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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SONHOS DE UMA COLEGIAL / Corin Tellado
SONHOS DE UMA COLEGIAL / Corin Tellado

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

SONHOS DE UMA COLEGIAL

 

– Estou preocupada, Lewis.

– Por minha causa?

– Querido, você não me preocupa; Marcos, porém...

Lewis Kane aprisionou as mãos de sua jovem e bela esposa e as levou aos lábios. Beijou-as, com paixão e ternura indescritíveis; levantou, depois, a cabeça e fitou os olhos azuis de Wallis.

– Marcos é um homem feito e direito, amor sussurrou suavemente. – Tem uma fortuna enorme, um título e um físico que as mulheres modernas consideram muito interessante.

Por que afligir-se por ele, considerando esses fatores todos? Deixe Marcos com suas mulheres, bebidas e prazeres diversos. Você é a minha mulher, Wallis, vai ter um filho e é dona de todo o meu amor.

A jovem suspirou. Era bonita, delicada. Amava Lewis com ternura e paixão. Não tivera outro namorado senão ele, e Lewis lhe ensinara o que era o amor, o calor do lar, a ternura do casamento e o sonho de esperar um filho.

A jovem estava sentada em um sofá do quarto do casal. A peça era ampla, com um luxo surpreendente e refinado. Ele a contemplava com arroubo. Lewis Kane devia ter trinta e dois anos, talvez mais, a julgar pelos fios de prata que manchavam seus cabelos negros e abundantes. Algumas grandes mechas caíam descuidadamente pela fronte morena.

Os dedos finos e ligeiros de Wallis enredaram-se pelos cabelos masculinos. Fez com que Lewis a olhasse e sussurrou pensativamente:

– É precisamente o que assusta, amor. O dinheiro de Marcos, seu título, seus prazeres e suas amantes.

– Querida!

– Marcos é um homem por demais impulsivo, Lewis – acrescentou baixinho, como se desse uma explicação a si mesma. – Somos diferentes apesar de irmãos. Seria feliz se Marcos viesse participar-me seu casamento. Mas Marcos não pensa em se prender.

– E se é assim, por que se aflige? É melhor que fique solteiro se não sabe fazer uma mulher feliz. Considero Marcos um homem ponderado, Wallis. Você deve considerá-lo como eu, uma vez que é leal comigo mesmo e com as moças.

– Oh! Lewis, não me compreende! Temo pela vida de Marcos, sua saúde e seu bem-estar. Nem tudo se soluciona com um punhado de moedas, nem com amores fáceis desses que nascem hoje e morrem amanhã. Marcos deveria ter uma mulher só, entende? Casar-se, ter um lar, dar um herdeiro ao título e viver feliz e tranquilo dentro de casa...

– Wallis, atormenta-se muito e sem necessidade. Quando casou-se comigo, Lorde Wateon, como único chefe da família, opôs-se ao nosso casamento, alegando que eu era

somente um milionário de ocasião... O filho de um homem que começou trabalhando no cais e terminou fazendo chapéus, e depois tendas para a guerra... Lembra-se, Wallis, os desgostos e amarguras que passamos antes de conseguir nosso objetivo? Marcos Watson jamais gostou de mim...

– Não diga isso, Lewis...

– Não nos enganemos, minha querida. Para quê? Ambos sabemos que Lorde Watson não nos perdoou ainda o casamento que realizamos contra a sua vontade.

– Oh, querido!

– E se ele se opôs à nossa felicidade, por que vamos nos preocupar com a sua? Lorde Watson já não é um menino, Wallis. Tem trinta anos, uma grande personalidade,

uma posição e não precisa de nós para nada.

– com efeito, não precisa de nós para nada; mas desejo sua felicidade e me consta que Marcos não é feliz, embora demonstre, quando está conosco.

– Wallis – sussurrou Lewis, docemente – por que não deixamos isso de lado? Marcos encontra-se muito longe, agora. Talvez não regresse a Londres até meados de agosto, e depois poderá ir a Paris ou a Roma... É um homem escravo de seus gostos, afeições e prazeres. A Marcos pouco importa o calor familiar que você e eu poderíamos proporcionar.

Ficaram silenciosos. O raio de sol tinha-se ocultado por baixo da nuvem que o perseguia, e as sombras da noite rendilhavam o quarto.

– Quando nos vimos naquela vez em Nova Iorque

– disse ele subitamente – estava no jóquei sentada junto a Marcos e outros dois homens. – Apertou a mão feminina e acrescentou sonhadoramente: – Pensei que Marcos

era seu marido e senti uma desilusão profunda...

– Por que o recorda agora?

– Recordo-o muitas vezes, Wallis. Tenho sempre a visão daquele instante. Disseram-me mais tarde que era a irmã do muito poderoso Lorde Watson e senti-me decepcionado.

Meu pai ainda era vivo. Disse-lhe. Papai olhou-me com irritação e disse algo que não esquecerei nunca. Lembro que a pequena Denise estava afundada num canto do sofá

e, ao ouvir-me, levantou -seus grandes olhos para olhar-me inocentemente, talvez com curiosidade. E quando papai se alterou tanto, Denise começou a chorar e veio refugiar-se nos meus braços. Denise sempre me quis como se fosse realmente seu irmão.

– E que disse o seu pai?

– "É um tolo, Lewis. Que importa que essa moça seja uma aristocrata, se lhe agrada? Procure-a, enconr tre quem os apresente e se gostar mesmo dela, peça-a em casamento.

Sempre fui um homem de luta, Lewis. Perdi algumas batalhas, mas ganhei muitas outras, e estas compensaram minhas derrotas antigas. Tem muitos milhões. Procure uma esposa que lhe agrade, seja uma aristocrata inglesa ou uma artista americana, mas ao seu gosto. Hoje não existem os preconceitos e se essa jovem os tiver é porque não é uma mulher completa."

– E o que fez depois?

– Acariciei os cabelos negros de Denise, acalmei seu choro e saí sem dar resposta a meu pai. Dois meses depois era seu amigo e um ano mais tarde tornava-a minha esposa. Creio que Marcos jamais perdoará que fosse levada por um americano enriquecido em um quarto de século.

– Não me importa, Lewis – ela sussurrou, inclinando a cabeça e beijando os lábios masculinos com paixão. – Tenho seu amor, vivo em Londres perto de Marcos, ainda

que ele não me venha ver todos os meses, e vou ter um filho do nosso amor.

– Mas lhe atormenta a lembrança do seu irmão.

– Oh, sim, não posso fazer nada! Agora mesmo... onde acha que se encontra?

– Agora? Talvez em Nova Iorque ou em Buenos, Aires... Quem sabe?

Um reflexo da Lua jogava-se já contra as cortinas de musselina. A brisa da noite entrava calidamente pela janela aberta. Bateram na porta, e logo a voz de uma criada anunciava a hora do jantar. Lewis pôs-se de pé, segurou Wallis, e a apertou depois com paixão, contra seu peito.

– Acima de tudo eu lhe quero – suspirou, lentamente. – Amo-o, Lewis, amo-o...!

O sol entrava com abundância pela janela aberta. As vozes das estudantes chegavam do parque, claras e vibrantes. No quarto da jovem filha de Lorde Winters reinava

um silêncio quase sepulcral, interrompido de vez em quando pelos suspiros de Joan Calhern que, sentada em um banco com um caderno sobre os joelhos e os cotovelos

apoiados neles, tentava estudar sem poder.

– Nunca perdoarei este castigo – gritou, lançando o caderno ao chão.

Pisou-o com raiva, e depois correu para a cama.

Estirada na cama estava uma moça, vestida também com uniforme. Uma moça linda, com os olhos claros e brilhantes que pareciam ter sido formados de chispas de fogo, móveis, vaidosos. E aqueles olhos pertenciam a um rosto juvenil, cheio de encanto e sedução.

Uma cabeleira negra, cortada na última moda, emoldurava o oval daquele rosto, cujos traços exóticos pareciam talhados a cinzel por um escultor famoso.

– Ouviu? Não perdoarei este castigo, nunca!

O uniforme não se moveu. Dir-se-ia que a sua dona não ouvira o comentário azedo da companheira.

– Jamais senti tanta satisfação, como quando joguei aquela presunçosa no lago – disse, por fim, uma voz suave, cheia de matizes ricos, apaixonados, lentos...

– Tornaria a fazê-lo? – perguntou, incrédula, Joan.

A moça de uniforme cinzento, debruado de verde, sentou-se na cama. O cabelo negro, quase azulado pelos reflexos que o sol nele colocava, moveu-se diversas vezes de cima para baixo.

– Faria tantas vezes quantas fossem necessárias, Joan. Não ignora que jamais volto atrás. Odeio Teresa Aguisal, a espanhola tola, e esta não foi a primeira vez que a joguei no lago.

– Crueldade?

– Não me preocupei em averiguar. Sei somente que Teresa Aguisal me é antipática. E eu, quando não posso suportar uma pessoa, demonstro sem rodeios.

– Denise – murmurou Joan, sentando-se na borda do leito – você pode fazer isso porque.irá embora breve, mas eu estou começando.

Sua silhueta graciosa, esbelta, de uma flexibilidade surpreendente, deu algumas voltas pela peça. Deteve-se depois junto a Joan e colocou uma mão no seu ombro.

– Uma boa parte da minha vida foi passada aqui, neste colégio – disse pausadamente, com certa altivez – e estou farta de tudo isto, compreende? Mas se começasse agora e tivesse de enfrentar Teresa Aguisal, vinte, trinta, mil vezes, o faria até fazer com que a expulsassem ou me expulsassem.

– É muito impulsiva.

– Isso é o que dizem. Estou querendo sair daqui, Joan. Meus irmãos vêm ver-me todos os anos. Tiram-me do colégio, levam-me a desfrutar férias maravilhosas em Paris, em Roma ou em Nova Iorque... – Fez um gesto vagaroso e prosseguiu. – Mas não é o que desejo. Quero regressar a Londres, organizar minha vida e frequentar as festas da Corte.

Joan nada respondeu. Estava tão longe o dia em que poderia desejar o mesmo que sua amiga! Por outro lado, não era uma aristocrata. Jamais poderia frequentar os salões

da Corte inglesa, uma vez que seu pai não era nobre e nem sequer mliitar. Era simplesmente um homem enriquecido pela guerra, cujo nome era completamente desconhecido nos salões londrinos. Mas aquela Denise Winters pertencia a uma casta antiquíssima de aristocratas, quase tão antigos quanto os reis ingleses.

– Estou desejando deixar tudo isto – acrescentou.

– Nunca pensei que um internato fosse tão pesado e aborrecido, Joan – prosseguiu com uma ternura inesperada. – Quando Lewis e sua esposa vierem buscar-me, só lembrarei

o seu carinho. Não penso em recordar as freiras, nem as minhas colegas, mas você... é diferente. Quando voltar a Londres, no ano que vem, irei visitá-la. Ouviu, Joan? Você me telefonará e irei a sua casa. Somos quase da mesma idade, Joan, mas seus pais enviaram-na ao colégio, quando devia sair dele. Pode dizer por quê?

– Ignoro.

– Há tristeza na sua voz, minha amiga!

Joan desconheceu o gesto. Não lhe agradava que Denise pretendesse esmiuçar seu passado. Para quê? Não poderia jamais enumerar os valores aristocráticos de seus pais, nem explicar a origem da árvore genealógica da sua família. Talvez se Denise soubesse que seu pai enriquecera durante a guerra...

– Por que enviaram-na tão tarde ao colégio, Joan? Joan Calhem era uma menina-moça de dezessete anos, ruiva, graciosa, de busto firme, bem definido, e modos gentis, isentos de afetação. Era uma jovem linda, delicada, mas lhe faltava a distinção que animava todos os gestos de sua companheira de quarto. Haviam-se querido desde o início, sem saber por quê. Talvez aquele carinho resultasse do muito orgulho de Denise Winters, cuja indulgência caritativa comprazia-se em proteger a principiante Joan.

Minha família não pertence à nobreza. Denise disse por fim.

– Eu sabia.

– Meu pai é um comerciante. Começou tendo uma barraca no meio da rua, e durante a guerra já era dono de armazéns atacadistas. Tem muito dinheiro, mas não possui

nobreza de sangue. Talvez para consegui-la tenha me enviado a este colégio, onde são educadas apenas moças muito distintas.

– Seu pai não agiu muito acertadamente – comentou, vagamente. – Os preconceitos de classe não a beneficiam em nada, minha querida Joan. Agora aqui estou, mas quando lhe faltar, todas essas mocinhas a olharão por cima do ombro. Isto já é quase corrente, neste pensionato. Isso pouco importa a mim, minha querida, uma jovem nobre e carinhosa e é o que me interessa. Bem, creio que vamos voltar à classe. O castigo durará ainda uma semana, mas tenho a esperança de que me venham buscar antes.

Na verdade, já tenho dezoito anos. Vamos, Joan?

 

Marcos Watson era alto, forte, de ombros largos e cintura estreita. Notava-se que praticava todos os esportes assiduamente. Era um grande cavaleiro, um bom jogador

de ténis; nenhum esporte tinha segredos para Marcos Watson.

Encontrava-se de pé, junto à lareira, cujas chamas faiscavam alegremente. Afundado num divã, com o copo na mão, encontrava-se outro homem, um jovem moreno, de grandes olhos azuis e expressão parada, quase melancólica. Marcos deteve-se em frente a ele e murmurou:

– Ignorava que estivesse na Inglaterra, Ernest.

– Não saí daqui, desde que nos vimos pela última vez. Disseram-me esta tarde que você regressou, por fim, e... aqui me tem.

– Encha meu copo e você não beba tanto. E sua família? Já sei que seu pai continua na embaixada. Estive ontem à noite com Aguisal.

– com meu tio? Ah. sim! – ergueu a cabeça subitamente e acrescentou: – Sabe que me querem casar com a sua filha Teresa? Não quero enforcar-me tão cedo! Além disso, Teresa é demasiadamente orgulhosa para um rapaz tão simples como eu – prosseguiu brincalhão. – Sou espanhol como ela e pertenço à mesma família, mas não quero me casar, ainda.

– E onde está agora essa espanhola que lhe querem empurrar?

– No colégio. Virá no fim do inverno.

– Daqui até lá, amigo Ernest, muitas coisas podem acontecer – deixou o copo de lado e disse: – bom, vou vestir-me. Fui convidado para uma festa. Vai comigo?

– Belezas?

Marcos Watson fez um gesto vago. Era um bom moço. Dotado de uma cabeça soberba, coroada por cabelos negros muito brilhantes; olhos azuis, extremamente claros, de expressão brincalhona, inclusive cínica. Havia algo naquele homem que o diferenciava dos outros. Tinha distinção, elegância, era belo como Apolo e arrogante como

um rei.

– Talvez já as conheçamos todas, mas vamos assim mesmo.

Foi arrumar-se. Regressou minutos depois, trajado a rigor. O traje dava maior relevo à sua silhueta. Um criado entregou-lhe, no vestíbulo, o sobretudo e o chapéu.

Marcos colheu um cravo vermelho que se encontrava num jarro e o colocou na lapela.

– Sabe? – comentou com certa ironia. – Na Corte sou conhecido como o cavalheiro do cravo vermelho.

– Só por isso?

– Entre as moças, só por isso – e riu com satisfação.

No pequeno salão graciosamente mobiliado encontravam-se duas moças: Denise Winters e sua amiga Ingrid March. Esta última fora colega de Denise e agora, que ambas já gozavam de liberdade, trocavam impressões no salão particular, que a jovem Winters possuía na casa de seu irmão, Lewis Kane.

– Oh, Denise! Desejei tanto que voltasse definitivamente do internato! Agora já estou satisfeita. Quando a apresentarão à sociedade?

– Deixo-o a critério de Wallis. Já sabe que Lewis é inútil para estas coisas, mas Wallis é uma mulher que pertence à aristocracia e me ajudará. Quero muito a Wallis, sabe, Ingrid? Senti grande alegria quando soube que Lewis se casava com uma mulher nobre. – Ficou pensativa e acrescentou, baixinho. – Talvez, por isso, experimente uma forte simpatia por Joan Calherm. Conhece Joan?

– Claro que não. Ignora que deixei o colégio há dois anos? Sou feliz, Denise. Muito feliz.

– Ama?

– Oh, não! Mas que importa, quando posso levar a vida de festa em festa, de salão em salão? vou dizer-lhe o que faço durante o dia. Pela manhã vou ao haras de Alicia Stitch. Tenho um cavalo maravilhoso dado por papai no inverno passado. Aproveito horrores concorrendo com Ali e seus amigos. Logo ao regressar, tomamos o aperitivo no clube. Leio um pouco até às cinco e depois...

– Não continue! – Denise gritou, horrorizada. Não penso fazer essas coisas, Ingrid. Tenho que ignorar pela manhã o que farei no dia seguinte. Detesto as diversões premeditadas. Amo o imprevisto, compreende? E penso organizar minha vida de outro modo.

– Todas dizemos a mesma coisa no início e logo terminamos claudicando. A primeira coisa a fazer é apresentar-se na Corte. Depois, a vida por si só irá mostrar-lhe o caminho a seguir. A todas nós acontece o mesmo, Denise.

– Não poderia me divertir assim.

Apanhou o cigarro que a outra estendia e o olhou divertidamente.

– Nunca fumei – disse, vagamente. – Não penso fazê-lo jamais. Tome, não o quero.

– Sempre foi diferente de nós.

Ingrid March, um pouco decepcionada, despediu-se minutos depois da amiga e esta correu à saleta de Wallis, ansiosa para permanecer ao seu lado, horas intermináveis. Wallis era tão suave, distinta, e amava Lewis tanto!...

Wallis a recebeu alegremente. Estava envolta por uma coberta e permanecia recostada no divã com os olhos abertos, cravados no teto. Denise, tão impulsiva como sempre, correu para ela, beijou-a em ambas as faces e sentou-se ao seu lado. Em que pensa, Wallis?

– Em nada determinado.

– Diga-me.

– Primeiro, pensava em Lewis... – olhou Denise e apertou as mãos finas da jovem com uma ternura cálida. – Sabe, Denise?. Nunca se case por casar, nem para ter um homem elegante a seu lado, nem por vaidade ou orgulho. Case-se por amor e será infinitamente feliz. Lewis não é um cavalheiro demasiadamente elegante. É mais um homem comum, mas lhe quero, sabe? Nunca pensei que pudesse amar um homem como amo Lewis. Por isso, todos os minutos que tenho livres os dedico a pensar nele. Pensava, também, no filho que espero e no meu irmão.

– Tem um irmão? – Denise admirou-se.

– Claro, querida. Pensei que já sabia.

– Mas não. Nunca o vi, não é?

– Penso que não.

– Gosta muito dele?

– Gosto porque não é feliz.

– É casado?

– Oh, não! Talvez não se case nunca. Por isso me preocupa sua felicidade.!

– Não vem vê-la?

Os olhos de Wallis ficaram tristes:

– Poucas vezes. Estava viajando e sei que chegou um destes dias. E não veio aqui. Antes, me queria muito, sabe? Queria-me com loucura, mas desde meu casamento...

Denise a olhou fixamente:

– Não sei por que, me parece que o seu irmão detesta Lewis.

Wallis inclinou a cabeça sobre o peito e suspirou.

– Mas eu lhe quero igual ou talvez mais – disse, baixinho.

– Refere-se ao seu irmão?

– Oh, não! Falo de Lewis.

– Gostaria de conhecer o seu irmão, Wallis.

