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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM CAPRICHO DOS DEUSES / Sidney Sheldon
UM CAPRICHO DOS DEUSES / Sidney Sheldon

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Mary Ashley, uma jovem e brilhante professora de assuntos da Eu­ropa Oriental na Universidade Estadual do Kansas, é designada embai­xadora dos Estados Unidos num país da Cortina de Ferro, a Romênia. Desse momento em diante, ela mergulha num pesadelo assustador, que acaba com a vida de seu marido e ameaça a sua e a de seus dois filhos. Numa diabólica trama de espionagem, concebida por uma cabala, de po­derosos líderes mundiais, a ação vai de Washington a Paris, Roma, Bue­nos Aires e Bucareste.

Sozinha, estranha numa terra estranha, Mary Ashley se descobre atraí­da por dois homens carismáticos: Mike Slade, seu enigmático subchefe da missão, e Louis Oesforges, médico da embaixada francesa. Um deles está envolvido numa conspiração para matá-la — mas qual?

A tensão vai se adensando para um clímax espetacular, enquanto uma das mais tocantes heroínas de Sheldon passa de uma inocente esposa e mãe oriunda de uma pequena cidade americana para uma mulher que se vê obrigada a enfrentar inimigos mortais desconhecidos e que se torna o alvo de Angel, um assassino de aluguel de nível internacional que ja­mais fracassou em qualquer contrato de assassinato.

Neste seu magistral livro, Sidney Sheldon apresenta os mes­mos personagens fascinantes e a ação vertiginosa que se tornaram a sua marca registrada.

 

 

 

 

                               Perho, Finlândia

A reunião foi realizada numa cabana confortável, prepa­rada para resistir a qualquer tempestade, numa área remo­ta de bosques, a 340 quilômetros de Helsinki, perto da fronteira russa. Os membros da divisão ocidental do Co­mitê chegaram discretamente, a intervalos regulares. Vinham de oito países diferentes, mas um importante ministro do Valtioneuvosto, o conselho de Estado finlandês, cuidara de tudo e não havia visto de entrada em seus passaportes. À chegada, guardas armados escoltavam os visitantes até a ca­bana. Depois que o último apareceu, a porta da cabana foi trancada e os guardas tomaram suas posições, sob o vento uivante de janeiro, alertas a qualquer sinal de intrusos.

Os homens sentados à mesa grande e retangular eram poderosos, ocupavam altos cargos em seus respectivos go­vernos. Já haviam se encontrado antes, em circunstâncias menos clandestinas, e confiavam uns nos outros porque não tinham opção. Como medida de segurança adicional, cada um recebera um codinome.

A reunião já se prolongava há quase cinco horas, e a discussão era acalorada.

O presidente acabou decidindo que estava na hora de fazer uma votação. Levantou-se, um homem muito alto, virou-se para o companheiro sentado à sua direita.

— Sigurd?

— Sim.

— Odin?

— Sim.

— Balder?

— Estamos sendo precipitados. Se isso vier à tona, nos­sas vidas estariam...

— Sim ou não, por favor?

— Não...

— Freyr?

— Sim.

— Sigmund?

— Nein. O perigo...

— Thor?

— Sim.

— Tyr?

— Sim.

— Eu também voto sim. A resolução está aprovada. Informarei ao Controlador. Em nossa próxima reunião co­municarei a sua recomendação para a pessoa mais bem qua­lificada para executar a proposta. Manteremos as precauções habituais e sairemos a intervalos de vinte minutos. Obriga­do, senhores.

 

Duas horas e 45 minutos depois, a cabana estava deserta. Um grupo de especialistas, levando querosene, entrou em ação e ateou fogo à cabana, as chamas vermelhas atiçadas pelo vento.

Quando a palokunta, a brigada de incêndio de Perho, chegou ao local, nada mais restava para se ver, além das brasas fumegantes que destacavam a cabana contra a neve. O assistente do chefe dos bombeiros aproximou-se das cinzas, inclinou-se e cheirou.

— Querosene — murmurou. — O incêndio foi pro­posital.

O chefe olhava fixamente para as ruínas, com expres­são aturdida.

— É muito estranho...

— O quê?

— Estive caçando nesta área na semana passada. Não havia nenhuma cabana por aqui.

 

 

                               Washington, D.C.

Stanton Rogers estava fadado a ser presidente dos Estados Unidos. Era um político carismático, atraía a atenção de um público que o aprovava, contava com o apoio de ami­gos poderosos. Infelizmente para Rogers, a libido interrom­peu sua carreira. Ou, como comentaram os maledicentes de Washington:

— O velho Stanton fodeu-se no caminho para a pre­sidência.

Não se diga que Stanton Rogers se imaginava um Casanova. Ao contrário, fora um marido exemplar até aque­la aventura romântica fatal. Era bonito, rico, e estava se encaminhando para um dos cargos mais importantes do mundo; tivera muitas oportunidades para enganar a espo­sa, mas nunca pensara em outra mulher.

Houve uma segunda ironia, talvez maior: a esposa de Stanton Rogers, Elizabeth, era comunicativa, bonita e in­teligente, e os dois partilhavam um interesse comum em qua­se tudo, enquanto Barbara, a mulher por quem Rogers se apaixonou e acabou casando, depois de um divórcio que foi a delícia dos colunistas, era cinco anos mais velha, ti­nha um rosto agradável mas não era bonita, e parecia não ter nada em comum com ele. Stanton era atlético; Barbara detestava todas as formas de exercício físico. Stanton era gregário; Barbara preferia ficar a sós com o marido ou en­tão receber apenas pequenos grupos. A maior surpresa pa­ra os que conheciam Stanton Rogers era a diferença política. Stanton era um liberal, enquanto Barbara fora criada nu­ma família de arquiconservadores.

Paul Ellison, o maior amigo de Stanton, comentara:

— Você deve ter perdido o juízo! Você e Liz estavam praticamente no Livro Guinness de Recordes Mundiais co­mo o casal perfeito. Não pode jogar tudo isso fora por uma trepada rápida.

Stanton Rogers respondera tensamente:

— Não fale assim, Paul. Estou apaixonado por Bar­bara e vamos casar assim que eu obtiver o divórcio.

— Tem alguma idéia das conseqüências para a sua carreira?

— Metade dos casamentos deste país termina em di­vórcio. Não fará a menor diferença.

Revelara-se um péssimo profeta. As notícias do divór­cio litigioso foram um maná para a imprensa, e as publica­ções sensacionalistas divulgaram tudo, inclusive fotografias do ninho de amor de Stanton Rogers e histórias de encon­tros secretos à meia-noite. Os jornais sustentaram a histó­ria por tanto tempo quanto foi possível. Quando o furor finalmente se desvaneceu, os amigos poderosos que apoia­vam Stanton Rogers em seu caminho para a presidência ha­viam desaparecido. Encontraram um novo cavaleiro andante para apoiar: Paul Ellison.

 

Ellison era uma escolha sensata. Podia não possuir a apa­rência atraente e o carisma de Stanton Rogers, mas era in­teligente, simpático e tinha os antecedentes certos. Era baixo, feições regulares, olhos azuis que irradiavam sinceridade. Estava casado e feliz há dez anos com a filha de um mag­nata do aço; ele e Alice eram conhecidos como um casal afetuoso e apaixonado.

Como Stanton Rogers, Paul Ellison cursara Yale e se formara pela Faculdade de Direito de Harvard. Os dois ha­viam sido criado juntos. Suas famílias possuíam casas de veraneio vizinhas em Southampton, e os garotos iam à praia, organizavam times de beisebol e, mais tarde, saíam juntos com namoradas. Foram da mesma turma em Harvard. Paul Ellison saíra-se muito bem, mas Stanton Rogers fora o as­tro da turma. O pai de Stanton Rogers era sócio sênior de um prestigiado escritório de advocacia de Wall Street. Stan­ton trabalhava lá nas férias de verão e arrumou para que Paul o acompanhasse. Assim que saiu da faculdade, a es­trela política de Stanton Rogers começou a subir meteoricamente; e se ele era o cometa, Paul Ellison era a cauda.

O divórcio mudou tudo. Foi Stanton Rogers quem se tornou agora o apêndice de Paul Ellison. A trilha que leva­va ao topo da montanha exigiu quase quinze anos para ser percorrida. Ellison perdeu uma eleição para o Senado, ga­nhou a seguinte, e nos quatro anos subseqüentes tornou-se um legislador objetivo e destacado. Lutou contra o desper­dício no governo e a burocracia de Washington. Era um populista, e acreditava na détente internacional. Foi convi­dado a fazer o discurso de ratificação da candidatura do Presidente, que concorria à reeleição. Fez um discurso bri­lhante e arrebatado, que impressionou todo mundo. Qua­tro anos depois, Paul Ellison foi eleito presidente dos Estados Unidos. Sua primeira nomeação foi de Stanton Ro­gers como assessor presidencial para a política externa.

 

A teoria de Marshall McLuhan de que a televisão transfor­maria o mundo numa aldeia global se tornara realidade. A posse do 42? presidente dos Estados Unidos foi transmiti­da via satélite para mais de 190 países.

 

No Black Rooster, um ponto de encontro dos jornalistas de Washington, Ben Cohn, um veterano repórter político de The Washington Post, estava sentado a uma mesa em companhia de quatro colegas, assistindo à posse no enor­me aparelho de televisão que ficava por cima do balcão.

— O filho da mãe me custou cinqüenta dólares — queixou-se um dos repórteres.

