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TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO / Agatha Christie
TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO / Agatha Christie

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

TESTEMUNHA DA ACUSAÇÃO

 

ATO UM

    

CENÁRIO: Escritório de SIR WILFRID ROBARTS, Q.C. À tarde.

      

       A cena se passa na sala particular do escritório de SIR WILFRID. Trata-se de uma peça estreita, com aporta à E e uma janela à D. A janela é construída em uma profunda reentrância, o que permite que a parede abaixo dela forme um grande banco, e se abre para uma parede lisa de tijolos vermelhos. Há uma lareira ao C da parede do fundo, ladeada por estantes repletas de pesados tomos legais, uma escrivaninha, à DC, com uma cadeira giratória à sua D, e uma cadeira de espaldar alto e reto, de couro, à sua E. Uma segunda cadeira, igual, fica encostada à estante à E da lareira. No canto à DA há uma espécie de pequena escrivaninha muito alta, própria para leituras de pé, e no canto, à EA, alguns cabides presos à parede. A noite, a sala é iluminada por luz elétrica, com lâmpadas em forma de vela em arandelas à D e E da lareira, e uma lâmpada sobre a escrivaninha, que só ilumina a área onde se escreve. O comutador fica abaixo da porta à E. Há um cordão para tocar a campainha à E da lareira, e um telefone sobre a escrivaninha, apinhada de documentos legais. Há as costumeiras caixas de documentos de clientes e uma imensa pilha de documentos no banco formado pela janela.

      

       Quando o pano sobe, o sol brilha pela janela à D. A sala está vazia. GRETA, a datilógrafa de SIR WILFRID, entra imediatamente. É uma moça um tanto fanhosa, muito convencida dos próprios encantos. Cruza até a lareira, dançando um passo de quadrilha no caminho, e tira um papel de uma caixa de documentos sobre a lareira. Entra CARTER, o chefe de escritório, trazendo algumas cartas. GRETA vira-se, vê CARTER, cruza e sai silenciosamente. CARTER cruza até a escrivaninha e pousa as cartas sobre a mesma. O telefone toca, CARTER atende.

    

CARTER: (Ao telefone.) Escritório de Sir Wilfrid Robarts... Ah, é você, Charles... Não, Sir Wilfrid está no tribunal... Não volta já, não... Sim, o caso Shuttleworth... O quê — com Myers na promotoria e Banter julgando? ... Já faz quase duas horas que ele está formulando sua sentença... Não, esta tarde de jeito nenhum. As horas estão completamente preenchidas... Eu poderia marcar-lhe uma entrevista amanhã... Não, impossível. Estou esperando Mayhew, de Mayhew e Brinskill, a qualquer momento... Está bem, até logo. (Desliga e arruma os documentos na escrivaninha.)

GRETA: (Entra pintando as unhas.) Quer que eu faça chá, Sr. Carter?

CARTER: (Olhando o relógio.) Ainda não está na hora, Greta.

GRETA: No meu, está.

CARTER: Então seu relógio está errado.

GRETA: Eu acertei pelo rádio.

CARTER: Então o rádio está errado.

GRETA: O rádio não, Sr. Carter. Ele não pode estar errado.

CARTER: Este relógio era do meu pai. Nunca atrasa nem adianta. Não se fazem mais relógios assim, hoje em dia. (Pausa. Pega uma folha datilografada.) Mas, a sua datilografia! Sempre cheia de erros. Omitiu uma palavra.

GRETA: Ora — só uma palavra. Qualquer um faz isso.

CARTER: A palavra que você omitiu foi não. Sua omissão altera completamente a frase.

GRETA: É mesmo? Pensando bem, não é engraçado?

CARTER: Não é nada engraçado. (Rasga a carta.) Torne a batê-la. É possível que se lembre do caso que lhe contei na semana passada. O célebre caso Bryant e Horsfall. Sobre um testamento e um usufruto que, exclusivamente por causa do erro de um escriturário...

GRETA: Já sei. A mulher errada recebeu tudo.

CARTER: Uma mulher de quem ele se divorciara havia quinze anos. Completamente ao contrário dos desejos do falecido, como admitiu o próprio Meritíssimo. Mas foi necessário respeitar a redação. Não havia o que fazer.

GRETA: Eu acho que isso também é muito engraçado.

CARTER: O escritório de um advogado não é um lugar engraçado. A Lei, Greta, é um assunto sério e como tal deve ser tratada.

GRETA: Não é o que parece — quando a gente ouve algumas piadas dos Juízes.

CARTER: Tais pilhérias são prerrogativas do Judiciário.

GRETA: E volta e meia eu leio nos anais que houve “riso no Tribunal”.

CARTER: Quando ele não é causado por algum comentário do Juiz, verificará que invariavelmente ele ameaça mandar evacuar a sala.

GRETA: (Em tom baixo.) Velhinho chato. Sabe o que eu li outro dia, Sr. Carter? “A Lei É Uma Besta.” Não estou sendo grosseira, não. Estou só citando.

CARTER: Uma citação de natureza lamentável. Não é para ser levada a sério. (Olha o relógio.) Pode ir preparar o chá, Greta... (Espera o segundo preciso.) ...agora.

GRETA: Ah, obrigada, Sr. Carter.

CARTER: O Sr. Mayhew, de Mayhew e Brinskill, está para chegar. Esperamos, também, um Sr. Leonard Vole. Podem vir juntos ou separados.

GRETA: Leonard Vole? Mas esse é o nome — estava no jornal...

CARTER: O chá, Greta.

GRETA: Um pedido para ele se comunicar com a polícia porque podia ter informações valiosas.

CARTER: O chá!

GRETA: Foi só ante... (CARTER fulmina GRETA com o olhar.) O chá, Sr. Carter. (Sai.)

CARTER: (Arrumando e resmungando.) Essas mocinhas. Sensacionalistas — ineficientes — não sei onde acabará o Direito.

GRETA: (Entra e anuncia.) O Sr. Mayhew.

 

(O SR. MAYHEW e LEONARD VOLE entram. MAYHEW é um típico advogado de meia-idade, perspicaz e um tanto seco e preciso em seu modo de ser. LEONARD é um rapaz simpático e amável, com cerca de 27 anos. Parece ligeiramente preocupado. MAYHEW carrega uma pasta.)

 

MAYHEW: Sente-se, Sr. Vole. Boa-tarde, Carter.

 

(GRETA pega os chapéus de ambos e pendura-os nos cabides acima da porta; depois sai, olhando para LEONARD por sobre o ombro.)

 

CARTER: Boa-tarde, Sr. Mayhew. Sir Wilfrid não deve demorar, embora nunca se possa saber, com o Juiz Banter. Irei imediatamente ao Vestiário para avisar que o senhor está aqui... com...

MAYHEW: Com o Sr. Leonard Vole. Obrigado, Carter. Temo que tenhamos marcado este encontro muito em cima da hora. Porém, neste caso, é... um tanto urgente. Como vai o lumbago?

CARTER: Só o sinto quando o vento vem do Leste. Obrigado por lembrar-se, Sr. Mayhew. (Sai.)

 

(MAYHEW senta-se. LEONARD caminha como uma fera enjaulada.)

 

MAYHEW: Sente-se, Sr. Vole.

LEONARD: Obrigado — eu prefiro andar. Eu — este tipo de coisa me deixa um tanto nervoso.

MAYHEW: Sim, sim; compreendo...

GRETA: (Entra e fala com MAYHEW, embora olhando fascinada para LEONARD.) Aceita uma xícara de chá, Sr. Mayhew? Acabei de fazer.

LEONARD: Obrigado, até que era...

MAYHEW: Não, obrigado.

LEONARD: (Para GRETA.) Desculpe. (Sorri para ela, que corresponde ao sorriso, e sai.) O que eu quero dizer é que não consigo acreditar que é comigo que isso está acontecendo. Fico pensando — que tudo é um sonho e que vou acordar daqui a pouco.

MAYHEW: Sim, imagino que deve sentir-se assim.

LEONARD: Eu quero dizer — parece uma coisa tão tola.

MAYHEW: Tola, Sr. Vole?

LEONARD: É isso mesmo. Quero dizer, eu sempre fui um sujeito tranqüilo e amável — que se dá bem com as pessoas, sabe como é. Não sou do tipo de sujeito que faz — sei lá, coisas violentas. (Pausa.) Bem, acho que no fim tudo vai dar certo, não é? Quero dizer, ninguém é condenado neste país por coisas que não fez, não é?

MAYHEW: O nosso sistema judiciário, na Inglaterra, é, na minha opinião, o melhor do mundo.

LEONARD: E claro que houve o caso daquele — como é o nome dele? — Adolf Beck. Eu li a respeito ainda outro dia. Depois de ficar na cadeia não sei quantos anos, descobriram que tinha sido um outro sujeito, chamado Smith. E aí lhe deram um indulto: isso é o que me pareceu muito esquisito — alguém ser perdoado por alguma coisa que não fez.

MAYHEW: É apenas o termo legal necessário.

LEONARD: (Sentando-se.) Pois para mim continua sem muito sentido.

MAYHEW: O importante é que Beck foi libertado.

LEONARD: É. Com ele foi tudo bem. Mas se fosse caso de assassinato — se tivesse sido, então seria tarde demais. Ele teria sido enforcado.

MAYHEW: Vamos, Sr. Vole, não há necessidade de tomar uma atitude — mórbida.

LEONARD: (Patético.) Desculpe. Mas, sabe, eu estou meio aflito.

MAYHEW: Bem, pois tente ficar calmo. Sir Wilfrid Robarts chegará logo e quero que lhe conte sua história exatamente como a contou a mim.

LEONARD: Sim, senhor.

MAYHEW: Mas, nesse meio tempo, talvez pudesse dar-me um pouco mais de informações sobre os — detalhes — antecedentes. Pelo que compreendi, no momento o senhor está desempregado?

LEONARD: Estou, mas tenho algum dinheiro guardado. Não é muito, mas se o senhor pudesse admitir...

MAYHEW: Ora, eu não estou pensando em — hum — honorários. É apenas o quadro geral que estou tentando ver com clareza. O seu mundo e — hum — suas condições. Há quanto tempo está desempregado?

LEONARD: (Prontamente, com encantadora amabilidade.) Há cerca de dois meses.

MAYHEW: E o que fazia antes disso?

LEONARD: Trabalhava numa firma de manutenção de motores — eu era uma espécie de mecânico.

MAYHEW: E quanto tempo trabalhou lá?

LEONARD: Uns três meses.

MAYHEW: Foi despedido?

LEONARD: Não. Eu me despedi. Discuti com o chefe da oficina. Um f... (Interrompe-se.) Quero dizer, ele era um sujeito muito mesquinho, sempre implicando e reclamando.

MAYHEW: Hum! E antes disso?

LEONARD: Trabalhei em um posto de gasolina, mas as coisas ficaram meio desagradáveis e eu fui embora.

MAYHEW: Desagradáveis? De que modo?

LEONARD: Bem — a filha do patrão — ela era uma menina, mas começou a — bem, a ir com a minha cara — e não aconteceu nada de mau entre nós, mas o velho ficou um pouco amolado e disse que era melhor eu ir embora. Ele foi muito gentil, e me deu uma boa carta de recomendação. E antes disso, eu vendia batedeiras, ganhando comissão.

MAYHEW: Não diga.

LEONARD: (Com ar de menino.) Que aliás eram uma droga de ruins. Até eu teria inventado uma batedeira melhor. O senhor está pensando que eu não esquento lugar. De certo modo é verdade — mas eu não sou realmente assim. O serviço militar alterou minha vida um pouco — isso e o fato de ter ido para o estrangeiro. Eu estive na Alemanha. Lá era ótimo. Foi lá que conheci minha mulher. Ela é atriz. Desde que voltei para a Inglaterra, por uma razão ou outra parece que não consigo assentar a vida em lugar nenhum. Na verdade eu não sei o que quero fazer — eu gosto de trabalhar com carros e de inventar uma porção de maquininhas e aparelhinhos novos para eles. É muito interessante. E, sabe...

 

(Entra SIR WILFRID ROBARTS, Q.C., seguido por CARTER. SIR WILFRID está usando seu paletó e peitilho de Q.C. E carrega sua peruca e toga. CARTER carrega o paletó e a gravata-borboleta de SIR WILFRID.)

 

SIR WILFRID: Olá, John.

MAYHEW: Ah, Wilfrid.

SIR WILFRID: (Entregando a peruca e a toga a CARTER.) Carter lhe disse que eu estava no tribunal? Banter realmente estava a todo vapor. E este é o Sr. — eh —Vole?

MAYHEW: Este é o Sr. Leonard Vole.

LEONARD: Como está o senhor?

SIR WILFRID: Como está, Vole? Não quer sentar-se? Como vai a família, John? (CARTER ajuda-o a tirar o peitilho e a mudar o paletó.)

MAYHEW: Molly pegou, de leve, essa gripe de 24 horas.

SIR WILFRID: Que pena!

MAYHEW: É. Um azar. Você ganhou o caso, Wilfrid?

SIR WILFRID: Alegro-me em poder dizer que sim.

MAYHEW: Você sempre fica satisfeito de ganhar do Myers, não é?

SIR WILFRID: Eu fico satisfeito de ganhar de qualquer um.

MAYHEW: Mas com Myers é especial.

SIR WILFRID: Sim, Myers é especial. Ele é um — cavalheiro — irritante. (Pondo a gravata.) Tem a capacidade de despertar o que há de pior em mim.

MAYHEW: Parece que o sentimento é mútuo. Você o irrita porque parece que jamais consegue deixá-lo terminar uma única frase.

 

(CARTER sai, levando peruca, toga, paletó e peitilho.)

 

SIR WILFRID: Ele me irrita por causa daquele cacoete dele. É assim — (Ele Pigarreia e ajeita uma peruca imaginária.) e é isso que me leva à loucura, além de sua insistência de me chamar de Ro-barts — Ro-barts. Mas é um advogado muito hábil, e só precisava se lembrar de não fazer perguntas que orientem a testemunha, quando sabe perfeitamente que não deveria fazê-las. Mas, vamos ao trabalho.

MAYHEW: Certo. Eu trouxe Vole aqui porque estou muito ansioso para que você ouça a história dele exatamente como ele a contou a mim. Parece haver alguma urgência no caso. (Entrega papéis a SIR WILFRID.)

SIR WILFRID: Ah, é?

LEONARD: Minha mulher acha que eu vou ser preso. (Embaraçado.) Ela é muito mais inteligente do que eu — pode ser que tenha razão.

SIR WILFRID: Preso por quê?

LEONARD: (Ainda mais embaraçado.) Bem — por assassinato.

MAYHEW: É o caso da Srta. Emily French. É possível que tenha visto as reportagens nos jornais. (SIR WILFRID acena com a cabeça.) Era uma senhora solteirona, que vivia isolada, tendo por companhia uma governanta idosa, em uma casa em Hampstead. Na noite de 14 de outubro a governanta voltou às onze horas e constatou que a casa parecia ter sido arrombada e que sua patroa havia recebido um golpe na nuca e estava morta. (Para LEONARD.) Não é isso?

LEONARD: Isso mesmo. É uma coisa que acontece a toda hora, hoje em dia. E então, no outro dia, os jornais disseram que a polícia estava à procura de um Sr. Leonard Vole, que havia visitado a Srta. French na noite em questão, e que, segundo eles, poderia fornecer informações valiosas. Então, naturalmente, eu fui até a Delegacia e eles me fizeram uma porção de perguntas.

SIR WILFRID: Eles o avisaram devidamente?

LEONARD: Eu não sei bem. Quero dizer, eles perguntaram se eu gostaria de fazer uma declaração, que eles anotariam e depois ela poderia ser usada no tribunal. Isso é um aviso?

SIR WILFRID: (Mais para MAYHEW.) Bem, agora não tem mais remédio. (Cruza para a E da escrivaninha.)

LEONARD: Bem, de qualquer modo aquilo tudo me parecia uma grande asneira. Eu disse o que podia e eles foram muito gentis, e pareciam satisfeitos, e tudo o mais. Quando eu cheguei em casa e contei a Romaine o caso — quero dizer, à minha mulher —, ela ficou danada. Parece que ela achava que eles — bem —, que eles tinham-se agarrado à idéia de que eu podia ter feito aquilo. Então eu achei que talvez fosse bom arranjar um advogado — (para MAYHEW) e procurei o senhor. Pensei que pudesse me dizer o que eu devia fazer.

SIR WILFRID: Conhecia bem a Srta. French?

LEONARD: Claro. Ela tinha sido muito boa para mim. Para falar a verdade, às vezes era meio maçante — de tanto que se preocupava comigo, mas eu sei que tinha boas intenções e quando vi no jornal que ela tinha sido morta, sabe, fiquei muito perturbado, porque na verdade eu gostava muito dela.

MAYHEW: Conte a Sir Wilfrid, exatamente como me contou, o modo pelo qual travou conhecimento com a Srta. French.

LEONARD: (Obedientemente.) Bem, foi um dia em Oxford Street. Eu vi uma velhinha atravessando a rua carregando uma porção de embrulhos e no meio da rua deixou cair tudo, tentou pegar de novo e, quando levantou, viu que um ônibus estava quase em cima dela. Mal conseguiu chegar na calçada a tempo. Bem, eu apanhei os embrulhos na rua, limpei a lama o melhor que pude, tornei a amarrar um deles, que tinha arrebentado, e tentei acalmar a pobrezinha. Sabe como é, não sabe?

SIR WILFRID: E ela ficou grata?

LEONARD: Ah, sim, parecia muito grata. Agradeceu muito e tudo o mais. Dava até para pensar que eu tinha salvo a vida dela, em vez de pegar os embrulhos.

SIR WILFRID: Mas não houve, na realidade, algo assim como lhe ter salvo a vida?

LEONARD: Não. Nada de heróico. Eu pensava nunca mais tornar a vê-la.

SIR WILFRID: Cigarro?

LEONARD: Não, obrigado; eu não fumo. Mas, por uma coincidência extraordinária, dois dias mais tarde eu me vi sentado atrás dela no teatro. Ela se virou, me reconheceu, nós começamos a conversar e ela acabou me convidando para ir visitá-la.

SIR WILFRID: E o senhor foi?

LEONARD: Fui. Ela insistiu para eu marcar um dia e achei que seria grosseiro recusar. Então eu disse que iria no sábado seguinte.

SIR WILFRID: E foi visitá-la em sua casa em... (Olha os papéis.)

MAYHEW: Hampstead.

LEONARD: Isso.

SIR WILFRID: Sabia algo a respeito dela quando a visitou pela primeira vez?

LEONARD: Bem, para falar a verdade, nada, a não ser o que ela tinha me contado — que vivia sozinha e que não tinha muitos amigos. Uma coisa assim.

SIR WILFRID: Ela vivia só com uma governanta?

LEONARD: Isso mesmo. Mas tinha oito gatos. Oito! A casa era muito bem mobiliada e tudo isso, mas cheirava um pouco a gato.

SIR WILFRID: O senhor tinha algum motivo para julgar que ela fosse rica?

LEONARD: Bem, ela falava como se fosse.

SIR WILFRID: E quanto a você?

LEONARD: (Alegre.) Ora, eu estou praticamente quebrado, já faz muito tempo.

SIR WILFRID: Lamentável.

LEONARD: É. Eu sei. Ah, o senhor quer dizer que as pessoas vão pensar que eu estava agradando a velhinha por causa do dinheiro?

SIR WILFRID: (Sem graça.) Bem, eu não usaria exatamente esses termos, mas, em resumo, sim, é possível que dissessem isso.

LEONARD: Mas não é verdade, sabe? Eu sentia pena dela. Achava que ela se sentia sozinha. Eu fui criado por uma tia velha, a tia Betsy, e gosto de velhas.

SIR WILFRID: Você está falando de velhas. Sabe quantos anos tinha a Srta. French?

LEONARD: Bem, eu não sabia, mas li no jornal depois que ela foi assassinada. Tinha cinqüenta e seis anos.

SIR WILFRID: Cinqüenta e seis. O senhor considera isso velhice, Sr. Vole. Mas duvido muito que a Srta. French se considerasse velha.

LEONARD: Mas não dá para chamar de gatinha, dá?

SIR WILFRID: Bem, vamos continuar. Visitava a Srta. French freqüentemente?

LEONARD: Bem, uma ou duas vezes por semana.

SIR WILFRID: Alguma vez levou sua esposa consigo?

LEONARD: Não, não; nunca.

SIR WILFRID: Por que não?

LEONARD: Bem — bem, francamente, acho que não teria funcionado muito bem...

SIR WILFRID: Com sua esposa ou com a Srta. French?

LEONARD: Ora, com a Srta. French.

MAYHEW: Continue, continue.

LEONARD: Sabem, ela ficou gostando um bocado de mim.

SIR WILFRID: Está querendo dizer que ela se apaixonou pelo senhor?

LEONARD: Meu Deus, nem pensar nisso. Ela só gostava de me agradar e de me paparicar; sabe como é.

SIR WILFRID: (Pausa.) É preciso que compreenda, Sr. Vole, que não há dúvida de que parte do caso que a polícia tem contra o senhor, se é que há um caso contra o senhor, o que ainda não temos razões suficientemente boas para supor, serão as razões pelas quais o senhor, jovem, de bom aspecto, casado, haveria de passar tanto tempo com uma mulher de meia-idade com quem o senhor dificilmente teria muita coisa em comum.

LEONARD: É, eu sei que vão dizer que eu andava atrás dela por causa do dinheiro. E, de certa forma, talvez seja verdade. Mas só de certa forma.

SIR WILFRID: Bem, pelo menos o senhor é franco, Sr. Vole. Será que poderia explicar um pouco melhor?