– Logo que a apresentarmos à sociedade, vai-se fartar de conhecê-lo, Denise. Anda sempre por todos os salões elegantes – acariciou a cabeça de cabelos negros, abundantes, e acrescentou: – Denise, gostaria que meu irmão encontrasse na vida uma mulher como você.

Os olhos muito claros de Denise elevaram-se subitamente.

– Uma mulher como eu? – riu, embaraçada. Acredita mesmo que um Lorde Watson, cheio de experiência, poderia enamorar-se de uma criatura simples como eu? Que ideia, Wallis!

– Não me refiro a você precisamente, Denise, mas a uma jovem ingénua e nobre como você é. Temo pela felicidade de Marcos...

– Chama-se assim?

Wallis assentiu, em silêncio, e a beijou em ambas as faces; depois bateu carinhosamente no ombro quase infantil:

– Ande, não gaste seu tempo comigo. Vá dar uma voltinha no carro que Lewis lhe deu ontem. Conhece Londres, perfeitamente, e já sabe onde pode encontrar as suas amigas.

– Amigas? Acha que vou viver dependendo delas? Oh, não, Wallis... todas as minhas colegas mudaram muito. Ingrid March veio aqui esta manhã e já não é como antes. Há algo nela que a afasta de mim. Talvez se deva aos seus ares de alta sociedade, à linguagem rebuscada, às suas maneiras um pouco afetadas... Sou orgulhosa – acrescentou, pensativamente. – Todos dizem que sou. Talvez acertem, mas no fundo do meu coração experimento uma repugnância profunda por tudo o que diverte as minhas amigas.

– Agrada-me seu modo de ser, Deni, mas... pressinto que por esse modo vai sofrer muito. Deve ser mais sociável, minha querida. Quando voltei definitivamente do colégio, Marcos deu uma grande festa para apresentar-me à sociedade. Também fiquei desconcertada, insegura mesmo no centro da minha sociedade. Adaptei-me, porém,

mais tarde.

– Não obstante, casou a seu gosto. Nenhuma de suas amigas o teria feito. Renunciou aos seus hábitos, consagra sua vida a um homem só... – apertou os lábios e acrescentou, baixinho: – Não sei por que dizem que sou orgulhosa quando, na verdade, estou disposta a encontrar um amor verdadeiro para consagrar-lhe também a minha vida.

– E o encontrará, Deni. Você merece e o encontrará.

 

O pequeno carro verde parou junto à calçada, e a figura gentil e feminina atravessou a rua. Vestia um modelo escuro e sobre ele um casaco de peles. Parecia mais feminina e elegante. Seus olhos muito claros chispavam com a satisfação de ver-se longe do cárcere que supunha ser o internato. Era uma jovem linda e apaixonada.

A vida lhe brindava com a felicidade e estava disposta a aprisioná-la, ainda que à custa de tudo, da sociedade à qual pertencia, dos preconceitos que a cercavam e da própria existência que poderia exigir-lhe coisa melhor...

– Por favor...

Deteve-se bruscamente. Através da porta envidraçada, um pouco entreaberta, chegava a música do salão, o rumor um tanto apagado das conversas e o eco alegre das risadas jovens. Olhou o homem. Era vermelho, alto, um pouco desalinhado. Vestia-se com alguma correção, ainda que descuidadamente. Notava-se nele um ar de indiferença total por tudo aquilo que estava sucedendo lá dentro. Havia ironia naquele olhar e uma alegria natural isenta de afetação.

– Que deseja? – perguntou Denise.

– Um instantâneo.

– O quê?

– Vou tirá-lo logo – respondeu o homem – o seu perfil. E amanhã o verá em todos os jornais.

– Ah, vamos, você é um jornalista!

– E um admirador incondicional de sua beleza.

– Muito amável. Posso passar?

– E o instantâneo?

– Por favor, não seja grosseiro e deixe-me entrar.

– Entrar? Sabe você a barafunda que existe aí dentro? Observe meu rosto – fez uma expressão brincalhona, efeminada e falou com voz de falsete, remedando as supostas senhoritas que estariam lá dentro. "Minha querida, demorou muito. Isto tem estado soberbo, encantador..." Agora um homem fazendo cara de idiota: "Oh! minha amada, juro-lhe que jamais homem algum amará como eu." E, agora, chegando ao salão...

Denise não pôde deixar de soltar uma gargalhada.

– Você é simpático – disse, espontaneamente. Mas deixe-me passar. Estou certa de que ninguém me conhece aí dentro.

– Tanto pior. Vão olhá-la como se fosse a Vénus de Milo, arrancada de seu pedestal. E é deprimente.

– Eh! Mas o que está pensando?

O suposto jornalista escondeu o isqueiro que era, na verdade, a máquina fotográfica e encolheu os ombros.

Denise nem sequer olhou para trás quando, com raiva, empurrou a porta e entrou no salão de chá. No outro lado da porta estava o homem sorrindo, ainda. Mas seu sorriso não era o de um cínico, era bem mais o sorriso de um menino grande que cometera uma travessura. Denise, um pouco inquieta, sentiu sobre si os olhares de todos os presentes. Mas, de súbito, seus olhos encontraram Ingrid. Aliviada, foi até ela e deixou-se cair no meio do grupo.

– Pensei que não podia encontrá-los – disse, suspirando.

Ingrid a apresentou, e Denise familiarizou-se logo com seus novos amigos. Não quis dançar, mas sempre teve a seu lado um companheiro amável que lhe tornou a tarde agradabilíssima.

De súbito, a porta envidraçada abriu-se um pouco e por ela entrou o desconhecido.

– Quem é? – perguntou a Ingrid.

– Esse? – a outra interrogou, desdenhosa. – Não sei ao certo. Mas o tenho atravessado aqui. – E assinalou a garganta.

Se ele não era simpático a Ingrid, o era a Denise, sobretudo pelo simples fato de não agradar à sua amiga.

– Creio que é redator de um jornal muito famoso disse uma moça. – Sei, também, que é encarregado

da coluna social e da seção esportiva. Uma ou duas vezes por semana aparecemos completamente ridicularizadas numa coluna. Nós o odiamos, porque ele nos odeia. Possui um pseudónimo horroroso.

– Como?

– Jack. Ignoro seu nome verdadeiro. Mas devo assegurar que é um impertinente. com seu isqueiro engraçado nos fotografa quando menos esperamos, e depois lá vem o jornal dizendo bobagens e citando os nossos defeitos. Não sei por que nos tem essa raiva.

– Algum mal lhe fizeram – Denise rivt.

– Nós? Não. Jamais dançamos com ele, ;nem sequer trocamos uma palavra, mas o grande cínico nos saúda ao entrar ou sair e inclina a cabeça como se fôssemos conhecidos.

– É um homem original – interveio um dos rapazes. – E possui uma inteligência surpreendente. Várias vezes foi demitido do jornal e foi admitido novamente. Não obstante, todos nós sabemos que é o jornal mais vendido em Londres. Se se vai a uma conferência científica, lá está Jack. E se uma moça debuta perante a Corte, Jack não falta, por certo. Desde os bairros mais pobres até os salões mais chiques, lá está Jack subindo e descendo tantas vezes quantas forem necessárias.

– Sem autorização?

O jovem Daniel riu, discretamente.

– Que disparate, Denise! Jack sempre apresenta um convite descomunal. Por sua condição de jornalista tem entrada em todas as partes. E quando seus amigos respiram, acreditando que não aparecerá, abre-se a porta e por uma fresta desliza o corpo de enguia de seu inimigo. E que estas jovens não cometam excentricidades, porque no dia seguinte aparecem bem em relevo na imprensa mais famosa do mundo. É, Jack tem o dom de adivinhar o que mesmo o noivo ignora. Por isto é odiado por nossas amigas.

– Cale-se já, Dan!

– Perdoe-me, Ingrid. Na verdade, estou dizendo a verdade – olhou Denise e sorriu com picardia. – Denise, você mesma irá percebendo tudo. Aparece agora no céu de Londres e, naturalmente, ignora muitas coisas. Esse homem, direi para terminar, e que me perdoem os brotinhos, é odiado pelas mulheres, mas admirado profundamente pelos homens.

Durante aquela conversa, Jack não deixara de olhá-los. Estava recostado no bar. Tinha o isqueiro na mão e o cigarro na boca. De vez em quando elevava o pavio e fingia que acendia o cigarro, mas o aparelho diminuto descia e o cigarro continuava apagado.

– Vê? – gemeu Ingrid, irritada. – Está nos fotografando. Amanhã, à tarde, estaremos todas dançando no jornal. Você também, Denise.

– Tanto faz, Ingrid. Que pode dizer de mim?

– E que pode dizer de mim e o diz?

– Ou de mim?

– Oh, fiquem quietas, por favor! – pediu James Whitler. – Amanhã vocês solucionarão esse assunto.

– Eh? – Ingrid espantou-se, abaixando a voz. Vêem? Jack vem até aqui. É a primeira vez que trata de enfrentar-nos.

com efeito, o jovem jornalista, sorridente, indiferente e seguro de si mesmo, avançava até a mesa. Que desejava? Denise conteve o riso. A ela tanto fazia que ele se aproximasse ou não. Na realidade, o achava simpático. Observou os rostos atarantados de suas amigas.

Jack já estava ali, ereto, firme, um pouco desalinhado, muito corado, com os olhos tão verdes falseando e exibindo sua ironia. Olhou somente para Denise, depois

de saudar com a cabeça os rapazes. E sua voz soou normal. Era a voz agradável de um homem... agradável.

– Dá-me o prazer desta dança? – perguntou, inclinando-se para Denise.

Dan murmurou qualquer coisa. Ingrid afundou-se na poltrona. As outras jovens apenas puderam conter um suspiro de indignação. James Whitler, o homem por quem suspirava a aristocrática Ingrid, riu discretamente, com ironia. Por seu lado, Denise nem se mexeu. Talvez todas esperassem uma negativa exagerada. Ingrid mais do que ninguém; mas Denise não se parecia com elas. Tinha um caráter e não lhe importava um níquel a opinião de suas amigas. Sorriu, pôs-se de pé e apoiou-se graciosamente no braço que lhe era oferecido pelo jornalista. Quando se afastaram, Ingrid rompeu o silêncio pesado:

– Nunca perdoarei Denise.

– Creio que a Denise tanto faz que a perdoe ou não, Ingrid – comentou Dan, brincando.

– Bem – murmurou Jack, com indiferença – a estas horas suas amigas estão-me arrasando.

– Foi muito ousado ao vir pedir-mè para dançar com você.

– Por quê? Sou um homem jovem. Tenho vinte e nove anos. Você é uma jovem, livre, feliz e um pouco melhor do que elas. Por que havia de negar? Além disto, quando uma jovem entra num salão de baile, o mais natural é que goste de dançar.

– Mas não nos conhecemos.

– Conhecer-nos? – Jack riu, fazendo um gesto brincalhão. – Não se usa hoje. Ademais, a mim não interessa quem você seja. E a você... acaso lhe importa quem eu seja?

De maneira alguma.

– Não obstante, deve haver um motivo por que foi buscar-me à mesa.

– Um motivo? Sim – admitiu com naturalidade.

– Há um motivo e vou dizê-lo. Quando você entrou no salão, pareceu-me diferente das outras. Quando a vi, depois, sentada junto a elas, considerei-a fora de lugar. Refiro-me ao que estou fazendo, para despertar a ira de suas companheiras. Por isso fui pedir-lhe para dançar comigo.

– E que lucrou com isso?

– Saber que não se parece com elas, para satisfação sua e minha. Gosto de você.

– Eh?

– Bem, não me expliquei bem. Não quero dizer que esteja apaixonado por você. Seria absurdo. Mas me agrada. Você é uma jovem simpática, agradável e não tem ódio de mim. Não quero que me odeie nunca. Sentiria muito. Ah, já lhe disse? Odeio bailes.

– Mas... mas...

– Sim, já sei. Estou dançando com você, mas não gosto de bailes. Detesto-os. E juro que jamais me casarei com uma mulher que se deixe levar pelos braços de outro homem que não sejam os meus.

– É absurdo!

– Não é. Olhe! Seus amigos estão saindo e dizem adeus com a mão. Quer sair com eles ou prefere ficar comigo?

– Você é um homem absurdo.

– Não, não. Claro que não sou um homem absurdo. Sou um homem que sorri do que está mal e aprecia o que está bem. Vai embora com eles?

Ingrid lhe tocava o braço sem olhar para Jack:

– Vem, querida? Vamos ao clube.

– Talvez me encontre com vocês depois. Tenho carro lá fora.

– Serei um homem absurdo – Jack admitiu com naturalidade, quando observou que a porta se fechava atrás do grupo – mas não tão absurdo que não compreenda que acaba de ganhar sete pontos no meu conceito.

– E o que importa ganhar no seu conceito?

– Ah, isso não podemos dizer agora. Pode importar muito ou pode não-importar nada. Vamos? Não tenho carro aqui. Se você for amável me levará até à redação.

– Está-me obrigando?

– Não o creio.

Segurou-a por um braço e saíram à rua. O carro verde deslizava minutos depois pela rua asfaltada. Denise ia ao volante e perguntava-se pela centésima vez por que o levava ao seu lado.

– Como se chama? – perguntou ele, depois de um silêncio curto.

– Denise Winters.

– Bonito nome. Agrada-me muito.

– Sou irmã de Lewis Kane.

Jack não pareceu incomodar-se muito.

– Sei. É um comerciante de primeira ordem comentou. – Meu pai também é, mas detesto os negócios, prefiro ser um homem de letras. Arroja-se mais, trabalha-se mais, talvez, mas se é mais livre e se tem menos preocupações.

– Você é um homem raro.

– Sou um jornalista causador de dores de cabeça. Gosto que me recordem, com rancor. Isso aguça minha inteligência.

– O que significa que você está orgulhoso de si mesmo. Jack riu brincalhão. Encolheu os ombros e rebateu:

– Nunca fui orgulhoso nem penso sê-lo jamais! Se existe em mim um fiapo de orgulho, é o fato de que estou orgulhoso precisamente de não o ser.

– Uma explicação muito rara.

O homem não contestou. Denise o olhou pelo rabo do olho e se disse que a seu lado sentia-se segura e satisfeita. Havia-o conhecido àquela tarde e não pensava em deixar esquecer sua amizade.

– Já chegamos – disse ele.

Jack abriu a porta, mas antes de descer declarou:

– Amanhã lhe telefonarei para marcarmos um encontro.

– Mas, ouça...

– Não quer que lhe telefone? – ele perguntou.

– Claro que não.

– Muito bem. Não se preocupe que não a chamarei.

Agitou a mão e Denise o viu entrar no edifício do jornal.

 

Atendendo ao chamado de Wallis, caminhava apressadamente pelo corredor largo e atapetado, perguntando-se o que podia desejar dela àquela hora da noite, quando já se dispunha a dormir. Vestia um pijama folgado e sobre ele o négligé de gaze branca, cuja transparência fazia ressaltar sua feminilidade já por si aguçada. Sem pintura, isenta de qualquer retoque, parecia mais jovem e mais linda. Abriu a porta do salão e entrou.

– Chamou, Wa...?

Apertou a boca subitamente. Quem era aquele homem arrogante e bonitão que, vestido elegantemente, a contemplava entre sorridente e sério?

– Deni, quero apresentar-lhe meu irmão. E, como por certo não teremos muitas ocasiões como esta, uma vez que Marcos vem me visitar muito pouco...

Denise avançou com a mão estendida.

– Encantada, Marcos. Wallis falou muito, de você e eu desejava conhecê-lo.

– É encantadora, Denise – ele comentou, francamente deslumbrado. – Imaginava-a muito diferente.

– E sabia que eu existia? – ela riu, encabulada.

– Wallis e Lewis me falaram muito de você. Denise procurou Lewis com os olhos e o encontrou afundado, com indiferença, numa poltrona. Tinha um cigarro entre os lábios e a contemplava com imenso carinho. Não eram irmãos; no entanto, adorava Denise como se fosse sua irmã. Seu pai permanecera só e livre durante muitos anos. Lewis recordava tudo como se tivesse acontecido no dia anterior. E, enquanto ouvia a conversa de Marcos com Denise, pensava no tempo passado que tinha, para ele, uma lembrança grata e doce.

Papai Kane deixara um dia sua vida solitária e dedicara-se a frequentar os salões londrinos. Era um homem de muito dinheiro e, assim, já ninguém se preocupava muito em investigar a árvore genealógica dos homens que, de simples comerciantes, se convertiam em pessoas milionárias. Mas não fora num salão que papai Kane conhecera Lady Winters. Fora simplesmente numa reunião familiar. Enamorara-se dela, com esse amor profundo dos homens maduros, que sentem como se a vida acabasse.

Continuou pensando e a ponta do cigarro queimou subitamente a ponta de seus dedos. Depositou-o num cinzeiro e fechou as pálpebras. Já era, então, um homem. Terminara o curso de Engenharia e trabalhava como diretor em uma das fábricas que papai Kane possuía. Um dia, ele entrará na sala de seu filho e lhe dissera estas palavras: "Estou apaixonado por uma mulher e vou casar-me com ela."

Lewis encolheu os ombros como se aquela explicação tivesse tido lugar no dia anterior. "Faz muito bem, papai", ele respondera. Recordou que seu pai lhe dissera que ela era uma aristocrata, viúva, e tinha uma filha. Seu marido era Lorde Winters.

Casaram-se. Nunca poderia esquecer o amor que aquela distinta senhora sentira por seu pai. Talvez, por isso, quisera a pequena Denise como se fosse sua irmã. Mais tarde, papai Kane morreu. Pouco tempo depois, a dama e Denise ficaram sozinhas com ele. Era seu tutor, quase seu pai. Saltara em seus joelhos, e ele afagara em seus braços e a beijara como se fosse, realmente, sua filha ou irmã. E agora, Denise era uma mulher e começava a viver...

– Lewis – cantarolou a jovem, indo para seu lado.

– Em que lugar das nuvens se encontra neste instante?

Lewis sacudiu a cabeça e pôs-se de pé.

Estranhou que o cunhado, pela primeira vez na vida desde que se casara com Wallis, o olhasse sem aquele ar de superioridade. Não lhe ocorreu pensar que Marcos era um homem como os outros, e que Denise era uma jovem belíssima.

– Uma festa para que Denise vista suas galas de mulher – Wallis respondeu docemente. – Depois a apresentaremos à Corte.

– Parece-me muito bem.

Marcos aproximou-se de Lewis e o tocou no braço.

– Se prefere realizar a festa na minha casa...

– Por quê? – Lewis interrogou, sem alterar-se, mas com certa insegurança. – Temos um palácio esplêndido. Wallis será uma grande hostess.

Denise observou Marcos. Achava-o belo como nenhum outro homem. Era alto e arrogante, tinha uma galhardia insuperável. Também seus olhos eram grandes, pensadores, como se por baixo de seu brilho natural escondessem uma intensidade extraordinária. Mas não se sentiu atraída por ele, oh, não!

Amava Lewis como se fosse na realidade seu irmão ou, melhor, seu pai, e tinha a intuição de que Marcos e Lewis não se entendiam, talvez nem sequer se suportassem. Quem tinha a culpa? Conhecia Lewis o suficiente para assegurar que aquela animosidade não partia de seu irmão.

– Parece-me muito bem – Marcos admitiu, sacudindo elegantemente a cinza do cigarro. – Amanhã voltarei aqui para saber o que ficou resolvido, em caráter definitivo. Contem comigo para tudo. E agora me vou, porque já é tarde.