— Eu bem que avisei para não apostar contra Ellison

— disse Ben Cohn. — Ele tem magia. Devia ter acreditado nisso.

A câmara mostrou a enorme multidão concentrada na Pennsylvania Avenue, encolhida em sobretudos contra o ge­lado frio de janeiro, ouvindo a cerimônia pelos alto-falantes em torno do palanque. Jason Merlin, presidente do Supre­mo Tribunal dos Estados Unidos, terminou de fazer o ju­ramento. O novo presidente apertou-lhe a mão e adiantou-se para o microfone.

— Olhem só para aqueles idiotas congelando lá na rua — comentou Ben Cohn. — Sabem por que não estão em suas casas, como seres humanos normais, assistindo pela televisão?

— Por quê?

— Porque um homem está fazendo história, meus ami­gos. Um dia todas aquelas pessoas contarão a seus filhos e netos que estavam presentes no momento em que Paul Ellison prestou juramento. E vão se gabar: "Fiquei tão perto que poderia até tocá-lo."

— Você é um cético, Cohn.

— E me orgulho disso. Todos os políticos do mundo são iguais. Querem tudo o que puderem conseguir. A ver­dade, meus amigos, é que nosso novo presidente é um libe­ral e idealista. A combinação é suficiente para deixar qualquer homem inteligente com pesadelos. Minha defini­ção de um liberal é: um homem que está com o rabo firme­mente assentado em nuvens de algodão.

A verdade é que Ben Cohn não era um cético como dava a impressão. Cobrira a carreira de Paul Ellison desde o início. A princípio não ficara impressionado, mas come­çara a mudar de opinião à medida que Ellison galgava a hierarquia política. Compreendera que se tratava de um ho­mem que não se curvava ante ninguém. Um carvalho nu­ma floresta de salgueiros.

Lá fora, o céu explodia em lençóis gelados de chuva. Ben Cohn esperava que aquele tempo não fosse um presságio para os quatro anos que vinham pela frente. Tornou a concentrar a atenção no aparelho de televisão.

— A presidência dos Estados Unidos é uma tocha ilu­minada pelo povo americano e passada de mão em mão a cada quatro anos. A tocha que foi confiada aos meus cui­dados é a arma mais poderosa do mundo. É bastante po­derosa para destruir a civilização como a conhecemos ou se tornar um farol que iluminará o futuro para nós e para o resto do mundo. A opção é nossa. Dirijo-me hoje não apenas aos nossos aliados, mas também aos países no cam­po soviético. Digo a eles agora, quando nos preparamos para ingressar no século XXI, que não há mais espaço para con­frontações e que devemos aprender a fazer com que a ex­pressão um só mundo se torne realidade. Qualquer outro curso só pode criar um holocausto do qual nenhuma nação jamais se recuperará. Sei muito bem que existem vastos abis­mos entre nós e os países da Cortina de Ferro, mas a maior prioridade desta administração será construir pontes sóli­das através desses abismos.

As palavras estavam impregnadas de profunda since­ridade. Ele fala sério, pensou Ben Cohn. Só espero que nin­guém assassine o filho da mãe.

Em Junction City, Kansas, o tempo era horrível, cinzento e desolado; nevava tanto que a visibilidade na Rodovia 6 era quase zero. Mary Ashley guiava sua caminhonete com toda a cautela pelo meio da estrada, onde os removedores de neve haviam trabalhado, A tempestade faria com que chegasse atrasada para a aula. Avançava devagar, toman­do cuidado para não der rapar.

A voz do presidente saía pelo rádio do carro:

— .. .muitas pessoas no governo e também na iniciati­va privada que insistem em que os Estados Unidos devem abrir mais fossos, em vez de construírem pontes. Minha res­posta é de que não temos mais condições de nos condenar­mos ou a nossos filhos a um futuro ameaçado por confron­tações globais e guerra nuclear.

Mary Ashley pensou: Fico contente por ter votado ne­le. Paul Ellison vai ser um grande presidente.

Pressionou o volante com toda força, enquanto a ne­ve se tornava um ofuscante turbilhão branco.

 

Em St. Croix, o sol tropical brilhava num céu azul e sem nuvens, mas Harry Lantz não tinha a menor intenção de sair. Estava se divertindo muito dentro do quarto: na ca­ma, nu, espremido entre as irmãs Dolly. Lantz tinha a pro­va empírica de que elas não eram realmente irmãs. Annette era alta, uma morena natural, enquanto Sally, também al­ta, era uma loura natural. Não que Harry Lantz se impor­tasse que elas fossem irmãs genuínas. O que importava era que as duas eram competentes no que faziam, forçando Lantz a gemer alto de prazer.

No outro lado do quarto do motel a imagem do presi­dente piscava na tela da televisão.

— ...porque estou convencido de que não existe ne­nhum problema que não possa ser resolvido com boa von­tade sincera dos dois lados. O muro de concreto que cerca Berlim Oriental e as cortinas de ferro em torno dos outros países satélites da União Soviética devem ser derrubados. Sally suspendeu suas atividades o tempo suficiente de perguntar:

— Quer que eu desligue essa porra, meu bem?

— Deixe ligada. Quero ouvir o que ele tem a dizer. Annette levantou a cabeça.

— Votou nele?

Harry Lantz gritou:

— Ei, vocês duas! Voltem ao trabalho!

— Como todos sabem, há três anos, depois da morte do presidente Nicolae Ceausescu, a Romênia rompeu as re­lações diplomáticas com os Estados Unidos. Quero comu­nicar neste momento que já entramos em contato com o governo da Romênia e seu presidente, Alexandros Iones­cu. Ele concordou em restabelecer as relações diplomáticas com nosso país.

A multidão na Pennsylvania Avenue aclamou a comu­nicação. Harry Lantz sentou na cama tão abruptamente que os dentes de Annette se cravaram em seu pênis.

— Ai! — gritou Lantz. — Já fui circuncidado! Que porra você está querendo fazer?

— Por que se mexeu, meu bem?

Lantz não a ouviu. Tinha os olhos grudados no apare­lho de televisão.

— Um dos nossos primeiros atos oficiais será enviar um embaixador para a Romênia — dizia agora o presiden­te. — E isso é apenas o começo...

 

Era o final da tarde em Bucareste. O inverno se tornara ines­peradamente brando, e as ruas do antigo mercado estavam apinhadas de cidadãos entrando em filas para fazer com­pras, aproveitando o imprevisto calor.

Alexandros Ionescu, presidente da Romênia, estava sen­tado em seu gabinete, em Peles, o velho palácio, na Calea Victoriei, cercado por meia dúzia de assessores, escutando a transmissão por um rádio de ondas curtas.

— ...não tenho a intenção de parar por aí — dizia o presidente americano. — A Albânia rompeu relações diplo­máticas com os Estados Unidos em 1946. Pretendo resta­belecer as ligações. Além disso, quero reforçar nossas relações diplomáticas com a Bulgária, Tchecoslováquia e Alemanha Oriental.

Aplausos e aclamações soaram através do rádio.

— Enviar nosso embaixador para a Romênia é o prin­cípio de um movimento mundial de povo-para-povo. Ja­mais nos esqueçamos de que toda a humanidade partilha uma origem comum, problemas comuns e um destino final comum. Vamos nos lembrar que os problemas que parti­lhamos são maiores do que os problemas que nos dividem, e o que nos divide foi criado por nós mesmos.

 

Numa villa fortemente guardada em Neuilly, um subúrbio de Paris, o líder revolucionário romeno Marin Groza assis­tia ao presidente dos Estados Unidos pelo Chaîne 2 Télé­vision.

— ...Prometo agora que farei o melhor que puder e pedirei o melhor de outros.

Os aplausos se prolongaram por cinco minutos. Ma­rin Groza comentou, pensativo:

— Acho que o nosso momento chegou, Lev. Ele fala sério.

Lev Pasternak, seu chefe de segurança, respondeu:

— Essa atitude não vai ajudar Ionescu? Marin Groza sacudiu a cabeça.

— Ionescu é um tirano e, ao final, nada o ajudará. Mas preciso ter muito cuidado com a escolha do momento certo. Fracassei quando tentei derrubar Ceausescu. Não pos­so fracassar de novo.

Pete Connors não estava bêbado — ou pelo menos não tão bêbado quanto tencionava ficar. Já consumira quase uma garrafa de uísque quando Nancy, a secretária com quem ele vivia, indagou:

— Não acha que já bebeu o suficiente, Pete? Ele sorriu e esbofeteou-a.

— Nosso presidente está falando. Você tem de mos­trar algum respeito.

Ele se virou para olhar a imagem no aparelho de tele­visão e gritou para a tela:

— Seu comunista filho da puta! Este é o meu país, e a CIA não vai permitir que você o entregue! Vamos impe­dir você, Charlie! Pode contar!

 

Paul Ellison disse:

— Vou precisar muito da sua ajuda, amigo velho.

— E a terá toda — respondeu Stanton Rogers sua­vemente.

Eles estavam sentados no Gabinete Oval, o presidente à sua mesa, com a bandeira americana por trás. Era o pri­meiro encontro dos dois naquela sala, e o presidente Elli­son sentia-se contrafeito.

Se Stanton não tivesse cometido aquele único erro, pen­sou Paul Ellison, estaria sentado a esta mesa, no meu lugar,

Como se lesse os pensamentos do amigo, Stanton Ro­gers falou:

— Tenho uma confissão a fazer. No dia em que você foi escolhido para candidato à presidência, Paul, fiquei com a maior inveja. Era o meu sonho, e você o estava vivendo. Mas quer saber de uma coisa? Acabei compreendendo que se eu não pudesse sentar a esta mesa, então não havia ou­tra pessoa no mundo que eu quisesse que sentasse aí mais do que você. Essa cadeira lhe cai muito bem.

