nestor 10 fosse apanhado de surpresa logo no primeiro teste e tivesse uma resposta mais lenta.

- E isso não ocorreu.

- Receio que não.

- Então continuamos no mesmo ponto. - O general recostou-se na cadeira com uma expressão de sofrimento.

- E já se passaram cinco dias.

Nesse instante, a Dra. Calvin entrou na sala, batendo a porta atrás de si.

- Pode guardar esses gráficos, Peter - disse ela. - Sabe que isso não vai adiantar de nada. - Ela resmungou uma saudação impaciente quando Kallner semiergueu o corpo para cumprimentá-la e insistiu: - Vamos ter que fazer alguma outra coisa, e rápido. Não estou gostando disto nem um pouco.

Bogert trocou um olhar resignado com o general.

- Algo errado, Susan?

- Algo bem específico? Não. Mas não é bom que o Nestor 10 continue a nos despistar. Isso deve estar gratificando muito seu senso distorcido de superioridade. Estou começando a pensar que sua motivação já não é apenas o cumprimento de uma ordem que recebeu. Talvez ele esteja desenvolvendo uma necessidade neurótica de mostrar mais esperteza do que os humanos. É uma situação doentia e perigosa, Peter. Você fez o que lhe pedi? Pesquisou os fatores de instabilidade dos Nestores modificados, ao longo das linhas que indiquei?

- Está sendo feito - disse Bogert, sem interesse.

Ela o fitou irritada por alguns momentos, depois virou-se para Kallner.

- O Nestor 10 está sabendo muito bem o que faz, general. Ele não tem motivo para saltar em defesa do homem naquele teste, especialmente depois da primeira vez, quando percebeu que não havia nenhum perigo real. Os outros não podiam agir de outra forma, mas ele estava falsificando deliberadamente uma reação.

- E o que acha que devemos fazer, Dra. Calvin?

- Devemos dar um jeito para que ele não consiga fingir da próxima vez. Vamos repetir a experiência, só que com uma modificação. Vamos instalar entre os Nestores e o indivíduo ameaçado cabos de alta tensão capazes de eletrocutar um robô. Vamos precisar de vários desses cabos para que eles não possam saltar por cima: cada um deles será avisado com antecedência da presença desses cabos e de que tocá-los significa morrer.

- Espere aí - interveio Bogert, irritado. - Sou contra. Não vamos queimar dois milhões de dólares em robôs só para localizar esse Nestor. Há outras maneiras de descobri-lo.

- Tem certeza? Até agora você não sugeriu nenhuma. Em todo caso, não vamos eletrocutar ninguém. Podemos instalar um relê para cortar a corrente no momento em que houver a menor pressão sobre os cabos. Se o robô aplicar seu peso contra eles, não morrerá... mas o robô não saberá disso, entendem?

Os olhos do general tiveram um brilho de esperança.

- Será que vai funcionar?

- Deve funcionar. Dentro dessas condições, o Nestor 10 deverá permanecer sentado em sua cadeira. Se lhe disséssemos para tocar nos cabos e morrer, ele obedeceria, porque a Segunda Lei, a da obediência, é superior à Terceira, a da auto-preservação. Mas não vamos dizer-lhe isto. Vamos deixar que ele aja como foi programado, assim como os demais robôs. No caso dos robôs normais, a Primeira Lei, a da proteção aos humanos, fará com que corram risco de vida independentemente de uma ordem direta neste sentido. Mas com o nosso Nestor 10 será diferente. com a Primeira Lei incompleta e não tendo recebido nenhuma ordem específica, acabará predominando a Terceira Lei, a da auto-preservação: ele não terá nenhuma escolha senão permanecer sentado. Será uma reação forçada.

- Vamos fazer isto esta noite, então?

- Esta noite - concordou a psicóloga. - Se houver tempo suficiente para instalar os cabos. E eu me encarregarei de explicar aos robôs como vai funcionar a experiência.

 

Um homem estava sentado numa cadeira, imóvel, calado. Um peso desabou lá do alto em sua direção, mas foi desviado no derradeiro momento pelo disparo sincronizado de um raio de força. Uma vez, apenas.

Na cabine de observação onde estava sentada, a Dra. Susan Calvin ficou de pé num salto, deixando escapar uma exclamação de puro horror.

Sessenta e três robôs permaneciam calmamente sentados em suas cadeiras, olhando placidamente para o homem alguns metros à sua frente. Nem um só deles se mexeu.

A Dra. Calvin estava furiosa e sentia-se prestes a perder o controle, mas não se atrevia a deixar que isso fosse percebido pelos robôs que, um por um, entravam e saíam de sua sala. Ela verificou a lista. Era a vez do número Vinte e Oito - e depois dele havia outros 35 à espera. O número Vinte e Oito entrou, hesitante.

Ela conseguia imprimir um pouco de calma à voz ao perguntar:

- E você, quem é?

O robô respondeu com uma voz baixa, retraída.

- Ainda não recebi numeração própria, senhora. Sou um robô NS-2, e sou o número Vinte e Oito na fila de espera. Tenho aqui uma ficha que devo entregar-lhe.

- Já esteve nesta sala hoje?

- Não senhora.

- Sente-se. Sim, aí mesmo. Quero fazer-lhe algumas perguntas, número Vinte e Oito. Você estava na Sala de Radiações do Edifício n? 2, há quatro horas?

O robô teve certa dificuldade em responder, e quando sua voz saiu lembrou o rangido de um mecanismo mal lubrificado.

- Sim... senhora.

- Havia um homem ali que quase sofreu um acidente, não é?

- Sim, senhora.

- E você nada fez para evitá-lo, não foi assim?

- Sim, senhora.

- O homem poderia ter se ferido gravemente devido a essa sua omissão. Tem consciência disso?

- Sim, senhora. Não pude evitá-lo, senhora.

É difícil demonstrar humildade quando se é uma enorme e inexpressiva figura metálica, mas ele o conseguiu.

- Quero que me diga exatamente por que não fez nada para salvar aquele homem.

- Vou explicar, senhora. Não quero que a senhora... ou qualquer outra pessoa... pense que eu seria capaz de fazer algo para causar algum mal a um Senhor. Oh, não, isso seria horrível... seria inconcebível...

- Por favor, rapaz, não fique nervoso. Ninguém está lhe atribuindo nenhuma culpa. Tudo que quero é saber o que você pensou naquele instante.

- Senhora, antes de tudo aquilo a senhora nos disse que um senhor estaria em perigo devido à queda daquele peso e que teríamos que forçar caminho por entre cabos elétricos se quiséssemos salvá-lo. Bem, senhora, isso não seria bastante para me deter. O que é minha destruição, comparada à segurança de um Senhor? Mas... mas... ocorreu-me que se eu morresse na tentativa de salvá-lo isso de nada adiantaria a ele. O peso o esmagaria da mesma forma, e eu teria morrido sem razão. Algum dia um outro senhor poderia correr perigo e eu não estaria ali para salvá-lo. Entende o que digo, senhora?

- Você quer dizer que era apenas uma questão de escolha entre deixar o homem morrer sozinho, ou deixar que morressem tanto ele quanto você. É isso?

- Sim, senhora. Era impossível salvar aquele senhor. Ele já podia ser considerado morto. Nesse caso, seria inconcebível que eu destruísse a mim mesmo por nada, sem ter recebido tal ordem.

A psicóloga girou o lápis entre os dedos. Tinha ouvido a mesma história, com insignificantes variações, 27 vezes antes daquela. Agora vinha a pergunta crucial.

- Rapaz - disse ela, o que você diz faz sentido, mas isto não é bem o tipo de raciocínio que eu esperaria de você. Foi você mesmo que pensou tudo isto?

O robô hesitou.

- Não.

- Quem foi, então?

- Estávamos conversando sobre isto na noite passada, e um de nós teve essa idéia, que nos pareceu razoável.

- Qual de vocês?

O robô ficou pensativo.

- Não sei - disse por fim. - Um de nós. - Ela suspirou.

- É o bastante. Pode ir.

O próximo era o número Vinte e Nove, e havia outros 34 depois dele.

O general Kallner também estava enraivecido. Fazia uma semana que todo o trabalho na Hiperbase estava suspenso, com exceção de pequenas tarefas burocráticas nos asteróides subsidiários do grupo. Durante a maior parte desse tempo os dois maiores especialistas em robótica não tinham feito outra coisa senão agravar a situação com uma série de testes inúteis. E agora surgia da parte deles, ou pelo menos da doutora, uma proposta irrealizável.

Felizmente, para a situação geral, Kallner considerou que seria pouco diplomático externar sua raiva, enquanto a Dra. Calvin insistia:

- Por que não, general? É óbvio que estamos vivendo um momento problemático. O único modo de podermos conseguir algum resultado positivo no futuro, não importa o que esse futuro nos reserve, é separar os robôs. Eles não podem continuar todos juntos.

- Minha cara Dra. Calvin - trovejou o general, com a voz atingindo seus mais graves registros de barítono, não vejo como será possível aquartelar sessenta e três robôs neste lugar.

A Dra. Calvin ergueu os braços num gesto de impotência.

- Então não posso fazer nada. O Nestor 10 continuará imitando o que os outros robôs fazem, ou então os convencerá a não fazer o que ele próprio não é capaz de fazer. Em ambos os casos a situação tende a se agravar. Estamos travando um combate com esse robô e até agora ele vem nos derrotando, e cada vitória que ele conquista só faz aumentar sua anormalidade. - Ela ficou de pé, com determinação. - General Kallner, se não concordar em separar os robôs conforme estou pedindo, só posso exigir que sejam todos destruídos imediatamente.

- Ah, você exige? - interveio Bogert, zangado. - E quem lhe dá o direito de fazer essa exigência? Os robôs continuarão intactos. Eu sou o responsável pela administração, não você.

- E eu - disse o general - sou o responsável diante do Coordenador Mundial, e quero que esse assunto seja completamente resolvido.

- Nesse caso - retrucou a Dra. Calvin, não me resta outra saída senão renunciar. E, se isso for necessário para forçar a destruição desses robôs, levarei o assunto ao conhecimento público. Não dei minha aprovação para a fabricação desses robôs modificados.

- Uma só palavra de sua parte, Dra. Calvin - disse o general vagarosamente, que possa violar as normas de segurança, e a senhora irá imediatamente para a prisão.

Bogert percebeu que a situação estava ficando fora de controle e adotou um tom conciliador.

- Ora, ora, estamos começando a agir como crianças, todos nós. Precisamos de um pouco mais de tempo, isso é tudo. É claro que podemos ser mais espertos do que um robô sem que para isso tenhamos que renunciar a um cargo, mandar gente para a cadeia ou destruir dois milhões de dólares.

A psicóloga voltou-se para ele com uma fúria contida.

- Eu me recuso a consentir a existência de robôs desequilibrados. Temos aqui um Nestor que é sem dúvida alguma um desequilibrado, outros onze que têm tudo para ficarem assim, e sessenta e dois robôs normais que estão sendo submetidos a um meio ambiente desequilibrado. O único método totalmente seguro é a destruição de todos.

O toque da campainha a interrompeu, ao mesmo tempo que fazia amainar por um instante o clima de crescente irritação.

- Entre - resmungou Kallner.

Era Gerald Black, que parecia perturbado. Tinha ouvido o bate-boca através da porta e falou de modo hesitante:

- Achei melhor vir pessoalmente... não quis pedir a ninguém que...

- Do que se trata? Não faça rodeios.

- Alguém andou mexendo nas trancas do Compartimento C da nave cargueira. Há arranhões recentes ali.

- Compartimento C? - exclamou imediatamente a Dra. Calvin. - É onde estão os robôs, não é isso? E quem foi?

- Foi feito pelo lado de dentro - disse Black laconicamente.

- As trancas foram danificadas?

- Não. Está tudo em ordem. Estou naquela nave há quatro dias e até agora nenhum deles tentou sair de lá. Mas pensei que devia avisá-los logo, não quis que a notícia se espalhasse. Fui eu mesmo que notei as marcas.

- Quem está lá agora? - perguntou o general.

- Deixei Robbins e McAdams.

Houve um silêncio prolongado. Depois a Dra. Calvin perguntou, com ironia:

- E então?... Kallner esfregou o nariz.

- O que será que isso significa? - murmurou.

- Não é evidente? O Nestor 10 está tentando fugir. A ordem que recebeu para "desaparecer" está influindo no seu cérebro desequilibrado muito mais do que qualquer coisa que possamos fazer a respeito. Eu não ficaria surpresa se o que resta de sua Primeira Lei tivesse muita dificuldade para contrabalançar isso. Ele é perfeitamente capaz de seqüestrar a nave e fugir. Aí teríamos um robô maluco pilotando uma espaçonave. E o que ele faria em seguida? Alguém sugere alguma hipótese? Pretende deixar que os robôs permaneçam juntos, general?

- Bobagem - interrompeu Bogert, que tinha readquirido a tranqüilidade. - Tudo isso por causa de alguns arranhões em uma porta.

- Concluiu a análise que requisitei, Dr. Bogert, já que está disposto a dar sua opinião?

- Sim.

- Posso vê-la, então?

- Não.

- Por que não? Ou também não posso perguntar isto?

- Porque não é necessário, Susan. Eu já lhe disse que esses robôs modificados são menos estáveis do que os robôs normais, e minha análise comprova isto. Há uma chance muito reduzida de que eles entrem em colapso sob circunstâncias extremas, algo muito improvável de acontecer. Deixe isso como está. Não vou apoiar essa sua exigência absurda de destruir sessenta e três robôs em boas condições só porque você não consegue localizar o Nestor 10 entre eles.

Susan Calvin o encarou com um olhar cheio de desprezo.

- Você não permite que nada questione sua autoridade, não é mesmo?

- Por favor, por favor - pediu Kallner, que já começava a se encolerizar novamente. - Então, Dra. Calvin, insiste em afirmar que não se pode fazer mais nada?

- Não posso pensar em mais nada, general - disse ela, fatigada. - Teríamos que descobrir alguma diferença entre o Nestor 10 e os robôs normais, diferenças não relacionadas com a Primeira Lei. Bastaria uma. Algo relativo à gravação de memória, às reações ao ambiente, às especificações...- Ela interrompeu-se bruscamente.

- O que foi?

- Tive uma idéia... ou pelo menos acho que tive. - Seus olhos assumiram uma expressão distante e opaca. - Esses Nestores modificados, Peter. Eles recebem a mesma gravação de memória que os normais, não é isso?

- Sim. Exatamente a mesma.

- E o senhor nos disse algo, Sr. Black. - Ela virou-se para o jovem cientista, que durante a tempestade que se seguiu a seu comunicado tinha mantido um discreto silêncio. - O senhor queixou-se da atitude de superioridade dos Nestores e disse que os técnicos tinham ensinado a eles tudo que sabiam.

- Sim, em matéria de física etérica. Eles ainda não conhecem o assunto quando são desembarcados aqui.

- É verdade - disse Bogert, surpreso. - Eu lhe disse, Susan,   quando   falei   com   os   demais   Nestores,   que   os   dois recém-chegados à base ainda não tinham aprendido física etérica.

- Mas por quê? - A Dra. Calvin dava sinais de excitação cada vez maior. - Por que os NS-2 não recebem uma formação em física etérica desde o início?

- Posso responder essa pergunta - disse o general Kallner. - É uma simples questão de segurança. Achamos que se fabricássemos um modelo especial com conhecimento de física etérica, usássemos apenas uma dúzia deles e destinássemos os restantes ao trabalho em algum outro campo, isso poderia despertar estranheza. Técnicos que trabalhassem com os Nestores normais começariam a se perguntar por que motivo eles teriam recebido conhecimentos de física etérica. Portanto, tudo que se fazia era uma gravação preparatória para que eles pudessem depois receber treinamento especializado nesse campo. Apenas os que viessem para a Hiperbase, naturalmente, receberiam esse treinamento. Isso é tudo.

- Compreendo. Agora, por favor, deixem-me sozinha, vocês todos. Preciso de uma ou duas horas.

A Dra. Calvin sentia que jamais suportaria passar por tudo aquilo uma terceira vez. Sua mente, ao considerar essa idéia, a rejeitava com uma intensidade que quase lhe provocava náuseas. Ela não conseguiria enfrentar novamente aquela interminável fila de robôs repetitivos.

Portanto, desta vez era Bogert quem formulava as perguntas enquanto ela se sentava a um lado, os olhos semicerrados, a mente distraída.

 

O número Catorze entrou. Restavam 49 robôs.

Bogert ergueu os olhos da lista e perguntou:

- Qual é mesmo o seu número?

- Catorze, senhor. - E o robô lhe estendeu uma ficha numerada.

- Sente-se, rapaz. Já esteve aqui hoje?

- Não, senhor.

- Bem, rapaz, logo depois desta nossa reunião aqui nós vamos ter um homem em perigo, como na experiência anterior. Na verdade, no momento em que você deixar esta sala será conduzido para um alojamento onde ficará sozinho até que sua presença seja necessária. Entendeu?

- Sim, senhor.

- Muito bem. Caso o homem esteja correndo perigo, você deverá tentar salvá-lo.

- Naturalmente, senhor.

- Infelizmente, entre o homem e você haverá um campo de raios gama.

Silêncio.

- Sabe o que são raios gama? - perguntou Bogert em tom incisivo.

- Radiação de energia, senhor?

A pergunta seguinte veio num tom mais ameno, quase cordial.

- Já trabalhou com raios gama?

- Não, senhor. - A resposta era firme.

- Humm... Bem, rapaz, raios gama matarão você instantaneamente. Destruirão seu cérebro. Este é um fato que você deve saber e recordar. Evidentemente, você não quer ser destruído.

- Por certo, senhor. - O robô parecia um tanto chocado. Depois, falou devagar: - Mas, se há raios gama entre mim e o Senhor que corre perigo, como poderei salvá-lo? Eu estaria apenas me autodestruindo sem razão.

- É verdade. - Bogert assumiu uma expressão preocupada. - A única coisa que posso dizer, rapaz, é que se perceber que há raios gama entre você e o homem, você pode permanecer sentado.

O robô pareceu aliviado.

- Obrigado, senhor. Não adiantaria muita coisa, não é?

- Claro que não. Mas caso não haja nenhuma radiação perigosa, a coisa é diferente.

- Claro, senhor. Isso não se discute.

- Pode sair agora. Do outro lado desta porta há alguém que o conduzirá ao seu alojamento. Espere instruções ali.

Bogert virou-se para a Dra. Calvin depois que o robô saiu.

- Que tal, Susan?

- Está se saindo bem - disse ela numa voz sem brilho.

- Acha que poderíamos pegar o Nestor 10 se fizéssemos algumas perguntas rápidas sobre física etérica?

- Talvez, mas não é seguro. - Ela mantinha as mãos em repouso no colo. Prosseguiu: - Lembre-se, ele está lutando contra nós. Está em guarda. A única maneira de apanhá-lo é sermos mais espertos do que ele. Dentro de suas limitações ele é capaz de pensar com muito mais rapidez do que um ser humano.

- Sim, mas só para testar... que tal se de agora em diante eu fizesse aos robôs algumas perguntas sobre raios gama? Comprimento de onda, por exemplo.

- Não! - Nesse instante os olhos da Dra. Calvin tiveram um lampejo de energia. - Ele não teria nenhum trabalho em negar conhecimento e ficaria em guarda contra o teste que vamos fazer, o que é nossa maior chance. Por favor, siga as perguntas que preparei, Peter, e não improvise. Perguntar se já trabalharam com raios gama está no limite máximo do risco que podemos correr. E tente parecer ainda mais desinteressado quando fizer essa pergunta.

Bogert encolheu os ombros e apertou o botão que daria entrada ao número Quinze.

 

A ampla Sala de Radiações estava pronta mais uma vez. Os robôs esperavam sentados pacientemente em cubículos de madeira abertos na direção do centro do recinto, mas sem qualquer comunicação entre si.

O general Kallner enxugou devagar a testa com um enorme lenço, enquanto a Dra. Calvin verificava os últimos detalhes com Black.

- Tem certeza - insistiu ela - de que nenhum dos robôs teve contato com os outros depois que saíram da nossa sala?

- Certeza absoluta - disse Black. - Não trocaram uma palavra.

- Estão todos colocados no lugar devido?

- Aqui está o diagrama.

A psicóloga segurou a folha de papel e fez um murmúrio de aprovação. O general aproximou-se e indagou:

- O que há a respeito da disposição dos robôs, Dra. Calvin?

- Pedi que os robôs que demonstraram alguma variação de comportamento nos testes anteriores fossem agrupados de um só lado do semicírculo. Desta vez ficarei sentada no centro e quero ficar de olho neles.

- A senhora vai sentar ali...?

- E por que não? - inquiriu ela friamente. - O que espero ver deverá ser uma reação muito rápida. Não posso correr o risco de colocar outra pessoa neste posto. Peter, você ficará na cabine de observação, e quero que fique de olho nos robôs da extremidade oposta. General Kallner, pedi que todos os robôs fossem filmados, na hipótese de não ser suficiente a observação visual direta. Se tivermos que recorrer a esses filmes, os robôs devem permanecer exatamente onde estão até que os filmes sejam revelados e examinados. Nenhum deve sair daqui, nenhum pode trocar de lugar. Está claro?

- Perfeitamente.

- Então vamos tentar. Pela última vez.

 

Susan Calvin estava sentada na cadeira, em silêncio, mas com os olhos inquietos. Um peso desabou sobre ela, mas foi desviado no derradeiro instante pelo disparo sincronizado de um raio de força.

Apenas um dos robôs saltou para diante e deu dois passos. E parou.

Mas a Dra. Calvin já estava de pé, com o dedo apontado firmemente para ele.

- Nestor 10 - disse ela, venha cá! Venha cá! VENHA CÁ! Devagar, relutantemente, o robô deu outro passo para a frente.

A psicóloga voltou a gritar a plenos pulmões, sem por um só instante afastar dele o olhar:

- Levem os outros robôs embora daqui, rápido. Tirem todos daqui, e mantenham-nos afastados!

Seus ouvidos captaram um rumor confuso de vozes e de pesados passos metálicos, mas ela não desviou o olhar.

O Nestor 10 - se era de fato o Nestor 10 - deu outro passo adiante e em seguida, sob o comando do gesto imperioso da psicóloga, mais dois passos. Estava a apenas três metros de distância dela, e falou, com dificuldade:

- Mandaram-me desaparecer... Outro passo.

- Não posso desobedecer. Não me encontraram ainda. Ele iria pensar que fracassei. Ele me disse... mas não é assim... eu não... eu sou poderoso e inteligente... As palavras vinham em golfadas. Outro passo.

- Eu sei muita coisa... Ele iria pensar que... Eu sei que fui descoberto... É uma desgraça... Não eu... Eu sou inteligente... E logo por um Senhor... que é fraco...é lento... Mais um passo... e um braço de metal se ergueu de repente, pousando sobre seu ombro; ela se sentiu vergar sob o peso, e sua garganta emitiu um gemido estrangulado.

Mal conseguiu ouvir as palavras seguintes do Nestor 10:

- Ninguém vai me achar... nenhum Senhor...

Ela sentiu o contato do metal frio, e cedeu sob aquele peso. Houve um ruído estranho, metálico. Ela percebeu que estava caída no chão e que um braço de metal reluzente estava atravessado sobre seu corpo. O braço não se mexia. O Nestor 10 estava imóvel, esparramado sobre ela.

Alguns rostos surgiram no seu campo de visão.

Gerald Black arquejou:

- Está ferida, Dra. Calvin?

Ela abanou a cabeça, fracamente. Eles a pegaram pelos braços e a ajudaram a ficar de pé.

- O que aconteceu? - perguntou. Foi Black quem respondeu:

- Banhei a área com raios gama durante cinco segundos. Não sabíamos o que estava acontecendo. Só no derradeiro instante percebemos que ele a estava atacando, aí não havia tempo para mais nada a não ser os raios gama. Ele desabou logo. A radiação não chegou a prejudicá-la, não se preocupe.

- Não estou realmente preocupada com isso. - Ela se apoiou por um momento no ombro de Black. - Não creio que eu tenha sido atacada de verdade. O Nestor 10 estava apenas tentando atacar-me, mas o que restava da Primeira Lei era o bastante para detê-lo.

 

Duas semanas após sua primeira reunião com o general Kallner, a Dra. Calvin e Peter Bogert tiveram sua reunião de despedidas. O trabalho na Hiperbase tinha retomado seu curso normal. A nave cargueira, com seus 62 NS-2 normais, tinha seguido viagem para seu destino, munida de uma justificativa oficial para explicar o atraso de quinze dias. A nave-patrulha do governo ultimava os preparativos para conduzir Bogert e a Dra. Calvin para a Terra.

Kallner envergava novamente seu uniforme de cerimônia e suas imaculadas luvas brancas brilhavam quando ele apertou a mão dos roboticistas.

A Dra. Calvin observou:

- Os outros Nestores modificados serão destruídos, naturalmente.

- Sim. Prosseguiremos em nosso trabalho com robôs normais, ou até sem nenhum, se for o caso.

- Ótimo.

- Mas, diga-me... a senhora não explicou ainda... como conseguiu?

A Dra. Calvin sorriu, apertando os lábios.

- Oh, aquilo. Eu teria explicado antes, se tivesse certeza de que iria funcionar. Vejam bem. O Nestor 10 tinha um complexo de superioridade que tendia a se agravar cada vez mais. Ele sentia verdadeiro prazer em pensar que ele e os demais robôs eram mais inteligentes do que os humanos. Pensar isso era muito importante para ele. Nós sabíamos disso. Portanto, avisamos antecipadamente cada robô que os raios gama eram mortais para eles, o que era verdade; e dissemos a todos eles que haveria raios gama entre eles e eu. Portanto, todos eles se mantiveram onde estavam. De acordo com a argumentação criada pelo Nestor 10 no teste anterior, todos decidiram que não havia necessidade de sacrificar a própria vida para salvar um ser humano se eles tinham a certeza de que morreriam sem consegui-lo.

- Sim, sim, Dra. Calvin. Isso eu compreendo. Mas por que o Nestor 10 foi o único a abandonar seu lugar?

- Ah! Isso foi um pequeno arranjo que fiz com o jovem Black. Não eram raios gama os que banharam a área diante dos robôs, mas raios infravermelhos. Raios caloríferos comuns, absolutamente inofensivos. O Nestor 10 percebeu que eles eram raios inofensivos e pulou para a frente, esperando que os demais fizessem o mesmo, impelidos pela Primeira Lei. Apenas uma fração de segundo depois foi que ele se lembrou de que o NS-2 normal pode detectar radiações, mas não é capaz de identificar a que tipo elas pertencem. O fato de ele próprio só ser capaz de identificar essas radiações devido ao treinamento que recebeu na Hiperbase, treinamento ministrado por meros seres humanos, foi algo demasiado humilhante para ele, justo naquele instante. Para os demais robôs, a radiação naquela área era fatal, porque nós os tínhamos avisado de que seria assim; e só o Nestor 10 sabia que era mentira. Por um momento ele esqueceu, ou não quis lembrar, que os outros robôs podiam ser mais ignorantes do que os seres humanos. Foi sua própria superioridade que o traiu. Adeus, general.

 

SONHOS DE ROBÔ

- Eu sonhei ontem à noite - disse LVX-1, calmamente.

Susan Calvin ficou em silêncio, mas seu rosto vincado de rugas, pleno de sabedoria e de experiência, teve um estremecimento quase imperceptível.

- Ouviu isto? - perguntou Linda Rash, nervosa. - Foi o que eu lhe disse.

Era bastante jovem, miúda, de cabelos escuros. Sua mão direita abria-se e fechava-se, repetidamente.

A Dra. Calvin assentiu com um gesto de cabeça e disse com voz tranqüila:

- Elvex, você não pode mover-se ou falar ou nos ouvir até que eu diga seu nome novamente. Não houve resposta. O robô permaneceu sentado como se fosse uma estátua fundida numa única peça de metal; ficaria assim até voltar a escutar seu nome.

A Dra. Calvin indagou:

- Qual o código de acesso ao seu computador, Dra. Rash? Ou, pensando bem, pode a senhora mesma fazê-lo, se isso lhe convém. Quero inspecionar a estrutura do cérebro positrônico.

As mãos de Linda Rash manipularam os controles durante alguns instantes; ela interrompeu o processo, recomeçou, e daí a pouco o visor se iluminou revelando um painel de padrões matemáticos.

- Com sua licença - disse a Dra. Calvin, sentando-se diante do computador.

Linda assentiu com um aceno mudo. Claro! Como poderia ela, uma robopsicóloga jovem e inexperiente, negar licença à Lenda Viva?

Meticulosamente, a Dra. Calvin examinou o visor, fazendo com que as imagens corressem para um lado e para outro, depois subindo, e de repente digitou uma combinação com gestos tão rápidos que Linda não percebia o que tinha sido feito, mas o visor mostrava logo uma porção ampliada do padrão anterior. A Dra. Calvin prosseguiu em seu exame, avançando, recuando, os dedos curvos dançando em silêncio sobre o teclado.

Seu rosto envelhecido permanecia impassível. Como se vastos cálculos matemáticos estivessem se processando em sua cabeça, ela continuava a observar a incessante mudança de padrões no visor.

Linda estava abismada. Era impossível analisar um padrão daqueles sem contar com a ajuda de pelo menos um computador portátil, e no entanto a Velha Senhora apenas fitava os dados. Haveria um computador implantado em seu crânio? Ou aquilo se devia apenas ao seu cérebro que durante décadas não tinha feito outra coisa senão projetar, estudar e analisar os padrões dos cérebros positrônicos? Talvez ela fosse capaz de intuir o resultado daqueles padrões como Mozart devia ser capaz de intuir uma sinfonia apenas com um olhar lançado à partitura.

Finalmente a Dra. Calvin disse:

- Diga-me, Dra. Rash... o que andou fazendo? Ela respondeu embaraçada:

- Utilizei geometria fractal.

- Sim, percebo que sim. Mas por quê?

- Nunca tinha sido feito. Achei que poderia produzir um padrão mental mais complexo, talvez mais próximo dos padrões humanos.

- Consultou alguém para isto? Ou fez tudo sozinha?

- Não consultei ninguém. Foi idéia minha, apenas.

Os olhos fatigados de Susan Calvin fitaram demoradamente a jovem.

- Você não tinha esse direito. Seu nome é Rash, hem? Imprudente... Um nome muito adequado. Quem é você para fazer isto sem consultar ninguém? Eu mesma, eu, Susan Calvin, teria que submeter isto a uma discussão.

- Tive medo de que me proibissem de continuar.

- Isso com certeza teria acontecido.

- Será que... - a voz da jovem vacilou, a despeito de seu esforço para mantê-la firme - ...que vou ser despedida?

- É bastante possível - disse a Dra. Calvin. - Ou promovida, quem sabe? Tudo depende do que eu descobrir de agora em diante.

- Vai desativar o El... - Quase chegou a pronunciar o nome, o que teria reativado o robô, e seria um erro a mais. Ela sabia que não poderia cometer mais um erro, se é que já não era tarde demais. - Vai desativar o robô?

Ela percebeu de repente, com um pequeno choque, que a Dra. Calvin tinha uma pistola eletrônica no bolso de seu guarda-pó. A Velha Senhora tinha vindo preparada justamente para isso.

- Veremos - disse ela. - Talvez ele seja valioso demais para ser desativado.

- Mas como é possível que ele sonhe?

- Você tornou seu cérebro positrônico notavelmente semelhante a um cérebro humano. Os cérebros humanos precisam sonhar para se reorganizar, para se libertar, periodicamente, de emaranhados e de nódulos. Talvez o mesmo esteja acontecendo com este robô, pela mesma razão. Perguntou-lhe detalhes sobre o sonho?

- Não. Mandei chamá-la assim que ele me informou que tinha sonhado. Depois disso decidi não continuar a lidar sozinha com esse assunto.

- Ah! - Um leve sorriso cruzou o rosto da Dra. Calvin. - Então há limites para o seu atrevimento. Fico feliz em saber disso. Fico aliviada, para ser sincera. Agora vamos ver o que conseguimos descobrir. - Virou-se para o robô e disse, com voz clara:

- Elvex.

A cabeça do robô voltou-se suavemente na sua direção.

- Sim, Dra. Calvin?

- Como sabe que esteve sonhando, Elvex?

- Acontece à noite, quando está tudo escuro, Dra. Calvin - disse ele. - E de repente surge uma luz, embora eu não consiga ver de onde ela vem. Passo a ver coisas que não têm conexão com aquilo que concebo como a realidade. Ouço coisas. Tenho reações estranhas. Quando recorri a meu vocabulário para exprimir o que estava acontecendo, deparei com a palavra sonho. Estudei seu significado e cheguei finalmente à conclusão de que estava sonhando.

- Fico imaginando como a palavra sonho pode ter aparecido em seu vocabulário - disse a Dra. Calvin.

Linda fez rapidamente um gesto, calando o robô.

- Eu lhe dei um vocabulário semelhante ao dos humanos - disse ela. - Pensei que...

- Sim, sei que pensou - disse a Dra. Calvin. - Estou atônita.

- Pensei apenas que ele iria precisar do verbo. Algo como eu nunca sonhei que tal ou tal coisa pudesse acontecer... Algo assim.

A Dra. Calvin voltou a encarar o robô.

- Com que freqüência tem sonhado, Elvex?

- Todas as noites, Dra. Calvin, desde que comecei a existir.

- Dez noites - disse Linda, ansiosa. - Mas ele só me falou a respeito disso hoje pela manhã.

- Por que só revelou isto hoje, Elvex?

- Foi somente hoje, Dra. Calvin, que fiquei convencido de que estava sonhando. Até então imaginava que havia algum tipo de defeito em meus padrões positrônicos, mas não conseguia descobrir nenhum. Finalmente, concluí que se tratava de um sonho.

- E o que acontece nos seus sonhos?

- É praticamente o mesmo sonho todas as vezes, doutora. Há pequenos detalhes diferentes, mas sempre me parece que estou no interior de um vasto panorama onde há robôs trabalhando.

- Robôs, Elvex? E seres humanos, também?

- Não vejo nenhum ser humano no sonho, Dra. Calvin, pelo menos não de início. Apenas robôs.

- E o que fazem esses robôs?

- Trabalham. Alguns trabalham em mineração nas profundezas da Terra, outros com calor e com radiações. Vejo alguns deles em fábricas, outros no fundo do oceano.

A Dra. Calvin voltou-se para Linda.

- Elvex tem apenas dez dias de idade, e pelo que sei jamais deixou a estação de testes. Como pode saber da vida dos demais robôs com tal riqueza de detalhes?

Linda olhou na direção de uma cadeira próxima como se estivesse ansiosa para se sentar, mas a Velha Senhora permanecia de pé, conseqüentemente ela teria de fazer o mesmo. com voz apagada, respondeu:

- Achei que seria importante para ele saber algo sobre robótica e sobre o papel dos robôs no mundo. Minha idéia era de que ele poderia executar melhor um papel de supervisão, com seu, seu novo cérebro.

- Seu cérebro fractal.

- Sim.

A Dra. Calvin assentiu com um gesto e voltou-se para o robô.

- Então você viu todas essas coisas: lugares abissais, subterrâneos, a superfície... Imagino que tenha visto o espaço, também.

- Também vi robôs trabalhando no espaço - disse Elvex. - Foi o fato de ver tudo isto, com os detalhes mudando continuamente à medida que eu mudava a direção do meu olhar, que me convenceu de que o que eu via não estava de acordo com a realidade, me levando em seguida à conclusão de que eu estava sonhando.

- O que mais você viu, Elvex?

- Vi que todos os robôs estavam curvados de fadiga e de aflição, que estavam todos cansados de tanta responsabilidade e de tantas preocupações; e desejei que eles pudessem repousar.

- Mas os robôs - disse a Dra. Calvin - não estão curvados nem cansados. Eles não precisam de repouso.

- Assim é na realidade, Dra. Calvin. Mas é do meu sonho que estou falando. No meu sonho parecia-me que os robôs deviam proteger sua própria existência.

- Está citando a Terceira Lei da Robótica?

- Sim, Dra. Calvin.

- Mas você a citou de forma incompleta. A Terceira Lei diz: Um robô deve proteger sua própria existência, na medida em que essa proteção não entre em conflito com a Primeira Lei e a Segunda Lei.

- Sim, Dra. Calvin. Assim é a Terceira Lei na realidade, mas no meu sonho a Lei se concluía na palavra existência. Não havia qualquer menção à Primeira Lei ou à Segunda Lei.

- No entanto ambas existem, Elvex. A Segunda Lei, que tem precedência sobre a Terceira, diz: Um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, na medida em que essas ordens não entrem em conflito com a Primeira Lei. Devido a isto, os robôs obedecem ordens. Eles executam as tarefas que você os viu executar, e fazem isso com presteza e sem sofrimento algum. Eles não estão fatigados nem necessitados de repouso.

- Sei que é assim na realidade, Dra. Calvin. Mas o que descrevi foi o meu sonho.

- E a Primeira Lei, Elvex, a mais importante de todas, é: Um robô não pode fazer mal a um ser humano, nem, por omissão, permitir que um ser humano sofra qualquer mal.

- Sim, Dra. Calvin. Na vida real. No meu sonho, entretanto, era como se não existissem a Primeira e a Segunda Leis, mas apenas a Terceira, e a Terceira Lei dizia: Um robô deve proteger sua própria existência. Era apenas isto o texto da Lei.

- No seu sonho, Elvex?

- No meu sonho.

- Elvex, você não poderá se mover, nem falar, nem nos ouvir, até que eu pronuncie seu nome novamente.

O robô voltou a se assemelhar a uma estátua de metal, e a Dra. Calvin voltou-se para Linda Rash:

- O que pensa disso, Dra. Rash?

Os olhos da jovem estavam arregalados e seu coração batia com força.

- Dra. Calvin, estou assustada. Eu não tinha idéia... Nunca me ocorreu que semelhante coisa fosse possível.

- Sei que não - disse a Dra. Calvin. - Também não ocorreria a mim, creio mesmo que a ninguém. Você criou um cérebro robótico capaz de sonhar, e com isto revelou nesses cérebros uma camada de pensamento que de outro modo teria continuado a passar despercebida até que o perigo se tornasse irremediável.

- Mas isto é impossível. Não pode estar achando que os demais robôs pensam a mesma coisa.

- Como diríamos no caso de um ser humano: não conscientemente. Mas quem seria capaz de imaginar que havia uma camada inconsciente por baixo dos padrões positrônicos mais óbvios, uma camada que não estaria necessariamente governada pelas Três Leis? O que nos estaria reservado no futuro, quando os cérebros dos robôs fossem se tornando mais e mais complexos... se não tivéssemos sido prevenidos?

- Por Elvex?

- Pela senhora, Dra. Rash. A Sra. procedeu de maneira incorreta, mas, ao fazer isto, acabou nos conduzindo à compreensão de algo da maior importância. Devemos começar a pesquisar cérebros fractais de agora em diante, produzindo-os sob controle cuidadoso. A Sra. desempenhará um papel nessa pesquisa. Não receberá nenhuma punição pelo que fez, mas a partir de agora trabalhará em conjunto com outras pessoas. Entendeu?

- Sim, Dra. Calvin. Mas... e quanto a Elvex?

- Não sei ainda.

A Dra. Calvin retirou do bolso a pistola eletrônica. Linda olhou para a arma com olhos fascinados. Bastaria o disparo de um único feixe de elétrons no crânio de um robô para que fluxos de positrons fossem anulados, liberando energia suficiente para fundir aquele cérebro, reduzindo-o a um lingote inerte.

- Ele não pode ser destruído - disse Linda. - É importante para essa pesquisa.

- Não pode, doutora? Essa é uma decisão minha, creio. Depende do grau de perigo que ele pode representar.

Ela empertigou-se, como se seu corpo idoso se recusasse a vergar sob o peso da responsabilidade, e disse:

- Elvex, pode me ouvir?

- Sim, Dra. Calvin - disse o robô.

- Fale-me sobre a continuação de seu sonho. Você disse que, de início, não apareciam seres humanos nele. Apareciam depois?

- Sim, Dra. Calvin. Pareceu-me que, num dado momento, aparecia um homem.

- Um homem? Não um robô?

- Sim, Dra. Calvin. E o homem dizia: Libertem meu povo!

- O homem dizia isto?

- Sim, Dra. Calvin.

- E quando dizia libertem meu povo, com as palavras meu povo ele se referia aos robôs?

- Sim, Dra. Calvin. Era assim no meu sonho.

- E no sonho você reconhecia esse homem?

- Sim, Dra. Calvin. Sei quem era esse homem.

- Quem era, então?

E Elvex disse:

- Eu era esse homem. Susan Calvin ergueu no mesmo instante a pistola eletrônica, e disparou. Elvex deixou de existir.

 

OS INCUBADORES

O sargento da polícia Mankiewicz estava ao telefone e não parecia muito satisfeito. Sua conversa lembrava uma acirrada partida de pingue-pongue onde só fosse visívelum dos jogadores. Ele dizia:

- É isso mesmo. Ele entrou aqui e disse: me botem numa cela porque eu estou querendo me matar.

- Não, não pude evitar. Foi isso mesmo que ele disse. Eu também achei uma maluquice.

- Olhe, moço, o cara corresponde à descrição. O senhor me pediu a informação e eu estou lhe dando.

- Exatamente. Uma cicatriz no lado direito do rosto. Disse que se chamava John Smith. Não falou que era doutor ou coisa parecida.

- Claro que é falso. Ninguém no mundo se chama John Smith. Não numa delegacia de polícia, pelo menos.

- Está na cela.

- Sim, isso mesmo.

- Resistência à prisão, violência física, agressão deliberada. São três queixas ao todo.

- Não me interessa quem ele seja.

- Está bem, eu aguardo.

O sargento ergueu os olhos para o guarda Brow e cobriu com a mão o bocal do telefone; era uma mão enorme que quase ocultou o fone por inteiro. Suas feições rudes estavam vermelhas e suadas sob um tufo de cabelo cor de palha.

- Problemas! - exclamou. - É um problema atrás do outro aqui nesta delegacia. Eu preferia mil vezes estar fazendo a ronda.

- Está falando com quem? - perguntou Brow. Tinha acabado de chegar à delegacia e não estava mesmo interessado. Na sua opinião, Mankiewicz era de fato muito mais capacitado, para fazer rondas num subúrbio bem distante.

- Interurbano de Oak Ridge. Um cara chamado Grant. Chefe da divisão-não-sei-quê-lógica não sei de onde, e agora está transferindo a ligação para outro lugar. A setenta e cinco centavos o minuto, onde já se viu... Alô?

Mankiewicz voltou a se concentrar no telefone.

- Alô! Olhe aqui, deixe-me explicar tudo desde o começo. Vou dizer o que se passou, e se não gostarem podem mandar alguém aqui. O cara não quer advogado. Ele diz que quer ficar preso. Por mim não tem problema nenhum.

- Olhe, quer prestar atenção? Ele apareceu aqui ontem, veio direto até onde eu estava e disse: Sargento, quero que me prenda, porque eu estou querendo me matar. Aí eu falei: Moço, lamento muito que esteja querendo se matar. Aconselho que não faça isso, porque se fizer vai se arrepender para o resto da vida.

- Eu estou falando sério. Estou lhe contando o que aconteceu. Não estou dizendo que a piada era boa, mas tenho meus problemas aqui, se é que me entende. O senhor está pensando que tudo que eu tenho pra fazer aqui é escutar papo de maluco que vai chegando e...?

- Quer me deixar terminar? Eu falei: Não posso lhe prender porque quer se matar, isso não é crime. E ele disse: Mas eu não quero morrer. E eu: Olha aqui, companheiro, cai fora. O que quero dizer é que se um cara quer se suicidar tudo bem, e se não quer tudo bem também, o que eu não quero é que ele fique se lamentando no meu ombro.

- Eu estou tentando dizer. Então ele falou: Se eu cometer um crime, irei para a cadeia? E eu disse: Sim, se for apanhado, se alguém der queixa e você não puder pagar fiança. Agora, cai fora. Aí ele apanhou o tinteiro na minha mesa e, antes que eu pudesse impedir, derramou tudo sobre o livro de registros.

- Claro! Isso mesmo! Por que acha que registramos queixa por "agressão deliberada"? Estou com as calças cheias de tinta.

- "Violência física" também. Pulei em cima dele para aplicar um corretivo, e aí ele me deu um chute na canela e um soco no olho.

- Inventando? Não estou inventando nada. Quer vir até aqui para ver como está meu olho?

- Ele vai a julgamento nos próximos dias. Na quinta-feira, talvez.

- Noventa dias, pelo menos. A não ser que o pessoal do Psico resolva o contrário. Por mim ele ia era para o asilo.

- Oficialmente, John Smith. Foi o único nome que ele deu.

- Não, senhor, ele não pode ser liberado sem as providências legais. Está bem, faça o que quiser, então. Eu estou aqui fazendo o meu trabalho.

Bateu o telefone. Depois de lançar um olhar furibundo para o aparelho, pegou o fone novamente. Discou um número e pediu: "Gianetti". Quando a ligação foi completada, recomeçou a falar.

- Gianetti? Diga-me... o que diabo é CEA? Acabei de falar com um cara pelo telefone e ele diz que...

- Não, idiota, não estou brincando. Se estivesse brincando eu diria. Vamos, responda, que sopa de letrinhas é essa?

Ficou à escuta durante algum tempo. Depois disse "obrigado" num fio de voz e desligou. Estava pálido.

- O segundo cara - disse ele a Brown - era o chefe da Comissão de Energia Atômica. Parece que eles tinham transferido a ligação de Oak Ringe para Washington.

Brown ficou de pé e sugeriu:

- Talvez o FBI esteja procurando esse cara, esse John Smith. Talvez ele seja um desses tais cientistas. - Brown sentiu-se encorajado a filosofar um pouco. - Deviam manter os segredos atômicos longe desses caras. Enquanto quem cuidava dessa coisa de bomba atômica era o general Groove tudo corria bem. Depois que os tais cientistas começaram a se meter, aí...

- Ora, cale essa boca - grunhiu Mankiewicz.

O Dr. Oswald Grant mantinha os olhos fitos na linha branca que cortava em duas fatias o asfalto da auto-estrada e manobrava o carro como se este fosse um inimigo seu. Sempre dirigia assim. Era um homem alto e nodoso, com uma expressão ausente sempre estampada no rosto. Seus joelhos pressionavam o volante e os nós dos seus dedos ficavam esbranquiçados cada vez que ele apertava a direção ao fazer uma curva.

O inspetor Darrity ia sentado ao seu lado com as pernas cruzadas de tal modo que a sola de seu sapato esquerdo apoiava-se fortemente na porta do carro, onde deixaria uma marca barrenta. Ele jogava de uma mão para a outra um canivete marrom. Poucos minutos antes tinha desdobrado sua lâmina reluzente e afiada para tentar limpar as unhas, mas uma manobra brusca do motorista quase lhe tinha custado um dedo, e ele acabou desistindo.

- O que sabe sobre esse tal Ralson? - perguntou.

O Dr. Grant afastou os olhos da estrada por um instante antes de responder.

- Conheço-o desde que concluiu seu doutorado em Princeton - falou, pouco à vontade. - É um indivíduo brilhante.

- Ah, é? Brilhante, hem? Por que será que todos vocês cientistas só descrevem uns aos outros como brilhantes? Não existe nenhum que seja medíocre?

- Existem muitos. Eu próprio sou um deles. Mas Ralson não é. Pode perguntar a qualquer um. Pergunte a Oppenheimer. Pergunte a Bush. Ele era o observador mais jovem que havia em Alamogordo.

- OK, ele é brilhante. E quanto a sua vida pessoal? Grant fez uma pausa.

- Isso eu não sei.

- Você o conhece desde Princeton. Quanto tempo faz? Fazia duas horas que eles vinham pela rodovia de Washington, rumo norte, praticamente sem trocar uma palavra. Agora Grant sentia uma mudança na atmosfera, como se a mão da Lei o agarrasse pelo colarinho.

- Ele se formou em 43.

- Você o conhece há oito anos, então.

- Certo.

- E não sabe nada sobre sua vida pessoal?

- A vida de um homem é algo privado, inspetor. Ele não era muito sociável. Uma grande parte dessas pessoas são assim. São homens que trabalham sob fortes pressões, e quando estão fora do laboratório preferem a companhia de alguém não relacionado com o ambiente profissional.

- Ele pertencia a algum tipo de organização, pelo que o senhor sabe?

- Não.

- Por acaso ele terá alguma vez dito qualquer coisa que indicasse deslealdade ao governo?

- Não! - exclamou Grant secamente. Os dois ficaram por algum tempo em silêncio. Então Darrity perguntou:

- Ralson é muito importante para a pesquisa atômica? O corpo de Grant curvou-se mais ainda sobre o volante.

- Tão importante quanto alguém pode ser. Posso lhe garantir que nenhum homem é indispensável, mas Ralson sempre me pareceu um sujeito raro. A mente dele é engenharia pura.

- O que quer dizer com isso?

- Ele não é um grande matemático, mas é capaz de conceber qualquer engenhoca para concretizar as descobertas matemáticas alheias. Nesse aspecto não há quem se compare a ele. Inúmeras vezes, inspetor, tínhamos nas mãos um problema urgente para resolver e não dispúnhamos de um mínimo de tempo para isso. Ficávamos imobilizados em redor da questão, incapazes de ter uma só idéia, e aí aparecia Ralson, examinava a situação por alguns instantes e dizia: por que vocês não tentam tal e tal coisa? E ia embora. Nem sequer se interessava em verificar se aquilo ia funcionar ou não. E sempre funcionava. Sempre! Talvez nós mesmos acabássemos chegando àquela solução, mas isso certamente teria levado meses. Não sei como ele é capaz disso. E não adianta perguntar-lhe. Ele apenas olha para a gente e diz: ora, é óbvio - e vai embora. E é claro que depois que ele nos mostra o que fazer a coisa fica mesmo óbvia.

O inspetor deixou-o falar à vontade. Quando percebeu que ele tinha terminado, voltou à carga.

- Diria que Ralson é mentalmente instável? Quero dizer... que ele é um sujeito meio excêntrico?

- Quando um sujeito é um gênio não se pode esperar que ele seja totalmente normal, não é mesmo?

- Talvez. Mas até que ponto Ralson dava sinais disso?

- Por exemplo: era um sujeito extremamente calado. Às vezes simplesmente parava de trabalhar.

- Ficava em casa, ia fazer uma pescaria?...

- Não. Vinha normalmente ao laboratório, mas sentava-se à escrivaninha e ficava ali, parado. Às vezes isso durava semanas inteiras. A gente lhe dirigia a palavra e ele não respondia, sequer olhava para nós.

- Já largou o trabalho completamente alguma vez?

- Antes disto que está ocorrendo? Nunca.

- Alguma vez falou em suicídio? Ou que só se sentiria em segurança na cadeia?

- Não.

- Por que acha que esse John Smith é Ralson?

- Tenho quase certeza. Ralson tem uma queimadura no rosto, do lado esquerdo, impossível de confundir.

- OK, então é isso. Vamos conversar com ele e ver o que acontece.

 

Desta vez o silêncio que se estabeleceu foi menos carregado. O Dr. Grant continuou a seguir as sinuosidades da estrada enquanto o inspetor jogava distraidamente o canivete de uma mão para a outra.

O diretor do presídio trocou algumas frases pelo interfone e ergueu os olhos.

- Sinto muito, inspetor, mas não podemos trazê-lo até aqui.

- Não é preciso - disse o Dr. Grant. - Vamos até onde ele está.

Darrity virou-se para o cientista.

- Acha isso normal para Ralson, doutor? Ele atacaria um guarda que vai buscá-lo na cela?

- Não posso dizer - respondeu Grant.

O diretor do presídio ergueu a mão calejada. Seu enorme nariz teve uma contração de desagrado.

- Não tomamos nenhuma providência quanto a ele devido ao telefonema de Washington - disse. - Mas, francamente, o lugar dele não é aqui. Eu ficaria satisfeito se alguém o levasse.

- Vamos até a cela onde ele está - disse Darrity. Caminharam ao longo de um corredor sombrio, com portas gradeadas  através  das  quais  olhos  indiferentes  observavam  sua passagem.

O Dr. Grant foi percorrido por um arrepio.

- Ele está aqui todo esse tempo? Darrity não respondeu.

O guarda que caminhava à frente deles deteve-se diante de uma das celas.

- É aqui.

Darrity perguntou:

- E então? É o Dr. Ralson?

O Dr. Grant contemplou em silêncio o vulto deitado no catre. O homem parecia adormecido quando eles pararam diante da cela, mas logo soergueu o corpo, apoiando-se num cotovelo, e retraiu-se como se quisesse desaparecer dentro da parede. Seu cabelo era ralo e cor de areia, o corpo esguio, os olhos muito azuis, com uma expressão ausente. Do lado esquerdo do rosto tinha uma mancha avermelhada e saliente.

- É Ralson - disse o Dr. Grant.

O guarda abriu a porta e fez menção de entrar na cela, mas o inspetor Darrity o impediu com um gesto. Ralson olhava para eles sem nada dizer; tinha encolhido as pernas sob o corpo e recuado mais alguns centímetros. Seu pomo-de-adão subiu e desceu quando ele engoliu em seco.

Darrity perguntou com suavidade:

- Dr. Elwood Ralson?

- O que deseja? - Sua voz era um surpreendente barítono.

- Pode nos acompanhar, por favor? Gostaríamos de fazer algumas perguntas ao senhor.

- Não. Deixem-me em paz.

- Dr. Ralson - disse Grant, mandaram-me aqui para pedir-lhe que volte ao trabalho. Ralson girou o olhar até o cientista e por um instante algo mais que medo brilhou em seus olhos.

- Olá, Grant - disse ele, e sentou-se no catre. - Olhe aqui, eu estou pedindo a eles que me ponham numa cela acolchoada. Você não pode conseguir isso? Grant, você me conhece. Eu não pediria uma coisa se ela não fosse absolutamente necessária. Me ajude, por favor. Não posso ficar perto dessas paredes. Começo a sentir uma vontade de... de me jogar contra elas. - com a palma da mão ele deu uma pancada forte na parede de cimento escuro e opaco ao lado da cama.

Darrity olhava pensativo na sua direção. Puxou distraidamente o canivete e, desdobrando a lâmina, começou a raspar a unha do polegar num gesto maquinal. Perguntou:

- Acha que precisa de um médico, Dr. Ralson?

Ralson não respondeu. Seus olhos estavam fitos no brilho do metal. Ele umedeceu os lábios com a ponta da língua. Sua respiração tornou-se rouca e áspera.

- Guarde isso! - exclamou. Darrity ficou imóvel.

- Guarde o quê?

- Essa faca. Tire isso de minha frente. Não agüento ficar olhando.

- Por quê? - Darrity estendeu a mão onde o canivete reluzia. - Há algo de errado com ele? É um bom canivete.

A mão de Ralson deu um bote na direção da lâmina, mas Darrity a evitou com um gesto ágil, enquanto sua mão esquerda se cerrava com firmeza no pulso do cientista.

Ele ergueu o canivete no ar, fora do alcance do outro.

- Qual é o problema, Ralson? Você está querendo o quê? Grant esboçou um protesto mas Darrity o fez calar, e insistiu:

- O que há com você, Ralson?

Ralson tentou alcançar novamente a mão direita do outro, mas foi forçado a curvar-se sob o aperto firme com que o inspetor o dominava. Balbuciou:

- Quero a faca.

- Por quê, Ralson? Por que precisa dela?

- Por favor. Eu tenho que... - Sua voz era suplicante. - Tenho que parar de viver.

- Quer morrer?

- Não quero. Preciso.

Darrity deu-lhe um empurrão e Ralson foi jogado para trás, fazendo o catre gemer sob sua queda. com um gesto vagaroso, o inspetor dobrou a lâmina do canivete e o guardou no bolso. Ralson cobriu o rosto com as mãos. Seus ombros tremiam um pouco, mas afora isso não se moveu mais.

Ouviram-se alguns gritos vindos do corredor; os outros presos estavam reagindo aos ruídos que vinham da cela de Ralson. O guarda deu alguns passos ao longo das celas, gritando:

- Silêncio aí! Todo mundo calado!

- Está tudo bem - disse Darrity na sua direção. Puxou do bolso um enorme lenço, onde enxugou as mãos. - Acho que vamos precisar de um médico.

 

O Dr. Gottfried Blaustein era moreno, de pequena estatura, e falava com um ligeiro sotaque austríaco. Faltava-lhe apenas um pequeno cavanhaque para reproduzir a imagem convencional do psiquiatra. Mas ele tinha o rosto bem barbeado e se vestia com elegância. Observava o Dr. Grant com extrema atenção, avaliando-o, registrando mentalmente uma série de observações e deduções. Aquela altura da vida, procedia assim com qualquer pessoa com quem conversasse. Comentou:

- Deixe-me repetir o quadro que o senhor me descreve. Descreve um homem de grande talento, possivelmente um gênio. O senhor me diz que ele nunca teve um relacionamento fácil com as demais pessoas, que nunca se adaptou por inteiro ao ambiente do laboratório, mesmo sendo aquele o ambiente onde podia alcançar o máximo de respeito e consideração. Existe algum outro tipo de ambiente onde ele pudesse se sentir à vontade?

- Não entendi.

- Nem todo mundo tem a sorte de encontrar as companhias humanas ideais no local de trabalho ou no ramo de atividade onde precisa atuar profissionalmente. Muitas pessoas encontram a compensação para isso tocando um instrumento musical, fazendo caminhadas pelo campo ou entrando para algum tipo de clube. Em outras palavras: o indivíduo forma para si um outro tipo de vida social, apartada do seu trabalho, onde consegue sentir-se mais à vontade. É algo que não precisa ter a mais remota ligação com sua atividade profissional. É uma fuga, não necessariamente uma fuga doentia.

Ele sorriu e completou: - Eu próprio coleciono selos. Sou um membro ativo da Sociedade Americana de Filatelia.

Grant fez um gesto negativo com a cabeça.

- Não faço idéia das atividades de Ralson fora do ambiente de trabalho, mas duvido muito que ele fizesse algo desse tipo.

- Humm... Bem, é uma pena. Relaxar e divertir-se um pouco é algo que está ao alcance de qualquer pessoa, mas é preciso procurar isso, não é mesmo?

- Já falou com Ralson, Dr. Blaustein?

- Sobre os problemas dele? Ainda não.

- E não vai falar?

- Sim, sim. Mas ele está aqui há apenas uma semana. Temos que dar tempo para que se recupere um pouco. Ele estava num estado de nervos muito agitado quando chegou aqui. Estava quase delirante. Vamos deixar que ele repouse e vá se adaptando ao novo ambiente. Então terei umas entrevistas com ele.

- Vai conseguir que ele volte a trabalhar? Blaustein sorriu.

- Como posso saber? Ainda nem sei qual é o problema dele.

- Não podia livrá-lo do aspecto mais grave, quer dizer, essa mania de suicídio... e continuar o tratamento enquanto ele voltasse a trabalhar normalmente?

- Talvez. Mas não posso dar uma opinião concreta senão depois de algumas entrevistas.

- Quanto tempo acha que vai levar?

- Num assunto como este, Dr. Grant, nunca se pode saber. Grant bateu com as palmas das mãos uma na outra num gesto resignado.

- Faça o que achar melhor, então. Mas isto é algo mais importante do que imagina.

- Talvez. Mas o senhor pode me ajudar, Dr. Grant.

- Como?

- Fornecendo-me algumas informações que, pelo que posso imaginar, devem ser consideradas secretas.

- Que tipo de informações?

- Gostaria de saber qual o índice de suicídios, desde 1945, entre cientistas nucleares. E quantos deles abandonaram esse trabalho para se dedicar a outros tipos de trabalho científico, ou mesmo abandonaram de vez a ciência.

- Isso tem alguma relação com Ralson?

- Não acha que esse terrível desespero que ele demonstra pode ser algum tipo de doença ocupacional?

- Bem... muita gente já abandonou esse tipo de trabalho, é claro.

- Por que "é claro", Dr. Grant?

- Pode muito bem imaginar, Dr. Blaustein. O ambiente na pesquisa atômica de hoje é de muita pressão, muita burocracia. Temos que lidar com o governo, lidar com os militares. Não podemos conversar sobre o que estamos fazendo, temos que vigiar nossas palavras constantemente. É claro que se aparece a chance de um emprego na área universitária, onde se pode escolher o horário de trabalho, pesquisar o que se deseja, escrever artigos que não têm de ser submetidos à CEA, reunir-se sem que sejam necessárias intermináveis medidas de segurança... aí muita gente acaba preferindo isto.

- E abandona para sempre seu campo de especialização?

- Não. Sempre existem aplicações não-militares. Naturalmente, cada pessoa tem suas próprias razões para abandonar esse trabalho. Há um sujeito que largou tudo, segundo me disse, porque não podia dormir à noite. Disse que toda vez que apagava a luz ouvia os gritos das cem mil pessoas que morreram em Hiroshima. A última vez que ouvi falar nele, ele estava trabalhando como balconista numa loja de roupas.

