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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TERNA É A NOITE / Scott Fitzgerald
TERNA É A NOITE / Scott Fitzgerald

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

TERNA É A NOITE

 

Enfim contigo! Terna é a noite......

Mas aqui não há luz,

A não ser a que vem do céu, trazida pelo vento,

Serpenteando pelo verdor melancólico

De caminhos musgosos.

 

Na costa agradável da Riviera Francesa, a meio caminho entre Marselha e a fronteira italiana, eleva-se, imponente, um hotel cor-de-rosa. Palmeiras deferentes refrescam a fachada enrubescida e, na sua frente, estende-se uma praia pequena e deslumbrante. Ultimamente transformou-se numa estância de Verão em moda para gente famosa. Dez anos antes ficava quase deserto, depois de a clientela inglesa partir para o Norte, em Abril. Agora, aglomeram-se à volta casas de campo, mas, no momento em que esta história começa, apenas as cúpulas de uma dúzia de antigos chalés se degradavam como lírios de água no meio de amontoados de pinheiros entre o Hotel des Etrangers, de Gausse, e Cannes, a cinco milhas de distância.

O hotel e a praia, qual tapete crestado, eram um só. De manhã cedo, a imagem distante de Cannes, os tons de rosa e creme de velhas fortificações e os Alpes purpúreos que limitam a Itália reflectiam-se na água e tremeluziam na ondulação e nos círculos formados à superfície pelas algas dos baixios límpidos. Antes das oito horas um homem de roupão azul desceu à praia e, depois de muitas aplicações prévias da água fria à sua pessoa, depois de muito resmungar e arfar, chapinhou no mar por instantes. Quando se foi embora, praia e baía ficaram em sossego durante uma hora. Navios vogavam para oeste, no horizonte; os empregados dos autocarros gritavam no átrio do hotel; o orvalho evaporava-se sobre os pinheiros. Uma hora mais tarde as buzinas dos automóveis começaram a ouvir-se da estrada sinuosa ao longo da pequena faixa dos Maures, que separa o litoral da verdadeira França provençal.

A uma milha de distância do mar, onde os pinheiros dão lugar a choupos poeirentos, existe um apeadeiro de caminho-de-ferro, onde, numa manhã de Junho de 1925, uma mulher e a filha desembarcaram, com destino ao hotel de Gausse. A beleza do rosto da mãe desvanecia-se e começavam a surgir veias salientes. A sua expressão era, ao mesmo tempo, agradavelmente tranquila e atenta. Contudo, todos os olhares convergiam rapidamente para a filha, cuja tez rosada era dotada de uma magia encantadora. A sua face acendia-se numa chama graciosa, como o rubor de excitação das crianças depois do banho frio da tarde. A bela fronte alongava-se, suave, até ao sítio em que o cabelo, que a emoldurava como um escudo heráldico, irrompia numa torrente de caracóis, ondas e canudos de um louro cinza e ouro.

Os olhos eram límpidos, grandes, claros, húmidos e brilhantes, a cor da face era genuína como se emanasse directamente daquele coração jovem e robusto. O corpo pairava delicadamente no derradeiro limite da infância... Estava prestes a completar os dezoito anos, mas não perdera a frescura dos verdes anos.

Quando mar e céu surgiram lá em baixo, numa linha estreita e quente, a mãe disse:

- Qualquer coisa me diz que não vamos gostar deste sítio. A rapariga respondeu:

- De qualquer maneira, eu queria voltar para casa.

Ambas falavam em tom jovial, mas era visível que sem objectivo, e estavam aborrecidas com esse facto - além disso, não era qualquer programa que lhes interessava. Queriam grande excitação, não pela necessidade de estimular um estado depressivo mas com a avidez das crianças que se sentem merecedoras da recompensa das férias.

- Ficamos três dias e depois vamos para casa. Vou telegrafar imediatamente para marcar bilhetes no barco.

No hotel, a rapariga fez as reservas num francês idiomático, um tanto pobre, como que recordado. Depois de se instalarem no rés-do-chão, dirigiu-se para a luz que vinha das janelas de vidraças e deu alguns passos na varanda de pedra que rodeava o hotel. Ao andar, movia-se como uma bailarina, assentando o peso do corpo nas pequenas costas e nas ancas. Lá fora, a luz cálida perseguia a sua sombra. Voltou para dentro - o brilho era demasiado forte.À distância, o Meditterrâneo ostentava a sua cor à luz brutal do Sol. Debaixo da balaustrada, um Buick descorado torrava no parque do hotel.

De facto, em toda a região só a praia fervilhava de actividade. Três amas inglesas estavam sentadas a tricotar o lento padrão da Inglaterra vitoriana, o padrão dos anos quarenta, dos anos sessenta e dos anos oitenta, em forma de camisolas e meias, ao som da sua própria tagarelice que tinha tanto de formal como de encantadora; mais perto do mar, uma dúzia de pessoas abrigava-se sob chapéus de sol às riscas enquanto os seus doze filhos perseguiam sem medo os peixes através dos baixios, ou se estendiam ao sol, nus e resplandecentes de óleo de coco.

Quando Rosemary chegou à praia, um rapaz de doze anos passou por ela a correr e precipitou-se no mar, soltando gritos entusiásticos. Sentindo o impacte do exame minucioso dos estranhos, a rapariga tirou o roupão e seguiu-o. Flutuou por instantes com a cabeça debaixo de água e, quando descobriu que estava num baixio, pôs-se de pé, cambaleando, e avançou com dificuldade, arrastando as pernas esguias contra a resistência da água. Quando a água lhe dava quase pelo peito, voltou-se para trás e olhou para a praia: um homem calvo, de monóculo e fato de banho, de peito peludo e proeminente e barriga encolhida, observava-a atentamente. No momento em que Rosemay retribuiu o olhar, o homem tirou o monóculo, que desapareceu entre os pêlos vistosos do peito, e encheu um copo com um líquido que trazia numa garrafa.

Rosemary voltou a mergulhar e, com quatro braçadas agitadas, atingiu a jangada. A água envolveu-a, puxou-a ternamente para si afastando-a do calor, ensopou-lhe o cabelo e percorreu cada parcela do seu corpo A rapariga deu voltas sobre voltas na água, abraçando-a. deleitando-se com ela. Ao alcançar a jangada, estava sem fôlego, mas uma mulher bronzeada, de dentes muito brancos, olhou para ela e Rosemary, subitamente consciente da brancura agreste do seu próprio corpo, voltou-se de costas e nadou para a praia. O homem de peito cabeludo, segurando a garrafa, disse-lhe quando ela saiu da água:

- Quero avisá-la de que há tubarões para lá da jangada.

O homem era de nacionalidade indeterminada mas falava inglês com um pausado sotaque de Oxford.

- Ontem devoraram dois marinheiros britânicos da esquadra ancorada no Golfo Juan.

- Meu Deus! - exclamou Rosemary.

- Vieram para cá acossados pela esquadra.

Abrindo muito os olhos para lhe fazer sentir que estava apenas a avisá-la, deu dois passos com afectação e serviu-se de outra bebida.

Embaraçada, embora não sem um certo agrado por ter sido objecto de atenção durante esta conversa, Rosemary procurou um lugar para se sentar. Era óbvio que cada família possuía a faixa de areia imediatamente em frente do seu chapéu-de-sol; para além disso, visitavam-se com frequência e conversavam à distância - a atmosfera de uma comunidade em que qualquer intromissão se tornaria insolente. Mais acima, onde a praia se cobria de seixos e algas mortas, estava sentado um grupo de pessoas com a pele tão branca como a sua. Estendiam-se debaixo de pequenas sombrinhas em vez de chapéus-de-sol, e era notório que não estavam tão familiarizadas com o local. Entre uns e outros, Rosemary arranjou lugar e estendeu a toalha na areia.

Deitada, começou por ouvir-lhes as vozes e sentiu-lhes os passos roçarem-lhe o corpo e as suas sombras interpuseram-se entre o Sol e ela. O bafo de um cão curioso soprou-lhe, quente e nervoso, no pescoço; sentia a pele a escaldar e ouvia o murmurar das ondas que vinham morrer na areia. Pouco depois, distinguiu vozes e apercebeu-se de que uma se referia com desdém «àquele tipo, o North» que raptara um criado de um café de Cannes, na noite anterior, para o cortar em dois. A responsável pela história era uma mulher de cabelo branco, de vestido de noite, obviamente uma relíquia do serão anterior, já que conservava ainda uma tiara na cabeça e uma orquídea murcha no ombro. Rosemary, sentindo uma vaga antipatia por ela e pelos companheiros, virou-se para o outro lado.

Mais perto dela, do lado oposto, estava deitada uma mulher jovem, debaixo de um tecto de chapéus-de-sol, copiando uma lista de coisas de um livro aberto na areia. Tinha o fato de banho afastado dos ombros e das costas. O tom corado, castanho-alaranjado da pele contrastava com um colar de pérolas creme e brilhava ao sol. O rosto era duro, belo e magoado. Os seus olhos encontraram os de Rosemary mas não a viram. Por trás dela, estava um homem atraente com um boné de jóquei e calções às riscas vermelhas. A seguir, a mulher que Rosemary vira na jangada e que olhara para trás perseguindo-a com o olhar.

Depois, um homem de rosto comprido e cabeça dourada e leonina, de calções azuis e sem chapéu, falava com ar sério com um jovem de calções pretos, que era sem dúvida latino. Ambos brincavam com pedaços de algas que havia na areia. Rosemary estava convencida de que se tratava de americanos na sua maior parte, mas algo os diferenciava dos que conhecera ultimamente.

Passado pouco tempo, apercebeu-se que o homem com o boné de jóquei oferecia um pequeno espectáculo mudo a este grupo; movimentava-se solenemente com um ancinho na mão, removendo ostensivamente o pedrisco, ao mesmo tempo que o seu rosto grave representava uma qualquer farsa esotérica. A mais simples das suas expressões tornava-se hilariante, a tal ponto que qualquer coisa que ele dissesse desencadeava uma gargalhada geral. Mesmo os que, como ela, estavam longe demais para o ouvir, prestavam toda a atenção. A mulher jovem de colar de pérolas era a única desinteressada. Talvez pela modéstia que advém da posse, ela respondia a cada aclamação inclinando-se ainda mais sobre a sua lista.

A voz do homem do monóculo e da garrafa chegou subitamente aos ouvidos de Rosemary vinda do alto:

- Você é uma excelente nadadora. Ela vacilou.

- Muito boa, mesmo. Chamo-me Campion. Está aqui uma senhora que diz que a viu em Sorrento, na semana passada. Conhece-a e gostaria muito de lhe ser apresentada.

Olhando à volta com dissimulado aborrecimento, Rosemary reparou que as pessoas não bronzeadas a aguardavam. Levantou-se com relutância e dirigiu-se a elas.

- A senhora Abrams... A senhora McKisco. O senhor McKisco... o senhor Dumphry...

- Nós conhecêmo-la - disse a mulher de fato de noite. - Você é a Rosemary Hoyt. Reconheci-a em Sorrento e confirmei com o empregado do hotel. Todos achamos que você é estupenda e queremos saber por que não volta para a América para fazer outro daqueles filmes maravilhosos.

Fizeram um movimento supérfluo de avançar na sua direcção. A mulher que a reconhecera não era judia, apesar do nome. Era uma daquelas mulheres bem humoradas, preservada por uma impenetrabilidade a toda a prova e um bom relacionamento com a geração mais nova.

- Quisemos avisá-la do perigo de ficar demasiado queimada no primeiro dia - continuou alegremente - porque a sua pele é importante, mas há um diabo de uma formalidade nesta praia que estávamos com receio de lhe falar.

 

- Pensávamos que talvez pertencesse à conspiração - disse a senhora McKisco.

Era uma mulher nova e bonita, com um olhar mesquinho de uma intensidade desanimadora.

- Não sabemos quem faz ou não parte dela. Um homem para quem o meu marido foi particularmente simpático, revelou-se uma das principais personagens... praticamente o herói - prosseguiu.

- A conspiração? - perguntou Rosemary, sem compreender bem. Existe uma conspiração?

- Minha querida, nós não sabemos - disse a senhora Abrams, com um cacarejo compulsivo de mulher corpulenta. - Não fazemos parte dela. Estamos na plateia.

O senhor Dumphry, um jovem efeminado e de cabelo cor de serapilheira, observou:

- A mamã Abrams é ela própria uma conspiração. Campion ameaçou-o com o monóculo:

- Então, Royal, não sejas tão maldoso com as palavras.

Pouco à vontade, Rosemary olhou-os desejando que a mãe tivesse vindo com ela. Não gostava desta gente, especialmente ao compará-la com a do outro extremo da praia, que lhe despertara o interesse. Os modestos, mas sólidos, dotes sociais da mãe salvavam-nas de situações indesejáveis com prontidão e firmeza. Mas Rosemary era uma celebridade há apenas seis meses e, por vezes, os costumes franceses do início da sua adolescência e os costumes democráticos da América, que se sobrepunham aos primeiros, faziam-lhe uma certa confusão e criavam-lhe problemas neste tipo de situações.

McKisco, um homem de trinta anos, magro, ruivo e sardento, não achou graça ao tema da «conspiração». Estivera a observar fixamente o mar... e naquele momento, depois de um rápido olhar de soslaio à mulher, voltou-se para Rosemary e perguntou-lhe em tom agressivo:

- Está cá há muito tempo?

- Só há um dia.

-Oh!

Ciente de que o tema da conversa se alterara completamente, olhou em volta para os outros.

- Vai ficar até ao fim do Verão? - perguntou a senhora McKisco com inocência - Se ficar pode assistir ao desenrolar da conspiração.

- Por amor de Deus, Violet, não fales mais nisso - explodiu o marido. - Arranja uma brincadeira nova, por amor de Deus!

A senhora McKisco inclinou-se para a senhora Abrams e murmurou audivelmente:

- Ele está nervoso.

- Não estou nervoso - discordou McKisco. - Acontece que não estou mesmo nada nervoso.

Era evidente que estava a ferver - um rubor acinzentado espalhara-se-lhe pelo rosto, anulando toda a eficácia das suas afirmações. De repente, vagamente consciente do seu estado, levantou-se e encaminhou-se para a água, seguido pela mulher. Aproveitando a oportunidade, Rosemary fez o mesmo.

McKisco respirou profundamente e esbracejou com vigor nas águas do Mediterrâneo. Percebia-se que queria dar a impressão de que nadava em estilo livre. Já sem fôlego, levantou a cabeça e olhou em volta com uma expressão de surpresa por não ter ainda perdido de vista a costa.

- Ainda não aprendi a respirar. Nunca compreendi bem como é que se respira.

Olhou para Rosemary com ar inquiridor.

- Acho que se deve expirar debaixo de água - explicou ela - e, de quatro em quatro braçadas, volta-se a cabeça de lado, para inspirar.

- A respiração é o mais difícil para mim. Vamos até à jangada?

O homem de cabeça leonina estava estendido na jangada, que oscilava para a frente e para trás com o movimento da água. Assim que a senhora McKisco lá chegou o homem içou-a, puxando-lhe o braço com um gesto rude e repentino.

- Tive medo que a jangada a magoasse.

A voz dele era baixa e tímida; tinha um dos rostos mais tristes que Rosemary vira alguma vez; os malares proeminentes de um índio; um longo lábio superior e olhos enormes e profundos de um castanho dourado escuro. Dissera aquilo entre dentes, como se esperasse que as suas palavras chegassem até à senhora McKisco por um caminho discreto e sinuoso. Num instante saltou para a água e o seu longo corpo quedou-se imóvel a boiar, voltado para a praia.

Rosemary e a senhora McKisco ficaram a olhar para ele. Quando se cansou, o corpo dele dobrou-se repentinamente ao meio, as coxas magras surgiram à superfície e desapareceu totalmente, deixando um leve rasto de espuma atrás de si.

- Ele nada bem - disse Rosemary,

A resposta da senhora McKisco surgiu com uma violência surpreendente:

- Mas é um músico falhado.

Voltou-se para o marido que, depois de duas tentativas vãs, conseguira finalmente subir para a jangada e estava a tentar fazer uma espécie de pirueta compensatória que não resultou em mais que um novo desequilíbrio.

- Estava precisamente a dizer que o Abe North pode ser um nadador, mas é um músico falhado.

- Sim  - concordou Mckisco, relutante.

Era óbvio que fora ele quem criara o mundo da mulher e não lhe permitia grandes liberdades dentro dele.

- Antheil é o meu ídolo - disse a senhora McKisco em tom de desafio. voltando-se para Rosemary. - Antheil e Joyce, Não me parece que alguma vez tenha ouvido falar deles em Hollywood, mas o meu marido escreveu a primeira crítica do Ulisses que apareceu na América.

- Quem me dera fumar um cigarro - disse McKisco calmamente.

É o mais importante para mim, neste momento. - Ele tem garra, não achas, Albert?

A voz dela sumiu-se de repente. A mulher das pérolas fora juntar-se aos dois filhos, na água, e nessa altura Abe North irrompeu de baixo de um deles como uma ilha vulcânica, erguendo-o sobre os ombros. A criança gritou de medo e satisfação e a mãe olhou-os com uma tranquilidade maravilhosa, sem esboçar um sorriso.

- É a mulher dele? - perguntou Rosemary.

- Não, é a senhora Diver. Eles não estão no hotel.

O seu olhar fotográfico não se afastava do rosto da mulher. Pouco depois, voltou-se para Rosemary, perguntando num tom veemente: - Já tinha estado no estrangeiro antes?

- Já... Estive no colégio em Paris.

- Oh! Então talvez saiba que se quiser divertir-se aqui, o que tem a fazer é travar conhecimento com algumas famílias francesas. O que é que estas pessoas aproveitam disto?

Apontou com o ombro esquerdo para a costa.

- Fecham-se em pequenos grupos. Claro que nós trazíamos cartas de apresentação e travámos conhecimento com todos os melhores artistas e escritores franceses em Paris, Foi muito agradável.

- Calculo que sim.

- O meu marido está a acabar o seu primeiro romance, sabe?

- Ah, está?

Rosemary não estava a pensar em nada de especial, perguntava-se simplesmente se a mãe teria adormecido com aquele calor.

- É do género do Ulisses - continuou a senhora Mckisco, - Só que em vez de levar vinte e quatro horas, o meu marido leva cem anos. Pega num velho aristocrata francês em decadência e estabelece uma comparação entre ele e a máquina da era industrial...

- Oh, por amor de Deus, Violet, não andes a contar a história a toda a gente - protestou Mckisco. - Não quero que seja divulgada antes de o livro ser publicado.

Rosemary nadou para a costa, pôs a toalha à volta dos ombros doridos e deitou-se novamente ao sol. O homem com o boné de jóquei andava agora de chapéu-de-sol em chapéu-de-sol com uma garrafa e pequenos copos na mão. Em pouco tempo ele e os amigos ficaram mais animados e juntaram-se mais.

Estavam agora todos debaixo de um aglomerado de chapéus-de- -sol. Rosemary calculou que algum deles estaria de partida e que aquela seria a sua última bebida na praia. Até mesmo as crianças se aperceberam da animação que começava a gerar-se debaixo daquele chapéu e voltaram-se para lá. Rosemary estava convencida de que tudo irradiava do homem do boné.

O meio-dia dominava o mar e o céu - até mesmo a linha branca de Cannes, a cinco milhas de distância, se tinha desvanecido como uma miragem de frescura; um barco à vela colorido puxava atrás de si um cabo, do mar alto e sombrio. Parecia não haver vida em toda esta extensão da costa, excepto sob a luz filtrada pelos chapéus-de-sol, onde algo prosseguia entre a cor e o murmúrio.

Campion aproximou-se de Rosemary, parou a pouca distância e a rapariga fechou os olhos, fingindo que estava a dormir; depois entreabriu-os e viu dois pilares estreitos e escuros que eram as pernas dele. O homem tentou rodear o seu percurso de uma nuvem de areia colorida, mas a nuvem desvaneceu-se no céu imenso e escaldante. Nessa altura, Rosemary adormeceu.

Acordou encharcada em suor e descobriu que a praia estava deserta com excepção do homem de boné de jóquei que estava a dobrar um último chapéu-de-sol. Assim que Rosemary começou a abrir os olhos, ele aproximou-se e disse:

- Ia acordá-la antes de me ir embora. Não é aconselhável bronzear-se

tão depressa.

- Obrigada.

Rosemary olhou para as pernas vermelhas.

- Meu Deus!

Riu-se alegremente, convidando-o a falar, mas Dick Diver transportava já a barraca e o chapéu-de-sol para um automóvel e ela foi até à água para limpar o suor. Ele voltou, juntou um ancinho, uma pá e uma peneira e arrumou-os na fenda de uma rocha. Olhou em redor para verificar se teria deixado alguma coisa esquecida na praia.

- Sabe que horas são? - perguntou Rosemary.

- Quase uma e meia.

Por momentos olharam ambos o mar.

- Não me desagrada esta hora - disse Dick Diver. - Não é das piores alturas do dia.

Ele olhou-a e, por momentos, a rapariga habitou o mundo brilhante dos seus olhos azuis, com avidez e confiança. Então ele pôs ao ombro as últimas coisas e subiu direito ao automóvel. Rosemary saiu da água, sacudiu a toalha e encaminhou-se para o hotel.

 

Eram quase duas horas quando mãe e filha entraram na sala de refeições. Os pinheiros lá fora projectavam sombras vacilantes sobre as mesas desertas. Dois criados, que empilhavam pratos e falavam alto em italiano, calaram-se quando elas entraram e trouxeram-lhes um exemplar da ementa do almoço, já um tanto desfalcada.

- Apaixonei-me na praia - anunciou Rosemary.

- Por quem?

- Primeiro por um grupo de pessoas que me pareceram simpáticas. Depois por um homem. - Falaste com ele?

- Pouco. É muito atraente. Ruivo.

Rosemary comia com apetite devorador.

- Mas é casado... como não podia deixar de ser.

A mãe era a sua melhor amiga e tinha apostado tudo na sua educação, atitude que não era rara no mundo dos actores. Mas o que a tornava especial era o facto de a senhora Elsie Speers não procurar compensação para os seus fracassos pessoais. Não sentia azedume ou ressentimento em relação à sua vida - dois casamentos felizes que tinham terminado em viuvez haviam aprofundado o seu estoicismo bem humorado. Um dos maridos tinha sido oficial de cavalaria e o outro médico do exército, e ambos lhe tinham deixado algo que ela tentava transmitir intacto a Rosemary. Não poupava a filha como não se poupava a si própria a esforços e dedicação. Tinha assim cultivado em Rosemary um idealismo de que ela própria era objecto e graças ao qual a filha via o mundo através dos olhos da mãe. Por isso, enquanto Rosemary fora «apenas» uma criança, tinha sido protegida por um duplo escudo formado pela mãe e por si própria. Sentia uma desconfiança prudente perante o trivial, o fácil e o vulgar. Contudo, com o sucesso repentino de Rosemary no cinema, a senhora Speers achou que era tempo de a filha se tornar espiritualmente independente. Agradar-lhe-ia mais do que a faria sofrer se esse idealismo, exigente, impaciente, por vezes mesmo excessivo, se voltasse para outra pessoa.

- Então, gostas disto aqui? - perguntou.

- Podia ser divertido se conhecêssemos aquela gente. Havia mais pessoas mas não eram simpáticas. Reconheceram-me... A qualquer sítio onde vamos já toda a gente viu Daddy's Girl.

A senhora Speers esperou que o acesso de egotismo se desvanecesse e então disse, de uma forma pragmática:

- A propósito, quando vais visitar o Earl Brady?

- Talvez pudéssemos ir hoje à tarde, se não estiver cansada.

- Tu vais, eu não vou.

- Então esperamos até amanhã.

- Eu quero que vás sozinha. Não é longe e tu sabes falar francês.

- Mãe... Haverá alguma coisa que eu não tenha de fazer?

- Bem, então vais mais tarde, mas antes de nos irmos embora.

- Está bem, mãe.

Depois do almoço foram ambas acometidas do súbito desânimo que contagia os turistas americanos em lugares estranhos e sossegados. Sem estímulos, sem vozes a chamá-las do exterior, sem fragmentos dos seus próprios pensamentos vindos subitamente de mentes alheias, sentiam a falta do ruído da civilização, sentiam que a vida tinha parado ali.

- Fiquemos só três dias, mãe - disse Rosemary quando voltaram para os quartos.

fora uma brisa agitou o calor envolvente, filtrando-o através das árvores e lançando pequenas lufadas quentes pelas persianas.

- Fala-me do homem por quem te apaixonaste na praia.

- Só a amo a si, querida mãe.

 

Rosemary parou no vestíbulo e falou com o senhor Gausse acerca de comboios. O porteiro, recostado à secretária, e vestido de caqui castanho-claro, olhava para ela com dureza. Lembrou-se, subitamente, das maneiras a que o obrigava o seu ofício. Ela tomou o autocarro e seguiu para a estação acompanhada por dois criados subservientes, embaraçada pelo seu silêncio deferente e desejosa de os incitar: «Vá lá, falem, divirtam-se. Isso não me incomoda.»

Sufocava-se na carruagem de primeira classe. Os cartazes de cores vivas das companhias de caminhos-de-ferro - a ponte de Gard em Arles, o anfiteatro em Orange, desportos de Inverno em Chamonix - eram mais frescos que o vasto mar imóvel que se avistava lá fora. Ao contrário dos comboios americanos, absorvidos na intensidade do próprio destino e desdenhosos das pessoas de um outro mundo menos rápido e ofegante, este comboio fazia parte da paisagem por onde passava. O seu sopro agitava a poeira das folhas das palmeiras enquanto as cinzas se misturavam com a folhagem seca dos jardins. Rosemary tinha a certeza de que poderia debruçar-se da janela e apanhar flores à mão.

Uma dúzia de cocheiros dormia nas carruagens, à saída da estação de Cannes. Ao longo da alameda do Casino, as lojas elegantes e os grandes hotéis voltavam máscaras de ferro vazias para o mar de Verão. Era inacreditável que alguma vez pudesse ter existido uma saison e Rosemary, que já se sentia meio comprometida com a moda, experimentou um certo mal-estar, como se ostentasse um gosto doentio pelos agonizantes. Como se as pessoas se admirassem de a ver ali, longe da agitação, entre as alegrias do Inverno passado e as do seguinte, enquanto no Norte o mundo real continuava a fervilhar.

Saía de uma farmácia onde acabara de comprar óleo de coco, quando uma mulher, em quem reconheceu a senhora Diver, se lhe atravessou no caminho com os braços cheios de almofadas, dirigindo-se para um automóvel que estava estacionado ali próximo. Um cãozito preto ladrou-lhe e o motorista acordou sobressaltado. A senhora Diver sentou-se no automóvel, o belo rosto firme e controlado, o olhar vivo e atento não fixando nada em particular. Tinha um vestido vermelho garrido e não trazia meias nas pernas bronzeadas. O cabelo espesso, de um dourado sombrio, fazia lembrar o pêlo de um pequinês.

Como tinha de esperar ainda meia hora pelo comboio, Rosemary sentou-se no Café des Alliés, na Croisette, onde as árvores projectavam um verde crepuscular sobre as mesas e a orquestra oferecia a um público hipotético e cosmopolita a marcha do Carnaval de Nice, além de melodias americanas em voga no ano anterior. Tinha comprado Le Temps e The Saturday Evening Post para a mãe e, enquanto bebia uma limonada, abriu o último na página onde vinham as memórias de uma princesa russa. As convenções obscuras do século passado pareceram-lhe mais reais e próximas que os cabeçalhos do jornal francês. Era o mesmo sentimento que a oprimia no hotel. Habituada a ver os acontecimentos mais extravagantes serem rotulados, pelos jornais do seu continente, de comédia ou de tragédia com a maior seriedade, era incapaz de distinguir por si própria o essencial e começava a sentir que a vida em França era vazia e sem brilho. Impressão que era reforçada pela música triste da orquestra, reminiscência nostálgica da que é tocada para acompanhar os números de acrobatas no vaudeville. Sentia-se contente por voltar para o Hotel de Gausse.

No dia seguinte, o seus ombros estavam demasiado queimados para poder nadar; por isso ela e a mãe alugaram um automóvel - depois de muita discussão, já que Rosemary tinha feito um plano do que havia de gastar em França - e seguiram ao longo da Riviera, o delta de muitos rios. O motorista, uma espécie de czar russo do período de Ivan, o Terrível, tinha-se oferecido como guia. Os nomes resplandecentes - Cannes, Nice, Monte Carlo - começaram a brilhar através das suas camuflagens entorpecidas, contando segredos sobre antigos reis que aqui tinham vindo para jantar ou morrer, sobre rajás que arremessavam as pedrarias de que são feitos os olhos de Buda a bailarinas inglesas, sobre príncipes russos que transformavam as semanas em crepúsculos bálticos, nos velhos tempos do caviar. Acima de tudo, havia o toque dos russos ao longo da costa - as suas livrarias e mercearias agora fechadas. Dez anos antes, quando a saison acabava em Abril, as portas da Igreja Ortodoxa eram trancadas e os doces champanhes da sua preferência eram guardados até que voltassem.

- Voltamos na próxima época - prometiam prematuramente. Mas nunca mais voltavam.

Era agradável fazer a viagem de regresso para o hotel, ao cair da tarde, sobre um mar tão misteriosamente colorido como as ágatas e as cornalinas  da infância, esverdeado como o leite fresco, azulado como a água da barrela, escuro como o vinho. Era agradável passar pelas pessoas que comiam ao ar livre à porta das suas casas e ouvir o som estridente dos pianos mecânicos, por trás das latadas dos pequenos cafés de aldeia. Quando deram a volta à Corniche d'Or e desceram até ao Hotel de Gausse por entre as filas sombrias de árvores dispostas umas atrás das outras em muitos tons de verde, a Lua pairava já sobre as ruínas dos aquedutos...  

 

O problema ficou resolvido. Os McKisco ainda lá não estavam e ela tinha acabado de estender a toalha quando dois homens - o do boné de jóquei e o alto e louro, com propensão para serrar criados ao meio - abandonaram o grupo e se encaminharam para ela.

- Bom dia - disse Dick Diver. Calou-se e depois continuou:

- Queimada ou não, por que não apareceu ontem? Ficámos preocupados consigo.

Rosemary sentou-se e deu-lhe as boas-vindas com o seu risinho feliz.

- Perguntámo-nos se não viria esta manhã. Vamos comer e beber qualquer coisa. É um convite substancial - disse Dick Diver.

Mostrava-se atencioso e encantador - a sua voz era a promessa de que tomaria conta dela e que, um pouco mais tarde, abriria mundos inteiramente novos a seus olhos, desenrolando uma sucessão infindável de magníficas possibilidades. Conseguiu apresentá-la sem lhe mencionar o nome, e depois fê-la aperceber-se de que todos sabiam quem ela era, embora respeitassem a sua vida privada - uma cortesia de que Rosemary não fora alvo desde o seu sucesso, excepto por parte de outros profissionais.

Nicole Diver, cujas costas bronzeadas contrastavam com as pérolas, procurava num livro a receita da galinha Maryland. Tinha cerca de vinte e quatro anos, pelos cálculos de Rosemary. O rosto podia ser descrito em termos de beleza convencional, mas o efeito era o de algo que tinha começado por ser talhado à escala heróica com uma forte estrutura e marcação, como se as feições, a vivacidade de expressão e as cores, tudo o que associamos ao temperamento e ao carácter, tivessem sido modeladas com a determinação de um Rodin e em seguida cinzeladas de modo a atingir um grau de beleza em que um simples lapso teria irremediavelmente diminuído a sua força e qualidade. Com a boca, o escultor teria feito tentativas desesperadas - era o arco de Cupido de uma capa de revista, e no entanto, compartilhava a distinção do resto.

- Está cá há muito tempo? - perguntou Nicole.

A sua voz era baixa, quase áspera. De repente, Rosemary pensou que poderiam ficar mais uma semana.

- Não há muito - respondeu vagamente. - Estivémos no estrangeiro muito tempo, desembarcámos na Sicília em Março e temos vindo a caminhar lentamente para norte. Apanhei uma pneumonia em Janeiro passado, quando estava a filmar, e tenho estado a convalescer.

- Meu Deus! Como aconteceu isso?

- Bem, foi de nadar - Rosemary estava relutante em entrar em revelações pessoais. - Um dia apanhei gripe sem saber e estava a rodar uma cena em que tinha de mergulhar num canal em Veneza. Era uma série muito cara, portanto tive de mergulhar vezes sem conta durante toda a manhã. A mãe chamou imediatamente um médico mas não havia nada a fazer, eu estava com pneumonia.

Rosemary mudou de assunto com determinação antes que eles dissessem alguma coisa.

- Gostam disto aqui, deste lugar?

- Têm de gostar - disse Abe North lentamente. - Foram eles que o inventaram.

O homem voltou a cabeça devagar, de forma que o seu olhar pousou nos Diver com ternura e afeição.

- Ah, sim?

- Esta é apenas a 'segunda vez que o hotel abriu no Verão - explicou Nicole. - Convencemos Gausse a manter um cozinheiro, um empregado e um moço de recados. Chegou para as despesas e este ano está a correr ainda melhor.

- Mas vocês não estão no hotel.

- Nós construímos uma casa lá em cima, em Tarmes.

Dick, preparando um chapéu-de-sol para afastar do ombro de Rosemary uma réstea de sol, disse:

- A teoria baseia-se em que todos os lugares a norte, como Deauville, foram apanhados pelos russos e pelos ingleses que não se importam com o frio, enquanto uma boa parte de nós, americanos, vem de climas tropicais. É esta a razão por que começámos a vir para aqui.

O jovem de aspecto latino estivera a folhear The New York Herald.

- Qual é a nacionalidade desta gente? - perguntou repentinamente e leu, com um leve sotaque francês: «No Hotel Palace, em Vevey, estão hospedados o senhor Pandely Vlasco, a senhora Bonneasse», não estou a exagerar, «Corina Mendonça, Mme. Pasche, Seraphim Tullio, Maria Amália Roto Mais, Moises Teubel, a senhora Paragoris, Apostle Alexandre, Yolanda Yosfuglu e Geneveva de Momus!» É esta que mais me atrai: Geneveva de Momus. Quase valia a pena ir a Vevey só para ver Geneveva de Momus.

Levantou-se com uma súbita inquietação, espreguiçando-se com um movimento ríspido. Era uns anos mais novo que Diver ou North. Alto, o seu corpo era rijo mas muito magro, excepto nos ombros e nos braços, onde se concentrava toda a força. À primeira vista, parecia de uma beleza convencional, mas havia sempre no seu rosto um leve assomo de desagrado que desfigurava o brilho intenso dos olhos castanhos. Contudo, lembrávamo-nos deles mais tarde, já depois de termos esquecido a incapacidade da boca para  suportar o tédio e a testa juvenil com rugas de mau-humor e de dor inútil.

- Encontrámos alguns nomes com piada nas notícias sobre os americanos, a semana passada - disse Nicole. - A senhora Evelyn Oyster* e... Quais eram os outros?

- Havia o senhor S. Flesh** - disse Dick, levantando-se também. Pegou no ancinho e empenhou-se em separar pedrinhas da areia.

- Ah, é verdade, o senhor Flesh... Não vos provoca arrepios?

Era repousante estar a sós com Nicole. Rosemary achou que era ainda mais calmo do que estar com a mãe. Abe North e Barban (o francês), falavam acerca de Marrocos, e Nicole, depois de ter copiado uma receita, começou a coser. Rosemary observou as coisas que lhes pertenciam: quatro grandes chapéus-de-sol que formavam uma abóbada de sombra, uma cabina portátil para mudar de roupa, um cavalo de borracha pneumático, coisas novas que Rosemary nunca vira desde os primeiros artigos de luxo que tinham aparecido depois da guerra, e provavelmente nas mãos do primeiro comprador. Ela tinha-os na conta de pessoas elegantes, modernas, e, embora a mãe a tivesse educado alertando-a para a futilidade dessas pessoas, não as sentia como tal. Mesmo naquela imobilidade, tão completa como a da manhã, sentia que tinham um propósito, uma tarefa qualquer, um rumo, que realizavam um acto de criação diferente de qualquer outro que ela tivesse conhecido. O seu espírito imaturo não especulava sobre a natureza das relações que mantinham entre eles, só se preocupava com a sua atitude em relação a ela, mas apercebia-se da teia formada por algumas inter-relações agradáveis, que ela identificava como a capacidade que tinham de se divertir.

Olhou para os três homens, analisando-os com imparcialidade. Os três eram detentores de personalidades diferentes; todos possuíam uma simpatia muito especial que ela sentia que fazia parte das suas vidas, passadas e futuras, não referenciada pelos acontecimentos, de forma alguma idêntica à maneira de conviver dos actores, e detectou também uma delicadeza generalizada, diferente da camaradagem rude e pronta dos realizadores que, na vida dela, desempenhavam o papel de intelectuais. Actores e realizadores eram os únicos homens que ela conhecera, esses e a massa heterogénea e indistinta dos colegas de escola que conhecera em Yale no último Outono, apenas interessados no amor à primeira vista.

Estes três eram diferentes. Barban era menos civilizado, mais céptico e trocista. Era formal, mesmo superficial. Abe North, apesar de tímido, tinha um humor cortante que a divertia e confundia. Rosemary tinha consciência de que a sua natureza era demasiado séria para o impressionar de forma durável.

Mas Dick Diver... Esse estava lá em plenitude. A rapariga admirava-o em silêncio. Era ruivo e bronzeado. Tinha o cabelo bem aparado e uma penugem fina cobria-lhe os braços e as mãos. Os olhos eram de um azul brilhante e duro.

 

* Oyster – ostra

** Flesh - carne

 

Tinha o nariz ligeiramente afilado e era sempre directo quando olhava ou falava com alguém - o que é lisongeiro da parte de quem nos olha - os olhares de soslaio ou são curiosos ou desinteressados, nada mais. A voz, atravessada por uma leve musicalidade irlandesa, cortejava o mundo; ainda assim, sentia-se nela um toque de dureza, de autodomínio e de disciplina, as próprias virtudes de Rosemary. Sim, ela escolheu-o e Nicole, ao levantar a cabeça, apercebeu-se dessa escolha e ouviu o ligeiro suspiro que emanava do facto de ele não ser livre.

Perto do meio-dia, os McKisco, a senhora Abrams, o senhor Dumphry e o Signo r Campion chegaram à praia. Traziam um chapéu-de-sol novo, que abriram, olhando de soslaio para os Diver, e todos, com excepção do senhor McKisco, que se manteve de fora sem razão aparente, se alojaram lá debaixo. Alisando a areia com o ancinho, Dick passara por eles e voltara então para o seu chapéu-de-sol.

- Os dois rapazes estão a ler o Manual de Etiqueta - disse ele em voz baixa.

- Tencionam fazer boa figura em sociedade - respondeu Abe. Mary North, a jovem muito bronzeada que Rosemary encontrara na jangada

no primeiro dia, veio da água e disse com um sorriso de um brilho libertino: - Com que então o senhor e a senhora Inabaláveis chegaram!

- São amigos deste senhor - lembrou Nicole, indicando Abe.

- Por que é que ele não vai falar-lhes? Não os acha interessantes?

- Acho que são muito interessantes - concordou Abe. - Mas não acredito que o sejam, e pronto.

- Tenho reparado que há gente a mais na praia, este Verão - admitiu Nicole. - A nossa praia, que o Dick fez de um monte de seixos.

Ficou a pensar e, depois, baixando a voz de maneira que as três amas sentadas debaixo de outro chapéu-de-sol não a ouvissem, prosseguiu:

- Ainda assim, são melhores que aqueles ingleses do Verão passado que gritavam por todo o lado: «O mar não está azul? O céu não está esbranquiçado? O narizinho de Nelly não está vermelho?»

Rosemary pensou que não gostaria de ter Nicole como inimiga.

- Mas você não viu a luta - continuou Nicole. - Na véspera da sua chegada, o homem casado, aquele que tem um nome que parece um sucedâneo de gasolina ou de manteiga...

- McKisco?

- Sim. Bem, eles estavam a discutir e ela atirou-lhe areia à cara. Então, com a maior naturalidade, ele sentou-se em cima dela e esfregou-lhe a cara na areia. Nós ficámos... siderados. Eu quis que Dick interferisse.

- Acho que vou lá convidá-los para jantar - disse Dick Diver, olhando a esteira com ar abstracto.

- Não, não vais! - disse-lhe Nicole rapidamente.

- Acho que era uma boa ideia. Eles estão aqui... temos de nos adaptar.

- Já estamos suficientemente adaptados - insistiu ela, rindo. - Não quero o meu nariz esfregado na areia, sou uma mulher má e cruel - explicou, dirigindo-se a Rosemary. E levantando a voz:

- Meninos, vistam os fatos de banho.

Rosemary sentiu que este banho se transformaria num símbolo e que lhe viria sempre à memória quando se falasse de nadar. Foram todos para a água ao mesmo tempo, saindo da inacção longa e forçada, passando do calor para o fresco, com a satisfação de quem saboreia um caril bem picante acompanhado de um vinho branco gelado. O dia dos Diver era compartimentado como os dias das antigas civilizações, de forma a tirar o maior partido dos materiais disponíveis e a valorizar todas as transições. Rosemary ignorava que em breve haveria outra transição entre o enorme prazer do banho e a tagarelice própria da hora do almoço na Provença. Mas, mais uma vez, pressentia que Dick tomava conta dela e deliciava-se em corresponder a um eventual movimento, como se tivesse recebido uma ordem.

Nicole entregou ao marido a curiosa peça de roupa em que estivera a trabalhar. Dick dirigiu-se para a tenda onde mudavam de roupa e provocou um sobressalto ao aparecer de repente em cuecas transparentes de renda preta. Mais de perto percebia-se que eram forradas de tecido cor de carne.

- Bom, se isto não é uma provocação!... - exclamou o senhor McKisco com desprezo.

Depois, virando-se de repente para o senhor Dumphry e o senhor Campion, acrescentou:

- Oh, peço desculpa!

Rosemary ficou deliciada. Na sua ingenuidade entregava-se de todo o coração à simplicidade extravagante dos Diver, sem se aperceber da sua complexidade e falta de inocência, sem se aperceber de que resultava de uma escolha, da qualidade mais do que da quantidade, das coisas que a vida pode oferecer. Sem se aperceber também de que a própria simplicidade do comportamento deles, a paz e boa vontade quase infantis, a ênfase nas virtudes mais simples, faziam parte de um pacto desesperado com os deuses e tinham sido alcançadas através de lutas de que ela não podia suspeitar.

Os Diver representavam o expoente máximo da evolução de uma classe, de forma que a maior parte das pessoas parecia desajeitada ao pé deles. Na verdade, havia algo neles que correspondia a uma mudança qualitativa que não era evidente para Rosemary.

Ficou junto deles enquanto bebiam Xerez, petiscando bolachas.

Dick Diver olhou-a com os seus olhos azuis e frios, e a boca meiga e dura e disse pensativa e deliberadamente:

- Há muito tempo que não via uma jovem que, como você, me desse a impressão de estar a desabrochar.

Mais tarde, Rosemary chorou copiosamente no regaço da mãe.

- Eu amo-o, mãe. Estou desesperadamente apaixonada por ele, nunca pensei poder vir a sentir algo semelhante por alguém. E ele é casado e eu também gosto da mulher. É desesperante! Oh, amo-o tanto!

- Tenho curiosidade em conhecê-lo.

- Ele convidou-nos para jantar na sexta-feira.

- Se estás apaixonada, deverias sentir-te feliz. Deverias rir.

Rosemary levantou os olhos, sacudiu graciosamente o rosto e riu. A mãe sempre tivera uma grande influência sobre ela.

 

Rosemary foi para Monte Carlo muito contrariada. Subiu de automóvel o monte escarpado até La Turbie, para ir visitar uma velha propriedade de Gaumont, em reconstrução. Ficou junto do portão gradeado à espera da resposta à mensagem que tinha enviado num cartão. Poderia estar a olhar para Hollywood. Os escombros bizarros de um filme recente, um cenário decadente de uma rua na Índia, uma enorme baleia de cartolina, uma árvore monstruosa donde pendiam cerejas do tamanho de bolas de basquetebol apareciam ali espalhados de forma exótica, tão reais como os pálidos amarantos, as mimosas, os sobreiros e os pinheiros anões. Havia um abrigo para almoços rápidos e dois palcos que pareciam celeiros e, por todo o lado, grupos de pessoas de rosto pintado, aguardando, esperançadas.

Passados dez minutos, um rapaz de cabelo cor de canário correu até ao portão.

- Entre, menina Hoyt. O senhor Brady está nas filmagens mas espera-a ansiosamente. Desculpe ter de ficar à espera, mas sabe, algumas destas senhoras francesas são muito vagarosas...

O encarregado do estúdio abriu uma pequena porta na parede nua do edifício do palco e Rosemary, sentindo-se subitamente familiarizada e alegre, seguiu-o naquela obscuridade. Aqui e ali, vultos animavam a penumbra, voltando para ela rostos lívidos como almas do purgatório que observassem a passagem de um mortal. Havia sussurros e vozes baixas e, aparentemente vindo de longe, o trinado suave de um pequeno órgão. Contornaram diversos estrados e encontraram-se diante de um palco iluminado, onde um actor francês, com uma camisa de peito, colarinhos e punhos de um cor-de-rosa brilhante, e uma actriz americana se mantinham imóveis em frente um do outro. Olhavam-se com obstinação como se estivessem na mesma posição há horas; e durante bastante tempo nada aconteceu, ninguém se mexeu. Um foco de luzes extinguiu-se, com um silvo selvagem, e voltou a ser ligado; o bater lamentoso de um martelo, à distância, parecia implorar a entrada em lugar nenhum; um rosto azulado emergiu das luzes ofuscantes e gritou algo ininteligível para a escuridão. Nessa altura, o silêncio foi quebrado por uma voz à frente de Rosemary.

- Querida, não tires as meias, podes estragar dez pares. Esse vestido custa quinze libras.

Ao recuar, o homem que falara deu um encontrão a Rosemary, o que : levou o encarregado a dizer:

- Tenha cuidado, Earl. Olhe a menina Hoyt.

Era a primeira vez que se encontravam. Brady foi rápido e enérgico. Quando lhe pegou na mão, Rosemary viu que ele a mirava dos pés à cabeça, uma atitude que lhe era familiar e a fez sentir-se em casa, embora denotasse uma certa arrogância da parte de quem a tomava. Se a sua pessoa era considerada propriedade, então ela podia usufruir de todas as vantagens inerentes a essa condição.

- Sempre pensei que havia de vir um dia destes... - disse Brady num torn demasiadamente íntimo e em que se notava um leve sotaque cockney*.

- Está a gostar da viagem?

- Sim, mas estamos contentes por voltar para casa.

- Nããoo! - protestou ele. - Fique mais tempo    Quero falar consigo. Deixe-me que lhe diga, aquele seu filme Daddy's Girl    vi-o em Paris. Telegrafei imediatamente para a Costa para saber se já tinha assinado algum contrato,

- Assinei, sim. Lamento.

- Meu Deus, que filme!

Sem querer sorrir, o que mostraria uma anuência pueril, Rosemary franziu o sobrolho.

- Ninguém quer ser recordado para sempre só por um filme - ripostou.

- Claro, está certo. Quais são os seus planos?

- A mãe achou que eu precisava de descansar. Quando voltar, provavelmente assinamos um contrato com a First National ou continuamos com a Famous.

- Nós quem?

- Eu e a minha mãe. Ela trata da parte comercial. Não conseguiria fazer nada sem ela.

Mais uma vez o homem a mirou de alto a baixo e, enquanto o fazia, qualquer coisa em Rosemary se emocionou. Não era simpatia, nem tãopouco a admiração espontânea que sentira nessa manhã pelo homem da praia. Era como se se tivesse produzido um clique. Ele desejava-a e, até onde as suas emoções virginais podiam ir, ela admitia a entrega com serenidade. Ainda assim, sabia que o esqueceria meia hora depois de o deixar, como um actor que se beija num filme.

- Onde está instalada? - perguntou Brady. - Ah, sim, no hotel de Gausse. Bem, os meus planos para este ano também já estão feitos, mas a carta que lhe escrevi continua válida. Antes fazer um filme consigo do que com qualquer outra rapariga, desde os tempos em que Connie Talmadge era uma miúda.

- Também acho. Por que não volta para Hollywood?

- Não suporto esse sítio infernal. Estou bem aqui. Espere até ao fim desta cena que depois mostro-lhe as instalações.

 

* cockney - fala do East End de Londres.

 

Subiu ao estrado e começou a falar com o actor francês, numa voz baixa e calma.

Passados cinco minutos, Brady continuava a falar e, de tempos a tempos, o francês mudava a posição dos pés e inclinava a cabeça em sinal de concordância. Brady interrompeu bruscamente a conversa e gritou qualquer coisa a respeito das luzes que os surpreenderam com um clarão avassalador. Naquele momento, Rosemary sentiu-se mergulhada na atmosfera de Los Angeles. Com serenidade, movimentava-se novamente através da cidade de finos tabiques, ansiando por regressar. Mas não quis ver Brady com a disposição que calculava que ele teria quando acabasse de falar, e abandonou o local ainda plena daquele fascínio. O mundo do Mediterrâneo era menos silencioso, agora que ela sabia que o estúdio estava ali. Agradaram-lhe as pessoas que encontrou nas ruas e, a caminho do comboio, comprou um par de sandálias.

A mãe ficou contente por ela se ter desempenhado tão bem da sua missão, mas desejava que ela adquirisse uma autonomia completa. A senhora Speers tinha uma aparência fresca, mas estava cansada. Na realidade, os leitos de morte cansam e ela já velara junto de dois.

 

O vinho rosé do almoço deixara Nicole Diver bem disposta. Cruzou os braços de tal forma que a camélia artificial que tinha ao ombro lhe roçou a face e encaminhou-se para o seu bonito jardim sem relva. Este era limitado de um lado pela casa, da qual parecia fluir e também para ela convergir, dos outros dois pela antiga aldeia, e do último por um penhasco em socalcos que descia até ao mar.

Ao longo das paredes do lado da vila tudo era poeira, as vinhas retorcidas, os limoeiros e os eucaliptos, o fortuito carrinho de mão ali deixado há pouco tempo, mas que parecia já fazer parte dele, atrofiado e meio destruído. Nicole ficava invariavelmente surpreendida quando, ao tomar a outra direcção, passava por um canteiro de peónias e entrava numa área tão verde e fresca que as folhas e as pétalas se encaracolavam.

À volta do pescoço, usava um lenço lilás que, mesmo naquela acromática luz solar, lhe projectava no rosto uma tonalidade arroxeada e formava no chão uma sombra da mesma cor que acompanhava os seus passos. O rosto era duro, quase severo, à parte o brilho suave de dúvida dorida que emanava dos seus olhos verdes. O cabelo, antes louro, escurecera, mas ela era agora mais bela aos vinte e quatro anos do que o fora aos dezoito, quando o cabelo brilhava mais do que ela.

Seguindo por um caminho marcado por uma névoa de frescura impalpável, ao longo das pedras brancas que o marginavam, chegou a um lugar donde se avistava o mar e onde havia lanternas apagadas nas figueiras, além de uma grande mesa, cadeiras de verga e um extenso toldo de feira, de Siena, tudo à volta de um grande pinheiro, a maior árvore do jardim. Parou aí, por momentos, a olhar distraidamente para o desenvolvimento dos nastúrcios e dos lírios emaranhados nos caules, como se tivessem brotado de um punhado de sementes atiradas ao acaso, e a ouvir as lamentações e queixas de uma discussão fútil, que se passava dentro de casa. Quando estes sons se desvaneceram no ar estival, continou a andar, entre peónias caleidoscópicas que formavam nuvens rosadas, túlipas negras e castanhas e rosas de caules cor de malva, transparentes como flores de açúcar na montra de uma confeitaria - até que o scherzo de cores, como se não pudesse atingir maior intensidade, se desvaneceu no ar subitamente, entre o céu e a terra, dando lugar a uns degraus humecidos que acompanhavam um desnível de cinco metros.

Aqui havia um poço cujas tábuas se mantinham húmidas e escorregadias mesmo nos dias mais soalheiros. Nicole subiu as escadas do outro lado e entrou na horta; andava depressa, gostava de ser activa, embora por vezes transmitisse uma sensação de repouso que era simultaneamente estático e evocativo. Isto porque ela sabia poucas palavras e não acreditava em nenhuma e, em sociedade, mantinha-se quase sempre em silêncio, só contribuindo com a sua parte de urbanidade com uma parcimónia que se aproximava da avareza. Mas quando os estranhos se sentiam pouco à vontade com esta economia, ela agarrava o tema e arrancava com ele, febrilmente surprendida consigo mesma. Então recuava e largava-o abruptamente, quase com timidez, como um cão de caça obediente que já cumprira o seu dever.

Estava ainda envolvida pela luminosidade verde da horta, quando Dick atravessou o caminho em frente, direito ao seu estúdio de trabalho. Nicole esperou em silêncio até que ele passasse e então atravessou filas de potenciais saladas até chegar a um pequeno pátio onde pombos, coelhos e um papagaio a receberam com uma miscelânea de sons insolentes. Descendo para outro socalco, alcançou um muro baixo e curvo e contemplou o Mediterrâneo, setecentos metros mais abaixo.

Encontrava-se na velha aldeia erigida na colina de Tarmes. A vivenda e o terreno circundante resultavam do aproveitamento de uma fila de casas de camponeses arrimadas aos rochedos. Da combinação de cinco dessas casas pequenas resultara a vivenda e quatro tinham sido deitadas abaixo para fazer o jardim. As paredes exteriores não tinham sido tocadas, de forma que, da estrada que passava lá em baixo, a vivenda não se distinguia da massa violeta acinzentada da povoação.

Por momentos Nicole ficou a observar o Mediterrâneo, mas ali não havia nada para fazer, mesmo com as suas mãos incansáveis. Não tardou que Dick saísse trazendo um telescópio. Olhou através dele na direcção de Cannes. Sem perder tempo, Nicole interpôs-se no seu campo de visão, o que o fez desaparecer no interior da casa e voltar com um megafone. Tinha muitos aparelhos mecânicos pequenos.

- Nicole! - gritou. - Esqueci-me de te dizer que, num último gesto de apostolado, convidei a senhora Abrams, a mulher do cabelo branco. - Eu já suspeitava. É um ultraje.

A facilidade com que a sua resposta o alcançou parecia minimizar a necessidade do megafone. Nicole levantou a voz e gritou: - Estás a ouvir?

- Estou.

Dick baixou o megafone e depois voltou a levantá-lo com obstinação, acrescentando:

- Também vou convidar outras pessoas. Vou convidar os dois rapazes.

- Está bem - concordou ela placidamente.

- Quero dar uma festa mesmo má. Palavra! Quero dar uma festa em que haja zangas, seduções, pessoas a voltarem para casa com os sentimentos feridos e mulheres a desmaiarem na casa banho. Vais ver!

Voltou para dentro e Nicole apercebeu-se de que ele estava dominado por um dos seus estados de espírito mais característicos: uma excitação que arrebatava todos os que se encontravam à sua volta e que inevitavelmente era seguida de uma melancolia que ele não exteriorizava mas que Nicole adivinhava. Esta excitação atingia uma intensidade desmedida em relação à importância real das coisas, gerando um virtuosismo extraordinário na sua relação com os outros. Com poucas excepções, de alguns teimosos e sempre cépticos, tinha a capacidade de suscitar um enlevo deslumbrado e acrítico. A reacção vinha quando ele se apercebia do desperdício e da extravagância que tudo isso implicava. Por vezes, olhava para trás e assustava-se com os carnavais de afecto que despertara, como um general que olhasse para um massacre ordenado para satisfazer um desejo de sangue impessoal.

Mas ser incluído por momentos no mundo de Dick Diver era uma experiência extraordinária: as pessoas acreditavam que ele lhes fazia concessões especiais, reconhecendo com orgulho a singularidade dos seus destinos, soterrada pelos compromissos de muitos anos. Ele conquistava todos num instante com uma consideração muito especial e uma delicadeza que se insinuava tão depressa e intuitivamente que só podia ser examinada através dos seus efeitos. Então, sem reservas, para que o primeiro florescer da relação não murchasse, abria as portas do seu universo alegre. Desde que os outros subscrevessem inteiramente o seu mundo, a sua preocupação era a felicidade deles, mas, à primeira leve suspeita de que esse mundo não. abarcava tudo, volatizava-se diante deles, não deixando vestígios consistentes do que dissera ou fizera.

Às oito e meia dessa noite, saiu para receber os primeiros convidados. Trazia o casaco na mão, de uma forma cerimoniosa e prometedora, como se fosse a capa de um toureiro. Foi típico o facto de ter deixado que Rosemary e a mãe fossem as primeiras a falar, depois de as ter cumprimentado, como que permitindo-lhes a adaptação das suas próprias vozes a um ambiente novo.

Para retomar o ponto de vista de Rosemary, poderia afirmar-se que, sob o fascínio da subida para Tarmes e a atmosfera mais fresca, ela e a mãe olhavam em volta com ar apreciador. Assim como as qualidades próprias de pessoas extraordinárias podem torná-las vulgares quando de uma mudança de expressão não habitual, também a perfeição intensamente calculada da Vivenda Diana sobressaía imediatamente de raras falhas momentâneas, como a aparição casual de uma criada num plano de fundo ou a perversidade de uma rolha. Enquanto os primeiros convidados chegavam trazendo consigo a excitação da noite, a actividade doméstica do dia - simbolizada pelos filhos dos Diver, ainda a jantar com a governanta no terraço - ia desaparecendo suavemente, atrás deles.

- Que lindo jardim! - exclamou a senhora Speers.

- É da Nicole - disse Dick. - Não o abandona nunca, cuida-o constantemente, preocupa-se com as suas doenças. Não me admirava de a ver um destes dias com pó contra o míldio, uma rede para apanhar moscas, ou um fortificante qualquer.

Apontou decididamente para Rosemary dizendo, com uma leveza que parecia ocultar um interesse paternal:

- Vou oferecer-lhe um chapéu para usar na praia.

Levou-as do jardim para o terraço, onde lhes preparou um cocktail. Earl Brady chegou e ficou supreendido ao descobrir Rosemary. O seu comportamento era mais suave que no estúdio, como se tivesse deixado à porta o que o tornava diferente e Rosemary, comparando-o instantaneamente com Dick Diver, inclinou-se sem dúvida para o último. Em comparação, Earl Brady parecia um tanto rude, um tanto mal educado; mais uma vez, no entanto, ela sentiu uma reacção eléctrica à sua pessoa.

Falou com familiaridade às crianças que se levantavam do seu jantar ao ar livre.

- Olá Lanier, que tal uma canção? Tu e a Topsy cantam-me uma canção?

- O que havemos de cantar? - acedeu o rapazinho, com o curioso sotaque musical das crianças americanaseducadas em França.

- Aquela do «Mon Ami Pierrot».

As vozes do irmão e da irmã, de pé, lado a lado, elevaram-se no ar da

noite, doces e estridentes:

 

Au clair de la lune

Mon ami Pierrot

Prête-moi ta plume

Pour écrire un mot

Ma chandelle est morte

Je n'ai plus de feu

Ouvre-moi ta porte

Pour l'amour de Dieu

 

A canção acabou e as crianças, com o rosto dourado pelos últimos raios do crepúsculo, sorriam tranquilamente, satisfeitas com o seu sucesso. Rosemary achava que a Vivenda Diana era o centro do mundo. Numa situação semelhante, algo memorável teria de acontecer. Sentia-se mais feliz do que

nunca quando o portão se abriu com estrondo e os restantes convidados chegaram todos de uma vez: os McKisco, a senhora Abrams, o senhor Dumphry e o senhor Campion, que subiram para o terraço.

Rosemary sofreu uma grande decepção - olhou rapidamente para Dick, como que a pedir uma explicação sobre esta mistura incongruente. Mas a expressão dele mantinha-se inalterada. Deu as boas-vindas aos novos convidados com um porte orgulhoso e uma deferência óbvia para com as suas possibilidades infinitas e desconhecidas. Rosemary acreditava tanto nele que em breve aceitou a presença dos McKisco como correcta e como se sempre tivesse esperado encontrá-los ali.

- Conheci-o em Paris - disse McKisco a Abe North, que chegara a pé, acompanhado da mulher. - Aliás, encontrei-o duas vezes.

- Sim, eu lembro-me - disse Abe.

- Onde foi? - insistiu McKisco, não querendo deixar o assunto ficar por ali.

- Bem, acho que... - Abe cansou-se do jogo e rematou: - Não me lembro.

Esta troca de palavras preencheu uma pausa e instintivamente Rosemary pensou que poderia ser dito algo com mais tacto, mas Dick não fez qualquer tentativa para dispersar o grupo formado pelos recém-chegados nem mesmo para retirar à senhora McKisco aquele ar de divertimento arrogante. Não resolveu este problema social porque não o achou suficientemente importante e porque sabia que ele se resolveria por si mesmo. Estava a guardar-se para um esforço maior, à espera de um momento mais significativo em que os convidados estivessem conscientes da situação.

Rosemary estava ao lado de Tommy Barban - ele estava com uma disposição particularmente insolente e parecia especialmente estimulado. Partia na manhã seguinte.

- Vai para casa?

- Para casa? Eu não tenho casa. Vou para a guerra.

- Que guerra?

- Que guerra? Uma qualquer. Não tenho lido os jornais ultimamente, mas deve haver uma guerra. Há sempre.

- Não é importante para si a razão por que se bate?

- De forma nenhuma, desde que seja bem tratado. Quando a rotina se torna pesada, venho visitar os Diver porque sei que umas semanas aqui bastam para me fazer recuperar o desejo de voltar para a guerra.

Rosemary empertigou-se.

- Mas você é amigo dos Diver... - atalhou.

- Claro, especialmente dela. Mas eles fazem-me desejar ir para a guerra.

A rapariga discordou daquela opinião. Os Diver faziam-na desejar ficar sempre junto deles.

- Você é meio americano - acrescentou, como se isso resolvesse a questão.

- Também sou meio francês e fui educado em Inglaterra, e desde os dezoito anos que já usei uniformes de oito países. Mas espero não ter dado a impressão de que não gosto dos Diver. Gosto especialmente da Nicole.

- Alguém poderia não gostar? - disse Rosemary com simplicidade. Sentiu-se distante daquele homem. O tom baixo em que falava, repeliaa. Separou a sua adoração pelos Diver daquele azedume profanador. Sentiu-se feliz por não ter de ficar sentada a seu lado, ao jantar, e pensava ainda nas suas palavras «especialmente dela», quando se encaminharam para a mesa posta no jardim.

Por momentos esteve perto de Dick Diver, no caminho. Junto do seu brilho duro e límpido tudo se desvanecia. Ele sabia tudo. Durante um ano que lhe parecera uma vida, ela tivera dinheiro, gozara de uma certa celebridade e contactara com pessoas famosas. Estas últimas pareciam não ser mais do que o rasto poderoso da gente com quem a viúva do médico e a filha se haviam relacionado numa residencial em Paris. Rosemary era romântica e a sua carreira não lhe proporcionara muitas oportunidades satisfatórias nesse domínio.

A mãe, querendo proteger a carreira da filha, não tolerava nenhum dos simulacros que se lhe deparavam por todo o lado e Rosemary estava realmente para lá de tudo isso - estava no cinema mas não dentro dele. Por isso, quando a rapariga viu na expressão da mãe que aprovava Dick Diver, isso era sinal de que ele representava a realidade e de que ela teria autorização para ir até onde pudesse.

- Estava a observá-la - disse Dick (e Rosemary teve a certeza de que era sincero). - Começamos a gostar muito de si.

- Apaixonei-me por si da primeira vez que o vi - respondeu ela em voz baixa.

Ele fingiu não ouvir, como se se tratasse de um cumprimento meramente formal, e acrescentou com o ar de quem faz uma declaração importante: - Os novos amigos conseguem muitas vezes proporcionar um convívio mais agradável do que os outros.

Com aquela observação, que não entendeu inteiramente, Rosemary deu por si sentada à mesa, que emergia da penumbra para a claridade projectada pelas luzes que se iam acendendo. Não podia ter ficado mais deliciada quando viu que Dick colocara a mãe à sua direita. Quanto a ela, ficava entre Luis Campion e Brady.

Abalada pelas emoções, Rosemary voltou-se para Brady com a intenção de procurar apoio nele mas, à primeira alusão a Dick, um duro lampejo no seu olhar levou-a a concluir que ele recusava esse papel paternal. Por seu lado foi igualmente intransigente quando ele tentou apoderar-se da mão dela. Assim, falaram de assuntos profissionais, ou melhor, ela escutava-o enquanto ele falava, mas o seu espírito estava decididamente noutro lugar e chegou a recear que Brady se apercebesse disso. De vez em quando, apanhava a essência de uma frase e rebuscava o resto no subconsciente, como quem só começa a dar conta do prolongado bater das horas de um relógio quando o som das primeiras badaladas desperta por fim um eco na sua mente.

 

Numa pausa, Rosemary desviou o olhar para o sítio onde Nicole estava sentada, entre Tommy Barban e Abe North, com o seu cabelo fofo que cintilava à luz das velas. A sua atenção foi subitamente solicitada para uma conversa pouco vulgar, falada numa voz rica de tonalidades.

- Pobre homem! - exclamou Nicole. - Porque queria você serrá-lo ao meio?

- Logicamente eu queria ver o que havia dentro de um criado. Não gostaria de saber o que existe dentro de um criado?

- Velhas ementas - sugeriu Nicole, soltando uma gargalhada. - Cacos, gorjetas e pontas de lápis.

- Exactamente, mas a ideia era conseguir uma prova científica. E, claro, fazê-lo com aquela serra musical teria eliminado toda a sordidez.

- Tencionava tocar música com a serra enquanto fazia a operação? perguntou Tommy.

- Não fomos tão longe. Assustámo-nos com os gritos. Tivemos receio de que ele fizesse estragos.

- Tudo isso me parece muito esquisito - disse Nicole. - Qualquer músico que utilize a serra de outro para...

Estavam à mesa há meia hora e notava-se que tinha havido uma alteração: um a um, todos tinham desistido de qualquer coisa, uma preocupação, uma ansiedade, uma suspeita; e agora eram apenas o melhor deles próprios e os convidados dos Diver. Não ser agradável nem participativo poderia reflectir-se nos anfitriões, por isso agora todos se esforçavam. Ao dar-se conta disto, Rosemary simpatizou com todos, excepto com McKisco que tinha deliberado tornar-se no elemento não assimilável da festa. Isso resultava mais da sua determinação em manter com a ajuda do vinho a boa disposição que ostentava à chegada do que de má vontade da sua parte. Recostado numa cadeira entre Earl Brady, a quem fez várias observações contundentes sobre o cinema, e a senhora Abrams, a quem não dirigiu a palavra, observava Dick Diver com uma expressão de devastadora ironia, interrompendo de vez em quando o seu exame para tentar enredá-lo numa conversa de trocadilhos.

- Você não é amigo de Van Buren Denby? - perguntou.

- Não me parece que o conheça.

- Pensei que fosse amigo dele - insistiu, num tom irritado.

Quando o assunto do senhor Denby se esgotou por si mesmo, tentou outros temas igualmente irrelevantes, mas de todas as vezes a atenção deferente de Dick parecia paralisá-lo e, depois de uma pausa curta e tensa, a conversa que interrompera continuava sem ele. Tentou ainda intrometer-se noutros diálogos, mas era como se teimasse em cumprimentar uma luva de onde a mão já saíra. Por fim, com o ar resignado de quem está entre crianças, dedicou toda a sua atenção ao champanhe.

Rosemary olhava de soslaio à volta da mesa, de tempos a tempos, ávida do divertimento dos outros, como se eles fossem os seus futuros enteados. Um gracioso raio de luz, que emanava de uma taça em vistosos tons de rosa, iluminou o rosto da senhora Abrams, que se transformou de repente na Veuve Cliquot, cheia do vigor, da tolerância e da boa vontade que são próprios da adolescência. A seu lado, estava sentado o senhor Dumphry, cuja feminilidade parecia menos chocante na atmosfera voluptuosa da noite. A seguir, Violet McKisco, que realçara a sua beleza de forma a poder esquecer a luta de sentimentos resultante da sua disposição secundária de mulher de um arrivista que ainda não tinha arribado.