Paul Ellison sorriu.

— Para ser franco, Stan, esta sala me assusta. Sinto aqui os fantasmas de Washington, Lincoln e Jefferson.

— Também tivemos presidentes que...

— Sei disso. Mas sempre tentamos nos mostrar à al­tura dos grandes.

Apertou o botão na mesa, e segundos depois um copeiro de uniforme branco entrou na sala.

— Pois não, senhor presidente? Paul Ellison olhou para Rogers.

— Aceita um café?

— Boa idéia.

— Quer alguma coisa para acompanhar?

— Não, obrigado. Barbara quer que eu tome cuidado com a cintura.

O presidente acenou com a cabeça para Henry, o co­peiro, que deixou a sala em silêncio.

Barbara. Ela surpreendera a todos. Os comentários em Washington eram de que o casamento não sobreviveria ao primeiro ano. Mas já haviam passado quase quinze anos e era um sucesso. Stanton Rogers montara um prestigioso escritório de advocacia em Washington e Barbara adquiri­ra a reputação de ser uma hábil anfitriã.

Paul Ellison levantou-se e começou a andar de um la­do para outro.

— Meu discurso do movimento povo-para-povo teve a maior repercussão. Imagino que já viu todos os jornais.

Stanton Rogers deu de ombros.

— Sabe como é a imprensa. Adora criar heróis, só para depois derrubá-los.

— Para ser franco, não me importo com o que dizem os jornais. Estou mais interessado no que as pessoas estão falando.

— Se quer saber a verdade, Paul, você está assustan­do muita gente. As forças armadas estão contra seu plano e há pessoas poderosas torcendo por seu fracasso.

— Não vai fracassar. — Paul Ellison tornou a sentar. — Sabe qual é o maior problema do mundo hoje em dia? Não há mais estadistas. Os países estão sendo dirigidos por políticos. Houve uma época, não faz muito tempo, em que o planeta era povoado por gigantes, alguns bons, outros maus... mas sem sombra de dúvida gigantes. Roosevelt e Churchill, Hitler e Mussolini, Charles de Gaulle e Josef Stalin. Por que todos viveram naquele momento em particu­lar? Por que não há mais estadistas hoje?

— É muito difícil ser um gigante do mundo numa te­la de 21 polegadas.

O copeiro voltou, trazendo uma bandeja de prata com um bule de café e duas xícaras, com o selo presidencial. Ele serviu o café e indagou:

— Deseja mais alguma coisa, senhor presidente?

— Não, Henry. É só. Obrigado.

O presidente esperou que o copeiro se retirasse.

— Preciso conversar com você sobre o nome certo para a embaixada na Romênia.

— Está bem.

— Não preciso lhe dizer como é importante. Quero que aja o mais depressa possível.

Stanton Rogers tomou um gole do café e levantou-se.

— Conversarei com o pessoal do Departamento de Es­tado imediatamente.

 

Eram duas horas da madrugada no pequeno subúrbio de Neuilly. A villa de Marin Groza estava mergulhada na es­curidão, a lua escondida por uma densa camada de nuvens de tempestade. As ruas eram silenciosas àquela hora e só de vez em quando se ouviam os passos de algum transeunte retardatário. Um vulto todo de preto avançou sem fazer qualquer barulho entre as árvores, na direção do muro de tijolos que cercava a villa. Tinha num ombro uma corda e uma manta, e nos braços aninhava uma Uzi com silencia­dor e uma pistola de dardos. Ele parou e ficou escutando ao chegar ao muro. Esperou, imóvel, por cinco minutos. Satisfeito, desenrolou a corda de náilon e jogou para cima o gancho atado na sua extremidade, prendendo-o na outra beira do muro. Começou a subir com agilidade. Estendeu a manta no alto do muro, a fim de se proteger contra as pontas de ferro com veneno que ali estavam cravadas. Tor­nou a ficar imóvel, escutando. Mudou a posição do gan­cho, largando a corda por dentro do muro. Desceu para o interior da propriedade. Verificou a balisong em sua cin­tura, a mortífera faca filipina que podia ser aberta ou fe­chada com apenas uma das mãos.

Teria agora de cuidar dos cães. O intruso ficou agachado, esperando que os animais o farejassem. Havia três dobermans, treinados para matar. Mas eram apenas o pri­meiro obstáculo. O terreno e a casa estavam repletos de ar­tefatos eletrônicos e eram continuamente vigiados por câmaras de televisão. Toda correspondência era recebida no portão e aberta ali pelos guardas. As portas da villa eram à prova de bomba. O abastecimento de água era próprio, e Marin Groza tinha um provador de comida. A villa era inexpugnável. Ou pelo menos assim se pensava. O vulto de preto estava ali naquela noite para provar que isso não era verdade.

Ouviu o ruído dos cães correndo em sua direção antes de vê-los. Saíram voando da escuridão, saltando para sua garganta. Eram dois. Ele apontou a pistola de dardos e atin­giu primeiro o que estava mais próximo, à sua esquerda, depois o outro, à direita, desviando-se dos corpos ao caí­rem. Virou-se, alerta ao terceiro doberman. Quando o ani­mal atacou, ele tornou a disparar. Depois, houve apenas silêncio.

O intruso sabia onde estavam enterradas as armadilhas sônicas e evitou-as. Esgueirou-se pelas áreas que as câmeras de televisão não cobriam. Menos de dois minutos de­pois de pular o muro, estava na porta dos fundos da casa. Ao estender a mão para a maçaneta, foi apanhado pe­lo súbito clarão de refletores. Uma voz gritou:

— Pare aí! Largue a arma e levante as mãos!

O vulto de preto largou a arma com todo cuidado e levantou os olhos. Havia meia dúzia de homens espalha­dos pelo telhado, apontando-lhe uma variedade de armas. Ele berrou:

— Por que demoraram tanto? Eu nunca deveria ter chegado a este ponto.

— E não chegou — informou o chefe dos guardas. — Começamos a seguir seu avanço assim que pulou o muro.

Lev Pasternak não abrandou.

— Então deveriam ter me detido mais cedo. Eu pode­ria estar numa missão suicida, com uma carga de granadas ou um morteiro. Quero uma reunião de toda a equipe de manhã, às oito em ponto. Os cachorros estão apenas narcotizados. Alguém fique de olho neles até acordarem.

Lev Pasternak orgulhava-se de ser o melhor agente de segurança do mundo. Fora piloto na Guerra dos Seis Dias em Israel e depois se tornara um dos principais agentes do Mossad, um dos cinco serviços secretos israelenses.

Jamais esqueceria aquela manhã, dois anos antes, em que o coronel o chamara a seu gabinete.

— Lev, alguém quer você emprestado por algumas semanas.

— Espero que seja uma loura — gracejou Lev.

— É Marin Groza.

O Mossad tinha a ficha completa do dissidente rome­no. Groza fora o líder de um movimento popular para de­por Alexandros Ionescu e estava prestes a desfechar um golpe quando fora traído por um dos seus homens. Mais de duas dúzias de rebeldes foram executados, e Groza mal conseguira escapar do país com vida. A França lhe dera asilo. Ionescu denunciara Marin Groza como traidor de seu país e oferecera um prêmio por sua cabeça. Até então, meia dúzia de tentativas de assassinar Groza haviam fracassado, mas ele fora ferido no último atentado.

— O que ele quer comigo? — perguntou Pasternak. — Tem a proteção do governo.

— Não é suficiente. Ele precisa de alguém para mon­tar um sistema de segurança infalível. E nos procurou. Re­comendei você.

— Eu teria de ir para a França?

— Só vai levar umas poucas semanas.

— Não quero...

— Estamos falando sobre mensch, Lev. Ele é muito importante. Nossas informações são de que conta em seu país com apoio popular suficiente para derrubar Ionescu. Entrará em ação no momento oportuno. Até lá, precisa­mos mantê-lo vivo.

Lev Pasternak pensou por um momento.

— Apenas algumas semanas?

— Não mais do que isso.

O coronel se enganara quanto ao tempo, mas estava certo em relação a Marin Groza. Era um homem magro, de apa­rência frágil, com um ar ascético e um rosto marcado pelo sofrimento. Tinha um nariz aquilino, queixo firme e testa larga, encimada por cabelos brancos. Os olhos eram pre­tos e profundos e ardiam de paixão quando ele falava.

— Não me importo de viver ou morrer — declarou a Lev, na primeira reunião. — Todos vamos morrer. É o quando que me preocupa. Tenho de permanecer vivo por mais um ou dois anos. Esse é todo o tempo de que preciso para expulsar Ionescu de meu país.

Passou a mão, distraído, por uma cicatriz lívida na face, e depois acrescentou:

— Nenhum homem tem o direito de escravizar um país. Precisamos libertar a Romênia e deixar que o povo decida seu próprio destino.

Lev Pasternak começou a trabalhar no sistema de se­gurança da villa em Neuilly. Usou alguns dos seus homens, e os estranhos que contratou foram checados com o máxi­mo de rigor. Cada peça de equipamento era uma autêntica obra de arte.

Pasternak falava todos os dias com o líder rebelde ro­meno; quanto mais tempo passava com ele, mais o admi­rava. Quando Marin Groza pediu-lhe que continuasse como seu chefe de segurança, Pasternak não hesitou.