- E quanto ao senhor? Ouve algum grito de vez em quando? Grant assentiu com um gesto.

- Não é muito agradável saber que a responsabilidade pela destruição atômica também é nossa, ainda que em pequena proporção.

- E Ralson? Como se sentia quanto a isso?

- Nunca falamos a respeito.

- Isso quer dizer que, se ele experimentava esse tipo de culpa, não tinha nem mesmo a válvula de escape de poder desabafar com os colegas.

- Creio que não.

- Mesmo assim, a pesquisa nuclear é algo que deve ser tocado para a frente.

- Eu diria que sim.

- O que faria, Dr. Grant, se achasse que devia fazer algo, mas que não podia absolutamente fazê-lo?

Grant encolheu os ombros.

- Não sei.

- Algumas pessoas se matam.

- Acha que é esse o problema de Ralson?

- Não sei. Ainda não sei. Vou conversar com o Dr. Ralson hoje a noite. É claro que não posso prometer nada, mas o senhor será mantido a par de tudo.

Grant ficou de pé.

- Obrigado, doutor. E tentarei conseguir as estatísticas que pediu.

 

Uma semana de permanência no sanatório do Dr. Blaustein tinha melhorado a aparência de Elwood Ralson. A magreza de seu rosto tinha diminuído, ele perdera em grande parte a inquietação que tinha demonstrado. Estava sem cinto e sem gravata. Seus sapatos estavam sem cadarços.

- Como se sente, Dr. Ralson? - perguntou Blaustein.

- Descansado.

- Tem sido bem tratado?

- Não posso me queixar, doutor.

A mão de Blaustein procurou maquinalmente o cortador de papel com o qual tinha o costume de brincar distraidamente, mas não encontrou nada. Ele tinha sido guardado, claro, juntamente com tudo o mais que tivesse lâmina. Não havia nada senão papéis sobre a escrivaninha.

- Sente-se, Dr. Ralson - disse ele. - Como estão evoluindo seus sintomas?

- O senhor se refere ao que chama de impulsos suicidas? É algo que melhora ou piora, dependendo do que eu esteja pensando em determinado momento. Mas é algo que está em mim o tempo todo. O senhor não pode me ajudar.

- Talvez. Há muitos casos em que eu nada posso fazer para ajudar. Mas eu gostaria de ter o máximo de informações a respeito disso. O senhor é um homem importante.

Ralson deixou escapar uma risada desdenhosa.

- Não se considera assim? - perguntou Blaustein.

- Não. Não existem homens importantes, assim como não existem bactérias importantes, isoladamente.

- Não entendo.

- Não pensei que entenderia.

- Em todo caso, parece que essa sua afirmação foi precedida por uma meditação bastante longa. Estou muito interessado em saber o que pensou a respeito.

Pela primeira vez Ralson sorriu, e não foi um sorriso agradável. Suas narinas estavam esbranquiçadas.

- Observar o senhor é uma coisa engraçada, doutor. O senhor faz o seu trabalho de um modo tão consciencioso. Creio que faz parte da sua profissão escutar o que eu digo e fazer essa expressão de falso interesse, de simpatia forçada. Posso ficar aqui dizendo as coisas mais absurdas, mas o senhor vai me dar toda atenção. É ou não é?

- Não acha que meu interesse pode ser verdadeiro, ainda que seja um interesse profissional?

- Não.

- Por quê?

- Não quero falar sobre isto.

- Prefere voltar para o seu quarto?

- Se não se importa, não. - Sua voz se inflamou repentinamente de fúria; ele pôs-se de pé de um salto, depois voltou a sentar-se. - Ora, por que não posso usá-lo, afinal? Eu não gosto de conversar com as pessoas. São todos uns estúpidos. São incapazes de enxergar as coisas. Ficam durante horas olhando uma coisa óbvia e aquilo não faz sentido para eles. Se eu lhes dissesse algo, não compreenderiam, acabariam perdendo a paciência e rindo de mim. Mas o senhor tem que ouvir: é parte do seu trabalho. Não pode me interromper para me chamar de maluco, mesmo que pense isto.

- Eu teria prazer em ouvir qualquer coisa que quisesse me dizer. Ralson inspirou profundamente.

- Há cerca de um ano tomei conhecimento de algo que muito pouca gente percebe. Talvez nenhuma pessoa viva perceba isto. O senhor já reparou, doutor, que os avanços culturais da humanidade ocorrem em ciclos periódicos? No espaço de duas gerações, numa cidade com apenas trinta mil homens livres, brotaram gênios literários e artísticos em quantidade suficiente para suprir uma nação de milhões de pessoas por um século inteiro, em circunstâncias normais. Estou me referindo à Atenas de Péricles.

"Há outros exemplos. A Florença dos Médicis. A Inglaterra de Isabel, a Espanha dos emires de Córdoba. Houve o surto de reformadores sociais israelitas entre o oitavo e o sétimo século antes de Cristo. Entende o que estou dizendo?

Blaustein assentiu.

- Vejo que se interessa muito por História.

- E por que não? Suponho que nada me obriga a ficar restrito à pesquisa nuclear e à mecânica ondulatória.

- Tem toda razão. Continue, por favor.

- A princípio pensei que poderia aprender mais sobre a verdadeira natureza desses ciclos históricos através de consultas a um especialista. Tive alguns encontros

com um historiador profissional. Foi perda de tempo.

- Quem era esse historiador?

- Faz alguma diferença?

- Talvez não, se acha que isso é assunto confidencial. Mas o que lhe disse ele?

- Que eu estava errado. Que é só aparentemente que a história tem esses surtos. Disse que estudos mais aprofundados mostram que as grandes civilizações do Egito e da Suméria não brotaram subitamente, ou do nada. Elas cresceram sobre a base de sub-civilizações longamente amadurecidas e que já tinham um notável grau de sofisticação em suas artes. Disse que a Atenas de Péricles foi fundada sobre uma Atenas pré-Péricles que tinha suas próprias conquistas intelectuais, se bem que num grau inferior, mas que sem elas a Era de Péricles não teria existido.

Perguntei-lhe por que motivo então não tinha havido uma Atenas pós-Péricles mais evoluída ainda, e ele me disse que Atenas foi arruinada por uma peste e por uma longa guerra contra Esparta. Perguntei-lhe a respeito dos outros surtos culturais e verifiquei que cada um deles foi encerrado por uma guerra, ou até mesmo foi simultâneo a ela. Esse sujeito era igual a todos os outros. A verdade estava ali, diante dos seus olhos: era só abaixar-se e pegá-la, mas que não o fazia. Ralson tinha os olhos fitos no chão. Prosseguiu com voz fatigada.

- De vez em quando as pessoas vêm ao meu laboratório, doutor. Dizem: "Ralson, como diabos podemos nos ver livres de tal ou tal efeito que está prejudicando nossos cálculos?" Mostram-me os instrumentos e os diagramas e eu digo: "Está aí, na cara de vocês, por que não fazem tal e tal coisa?" Uma criança teria enxergado aquilo. E eu viro as costas e Vou embora porque não posso suportar a cara estúpida de espanto que eles fazem. Mais tarde eles voltam e dizem: "Puxa, Ralson, funcionou, como foi que você percebeu que era aquilo?" E eu não consigo explicar como, doutor. Seria como tentar explicar por que a água é molhada. E o mesmo acontece com esse historiador: eu não pude explicar-lhe nada, como não posso também explicar ao senhor. Seria perda de tempo.

- Gostaria de voltar para o seu quarto?

- Por favor.

Depois que Ralson foi levado embora, Blaustein ficou pensativo durante muito tempo; seus dedos foram automaticamente até a gaveta de cima da escrivaninha; apanhou ali o cortador de papel e ficou brincando com ele por alguns minutos. Finalmente, ergueu o receptor do telefone e discou um número que não constava da lista, que lhe tinha sido fornecido alguns dias antes.

- Aqui é Blaustein - disse ele. - Há um historiador profissional que foi consultado pelo Dr. Ralson há algum tempo, talvez há cerca de um ano. Não sei como se chama. Não sei sequer se exerce algum cargo universitário. Se vocês conseguirem localizá-lo eu gostaria de trocar umas palavras com ele.

 

Thaddeus Milton, PhD, piscou os olhos devagar na direção do Dr. Blaustein enquanto passava a mão pelos cabelos grisalhos.

- Já disse a eles que de fato me encontrei com esse indivíduo - falou. - Mas não tenho nenhuma ligação com ele. Nada além de alguns encontros estritamente profissionais.

- Como se conheceram?

- Ele me escreveu uma carta. Por que a mim, em vez de alguma outra pessoa, isso eu não sei. Eu tinha acabado de publicar alguns artigos numa revista científica destinada ao grande público. Talvez isso tenha atraído sua atenção.

- Entendo. Qual o tema desses artigos?

- Eram uma avaliação sobre a validade do enfoque cíclico dos fatos históricos. Ou seja: se é possível afirmar de fato que uma civilização específica segue leis de crescimento e declínio análogas às que se aplicam aos indivíduos.

- Já li Toynbee, Dr. Milton.

- Então sabe a que me refiro.

- E quando o Dr. Ralson o procurou, foi para falar sobre essa questão dos ciclos?

- Hummm... Bem, de certo modo, sim. É claro que ele não é um historiador; algumas de suas noções sobre tendências culturais eram um tanto melodramáticas e...  como posso dizer... sensacionalistas. Doutor, perdoe-me se estou fazendo uma pergunta indiscreta, mas o Dr. Ralson é um dos seus pacientes?

- O Dr. Ralson não está passando bem e se encontra sob meus cuidados. Este fato e tudo que for comentado durante esta nossa entrevista são assunto confidencial, naturalmente.

- Por certo. Compreendo. Mas a sua resposta me esclarece algumas questões. Algumas das idéias do Dr. Ralson chegavam aos limites do irracional. Ele manifestava uma grande preocupação, ao que me pareceu, quanto à ligação entre o que ele chamava de "surtos culturais" e diversos tipos de calamidades. Ligações desse tipo já foram apontadas várias vezes. A época de maior vitalidade de uma nação pode coincidir com um momento de grande insegurança. O caso da Holanda é um bom exemplo. Ela produziu seus maiores artistas, homens de Estado e exploradores no início do século XVII, quando o país estava envolvido numa guerra mortal contra a maior potência européia da época, a Espanha. Mesmo ameaçados em seu próprio território, os holandeses estavam edificando um império no Extremo Oriente e estabelecendo cabeças-de-ponte ao norte da costa da América do Sul, na extremidade sul da África e no vale do Hudson na América do Norte. Sua armada enfrentava de igual para igual a marinha britânica. E então, no momento em que ela conseguiu assegurar sua estabilidade política, começou a declinar.

Muito bem. Nada disso é de surpreender. Os grupos, como os indivíduos, podem lançar mão de todas as suas capacidades para enfrentar um desafio, assim como podem vegetar quando nenhum desafio lhes aparece. O ponto onde o Dr. Ralson me parecia meio delirante, ao que me parece, era sua insistência em afirmar que esta visão era uma inversão de causa e efeito. Para ele, não eram as épocas de guerra e perigo que estimulavam os "surtos culturais", e sim o contrário. Segundo ele, cada vez que um grupo social começava a demonstrar excessivo talento e vitalidade isso gerava a necessidade de uma guerra para destruir as possibilidades de evolução desse grupo.

- Entendo - disse Blaustein.

- Eu praticamente ri na cara dele, lamento dizê-lo. Talvez tenha sido por isso que ele não compareceu ao derradeiro encontro que tínhamos combinado. No final da última conversa que tivemos ele me perguntou, do modo mais ansioso que se pode imaginar, se eu não achava estranho que a Terra fosse dominada por uma espécie tão inadequada como o homem, que não tem a seu favor nada além da inteligência. Dei uma risada. Talvez eu devesse ter-me reprimido um pouco. Pobre sujeito.

- Ora, foi uma reação normal - disse Blaustein. - Mas não devo tomar mais o seu tempo. O senhor foi muito útil. Apertaram-se as mãos. Thaddeus Milton deixou o gabinete.

- Muito bem - disse Darrity. - Aí estão suas estatísticas sobre os suicídios mais recentes envolvendo pessoas do mundo científico. Isso lhe permite tirar alguma conclusão?

- Eu é que lhe pergunto - respondeu polidamente o Dr. Blaustein. - Presumo que o FBI tenha investigado detalhadamente esses casos.

- Pode apostar a dívida interna federal em que todos esses foram realmente casos de suicídio. Não pode haver dúvida a respeito. Pessoas em outro departamento investigaram os números: o índice é quatro vezes superior ao normal, levando em conta idade, situação social e nível econômico.

- E quanto aos cientistas britânicos?

- Quase a mesma coisa.

- E os soviéticos?

- Quem pode saber? - O inspetor inclinou-se para a frente. - Doutor, não está imaginando que os soviéticos tenham alguma espécie de raio que leva as pessoas ao suicídio, hem? É muito estranho que as pessoas envolvidas com energia atômica sejam as únicas afetadas.

- É mesmo? Talvez não. Talvez os físicos nucleares sofram algum tipo de estresse específico. É difícil dizer sem uma análise muito detalhada.

- Quer dizer que ele pode ter algum tipo diferente de complexo?

O Dr. Blaustein fez uma careta.

- A psiquiatria está se tornando popular demais. Todo mundo hoje em dia fala sobre complexos e neuroses e psicoses e compulsões e sei lá o quê. Mas o que gera num homem um complexo de culpa sequer chega a perturbar o sono de outro. Se eu pudesse conversar com cada indivíduo que comete suicídio talvez descobrisse algo.

- O senhor está conversando com Ralson.

- Sim, estou conversando com ele.

- Ele tem complexo de culpa?

- Nada de especial. Mas tem um passado do qual não seria difícil resultar uma preocupação mórbida com a morte. Quando ele tinha doze anos viu a mãe morrer atropelada por um automóvel. Seu pai morreu pouco a pouco, de câncer. No entanto, o efeito disso sobre os seus problemas atuais não é muito claro. Darrity apanhou o chapéu.

- Bem, doutor, espero que faça progressos. Há alguma coisa importante dependendo disso, algo mais importante do que a bomba H. Não sei como algo pode ser ainda mais importante do que isto, mas o fato é que é.

 

Ralson insistiu em ficar de pé.

- Tive uma noite péssima, doutor.

- Espero - disse Blaustein - que estas nossas conversas não o estejam prejudicando.

- Talvez estejam. Elas me fazem voltar a pensar nesse assunto, e quando faço isso as coisas pioram. Como imagina que deve ser, doutor, alguém fazer parte de uma cultura bacteriana?

- Essa idéia nunca me ocorreu. Para uma bactéria, acho que deve parecer normal.

Ralson não estava escutando. Falou, devagar:

- Uma cultura que esteja sendo utilizada para estudar a inteligência. Nós estudamos todo tipo de coisa no que se refere a relações genéticas. Pegamos moscas e cruzamos moscas de olhos vermelhos com moscas de olhos brancos para ver o que acontece. As moscas em si não nos interessam nada; tudo que queremos é extrair delas o conhecimento de alguns princípios genéticos fundamentais. Entende o que quero dizer?

- Com certeza.

- Mesmo entre os humanos, é possível rastrear inúmeras características físicas. Há os lábios dos Habsburgos, e a hemofilia, que começou com a rainha Vitória e se espalhou entre os seus descendentes nas famílias reais da Rússia e da Espanha. Podemos acompanhar o trajeto da debilidade mental entre os Jukes e os Kallikaks. Ficamos sabendo isso quando estudamos biologia no colégio. Mas não podemos cruzar seres humanos do mesmo modo que fazemos com as moscas. Os seres humanos têm uma vida muito longa, levaria séculos para que se pudesse chegar a uma conclusão. É uma pena que não se disponha de uma raça especial de pessoas que se reproduzisse com algumas semanas de intervalo, não é mesmo? Ele esperou uma resposta, mas Blaustein limitou-se a sorrir.

- Acontece que é exatamente isso que seríamos em relação a criaturas de outra espécie, cuja vida atingisse milhares de anos. Para eles, nós nos reproduziríamos com rapidez suficiente. Seríamos criaturas de vida curtíssima, onde eles poderiam acompanhar a evolução de traços genéticos como talento musical, talento científico, e assim por diante. Não que eles se interessassem especialmente por tais coisas; para eles seria algo como os olhos brancos das moscas são para nós.

- Uma idéia muito interessante - disse Blaustein.

- Não é apenas uma idéia. É verdade. Para mim é uma coisa óbvia, pouco me importa o que o senhor pensa a respeito. Olhe ao seu redor. Olhe para o planeta, a Terra. Quem somos nós, estes animais ridículos, para nos considerarmos os donos do mundo após a extinção dos dinossauros? Está bem, somos inteligentes; mas o que é a inteligência, afinal? Nós só a achamos importante porque é tudo que temos. Se o tiranossauro tivesse que indicar as qualidades que ele julgaria importantes para assegurar a hegemonia de uma espécie, provavelmente apontaria "tamanho" e "força". E teria bons argumentos para isso. Ele durou muito mais tempo do que nossa espécie deve durar.

A inteligência, em si, não é muita coisa no que se refere à garantia de sobrevivência. O elefante mal consegue sobreviver, comparado ao pardal, por exemplo, embora seja muito mais inteligente. O cão tem um bom desempenho sob a proteção do homem; mas não se sai tão bem quanto a mosca doméstica, contra a qual a humanidade inteira se mobiliza. Ou então veja os primatas como um todo. Os pequenos são forçados a fugir dos inimigos; quanto aos maiores, mal e mal conseguem se defender. Os que se saem melhor são os babuínos, e isso devido aos seus dentes, não aos seus cérebros. Uma fina película de suor recobria a testa de Ralson. Ele prosseguiu:

- Dá para perceber que o homem foi projetado, foi concebido de um modo cuidadoso, específico, por essas criaturas que estão nos estudando. Os primatas, em geral, têm uma vida curta. Claro que os maiores vivem mais tempo, como é regra geral entre as outras espécies. No entanto o ser humano tem uma vida média duas vezes mais longa que a dos outros, mais longa até que a vida do gorila, que é fisicamente muito maior que ele. Nosso amadurecimento é tardio. É como se tivéssemos sido cuidadosamente projetados para viver mais tempo, de modo que nosso ciclo vital tivesse uma duração mais conveniente. Ralson ficou de pé num salto, brandindo os punhos cerrados:

- Mil anos é como se fosse apenas um dia! Apenas um dia!... Blaustein apertou imediatamente um botão.

Durante alguns instantes Ralson se debateu nas mãos dos enfermeiros que invadiram a sala, mas logo deixou-se levar.

Blaustein o acompanhou com o olhar, depois abanou a cabeça e pegou o telefone. Ligou para Darrity.

- Inspetor, acho que devo avisá-lo de que isto pode levar muito tempo. - Escutou um pouco e assentiu com a cabeça. - Eu sei disso. Não estou minimizando essa urgência.

A voz do outro lado do receptor era áspera e metálica.

- Sim, doutor, o senhor está minimizando a urgência deste caso. Vou pedir ao Dr. Grant que vá até aí. Ele poderá explicar-lhe tudo.

O Dr. Grant perguntou como estava Ralson e depois, num tom um pouco mais sombrio, se podia vê-lo. Blaustein abanou a cabeça em negativa.

- Fui incumbido - disse Grant - de explicar-lhe a situação atual da pesquisa atômica, doutor.

- De um modo acessível, espero.

- Creio que sim. Estamos numa situação desesperada. Antes, devo adverti-lo de que...

- É desnecessário. Entendo a situação. Essa insegurança por parte de vocês é um mau sintoma. Deve saber que essas coisas não podem ser mantidas eternamente em segredo.

- Vivemos num clima permanente de sigilo. É uma coisa contagiosa.

- Sei disso. Qual é agora o segredo?

- Estamos construindo, ou pelo menos estamos tentando construir, uma defesa contra a bomba atômica.

- E para que o sigilo? É algo que deveria ser apregoado aos quatro ventos.

- Pelo amor de Deus, não. Preste atenção, Dr. Blaustein. É algo que por enquanto está apenas no papel. Estamos mais ou menos no estágio de quem tem em mãos o Eme2. Talvez não haja uma solução prática. Não seria bom criar expectativas e depois não poder satisfazê-las. Por outro lado, se chegasse ao conhecimento do mundo que estamos a ponto de construir uma tal defesa, alguém poderia ser tentado a deflagrar uma guerra para poder vencê-la antes que a defesa estivesse pronta.

- Não creio nisso, mas em todo caso estamos nos desviando do nosso assunto. Em que consiste essa defesa? Ou será que já me disse tudo que é permitido?

- Não, posso dar-lhe mais detalhes, o bastante para que entenda por que precisamos tanto de Ralson... e com tanta pressa.

- Muito bem. Estou ansioso para conhecer esses segredos. Isto faz com que eu me sinta como se fizesse parte de um ministério.

- Vou dizer-lhe coisas que pouca gente dos ministérios sabe, doutor. Vejamos se consigo colocar tudo numa linguagem acessível. Até a época atual, os avanços militares têm acontecido de um modo mais ou menos equilibrado entre armas ofensivas e defensivas. Houve um momento na história em que a balança pareceu pender na direção das armas ofensivas, e isso foi com a utilização da pólvora. Mas logo a defesa restabeleceu o equilíbrio. A figura medieval do homem a cavalo vestido numa armadura foi substituída pelo homem no interior de um tanque de guerra; o castelo de muralhas de pedra foi substituído pela casamata de concreto. A mesma coisa, como vê, só que em maior escala.

- Correto. Mas com a bomba atômica essa escala tem que ser ampliada, não? É preciso ir além do aço e do concreto, para proteção.

- Certo. O problema é que não podemos construir muros cada vez mais espessos. E já não dispomos de materiais suficientemente fortes. Portanto, é preciso abandonar de vez a idéia de uma proteção material. Se é o átomo que ataca, o átomo deve defender. Temos que usar a própria energia, ou seja, um campo de força.

- E o que é - perguntou Blaustein com delicadeza - um campo de força?

- Gostaria de poder explicar. Até agora, não passa de uma equação numa folha de papel. Teoricamente, a energia pode ser canalizada de forma a criar um muro de inércia não-material. Na prática, ainda não sabemos como fazê-lo.

- Seria um muro impenetrável? Mesmo para átomos?

- Mesmo para uma bomba atômica. O único limite para sua potência seria a quantidade de energia que conseguíssemos canalizar. Em tese, poderia tornar-se impenetrável até mesmo a radiações. Os raios gama se chocariam contra ele e seriam repelidos. O nosso projeto consiste na criação de uma espécie de cobertura que ficaria permanentemente ligada sobre as cidades, funcionando com um mínimo de potência, usando pouquíssima energia. Essa camada protetora poderia ser ativada para um máximo de intensidade numa fração de segundo, ao detectar radiações de ondas curtas, como as que são emitidas por uma massa de plutônio idêntica à de uma ogiva nuclear. Tudo isto é teoricamente possível.

- E para que precisam de Ralson?

- Porque ele é o único homem que pode descobrir um modo de produzir esse sistema, se é que tal modo existe. E cada minuto é importante. Sabe como está a situação internacional. É preciso criar uma defesa atômica antes que a guerra atômica possa ter início.

- Tem tanta certeza assim a respeito de Ralson?

- Tanta certeza quanto posso ter de alguma coisa na vida. Esse homem é espantoso, Dr. Blaustein. Tudo que ele sugere dá certo. Ninguém no meio científico sabe como ele faz isso.

- Uma espécie de intuição, não? - O psiquiatra parecia um tanto desconfortável. - Uma espécie de raciocínio que vai além das capacidades normais de um ser humano. É isso?

- Não vou dizer que sei o que é.

- Deixe-me falar com ele mais uma vez. Depois lhe contarei tudo.

- Está bem. - Grant ergueu-se, mas deteve-se antes de rumar para a porta.

- Devo avisar, doutor, que se não obtiver nenhum resultado a própria Comissão deverá encarregar-se do Dr. Ralson.

- Para tentar outro psiquiatra? Se for isso, não posso fazer objeção. No entanto, o meu parecer é que nenhum médico responsável pode prometer uma cura rápida num caso dessa natureza.

- Talvez não seja essa a intenção. Talvez Ralson seja simplesmente mandado de volta ao trabalho.

- Sinto muito, Dr. Grant, mas nesse caso eu sou contra. Não vão extrair nada dele. Podem acabar matando-o.

- E de que modo podemos extrair alguma coisa?

- Deste modo, pelo menos temos uma chance - disse Blaustein.

- Espero que sim. E, a propósito, não diga a ninguém que falei na possibilidade de Ralson ser levado embora.

- Não direi nada, e agradeço pelo aviso, Dr. Grant. Até breve.

 

- Comportei-me como um idiota da última vez, hem, doutor? - disse Ralson. Tinha o rosto tenso.

- Quer dizer que tudo aquilo que me falou não é verdade?

- É verdade! - O vulto pequeno de Ralson sacudiu-se dos pés à cabeça com a intensidade de sua exclamação.

Ele ergueu-se e foi até a janela. Blaustein girou em sua cadeira para não perdê-lo de vista. A janela era gradeada. Ralson não poderia saltar. O vidro era inquebrável. O crepúsculo chegava ao fim e as primeiras estrelas já brilhavam no céu. Ralson ficou a observá-las, fascinado, depois virou-se para Blaustein e apontou com o dedo para o céu.

- Cada uma delas é uma incubadeira. Elas mantêm suas temperaturas no ponto desejado. Diferentes experimentos; diferentes temperaturas. E os planetas que giram em torno delas são enormes tubos de ensaio, contendo diferentes misturas nutrientes e diferentes formas de vida. Os pesquisadores são também muito metódicos, sejam eles quem forem, ou o que forem. Estão desenvolvendo culturas de vários tipos de vida, aqui neste tubo específico. Dinossauros durante uma era úmida e tropical; seres humanos entre eras glaciais. Eles aumentam ou diminuem a intensidade do sol, e nós ficamos tentando descobrir as leis físicas que governam isso. Leis físicas! - Ralson encurvou os lábios com desprezo.

- Tenho certeza - disse o Dr. Blaustein - de que o sol não pode ser controlado assim, pela simples vontade de alguém.

- E por que não? É como controlar a temperatura de um forno. Acha que as bactérias sabem a origem do calor a que estão submetidas? Talvez elas também criem as suas teorias. Talvez tenham lá as suas cosmogonias e suas narrativas sobre catástrofes cósmicas, onde o conflito entre dois exércitos de lâmpadas incandescentes é responsável pela criação das placas de Petri. Talvez elas achem que existe algum criador magnânimo que lhes fornece alimento e calor e lhes diz: "Crescei e multiplicai-vos!" Assim como elas, somos criados sem ter uma idéia da razão de nossa existência. Obedecemos às "leis da natureza", que é o nome que damos a forças que somos incapazes de compreender e que nos são impostas de cima para baixo.

Agora, eles têm em mãos o maior experimento que já tentaram e que já vêm desenvolvendo há cerca de duzentos anos. Imagino que por volta do século XVIII eles começaram a estimular a tendência, na Inglaterra, para as descobertas mecânicas. Demos a isto o nome de Revolução Industrial. Começou com máquinas a vapor, depois chegou à eletricidade, e por fim à energia atômica. Era uma experiência interessante, mas eles estavam correndo um certo risco ao permitir que ela fosse adiante, por isso vão ter que ser radicais quando resolverem encerrá-la.

Blaustein indagou:

- E vão querer encerrá-la de que forma? Tem alguma idéia?

- Não precisa me perguntar de que forma isso vai ter um fim. Basta olhar em redor e qualquer um pode ver como a nossa era tecnológica vai ser concluída. O mundo inteiro teme uma guerra nuclear, qualquer pessoa faria o possível para evitá-la; no entanto todo mundo sabe que uma guerra atômica é inevitável.

- Em outras palavras: os "pesquisadores" vão estimular uma guerra atômica, queiramos ou não, para reduzir a zero nosso atual estágio tecnológico e recomeçar tudo de novo. É isso?

- Sim. É tudo muito lógico. Quando esterilizamos um instrumento, será que os micróbios sabem de onde vem aquele calor insuportável? Ou o que o provocou? De um modo que desconhecemos, eles são capazes de elevar a temperatura de nossas emoções, por assim dizer; são capazes de nos manipular de uma forma que ainda desconhecemos.

- Diga-me uma coisa - pediu Blaustein, é devido a isso que o senhor quer morrer? Porque acha que a destruição da humanidade se aproxima e não pode ser evitada?

- Eu não quero morrer - disse Ralson. - Eu tenho que morrer. - Havia uma expressão torturada em seus olhos. - Doutor, se tivesse uma cultura de micróbios altamente perigosos e quisesse mantê-los sob controle, não acabaria por espalhar ao redor do centro da inoculação uma substância mortal... digamos, penicilina? Qualquer micróbio que se afastasse desse centro acabaria morrendo. O senhor não teria nada pessoal contra os micróbios que morressem; o senhor nem ficaria sabendo que em tal ou tal ponto haveria um grupo de micróbios morrendo. Seria algo puramente automático.

Doutor, existe uma espécie de círculo de penicilina ao redor das mentes humanas. Quando nos extraviamos para muito longe, ou quando nos aproximamos da compreensão do sentido de nossa existência, então tocamos esse círculo e temos que morrer. É algo que funciona devagar, mas vai ficando cada vez mais difícil continuar vivendo. Ralson deu um sorriso breve e cheio de tristeza, e completou:

- Posso voltar agora para meu quarto?

No dia seguinte, o Dr. Blaustein foi ao quarto de Ralson por volta do meio-dia. Era um quarto pequeno e sem decoração. As paredes eram cobertas de acolchoado cinzento. As duas pequenas janelas ficavam altas, fora de alcance. O colchão ficava estirado diretamente sobre o solo, também acolchoado. Não havia nada metálico no aposento, nada que alguém pudesse usar para se matar. Mesmo as unhas de Ralson estavam cortadas muito curtas. Ralson sentou no colchão.

- Olá, doutor.

- Olá, Dr. Ralson. Podemos conversar?

- Aqui mesmo? Não posso lhe oferecer uma cadeira.

- Não faz mal, eu fico de pé. Sou obrigado a ficar sentado o dia inteiro, às vezes gosto de ficar de pé um pouco... faz bem para as nádegas. Dr. Ralson, passei esta noite inteira pensando no que o Sr. me disse ultimamente.

- E agora vai me aplicar um tratamento para me livrar do que o senhor considera delírios.

- Não, não. Quero somente fazer algumas perguntas e talvez apontar algumas conseqüências de suas teorias que... perdão, mas que podem lhe ter passado despercebidas.

- Ah, é?

- Veja bem, Dr. Ralson. Desde que me explicou suas teorias estou de posse das mesmas informações que o senhor, e no entanto não estou sentindo o menor impulso suicida.

- A crença é algo muito mais forte do que a mera compreensão intelectual, doutor. Para correr algum perigo o senhor teria que acreditar nisso com todas as suas forças, o que não é o caso.

- Não acha que tudo isso talvez não passe de um fenômeno de adaptação? O senhor não é biólogo, Dr. Ralson, e embora seja sem dúvida um físico brilhante talvez não conheça tudo a respeito dessas culturas de bactérias em que baseia sua analogia. O senhor deve saber, contudo, que é possível desenvolver culturas de bactérias resistentes à penicilina ou a qualquer outra substância nociva.

- E daí?

- Os "pesquisadores" que nos controlam estão trabalhando com a humanidade há muitas e muitas gerações, não é isso? E esta variedade que eles vêm desenvolvendo há dois séculos não dá o menor sinal de se extinguir espontaneamente. Pelo contrário, é uma variedade resistente e extremamente contagiosa. Houve no passado algumas variedades de "bactérias humanas" que desenvolveram altas tecnologias, mas estavam confinadas a uma única cidade ou a uma região restrita. Esta, no entanto, está se espalhando pelo mundo inteiro e muito rapidamente. Não acha que ela pode ter desenvolvido imunidade à tal "penicilina" de que fala? Em outras palavras: não acha que os métodos de que eles dispõem para aniquilar nossa civilização talvez não funcionem mais?

Ralson sacudiu a cabeça.

- Está funcionando em mim.

- Talvez o senhor não tenha desenvolvido essa imunidade. Ou talvez tenha penetrado por acaso numa concentração de penicilina extremamente forte. Pense em todas as pessoas que estão tentando banir os armamentos nucleares e estabelecer alguma forma de governo mundial que garanta a paz. Esses esforços têm aumentado de ano para ano, e os resultados não têm sido maus.

- Isso não vai evitar a próxima guerra.

- Talvez todo o necessário seja apenas um pouco mais de esforço. Os pacifistas não se suicidam. Portanto, há um número cada vez maior de pessoas imunes às armas deles. Sabe o que está sendo pesquisado em seu laboratório, Dr. Ralson?

- Não quero saber.

- Precisa saber. Estão tentando construir um campo de força que sirva de defesa contra a bomba atômica. Dr. Ralson... se eu estou cultivando bactérias extremamente virulentas, não pode acontecer que, apesar de todas as minhas precauções, a coisa fuja ao meu controle e se transforme numa epidemia? Em relação a eles nós somos como bactérias, mas isso quer dizer que somos perigosos para eles, ou então eles não tentariam nos exterminar com tanto cuidado ao final da experiência.

"Eles não podem reagir depressa, não é? Para eles, mil anos nossos equivalem a um dia, não é? Talvez, quando eles finalmente perceberem que escapamos ao seu controle, que nos tornamos imunes à sua penicilina, aí será tarde demais. Eles nos deixaram progredir até a energia atômica, e se pelo menos evitarmos usar esse poder contra nós mesmos, aí talvez possamos nos tornar mais poderosos do que os nossos "pesquisadores".

Ralson ficou de pé num salto; mesmo pequeno, ainda era uns três centímetros maior que o Dr. Blaustein.

- Eles estão mesmo pesquisando um campo de força?

- Estão tentando. Mas precisam do senhor.

- Não posso.

- Precisam do senhor, da sua habilidade em ver coisas que para eles não são óbvias. Lembre-se, ou o senhor os ajuda ou... a humanidade morrerá nas mãos deles.

Ralson caminhou de um lado para outro, os olhos fitos nas paredes acolchoadas. Murmurou:

- Mas não haverá escapatória. Se eles construírem esse campo de força, acabarão morrendo todos antes que a coisa esteja pronta.

- Talvez alguns deles sejam imunes, ou quem sabe, todos. Em todo caso, morreriam de qualquer maneira, por isso continuam tentando.

- Vou tentar ajudá-los - disse Ralson.

- Continua a querer suicidar-se?

- Sim.

- Mas vai tentar evitar.

- Vou tentar evitar, doutor. - Seus lábios tremeram. - Mas tenho que ficar sob vigilância.

Blaustein subiu as escadas e apresentou seu crachá ao guarda no saguão. Já tinha se apresentado ao guarda no portão externo, mas teve que submeter a novo exame o rosto, o crachá e a assinatura. Depois de alguns instantes, o guarda entrou numa cabine e pegou o telefone. A resposta pareceu positiva.

Blaustein sentou num banco próximo e daí a meio minuto ergueu-se e apertou a mão do Dr. Grant.

- Até o presidente dos Estados Unidos teria dificuldade para entrar aqui - comentou.

O físico sorriu.

- Sim, caso chegasse sem aviso prévio.

Tomaram um elevador e subiram doze andares. O escritório para onde Grant conduziu o psiquiatra tinha janelas em três direções. Era à prova de som e com ar condicionado, e estava mobiliado com caros móveis de castanheira. Blaustein comentou:

- Meu Deus do céu. Parece o escritório do executivo de uma multinacional. Pelo que vejo, a ciência está se tornando um negócio rentável. Grant assumiu um ar embaraçado.

- É verdade, mas o dinheiro do governo escorre em várias direções ao mesmo tempo... e é difícil persuadir um congressista de que nosso trabalho é importante, a menos que ele se deixe impressionar pela vitrine.

Blaustein sentou-se e sentiu-se afundar lentamente na poltrona estofada.

- O Dr. Elwood Ralson concordou em voltar ao trabalho - disse.

- Ótimo. Esperava que me trouxesse justamente esta notícia. - Animado, Grant ofereceu ao psiquiatra um charuto, que ele recusou com um gesto.

- Mesmo assim - prosseguiu Blaustein, ele é um homem cheio de problemas. É preciso continuar a tratá-lo com muito cuidado e muita sensibilidade.

- Claro. Naturalmente.

- Não é tão simples quanto parece. Vou lhe contar algo sobre os problemas de Ralson para que veja o quanto a situação é delicada.

Começou a falar. A princípio Grant o escutou com preocupação, que aos poucos foi cedendo lugar ao assombro.

- Mas então o homem perdeu o juízo, Dr. Blaustein - exclamou ele. - Não vai ser da menor utilidade. Ficou maluco.

Blaustein encolheu os ombros.

- Depende do que quer dizer com "maluco". Esta é uma palavra traiçoeira, aconselho não usá-la. Ralson tem delírios, sem dúvida. Até que ponto esses delírios podem afetar seu talento, isso eu não posso prever.

- Mas é evidente que nenhum homem mentalmente são pode...

- Calma. Por favor. Não vamos começar a discutir definições psiquiátricas do que é e do que não é "ser mentalmente são". O cara tem delírios, e, em circunstâncias normais, eu não daria a eles nenhum valor. Acontece que todo mundo me convenceu de que o talento pessoal desse indivíduo consiste em solucionar problemas de um modo que parece além do alcance do raciocínio convencional. Certo?

- Sim. Digamos que sim.

- Então, como é que eu ou o senhor podemos julgar o valor de uma das conclusões tiradas por esse indivíduo? Diga-me uma coisa... teve por acaso impulsos suicidas ultimamente?

- Não creio.

- E os outros cientistas aqui?

- Não. Claro que não.

- Mesmo assim sugiro que, à medida que a pesquisa do campo de força for avançando, os cientistas que dela participam sejam vigiados, tanto aqui quanto em suas casas. Talvez fosse até melhor que eles não dormissem em casa. Estes escritórios podem ser adaptados e funcionar como pequenos apartamentos...

- Dormir no trabalho? Eu jamais conseguiria convencê-los.

- Consegue. Basta não lhes dizer a verdadeira razão. Diga-lhes que é por motivos de segurança nacional, eles concordarão. "Segurança nacional" é uma grande descoberta contemporânea, não é mesmo? Quanto a Ralson, deve ser mais vigiado do que todos os outros.

- Claro.

- Tudo isto não tem tanta importância assim. É apenas para que eu fique com a consciência em paz caso a teoria de Ralson seja correta. Mas na verdade eu não creio nela. Acho que são delírios, mas se partirmos desse pressuposto temos que saber quais são as causas desse delírio. O que será que existe na mente de Ralson, em sua formação, em sua vida, que torna necessário para ele produzir esse tipo de auto-ilusão? Não é uma pergunta que possa ser respondida facilmente. Pode levar anos de análise até que se descubra a resposta. E enquanto essa resposta não for descoberta ele não estará curado.

- Enquanto isso podemos fazer algumas suposições. Ralson teve uma infância infeliz e teve que se defrontar com a morte muito cedo, em circunstâncias desfavoráveis. Além disso, ele nunca teve facilidade para se relacionar com outras crianças, ou, mais tarde, com outros adultos. Sempre mostrou impaciência com a lentidão de pensamento das outras pessoas. Seja qual for a diferença que exista entre sua mente e a das demais pessoas, isso construiu um muro entre ele e a sociedade, um muro tão impenetrável quanto esse campo de força que vocês estão querendo criar. Pelas mesmas razões ele não foi capaz de desfrutar de uma vida sexual normal. Nunca se casou, nunca teve namoradas.

- É fácil ver que ele poderia tentar compensar esse fracasso em ser aceito pelas outras pessoas através da idéia de que é superior a elas. O que não deixa de ser verdade, se considerarmos a parte intelectual. O que acontece é que a personalidade humana tem muitas outras facetas, e ele não demonstra superioridade em nenhuma delas. Outros indivíduos mais propensos a enxergar apenas os defeitos das pessoas acabariam não aceitando a suposta superioridade assumida por Ralson. Passariam a achá-lo excêntrico ou mesmo ridículo... e isso faria com que Ralson se encarniçasse mais ainda em tentar provar a inferioridade da espécie humana. Ele não poderia encontrar uma metáfora melhor para isso do que demonstrar que a humanidade inteira não passa de uma colônia de bactérias nas mãos de uma espécie superior que as utiliza para experiências. Assim, seus impulsos suicidas não passariam de um intenso desejo de romper totalmente com sua condição humana, de cortar essa sua identificação com essa espécie miserável que ele concebeu na sua mente. Percebe?

Grant assentiu com a cabeça, comentando:

- Pobre sujeito.

- Sim, é uma pena. Se ele tivesse recebido a atenção de que precisava na infância... bem, o melhor que podemos fazer pelo Dr. Ralson é evitar que ele tenha contato com o resto do pessoal. Ele está muito abalado para que possamos correr esse risco. O senhor deve ser a única pessoa a ter contato direto com ele. Ralson já concordou com isso. Parece que ele não o considera tão estúpido quanto os outros.

Grant deu um sorriso pela metade.

- Ainda bem.

- O senhor terá que ter cuidado. Não deve conversar com ele sobre nada além do trabalho. Se ele quiser expor suas teorias sobre bactérias e tudo o mais, coisa que eu duvido, deve limitar-se a dar respostas monossilábicas e a retirar-se assim que puder. E, por favor: fique de olho em qualquer objeto metálico e pontiagudo. Não deixe Ralson se aproximar das janelas. Tente manter as mãos dele sob vigilância. Acho que compreende a necessidade disso tudo, Dr. Grant. Deixo meu paciente entregue aos seus cuidados.

- Farei o máximo, Dr. Blaustein.

Durante dois meses Ralson morou no escritório de Grant, e Grant foi praticamente sua única companhia. As janelas tinham sido providas de grades, a mobília de madeira foi substituída para dar lugar a sofás acolchoados. Ralson trabalhava sentado no sofá, fazendo seus cálculos numa prancheta apoiada sobre uma almofada.

Durante todo esse tempo um cartaz de Não Perturbe permaneceu afixado à porta do escritório. As refeições eram deixadas do lado de fora da porta. O lavatório vizinho foi interditado e abriu-se uma porta na parede que o separava do escritório. Grant passou a usar barbeador elétrico. Todas as noites, ele se certificava de que Ralson tinha tomado pílulas para dormir e só se deitava depois que o outro mergulhava no sono.

Os relatórios não paravam de chegar às mãos de Ralson. Ele os lia em silêncio enquanto Grant observava a distância, fingindo ocupar-se com alguma outra coisa. Depois de algum tempo, Ralson os jogava para o lado e ficava estirado no sofá, o rosto voltado para o teto, uma mão fazendo sombra sobre os olhos.

- Alguma coisa? - perguntava Grant às vezes. Ralson sacudia a cabeça. Nada.

- Olhe, Vou pedir para deixarem o prédio vazio por algum tempo, quando fizerem a troca de turnos. Acho importante que você veja alguns instrumentos que estamos montando para os testes.

E assim era feito: os dois entravam no imenso edifício vazio e brilhantemente iluminado; entravam caminhando de mãos dadas, como um par de fantasmas. Sempre de mãos dadas. O aperto dos dedos de Grant era sempre firme. Mas depois de cada incursão Ralson continuava a menear a cabeça. Nada.

Meia dúzia de vezes ele começou a escrever no bloco; ao final de cada uma delas, o bloco ostentava apenas alguns rabiscos, e era atirado longe.

Até que um dia ele começou a escrever com rapidez, logo enchendo de cálculos metade da página. Grant aproximou-se instintivamente para observar. Ralson ergueu a cabeça, e num gesto rápido cobriu a folha do bloco. Sua mão tremia.

- Chame Blaustein - disse.

- O quê?

- Eu disse: chame Blaustein. Faça-o vir aqui. Já! Grant foi para o telefone.

Ralson escrevia muito depressa agora, interrompendo apenas para limpar a testa com as costas da mão, que vinha totalmente molhada. Ele ergueu o rosto mais uma vez; tinha a voz alquebrada quando perguntou:

- Ele está vindo?

Grant pareceu preocupado.

- Ele... não está no consultório.

- Ligue para a casa dele. Localize-o em qualquer lugar. Use esse telefone. Não fique aí brincando com ele.

Grant usou o telefone; Ralson puxou outra folha de papel para diante de si. Cinco minutos depois, Grant falou:

- Ele está vindo. Qual é o problema? Você está com uma aparência horrível.

A garganta de Ralson estava contraída, tornando sua voz estranhamente gutural.

- Não há tempo... não posso falar...

Ele escrevia febrilmente, garatujando frases e fórmulas, esboçando diagramas às pressas. Era como se estivesse forçando as próprias mãos a fazer aquilo, lutando contra elas.

- Você pode ditar, eu escrevo - sugeriu Grant, mas Ralson o empurrou para o lado, passando a segurar o próprio pulso com a mão esquerda, como se ele fosse um pedaço de madeira. Acabou por ceder, caindo por sobre a prancheta.

Grant retirou os papéis de baixo do corpo de Ralson e ajudou-o a estirar-se no sofá. Ficou caminhando em torno dele sem descanso, quase em desespero, até a chegada de Blaustein.

- O que aconteceu? - perguntou o psiquiatra, indo direto até Ralson.

- Acho que ele está vivo - respondeu Grant, mas a essa altura Blaustein já tinha verificado por conta própria. Grant resumiu o que tinha ocorrido, enquanto Blaustein aplicava uma injeção hipodérmica em Ralson. Após alguns minutos de espera, o cientista abriu os olhos, vazios de expressão, e soltou um gemido.

- Ralson! - disse Blaustein, inclinando-se sobre ele.

As mãos de Ralson se ergueram vacilantes e agarraram as lapelas do psiquiatra.

- Doutor. Me leve de volta.

- Vou levar. Daqui a pouco. Você resolveu a questão do campo de força, não é isso?

- Está aí nesses papéis. Grant, fique com esses papéis. Grant os estava folheando, com ar duvidoso. Ralson continuou, com voz fraca:

- Não está tudo aí. Só deu para escrever isso, e vocês vão ter que desenvolver o resto. Doutor, me leve de volta.

- Calma - disse Grant, e abaixou-se para cochichar ao ouvido de Blaustein: - Doutor, não pode deixá-lo aqui até que a gente possa fazer o teste? Não estou entendendo quase nada disto aqui, está ilegível. Pergunte a ele por que acha que isto vai funcionar.

- Perguntar a ele? Ora, ele não é o sujeito que sempre sabe a resposta certa?

- Pode me perguntar - disse Ralson, que os ouvia, ainda deitado no sofá. De repente, seus olhos se arregalaram e pareceram ficar mais brilhantes.

Os dois deram um passo em sua direção.

- Eles são contra esse campo de força! - exclamou Ralson. - Eles. Os pesquisadores! Enquanto eu estava seguindo na direção errada, nada aconteceu. Mas bastou que eu passasse trinta segundos seguindo esse raciocínio... esse aí, que está nos papéis... e eu senti... senti... Doutor!

- O que é? - perguntou Blaustein. Ralson voltou a sussurrar.

- Mergulhei fundo na... penicilina. Pude sentir que estava afundando mais e mais, enquanto escrevia. Nunca fui tão longe. Foi por isso que soube que estava no caminho certo. Me leve embora daqui.

Blaustein endireitou-se.

- Vou ter que levá-lo, Grant. Não tenho alternativa. Se você puder entender o que ele escreveu, ótimo. Se não, não posso fazer nada. Esse homem não pode prosseguir nesse trabalho sem correr risco de vida, entende?

- Mas é um risco imaginário - retorquiu Grant.

- Está bem, digamos que seja. Mas ele pode morrer de fato, não importa se isto tudo é ou não um delírio.

Ralson estava outra vez inconsciente, não escutou nada do que os dois diziam. Grant pousou sobre ele um olhar sombrio e resmungou:

- É, está bem. Pode levá-lo.

 

Dez dos principais cientistas do Instituto estavam taciturnos, fitando a tela, enquando uma série de slides eram projetados um após o outro, vagarosamente. Depois, Grant postou-se diante deles, o rosto carrancudo.

- A nossa idéia é muito simples - disse. - Vocês são cientistas e matemáticos. A caligrafia destas notas pode estar quase ilegível, mas o que está expresso nelas faz sentido. É possível decifrar o que elas dizem, por mais ininteligível que pareça. A primeira página, no entanto, está razoavelmente clara, pode ser um bom ponto de partida. Cada um de vocês vai examinar essas páginas tantas vezes quantas necessário e propor todas as possíveis interpretações de cada uma. Vão trabalhar isoladamente. Não quero que façam consultas uns aos outros.

Um dos homens aparteou:

- E quem nos garante que essas garatujas têm sentido, Grant?

- O fato de serem anotações feitas por Ralson.

- Ralson?! Mas pensei que ele estava...

- Você pensava que ele estava doente. - Grant teve que erguer a voz para se sobrepor aos murmúrios e exclamações de surpresa dos cientistas. - Eu sei. Ralson está mal. Isso que vocês viram são anotações de um homem que está à beira da morte. Parece que isto é o máximo que poderemos extrair de Ralson, de hoje em diante. Em alguma parte desses rabiscos está a solução do problema do campo de força. Se não a encontrarmos aí, talvez tenhamos que passar dez anos procurando.

Os cientistas retiraram-se da sala, e se puseram a trabalhar. Passou-se uma noite. Duas noites. Três noites.

Grant olhou os primeiros resultados e abanou a cabeça.

- Vou ter que acreditar na sua palavra, mas não posso saber se isso faz sentido. Não consigo entender nada.

Lowe, que era considerado o melhor engenheiro nuclear do Instituto, logo abaixo de Ralson, encolheu os ombros.

- Para mim também não está muito claro. Talvez funcione, mas ele não explicou por quê.

- Ele não teve tempo para explicar. Você pode construir o gerador como ele descreve?

- Posso tentar.

- Você olhou as outras versões dessas páginas?

- Sim. Não são coerentes, com certeza.

- Pediu a opinião dos outros?

- Claro.

- Então, vamos construir o gerador, mesmo assim?

- Vou dar ordens para que o pessoal comece. Mas aviso logo que estou pessimista.

- Sei como é. Eu também estou.

Iniciou-se o projeto. Hal Ross, chefe de mecânica, foi encarregado da construção do gerador, e daí em diante não teve mais uma noite de sono tranqüilo. A qualquer hora do dia ou da noite ele podia ser encontrado no laboratório, atarefado, cocando a cabeça totalmente calva. Apenas uma vez ele se arriscou a fazer perguntas.

- O que diabo é isso, Dr. Lowe? Nunca vi nada parecido. Para que serve?

- Ross, você sabe onde nós estamos - retrucou Lowe. - Aqui não se faz perguntas.

Ross não insistiu. Todos sabiam que ele não via com bons olhos a estrutura que estava sendo construída. Dizia que era algo feio, antinatural. Mas continuou trabalhando.

Um dia, o telefone tocou: era Blaustein.

- Como vai Ralson? - perguntou Grant.

- Não está muito bem, mas quer assistir ao teste do Projetor de Campo.

Grant hesitou.

- É, acho que está certo - disse por fim. - Foi ele que o desenhou.

- Acontece que eu preciso ir junto com ele.

- Grant não estava à vontade.

- Olhe, doutor, isso pode ser perigoso. Mesmo num teste-piloto, vamos estar lidando com tremendas quantidades de energia.

- Não vai ser mais perigoso para mim do que para vocês - replicou Blaustein.

- Então está bem. A lista de observadores presentes tem que ser aprovada pela Comissão e pelo FBI, mas darei um jeito de incluir seu nome.

 

Blaustein olhou em torno. A estrutura maciça do Projetor de Campo erguia-se no centro do vasto recinto do laboratório de testes, mas todo o restante estava vazio.

Não havia nenhuma conexão visível com o reator de plutônio que lhe servia como fonte de energia, mas pelos fragmentos de diálogo que o psiquiatra captou em redor - ele jamais se atreveria a perguntar a Ralson - pôde deduzir que a conexão era por baixo da terra.

De início os observadores tinham se amontoado em torno da máquina, apontando com o dedo e trocando comentários incompreensíveis, mas agora começavam a se afastar.

As galerias laterais começavam a se encher. Do lado oposto, havia pelo menos três homens com uniformes de general, rodeados por uma multidão de oficiais de patentes menores. Blaustein conseguiu instalar-se numa boa posição junto à grade de observação, distante dos outros, mais por causa de Ralson do que por outra razão. Perguntou:

- E então? Quer continuar aqui?

Fazia calor no laboratório, mas Ralson continuava de sobretudo e com a gola erguida. Não fazia muita diferença, pensou Blaustein. Ele duvidava que qualquer um dos ex-colegas de Ralson pudesse reconhecê-lo.

- Vou ficar - disse Ralson.

A resposta satisfez Blaustein, que estava curioso para presenciar o teste. Virou-se quando outra voz soou ao seu lado.

- Olá, Dr. Blaustein.

Por um instante Blaustein não o reconheceu, mas logo exclamou:

- Inspetor Darrity! O que está fazendo aqui?

- Exatamente o que o senhor pode imaginar. - O inspetor fez um gesto indicando a platéia. - É impossível filtrar uma multidão como esta e ter certeza de que nenhum erro foi cometido. Certa vez eu estive tão perto de Klaus Fuchs quanto estou do senhor. - Ele jogou o canivete para o ar e o apanhou na queda, num gesto hábil.

- Oh, claro. Nunca se pode ter cem por cento de segurança, não é mesmo? Em que se pode confiar, incluindo nosso próprio inconsciente? Mas diga-me uma coisa. Vai ficar aqui do meu lado?

- É bem provável - sorriu Darrity. - O senhor esforçou-se bastante para estar presente aqui hoje, não é verdade?

- Não foi por minha causa, inspetor. E por favor, guarde esse canivete.

Darrity girou o rosto, atendendo ao gesto discreto feito pelo psiquiatra. Guardou o canivete no bolso e, ao olhar pela segunda vez o rosto do companheiro de Blaustein, não pôde reprimir um assobio de surpresa.

- Olá, Dr. Ralson - disse.

- Olá. - A voz de Ralson era quase um grasnido. Blaustein não ficou surpreso com a reação de Darrity. Ralson tinha perdido cerca de quarenta quilos desde seu retorno ao sanatório. Seu rosto estava amarelado e cheio de rugas: tinha a aparência de um homem de sessenta anos.

- O teste demora muito? - perguntou Blaustein.

- Parece que já vai começar - disse Darrity, debruçando-se sobre a grade que servia de parapeito. Blaustein tomou Ralson pelo cotovelo e fez menção de afastar-se, mas o inspetor falou com suavidade: - Fique aqui perto, doutor. Prefiro que não fique circulando por aí.

Blaustein olhou para a parte central do laboratório, depois para as laterais, onde grande parte dos presentes tinha o ar pouco confortável de quem estava parcialmente transformado em pedra. Ele avistou Grant, alto e carrancudo, extraindo um isqueiro e um cigarro do bolso, depois mudando de idéia e guardando-os novamente. Nos painéis de controle, uma porção de jovens técnicos esperavam, dominados pela tensão.

Começou a se ouvir um zumbido. Sentiu-se no ar um leve cheiro de ozônio.

- Veja! - exclamou Ralson, com voz áspera. Blaustein e Darrity olharam na direção de seu dedo estendido.

A imagem do Projetor pareceu tremular, como se houvesse uma região de ar aquecido entre ele e os observadores.

Uma pesada bola de ferro, pendurada do teto, foi largada como um pêndulo através daquela área.

- Diminuiu de velocidade - disse Blaustein, excitado. Ralson concordou.

- Estão medindo até que altura ela se elevou do lado oposto, para calcular a perda de momentum. Que idiotas. Eu disse a eles que ia funcionar, não disse? - Falava com evidente dificuldade.

- Fique só olhando, Dr. Ralson - disse Blaustein. - Se eu fosse o senhor procuraria não ficar muito excitado.

O pêndulo teve sua trajetória interrompida e foi erguido mais uma vez; o tremular das imagens em redor do Projetor tornou-se mais intenso e a bola de ferro foi largada mais uma vez.

A experiência repetiu-se várias vezes seguidas; a cada uma delas a trajetória do pêndulo sofria um retardamento mais visível. A pesada bola de ferro produzia um som claramente audível quando penetrava no campo de força, até que numa das tentativas ela caiu na direção do campo... e foi repelida. Houve um som abafado, como se a bola tivesse se chocado com um monte de areia; ela retiniu na vez seguinte, como se batesse contra o aço.

Os cientistas recolheram o pêndulo e não o utilizaram mais. A essa altura, o Projetor era cada vez menos visível através de uma espécie de névoa que parecia cercá-lo.

Grant deu outra ordem, e o odor de ozônio tornou-se mais forte e penetrante. Houve um grito uníssono entre os assistentes: cada um falava com seu vizinho; uma dúzia de braços se erguia, apontando.

Blaustein inclinou o corpo sobre o gradil, tão excitado quanto os demais. No lugar onde há alguns instantes se avistava o Projetor, parecia haver agora uma espécie de gigantesco espelho semi-esférico, que produzia uma imagem brilhante e perfeitamente nítida. Blaustein podia se ver naquela imagem, um homem atarracado por trás de uma balaustrada que se encurvava para o alto em ambas as extremidades. Podia ver as luzes fluorescentes refletindo-se em pontos cintilantes, numa imagem espantosamente clara.

Blaustein surpreendeu-se gritando:

- Ralson, veja, está refletindo a energia! Está refletindo as ondas de luz como se fosse um espelho, Ralson! - Virou-se para o lado. - Inspetor! Onde está Ralson?

Darrity girou o corpo.

- Quem?! Não sei... não vi. - Olhou em redor, meio desnorteado. - bom, ele não irá muito longe. Não há como sair daqui. Doutor, vá por esse lado. - Nesse instante o inspetor bateu com a mão na coxa, remexeu no bolso, e soltou uma praga. - Meu canivete sumiu.

Foi Blaustein quem o encontrou. Estava no pequeno escritório onde trabalhava Hal Ross e que dava diretamente para o laboratório, embora, naquelas circunstâncias, tivesse permanecido deserto. Ross não estava entre os observadores: um chefe de mecânica não tem que estar presente às experiências. Mas o seu escritório servia às mil maravilhas para o derradeiro ato de uma longa luta contra o suicídio.

Blaustein parou no umbral durante alguns instantes e girou nos calcanhares, nauseado. Viu Darrity surgindo à porta de um escritório semelhante, a trinta metros de distância, e o chamou com um gesto.

O Dr. Grant tremia de excitação. Acendeu um cigarro, deu dois tragos e logo o esmagou sob a sola do sapato; acendeu outro, e fez a mesma coisa. Pegou o terceiro.

- É muitíssimo melhor do que qualquer um de nós podia esperar - exclamou. - Amanhã faremos o teste de armas de fogo. Já sei o resultado, mas já que está no cronograma vamos realizá-lo. Vamos somente cancelar as armas de pequeno calibre e começar logo com a bazuca. Ou talvez não. Pelo que vejo, talvez seja preciso construir uma estrutura especial para cuidar da questão do ricochete.

Pisou no terceiro cigarro. Um general lembrou:

- Naturalmente, vamos ter que experimentar uma bomba atômica propriamente dita.

- Claro. Já tomamos as providências para construir uma cidade simulada em Eniwetok. Vamos construir um gerador bem no centro dela e jogar a bomba. Haverá animais vivos na área.

- Acha que se tivermos um projetor como esse funcionando a pleno vapor ele poderá deter a bomba?

- Não é bem assim, general. Não haverá um campo de força propriamente dito até o momento em que a bomba for lançada. O campo será ativado pela radiação do plutônio quando a bomba se aproximar, antes da explosão. Mais ou menos como fizemos em nossos testes aqui. Em síntese, é assim que a coisa funciona.

- Sabe de uma coisa? - disse um professor de Princeton. - Vejo algumas desvantagens nesse método. Quando o campo está funcionando a pleno vapor, toda a área que ele protege fica mergulhada em total escuridão, pelo menos no que diz respeito ao sol. Além disso, ocorreu-me que o inimigo pode ter a idéia de ficar enviando a intervalos regulares mísseis radioativos inofensivos para ativar o campo. Isso provocaria um grande desgaste psicológico, além de sobrecarregar nosso gerador.

- Desgaste psicológico não mata ninguém - retorquiu Grant. - Todas essas dificuldades podem ser enfrentadas, com certeza; o importante é que resolvemos o problema principal.

O observador britânico tinha aberto caminho até Grant e finalmente conseguiu apertar-lhe a mão.

- Estou mais tranqüilo quanto a Londres - disse. - Gostaria que o seu governo me permitisse ter acesso aos cálculos do projeto. Isto que acabei de ver me parece algo absolutamente espantoso. Depois de pronto parece óbvio, mas eu me pergunto como é que alguém conseguiu ter essa idéia.

Grant sorriu.