Wallis o acompanhou até a varanda. Denise, séria e rígida, permaneceu no meio do quarto. Lewis deixou-se cair novamente na poltrona; fumava seu cigarro, nervosamente.

– Por que não simpatiza? – perguntou Denise, sem voltar o rosto.

Esperou a resposta, mas Lewis talvez não pensasse em dá-la, uma vez que continuava fumando indiferentemente.

– Ouviu, Lewis?

– Perfeitamente.

– E o que me responde?

– Ignoro o que responder, Deni. Nunca senti antipatia por ninguém. E quanto a Marcos Watson, encontra-se demasiadamente ocupado para preocupar-se em visitar-me com frequência e dar atenção a seu cunhado – pôs-se de pé e apagou o cigarro no cinzeiro. Depois, sorridente, elevou a cabeça e olhou através da janela, vendo a silhueta de Wallis no terraço, frente a seu irmão. – Sou demasiadamente pouca coisa para ele, minha querida Denise. Você é uma aristocrata bela e Marcos sentir-se-á muito satisfeito em introduzi-la no centro da sociedade, mas eu me chamo Lewis Kane só, e não lhe importo um níquel. Gostaria que se casasse, enamorada pelo homem em si, Deni. Jamais se apaixone pelos brasões. O amor proporciona a felicidade, e talvez os brasões a comprometam.

– Oh, Lewis... – murmurou ela.

– Denise, não odeio Marcos. Amo Willis demasiadamente para odiar o irmão, mas não me é simpático. Ela acaricia a ideia de casar você com ele, mas eu não. Quero para você, Deni, um homem com o coração humano. Detesto os vaidosos.

 

A criada, que se encontrava a serviço exclusivo de Denise, abriu de par em par as persianas da janela e um fio de luz invadiu o quarto. Denise revolveu-se na cama larga e acolhedora.

– Por que me acordou, Polly? – perguntou, abrindo um olho. – Devem ser seis da manhã.

– Milady ordenou-me que a despertasse às onze.

– Hem? – gritou, dando um pulo, na cama. Disse onze? É delicioso despertar em casa. Você é feliz, Polly? Diga-me: sabe o que é a felicidade?

– Meu pai dizia que é um punhado de pequenas coisas.

– Seu pai era um homem muito inteligente – e acrescentou, saindo da cama: – Prepare o banho, Polly, e escolha um vestido bonito para esta manhã. Quero tomar o aperitivo num lugar animado.

Encontrava-se no banho, quando ouviu a voz de Wallis:

– Termina logo, querida?

– Logo, Wallis. Alguma novidade?

– Uma muito importante, ao que parece. Que amigos tem, que lhe enviam cestas de flores gigantescas? Porque imagino que Marcos não se sentiria tão galanteador e madrugador.

No banho houve um movimento confuso. Subitamente, abriu-se a porta e Denise apareceu, colocando o négligé.

– Falou numa cesta de flores-? E onde está?

– Polly a trará agora mesmo. Mas, diga-me, Denise, quem é o rapaz que com tanto mau gosto lhe envia nada menos que uma cesta de rosas brancas?

– Isso significa pureza, minha querida Wallis a jovem riu, adivinhando por trás daquele obséquio, a figura excêntrica do jornalista.

– Oh! Deni, significará pureza, mas não me negará que as rosas brancas são horríveis.

Denise, que escovava o cabelo diante da linda penteadeira de laca, olhou Wallis através do espelho facetado.

– São horríveis? Meu Deus, Wallis, perdeu a razão?

– Não me agradam as rosas brancas, Deni.

– A mim, elas encantam.

E como Polly aparecia no quarto, naquele instante, carregando a cesta, certamente um pouco exagerada, Denise começou a rir abertamente.

– Esta cesta não traz cartão?

– Não vi.

Deni foi até a cesta e aspirou, com deleite, o aroma delicado.

– Aqui está – sorriu, brejeira. – Grandes traços, quase ilegíveis. Sim apenas um homem pode lembrar-se de mim esta manhã: Jack.

– Onde o conheceu, Deni?

Deni referiu ao encontro, sem omitir um só detalhe. Depois começou a rir e leu o cartão:

"À jovem mais linda do mundo. És como as rosas, garota. Por isto as envio. Branca e pura como elas. É pena que mude. O dia em que aparecer no meu jornal será porque deixei de admirá-la. E perdoe a intimidade. Como não lhe vejo o rosto, tanto se me dá que se aborreça. A seus pés, linda Denise."

– Tome, Wallis. Leia e diga-me o que lhe parece.

– Um pouco atrevido. Não me agrada essas amizades, Deni. Todos sabemos que Jack é muito popular e muito inteligente, mas é completamente louco.

– Às vezes os loucos são os mais certos. A mim agrada a amizade de Jack.

 

O carro verde, pequenino, parou diante da escadaria do palácio que Lewis Kane possuía em um dos bairros mais elegantes de Londres. Denise, muito chique, muito singela e sobretudo muito feminina, saiu de casa, pisou o primeiro degrau e desceu lentamente.

– Vá ao Atlantic, Deni – Wallis recomendou, saindo atrás dela. – Lá estará mais segura e eu mais satisfeita. Não seja boémia e procure não ver Jack. Pode agradar-lhe.sua amizade, mas não lhe beneficiará em grandes coisas.

– Não irei ao Atlantic, Wallis – Deni respondeu, uma vez que detestava as mentiras. – Não simpatizo nada com esse lugar desconhecido. Até logo.

O carro verde deslizou lentamente. A jovem ao volante parecia quase uma menina. Trazia o cabelo oculto por um gorro preto e trajava um modelo esportivo de lã escura muito fina. Sobre ele, um casaco de fazenda grossa. O auto rodou pelo parque e saiu, por fim. Um homem, recostado numa árvore da praça circular, estava distraído. Não obstante, ao ver o carro, deu uns passos à frente e agitou a mão.

– Jack – sussurrou ela, desconcertada.

– Bem. Dê-me uma carona ou prefere que me atire num barranco?

– Não quero levar tal suicídio sobre minha consciência. Pode entrar.

Jack acomodou-se a seu lado com a maior naturalidade do mundo e, tirando do bolso do casaco a cigarreira, puxou um cigarro e o levou aos lábios.

É consolador saber que depois de uma noite de trabalho encontro-me sentado ao lado de uma mulher bela – suspirou, exalando uma baforada. – Aonde vamos, Denise? Perdoe que a chame por seu nome. Na verdade, é quase de mau gosto entre jovens o tratamento tão cerimonioso... Incomoda-se, Denise?

– Não muito. Esta manhã, no cartão que acompanhava as flores, tratava-me por você.

– Isso era muito melhor. Provamos agora, Miss Winters?

Denise deixou por um instante de fixar sua atenção na direção do carro, para cravar os olhos no rosto sorridente -do carona.

– E não se sente uni pouco constrangido diante de uma autêntica aristocrata inglesa?

Jack soltou uma gargalhada. Era um riso franco e amplo que iluminava seu rosto. Depois, ficou sério.

– Não me agradaria que você se envaidecesse de seu título. É vergonhoso para uma jovem tão linda, tão ingénua e tão feminina.

– Dizem que sou muito, orgulhosa, meu amigo. Jack voltou a rir.

– Não. Você não é orgulhosa, Denise. Você é uma jovem encantadora. Não me explico por onde tenho andado que não a tenha visto até agora.

– Num internato.

– Ah! Por isso lhe enviei as rosas brancas. Você ainda é uma jovem pura.

O auto parou e ambos desceram. – Entremos aqui – disse ele, segurando-lhe o braço com naturalidade. – É um lugar animado.

Atravessaram o salão. Àquela hora da manhã não estava muito concorrido. Foram diretamente a uma mesa afastada, junto à janela, num canto do salão, e Jack retirou a cadeira para Denise sentar-se, fazendo o mesmo em frente a ela.

– Você acredita que deixarei de ser algum dia?

– Denise perguntou, continuando a conversa iniciada no interior do carro.

– Ao meu lado, não. Admiro a pureza. É o dom mais apreciado que a mulher deve conservar, ainda que hoje em dia muito poucas o conservem. É uma verdadeira pena. Tenho uma irmã, e se encontra também num internato – acrescentou sério. – Jamais consentirei que se deixe acompanhar por rapazes.

– Muito bonito! Você guarda a sua irmã e em troca me segue assiduamente, não é?

– Sou um homem honrado – afirmou sorrindo.

– A meu lado, você está segura e protegida. Tanto é assim que lutarei com todas as minhas forças para evitar que seja acompanhada por algum desafeto.

– Muito amável. Você será o meu protetor...

– Bem, não quis dizer tanto; mas serei seu guardacostas. Juro que enquanto puder evitá-lo jamais um homem a fará sofrer.

Denise sentiu-se envaidecida. Não pelo que dizia, uma vez que jamais se sabia quando Jack falava a sério ou brincava; mas, sim, pela simpatia que emanava dele e pelo brilho sedutor de seus olhos que pareciam não guardar vestígio algum de maldade.

– Farei minha estreia na sociedade dentro de poucos dias, Jack. Depois frequentarei muitas festas. Conhecerei muitos rapazes e serei obrigada a ser acompanhada por eles. Creio que, por muito que faça, não vai obter muita coisa. Claro que certamente saberei defender minha própria pureza.

– Sim, isso todas dizem e, de repente... Bah! Seria muito melhor, Denise, que pertencesse a uma classe social anónima. Como a minha, por exemplo.

– Como você se chama, Jack? Minhas amigas não souberam me dizer.

– Tenho um nome tão vulgar como eu mesmo. Por que não prefere ignorá-lo?

– Bem. Na verdade, não tenho muito interesse em sabê-lo.

O carro parou em frente a uma casa de aspecto imponente. No andar térreo, que acompreendia três enormes portas, funcionava uma loja de tecidos. Era espaçoso e elegante,

e em letras douradas, iluminadas agora por pequenas luzes que se acendiam e apagavam a pequenos intervalos, Denise leu uma palavra apenas: Calhem.

Você mora aqui, Jack?

– Isso mesmo. Meu pai encontra-se sempre atrás do balcão e meus dois irmãos menores também. Detesto isso.

Denise pensou que aquele nome lhe dizia algo, mas não se deteve a pensar onde e quando o tinha ouvido.

– Adeus, Jack. Espero que continuemos sendo bons amigos, ainda que minha apresentação à sociedade seja iminente.

– No dia dessa apresentação, Denise, estarei presente. Minha carteira de jornalista me dá entrada em todas as partes. E já sabe o que disse no primeiro dia em que nos conhecemos. Não me casarei jamais com uma mulher que tenha dançado nos braços de outro homem.

– Você tem um coração demasiadamente escondido, Jack – brincou, ela, suavemente. – Não se apaixonará por uma mulher com muita facilidade. Creio que nunca se casará. E, quanto a mim...

– Possivelmente custarei a enforcar-me, – assentiu ele inclinando a cabeça e olhando muito perto os olhos bonitos daquela moça. – Mas se o fizer algum dia, terá de ser com você, apesar do seu ttíulo e de tudo, Denise. Uma mulher quando ama é apenas uma mulher. E eu amo a mulher e desprezo seus títulos e seus milhões. Desses – brincou, com amargura – meu pai tem uma centena, mas não me intertessam. Aproveito, tendo somente um níquel no bolso, e aproveito mais ainda pensando onde poderei arranjar outro para o dia seguinte.

– Você é um homem raro, Jack.

– Sou um homem que detesta os negócios e que procura a forma de construir seu futuro por si só. Meu futuro está nas letras, num jornal, na publicidade. E chegará um dia que o periódico do qual sou apenas um redator me pertencerá todo. Meu pai brinca comigo. Mas sei muito bem que alcançarei meu propósito e então pedirei a uma mulher que compartilhe meu triunfo.

– E como tem que ser essa mulher, caro Jack?

– Como você, nem mais nem menos. Tem que ser como você, Denise, e como não existe duas mulheres iguais, será você mesma...

E, antes que Denise saísse de seu assombro, as mãos morenas e delgadas de Jack aprisionaram seu rosto.

– Como você, Denise – repetiu intensamente, com um tom muito doce.

Juntou seus lábios aos dela e a beijou apaixonadamente. E Denise jogou o busto para trás e levantou a mão.

– Não o perdoarei nunca. E dizia que a seu lado estava segura... – comentou nervosamente.

Ele a mirou, ainda. Seus olhos exprimiam uma ternura extraordinária, quase inconcebível num homem que só sabia falar brincando.

– Sou um estúpido, Denise. sussurrou, olhando-a tão de perto que seus hálitos se confundiram. Sou um estúpido, é certo. Todos o dizem. Dizem também que jamais penso com a cabeça.

Ela não pôde compreendê-lo com certeza. Viu-o avançar na escuridão da noite até a loja, com as mãos nos bolsos das calças e o chapéu atirado para trás. Colocou o carro em marcha. Levava os lábios apertados e os olhos brilhantes. Fora beijada por um homem, um homem como Jack, que parecia insensível ao amor. Por que a beijara?

 

A festa estava no auge à meia-noite. Jamais a casa de Lewis Kane apresentara aquele luxo faustoso e aquela elegância muito digna da mão experta de Wallis Watson.

Os salões ornamentados, os terraços iluminados regurgitavam de convidados, todos pertencentes à aristocracia de sangue, de dinheiro, das letras e das artes. O melhor de Londres se reunira no palácio de Lewis Kane, não precisamente para honrar este homem, e sim para prestar homenagem à jovem herdeira dos muito ilustres Winters, cujo único descendente era ela mesma.

As portas do suntuoso vestíbulo, profusamente iluminado, fecharam-se, por fim. Já tinham chegado todos os convidados e Wallis olhou seu marido, sorrindo, satisfeita.

– Agora poderemos descansar um pouco, amor disse a jovem, apertando docemente o braço masculino.

– Estou completamente esgotada e ainda não começamos.

– Denise e Marcos farão, agora, as honras do salão – Lewis disse, recostando-se na janela aberta. Venha a meu lado um instante, querida. Beijou tantos rostos e apertou

tantas mãos que está desmaiando de cansaço.

– Um pouquinho só, Lewis. Tenho de dizer-lhe algo que me preocupa profundamente. Não lhe disse antes por medo de me equivocar, mas agora é diferente.

– De que se trata?

– De Denise.

Os olhos de Lewis cintilaram de uma forma muito rara, mas não disse à sua esposa que já sabia o que ia contar.

– Sim. Denise deixa-se acompanhar assiduamente por um homem.

– É o mais natural.

– Não é. Para uma jovem aristocrata como ela, essas saídas diárias com um desconhecido não são de bom gosto nem a beneficiam em nada.

– E daí?

– Pretendo fazê-lo compreender o inconveniente de suas atitudes. É preciso que o diga, Lewis. Denise pode fazer um casamento excelente, e com esse rapaz...

– Quem é ele? – Lewis perguntou.

– O filho de um comerciante. Dedica-se ao -jornalismo.

– É um jogador?

– Não que eu saiba – respondeu Wallis, intrigada.

– Bebe?

– Não creio.

– É honesto?

– Lewis, não o compreendo! Nunca ouvi dizer que não o fosse, ainda que pareça um homem extravagante e, de certo modo, um pouco lento. Mas nunca me disseram que fosse um homem desonesto.

– É pobre?

– Seu pai tem milhões.

– São honrados?

– Lewis!

– Wallis – disse ele, olhahdo-a de frente. – Você também é uma jovem aristocrata, tinha tanto ou mais dinheiro do que eu. Podia fazer um casamento excelente, uma vez que era assediada por rapazes de sua classe. No entanto, casou com um homem que não tinha títulos de nobreza, nem era demasiadamente simpático. Era mais um ser vulgar. Só podia oferecer-lhe seu grande coração e dinheiro, dinheiro, dinheiro...

Lewis ela gemeu, apertando-se contra ele - não me fale assim, me causa mal. Você é diferente. Creio que só existe no mundo um homem como você.

Não seja sonhadora, Wallis. Homens como eu existem aos milhares. Quero dizer-lhe que jamais torcerei o destino de Denise. Que se case com quem quiser. Só me preocuparei em averiguar se é honrado como eu e se a ama de verdade. Não importa que Denise seja filha de Lorde Winters. Também você é a irmã de Lorde Watson e casou comigo. Denise é muito jovem ainda. Talvez mude, mas eu não a farei mudar... Sei bem quem é o homem que a acompanha. Também me preocupo por Denise. Tenho-a seguido, investigado quem Jack é, e não tenho objeção alguma a opor a essas relações.

– Óh, Lewis! Marcos gosta dela...

– Marcos é demasiadamente orgulhoso, Wallis. Denise é uma jovem sensível, viva. Marcos nunca chegaria a compreendê-la e, em troca, Jack Calhem já a compreende. Deixe as coisas como estão. Denise não está apaixonada, nem por Jack nem por Marcos. Quem sabe ainda, qual dos dois a levará? Esqueça tudo e finja que não se preocupa com o que Denise faz. Passemos agora ao salão e dancemos como os outros. Amo-a muito, Wallis. E não quero que sofra.

Denise sentia-se nervosa. Encontrava-se rodeada de jovens pedindo-lhe uma dança. E ela olhava com intensidade a janela que dava para o terraço, junto à qual, muito atraente em seu traje a rigor, estava Jack, em companhia de dois cavalheiros.

Ela não se considerava a mulher dos sonhos de Jack, mas ele a beijara e ela... recordava aquele beijo a todo instante, segundo a segundo, como se o estivesse saboreando sempre. Mas aqueles jovens tinham direito a dançar com ela. Marcos mesmo a mirava, desafiador.

– Dançamos, Denise? – perguntou Marcos, com ironia. – Não vai dizer-me que, no dia de sua apresentação à sociedade, nega-me o prazer de uma dança.

– Claro que não, Marcos.

– Pois vamos, querida.

Uma figura forte e desajeitada apareceu atrás do ombro de Marcos. Por onde entrara? E não é que não o tinha visto? E como, se estava de costas, falando com os dois cavalheiros no terraço?

– A primeira dança me pertence – disse Jack com naturalidade. – Denise me prometeu esta manhã.

Marcos o olhou de cima a baixo. Denise sentiu que o mundo se abria a seus pés e que ia tragá-la para sempre. Preferia que assim fosse a ser o alvo de todos os olhares. Que diria Ingrid? Que diriam todas as suas amigas? Além disso, Jack não gostava de dançar nas festas às quais assistia por obrigação profissional. Sentiu raiva, naquele instante. Experimentou uma humilhação profunda. Não devia colocá-la em evidência até aquele extremo. Era vergonhoso para ela. Wallis e Lewis a olhavam, descontentes. Seu olhar cintilou de modo extraordinário.

– Prometi-a a Lorde Watson há uma semana, Jack – disse ela.

Houve um assombro extraordinário no olhar masculino. Depois inclinou-se para ela e disse:

– Sinto-o, Lady Winters.

Continuou a festa como se nada tivesse acontecido. Jack focalizou o acendedor e este disparou. A foto era já uma evidência do mal que lhe fizera Denise. Entreteve-se, depois, a focalizar as outras jovens. Contemplou o baile, conversou e bebeu com a mesma indiferença.

Por seu lado, Denise bailou até cansar-se. Sentia um nó na garganta e um desejo horrível de chorar, mas era valente e orgulhosa como todos os Winters. Não exteriorizou seu desânimo nem a angústia que a aprisionava.

– Amanhã virei buscá-la para andarmos a cavalo – disse Marcos, galante.