— Está bem. Ficarei até que você esteja pronto para entrar em ação. Depois, voltarei para Israel.

Selaram o acordo.

A intervalos irregulares, Pasternak desfechava ataques de surpresa contra a villa, testando o esquema de seguran­ça. Agora, ele pensou: Alguns dos guardas estão se tornando descuidados. Terei de substituí-los.

Foi andando pelos corredores, verificando com todo cuidado os sensores de calor, os sistemas eletrônicos de alar­me e os raios infravermelhos no limiar de cada porta. Ao chegar ao quarto de Marin Groza, ouviu um estrondo alto, e um momento depois o líder romeno se pôs a gritar em agonia.

Lev Pasternak passou pela porta e seguiu adiante.

 

A sede da CIA fica no outro lado do rio Potomac, em Lan­gley, na Virgínia, onze quilômetros a noroeste de Washing­ton. Na estrada de acesso para a agência há uma luz ver­melha piscando no alto de um portão. A passagem é vigi­ada 24 horas por dia, e os visitantes recebem crachás co­loridos que lhes permitem ir apenas ao departamento específico em que têm negócios a tratar. Na frente do pré­dio cinzento de sete andares, caprichosamente conhecido como Fábrica de Brinquedos, há uma estátua grande de Nathan Hale. Lá dentro, no andar térreo, a parede de vidro de um corredor dá para um pátio interno onde existe um jardim bem cuidado, cheio de magnólias. Por cima da me­sa de recepção há um verso esculpido em mármore:

 

               E vocês saberão a verdade

               e a verdade os libertará.

 

O público nunca é admitido no interior do prédio e não há instalações para visitantes. Para os que desejam entrar no conjunto "preto" — invisível — há um túnel que desemboca num saguão, em frente a uma porta de elevador de mogno, permanentemente vigiada por um pelotão de sentinelas" de terno cinza.

 

Na sala de conferências no sétimo andar, guardada por agen­tes de segurança com revólveres de calibre 38 de cano curto por baixo dos paletós, estava se realizando a reunião roti­neira da manhã de segunda-feira da equipe executiva. Sen­tados em torno da enorme mesa de carvalho estavam Ned Tillingast, diretor da CIA; general Oliver Brooks, chefe do Estado-Maior do Exército; o secretário de Estado Floyd Ba­ker; Pete Connors, chefe da contra-espionagem; e Stanton Rogers.

Ned Tillingast, o diretor da CIA, era um homem de sessenta e poucos anos, frio e taciturno, oprimido pelo pe­so de segredos terríveis. Há um setor claro e um setor escu­ro na CIA. O setor escuro cuida das operações clandestinas e durante os últimos sete anos Tillingast estivera no comando dos seus 4.500 funcionários.

O general Oliver Brooks era um oficial de West Point que conduzia sua vida pessoal e profissional por regulamen­tos. Era um homem de companhia, e a companhia a que servia era o Exército dos Estados Unidos.

Floyd Baker, o secretário de Estado, era um anacro­nismo, um remanescente de uma era anterior: típico cava­lheiro sulista, alto, cabelos prateados e aparência distinta, com uma cortesia fora de moda. Usava polainas mentais. Possuía uma cadeia de influentes jornais por todo o país e era considerado fabulosamente rico. Não havia ninguém em Washington com um senso político mais penetrante e suas antenas se encontravam constantemente sintonizadas com as mudanças de ventos nos corredores do Congresso.

Pete Connors era um irlandês moreno, homem obsti­nado e destemido, que bebia muito. Aquele era seu último ano na CIA. Teria de enfrentar a aposentadoria compulsória em junho. Connors era o chefe do serviço de contra-espionagem, o mais secreto e isolado dos setores da CIA. Escalara os degraus da hierarquia por diversas divisões, des­de os bons tempos do passado, quando os agentes da CIA eram os "rapazes de ouro". Pete Connors também fora um deles. Participara do golpe que levara o xá de volta ao Tro­no do Pavão no Irã e se envolvera na Operação Mangusto, a tentativa de derrubar o governo de Castro em 1961.

— Depois da baía dos Porcos, tudo mudou — lamen­tava Pete de vez em quando. A extensão de sua diatribe de­pendia, de um modo geral, de seu grau de embriaguez. — Os corações melindrados nos atacaram nas primeiras pági­nas de todos os jornais do mundo. Chamaram-nos de um bando de palhaços mentirosos e desprezíveis, que tropeça­vam nas próprias pernas. Algum desgraçado anti-CIA di­vulgou os nomes de nossos agentes, e Dick Welch, o chefe do posto em Atenas, foi assassinado.

Pete Connors passara por três casamentos infelizes por causa das pressões e sigilo de seu trabalho, mas em sua opi­nião nenhum sacrifício era grande demais que não pudesse ser feito por seu país.

Agora, no meio da reunião, seu rosto estava vermelho de raiva.

— Se deixarmos o presidente continuar com essa por­ra desse programa de povo-para-povo, ele vai entregar o país. É preciso impedir. Não podemos permitir...

Floyd Baker interrompeu-o:

— O presidente assumiu o cargo há menos de uma se­mana. Estamos todos aqui para executar sua política e...

— Não estou aqui para entregar meu país aos comu­nas miseráveis. O presidente nunca mencionou seu plano antes do discurso. Pegou todo mundo de surpresa. Não ti­vemos qualquer oportunidade de preparar uma refutação.

— Talvez fosse justamente isso o que ele estava que­rendo — sugeriu Baker.

Pete Connors fitou-o aturdido.

— Essa não! Você concorda com o plano!

— Ele é meu presidente — declarou Floyd Baker, fir­memente. — Assim como também é o seu.

Ned Tillingast virou-se para Stanton Rogers.

— Connors não deixa de ter razão. O presidente está na verdade planejando convidar a Romênia, Albânia, Bulgá­ria e os outros países comunistas a mandarem seus espiões para cá, apresentando-se como adidos, motoristas, secre­tárias e criadas. Estamos gastando bilhões de dólares para guardar a porta da frente e o presidente quer escancarar a porta dos fundos.

O general Brooks balançou a cabeça em concordância.

— Também não fui consultado. Em minha opinião, o plano do presidente pode muito bem destruir este país.

Stanton Rogers disse:

— Senhores, alguns de nós podem discordar do presi­dente, mas não vamos esquecer que o povo elegeu Paul Ellison para dirigir este país. — Seus olhos contemplaram os homens sentados ao redor. — Somos todos parte de sua equipe e temos de seguir sua orientação, apoiando-o por todos os meios possíveis.

Suas palavras foram seguidas por um silêncio relutan­te. Depois da pausa, Stanton acrescentou:

— Muito bem. O presidente quer um relatório imediato sobre a atual situação na Romênia. Tudo o que vocês têm.

— Inclusive o material secreto? — perguntou Pete Connors.

— Tudo. E quero respostas objetivas. Qual é a situa­ção na Romênia com Alexandros Ionescu?

— Ionescu controla tudo — respondeu Ned Tillingast. — Depois que ele se livrou da família Ceausescu, todos os aliados do ex-presidente foram assassinados, presos ou exi­lados. Desde que tomou o poder, Ionescu tem sufocado o país. É odiado pelo povo.

— Quais são as perspectivas de uma revolução? Foi Tillingast quem respondeu de novo:

— Eis um problema dos mais interessantes. Lembra o que aconteceu há dois anos, quando Marin Groza quase derrubou o governo de Ionescu?

— Lembro. Groza conseguiu fugir do país por um triz.

— Com a nossa ajuda. Temos informações de que há um movimento popular cada vez maior para trazê-lo de vol­ta. Groza seria bom para a Romênia e também para nós. Estamos atentos à situação.

Stanton Rogers virou-se para o secretário de Estado.

— Tem a lista dos candidatos à embaixada na Romênia?

Floyd Baker abriu uma pasta de couro, tirou alguns papéis e estendeu uma cópia a Rogers.

— Estes nos parecem os melhores. Todos são diplo­matas de carreira altamente qualificados. Cada um já foi verificado. Não há problemas de segurança, não há difi­culdades financeiras, não há segredos embaraçosos escon­didos no passado.

Enquanto Stanton Rogers pegava a lista, o secretário de Estado acrescentava:

— É claro que o Departamento de Estado é a favor de um diplomata de carreira, em vez de uma indicação po­lítica. Alguém que foi preparado para esse trabalho. Ain­da mais nas circunstâncias específicas. A Romênia é um posto extremamente delicado. É preciso cuidar de tudo com extremo cuidado.

— Concordo. — Stanton Rogers levantou-se. — Dis­cutirei estes nomes com o presidente e depois voltaremos a conversar. Ele está ansioso em preencher o cargo o mais depressa possível.

Enquanto os outros também se levantavam para sair, Ned Tillingast disse:

— Fique aqui, Pete. Quero falar com você.

Assim que ficou a sós com Connors, Tillingast co­mentou:

— Você foi forte demais, Pete.

— Mas estou certo — declarou Pete Connors, obsti­nado. — O presidente está tentando entregar nosso país ao inimigo. O que devemos fazer?

— Ficar de boca fechada.

— Somos treinados para encontrar o inimigo e matá-lo, Ned. O que acontece se o inimigo está por trás de nos­sas linhas... sentado no Gabinete Oval?