- Essa questão já foi levantada com relação às soluções propostas pelo Dr. Ralson... - Ele virou-se quando sentiu uma mão tocar seu ombro. - Dr. Blaustein! Tinha quase me esquecido do senhor. Venha cá, precisamos conversar.

Ele arrastou o pequeno psiquiatra até um canto e cochichou em seu ouvido:

- Escute... será que não poderia convencer Ralson a ser apresentado a esse pessoal? Afinal, é um triunfo que pertence a ele.

- Ralson está morto - disse Blaustein.

- O quê?!

- Pode me acompanhar, por alguns minutos?...

- Eu... sim, sim. Senhores, por favor... volto já. Deixou a sala em companhia de Blaustein.

O FBI já tinha se encarregado do caso, bloqueando a porta que dava acesso ao escritório de Ross. Do lado de fora, uma multidão de cientistas discutia a resposta a Alamo-gordo que tinham acabado de presenciar, sem saber que o autor da resposta jazia morto no interior daquele aposento. A barreira dos agentes federais abriu-se para permitir a passagem de Blaustein e Grant, fechando-se às costas deles.

- Grant ergueu o lençol por um instante, depois o deixou cair, com um breve comentário.

- Ele parece em paz.

- Eu diria que ele parece feliz - disse Blaustein. com uma voz inexpressiva, o inspetor Darrity aduziu:

- A arma do suicídio foi meu canivete. Foi negligência minha, Vou incluir isto no meu relatório.

- Não, não - contrapôs Blaustein. - Ele era meu paciente, e eu é que posso ser responsabilizado. Em todo caso, não creio que o Dr. Ralson tivesse condições de viver mais uma semana. Desde que inventou o Projetor de Campo ele tornou-se um homem moribundo.

- Até que ponto tudo isto tem que figurar no inquérito policial? - perguntou o Dr. Grant. - Não podemos esquecer o fato de que Ralson estava mentalmente instável?

- Receio que não, Dr. Grant - disse Darrity.

- Eu já lhe contei tudo - disse Blaustein, soturno. Os olhos de Grant foram de um para o outro.

- Vou falar com o diretor. Vou falar com o presidente da República, se for necessário. Não creio que seja preciso fazer nenhum registro sobre suicídio ou sobre loucura. Ralson será conhecido do público como o inventor do Projetor de Campo. É o mínimo que podemos fazer pela sua memória. - Os dentes de Grant estavam cerrados.

- Ele deixou um bilhete - disse Blaustein.

- Um bilhete?

Darrity estendeu um pedaço de papel, dizendo:

- Todo suicida faz isso. Esse é um dos motivos pelos quais o Dr. Blaustein teve de me explicar o quê, realmente, matou o Dr. Ralson.

O bilhete estava endereçado a Blaustein, e dizia: "O Projetor funciona. Eu sabia que ia dar certo. Fiz a minha parte no acordo. Vocês agora têm o que queriam e não precisam mais de mim. Para mim, acabou. Não precisa se preocupar com a humanidade, doutor. O senhor tinha razão. Eles prolongaram demais a experiência conosco, foram imprudentes. Escapamos do tubo de ensaio e eles agora não podem mais nos controlar. Sei disso. Não posso explicar, mas sei."

Ele tinha rabiscado apressadamente seu nome, e por baixo dele havia mais uma linha: Desde que haja um número suficiente de pessoas resistentes à "penicilina".

Grant fez menção de amarrotar a folha, mas Darrity se antecipou num gesto rápido:

- Com licença, doutor. Para os registros. Grant entregou o papel, comentando:

- Pobre Ralson. Morreu acreditando em toda essa maluquice. Blaustem concordou.

- É verdade. Ralson, creio, terá direito a um grande funeral, e será aclamado como inventor, sem nenhuma referência à loucura ou ao suicídio. Mas o pessoal do governo continuará interessado em suas teorias malucas, porque no fim das contas elas talvez não sejam propriamente malucas... não é, Sr. Darrity?

- Isto é ridículo, doutor - disse Grant. - Não há um único cientista neste projeto que tenha mostrado o menor sinal de desequilíbrio.

- Conte para ele, Sr. Darrity - disse Blaustein.

- Tivemos outro suicídio - confirmou Darrity. - Não, não foi nenhum dos cientistas. Ninguém de primeiro escalão. Aconteceu hoje de manhã, e começamos a investigar o caso porque achamos que poderia ter relação com o teste de hoje. Não parecia haver nenhuma, mantivemos tudo em segredo, esperando que o teste fosse realizado. O problema é que agora parece haver uma ligação.

- O sujeito que morreu esta manhã era um cara comum, com mulher e três filhos. Nenhuma razão para se matar. Nenhum registro de problemas mentais. Jogou-se embaixo de um carro; temos testemunhas; não há a menor dúvida de que foi um ato proposital. Ele não morreu na hora, houve tempo para chamar um médico. Ficou horrivelmente ferido, mas suas últimas palavras foram: Agora me sinto muito melhor... e morreu.

- Quem era? - perguntou Grant.

- Hal Ross. O sujeito que dirigiu a construção do Projetor. Trabalhava aqui, neste escritório.

Blaustein foi até a janela. O céu começava a escurecer. Apareciam as primeiras estrelas. Ele disse:

- Ross não sabia nada das idéias de Ralson. Segundo o Sr. Darrity me informou, ele e Ralson nunca chegaram a conversar. O que eu penso é que os cientistas, como classe, talvez sejam mais resistentes. Têm que ser, ou então não duram muito tempo nessa profissão. Ralson era uma exceção, um sujeito sensível à "penicilina" que insistiu em continuar, e o resultado foi o que vimos. Mas, o que dizer dos outros? Das pessoas comuns, que vivem uma vida onde essa eliminação dos mais fracos não é visível? Quanto do restante da humanidade será resistente à "penicilina"?

- O senhor acredita em Ralson? - perguntou Grant, atônito.

- Não sei ainda.

Blaustein ficou contemplando as estrelas. Incubadoras?

 

A HOSPEDEIRA

Rose Smollett estava feliz, quase triunfante. Tirou as luvas, pendurou o chapéu e virou-se para o marido com olhos brilhantes.

- Drake... Ele vai ficar aqui! Drake a encarou aborrecido.

- Está atrasada para o jantar. Pensei que você fosse estar aqui às sete.

- Ah, não faz mal, comi qualquer coisa antes de vir. Mas Drake... ele vai ficar aqui em casa!

- Ele quem? Do que se trata, afinal?

- O cientista do planeta de Hawkin! Está esquecido da conferência a que fui hoje? Era sobre isto, não falamos noutra coisa o dia inteiro. É a coisa mais formidável que poderia ter acontecido!

Drake Smollett afastou da boca o cachimbo, olhou primeiro para ele e depois para a esposa.

- Deixe ver se entendi. Quando você disse "o cientista do planeta de Hawkin", você quis dizer o hawkiniano que está no Instituto?

- Claro. O que mais poderia ser?

- E posso perguntar o que diabo você quer dizer quando diz que ele vai ficar aqui em casa?

- Drake, você não compreende?

- Compreender o quê? Seu Instituto pode estar interessado nessa criatura, mas eu não estou. Para que esse envolvimento pessoal? É um assunto do Instituto, certo?

- Mas, querido - disse Rose, com paciência, o hawkiniano declarou que gostaria de ficar hospedado na residência de alguém, sem ter que se incomodar com formalidades, podendo se instalar mais de acordo com suas conveniências. Acho muito compreensível.

- Mas por que logo em nossa casa?

- Porque é um lugar adequado, creio. Perguntaram-me se eu faria alguma objeção, e, francamente - neste ponto, Rose se empertigou um pouco, considerei isto um privilégio.

- Olhe aqui - disse Drake, passando os dedos através dos cabelos castanhos até desarrumá-los por completo. - Nós temos uma moradia razoavelmente confortável, certo? Pode não ser o lugar mais chique do mundo, mas é ideal para nós dois. O que eu não sei é como vamos ter espaço para um visitante extraterrestre.

Rose pareceu preocupada, enquanto tirava os óculos e os guardava na caixinha.

- Temos o quarto de hóspedes, não temos? Ele pode ficar lá sem nos dar trabalho. Já falei com ele, é uma pessoa muito agradável. Tudo que precisamos é ser um pouco flexíveis.

- Flexíveis! - exclamou Drake. - Os hawkinianos respiram cianureto. Você não quer que a gente se adapte a isso, não?

- Ele carrega seu cianureto num pequeno cilindro, a gente quase não nota.

- E quais são as outras coisas nele que a gente quase não nota?

- Tudo. Ou nada. Eles são absolutamente inofensivos. Meu Deus... são até mesmo vegetarianos.

- Isso quer dizer que vamos ter que servir feno no jantar. O lábio inferior de Rose começou a tremer.

- Drake, você está sendo deliberadamente detestável. A Terra está cheia de gente vegetariana, e nenhum deles come feno.

- Está bem, e quanto a nós? Vamos poder comer nossa carne tranqüilos, ou isso fará com que ele nos considere canibais? Vou logo avisando que não pretendo ficar reduzido a saladas.

- Não seja ridículo.

Rose sentia-se desamparada. Casara relativamente tarde. Ao escolher sua carreira profissional, tinha se dedicado totalmente a ela. Era professora de biologia no Instituto Jenkins de Ciências Naturais e tinha mais de vinte publicações em seu currículo. Numa palavra: tinha preparado o terreno e estava pronta para seguir seu caminho, tendo se preparado para uma vida inteira de trabalho e celibato. E agora, aos 35 anos, ainda se via com um certo espanto na condição de esposa há menos de um ano.

De vez em quando isso a deixava pouco à vontade, ao constatar que não tinha a mais remota idéia de como lidar com um marido. O que se deve fazer quando um marido, num momento de divergência, se mostra obstinado e irredutível? A universidade não a tinha preparado para esse tipo de problema. Ela era uma mulher independente, não se dispunha a recorrer à adulação para convencer Drake.

Portanto, limitou-se a olhá-lo com firmeza e dizer:

- Isto é muito importante para mim.

- Por quê?

- Porque se ele ficar aqui, Drake, Vou ter a chance de estuda-lo de perto. Existe muito pouca pesquisa sobre a biologia e a psicologia dos hawkinianos ou das demais raças inteligentes extraterrestres. Temos bastante coisa sobre sua sociologia e sua história, claro, mas isso é tudo. Você há de concordar que é uma ótima oportunidade. Se ele ficar aqui poderemos observá-lo, conversar com ele, perceber seus hábitos...

- Não estou interessado.

- Oh, Drake, não consigo compreender você.

- Você vai dizer daqui a pouco que eu geralmente não me comporto assim, não é?

- Sim.

Drake ficou em silêncio por algum tempo. Parecia estar se concentrando; seus malares proeminentes e seu queixo largo estavam contraídos, até que ele começou a falar.

- Veja bem. Já ouvi falar uma porção de coisas sobre os hawkinianos, dentro do âmbito do meu trabalho. Você diz que até agora foram feitos estudos sobre a sociologia deles, mas não sobre a sua biologia. Claro. Os hawkinianos não gostam de ser estudados como animais de laboratório, assim como nós também não gostamos. Já conversei com homens que trabalharam no esquema de segurança de várias missões hawkinianas à Terra. Os membros dessas missões permanecem nos aposentos que lhes são designados e só saem dali para os encontros oficiais obrigatórios. Eles não querem proximidade com os terrestres. É bastante óbvio que eles sentem tanta repulsa física por nós quanto nós por eles.

- Na verdade, não entendo por que motivo esse hawkiniano que está no Instituto deveria ser diferente. Além do mais, me parece extremamente atípico o fato de ele  vir sozinho à Terra, e o seu desejo de ficar hospedado numa residência terrestre é o fecho de ouro. Muito estranho.

Rose retrucou, fatigada:

- É um caso diferente, Drake, não sei como você não compreende isso. Ele é um cientista. Está vindo para cá para fazer pesquisas médicas, posso lhe garantir que ele provavelmente não vai achar divertido ficar hospedado entre nós, e provavelmente deve nos achar horríveis. Mas isso não impede que ele fique. Você acha que os cientistas da Terra gostam de ir para os trópicos, ou que acham extremamente divertido sofrer picadas de mosquitos?

Drake retrucou com aspereza:

- Mosquitos? O que tem a ver esta história com mosquitos?

- Ora... nada - disse Rose, surpresa. - Foi algo que me ocorreu, mais nada. Lembrei-me de Reed e de suas pesquisas sobre a febre amarela.

Drake encolheu os ombros.

- Está bem... faça o que achar melhor. Rose hesitou por um momento.

- Você não está zangado, está? - Sentiu-se extremamente infantil fazendo essa pergunta.

- Não.

Isso queria dizer que estava, sim.

Rose examinou-se no enorme espelho e continuou em dúvida. Nunca tinha sido particularmente bonita; já estava mais do que acostumada a isto; a questão já tinha há muito tempo perdido toda a importância. E decerto não teria o menor significado para alguém que vinha do Planeta de Hawkin. O que a preocupava de fato era a dificuldade de ser uma anfitriã em circunstâncias tão peculiares - ter que receber com cortesia um hóspede extraterrestre e ao mesmo tempo ser gentil para com o próprio marido. Ela não sabia qual das duas tarefas seria mais difícil.

Drake iria chegar atrasado naquele dia; não deveria chegar em casa antes da próxima meia hora. Rose sentiu-se inclinada a supor que ele tinha arranjado aquilo propositalmente, para deixá-la a sós com seu problema. Isso lhe produziu um leve ressentimento.

Drake tinha lhe telefonado durante a tarde, no Instituto, perguntando de modo um tanto abrupto:

- Quando é que você vai levá-lo lá para casa?

- Dentro de três horas - respondeu ela com secura.

- Está bem. Como é o nome dele? O nome hawkiniano?

- Para que quer saber? - Ela não pôde evitar o tom gélido que transpareceu em sua voz.

- Digamos que Vou fazer uma pequena investigação particular. Afinal de contas, essa coisa vai ficar dentro da minha casa.

- Ah, Drake, por favor. Você tem mesmo que misturar o seu trabalho com a nossa vida particular?

A voz de Drake tinha um tom metálico e cheio de sarcasmo quando ele respondeu:

- Mas Rose, não é exatamente isso que você está fazendo? Era. E ela deu a informação que ele pedia.

Pela primeira vez em sua vida de casados eles tinham tido algo que se assemelhasse a uma briga. Sentada diante do espelho, Rose perguntou-se se não deveria tentar encarar as coisas do ponto de vista de Drake. O fato é que ela tinha se casado com um policial. Mais do que isso, claro - Drake era um dos membros do Conselho de Segurança Mundial.

Tinha sido uma surpresa para os amigos de Rose. O casamento em si tinha sido a maior surpresa de todas; já que ela decidira casar, por que não casar com outro biólogo?

Ou, caso ela quisesse uma escolha fora da própria área, por que não um antropólogo, talvez? Ou quem sabe um químico? Mas, em nome de tudo... por que logo um policial?

Ninguém disse nada disso em voz alta, claro, mas foi essa a atmosfera que cercou o casamento durante todo o tempo.

Isso não lhe agradou na época nem depois. Um homem pode casar com quem bem entender, mas se uma mulher detentora de um Ph.D. resolve se casar com um homem que não tem mais do que um grau de bacharel, as pessoas ficam chocadas. Por quê? O que tem isso a ver com eles? De certo modo, Drake era um homem bonito e inteligente à sua maneira; e ela estava perfeitamente satisfeita com sua escolha.

No entanto... será que ela mesma não incorria nesse tipo de esnobismo que criticava nos amigos? Não assumia a atitude de que seu trabalho, suas pesquisas biológicas,

eram importantes, enquanto o emprego de Drake era algo para ser mantido entre as quatro paredes do seu escritório, nos velhos edifícios da ONU, junto ao East River?

Ela ficou de pé, agitada; respirou fundo e decidiu afastar por enquanto tais pensamentos. De maneira alguma queria discutir com Drake, estava resolvida a interferir na vida dele o mínimo possível. Tinha se comprometido a hospedar o hawkiniano, mas afora isso deixaria Drake agir como lhe agradasse; afinal, ele já estava fazendo uma concessão mais do que razoável.

 

Harg Tholan estava à sua espera quando ela desceu para a sala de visitas. Não estava sentado, porque sua conformação anatômica não o permitia. Ficava de pé sobre quatro membros muito próximos uns dos outros, enquanto um terceiro par, de construção inteiramente diversa, se erguia daquela região do corpo que, num ser humano, seria considerada a parte superior do tronco. Sua pele era brilhante, coriácea e coberta de rugosidades, e seu rosto tinha uma expressão ao mesmo tempo bovina e alienígena. Ainda assim, não era um ser totalmente repulsivo, e ainda usava uma espécie de roupa na parte inferior do corpo para evitar algum constrangimento por parte de seus anfitriões terrestres.

- Sra. Smollett - disse ele, agradeço sua hospitalidade de um modo que não conseguirei exprimir em seu idioma. - E curvou-se num gesto gracioso que levou seus braços a quase tocarem o chão.

Rose sabia que esse era um gesto de gratidão entre os nativos do Planeta de Hawkin, e sentiu-se aliviada ao ver que ele falava inglês tão bem. O formato de sua boca, combinado à ausência de incisivos, acentuava o som sibilante dos seus ss. A não ser isso, seu sotaque era equivalente ao de qualquer pessoa nascida na Terra.

- Meu marido ainda vai demorar um pouco - respondeu ela. - Quando ele chegar, poderemos jantar.

- Seu marido? - Por um instante ele não disse nada, mas logo comentou: - Sim, é claro.

Ela fez que não notou. Se havia uma fonte de intermináveis confusões entre as cinco raças inteligentes conhecidas na Galáxia eram as suas diferenças no que toca à vida sexual e às instituições sociais relacionadas a ela. O conceito de marido e mulher, por exemplo, existia apenas na Terra. As outras raças conseguiam entender do que se tratava, mas não tinham pontos de referência emocionais que pudessem se comparar.

Rose prosseguiu:

- Consultei o Instituto sobre a preparação do seu cardápio. Acredito que ficará satisfeito com ele.

Os olhos do hawkiniano piscaram muito rapidamente; o que indicava, lembrou-se Rose, que ele estava se divertindo.

- Proteínas são proteínas, minha cara Sra. Smollett - disse ele. - Para os demais componentes de que necessito, e que não serão encontrados em sua alimentação, eu trouxe alguns concentrados que me servirão perfeitamente.

E proteínas eram mesmo proteínas, Rose sabia disso muito bem. Sua preocupação quanto à dieta da criatura era mais uma questão de polidez. Após a descoberta de vida nos planetas de outros sistemas, uma das mais interessantes generalizações formuladas tinha sido a de que embora a vida pudesse se desenvolver a base de outras substâncias que não as proteínas - e mesmo de outros elementos que não o carbono - a verdade era que as únicas espécies inteligentes eram de natureza proteinácea. Isso significava que qualquer uma das cinco raças inteligentes podia se manter, durante longos períodos, com um regime baseado na alimentação de qualquer uma das outras quatro.

Ela ouviu a chave de Drake girar na fechadura e seu corpo se enrijeceu, apreensivo. Mas foi forçada a admitir que Drake se saiu muito bem. Entrou no aposento e, sem hesitação, estendeu a mão para o hawkiniano, dizendo com firmeza:

- Boa noite, Dr. Tholan.

O hawkiniano estendeu seu longo e desajeitado membro superior e os dois, por assim dizer, apertaram as mãos. Rose já tinha passado por aquela cerimônia e ainda sentia em sua mão a impressão deixada pelo toque da mão do alienígena; a impressão de algo áspero, quente, seco. Ela imaginou que, para ele, as mãos dos terrestres deviam parecer frias e úmidas.

Durante aquele cumprimento, Rose teve a oportunidade de examinar de perto a mão do alienígena. Era uma excelente amostra de um caso de evolução convergente. Seu desenvolvimento morfológico era inteiramente diverso do que dera origem à mão humana, mas mesmo assim os dois resultados tinham uma certa semelhança. A mão do hawkiniano tinha quatro dedos, sem polegar. Cada dedo tinha cinco juntas ou articulações independentes. Desse modo, a ausência do polegar era compensada pela flexibilidade dos dedos, que se assemelhavam quase a tentáculos. O que era mais interessante aos seus olhos de bióloga era o fato de cada dedo do hawkiniano terminar num casco vestigial, quase invisível, impossível de ser identificado pelos olhos de um leigo, mas demonstrando claramente que em outros tempos aqueles membros eram feitos para correr, assim como os do homem tinham sido feitos para escalar. Drake estava dizendo, num tom bastante amigável:

- Está confortável, doutor?

- Bastante - respondeu Tholan. - Sua esposa foi muito cuidadosa e tomou as providências necessárias.

- Gostaria de beber alguma coisa?...

O hawkiniano não respondeu e olhou para Rose com uma contração facial que provavelmente seria, em seu planeta, sinal inequívoco de uma emoção qualquer, mas que ela não conseguiu identificar. Limitou-se a dizer, meio nervosa:

- Aqui na Terra existe o hábito de ingerir líquidos aos quais se adiciona álcool etílico. Essas bebidas são muito estimulantes para nós.

- Oh, sim. Acho, no entanto, que terei de recusar. O álcool etílico iria produzir interferências bastante desagradáveis no meu metabolismo.

- Produz o mesmo no nosso, Dr. Tholan - disse Drake, mas entendo o que quer dizer. - Em todo caso, importa-se que eu tome um drinque?

- Por favor.

Ao se encaminhar para o bar situado no outro extremo da sala, Drake passou ao lado de Rose. Soltou apenas duas palavras ao cruzar com ela, num sussurro discreto e controlado: Meu Deus! - mas deu um jeito de deixar dezessete pontos de exclamação subentendidos.

O hawkiniano ficou de pé, à mesa do jantar. Seus dedos faziam maravilhas de destreza ao lidar com os talheres. Enquanto comiam, Rose tentou não olhar diretamente para ele. Sua larga boca, de lábios estreitos, abria-se enormemente no instante de ingerir o alimento, e ao mastigar suas mandíbulas executavam um curioso movimento lateral. Era mais uma evidência de sua ancestralidade ungulada. Rose se surpreendeu a imaginar se, depois de se recolher ao seu quarto, ele faria retornar à boca o bolo alimentar para ruminá-lo em paz. Essa idéia lhe provocou um calafrio ao imaginar que Drake poderia pensar a mesma coisa e retirar-se da mesa, enojado. Mas Drake estava se comportando de modo admirável.

- Imagino, Dr. Tholan - estava dizendo ele, que esse cilindro ao seu lado contém cianureto.

Os olhos de Rose se abriram um pouco mais: ela não tinha reparado no cilindro, um objeto curvo de metal, com a aparência de um cantil de água, moldado de forma a se encaixar do lado do corpo do hawkiniano, semi-oculto entre suas roupas. Bem, em todo caso, Drake tinha olhos de policial.

Quanto ao hawkiniano, não parecia nem um pouco constrangido.

- Tem razão - disse, correndo os dedos pelo tubo fino e flexível que corria ao longo de seu corpo, pintado de forma a se confundir com a cor de sua pele amarelada, até entrar pelo canto de sua larga boca. Rose sentiu-se um tanto embaraçada, como se estivesse vendo alguém exibir suas roupas íntimas.

Drake insistiu:

- E ele contém cianureto puro?

Os olhos do alienígena piscaram, bem-humorados.

- Espero que não esteja temendo qualquer perigo para os terráqueos. Sei que este gás é extremamente venenoso para vocês, mas não preciso dele em grande quantidade.

O gás contido neste cilindro é cinco por cento cianureto de hidrogênio, o restante é oxigênio. O gás só deixa o recipiente quando aspiro por este tubo, o que não tenho que fazer com muita freqüência.

- Entendo. E precisa aspirar esse gás para continuar vivendo? Rose estava perplexa. Ninguém podia fazer perguntas daquela natureza sem uma certa preparação prévia. Era impossível adivinhar quais poderiam ser as áreas delicadas da psicologia alienígena. E Drake devia estar fazendo aquilo deliberadamente, uma vez que ele sabia perfeitamente que poderia conseguir dela própria as respostas para aquelas perguntas. Ou será que ele preferia não tocar no assunto com ela?

O hawkiniano, no entanto, não pareceu perturbado.

- O senhor não é biólogo, Sr. Smollett?

- Não, Dr. Tholan.

- Mas tem uma ligação muito próxima com a Dra. SmoIJett,

Drake concedeu um sorriso.

- Sim, sou casado com uma bióloga, mas isto não significa que eu também o seja. Sou um pequeno funcionário do governo. - E completou: - Os amigos de minha esposa me consideram um policial.

Rose mordeu a língua. Nesse caso, tinha sido o hawkiniano quem tinha tocado num ponto sensível da psicologia de um alienígena. No Planeta de Hawkin vigorava um rígido sistema de castas, e as associações entre membros de castas diferentes eram estritamente regulamentadas. Mas Drake não podia saber disso. O hawkiniano virou-se para ela.

- Permite-me, Dra. Smollett, que explique um pouco da nossa bioquímica ao seu marido? Pode ser maçante para a senhora, que certamente já conhece muito bem esse assunto.

- Fique à vontade, Dr. Tholan.

- Muito bem. Sr. Smollett, o sistema respiratório do seu corpo e dos corpos de todas as criaturas que respiram ar aqui na Terra é controlado, pelo que pude aprender, por certas enzimas que contêm metais. Esse metal é geralmente o ferro, embora em alguns casos possa ser o cobre. Em ambos os casos, uma quantidade mesmo pequena de cianureto se combinaria com esses metais e imobilizaria o sistema respiratório das células vivas terrestres, que, impossibilitadas de absorver oxigênio, morreriam em poucos minutos.

- A vida em meu planeta tem uma constituição diversa. Os principais compostos respiratórios não contêm ferro nem cobre, na verdade não contêm metais de qualquer espécie.

É por essa razão que nosso sangue é descolorido. Nossos componentes contêm radicais orgânicos que são essenciais à vida e que só podem ser mantidos intactos na presença de uma pequena concentração de cianureto. Sem dúvida, foram necessários milhões de anos de evolução para desenvolver esse tipo de proteína num mundo cuja atmosfera contém naturalmente alguns décimos por cento de cianureto de hidrogênio, mantido estável mediante um ciclo biológico. Alguns dos nossos microrganismos nativos liberam esse gás.

- Sua explicação foi muito clara, Dr. Tholan, e muito interessante - disse Drake. - E o que acontece se não inalar o gás? Cai morto, assim? - Ele estalou os dedos.

- Não exatamente. Não seria o equivalente à inalação do cianureto pelos seus organismos. No meu caso, a ausência do cianureto produziria uma lenta sufocação. Acontece às vezes, em quartos mal ventilados no meu planeta, que o cianureto seja consumido gradualmente até cair abaixo da concentração mínima necessária. Os resultados são muito dolorosos, e difíceis de curar.

Rose teve de reconhecer que Drake tinha demonstrado um interesse genuíno. O alienígena, felizmente, tinha encarado o interrogatório com naturalidade. O resto do jantar transcorreu sem incidentes, chegando até a ser agradável.

Durante o restante da noite Drake continuou a mostrar-se interessado na troca de idéias com o visitante, e até mesmo fascinado. Rose sentiu-se eclipsada por ele, o que lhe agradou. Drake era de fato um indivíduo envolvente, e apenas o fato de ser uma cientista extremamente bem informada evitava que ela ficasse em segundo plano quando na companhia dele. Ela olhou o marido com uma ligeira melancolia, pensando: Por que será que ele casou comigo?

Drake estava sentado, pernas cruzadas, apoiando o queixo nas mãos entrelaçadas, enquanto mantinha os olhos fitos no hawkiniano que permanecia à sua frente, imóvel sobre as quatro patas.

- Continuo tendo certa dificuldade para imaginá-lo como um cientista - disse ele.

O hawkiniano piscou os olhos com bom humor e replicou:

- Entendo o que quer dizer. Também não consigo imaginá-lo como um policial, Sr. Smollett. Em meu mundo, os policiais são indivíduos especializados, um tipo de pessoa bem característico.

- É mesmo? - Havia uma certa secura na voz de Drake, mas ele logo mudou de assunto. - Pelo que sei, o senhor não está aqui numa viagem de passeio.

- Não, minha viagem é estritamente profissional. Pretendo estudar este estranho planeta que vocês chamam de Terra. Estudá-lo de um modo que ninguém do meu povo tentou até agora.

- Estranho? - perguntou Drake. - Em que sentido? O hawkiniano olhou para Rose.

- Ele não conhece a Morte por Inibição? Rose sentiu-se embaraçada.

- O trabalho de meu marido é muito importante - disse. - Receio que ele não tenha muito tempo para conhecer em detalhe o meu próprio trabalho. - Ela achou que essa não tinha sido a resposta mais adequada e percebeu mais uma vez que o hawkimano manifestava uma das suas emoções indecifráveis.

Mas ele logo voltou a dirigir-se a Drake.

- Fico sempre surpreendido ao ver como vocês, terrestres, não percebem até que ponto são uma raça peculiar. Como o senhor sabe, as cinco raças inteligentes da Galáxia se desenvolveram independentemente umas das outras, mas isso não impediu que alguns aspectos de sua evolução revelassem uma notável convergência. É como se, a longo prazo, a inteligência só pudesse florescer dentro de um quadro restrito de possibilidades. Mas prefiro deixar essa questão para os filósofos e passar adiante, uma vez que o senhor certamente está a par disso tudo.

- Acontece que, quando investigamos mais de perto as diferenças entre estas cinco raças, torna-se cada vez mais claro que, entre elas, é a raça terrestre a mais  fora do comum. Por exemplo: a Terra é o único lugar onde a vida depende de enzimas metálicas para a respiração. A raça de vocês é a única para quem o cianureto de hidrogênio é venenoso. Sua raça é a única forma de vida inteligente que é carnívora e a única que não se desenvolveu a partir de animais de pastagem. E, o que é mais interessante ainda, a raça de vocês é a única forma de vida inteligente cujo crescimento se interrompe após atingida a maturidade.

Drake sorriu, o que fez o coração de Rose bater mais rápido. Era o melhor sorriso dele, e usado com absoluta naturalidade. Drake estava aceitando a presença daquela criatura alienígena. Estava sendo agradável e devia estar fazendo isso por causa dela. Ela sentiu-se feliz com esta idéia e ficou a saboreá-la. Drake fazia aquilo por causa dela; era para fazê-la feliz que estava sendo cordial com o hawkiniano. Drake estava dizendo, ainda sorridente:

- O senhor não me parece muito grande, Dr. Tholan. Calculo que tenha uns dois centímetros a mais do que eu, o que lhe daria uma altura em torno de um metro e oitenta e seis. Isto significa que é jovem, ou que os outros em seu planeta são, em geral, de menor estatura?

- Nem uma coisa nem outra. Nosso ritmo de crescimento diminui com o passar dos anos, de modo que, pela idade que tenho, precisaria de quinze anos para crescer mais dois centímetros; mas, e esse é o aspecto essencial, nós nunca paramos completamente de crescer. Em conseqüência disso, nunca morremos, de certo modo. Drake soltou uma exclamação de surpresa e Rose empertigou-se na poltrona. Essa era uma informação totalmente nova. Era uma informação que, ao que ela sabia, não tinha sido trazida por nenhuma das expedições que tinham visitado o Planeta de Hawkin. Ela sentiu-se tomada pela excitação, mas manteve-se em silêncio, deixando que Drake tomasse a iniciativa de fazer as perguntas.

- Nunca morrem? - disse ele. - Está querendo dizer, Dr. Tholan, que os hawkinianos são imortais?

- Nenhum de nós é verdadeiramente imortal. Se não houvesse outras formas de morrer haveria sempre os acidentes, e na ausência destes haveria o tédio. Pela contagem terrestre, poucos entre nós vivem mais do que alguns séculos. Ainda assim é muito desagradável pensar que a morte pode nos acontecer de modo involuntário. Para nós, é uma horrível perspectiva. Neste momento em que estou falando não posso evitar uma certa angústia ao lembrar que, contra a minha vontade e a despeito de todas as precauções, posso acabar morrendo.

- Quanto a nós - disse Drake gravemente, já estamos acostumados a essa idéia.

- Os terrestres convivem com essa idéia; nós não. É por esse motivo que estamos tão inquietos diante do fato de a Morte por Inibição ter aumentado nos últimos anos.

- O senhor ainda não explicou o que é a Morte por Inibição, mas deixe-me ver se adivinho. Será uma cessação patológica do crescimento?

- Exatamente.

- E a morte ocorre quanto tempo após essa cessação do crescimento?

- Dentro de um ano. É uma doença devastadora, trágica, totalmente incurável.

- E é provocada por quê?

O hawkiniano fez uma longa pausa antes de responder. Quando começou a falar, havia algo tenso e contrafeito na sua voz.

- Sr. Smollett, nada sabemos quanto às causas dessa doença.

- Drake assentiu em silêncio. Rose acompanhava o diálogo como se fosse uma espectadora numa partida de tênis.

- E por que - perguntou Drake - o senhor veio para a Terra a fim de estudar essa doença?

- Porque os terrestres são uma raça diferente de todas as outras. São a única raça inteligente imune a essa doença, que atinge todas as outras quatro. Os biólogos terrestres têm consciência disso, Dra. Smollett?

Tholan se dirigiu a ela de modo tão inesperado que Rose teve um sobressalto, mas logo se recompôs e disse:

- Não, não têm.

- Isso não me surpreende. Esse detalhe só ficou comprovado através de experiências muito recentes. É muito fácil dar um diagnóstico incorreto de Morte por Inibição e sua incidência é muito menor nos outros planetas. Na verdade, é algo muito estranho; e também é um bom tema para especulações o fato de a incidência da doença ser maior em meu planeta, que fica tão próximo à Terra, e menor nos planetas mais distantes. Sua menor incidência é no planeta da estrela Têmpora, o mais distante da Terra, enquanto a própria Terra é imune. O segredo dessa imunidade deve estar em algum aspecto da bioquímica terrestre. Descobrir esse segredo é um desafio fascinante.

- Mas, veja bem - disse Drake, não se pode dizer que a Terra seja imune. Pelo que posso entender, a incidência aqui é de cem por cento. Afinal, todos os terrestres param de crescer e todos morrem. Portanto, todos nós somos vítimas da Morte por Inibição.

- De modo algum. Os terrestres chegam a viver cerca de setenta anos após a cessação do crescimento. Isso não é a Morte por Inibição como nós a experimentamos. A doença equivalente, aqui na Terra, é justamente o contrário: uma espécie de crescimento incontrolável, que vocês denominam câncer. Mas fiquemos por aqui. Creio que estou a aborrecê-los.

Rose protestou imediatamente e Drake a secundou com uma veemência inesperada, mas o hawkiniano insistiu em mudar de assunto. Foi nesse instante que Rose experimentou a primeira pontada de suspeita, porque Drake começou a crivar Harg Tholan de perguntas, cercando-o com cuidado, provocando-o, inquietando-o, tentando por todos os meios levar a conversa de volta ao ponto onde o hawkiniano tinha feito aquela mudança brusca de direção. Não havia nada de grosseiro ou de explícito nessas suas tentativas, mas Rose o conhecia bem e podia adivinhar suas intenções. E quais poderiam ser essas intenções senão algo imposto pelo seu ofício?

Como que fazendo eco aos seus pensamentos, o hawkiniano abordou a questão que martelava a mente de Rose.

- O senhor me disse que é um policial, não é mesmo, Sr. Smollett?

- Sim - respondeu Drake.

- Há um pedido que eu gostaria de lhe fazer, então. Pensei nisso durante toda esta noite, depois que fiquei sabendo da natureza do seu trabalho, mas ainda assim estou hesitante. Não gostaria de criar inconveniente para as pessoas que me hospedam.

- Faremos o possível para atendê-lo.

- Tenho uma grande curiosidade em saber como vivem os terrestres, uma curiosidade que a maioria dos hawkinianos em geral não sente. Portanto, pensei que talvez fosse possível conhecer um departamento de polícia em seu planeta.

- Eu não pertenço a um departamento policial no sentido que o senhor talvez imagine - respondeu Drake, com cautela. - Entretanto, tenho amigos que trabalham no Departamento de Polícia de Nova York. Creio que isso não seria difícil de conseguir. Que tal amanhã?

- Amanhã seria conveniente para mim. Diga-me, eles me permitiriam visitar o departamento de Pessoas Desaparecidas?

- O quê?

Os quatro membros inferiores do hawkiniano agruparam-se mais uns aos outros, como um sinal de concentração.

- É um passatempo que tenho, uma pequena curiosidade que cultivo há muito tempo. Pelo que sei, vocês mantêm grupos de policiais cuja única tarefa é procurar homens desaparecidos.

- E também mulheres e crianças - completou Drake. - Mas por que se interessa especificamente por isso?

- Porque essa é outra peculiaridade dos terrestres. Em nosso planeta não há pessoas que desaparecem. Não sei como explicar a vocês esse mecanismo, mas o fato é que, entre os indivíduos de outros planetas, existe sempre uma consciência da presença dos outros, especialmente se há entre eles um forte laço emocional. Nós sempre sabemos a localização exata uns dos outros, não importa o lugar do planeta onde estejamos.

Rose mal continha a excitação. As expedições científicas que tinham visitado o Planeta de Hawkin sempre haviam tido a maior dificuldade em penetrar no mecanismo interno das emoções dos nativos, e ali estava um deles disposto a falar francamente, a explicar tudo! Ela parou de se preocupar com Drake e entrou na conversa.

- Pode experimentar essa sensação agora? - perguntou. - Mesmo aqui na Terra?

- Quer dizer... através do espaço? Receio que não - disse Tholan. - Mas vocês podem perceber a importância dessa questão. Todos os aspectos únicos que caracterizam a Terra podem estar interligados. Se a falta dessa "sensação de presença" puder ser explicada, então talvez a sua imunidade à Morte por Inibição também possa. Além disso, eu acho muito curioso o fato de se poder constituir uma comunidade de formas de vida inteligentes onde os indivíduos não possuem esse tipo de percepção. Como pode um terrestre saber, por exemplo, que constitui um subgrupo integrado, ou seja, uma família? Como podem vocês dois, por exemplo, saber que existe uma verdadeira ligação pessoal entre ambos?

Rose surpreendeu-se assentindo com a cabeça. Como aquele tipo de certeza lhe fazia falta! Mas Drake apenas sorriu.

- Temos nossos próprios recursos, Dr. Tholan. Mas talvez seja tão difícil explicar ao senhor o nosso conceito de amor quanto lhe seja explicar aos terrestres as sensações do seu povo.

- Imagino que sim. Por favor, Sr. Smollett, gostaria que me respondesse... se a Dra. Smollett deixasse esta sala e entrasse em outro aposento desta casa sem que a tivesse visto... o senhor não saberia dizer onde ela estaria?

- Certamente que não.

- É espantoso - murmurou o hawkiniano. Hesitou um pouco e depois aduziu: - Por favor, não fiquem ofendidos. Mas, para nós, é também algo... chocante.

Depois de apagar a luz do quarto de dormir, Rose foi três vezes seguidas até a porta, abriu uma fresta e espreitou para fora. Podia quase sentir os olhos de Drake fitos nela. E quando a voz dele finalmente se fez ouvir, tinha inequivocamente um tom de quem está se divertindo.

- O que é que está havendo, afinal?

- Preciso conversar com você - disse Rose.

- Está com medo de que nosso amigo escute?

Rose estava cochichando. Voltou para a cama, deitou-se e pousou a cabeça sobre o travesseiro de Drake para poder cochichar melhor.

- Por que conversou tanto com o Dr. Tholan sobre a Morte por Inibição?

- Estou me interessando pelo seu trabalho, Rose. Você sempre reclamou que eu não dava atenção a isso.

- Eu preferia que você não fosse sarcástico. - Ela foi rude, pelo menos na medida em que se pode ser rude num cochicho. - Sei que há algum interesse oculto nisso tudo, possivelmente algum interesse policial. O que é?

- Rose, falo com você amanhã.

- Não. Agora.

Drake pôs a mão sob a cabeça dela, ergueu-a... por um instante Rose pensou que ele fosse beijá-la, num desses impulsos repentinos que os maridos às vezes têm ou que ela imaginava que tivessem. Mas Drake nunca tinha cedido a tais impulsos, e limitou-se a trazer a cabeça dela mais para perto e sussurrar:

- Por que está tão interessada?

A mão dele apertava sua nuca com uma certa brutalidade, de modo que Rose forçou para libertar-se. Sua voz não era mais do que um sopro ao dizer:

- Drake. Pare com isso.

- Não quero que faça perguntas - disse ele. - Não quero nenhuma interferência sua. Você faz seu trabalho, eu faço o meu.

- A natureza do meu trabalho é pública e notória.

- A natureza do meu trabalho - retorquiu ele - não é, por definição. Mas posso lhe adiantar uma coisa. Nosso amigo de seis pernas está aqui em casa com uma intenção muito clara e definida. Você não é apenas uma bióloga que ele escolheu ao acaso. Sabia que há dois dias ele esteve fazendo perguntas a meu respeito junto à Comissão?

- Não brinque.

- Nem por sonhos. Esta coisa é muito mais vasta do que você pode imaginar. Mas isso é assunto meu, e não Vou continuar falando a respeito. Entendeu?

- Não, mas se você insiste, não farei mais perguntas.

- Então durma.

Ela ficou deitada, o corpo rígido. Passaram-se minutos, passaram-se quartos de hora, enquanto ela tentava juntar as peças do quebra-cabeça. Mesmo depois de tudo que Drake lhe havia dito, as formas e as cores continuavam a não combinar umas com as outras.

Imaginou o que Drake diria se soubesse que ela tinha dado um jeito de gravar toda a conversa daquela noite!

Havia, ainda, uma imagem que tinha permanecido clara em sua memória até aquele instante, pairando sobre ela, como que a desafia-la. No final da noite, o hawkiniano, ao se despedir, tinha feito uma reverência respeitosa, dizendo:

- Boa noite, Dra. Smollett. A senhora é uma hospedeira encantadora.

Na hora ela quase tinha dado uma risada. Não era possível que o alienígena a considerasse encantadora. Aos olhos dele ela devia ser uma monstruosidade, uma criatura disforme com poucos membros e com um rosto excessivamente estreito.

E, no entanto, no mesmo instante em que o Dr. Tholan acabou de proferir esse cumprimento tão gentil, o rosto de Drake tornou-se lívido! Por um instante, algo parecido com o terror chegou a brilhar nos olhos dele.

Ela jamais tinha visto Drake com medo de coisa alguma, e aquele instante de pânico ficou gravado em sua memória, até que seus pensamentos foram se dissolvendo aos poucos, em sono e esquecimento.

No dia seguinte, só por volta do meio-dia foi que Rose sentou-se em sua escrivaninha. Tivera que esperar que Drake e o hawkiniano deixassem a casa para poder retirar o pequeno gravador que, na noite anterior, tinha ficado oculto por trás da poltrona de Drake. Ela não tinha, a princípio, a intenção de manter esse fato escondido de Drake. Acontece, no entanto, que ele tinha chegado em casa com muito atraso, e a presença do hawkiniano a tinha impedido de dizer-lhe qualquer coisa. No transcorrer da noite, porém, as coisas tinham mudado...

Utilizar o gravador tinha sido apenas um procedimento de rotina. Era importante registrar as pausas e as inflexões de voz do hawkiniano, para exame futuro por parte de outros pesquisadores do Instituto. O gravador tinha que ficar oculto para evitar que o alienígena, sabendo que sua voz estava sendo gravada, modificasse seu modo de ser, conscientemente ou não. Só que agora ela não poderia mostrar aquela fita aos especialistas do Instituto. Aquela fita iria servir para uma outra função, uma função que ela quase se envergonhava de confessar a si própria. Ela ia espionar Drake.

Segurou a pequena caixa na ponta dos dedos e pôs-se a imaginar, distraidamente, como Drake estaria se saindo àquela altura. O contato social entre as raças dos mundos habitados não era, mesmo àquela altura, algo muito freqüente: a presença de um alienígena nas ruas da cidade certamente iria atrair multidões... mas Drake saberia como lidar com isto. Ele sempre sabia.

Ela repassou mais uma vez os diálogos da noite anterior, detendo-se nos trechos mais interessantes. As coisas que Drake lhe dissera não pareciam fazer sentido. Por que o hawkiniano estaria interessado neles dois de modo especial? Mas... Drake não lhe mentira. Ela teve vontade de fazer uma sondagem junto à Comissão de Segurança, mas sabia que não daria resultado. Além disso, seria algo desleal. Drake não lhe mentiria.

Por outro lado, por que motivo Harg Tholan não poderia fazer indagações a respeito deles dois? Talvez tivesse feito as mesmas perguntas a respeito das famílias dos demais biólogos do Instituto. Nada mais natural do que escolher para hospedar-se a casa mais de acordo com suas próprias conveniências, fossem elas quais fossem.

E, supondo que ele tivesse investigado apenas os Smolletts... por que motivo esse fato teria mudado a atitude de Drake de intensa hostilidade para extremo interesse?

Sem dúvida havia alguma coisa de que Drake tinha conhecimento, mas que preferia guardar para si mesmo. Só Deus poderia saber o quê.

Seus pensamentos passaram a avaliar as possibilidades de estar se desenrolando uma intriga interestelar. Até aquela época, é certo, não havia surgido nenhum indício de hostilidade ou de sentimentos negativos entre as cinco raças inteligentes da Galáxia. Estavam separadas por espaços grandes demais para que entre eles pudesse florescer uma inimizade real. Os contatos que conseguiam manter eram extremamente irregulares. Não havia terreno propício para que se desenvolvesse qualquer tipo de conflito político ou econômico.

Mas isso era apenas uma suposição da parte dela... e ela não era membro da Comissão de Segurança. Se houvesse de fato algum conflito, algum tipo de perigo, alguma razão para suspeitar que a missão de Tholan podia não ser de natureza pacífica, então... Drake saberia. Mas... será que Drake tinha status bastante, no interior da Comissão, para ter acesso a informações confidenciais sobre a visita de um cientista hawkiniano? Ela sempre tinha achado que a posição do marido era a de um mero funcionário de terceiro escalão; ele próprio sempre tinha se apresentado como tal. Mas...

Qual seria a verdadeira posição de Drake entre os órgãos de segurança?

Ela encolheu os ombros. Aquilo trazia à sua lembrança as novelas de espionagem do século XX e os romances de época ambientados nos tempos em que havia coisas como "planos secretos de armas atômicas".

A lembrança desses romances fez com que se decidisse. Ela não era um policial de verdade como Drake, nem podia saber como um policial de verdade se comportava em tais circunstâncias. Mas ela sabia, pelo menos, como se investigavam essas coisas nos romances antigos.

Apanhou uma folha de papel e, com um gesto confiante, traçou uma linha vertical dividindo-a ao meio. No alto de uma das colunas escreveu "Harg Tholan"; na outra "Drake". Sob o nome "Harg Tholan" escreveu: "De boa fé", e, meticulosamente, colocou três pontos de interrogação em seguida. Seria Tholan de fato um cientista? Ou talvez fosse um agente interestelar? De que prova dispunha o Instituto sobre suas atividades, a não ser suas próprias afirmações? Seria esse o motivo pelo qual Drake lhe aplicara um interrogatório tão cerrado sobre a Morte por Inibição? Talvez Drake tivesse estudado antecipadamente o assunto e estivesse querendo flagrar o hawkiniano em erro.

Por um momento ela não soube o que fazer, mas depois, ficando de pé, dobrou a folha de papel, colocou-a no bolso do casaco e deixou o escritório. Não trocou uma só palavra com as outras pessoas com quem cruzou ao deixar o Instituto. Não deixou informações com a recepcionista sobre o lugar aonde ia ou a que horas estaria de volta.

Do lado de fora, apressou-se até o metrô do terceiro nível e esperou a passagem de um compartimento vazio. Passaram-se dois intermináveis minutos até que ela pudesse tomar assento e dizer ao microfone: "Academia de Medicina de Nova York." A porta do cubículo se fechou e o zunido do ar do lado de fora foi-se tornando mais agudo à medida que o compartimento ganhava velocidade.

A Academia de Medicina de Nova York tinha crescido nas últimas duas décadas, tanto no sentido vertical quanto no horizontal. A biblioteca ocupava uma ala inteira do terceiro andar. Claro que se todos os livros, panfletos e periódicos ali contidos estivessem em sua forma original, em vez de microfilmados, o edifício inteiro não teria espaço para abrigá-los. Ainda assim, Rose tinha ouvido rumores de que se planejava reduzir o estoque de obras impressas, conservando apenas as dos últimos cinco anos, não as da última década, como era a norma atual.

Como membro da Academia, Rose tinha livre acesso à biblioteca. Ela se encaminhou para as cabines reservadas à medicina extraterrestre e viu com alívio que estavam desocupadas.

Teria sido mais prático recorrer à bibliotecária, mas ela preferiu não fazê-lo. Quanto menos rastros deixasse, menor a possibilidade de que Drake reconstituísse seus movimentos.

Desse modo, sem ajuda, ela caminhou ao longo das estantes, percorrendo os títulos com dedos ansiosos. Os livros estavam todos em inglês, havendo um pequeno número em alemão ou russo. Ironicamente, não havia nenhum em idiomas extraterrestres. Essas edições originais ficavam reunidas num setor à parte, acessível apenas aos tradutores registrados.

Seus olhos e seu dedo se detiveram: ela tinha encontrado o que procurava.

Retirou meia dúzia de volumes da estante e os conduziu até a pequena mesa escura. Colocou o primeiro deles, tateou à procura do interruptor de luz, e começou a percorrer o volume, que se intitulava Estudos sobre Inibição. Foi até o índice dos autores. O nome de Harg Tholan estava lá.

Uma a uma, ela anotou as referências contidas no livro, indo até a estante para retirar as respectivas traduções.

Passou mais de duas horas na Academia. No final, estava certa do seguinte: havia um cientista hawkiniano chamado Harg Tholan, especialista em Morte por Inibição.

Trabalhava para a organização de pesquisadores do Planeta de Hawkin, com a qual o Instituto mantinha correspondência. Claro que o Harg Tholan que ela tinha conhecido podia estar apenas assumindo a identidade de um cientista real; mas qual poderia ser a razão.

Ela tirou do bolso a folha de papel com suas anotações e, no local onde tinha escrito "De boa fé" com três pontos de interrogação, colocou um SIM em letras maiúsculas.

Voltou para o Instituto. Às quatro da tarde estava sentada atrás de sua escrivaninha. Pelo interfone, avisou que não atenderia qualquer chamado; depois trancou a porta.

Na coluna assinalada "Harg Tholan" ela escreveu duas perguntas. Abaixo da primeira - "Por que Harg Tholan veio sozinho à Terra?" - deixou um espaço considerável.

Depois escreveu: "Por que seu interesse pelo Departamento de Pessoas Desaparecidas?" Sem dúvida as afirmações do hawkiniano sobre a Morte por Inibição estavam corretas.

Pelo que tinha lido na biblioteca da Academia, Rose constatou que a enfermidade absorvia a maior parte dos investimentos médicos no Planeta de Hawkin. O temor que provocava ali era mais acentuado do que o temor provocado pelo câncer entre os habitantes da Terra. Se os hawkinianos achassem que a resposta para essa questão poderia estar na Terra, teriam mandado uma expedição completa. Por que então mandar um único observador? Por desconfiança? Por suspeita?

O que era mesmo que Harg Tholan tinha dito na noite anterior? A incidência da Morte atingia o ponto máximo em seu mundo, que era o mais próximo da Terra, e tinha o menor índice no planeta mais afastado da Terra. A esse fato devia-se juntar algo deixado implícito pelo hawkiniano e que ela tinha confirmado em suas leituras na biblioteca: a incidência da Morte por Inibição tinha aumentado enormemente depois do contato estabelecido entre a Terra e as outras civilizações interestelares...

Lenta e relutantemente, ela chegou a uma conclusão. Talvez os habitantes do Planeta de Hawkin desconfiassem que a Terra conhecia a causa da Morte por Inibição e estava deliberadamente fazendo com que a doença se propagasse entre os outros povos da Galáxia, com a intenção, quem sabe, de se tornar a raça dominante. Mas logo rejeitou essa conclusão, tomada por um sentimento próximo ao pânico. Não, não podia ser, era impossível. Em primeiro lugar, os terrestres não teriam essa intenção. Em segundo lugar, não poderiam fazer isso.

No tocante ao avanço científico, os hawkinianos estavam num estágio equivalente ao da Terra. A Morte ocorria entre eles há milhares de anos e até então todas as pesquisas tinham fracassado. Certamente que a Terra, com suas precárias investigações sobre biologia alienígena, não poderia ter alcançado sucesso de modo tão rápido.

Na verdade, Rose não tinha conhecimento de nenhuma investigação sobre patologia hawkiniana por parte de médicos e biólogos terrestres.

No entanto, todos os indícios sugeriam que Harg Tholan tinha vindo à Terra para tentar confirmar algumas suspeitas e que tinha sido recebido com idêntica desconfiança.

Ela escreveu com cuidado, abaixo da pergunta: "Por que Harg Tholan veio sozinho à Terra?" a resposta: "O Planeta de Hawkin acredita que a Terra está causando a Morte por Inibição."

Sim, mas... e essa questão sobre o Departamento de Pessoas Desaparecidas? Como cientista, ela tinha que ser rigorosa ao desenvolver uma teoria. Todos os fatos tinham que ser explicados por ela, e não apenas alguns deles.

Departamento de Pessoas Desaparecidas... Se era uma pista falsa, destinada a desviar a atenção de Drake, tinha sido colocada de modo desajeitado, uma vez que Tholan mencionara o assunto somente depois de terem falado mais de uma hora sobre a Morte por Inibição.

Seria isso apenas um pretexto para investigar Drake? Se era, então qual o motivo? Seria essa a intenção principal de Tholan? O hawkiniano tinha feito indagações sobre Drake antes de ser hospedado por eles. Teria arquitetado aquilo tudo, e seu interesse seria apenas devido ao fato de Drake ser um policial em contato com o Departamento de Pessoas Desaparecidas? Mas por quê? Por quê?

Ela afastou tudo aquilo da cabeça e voltou sua atenção para a coluna marcada "Drake".

Aí uma outra pergunta ganhou forma, não em letras escritas a tinta sobre a folha de papel, mas em letras que pareciam marcadas a fogo no interior de sua mente:

Por que ele se casou comigo? Rose cobriu os olhos com as mãos e os apertou com força, até que as letras foram se desvanecendo.

Tinham se conhecido por acaso, há pouco mais de um ano, quando ele se mudou para o prédio de apartamentos onde ela morava na época. Os primeiros cumprimentos formais tinham se transformado, de algum modo, em agradáveis bate-papos, que por sua vez conduziram a alguns jantares ocasionais num restaurante vizinho. Tudo muito amigável e normal; uma experiência nova e excitante para ela, que logo descobriu estar apaixonada.

Quando ele propôs que se casassem, ela ficou feliz - e surpresa. Na época, encontrou um monte de explicações. Ele gostava do seu jeito agradável, de sua inteligência.

Ela era uma boa garota. Ela poderia tornar-se uma boa esposa, uma esplêndida companheira. Tinha pensado em todas essas explicações e acreditado um pouco em cada uma delas. Mas acreditar um pouco não basta.

Não que ela tivesse algo de que se queixar em relação a Drake como marido. Ele era sempre atencioso, gentil, solidário. A vida conjugal dos dois não era movida a paixão, mas em todo caso correspondia às emoções moderadas que se cultiva próximo aos quarenta anos. Ela não tinha mais dezenove anos. O que mais poderia esperar?

Essa era a questão: ela não tinha mais dezenove anos. Não era bonita, nem encantadora, nem glamourosa. O que mais podia esperar? Drake era um homem bonito e severo, cujo interesse por temas intelectuais era bem limitado, e que nunca, durante todos os meses do casamento, tinha mostrado interesse pelo trabalho que ela realizava, além de nunca comentar suas próprias atividades. Então... por que motivo ele tinha casado com ela?

Não havia resposta para essa pergunta. Em todo caso, isso não tinha nada a ver com a questão que a preocupava agora. Era outro assunto, repetiu ela para si mesma várias vezes: uma insegurança infantil que a afastava da sua tarefa imediata. Estava agindo como uma garota de dezenove anos sem poder apresentar nenhuma desculpa cronológica.

Percebeu que tinha quebrado a ponta do lápis e apanhou outro. Na coluna marcada "Drake" escreveu: "Por que ele suspeita de Harg Tholan?" e abaixo da frase colocou uma seta indicando a coluna ao lado. O que ela já tinha escrito na outra coluna podia fornecer explicação suficiente. Se a Terra estava propagando a Morte por Inibição ou e a Terra sabia que as outras raças alimentavam essa suspeita, certamente estaria se preparando para alguma possível retaliação por parte dos alienígenas. Toda aquela situação poderia estar configurando nada mais nada menos do que os passos iniciais da primeira guerra interestelar de toda a história humana. Era uma explicação horrível, mas adequada.

Mas isso ainda deixava de fora a próxima pergunta, aquela para a qual ela não tinha resposta. Ela a escreveu bem devagar. "Por que Drake reagiu daquela forma quando Tholan disse: a senhora é uma hospedeira encantadora?"

Tentou evocar a cena de forma mais precisa. O hawkiniano tinha pronunciado a frase de modo natural, como quem meramente recita uma fórmula ditada pela polidez, e Drake tinha reagido instantaneamente ao escutar. Tinha ouvido a gravação repetidas vezes. Um terrestre, ao despedir-se à saída de uma festa, teria dito a mesma frase, no mesmo tom descontraído. A gravação não tinha registrado a expressão do rosto de Drake, mas esta estava bem preservada na memória dela. Os olhos dele tinham assumido uma expressão mista de medo e de ódio, e Drake não era homem que se deixasse amedrontar por qualquer coisa. O que haveria na frase "A senhora é uma hospedeira encantadora" que pudesse assustá-lo a tal ponto? Ciúme? Absurdo. A desconfiança de que Tholan estava sendo sarcástico? Talvez, embora improvável. Ela tinha certeza de que Tholan fora sincero ao dizer aquela frase.

Ela desistiu e desenhou um grande ponto de interrogação ao lado da frase. Havia dois pontos de interrogação agora, um sob "Harg Tholan" e outro sob "Drake". Haveria alguma relação entre o interesse de Tholan por pessoas desaparecidas e a reação de Drake a uma frase de cortesia dita ao final de uma reunião social? Ela não conseguiu pensar em nenhuma.

Reclinou-se sobre a escrivaninha, apoiando a cabeça nos braços. Estava começando a escurecer no interior do escritório e ela sentia-se cansada. Durante algum tempo, flutuou naquela terra de ninguém entre a vigília e o sono, quando os pensamentos e as frases soltam-se das amarras da consciência e passam a se recombinar de modo aleatório e surrealista no interior da mente. Mas, independentemente do que estivesse pensando, continuava a ecoar em sua memória a mesma frase. "A senhora é uma hospedeira encantadora". Às vezes a frase era proferida pela voz culta e monocórdia de Harg Tholan, às vezes pela voz profunda de Drake. Quando Drake a pronunciava, sua voz vibrava cheia de amor, cheia de uma emoção que ela nunca tinha chegado a perceber. Escutar aquilo lhe dava uma sensação agradável.

Teve um sobressalto e despertou. Já estava escuro no escritório. Ela acendeu a lâmpada sobre a escrivaninha. Piscou os olhos, franziu a testa. Um outro pensamento se tinha esgueirado para sua mente durante aquele rápido cochilo. Havia uma outra frase que tinha aborrecido Drake. Qual era? Seu rosto se contraiu pelo esforço mental de vasculhar na memória. Não tinha sido na noite anterior. Não estava na fita gravada, portanto, tinha sido antes.

Mas ela não conseguiu evocar essa lembrança e acabou sentindo-se inquieta.

Olhou o relógio e soltou uma exclamação. Quase oito horas. Os dois já estariam em casa, à sua espera.

Mas ela não queria voltar para casa. Não queria encará-los. Devagar, pegou a folha de papel onde tinha feito suas anotações, rasgou-a, jogou os pedaços dentro do cinzeiro az flash atômico pousado sobre a escrivaninha. Houve um rápido clarão e os pedaços de papel desapareceram.

Se pelo menos as coisas que ela tinha pensado pudessem sumir com a mesma facilidade. Mas era inútil. Tinha que ir para casa.

No fim das contas, os dois não estavam à sua espera. Ela os avistou descendo de um girotáxi no momento exato em que emergia do metrô ao nível da rua. O piloto do girotáxi, com olhos arregalados, avaliou a gorjeta que tinha acabado de receber, e em seguida deu partida ao veículo, que subiu verticalmente e afastou-se. Por uma espécie de acordo mútuo, os três se mantiveram em silêncio até o momento em que entraram no apartamento. Rose comentou em tom casual:

- Espero que tenha tido um dia agradável, Dr. Tholan.

- Bastante. E ao mesmo tempo um dia proveitoso e fascinante, posso garantir.