Depois, Dick, sobrecarregado pelo fardo que retirara aos outros e profundamente embebido na sua festa.

Em seguida, a mãe de Rosemary, de uma perfeição eterna.

Ao lado da mãe, Barban, a conversar com ela com uma cordialidade fluente que fez Rosemary voltar a gostar dele. Depois, Nicole. De repente, Rosemary encarou-a de outro modo e achou-a uma das pessoas mais belas que jamais conhecera. O seu rosto era o de uma santa ou de uma Madona escandinava; brilhava através das leves partículas que flutuavam à luz das velas e retirara o seu rubor às lanternas cor de vinho penduradas no pinheiro. Era a própria serenidade.

Abe North falava-lhe do seu código moral:

- Claro que tenho um - insistia ele -.:. um homem não pode viver sem um código moral. O meu consiste em não concordar que se queimem as bruxas. Sempre que uma bruxa é queimada, o sangue sobe-me à cabeça.

Brady contara a Rosemary que ele era músico e que, após um começo brilhante e precoce, não tinha produzido nada durante sete anos.

A seguir estava Campion, que fazia o possível por reprimir a sua ostensiva efeminação e uma certa tendência maternal, desinteressada, para com os vizinhos. Depois, Mary North, com uma expressão tão feliz que era impossível não retribuir o seu sorriso espelhado na brancura dos dentes; a sua boca, de lábios entreabertos, era um encantador círculo de prazer.

Finalmente, Brady, cuja franqueza se transformava a pouco e pouco numa mera pose social, em vez de ser uma reafirmação da sua própria saúde mental, ou a forma de a preservar à custa das fragilidades dos outros.

Rosemary, tão ingenuamente vulnerável e confiante como uma criança, sentia-se de regresso a casa, longe das falsidades e da aparência. Pirilampos voavam no escuro e um cão ladrava numa saliência baixa e longínqua do rochedo. A mesa parecia ter-se elevado ligeiramente para o céu como uma plataforma mecânica de dança, dando às pessoas a sensação de estarem a  sós umas com as outras na escuridão do universo, alimentadas apenas por aquela comida, aquecidas apenas por aquelas luzes. E, como se uma curiosa risada em surdina da senhora McKisco fosse um sinal de que tal afastamento do mundo fora alcançado, os Diver começaram de repente a animar-se, a brilhar, a expandir-se, como se quisessem compensar os convidados, já tão subtilmente conscientes da sua importância, e tão lisonjeados com a sua delicadeza, de qualquer coisa que lhes faltasse ainda do mundo que tinham deixado. Por instantes, pareceram confraternizar com todos e cada um dos que se encontravam à mesa e assegurar-lhes a sua amizade e afeição. E, por instantes, todos os rostos se voltaram para eles como se fossem crianças pobres olhando uma árvore de Natal. Depois, aquele quadro desvaneceu-se de repente - o momento em que os convidados tinham sido arrojadamente elevados acima do simples convívio para a atmosfera mais rara do sentimento terminou, antes que pudessem fruí-lo em toda a sua irreverência, antes que se tivessem apercebido minimamente dele.

Mas a magia difusa, o doce calor do Sul refugiara-se neles - a carícia da noite e o murmúrio fantasmagórico do Mediterrâneo lá muito em baixo -, envolvera os Diver e tornara-se parte deles. Rosemary viu Nicole forçando a mãe a aceitar uma carteira amarela que esta tinha gabado e ouviu dizer:

- Eu acho que as coisas devem pertencer a quem as aprecia.

Em seguida, Nicole despejou lá dentro todos os objectos amarelos que encontrou: um lápis, um batôn, uma pequena agenda, «porque condiziam uns com os outros».

Nicole desapareceu e, passado pouco tempo, também Dick deixou de ser visto. Os convidados distribuíram-se pelo jardim ou encaminharam-se para o terraço.

- Quer ir à casa de banho? - perguntou Violet McKisco a Rosemary. Naquele momento, Rosemary não queria.

- Eu quero - insistiu a senhora McKisco.

Como mulher franca e decidida que era, dirigiu-se para o interior da casa, arrastando consigo o seu segredo, enquanto Rosemary a olhava com reprovação. Earl Brady propôs-lhe que fossem até ao muro sobranceiro ao mar mas, quando Dick reapareceu, a rapariga achou que era altura de usufruir um pouco da sua companhia e deixou-se ficar. Ouviu uma discussão entre McKisco e Barban.

- Porque quer lutar contra os Sovietes? - perguntou McKisco. - A maior experiência alguma vez feita pela humanidade? E o Riff? Parece-me que seria bem mais heróico lutar por uma causa justa.

- E qual é a sua causa justa? - interpelou Barban com secura.

- Ora... As pessoas inteligentes geralmente sabem.

- Você é comunista?

- Sou socialista e simpatizante da Rússia - respondeu McKisco.

- Bem, eu sou um soldado - respondeu Barban com desenvoltura. - O meu ofício é matar pessoas. Lutei contra o Riff porque sou europeu e contra os comunistas porque querem tirar-me o que é meu.

- Desculpas de quem tem ideias curtas.

McKisco olhou em volta à procura de alguém com quem pudesse estabelecer uma cumplicidade trocista, mas não foi bem sucedido. Não sabia por que estava contra Barban, contra a simplicidade das suas ideias e a complexidade da sua experiência. Lá tinha a sua noção do que eram ideias e conseguia reconhecer e classificar um número que era cada vez maior, mas confrontado com um homem que ele considerava «estúpido», em quem não encontrava ideias que pudesse reconhecer como tais e, no entanto, a quem não podia sentir-se superior, acabou por concluir que Barban era o produto acabado de um mundo arcaico e sem valor. No seu contacto com as classes altas da América, ficara impressionado pelo pedantismo inseguro e titubeante destas, pelo modo como se compraziam na ignorância e pela sua rudeza deliberada. Tudo isto tinham ido buscar aos Ingleses, esquecidos de que o filisteísmo e a rudeza tinham nestes uma finalidade, e aplicavam-no num país em que um pouco de cultura e civismo conseguem mais do que em qualquer outro lugar. Esta atitude tinha atingido o apogeu em 1900, aproximadamente com o estilo de Harvard. Achava que Barban era desse género e, como estava bêbado, cometeu a imprudência de esquecer que o temia e isso custou-lhe a situação difícil em que viria a encontrar-se.

Um pouco envergonhada pelo comportamento de McKisco, Rosemary, aparentemente calma mas no íntimo muito excitada, aguardou o regresso de Dick. Ainda sentada à mesa onde se encontravam apenas Barban, McKisco e Abe, observou o caminho que conduzia ao terraço de pedra, ladeado de murta e de fetos, e ficou deslumbrada ao avistar o vulto da mãe numa porta iluminada. Dispunha-se a ir ao seu encontro quando a senhora McKisco apareceu, vinda do interior da casa.

Dominou-se. No meio de um silêncio total, puxou uma cadeira e sentou-se, de olhar fixo e um leve tremor na boca, e todos se aperceberam de que a senhora McKisco era portadora de grandes novidades. Todas as atenções convergiram para ela e a pergunta do marido pareceu natural:

- O que se passa, Vi?

Violet McKisco, voltando-se para Rosemary, conseguiu finalmente dizer:

- Não é nada, minha querida. Não consigo articular palavra.

- Você está entre amigos - atalhou Abe.

- Vocês não imaginam a cena a que eu assisti lá em cima!... Abanando a cabeça com ar de mistério, calou-se a tempo, pois Tommy levantou-se e disse, delicadamente mas com dureza:

- Não é aconselhável comentar o que se passa nesta casa.

 

Violet respirou ruidosamente e fez um esforço para mudar de expressão. Dick chegou finalmente e, obedecendo a um instinto seguro, separou Barban dos McKiscos. Tornou-se de repente excessivamente ignorante e curioso sobre literatura perante McKisco, proporcionando-lhe exactamente a sensação de superioridade que ele pretendia. Os outros ajudaram-no a levar as luzes para cima. Quem não ficaria satisfeito por se prestar a transportar luzes através da escuridão? Rosemary também ajudou, enquanto satisfazia pacientemente a curiosidade inesgotável de Royal Dumphry acerca de Hollywood.

Agora, pensava, já mereço um tempo a sós com ele. Ele deve sabê-lo, pois as suas leis são semelhantes às que a mãe me ensinou.

Rosemary tinha razão. Dick roubou-a à companhia dos outros no terraço e ficaram os dois a sós. Afastaram-se da casa em direcção ao muro sobre o mar, atravessando com dificuldade o que, menos do que degraus, eram espaços intervalados irregularmente.

Ali ficaram, olhando o Mediterrâneo.

em baixo, o último barco de excursionistas vindo das Iles des Lerins atravessava a baía como um balão do 4 de Julho, subindo no céu. Flutuava entre as ilhas sombrias, apartando as águas escuras.

- Percebo agora a razão porque você fala da sua mãe como fala - disse ele. - Acho que a atitude dela em relação a si é impecável. Ela é dotada de uma sabedoria rara na América.

- A mãe é perfeita - disse ela.

- Eu estava a falar-lhe de um plano que tenho... Ela disse-me que depende de si o tempo que ficarem em França.

- De mim... - repetiu Rosemary em voz alta.

- Então, já que as coisas aqui acabaram...

- Acabaram? - perguntou ela.

- Bom, isto acabou... esta parte do Verão acabou. Na semana passada a irmã da Nicole foi-se embora, amanhã parte o Tommy Barban, segunda-feira vão o Abe e a Mary North. Talvez venhamos a divertir-nos ainda este Verão mas esta época acabou. Prefiro que acabe violentamente do que se desvaneça em sentimentalismos... Foi essa a razão por que dei esta festa.

 

O que quero dizer é que a Nicole e eu vamos a Paris despedir-nos do Abe North que vai para a América... pergunto-me se não gostaria de ir connosco.

- O que é que a mãe disse?

- Pareceu-me pensar que era óptimo. Ela não quer ir. Quer que você vá sózinha.

- Não vejo Paris desde criança, gostaria de vê-la consigo - disse Rosemary.

- É simpático da sua parte.

Teria ela imaginado que a voz dele soara subitamente metálica? Ele con-

tinuou:

- Claro que ficámos entusiasmados consigo desde o momento em que chegou a esta praia. Essa vitalidade, tínhamos a certeza de que era profissional, especialmente a Nicole. Nunca a vimos em mais ninguém.

O instinto gritou-lhe que ele estava a querer empurrá-la para Nicole e ela travou-o, dizendo com igual firmeza:

- Também queria saber tudo sobre vocês, especialmente sobre si. Já lhe disse que me apaixonei por si da primeira vez que o vi.

Ela estava certa ao proceder assim. Mas o espaço entre o céu e a terra arrefecera a mente de Dick, destruíra o impulso que o levara a trazê-la aqui e alertara-o para o apelo demasiado óbvio, a luta com uma cena não ensaiada e palavras estranhas.

Dick tentou fazê-la querer voltar para casa, mas isso era difícil, porque também não queria perdê-la. Ela só percebeu quando ele gracejou, bem humorado:

- Você não sabe o que quer. Vá perguntar à sua mãe o que você quer.

Ela sentiu-se ferida. Tocou-o, sentindo a fazenda macia do seu casaco como um hábito sacerdotal. Parecia estar prestes a cair de joelhos e nessa posição deu a sua última estocada:

- Acho que é a pessoa mais maravilhosa que já conheci, exceptuando a minha mãe.

- Você encara-me com romantismo.

O riso dele levou-os em direcção ao terraço onde a entregou aos cuidados de Nicole...

Depressa chegou a hora de os convidados partirem e os Diver não os retiveram. No grande Isotta dos Diver iriam Tommy Barban e a sua bagagem - ia passar a noite no hotel para apanhar um comboio logo de manhã -, a senhora Abrams, os McKisco e Campion. Earl Brady, que ia para Monte Carlo, levaria Rosemary e a mãe, e Royal Dumphry ia com eles porque o carro dos Diver estava cheio. Lá em baixo, no jardim, as lanternas continuavam acesas sobre a mesa onde tinham jantado. Os Diver encontravam-se lado a lado no portão, Nicole resplandescente e enchendo a noite de graciosidade e Dick despedindo-se de todos pelos seus nomes. Era pungente para Rosemary ir-se embora e deixá-los ali. Mais uma vez pensou o que teria a senhora McKisco visto na casa de banho.

 

Estava uma noite escura e límpida, como que suspensa de uma única estrela quase sem brilho. O som da buzina do carro que ia à frente era abafado pela resistência do ar espesso. O motorista de Brady conduzia devagar; as luzes traseiras do outro carro apareciam de vez em quando nas curvas, desaparecendo em seguida. Mas passados dez minutos viram-no de novo na berma da estrada. O motorista de Brady abrandou mas a seguir passou-o. No momento em que o ultrapassaram ouviram vozes indistintas que saíam da parte traseira da limusina e viram que o motorista dos Diver sorria com ar irónico. Continuaram então através das alternâncias de escuridão e de um luar tímido, descendo por fim aos solavancos até à grande massa que era o hotel de Gausse.

Durante três horas, Rosemary dormitou e depois acordou e assim se manteve, suspensa no luar. Envolvida pelo erotismo da escuridão, dissecou o futuro rapidamente levando em conta todas as eventualidades que poderiam conduzir a um beijo, mas este era tão imperfeito como um beijo de um filme. Revolveu-se na cama, o que constituía o primeiro sinal de insónia que alguma vez tivera, e tentou pensar sobre o assunto como a mãe o faria. Neste processo ela era frequentemente mais perspicaz do que a sua experiência permitiria, e recordava coisas de velhas conversas que mal ouvira.

Rosemary tinha sido educada na ideia do trabalho. A senhora Speers gastara as magras heranças dos homens de quem enviuvara na educação da filha e, quando ela desabrochou aos dezasseis anos com aquele cabelo extraordinário, levou-a rapidamente para Aix-les-Bains e introduziu-a sem anúncio prévio nos aposentos de um produtor americano que estava ali em recuperação. Quando o produtor foi para Nova Iorque elas acompanhavam-no. Fora deste modo que passara os exames de admissão. Com o sucesso subsequente e a promessa de estabilidade que se seguia, a senhora Speers sentiu-se à vontade para insinuar naquela noite:

- Foste educada para trabalhar, não especialmente para casar. Agora encontraste o primeiro obstáculo e vale a pena transpô-lo, vai em frente e tira o melhor partido da experiência. Aconteça o que acontecer, isso não te pode prejudicar porque, economicamente, és um rapaz, não uma rapariga.

Rosemary nunca se dera a grandes pensamentos, excepto acerca das perfeições sem limites da mãe, e por isso este último rompimento do cordão umbilical perturbou-lhe o sono.

Uma falsa aurora penetrou no quarto através das grandes janelas de sacada. A rapariga levantou-se e foi para o terraço. Sentiu-lhe o calor, sob os pés descalços. Havia ruídos secretos no ar, um pássaro insistente cantava a intervalos regulares numa das árvores sobranceiras ao campo de ténis; sons de passos descreviam um circuito - nas traseiras do hotel, depois na estrada poeirenta, no passeio de pedra, nos degraus de cimento e depois, invertendo o processo, afastavam-se em sentido contrário. Lá em cima, para lá do mar escuro e naquela sombra que era uma colina, viviam os Diver. Pensou nos dois juntos, ouviu-os ainda a cantar uma canção em voz baixa como um hino, que se elevava no ar como fumo, muito ao longe no espaço e no tempo. Os filhos dormiam, o portão estava fechado para a noite.

Rosemary entrou, vestiu um roupão leve, calçou umas sandálias e voltou lá para fora. Caminhou ao longo do terraço até à porta da frente, apressando o passo quando se apercebeu de que outros quartos, onde se pressentia o sono, davam também para o terraço. Parou ao ver um vulto sentado na escadaria larga e branca da entrada principal. Então reconheceu Luis Campion, que estava a chorar.

Chorava com desespero e em silêncio. Tremia como uma mulher. Uma cena de um papel que ela desempenhara no ano anterior veio-lhe irresistivelmente à memória. Avançando, tocou-lhe no ombro. O homem sobressaltou-se antes de a reconhecer.

- O que se passa? - o seu olhar era calmo e afável, evitando perscrutá-lo com excessiva curiosidade. - Posso ajudá-lo?

- Ninguém pode ajudar-me. Já sabia. Só me posso acusar a mim. É sempre a mesma coisa.

- O que se passa, quer contar-me? Ele olhou-a.

- Não - respondeu decidido. - Quando for mais velha compreenderá o que sofrem as pessoas que amam. A agonia que se sente. É melhor ser-se insensível e jovem do que amar. Já me tinha acontecido antes mas nunca assim, de uma forma tão acidental, precisamente quando tudo corria bem.

O rosto dele era repugnante à luz difusa. Nem por um estremecimento, nem pelo menor movimento de músculos, ela traiu a sua súbita aversão. Mas a sensibilidade de Campion levou-o a aperceber-se disso e a mudar de assunto repentinamente.

- O Abe North anda por aqui.

- Ora! Ele está em casa dos Diver!

- Está bem, mas ele está levantado, não sabe o que aconteceu?

As persianas de um quarto dois andares acima abriram-se de repente e uma voz inglesa disparou claramente:

- Querem fazer o favor de se calar!

Humildemente, Rosemary e Luis Campion desceram os degraus até ao banco ao lado da rua que levava à praia.

- Então não tem nenhuma ideia do que se passou? Minha cara, a coisa mais extraordinária...

Estava a ficar entusiasmado, retardando a sua revelação.

- Nunca vi uma coisa acontecer tão de repente, sempre evitei gente violenta, perturbam-me tanto que às vezes passo dias seguidos na cama.

Olhou para ela triunfante. Ela não fazia ideia do que ele estava a falar. - - Minha querida! - exclamou, inclinando-se todo para ela e tocando-lhe na coxa, para mostrar que não se tratava de uma mera irresponsabilidade da sua mão. Estava tão seguro de si mesmo! - Vai haver um duelo.

- O quê?

- Um duelo com... ainda não sabemos como.

- Quem vai bater-se em duelo?

- Vou contar-lhe desde o princípio. - Suspirou profundamente como se não esperasse que ela o acreditasse, mas passando por cima desse facto. - Claro que você vinha no outro automóvel. Bem, de certa forma teve sorte... eu perdi pelo menos dois anos de vida, aconteceu tão repentinamente.

- O que é que aconteceu? - perguntou ela.

- Não sei como começou. Primeiro ela começou a falar...

- Quem?

- A Violet McKisco. - Ele baixou a voz como se estivesse alguém debaixo do banco. - Mas não diga nada aos Diver porque ele ameaçou quem quer que falasse do assunto.

- Quem?

- O Tommy Barban, por isso não diga que eu me referi a eles. De qualquer maneira nenhum de nós descobriu o que a Violet tinha para dizer porque ele interrompia-a constantemente, e depois o marido entrou na cena e agora, minha querida, vamos ter o duelo. Esta manhã às cinco horas, dentro de uma hora.

Ele suspirou de repente pensando nas suas próprias preocupações.

- Quase preferia que fosse comigo. Podia muito bem ser morto, eu que agora não tenho nada por que viver. - Calou-se, embalando-se para a frente e para trás com desgosto.

Mais uma vez as persianas se abriram e a mesma voz britânica disse: - Francamente! Isto tem de acabar!

Nessa altura, Abe North, um tanto distraído, saiu do hotel e reparou nos dois vultos recortados no céu, que sobre o mar adquirira um tom leitoso. Rosemary fez-lhe sinal antes que ele pudesse falar e mudaram-se para outro banco que havia mais abaixo; Rosemary notou que Abe estava um pouco tenso.

- O que é que você está a fazer levantada? - perguntou ele.

- Levantei-me, é tudo. - Ela começou a rir-se mas, lembrando-se da voz de cima, conteve-se.

- Importunada pelo rouxinol? - sugeriu Abe, e repetiu: - Talvez importunada pelo rouxinol. Este sujeito tortuoso contou-lhe o que aconteceu?

Campion replicou com dignidade:

- Eu só sei o que ouvi.

Levantou-se e afastou-se rapidamente. Abe sentou-se ao lado de Rosemary.

- Porque o tratou tão mal?

- Tratei? - perguntou surpreendido. - Ele tem estado aqui a chorar toda a manhã.

- Bem, talvez esteja triste por alguma coisa.

- Talvez.

- E a respeito do duelo? Quem se vai bater? Achei que havia alguma coisa estranha naquele carro. É verdade?

- É de certeza um boato, mas parece ter um fundo de verdade.

 

- O problema começou quando o automóvel do Earl Brady passou o dos Diver, parado na estrada. - A narração de Abe diluía-se na noite. - A Violet McKisco estava a contar à senhora Abrams qualquer coisa que descobrira acerca dos Diver. Tinha subido ao primeiro andar da casa deles e deparou com qualquer coisa que a impressionou muito. Mas o Tommy é como um cão de guarda dos Diver. Na realidade a Nicole é inspiradora e formidável - mas é uma coisa mútua, os Diver juntos são muito mais importantes para os amigos do que muitos deles imaginam. Claro que isso é conseguido com um certo sacrifício; por vezes não parecem mais do que encantadoras figuras de bailado, e merecem apenas a atenção que se dá aos bailarinos, mas é mais do que isso - você tem de saber a história. De qualquer maneira o Tommy é um desses homens que o Dick empurrou para a Nicole; e como a senhora McKisco continuava a fazer alusões àquela história ele interpelou-a:

«Senhora McKisco, por favor não fale mais na senhora Diver,»

«Não estava a falar consigo», objectou ela.

«Acho melhor não falar deles.»

«Os Diver são intocáveis?»

«Não fale neles. Fale de outra coisa.»

Ia sentado num dos dois banquinhos ao lado de Campion. Campion contou-me a história.

«Você é muito prepotente!», comentou a Violet.

Você sabe como são as conversas de automóvel a altas horas da noite: gente a falar em voz baixa, outros que não prestam atenção ou que estão cansados, aborrecidos ou a dormir. Bem, nenhum deles soube exactamente o que se passou até ao momento em que o automóvel parou e o Barban gritou num tom brutal que abalou toda a gente:

«Querem descer aqui? Estão apenas a uma milha do hotel e podem ir a pé ou então eu arrasto-os até lá. E o senhor tem de se calar e obrigar a sua mulher a calar-se!»

«Você é um fanfarrão!» - disse o McKisco. «Você sabe que é fisicamente mais forte do que eu. Mas não tenho medo de si... O que lhes falta é o código do duelo... »

Foi o erro dele, porque o Tommy, como francês que é, inclinou-se e bateu-lhe com a luva.

Nesse momento o motorista arrancou. Foi aí que você os ultrapassou. Então as mulheres começaram a discutir. Era este o estado das coisas quando o carro chegou ao hotel.

O Tommy telefonou para um amigo em Cannes e pediu-lhe para vir ser sua testemunha e o McKisco disse que não queria ser apadrinhado pelo Campion, que de qualquer modo não tinha queda nenhuma para isso. Telefonou-me, pedindo-me que não comentasse o caso, mas que aparecesse la. A Violet McKisco desmaiou e a senhora Abrams levou-a para o quarto e deu-lhe um calmante que a fez adormecer instantaneamente. Quando lá cheguei tentei discutir com o Tommy, mas ele não dispensava o pedido de desculpas e o McKisco, obstinado, não estava disposto a apresentá-las.

Quando Abe se calou, Rosemary perguntou com ar pensativo:

- Os Diver sabem que o que aconteceu foi por causa deles?

- Não, e nem vão nunca saber que tiveram alguma coisa a ver com isto. Aquele palerma do Campion não tinha nada que lhe falar disto, mas já que o fez... eu disse ao motorista que ia buscar a tal serra musical se ele abrisse a boca sobre o assunto. Esta luta é entre dois homens... O Tommy precisa é de uma boa guerra.

- Espero que os Diver não venham a saber - disse Rosemary. Abe espreitou para o relógio.

- Tenho de ir ver o McKisco lá acima. Quer vir?.. Ele sente-se desamparado... Aposto que não dormiu.

Rosemary imaginou a vigília desesperada e neurótica que aquele homem mal formado e desorientado devia ter passado. Depois de um momento de hesitação, entre a piedade e a repugnância, concordou e, cheia da energia matinal, lançou-se pelas escadas acima ao lado de Abe.

McKisco estava sentado na cama e a combatividade proveniente do álcool desaparecera, apesar da taça de champanhe que tinha na mão. Parecia insignificante, atormentado e lívido. Era óbvio que estivera a escrever e a beber toda a noite. Confuso, olhou para Abe e Rosemary e perguntou:

- Já são horas?

- Não, falta meia hora.

A mesa estava coberta de papéis cujo conteúdo ele resumira, com alguma dificuldade, numa longa carta; a caligrafia das últimas páginas era grande e ilegível. À luz delicada e fraca do candeeiro, rabiscou o seu nome no fim, meteu-a num envelope e estendeu-a a Abe:

- É para a minha mulher.

- É melhor molhar a cabeça com água fria - sugeriu Abe.

- Acha melhor? - perguntou McKisco, duvidoso. - Não quero ficar muito sóbrio.

- Bem, você está com um péssimo aspecto. Obediente, McKisco foi para a casa de banho.

- Vou deixar tudo numa confusão enorme - gritou ele. - Não sei como vai a Violet voltar para a América. Não tenho seguro. Nunca fiz nada disso.

- Não diga disparates. Daqui a meia hora você estará aqui a tomar o pequeno-almoço.

- Claro, eu sei.

Voltou com o cabelo molhado e olhou para Rosemary como se a visse pela primeira vez. De repente os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e disse: - Nunca acabei o meu romance. É o que me entristece. Você não gosta de mim, mas isso é inevitável. Sou antes de mais um homem da literatura.

Suspirou, desanimado, e abanou a cabeça com desespero.

- Cometi muitos erros na minha vida, muitos. Mas fui uma das pessoas que mais se distinguiu, nalguns aspectos...

Desistiu de falar e puxou uma passa de um cigarro apagado.

- Eu gosto de si, mas acho que não devia bater-se em duelo - disse Rosemary.

- Sim, devia ter tentado dar-lhe uma sova, mas agora está feito. Deixei-me arrastar para uma coisa e não tinha esse direito. Tenho um temperamento violento...

Olhou fixamente para Abe como se esperasse que este argumento fosse refutado. Então, com um riso horrorizado, levou a ponta do cigarro à boca. A respiração acelerou-se-lhe.

- O problema é que fui eu que sugeri o duelo... Se a Violet se tivesse calado eu podia ter resolvido o assunto. Claro que, mesmo agora, eu podia desistir ou pura e simplesmente sentar-me a rir de tudo isto, mas acho que a Violet nunca mais me respeitaria.

- Claro que respeitaria. Respeitá-lo-ia ainda mais - disse Rosemary.

- Não... você não conhece a Violet. Ela é muito dura quando tem um ascendente sobre alguém. Somos casados há doze anos, tivemos uma filha que morreu com sete anos e depois disso, sabe como é... Afastámo-nos um do outro... Nada de grave... Mas ontem à noite ela chamou-me cobarde.

Perturbada, Rosemary não respondeu.

- Bem, vamos ver se conseguimos que haja o menor dano possível disse Abe.

Abriu um estojo de pele e continuou

- Estas são as pistolas de duelo do Barban... Pedi-as emprestadas para que você pudesse familiarizar-se com elas. Ele trá-las sempre na mala.

Pegou numa daquelas armas arcaicas e tomou-lhe o peso. Rosemary teve uma exclamação de medo e McKisco olhou para as pistolas com ansiedade.

- Bem, não é a mesma coisa que ficarmos de pé e dispararmos à queima-roupa um para o outro com uma quarenta e cinco - disse McKisco. - Não sei... A questão é que se consegue fazer melhor pontaria com uma arma de cano comprido - disse Abe com crueldade.

- Qual é a distância? - perguntei a McKisco.

- Já me informei. Se uma das partes tiver de ser definitivamente eliminada, será a oito passos, se forem compreensivos, será a vinte passos. Se se tratar apenas de vingar a honra serão quarenta passos. A testemunha dele concordou comigo em que fossem quarenta.

- Está bem.

- Há um duelo formidável num romance de Pushkine - recordou Abe.

- Os homens ficavam à beira de um precipício e o que era alvejado caía

abaixo e morria de qualquer maneira.

Para McKisco isto era muito remoto e académico. Olhou espantado para

ele e perguntou:

- O quê?

- Quer ir dar um mergulho para se refrescar?

- Não, não, não seria capaz de nadar - disse McKisco, suspirando.

- Não percebo nada disto. Já não sei o que faço.

Era a primeira vez que lhe acontecia uma coisa semelhante. Na realidade, era uma daquelas pessoas para quem o mundo dos sentidos não existe, e ser confrontado com um facto concreto mergulhava-o numa surpresa imensa.

- Podemos ir andando - disse Abe, vendo-o esmorecer um pouco.

- Está bem.

Bebeu um brande forte, pôs a garrafa no bolso e disse com um ar quase selvagem:

- O que acontece se eu o matar... Metem-me na cadeia?

- Eu passo-o na fronteira italiana.

Olhou de soslaio para Rosemary e depois disse para Abe, como que a desculpar-se:

- Antes de partirmos, há uma coisa de que gostaria de falar-lhe, a sós.

- Espero que ninguém fique ferido. Acho que isto é um disparate e que devia tentar evitá-lo - concluiu Rosemary.

 

Encontrou Campion lá em baixo, no vestíbulo deserto.

- Vi-a subir. Ele está bem? Quando é o duelo? - perguntou ele, entusiasmado.

- Não sei.

Rosemary não gostou da maneira como ele falou. Parecia referir-se a um circo em que McKisco fosse o palhaço pobre.

- Vem comigo? Aluguei o automóvel do hotel - pediu ele, como se tivesse lugares marcados.

- Não quero ir.

- Por que não? Vai tirar-me vinte anos de vida, mas não quero perder isto. Podíamos ver de longe.

- Porque não leva o senhor Dumphry consigo?

O monóculo dele caiu. Campion empertigou-se,

- Não quero voltar a vê-lo.

- Bom, eu não posso ir. A mãe não ia gostar.

Quando Rosemary entrou no quarto, a mãe acordou e, ainda ensonada, perguntou:

- Onde estiveste?

- Não conseguia dormir. Continue a dormir, mãe.

- Vem ao meu quarto.

Rosemary ouviu-a sentar-se na cama, entrou e contou-lhe o que tinha acontecido.

- Por que não vais ver? - sugeriu a senhora Speers. - Não precisavas de te aproximar e podias ser útil depois.

Rosemary não gostou de se imaginar na situação e discordou, mas a senhora Speers, ainda atordoada pelo sono, lembrou-se das chamadas nocturnas a doentes ou moribundos no tempo em que fora casada com o médico e disse: - Gosto que vás onde queres e faças as coisas por tua própria iniciativa, sem mim. Fizeste coisas bem mais difíceis para os duplos nos trabalhos publicitários do Rainy.

Embora Rosemary continuasse sem perceber porque deveria ir, obedeceu àquela voz segura e clara, a mesma que a mandara subir ao palco do Odeón de Paris, quando ela tinha doze anos, e que a saudara à saída pelo seu sucesso.

Quando, da escada, viu Abe e McKisco afastarem-se no automóvel, pensou que se vira livre da situação, mas logo a seguir o carro do hotel apareceu à esquina. Soltando um guincho de satisfação, Luis Campion puxou-a lá para dentro.

- Escondi-me ali porque eles podiam não nos deixar ir. Trouxe a minha máquina de filmar, percebe?

Rosemary riu-se, sem querer. De tão terrível que era, o homem pareceu-lhe apenas desumano.

- Porque será que a senhora McKisco não gosta dos Diver? - perguntou. - Eles foram muitos simpáticos para com ela.

- Oh, não foi isso. Foi qualquer coisa que ela viu. Nunca conseguimos descobrir exactamente o que tinha sido, por causa do Barban.

- Então não era por isso que estava tão triste?

- De maneira nenhuma - disse ele com a voz a fraquejar. - Isso foi outra coisa que aconteceu quando voltámos para o hotel. Mas não me importo, lavo daí as minhas mãos.

Seguiram o outro automóvel para leste, ao longo da costa, para lá de Juan les Pins onde se erguia o esqueleto do novo casino. Já passava das quatro horas e sob um céu azul-acinzentado os primeiros barcos de pesca afastavam-se rumo ao mar esverdeado. Nessa altura os automóveis saíram da estrada principal e entraram em pleno campo.

- É o campo de golfe - exclamou Campion. - Tenho a certeza de que é lá que vai ser.

Tinha razão. Quando o automóvel de Abe parou à frente deles, o horizonte, a leste, raiava-se de vermelho e amarelo, prometendo um dia sufocante. Rosemary e Campion levaram o automóvel para um pinhal e esconderam-se num bosque sombrio e de onde podiam avistar o campo ressequido em que Abe e McKisco andavam de um lado para o outro. Este último levantava a cabeça de tempos a tempos, como um coelho a farejar. Daí a pouco tempo surgiram vultos ao longe. Rosemary e Campion distinguiram Barban e o seu padrinho francês, que trazia a caixa com as pistolas debaixo do braço.

Transido, McKisco esgueirou-se para trás de Abe e bebeu um longo golo de brande. Avançou, a cambalear, e ter-se-ia dirigido directamente para o campo adversário se Abe não o tivesse impedido. Foram ambos falar com o francês. O Sol erguia-se no horizonte.

Campion agarrou o braço de Rosemary.

- Não aguento. É de mais. Isto vai custar-me... - cochichou, quase sem voz.

- Largue-me - disse Rosemary num tom autoritário. E murmurou uma oração frenética em francês.

Os participantes directos no duelo enfrentaram-se. Barban estava de mangas arregaçadas. Os seus olhos pestanejavam por causa do sol, mas os movimentos eram firmes ao limpar a palma da mão na costura das calças. McKisco, toldado pelo brande, contraía os lábios numa espécie de assobio e estendia o nariz com negligência, até que Abe se encaminhou na sua  direcção com um lenço na mão. A testemunha francesa mantinha o rosto virado para o outro lado. Aterrorizada, Rosemary susteve a respiração e cerrou os dentes cheia de ódio por Barban.

- Um... dois... três! - contou Abe com a voz entrecortada. Dispararam ao mesmo tempo. McKisco vacilou mas recompôs-se logo a seguir. Ambos os tiros tinham falhado.

- Agora já chega! - gritou Abe.

Todos olharam para Barban com ar inquiridor.

- Não estou satisfeito.

- O quê? Claro que está satisfeito. Você é que não se apercebe disso -disse Abe, impaciente.

- O seu homem recusa outro tiro?

- É isso mesmo, Tommy. Você insiste em continuar e o meu cliente já está farto.

Tommy riu-se com desdém.

- A distância era ridícula. Não estou acostumado a farsas como esta, O seu homem deve ter em conta que não estamos na América - disse.

- Não adianta gracejar com a América - disse Abe com aspereza.

E depois, num tom mais conciliador:

- Isto já foi longe demais, Tommy.

Por momentos discutiram vivamente até que Barban concordou com um

aceno da cabeça e dirigiu um cumprimento frio ao adversário. - Não apertam as mãos? - sugeriu o médico francês.

- Eles já se conhecem - disse Abe.

Voltou-se para McKisco.

Quando se afastavam rapidamente, McKisco, exultante, agarrou-lhe o braço.

- Espere um minuto! O Tommy quer a pistola dele. Pode precisar dela outra vez - disse Abe.

McKisco entregou-lha.

- Ele que vá para o inferno - disse ele com uma voz dura. - Diga-lhe que pode...

- Digo-lhe que você quer outro tiro?

- Bem, eu fiz o que tinha a fazer - exclamou McKisco enquanto continuavam a andar. - E fi-lo muito bem, não fiz? Não fui cobarde. - Você estava bastante bêbado - disse Abe com dureza.

- Não estava, não.

- Está bem, pronto, não estava.

- Que diferença faz que eu tenha bebido?

À medida que recuperava a confiança olhava, ressentido, para Abe. - Que diferença faz? - repetiu.

- Se você não sabe, não adianta falarmos disso.

- Não sabe que durante a guerra estavam todos sempre bêbados?

- Bom, esqueçamos isso.

Mas o episódio ainda não acabara. Passos rápidos seguiam-nos por sobre o tojo. Era o médico.

Pardon, Messieurs - arquejou ele. - Voulez-vous régler mes honoraires? Naturellement c'est pour soins médicaux seulement. M. Barban n'a qu'un billet de mille et ne peut pas les régler et l'autre a laissé son porte-monnaie chez lui.

- Não há como os franceses para estas coisas... - comentou Abe.

E depois para o médico:

- Combien?

- Deixe-me pagar isto - disse McKisco.

- Não. Eu tenho dinheiro. Estivemos todos envolvidos no mesmo assunto.

Abe pagou ao médico e McKisco correu de repente para uns arbustos, onde se pôs a vomitar. Depois, mais pálido do que nunca, retomou a marcha empertigado, ao lado de Abe, em direcção ao automóvel. A manhã enchera-se de tons róseos.

Campion, a única vítima do duelo, estava deitado de costas no pinhal e arfava, enquanto Rosemary, acometida de um riso histérico, não parava de lhe bater com a sandália. Fê-lo com persistência até que ele se levantou. A única coisa que tinha agora importância para ela era que dentro de poucas horas veria na praia a pessoa a quem ainda se referia como «os Diver».

 

Estavam no Voisins à espera de Nicole. Eram seis: Rosemary, os North, Dick Diver e dois jovens músicos franceses. Observavam os outros clientes do restaurante para ver se eles tinham um ar tranquilo pois Dick dissera que, excepto ele, nenhum americano era calmo e eles tentavam descobrir um exemplo para estabelecer o confronto. As coisas não lhes eram favoráveis, já que nenhum dos homens que entraram no restaurante conseguia manter-se dez minutos sem levar a mão ao rosto.

- Nunca devíamos ter desistido dos bigodes encerados. De qualquer maneira, o Dick não é o único homem tranquilo... - disse Abe.

- Ai isso é que sou.

-... mas pode ser que seja o único homem sóbrio e tranquilo.

Um americano bem vestido entrara, acompanhado de duas mulheres que, inconscientemente, se precipitaram para uma mesa como aves sobre uma presa. De repente, o homem apercebeu-se de que estava a ser observado o que o fez levantar a mão num gesto convulsivo, como para remediar um problema inexistente na gravata. Num outro grupo que estava de pé, um homem não parava de acariciar o queixo barbeado com a palma da mão e o companheiro agitava maquinalmente uma ponta de cigarro já apagada. Os mais felizardos passavam os dedos pelos óculos ou pela barba, e os que não possuíam estes recursos afagavam a boca crispada ou, mesmo, puxavam com desespero, o lóbulo da orelha.

Um general muito conhecido entrou e Abe, contando que o homem tivesse passado o primeiro ano em West Point - o ano em que nenhum recruta pode desistir e do qual nunca nenhum recupera -, fez uma aposta de cinco dólares com Dick.

De braços pendentes, o general esperava a vez de se sentar. Os seus braços balançaram de repente para trás, como se fosse dar um salto e Dick soltou um «Ah», pensando que ele tinha perdido o controlo, mas o general recompôs-se e os amigos respiraram de alívio. A agonia estava prestes a acabar, pois o empregado acabara de lhe arranjar uma cadeira...

Mas, denotando certa fúria, o conquistador levantou a mão bruscamente

e coçou a cabeça de um cinzento imaculado. 

- Vêem? Sou eu o único! - disse Dick com afectação.

Rosemary não tinha qualquer dúvida acerca disso e Dick, apercebendo-se de que nunca tivera um público melhor, conseguiu instaurar uma unidade tão brilhante no grupo que Rosemary sentiu um misto de desprezo e impaciência por todos os que não estavam naquela mesa. Tinham estado dois dias em Paris mas, na realidade, era como se continuassem ainda na praia, debaixo do chapéu-de-sol. Como no baile do Corps des Pages da noite anterior, Rosemary, que ainda nunca assistira a uma festa em Hollywood, achava formidável tudo o que a rodeava e Dick controlava a situação, cumprimentando algumas pessoas, como se fizesse uma espécie de selecção os Diver pareciam ter muitos conhecimentos, mas era sempre como se as pessoas não os vissem há muito, muito tempo e ficassem extremamente surpreendidas. «Por onde é que vocês andam?», perguntavam - e depois reconstituía a unidade do próprio grupo, banindo os que não faziam parte dele, com delicadeza mas inapelavelmente, num irónico coup de grâce.* Não tardou que Rosemary tivesse a sensação de que também ela conhecera aquelas pessoas, num passado deplorável, e depois as rejeitara.

O grupo deles era impressionantemente americano e, por vezes, quase deixava de o ser. Era a sua própria personalidade que Dick lhes devolvia ofuscada por compromissos de muitos anos.

Nicole, num fato azul celeste, um segmento perdido da luz do exterior, deslizou para dentro do restaurante escuro e fumarento, que cheirava à comida apetitosa do bufete. Vendo nos olhos deles como estava linda, agradeceu-lhes com um radioso sorriso de reconhecimento. Eram todos gente simpática, boa para conviver durante um tempo, muito delicados e tudo isso. Depois cansavam-se, tornavam-se bizarros e azedos e, por fim, começavam a fazer muitos planos. Riam-se de coisas de que não conseguiriam lembrar-se claramente, mais tarde. Os homens beberam três garrafas de vinho. O trio de mulheres era representativo do enorme fluxo da vida americana. Nicole era neta de um capitalista americano que viera do nada, e neta do conde da Casa de Lippe Weissenfeld. Mary North era filha de um tarefeiro que colava papel de parede, e descendente do presidente Tyler. Rosemary provinha da classe média, e fora catapultada pela mãe para as alturas inexploradas de Hollywood. A semelhança entre elas, e o que as tornava diferentes de tantas outras mulheres americanas, residia no facto de todas se sentirem felizes num mundo de homens. Preservavam a sua individualidade através deles e não por oposição a eles. Qualquer delas poderia ter sido alternadamente boa cortesã e boa esposa, não pelo acaso do nascimento mas pelo acaso ainda maior de encontrar ou não o seu homem.

Rosemary gostou daquele almoço, que lhe pareceu uma pequena festa. Eram sete pessoas, o número ideal. Talvez o facto de ela ser nova no mundo deles funcionasse como uma espécie de agente catalizador que fazia vir ao de cima todas as velhas reservas que uns tinham em relação aos outros. Quando todos se levantaram, um criado conduziu Rosemary para aquela zona isolada e escura que têm todos os restaurantes franceses, onde ela

 

* Coup de grãce - golpe de misericórdia.

 

procurou um número de telefone à luz alaranjada de um globo eléctrico e pediu uma ligação para a Franco-American Films. Claro que tinham uma cópia de Daddy's Girl, mas haviam-na cedido temporariamente. Ela que passasse nessa semana pelo número 341 da Rue des Saintes Anges e perguntasse pelo senhor Crowder.

A cabina telefónica ficava perto do vestiário e, quando Rosemary desligou, ouviu duas vozes baixas, muito perto dela, do outro lado de uma fila de casacos.

-... então amas-me?

- Oh, se amo!

Era Nicole. Rosemary hesitou em sair da cabina e ouviu Dick dizer:

- Desejo-te terrivelmente. Vamos já para o hotel.

Nicole suspirou. Por momentos Rosemary não conseguiu distinguir as palavras mas a entoação era significativa. O enorme secretismo que envolvia aquela cena fê-la vibrar.

- Desejo-te.

- Estarei no hotel às quatro.

Rosemary estava sem fôlego quando as vozes se afastaram. A princípio ficou mesmo espantada. Já observara a relação de ambos, sem manifestações de exigências pessoais, e parecera-lhe mais fria. Agora atravessava-a uma forte corrente de emoção, profunda e não identificada. Isso fê-la sentir-se muito só ao voltar para a sala, mas era comovente recordar a cena, e a gratidão apaixonada de Nicole expressa naquele «Oh, se amo!» ecoava-lhe na memória. O envolvimento particular da situação que presenciara ultrapassava-a mas, por muito longe que se sentisse dela, uma coisa era certa - não sentia a aversão que experimentara ao desempenhar certas cenas de amor, no cinema.

Embora de longe, era chamada a participar, e agora, acompanhando Nicole às compras, sentia-se muito mais consciente daquela proximidade do que a sua companheira. Olhava-a de forma diferente avaliando os seus atractivos. Ela era, decerto, a mulher mais atraente que Rosemary jamais conhecera, com a sua dureza, com as suas devoções e lealdades, e um certo artifício, que Rosemary, pensando agora com a mente burguesa da mãe, associava à sua atitude em relação ao dinheiro. Rosemary gastava o dinheiro que ganhara com o seu trabalho na Europa, pelo facto de, naquele dia de Janeiro, ter mergulhado seis vezes numa piscina em que a temperatura da água era pouco recomendável. Só a intervenção da mãe a fizera parar.

Com a ajuda de Nicole, Rosemary comprou dois vestidos, dois chapéus e quatro pares de sapatos. Nicole comprou tudo o que fazia parte de uma longa lista de duas páginas e mais umas coisas que viu nas montras. Tudo aquilo que lhe agradava e que não podia usar, comprava para oferecer às amigas. Comprou contas coloridas, almofadas de praia, flores artificiais, mel, uma cama para hóspedes, malas, lenços de pescoço, periquitos, miniaturas para uma casa de bonecas e três metros de um tecido novo cor de camarão. Comprou uma dúzia de fatos de banho, um crocodilo de borracha, um jogo de xadrez de viagem, em ouro e marfim, grandes lenços de linho para Abe,  blusões de camurça num azul da cor dos pica-peixes e outro castanho que lembrava os arbustos tisnados de Hermes. Adquiriu tudo isto sem o espírito com que as cortesãs da alta sociedade compram roupa interior e jóias que não passam, afinal, do seu equipamento profissional, mas com um espírito completamente diferente. Nicole era produto de muita ingenuidade e trabalho. Em atenção a ela, os comboios partiam de Chicago e desventravam o continente até à Califórnia; fábricas de pastilhas elásticas fumegavam; correias de transmissão cresciam peça a peça nas fábricas; operários misturavam pasta de dentes em contentores e extraíam desinfectantes para a boca de grandes caldeirões de cobre; raparigas enlatavam tomate em Agosto, ou trabalhavam duramente até às tantas na véspera de Natal; mestiços de índios trabalhavam nas plantações de café do Brasil e alguns sonhadores experimentavam a musculatura em novos tractores; estas eram algumas das pessoas que prestavam tributo a Nicole e todo o sistema se punha em funcionamento num florescer febril para que aquela sua necessidade de comprar por atacado fosse satisfeita. Nicole ilustrava princípios muito simples e continha em si a sua própria condenação, mas fazia-o com tal perfeição que havia fascínio no seu comportamento e não tardou que Rosemary tentasse imitá-la.

Eram quase quatro horas. Nicole demorou-se numa loja, com um periquito no ombro, e teve um dos seus acessos de verbosidade:

- O que teria acontecido se não tivesse ido para a piscina naquele dia... Às vezes interrogo-me sobre essas coisas. Estávamos em Berlim, pouco antes do começo da guerra. Eu tinha treze anos e a minha mãe morreu pouco depois. A minha irmã ia a um baile na corte e tinha na sua lista de dança três príncipes, todos eles arranjados por um camareiro. Meia hora antes, teve uma dor lateral e febre alta. O médico disse que era apendicite e que ela tinha de ser operada. Mas a mãe tinha os seus planos. A Baby foi ao baile e dançou até às duas da manhã com um saco de gelo amarrado debaixo do vestido de noite. Foi operada às sete horas dessa mesma manhã.

Concluía-se que era conveniente ser-se duro, todas as pessoas interessantes eram duras para consigo próprias. Mas eram quatro horas e Rosemary não deixava de pensar em Dick, que estava no hotel, à espera de Nicole. Nicole tinha de ir lá, não devia fazê-lo esperar. Não parava de pensar: «Porque não vais?» E de repente: «Ou deixa-me ir, se tu não queres.» Mas Nicole foi ainda a outra loja comprar cintas para ambas e mandou uma a Mary North. Só nessa altura pareceu lembrar-se e, com um ar subitamente abstracto, fez sinal a um táxi.

- Adeus - disse Nicole. - Foi divertido, não foi?

- Divertimo-nos imenso - afirmou Rosemary.

Era mais difícil do que ela pensara e todo o seu ser se revoltou quando Nicole se afastou no automóvel.

 

Dick virou a esquina transversal e continuou ao longo da vala, seguindo pelo estrado. Passou por um periscópio e olhou lá para dentro, por momentos. Depois subiu um degrau e espreitou por cima do parapeito. À sua frente, sob um céu nublado, via-se Beaumont Hamel; à esquerda, a trágica colina de Thiepual. Dick, triste e com um nó na garganta, observou-as através do binóculo.

Foi andando ao longo da vala e encontrou os outros que o esperavam na transversal seguinte. Estava muito excitado e queria comunicar-lhes as suas impressões, fazê-los entender, embora, na realidade, ao contrário dele, Abe North tivesse presenciado a guerra.

- Naquele Verão, a cada passo pereciam vinte vidas - explicou ele a Rosemary.

Obediente, ela olhou a planície verde e deserta com as suas pequenas árvores de seis anos de idade. Nessa tarde, se Dick tivesse acrescentado que eles estavam a ser bombardeados naquele momento, ela teria acreditado. O seu amor tinha alcançado um ponto em que, finalmente, começava a sentir-se infeliz e desesperada. Não sabia o que fazer. Queria falar com a mãe.

- Muita gente já morreu desde essa altura e em breve iremos nós - disse Abe, tentando amenizar a questão.

Tensa, Rosemary esperou que Dick continuasse.

- Vêem aquele pequeno riacho? Podíamos alcançá-lo em dois minutos. Os ingleses precisaram de dois meses para lá chegar... Um império avançava lentamente e morria na frente, empurrado pela rectaguarda. E um outro império recuava também com lentidão centímetro a centímetro, deixando um tapete ensanguentado de um milhão de mortos. Nenhum europeu voltará a fazê-lo, nesta geração.

- Ora! Só agora é que desistiram na Turquia... - disse Abe. - E em Marrocos...

- Isso é diferente. Esta frente ocidental não poderia voltar a existir tão cedo. Os jovens pensam que poderiam fazê-lo mas não podem. Eles poderiam repetir o primeiro confronto do Mame, mas não isto. Isto arrasou a religião e anos de muitas e tremendas certezas e ainda as relações que existiam entre as classes. Os russos e os italianos não serviram de nada. Seria preciso um sentimento poderoso, animado por uma imensa alma cujas raízes mergulhassem mais fundo que tudo aquilo que podemos imaginar! 

Seria preciso conjurar o Natal, os postais do Príncipe Herdeiro e da noiva, os pequenos cafés de Valence, as cervejarias de Unter den Linden, os casamentos na mairie, as idas ao Derby, as suíças do avô...

- O general Grant inventou este tipo de batalha em Petersburg, em mil oitocentos e sessenta e cinco.

- Não, ele limitou-se a inventar a carnificina em massa. Este tipo de batalha foi inventado por Lewis Carrol! e Júlio Verne, e por quem quer que escreveu Undine, por padres de província a jogar à bola, pelas marraines de Marselha e pelas raparigas seduzidas nos becos de Wurtemburg e da Westphalia. Porque isto foi uma batalha de amor, gastou-se aqui um século de amor de classe média. Foi a última batalha de amor.

- Queres oferecer esta batalha a D.H. Lawrence... - comentou Abe.

- Toda a beleza e segurança do meu mundo explodiu aqui, numa tremenda convulsão de amor - insistiu Dick num lamento. - Não é verdade, Rosemary?

- Não sei - respondeu ela com uma expressão grave. - Você sabe tudo. Deixaram-se ficar para trás. De repente foram atingidos por uma chuva de pedras e torrões e Abe gritou na transversal mais próxima:

- O espírito da guerra está de novo a invadir-me. Tenho cem anos de amor pelo Ohio atrás de mim e vou bombardear esta trincheira.

A cabeça emergiu de um aterro.

- Estão mortos! Não conhecem as regras? Aquilo era uma granada. Rosemary riu-se e Dick agarrou um punhado de pedras, para ripostar, mas depois largou-as.

- Não era capaz de brincar neste sítio - disse, como que desculpando-se. - O fio de prata partiu-se, a taça de oiro quebrou-se e tudo o mais, mas um velho romântico como eu não pode fazer mais nada.

- Eu também sou romântica.

Saíram da trincheira reconstruída e deram com um memorial aos mortos da Newfoundland. Ao ler a inscrição, saltaram lágrimas dos olhos de Rosemary. Como a maior parte das mulheres, gostava que lhe dissessem o que devia sentir e apreciava que Dick 'lhe tivesse dito o que era cómico e o que era triste. Mas, acima de tudo, queria que ele soubesse como ela o amava, agora que este facto interferia em tudo e que ela caminhava sobre o campo de batalha como num sonho arrepiante.

Depois voltaram para o automóvel e iniciaram o regresso a Amiens. Uma chuva fina e morna caía sobre os bosques novos, agora atapetados de mato e pequenos arbustos. Passaram grandes piras funerárias de material fora de uso, bombas, granadas, capacetes, baionetas, armas, cabedal apodrecido e mais equipamento abandonado no solo, que ali ficara durante seis anos. De repente, depois de uma curva, surgiram as saliências brancas de um mar de sepulturas. Dick pediu ao motorista que parasse.

- Lá está aquela rapariga... e ainda tem a coroa de flores... Viram-no sair do carro e ir ao encontro da rapariga, que permanecia hesitante junto do portão, empunhando uma coroa de flores.

O táxi dela continuava à espera. Era uma rapariga ruiva, do Tennessee, que eles tinham encontrado no comboio, naquela manhã, vinda de Knoxville para deixar uma lembrança na sepultura do irmão.

Lágrimas de humilhação corriam-lhe pelo rosto.

- O departamento de guerra deve ter-me dado o número errado queixou-se ela. - A sepultura tinha outro nome. Ando à procura desde as duas horas, mas há tantas sepulturas...

- Se eu estivesse no seu lugar, deixava a coroa noutra sepultura, sem me importar com o nome - aconselhou Dick.

- Acha que era isso que eu deveria fazer?

- Penso que seria o que ele desejaria que fizesse.

Estava a escurecer e a chuva caía mais forte. Ela deixou a coroa na sepultura mais próxima do portão e aceitou a sugestão de Dick para mandar o táxi embora e voltar com eles para Amiens.

Rosemary voltou a chorar quando soube do infortúnio da rapariga. Fora um dia «molhado» mas sentia que tinha aprendido qualquer coisa, embora não soubesse exactamente o quê. Mais tarde aquelas horas parecer-lhe-iam felizes - um desses momentos calmos que, na altura, parecem não ser mais do que uma ligação entre o passado e o futuro, mas que vêm depois a ganhar um peso próprio.

Amiens era uma cidade cor de púrpura, cheia de sons, ainda entristecida pela guerra, como certas estações de caminho-de-ferro: a Gare du Nord e a estação de Waterloo, em Londres. Durante o dia estas cidades deprimem as pessoas, com os seus eléctricos de há vinte anos, atravessando o pavimento acinzentado de praças enormes em frente da catedral, e o próprio tempo parece pertencer ao passado, desbotado como nas fotografias antigas. Mas depois de escurecer, tudo o que há de mais agradável na vida francesa regressa à cena; as raparigas alegres, os homens a discutir nos cafés com centenas de vai/às, os casais de cabeças encostadas vagueando sem destino. Enquanto esperavam pelo comboio sentaram-se debaixo de uma grande arcada, suficientemente alta para deixar escapar o fumo, a tagarelice e a música. Em sinal de obséquio, a orquesta começou a tocar «Yes, We Have no Bananas». Eles aplaudiram, já que o maestro parecia tão satisfeito consigo mesmo! A rapariga do Tennessee esqueceu o seu desgosto e divertiu-se. Começou mesmo a namoriscar Dick e Abe lançando-lhes olhares dengosos e dando-lhes palmadinhas. Eles arreliaram-na gentilmente.

Então, deixando as multidões de wurtemburgueses, guardas prussianos, caçadores alpinos, operários de Manchester e velhos alunos de Eton, prosseguiram a sua eterna dissolução sob a chuva quente e foram apanhar o comboio para Paris. Comeram sanduíches de mortadela e queijo que compraram no restaurante da estação e beberam Beaujolais. Nicole, distraída, mordia constantemente os lábios enquanto ia lendo os roteiros do campo de batalha que Dick trouxera. De facto, este fizera um estudo rápido do assunto e simplificara-o ao ponto de lhe emprestar uma vaga semelhança com as suas festas.

 

Quando chegaram a Paris, Nicole sentia-se demasiado cansada para ir ver as grandes iluminações da Exposição de Artes Decorativas, como tinham planeado. Deixaram-na ficar no Hotel Roi George, e quando ela desapareceu entre os reflexos cruzados das portas de vidro do vestíbulo, a sensação de opressão de Rosemary dissipou-se. Nicole era uma força - não necessariamente favorável ou previsível como a de sua mãe -, uma força incalculável. Rosemary tinha um certo receio dela.

Às onze horas, sentou-se com Dick e os North num café flutuante do Sena, que ainda estava aberto. O rio tremeluzia com as luzes das pontes e embalava muitas luas frias nas suas águas. Por vezes, ao domingo, quando Rosemary e a mãe viviam em Paris, tomavam o vapor para Suresnes e faziam planos para o futuro. Não tinham muito dinheiro mas a senhora Speers estava tão segura da beleza de Rosemary e tinha-lhe incutido tanta ambição que estava desejosa de apostar o seu dinheiro; Rosemary recompensá-la-ia, por sua vez, quando começasse a sua carreira...

Desde que Abe chegara a Paris, a sua pele adquirira um tom vinoso. Os seus olhos estavam injectados de sol e de vinho. Rosemary apercebeu-se, pela primeira vez, de que ele parava sempre onde podia tomar uma bebida e interrogou-se se isso seria do agrado de Mary North. Mary era silenciosa, excepto quando se ria, o que era frequente.

Rosemary conhecia-a mal. Gostava do seu cabelo negro e liso e penteado para trás até ao ponto em que começava a cair numa espécie de cascata. Às vezes soltava-se, caindo airosamente sobre a fronte até quase lhe cobrir os olhos. Nessa altura ela sacudia a cabeça, o que o repunha no seu lugar.

- Vamo-nos embora, Abe, depois desta bebida.

A voz de Mary era suave, mas denunciava uma leve ansiedade. - Com certeza que não vais querer dormir no barco.

- Já é muito tarde. É melhor irmo-nos embora - disse Dick.

A expressão nobre e digna do rosto de Abe tornou-se obstinada e ele observou com determinação: - Oh, não!

Fez uma pausa grave e continuou:

- Oh, não, ainda não! Vamos beber outra garrafa de champanhe.

- Eu não bebo mais - disse Dick.

- Estou a pensar na Rosemary, Ela é uma alcoólica nata - tem uma garrafa de gin na casa de banho e tudo... Foi a mãe que me disse.

Ele deitou no copo de Rosemary o que restava da primeira garrafa. A rapariga bebera litros de limonada no dia em que chegara a Paris e sentira-se mal; depois, não voltara a beber com eles, mas agora erguia o copo de champanhe e levava-o aos lábios.

- Mas o que é isto? - exclamou Dick. - Você tinha-me dito que não bebia.

- Eu não disse que nunca o faria.

- E a sua mãe?

- Só vou beber este copo.

Ela sentiu necessidade de o fazer. Dick bebia, não muito, mas bebia e talvez isso a aproximasse dele, talvez fizesse parte do que ela tinha que fazer. Ela bebeu rapidamente, engasgou-se, e depois disse:

- Além disso, ontem foi o meu aniversário... Fiz dezoito anos.

- Porque não nos disse? - perguntaram indignados.

- Eu sabia que iam fazer um grande espalhafato e ter muita maçada.

Acabou de beber o champanhe e acrescentou: - Por isso, isto é a comemoração.

- Pode ter a certeza de que não é - assegurou-lhe Dick. - O jantar de amanhã vai ser a sua festa de anos e não se esqueça disso. Dezoito anos… É uma idade terrivelmente importante.

- Eu costumava pensar que até aos dezoito anos nada tem importância... - disse Mary.

- É verdade - concordou Abe. - E depois é a mesma coisa.

- O Abe acha que nada tem importância até sair do barco - disse Mary, - Desta vez ele tem realmente planos para quando chegar a Nova Iorque.

Falava como se estivesse cansada de dizer coisas que já nada significavam para ela, como se, na realidade, o percurso que ela e o marido seguiam, ou não seguiam, não passasse já de uma intenção.

- Ele vai escrever música na América e eu vou cantar para Munique. Quando voltarmos a encontrar-nos, não haverá nada que não possamos fazer.

- Isso é óptimo - opinou Rosemary, começando a sentir o efeito do champanhe.

- Entretanto venha mais um pouco de champanhe para a Rosemary, Ela vai ficar mais apta a compreender o comportamento das suas glândulas linfáticas. Só começam a funcionar aos dezoito anos.

Dick, indulgente, riu-se para Abe. Estimava-o muito e há muito que perdera as esperanças nele.

- Clinicamente, isso não é verdade. Vamo-nos embora. Sentindo a sugestão de paternalismo, Abe disse:

- Algo me diz que vou ter um novo sucesso na Broadway muito antes de tu acabares o teu tratado científico.

- Oxalá - disse Dick com imparcialidade. - Oxalá. Talvez até abandone aquilo a que chamas o meu «tratado científico».

- Oh Dick! - a voz de Mary soou espantada e chocada.

Rosemary nunca vira antes o rosto de Dick com uma tal ausência de expressão. Sentiu que aquele comentário fora irreflectido, que fora obra do momento, e estava prestes a repetir a exclamação de Mary.

Mas de repente Dick voltou a rir-se e acrescentou:

-... Talvez o abandone por outra coisa...

E levantou-se da mesa.

- Dick, senta-te. Quero saber...

- Um dia destes falo contigo. Boa-noite, Abe. Boa-noite, Mary.

- Boa-noite, querido Dick.

Mary sorriu como se fosse sentir-se plenamente feliz, ali sentada no barco quase deserto. Era uma mulher forte que não perdia a esperança e seguia o marido para qualquer lado. Adaptava-se às circunstâncias e era incapaz de o afastar um passo do seu caminho. Por vezes, desanimada, apercebia-se de quão fundo ele guardava o segredo do seu próprio destino. No entanto, a sorte não a abandonava como se ela fosse uma espécie de símbolo...

 

- De que vai você desistir? - perguntou Rosemary, fitando Dick com

seriedade, no táxi.

- Nada de importância.

- Você é cientista?

- Sou médico.

- Ah! - ela sorriu deliciada. - O meu pai também era médico. Então porque é que não...

Calou-se.

- Não há mistério. Não abandonei a minha carreira para vir esconder-me na Riviera. Não estou a praticá-la, só isso. Quem sabe se não voltarei a exercer, um dia...

Rosemary estendeu o rosto suavemente para que ele a beijasse. Dick olhou-a, por momentos, como se não tivesse percebido. Então, enlaçando-a com o braço, esfregou o rosto na sua face macia e depois ficou a olhar para ela durante outro longo momento.

- Que criança adorável! - disse ele gravemente.

Ela sorriu. As suas mãos brincaram distraidamente com as bandas do casaco dele.

- Estou apaixonada por si e pela Nicole. É esse, na verdade, o meu segredo... Nem sequer posso falar de si a ninguém, porque não quero que mais ninguém saiba como é maravilhoso. Palavra... Amo-o a si e à Nicole. É verdade.

... Ele tinha ouvido isto tantas vezes... até as palavras eram as mesmas... De repente, Rosemary aproximou-se dele. A sua juventude desvaneceu-se a seus olhos, no momento em que a beijou sofregamente, como se ela não tivesse idade. Depois ela encostou-se ao seu braço e suspirou.

- Resolvi desistir de si - disse ela.

Dick sobressaltou-se... teria ele dito algo que implicasse que ela possuía alguma parte dele?

- Mas isso não está certo! - conseguiu dizer. - Precisamente no momento em que eu começava a sentir-me interessado.

- Amei-o tanto...

Falava como se aquilo se tivesse passado há anos.

- Amei-o tanto!

Ele devia ter rido, mas em vez disso ouviu-se dizer:

- Não só é linda como faz tudo em grande escala. Tudo o que faz, quer se mostre tímida ou apaixonada, atinge o seu objectivo.

Na escuridão do táxi, exalando o perfume que comprara com Nicole, aproximou-se novamente dele e encostou-se-lhe, Dick beijou-a sem prazer. Sabia que a paixão estava presente, mas não havia sinais dela nos olhos nem na boca de Rosemary; o seu hálito cheirava levemente a champanhe. Ela encostou-se ainda mais, com desespero, ele beijou-a de novo e ficou gelado com a inocência do beijo dela, com o olhar que no momento do contacto o transpunha direito à escuridão da noite e do mundo. Ela ainda não sabia que o esplendor vive no coração. No momento em que ela se apercebesse disso e mergulhasse na paixão universal, ele poderia possuí-la sem hesitação ou arrependimento.

No hotel, o quarto dela ficava em diagonal com o dos Diver e mais perto do elevador. Quando chegaram à porta, ela disse de repente:

- Eu sei que você não me ama... Não espero isso. Mas você disse que eu deveria tê-lo avisado do meu aniversário. Bom, já o fiz. E agora, como prenda, quero que entre no meu quarto, por um minuto, para eu lhe dizer uma coisa. É só um minuto.

Entraram e Dick fechou a porta. Rosemary manteve-se muito perto dele, sem o tocar. A noite roubara-lhe a cor do rosto... Estava agora muito pálida. Lembrava um cravo abandonado depois de um baile.

- Quando você sorri... Penso que hei-de dar sempre pela falta de um dos seus dentes de leite...

Dick recuperara a sua atitude paternal, talvez devido à proximidade silenciosa de Rosemary,

Mas era tarde... Ela aproximou-se ainda mais dele e soltou um suspiro de abandono.

- Possua-me.

- Possuo-a como?

O espanto gelou-o.

- Continue - murmurou ela. - Oh, por favor, continue, seja o que for que aconteça. Não me importo de não gostar... Nunca esperei gostar... Sempre detestei pensar nisso, mas agora não. Quero que me possua.

Ela estava espantada consigo mesma... nunca imaginara poder falar assim.

Estava a pedir-lhe o que lera, vira, sonhara durante dez anos de solidão conventual. De súbito, apercebeu-se de que se tratava igualmente de um dos seus grandes papéis e entregou-se a ele com maior paixão.

- Não esperava uma coisa destas - disse Dick. - Não é do champanhe? Vamos tentar esquecer tudo.

- Oh, não! Agora, não! Quero que você o faça agora. Possua-me! Ensine-me! Sou inteiramente sua.

- Já pensou como isso iria magoar a Nicole?

- Ela não saberá... Isto não tem nada a ver com ela.

Ele continuou delicadamente:

- Então lembre-se de que eu amo a Nicole.

- Mas você pode amar mais do que uma pessoa, não pode? Como eu amo a mãe e o amo a si... mais ainda. Agora amo-o mais ainda.

-... em quarto lugar, você não está apaixonada por mim mas pode vir a estar, e isso seria um começo de vida muito confuso para si.

- Prometo não voltar a vê-lo. Partirei imediatamente para a América com a minha mãe.

Ele rejeitou esta ideia. A juventude da rapariga e a frescura dos lábios dela estavam demasiado vivas na sua memória. Mudou de tom:

- Isso não passa de um capricho passageiro.

- Oh, por favor! Não me importaria, mesmo que tivesse um bebé. Poderia ir para o México, como uma rapariga que conheci no estúdio. Oh, isto é tão diferente de qualquer coisa que eu tenha imaginado... eu costumava odiar quando me beijavam a sério!

Dick apercebeu-se de que ela ainda alimentava esperanças. Ela continuou:

- Alguns deles tinham grandes dentes brancos, mas você é completamente diferente, é belo. Quero que o faça.

- Parece-me que você pensa que é costume as pessoas beijarem-se de uma maneira especial e por isso quer que eu a beije.

- Oh, não me arrelie... Não sou nenhuma criança. Sei que não está apaixonado por mim.

De repente, calou-se com um ar de humildade. Depois, prosseguiu: - Eu também não esperava tanto. Sei que não devo representar nada para si.

- Que disparate! Mas parece-me demasiado nova.