LEONARD: Bem, ela não fazia segredo do fato de que nadava em dinheiro. Como eu já lhe disse, Romaine e eu — é minha mulher — andamos um bocado apertados. Confesso que eu esperava que, se eu ficasse apertado, mesmo, ela poderia me emprestar algum dinheiro. Estou sendo honesto com o senhor.

SIR WILFRID: O senhor lhe pediu um empréstimo?

LEONARD: Não, não pedi. Quero dizer, nós não estávamos desesperados. (Repentinamente mais sério.) É claro que percebo — que as coisas não parecem muito boas para mim.

SIR WILFRID: A Srta. French sabia que o senhor era casado?

LEONARD: Ah, sabia.

SIR WILFRID: Mas não sugeriu que levasse sua esposa para visitá-la?

LEONARD: Não. Ela — bem, ela parecia ter certeza de que minha mulher e eu não nos dávamos bem.

SIR WILFRID: E o senhor lhe deu essa impressão de propósito?

LEONARD: Não. É claro que não. Mas ela parece que — bem, estar convencida, e então eu pensei que, se eu ficasse insistindo em falar de Romaine durante nossa conversa, ela podia, bem, perder seu interesse por mim. Eu não queria exatamente arrancar dinheiro dela, mas eu havia inventado um acessório para carro — uma idéia realmente boa — se eu tivesse podido persuadi-la a financiar o projeto, bem, ia ser dinheiro dela, e poderia ter trazido bons lucros para ela. Ora, é muito difícil de explicar — mas eu não estava sugando a velha. Não estava, mesmo, Sir Wilfrid.

SIR WILFRID: Quanto dinheiro o senhor obteve, nesse tempo todo, da Srta. French?

LEONARD: Nenhum. Absolutamente nenhum.

SIR WILFRID: Fale-me a respeito da governanta.

LEONARD: Janet Mackenzie? É uma tirana, das boas, a Janet. Mandava e desmandava na pobre da Srta. French. Tomava conta dela muito bem, e tudo o mais, mas a pobre-coitada não podia nem pensar, com Janet por perto. Janet não gostava de mim.

SIR WILFRID: Por que não?

LEONARD: Acho que era ciúme. Acho que ela não gostava que eu ajudasse a Srta. French em seus negócios.

SIR WILFRID: Ah, então o senhor ajudava a Srta. French em seus negócios?

LEONARD: Ajudava. Ela andava preocupada com uns investimentos e coisas assim. E às vezes achava difícil preencher formulários e coisas no gênero. É, com coisas desse tipo eu ajudava bastante.

SIR WILFRID: E agora, Sr. Vole, vou fazer-lhe uma pergunta muito séria. E à qual é vital que me dê uma resposta absolutamente verídica. O senhor não andava bem de finanças e estava em condições de manipular os negócios daquela senhora. Pois bem, em alguma ocasião o senhor manipulou em seu próprio benefício os títulos com os quais lidou? (LEONARD esboça uma reação.) Espere um momento antes de responder, Sr. Vole. Devo compreender que há dois pontos de vista. Podemos proclamar sua probidade e honestidade ou, se o senhor de algum modo enganou aquela mulher, poderemos argumentar que o senhor não tinha motivos para assassiná-la, já que ela representava para o senhor uma boa fonte de renda. Há de perceber que ambos os pontos de vista oferecem grandes vantagens. O que desejo é saber a verdade. Se quiser, pense um pouco antes de responder.

LEONARD: Eu lhe garanto, Sir Wilfrid, que sempre agi com a maior correção e que o senhor jamais encontrará qualquer indício em contrário. Com a maior correção.

SIR WILFRID: Obrigado, Sr. Vole. Fico muito aliviado. Faço-lhe o cumprimento de julgá-lo por demais inteligente para mentir sobre questão tão vital. E agora chegamos à noite de...

MAYHEW: 14 de outubro.

SIR WILFRID: 14. A Srta. French convidara-o para ir lá, nesse dia?

LEONARD: Não, para falar a verdade, não. Mas eu tinha encontrado uma invençãozinha nova e achei que ela ia gostar. Então dei um pulo até lá de noite, mais ou menos às sete horas e quarenta e cinco minutos. Era dia de saída de Janet Mackenzie e eu sabia que ela podia estar se sentindo um tanto só.

SIR WILFRID: Então era dia de saída de Janet Mackenzie e o senhor sabia disso.

LEONARD: Claro que eu sabia que Janet saía às sextas-feiras.

SIR WILFRID: Isso não é muito bom.

LEONARD: Por que não? Parece muito natural que eu escolhesse essa noite para ir visitá-la.

SIR WILFRID: Continue, por favor, Sr. Vole.

LEONARD: Bem, cheguei lá mais ou menos às sete horas e quarenta e cinco minutos. Ela tinha acabado de jantar, mas eu tomei uma xícara de café com ela e jogamos uma partida de paciência para dois. E então, às nove horas, eu dei boa-noite e fui para casa.

MAYHEW: O senhor me disse que a governanta declarou que naquela noite voltou à casa alguns minutos antes da hora de costume.

LEONARD: É, a polícia me disse que ela voltou para pegar alguma coisa que tinha esquecido e que ouviu — ou acha que ouviu — alguém conversando com a Srta. French. Bem, seja quem for, não era eu.

SIR WILFRID: E o senhor pode prová-lo, Sr. Vole?

LEONARD: Claro que posso. A essa altura eu já estava de novo em casa, com minha mulher. Era isso que a polícia não parava de me perguntar. Onde é que eu estava às nove e meia. Bem, acontece que há uns dias que a gente não se lembra de onde é que estava. Mas, por acaso, eu me lembro muito bem que eu fui diretamente para casa e que Romaine e eu não saímos mais naquela noite.

SIR WILFRID: O senhor mora em apartamento?

LEONARD: Moro. Em um apartamento pequeno em cima de uma loja perto da Estação de Euston.

SIR WILFRID: Alguém o viu voltando ao apartamento?

LEONARD: Acho que não. Por que haveriam de ver?

SIR WILFRID: Seria uma vantagem se o vissem.

LEONARD: Mas na certa o senhor não está pensando — bem, se ela morreu mesmo às nove e meia, eu só preciso do testemunho da minha mulher, não é?

MAYHEW: E sua esposa afirmará, sem sombra de dúvida, que o senhor estava em casa nessa hora?

LEONARD: Mas é claro que sim.

MAYHEW: O senhor gosta muito de sua mulher e ela do senhor?

LEONARD: Romaine gosta muito de mim. É a mulher mais devotada que um homem poderia querer.

MAYHEW: Compreendo. Seu casamento é feliz?

LEONARD: Não podia ser mais. Romaine é maravilhosa, absolutamente maravilhosa. Gostaria que o senhor a conhecesse, Sr. Mayhew.

 

(Batem à porta.)

 

SIR WILFRID: (Em voz alta.) Pode entrar.

GRETA: (Entra trazendo um jornal.) O jornal da tarde, Sir Wilfrid. (Aponta para um parágrafo ao entregá-lo.)

SIR WILFRID: Obrigado, Greta.

GRETA: Quer uma xícara de chá, Sir Wilfrid?

SIR WILFRID: Não, obrigado. Ah, quer uma xícara, Vole?

LEONARD: Não, senhor, obrigado.

SIR WILFRID: Não, obrigado, Greta.

 

(GRETA sai.)

 

MAYHEW: Seria aconselhável que tivéssemos um encontro com a sua esposa.

LEONARD: O senhor quer dizer uma conferência, uma mesa-redonda de verdade?

MAYHEW: Eu me pergunto, Sr. Vole, se o senhor está encarando este assunto com a devida seriedade.

LEONARD: Estou. Claro que estou, mas parece — quero dizer, é tudo tão parecido com um pesadelo, quero dizer, isso, acontecendo comigo. Assassinato. Isso é coisa que se lê em livro ou jornal, mas eu nunca acreditei que pudesse acontecer com a gente, mesmo. Talvez por isso eu fique tentando fazer piada, mesmo sabendo que não é piada.

MAYHEW: Não, infelizmente acho que não há do que fazer piada, no caso.

LEONARD: Mas, eu quero dizer, está tudo bem, não está? Porque, quero dizer, se eles acham que a Srta. French foi morta às nove e meia e eu estava em casa com Romaine...

MAYHEW: Como é que o senhor foi para casa? De metrô ou ônibus?

LEONARD: Fui a pé. Levei vinte e cinco minutos, mas a noite estava agradável — ventando um pouco.

MAYHEW: Viu alguém conhecido no caminho?

LEONARD: Não, mas faz diferença? Quero dizer, Romaine...

SIR WILFRID: O testemunho de uma esposa devotada não corroborado por nenhuma outra prova pode não ser totalmente convincente, Sr. Vole.

LEONARD: Ah, o senhor quer dizer que iam pensar que Romaine mentiria por mim?

SIR WILFRID: Já aconteceu antes, Sr. Vole.

LEONARD: E aposto que mentia, mesmo; só que neste caso ela não vai mentir. Porque foi assim mesmo. O senhor acredita, não é?

SIR WILFRID: Sim, acredito no senhor, Sr. Vole, mas não é a mim que terá de convencer. O senhor sabe, não sabe, que a Srta. French deixou um testamento que o faz herdeiro de todo o seu dinheiro?

LEONARD: (Estarrecido.) Herdeiro de todo o dinheiro dela? O senhor está brincando!

SIR WILFRID: Não estou brincando, não. Está no jornal da tarde.

LEONARD: (Lendo.) Mas eu nem acredito.

SIR WILFRID: Não sabia de nada a respeito?

LEONARD: Absolutamente nada. Ela nunca disse uma palavra.

MAYHEW: Tem absoluta certeza disso, Sr. Vole?

LEONARD: Absoluta. Fico muito grato a ela — mas de certo modo eu agora preferia que não tivesse feito isso. Quero dizer — é meio esquisito do jeito que as coisas estão, não é?

SIR WILFRID: Dá ao senhor motivo suficiente, isto é, se estivesse informado do assunto. E o senhor me diz que não estava. A Srta. French nunca comentou nada a respeito de um testamento?

LEONARD: Certa vez ela disse a Janet: “Você fica com medo que eu refaça o meu testamento.” Mas não teve nada a ver comigo. Quero dizer, foi só durante uma das briguinhas entre elas. O senhor realmente acha que vão me prender?

SIR WILFRID: Creio, Sr. Vole, que deve estar preparado para tal eventualidade.

LEONARD: O senhor — o senhor vai fazer tudo o que puder por mim, não vai?

SIR WILFRID: Pode ficar certo, meu caro Sr. Vole, que farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajudá-lo. Não se preocupe. Deixe tudo em minhas mãos.

LEONARD: O senhor vai tomar conta de Romaine, não vai? Quero dizer, ela vai ficar arrasada — para ela vai ser uma coisa horrível.

SIR WILFRID: Não se preocupe, meu rapaz. Não se preocupe.

LEONARD: (Para MAYHEW.) Há também a questão do dinheiro. Tenho umas poucas libras, mas é pouco dinheiro, mesmo. Talvez eu não devesse ter pedido ao senhor para fazer alguma coisa por mim.

MAYHEW: Creio que poderemos organizar uma defesa adequada. O Tribunal tem verbas para casos como esse.

LEONARD: Eu não acredito. Não acredito que eu, Leonard Vole, possa estar diante de um júri dizendo: “Inocente.” E gente olhando para mim. (Estremece. Para MAYHEW.) Eu não sei por que não admitem que tenha sido um ladrão. Quero dizer, parece que a janela foi forçada e quebrada e havia uma porção de coisas jogadas por todo lado, pelo que os jornais disseram. Quero dizer, parece tão mais provável.

MAYHEW: A polícia deve ter boas razões para julgar que não se trata de assalto e roubo.

LEONARD: Bem, me parece... (Entra CARTER.)

SIR WILFRID: O que é, Carter?

CARTER: Perdão, senhor, há dois cavalheiros procurando o Sr. Vole.

SIR WILFRID: Da polícia?

CARTER: Sim, senhor.

SIR WILFRID: Pode deixar, John, eu vou falar com eles. (Sai, seguido por CARTER.)

LEONARD: Meu Deus! Já é... hora?

MAYHEW: Infelizmente acho que sim, meu rapaz. Vá com calma. Não perca a coragem. Não faça mais nenhuma declaração — deixe tudo conosco.

LEONARD: Mas como é que sabiam que eu estava aqui?

MAYHEW: É provável que um dos policiais o estivesse vigiando.

LEONARD: Então eles realmente suspeitam de mim.

 

(Entram SIR WILFRID, o INSPETOR DETETIVE HEARNE e um DETETIVE à paisana. O INSPETOR é um homem alto e de boa aparência.)

 

INSPETOR: (Para SIR WILFRID.) Desculpe incomodá-lo, meu senhor.

SIR WILFRID: Este é o Sr. Vole.

INSPETOR: Seu nome é Leonard Vole?

LEONARD: É.

INSPETOR: Sou o Inspetor Detetive Hearne. Tenho aqui uma ordem judiciária para prendê-lo sob a acusação de haver assassinado Emily French no dia 14 de outubro último. Devo avisá-lo que qualquer coisa que disser será anotada e usada como prova.

LEONARD: O.K. (Pega o chapéu.) Estou pronto.

MAYHEW: Boa-tarde, Inspetor Hearne. Meu nome é Mayhew. Vou representar o Sr. Vole.

INSPETOR: Boa-tarde, Sr. Mayhew. Perfeitamente. Agora nós vamos levá-lo e formalizar a acusação. (LEONARD e o DETETIVE saem. Para MAYHEW.) O tempo anda muito agradável, não é? A geadazinha da noite de ontem estava ótima. Creio que o veremos mais tarde, não é? Espero não o ter importunado, Sir Wilfrid.

SIR WILFRID: O senhor jamais me importuna. (O INSPETOR sorri e sai, fechando a porta.) Devo dizer, John, que aquele rapaz está em uma embrulhada bem maior do que pensa.

MAYHEW: Se está. O que achou dele?

SIR WILFRID: Impressionantemente ingênuo. Entretanto, sob certos aspectos, bastante esperto. Diria que inteligente. Mas certamente não compreendeu ainda o quanto é perigosa a sua posição.

MAYHEW: Você acha que foi ele?

SIR WILFRID: Não tenho a menor idéia. A grosso modo, diria que não. Concorda comigo?

MAYHEW: Concordo.

SIR WILFRID: Bem, ele parece ter impressionado favoravelmente a nós dois. Não sei por quê. Nunca ouvi história mais fraca. Deus sabe o que poderemos fazer com ela. O único testemunho em seu favor parece ser o da esposa — e você sabe que ninguém no mundo acredita em esposa.

MAYHEW: Bem, parece que já aconteceu algumas vezes...

SIR WILFRID: E além do mais ela é estrangeira. Nove de cada doze jurados acreditam que os estrangeiros estão sempre mentindo. Ela vai ficar emocionada e perturbada e não vai compreender o que os advogados da promotoria vão dizer. Mesmo assim, teremos de entrevistá-la. Você vai ver só, minha sala tomada por ataques histéricos.

MAYHEW: Talvez você prefira não aceitar o caso.

SIR WILFRID: Quem falou em não aceitar? Só por que eu disse que a história do rapaz é perfeitamente idiota?

MAYHEW: Mas verdadeira.

SIR WILFRID: Tem de ser verdadeira. Não poderia ser tão idiota se não fosse verdadeira. É só pôr os dados em preto e branco e não há um que não o condene. E, no entanto, quando se fala com o rapaz, e ele parece um repuxo com indícios contra ele caindo para todos os lados, percebe-se que a coisa toda poderia ter acontecido exatamente como ele contou. Que diabo! Eu mesmo tive o equivalente da tia Betsy. E adorava a velha.

MAYHEW: Ele tem uma boa personalidade, acho. Simpática.

SIR WILFRID: É, deve causar boa impressão no júri. Mas com o Juiz isso não adianta. E ele é o tipo do sujeito simplório que pode se atrapalhar todo na hora de depor. Muita coisa depende da moça. (Batem na porta. Ele fala em voz alta.) Pode entrar. (GRETA entra, excitada e um pouco assustada. Fecha a porta.) Sim, Greta, o que foi?

GRETA: (Num sussurro.) A Sra. Leonard Vole está aí.

MAYHEW: A Sra. Vole.

SIR WILFRID: Venha cá. Você viu aquele rapaz? Ele foi preso por assassinato.

GRETA: Eu sei. Não é excitante?

SIR WILFRID: Você acha que foi ele?

GRETA: Não, senhor. Tenho certeza que não.

SIR WILFRID: Ah, é? Por que não?

GRETA: Ele é bonzinho demais.

SIR WILFRID: (Para MAYHEW.) Então somos três. (Para GRETA.) Faça a Sra. Vole entrar. (GRETA sai.) E é provável que sejamos três idiotas crédulos... enganados pela personalidade agradável de um jovem.

CARTER: (Entra e anuncia.) A Sra. Leonard Vole.

 

(ROMAINE entra. É uma estrangeira de forte personalidade e demonstra muita calma. Sua voz é estranhamente irônica.)

 

MAYHEW: Minha cara Sra. Vole. (Está sob forte emoção, inibida, entretanto, pela personalidade dela. CARTER sai, fechando aporta atrás de si.)

ROMAINE: Ah! O senhor é o Sr. Mayhew.

MAYHEW: Sou. Este é Sir Wilfrid Robarts, que concordou em aceitar o caso de seu marido.

ROMAINE: Como está, Sir Wilfrid?

SIR WILFRID: Como está?

ROMAINE: Acabo de vir de seu escritório, Sr. Mayhew. Disseram-me que o encontraria aqui, com meu marido.

MAYHEW: Exato, exato.

ROMAINE: Ao chegar tive a impressão de ver Leonard entrando em um carro, com dois homens.

SIR WILFRID: Vamos, minha cara Sra. Vole; não precisa ficar angustiada, Sra. Vole. (ROMAINE não demonstra a menor angústia e ele fica desconcertado.) Não quer sentar-se aqui?

ROMAINE: Obrigada.

SIR WILFRID: Por enquanto não há razão para ficar alarmada e não deve se deixar abater.

ROMAINE: (Pausa.) Não vou me deixar abater de forma alguma.

SIR WILFRID: Deixe-me então dizer-lhe que, como talvez já suspeite, seu marido acaba de ser preso.

ROMAINE: Pelo assassinato da Srta. Emily French?

SIR WILFRID: Temo que sim. Mas por favor não se perturbe.

ROMAINE: O senhor fica dizendo a mesma coisa. Eu não estou perturbada, Sir Wilfrid.

SIR WILFRID: Não. Não. Já percebi que é de ânimo forte.

ROMAINE: Se preferir dizer assim.

SIR WILFRID: O importante é manter a calma e enfrentar tudo isto de maneira sensata.

ROMAINE: Exatamente como eu gosto. Mas não me deve ocultar nada, Sir Wilfrid. Não tente poupar-me. Eu quero saber de tudo. (Ligeira mudança de tom.) Quero saber — o pior.

SIR WILFRID: Esplêndido. Esplêndido. É assim que se enfrenta a situação. E agora, minha cara senhora, não vamos ficar alarmados ou desanimados; vamos olhar tudo de modo sensato e direto. Seu marido ficou amigo da Srta. French há cerca de seis semanas. A senhora tinha — conhecimento dessa amizade?

ROMAINE: Ele me disse que tinha ajudado uma velha cheia de embrulhos, um dia, no meio da rua. Disse que ela o havia convidado para visitá-la.

SIR WILFRID: Tudo muito natural, penso eu. E seu marido foi visitá-la?

ROMAINE: Foi.

SIR WILFRID: E eles se tornaram grandes amigos.

ROMAINE: Evidentemente.

SIR WILFRID: Não se sugeriu que a senhora o acompanhasse em nenhuma das visitas que ele fez?

ROMAINE: Leonard achava melhor eu não ir.

SIR WILFRID: Ele achava melhor. Sei. Aqui entre nós, por que razão ele achava melhor?

ROMAINE: Julgava que seria o que a Srta. French preferiria.

SIR WILFRID: (Um pouco nervoso e evitando o assunto.) Sei, sei, ótimo. Bem, poderemos falar nisso em outra ocasião. Seu marido, então, tornou-se amigo da Srta. French, prestou-lhe vários pequenos serviços e, sendo uma velha muito só, com muito tempo vago, ela achava agradável a companhia de seu marido.

ROMAINE: Leonard sabe ser encantador.

SIR WILFRID: Ora, não tenho dúvida. Ele sentia, sem dúvida, que era uma boa ação por parte dele ir alegrar aquela senhora.

ROMAINE: Vai ver que sim.

SIR WILFRID: A senhora, pessoalmente, não fazia objeções à amizade de seu marido com a velha, fazia?

ROMAINE: Não creio que fizesse qualquer objeção.

SIR WILFRID: A senhora tem, naturalmente, confiança total em seu marido, Sra. Vole. Conhecendo-o como o conhece...

ROMAINE: Sim, conheço Leonard muito bem.

SIR WILFRID: Não tenho palavras para expressar minha admiração por sua calma e coragem, Sra. Vole. Sabendo, como sei, o quanto lhe é devotada.

ROMAINE: Ah, então sabe o quanto eu lhe sou devotada?

SIR WILFRID: Naturalmente.

ROMAINE: Ora, desculpe-me, sou estrangeira e nem sempre compreendo as suas expressões. Mas não existe por aqui um ditado que diz algo como — saber mesmo, só quando se sabe pessoalmente? O senhor não sabe, pessoalmente, que eu seja devotada a Leonard, sabe, Sir Wilfrid? (Sorri.)