Amanhã estarei cansada, Marcos.

Não diga, minha querida. Uma jovem como você não deve se cansar nunca. Virei buscá-la, sim? E verá como gostará do passeio.

Ela assentiu, sem palavras. Estava horrivelmente cansada, não da festa, mas de tudo... Como um autómato, despediu-se dos convidados. Já quase todos tinham saído, quando Ingrid apareceu no terraço, acompanhada de Daniel Milton e de seus pais.

– Fez muito bem, Denise – disse calmamente, com certa ironia que irritou a jovem. – Jack é um grosseiro. Creio que jamais pedirá uma dança a uma jovem distinta.

E Denise pensou: "Se Ingrid aprova o que fiz, é que procedi muito mal, como uma idiota."

Em voz alta limitou-se a despedi-la com amabilidade. Dan procurou um momento e disse-lhe ao ouvido:

– Pez muito mal, Denise. Jack não merecia aquela humilhação. Creio que nunca a perdoará.

– Oh, Dan!

– Sim, Denise. Não devia tê-lo desfeiteado. Por baixo daquela capa de humorista indiferente, oculta-se um coração mais sensível que o de qualquer de nós. Se fizesse a Marcos.. sua pessoa elegante não se alteraria. Mas Jack é diferente. Sou amigo dele desde aquela tarde, lembra?

Apertou a mão de Dan e nervosamente olhou em torno de si. Uma figura forte e desajeitada apareceu por trás dos últimos convidados.

– Foi uma festa encantadora, minha querida milady – disse Jack, sem alteração na voz. – Guardarei uma lembrança desta noite.

Denise olhou em todas as direções. Marcos falava com Wallis e Lewis. Dan entrou no carro em companhia de Ingrid. Estavam numa esquina do terraço e as sombras os

envolviam.

– Jack – sussurrou ela, com voz embargada. Amanhã preciso vê-lo... É necessário.

– E para que, minha milady admirável?

– Oh! Jack, tem que compreender...

– Boa-noite, milady.

– Jack!

O homem deu meia-volta e a olhou. Na penumbra, seus olhos brilharam de uma forma muito rara. Aqueles olhos verdes pareceram a Denise mais inquietantes que nunca.

– É melhor que não nos vejamos mais, Lady Winters – disse ele num murmúrio. – Seria muitíssimo perigoso para você. Em seu lugar, procuraria livrar-mê de Jack. Já não sou um menino e gosto muito de você. Gosto até o extremo... – agitou a cabeça e deu um passo atrás. – Não me procure, Denise. Repito que já não sou um menino e deixei de respeitá-la esta noite.

 

Não voltou a vê-lo. Foi inútil frequentar os lugares que eram familiares a ele. Jack propusera-se fugir dela e o fazia como um malfeitor. Os meses passaram. Habituou-se a ir com Marcos a todas as partes. Familiarizou-se, inclusive, com a ideia de ser algum dia sua mulher. Que importava um ou outro se no fim nenhum era Jack? Foi apresentada à Corte. Assistiu aos grandes acontecimentos da ópera, a festas em Palácio, a reuniões mundanas que lhe deixavam um sabor amargo na boca. Não tornou a sair sozinha no carro verde. Agora não era vista na rua. Jamais andava só. Era uma autêntica aristocrata inglesa, elegante, distinta, sociável.

"Casarei como tantas e tantas mulheres", pensava enfurecida. "Sem amor, por conveniência, porque meu nome requer um casamento ilustre, como minha mãe, que.se casou com papai porque era o homem que lhe convinha, ainda que fosse expulso por seu coração. E não conheceu o amor até que se casou com um homem que não a obrigava a frequentar os salões, nem as festas, nem as reuniões. Viveram um para o outro e eu anseio viver assim, também, como uma mulher de coração, não como uma aristocrata cheia de preconceitos e obrigações sociais."

Vou dar uma volta por aí, Wallis. A casa me oprime e não quero sair nem com Ingrid nem com Jane.

São sete horas, Deni. Procure não se afastar demasiadamente.

Entrou no carro e desceu a rua. Iria a uma rua qualquer. Não levava itinerário certo. Ia na aventura. As mãos enluvadas aprisionavam o volante e a imaginação voava. Transcorrera um ano desde que vira Jack pela última vez. Um ano interminável, cheio de recordações e desilusões.

Jack não aparecia em lugar algum. Era como se aquele homem estivesse morto. Não mais ironizava suas amigas. O periódico deixou de inserir Ecos da Sociedade. Teria Jack deixado de trabalhar na imprensa? Um dia foi à loja de tecidos. Voltou a pensar que a palavra Calhern lhe dizia muitas coisas, mas não acertou dizer de onde e por que as dizia. Entrou. Um senhor encontrava-se na caixa.

Seus traços lhe eram familiares e, no entanto, não se parecia com Jack. Por que lhe eram familiares aqueles traços? Observou, também, que dois jovens altos e esbeltos, corados como Jack e com os olhos claros estavam atrás do balcão. Aproximou-se rapidamente e pediu certa mercadoria. Ignorava agora o que fora... Pagou na caixa e retirou-se. Desde então, não voltou mais à loja de tecidos. Soube depois quê o pai de Jack, além daquela loja, tinha duas fábricas, talvez as mais importantes de Londres, e muitos outros negócios, ique davam lucros extraordinários.

Parou o carro diante de uma casa de chá e enttou. Havia muito tempo, um ano inteiro, quenão visitava uma casa de chá e sentiu-se inibida, de certo modo. Observou que no ângulo mais afastado do salão estava uma mesa livre. Avançou para ela sem olhar para parte alguma. Subitamente, ouviu-se na sala uma exclamação abafada e uma figura de mulher saiu ao encontro da belíssima jovem que avançava, indiferente, para a mesa livre.

– Denise, minha amiga! – exclamou Joan Calhern, apertando com ambas as mãos o braço de sua amiga, companheira de colégio.

Denise voltou-se como se a tivessem picado. Olhou Joan com os olhos muito abertos e, repentinamente, a apertou contra o peito como se temesse que lhe escapasse.

– Joan, querida... – sussurrou, entre lágrimas. Joan a conduziu pela mão até sua mesa. Dois jovens puseram-se de pé e duas mocinhas lhe sorriram.

– Denise – murmurou Joan, emocionada. Quanto esperei por este momento! Oh! Deni, – como foram grandes os dias depois que você saiu e me deixou tão só!

Joan era bonita, muito delicada. Corada, com os olhos claros. Denise a olhou mais uma vez e perguntou onde e quando vira uns olhos como os de Joan. Tinha, agora, Joan a seu lado e tudo o mais perdia o interesse. Apertou suas mãos por cima da mesa e as segurou nervosamente. Os rapazes que acompanhavam Joan foram dançar com suas amigas.

– São amigos de meus irmãos – explicou Joan, diante da interrogação muda da amiga. – Elas são minhas primas. Diga-me, Deni. Fale-me sobre você.

– Quando veio, Joan?

– Há uma semana.

– E por que não foi visitar-me?

– Porque... já sabe que sou tímida, Deni. Não me atrevi. Além disso, li nas revistas seus triunfos na sociedade. Vi a sua foto ao lado de um lorde e senti-me demasiadamente

desanimada para ir perturbar sua felicidade...

Denise sorriu de um modo ambíguo. Sua felicidade! Que sabia Joan?... Não lhe disse nada com respeito àquela felicidade relativa. Para quê?

– E que aconteceu a Teresa Aguisal, minha querida Joan?

– Veio, quando eu vim. É uma moça muito boba, Deni. Será apresentada à sociedade um dia qualquer.

Continuo detestando-a.

Como é apaixonada! Diga-me, Deni, virá algum dia à minha casa? Tenho três irmãos muito agradáveis.Não lhe digo isto para que simpatize com algum, mas são bons e nos ajudam a passar o tempo a gosto.

Irei qualquer dia, Joan.

Pôs-se de pé.

– Já vai?

– Tenho o carro aí fora e se quiser a levo a sua casa.

Joan levantou-se rapidamente.

– Denise, estou infinitamente feliz por tê-la encontrado. Tenho me lembrado muito de você. Oh! sim. Depois que saiu, fiquei muito infeliz, a ponto de pedir a papai.que me fosse buscar. Por que não tenho mãe, sabe? Morreu quando nasci e todos me adoram. Sou uma boneca para os quatro homens da casa.

Entraram no carro. Denise sentia-se satisfeita por ter encontrado Joan.

– Aonde a levo?

– À casa, claro. Já é tarde e papai aborrece-se quando tem de esperar-me.

Deu o endereço e o carro verde rodou lentamente rua abaixo.

– Quem é o rapaz que aparece a seu lado nas revistas sociais, Denise? Seu noivo?

– Não estou noiva.

– Ama-o?

– Não.

– Que confusão, Denise!

O sorriso desta fez-se vago e triste.

– O amor é o menos importante, Joan.

– Deni, você mudou muito!

– Você o prognosticou, lembra?

– Sim, Denise, mas nunca pensei que a mudança fosse tão brusca e tão fácil. Não parece feliz.

– Pois sou, a meu modo.

– Pare o carro ali, Deni. Denise deu um grito:

– Hem?!

– Que se passa, Deni? Ficou pálida.

A jovem aristocrata refez-se logo. Agora compreendia por que aquele senhor da caixa lhe era familiar e o motivo por que os olhos de Joan...

– Que aconteceu, Deni? Por que me olha desse modo?

– É que... é que não pensava que morasse numa rua tão elegante, Joan.

– Que engraçado! Vivo aqui desde que nasci. Nunca fez compras aqui? Calhem é meu pai, Deni.

– Sim, sim. Agora percebo. Não a conhecia como filha desse senhor. Mas conheço um... jornalista.

– Ah – Joan riu, feliz – fala de meu irmão Jack?

– Sim – Denise admitiu, nervosamente, desejando saber muitas coisas num instante só – creio que se assina desse modo.

– Chama-se assim. Mas agora não as importuna. Não tem notado?

– A mim nunca importunou – respondeu Deni, querendo aparentar indiferença. – Nunca reproduziu o meu rosto no jornal. Mas as minhas amigas o odeiam.

– Jack é uma pessoa extraordinária. Agora é ele quem dirige o jornal. Pela primeira vez recorreu a papai, pedindo-lhe dinheiro emprestado. Papai deu e, outro dia Jack, todo orgulhoso, o devolveu integralmente.

– Será o mesmo jornal onde trabalhava antes?

– É, sim. O diretor aposentou-se e Jack assumiu todas as responsabilidades. Achamos muita graça ver Jack, o mais louco e despreocupado da família, convertido num intelectual sério. Somos muito felizes, Denise, sobretudo quando a noite chega e nos reunimos na sala de estar. Papai proíbe aos rapazes que saiam à noite e todos, até Jack, que antes passava horas intermináveis fora de casa, está sempre presente aos serões familiares. Virá algum dia à minha casa, Denise? Asseguro-lhe que será bem recebida. Meus irmãos lhe farão as honras e você rirá de suas palhaçadas. Por que são engraçados, sabe? Sobretudo Jack, que brinca até com sua sombra. Denise permanecia muda e absorta. Quando deixou de ouvir a voz da amiga, olhou-a rapidamente e suspirou:

– Virei um dia qualquer, Joan, mas com a condição de que me apresente a seus quatro rapazes.

– Aceito! – exclamou Joan, radiante, saindo do carro. Apoiou-se ainda na porta e suplicou: – Venha logo, Denise. Nunca tive uma amiga tão carinhosa como você. Recorda como me defendia das ironias de nossas colegas? Jack disse que papai não acertara ao enviar-me a um internato aristocrático.

 

O senhor estava sentado à cabeceira da mesa. A seu lado, Joan e Jack, e os outros deis em frente. Ali não existia disputas nem desacordos. O que dizia papai Calhern era suficiente. Quando Joan falava, todos se calavam e a escutavam enlevados. QuandoJack discorria sobre um tema político, os dois gémeos espirravam. Joan pigarreava e o pai afrouxava automaticamente o colarinho da camisa. Mas se Jack falava sobre seu jornal ou qualquer diversão na qual tivesse participado, oito ouvidos prestavam atenção. Logo vinham as risadas, as ironias e as zangas do chefe da família Calhem. Um criado ia e vinha servindo a mesa.

O rosto de uma senhora assomava de vez em quando e depois de murmurar umas palavras desaparecia novamente. Todos a chamavam Ama. Ela criara os gémeos, uma vez que a Sra. Calhern ficara muito enfraquecida daquele parto duplo. Logo, quando Joan nasceu, a vida da senhora extinguira-se e Ama convertera-se em mãe de Joan. Foi babá, amiga e conselheira.

Agora, que Ama era muito idosa e arrastava penosamente os pés pelos imensos corredores da mansão, era considerada como um membro a mais da família, E Ama gostava de assomar a cabeça por uma fresta da porta, talvez para convencer-se de que tudo ia bem na mesa.

– Esta tarde encontrei a minha antiga amiga de colégio – disse Joan subitamente, levantando o rosto e olhando os quatro rostos que se elevavam para escutála melhor. – Senti uma alegria profunda. Creio que já lhes falei daquela moça que me protegeu no internato. É uma aristocrata e converteu-se na minha amiga mais íntima.

– Não a convidou, Joan? – perguntou o pai.

- E para quê? – Jack desdenhou, com seu sorriso de eterno humorista. – Os aristocratas não me agradam. Estão sempre pensando que fazem favor dando a sua amizade.

– É bonita? – perguntou um dos gémeos.

– Jovem? – quis saber o outro.

O cavalheiro impôs ordem. Olhou-os severamente e voltou-se para Joan.

– Não lhes faça caso, minha querida. Estou muito agradecido à sua amiga e terei muito gosto em recebê-la. Jack odeia as aristocratas, mas isto não impediu, há algum tempo atrás, que andasse com uma, daqui para lá, até que a jovem cansou-se de suas bobagens.

– Jack mordeu os lábios. – Não foi, filho?

-; Aquilo foi um jogo estúpido.

– Mas, é verdade, Jack? – maravilhou-se a jovem.

– Não sabia que estivesse enamorado.

– Enamorado? Não penso apaixonar-me jamais.

– Pois tenha cuidado com a minha amiga, porque é belíssima e de uma simpatia extraordinária, além de possuir a maior bondade do mundo.

– Sua amiga não me interessa, Joan – disse, iniciando os passos para ir a sala contígua. – Quer dançar um pouco? Apesar da raiva que tenho, faço gosto em que saiba dançar, porque todas as mulheres dançam...

– É natural – riu um dos gémeos.

– Natural, o quê?

– Que uma mulher dance.

– Sim, Pois por dançar, uma me perdeu. – Perdeu uma grande coisa – brincou o outro.

– Talvez perdeu mais do que ela imaginasse. Vamos, Joan? Eles virão logo tão depressa tomem o café.

Transpuseram o umbral e Jack ligou a radiovitrola. Enlaçou depois a cintura da irmã e dançou.

– Vá aprendendo bastante, Joan. Quando dançar com um rapaz que não seja seu irmão, tenha muito cuidado. Há os que dançam pelo simples prazer de fazê-lo. Outros o fazem para abraçar uma mulher e outros para exibir a moça.

– Qual é o mais perigoso? – sorriu Joan alegremente.

– O que dança para abraçar. Esse é temível. Não gostaria que simpatizasse com um homem qualquer, irmã. Os homens são maus.

– Não penso enamorar-me agora.

– É melhor assim. Mas o amor não vem quando o chamamos, e sim quando quer vir. E não pergunta se agrada ou não. Chega, apodera-se do coração de um e depois...

Joan o contemplou, com os olhos observadores.

– Jack, já se apaixonou? Tem os olhos tristes, fala menos do que quando fui para o internato, e não é tão inconsequente, como...

– Ora! – Jack riu, brincalhão. – Pelo visto, tem formado de mim um conceito exraordinariamente lisonjeiro...

– Não o tenho muito bom, Jack.

– É tão sincera como eu e isso me agrada.

– Por quem se apaixonou? – perguntou, já séria.

– Por uma aristocrata, por acaso?

– Aquilo não teve importância.

– Mas conte.

– Aconteceu de maneira simples. Gostava da moça. Pensei que lhe agradasse, mas me equivoquei.

– Como se chama essa moça, Jack?

O jornalista deu uma gargalhada. Abraçou Joan pelos ombros, beijou-a em ambas as faces e disse:

– Tenho de deixá-la agora. Tenho de ir à redação.

– Mas não vai dizer...

– Nada, Joan. Aquilo passou.

O carro verde deslizava sem pressa pelas ruas banhadas de sol. Era um sol pálido, de inverno, que anunciava, talvez, o espesso nevoeiro que cairia mais tarde. Marcos, tão elegante e esbelto como sempre, sentava-se ao lado da chauffeuse. Levava um cigarro na boca e, de vez em quando, olhava sua companheira.

– Pode-se saber aonde vamos, minha querida?

– Apanhar uma amiga – Deni respondeu, sem olhá-lo.

– E vai impor-me a companhia de outra mulher?

– Gostará – afirmou Denise, com convicção. Pensara muito naquela noite. Fizera um propósito

e Marcos, o bem. lançado e aristocrático Marcos Watson, cairia na armadilha, quisesse ou não.

– Gosto de todas as mulheres bonitas – admitiu ele de boa vontade. – Não, não é por isso que me interessam.

– Esta é diferente de todas as mulheres que já conheceu.

– Também diferente de você? Denise não se alterou.

– Também diferente de mim – respondeu muito segura de si mesma.

– De todos os modos, Denise, ainda que a sua amiga saia ganhando na troca, coisa de que duvido, você sabe muito bem que só me interesso por uma mulher, e essa mulher é você.

– Desejo o amor, Marcos. Você sabe muito bem. E diga-me, meu amigo, pode um homem como você, jovem, simpático, nobre e milionário, casar-se com uma mulher que não o ama como merece?

– Onde vai parar, Deni?

– Estou apaixonada por outro homem, Marcos disse Denise apertando os lábios. – Apaixonadamente enamorada, compreende?!

– Uma ilusão de menina!

– É um amor de rapaz, Marcos – retrucou ela, franzindo o cenho. – Você e eu poderíamos nos casar, realmente. Talvez fizéssemos um matrimónio feliz; porém desejo mais, muito mais – exaltou-se, por fim.

– E você não pode me proporcionar porque é diferente de mim.

– E que me importa que sejamos diferentes, minha querida?

– Oh! sim, tem muita importância. Você não poderá me dar o que ambiciono, Marcos. É um homem tranquilo e feliz. Nada o comove. Jamais sentirá uma grande paixão, porque ama ou julga amar muitas mulheres. E eu... necessito do homem que seja todo meu, todo! Compreende? Eu lhe darei toda a minha vida, é certo, mas também exigirei outro tanto, e você...

– E eu o quê, minha querida apaixonada?

– Você não saberia jamais compreender o que espero da vida e do amor.

Marcos suspirou comicamente.

– Há calor demasiado nesse coraçãozinho, Denise – opinou carinhosamente, com certa indulgência, que não satisfez à moça. – Deve frear seus ímpetos porque se me afigura que sonha com a vida de um modo inexistente. Os homens de hoje estão materializados. Talvez não tenhamos sensibilidade... O certo é que nos assusta um tanto o que parece desejar agora. Um pouco mais ou menos todas as mulheres dizem a mesma coisa, sobretudo quando são jovens e recém-saídas de um colégio... Quando passarem os anos, Denise, pensará de modo diferente e talvez ache graça do que me diz agora. A própria vida, por si mesma, irá demonstrando-lhe que está um tanto equivocada – fez uma pausa. O carro entrava já na rua onde Joan

morava. – Fiz o firme propósito de casar-me com você. Na realidade, é uma jovem da minha classe e me agrada muito.