E no íntimo, acrescentou: «E haveria tanta coisa a ensinar-lhe.» Rosemary esperou, ansiosa, até Dick dizer:

- E ultimamente as coisas não têm corrido de modo a que isto se passasse como você queria.

Rosemary deixou cair a cabeça com desânimo e desapontamento. Dick disse maquinalmente:

- Teremos simplesmente de...

Calou-se, seguiu-a para a cama e sentou-se a seu lado enquanto ela chorava. De repente sentiu-se confuso, não pelo lado moral da situação, cuja impossibilidade era manifesta. Por momentos, a sua graciosidade natural e a resistência que sustentava o seu equilíbrio desapareceram.

- Eu sabia que você não o faria - soluçou Rosemary. - Isto não era mais do que uma esperança perdida.

Dick levantou-se.

- Boa-noite, menina. Isto é uma vergonha. Vamos acabar com isto. Falou como se estivesse no hospital, convencendo um doente a adormecer. - Muitos homens hão-de amá-la e será preferível manter-se intacta para o seu primeiro amor. É uma ideia antiquada, não é?

A rapariga levantou os olhos quando o sentiu dar um passo em direcção à porta. Olhou para ele sem a mais pequena ideia do que lhe iria na cabeça. Viu-o avançar devagar, voltar-se e olhar de novo para ela, e, por um momento, quis agarrá-lo, devorá-lo. Desejou a boca dele, as orelhas, a gola do casaco. Quis envolvê-lo e submergi-lo.

Viu-lhe a mão pousar no puxador da porta. Então desistiu e mergulhou de costas na cama. Quando a porta se fechou, levantou-se e foi até ao espelho. Começou a pentear-se, fungando ao de leve. Penteou-se mais de cem vezes, como de costume, e depois outras cem até lhe doer o braço. Agarrou na escova com a outra mão e continuou a pentear-se.

 

Acordou mais calma e envergonhada. A imagem da sua beleza no espelho não lhe deu confiança, antes reavivou a dor da véspera. Uma carta, que a mãe lhe remetia, do rapaz que a levara à festa de Yale no Outono anterior e que lhe anunciava a presença dele em Paris, também não a animou. Tudo lhe parecia tão longínquo. Saiu do quarto para a provação que era enfrentar os Diver. Mas ocultou a sua perturbação sob uma capa tão impenetrável com a de Nicole, quando as duas se encontraram e foram juntas dar uma série de voltas. Foi consolado r ouvir Nicole dizer, a propósito de uma vendedora um tanto desbocada:

- A maior parte das pessoas pensa que os outros têm por elas sentimentos muito mais extremos do que na realidade têm... Pensam que a opinião dos outros oscila entre a aprovação e a desaprovação.

Na véspera, na sua expansividade, Rosemary teria ficado melindrada com aquela observação, mas agora, ansiosa por minimizar o que acontecera, acolhia-a com avidez. Admirou Nicole pela sua beleza e sabedoria e, pela primeira vez, teve ciúmes dela. Antes de deixar o hotel de Gausse, a mãe tinha comentado, naquele seu tom casual que ocultava as opiniões mais importantes - Rosemary sabia-o -, que Nicole era muito bela. Isso implicava que ela própria não o era, mas o facto não a incomodou, pois só há pouco tempo lhe fora permitido tomar sequer conhecimento de que era bonita. Por esse motivo, o seu aspecto nunca lhe tinha parecido exactamente uma coisa sua, mas uma aquisição, como o francês. Contudo, no táxi olhou para Nicole, comparando-se com ela. Aquele corpo adorável, aquela boca delicada, umas vezes fechada, outras entreaberta com expectativa para o mundo, encerravam todas as possibilidades de um amor romântico. Nicole fora uma beldade em rapariga e sê-lo-ia mais tarde quando a pele se esticasse sobre os malares salientes... A estrutura essencial estava lá. Em tempos fora do tipo saxónico, branca e loira, mas era mais bela agora que o cabelo escurecera do que quando ele parecia uma nuvem e ofuscava a sua beleza.

- Vivemos aqui - disse Rosemary, apontando de repente para o prédio na Rue des Saints- Pêres.

- É curioso! Quando eu tinha doze anos, a mãe, a Baby e eu passámos um Inverno ali.

E apontou para um hotel exactamente do lado oposto da rua. As duas fachadas sombrias observavam-nas, como ecos cinzentos da infância.

- Tínhamos acabado de construir a nossa casa de Lake Forest e estávamos a fazer economias - continuou Nicole. - Pelo menos a Baby, eu e a governanta economizávamos, enquanto a mãe viajava.

- Nós também estávamos a economizar - disse Rosemary, apercebendo-se de que o mundo representava coisas diferentes para ambas.

- A mãe teve sempre o cuidado de referir-se a ele como o pequeno hotel...

Nicole riu com o seu riso rápido e magnético.

-... Em vez de dizer que se tratava de um hotel barato. Se qualquer amigo arrogante nos perguntasse a morada nunca diríamos: «Estamos hospedadas num pequeno buraco sombrio no bairro apache, onde nos damos por satisfeitas por ter água corrente», mas «estamos num hotel pequeno.» Como se todos os grandes fossem demasiado barulhentos e vulgares para nós. É claro que os amigos vinham a saber e contavam a toda a gente, mas a mãe acrescentava que desse modo ficávamos a conhecer melhor a Europa. Ela conhecia-a bem, é claro - nasceu na Alemanha. Mas era americana e foi educada em Chicago, por isso era mais americana do que europeia.

Iam encontrar-se com os outros dentro de minutos. Rosemary recompôs-se mais uma vez quando saíram do táxi na Rue Guynemer, em frente dos Jardins do Luxemburgo. Iam almoçar ao apartamento já desmontado dos North, situado acima daquela imensidão de verdura. O dia parecia-lhe diferente do anterior... Quando viu Dick, cara a cara, os seus olhos encontraram-se num afago de asa. Depois, tudo voltou a ficar bem, tudo era belo. Apercebia-se de que ele começava a apaixonar-se por ela. Sentiu uma alegria selvagem, sentiu a seiva quente da emoção inundar-lhe o corpo. Uma confiança calma e clara ganhara raízes e cantava no seu íntimo. Mal olhou para Dick mas sabia que tudo estava bem.

Depois do almoço, os Diver, os North e Rosemary foram à Franco-American Films para se encontrarem com Collis Clay, o jovem de New Haven a quem Rosemary telefonara. Era natural da Geórgia e tinha ideias vulgares e fixas, próprias de um sulista educado no Norte. No Inverno passado achara-o atraente. Uma vez tinham mesmo dado as mãos, quando iam de automóvel de New Haven para Nova Iorque. Agora ele já não existia para ela.

Na sala de projecção, Rosemary sentou-se entre Collis Clay e Dick enquanto o operador montava as bobinas de Daddy's Girl e um executivo francês saltitava à sua volta. Tentou uma piada em calão americano, quando houve um pequeno problema com o projector. Depois as luzes apagaram-se, ouviu-se um clique repentino, um som entrecortado e, por fim, ficou a sós com Dick. Olharam um para o outro na semi-obscuridade.

- Querida Rosemary - murmurou ele.

Os ombros de ambos tocaram-se. Nicole mexia-se sem descanso na coxia e Abe tossiu convulsivamente e assoou-se. Depois todos acalmaram e o filme começou.

estava ela... a colegial de há um ano, com o cabelo a cair-lhe pelas costas, com uma ondulação inflexível como a de uma figura de Tanagra; lá estava ela - tão nova e inocente -, o produto do amor e carinho da mãe; lá estava ela, encarnando toda a imaturidade da raça, recortando uma nova boneca de cartão para oferecer às massas acéfalas. Ela lembrava-se do que sentira ao envergar aquele vestido, invulgarmente fresca e renovada sob a frescura da seda.

A menina do papá. Diante dos seus punhos delicados, afastavam-se as forças da lascívia e da corrupção, melhor, a marcha do destino parou; o inevitável teve de ser evitado. O silogismo, a dialéctica, a racionalidade caíram por terra. As donas de casa esqueciam a louça por lavar e choravam. Até no elenco uma mulher chorou tanto que quase roubou o filme a Rosemary. Chorou sobre um cenário que custara uma fortuna, numa sala de jantar estilo Ducan Phyfe, num aeroporto e durante uma corrida de iates, no metropolitano e, finalmente, numa casa de banho. Mas Rosemary triunfou. A sua finura de carácter, a sua coragem e firmeza fizeram frente à vulgaridade do mundo e mostraram que o enfrentava com um rosto que ainda não se tornara uma máscara. Era na realidade tão comovente que absorvia quase inteiramente as emoções da assistência. Houve um intervalo e acendeu-se a luz. Depois dos aplausos, Dick disse-lhe com sinceridade:

- Estou simplesmente espantado. Você vai ser uma das melhores actrizes da tela.

Voltaram então a Daddy's Girl. Eram agora dias mais felizes. Um belo quadro de Rosemary e o pai, finalmente unidos, em que o complexo de Édipo era tão evidente que Dick se insurgiu, em nome de todos os psicólogos, contra aquele sentimentalismo vicioso. O ecrã desapareceu, as luzes acenderam-se. Chegara o momento.

- Preparei outra coisa - anunciou Rosemary àquela assistência. - Arranjei um teste para o Dick.

- Um quê?

- Um teste de representação. Vai ser agora.

Fez um silêncio terrível. Depois os North não conseguiram reprimir as gargalhadas. Rosemary observou Dick à medida que ele ia tomando consciência do que ela pretendia. O seu rosto ganhou uma expressão comparável à de um irlandês. Simultaneamente, ela apercebeu-se de que errara ao jogar o seu trunfo, embora não suspeitasse de que deitara a carta errada.

- Não quero fazer nenhum teste - disse Dick com firmeza. Depois, reconsiderando, disse com brandura:

- Rosemary, estou desapontado. Os filmes são uma boa carreira para as mulheres mas, valha-me Deus, não podem filmar-me! Sou um velho cientista, completamente envolvido na minha vida privada.

Com um ar irónico, Nicole e Mary incitaram-no a não perder a oportunidade. Metiam-se com ele, ambas um pouco aborrecidas por não terem sido convidadas para uma audição. Mas Dick pôs ponto final no assunto com um comentário azedo sobre os actores:

- O guarda mais forte está colocado ao portão que dá para o nada. Talvez porque a condição do vazio é demasiado vergonhosa para ser divulgada - disse.

No táxi - iam deixar Collis no seu destino e Dick levava Rosemary a um chá que Nicole e os North tinham recusado para que Abe tratasse dos assuntos que deixara para a última hora -, no táxi, Rosemary repreendeu Dick.

- Pensei que, se o teste resultasse, podia levá-lo para a Califórnia. E depois, talvez gostassem dele e você podia contracenar comigo num filme.

Ele ficou muito espantado.

- Foi uma ideia muito amável, mas eu prefiro vê-la a si. Foi a visão mais bela que eu já tive.

- É um grande filme - disse Collis. - Eu vi-o quatro vezes. Conheço um rapaz em New Haven que o viu doze vezes. Ia a Hartford de propósito para o ver. E quando eu trouxe a Rosemary a New Haven, ficou tão emocionado que nem conseguiu encontrar-se com ela. Nem calcula! Esta menina fá-los renderem-se!

Dick e Rosemary olharam-se, desejosos de ficar sós, mas Collis não percebeu.            .

- Eu deixo-os onde quiserem - sugeriu. - Estou no Lutetia.

- Nós vamos levá-lo.

- É mais fácil levá-los eu. Não me importo nada.

- Nós.

- Mas... ~ começou Collis.

Apercebeu-se finalmente da situação e começou a combinar com Rosemary um novo encontro.

Partiu finalmente, levando consigo a sua obscura insignificância, mas também o peso ofensivo de ser uma terceira pessoa. O carro parou de repente na morada que Dick indicara. Dick respirou fundo.

- Vamos entrar?

- Tanto me faz - disse Rosemary. - Farei tudo o que quiser.

- Sou quase forçado a entrar, ela quer comprar uns quadros a um amigo meu que está necessitado de dinheiro.

Com um gesto rápido e preciso, Rosemary ajeitou o cabelo.

- Demoramo-nos só cinco minutos. Você não vai gostar desta gente disse ele com ar decidido.

A rapariga calculou que fossem pessoas aborrecidas ou estereotipadas, grosseiras, alcoólicas, cansativas ou inconvenientes, ou de qualquer outro género que os Diver evitassem. De modo nenhum estava preparada para a impressão que a cena provocou nela.

 

Era uma casa talhada segundo o modelo do palácio do Cardeal de Retz, na Rue Monsieur, mas no interior não se encontrava nada do passado, nem de nenhum presente que Rosemary conhecesse. A fachada de alvenaria mais parecia conter o futuro, pelo choque eléctrico que dir-se-ia provocar. Atravessar aquele limiar, se assim se pudesse chamar-lhe, constituía uma definitiva prova de nervos, perversa como um pequeno-almoço de cereais e haxixe, pois ia desembocar num longo corredor azul metálico e prateado e nas múltiplas facetas de espelhos singularmente biselados. O efeito era diferente do da Exposição de Artes Decorativas, já que as pessoas estavam dentro e não cá fora. Rosemary teve a sensação exaltante e ilusória de se encontrar num cenário e calculou que todos os outros a partilhavam.

Havia cerca de trinta pessoas, mulheres na sua maior parte, no estilo de Louisa M. Alcott ou Madame de Ségur. Movimentavam-se neste cenário com tanta cautela, com tanta precisão como uma mão que apanhasse estilhaços de vidro. Não poderia afirmar-se que dominavam o ambiente, nem como indivíduos nem como multidão, da mesma maneira que é possível conseguir dominar uma obra de arte que se possua, por mais esotérica que ela seja. Ninguém conhecia o significado desta sala porque se transformava em qualquer coisa diferente, em algo que uma sala não é. Existir dentro dela era tão difícil como andar numa escada rolante encerada, e ninguém o conseguia, salvo se possuísse as qualidades já mencionadas de uma mão a mover-se entre vidro partido. Essas qualidades limitavam e definiam a maioria dos presentes.

A assistência era de dois tipos. Havia os americanos e os ingleses que tinham vivido na dispersão durante toda a Primavera e o Verão, de tal modo que tudo o que faziam agora era fruto de uma inspiração puramente nervosa. Estavam calados e apáticos em certos momentos e, de repente, explodiam em discussões inesperadas, depressões e seduções. A outra classe, que poderia considerar-se a dos exploradores, era formada por parasitas, pessoas sóbrias e sérias em comparação com as outras. Possuíam um objectivo na vida e não tinham tempo para desperdiçar. Movimentavam-se melhor naquele ambiente e, fosse qual fosse a nota dominante, para além da novidade fútil daquele espaço, era deles que provinha.

Dick e Rosemary foram engolidos, de um trago, por Frankenstein... que os separou imediatamente, e Rosemary descobriu-se de repente uma pessoa insignificante e falsa, superficial, desejosa de que o realizador chegasse.

Contudo, havia na sala como que um bater de asas tão selvagem que ela achou que a sua situação não era mais incongruente que a de qualquer outra pessoa. Depois de uma série de gestos grotescos, avanços e desvios, deu consigo a conversar com uma rapariga elegante e educada, com um encantador rosto de rapazinho, mas que na realidade estava absorvida por uma conversa que tinha lugar numa espécie de escadote metálico, a cerca de quatro metros no outro extremo da diagonal.

Três mulheres jovens estavam sentadas num banco. Eram todas altas e esguias, com cabeças tão bem enfeitadas como as de manequins. Enquanto falavam, iam balançando graciosamente as pequenas cabeças que emergiam dos fatos escuros de bom corte, como flores de pé alto ou capelos de cobras.

- Oh! Eles estão a fazer um bom espectáculo - disse uma delas com uma voz profunda e rica. - Praticamente o melhor espectáculo de Paris... Seria a última a negá-lo. Mas enfim...

Suspirou e prosseguiu:

- Aquelas frases que ele repete sempre: «Os mais velhos habitantes mordidos por roedores.» Uma pessoa acha graça uma vez...

- Eu prefiro pessoas cujas vidas sejam menos lineares. E não gosto dela

- disse a segunda.

- Nunca consegui entusiasmar-me realmente com eles, ou com aqueles

que os rodeiam. Porquê, por exemplo, aquele senhor North, sempre embriagado?

- Foi-se embora - disse a primeira das raparigas. - Mas tens de admitir que a pessoa em questão pode ser um dos seres humanos mais encantadores que jamais conheceste.

Foi o primeiro indício que Rosemary teve de que se referiam aos Diver e ficou hirta de indignação. Mas a rapariga que falava com ela, de blusa azul, engomada, a condizer com a cor dos olhos, e de rosto rosado a contratar com o tom acinzentado do fato, começava a revelar-se. Desesperadamente, não parava de remover tudo o que se interpusesse entre ambas - com receio de que Rosemary não a visse - até que dentro em pouco não havia nada mais do que um véu de humor frágil a separá-las. Desagradada, Rosemary viu-a com clareza.

- Não quer almoçar ou jantar comigo hoje? Ou talvez almoçar amanhã? - perguntou a rapariga com ar súplice.

Rosemary olhou em volta à procura de Dick e descobriu-o na companhia da dona da casa, com quem tinha estado a conversar desde que chegara. Os olhares de ambos encontraram-se. Ele fez-lhe um sinal discreto e, no mesmo instante, as três mulheres-cobra repararam nela. Esticaram os longos pescoços na sua direcção e, por fim, fixaram-na com olhares críticos. Ela retribuiu-os com ar de desafio, dando-lhes a entender que ouvira o que tinham dito. Depois desviou o olhar com delicadeza mas de uma forma incisiva, como aprendera recentemente com Dick, e dirigiu-se para ele. A dona da casa, outra rapariga americana alta e rica, discorria despreocupadamente sobre a propriedade nacional e fazia inúmeras perguntas a Dick sobre o hotel  de Gausse, onde era evidente que queria ir, deparando com uma relutância permanente da parte dele. A presença de Rosemary fê-la aperceber-se de que, como anfitriã, estava a ser insistente em demasia e olhando em volta, disse:

- Encontrou alguém interessante? Conheceu o senhor...

Os seus olhos tentaram encontrar um homem que pudesse interessar a Rosemary, mas Dick disse-lhe que tinham de partir. Saíram logo, transpondo o breve limiar do futuro em direcção ao passado súbito da fachada de pedra.

- Não foi terrível? - perguntou ele.

- Terrível - repetiu Rosemary, num tom obediente.

- Rosemary...

- O que é? - murmurou ela com uma voz intimidada.

- Lamento muito tudo isto.

Ela foi sacudida por soluços dolorosos e audíveis.

- Tem um lenço? - balbuciou.

Mas não havia tempo para choros e, agora que estavam apaixonados, devoraram aqueles breves momentos enquanto, fora do táxi, o dia se esvaía em tons cremes e esverdeados. Sinais vermelho fogo, azul chama e verde fantasmagórico começavam a brilhar como fumo por entre a chuva tranquila. Eram quase seis horas, as ruas agitavam-se, as pequenas lojas cintilavam e a Praça da Concórdia estava envolvida num tom rosado majestoso quando o táxi virou para norte.

Por fim olharam-se, murmurando nomes que soavam como magia. Suavemente os dois nomes pairavam no ar, e morreram mais devagar do que outras palavras, outros nomes, mais devagar do que a música morre na mente.

- Não sei o que me deu ontem à noite - disse Rosemary. - Deve ter sido do champanhe... Nunca me comportei assim!

- Você disse apenas que me amava.

- E amo... Não posso mudar isso.

Era altura de Rosemary chorar e chorou um pouco, abafando os soluços no lenço.

- Acho que também a amo, o que não é a melhor coisa que podia acontecer - disse Dick.

De novo os nomes... E então juntaram-se como se a trepidação do automóvel os tivesse sacudido. Os seios de Rosemary comprimiram-se contra ele, a sua boca jovem e quente unida à dele. Deixaram de pensar com um alívio quase doloroso. Deixaram de ver. Limitavam-se a respirar e a procurar-se um ao outro. Encontravam-se ambos no mundo tranquilo e acinzentado, naquele suave quebranto de fadiga que experimentamos quando os nervos se distendem em feixe como as cordas de um piano e estalam subitamente como cadeiras de verga. Nervos tão puros e ternos teriam inevitavelmente de unir-se a outros nervos, lábios com lábios, peito com peito...

Viviam ainda no estádio mais feliz do amor. Estavam cheios de ilusões heróicas acerca um do outro, ilusões tremendas, de tal forma que a comunhão de um com o outro parecia dar-se num plano onde não cabiam outras relações humanas.

Pareciam ambos ter chegado a este ponto através de uma inocência extraordinária, como se uma série de acidentes fortuitos os tivesse unido e forçado a concluir que existiam um para o outro. Tinham chegado de mãos limpas, ou pelo menos assim parecia, sem pactuar com uma mera curiosidade ou clandestinidade.

Mas para Dick aquele troço do caminho foi curto; a viragem teve lugar antes de atingirem o hotel.

- Não há nada a fazer - disse, com uma sensação de pânico. - Estou apaixonado por si mas isso não altera o que eu disse a noite passada. - Isso não me interessa agora. Só queria que me amasse... Se me ama, está tudo certo.

- Infelizmente, amo-a. Mas a Nicole não deve saber... Não deve nem suspeitar. A Nicole e eu temos de continuar juntos. De certa forma isso é mais importante do que querer simplesmente continuar.

- Beije-me mais uma vez.

Dick beijou-a, mas por momentos afastou-se dela.

- A Nicole não deve sofrer... ela ama-me e eu amo-a... Peço-lhe que compreenda.

Rosemary compreendia. Era o tipo de coisa que entendia bem: não ferir as pessoas. Sabia que os Diver se amavam, percebera-o desde o início. Pensara, no entanto, que se tratava de uma relação um tanto fria, como o amor dela pela mãe. Quando as pessoas têm tanto a dar a estranhos, isso não significa que existem lacunas na sua intimidade?

- E quero mesmo dizer amor - disse Dick adivinhando-lhe os pensamentos. - Amor activo... É muito complicado para lhe poder explicar. Foi ele o responsável por aquele duelo sem sentido.

- Como é que soube do duelo? Pensei que devíamos ocultar-lho.

- Acha que o Abe é capaz de guardar um segredo? - perguntou Dick com uma ironia incisiva. - Conte um segredo na rádio, publique-o num jornal, mas nunca o conte a um homem que bebe mais de três ou quatro copos por dia.

Ela riu-se e concordou, sem se afastar dele.

- Deve compreender que as minhas relações com a Nicole são complicadas. Ela não é muito forte... Parece mas não é. E isso torna tudo muito complicado.

- Oh, deixe isso para mais tarde! Agora beije-me, ame-me! Amá-lo-ei sem que a Nicole perceba.

- Minha querida!

Chegaram ao hotel e Rosemary seguiu atrás dele, admirando-o, adorando-o. O seu passo era cauteloso como se regressasse de uma grande proeza e se preparasse para outra. Organizador da alegria privada, administrador da mais esplendorosa felicidade! O chapéu era perfeito. Trazia uma pesada bengala e usava luvas amarelas. Rosemary pensou que bons momentos não passariam todos os que o acompanhassem naquela noite...

Subiram as escadas - cinco lanços. No primeiro patamar pararam e beijaram-se. No segundo patamar, Rosemary mostrou-se mais cautelosa e ainda mais no terceiro.

No seguinte - faltavam ainda dois - parou a meio e despediu-se dele com um beijo rápido. A pedido dele, voltaram a descer ao patamar inferior e depois subiram outra vez. Por fim disseram adeus, com as mãos estendidas ao longo do corrimão, ansiosas por se tocarem, e os dedos largando-se lentamente. Dick voltou a descer para fazer alguns preparativos para o serão. Rosemary correu para o quarto e escreveu uma carta à mãe. Não tinha a consciência tranquila, pois na realidade não sentia a sua falta.

 

Embora os Diver fossem realmente indiferentes à moda organizada, eram, no entanto, demasiados sensitivos para abandonar o ritmo do seu tempo. As festas de Dick estavam sempre associadas a excitação, e a oportunidade de respirar o ar fresco da noite nos intervalos era uma experiência preciosa.

A festa daquela noite decorria com a velocidade galopante de uma comédia. Eram doze, eram dezasseis pessoas, eram grupos de quatro em vários automóveis, numa rápida odisseia através de Paris. Tudo fora previsto. As pessoas juntavam-se-lhes como que por magia, acompanhavam-nos como se fossem especialistas, uma espécie de guias, durante uma parte da noite. Depois afastavam-se e eram substituídas por outras, dando a impressão de que a frescura de cada uma fora guardada para eles durante todo o dia. Rosemary apreciou a diferença existente entre esta festa e qualquer outra de Hollywood, independentemente do seu grau de esplendor. Entre muitas diversões, havia o automóvel do Xá da Pérsia. Como Dick se apoderara dele, que espécie de suborno utilizara, eram factos irrelevantes. Rosemary aceitou o facto apenas como uma nova faceta do fabuloso que preenchera a sua existência durante dois anos. O automóvel fora construído na América e tinha uma carroçaria especial. As rodas eram de prata, assim como o radiador. O interior tinha inúmeros brilhantes falsos incrustados que seriam substituídos por pedras preciosas verdadeiras pelo joalheiro da corte quando o automóvel chegasse a Teerão, na semana seguinte. Havia um só assento na parte de trás, pois o Xá tinha de seguir sozinho, por isso ocupavam-no à vez, enquanto os outros se sentavam na pele de marta que cobria o chão.

Mas Dick estava sempre presente. Rosemary confirmava a opinião da mãe, que continuava a ter como referência e que reforçava a sua certeza de que nunca conhecera ninguém tão simpático como Dick estava a ser naquela noite. Comparou-o com os dois ingleses a quem Abe, muito compenetrado, se dirigira como «Major Hengest e Senhor Horsa», Comparava-o igualmente com o herdeiro do trono escandinavo, com o romancista recém-regressado da Rússia, com Abe, desesperado e inteligente, e com Collis Clay, que se juntara a eles entretanto, e sentiu que não havia comparação possível. O entusiasmo e o altruísmo, que eram uma constante do seu comportamento, deslumbravam-na. A técnica de movimentar muitos tipos diferentes - cada um por si, mas todos tão dependentes do contributo das suas atenções como  um batalhão de infantaria depende de rações - parecia tão espontânea que ainda lhe restavam bocados do seu eu mais pessoal para dar a todos.

... Mais tarde recordou as ocasiões em que se sentira mais feliz. A primeira vez tinha sido quando ela e Dick haviam dançado juntos, e ela sentira a sua beleza cintilar, deslumbrante, de encontro à figura alta e forte, enquanto flutuavam, pairando num sonho agradável. Ele fazia-a voltear com tal delicadeza que ela se sentia como se fosse um lindo ramo de flores, um tecido precioso exibido perante vários pares de olhos. Por um instante não dançaram - estavam simplesmente nos braços um do outro. De outra vez, já de manhã, tinham ficado sós e o seu corpo jovem, húmido e poeirento, encostou-se ao dele, num cair de roupa cansada, contra um fundo de agasalhos e chapéus de outras pessoas.

Mais tarde teve ensejo de rir, quando seis deles, dos melhores, as mais nobres relíquias da noite, na semi-obscuridade do vestíbulo do Ritz, disseram ao porteiro do turno da noite que o general Pershing estava lá fora e queria caviar e champanhe.

- Ele não tolera esperar. Está acostumado a que tudo e todos estejam ao seu serviço.

Criados frenéticos apareceram não se sabe de onde, foi posta uma mesa no vestíbulo, e Abe entrou, no papel do general Pershing, enquanto os outros permaneciam de pé balbuciando em sua honra fragmentos de canções de guerra. Perante a reacção negativa dos criados a este anticlímax, sentiram-se desprezados, o que os levou a montar-lhes uma armadilha: uma engenhoca enorme e fantástica, construída com toda a mobília do vestíbulo e que funcionava como uma das máquinas bizarras de um desenho de Goldberg. Perante isto, Abe abanou a cabeça com um ar duvidoso.

- Talvez fosse melhor roubar uma serra musical e...

- Basta! - interrompeu Mary. - Quando o Abe começa nisto é altura de voltarmos para casa.

E confessou a Rosemary com ansiedade:

- Tenho de levar o Abe para casa. O comboio com ligação ao barco parte às onze horas. É tão importante... Sinto que todo o futuro depende do facto de ele o apanhar, mas sempre que discuto com ele, ele faz exactamente o contrário.

- Vou tentar convencê-lo - ofereceu-se Rosemary.

- Vai? - disse Mary, duvidando. - Talvez consiga...

Nessa altura Dick aproximou-se de Rosemary e disse:

- Nicole e eu vamos para casa e pensámos que podia querer vir connosco.

Rosemary estava pálida de fadiga, em contraste com as tonalidades daquela falsa aurora.

Nas suas faces, duas manchas mais escuras indicavam o sítio em que a cor se concentrava durante o dia.

- Não posso - respondeu. - Prometi à Mary North ficar com eles, senão o Abe nunca mais se vai deitar. Talvez você pudesse ajudar...

- Não sabe que não se pode fazer nada pelas pessoas? - advertiu-a. -  Se o Abe fosse meu companheiro de quarto no colégio e se tivesse embriagado pela primeira vez, seria diferente. Agora não há nada a fazer.

- Bom, eu tenho de ficar. Ele diz que vai para a cama se ao menos o acompanharmos até às Halles - disse ela quase em tom de desafio.

Com um gesto rápido, Dick beijou-lhe a parte interior do cotovelo. - Não deixe a Rosemary ir para casa sozinha - gritou Nicole a Mary antes de saírem. - Somos responsáveis por ela perante a mãe.

... Mais tarde, Rosemary, os North, um fabricante de vozes de bonecas de Newark, o ubíquo Collis e um índio ligado ao negócio do petróleo, enorme e soberbamente vestido, chamado George T. Horseprotection, seguiam numa carroça em cima de uma montanha de cenouras. Na escuridão, a terra agarrada às cenouras exalava um cheiro agradável e adocicado. Rosemary ia de tal modo empoleirada na carga que mal conseguia ver os outros nas alternâncias de luz e sombra provocadas pelos raros candeeiros. As suas vozes chegavam de longe, como se vivessem uma experiência diferente da sua, diferente e longínqua, pois ela trazia Dick no coração. Arrependera-se de ter vindo com os North, e desejava estar no hotel com ele, a dormir do outro lado do corredor, ou que ele estivesse ali, a seu lado no meio da escuridão.

- Não suba - gritou para Collis. - As cenouras podem resvalar. Ela atirou uma a Abe que estava sentado ao lado do condutor, hirto como um velho...

Mais tarde foram levá-lo a casa, já de dia, quando os pombos começavam a sobrevoar Saint-Sulpice. Todos se puseram a rir espontaneamente porque sabiam que era ainda a noite anterior, enquanto as pessoas nas ruas tinham a ilusão de que aquilo era uma manhã quente e brilhante.

«Finalmente estive numa festa louca», pensou Rosemary, «mas quando o Dick não está presente não tem graça.» Sentiu-se um pouco traída e triste, mas de repente viu um objecto em movimento. Era um castanheiro enorme em plena floração que levavam para os Campos Elíseos, num grande camião, como que sacudido pelo riso.... Como uma pessoa encantadora que se visse numa situação indigna, embora mantivesse a convicção de ser bela. Olhando a árvore, fascinada, Rosemary identificou-se com ela e riu-se alegremente com a ideia. De repente, tudo o resto lhe pareceu maravilhoso.

 

Abe partia às onze horas, da Gare de Saint Lazare. Ali ficou sozinho, sob a cúpula de vidro sujo, uma relíquia dos anos setenta, a era do Palácio de Cristal. As mãos tinham aquele vago tom acinzentado que só se consegue ao fim de vinte e quatro horas de vigília, e estavam enfiadas nos bolsos do casaco para esconder o tremor dos dedos. Como não trazia chapéu, via-se que só a parte superior do cabelo fora penteada para trás, já que as camadas inferiores estavam resolutamente espetadas para os lados. Pouca semelhança tinha com o homem que nadava na praia de Gausse quinze dias antes.

Chegara cedo, virava os olhos de um lado para o outro, sem mexer a cabeça. Para movimentar qualquer outra parte do corpo, teria sido necessário recorrer a forças nervosas que não conseguia controlar. Passavam por ele malas de viagem novas em folha. Potenciais passageiros, com pequenos corpos sombrios, anunciavam jóias, nas suas vozinhas escuras e estridentes.

No momento em que ponderava se havia ou não de ir ao bar tomar qualquer coisa, e começava a acariciar o maço húmido de notas de mil francos que trazia no bolso, o seu olhar imobilizou-se. Nicole acabara de aparecer no cimo das escadas. Observou-a. Era reveladora nas suas mais leves expressões, como acontece com as pessoas de quem se está à espera e que ignoram que estão a ser observadas. Vinha de sobrolho carregado, a pensar nos filhos, mas a sua expressão traduzia menos o enlevo que uma preocupação puramente animal. Como uma gata que procura as crias com a pata.

Quando avistou Abe, essa disposição desvaneceu-se; a luz da manhã era triste, e Abe, de aspecto sombrio, tinha olheiras escuras que contrastavam com o tom bronzeado da pele. Sentaram-se num banco.

- Vim porque me pediu - disse Nicole na defensiva.

Abe parecia ter esquecido a razão de tal pedido e Nicole contentou-se em ficar a ver os que partiam.

- Aquela vai ser a beldade do barco... Aquela com todos aqueles homens a despedirem-se... Percebe por que razão ela comprou aquele vestido? Nicole falava cada vez mais depressa. - Mais ninguém a não ser a beldade de um cruzeiro o compraria. Percebe? Não? Acorde! É um vestido com história. Aquele tecido raro tem uma história para contar e há-de haver alguém naquele barco suficientemente solitário para querer ouvi-la.

As últimas palavras foram ditas em surdina. Falara demais para o que era habitual, e Abe, olhando o seu rosto sério, tinha dificuldade em perceber o que ela dissera. Fez um esforço para se recompor.

- Na tarde em que você me levou àquele baile tolo... Você sabe, aquele de Sainte Genevieve... - começou.

- Já me lembro. Foi divertido, não foi?

- Para mim não foi. Não gostei de a ver nessa altura. Estou cansado de vocês dois, mas não se nota, pois vocês estão ainda mais cansados de mim. Se me restasse um pouco de entusiasmo, faria novos conhecimentos.

Nicole deu-lhe uma palmada nas costas com a mão enluvada.

- Parece-me despropositado ser antipático, Abe. De qualquer forma não é isso que você quer dizer. Não percebo por que desistiu de tudo.

Abe ficou pensativo, tentando a todo o custo evitar tossir ou assoar-se.

- Acho que me fartei. E depois já era difícil voltar atrás e chegar a algum lado.

É frequente um homem representar um papel de criança indefesa perante uma mulher, mas é muito raro mostrar-se como tal quando se sente realmente uma criança indefesa.

- Não tem desculpa - disse Nicole secamente.

Abe sentia-se cada vez pior. Só lhe vinham à ideia comentários desagradáveis e descontrolados. Nicole achou que a atitude mais correcta seria manter-se sentada, olhando em frente, com as mãos no regaço... Durante um certo tempo não houve comunicação entre eles. Era como se escapassem um do outro, respirando apenas na medida em que divisassem o espaço azul, um espaço que o outro não via. Ao contrário dos apaixonados, não tinham um passado; ao contrário de um casal, não tinham um futuro. Contudo, até àquela manhã Nicole gostara de Abe mais do que qualquer outra pessoa, com excepção de Dick, e ele transportara consigo durante anos o seu grande, tímido amor por ela.

- Estou cansado do mundo das mulheres - disse ele de repente. - Então por que não cria um mundo só seu?

- Estou cansado dos amigos. O problema são os aduladores.

Nicole, através do seu poder mental, tentou fazer andar os ponteiros do relógio da estação.

- Não concorda? - acrescentou ele.

- Eu sou uma mulher e a minha missão é estabelecer a harmonia.

- A minha tarefa é destruí-la.

- Quando você se embriaga, só se destrói a si mesmo, mais nada - disse ela, agora fria, assustada e insegura.

A estação enchia-se mas não apareceu ninguém que ela conhecesse. Pouco depois, reconhecida, avistou uma rapariga alta, de cabelo louro, tom de palha, que mais parecia um capacete, e que estava a pôr cartas na caixa do correio. - Está ali uma rapariga com quem preciso de falar, Abe. Abe, acorde. Pateta!

Ele seguiu-a com um olhar paciente. Admirada, a mulher voltou-se para cumprimentar Nicole e Abe lembrou-se de já a ter visto algures em Paris.

Aproveitou a ausência de Nicole para tossir com força, cuspir para o lenço e assoar-se ruidosamente. A manhã aquecera e tinha a roupa interior encharcada em suor. Os dedos tremiam-lhe com tamanha violência que gastou quatro fósforos para acender um cigarro. Parecia-lhe indispensável ir ao bar para beber qualquer coisa, mas Nicole voltou imediatamente.

- Foi um erro! - disse, com um humor gélido. - Depois de me implorar que a fosse visitar, cortou a conversa de repente e olhou-me como se eu fosse um monte de lixo.

Nervosa, soltou uma pequena gargalhada e acrescentou:

- É preferível deixar que as pessoas venham ter connosco.

Abe recuperou-se da tosse causada pelo cigarro e observou:

- O problema é que quando estamos sóbrios não queremos ver ninguém.

- Quem? Eu?

Nicole riu-se outra vez. Por qualquer razão, o encontro recente deixara-

-a bem disposta.

- Não é o meu caso - rematou. - Fale por si. Eu gosto das pessoas, de muitas pessoas... Gosto...

Rosemary e Mary North apareceram nesse momento. Caminhavam devagar, à procura de Abe. Risonha, Nicole precipitou-se para elas, gritando e acenando-lhes com um pacote de lenços que comprara para Abe.

Formaram um pequeno grupo desajeitado, em que sobressaía a presença gigantesca de Abe. Este mantinha-se de parte, como os destroços de um galeão, dominando com a sua presença a sua própria fraqueza e condescendência, a sua limitação e o seu azedume. Todos os outros tinham consciência da dignidade solene que fluía dele, da sua realização, fragmentada, sugestiva e ultrapassada. Mas assustava-os a vontade que lhe restava, que em tempos fora vontade de viver, e agora era vontade de morrer.

Dick Diver apareceu trazendo com ele um reflexo deslumbrante para onde se precipitaram as três mulheres como macacos, com gritinhos de alívio, empoleirando-se-lhe nos ombros, no chapéu imponente e no castão dourado da bengala. Por momentos ignoraram o espectáculo da gigantesca obscenidade de Abe. Dick apercebeu-se rapidamente da situação e controlou-a num instante. Desviou a atenção das mulheres de si próprias para a estação, apontando motivos de interesse. Ali perto, uns americanos despediam-se de outros com vozes que imitavam água a correr para uma enorme banheira. Enquadrados pela estação, com Paris em plano de fundo, parecia que se debruçavam sobre um oceano imaginário, experimentando as alterações marítimas - uma transferência de átomos destinada a formar as moléculas de que seria gerada uma nova raça.

Estes americanos prósperos eram derramados pela estação até às plataformas, com rostos francos, inteligentes, indulgentes, irreflectidos ou preocupados. Um inglês que aparecesse por acaso entre eles, sobressairia pela rigidez. Quando a plataforma já estava repleta de americanos, a primeira impressão de pureza e desafogo desvaneceu-se, dando lugar a uma vaga reminiscência racista que embaraçava e cegava tanto os próprios como quem os observava.

Nicole agarrou o braço de Dick e gritou:

- Olha!

Dick voltou-se a tempo de ver o que se passou em menos de um minuto.

À entrada de uma carruagem de luxo, no meio dos acenos, desenrolava-se uma cena agitada. A jovem de cabelo em forma de capacete, que Nicole abordara, afastou-se com estranha rapidez do homem com quem falava e meteu uma das mãos na carteira, com frenesim. Em seguida soaram dois tiros de revólver na atmosfera cerrada da estação. Na mesma altura, a máquina soltou um silvo agudo e o comboio pôs-se em marcha, abafando o som dos tiros. Abe voltou a acenar da janela, alheio ao que acontecera. Mas antes de a multidão se fechar, os outros perceberam que os tiros haviam atingido o seu alvo na plataforma.

O tempo que o comboio levou a parar pareceu uma eternidade. Nicole, Mary e Rosemary esperaram à distância, enquanto Dick abria caminho através da multidão. Só passados cinco minutos voltou para junto delas. Nessa altura a multidão dividira-se em duas partes, seguindo o homem que era transportado numa maca e a rapariga, que caminhava pálida e firme entre polícias agitados.

- É a Maria Wallis - disse Dick rapidamente. - O homem que ela alvejou era inglês. Tiveram grande dificuldade em descobrir quem ele era, porque o tiro perfurou-lhe o bilhete de identidade.

Afastavam-se rapidamente do comboio, integrados na multidão. Dick acrescentou:

- Consegui descobrir qual é a esquadra da Polícia para onde vão levá-la. Vou lá...

- Mas a irmã dela vive em Paris - objectou Nicole. - Porque não lhe telefonamos? É estranho que ninguém se tenha lembrado disso. Ela é casada com um francês e o marido pode ser-lhe mais útil do que nós.

Dick hesitou, abanou a cabeça e avançou.

- Espera! - gritou Nicole atrás dele. - É uma tolice, como podes fazer alguma coisa... com o teu francês!

- Pelo menos verei se a tratam com decência.

- Decerto vão prendê-la - assegurou-lhe Nicole com irritação. - Ela disparou realmente sobre o homem. O melhor é telefonar já à Laura. Ela poderá fazer mais do que nós.

Dick não parecia convencido e, por outro lado, queria fazer boa figura perante Rosemary.

- Espera! - disse Nicole com firmeza e correu para uma cabine telefónica.

- Quando a Nicole chama a si os problemas, não há nada a fazer comentou Dick, com um misto de ironia e ternura.

Era a primeira vez que via Rosemary naquela manhã. Trocaram olhares, tentando recuperar as emoções do dia anterior. Por momentos, cada um deles pareceu irreal ao outro... Depois, o sussurro do amor recomeçou, lento e envolvente.

- Você gosta de ajudar toda a gente, não é? - disse Rosemary.

- Pelo menos tento.

- A minha mãe também gosta de ajudar toda a gente, mas é claro que não pode ajudar tanta gente como você.

Rosemary suspirou e disse ainda:

- Por vezes penso que sou a pessoa mais egoísta do mundo.

Pela primeira vez a referência à mãe aborreceu Dick mais do que o divertiu. Ele gostaria de varrê-la, de retirar da relação deles aquela dependência infantil em que Rosemary sempre se colocava. Mas compreendeu que este impulso era uma perda de controlo... Até onde iria Rosemary se, por instantes, ele fraquejasse? Reparou, não sem um certo pânico, que a relação de ambos caminhava para um impasse e não poderia manter-se assim teria de avançar ou recuar. Pela primeira vez, ocorreu-lhe que Rosemary controlava a situação com mais autoridade do que ele.

Antes que tivesse delineado uma forma de procedimento, Nicole voltou. - Encontrei a Laura. Ainda não sabia de nada. Faltou-lhe a voz, como se fosse desmaiar, mas depois conseguiu recuperar. Disse que pressentia que alguma coisa iria acontecer esta manhã.

- A Maria devia juntar-se a Diaghileff - disse Dick com suavidade, de forma a acalmá-las. - Possui um óptimo sentido do décor, para não dizer do ritmo. Será que algum de nós conseguirá voltar a ver um comboio partir da estação, sem ouvir uma série de tiros?

Desceram os largos degraus metálicos que fizeram ressoar os seus passos. - Tenho pena do pobre homem. Agora percebo porque me falou ela de forma tão estranha. Estava a preparar-se para disparar... - disse Nicole.

Riu-se e Rosemary secundou-a, mas ambas estavam aterrorizadas e desejavam ardentemente que Dick fizesse qualquer comentário sobre o assunto e que não deixasse essa tarefa para elas. Este desejo não era inteiramente assumido, em especial por Rosemary, já de certa forma familiarizada com aquele tipo de situações. Mas era evidente que também se sentia chocada. Dick estava demasiado abalado pelo ímpeto das suas novas emoções para tomar resoluções com ligeireza, como quem está de férias. Esta falta levou as mulheres a deixarem-se invadir por uma vaga sensação de infelicidade.

Depois, como se nada tivesse acontecido, os Diver e os amigos saíram para a rua.

Contudo, qualquer coisa se passara - a partida de Abe e a iminente partida de Mary para Salzburg naquela tarde, tinham posto fim à temporada em Paris. Ou talvez fossem os tiros, o choque violento que terminara sabe Deus com que questão sinistra... Os tiros haviam penetrado nas suas vidas: ecos de violência perseguiam-nos na rua onde dois carregadores esperavam um táxi e comentavam:

- Til as vu le revolver? II était três petit, vraie perle... un jouet.

- Mais assez puissant! Tu as vu sa chemise? Assez de sang pour se croire

à la guerre - retorquiu o outro.

 

Na praça, ao saírem, uma mancha de óleo cozia lentamente sob o sol de Julho. Era terrível... ao contrário do calor natural, não sugeria uma fuga para o campo, lembrava apenas estradas repletas da mesma asma doentia. Durante o almoço ao ar livre, nos Jardins do Luxemburgo, Rosemary teve cãibras e sentiu-se irritada e impaciente. Fora a antevisão deste estado de espírito que a levara a apelidar-se de egoísta, na estação.

Dick não suspeitava desta mudança tão radical; sentia-se profundamente infeliz e o consequente aumento de egocentrismo não lhe permitia ver o que se passava à sua volta e privava-o da imaginação fértil com que sempre contava para formar os seus juízos.

Depois de Mary North os ter deixado, acompanhada pelo professor de canto italiano que se juntara a eles para tomar café e ia levá-la ao comboio, Rosemary levantou-se também, dizendo que tinha um encontro marcado com alguém dos estúdios.

- Se o Collis Clay, aquele rapaz do Sul, vier enquanto vocês estiverem aqui, digam-lhe só que não pude esperar. Ele que me telefone amanhã pediu.

Demasiado despreocupada, em relação aos recentes acontecimentos desagradáveis, assumia os privilégios de uma criança. O resultado foi lembrar aos Diver o amor que dedicavam aos próprios filhos. Nicole não gostou da atitude e mostrou-lho, respondendo com uma voz dura e inexpressiva:

- É melhor deixar o recado a um criado. Nós vamo-nos já embora. Rosemary percebeu a intenção, mas não mostrou ressentimento.

- Está bem. Adeus.

Dick pediu a conta. Ele e a mulher mascavam palitos para aliviar a tensão.

- Bem... - disseram ao mesmo tempo.

Notou um trejeito de amargura na boca da mulher, tão breve que só ele teria notado e que poderia ignorar. O que pensaria Nicole? Rosemary era apenas uma entre várias pessoas que ele «trabalhara» nos últimos anos: um palhaço de circo francês, Abe e Mary North, um par de bailarinos, um escritor, um pintor, uma comediante do Grand Guignol, um pederasta meio louco do BaIlet Russo, um tenor promissor que eles tinham financiado para ir passar um ano a Milão. Nicole sabia bem como estas pessoas levavam a sério  o seu interesse e entusiasmo; mas sabia também que, excepto quando os filhos tinham nascido, Dick nunca passara uma noite longe dela desde o casamento. Por outro lado, havia nele uma bonomia que tinha de manifestar-se. Os que a possuíam tinham de ser cautelosos, pois os outros afeiçoavam-se-lhes sem que soubessem o que fazer com eles.

Dick ficou carrancudo e deixou os minutos passar sem esboçar uma confidência, sem mostrar a surpresa constantemente renovada de juntos serem um só.

Collis Clay, o tal homem do Sul, abriu caminho por entre as mesas muito juntas e cumprimentou os Diver com arrogância. Tais cumprimentos surpreendiam invariavelmente Dick - pessoas conhecidas que lhes diziam «olá», ou então que falavam com um ignorando o outro. Ele vivia os outros com tal intensidade que em momentos de apatia preferia manter-se afastado; que alguém pudesse mostrar indiferença em relação a ele era um desafio aos princípios em que fundamentava a sua existência.

Collis anunciou assim a sua chegada, comportando-se inconscientemente como um noivo:

- Reconheço que estou atrasado. O pássaro voou...

Dick precisou de dominar-se para conseguir perdoar-lhe o facto de não ter cumprimentado Nicole em primeiro lugar.

Esta retirou-se imediatamente e ele voltou a sentar-se com Collis, beberricando o resto do vinho. Não desgostava de Collis - pertencia à geração posterior à guerra e era menos difícil que a maior parte dos sulistas que ele conhecera em New Haven, dez anos antes. Dick ouvia divertido a conversa que acompanhava a preparação lenta e elaborada de um cachimbo. Naquele princípio de tarde, crianças e amas passeavam nos Jardins do Luxemburgo. Era a primeira vez, desde há meses, que Dick renunciava a esta parte do dia.

De súbito, o sangue gelou-se-lhe nas veias ao aperceber-se do conteúdo do monólogo confessional de Collis,

-... ela não é tão fria como você possa pensar. Admito que também o pensei durante muito tempo. Mas ela meteu-se numa confusão com um amigo meu, na Páscoa, numa viagem entre Nova Iorque e Chicago... Era um rapaz de New Haven chamado Hillis que ela achava muito engraçado. Ela ia num compartimento com uma prima minha, mas quis ficar a sós com o Hillis. Durante a tarde, a minha prima veio para o nosso compartimento jogar às cartas comigo. Bem, duas horas depois voltámos e encontrámos a Rosemary e o Hillis a discutir com o revisor, no corredor. A Rosemary estava branca como a cal da parede. Parece que tinham trancado a porta e baixado as cortinas, e reinava lá dentro uma grande confusão quando o revisor veio pedir os bilhetes e bateu à porta. Eles pensaram que éramos nós a brincar e não abriram logo. Quando o fizeram, o revisor estava muito aborrecido. Perguntou ao Hillis se aquele era o seu compartimento e se era casado com a Rosemary. O Hillis descontrolou-se ao tentar explicar que não se passara nada de mal. Afirmou que o revisor tinha insultado a Rosemary e quis lutar com ele. O revisor podia ter levantado muitos problemas e, acredite-me, passei um mau bocado a tentar acalmar a situação.

Imaginando cada pormenor, invejando mesmo o par em apuros no corredor, Dick sentiu que uma mudança se operava no seu íntimo. A imagem de uma terceira pessoa, menos indefinida, introduzindo-se na sua relação com Rosemary, era só por si suficiente para o desequilibrar e o encher de dor, desejo e desespero. A mão que imaginava na face de Rosemary, a respiração apressada, a viva excitação do acontecimento visto de fora, o seu calor secreto e inviolável punham-no fora de si.

«- Importa-se que eu baixe a cortina?»

«- Faça favor. Há demasiada luz aqui.»

Collis Clay falava agora da política da fraternidade de New Haven, no mesmo tom, com a mesma ênfase. Dick sentia que ele estava apaixonado por Rosemary de uma forma curiosa que ele não podia entender. O incidente com Hillis parecia não ter impressionado Collis emocionalmente. Limitara-se a reafirmar a sua convicção de que Rosemary era «humana».

- O Bones tinha conseguido uma adesão formidável! - disse ele. Na realidade, todos conseguimos. New Haven é tão grande, actualmente, que o problema são os homens que temos de excluir.

«- Importa-se que eu baixe a cortina?»

«- Faça favor. Há demasiada luz aqui.»

.- Dick atravessou Paris para ir ao Banco. Enquanto preenchia um cheque, ia olhando para a fila de homens sentados à secretária e tentando decidir a qual deles o apresentaria para o necessário visto... Enquanto escrevia, concentrava-se no que fazia, examinando meticulosamente a caneta, escrevendo aplicadamente sobre a secretária alta de tampo de vidro. Uma vez levantou o olhar sem expressão para o departamento de correspondência. Depois voltou a concentrar-se nos objectos que manejava. '

Mais uma vez não conseguiu decidir-se quanto ao empregado a quem iria entregar o cheque. Qual deles teria menos hipóteses de adivinhar o seu estado de espírito e estaria com menos disposição para conversar? Havia Perrin, o suave nova-iorquino que o convidara para almoçar no Clube Americano; havia- Casasus, o espanhol, com quem costumava falar de um amigo comum, apesar de esse amigo ter desaparecido da sua vida há doze anos; havia Muchhause que lhe perguntava sempre se ele queria descontar os cheques na sua conta ou na da mulher.

Quando apontou a importância no canhoto do cheque e a sublinhou duas vezes, resolveu dirigir-se a Pierce. Era novo e perante ele seria suficiente uma pequena representação. Era muito mais fácil representar do que assistir a uma representação.

Foi primeiro à secção do correio. Quando a empregada que o atendia amparou com o peito uma folha de papel que ia a cair, ele pensou como as mulheres usam o corpo de uma forma diferente dos homens. Pegou nas suas cartas para as abrir. Havia uma conta de dezassete livros de psiquiatria de uma editora alemã; uma conta do Brentano; uma carta do pai, proveniente de Buffalo e escrita com uma letra que, de ano para ano, se tornava mais indecifrável; um cartão do Tommy Barban com carimbo de Fez, com uma mensagem brejeira; cartas de médicos de Zurique, ambas escritas em alemão; uma letra protestada de um estucador de Cannes; uma conta de um fabricante de mobílias; uma carta de um editor de um jornal de Baltimore, diversos panfletos publicitários e um convite para uma exposição de fotografias dum artista em ínicio de carreira; e ainda três cartas para Nicole e uma para Rosemary enviada a seu cuidado.

«- Importa-se que eu baixe a cortina?»

Dirigiu-se a Pierce, mas este estava ocupado a atender uma senhora o que o obrigou a entregar o cheque a Casasus, na secretária seguinte, que estava disponível.

- Como está, Diver?

Casasus era genial. Levantou-se, o bigode a acompanhar o sorriso, e continuou:

- Há dias estávamos a falar de Featherstone e pensei em si... Ele está

agora na Califórnia.

Os olhos de Dick dilataram-se. Inclinou-se um pouco para a frente. - Na Califórnia?

- Foi o que ouvi dizer.

Dick entregou-lhe o cheque. Para atrair a atenção do empregado sobre o documento, olhou para a secretária de Pierce, entretendo-o com uma troca de olhares insinuantes que recordavam uma velha brincadeira de havia três anos, quando Pierce se envolvera com uma condessa lituana. Pierce mostrou um sorriso aberto. Casasus visou o cheque e, sem outro recurso para reter Dick, a quem estimava, limitou-se a repetir, afagando o monóculo:

- Sim, ele está na Califórnia.

Entretanto, Dick reparara que Perrin, no topo da linha de secretárias, conversava com o campeão mundial de pesados. Através de um olhar rápido de Perrin, Dick apercebeu-se de que este pensava chamá-lo para lhe apresentar a vedeta, mas por fim desistiu da ideia.

Atalhando a sociabilidade de Casasus e ajudado pelo volume de papéis acumulados sobre o tampo de vidro - e o mesmo é dizer que examinou o cheque com atenção, fixou o olhar grave para lá do primeiro pilar de mármore, à direita da cabeça do empregado, e levou muito a sério o pegar na bengala, no chapéu e nas cartas -, Dick despediu-se e saiu. Há muito que comprara o porteiro e um táxi aproximou-se prontamente do passeio.

- Quero ir para o Estúdio Cinematográfico Par Excellence. Fica numa pequena rua em Passy. Vá até à Muette. Eu indico-lhe o caminho a partir daí. Os acontecimentos das últimas quarenta e oito horas haviam-no deixado tão indeciso que já não estava bem certo do queria fazer. Saiu do táxi na Muette e encaminhou-se para o estúdio, atravessando a rua antes de se aproximar do edifício. Apesar do aspecto muito digno no seu fato e acessórios impecáveis, oscilava e era arrastado como um animal. A dignidade só poderia vir com o derrubar do seu passado, o seu esforço dos últimos seis anos. Contornou rapidamente o quarteirão, como faria um adolescente de Tarkington, procurando com avidez os lugares mais sombrios com medo de passar por Rosemary sem a ver quando esta saísse do estúdio. Era um sítio melancólico. Na porta ao lado viu uma tabuleta: 1000 chemises.

Uma infinidade de camisas enchia a montra, umas empilhadas, outras com gravata e outras, ainda, dispostas com gosto duvidoso. 1000 chemises... Contem-nas! Do outro lado lia-se: Papeterie; Pâtisserie, Solde, Réclame. Distinguia-se o retrato de Constance Talmadge em Déjeuner de Solei! e mais ao longe viam-se anúncios igualmente sombrios: Vêtements Ecclésiastiques, Déclaration de Décêse Pompes Funêbres, Vida e Morte.

Dick sabia que o que fazia agora marcava uma viragem na sua vida. Desviava-se de tudo o que fizera até então, fosse qual fosse o efeito que esperava produzir em Rosemary. Ela sempre o encarara como o modelo da correcção e a sua presença ali, agora, era uma intromissão. Mas a necessidade de proceder assim era a projecção de uma realidade submersa; sentia-se compelido a andar por ali ou ficar ali, com as mangas da camisa ajustadas aos punhos e as mangas do casaco cobrindo as da camisa, o colarinho moldado ao pescoço, o cabelo ruivo impecavelmente cortado, segurando na pasta como um dandy - tal como outro homem um dia sentira necessidade de se postar perante uma igreja, em Ferrara, vestido de serapilheira e cinzas.

Dick pagava tributo a coisas inesquecíveis, inconfessáveis, inexpurgáveis.

 

Depois de rondar o local durante três quartos de hora, Dick viu-se subitamente envolvido num contacto humano. Era o tipo de coisa que lhe acontecia sempre que não lhe apetecia ver ninguém. Tal era a rigidez com que se defendia que muitas vezes punha em causa os seus próprios objectivos, como o actor que, tendo representado mal, desencadeia um impulso, uma emoção emocionalmente estimulada no público, como se criasse neste a capacidade de preencher o vazio deixado por ele. Assim, também raramente nos compadecemos dos que necessitam ou imploram a nossa piedade. Reservamo-la para os que, por outros meios, nos obrigam a exercer essa função abstracta.

Do mesmo modo poderia Dick analisar o incidente que se seguiu. Enquanto andava para cá e para lá na Rue des Saintes-Anges um americano de rosto magro dirigiu-lhe a palavra. Teria trinta anos, um ar escalavrado e um sorriso leve mas sinistro. Quando Dick lhe deu o lume que ele pedira, identificou-o como sendo do tipo que conhecia bem desde rapaz... Era o tipo de homem que vagueia pelas tabacarias com um cotovelo apoiado no balcão observando, sabe Deus através de que reduto da consciência, as pessoas que entram e saem. Frequentador de garagens, onde tem negócios vagos, discutidos em voz baixa, de barbeiros, de bastidores de teatros. Era nesses locais que Dick o imaginava. Por vezes, o rosto do homem agitava-se como num dos desenhos mais selvagens de Tad. Em criança, era frequente Dick sentir um certo mal-estar perante a fronteira obscura do crime, em que este homem se encontrava.

- Que tal acha Paris?

Sem esperar resposta, o homem tentou acertar o passo com Dick. - Donde é você? - perguntou num tom encorajador.

- De Buffalo.

- Eu sou de San Antone... Mas estou cá desde a guerra.

- Está no Exército?

- Eu diria que estive. Na 84." Divisão... Já ouviu falar?

O homem seguia um pouco mais à frente e fitava-o com um ar quase ameaçador.

- Fica um tempo em Paris? Ou está só de passagem?

- Estou de passagem.

- Em que hotel está?

Intimamente, Dick começou a rir-se. O companheiro parecia disposto a ir assaltar-lhe o quarto nessa noite. Não era difícil adivinhar os seus pensamentos.

- Com um corpo como o seu não devia ter medo de mim, homem. Há muita malta à volta dos turistas americanos, mas você não precisa de ter medo de mim.

aborrecido, Dick parou e disse:

- Só gostava de saber porque é que tem tanto tempo para perder!

- Estou em negócios, aqui em Paris.

- Que negócios?

- Vendo jornais.

O contraste entre a altivez do seu trato e a modéstia da sua profissão moderada era absurdo, mas o homem esclareceu:

- Não se preocupe! Ganhei muito dinheiro o ano passado... Dez ou vinte francos por um Sunny Times que custa seis.

Tirou um jornal de uma pasta grosseira e estendeu-o a Dick, que agora se tornara seu companheiro de deambulações, A primeira página mostrava uma multidão de americanos a sair de um paquete carregado de ouro. - Duzentos mil, que deixam cá dez milhões durante o Verão.

- O que é que você anda a fazer aqui em Passy?

O outro olhou à volta com cautela.

- Filmes - respondeu, com um ar enigmático. - Eles têm um estúdio americano por aqui e precisam de tipos que saibam falar inglês. Estou à espera de uma vaga.

Com firmeza, Dick afastou o homem rapidamente.

Era evidente que Rosemary já saíra enquanto ele dava voltas ao quarteirão, ou mesmo antes de ter chegado. Dick dirigiu-se a uma taberna na esquina, comprou uma ficha para o telefone e, num recanto estreitíssimo entre a cozinha e uma casa de banho enxovalhada, telefonou para o hotel. Reconheceu tendências de Cheyne-Stokes na própria respiração mas, como sempre, o sintoma serviu apenas para o sensibilizar ainda mais para a sua própria emoção. Indicou o número do quarto e, agarrado ao telefone, observou a taberna. Depois de uma longa espera, uma vozinha esquisita disse

«Está?»

- Sou o Dick. Tinha de lhe telefonar.

Do outro lado do fio, fez-se uma pausa. Depois, a rapariga ganhou coragem e, sintonizando-se com a emoção dele, respondeu:

- Ainda bem que o fez...

- Vim esperá-la ao estúdio. Estou em Passy, mesmo em frente do estúdio. Pensei que talvez pudéssemos dar uma volta pelo Bois.

- Oh! Hoje não me demorei nada aí. Que pena! Seguiu-se um silêncio.

- Rosemary.

- Sim, Dick.

- Só consigo pensar em si. Quando uma criança consegue perturbar um homem de meia-idade... as coisas tornam-se complicadas...

- Você não é uma pessoa de meia-idade, Dick, você é a pessoa mais nova do mundo.

- Rosemary?

De novo o silêncio, enquanto ele olhava para uma prateleira onde se alinhavam os mais modestos venenos de França: garrafas de Otard, Rhum SI. James, Marie Brizzard, Punch Orangeade, André Fernet Blanco, Cherry Rochet e Armagnac.

- Está sozinha?

«- Importa-se que eu baixe a cortina?»

- Com quem julga que eu poderia estar?

- Veja como eu estou! Gostava de estar consigo agora.

Silêncio, depois um suspiro e uma resposta: - Gostaria que estivesse comigo agora.

estava ela no quarto de hotel, do outro lado do fio, enquanto fragmentos de música nostálgica a envolviam...

 

Tea for two

And two for tea.

And me for you,

And you for me

Alow-own.

 

Recordava o seu rosto bronzeado, coberto de pó-de-arroz. Quando lhe beijava a face sentia-lhe a humidade junto à raiz do cabelo.

«É impossível!», disse ele com os seus botões.

Pouco depois estava outra vez na rua, a caminho da Muette (ou afastando-se dela?), com a pequena bolsa ainda na mão, e empunhando a bengala de castão de ouro como se fosse uma espada.

Rosemary voltou para a secretária e acabou a carta para a mãe:

«... Só o vi por um instante mas achei-o lindo. Apaixonei-me por ele (é claro que prefiro o Dick, mas percebe o que quero dizer... ). Ele vai dirigir o filme e parte imediatamente para Hollywood. Acho que devíamos partir também. O Collis Clay esteve aqui. Gosto dele mas não o tenho visto muito por causa dos Diver, que são realmente divinos, talvez as pessoas mais simpáticas que conheci. Não me sinto muito bem hoje, e estou a tomar o remédio, embora não veja necessidade disso. Contar-lhe-ei tudo o que tem acontecido quando estivermos juntas, por isso, quando receber esta carta, mande-me logo um telegrama. Vem para o Norte ou devo ir com os Diver ter consigo?»

Dick telefonou a Nicole às seis horas.

- Tens algum plano especial? - perguntou ele - Gostavas de um programa calmo como um jantar no hotel e uma ida ao teatro?

- Tu gostavas? Farei o que tu quiseres. Telefonei há pouco à Rosemary e ela tenciona jantar no quarto. Acho que isso nos transtorna a todos, não achas?

- A mim, não - objectou ele. - Minha querida, a não ser que estejas muito cansada, vamos fazer qualquer coisa. Ou então vamos para o Sul e passamos uma semana a pensar porque não vimos Boucher. É melhor do que ficar a cismar...

Fora um deslize e Nicole perguntou num tom incisivo: - A cismar em quê?

- Na Maria Wallis.

Nicole concordou em ir ao teatro. Entre eles, havia a tradição de nunca estarem demasiado cansados para qualquer coisa. Achavam que isso melhorava os seus dias e dava uma certa ordem aos serões. Quando, inevitavelmente, se sentiam um pouco abalados, transferiam a culpa para o aborrecimento e para o cansaço dos outros. Antes de saírem - elegantes, como tantos casais em Paris - bateram ao de leve à porta do quarto de Rosemary. Não obtiveram resposta. Calculando que estava a dormir, envolveram-se na noite quente e barulhenta de Paris, beberricando um vermute e cervejas na obscuridade do bar do Fouquet.

 

Nicole acordou tarde, murmurando qualquer coisa ainda relacionada com o sonho, antes de abrir as pálpebras de pestanas compridas emaranhadas pelo sono. A cama de Dick estava vazia. Só passado um minuto é que se apercebeu de que acordara porque tinham batido à porta da sala.

- Entrez - gritou ela.

Mas não houve resposta, o que a levou a vestir um roupão e ir abrir

a porta. Deparou com um sergent de ville que entrou e perguntou:

- O senhor Afghan North... está aqui?

- O quê? Não... Ele partiu para a América.

- Quando é que ele partiu, Madame?

- Ontem de manhã.

O homem abanou a cabeça e apontou-lhe o indicador, agitando-o num

ritmo rápido.

- Ele estava em Paris a noite passada. Está registado aqui, mas o quarto

dele está vazio. Disseram que era melhor perguntar neste quarto.

- Isso é muito esquisito. Ontem de manhã fomos despedir-nos dele ao comboio que faz ligação com o barco.

- Não digo o contrário, mas ele foi visto aqui esta manhã. Até mostrou o bilhete de identidade.

- Não sabemos nada disso - disse Nicole espantada.

O homem meditou. Era bem parecido mas pouco asseado.

- Tem a certeza de que não esteve com ele ontem à noite?

- Claro que tenho.

- Prendemos um negro. Estamos convencidos de que finalmente prendemos o negro certo.

- Garanto-lhe que não faço ideia do que está a falar. Se é o senhor Abraham North, aquele que nós conhecemos, se ele estava em Paris a noite passada, nós não tínhamos conhecimento disso.

O homem abanou a cabeça e chupou o lábio superior. Estava convencido mas desapontado.

- O que aconteceu? - perguntou Nicole.

O polícia encolheu os ombros num gesto de desânimo. Começava a achá-la atraente e fitava-a com um certo brilho nos olhos.

- O que quer, Madame? Um destes casos de Verão. O senhor Afghan North foi roubado e queixou-se.

Nós prendemos o miserável. O senhor Afghan tem de ir identificá-lo e apresentar a respectiva queixa.

Nicole aconchegou melhor o roupão ao corpo e despediu-se bruscamente.

Confusa, tomou um banho e vestiu-se. Já passava das dez. Telefonou a Rosemary mas ninguém atendeu. Em seguida telefonou para a recepção e descobriu que Abe constava, de facto, do registo de hóspedes desde as seis e meia da manhã. Contudo, o seu quarto estava ainda desocupado. Esperando que Dick soubesse alguma coisa, aguardou-o na saleta. Quando finalmente desistiu e decidiu sair, o empregado da recepção anunciou pelo telefone:

- Está aqui um negro, o senhor Crawshow.

- O que pretende? - perguntou ela.

- Diz que conhece a senhora e o senhor doutor. Diz que um tal senhor Freeman, que é amigo de toda a gente, foi preso. Ele acha que é injusto e quer falar com o senhor North antes de ser também preso.

- Não sabemos nada disso...