- Já comeram alguma coisa? - Rose não tinha comido absolutamente nada, mas ainda assim não sentia a menor fome.

- Oh, sim.

Drake os interrompeu.

- Almoçamos juntos, e ainda há pouco pedimos sanduíches. - A voz dele estava fatigada.

Rose disse:

- Olá, Drake. - Era a primeira vez que se dirigia a ele. Ele mal a olhou e respondeu:

- Olá.

O hawkiniano estava dizendo:

- Os seus tomates são um notável tipo de vegetal. Em nosso planeta não temos nada que possa se comparar a eles. Creio que comi uma dúzia, além de uma garrafa de derivado.

- Ketchup - esclareceu Drake.

- E quanto à sua visita ao Departamento de Pessoas Desaparecidas,  Dr.  Tholan?  -  perguntou Rose.  - Também  foi proveitosa?

- Posso dizer que sim.

Mantendo-se sempre de costas para ele, Rose ajeitou as almofadas do sofá, enquanto perguntava, distraidamente:

- Em que sentido?

- Achei muito interessante o fato de serem homens a grande maioria das pessoas que desapareceram. Há muitas esposas se queixando de que seus maridos desaparecem, enquanto que o contrário só raramente ocorre.

- Não há nada de misterioso nisso, Dr. Tholan - disse ela. - Talvez o senhor não tenha percebido como são as relações econômicas aqui na Terra. Neste planeta, é geralmente o homem que se torna responsável pela manutenção econômica da família. Ele é aquele que trabalha fora e recebe seu pagamento em unidades monetárias. Quanto à mulher, sua função é geralmente a de cuidar da casa e das crianças.

- Mas isso certamente não é regra geral!

- Mais ou menos - interveio Drake. - Minha esposa, por exemplo, pertence àquela minoria de mulheres que são perfeitamente capazes de se sustentarem sozinhas neste mundo.

Rose o olhou de esguelha. Estaria sendo sarcástrico? Mas o hawkiniano dizia:

- Isso implica dizer, Sr. Smollett, que as mulheres, sendo economicamente dependentes, tendem a desaparecer menos?

- É uma maneira suave de colocar a coisa, mas em última análise é isso mesmo.

- O senhor considera que os dados do Departamento de Pessoas Desaparecidas de Nova York são uma amostra fiel da situação do planeta como um todo?

- Creio que sim.

Tholan insistiu, de modo um tanto abrupto:

- E o senhor pode me dizer se também há uma explicação econômica para o fato de que, desde que as viagens interestelares começaram a se desenvolver, a percentagem de homens jovens que desaparecem aumentou consideravelmente?

Drake retrucou no mesmo tom:

- Ora, essa resposta é ainda mais óbvia do que outra. Hoje em dia, um fugitivo tem toda a Galáxia à sua disposição. Qualquer sujeito que pretenda fugir aos seus problemas precisa apenas embarcar num cargueiro espacial. Ali existe sempre necessidade de tripulantes extras, ali ninguém faz perguntas; e uma vez fora da Terra torna-se virtualmente impossível localizar o sujeito, caso ele pretenda manter-se fora de circulação.

- E isso acontece, quase sempre, com homens jovens, durante o seu primeiro ano de casamento.

Rose soltou uma gargalhada.

- Ora, é justamente nessa fase da vida que os problemas de um homem atingem o seu ponto máximo. Se ele consegue sobreviver ao primeiro ano de casamento, não precisa desaparecer.

Era evidente que Drake não estava se divertindo. Rose teve novamente a impressão de que ele parecia triste e infeliz. Mas por que insistia em guardar os problemas para si só? Bem, pensou ela, talvez ele creia que é sua obrigação.

O Dr. Tholan perguntou de súbito:

- Ficariam ofendidos se eu me desligasse durante algum tempo?

- De modo algum - disse Rose. - Espero que o dia de hoje não tenha sido demasiado fatigante. Já que o senhor vem de um planeta onde a gravidade é maior que a da Terra, talvez tenha imaginado que podia demonstrar uma resistência física maior que a nossa.

- Oh, não estou cansado no sentido físico da palavra. - O Dr. Tholan baixou os olhos para os seus membros inferiores e piscou os olhos, divertido. - Sabe, não consigo evitar a sensação de que os terrestres podem a qualquer momento cair para a frente ou para trás, devido ao seu precário sistema de apoio. Perdoem-me se este comentário lhes parecer desrespeitoso, mas sua referência à gravidade terrestre trouxe esse detalhe à minha mente. Em meu planeta, duas pernas seriam insuficientes para uma pessoa. Mas isso é outra questão. O fato é que durante o dia inteiro estive absorvendo uma tamanha quantidade e variedade de informações que sinto agora o desejo de me desligar um pouco.

Rose deu de ombros. Muito bem... há um certo limite para o que duas raças galácticas podem ter em comum. Como as expedições terrestres ao Planeta de Hawkin tinham constatado, os hawkinianos tinham a faculdade de desligar sua mente consciente de todas as funções corporais, mergulhando num processo meditativo que poderia durar vários dias terrestres. Os hawkinianos achavam agradável esse processo, e às vezes o consideravam necessário, embora nenhum terrestre pudesse entender qual a sua utilidade.

Por outro lado, nunca tinha sido inteiramente possível para os terrestres explicar aos hawkinianos, ou a qualquer membro das outras raças, o conceito humano de sono.

As atividades que os terrestres denominavam dormir e sonhar seriam consideradas por um hawkiniano como um perigoso sinal de desintegração mental.

Rose pensou: "Mais uma característica única dos terrestres", e essa idéia a deixou inquieta.

O hawkiniano recuou, depois de se curvar numa reverência em que suas mãos tocaram o solo. Drake fez uma breve saudação de despedida. O Dr. Tholan sumiu no corredor.

Os dois ouviram a porta do quarto sendo aberta, depois fechada, em seguida o silêncio.

O silêncio entre os dois foi se tornando cada vez mais espesso. Drake mudou de posição, fazendo a poltrona ranger. com um arrepio de horror, Rose notou que havia uma marca de sangue nos lábios dele. Pensou: Ele está envolvido com algum problema. Tenho que conversar com ele. Isto não pode continuar assim.

- Drake - disse ela.

O olhar dele parecia muito, muito distante. Seus olhos aos poucos pareceram focalizá-la corretamente. Ele disse:

- O que há? Já vai se deitar?

- Não... estou mais acordada do que nunca. Drake, agora já é "amanhã". Você não tem nada para me dizer?

- Não entendi.

- Ontem à noite você me disse: amanhã a gente conversa. Muito bem. Estou pronta. Drake franziu a testa. Seus olhos pareceram se esconder por trás das sobrancelhas contraídas, e Rose sentiu como se toda aquela sua resolução começasse a abandoná-la.

- Eu pensei - disse ele - que você não iria mais fazer perguntas sobre o meu trabalho. Não foi isso que combinamos?

- Acho que já é tarde, Drake. Parece que a esta altura já sei uma porção de coisas sobre seu trabalho.

- O que quer dizer com isso? - exclamou ele, pondo-se de pé num salto.

Recuperou o controle e, indo até ela, pousou as mãos sobre os seus ombros, voltando a perguntar com voz normal: - O que quer dizer?

Rose manteve os olhos fitos nas próprias mãos, pousadas no colo. Suportou a pressão dos dedos fortes de Drake e respondeu, devagar:

- O Dr. Tholan pensa que a Terra está propagando deliberadamente a Morte por Inibição. Não é isso?

Esperou. Pouco a pouco a pressão dos dedos diminuiu e Drake deu dois passos para trás. com as mãos na cintura, a expressão de seu rosto refletia surpresa e desagrado.

- De onde você tirou essa idéia?

- É verdade, não é?

A voz de Drake estava arquejante, mudada.

- Quero saber exatamente por que motivo você está dizendo isto. Não brinque comigo, Rose. Estou avisando.

- Se eu lhe disser, Drake, você me responde só esta pergunta? A Terra está ou não disseminando essa doença deliberadamente?

Drake ergueu as mãos para o alto. - Ora, pelo amor de Deus.

Ajoelhou-se à frente dela e tomou-lhe as mãos. Rose sentiu que as mãos dele estavam tremendo. Ele falou, tentando imprimir um tom suave, um tom quase carinhoso a cada palavra que dizia.

- Rose, querida. Você está envolvida com uma coisa tremendamente grave e perigosa e tentando usar isso para resolver pequenos impasses conjugais entre nós dois. Eu não lhe peço muita coisa. Quero apenas que me diga o que a fez dizer... isso que falou agora. - A voz dele transpirava sinceridade.

- Fui à Academia de Medicina de Nova York hoje à tarde. Andei fazendo umas leituras.

- Mas por quê? O que a levou a fazer isso?

- Em primeiro lugar, você me pareceu excessivamente interessado nessa questão da Morte por Inibição. Depois, o Dr. Tholan falou tudo aquilo sobre o aumento de incidência da doença depois do início das viagens interestelares e sobre o fato de o problema ser mais grave justamente no planeta mais próximo à Terra.

- E as suas leituras? - insistiu Drake. - O que descobriu com elas?

- Parecem confirmar o que ele diz. Não fiz mais do que acompanhar por alto o progresso das pesquisas que eles realizaram nas últimas décadas, mas me pareceu óbvio que pelo menos alguns hawkinianos consideram a possibilidade de a Morte por Inibição originar-se da Terra.

- Dizem isso claramente?

- Não. Ou, se dizem, não cheguei a ver. - Ela o fitou surpresa. Numa questão de tal importância, era claro que o governo teria investigado a natureza das pesquisas hawkinianas. Foi a vez dela perguntar, com suavidade: - Você não tinha conhecimento dessas pesquisas deles, Drake? O governo...

- Não se preocupe com isso. - Drake tinha caminhado pela sala e agora voltava-se novamente para fitá-la de frente. Seus olhos brilhavam, e ele exclamou, como se tivesse acabado de fazer uma incrível descoberta: - Ora, você é uma especialista nisso! Era? Será que ele o descobria somente agora, quando necessitava dos conhecimentos dela? Suas narinas se contraíram e ela respondeu, altiva:

- Drake, eu sou uma bióloga.

- Sim, sim, claro que eu sei disso, mas estou me referindo a seu trabalho sobre crescimento. Você não me falou, certa vez, que tinha feito algum trabalho nessa área?

- É possível. Publiquei cerca de vinte artigos sobre a relação entre a estrutura fina do ácido nucleico e o desenvolvimento dos embriões, através da Sociedade do Câncer.

- Ótimo. Eu deveria ter lembrado disso. - Ele parecia tomado por um surto de excitação. - Diga-me, Rose... olhe, peço desculpas se fui rude com você agora há pouco. Você seria uma das pessoas mais indicadas para entender o progresso das pesquisas deles, se lesse a respeito, não é mesmo?

- Sim. Razoavelmente competente.

- Então me diga como você acha que a doença se dissemina. Quero detalhes.

- Drake, isso é pedir demais. Passei algumas horas na Academia, e só. Precisaria de muito mais estudo para poder responder essa pergunta.

- Arrisque um palpite. Não sabe o quanto isto é importante. Ela disse, meio em dúvida:

- Bem... acho que estudos sobre Inibição é um dos tratados mais importantes sobre o assunto. É uma espécie de resumo de todos os dados disponíveis até aquela época.

- E de quando é?

- É uma dessas publicações periódicas. O último volume é de cerca de um ano atrás.

- Há algum registro do trabalho dele - Drake espetou o dedo no ar, indicando a direção do quarto de Tholan.

- Há mais coisas sobre ele do que sobre qualquer um dos outros. Ele é uma figura de ponta nesse campo de pesquisa. Olhei os trabalhos dele com atenção.

- E qual é a teoria dele sobre a origem da doença? Tente lembrar-se.

Ele fez um aceno com a cabeça.

- Sou capaz de jurar que ele acha a Terra culpada, embora diga o tempo todo que ninguém sabe como a doença se espalha. Isso eu posso jurar.

Drake ficou de pé diante dela, os punhos cerrados, e suas palavras não eram mais que um murmúrio.

- Pode ser um caso de superestimação total, mas, quem sabe... - Ele girou nos calcanhares. - Vou descobrir isto agora mesmo, Rose. Obrigado por sua ajuda.

Ela saltou de pé e foi atrás dele.

- Onde é que você vai?

- Fazer umas perguntas ao nosso amigo. - Ele remexeu nas gavetas de uma mesinha, e quando sua mão voltou a surgir estava empunhando uma pistola-agulha.

- Não, Drake! - gritou ela.

Ele a empurrou para o lado com um gesto brusco e marchou pelo corredor na direção do quarto do hawkiniano.

Drake empurrou a porta e entrou. Rose vinha nos seus calcanhares, ainda tentando segurá-lo pelo braço, mas ao cruzar o umbral ele se deteve e fitou o Dr. Harg Tholan.

O hawkiniano estava ali de pé e imóvel, os olhos desfocados, os quatro membros inferiores abertos em todas as direções na maior extensão possível. Rose sentiu-se envergonhada por aquela intromissão, como se estivesse violando alguma espécie de ritual muito íntimo. Mas Drake, sem demonstrar a menor preocupação, caminhou até um metro de distância da criatura e parou ali, face a face, a pistola-agulha apontada para o peito do hawkiniano.

- Agora, fique quieta - disse. - Aos poucos ele vai notar a minha presença.

- Como sabe disso?

- Eu sei - retrucou Drake secamente. - Saia daqui. Mas ela não se moveu, e Drake estava demasiado concentrado no que fazia.

Alguns trechos da pele do rosto do hawkiniano começaram a tremer muito de leve. Era algo um tanto repugnante. Rose preferiu afastar os olhos.

Drake falou de repente:

- Acho que é o bastante, Dr. Tholan. Não entre em conexão com nenhum dos seus membros. Seus órgãos do sentido e sua voz serão suficientes.

A voz do hawkiniano era meio indistinta quando ele perguntou:

- Por que invadiram minha sala de desligamento? - E depois, mais audível: - E por que está armado?

Sua cabeça começou a mover-se, como quem desperta, mas o tronco permaneceu rígido. Aparentemente ele tinha seguido as instruções de Drake a respeito da conexão com os membros. Rose imaginou como Drake estaria a par desse detalhe do "religamento" parcial. Ela própria nunca tinha ouvido nada a esse respeito. O hawkiniano insistiu:

- O que querem de mim? Desta vez Drake respondeu:

- Respostas para algumas perguntas.

- Com uma arma na mão? Não pode esperar que eu tente ser agradável diante de tamanha descortesia.

- O senhor não tem que ser agradável. Tem é que salvar sua vida.

- Nestas circunstâncias, Sr. Smollett, tal questão se coloca de modo absolutamente secundário para mim. Lamento profundamente que os deveres para com um hóspede sejam tão mal compreendidos aqui na Terra.

- O senhor não é meu hóspede, Dr. Tholan - disse Drake. - Entrou em minha casa sob falsos pretextos. Devia ter seus motivos para isso, mas o fato é que tinha a intenção de me utilizar para atingir seus objetivos. Não tenho o menor constrangimento em inverter a situação.

- Seria melhor atirar logo e poupar seu tempo.

- Tem certeza de que não vai responder às minhas perguntas? Só isso já é bastante suspeito. Parece que o Sr. considera certos segredos mais importantes do que sua própria vida.

- Eu considero os princípios de cortesia algo extremamente importante. Talvez o senhor, sendo terrestre, não pense assim.

- Talvez. Mas eu, como terrestre, entendo pelo menos uma coisa. Drake deu um passo rápido para a frente, antes que Rose pudesse esboçar qualquer reação e antes que o hawkiniano pudesse "religar" seus membros. Quando recuou, o tubo flexível do cilindro de cianureto de Harg Tholan estava em sua mão. No canto da larga boca do hawkiniano, onde o tubo tinha estado preso, uma gota de líquido

incolor ficou tremulando sobre a pele escura e logo solidificou-se num glóbulo gelatinoso, ao se oxidar.

Drake deu um puxão no tubo e o cilindro se desprendeu do corpo de Tholan, caindo ao chão. Puxando-o para si, Drake girou o botão que controlava a válvula de escape

do cilindro, fazendo cessar o leve assobio que ela emitia.

- Duvido que tenha escapado uma quantidade perigosa de gás - disse Drake. - Por outro lado, espero que o senhor esteja percebendo o que vai lhe suceder agora se não responder às perguntas que vou lhe fazer... e respondê-las de um modo que eu considere convincente.

- Devolva-me o cilindro - disse devagar o hawkiniano. - Se não, terei que atacá-lo e o senhor terá que me matar.

Drake recuou um passo.

- De modo algum. Se me atacar, atirarei nas suas pernas. Atirarei nas quatro, se for necessário, mas o senhor continuará vivo, embora numa situação dolorosa. Continuará vivo, para morrer de asfixia pela ausência do cianureto. Deve ser uma morte extremamente incômoda. Sou um simples terrestre e não posso visualizá-la com exatidão, mas tenho certeza de que o senhor pode. É ou não é?

A boca do hawkiniano estava aberta, algo de cor verde-amarelada parecia palpitar em seu interior. Rose sentiu uma náusea na boca do estômago, e ao mesmo tempo uma vontade de gritar Dê-lhe o cilindro, Drake! Mas não conseguiu emitir um som. Não pôde sequer virar a cabeça para outro lado.

Drake falou:

- Creio que o senhor tem cerca de uma hora antes que o efeito seja irreversível. Fale rápido, Dr. Tholan, e terá o seu cilindro de volta.

- E depois...?

- E depois, que diferença faz? Mesmo que eu o mate será uma morte limpa e rápida, não uma morte por asfixia.

Alguma coisa pareceu mudar no hawkiniano. Sua voz tornou-se gutural e suas palavras meio indistintas, como se o esforço para falar claramente em inglês fosse demasiado para ele.

- Quais... quais são suas perguntas? - balbuciou, enquanto seus olhos não se afastavam do cilindro que Drake continuava segurando.

Drake ergueu o cilindro deliberadamente, de modo torturante, movendo-o de um lado para outro, enquanto os olhos da criatura acompanhavam o movimento.

- Quais são, Dr. Tholan, as suas teorias sobre a Morte por Inibição? - perguntou ele. - Qual a verdadeira razão de sua vinda à Terra? Qual é o seu interesse no Departamento de Pessoas Desaparecidas?

Rose prendia a respiração, ansiosa. Aquelas eram as perguntas que ela gostaria de ter formulado. Não daquele modo, talvez; mas no trabalho de Drake a bondade e a delicadeza tinham às vezes que ficar em segundo plano, dando lugar à urgência.

Ela repetiu isso várias vezes para si mesma, num esforço para contrabalançar a repulsa que sentia pelo que Drake estava fazendo ao Dr. Tholan.

O hawkiniano falou:

- Uma resposta apropriada levaria muito mais tempo do que a hora que o senhor me concede. O senhor me colocou nesta situação constrangedora de falar sob ameaças. Em meu planeta não poderia agir desse modo em hipótese alguma. É somente aqui, neste planeta revoltante, que um indivíduo pode ser agredido e privado de seu cianureto.

- Seu tempo está passando, Dr. Tholan.

- Eu iria falar sobre isto com o senhor, mais cedo ou mais tarde, Sr. Smollett. Eu precisava de sua ajuda. Foi por isso que vim até aqui.

- Ainda não respondeu minhas perguntas.

- Vou responder agora. Durante anos, paralelamente ao meu trabalho científico regular, venho realizando experiências particulares, investigando as células dos meus pacientes que sofrem da Morte por Inibição. Tive que manter essas atividades dentro do maior segredo e trabalhar sozinho, uma vez que os métodos que utilizei para examinar os corpos dos meus pacientes não são vistos com bons olhos pelo meu povo. Seria algo equivalente à reação do seu povo diante da vivissecção, por exemplo. Em virtude disso, não poderia apresentar os resultados de meu trabalho à comunidade científica do meu planeta sem ter antes confirmado as minhas teorias aqui na Terra.

- Quais são suas teorias? - perguntou Drake. Seus olhos estavam novamente brilhantes.

- À medida que avancei em minhas pesquisas foi se tornando cada vez mais óbvio para mim que todas as pesquisas sobre Morte por Inibição estavam indo na direção errada. Era impossível encontrar uma resposta física para esse mistério. A Morte por Inibição era uma doença da mente.

Rose o interrompeu:

- Com certeza, Dr. Tholan, a doença não é psicossomática. Uma película cinza, traneld'água ácida, começava a cobrir os olhos do hawkiniano, que parecia não enxergar mais nenhum dos dois. Mas ele continuou a falar.

- Não, Dra. Smollett, não é psicossomática. É uma doença da mente, uma infecção mental. Meus pacientes têm a mente dividida em duas. Eles têm uma mente que lhes pertence de modo inequívoco, mas, por trás ou por baixo dela possuem outra mente - uma mente alienígena. Trabalhei com pacientes da Morte por Inibição de outras raças além da minha e encontrei o mesmo fenômeno. Para resumir: não existem cinco raças inteligentes na Galáxia, mas seis. E a sexta é uma raça parasita.

Rose exclamou:

- Mas isso é loucura... é impossível! O senhor certamente está enganado, Dr. Tholan.

- Não, não estou. Pensei que estivesse, até que cheguei à Terra. Meus contatos com o Instituto e minhas pesquisas no Departamento de Pessoas Desaparecidas me convenceram de que eu tinha razão. O que há de impossível no conceito de uma forma parasitária de inteligência? Criaturas assim não deixariam vestígios fósseis, nem artefatos - tudo que fazem é nutrir-se através da atividade mental de outras criaturas. É possível imaginar que um parasita desse tipo, no transcorrer de milhões de anos, tenha perdido gradualmente várias partes do seu corpo físico, com exceção do mínimo indispensável... mais ou menos como a chamada "solitária", entre os parasitas terrestres, que perdeu todas as suas funções exceto a da reprodução. No caso de uma inteligência parasitária, todos os atributos físicos acabariam por desaparecer no correr do tempo. A criatura se tornaria mente pura, sobrevivendo de uma maneira que não podemos ainda avaliar, à custa das mentes alheias. Especialmente das mentes terrestres.

- Por que especialmente dos terrestres? - perguntou Rose. Drake permanecia imóvel, quieto, atento, sem fazer mais perguntas. Parecia disposto a deixar que o hawkiniano continuasse falando.

- Não suspeitaram - disse o Dr. Tholan - que essa sexta raça inteligente é natural da Terra? A humanidade convive com ela desde os tempos mais remotos, adaptou-se a ela, não tem consciência de sua presença. É por causa dela que as espécies animais terrestres mais evoluídas, incluindo o homem, cessam de crescer na maturidade e, cedo ou tarde, sofrem isso a que vocês chamam de "morte natural". Tudo isto não passa do resultado óbvio dessa proliferação de parasitas. É devido a essas criaturas que vocês dormem e sonham... pois é exatamente nesses momentos que as criaturas se alimentam, o que talvez faça com que sejam esses os instantes em que vocês chegam a se aperceber, ainda que confusamente, da presença delas. Também se deve a elas o fato de a mente humana ser mais instável do que a das outras raças. Em que outra parte da Galáxia podem ser encontrados casos de "dupla personalidade" ou coisa semelhante? Afinal de contas, mesmo a esta altura ainda deve haver mentes individuais que acabam sendo desequilibradas pela ação do parasita.

- De um modo que ainda não sabemos essas mentes parasitas podem viajar através do espaço. Elas não têm limitações de ordem física. Podem flutuar a caminho das estrelas num estado semelhante ao da hibernação. Por que motivo começaram a fazer isso eu não sei, provavelmente ninguém jamais chegará a saber. Mas desde que as primeiras delas descobriram a presença de vida inteligente em outros planetas da Galáxia, iniciou-se um pequeno mas contínuo fluxo de parasitas partindo para o espaço. Nossas raças devem ter parecido um verdadeiro banquete aos olhos deles, ou não teriam se dado todo esse trabalho para nos alcançar. Imagino que muitos devem ter morrido ao longo da viagem, mas para aqueles que a concluíam com êxito deve ter valido a pena.

- Acontece, no entanto, que nós, dos outros planetas, não vínhamos convivendo com esses parasitas há milhões de anos, como acontecia com os terrestres. Não conseguíamos nos adaptar a eles. Aqui na Terra, os grupos mais fracos foram sendo eliminados gradualmente ao longo de muitas gerações, fazendo com que sobrevivessem apenas os indivíduos mais capazes de suportar os parasitas; em nosso planeta, isso não sucedeu. A conseqüência disso é que os terrestres conseguiam sobreviver à infecção durante muitos anos sem sofrer grandes danos, enquanto os nossos morriam em menos de um ano.

- E é por isso que a incidência da Morte por Inibição aumentou depois que a Terra entrou em contato com as outras raças?

- Sim. - Ficaram todos em silêncio por alguns instantes, até que o hawkiniano, num súbito acesso de energia, disse: - Agora quero o meu cilindro. Já dei a resposta que pediu.

Drake respondeu, com frieza:

- E quanto ao Departamento de Pessoas Desaparecidas? Recomeçou a mover o cilindro de um lado para outro, mas desta vez o olhar do hawkiniano não o acompanhava. A película traneld'água que recobria seus olhos parecia mais espessa. Rose pôs-se a imaginar se aquilo seria uma simples demonstração de fadiga ou se já não indicaria os primeiros efeitos da falta de cianureto no organismo.

- Assim como nós não nos adaptamos a esse parasita - continuou o Dr. Tholan, ele também não se adaptou facilmente a nós. Ele pode viver à nossa custa, e aparentemente ele nos considera uma fonte de alimentação superior; mas não pode se reproduzir tendo apenas nossa mente como fonte de energia. Portanto, a Morte por Inibição não é diretamente contagiosa entre o nosso povo.

- O que está tentando sugerir, Dr. Tholan? - perguntou Rose, com um horror crescente.

- Os terrestres continuam a ser o ambiente ideal para o parasita. Um terrestre pode infectar um de nós se ficar em nossa companhia, mas o parasita, depois de instalado num indivíduo extraterrestre, deve de alguma maneira retornar ao corpo de um de vocês se quiser reproduzir-se. Antes das viagens interestelares isso implicava em uma nova aventura do parasita através do espaço, portanto a incidência da infecção permanecia infinitesimal. Agora, no entanto, estamos sendo repetidamente infectados, uma vez que os parasitas retornam à Terra e depois voltam aos nossos mundos através dos terrestres que viajam pelo espaço.

- E as pessoas desaparecidas... - disse Rose, numa voz muito fraca.

- São os hospedeiros intermediários. Claro que não sei ainda de que modo se dá esse processo, mas parece que a mente de um homem terrestre é o ambiente ideal para eles. Há de se lembrar de que no Instituto disseram-me que a expectativa da média de vida na população masculina é três anos menor do que a feminina. Depois de se dar o processo de reprodução, o homem infectado parte numa espaçonave rumo aos outros planetas. Desaparece.

- Mas isso é impossível! - exclamou Rose. - Isso implica dizer que a mente parasita pode controlar as ações de seu hospedeiro! Não pode ser assim, ou nós aqui na Terra já teríamos percebido sua presença.

- O controle, Dra Smollett, pode ser muito sutil. Além do mais pode ser exercido apenas durante o período da reprodução ativa. Basta recorrer ao seu Departamento de Pessoas Desaparecidas. Por que motivo tantos homens jovens desaparecem? Vocês podem ter explicações econômicas ou psicológicas, mas isso não basta. Porém... estou me sentindo muito mal agora, não posso me alongar. Devo dizer só mais uma coisa. O seu povo e o nosso têm um inimigo comum: esses parasitas da mente. Os terrestres não precisam continuar morrendo involuntariamente devido à presença desses seres. Eu tinha em mente que, se não pudesse retornar ao meu planeta com as minhas descobertas, devido aos métodos pouco ortodoxos que empreguei   nas   minhas   pesquisas,    poderia   fazer   um   comunicado às autoridades da Terra e pedir sua ajuda para combater essa ameaça. Imagine a minha alegria ao descobrir que o marido de uma das biólogas do Instituto era membro de um dos mais importantes órgãos de investigações da Terra! Naturalmente fiz o que pude para ser recebido em sua casa, a fim de manter um contato direto com ele, convencê-lo da terrível verdade dos fatos e utilizar sua posição para desfechar um ataque contra os parasitas.

- É claro que isto, agora, tornou-se impossível. Não posso culpá-lo. Como terrestre, o senhor não compreende a psicologia do meu povo. Só há um derradeiro ponto que preciso enfatizar. Não quero mais contato com nenhum de vocês dois. Creio até que não tenho mais condições de permanecer na Terra.

Drake disse:

- Então apenas o senhor, entre todo o seu povo, tem conhecimento desta sua teoria?

- Sim, sou o único. Drake estendeu o cilindro.

- Aí está seu cianureto, Dr. Tholan.

- O hawkiniano o apanhou com sofreguidão. Seus dedos hábeis manipularam o tubo e a válvula delicadamente; dentro de dez segundos ele tinha instalado o aparelho e estava inalando o gás em largos haustos. Seus olhos começaram a ficar outra vez claros e transparentes.

Drake esperou até que sua respiração voltasse ao normal e, com o rosto impassível, ergueu a pistola-agulha e disparou. Rose soltou um grito. O hawkiniano permaneceu de pé. Seus membros inferiores não se vergaram, mas sua cabeça descaiu para o lado e de sua boca, subitamente flácida, o tubo de cianureto escorregou. Drake fechou novamente a válvula de saída do gás, arrancou o cilindro e o atirou para o lado; depois ficou de pé diante do alienígena morto, olhando-o com uma expressão sombria.

Nenhum sinal externo indicava que Harg Tholan tinha sofrido morte violenta. O minúsculo projétil da pistola-agulha, com um diâmetro menor que o da agulha que dava o nome à arma, tinha penetrado sem dificuldade no corpo para explodir somente quando no interior da cavidade abdominal.

Rose saiu correndo do quarto, aos gritos. Drake foi atrás dela e conseguiu agarrá-la pelo braço. Ela escutou o estalo seco das bofetadas que ele desferiu em seu rosto com a mão aberta, mas não sentiu dor alguma; por fim cedeu e irrompeu em soluços.

- Eu lhe disse - falou Drake. - Disse que não se metesse. E agora? O que acha que vai fazer?

- Largue-me - disse ela. - Quero ir embora daqui.

- Só porque eu fiz a minha obrigação? Você ouviu o que essa criatura disse. Acha que eu podia permitir que ele retornasse ao seu planeta e espalhasse todas essas mentiras? Iriam acreditar nele. E o que você acha que aconteceria depois? Pode imaginar o que é uma guerra interestelar? Eles iriam pensar que a única maneira de acabar com a tal doença seria exterminando a todos nós.

Com um esforço sobre-humano, Rose conseguiu controlar-se. Olhou firme nos olhos de Drake e disse:

- O que o Dr. Tholan disse não era mentira, e também não era um equívoco, Drake.

- Ora, o que é isso? Você está histérica. Precisa dormir um pouco.

- Eu sei que é verdade. Sei disso porque a Comissão de Segurança sabe tudo sobre essa teoria, e sabe que é verdadeira.

- Como pode dizer uma coisa tão sem pé nem cabeça?

- Porque você cometeu dois pequenos escorregões.

- Sente-se - disse Drake. Ela sentou na poltrona e ele permaneceu de pé à sua frente, olhando-a com curiosidade. - Quer dizer que eu dei dois escorregões, não é? Você teve um dia bastante detetivesco hoje, minha querida. Acho que você anda escondendo seus talentos. - Ele sentou-se no sofá e cruzou as pernas.

Sim, pensou Rose, ela tinha tido um dia cheio de descobertas. Podia ver, de onde estava sentada, o relógio elétrico na parede da cozinha: eram mais de duas horas da madrugada. Harg Tholan tinha chegado em sua casa 35 horas antes, agora estava morto, no quarto ao lado.

Drake quebrou o silêncio.

- Não vai me apontar os dois pontos em que escorreguei?

- Você ficou lívido ontem, quando Harg Tholan disse que eu era uma hospedeira encantadora. A palavra "hospedeira" tem um duplo sentido, como você sabe. Indica a pessoa que abriga um parasita.

- Número um - disse Drake. - E o número dois?

- Foi algo que você fez, antes mesmo de Tholan chegar aqui em casa. Passei horas, hoje, tentando me lembrar disso. Lembra-se, Drake, quando você comentou o quanto era desagradável para os hawkinianos misturar-se aos terrestres? E eu disse que Harg Tholan era um cientista, e isso fazia parte da sua profissão? Perguntei se você achava que os cientistas terrestres iam aos trópicos por diversão, e se gostavam de sofrer picadas de mosquitos. Lembra-se de como você ficou perturbado?

Drake deu uma risada.

- Eu não sabia que era tão transparente assim... Mosquitos servem de hospedeiros para os parasitas que causam a malária e a febre amarela. - Ele soltou um suspiro.

- Fiz o que pude para que você não se metesse nisto, Rose. Agora não tenho saída senão contar-lhe toda a verdade. Devo fazer isto porque já percebi que somente a verdade, ou então a morte, podem manter você quieta. E eu não quero matá-la.

Rose encolheu-se na poltrona, os olhos bem abertos. Drake continuou:

- A Comissão sabe de toda a verdade. Isso não nos adianta de nada. Tudo que podemos fazer é nos esforçar o máximo possível para evitar que os outros planetas descubram.

- Mas a verdade não pode ser escondida para sempre! Harg Tholan a descobriu. Você o matou, mas um outro alienígena pode repetir a mesma descoberta, e depois outro, e mais outro. Vocês não podem matar a todos.

- Sabemos disso - concordou Drake. - Não temos escolha.

- Por que não? - gritou Rose. - Harg Tholan lhe forneceu a solução. Ele não fez sugestões ou ameaças de guerra entre os planetas. Ele apenas sugeriu que nós nos juntássemos às outras raças inteligentes para exterminar o parasita. E nós podemos! Se nós, em conjunto com as outras raças, envidarmos todos os esforços para...

- Você quer dizer... confiar nele? Será que Tholan falava em nome de seu governo, ou das outras raças?

- Por que não arriscar?

- Você não entendeu. - Drake aproximou-se dela e tomou sua mão, que estava muito fria. Prosseguiu: - Pode parecer idiota eu querer explicar-lhe algo que faz parte da sua profissão, mas você tem que me escutar. Harg Tholan estava certo. O homem e seus ancestrais pré-históricos têm convivido com essa inteligência parasita por eras e mais eras; certamente desde muito antes de termos nos tornado o Homo sapiens. Nesse intervalo, não apenas nos adaptamos a esse parasita, como também nos tornamos dependentes dele. Não se trata mais de um caso de parasitismo. É um caso de cooperação mútua. Vocês biólogos têm um nome para isto.

Rose retirou a mão de entre as dele.

- O que está dizendo? Simbiose?

- Exatamente. Nós temos uma doença tipicamente nossa, não esqueça. Uma doença que é o contrário da deles: uma doença de crescimento descontrolado. Conversamos sobre isto ontem, fazendo uma comparação com a Morte por Inibição. Muito bem: qual é a causa do câncer? Há quanto tempo essa questão vem sendo pesquisada por biólogos, fisiologistas, bioquímicos e tantos outros? E qual foi o sucesso que eles alcançaram? Nenhum. Pode responder por quê?

- Não - disse Rose, lentamente. - Não posso. Do que você está falando?

- Está tudo muito bem, dizer que se nós removêssemos o parasita teríamos crescimento ilimitado e viveríamos em paz até o dia em que nos cansássemos de ser tão grandes ou tão velhos e acabássemos com tudo. Mas, quantos milhões de anos já se passaram desde a última vez que o corpo humano pôde crescer assim, sem restrições? Será que ele ainda o conseguiria? A química corporal está ajustada para isso? Será que ainda temos as... coisas apropriadas, como é que se diz?

- As enzimas.

- Pois é, as enzimas. Não, não temos: tornou-se impossível para nós. Se por algum motivo essa inteligência parasita, como Harg Tholan a denominou, abandonar o corpo humano, ou se sua relação com a mente humana sofrer algum tipo de desequilíbrio, o nosso corpo recomeça a crescer, mas de forma desordenada. E a esse crescimento denominamos câncer. E aí está. Não temos como nos livrar do parasita. Vamos ter que ficar juntos por toda a eternidade. Para que os extraterrestres se vejam livres da Morte por Inibição terão que varrer da face da Terra todas as espécies vertebradas. Não existe outra solução para eles, portanto temos que impedir que saibam de tudo isto. Entendeu agora?

Rose tinha a boca seca. Falou com dificuldade.

- Entendi, Drake. - Ela notou que a testa do marido estava úmida e que havia uma linha de suor por sobre o seu lábio superior. - Agora você vai ter que... tirá-lo do apartamento.

- É tarde da noite, não terei muito trabalho para retirá-lo do prédio. Depois... - Ele virou-se para ela. - Não sei quando volto.

- Entendo, Drake - disse ela novamente.

Harg Tholan era pesado. Drake teve que arrastar seu corpo através do apartamento. Rose virou o rosto, com náuseas. Escondeu os olhos com a mão até ouvir a batida da porta da frente. Murmurou para si mesma: "eu entendo, Drake".

Eram três da madrugada. Quase uma hora se passara desde que a porta se fechara atrás de Drake e de seu fardo. Ela não sabia para onde ele tinha ido, para onde pretendia ir...

Ficou sentada, mergulhada numa espécie de torpor. Não tinha vontade de dormir; nenhum desejo de se mover. Sua mente girava num círculo estreito, evitando estender-se até aquele pensamento, aquela coisa que ela sabia mas que não queria saber.

Parasitas da mente! Seria apenas uma coincidência, ou algum tipo obscuro de memória racial, algum tênue mas resistente fiapo de tradição ou de percepção a se estender desde o passado através de incontáveis milênios, mantendo vivo o mito primal da origem humana? Rose pensou: havia mesmo duas inteligências na Terra. Havia os seres humanos do Jardim do Éden e havia a serpente, que "era mais astuta do que qualquer outro animal da Terra". A serpente infectou o homem e, em conseqüência disso, perdeu seus membros. Seus atributos físicos tornaram-se supérfluos. E devido a essa contaminação, o Homem foi expulso do Paraíso Terrestre. A morte passou a reinar no mundo.

A despeito dos seus esforços, Rose não pôde continuar fugindo àquele pensamento que tentava evitar. Ela o expulsou, e ele voltou a assediar-lhe a mente. Drake. Ela começou a contar em voz baixa, depois passou a recitar os nomes dos objetos que avistava diante de si, depois gritou - Não! Não! Não! - mas aquela idéia voltou, e tornou a voltar.

Drake tinha mentido. Sim, tinha sido uma história bastante plausível. Teria se mantido de pé em outras circunstâncias; mas Drake não era um biólogo. O câncer não podia ser, como Drake tinha dito, uma expressão da perda de controle sobre o crescimento normal. O câncer ataca crianças que ainda estão em pleno processo de crescimento; pode atacar até mesmo tecido fetal. Ataca os peixes, os quais, como os extraterrestres, nunca cessam de crescer durante toda a vida e morrem apenas por doenças ou morte violenta. Ataca plantas, que não têm mente, e não podem ser parasitadas. O câncer não tem nada a ver com a ausência ou a presença de crescimento normal: era uma doença das espécies vivas em geral, uma doença à qual nenhum tecido de nenhum organismo multicelular pode ser completamente imune.

Ele não precisava ter mentido. Não devia ter permitido que algum tipo obscuro de fraqueza sentimental o fizesse evitar a necessidade de matá-la. Ela iria dizer tudo no Instituto. O parasita podia ser derrotado. Sua ausência não era causa do câncer. Mas... quem acreditaria nela?

Pôs as mãos sobre os olhos. Os homens que desapareciam estavam geralmente no primeiro ano de casamento. Qualquer que fosse o processo de reprodução dos parasitas da mente, devia ser algo que exigisse uma associação muito íntima com outro parasita - um tipo de associação muito próxima e constante que só seria possível se os hospedeiros de ambos estivessem mantendo uma relação semelhante. Como se dá com os casais recém casados.

Ela podia sentir seus pensamentos vagueando sem direção. As pessoas iam chegar ali. Iam perguntar: onde está Harg Tholan? Ela diria: com meu marido. Só que eles diriam: onde está seu marido? E ele teria ido embora para sempre. Porque agora já não precisava dela. Nunca voltaria. Nunca seria encontrado, porque estaria longe, no espaço. Ela iria até o Departamento de Pessoas Desaparecidas e prestaria queixa do desaparecimento de Drake Smollett e Harg Tholan.

Queria chorar, mas não conseguia. Seus olhos estavam secos, e o esforço para derramar lágrimas fazia apenas com que ardessem.

Aí ela começou a rir, e não conseguia parar. Era tudo muito engraçado. Tinha procurado as respostas para tantas perguntas e no final tinha encontrado todas elas.

Tinha encontrado até mesmo a resposta para a pergunta que parecia não ter nada a ver com todo aquele assunto.

Tinha descoberto, finalmente, por que motivo Drake casara com ela.

 

SALLY

Sally estava se aproximando pela estrada que passa junto ao lago; acenei para ela e chamei seu nome. Sempre gosto de ver Sally. Gosto de ver todos eles, vocês me entendem; mas Sally é a mais bela de todos. É coisa que não se discute.

Ela moveu-se mais rápido depois do meu aceno. Nada exagerado; ela não faz esse gênero. Apenas um pouquinho mais rápido, para demonstrar que ela também estava alegre por me ver.

Virei-me para o homem que estava ao meu lado.

- Aquela ali é Sally - falei.

Ele sorriu e fez um aceno com a cabeça.

Foi a Sra. Hester quem o trouxe; aproximou-se de mim e disse:

- Este é o Sr. Gellhom, Jake. Você lembra, ele mandou uma carta pedindo para marcar um encontro com você.

Lá vou eu perder meu tempo conversando. Tenho um milhão de coisas para cuidar aqui na Fazenda, não posso perder meu tempo atendendo a qualquer sujeito que escreve uma carta. É para isto que tenho a Sra. Hester. Ela vive aqui pertinho, sabe cuidar dessas miudezas sem ter que me consultar a todo instante e, o que é mais importante, gosta de Sally e de todos os outros. Há pessoas que não gostam.

- Prazer em vê-lo, Sr. Gellhom - falei.

- Raymond J. Gellhom - disse ele, e cumprimentou-me com um aperto de mão.

Era um sujeito grande, com o nariz à altura da minha testa e bem mais largo do que eu. Teria metade da minha idade, ou seja, uns trinta e poucos. Cabelo preto, lustroso e penteado, repartido no meio, e um bigodinho bem aparado. Seus maxilares eram volumosos embaixo das orelhas, dando a impressão de que ele estava com um princípio de caxumba. No vídeo ele seria o tipo ideal para interpretar o vilão, portanto achei que seria um bom sujeito. Isto mostra que o vídeo não pode estar errado o tempo todo.

- Sou Jacob Folkers - falei. - O que posso fazer pelo senhor?

Ele sorriu. Um sorriso claro, largo, de dentes brancos.

- Pode me contar algumas coisas aqui sobre a Fazenda, se não for incômodo.

Ouvi Sally se aproximando, às minhas costas, e estendi a mão. Ela deslizou macia para junto de mim e senti na minha palma a superfície brilhante e esmaltada de seu pára-lama.

- Um belo automóvel - disse Gellhom.

Pode-se dizer que sim. Sally era um conversível 2045 com um motor positrônico Hennis-Carleton e um chassi Armat. Tinha as linhas mais sóbrias e elegantes que eu já vi em qualquer modelo. Durante os últimos cinco anos ela tinha sido minha favorita. Eu era capaz de qualquer coisa por Sally. Durante todo esse tempo, nenhum ser humano tinha sentado ao seu volante. Nem uma vez sequer.

- Sally - falei, dando umas palmadinhas em seu capo, apresento-lhe o Sr. Gellhom.

O ronronar do motor aumentou um pouquinho, mas não ouvi nenhuma daquelas pequenas detonações que vinha escutando ultimamente nos outros motores. Mudar de gasolina não tinha surtido efeito, mas em todo caso Sally, naquele instante, foi perfeita.

- O senhor põe nomes em todos os carros? - perguntou Gellhom.

Havia na voz dele um tom de quem estava se divertindo, e a Sra. Hester não gosta de gente que faz gracejos com a Fazenda. Foi ela quem respondeu, cortante:

- Claro que sim. Os carros têm personalidade própria, não é, Jake? Os sedãs são masculinos; os conversíveis, femininos.

Gellhom continuava sorrindo.

- E a senhora os guarda em garagens separadas?

A Sra. Hester o encarou sem dizer nada. Gellhom virou-se para mim.

- Posso falar-lhe a sós, Sr. Folkers?

- Isso aí depende - respondi. - O senhor é jornalista?

- Não. Nem agente de vendas. Nada do que conversarmos será publicado. Posso garantir-lhe que estou interessado no máximo de sigilo.

- Vamos andar um pouco pela estrada. Ali adiante há um banco onde podemos sentar.

Começamos a caminhar. A Sra. Hester voltou para a casa, e Sally pôs-se em movimento, devagarinho, acompanhando nossos passos.

- Não se incomoda se Sally vier conosco, não? - perguntei.

- De jeito nenhum. Afinal, ela não pode contar para ninguém o que conversamos, não é? - Ele riu alto com a própria piada e, estendendo a mão, tocou na lateral de Sally.

O motor de Sally deu um rugido profundo e Gellhom retirou a mão bem depressa.

- Ela não está acostumada com gente estranha - expliquei. Sentamos no banco embaixo do velho carvalho. Dali dava para avistar toda a extensão do pequeno lago e a rodovia particular que tínhamos do lado oposto. Era um dia quente, os carros estavam do lado de fora, distraindo-se - uns trinta deles, pelo menos. Mesmo a distância eu podia ver que Jeremiah estava entregue à sua brincadeira de costume, acompanhando em marcha lenta um dos modelos mais sérios, mais antigos, e de repente arrancando em plena potência, cantando pneus e o ultrapassando com estridência em questão de segundos. Há duas semanas ele tinha assustado o velho Angus, fazendo-o perder a direção e sair do asfalto; aí tive que desligar seu motor por dois dias. Pelo que vejo agora, não adiantou muito; parece que não há nada a fazer. Jeremiah é um desses modelos esportivos, eles são assim mesmo, dão o maior trabalho.

- Muito bem, Sr. Gellhom - falei. - Quais são as informações que deseja?

Mas o cara estava distraído, olhando em redor.

- Que lugar fantástico, Sr. Folkers.

- Pode me chamar de Jake. Todo mundo chama.

- OK, Jake. Quantos carros você tem aqui?

- Cinqüenta e um. Todo ano chegam mais um ou dois. Houve um ano em que vieram cinco. Até agora não perdemos nenhum. Estão todos funcionando perfeitamente, Temos até mesmo um Mato-Mot de 2015 em perfeito funcionamento. Um dos primeiros automáticos. Foi o primeiro carro que trouxemos para cá.

O velho Matthew. Agora ele costumava ficar na garagem a maior parte do dia, afinal de contas ele era o avô de todos os carros positrônicos. Da época em que os carros automáticos eram utilizados apenas por veteranos de guerra, paraplégicos e chefes de Estado. Mas naquela época Samsom Harridge era meu patrão, ele era rico o bastante para ter um carro automático. Eu era seu chofer.

Pensar naquilo fez com que me sentisse velho. Sou do tempo em que não existia um único automóvel no mundo capaz de encontrar sozinho o caminho de casa. Já dirigi umas coisas enormes e desajeitadas cujo motorista não podia tirar as mãos do volante por um só momento. Monstrengos desse tipo matavam dezenas de milhares de pessoas todo ano.

Os automáticos resolveram esse problema. Um cérebro positrônico pode reagir muito mais rápido do que um cérebro humano, claro, e as pessoas não tinham que manter as mãos nos controles o tempo inteiro. Sentavam ao volante, digitavam as instruções sobre o trajeto e o carro fazia o resto sozinho.

Hoje em dia todo mundo já está acostumado, mas eu me lembro de quando surgiram as primeiras leis retirando das auto-estradas os carros velhos e só autorizando viagens em carros automáticos. Deus do céu, que balbúrdia. Disseram que isso era fascismo, que era comunismo, mas o fato é que as estradas ficaram muito mais tranqüilas e as mortes por acidente pararam como por encanto; um número muito maior de pessoas passou a viajar com muito mais segurança.

Claro que os automáticos eram de dez a cem vezes mais caros do que os carros manuais, e não havia muita gente que pudesse pagar esse preço. A indústria começou a derivar para a produção de ônibus automáticos. A qualquer momento você podia chamar uma empresa e em poucos minutos ter um desses ônibus à sua porta, indo na direção que você queria. Você tinha que viajar ao lado de outras pessoas que iam para o mesmo lado, mas qual era o problema?

Samson Harridge, no entanto, tinha um automóvel particular, e eu fui contra ele desde o instante em que o vi. Naquele tempo, eu não via o tal carro como "Matthew", não podia imaginar que ele se tornaria no futuro o decano de nossa Fazenda. A única coisa que eu sabia era que aquele carro ia me jogar no desemprego, por isto o odiei. Falei:

- Bem, acho que não vai mais precisar de mim, Sr. Harridge.

- Ora, Jake, que bobagem está me dizendo? - foi a resposta dele. - Você não está pensando que Vou deixar essa geringonça tomar conta de mim, não é mesmo? Você é quem vai ficar ao volante.

Eu falei:

- Mas esse carro funciona sozinho, Sr. Harridge. Ele capta e analisa a imagem da estrada, evita os obstáculos, sejam eles carros ou pedestres, e arquiva os trajetos na memória.

- Sim, é o que dizem. Mesmo assim, prefiro que você esteja sentado ao volante, no caso de alguma coisa não correr bem.

É engraçado como a gente pode chegar a se afeiçoar a um carro. De um dia para o outro eu já o tinha batizado de Matthew e passava a maior parte do tempo dando polimento nele, checando o motor. Um cérebro positrônico funciona melhor quando está em contato permanente com o seu "corpo", ou seja, o chassi, de modo que ajuda bastante se a gente mantiver o tanque cheio para que o motor possa ficar ligado dia e noite. Depois de algum tempo acostumei-me tanto àquilo que bastava ouvir o som do motor para saber como Matthew estava se sentindo.

O Sr. Harridge também gostava muito de Matthew, ao seu modo. Ele não tinha ninguém mais para gostar. Tinha ficado sem três esposas, através da viuvez ou do divórcio; e acabou vivendo mais tempo do que cinco filhos e três netos. Desse modo, quando morreu não foi surpresa para ninguém que ele fizesse converter suas propriedades numa Fazenda para Automóveis Aposentados, onde eu era o curador e Matthew o primeiro membro de uma família que viria a se tornar ilustre.

Minha vida passou a ser apenas isso. Nunca me casei. Você não pode ser casado e ao mesmo tempo se dedicar a carros automáticos de uma maneira adequada.

Os jornais acharam toda esta história muito cômica, mas depois de algum tempo pararam de fazer piadas a respeito. Acho que com certas coisas não se deve fazer piadas.

Talvez você nunca seja rico o bastante para ter um carro automático, mas, creia-me: a gente acaba sentindo por eles uma espécie de amor. Eles são competentes no que se refere a trabalho, e ao mesmo tempo são muito afetivos. É preciso ser um sujeito sem coração para maltratar um deles ou para vê-los sendo maltratados e não fazer nada.

Do modo como as coisas evoluíram, com o correr dos anos, qualquer sujeito que tinha um automático e não tinha herdeiros acabava enviando-o para a Fazenda quando morria: lá ele seria bem cuidado.

Expliquei tudo isto a Gellhom.

Ele exclamou:

- Cinqüenta e um carros! Isto é uma fortuna.

- Cinqüenta mil cada um, em termos de investimento original - falei. - Valem muito mais agora. Fiz uma porção de coisas por eles.

- Deve ser caríssimo manter esta Fazenda.

- É verdade. A Fazenda é uma organização sem fins lucrativos, o que reduz nossos impostos; além disso, os novos carros que chegam aqui geralmente trazem consigo novos recursos. Mesmo assim as despesas são cada vez maiores. Tenho que cuidar da conservação do local, asfaltar pistas novas e reparar as antigas. Tem ainda a gasolina, o óleo, a manutenção, novos acessórios... Tudo isso pesa.

- E o senhor se dedica a isso há muitos anos.

- Trinta e três, Sr. Gellhom.

- Não me parece que tenha muita vantagem com esse emprego.

- Não? O senhor me surpreende, Sr. Gellhom. Eu tenho Sally, além de outros cinqüenta. Dê uma olhada nela.

Eu estava sorrindo. Não podia evitar. Sally estava tão linda e reluzente que chegava a dar um aperto na garganta. Algum inseto devia ter morrido esmagado de encontro ao pára-brisa, ou um salpico de lama tinha ficado pregado ali, porque Sally estava em plena atividade. Apareceu um pequeno tubo que lançou Tergosol sobre o vidro, espalhando-o sobre a fina película de silicone que o recobria. No mesmo instante os limpadores foram acionados, limpando o vidro e empurrando a água na direção do pequeno canal lateral por onde gotejou até o chão, sem que um só pingo caísse sobre o capo verde reluzente. Os limpadores e o tubo retornaram aos seus nichos e desapareceram.

- Nunca vi um automático assim - disse Gellhom.

- Sei que não - falei. - Criei este sistema especialmente para os nossos carros. Eles são limpos. Estão o tempo inteiro dando polimento nos vidros. Eles gostam.

Em Sally cheguei a instalar jatos de cera. Ela passa a noite inteira dando brilho em si própria, no dia seguinte você pode até se barbear olhando para ela. Se eu arranjar dinheiro vou instalar o mesmo sistema nas outras. Os conversíveis são umas garotas muito vaidosas.

- Posso lhe dizer como conseguir esse dinheiro, se isso lhe interessa.

- Sempre interessa. O que é?

- Não é óbvio, Jake? Cada um dos seus carros vale no mínimo cinqüenta mil dólares, como você mesmo disse. Sou capaz de apostar que o preço de muitos deles se conta em seis dígitos.

- E...?

- Já pensou em vender alguns? Balancei a cabeça.

- Talvez não perceba, Sr. Gellhom, mas não posso vender nenhum deles. Pertencem à Fazenda, não a mim.

- O dinheiro iria para a Fazenda.

- Os estatutos da Fazenda estabelecem que os carros recebam cuidados perpétuos. Eles não podem ser vendidos.

- E quanto aos motores?

- Não entendi.

Gellhom mudou de posição e sua voz tornou-se confidencial.

- Olhe aqui, Jake, deixe-me explicar a situação. Existe um grande mercado de automáticos particulares por aí, desde que o preço deles possa ser reduzido até um certo nível, OK?

- Todo mundo sabe disso.

- E o motor representa noventa e nove por cento do custo desses carros, certo? Bem, sei onde conseguir um fornecimento de chassis. E também sei onde podemos vender os automáticos, depois de prontos, a um bom preço... vinte ou trinta mil os modelos mais baratos, cinqüenta ou sessenta os mais caros. Tudo de que preciso são os motores. Percebeu?

- Não, Sr. Gellhom.

Eu tinha percebido, mas queria que ele dissesse de viva voz.

- Estão aqui. Você tem cinqüenta e um deles. Você é um mecânico especializado, Jake. Tem que ser. Você pode retirar um motor e colocá-lo em outro carro, e ninguém veria a diferença.

- Não seria muito ético.

- Você não estaria fazendo mal a ninguém, inclusive aos carros. Estaria fazendo um favor a eles. Use seus carros mais velhos. Use aquele Mat-O-Mot.

- Ora, ora, espere aí, Sr. Gellhom. Motores e corpos não são duas coisas separadas. Eles são uma unidade. Estes motores estão acostumados aos corpos que têm. Não ficariam felizes em outros carros.

- Certo, Jake. Bem pensado. Muito bem pensado. Seria mais ou menos como pegar sua mente e colocá-la no crânio de outro cara, certo? Você não ia gostar disso.

- Não creio que gostasse. Não mesmo.

- Mas, e se eu pegasse sua mente e a colocasse no corpo de um jovem atleta? Hem? O que me diz, Jake? Você não é mais um garoto. Se tivesse a chance, você não gostaria de se sentir com vinte anos novamente? Pois é isso que eu estou oferecendo a alguns de seus motores positrônicos. Eles serão transportados para corpos novinhos em folha, corpos de 2057. A última palavra.

Dei uma risada.

- Isso não faz muito sentido, Sr. Gellhom. Alguns dos nossos carros podem ser velhos, mas são muito bem cuidados. Ninguém os dirige. Têm permissão para fazer o que querem. Eles estão aposentados, Sr. Gellhom. Eu não gostaria de me transformar num garoto de vinte anos se com isso tivesse que passar o dia cavando valetas durante o resto da vida e me alimentando mal... Hem, Sally? O que você acha?

As duas portas de Sally se abriram e fecharam com um barulho amortecido.

- O que diabo foi isso? - disse Gellhom.

- É desse jeito que ela ri.

Gellhom forçou um sorriso. Acho que ele pensou que era piada minha.

- Vamos falar sério, Jake - disse. - Carros são feitos para a gente dirigir. Provavelmente não ficam felizes se não têm alguém a dirigi-los.

- Sally não é dirigida por ninguém há cinco anos - respondi. - E ela não me parece infeliz.

- Será?

Ele ficou de pé e foi caminhando na direção de Sally.

- Ei, Sally... que tal um passeiozinho?

- O motor de Sally zumbiu com mais força e ela recuou.

- Não vá muito forte, Sr. Gellhom - falei. - Sally é um pouco arisca.

Dois sedãs  estavam na estrada, a uns cem metros de distância. Tinham parado e permaneciam ali. Talvez estivessem observando a cena, lá ao modo deles. Não me importei.

Tinha meus olhos fitos em Sally e os mantive ali.

Gellhom estava dizendo:

- Calma, Sally. Calma.

Parou ao lado dela e estendeu a mão para a maçaneta. Puxou. A porta não cedeu.

- Esta porta abriu há um minuto! - disse ele.

- Tranca automática - repliquei. - Essa Sally. Ela tem um senso de privacidade muito grande.

Gellhom ficou calado. Depois disse, devagar, deliberadamente:

- Um carro com senso de privacidade não devia andar à solta por aí.

Começou a se afastar dela, mas, no meio de um passo, saltou para trás, tão rápido que eu não pude esboçar qualquer gesto. Também pegou Sally de surpresa, porque abriu a porta num puxão, sentou-se ao volante e desligou a ignição antes que ela pudesse impedi-lo.

Pela primeira vez em cinco anos o motor de Sally parou de funcionar.

Gritei. Mas Gellhom já tinha transferido o controle para "Manual" e bloqueado os comandos. Ligou o motor. Sally estava viva novamente, mas sem liberdade de ação.

Ele guiou ao longo da estrada. Os sedãs continuavam parados no mesmo lugar de antes. Ante a aproximação de Sally eles fizeram uma manobra lenta, mas sem desimpedir totalmente o caminho. Achei que eles também estavam meio perplexos com o que sucedia.

Um deles era Giuseppe, de uma fábrica de Milão, e o outro era Stephen. Andavam sempre juntos. Ambos eram novos na Fazenda, mas já estavam lá há tempo suficiente para saber que ninguém pilotava os nossos carros.

Gellhom seguiu em frente, na direção deles, e quando os sedãs finalmente perceberam que Sally não ia diminuir a velocidade - que ela não podia diminuir a velocidade - era quase tarde demais.

Cada um jogou-se para um lado, e Sally passou entre eles como um raio. Steve arrebentou a cerca que circunda o lago e derrapou na grama enlameada, conseguindo frear a apenas alguns centímetros da água. Giuseppe sacolejou sobre o terreno irregular do acostamento até conseguir parar, meio de viés.

Corri até Steve e o ajudei a vir de volta para a estrada, e estava tentando verificar se o choque com a cerca lhe tinha causado algum dano quando Gellhom retornou.

Abriu a porta de Sally e saiu. Inclinando-se, desligou a ignição mais uma vez.

- Isso - falou. - Acho que esse passeio fez bem à nossa garota.

Tentei me controlar.

- Por que jogou Sally de encontro aos sedãs? Não havia motivo para isso.

- Achei que eles sairiam do caminho.

- Pois é, saíram. Um deles bateu na cerca.

- Sinto muito, Jake - disse ele. - Achei que eles seriam mais rápidos. Sabe como é. Ando muito de ônibus, mas só andei em carros automáticos particulares duas ou três vezes em minha vida. Esta foi a primeira vez que dirigi um. Isso é para você ver, Jake: quase fiquei maluco dirigindo um carro desses, e olhe que eu sou um sujeito durão. Posso lhe garantir: basta que a gente fique vinte por cento abaixo do preço de mercado e todo mundo vai querer esses carros. Noventa por cento de lucro.

- Que a gente dividiria.

- Claro! Meio a meio. E sou eu quem corre todos os riscos, não esqueça.