— Tome cuidado... tome muito cuidado. Tillingast estava no ofício há mais tempo do que Pete Connors. Trabalhara na OSS de Wild Bill Donovan antes que se tornasse a CIA. Também detestava o que os cora­ções moles do Congresso estavam fazendo com a organiza­ção que amava. Na verdade, havia uma profunda divisão nas fileiras da CIA entre o pessoal da linha dura e os que acreditavam que o urso soviético podia ser domado para se tornar um inofensivo animal de estimação. Temos de bri­gar por todo dólar que recebemos, pensou Tillingast. Em Moscou, o Komitet Gosudarstvennoy Bezopasnosti — o KGB — treina mil agentes de uma só vez.

Ned Tillingast recrutara Peter Connors na universida­de e Connors se revelara um dos melhores agentes da CIA. Nos últimos anos, porém, Connors se tornara um cowboy — um pouco independente demais, um pouco rápido de­mais no gatilho. O que era perigoso.

— Pete... já ouviu alguma coisa sobre uma organiza­ção clandestina chamada Patriotas pela Liberdade? — in­dagou Tillingast.

Connors franziu o rosto.

— Não... não posso dizer que já tenha ouvido. Quem são eles?

— Até agora, não passam de um rumor. Tudo o que sei é fumaça. Veja se consegue descobrir alguma coisa.

— Está certo.

 

Uma hora depois Pete Connors estava telefonando de uma cabine pública em Hains Point.

— Tenho uma mensagem para Odin.

— Aqui é Odin — disse o general Oliver Brooks.

 

Voltando ao escritório em sua limusine, Stanton Rogers abriu o envelope em que estava a relação dos nomes para o posto de embaixador na Romênia e estudou-a. Era uma lista excelente. O secretário de Estado fizera um bom tra­balho. Todos os candidatos haviam servido em países eu­ropeus do Leste e Oeste e alguns tinham experiência adicional no Extremo Oriente ou África. O presidente vai ficar satisfeito, pensou Stanton.

 

— São dinossauros — disse Paul Ellison bruscamente, lar­gando a lista em cima da mesa. — Todos eles.

— Ora, Paul, todos esses homens são experientes di­plomatas de carreira.

— E preconceituosos na tradição do Departamento de Estado. Lembra como perdemos a Romênia há três anos? Nosso experiente diplomata de carreira em Bucareste me­teu os pés pelas mãos e estragou tudo. Essa turma me preo­cupa. Todos estão querendo se resguardar. Quando propus um programa de povo-para-povo, estava falando sério. Pre­cisamos causar uma impressão positiva num país que neste momento se mostra muito cauteloso em relação a nós.

— Mas se puser um amador no posto... alguém sem experiência... estará correndo um grande risco.

— Talvez precisemos de alguém com um tipo de ex­periência diferente. A Romênia será um teste para nós, Stan. Um piloto para todo o meu programa, se preferir assim.

— Hesitou por um instante. — Não estou me iludindo. Minha credibilidade está em jogo. Sei que há muitas pessoas poderosas que não querem que o programa dê certo. Se fra­cassar agora, ficarei acuado. Terei de esquecer a Bulgária, Albânia, Tchecoslováquia e o resto dos países da Cortina de Ferro. E não tenciono permitir que isso aconteça.

— Posso verificar alguns dos nossos candidatos polí­ticos que...

O presidente Ellison sacudiu a cabeça.

— O problema é o mesmo. Quero alguém com um pon­to de vista completamente novo. Alguém que possa promo­ver o degelo. O oposto do americano feio.

Stanton Rogers observava atentamente o presidente, aturdido.

— Paul... tenho a impressão de que você já está com alguém em mente. É verdade?

Paul Ellison tirou um charuto da caixa em cima da mesa e acendeu-o.

— Para ser franco — respondeu ele, falando bem de­vagar —, talvez eu esteja mesmo.

— Quem é ele?

— Ela. Por acaso leu o artigo que saiu no último nú­mero da revista Foreign Affairs intitulado 'Détente agora'?

— Li.

— O que achou?

— Interessante. A autora acha que estamos em con­dições de tentar atrair os países comunistas para o nosso lado, oferecendo ajuda econômica e... — Ele parou de fa­lar abruptamente. — Era muito parecido com o seu discur­so de posse.

— Só que foi escrito há seis meses. Ela tem publicado artigos brilhantes em Commentary e Public affairs. No ano passado li um livro dela sobre a política do Leste europeu e devo admitir que ajudou a esclarecer algumas das minhas idéias.

— Muito bem. Então ela está de acordo com suas teorias. Isso não é motivo para considerá-la para um cargo tão impor...

— Stan... ela foi além da minha teoria. Esboçou um plano detalhado que é extraordinário. Quer reunir os qua­tro grandes pactos econômicos do mundo.

— Como poderíamos...

— Levaria algum tempo, mas é possível. Como sabe, os países do bloco oriental da Europa formaram em 1949 um pacto de assistência econômica mútua, chamado CO-MECON. Em 1958 os outros países europeus formaram o MCE... Mercado Comum Europeu.

— Certo.

— Temos a Organização para a Cooperação e Desen­volvimento Econômico que inclui os Estados Unidos, al­guns países do bloco ocidental e a Iugoslávia. E não se esqueça de que os países do Terceiro Mundo criaram um movimento de não-alinhados que nos exclui. — A voz do presidente estava impregnada de excitação. — Pense nas pos­sibilidades. Se pudéssemos combinar todos esses planos e formar um único grande mercado... por Deus, seria fan­tástico! Significaria um verdadeiro mercado mundial. E po­deria trazer a paz.

Stanton Rogers disse, cauteloso:

— É uma idéia interessante, mas muito distante.

— Conhece o velho ditado chinês: "Uma jornada de mil quilômetros começa com um único passo."

— Ela é uma amadora, Paul.

— Alguns dos nossos melhores embaixadores eram amadores. Anne Armstrong, ex-embaixadora na Grã-Bretanha, era uma educadora, sem qualquer experiência po­lítica. Perle Mesta foi nomeada para Luxemburgo, Clare Boothe Luce foi embaixadora na Itália. John Gavin, um ator, foi embaixador no México. Um terço dos nossos atuais embaixadores é constituído pelo que você chama de amadores.

— Mas não conhece nada sobre essa mulher!

— Exceto que ela é brilhante e que estamos na mesma sintonia. Quero que você descubra tudo o que puder a seu respeito. — Ele levantou um exemplar de Foreign affairs. — Seu nome é Mary Ashley.

 

Dois dias depois o presidente Ellison e Stanton Rogers to­maram o café da manhã juntos.

— Tenho a informação que você pediu. — Stanton Ro­gers tirou um papel do bolso e começou a ler. — Mary Elizabeth Ashley, Milford Road, 27, Junction City, Kansas. Idade, 35, casada com o doutor Edward Ashley... dois fi­lhos, Beth, de doze anos, e Tim, de dez. Presidente do Ca­pítulo Cinco da Liga de Eleitoras de Junction City. Professora-assistente de ciência política, especialista em Les­te europeu, na Universidade Estadual do Kansas. O avô nas­ceu na Romênia. — Levantou os olhos, com uma expressão pensativa. — Talvez seja o tipo de representante que você deveria mandar para a Romênia.

— É bem possível, Stan. Eu gostaria de ter uma veri­ficação de segurança completa sobre Mary Ashley.

— Pode deixar que tomarei as providências.

 

— Discordo, professora Ashley. — Barry Dylan, o mais bri­lhante e o mais jovem dos estudantes no seminário de ciên­cia política de Mary Ashley, olhou ao redor, constrangido.

— Alexandros Ionescu é pior do que Ceausescu jamais foi.

— Pode nos dar alguns fatos que sustentem tal decla­ração? — pediu Mary Ashley.

Havia doze alunos graduados no seminário, realizado numa sala de aula do Edifício Dykstra, na Universidade Es­tadual do Kansas. Os alunos sentavam-se num semicírcu­lo, de frente para Mary. A lista de espera para ingressar em suas turmas era maior que a de qualquer outro professor da universidade. Ela era uma professora extraordinária, com um senso de humor descontraído e uma simpatia que tor­navam sua presença extremamente agradável. Possuía um rosto oval que mudava de atraente para bonito, dependen­do de seu estado de espírito. Tinha os malares salientes de uma modelo e olhos cor de avelã. Os cabelos eram escuros e abundantes. O corpo deixava as alunas com inveja e des­pertava fantasias nos homens; apesar disso, ela não tinha consciência de sua beleza.

Barry especulou se ela seria feliz com o marido. Relu­tante, ele tornou a concentrar sua atenção no problema em debate.

— Quando assumiu o controle da Romênia, Ionescu perseguiu todos os elementos pró-Groza e restabeleceu uma posição de linha dura, pró-soviética. Nem mesmo Ceausescu foi tão ruim assim.

Outro aluno indagou:

— Então por que o presidente Ellison está tão ansio­so em estabelecer relações diplomáticas com ele?

— Porque queremos atraí-lo para a órbita do Ocidente.

— Não se esqueçam de que Ceausescu também tinha um pé em cada lado — frisou Mary. — Em que ano isso começou?

Foi Barry quem respondeu:

— Em 1963, quando a Romênia tomou partido na dis­puta entre Rússia e China, a fim de demonstrar sua inde­pendência nas questões internacionais.

— Como é o relacionamento atual da Romênia com os outros países do Pacto de Varsóvia e com a Rússia em particular? — indagou Mary.

— Eu diria que está mais forte agora. Outra voz:

— Não concordo. A Romênia criticou a invasão rus­sa do Afeganistão e também o acordo soviético com a CEE. Além disso, professora Ashley...