Nicole pôs ponto final no assunto, desligando o telefone com uma pancada seca. O reaparecimento bizarro de Abe evidenciou como ela estava cansada da sua libertinagem. Afastando-o da ideia, saiu, encontrou-se com Rosemary na costureira e foi com ela comprar flores artificiais e ainda colares de contas de muitas cores, na Rue de Rivoli. Ajudou Rosemary a escolher um diamante para a mãe e cigarreiras para levar às colegas na Califórnia. Para o filho comprou soldados gregos e romanos, um exército inteiro que custou mais de mil francos. Uma vez mais, gastaram dinheiro de maneiras diferentes e de novo Rosemary se admirou ao observar como Nicole o gastava. É que Nicole tinha a certeza de que o dinheiro que gastava era seu... Rosemary continuava a pensar que o dinheiro que tinha lhe era milagrosamente emprestado, o que a obrigava a ser muito cautelosa.

Era divertido gastar dinheiro assim, à luz do Sol, numa cidade estrangeira, com corpos saudáveis que davam cor aos rostos, movendo os membros com a confiança que lhes advinha da apreciação dos homens. Quando voltaram para o hotel e encontraram Dick com um aspecto resplandescente, logo de manhã, ambas sentiram, por momentos, uma alegria infantil.

Ele acabara de receber um estranho telefonema de Abe que, segundo parecia, passara a manhã escondido.

- Foi uma das conversas telefónicas mais extraordinárias em que me vi envolvido.

Para além de Abe, Dick falara com mais uma dúzia de pessoas que, ao telefone, se tinham apresentado de uma forma estranha. Diziam que Abe se envolvera num escândalo e que não podia voltar para casa. Começavam a sugerir algo, mas seguiam-se interrupções e o que quer que fosse que iam a dizer ficava por dizer.

Por fim, um apelo suplementar:

- Pensei que, como psicólogo, se deixasse impressionar.

O desconhecido que fizera esta afirmação estava provavelmente agarrado ao telefone, mas não conseguiu interessar Dick, nem como psicólogo nem mesmo de qualquer outra forma. A conversa com Abe processou-se do seguinte modo:

- Está?

- Sim?

- Sim, está?

- Quem é você?

- Bem... - ouviam-se risadas sonoras. - Bem, vou passar o telefone a outra pessoa.

De vez em quando, Dick ouvia a voz de Abe, acompanhada de quedas tumultuosas do telefone e fragmentos longínquos de vozes como «Não, eu não, senhor North... ». Então uma voz decidida e atrevida disse:

- Se é amigo do senhor North, venha cá buscá-lo.

Foi então que Abe interveio, num tom solene e ponderado, interrompendo-os com determinação.

- Dick, eu desencadeei uma desordem racial em Montmartre. Vou tirar o Freeman da cadeia. Se um negro de Copenhaga, que é engraxador... Está? Estás a ouvir-me? Bem, olha, se alguém aí for...

Mais uma vez se ouviu um coro de muitas vozes. - Por que voltaste para Paris? - perguntou Dick.

- Fui até Evereux e decidi voltar de avião para a poder comparar com St. Sulpice. Não tenciono trazer St. Sulpice outra vez para Paris. Nem me refiro ao barroco. Refiro-me a St. Germain. Por amor de Deus, espera um pouco que eu vou passar o telefone ao paquete.

- Por favor, não!

- Ouve! A Mary chegou a partir?

- Chegou.

- Dick, eu quero que tu fales com um homem que eu conheci aqui esta manhã. É filho de um oficial da marinha e já foi visto por todos os médicos da Europa. Deixa-me falar-te acerca dele...

Nessa altura Dick desligou. Talvez estivesse a ser ingrato, já que precisava de incentivo para a sua actividade intelectual.

- O Abe costumava ser tão simpático!... - disse Nicole a Rosemary. - Se o tivesse conhecido há muito tempo, quando eu e o Dick nos casámos... Ele ficava connosco durante semanas e semanas, e nós mal nos apercebíamos de que ele estava lá em casa. Umas vezes tocava... Outras, ficava na biblioteca a olhar para o piano, embevecido, durante uma hora. Dick, lembras-te daquela criada? Estava convencida de que ele era um fantasma. Às vezes o Abe ia ao encontro dela no corredor e fazia ruídos estranhos, o que nos custou, uma vez, um serviço de chá completo, mas não nos importámos.

Era tudo tão divertido!... Há tanto tempo! Rosemary invejava-os, imaginando uma vida de lazer muito diferente da sua. Mal sabia o que eram tempos livres, mas respeitava-os, como todas as pessoas que nunca os têm.

Não se apercebia de que os Diver estavam tão longe de ter descanso como ela própria.

- O que lhe aconteceu? Porque é que ele tem sempre de beber? - perguntou ela.

Nicole abanou a cabeça para a direita e para a esquerda, negando qualquer responsabilidade na questão e disse:

- Hoje em dia há tantos homens inteligentes que se perdem...

- E quando é que isso não aconteceu? - perguntou Dick. - Os homens inteligentes jogam muito perto dos limites. Alguns não aguentam e desistem.

Nicole retomou a sua linha de pensamento, irritada por Dick a ter contradito em frente de Rosemary:

- Deve ser mais do que isso. Não me parece que artistas como... Bem, como o Fernand, se encharquem em álcool. Porque é que só os americanos são dissolutos?

Havia tantas respostas possíveis que Dick resolveu deixar a pergunta no ar, para que soasse a vitória aos ouvidos de Nicole. Tornara-se muito crítico em relação a ela, embora a achasse a criatura mais atraente que alguma vez conhecera, embora obtivesse dela tudo o que necessitava. Pressentia a discórdia e, inconscientemente, ia-se colocando na defensiva e endurecendo de hora para hora. Não era dado à autocomplacência e sentia-se infeliz neste momento em que se desculpava, enganando-se com a esperança de que Nicole viesse, ao menos por um exacerbamento emocional, a suspeitar do caso com Rosemary. Não tinha a certeza, mas na noite passada, quando estavam no teatro, ela referira-se deliberadamente a Rosemary como se esta fosse uma criança.

Almoçaram os três lá em baixo, num ambiente de tapetes e de criados lentos, que não se moviam ao ritmo acelerado dos homens que traziam boa comida para a mesa nos sítios onde tinham jantado nos últimos tempos. Aqui havia famílias de americanos olhando em volta para outras famílias de americanos, tentando entabular conversas uns com os outros.

Na mesa ao lado havia um grupo que eles não conseguiram perceber. Compunha-se de um homem novo, expansivo, com ar de secretário, e de um conjunto de mulheres. Não eram novas nem velhas, nem pertenciam a nenhuma classe social definida. Apesar disso, o grupo dava a impressão de um todo, mais unido, por exemplo, do que um grupo de mulheres que tivessem ido assistir a um congresso profissional dos maridos. Havia com certeza mais unidade do que em qualquer grupo de turistas.

Instintivamente, Dick reprimiu o sarcasmo e pediu ao criado que tentasse descobrir quem eram.

- São familiares dos mortos da guerra - explicou o criado. Soltaram exclamações em vários tons. Os olhos de Rosemary encheram-se de lágrimas.

- As mulheres mais novas são provavelmente as viúvas - disse Nicole. Dick olhou-os de novo por cima do copo de vinho. Nos rostos felizes, na dignidade que rodeava e impregnava o grupo, reconheceu a maturidade de uma América mais velha. Por momentos, aquelas mulheres sóbrias que tinham vindo chorar os seus mortos, por algo que não podiam modificar, tornaram a sala mais bela. Por instantes, Dick viu-se de novo sentado nos joelhos do pai, cavalgando com Moseby, enquanto antigas fidelidades e devoções se digladiavam à sua volta. Foi quase com esforço que regressou ao convívio das duas mulheres sentadas à sua mesa e enfrentou o mundo inteiramente novo em que acreditava.

«- Importa-se que eu baixe a cortina?»

 

Abe North continuava ainda no bar do Ritz, onde entrara às nove da manhã. Quando chegara à procura de abrigo, as janelas estavam abertas e grandes feixes de luz encarregavam-se de levantar a poeira dos tapetes e das almofadas. Os paquetes apressavam-se nos corredores, libertos e desfardados, à vontade. A zona reservada às senhoras, do outro lado do bar, era muito pequena. Era difícil imaginar que à tarde acomodasse tanta gente.

O famoso Paul, o concessionário, ainda não tinha chegado, mas Claude, que verificava as contas, interrompera o trabalho para atender Abe, sem demonstrar surpresa. Abe sentou-se num banco encostado à parede. Depois de duas bebidas começou a sentir-se melhor, tão bem que foi ao barbeiro fazer a barba. Quando regressou ao bar, Paul já tinha chegado, no seu automóvel à moda, de onde se apeara, impecável, no Boulevard des Capucines. Paul gostava de Abe e aproximou-se dele para conversar.

- Tencionava embarcar esta manhã - disse Abe. - Quero dizer, ontem de manhã, ou lá quando era...

- Por que não foi? - perguntou Paul.

Abe pensou e chegou por fim a uma conclusão:

- Andava a ler um folhetim em fascículos no Liberty e a próxima prestação tem de ser paga em Paris. Se tivesse embarcado, nunca chegaria a acabá-lo. - Deve ser uma história muito interessante.

- É terrível!

Paul conteve o riso e fez uma pausa, reclinando-se nas costas da cadeira. - Se quer realmente ir-se embora, senhor North, há amigos seus que partem amanhã no France - o senhor Não-sei-quê e Slim Pearson. O senhor... Não me lembro... Um homem alto e com barba.

- Yardly - ajudou Abe.

- Exactamente, o senhor Yardly. Vão os dois no France.

O homem fez menção de se retirar para os seus afazeres, mas Abe tentou retê-lo.

- Se não tivesse de passar por Cherbourg... A minha bagagem foi por lá.

- Pode levantá-la em Nova Iorque - disse Paul, recuando.

A lógica da sugestão tomava forma gradualmente. Abe gostava que alguém se preocupasse com ele, ou melhor, que alguém prolongasse o seu estado de irresponsabilidade.

Entretanto, outros clientes tinham afluído ao bar. Primeiro chegou um holandês enorme que Abe conhecera algures. O holandês sentou-se do outro lado da sala e Abe calculou que ele ia passar ali o dia, a comer, a beber, a conversar ou a ler jornais. Sentiu o desejo de ficar ainda mais tempo que o outro. Às onze começaram a chegar os estudantes, que se moviam cautelosamente para não se molestarem uns aos outros com os sacos. Foi mais ou menos nessa altura que pediu ao paquete que telefonasse para os Diver. Entretanto, entrou em contacto com outros amigos e resolveu pô-los em diferentes telefones ao mesmo tempo. O resultado já é conhecido. De vez em quando lembrava-se de que tinha de ir tirar Freeman da cadeia, mas confundia todos estes factos como se fossem partes de um pesadelo.

Por volta da uma hora, o bar estava cheio. Entre o ruído de vozes, os criados andavam de um lado para o outro, alertando os clientes para as bebidas e para o dinheiro.

- São duas aguardentes... E mais uma... Dois martinis e um... Nada para si, senhor Quartely... É a terceira rodada. São setenta e cinco francos, senhor Quartely. O senhor Shaeffer disse que pagava esta, pois o senhor pagou a última... Só posso fazer o que o senhor disser... muito obrigado.

Na confusão, Abe perdeu o lugar. Já um pouco a cambalear, conversava com pessoas com quem travara conhecimento. Um terrier enrolou-lhe a trela em volta das pernas, mas Abe conseguiu desembaraçar-se sem perder o equilíbrio e foi alvo de uma profusão de desculpas. Passado pouco tempo foi convidado para almoçar, mas recusou. Um pouco mais tarde, com os modos rebuscados de um alcoólico, que se assemelhavam aos de um prisioneiro ou de um criado de família, despediu-se de um conhecido e, voltando-se, verificou que o grande momento do bar acabara tão precipitadamente como começara.

Em frente dele, o holandês e os companheiros tinham encomendado o almoço. Abe fez o mesmo, mas mal tocou na comida. Depois sentou-se, feliz por viver no passado. A bebida devolvia ao presente coisas passadas, como se estivessem ainda a acontecer. Devolvia-as mesmo ao futuro como se estivessem iminentes.

Às quatro horas o paquete aproximou-se dele:

- Quer atender um homem de cor chamado Jules Peterson?

- Meu Deus! Como é que ele me descobriu?

- Eu não lhe disse que o senhor estava aqui.

- Então quem foi? - Abe descontrolou-se mas recuperou a calma.

- Diz que já foi a todos os bares e hotéis americanos.

- Diga-lhe que eu não estou aqui...

Mas mal o paquete voltou costas, Abe perguntou-lhe:

- Ele pode entrar aqui?

- Vou saber.

Quando o paquete fez a pergunta a Paul, este olhou por cima do ombro e abanou a cabeça, e quando viu Abe aproximou-se.

- Desculpe. Não posso permiti-lo.

Abe levantou-se com esforço e saiu para a Rue Cambom.

 

Com a sua minúscula pasta de couro na mão, Richard Diver foi do sétimo arrondissement - onde deixara um bilhete para Maria Wallis assinado «Dicole», a palavra com que ele e Nicole, nos primeiros tempos de amor, assinavam coisas sem importância - ao seu camiseiro, cujos empregados o iriam receber com um excesso de mesuras de acordo com o dinheiro que ele gastava. Sentia-se envergonhado por prometer tanto a estes pobres ingleses, com as suas boas maneiras, o seu ar de possuir a chave da segurança, por obrigar um alfaiate a emendar uns centímetros numa manga de seda. Depois foi para o bar do Crillon, tomou um café e bebeu um dedal de gin.

Quando entrou no hotel, o vestíbulo pareceu-lhe invulgarmente iluminado. Só quando tornou a sair se apercebeu de que já tinha escurecido. Estava uma noite ventosa, as folhas das árvores dos Campos Elíseos cantavam e caíam, delgadas e selvagens. Dick desceu a Rue de Rivoli, atravessou duas praças por baixo das arcadas e foi ao Banco buscar a correspondência. Depois, apanhou um táxi e começou a subir os Campos Elíseos sob a primeira bátega de chuva, e ali ficou sentado, sozinho, entregue ao seu amor.

Quando voltou aos corredores do Roi George, pelas duas horas, a beleza de Nicole estava para a beleza de Rosemary como a da jovem de Leonardo para o modelo de um ilustrador. Dick atravessara a chuva, demoníaco e assustado, transportando dentro de si as paixões de muitos homens e sem conseguir ver nada com clareza.

Rosemary abriu a porta, cheia de emoções que ainda ninguém experimentara. Tinha-se transformado numa espécie de bichinho selvagem depois de vinte e quatro horas ainda não tinha recuperado a unidade e estava absorvida a brincar com o caos. Como se o seu destino fosse um jogo de paciências feito de dádivas e esperanças, onde apareciam Dick, Nicole, a mãe, o realizador que conhecera na véspera, como nós de fixação num rosário de contas.

Quando Dick bateu à porta, tinha acabado de se vestir e estivera a observar a chuva, a pensar num vago poema e nas goteiras transbordantes de Beverly Hills. Quando lhe abriu a porta, Dick pareceu-lhe imutável e divino, como sempre fora, como as pessoas mais velhas são para as mais novas: rígidas, sem maleabilidade. Dick olhou-a com uma sensação inevitável de desapontamento.

Passaram-se alguns segundos até conseguir corresponder à doçura espontânea do seu sorriso, ao corpo que sugeria um botão que ainda oculta a flor. Reparou na marca de um pé molhado no tapete, à porta da casa de banho.

- Eis Miss Televisão! - disse, com uma ligeireza que não sentia. Pousou as luvas e a pasta no toucador e encostou a bengala à parede.

O queixo dominava as linhas de dor que lhe envolviam a boca, projectando-as na testa e nos cantos dos olhos como se fossem sinais de um medo que não pode ser revelado.

- Venha sentar-se ao meu colo, bem junto de mim - disse suavemente. - E deixe-me ver essa boca linda.

Ela sentou-se e, enquanto o barulho da chuva abrandava lá fora... pingue... p-i-ingue, colou os lábios à bela e fria imagem que tinha criado!

Depois, beijou-o várias vezes na boca, o rosto aumentando de volume à medida que se aproximava dele. Ele nunca tinha visto nada tão deslumbrante como aquela pele e, como muitas vezes a beleza suscita pensamentos nobres, Dick pensou na sua responsabilidade perante Nicole e na responsabilidade que era encontrar-se separado dela apenas por duas portas, do outro lado do corredor.

- A chuva parou - disse. - Vê o sol nas telhas?

Rosemary levantou-se, baixou-se e fez o mais sincero dos comentários:

- Que actores nós somos!... Você e eu.

Dirigiu-se ao toucador e, no momento em que começava a pentear-se, ouviu bater à porta, ao de leve mas insistentemente.

O choque deixou-os imobilizados. Bateram novamente, com insistência, e quando se apercebeu de que a porta não estava fechada à chave, Rosemary acabou de se pentear com um movimento seco, fez um sinal a Dick, que alisara rapidamente as rugas na cama onde tinham estado sentados, e dirigiu-se para a porta. Dick disse numa voz calma e natural, não muito alta:

-... Então se não lhe apetece sair esta noite, combino com a Nicole um serão pacato.

As precauções foram inúteis, já que a situação dos que estavam à porta era tão tumultuosa que excluía qualquer julgamento apressado sobre outro assunto qualquer. Um deles era Abe, que parecia ter envelhecido vários meses durante as últimas vinte e quatro horas, e um homem de cor, muito assustado e preocupado, que Abe apresentou como sendo o senhor Peterson, de Estocolmo.

- Ele está numa situação terrível por minha culpa - disse Abe. Precisamos de um bom conselho.

- Venham aos nossos aposentos - disse Dick.

Abe insistiu para que Rosemary viesse também e atravessou o corredor em direcção aos aposentos dos Diver. Seguia-os Jules Petersen, um negro pequeno e respeitável, uma réplica moderada do que faz parte do séquito do partido republicano nos estados fronteiriços.

Segundo parecia, este último fora uma testemunha legal da disputa que tivera lugar essa manhã em Montparnasse.

Tinha acompanhado Abe à esquadra e confirmado a sua declaração de que uma nota de mil francos lhe fora arrancada das mãos por um negro, cuja identificação era uma das incógnitas daquele caso. Abe e Jules Peterson, acompanhados de um agente da polícia, tinham voltado à loja e, precipitadamente, tinham identificado como sendo o criminoso um negro que, como viria a apurar-se uma hora mais tarde, só entrara no local depois de Abe ter saído. A polícia ainda complicaria mais a situação ao prender Freeman, um conhecido restaurador negro, que vagueava através da névoa do álcool e que depois desaparecera. O verdadeiro culpado, cujo único crime fora ter-se apoderado de uma nota de cinquenta francos para pagar as bebidas de Abe, reapareceu em cena à última hora e desempenhou um papel um tanto sinistro.

Em resumo, no espaço de uma hora. Abe conseguira envolver-se na vida privada, consciência e emoções de um afro-europeu e de três afro-americanos que viviam no Quartier Latin. A situação estava longe de se ter deslindado e o dia passara-se numa atmosfera singular, com rostos negros aparecendo em lugares imprevisíveis e esquinas inesperadas, e vozes insistentes ao telefone.

Pessoalmente, Abe tinha conseguido escapar-se de todos eles, excepto de Jules Peterson. Peterson colocava-se na situação do índio amigável que ajudara um branco. Os negros que haviam sido denunciados não perseguiam tanto Abe como Peterson, e este procurava toda a protecção que Abe lhe pudesse dar.

Em Estocolmo, Peterson falhara como pequeno produtor de graxa para calçado, e restava-lhe apenas a sua fórmula e as ferramentas com que encher uma pequena caixa. Contudo, o seu novo protector prometera-lhe, logo de manhã, montar-lhe um negócio em Versalhes. O antigo motorista de Abe era lá sapateiro e Peterson já recebera duzentos francos como adiantamento.

Rosemary ouviu com desagrado toda esta algaravia. Para apreciar o lado grotesco era necessário um sentido de humor mais forte do que o seu. O homenzinho com a sua caixa, os seus olhos hipócritas que, de vez em quando, se arregalavam de pânico, a figura de Abe, o seu rosto obscuro, tudo isto se encontrava tão distante dela como a própria doença.

- Só peço uma oportunidade na vida - disse Peterson com aquela entoação precisa mas distorcida, peculiar aos países coloniais. - Os meus métodos são simples, a minha fórmula é tão boa que fui expulso de Estocolmo e fiquei arruinado, por me recusar a cedê-la.

Dick ouvia-o com delicadeza. A história começara por interessá-lo mas acabara por desiludi-lo. Virou-se para Abe e disse:

- Vai para um hotel qualquer e deita-te. Quando estiveres bem, o senhor Peterson irá ter contigo.

- Mas não vês a trapalhada em que Peterson está metido? - protestou Abe.

- Eu espero no vestíbulo - disse o senhor Peterson com delicadeza.

- Talvez seja difícil discutirem os meus problemas na minha presença.

Saiu, depois de fazer uma espécie de vénia toda cheia de maneirismos.

Abe levantou-se com a determinação de uma locomotiva. - Não me parece que esteja a ser muito popular, hoje.

- Popular, talvez, mas não convincente. Aconselho-te a sair deste hotel, pelo bar, se quiseres. Vai para o Chambord ou, se tens necessidade de um serviço melhor, para o Majestic - aconselhou Dick.

- Maço-te, se te pedir uma bebida?

- Aqui não há bebidas - replicou Dick, mentindo.

Resignado, Abe apertou a mão de Rosemary. Recompôs-se pouco a pouco e segurou a mão da rapariga, balbuciando frases que não conseguia acabar. - Você é a mais... uma das mais...

Rosemary estava condoída e revoltada com a sujidade daquelas mãos, mas sorriu com delicadeza, como se fosse normal ver um homem embrenhar-se num sonho lento. É frequente as pessoas experimentarem um respeito curioso por um homem embriagado, um pouco como o respeito que as raças mais simples devotam aos loucos. Mais respeito do que medo. Uma pessoa que perdeu todas as inibições e que está disposta a tudo, tem qualquer coisa de impressionante. É claro que mais tarde lhe cobramos esse momento de superioridade e de poder. Abe voltou-se para Dick, fazendo um último pedido:

- Se eu for para um hotel, tomar um bom banho, me pentear impecavelmente, dormir um bocado e fizer desaparecer estes senegaleses, posso voltar e passar o serão à lareira?

Dick acenou afirmativamente, mais por ironia do que por concordância, e disse:

- Tens as tuas capacidades numa grande conta!

- Aposto que se a Nicole estivesse aqui me deixaria voltar.

- Está bem. - Dick dirigiu-se a uma sala e trouxe uma caixa para a mesa. Lá dentro estava um jogo de anagramas.

- Podes vir se te apetecer jogar...

Abe olhou para o conteúdo da caixa com repulsa, como se lhe tivessem pedido que a comesse.

- O que são anagramas? Não tive já suficientes charadas...

- É um jogo tranquilo. Forma-se palavras com as fichas... Qualquer uma com excepção da palavra álcool.

- Aposto que consegues compor a palavra álcool. - Abe mergulhou as mãos nas fichas. - Posso voltar se conseguir formar a palavra álcool?

- Podes voltar se quiseres jogar aos anagramas.

Resignado, Abe abanou a cabeça.

- Se estás nesse estado de espírito não há nada a fazer. Eu só vinha incomodar...

E, apontando-lhe um dedo reprovador:

- Mas lembra-te de que Jorge Ill disse que se Grant estivesse embriagado, desejaria que mordesse os outros generais.

Com um último olhar desesperado a Rosemary, pelo canto dos seus olhos dourados, Abe foi-se embora. Aliviado, viu que Peterson já não se encontrava no vestíbulo. Sentindo-se perdido e sem lar, resolveu ir ao encontro de Paul para perguntar o nome do tal barco.

 

Quando ele se foi embora num passo vacilante, Dick e Rosemary abraçaram-se fugazmente. Sob a poeira de Paris que os cobria, respiraram o odor um do outro: a tampa de borracha da caneta de Dick, o aroma quente e suave do pescoço e dos ombros de Rosemary. Durante mais meio minuto Dick entregou-se à situação. Foi Rosemary quem primeiro voltou à realidade.

- Tenho de ir - disse ela.

De pálpebras meio cerradas, ficaram a olhar-se enquanto o espaço que os separava ia aumentando, e Rosemary fez uma retirada que aprendera há muito e que nenhum realizador se atrevera a aperfeiçoar.

Abriu a porta do quarto e encaminhou-se para a secretária onde, de repente, se lembrou que deixara o relógio de pulso. Lá estava. Ao pô-lo, olhou para a carta que tinha escrito à mãe nesse dia, imaginando como iria acabá-la. Então, a pouco e pouco, sem se voltar, apercebeu-se de que não estava sozinha no quarto.

Num quarto habitado há sempre objectos de que mal nos apercebemos mas que reflectem a luz: madeira envernizada, latão mais ou menos polido, prata e marfim, para além desses milhares de reflectores de luz e sombra tão discretos que quase não reparamos neles, como o rebordo das molduras, as arestas de lápis ou de cinzeiros, peças de cristal ou de porcelana. Todas estas refracções - apelando tanto a reflexos subtis da visão como àqueles fragmentos de recordações inconscientes que conservamos, da mesma forma que um vidreiro conserva as peças imperfeitas que podem vir a ser úteis - contribuíram para aquilo que mais tarde Rosemary, num acesso de misticismo, classificou de percepção de uma presença no quarto, ainda antes de saber quem era... Mas, quando teve a certeza e se voltou vivamente, numa espécie de passo de dança, viu um negro morto, estendido na cama.

Gritou «aauuu!» e o relógio, ainda por apertar, caiu com ruído sobre a secretária. Rosemary teve a ideia absurda de que se tratava de Abe North. Então, precipitou-se para a porta e atravessou o vestíbulo.

Dick estava a arranjar-se. Examinara as luvas que usara nesse dia e atirara-as para uma pilha de outras, sujas, num canto da mala. Pendurara o casaco e o colete num cabide e a camisa noutro - era um truque seu. «Pode vestir-se uma camisa enxovalhada, mas nunca amarrotada.»

Nicole tinha acabado de chegar e estava a limpar um dos cinzeiros utilizados por Abe, quando Rosemary irrompeu no quarto.

- Dick, Dick, venha ver!

Dick atravessou o vestíbulo e entrou no quarto dela. Debruçou-se para ouvir o coração de Peterson e tomou-lhe o pulso.

O corpo ainda estava quente mas o rosto, arruinado e desleal em vida, mostrava-se rude e cruel na morte. Conservava a caixa de engraxador debaixo do braço, mas o sapato que pendia da cama não tinha polimento e a sola estava completamente gasta. Segundo a lei francesa, Dick não podia tocar no corpo, mas afastou-lhe um pouco o braço para verificar uma coisa. Havia uma mancha na colcha verde, sinal de que o cobertor devia estar manchado de sangue.

Dick fechou a porta e ficou a pensar; ouviu passos cautelosos no corredor e depois Nicole, a chamá-lo. Abriu a porta e segredou:

- Traz a colcha e um cobertor de uma das nossas camas. Não deixes que ninguém te veja.

Depois, reparando no seu ar assustado, acrescentou rapidamente:

- Não te deixes afectar por isto. É apenas o que resta de um negro morto.

- Quem me dera que tudo isto acabe!...

Ao levantar o corpo, Dick concluiu tratar-se de um indivíduo subalimentado, tal era a sua leveza, e provocou nova hemorragia que manchou ainda mais o fato do homem. Deitou-o ao lado da cama, tirou a colcha e o cobertor, entreabriu a porta e ficou à escuta; lá em baixo ouviu-se um ruído de pratos, seguido de um condescendente merci, madame, mas o criado afastou-se noutra direcção, talvez para a escada de serviço. À pressa, Dick e Nicole trocaram as roupas de um quarto para o outro. Depois de estenderem a nova colcha sobre a cama de Rosemary, Dick, todo suado, deixou-se ficar a reflectir, no calor do crepúsculo. Certos pontos pareceram-lhe óbvios, logo após o exame do cadáver. Em primeiro lugar, que o primeiro índio hostil a Abe seguira o índio amigável e o encontrara no corredor. Quando este último tentara refugiar-se no quarto de Rosemary, fora apanhado e assassinado. Em segundo lugar que, se deixasse a situação evoluir naturalmente, não havia nada neste mundo que pudesse retirar esse estigma a Rosemary - o escândalo Arbuckle ainda não estava esquecido. Além disso, o seu contrato exigia que continuasse a ser a Daddy's Girl*.

Maquinalmente, Dick fez o velho movimento de arregaçar as mangas, embora estivesse em camisola interior, e inclinou-se sobre o corpo. Carregou-o aos ombros, abriu a porta com o calcanhar, e arrastou rapidamente o corpo para o corredor, deixando-o numa posição plausível. Voltou para o quarto de Rosemary e alisou o pêlo do tapete. Depois ligou para o gerente do hotel, do telefone do seu quarto.

- É o senhor McBeth? Daqui é o doutor Diver. Aconteceu uma coisa muito importante. Posso falar à vontade?

 

* Daddy Girl, menina do papá.

 

Felizmente que tinha conquistado as boas graças do senhor McBeth. Aqui estava um dos benefícios da simpatia que Dick irradiava e que era irreversível...

- Quando saímos do quarto, deparámos com um negro morto... No vestíbulo... não, não, é um civil. Espere um pouco... Eu sabia que não queria que nenhum hóspede o encontrasse, por isso estou a telefonar-lhe. Claro que tenho de lhe pedir que mantenha o meu nome afastado do caso. Não quero publicidade só porque descobri o homem.

Que consideração espantosa para com o hotel! Só porque sentira os efeitos do charme de Dick, o senhor McBeth acreditava na história sem fazer perguntas!

Num minuto o senhor McBeth apareceu e no minuto seguinte juntou-se-lhe um polícia. Nesse intervalo, o gerente conseguiu segredar a Dick:

- Pode ter a certeza de que os nomes de todos os hóspedes serão protegidos. Só lamento o incómodo por que passou.

O senhor McBeth tomou logo medidas imediatas sobre as quais não podemos senão emitir hipóteses, mas que influenciaram o polícia de tal forma que este puxou o bigode num frenesim de cobiça e ansiedade. Tomou umas notas rápidas e telefonou para a esquadra. Entretanto, com uma rapidez que Jules Peterson, como homem de negócios que fora, teria perfeitamente compreendido, o seu cadáver foi transportado para uma das suites daquele hotel, um dos mais elegantes do mundo.

Dick voltou para os seus aposentos.

- O que aconteceu? - gritou Rosemary. - Será que todos os americanos em Paris passam o tempo a balear-se?

- Parece que abriu a época... - respondeu. - Onde está a Nicole?

- Acho que está na casa de banho.

Rosemary adorava Dick por tê-la salvo. As consequências desastrosas que poderiam advir deste acontecimento já lhe tinham passado pela cabeça, como se fossem uma profecia. E eis que ouvira, em plena adoração, a sua voz forte, segura e delicada a resolver tudo. Mas antes que ela o alcançasse num sobressalto de corpo e alma, a atenção de Dick concentrou-se noutra coisa: entrou no quarto e dirigiu-se para a casa de banho. E então, também Rosemary pôde ouvir, cada vez mais alto, qualquer coisa de inumano e verbal, que penetrava através das fechaduras e das fendas das portas, passava para o quarto e voltava a reconstruir-se sob a forma do horror.

Pensando que Nicole tivesse caído na casa de banho e se tivesse magoado, Rosemary seguiu Dick. Mas não foi isso que viu quando Dick tentou, bruscamente, barrar-lhe a passagem.

Nicole estava ajoelhada ao lado do lavatório, balançando o corpo de um lado para o outro.

- Foste tu! - gritou ela. - Foste tu que vieste intrometer-te no único lugar onde posso estar sozinha... Tu, com o teu cobertor sujo de sangue... Vou usá-lo para tu veres... Não tenho vergonha, embora seja uma tristeza. No Dia dos Loucos havia uma festa no Zurichsee. Todos os loucos iam lá e eu quis aparecer vestida com um cobertor, mas eles não deixaram...

- Controla-te, Nicole!

- Nunca esperei que me amasses. É demasiado tarde... Mas peço-te que não entres na casa de banho. É o único lugar onde tenho alguma privacidade. Não entres assim, a arrastar cobertores sujos de sangue e a pedir-me para os lavar.

- Controla-te. Levanta-te...

Rosemary voltou para a sala. Ouviu bater a porta da casa de banho, e ficou a tremer. Agora sabia o que é que Violet McKisco tinha visto na casa de banho da Vila Diana. Atendeu o telefone, que estava a tocar, e quase deu um grito de alívio quando percebeu que era Collis Clay, que a descobrira no apartamento dos Diver. Pediu-lhe que subisse enquanto ia buscar o chapéu, pois tinha medo de entrar no quarto sozinha.

 

Na Primavera de 1917, quando o doutor Dick Diver chegou a Zurique pela primeira vez, tinha vinte e seis anos, uma bela idade para um homem. Estava em pleno apogeu da sua vida de solteiro. Até os tempos de guerra tinham sido bons tempos para Dick, que já então era demasiado valioso, um investimento financeiro demasiado importante para ser morto na guerra. Anos mais tarde, reflectindo a esse respeito, pôs em dúvida se mesmo com tal protecção teria escapado com facilidade, mas nunca chegou a uma conclusão. Em 1917 ria-se da ideia, dizendo, à guisa de desculpa, que a guerra não o afectara sequer. As instruções das autoridades militares eram no sentido de que devia completar os estudos em Zurique e formar-se como tinha planeado.

A Suíça era uma ilha, banhada de um lado pelas ondas de tempestade de Gorizia e do outro pelas cataratas do Somme e do Aisne. Pela primeira vez nos cantões, eram mais os estrangeiros suspeitos do que os doentes, mas isso era algo que tinha de ser adivinhado - os homens que conspiravam nos pequenos cafés de Berna e Genebra tanto podiam ser negociantes de diamantes como caixeiros-viajantes. Apesar disso ninguém ignorava os longos comboios de cegos, estropiados ou moribundos que se cruzavam entre os lagos brilhantes de Constância e Neuchâtel. Nas cervejarias e nas montras das lojas viam-se cartazes coloridos mostrando os Suíços a defender as suas fronteiras em 1914. Com uma ferocidade inspiradora, jovens e velhos vigiavam o avanço do espectro Francês e Alemão, do alto das montanhas. O objectivo era reavivar no coração dos Suíços a certeza do heroísmo triunfante de que já dera provas nesses tempos gloriosos. Como o massacre se prolongou, os cartazes foram desaparecendo pouco a pouco e nenhum país se espantou mais do que aquela república irmã, quando os Estados Unidos entraram na guerra.

Nessa altura o doutor Diver já tinha vivido a sua experiência de guerra: estudava em Oxford com uma bolsa da fundação Cecil Rhodes, do Connectitut, em 1914. Regressou à pátria para um último ano em John Hopkins e formou-se. Em 1916 conseguiu ir para Viena pensando que, se não se apressasse, o grande Freud poderia eventualmente sucumbir a um ataque aéreo. Nessa altura até Viena envelhecera de morte. Mas Dick conseguiu arranjar carvão e petróleo suficientes para se sentar no seu quarto da  Damenstiff Strasse a escrever os ensaios que mais tarde destruíra mas que, uma vez reescritos, constituíram a estrutura do livro que publicou em Zurique, em 1920.

A maior parte de nós tem na vida um período de eleição, heróico, e foi esse o de Dick Diver. Não sabia que era encantador e que o afecto que dedicava e inspirava aos outros não era comum entre as pessoas normais. No último ano que passou em New Haven, alguém se referiu a ele como o «Felizardo». Levou tempo a libertar-se daquele nome.

«Felizardo, grande safado» dizia com os seus botões, diante dos últimos clarões da lareira do quarto. «Conseguiste, meu rapaz. Ninguém sabia que existias até teres chegado.»

No início de 1917, quando começava a tornar-se difícil encontrar carvão, Dick utilizou, como combustível, quase uma centena de livros que tinha acumulado. Mas antes de atirar cada um deles para o fogo, divertia-se a verificar que ele próprio era uma espécie de produto digerido do conteúdo do livro. Poderia ainda resumi-lo daí a cinco anos, se fosse caso disso. Isto acontecia às horas mais estranhas, quando com um tapete sobre os ombros gozava o bem-estar do estudante que está mais perto de todas as coisas que conduzem à paz celestial - mas que, como será relatado a seguir, estava condenado a perder.

Se ainda podia gozar esse bem-estar, agradecia-o à sua boa forma física, que tinha adquirido a treinar nas argolas, em New Haven, e continuava a manter graças aos banhos de Inverno no Danúbio. Compartilhava o apartamento com o segundo secretário da Embaixada, Elkins, e costumavam receber a visita de duas raparigas simpáticas. O seu contacto com Ed Elkins despertou-lhe uma primeira leve dúvida sobre a qualidade dos seus próprios processos mentais; não lhe parecia que fossem profundamente diferentes do pensamento de Elkins... Elkins que sabia de cor os nomes de todos os jogadores de futebol de New Haven desde há trinta anos.

«... e o Felizardo assim não se safa; devia ser mais vulnerável, mesmo ligeiramente destruído. Se a vida não o fizer, não é uma doença, um desgosto ou um complexo de inferioridade que o vai mudar. No entanto, seria interessante reconstituir uma parte afectada e até torná-la mais perfeita do que a estrutura original.»

Não levava a sério estes raciocínios, considerando-os demasiado tendenciosos e «americanos». Eram americanos os seus critérios de construir frases irreflectidamente. Sabia, contudo, que o preço da sua intocabilidade era a incompletude.

«O melhor que te posso desejar, meu rapaz», como dizia a fada Blackstick em The Rase and the Ring, de Thackeray, «é uma pequena infelicidade.» Em certos estados de espírito agarrava-se a estes raciocínios.

«Poderia eu ter evitado que Pete Livingstone se tivesse fechado no quarto, durante todo o dia das eleições, enquanto o procuravam por todo o lado? Eu não tinha qualquer hipótese se não fosse Elihu, visto que conhecia tão pouca gente. Ele era bem melhor do que eu e eu é que devia ter ficado fechado no quarto. E talvez tivesse, se adivinhasse que tinha alguma chance.

Mas o Mercer não me largou durante todas aquelas semanas. Bem, admito que sabia que tinha realmente hipóteses. Mas mais valia que tivesse engolido a minha insígnia partidária, mesmo com o risco de entrar em conflito comigo próprio.»

Depois das aulas, na Universidade, costumava discutir este assunto com um jovem intelectual romeno que contemporizava:

- Não há provas de que Goethe tenha tido alguma vez um «conflito», na moderna acepção do termo, nem Jung, por exemplo. Tu não és um filósofo romântico - és um cientista. Do que precisas é de memória, força, carácter e, especialmente, de bom senso. O teu problema é julgares-te demasiado. Conheci em tempos um homem que andou a estudar o cérebro dos tatus, convencido de que mais tarde ou mais cedo viria a tornar-se um especialista na matéria. Eu dizia-lhe que, com aquilo, ele não estava precisamente a alargar os horizontes do conhecimento humano - era um assunto demasiado arbitrário. E, é claro, quando ele enviou o trabalho para uma revista médica, recusaram-no. Tinham acabado de aceitar um trabalho de um mesmo indivíduo sobre o mesmo assunto.

Dick chegou a Zurique com menos calcanhares de Aquiles que seriam precisos a uma centopeia, mas ainda assim com bastantes: ilusões sobre a força e a saúde eternas, e sobre a bondade essencial das pessoas; as ilusões a respeito da sua nação, como as histórias que as mulheres dos pioneiros contavam em surdina aos seus filhos para os adormecer, convencendo-os de que não havia lobos a rondar a casa. Depois de se ter formado, recebeu ordens para se reunir a uma unidade de neurologia em Bar-sur-Aube.

Em França sentiu-se decepcionado com o trabalho, mais do foro administrativo do que prático. Em compensação, teve tempo para completar o pequeno ensaio e reunir elementos para um futuro trabalho. Voltou para Zurique na Primavera de 1919, após a desmobilização.

Tudo isto soa a biografia, mas sem a satisfação de sabermos que o herói, como o general Grant na sua loja em Galena, vai ser chamado a um destino superior. Além disso é perturbador sermos confrontados com um retrato de juventude de alguém que só conhecemos em plena maturidade. É como se estivéssemos perante um estranho, ávido e descarnado, que nos olhasse com um olhar de águia. Por isso é preferível partirmos do princípio de que a história de Dick Diver começa aqui.

 

Era um dia húmido de Abril, com nuvens esfarrapadas sobre o Albishorn e águas paradas nas zonas baixas. Zurique não é diferente de uma cidade americana. Desde que chegara, dois dias antes, Dick sentia a falta de qualquer coisa e apercebeu-se de que era a sensação que experimentara nas ruas francesas, a sensação de finitude. Zurique não acabava em si mesma - os telhados convidavam-no a espreitar as pastagens com vacas de chocalho ao pescoço que, por sua vez, eram diferentes dos picos dos montes -, a vida era assim uma perpendicular na direcção de um céu de bilhete postal. O país alpino, terra dos brinquedos e dos funiculares, dos carrocéis e dos carrilhões, não o fazia sentir-se ali, como em França, onde as vinhas lhe cresciam debaixo dos pés.

Uma vez, em Salzburg, Dick sentira a qualidade imponente de um século de música, de outra vez, nos laboratórios da universidade de Zurique, ao dissecar cuidadosamente a cervical de um cérebro, sentira-se mais um fabricante de brinquedos do que o impetuoso estudante que, dois anos antes, irrompia como um furacão pelo velho edifício cor de tijolo de Hopkins, sem se deixar impressionar pelo ar irónico do Cristo gigantesco que havia no átrio da entrada.

Mesmo assim, resolvera ficar mais dois anos em Zurique, visto que não subestimava o valor da indústria de brinquedos, a sua infinita precisão e paciência.

Nesse dia, saiu para ir visitar Franz Gregorovius à clínica de Dohmler, no Zurichsee. Franz, patologista residente da clínica, natural de Vaud e uns anos mais velho que Dick, encontrou-se com ele na paragem do carro eléctrico. O seu ar magnífico e obscuro de Cagliostro contrastava com a pureza do olhar; era o terceiro dos Gregorovius: o avô ensinara Krapaelin quando a psiquiatria começava a emergir da escuridão dos tempos. Tinha uma personalidade orgulhosa, altiva e arrebatada - imaginava-se um hipnotizador. E se era verdade que o génio original da família esmorecera um pouco, Franz tinha tudo para se tornar num perfeito médico.

A caminho da clínica, pediu-lhe:

- Conte-me as suas experiências de guerra. Está mudado, como todos os outros? Tem a mesma cara estúpida e sem idade de todos os americanos, só que eu sei que você não é estúpido, Dick.

- Não vi nada da guerra, deve ter percebido isso pelas minhas cartas.

- Isso não tem grande importância. Temos aqui casos de estados de choque em pessoas que se limitaram a ouvir um ataque aéreo à distância. Temos alguns que se limitaram a ler os jornais.

- Isso parece-me um disparate.

- Talvez seja, Dick. Mas a nossa clínica é para gente rica, não usamos o termo disparate. Sinceramente, veio cá para me visitar ou para ver aquela rapariga?

Olharam um para o outro. Franz sorriu com um ar enigmático.

- É claro que li todas as primeiras cartas - prosseguiu, com o seu tom de voz característico. - Quando se deu a mudança, a delicadeza impediu-me de continuar a fazê-lo. Na verdade, o caso já era seu.

- Então ela está bem? - perguntou Dick.

- Perfeitamente. Estou a tratá-la, como acontece com a maior parte dos doentes ingleses e americanos. Chamam-me Doutor Gregory.

- Deixe-me explicar-me acerca dessa rapariga - disse Dick. - Só a vi uma vez, é um facto. Quando saí para me despedir de si, antes de partir para França. Foi a primeira vez que vesti um uniforme e sentia-me pouco à vontade dentro dele. Tinha de fazer continência aos soldados e tudo isso.

- Por que já não o usa?

- O quê?! Fui desmobilizado há três semanas. Vou contar-lhe como conheci essa rapariga. Quando o deixei, desci em direcção àquele edifício junto do lago para ir buscar a minha bicicleta.

- O «Pavilhão dos Cedros»?

- uma noite linda, sabe?.. a lua sobre a montanha...

- O Kreuzegg.

-... deparei com uma enfermeira e uma rapariga. Não pensei que fosse uma doente; perguntei à enfermeira qual era o horário dos eléctricos e fomos andando, juntos. Nunca tinha visto uma rapariga tão bonita.

- Ainda é.

- Ela nunca tinha visto uma farda americana. Falámos e não pensei

nada de especial sobre o assunto.

Dick interrompeu-se, reconhecendo que estava a entrar em familiaridades, e depois prosseguiu:

-... Mas Franz, ainda não estou tão rodado como você; quando vejo um corpo bonito como aquele não consigo deixar de lamentar o que se passa no seu íntimo. Foi só isso, até as cartas começarem a chegar.

- Foi a melhor coisa que lhe podia ter acontecido - disse Franz com dramatismo -, uma transferência das mais fortuitas. Foi por isso que vim ter consigo, num dia em que estou tão ocupado. Quero que venha comigo até ao meu escritório para termos uma longa conversa antes de a ver. Na realidade, mandei-a a Zurique fazer compras. - A voz dele estava tensa de entusiasmo. - Na verdade, mandei-a sem enfermeira, e com uma doente menos equilibrada. Estou muito orgulhoso com este caso, que eu tratei com a sua ajuda acidental.

O carro seguiu pela margem do Zurichsee até chegar a uma região fértil de pastagens e colinas encimadas por vivendas. O sol inundava um mar de céu azul e, de repente, surgiu um belo vale suíço em todo o seu esplendor - sons agradáveis, murmúrios e o cheiro bom e fresco a saúde e alegria.

As instalações do professor Dohmler consistiam em três edifícios antigos e dois novos, entre uma pequena elevação de terreno e a margem do lago. Na altura da sua fundação, dez anos antes, fora a primeira clínica moderna para doenças mentais. À primeira vista, nenhum leigo a teria reconhecido como um refúgio para os destroçados, os incapacitados ou os perigosos deste mundo, embora dois dos edifícios estivessem rodeados de muros altos disfarçados por trepadeiras. Viam-se homens a trabalhar no campo, ao sol; enquanto rodavam pelos campos, o carro passava de vez em quando por uma enfermeira que caminhava ao lado de um doente e lhes acenava com um lenço branco.

Depois de conduzir Dick ao seu escritório, Franz pediu que o dispensasse por meia hora. Sozinho, Dick vagueou pela sala e tentou descobrir algo do colega pela confusão da secretária, dos seus livros e dos livros do pai e do avô, e de uma enorme fotografia colorida, pendurada na parede, onde se concentrava toda a beatitude suíça. Havia fumo na sala. Ao abrir a janela da varanda, Dick deixou entrar um feixe de luz do Sol. De repente os seus pensamentos recaíram sobre a doente, a rapariga.

Recebera cerca de cinquenta cartas dela durante um período de oito meses. A primeira era tom apologético, explicando que ouvira dizer que, na América, as raparigas escreviam a soldados que não conheciam. Ela conseguira o nome e a morada através do Doutor Gregory e esperava que ele não se importasse que ela lhe escrevesse de vez em quando a desejar-lhe que tudo corresse bem, etc., etc.

Até aí foi fácil reconhecer o tom: do Papá das Pernas Altas e da Molly-Faz-de-Conta, colectâneas de cartas alegres e sentimentais então em voga nos Estados Unidos. Mas depois a semelhança desaparecia.

As cartas dividiam-se em duas categorias, das quais a primeira, até à altura do armistício, tinha um cunho verdadeiramente patológico e a segunda, desde o armistício até essa altura, era inteiramente normal e demonstrava uma natureza rica, em fase de amadurecimento. Dick tinha esperado com ansiedade estas últimas durante os últimos meses monótonos passados em Bar-sur-Aube, De qualquer forma, até das primeiras retirara mais informações sobre o caso dela do que Franz suspeitava.

 

«Mon Capitaine:

Achei-o muito atraente quando o vi fardado. Depois pensei: je m'enfiche, primeiro em francês e depois em alemão. Você também me achou bonita mas isso já me tinha acontecido, e aturei essas coisas por muito tempo. Se voltar aqui com aquela atitude altiva e criminosa e nem de longe parecida com o que me ensinaram ser a atitude de um cavalheiro, que os céus o ajudem. De qualquer maneira, parece mais sossegado que os outros, mansinho

 

(2)

como um grande gato. Só consegui gostar dos rapazes que são bastante efeminados. Você é efeminado? Havia alguns por aí.

Desculpe tudo isto, é a terceira carta que lhe escrevo e vou enviar-lha imediatamente ou nunca a farei. Também tenho pensado muito no luar e há muitas testemunhas que eu poderia arranjar se ao menos pudesse sair daqui.

 

(3)

Disseram-me que você era médico, mas enquanto for um gato, é diferente. Dói-me tanto a cabeça, por isso desculpe-me esta confusão, como diria o bispo do gato branco, penso eu. Falo três línguas, quatro com o inglês, e tenho a certeza de que poderia ser útil como intérprete se me arranjasse um trabalho em França tenho a certeza que poderia controlar tudo se todos tivessem camisas de forças como aconteceu na quarta-feira. Hoje é sábado e

 

(4)

você está longe, talvez morto.

Volte para mim um dia, já que eu estarei sempre aqui nesta colina verde. A menos que eles me deixem escrever ao meu pai, que eu tanto amei.

Desculpe. Hoje não me sinto bem. Escreverei quando me sentir melhor.

Nicole Warren

Adeus

Desculpe tudo isto.»

 

«Capitão Diver:

Sei que a introspecção não é recomendável para um estado altamente nervoso como é o meu, mas gostaria que soubesse como me encontro. O ano passado, ou lá quando foi, em Chicago, quando fiquei de tal maneira que não podia falar com os criados nem andar na rua, esperei que alguém me dissesse. Era o dever de qualquer pessoa que me compreendesse. Os cegos devem ser conduzidos. Só que ninguém me dizia tudo - só me diziam metades e eu já estava demasiado confusa para somar dois e dois. Houve um homem que foi simpático - era um oficial francês e compreendeu. Deu-me uma flor e disse que ela era plus

 

 (2)

petite et moins entendue. Éramos amigos. Depois levou-a. Piorei e não havia ninguém que me explicasse. Tinham uma cantiga acerca da Joana d'Arc que costumavam cantar-me mas isso era uma maldade - mas só me fazia chorar, porque nessa altura a minha cabeça estava bem. Falavam muito de desportos, também, mas nessa altura eu não dava importância. Depois veio aquele dia em que fui passear para a Avenida Michigan e andei muito, milhas e milhas e, por fim, eles seguiram-me de automóvel, mas

 

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eu não queria entrar. Finalmente puxaram-me e havia enfermeiras lá dentro. Depois dessa altura comecei a aperceber-me de tudo, porque sentia o que se passava com os outros. Por isso está a ver como me encontro. E que bem é que me pode fazer ficar aqui com os médicos repisando constantemente as coisas que eu deveria esquecer? Portanto, hoje, escrevi ao meu pai para ele vir

 

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buscar-me. Estou satisfeita por você estar tão interessado em examinar as pessoas e mandá-las de volta. Deve ser tão divertido!»

 

E outra vez, numa outra carta:

«Talvez, quando passar no seu próximo exame, me escreva uma carta. Eles mandaram-me uns discos para o caso de eu esquecer a minha lição e eu parti-os todos e por isso a enfermeira não me fala. Eram em inglês, para as enfermeiras não perceberem. Um médico em Chicago disse que eu estava a fingir mas o que ele queria realmente dizer era que eu era um caso raro que ele nunca vira antes. Mas eu estava muito entretida a ficar doida nessa altura, por isso não liguei ao que ele disse, quando estou assim geralmente não me importo com o que eles dizem, nem que me pagassem.

Você disse-me naquela noite que me ensinaria a jogar. Bem,

 

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eu acho que só existe o amor, ou deveria existir. De qualquer forma, fico contente que o seu interesse pelos exames o mantenha ocupado.

Toute à vous,

Nicole Warren»

 

Houve outras cartas em que por entre as desesperadas cesuras espreitavam ritmos mais obscuros.

 

«Caro Capitão Diver:

Escrevo-lhe porque não há mais ninguém a quem possa recorrer e parece-me que se esta situação de farsa é evidente para alguém tão doente como eu, também deverá sê-lo para si. A perturbação mental dissipou-se e, para além disso, sinto-me completamente destruída e humilhada, se era isso que eles pretendiam. A minha família abandonou-me vergonhosamente, não adianta pedir-lhes ajuda ou piedade. Estou cansada de tudo isto e fingir que o que vai pela minha cabeça é curável arruína-me a saúde e faz-me perder tempo.

 

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Aqui estou, no que parece ser um asilo para gente meio louca só porque ninguém me diz a verdade acerca de nada. Se, pelo menos, eu tivesse sabido o que se estava a passar como sei agora, acho que poderia ter aguentado porque sou muito forte, mas aqueles que o deviam ter feito, não me esclareceram.

 

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E agora, que eu sei e paguei tal preço para saber, eles sentam-se ali com as suas vidas de cão, e dizem para eu acreditar naquilo em que já acreditava, especialmente um, mas agora eu já sei.

Sinto-me sempre só, afastada dos amigos e da família que está do outro lado do Atlântico, vagueio pela clínica, meio desnorteada. Se pudesse arranjar-me um trabalho como intérprete (sei francês e alemão perfeitamente, bastante italiano e um pouco de

 

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espanhol) ou no serviço de Ambulâncias da Cruz Vermelha, ou como enfermeira, embora tivesse de praticar, seria uma bênção para mim.»

 

E outra vez:

 

«Já que não aceita a minha explicação do que é que se passa, podia ao menos explicar-me o que pensa, porque tem uma cara simpática de gato, e não aquele ar esquisito que parece tão em moda por aqui. O Dr. Gregory deu-me uma fotografia sua. Não ficou como quando está fardado, mas parece mais novo.»

 

«Mon Capitaine:

Foi bom receber o seu postal. Estou tão contente por saber que você anda ocupado a despedir enfermeiras - oh, eu percebi muito bem a sua mensagem. Mas, quando o conheci, pensei que fosse diferente.»

 

«Caro Capitaine:

Penso uma coisa hoje e outra amanhã. É esse realmente o meu problema, para além de um desafio sem sentido e uma ausência do sentido das proporções. Aceitaria com prazer qualquer psiquiatra que me aconselhasse. Aqui metem-nos em banheiras e cantam "Brinca no teu próprio quintal" como se eu tivesse

 

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um quintal onde brincar, ou pudesse encontrar qualquer esperança ao pensar quer no passado, quer no futuro. Eles tentaram aquilo outra vez na loja de doces outra vez e quase bati no homem com um peso, mas eles seguraram-me.

Não volto a escrever-lhe. Estou demasiado instável.»

 

Seguiu-se um mês sem cartas. Depois, de repente, veio a mudança:

«- Estou a voltar à vida a pouco e pouco...

- Hoje as flores e as nuvens...

- A guerra acabou e eu mal soube que havia uma guerra...

- Que bom que você tem sido! Deve ser muito sensato por detrás desse rosto de gato branco, mas parece diferente na fotografia que o Dr. Gregory me deu...

- Hoje fui a Zurique. Que sensação estranha foi a de ver uma cidade outra vez!

- Hoje fomos a Berna, foi tão agradável, com os relógios...

- Hoje subimos até lá acima para colher asfódelos e edelweiss.: »

 

Depois, as cartas começaram a escassear, mas ele respondeu a todas. Havia uma assim:

«Quem me dera que alguém estivesse apaixonado por mim como acontecia com os rapazes, há séculos, antes de eu estar doente. Contudo, calculo que passarão muitos anos antes de eu poder pensar em qualquer coisa desse género.»

 

Mas quando a resposta de Dick se atrasava por qualquer razão, ela ficava perturbada e preocupada como uma amante:

«Talvez eu o tenha aborrecido», «Receio ter percebido que... » e «Durante a noite não paro de pensar que tem estado doente.»

 

Na verdade, Dick estava doente, com gripe. Quando melhorou, a fadiga fê-lo sacrificar tudo excepto a sua correspondência formal. Pouco depois, a recordação dela foi ofuscada pela presença alegre de uma telefonista de Wisconsin, que trabalhava no quartel-general de Bar-sur-Aube. Pintava os lábios de vermelho como uma boneca de cartaz e era conhecida nas messes pela alcunha obscena de «Quadro de Distribuição.»

Franz voltou ao escritório, cheio de importância. Dick pensou que ele era, provavelmente, um bom clínico, pois a alternância de tom que utilizava para disciplinar enfermeiras e doentes não provinha do seu sistema nervoso mas de uma vaidade tremenda e inofensiva. As suas verdadeiras emoções eram mais ordenadas e ele guardava-as para si próprio.

- Quanto à rapariga, Dick - disse ele. - Claro que quero saber de si e falar-lhe de mim, mas primeiro está a rapariga. Há muito tempo que espero a oportunidade de conversar consigo acerca dela.

Retirou um monte de papéis de um arquivo, mas depois de os folhear verificou que o atrapalhavam e pô-los em cima da secretária. Em vez de os ler, contou a história a Dick.

 

Cerca de ano e meio antes, o doutor Dohmler manteve uma vaga correspondência com um cavalheiro americano que vivia em Lausanne, um tal senhor Devereux Warren, pertencente à família Warren, de Chicago. Combinaram um encontro e um dia o senhor Warren chegou à clínica com a filha Nicole, uma rapariga de dezasseis anos. Era evidente que ela não estava bem e a enfermeira que a acompanhava levou-a a passear no parque, enquanto ele recebia o senhor Warren para consulta.

Warren era invulgarmente atraente e aparentava menos de quarenta anos.

Era um belo exemplar de americano, sob todos os pontos de vista. Alto, ombros largos, elegante - un homme três chie, foi como o doutor Dohmler o descreveu a Franz. Os olhos grandes e cinzentos estavam raiados pelo sol, de remar no lago de Genebra, e tinha aquele aspecto peculiar de quem experimentou o que há de melhor neste mundo. A conversa desenrolou-se em alemão, pois ele estudara em Gõttingen. Estava nervoso e era óbvio que se sentia emocionado com a missão que ali o trouxera.

- Doutor Dohmler, a minha filha não está bem da cabeça. Já lhe arranjei uma data de especialistas e enfermeiras, já fez duas curas de repouso, mas o problema ultrapassa-me e o senhor foi-me vivamente recomendado. - Muito bem - disse o doutor Dohmler. - Será melhor começar pelo princípio e contar-me tudo.

- Não há princípio, pelo menos não há nenhum caso de loucura na família, que eu conheça, de qualquer dos lados. A mãe de Nicole morreu quando ela tinha onze anos e eu vi-me obrigado a ser pai e mãe para ela, com a ajuda das governantas.

Ficou muito comovido ao dizer isto. O doutor Dohmler reparou que tinha lágrimas nos olhos e, pela primeira vez, notou que o seu hálito cheirava a uísque.

- Era uma criança encantadora... todos os que a conheciam a adoravam. Era vivíssima e feliz. Gostava de ler, desenhar, dançar, tocar piano, qualquer coisa. A minha mulher costumava dizer que, de todos os filhos, ela era a única que não chorava durante a noite. Tenho outra filha, mais velha, e também tive um rapaz que morreu, mas a Nicole era... a Nicole era... a Nicole...

Ele não conseguiu continuar e o doutor Dohmler ajudou-o.

- Ela era uma criança perfeitamente normal, brilhante, feliz.

- Perfeitamente.

O doutor Dohmler esperou. O Sr. Warren abanou a cabeça, deu um longo suspiro, olhou fugidiamente para o doutor Dohmler, e voltou a fixar o chão.

- Há cerca de oito meses, ou talvez seis ou dez... Tento lembrar-me mas não consigo lembrar-me exactamente onde estávamos quando ela começou a fazer coisas tolas... Loucuras. A irmã foi a primeira a falar-me disso porque, na minha presença, a Nicole mantinha o mesmo comportamento.

E acrescentou apressadamente, como se alguém o acusasse de ser o culpado da situação:

- A mesma menina adorável. Tudo começou com um criado de quarto.

- Ah, sim! - disse o doutor Dohmler, abanando a cabeça venerável, como se, tal como Sherlock Holmes, esperasse ver entrar na história alguém que só poderia ser um criado de quarto.

- Eu tinha um criado de quarto. Estava comigo há anos. Era suíço, a propósito.

Olhou para o doutor Dohmler esperando uma aprovação patriótica. - Nicole começou a ter ideias esquisitas sobre ele. Convenceu-se de que ele estava interessado nela. É claro que na altura acreditei nela e despedi-o, mas agora sei que não era verdade.

- De que o acusava ela?

- Isso foi a primeira coisa... Os médicos não conseguiram que ela falasse.

Ela limitava-se a olhá-los como se eles tivessem a obrigação de adivinhar o que se passara. Mas queria, decerto, convencer-nos de que ele tentara algo indecente. Não nos restavam dúvidas acerca disso.

- Compreendo.

- Claro, eu já li coisas sobre mulheres que se sentem sozinhas e que

pensam que está um homem debaixo da cama e isso tudo, mas porque haveria a Nicole de ter semelhante ideia? Ela podia ter todos os rapazes que quisesse. Nós estávamos em Lake Forest - é uma estância de veraneio perto de Chicago onde temos uma propriedade - e ela passava os dias fora a jogar golfe ou ténis com rapazes. E alguns deles gostavam muito dela.

Enquanto Warren falava para o velho corpo ressequido que encerrava o espírito do doutor Dohmler, uma parte deste evadia-se para Chicago. Na juventude podia ter ido para essa cidade e ensinar na Universidade. Provavelmente teria ficado rico e poderia ter comprado a sua própria clínica, em vez de se limitar a ser um sócio minoritário de uma outra. Mas quando pensara naquilo que considerava serem os seus fracos conhecimentos e na extensão da área sobre que iriam exercer-se, todos aqueles campos de milho e pradarias sem fim, decidira não ir. No entanto lera artigos sobre a Chicago desses tempos, sobre as grandes famílias feudais: Armour, Palmer, Field, Crane, Warren, Swift e McCormick e muitas outras e, desde essa altura, tinham-no procurado não poucos doentes provenientes desse estrato social de Chicago e Nova Iorque.

- Depois piorou - continuou Warren. - Estava obcecada por qualquer coisa. As coisas que dizia faziam cada vez menos sentido. A irmã apontou algumas delas...

Warren estendeu ao médico uma folha de papel dobrada e continuou: - Eram quase todas sobre homens que a queriam atacar, homens seus conhecidos ou homens que encontrava na rua... Qualquer um...

Relatou o susto e o desgosto que tinham sentido, falou dos horrores a que as famílias são sujeitas em circunstâncias semelhantes, dos esforços em vão que tinham feito na América, e finalmente da esperança numa mudança de ambiente, que o obrigara a atravessar o bloqueio de submarinos para trazer a filha para a Suíça.

-... num cruzador americano - especificou, com um laivo de arrogância. - Consegui arranjar essa viagem por um golpe de sorte.

E sorrindo, como que a desculpar-se:

- E posso acrescentar, como costuma dizer-se, que para mim o dinheiro não é problema.

- Claro que não - concordou Dohmler secamente.

Sentia que Warren lhe estava a mentir mas não sabia porquê. Ou, se estava enganado, que falsidade era aquela que impregnava toda a sala e aquela figura elegante, vestida de tweed, recostada na cadeira com o à-vontade de um desportista? Nesse dia de Fevereiro, desenrolava-se uma tragédia: lá fora estava o passarinho de asas feridas e cá dentro tudo era demasiado inconsistente, inconsistente e falso.

- Eu gostaria agora... de falar com ela... por uns minutos - disse o doutor Dohmler, começando a falar em inglês, como se isso o aproximasse mais de Warren,

Dias depois de Warren ter voltado para Lausanne, deixando a filha na clínica, o médico e Franz escreveram na ficha de Nicole:

Diagnostic: Schizophrénie. Phase aigüe en décroissance. La peur des hommes est un symptôme de la maladie, et n'est point constitutionnelle.

... Le prognostic doit rester réservé. *

E depois, à medida que os dias passavam, aguardaram com interesse crescente a segunda visita que Warren prometera.

Demorava a chegar. Passadas duas semanas, o doutor Dohmler escreveu-lhe. Confrontado com a continuação do silêncio, fez o que naquele tempo era considerado une folie e telefonou para o Grand Hotel em Vaney. Soube pelo criado de quarto de Warren que este último se preparava para embarcar para a América, mas depois de saber que os quarenta francos suíços da chamada entrariam na contabilidade da clínica, o sangue de Guarda das Tulherias que lhe corria nas veias veio em auxílio do doutor Dohmler e o senhor Warren foi chamado ao telefone.

• Diagnóstico: Esquizofrenia. Fase aguda decrescente. O medo dos homens é um sintoma da doença e de modo algum é constitucional.

... Prognóstico reservado. (N. do A.)

 

- É absolutamente necessário que venha. A saúde da sua filha depende disso. Não posso aceitar tal responsabilidade.

- Mas repare, doutor, é exactamente essa a sua missão. Eu recebi uma chamada urgente para voltar para casa!

O doutor Dohmler nunca tinha falado com ninguém a uma distância tão grande mas disparou o seu ultimato com tal firmeza que o americano, atormentado, acabou por ceder. Meia hora depois desta segunda chegada ao Zurichsee, Warren estava derrotado. Os ombros tremiam-lhe assustadoramente sob o casaco de bom corte, os olhos tinham-se tornado mais vermelhos que o verdadeiro sol do lago de Genebra, e os dois médicos ouviram por fim a terrível história.

- Aconteceu simplesmente... - disse ele com voz rouca. - Não sei...

Não sei... Depois de a mãe morrer, quando ela era pequena, costumava vir para a minha cama todas as manhãs. Às vezes dormia mesmo comigo. Eu tinha pena dela - era tão pequenina! Oh, depois disso, sempre que íamos a algum lado de automóvel ou de comboio costumávamos dar as mãos. Ela costumava cantar para mim. Costumávamos dizer: «Esta tarde não vamos dar atenção a mais ninguém. - Só nós dois - E esta manhã és toda minha.» -Um sarcasmo desalentado tomou-lhe a voz. - As pessoas costumavam dizer que éramos um pai e uma filha maravilhosos e vinham-lhes as lágrimas aos olhos. Éramos como amantes... E então, de repente, éramos mesmo amantes... E dez minutos depois de acontecer, tive vontade de acabar comigo... Mas acho que sou tão degenerado que não tive coragem para o fazer.

- E depois? - disse o doutor Dohmler, pensando outra vez em Chicago e num cavalheiro pálido e suave que o olhara por cima das lunetas, em Zurique, trinta anos antes. - Isso continuou?

- Oh, não! Ela quase... Tornou-se de gelo. Limitou-se a dizer «Não faz mal, não faz mal, paizinho. Não tem importância. Não faz mal.»

- Não houve consequências?

- Não. - Ele suspirou convulsivamente e assoou-se várias vezes. -

Agora é que as consequências são visíveis.

Quando a história acabou, Dohmler recostou-se na sua cadeira típica da classe média e disse para consigo: «Labrego!» Era um dos raros juízos definitivos que se permitira durante vinte anos. Depois falou:

- Gostaria que fosse passar a noite num hotel de Zurique e me viesse ver de manhã. - E depois?

O doutor Dohmler abriu muito os braços e sugeriu:

- Chicago.

 

- Assim soubemos com o que contar - continuou Franz. - O Dohmler disse ao Warren que tomaríamos conta do caso se ele concordasse em manter-se absolutamente afastado da filha por um prazo mínimo de cinco anos. Depois do primeiro choque, ele pareceu sobretudo preocupado com o facto de a história vir a saber-se na América.

- Quanto à rapariga, estabelecemos um plano e aguardámos. Os prognósticos eram maus. Como sabe, a percentagem de curas, mesmo daquelas que apenas conseguem uma reinserção social, é muito baixa naquela idade. - As primeiras cartas eram péssimas - concordou Dick.

- Muito más e muito típicas. Hesitei em deixar sair da clínica a pri-

meira carta. Depois pensei que era bom para si saber que nós estávamos a trabalhar aqui. Foi generoso em responder-lhe.