SIR WILFRID: (Ligeiramente desconcertado.) Não, não; claro que isso é verdade. Mas soube por seu marido.

ROMAINE: Leonard disse ao senhor que eu era devotada a ele?

SIR WILFRID: Sem dúvida. Ele falou nesse devotamento em termos comoventes.

ROMAINE: Às vezes eu acho que os homens são muito estúpidos.

SIR WILFRID: Perdão?

ROMAINE: Não importa. Continue.

SIR WILFRID: Essa Srta. French era uma mulher consideravelmente rica. Não tinha parentes próximos. Como muitas outras senhoras idosas e excêntricas, ela gostava de fazer testamentos. Já havia feito vários outros em sua vida. Pouco depois de conhecer seu marido fez um outro. A não ser por pequenas doações, deixou toda a sua fortuna para seu marido.

ROMAINE: Sei.

SIR WILFRID: A senhora sabe disso?

ROMAINE: Eu li no jornal da tarde.

SIR WILFRID: Bem, bem. Mas antes de ler o jornal não tinha conhecimento desse fato? Nem seu marido tinha conhecimento dele?

ROMAINE: (Pausa.) Foi isso o que lhe disse?

SIR WILFRID: Foi. Não está sugerindo qualquer outra coisa, está?

ROMAINE: Não. Não, não. Não sugiro nada.

SIR WILFRID: Parece não haver qualquer dúvida de que a Srta. French considerava seu marido como um filho, ou talvez um sobrinho favorito.

ROMAINE: (Com óbvia ironia.) O senhor acha que a Srta. French considerava meu marido como um filho?

SIR WILFRID: (Sem graça.) Sim, é o que penso. Positivamente. Creio que isso poderia ser considerado natural, perfeitamente normal, nessas circunstâncias.

ROMAINE: Como são hipócritas as pessoas neste país.

SIR WILFRID: Minha cara Sra. Vole!

ROMAINE: Eu o choquei? Sinto muito.

SIR WILFRID: Claro, claro. Tem um ponto de vista diferente do nosso sobre tais assuntos. Mas, asseguro-lhe, minha cara Sra. Vole, que essa não é a linha a ser adotada no caso. Seria extraordinariamente imprudente sugerir, de qualquer modo, que a Srta. French tivesse — hum — quaisquer — hum — sentimentos em relação a Leonard Vole a não ser os de mãe ou — digamos — de tia.

ROMAINE: Ora, então diremos tia, se assim julgar melhor.

SIR WILFRID: Temos de pensar no efeito que todas essas coisas exercerão sobre o júri, Sra. Vole.

ROMAINE: Sei. E eu quero fazer o mesmo. Tenho pensado muito.

SIR WILFRID: Exato. Devemos trabalhar juntos. E agora chegamos à noite do dia 14 de outubro. Faz pouco mais de uma semana. A senhora se lembra da noite em questão?

ROMAINE: Lembro-me muito bem.

SIR WILFRID: Leonard Vole visitou a Srta. French nessa noite. A governanta, Janet Mackenzie, havia saído. A Srta. French jogou uma partida de paciência para dois com o Sr. Vole e finalmente ele se despediu dela cerca das nove horas. Voltou para casa a pé, segundo me disse, chegando aproximadamente às nove horas e vinte e cinco minutos. (Olha para ela com ar interrogativo.)

ROMAINE: (Inexpressiva, reflete.) Nove e vinte e cinco.

SIR WILFRID: Às nove e meia a governanta voltou a casa para buscar algo que havia esquecido. Passando pela sala de estar ouviu a voz da Srta. French em conversa com um homem. Ela supôs que o homem com a Srta. French fosse Leonard Vole e o Inspetor Hearne afirma que foi essa declaração que levou à prisão de seu marido. O Sr. Vole, no entanto, diz que tem um álibi perfeito para aquele momento, já que estava em casa às nove e meia. (Pausa. ROMAINE não fala.) Esses fatos são verdadeiros, não são? Ele estava com a senhora às nove e meia? (Os dois homens a olham.)

ROMAINE: Foi isso que Leonard disse? Que estava em casa às nove e meia?

SIR WILFRID: Não é verdade? (Longo silêncio.)

ROMAINE: Mas é claro.

SIR WILFRID: (Suspirando de alívio.) É possível que a polícia já tenha interrogado a senhora sobre esse ponto?

ROMAINE: Já, sim. Vieram ver-me ontem à noitinha.

SIR WILFRID: E a senhora disse?...

ROMAINE: (Como se repetisse algo decorado.) Eu disse que Leonard chegou às nove e vinte e cinco é não tornou a sair.

MAYHEW: (Pouco à vontade.) A senhora disse?... Oh!

ROMAINE: Está certo, não está?

SIR WILFRID: O que quer dizer com isso, Sra. Vole?

ROMAINE: É isso que Leonard quer que eu diga, não é?

SIR WILFRID: É a verdade; a senhora acaba de afirmá-lo.

ROMAINE: Eu tenho de compreender — de ter certeza. Se eu disser que sim, que Leonard estava comigo às nove e meia — eles irão absolvê-lo? (SIR WILFRID e MAYHEW ficam perplexos.) Vão deixá-lo sair?

MAYHEW: Se ambos estiverem dizendo a verdade, então eles — bem — terão de absolvê-lo.

ROMAINE: Mas quando eu disse — isso à polícia, acho que não acreditaram em mim. (Não está perturbada, antes, parece vagamente contente.)

SIR WILFRID: O que a faz pensar que não tenham acreditado na senhora?

ROMAINE: (Com malícia repentina.) Talvez eu não tivesse dito muito bem?

 

(O olhar frio e desabusado de ROMAINE encontra o de SIR WILFRID. Há claro antagonismo entre os dois.)

 

SIR WILFRID: Sabe, Sra. Vole, não compreendo bem sua atitude em tudo isso.

ROMAINE: Quer dizer que não compreende? Bem, talvez seja um pouco difícil.

SIR WILFRID: Talvez a posição de seu marido não esteja bem clara para a senhora?

ROMAINE: Eu já disse que quero compreender perfeitamente até que ponto é preta a situação do caso contra — o meu marido. Eu disse à polícia que Leonard estava em casa às nove e meia e eles não me acreditaram. Mas será que ninguém o viu saindo da casa da Sra. French, ou na rua a caminho de casa?

MAYHEW: Seu marido não consegue se lembrar ou sugerir nada que nos possa ajudar, nesse ponto.

ROMAINE: Quer dizer então que será apenas a palavra dele — e a minha. Obrigada; é isso que eu queria saber.

MAYHEW: Mas, Sra. Vole, não se vá. Ainda há muito a discutir.

ROMAINE: Não por mim.

SIR WILFRID: E por que não, Sra. Vole?

ROMAINE: Eu vou ter de jurar, não vou, dizer a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade? (Parece estar se divertindo.)

SIR WILFRID: Esse é o juramento.

ROMAINE: (Agora ironizando abertamente.) E suponha que, então, quando o senhor me perguntar... (Imita voz de homem.) “A que horas Leonard Vole chegou naquela noite?”, eu dissesse...

SIR WILFRID: Bem?

ROMAINE: Há tantas coisas que eu poderia dizer.

SIR WILFRID: Sra. Vole, a senhora ama seu marido?

ROMAINE: (Voltando seu olhar de caçoada para MAYHEW.) Leonard diz que amo.

MAYHEW: Leonard Vole acredita que a senhora o ama.

ROMAINE: Mas Leonard não é muito inteligente.

SIR WILFRID: A senhora sabe, Sra. Vole, que, por lei, não pode ser chamada a prestar testemunho prejudicial a seu marido?

ROMAINE: Mas que conveniente!

SIR WILFRID: E seu marido pode...

ROMAINE: Ele não é meu marido.

SIR WILFRID: O quê?

ROMAINE: Leonard Vole não é meu marido. Ele tomou parte numa espécie de cerimônia de casamento comigo em Berlim. Ele me tirou da zona russa e me trouxe para este país. Eu não disse a ele, mas tinha um outro marido, vivo, naquele momento.

SIR WILFRID: Ele a tirou do setor russo e a trouxe, sã e salva, para este país? Deveria ser muito grata a ele. Será que é?

ROMAINE: Pode-se ficar muito cansada da gratidão.

SIR WILFRID: Alguma vez Leonard Vole a magoou de alguma forma?

ROMAINE: Leonard? Magoar a mim? Ele adora o chão que eu piso.

SIR WILFRID: E a senhora? (Novo duelo de olhares entre eles, depois ela ri e lhe dá as costas.)

ROMAINE: O senhor quer saber demais.

MAYHEW: Creio que devemos ser muito claros sobre o assunto. Suas declarações têm sido um tanto ambíguas. Exatamente, o que foi que aconteceu na noite de 14 de outubro?

ROMAINE: Leonard chegou às nove e vinte e cinco e não tornou a sair. Eu lhe dei seu álibi, não dei?

SIR WILFRID: Deu. Sra. Vole... (Pausa.)

ROMAINE: O que é?

SIR WILFRID: A senhora é uma mulher notável, Sra. Vole.

ROMAINE: E o senhor está satisfeito, eu espero. (Sai.)

SIR WILFRID: Quero danar-me se estou satisfeito.

MAYHEW: Ou eu.

SIR WILFRID: Aquela mulher está arrumando alguma — mas o quê? Não estou gostando disso, John.

MAYHEW: O certo é que não teve nenhum acesso histérico.

SIR WILFRID: Uma pedra de gelo.

MAYHEW: O que acontecerá se a chamarmos para depor?

SIR WILFRID: Só Deus sabe!

MAYHEW: A Promotoria desarmará a Sra. Vole em um instante. Principalmente, se for Myers.

SIR WILFRID: Se não for o Promotor-Geral, certamente será ele.

MAYHEW: Então qual será nossa linha de ataque?

SIR WILFRID: A de sempre. Ficar interrompendo — e fazer todas as objeções que se possa imaginar.

MAYHEW: O que me deixa tonto é que o jovem Vole me havia persuadido do devotamento dela.

SIR WILFRID: Não confie nisso. Qualquer mulher pode enganar qualquer homem — se quiser e se ele estiver apaixonado por ela.

MAYHEW: E ele sem dúvida está apaixonado por ela. E tem total confiança nela.

SIR WILFRID: Então é um tolo. Ninguém deve confiar em mulher.

                     (CAI O PANO)

 

 

ATO DOIS

 

CENÁRIO: Tribunal Criminal Central de Londres, mais conhecido como Old Bailey. Seis semanas mais tarde. Manhã.

 

       O trecho visível da sala do Tribunal tem uma plataforma alta, que é a mesa do Tribunal, correndo da EB ao CA. Nela estão as cadeiras de braços e mesas para o juiz, seu escrivão e o vereador. Tem-se acesso a essa plataforma por uma porta no canto à DA e por degraus, à DA, subindo do chão do Tribunal. Abaixo da plataforma estão pequenas mesas e cadeiras para o escrivão do Tribunal e para o taquígrafo do Tribunal. Há um banquinho à D das escrivaninhas para o meirinho. O banco das testemunhas fica logo abaixo da porta ao CA da plataforma. Ao CA, uma porta leva ao vestiário dos advogados e, à EA, uma porta de duas folhas, envidraçada, leva a um corredor e outras partes do edifício. Ao CE, entre as portas, há dois bancos, em degraus, para os advogados, e, abaixo destes, uma mesa, com três cadeiras e um banco. O recinto do banco fica à E e entra-se para ele por uma porta na parede à E e uma cancela na balaustrada ao alto. Há cadeiras para o réu e um guarda. O recinto do júri fica à DB, sendo que só as costas de três assentos são visíveis pela platéia.

 

     Quando o pano sobe, o Tribunal está em sessão. O Juiz, o MERITÍSSIMO WAINWRIGHT, está ao C, o ESCRIVÃO, à sua D e o VEREADOR, à sua E. O ESCRIVÃO DO TRIBUNAL e o TAQUÍGRAFO estão em seus lugares. O SR. MYERS, Q.C., pela promotoria, está sentado à D da fila da frente de advogados, com seu assistente à sua E. SIR WILFRID, pela defesa, está sentado à E da fila da frente, com seu assistente à sua D. Quatro advogados, um deles uma mulher, estão sentados na segunda fila dos assentos para advogados. LEONARD está de pé, no banco dos réus, com o guarda a seu lado. O DR. WYATT está sentado no banquinho à D da mesa. O INSPETOR está sentado na cadeira acima da extremidade da mesa. MAYHEW está sentado à E da mesa. Um POLICIAL está de pé junto à porta envidraçada. Três jurados são vistos: O PRIMEIRO é o que falará por todos, o segundo é uma MULHER e o TERCEIRO, um homem. O MEIRINHO está tomando o juramento da jurada, que está de pé.

 

JURADA: (Segurando a Bíblia e o cartão com o juramento.) ...senhora a Rainha e o réu neste julgamento que está sob minha custódia e darei um veredicto fiel segundo as provas. (Entrega a Bíblia e o cartão ao MEIRINHO e se senta.) (O MEIRINHO entrega a Bíblia e o cartão ao 1° JURADO.)

JURADO: (Levantando-se.) Juro, por Deus Todo-Poderoso, que eu julgarei bem e verdadeiramente e trarei acerto entre nossa soberana senhora a Rainha e o réu neste julgamento que está sob minha custódia e darei um veredicto fiel segundo as provas. (Entrega a Bíblia e o cartão ao MEIRINHO e se senta.)

 

(O MEIRINHO coloca a Bíblia e o cartão sobre a balaustrada do recinto do júri, depois vai sentar-se em seu banquinho à DB.)

 

ESCRIVÃO: (Levantando-se.) Leonard Vole é indiciado sob acusação do assassinato de Emily Jane French, no dia 14 de outubro, no condado de Londres. O que diz, Leonard Vole, é culpado ou inocente?

LEONARD: Inocente.

ESCRIVÃO: Senhores jurados, o réu foi indiciado como autor do assassinato, no dia 14 de outubro, de Emily Jane French. Diante de tal acusação ele se declarou inocente, e é tarefa dos senhores dizer, após ter ouvido as provas, se ele é ou não culpado. (Manda LEONARD sentar-se, com um gesto, depois também se senta. MYERS levanta-se.)

JUIZ: Um momento, Sr. Myers. (MYERS curva-se ante o JUIZ e torna a sentar-se. Para o júri.) Senhores Jurados, o momento adequado para dirigir-me aos senhores, resumir as provas e instruí-los quanto à lei é sempre após haverem os senhores ouvido todos os depoimentos. Entretanto, como tem havido considerável publicidade acerca deste caso na imprensa, gostaria apenas de dizer-lhes o seguinte, agora: cada um dos senhores segundo o juramento prestado há pouco, assumiu o compromisso de julgar este caso segundo as provas. Isso significa os depoimentos e as provas que os senhores vão ouvir e ver. Significa que não devem levar em consideração qualquer coisa que tenham visto ou ouvido antes de prestarem o juramento. Devem afastar de suas mentes tudo a não ser o que acontecerá neste Tribunal. Não devem deixar qualquer outra coisa influenciar suas mentes a favor ou contra o réu. Estou certo de que cumprirão conscienciosamente seu dever, do modo que acabo de sugerir. Pois não, Sr. Myers.

 

(MYERS levanta-se, pigarreia e ajeita a cabeleira exatamente do modo que SIR WILFRID imitou na cena anterior.)

 

MYERS: Às suas ordens, Meritíssimo. Senhores Jurados, represento neste caso, com meu nobre colega Sr. Barton, a Promotoria, enquanto que meus nobres colegas Sir Wilfrid Robarts e Sr. Brogan-Moore, a defesa. Trata-se de um caso de assassinato. Os fatos são simples e, até certo ponto, não são contestados. Serão informados, aqui, de que o réu, um homem jovem e, poderão pensar alguns, não destituído de atrativos, veio conhecer a Srta. Emily French, uma mulher de cinqüenta e seis anos. Que ele foi tratado por ela com bondade e, até mesmo, afeição. Quanto à natureza dessa afeição, os senhores terão de tirar suas próprias conclusões. O Dr. Wyatt irá declarar que, em sua opinião, a morte ocorreu a algum momento entre as nove e meia e as dez horas da noite de 14 de outubro último. Ouvirão, igualmente, o depoimento de Janet Mackenzie, que era a governanta fiel e devotada da Srta. French. O dia 14 de outubro — uma sexta-feira — era dia de saída de Janet Mackenzie, mas nessa ocasião aconteceu voltar ela a casa por alguns instantes às nove horas e vinte cinco minutos. Ela entrou com sua própria chave e ao subir as escadas passou pela porta da sala de estar. Ela lhes dirá que na sala de estar ouviu as vozes da Srta. French e do réu, Leonard Vole.

LEONARD: (Levantando-se.) Não era eu!

 

(O GUARDA segura LEONARD e obriga-o a sentar-se novamente.)

 

MYERS: Janet Mackenzie ficou surpreendida, já que, ao que soubesse, a Srta. French não esperava que Leonard Vole a visitasse naquela noite. Entretanto, saiu novamente e, quando finalmente voltou, às onze horas, encontrou a Srta. Emily French assassinada, a sala em desordem, uma janela quebrada e as cortinas esvoaçando loucamente. Apavorada, Janet Mackenzie imediatamente chamou a polícia. Devo dizer-lhes que o réu foi preso a 20 de outubro. A Promotoria afirma que a Srta. Emily French foi assassinada entre as nove e meia e as dez horas da noite, a 14 de outubro, por golpe na nuca e que esse golpe foi desferido pelo réu. Chamarei agora o Inspetor Hearne.

 

(O INSPETOR levanta-se. Tem na mão uma pasta de arquivo, cheia de papéis, aos quais vai referir-se com freqüência durante a cena. Ele entrega uma folha datilografada ao ESCRIVÃO e uma outra ao TAQUÍGRAFO. Depois dirige-se ao banco das testemunhas. O MEIRINHO se levanta, vai até a testemunha. O INSPETOR pega o cartão com o juramento que está pousado no parapeito do recinto destinado às testemunhas.)

 

INSPETOR: Juro por Deus Todo-Poderoso que o testemunho que darei será a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. Robert Hearne, Inspetor Detetive, Departamento de Investigações Criminais, New Scotland Yard. (Recoloca o cartão e a Bíblia no parapeito. O MEIRINHO volta a seu lugar.)

MYERS: Inspetor Hearne, o senhor estava de serviço na noite de 14 de outubro quando houve um chamado de emergência?

INSPETOR: Sim, senhor.

MYERS: E o que fez então?

INSPETOR: Dirigi-me, com o Sargento Randell, ao n° 23, Ashburn Grove. Fui admitido na casa e verifiquei que sua ocupante, que mais tarde identifiquei como a Srta. Emily French, estava morta. Ela estava deitada de bruços e havia recebido ferimentos graves na parte posterior da cabeça. Verifiquei que foi feita uma tentativa de forçar uma das janelas com um instrumento que poderia ter sido um formão. A janela foi quebrada perto do trinco. O vidro espalhava-se pelo chão e posteriormente também encontrei fragmentos de vidro no chão do lado de fora da janela.

MYERS: Há alguma significação especial no fato de ter encontrado fragmentos de vidro tanto do lado de dentro quanto do lado de fora da janela?

INSPETOR: O vidro quebrado do lado de fora não é coerente com a hipótese da janela ter sido forçada pelo lado de fora.

MYERS: O senhor quer dizer que, caso ela tenha sido forçada pelo lado de dentro, houve uma tentativa de dar a impressão de que ela foi forçada pelo lado de fora?

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Objeção. O meu nobre colega está pondo palavras na boca da testemunha. É realmente necessário que ele observe as regras de depoimento. (Torna a sentar-se.)

MYERS: (Para o INSPETOR.) O senhor já se ocupou em várias ocasiões de casos de roubo e arrombamento?

INSPETOR: Já, sim, senhor.

MYERS: E, segundo a sua experiência, quando uma janela é forçada pelo lado de fora, onde se encontram habitualmente os estilhaços de vidro?

INSPETOR: Do lado de dentro.

MYERS: Em algum outro caso no qual a janela tenha sido forçada pelo lado de fora, já lhe aconteceu alguma vez encontrar estilhaços de vidro no chão, do lado de fora, a alguma distância da janela?

INSPETOR: Não.

MYERS: Não. Quer fazer o favor de continuar?

INSPETOR: Foi feita uma busca, foram tiradas fotografias e tiraram-se impressões digitais de todo o local.

MYERS: De quem eram as impressões digitais?

INSPETOR: Da Srta. French, de Janet Mackenzie e algumas outras que, posteriormente, constatou-se serem as do réu, Leonard Vole.

MYERS: Mais nenhuma outra?

INSPETOR: Nenhuma.

MYERS: Posteriormente o senhor teve uma entrevista com Leonard Vole?

INSPETOR: Tive, sim, senhor. Janet Mackenzie não soube dar-me seu endereço, mas, depois de um apelo pelo rádio e pelos jornais, o Sr. Leonard Vole veio procurar-me.

MYERS: E no dia 20 de outubro, ao ser preso, o que disse o prisioneiro?

INSPETOR: Disse “O.K. Estou pronto.”

MYERS: O senhor disse, Inspetor, que a sala tinha o aspecto de um local onde um roubo tivesse sido cometido?

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Exatamente isso foi o que o Inspetor não disse. (Para o JUIZ.) Se o Meritíssimo ainda se lembra, isso foi apenas uma sugestão feita pelo meu colega — aliás muito indevidamente — à qual fiz objeções.