A campainha soou. A aula acabara. Mary disse: — Segunda-feira conversaremos sobre os fatores bá­sicos que influenciam a atitude soviética em relação ao Leste europeu e também discutiremos as possíveis conseqüências do plano do presidente Ellison de se infiltrar no bloco orien­tal. Um bom fim de semana para vocês.

Mary ficou observando os alunos se levantarem e se encaminharem para a porta.

— Para a senhora também, professora.

Mary Ashley adorava a troca de idéias do seminário. História e geografia adquiriam vida nas discussões acalo­radas entre os jovens e brilhantes alunos. Nomes e locali­dades estrangeiras tornavam-se reais, os eventos históricos assumiam formas definidas. Aquele era o seu quinto ano na Universidade Estadual do Kansas, e dar aulas ainda a emocionava. Tinha cinco cursos de ciência política por ano e ainda promovia os seminários de pós-graduação, sempre versando sobre a União Soviética e os países satélites. Ha­via ocasiões em que ela se sentia uma fraude. Jamais estive em qualquer dos países sobre os quais dou aula, pensava ela. Nunca saí dos Estados Unidos.

Mary Ashley nascera em Junction City, assim como seus pais. A única pessoa da família que conhecera a Euro­pa fora seu avô, que viera da pequena aldeia romena de Voronet.

 

Mary planejara uma viagem ao exterior quando recebesse o diploma de mestrado, mas naquele verão conheceu Ed­ward Ashley, e a excursão pela Europa transformou-se nu­ma lua-de-mel de três dias em Waterville, a noventa quilômetros de Junction City, onde Edward estava cuidan­do de um paciente cardíaco em estado crítico.

— Precisamos viajar no ano que vem — disse Mary a Edward, pouco depois do casamento. — Estou morren­do de vontade de conhecer Roma, Paris e a Romênia.

— Eu também. Está combinado. Iremos no próximo verão.

 

Mas no verão seguinte Beth nasceu, e Edward estava ab­sorvido demais em seu trabalho no Hospital Comunitário de Geary. Dois anos depois nasceu Tim. Mary tirara seu Ph.D. e fora dar aulas na Universidade Estadual do Kan­sas... e os anos passaram. Exceto por breves viagens a Chicago, Atlanta e Denver, Mary nunca deixara o Estado do Kansas.

Um dia, ela prometia a sí mesma. Um dia...

 

Mary recolheu suas anotações e olhou pela janela. A geada pintara a janela com um cinza desolado. Estava começan­do a nevar outra vez. Vestiu o casaco forrado de couro e a echarpe vermelha de lã e seguiu para a entrada da Vattier Street, onde deixara o carro.

O campus era enorme, 315 acres com 87 prédios, in­clusive laboratórios, teatros e capelas, em meio a um cená­rio bucólico de árvores e relva. A distância, os escuros prédios de calcário da universidade, com suas toninhas, pa­reciam castelos antigos, preparados para repelir as hordas inimigas. Enquanto Mary passava pelo Denison Hall, um estranho com uma câmara Nikon avançava em sua direção. Ele apontou a câmara para o prédio e disparou. Mary esta­va no primeiro plano da foto. Eu deveria ter saído da fren­te, pensou. Estraguei a fotografia.

Uma hora depois o fotógrafo estava a caminho de Was­hington.

 

Cada cidade possui o seu ritmo característico, uma vibra­ção que deriva das pessoas e da terra. Junction City, no Con­dado de Geary, é uma comunidade agrícola, com 20.381 habitantes, duzentos quilômetros a oeste de Kansas City, orgulhando-se de ser o centro geográfico do território con­tinental dos Estados Unidos. Possui um jornal — The Daily Union —, uma emissora de rádio e outra de televisão. A área comercial do centro consiste de algumas lojas disper­sas e postos de gasolina pela Rua 6 e pela Washington. Há a Penney's, o First National Bank, a Domino Pizza, a Flo­wer Jeweler's e uma Woolworth's. Há lanchonetes, uma es­tação rodoviária, uma loja de roupas masculinas e uma loja de bebidas — o tipo de estabelecimentos que se encontra em centenas de pequenas cidades espalhadas pelos Estados Unidos. Mas os habitantes de Junction City amam-na por sua paz e tranqüilidade bucólicas. Pelo menos durante a se­mana. Nos fins de semana, Junction City torna-se o centro de descanso e recreação para os soldados do Forte Riley, que fica próximo.

 

Mary Ashley parou para fazer compras para o jantar no Dillon's Market, a caminho de casa. Depois, seguiu para o norte, na direção da Old Milford Road, uma área resi­dencial adorável, que dava para um lago. Carvalhos e ol­mos estendiam-se pelo lado esquerdo da estrada, enquanto no direito havia lindas casas, dos mais diversos tipos, de pedras, alvenaria ou madeira.

Os Ashley moravam numa casa de pedra de dois an­dares, no meio de colinas ondulantes. Fora comprada pelo doutor Edward Ashley e sua esposa treze anos antes. Ti­nha uma sala de estar grande, sala de jantar, biblioteca, copa e cozinha no primeiro andar, uma suíte e dois quartos no segundo.

— É grande demais para apenas duas pessoas — pro­testara Mary.

Edward a abraçara, murmurando:

— Quem disse que haverá apenas duas pessoas?

 

Quando Mary chegou em casa, Tim e Beth estavam à sua espera.

— Adivinhe o que aconteceu? — perguntou Tim. — Nossos retratos vão sair no jornal!

— Ajudem-me a guardar as compras — pediu Mary. — Que jornal?

— O homem não disse. Mas tirou fotografias nossas e disse que nos falaria depois.

Mary parou e virou-se para fitar o filho.

— O homem disse por quê?

— Não — respondeu Tim. — Mas tinha uma Nikon sensacional.

 

No domingo Mary comemorou — embora não fosse essa a palavra que aflorasse em sua mente — seu 35? aniversá­rio. Edward promoveu-lhe uma festa surpresa no clube. Os vizinhos, Florence e Douglas Schiffer, e quatro outros ca­sais estavam à sua espera. Edward ficou feliz como um garotinho pela expressão aturdida de Mary quando entrou no clube e viu a mesa festiva e a faixa de feliz aniversário. Ela não teve coragem de contar-lhe que já sabia da festa há duas semanas. Adorava Edward. E por que não? Quem não ado­raria? Ele era inteligente, bonito e carinhoso. O avô e o pai haviam sido médicos e jamais ocorrera a Edward ser qual­quer outra coisa. Era o melhor cirurgião de Junction City, um bom pai e um marido maravilhoso.

Ao soprar as velas do bolo de aniversário, Mary olhou para Edward no outro lado da mesa e pensou: Como uma mulher pode ter tanta sorte?

Na manhã de segunda-feira Mary acordou de ressaca. Hou­vera brindes com champanha na noite anterior e ela não estava acostumada a beber álcool. Teve de fazer um gran­de esforço para sair da cama. Aquele champanha me liqui­dou. Nunca mais, prometeu a sí mesma.

Desceu devagar e começou a preparar o desjejum dos filhos, cautelosa, tentando ignorar a cabeça latejando.

— O champanha é a vingança da França contra nós — resmungou Mary.

Beth entrou na copa, carregando seus livros escolares.

— Com quem está falando, mamãe?

— Comigo mesma.

— Que coisa esquisita.

— Quando você está certa, está certa. — Mary pôs uma caixa de cereal na mesa. — Comprei um cereal novo para você. Acho que vai gostar.

Beth sentou à mesa da copa e estudou o rótulo na caixa.

— Não posso comer isso. Você está tentando me matar.

— Não meta idéias estranhas na cabeça — advertiu Mary. — Quer fazer o favor de comer?

Tim, o filho de dez anos, entrou correndo na copa. Sentou-se e disse:

— Quero ovos com bacon.

— O que aconteceu com o bom-dia? — indagou Mary.

— Bom dia. Quero ovos com bacon.

— Por favor.

— Ora, mamãe, pare com isso. Estou atrasado para a escola.

— Fico contente que tenha falado nisso. A Sra. Rey­nolds me telefonou. Você está mal em matemática. O que tem a dizer?

— Dava para calcular.

— Isso é uma piada, Tim?

— Pessoalmente, não acho a menor graça — comen­tou Beth, desdenhosa.

Ele fez uma careta para a irmã.

— Se quer uma coisa engraçada, basta se olhar no espelho.

— Já chega — disse Mary. — Tratem de se comportar. Sua dor de cabeça estava cada vez pior. Tim perguntou:

— Posso ir ao rinque de patinação depois da escola, mamãe?

— Você já está patinando em gelo fino. Volte direto para casa e trate de estudar. Como acha que vai parecer uma professora universitária ter um filho reprovado em mate­mática?

— Não vai ser nada demais. Você não é professora de matemática.

Costumam falar sobre a terrível idade de dois anos, pen­sou Mary. E o que dizer dos terríveis nove, dez, onze e do­ze anos?

Beth indagou:

— Tim já contou que teve a pior nota em ortografia? Ele lançou um olhar furioso para a irmã.

— Nunca ouviu falar de Mark Twain?

— O que Mark Twain tem a ver com isso? — pergun­tou Mary.

— Mark Twain disse que não tem o menor respeito por um homem que só sabe soletrar uma palavra da mes­ma forma.

Não podemos vencer, pensou Mary. Eles são mais es­pertos do que nós.

Ela preparara um lanche para os filhos, mas andava preocupada com Beth, que estava empenhada em alguma nova dieta maluca.

— Por favor, Beth, coma todo o seu lanche hoje.