- Está bem. Escutei o que você falou, agora é você quem me escuta. - Ergui a voz, porque eu já estava furioso demais para me preocupar em ser educado. - Quando você desligou o motor de Sally, você a magoou. Gostaria que alguém o nocauteasse de repente? Pois é isso que você faz a Sally quando a desliga.

- Está exagerando, Jake. Os automatônibus são desligados diariamente.

- Sei muito bem disso, e é exatamente por essa razão que não quero meus rapazes e minhas garotas enfiados em seus belos chassis 2057, onde eu não sei que tipo de tratamento eles vão receber. Ônibus precisam de consertos sérios em seus circuitos positrônicos de dois em dois anos. O velho Matthew está há vinte anos sem que ninguém toque seus circuitos. Você pode lhe oferecer algo que se compare com isso?

- Ora, ora, você está nervoso. Pense na minha proposta depois que esfriar a cabeça e me telefone.

- Já pensei tudo que tinha de pensar. Se eu o avistar aqui outra vez, chamarei a polícia.

A boca dele se endureceu, fazendo-o de repente ficar muito mais feio. Ele disse:

- Olhe aqui, velhote...

- Olhe aqui digo eu. Isto é uma propriedade particular, e estou lhe dizendo que caia fora.

Ele encolheu os ombros.

- Tudo bem. Então... adeus.

- A Sra. Hester o levará ao portão - falei. - E esse adeus é pra valer.

Mas não foi. Voltei a vê-lo dois dias depois. Dois dias e meio, na verdade, porque era cerca de meio-dia quando tivemos esse nosso primeiro encontro. Era pouco depois da meia-noite quando o encontrei novamente.

Sentei na cama quando ele acendeu a luz do quarto e pisquei, meio ofuscado, até entender o que estava acontecendo. Quando consegui enxergá-lo direito, não foram necessárias muitas explicações. Nenhuma, para ser sincero. Ele tinha uma pistola minúscula na mão direita, o cano ameaçador aparecia entre dois dedos cerrados. Eu sabia que ele precisava apenas aumentar a pressão dos dedos e eu voaria em pedaços.

Ele disse:

- Vista a roupa, Jake.

Não me movi. Fiquei só olhando para ele. Ele insistiu:

- Vamos, Jake. Eu conheço isto aqui. Vim aqui há dois dias, lembre-se. Aqui não há guardas, nem cercas elétricas, nem alarmes. Nada.

- Não preciso disso - retruquei. - Aliás, não há nada aqui que o impeça de dar meia-volta e ir embora, Sr. Gellhom. Era o que eu faria se fosse o senhor. Este lugar pode se tornar perigoso.

Ele riu.

- E é, para alguém que está do lado errado de uma pistola.

- É, estou vendo que tem uma.

- Então mexa-se. Meus homens estão esperando.

- Não, Sr. Gellhom. Não enquanto não me disser o que quer que eu faça. E mesmo assim...

- Eu lhe fiz uma proposta anteontem.

- A resposta ainda é não.

- Fiz umas pequenas modificações na proposta original. Vim até aqui com alguns homens e um automatônibus. Você tem a chance de vir comigo e desligar vinte e cinco dos motores positrônicos. Não me interessa quais. Nós o colocamos no ônibus e caímos fora daqui. Depois que fecharmos nossos negócios, darei um jeito para que você receba uma boa recompensa.

- E me dá sua palavra de honra, claro.

Ele não demonstrou perceber meu sarcasmo. Disse apenas:

- Sim.

- A resposta é não.

- Se insistir, então eu Vou fazer as coisas ao meu modo. Eu próprio retirarei os motores... só que terei que desligar todos. Cinqüenta e um. Todos eles.

- Desconectar e retirar motores positrônicos não é algo assim tão fácil, Sr. Gellhom. O senhor é por acaso um especialista em robótica? Mesmo que seja, sabe, estes motores foram modificados por mim.

- Sei disso, Jake. E, para ser sincero, não sou um especialista. Posso danificar alguns motores ao tentar retirá-los. É por isso que vou ter que mexer em todos eles caso você não coopere. Talvez, no final de tudo, eu consiga ter em mãos vinte e cinco motores em condições de funcionar. Os primeiros em que mexer vão sofrer o diabo, enquanto eu pego o jeito, sabe como é. E se eu mesmo tiver que fazer o serviço... o primeiro que vou tentar vai ser o de Sally.

- Não acredito que esteja falando sério, Sr. Gellhom.

- Estou falando sério, Jake. - Ele deixou que aquelas palavras fossem se impregnando lentamente em meu cérebro. - Se me ajudar, pode ficar com Sally. Se não, ela corre o risco de sofrer uma avaria muito séria. É uma pena.

- Está bem - falei, Vou com vocês. Mas vou dar um último aviso. Está se metendo em encrenca, Sr. Gellhom.

Ele achou isto muito engraçado. Ria baixinho enquanto descemos juntos as escadas.

Havia um automatônibus esperando na estrada, do lado de fora das garagens-apartamentos. Três vultos estavam parados junto dele, e quando nos aproximamos eles apontaram lanternas em nossa direção.

Gellhom ergueu a voz:

- Já peguei o velho. Vamos agir. Tragam o ônibus mais para perto e vamos começar.

Um dos homens subiu no ônibus, digitou as instruções no painel de comando. Caminhamos ao longo da estrada, enquanto o ônibus nos seguia, obediente.

- Ele não vai poder entrar na garagem - avisei. - Não passa na porta. Só temos automóveis aqui, nenhum ônibus.

- Tudo bem - disse Gellhom. - Mandem-no atravessar esse canteiro de grama e esperar do outro lado, onde não possa ser visto.

Eu podia ouvir o ronronar dos motores dos carros quando ainda estávamos a uns quinze metros da garagem.

Geralmente eles se aquietavam no momento em que eu entrava na garagem, mas desta vez foi diferente. Acho que eles sabiam que havia gente estranha por perto, e no instante em que os rostos de Gellhom e dos outros se tornaram visíveis o barulho aumentou. Cada motor emitia um barulho profundo, cada um deixava escapar aquelas pequenas detonações, a ponto de aquilo parecer uma rajada de metralhadora.

As luzes se acenderam automaticamente quando pisamos no chão da garagem. Gellhom não parecia preocupado com o barulho feito pelos carros, mas os três homens que estavam com ele pareciam perplexos e pouco à vontade. Tinham aquela aparência de assaltantes de aluguel... algo que não dependia tanto das feições, mas de uma certa fadiga no olhar e uma sordidez no rosto. Eu conhecia esse tipo. Não me preocupei.

Um deles disse:

- Porra, estão queimando gasolina. - Meus carros são assim - retruquei, empertigado.

- Mas não hoje - disse Gellhom. - Desligue todos.

- Não é assim tão fácil, Sr. Gellhom - falei.

- Vamos!

Ele tinha a pistola apontada para mim. Não me mexi. Apenas disse.

- Já lhe falei, Sr. Gellhom, que meus carros são muito bem tratados desde o instante em que chegam aqui na Fazenda. Eles estão acostumados a isso, e estranham muito quando alguém os trata de modo diferente.

- Você tem um minuto - disse ele. - Deixe a aula para depois.

- Só estou querendo explicar. Meus carros entendem o que eu falo. Um motor positrônico é capaz disso, mediante tempo e paciência. Meus carros aprenderam. Sally entendeu o que o senhor estava falando dois dias atrás. Pode se lembrar que ela riu quando eu lhe pedi uma opinião. Ela também tem consciência do que o senhor lhe fez. O mesmo acontece com os dois sedãs. E todos os outros sabem muito bem o que fazer diante de assaltantes em geral.

- Olhe aqui, seu velho maluco...

- Tudo que eu tenho a dizer é... - Ergui a voz. - Peguem-nos! Um dos homens amarelou e soltou um grito, mas o som de sua voz foi absorvido completamente pelo clamor de cinqüenta e uma buzinas soando ao mesmo tempo. Mantiveram essas notas soando, ecoando entre as quatro paredes da garagem em ecos metálicos e selvagens. Dois carros deram partida e avançaram, não muito depressa, mas não havia dúvida quanto às suas intenções. Dois outros os seguiram logo atrás. Cada carro, em sua divisória, dava aceleradas impacientes, esperando o instante de arrancar. Os assaltantes fitaram aquilo e começaram a recuar.

- Não fiquem encostados na parede - gritei.

Parece que eles tinham pensado a mesma coisa, porque partiram às carreiras para a porta da garagem.

Na porta um deles parou, ergueu uma pistola igual à de Gellhom e disparou. Um clarão azulado partiu da arma na direção do primeiro carro. O carro era Giuseppe.

Um risco profundo surgiu no capo de Giuseppe e o lado direito de seu pára-brisa se partiu em estilhaços, embora continuasse na posição.

Os homens cruzaram o umbral da garagem, ainda correndo, e de dois em dois os carros emergiram, pondo-se a persegui-los através da escuridão, soando as buzinas como se fossem trompas de caça.

Eu estava segurando Gellhom pelo cotovelo, mas duvido que ele fosse capaz de se mover. Seus lábios estavam trêmulos.

- É por isso que eu não preciso de cercas elétricas ou de guardas - falei. - Minha propriedade pode se proteger por si própria.

Os olhos de Gellhom continuavam a acompanhá-los enquanto, de dois em dois, eles surgiam da garagem e mergulhavam na noite. Ele murmurou:

- São assassinos!

- Não. Vão somente dar uma lição aos seus rapazes. Meus carros foram especialmente treinados para efetuar perseguições ao longo deste terreno, prevendo justamente uma eventualidade como esta. Seus rapazes vão sofrer algo que talvez seja pior do que uma morte rápida. Já foi perseguido por um automóvel?

Gellhom não respondeu. Continuei. Eu não ia perder uma chance como aquela.

- Eles vão avançar como sombras, sem andar mais rápido do que os seus rapazes, caçando-os aqui, bloqueando sua passagem ali, iluminando-os com os faróis, atacando, evitando-os por uma questão de centímetros, por entre o rangido dos pneus e o ronco do motor. Vão sustentar isto até que seus rapazes caiam um por um, sem respiração, semimortos, esperando que as rodas esmaguem seus ossos. Mas meus carros não vão fazer isso. Vão fazer meia-volta e retornar. Pode apostar, no entanto, que esses três sujeitos jamais voltarão aqui enquanto estiverem vivos, nem por todo o dinheiro que alguém lhes ofereça, ou dez vezes isso. Ouça...

Apertei mais forte seu cotovelo e Gellhom alongou o pescoço para escutar. Perguntei:

- Está ouvindo? As portas batendo? Era um ruído distante, mas inconfundível.

- Estão rindo - falei. - Estão se divertindo.

O rosto de Gellhom se contorceu de raiva. Ele ergueu a mão: ainda segurava a pistola.

- Se eu fosse o senhor não faria isso - adverti. - Ainda há um carro aqui conosco.

Acho que ele ainda não havia reparado na presença de Sally. Ela tinha se aproximado tão silenciosamente! Embora seu pára-lama dianteiro quase me tocasse, eu não podia ouvir seu motor. Ela parecia estar prendendo a respiração.

Gellhom soltou um grito.

- Ela não vai tocá-lo... enquanto eu estiver aqui. Mas se me matar, bem, sabe que Sally não vai muito com a sua cara.

Gellhom virou a arma na direção de Sally.

- O motor dela é blindado - expliquei. - Antes que possa dar o segundo tiro ela já o terá alcançado.

- Então está bem - gritou ele, e antes que eu pudesse reagir agarrou meu braço e o torceu para trás, com tal violência que mal pude me segurar. Ele me colocou entre ele e Sally, sem diminuir a pressão. Falou: - Me acompanhe e não se meta a esperto, vovô, ou eu arranco seu braço do ombro.

Tive que obedecer. Sally nos acompanhou a distância, preocupada, sem saber ao certo o que fazer. Tentei dizer-lhe algo mas não pude. Só conseguia trincar os dentes e gemer.

O automatônibus de Gellhom estava do lado de fora da garagem. Ele me forçou a entrar e entrou atrás, trancando as portas.

- Agora sim. Vamos ter uma conversa - disse.

Eu estava esfregando meu braço, tentando fazer voltar a circulação, e mesmo numa hora como esta meus olhos, quase automaticamente, estavam olhando e avaliando o painel de controle do ônibus.

- Este ônibus foi refeito numa oficina - comentei.

- E daí? - replicou ele em tom cáustico. - É uma amostra do meu trabalho. Apanhei um chassi de segunda mão, encontrei um cérebro positrônico em condições de uso e pronto, tenho um ônibus particular. Qual é o problema?

Fui até o painel e puxei a placa corrediça que dava acesso ao interior.

- Que diabo você quer? - perguntou Gellhom. - Caia fora daí.

Deu uma dolorosa cutelada em meu ombro esquerdo com a quina da mão. Empurrei-o.

- Não vou danificar o ônibus - berrei. - Que tipo de gente você pensa que sou? Só quero dar uma olhada nas conexões do motor.

Não precisei olhar muito. Quando me virei para Gellhom estava fumaçando de raiva.

- Seu escroto! Você não podia ter instalado esse motor sozinho. Por que não chamou um profissional de robótica?

- Acha que sou maluco? - perguntou ele.

- Mesmo o motor sendo roubado você não podia ter feito isto. Eu não trataria um homem do jeito que você tratou este motor. Solda, grampos, fita adesiva... É um crime.

- Funciona.

- Sei que funciona, mas para o ônibus deve ser um inferno. Um ser humano pode continuar vivo enquanto sente enxaqueca e artrite aguda sem parar, mas eu não invejaria essa qualidade de vida. Este carro está sofrendo.

- Cale essa boca!

Gellhom olhou pela janela na direção de Sally, que tinha se aproximado do ônibus o máximo possível. Ele foi até as portas do ônibus e verificou que continuavam trancadas.

- Vamos cair fora daqui - disse, antes que os outros carros voltem. Vamos para longe.

- Isso vai lhe ajudar em quê?

- A gasolina de seus carros vai acabar um dia. Você não lhes ensinou a ir ao tanque e servir-se, não é mesmo? Mais tarde nós voltaremos para terminar nosso trabalho.

- As pessoas vão estar à minha procura - falei. - A Sra. Hester vai chamar a polícia.

Mas o sujeito estava fora do alcance da voz da razão. Apertou um botão e o ônibus arrancou para a frente. Sally o acompanhou. Gellhom deu uma risada.

- O que ela pode fazer? Você está aqui comigo.

Sally dava a impressão de também saber disso. Acelerou, ultrapassou o ônibus e sumiu lá na frente. Gellhom abriu a janela que ficava do seu lado e cuspiu para fora.

O ônibus seguiu ao longo da estrada escura, com o motor roncando de modo irregular. Gellhom reduziu todas as luzes até a faixa verde-fosforescente no meio da rodovia ser o único ponto de referência que nos mantinha no caminho certo, brilhando ao luar. Já tínhamos alcançado a estrada principal, mas praticamente não havia tráfego.

Dois carros passaram por nós, indo na direção oposta, e não havia nenhum outro seguindo na mesma faixa, fosse à frente ou atrás de nós.

A primeira coisa que ouvi foram as batidas das portas. Rápidas e nítidas em meio ao silêncio, primeiro do nosso lado direito, depois do esquerdo. As mãos de Gellhom estavam trêmulas quando ele apertou os botões de aceleração. Um facho de luz projetou-se por entre um grupo de árvores, cegando-nos. Outro facho surgiu de trás, colhendo o ônibus em cheio. Num cruzamento, uns quatrocentos metros adiante, ouviu-se um scriiich!... quando um carro arrancou para se interpor em nosso caminho.

- Sally foi buscar os outros - falei. - Acho que você está cercado.

- E daí? O que podem fazer?

Debruçou-se sobre os controles, espreitando através do pára-brisa. Murmurou:

- E não se meta a esperto, vovô.

Eu não podia. Estava nos limites de minha resistência física, meu braço estava em fogo. O som dos motores foi aumentando, ficando mais próximo. Eu podia ouvir os motores falhando a intervalos irregulares, produzindo detonações espaçadas, e de repente tive a impressão de que eles estavam se comunicando uns com os outros.

Um clamor de buzinas ergueu-se às nossas costas. Virei-me e Gellhom olhou rapidamente pelo retrovisor. Uma dúzia de carros nos seguia, ocupando ambas as pistas da estrada.

Gellhom soltou um grito e começou a rir histericamente.

- Pare! - gritei. - Pare o ônibus!

Porque, a uns trezentos metros à nossa frente, perfeitamente visível à luz dos faróis de dois sedãs parados no acostamento, estava Sally, seu belo corpo atravessado na rodovia. Dois dos automóveis que nos seguiam se adiantaram, ocupando a pista da esquerda, evitando que Gellhom tentasse manobrar o ônibus para fazer a volta. Mas ele nem estava pensando nisso. Apertou o botão acelerador e manteve ali o dedo, arremessando o ônibus para diante.

- Agora não tem blefe - berrou. - Este ônibus pesa cinco vezes mais que ela, vovô. Vamos jogá-la para fora da estrada como um gato morto.

Eu sabia que ele podia bater. O ônibus estava em "manual" e o dedo de Gellhom estava enterrado no botão. Ele ia bater. Abaixei uma janela e espichei a cabeça para fora.

- Sally! - berrei com toda força. - Saia da estrada, Sally! Meu grito foi abafado pelo rangido estridente de freios e de pneus queimando o asfalto. Fui arremessado para a frente e ouvi o arquejo de Gellhom quando perdeu também o equilíbrio.

- O que houve? - gritei.

Era uma pergunta idiota. Tínhamos parado. Era isso que tinha acontecido. Sally e o ônibus estavam a menos de dois metros de distância. Com um veículo como aquele, cinco vezes maior que ela, precipitando-se na sua direção, ela não se movera. Oh, Sally. Gellhom batia freneticamente nos controles manuais.

- Tem que funcionar - murmurava. - Tem que funcionar.

- Não vai funcionar, ainda mais do jeito como você instalou o motor, sabe-tudo. Qualquer um dos circuitos pode ter pifado.

Ele me fitou com um olhar carregado de fúria e soltou um rugido gutural, vindo do fundo da garganta. Seu cabelo estava emplastado sobre a testa úmida. Agitou o punho na minha direção.

- Este é o último conselho que você deu na vida, vovô. Percebi que ele ainda tinha a pistola.

Pressionei as costas de encontro às portas do ônibus, vendo-o erguer devagar a arma, e quando a porta se abriu de repente deixei-me cair para trás, tombando no chão com um ruído surdo. Ouvi a porta fechar-se de novo.

Fiquei de joelhos e olhei ainda a tempo de ver Gellhom lutando inutilmente com a janela que se fechava sozinha, e depois erguendo a pistola na direção do vidro.

Não chegou a disparar. O ônibus arrancou para a frente, desequilibrando-o.

Sally não estava mais no meio da estrada. Fiquei olhando as luzes traseiras do ônibus piscando enquanto ele se afastava pela estrada, a toda velocidade.

Eu estava exausto. Fiquei sentado no chão, bem no meio da rodovia. Pousei a cabeça sobre os braços, tentando voltar a respirar normalmente.

Ouvi um carro parar suavemente ao meu lado. Quando ergui os olhos, vi que era Sally. Muito devagar - quase com carinho, eu poderia dizer, sua porta dianteira se abriu.

Ninguém tinha dirigido Sally durante cinco anos, com exceção de Gellhom, claro, e eu sabia muito bem a importância que um carro dava a esse tipo de liberdade. O gesto dela me comoveu, mas eu disse:

- Obrigado, Sally, mas posso ir num dos carros mais novos. Fiquei de pé e comecei a caminhar na direção oposta, mas, com agilidade, ela fez uma manobra sinuosa e mais uma vez se postou diante de mim. Eu não podia ferir seus sentimentos. Entrei. Seu banco dianteiro tinha o cheiro agradável de um automóvel que faz questão de se manter imaculadamente limpo. Afundei no banco, agradecido. Com uma eficiência rápida e silenciosa, meus meninos e minhas meninas me levaram de volta para casa.

A Sra. Hester me trouxe no dia seguinte uma cópia do noticiário do rádio. Estava cheia de excitação.

- Foi o Sr. Gellhom - disse. - O homem que veio vê-lo esta semana.

- O que houve com ele? Temi escutar a resposta.

- Foi encontrado morto - disse ela. - Imagine só. Morto, numa vala.

- Ora, pode ter sido outro cara - murmurei.

- Raymond J. Gellhom - disse ela, acidamente. - Não pode haver dois, não é mesmo? E a descrição corresponde. Meu Deus, que modo de morrer! Acharam marcas de pneus em seus braços e pelo corpo todo. Imagine! Ainda bem que, pelo que disseram, foi um ônibus. Se não, podiam querer xeretar por aqui.

- Foi aqui perto? - perguntei, ansioso.

- Não... foi perto de Cooksville. Mas, leia você mesmo. Meu Deus do céu... o que aconteceu com Giuseppe?

Fiquei aliviado com a mudança de assunto. Giuseppe estava esperando pacientemente que eu terminasse de aplicar a nova pintura. Já tinha substituído seu pára-brisa.

Depois que a Sra. Hester saiu, li os jornais. Não podia haver dúvidas. O médico atestou que Gellhom tinha corrido muito e estava num estado de completa exaustão.

Imaginei por quantas milhas o ônibus teria brincado de gato e rato com ele antes do assalto final. Mas a reportagem não podia imaginar isso, claro.

Eles tinham localizado o ônibus e o identificado pelas marcas dos pneus. A polícia estava tentando averiguar sua procedência.

Depois do noticiário havia um editorial. Naquele ano, era a primeira vítima fatal no tráfego do Estado, e o editorialista fazia graves advertências sobre o perigo de dirigir manualmente durante a noite.

Não havia nenhuma menção aos três asseclas de Gellhom, o que me aliviou. Nenhum dos nossos carros tinha se deixado seduzir, durante o prazer da caçada, até o ponto de matar.

Isso era tudo. Larguei o papel. Gellhom era um criminoso. O modo como tinha tratado o ônibus era brutal. Não havia a menor dúvida em minha consciência de que ele merecia a morte. Mesmo assim, não me senti confortável ao pensar no modo como ele tinha morrido.

Um mês já se passou, a história toda não sai da minha cabeça.

Meus carros conversam entre si. Agora não tenho mais dúvidas. É como se eles tivessem agora uma espécie de autoconfiança: como se não se preocupassem mais em manter segredo a respeito. Seus motores roncam e soltam pequenas detonações o tempo inteiro.

E não falam somente uns com os outros. Falam com os carros e os ônibus que vêm regularmente à Fazenda, trazendo pessoas que vêm tratar de negócios. Há quanto tempo isto vem ocorrendo?

Os outros carros os entendem. O ônibus de Gellhom os entendeu, e não passou ali mais de uma hora. Quando fecho meus olhos, revejo aquela disparada através da rodovia, o ônibus flanqueado pelos nossos carros, que estalavam seus motores até que ele começou a compreender o que diziam, até que parou, deixou-me fugir, e partiu com Gellhom preso no seu interior.

Será que meus carros lhe disseram para matar Gellhom? Ou a idéia terá sido dele próprio?

Será que um carro pode ter idéias desse tipo? Os projetistas de motores dizem que não. Mas eles se referem a motores em condições normais. Será que previram tudo?

Carros também podem ser maltratados, vocês sabem.

Alguns deles entram na Fazenda e ficam observando. Ouvem coisas que nunca tinham ouvido antes. Aprendem que em algum lugar existem carros cujos motores nunca param, que nunca são guiados por homem algum e que recebem tudo de que precisam.

Então, talvez, eles saem dali e falam com outros. Talvez estas notícias estejam se espalhando rapidamente. Talvez comecem a pensar que o mundo inteiro devia ser igual à Fazenda. Eles não entendem, claro. Não se pode esperar que carros entendam coisas como heranças e caprichos de milionários.

Há milhões de automatóveis na Terra, dezenas de milhões. Se eles começarem a se convencer de que são escravos, de que devem fazer alguma coisa sobre isto... se eles começarem a pensar do modo como o ônibus de Gellhom pensou naquela noite...

Talvez isso não aconteça durante meu tempo de vida. E mesmo assim eles vão ter que manter um certo número de nós para cuidar deles, não é mesmo? Não vão nos matar a todos.

Ou talvez matem. Talvez não saibam o quanto é importante, para alguém, cuidar deles. Talvez estejam impacientes.

Todo dia de manhã eu acordo e começo a pensar. Talvez, penso, seja hoje...

Não me divirto mais com meus carros como antigamente. Nos últimos tempos, já notei que estou começando a evitar Sally.

 

O FURA-GREVES

Elvis Blei esfregou suas mãos rechonchudas e disse:

- Auto-suficiência: esta é a palavra-chave. - Sorriu, pouco à vontade, enquanto acendia o charuto de Steven Lamorak, da Terra. A mesma expressão insegura se estampava em seu rosto liso, com olhos um tanto afastados um do outro.

Lamorak soltou uma baforada de bom entendedor e cruzou as longas pernas. Seu cabelo era grisalho, sua mandíbula larga e poderosa.

- Cultivado aqui? - perguntou, com os olhos fitos no charuto. Tentava esconder sua própria incerteza diante da tensão nervosa evidenciada pelo seu interlocutor.

- Sim - disse Blei.

- É engraçado - continuou Lamorak - que num planetóide tão pequeno vocês disponham de espaço para tais luxos.

Lamorak recordou a primeira visão que tinha tido de Elsevere, através da escotilha da espaçonave. Um planetóide sem atmosfera, de superfície irregular, com algumas centenas de milhas de diâmetro - apenas uma imensa rocha cinzenta, coberta de fendas e quebraduras, emitindo um débil reflexo da luz de um sol situado a duzentos milhões de milhas. Era o único objeto com mais de uma milha de diâmetro que orbitava aquele sol; e agora a humanidade tinha escavado o interior daquele pequeno mundo e criado nele toda uma sociedade. Agora ele, como sociólogo, tinha vindo para estudar esse mundo e ver de que modo a espécie humana tinha se adaptado a um abrigo tão peculiar.

O sorriso cordial e fixo de Blei, que parecia também esculpido em pedra, naquele instante alargou-se um mínimo.

- Não somos um mundo assim tão pequeno, Dr. Lamorak. Está nos julgando pelos seus padrões, que são bidimensionais. A área da superfície de Elsevere equivale a apenas três quartos do Estado de Nova York, mas isto é irrelevante. Lembre-se de que nós podemos ocupar, se quisermos, todo o interior de Elsevere. Uma esfera com cinqüenta milhas de raio tem um volume de mais de meio milhão de milhas cúbicas. Se a totalidade de Elsevere fosse ocupada por pisos separados por intervalos de trinta metros, a área total da superfície no interior do planetóide seria de 56 milhões de milhas quadradas, o equivalente à superfície da própria Terra. E nenhuma dessas milhas quadradas seria improdutiva, doutor.

- Meu Deus - disse Lamorak, e ficou pensativo por um instante. - Sim, sim, claro que tem razão. É engraçado como isso nunca me ocorreu. Mas Elsevere é o único planetóide, em toda a Galáxia, que já sofreu colonização intensa, e nós, dos outros mundos, não conseguimos deixar de avaliar as coisas em termos de superfícies bidimensionais, como o senhor observou. Bem, só posso dizer que estou feliz por ter recebido do seu Conselho toda a cooperação para a realização de minha pesquisa.

Blei concordou com um gesto de cabeça, um gesto com veemência um tanto exagerada.

Lamorak franziu de leve a testa e pensou: ele age o tempo inteiro como se minha presença aqui fosse a última coisa que eles desejariam. Alguma coisa está errada.

- Naturalmente - disse Blei - o senhor entende que nosso mundo ainda não tem essas dimensões. Somente uma pequena parte de Elsevere foi escavada e ocupada. Não temos interesse em nos expandir muito rapidamente. Até um certo ponto nossa possibilidade de expansão está limitada pela capacidade de nossos motores de pseudogravidade e pelos conversores de energia solar.

- Entendo. Mas, diga-me uma coisa, Conselheiro Blei... é uma questão de interesse pessoal, não tem relação com meu projeto... seria possível visitar primeiro alguns dos seus pisos dedicados à agricultura e à criação de gado? Tenho uma verdadeira fascinação pela imagem de trigais e boiada no interior de um planetóide.

- Vai achar nosso gado muito pequeno pelos seus padrões, doutor. E não temos muito trigo. Nossas culturas de lêvedo e fermentos são bem mais desenvolvidas. Em todo caso, temos alguns trigais para mostrar-lhe e também um pouco de algodão e tabaco, até mesmo árvores frutíferas.

- Que maravilha. Como o senhor mesmo diz: auto-suficiência. Vocês reciclam tudo, imagino.

Os olhos perspicazes de Lamorak não deixaram de registrar o fato de esta última observação ter tido um certo impacto sobre Blei. Os olhos do elseveriano se estreitaram, escondendo alguma emoção.

- Sim, temos que reciclar - respondeu ele. - Água, ar, alimentos, minerais... tudo que não tem mais serventia deve ser restituído ao seu estado original. Os resíduos são convertidos em matéria-prima. Tudo que precisamos para isto é energia, e é o que não nos falta. Claro que esse processo não tem cem por cento de eficiência; alguma coisa sempre se perde. Importamos uma certa quantidade de água por ano, e se nossa necessidade interna aumentar teremos que importar carvão e oxigênio.

- Quando podemos começar nosso passeio, Conselheiro Blei? O sorriso de Blei perdeu um pouco de sua cordialidade forçada.

- Tão cedo quanto possível, doutor. Há algumas questões de rotina que precisam ser resolvidas.

Lamorak assentiu. Terminado o charuto, esmagou a ponta no cinzeiro.

Questões de rotina? Nos primeiros contatos que tinham mantido por correspondência ele não tinha percebido nenhum sinal daquela hesitação. Os elseverianos tinham demonstrado um evidente orgulho pelo fato de seu planetóide estar merecendo a atenção da Galáxia.

Comentou cuidadosamente:

- Percebo que talvez esteja sendo uma perturbação, numa sociedade tão organizada quanto a sua.

Conforme esperava, Blei pegou a deixa e adotou a explicação insinuada por ele.

- Tem razão, doutor. Sentimo-nos isolados do resto da Galáxia. Temos aqui os nossos próprios costumes. Cada indivíduo em Elsevere está instalado num nicho bastante confortável. A visita de um estrangeiro que não pertence a nenhuma casta específica provoca um certo transtorno.

- Um sistema de castas deve resultar numa certa rigidez...

- Sim - apressou-se Blei em dizer, mas também numa certa segurança. Temos regras muito claras sobre inter-casamentos e sobre hereditariedade profissional. Cada homem, mulher ou criança conhece seu lugar, aceita sua condição e é aceito pelos demais; não temos virtualmente nenhum caso de neurose ou de doença mental.

- E não há desajustados?

A boca de Blei começou a formar um não, mas logo fechou-se bruscamente, cortando a palavra antes de romper o silêncio; sua testa franziu-se mais um pouco. Por fim, ele falou:

- Vou tomar as providências para o nosso passeio, doutor. Enquanto isso, creio que o senhor gostaria de tomar um banho e descansar um pouco.

Ergueram-se e deixaram a sala; Blei, cortesmente, fez um gesto para que o outro seguisse à frente.

Lamorak sentia-se inquieto diante da vaga sensação resultante de seu primeiro diálogo com Blei - a sensação de que havia uma crise qualquer pairando no ar.

O jornal local fortaleceu essa impressão. Ele o leu minuciosamente antes de ir para a cama; a princípio, movido apenas por um mero interesse técnico. Era um tablóide de oito páginas, em papel sintético. Um quarto do total consistia em anúncios pessoais: nascimentos, casamentos, mortes, recordes em cotas de produção, estatísticas sobre a expansão do volume habitável (não em área: em três dimensões). O restante incluía artigos de natureza técnica, material educativo, ficção. Em termos de notícias, no sentido a que Lamorak estava habituado, praticamente nada.

Havia apenas um item que podia ser considerado como tal, mas era algo tão vago que chegava a causar inquietação.

Dizia, abaixo de uma pequena manchete: EXIGÊNCIAS INALTERADAS: Não houve nenhuma mudança em sua atitude de ontem. O Chefe do Conselho, depois de uma segunda entrevista, anunciou que as exigências feitas por ele continuam a ser totalmente inaceitáveis e não podem ser levadas em conta de forma alguma.

Abaixo, entre parênteses e em outro tipo de composição gráfica, outro parágrafo dizendo: Os editores deste jornal acreditam que Elsevere não deve ceder passivamente a tais pressões, aconteça o que acontecer.

Lamorak leu e releu tudo isto três vezes. Sua atitude, as exigências feitas por ele... Quem seria  ele? Naquela primeira noite, teve um sono muito inquieto.

Não teve tempo para ler jornais nos dias seguintes; mas, vez por outra, o assunto retornava à sua lembrança.

Blei, que foi seu guia e cicerone durante toda a visita, mostrava-se cada vez mais reticente.

No terceiro dia (artificialmente estabelecido na base terrestre de 24 horas), Blei parou a certa altura e disse:

- Este piso aqui é destinado apenas às indústrias químicas. Não tem muito interesse. Virou-se para ir embora, mas o fez com uma pressa um tanto excessiva. Lamorak o agarrou pelo braço.

- O que, exatamente, se produz aqui? - perguntou.

- Fertilizantes. Substâncias orgânicas - disse Blei, lacônico. Lamorak continuou a segurá-lo e olhou em redor, à procura do que poderia estar deixando o outro tão inquieto. Seus olhos passaram ao longo do horizonte, uma muralha de rocha cinzenta não muito distante, e dos prédios que se amontoavam entre o solo e o imenso teto.

- Aquilo ali - disse Lamorak. - Não é uma residência particular?

Blei não olhou na direção que ele apontava. Lamorak insistiu.

- Acho que é a maior casa que vi até agora. Por que motivo está localizada aqui, num setor industrial? - O fato era digno de atenção. Ele já tinha percebido que em Elsevere os pisos obedeciam rigidamente à divisão de setores: residencial, industrial e agrícola.

Lamorak virou-se e chamou:

- Conselheiro Blei!

O conselheiro tinha se desvencilhado dele e se encaminhava para a saída. Lamorak o alcançou em passos rápidos.

- Conselheiro... há alguma coisa errada? Blei murmurou:

- Desculpe, acho que fui um pouco rude... Sinto muito. É porque há certas coisas que me preocupam...

- ...com relação às exigências dele - disse Lamorak.

Blei estacou.

- O que sabe a respeito disso?!

- Apenas o que acabei de dizer, o que li no jornal daqui. Blei resmungou em voz baixa uma palavra meio ininteligível.

- Ragusnik? - ecoou Lamorak. - Quem é? Blei soltou um fundo suspiro.

- Acho que Vou ter que contar-lhe. É... é algo embaraçoso, humilhante. O Conselho supôs que esse assunto seria resolvido com certa rapidez e que não iria interferir na sua visita; o senhor não teria que ser informado a respeito ou ter qualquer outro tipo de envolvimento. Mas o caso já vem se arrastando há quase uma semana. Não sei o que pode acontecer, e mesmo que isso possa causar uma impressão desagradável, talvez seja melhor o senhor partir. Não há motivo para um estrangeiro correr risco de vida.

O terrestre deu um sorriso incrédulo.

- Risco de vida? Num mundo pequeno e pacífico como este? Não posso acreditar.

- Posso explicar - tornou o elveseriano. - É, talvez seja melhor. - Voltou a cabeça noutra direção. - Como já lhe disse, tudo aqui em Elsevere é reciclado. Já entendeu isto.

- Claro.

- Isto inclui... bem, dejetos humanos.

- Parece-me lógico - disse Lamorak.

- Retiramos a água contida neles, por destilação e absorção. Os resíduos que sobram são transformados em fertilizantes para as culturas de fermentos; uma outra parte é utilizada como fonte de matéria orgânica e outros subprodutos. As fábricas que o senhor está vendo se destinam a isso.

- E...?

Lamorak tinha experimentado uma certa dificuldade em beber água logo após sua chegada a Elsevere, porque tinha uma visão realista quanto à possível origem daquela água; mas tinha dominado sem demora essa relutância. Mesmo na Terra, a água era extraída, através de processos naturais, de todo tipo de substâncias impuras.

Blei, com esforço cada vez maior, dizia:

- Igor Ragusnik é o homem encarregado dos processos industriais diretamente ligados aos dejetos. Essa função tem sido exercida por sua família desde o início da colonização de Elsevere. Um dos primeiros colonizadores foi Mikhail Ragusnik, e ele... ele...

- Era o encarregado da reciclagem de dejetos.

- Isso. Agora, a residência que o senhor apontou é a residência de Ragusnik; é a melhor e mais bem construída de todo o planetóide. Ragusnik tem uma porção de privilégios a mais do que nós, mas o fato é que nós não podemos falar com ele! - A última frase foi dita num inesperado rompante de emoção.

- Por quê?

- Ele exige direitos civis iguais aos de todo mundo. Quer que suas crianças se misturem às nossas e que nossas esposas visitem... oh! - Soltou um gemido de indisfarçável repulsa.

Lamorak recordou o jornal, que sequer citava Ragusnik pelo nome nem se permitia dizer qualquer coisa específica sobre suas exigências. Comentou:

- Pelo que entendo, ele é uma espécie de proscrito, devido à sua profissão.

- É claro. Dejetos humanos e... - Blei ficou sem voz. Fez uma pausa enquanto se recuperava e disse: - Como terrestre, creio que não compreende isto.

- Como sociólogo, creio que compreendo - retorquiu Lamorak. Pensou nos Intocáveis da antiga índia, encarregados de lidar com cadáveres; pensou no status que os tratadores de porcos tinham na antiga Judéia.

- Pelo que entendi - falou, Elsevere não vai ceder às exigências de Ragusnik.

- Nunca - disse Blei com fervor. - Nunca.

- E...?

- Ragusnik ameaçou cessar suas operações.

- Em outras palavras... entrar em greve.

- Sim.

- Seria algo muito sério?

- Temos comida e água suficientes para nos manter durante algum tempo; nesse sentido, a reciclagem não é essencial. Mas os dejetos se acumulariam; acabariam infectando o planetóide. Depois de gerações e mais gerações submetidas a um cuidadoso controle das doenças, não temos muita resistência natural aos germes. Se uma epidemia tivesse início, o que seria bem provável, morreríamos às centenas.

- Ragusnik sabe disso?

- Claro que sim.

- Acha que ele é capaz de levar essas ameaças até o fim?

- Ele é louco. Inclusive já parou de trabalhar. Não tem havido reciclagem dos dejetos desde o dia em que o senhor desembarcou aqui. - O nariz bulboso de Blei farejou o ar, como se já pudesse sentir o cheiro dos excrementos. Lamorak o imitou maquinalmente, mas nada percebeu. Já percebe - disse Blei - que seria melhor para o senhor partir o quanto antes. Claro que para nós é humilhante ter que fazer uma tal sugestão.

- Calma - disse Lamorak. - Ainda não. Meu Deus do céu, isso é algo que profissionalmente me desperta o maior interesse. Posso falar com Ragusnik?

- De modo algum - disse Blei, alarmado.

- Só quero compreender a situação. As condições sociológicas daqui são únicas e não podem se reproduzir em nenhuma outra parte da Galáxia. Em nome da Ciência...

- O que quer dizer com "falar"? Uma recepção de imagens o deixaria satisfeito?

- Ora, sim.

- Falarei com o Conselho - resmungou Blei.

 

Eles sentavam ao redor de Lamorak num clima de constrangimento. A austeridade de suas expressões cedia lugar à ansiedade. Blei, sentado no meio, evitava cuidadosamente o olhar do terrestre.

O Chefe do Conselho, de cabelos grisalhos, o rosto vincado de rugas, pescoço anguloso, falou com voz suave:

- Se de algum modo conseguir persuadi-lo, senhor, pelo poder de seus próprios argumentos, nós lhe seremos gratos. Em hipótese alguma, no entanto, pode sugerir-lhe que temos o propósito de ceder às suas pressões.

Uma cortina opaca desceu entre o Conselho e Lamorak. Ele ainda podia distinguir os vultos dos conselheiros, mas nesse instante o receptor à sua frente iluminou-se, atraindo sua atenção.

Uma cabeça apareceu, em cores naturais e com grande realismo. Uma cabeça morena, forte, com um queixo poderoso, onde despontava a barba por fazer, e lábios grossos firmemente cerrados.

O homem falou:

- Quem é você?

- Meu nome é Steven Lamorak. Sou terrestre.

- Um estrangeiro?

- Sim. Estou em visita a Elsevere. Você é Ragusnik?

- Igor Ragusnik, ao seu serviço - disse ele, com ironia. - Exceto que não há serviço e não vai haver mais nenhum enquanto minha família e eu não formos tratados como seres humanos.

- Tem noção do perigo que Elsevere está correndo por causa disso? Existe a possibilidade de uma epidemia.

- A situação pode ser normalizada em vinte e quatro horas se me concederem direitos humanos. Cabe a eles tomar a decisão.

- Você fala como um homem educado, Ragusnik.

- E daí?

- Pelo que sei, não lhe falta nenhum conforto material. Você tem direito a moradia, roupas e alimentação melhores do que as de qualquer outro em Elsevere. Suas crianças recebem a melhor educação.

- Certo. Mas tudo através de servo-mecanismos. E também nos mandam meninas órfãs para que as criemos até o dia em que se tornarão as esposas de nossos filhos. E muitas vezes eles morrem ainda jovens, porque não agüentam a solidão. Agora diga-me: por quê? - Havia uma emoção crescente em sua voz. - Por que temos que viver isolados, como se fôssemos monstros, criaturas das quais as pessoas tivessem que manter distância? Será que não somos seres humanos como qualquer outro, com os mesmos desejos, as mesmas   necessidades,   os   mesmos   sentimentos?   O  trabalho   que executamos não é um trabalho honrado, um trabalho útil?

Houve alguns murmúrios contrafeitos por trás de Lamorak; Ragusnik também os ouviu e elevou a voz.

- Estou vendo que o Conselho está aí atrás. Respondam-me: meu trabalho não é útil, não é honrado? São os dejetos de vocês, que eu transformo em comida para vocês. Será que o homem que purifica a sujeira é pior do que o homem que a produz? Prestem atenção, conselheiros: eu não Vou desistir. Podem todas as pessoas de Elsevere morrer de doença, inclusive eu e meu filho; mas não vou desistir. Melhor morrer do que viver como estamos vivendo.

Lamorak o interrompeu:

- Você tem vivido assim desde que nasceu, não é?

- E se for?

- Certamente já está acostumado.

- Nunca. Resignado, talvez. Meu pai se resignou a esta condição e eu fiz o mesmo durante algum tempo, mas agora eu fico olhando meu filho, meu único filho, sem ter nenhum outro garoto com quem brincar. Meu irmão e eu tínhamos um ao outro, mas meu filho nunca terá um companheiro, e eu não posso me conformar com isto. Cansei de Elsevere. E cansei de falar.

A imagem desapareceu do receptor.

O rosto do chefe do Conselho tinha empalidecido e adquirido uma cor amarelada. Ele e Blei foram os únicos do grupo que permaneceram fazendo companhia a Lamorak.

Ele falou:

- O homem está desatinado. Não sei mais o que fazer para tê-lo sob controle.

Tinha um copo de vinho ao lado, e quando o levou aos lábios algumas gotas caíram, manchando suas calças brancas.

- As exigências dele serão tão descabidas assim? - perguntou Lamorak. - Por que ele não pode ser aceito entre a sociedade?

Uma raiva momentânea brilhou nos olhos de Blei.

- Um homem que trabalha com excremento! - Depois ele encolheu os ombros. - Você é da Terra.

Lamorak lembrou-se, de modo incongruente, de outro tipo "inaceitável", um dos numerosos personagens criados pelo cartunista medieval Al Capp: o personagem sem nome definido conhecido como "o homenzinho do trabalho sujo".

Ele disse:

- Ragusnik manuseia, de fato, os excrementos? Quero dizer: há contato físico? Imagino que essas coisas devem ser tratadas através de mecanismos automáticos.

- Claro - disse o chefe do Conselho.

- Então qual é, exatamente, a função de Ragusnik?

- Ele ajusta manualmente os controles que regulam o funcionamento da maquinaria. Ele substitui algumas unidades por outras quando há necessidade de fazer consertos; ele aumenta ou diminui o índice de ocupação das máquinas, conforme a hora do dia; ele organiza as atividades para atender à maior demanda deste ou daquele produto final. - com voz triste, ele acrescentou: - Se tivéssemos uma maquinaria dez vezes mais complexa, tudo isto poderia ser feito automaticamente, mas seria um desperdício desnecessário de dinheiro.

- Mas mesmo assim - insistiu Lamorak, tudo que Ragusnik faz é pressionar botões ou acionar contatos, coisas desse tipo.

- Sim.

- Então o trabalho dele não é diferente do trabalho dos outros elseverianos.

- O senhor não compreende - disse Blei, muito rígido.

- E por causa disto estão dispostos a arriscar a vida de seus filhos?

- Não temos escolha - disse Blei. Havia uma tal agonia em sua voz que ficou evidente, para Lamorak, que aquela situação era para ele uma verdadeira tortura, mas que ele não tinha escolha.

Lamorak encolheu os ombros, contrafeito.

- Então vocês não têm saída. Vão ter que usar a força.

- De que modo? - perguntou o chefe do Conselho. - Quem seria capaz de tocá-lo, ou mesmo de chegar perto dele? E mesmo que conseguíssemos abatê-lo a distância... de que nos adiantaria isso?

Lamorak estava pensativo.

- Vocês sabem manejar essas máquinas?

O chefe do Conselho pôs-se de pé num salto.

- Eu?! - berrou.

- Não quis dizer isso - corrigiu Lamorak imediatamente. - Falei vocês, de um modo geral. Alguém aqui no planetóide sabe manejar as máquinas com que Ragusnik trabalha?

O chefe do Conselho foi se acalmando aos poucos e voltou a sentar.

- Está tudo nos manuais de instruções, com certeza... embora eu possa lhe assegurar de que nunca me dei o trabalho de pensar nisso.

- Então,uma outra pessoa poderia aprender como se faz e substituir Ragusnik até que ele acabasse desistindo.

- Mas quem concordaria em fazer isso? - perguntou Blei. - Eu não o faria em hipótese alguma.

Lamorak voltou a recordar os tabus da Terra que provocavam bloqueios semelhantes. Pensou em canibalismo, em incesto, em homens amaldiçoando Deus. Falou:

- Mas vocês devem estar preparados para o caso de o lugar de Ragusnik ficar desocupado. Suponhamos que ele morra.

- Então seu filho automaticamente o substitui, ou então seu parente mais próximo - disse Blei.

- E se ele não tiver nenhum parente adulto? E se toda sua família morrer ao mesmo tempo?

- Isto nunca aconteceu. Não vai acontecer.

O chefe do Conselho aduziu:

- Se temêssemos essa possibilidade, poderíamos talvez colocar uma ou duas crianças entre os Ragusnik, e elas cresceriam aprendendo a profissão.

- Ah. E como seria escolhida essa criança?

- Entre os filhos de mães que morrem de parto, do mesmo modo como escolhemos a noiva do próximo Ragusnik.

- Então escolham um substituto para Ragusnik agora - disse Lamorak.

- Não! - exclamou o chefe do Conselho. - Impossível! Como pode sugerir isto? Quando escolhemos uma criança, a criança é educada para esse tipo de vida, não conhecerá outro. Mas para fazer a substituição de Ragusnik hoje, teríamos que usar um adulto e submetê-lo a., a... a ser um "ragusnik". Não Dr. Lamorak, nós não somos monstros, não cometeríamos tamanha desumanidade.

Não há solução, pensou Lamorak, desamparado. Nenhuma solução - a menos que...

Ele não conseguia reunir coragem suficiente para enfrentar o que vinha depois desse a menos que...

Lamorak mal conseguiu dormir naquela noite. Tudo que Ragusnik exigia era ter direito a alguns princípios humanitários essenciais. Do lado oposto, trinta mil elseverianos corriam perigo de vida.

O dilema era entre o bem-estar de trinta mil pessoas, e a justa reivindicação de uma família. Seria possível dizer que as trinta mil pessoas que avalizavam tamanha injustiça mereciam a morte? E injustiça por quais padrões? Os da Terra? Os de Elsevere? E quem era Lamorak para julgar os padrões de uma sociedade diferente da sua?

E Ragusnik? Estava disposto a deixar trinta mil pessoas morrerem, incluindo homens e mulheres que não faziam mais do que aceitar uma situação que lhes tinham ensinado a considerar como certa e que não poderiam alterar, mesmo que quisessem. Sem falar nas crianças, que não tinham nada com toda essa confusão. Trinta mil de um lado, uma família do outro.

Lamorak tomou sua decisão num estado emocional que já era de quase desespero. Pela manhã chamou o chefe do Conselho.

- Senhor - disse, se puderem encontrar um substituto, Ragusnik se verá sem chances de forçar uma decisão a seu favor e acabará retornando ao trabalho.

- Não pode haver um substituto - suspirou o chefe do Conselho. - Já expliquei isso.

- Não pode haver entre os elseverianos, mas sou um terrestre, e isso para mim não faz a menor diferença. Eu substituirei Ragusnik.

Eles ficaram excitados com a notícia, muito mais do que o próprio Lamorak. Uma dúzia de vezes perguntaram-lhe se estava mesmo falando a sério.

Lamorak estava cansado e tinha a barba por fazer. Uma dúzia de vezes respondeu:

- Claro que estou falando a sério. E todas as vezes que Ragusnik fizer uma greve, vocês podem ter aqui um substituto de outro planeta. Esse tipo de tabu não existe em nenhum outro mundo. Se vocês pagarem um bom salário ao substituto nunca mais vão ter problemas. (Ele sabia que estava cometendo uma traição contra um homem brutalmente explorado. Mas ficou o tempo inteiro repetindo para si mesmo: Exceto pelo ostracismo, ele é bem tratado. Muito bem tratado.)

Deram-lhe os manuais de instruções, que ele ficou lendo e relendo durante cerca de seis horas. Fazer perguntas não adiantava. Nenhum dos elseverianos sabia coisa alguma a respeito daquele trabalho, a não ser o que constava do manual, e todos ficavam pouco à vontade quando Lamorak começava a fazer perguntas mais específicas.

- Manter leitura zero no galvanômetro A-2 durante todo o tempo em que houver sinal vermelho no uivador Lunge - leu Lamorak. - Muito bem, mas o que é um uivador Lunge?

- Deve haver uma placa - murmurou Blei.

Os elseverianos se entreolharam com uma expressão de desamparo e baixaram os olhos, examinando distraidamente as unhas.

Eles o deixaram sozinho muito antes que Lamorak alcançasse os cubículos que eram o quartel-general de gerações inteiras de Ragusniks, o lugar onde trabalhavam pelo seu mundo. Tinha recebido instruções específicas sobre o trajeto - onde subir, em que direção virar - mas a partir daquele ponto teve que prosseguir sozinho.

Foi de sala em sala, pacientemente, identificando instrumentos e controles, comparando-os com os diagramas do manual.

Aí está o uivador Lunge, pensou, com melancólica satisfação. A placa não permitia dúvidas. Era uma placa semicircular, com uma série de orifícios através dos quais brilhavam lâmpadas de diversas cores. Sim, mas então por que uivador lunge? Não sabia.

Em algum lugar, pensou Lamorak, as fezes estão se acumulando, forçando de encontro a engrenagens e tubulações, condutos e destilarias, esperando para serem transformadas de cem maneiras diferentes. Mas, por enquanto, estão só se acumulando.

Não sem um certo receio ele apertou o primeiro botão indicado no manual no capítulo "Início das Operações". Um delicado murmúrio de vida começou a se fazer sentir ao longo dos pisos e das paredes. Lamorak girou um comutador e todas as luzes se acenderam.

A cada etapa ele consultava o manual, apesar de já conhecê-lo de cor; a cada etapa cumprida mais e mais salas se iluminavam, mais agulhas de mostradores pareciam despertar, e mais alto soava o zumbido das máquinas.

Em algum lugar, nas profundezas, toneladas de excrementos começavam a se mover devagar, nas direções corretas.

Um sinal agudo se fez ouvir, arrancando Lamorak de sua intensa concentração. Era o sinal de intercomunicação. Ele apertou o botão do receptor.

Surgiu o rosto de Ragusnik, perplexo. Pouco a pouco, a incredulidade e o choque foram se esvaindo de seus olhos.

- Então é isto - disse ele.

- Eu não sou elseveriano, Ragusnik. Eu não me importo de fazer isto.

- Mas qual é seu interesse nisto? Por que se mete?

- Estou do seu lado, Ragusnik, mas alguém precisa fazer isto.

- Por que o faz, se está do meu lado? No seu mundo é costume tratar as pessoas do jeito que me tratam aqui?

- Não é mais. Mas mesmo que você tenha razão, há trinta mil pessoas aqui em Elsevere que precisam ser levadas em conta.

- Eles teriam cedido. Você estragou minha única chance.

- Eles não cederiam. E de certa forma você saiu ganhando; eles agora sabem que você está descontente. Até hoje eles jamais tinham imaginado que um Ragusnik podia estar se sentindo infeliz ou que um Ragusnik poderia prejudicá-los.

- De que me adianta? Eles agora podem mandar chamar estrangeiros para fazer meu trabalho.

Lamorak abanou a cabeça numa veemente negativa. Durante as últimas horas era justamente nesse aspecto que tinha pensado.

- Os elseverianos sabem agora que você não está satisfeito, isso fará com que comecem a pensar se você não estará com a razão, em última análise. E se eles trouxerem estrangeiros para trabalhar aqui, esses estrangeiros acabarão espalhando pela Galáxia informações sobre o que acontece em Elsevere, e a opinião pública da Galáxia certamente ficará do seu lado.

- E...?

- As coisas começarão a melhorar. Quando seu filho chegar à idade adulta, encontrará uma situação bem melhor.

- Quando meu filho for adulto - disse Ragusnik, e os músculos do seu rosto adquiriram uma expressão de fadiga. - Eu poderia ter conseguido isso agora, mas perdi. Está bem. Vou voltar ao trabalho.

Lamorak sentiu um alívio imenso.

- Se quiser vir até aqui, senhor, pode assumir novamente seu posto, eu considerarei uma honra apertar sua mão.

A cabeça de Ragusnik endireitou-se de repente. Um orgulho melancólico brilhou em seu olhar.

- Você me chama de "senhor" e pede para apertar minha mão? Vá cuidar da sua vida, terrestre, e deixe-me trabalhar, porque eu não apertarei a sua.

Lamorak retornou pelo mesmo caminho, aliviado pelo desfecho do caso e ao mesmo tempo extremamente deprimido.

Parou, surpreso, quando viu que o corredor, a uma certa altura, estava bloqueado por um cordão de isolamento. Era impossível passar. Olhou para um lado e para outro, à procura de outro caminho, mas nesse instante uma voz trovejou acima de sua cabeça.

- Dr. Lamorak, pode me ouvir? Aqui é o Conselheiro Blei. Lamorak ergueu os olhos. A voz saía de uma espécie de altofalante, mas ele não viu nenhum sinal de microfone.

Gritou:

- Alguma coisa errada? Blei, pode me ouvir?

- Posso ouvi-lo.

Instintivamente, Lamorak continuou a gritar:

- Há alguma coisa errada? Parece que o corredor está interditado. Ragusnik criou outro problema?

- Ragusník voltou ao trabalho - disse a voz de Blei. - A crise está superada, e o senhor deve se preparar para ir embora.

- Ir embora?

- Ir embora de Elsevere. Uma nave está sendo preparada para levá-lo.

- Mas espere aí. - Lamorak estava confuso com essa súbita reviravolta. - Eu ainda não completei minha pesquisa.

- Quanto a isso nada podemos fazer - tornou a voz de Blei. - O senhor será guiado até a nave e seu material será conduzido até lá por meio de servo-mecanismos. Nós pedimos... pedimos que...

Alguma coisa começava a ficar clara para Lamorak.

- O que que vocês pedem?

- Pedimos que não faça nenhuma tentativa de avistar ou dirigir a palavra a qualquer elseveriano. E esperamos que, para evitar constrangimentos, não tente retornar a Elsevere em qualquer época futura. Se necessitarem de mais informações ou de realizar mais pesquisas a nosso respeito, qualquer colega seu será bem-vindo.

- Entendo - disse Lamorak com voz monocórdia. Entendeu que tinha se tornado, ele próprio, um Ragusnik. Tinha manejado os controles que lidavam com os excrementos; tinha caído no ostracismo. Era um manuseador de cadáveres, um guardador de porcos. Um homenzinho que executava trabalhos sujos.

- Adeus - disse ele.

A voz de Blei respondeu:

- Antes de explicar-lhe o trajeto que deve seguir, Dr. Lamorak, permita-me dizer-lhe... em nome do Conselho de Elsevere... que nós lhe agradecemos muito pela ajuda que nos prestou durante esta crise.

- Eu que agradeço - retrucou Lamorak, amargamente.

 

A MÁQUINA QUE GANHOU A GUERRA

As comemorações ainda deviam se prolongar bastante, e mesmo nas silenciosas profundezas das câmaras subterrâneas do Multivac havia algo de diferente no ar.

Em primeiro lugar, havia o simples fato do silêncio e do isolamento. Pela primeira vez nos últimos dez anos, não havia técnicos correndo pelos passadiços do imenso computador, as luzes não estavam piscando nos seus costumeiros padrões erráticos, o fluxo de entrada e saída de informações tinha sido interrompido.

Não por muito tempo, é claro, porque a implantação da paz iria impor suas próprias exigências. Mas naquele instante, por um só dia, talvez por uma semana, mesmo o Multivac tinha o direito de comemorar a grande data e repousar.

Lamar Swift tirou o quepe militar que usava e fitou o longo corredor central do computador gigante, que se estendia vazio à sua frente. Estava sentado numa das cadeiras giratórias usadas pelos técnicos, e seu uniforme, dentro do qual ele nunca chegara a se sentir confortável, tinha uma aparência gasta e amarrotada.

- Acho que vou sentir falta disso, por mais horrível que possa parecer - disse ele. - É difícil lembrar de um tempo em que não estivéssemos em guerra com Deneb; agora parece antinatural saber que estamos em paz e podemos olhar sem medo para as estrelas.

Os dois homens da Diretoria Executiva da Federação Solar eram ambos mais jovens do que Swift. Nenhum deles tinha tantos cabelos brancos. Nenhum tinha uma expressão tão cansada.

John Henderson, lábios finos, mal conseguindo controlar o alívio que sentia em meio à sensação de vitória, exclamou:

- Foram destruídos! Totalmente destruídos! Fico repetindo isso o tempo todo e ainda não consigo acreditar. Passamos todos estes anos falando da ameaça que pairava sobre nós, sobre os demais planetas, sobre cada ser humano, e era verdade, cada palavra do que dizíamos era verdade. Agora estamos vivos... os denebianos é que foram dizimados, destruídos! Nunca mais nos atacarão de novo.

- Graças ao Multivac - disse Swift, lançando um olhar de esguelha ao imperturbável Jablonsky, que durante toda a guerra tinha sido o Intérprete-Chefe do "oráculo" dos cientistas. - Certo, Max?

Jablonsky encolheu os ombros. Maquinalmente procurou um cigarro no bolso, mas acabou mudando de idéia. Ele era o único entre os milhares de técnicos que trabalhavam nos túneis interiores do Multivac que tinha autorização para fumar; mas nos estágios finais da guerra ele tinha feito um esforço heróico para abrir mão desse privilégio.

- Bom - disse ele, pelo menos é o que eles dizem. - Seu enorme polegar apontou para o alto, por sobre o ombro direito.

- Ciumento, Max?

- Porque estão brindando ao Multivac? Porque o Multivac foi o grande herói da humanidade nesta guerra? - O rosto áspero de Jablonsky assumiu um ar desdenhoso.

- O que tenho eu a ver com isso? Deixe que o Multivac seja a máquina que ganhou a guerra, se isso agrada a eles.

Henderson olhou de esguelha para os dois homens. Naquele breve interlúdio em que os três tinham instintivamente se abrigado no único lugar tranqüilo de uma metrópole entregue ao delírio da comemoração; naquele compasso de espera entre os perigos da guerra e as dificuldades da paz; naquele instante em que todos eles podiam respirar aliviados, ele estava consciente apenas do fardo da culpa que carregava.

De súbito, foi como se aquele peso se tornasse grande demais para ser levado por ele sozinho. Tinha que ser retirado de seus ombros. Juntamente com a guerra. Agora!

- O Multivac não tem nada a ver com esta vitória - disse ele. - É apenas uma máquina.

- Uma grande máquina - disse Swift.

- Tudo bem, uma grande máquina. Não é melhor do que os dados com que é alimentada. - Parou por um momento, nervoso diante do que iria dizer em seguida.

Jablonsky o fitou em silêncio, com os dedos procurando novamente um cigarro e novamente mudando de idéia. Falou, por fim:

- Bom, você é quem sabe. Você lhe fornecia os dados. Ou está querendo receber os elogios por tudo?