JUIZ: Sim, absolutamente correto, Sir Wilfrid. Ao mesmo tempo não estou certo de que o Inspetor não tenha o direito de testemunhar quanto a fatos que possam levar a provar que a desordem na sala não foi resultado de uma tentativa de arrombamento com intuito de roubo.

SIR WILFRID: Meritíssimo, respeitosamente concordo com o que disse V. Excia., mas insisto em que esse testemunho não seja apenas mera expressão de opinião e ainda mais nem sequer corroborada por fatos. (Senta-se.)

MYERS: É possível, Meritíssimo, que, se eu enunciasse minha pergunta da seguinte maneira, o meu colega ficasse mais satisfeito: Inspetor, era-lhe possível determinar, pelo que viu na sala, se tinha ou não havido um arrombamento bona fide da casa, feito de fora para dentro?

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Meritíssimo, é realmente necessário que eu continue objetando. Meu nobre colega está novamente tentando obter uma opinião da testemunha. (Senta-se.)

JUIZ: Muito bem. Sr. Myers, tenho a impressão de que o senhor deve conseguir algo melhor do que isso.

MYERS: Inspetor, o senhor encontrou alguma coisa que o levasse a considerar implausível a hipótese de arrombamento pelo lado de fora?

INSPETOR: Apenas o vidro, meu senhor.

MYERS: Nada mais?

INSPETOR: Não, senhor; nada mais.

JUIZ: Parece que nesse ponto não chegamos a lugar algum, Sr. Myers.

MYERS: A Srta. French estava usando alguma jóia valiosa?

INSPETOR: Um broche e dois anéis de brilhantes, valendo cerca de novecentas libras.

MYERS: Que não foram tocados?

INSPETOR: Exato.

MYERS: Na realidade foi roubada alguma coisa?

INSPETOR: Segundo Janet Mackenzie não faltava absolutamente nada.

MYERS: Segundo sua experiência, Inspetor, quando alguém arromba uma casa, é costume esse alguém ir embora sem levar nada?

INSPETOR: Não; a não ser que seja interrompido por algum motivo.

MYERS: Neste caso, porém, ao que tudo indica, o ladrão não foi interrompido.

INSPETOR: Não, senhor.

MYERS: O senhor tem um paletó para nos apresentar, Inspetor?

INSPETOR: Tenho, sim, senhor.

 

(O MEIRINHO vai até a mesa, apanha o paletó e entrega-o ao INSPETOR.)

 

MYERS: É esse?

INSPETOR: É, sim, senhor. (Devolve-o ao MEIRINHO.)

MYERS: Onde o obteve?

INSPETOR: Encontrei-o no apartamento do réu algum tempo depois de sua prisão, e mais tarde entreguei-o ao Sr. Clegg, do laboratório, para que o examinasse e verificasse se tinha manchas de sangue.

MYERS: E, por fim, Inspetor, o senhor tem a apresentar-nos o testamento da Srta. French?

 

(O MEIRINHO pega o testamento na mesa e entrega-o ao INSPETOR.)

 

INSPETOR: Tenho, sim, senhor. (Devolve-o ao MEIRINHO.)

MYERS: À exceção de algumas doações, a fortuna foi deixada para o réu?

INSPETOR: Isso mesmo, meu senhor.

MYERS: E qual é o valor líquido da herança?

INSPETOR: Deve ser, pelo que foi possível verificar até o momento, de aproximadamente oitenta e cinco mil libras. (MYERS senta-se.)

SIR WILFRID: (Levantando-se.) O senhor diz que as únicas impressões digitais encontradas na sala foram as da própria Srta. French, do réu Leonard Vole e de Janet Mackenzie. De acordo com sua experiência, um ladrão, ao arrombar uma casa, normalmente deixa suas impressões digitais ou tem por costume usar luvas?

INSPETOR: Ele costuma usar luvas.

SIR WILFRID: Invariavelmente?

INSPETOR: Quase que invariavelmente.

SIR WILFRID: Quer dizer que a ausência de impressões digitais em um caso de roubo dificilmente o surpreenderia?

INSPETOR: Não, senhor.

SIR WILFRID: Muito bem. E quanto às marcas de formão na janela, apareciam do lado de fora ou do lado de dentro dos batentes?

INSPETOR: Do lado de fora, senhor.

SIR WILFRID: E isso não é coerente — e digo apenas coerente — com a hipótese de um arrombamento feito pelo lado de fora?

INSPETOR: Ele poderia ter saído da casa depois para fazer as marcas, senhor, ou então fazê-las pelo lado de dentro.

SIR WILFRID: Pelo lado de dentro, Inspetor? E como conseguiria isso?

INSPETOR: Naquele ponto há duas janelas muito juntas. Ambas com batentes de madeira. Seria fácil para qualquer pessoa, estando dentro da sala, debruçar-se e forçar o trinco da outra.

SIR WILFRID: Diga-me, o senhor encontrou algum formão perto do local do crime ou no apartamento do réu?

INSPETOR: Encontrei sim, senhor. No apartamento do réu.

SIR WILFRID: Ah, sim?

INSPETOR: Mas não combinava com as marcas na janela.

SIR WILFRID: A noite de 14 de outubro foi uma noite de muito vento, não foi?

INSPETOR: Eu realmente não me lembro.

SIR WILFRID: Segundo o meu nobre colega, Janet Mackenzie declarou que as cortinas estavam esvoaçando. Talvez o senhor tenha constatado o fato pessoalmente?

INSPETOR: Bem, sim; sem dúvida, elas estavam esvoaçando.

SIR WILFRID: O que indica que havia muito vento. Consideremos um ponto: se um ladrão houvesse forçado a janela e, depois, aberto a mesma, um pouco do vidro espatifado poderia facilmente ter caído do lado de fora da janela, desde que esta, ao abrir-se, sofresse violento impulso pelo vento. Isso é possível, não é?

INSPETOR: É, sim, senhor.

SIR WILFRID: A violência criminosa, como todos nós sabemos, infelizmente, tem aumentado muito nos últimos tempos. O senhor concordaria com isso?

INSPETOR: Ela tem andado um pouco acima do normal, senhor.

SIR WILFRID: Suponhamos que alguns jovens marginais arrombassem a janela com a intenção de atacar a Srta. French e efetuar um roubo; e, no caso de um deles golpeá-la na cabeça e descobrir que a matara, seria possível que entrassem em pânico e fossem embora sem levar nada? Ou até mesmo que estivessem atrás de dinheiro e tivessem medo de tocar em jóias ou coisas desse tipo?

MYERS: (Levantando-se.) Sugiro que seja totalmente impossível ao Inspetor Hearne adivinhar o que se passaria na mente de alguns jovens marginais totalmente hipotéticos que podem muito bem não existir. (Senta-se.)

SIR WILFRID: O réu apresentou-se voluntariamente e fez seu depoimento de livre e espontânea vontade?

INSPETOR: Exatamente.

SIR WILFRID: Inspetor Hearne, poderia ter a bondade de examinar aquela faca? (O MEIRINHO pega a faca e entrega-a ao INSPETOR.) Já viu esta faca antes?

INSPETOR: É possível que sim.

SIR WILFRID: Essa é a faca tirada da mesa da cozinha do apartamento de Leonard Vole e para a qual sua atenção foi chamada pela esposa do réu na primeira vez em que a interrogou.

MYERS: (Levantando-se.) Meritíssimo, para poupar tempo ao Tribunal, permita-me dizer que aceitamos que esta seja a faca na posse de Leonard Vole e mostrada ao Inspetor pela Sra. Vole. (Senta-se.)

SIR WILFRID: Isso é exato, Inspetor?

INSPETOR: É sim, senhor.

SIR WILFRID: E ela é, creio, o que se conhece como uma faca para cortar verduras, na cozinha francesa?

INSPETOR: Creio que sim, senhor.

SIR WILFRID: Por favor, examine com o dedo o fio da faca — com muito cuidado. Concorda que o fio e a ponta estão tão afiados quanto uma navalha?

INSPETOR: Concordo sim, senhor.

SIR WILFRID: E se o senhor estivesse cortando — ou trinchando — alguma coisa, digamos um pedaço de presunto, e se sua mão escorregasse nessa faca, ela seria capaz de cortar sua mão, de fazer nela um bom corte e de provocar sangramento considerável?

MYERS: (Levantando-se.) Objeção. Isso é uma questão de opinião, até mesmo de opinião médica. (Senta-se.)

 

(O MEIRINHO recebe a faca do INSPETOR.)

 

SIR WILFRID: Retiro a pergunta. Perguntarei, em vez disso, Inspetor, se o réu, quando interrogado a respeito das manchas de sangue em seu paletó, chamou a sua atenção para uma cicatriz recente em seu pulso e declarou que ela havia sido provocada por um ferimento feito com faca de cozinha enquanto cortava presunto?

INSPETOR: Foi o que ele disse.

SIR WILFRID: E a mesma coisa lhe foi dita pela mulher do réu?

INSPETOR: Da primeira vez. Mais tarde...

SIR WILFRID: Um simples sim ou não, por favor. A mulher do réu, ao mostrar-lhe esta faca, disse que seu marido havia ferido o pulso cortando presunto?

INSPETOR: Disse sim, senhor. (SIR WILFRID senta-se.)

MYERS: (Levantando-se.) O que foi que, de início, chamou sua atenção para este paletó, Inspetor?

INSPETOR: A manga parecia ter sido recentemente lavada.

MYERS: E lhe contaram essa história a respeito do acidente com a faca?

INSPETOR: Sim, senhor.

MYERS: E sua atenção foi chamada para a cicatriz no pulso do réu?

INSPETOR: Foi sim, senhor.

MYERS: Dado que a cicatriz tenha sido provocada por um corte com esta faca, não há o que revele se este foi acidental ou deliberado?

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Realmente, Meritíssimo, se o meu nobre colega vai responder a suas próprias perguntas, a presença da testemunha me parece supérflua. (Senta-se.)

MYERS: Retiro a pergunta. Obrigado, Inspetor. (O INSPETOR desce e sai pela porta à EA que o policial fecha assim que ele sai.) Dr. Wyatt.

 

(O DR. WYATT levanta-se e entra no recinto destinado às testemunhas, levando algumas notas consigo. O MEIRINHO cruza até ele, entrega-lhe a Bíblia e segura o cartão com o juramento.)

 

WYATT: Juro por Deus Todo-Poderoso que o testemunho que darei será a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. (O MEIRINHO retoma a Bíblia e o cartão, recoloca-os no lugar e senta-se.)

MYERS: O senhor é o Dr. Wyatt?

WYATT: Sou.

MYERS: O senhor é médico-legista da polícia, servindo na Divisão de Hampstead?

WYATT: Sim.

MYERS: Dr. Wyatt, poderia ter a bondade de contar ao júri o que sabe a respeito da morte da Srta. Emily French?

WYATT: (Lendo suas notas.) Às onze horas da noite do dia 14 de outubro, eu examinei o corpo da mulher mais tarde identificada como Emily French. Pelo exame do corpo concluí que a morte havia resultado de um golpe na cabeça, com instrumento contundente. A morte seria virtualmente instantânea. Pela temperatura do corpo e outros fatores, situei a hora da morte entre não menos do que uma hora antes, ou, digamos, uma hora e meia antes. Isto é, entre as nove e meia e as dez horas da mesma noite.

MYERS: Houve qualquer luta entre a Srta. French e seu adversário?

WYATT: Não há indícios de que tenha havido. Eu diria que, ao contrário, ela estivesse inteiramente despreparada. (MYERS senta-se.)

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Doutor, exatamente onde, na cabeça, foi desferido o golpe? E foi apenas um golpe, não foi?

WYATT: Apenas um. Na parte esquerda da junção temporal.

SIR WILFRID: Perdão? Onde?

WYATT: Na têmpora esquerda. A junção dos ossos parietal, occipital e temporal.

SIR WILFRID: Ah, sei. E, em linguagem de leigo — onde é que fica isso?

WYATT: Atrás da orelha esquerda.

SIR WILFRID: E isso indicaria que a pessoa que vibrou o golpe é canhota?

WYATT: É difícil determinar. O golpe parece ter sido desferido diretamente por trás, porque o esfolamento corre perpendicularmente. Eu diria que é realmente impossível dizer se o golpe foi desfechado por um homem destro ou canhoto.

SIR WILFRID: Não sabemos ainda se foi aplicado por um homem, doutor. Mas o senhor concorda que, pela posição do golpe, há maiores probabilidades no sentido de que tenha sido desferido por uma pessoa canhota?

WYATT: É possível. Mas eu preferiria dizer que isso é incerto.

SIR WILFRID: No momento em que o golpe foi desferido, é provável que o sangue atingisse a mão e o braço do agressor?

WYATT: Certamente.

SIR WILFRID: E exclusivamente essa mão e esse braço?

WYATT: É possível que exclusivamente essa mão e esse braço, mas é difícil ser dogmático sobre esse ponto.

SIR WILFRID: Muito bem, doutor. E agora, seria necessário muita força para desferir tal golpe?

WYATT: Não. Pela posição do ferimento podemos dizer que não seria preciso muita força.

SIR WILFRID: Não seria necessariamente um homem que poderia desferir tal golpe; uma mulher também poderia fazê-lo?

WYATT: Certamente.

SIR WILFRID: Obrigado. (Senta-se.)

MYERS: (Levantando-se.) Obrigado, doutor. (Ao MEIRINHO.) Chame Janet Mackenzie. (WYATT levanta-se e sai à EA. O POLICIAL abre a porta.)

MEIRINHO: Janet Mackenzie.

 

(JANET MACKENZIE entra à EA. É uma escocesa alta e de ar amargo. Seu rosto é uma máscara sombria. Sempre que olha para LEONARD demonstra ódio e repugnância. O POLICIAL fecha a porta e JANET cruza para o recinto das testemunhas. O MEIRINHO aproxima-se, ela segura a Bíblia com a mão esquerda.)

 

MEIRINHO: Com a outra mão, por favor. (Segura o cartão com o juramento.)

JANET: (Passando a Bíblia para sua mão direita.) Juro por Deus Todo-Poderoso que o testemunho que darei será a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. (Entrega a Bíblia ao MEIRINHO, que a repõe com o cartão sobre o parapeito e volta ao seu lugar.)

MYERS: Seu nome é Janet Mackenzie?

JANET: É. Meu nome é esse.

MYERS: A senhora era acompanhante e governanta da falecida Srta. Emily French?

JANET: Eu era sua governanta. Não tenho nada a ver com acompanhantes, que são umas criaturas molengas, que têm medo de qualquer trabalho doméstico honesto.

MYERS: Exato, exato. Eu quis apenas dizer que a senhora gozava da estima e afeição da Srta. French e vivia em termos amistosos com ela. Não em termos de patroa e empregada.

JANET: (Para o JUIZ.) Fiquei vinte anos com ela, tomando conta dela. Ela me conhecia e confiava em mim e não foi uma nem duas vezes que eu impedi que ela fizesse asneiras!

JUIZ: Srta. Mackenzie, faça o favor de dirigir suas declarações ao júri.

MYERS: Que tipo de pessoa era a Srta. French?

JANET: Tinha o coração quente, às vezes quente demais, eu acho. E um pouco impulsiva, também. Às vezes não tinha juízo de espécie alguma. Sabe, era fácil de ser bajulada.

MYERS: Quando viu o réu, Leonard Vole, pela primeira vez?

JANET: Ele apareceu lá em casa, pelo que me lembro, no fim de agosto.

MYERS: Quantas vezes ele esteve naquela casa?

JANET: A princípio uma vez por semana, depois, mais. Às vezes, dois ou três dias por semana. E ficava lá, sentado, bajulando a pobre, dizendo que ela parecia moça e reparando na roupa que ela usava.

MYERS: (Um tanto precipitadamente.) Certo, certo. Será que poderia agora, Srta. Mackenzie, com suas próprias palavras, falar ao júri a respeito dos acontecimentos do dia 14 de outubro?

JANET: Era uma sexta-feira, dia de minha folga à noite. Fui visitar uma amiga minha em Glenister Road, que fica só a uns três minutos da casa, a pé. Eu tinha prometido à minha amiga levar a receita de um casaco de tricô de que ela gostava muito. Quando cheguei lá, verifiquei que tinha esquecido a receita, de modo que, depois do jantar, eu disse que daria um pulinho em casa. Cheguei lá, às nove e vinte e cinco. Entrei com minha própria chave e subi para o meu quarto. Quando passei pela porta da sala ouvi o réu lá dentro, conversando com a Srta. French.

MYERS: Tem certeza de que foi a voz do réu que a Senhorita ouviu?

JANET: Tenho. Conheço muito bem a voz dele depois de tantas visitas! Uma voz muito agradável, não vou dizer que não. Estavam falando e rindo. Mas como não era da minha conta, subi, peguei a receita do tricô, desci, saí e voltei para a casa da minha amiga.

MYERS: Bem, eu quero que seja muito precisa a respeito das horas. Disse que tornou a entrar em casa às nove horas e vinte e cinco minutos.

JANET: E. Foi logo depois das nove e vinte que eu saí de Glenister Road.

MYERS: E como sabe disso, Srta. Mackenzie?

JANET: Pelo relógio que fica em cima da lareira da casa da minha amiga, que eu comparei com o meu relógio para ver se estavam iguais.

MYERS: A Senhorita diz que leva apenas três ou quatro minutos para fazer este trajeto de modo que entrou na casa às nove horas e vinte e cinco minutos e permaneceu lá...

JANET: Um pouco menos de dez minutos. Levei alguns minutos para encontrar a receita, porque não me lembrava bem onde a deixara.

MYERS: E o que fez então?

JANET: Voltei à casa da minha amiga. Ela gostou muito da receita do tricô. Mas muito, mesmo. Eu fiquei lá até as vinte para as onze e então disse boa-noite a eles e voltei para casa. Fui até a sala para ver se minha patroa queria alguma coisa antes de ir deitar-se.

MYERS: E o que viu?

JANET: Lá estava ela no chão, pobre-coitada, com a cabeça toda amassada, e todas as gavetas da escrivaninha no chão, tudo jogado por toda parte, o vaso quebrado no chão e as cortinas esvoaçando.

MYERS: E o que foi que a Senhorita fez?

JANET: Chamei a polícia.

MYERS: E pensou, realmente, que tivesse havido um roubo?

SIR WILFRID: (Levantando-se de um salto.) Realmente, Meritíssimo, tenho de protestar. (Senta-se.)

JUIZ: Não permitirei que essa pergunta seja respondida, Sr. Myers. Ela não deveria ter sido feita à testemunha.

MYERS: Então deixe que lhe pergunte isto, Srta. Mackenzie: o que fez depois que chamou a Polícia?

JANET: Revistei a casa.

MYERS: Para quê?

JANET: Para ver se havia algum intruso.

MYERS: E o encontrou?

JANET: Não. Não havia nenhum sinal de qualquer desarrumação, a não ser na sala.

MYERS: O que é que a Senhorita sabia a respeito do réu?

JANET: Sabia que ele precisava de dinheiro.

MYERS: Ele pediu dinheiro à Srta. French?

JANET: Era esperto demais para isso.

MYERS: Ele ajudava a Srta. French em seus negócios — no preenchimento de seu formulário de Imposto de Renda, por exemplo?

JANET: É. Não que fosse necessário.

MYERS: O que quer dizer com não que fosse necessário?

JANET: A cabeça da Srta. French era muito boa e certa para negócios.

MYERS: A Senhorita tinha conhecimento da forma pela qual a Srta. French pretendia dispor de seu dinheiro ao morrer?

JANET: Ela fazia testamentos como lhe dava na cabeça. Era uma mulher rica, tinha muito dinheiro para deixar e não tinha parentes próximos. “É preciso que o dinheiro vá para onde trouxer maiores benefícios”, costumava ela dizer. Às vezes deixava para os órfãos, outras para asilos de velhos, uma outra para hospitais de cachorros e gatos, mas sempre dava na mesma coisa. Brigava com a gente daquele lugar, chegava em casa, rasgava o testamento e fazia outro.

MYERS: Sabe quando ela fez seu último testamento?

JANET: No dia 8 de outubro. Eu a ouvi falando com o Sr. Stokes, o advogado. Dizendo que ele viesse no dia seguinte, que ela ia fazer um novo testamento. Ele estava lá, na hora — quero dizer, o réu — assim meio protestando, dizendo: “Não, não.” (LEONARD rapidamente faz uma anotação.) E a patroa disse: “Mas eu quero, meu querido rapaz. Eu quero. Lembre-se daquele dia em que quase fui atropelada por um ônibus. Pode acontecer a qualquer momento.” (LEONARD inclina-se e entrega a anotação a MAYHEW, e este a SIR WILFRID.)

MYERS: A Senhorita sabe quando é que a sua patroa tinha feito o último testamento antes desse de que nos falou?

JANET: Foi na primavera.

MYERS: A Senhorita sabia que Leonard Vole era casado?

JANET: Claro que não. Nem a patroa, tampouco.

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Objeção. O que a Srta. French pudesse ou não saber é pura conjectura por parte de Janet Mackenzie. (Senta-se.)

MYERS: Vamos dizer assim: a Senhorita formou a opinião de que a Srta. French julgava que o Sr. Vole fosse solteiro? Há fatos que comprovem essa sua opinião?

JANET: Os livros que ela mandou buscar na biblioteca. A vida da Baronesa Vurdett Coutts e um a respeito de Disraeli e sua mulher. Todos dois sobre mulheres que se casaram com homens vários anos mais moços do que elas. Eu sabia em que ela estava pensando.

JUIZ: Temo que não possa admitir isso.

JANET: Por quê?

JUIZ: Senhores jurados, é possível que uma mulher leia a vida de Disraeli sem planejar casar-se com um homem mais moço do que ela.