— Só se não tiver conservantes artificiais. Não vou dei­xar que a ganância da indústria alimentícia arruíne a mi­nha saúde.

O que aconteceu com os bons tempos de antigamente de comidas que faziam mal?, especulou Mary.

Tim tirou um papel solto de um dos cadernos de Beth.

— Olhe só para isto! — gritou ele. — "Querida Beth, vamos sentar juntos durante o período das aulas. Pensei em você durante todo o dia de ontem e..."

— Devolva isso! — berrou Beth. — É meu!

Ela tentou arrancar o papel da mão do irmão, mas Tim se esquivou e leu a assinatura.

— Ei, está assinado "Virgil"! Pensei que você era apai­xonada pelo Arnold.

Beth pegou o bilhete.

— O que você sabe sobre o amor? — indagou a filha de doze anos de Mary. — Não passa de uma criança.

O latejar na cabeça de Mary estava se tornando insu­portável.

— Crianças... dêem-me um pouco de descanso. Ela ouviu a buzina do ônibus escolar. Tim e Beth se encaminharam para a porta.

— Esperem! — chamou Mary. — Vocês ainda não aca­baram de comer!

Ela os seguiu para o vestíbulo,

— Não há tempo, mamãe. Temos de ir.

— Até mais, mamãe.

— Está congelando lá fora. Ponham os casacos e ca­checóis.

— Não posso — respondeu Tim. — Perdi meu ca­checol.

E eles se foram. Mary sentia-se esgotada. A materni­dade é viver no olho de um furacão,

Ela levantou os olhos quando Edward desceu e sentiu-se mais animada. Mesmo depois de tantos anos, pensou Mary, ele ainda é o homem mais atraente que já conheci. Fora a gentileza de Edward que primeiro despertara o seu interesse. Seus olhos eram de um cinzento suave, refletin­do uma inteligência efusiva, mas podiam se transformar em chamas quando se deixava arrebatar por alguma coisa.

— Bom dia, querida.

Ele a beijou e os dois foram para a copa.

— Pode me fazer um favor, meu bem?

— Claro, querida. Qualquer coisa.

— Quero vender as crianças.

— As duas?

— As duas.

— Quando?

— Hoje.

— Quem as compraria?

— Estranhos. Eles chegaram à idade em que eu não sou capaz de fazer nada certo. Beth tornou-se maníaca pela alimentação saudável e seu filho está se tornando um ig­norante de categoria internacional.

Edward comentou, com expressão pensativa:

— Talvez eles não sejam nossos filhos.

— Espero que não. Estou fazendo um mingau de aveia para você.

Ele olhou para o relógio.

— Desculpe, querida, mas não tenho tempo. Preciso entrar na sala de cirurgia dentro de meia hora. Hank Cates ficou preso numa máquina qualquer. Talvez perca alguns dedos.

— Ele não está muito velho para cuidar da fazenda?

— Não o deixe ouvi-la dizer isso.

Mary sabia que Hank Cates não pagava as contas a seu marido há três anos. Como a maioria dos fazendeiros da comunidade, ele estava sofrendo com os baixos preços agrícolas e com a atitude de indiferença da Administração do Crédito Agrícola. Muitos estavam perdendo as proprie­dades que haviam trabalhado durante toda a vida. Edward jamais pressionava qualquer paciente pelo pagamento e vá­rios saldavam as contas com colheitas. Os Ashley tinham um celeiro cheio de milho, batata e trigo. Um fazendeiro propusera pagar com uma vaca, mas Mary protestara quan­do Edward lhe falara a respeito:

— Pelo amor de Deus, diga a ele que é por conta da casa!

Ela contemplou o marido agora e pensou de novo: Co­mo dei sorte!

— Está bem — disse ela. — Talvez eu me decida a fi­car com as crianças. Gosto muito do pai delas.

— Para dizer a verdade, eu também gosto da mãe. — Ele a abraçou. — Feliz aniversário, mais um.

— Você ainda me ama, agora que sou uma mulher mais velha?

— Gosto de mulheres mais velhas.

— Obrigada. — Mary lembrou-se subitamente de uma coisa. — Tenho de chegar em casa mais cedo hoje e prepa­rar o jantar. É a nossa vez de receber os Schiffer.

O bridge com os vizinhos era um ritual da noite de segunda-feira. O fato de Douglas Schiffer ser médico e tra­balhar com Edward no hospital os tornava ainda mais íntimos.

 

Mary e Edward saíram de casa juntos, inclinando a cabeça contra o vento implacável. Edward instalou-se em seu Ford Granada e ficou observando a mulher sentar ao volante de sua caminhonete.

— A estrada provavelmente está gelada — gritou ele. — Dirija com cuidado.

— Você também, querido.

Ela soprou-lhe um beijo e os dois carros se afastaram da casa, Edward seguindo para o hospital e Mary para a cidadezinha de Manhattan, onde ficava a universidade, a 25 quilômetros de distância.

Dois homens num carro estacionado a meio quartei­rão da casa dos Ashley observavam a cena. Esperaram até que os dois carros sumissem.

— Vamos embora.

Foram até a casa vizinha aos Ashley. Rex Olds, que estava ao volante, ficou sentado no carro, enquanto seu companheiro subia até a porta e tocava a campainha. A por­ta foi aberta por uma morena atraente, de trinta e poucos anos.

— O que deseja?

— Senhora Douglas Schiffer?

— Sou eu.

O homem meteu a mão no bolso do casaco e tirou um cartão de identificação.

— Meu nome é Donald Zamlock. Trabalho na Agên­cia de Segurança do Departamento de Estado.

— Santo Deus! Não me diga que Doug assaltou um banco!

O agente sorriu polidamente.

— Não, madame. Ou pelo menos não sabemos de na­da a respeito. Eu queria apenas fazer algumas perguntas so­bre sua vizinha, a senhora Ashley.

Ela fitou-o com súbita preocupação.

— Mary? O que há com ela?

— Posso entrar?

— Claro. — Florence Schiffer levou-o para a sala de estar. — Sente-se, por favor. Aceita um café?

— Não, obrigado. Só tomarei uns poucos minutos do seu tempo.

— Por que está querendo fazer perguntas sobre Mary? Ele exibiu um sorriso tranqüilizador.

— É apenas uma verificação de rotina. Ela não é sus­peita de ter feito nada de errado.

— Espero mesmo que não — declarou Florence Schif­fer, indignada. — Mary Ashley é uma das melhores pes­soas que já conheci. — Uma pausa, e ela acrescentou: — Já falou com ela?

— Não, senhora. A visita é confidencial e agradece­ria se a mantivesse assim. Há quanto tempo conhece a se­nhora Ashley?

— Há cerca de treze anos. Desde o dia em que ela se mudou para a casa ao lado.

— Diria que conhece a senhora Ashley muito bem?

— Claro que sim. Mary é minha melhor amiga. Mas o que...

— Ela e o marido se dão bem?

— Depois de Doug e eu, eles formam o casal mais fe­liz que já conheci. — Pensou por um instante. — Retiro o que disse. Eles são de fato o casal mais feliz que conheço.

— Fui informado de que a senhora Ashley tem dois filhos. Uma garota de doze anos e um menino de dez?

— Isso mesmo. Beth e Tim.

— Diria que ela é uma boa mãe?

— Ela é uma grande mãe. Mas afinal...

— Senhora Schiffer, em sua opinião a senhora Ash­ley é uma pessoa emocionalmente estável?

— Claro que é.

— Ela não tem problemas emocionais que sejam do seu conhecimento?

— De jeito nenhum.

— Ela bebe?

— Não. Não gosta de álcool.

— E drogas?

— Veio à cidade errada. Não temos nenhum proble­ma de drogas em Junction City.

— A senhora Ashley não é casada com um médico?

— É sim.

— Se ela quisesse drogas...?

— Está redondamente enganado. Ela não consome drogas. Não funga e não toma pico na veia.

O agente estudou-a por um momento.

— Parece conhecer bem a terminologia.

— Assisto Miami Vice, como todo mundo. — Florence Schiffer estava começando a se irritar. — Tem mais algu­ma pergunta?

— O avô de Mary Ashley nasceu na Romênia. Já ouviu-a alguma vez falar sobre a Romênia?

— De vez em quando ela relata as histórias que o avô contava sobre a velha terra. Ele nasceu na Romênia, mas veio para os Estados Unidos ainda adolescente.

— Já ouviu a senhora Ashley manifestar alguma opi­nião negativa sobre o atual governo da Romênia?

— Não. Ou pelo menos não me lembro.

— Só mais uma pergunta. Já ouviu a senhora Ashley ou o doutor Ashley dizerem qualquer coisa contra o gover­no dos Estados Unidos?

— Absolutamente não!

— Então, na sua avaliação, eles são americanos leais?

— Pode apostar que sim. Importa-se de me explicar... O homem levantou-se.

— Quero agradecer pelo tempo que me dispensou, se­nhora Schiffer. E gostaria de repetir que se trata de um as­sunto altamente confidencial. Agradeceria se não falasse a respeito com ninguém... nem mesmo com seu marido.

Um momento depois ele saía pela porta da frente. Florence Schiffer ficou parada ali, a observá-lo fixamente. E murmurou:

— Não posso acreditar que toda essa conversa tenha mesmo ocorrido...

 

Os dois agentes desceram pela Washington Street, se­guindo para o norte.