Dick suspirou e disse:

- Ela era tão bonitinha! Mandava-me tantas fotografias! E durante um mês não tive nada que fazer. Tudo o que dizia nas minhas cartas era: «Seja uma boa menina e faça o que os médicos dizem.»

- Foi o suficiente. Permitiu-lhe pensar em alguém lá de fora. Durante um tempo ela não teve ninguém que a visitasse, a não ser uma irmã a quem ela não parece muito ligada. Além disso, ler as cartas dela ajudou-nos. Eram como que um indicativo do seu estado.

- Ainda bem.

- Percebe agora o que aconteceu? Ela sentiu-se cúmplice - o que não tem qualquer significado, excepto quando queremos reavaliar a sua estabilidade e força de carácter. Primeiro foi aquele choque. Depois, foi para um colégio interno e ouvia as raparigas falarem. Então, para se defender, convenceu-se de que não fora cúmplice de nada, e depois disso foi fácil resvalar para um mundo fantasmático onde todos os homens, quanto mais se gostasse e acreditasse neles, piores eram...

- Ela falou alguma vez no... naquele horror?

- Não, e por acaso quando começou a dar sinais de normalidade, por

volta de Outubro, enfrentámos um problema. Se ela tivesse trinta anos, tê-la-íamos deixado fazer a sua própria integração, mas era tão nova que receámos que ela pudesse endurecer interiorizando toda a sua perturbação. Por isso, o doutor Dohmler disse-lhe com toda a franqueza:

«Agora só tem deveres para consigo mesma. Isto não significa de modo algum o fim de qualquer coisa. A sua vida está agora a começar,» E outras coisas do mesmo género. Ela tem um óptimo intelecto, ele deu-lhe um pouco de Freud para ler, não muito, e ela mostrou-se muito interessada. A verdade é que ela se tornou a nossa menina de oiro. Mas sentimos que ela ainda está reticente...

Hesitou e depois continuou:

- Temos pensado se, nas últimas cartas que lhe escreveu e que ela mesma enviou de Zurique, terá dito alguma coisa que pudesse ser esclarecedora acerca do seu estado de espírito e dos seus planos para o futuro.

Dick pensou.

- Sim e não, eu trago-lhe as cartas se quiser. Ela parece esperançosa e com a ânsia normal de viver, até mesmo um pouco romântica. Por vezes, fala do «passado», como falam as pessoas que estiveram presas. Mas nunca se sabe quando se referem ao crime, ao tempo passado na prisão ou à experiência no seu todo. Além disso eu não passo de uma espécie de boneco animado para ela.

- Claro, percebo perfeitamente a sua posição, e quero manifestar-lhe a nossa gratidão. Foi por isso que quis falar consigo antes que você a visse.

Dick riu-se.

- Acha que ela vai atirar-se para os meus braços?

- Não, isso não. Mas quero pedir-lhe que a aborde com muita cautela.

Você é atraente, Dick, e as mulheres gostam de si...

- Então, que Deus me ajude! Está bem, vou ser gentil e repelente, vou mastigar alho sempre que a for visitar e usar uma barba hirsuta. Vou levá-la a afastar-se de mim.

- Alho não! - disse Franz, levando-o a sério. - Certamente não quer comprometer a sua carreira... Mas você não está a falar a sério!

-... e vou coxear um pouco. E a casa onde vivo agora não tem banheira.

- Você está a brincar!

Franz mostrou-se aliviado.

- Agora fale-me dos seus planos.

- Só tenho um,.Franz: tornar-me um bom psiquiatra, talvez o melhor que alguma vez existiu.

Franz riu com gosto, mas percebeu que, desta vez, Dick não estava a brincar. - Isso é muito bom... e muito americano - disse ele. - Para nós é mais difícil.

Levantou-se e encaminhou-se para a janela que dava acesso à varanda. - Daqui vejo Zurique, e além a escarpa do Gross-Münster. É lá que o meu avô está sepultado. Do outro lado da ponte, repousa o meu antecessor Lavater, que não quis ser sepultado na igreja. Ali perto está a estátua de outro antecessor, Heinrich Pestalozzi e uma do doutor Alfred Escher. E por cima de tudo está sempre o Zwingli... Sou permanentemente confrontado com um panteão de heróis.

- Compreendo - Dick levantou-se. - Estava a exagerar. Está tudo a recomeçar. A maior parte dos americanos em França está desejosa de regressar à pátria, mas eu não.

- O exército paga-me um ordenado durante um ano só para eu assistir às aulas na Universidade. Que me diz deste governo em grande escala que conhece os seus futuros grandes homens? Depois vou a casa passar um mês para ver o meu pai. Em seguida volto. Ofereceram-me um lugar.

- Onde?

- Os seus rivais: a clínica de Gisler, em Interlacken.

- Não aceite. - aconselhou-o Franz. - Num ano já passou por lá uma dúzia de jovens. O Gisler é um maníaco-depressivo e a mulher e o amante é que dirigem a clínica. É claro que isto é confidencial.

- E aquele seu velho plano de irmos para a América e abrirmos lá uma clínica moderna para multimilionários? - perguntou Dick, sem grande ênfase.

- Isso era conversa de estudantes.

Dick jantou com Franz, a mulher e um cãozito que cheirava a borracha queimada, na casa de campo deles. Sentia-se vagamente oprimido, não pela atmosfera modesta de quem tem poucas posses, não pela senhora Gregorovius que era exactamente como ele a imaginara, mas pela mudança repentina de Franz ao confinar-se a horizontes bem pouco interessantes. Para ele os limites do ascetismo eram determinados de forma diferente: encarava-os como um meio para atingir um fim, mesmo o de uma glória que se iria alimentando a si própria, mas era duro pensar que alguém podia deliberadamente reduzir a escala da existência a um nível inferior. Os movimentos domésticos de Franz e da mulher ao deslocarem-se naquele espaço acanhado não tinham graça nem imaginação. Os meses que se seguiram ao fim da guerra em França, e as liquidações ao desbarato que tiveram lugar sob a égide do esplendor americano, tinham afectado a perspectiva de Dick. Por outro lado, homens e mulheres havia que o tinham em grande conta e talvez o que o tivesse feito voltar ao centro do grande relógio que era a Suíça, fosse a intuição de que essa situação não era a melhor para um homem sério.

Conseguiu que Kaethe Gregorovius se sentisse encantadora - apesar de se mostrar cada vez mais preocupada com a couve-flor - e, simultaneamente, detestou-se a si mesmo por esta incipiência de não sabia que superficialidade.

«Meu Deus, será que afinal sou como todos os outros?», costumava pensar quando acordava durante a noite. «Serei igual aos outros?»

Isso não era importante para um socialista, mas era-o para os que têm profissões raras. A verdade é que já há alguns meses vinha fazendo um balanço dos ideais da juventude, tentando decidir se se deve ou não morrer por aquilo em que já não se acredita. Nas horas mortas passadas em Zurique, olhando para dentro da cozinha de um desconhecido à luz de um candeeiro da rua, costumava pensar que queria ser bom, simpático, corajoso e sensato, mas que tudo isso era muito difícil. Queria também ser amado, se fosse possível conjugar tudo isso.

 

O terraço do edifício central recebia luz através das janelas rasgadas, abertas, excepto onde as sombras fantásticas das cadeiras de ferro escorriam sobre um canteiro de gladíolos. Dos vultos que andavam de sala em sala, a menina Warren emergiu em primeiro lugar, destacando-se assim que o viu. Ao atravessar o limiar da janela o seu rosto transportava os últimos raios de luz do interior. Caminhava ritmicamente - toda a semana trouxera nos ouvidos canções de Verão que falavam de céus ardentes e sombras bravias, e com a chegada dele a música tornou-se tão forte que lhe apeteceu cantar também.

- Como está, Capitão? - perguntou, afastando a custo os seus olhos dos dele, como se tivessem ficado presos. - Vamos sentar-nos aqui fora?

Por instantes, não se moveu, olhando em redor. - Estamos praticamente no Verão.

Seguia-a uma mulher baixa e gorda, de xaile, e Nicole apresentou-a a Dick.

- Señora...

Franz pediu licença para se retirar e Dick juntou três cadeiras. - Que noite maravilhosa! - disse a Señora.

- Muy bella - concordou Nicole.

E depois, para Dick:

- Fica cá muito tempo?

- Estou em Zurique há muito tempo, se é isso que quer dizer.

- Esta é realmente a primeira noite de Primavera - sugeriu a Señora.

- Para ficar?

- Pelo menos até Julho.

- Eu vou-me embora em Junho.

- Junho é um mês lindo aqui - comentou a Señora. - Você devia passar cá o mês de Junho e depois partia em Julho quando o calor apertasse. - Para onde vai? - perguntou Dick a Nicole.

- Para um lado qualquer, com a minha irmã. Para qualquer lugar que seja animado, espero, pois perdi tanto tempo... Mas talvez achem que, de início, eu deva ir para um sítio sossegado, talvez Como. Porque não vem para Como?

- Ah, Como... - disse a Señora.

dentro, um trio começou a tocar a Cavalaria Ligeira, de Suppe. Nicole aproveitou a ocasião para se levantar e a sua juventude e beleza impressionaram Dick até ao auge da emoção.

Ela sorria um sorriso infantil e comovente que era como toda a juventude perdida do mundo.

- A música está demasiado alta para se poder conversar aqui. E se déssemos uma volta? Buenas noches, Señora.

- Boa noite, boa noite.

Desceram dois degraus até ao caminho, onde por momentos uma sombra se atravessou. A rapariga deu-lhe o braço.

- Tenho alguns discos que a minha irmã me mandou da América disse ela - Para a próxima vez que cá vier ponho-os a tocar para si. Sei de um lugar onde ligar o gramo fone, onde ninguém ouve.

- É uma boa ideia.

- Conhece o Hindustan? -perguntou a rapariga com avidez. - Nunca o tinha ouvido antes, mas gosto. E tenho Why do they cal! them babies? e I'm glad I can make you cry. Calculo que já tenha dançado todas estas músicas em Paris.

- Não estive em Paris.

O vestido creme da rapariga, que ia mudando de azul para cinzento à medida que caminhavam, e o cabelo muito louro, deslumbravam Dick. Sempre que se voltava para ela, via-a a sorrir levemente. O rosto dela brilhava como o de um anjo quando se aproximavam dos candeeiros de arco à beira da estrada. Agradecia-lhe como se ele a tivesse levado a uma festa, e à medida que Dick se sentia mais inseguro em relação a ela, a confiança da rapariga aumentava. Aquele seu entusiasmo parecia reflectir toda a alegria do mundo.

- Não estou sujeita a quaisquer proibições - disse ela. - Vou pôr a tocar para si duas lindas canções chamadas Wait til! the cows come home e Good-bye, Alexandre.

Da vez seguinte, uma semana depois, Dick atrasou-se e Nicole estava à espera dele num sítio do caminho por onde ele passava quando vinha de casa de Franz. O cabelo penteado sobre as orelhas tocava-lhe os ombros de tal forma que o rosto parecia emergir dele, como se, naquele preciso momento, saísse de um bosque e o luar a inundasse. Vinha do desconhecido. Dick desejava que ela não tivesse passado, que fosse apenas uma rapariga perdida cuja única morada fosse a noite de onde ela surgira. Foram para o esconderijo onde ela deixara o gramo fone, junto da oficina, subiram um rochedo e sentaram-se atrás de um muro baixo, olhando a noite sem fim.

Estavam agora na América. Nem Franz, apesar de ter Dick na conta de um irresistível conquistador, imaginaria que tinham ido tão longe. Eles estavam tão arrependidos. Combinaram encontrar-se num táxi. Sorriam e tinham-se conhecido no Industão. Pouco depois deviam ter discutido, pois ninguém soube nem se importou. Por fim, um deles fora-se embora e deixara o outro a chorar, tão desesperado e triste.

Melodias suaves, combinando tempos idos e esperanças futuras, rodopiavam na noite de Valais. Um grilo juntou uma nota ao som suave do gramofone. De vez em quando, Nicole desligava o aparelho e cantava para ele:

«Atira uma moeda de prata

Para o chão

E vê-a rolar

Porque é redonda... »

 

No movimento dos lábios, Nicole não deixava escapar um sopro. Dick levantou-se de repente.

- O que é? Não gosta?

- Claro que gosto!

- O nosso cozinheiro lá em casa ensinou-me esta:

 

«Uma mulher só sabe

O bom marido que tem

Quando o perde... »

 

- Gosta?

Nicole sorriu-lhe, certificando-se de que esse sorriso reunia tudo o que lhe ia no íntimo e lho comunicava. Prometia-lhe toda a sua pessoa, pedindo tão pouco em troca: uma resposta, um sinal de emoção partilhada. A pouco e pouco, absorvia toda a doçura que emanava dos salgueiros, da sombra da noite.

Levantou-se também e, tropeçando no gramo fone, foi de encontro a Dick

e ficou encostada ao seu ombro.

- Ainda tenho mais um disco - disse - Já ouviu: So Long, Letty?

deve ter ouvido...

- Garanto-lhe que não ouvi nada.

«Nem conheci, nem cheirei, nem saboreei», poderia ter acrescentado. «Apenas raparigas fáceis em quartos secretos e quentes.»

As que conhecera em New Haven, em 1914, beijavam os homens à pressa e punham-nos fora do quarto. Aqui estava agora esta criatura salva do abismo no último instante, oferecendo-lhe a própria essência de um continente...

 

Voltou a vê-la em Maio. O almoço em Zurique foi uma mera formalidade; era evidente que a lógica da sua vida o afastava da rapariga. No entanto, quando um desconhecido de uma mesa próxima se pôs a olhar para ela de uma forma demasiado insistente e incomodativa, Dick voltou-se para ele com o que era uma versão urbana de um comportamento destinado a intimidar, obrigando o homem a desviar o olhar.

- Não passa de um curioso - explicou ele alegremente. - Estava só a olhar para o seu vestido. Por que tem tantos vestidos?

- A minha irmã diz que somos muito ricas - respondeu ela humildemente. - Desde que a avó morreu.

- Está perdoada.

A sua diferença de idade de Nicole permitia-lhe deleitar-se com as vaidades e as alegrias da rapariga. O modo como ela parou diante do espelho do vestíbulo ao sair do restaurante, por exemplo. Divertia-se a observá-la à medida que ela ia tomando consciência da sua beleza e da sua fortuna, como se experimentasse novos acordes musicais. Tentava honestamente libertá-la de qualquer obsessão que pudesse ter desencadeado nela e sentia-se gratificado por vê-la construir a felicidade e recuperar a autoconfiança sem a sua ajuda. O problema era que Nicole acabava sempre por vir depor-lhe tudo aos seus pés, como oferendas rituais de ambrósia e murta.

Na primeira semana de Verão, Dick instalou-se de novo em Zurique. Reunira os seus escritos e todo o trabalho que fizera durante o serviço militar num volume a que, depois de uma revisão, chamaria Psicologia para os Psiquiatras. Contava ter encontrado editor e tinha entrado em contacto com um estudante pobre que lhe corrigiria os erros de alemão. Franz achava que era um trabalho arrojado mas Dick chamou-lhe a atenção para a modéstia tranquilizadora do tema.

- Isto é uma matéria que nunca mais hei-de dominar tão bem - insistia. - Palpita-me que só não é fundamental porque nunca ninguém a reconheceu formalmente. A fraqueza desta profissão é atrair os homens que são eles próprios um tanto frágeis e magoados. Na vida profissional compensam esta fragilidade dando preferência à actividade clínica, «prática», e ganham a batalha sem esforço.

Você, Franz, pelo contrário, é bom porque o destino o escolheu para esta profissão ainda antes de ter nascido. O melhor é agradecer a Deus o facto de não ter «inclinação». Eu escolhi psiquiatria porque havia uma rapariga no colégio de Sta. Hilda, em Oxford, que seguiu o mesmo curso. Talvez esteja a tornar-me banal, mas não quero afogar as minhas ideias numa dúzia de copos de cerveja.

- Está bem - respondeu Franz. - Você é americano. Pode fazê-lo sem que isso o afecte profissionalmente. Eu não gosto destas generalidades. Qualquer dia está a escrever livrinhos chamados Pensamentos Profundos para Leigos, tão simplificados que impedem o próprio acto de pensar. Se o meu pai fosse vivo, olharia para si e começaria a resmungar. Pegava no guardanapo, dobrava-o e enfiava-o na argola, esta mesma...

Franz exibiu-a. Tinha uma cabeça de javali talhada em madeira.

- E havia de dizer: «Bem, na minha opinião... » Depois olhava para si e pensava «Não vale a pena.» Então calava-se, voltava a resmungar e acabava-se o jantar.

- Hoje estou só - disse Dick de mau humor. - Mas talvez amanhã

não esteja. Nessa altura dobro o guardanapo como o seu pai e começo a resmungar.

Franz esperou um pouco e depois perguntou: - O que acha da nossa doente?

- Não sei.

- Bem, já devia começar a saber, por esta altura.

- Eu gosto dela. É atraente. O que quer que eu faça? Que a leve à montanha para ver o edelweiss?

- Não, mas pensei que como você se dedica a livros científicos, poderia ter uma ideia.

-... que lhe dedique a minha vida?

Franz chamou a mulher, que estava na cozinha:

- Du lieber Gott! Bitte, bringe Dick noch ein Glas-Bier.

- Não quero mais. Tenho de ir falar com o Dohmler.

- Na nossa opinião, é preferível estabelecer um programa. Já se passaram quatro semanas... Aparentemente a rapariga está apaixonada por si. Não teríamos nada com isso se estivéssemos lá fora, mas aqui na clínica temos uma palavra a dizer.

- Farei tudo o que o doutor Dohmler disser - concordou Dick. Mas não acreditava muito que Dohmler contribuísse para o esclarecimento do assunto. Era ele o elemento mais importante. Involuntariamente, o assunto viera parar-lhe às mãos. Lembrava-lhe uma cena da sua infância, quando todos os da casa procuravam a chave de um cofre de prata e Dick sabia onde ele estava, pois fora ele que a escondera numa gaveta da cómoda da mãe, debaixo dos lenços de assoar. Nessa altura experimentara um desapego filosófico, o mesmo que sentia agora ao dirigir-se ao gabinete do professor Dohmler na companhia de Franz.

O professor, com o belo rosto emoldurado por suíças que lembravam vinhas trepando pela varanda de uma velha casa, deixou-o desarmado.

Dick conhecia pessoas com mais talento, mas ninguém que fosse mais distinto que Dohmler...

... Seis meses mais tarde voltaria a pensar a mesma coisa ao vê-lo morto: já não havia luz na varanda, as vinhas trepadeiras suíças tinham murchado sobre o colarinho branco e teso, as muitas batalhas travadas perante os seus olhos, imóveis para sempre, sob as pálpebras frágeis e delicadas...

-... Bom dia, senhor - disse Dick, num tom formal, como se estivesse na tropa.

O professor Dohmler entrelaçou tranquilamente os dedos. Franz falou como se fosse um oficial de ligação, uma espécie de secretário, até que o seu superior lhe cortou a palavra a meio de uma frase.

- Nós percorremos um determinado caminho - disse ele com sua-

vidade. - Agora é o senhor quem melhor nos pode ajudar, doutor Diver.

Atrapalhado, Dick confessou:

- Não estou muito seguro da situação.

- As suas reacções pessoais não me dizem respeito - disse Dohmler. -

Mas tenho muito a ver com o facto de esta «transferência» - lançou um olhar rápido e irónico a Franz, que o devolveu com cortesia - ter de ser terminada. A menina Nicole está a evoluir muito bem, mas não está em condições de sobreviver ao que podia ser considerado uma tragédia.

Mais uma vez, Franz começou a falar, mas o doutor Dohmler cortou-

-lhe a palavra.

- Compreendo que a sua posição seja difícil.

- É verdade que sim.

Nessa altura o professor recostou-se na cadeira e riu-se, dizendo, com

os olhos cinzentos e perspicazes a brilhar:

- Talvez você se tenha envolvido sentimentalmente.

Apercebendo-se que estavam a tentar fazê-lo falar, Dick riu-se também. - Ela é uma rapariga bonita... Qualquer pessoa é, até certo ponto, sen-

sível a isso... Não tenho intenções de...

Mais uma vez Franz tentou falar, e de novo Dohmler o impediu com

uma pergunta directamente dirigida a Dick: - Já pensou em ir-se embora?

- Não posso ir-me embora.

O doutor Dohmler disse a Franz:

- Então podemos mandar a menina Warren para outro lugar.

- Como achar melhor, professor Dohmler - concordou Dick. - É uma

destas situações...

O professor Dohmler levantou-se como se não tivesse pernas e se apoiasse em muletas.

- Mas é uma situação profissional - gritou ele, sem perder o ar calmo. Voltou a afundar-se na cadeira com um suspiro, esperando que o eco deste trovão esmorecesse na sala. Dick viu que Dohmler tinha atingido o seu auge e não estava certo de que ele próprio lhe tivesse sobrevivido. Quando o eco morreu, Franz conseguiu falar: - o doutor Diver é um homem de carácter - disse. - Acho que ele só tem de analisar a situação de forma a conduzi-la da maneira mais correcta. Na minha opinião, o Dick pode colaborar, sem que ninguém precise de ir-se embora.

- O que acha disto? - perguntou o professor Dohmler a Dick. Dick sentiu-se pouco à vontade. Simultaneamente apercebeu-se, no silêncio que se fez depois da pergunta de Dohmler, de que a inércia não podia prolongar-se. De repente, disse tudo o que pensava:

- Estou meio apaixonado por ela. Já pensei mesmo em casar com ela.

- Ora! Ora! - resmungou Franz.

- Espere - interveio Dohmler.

Franz recusou-se a esperar:

- O quê? E devotares metade da tua vida a ser médico e enfermeiro da tua mulher? Nunca! Eu conheço estes casos. Uma vez em vinte acaba tudo depois da primeira contrariedade. É melhor não voltares a vê-la!

- O que é que acha? - perguntou Dohmler a Dick.

- Claro que o Franz tem razão.

 

A tarde estava quase no fim quando eles acabaram a discussão sobre o que Dick deveria fazer, que seria mostrar-se muito amável e, ao mesmo tempo, ser completamente impessoal. Por fim, quando os médicos se levantaram, Dick olhou para fora através da janela. Caía uma chuva miúda. Algures sob aquela chuva, Nicole estava à sua espera, cheia de expectativa. Pouco depois, ele saiu abotoando a gabardina até ao pescoço, puxando a aba do chapéu para baixo, e foi encontrá-la debaixo do telheiro da entrada principal.

- Conheço um sítio novo onde podemos ir - disse ela. - Quando eu estava doente não me importava de me sentar lá dentro com os outros, ao fim da tarde... O que eles diziam parecia-me igual a qualquer outra coisa. Claro que agora vejo-os como doentes e é... é...

- Você vai ter alta em breve.

- Oh, em breve. A minha irmã Beth (mas sempre lhe chamámos Baby)

vem dentro de poucas semanas para me levar para um sítio qualquer; depois volto para aqui mais um mês.

- Ela é mais velha?

- Oh sim, muito mais velha. Tem vinte e quatro anos, é muito «inglesa».

Vive em Londres com a irmã do meu pai. Esteve noiva de um inglês, mas ele foi morto... Nunca o conheci.

O rosto dela, marfim dourado contra o poente fosco que tentava aparecer por entre a chuva, continha uma promessa que Dick nunca tinha visto: os malares salientes, a palidez levemente doentia, fresca mais do que febril; ela era como um potro em cujas proporções se adivinha o cavalo adulto - uma criatura cuja vida não prometia ser somente uma projecção de juventude num ecrã mais sombrio, mas uma verdadeira criação. Aquele rosto seria belo na meia-idade, seria belo na velhice: a estrutura essencial e os traços estavam lá.

- Para onde está a olhar?

- Estava só a pensar que você vai ser muito feliz.

Nicole estava assustada:

- Vou? Está bem... nada pode ser pior do que já foi...

Levou-o para um telheiro onde se guardava lenha. Sentou-se de pernas cruzadas, com os sapatos de golfe e embrulhada na gabardina. As faces estavam rosadas do ar húmido.

Ela devolveu-lhe gravemente o olhar, sentindo-lhe aquele porte altivo, que ele nunca perdia completamente mesmo quando, como naquele momento, se apoiava numa trave de madeira. Nicole observou o rosto que ele tentava disciplinar, em moldes de seriedade atenta, depois de alguns apartes brincalhões ou trocistas. Ela não conhecia bem essa sua faceta que parecia condizer com o tom arruivado de irlandês - receava-a, o que a tornava mais desejosa de explorá-la - e era o seu lado mais masculino. A outra faceta, a cultivada, Nicole reconhecia-a, como a maior parte das mulheres..

- Pelo menos esta instituição foi-me útil para aprender línguas - disse Nicole. - Falei francês com dois médicos, alemão com as enfermeiras, e italiano, ou qualquer coisa parecida, com umas serventes e uma das doentes, e aprendi bastante espanhol com outra.

- Que bom!

Ele tentava compor uma atitude, mas nenhuma lógica vinha em seu socorro.

- E música também. Espero que não pense que eu só me interesso por ragtime. Todos os dias pratico. Nestes últimos meses tenho andado a tirar um curso de história da música em Zurique. Às vezes era a única coisa que me dava coragem... A música e o desenho. - Inclinou-se de repente e arrancou uma tira solta da sola do sapato. Depois levantou o olhar e acrescentou:

- Gostaria de o desenhar tal como está agora.

Dick entristeceu-se por ela expor assim os seus talentos para que ele aprovasse.

- Invejo-a. Eu, de momento, não estou interessado em nada para além do meu trabalho.

- Oh, acho que isso é óptimo para um homem - disse ela rapidamente.

- Mas não para uma rapariga. Acho que as raparigas precisam de saber fazer muitas pequenas coisas para ensiná-las aos seus filhos.

- Acho que sim. - disse Dick com uma indiferença deliberada. Nicole sentou-se em silêncio. Dick desejou que ela falasse para que ele pudesse fazer o papel de apaziguador, mas ela manteve-se em silêncio. - Você está óptima - disse ele. - Tente esquecer o passado, não se esforce demasiado durante um ano. Volte para a América, entre na sociedade, apaixone-se... e seja feliz.

- Não posso apaixonar-me.

Com o sapato raspou um bocado de terra do tronco onde estava sentada. - Claro que pode - insistiu Dick. - Talvez não no próximo ano, mas mais cedo ou mais tarde.

E acrescentou brutalmente:

- Você pode fazer uma vida perfeitamente normal com uma casa cheia de belos descendentes. O simples facto de ter feito uma recuperação total, na sua idade, prova que os factores que precipitaram a crise foram os únicos responsáveis. Jovem!, você ainda há-de fazer grandes coisas quando os seus amigos já andarem de bengala.

... Mas havia uma expressão de dor nos olhos dela enquanto engolia o remédio amargo, a dura reprimenda.

- Eu sei que não vou poder casar-me senão daqui a muito tempo - disse ela humildemente.

Dick estava demasiado perturbado para poder dizer alguma coisa. Olhou lá para fora, para os campos, tentando assim recuperar a sua atitude fria e distante.

- Você vai ficar bem... Todos aqui acreditam em si. Ora, o doutor Gre-

gory está tão orgulhoso de si que provavelmente... - Eu detesto o doutor Gregory.

- Bem, mas não devia.

O mundo de Nicole tinha-se desmoronado, mas não passava de um mundo débil criado a custo; por baixo dele as suas emoções e instintos continuavam em luta. Só passara realmente uma hora desde o momento em que esperara por ele à entrada, cheia de esperança, como se trouxesse um ramo de flores à cintura?

«... Por ele, ó meu vestido, conserva-te engomado, ó meus botões, continuem firmes, florescei, narcisos - ó ar, torna-te calmo e doce.»

- Vai ser bom divertir-me novamente - continuou ela sem convicção. Por um momento acalentou a ideia desesperada de lhe dizer como era rica, como eram grandes as casas em que vivera, que ela própria era realmente uma propriedade valiosa. Por momentos pôs-se na pele do avô, Sid Warren, que era negociante de cavalos. Mas conseguiu ultrapassar a tentação de confundir todos os valores e remeteu estas ideias para os seus aposentos vitorianos, ainda que não lhe restasse nada para além do vazio e da dor.

- Tenho de voltar para a clínica. Já não está a chover.

Dick acompanhou-a, sentindo a tristeza dela e desejando beber a chuva que lhe deslizava pelas faces.

- Tenho alguns discos novos - disse ela. - Estou cheia de vontade de os ouvir. Sabe...

Dick pensou que com o jantar dessa noite poria ponto final naquela história. Apetecia-lhe dar um pontapé a Franz por tê-lo envolvido num assunto tão sórdido. Esperou no vestíbulo. Seguiu com o olhar uma boina que não estava molhada como há pouco a de Nicole, mas que cobria um crânio recém-operado. Debaixo dela uns olhos espreitavam-no, e ouviu dizer:

- Bonjour Daeteur.

- Bonjour Mansieur.

- II fait beau temps.

- Oui, merveilleux.

- Vaus êtes lei maintenan?

- Non, pour la journée seulement.

- Ah, bano Alars... au revoir; Mansieur.

Contente por ter sobrevivido a mais aquele contacto, o infeliz afastou-se. Dick esperou. Daí a pouco uma enfermeira descia as escadas e entregava-

-lhe um recado.

- A menina Warren pede que a desculpe, doutor. Ela quer deitar-se. Esta

noite vai jantar no quarto.

A enfermeira ficou suspensa da resposta dele, como se esperasse que ele atribuísse um sentido patológico à atitude da menina Warren.

- Ah, compreendo. Bem... - controlou o fluxo da saliva, e o pulsar do coração e disse:

- Desejo-lhe as melhoras. Obrigado.

Estava confuso e aborrecido. De qualquer forma sentia-se liberto. Deixou recado a Franz, escusando-se a jantar com ele, e caminhou pelos campos até à estação dos eléctricos. Quando chegou à plataforma, a luz crepuscular pondo reflexos de ouro nos carris e nos vidros das máquinas de jogo, começou a sentir dificuldade em definir se a estação e o hospital o atraíam ou o repeliam. Estava assustado. Sentiu-se melhor quando o pavimento de Zurique soou de novo sob os seus passos.

Esperou por notícias de Nicole no dia seguinte, mas não recebeu qualquer recado. Pensando que ela poderia estar doente, telefonou para a clínica e falou com Franz.

- Ela desceu para o almoço, ontem e hoje - disse Franz. - Parecia um pouco alheada, nas nuvens. Como é que as coisas se passaram?

Dick tentou transpor o abismo alpino que separava os sexos.

- Não se passou nada... Pelo menos estou convencido de que não. Tentei ser distante, mas não creio que isso tivesse contribuído para alterar a sua atitude se ela estivesse muito enraizada.

Talvez a vaidade dele se tivesse ressentido por não ter sido necessário administrar nenhum golpe de misericórdia.

- Por algumas coisas que ela disse à enfermeira, estou inclinado a pensar que ela percebeu.

- Ainda bem.

- Foi a melhor coisa que podia ter acontecido. Ela não parece anor-

malmente agitada... Apenas um pouco nas nuvens. - Está bem, então.

- Até breve, Dick. Venha ver-me.

 

Dick experimentou uma grande insatisfação durante as semanas que se seguiram. A origem patológica e o desfecho previsível do assunto deixaram-lhe um travo insípido e metálico. As emoções de Nicole tinham sido usadas injustamente - e o que aconteceria se fossem as dele? Era necessário que ele se afastasse da felicidade por momentos. Em sonhos via-a caminhando perto da clínica, balançando o seu grande chapéu de palha...

Uma vez chegou mesmo a vê-la. Quando passava em frente do Hotel Palace, um magnífico Rolls-Royce curvou para lá. Perdidas dentro da carroçaria gigantesca do automóvel, transportadas pelo poder de cem cavalos supérfluos, viam-se Nicole e uma jovem, que ele calculou ser a irmã. Nicole viu-o e, momentaneamente, os seus lábios entreabiram-se numa expressão de medo. Dick tirou o chapéu e passou. No entanto, por momentos, a atmosfera foi sacudida pelo turbilhão de todos os duendes do Gross-Münster. Para se libertar, tentou escrever um memorando onde registava em pormenor o tratamento que ela devia seguir, prevendo até uma recaída sob as inevitáveis pressões da sociedade - tudo isto num memorando que seria convincente para qualquer pessoa, menos para ele que o escrevera.

O resultado deste esforço fazê-lo tomar consciência, uma vez mais, de como estava envolvido emocionalmente; daí para a frente procurou antídotos com determinação. Um deles foi a telefonista de Bar-sur-Aube, agora em excursão pela Europa, de Nice a Coblenz, num cerco desesperado aos homens que conhecera nas suas incomparáveis férias. O outro eram os preparativos para o regresso a casa num transporte do governo, em Agosto. Um terceiro era uma consequente intensificação do trabalho nas provas do livro que queria apresentar ao mundo alemão da psiquiatria nesse Outono.

Mas o livro já pertencia ao passado. Agora queria dedicar-se a um trabalho mais prático. Se pudesse trocar com um colega, podia contar com uma rotina pesada.

Entretanto, fizera projectos para um novo trabalho: Tentativa de Classificação Uniforme e Pragmática das Neuroses e Psicoses, Baseada no Estudo de Quinhentos Casos Pré-Krapaelin e Pós-Krapaelin tal como seriam Diagnosticados na Terminologia das Diferentes Escolas Contemporâneas - e outro parágrafo sonoro - Seguido de Uma Cronologia Dessas Sub-divisões de Opinião tal como Independentemente Apareceram.

Em alemão, este título parecia monumental*.

No caminho para Montreux, Dick pedalava lentamente, deitando um olhar ao Jugenhorn sempre que possível, e ofuscado pelos reflexos vindos do lado através das áleas dos hotéis à beira da água. Apercebia-se da presença dos grupos de ingleses, que apareciam ao fim de quatro anos e caminhavam com ar desconfiado, como se estivessem prestes a ser assaltados por bandos alemães treinados neste país duvidoso. Havia edifícios em construção por todo o lado neste monte de destroços formado por uma torrente de montanha. Em Berna e em Lausanne, a caminho do Sul, tinham-lhe perguntado avidamente se viriam americanos este ano. «Em Agosto, ou talvez em Junho?»

Usava calções de couro, uma camisa do exército e sapatos de montanha.

Na mochila levava um fato de algodão e uma muda de roupa interior. No funicular de Glion verificou a bicicleta e tomou uma cerveja no terraço do bar da estação, observando entretanto o pequeno aparelho a descer o declive de oitenta graus.

Ficara com o ouvido cheio de sangue seco em La Tour de Pelz, onde pedalara de tal modo que chegara a imaginar-se um atleta que errou a vocação. Pediu um pouco de álcool e limpou-o enquanto o funicular descia a encosta. Viu a sua bicicleta ser embarcada, atirou a mochila para o compartimento mais baixo e entrou.

Os veículos para subir a montanha são construídos sobre um plano inclinado semelhante ao ângulo da aba do chapéu de um homem que não quer ser reconhecido. Ao ver a água jorrar do compartimento inferior do veículo, Dick ficou impressionado com a ingenuidade da ideia. Um veículo complementar estava agora, lá em cima, a encher-se de água da montanha e puxaria o veículo mais leve por acção da gravidade, logo que fossem soltos os travões. Devia ter sido fruto de uma grande inspiração. No banco em frente, um casal de ingleses falava do cabo.

- Os que são feitos em Inglaterra duram cinco ou seis anos. Há dois anos os alemães ofereceram-nos a preços mais baixos, mas quanto tempo pensas que duram?

- Quanto tempo?

- Um ano e dez meses. Então os suíços venderam-nos aos italianos. Eles

não fazem inspecções rigorosas aos cabos.

- Calculo que seria terrível para a Suíça se um cabo se partisse.

O condutor fechou a porta. Telefonou para o colega e com um solavanco o veículo começou a ser içado em direcção a um pequeno ponto numa colina cor de esmeralda. À sua frente apareceram os telhados baixos, os céus de Vaud, de Valais e da Sabóia suíça, e por fim surgiu Genebra numa espécie de ciclorama. No centro do lago, arrefecido pela corrente penetrante do  Reno, encontrava-se o verdadeiro centro do mundo Ocidental. À superfície flutuavam cisnes como barcos e barcos como cisnes, ambos perdidos no vazio daquela beleza insensível. Estava um dia claro, o sol brilhava nas margens arrelvadas lá em baixo e nos pátios brancos do Kursal. Ali, os vultos não projectavam sombra.

Quando Chillon e o palácio na ilha de Salagnon apareceram à vista, Dick olhou lá para dentro. O funicular encontrava-se acima das casas mais altas da margem; de ambos os lados um emaranhado de folhas e flores aparecia de vez em quando por entre manchas de cor. Era uma bordadura ajardinada e no veículo havia um aviso: Déjense de cueillir les jleurs.

Embora não se pudesse apanhar flores na subida, os botões eram arrastados para dentro na passagem - as rosas Dorothy Perkins roçavam cada um dos compartimentos acompanhando o movimento do funicular e voltavam por fim à posição inicial. De vez em quando alguns destes ramos penetravam no veículo.

No compartimento superior, em frente ao de Dick, um grupo de ingleses de pé apreciava a paisagem quando de repente se estabeleceu uma confusão entre eles. Afastaram-se para dar passagem a um casal de jovens que se desculpavam e abriam caminho para o compartimento da retaguarda o compartimento de Dick. O jovem era um latino com olhos de veado embalsamado; a rapariga era Nicole.

Os dois alpinistas arfavam com o esforço dispendido; quando se sentaram, rindo e empurrando os ingleses para os cantos, Nicole disse:

- Olá!

Estava bela, era um prazer olhá-la. Dick viu imediatamente que havia alguma diferença; num segundo apercebeu-se de que era o cabelo, ondulado como o de Irene Castle e penteado em caracóis. Usava uma camisola azul clara e uma saia de ténis branca - lembrava a primeira manhã de Maio e todos os resquícios da clínica tinham desaparecido.

- Olha o guarda! - disse sem fôlego. - Vão deter-nos na próxima paragem. Doutor Diver, apresento-lhe o conde de Marmora.

Ainda ofegante, ela acariciou o novo penteado.

- Uuff! A minha irmã comprou bilhetes de primeira classe. Para ela, é uma questão de princípio.

Ela e Marmora trocaram olhares e gritaram:

- E depois descobrimos que a primeira classe é uma espécie de caixão, mesmo atrás do condutor - fechado com cortinas por causa dos dias de chuva, de modo que não se vê nada lá para fora. Mas a minha irmã sente-se muito digna...

Mais uma vez, Nicole e Marmora riram-se com um ar cúmplice. - Para onde vão? - perguntou Dick.

- Para Caux. Você também?

Nicole olhou para o fato dele e perguntou:

- A bicicleta que eles puseram lá à frente é sua?

- É. Na segunda-feira, vou descer por aí abaixo em roda livre.

- Comigo no selim? Estou a falar a sério. Leva-me? Não consigo pensar em nada mais divertido.

- Mas eu levo-a ao colo - protestou Marmora com veemência. - Vou consigo de patins, ou então, atiro-a e você cairá lentamente como uma pena.

Nicole ficou radiante - ser uma pena em vez de um peso, flutuar e não ser arrastada. Era um espectáculo observá-la. Por vezes reservada, em poses estudadas, mimando e gesticulando, noutras alturas ficava melancólica e a dignidade do antigo sofrimento caía sobre ela. Dick desejava que se afastasse, receando ser uma recordação de um mundo que ficara para trás. Decidiu que mudaria de hotel.

Quando o funicular fez uma paragem, os passageiros, que não sabiam do que se tratava, ficaram suspensos entre o azul de dois céus. Era apenas uma conversa misteriosa entre o condutor do veículo que subia e o condutor que ia em sentido contrário. Depois a subida continuou através de uma floresta e de um desfiladeiro. Mais adiante através de uma colina repleta de narcisos até ao céu. Os jogadores de ténis dos campos de Montreux que orlavam o lago, não passavam agora de pontos minúsculos. Havia algo de novo no ar; frescura, que se transformava em música à medida que o veículo deslizava para Glion e que eles iam começando a ouvir a orquestra no jardim do hotel.

Quando fizeram o transbordo para o comboio da montanha, a música foi abafada pelo som da água corrente que vinha da câmara hidráulica. Quase em cima, ficava Caux, onde as mil janelas de um hotel ardiam à luz do Sol poente.

Mas a maneira de lá chegar era diferente: uma máquina com um fole de couro empurrava os passageiros sempre à roda, como um saca-rolhas, subindo e descendo incessantemente; avançavam ruidosamente através das nuvens baixas e, por instantes, Dick deixou de ver o rosto de Nicole, ocultado pelos vapores da caldeira do motor. Contornaram uma rajada de vento, que a cada espiral os ia aproximando do hotel, até que para surpresa geral, se encontraram lá, de repente, em pleno sol. Na confusão da chegada, quando Dick pôs a mochila a tiracolo e começou a avançar na plataforma para ir buscar a bicicleta, Nicole aproximou-se dele.

- Não está no nosso hotel? - perguntou ela.

- Estou a economizar.

- Vem jantar connosco?

Seguiu-se uma certa confusão com a bagagem.

- Esta é a minha irmã... e este é o doutor Diver, de Zurique - disse Nicole. Dick inclinou-se diante de uma jovem de vinte e cinco anos, alta e con-

fiante. Era simultaneamente esplêndida e vulnerável, pensou ele, lembrando-se de outras mulheres que conhecera.

- Apareço depois do jantar - prometeu Dick. - Preciso de me aclimatar primeiro.

Afastou-se pedalando na bicicleta. Sentia os olhos de Nicole seguirem-no, sentia o seu primeiro amor indefeso, que o emocionava profundamente. Subiu trezentos metros pela colina até ao outro hotel, alugou um quarto e deu consigo a lavar-se sem se recordar dos últimos dez minutos, só uma espécie de rubor embriagado atravessado por vozes sem importância, vozes que ignoravam como ele era amado.

 

Eles estavam à sua espera e sentiam-se incompletos sem ele. Ele era ainda o elemento desconhecido, a menina Warren e o jovem italiano esperavam-no com ansiedade, tal como Nicole. O salão do hotel, uma sala de acústica fabulosa, estava preparado para a dança mas havia uma pequena galeria onde estava reunido um pequeno grupo de inglesas de certa idade, de gola alta, cabelo pintado e faces maquilhadas de um cinzento rosado; e de americanas da mesma idade, de vestido preto e lábios vermelhos cor de cereja. A menina Warren e Marmora estavam numa mesa de canto - Nicole estava a cerca de quarenta metros de distância. Quando Dick chegou ouviu-a dizer:

- Consegue ouvir-me? Estou a falar normalmente.

- Perfeitamente.

- Olá, doutor Diver.

- O que se passa?

- Imagine que as pessoas que estão no centro da sala não conseguem ouvir o que eu digo. E você consegue?

- Um dos criados já falou nisso - disse a menina Warren. - De canto para canto é como se fosse telegrafia sem fios.

Era fantástico estar no cimo de uma montanha, como num barco no mar. Pouco depois, os pais de Marmora juntaram-se a eles. Tratavam as Warren com respeito. Dick calculou que a fortuna deles tinha qualquer coisa a ver com um banco de Milão que por sua vez estava relacionado com a fortuna dos Warren. Mas Baby Warren queria falar com Dick, queria falar-lhe com o ímpeto com que dialogava com todos os homens, como se estivesse numa corda esticada e quisesse ir até ao fim, tão depressa quanto possível. Cruzava e descruzava as pernas com frequência, à maneira das virgens vigorosas e inquietas.

-... a Nicole contou-me que também tomou conta dela e que contribuiu muito para as suas melhoras. O que não percebo é o que nós devemos fazer. Foram tão pouco claros na casa de repouso... Limitaram-se a dizer-me que ela deveria ser natural e alegre. Eu sabia que os Marmoras estavam cá, por isso pedi ao Tino para vir ter connosco ao funicular. E veja o que acontece, a primeira coisa que Nicole faz é obrigá-lo a rastejar pelos lados do veículo como se ambos tivessem elouquecido...

- Isso é absolutamente normal - disse Dick a rir. - Eu diria que é um bom sinal. Eles estavam a exibir-se um para o outro.

- Mas que posso eu dizer? Sem eu saber, cortou o cabelo em Zurique

por causa de uma fotografia que viu no Vanity Fair:

- Está certo. Ela é esquizóide, excêntrica. Você não pode alterar isso.

- O que é que isso quer dizer?

- Exactamente o que eu disse: uma excêntrica.

- Bom, como distinguir a excentricidade da loucura?

- Não vai haver loucura. A Nicole está óptima e feliz, não tem nada

a recear.

Baby continuou a trocar a posição das pernas. Era uma combinação de todas as mulheres insatisfeitas que haviam amado Byron cem anos antes, e ainda assim, apesar do caso trágico com o oficial da guarda, havia nela algo de grosseiro e onanístico.

- Eu não me importo com a responsabilidade - disse ela -, mas estou preocupada. Nunca tivemos um caso destes na família. Sabemos que Nicole sofreu um choque e, na minha opinião, foi por causa de um rapaz, mas não sabemos o que realmente se passou. O meu pai diz que o teria morto se o tivesse encontrado.

A orquestra estava a tocar Poor Butterfly, o jovem Marmora dançava com a mãe. Era uma bela melodia que nenhum deles conhecia. Ouvindo e observando os ombros de Nicole enquanto ela conversava com o velho Marmora, que tinha o cabelo salpicado de branco como o teclado de um piano, Dick comparou-os ao formato de um violino e veio-lhe à ideia a desonra, o segredo. Oh, borboleta - esse momento transformado em duração...

- Na verdade tenho um plano - continuou Baby com firmeza. - Pode parecer-lhe pouco prático mas dizem que a Nicole precisa que tomem conta dela durante uns anos. Não sei se conhece Chicago ou não...

- Não conheço.

- Bem, há um lado norte e um lado sul e existe uma grande diferença

entre eles. O lado norte é elegante e tudo isso, e nós sempre vivemos lá, pelo menos durante alguns anos. Mas há muitas famílias antigas, velhas famílias de Chicago que ainda vivem no lado sul. É lá que fica a Universidade. É insuportável para algumas pessoas, mas de qualquer modo é diferente do lado norte. Não sei se está a seguir o meu raciocínio.

Dick fez um sinal afirmativo. À custa de uma certa concentração, conseguira acompanhá-la.

- Claro que nós temos lá muitos conhecimentos, o meu pai controla algumas cátedras da Universidade, e eu pensei que se levássemos a Nicole para casa e a atirássemos para aquela multidão... Você sabe como ela gosta de música e fala todas aquelas línguas... O que seria melhor na sua situação do que apaixonar-se por um bom médico?..

Dick foi acometido de uma explosão de hilariedade. Os Warren estavam dispostos a comprar um médico a Nicole... Tem um bom médico para nós? Não havia razão para se preocupar com Nicole quando eles eram capazes de lhe comprar um médico simpático, pintadinho de fresco.

- E acerca do médico? - perguntou maquinalmente.

- Deve haver muitos que vão querer agarrar essa oportunidade.

Os dançarinos estavam de volta, mas Baby segredou:

- É este tipo de coisas a que me referia. Onde está a Nicole agora?...

Saiu não sei para onde. Está lá em cima no quarto? Que devo fazer? Nunca sei se não passa de algo sem importância ou se devo ir procurá-la.

- Talvez ela só queira ser ela mesmo. As pessoas que vivem sozinhas habituam-se à solidão.

Vendo que a menina Warren não estava a ouvi-lo, calou-se. - Vou dar uma volta por aí.

Por um instante, toda a atmosfera se encheu de névoa, e era como se tivessem corrido uma cortina sobre a Primavera. Toda a vida se concentrava junto do hotel. Dick passou por algumas janelas da cave onde os empregados dos autocarros estavam sentados em bancos corridos, a jogar às cartas e a beber vinho espanhol. Ao aproximar-se do jardim, viu as estrelas começarem a aparecer acima dos cumes brancos dos Alpes. No caminho sobranceiro ao lago, Nicole era um vulto imóvel entre dois candeeiros. Dick atravessou a relva em silêncio. A rapariga voltou-se para ele e exclamou:

- Cá está você.

Por momentos Dick arrependeu-se de ter vindo. - A sua irmã anda à sua procura.

- Ora!

Estava acostumada a ser vigiada. Com esforço, explicou-se:

- Por vezes fico um pouco... é de mais. Vivi tão calmamente. Esta

noite achei a música excessiva. Deu-me vontade de chorar... - Estou a perceber.

- Tem sido um dia terrivelmente excitante.

- Eu sei.

- Não quero fazer nada anti-social. Já dei muito trabalho a toda a gente. Mas esta noite apeteceu-me afastar-me.

De repente ocorreu a Dick, como poderia acontecer a um moribundo que se esquecesse onde guardara o testamento, que Nicole fora «re-educada» por Dohmler e por todas as gerações fantasmagóricas anteriores a ele; ocorreu-lhe tanbém que havia tanto a dizer a Nicole. Mas guardando para si esta convicção, rendeu-se ao valor aparente da situação e disse:

- Você é uma óptima pessoa! Limite-se a manter as ideias que tem sobre

si mesma.

- Gosta de mim?

- Claro.

- Você seria... - eles caminhavam lentamente em direcção ao outro extremo da ferradura, a cerca de duzentos metros.

- Se eu não tivesse estado doente você seria... Quero dizer, eu seria o tipo de rapariga que você teria... Oh, que maçada! Você sabe o que eu quero dizer.

Dick estava agora envolvido na situação, possuído por uma imensa irracionalidade. A rapariga estava tão perto que ele sentiu a sua respiração  alterar-se, mas uma vez mais o treino profissional veio em seu auxílio, sob a forma de uma gargalhada de rapaz e de um comentário banal:

- Você está a torturar-se; minha cara. Conheci um homem que se apaixonou pela enfermeira...

A história continuou, pontuada pelo som dos passos deles. De repente

Nicole interrompeu-o em calão de Chicago: - Bull!*

- Que expressão tão vulgar!

- E depois? - encolerizou-se ela. - Não pense que eu não tenho bom senso... Antes de estar doente não tinha, mas agora tenho. E se eu não sei que você é o homem mais atraente que alguma vez conheci, pode pensar que ainda estou louca. É a minha pouca sorte, concordo... Mas finja que eu não sei... Eu sei tudo acerca de você e de mim.

Dick estava duplamente em desvantagem. Lembrava-se do depoimento da mais velha das irmãs Warren sobre os jovens médicos que podiam ser comprados nas reservas intelectuais do lado sul de Chicago e por momentos ficou de mau humor.

- Você é uma criança ardilosa, mas eu não poderia apaixonar-me por si!

- Você não me dá uma oportunidade!

- O quê?

A impertinência, o atrevimento implícito, deixaram-no espantado. Ficava desarmado perante os comportamentos anárquicos e não conseguia pensar em nenhuma oportunidade que Nicole Warren merecesse.

- Dê-me uma oportunidade agora.

A voz baixou de tom, afundou-se-lhe no peito e fez erguer o corpete estreito, quando se aproximou dele. Ele sentiu aqueles lábios jovens, aquele corpo suspirando de alívio de encontro ao braço forte que se preparava para a abraçar. Não havia agora mais planos do que se Dick tivesse feito alguma mistura arbitrária e indissolúvel de átomos inseparáveis. Poderiam deitá-los fora, mas nunca mais se adaptariam à tabela atómica. Quando a abraçou e a saboreou e ela se inclinou cada vez mais para ele, a boca renovada e inundada de amor, liberta e triunfante, Dick sentiu-se agradecido por estar vivo, mesmo que a vida não passasse de um reflexo nos olhos húmidos da rapariga.

- Meu Deus! - suspirou Dick. - Como é bom beijá-la!

Tudo isto não passava de conversa, mas Nicole tinha agora um ascendente sobre ele e servia-se disso. Tomou uma atitude insinuante e afastou-se, deixando-o tão suspenso como no funicular, naquela tarde. Pensou: «Aí está! Isto vai mostrar-lhe como é presunçoso, como poderia lidar comigo. Oh!, como seria maravilhoso! Apanhei-o, é meu.» Depois afastou-se, mas era tudo tão doce e novo que os passos se lhe tornaram mais lentos, desejosa de prolongar aquele momento.

De repente arrepiou-se. Seiscentos metros abaixo avistou o colar e a pulseira de luz que eram Montreux e Vevey; Lausanne, mais longe, era

 

* Expressão que à letra significa «touro» e que é um equivalente do portugês «tretas», (N. da R.)

 

pendente indistinto. De um lugar qualquer subia um som tímido de música de dança. Nicole estava agora perfeitamente consciente, fria, tentando reconstituir os sentimentalismos da sua infância, com a deliberação de um homem que se embriaga depois do combate. Mas ainda tinha medo de Dick, que estava a seu lado, inclinado de modo característico sobre a varanda de ferro que ladeava o caminho em forma de ferradura. Isso levou-a a dizer:

- Lembro-me de como fiquei à sua espera no jardim, comigo inteira nos seus braços, como um cesto de flores. Ou pelo menos era assim que eu sentia... e pensei que estava a ser muito querida - à sua espera, para lhe entregar o cesto.

Ele respirava sobre o seu ombro e insistia em voltá-la para si. Ela beijou-o várias vezes e o seu rosto aumentava à medida que se aproximava dele e o abraçava.

- Está a chover imenso.

De repente ouviu-se um estrondo, vindo do outro lado do lago, como canhões alvejando as nuvens de granizo com o propósito de as destruir. As luzes do jardim apagaram-se e voltaram a acender-se. A tempestade chegou então, de súbito, primeiro caindo do céu, depois também das montanhas, em torrentes, lavando ruidosamente as estradas e as valas' de pedra. O céu fez-se escuro e assustador e filamentos incontroláveis de raios e trovões apocalípticos que pareciam rasgar as nuvens em debandada. As montanhas e o lago desapareceram. O hotel desaparecia no meio do tumulto, do caos e da escuridão.

Nessa altura, Dick e Nicole chegaram ao vestíbulo, onde Baby Warren e os três Marmora os esperavam ansiosos. Era excitante sair da humidade do nevoeiro, no meio de portas a bater, e rir e tremer de emoção, com o vento nos ouvidos e as roupas ensopadas de chuva. Naquele momento, no salão de baile, a orquestra tocava uma valsa de Strauss.

... O doutor Diver, casar com uma doente mental? Como é que isso aconteceu? Quando começou?

- Não quer voltar depois de mudar de roupa? - perguntou Baby Warren, depois de o examinar minuciosamente.

- Não tenho roupa para mudar, excepto uns calções.

No caminho de regresso para o hotel, vestindo uma gabardina emprestada, Dick ainda ria cinicamente.

«Grande oportunidade! Oh, sim! Meu Deus! Eles decidiram comprar um médico? Bem, o melhor que têm a fazer é apanharem alguém que encontrem em Chicago.» Revoltado com a sua dureza, enterneceu-se com Nicole, lembrando-se de que nunca nada lhe parecera tão jovem como os seus lábios, recordando a chuva como lágrimas choradas em sua intenção e que deslizavam lentamente pelas faces de porcelana da rapariga... O silêncio que se seguiu à tempestade acordou-o cerca das três horas da madrugada e fê-lo ir até à janela. A beleza dela subia pela encosta, entrava no quarto, sussurrando como um fantasma atrás das cortinas...

... Na manhã seguinte, subiu duzentos metros até Rochers de Naye, divertido por verificar que o seu guia do dia anterior utilizava também o dia  de folga para fazer alpinismo. Depois, desceu até Montreux para ir nadar e voltou para o hotel a tempo de jantar. Esperavam-no duas mensagens.

 

«Não estou envergonhada do que se passou ontem à noite. Foi a coisa mais bonita que alguma vez me aconteceu e mesmo que não o volte a ver, Mon Capitaine, fico feliz por ter acontecido.»

 

Isto era o suficiente para o desarmar. A sombra pesada de Dohmler desapareceu enquanto abria o segundo envelope:

 

«Caro doutor Diver.

Telefonei-lhe mas o senhor tinha saído. Hesitei em pedir-lhe um grande favor. Circunstâncias inesperadas chamam-me a Paris, e penso que o melhor caminho será por Lausanne. Não se importa de acompanhar Nicole até Zurique, já que volta na segunda-feira? E deixá-la na casa de repouso? Será pedir muito?

Cumprimentos, Beth Evan Warren»

 

Dick ficou furioso - a menina Warren sabia que ele tinha uma bicicleta, mas fizera-lhe o pedido de tal forma que era impossível recusar. Juntar-nos de propósito! Doce proximidade e o dinheiro dos Warren!

Estava enganado. Baby Warren não tinha tais intenções. Avaliara Dick com olhos mundanos, segundo as leis pervertidas de uma anglófila, e achara-o carente, apesar de simpático. Mas era demasiado «intelectual» para o seu gosto e ela comparava-o a um grupo de pelintras pedantes que em tempos conhecera em Londres. Insinuava-se demasiado para ser considerado um ente perfeito. Não conseguia vê-lo como um aristocrata.

Para além disso era teimoso. Ela reparara que ele fugia às conversas e se recolhia sucessivas vezes. Baby não gostava dos modos de Nicole, livres e descuidados como os de uma criança, e agora habituara-se a pensar nela como um animal fugido. De qualquer forma, o doutor Diver não era o tipo de médico que ela pudesse imaginar como membro da família.

Inocentemente, queria apenas servir-se dele.

Mas o seu pedido surtiu o efeito que Dick pensou ter sido sua intenção.

Uma viagem de comboio pode ser uma coisa terrível, romântica ou cómica; pode ser uma tentativa de fuga; pode ser a prefiguração de uma outra viagem. Da mesma maneira que um dia passado com um amigo pode parecer longo, desde os afazeres matinais até às refeições tomadas em conjunto. Depois vem a tarde e a viagem chega ao fim. Dick ficou triste ao sentir a alegria frágil de Nicole. Era, no entanto, um alívio para ela voltar para o único lar que conhecia. Nesse dia não houve abraços apaixonados, mas quando ele a deixou à porta, junto do Zurichsee, e ela se voltou para olhar para ele, Dick soube que o problema dela agora era de ambos.

 

Numa tarde de Setembro, em Zurique, o doutor Diver tomava chá com Baby Warren.

- Acho que é uma má ideia - dizia ela. - Não estou segura de perceber inteiramente as suas intenções.

- Proponho que não sejamos desagradáveis.

- Afinal, a Nicole é minha irmã.

- Isso não lhe dá o direito de ser desagradável.

E Dick irritou-se por ver-se obrigado a acrescentar:

- A Nicole é rica mas isso não faz de mim um aventureiro.

- É exactamente esse o fulcro da questão. A Nicole é rica - prosseguiu

Baby com obstinação.

- E qual é o montante da sua fortuna? - perguntou ele.

Baby sobressaltou-se e Dick, esboçando um sorriso silencioso, continuou: - Está a ver como tudo isto é idiota? Preferia falar com um dos homens

da vossa família...

- Tudo foi deixado a meu cargo - insistiu Baby, - Não é que estejamos convencidos de que você é um aventureiro. A verdade é que não sabemos quem você é.

- Sou médico. O meu pai é sacerdote, já aposentado. Vivíamos em Bufallo e o meu passado está aberto a quaisquer investigações. Fomos para New Haven; depois andei a estudar em Rhodes. O meu avô era governador da Carolina do Norte e eu sou descendente directo de Mad Anthony Wayne.

- Quem era Mad Anthony Wayne? - perguntou Baby desconfiada.

- Mad Anthony Wayne...

- Creio que já há loucura suficiente neste caso .

Dick abanou a cabeça, desesperado, e nesse momento Nicole apareceu no terraço do hotel, à procura deles.

- Era demasiado louco para deixar tanto dinheiro como Marshall Field -disse Dick.

- Está tudo muito bem...

Baby estava dentro da razão e sabia-o. O pai dela levaria a melhor a qualquer sacerdote. A sua família pertencia à aristocracia americana, embora  não possuísse qualquer título, e o simples facto de figurarem num livro de registos de hotel, de assinarem qualquer documento ou de utilizarem o nome numa situação crítica causava uma metamorfose psicológica nas pessoas e, por sua vez, essa alteração tinha cristalizado na consciência de Baby. Aprendera isso com os ingleses, que já o sabiam há mais de duzentos anos. Mas ignorava que por duas vezes Dick tinha estado a pontos de estoirar com tudo. O que salvou a situação foi o aparecimento de Nicole, que vinha bela e fresca, naquela tarde de Setembro.

 

Como está, doutor? Amanhã partimos para Como, onde ficamos uma semana, e depois regressamos a Zurique. É por isso que eu queria que o senhor e a minha irmã resolvessem este assunto. Não nos interessa a quantia a que tenho direito. Vamos viver tranquilamente em Zurique, durante dois anos, e o Dick tem o suficiente para os dois. Não, Baby, sou mais prá-

tica do que julgas    É só para a roupa e algumas coisas de que precise...

Ah, é mais do que   o património pode render-me tudo isso? Sei que nunca

conseguirei gastar tudo. Por que é que tu tens mais... é por eu ter sido interditada? Está bem, venha o meu quinhão, então... Não! O Dick recusa-se a ter a ver com este assunto. Tenho de ser eu a preocupar-me pelos dois... Tu não conheces o Dick! Onde é que eu assino? Oh, desculpe!

... Não é giro estarmos os dois juntos, Dick? Não temos para onde ir, só nos resta ficar ao pé um do outro. Vamos viver de amor? Ah, mas eu amo-te mais e sinto quando te afastas de mim, por pouco que seja. Acho que é maravilhoso ser como toda a gente, sentir o teu corpo quente a meu lado, na cama.

... Se quiser telefone ao meu marido, para o hospital. Sim, o livrinho está a vender-se em todo o lado... Querem publicá-lo em seis línguas. Eu é que estava encarregada de fazer a tradução mas tenho-me sentido cansada... Tenho medo de fraquejar, sinto-me tão desajeitada... Pareço um boneco que não consegue pôr-se de pé. O estetoscópio frio no meu peito e a sensação que domina todas as outras é: je m'en fiche de taut. Oh, aquela pobre mulher lá no hospital com o bebé já roxo... Mais valia que morresse... Não é agradável estarmos os três juntos, agora?

... Isso parece-me sem sentido, Dick... Temos todos os motivos para ficar com o apartamento maior. Por que razão havemos de ser castigados, só porque os Warren têm mais dinheiro de que os Diver? Oh, obrigada, mas mudámos de opinião, cameriêre. O sacerdote inglês disse-nos que o vinho aqui de Orvieto é esplêndido. Não é exportado? É por isso que nunca ouvimos falar dele, pois nós adoramos vinho.

Os lagos mergulham na argila escura e as encostas lembram um ventre enrugado. O fotógrafo deu-nos a minha fotografia, de cabelo ao vento, quando fomos de barco para Capri. «Adeus, Gruta Azul! Volta depressa!», canta o barqueiro. E depois, seguindo o rasto sinistro de um italiano, o vento assolando aqueles castelos fantásticos, os mortos espreitando do topo daquelas colinas...

- Este barco é muito bonito. Os nossos passos ressoam juntos no convés. Este canto é ventoso e,• cada vez que passamos por aqui, inclino-me para a frente, aperto o casaco e não largo o Dick. Entoamos uma melodia sem nexo.

 

«Oh!... Oh!... Oh!... Oh!

Other flamingoes than me,

Oh!... Oh!... Oh!... Oh!

Other flamingoes than me... » *

 

Com o Dick, a vida é divertida. As pessoas que estão sentadas no convés observam-nos e uma mulher esforça-se por perceber o que estamos a cantar. O Dick cansou-se de cantar e por isso continua sozinho. Dick, sozinho caminharás de maneira diferente, querido, a atmosfera será mais densa e terás mais dificuldade em encontrar o caminho entre as sombras das cadeiras e o fumo das chaminés. Verás o teu próprio reflexo deslizar pelos olhos dos que te observam. Já não estás isolado, mas acho que deves tocar a vida para renasceres dela.

Sentada na balaustrada do salva-vidas, olho para a água e deixo o cabelo soltar-se e brilhar. Estou imóvel contra o céu e o barco leva-me para a penumbra azulada do futuro. Sou Palas Atena, reverentemente esculpida na proa de uma galera. As águas rugem nos lavabos públicos e a folhagem verde ágata da espuma altera-se e geme na popa.

... Naquele ano, viajámos muito - desde a baía de Woolloomooloo até Biskra. No Sara, apanhámos uma praga de gafanhotos e o motorista explicou-nos delicadamente que se tratava de abelhas gigantes. À noite, o céu está próximo, cheio da presença de um Deus estranho e observador. Oh, pobres crianças indígenas, todas nuas! A noite estava cheia do som dos tambores do Senegal, das flautas e do lamento dos camelos, e os nativos dançavam com sapatos feitos de pneus velhos.

Mas, nessa altura eu já estava outra vez mal.. comboios e praias eram todos o mesmo. Foi por isso que ele me levou em viagem, mas depois do nascimento da minha filha Topsy tudo voltou a escurecer.

... Se eu pudesse chegar à fala com o meu marido, que parece disposto a abandonar-me aqui, a deixar-me nas mãos de incompetentes. Dizem-me que o meu bebé é negro... Trata-se de uma farsa mesquinha. Fomos a África apenas para ver Timgad, pois o que mais me interessa na vida é a arqueologia. Estou cansada de ser ignorante e de mo estarem sempre a lembrar.

... Quando estiver boa, quero ser uma pessoa simpática como tu, Dick...

Até seria capaz de estudar medicina, se não fosse demasiado tarde. Temos de gastar o meu dinheiro e de ter uma casa... Estou cansada de apartamentos e de esperar por ti.

 

* «Oh!... Oh!... Oh!... Oh!

Há outros flamingos além de mim,

Oh!... Oh!... Ohl... Oh!

Há outros flamingos além de mim... »

 

Tu estás farto de Zurique, não arranjas tempo para escrever aqui e dizes que, num cientista, não escrever é sintoma de fraqueza. E eu percorro toda a extensão do conhecimento, recolho qualquer coisa e aprendo-a, para me agarrar a qualquer coisa se voltar a ficar despedaçada. Tu vais ajudar-me, Dick, e assim não me sentirei tão culpada. Viveremos junto de uma praia cálida onde possamos bronzear-nos e rejuvenescer.

... Esta vai ser a casa de trabalho do Dick. Oh, a ideia surgiu-nos a ambos ao mesmo tempo. Havíamos passado por Tarmes uma dúzia de vezes, vínhamos até cá acima de automóvel e não encontrávamos senão casas vazias, à parte dois estábulos. Tratámos da transacção com um francês, mas quando a Marinha descobriu que uns americanos tinham comprado uma parte de uma aldeia alcantilada, mandou cá espiões. Procuraram canhões nos materiais de construção e, por fim, a Baby teve de interceder por nós no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Paris.

No Verão, ninguém vem à Riviera, por isso esperamos receber poucos convidados e poder trabalhar. Estão cá alguns franceses: Mistinguet, na semana passada, supreendida por ter encontrado o hotel aberto, Picasso, e o indivíduo que escreveu Pas sur la Bouche.

... Dick, porque escreveste no livro de registos senhor e senhora Diver, em vez de doutor e senhora Diver? Lembrei-me disso... veio-me à ideia. Ensinaste-me que o trabalho é tudo e eu acredito. Costumavas dizer que um homem sabe coisas e, quando deixa de as saber, é como toda a gente, e tudo reside em conquistar poder antes de esquecê-las. Se queres confundir tudo, estou de acordo, mas a tua Nicole há-de ser obrigada a seguir-te, submissa, querido?

... O Tommy diz que eu sou calada. Depois de melhorar, uma vez fiquei a conversar com o Dick até altas horas da noite, os dois sentados na cama, a fumar; depois, para fugir da madrugada azul, tapámos a cabeça com a almofada, para proteger os olhos da luz. Às vezes, canto e brinco com os animais, e também tenho alguns amigos - a Mary, por exemplo. Quando eu e a Mary estamos a conversar nunca damos atenção uma à outra. Falar é para os homens. Quando falo imagino que sou o Dick. Também já tenho sido o meu filho, ao lembrar-me como é sensato e tranquilo. Por vezes sou o doutor Dohmler e talvez por uma vez me tenha posto na tua pele, Tommy Barban! Tommy está apaixonado por mim, suponho, mas de um modo calmo, reconfortante. No entanto, é suficiente para que o Dick e ele tenham começado a desentender-se. Resumindo, nunca tudo esteve tão bem. Estou entre amigos, que me estimam. Encontro-me nesta praia na companhia do meu marido e dos meus dois filhos. Está tudo bem... se conseguir acabar de traduzir para francês esta maldita receita de galinha à Maryland. A areia queima-me os pés.