MYERS: Alguma vez, o Sr. Vole mencionou sua mulher?

JANET: Nunca.

MYERS: Obrigado. (Senta-se.)

SIR WILFRID: (Levantando-se. Gentil e bondoso.) Creio que todos nós apreciamos e avaliamos o quanto a Senhorita era devotada à sua patroa.

JANET: É. Era, mesmo.

SIR WILFRID: E a Senhorita tinha grande influência sobre ela.

JANET: É. Pode ser que sim.

SIR WILFRID: No último testamento que a Srta. French havia feito — quero dizer, naquele que ela fez na última primavera, a Srta. French deixava praticamente toda a sua fortuna para a Senhorita. A Senhorita tinha conhecimento desse fato?

JANET: Ela me contou. “Essas instituições de caridade são todas uma bandalheira só” — foi o que ela disse. “Despesas aqui e despesas ali, e o dinheiro não vai para o objetivo no qual se pensa. Eu o deixei para você, Janet, e você poderá fazer com ele o que achar que for bom e certo.”

SIR WILFRID: O que era uma expressão de grande confiança por parte dela. No atual testamento, se não me engano, ela lhe deixou apenas uma anuidade. O maior beneficiado é o réu, Leonard Vole.

JANET: Vai ser uma injustiça, um pecado, se algum dia ele puser o dedo em um penny daquele dinheiro.

SIR WILFRID: A Senhorita disse que a Srta. French não tinha muitos amigos ou conhecidos. Por que razão?

JANET: Ela não saía muito.

SIR WILFRID: Quando a Srta. French iniciou sua amizade com Leonard Vole, a Senhorita ficou muito ressentida e zangada, não é?

JANET: Eu não gostava de ver ninguém abusar da minha querida patroa.

SIR WILFRID: Mas admitiu que o Sr. Vole não abusava dela. Talvez queira dizer que não gostava de ver que alguém a suplantava em sua influência sobre a Srta. French?

JANET: Ela se apoiava muito nele. Talvez mais do que era seguro, na minha opinião.

SIR WILFRID: Muito mais do que a Senhorita, pessoalmente, gostava?

JANET: Claro. Já disse que sim. Mas eu só estava pensando no bem dela.

SIR WILFRID: Então o réu tinha grande influência sobre a Srta. French, e, ela, uma grande afeição por ele?

JANET: Foi nisso que deu.

SIR WILFRID: Mas ele nunca recebeu dela qualquer soma em dinheiro?

JANET: Pode ser que não, por falta de tentar.

SIR WILFRID: Voltando à noite de 14 de outubro. A Senhorita diz que ouviu o réu e a Srta. French conversando. O que foi que o ouviu dizer?

JANET: Não cheguei a ouvir nada do que ele disse.

SIR WILFRID: Quer dizer então que apenas ouviu vozes — o murmúrio de vozes.

JANET: Eles estavam rindo.

SIR WILFRID: A Senhorita ouviu uma voz de homem e uma de mulher, rindo, foi isso?

JANET: É.

SIR WILFRID: E eu sugiro que foi exatamente isso o que a Senhorita ouviu. A voz de um homem e de uma mulher, rindo. Não ouviu o que estava sendo dito. O que a faz dizer que a voz fosse de Leonard Vole?

JANET: Eu conheço a voz dele muito bem.

SIR WILFRID: A porta estava fechada, não estava?

JANET: É. Estava fechada.

SIR WILFRID: A Senhorita ouviu murmúrio de vozes através de uma porta fechada e jura que uma das vozes era de Leonard Vole. Eu sugiro que isso seja apenas uma suposição de sua parte.

JANET: Era Leonard Vole.

SIR WILFRID: Pelo que eu compreendi, a Senhorita passou duas vezes pela porta, uma ao subir e outra ao descer, para sair?

JANET: É isso mesmo.

SIR WILFRID: A Senhorita, sem dúvida, estava com pressa de pegar sua receita de tricô e voltar para a casa de sua amiga?

JANET: Não estava com tanta pressa assim. Tinha a noite toda.

SIR WILFRID: O que estou sugerindo é que em ambas as ocasiões a Senhorita passou rapidamente pela porta.

JANET: Estive lá o suficiente para ouvir o que ouvi.

SIR WILFRID: Ora, vamos, Srta. Mackenzie, tenho certeza de que não está querendo dar ao júri a impressão de que estivesse escutando atrás da porta.

JANET: Não estava fazendo nada disso. Tenho mais o que fazer com meu tempo.

SIR WILFRID: Exatamente. A Senhorita está inscrita, naturalmente, no Plano Nacional de Seguro de Saúde?

JANET: Estou, sim. Quatro xelins e seis pence por semana, eu tenho de pagar. É uma quantia enorme para uma pobre mulher que trabalha como eu.

SIR WILFRID: Sim, sim; há muita gente que pensa do mesmo modo. Eu creio, Srta. Mackenzie, que recentemente a Senhorita entrou com um pedido para um aparelho auditivo?

JANET: Já faz seis meses que eu pedi e ainda não recebi.

SIR WILFRID: Então sua audição não é muito boa, não é? (Baixa a voz.) Quando digo que não poderia de modo algum reconhecer uma voz através de uma porta fechada, o que me responde? (Pausa.) Pode repetir o que eu disse?

JANET: Eu não escuto quem resmunga.

SIR WILFRID: Na realidade, a Senhorita não escutou o que eu disse, embora eu esteja a apenas alguns passos de distância, em um tribunal aberto. Entretanto, afirma que, por trás de uma porta fechada, com duas pessoas usando tom normal de conversa, a Senhorita positivamente reconheceu a voz de Leonard Vole ao passar por essa mesma porta por duas vezes.

JANET: Era ele. Estou dizendo que era ele.

SIR WILFRID: O que quer dizer é que deseja que tenha sido ele. Porque tem idéias preconcebidas a respeito.

JANET: Então, quem mais poderia ter sido?

SIR WILFRID: Exatamente. Quem mais poderia ter sido? Foi assim que a sua mente raciocinou. E agora, diga-me, Srta. Mackenzie, havia ocasiões em que a Srta. French se sentia solitária, quando ficava sozinha à noite?

JANET: Não, não ficava solitária. Tinha os livros da biblioteca.

SIR WILFRID: E também ouvia rádio?

JANET: É, também ouvia rádio.

SIR WILFRID: Gostava de ouvir uma boa palestra, ou talvez alguma boa peça, pelo rádio?

JANET: É. Gostava de boas peças.

SIR WILFRID: Não seria possível que naquela noite, ao voltar para casa e passar pela porta, o que realmente ouviu tenha sido o rádio ligado, em uma estação na qual a voz de um homem e de uma mulher estivessem rindo? Uma peça chamada A corrida do amor foi transmitida naquela noite.

JANET: Não era o rádio.

SIR WILFRID: E por que não?

JANET: Porque naquela semana o rádio estava na oficina, sendo consertado.

SIR WILFRID: (Levemente abalado.) Deve tê-la perturbado bastante, Srta. Mackenzie, pensar realmente que a Srta. French pudesse casar-se com o réu.

JANET: É claro que me perturbou. Era coisa de gente maluca.

SIR WILFRID: Para início de conversa, se esse casamento tivesse sido realizado, é perfeitamente possível, não é, que ele tivesse persuadido a Srta. French a despedi-la?

JANET: Ela nunca faria uma coisa dessas, depois desses anos todos.

SIR WILFRID: Mas nunca se sabe o que as pessoas são capazes de fazer, não é? Não quando são fortemente influenciadas por alguém.

JANET: Ele teria usado sua influência, ele teria feito tudo para se livrar de mim.

SIR WILFRID: Compreendo. A Senhorita sentia que o réu era uma ameaça muito palpável ao seu modo de vida naquele momento.

JANET: Ele teria mudado tudo.

SIR WILFRID: Sim, isso é muito perturbador. Não é de espantar que tenha ressentimentos tão amargos contra o réu. (Senta-se.)

MYERS: (Levantando-se.) Meu nobre colega despendeu muita energia para arrancar da Senhorita uma admissão de sentimentos de vingança contra o réu...

SIR WILFRID: (Sem levantar-se, porém em tom audível para o júri.) Extração sem dor — absolutamente sem dor.

MYERS: (Ignorando-o.) A Senhorita realmente acredita que sua patroa viesse a casar-se com o réu?

JANET: Acredito. Se acredito. Pois não acabo de dizer que sim?

MYERS: Não há dúvida de que acaba. A seus olhos o réu tinha tanta influência sobre a Srta. French que poderia persuadi-la a despedi-la de seu emprego?

JANET: Eu só queria ver ele tentar. Aposto que não conseguiria.

MYERS: O réu demonstrou não gostar da Senhorita, de alguma forma, em alguma ocasião?

JANET: Não, ele tinha bons modos.

MYERS: Apenas mais uma questão. A Senhorita disse que reconheceu a voz de Leonard Vole através da porta fechada. Pode dizer ao júri como sabe que era a voz dele?

JANET: Pode-se reconhecer a voz de uma pessoa sem saber exatamente o que ela está dizendo.

MYERS: Obrigado, Srta. Mackenzie.

JANET: (Para o JUIZ.) Bom-dia. (Desce e sai pela porta à EA.)

MYERS: Chamem Thomas Clegg. (O POLICIAL abre aporta.)

MEIRINHO: Thomas Clegg.

POLICIAL: (Chamando.) Thomas Clegg.

 

(JANET sai. THOMAS CLEGG entra à EA; carrega um caderno de notas. O POLICIAL fecha a porta. O MEIRINHO pega a Bíblia e o cartão com o juramento. CLEGG vai para o banco das testemunhas, e pega a Bíblia.)

 

CLEGG: (Dizendo o juramento de cor.) Juro por Deus Todo-Poderoso que o testemunho que darei é a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. (Devolve o cartão e a Bíblia ao MEIRINHO.)

MYERS: O senhor é Thomas Clegg?

CLEGG: Sou sim, senhor.

MYERS: O senhor é assistente no laboratório de medicina legal da New Scotland Yard?

CLEGG: Sim.

MYERS: Reconhece aquele paletó?

 

(O MEIRINHO pega o paletó.)

 

CLEGG: Reconheço. Foi-me dado pelo Inspetor Hearne e examinado por mim para a verificação de vestígios de sangue. (O MEIRINHO recoloca o paletó na mesa e senta-se.)

MYERS: Pode dizer-me o que encontrou?

CLEGG: As mangas do paletó haviam sido lavadas, embora não adequadamente passadas, posteriormente; mas, por meio de certos exames, posso afirmar que havia vestígios de sangue nos punhos.

MYERS: Esse sangue é de algum grupo especial?

CLEGG: Sim. (Olha em seu caderno.) É do tipo O.

MYERS: Foi-lhe dada também, para exame, uma amostra de sangue?

CLEGG: Foi-me dado um vidrinho rotulado “Sangue da Srta. Emily French”. O sangue era do mesmo grupo — O. (MYERS torna a sentar-se.)

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Diz o senhor que havia vestígios de sangue em ambos os punhos?

CLEGG: Exatamente.

SIR WILFRID: Eu sugiro que havia vestígios de sangue apenas em um dos punhos — o da manga esquerda.

CLEGG: (Olhando seu caderno de notas.) Ah, é. Desculpe. Eu tinha me enganado. Foi apenas no punho esquerdo.

SIR WILFRID: E apenas a manga esquerda foi lavada?

CLEGG: Isso mesmo.

SIR WILFRID: E o senhor está informado de que o réu havia dito à polícia que cortara o pulso e que esse era o sangue que existia em seu paletó?

CLEGG: Sim, fui informado. (SIR WILFRID pega uma certidão da mão de seu assistente.)

SIR WILFRID: Tenho aqui uma certidão de que Leonard Vole é doador de sangue no Hospital do Norte de Londres, e que seu sangue é do grupo O. É o mesmo grupo, não é?

CLEGG: É.

SIR WILFRID: Então o sangue poderia igualmente ter vindo de um corte no pulso do réu?

CLEGG: Realmente. (SIR WILFRID torna a sentar-se.)

MYERS: (Levantando-se.) O grupo de sangue O é muito comum, não é?

CLEGG: Muito. Pelo menos o de 42% das pessoas pertence ao grupo O.

MYERS: Chamem Romaine Heilger. (CLEGG desce e sai à EA.)

MEIRINHO: Romaine Heilger.

POLICIAL: (Abrindo a porta.) Romaine Heilger.

 

(CLEGG sai. ROMAINE entra à EA. Há um murmúrio geral de conversa no Tribunal enquanto ela cruza para o banco das testemunhas. O POLICIAL fecha a porta. O MEIRINHO pega a Bíblia e o cartão.)

 

MEIRINHO: Silêncio! (Entrega a Bíblia a ROMAINE e segura o cartão à sua frente.)

ROMAINE: Juro, por Deus Todo-Poderoso, que o testemunho que darei é a verdade, toda a verdade, nada mais que a verdade.

 

(O MEIRINHO recebe de volta a Bíblia e o cartão e retoma seu lugar.)

 

MYERS: Seu nome é Romaine Heilger?

ROMAINE: É.

MYERS: Tem vivido como mulher do réu, Leonard Vole?

ROMAINE: Tenho.

MYERS: E é, efetivamente, sua mulher legal?

ROMAINE: Nós tivemos uma espécie de cerimônia de casamento, em Berlim. Meu antigo marido ainda está vivo, de modo que o casamento não é...

MYERS: Não é válido.

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Meritíssimo, tenho as mais graves objeções ao fato de se permitir a esta testemunha dar seu depoimento. Nós temos o fato inegável do casamento entre esta testemunha e o réu, e nenhuma prova da existência desse dito casamento anterior.

MYERS: Se meu nobre colega não tivesse abandonado sua costumeira paciência e houvesse esperado mais uma pergunta, o Meritíssimo teria sido poupado dessa nova interrupção. (SIR WILFRID senta-se.) Sra. Heilger, esta é uma certidão de seu casamento com Otto Gerthe Heilger, realizado a 14 de abril de 1946 em Leipzig? (O MEIRINHO se levanta, leva a certidão e mostra-a a ROMAINE.)

ROMAINE: É.

JUIZ: Eu gostaria de ver a certidão. (O MEIRINHO entrega a certidão ao ESCRIVÃO, que a entrega ao JUIZ.) Esta será aprova número 4, se não me engano.

MYERS: Creio que sim, Meritíssimo.

JUIZ: (Após examinar o documento.) Creio, Sir Wilfrid, que a testemunha tem a devida competência para depor. (Entrega a certidão ao ESCRIVÃO.)

 

(O ESCRIVÃO leva a certidão ao MEIRINHO, e este, a MAYHEW. O MEIRINHO volta a seu lugar. MAYHEW mostra a certidão a SIR WILFRID.)

 

MYERS: De qualquer forma, Sra. Heilger, a senhora está disposta a depor contra o homem que vem chamando de seu marido?

ROMAINE: Perfeitamente disposta. (LEONARD se levanta, imitado pelo GUARDA.)

LEONARD: Romaine! O que é que você está fazendo aqui? — o que é que está dizendo?

JUIZ: É preciso que haja silêncio. Como o seu advogado poderá informá-lo, Sr. Vole, dentro de muito pouco tempo o senhor terá a oportunidade de falar em sua própria defesa. (LEONARD e o GUARDA tornam a sentar-se.)

MYERS: (Para ROMAINE.) Quer relatar, com suas próprias palavras, o que aconteceu na noite de 14 de outubro?

ROMAINE: Eu passei toda a noite em casa.

MYERS: E Leonard Vole?

ROMAINE: Leonard saiu às sete e meia.

MYERS: E a que horas ele voltou?

ROMAINE: Às dez horas e dez minutos. (LEONARD e o GUARDA levantam-se.)

LEONARD: Isso não é verdade. Você sabe que não é verdade. Eu cheguei em casa por volta das nove e vinte e cinco. (MAYHEW se levanta e segreda a LEONARD para que fique quieto.) Quem é que a está obrigando a dizer isso? Eu não compreendo. (Ele se encolhe, pondo o rosto entre as mãos, quase sussurrando.) Eu — não compreendo. (Torna a sentar-se. MAYHEW e o GUARDA sentam-se.)

MYERS: Leonard Vole voltou, a senhora disse, às dez horas e dez minutos? E então o que aconteceu?

ROMAINE: Ele estava com a respiração alterada, muito excitado. Arrancou o paletó e examinou as mangas. Depois disse-me para lavar os punhos. Estavam sujos de sangue.

MYERS: Ele falou a respeito do sangue?

ROMAINE: Ele disse: “Droga, estão sujos de sangue.”

MYERS: E o que foi que a senhora disse?

ROMAINE: Eu disse: “O que foi que você fez?”

MYERS: E o que foi que o réu respondeu?

ROMAINE: Ele respondeu: “Eu a matei.”

LEONARD: (Levantando-se, frenético.) Não é verdade. Estou dizendo que não é verdade. (O GUARDA segura LEONARD.)

JUIZ: Por favor, controle-se.

LEONARD: Não há uma só palavra de verdade em tudo isso. (Senta-se. O GUARDA permanece de pé.)

JUIZ: (Para ROMAINE.) A senhora sabe o que está dizendo, Sra. Heilger?

ROMAINE: Eu devo dizer a verdade, não devo?

MYERS: O réu disse: “Eu a matei.” A senhora sabia a quem ele se referia?

ROMAINE: Sim, sabia. Era à velha que ele andava visitando a toda hora.

MYERS: E o que aconteceu então?

ROMAINE: Ele me recomendou que eu devia dizer que ele tinha passado a noite toda comigo em casa e, particularmente, eu devia dizer que ele estava em casa às nove e meia. Eu disse a ele: “A polícia sabe que você a matou?” E ele respondeu: “Não, eles pensam que foi roubo. Mas, seja como for, lembre-se que eu estava em casa com você às nove e meia.”

MYERS: E posteriormente a senhora foi interrogada pela polícia?

ROMAINE: Fui.

MYERS: E perguntaram-lhe se Leonard Vole estava com a senhora às nove e meia da noite?

ROMAINE: Perguntaram.

MYERS: E qual foi a sua resposta?

ROMAINE: Eu disse que sim.

MYERS: Mas, agora, alterou seu depoimento. Por quê?

ROMAINE: (Com paixão repentina.) Porque é um assassinato. Não posso continuar a mentir para salvá-lo. Sou grata a ele, sim. Ele casou comigo e me trouxe para este país. O que ele me pediu até hoje eu sempre fiz porque era grata.

MYERS: Por que o amava?

ROMAINE: Não, nunca o amei.

LEONARD: Romaine!

ROMAINE: Eu nunca o amei.

MYERS: A senhora era grata ao réu. Ele a trouxe para este país. Ele lhe pediu que lhe desse um álibi e, a princípio, a senhora concordou, porém mais tarde julgou que fazer aquilo que ele lhe pedira era errado?

ROMAINE: Sim, foi exatamente isso.

MYERS: E por que julgou que era errado?

ROMAINE: Porque é assassinato. Não posso vir ao Tribunal e mentir, afirmando que ele estava lá, quando não estava, na hora em que o crime foi cometido. Não posso fazê-lo. Não posso fazê-lo.

MYERS: Então o que fez?

ROMAINE: Eu não sabia o que fazer. Não conheço o seu país e tenho medo da polícia. Então escrevi uma carta ao meu Embaixador e disse que mentiras eu não quero mais contar. Quero dizer a verdade.

MYERS: E esta é a verdade: que Leonard Vole voltou, naquela noite, às dez horas e dez minutos. Que tinha sangue nas mangas de seu paletó e que disse à senhora: “Eu a matei.” Essa, diante de Deus, é a verdade?

ROMAINE: Essa é a verdade. (MYERS senta-se.)

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Quando o réu passou por aquela cerimônia de casamento com a senhora, sabia ele que seu primeiro marido ainda estava vivo?

ROMAINE: Não.

SIR WILFRID: Ele agiu de boa-fé?

ROMAINE: Agiu.

SIR WILFRID: E a senhora ficou muito grata a ele?

ROMAINE: Sim, fiquei muito grata a ele.

SIR WILFRID: E demonstrou sua gratidão vindo aqui e depondo contra ele.

ROMAINE: Eu tenho de dizer a verdade.

SIR WILFRID: E disse a verdade?

ROMAINE: Sim.

SIR WILFRID: Eu sugiro à senhora que na noite de 14 de outubro Leonard Vole estava em casa em sua companhia às nove horas e vinte e cinco minutos, que é a hora em que foi cometido o crime. Sugiro que toda essa sua história é uma fabricação maldosa e que a senhora tem, por alguma razão, ressentimentos contra o réu e este foi o seu meio de expressá-los.

ROMAINE: Não.

SIR WILFRID: A senhora compreende que está sob juramento?

ROMAINE: Compreendo.

SIR WILFRID: Eu a estou avisando, Sra. Heilger, que, se não se importa com o réu, deve ter cuidado por si própria. As penas por perjúrio são muito pesadas.

MYERS: (Levantando-se e intervindo.) Realmente, Meritíssimo. Não sei se essas explosões teatrais têm em mira os jurados, mas eu devo objetar respeitosamente que não há o que nos faça supor que esta testemunha tenha dito algo que não seja a expressão da verdade.

JUIZ: Sr. Myers, esta é uma acusação de pena capital e dentro dos limites razoáveis eu gostaria de oferecer à defesa a maior latitude possível. Pois não, Sir Wilfrid. (MYERS torna a sentar-se.)

SIR WILFRID: Muito bem. A senhora disse — que havia sangue nos dois punhos?

ROMAINE: Disse.

SIR WILFRID: Nos dois punhos?