Não a amo apaixonadamente, como sonha, mas...

são ilusoes de menina sonhadora.

– Um casamento de conveniência – murmurou Denise, abafadamente. – Não, Marcos. Um dia pensei que talvez me conviesse. Talvez continue convindo pelo simples fato de ser quem é. Mas já não penso assim. Não quero pensar. Quero o amor e o encontrarei.

– Em Jack Calhem? – perguntou Marcos, brincalhão.

Denise crispou-se no assento. Apertou o freio e o carro deteve-se bruscamente.

– Sim! – disse zangada. – Encontrarei no homem que mora nesta casa. A casualidade ou a providência quis que a minha melhor amiga fosse sua irmã – acrescentou pensativamente. – A ela me referia, quando falávamos do itinerário de hoje. vou chamar joan Calhem, e rogo-lhe que não faça alusão a Jack. joan não sabe que o conheço.

– Bem – Marcos riu, indiferente. – Seguirei seu jogo, Denise; mas lembre-se de que sempre a esperarei. Se fracassar no seu intento ou notar que Jack Calhern não lhe vai proporcionar o que ambiciona, venha a mim, e talvez o seu ímpeto apaixonado de mulher desperte o que almeja encontrar no homem de sua vida.

Denise, sem responder, tocou a buzina algumas vezes. O estabelecimento dos Calhern ainda estava aberto. Através das vidraças amplas das vitrinas, já iluminadas, Deni viu os dois gémeos... Eram irmãos de Joan e esta os adorava. Sentiu uma doçura nunca suspeitada até aquele instante, pois a figura daqueles dois jovens lhe falava do homem a quem não voltara a ver desde um ano atras... Tornou a tocar a buzina.

– Vá chamá-la, Deni. Parece-me que vai gastar a bateria sem resultado.

Denise desceu e, em dois saltos percorreu a distância que a separava da loja.

– Joan! – chamou.

Esta correu ao seu encontro:

– Oh! Deni, quanto me alegro.

– Venho buscá-la para dar uma volta. Lorde Watson me acompanha... Aquele rapaz da revista.

– Oh, Deni! Então não irei!

– Como é boba. É um homem agradável. Ande, vamos.

– Espere, primeiro quero apresentá-la a meus irmãos. Papai não veio hoje, mas a conhecerá outro dia. Max, Jim – chamou alegremente. – Venham aqui, um momento, por favor.

Os dois vieram logo. Dir-se-ia que a estavam esperando.

– Meus irmãos. Este é Max, o Corado para nós; e este é Jim... – olhou Deni e acrescentou: – E esta é Denise Winters; é a amiga de quem lhes falo com frequência.

– Encantados, Denise. Eu, ao menos, digo por mim – riu Max.

– E eu confirmo – disse Jim.

Apertaram-se as mãos. Max, a direita; Jim, a esquerda. Naquele momento abriu-se a porta envidraçada e uma terceira figura masculina apareceu no umbral. O homem assobiava alegremente e avançava com as mãos nos bolsos e o chapéu, como sempre, atirado para a nuca.

– Jack, venha cá um instante.

Jack já o fazia. Vira uma saia de mulher e o gémeo estreitando duas mãos muito delicadas. Quando Max e Jim entusiasmavam-se daquele modo era porque valia a pena.

– Que há, irmãos? – perguntou, brincando. Pensei que já tinham fechado A hora...

Deteve seus passos. Calou-se subitamente. Os olhos, aqueles olhos verdes que chispavam sempre com alegria ocultaram-se por baixo das pálpebras. Houve uma crispação leve na boca de traço firme. As mandíbulas enrijeceram... Tudo foi num instante. Denise tinha os olhos muito abertos. Seu brilho parecia brilho de lágrimas.

Um ano sem ver aquele homem. Um ano! E o via agora, rodeado de irmãos, quando ela esperava vê-lo só para dizer-lhe... Que poderia dizer-lhe, se os olhos do rapaz dançavam novamente com ironia?

– Vamos – resmungou – bonita mulher! Onde a encontrou? – perguntou, com mordaz ironia.

– Jack!

Joan o olhava como se não o rceonhecesse, indignada por seu modo abrupto. Jack apenas lhe deu uma olhadela. Evidentemente, naquele instante, dava a mínima importância à irmã querida. Max e Jim soltaram as mãos da jovem e pareciam dispostos a triturar o irmão. Mas o irmão não estava muito disposto a levar em conta aqueles olhos coléricos. Denise estava ali. Era, certamente, uma jovem bela. Mas era Denise Winters, e ele a odiava tanto como a amava.

– Não faça melodramas, Joan! – resmungou. Esta mocinha é muito linda, mas...

– Denise, perdoe-me que a apresente a meu irmão. Já lhe disse que...

– Não se preocupe, Joan – respondeu Deni com voz abafada. – Seu irmão e eu... nos conhecemos há muito tempo.

Três bocas abriram-se para fechar-se automaticamente. Jack apertou a sua sem abri-la previamente, pelo visto, a jovem aristocrata não desejava que ele guardasse nem sequer o segredo.de uns passeios na quietude da noite.

– Bem – disse, rindo. – É certo que nos conhecemos. Como está, Miss Winters? Há muito tempo que não nos vemos.

– Um ano.

– Ah, sim, um ano! – Fez uma pausa e consultou o relógio. – Bem, queridos, não posse mais ficar. vou ver papai na sua sala e logo sairei novamente. Adeus, Denise – deu a volta e deteve-se subitamente sem olhá-los. – Desde quando conhece sua amiga, Joan?

– a amiga de quem tanto tenho falado.

Jack estava de costas, a vários passos de distância. Os dois irmãos o olhavam com curiosidade. Joan, nervosa, apertava a mão da amiga e notou que aquela mão tremia. Por quê? Que ocorrera entre eles? Por que se olhavam, desafiadores, como se fossem inimigos? Quieto, com um pé estendido como se fosse começar a andar, comentou:

– É muito interessante. A aristocrata altiva cuidando da mocinha desamparada. Sim, muito consolador. Digno de Denise Winters.

A moça não pôde conter-se e avançou para ele. Os três irmãos olharam-se, mas não a retiveram. Joan quis avançar, mas Max a conteve.

– Deixe-o, Joan, se não estivesse muito dolorido não diria essas barbaridades. Denise apertou o braço de Jack e lhe disse tremulamente:

– Preciso vê-lo a sós, Jack.

– A sós? Já sabe que é perigoso, Denise. Por que não ficamos como estamos? É muito melhor.

– Quero vê-lo só, Jack – repetiu, decidida.

– Bem – admitiu, olhando-a de frente. – Se quiser ver-me a sós, vá esta noite, às onze em ponto, à redação. Estarei só na minha sala e terei a lareira acesa para que não se resfrie...

A bofetada deu em cheio na face de Jack, que se atarantou subitamente. Seus olhos cintilaram. Aprisionou a mão ainda no ar e a torceu.

– Maldita! – exclamou.

Max, Jim e Joan lançaram-se contra ele.

– Que vai fazer, Jack? Ficou louco?

Jack olhou.como alucinado. Depois, subitamente, mudou a expressão de seu rosto e soltou uma daquelas gargalhadas que sua família tanto detestava.

– Obrigado, Denise. Foi uma carícia muito digna de você. Eu me lembrarei dela sempre.

E sem voltara cabeça, saiu. Os olhos de Deni, embaciados pelas lágrimas, seguiram a silhueta desalinhada até que desapareceu.

– Denise!...

– Fui uma tola – murmurou esta, com um tom desesperado. – Uma verdadeira tola, Joan. Pensei que... que...

Max e Jim estreitaram as mãos de Denise. Joan a enlaçou e a conduziu à saída, onde seguramente Marcos Watson estava esperando-a.

– Joan, eu...

– Não me conte nada, Deni. Creio que compreendi. Mas me contará tudo outro dia...

Denise, apesar disso, jamais contou, e Joan nunca perguntou.

 

– Deni – Wallis queixou-se, entristecida. – Não pode continuar assim, compreende? Não sei o que se passa. Marcos deixou de vir aqui com a assiduidade de antes, recusa os convites que lhe fazem... Não vê que é uma mulher jovem, bela, e...

– Por favor, Wallis, não me atormente.

– Deni – sussurrou a esposa de Lewis, sentando-se ao lado da moça e a estreitando nos braços. – Tinha colocado em você todas as minhas ilusões. Desejava que se casasse com Marcos... Tinha essa ilusão e agora...

– Que importa seja eu ou outra, Wallis? Posso afirmar que Marcos se casará logo.

– O quê?

Deni suspirou. Estava cansada. Muito cansada sem sair de casa. Tão cansada como naquela noite da festa, quando se apresentara à sociedade.

– Sim, Wallis. Há vários dias, quase um mês, apresentei a Marcos uma amiga minha... Uma moça feita sob medida para seu irmão. Chama-se Joan Calhem...

– Eh! Refere-se à irmã de...?

– De Jack – concluiu Deni, com amargura.

– Oh! Deni – gemeu Wallis, um tanto assustada.

– Não acontecerá nunca. Não conhece Marcos. Jamais se casará com uma mulher que não seja de sua classe.

Deni sorriu, palidamente.

– O amor faz milagres. Marcos e Joan saem juntos todos os dias... Não vai pensar que Marcos passeia com Joan e a leva a todas as festas pelo simples fato de comprazer-me... Pela primeira vez seu irmão está profundamente interessado. Sabe de uma coisa? Vá preparando o presente, porque estou certa de que o casamento não demorará.

Ao entardecer daquele dia, Marcos apareceu no palacete de Lewis Kane. Era uma tarde feia, a névoa espessa e esbranquiçada entorpecia o tráfego e Marcos utilizou suas pernas para chegar ao objetivo.

Wallis, que estava desejando falar-lhe, abordou o assunto sem rodeios. E Marcos começou a rir.

– Bobagens, irmã, bobagens.

– Mas Deni me disse...

– Sim, sim. Já sei o que Deni disse. Tenho que ajustar as contas com ela.

– Por quê?

– Apresentou-me a essa moça sabendo o que aconteceria. Mas Deni ignora que este Marcos Watson não é um menino. Por outro lado Wallis, sabe muito bem o valor que dou a meu nome. Tenho de fazer um casamento ilustre. Não poderia suportar a ideia de casar-me com qualquer moça.

– Mas essa moça é amiga de Deni. Não pode brincar com ela.

– Bem, não disse que brincava com ela. É uma moça encantadora.

– E daí, Marcos?

– Oh! Wallis, deixe-me em paz, por favor – inclinou-se para a frente e suspirou: – Sabe, Wallis? Jamais gostei de uma mulher como de Joan Calhem. Não sei, não sei

em que dará tudo isso. Asseguro-lhe que estou muito zangado com Deni. Mas, onde está ela?

– No seu quarto.

– Diga à criada que vá chamá-la. Quero conversar com ela um pouco.

A empregada foi e voltou logo.

– A senhorita não está no seu quarto, senhora.

– Deni me preocupa muito, Marcos. Sabe o que lhe aconteceu? – perguntou-lhe Wallis.

– O assunto Jack Calhern volta à tona. Talvez Deni o negue, mas nós não somos tolos.

– Vêem-se?

– Como se vão ver, se ela não sai de casa e o idiota do Jack anda fazendo hora com outra mulher?

– Meu Deus, Marcos, é horrível.

– Eu me pergunto, Wallis, o que Deni viu em Jack para se prender desse modo.

– Que viu você em Joan para não deixá-la um momento só?

– Bolas! – Marcos riu, forçadamente. – Tem razão.

Despedia-se minutos depois, apressadamente. Tinha um encontro com Joan no clube e, francamente, a ideia de fazer a jovem esperar por ele era penosa.

Lembrou-se da jovem educada e sedutora, de maneiras finas. Pensou: "Faria uma excelente Lody Watson."

Apressou o passo e logo divisou o edifício. Atravessou o portão e a teve imediatamente perto de si.

Enlaçou-a pela cintura, apertou-a contra seu corpo e, dissimuladamente, beijou-a na orelha.

– Que faz?

– Creio que já o demonstrei.

– Não volte a fazê-lo.

– Mas se não posso voltar atrás...

A cintura flexível de Joan ficou presa, vigorosamente.

– Solte-me – sussurrou ela. – E depois, que será de você, meu lorde amado?

Marcos, o temível Marcos, que pensava amar todas as mulheres, ficou desorientado, preso ao feitiço daqueles olhos azuis, grandes e muito amados. E assustado, pensou nas palavras que um dia dissera a Deni:

"O amor é uma ilusão de menina sonhadora. Nós homens não amamos com a intensidade que deseja."

Epa! Que era aquilo que sentia por Joan? Acaso não era amor? Amor como o que Denise desejava?

Colou a boca ao ouvido de Joan e sussurrou:

– Sabe, brotinho? Estou louco por você e sei que desta não escapo.

Os olhos de Joan elevaram-se vagarosamente. Toda a luz que se irradiava deles bateu em cheio na face do aristocrata.

– Acho que não poderemos escapar do amor murmurou, apertando-se contra ele. – Queira ou não, vai ter de fazer-me lady.

– Bolas, Joan. Jamais pensei que me sucedesse tal coisa.

– É que não me tinha visto.

– Isso significa...

– Que sou a mulher da sua vida. Esperava-me e eu estava lá, certa de sua chegada.

Quando a beijou na boca, ali, os dois sozinhos, Joan pendurou-se ao seu pescoço e disse num suspiro emocionado:

– Ainda que não queira, sabe? Ainda que não queira terá de tornar-me uma lady, porque nenhuma outra mulher lhe dará o que eu dou.

Naquela noite, Marcos ficou maravilhado consigo mesmo. Como era possível que ele, o homem que detestava Lewis Kane porque não tinha um título, prendera-se, daquele modo, à filha comum de um pai também comum?

– Terei de desfazer-me dela – decidiu, em voz alta, dando voltas pelo quarto.

– Quê? – riu uma voz misteriosa. – Desfazer-se de Joan? Que imbecil é, meu querido lorde! Não pode prescindir dessa mulher ainda que queira.

– Mas se não é da minha classe – Marcos gemeu, como se falasse a uma pessoa invisível.

– Que classe nem nariz! – respondeu a voz que, certamente não era muito fina nem usava uma linguagem elevada. – É uma mulher apaixonada, bela, delicada, altiva... O que precisa mesmo. Que bobagens pensa, tolo? Pensa, por acaso, que o coração é uma esponja que você molha, usa e joga fora? Joan será Lady Watson e sentirá orgulho dela.

– Bem – Marcos admitiu, ingenuamente – deverei ir pensando no casamento. Pelo visto, não tenho escapatória desta vez. Deni realizou o seu intento.

E mais satisfeito, tranquilo, deitou-se na cama, e minutos depois roncava como um justo. Na verdade, o muito amado Lorde Watson era um infeliz que brincara com o amor e agora amava pela primeira vez.

 

O nevoeiro era mais espesso do que nos dias anteriores. Deni caminhava sem pressa e sua silhueta aparecia vagamente entre a névoa. Olhou o relógio. Eram oito horas de uma noite escura e feia. Caminhava sem rumo, viu a iluminação de um salão de chá e avançou rapidamente para ele. Minutos depois, sua figura, escondida dentro de uma capa de chuva e tendo a cabeça coberta por um lenço, aparecia na porta. Pela primeira vez, na sua vida de mulher, sentiu que suas esperanças caíam no chão.

Lá, sentado numa mesa, estava Jack com outra mulher. E aquela mulher era... Teresa Aguisal, a mulher mais odiada do mundo.

Talvez o poder magnético de seus olhos atraísse Jack, pois este levantou os seus e olhou para a porta. Denise sentiu um estalo dentro de si. Os olhos de Jack baixaram-se novamente, indiferentes. Retrocedeu sobre seus passos. Caminhou, de novo, pela rua solitária. Sentiu frio no corpo e frio no coração. Não restava nenhuma esperança.

Se a mulher que acompanhava Jack era Teresa Aguisal, como ela tinha comprovado, não via por que guardar esperanças. Se Teresa soubesse que ela amava Jack... não soltaria sua presa por nada no mundo.

Chegou à casa às dez. Lewis sorriu-lhe. Wallis a contemplou com tristeza.

– Sua capa está encharcada, Denise – comentou Wallis com um leve sinal de reprovação. – Por onde andou que se molhou tanto?

– Por aí – respondeu, vagamente.

As duas mulheres, ladeando o cavalheiro, passaram à sala de jantar.

A refeição transcorreu em silêncio. Lewis estava preocupado pelo que dissera Wallis, e esta olhava a moça profundamente, como SÊ pretendesse entrar no seu coração.

– Vamos à ópera, Denise – convidou Wallis. Quer vir? Daria uma grande alegria a seu irmão e a mim.

– Prefiro recolher-me e descansar. Andei muito esta tarde e tenho os pés doloridos.

– É inútil insistir?

– É, é, sim.

Viu-os sair. Beijou-os carinhosamente. Não ignorava o que sofriam por ela, mas não podia remediá-lo. Depois de encerrar-se na alcova, afundou-se numa poltrona e ocultou o rosto entre as mãos. O telefone, que descansava na mesinha de cabeceira, soou. Alcançou-o com indiferença.

– Alo.

– Deni – sussurrou a voz de Joan, do outro lado.

– Onde se esconde que não mais a vi desde aquela tarde?

– Saio pouco.

– Denise, venha ver-me amanhã. É preciso, sabe? Tenho de falar-lhe.

– Por que não me diz agora?

– São coisas que não podem ser ditas pelo telefone.

– Trata-se de Marcos? Já o conquistou?

– Oh! Denise! Por que o fez?

– Porque conheço ambos. Era preciso, Joan. Eu não poderia amá-lo nunca, sabe? Pensei que você o amaria logo que o conhecesse melhor... E o amou, não? Tampouco vi Marcos, mas não é preciso para saber como terminará o romance de vocês

– Deni...

– Diga, Joan.... .

– Têm visto? – houve uma indecisão do outro lado.

Deni ficou constrangida:

– Quem? – Jack...

– Jack...

– Vi-o esta tarde. Sabe com quem estava? com Teresa Aguisal. Pelo visto, seu irmão escolhe bem as companhias.

– com Teresa Aguisal? Tem certeza?

– Claro que sim. Vi com meus próprios olhos.

– Mas onde Jack a conheceu?

– Ignoro, minha amiga. Não me interessa muito, por outro lado.

Houve outro silêncio. Depois, Joan perguntou:

– Então, virá amanhã fazer-nos uma visita? É preciso que venha, Deni. Papai quer falar com você sobre minhas relações com Lorde Watson.

– Irei às sete em ponto da noite, Joan. Se é para fazer-lhe um favor... já sabe que jamais lhe faltarei.

Disse adeus e desligou. Olhou o relógio. Eram onze da noite. Pôs-se de pé. Tirou o abrigo e olhou a rua. As luzes apenas faiscavam, envoltas pelo nevoeiro. Estremeceu. Pensava em algo naquele instante. Algo terrível. E se fosse...? Por que não, depois de tudo aquilo? Quem iria sabê-lo, exceto ele? E tinha de dizer-lhe tantas coisas... Por que não ir? Respirou fundo. Tinha um nó na garganta e uma opressão enorme no peito. Que vontade de chorar! Tudo se arranjaria se ela fosse vê-lo, se lhe dissesse... Aspirou com maior intensidade. Todo o ar do quarto era pouco para ela.