- Sim, estou a ver. Mais gente nova... Oh, aquela rapariga... Sim. Com quem disseste que se parecia?... Não, não temos muitas oportunidades de ver aqui os novos filmes americanos. Rosemary quê? Estamos a ficar muito na moda, este Julho... Parece-me muito estranho. Sim, ela é encantadora, mas há gente a mais.

 

Em Agosto, o doutor Richard Diver e a senhora Elsie Speers estavam sentados no Café des Alliés, à sombra fresca das árvores poeirentas. O brilho da mica era absorvido pelo chão ressequido e por vezes, da costa, o mistral soprava em rajadas que varriam o Esterel e faziam balouçar os barcos de pesca, na baía, cujos mastros apontavam, aqui e além, um céu monótono.

- Esta manhã recebi uma carta - disse a senhora Speers. - Que maus bocados não devem ter passado com aqueles negros! Mas a Rosemary disse que o senhor tinha sido maravilhoso com ela.

- A Rosemary merecia uma condecoração. Foi terrível. A única pessoa que não foi molestada foi o Abe North, que fugiu para o Havre e que provavelmente ainda não sabe o que se passou.

- Lamento que a senhora Diver tenha sido incomodada - acrescentou a senhora Speers num tom cauteloso.

Rosemary tinha escrito:

«A Nicole parecia não estar em seu perfeito juízo. Eu não quis vir com eles para o Sul porque achei que o Dick já tinha bastante com que se ralar,»

- Ela agora já está bem - respondeu Dick quase com impaciência. -

Então, vão-se embora amanhã? Quando partem? - Imediatamente.

- Meu Deus, é terrível ficar sem a vossa companhia.

- Gostámos muito de vir até cá. Divertimo-nos graças a si. Foi o pri-

meiro homem por quem a Rosemary se interessou.

Outra rajada de vento percorreu as colinas de pórfiro de La Napoule.

Percebia-se que o tempo iria mudar em breve. O encanto daquele Verão fora de tempo estava no fim.

- A Rosemary já teve paixonetas mas acabava sempre por me passar o homem para eu... o dissecar... - disse a senhora Speers, rindo.

- Mas eu fui poupado.

- Não havia nada que eu pudesse fazer. Ela apaixonou-se por si antes

de eu o ter conhecido. Aconselhei-a a não desistir.

Dick apercebeu-se de que os planos da senhora Speers não contavam com ele ou com Nicole e de que a amoralidade dela era uma condição do seu próprio distanciamento. Era um direito seu, o preço do apagamento das suas próprias emoções. As mulheres são capazes de quase tudo quando se trata da luta pela sobrevivência e dificilmente podem ser acusadas de crimes inventados pelos homens, como o da crueldade. Desde que o amor e o sofrimento inerente se desenrolassem dentro dos limites da conveniência, a senhora Speers conseguiria encará-los com o humor e o desprendimento de um eunuco. Nem mesmo admitiria a possibilidade de Rosemary vir a ser afectada. Ou teria mesmo a certeza de que tal era impossível?

- Se o que me diz é verdade, não creio que o caso a tenha magoado. Dick mantinha a pretensão de que era capaz de pensar em Rosemary com objectividade.

- Ela já não pensa mais nisso. Se bem que muitas das coisas importantes da vida comecem por acaso.

- Isto não foi por acaso - insistiu a senhora Speers. - O senhor foi o primeiro homem que constituiu para ela um ideal. Ela afirma-o em todas as cartas.

- Ela é muito amável.

- O senhor e a Rosemary são as pessoas mais amáveis que eu conheço,

mas neste caso ela di-lo a sério.

- A minha amabilidade é um truque do coração.

Em parte isto era verdade. Com o pai, Dick aprendera as boas maneiras que todo o jovem sulista adquiria, de certo modo conscientemente, quando ia para o Norte, ainda no rescaldo da Guerra Civil. Muitas vezes fazia uso delas e outras tantas as desprezava porque elas constituíam um protesto, não contra o egoísmo, mas contra a sua aparência desagradável.

- Estou apaixonado pela Rosemary - disse Dick de repente. - Revelar-

-lho, a si, é uma forma de autocomplacência.

Esta declaração tinha para ele um estranho carácter oficial, como se até as mesas e as cadeiras do Café des Alliés a fossem recordar para sempre. Sentia já a ausência de Rosemary: na praia, a única imagem que lhe ocorria era a pele tisnada dos seus ombros; em Tarmes, trilhava no jardim o mesmo caminho que ela; e agora a orquestra fazia soar os primeiros acordes da Marcha do Carnaval de Nice, um eco dos festejos do ano anterior que também contribuía para a evocar. Em meia dúzia de dias, ela apoderara-se de toda a oculta magia do mundo; a beladona ofuscante, a cafeína convertendo a energia física em nervosa e a mandrágora que instaura a harmonia.

Foi com esforço que mais uma vez Dick fingiu partilhar do desprendimento da senhora Speers.

- De facto, a senhora e a Rosemary não são parecidas - disse. - A sabedoria que colheu em si moldou-se na sua persona, na máscara com que enfrenta o mundo. Ela não pensa; o seu verdadeiro íntimo é irlandês, romântico e ilógico.

A senhora Speers também sabia que Rosemary, sob a capa da delicadeza, era um potro selvagem, natureza que herdara do capitão Hoyt, médico  do exército dos Estados Unidos. Se fosse dissecada, dentro dela coração, fígado e alma apareceriam como uma massa enorme comprimida sob uma concha adorável.

Dick despediu-se consciente do encanto de Elsie Speers. Sabia que ela significava mais para ele do que um simples fragmento deixado por Rosemary. Talvez conseguisse influenciar a filha, mas isso seria impossível com a mãe. Se os 'adornos que Rosemary levara consigo eram presentes de Dick, era agradável, por contraste, observar a graciosidade de Elsie, a cujas fontes era totalmente alheio. Ela tinha o ar de quem é capaz de ficar à espera de um homem que tivesse de se envolver em coisas mais importantes do que ela própria, uma batalha ou uma operação, e que não podia apressar-se nem ser interrompido. Quando o homem acabasse, ela estaria à espera, sem enfado ou impaciência, sentada em qualquer lado num banco, a folhear uma revista.

- Adeus. Nunca se esqueçam da estima que a Nicole e eu nutrimos por vocês duas.

De regresso à Vila Diana, Dick foi para o escritório e abriu as persianas que se conservavam fechadas para proteger o aposento do brilho ofuscante do meio-dia. Em duas longas mesas, numa confusão ordenada, encontravam-se os materiais do seu livro. O volume I, que versava sobre a Classificação, obtivera algum sucesso numa pequena edição subsidiada. Dick negociava agora a sua reedição. O volume II seria uma ampliação do seu primeiro livro, Psicologia para Psiquiatras. À semelhança de tantos outros homens, Dick descobrira que não tinha mais do que uma ou duas ideias - que a sua reduzida colecção de ensaios, agora na quinquagésima edição alemã, continha em germe todo o seu espólio intelectual.

No entanto, sentia-se pouco à vontade. Ressentia-se dos anos desperdiçados em New Haven, mas acima de tudo apercebia-se da discrepância entre o luxo crescente em que os Diver viviam e a necessidade de ostentação que aparentemente decorria desse luxo. Ao recordar a história do seu amigo romeno sobre o homem que investigara durante anos o cérebro de um tatu, Dick desconfiou de que, nas bibliotecas de Berlim e de Viena, alemães pacientes se lhe antecipavam com determinação. Estava quase decidido a enviar o livro tal como se encontrava naquele momento e a publicá-lo num volume de cem mil palavras, que não incluíria documentação e serviria como introdução a outros volumes de natureza mais académica.

Enquanto passeava pelo aposento, gozando os últimos raios da luz do entardecer, amadureceu esta decisão. Com o seu novo plano, poderia ficar livre na Primavera. Parecia-lhe que, quando um homem com a sua energia era perseguido durante um ano por dúvidas crescentes, isso significava que o seu plano tinha qualquer falha.

Colocou as barras de metal dourado que faziam de pisa-papéis sobre as rimas de apontamentos. Deu uma arrumação ao aposento, onde os criados não tinham licença de entrar, e uma limpeza ligeira à casa de banho, arranjou um biombo e preparou uma encomenda para enviar a uma editora de Zurique. Depois tomou um gole de gin com o dobro da água.

Avistou Nicole no jardim. Em breve iria ter com ela e essa perspectiva não o deixava bem disposto. Ao pé dela tinha de manter sempre boa cara, hoje e amanhã, na próxima semana como no ano que se seguiria. Em Paris, tivera a mulher nos braços durante uma noite inteira, enquanto ela dormia sob acção do luminol; e de manhã cedo, para dissipar a confusão antes que ela surgisse, Dick dirigira-lhe palavras de protecção e de ternura, e ela voltara a adormecer com o cabelo perfumado encostado ao rosto do marido. Antes de ela acordar, Dick tratara de tudo ao telefone. Rosemary iria para outro hotel. Tinha de voltar a ser a Daddy's Girl, e nem sequer se despediria deles. O proprietário do hotel, o senhor McBeth, tinha prometido ser surdo, cego e mudo, como os três macacos chineses. Feitas as malas, no meio das caixas e do papel de embrulho das muitas compras, Dick e Nicole partiram para a Riviera por volta do meio-dia.

Depois veio a reacção. Assim que se instalaram no vagão-cama, Dick apercebeu-se de que Nicole a aguardava, e ela veio, rápida e desesperada, ainda antes de o comboio se afastar da linha de cintura - a sua vontade tinha sido descer do comboio enquanto este não acelerava a marcha, e ir à procura de Rosemary. Abriu um livro e inclinou as lunetas sobre ele, sabendo que Nicole o observava do outro lado do compartimento. Como não conseguia ler, fingiu-se cansado e fechou os olhos mas ela continuou a observá-lo. Ainda semi-adormecida devido ao efeito do medicamento, sentia-se aliviada e quase feliz por o ter para si de novo.

Para Dick era pior estar de olhos fechados. Tinha uma sensação rítmica de encontrar e perder, encontrar e perder. No entanto, para não aparentar inquietação, deixou-se ficar assim até ao meio-dia. Ao almoço, as coisas desanuviaram-se - era sempre uma refeição agradável. Tinham partilhado uma imensidade de almoços em estalagens, carruagens-restaurantes, bufetes e aviões. A azáfama familiar dos criados, as pequenas garrafas de vinho e de água mineral e a excelente comida do Paris-Lyon-Méditerranée davam-lhes a ilusão de que tudo era como dantes mas, pela primeira vez, aquela viagem mais parecia uma fuga. Sem contar com o copo de Nicole, Dick bebeu todo o vinho da garrafa. Falaram da casa e dos filhos mas, uma vez no compartimento, o silêncio caiu de novo sobre eles, como já acontecera no restaurante ao pé dos jardins do Luxemburgo. Era quase inevitável voltar atrás no tempo e relembrar o que dera origem àquela situação. Contra o que era costume, Dick começou a ficar impaciente. De repente, Nicole disse:

- Não me pareceu bem deixar a Rosemary daquela maneira. Achas que

ela vai ficar bem?

- Claro que sim. Ela é capaz de tomar conta de si onde quer que esteja... Receando que Nicole considerasse esta observação como uma alusão desagradável à sua pessoa, Dick acrescentou:

- Afinal, ela é actriz, e mesmo com o amparo da mãe, tem de tomar

conta de si.

- Ela é muito atraente.

- É uma criança.

- Mesmo assim, é muito atraente.

Prosseguiram uma conversa sem sentido, só para se ouvirem um ao outro. - Ela não é tão inteligente como eu pensava - comentou Dick.

- Mas é bastante esperta.

- Nem por isso - há sempre nela um não sei quê de infantil.

- Ela é muito, muito bonita - disse Nicole com ênfase e aparentando

desprendimento. - E na minha opinião saiu-se muito bem no filme.

- Foi bem dirigida. Pensando melhor, o mérito não foi muito dela.

- Eu acho que foi e posso compreender que ela seja muito atraente aos

olhos dos homens.

O coração de Dick começou a bater com força. Que homens? Quantos

homens?

«- Não se importa que eu baixe a cortina?» «- Faça favor. Há demasiada luz aqui.»

Onde estaria Rosemary naquele momento? E com quem?

- Dentro de alguns anos, parecerá muito mais velha do que tu.

- Pelo contrário. Houve uma noite em que a desenhei num programa

de teatro; creio que o tempo não passará por ela.

Tiveram ambos uma noite agitada. Dentro de um ou dois dias, Dick iria tentar afastar o fantasma de Rosemary antes que fosse tarde demais, mas por agora era-lhe impossível fazê-lo. Por vezes, é mais difícil renunciarmos ao sofrimento que ao prazer, e as recordações tinham-se apoderado de Dick a tal ponto que ele não tinha outra alternativa que não fosse fingir. Isto era mais difícil por, nessa altura, estar aborrecido com Nicole que, depois de tantos anos, sabia reconhecer em si mesma os sinais de tensão e defender-se. No espaço de quinze dias ela fora-se abaixo por duas vezes: na noite do jantar em Tarmes, quando Dick fora dar com ela no quarto a rir à gargalhada com a senhora McKisco e a dizer-lhe que não podia entrar na casa de banho porque alguém atirara a chave ao poço. A senhora McKisco estava admirada e ressentida, mas confundida e disposta a compreender. Nessa altura, Dick não ficara muito assustado pois Nicole mostrara-se arrependida. Chegara a ir procurar os McKisco ao hotel de Gausse mas estes já tinham partido.

O colapso de Paris tinha sido outra coisa, que conferira significado à primeira. Talvez fosse o prenúncio de um novo ciclo, de um novo surto da doença. Tendo suportado as angústias inerentes à longa recaída de Nicole após o nascimento de Topsy, Dick passara a couraçar-se contra ela, por força das circunstâncias, e a fazer uma clivagem entre a Nicole doente e a Nicole com saúde. Agora era-lhe difícil estabelecer uma diferença entre o distanciamento profissional a que era obrigado para se proteger e uma certa frieza recente. A frieza acalentada, ou entregue à atrofia, transforma-se num vazio e, por essa altura, ele já tinha aprendido a ficar vazio de Nicole, lidando com ela com recusas e desprendimento emocional, mesmo contra o seu próprio desejo. Fala-se por vezes em cicatrizes que fecham, num paralelismo tosco com a patologia da pele, mas não é isso que se passa na vida de um ser humano. As feridas, uma vez abertas, ainda que diminuam até ficarem do tamanho da cabeça de um alfinete, nunca deixam de ser feridas. As marcas do sofrimento são mais comparáveis à perda de um dedo ou de uma vista. Podemos não lhes sentir a falta a não ser por um instante, mas se sentirmos, nada poderá reparar essa falta.

 

Dick encontrou Nicole no jardim, de braços cruzados, as mãos pousadas nos ombros. Ela fitou-o com os seus olhos cinzentos, como uma criança deslumbrada.

- Fui a Cannes - disse Dick. - Encontrei a senhora Speers por acaso.

Vai-se embora amanhã. Queria vir até cá para se despedir de ti, mas eu dissuadi-a.

- É pena. Eu gostava de a ver. Simpatizo com ela.

- Advinha quem eu vi mais... O Bartholomew Tailor.

- Não acredito!

- Era impossível não o reconhecer, aquele rato velho. Andava à procura de uns terrenos para instalar o Circo Ciro*. Para o ano vêm todos para cá. Tenho a impressão, de que a senhora Abrams foi uma espécie de guarda avançada.

- E a Baby que ficou tão escandalizada no primeiro Verão que aqui passámos.

- No fim de contas, eles não ligam nenhuma ao sítio onde estão, por isso não percebo porque é que não se deixam congelar em Deauville. - Não podemos começar a lançar boatos sobre uma epidemia de cólera ou de outra coisa qualquer?

- Eu disse ao Bartholomew que algumas espécies morrem aqui como moscas. Disse-lhe que aqui a vida de um mosquito é tão curta como a de um atirador na guerra.

- Não acredito.

- Não, não disse - admitiu Dick. - Ele mostrou-se muito simpático.

Foi um belo espectáculo, ele e eu a apertarmos a mão em plena avenida. Parecia o encontro de Sigmund Freud com Ward McAllister.

Dick não tinha vontade de/ conversar - tudo o que queria era ficar sozinho para que os seus pensamentos acerca do trabalho e do futuro se sobrepusessem aos problemas do amor e do presente. Nicole sabia-o, mas apenas vaga e tragicamente, e, ainda que o odiasse de um modo um pouco irracional, apetecia-lhe encostar-se ao ombro dele.

- Querida - disse Dick sem convicção.

 

* Menagerie, no original, significa «Exposição de animais ferozes», diversão muito em moda na época; «Circo» será o termo português mais apropriado.

 

Voltou para casa, já esquecido do que o levara ali. Depois, lembrou-se de que fora o piano. Sentou-se, a assobiar, e tocou de ouvido:

 

Just picture you upon my knee

With tea for two and two for tea

And me for you and you for me... *

 

De repente, veio-lhe à ideia que Nicole, ao ouvir a canção, poderia interpretá-la como uma nostalgia dos últimos quinze dias. Interrompeu-se com um acorde casual e deixou o piano.

Era difícil saber para onde ir. Deitou um olhar à casa que Nicole fizera e que o avô dela pagara. De seu tinha apenas a dependência em que trabalhava e o terreno respectivo. Dos três mil dólares anuais e do que lhe rendiam as suas publicações, pagava as roupas, as despesas pessoais, os encargos da garrafeira e da educação de Lanier, que por agora se limitavam ao salário da ama. Não se fazia uma deslocação sem a comparticipação de Dick. Vivendo com um certo ascetismo, viajando em terceira classe quando ia só, bebendo o vinho mais barato, poupando as suas roupas e castigando-se por qualquer extravagância, conseguia manter uma certa independência financeira. No entanto, a partir de determinado ponto, a situação tornava-se difícil - estava sempre a ser necessário decidir em conjunto sobre a utilização a dar ao dinheiro de Nicole. Como era natural, esta, que desejava prender o marido e mantê-lo a seu lado para sempre, encorajava algumas frivolidades e Dick via-se constantemente inundado de objectos e de dinheiro. A ideia da vivenda nos rochedos, que em tempos ambos haviam concebido como uma fantasia, era um exemplo típico das forças que os dividiam desde os primeiros projectos que haviam feito em Zurique.

- Vai ser divertido se... - tinham começado por dizer. E mais tarde:

- Será divertido quando...

Mas não fora assim tão divertido. O seu trabalho era prejudicado pelos problemas de Nicole; além disso, os rendimentos dela aumentavam tão rapidamente que pareciam diminuir o valor da obra de Dick. Por outro lado, a pretexto de contribuir para a cura da mulher, Dick obrigara-se durante anos a uma estrita vida doméstica de que agora se afastava; e a sua pretensão tornava-se mais árdua com a imobilidade a que se remetera e na qual se sentia sujeito a um inevitável exame microscópico. No momento em que Dick já não conseguia tocar ao piano aquilo que queria, isso era sinal de que algo recuara na sua vida. Durante muito tempo permaneceu naquela sala enorme, atento ao zumbido do relógio eléctrico, escutando o passar do tempo.

Em Novembro, as ondas tornavam-se mais negras e iam desfazer-se no paredão da estrada marginal. O longo Verão acabava e as praias, varridas pela chuva e pelo mistral, tornavam-se melancólicas e desoladas.

 

* Imagina-te sentada nos meus joelhos,

Com chá para dois e dois para um chá

E eu para ti e tu para mim...

 

O hotel de Gausse fechou para obras de ampliação e aumentaram os andaimes no Casino de Juan les Pins. Nas suas idas a Cannes ou a Nice, Dick e Nicole conheceram nova gente - membros de orquestras, proprietários de restaurantes, entusiastas de horticultura, armadores (Dick comprara um pequeno barco em segunda mão) e sócios do Syndicat d'Initiative. Conheciam bem os criados e preocupavam-se com a educação dos filhos. Em Dezembro, Nicole parecia recomposta; depois de um mês sem tensões, sem crispações, sem sorrisos postiços e sem comentários insondáveis, foram para os Alpes suíços passar as férias do Natal.

 

Antes de entrar, Dick sacudiu a neve do fato de esqui azul-escuro, com a ajuda do boné. O átrio espaçoso, cujo pavimento estava esburacado por duas décadas de botas de esqui, fora preparado para o chá dançante, e algumas jovens americanas «muito bem», que andavam em colégios das imediações de Gstaad, meneavam-se ao som alegre de Don't Bring Lulu, ou agitavam-se furiosamente aos primeiros rufos do charleston. Era como uma colónia de gente jovem, simples e cara - as verdadeiras forças de ocupação dos ricos estavam em St. Moritz. Baby Warren sentia que vir juntar-se aos Diver fora um acto de renúncia.

Dick não teve dificuldade em descobrir as duas irmãs no meio do público elegante' e agitado que se encontrava na sala: ambas pareciam cartazes, formidáveis nos seus fatos para a neve. Nicole de azul-celeste e Baby de cor de tijolo. Um jovem inglês conversava com elas, mas elas nem o ouviam, fascinadas pelos movimentos de dança dos adolescentes.

Ao ver Dick, o rosto corado de Nicole iluminou-se: - Onde está ele? - perguntou.

- Perdeu o comboio. Vou esperá-lo mais tarde.

Dick sentou-se e cruzou a perna, apoiando uma das pesadas botas sobre o joelho.

- Vocês as duas ficam muito bem uma junto da outra. Às vezes esqueço-me de que estamos todos no mesmo grupo e fico admirado ao olhar para vocês.

Baby era uma mulher alta e bem parecida, empenhada em assumir os seus trinta anos. Sintomaticamente, arrastara consigo de Londres dois homens, um recém-saído de Cambridge e outro já velho e de rígidos princípios vitorianos. Baby possuía certas características da solteirona - era avessa a contactos físicos, dava um salto se lhe tocavam sem ela esperar e beijos e abraços afectavam-na ao nível da consciência. Movia pouco o tronco, tentando manter o corpo numa pose conveniente, mas por outro lado batia com o pé no chão e abanava constantemente a cabeça de uma forma um tanto fora de moda. Antegozava a morte, prefigurada em catástrofes ocorridas com pessoas amigas e agarrava-se com insistência à ideia do destino trágico de Nicole.

O mais novo dos dois ingleses que acompanhavam Baby tinha levado muito a sério o seu papel de chaperon das duas mulheres. Protegera-as nas  descidas mais convenientes e pusera-as em pânico nas pistas de trenó... Dick, que tinha torcido um tornozelo numa curva demasiado ambiciosa, entregava-se à grata ocupação de passear com as crianças ou bebia um Kvass com um médico russo que estava hospedado no hotel.

- Distrai-te Dick - aconselhava Nicole. - Porque não metes conversa com uma dessa meninas e não vais dançar com ela?

- E o que havia eu de dizer-lhe?

A voz velada e quase áspera de Nicole subiu de tom, simulando um galanteio baboso:

- Diz-lhe: «Minha menina, quem é uma coisinha mai'linda?», o que havia de ser?

- Não gosto de meninas. Cheiram a sabonete e a hortelã-pimenta.

Quando danço com uma, é como se estivesse a puxar um carrinho de bebé.

Era um assunto perigoso, aquele. Dick encheu-se de cuidados, ao ponto de sentir-se constrangido, para olhar sempre bastante por cima das cabeças das raparigas.

- Tenho grandes novidades - disse Baby. - Em primeiro lugar recebi notícias de casa acerca da propiedade que costumávamos chamar «da estação». A princípio a companhia dos caminhos-de-ferro limitou-se a comprar a parte central, mas agora compraram o resto, que pertencia à mãe. Trata-se agora de investir o dinheiro.

Considerando a sua presença inoportuna, dado o rumo da conversa, o jovem inglês foi buscar uma rapariga para dançar. Baby seguiu-o por instantes, com o olhar vago da americana atacada de anglofilia crónica, e depois continuou em tom de desafio:

- É muito dinheiro. Trezentos mil dólares para cada uma. Eu zelo pelo que me pertence, mas a Nicole não percebe nada de negócios e suponho que o mesmo sucede consigo.

- Tenho de ir esperar o comboio - disse Dick esquivando-se ao assunto. Lá fora, aspirou os flocos de neve que já não conseguia distinguir na escuridão do.céu. Passaram três crianças de trenó e gritaram qualquer coisa numa língua desconhecida; voltou a ouvir os gritos delas na curva mais adiante e pouco depois soaram os guizos de um trenó que subia a colina na escuridão. A estação fervilhava de expectativa. Rapazes e raparigas tinham ido esperar amigos e, no momento em que o comboio chegou, Dick, contagiado pelo ambiente, tentou convencer Franz Gregorovius de que tinha roubado meia hora a uma infindável sucessão de prazeres. Mas Franz vinha animado de outros propósitos que neutralizaram os de Dick. Dick tinha-lhe escrito: «Sou capaz de arranjar um dia para ir a Zurique, ou então venha você até Lausanne,» Assim, Franz viera directamente até Gstaad.

Franz era um homem de quarenta anos. Sobre a sua maturidade saudável repousava um conjunto de boas maneiras convencionais, embora ele se sentisse muito mais à vontade quando estava suficientemente distante para tratar com certo desprezo os ricos neuróticos que lhe cabia reeducar. A sua ascendência científica ter-lhe-ia aberto horizontes mais vastos, mas ele parecia ter escolhido deliberadamente o ponto de vista de uma classe mais humilde,  escolha essa que o seu casamento ilustrava. No hotel, Baby Warren examinou-o rapidamente e, não encontrando nele nenhuma daquelas qualidades de salão, as discretas virtudes ou cortesias pelas quais as classes privilegiadas se reconhecem, passou a tratá-lo com uma certa condescendência. Como sempre, Nicole sentia-se um pouco assustada na sua presença. Dick gostava dele como gostava de todos os seus amigos, sem reservas.

À noite foram até à aldeia num daqueles pequenos trenós que têm a mesma função que as gôndolas em Veneza. O seu destino era um hotel onde havia um bar à moda antiga suíça, revestido de madeira, com relógios, pequenos barris, canecas e armações de veados. Muitos grupos sentados ao longo das mesas compridas tinham-se confundido num só grupo e comiam fondue - uma espécie de torrada com queijo derretido, particularmente indigesta, acompanhada por vinho quente com canela.

Estava-se bem na sala ampla; o jovem inglês fez um comentário a esse respeito e Dick concordou com ele. O vinho espirituoso e inebriante descontraiu-o e ele pôs-se a fingir que o mundo tinha voltado a ser bom, a avaliar pelos homens grisalhos de idade avançada que entoavam velhas canções ao piano, pelas vozes juvenis e pelos fatos vistosos, cujas cores eram atenuadas pelo fumo que enchia a sala. Por instantes teve a sensação que se encontravam todos num navio e que tinham avistado terra. No rosto de todas as raparigas havia a mesma expectativa inocente das possibilidades inerentes à situação e à aproximação da noite. Olhou à sua volta para ver se havia ali alguma rapariga especial e pareceu-lhe descobri-la na mesa por detrás deles; depois esqueceu-a e inventou uma conversa qualquer, disposto a animar o grupo.

- Preciso de falar consigo - disse Franz em inglês. - Não disponho

senão de vinte e quatro horas para estar aqui.

- Logo vi que você tinha qualquer coisa em mente - respondeu Dick.

- Tenho um plano maravilhoso.

Pousou a mão no joelho de Dick.

- Um plano em que entramos nós os dois.

- Qual é ele?

- Dick... há uma clínica que podíamos tomar a nosso cargo. É a velha

clínica do Braun no Zugersee. À parte um ou outro pormenor, o equipamento é todo moderno. Ele está doente e quer regressar à Áustria, provavelmente para morrer. É uma oportunidade única. Você e eu... Que equipa, hem? Não me interrompa antes de eu acabar.

Pelo brilho dos olhos de Baby, Dick percebeu que ela estava a dar atenção à conversa.

- Temos de nos associar. Você não ficava demasiado preso - teria uma base, um laboratório, um centro. Ficaria lá a trabalhar, digamos não mais de seis meses, enquanto o tempo estivesse bom, e no Inverno poderia ir até França ou à América e escreveria os seus textos com base na experiência clínica.

Franz baixou o tom de voz e prosseguiu:

- E para a convalescença de familiares não há nada como ter à mão o ambiente tranquilo de uma clínica.

A expressão de Dick não revelava receptividade a este argumento e Franz mudou de táctica:

- Poderíamos ser sócios. Eu seria o director executivo e você o teórico, o brilhante consultor. Conheço-me a mim próprio e sei que você possui o génio que eu não tenho. Mas, à minha maneira, sou considerado muito capaz. Sou extremamente competente no que diz respeito aos mais modernos métodos clínicos. Várias vezes estive à frente da velha clínica durante meses. O professor considera este plano excelente e aconselha-me a pô-lo em prática. Diz que tenciona viver para sempre e que vai trabalhar até ao último minuto.

Dick procurou formar uma imagem do projecto, como meio preliminar

de formular um juízo.

- E quanto à parte financeira? - perguntou.

Franz ergueu o queixo e as sobrancelhas, franziu a testa e levantou as mãos, os cotovelos, os ombros; retesou os músculos das pernas ao ponto de o tecido das calças ficar repuxado, encheu-se de coragem e colocou a voz:

- Ora cá estamos! O dinheiro! - lamentou-se. - Eu tenho pouco dinheiro. O preço, em moeda americana, é de duzentos mil dólares. As inovações, que decerto você também concordará em introduzir, vão custar-nos vinte mil dólares. Mas a clínica é uma mina de ouro... Garanto-lhe, e ainda não vi os livros. Para um investimento de duzentos e vinte mil dólares, teremos um rendimento assegurado de...

A curiosidade de Baby era de tal modo evidente que Dick resolveu metê-la

na conversa.

- Com a sua experiência, Baby, decerto já descobriu que, quando um

europeu deseja encontrar-se com um americano com muita urgência é sempre para tratar de assuntos de dinheiro, não acha?

- De que se trata? - perguntou Baby com um ar inocente.

- Este jovem Privat-dozen pensa que ele e eu nos devíamos meter num grande negócio e tentar atrair uns quantos esgotamentos nervosos da América.

Aborrecido, Franz olhou para Baby e Dick prosseguiu:

- Mas afinal quem somos nós, Franz? Você tem um nome famoso e eu escrevi dois tratados. Isto será suficiente para atrair seja quem for? E eu não tenho tanto dinheiro, nem uma décima parte.

Franz sorriu com cinismo.

- É verdade que não o tenho - continuou. - A Nicole e a Baby são ricas como Creso, mas eu ainda não consegui enriquecer.

Toda a gente estava a ouvir a conversa naquele momento. Dick interroga-se se a rapariga da mesa de trás também estaria a ouvir. A ideia atraía-o. Decidiu deixar Baby falar em seu lugar, à semelhança do que muitas vezes acontece quando permitimos que as mulheres ergam a sua voz acerca de assuntos que não lhes dizem respeito. De repente, Baby fez-lhe lembrar o avô, fria e pragmática.

- Creio que é uma proposta que deve considerar, Dick. Não sei o que o doutor Gregory estava a dizer, mas parece-me...

A rapariga da mesa de trás soltara um baforada de fumo e inclinara-se para apanhar qualquer coisa do chão. Nicole não tirava os olhos de Dick - o seu belo rosto, embevecido de amor, sempre pronto a acenar ao marido com a sua protecção.

- Pense nisso Dick - pediu Franz, entusiasmado. - Quando alguém escreve sobre psiquiatria, deve manter-se em contacto com as realidades clí nicas. Jung, Bleuler, Freud, Forel, Adler, todos eles escrevem e todos eles se mantêm em contacto com as doenças mentais.

- Dick tem-me a mim - disse Nicole soltando uma gargalhada. Pensava que isso era o suficiente, em matéria de doenças mentais, para um homem só.

- Isso é diferente - respondeu Franz à cautela.

Baby estava a pensar que, se Nicole vivesse perto de uma clínica, ficaria

sossegada a respeito da irmã.

- Temos de pensar nisso com cuidado - disse.

Embora divertido com a insolência da cunhada, Dick não a encorajou. - A decisão será minha, Baby - interveio delicadamente. - É muito amável da sua parte estar na disposição de me comprar uma clínica.

Apercebendo-se de que metera o nariz onde não era chamada, Baby apressou-se a recuar:

- É claro que este assunto só a si diz respeito.

- Uma coisa tão importante como esta leva semanas a decidir. Não sei

se me agrada a ideia de eu e a Nicole ficarmos amarrados a Zurique... Ao dizer isto, Dick virou-se para Franz e antecipou: - Já sei. Zurique tem gás, água corrente e luz eléctrica. Vivi lá três anos.

- Pense nisso com calma - disse Franz. - Tenho esperança de que...

Cem pares de botas de meio quilo cada uma tinham começado a deslocar-se em direcção à porta, e eles juntaram-se à multidão. Lá fora, ao luar gélido, Dick viu a rapariga atrelar o seu pequeno trenó a um outro. Eles enfiaram-se no deles e, ao estalar do chicote, os cavalos partiram no meio da escuridão. Por eles passavam vultos que corriam e se atropelavam; os mais jovens atiravam-se uns os outros dos trenós abaixo, indo aterrar na neve macia, e depois corriam ofegantes atrás dos cavalos, para irem cair exaustos num trenó ou queixarem-se de que tinham sido abandonados. Desfilavam por campos acolhedores, tranquilos; cavalgavam através das alturas, num espaço sem limites. No campo, o silêncio era maior, como se todos procurassem atavicamente ouvir os lobos na vastidão da neve.

Em Saanen entraram no baile municipal, apinhado de vaqueiros, criados de hotel, comerciantes, professores de esqui, guias, turistas e camponeses. Entrar naquele local aquecido depois das sensações animalescas e panteístas lá de fora, equivalia a reassumir um qualquer jogo cavalheiresco, absurdo e impressionante, tão ameaçador como botas de esporas em tempo de guerra, ou como uma armadura de futebol americano abandonada no chão de cimento de um cacifo. Raiva canções típicas e o seu ritmo familiar afastou Dick daquilo que começara por considerar romântico no ambiente. A princípio pensou que isso se devia ao facto de ter deixado de pensar na  rapariga; em seguida veio-lhe à ideia a frase de Baby: «Temos de pensar nisso com cuidado... » e as entrelinhas que ela não chegara a dizer: «Tu és propriedade nossa e mais tarde ou mais cedo terás de admiti-lo. É absurdo continuares a fingir que és independente.»

há anos que Dick se retraía de pensar nos outros com agressividade - desde o primeiro ano passado em New Haven, quando lhe vier parar às mãos um modesto tratado sobre «higiene mental». Mas, naquele momento, Baby fazia-o perder a paciência ao mesmo tempo que se via obrigado a dominar-se perante a sua fria insolência. Muitos séculos hão-de passar até que um novo tipo de Amazonas perceba que um homem só é vulnerável no seu orgulho e que ficará tão fragilizado como um Humpty-Durnpty" se for atingido nesse sentimento - embora poucos homens sejam capazes de admiti-lo. Por exigência da sua profissão, que consistia em colar os bocados das conchas em que os outros se refugiavam, o doutor Diver tinha acabado por ganhar horror a tudo o que constituísse uma ameaça à integridade. No entanto:

- Há um limite para a boa educação - disse ele, quando regressavam a Gstaad de trenó.

- Eu não acho - respondeu Baby.

- Há sim - insistiu Dick dirigindo-se àquele amontoado de peles. -

Ser educado é admitir que as pessoas são tão frágeis que têm de ser manejadas com luvas. O respeito humano é outra coisa -, não chamamos a ninguém cobarde ou mentiroso de ânimo leve, mas se passamos a vida a poupar os sentimentos das pessoas e a alimentar-lhes as vaidades, a dada altura perdemos a noção daquilo que neles é realmente digno de respeito.

- Creio que os americanos levam a boa educação muito a sério - disse o inglês mais velho.

- Também sou dessa opinião - respondeu Dick. - O meu pai possuía um tipo de educação que herdou dos tempos em que se alvejava primeiro e se pedia desculpa depois. Homens que lidavam com armas... Vocês, os europeus, não pegam em armas fora da guerra desde os princípios do século dezoito...

- De facto, não. Talvez...

- Claro que não.

- Dick, você sempre mostrou tanta delicadeza - disse Baby num tom

conciliador.

Um pouco alarmadas, as mulheres fitavam-no do seu jardim zoológico de peles. O jovem inglês não compreendia nada - pertencia ao número daqueles que andam sempre por varandas e telhados, convencidos de que estão no velame de um navio - e preencheu o resto da viagem até ao hotel com uma história absurda sobre um combate de boxe com o seu melhor amigo, em que ambos exprimiram a estima mútua, socando-se durante uma hora. Sempre com grande reserva.

 

* Personagem de histórias infantis que tem a forma de um ovo e que cai de um muro ficando em pedaços.

 

Dick tornou-se irónico:

- Então, de cada vez que ele lhe batia você considerava-se ainda mais amigo dele?

- O meu respeito por ele aumentava - respondeu o rapaz.

- Aí estão uma coisa que eu não compreendo. Você e o seu melhor

amigo desatam à pancada por causa de um assunto trivial...

- Se não compreende, eu também não consigo explicar-lhe - respondeu o jovem com frieza.

«E ainda ouço destas quando começo a dizer o que penso», disse Dick para com os seus botões.

Sentiu-se envergonhado por ter arreliado o rapaz, tanto mais que era visível que o absurdo da história derivava da sua pouca idade e do tom pretensioso da narrativa.

A atmosfera carnavalesca estava no auge. Arrastados pela multidão entraram num restaurante onde o empregado do bar, vestido à tunisino, manipulava as luzes num contraponto cuja melodia era o luar que a neve reflectia através das janelas altas. Àquela claridade, Dick achou a rapariga fanada e desinteressante - voltou-lhe as costas para gozar a escuridão. As pontas incandescentes dos cigarros alternavam em tons de verde e prata quando as luzes mudavam para o vermelho, e uma faixa branca envolvia os pares que dançavam sempre que a porta se abria e fechava.

- Ora diga-me, Franz! Acha que depois de passar uma noite inteira a beber cerveja consegue convencer os seus doentes da sua reputação? Não receia que eles percebam que você é um gastropata?

- Vou-me deitar - anunciou Nicole.

Dick foi acompanhá-la até à porta do elevador.

- Iria já contigo se não tivesse de provar ao Franz que não sou talhado

para proprietário de uma clínica.

Nicole entrou no elevador.

- A Baby é uma mulher muito sensata - disse ela com um ar pensativo.

- A Baby é uma...

A porta fechou-se, com um ruído mecânico, e Dick terminou a frase em pensamento: «A Baby é uma mulher vulgar e egoísta.»

Mas dois dias depois, quando ia de trenó para a estação, na companhia de Franz, Dick admitiu que encarava o assunto favoravelmente.

- Estamos a começar a andar em círculos - comentou. - Vamos acabar por suportar uma série de tensões inevitáveis e a Nicole não vai resistir a elas. Algo do bucolismo do Verão na Riviera está a mudar... Para o ano vamos ter uma verdadeira saison.

Passaram por pistas de gelo verdes onde estrondeavam valsas vienenses e onde as bandeiras de muitas escolas de dança flutuavam no azul pálido do céu.

- Tenho esperança de que conseguiremos levar por diante o nosso projecto, Franz. Não me atreveria a tentá-lo com mais ninguém...

Adeus, Gstaad! Adeus rostos jovens, flores suaves e frescas, flocos de neve na escuridão. Adeus, Gstaad, adeus!

 

Dick acordou às cinco da manhã depois de um longo sonho de guerra, foi até à janela e contemplou o Zugersee. O seu sonho principiara em sombria majestade; uniformes azuis da Marinha atravessavam uma praça sombria atrás de uma banda que tocava o segundo andamento do Amor das Três Laranjas de Prokofiev. Seguiam-se canhões, símbolos de catástrofe, e uma terrível rebelião dos mutilados num hospital de campanha. Dick acendeu a luz da cabeceira e anotou meticulosamente o sonho, terminando com esta frase semi-irónica: «Neurose do não combatente,»

Quando se sentou na cama sentiu que o quarto, a casa e a noite estavam vazios. No quarto ao lado, Nicole balbuciava qualquer coisa desolada e ele compadeceu-se da solidão que ela sentia em sonhos. Para ele o tempo tinha parado e agora, depois de tantos e tantos anos, o ritmo acelerava-se subitamente à semelhança de um filme rebobinado com rapidez; mas para Nicole a passagem dos anos contava-se pelo relógio, pelo calendário e pelos dias de aniversário, a juntar à consciência pungente de que a sua beleza era perecível.

Mesmo este ano e meio passado junto do Zugersee era tempo perdido aos olhos dela, as estações marcadas apenas pela passagem dos trabalhadores pela estrada, cor-de-rosa em Maio, castanha em Julho, negra em Setembro, e novamente branca na Primavera. Sobrevivera à sua primeira doença, e saíra dela com novas esperanças, tantos anseios e, no entanto, privada de toda a existência, à excepção de Dick, criando os filhos que apenas podia gentilmente fingir amar, que não eram mais do que órfãos protegidos. As pessoas de quem ela gostava, rebeldes na sua maior parte, incomodavam-na e faziam-na sofrer - procurava nelas a vitalidade que as tornara independentes, criativas ou turbulentas - procura vã, pois os seus segredos jaziam sepultados em lutas de infância que já haviam esquecido. Estavam muito mais interessados na harmonia exterior de Nicole e no seu encanto - a outra face da sua doença. Levava uma vida de isolamento, e tudo o que possuía era o marido que não desejava sentir-se possuído.

Muitas vezes ele tentara, sem sucesso, libertá-la do seu ascendente. Pas. savam bons momentos juntos, tinham belas conversas nos intervalos do amor durante as noites de insónia, mas quando Dick se afastava para se refugiar em si próprio, deixava-a com o Nada, olhando para ele e chamando-lhe  muitos nomes, mas sabendo que se tratava apenas da esperança de que ele, Dick, não demorasse a voltar.

Dick socou a almofada com força e pô-la debaixo do pescoço como fazem os japoneses para desacelerar a circulação; depois voltou a adormecer. De manhã, enquanto fazia a barba, Nicole acordou e andou por ali a dar ordens breves e sacudidas aos filhos e às criadas. Lanier veio para junto do pai enquanto este se barbeava - como vivia nas proximidades de uma clínica psiquiátrica, desenvolvera uma confiança e uma admiração extraordinárias pelo pai, à mistura com uma indiferença exagerada pelos outros adultos; os doentes, ou lhe pareciam seres estranhos, ou criaturas sem vida nem personalidade. Era um rapazinho lindo e promissor e Dick dedicava-lhe muito do seu tempo, numa relação semelhante à que se estabelece entre um oficial compreensivo mas exigente e um soldado respeitador.

- Porque é que deixas sempre um resto de espuma no cabelo quando fazes a barba? - perguntou Lanier.

Dick entreabriu os lábios ensaboados, com cuidado:

- Nunca consegui descobrir. Já várias vezes tenho feito essa pergunta a mim próprio. Creio que é porque sujo os dedos de sabão quando aparo as patilhas, mas como é que ele me chega ao alto da cabeça é que eu não sei. - Amanhã hei-de reparar.

- É essa a única pergunta que tens a fazer-me antes do pequeno-almoço?

- Não lhe chamo propriamente uma pergunta.

- É um ponto a teu favor.

Meia hora depois Dick começava a trabalhar. Tinha trinta e oito anos - embora continuasse a recusar a barba! - gozava de maior prestígio profissional do que no tempo da Riviera. Há dezoito meses que vivia na clínica, sem dúvida uma das mais cotadas da Europa. Tal como a de Dohmler, era do tipo moderno - já não era um edifício único, sombrio e de aspecto sinistro, mas uma pequena aldeia dispersa. O gosto pessoal de Dick e Nicole foram uma contribuição preciosa - o complexo era uma autêntica obra de arte, visitada por todos os psicólogos que passavam por Zurique. Se tivesse vestiários e cabinas poderia passar por um clube de golfe. Os pavilhões da Madressilva e das Faias eram reservados aos doentes incuráveis e pequenos bosques separavam-nos e ocultavam-nos do edifício principal, como locais estratégicos camuflados. Por trás, havia uma enorme quinta que era em parte cultivada pelos doentes. Ali ficavam as oficinas de ergoterapia, sob o mesmo tecto, e foi por lá que o doutor Diver começou a sua inspecção matinal. A carpintaria exalava o cheiro adocicado a serradura de uma perdida Idade da Madeira; ali trabalhava meia dúzia de homens permanentemente, martelando, aplainando, serrando - homens silenciosos, que o fitavam com um ar solene quando passava. Dick era também um bom carpinteiro e trocava impressões com eles sobre a eficiência de algumas ferramentas, com uma voz tranquila e interessada. A seguir, ficava a oficina de encadernação, destinada aos doentes com menores restrições, que nem sempre eram os que tinham maiores possibilidades de cura. Na última sala fazia-se bijutaria, tecelagem e objectos em latão. A expressão destes doentes era a de quem acabara  de suspirar profundamente, como que desistindo de qualquer coisa que não tinha remédio - mas os seus suspiros marcavam apenas o início de outra série infindável de raciocínios, não lineares, como os das pessoas normais, mas no mesmo círculo. Andavam à roda, à roda para sempre. Mas as cores vivas dos materiais que trabalhavam davam aos estranhos a ilusão momentânea de que tudo corria bem, como num jardim infantil. O rosto destes doentes iluminara-se à chegada do doutor Diver. A maior parte deles preferia-o ao doutor Gregorovius. Aqueles que em tempos tinham vivido na alta sociedade gostavam mais dele. Havia alguns que o achavam indiferente, vaidoso ou pretensioso. As suas reacções não eram muito diferentes das que Dick provocava fora do círculo profissional, mas adquiriam aqui um tom distorcido.

Uma doente inglesa falava-lhe sempre dum assunto que considerava seu exclusivo.

- Esta noite vamos ter música? - perguntou.

- Não sei - respondeu Dick. - Ainda não vi o doutor Ladislau. Gostou da música que a senhora Sachs e o senhor Longstreet nos deram ontem à noite? - Foi assim-assim.

- Eu gostei bastante, especialmente da de Chopin.

- Eu achei que era assim-assim.

- Qundo tenciona tocar para nós?

A mulher encolheu os ombros, deleitada com a pergunta, como sempre, e respondeu:

- Um dia destes. Mas eu só toco assim-assim.

Era do conhecimento de todos que ela não sabia tocar - tivera duas irmãs que haviam sido excelentes músicas, mas ela nunca conseguira aprender as notas em criança.

Da oficina, Dick passou para os pavilhões da Madressilva e das Faias.

Do lado de fora, estes edifícios eram tão alegres como os outros; Nicole tinha desenhado a decoração e o mobiliário na base de grades disfarçadas e de peças inamovíveis. Dera tanto da sua imaginação - as qualidades inventivas, que lhe faltavam, haviam sido supridas pelo problema em si - que nenhum visitante, por mais informado que fosse, suspeitaria de que o delicado e gracioso trabalho de filigrana que se via numa das janelas era a extremidade sólida e inflexível de uma corrente e de que aquelas peças que reflectiam as modernas tendências tubulares eram mais fortes do que as maciças criações eduardinas - até as flores se entrelaçavam em hastes de ferro e cada um dos ornamentos que pareciam casuais eram tão necessários como uma trave num arranha-céus. O olhar incansável de Nicole extraía de cada aposento toda a sua utilidade. Quando gabavam o seu trabalho, ela respondia bruscamente que não passava de um funileiro.

Naquelas casas muitas coisas pareceriam estranhas aos olhos de pessoas que não tivessem perdido o norte. Era frequente o doutor Diver divertir-se muito no pavilhão da Madressilva, destinado aos homens - estava lá internado um homem baixinho e estranho, um exibicionista, cuja convicção era a de que se conseguisse ir todo nu desde a Étoile até à Praça da Concórdia,  muitos problemas seriam resolvidos - e, na opinião de Dick, talvez ele tivesse razão.

Mas o caso mais interessante estava no edifício principal. Tratava-se de uma mulher de trinta anos que estava na clínica há seis meses; era uma pintora americana que vivera em Paris durante muito tempo. Não possuíam dados muito completos a seu respeito. Um primo tinha-a encontrado, por acaso, quando já estava completamente louca e, depois de uma tentativa fracassada de cura num dos sanatórios para gente bem dos arredores da cidade, na maioria destinados aos estrangeiros vítimas do álcool e da droga, conseguira levá-la para a Suíça. No momento em que fora internada, era excepcionalmente bonita - agora era uma chaga viva. Nenhuma das análises ao sangue dera uma reacção positiva e a doença fora catalogada, sem grande convicção, como eczema nervoso. Há dois meses que vivia prisioneira deste padecimento. Mostrava-se coerente, brilhante mesmo, dentro dos limites das suas alucinações.

Era a doente preferida de Dick. No auge dos seus ataques ele era o único médico que conseguia fazer alguma coisa dela. Algumas semanas antes, numa das muitas noites de tortura e insónia, Franz conseguira hipnotizá-la e fazê-la descansar durante algumas horas, mas todas as tentativas posteriores tinham fracassado. Dick não acreditava nos méritos da hipnose e raramente a utilizava pois sabia que nem sempre estava em condições de a induzir uma vez tentara-a em Nicole que fizera troça dele.

A doente do quarto número vinte não o viu entrar - tinha os olhos demasiado inchados. Dirigiu-se a ele numa voz forte, profunda e excitada: - Quanto tempo vai isto durar? Nunca mais acaba?

- Já não falta muito tempo. O doutor Ladislau disse-me que há zonas

já cicatrizadas.

- Se eu soubesse o que fiz para merecer este sofrimento, poderia aceitá-lo com resignação.

- Não é correcto encarar o caso de uma forma mística. Trata-se de um fenómeno nervoso relacionado com o rubor. Quando era pequena não corava com facilidade?

Ela estava deitada de costas com o rosto virado para o tecto.

- Desde que arranquei o dente do siso que não tenho motivos para corar.

- Não cometeu algumas faltas ou erros?

- Não tenho nada a censurar-me.

- Tem muita sorte.

Por instantes a mulher ficou pensativa; a voz irrompeu daquele rosto coberto de ligaduras, atormentado, convulsionado por melodias subterrâneas: - Partilho o destino das mulheres do meu tempo que desafiaram os homens para a luta.

- E, para sua grande surpresa, passou-se o mesmo que em todas as batalhas - respondeu Dick adoptando o seu tom formal.

- O mesmo, é verdade - concordou, pensativa. - Ou se conquista uma posição, ou se consegue uma vitória retumbante, ou se é derrotado... não passamos do eco espectral de uma parede destruída.

- Não é o seu caso - retorquiu Dick. - Tem a certeza de que participou numa verdadeira batalha?

- Olhe para mim! - gritou ela, furiosa.

- Sofreu, mas muitas outras mulheres sofreram antes de começarem a tomar-se por homens.

A conversa estava a descambar em discussão e Dick recuou:

- De qualquer modo, não deve confundir um simples insucesso com uma derrota final.

A doente riu-se com um ar trocista.

- Bonitas palavras! - e esta frase, irrompendo da crosta da dor, humilhou-o.

- Gostaríamos de saber as verdadeiras razões que a trouxeram até aqui...

- começou Dick.

Ela interrompeu-o:

- Eu estou aqui como símbolo de qualquer coisa. Pensei que talvez você

soubesse de quê.

- Está doente - respondeu Dick num tom maquinal.

- Então o que foi que eu estive prestes a descobrir?

- Uma doença maior.

- Só isso?

- Só isso.

Foi com repulsa que Dick deu consigo a escutar as próprias mentiras, mas naquele momento a vastidão do assunto só podia ser resumida numa mentira. Prosseguiu:

- Lá fora, tudo é confusão e caos. Não lhe vou pregar um sermão já lhe basta o sofrimento físico. Mas só enfrentando os problemas do dia-a-dia, por mais aborrecidos e insignificantes que sejam, poderá repor as coisas no seu lugar. Depois disso... talvez você volte de novo a ser capaz de examinar...

Dick calou-se para escapar à conclusão inevitável: «os limites da consciência». No entanto, os limites explorados pelos artistas não eram tarefas para ela. Era uma pessoa frágil por natureza - talvez viesse a encontrar descanso num misticismo tranquilo. Essa exploração era para as que tinham sangue de camponesa, as de ancas largas e tornozelos grossos, que recebiam o castigo como recebiam o pão e o sal, em cada parcela da sua carne e do seu espírito.

- Não é para si. É um jogo muito duro - esteve prestes a acrescentar. No entanto, perante a dignidade do sofrimento dela, Dick sentia por aquela mulher uma atracção quase sexual. Apetecia-lhe tomá-la nos braços, como tantas vezes fizera a Nicole, e acalentar até mesmo os seus erros, de tão profundamente dela que eram. A luz alaranjada que atravessava as cortinas, o sarcófago que era a sua figura deitada na cama, a mancha que representava o rosto, a voz buscando a falta de sentido da sua doença e deparando apenas com abstracções remotas...

Quando Dick se levantou, as lágrimas fluíam como lava através das ligaduras.

- Isto há-de ter uma finalidade - sussurrou ela. - Daqui há-de sair alguma coisa.

Ele inclinou-se e beijou-a na testa.

- Todos nós temos de tentar ser bons - disse.

Ao sair do quarto, ordenou à enfermeira que fosse fazer-lhe companhia.

Havia outros doentes para ver: uma rapariga americana de quinze anos que fora educada na ideia de que a infância era só brincadeira - a visita do médico justificava-se porque a rapariga tinha acabado de cortar o cabelo todo com uma tesoura de unhas. Não havia muito a fazer por ela - neuroses na família e nada de estável no passado a que se pudesse agarrar. O pai, uma pessoa normal e conscienciosa, ao tentar proteger a filha dos embates da vida, conseguira apenas impedir que se desenvolvessem nela as capacidades de ajustamento às inevitáveis surpresas da vida. Perante aquele caso, Dick não tinha muita coisa a dizer:

- Helen, quando tiver dúvidas sobre o que há a fazer, peça a opinião de uma das enfermeiras; tem de aprender a aceitar conselhos. Prometa-me que o fará.

O que significava uma promessa para o cérebro afectado? Em seguida visitou um pobre exilado do Cáucaso, envolvido numa espécie de rede e mergulhado num banho quente, e depois três filhas de um general português que caminhavam quase imperceptivelmente para um estado de paralisia. No quarto ao lado, disse a um psiquiatra desequilibrado que estava a melhorar, e o homem tentava ler-lhe no rosto essa convicção pois a segurança que descobria ou não na voz do doutor Diver era o seu elo de dependência do mundo real. Depois Dick despediu ainda um enfermeiro incompetente e entretanto chegou a hora do almoço.

 

As refeições tomadas na companhia dos doentes deixavam Dick apático. A reunião, que evidentemente não incluía os habitantes dos pavilhões da Madressilva e das Faias, parecia à primeira vista bastante convencional, mas sobre ela pairava sempre uma pesada melancolia. Os médicos presentes esforçavam-se por manter a conversa, mas a maior parte dos doentes, exaustos com o esforço da manhã ou deprimidos pelo ambiente, falavam pouco e comiam de olhos no prato.

Depois do almoço, Dick voltou para casa. Nicole estava no salão, com um ar estranho.

- Lê isto - disse.

Dick abriu a carta. Era de uma mulher a quem fora recentemente dada alta, embora com cepticismo por parte dos médicos. Acusava-o, em termos inequívocos, de ter seduzido a sua filha, que acompanhara a mãe durante o período crucial da doença. Era de presumir que a senhora Diver gostaria de ser informada do que se passara e de saber «quem era verdadeiramente o marido».

Dick voltou a ler a carta. Embora escrita num inglês claro e conciso, percebia-se que era obra de uma maníaca. Só uma vez acedera a levar a filha, uma rapariga morena e atrevida, a Zurique, a seu pedido, e à noite trouxera-a para a clínica. Num gesto Leviano, quase de induLgência, tinha-a beijado. Mais tarde, a rapariga tentara levar o assunto por diante mas ele não se mostrara interessado e, talvez em consequência disso, ela começara a antipatizar com ele e fora-se embora com a mãe.

- Esta carta é um disparate - disse Dick. - Não tive relações de qual-

quer espécie com aquela rapariga. Nem sequer gostava dela.

- Tenho estado a tentar convencer-me disso - respondeu Nicole.

- Com certeza que não acreditas no que aqui está escrito, não é verdade?

- Tenho estado a pensar.

Dick sentou-se junto da mulher e disse-lhe em tom de censura: - Isto é um absurdo. É uma carta de uma doente mental.

- Também eu fui uma doente mental.

Dick levantou-se e disse-lhe com uma voz autoritária:

- Vamos a deixar de disparates, Nicole. Vai buscar os miúdos para irmos embora.

Com Dick ao volante, contornaram os pequenos promontórios do lago. O reflexo da luz e da água vinha bater no pára-brisas e depois abria túneis nas cascatas de verdura que ladeavam a estrada. Iam no automóvel de Dick, um Renault tão baixo que todos os seus ocupantes o ultrapassavam em altura, excepto as crianças que iam no assento de trás com a preceptora no meio como o mastro de um navio. Conheciam a estrada palmo a palmo, com o seu cheiro a caruma e a fumo negro das chaminés. Um sol a pique, cujo disco fazia lembrar um rosto, atravessava impiedosamente os chapéus de palha das crianças.

Nicole ia calada; o seu olhar duro e fixo fazia Dick sentir-se pouco à vontade. Era frequente sentir-se só quando estava junto dela e muitas vezes cansavam-no as torrentes de revelações pessoais que ela reservava exclusivamente para ele - «Eu sou assim» ou «Eu sou assado»; mas naquela tarde Dick ficaria satisfeito se a mulher disparasse uma das suas rajadas e lhe desse um vislumbre do que lhe ia no pensamento. Quando Nicole se retirava para dentro de si própria e fechava todas as portas, a situação era sempre mais ameaçadora.

A preceptora saiu em Zug. Por entre uma confusão de gigantescos cilindros de estrada que lhes deram passagem, os Diver dirigiram-se para o recinto da Feira de Agiri. Dick estacionou o carro e no momento em que Nicole olhou para ele sem se mexer, ele disse:

- Anda, querida.

Nicole fez um sorriso terrível e o estômago dele contraiu-se mas, fingindo ignorá-lo, repetiu:

- Anda. Deixa sair as crianças.

- Está bem, eu vou. Não te preocupes. Eu vou... - as palavras saíram-lhe em catadupa, como se qualquer coisa se desenrolasse dentro dela, demasiado depressa para ele compreender. - Então vem.

Nicole afastou-se do marido, que seguia a seu lado, mas manteve o sorriso zombeteiro e distante. Só quando Lanier lhe chamou várias vezes a atenção para um espectáculo de robertos é que ela conseguiu fixar a atenção e orientar-se por esse ponto de referência.

Dick fazia um esforço para pensar no que havia de fazer. O dualismo de perspectivas sob as quais encarava a mulher - a de marido e a de psiquiatra - estava cada vez mais a paralisar-lhe as faculdades. Nestes seis anos, muitas vezes Nicole levara a melhor sobre ele, desarmando-o por despertar a sua piedade, por ter um rasgo de espírito, fantástico e isolado, de tal modo que só depois do episódio passado é que Dick, no relaxamento que sucede à tensão, ficava suficientemente consciente para compreender como é que ela tinha levado a melhor, contra tudo o que ele pensava.

Depois de uma discussão com Topsy sobre se o espectáculo de fantoches seria o mesmo que tinham visto no ano anterior em Cannes, a família seguiu por entre as barracas armadas ao ar livre. As toucas das mulheres, os seus coletes de veludo e as saias vistosas e rodadas representando os diversos cantões pareciam sóbrios em comparação com o colorido azul e laranja dos vagões e das bancas.

Ouviu-se o tilintar plangente de um espectáculo de hootchy-hootchy*.

Nicole desatou a correr, tão de repente que a princípio Dick nem deu pela sua falta. Distinguiu ao longe o vestido amarelo esgueirando-se por entre a multidão - uma mancha ocre que estabelecia a diferença entre a realidade e a fantasia - e foi atrás dela. Ela corria e ele perseguia-a sem darem nas vistas. Desorientado com o calor e com fuga da mulher, Dick até se esqueceu dos filhos; então voltou atrás, completamente transtornado, pegou-lhes na mão e arrastou-os até junto de uma barraca onde uma rapariga estava a vender rifas.

- Madame - exclamou. - Est-ee que je peux laisser ees petits avee

vous deux minutes? C'est três urgent - je vous donnerai dix francs.

- Mais oui.

Dick enfiou as crianças dentro da barraca e disse-lhes: - Alors... restez avee eette gentille dame.

- Ou i, Dick.

Ao sair, verificou que já perdera a mulher de vista; deu uma volta ao carrocel e só se apercebeu de que não saía do lugar quando deu consigo a olhar sempre para o mesmo cavalo. Acotovelou as pessoas que se encontravam junto de uma barraca de bebidas; depois lembrando-se da predilecção de Nicole pela leitura da sina, espreitou para o interior de uma tenda. Ouviu uma voz sussurrante que se lhe dirigia:

- La septiême fille d'une septiême fille née sur les rives du NU... Entrez, Monsieur...

Afastou-se e continuou a correr até junto do lago, onde havia uma pequena roda que transportava as pessoas até lá acima, trazendo-as de novo cá para baixo. Foi aí que encontrou Nicole.

Estava sozinha no que era momentaneamente a parte superior da roda e, quando desceu, Dick reparou que ela se ria de uma forma histérica; a multidão que aguardava a volta seguinte comentava o comportamento de Nicole.

- Regardez-moi ça!

- Regarde done eette Anglaise!

A roda deu uma nova volta e abrandou a marcha. No momento em que Nicole se aproximou do solo, havia já uma dúzia de pessoas junto dela compelidas pela intensidade das suas gargalhadas, a fitá-la com um ar de compreensão idiota. Mas quando Nicole avistou Dick o riso morreu-lhe nos lábios. Fez menção de se esgueirar de novo mas ele agarrou-lhe num braço e obrigou-a a caminhar a seu lado.

- Porque é que te descontrolaste dessa maneira?

- Sabes muito bem porquê.

- Não, não sei.

- É um absurdo... Larga-me... É um insulto à minha inteligência. Pen-

sas que eu não vi a rapariga a olhar para ti... Aquela rapariga morena. isto é ridículo... Uma criança que não tem mais de quinze anos... Pensas que eu não vi?

 

* Dança que apareceu na América nos finais do séc. XIX, semelhante à dança do ventre.

 

- Pára aqui um minuto e acalma-te.

Sentaram-se a uma mesa. Nicole, sempre desconfiada, passava a mão pela frente dos olhos como se alguma coisa lhe tapasse a vista. - Quero beber qualquer coisa. Quero um brande - disse ela.

- Não podes. Bebe antes uma cerveja, se queres.

- Por que motivo não posso tomar um brande?

- Não vamos entrar nesse tipo de discussões. Escuta, essa história da rapariga é uma fantasia. Compreendes o significado desta palavra?

- Aquilo que não queres que eu perceba é sempre uma fantasia. Dick sentiu-se culpado tal como sucede num daqueles pesadelos em que somos acusados de um crime que não nos é estranho mas que, ao acordar, descobrimos que não cometemos. Desviou o olhar do da mulher.

- Deixei as crianças com uma cigana. Temos de ir buscá-las.

- Quem julgas tu que és? - perguntou Nicole. - O Svengali?

Ainda há quinze minutos atrás eram uma família. Agora, enquanto, com o ombro, a empurrava relutantemente contra a parede, pensava que tudo não passava de um trágico acidente.

- Vamos para casa.

- Para casa! - vociferou Nicole numa voz tão desesperada que os seus agudos vacilaram e acabaram por falhar. - Para me sentar lá a pensar que estamos todos a apodrecer e que as cinzas das crianças estão a apodrecer em todas as caixas que abro? Que nojo!

Quase com alívio, Dick reparou que Nicole estava a ceder à comoção despertada pelas suas próprias palavras. O rosto suavizou-se-lhe ao suplicar:

- Ajuda-me, ajuda-me, Dick!

Dick sentiu-se varrido por uma onda de angústia. Era terrível que uma torre tão bela não pudesse estar de pé, mas apenas suspensa, suspensa dele. Até certo ponto isso estava certo: os homens servem para isso mesmo, personificam o rasgo, a ideia, a trave, o logaritmo; mas de algum modo Dick e Nicole se haviam tornado num só, não eram opostos nem complementares; também ela era uma parte de Dick, era o que lhe ia secando a medula dos ossos. Ele não podia assistir à desagregação da mulher sem tomar parte nela. A sua intuição exteriorizava-se sob a forma de compaixão e de ternura - restava-lhe lançar mão dos métodos caracteristicamente modernos, a interposição: iria a Zurique buscar uma enfermeira e levá-la-ia com eles para casa, nessa noite.

- Tu podes ajudar-me.

Este apelo suave comoveu-o.

- Já me ajudaste antes e podes ajudar-me agora.

- Só posso ajudar-te sempre da mesma maneira.

- Alguém há-de poder ajudar-me.

- Talvez. Mas és tu que melhor podes ajudar-te a ti própria. Vamos bus-

car as crianças.

Havia várias barracas de rifas. Dick assustou-se quando procurou os filhos na primeira e lhe disseram que não fora ali. Rancorosa, Nicole mantinha-se à parte, rejeitando as crianças como se elas fizessem parte de um mundo bem organizado que ela procurava tornar amorfo. Dick acabou por encontrá-las rodeadas de mulheres que as contemplavam como se fossem preciosidades e de miúdos do campo embasbacados.

- Merci, Monsieur; ah Monsieur est trop généreux. C'était un plaisir; M'sieur; Madame. Au revoir; mes petits.

Voltaram para trás, vergados ao calor de uma torrente de mágoa; o carro abatia sob o peso da apreensão e angústia comuns, e a boca das crianças reflectia gravemente o seu desapontamento. A dor surgia nas suas terríveis cores, negra e estranha. Quando contornavam Zug, Nicole, com um esforço convulsivo, repetiu uma observação que fizera sobre uma casa amarela afastada da estrada que parecia um quadro acabado de pintar, mas isso não passou de uma tentativa para desanuviar um ambiente demasiado pesado para o consentir.

Dick tentou acalmar-se. Em breve chegariam a casa e haveria discussão.

Teria de sentar-se e levar muito tempo, explicando-lhe de novo o universo. A esquizofrenia é justamente denominada uma divisão da personalidade de forma alternada, Nicole era uma pessoa a quem não era necessário explicar nada ou a quem nada podia ser explicado. Era preciso tratá-la com uma insistência firme e afirmativa, mantendo sempre aberto o caminho para a realidade e dificultando a via da fuga. Mas o brilhantismo e a versatilidade da loucura assemelham-se à imensidade de recursos da água que tenta escapar-se de um dique. Requer uma frente unida, feita de muita gente, que seja capaz de a suster. Desta vez, Dick considerava indispensável que Nicole se curasse sozinha; pretendia esperar até que ela se recordasse das outras vezes e se revoltasse contra elas. Sentindo-se fatigado, decidiu retomar o regime abandonado um ano antes.

Tinha voltado por uma colina que atalhava o caminho para a clínica.

Ao acelerar numa recta paralela à encosta, o carro desviou-se violentamente para a esquerda e depois para a direita, e continuou a rolar apenas sobre duas rodas. Quando Dick, ensurdecido pelos gritos de Nicole, conseguiu arrancar do volante a mão que o agarrava loucamente, o carro endireitou-se, voltou a desviar-se e saiu da estrada; galgou uns arbustos, inclinou-se novamente e foi parar de encontro a uma árvore, formando com esta um ângulo de noventa graus.

As crianças gritavam e Nicole gritava e praguejava contra Dick, tentando arranhá-lo na cara. Preocupado com a inclinação do carro e incapaz de a avaliar, Dick afastou o braço de Nicole, trepou para o lado mais alto e tirou as crianças lá de dentro; verificou então que o carro se encontrava numa posição estável. Antes de fazer fosse o que fosse, ali ficou a tremer e a arfar.