ROMAINE: Eu já afirmei que foi isso que Leonard disse.

SIR WILFRID: Não, Sra. Heilger. A senhora afirmou: “Ele me disse para lavar os punhos. Havia sangue neles.”

JUIZ: Essa é exatamente a minha anotação, Sir Wilfrid.

SIR WILFRID: Obrigado, Meritíssimo. (Para ROMAINE.) O que a senhora estava dizendo é que lavou os dois punhos.

MYERS: (Levantando-se.) Agora é a vez do meu colega de ser impreciso. Em momento algum a testemunha disse que lavou ambos os punhos, ou que sequer tenha lavado um. (Senta-se.)

SIR WILFRID: Meu colega está certo. Muito bem, Sra. Heilger, a senhora lavou os punhos?

ROMAINE: Agora eu me lembro. Foi só um punho que eu lavei.

SIR WILFRID: Obrigado. Talvez sua memória mereça pouca confiança também quanto a outros pontos da sua história. Creio que sua versão inicial, dada à polícia, foi a de que o sangue no paletó vinha de um corte causado ao cortar um presunto?

ROMAINE: Foi o que eu disse. Mas não era verdade.

SIR WILFRID: E por que mentiu?

ROMAINE: Eu repeti o que Leonard havia mandado dizer.

SIR WILFRID: Chegando mesmo a apresentar a própria faca com a qual ele o estava cortando?

ROMAINE: Quando Leonard descobriu que havia sangue nele, ele se cortou de propósito, para fazer parecer que o sangue era dele.

LEONARD: (Levantando-se.) Jamais fiz uma coisa dessas.

SIR WILFRID: (Silenciando LEONARD.) Por favor, por favor. (LEONARD senta-se. Para ROMAINE.) Então confessa que seu primeiro depoimento para a polícia era todo mentiroso? Parece ser excelente mentirosa.

ROMAINE: Leonard me disse o que falar.

SIR WILFRID: O problema é sabermos se estava mentindo naquele momento ou se está mentindo agora. Se ficasse realmente tão horrorizada ante a idéia de se cometer um assassinato, poderia ter dito a verdade à polícia quando foi interrogada pela primeira vez.

ROMAINE: Eu estava com medo de Leonard.

SIR WILFRID: A senhora estava com medo de Leonard — com medo do homem cujo coração e brio a senhora acaba de partir. Creio que o júri saberá em quem deverá acreditar. (Senta-se.)

MYERS: (Levantando-se.) Romaine Heilger, eu torno a perguntar-lhe: o depoimento que prestou é a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade?

ROMAINE: É.

MYERS: Meritíssimo, está apresentado o caso pela Promotoria. (Senta-se.)

 

(ROMAINE desce e cruza para a porta à EA. O POLICIAL abre a porta.)

 

LEONARD: (Quando ROMAINE passa por ele.) Romaine!

MEIRINHO: (Levantando-se.) Silêncio!

 

(ROMAINE sai pela EA. O POLICIAL fecha aporta. O MEIRINHO torna a sentar-se.)

 

JUIZ: Sir Wilfrid.

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Meritíssimo, Senhores Jurados, não lhes direi aqui, como poderia, que não há caso, não há acusação a ser respondida pelo réu. Existe um caso. Um caso de fortíssimas provas circunstanciais. Os senhores ouviram a polícia e outras testemunhas técnicas. Estas testemunharam justa e imparcialmente, como é do seu dever. Contra elas não tenho o que dizer. Por outro lado, ouviram Janet Mackenzie e a mulher que se chama de Romaine Vole. Podem acreditar que seus testemunhos não são deformados? Janet Mackenzie — eliminada do testamento de sua patroa rica porque sua posição foi inadvertidamente usurpada por este infeliz rapaz. (Pausa.) Romaine Vole — Heilger — ou seja lá como ela se chame, que armou uma reles farsa para casar-se com ele, embora já fosse casada. Aquela mulher deve-lhe mais do que jamais lhe poderá pagar. Ela o usou para que a salvasse de perseguições políticas. Mas admite que não o ama. Ele já serviu aos seus objetivos. Peço-lhes que tenham muito cuidado no modo pelo qual acreditarão em seu testemunho, o testemunho de uma mulher que pode ter sido educada para acreditar na doutrina perniciosa de que a mentira é uma arma para ser usada segundo a conveniência de cada um. Senhores Jurados, eu chamo o réu, Leonard Vole.

 

(O MEIRINHO levanta-se e vai ao banco das testemunhas. LEONARD levanta-se e vai testemunhar, seguido pelo GUARDA que fica de pé atrás dele. O MEIRINHO pega a Bíblia, entrega-a a LEONARD e segura o cartão do juramento.)

 

LEONARD: Juro por Deus Todo-Poderoso que o testemunho que darei será a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. (Devolve a Bíblia ao MEIRINHO que a repõe junto com o cartão no seu lugar e volta a sentar-se.)

SIR WILFRID: Muito bem, Sr. Vole. Nós já sabemos de sua amizade com a Srta. French. Agora quero que nos diga quantas vezes a visitava.

LEONARD: Freqüentemente.

SIR WILFRID: Por que razão?

LEONARD: Bem, ela era muito boa para mim e fiquei gostando dela. Era parecida com a minha tia Betsy.

SIR WILFRID: A tia que o criou?

LEONARD: Foi. Ela era muito querida. A Srta. French fazia-me lembrar dela.

SIR WILFRID: O senhor ouviu Janet Mackenzie dizer que a Srta. French pensava que o senhor era solteiro e que havia alguma possibilidade de vir a casar-se com o senhor. Há alguma verdade nisso?

LEONARD: Claro que não. É uma idéia absurda.

SIR WILFRID: A Srta. French sabia que o senhor era casado?

LEONARD: Sabia.

SIR WILFRID: Quer dizer que não havia nenhuma idéia de casamento entre o senhor e ela?

LEONARD: Mas é claro que não. Eu já lhe disse, ela me tratava como uma tia indulgente. Quase que como mãe.

SIR WILFRID: E, em troca, o senhor fazia tudo o que podia por ela.

LEONARD: Eu gostava muito dela.

SIR WILFRID: Quer contar ao júri, com suas próprias palavras, exatamente o que aconteceu na noite de 14 de outubro?

LEONARD: Bem, eu tinha encontrado um tipo novo de escova felina — uma coisa inteiramente nova, no gênero — e achei que ela poderia gostar. Nós a experimentamos em um dos gatos e foi um sucesso. Depois jogamos uma partida de paciência a dois — a Srta. French gostava muito de paciência a dois — e depois disso eu fui embora.

SIR WILFRID: Sim, mas o senhor não...

JUIZ: Sir Wilfrid, não entendi todo esse trecho do depoimento. O que é uma escova felina?

LEONARDO: Uma escova para escovar gatos.

JUIZ: Oh!

LEONARD: É uma espécie de escova misturada com pente. A Srta. French tinha gatos — oito gatos, e a casa cheirava um pouco...

SIR WILFRID: Sei, sei.

LEONARD: Eu pensei que a escova pudesse ser útil.

SIR WILFRID: O senhor viu Janet Mackenzie?

LEONARD: Não. A Srta. French me fez entrar pessoalmente.

SIR WILFRID: O senhor sabia que Janet Mackenzie tinha saído?

LEONARD: Bem, eu não pensei nisso.

SIR WILFRID: E a que horas o senhor saiu?

LEONARD: Logo, antes das nove. Fui a pé para casa.

SIR WILFRID: E levou quanto tempo?

LEONARD: Eu diria entre vinte minutos e meia hora.

SIR WILFRID: O que quer dizer que chegou em casa...?

LEONARD: Eu cheguei em casa às nove e vinte e cinco.

SIR WILFRID: E sua mulher — eu a chamarei de sua mulher — estava em casa, nessa hora?

LEONARD: Claro que estava. Eu — eu acho que ela deve ter enlouquecido. Eu...

SIR WILFRID: Não se importe com isso agora. Apenas continue sua história. O senhor lavou seu paletó ao chegar?

LEONARD: Não, claro que não.

SIR WILFRID: Quem lavou seu paletó?

LEONARD: Romaine, no dia seguinte, de manhã. Ela disse que tinha ficado sujo de sangue do corte no meu pulso.

SIR WILFRID: Um corte no seu pulso?

LEONARD: É. Aqui. (Ele mostra o pulso.) Ainda dá para ver a marca.

SIR WILFRID: Quando foi que teve notícia do assassinato pela primeira vez?

LEONARD: Quando li no jornal da tarde, no dia seguinte.

SIR WILFRID: E o que foi que sentiu?

LEONARD: Eu fiquei idiotizado. Mal conseguia acreditar. E fiquei muito perturbado, também. Os jornais disseram que tinha sido roubo. E eu jamais pensei que pudesse ser qualquer outra coisa.

SIR WILFRID: E depois disso, o que aconteceu?

LEONARD: Eu li que a polícia estava à minha procura, de modo que, naturalmente, fui até a delegacia.

SIR WILFRID: O senhor foi à delegacia e fez um depoimento?

LEONARD: É.

SIR WILFRID: E não estava nervoso? Relutante?

LEONARD: Não, claro que não. Eu queria ajudar, de alguma forma.

SIR WILFRID: Recebeu algum dinheiro da Srta. French?

LEONARD: Não.

SIR WILFRID: O senhor sabia que a Srta. French havia feito um testamento em seu favor?

LEONARD: Ela me disse que ia telefonar para os advogados dela e fazer um testamento novo. Eu perguntei se ela fazia testamentos novos muitas vezes e ela respondeu: “De tempos em tempos.”

SIR WILFRID: O senhor sabia quais seriam os termos desse novo testamento?

LEONARD: Juro que não.

SIR WILFRID: Ela havia sugerido, alguma vez, que deixaria alguma coisa para o senhor em seu testamento?

LEONARD: Não.

SIR WILFRID: O senhor ouviu o testemunho de sua mulher — ou daquela a quem o senhor considerava sua mulher — aqui neste Tribunal.

LEONARD: É, eu ouvi. Eu não compreendo — eu...

SIR WILFRID: Eu compreendo, Sr. Vole, que o senhor está muito perturbado, porém desejo pedir-lhe que deixe de lado qualquer emoção e responda às perguntas de forma clara e simples. O que aquela testemunha disse é verdadeiro ou falso?

LEONARD: Não, é claro que não é verdadeiro.

SIR WILFRID: O senhor chegou em casa às nove horas e vinte e cinco minutos e jantou com sua mulher?

LEONARD: Foi.

SIR WILFRID: O senhor tornou a sair?

LEONARD: Não.

SIR WILFRID: O senhor é destro ou canhoto?

LEONARD: Destro.

SIR WILFRID: Vou fazer-lhe apenas mais uma pergunta, Sr. Vole. O senhor matou Emily French?

LEONARD: Não, não a matei. (SIR WILFRID senta-se.)

MYERS: (Levantando-se.) O senhor já tentou alguma vez conseguir dinheiro de alguém?

LEONARD: Não.

MYERS: Desde quando, em seu relacionamento com a Srta. French, o senhor soube que ela era uma mulher muito rica?

LEONARD: Bem, eu nem sabia que ela era rica quando a fui visitar pela primeira vez.

MYERS: Mas, tendo obtido tal informação, resolveu cultivar mais assiduamente esse relacionamento?

LEONARD: Acho que é isso que parece. Mas, sabe, eu realmente gostava dela. O dinheiro não tinha nada a ver com a história.

MYERS: O senhor teria continuado a visitá-la, não importa o quão pobre ela fosse?

LEONARD: Teria, sim.

MYERS: O senhor, pessoalmente, é pobre?

LEONARD: O senhor sabe que sim.

MYERS: Por favor, responda sim ou não às perguntas.

LEONARD: Sim.

MYERS: Que salário percebe?

LEONARD: Bem, para falar a verdade, no momento eu estou desempregado. Já faz tempo que não arranjo emprego.

MYERS: O senhor foi recentemente despedido de seu emprego?

LEONARD: Não fui, não — eu deixei o emprego.

MYERS: No momento em que foi preso, quanto dinheiro o senhor tinha no banco?

LEONARD: Bem, na verdade, só umas poucas libras. Eu estava esperando um dinheiro em mais uma ou duas semanas.

MYERS: Quanto?

LEONARD: Não muito.

MYERS: Eu lhe pergunto se não estava bastante desesperado por dinheiro?

LEONARD: Desesperado, não. Eu — bem, eu estava um pouco preocupado.

MYERS: O senhor estava preocupado com dinheiro, conheceu uma mulher rica e começou a cultivar assiduamente esse conhecimento.

LEONARD: O senhor torce tudo. Já disse que gostava dela.

MYERS: Ouvimos dizer que a Srta. French costumava consultá-lo a respeito de seus formulários de Imposto de Renda.

LEONARD: Consultava, sim. O senhor sabe como são esses formulários. Ninguém compreende — ou pelo menos ela não compreendia.

MYERS: Janet Mackenzie disse-nos que a Srta. French tinha ótima cabeça para negócios, e era inteiramente capaz de se ocupar de seus interesses.

LEONARD: Bem, não era isso o que a Srta. French me dizia. Ela costumava comentar que aqueles formulários a preocupavam muito.

MYERS: Preenchendo a declaração de renda dela, o senhor naturalmente ficou sabendo exatamente qual era a sua renda?

LEONARD: Não.

MYERS: Não?

LEONARD: Bem — quero dizer, naturalmente que sim.

MYERS: Sim, muito conveniente. Por que razão, Sr. Vole, o senhor jamais levou sua mulher para visitar a Srta. French?

LEONARD: Não sei. Parece que simplesmente a idéia não me ocorreu.

MYERS: O senhor afirma que a Srta. French sabia que o senhor era casado?

LEONARD: Afirmo.

MYERS: No entanto, ela jamais lhe pediu que levasse sua mulher consigo à casa dela?

LEONARD: Não.

MYERS: E por que não?

LEONARD: Eu não sei. Acho que ela não gostava de mulheres.

MYERS: Ela preferia, digamos, rapazes de boa aparência? E o senhor não insistia em levar sua mulher?

LEONARD: Não, claro que não. Olhe, ela sabia que minha mulher era estrangeira e ela — sei lá, ela parecia pensar que nós não nos dávamos muito bem.

MYERS: Foi essa a impressão que o senhor lhe deu?

LEONARD: Não, eu não. Ela — bem, eu acho que era isso que ela queria pensar.

MYERS: O senhor quer dizer que ela estava apaixonada pelo senhor?

LEONARD: Não, não estava apaixonada, mas... é como às vezes acontece com as mães com um filho.

MYERS: Como?

LEONARD: Não querem que ele goste de nenhuma moça ou que fique noivo ou coisa assim.

MYERS: O senhor esperava, não é mesmo, obter alguma vantagem monetária de sua amizade com a Srta. French?

LEONARD: Não do modo que o senhor está querendo dizer.

MYERS: Não do modo que eu estou querendo dizer? O senhor parece saber o que eu quero dizer melhor do que eu mesmo. De que modo o senhor esperava obter vantagens monetárias, então? (Pausa.) Eu repito, de que modo o senhor pensava obter vantagens monetárias?

LEONARD: O senhor sabe, eu inventei uma coisa. Uma espécie de limpador de pára-brisa que funcionava na neve. Eu estava procurando um financiador e pensei que talvez a Srta. French se interessasse. Mas não era só por isso que eu ia visitá-la. Eu já disse que gostava dela.

MYERS: Sim, sim — já ouvimos muitas vezes o senhor dizer que gostava muito dela.

LEONARD: Pois se é verdade.

MYERS: Eu creio, Sr. Vole, que cerca de uma semana antes da morte da Srta. Frech o senhor esteve pedindo informações sobre viagens para o exterior em uma agência de viagens.

LEONARD: E daí — isso é crime?

MYERS: De modo algum. Muitas pessoas fazem cruzeiros quando podem pagar por eles. Porém o senhor não podia pagar, podia, Sr. Vole?

LEONARD: Eu já lhe disse que estava sem dinheiro.

MYERS: E no entanto o senhor entrou em uma agência de viagens — com uma loura — uma loura-morango — pelo que soube — e...

JUIZ: Uma loura-morango, Sr. Myers?

MYERS: É um termo usado para uma dama de cabelos claros avermelhados, Meritíssimo.

JUIZ: Eu julgava saber de tudo sobre louras, mas uma loura-morango... Continue, Sr. Myers.

MYERS: (Para LEONARD.) Então?

LEONARD: Minha mulher não é loura, e foi só de farra, de qualquer jeito.

MYERS: O senhor admite que pediu detalhes, não a respeito de passeios baratos, mas sobre cruzeiros caros e luxuosos? Como esperava pagar esse tipo de coisa?

LEONARD: Mas eu não esperava.

MYERS: Eu sugiro que o senhor sabia que dentro de uma semana herdaria uma grande soma de dinheiro de uma pobre senhora idosa e confiante.

LEONARD: Eu não sabia de nada disso. Eu estava só cheio de tudo — e havia uns cartazes na vitrine — palmeiras e coqueiros e mares azuis, então eu entrei e perguntei. O funcionário me olhou um pouco atravessado — as minhas roupas estavam mais para o surrado — e eu fiquei irritado. Então resolvi representar um pouco... (ele repentinamente sorri, como se o divertisse lembrar-se da cena) e comecei a perguntar pelos cruzeiros mais metidos a besta — tudo de superluxo e só com cabine no convés mais elegante.

MYERS: E o senhor realmente espera que o júri acredite nisso?

LEONARD: Eu não espero que ninguém acredite em nada. Mas foi isso o que aconteceu. Pode ter sido faz-de-conta infantil, se quiser — mas foi muito divertido e eu achei ótimo. (Repentinamente patético.) Eu não estava pensando em matar ninguém para herdar dinheiro.

MYERS: Então foi apenas uma coincidência notável que a Srta. French tenha sido morta apenas alguns dias mais tarde, deixando-o herdeiro de tudo.

LEONARD: Eu já lhe disse — eu não a matei.

MYERS: A sua história é que na noite do dia 14 o senhor deixou a casa da Srta. French faltando quatro minutos para as nove, foi a pé para casa e chegou lá às nove horas e vinte e cinco minutos e ficou em casa o resto da noite.

LEONARD: É.

MYERS: O senhor ouviu Romaine Heilger negar essa história no Tribunal. Ouviu-a dizer que o senhor chegou não às nove horas e vinte e cinco minutos, mas, sim, às dez horas e dez minutos da noite.

LEONARD: Não é verdade!

MYERS: Que suas roupas estavam manchadas de sangue e que o senhor positivamente confessou a ela haver matado a Srta. French.

LEONARD: Não é verdade. Estou lhe dizendo que não é verdade. Nem uma só palavra.

MYERS: E o senhor pode sugerir alguma razão pela qual essa jovem, que vem passando por sua mulher, haveria de fazer deliberadamente o depoimento que fez se ele não fosse verdadeiro?

LEONARD: Não, não posso. E isso é o mais terrível. Não há razão alguma. Eu acho que ela deve ter ficado louca.

MYERS: O senhor acha que ela deve ter ficado louca? Ela parecia extremamente controlada e em seu juízo perfeito. Mas a insanidade é a única razão que o senhor consegue sugerir.

LEONARD: É que eu não compreendo. Meu Deus — o que será que pôde fazê-la mudar assim?

MYERS: Muito impressionante, sem dúvida. Mas neste Tribunal nós tratamos com fatos. E o fato é, Sr. Vole, que temos apenas a sua palavra de que deixou a casa de Emily French na hora em que disse tê-la deixado, ou que chegou em casa às nove e vinte e cinco, ou que não tornou a sair.

LEONARD: Alguém deve ter-me visto — na rua — ou entrando em casa.

MYERS: Certamente que é de se pensar que sim — porém a única pessoa que o viu entrar em casa diz que foi às dez horas e dez minutos. E essa pessoa diz que o senhor tinha sangue em suas roupas.

LEONARD: Eu cortei meu pulso.

MYERS: Uma coisa muito fácil de se fazer, para o caso de aparecer alguma pergunta.

LEONARD: O senhor torce tudo. O senhor torce tudo o que eu digo. O senhor me faz parecer uma pessoa diferente do que eu sou.

MYERS: O senhor cortou seu pulso deliberadamente.

LEONARD: Não cortei, não. Eu não fiz nada, mas o senhor faz parecer que eu fiz.

MYERS: O senhor chegou em casa às dez horas e dez minutos.

LEONARD: Não cheguei, não. O senhor tem de acreditar em mim. Tem de acreditar em mim.

MYERS: O senhor matou Emily French.

LEONARD: Não matei, não. (As luzes se apagam rapidamente, deixando dois refletores sobre LEONARD e MYERS. Tão logo este último acaba de falar os dois refletores também se apagam.) Eu não a matei. Eu nunca matei ninguém. Meu Deus! É um pesadelo. Parece um sonho mau, um sonho de terror.

                     (CAI O PANO RAPIDAMENTE)

 

 

ATO TRÊS

Cena I

 

CENÁRIO: Escritório de SIR WILFRID ROBARTS, Q.C., na mesma noite.

 

       Quando o pano sobe, o palco está vazio e escuro. As cortinas estão abertas. GRETA entra imediatamente e segura aporta aberta. MAYHEW e SIR WILFRID entram. MAYHEW carrega sua pasta.

 

GRETA: Boa-noite, Sir Wilfrid. A noite está muito feia, senhor. (Sai, fechando aporta atrás de si.)

SIR WILFRID: Droga de fog! (Acende as arandelas no comutador abaixo da porta e cruza até a janela.)

MAYHEW: (Tirando o chapéu e o sobretudo.) Está uma noite desgraçada.