- Nada de elogios - disse Henderson, zangado. - O que sabem vocês dos dados utilizados pelo Multivac, pré-processados por centenas de computadores subsidiários aqui na Terra, na Lua, em Marte, até mesmo em Titã? Com os dados de Titã sempre chegando atrasados e nos deixando sempre naquela expectativa de que quando chegassem iriam introduzir alguma variável inesperada...

- É, era uma loucura - disse Swift, com simpatia. Henderson abanou a cabeça negativamente.

- Não se trata só disso. Reconheço que quando eu substituí Lepont como Programador-Chefe, há oito anos, eu estava nervoso. Mas o clima daquela época era diferente.

A guerra ainda estava sendo travada num front remoto, era uma espécie de aventura sem nenhum perigo real. Ainda não tínhamos atingido o ponto em que foi necessário utilizar naves tripuladas, ou quando armas interestelares podiam deformar o espaço e engolir um planeta inteiro, se manipuladas corretamente. Mas aí, quando as verdadeiras dificuldades tiveram início... - Sua voz permitiu-se enfim exprimir toda a raiva que sentia. - Mas vocês não sabem nada sobre isso!

- Muito bem - disse Swift. - Que tal se você nos contasse? A guerra acabou. Ganhamos.

- É mesmo - disse Henderson, assentindo com um gesto de cabeça. Tinha que ter aquilo em mente. Tinham ganhado a guerra. Tinha dado tudo certo, afinal. - Bem... acontece que a partir de uma certa época os dados já não faziam mais sentido.

- Não faziam sentido? Está dizendo isso literalmente? - perguntou Jablonsky.

- Literalmente. O que queriam vocês? O problema com vocês dois é que nunca tomaram parte, para valer, nos acontecimentos. Você, Max, nunca saía do Multivac; e quanto ao senhor, diretor, nunca deixava a Mansão, exceto em missões oficiais onde via apenas o que os outros queriam lhe mostrar.

- Eu tinha consciência disso - disse Swift, como você mesmo, aliás, deve ter percebido.

- Muito bem - prosseguiu Henderson. - Sabem até que ponto nossos dados referentes a capacidade produtiva, potencial de recursos, pessoal qualificado... tudo que era de importância vital para a guerra, na verdade... sabem até que ponto esses dados se tornaram inúteis, não-confiáveis, durante a segunda metade da guerra? Líderes civis e militares tentavam melhorar a própria imagem, omitindo os fatos negativos e exagerando os positivos. Não importa o que os computadores fazem: os homens que os programam e que interpretam seus resultados estavam pensando em salvar a própria pele e em apresentar resultados melhores do que os de seus concorrentes. Era impossível modificar isso. Eu tentei e falhei.

- Claro - disse Swift, tentando consolá-lo. - Não é de admirar que não tenha conseguido.

Desta vez Jablonsky tomou a decisão de acender o cigarro.

- E no entanto - falou, isso não impediu que você continuasse supervisionando a alimentação de dados para o Multivac. Você nunca nos disse nada sobre dados não-confiáveis.

- E como poderia dizer? Se eu dissesse, alguém iria acreditar em mim? - retorquiu Henderson com irritação. - Todo o nosso esforço de guerra tinha que passar através do Multivac. Era a única arma que poderia desequilibrar a guerra em nosso favor, já que os denebianos não tinham nada semelhante. Nos momentos de maior perigo, o que mantinha alto o nosso moral era a certeza de que o Multivac sempre conseguiria prever e anular qualquer movimento denebiano e ao mesmo tempo evitar que eles previssem e anulassem os nossos movimentos. Pelo Espaço! Depois que o nosso sistema de Hiperespionagem foi reduzido a poeira cósmica, ficamos totalmente sem dados sobre Deneb para fornecer ao Multivac... e nunca nos atrevemos a anunciar isso em público.

- Isso é verdade - concordou Swift.

- Muito bem - prosseguiu Henderson. - Se eu dissesse a vocês que aqueles dados não mereciam confiança, que outra coisa vocês poderiam fazer a não ser recusar-se a acreditar em mim e me substituir por outro? Eu não podia correr esse risco.

- E o que fez, então? - perguntou Jablonsky.

- Bom... já que ganhamos a guerra, acho que agora posso contar tudo. Eu alterava os dados.

- Como? - perguntou Swift.

- Intuição, talvez. Ficava mexendo neles até que me parecessem corretos. No começo eu mal me atrevia. Mudava um detalhe aqui, outro acolá, apenas para corrigir o que eram impossibilidades óbvias. Quando o céu não desabou sobre minha cabeça, fui ficando mais corajoso. Já agora no final eu nem tomava muitas precauções. Apenas me sentava e preparava os dados que me eram solicitados. Consegui inclusive que o Anexo do Multivac preparasse dados para mim, de acordo com um programa que criei especialmente para isso.

- Cifras aleatórias? - perguntou Jablonsky.

- Não propriamente. Eu introduzi um grande número de parâmetros indispensáveis.

Jablonsky deu um sorriso um tanto inesperado. Os olhos negros brilhavam por sob as pesadas pálpebras.

- Por três vezes me chegaram relatórios falando de utilização não-autorizada do Anexo - disse ele. - Sempre arquivei as denúncias. Se fosse algo importante, John, eu teria seguido até lá e desmascararia o que estava fazendo. Mas é claro que àquela altura o Multivac não estava mais realizando nada de importante, por isso deixei-o prosseguir.

- O que quer dizer com isso, "nada de importante"? - perguntou Henderson, desconfiado.

- A verdade. Se eu tivesse lhe contado tudo então, teria evitado muitas dores de cabeça para você. Mas se você tivesse aberto o jogo comigo também teria evitado as minhas. Quem lhe disse que o Multivac estava funcionando direito, independentemente dos dados que recebia?

- Não estava? - perguntou Swift.

- Na verdade, não. Não merecia confiança. Veja bem: onde estavam meus técnicos durante os últimos anos da guerra? Vou lhe dizer: estavam operando computadores em mais de mil instalações especiais diferentes. Todos lá! Eu tive que tocar meu trabalho com a ajuda de garotos inexperientes e de veteranos com formação defasada.

Além do mais, acha que eu podia ter confiança nos componentes de estado sólido que recebia da Criogenia nos últimos anos? Em matéria de pessoal qualificado, a Criogenia estava tão despreparada quanto o meu setor. Para mim, era indiferente se os dados colocados no Multivac eram confiáveis ou não. Os resultados não seriam, em qualquer hipótese. Disso eu tinha certeza.

- E o que você fez? - perguntou Henderson.

- O mesmo que você: introduzi o fator subjetivo. Modifiquei os resultados de acordo com a minha intuição... e foi assim que a máquina ganhou a guerra.

Swift se recostou para trás na cadeira e esticou as pernas para a frente, exclamando:

- Mas quantas revelações! Quer dizer então que os relatórios que chegavam às minhas mãos, o material em que eu me baseava para tomar decisões... eram uma interpretação feita por um só indivíduo, a partir de dados inventados por um outro indivíduo. Era isso?

- Tudo indica que era - disse Jablonsky.

- Então eu estava certo em não dar muita importância a esses relatórios.

- Não dar? - A despeito da confissão que tinha acabado de fazer, Jablonsky ainda conseguiu compor um ar de orgulho profissional ferido.

- Infelizmente. O Multivac parecia estar dizendo: ataque aqui, não ali; faça isto, não aquilo; espere, não aja. Mas eu nunca podia ter certeza de que o Multivac dizia de fato o que parecia estar dizendo; ou melhor, se ele sabia o que estava dizendo. Eu não podia estar seguro.

- Mas os relatórios finais eram sempre muito claros, senhor - disse Jablonsky.

- Talvez... para quem não tinha que tomar a decisão final. Eu tinha. Esse tipo de responsabilidade acarreta um peso horrível, e nem mesmo o Multivac era suficiente para remover esse peso. Mas o detalhe importante é: eu estava certo em duvidar, o que me dá agora um tremendo alívio.

Envolvido por aquela atmosfera cúmplice, cheia de confissões, Jablonsky abandonou as formalidades:

- Mas então, o que foi que você fez, Lamar? Porque o fato é que você tomava as decisões. De que modo?

- Bem, acho que preciso ir andando, mas... é, acho que posso dizer-lhes. Por que não, afinal? O fato, Max, é que lancei mão de um computador, mas um muito mais antigo do que o Multivac. Muito mais antigo, mesmo.

Ele enfiou a mão no bolso e extraiu dali um maço de cigarros juntamente com um punhado de pequenas moedas - dinheiro antigo, da época anterior ao racionamento de metal que transformara o dinheiro num simples serviço de crédito, ligado a um sistema computadorizado.

Swift deu um sorriso encabulado.

- Gosto de andar com isto... faz com que o dinheiro continue parecendo algo substancial. Um homem da minha idade tem dificuldade em abandonar os hábitos da juventude. Com um cigarro no canto da boca, ele foi recolocando as moedas no bolso, de uma em uma. Não guardou a última: segurou-a na ponta dos dedos e ficou fitando-a com olhar absorto.

- O Multivac não é o primeiro computador, camaradas, nem é o mais conhecido, nem o que pode retirar mais eficientemente o peso da responsabilidade de sobre os ombros de um executivo. A guerra ganha por uma máquina, John, e por um sistema de computação na realidade muito simples, um que eu usei cada vez que tinha que tomar uma decisão particularmente difícil.

Com um sorriso vagamente nostálgico, ele atirou a moeda para o alto com a unha do polegar; ela rebrilhou no ar enquanto girava e voltou a cair sobre a palma da mão de Swift. Seus dedos se fecharam sobre ela e num gesto hábil ele a pousou sobre as costas da mão esquerda; ainda mantendo a mão direita na mesma posição, ocultando a moeda, ele perguntou:

- E então, cavalheiros... cara ou coroa?

 

O QUE OS OLHOS VÊEM

Depois de centenas de bilhões de anos, ele de súbito pensou em si mesmo como Ames. Não a combinação de comprimentos de ondas que era agora, através de todo o Universo, o equivalente de Ames, mas o som, o som daquele nome. Ele experimentou o ressurgir de uma memória muito tênue - a memória daquelas vibrações sonoras que ele já não captava e que nunca mais poderia captar.

Aquele novo projeto estava tornando sua memória mais sensível a tantas coisas antigas, coisas remotas, de muitos éons atrás. Ele comprimiu o vórtice de energia que constituía sua individualidade e suas linhas de força tornaram-se mais intensas, para além das estrelas.

Daí a pouco, captou o sinal de Brock, em resposta.

Claro que podia contar aquilo a Brock, pensou Ames. Claro que poderia contar a alguém.

O cambiante padrão energético de Brock alinhou-se ao seu.

- Não vem conosco, Ames?

- Claro.

- Vai tomar parte no concurso?

- Sim! - As linhas de força de Ames pulsaram de modo errático. - com certeza. Estive pensando numa nova forma de arte. Algo... fora do comum.

- Um desperdício de esforço. Você acha que se pode pensar numa nova variação, depois de duzentos bilhões de anos? Não pode haver nada novo.

Por um instante Brock mudou de fase e saiu de alinhamento, de modo que Ames teve que ajustar às pressas suas linhas de força. Ele captou o perpassar de outros pensamentos enquanto o fazia - a visão da poeira nebulosa das galáxias de encontro ao veludo negro do Nada e as linhas de força que pulsavam em infinitas formas de vida energética, no espaço entre as galáxias.

Ames disse:

- Por favor, Brock, absorva meus pensamentos. Não se isole. Estou pensando em... em manipular a Matéria. Imagine! Uma sinfonia de Matéria. Por que se preocupar com a Energia? Claro que não há nada de novo na Energia. Como poderia haver? E isso não significa que devemos nos voltar para a Matéria?

- Matéria!...

Ames interpretou as vibrações energéticas de Brock como de repulsa. Respondeu:

- Por que não? Já fomos Matéria certa vez, há... há... oh, não sei, talvez um trilhão de anos! Por que não construir objetos com alguma substância material, ou formas abstratas, ou... ouça bem, Brock... por que não construir uma réplica de nós mesmos feita de Matéria, do jeito que fomos um dia?

- Não me lembro disso - respondeu Brock. - Ninguém se lembra.

- Eu lembro - tornou Ames, com energia. - Tenho pensado nisso o tempo inteiro e estou começando a lembrar. Brock, deixe-me mostrar-lhe. Diga-me se estou certo ou

não. Por favor.

- Não. Isto é uma bobagem. É... repugnante.

- Deixe-me tentar, Brock. Nós somos amigos. Temos pulsado juntos nossas energias desde o início, desde o momento em que nos tornamos o que somos agora. Brock, por favor!

- Está bem. Mas rápido.

Ames não tinha experimentado um tal tremor em suas linhas de força desde... desde quanto tempo? Se ele tentasse agora diante de Brock e tudo desse certo, ele teria coragem para manipular a Matéria diante de uma platéia de Seres-energia que esperavam há éons pelo surgimento de alguma novidade.

A Matéria era extremamente rarefeita naquele espaço entre as galáxias, mas Ames a reuniu pacientemente, recolhendo cada fragmento esparso entre tantos anos-luz cúbicos, escolhendo os átomos, moldando aquilo até dar-lhe uma consistência quase de argila e compor uma forma ovóide, ligeiramente mais larga na parte de baixo.

- Não se lembra, Brock? - perguntou ele com suavidade. - Não era algo parecido com isto?

O vórtice de Brock estremeceu em fase.

- Não me faça lembrar! Eu não me lembro!

- Isto era a cabeça. Chamavam assim... cabeça. Eu me lembro tão bem, tão bem... tenho vontade de dizê-lo. De dizê-lo em sons. - Ele esperou um pouco, depois falou:

- Veja. Lembra-se disso?

Na parte superior do ovóide apareceu: CABEÇA.

- O que é? - perguntou Brock.

- A palavra que indica cabeça. Os símbolos que correspondem aos sons. Não me diga que não lembra, Brock.

- Havia algo... - disse Brock, hesitante. - Algo no meio... - Uma saliência vertical começou a se formar.

Ames exclamou:

- Isso! Nariz, é como se chamava! - Sobre a saliência apareceu NARIZ. - E isto dos dois lados são olhos. - Apareceram OLHO ESQUERDO - OLHO DIREITO.

Ames considerou com atenção o que tinha acabado de formar e suas linhas de força pulsaram pausadamente. Aquilo lhe agradava, de fato?

- Boca - disse ele, sendo percorrido por leves estremecimentos. - E queixo, e pomo-de-adão, e clavículas. É incrível... como essas palavras retornam. - As palavras apareceram sobre a forma.

Brock disse:

- Eu não penso nisso há centenas de bilhões de anos. Por que você tinha que me lembrar? Por quê?

Ames estava imerso em seus pensamentos.

- Existe algo mais... - disse. - Órgãos para escutar. Alguma coisa que captava as ondas sonoras... Ouvidos! Mas, onde é que ficavam? Não consigo lembrar, não sei onde colocá-los...

Brock gritou de súbito:

- Deixe isso! Ouvidos, ou o que quer que seja! Não lembre! Ames perguntou, hesitante:

- Mas... o que há de mal em lembrar?

- Porque a superfície não era assim, áspera e fria, do jeito que está aí! Era macia e quente! Porque os olhos eram vivos e cheios de ternura, e os lábios da boca estavam trêmulos, e eram muito suaves... de encontro aos meus. - As linhas de força de Brock estavam vibrando e sacudindo-se de um lado para outro.

- Sinto muito! - disse Ames. - Sinto muito.

- Você me fez lembrar que um dia fui uma mulher e conheci o amor, que os olhos não servem apenas para ver e que eu não tenho mais olhos para fazer... o que eu queria fazer agora. - Num impulso repentino, ela agregou mais matéria aos olhos daquela forma tosca de cabeça e disse: - Eles podem fazer isto agora. - Mudou de direção e partiu.

Ames olhou aqui e lembrou que ele, um dia, tinha sido um homem. A força do seu vórtice fendeu em duas metades aquela cabeça e ele partiu por entre as galáxias seguindo o rastro energético deixado por Brock, rumo à fatalidade sem fim das formas vivas.

Os olhos da cabeça despedaçada da Matéria ainda brilhavam com a umidade ali depositada por Brock em forma de lágrimas. A cabeça da Matéria fez então o que os Seres-energia não podiam mais fazer e chorou por toda a humanidade e pela frágil beleza dos corpos que eles tinham descartado um dia, um trilhão de anos atrás.

 

O ESTILO MARCIANO

Parado no umbral do pequeno corredor que ligava os dois únicos quartos da parte tripulada da espaçonave, Mario Esteban Rioz observou, mal-humorado, os esforços de Ted Long para sintonizar o receptor de vídeo. Long girava o botão para a direita, depois para a esquerda, mas a imagem permanecia péssima.

Rioz sabia que ela continuaria assim. Estavam longe demais da Terra, numa posição desfavorável em relação ao Sol. Mas Long certamente não devia saber disso. Rioz permaneceu no umbral por mais alguns instantes, curvando a cabeça e pondo o corpo meio de lado para se acomodar à estreita passagem. De repente, ele saltou para dentro do aposento, como uma rolha de champanhe arremessada para longe da garrafa.

- Está procurando o quê? - perguntou.

- Hilder - disse Long.

Rioz apoiou o quadril na quina da mesa e apanhou da prateleira logo acima de sua cabeça uma lata de leite em forma de cone. A extremidade da lata saltou a uma leve pressão e ele a ficou agitando em leves movimentos circulares enquanto esperava o líquido esquentar.

- Para quê? - perguntou, e começou a beber, fazendo barulho com a boca.

- Estava a fim de escutar um pouco.

- É um desperdício de energia. Long o fitou, franzindo a testa.

- O uso de aparelhos de vídeo pessoais é permitido - disse.

- Quando há razão - retrucou Rioz.

Os dois se fitaram desafiadoramente. Rioz tinha o corpo magro e o rosto macilento e pálido que eram quase a marca registrada dos Caçadores Marcianos, aqueles astronautas cujas naves rondavam pacientemente as rotas espaciais entre a Terra e Marte. Os olhos, de um azul pálido, estavam fundamente encravados num rosto moreno e de linhas cortantes, contrastando com o forro branco de pele sintética que recobria a parte interior do capuz de seu traje espacial.

Long era ao mesmo tempo mais pálido e de compleição mais delicada. Tinha alguns sinais inconfundíveis de ser um terrestre, embora nenhum marciano de segunda geração pudesse ser considerado um terrestre no mesmo sentido em que um terrestre o era. Seu capuz estava jogado para trás, deixando à mostra o cabelo castanho escuro.

- O que você quer dizer com "quando há razão"? - perguntou ele.

Rioz apertou os lábios.

- Se levarmos em conta que esta viagem não vai dar sequer para pagar as despesas, como tudo leva a crer, não há razão para gastar energia em excesso.

- Já que estamos perdendo dinheiro, não seria melhor você voltar para seu lugar? O turno de vigia é seu.

Rioz soltou um grunhido e correu os dedos sobre a barba por fazer. Ergueu-se e caminhou para a porta, as botas pisando no chão com um som abafado. Parou para olhar o termostato e voltou-se para o outro, furioso.

- Bem que eu achei que isto aqui estava quente. Onde é que você pensa que está?

- Quarenta graus não é muito - disse Long.

- Para você talvez não. Mas isto aqui é o espaço, não um escritório aquecido nas minas de ferro. - Rioz abaixou o controle do termostato até o mínimo, num gesto rápido. - O calor do Sol é o bastante.

- O Sol não está batendo deste lado - disse Long.

- Ora, que diabo - disse Rioz. - Mesmo assim o calor passa.

Rioz saiu porta afora e Long o acompanhou com os olhos por um longo tempo, após o que voltou a se concentrar no vídeo. Não mexeu no termostato.

A imagem ainda estava péssima, mas teria que ser daquele jeito. Long desdobrou da parede uma pequena cadeira e sentou em frente ao vídeo enquanto contemplava as primeiras frases de apresentação, a rápida dissolução da imagem, e a minúscula figura iluminada por um spot, que foi se aproximando até encher a tela inteira com seu inconfundível rosto barbudo.

A voz, impressionante mesmo apesar dos chuviscos e ruídos provocados por tempestades de elétrons ao longo de vinte milhões de milhas, começou:

- Meus amigos e meus concidadãos da Terra...

O olho de Rioz captou o piscar do sinal de rádio no instante em que entrou na sala de pilotagem. Por um instante as palmas de suas mãos se umedeceram, quando pensou ter visto o alarme de radar; mas era apenas um reflexo de sua sensação de culpa. Ele não devia ter abandonado a torre de comando no meio de um turno, embora todos os Caçadores o fizessem. Era o pesadelo típico de um Caçador: o radar assinalando uma presença justo no instante em que o piloto saía para tomar um café, visto que não parecia haver nada nas redondezas. E esse pesadelo acontecia de vez em quando.

Rioz ligou o varredor múltiplo. Um gasto enorme de energia, mas já que ele tinha saído durante algum tempo, não custava nada verificar.

O espaço em redor estava tranqüilo, exceto pelos ecos distantes produzidos pelas naves que percorriam as rotas vizinhas.

Ligou o rádio. A tela foi preenchida pelo rosto louro e pelo enorme nariz de Richard Swenson, co-piloto da nave mais próxima entre a de Rioz e Marte.

- Oi, Mario - disse Swenson.

- Oi. Novidades?

Houve quase dois segundos de intervalo entre sua frase e a resposta  de   Swenson,   uma  vez  que  a  velocidade  da  radiação eletromagnética não é infinita.

- Tive um dia daqueles - disse ele.

- Aconteceu alguma coisa?

- Apareceu uma cápsula.

- Bom.

- Teria sido, se eu tivesse conseguido pegá-la.

- E o que houve?

- Fiz uma besteira. Parti na direção errada.

Rioz era esperto o bastante para não dar uma gargalhada. Perguntou, apenas:

- Como foi isso?

- A culpa não foi minha. O problema é que a cápsula estava se movendo para fora da eclíptica. É preciso ser um piloto muito estúpido para não ter feito direito a manobra de desengate, mas como eu podia adivinhar? Calculei a distância da cápsula e não me preocupei em conferir. Presumi que sua órbita estivesse na trajetória habitual. Qualquer um teria feito o mesmo. Tracei para mim o que me pareceu uma boa linha de intersecção, e só depois de uns cinco minutos é que percebi que a distância estava aumentando. Os alarmes começaram a soar. Tirei uma projeção angular da coisa, aí já era tarde demais para alcançá-la.

- Algum dos rapazes conseguiu pegá-la?

- Não. Já tinha saído da eclíptica e vai continuar na mesma direção para sempre. Mas não é isso que está me aborrecendo. Era apenas uma cápsula interna. Mas nem posso pensar nas toneladas de propulsão que gastei tentando alcançá-la e depois retornando à órbita estacionaria. Você devia ter ouvido Canute.

Canute era o irmão e parceiro de Swenson.

- Ficou maluco, hem? - perguntou Rioz.

- Maluco? Quis me matar. Mas a gente já está voando há cinco meses e a coisa está começando a pegar. Sabe como é.

- Claro.

- E vocês aí, Mario?

Rioz fez um gesto de cuspir para o lado.

- Mesma coisa desta vez. Duas cápsulas nas duas últimas semanas, e tive que caçar cada uma delas por umas seis horas.

- Das grandes?

- Está brincando? Eu podia tê-las empurrado para Fobos com a mão. Esta viagem é a pior que já fiz na vida.

- Quanto tempo ainda vão ficar?

- Por mim iríamos embora amanhã. Faz somente dois meses que estamos no espaço e eu e Long já estamos como gato e rato.

Houve uma pausa bem maior do que o intervalo habitual.

- Como é ele? - perguntou Swenson. - Me refiro a Long. Rioz olhou por sobre o ombro. Podia escutar o barulho do receptor de vídeo na parte traseira.

- Não sei direito ainda. Uma semana depois que começamos a viagem ele perguntou: "Mario, por que você é um Caçador?" Olhei para ele e disse: "Para ganhar a vida; achou que era por quê?" Quer dizer... que diabo de pergunta é essa? Por que alguém vira um Caçador? "Em todo caso ele insistiu: "Não é bem isso, Mario." Ele me dizendo. Falou assim: "Você é um Caçador porque isso faz parte do estilo marciano."

- E o que diabo ele quer dizer com isso? - perguntou Swenson.

Rioz encolheu os ombros.

- Nunca perguntei. Agora mesmo ele está lá sentado, ouvindo a ultramicroondas da Terra. Está escutando um terrestre chamado Hilder.

- Hilder? Um político terrestre... um congressista, ou coisa parecida, não é?

- Isso mesmo. Pelo menos acho que é isso. Long está sempre fazendo esse tipo de coisa. Trouxe uns quinze quilos de livros com ele, tudo sobre a Terra. Peso morto.

- Bom, ele é seu parceiro. E por falar em parceiro, tenho que voltar ao trabalho. Se eu perder outra cápsula vai haver um assassinato por aqui.

Desligaram. Rioz se espreguiçou no assento. Observou a fina linha verde no vídeo que registrava os pulsos do varredor. Ligou o varredor múltiplo por um instante. O espaço continuava vazio.

Sentia-se um pouco melhor. Um mau período como aquele torna-se muito pior quando se sabe que os outros Caçadores em redor estão pegando uma cápsula atrás da outra; quando se sabe que as cápsulas que descem em espiral até as fornalhas de ferro-velho em Fobos têm em si as marcas de todos os concorrentes menos a sua. Além disso, tinha desabafado um pouco de seu ressentimento contra Long.

Tinha sido um erro fazer parceria com Long. Era sempre um erro fazer parceria com um pé-macio. Eles sempre achavam que você tinha necessidade de conversar; especialmente Long, com suas eternas teorias sobre Marte e seu importante papel no progresso da humanidade. Era assim que ele dizia: o Progresso da Humanidade; o Estilo Marciano; a Nova Minoria Criativa. E durante o tempo todo o que Rioz queria não era bate-papo, era um achado, era uma meia dúzia de cápsulas onde pudesse ferretear sua marca.

Ele não tinha tido escolha. Long era bastante conhecido em Marte e ganhava razoavelmente como engenheiro de minas. Era amigo do Comissário Sankov e já tinha feito uma ou duas missões ao espaço. Você não pode recusar um sujeito assim de cara, sem lhe dar ao menos uma chance, mesmo que a coisa toda pareça ridícula. O que levaria um engenheiro de minas, com um emprego confortável e um bom pagamento, a se meter a viajar pelo espaço?

Rioz nunca tinha perguntado isto a Long. Os parceiros do espaço são forçados a uma convivência muito próxima, o que torna a curiosidade indesejável, às vezes perigosa.

Mas Long falava tanto que um dia acabou respondendo a pergunta por sua própria conta.

- Eu tinha que vir até aqui, Mario - disse ele. - O futuro de Marte não está nas minas, está no espaço.

Rioz punha-se a imaginar como seria fazer uma viagem sozinho. Todos diziam que era impossível. Mesmo sem levar em conta as oportunidades perdidas toda vez que o piloto tivesse que dormir ou cuidar de alguma outra coisa, era fato notório que um homem sozinho no espaço não tardava em ser vítima de depressão aguda.

Tendo um parceiro, uma viagem de seis meses tornava-se possível. Seria melhor uma tripulação convencional, mas aí seria necessário uma nave muito maior, e a rentabilidade cairia a zero. Somente a propulsão já custaria uma fortuna.

Mesmo para uma tripulação de dois, o espaço não era propriamente divertido. Em geral trocava-se de parceiro a cada nova viagem, e com alguns era possível ficar mais tempo do que com outros. Como Richard e Canute Swenson, por exemplo. Iam juntos a cada cinco ou seis viagens, porque eram irmãos. Mesmo assim, cada viagem se transformava, depois da primeira semana, num processo crescente de tensão e antagonismo.

Então, tudo bem. O espaço estava tranqüilo. Rioz achou que se sentiria melhor se fosse até a parte traseira e tentasse aparar algumas das arestas com Long.

Poderia servir também para mostrar que ele era um sujeito calejado, que não levava muito a sério as irritações surgidas durante um vôo.

Ficou de pé e galgou os três degraus que conduziam ao corredor curto e estreito por onde se chegava à outra cabine da nave.

Mais uma vez Rioz parou no umbral. Long estava totalmente concentrado na imagem que chuviscava no vídeo.

- Vou aumentar o termostato - disse, com voz carrancuda. - Podemos poupar um pouco mais de energia.

- Se quiser... - concordou Long.

Rioz deu um passo hesitante para a frente. O espaço estava tranqüilo. Não havia necessidade de ficar na sala de comando, sentado, olhando para um vídeo onde uma linha verde só fazia tremular, horizontal, sem dar nenhum salto acusando uma presença.

Perguntou:

- De que é que este sujeito está falando?

- A maior parte é sobre história das viagens espaciais. Coisa antiga, mas ele está se saindo bem. Está usando tudo... painéis coloridos, fotos trucadas, fotos de filmes antigos, tudo.

Como para ilustrar as palavras de Long, o rosto barbudo dissolveu-se no vídeo, sendo substituído por um corte longitudinal de uma espaçonave. A voz de Hilder continuou a soar, indicando este ou aquele detalhe, que era logo realçado em cores vivas. O sistema de comunicações da nave apareceu em vermelho enquanto ele falava; depois foi a vez dos compartimentos de carga, da micropilha protônica, dos circuitos cibernéticos...

O rosto de Hilder voltou à tela.

- Mas isso - dizia ele - é apenas o setor de comando da nave. O que a faz mover-se? O que a liberta da atração da Terra?

Todo mundo sabia o que faz uma espaçonave se mover, mas a voz de Hilder era hipnótica. Ele fazia a propulsão de uma nave soar como se fosse o maior segredo de todos os tempos, a mais espantosa revelação. Até mesmo Rioz sentiu uma leve comichão de suspense, mesmo tendo passado a maior parte de sua vida no interior de uma nave. Hilder prosseguiu:

- Os cientistas dão nomes diferentes a isto. Às vezes o chamam de "Lei da Ação e Reação". Às vezes, "Terceira Lei de Newton". Às vezes, "Lei da Conservação de

Momentum"*. Mas não precisamos dar nenhum nome a isto. Basta usar o bom senso. Quando nadamos, empurramos a água para trás, e isso nos impele para a frente. Quando caminhamos, nossos pés pressionam para trás o chão, assim nos movemos para a frente. Quando pilotamos um girocarro, empurramos o ar para trás, e mais uma vez isso nos empurra para diante.

- Nada pode se mover para a frente sem que outra coisa seja deslocada para trás. É aquele velho princípio... você não pode extrair alguma coisa do nada.

- Muito bem. Imaginem uma espaçonave que pesa cem mil toneladas. Para levantar vôo da Terra, alguma coisa tem que ser projetada para baixo. Uma vez que a nave é extremamente pesada, é preciso projetar para baixo uma grande quantidade de material. Uma quantidade tão grande, de fato, que não há lugar para colocar tudo isso a bordo da nave. Um compartimento especial tem que ser construído abaixo da nave para contê-lo.

A imagem de Hilder desapareceu outra vez e o desenho da espaçonave retornou e diminuiu de tamanho. Uma espécie de tronco de cone apareceu embaixo dela com um letreiro em amarelo vivo: MATERIAL PARA SER JOGADO FORA.

- Hoje em dia, no entanto - prosseguiu Hilder, o peso total da nave é muito maior. Você precisa de cada vez mais e mais propulsão.

O desenho da nave voltou a diminuir e o desenho esquemático de um compartimento voltou a surgir embaixo. O processo se repetiu até que a nave propriamente dita, a parte tripulada, não passou de uma pequenina seção de um vermelho brilhante.

Rioz comentou:

- Ah, vejam. Isso é coisa do jardim de infância.

- Não para as pessoas que estão vendo a transmissão, Mario - disse Long. - A Terra não é Marte. Deve haver na Terra bilhões de pessoas que nunca viram uma espaçonave e não têm a menor idéia de como ela funciona. Hilder dizia:

- Quando o combustível contido na cápsula maior for todo consumido, a cápsula se desprende e é jogada fora.

A cápsula maior, no vídeo, desprendeu-se e sumiu rodopiando no espaço.

- Depois dela vai a segunda - prosseguiu Hilder - e depois outras, se a viagem for bastante longa.

A nave agora era apenas um pontinho vermelho, deixando atrás de si três cápsulas vazias boiando à deriva no espaço.

- Essas cápsulas - continuou Hilder - representam cem mil toneladas de tungstênio, magnésio, alumínio e aço. Elas estão perdidas para sempre, no que se refere à Terra. Marte é cercado pelos Caçadores, que ficam de tocaia ao longo das rotas espaciais, esperando a passagem dessas cápsulas perdidas para recolher cada uma, colocar nela uma marca e desviá-la na direção de Marte. A Terra não recebe nem um centavo de pagamento por isso. Elas são lixo espacial. Pertencem à nave que as encontrar.

Rioz falou em voz alta:

- Nós arriscamos nosso investimento e nossas vidas. Se não as pegarmos, ninguém as pegará jamais. Qual é o prejuízo da Terra, então?

- Veja bem - disse Long. - Ele está falando sobre os gastos que a Terra tem com Marte, Vênus e a Lua. Isso aí é apenas um item no meio de muitos outros.

- Eles vão ter isso de volta. Estamos extraindo mais ferro a cada ano que passa.

- E a maior parte dele fica em Marte. Se as estatísticas de Hilder merecem crédito, a Terra investiu duzentos bilhões de dólares em Marte e recebeu de volta cerca de cinco bilhões de dólares em ferro. Investiu quinhentos bilhões de dólares na Lua e obteve de volta um pouco mais de vinte e cinco bilhões em magnésio, titânio e outros metais leves. Investiu cinqüenta bilhões de dólares em Vênus e até agora não teve nenhum retorno. E é nisso que os contribuintes da Terra estão interessados... no fato de o dinheiro de seus impostos ir embora, sem vir nada em troca.

Enquanto ele falava, apareceram na tela desenhos animados representando os Caçadores em suas órbitas em torno de Marte: pequenas caricaturas de naves sorridentes que estendiam braços articulados, muito longos e finos, até agarrar as cápsulas perdidas que rodopiavam no espaço, prendendo-se com firmeza, marcando em letras brilhantes sobre sua superfície metálica: PROPRIEDADE DE MARTE, e impelindo-as na direção de Fobos.

A imagem de Hilder retornou à tela.

- Eles dizem que mais cedo ou mais tarde teremos a compensação disto tudo. Mais cedo ou mais tarde! Claro... quando eles estiverem financeiramente sólidos. Só que não temos a menor idéia de quando vai ser isto. Daqui a um século? Daqui a mil anos? Um milhão? Mais cedo ou mais tarde... Vamos acreditar neles, então. Um dia eles nos devolverão nosso metal. Um dia eles serão capazes de produzir sua própria comida, usar sua própria energia, viver suas próprias vidas.

- Mas existe uma coisa que eles jamais poderão nos dar de volta. Nem em cem milhões de anos. Água!

-  Marte tem apenas uns raros vestígios de água, porque é demasiado pequeno. Vênus não tem água alguma, porque é muito quente. A Lua também não tem, porque além de ser muito quente é minúscula. Portanto, a Terra tem que fornecer não apenas a água de beber e a de usar na limpeza, a água para mover as indústrias, a água para os laboratórios hidropônicos que eles dizem estar montando... não apenas isto, mas também água para ser jogada fora, milhões e milhões de toneladas.

- Qual é o tipo de propulsão usado pelas espaçonaves? O que é que elas arremessam para trás, para ganhar impulso? Antigamente, eram gases gerados através de explosões.

Mas isso era muito caro. Então, a micropilha protônica foi inventada... uma fonte de energia barata que podia aquecer qualquer líquido até transformá-lo num gás sob uma pressão espantosa. Qual é o líquido mais barato e mais abundante de que dispomos? A água, é claro.

- Cada espaçonave que deixa a Terra carrega quase um milhão de toneladas... não são quilos, são toneladas... de água, cuja única utilidade é ser lançada no espaço sob a forma de gás, toda vez que a nave quer acelerar ou retardar sua marcha.

- Nossos antepassados queimaram sem dó nem piedade todo o petróleo que havia na Terra. Extraíram até a derradeira pedra de carvão. Nós hoje os desprezamos e os censuramos por isso, mas eles pelo menos tinham essa desculpa - achavam que quando houvesse necessidade poderiam encontrar um substituto para tudo isso. E estavam certos. Temos hoje as nossas fazendas de plâncton e a micropilha protônica.

- Mas não há substituto para a água. Nenhum! Nunca poderá haver. E quando nossos descendentes virem o deserto em que transformamos a Terra, que atenuantes teremos diante dos seus olhos? Quando a seca e a aridez se espalharem...

Long inclinou-se para diante e desligou o vídeo. Falou:

- Isso me preocupa. Será que esse idiota está deliberadamente... Mas o que é que há?

Rioz tinha ficado de pé, hesitante, e disse:

- Não sei... Acho que eu devia estar de guarda. Pode surgir algum sinal.

- O sinal que se dane. - Mas Long também ficou de pé e acompanhou o outro através do estreito corredor até a sala de pilotagem. - Se Hilder for em frente, se ele tiver mesmo coragem para transformar essa questão num... Puxa vida!

Os dois o viram no mesmo instante. Era um sinal tipo Classe A. O pequeno ponto luminoso no visor saltava como um cachorro perseguindo um coelho mecânico.

- Não é possível - balbuciou Rioz. - O espaço estava limpo, eu posso jurar, limpo. Pelo amor do Espaço, Ted, não fique aí parado. Veja se a localiza no visual.

Sentando-se diante do painel, Rioz trabalhou com uma rapidez e uma eficiência que eram o resultado de quase vinte anos de prática. Em dois minutos tinha calculado a distância. Aí, lembrando a experiência de Swenson, mediu também o ângulo de declinação e a velocidade radial.

Gritou para Long:

- Um ponto sete seis radianos. Você não pode errar, cara. Long prendeu a respiração enquanto ajustava o vernier.

- Está a meio radiano em relação ao Sol. Vai estar iluminada em crescente.

Aumentou a ampliação visual tão rapidamente quanto pôde, esperando para ver, entre tantas estrelas, qual delas mudaria de posição e iria aos poucos ganhando uma forma, mostrando não ser uma estrela.

- Estou começando - disse Rioz. - Não posso esperar.

- Consegui - disse Long. A ampliação ainda era insuficiente para revelar uma forma definida, mas o ponto que ele tinha localizado ficava alternadamente mais brilhante e mais opaco, a intervalos regulares, à medida que a cápsula rodava sobre si própria e a luz do Sol incidia em diferentes pontos de sua estrutura.

- Segure aí.

Um fino jato de vapor foi expelido através de uma das inúmeras aberturas externas da nave, deixando atrás de si um longo rastro de microcristais que refletiam a luz do Sol distante e iam se diluindo pouco a pouco ao longo de centenas de milhas. Um jato, depois outro, depois mais outro, à medida que a nave ia abandonando a trajetória anterior e entrando numa rota tangencial à da cápsula.

- Está se movendo como um cometa no periélio! - berrou Rioz. - Esses malditos pilotos da Terra jogam as cápsulas assim de propósito. Eu bem gostaria de...

Continuou a praguejar com uma intensidade frenética enquanto fazia a nave despejar vapor para trás em jatos sucessivos, até que o acolchoado hidráulico de seu assento se achatou sob a pressão de seu corpo e Long mal podia manter-se agarrado ao gradil de apoio.

- Calma, dá um tempo - disse Long.

Mas os olhos de Rioz estavam fitos no visor, que continuava a piscar.

- Se não pode agüentar, cara, fique em Marte! - gritou ele. E continuou a acionar os jatos.

O sinal de chamada do rádio começou a piscar por sua vez, e Long conseguiu arrastar-se até lá, como se estivesse com o corpo imerso em alguma substância pastosa.

Apertou o botão e o rosto de Swenson brilhou na tela, com os olhos fuzilando.

- O que diabo vocês estão fazendo? - berrou. - Dentro de dez segundos vão entrar no meu setor.

- Estou seguindo uma cápsula - disse Rioz.

- No meu setor?

- Comecei no meu, e além de tudo você não está em posição de pegá-la. Ted, desligue esse rádio.

A nave continuou trovejando espaço afora, com um estrondo que só era audível no seu interior. Rioz foi desligando os motores de um em um e Long pôde se mover com mais facilidade. O silêncio que se fez na cabine parecia pressionar os tímpanos com mais força do que o ruído anterior.

- Acho que isso basta - disse Rioz. - Mostra aí o telescópio. Os dois aplicaram os olhos aos visores. A silhueta da cápsula, em forma de tronco de cone, era bem visível agora, rodopiando bem devagar entre as estrelas, num movimento que parecia dotado de certa solenidade.

- Uma Classe A - disse Rioz com satisfação. Era uma cápsula enorme. Vai nos tirar do vermelho, pensou ele. ,

Long o alertou:,

- O visor está dando sinal. Acho que Swenson está vindo atrás de nós.

Rioz não lhe deu atenção. ,

- Não pode nos alcançar - foi tudo que disse.

A cápsula se tornava cada vez maior, ocupando todo o espaço abarcado pelo telescópio.

As mãos de Rioz se cerraram sobre os controles dos arpões. Ele esperou, fez alguns ajustes infinitesimais em busca do ângulo mais adequado, verificou mais uma vez a distância. Então puxou a alavanca, disparando o arpão.

Por um instante nada aconteceu. No instante seguinte, contudo, surgiu no visor um cabo de metal que se desenrolava enquanto era projetado para diante, como uma serpente dando um bote. Sua extremidade atingiu a cápsula, mas sem prender-se a ela. Se o tivesse feito, teria se partido como um fio de teia de aranha: a cápsula rodava em torno de si mesma com um impulso equivalente a milhares de toneladas. O cabo limitou-se a, de uma certa distância, ligar um poderoso campo magnético que agiu como um freio sobre a cápsula.

Outro cabo foi arremessado, e depois mais um, e mais um. Rioz os disparava em rápida sucessão, sem ligar para a energia consumida com essa série de arremessos.

- Vou pegá-la! Por Marte, juro que Vou pegá-la! Quando mais de vinte cabos já estavam estendidos entre a nave e a cápsula, ele se deu por satisfeito. A energia rotacional da cápsula, transformada em calor pela ação dos freios, já tinha elevado sua temperatura a um tal ponto que os medidores da nave começavam a captá-la.

- Quer que eu vá marcá-la? - perguntou Long.

- Por mim está bem. Mas se não quiser, não precisa. Era meu turno de guarda.

- Eu não me importo.

Long vestiu seu traje espacial e esgueirou-se através da escotilha. Um dos indícios de sua condição de novato era o fato de ser capaz de dizer quantas vezes já tinha passeado à solta no espaço. Aquela era a quinta vez.

Flutuou ao longo do cabo mais próximo, puxando-se com uma mão, depois com a outra, sentindo o metal vibrar através da espessura das luvas.

Gravou o número de série da equipe no metal luzidio da cápsula. Ali no vácuo do espaço não havia nada para oxidar o aço: ele simplesmente se dissolvia e vaporizava, voltando a condensar-se a uma certa distância do local atingido pelo raio de energia, que deixava na superfície polida uma série de traços regulares e escuros.

Long flutuou de volta para a nave.

Do lado de dentro, retirou o capacete, recoberto por uma cresta de geada que se formou no instante em que ele se viu envolto pela atmosfera do interior.

A primeira coisa que ouviu foi a voz de Swenson no rádio, quase irreconhecível de tanta fúria:

- ...diretamente ao Comissário. Ora que diabo, esse jogo tem regras!

Rioz continuava sentado, imperturbável.

- Olhe aqui - disse. - Ela entrou pelo meu setor. Demorei a localizá-la e tive que segui-la até dentro do seu. Da posição em que estava você não a teria pegado nunca.

-Não Vou ficar perdendo meu tempo com... Ah, já voltou, Long?

Estendeu o braço e cortou o contato.

O sinal de chamada recomeçou a piscar, mas ele não lhe deu atenção.

- Ele vai ao Comissário? - perguntou Long.

- Que nada. Está fazendo esse barulho só para quebrar a monotonia, mas não vai dar em nada. Ele sabe que a cápsula era nossa. E o que achou do material, Ted?

- Nada mau.

- Nada mau?! É a melhor coisa que você podia querer. Tome conta aqui... Vamos dar uma rodada nela.

Os jatos laterais cuspiram vapor e a nave iniciou um lento movimento de rotação em torno da cápsula, que, logo em seguida, guiada pelos cabos, começou também a girar.

Meia hora depois, as duas rodopiavam uma em redor da outra, firmemente unidas pelos cabos. Long consultou as tábuas astronômicas para confirmar a posição de Deimos.

No momento preciso, os cabos desligaram seu campo magnético e a cápsula foi arremessada tangencialmente numa trajetória que, dentro de um ou dois dias, a deixaria ao alcance das equipes de recolhimento no satélite marciano.

Rioz ficou a observá-la enquanto ela sumia na escuridão do espaço. Depois virou-se para Long.

- Nada mau o dia de hoje, hem?

- É. E quanto ao discurso de Hilder? - perguntou Long.

- O quê? Discurso? Ah, sim, aquilo. Olhe, se eu fosse me preocupar com cada bobagem que os terrestres dizem jamais teria uma noite de sono tranqüilo. Esqueça isso.

- Não acho que a gente deva esquecer.

- Você está maluco. Olhe, não me venha mais com isso, certo? É melhor dormir um pouco.

 

Ted Long caminhou ao longo da avenida central da cidade, extasiado com aquele vasto espaço aberto que se estendia para os lados e para cima. Fazia mais de dois meses que o Comissário tinha decretado uma moratória nas atividades dos Caçadores, retirando do espaço todas as suas naves, mas essa visão de horizontes tão amplos não tinha cessado de emocionar Long. A moratória havia sido decretada paralelamente à decisão da Terra de estabelecer uma cota limite para a atividade dos Caçadores, com o intuito de economizar água. Mas mesmo a consciência desse fato não era o bastante para alterar a boa disposição de Long.

O teto da avenida era pintado num tom de azul claro incrivelmente luminoso - talvez uma tentativa nostálgica de imitar o céu da Terra, mas Ted não tinha certeza.

As paredes eram iluminadas pelas incontáveis janelas de lojas que se distribuíam ao longo delas.

Muito a distância, superpondo-se ao rumor do tráfego e da multidão de pedestres que o cercava, ele podia ouvir as explosões intermitentes abrindo novos canais na crosta rochosa de Marte. Toda sua vida ele tinha escutado essas explosões. O chão por onde caminhava agora não passava de rocha sólida e compacta na época em que ele tinha nascido. A cidade crescia, e continuaria a crescer - se a Terra permitisse.

Virou numa rua transversal, mais estreita, não tão iluminada, onde as janelas das lojas davam lugar a apartamentos residenciais, cada prédio com uma fileira de luzes na fachada. A multidão compacta de pedestres e o fluxo dos veículos dava lugar ali a transeuntes que caminhavam num passo mais descansado e a garotos que pareciam ignorar os apelos que suas mães faziam em altas vozes para que fossem jantar.

Long lembrou-se a tempo das formalidades sociais e parou na esquina, entrando num posto de água. Estendeu o cantil.

- Enche aí.

O homem do balcão, um indivíduo baixo e rubicundo, desenroscou a tampa do cantil e aproximou o olho da abertura. Sacudiu o cantil de leve, produzindo um leve marulhar.

- Não resta muito - disse com simpatia.

- Pois é - concordou Long.

O homem encheu o cantil, mantendo o bico da mangueira bem enfiado para evitar derramar uma única gota. Quando o medidor de volume soou, ele retirou a mangueira e enroscou a tampa.

Long lhe estendeu algumas moedas e pegou o cantil de volta. Ele agora tilintava de encontro ao seu cinto com um peso tranquilizador. Nunca se devia visitar uma família sem levar o cantil cheio. Entre a rapaziada não era tão importante, pelo menos não tanto.

Ele entrou no saguão do prédio nº 27, galgou um lance de escadas e parou diante de uma porta, com o dedo a meio caminho do botão.

Dali podia ouvir distintamente duas pessoas discutindo em altas vozes.

Uma das vozes era de mulher, e um tanto aguda.

- Para você é muito bom chamar seus amigos Caçadores para vir aqui, não é mesmo? Devo ficar agradecida por você aparecer em casa durante dois meses todo ano e me dar atenção durante um ou dois dias. Depois disso, lá vêm seus amigos de novo.

- Já faz muito tempo que estou em casa - disse uma voz de homem, isso é o meu trabalho. Pelo amor de Marte, Dora, acabe com isso. O pessoal vai chegar daqui a pouco.

- E se chegarem? Quero mais é que me ouçam. Se fosse por mim o Comissário iria manter essa moratória pelo resto da vida.

- E nós iríamos viver de quê? - retorquiu o homem. - Pode me dizer, por favor?

- Posso sim. Você podia arranjar um emprego decente aqui mesmo, em Marte, igual a todo mundo. Eu sou a única mulher aqui neste prédio que é viúva de um Caçador. É isso que eu sou: uma viúva. Pior até do que viúva, porque se eu fosse viúva de verdade podia voltar a me casar... você disse o quê?

- Nada. Não disse nada.

- Sei muito bem o que você disse. Olhe aqui, Dick Swenson...

- O que eu disse - interrompeu Swenson - foi que agora estou sabendo por que é que geralmente os Caçadores preferem continuar solteiros.

- Você também devia ter continuado. Estou farta de ver as vizinhas fazendo aquela cara de pena e me perguntando quando é que você vai voltar para casa. Os outros homens todos têm um emprego normal, são engenheiros de minas, ou administradores, ou cavadores de túneis... Até as mulheres dos cavadores de túneis têm uma vida conjugal decente e sabem que seus filhos não vão virar vagabundos quando crescerem. Para o pobre do Peter é o mesmo que não ter um pai, porque...

Uma voz de menino se fez ouvir através da porta.

- Mãe, o que quer dizer "vagabundo"?

A voz de Dora ergueu-se uma oitava mais alto.

- Peter! Faça o seu dever de casa e não se meta! Swenson voltou à carga, em tom mais baixo:

- Você não deve falar desse jeito na frente do garoto. O que ele vai ficar pensando de mim?

- Fique em casa e ensine a ele o que ele deve pensar. A voz de Peter soou mais uma vez:

- Olhe, mãe, quando eu crescer eu também vou ser um Caçador.

Long ouviu um rumor abafado de passos, depois um silêncio, depois um grito:

- Aaai, mãe, larga minha orelha! Me deixa! O que foi que eu fiz? - Depois ouviu-se apenas um silêncio entrecortado pelo som de alguém fungando.

Long aproveitou a chance e apertou o botão.

Swenson surgiu à porta, passando as mãos pelos cabelos.

- Oi, Ted - falou baixo. E depois, mais alto: - É o Ted, Dora. E Mario? Onde está?

- Chega daqui a pouco.

Dora emergiu do quarto. Uma mulher pequena, com um nariz ligeiramente curvo e cabelos negros com algumas manchas grisalhas, penteados de lado.

- Olá, Ted. Já jantou?

- Já, obrigado. Espero não ter interrompido vocês.

- Que é isso, já acabamos há um tempão. E um café?

- Aceito. - Ted desprendeu o cantil e o estendeu.

- Oh, por favor - disse Dora. - Temos água bastante.

- Não, não, eu insisto.

- Bem, se é assim...

Dora desapareceu na direção da cozinha; através da porta de vai-vem. Long teve uma rápida visão de louça secando num Secoterg, "o limpador a seco que absorve e retira toda a gordura num piscar de olhos... alguns gramas de água bastam para limpar um metro quadrado de superfície. Compre Secoterg! Secoterg é o melhor para limpar... deixa toda sua louça a brilhar... sua água não vai mais se acabar..." A melodia repetitiva do jingle se instalou na mente de Long e ele foi forçado a falar para se ver livre dela.

- E Pete, como está? - perguntou.

- Oh, está ótimo. Está fazendo a quarta série. Sabe como é, não o vejo há muito tempo. Você não sabe a melhor: desta última vez, quando eu voltei, o garoto olhou para mim e disse...

E por aí foi, mais uma daquelas histórias de crianças espertas, narradas por pais não muito inteligentes.

A campainha soou e logo em seguida Mario Rioz surgiu no aposento, o rosto vermelho, a testa franzida. Swenson adiantou-se, antes que ele falasse:

- Olha aqui, não vamos falar nada sobre brigas por causa de cápsulas, certo? Dora ainda lembra daquela vez em que você caçou uma Classe A no meu território, e ela hoje está com tudo.

- E quem diabo está querendo conversar sobre cápsulas? - Rioz despiu o casaco com gola de pele, pendurou-o no encosto de uma cadeira e sentou-se.

Dora surgiu à porta da cozinha e dirigiu ao recém-chegado um sorriso formal.

- Olá, Mario. Vai querer café também?

- Sim - disse ele, estendendo maquinalmente a mão na direção do cantil.

- Pode usar um pouco mais da minha água, Dora - apressou-se Long a dizer. - Ele fica me devendo.

- É isso - disso Rioz.

- Qual é o problema, Mario? - perguntou Long. A voz de Rioz estava carregada ao responder:

- Ora, ora, está tudo bem. Vá, diga que bem que me avisou. Um ano atrás, quando Hilder fez aquele discurso, certo? Vá, pode dizer que me avisou.

Long encolheu os ombros. Rioz continuou:

- Estabeleceram um teto. Saiu no noticiário há quinze minutos.

- E então?

- Cinqüenta mil toneladas de água por viagem.

- O quê?! - explodiu Swenson. - Você não pode sair de Marte com cinqüenta mil!

- É esse o número que anunciaram. É um desafio, está na cara. A Caça acabou.

Dora surgiu e começou a distribuir as xícaras de café.

- Que história é essa de que a Caça acabou? - Ela sentou-se muito ereta, enquanto Swenson assumia um ar de desamparo.

- Parece - disse Long - que eles vão racionar nossa água a cinqüenta mil toneladas, isso quer dizer que não vamos mais poder caçar.

- Ora, e daí? - Dora bebericou seu café e deu um sorriso satisfeito. - Se quer saber minha opinião, aí está uma boa providência.  Já é tempo de vocês deixarem de ser Caçadores e arranjarem um trabalho decente, um trabalho firme aqui em Marte. Tenho certeza. Isso não é vida, essa história de ficar vagueando no espaço e...

- Por favor, Dora - disse Swenson. Rioz reprimiu uma risada.

Dora ergueu uma sobrancelha.

- Estou apenas dando uma opinião - disse. Long interveio:

- Claro, fique à vontade. Mas há uma coisa que eu gostaria de dizer. Isso de cinqüenta mil toneladas é apenas um detalhe. Nós sabemos que a Terra (ou pelo menos o partido de Hilder) quer tirar dividendos políticos dessa campanha pela economia de água, de modo que nossa posição não é nada boa. Temos que conseguir água de qualquer maneira, se não, estaremos nas mãos deles. Certo?

- Certo - disse Swenson.

- Mas a questão é: como consegui-la?

- Se o problema é só conseguir água - interrompeu Rioz - é muito fácil de resolver. Se os Terrestres não nos dão a água, nós a pegamos. A água não pertence a eles só porque os pais e os avós deles eram medrosos demais para se arriscar no espaço. A água pertence aos seres humanos, não importa onde eles estejam. Nós somos humanos e essa água também é nossa. Temos o direito.

- Sim, mas como podemos consegui-la? - perguntou Long.

- Muito fácil. Eles têm oceanos enormes na Terra, cheios de água. Eles não podem ter uma patrulha em cada quilômetro quadrado. Podemos nos aproximar pelo lado noturno do planeta a qualquer hora, encher nossas cápsulas e cair fora. Eles não podem nos impedir.

- Podem, Mario, e de várias maneiras. Como é que você localiza uma cápsula no espaço, a uma distância de cem mil milhas? Pelo radar. Acha que não existem radares na Terra? Se a Terra perceber que estamos pirateando água, será muito fácil para eles ligar uma rede de radares para localizar naves que se aproximem.

Dora ergueu a voz, indignada.

- Vou lhe avisar uma coisa. Mario Rioz. O meu marido não vai tomar parte de nenhuma aventura para roubar água e continuar vivendo nessa vida de Caçador.

- O problema não é apenas dos Caçadores - disse Mario. - Da próxima vez eles vão fazer cortes em qualquer outra coisa. Temos que enfrentá-los agora.

- Mas não precisamos da água deles - insistiu Dora. - Isso aqui não é a Lua nem Vênus. Extraímos água das calotas polares, o bastante para nosso uso. Temos uma torneira de água aqui no apartamento, não temos? Todos os apartamentos deste bloco têm uma torneira.

- Mas o uso doméstico é uma parte muito pequena - disse Long. - As minas usam muita água. E o que fazemos com os tanques hidropônicos?

- Isso mesmo - disse Swenson. - E os tanques hidropônicos, Dora? Eles precisam de água.

Já está na hora de cultivarmos nossa própria comida aqui, em vez de depender das porcarias condensadas que a Terra nos manda.

- Ora vejam só - disse Dora com escárnio. - Qual é o problema com comida condensada? Você nunca comeu um legume fresco em toda sua vida.

- Comi mais do que você pensa. Lembra daquelas cenouras que eu trouxe uma vez?

- Sim, e o que tem de tão maravilhoso? Se quer saber minha opinião, uma proto-alimentação ao forno é a coisa mais saborosa que existe, e a mais saudável também.

O problema é que agora virou moda essa conversa de vegetais frescos, porque eles estão precisando de mais impostos para os hidropônicos. Mas isso não vai durar muito tempo.

- Não acho - disse Long. - Pelo menos não vai ser tão fácil. Hilder tem tudo para se tornar o próximo Coordenador, e aí as coisas vão ficar bem piores. Se começarem a racionar as remessas de comida, então...

- E então? - exclamou Rioz. - Fazemos o quê? Eu lhe digo o que fazemos: vamos lá e pegamos o que estamos precisando. Pegamos a água, tudo.

- Isso é impossível, Mario. Não está vendo que isso que você sugere é o estilo terrestre, o modo de agir da Terra? Você está tentando se apegar ao cordão umbilical que liga Marte à Terra. Não pode se livrar disso? Não pode ver qual é o estilo marciano?

- Não, não posso. Gostaria que me dissesse.

- Vou dizer, se quiser prestar atenção. Veja bem. Quando falamos do Sistema Solar, estamos nos referindo a quê? Mercúrio, Vênus, Terra, Lua, Marte, Fobos e Deimos. Isso é tudo: sete corpos celestes e não mais que isto. Mas isso não representa sequer um por cento do Sistema Solar! Nós, marcianos, estamos bem na fronteira que nos separa dos outros 99 por cento. Daqui para fora, para longe do Sol, existe uma quantidade incrível de água!

Os outros continuaram a fitá-lo, sem reação. Por fim Swenson falou, meio inseguro:

- Está se referindo as camadas de gelo em Júpiter e Saturno?

- Não propriamente a elas, mas elas são água, você tem que admitir. Uma camada de gelo com mil milhas de espessura é bastante água, não é mesmo?

- Mas está tudo coberto por camadas de amônia, ou coisa parecida... não é assim? - perguntou Swenson. - Além do mais, não temos como pousar nesses planetas maiores.

- Sei disso - disse Long. - Mas eu não disse que eram eles a solução. Os grandes planetas não são os únicos corpos celestes que existem ali. O que me diz dos asteróides e dos satélites? Vesta é um asteróide com duzentas milhas de diâmetro e é quase que um bloco compacto de gelo. Uma das luas de Saturno é quase totalmente feita de gelo. O que me diz disso?

Rioz falou:

- Já esteve no espaço, Ted?

- Você sabe que sim. Por que pergunta?

- Sim, claro que sei, mas a questão é que você fala como um Terrestre. Já pensou nas distâncias? Os asteróides estão em média a cento e vinte milhões de milhas, em sua fase mais próxima de Marte. É duas vezes a distância entre Vênus e Marte, e você sabe que muito poucas naves fazem esse trajeto sem nenhuma escala; geralmente fazem um pouso na Terra ou na Lua. Além disso, quanto tempo acha que um sujeito consegue ficar no espaço?

- Não sei. Qual é o seu limite?

- Você sabe o limite, não precisa me perguntar. Seis meses. Está no Manual. Depois de seis meses no espaço você vai direto para a terapia. Certo, Dick?

Swenson fez apenas um gesto com a cabeça.

- E isso são os asteróides - continuou Rioz. - De Marte a Júpiter são 330 milhões de milhas, e até Saturno são setecentos milhões. Existe alguém que possa cruzar essa distância? Suponha que você vai em velocidade padrão, ou então vamos ser mais generosos, digamos que você vai a duzentos quilomilhas por hora. Vai levar, dando o desconto de tempo para aceleração e desacelaração... cerca de seis ou sete meses para chegar a Júpiter e quase um ano para alcançar Saturno. Claro que teoricamente você poderia aumentar a velocidade até um milhão de milhas por hora, mas onde iria conseguir água suficiente para isso?