- Tu... ! - explodiu.

Ela ria-se às gargalhadas, sem vergonha, sem medo, sem apreensão. Ninguém que chegasse na altura imaginaria que fora ela a causadora de tudo; ria-se como uma criança que tivesse acabado de fazer uma travessura.

- Tiveste medo, não foi? - perguntou Nicole num tom de acusação.

- Tu querias viver!

Ela falou com tal veemência que Dick, apesar do choque, pensou se não teria sentido medo por si próprio - mas o rosto tenso das crianças, olhando alternadamente para a mãe e para o pai despertaram nele a vontade de desfazer aquela máscara trocista.

Logo acima deles, a meio quilómetro pela estrada sinuosa, mas apenas a cem metros subindo a direito, havia uma estalagem; avistava-se uma das suas alas por entre as árvores.

- Pega na mão da Topsy - disse Dick a Lanier - assim, bem apertada, e trepa por ali. Estás a ver aquele carreiro? Quando chegares à estalagem, diz-lhes: «La voiture Divare est cassée», Alguém há-de vir ter connosco.

Lanier, não muito seguro do que se passara, mas desconfiado de que

se tratara de qualquer coisa grave e sem precedentes, perguntou: - E tu o que vais fazer, Dick?

- Nós ficamos aqui ao pé do carro.

Ao afastar-se, as crianças nem olharam para a mãe.

- Tenham cuidado ao atravessar a estrada! Olhem para um lado e para o outro! - gritou-lhes Dick.

Ele e Nicole olharam-se nos olhos, que eram como janelas iluminadas em alas diferentes da mesma casa. Depois ela tirou da carteira uma caixa de pó de arroz, mirou-se ao espelho e ajeitou o cabelo junto da face. Dick observou os filhos subindo a colina por instantes até desaparecerem por entre os pinheiros; em seguida, contornou o carro para verificar os estragos e pensar no modo de voltar a pô-lo na estrada. Na lama distinguia-se o trajecto percorrido pela viatura durante mais de trinta metros. Dick sentiu-se envolvido por uma violenta repulsa que nem sequer era cólera.

Minutos depois, o proprietário da estalagem apareceu a correr.

- Meu Deus! - exclamou. - Como aconteceu isto? Iam muito depressa? Que sorte! Se não fosse aquela árvore tinham resvalado pelo monte abaixo!

Aproveitando a presença de Émile, com o seu grande avental negro e o rosto perlado de suor, Dick, com a maior naturalidade, fez sinal a Nicole para que o deixasse ajudá-la a sair do carro; ela saltou pelo lado mais baixo, escorregou no declive, caiu de joelhos e voltou a pôr-se de pé. Ao observar os dois homens tentando remover o carro, a sua expressão adquiriu um ar de desafio. Bendizendo até mesmo esse estado de espírito, Dick disse-lhe:

- Vai ter com as crianças e fiquem à minha espera, Nicole.

Só depois de ela se afastar é que Dick se lembrou de que ela queria conhaque e de que poderia obtê-lo na estalagem. Então, disse a Émile que não se preocupasse com o carro; esperariam que o motorista viesse com o carro grande e rebocasse aquele. Subiram a colina juntos, apressando-se a chegar à estalagem.

 

- Quero sair daqui - disse ele a Franz. - Durante um mês, ou o máximo que eu puder.

- E por que não, Dick? Foi essa a nossa combinação inicial - você é que insistiu em ficar. Se você e a Nicole...

- Eu não quero ir com a Nicole. Quero ir sozinho. Esta última crise abalou-me profundamente - quando consigo dormir duas horas seguidas é um milagre.

- Deseja um período de verdadeira abstinência.

- O termo adequado é «ausência». Ouça, se eu for ao Congresso Psiquiátrico em Berlim, você toma conta dela? De há três meses para cá tem-se sentido bem e, além disso, gosta da enfermeira. Meu Deus, você é a única pessoa neste mundo a quem seria capaz de pedir uma coisa destas.

Franz pigarreou, pensando se seria ou não digno da confiança que o sócio depositava nele.

Na semana seguinte, Dick apanhou o avião para Munique, no aeroporto de Zurique. À medida que se elevava no azul, foi-se sentindo entorpecido e apercebeu-se de como estava cansado. Apoderou-se dele uma tranquilidade imensa e abandonou a doença aos doentes, o som aos motores e a direcção ao piloto. Não tencionava assistir a uma única sessão do congresso - imaginava já o que lá iria passar-se, novas comunicações de Bleuler e de Forel que assimilaria muito melhor quando estivesse em casa, o trabalho do americano que curava a demência precoce extraindo os dentes aos doentes ou cauterizando-lhes as amígdalas, o respeito um pouco irrisório com que esta ideia seria acolhida, quanto mais não fosse porque a América era um país rico e poderoso. Os outros delegados americanos - o ruivo Schwartz com a sua cara de santo e a sua infinita paciência de abarcar dois mundos, um pé cá, outro lá, bem como dúzias de alienistas com ar velhaco, que estariam presentes em parte para fortalecer a sua posição e, a partir daqui, atingir as altas esferas da sua prática criminosa, e em parte para dominar as novidades sofisticadas que poderiam incluir no seu negócio até conseguirem a total confusão dos valores. Lá estariam latinos cínicos e alguns dos homens de Freud vindos de Viena. Entre eles estaria o grande Jung, suave e vigoroso, pairando entre as florestas da antropologia e as neuroses dos colegiais.

A princípio haveria um predomínio dos americanos no congresso, quase rotário nas suas formalidades e cerimónias, depois a vitalidade e a solidariedade dos europeus tentaria romper o cerco, mas por fim os americanos lançariam o seu grande trunfo, com o anúncio de doações colossais, da criação de novas instalações e escolas, e perante os números os europeus recuariam timidamente. Mas Dick não estaria lá para ver.

Ao contornarem o Voralberg, Dick sentiu-se encantado com o bucolismo das aldeias. Havia sempre quatro ou cinco, cada uma agregada em redor de uma igreja. Era simples observar a terra de tão longe, tão simples como brincar como bonecas e soldadinhos. Era este o modo como os homens de Estado e os dirigentes olhavam as coisas. De qualquer modo, era um belo quadro de paz.

Um inglês que viajava do outro lado da coxia dirigiu-lhe a palavra, mas ultimamente Dick andava a antipatizar com os ingleses. A Inglaterra assemelhava-se a um homem rico que depois de uma orgia desastrosa tenta recompor o ambiente do lar dirigindo-se aos familiares, um por um, quando é óbvio para estes que ele pretende apenas recuperar o respeito por si próprio para usurpar o antigo poder.

Dick levava consigo todas aquelas revistas que se compram nos quiosques das estações: The Century, The Motion Picture, L'Illustration, Fliegende Blatter, mas era mais divertido imaginar-se a descer até àquelas aldeias e a apertar a mão aos habitantes. Sentava-se nas igrejas como se sentava na igreja do pai em Buffalo, entre a clientela aperaltada de domingo. Escutava a sabedoria do Próximo Oriente, era Crucificado, Morto e Sepultado na alegre igreja, e ficava uma vez mais indeciso entre deitar uma moeda de cinco ou dez cêntimos na bandeja das esmolas por causa da rapariga que estava no banco de trás.

De repente o inglês, mudando de conversa, pediu-lhe as revistas emprestadas. Dick, satisfeito por se livrar delas, entregou-se ao antegozo da viagem que tinha à sua frente. Como um lobo sob a pele de um cordeiro (neste caso de boa lã australiana) considerava o mundo dos prazeres: o incorruptível Mediterrâneo e as velhas e doces oliveiras, a jovem camponesa de Savona com a sua face fresca e rosada que lembrava um missal iluminado. Tomá-la-ia pela mão e ambos atravessariam a fronteira...

Mas aí, abandoná-la-ia. Tinha pressa de chegar às ilhas gregas, às águas nebulosas de portos desconhecidos, à rapariga perdida à beira-mar, ao luar das canções populares... Uma parte da sua mente fora talhada a partir das mágicas recordações da infância. Apesar de tudo, nessa atmosfera brilhante e ilusória, Dick conseguira sempre manter aceso o fogo brando e doloroso da inteligência.

 

Tommy Barban era um condutor de homens, Tommy era um herói. Dick encontrou-o por acaso na Marienplatz em Munique, num daqueles cafés em que se jogava aos dados. O ambiente estava impregnado de política e de jogo.

Tommy estava sentado a uma mesa soltando as suas gargalhadas marciais: «Um-buh... ah-ah! Um-buh... ah-ah!» Em geral, bebia pouco; a coragem era o seu jogo e os seus companheiros sentiam-se sempre um pouco intimidados na sua presença. Recentemente, um cirurgião de Varsóvia removera-lhe uma parte considerável do crânio, que ainda não se unira por baixo do couro cabeludo. O mais franzino dos frequentadores daquele café poderia matá-lo se o agredisse com um simples guardanapo enrolado.

- Este é o Príncepe Chillichef...

Era um russo de cinquenta anos, de cabelo grisalho e com um ar abatido. -... e o senhor McKibben... e o senhor Hannan...

Este último, gordo, de cabelo e olhos negros, era um autêntico palhaço; disse imediatamente a Dick:

- Antes de nos cumprimentarmos, tenho uma coisa a perguntar-lhe: qual

é a sua ideia de andar a divertir-se com a minha tia?

- O quê, eu...

- Ouviu muito bem o que eu disse. De qualquer maneira, o que está

a fazer em Munique?

- Um-bah... ah-ahl - riu Tommy.

- Não tem nenhuma tia? Por que não se mete com ela?

Dick riu-se e o homem mudou de truque:

- A partir de agora não se fala mais em tias. Como posso ter a certeza de que não inventou tudo isso? Aqui está você, um estranho que não conheço sequer há meia hora e que vem contar-me uma história qualquer sobre a sua tia. Como posso saber o que está por trás disso?

Tommy soltou nova gargalhada e depois disse, bem humorado mas com firmeza:

- Já chega, Carly. Senta-te Dick. Como vais? Como está a Nicole?

Não gostava muito de ninguém nem sentia a presença dos outros com muita intensidade - estava sempre descontraído, pronto para o combate; tal como um bom atleta que fica em segundo plano, em qualquer desporto, só para poder descansar a maior parte do tempo, enquanto um outro mais  fraco apenas finge descansar e está sujeito a uma tensão nervosa permanente e desgastante.

Hannan, que ainda não se acalmara, dirigiu-se para um piano que havia perto da mesa e, olhando de vez em quando para Dick, com um ressentimento evidente, pôs-se a tocar e a resmungar:

- Tias... De qualquer maneira eu nem falei em tias. Falei em calças*.

- Bem, como vais? - insistiu Tommy. - Não pareces tão... – hesitou tão vistoso como é costume, tão elegante, se é que estou a fazer-me entender.

Esta observação assemelhava-se a uma daquelas irritantes acusações de que estamos a perder a vitalidade. Dick estava quase a deixar escapar um comentário sobre os fatos espalhafatosos de Tommy e do príncipe Chillichef - fatos de corte e padrão tão fantásticos que, mesmo num domingo em Beale Street, não teriam passado despercebidos -, quando uma explicação se lhe adiantou.

- Vejo que observa os nossos fatos - disse o príncipe. - Acabamos de chegar da Rússia.

- Estes fatos foram feitos na Polónia pelo alfaiate da corte - explicou

Tommy. - É verdade, o alfaiate do próprio Pilsudski.

- Têm andado em viagem? - perguntou Dick.

Eles riram-se e o príncipe deu uma palmada nas costas de Tommy. - Sim, temos andado em viagem. É isso mesmo, em viagem. Fizemos

a grande excursão de todas as Rússias. Num estadão.

Dick ficou à espera de uma explicação. O senhor McKibben forneceu-a em duas palavras: - Eles fugiram.

- Têm estado presos na Rússia?

- Eu é que estive - explicou o príncipe Chillichef, fitando Dick com os seus olhos baços e sem vida. - Não estive preso mas estive escondido. - Tiveram muita dificuldade em sair de lá?

- Alguma. Deixámos três guardas vermelhos mortos na fronteira. Tommy matou dois e eu matei um - disse o príncipe, contando pelos dedos. - Essa é a parte que eu não entendo - disse o senhor McKibben. Por que razão haviam eles de pôr objecção à vossa partida?

Hannan afastou-se do piano e disse, piscando o olho para os outros: - Mac pensa que um marxista é alguém que frequentou o colégio de S. Marcos.

Era uma história de fuga na melhor das tradições - um aristocrata que se esconde durante nove anos com um antigo criado e que trabalha numa padaria do Estado; a filha de dezoito anos está em Paris e conhece Tommy Barban... Durante a narrativa, Dick chegou à conclusão de que esta relíquia empertigada do passado mal valia as vidas de três jovens. Levantou-se a questão de se eles tinham sentido medo.

- Sim, quando tinha frio - respondeu Tommy. - Quando tenho frio, sinto-me sempre amedrontado. Aconteceu-me o mesmo durante a guerra.

* Trocadilho baseado na sonoridade semelhante de aunts (tias) e pants (calças).

McKibben levantou-se.

- Tenho de ir-me embora. Amanhã de manhã vou de automóvel para Innsbruck com a minha mulher, os meus filhos e a preceptora.

- Amanhã também lá vou - disse Dick.

- Ah, sim? - exclamou McKibben. - Por que não vem connosco?

O carro é um daqueles Packard grandes e só vão a minha mulher, os filhos e eu... e a preceptora...

- Não posso de maneira nenhuma...

- É claro que ela não é propriamente uma preceptora - concluiu

McKibben olhando Dick com um ar patético. - A propósito, a minha mulher conhece a sua cunhada, a Baby Warren.

Mas Dick não estava disposto a deixar-se apanhar.

- Prometi a duas outras pessoas que viajava com elas - disse. McKibben mostrou-se desalentado:

- Ah! Bem, então adeus.

Libertou dois pêlos-de-arame puros que estavam presos numa mesa ao lado e afastou-se; Dick imaginou o Packard aos solavancos até Innsbruck, com os McKibben, os filhos, a bagagem, os cães a ladrar... e a preceptora. - O jornal diz que eles conhecem o homem que o matou - disse

Tommy. - Mas os primos dele não querem que venha nos jornais porque a cena passou-se numa taberna clandestina. O que pensa disto?

- É aquilo a que se chama orgulho de família.

Hannan tocou um acorde mais forte para despertar as atenções sobre a sua pessoa.

- Não acredito que as suas primeiras composições se aguentem por muito tempo - disse. - Mesmo sem contarmos com os europeus, há uma dúzia de americanos capazes de fazer o que North fez.

Pela primeira vez Dick apercebeu-se de que falavam de o Abe North. - A única diferença está em que Abe o fez em primeiro lugar - disse Tommy.

- Não concordo - insistiu Hannan. - Conseguiu fama de bom músico porque bebia tanto que os amigos tiveram de arranjar essa justificação para o desculpar...

- Que conversa é essa sobre o Abe North? O que se passa com ele?

Está em apuros?

- Não leste o Herald desta manhã?

-Não.

- Morreu. Foi espancado até à morte numa taberna ilegal, em Nova Iorque. Conseguiu arrastar-se até ao Clube Racquet, onde morreu. - Abe North?

- Sim, ele mesmo. Éles...

- Abe North? Tens a certeza de que ele morreu?

Ao dizer isto Dick levantara-se.

Hannan voltou-se para McKibben e esclareceu:

- Não foi para o Clube Racquet que ele se arrastou mas sim para o Clube Harvard. Tenho a certeza de que ele não era sócio do Clube Racquet.

- Era o que dizia o jornal - insistiu McKibben.

- Deve ter sido engano. Tenho a certeza.

«Espancado até à morte numa taberna ilegal.»

- Mas eu conheço a maior parte dos sócios do Clube Racquet - disse Hannan. - Deve ter sido o Clube Harvard.

Dick levantou-se e Tommy também. O príncipe Chillichef despertou de um lânguido devaneio sem sentido - talvez pensasse nas suas hipóteses de sair da Rússia, um pensamento que o ocupava há tanto tempo que era problemático que conseguisse afastá-lo tão cedo - e saiu com eles.

«Abe North espancado até à morte.»

No percurso para o hotel, de que Dick mal se dava conta, Tommy disse: - Estamos à espera de que um alfaiate nos acabe uns fatos para irmos

até Paris. Tenciono fazer-me corretor de fundos e não posso apresentar-me desta maneira. No teu país, toda a gente está a fazer milhões. Tens a certeza de que te vais embora amanhã? Assim nem podemos jantar contigo. Parece que o príncipe teve uma amiga em Munique. Foi lá visitá-la mas soube que já tinha morrido há cinco anos. Agora vamos jantar com as duas filhas.

- Talvez se pudesse combinar com o doutor Diver... - disse o príncipe.

- Não, não - apressou-se Dick a responder.

Dormiu profundamente e acordou com um cortejo fúnebre que passava lentamente pela sua janela. Era uma longa fila de homens de uniforme, com o já familiar capacete de 1914, homens pesados, de sobrecasaca e chapéus de seda, burgueses, aristocratas, homens do povo. Tratava-se de uma associação de veteranos que ia depor coroas de flores nos túmulos dos que tinham morrido em combate. O cortejo seguia lentamente, como que ostentando uma magnificência perdida, um esforço passado, um desgosto esquecido. A tristeza estampada nos rostos era meramente formal mas, por momentos, Dick sentiu-se sufocar com a morte de Abe North e da sua própria juventude, perdida havia dez anos.

 

Chegou a lnnsbruck ao fim da tarde, mandou as malas para um hotel e foi dar um passeio a pé pela cidade. No crepúsculo, o imperador Maximiliano ajoelhava em oração, rodeado pelo seu cortejo fúnebre de bronze; quatro noviços jesuítas liam ao mesmo tempo que caminhavam no jardim da Universidade. As recordações em mármore de antigos cercos, casamentos e aniversários desvaneciam-se com o pôr do Sol. Dick comeu Erbsen-suppe com Würstchen lá dentro, aos bocados, bebeu quatro canecas de Pilsener e recusou uma excelente sobremesa conhecida por Kaiser-schmarren.

Apesar das altas montanhas que rodeavam a cidade, a Suíça estava longe.

Nicole estava longe. Mais tarde, já de noite, quando passeava pelo jardim, Dick pensou nela com distanciação, amou o que de melhor ela tinha. Lembrou-se de uma vez em que ela viera a correr ao seu encontro, pela relva húmida, com os delicados chinelos ensopados de orvalho. Agarrara-se a ele e erguera o rosto, mostrando-lho como se mostra a página de um livro aberto.

- Pensa como gostas de mim - segredara-lhe. - Não te peço que me ames sempre assim, mas peço-te que nunca te esqueças. Dentro de mim, existirá sempre a pessoa que sou esta noite.

Mas Dick afastara-se para se retemperar e agora voltava a pensar nisto.

Perdera-se - não sabia exactamente em que momento, dia ou semana, mês ou ano. Noutros tempos, cortava a direito e resolvia tanto as equações mais complicadas como os problemas mais simples dos seus doentes menos graves. Entre o momento em que descobrira Nicole desabrochando no Zürichsee e aquele em que conhecera Rosemary, a sua espada perdera o fio.

Apesar da sua natureza desinteressada, o dinheiro preocupava-o na medida em que o facto de ter assistido às lutas do pai em paróquias pobres lhe tinha dado a consciência do valor do dinheiro. Mas o que sentira então não fora uma natural necessidade de segurança - na realidade nunca se sentira mais seguro, mais dono de si próprio do que na altura em que desposara Nicole. No entanto, fora assimilado como um gigolo e de certo modo permitira que o seu arsenal fosse depositado nos cofres-fortes dos Warren.

- Devia ter assinado um contrato, como se faz na Europa; mas ainda não está tudo acabado. Perdi oito anos a ensinar aos ricos o ABC da decência humana, mas ainda não estou acabado. Ainda me restam muitos trunfos que não utilizei.

Dick deambulou por entre as rosas fanadas e os canteiros húmidos de fetos macios e invisíveis. Estava quente para Outubro, mas fresco suficiente para se trazer um casaco forte de tweed fechado até ao pescoço. Um vulto destacou-se da forma escura de uma árvore e Dick reconheceu a mulher com quem se cruzara no átrio do hotel. Agora apaixonava-se por todas as mulheres bonitas que encontrava, pelas suas formas vistas à distância, pela sua sombra projectada num muro.

A mulher estava de costas para ele e olhava as luzes da cidade. Certamente o sentiu acender um fósforo mas não se mexeu.

Seria um convite? Ou uma indicação de desinteresse? Há muito que Dick andava afastado do mundo dos desejos simples e da sua realização. Sentia-se inseguro e desajeitado. Tanto quanto sabia, até podia haver um código, entre aqueles que vagueavam na obscuridade das estâncias termais, que lhes permitia reconhecerem-se rapidamente.

Talvez agora fosse a sua vez de fazer um gesto. As crianças que não se conhecem aproximam-se umas das outras e dizem simplesmente: «Vamos brincar,»

Dick aproximou-se um pouco mais e a sombra moveu-se para o lado.

Era provável que fosse recebido com frieza, como os caixeiros-viajantes atiradiços de que ouvira falar na juventude. O coração começou a bater-lhe com mais força perante o desconhecido, o imponderado, o inesperado. De repente, deu meia volta e, ao fazê-lo, a rapariga imitou-o, emergiu da folhagem, contornou um banco com um andar lento mas determinado e tomou o caminho do hotel.

Acompanhado de um guia e de dois outros homens, Dick partiu para a escalada do Birkkarspitze na manhã seguinte. Que sensação deliciosa a de encontrar-se acima das mais altas pastagens, ouvindo ao longe os guizos das vacas - Dick antegozava a noite passada na cabana, disfrutando a sua própria fadiga, a liderança do guia, deliciando-se com o próprio anonimato. Mas ao meio-dia o tempo piorou e começou a trovejar. Dick e um dos outros alpinistas queriam prosseguir mas o guia recusou-se a continuar. Contrariados, regressaram a Innsbruck, decididos a voltar no dia seguinte.

Depois do jantar e de uma garrafa do vinho forte da região, na sala deserta, Dick sentiu-se excitado, sem saber porquê, até que se lembrou do jardim. Voltara a cruzar-se com a rapariga no átrio e dessa vez ela olhara-o com um ar de aprovação, mas Dick não deixava de pensar: Porquê? Se não me diverti com as mulheres bonitas do meu tempo quando me bastava pedir, para quê começar agora? Com um fantasma, um fragmento de desejo? Para quê?

A imaginação continuava a incitá-lo - o velho ascetismo, a actual misantropia triunfaram: «Meu Deus, era o mesmo que voltar à Riviera e dormir com Janice Caricamento ou com a rapariga de Wilburhazy. Por que hei-de desacreditar todos estes anos e contentar-me com uma solução medíocre e fácil?»

Contudo, a excitação continuava. Dick saiu da varanda e subiu ao quarto para pensar. Estar sozinho de corpo e espírito dá vida à solidão e a solidão gera uma solidão ainda maior.

Lá em cima, andou de um lado para o outro, ao mesmo tempo que pensava e punha o fato de alpinista a secar junto do aquecedor; olhou mais uma vez para o telegrama de Nicole, que ainda não abrira, e que era o modo de ela acompanhar diariamente o seu percurso. Não quisera abri-lo antes do jantar - talvez por causa do jardim. Era um telecabo de Buffalo, reexpedido de Zurique, e dizia o seguinte:

 

«O seu pai morreu em paz esta noite.

Holmes»

 

Todos os seus músculos se retesaram com o choque, como que a reunir forças para resistir; uma dor profunda revolveu-lhe as entranhas até subir à garganta.

Voltou a ler o telegrama. Sentou-se na cama, a arfar e de olhar esgazeado; começou por reagir com o velho egoísmo da criança a quem anunciam a morte do pai ou da mãe - como irá isto afectar-me agora que perdi a mais primitiva e a mais forte das protecções?

Passou-lhe o atavismo e começou a passear pelo quarto, sem fazer barulho, e olhando de vez em quando para o telegrama. Holmes era formalmente o coadjutor do pai mas na realidade já há dez anos que era o pároco. Como morrera ele? De velho - tinha setenta e cinco anos. Já vivera muito tempo.

Dick entristeceu-se ao pensar que ele morrera sozinho. Sobrevivera à mulher, aos irmãos e às irmãs; havia uns primos na Virgínia mas eram pobres e não poderiam deslocar-se até ao Norte, e tivera de ser Holmes a assinar o telegrama. Dick amava o pai - quantas vezes comparara as suas decisões com aquilo que o pai teria dito ou feito. Dick nascera alguns meses depois da morte de duas jovens irmãs e o pai, antevendo o efeito que tal circunstância teria sobre a mulher, salvara-o dos mimos excessivos da mãe tornando-se o seu guia espiritual. Sentia-se já cansado, mas guindara-se à altura da tarefa.

No Verão, pai e filho iam até à cidade engraxar os sapatos, Dick de fato à marinheiro e o pai no traje de sacerdote de corte impecável. O pai orgulhava-se muito da beleza do filho. Ensinou a Dick tudo o que sabia sobre a vida, não muito, mas a maior parte das coisas verdadeiras e simples e regras de comportamento que cabiam nas suas atribuições de sacerdote.

- Uma vez, numa cidade desconhecida, pouco depois de ser ordenado -contou -, entrei numa sala cheia de gente e não sabia quem era a minha anfitriã. Várias pessoas que eu conhecia se dirigiram a mim, mas eu não lhes dei atenção porque vira uma mulher de cabelo grisalho sentada junto da janela do outro lado da sala. Dirigi-me a ela e apresentei-me. Depois disso, fiz muitos amigos na cidade.

O pai era um homem de boa vontade, uma pessoa segura de si. Tinha um orgulho profundo herdado das duas viúvas que lhe haviam ensinado a acreditar que não existe nada superior aos «bons instintos», à honra, à cortesia e à coragem.

o pai sempre considerara que a pequena fortuna da sua mulher pertencia ao filho. Quando este andava no colégio e mais tarde na escola médica, mandava-lhe um cheque quatro vezes por ano. Era uma daquelas pessoas acerca das quais se poderia dizer, nos bons velhos tempos: «Um perfeito cavalheiro, mas não um homem de acção.»

Dick mandou comprar um jornal. Enquanto continuava a passear para cá e para lá, o telegrama aberto sobre a secretária, escolheu um navio que o levasse até à América. Depois, pediu uma chamada para Zurique e, enquanto esperava, recordou tanta coisa - e desejou ter sido sempre tão bom como quisera ser.

 

Em virtude da profunda reacção à morte do pai, a magnífica fachada da terra natal, o porto de Nova Iorque, pareceu a Dick, por uma hora, algo de triste e de glorioso, mas uma vez em terra o sentimento desvaneceu-se. Não voltou a ter a mesma sensação nas ruas, nos hotéis e nos comboios que o conduziram a Buffalo e depois à Virgínia para acompanhar o corpo do pai. Só quando o comboio regional entrou nos terrenos argilosos e pouco arborizados do condado de Westmoreland é que ele voltou a sentir-se identificado com aquelas paragens; na estação, reparou numa estrela sua conhecida e na lua gélida que brilhava sobre a baía de Chesapeake; ouviu o chiar das rodas de madeira, vozes encantadoras e irreais e o som de regatos indolentes e primitivos que corriam suavemente transportando os seus nomes índios.

No dia seguinte, no cemitério, o pai ficou sepultado entre uma centena de Divers, Dorseys e Hunters. Era muito consolador deixá-lo ali junto de todos os que conhecera. Sobre a terra escura e revolvida foram espalhadas flores. Agora Dick já não tinha laços que o prendessem àquele lugar e não acreditava que lá voltasse. Ajoelhou-se no solo endurecido. Conhecia todos os mortos, os seus rostos tisnados, os seus olhos azuis, os seus corpos magros, as almas feitas de terra nova na escuridão da floresta do século dezassete.

- Adeus, pai... Adeus, antepassados.

Nos cais marítimos, com os seus longos telhados, está-se numa zona que não pertence a um lado nem a outro. A galeria, cheia de fumo amarelado, está cheia de ecos e gritos. Há o barulho dos carrinhos de mão e o estrépito das malas de viagem, o ranger estridente dos guindastes e o primeiro aroma salgado do mar. Todos correm, ainda que tenham tempo; o passado, o continente, ficou para trás; o futuro está na boca aberta que é a entrada para o navio; o presente é aquela via turbulenta e confusa.

Quando subimos a prancha, a visão do mundo altera-se, estreita-se.

Somos cidadãos de uma comunidade mais pequena do que Andorra, já não estamos seguros de coisa nenhuma. Os comissários de bordo são tão estranhos como as cabinas; desdenhosos os olhares dos viajantes e dos seus amigos. Em seguida, soam os apitos lúgubres, a portentosa vibração, e o navio, a ideia humana, põe-se em movimento. O cais e os rostos dos que acenam  começam a deslizar e, por momentos, o barco é como uma peça que se separa do seu todo; os rostos tornam-se distantes, as vozes deixam de se ouvir e o cais transforma-se numa das muitas manchas que se avistam na linha de água. O porto flui rapidamente para o mar.

Dentro do navio seguia Albert McKisco, rotulado pelos jornais como a sua carga mais preciosa. McKisco estava na moda. Os seus romances eram pastichos das obras dos melhores autores do seu tempo, uma proeza que não era de desprezar; além disso, ele possuía o dom de desdramatizar e de corromper o que imitava, a tal ponto que muitos leitores se encantavam com a facilidade com que lhe seguiam o pensamento. O sucesso aperfeiçoara-o e também o tornara mais humilde. Não ignorava as suas capacidades apercebera-se de que possuía uma vitalidade maior do que muitos homens de talento superior e estava resolvido a tirar partido do êxito que alcançara.

- Ainda não fiz nada - costumava dizer. - Não creio que seja dotado de verdadeiro génio. Mas se continuar a tentar, poderei vir a escrever um bom livro.

Já houve belos mergulhos que partiram de pranchas mais frágeis. Os inúmeros fracassos passados foram esquecidos. Na verdade, o seu sucesso assentava psicologicamente no duelo com Tommy Barban, baseado no qual, e à medida que ele se esfumava na memória, ele criara um novo respeito por si próprio.

No segundo dia de viagem, encontrou Dick Diver, esperou que ele o reconhecesse e depois cumprimentou-o e sentou-se a seu lado. Dick pôs de parte a leitura e, verificando a mudança operada em McKisco, o desaparecimento do seu aborrecido complexo de inferioridade, deu consigo a achar a conversa agradável. McKisco estava «bem informado» sobre uma gama de assuntos mais vasta que a de Goethe - era interessante escutar as inúmeras associações fáceis a que se referia como se fossem opiniões suas. Estreitaram o conhecimento e Dick tomou várias refeições com eles. Os McKisco haviam sido convidados para a mesa do capitão, mas com um snobismo recém-adquirido confessaram a Dick que «não podiam suportar aquela promiscuidade».

Violet tinha agora um aspecto majestoso. Era paramentada pelos grandes costureiros e encantava-se com as pequenas descobertas que é costume fazerem-se durante a adolescência. É verdade que poderia tê-las aprendido com a mãe em Boise, mas a sua alma fora sombriamente despertada nos pequenos cinemas de Idaho e ela não tinha tido tempo para dedicar à mãe. Agora pertencia à sociedade - juntamente com vários milhões de pessoas e sentia-se feliz, embora o marido continuasse a impor-lhe silêncio quando ela se mostrava excessivamente ingénua.

Os McKisco desembarcaram em Gibraltar. Na noite seguinte, em Nápoles, Dick conheceu no autocarro que fazia o percurso do hotel para a estação uma pobre família constituída por mãe e duas filhas. Já no barco tinha reparado nelas. Um desejo avassalador de ajudar ou de ser alvo de admiração apoderou-se dele: mostrou-lhes pequenos fragmentos de alegria, ofereceu-lhes vinho, um pouco a medo, e teve o prazer de constatar que elas  recuperavam um saudável egoísmo. Fez de conta que elas eram isto e aquilo e deixou-se apanhar pela sua própria fantasia, bebendo muito para manter a ilusão. E durante todo esse tempo as mulheres convenceram-se de que lhes havia caído uma benção do céu. Separou-se delas ao romper da aurora, enquanto o comboio trepidante e barulhento seguia para Cassino e Frosinone. Depois de estranhas despedidas à americana na estação de Roma, Dick, um pouco fatigado, foi hospedar-se no Hotel Quirinal.

Quando se encontrava na recepção, ergueu de repente a cabeça e parou bruscamente. Como se estivesse sob o efeito de uma bebida que lhe aquecesse as paredes do estômago e lhe subisse à cabeça, Dick acabava de ver a pessoa que procurava, a pessoa por quem fizera a travessia do Mediterrâneo.

Rosemary viu-o também, ao mesmo tempo. Apercebeu-se da sua presença ainda antes de o reconhecer. Olhou para trás, espantada, e, abandonando a rapariga que a acompanhava, correu para ele. Muito aprumado, sustendo a respiração, Dick voltou-se para ela. No momento em que Rosemary atravessou o átrio, a sua beleza, cuidada como um potro de pêlo brilhante e cascos envernizados, despertou-o do choque que a aparição lhe causara. Mas tudo se passou com demasiada rapidez. Tudo o que Dick podia fazer era disfarçar a fadiga o melhor possível e, para corresponder à confiança exuberante da rapariga, esboçou um gesto forçado que significava qualquer coisa como: «Você é a última pessoa que eu esperava encontrar aqui.»

As mãos enluvadas de Rosemary pousaram sobre a de Dick, em cima do balcão.

- Dick, estamos a rodar O Esplendor Passado de Roma - ou, pelo menos, estamos convencidos disso; podemos interromper em qualquer altura.

Dick fitou-a com dureza, tentando constrangê-la um pouco para que não reparasse no seu rosto por barbear e no seu colarinho engelhado. Por sorte, ela estava com pressa.

- Começamos cedo porque o nevoeiro levanta às onze horas. Telefone-

-me às duas.

Uma vez no quarto, Dick tentou recuperar a lucidez. Pediu que o chamassem ao meio-dia, despiu-se e mergulhou num sono profundo.

Dormiu para além do meio-dia mas acordou às duas horas, rejuvenescido. Desfez a mala e mandou alguma roupa para a lavandaria. Fez a barba, esteve uma hora no banho e almoçou. O sol caíaa pique sobre a Via Nazionale e Dick deixou que ele penetrasse no interior do quarto através das portarias. Enquanto esperava que lhe passassem um fato a ferro, leu no Corriere delta Sera que «una novella di Sinclair Lewis, Wall Street, nella quale l'autore analizza la vita sociale di una piccola citta Americana.» Em seguida tentou pensar em Rosemary,

A princípio, não conseguiu. Ela era jovem e magnética, mas Topsy também o era. Pensou nos amantes que ela tivera nos últimos quatro anos. Bem, nunca sabemos exactamente qual o espaço que ocupamos na vida dos outros. Contudo, desta névoa emergia o seu afecto - os melhores contactos são  aqueles de que conhecemos os obstáculos mas em que, mesmo assim, desejamos preservar a relação. O passado desvanecia-se e Dick pretendia manter na sua preciosa concha a dádiva eloquente que Rosemary fazia de si própria, até a aprisionar, até que ela não mais existisse fora dele. Tentou reunir tudo o que pudesse atrair a rapariga, o que era menos do que há quatro anos atrás. Os dezoito anos podem olhar para os trinta e quatro através da bruma dourada da adolescência; mas os vinte e dois encarariam os trinta e oito com uma clareza plena de discernimento. Além disso, na altura do primeiro encontro, Dick encontrava-se num auge emocional, mas desde então perdera em grande parte a capacidade de se entusiasmar.

Quando o criado voltou com a roupa, Dick vestiu uma camisa branca e pôs uma gravata preta e um alfinete de pérola. Os cordões dos óculos que usava para ler passavam por outra pérola do mesmo tamanho que lhe balouçava negligentemente sobre o peito, um pouco mais abaixo do que a primeira. Após o sono, o seu rosto recuperara o tom bronzeado de verões sucessivos na Riviera; para se sentir mais ágil, manteve-se de pernas para o ar, com as mãos assentes numa cadeira, até ao momento em que sentiu caírem-lhe a caneta e algumas moedas do bolso. Às três telefonou a Rosemary que lhe pediu para subir. Momentaneamente estonteado com as suas acrobacias, parou no bar para tomar um gin tónico.

- Olá, doutor Diver!

Só devido à presença de Rosemary no hotel é que Dick reconheceu logo Collis Clay. Este mantinha o seu velho ar confiante e adquirira um ar de prosperidade acentuado por uma enorme papada.

- Sabe que a Rosemary está cá? - perguntou Collis.

- Encontrei-a por acaso.

- Eu estava em Florença quando soube que ela se encontrava aqui, por

isso cheguei a semana passada. Nem se reconhecia, aquela menina da mamã de outros tempos.

Collis mudou de tom e continuou:

- O que quero dizer é que ela foi criada com tantos cuidados e agora transformou-se numa mulher vivida - está a perceber não está? Acredite-me, traz vários romanos presos pelo beicinho! E de que maneira!

- Você está a estudar em Florença?

- Eu? Claro, estou a estudar arquitectura. Volto para lá no domingo.

Fiquei aqui para assistir às corridas.

Foi com dificuldade que Dick conseguiu evitar que ele incluísse a bebida na conta que já tinha naquele bar.

 

Ao sair do elevador, Dick seguiu por um corredor tortuoso, orientando-se por uma voz distante que saía de uma porta iluminada. Rosemary envergava um pijama negro. Acabara de almoçar e estava a tomar o café.

- Continua bela. Um pouco mais bela ainda - disse Dick.

- Quer um café, jovem?

- Peço-lhe desculpa pela minha má apresentação desta manhã.

- Não estava com bom aspecto... E agora, já se sente bem? Quer um café?

- Não obrigado.

- Vejo que agora já está bem, mas esta manhã assustei-me. A minha mãe chega para o mês que vem, se a companhia ficar por cá. Está sempre a perguntar-me se o tenho visto, como se você morasse aqui ao lado. Ela sempre gostou de si, sempre foi de opinião que foi bom eu tê-lo conhecido.

- Fico satisfeito por saber que ela continua a pensar em mim.

- Ah, sim, ela pensa muito em si - asseverou Rosemary.

- Tenho-a visto em filmes, de vez em quando - disse Dick. - Uma vez exibiram Daddy's Girl só para mim.

- Neste filme, tenho um bom papel, se não o cortarem.

Passou por trás dele, roçando-se-lhe no ombro. Foi telefonar para que viessem levantar a mesa e em seguida sentou-se numa poltrona.

- Quando o conheci, não passava de uma rapariguinha, Dick. Agora

sou mulher.

- Conte-me tudo a seu respeito...

- Como está a Nicole? E o Lanier e a Topsy?

- Estão bem. Falam muitas vezes de si.

O telefone tocou. Enquanto ela falava, Dick examinou dois romances, um de Edna Ferber e outro de Albert McKisco. O criado veio buscar a mesa. No vazio deixado por esta, Rosemary pareceu-lhe ainda mais só no seu pijama negro.

-... Tenho uma visita... Não, não muito bem. Tenho de ir ter com a costureira, para uma prova... Vai demorar... Não, agora nào.

Como se o facto de a mesa ter sido retirada a tivesse libertado, Rosemary sorriu para Dick, e foi como se, juntos, houvessem conseguido livrar-se de todas as preocupações deste mundo e estivessem agora em paz no seu próprio céu...

- Já está - disse ela. - Acredita que passei esta última hora a preparar-me para si?

Mas o telefone voltou a tocar. Dick levantou-se para tirar o chapéu de cima da cama e ir pô-lo no bengaleiro. Alarmada, Rosemary pôs a mão no bocal e disse:

- Não se vá embora!

- Não, não vou.

Assim que ela acabou a conversa, Dick dispôs-se a tirar o melhor partido possível daquela tarde.

- Espero que agora nos deixem em paz - disse.

- Eu também - concordou Rosemary. - O homem que acabou de me telefonar conheceu em tempos um segundo primo meu. Imagine! Telefonar a uma pessoa por um motivo destes!

Rosemary baixou as persianas para criar um ambiente propício ao amor.

Por que outro motivo quereria velar-se aos seus olhos? Ele enviava-lhe palavras como se fossem cartas, como se lhe deixassem algum tempo antes de a alcançarem.

- É muito difícil estar aqui sentado junto de si, sem a beijar. Então, beijaram-se apaixonadamente no meio do quarto. Ela colou-se a ele e depois voltou para a poltrona.

A situação não poderia continuar a ser meramente agradável. Teria de avançar ou de retroceder; quando o telefone voltou a tocar, Dick foi para o quarto, estendeu-se na cama dela e abriu o romance de Albert McKisco. Rosemary voltou pouco depois e sentou-se a seu lado.

- Tem as pestanas mais compridas que eu já vi - observou Rosemary.

- Senhoras e senhores, vamos dar início ao desfile. Entre os presentes encontra-se Miss Rosemary Hoyt, perita em pestanas...

Rosemary beijou-o e Dick puxou-a para o seu lado. Depois começaram a beijar-se até ficarem ambos sem fôlego. A respiração dela era jovem, ansiosa e excitante. Os seus lábios um pouco gretados eram macios nos cantos.

Quando mais não eram do que pernas e pés e roupas, lutas dos braços dele e das suas costas com a garganta e os seios dela, Rosemary sussurrou: - Não, agora não... Estas coisas têm o seu ritmo.

Obedecendo-lhe, Dick empurrou a paixão para um recanto do espírito, mas erguendo o frágil corpo dela até que ficou suspenso acima do seu, disse-lhe com doçura:

- Minha querida, isso não tem importância.

Sob o olhar dele, o rosto dela mudou de expressão; o luar da eternidade espraiava-se nele.

- Isso não seria mais que justiça poética, se fosse no seu caso - respondeu ela.

Desembaraçou-se dele, dirigiu-se ao espelho e compôs o cabelo. Em seguida, puxou uma cadeira para junto da cama e acariciou a face de Dick. - Diga-me a verdade a seu respeito - suplicou Dick.

- Sempre o fiz.

- Talvez... Mas as coisas não dizem umas com as outras. Riram-se ambos mas Dick insistiu:

- Ainda é virgem?

- Nã-ã-ão! - cantarolou Rosemary. - Já dormi com seiscentos e quarenta homens, se é isso que quer saber. - Não tenho nada com isso.

- Quer fazer o estudo psicológico do meu caso?

- Considerando que você é uma rapariga de vinte e dois anos, perfeitamente normal, e que vivemos no ano de mil novecentos e vinte oito, aposto que já teve vários casos amorosos.

- Todos eles fracassados - respondeu ela.

Dick não acreditou. Não compreendia se ela estava deliberadamente a erguer uma barreira entre ambos ou se tencionava dar maior significado a uma eventual rendição.

- Vamos dar um passeio pelo Pincio - sugeriu Dick.

Endireitou o fato e alisou o cabelo. Fora-se aquele momento. Durante três anos, Dick fora o modelo através do qual ela avaliara os outros homens e, inevitavelmente, a sua estatura assumira proporções heróicas. Não queria que ele fosse como os outros e contudo fazia-lhe as mesmas exigências, como se quisesse levar algo dela consigo, na algibeira.

Passeando pela relva, por entre querubins e filósofos, faunos e repuxos, Rosemary apoiou-se com firmeza no braço de Dick, reajustando-se a pouco e pouco, como se quisesse que tudo batesse certo porque tudo iria ser assim para sempre. Apanhou um rebento e quebrou-o mas não lhe achou viço. De repente, vendo o que queria no rosto dele, pegou-lhe na mão enluvada e beijou-a. Depois, fez cabriolices à sua frente, como se fosse uma criança, até o obrigar a sorrir, soltou uma gargalhada e começaram a divertir-se.

 

- Esta noite não posso sair consigo, querido, porque já tenho um compromisso com outras pessoas, de há muito tempo. Mas se se levantar cedo, amanhã poderá ir assistir ao ensaio.

Dick jantou sozinho no hotel, foi para a cama cedo e encontrou-se com Rosemary no átrio às seis e meia. No carro, a seu lado, a rapariga resplandecia de frescura à luz da manhã. Atravessaram a Porta San Sebastiano e seguiram pela Via Ápia até chegarem junto de um cenário imenso, maior do que o próprio fórum que representava. Rosemary entregou-o aos cuidados de um homem que o conduziu por entre os adereços; os arcos, as bancadas, a arena. Ela ia trabalhar uma cena passada na casa da guarda dos prisioneiros cristãos. Nicotera, um dos muitos Valentinos esperançosos, pavoneava-se diante de uma dúzia de «cativas» de olhos melancólicos e profusamente maquilhados.

Rosemary apareceu envergando uma túnica que lhe dava pelos joelhos. - Repare nisto - segredou-lhe ela. - Quero saber a sua opinião. Todas as pessoas que viram as projecções prévias dizem que...

- O que é isso?

- É quando eles passam tudo o que filmaram no dia anterior. Dizem

que é a primeira vez que pareço sexy.

- Não dou por isso.

- Estava-se mesmo a ver! Mas dou eu.

Nicotera, envolto na sua pele de leopardo, falava com Rosemary, enquanto o electricista discutia qualquer coisa com o realizador, encostado a ele. Por fim, o realizador passou a mão pela testa encharcada em suor e o guia de Dick comentou:

- Ele está de novo em apuros, e de que maneira!

- Quem? - perguntou Dick.

Mas antes que o homem pudesse responder-lhe, o realizador aproximou-se deles, apressado.

- Quem é que está em apuros? Você é que está em apuros.

Falava com veemência, dirigindo-se a Dick, como se estivesse em presença de um júri.

- Quando ele está em apuros, convence-se de que os outros também estão!

Deteve-se por instantes a olhar para o guia e depois bateu as palmas, dizendo:

- Ora bem, toda a gente em cena.

Era como se Dick tivesse ido visitar uma família grande e turbulenta.

Uma actriz aproximou-se dele e ali ficou a conversar, convencida de que ele era um actor que acabara de chegar de Londres. Ao descobrir o engano, afastou-se em pânico. Na sua maioria, os elementos da companhia sentiam-se profundamente superiores ou inferiores ao mundo que os rodeava, mas a primeira atitude prevalecia. Era gente de coragem e de engenho; haviam adquirido uma situação de destaque numa nação que durante uma década desejara apenas que a distraíssem.

A sessão terminou quando a luz começou a ficar enevoada - uma bela luz para os pintores, decerto, mas não para as câmaras, quando comparada com a atmosfera límpidada Califórnia. Nicotera seguiu Rosemary até ao automóvel e segredou-lhe qualquer coisa, mas a rapariga despediu-se dele sem um sorriso.

Dick e Rosemary almoçaram no Castelli dei Caesari, um restaurante esplêndido situado num terraço com vista para o fórum em ruínas, que datava de um período indeterminado da época da decadência. Rosemary tomou um cocktail e um copo de vinho; quanto a Dick, bebeu o suficiente para que a sensação de insatisfação o abandonasse. Depois, seguiram para o hotel, excitados e felizes, numa espécie de tranquila exaltação. A rapariga queria ser possuída e foi, e o que começara por uma brincadeira de crianças numa praia, foi finalmente consumado.

 

Rosemary tinha outro compromisso para o jantar, uma festa de aniversário de um dos elementos da companhia. No átrio, Dick deu de caras com Collis Clay, mas como queria jantar sozinho, fingiu que tinha um encontro marcado no Excelsior. Bebeu um cocktail na companhia dele e a sua vaga insatisfação cristalizou-se em impaciência - já não tinha desculpa para se manter ausente da clínica por mais tempo. Este caso tinha mais de recordação romântica do que de paixão. Nicole é que era a sua mulher, muitas vezes tinha-se sentido angustiado por causa dela, mas apesar disso ela era a sua mulher. O tempo passado com Rosemary era uma benesse que concedia a si próprio e o tempo passado com Collis não tinha qualquer valor.

À porta do Excelsior, deu de caras com Baby Warren. Os seus belos olhos

grandes, que lembravam berlindes, fitaram-no com surpresa e curiosidade. - Pensei que estava na América, Dick! A Nicole está consigo?

- Regressei via Nápoles.

A faixa negra no braço de Dick levou-a a dizer: - Sinto muito o seu desgosto.

Como era inevitável, jantaram juntos.

- Conte-me como tudo se passou - pediu ela.

Dick apresentou-lhe uma versão dos factos e Baby franziu a testa. Achou que era necessário encontrar um bode expiatório para a catástrofe ocorrida na vida da irmã:

- Acha que o doutor Dohmler seguiu o tratamento correcto com ela desde o princípio?

- Neste tipo de doença não há muito por onde escolher. É claro que convém escolher a pessoa mais capaz de lidar com cada caso particular. - Dick, eu não pretendo dar-lhe conselhos nem ser perita na matéria, mas, na sua opinião, uma mudança não seria benéfica para ela? Sair daquele ambiente de doença e viver num ambiente normal como as outras pessoas? - Mas foi você a primeira a sugerir a clínica - lembrou Dick. - Você dizia que nunca se sentia segura a respeito da sua irmã...

- Isso era na altura em que vocês viviam como eremitas na Riviera, lá em cima, longe de todos. Não estava a propor que voltassem a esse tipo de vida. Referia-me a Londres, por exemplo. Os ingleses são o povo mais equilibrado do mundo.

- Não concordo - respondeu Dick.

- São, pois. Eu conheço-os, sabe? Talvez fosse uma boa ideia alugarem

uma casa em Londres, durante a Primavera... sei de uma casa encantadora, em Talbot Square, que vocês podiam alugar, mobilada. Era importante conviverem com ingleses sãos e equilibrados.

E continuaria a contar-lhes as velhas histórias da propaganda de 1914 se Dick não tivesse dado uma gargalhada e não dissesse:

- Tenho estado a ler um livro de Michael Arlen e se isso é ser... Ela arrumou Michael Arlen com um amplo movimento do talher da salada.

- Esse só escreve sobre degenerados. Eu referia-me aos ingleses que valem alguma coisa.

Ao ouvir estas palavras, Dick lembrou-se dos rostos alheios e incaracterísticos que povoavam os pequenos hotéis da Europa.

- É claro que eu não tenho nada com isso - repetiu Baby, preparando nova investida -, mas deixá-la assim sozinha num ambiente como aquele...

- Eu fui à América por causa da morte do meu pai.

- Compreendo, e já disse como o lamento. - brincava com as contas

de vidro do colar. - Mas agora vocês têm tanto dinheiro. Chega para tudo e deveria ser utilizado para o bem da Nicole.

- Não consigo imaginar-me em Londres.

- Por que não? Creio que você seria capaz de trabalhar lá tão bem como

noutro lado qualquer.

Dick recostou-se na cadeira e observou a cunhada. Se alguma vez ela suspeitasse daquela podre verdade, da causa real da doença de Nicole, decerto a negaria a si própria e a remeteria para um canto escuro da memória, como fazia com os quadros que comprava por engano.

Continuaram a conversa na Ulpia, uma cave onde se amontoavam cascos de vinho. Collis Clay apareceu, sentou-se à mesa deles e ali ficaram a ouvir um guitarrista bastante dotado que entoava Suona Fanjara Mia. - É possível que eu não fosse a pessoa indicada para a Nicole - disse Dick. - Mesmo assim, ela acabaria por casar com alguém do meu tipo, com alguém em quem ela pudesse apoiar-se... indefinidamente.

- Acha que ela seria feliz com outro? - perguntou Baby de repente, como se pensasse em voz alta. - É claro que isso pode arranjar-se.

Só ao ouvir o riso incontrolado de Dick é que ela se apercebeu do despropósito do seu comentário.

- Não pense nem por um momento que não lhes estamos gratos por tudo o que tem feito - assegurou-lhe ela. - E sabemos que tem passado um mau bocado...

- Por amor de Deus, se eu não amasse a Nicole era tudo diferente protestou Dick.

- Mas você ama a Nicole? - perguntou ela alarmada.

Collis estava agora a ouvir a conversa de ambos e Dick apressou-se a desviá-la:

- E se falássemos de outra coisa qualquer? A seu respeito, por exemplo. Por que não se casa? Ouvimos dizer que estava noiva de Lord Paley, o primo do...

- Oh, não. Isso foi o ano passado - respondeu Baby, esquivando-se

ao assunto.

- Por que não se casa? - insistiu Dick, obstinadamente.

- Não sei. Um dos homens que eu amei foi morto na guerra, e o outro

rejeitou-me.

- Fale-me disso. Fale-me da sua vida privada e das suas opiniões, Baby.

Nunca o fazemos, estamos sempre a falar da Nicole.

- Eram ambos ingleses. Não creio que exista um tipo de homem mais requintado no mundo do que um inglês de primeira categoria, não acha? Se existe, eu nunca conheci. Este homem... Oh, é uma longa história. Detesto longas histórias, e você?

- E de que maneira! - exclamou Collis.

- Não sei porquê. Gosto delas se são boas.

- Aí está uma coisa que você faz muito bem, Dick. Consegue manter o interesse de uma conversa com uma pequena frase dita de vez em quando. Creio que isso é um dom maravilhoso.

- É um truque - respondeu Dick com doçura.

Era a terceira vez que Dick discordava de uma opinião da cunhada. - Eu aprecio a formalidade, é claro, gosto das coisas em grande escala.

Provavelmente não pensa como eu, mas tem de admitir que em mim é um sinal de solidez.

Dick nem se incomodou a contradizê-la.

- É claro que eu sei o que as pessoas dizem: a Baby Warren anda a percorrer a Europa, à caça de novidades, e está a perder o melhor da vida. Mas eu penso exactamente o contrário, ou seja, que sou uma das poucas pessoas que conhece o que a vida tem de melhor. Travei conhecimento com as personalidades mais interessantes do meu tempo.

Os acordes de outro número de guitarra abafaram-lhe a voz, mas ela

subiu de tom:

- Foram muito poucos os erros graves que cometi...

- Tirando os muito graves, Baby.

Baby apercebeu-se de que Dick estava a gracejar e mudou de assunto.

Parecia impossível que tivessem qualquer coisa em comum. Mas havia algo que Dick admirava nela. Depositou-a no Excelsior, com uma série de cumprimentos que a deixaram deslumbrada.

 

Rosemary insistiu em levar Dick a almoçar no dia seguinte. Foram a uma pequena trattoria, propriedade de um italiano que trabalhara na América, e comeram presunto, ovos e waffles. Depois, regressaram ao hotel. Dick descobrira que não estava apaixonado por Rosemary, nem ela por ele, e isso aumentava, mais do que diminuía, o seu desejo. Agora que sabia que ela não entraria na sua vida, olhava-a como uma desconhecida. Supunha que era esse sentimento que muitos homens experimentavam quando diziam que  estavam apaixonados por uma mulher - não se tratava de uma violenta submersão da alma, de um mergulho numa tinta negra onde todas as cores morriam, como fora o seu amor por Nicole. Determinados pensamentos acerca de Nicole, como o de que ela havia de morrer, ou afundar-se na loucura, ou apaixonar-se por outro homem, deixavam-no fisicamente doente.

Nicotera encontrava-se na sala de estar de Rosemary, conversando com ela sobre uma questão profissional. Quando a rapariga lhe deu a entender que devia retirar-se, ele foi-se embora com protestos irónicos e lançou a Dick um olhar insolente. Como de costume, o telefone tocou e reteve Rosemary durante uns dez minutos, o que aumentou a impaciência de Dick.

- Vamos lá para cima, para o meu quarto - sugeriu Dick e Rosemary concordou.

Agora a cabeça de Rosemary estava encostada aos joelhos de Dick que, sentado num grande sofá, acariciava o cabelo encantador da rapariga.

- Permite-me que mais uma vez me mostre curioso a seu respeito? -

perguntou.

- O que quer saber? - respondeu Rosemary.

- É acerca desses homens. Sinto-me curioso, para não dizer incomodado.

- Quer saber quanto tempo depois de eu o ter conhecido isso se passou?

- Ou antes.

- Oh, não! - Rosemary mostrou-se chocada. - Não houve nada antes.

Você foi o primeiro homem por quem me interessei. E continua a ser o único por quem me interesso verdadeiramente.

Fez uma pausa e depois continuou: - Foi há um ano, suponho.

- Quem foi?

- Ora, um homem simplesmente.

O retraimento da rapariga instigou-o a prosseguir:

- Aposto que sei o que se passou: o primeiro caso não foi bem sucedido e depois disso houve um grande intervalo. O segundo foi melhor, mas você não estava sequer apaixonada por ele. O terceiro caso foi satisfatório...

Dick continuou a torturar-se:

- Depois, você teve um caso sério, sério demais para durar, e nessa altura começou a recear não ter nada para dar ao homem que finalmente viesse a amar. - Sentia-se cada vez mais vitoriano. - Seguiu-se meia dúzia de amores episódicos, que duraram até ao presente. Estou muito longe da verdade?

Para alívio de Dick, Rosemary respondeu, entre risos e lágrimas:

- Está o mais enganado possível, mas um dia hei-de encontrar o homem que amo e nunca mais o vou deixar.

O telefone tocou e Dick reconheceu a voz de Nicotera que perguntava por Rosemary. Tapou o bocal com a mão e perguntou:

- Quer falar com ele?

Ela foi atender. Falou num italiano tão rápido que Dick não percebeu nada da conversa.

- O telefone rouba-lhe muito tempo. Já passa das quatro e eu tenho um compromisso às cinco. Talvez fosse melhor ir ter com o senhor Nicotera.

- Não seja idiota.

- Nesse caso, creio que deveria mantê-lo à distância enquanto eu cá estou.

- É difícil.

De repente Rosemary começou a chorar.

- Dick, eu amo-o como nunca amei ninguém. Mas o que tem você para me dar?

- O que tem o Nicotera para dar a alguém?

- É diferente.

«Porque a mocidade atraía a mocidade,»

- Ele não passa de um garoto! - exclamou Dick.

Estava desesperado de ciúme e não queria ser ferido de novo.

- Sim, é uma criança - concordou Rosemary, fungando. - Você sabe que está em primeiro lugar.

Ao ouvir isto, Dick puxou-a contra si, mas ela deixou-se cair para trás, com um ar fatigado. Ali, ficou, abraçado a ela por instantes, como no fim de um adágio. Rosemary tinha fechado os olhos e os cabelos caíam-lhe a direito como os de uma afogada.

- Dick, deixe-me só. Nunca me senti tão confusa na minha vida. Instintivamente a rapariga afastara-se, no momento em que o ciúme injustificado de Dick se sobrepunha à sensatez e à compreensão que ele começara por revelar e que tinham posto Rosemary tão à vontade.

- Quero saber a verdade - disse ele.

- Sim, está bem. Temos andado juntos e ele quer casar comigo mas eu não quero. E depois? O que espera que eu faça? Você nunca me pediu que casasse consigo. Quer que eu passe o resto da vida a acompanhar medíocres como o Collis Clay?

- Ontem à noite esteve com o Nicotera?

- Isso não lhe diz respeito - soluçou Rosemary. - Desculpe-me Dick,

claro que lhe diz respeito. Você e a mãe são as únicas pessoas neste mundo que me interessam.

- E quanto ao Nicotera?

- Como quer que eu saiba?

O tom evasivo da rapariga conferia um alto significado ao mais insignificante dos comentários.

- É como o que sentiu por mim em Paris?

- Quando estou na sua companhia, sinto-me tranquila e feliz. Em Paris

foi diferente. Mas nunca se sabe o que se sentiu outrora, pois não?

Dick levantou-se e começou a preparar o fato para a noite. Se tinha de suportar a amargura e o ódio que lhe enchiam o coração, mais valia pôr um ponto final naquelas relações.

- Eu não quero saber do Nicotera! - exclamou Rosemary. - Mas amanhã tenho de ir para Livorno com a companhia. Oh, mas por que havia isto de acontecer? - Rompeu de novo em soluços. - É horrível! Por que veio cá? Porque não havíamos de conservar apenas a recordação? É como se eu tivesse acabado de brigar com a mãe.

Assim que Dick começou a vestir-se, Rosemary levantou-se e dirigiu-se para a porta.

- Não vou à festa esta noite - disse num derradeiro esforço. - Fico

ao pé de si. De qualquer modo, não tinha vontade de ir.

Seguiu-se nova torrente de lágrimas, mas Dick afastou-se.

- Estarei no meu quarto - disse Rosemary. - Adeus, Dick.

- Adeus.

- É horrível! Horrível! Afinal, o que significa tudo isto?

- Há muito tempo que me interrogo sobre isso.

- Mas porquê eu?

- Creio que sou como a Peste Negra - respondeu Dick lentamente. - Parece-me que já não dou felicidade a ninguém.

 

Depois do jantar, havia cinco pessoas no bar do Quirinal: uma prostituta italiana de alta classe, sentada num banco, que mantinha uma conversa sem fim apesar dos enfastiados «Si... Si... Si... » do empregado do bar, um egípcio elegante e pretensioso, que se sentia só, mas que aquela mulher tornava circunspecto, e os dois americanos.

Dick estava sempre consciente do ambiente que o rodeava, enquanto Collis Clay vivia no vago, onde as impressões mais vivas se dissolviam numa espécie de aparelho de registo que se lhe atrofiara desde a infância, de modo que o primeiro falava e o segundo ouvia, como um homem sentado numa corrente de ar.

Dick, esgotado pelos acontecimentos daquela tarde, parecia querer culpar os italianos. Olhava à sua volta no bar, como se esperasse que algum o ouvisse e reagisse às suas palavras.

- Esta tarde, estive a tomar chá com a minha cunhada no Excelsior.

Ocupámos a única mesa que se encontrava vaga. Depois, chegaram dois homens e não encontraram mesa. Então, um deles veio ter connosco e perguntou: «Esta mesa não está reservada para a Princesa Orsini?» E eu respondi: «Que eu saiba, não.» Mas ele insistiu: «Creio que a mesa está reservada para a princesa Orsini.» Eu nem lhe dei resposta.

- E o que fez ele?

- Foi-se embora.

Dick balançou-se na cadeira e prosseguiu:

- Não gosto desta gente. Outro dia deixei a Rosemary sozinha durante dois minutos à porta de uma loja, e um oficial começou logo a pavonear-se em frente dela, de mão no chapéu.

- Não sei - disse Collis depois de uma pequena pausa. - Prefiro estar aqui do que estar em Paris, onde a qualquer momento nos estão a meter a mão no bolso.

Collis estava a divertir-se em Roma e recusava-se a deixar que lhe estragassem aquele prazer.

- Não sei - insistiu. - Eu não me importo de estar aqui.

Dick evocou a imagem que há dias se instalara na sua mente e examinou-a em pormenor. O caminho para o American Express, passando pelas confeitarias cheirosas da Via Nazionale, através do túnel enlameado, até chegar  às Escadas Espanholas, onde o seu espírito se extasiava diante das bancas de flores e da casa em que Keats morrera. Para ele, só as pessoas contavam; mal se apercebia dos lugares, a não ser em função do estado do tempo, até que eles adquirissem o colorido que é dado pelos acontecimentos tangíveis. Roma era o fim do sonho com Rosemary.

Um moço de recados veio entragar-lhe um bilhete, Dizia o seguinte:

«Não fui à festa. Estou no meu quarto. Partimos para Livorno amanhã de manhã cedo.»

Dick devolveu o bilhete ao rapaz e deu-lhe uma gorjeta. - Diga a Miss Hoyt que não me encontrou - pediu.

Voltando-se para Collis, sugeriu-lhe que fossem até aos Bonbonieri. Examinaram a prostituta que se encontrava no bar, demonstrando o inte-

resse mínimo que a sua profissão exigia, e ela lançou-lhes um olhar atrevido. Atravessaram o átrio deserto, opressivo com os seus reposteiros cobertos de poeira vitoriana, e acenaram ao porteiro do turno da noite que retribuiu o gesto com o servilismo amargo peculiar aos homens que trabalham de noite. Depois, tomaram um táxi e percorreram as ruas sem vida, naquela noite húmida de Novembro. Não se viam mulheres nas ruas, apenas homens pálidos de casaco escuro abotoado até ao pescoço, que se agrupavam junto de estátuas de pedra.

- Meu Deus! - suspirou Dick.

- Que se passa?

- Estava a pensar no homem desta tarde: «Esta mesa está reservada para

a princesa Orsini.» Sabe o que são estas velhas famílias romanas? São grupos de bandidos, os mesmos que se apoderaram dos templos e dos palácios depois da queda de Roma e pilharam tudo o que pertencia à população.

- Eu gosto de Roma - insistiu Collis. - Porque não tenta as corridas?

- Não gosto de corridas.

- Mas todas as mulheres lá vão...

- Sei que não gostaria de nada nesta cidade. Prefiro a França, onde todos pensam que são Napoleão. Aqui todos pensam que são Cristo.

Nos Bonbonieri entraram num cabaré, uma cave com painéis de madeira que parecia definitivamente inconsistente sob a fria estrutura da pedra. Uma orquestra incaracterística tocava um tango e uma dúzia de pares ocupava o amplo recinto, executando aqueles passos elaborados e graciosos, tão ofensivos ao olhar de um americano. Uma multidão de criados contribuía para aumentar a confusão; no ambiente pairava uma atmosfera de expectativa de que qualquer coisa acabasse, o baile, a noite, o equilíbrio de forças que mantinha a estabilidade. Qualquer cliente impressionável sabia que não encontraria ali o que procurava.

Isto era evidente para Dick. Olhou à sua volta, na esperança de se fixar em alguma coisa, para que o espírito, em vez da imaginação, o aguentasse por uma hora. Mas não achou nada e, momentos depois, voltou-se para Collis. Havia-lhe confiado algumas das suas mais vulgares opiniões e começava a aborrecer-se com a curta memória e a ausência de reacção do seu interlocutor.

Depois de meia-hora na companhia de Collis, sentia nitidamente que estava a perder vitalidade.

Beberam uma garrafa de espumante italiano, e Dick começou a ficar pálido e barulhento. Chamou para a mesa o chefe da orquestra, que era um negro das Bahamas, presumido e desagradável. Em poucos minutos gerou-se uma discussão.

- O senhor disse-me que me sentasse.

- Está bem. E dei-lhe cinquenta liras, não dei?

- Está bem, está bem, está bem.

- Está bem, eu dei-lhe cinquenta liras, não dei? E depois você vai e

pede-me que lhe dê mais algum!

- O senhor disse que me sentasse, não foi? Disse ou não disse?

- Eu disse-lhe que se sentasse mas dei-lhe cinquenta liras, não dei?

- Está bem, está bem.

Aborrecido, o negro levantou-se e foi-se embora, o que contribuiu para aumentar ainda o mau humor de Dick. Mas avistou uma rapariga que sorria para ele do outro lado da sala, e todas as formas ténues que o rodeavam ganharam perspectiva. Era uma jovem inglesa de cabelo loiro, bonita e de aspecto saudável. O seu sorriso era portador de um convite que Dick já conhecia, um convite que negava a carne no próprio acto de a oferecer.

- Parece-me que estão a fazer-lhe sinal, ou então já não percebo nada

- disse Collis.

Dick levantou-se e atravessou a sala na direcção da rapariga . - Quer dançar?

O inglês de meia-idade que a acompanhava disse, quase em tom de desculpa:

- Estou quase a ir-me embora.

Foram dançar. O entusiasmo fez passar o estado de embriaguez de Dick.

A rapariga sugeria-lhe todas as boas coisas inglesas. Na sua voz clara descobria jardins à beira-mar, e quando se afastou um pouco dela para a ver melhor, o que disse foi tão sincero que até a voz lhe tremeu. Quando o companheiro se fosse embora, prometeu ela, iria sentar-se à mesa deles. O inglês acolheu o regresso dela com mais desculpas e sorrisos.

Voltando para a sua mesa, Dick encomendou outra garrafa de espumante. - Ela faz-me lembrar alguém do cinema - disse. - Não me recordo

de quem.

E olhando por cima do ombro, impaciente: - Não percebo o que a leva a ficar ali.

- Gostava de entrar para o cinema - disse Collis, pensativo. - Espera-se que eu tome conta dos negócios do meu pai, mas isso não me seduz

muito. Sentar-me num escritório em Birmingham, durante vinte anos ...

A sua voz resistia à pressão da civilização materialista.

- Acha-se demasiado bom para isso? - perguntou Dick.

- Não, não era isso que eu queria dizer.

- Era sim.

- Como sabe o que me vai no pensamento? Se gosta tanto de trabalhar porque não pratica a medicina?