SIR WILFRID: Será que não existe justiça? Saímos de um Tribunal abafado, loucos por um pouco de ar fresco, e o que encontramos? (Acende a lâmpada da mesa.) Fog!

MAYHEW: Mas não está tão denso quanto aquele em que estamos metidos por causa da exibição da Sra. Heilger.

SIR WILFRID: Mulher mais desgraçada! Desde o primeiro momento em que botei os olhos nela senti cheiro de confusão. Eu sabia que alguma ela estava tramando. Uma figurinha inacreditavelmente vingativa e muito sonsa para aquele rapaz simplório no banco dos réus. Mas qual será a jogada dela, John? O que será que está querendo? Diga lá.

MAYHEW: Presumivelmente, parece, conseguir que o jovem Leonard Vole seja condenado por assassinato.

SIR WILFRID: Mas por quê? Pense em tudo o que ele fez por ela.

MAYHEW: Provavelmente fez demais.

SIR WILFRID: E ela o despreza por isso. É bem provável. As mulheres são uns bichos muito mal-agradecidos. Mas por que ser vingativa? Afinal, se estivesse cansada dele, bastava ir embora. Não parece haver nenhum interesse financeiro em ficar com ele.

GRETA: (Entra.) Trouxe o seu chá, Sir Wilfrid. E também uma xícara para o Sr. Mayhew.

SIR WILFRID: Chá? O que nós precisamos é de alguma coisa mais forte.

GRETA: Ora, o senhor sabe muito bem que gosta mesmo é do seu chá. Como foram as coisas hoje?

SIR WILFRID: Mal.

GRETA: Ah, não, senhor. Espero que não. Porque não foi ele. Eu tenho certeza de que não foi ele.

SIR WILFRID: Você continua a ter certeza de que não foi ele. Por que será?

GRETA: Porque ele não é do tipo que faz isso. Ele é bonzinho, sabe como é? — muito bonzinho. Imaginem só se ele ia ser capaz de bater com coisas na cabeça de uma velha. Mas o senhor vai livrá-lo de tudo isso, não vai?

SIR WILFRID: Eu — vou — livrá-lo. (GRETA sai.) Só Deus sabe como. E apenas uma mulher no júri — uma pena — é óbvio que as mulheres gostam dele — não imagino por quê — ele não é particularmente — atraente. É possível que tenha algo que desperte o instinto materno. Todas as mulheres querem tomar conta dele.

MAYHEW: Enquanto que a Sra. Heilger não é do tipo maternal.

SIR WILFRID: Não. É do tipo passional. Sangue quente por trás daquela fachada fria. É do tipo que enfia uma faca no homem que a enganar. Meu Deus, como eu gostaria de conseguir quebrá-la. Mostrar onde está mentindo. Mostrar quem ela é.

MAYHEW: Desculpe, Wilfrid, mas será que não está deixando isso virar um duelo pessoal entre você e ela?

SIR WILFRID: Será? É possível. Porém ela é uma mulher má, John. Estou convencido disso. E a vida de um jovem depende do resultado desse duelo.

MAYHEW: Não creio que o júri tenha gostado dela.

SIR WILFRID: Não, nisso você tem razão. Não creio que tenham gostado. Para início de conversa, ela é estrangeira; e eles desconfiam dos estrangeiros. Depois, não é casada com ele — e está mais ou menos confessando que é bígama. Nada disso cai bem. E, para concluir, não está sendo leal a seu homem na hora do aperto. Não gostamos disso neste país.

MAYHEW: Tudo isso é vantagem.

SIR WILFRID: É. Mas não basta. Não há nenhuma corroboração para as declarações dele. De espécie alguma. Ele confessa que esteve com a Srta. French naquela noite, há impressões digitais dele por toda parte, não conseguimos encontrar ninguém que o tenha visto a caminho de casa e ainda há a desgraçada da questão do testamento. A história da agência de viagens não ajuda. A mulher faz um testamento que o beneficia e imediatamente ele sai indagando a respeito de cruzeiros de luxo. Não podia ser pior.

MAYHEW: Concordo. E a explicação dele ficou longe de ser convincente.

SIR WILFRID: (Com repentina mudança; muito humano.) E no entanto, sabe, John, minha mulher faz dessas coisas.

MAYHEW: O quê?

SIR WILFRID: Vai a agências de viagens e elabora itinerários para cruzeiros caros. Para nós dois. (Oferece o pacote defumo a MAYHEW.)

MAYHEW: Obrigado, Wilfrid. (Senta-se e começa a encher o cachimbo.)

SIR WILFRID: Ela investiga todos os detalhes e lamenta, por exemplo, que o navio não faça determinada conexão nas Bermudas. Explica-me que daria tudo certo se fôssemos de avião, mas que de avião não se vê nada do país e pergunta o que é que eu acho. E eu digo: “Para mim tanto faz, querida. Resolva como preferir.” Nós dois sabemos que é só uma brincadeira e que vamos acabar fazendo o de sempre: ficar em casa.

MAYHEW: Com a minha mulher, são casas.

SIR WILFRID: Casas?

MAYHEW: Autorização para visitar. Às vezes eu acho que dificilmente haverá uma única casa em toda a Inglaterra que tenha sido anunciada para vender que minha mulher não tenha examinado. Ela faz planos de como vai distribuir o espaço e até calcula o que terá de ser gasto em obras... Chega a escolher as cortinas, as fazendas para os estofados e a determinar o esquema geral de cores. (Guarda o pacote defumo na lareira, procura fósforos.)

SIR WILFRID: Pois é... (Novamente o advogado.) O azar é que os sonhos de nossas mulheres não estão em julgamento. Mas pelo menos eles nos ajudam a compreender por que o jovem Vole foi pegar aqueles folhetos de viagens.

MAYHEW: Sonhando de olhos abertos.

SIR WILFRID: (Oferecendo-lhe uma caixa de fósforos.) Tome aí, John.

MAYHEW: Obrigado, Wilfrid.

SIR WILFRID: Creio que tivemos um pouco de sorte com Janet Mackenzie.

MAYHEW: Você quer dizer na interpretação dos fatos?

SIR WILFRID: Exato. Obvias idéias preconcebidas fizeram-na exagerar.

MAYHEW: Você usou lindamente a questão da surdez.

SIR WILFRID: É. Ali nós ganhamos. Mas ela ganhou na questão do rádio. (MAYHEW constata que não há fósforos na caixa, joga-a na lareira e guarda o cachimbo no bolso.) Não está fumando, John?

MAYHEW: Não, agora não.

SIR WILFRID: John, o que será que aconteceu realmente naquela noite? Será que foi realmente roubo com violência? A polícia tem de admitir que poderia ter sido.

MAYHEW: Mas acham que não foi e que raramente se enganam. Aquele inspetor está inteiramente convencido que foi coisa de alguém da casa, e que a tentativa de arrombamento da janela foi feita pelo lado de dentro.

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Bem, ele pode estar enganado.

MAYHEW: Será?

SIR WILFRID: Mas, nesse caso, quem era o homem com quem Janet Mackenzie ouviu a Srta. French conversar às nove e meia? A mim parece que há duas respostas para isso.

MAYHEW: Que são...?

SIR WILFRID: Primeira, que ela inventou a coisa toda quando viu que a polícia não estava satisfeita com a teoria do roubo.

MAYHEW: (Chocado.) Mas por certo ela não faria uma coisa dessas.

SIR WILFRID: Bem, então o que foi que ela ouviu? Não me diga que era um ladrão conversando amistosamente com a Srta. French — antes de bater na cabeça dela, seu palhaço velho. (Bate na cabeça de MAYHEW com seu lenço.)

MAYHEW: Bem, não há dúvida de que é pouco provável.

SIR WILFRID: Eu não creio que aquela velha amargurada hesitasse em inventar uma coisa assim. E não creio que ela hesite diante de nada, sabe? Não — não creio que — hesite — diante — de — nada.

MAYHEW: Santo Deus! Você quer dizer...?

CARTER: (Entra e fecha a porta atrás de si.) Perdão, Sir Wilfrid. Há uma moça querendo falar com o senhor. Diz ela que é a respeito do caso de Leonard Vole.

SIR WILFRID: Desequilibrada?

CARTER: Oh, não, Sir Wilfrid. Esses tipos eu reconheço logo.

SIR WILFRID: Que espécie de moça?

CARTER: Um tanto vulgar, senhor, com vocabulário um tanto grosseiro.

SIR WILFRID: E o que ela quer?

CARTER: (Citando, com certa repugnância.) Diz ela que “sabe uns troços que podem dar uma mãozinha ao réu”.

SIR WILFRID: Muito pouco provável. Mande-a entrar. (CARTER sai, levando as xícaras.) O que você acha, John?

MAYHEW: Bem, acho que não estamos em situação de deixar de examinar qualquer possibilidade.

 

(CARTER entra escoltando uma mulher. Ela parece ter uns 35 anos e suas roupas são vistosas e baratas. O cabelo louro cai sobre um lado do rosto. A maquilagem é exagerada e grosseira. Carrega uma bolsa surrada. MAYHEW levanta-se.)

 

CARTER: A jovem, meu senhor. (Sai.)

MULHER: Que história é essa? Dois? Não falo com dois, coisa nenhuma.

SIR WILFRID: Este é o Sr. Mayhew. Ele é o advogado de Leonard Vole. Eu sou Sir Wilfrid Robarts, encarregado da defesa.

MULHER: (Olhando para SIR WILFRID.) É mesmo, querido. Não o reconheci, sem a peruca. É tão bacana ver vocês todos lá, de peruca. ‘Tão’ fofocando um pouco, não é? Pois olha, pode ser que eu possa ajudar, se vocês fizerem valer a pena.

SIR WILFRID: Não sei se sabe, Srta....

MULHER: Nada de nomes. E se eu dissesse um nome, podia ser falso, não podia?

SIR WILFRID: Como preferir. Não sei se sabe que tem a obrigação de depor a respeito de qualquer prova da qual tenha conhecimento.

MULHER: Ora, sai dessa! Eu não disse que sabia de nada, disse? Eu tenho uma coisa. Que é mais importante.

SIR WILFRID: E poderíamos saber o que é?

MULHER: Sim, senhor! Eu estava no julgamento, hoje. E vi a — aquela vagabunda testemunhando. Toda metida a besta. Ela é má de verdade. Uma Jezebel, isso é o que ela é.

SIR WILFRID: Muito bem. Mas quanto a essa informação especial que a senhora tem...

MULHER: (Ardilosa.) Ah, mas o que é que eu levo nisso? O que eu tenho é muito valioso. E cem libras é quanto eu quero.

MAYHEW: Temo que não poderíamos sequer pensar em nada desse gênero; mas, se nos pudesse dizer um pouquinho mais a respeito do que tem a oferecer...

MULHER: Não compram nada sem uma manjada, não é?

SIR WILFRID: Uma manjada?

MULHER: Uma olhada na mercadoria.

SIR WILFRID: Ah, sim. Exato, exato.

MULHER: Estou com ela na palma da mão, direitinho. (Abre a bolsa.) São cartas. O que eu tenho são cartas. Dela.

SIR WILFRID: Cartas escritas por Romaine Heilger ao réu?

MULHER: Ao réu? Deixe de piadas. Pobre do bobalhão do réu, ela passou ele para trás direitinho. (Pisca.) Eu tenho mercadoria aqui para vender, querido. Não se esqueça disso.

MAYHEW: Se nos deixar ver as cartas, poderemos informá-la se elas são ou não importantes.

MULHER: A mesma coisa no seu vocabulário, não é? Bem, como eu disse, não espero que comprem sem ver. Mas trato é trato. E se as cartas forem a chave do negócio, se elas libertarem o rapaz e mandarem aquela vagabunda estrangeira para o lugar onde já devia estar, então as cem libras são minhas. Está bem?

MAYHEW: (Tirando uma nota de dez libras da carteira.) Se essas cartas contiverem informação útil à defesa — para ajudar suas despesas em vir até aqui — estou pronto a oferecer-lhe dez libras.

MULHER: (Aos gritos.) Dez porcarias de libras por isso? Acho melhor pensar de novo.

SIR WILFRID: (Indo até MAYHEW e tirando-lhe a carteira.) Se a senhora tiver alguma carta que possa ajudar a provar a inocência do meu cliente, creio que vinte libras não seriam uma quantia injusta para cobrir suas despesas. (Tira mais dez libras da carteira de MAYHEW, pega a nota na mão deste.)

MULHER: Por cinqüenta eu fecho o negócio. Quero dizer, se gostarem das cartas.

SIR WILFRID: Vinte libras. (Coloca as notas sobre a mesa.)

MULHER: Está bem, que diabo. Pronto, estão aqui. Uma pilha de cartas. (Tira as cartas da bolsa.) A que está em cima resolve o problema. (Pousa as cartas na escrivaninha e vai pegar o dinheiro. SIR WILFRID é mais rápido e pega-os antes. Ela recolhe as cartas.)

SIR WILFRID: Um momento. Suponho que essa seja a letra dela?

MULHER: Sem tirar nem pôr. Ela é que escreveu. Está tudo em ordem.

SIR WILFRID: Para isso só temos a sua palavra.

MAYHEW: Um momento. Eu tenho uma carta da Sra. Vole. Não aqui, mas no meu escritório.

SIR WILFRID: Muito bem, minha senhora, parece que teremos de acreditar em confiança... (entrega as notas) por enquanto. (Ele pega as cartas, abre-as, estica o papel, começa a ler. A MULHER conta as notas vagarosamente, observando os dois nesse meio tempo. MAYHEW aproxima-se de SIR WILFRID e espia por sobre seu ombro.) É incrível. É absolutamente incrível.

MAYHEW: Gelidamente vingativa.

SIR WILFRID: (Para a MULHER.) Como as conseguiu?

MULHER: Dedo-duro eu não sou.

SIR WILFRID: O que é que a senhora tem contra Romaine Vole?

 

(A MULHER cruza até a escrivaninha, repentina e dramaticamente vira a cabeça, inclina a lâmpada para que brilhe em seu rosto do lado que até então estivera afastado da platéia, ao mesmo tempo empurrando o cabelo para trás, deixando à mostra a face retalhada, deformada por cicatrizes. SIR WILFRID recua com uma exclamação.)

 

MULHER: Viu isso?

SIR WILFRID: Ela lhe fez isso?

MULHER: Ela, não. O cara com quem eu andava. Era coisa séria, mesmo. Ele era um pouquinho mais moço do que eu, mas gostava de mim e eu amava o cara. Aí ela apareceu. Cismou com ele e tirou ele de mim. Começou a se encontrar com ele escondido e um dia ele sumiu. Eu sabia para onde ele tinha ido. Fui atrás e peguei ele com ela. Eu disse o que pensava dela e ele pulou em cima de mim. Era de um bando que usava navalha. Me cortou direitinho. E falou: “Pronto; agora nenhum homem mais vai querer olhar para você.”

SIR WILFRID: A senhora deu parte à polícia?

MULHER: Eu? Pois sim! E nem foi culpa dele. Não de verdade. Foi dela, toda dela. Tirando ele de mim e virando ele contra mim. Mas eu fiquei de olho. Sempre atrás dela, controlando. Eu sabia de umas coisas em que ela tinha andado metida. Eu sei onde mora o sujeito que de vez em quando ela vai encontrar, escondido. E foi assim que consegui as cartas. De modo, velhinho, que agora já sabe de toda a minha história. (Levanta-se, lança o rosto para a frente afastando o cabelo.) Quer me dar um beijo? (SIR WILFRID recua com um arrepio.) Não é de admirar.

SIR WILFRID: Sinto muito. Sinto profundamente. Tem cinco aí, John? (MAYHEW mostra-lhe a carteira vazia. SIR WILFRID pega sua própria carteira no bolso e tira cinco libras.) Bem — aqui estão mais cinco.

MULHER: (Agarrando a nota.) Escondendo o leite, não é? Ainda estava disposto a subir mais cinco. (Avança para SIR WILFRID, que recua.) E, eu sabia que estava sendo mole com vocês. As cartas são boas, não são?

SIR WILFRID: Eu creio que serão de muita utilidade. (Apresenta uma carta a MAYHEW.) Aqui, John; dê uma manjada. (A MULHER escapole pela porta.)

MAYHEW: Teremos de fazer um exame grafológico, para ter certeza; se for necessário, o tal homem poderá testemunhar.

SIR WILFRID: Precisamos do sobrenome e endereço do homem.

MAYHEW: (Virando-se.) Ora, onde é que ela foi? Não pode ir embora sem nos dar maiores detalhes.

SIR WILFRID: (Sai pela porta, chamando.) Carter! Carter!

CARTER: (De fora.) O que foi, Sir Wilfrid?

SIR WILFRID: (Fora.) Onde é que foi aquela mulher?

CARTER: (Fora.) Saiu logo, senhor.

SIR WILFRID: (Fora.) Não devia tê-la deixado sair. Mande Greta atrás dela.

CARTER: (Fora.) Muito bem, Sir Wilfrid. (SIR WILFRID entra.)

MAYHEW: Foi embora?

SIR WILFRID: Foi. Mandei Greta atrás dela, mas com esse fog não há a menor esperança. Não deu o nome e escapuliu como uma enguia, enquanto nós estávamos ocupados com as cartas. Não se arriscaria a aparecer no banco das testemunhas. Basta ver o que o homem fez da outra vez.

MAYHEW: Mas poderíamos protegê-la.

SIR WILFRID: Poderíamos? Por quanto tempo? No fim, ele ou os amigos acabariam por pegá-la. Para ela, vir aqui já foi um risco. Não quer que o homem apareça. Ela só quer pegar Romaine Heilger.

MAYHEW: E que bela figura é a tal Romaine! Mas finalmente temos algo em que nos agarrar. A melhor maneira de proceder...

                     (CAI O PANO)

 

 

Cena II

 

CENÁRIO: Tribunal Old Bailey. Na manhã seguinte.

 

       Quando o pano se abre, o Tribunal aguarda a entrada do JUIZ. LEONARD e o GUARDA estão sentados no recinto dos réus. Dois advogados estão sentados na ponta E da fila de trás dos bancos dos advogados. SIR WILFRID e seu ASSISTENTE estão em seus lugares. MAYHEW, de pé à E da mesa, conversa com SIR WILFRID. O ESCRIVÃO DO TRIBUNAL, o ESCRIVÃO DO JUIZ e o TAQUÍGRAFO estão em seus lugares. Os três JURADOS — visíveis pela platéia — estão sentados. O POLICIAL está junto à porta à EA, e o MEIRINHO no alto dos degraus ao CD. MYERS, seu ASSISTENTE e dois ADVOGADOS entram ao CA. MYERS vai até SIR WILFRID e começa a falar, muito zangado. O ASSISTENTE e os dois ADVOGADOS tomam seus lugares. Há três batidas na porta do JUIZ. O MEIRINHO desce os degraus até o CD.

 

MEIRINHO: Todos de pé. (Todos ficam de pé. O JUIZ e o VEREADOR entram pela porta do JUIZ e tomam seus lugares.) Todos aqueles que tiverem mais a tratar diante dos juízes de audiência e julgamentos criminais de nossa senhora a Rainha, na jurisdição do Tribunal Criminal Central, aproximem-se e dêem sua atenção. Deus salve a Rainha.

 

(O JUIZ inclina-se para o Tribunal e todos se sentam. O MEIRINHO vai sentar-se em seu banco à DB.)

 

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Meritíssimo, desde a suspensão da sessão, certas provas de natureza surpreendente chegaram-me às mãos. São provas tais que tomei a resolução de pedir a permissão do Meritíssimo para tornar a chamar a última testemunha da acusação, Romaine Heilger.

 

(O ESCRIVÃO se levanta e sussurra no ouvido do JUIZ.)

 

JUIZ: Exatamente quando, Sir Wilfrid, tomou conhecimento de tais provas?

SIR WILFRID: Elas me foram trazidas depois que a sessão foi suspensa, ontem à noite, Meritíssimo. (O ESCRIVÃO senta-se.)

MYERS: (Levantando-se.) Meritíssimo, devo objetar ao pedido do meu nobre colega. O caso já foi encerrado pela Promotoria e... (SIR WILFRID senta-se.)

JUIZ: Sr. Myers, não era minha intenção tomar uma decisão a respeito deste ponto sem observar a formalidade rotineira de pedir para ouvir seus comentários sobre o mesmo. Pois não, Sir Wilfrid? (MYERS senta-se.)

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Meritíssimo, em um caso no qual provas vitais para o réu chegam às mãos de seus conselheiros legais a qualquer momento antes de o júri apresentar seu veredicto, minha posição é a de que tais provas não só são admissíveis, como também desejáveis. Por felicidade existe clara jurisprudência para apoiar meu ponto de vista, a ser encontrada no caso do Rei contra Stillman, relatada à página 643 do volume sobre Recursos de 1926. (Abre um volume de obra legal que está à sua frente.)

JUIZ: Não precisa citar sua fonte, Sir Wilfrid; conheço-a muito bem. Gostaria de ouvir a Promotoria, agora, Sr. Myers. (SIR WILFRID senta-se.)

MYERS: (Levantando-se.) Respeitosamente sugiro, Meritíssimo, que o caminho ora proposto por meu nobre colega, a não ser em circunstâncias excepcionais, não tem precedentes. E em que consistem, se me permitem perguntar, essas espetaculares novas provas das quais Sir Wilfrid fala?

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Cartas, Meritíssimo. Cartas escritas por Romaine Heilger.

JUIZ: Gostaria de ver as cartas a que se refere, Sir Wilfrid.

 

(SIR WILFRID e MYERS sentam-se. O MEIRINHO levanta-se, cruza até SIR WILFRID, pega as cartas, entrega-as ao ESCRIVÃO, que as leva ao JUIZ. O JUIZ estuda as cartas. O MEIRINHO retoma seu lugar.)