– Tenho de ir – decidiu, com a voz quase imperceptível, mas vibrante de uma intensidade extraordinária. – Devo ir e devo aproveitar este momento. Agora que Lewis e Wallis estão na ópera.

Olhou o relógio. Eram onze e meia. Tinha o carro debaixo da coberta do parque. Sam não o guardara na garagem porque iria levá-lo na manhã seguinte. Aproveitaria aquela circunstância e iria. O que importava se ela defendia o seu amor?

 

As máquinas estavam em plena atividade. Eram doze horas certas e Jack tomou, de um trago, o terceiro copo de conhaque. Fazia muito frio naquela noite. A lareira pouco calor proporcionava à sala. Jack tinha o cenho franzido e os lábios apertavam com força, como se pretendesse destruir o cigarro que pendia de um canto da boca. Fumava de vez em quando e, sem tirar o cigarro, expelia o fumo pelo nariz.

Sua postura não era muito correta. Ainda usava o chapéu jogado para a nuca, sentava-se numa poltrona giratória e os pés descansavam em cima da mesa.

Abriu-se a porta, subitamente, e apareceu um contínuo anunciando:

– Uma dama deseja falar-lhe agora mesmo.

– Não amole!

– Falo sério – acrescentou o outro.

Jack, sem mudar sua postura indolente, emitiu um risinho irónico.

– Não marquei encontro com nenhuma dama nesta redação nem em hora tão imprópria.

– Pois ela vale a pena.

– Adiante pois; é preciso que a faça entrar! Segundos depois, uma figura de mulher distinta

perfilava-se na porta. Jack não pôde evitar um estremecimento e foi preciso que fechasse os olhos e pensasse seguidamente que estava sonhando. Mas ao abrilos novamente, ela ali continuava, viva, palpitante, feminina como nenhuma outra mulher. E era Denise Winters, uma Denise com olheiras, divina no seu traje: uma capa simples, de gabardine, presa à cintura, um lenço na cabeça, os olhos cercados por uma pincelada de melancolia.

– Denise – balbuciou sem poder conter a emoção. – Juro que não a esperava.

– Marcou um encontro aqui – respondeu ela com naturalidade, avançando e fechando a porta.

– Não a esperava, Denise – ele repetiu, obstinado. – Tem de ir embora agora mesmo.

– Não irei sem você me ouvir.

– É perigoso o que faz, Denise. Que diriam seus amigos se a vissem agora? Por outro lado, uma dama ilustre como Miss Winters não deve, de forma alguma, visitar um homem solteiro, e mais a esta hora da noite...

– Jack, guarda um rancor de mim que não mereço – disse com as faces afogueadas. – Sabe que aquele era meu primeiro baile e desejava distrair-me.

– Naturalmente, eu não sirvo para nada.

– Oh! Não compreendeu! Se lhe dedicasse aquela noite toda...

Ele a cortou com um gesto.

– Se aquela noite me fosse toda dedicada – concluiu com raiva – teria entregado toda a sua vida e todas as noites, não é? E você, a muito ilustre Miss Winters, não podia, de forma alguma, consagrar sua vida a um homem vulgar.

– Oh! Jack! Como me compreende mal!

– Tenho a virtude, Denise Winters, de compreender perfeitamente bem todos os meus semelhantes. Talvez seja um defeito, embora os outros o creiam uma virtude. Compreendi logo a sua vontade de dançar com aquele maldito Lorde Watson e a deixei sossegada. Jamais voltei a aproximar-me de você, não foi assim? Que me importa o que faça? Quando a vi no meio daquele grupo de idiotas, pensei que era diferente. Uma força mais forte que eu mesmo me empurrou para você e a amei. Para que vou negá-lo? Ocultei aquele amor debaixo de minha capa de humorista... Não sei se viu esse amor, mas o certo é que o senti devastador e impetuoso... Depois?

– Oh! Jack, juro...

Jack levantou a mão novamente e a agitou no ar.

– Vá, Denise. Não tenho nenhuma vontade de vê-la na minha sala. Agora já estou curado e pode casar-se com Lorde Watson, quando pensar ser conveniente. Eu... também me casarei talvez.

Denise quis falar, mas as palavras resistiram e não saíram. Olhou Jack profundamente e apertou os lábios.

– Não sei a que vem nem me interessa – disse Jack, com indiferença. – Tenho agora muito trabalho e não posso atendê-la. Ademais, repito que não é uma hora muito adequada para visitar um homem.

– Você não é como os outros homens – respondeu Denise, enfurecida, -– Tem sangue de barata. Debaixo dessa capa estúpida não oculta senão vulgaridades.

– Denise!

– É certo! – gritou ela, sem conter a amargura que, naquele instante, transbordava com furor. – Por que assegurava vaidosamente que me compreende, se não é certo, se jamais me compreenderá?

Jack afastou-se da mesa e, aproximando-se dela, a olhou muito de perto:

– Pelo visto, Denise, resolveu acabar com a minha paciência.

– Vim somente dizer-lhe que o amo, ouviu? Amo-o. Desde quando? Acaso o sei? É uma maldição – acrescentou, em voz baixa – mas lhe quero ainda assim...

Jack, por um momento, ficou desconcertado. Depois deu uma gargalhada e colocou as mãos sobre os ombros dela.

– Muito dramático – ironizou, sem perder a condescendência habitual. – Muito dramático, mas não sou um ator de cinema nem estou representando uma comédia. Disse-lhe, um dia, que era perigoso solicitar um encontro com um homem como eu. Repito que não tenho sangue de barata nas veias e você é uma mulher linda, que me agrada. Assim, pois, se não quiser se queimar, saia agora mesmo. Não acredito no seu amor nem acreditarei jamais. Por outro lado, não preciso dele para nada. Jurei não casar-me com mulheres que dançam com outros homens e torno a afirmá-lo.

– Crê, por acaso, que Teresa Aguisal;só dançou com você? – perguntou em desafio.

Jack a contemplou, em suspenso. Depois, seu sorriso se acentuou.

– Bem, não penso me casar jamais com Teresa Aguisal – replicou jocoso. – Não posso me casar senão com uma mulher como você, mas…

Não penso fazê-lo, nem com você nem com outra.

Pôs a mão no braço de Denise e a empurrou para a porta. Ela fez um movimento brusco e, ao dar a volta, tropeçou no peito masculino. Foi o suficiente. Jack, for a de si, sem poder conter a paixão por mais tempo, a estreitou entre os braços, a dobrou como se fosse uma pluma e colou sua boca ávida nos lábios entreabertos de Denise.

– Veio buscar isto – disse ofegantemente, beijando uma e mil vezes aquele rosto, agora rígido pelo espanto. – Pois vai levá-lo. Juro que não esquecerá nunca, Denise Winters. Juro...

Juntou seus lábios à boca de Denise, que se fechou desesperadamente. Estreitou-a entre seus braços, e a suafocou como se fosse uma boneca e a maltratou com seus beijos enlouquecidos, que pareciam bofetadas em vez de beijos.

 

O nevoeiro, mais denso, escurecia as luzes que iluminavam a rua já solitária. Fazia muito frio. Uma sombra caminhava lentamente, – cambaleando. De vez em quando, a sombra cambaleante de Denise parava, alisava os olhos e caminhava outra vez. Soluçava. De súbito, deteve-se debaixo de um poste, e prorrompeu em soluços.

– Denise! – chamou uma voz rouca, por trás dela. O corpo de Denise estremeceu violentamente. Deu a volta. Ao vê-lo, levantou as mãos e as jogou contra o peito de Jack.

– É um canalha – disse entre os dentes.

– Não me pude conter – balbuciou Jack pela primeira vez, sinceramente impressionado. – Além disto, nada aconteceu de irremediável, Denise. Juro...

– Não jure nada. Deixe-me sozinha. Nunca mais se aproxime de mim. Esta noite-soube quem é..Jamais voltarei a recordar-me de você.

– Como se fosse possível! Lá, na minha sala, eu enlouqueci, é certo! Mas você enlouqueceu também.

Ela o olhou através do nevoeiro e, subitamente, lançou-se rua adiante, sem voltar a cabeça.

– Denise, Denise! – gritou Jack, correndo atrás dela.

Denise deteve-se, arquejante.

– Desta vez será para sempre, Jack – prometeu olhando-o através das lágrimas. – Para sempre. Vá com Teresa Aguisal, case-se com ela... Desprezo-o tanto...

Foi-se. Ele não a reteve dessa vez. Apoiado numa porta, assim permaneceu muito tempo. Quando se refez, tirou um fósforo, acendeu-o e segurou um cigarro entre os dedos trémulos.

"Perdi-a", pensou. "Nós, os dois, nos perdemos."

A sombra feminina havia-se perdido atrás de uma esquina de rua. Embora o nevoeiro se tivesse desfeito um pouco, o chão continuava úmido e Jack, como hipnotizado, seguiu as marcas dos passos de Denise. Viu-a, à distância, cruzar a rua, solitária àquela hora, e ultrapassar o grande portão de ferro, até sumir no parque. Depois, muito lentamente, regressou à redação.

Denise olhou o relógio através das lágrimas que embaciavam seus olhos e comprovou que eram duas da madrugada. O irmão e a cunhada já tinham regressado. As portas não estariam abertas. Subitamente pensou no carro, deixado diante do jornal. Estremeceu. Cobriu o rosto com as mãos e, encurralada numa esquina do terraço, permaneceu quieta. Não quis pensar. Para quê? Tudo fora espantoso. Jack se portara com ela, como se fosse um rufião de péssima índole. E ela... ela suportara seus beijos de louco, suas carícias, transtornada.

Nunca sofrera tanto em tão curto espaço de tempo, nem com tanta intensidade. Passaram os minutos lentamente, agonizando-a. Lewis e Wallis seguramente pensavam que ela estivesse no seu quarto, descansando placidamente e ela, entretanto... Subitamente, sentiu zumbir ao longe o motor de um carro. Depois, a buzina, e mais tarde aquele carro detinha-se diante do palácio. Denise pôs-se de pé e conteve as batidas loucas de seu coração com ambas as mãos.

Observou que o pequeno veículo entrava no parque. Observou também como Jack o conduzia até a coberta e apeava-se. Olhou em todas as direções, como se procurasse algo. Logo encolheu os ombros e dirigiu-se à porta. Calada e rígida, permaneceu no mesmo lugar, e quando a sombra de Jack desapareceu atrás do portão de ferro, foi até o carro, fechando-se nele e experimentando uma lassidão estranha. Fechou os olhos, sentiu que o sono se apoderava dela. Depois... Quantas horas de passaram? Sentiu uma mão no seu ombro e a voz de Sam, o criado que cuidava da garagem.

– Mas, milady...

A jovem abriu os olhos. Um Sol pálido fez com que os cerrasse novamente. Tinha a mente vazia e os olhos avermelhados. Sentiu frio e ajeitou-se no assento, como

dispondo-se a recomeçar o sono. Mas a mão rude de Sam a segurou afetuosamente.

– Milady está muito fria. Dormiu no carro, a pequena milady?

Ela ergueu a cabeça. De repente, recordou o que acontecera na noite anterior. Houve um lampejo de rebeldia em seus olhos.

– Levantei-me para ir à missa e..

Sam não acreditou, mas era um servo fiel e amava a patroa.

– E adormeceu, a pequena milady.. – Foi, Sam... Eu... adormeci...

Saltou do carro. Todo o corpo doía. Sentia muito frio e estava amargurada.

– A senhora procurava milady há um instante disse Sam, limitando-se a limpar o carro.

– Irei logo. Bom-dia, Sam.

Enérgica, disposta a tudo antes de confessar a veracidade dos acontecimentos, a figura gentil deslizou pela grama do parque e entrou na pequena sala onde falaria a Wallis. Espantou-se de não encontrar Wallis sozinha. Ali, na sala, estavam Marcos, um Marcos excitado e nervoso. Lewis, muito pálido, e uma Wallis meio enlouquecida. – Bom-dia. O que está acontecendo?

Os três, como se fossem um só, lançaram-se para ela.

– Denise!

O grito deixou a moça paralisada,

– Mas o que está acontecendo?

– Deni – gemeu Wallis, apertando-a nos braços

– a procuramos por toda a casa. São onze e meia da manhã e sempre se levanta ao amanhecer. Fui a seu quarto e depois percorri uma a uma todas as dependências.

– E por isto chamou Marcos e Lewis? – a jovem riu, forçadamente. – Pois aqui estou, Wallis.

– Mas a sua cama está intacta, Deni – murmurou Lewis, com voz embargada.

Denise estremeceu. Era preciso sair daquele transe. Mentir novamente. Tudo, menos humilhar Lewis, como fora humilhada.

– Naturalmente, querido. Algum dia deverei casar-me e não sei em que circunstâncias farei. Esta manhã ocorreu-me fazer a cama antes de ir à missa. Depois encontrei-me com uma amiga e fiquei com ela, conversando um pouco.

Os olhos de Lewis a contemplaram, querendo penetrar no seu pensamento. Não acreditava. Olhou Marcos e observou nele uma expressão diferente, como se estivesse muito longe dali.

– Bem, uma vez que está aqui, Denise, e não se perdeu – expôs Lewis, expelindo o fumo de seu cigarro – o melhor será dizermos o que aconteceu.

– Aconteceu?

– Às dez da manhã recebemos uma visita, Deni – explicou Wallis, emocionada. – Se não fosse por isto, talvez não a tivéssemos procurado no quarto, depois na casa toda e até no parque.

– Naturalmente – comentou Lewis, de um modo vago. – Os Calhem escolheram uma hora inadequada para pedir a mão de uma jovem aristocrata como você.

Denise ergueu o busto. Houve um lampejo raro em seus olhos claros. Por um instante, pensou que não poderia resistir à notícia, mas a sua vontade poderosa ajudou-a a manter-se firme.

– Já sabia, Denise? Procuramo-la para dar uma resposta ao Sr. Calhem.

– Darei eu mesma.

– Você?

– E por que não? Depois de tudo, nada há de mais que lhe faça uma visita. Joan e eu sempre fomos boas amigas.

– Sim, de acordo – assentiu Lewis, sem deixar sua postura um tanto indolente. – Mas a verdade é que o convidamos aqui às doze em ponto de hoje. Seu filho virá junto e... ele é o noivo, conforme creio. Denise, sempre acreditei que antes de tomar uma decisão dessa espécie, me consultaria. Ocupo o lugar de seu pai e me dói saber que se comprometeu, sem nada dizer-me. É quase uma ofensa, querida Denise.

– Oh! Lewis! – sussurrou, coma escapando de seus próprios pensamentos. – Todos me julgam mal e eu... eu...

– Não se esforce, Denise – falou Wallis docemente, ficando a seu lado. – Na verdade, todos sabemos que são um casal de namorados. Joan e Marcos pensam casar-se no mesmo dia que vocês. Será um grande acontecimento para nossas famílias, Denise. Estou satisfeita que Marcos tenha encontrado sua meia-laranja. E sei também que será feliz como você o será com Jack...

Sentiu os lábios de Lewis na sua fronte e estremeceu. Depois correu para Wallis e abraçou-se a ela. Pela primeira vez sentiu que não poderia de forma alguma conter o pranto. Wallis, como que adivinhando o que acontecia naquele instante no coração da moça, disse baixinho, acariciando a cabeça que se ocultava no seu peito:

– Chore, Deni. Está muito nervosa, querida. Necessita chorar um pouquinho. É bom chorar.

Estavam ambos na varanda, Denise e Jack, frente a frente. Através da janela entreaberta

chegaram as vozes do Sr. Calhem e de Lewis, bem como as de Wallis e Marcos.

Eles lá estavam, mudos e rígidos.

– Denise.

A voz de Jack soava longe, apagada. Não o olhou.

– Que deseja?

– Por muito que faça e diga, não me vai acreditar. Por muito que lute, nunca me perdoará.

Sei que aceita este casamento, talvez, para vingar o dano que lhe causei...

Nunca poderá compreender nada do que sinto.

– Sim. Sempre fui uma idiota.

– Denise, se me deixasse pedir desculpas...

– Há coisas que não se desculpam e esta é uma delas. Vamos casar-nos, Jack. Não é certo? – olhou-o. Toda a luz de seus olhos deu em cheio na face um tanto pálida de Jack, que pestanejou. – Pois bem, creio que tudo já está solucionado. Disse que não acontecera nada irreparável. Bem, pensava repará-lo, talvez deste modo, proporcionando-me um nome que hoje detesto com todo meu orgulho de mulher humilhada. Nada importa. De todos os modos vamos casar-nos, não é certo?

– Denise, tem de ouvir-me antes...

– Nada tenho que ouvir, Jack. Disse tudo ontem à noite. Nunca pensei que ao visitar um homem, à meia-noite, em seu gabinete, me acarretasse tão dolorosa experiência. Pensei que ia visitar um cavalheiro e acontece que...

– Cale-se, por favor!

– De qualquer modo – acrescentou, implacável vai casar-se com uma mulher que dançou vinte mil vezes entre os braços de outro. Como é possível, Jack?

As mãos masculinas caíram como garras nos ombros de Denise.

– Não sei o que pensa nem o que fará, quando for minha mulher, mas quero que saiba que estou contente, e que não me importa que tenha dançado com vinte mil homens, porque de agora em diante só dançará comigo. É a pura verdade, Denise. Será a minha mulher e o resto não importa.

– Pois agora vá buscar o seu pai e vá embora. Procure vir pouco por aqui. Alegue que tem muito trabalho ou o que mais lhe agradar, porque não poderei suportá-lo muitas horas seguidas. Por outro lado, os preparativos do casamento ocuparão toda a minha atenção.

– E pensa que poderei permanecer longe de você muitas horas?

– Por que não? Ontem não pensava em casar comigo. Aferre-se à ideia de que agora também não pensa fazê-lo.

– É absurdo.

Denise o olhou. Como era bonita e como estava sedutora, naquele instante!

– O mais absurdo do mundo é este casamento e, no entanto, vamos celebrá-lo – replicou ela.

– Ontem disse que me amava.

– Realmente. Ontem o amava com loucura. Hoje o desprezo, como uma mulher sensata que sou.

Deu um passo para a porta da varanda que se comunicava com o salão, retirando os olhos do rosto rígido de Jack.

– Escute, Denise, não crê que se agisse de outro modo, a coisa se solucionaria melhor?

– Creio que não, Jack.

E, desta vez, sem voltar a cabeça, entrou no salão.

 

No dia seguinte seria celebrado o casamento duplo no palácio de Lewis Kane. O acontecimento era, certamente, de grande ressonância. Marcos, pertencendo à nobreza, era muito conhecido. Jack Calhem, como jornalista e filho de um industrial importante, não passava despercebido, e a jovem e linda Srta. Winters gozava de grande simpatia em todos os círculos. Assim, nos círculos da alta sociedade falava-se muito nas duas cerimónias que teriam lugar no dia seguinte.

Muitos convites foram enviados. A recepção prometia ser de um brilhantismo extraordinário. Marcos e Joan sentiam-se emocionados como duas crianças. Denise Winters aparecia envolta num halo de absoluta indiferença. E Jack, pálido e nervoso, mais do que o homem desajeitado, era uma sombra de si mesmo. Naquele dia, ao anoitecer, a criada de Denise bateu na porta do quarto da jovem patroa.

– A Senhorita Joan telefonou e lhe pede para ir a este endereço agora mesmo.