O mau humor de Dick indispusera-os, desta vez, mas, ao mesmo tempo, sentiam-se tontos com a bebida e pouco depois esqueceram tudo. Collis despediu-se e ambos trocaram um cumprimento efusivo.

- Pense no assunto - disse Dick com um ar sábio.

- Qual assunto?

- Sabe muito bem.

Era qualquer coisa referente à possibilidade de Collis se dedicar aos negócios do pai - um bom conselho.

Clay saiu. Dick acabou a garrafa e depois voltou a dançar com a rapariga domando o seu próprio corpo relutante com movimentos atrevidos e passos firmes e determinados. De repente, aconteceu uma coisa surpreendente. Dick estava a dançar, a música parou e a rapariga desapareceu.

- Viu-a?

- Quem?

- A rapariga com quem eu 'tava a dançar. Desapareceu de repente. Tem de 'tar no edifício.

- Não, não, aí é a casa de banho das senhoras.

Dick encostou-se ao balcão do bar. Estavam lá dois homens mas não conseguiu meter conversa com eles. Poderia ter-lhes contado tudo o que sabia sobre Roma e sobre as origens violentas das famílias Colonna e Gaetani, mas reconheceu que, para começo de conversa, seria talvez um pouco abrupto. De repente uma fila de bonequinhas que estavam na prateleira dos charutos caiu ao chão. Seguiu-se uma grande confusão e Dick teve a sensação de que fora ele o causador, por isso voltou para o cabaré e bebeu um café. Collis fora-se embora, a rapariga também, e parecia que não lhe restava senão regressar ao hotel e deitar-se com o coração magoado. Pagou a conta e pegou no chapéu e no sobretudo.

Havia água suja nas sarjetas e entre o empedrado tosco. Da Campagna, levantava-se um nevoeiro pantanoso, o suor de culturas exauridas, que tingia o ar da manhã. Quatro motoristas de táxi, de olhos pequenos e papudos, rodearam Dick. Um inclinou-se para ele com insistência e Dick teve de afastá-lo.

- Quanto Hotel Quirinal?

- Cento /ire.

Seis dólares. Abanou a cabeça e ofereceu trinta liras, que era o dobro da tarifa diurna, mas eles encolheram os ombros todos à uma e afastaram-se. - Trente-cinque /ire e mancie - disse, firmemente.

- Cento /ire.

Dick desatou a falar em inglês.

- Por meia milha? Vai levar-me por quarenta liras.

- Oh! no.

Dick sentia-se muito cansado. Abriu a porta de um dos táxis e entrou. - Para o Hotel Quirinal! - ordenou ao motorista, que se mantinha obstinadamente do lado de fora da janela. - Deixe esse riso de troça e leve-me ao Quirinal.

Dick saiu. À porta dos Bonbonieri alguém discutia com os motoristas de táxi e tentava agora explicar a Dick o que eles pretendiam. Um dos homens voltou a aproximar-se, insistindo e gesticulando, e Dick afastou-o. - Quero ir para o Hotel Quirinal.

- Ele diz que quer underd* liras - explicou o intérprete.

- Já percebi. Só lhe pago c'quenta liras. Pode ir andando - disse para o homem, que se aproximara dele. O homem mirou-o e cuspiu com desprezo.

A arrebatada impaciência que o perseguira durante toda a semana reacendeu-se em Dick, sob a forma de violência, o recurso honroso e tradicional dos americanos. Dick deu um passo em frente e esbofeteou o homem.

Os homens rodearam-no, ameaçadores, esbracejando, tentando atirar-se a ele. Encostado à parede, Dick defendia-se desajeitadamente, rindo um pouco, e durante uns minutos houve uma caricatura de luta, com fintas e socos no ar, uma espécie de dança emn frente da porta. Dick tropeçou e caiu; magoou-se mas lutou por se pôr de pé, agarrado por braços que, de repente, o largaram. Ouviu-se uma outra voz, armou-se nova discussão. Dick, encostado à parede, ofegante, sentia-se furioso pela humilhante situação em que se encontrava. Via que ninguém estava do seu lado, mas recusava-se a aceitar que não tinha razão.

Iriam à esquadra para se resolver o assunto. Dick recuperou o chapéu e, com alguém a segurar-lhe o braço, dobrou a esquina, seguido dos motoristas.

Na esquadra nua, à luz de uma lâmpada agonizante, encontravam-se vários carabineiros - ociosos. O capitão, sentado à secretária, ouviu o relato do sucedido, em italiano, da boca do indivíduo prestimoso que separara os contendores. De vez em quando, o homem apontava para Dick e deixava-se interromper pelos motoristas que soltavam imprecações e queixas. O capitão começou a dar sinais de impaciência. Levantou uma das mãos e os outros calaram-se. Então, voltou-se para Dick e perguntou:

- Spick italiano?

-Não.

- Spick francês?

- Oui - respondeu Dick, radiante.

- Alors. Éco u te. Va au Quirinal. Espêce d'endormi. Écoute: vous êtes

saoül. Payez ce que le chauffeur demande. Comprenez-vous?

Dick abanou a cabeça. - Non, je ne veux pas.

- Come?

- Je paierai quarante !ires. C'est bien assez.

O capitão levantou-se da cadeira.

- Écoute! - exclamou furioso. - Vous êtes saoül. Vous avez battu le chauffeur. Comme ct, comme ça.

Excitado, o homem dava socos no ar, para a direita e para a esquerda. - C'est bon que je vous donne la liberté. Payez ce qu'it a dit - cento lire. Va au Quirinal.

Humilhado e enfurecido, Dick olhou para ele: - Está bem - disse.

Dirigiu-se às cegas para a porta. Na sua frente, olhando-o ironicamente, encontrava-se o homem que o tinha trazido à esquadra.

- Vou-me embora - gritou Dick -, mas antes quero dar uma lição a este fedelho.

Passou pelos carabineiros embasbacados, aproximou-se do homem, que não deixava de sorrir com um ar trocista, e deu-lhe um murro no queixo. O homem caiu no chão.

Por instantes, ficou a gozar o seu triunfo, mas quando a primeira dúvida o atingiu, o mundo vacilou; foi atirado ao chão, e começou a ser selvaticamente agredido a soco e a pontapé. Sentiu o nariz partir-se e os olhos dançarem-lhe nas órbitas como se tivessem feito ricochete num elástico dentro da cabeça. Sentiu uma costela estalar debaixo de uma bota. Por momentos, perdeu os sentidos e quando recuperou a consciência estava sentado e algemado. Automaticamente, procurou desembaraçar-se. O oficial à paisana que ele deitara ao chão, esfregava o queixo com um lenço, à procura de sangue. Aproximou-se de Dick, recompôs-se, estendeu o braço e, com um murro, atirou-o ao chão.

Quando o doutor Diver ficou finalmente imóvel, despejaram-lhe um balde de água em cima. Ao sentir-se arrastado pelos punhos, abriu a custo um dos olhos e reconheceu, numa névoa sangrenta, o rosto sinistro mas humano de um dos motoristas de táxi.

- Vá ao Hotel Excelsior - pediu com voz fraca. - Mande chamar Miss Warren. Duzentas liras! Miss Warren. Due centi !ire! Seus porcos ... Oh, malditos ...

No meio do torpor e da névoa sangrenta, sufocado e soluçante, Dick sentiu-se arrastado ao longo de uma superfície irregular, até que foi deixado cair num pavimento de pedra. Os homens afastaram-se, ouviu-se o bater de uma porta e ele ficou só.

 

Baby Warren ficou acordada até à uma hora, a ler um dos curiosos contos sobre Roma de Marion Crawford. Depois foi até à janela e espreitou para a rua. Em frente do hotel, dois carabineiros, grotescos nas suas fardas, inchadas como velas ao vento, e nos seus chapéus de arlequim, pavoneavam-se de um lado para o outro. Ao vê-los, Baby lembrou-se do oficial que a olhara tão insistentemente à hora do almoço. Tinha a arrogância de um espécime alto de uma raça de gente baixa, sem outra obrigação que não fosse a de ser alto. Se se tivesse aproximado dela e lhe tivesse dito: «Venha daí», ela ter-lhe-ia respondido: «Por que não?» - pelo menos era o que lhe parecia agora, porque ainda se sentia deslocada num ambiente estranho.

A pouco e pouco, os seus pensamentos afastaram-se do oficial e dos dois carabineiros e concentraram-se em Dick. Baby meteu-se na cama e apagou a luz.

Pouco antes das quatro horas da madrugada, acordou com uma pan-

cada brusca na porta do quarto. - Quem é? - perguntou.

- O porteiro, minha senhora.

Baby vestiu o roupão e foi abrir a porta, ainda ensonada.

- O seu amigo Diver está em apuros. Teve problemas com a Polícia e foi preso. Mandou um táxi à procura da senhora e o motorista diz que ele lhe prometeu duzentas liras.

O homem fez uma pausa, à cautela, não fossem as suas palavras não merecer aprovação.

- O motorista diz que o senhor Diver está em maus lençóis. Teve um problema com a Polícia e está muito ferido.

- Eu desço já.

Com o coração a pulsar desordenadamente, Baby vestiu-se e dez minutos depois saía do elevador e entrava no átrio às escuras. O motorista que trouxera o recado já se fora embora; o porteiro chamou outro e indicou-lhe onde ficava a prisão. Durante o percurso, a escuridão ia-se dissipando lá fora e Baby, ainda sonolenta e muito nervosa, parecia não suportar aquele equilíbrio instável entre a luz e a escuridão. Era como se tivesse começado a correr contra o dia; por vezes, ao atravessar largas avenidas, parecia estar a ganhar, mas quando a força que a impelia se detinha por um momento,  logo o vento soprava impacientemente, aqui e ali, e a luz insidiosa recomeçava a aproximar-se. O táxi passou por uma fonte, cujo repuxo projectava uma sombra enorme, virou para uma rua tão curva que os edifícios pareciam inclinar-se e seguir o automóvel, e continuou a percorrer a calçada, aos solavancos. Parou, com um esticão, junto de duas guaritas que se destacavam de uma parede esverdeada de humidade. De repente, da penumbra violeta de uma arcada, chegou a voz de Dick, que gritava:

- Não há ingleses? Não há americanos? Não há ingleses? Não há ninguém? Oh meu Deus! Porcos italianos!

A voz estremeceu e Baby ouviu um baque surdo na porta. Em seguida a voz recomeçou:

- Não há americanos? Não há ingleses?

Guiando-se pela voz, Baby percorreu a arcada que desembocava num pátio, parou, confusa, e conseguiu localizar a pequena cela de onde partiam os gritos. Dois carabineiros levantaram-se de um salto, mas ela não lhes deu atenção e continuou a andar.

- Dick! O que se passa? - exclamou.

- Vazaram-me um olho, algemaram-me e depois espancaram-me, aque-

les brutos... aqueles ...

Olhando à volta, Baby dirigiu-se aos dois carabineiros.

- O que lhe fizeram? - perguntou-lhes em voz baixa, com um ar tão feroz que eles recuaram.

- Non capisco inglese.

Baby começou a amaldiçoá-los em francês; a sua raiva selvagem e confiante encheu a sala, envolveu-os e deixou-os encolhidos, tentando libertar-se da culpa de que ela os vestia.

- Façam qualquer coisa! Façam qualquer coisa!

- Não podemos fazer nada sem receber instruções.

- Bene. Bene.

Mais uma vez, Baby deixou que a sua fúria os causticasse, ao ponto de os dois homens ficarem cobertos de suor e pedirem desculpa pela sua impotência, olhando um para o outro com a consciência de que as coisas, afinal, estavam a correr muito mal. Baby dirigiu-se para a porta da cela e encostou-se a ela, quase a acariciou, como se pudesse fazer sentir a Dick a sua presença e autoridade, e gritou:

- Eu vou à embaixada e já volto.

Lançando um derradeiro olhar ameaçador aos carabineiros, saiu a correr. Quando chegou à Embaixada Americana, o motorista do táxi exigiu-lhe

o pagamento e Baby viu-se obrigada a pagar. Ainda era de noite quando subiu os degraus, a correr, e tocou à campainha. Depois de tocar três vezes, o porteiro, um inglês a cair de sono, veio abrir a porta.

- Preciso de falar com alguém, mas tem de ser já - disse ela.

- Não está ninguém acordado, minha senhora. Só abrimos às nove horas.

Impaciente, Baby passou por cima do facto.

- Isto é importante. Um homem, um americano, foi terrivelmente agredido. Foi preso pelos italianos.

- Agora não está ninguém acordado. Às nove horas ...

- Não posso esperar. Eles vazaram-lhe um olho. É meu cunhado e não

o deixam sair da prisão. Tenho de falar com alguém, não percebe? Enlouqueceu? Não fique aí a olhar para mim com essa cara de parvo!

- Eu não posso fazer nada, minha senhora.

- Tem de ir acordar alguém!

Baby agarrou-o pelos ombros e abanou-o com violência.

- É um caso de vida ou de morte. Se não vai acordar alguém, ainda lhe acontece alguma coisa, a si ...

- Peço-lhe que me largue, minha senhora.

De cima e por trás do porteiro, ouviu-se uma voz fatigada com o sotaque de Groton:

- Que aconteceu?

Aliviado, o porteiro respondeu:

- É uma senhora que está irritada comigo.

O homem afastara-se da porta para falar e Baby irrompeu no vestíbulo.

No patamar superior, acabado de levantar da cama e envolvido num roupão persa bordado a branco, estava um jovem singular. O seu rosto era de tom rosado, monstruoso e anormal que lembrava o de um morto-vivo, e por cima da boca parecia ter uma mordaça. Quando viu Baby refugiou-se na sombra.

- Que aconteceu? - repetiu.

Baby contou-lhe o que se passara e, na sua agitação, foi-se aproximando da escada. A meio da história, apercebeu-se de que o que lhe parecera uma mordaça não passava de uma faixa para alisar o bigode e de que o homem tinha o rosto coberto de creme. De qualquer modo, a cena integrava-se perfeitamente naquele pesadelo. O que ele tinha a fazer, gritava desesperada, era acompanhá-la à prisão e conseguir que soltassem Dick.

- O caso é muito feio - disse ele.

- Pois é - respondeu, conciliadora. - E então?

- Isso de tentar lutar com a Polícia... - crescia na sua voz um tom

de afronta pessoal. - Receio que não se possa fazer nada antes das nove horas.

- Antes das nove horas! - repetiu Baby, agastada. - Mas decerto pode fazer qualquer coisa! Pode acompanhar-me à prisão e impedir que lhe batam mais.

- Não temos autorização para fazer uma coisa dessas. Essas atribuições pertencem ao consulado. O consulado abre às nove horas.

O rosto do homem, impassível por causa da faixa, enfureceu Baby. - Eu não posso esperar até às nove horas. O meu cunhado diz que lhe vazaram um olho - está muito ferido! Tenho de fazer qualquer coisa por ele. Tenho de encontrar um médico.

Deixou-se dominar pelos nervos e começou a gritar, consciente de que o homem reagiria muito mais à sua excitação do que às suas palavras. - Tem de tratar deste caso. É seu dever proteger os cidadãos americanos que se encontram em dificuldades.

Mas ele era da costa leste e não se compadeceu. Vendo que ela não percebia a sua posição, abanou pacientemente a cabeça, compôs o roupão e desceu alguns degraus.

- Escreva num papel o endereço do consulado e dê-o a esta senhora

- disse 'ao porteiro. - Procure a morada do doutor Colazzo e o número do telefone e escreva-os também.

Depois, voltou-se para Baby com o ar de um Cristo exasperado e disse: - Minha senhora, o corpo diplomático representa o Governo dos Estados Unidos perante o Governo italiano. Nada tem a ver com a protecção dos cidadãos, excepto se receber instruções nesse sentido do departamento de Estado. O seu cunhado infringiu as leis deste país e foi preso tal como aconteceria a um italiano que se encontrasse em Nova Iorque. As únicas entidades que o podem deixar sair são os tribunais italianos e se o seu cunhado tiver de comparecer em tribunal pode pedir auxílio ao consulado, que protege os direitos dos cidadãos americanos. O consulado só abre às nove horas. Mesmo que ele fosse meu irmão, eu não poderia fazer nada ...

- Não pode telefonar para o consulado? - perguntou Baby, desesperada.

- Não podemos imiscuir-nos nos assuntos do consulado. Quando o cônsul chegar, às nove horas ...

- Não pode dar-me o endereço particular do cônsul?

Ele hesitou durante uma fracção de segundo, depois abanou a cabeça.

Tirou o papel das mãos do porteiro e estendeu-o a Baby. - Agora peço-lhe que me desculpe.

Encaminhou-a para a porta. Por instantes, a luz violeta da aurora incidiu sobre a máscara rosada e a faixa que suportava o bigode. No momento seguinte Baby ficou sozinha nos degraus da entrada. Estivera na embaixada precisamente dez minutos.

A praça em que se encontrava estava deserta, tirando um velho que apanhava pontas de cigarro com uma vara pontiaguda. Pouco depois, Baby apanhou um táxi e dirigiu-se para o consulado mas não encontrou lá ninguém a não ser três mulheres horríveis que esfregavam as escadas. Não perceberam que Baby pretendia apenas saber a morada do cônsul. Num súbito assomo de preocupação, Baby voltou a entrar no táxi e disse ao motorista que a levasse à prisão. O homem não sabia onde era, mas, utilizando as palavras sempre dritte, dextra e sinestra, Baby conduziu-o às imediações do edifício. Aí, apeou-se e percorreu um labirinto de ruas que lhe eram familiares. Mas os prédios pareciam todos iguais. Ao desembocar na Piazza d'Espagna avistou a American Express Company e o coração bateu-lhe mais depressa quando viu a palavra «American» na placa da entrada. Uma das janelas estava iluminada e Baby atravessou a praça a correr. Tentou abrir a porta mas estava fechada e lá dentro um relógio batia as sete horas. Depois, lembrou-se de Collis Clay.

Recordava-se do nome do hotel. Era uma vivenda abafada em mobiliário de pelúcia vermelha que ficava defronte do Excelsior. A recepcionista não se mostrou disposta a ajudá-la. Não tinha autorização para incomodar  o senhor Clay e recusou-se a permitir que Miss Warren subisse ao seu quarto sozinha. Finalmente, convenceu-se de que não se tratava de um caso amoroso e acompanhou-a lá.

Collis estava estendido na cama, nu. Chegara embriagado e, ao acordar, levou algum tempo a aperceber-se da sua nudez. Compensou-o mostrando-se excessivamente púdico. Levou as roupas para a casa de banho e vestiu-se à pressa, dizendo entre dentes:

- Caramba! Ela deve ter-me visto nesta figura.

Depois de fazerem alguns telefonemas, ele e Baby deram com a prisão e foram para lá.

A porta da cela estava aberta e Dick jazia prostrado numa cadeira na casa do guarda. O carabineiro lavara-lhe o sangue da cara, penteara-o e pusera-lhe o chapéu na cabeça. Baby ficou à porta, a tremer.

- O senhor Clay fica a fazer-lhe companhia. Eu vou buscar o cônsul e um médico - disse. - Está bem.

- Fique tranquilo.

- Está bem.

- Não me demoro.

Baby dirigiu-se de novo ao consulado. Já passava das oito horas e deixaram-na entrar para a sala de espera. Cerca das nove, o cônsul chegou e ela, já histérica de impotência e de fadiga, repetiu a história. O cônsul mostrou-se incomodado. Preveniu-a contra a inconveniência de armar sarilhos em cidades estrangeiras, mas o que mais o preocupava era que Baby esperasse lá fora. Desesperada, ela percebeu pela cara do homem que ele queria evitar a todo o custo ver-se envolvido na catástrofe. Enquanto aguardava que ele tomasse providências, foi fazendo alguns telefonemas para arranjar um médico. Havia mais pessoas na sala de espera e várias foram mandadas entrar para o gabinete do cônsul. Meia hora depois, Baby aproveitou a circunstância de uma das pessoas ir a sair e irrompeu pelo gabinete.

- Isto é um escândalo. Um cidadão americano foi espancado quase até à morte, atirado para a prisão, e o senhor não mexe um dedo para o ajudar. - Um momento, minha senhora ...

- Já esperei mais do que o suficiente. Acompanhe-me à cadeia e tire-o de lá!

- Minha senhora ...

- Nós somos pessoas de posição na América ... - A sua expressão endu-

receu. - Se não fosse o escândalo ... Tratarei de participar a sua indiferença ao organismo adequado. Se o meu cunhado fosse um cidadão britânico já há horas que estaria em liberdade, mas o senhor está mais preocupado com aquilo que a Polícia possa pensar do que com as suas atribuições.

- Minha senhora ...

- Ponha o chapéu e venha comigo imediatamente!

A alusão ao chapéu alarmou o cônsul, que começou a limpar os óculos à pressa e a remexer os papéis. Mas isso não lhe serviu de nada: a Mulher Americana, furiosa, aproximava-se dele com um ar ameaçador.

O temperamento arrasador e irracional que destruíra a estrutura moral de uma raça e que transformara um continente inteiro num jardim infantil era mais do que ele podia aguentar. Telefonou para o vice-cônsul. Baby tinha vencido.

Dick estava sentado na casa do guarda, junto de uma janela por onde o sol entrava a jorros. Collis e dois carabineiros acompanhavam-no e esperavam que acontecesse alguma coisa. Dick observava os carabineiros, no limitado campo de visão do seu olho operacional: eram camponeses toscanos, de lábios grossos, que dificilmente conseguia associar à brutalidade da noite anterior. Pediu a um deles que lhe fosse buscar uma cerveja.

A bebida deixou-o tonto e toda aquela aventura foi momentaneamente iluminada por um raio de humor sardónico. Collis estava convencido de que a rapariga inglesa tivera algo a ver com a catástrofe, mas Dick estava certo de que ela desaparecera muito antes de tudo se passar. Collis continuava obcecado pelo facto de Miss Warren o ter visto nu em cima da cama.

A fúria de Dick tinha esmorecido um tanto e sentia-se criminosamente irresponsável. O que lhe acontecera era tão horrível que nada poderia repará-lo, a menos que ele pudesse abafá-lo de todo - mas como isso não parecia possível, nada podia esperar. A partir de agora seria uma pessoa diferente, e no estado em que estava, tinha pressentimentos estranhos quanto a esse novo ser. Aquilo tudo tinha algo da impessoalidade dos actos divinos. Nenhum ariano adulto consegue tirar partido de uma humilhação; quando perdoa, ela já se tornou parte da sua vida, já se identificou com aquilo que o humilhou - um desfecho que neste caso era impossível.

Quando Collis falou de vingança, Dick abanou a cabeça em silêncio. Um oficial dos carabineiros, engomado, brunido e cheio de vitalidade, entrou de rompante na sala e os guardas puseram-se em sentido. Pegou na garrafa de cerveja vazia e dirigiu uma torrente de repreensões aos seus homens. Estava imbuído de um novo espírito e, na sua opinião, a primeira coisa a fazer era tirar a garrafa dali. Dick olhou para Collis e riu-se.

O vice-cônsul, um jovem atarefado de apelido Swanson, veio juntar-se-lhes e foram todos para o tribunal. Collis e Swanson ladeavam Dick e os dois carabineiros seguiam atrás. Estava uma manhã enevoada, amarelenta; as praças e as arcadas estavam cheias de gente e Dick, puxando o chapéu para os olhos, caminhava rapidamente, procurando impor o ritmo da passada, até que um dos carabineiros de pernas curtas veio ter com ele, a correr, e protestou. Swanson resolveu a questão.

- Eu estraguei-lhe a vida, não é verdade? - perguntou Dick com ar jovial.

- Você podia ter sido morto naquela luta com os italianos - respondeu Swanson com rispidez. - Talvez o soltem desta vez, mas se fosse italiano apanhava dois meses de cadeia. E de que maneira!

- Já alguma vez esteve preso? - perguntou Dick. Swanson riu-se.

- Simpatizo com ele - disse Dick a Clay. - É um jovem muito agradável e dá excelentes conselhos, mas aposto que já esteve preso, provavelmente durante semanas.

Swanson riu-se de novo.

- O que quero dizer é que deve ter cuidado. Não sabe como é esta gente.

- Oh, eu conheço-os muito bem - exclamou Dick, irritado. - São uns

malandros mal cheirosos.

E, voltando-se para os carabineiros: - Perceberam o que eu disse?

- Deixo-o aqui - disse Swanson à pressa. - Foi o que combinei com

a sua cunhada. Encontrar-se-á com o nosso advogado lá em cima, na sala de audiências. Seja prudente.

_ Adeus - disse Dick, apertando-lhe a mão com delicadeza. - E muito

obrigado. Sinto que você tem futuro ...

Com um novo sorriso, Swanson desapareceu, retomando a sua expressão oficial de desaprovação.

Os homens entraram num pátio com escadas exteriores que davam acesso às salas do andar de cima. Ao cruzarem as lajes do pátio, cresceram rugidos, assobios e apupos, as vozes cheias de fúria e desprezo dos ociosos que ali se encontravam. Espantado, Dick olhou à sua volta.

- O que é isto? - perguntou, aterrado.

Um dos carabineiros falou para um grupo de homens e fez-se silêncio. Entraram na sala de audiências. O advogado do consulado, um italiano

de aspecto modesto, falou muito tempo com o juiz, enquanto Dick e Collis esperavam, afastados. Alguém que sabia inglês afastou-se da janela que dava para o pátio e explicou a razão de ser do barulho que haviam feito à sua passagem. Um homem de Frascati tinha violado e assassinado uma criança de; cinco anos e deveria ser trazido para ali naquela manhã. A multidão convencera-se de que Dick era o criminoso.

Minutos depois, o advogado anunciou a Dick que estava livre - o tribunal considerara-o já suficientemente castigado.

- Suficientemente castigado! - exclamou Dick. - Mas castigado

porquê?

- Venha daí - disse Collis. - Agora não pode fazer nada.

- Mas o que fiz eu, à parte ter brigado com uns motoristas de táxi?

_ Eles queixaram-se de que você se dirigiu a um detective como se fosse cumprimentá-lo e acabou por agredi-lo ...

- Isso não é verdade! Eu avisei-o de que ia bater-lhe ... Eu não sabia que ele era detective.

- É melhor o senhor ir andando - insistiu o advogado.

- Venha - disse Collis, pegando no braço de Dick e ajudando-o a des-

cer a escada.

- Quero fazer uma declaração - exclamou Dick. - Quero explicar àquela gente como é que violei uma menina de cinco anos. Talvez seja verdade ...

- Venha.

Baby aguardava-o num táxi, acompanhada de um médico. Dick não quis encará-la e embirrou com o médico, cujos modos austeros revelavam que pertencia ao menos óbvio dos tipos europeus, o moralista latino.

Dick contou a sua versão do incidente, mas ninguém fez comentários. No seu quarto do Hotel Quirinal, o médico lavou-lhe o resto do sangue e o suor pegajoso, tratou-lhe o nariz, as costelas e os dedos fracturados, desinfectou-lhe pequenas feridas e fez-lhe um penso no olho. Dick pediu um quarto de grão de morfina, pois sentia-se muito excitado e nervoso. Com a morfina adormeceu. O médico e Collis foram-se embora e Baby esperou que chegasse uma enfermeira de uma casa de saúde inglesa. Fora uma noite difícil, mas tinha a satisfação de pensar que, fossem quais fossem os antecedentes de Dick, tinha agora um ascendente moral sobre ele, que duraria enquanto o cunhado tivesse alguma utilidade.

 

Frau Kaethe Gregorovius alcançou o marido na alameda da sua residência. - Como estava a Nicole? - perguntou com brandura.

Mas faltou-lhe o fôlego, denunciando que não pensara noutra coisa

durante a corrida.

Franz olhou-a surpreendido.

- A Nicole não está doente. Por que fazes essa pergunta, querida?

- Vais vê-la tantas vezes... Pensei que ela estivesse doente.

- Em casa falamos disso.

Kaethe concordou, submissa. O gabinete de Franz ficava no edifício da administração; os filhos encontravam-se na sala de estar com o professor. o casal foi para o quarto.

- Desculpa-me, Franz - disse Kaethe antes que ele pudesse falar. Desculpa-me, querido. Eu não tinha o direito de dizer aquilo. Sei quais são as minhas obrigações e orgulho-me delas. Mas existe um mal-estar entre mim e Nicole.

- Nos meios pequenos as pessoas têm obrigação de se dar bem - rugiu Franz.

Achando o tom desapropriado ao sentimento, repetiu a máxima no mesmo tom cadenciado que o seu velho mestre, o doutor Dohmler, utilizava para conferir significado à frase mais trivial:

- Nos meios pequenos as pessoas têm obrigação de se dar bem.

- Bem sei. Nunca me viste ser menos delicada para com a Nicole.

- Mas vejo que te falta senso comum. A Nicole é quase uma doente

e provavelmente nunca se curará por completo. Na ausência do Dick, eu sou responsável por ela.

Franz hesitou. Às vezes, por brincadeira, tentava ocultar as novidades à mulher.

- Esta manhã recebi um telegrama de Roma. O Dick tem estado com gripe e regressa amanhã.

Aliviada, Kaethe prosseguiu a conversa num tom mais impessoal:

- Creio que a Nicole é menos doente do que se pensa... o que ela faz é manobrar a doença como um instrumento de poder. Devia dedicar-se ao cinema, como a tua Norma Talmadge... Aí é que as mulheres americanas se sentem felizes.

- Tens ciúmes da Norma Talmadge, num filme?

- Eu não gosto de americanos. São egoístas, só pensam em si!

- E gostas do Dick?

- Gosto - admitiu Kaethe. - Ele é diferente, pensa nos outros.

«E Norma Talmadge, também», disse Franz com os seus botões. «Deve ser uma mulher bondosa e digna, para além de bela. Decerto é obrigada a desempenhar papéis idiotas. Deve ser um grande privilégio conhecer uma mulher como ela.»

Kaethe esquecera Norma Talmadge, uma sombra viva de que se queixara amargamente numa noite em que tinham ido ao cinema a Zurique e regressavam a casa de automóvel.

- O Dick casou com a Nicole por dinheiro - disse ela. - Essa foi a sua fraqueza, à qual tu aludiste uma noite.

- Estás a ser maldosa.

- Eu não devia ter dito isso - reconheceu Kaethe. - Temos de nos

dar bem, como tu dizes. Mas isso é difícil quando a Nicole age como se eu cheirasse mal, sempre a afastar-se e a suster a respiração!

Kaethe dera um exemplo concreto. Era ela que fazia a maior parte do trabalho da casa e, como era poupada, comprava pouca roupa. Uma rapariga americana que mudasse de roupa interior duas vezes por dia notaria em Kaethe um leve odor a transpiração retardada. Era menos um cheiro do que o odor a amoníaco que recorda a eterna realidade do trabalho e da decomposição. Para Franz ele era tão natural como o perfume pesado do cabelo da mulher, e teria mesmo dado pela sua falta, mas para Nicole, que odiava o cheiro das mãos das enfermeiras que a vestiam, constituía uma verdadeira ofensa.

- Além disso, ela não gosta que os filhos deles brinquem com os nossos - continuou Kaethe.

Mas Franz já tinha ouvido o suficiente:

- Vê se te calas. Esse tipo de conversa pode prejudicar-me profissionalmente, uma vez que devemos esta clínica ao dinheiro da Nicole. Vamos almoçar.

Kaethe apercebeu-se de que o seu desabafo não fora oportuno, mas o último comentário de Franz fez-lhe lembrar que havia outros americanos que tinham dinheiro. Uma semana mais tarde, manifestou o seu desagrado por Nicole em novos termos.

A ocasião escolhida foi o jantar para o qual convidaram os Diver logo após o regresso de Dick. Ainda o som dos passos dos visitantes ecoava no caminho e já ela fechava a porta e dizia a Franz:

- Reparaste nas olheiras dele? Deve ter andado num autêntico deboche!

- Tem calma! - pediu Franz. - O Dick contou-me o que se passou

assim que cá chegou. Andou a jogar boxe a bordo do transatlântico. É uma prática habitual entre os americanos.

- E achas que eu acredito nisso? - troçou Kaethe. - Custa-lhe a mexer o braço e tem uma ferida por cicatrizar numa das têmporas. Percebe-se perfeitamente que o cabelo foi rapado naquele sítio.

Franz não tinha reparado naqueles pormenores.

- E achas que coisas como essas são boas para a clínica? Bem senti

o cheiro a álcool dele, esta noite, e já não é a primeira vez, desde que voltou.

Kaethe baixou o tom de voz, de acordo com a gravidade do que ia dizer: - O Dick deixou de ser um homem sério.

Franz encolheu os ombros, cansado da insistência da mulher. Já no quarto, voltou ao assunto:

- Mas ele é, sem dúvida, um homem honesto e brilhante. De todos os que se formaram em neuropatologia em Zurique ultimamente, ele foi considerado o mais brilhante, muito mais do que eu alguma vez serei.

- Que disparate!

- É verdade. Disparate seria não o admitir. Em casos complicados

recorro sempre ao Dick. Os livros que publicou continuam a servir de modelo. Basta entrares em qualquer livraria médica e perguntares. A maior parte dos estudantes pensa que ele é inglês... Não acreditam que tanta profundidade possa vir da América.

Franz ia resmungando enquanto tirava o pijama debaixo da almofada. - Não percebo por que falas dessa maneira, Kaethe... Pensei que gostasses dele.

- Não digas disparates! - respondeu Kaethe. - Tu és o elemento sólido, o que trabalha. Temos aqui a fábula da lebre e da tartaruga e, na minha opinião, a lebre está quase a parar.

- Imagine-se!

- Está bem. É mentira.

Com a mão aberta, Franz fez-lhe rudemente sinal para que se calasse. No fim, acabaram por trocar de pontos de vista, como se estivessem num

verdadeiro debate. Kaethe admitiu para si própria que fora demasiado dura para com Dick, a quem admirava e respeitava e que se mostrara sempre compreensivo para com ela. Quanto a Franz, a partir do momento em que a ideia de Kaethe criou raízes nele, nunca mais acreditou na seriedade de Dick. E, à medida que o tempo ia passando, convenceu-se de que sempre assim pensara.

 

Dick deu a Nicole uma versão depurada da catástrofe de Roma: cheio de altruísmo, fora em socorro de um amigo embriagado. Podia contar com a descrição de Baby Warren, depois de ter aludido ao efeito desastroso que a verdade teria sobre Nicole. No entanto, isso era muito pouco, comparado com o efeito prolongado que o episódio exercera nele.

Como reacção, dedicou-se ao trabalho com afinco, ao ponto de Franz não ter conseguido arranjar um pretexto para entrar em conflito com ele. Não existe amizade digna desse nome que seja destruída numa hora sem sofrimento. Por isso Franz deixou-se cada vez mais convencer de que Dick viajava, intelectual e emocionalmente, a tal velocidade que acabava por se chocar com ele - um contraste que até então fora considerado uma virtude na relação de ambos. Mas quando não se tem razão, qualquer desculpa serve.

No entanto, em Maio, Franz ainda não conseguira uma oportunidade para desferir o primeiro golpe.

Um dia Dick, pálido e com um ar fatigado, entrou no seu gabinete,

sentou-se e disse:

- Pronto, acabou-se.

- Morreu?

- O coração não aguentou.

Dick sentara-se, exausto, na cadeira que ficava mais perto da porta.

Durante três noites permanecera à cabeceira daquela artista anónima, a quem acabara por amar, com o pretexto de dosear a adrenalina mas, na realidade, tentando iluminar o mais possível a escuridão que a aguardava.

Já quase a comover-se com o gesto de Dick, Franz apressou-se a adiantar uma opinião:

- Era neuro-sífilis. Todas as análises o confirmaram. O fluido espinal...

- Não interessa - disse Dick. - Oh, meu Deus, isso não interessa!

Já que quis levar o seu segredo para o túmulo, deixemo-la em paz. - É melhor você tirar um dia de descanso.

- Não se preocupe, é o que vou fazer.

Franz descobrira o seu pretexto. Levantando o olhar do telegrama que estava a redigir para o irmão da falecida, perguntou:

- Ou prefere ir fazer uma pequena viagem?

- Agora, não.

- Não me refiro a uma viagem de recreio. Há um caso em Lausanne.

Hoje passei a manhã ao telefone com um chileno...

- Ela tinha tanta coragem! E sofreu durante tanto tempo! - disse Dick. Franz abanou a cabeça com um ar compreensivo e Dick fez o possível por dominar-se.

- Desculpe tê-lo interrompido - rematou.

- Seria apenas uma mudança de ambiente. Trata-se de um pai que tem problemas com o filho, mas não consegue trazê-lo para cá. Quer que alguém vá ao seu encontro.

- Mas de que se trata? Alcoolismo? Homossexualidade? Quando se fala

em Lausanne...

- Um pouco de tudo isso.

- Eu vou até lá. E este caso traz dinheiro?

- Bastante, penso eu. Conte com uma estada de dois ou três dias, traga o rapaz para aqui se ele precisar de ser vigiado. De qualquer modo, vá à vontade, demore o tempo que quiser. Junte o útil ao agradável.

Depois de duas horas de sono no comboio, Dick sentiu-se como novo e compareceu bem disposto ao encontro com o Seiior Pardo y Ciudad Real.

Estes encontros eram quase sempre do mesmo tipo. Muitas vezes a histeria do familiar era psicologicamente tão interessante como a situação do paciente. E este caso não constituía excepção: o Seiior Pardo y Ciudad Real, um espanhol de cabelo grisalho, elegante, distinto e com todos os atavios da riqueza e do poder, atroou os ares dos seus aposentos, no Hotel des Trois Mondes, com a história do filho, com tanto autodomínio como uma bêbeda:

- Já não posso iludir-me mais. O meu filho é um depravado. Mostrou que o era em Harrow, e no King's College, em Cambridge. É um depravado incorrigível. Agora que surgiu o problema da bebida torna-se cada vez mais óbvio o que ele é, e os escândalos são constantes. Já tentei tudo. Cheguei a arquitectar um plano com um médico meu amigo e mandei-os juntos numa viagem pela Espanha. Todas as noites Francisco levava uma injecção de cantáridas e depois iam os dois para um bordel bem conceituado. Durante uma semana o processo pareceu resultar, mas depois viu-se que era um fracasso. Por fim, a semana passada, nesta mesma sala, ou melhor, ali na casa de banho, obriguei o Francisco a despir-se até à cintura e dei-lhe uma tareia de chicote.

Exausto de emoção, o homem sentou-se e Dick conseguiu falar:

- Isso foi um disparate... E essa viagem a Espanha também não teve qualquer utilidade... - Procurou dominar uma súbita hilaridade. Como era possível que um médico de reputação pudesse ter colaborado naquela experiência amadorística? - Devo preveni-lo, Señor, de que nestes casos não podemos prometer nada. Quanto à bebida, é frequente obtermos alguns resultados, com a devida colaboração. A primeira coisa a fazer é ver o rapaz, ganhar a sua confiança e descobrir o que pensa ele de tudo isso.

Dick e o rapaz foram sentar-se no terraço. Tinha vinte anos e era bem parecido e vivo.

- Gostaria de saber qual é a sua posição - disse Dick. - Acha que a situação está a piorar? E quer fazer alguma coisa por ela?

- Creio que sim. Sinto-me muito infeliz - respondeu Francisco. - E a que a atribui? À bebida ou à outra anomalia?

- Creio que a bebida é causada pela outra.

Por instantes, o rapaz falou a sério mas, de repente, começou a rir-se e acrescentou:

- Não há nada a fazer. No King's College eu era conhecido por Rainha do Chile. E aquela viagem a Espanha... Tudo o que conseguiu foi que eu fique com náúseas sempre que vejo uma mulher.

Dick interrompeu-o com rudeza:

- Se se sente feliz no meio dessa degradação, então não poderei ajudá-

-lo e estou a perder o meu tempo.

- Não, vamos conversar... Eu próprio desprezo os outros que são como

eu.

Havia no rapaz uma certa virilidade que agora se pervertera numa resistência activa ao pai. Mas tinha o ar tipicamente malicioso dos homossexuais sempre que discutem o assunto.

- É um beco sem saída - disse Dick. - Você vai passar o resto da vida enfronhado nessa situação, suportando as consequências, e não terá tempo nem energia para tomar parte em qualquer acto social decente. Se quer enfrentar o mundo, tem de começar por controlar a sua sensualidade... E, em primeiro lugar, a bebida que a estimula...

Dick falava maquinalmente. Na realidade já há dez minutos que deixara de pensar naquele caso. Mantiveram uma conversa agradável durante mais uma hora sobre a casa do rapaz, no Chile, e sobre as suas ambições. Dick nunca compreendera ninguém tão bem como desta vez, para além do ponto de vista patológico - apercebeu-se de que o encanto de Francisco avalizava os seus próprios excessos e, para Dick, o encanto tinha sempre uma existência independente, quer assumisse a forma da bravura desmedida da desgraçada mulher que morrera na clínica naquela mesma manhã, quer fosse a graciosidade corajosa que este jovem emprestava a uma história já tão velha. Dick tentou dissecá-la em inúmeras parcelas, suficientemente pequenas para as poder arrumar no espírito, ciente de que a totalidade da vida de uma pessoa pode ser qualitativamente diferente dos seus segmentos, mas também de que, aos quarenta anos, essa era talvez a única maneira de encarar a vida. O seu amor por Nicole e Rosemary, a sua amizade por Abe North, por Tommy Barban, no universo despedaçado do fim da guerra - parecia que de tal maneira estas pessoas se haviam agarrado a ele que ele se havia transformado nelas próprias -, davam-lhe a sensação de que deveria apoderar-se de tudo ou de nada. Era como se estivesse condenado até ao fim da vida a carregar consigo o ego de outros seres que em tempos conhecera e amara e a só ser completo na medida em que eles próprios o fossem. Havia em tudo isto um toque de solidão - era tão fácil ser amado e tão difícil amar.

Quando estava na varanda com o jovem Francisco, materializou-se perante ele um fantasma do passado. Um homem alto, bamboleando-se de uma  forma singular, destacou-se dos arbustos e aproximou-se deles, um tanto indeciso. A princípio, parecia de tal modo fazer parte da paisagem exuberante que Dick quase não deu pela sua presença. Depois levantou-se, apertou-lhe a mão com um ar abstracto e pensou: «Meu Deus, vim mexer num ninho de vespas!», enquanto tentava lembrar-se do nome do homem.

- É o doutor Diver, não é?

- Ah... Senhor Dumphry?

- Royal Dumphry. Tive o prazer de jantar uma noite consigo naquele

jardim encantador, em sua casa. - Claro.

Tentando arrefecer o entusiasmo do senhor Dumphry, Dick remeteu-se

à cronologia impessoal:

- Foi em mil novecentos e... vinte e quatro... ou vinte e cinco. Ficara de pé, mas Royal Dumphry, embora a princípio parecesse tímido, não mostrava pressa em se retirar. Dirigiu-se a Francisco num tom familiar, mas este, pouco à vontade, juntou-se a Dick na tentativa de o afastar.

- Doutor Diver, quero dizer-lhe uma coisa antes de partir. Nunca esqueci aquela noite no seu jardim, nem a simpatia de que o senhor e a sua mulher me rodearam. É uma das mais gratas recordações da minha vida. Foi a festa mais civilizada a que alguma vez já fui.

Como um caranguejo, Dick continuava a recuar para a porta mais próxima do hotel.

- Fico satisfeito por conservar uma recordação tão agradável. Agora tenho de...

- Compreendo - prosseguiu Royal Dumphry com um ar conciliador. -

Ouvi dizer que ele está a morrer. - Quem é que está a morrer?

- Talvez eu não devesse dizer-lho, mas temos o mesmo médico.

Dick fez uma pausa e olhou-o, espantado. - De quem está a falar?

- Do pai da sua mulher, claro... Talvez eu...

- De quem?

- Eu supunha que... Quer dizer que eu sou a primeira pessoa a...

- Quer dizer que o pai da minha mulher está aqui em Lausanne?

- Pensei que sabia... Pensei que era esse o motivo por que estava aqui.

- Qual é o médico que está a tratá-lo?

Dick tomou nota do nome na agenda, desculpou-se e correu para a cabina telefónica.

O doutor Dangeu não viu inconveniente em que o doutor Diver fosse imediatamente a sua casa para ter uma conversa com ele.

O doutor Dangeu era um homem novo, natural de Genebra. Por instantes, receou perder um cliente lucrativo, mas quando Dick o sossegou, ele revelou-lhe que o senhor Warren estava mesmo a morrer.

- Ele tem apenas cinquenta anos, mas o fígado já não funciona, e o alcoolismo é um factor agravante.

- E ele não está a reagir?

- Não consegue ingerir nada a não ser líquidos. Dou-lhe três dias de vida, uma semana, no máximo.

- E a filha mais velha, Miss Warren, está ao corrente da situação?

- Por desejo expresso do doente ninguém sabe o que se passa, a não

ser o criado. Só esta manhã senti que deveria avisá-lo. Recebeu a notícia com excitação, embora se tenha mostrado bastante resignado desde o princípio da doença.

Dick ficou a pensar. Depois lentamente, tomou uma decisão:

- Bem, de qualquer modo, eu represento a família. Mas creio que esta talvez gostasse de consultar uma junta médica.

- Como quiser.

- Sei que posso falar em nome dos parentes ao pedir-lhe para mandar chamar um dos médicos mais reputados da zona do lago: o doutor Herbrugge, de Genebra.

- Estava precisamente a pensar nele.

- Entretanto, eu fico aqui por mais um dia, pelo menos, e vou-me man-

tendo em contacto consigo.

Naquela noite, Dick foi ter com o Seiior Pardo y Ciudad Real e estiveram a conversar.

- Temos grandes propriedades no Chile - disse o velho. - O meu filho bem poderia tomar conta delas. Também posso pô-lo à frente de uma das doze empresas de que sou dono em Paris...

O homem abanou a cabeça e caminhou ao longo das janelas. Lá fora caía uma chuva de Primavera, tão fraca que os cisnes nem se abrigavam. - O meu único filho! Não pode levá-lo consigo? - perguntou de repente, ajoelhando-se aos pés de Dick. - Não consegue curar o meu único filho? Eu confio em si - pode levá-lo consigo e curá-lo.

- É impossível que alguém se comprometa até esse ponto. Eu não o

faria, mesmo que pudesse.

O espanhol levantou-se.

- Fui apressado... Deixei-me arrastar por...

Ao descer ao átrio, Dick encontrou o doutor Dangeu no elevador. - Ia agora ter consigo ao quarto. Podemos conversar no terraço?

- O senhor Warren morreu? - perguntou Dick.

- Está na mesma. Vai ser examinado amanhã de manhã. Entretanto,

está ansioso por ver a filha, a sua mulher. Parece que houve uma discussão... - Eu estou a par disso.

Os médicos entreolham-se, pensativos.

- Porque não fala com ele antes de tomar uma decisão? - sugeriu Dan-

geu. - Terá uma morte elegante. Vai enfraquecer a pouco e pouco até expirar.

Fazendo um esforço, Dick acedeu. - Está bem.

Os aposentos em que Devereux Warren enfraquecia suave e elegantemente eram tão grandes como os do Seiior Pardo y Ciudad Real. Naquele hotel muitos quartos estavam ocupados por ricos arruinados, foragidos da justiça e pretendentes ao trono de principados, que viviam à base de opiáceos  e barbitúricos, eternamente atentos às feias melopeias dos seus velhos pecados, como se saíssem de um rádio omnipresente. Este recanto da Europa não só atrai as pessoas como também as aceita sem perguntas inconvenientes. Aqui cruzam-se rotas - gente que procura clínicas particulares ou sanatórios algures nas montanhas, gente que se tornou persona non grata em França ou em Itália.

O quarto estava às escuras. Uma freira de rosto beatífico cuidava do homem, cujos dedos enfraquecidos seguravam um rosário sobre o lençol branco. Devereux Warren era ainda atraente e a sua voz conservava um cunho muito pessoal quando se dirigiu a Dick, depois de Dangeu os ter deixado sós.

- No fim da vida compreendemos uma série de coisas. Só agora, doutor Diver, as vejo com clareza.

Dick ficou à espera.

- Tenho sido um homem mau. Como deve saber, praticamente não me assiste o direito de voltar a ver a Nicole; no entanto, Alguém superior a nós diz-nos para perdoar e para sermos caridosos.

O rosário escorregou-lhe das mãos e deslizou pela colcha macia da cama.

Dick apanhou-o e entregou-lho.

- Se eu pudesse voltar a ver a Nicole por dez minutos, partiria feliz deste mundo.

- Não é uma decisão que eu possa tomar sozinho - respondeu Dick. A Nicole não é forte. - Já tinha decidido mas fingia estar hesitante. - Vou expor o caso ao meu sócio.

- Acatarei o que o seu sócio resolver... Muito bem, doutor. Deixe-me

dizer-lhe que a minha dívida para consigo é tão grande...

Dick levantou-se rapidamente.

- O doutor Dangeu comunicar-lhe-á o resultado.

Já no seu quarto, Dick telefonou para a clínica do Zugersee. Depois de muito tempo, Kaethe respondeu de casa.

- Eu precisava de falar com o Franz.

- O Franz foi para a montanha e eu também vou lá. É qualquer coisa

que eu possa transmitir-lhe, Dick?

- É acerca da Nicole. O pai dela está a morrer, aqui em Lausanne. Diga isto ao Franz, para que ele se aperceba da importância do caso. E peça-lhe que me telefone de lá.

- Pode ficar descansado.

- Diga-lhe que eu fico no meu quarto das três às cinco e de novo das

sete às oito. Depois disso poderá procurar-me na sala de jantar.

Com a preocupação de estabelecer o horário, Dick esqueceu-se de acrescentar que Nicole não deveria ser avisada. Quando se lembrou, já tinham desligado do outro lado do fio. Mas Kaethe decerto compreenderia.

Kaethe não tinha qualquer intenção de falar do telefonema a Nicole enquanto subia a encosta deserta, repleta de flores da montanha e de ventos secretos, onde os doentes iam esquiar no Inverno e passear na Primavera. Ao sair do comboio, avistou Nicole, guiando as crianças num jogo ruidoso. Aproximou-se, passou-lhe docemente um braço pelos ombros e disse:

- Tem muito jeito para lidar com as crianças. No Verão, tem de ensiná-

-las a nadar.

Durante a brincadeira tinham transpirado e o reflexo de Nicole ao afastar-se do braço de Kaethe foi tão automático que chegou a ser rude. A mão de Kaethe caiu desamparada, e foi então que ela teve uma reacção deplorável. - Pensava que eu ia abraçá-la? - Perguntou com rispidez. - Ia falar-

-lhe do Dick. Falei com ele ao telefone e lamento...

- Passa-se qualquer coisa com o Dick?

De repente Kaethe apercebeu-se do seu erro, mas já fora longe demais

e não havia alternativa senão responder às sucessivas perguntas de Nicole. -... então porque lamenta?

- Não é nada com o Dick. Preciso falar com o Franz.

- É qualquer coisa acerca do Dick.

O seu rosto era o espelho do terror e os filhos, que andavam por ali, ficaram alarmados.

Kaethe fraquejou:

- O seu pai está em Lausanne, muito doente. É sobre isso que o Dick quer falar com o Franz.

- Ele está muito doente? - perguntou Nicole, precisamente no momento em que Franz vinha a chegar com a sua jovialidade profissional. Aliviada, Kaethe passou-lhe a responsabilidade, mas o mal já estava feito.

- Vou a Lausanne - anunciou Nicole.

- Um minuto - disse Franz. - Não estou certo de que seja aconse-

lhável. Primeiro tenho de telefonar ao Dick.

- Nesse caso, eu perderia o comboio - protestou Nicole - e não apanharia o que sai às três horas de Zurique! Se o meu pai está a morrer, eu tenho... - Nicole susteve-se com medo de prosseguir. - Eu tenho de ir. E tenho de ir depressa para apanhar o comboio.

Ainda não tinha acabado a frase e já Nicole desatara a correr, ao longo da fila de carruagens barulhentas e ofegantes que subiam a colina nua. Já de longe, ainda gritou:

- Se telefonar ao Dick, Franz, diga-lhe que eu vou para lá!

Dick estava no seu quarto a ler The New York Herald quando a freira, com as suas vestes pretas e brancas, entrou apressada. Ao mesmo tempo, o telefone começou a tocar.

- Morreu? - perguntou Dick, esperançado.

- Monsieur, il est parti... ele foi-se embora.

- Comment?

- Il est parti... e o criado e a bagagem também!

Era inacreditável que um homem naquele estado pudesse ter-se levantado e partido.

Dick atendeu o telefone. Era Franz.

- Você não devia ter avisado a Nicole - protestou Dick.

- Foi a Kaethe que lhe disse, inadvertidamente.

- Suponho que a culpa foi minha. Nunca devemos contar nada a uma mulher senão depois de as coisas terem passado. Bem, vou esperar a Nicole...

Sabe, Franz, que aconteceu aqui uma coisa incrível? O velho levantou-se da cama e pôs-se a andar...

- O quê? O que é que você disse?

- Disse que se pôs a andar, o velho Warren!

- E por que não haveria de fazê-lo?

- Lembre-se de que ele estava a morrer... Levantou-se e partiu, voltou

para Chicago, segundo creio... Não sei, a enfermeira está aqui ao pé de mim... Não sei, Franz, acabo de saber a notícia... Telefone-me mais tarde.

As duas horas seguintes foram passadas a tentar descobrir os movimentos de Warren. Este aproveitara-se da mudança de turno das enfermeiras e esgueirara-se para o bar, onde bebera quatro uísques de um trago. Pagara a conta do hotel com uma nota de mil dólares, dera instruções para que lhe enviassem o troco mais tarde e partira, presumivelmente para a América. No último instante, Dick e Dangeu lembraram-se de que talvez pudessem ainda apanhá-lo na estação, mas a única coisa que Dick conseguiu foi desencontrar-se de Nicole. Quando finalmente se encontraram no átrio do hotel, ela pareceu-lhe, de repente, cansada e havia na sua boca uma crispação que o deixou inquieto.

- Como está o meu pai? - perguntou ela.

- Está muito melhor. Afinal parece que tinha uma boa reserva de

energia.

Dick hesitou, tentando prepará-la para a notícia, e concluiu: - A verdade é que ele se levantou e foi-se embora.

Estava com sede, pois a busca ocupara-lhe a hora de jantar, e levou-a, ainda confusa, até ao bar. Instalaram-se em poltronas de couro, pediram um uísque e uma cerveja e continuaram a conversa.

- O médico que estava a tratar dele deve ter-se enganado no diagnóstico, ou qualquer coisa assim - ainda nem tive tempo para pensar nisso.

- Ele foi-se embora?

- Tomou o comboio da noite para Paris.

Ficaram em silêncio. Uma imensa e trágica apatia fluía de Nicole. - Foi o instinto - disse Dick por fim. - Ele estava mesmo a morrer,

mas tentou recuperar as energias. Não é a primeira pessoa que se levanta do seu leito de morte. É como um velho relógio - abanamo-lo e, um pouco por hábito, ele recomeça a trabalhar. Ora o teu pai...

- Oh, poupa-me - disse Nicole.

- A sua força motriz foi o medo - prosseguiu Dick. - Assustou-se

e lá foi ele. Provavelmente viverá até aos noventa...

- Por favor, não me digas mais nada. Por favor, eu não suportaria pediu Nicole.

- Está bem. O rapaz que eu vim ver é um caso perdido. Amanhã voltamos para casa.

- Não vejo porque é que tens... porque tiveste de te meter em tudo isto

- explodiu ela.

- Ai não? Às vezes, também eu não sei porquê. Ela acariciou-lhe a mão e disse:

- Desculpa-me, Dick. Eu não devia ter dito isto.

Alguém trouxe um gramo fone para o bar, e ali ficaram os dois a ouvir O Casamento da Boneca Pintada.

 

Uma semana mais tarde, de manhã, ao passar pela secretária para ver o correio, Dick apercebeu-se de que lá fora reinava um ambiente fora do vulgar. Von Cohn Morris, um dos doentes, ia-se embora. Os pais, australianos, arrumavam resolutamente a bagagem no interior de uma enorme limusina e, ao seu lado, o doutor Ladislau protestava em vão contra os gestos violentos do senhor Morris. O jovem observava os preparativos da partida com um cinismo distante, no momento em que o doutor Diver se aproximou.

- Tudo isto é um pouco súbito, não acha, senhor Morris?

Assim que avistou Dick, o senhor Morris deu um salto. O seu rosto corado e os grandes quadrados do fato pareciam acender-se e apagar-se como pequenas lâmpadas. Aproximou-se de Dick como se fosse agredi-lo.

- Já é altura de nos irmos embora, nós e os que vieram connosco. O senhor Morris fez uma pausa para retomar o fôlego e continuou: - Já é altura, doutor Diver! Já é altura!

- Não quer vir ao meu gabinete? - sugeriu Dick.

- Eu, não! Posso falar consigo, mas lavo as mãos de tudo isto.

Levantou um dedo na direcção de Dick e continuou:

- Estava precisamente a dizer isso ao doutor. Perdemos tempo e dinheiro. O doutor Ladislau agitou-se, numa débil negativa em que transparecia

vagamente a atitude evasiva típica dos eslavos. Dick nunca gostara de Ladislau. Conseguiu encaminhar o exaltado australiano para o seu gabinete, tentando convencê-lo a entrar, mas o homem abanou a cabeça.

- É o senhor o culpado, doutor Diver. Fui ter com o doutor Ladislau porque não o encontrei, doutor Diver, e porque o doutor Gregorovius só deve chegar à noite e eu não posso esperar. Não senhor! Eu não esperaria nem mais um minuto depois de o meu filho me ter contado a verdade.

Com um ar ameaçador, aproximou-se de Dick, que conservava as mãos livres para o caso de ser necessário defender-se de uma agressão.

- O meu filho está aqui para se curar do alcoolismo e disse-me que o senhor também cheirava a álcool. Isso mesmo!

O senhor Morris fungou, aparentemente sem resultado, e continuou: - Não foi uma vez, foram duas em que Von Cohn notou que o senhor cheirava a álcool. Eu e a minha mulher nunca bebemos uma gota na nossa vida. Trazemos Von Cohn para aqui para se curar, e no espaço de um mês  ele nota que, por duas vezes, o senhor cheira a álcool. Qu raio de cura é esta?

Dick hesitou. O senhor Morris seria muito capaz de fazer uma cena ali mesmo, na clínica.

- Afinal, senhor Morris, as pessoas não vão desistir daquilo que consideram fazer parte da sua alimentação por causa do seu filho...

- Mas, ó homem, você é um médico! - exclamou o senhor Morris, furioso. - Se um operário se encharca em cerveja, tanto pior para ele... Mas a sua profissão é curar...

- Isto já foi longe de mais. O seu filho veio para aqui por causa da cleptomania.

- E o que estava por trás disso? - O homem esganiçava-se todo. A bebida. Um tio meu foi enforcado por causa disso, está a ouvir? O meu filho vem para uma clínica e um dos médicos tresanda a álcool.

- Sou obrigado a pedir-lhe que se retire.

- Você está a pedir-me que me retire? Nós é que nos vamos embora!

- Se fosse um pouco mais moderado, podíamos relatar-lhes os resulta-

dos obtidos até agora. É claro que se é isso que pensa, não queremos mais o seu filho como doente...

- Atreve-se a usar a palavra «moderado» aplicada a mim?

Dick chamou o doutor Ladislau, e quando este se aproximou, disse-lhe: - Faça o favor de apresentar por mim os cumprimentos de despedida

a este doente e à sua família.

Fez uma pequena vénia a Morris, entrou no gabinete e, por instantes, ficou hirto junto da porta. Viu-os irem-se embora, os pais grosseiros e o rebento degenerado. Não era difícil antever as suas andanças pela Europa, agredindo tudo e todos com a sua ignorância e o seu dinheiro. Mas o que preocupava Dick, depois de a caravana ter desaparecido, era saber até que ponto ele fora o causador de tudo aquilo. Bebia clarete às refeições, rum aquecido à noite e, às vezes, um pouco de gin à tarde. O gin era o mais difícil de detectar. Em média ingeria dois decilitros e meio de álcool por dia, mais do que o organismo podia eliminar.

Reprimindo a tendência para se justificar, sentou-se à secretária e prescreveu um regime que reduzia para metade a quantidade de álcool a ingerir. Médicos, motoristas e pastores protestantes nunca deveriam cheirar a álcool, ao contrário de pintores, correctores e comandantes de cavalaria. Dick censurou-se pela sua indiscrição. Mas o assunto não estava de modo nenhum esclarecido quando, meia hora depois, Franz chegou, revivificado por duas semanas nos Alpes, tão desejoso de retomar o trabalho que mergulhou nele antes mesmo de chegar ao gabinete. Foi ali que Dick o encontrou.

- Como estava o Monte Evereste?

- Podíamos muito bem ter escalado o Monte Evereste, à velocidade a

que Íamos. Chegámos a pensar nisso. Como vai tudo? Como está a Kaethe? E a Nicole?

- Tudo corre tranquilamente, na parte doméstica. Mas, valha-me Deus, Franz, esta manhã tivemos aqui uma cena terrível.

- O que se passou?

Dick passeava à volta da sala enquanto Franz telefonava para casa.

Quando este acabou de falar com a família, Dick disse:

- Vieram buscar o filho dos Morris. Houve uma cena. O rosto prazenteiro de Franz toldou-se.

- Eu já sabia. Encontrei o Ladislau na varanda.

- O que lhe disse o Ladislau?

- Disse-me apenas que o jovem Morris se foi embora, e que você me

contaria o resto. O que se passou?

- Os motivos incoerentes de sempre.

- Era um demónio, aquele rapaz.

- É um caso para anestesia - concordou Dick. - De qualquer modo,

o pai dele estava a tratar o Ladislau como se ele fosse um indígena das colónias, no momento em que eu cheguei. E o que fazemos a Ladislau? Ficamos com ele? Eu acho que não - ele não consegue dominar as situações.

Dick hesitou, antes de revelar a verdade, dando tempo para recapitular o que se passara.

Franz sentou-se na borda da secretária, ainda de casaco e de luvas de motorista.

Dick avançou:

- Uma das queixas que o rapaz fez ao pai foi que este seu distinto colaborador era um bêbedo. O homem é fanático e o descendente parece ter farejado na minha pessoa vestígios de vin-du-pays.

Franz sentou-se, pensativo.

- Isso pode ficar para depois - disse, por fim.

- E por que não agora? Você deve saber que eu não abuso do álcool. -

O olhar de Dick cruzou-se com o de Franz. - O Ladislau permitiu que o homem se exaltasse de tal maneira que eu tive de jogar na defensiva. Podia ter sido na presença dos doentes, e pode imaginar como me teria sido difícil defender-me nessa situação!

Franz despiu o casaco e tirou as luvas. Dirigiu-se para a porta e disse à secretária:

- Não nos interrompa.

Voltou para dentro, sentou-se à mesa e começou a remexer o correio, de forma desordenada, raciocinando tão pouco como é o costume das pessoas em situação semelhante; em vez disso compunha uma máscara adequada ao que ia dizer.

- Dick, eu bem sei que você é um homem moderado e equilibrado, ainda que não estejamos inteiramente de acordo no que diz respeito ao álcool. Mas chegou a altura... Dick, para falar com franqueza, várias vezes me apercebi de que você estivera a beber quando o momento não era o mais apropriado. Isso tem uma razão de ser. Porque não tenta outro período de abstinência?

- De ausência - corrigiu Dick, maquinalmente. - Afastar-me não é solução.

Estavam ambos irritados, Franz por sentir que o seu regresso fora perturbado.

- Às vezes você não tem senso comum, Dick.

- Nunca percebi o que significava o senso comum aplicado a proble-

mas complicados, a menos que queira dizer que um clínico geral é mais competente para fazer uma operação do que um especialista.

Dick estava profundamente incomodado com a situação. Explicar, compor, não eram coisas para a idade deles. Seria preferível continuar a ouvir o eco fragmentado de uma verdade antiga.

- Isto assim não vai bem - disse de repente.

- Bem, também já me lembrei disso - admitiu Franz. - O seu cora-

ção já não está neste projecto, Dick.

- Eu sei. Quero retirar-me. Talvez se possa combinar um processo de ir recuperando o dinheiro da Nicole a pouco e pouco.

- Também já tenho pensado nisso, Dick, já estava a prever isto. Arranjarei outro apoio financeiro e será possível retirarem todo o vosso dinheiro até ao fim do ano.

Não era intenção de Dick tomar uma decisão tão rapidamente, nem tão pouco estava preparado para uma aquiescência tão pronta da parte de Franz. No entanto, sentiu-se aliviado. Não sem desespero, já há muito sentia a sua ética profissional a transformar-se numa massa amorfa.

 

Os Diver queriam regressar à Riviera, ou seja, a casa. A Vila Diana tinha voltado a ser alugada durante o Verão, por isso repartiram o tempo entre as termas alemãs e as cidades-catedrais da França, onde lhes sabia sempre bem passar uns dias. Dick escreveu um pouco, mas sem método. Estava num compasso de espera da vida, não relacionado com a saúde de Nicole - que parecia melhorar em viagem - nem mesmo com o trabalho; era simplesmente um compasso de espera. O único factor que conferia significado ao período que atravessava era a existência dos filhos.

O interesse de Dick pelos filhos aumentava à medida que estes iam crescendo. Tinham agora onze e nove anos. Conseguiu aproximar-se deles atravessando a barreira dos empregados, consciente de que tanto a repressão com a permissividade eram substitutos impróprios para a demorada e cuidadosa atenção, para o registo e avaliação dos resultados obtidos, que lhes eram devidos, de modo a não haver cedências em relação a um certo grau de disciplina. Acabou por conhecê-los melhor do que a própria Nicole e, na disposição expansiva que os vinhos de vários países lhe proporcionavam, passava horas a conversar e a brincar com os filhos. Eles tinham aquele encanto melancólico, quase triste, das crianças que cedo aprenderam a não chorar nem a rir com abandono; aparentemente não se entregavam a extremos de emoção e contentavam-se com os prazeres simples e doseados que lhes eram permitidos. Viviam ao ritmo calmo que a experiência das velhas famílias do mundo ocidental aconselhava, mais no propósito de conter as crianças nos limites das conveniências do que de as fazer desabrochar. Dick, por exemplo, entendia que não havia nada como o silêncio compulsivo para o desenvolvimento do espírito de observação.

Lanier era um rapazinho imprevisível, dotado de uma curiosidade invulgar nos humanos.

- Quantos lulus da Pomerânia seriam precisos para dominar um leão, pai? Esta era uma das suas perguntas típicas que embaraçavam Dick. Topsy era mais simples. Tinha nove anos e era loira e delicada como Nicole, o que, no passado, preocupara Dick. Recentemente tinha-se tornado robusta, como qualquer criança americana. Dick estava satisfeito com ambos mas só tacitamente lhes dava a entender essa satisfação. Não lhes eram permitidos desvios ao bom comportamento.

- Ou se aprende a boa educação em casa ou o mundo se encarregará de o fazer à força de chicote, o que pode doer. Que me interessa que a Topsy me «adore» ou não? Não estou a criá-la para que seja minha mulher costumava dizer Dick.

Outro factor que tornava este Verão diferente para os Diver era a abundância de dinheiro. Graças à venda da quota da clínica e aos negócios na América havia agora tanto, que gastá-lo constituía por si só uma actividade absorvente. Viajavam em grande estilo.

Era vê-los, por exemplo, quando o comboio parou em Boyen, onde iam passar quinze dias. O transbordo do vagão-cama tinha começado na fronteira italiana. A criada da preceptora e a criada de Madame Diver vieram da segunda classe para ajudar a transportar a bagagem e os cães. Mademoiselle Ballois tinha a seu cargo a bagagem de mão e distribuiu os Lealyham e o casal de pequineses pelas criadas. Não é necessariamente a pobreza de espírito que leva uma mulher a rodear-se de agitação - a exuberância pode produzir os mesmos efeitos e Nicole era mulher para fazer movimentar tudo aquilo, a não ser durante os seus períodos de crise. Para movimentar, por exemplo, a grande quantidade de volumes pesados: quatro malas com roupa, uma com sapatos, três com chapéus, duas caixas de chapéus, as malas das criadas, um arquivo portátil, uma caixa de medicamentos, uma lamparina a álcool, um estojo de piquenique, quatro raquetes de ténis com as respectivas prensas e caix