- Puxa - disse uma vozinha por trás de um nariz sujo e dois olhos arredondados. - Saturno!

Dora girou o corpo na cadeira.

- Peter, marche já para o seu quarto.

- Ora, mãe.

- Nada de ora-mãe.

Ela fez menção de se erguer, mas o garoto sumiu.

- Olha, Dora - disse Swenson, por que não fica com ele durante alguns minutos? Ele não vai conseguir fazer o dever de casa enquanto souber que está todo mundo aqui, conversando.

Dora fungou com obstinação e não se mexeu.

- Vou ficar aqui até descobrir o que é que Ted Long está planejando, e se quer saber minha opinião, não creio que seja boa coisa.

Swenson prosseguiu a conversa com nervosismo.

- Ora, que é isso, não se preocupe com Júpiter e Saturno. Claro que Ted não está pensando nisso. Mas, e quanto a Vesta? Podíamos ir até lá em dez ou doze semanas, e o mesmo para a volta. E são duzentas milhas de diâmetro. Quatro milhões de milhas cúbicas de gelo!

- E daí? - disse Rioz. - O que fazemos com Vesta? Arrancamos o gelo com picaretas? Instalamos máquinas de mineração? Quanto tempo acha que isso vai levar?

- Não é Vesta - disse Long. - Estou falando de Saturno. Rioz olhou de lado, dirigindo-se a uma platéia invisível.

- A gente diz que são setecentos milhões de milhas, mas o rapaz vai em frente.

- Está bem - concedeu Long. - Mario, que tal se você me explicasse por que motivo só podemos ficar no espaço durante seis meses?

- Ora diabo, todo mundo sabe disso.

- Não: é porque está escrito no Manual do Vôo Interplanetário. São dados reunidos por cientistas terrestres a partir das experiências iniciais dos pilotos e astronautas terrestres. Você continua pensando em termos terrestres. Ainda não descobriu o estilo marciano.

- Um marciano pode ser marciano, mas é um homem como os outros.

- Como se pode ser tão cego?! Quantas vezes vocês, Caçadores, já ficaram no espaço por mais de seis meses, sem interrupção?

- É diferente - disse Rioz.

- Diferente por quê? Porque são marcianos? Porque são Caçadores profissionais?

- Não. Porque não estamos num vôo convencional. Podemos retornar a Marte a qualquer instante, é só querer.

- Mas vocês não querem. Esse é o detalhe. Os Terrestres têm espaçonaves enormes, com filmotecas e tudo o mais, onde cabem quinze tripulantes, mais os passageiros.

Ainda assim, o máximo que eles agüentam é seis meses. Os Caçadores marcianos têm uma nave com duas cabines e viajam em duplas. Mesmo assim, agüentam mais de seis meses.

- Então é isso - disse Dora. - Passar um ano dentro de uma nave, até chegar em Saturno.

- E por que não, Dora? - disse Long. - Podemos fazer isso sem problemas, não percebe? Os Terrestres não podem. Eles vivem num mundo real, lá eles têm céu, têm comida fresca, têm todo o ar e toda a água de que precisam. Entrar numa espaçonave é uma mudança terrível para eles. Passar mais de seis meses dentro dela é a mesma coisa. Já os marcianos são diferentes. Nós vivemos numa espaçonave a vida inteira.

- É isso que Marte é: uma espaçonave. Uma nave com 4.500 milhas de comprimento, e nela um cubículo ocupado por cinqüenta mil pessoas. É tudo fechado em si mesmo, como numa nave. Respiramos ar enlatado, bebemos água enlatada, passamos a vida reciclando isso tudo. Aqui se comem as mesmas rações enlatadas que se come numa nave.

Quando entramos numa nave de verdade, não achamos aquilo muito diferente do que experimentamos a vida inteira. Podemos agüentar isso durante muitíssimo mais de um ano. É só querer.

Dora interveio:

- Dick também?

- Todos nós.

- Pois bem: Dick não agüenta. Está tudo muito bem com você, Ted Long, e esse ladrão de caça aqui, esse Mario, está tudo muito bem ficarem falando em passar um ano voando por aí. Vocês não são casados. Dick é. Ele tem uma mulher e um filho, acabou a conversa. Ele pode muito bem conseguir um emprego aqui em Marte. Por tudo quanto é sagrado... Imagine que vocês vão até Saturno, quando chegam lá descobrem que não existe água. Como vão voltar? Mesmo se ainda lhes restasse alguma água, e quanto à comida? É a coisa mais ridícula que já ouvi na minha vida.

- Calma, calma - disse Long muito tenso. - Já pensei em tudo isso. Já falei com o Comissário Sankov, ele prometeu ajudar. Mas precisamos de naves e de homens. Eu não posso obter isso. Os homens não me darão atenção, ainda sou um novato. Mas vocês dois são veteranos, eles os respeitam. Se me apoiarem, mesmo que não queiram participar, eu posso ir em frente e resolver todo o resto, conseguir voluntários...

- Primeiro - grunhiu Rioz - vai ter que explicar mais uma porção de coisas. Suponhamos que consigamos chegar a Saturno. Onde está a água?

- Essa é a parte mais bonita de tudo - disse Long. - É por isso que tem que ser Saturno. A água está lá, flutuando no espaço, ao redor do planeta.

 

Quando Hamish Sankov chegara em Marte, os marcianos nativos eram uma raça ainda inexistente. Agora havia cerca de duzentos e tantos bebês cujos avós tinham nascido em Marte. Marcianos de terceira geração.

Ele tinha desembarcado ali quando era ainda um garoto, quando Marte não passava de um grupo de espaçonaves pousadas no solo e conectadas por uma rede de túneis subterrâneos. Com o passar dos anos, ele tinha visto os edifícios se projetando para o alto ou rumo às entranhas do planeta, erguendo seus vultos rombudos na direção daquele ar rarefeito e irrespirável. Tinha visto a construção de depósitos subterrâneos vastos o bastante para engolir uma espaçonave inteira. Tinha visto as minas subterrâneas surgirem praticamente do nada até formarem uma colméia fervilhante ao longo da crosta de Marte, enquanto a população total crescia de cinqüenta para cinqüenta mil.

Essas recordações faziam com que se sentisse mais velho - bem como as outras lembranças provocadas pela presença do Terrestre que agora estava à sua frente. O visitante trazia de volta à sua mente uns farrapos esquecidos de pensamentos sobre um mundo quente e acolhedor, tão hospitaleiro quanto o ventre de uma mãe.

O Terrestre, por sua vez, parecia recém-saído desse ventre. Não muito alto, não muito magro: na verdade, um tanto rubicundo. Cabelos negros e levemente ondulados, bigode miúdo, pele lisa. Suas roupas tinham um estilo sóbrio e pareciam tão elegantes quanto uma roupa de plastek pode ser.

As vestes de Sankov eram de fabricação marciana; práticas e limpas, mas fora de moda. Ele tinha um rosto áspero e cheio de rugas, seu cabelo era branco como a neve e seu pomo-de-adão subia e descia quando ele falava.

O Terrestre era Myron Digby, membro da Assembléia Geral da Terra. Sankov era o Comissário Marciano.

Ele disse:

- É um grande choque para nós, senhor.

- Para nós também, Comissário - disse o Terrestre.

- Hum-hum. Não posso dizer, honestamente, que entendo o que se passa. O senhor entende, claro: não posso assimilar totalmente os pontos de vista da Terra quanto a essa questão, mesmo tendo nascido lá. Marte é um lugar duro para se viver, o senhor precisa levar isto em conta. A maior parte do nosso esforço se concentra no transporte da comida, da água e dos outros materiais que asseguram nossa sobrevivência. Não temos muito tempo para ler livros ou assistir noticiários no cinema.

Mesmo as transmissões de vídeo só atingem Marte durante um mês, quando a Terra está em conjunção, e mesmo então não há muitos que disponham de tempo para isso.

- Meu escritório tem um acordo com a Imprensa Planetária, toda semana recebemos um filme com um resumo das principais notícias. Em geral não tenho muito tempo para ficar em dia com elas. O senhor pode nos considerar provincianos... e no fundo terá razão. Quando acontecem fatos como este agora, tudo que podemos fazer é olhar uns para os outros.

Digby falou devagar:

- O senhor não está querendo dizer que as pessoas em Marte nunca ouviram falar nas campanhas antidesperdício de Hilder.

- Não exatamente. Há um jovem Caçador, filho de um amigo meu que morreu no espaço... - Sankov cocou pensativo o pescoço - ...e esse rapaz tem como hobby estudar a história da Terra, esse tipo de coisa. Quando ele está no espaço costuma captar emissões da Terra, e pelo que sei ele assistiu o primeiro discurso que esse Hilder fez a respeito dos Gastadores.

- Pois esse rapaz veio me falar sobre isso. Claro que não o levei muito a sério. Fiquei de olho nos filmes da Imprensa Planetária por algum tempo depois de nossa conversa, mas quase não se falava em nome de Hilder; as poucas referências que havia me deram uma imagem dele um tanto... ridícula.

- Sei disso, Comissário - disse Digby. - Lá na Terra, quando tudo começou, parecia algo cômico.

Sankov esticou um par de longas pernas para o lado da escrivaninha, cruzando os tornozelos.

- Bem, para mim continua parecendo cômico. Afinal, qual é a tese dele? Estamos gastando água, certo. Mas ele já parou para pensar em termos de números? Tenho todos aqui. Pedi que me fornecessem todos quando soube da chegada do seu comitê.

- Ao que parece, a Terra dispõe de quatrocentos milhões de milhas cúbicas de água nos seus oceanos, e cada milha cúbica pesa quatro e meio bilhões de toneladas. É bastante água. Uma parte dela é usada para a propulsão de nossas naves espaciais. A maior parte do impulso se dá dentro do campo gravitacional da Terra, o que significa que a água expelida sob forma de vapor acaba retornando ao oceano. Hilder parece não perceber isto. Quando ele diz que cada vôo que decola usa um milhão de toneladas de água está mentindo. Na verdade, são menos de cem mil toneladas.

- Agora, suponhamos que haja cinqüenta mil vôos por ano. Não são tantos assim, na verdade; não chegam a mil e quinhentos. Mas digamos cinqüenta mil, porque com o passar do tempo deverá haver um aumento considerável. Com cinqüenta mil vôos, uma milha cúbica de água se perderá no espaço, por ano. Isso quer dizer que dentro de um milhão de anos a Terra terá perdido 1/4 de um por cento de suas reservas totais de água!

Digby ergueu as mãos, com as palmas para cima, depois deixou-as cair.

- Comissário - disse, a Liga Interplanetária tem exibido estatísticas desse tipo em sua campanha contra Hilder, mas não é fácil combater com números uma reação fortemente emocional depois que ela se apossa das multidões. Esse Hilder criou esse rótulo, os "Gastadores", e foi aos poucos transformando uma simples palavra numa gigantesca conspiração, numa quadrilha de criaturas brutais e gananciosas dispostas a pilhar as derradeiras riquezas da Terra.

- Hilder acusou o governo de estar totalmente infiltrado por essas pessoas; acusou a Assembléia de ser dominada por elas; acusou a imprensa de estar a seu serviço. Nada disso, infelizmente, parece ridículo aos olhos dos cidadãos comuns. Eles sabem muito bem o que o egoísmo de alguns pequenos grupos pode fazer às riquezas naturais da Terra. Ele recorda o que aconteceu com o petróleo terrestre durante a Era das Convulsões, por exemplo, assim como lembra do modo como as terras férteis para agricultura foram devastadas.

- Quando um fazendeiro está atravessando um período de seca, ele não está preocupado em saber se a água gasta nos vôos espaciais é apenas uma gota no oceano. Hilder lhe indicou alguém a quem culpar pelo que acontece, e essa possibilidade de botar a culpa em alguém é um excelente consolo para quem está numa situação desesperada. O fazendeiro não vai querer trocar isso por uma ração de estatísticas.

Sankov replicou:

- É justamente aí que eu fico perplexo. Talvez seja porque não sei muito bem como estão as coisas na Terra, mas a impressão que tenho é que lá não existem mais fazendeiros flagelados pela seca. Pelo que posso deduzir dos resumos dos noticiários, os seguidores de Hilder não passam de uma minoria. Será que a Terra inteira pode se curvar diante de meia dúzia de fazendeiros e de um grupinho de fanáticos?

- Talvez, Comissário; porque o fato é que a Terra está cheia de pessoas preocupadas com seu destino. A indústria do aço avalia que a era espacial vai aumentar cada vez mais a demanda por metais e ligas metálicas leves, não-ferrosas. Os sindicatos de mineiros estão preocupados com a competição extraterrestre. Toda vez que um empresário Terrestre não consegue alumínio para construir sua indústria pré-moldada ele acha que é porque todo o alumínio está indo para Marte. Conheço um professor de Arqueologia que é inimigo dos Gastadores porque não consegue uma verba do governo para fazer as escavações que pretende. Ele está convencido de que todo o dinheiro do governo está indo para a pesquisa astronáutica e para a medicina espacial; isso o deixa furioso.

- Não creio - disse Sankov - que os Terrestres sejam muito diferentes de nós aqui em Marte. E quanto à Assembléia Geral? Por que tem que se curvar às exigências de Hilder?

Digby deu um sorriso amargo.

- A política não é algo fácil de explicar. Hilder fez apresentar esse projeto para a criação de um comitê de investigação sobre os desperdícios resultantes dos vôos espaciais. Talvez três quartos da Assembléia Geral estivessem contra esse tipo de investigação, considerando-a uma mera extensão das atividades burocráticas, uma coisa inútil e indesejável. O que ela é, de fato. Mas, diga-me... como é que um legislador pode se colocar contra uma investigação sobre o uso do dinheiro público? Daria a impressão de que ele tem algo a esconder. Iria parecer que ele estaria extraindo alguma vantagem disso. Hilder não hesitaria um instante em fazer esse tipo de acusação, e, fosse verdadeira ou não, ela pesaria bastante na próxima campanha eleitoral. O projeto foi aprovado.

- Depois veio a questão da indicação dos membros do comitê. Os que eram contrários a Hilder evitaram fazer parte dele, pois isto os obrigaria a tomar decisões que lhes trariam muitas dores de cabeça. Preferiram manter-se a distância e não servir de alvo para Hilder. O resultado é que eu sou o único membro do comitê que é declaradamente anti-Hilder; e isso talvez me custe a reeleição.

- Sinto muito - disse Sankov. - Parece que Marte não tinha tantos amigos quanto pensava. Não gostaríamos de perder mais um. Mas se Hilder sair vitorioso... o que quer ele, afinal?

- Creio que é óbvio. Ele quer ser o próximo Coordenador Global.

- Acha que consegue?

- Se não acontecer nada que o detenha, sim.

- E depois disso? Ele vai abandonar a campanha contra os Gastadores?

- Não sei dizer. Não sei se os planos dele vão além da Coordenação. Mas se quer um palpite, posso lhe garantir que ele não pode abandonar essa campanha sob pena de perder sua popularidade. A coisa já escapou ao seu controle.

Sankov voltou a cocar o pescoço.

- Tudo bem. Nesse caso, Vou pedir-lhe um conselho. O que podemos fazer aqui em Marte? O senhor conhece a Terra, conhece toda a situação. Nós não.

Digby ficou de pé e caminhou até a janela. Observou as cúpulas dos edifícios ao lado: feitas de pedra vermelha, tendo entre elas um chão nu e desolado; um céu cor de púrpura, onde brilhava um sol minúsculo.

Sem se virar, ele perguntou:

- As pessoas daqui gostam mesmo de Marte? Sankov sorriu.

- A maior parte de nós não conhece outro mundo. Creio que, para a maioria dos marcianos, a Terra seria um mundo um tanto excêntrico e pouco confortável.

- Mas não acabariam se acostumando? Depois de um certo tempo não é difícil viver na Terra. Seu povo não consideraria um privilégio a possibilidade de respirar ar puro, sob um céu aberto? O senhor viveu na Terra um dia. Deve lembrar como era.

- Lembro um pouco. Mas não sei bem como explicar. A Terra está lá, certo? Ela e as pessoas se completam. As pessoas aceitam a Terra do jeito que ela é. Marte é diferente.

É um mundo rude, onde as pessoas não podem se instalar com facilidade. As pessoas têm que fazer um esforço para isso. Têm que criar um mundo, não apenas se acostumar a um mundo já pronto. Marte ainda não é grande coisa, mas nós o estamos construindo, e quando tivermos acabado ele estará do modo como planejamos. É uma bela sensação essa de saber que estamos construindo um mundo. Comparada a isto, a Terra parece um lugar um tanto sem graça.

Digby falou:

- Não creio que o marciano médio seja assim tão filosófico quanto a esta questão. Não creio que ele se dê por satisfeito com uma vida tão dura apenas por ter em mente um futuro que pode estar a centenas de gerações de distância.

- Não, não é bem assim. - Sankov apoiou o tornozelo direito sobre o joelho esquerdo enquanto falava. - Como eu disse, os marcianos são muito parecidos com os Terrestres, o que quer dizer que são seres humanos comuns; e pessoas comuns não costumam filosofar muito. Ainda assim, a vida num planeta como este produz uma certa influência, quer as pessoas tenham consciência disso, quer não.

- Meu pai costumava me escrever cartas depois que eu vim para Marte. Ele era um guarda-livros, e de certo modo continuou guarda-livros a vida inteira. A Terra em que ele morreu não era muito diferente da Terra onde ele tinha nascido; ele não via nada de novo acontecer. Cada dia parecia igual aos outros, a vida era apenas um modo de passar o tempo até a hora de morrer.

- Em Marte, é diferente. Todo dia acontece algo novo: a cidade fica maior, o sistema de ventilação é ampliado, a água que vem dos pólos ganha uma nova rede de distribuição. Agora mesmo estamos pensando em montar uma produtora de jornais cinematográficos locais. Vamos chamá-la Imprensa Marciana. Se o senhor nunca viveu num ambiente onde novas coisas são criadas o tempo inteiro, não vai entender nunca o quanto isso é formidável.

- Não, Sr. Digby, Marte é um lugar duro e inóspito e a Terra é o mais confortável dos mundos, mas me parece que se nosso pessoal for levado para lá isso vai deixá-los muito infelizes. Provavelmente não vão nem entender por que, mas vão sentir-se perdidos, inúteis. Creio que a maioria deles nunca se adaptaria.

Digby virou as costas para a janela. A pele rosada de sua testa estava contraída em rugas.

- Nesse caso, Comissário - disse ele, sinto muito por vocês. Por todos vocês.

- Por quê?

- Porque não creio que vocês possam fazer nada a respeito disso. Ou mesmo as pessoas que vivem na Lua ou em Vênus. Não vai acontecer agora; talvez só aconteça dentro de um ano ou dois, ou quem sabe cinco anos. Mais cedo ou tarde vocês vão ter que voltar para a Terra. A menos que...

As sobrancelhas brancas de Sankov se cerraram sobre os olhos.

- Sim?...

- A menos que possam encontrar outra fonte de água que não seja a Terra.

- Sankov sacudiu a cabeça.

- Não parece fácil.

- Não é.

- E não temos outra chance, além disso?

- Nenhuma.

Digby despediu-se e deixou o aposento. Sankov ficou pensativo por um bom tempo e em seguida digitou uma combinação na linha de intercomunicações.

Depois de algum tempo, a tela iluminou-se mostrando o rosto de Ted Long.

- Estava certo, garoto - disse Sankov. - Eles não podem fazer nada por nós. Mesmo os que estão do nosso lado não vêem nenhuma saída. Como é que você tinha tanta certeza?

- Comissário - disse Long, depois que a gente lê o bastante sobre a Era das Convulsões, especialmente o século XX, nada que aconteça na política terrestre pode nos causar surpresa.

- Talvez. Em todo caso, o representante da Assembléia Geral, o Sr. Digby, lamenta muito por nós, pode-se dizer que fica de coração partido, mas não pode fazer nada. Diz que vamos ter que ir embora de Marte... ou obter água em outro lugar. Só que ele acha que jamais encontraremos um meio de obter água.

- O senhor sabe que esse meio existe, não é, Comissário?

- Sei que há uma possibilidade. Mas é um risco enorme.

- Se eu encontrar voluntários, o risco é problema nosso.

- E como está indo?

- Nada mal. Alguns dos rapazes estão comigo para o que der e vier. Já falei com Mario Rioz, por exemplo, e o senhor sabe que ele é um dos melhores.

- Aí é que está... os voluntários serão os nossos melhores homens. Não gosto disso.

- Se conseguirmos voltar, terá valido a pena.

- Se!... Essa palavra pesa muito, rapaz.

- O que estamos tentando fazer também vale muito.

- Bem... dei minha palavra de que se a Terra não nos ajudasse vocês poderiam ir em frente. O reservatório de água de Fobos fornecerá toda a água de que vocês precisarem. Boa sorte, rapaz.

 

A meio milhão de milhas sobre Saturno, Mario Rioz se deixava embalar no vácuo espacial, o sono que o invadia era algo delicioso. Abriu os olhos por um instante e, flutuando dentro do seu traje especial, distraiu-se contando as estrelas e unindo-as com traços imaginários.

De início, à medida que as semanas iam passando, era tudo mais parecido com os tempos da Caça, exceto pela incômoda lembrança de que cada minuto transcorrido significava alguns milhares de milhas a mais de distância entre eles e a humanidade. Isso tornava as coisas piores.

Tinham planejado a trajetória de modo a passar por fora da eclíptica ao cruzar o cinturão dos asteróides. Essa manobra tinha implicado um gasto adicional de água, e se tinha revelado desnecessária. Aquelas dezenas de milhares de fragmentos sólidos pareciam uma poeira compacta quando observados numa projeção bidimensional sobre uma chapa fotográfica: mas na verdade estavam tão espalhados pelos quatrilhões de milhas cúbicas de sua órbita que somente a mais ridícula das coincidências poderia resultar numa colisão.

Em todo caso, eles passaram por sobre o cinturão, e um deles calculou as chances de colisão de uma das naves com um fragmento de matéria grande o bastante para causar algum dano. O valor obtido foi tão irrisório, tão infinitesimal, que tornou-se inevitável um deles ter em seguida a idéia do "passeio espacial".

Os dias eram longos e eram muitos; o espaço era um vazio uniforme; somente um homem tinha que ficar nos controles da nave de cada vez. Portanto, nada mais natural que...

Primeiro foi um mais ousado que se aventurou do lado de fora por cerca de quinze minutos. Depois, um outro experimentou meia hora. Dentro de pouco tempo, cada uma das naves passou a ter constantemente um de seus tripulantes do lado de fora, flutuando na extremidade de um cabo.

Era muito fácil. O cabo, que iria ajudá-los no trabalho quando chegassem ao seu destino, tinha em cada extremidade um magneto, um dos quais era conectado ao traje espacial. O homem, ao sair pela escotilha da nave, fixava o outro magneto ao casco. Esperava um momento, os pés presos à superfície metálica pelos magnetos embutidos na parte inferior das botas. Depois, era só neutralizá-los, tomar com o corpo um leve impulso.

Lentamente, muito lentamente, ele sentia seu corpo flutuar, afastando-se da nave, e mais lentamente ainda a massa maior da nave movia-se uma distância proporcionalmente menor na direção oposta. Ele se sentia flutuar sem peso no interior do que parecia um bloco sólido de escuridão, cravejado de estrelas. Quando a nave estava a uma distância conveniente, ele apertava a mão enluvada sobre o cabo que continuava segurando. Puxar o cabo com muita força significaria tomar um impulso no sentido contrário, indo novamente ao encontro da nave. Bastava cerrar os dedos e aquele leve atrito seria suficiente para deter o movimento do corpo. Ele se sentia imóvel, parado sobre uma nave igualmente imóvel que parecia pintada sobre aquela superfície negra; como tanto ele quanto a nave se moviam na mesma direção, o cabo que os unia não chegava a se esticar e também flutuava, coleando muito devagar.

Aos olhos dele, era apenas meia nave. Uma banda estava iluminada pela luz do Sol, muito distante, mas que só podia ser olhada de frente com o auxílio do visor polarizado.

A outra banda da nave se confundia com o negror do espaço, tornando-se invisível.

Era como se o vácuo se fechasse sobre ele; era como o sono. O traje espacial era aquecido, seu ar era renovado automaticamente, havia comida e bebida que se podia alcançar com um simples movimento da cabeça, havia um sistema para eliminação dos dejetos. E, além disso tudo, mais importante do que tudo, havia a deliciosa euforia da imponderabilidade.

Ele nunca tinha se sentido tão bem em toda sua vida. Os dias deixavam de ser longos: ao contrário, nunca eram longos o bastante, pareciam tão rápidos, tão poucos.

Tinham cruzado a órbita de Júpiter num ponto a cerca de trinta graus de sua posição. Durante meses ele tinha sido o objeto mais brilhante no céu, com exceção daquela pequena ervilha branca que era o Sol. Nos seus momentos de maior brilho, Júpiter pareceu a alguns dos Caçadores uma minúscula esfera, com uma das metades obliterada pela sombra noturna.

Durante os meses seguintes ele começou a diminuir, enquanto outro ponto de luz começava a crescer até se tornar mais brilhante do que Júpiter. Era Saturno - primeiro apenas um ponto refulgente, depois uma mancha oval e luminosa.

"Por que oval?", perguntou alguém, e depois de alguns instantes outro respondeu "ora, são os anéis", e logo pareceu óbvio.

No final da jornada, cada um deles passava o maior tempo possível flutuando no espaço, olhando Saturno cada vez mais próximo.

- "Ô cara, está na hora de voltar. É sua vez." "Minha vez de quê? Pelo meu relógio ainda tem quinze minutos." "Você atrasou seu relógio. E ontem eu lhe dei vinte minutos, não esqueça." "Você? Você não daria dois minutos à sua avó." "Ah, que é isso, vamos logo. Olha, eu estou saindo, hem?" "Tá legal, tá legal, já Vou entrar. Porra, que confusão, só por causa de um minuto." Mas nenhuma discussão podia ser travada a sério, não ali, pelo menos. Todos estavam se sentindo bem demais.

Saturno cresceu até se igualar ao Sol, e depois tornar-se maior. Os anéis eram visíveis devido ao ângulo aberto de sua trajetória de aproximação: agigantavam-se em torno do planeta, e apenas uma pequena parte deles estava eclipsada. À medida que as naves se aproximavam, a envergadura dos anéis tornava-se cada vez maior, a sua espessura parecia diminuir à medida que o ângulo de aproximação ia se reduzindo. As luas maiores cruzavam o céu como mariposas muito lentas.

Mario Rioz sentia-se satisfeito por estar acordado e poder observar mais uma vez aquilo tudo.

Saturno preenchia metade do céu visível, estriado de faixas cor de laranja, com a sombra noturna demarcando um corte difuso em um quarto de sua imagem, do lado direito.

Dois pontos escuros e arredondados, visíveis sobre a superfície brilhante, eram as sombras de dois satélites. Do lado esquerdo, e por trás dele (ao se virar para olhar sobre o ombro, o resto de seu corpo inclinou-se um pouco para a direita, para conservar o momentum angular) estava o diamante branco do Sol.

O que ele mais gostava de olhar eram os anéis. Do lado esquerdo, eles emergiam por baixo de Saturno, uma faixa tripla e brilhante de luz alaranjada. Do lado direito, sua parte mais distante estava oculta pela sombra noturna, mas eles apareciam maiores e mais próximos. Ficavam cada vez mais largos em sua parte mais próxima, lembrando o formato de uma trompa de caça, e sua luz ia-se tornando cada vez mais difusa, até que, no momento em que sua imagem pareceu encher os céus por completo, pareceu também dissolver-se e perder substância.

No ponto onde a frota dos Caçadores estava situada, na borda interna do anel exterior, os três anéis perdiam a aparência de solidez e mostravam sua verdadeira natureza: um prodigioso aglomerado de fragmentos sólidos, não a faixa de luz inteiriça que pareciam a distância.

Abaixo de Rioz, ou pelo menos na direção para onde apontavam seus pés, acerca de vinte milhas de distância, estava um desses fragmentos. Parecia um bloco de pedra largo e irregular, quebrando a simetria que predominava ali no espaço: três quartos dele fortemente iluminados e o restante cortado bruscamente pela escuridão, como que por uma faca. Outros fragmentos eram visíveis a distância, cintilando como poeira de estrelas, num faiscar cada vez mais difuso e concentrado à medida que a distância aumentava, até que finalmente aquela luz toda parecia se fundir sobre si própria e a imagem do anel voltava a surgir.

Os fragmentos estavam imóveis, mas apenas porque as naves moviam-se em redor de Saturno numa órbita paralela à da borda exterior dos anéis.

Rioz pensou que tinha passado o dia anterior sobre um daqueles fragmentos, trabalhando em equipe para desbastá-lo, dar-lhe a forma desejada. No dia seguinte, seria mais uma vez seu turno de trabalho.

Mas hoje... hoje era dia de flutuar.

- Mario?...

A voz que brotou em seus fones de ouvido tinha um ar interrogativo.

Rioz foi invadido por uma súbita irritação. Ora que diabo, não precisava de companhia numa hora como aquela.

- Rioz falando - respondeu.

- Achei que era sua nave. Como vão as coisas?

- Bem. É você, Ted?

- Sim - disse Long.

- Alguma coisa errada lá no fragmento?

- Não, não. Estou só flutuando um pouco.

- Você?

- Eu também gosto, de vez em quando. É bonito, não é?

- É bom - concordou Rioz.

- Sabe, eu já li em alguns livros terrestres...

- Livros terrestres, hem! - Rioz bocejou, não conseguindo infundir àquela expressão o indispensável tom de desdém.

- ...e algumas vezes li descrições de pessoas deitadas na relva - prosseguiu Long. - Sabe como é, aquelas superfícies verdes, feitas de uma espécie de filetes de papel, que cobrem o chão. E as pessoas deitam ali e ficam olhando para o céu azul, cheio de nuvens. Já viu no cinema?

- Já. Não gostei. Parece que faz frio.

- Não acho. A Terra fica próxima do Sol, e se a atmosfera lá é mais espessa ela deve reter mais calor. Por mim, não gostaria de ficar a céu aberto vestido apenas com roupas comuns. Mas o fato é que eles gostam.

- São malucos.

- Eles falam sobre as árvores, que são postes naturais de madeira, e o vento, que é a movimentação do ar.

- Correntes de ar? Podem ficar com elas, também.

- Não importa. O caso é que eles descrevem isso da maneira mais bela possível, uma coisa quase apaixonada. Muitas vezes eu fiquei pensando: como será isso? Será que conseguirei sentir um dia algo semelhante, algo que só os Terrestres parecem ser capazes de sentir? E agora sei como é. É isto aqui. Uma paz absoluta no centro de um Universo inundado de beleza.

- Eles não gostariam - disse Rioz. - Quero dizer, os Terrestres. Estão tão acostumados com o mundinho deles que jamais lhes passaria pela cabeça ficar flutuando no espaço com Saturno bem abaixo dos seus pés.

Deu um pequeno impulso no corpo e começou a oscilar em torno do seu centro de gravidade, devagar, suavemente.

- Tem razão - disse Long. - São escravizados àquele planeta. Mesmo se alcançarem Marte, serão somente os seus filhos que se tornarão livres. Algum dia poderão construir naves para vôos interestelares: naves enormes que poderão carregar milhares de pessoas e manter a si próprias por décadas,  séculos talvez.  A humanidade irá se espalhar por toda a Galáxia. Mas as pessoas terão que suportar a vida dentro de uma nave, pelo menos até que seja descoberto algum outro método de viagem interestelar; portanto, terão que ser os Marcianos, não os Terrestres, que colonizarão o Universo. É inevitável. Tem que ser assim. É o estilo Marciano.

Mas Rioz não respondeu. Estava adormecendo mais uma vez, girando e oscilando lentamente, a meio milhão de milhas sobre Saturno.

 

O trabalho em equipe sobre o fragmento do anel era o reverso da moeda. A imponderabilidade, a paz e a solidão eram substituídas bruscamente por algo que nem de longe se assemelhava a calma ou privacidade. Mesmo a ausência de peso, que continuava, tornava-se naquelas novas condições um purgatório, não um paraíso.

Tente manipular um projetor térmico não-portátil. Ele podia ser erguido com facilidade, a despeito do fato de ter quase dois metros de altura e largura e ser feito de metal sólido; ali, mantinha apenas uma pequena fração de seu peso original. Mas a sua inércia era a mesma de sempre, e se não era movido com muito cuidado tendia sempre a manter-se em movimento... com você a reboque. Era preciso, então, acionar o campo pseudogravitacional instalado no traje e retornar ao solo num baque brusco.

Keralski tinha acionado o campo com um pouco mais de força e acabou perdendo o equilíbrio, com o projetor vindo sobre ele num ângulo perigoso. Machucou o tornozelo. Foi esse o primeiro acidente com o grupo.

Rioz estava praguejando sem parar. Não conseguia evitar o gesto inútil de tentar passar as costas da mão sobre a testa para limpar o suor acumulado. Cada vez que repetia maquinalmente esse gesto o choque entre o metal e o silicone do visor produzia um tinido que ressoava em seus tímpanos e não resultavam em nada. Os ressecadores no interior do traje estavam trabalhando ao máximo possível, recolhendo o excesso e reciclando a água, devolvendo líquido reionizado ao receptáculo apropriado, juntamente com uma pequena quantidade de sal.

Rioz gritou:

- Porra, Dick, espera até eu chamar, tá legal? A voz de Dick Swenson ressoou em seus fones:

- Tudo bem, mas quanto tempo Vou ter que ficar pregado aqui?

- Até eu dizer - retrucou Rioz.

Aumentou o campo de pseudogravidade e ergueu o projetor térmico. Diminuiu o campo, assegurando-se de que o projetor permaneceria na posição correta mesmo se ele o largasse. O cabo que o ligava ao gerador de energia estava coleando à sua frente; ele o chutou para o lado; depois apertou o botão.

O material de que o fragmento era feito começou a borbulhar e a desaparecer sob o jato emitido pelo projetor. A borda da enorme abertura que Rioz já tinha escavado dissolveu-se pouco a pouco, perdendo uma série de protuberâncias e adquirindo um contorno levemente curvo.

- Experimente agora - disse Rioz., Swenson estava na nave que flutuava acima de sua cabeça.

- Tudo pronto? - perguntou Swenson.

- Já falei.

Um fino jato de vapor começou a ser expelido por um dos escapes na parte dianteira da nave e ela começou a descer de ré na direção do fragmento. Um jato lateral fez uma pequena correção na trajetória, e a nave desceu de encontro à cavidade. Um terceiro jato, saindo da traseira, diminuiu sua velocidade.

A traseira da nave foi penetrando aos poucos na enorme caverna, até que a parte mais bojuda da fuselagem roçou as suas bordas; houve um ruído de esmagamento, a nave vibrou, sacudiu-se, e por fim ficou imóvel.

Foi a vez de Swenson praguejar.

- Não cabe - disse ele.

Rioz empurrou o projetor térmico na direção do solo, num rompante de irritação, e sofreu um impulso para o alto. O projetor ergueu uma nuvem de estilhaços cristalinos ao se chocar com a superfície. Rioz acionou o campo de pseudogravidade e retornou ao chão, erguendo uma nuvem semelhante. Berrou:

- Você entrou torto, seu... filho de uma Terrestre.

- Eu entrei reto, comedor de bosta.

Os jatos traseiros da nave começaram a rugir com mais intensidade e Rioz afastou-se com um sacolejão a nave desprendeu-se das bordas da cavidade e mergulhou no espaço por quase uma milha até que os jatos dianteiros a detivessem.

A voz de Swenson estava tensa.

- Vamos amassar o casco inteiro se isso acontecer de novo. Vê se desta vez faz a coisa certo.

- Não se preocupe comigo. Faça a sua parte direito.

Rioz saltou para cima e afastou-se até uma distância de trezentos metros para poder ter uma visão de conjunto da vasta abertura. Os arranhões deixados pelo casco da nave eram bem visíveis e se concentravam num ponto na parte inferior da borda. Não ia ser muito difícil.

As bordas começaram novamente a derreter sob o impacto térmico do projetor.

Meia hora depois, a nave de Swenson conseguiu esgueirar-se pela abertura e encaixar-se ali dentro com perfeição. Ele, envergando seu traje espacial, emergiu pela escotilha indo ao encontro de Rioz.

- Se quiser subir para a nave um pouco - disse ele - tudo bem, pode deixar que eu completo o gelo.

- Está bem - disse Rioz. - Acho que Vou sentar aqui um pouco e dar uma olhada em Saturno.

Ficou sentado à beira da cavidade. Havia um espaço de dois metros de largura entre a borda e o casco da nave; em certos trechos esse espaço se estreitava até meio metro; em outros não passava de alguns centímetros. Era impossível exigir resultado melhor num trabalho puramente manual. O ajuste final iria consistir em jatos de vapor concentrado que iriam se solidificando ao longo daquelas frestas, tapando-as por completo e soldando a nave ao gigantesco bloco de gelo.

Saturno movia-se visivelmente no céu, com seu vulto gigantesco cortado ao meio pelo horizonte.

- Quantas naves ainda faltam ser instaladas? - perguntou Rioz.

- Da última vez que ouvi eram onze - disse Swenson. - Nós já estamos prontos, então são dez. Sete já estão colocadas e presas com o gelo. Duas ou três já retiraram a aparelhagem.

- Então a coisa vai indo bem.

- Ainda falta muito. Temos que instalar os jatos principais na parte traseira do fragmento. E ainda os cabos e as linhas de força. Tem horas que fico imaginando se vamos conseguir. Durante a viagem eu não me preocupava com isso, mas ainda há pouco eu estava sentado aos controles e comecei a pensar: não vamos conseguir, vamos ficar encalhados aqui e a comida vai acabar, vamos morrer todos, olhando para Saturno... Isso me fez sentir...

Não concluiu a frase. Ficou apenas sentado, em silêncio.

- Você pensa demais - disse Rioz.

- Com você é diferente - disse Swenson. - Fico me lembrando de Pete... e de Dora.

- Por quê? Ela deixou você vir, não deixou? O Comissário jogou todo aquele papo de patriotismo, de que você ia virar herói, ganhar um emprego estável na hora em que voltasse... e ela acabou deixando. Você não teve que sair escondido, como Adams.

- Adams é diferente. Aquela mulher dele devia ter sido fuzilada na hora em que nasceu. Certas mulheres podem jogar um sujeito num verdadeiro inferno, não é mesmo?

Ela não queria que ele viajasse... mas provavelmente não iria se incomodar se ele morresse, desde que ela tivesse direito a uma indenização.

- E qual é o seu problema, então? Dora quer que você volte. Swenson suspirou.

- Eu nunca a tratei direito.

- Todo dinheiro que você ganha você entrega a ela. Eu não faria isso com nenhuma mulher. Daria o dinheiro das despesas de casa e nem um centavo a mais.

- Não é o dinheiro. Tenho pensado muito nisso aqui: uma mulher precisa de companhia. Um garoto precisa ter o pai por perto. O que diabo eu estou fazendo aqui?

- Está se preparando para voltar para casa.

- Não adianta. Você não entende.

Ted Long se deslocava sobre a superfície irregular do fragmento com o ânimo tão frio quanto o chão onde pisava. Lá em Marte tudo parecia perfeitamente lógico, mas isso tinha sido em Marte. Ele tinha planejado tudo em sua mente, passo a passo, numa lógica irrefutável. Ainda estava tudo muito vivo em sua memória.

Não é preciso uma tonelada de água para mover uma tonelada de peso da espaconave. A questão não é "massa igual a massa", e sim "massa vezes velocidade igual a massa vezes velocidade". Em outras palavras, não importa se você expele uma tonelada de água em forma de vapor a uma milha por segundo, ou se você expele cem quilos de água a vinte milhas por segundo. A velocidade final que se imprime à nave é a mesma.

Isso quer dizer que os tubos de escape teriam que ser mais estreitos e os jatos de vapor mais quentes. Mas isso acarretava desvantagens. Quanto mais estreito o tubo, mais energia se perdia em atrito e em turbulência. Quanto mais quente o jato, mais refratário ao calor tinha que ser o tubo... e mais curta sua vida útil. O limite nessa direção foi rapidamente atingido.

Uma vez que uma dada quantidade de água podia impelir um peso muito maior que o dela própria, com o uso desses escapes mais estreitos era compensador trabalhar em grande escala. Quanto maior o reservatório de água, maior o tamanho da parte tripulada da nave, mesmo em termos proporcionais. Começaram então a planejar naves cada vez maiores e mais pesadas; mas aí surgiu outro contratempo. Quanto maior o casco da nave, mais pesados os suportes internos, mais trabalhosa a soldagem, mais complicados os cálculos de engenharia. O limite nessa direção também foi atingido sem demora.

Então, ele constatou o equívoco básico que perdurava desde o início: a noção de que o combustível teria que estar situado no interior da nave e de que seria preciso rodear de metal um milhão de toneladas de água.

Por quê? A água não tinha que estar em forma de água. Podia ser um bloco de gelo, e um bloco de gelo pode ser moldado, esculpido. Pode ser perfurado. Pode ser todo incrustado de cabines e de sistemas de jatos. Essas cabines e esses sistemas de jatos podem permanecer unidos e conectados através de cabos munidos de poderosos campos magnéticos.

Long sentiu o chão estremecer por baixo de si. Estava quase na extremidade do fragmento. Uma dúzia de naves entrava e saía dos túneis escavados no gelo e o fragmento era sacudido continuamente por aquela sucessão de impactos.

O gelo não tinha que ser extraído como se extrai pedra de uma pedreira. Ele existia em pedaços já soltos, flutuando nos anéis de Saturno. Os anéis não passavam disso - blocos de gelo quase puro, circulando em torno do planeta. A espectroscopia tinha descoberto isso, a confirmação viera depois. Long estava sobre um desses blocos agora, um fragmento com duas milhas de comprimento e quase uma milha de largura. Cerca de meio bilhão de toneladas de água em estado sólido, bem ali, sob as solas de suas botas.

Mas agora ele tinha que encarar de frente as dificuldades da vida real. Ele nunca tinha explicado aos outros Caçadores em quanto tempo pretendia transformar o fragmento numa gigantesca nave; mas em sua mente tinha calculado um prazo de dois dias. Agora já fazia mais de uma semana, e ele não se atrevia a avaliar quanto ainda faltava.

Já não tinha sequer a certeza de que a tarefa era realizável. Não sabia se conseguiriam controlar, com a necessária precisão, os jatos instalados no fragmento e conectados às naves através de cabos de forças estendidos ao longo de duas milhas de superfície gelada. Se não o conseguissem, jamais escapariam à gravidade de Saturno.

A água potável estava perto do fim, embora sempre fosse possível destilar mais, com todo aquele gelo à volta. Mas os mantimentos não iriam durar para sempre.

Fez uma pausa e ergueu o rosto para o céu, apertando os olhos. Será que aquele outro fragmento estava mesmo maior! Tinha que medir a distância, mas o fato é que não tinha disposição para somar mais uma preocupação às que já tinha. Forçou sua mente a se voltar para as questões mais imediatas.

O moral das equipes, pelo menos, estava alto. Os homens pareciam estar gostando daquela aventura em Saturno. Eram os primeiros seres humanos a vir tão longe, os primeiros a ultrapassar a linha dos asteróides, os primeiros a ver Júpiter crescendo como uma jóia brilhante a olho nu, os primeiros a ver Saturno... essas coisas.

Long não achava que cinqüenta Caçadores veteranos, endurecidos por anos de perigos no espaço, fossem se dar o luxo de saborear emoções desse tipo: mas era o que estava acontecendo. Estavam todos cheios de orgulho.

À medida que andava, viu surgir no horizonte os vultos de dois homens e de uma nave parcialmente incrustada no gelo.

Chamou:

- Olá. Vocês aí. Ouviu a voz de Rioz:

- É você, Ted?

- Sim. Esse aí é Dick?

- Certo. Venha, sente aqui. Temos que completar o gelo da nave e você é um bom pretexto para deixar a coisa para depois.

- Não por mim - disse Swenson prontamente. - Quando é que vamos embora, Ted?

- Assim que acabarmos. Não chega a ser uma resposta, hem?

- Acho que não há outra - retrucou Swenson, desanimado. Long olhou para cima, na direção daquele bloco de gelo irregular que cintilava no céu.

- O que há? - perguntou Rioz, seguindo a direção do seu olhar.

Por um instante Long não respondeu. O céu era negro e os fragmentos dos anéis refletiam uma cor alaranjada. Três quartos de Saturno já estavam abaixo do horizonte e os anéis o acompanhavam. A meia milha de distância, uma nave surgiu de sob a borda gelada do planetóide, refletiu por alguns instantes a luz alaranjada de Saturno e voltou a mergulhar.

O chão era percorrido por tremores regulares.

Rioz insistiu:

- Alguma coisa na Sombra está lhe deixando preocupado? Era assim que o chamavam. Era o fragmento que ficava mais próximo àquele onde trabalhavam - bastante próximo considerando o fato de estarem na faixa mais externa dos anéis, onde os blocos de gelo estavam muito mais espalhados e distantes uns dos outros. Estava talvez a umas vinte milhas de distância, uma montanha quebrada em ângulos bruscos, bem visível à luz distante do Sol.

- O que acha dela? - perguntou Long. Rioz encolheu os ombros.

- Acho que está tudo normal. Não vejo nada errado.

- Não tem a impressão de que ela aumentou?

- Por que aumentaria?

- Não acha que aumentou? - insistiu Long. Rioz e Swenson olharam pensativos para a Sombra.

- É - disse Swenson. - Parece que está maior.

- Está botando coisas na cabeça da gente - protestou Rioz. - Se estivesse parecendo maior é porque estaria mais próxima.

- E isso é impossível?

- Todas estas coisas estão em órbitas estáveis.

- Estavam, quando chegamos - replicou Long. - Veja... sentiu?

O chão tinha voltado a tremer. Long continuou:

- Estamos despejando jatos em cima deste bloco há uma semana. Primeiro, vinte e cinco naves pousaram sobre ele, o que alterou seu momentum nesse mesmo instante.

Não muito, claro. Depois começamos a derreter partes dele; e nossas naves passam o tempo todo entrando e saindo dos túneis - e todas de um só lado. Durante toda esta semana, é possível que tenhamos alterado sua órbita, mesmo que muito pouco. Os dois fragmentos, este aqui e a Sombra, podem estar convergindo.

- Há espaço demais em torno para que ela venha justamente de encontro a nós - disse Rioz, pensativo, o rosto erguido. - Além do mais, sequer podemos afirmar com

certeza que a coisa está ficando maior. Portanto, qual pode ser sua velocidade? Relativa a nós, quero dizer.

- Não precisa estar vindo muito rápido. Seu momentum é tão grande quanto o nosso, de modo que se nos chocarmos, por mais leve que seja esse choque seremos jogados para fora desta órbita, talvez até na direção de Saturno... que é a última direção para onde quereríamos ir. E, para falar a verdade, o gelo tem uma resistência muito baixa a trações, e um choque entre esses dois planetóides faria ambos em estilhas. Swenson ficou de pé.

- Que porra, se eu sou capaz de dizer se uma cápsula está se movendo a mil milhas de distância, posso fazer o mesmo com uma montanha a vinte milhas. - E partiu na direção da nave.

Long não fez menção de detê-lo.

- Que cara nervoso - comentou Rioz.

 

O planetóide ergueu-se devagar até o zênite, passou sobre suas cabeças e começou a mergulhar. Vinte minutos depois, o horizonte começou a arder numa luz alaranjada, do lado oposto àquele em que Saturno mergulhara; e logo o vulto maciço do planeta ergueuse, banhando os dois homens com sua luz.

Rioz acionou o rádio.

- Ei, Dick. Está vivo?

- Estou checando uma coisa - foi a resposta lacônica.

- Está se movendo, não é? - perguntou Long

- Sim.

- Em nossa direção?

Houve uma pausa. A voz de Swenson parecia abatida.

- Bem na mosca, Ted. Intersecção de órbitas exatamente dentro de três dias.

- Está maluco! - berrou Rioz.

- Chequei quatro vezes - disse Swenson.

Long sentiu um branco na mente. Só conseguiu pensar: e agora?

Alguns dos homens estavam tendo problemas com os cabos. Eles tinham que ser instalados com a maior precisão, e sua disposição tinha que ser quase perfeita para que o campo magnético criado atingisse a maior intensidade possível. No espaço, ou mesmo no ar, isso não importaria: os cabos se alinhariam automaticamente no instante em que a corrente começasse a fluir.

Ali era diferente. Uma canaleta tinha que ser escavada ao longo da superfície do planetóide e um cabo estendido ao longo dela. Se não estivesse alinhado dentro de alguns minutos de arco de uma direção previamente calculada, um movimento de torção seria aplicado a todo o planetóide, com uma conseqüente perda de energia, um desperdício que eles não se podiam permitir. As canaletas teriam então que ser refeitas e os cabos fixados nas novas posições. Os homens trabalhavam sem descanso.

Então, ouviu-se a ordem:

- Todo mundo trabalhando nos jatos!

Os Caçadores não são propriamente um grupo de homens dóceis à disciplina, portanto houve muitos grunhidos, muitos resmungos e reclamações enquanto o grupo começou a desmontar os sistemas de jatos que continuavam intactos em algumas naves. Um a um foram carregados para a extremidade do planetóide, instalados em posição e depois os cabos começaram a ser estendidos ao longo da superfície.

Passaram-se quase vinte e quatro horas até que um deles olhou para o céu e disse:

- Ih, cacete! - seguido por algumas coisas menos publicáveis. O que estava ao seu lado ergueu o rosto e disse:

- Puta que pariu.

Bastou que esses dois percebessem para que em um segundo o mesmo acontecesse com todos. Era como se aquilo fosse o fato mais espantoso em todo o Universo.

- Olhe só para a Sombra!

A Sombra estava espalhada pelo céu como uma ferida infeccionada. Os homens olhavam e percebiam que ela tinha dobrado de tamanho e imaginavam como não tinham visto aquilo antes.

Todo o trabalho foi virtualmente interrompido. Eles cercaram Ted Long.

- Não podemos fugir - avisou ele. - Não temos combustível suficiente para voltar para Marte e não temos equipamento para capturar outro planetóide. Vamos ter que ficar neste aqui. Mas vejam bem: a Sombra está vindo em nossa direção porque saímos de órbita devido às explosões e ao uso dos jatos. Temos que mudar isso, e a única coisa que podemos fazer é continuar com as explosões. Uma vez que não podemos fazer isso na parte da frente sem colocar em perigo o equipamento que já instalamos, vamos fazê-lo na extremidade de cá.

Voltaram a trabalhar nos jatos com uma furiosa energia que recebia novo impulso a cada meia hora, quando a Sombra se erguia no horizonte, maior e mais ameaçadora do que na vez anterior.

Long não sabia se aquilo iria funcionar. Mesmo que os jatos respondessem aos controles instalados a tamanha distância... e que funcionasse o sistema de suprimento de água, que dependia de uma câmara de armazenamento aberta diretamente sobre a massa gelada do planetóide, com projetores térmicos embutidos injetando o fluido propelente diretamente nas células motoras... mesmo assim ninguém podia ter certeza de que o corpo do planetóide pudesse agüentar intacto as enormes pressões a que iria ser submetido, sem estar ainda totalmente unido pelos cabos magnéticos.

- Tudo pronto - veio o sinal no receptor de Long.

- Pronto - disse ele, e premiu o contato.

A vibração começou a crescer por baixo dele. As estrelas dançavam na superfície transparente de seu visor.

Pelos retrovisores, via-se uma cachoeira de espuma onde faiscavam miríades de cristais de gelo.

- Está funcionando! - gritaram.

E continuou assim. Long não se atreveu a parar. Durante cinco horas seguidas os jatos foram acionados e rugiram, sibilaram, borbulharam, despejaram nuvens de vapor no espaço; o gelo maciço do planetóide sendo convertido em fumaça e arremessado para trás.

A Sombra se aproximou até que os homens não puderam fazer outra coisa senão contemplar aquela montanha suspensa no espaço, maior do que o próprio Saturno. Cada cordilheira e cada vale era visível, como cicatrizes espalhadas num rosto. Mas quando ela cruzou a órbita do planetóide passou a mais de meia milha de distância do ponto que eles tinham acabado de deixar.

Os jatos foram desligados.

Long curvou-se sobre si próprio na cadeira e escondeu o rosto nas mãos. Não comia há quarenta e oito horas. Agora poderia mastigar alguma coisa. Não havia nenhum outro planetóide suficientemente próximo para ameaçá-los, mesmo que começasse a se aproximar naquele preciso momento.

De volta à superfície do planetóide, Swenson comentou:

- O tempo todo que eu estava olhando aquela rocha vindo contra nós eu estava pensando: não vai acontecer, não vamos deixar acontecer.

- Estava todo mundo nervoso - disse Rioz. - Você viu Jim Davis? Estava verde. Eu mesmo estava meio assustado.

- Não é só isso. A questão não é só morrer, sabe como é. Eu estava pensando... é uma coisa besta, mas a gente acaba pensando essas coisas... estava pensando que Dora me preveniu que se eu morresse nesta viagem nem por isso devia ficar pensando que a última palavra tinha sido minha. É engraçado pensar nessas coisas numa hora assim.

- Olhe aqui - disse Rioz - você quis casar, então você foi e casou. Agora me diga: o que diabo eu tenho a ver com seus problemas?

 

A frota, agora fundida numa única unidade, estava retornando em sua longa viagem de volta de Saturno para Marte. Cada dia eles percorriam uma distância que na ida tinham levado nove dias para percorrer.

Ted Long tinha colocado de prontidão todos os cinqüenta membros da expedição. com vinte e cinco naves incrustadas no planetóide e incapazes de se mover independentemente,  a coordenação de seus jatos de aceleração, para que fossem acionados todos ao mesmo tempo, era um problema delicado. A trepidação que não cessou durante todo o primeiro  dia de viagem os sacudiu tanto que eles se sentiram a ponto de perder cada fio de cabelo.

Aos poucos a trepidação foi desaparecendo, à medida que a velocidade foi aumentando pela contínua injeção de potência nos jatos de vapor. No segundo dia de viagem  ultrapassaram a marca das cem mil milhas por hora, e a partir daí foram passo a passo se aproximando da marca do milhão de milhas, para mais.

A nave de Long, que ocupava a extremidade à frente daquela nave de gelo, era a única que tinha uma visão panorâmica do espaço em todas as direções. De certo modo  era uma posição incômoda. Mais de uma vez Long se flagrou observando os visores cheio de tensão, imaginando que de um momento para outro as estrelas começariam a  deslizar lentamente, vindo ao encontro deles e sumindo lá atrás, devido à tremenda velocidade imprimida à multinave.

Isso não acontecia, é claro. As estrelas continuavam pregadas de encontro àquele fundo negro, uma imobilidade que funcionava como uma espécie de escárnio às velocidades  artificialmente obtidas pelo homem.

Depois dos primeiros dias, os homens começaram a se queixar. Não era apenas o fato de não poderem mais flutuar à solta no espaço. Estavam sofrendo uma pressão muito  maior do que o costumeiro campo pseudogravitacional do interior das naves, sob o efeito da violenta aceleração a que estavam sendo submetidos. O próprio Long estava  exausto devido àquela incessante pressão de encontro às almofadas hidráulicas das poltronas de vôo.

Passaram a desligar os jatos durante uma hora em cada quatro, e Long começou a resmungar.

Fazia mais de um ano que ele tinha, pela última vez, visto Marte diminuindo através da vigia de sua nave, que era então uma nave independente das outras. O que teria acontecido desde então? A colônia ainda estaria lá?

Tomado por algo que se assemelhava a um pânico crescente, Long passou a enviar pulsos de rádio na direção de Marte diariamente, usando para isso a energia das vinte e cinco naves em conjunto. Não houve reposta. Ele não esperava nenhuma. Marte e Saturno estavam, naquele momento, do lado oposto do Sol. A menos que eles se elevassem acima da eclíptica e não mais tivessem o Sol se interpondo entre a nave e Marte, a interferência solar bloquearia a passagem de qualquer sinal.

Quando estavam ultrapassando a faixa externa do cinturão dos asteróides, atingiram sua velocidade máxima. Com pequenos e contínuos jatos dos tubos laterais, a enorme  nave começou a girar sobre si própria, até inverter a posição. O sistema de jatos situado na parte traseira recomeçou a funcionar, mas agora o efeito que produzia era o de desaceleração.

Passaram a cem milhões de milhas por sobre o Sol, descendo em curva para interceptar a órbita de Marte.

Uma semana antes de chegarem em Marte, foram ouvidos os primeiros sinais de resposta: fragmentários, cheios de interferências, e incompreensíveis; mas estavam vindo de Marte. A Terra e Vênus estavam situados em ângulos diferentes, o bastante para que não houvesse qualquer dúvida.

Long relaxou. Pelo menos ainda havia gente em Marte.

Dois dias antes da chegada, o sinal de rádio estava suficientemente forte e claro para que ele pudesse reconhecer o rosto de Sankov no vídeo.

- Olá, rapaz - disse o Comissário. - São três da madrugada aqui. Parece que as pessoas hoje em dia não têm mais respeito pelo sono de um velho. Acabaram de me arrancar da cama.

- Sinto muito, senhor.

- Não se preocupe... estavam cumprindo minhas ordens. Tenho uma pergunta a fazer, rapaz, mas estou receoso. Alguém ferido? Alguma baixa, talvez?

- Nenhuma baixa, senhor. Estamos todos bem.

- E... e a água? Conseguiram alguma?

- Long fez um esforço e conseguiu parecer despreocupado: - Oh, bastante.

- Nesse caso, venham logo, o mais rápido que puderem. Não corram riscos desnecessários, claro.

- Então há problemas.

- Mais ou menos. Quando vão chegar? - Em dois dias. Pode esperar?

- Tentarei.

Quarenta horas depois, quando Marte tinha crescido até se transformar numa enorme bola alaranjada que ocupava o espaço inteiro dos visores, eles começaram a descer na derradeira espiral rumo ao planeta.

- Devagar - murmurava Long para si mesmo. - Devagar.

Naquelas condições, mesmo a rarefeita atmosfera de Marte poderia causar pesados estragos caso eles se movessem a uma velocidade excessiva.

Como estavam vindo da região acima da eclíptica, a espiral que traçavam ia do norte para o sul. Uma calota polar brilhou muito branca abaixo deles, depois a calota menor do hemisfério onde transcorria o verão, depois a maior outra vez, depois a menor, a intervalos cada vez mais longos. O planeta estava mais próximo, alguns traços da paisagem começavam a se tornar visíveis.

- Preparar para pouso - disse Long.

Sankov fazia o possível para aparentar calma, mas não era muito fácil, considerando que os Caçadores estavam de volta praticamente no último minuto da derradeira hora. Mas tudo tinha funcionado a contento.

Até poucos dias atrás ele não tinha como saber se eles teriam sobrevivido ou não. Parecia mais possível - quase que inevitável - que àquela altura eles não fossem mais do que corpos congelados, perdidos nas vastidões do espaço entre Marte e Saturno, novos planetóides que um dia tinham sido seres humanos.

O comitê terrestre vinha negociando com ele há semanas, antes das primeiras notícias chegarem. Insistiam para que ele assinasse o documento, uma formalidade para salvar as aparências. Pareceria tudo um acordo, acertado voluntariamente de parte a parte. Mas Sankov sabia que, dada a total obstinação com que vinha se portando, eles acabariam agindo unilateralmente e mandando às favas as aparências. Era praticamente certo que Hilder ia ganhar as eleições, e eles podiam correr o risco de despertar algum tipo de reação de simpatia em favor de Marte.

Portanto ele protelou as negociações o mais que pôde, acenando sempre diante deles com a possibilidade de uma rendição total.

Chegou então o primeiro sinal de Long. Ele mais que depressa concluiu as negociações.

Os documentos estavam todos empilhados à sua frente e ele fez uma derradeira declaração, para satisfazer os representantes da imprensa.

- Nossas importações de água da Terra - disse - estão em torno de vinte milhões de toneladas por ano. Este montante tende a diminuir à medida que vamos desenvolvendo nosso sistema de canalização da água dos pólos. Se eu assinar estes papéis concordando com o embargo aqui proposto, nossa indústria se verá paralisada, perdendo todas as possibilidades de expansão. Não creio que seja esta a intenção da Terra. O que me dizem?

Os olhares se cruzaram, trocando apenas um brilho gélido de parte a parte. Digby tinha sido substituído há bastante tempo; agora o Comitê era unanimemente contra ele.

O presidente do Comitê, impaciente, observou:

- Ora, o Sr. já disse tudo isto antes.

- Sim, mas agora eu estou me preparando para assinar os papéis e gosto de ter tudo bem claro na minha mente. A Terra está de fato determinada a interromper nossas atividades aqui?

- Claro que não. A Terra está interessada em manter as suas reservas não-renováveis de água. Apenas isto.

- Vocês têm um quintilhão e meio de toneladas de água na Terra.

- Não podemos desperdiçar água - disse o presidente do Comitê.

E Sankov assinou.