– É uma contrariedade, Polly. Pode dizer-lhe que não estou.

– Ignoro de onde telefonou, milady.

Pôs-se de pé com raiva, tomando o papel com o endereço.

Vestiu-se apressadamente. Pôs um modelo de tarde, escuro, que se harmonizava perfeitamente com sua melancolia, e sobre este um casaco de peles. Colocou um chapéu e apanhou a bolsa.

O carro estava à disposição. Entrou nele e partiu. Não pensava no ocorrido, nem sequer no que Joan poderia desejar dela àquela hora. Na realidade, naquela noite teria lugar a festa de despedida de solteira na casa de Lewis. Pensou em Jack. Sempre pensava em Jack, ainda que não quisesse. O carro entrou numa rua central. Denise olhou o papel e comprovou que estava diante do número indicado. Era uma construção alta, senhorial, de aspecto imponente.

– Que deseja, senhorita?

– vou ao segundo andar.

– Vá de elevador. Eu a acompanharei. São tantas as portas que poderia se equivocar. O 2.° andar foi terminado num destes dias. Os outros estão sendo terminados.

Todos estarão habitados até o fim deste mês. O edifício pertence ao Sr. Calhem. Sabia-o, não?

– Sim.

Mentia uma vez mais. Por que o fazia? Sentiu os olhos embaciados. Será que Joan iria viver ali com Marcos? E este abandonaria seu palácio suntuoso?

– É um senhor muito simpático. Esteve ontem aqui com os filhos. A Srta. Joan está no andar de cima.

– vou agora mesmo visitá-la.

– Dizem que se casa num destes dias. Creio que o filho mais velho do Sr. Calhem também se casará. Esse que é jornalista.

– Eu sou sua noiva.

– O Senhor Jack teve muito bom gosto.

– Obrigada, meu amigo. Você é muito galante.

– É ali, senhorita.

Despediu-se e tocou a campainha. Abriu a porta uma criada. Joan apareceu e lançou-se, impetuosa, nos braços da amiga.

– Pensei que não viesse, minha querida. Entre acrescentou, empurrando-a brandamente. – Está muito bonita, Denise. Que acha do apartamento? Gosta? É o presente de casamento de papai. Denise ficou paralisada. Iria viver ali com Jack?

– Muito bonito – disse, quase sem voz. -– Mas pensei que...

– Que ia viver na rua?

Percorreu o apartamento em companhia de Joan. Tudo lhe era maravilhoso, quase inconcebível. Aquele apartamento que papai Calhem dava a seu filho mais velho era extremamente elegante e de um modernismo muito de acordo com o casal.

– Estou encantada – não pôde deixar de dizer.

– Olhe, Denise. Aqui é o seu quarto. Comunica-se com o de Jack. Jack é um rapaz moderno e disse que não queria um quarto para os dois. Que acha?

– Está muito bem – admitiu embaraçadamente.

– Este é o seu gabinete. E esta porta dá para uma sala pequena, a sala de jantar – Joan ia enumerando, entusiasmada – e esta é a cozinha. Já tem cozinheira. Papai lhes cede a sua negra estimada. Nós fomos criados com ela, quando mamãe morreu. Chamamos familiarmente de Ama. Seu nome é Sidey. Esta peça é o salão e o seu quarto de vestir comunica-se com o quarto. É tudo do seu agrado, Denise?

– É. Tudo é maravilhoso.

– Bem, chamei-a para mostrá-lo. Dizem que vamos viajar. Marcos quer ir à Itália, mas Jack disse que dentro de quinze dias tem de estar de volta, por causa do jornal.

Conduziu-a até a saleta. Era um lugar acolhedor, como a casa toda. Não faltava um detalhe sequer e Denise pensou que tudo lhe comoveria indescritivelmente se o seu casamento fosse realizado em outras circunstâncias.

– Denise, sabe que os Aguisal foram convidados para os dois casamentos? Teresa virá...

Ergueu-se na poltrona. Por causa de Teresa Aguisal ela fora visitar Jack naquela noite. Se a odiara tanto, aquele ódio agora tornava-se insuportável.

– Não a convidei.

– Marcos, porém, a convidou. Pelo visto, conhece muito a sua família. Disse a Marcos que não o fizesse, mas ele respondeu que não tinha mais jeito.

Denise pôs-se de pé:

– Vamos, Joan. Ainda temos muito a fazer antes da festa desta noite.

– É certo – após uma transição rápida, acrescentou: – Uma das nossas criadas, também, virá para a sua casa junto com Ama. Imagino que trará Polly.

– Sim.

– A partir de amanhã, as três se instalarão aqui. Papai é muito previdente e já arranjou tudo.

Teve vontade de perguntar se Jaek sabia daquilo, mas não foi preciso, porque uma chave girou na fechadura e a figura do próprio Jack apareceu no vestíbulo. Ao vê-la, ficou quieto, rígido. Denise soube que ele não esperava encontrá-la.

– Olá – saudou, olhando a ambas.

– Ah! É você, irmão? Alegro-me, porque assim acompanhará Denise. Esperarei Marcos, pois prometeu estar aqui dentro de instantes.

Denise teria fulminado Joan. Limitou-se a sorrir palidamente.

– Vim buscar uns papéis – disse Jack, para justificar-se.

– Estão no escritório.

Ele ia ao volante. Vestia um terno de flanela cinzenta e levava, como sempre, o chapéu atirado para a nuca. Jack não era muito elegante, mas tinha uma distinção natural que o fazia diferente dos outros homens. Denise, a seu lado, viajava calada e pensativa. Pensava no apartamento.

– Gostou? – perguntou ele, com naturalidade. – Fala do apartamento?

– Sim.

– Muito bonito. Seu pai teve uma grande gentileza.

– Como seu filho.

– Não o considero tão gentil.

– Quando se deteve para pensar em mim?

– Não será um desafio, verdade?

– Por que não? Além de tudo, é por demais humilhante para um homem ter uma noiva, amanhã uma esposa e...

– E quê?

– Não vale a pena falar disso.

O carro parou. Já era noite e caía a névoa pegajosa e úmida.

– Chegamos – disse ele. – Se não se importa, levo o seu carro, pois eles usarão o de papai e eu ainda não tenho um carro. Penso comprá-lo, quando voltarmos de nossa viagem.

– Pode usar este quantas vezes quiser – respondeu Denise, dispondo-se a descer.

– Obrigado, mas este é seu. Levo-o hoje porque preciso dele para voltar mais tarde à festa – fez uma pausa e, subitamente, segurou a mão de Denise. Sabe, Deni? Detesto essas festas – inclinou-se para ela e acrescentou, com um tom sério: – Espero, Deni, que não dance esta noite com nenhum outro homem. Se quiser dançar, faça-o comigo. É a ofensa maior que me podia fazer se...

– E não acredita que esteja desejando ofendê-lo?

– Talvez. Mas pressinto que esta noite...

Ela retirou a mão e desceu. Também Jack fez o mesmo. Denise poderia jurar que Jack estava mais nervoso do que nunca, mas não quis pensar no caso.

– Deni – sussurrou, caminhando a seu lado até a grade alta. – Não vai perdoar-me nunca? Vamos casar-nos, Deni. Aquilo...

– Cale-se! Não fale disso!

– Vamos casar-nos, Denise. Confesso que me portei como um selvagem... Mas a amava.

Os olhos da jovem elevaram-se bruscamente:

– Jamais acreditarei no seu amor, Jack. Nunca, nunca! Um homem que ama a uma mulher não faz o que você fez comigo.

– Por Deus! – exclamou Jack, excitado e nervoso.

– Vai dizer-me também que...

– Cale-se! – Denise gemeu, elevando a mão e tapando com ela a boca masculina. – Como se atreve, Jack?

Ele tinha os dedos de Denise aprisionados entre os seus. Apertou-os febrilmente e os beijou várias vezes.

– Repito que nos vamos casar. Queiramos ou não – acrescentou, baixinho – vamos ser um do outro. Real ou aparentemente, nos pertencemos, Denise. Por que não podemos falar agora de coisas que dizem respeito aos dois, se amanhã será forçoso que falemos? E juro-lhe, Denise, que recordarei ponto por ponto em voz alta o que aconteceu naquela noite.

– Basta, por favor!

– Denise...

– Deixe-me – pediu ela, tratando de afastar-se.

– Dê-me um beijo primeiro, Denise. Peço-lhe...

– Ainda que me peça por Deus – gemeu Denise, desprendendo-se bruscamente – não poderei dá-lo, não creio que o possa dar nunca.

– E vamos casar-nos assim?

– Não lhe pedi que casasse comigo – replicou ela, excitada. – Foi você quem veio solicitar a minha mão, sem me consultar antes.

– Era preciso, Denise.

– Pois não me peça mais... não me peça mais... agora.

– E amanhã?

– Por favor...

Jack deu um salto e juntou seu corpo ao dela. Seus dedos aprisionaram as barras de ferro e sua cabeça juntou-se à de Denise.

– Não dance com nenhum homem, Deni... Não poderia suportá-lo, ouve? Não poderia.

– Não o farei – suspirou Denise, nervosamente.

– Juro que não o farei, mas deixe-me agora.

 

Eram duas da madrugada. A festa estava no apogeu. Joan e Marcos, ambos radiantes, não pararam de dançar um instante. Wallis e Lewis, felizes, tão enamorados como sempre, faziam as honras. O velho Calhem conversava num ângulo do salão com uns amigos. Jack, muito calado, estava sentado num banco com um braço apoiado no bar improvisado. Tinha um copo cheio a seu lado e Denise o contemplava entre suspensa e aborrecida.

– Vai ficar assim toda a noite, querido? – perguntou, mal-humorada.

– Não gosto de dançar, Deni – respondeu ele. E não quero que você o faça com esses idiotas.

– Até agora ninguém me convidou. Todos sabem que odeia o baile e não se atrevem a pedir-me, mas se vier por aí um mais ousado, pode ficar certo que não digo que não.

– Como quiser. E bebeu o conteúdo do copo. – Sabe? – perguntou ela, tocando-o no braço. – Vai embriagar-se, e a verdade é que o espetáculo não me agrada.

Jack ia responder quando Marcos e Joan apareceram no bar.

– Vamos, não parecem que amanhã vão casar-se

– comentou Marcos. – Por que não dançam?

– Jack não gosta.

– Bem, Denise, venha dançar comigo.

Até aquele instante, Jack aparentava uma impassibilidade absoluta. Mas, ao ouvir seu futuro cunhado, ergueu a cabeça e seus olhos encontraram-se com os de Denise.

– Não está satisfeito com uma, Marcos? – resmungou Jack, fora de si. – Pois fique com ela. Esta é minha...

– vou dançar com Marcos – disse Denise. Jack levantou-se. Segurou-a pela cintura e a arrastou atrás dele.

– Não, Deni. Vai dançar comigo até cair de cansaço, mas só comigo.

E com efeito, durante todo o resto da noite, Jack excitado, enfurecido, como se fosse preso de uma alucinação, segurava a figura de Denise sem cessar, desesperadamente.

– Deixe-me – gemeu Deni, afogadamente.

– Nada. Não quer dançar? Pois dançará até cair de cansada.

– Oh! Jack! Por que é tão impulsivo? Não compreende que vou desmaiar?

Ele nada respondeu. Parou de dançar, mas não a soltou. Olhou-a com os olhos desmesuradamente abertos e sussurrou:

– Deni, não poderá querer-me nunca? Não poderá perdoar? Que vai fazer amanhã, quando for minha mulher?

Ela, valentemente, desprendeu-se de seus braços e o olhou de frente. Não demonstrava nos olhos nenhuma promessa, mas, sim, uma decisão fria.

– Responda, Deni, e não me olhe assim. – Fecharei as portas do meu coração e -as da minha intimidade, Jack. É melhor que saiba agora, pois ainda está em tempo de renunciar.

– Está certa, Denise? Está segura do que diz?

– Oh! Sim. Se quiser, pode ir agora, Jack, e não voltar jamais. Está em tempo ainda. Refarei hoje que Teresa Aguisal não tirava os olhos de cima de você. Será mais feliz casando-se com ela.

– E você?

– Não falemos agora, Jack, de coisas que já passaram. Peço-lhe que se não me suporta me deixe agora, que ainda está em tempo.

– Denise, Jack, onde estão?

Era Wallis. Denise correu para ela, sem olhar para Jack. Esperava que não viesse no dia seguinte. Esperava-o, sim. Tinha medo, pela primeira vez na vida, medo do amor de Jack... e medo de seu próprio amor.

 

A cerimónia transcorreu sem incidente algum. Marcos e Joan saíram antes do banquete. Depois, Jack e Denise entraram no carro, em silêncio, sem se olharem. Eram sete horas de uma noite de fevereiro, tão umida e feia como todas naquela estação. Fazia frio e Denise enrolou-se no casaco de peles.

– Chegue-se a mim – disse Jack, sem olhá-la. Irá muito melhor.

Denise manteve-se firme, no seu lugar, e Jack distendeu os lábios num sorriso impenetrável. Era um começo de lua-de-mel um pouco frio, mas Denise Winters não considerava assim.

 

– Bem, aqui estamos nós...

Estava frente a ela, firme, rígido, com as feições um pouco alteradas e os lábios entreabertos.

– Já disse ontem, à noite.

– Ontem não era minha esposa, Deni.

– Quer deixar-me, Jack? Suplico-lhe, é muito tarde.

Sim, era tarde, Jack sabia. Sabia também que Deni era sua mulher, que se tinham casado naquele dia e que... desejava Denise como jamais desejara outra mulher. Disse-o sem rodeios.

– E não se envergonha?

– Por quê? – Jack riu, como se estivesse representando um papel que não lhe pertencesse. – Amor e desejo são a mesma coisa.

Ela tapou os ouvidos.

– Denise, não sou um menino. Conheci muitas mulheres e vivi com elas como melhor pude. Isto quer dizer que...

– Que sou como todas.

Jack deu uma risada sem graça. Tinha de dar o merecido a Denise e demonstrar-lhe que não era um boneco. Agora estavam casados. Denise era uma menina e teria de ensiná-la a ser mulher.

– Não, certamente. Você é mais bonita que todas.

– Jack!

– Bem, Denise, não faça assim. Nunca lidou com um homem verdadeiramente humano? Pois aqui o tem. E para terminar, pois como diz, é muito tarde, vou revelar o seguinte. Pensei-o ontem à noite. Por isto hoje fui à igreja. Se assim não agisse, ficaria desonrada e sem marido. Olhe, Deni, não sou um cavalheiro como Marcos. Se Marcos estivesse em meu lugar...

– Marcos não me teria ofendido nunca!

– -Tanto melhor para Marcos. Bem, ia dizendo que não me pareço com ninguém, Denise. Sou um homem excepcional. Outro qualquer, em meu lugar, teria agido de duas maneiras. Ou dobrando seu orgulho ou curvando-se a seu capricho. Não penso fazer nenhuma das duas coisas, por agora... Quando estivermos no apartamento, as coisas serão vistas por outro prisma. Estamos agora num hotel desconhecido, numa cidade desconhecida. Digo-lhe isso: ou dá seu amor ou fica sozinha.

– O quê?

– Já lhe disse, Denise. Ou me dá toda a sua vida numa noite ou fica sozinha. É verdade que me dá muita pena deixá-la, mas não há mais remédio.

– Ficou louco?

– Não, certamente – respondeu Jack, sem se importar, pelo jeito, com a fisionomia espantada da esposa.

E como mostrasse intenção de sair, Oenise, espantada, correu para ele:

– Não pode deixar-me. Morreria de humilhação e de dor.

– Por mim?

– Oh! Jack! Nunca pensei que fosse tão duro.

– Não sou duro, Denise. O que se passa é que sou demasiadamente viril e não poderei permanecer a seu lado sem estar acariciando-a sempre, e como se nega a ser acariciada...

– Fique, Jack. Peço-lhe.

– É verdade?

Ela retorceu as mãos e olhou Jack com os olhos transtornados, cheios de lágrimas.

– Não tenho piedade de ninguém, Deni – disse ele, impassível. – Se ficar é para amá-la e para você deixar-se amar. De outro modo, dentro de quinze dias virei buscá-la.

– Saia! – gritou Denise, desesperadamente. Nunca pensei que se impusesse condições ao amor. Saia! Não quero vê-lo!

– Já vou. Voltarei para buscá-la dentro de quinze dias.

 

Nunca pensou que Jack cumprisse a ameaça. No entanto, cumpriu-a rigorosamente, como se tratasse de um contrato comercial do qual esperasse um bom resultado. Torturada, esgotada pela ira e pela dor, Denise permaneceu no quarto de hotel, perguntando-se se fizera bem ao permitir a ida de Jack.

Os quinze dias passaram e Jack apareceu uma manhã no hotel, tão gentil como sempre, sorridente como se a sua vida fosse um mar de rosas. É verdade que não saíra da cidade e, se Denise visitasse os arredores, se teria maravilhado ao ver o marido fotografar os rincões mais pitorescos daquele lugar desconhecido. E se teria maravilhado mais se tivesse saído ao corredor e observado que uma figura masculina deslizava por ele, indo ocultar-se no quarto mais longínquo do terceiro andar.

– Bem, já estou aqui – riu-se ao vê-la com os olhos enfurecidos e o rosto pálido. – Não saiu nunca, minha

doce esposa? Está magra, mas sempre encantadora. Preparou as malas? Hum! Não me olhe assim. Seus olhos queimam esta manhã, e eu que sou feito de matéria inflamável, se entrar uma fagulha pela janela, vamos ter de chamar os bombeiros.

– É grosseiro! – gritou ela, enfurecida. Ainda, não sei onde tinha os olhos quando o vi...

– Denise, não filosofe agora, que não há tempo. Coloque todas essas miudezas numa maleta e vamos. Morro de ansiedade para ver-me naquele apartamento confortável que meu pai me deu -por motivo de meu casamento com uma mulher deslumbrante.

Denise já sabia quem era Jack. Ao conhecê-lo, jamais acreditou que aquele mesmo humorismo se convertesse em tortura para ela.

– Suponho que me dirá onde esteve. Jack deu uma risada sarcástica:

– Claro que lhe direi, minha querida lady. Não saí deste povoado. E se não fosse tão teimosa e me tivesse acompanhado, teria gozado como eu com a contemplação das paisagens maravilhosas deste lugar pequenino.

– Não foi a nenhum lugar? Quer dizer que esteve neste povoado?

– Por Deus que sim. E dormi quinze noites numa cama do terceiro andar deste mesmo hotel. Senti-me muito só – acrescentou, ocultando a verdade debaixo de um sorriso

pálido. – Muitíssimo só. Sonhei todas as noites com suas mãos, seus olhos, seus cabelos, seus lábios...

– Cale-se!

– Puxa, pelo visto é geniosa – após ligeira pausa, acrescentou: – Vamos, querida. Ajudo a fazer as malas?

– Naturalmente. Eu sozinha não posso.

Jack olhou Denise. Aquela mulher era mais bela cada dia que passava. Observou que seus olhos tinham um brilho inusitado e a boca, úmida e sensual, tremia ligeiramente. Olhou o busto bem definido, que palpitava debaixo da fazenda ténue do pijama azul. Era demasiadamente bela e lhe pertencia. Jack riu-se de seus próprios pensamentos e começou a guardar numa mala o que a silenciosa Denise ia entregando.

Subitamente, segurou a mão de Denise. Cravou os olhos na aliança, que adornava um de seus dedos. Naquele mesmo dedo brilhava o solitário que pertencera a todos os membros da família Winters. Segurou a mão, depois o braço e logo...