 

MYERS: (Levantando-se.) Meu nobre colega teve a bondade de informar-me, apenas no momento em que entrávamos no Tribunal, de que pretendia fazer este pedido, de modo que não tive a oportunidade de consultar quaisquer fontes de jurisprudência. Porém parece-me lembrar de um caso, creio que de 1930, o Rei contra Porter...

JUIZ: Não, Sr. Myers. O Rei contra Potter, de 1931. Eu representava a Promotoria.

MYERS: E, se não me falha a memória, a objeção que o Meritíssimo fez então foi sustentada.

JUIZ: Desta vez a sua memória realmente falha, Sr. Myers. A minha objeção, naquele momento, foi derrubada pelo Meritíssimo Juiz Swindon — exatamente como agora a sua o é por mim. (MYERS senta-se.)

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Chamem Romaine Heilger.

MEIRINHO: Romaine Heilger.

POLICIAL: (Abrindo a porta e chamando.) Romaine Heilger.

JUIZ: Se estas cartas forem autênticas, ficam levantados vários problemas muito graves. (Entrega as cartas ao ESCRIVÃO.)

 

(O ESCRIVÃO entrega as cartas ao MEIRINHO, que as devolve a SIR WILFRID. Durante a ligeira espera que se segue LEONARD parece muito agitado. Ele fala com o GUARDA, depois cobre o rosto com as mãos. O MEIRINHO senta-se em seu banco. MAYHEW levanta-se, fala com LEONARD e o acalma. LEONARD sacode a cabeça e parece perturbado e preocupado. ROMAINE entra à EA, cruza e se dirige ao banco das testemunhas.)

 

SIR WILFRID: Sra. Heilger, a senhora compreende que continua sob juramento?

ROMAINE: Compreendo.

JUIZ: Romaine Heilger, foi chamada a voltar ao banco das testemunhas, a fim de que Sir Wilfrid pudesse fazer-lhe mais algumas perguntas.

SIR WILFRID: Sra. Heilger, conhece um certo homem cujo primeiro nome é Max?

ROMAINE: (Reage violentamente quando o nome é mencionado) Eu não sei do que o senhor está falando.

SIR WILFRID: (Muito agradavelmente.) E, no entanto, é uma pergunta muito simples. A senhora conhece um homem chamado Max?

ROMAINE: Claro que não.

SIR WILFRID: Tem absoluta certeza disso?

ROMAINE: Eu nunca conheci ninguém chamado Max. Nunca.

SIR WILFRID: E, no entanto, creio ser nome — ou apelido — bastante comum em seu país. Está querendo dizer que jamais conheceu qualquer pessoa com esse nome?

ROMAINE: (Duvidosa.) Ah, na Alemanha — é — é possível. Talvez; não me lembro. Já faz tanto tempo.

SIR WILFRID: Não pedirei que volte sua lembrança para época tão remota. Algumas semanas serão suficientes. Digamos... (abre uma das cartas, com gesto teatral) 17 de outubro último.

ROMAINE: (Assustada.) O que é que o senhor tem aí?

SIR WILFRID: Uma carta.

ROMAINE: Eu não sei do que o senhor está falando.

SIR WILFRID: Estou falando a respeito de uma carta. Uma carta escrita a 17 de outubro. A senhora talvez se lembre dela.

ROMAINE: Não me lembro particularmente. Por quê?

SIR WILFRID: Sugiro que, nesta data, a senhora escreveu certa carta — uma carta endereçada a um homem chamado Max.

ROMAINE: Não fiz nada disso. O senhor esta contando mentiras. Não sei o que está querendo dizer.

SIR WILFRID: Essa carta é parte de toda uma série, escrita ao mesmo homem, ao longo de considerável período de tempo.

ROMAINE: (Agitada.) Mentira! Tudo mentira!

SIR WILFRID: As cartas dão a impressão de que a senhora tivesse uma — amizade muito íntima com esse homem.

LEONARD: (Levantando-se.) Como ousa dizer uma coisa dessas? (O GUARDA levanta-se e tenta conter LEONARD. Este o afasta.) Não é verdade!

JUIZ: O prisioneiro, em seu próprio interesse, permanecerá sentado.

 

(LEONARD e o GUARDA sentam-se.)

 

SIR WILFRID: Não me preocupa o teor geral da correspondência. Estou interessado apenas em uma carta específica. (Lendo.) “Meu adorado Max. Aconteceu uma coisa extraordinária. Acho que todos os nossos problemas vão acabar...”

ROMAINE: É mentira — eu nunca escrevi isso. Como é que o senhor conseguiu essa carta? Quem a deu ao senhor?

SIR WILFRID: O método por meio do qual a carta veio ter às minhas mãos é totalmente irrelevante.

ROMAINE: O senhor roubou. Além de mentiroso, é ladrão. Ou será que alguma mulher é que as deu ao senhor? Foi isso, não foi?

JUIZ: Faça o favor de limitar-se a responder às perguntas feitas pelo advogado.

ROMAINE: Mas eu não vou escutar nada disso.

JUIZ: Continue, Sir Wilfrid.

SIR WILFRID: Até aqui a senhora só ouviu a primeira frase da carta. Devo compreender que nega definitivamente tê-la escrito?

ROMAINE: É claro que nunca escrevi isso. É falsa. É um ultraje que eu seja obrigada a ouvir um montão de mentiras — de mentiras inventadas por uma mulher ciumenta.

SIR WILFRID: A minha sugestão é a de que a senhora é que esteve mentindo. A senhora mentiu flagrante e persistentemente neste Tribunal, estando sob juramento. E a razão pela qual mentiu se torna clara por meio — desta carta, que aqui está, em preto e branco, escrita pela senhora.

ROMAINE: O senhor está louco. Por que haveria eu de escrever um monte de asneiras?

SIR WILFRID: Porque diante da senhora abria-se um caminho para a liberdade — e ao planejar trilhar tal caminho o fato de um homem inocente ser condenado à morte não significava nada para a senhora. Imaginou e executou até mesmo o requinte final de, pessoalmente, ferir Leonard Vole com a faca.

ROMAINE: (Furiosa.) Eu nunca escrevi nada disso. Eu escrevi que ele se feriu quando cortava o presunto... (Sua voz some. Todos os olhares do Tribunal se voltam para ela.)

SIR WILFRID: (Triunfante.) Quer dizer então que sabe o que está escrito na carta — mesmo antes de eu a ler.

ROMAINE: Desgraçado! Desgraçado! Maldito!

LEONARD: (Gritando.) Deixe-a em paz. Não a atormente.

ROMAINE: (Olhando selvagemente em torno.) Deixem-me sair daqui — eu quero ir embora. (Sai do recinto das testemunhas. O MEIRINHO levanta-se e segura ROMAINE.)

JUIZ: Meirinho, dê uma cadeira à testemunha. (ROMAINE cai no banco à D da mesa, soluça histericamente e esconde o rosto entre as mãos. O MEIRINHO cruza e senta-se no banco à D.) Sir Wilfrid, agora leia a carta em voz alta para que o júri possa ouvir.

SIR WILFRID: (Lendo.) “Meu adorado Max. Aconteceu uma coisa extraordinária. Acho que todos os nossos problemas vão acabar. Poderei encontrá-lo sem pôr em risco o precioso trabalho que está realizando neste país. A velha de que lhe falei foi assassinada e creio que suspeitam de Leonard. Ele foi lá, mais cedo, na mesma noite, e há impressões digitais dele pela casa toda. A hora parece ter sido nove e meia. Leonard, a essa hora, já estava em casa, mas seu álibi depende de mim — de mim. Suponhamos que eu diga que ele chegou muito mais tarde e que havia sangue em sua roupa — havia mesmo sangue em sua manga, porque ele cortou o pulso na hora do jantar, de modo que tudo se junta direito. Poderei até dizer que ele me confessou que a matou. Oh, Max, meu bem-amado! Diga que posso levar isso avante — seria tão maravilhoso ficar livre de ter de interpretar o papel de esposa amante e grata. Eu sei que a Causa e o Partido vêm em primeiro lugar, mas se Leonard fosse condenado por assassinato, eu podia ir ter com você com toda a tranqüilidade e ficaríamos juntos para sempre. Sua apaixonada Romaine.”

JUIZ: Romaine Heilger, quer fazer o favor de voltar ao banco das testemunhas? (Ela volta ao banco das testemunhas.) A senhora ouviu a leitura daquela carta. O que tem a dizer?

ROMAINE: Nada.

LEONARD: Romaine, diga a ele que não escreveu aquilo. Eu sei que você não escreveu.

ROMAINE: (Cuspindo as palavras.) É claro que escrevi.

SIR WILFRID: Meritíssimo, fica então concluído o caso da defesa.

JUIZ: Sir Wilfrid, o senhor tem algum indício a respeito da pessoa a quem essas cartas foram dirigidas?

SIR WILFRID: Meritíssimo, elas chegaram anonimamente às minhas mãos e ainda não houve tempo para verificar quaisquer outros fatos. A impressão que dá é a de que ele tenha entrado ilegalmente no país e esteja engajado em atividades subversivas aqui...

ROMAINE: Vocês jamais descobrirão quem é ele... jamais. Pouco me importa o que possam fazer comigo. Nunca saberão.

JUIZ: Deseja reinquiri-la, Sr. Myers?

MYERS: (Levantando-se.) Na verdade, Meritíssimo, julgo que seria um tanto difícil, em vista desses últimos dados surpreendentes. (Para ROMAINE.) Sra. Heilger, creio que tem temperamento extremamente nervoso. Sendo estrangeira pode ser que não compreenda integralmente as responsabilidades que repousam sobre a sua pessoa quando presta um juramento diante de uni tribunal inglês. Se acaso foi intimidada a ponto de confessar alguma coisa que não fez, se escreveu uma carta em circunstâncias de grande tensão ou dentro de alguma idéia de um mundo de fantasias, não hesite em dizê-lo agora.

ROMAINE: Será necessário continuar a me torturar? Eu escrevi a carta. Agora deixem-me ir embora.

MYERS: Meritíssimo. Sugiro que a testemunha está em tal estado de agitação que dificilmente saberá o que está dizendo ou admitindo.

JUIZ: Poderá lembrar-se, Sr. Myers, que Sir Wilfrid advertiu a testemunha antes de seu depoimento anterior e salientou-lhe a natureza sagrada do juramento que prestara. (MYERS senta-se.) Sra. Heilger, desejo avisá-la de que este não será o fim da questão. Neste país não se pode cometer perjúrio sem responder por ele e posso afirmar-lhe que, sem sombra de dúvida, dentro em breve as medidas cabíveis em caso de perjúrio serão tomadas contra a senhora. A sentença por perjúrio pode ser muito pesada. Pode retirar-se. (ROMAINE desce. O POLICIAL abre aporta, ela sai. O POLICIAL fecha a porta.) Sir Wilfrid, poderá agora dirigir-se ao júri pela defesa?

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Senhores Jurados, quando a verdade é clara e evidente, ela fala por si. Não há palavras minhas, estou certo, que pudessem acrescentar algo à impressão causada pelo depoimento simples e correto prestado pelo réu e pela maldosa, pecaminosa, tentativa feita para incriminá-lo, segundo o testemunho que acabaram de ouvir...

 

(Enquanto SIR WILFRID fala as luzes baixam até apagarem-se por completo. Após alguns segundos, as luzes se acendem. Os JURADOS, que haviam saído, estão retomando seus lugares.)

 

ESCRIVÃO: (Levantando-se.) Vole, levante-se. (LEONARD levanta-se.) Senhores Jurados, estão todos de acordo quanto ao seu veredicto?

1° JURADO: (Levantando-se.) Estamos.

ESCRIVÃO: E consideram o réu, Leonard Vole, culpado ou inocente?

1° JURADO: Inocente, Meritíssimo. (Murmúrios de aprovação no Tribunal)

MEIRINHO: Silêncio!

JUIZ: Leonard Vole, o senhor foi considerado inocente do assassinato de Emily French ocorrido a 14 de outubro último. Fica portanto dispensado e está livre para deixar o Tribunal. (Levanta-se.)

 

(Todos ficam de pé. O JUIZ curva-se para o Tribunal e sai à DA, seguido do VEREADOR e do ESCRIVÃO DO JUIZ.)

 

MEIRINHO: Todos aqueles que tiverem mais a tratar diante dos juízes de audiências e julgamentos criminais de nossa senhora a Rainha, na jurisdição do Tribunal Criminal Central, podem partir e apresentar-se novamente amanhã às dez horas e trinta minutos da manhã. Deus salve a Rainha.

 

(O MEIRINHO, os JURADOS e o TAQUÍGRAFO saem pela EB. Os ADVOGADOS, ASSISTENTES e o ESCRIVÃO DO TRIBUNAL saem ao CA. O GUARDA e o POLICIAL saem pela EA. LEONARD sai do banco dos réus e cruza até MAYHEW.)

 

MAYHEW: Parabéns, meu rapaz.

LEONARD: Não sei como agradecer.

MAYHEW: (Indicando SIR WILFRID.) Este é o homem a quem terá de agradecer.

 

(LEONARD cruza para SIR WILFRID, porém dá de cara com MYERS, que lhe lança um olhar furioso e sai ao CA. SIR WILFRID cruza até LEONARD.)

 

LEONARD: (Para SIR WILFRID.) Muito obrigado, Sir Wilfrid. (Seu tom é menos espontâneo do que quando falava com MAYHEW. Parece não gostar muito de SIR WILFRID.) O senhor — senhor me tirou de uma encrenca dos diabos.

SIR WILFRID: Encrenca dos diabos! Ouviu essa, John? Seus problemas agora já acabaram, meu rapaz.

MAYHEW: Mas foi por pouco, sabe?

LEONARD: É, foi sim.

SIR WILFRID: Se nós não tivéssemos conseguido quebrar aquela mulher...

LEONARD: Era necessário o senhor atacá-la daquele jeito? Foi uma coisa horrível vê-la ali, aos pedaços. Eu não consigo acreditar...

SIR WILFRID: Escute aqui, Vole. Não é o primeiro rapaz que conheço louco por uma mulher a ponto de tornar-se cego quanto à sua verdadeira personalidade. Aquela mulher fez tudo o que pôde para amarrar uma corda no seu pescoço.

MAYHEW: É melhor que não o esqueça.

LEONARD: Mas por quê? Eu não compreendo. Ela sempre pareceu tão devotada a mim. Eu jurava que ela me amava — e, no entanto, esse tempo todo ela estava encontrando com esse outro sujeito. É inacreditável — há qualquer coisa na história toda que eu não compreendo.

GUARDA: (Entra pela EA.) Só mais uns minutinhos, senhor. Nós os faremos sair pela porta do lado.

LEONARD: Ainda há muita gente lá fora?

 

(ROMAINE, escoltada pelo POLICIAL, entra à EA.)

 

POLICIAL: É melhor a senhora esperar aqui. Aquela gente toda lá fora está perigosa. Eu, se fosse a senhora, esperava todos irem embora para sair.

ROMAINE: Obrigada.

 

(O GUARDA e o POLICIAL saem à EA. ROMAINE cruza na direção de LEONARD.)

 

SIR WILFRID: (Interceptando-a.) Nada disso.

ROMAINE: O senhor está tentando proteger Leonard de mim? Realmente, não há necessidade.

SIR WILFRID: A senhora já fez todo o mal suficiente.

ROMAINE: Não posso sequer dar parabéns a Leonard por estar livre?

SIR WILFRID: Não graças à senhora.

ROMAINE: E, além do mais, rico.

LEONARD: Rico?

MAYHEW: Sim, eu creio, Sr. Vole, que sem dúvida irá herdar muito dinheiro.

LEONARD: (Jeito de garoto.) Dinheiro não parece significar muita coisa, depois de tudo por que passei. Romaine, eu não compreendo...

ROMAINE: (Tranqüila.) Leonard, eu posso explicar...

SIR WILFRID: Não! (Ele e ROMAINE se olham como dois antagonistas.)

ROMAINE: Diga-me. Tudo aquilo que o Juiz falou quer dizer que eu — eu irei para a prisão?

SIR WILFRID: A senhora certamente será acusada de perjúrio e julgada. É provável que vá para a prisão.

LEONARD: Estou certo de que — que tudo vai ficar bem, Romaine. Não se preocupe.

MAYHEW: Será que nunca vai criar juízo, Vole? Agora é hora de pensar em coisas mais práticas — como a aprovação do testamento.

 

(MAYHEW desce com LEONARD para a DB, onde conversam em tom baixo. SIR WILFRID e ROMAINE permanecem, medindo-se mutuamente.)

 

SIR WILFRID: Talvez a interesse saber que vi quem era desde o nosso primeiro encontro. Naquela hora resolvi que haveria de vencê-la em seu próprio jogo e, por Deus, consegui. Consegui libertá-lo — apesar da senhora.

ROMAINE: Apesar de mim...

SIR WILFRID: Não vai negar, vai, que fez tudo para que ele fosse enforcado?

ROMAINE: Eles iriam acreditar em mim se eu dissesse que ele estava em casa naquela noite? Iriam?

SIR WILFRID: (Ligeiramente constrangido.) E por que não?

ROMAINE: Porque diriam a si mesmos: aquela mulher ama aquele homem — por ele, ela faria qualquer coisa. Teriam pena de mim, sem dúvida. Mas não acreditariam em mim.

SIR WILFRID: Se estivesse dizendo a verdade, acreditariam.

ROMAINE: Será? (Pausa.) Eu não queria que sentissem pena — queria que não gostassem de mim, que desconfiassem de mim, que se convencessem que eu era mentirosa. E então, quando minhas mentiras fossem reveladas — então eles acreditariam... (Com o tom vulgar da MULHER que visitou o escritório de SIR WILFRID.) Então agora já sabe da história toda, velhinho — quer me dar um beijo?

SIR WILFRID: (Estarrecido.) Meu Deus!

ROMAINE: (Novamente em tom natural.) Sim, a mulher das cartas. Eu as escrevi. Eu as levei para o senhor. Eu era aquela mulher. Não foi o senhor quem conquistou a liberdade de Leonard. Fui eu. E por isso irei para a prisão. Mas quando tudo acabar Leonard e eu seremos felizes novamente — juntos, nos amando.

SIR WILFRID: (Comovido.) Mas, minha cara... Por que não confiou em mim? Nós acreditamos, sabe, que o sistema da justiça inglesa defende a verdade. Nós o teríamos livrado.

ROMAINE: Isso era um risco que eu não podia correr. (Lentamente.) Sabe, o senhor pensava que ele era inocente.

SIR WILFRID: (Com admiração.) Enquanto que a senhora sabia que ele era inocente. Eu entendo...

ROMAINE: Mas não entendeu tudo. Eu sabia que ele era culpado.

SIR WILFRID: (Estarrecido.) E não tem medo?

ROMAINE: Medo?

SIR WILFRID: De ligar sua vida à de um assassino.

ROMAINE: O senhor não compreende — nós nos amamos.

SIR WILFRID: Na primeira vez em que nos encontramos, eu disse que a senhora era uma mulher notável — não vejo motivos para mudar de opinião. (Cruza e sai ao CA.)

GUARDA: (Fora, à EA.) Não adianta entrar, moça. Já acabou tudo.

 

(Há certo movimento fora, à EA, depois uma MOÇA entra, de lá, correndo. E uma loura-morango muito jovem, de atrativos baratos e óbvios. Corre para LEONARD por entre os bancos dos advogados e encontra-o ao CB.)

 

MOÇA: Len, meu amor, você está livre. (Abraça-o.) Não é maravilhoso? Eles queriam me segurar lá fora. Querido, tem sido horrível. Eu estava ficando maluca.

ROMAINE: Leonard — quem — é — essa — moça?

MOÇA: (Desafiadora, para ROMAINE.) Sou a garota de Len. Eu sei tudo a seu respeito. Você não é mulher dele. Nunca foi. Você é muito mais velha do que ele, mas conseguiu agarrá-lo e tem feito tudo para fazer ele ser enforcado. Mas agora tudo isso acabou. (Para LEONARD.) Nós vamos para o estrangeiro, como você disse, em um daqueles cruzeiros — vamos ver todas aquelas coisas lindas. Vamos nos divertir à vontade.

ROMAINE: Isso é — verdade? Ela é sua garota, Leonard?

LEONARD: (Hesita, depois decide que a situação tem de ser aceita.) É. E, sim.

ROMAINE: Depois de tudo o que eu fiz por você. O que é que ela pode fazer por você que se compare com isso?

LEONARD: (Abandonando todos os disfarces de sua personalidade e revelando uma grosseria brutal.) Ela tem menos quinze anos do que você. (Ri. ROMAINE reage como se tivesse sido chicoteada.) Consegui o dinheiro. Fui absolvido, de modo que não posso ser julgado de novo, e é melhor calar essa boca se não quiser arranjar um julgamento por cumplicidade. (Vira-se para a MOÇA e abraça-a.)

ROMAINE: (Pega a faca na mesa. Atira a cabeça para trás com repentina dignidade.) Não; isso não vai acontecer. Eu não serei julgada por cumplicidade. Nem serei julgada por perjúrio. Serei julgada por assassinato... (apunhala LEONARD pelas costas)... o assassinato do único homem a quem amei. (LEONARD cai. A MOÇA grita. MAYHEW inclina-se sobre LEONARD, sente seu pulso e sacode a cabeça. ROMAINE olha para a cadeira do JUIZ.) Culpada, Meritíssimo.

                     (CAI O PANO)

 

                                                                                Agatha Christie  

 

                      

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