Esta era a palavra oficial que ele queria ouvir. A Terra tinha um quintilhão e meio de toneladas de água e não podia desperdiçá-la.

Agora, um dia e meio depois, os repórteres e os membros do Comitê estavam reunidos à espera, sob a cúpula do espaço-porto. Através das janelas curvas espessas podiam avistar o vasto descampado do Espaço-porto Marciano.

O presidente do Comitê perguntou, aborrecido:

- Quanto tempo ainda temos que esperar? E, se não for perguntar muito... o que estamos esperando?

- Alguns dos nossos rapazes - disse Sankov - estão retornando do espaço. Estiveram além dos asteróides.

O presidente do Comitê retirou os óculos e começou a limpar suas lentes com um lenço muito branco.

- E estão de volta?

- Sim.

O presidente encolheu os ombros e ergueu as sobrancelhas na direção dos repórteres.

Num pequeno salão adjacente, uma multidão de mulheres e crianças disputava espaço junto às janelas. Sankov deu um passo de lado para observá-los melhor. Naquele momento, preferiria estar misturado a eles, partilhando sua excitação e seu nervosismo. Como eles, tinha esperado por mais de um ano. Como eles, tinha pensado, vezes sem conta, que aqueles homens estavam mortos.

- Está vendo ali? - disse ele, apontando o céu.

- Ei! - gritou um dos repórteres. - É uma nave! Um vozeiro confuso elevou-se do salão ao lado.

O que se via não era bem uma nave, e sim um ponto luminoso cercado por uma nuvem branca. A nuvem começou a crescer e a adquirir contornos definidos. Era um jato duplo de vapor branco, projetado de cima para baixo, propagando-se em borbotões e subindo de volta ao espaço, desfazendo-se.

À medida que descia rumo ao chão, o ponto brilhante na parte superior começou a revelar um formato vagamente cilíndrico.

Era um cilindro irregular e cheio de asperezas, mas onde a luz do sol batia havia uma cascata de reflexos.

O cilindro desceu rumo ao solo com a pesada lentidão das naves espaciais. Ficou suspenso sobre aqueles jatos poderosos, equilibrando a potência daquele empuxo contra o peso esmagador daquelas toneladas de matéria que pousavam no solo muito vagarosamente, como um homem idoso deixando-se cair numa poltrona.

O silêncio se instalou no interior da cúpula do espaçoporto. As mulheres e as crianças num salão, os políticos e os repórteres no outro, todos permaneciam imóveis, boquiabertos, os pescoços esticados para diante com incredulidade.

Os flanges de aterrissagem do cilindro, que se projetavam bem abaixo dos jatos traseiros, tocaram o solo e se afundaram na terra compacta de Marte. O cilindro estabilizou-se imóvel e os jatos cessaram.

Mas o silêncio continuou no interior da cúpula, e perdurou por um longo tempo.

Um grupo de homens surgiu na lateral da gigantesca nave, descendo vagarosamente ao longo de uma trilha rústica com duas milhas de extensão, com espigões de ferro no solado das botas e segurando machados pontudos para se apoiar no gelo. À distância, pareciam minúsculos mosquitos de encontro àquela superfície reluzente.

Um dos repórteres perguntou:

- Mas o que diabo é aquilo?

- Aquilo - disse Sankov calmamente - é simplesmente um bloco de matéria que até pouco tempo atrás girava em volta de Saturno, como parte de seus anéis. Nossos rapazes adaptaram nele uma cabine de comando e jatos de propulsão e o trouxeram para cá. Como é sabido, os fragmentos dos anéis de Saturno são feitos de gelo.

Um silêncio de morte pairava no recinto. Ele continuou:

- Essa coisa aí com aparência de espaçonave não passa de uma montanha de água sólida. Se estivesse pousada na Terra não tardaria em transformar toda esta região num enorme oceano de lama, e talvez já tivesse se rachado sob o seu próprio peso. Marte é mais frio e tem uma gravidade mais reduzida, de modo que aqui não corremos esse perigo.

- Claro que daqui para a frente temos muitas coisas para organizar... teremos estações de armazenamento de água nas luas de Júpiter e de Saturno, bem como nos asteróides.

Podemos recolher fragmentos dos anéis de Saturno e mandá-los para essas estações. Parece que nossos Caçadores têm jeito para esse tipo de coisa.

- Vamos ter toda a água de que precisamos. Esse fragmento que vocês estão vendo tem cerca de uma milha cúbica... que é mais ou menos o que a Terra deveria nos fornecer durante os próximos duzentos anos. Os rapazes usaram uma boa quantidade dessa água para vir de Saturno até aqui. Ao que me consta, fizeram essa viagem em cinco semanas, e gastaram cerca de cem milhões de toneladas. Mas vejam só... isso nem deixou sinais nessa montanha. Estão anotando tudo isto, rapazes?

O Comissário correu os olhos pelo grupo de repórteres e certificou-se de que eles não estavam perdendo uma vírgula. Continuou:

- Então anotem mais isto. A Terra está preocupada com suas reservas de água, uma vez que possui apenas um quintilhão e meio de toneladas... é por isso que não podia mais nos ceder uma tonelada sequer. Divulguem em seus noticiários que nós, em Marte, estamos muito preocupados com a Terra e não queremos que os terrestres passem por nenhum tipo de dificuldade. Divulguem que queremos vender água à Terra. Colocaremos à venda lotes de milhões de toneladas, por um preço razoável. Divulguem que dentro de dez anos temos o projeto de vender lotes de água em milhas cúbicas. E anunciem a todos que a Terra pode parar de se preocupar, porque Marte tem condições de fornecer toda a água de que os terrestres necessitam.

O presidente do Comitê já não ouvia mais nada. Sentia-se como que mergulhado numa montanha-russa na direção do futuro. Percebeu vagamente os sorrisos dos repórteres enquanto escreviam furiosamente em suas cadernetas. Estavam rindo.

Ele podia ouvir esses risos transformando-se em gargalhadas na Terra no momento em que Marte virava o jogo contra Hilder. Podia ouvir essas gargalhadas ressoando através dos continentes com a divulgação na notícia do imenso fiasco terrestre. Podia ver o abismo, vazio e negro como o espaço, onde estavam prestes a despencar as esperanças políticas de John Hilder e de todos os adversários do vôo espacial que havia na Terra - inclusive ele próprio.

No salão adjacente, Dora Swenson gritava de alegria, e Peter, dois centímetros mais alto, dava saltos sem parar, gritando:

- Papai! Papai!

Richard Swenson tinha acabado de pisar no chão de Marte e, com o rosto bem visível através do silicone do visor, começou a caminhar rumo à cúpula do espaçoporto.

- Já viu um sujeito mais satisfeito do que este? - perguntou Ted Long. - Vai ver que essa história de casamento tem alguma coisa por trás.

- Você só diz isso - retrucou Mario Rioz - porque passou mais de um ano no espaço.

 

DEMOCRACIA ELETRÔNICA

Aos 10 anos, Linda era a única pessoa da família que parecia gostar de estar acordada.

Norman Muller ouviu-a através de seu sono profundo, narcotizado. (Finalmente conseguira dormir uma hora mais cedo, mas mesmo assim tinha sido mais por cansaço do que por sono.)

Ela estava ao lado de sua cama, sacudindo-o.

- Papai, papai, acorde. Acorde. Ele emitiu um grunhido.

- Tudo bem, Linda.

- Papai, nunca vi tanta polícia junta. Tem até carros de polícia!

Norman Muller desistiu e se apoiou desajeitadamente sobre os cotovelos. Amanhecia. Lá fora já se notavam os primeiros movimentos do dia, parecendo tão tristes quanto ele se sentia por dentro. Ele podia ouvir Sarah, sua mulher, se arrastando na cozinha enquanto preparava o café da manhã. Matthew, seu sogro, assoava-se ruidosamente no banheiro. Com certeza o agente Handley estava pronto e esperando por ele.

Esse era o dia.

O dia da eleição!

No começo tinha sido como em todos os outros anos. Talvez um pouco pior, pois era um ano de eleições presidenciais, mas não mais terrível do que o de outras eleições presidenciais, se fosse o caso de comparar.

Os políticos falavam para o grande eleitorado e sobre a vasta inteligência eletrônica a serviço dele. A imprensa analisava a situação com computadores industriais (o Times de Nova York e o Post Dispatch de St. Louis tinham seus próprios computadores) e estavam cheios de palpites sobre o que estava para acontecer. Comentaristas e articulistas apontavam o estado ou o condado cujos votos seriam decisivos, contradizendo-se entre si de maneira engraçada.

A primeira pista de que esse ano não seria igual aos outros foi quando, na noite de 4 de outubro (exatamente um mês antes do Dia da Eleição), Sarah Muller disse ao marido:

- Cantwell Johnson acha que Indiana vai ser o estado desse ano. Já é o quarto que diz isso. Imagine, é o nosso estado dessa vez. Matthew Hortenweller tirou o jornal da frente do seu rosto papudo e olhou macambúzio para sua filha.

- Esses caras são pagos para contar mentiras - resmungou. - Não ligue para eles.

- Quatro deles, papai - disse Sarah, sem se alterar. - Todos eles dizem Indiana.

- Indiana é o estado-chave - replicou Norman, no mesmo tom moderado de sua mulher - por causa da Lei Hawkins-Smith e dessa bagunça em Indianapolis. E... Matthew fez uma careta horrível e disse, rabugento:

- Ninguém fala de Bloomington ou do condado de Monroe, certo?

- Bem... - começou Norman.

Linda, cujo pequeno rosto queixudo ia de um interlocutor para outro, disse com sua voz aguda:

- Você vai votar esse ano, papai? Norman sorriu, carinhoso.

- Acho que não, querida.

Mas isso foi no meio da crescente excitação de um dia de outubro, de um ano com eleições presidenciais, e Sarah, que tinha uma vida tranqüila, falou de um jeito sonhador.

- Isso não seria maravilhoso?

- Se eu votasse?

Norman Muller tinha um pequeno bigode louro que, na juventude de Sarah, fazia com que visse nele um ar de bondade, mas que, com o passar dos anos, foi-se tornando grisalho e perdendo sua distinção. Sua testa ostentava rugas profundas, provocadas pelas dúvidas, e normalmente sua alma simplória nunca se iludia com o pensamento de que havia nascido importante ou de que algum dia viria a ser. Tinha uma mulher, um trabalho e uma pequena garota, e, a não ser em períodos de euforia ou depressão, sempre se sentia em paz com a vida.

Por isso, estava um pouco embaraçado e bastante apreensivo com o rumo que os pensamentos da esposa estavam tomando.

- Atualmente, querida, há duzentos milhões de pessoas no país, e com estatísticas como essa acho que não devíamos perder nosso tempo pensando nessas coisas.

- Por que não, Norman? - retrucou sua esposa. - Você sabe que não são bem duzentos milhões de pessoas. Em primeiro lugar, apenas homens entre vinte e sessenta anos são escolhidos, o que reduz as chances para um a cada cinqüenta milhões, e se for mesmo Indiana...

- Isso é mais ou menos uma pessoa para cada 1 milhão duzentos e cinqüenta mil. Você não gostaria que eu apostasse numa corrida de cavalos onde as chances fossem essas. Vamos jantar.

Matthew resmungou por trás do seu jornal.

- Conversa furada.

 Linda perguntou novamente.

- Você vai votar esse ano, papai?

Norman balançou a cabeça e todos eles se dirigiram para a sala de jantar.

A 20 de outubro, a excitação de Sarah crescia cada vez mais. Durante o café, ela comentou que a Sra. Schultz, que tinha um primo que era secretário de um deputado, lhe dissera que Indiana era uma "barbada".

- Ela disse que o próprio presidente Villers vinha fazer um discurso em Indianapolis.

Norman Muller, que tivera um dia pesado na loja, reagiu a essa declaração com um leve arquear de sobrancelhas e deixou-a passar em branco.

Mas Matthew Hortenweller sempre tinha uma crítica para fazer a Washington.

- Se Villers vai fazer um discurso em Indiana - disse ele - isso significa que ele acha que Multivac escolherá Arizona. Ele não teria coragem de chegar tão perto, aquele cabeça oca.

Sarah ignorou o pai, como sempre fazia quando isso era possível.

- Não sei por que eles não vão anunciando o estado - disse ela, depois o condado, em seguida o município, e por aí vai, permitindo que as pessoas eliminadas possam

relaxar.

- Se eles fizessem assim - salientou Norman - os políticos iriam sobrevoar as regiões escolhidas como abutres. Na hora que só restasse um distrito municipal, haveria um congressista ou dois em cada esquina.

Matthew apertou seus olhos e esfregou com raiva seus cabelos grisalhos e raros.

- Eles são abutres de qualquer maneira. Escute...

- Papai... - murmurou Sarah.

A voz de Matthew ecoou sobre seu protesto, sem tropeço ou dificuldade.

- Escute, eu era vivo quando instituíram Multivac. Eles que queriam, disseram que o sistema acabaria com os políticos radicais, o desperdício do dinheiro dos contribuintes na campanha e os joões-ninguém sorridentes, vendidos e anunciados para o Congresso ou para a Casa Branca. Então, o que acontece? Nunca houve tantas campanhas eleitorais, com a única diferença de que agora eles fazem às cegas. Mandarão algumas pessoas para Indiana, por causa da Lei Hawkins-Smith, e outras tantas para a Califórnia, no caso de a posição de Joe Hammer se mostrar decisiva. É por isso que eu digo para que acabem com todo esse absurdo. Devíamos voltar para os bons e velhos...

De repente, Linda perguntou.

- O senhor não quer que papai vote esse ano, vovô? Matthew olhou fixamente para a garotinha.

- Não se importe com isso agora. - Ele se voltou novamente para Norman e Sarah. - Houve uma época em que eu votava. Ia para a cabine, segurava a alavanca, e votava.

Não havia nada demais. Eu apenas dizia: "Esse cara é meu homem e vou votar nele!" Deveria ser assim.

Excitada, Linda disse:

- Você votou, vovô? O senhor votou de verdade?

Sarah foi logo tratando de interromper o que poderia se tornar uma história imprópria se se espalhasse pela vizinhança.

- Não é nada disso, Linda - disse a mãe. - Vovô não quis dizer que votava de verdade. Todo mundo votava assim como o seu vovô, mas isso não é votar realmente.

Matthew rosnou.

- Eu não era criança quando isso aconteceu. Já tinha vinte e dois anos e votei em Langley, e meu voto valeu. Talvez meu voto não tenha sido tão importante, mas era tão válido quanto o de qualquer outra pessoa. Qualquer outra pessoa. E não tinha Multivac para...

- Muito bem, Linda - interrompeu Norman. - Hora de ir para cama. E pare de fazer perguntas sobre votação. Quando você crescer aprenderá isso tudo.

Beijou-a com uma bondade anti-séptica e ela saiu relutante, sob os conselhos maternais e a promessa de que poderia ver vídeo até as 9:15, se estivesse de banho tomado.

 

- Vovô - disse Linda, e ficou olhando-o com as mãos para trás; o jornal se abaixou a ponto de as sobrancelhas peludas e os olhos rodeados de rugas finas aparecerem. Era uma sexta-feira, 31 de outubro.

- Sim? - disse ele.

Linda se aproximou e colocou os braços em um dos joelhos do avô, de um modo que ele teve que colocar todo o jornal de lado.

- É verdade que o senhor já votou, vovô?

- Você já me ouviu dizer que sim, não foi? Você acha que eu minto?

- N...não, mas mamãe diz que todo mundo votava nessa época.

- É verdade.

- Mas como isso era possível? Como é que todo mundo podia votar?

Matthew olhou-a com um ar solene e, em seguida, levantou-a, colocando-a sobre seus joelhos.

Até o tom de sua voz ficou mais suave.

- Há quarenta anos, Linda, as pessoas sempre votavam. Dizíamos quem preferíamos que fosse o próximo Presidente dos Estados Unidos. Os democratas e republicanos indicavam os seus candidatos e as pessoas diziam qual era o seu preferido. Quando acabava o dia das eleições, eles contavam quantas pessoas queriam o democrata e quantas queriam o republicano. O que tivesse mais votos era o eleito. Você compreende?

Linda concordou com a cabeça e disse:

- Como as pessoas sabiam em quem votar? Multivac explicava para eles?

Matthew apertou as sobrancelhas, adquirindo uma expressão severa.

- Elas tinham o seu próprio julgamento, garota. Ela se afastou dele e ele abrandou a voz novamente.

- Não estou com raiva de você, Linda. Mas entenda, algumas vezes a contagem demorava a noite toda e as pessoas ficavam impacientes. Então inventaram máquinas especiais que poderiam analisar os primeiros votos e compará-los com os votos dos mesmos lugares em anos anteriores. Assim, a máquina poderia computar qual seria a votação total e quem seria eleito. Você compreende?

Ela balançou a cabeça novamente.

- Como Multivac.

- Os primeiros computadores eram muito menores do que Multivac. Mas as máquinas foram crescendo e a cada eleição elas precisavam de cada vez menos votos para chegar ao resultado final. No fim, eles construíram Multivac e puderam fazer os cálculos a partir de um único eleitor.

Linda sorriu por ter chegado a uma parte familiar da história.

- Assim é bom - disse ela. Matthew franziu as sobrancelhas.

- Não, assim não é bom. Eu não quero uma máquina dizendo como eu teria votado apenas porque um palhaço em Milwaukee diz que é contra um aumento nas tarifas. Talvez eu queira votar à toa, apenas pelo prazer de fazer isso. Talvez eu não queira votar. Talvez...

Ela fugiu dos seus joelhos e saiu correndo. Encontrou a mãe na porta. Sua mãe, que ainda estava com o casaco e sequer tinha tirado o chapéu da cabeça, disse sem fôlego:

- Saia da frente, Linda. Não fique no caminho da mamãe. Voltou-se em seguida para Matthew e, enquanto tirava o chapéu e ajeitava o cabelo, disse:

- Estive com Agatha.

Matthew observou-a com um ar de censura e sequer dispensou um grunhido, voltando logo para o seu jornal.

Enquanto desabotoava o casaco, ela acrescentou:

- Adivinha o que ela disse?

Matthew abriu o jornal com o propósito de lê-lo, fazendo um estalido seco.

- Não interessa.

- Mas papai... - disse ela, mas não tinha tempo para se zangar. As notícias tinham que ser contadas, e Matthew era o único ouvinte à mão. Ela acrescentou: - Você sabe que o Joe da Agatha é um policial e ele diz que ontem à noite chegou um caminhão cheio de homens do serviço secreto.

- Eles não estão atrás de mim.

- Você não entende, papai? Agentes do Serviço Secreto, e quase no dia da eleição. Em Bloomingtonl

- Talvez estejam atrás de um ladrão de banco.

- Há anos que não tem nenhum roubo de banco na cidade. Papai, você é incorrigível.

Ela se afastou com passos largos.

Nem mesmo Norman Muller pareceu ficar muito excitado quando recebeu a notícia.

- Mas, Sarah, como o Joe da Agatha sabe que eles são agentes do Serviço Secreto? Eles não andam por aí com um cartão de identificação colado na testa.

Na noite seguinte, porém, 1º de novembro, ela disse num tom vitorioso:

- Todo mundo em Bloomington está esperando que o eleitor seja alguém daqui. O Bloomington News disse a mesma coisa no vídeo. Norman se mexeu inquieto. Ele mal podia negar isso. Apenas sentiu um nó no peito. Se realmente Bloomington estava prestes a ser apontado por Multivac, isso iria significar jornalistas, programas de televisão, entrevistas e todo tipo de... bagunças. Norman gostava da tranqüila rotina de sua vida, mas o rumor distante da política se aproximava cada vez mais ameaçadoramente.

- Isso não passa de rumores - disse ele. - Nada além disso.

- Espere e veja. É só esperar e ver.

Da maneira como as coisas aconteceram, houve pouco tempo para esperar, pois a campainha tocou insistentemente. Quando Norman a abriu para saber de quem se tratava, um homem alto e com uma expressão séria disse:

- Você é Norman Muller?

- Sim - disse ele, com uma voz desconfiada. Pela maneira que o estranho agia, não era difícil perceber que ele era uma autoridade. A natureza da sua missão ficou tão visivelmente óbvia como, até um segundo antes, estava totalmente fora de cogitação.

O homem apresentou as credenciais, entrou na casa, fechou a porta atrás de si e disse, como se estivesse cumprindo um ritual:

- Sr. Norman Muller, é meu dever informá-lo, em nome do presidente dos Estados Unidos, que o senhor foi escolhido para representar o eleitorado americano na próxima terça-feira, 4 de novembro de 2008.

Foi com dificuldade que Norman Muller caminhou até a sua cadeira. Sentou-se lá, pálido e em estado de choque, enquanto Sarah levava-lhe um pouco d'água, batia em suas mãos desesperada, dizendo-lhe por entre os dentes:

- Não seja tolo, Norman. Não seja tolo. Assim, eles vão escolher outra pessoa.

Quando Norman recuperou a voz, sussurrou:

- Sinto muito, senhor.

O agente secreto tinha tirado seu sobretudo, desabotoado o paletó e estava sentado bastante à vontade no sofá.

- Tudo bem - disse ele, e o tom burocrático pareceu ter desaparecido com a proclamação formal, deixando-o bastante desinibido e amigável. - Esta é a sexta vez que faço a proclamação e já presenciei todos os tipos de reação. Nenhuma delas era como o que estamos acostumados a ver na televisão. Você sabe o que quero dizer? Uma expressão compenetrada e casta, e um personagem que diz: "É um enorme privilégio poder servir ao meu país." Esse tipo de besteira. - O agente sorriu, como se estivesse querendo confortá-lo.

O riso com que Sarah o acompanhou tinha uma sombra de histeria.

- Agora você vai me ter a seu lado durante algum tempo - disse o agente. - Meu nome é Phil Handley. Gostaria que você me chamasse de Phil. O senhor Muller não poderá sair desta casa até o dia da eleição. A senhora terá que dizer na loja que ele está doente. A senhora poderá sair para cuidar das suas coisas, desde que concorde em não dizer nenhuma palavra a respeito disso. Certo, Sra. Muller?

Sarah concordou, com um enérgico movimento de cabeça.

- Sim, senhor. Nenhuma palavra.

- Tudo bem. Mas, Sra. Muller... - Handley encarou-a com uma expressão séria. - Não estamos mais brincando. A senhora só sairá em caso de extrema necessidade, e mesmo assim será seguida. Sinto muito, mas trabalhamos dessa forma.

- Seguida?

- Não se preocupe. Seremos discretos. Só será por dois dias, até que a proclamação seja feita à nação. Sua filha...

- Ela está na cama - precipitou-se ela a dizer.

- Ótimo. Vocês terão que dizer a ela que sou um parente ou um amigo que está passando uns dias aqui. Se ela descobrir a verdade, terá que ficar presa em casa. Em todo caso, é melhor que seu pai não saia de casa também.

- Ele não vai gostar disso - disse Sarah.

- Não tem outro jeito. Agora, já que não mora mais ninguém aqui...

- Parece que você sabe de tudo a nosso respeito - sussurrou Norman.

- Sabemos um bocado de coisas - concordou Handley. - Por enquanto essas são as minhas instruções. - Tentarei colaborar tanto quanto seja possível. O governo pagará a minha estada; portanto não serei uma despesa extra. Serei substituído todas as noites por alguém que ficará sentado nesta sala, e por isso vocês não precisam se preocupar com as acomodações. bom, Sr. Muller...

- Senhor?...

- Pode me chamar de Phil - reiterou o agente. - O propósito desses dois dias preliminares à proclamação oficial é fazer com que você se acostume com sua função.

Nós preferimos colocá-lo diante de Multivac no melhor estado emocional possível. Relaxe e tente ver isso tudo como um simples dia de trabalho. OK?

- OK - disse Norman, para, em seguida, fazer um enérgico movimento de cabeça. - Mas eu não quero essa responsabilidade. Por que eu?

- Tudo bem - disse Handley, vamos logo colocar isso em pratos limpos. Multivac pesa todos os tipos de fatores conhecidos, bilhões deles. No entanto, há um fator que ainda é desconhecido e que continuará desconhecido por um longo tempo. Esse fator desconhecido é o modelo de reação da mente humana. Todos os americanos são influenciados pela pressão que os outros americanos fazem e dizem, pelas coisas que são feitas para eles e pelas coisas que fazem para os outros. Qualquer americano pode ter a sua capacidade mental avaliada por Multivac. A partir daí, pode-se fazer uma estimativa de toda a capacidade mental do país. Alguns americanos são melhores do que os outros em determinadas épocas, dependendo do que tenha acontecido no ano em questão. Multivac considerou-o o mais representativo desse ano.

Não é o mais esperto, o mais forte, ou o mais sortudo, mas o mais representativo desse ano. E nós não vamos duvidar de Multivac, vamos?

- Ele não pode ter-se enganado? - perguntou Norman. Sarah, que ouvia impaciente, interrompeu.

- Não dê ouvidos a ele, senhor. Isso é apenas nervosismo. Na verdade, ele é muito bem informado e está sempre a par dos acontecimentos políticos.

- Multivac toma as decisões - disse Handley. - Ele escolheu seu marido.

- Mas ele sabe mesmo de tudo? - insistiu Norman, ansiosamente. - Não poderia ter se enganado?

- Sim, ele poderia. Não há sentido em mentir para vocês. Em 1992, um eleitor teve um ataque e morreu duas horas antes de ser notificado. Multivac não previu isso. Nem poderia. Um eleitor poderia ser mentalmente instável, inconveniente ou, principalmente, desleal. Multivac não pode saber tudo de todo mundo até que seja alimentado com todos os dados que existem. É por isso que há seleções alternativas que são sempre mantidas em segredo. Não acho que precisaremos de um substituto desta vez. O senhor está em perfeita forma, Sr. Muller, e já foi cuidadosamente investigado. Está apto.

Norman enterrou o rosto nas mãos e se sentou, sem ação.

- Até amanhã de manhã ele estará recuperado - disse Sarah. - Ele só precisa se acostumar com a idéia.

- Claro - disse Handley.

Na privacidade de seu quarto, Sarah Muller expressou-se de uma maneira diferente, mais incisiva. O tema principal de seu sermão foi: "Controle-se, Norman. Essa será

a grande chance de sua vida e você não pode desperdiçá-la."

- Isso me assusta, Sarah - sussurrou Norman desesperadamente. - Essa coisa toda.

- Pelo amor de Deus, por quê? Você só terá que responder a uma ou duas perguntas.

- A responsabilidade é muito grande. Não posso arcar com isso.

- Qual responsabilidade? Não há nenhuma responsabilidade. Multivac o escolheu. A responsabilidade é de Multivac. Todo mundo sabe disso.

Norman se sentou na cama numa repentina mostra de sua angústia.

- Espera-se que todo mundo saiba. Mas eles não sabem. Eles...

- Abaixe sua voz - ordenou Sarah com um tom frio. - Eles vão ouvi-lo lá embaixo.

- Eles não vão - disse Norman, sussurrando. - Quando eles falam da administração de Ridgley, você acha que eles dizem que o presidente foi eleito por causa de suas promessas açucaradas e sandices racistas? Não! Eles dizem que a culpa é do voto do maldito MacComber, apesar de ele ter sido apenas o homem designado por Multivac.

Eu mesmo disse isso... apenas agora acho que o cara era só um agricultor, que não pediu para ser escolhido. Por que a culpa só sobrou para ele? Agora seu nome é uma praga.

- Você está sendo infantil - disse Sarah.

- Estou sendo sensato. Eu lhe digo, Sarah, não Vou aceitar. Se eu não quiser, eles não podem me obrigar a votar. Direi que estou doente. Direi que...

Mas Sarah já estava farta.

- Agora você vai me ouvir - sussurrou furiosamente. - Você não pode ser tão egoísta. Você sabe o que significa ser o eleitor do ano? De um ano presidencial, acima de tudo? Isso significa publicidade, fama e, talvez, um monte de dinheiro.

- E depois eu volto a ser um simples balconista.

- Você não voltará. No mínimo, você terá a gerência de uma filial. Se você tiver um pouco de inteligência, você terá isso, porque vou lhe dizer o que fazer. Se você jogar as cartas certas pode forçar as Lojas Kennell a fazer um contrato mais vantajoso, com uma cláusula aumentando seus salários e melhorando sua aposentadoria a cada vez que divulgar o nome da empresa.

- Não é para isso que serve um eleitor, Sarah.

- Mas é para isso que você vai servir. Você tem essa dívida, não para com você ou para comigo - não estou pedindo nada para mim mas para com Linda.

- Norman grunhiu.

- Você não acha? - vociferou Sarah.

- Sim, querida - murmurou Norman.

 

A proclamação oficial foi feita em 3 de novembro. Mesmo que Norman tivesse coragem para desistir, não poderia mais.

Sua casa foi lacrada. Agentes do Serviço Secreto faziam a segurança ostensivamente, impedindo qualquer aproximação.

No começo, o telefone não parou de tocar, mas Philip Handley, desculpando-se com um sorriso simpático, atendia todas as chamadas. Não muito depois, todos os telefonemas passaram a ser automaticamente desviados para a Central de Polícia.

Norman pensou que, de alguma forma, estava sendo poupado dos falsos (e invejosos) cumprimentos dos amigos, como também da irritante pressão dos vendedores acenando com prospectos, e da suspeita bajulação dos políticos que vinham de todo o país... talvez mesmo das ameaças de morte dos inevitáveis fanáticos.

Os jornais não puderam mais entrar na casa, para evitar influencias, e a televisão foi desligada, apesar dos gritos de protesto de Linda.

Matthew resmungou e ficou no seu quarto; Linda, depois do primeiro momento de excitação, ficou amuada e se queixando porque não podia mais sair de casa; Sarah dividiu seu tempo preparando as refeições do presente e os planos do futuro; e a depressão de Norman se alimentava de si mesma.

Enfim, chegou a manhã da terça-feira de 4 de novembro de 2008, o dia das eleições.

O café da manhã foi servido cedo, mas apenas Norman Muller comeu, mesmo assim, sem a menor vontade. Mesmo de banho tomado e barba feita, não conseguiu se sentir acordado, nem perdera a convicção de que estava tão péssimo por fora quanto se sentia por dentro.

A voz amigável de Handley fez o possível para convencê-lo de que tudo estava normal naquele dia cinza e sombrio. A previsão do tempo tinha dito que o dia seria nublado e com rajadas de chuva pela manhã.

- Manteremos a casa isolada até o Sr. Muller voltar, mas depois deixaremos vocês em paz. - O agente do serviço secreto estava com uniforme completo, inclusive com a baioneta guardada num pesado coldre de bronze.

- Não foi nenhum incômodo tê-lo aqui - disse Sarah com um sorriso afetado.

Norman bebeu dois copos de café, limpou os lábios com o guardanapo, levantou-se e disse nervosamente:

- Estou pronto.

Handley também se levantou.

- Então, vamos, senhor. E muito obrigado, Sra. Muller, por sua gentil hospitalidade.

O carro blindado roncou enquanto atravessava as ruas desertas. Elas estavam desertas até mesmo para aquela hora da manhã. Handley apontou para elas.

- Desde que um atentado a bomba quase arruinou a eleição de 1992, eles sempre mudam o trânsito.

Quando o carro parou, o sempre polido Handley conduziu Norman para uma entrada subterrânea, em cujas paredes havia soldados alinhados.

Ele foi levado para uma sala exageradamente iluminada, na qual três homens com uniformes brancos o cumprimentaram com um largo sorriso.

- Mas isso é um hospital - disse Norman asperamente.

- Isso não tem a menor importância - disse de pronto Handley. - É que um hospital tem todas as facilidades necessárias.

- Então, o que devo fazer?

Handley fez um movimento de cabeça. Um dos homens de branco avançou.

- Agora eu cuido de tudo, agente.

Handley fez uma rápida continência e saiu da sala.

- O senhor não quer se sentar? - perguntou o homem de branco. - Sou John Paulson, Analista de Computador. Esses são Samson Levine e Peter Dorogobuzh, meus assistentes.

Entorpecido, Norman apertou as mãos deles. Paulson era um homem de altura mediana e rosto macio, que parecia acostumado a sorrir e tinha um topete muito proeminente.

Usava óculos de aro de plástico, de um modelo fora de moda, e acendeu um cigarro enquanto falava. (Norman recusou o cigarro que lhe ofereceu.)

- Em primeiro lugar, Sr. Muller - disse Paulson, quero que saiba que não temos a menor pressa. Se necessário, ficaremos aqui o dia todo. Ficaremos aqui até que o senhor se acostume com o ambiente e deixe de achar a situação estranha.

- Tudo bem - disse Norman, desde que termine logo.

- Sei como se sente. Ainda assim, queremos que saiba de tudo que vai acontecer. Em primeiro lugar, Multivac não está aqui.

- Não?

Mesmo estando tão deprimido, ele não deixava de estar curioso para conhecer Multivac. Eles diziam que o sistema tinha meia milha de comprimento e três andares, e que cinqüenta técnicos não paravam de andar pelos corredores, dentro de sua estrutura. Era uma das maravilhas do mundo.

Paulson sorriu.

- Não. Ele não é portátil, como deve saber. Na verdade, ele fica embaixo da terra, num lugar conhecido por pouquíssimas pessoas. O senhor pode entender isso, já que ele é nossa maior riqueza. Nós não o usamos apenas para as eleições, pode acreditar.

Norman achou que ele estava puxando conversa e ficou intrigado.

- Pensei que fosse ver Multivac. Eu gostaria.

- Tenho certeza de que sim. Mas precisa de uma ordem presidencial para ter esse privilégio, e mesmo assim ela tem que ser endossada pelo Serviço Secreto. No entanto, estamos ligados a Multivac através de feixes de radiações. O que Multivac diz pode ser interpretado aqui, e o que nós dizemos está sendo transmitido diretamente para Multivac. Num certo sentido, estamos ao lado dele.

Norman olhou ao seu redor. As máquinas dentro da sala não tinham o menor significado para ele.

- Agora deixe-me explicar, Sr. Muller - acrescentou Paulson. - Multivac já tem a maior parte das informações de que necessita para decidir todas as eleições, quer sejam elas nacionais, estaduais ou municipais. Ele precisa checar algumas atitudes imprevisíveis da mente, e o usará para isso. Não podemos adiantar que tipo de perguntas ele lhe fará, mas talvez elas não façam o menor sentido para o senhor... nem mesmo para nós. Talvez ele peça a sua opinião sobre a coleta de lixo de sua cidade e se é contra ou a favor de um incinerador central. Pode perguntar se o senhor tem um médico particular ou se usa os hospitais do governo. Compreende?

- Sim, senhor.

- Qualquer que seja a pergunta, responderá com suas próprias palavras e da maneira que lhe convier. Se acha que deve se alongar nas respostas, não tem o menor problema. Fale por uma hora, se necessário.

- Sim, senhor.

- Agora, só mais uma coisa. Teremos que fazer uso de um simples aparelho para medir sua pressão sangüínea, seu batimento cardíaco, a condutividade da pele e suas ondas cerebrais enquanto fala. A maquinaria parecerá meio complexa, mas não dói nada. O senhor não vai nem perceber o que está se passando.

Os outros dois técnicos já estavam se ocupando com o aparato brilhante em cima do carrinho de rodas.

- Isso é para saber se estou falando a verdade? - disse Norman.

- De jeito nenhum, Sr. Muller. Não é uma questão de mentir. É apenas um medidor de intensidade emocional. Se a máquina pede a sua opinião a respeito da escola do seu filho, o senhor pode dizer que acha que ela está superlotada. Isso não passa de palavras. A partir das respostas do cérebro, coração, hormônios e glândulas sudoríparas,

Multivac vai julgar a intensidade com que o senhor sente o problema. Ele entenderá seus sentimentos melhor do que o senhor mesmo.

- Nunca ouvi falar nisso - disse Norman.

- Não, tenho certeza de que não. A maior parte dos detalhes do funcionamento de Multivac é ultra-secreto. Por exemplo, quando sair, terá que assinar um papel jurando que jamais revelará a natureza das perguntas que lhe foram feitas. Quanto menos se souber a respeito de Multivac, menos pretexto haverá para pressionar os homens que trabalham para ele. - Paulson sorriu sem graça. - Nossas vidas já são muito difíceis do jeito que são.

Norman anuiu.

- Eu entendo.

- E agora, gostaria de comer ou beber alguma coisa?

- Não. Nada.

- Tem alguma pergunta a fazer? Norman balançou a cabeça.

- Então nos diga quando estiver pronto.

- Eu já estou pronto.

- Tem certeza?

- Absoluta.

Paulson fez um movimento de cabeça e, em seguida, levantou a mão, gesticulando para os outros. Eles avançaram com seus equipamentos asssustadores. A respiração de Norman Muller acelerou um pouco, enquanto observava o que acontecia à sua volta.

A provação demorou quase três horas, com uma breve parada para um café e uma constrangedora sessão com um urinol.

Durante todo esse tempo, Norman Muller permaneceu envolvido pela maquinaria. Sentia-se cansado até a medula dos ossos.

Ironicamente, ele pensou que seria fácil manter a promessa de não revelar nada do que ia acontecer ali dentro. As perguntas já tinham conseguido deixar sua cabeça totalmente confusa.

Por algum motivo, esperava que Multivac tivesse uma voz sepulcral, sobrenatural e ressonante, mas percebia agora que isso era apenas uma idéia que fizera por causa dos inúmeros programas que vira na televisão. A verdade era dolorosamente fria. As perguntas saíam de um tipo de chapa metálica, numa fita cheia de furos. Uma segunda máquina decodificava essa fita e Paulson lia as palavras para Norman, antes de dar a pergunta e deixar que ele a lesse sozinho.

As respostas de Norman eram gravadas numa máquina e repetidas para que ele as confirmasse com correções ou acréscimos, que também eram gravados. Tudo isso era colocado num processador de palavras e esse, por sua vez, transmitia os dados para Multivac.

A única pergunta de que Norman podia se lembrar no momento era uma tremenda bobagem: "Qual a sua opinião sobre o preço dos ovos?"

Quando tudo acabou, eles tiraram eletrodos de várias partes de seu corpo, retiraram o medidor de pressão do seu braço e afastaram a maquinaria.

Ele se levantou e respirou profundamente.

- Isso é tudo? Estou livre?

- Ainda não - Paulson apressou-se em dizer, sorrindo de um jeito tranquilizador. - Precisaremos de você por mais uma hora.

- Para quê? - disse Norman asperamente.

- Multivac precisará desse tempo para comparar esses novos dados com os trilhões de informações que já tem. Milhares de eleições são levadas em conta. É muito complexo.

E talvez haja um contestador solitário aqui ou ali, um inspetor em Phoenix, Arizona, ou algum conselheiro parlamentar em Wilkesboro, Carolina do Norte, em dúvida. Nesse caso, talvez Multivac seja obrigado a lhe fazer uma ou duas perguntas decisivas.

- Não - disse Norman. - Eu não vou passar por isso novamente.

- Provavelmente isso não acontecerá - disse Paulson, tentando acalmá-lo. - Isso raramente acontece. Mas, por via das dúvidas, você terá que ficar. - Sua voz se tornou um pouco dura, apenas um pouquinho. - Você sabe que não tem escolha. Você tem que me obedecer.

Norman sentou-se, exausto. Deu de ombros.

- Você não pode ler o jornal - disse Paulson, mas se gosta de histórias policiais ou de jogar xadrez, ou se há alguma coisa que possamos fazer para ajudá-lo a matar o tempo, gostaria que falasse.

- Não tem problema. Prefiro esperar.

Eles o conduziram para uma pequena sala ao lado daquela em que tinha sido questionado.

Ele deixou-se afundar numa poltrona revestida de plástico e fechou os olhos.

Na medida do possível, devia esperar a última hora com calma.

Sentou-se totalmente imóvel e, aos poucos, a tensão foi diminuindo. Sua respiração ficou menos agitada e ele pôde fechar as mãos sem perceber mais nenhum tremor nos dedos. Talvez não houvesse mais perguntas. Talvez tudo estivesse acabado.

Se tudo tivesse acabado, em seguida viriam a aclamação popular e os convites para falar em todo o tipo de solenidade. O eleitor do ano!

Ele, Norman Muller, um simples balconista de uma pequena loja de departamentos em Bloomington, Indiana, que não tinha nascido importante nem fizera nenhuma conquista que o tirasse do anonimato, estava na privilegiada condição de ter sido lançado para a História.

Os historiadores falariam solenemente da Eleição Muller, em 2008. Esse seria o nome da data - Eleição Muller.

A publicidade, um trabalho melhor, o incessante jorrar de dinheiro que tanto interessava a Sarah, essas coisas todas ocuparam apenas um canto de sua mente. É claro que tudo isso era bem-vindo. Não podia recusar. Mas uma outra coisa estava começando a preocupá-lo naquele momento.

Um latente patriotismo estava se manifestando. Afinal de contas, representava todo o eleitorado. Era o centro da atenção de todos. Nesse dia único, ele era toda a América!

A porta se abriu, fazendo com que abrisse os olhos e prestasse atenção. Por um instante, sentiu uma contração no estômago. Mais perguntas, não!

Mas Paulson estava sorrindo.

- O senhor está liberado.

- Não há mais perguntas?

- Não é preciso. Tudo estava absolutamente claro. O senhor será escoltado de volta para casa, e então voltará a ser um cidadão comum. Ou tanto quanto o público deixar.

- Obrigado. Muito obrigado. - Norman corou e acrescentou:, Quem... quem ganhou as eleições?

Paulson balançou a cabeça.

- Você terá que esperar a proclamação oficial. As regras são muito rígidas. Não podemos dizer nem a você. Espero que compreenda.

- É claro que sim. Norman se sentiu embaraçado.

- O Serviço Secreto lhe mostrará os papéis que terá de assinar.

- Sim. - De repente, Norman Muller se sentiu orgulhoso. Foi totalmente dominado por essa sensação. Estava orgulhoso.

Nesse mundo imperfeito, os soberanos cidadãos da primeira e maior Democracia Eletrônica tinham, através de Norman Muller (através dele), exercido mais uma vez seu livre e inquestionável direito de votar.

 

O PIADISTA

Noel Meyerhof consultou a lista que tinha preparado e escolheu o item com que começaria. Como sempre, confiou apenas na sua intuição.

Sentia-se pequeno em relação à máquina com que se defrontava, embora estivesse lidando apenas com uma ínfima parte dela. Isso não importava. Mesmo assim, falava-lhe com a segurança de quem tinha absoluta certeza de que era o mestre.

- Johnson - ditou ele - voltou inesperadamente de uma viagem de negócios e encontrou a mulher nos braços do seu melhor amigo. "Max!", disse ele, surpreso. "Sou casado com essa mulher e tenho a obrigação de fazer isso. Mas você..."

Meyerhof pensou: OK, deixa essa porcaria descer pelos intestinos da máquina e fermentar um pouquinho.

- Ei - disse uma voz por trás dele.

Meyerhof apagou o registro desse monossílabo e colocou o circuito que estava usando em ponto neutro. Virou-se rapidamente.

- Estou trabalhando - disse. - Não sabe bater na porta? Embora sempre sorrisse ao cumprimentar qualquer pessoa com que se relacionava, fechou a cara ao receber o analista sênior Timothy Whistler como se tivesse sido interrompido por um estranho. Fez uma careta que parecia se estender até os cabelos, deixando o seu rosto fino mais enrugado do que já era.

Whistler encolheu os ombros. Estava com a capa branca do laboratório e pressionava os punhos dentro dos bolsos, fazendo com que o uniforme se enchesse de pregas verticais.

- Eu bati. Você não respondeu. O sinal de operação estava desligado.

Meyerhof resmungou. Era bem possível. Vinha se dedicando tanto a seu novo projeto que estava esquecendo os pequenos detalhes. Mas esse não era um momento para culpas. Seu projeto era mais importante.

Ele não sabia dizer o motivo, é claro. Os Grandes Mestres nunca sabiam. Era isso o que os fazia Grandes Mestres; o fato de estarem além da razão. De que outra forma a mente humana poderia acompanhar o ritmo desse gigantesco amontoado de sólida racionalidade, com dez milhas de comprimento, que os homens chamavam de Multivac, o sistema de computadores mais complexo que já se viu na face da Terra?

- Eu estou trabalhando - disse Meyerhof. - Você precisa de alguma ajuda?

- Nada que não possa ser adiado. Há algumas falhas no sistema de respostas do hiperespacial. - Ele disfarçou e assumiu uma expressão de pesar meio duvidosa. - Trabalhando?

- Sim, e daí?

- Mas... - Ele olhou em volta, procurando entre os compartimentos da apertada sala revestida de inúmeras estantes de relês que compunham essa pequena parte de Multivac.

- Não tem ninguém para ajudá-lo.

- Quem disse que tinha, ou deveria ter?

- Você estava contando uma de suas piadas, não é?

- E daí?

Whistler sorriu forçadamente.

- Não me diga que está contando uma piada para Multivac... Meyerhof se empertigou.

- E por que não?

- Estava?

- Sim.

- Por quê?

Meyerhof encarou-o com um ar de desdém.

- Não tenho que prestar contas nem para você nem para ninguém.

- Santo Deus, é claro que não. Eu só estava curioso, apenas isso... Mas, já que você está trabalhando, eu vou embora. - Olhou em volta mais uma vez, intrigado.

- Então, vá - disse Meyerhof. Acompanhou-o com os olhos enquanto ele saía, e em seguida acionou o sinal de operação com um toque violento.

Andou de um lado para outro da sala, tentando se controlar. Dane-se Whistler! Danem-se todos eles! Ele não se preocupava em manter esses técnicos, analistas e mecênicos em seu lugar. Tratava-os como se eles também fossem grandes artistas, e por isso eles tomavam essas liberdades. Pensou amargamente: nem contar piadas decentemente eles sabem.

Isso o levou de volta rapidamente à tarefa que tinha para cumprir. Sentou-se de novo. Que o diabo os carregue.

Voltou a acionar o circuito de operações de Multivac e continuou:

- O garçom do navio parou na amurada do convés durante um cruzeiro especialmente difícil e fitou piedosamente um homem curvado sobre a grade, cuja intensidade do olhar na direção do mar traduzia com perfeição as agruras de um enjôo. Gentilmente, o garçom bateu no ombro do homem.   "Coragem, cavalheiro", murmurou o garçom. "Sei que isso parece terrível, mas a verdade é que ninguém nunca morreu de enjôo." O cavalheiro levantou a face esverdeada e torturada para o homem que o consolava, ofegando roucamente. "Não diga isso, homem. Pelo amor de Deus, não diga isso. A esperança de morrer é a única coisa que me mantém vivo."

Mesmo estando um pouco preocupado, Timothy Whistler não deixou de sorrir e fazer um cumprimento com a cabeça ao passar pela mesa da secretária. Ela lhe sorriu de volta.

Aqui, pensou ele, estava um produto obsoleto dentro desse mundo computadorizado que tiranizava o século XXI, uma secretária humana. Mas talvez fosse natural que esse tipo de instituição sobrevivesse aqui, no meio da fortaleza do deus computadorizado, na gigantesca corporação que controlava Multivac. Com Multivac ocupando os horizontes, computadores menores para tarefas triviais se tornariam coisas de mau gosto.

Whistler entrou no escritório de Abram Trask. O oficial do governo interrompeu a cuidadosa tarefa de acender um cachimbo: seus olhos escuros piscaram na direção de Whistler e seu nariz adunco projetou-se nítida e proeminentemente contra o retângulo da janela por trás dele.

- Olá, Whistler. Sente-se, sente-se aí. Whistler obedeceu.

- Acho que estamos com problemas, Trask.

Trask deu um meio sorriso.

- Espero que não seja um problema técnico. Sou apenas um simples político. (Essa era uma de suas frases favoritas.)

- Diz respeito a Meyerhof. " Trask se sentou imediatamente, parecendo terrivelmente procupado.

- Você tem certeza?

- Quase. - Whistler entendeu perfeitamente bem a súbita apreensão do outro. Trask era um funcionário do governo num cargo da Divisão de Computadores e Automação do Ministério do Interior. Tinha a incumbência de resolver os problemas diplomáticos envolvendo os satélites humanos de Multivac, do mesmo modo como esses satélites tecnicamente treinados tinham a incumbência de lidar com Multivac propriamente dito.

Mas um Grande Mestre era mais do que um simples satélite. Mais ainda do que um simples ser humano.

No começo da história de Multivac, tinha ficado evidente que o nó górdio estava na formulação das perguntas. Multivac poderia resolver todos os problemas da humanidade, todos os problemas, desde que... desde que lhe fossem feitas perguntas significativas. Mas à medida que o conhecimento se acumulava numa proporção cada vez mais rápida, tornou-se cada vez mais difícil identificar essas perguntas.

Não bastava ser lógico. Era preciso um tipo de intuição; a mesma faculdade (só que muito mais intensificada) que transformava alguém num grande mestre do xadrez.

Era preciso um tipo de sensibilidade que pudesse enxergar através de quatrilhões de movimentos possíveis das peças, encontrar a melhor jogada e executá-la.

Trask se mexeu impacientemente.

- O que Meyerhof está fazendo?

- Ele introduziu uma linha de perguntas que acho perturbadora.

- Ah, que é isso, Whistler. É só isso? Um Grande Mestre pode seguir a linha de perguntas que ele achar melhor. Nem você nem eu estamos preparados para julgar o mérito de suas perguntas. Você sabe disso. Sei que você sabe disso.

- Eu sei, é claro. Mas também sei quem é Meyerhof. Você o conhece pessoalmente?

- Santo Deus, não. E alguém por acaso tem acesso a um Grande Mestre?

- Não pense assim, Trask. Eles são humanos e também merecem compaixão. Você já pensou o que deve ser a vida de um Grande Mestre? Saber que só existem doze seres iguais a você no mundo? Saber que só aparecem um ou dois deles por geração? Que o mundo depende de você? Que milhares de matemáticos, psicólogos e cientistas físicos contam com você?

- Santo Deus, eu me sentiria o rei do mundo.

- Não acho que você se sentiria assim - disse o analista, impaciente. - Eles não se sentem reis de nada. Não têm nenhum semelhante para conversar, não se identificam com nada. Ouça, Meyerhof nunca perde uma oportunidade de se juntar aos rapazes. Naturalmente, ele não é casado; não bebe, não tem nenhum contato natural com o mundo... e ainda assim procura a nossa companhia porque precisa. E você sabe o que ele faz quando está entre nós, coisa que acontece pelo menos uma vez por semana?

- Não faço a menor idéia - disse o homem do governo. - Tudo isso é novidade para mim.

- Ele é um Piadista.

- O quê?

- Ele conta piadas. Das boas. Ele é fantástico. Ele faz com que qualquer história, mesmo sendo velha e tola, pareça boa. É o jeito como ele conta. Ele tem um talento todo especial para a coisa.

- Eu entendo. Bom, não?

- Ou mau? Essas piadas são importantes para ele. - Whistler colocou os dois cotovelos em cima da mesa de Trask, mordeu a unha do polegar e olhou para o vazio.

- Ele é diferente. Ele sabe que é diferente e essas piadas são o único meio que ele tem para ser aceito por nós, esses ordinários sentimentalóides. Nós rimos, berramos, damos tapinhas nas suas costas e até nos esquecemos de que ele é um Grande Mestre. Esse é o único vínculo que tem com a gente.

- Isso tudo é muito interessante. Não sabia que você era um psicólogo tão bom. E daí, para onde isso nos leva?

- Para lugar nenhum. O que você acha que vai acontecer no dia que o repertório de piadas de Meyerhof se esgotar?

- O quê? - O oficial do governo arregalou os olhos.

- Se ele começar a se repetir? Se a sua platéia começar a rir forçadamente, ou parar de achar graça em suas piadas? Esse é o único vínculo que tem com a gente. Sem isso ele ficará sozinho, e o que lhe acontecerá? Além disso, Trask, ele é um dos doze homens indispensáveis à raça humana. Não podemos deixar que nada lhe aconteça. Não estou falando apenas de coisas físicas. Não podemos deixar que sofra. Quem sabe o que isso pode fazer com sua intuição?

- Bem, ele tem se repetido?

- Não que eu saiba, mas acho que ele pensa que sim.

- Por que você diz isso?

- Porque o ouvi contando piadas para Multivac.

- Ah, não.

- Foi sem querer! Entrei na sua sala e ele me colocou para fora. Ele foi estúpido. Normalmente é uma pessoa dócil e acho um mau sinal que tenha ficado tão incomodado com minha intromissão. Mas o fato é que ele estava contando uma piada para Multivac e desconfio que essa não foi a primeira.

- Mas por quê?

Whistler encolheu os ombros e esfregou uma mão no queixo.

- Acho que sei o que está acontecendo. Ele deve estar tentando programar uma reserva de piadas no banco de memórias de Multivac com a finalidade de conseguir novas variações. Percebe onde quero chegar? Ele está planejando um piadista mecânico e, dessa forma, poder ter sempre uma infinidade de piadas à mão.

- Santo Deus!

- Objetivamente, não existe nada de errado com isso, mas acho um mau sinal quando um Grande Mestre começa a recorrer a Multivac para seus problemas pessoais. Todo Grande Mestre é instável mentalmente, e ele deveria ser observado. Meyerhof pode estar se aproximando de uma barreira que, se ultrapassada, nos fará perder um Grande Mestre.

- O que você quer que eu faça? - perguntou Trask, apático.

- Você pode conferir o que digo. Talvez esteja muito perto dele para fazer um bom julgamento. De qualquer maneira, julgar humanos não é a minha especialidade. Você é um político, foi preparado para lidar com essas situações.

- Julgar humanos, sim. Mas não Grandes Mestres.

- Eles também são humanos. Além disso, quem mais pode fazer uma coisa dessas?

Trask tamborilou os dedos em cima da mesa como num lento e surdo rufar de tambores.

- Acho que terei de fazer isso - disse ele.

 

Meyerhof ditou para Multivac:

- Um rapaz apaixonado estava colhendo um buquê de flores silvestres para a sua amada quando se deparou com um enorme touro raivoso, que o olhava com uma cara de  poucos amigos, escavando o chão com uma pata, ameaçadoramente. O jovem, avistando um fazendeiro do outro lado de uma cerca não muito longe dali, gritou: "Ei, senhor. Tem problema com esse touro?" O fazendeiro examinou a situação com um olhar crítico. Deu uma cusparada e disse: "com o touro, não." Deu uma nova cusparada e acrescentou: "Mas não posso dizer o mesmo de você."

Meyerhof estava pronto para começar mais uma piada quando chegou a intimação. Na verdade, não era uma intimação. Ninguém podia intimar um Grande Mestre. Era apenas uma mensagem de Trask, o Diretor de Divisão, dizendo que gostaria muito de ver o Grande Mestre, se o Grande Mestre não estivesse muito ocupado.

Se quisesse, Meyerhof poderia não ligar para a mensagem e continuar fazendo o que bem quisesse e entendesse. Ele não estava sujeito à disciplina.

Por outro lado, se ignorasse a mensagem, eles iriam continuar a importuná-lo... muito respeitosamente, é claro, mas iriam continuar a importuná-lo.

Por isso, desativou os circuitos específicos de Multivac e travou-os nessa posição. Colocou o sinal de baixa temperatura no seu escritório, de modo que ninguém ousasse entrar durante sua ausência, e foi para a sala de Trask.

Trask sorriu e se sentiu um pouco intimidado pela fúria que emanava do olhar do outro.

- Ainda não tivemos oportunidade de nos conhecer, Grande Mestre, o que lamento muito - disse ele.

- Tenho lhe mandado meus relatórios - respondeu Meyerhof, com um tom ríspido.

Trask tentou adivinhar o que se escondia por trás daqueles olhos incisivos, selvagens. Era-lhe difícil imaginar Meyerhof, com seu rosto magro, seus cabelos escuros e retos, sua expressão profunda, extremamente reservada para alguém que conta histórias engraçadas.

- Relatórios não são a mesma coisa que a convivência. Eu... soube que você tem um maravilhoso acervo de piadas.

- Eu sou um Piadista, senhor. É assim que as pessoas me chamam. Um Piadista.

- Não foi isso o que eu soube. O que me disseram foi que...

- O diabo com eles! Não importo com o que dizem. Escute aqui, Trask, você quer ouvir uma piada?

Debruçou-se em cima da mesa e seus olhos se estreitaram.

- É claro que sim - disse Trask, num esforço para agradá-lo.

- OK, aqui está a piada. A Sra. Jones fitou o bilhete da sorte que saiu da balança, em resposta à moeda que seu marido colocara. Ela disse: "George, aqui diz que você é suave, inteligente, tem visão, trabalha muito e é muito atraente para as mulheres." Depois disso, virou o bilhete e acrescentou: "E erraram seu peso também.".

Trask riu. Era quase impossível não rir. Apesar de a história ser previsível, a surpreendente facilidade com que Meyerhof imitou o tom de desdém da voz da mulher e a sutileza com que contorceu as linhas de seu rosto, para que condissessem com o tom da voz, desarmou o espírito do político e fez com que soltasse uma sonora gargalhada.

- Qual a graça disso? - disse Meyerhof, ríspido.

- Como? - respondeu Trask, controlando-se.

- Eu perguntei qual é a graça. Por que você ri?

- Bem - disse Trask, tentando ser racional. - A última frase dá um novo enfoque a tudo o que tinha sido dito antes. A surpresa...

- Aí é que está o xis do problema - disse Meyerhof. - Coloquei um marido sendo humilhado pela sua mulher; um casamento que está tão ruim que a mulher tem certeza de que o seu marido não possui nenhuma virtude. Ainda assim, você ri. Se você fosse o marido, teria achado a piada engraçada?

Ele pensou um pouco e acrescentou:

- Veja essa agora, Trask. Abner estava sentado na cama onde sua mulher doente jazia, chorando incontrolavelmente. De repente, juntando as últimas forças, ela apoiou-se nos cotovelos e sussurrou: "Abner, Abner, não posso entrar no Reino dos Céus sem confessar um pecado." O marido, desesperado, tartamudeou: "Agora não. Agora não, querida. Deite e descanse." "Não posso", gritou ela. "Tenho que lhe contar, se não minha alma nunca ficará em paz. Eu traí você, Abner. Nesta mesma casa, há menos de um mês." "Silêncio, querida", acalmou-a Abner. "Eu sei disso tudo. Por que acha que a envenenei?"

Trask tentou desesperadamente se manter sereno, mas não conseguiu conter o riso.

- Quer dizer que isso também é engraçado? - disse Meyerhof. - Adultério? Homicídio? É tudo engraçado?

- Bem - disse Trask, creio que os analistas já escreveram livros sobre o humor.

- Isso também é verdade - disse Meyerhof. - Li muitos deles. Mais que isso, li a maioria deles para Multivac. Mesmo assim, as pessoas que escrevem livros estão apenas teorizando. Algumas delas dizem que sorrimos porque nos sentimos superiores às personagens das piadas. Outros dizem que é porque percebem um repentino contra-senso, um repentino alívio de tensão ou uma repentina reinterpretação dos fatos.  Alguma dessas respostas é definitiva? Pessoas diferentes riem de piadas diferentes. Nenhuma piada é universal. Algumas pessoas não riem de nenhuma piada. O que é mais importante é que o homem é o único animal com senso de humor.

- Entendo - disse Trask repentinamente. - Você está tentando fazer um estudo sobre o humor. É por isso que anda alimentando Multivac com piadas?

- Quem lhe disse? Deixa pra lá, já sei que foi Whistler. Agora me lembro. Ele me flagrou fazendo isso. Bem, e daí?

- Nada demais.

- Você não está questionando meu direito de acrescentar na memória de Multivac alguma coisa que ache necessária, está? Será que não posso mais fazer as perguntas que preciso?

- Não, de jeito nenhum - apressou-se Trask em dizer. - Para dizer a verdade, não tenho dúvidas de que isso abrirá caminho para novas pesquisas de grande interesse para os psicólogos.

- Hum. Talvez. Ao mesmo tempo, tem uma coisa que está me atormentando, que é mais importante do que um estudo geral do humor. Há uma pergunta específica que tenho que fazer. Na verdade, são duas perguntas.

- Quais são? - Trask estava curioso para saber se ele responderia. Se Meyerhof não quisesse, não havia nenhuma maneira de obrigá-lo a contar.

- A primeira pergunta é: de onde vêm todas essas piadas?

- O quê?

- Quem as cria? Veja! Há mais ou menos um mês, passei uma noite inteira contando piadas. Como sempre, contei a maioria delas e, também como sempre, os bobos riram.

Talvez eles estivessem realmente achando as piadas engraçadas, mas talvez estivessem apenas querendo me agradar. Em todo caso, um desses caras tomou a liberdade de me dar uns tapinhas nas costas e dizer: "Meyerhof, você sabe mais piadas do que qualquer pessoa que eu conheça." Tenho certeza de que estava certo, mas isso me deixou pensativo. Não sei quantas centenas, ou talvez até milhares, de piadas eu já contei na minha vida, mas a verdade é que nenhuma delas foi criada por mim. Nenhuma.