– Que faz? Ficou louco?

Denise já estava no chão, e Jack a olhava. Ela caiu para trás e os braços masculinos a sujeitaram vigorosamente.

– É tudo mentira, Deni! Tudo, tudo. Não sou um humorista, nem um indiferente. Quase me custou a vida ter ficado longe de você.

– Deixe-me.

– Deni, Deni... Como é cruel!

Soltou-a. Para que lutar contra o impossível? As malas estavam cheias. O carro os esperava fora. Denise estava retocando seu rosto diante do espelho. Através deste, observou Jack, de pé no meio do quarto.

– Enquanto termino meu retoque, vá pagar a conta. Juntar-me-ei a você logo, Jack.

Estava muito linda... Oh, sim, muito linda! Jack não era de pedra e a amava. Deu uns passos e suas mãos seguraram os ombros dela.

– Que quer?

– Saber o que fez enquanto estive bancando o tolo por aí.

– Li.

– Só isso?

– Só isso.

Denise tinha um segredo. Um segredo que formava parte da vida de Jack, mas que não seria dito. Era proporcionar felicidade demasiada a um homem que não merecia. Subitamente, Jack inclinou-se e, através do espelho, olhou Denise ardentemente.

– Denise, tenho de dar-lhe um beijo. Preciso... Ela encolheu os ombros. A fúria de Jack despertou naquele instante. Abraçou-a frenético. Beijou-a na boca quantas vezes quis, deixou-a exausta.

– Jack, por favor...

– Estou farto de sua.indiferença. E agora... Denise.

Ela desprendeu-se de seus braços, com os lábios doloridos, e colocou ambas as mãos no seu peito, detendo-o:

– Não dê um passo, Jack. Seria terrível para mim e para você agora, precisamente agora...

– Por que não? Tenho sido um boneco, Denise. Não posso suportar por mais tempo o seu desprezo. Sou um homem honrado. Cometi um erro ao casar-me com você, Denise.

E agora, quero demonstrar-lhe que não sou um fantoche.

Viu-o como naquela noite inolvidável. Teve medo de ver-se obrigada a aborrecê-lo, quando já ia esquecendo pouco a pouco. Estendeu os braços, mas Jack já estava perto. Estreitou-a entre os seus, apertou-a e depois apoiou a boca nos lábios dela, túrgidos e sensuais.

– Jack, Jack...

Ela aspirou fundo. Jogou a cabeça para trás, cravou o olhar nos olhos desesperados de Jack e disse, com um suspiro:

-Solte-me, e sejamos bons amigos. Jack... eu... vou ter um filho.

– Um filho?

Os braços do homem caíram ao lado do corpo. Toda a sua figura imponente encolheu, e olhou Denise como se estivesse muito longe dali. Depois, retrocedeu até a porta, sem deixar de olhá-la, e sussurrou:

– Espero lá embaixo, amor. Não demore.

 

Ainda que pareça absurdo, Denise e Jack não trocaram uma só palavra durante o longo trajeto. Mesmo no apartamento, permaneceram rígidos e mudos diante da mesa recém-servida. Ama, como sempre, perguntou, assomando o rosto pela fresta da porta, se estava tudo do agrado dos jovens.

Denise, um pouco pálida, delicada e fina, tinha os olhos baixos e comia lentamente. Frente a ela, Jack a olhava de vez em quando, e também comia com lentidão. A emoção fora demasiadamente forte para Jack. E se perguntava qual a atitude que Denise adotaria no transcurso da gravidez. Era evidente que Denise não tinha intenção de tomar nenhuma atitude diferente.

Mas Jack ignorava o que a esposa pensava, uma vez que conservava-se muda. Era como se as palavras, depois de declarar que ia ter um filho, tivessem fugido de seus lábios. Terminada a refeição, Denise pôs-se de pé.

– Estou cansada, Jack – falou com naturalidade.

– Se não se importa, vou retirar-me.

Jack ficou contente porque Denise não o olhava com rancor e, ao perceber que sua voz era natural, perguntou-se o que Denise sentia naquele instante. Pôs-se de pé rapidamente e chegou perto dela:

– Descanse, Deni. Irei um momento à redação. Quero levar as fotografias que tirei no povoado e fazer uma reportagem.

– Não demore.

Jack ia tocá-la. Talvez se dispusesse a acariciar a sua mão, mas não se atreveu. Acompanhou Denise até o quarto. Ao chegar ao umbral, inclinou-se para ela e murmurou:

– Se necessitar de qualquer coisa, Deniseestarei dentro de uma hora no quarto ao lado.

– Obrigada, Jack.

Inclinou-se um pouco mais e roçou os lábios nos da esposa. Esta não retrocedeu. Sorriu sutilmente e agitou a mão, dizendo adeus. Duas horas depois, sentiu-o chegar. Na manhã seguinte, tomou o café sozinha. Jack deixara um bilhete, dizendo que regressaria ao meio-dia.

Denise visitou Wallis. Abraçou-a demoradamente e disse que era feliz. Não lhe participou que ia ser mãe. Para quê? Talvez ninguém a compreendesse. Assim transcorreram uns dias. Jack era carinhoso, amável... Nunca voltou a falar-lhe de amor. Era como se falar em coisa tão natural ofendesse Denise. E esta, pouco a pouco, foi compreendendo que amava Jack. Amava-o com a mesma intensidade de antes ou talvez mais. Um dia, Joan e Marcos

regressaaram. Instalaram-se em seu palácio e deram uma festa.

– Vai, Denise? – perguntou Jack, naquela manhã,

– Vamos, se quiser.

– É quase uma obrigação.

; Algumas horas depois, Jack andava pela sala de

espera, aguardando que Denise aparecesse para irem à festa. Aquela situação não poderia sustentar-se por muito tempo. Ainda que Denise acreditasse no contrário, Jack tinha pouca paciência e amava.... Era tolo de sua parte que se mantivesse naquela passividade imprópria de seu temperamento.

– Vamos, querido? Estou bonita? – perguntou, com ar faceiro, até então desconhecido para ele.

Jack, como resposta, avançou para ela, segurou-a pelo braço e beijou-a nos lábios sofregamente.

A festa estava esplêndida. Joan, no seu papel de jovem senhora, estava mais bela, mais delicada. Marcos, a seu lado, contemplava-a encantado, como se jamais tivesse visto outra mulher igual. Apoiada na janela que dava para o jardim, Denise conversava alegremente com Max Calhem. Seu gémeo dançava com uma moça bonita e Max caçoava do irmão, provocando o riso de Denise.

– Reparou, Deni? Joan, perdidamente enamorada de seu belo Marcos – riu, brincando. – Jim, está colado à jovem que lhe apresentaram hoje. Jack... Ora! onde está Jack?

Olhou em todas as direções e Denise o imitou.

– Condenado Jack! – riu Max, acentuando o sorriso. – Reparou, Deni? Está dançando com uma jovem linda.

Denise apertou os lábios. Olhou demoradamente para o par, formado por Jack e Teresa Aguisal. Esta, com os cabelos muito negros e os olhos mais negros ainda, a pele

de cigana, flertava com Jack descaradamente.

Ouvia os comentários de Max, como se o fato de ver seu marido dançando com aquela mulher não lhe causasse nenhum sobressalto, quando a realidade era bem diferente. Jack a deixara ali meia hora antes. Pretextando uma sede insaciável, fora-se, acrescentando docemente: "Não convém que dance, minha querida lady..."

– Dançamos, Max? – propôs, bruscamente.

– Denise, já sabe que Jack não gosta que dance com outros homens.

– Que bobagem, é seu irmão! Por outro lado, meu querido Max, ele não está perdendo tempo.

– Bem, não assumo nenhuma responsabilidade. Sabe por quê? Quando Jack se zanga é capaz de brigar na frente de todos, ainda que seja com seu irmão.

Denise pensou que seria delicioso ver Jack zangado. E dançou com Max e depois com Marcos. Jack parecia alheio a tudo. Continuava com Teresa Aguisal e dir-se-ia que não via sua esposa dançando, agora, com Jim.

– Denise – disse Joan, aproximando-se.

– Ah, está aí, querida? Que tal a viagem de núpcias?

– Deslumbrante. E a sua?

– Oh! – Denise sussurrou, brincalhona. – Fantástica. Tive Jack perto de mim durante quinze dias indescritíveis. Asseguro-lhe que não soube o que foi estar um minuto sozinha.

Joan remexeu-se inquieta. Conhecia bem Denise. Debaixo daquela capa ocultava-se uma tormenta pronta.

– Viu Jack dançando com essa tola?

– Sim, claro que sim.

– E consente?

– Também estou dançando. Não vê que a vida de hoje é assim? Agora o farei com o seu marido.

com efeito, Marcos a segurou pela cintura e lhe disse, conduzíndo-a ao torvelinho da dança:

– Não me parece muito feliz, Denise. Errou o caminho?

– Creio que não.

Naquele instante, sentiu os olhos agudos de Jack cravados no seu rosto. Sentiu um estremecimento percorrê-la toda.

– Creio que Jack não gosta que dance com outros...

Jack estava atrás deles, com os olhos brilhantes pela raiva. Vira Denise dançar com Max e Jim. Depois com Marcos. Agora...

– Denise, deixe esse tolo e vamos...

– Olhe, Jack, não lhe permito...

Denise teve medo. Olhou Marcos e depois Jack.

– Disse que era um tolo, Marcos. E o repetirei quantas vezes forem necessárias. Deixe minha esposa e vá para a sua. Denise e eu vamos agora mesmo.

– E onde deixou Teresa Aguisal?

– Que se dane – respondeu Jack, apertando nervosamente o braço da esposa, que emitiu um ai de dor.

– És grosseiro, Jack – comentou Marcos sem raiva. – Leve-a, mas não a mate. Eu os desculparei, dizendo que Denise está cansada.

– Mas eu não penso em ir embora – disse ela.

Os dedos nervosos de Jack apertaram o braço desnudo. Inclinou a cabeça e seus olhos queimaram o rosto de Denise:

– Vamos agora mesmo, Denise! Neste instante. E se negar, terá um espetáculo agradável para os espectadores de circo, que compareceram a esta festa.

– Não pode obrigar-me...

– Não posso?

Estavam na mesma porta do terraço. Ninguém os olhava, exceto Teresa Aguisal, que sorria ironicamente. Deni sentiu aquele sorriso como se fosse uma bofetada. Subitamente, segurou-se ao braço de Jack e sussurrou, muito perto dele:

– Vamos agora mesmo, querido. Na verdade, estou desejando.

Jack piscou várias vezes, sem compreendê-la. Marcos deu uma risada desajeitada e opinou:

– São duas crianças. Vão, ali está o carro. Fizeram o trajeto em silêncio, zangados. Pareciam

dois inimigos, sentados um ao lado do outro. Ele disse, bruscamente:

– Sabe o que lucrou dançando com outros?

– Suponho que o mesmo que você.

– O quê? Eu?! Pensou que o fazia por gosto?

– Pelo menos parecia.

Jack lhe deu uma olhadela rápida.

– Não tinha desejo algum de dançar com Teresa Aguisal. Mas ela me procurou e sou um cavalheiro.

– Não o é muito, quando descobre um segredo feminino.

– Ora, Denise! Está muito misteriosa hoje. Não vai dizer que tem ciúme.

Ela não respondeu. Sentia, naturalmente, muito ciúme, não só de Teresa Aguisal, mas de qualquer mulher que merecesse a atenção do marido.

– Não sou ciumenta.

Jack parou o carro e chegou-se à porta. – Eu a acompanharei até o apartamento

e depois irei à redação.

O coração de Denise deu um pulo dentro do peito.

– Vai sozinho? Acredita que vou consentir?

– Suponho que não tem medo.

– Não se trata de medo, Jack – Denise quase gemeu. – É que não permitirei que vá sozinho. Pensa que vou acreditar nisso de redação? Deixou tudo solucionado esta tarde, Jack. O secretário fará seu trabalho. O que deseja, agora, é reunir-se a essa Aguisal. Jack riu, de bom humor:

– Ande, entre no elevador. Voltarei logo.

Os olhos dê Denise encheram-se de lágrimas.

– Jack – sussurrou – se vai me deixa sozinha, agora, juro que jamais... jamais...

– Jamais o quê? Acaso me deu alguma coisa? Não pode dizer que vou deixá-la, porque nunca me deu nada, Deni. Esta é a verdade, a maldita verdade.

– É grosseiro.

– Bem, já me disse muitas vezes. Agora... até logo, Deni.

– Nunca, nunca o perdoarei – Denise gemeu, sem poder conter a torrente de lágrimas que turvava seu olhar.

A sombra de Jack perdia-se no portão e logo dentro da noite.

 

Jack suspirou. Na realidade, não fora a parte alguma. Guardou o carro na garagem e subiu de dois em dois os degraus do edifício. com muito cuidado, abriu a porta e jogou-se numa poltrona em seu próprio quarto. Ouviu os soluços de Denise transporem a parede, mas nada fez para consolá-la. Era preciso que Denise chorasse um pouquinho. Também ele vivia desesperado por causa daquela situação.

Como era possível que um homem como ele, forte, batalhador e impulsivo, se mantivesse naquela indiferença? Era uma forma de ataque como outra qualquer. Jack era um psicólogo e ia, pouco a pouco, penetrando nas pequenas debilidades da formosa mulher. Terminou o cigarro, apagou-o no cinzeiro e pôs-se de pé. Deu um passo, dirigindo-se à porta de comunicação.

Nunca o fizera, até aquela noite, e pensava encontrar a porta fechada. Se assim fosse, certamente a poria abaixo. Jack estava terrivelmente cansado de tanto desprezo. A situação era intolerável, inconcebível, e ele não poderia suportá-la um minuto a mais. Deu outro passo, outro mais. Colocou a mão na maçaneta e a moveu. Seus olhos abriram-se. A porta estava aberta. Desde quando? Acaso estivera sempre? Passou uma das mãos pela

fronte, limpou um suor imaginário e apertou, depois, os lábios. A porta cedeu lentamente. Uma pessoa ergueu-se do leito.

– Quem está aí?

– Nenhum estranho, por certo – respondeu Jack, avançando resoluto e firme.

– Você?

– Pensei que a porta estivesse fechada, Denise comentou, com delicadeza.

– Nunca a fechei – respondeu a jovem, em tom suave.

Jack gostou de sua esposa não se aborrecer com a sua presença. Denise saltou ao chão e cobriu-se rapidamente com um robe. Estava encantadora. Jack aproximou-se dela, segurou-a pela cintura e disse:

– Na realidade, Denise, não podia aguentar um minuto a mais.

Os braços da jovem elevaram-se. Aprisionou o peito de Jack, ofereceu os lábios e disse com emoção:

– Eu também não, amor.

 

Quantas horas transcorreram? Os primeiros raios de sol penetravam pela janela. Jack dava voltas pelo quarto. Denise, sentada diante da penteadeira, escovava os cabelos.

– Tenho sido um tolo, Deni.;

– Sim? Quando descobriu?

– No dia em que me casei com você.

– E eu também descobri no dia em que me casei com você.

– Denise!

Chegou-se a ela e a estreitou nos braços. Denise abraçou-o.

– Oh, Jack, que tempo perdido estupidamente!

– Perdido? E agora?

– Não quero que dance, jamais, com Teresa Aguisal.

Jack soltou uma gargalhada:

– Tolinha, se a pobre Teresinha vai casar-se com o seu primo Ernest.

Aproximou-se de Denise e sentou-se a seu lado, no sofá. Apertou-a contra seu corpo.

– Tenho de confessar, Deni, a minha grande culpa. Ontem, menti. A pobre Teresa não tinha a menor intenção de dançar comigo, mas como sabia que você a odiava...

– Pretendia causar-me ciúmes.

– E não os causei?

– Meu Deus! Nunca sofri tanto como ontem à noite. – Agora acabou-se.

Ia beijá-la novamente, quando umas pancadas ligeiras na porta o impediram.

– Lady Watson acaba de chegar, senhora.

– Que venha cá, Polly – respondeu Denise. Abriu-se a porta e uma Joan elegantíssima apareceu

no umbral. Olhou-os, primeiro, com temor; depois, deu uma risada.

– Que aconteceu? – perguntou Jack, brincalhão. – Vinha disposta a reconciliá-los e vejo que não é necessário.

– Irei para que possam falar a sós.

Aproximou-se de Denise e a beijou nos ábios. Depois deu uma palmadinha no rosto da irmã e saiu, rindo ainda.

– Bem – comentou Joan, reclinando-se no sofá.

– Pensei não haver solução, mas já vejo que não é preciso reconciliá-los. Marcos me disse, ontem à noite, que as coisas não iam muito bem entre vocês e, por um momento, fiquei receosa.

– Nós nos reconciliamos ontem mesmo, Joan. Na realidade, Marcos tinha razão. – E com voz trémula contou à sua amiga o sucedido, desde a noite em que fora à redação.

Joan a contemplou docemente e disse:

– Não me conta nada novo, Denise.

– Quê?

– Oh! Não se aborreça! Marcos e eu adivinhamos logo. Jack é um bruto e você uma impulsiva. Bem, tudo passou. Agora é amarem-se e viverem felizes os dois.

– Lewis também sabe? – perguntou Denise, muito pálida.

– Claro que não. Sabíamos porque estava muito claro. Jack foi pedir a sua mão quase sem deixar-nos respirar. Procurou papai como um louco e, depois, não viveu tranquilo até que se casou. Não creia que compreende muito bem o Jack. Debaixo de sua ironia oculta seu verdadeiro ego. Você é quem deve encontrá-lo.

Deni pôs-se de pé e beijou Joan,

– Somos felizes, Joan – comentou, suavemente.

– Nunca pensei que depois de casadas pudéssemos estar tão juntas. Ama muito a Marcos, não?

Os olhos de Joan brilharam.

– Meu Deus, amo-o intensa e loucamente! Já esperamos um filho, sabe? Será um pequeno lorde muito bonito e tão belo quanto o pai.

Denise alegrou-se que tudo se solucionasse daquele modo tão fácil.

– Também vou ter um filho, Joan – sussurrou encantada.

Quando Joan foi embora, Jack apareceu novamente no quarto, recém-saído do banho.

– Aonde vai, amor? – sussurrou, correndo para ele e apertando-se brejeira contra o corpo um pouco desajeitado, mas tão querido de seu selvagem Jack.

– vou visitar Wallis que teve um menino e nós aqui tão tranquilos.

– E diz assim?

– Como quer que diga?

Afastou-se dele e Jack a beijou apaixonadamente.

– Irei com você – disse depois, com a voz embargada. – Sou feliz, Jack. Espero um menino. Joan, também, e Wallis já o teve. Entende, amor? Oh! Jack! Como é possível que eu fosse tão tola? Como é possível que esperasse tanto para dominar meu orgulho estúpido?

Jack balançou-se sobre as pernas.

– Nunca mudará, Jack. Nunca, nunca, mas o amo, porque é assim. Porque é assim!

Ficaram muito calados, olhando-se. Logo, Jack aprisionou-a entre os braços e disse:

– Creio que nos parecemos muito, pequena lady, por isto nos amamos tanto.

Ela colocou seu olhar nos olhos de Jack e respondeu muito baixinho, chegando-se, brejeira, a ele:

– Sim, nos parecemos muito, por isso nos amamos tanto. Quero que meu filho seja como você. Como você, querido!

 

                                                                                Corin Tellado

 

 

                      

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