Passaram pela Câmara de Comércio e pelo prédio em que estava instalada a Real Ordem dos Alces, pelo Irma's Pet Grooming e por um bar chamado The Fat Chance. Os prédios comerciais acabaram abruptamente. Donald Zam­lock comentou:

— É incrível, mas a rua principal tem apenas dois quar­teirões. Isto não é uma cidade, é uma parada de ônibus.

Rex Olds disse:

— Pode ser para você e para mim, mas para esta gen­te é uma cidade.

Zamlock sacudiu a cabeça.

— Provavelmente é um bom lugar para se viver, mas juro que eu não gostaria de morar aqui.

O sedã parou na frente do banco e Rex Olds entrou. Voltou vinte minutos depois.

— Tudo certo — disse ele, entrando no carro. — Os Ashley têm sete mil dólares no banco, uma hipoteca sobre a casa e pagam suas contas pontualmente. O gerente do ban­co acha que o doutor tem um coração mole demais para ser um bom homem de negócios, mas o considera um risco de crédito dos melhores.

Zamlock olhou para uma prancheta ao seu lado.

— Vamos conferir mais alguns nomes e voltar logo à civilização, antes que eu comece a mugir.

 

Douglas Schiffer era normalmente um homem jovial e tran­qüilo, mas naquele momento havia uma expressão sombria em seu rosto. Os Schiffer e os Ashley estavam no meio de seu jogo de bridge semanal, e os Schiffer estavam dez mil pontos atrás. E pela quarta vez naquela noite Florence Schif­fer renunciou. Douglas Schiffer bateu com as cartas na mesa.

— Florence! — explodiu ele. — De que lado você es­tá jogando? Sabe quantos pontos estamos perdendo?

— Desculpe — balbuciou ela, nervosa. — Eu... eu não consigo me concentrar.

— Isso é mais do que evidente — resmungou o marido.

— Alguma coisa a está incomodando? — Edward Ash­ley perguntou a Florence.

— Não posso contar. Todos a fitaram, surpresos.

— O que isso significa? — indagou o marido. Florence Schiffer respirou fundo.

— Mary... é sobre você.

— Como assim?

— Você está metida em alguma encrenca, não é? Mary ficou aturdida.

— Encrenca? Não. Eu... o que a faz pensar assim?

— Eu não deveria contar. Prometi.

— Prometeu a quem? — perguntou Edward.

— Um agente federal de Washington. Ele esteve lá em casa esta manhã, fazendo uma porção de perguntas sobre Mary. Fez com que ela parecesse uma espécie de espiã in­ternacional.

— Que tipo de perguntas? — insistiu Edward.

— As coisas que a gente vê na televisão. Ela é uma americana leal? É uma boa esposa e mãe? Consome drogas?

— Mas por que fariam perguntas assim sobre Mary?

— Ei, esperem um pouco! — interveio Mary, muito excitada. — Acho que sei o que é. Só pode ser por causa da minha nomeação.

— Não estou entendendo — disse Florence.

— Estou para ser promovida a catedrática. Como a universidade realiza algumas pesquisas confidenciais para o governo no campus, imagino que eles precisam investi­gar todo mundo de maneira meticulosa.

— Graças a Deus que é só isso. — Florence Schiffer deixou escapar um suspiro de alívio. — Pensei que iam pren­der você.

— Espero que façam isso mesmo. — Mary sorriu. — Na Universidade Estadual do Kansas.

— Agora que o problema foi esclarecido — disse Dou­glas Schiffer —, podemos continuar o jogo? — Ele se vi­rou para a esposa. — Se você abandonar mais uma vez, vou botá-la nos meus joelhos e aplicar umas boas palmadas.

— Promessas, promessas...

 

                               Abbeywood, Inglaterra

— Estamos reunidos nos termos das regras habituais — anunciou o presidente. — Não haverá registros, esta reu­nião nunca será discutida, e só vamos nos referir uns aos outros pelos codinomes que foram determinados.

Havia oito homens na biblioteca do Castelo Claymo­re, que datava do século XV. Dois homens armados, en­voltos por grossos sobretudos, estavam de vigia lá fora, enquanto um terceiro homem guardava a porta da biblio­teca. Os oito homens lá dentro haviam chegado separada­mente, pouco tempo antes. O presidente continuou:

— O Controlador recebeu algumas informações desconcertantes. Marin Groza está preparando um golpe con­tra Alexandros Ionescu. Um grupo de oficiais superiores do exército romeno resolveu apoiar Groza. Desta vez ele pode ser bem-sucedido.

Odin perguntou:

— Como isso afetaria nosso plano?

— Pode destruí-lo. Abriria muitas pontes para o Ocidente.

— Então devemos impedir que aconteça — disse Freyr.

— Como? — indagou Balder.

— Temos que assassinar Groza — respondeu o pre­sidente.

— É impossível. Os homens de Ionescu já cometeram meia dúzia de atentados, ao que saibamos. Todos fracas­saram. Sua villa, ao que parece, é inexpugnável. De qual­quer forma, ninguém nesta sala pode se permitir o envolvi­mento numa tentativa de assassinato.

— Não estaríamos envolvidos diretamente — explicou o presidente.

— Então como seria?

— O Controlador descobriu um dossiê confidencial so­bre um terrorista internacional que pode ser contratado.

— Abul Abbas, o homem que organizou o seqüestro do Achille Lauro?

— Não. Há um novo pistoleiro na cidade, senhores. O melhor. É conhecido como Angel.

— Nunca ouvi falar — disse Sigmund.

— Exatamente. Suas credenciais são das mais impres­sionantes. Segundo o dossiê do Controlador, Angel esteve envolvido no assassinato sikh de Khalistan, na Índia. Aju­dou os terroristas machateros em Porto Rico, assim como o Khmer Vermelho, no Camboja. Planejou o assassinato de meia dúzia de oficiais do exército em Israel. Os israelen­ses ofereceram um prêmio de um milhão de dólares por ele, vivo ou morto.

— Parece promissor — comentou Thor. — Podemos consegui-lo?

— Ele é caro. Se concordar em aceitar o contrato, vai nos custar dois milhões de dólares.

Freyr soltou um assovio, depois deu de ombros.

— Pode-se dar um jeito. Tiraremos o dinheiro do fun­do de despesas gerais que instituímos.

— Como fazemos contato com esse tal de Angel? — perguntou Sigmund.

— Todos os seus contatos são efetuados por intermé­dio da amante, Neusa Muñez.

— Onde a encontramos?

— Ela vive na Argentina. Angel montou um aparta­mento para ela em Buenos Aires.

— Qual seria o próximo passo? — perguntou Thor.

— Quem entraria em contato com ela por nós?

— O Controlador sugeriu um homem chamado Harry Lantz — respondeu o presidente.

— O nome parece familiar.

O presidente acrescentou, secamente:

— Tem saído nos jornais. Harry Lantz é um indisci­plinado. Foi expulso da CIA por organizar sua quadrilha de traficantes de tóxicos no Vietnam. Enquanto estava na CIA, fez uma excursão pela América do Sul, e por isso co­nhece o território. Seria um intermediário perfeito. — O presidente fez uma pausa. — Sugiro que façamos uma vo­tação. Todos que estão a favor da contratação de Angel le­vantem as mãos, por favor.

Oito mãos bem cuidadas se elevaram pelo ar.

— Então está resolvido. — O presidente levantou-se.

— A reunião está encerrada. Por favor, observem as pre­cauções habituais.

 

Era uma segunda-feira, e o guarda Leslie Hanson estava fazendo um piquenique na estufa do castelo, onde não ti­nha direito de ficar. Não estava sozinho, como mais tarde teve de explicar a seus superiores. Fazia calor na estufa, e sua companheira, Annie, uma rechonchuda camponesa, per­suadira o bom guarda a levar um cesto de piquenique.

— Você entra com a comida e eu ofereço a sobremesa

— comentara Annie, rindo.

A "sobremesa" tinha quase um metro e setenta de altura, seios lindos e firmes, e quadris que deixava um ho­mem com vontade de cravar os dentes.

Infelizmente, porém, no meio da sobremesa a concen­tração do guarda Hanson foi desviada por uma limusine que saía pelo portão do castelo.

— Este lugar deveria estar fechado às segundas-feiras

— murmurou.

— Não perca o seu lugar, meu bem — sussurrou Annie.

— De jeito nenhum, querida.

Vinte minutos depois o guarda ouviu um segundo car­ro partindo. Desta vez ele ficou bastante curioso para se levantar e dar uma espiada. Parecia uma limusine oficial, com as janelas escuras que não deixavam ver os passageiros.

— Você não vem, Leslie?

— Já estou indo. Não consigo imaginar quem pode­ria ter ido ao castelo. Está sempre fechado, a não ser nos dias de visita.

— Exatamente o que vai acontecer comigo, meu bem, se você não vier logo.

Vinte minutos depois, quando ouviu o terceiro carro partindo, a libido do guarda Hanson perdeu a batalha pa­ra o seu instinto de policial. Houve mais cinco veículos, sem­pre limusines, deixando o castelo a intervalos de vinte minutos. Um dos carros parou por um momento para dei­xar que um cervo passasse pelo caminho, e o guarda Han­son pôde anotar o número da placa.

— Este deveria ser o seu dia de folga — queixou-se Annie.

— Pode ser importante.

Enquanto falava, o guarda Hanson especulava se de­veria ou não comunicar o incidente.

 

— O que estava fazendo no Castelo Claymore? — pergun­tou o Sargento Twill.

— Uma visita turística, senhor.

— O castelo estava fechado.

— Mas a estufa estava aberta, senhor.

— Então você resolveu fazer uma visita turística à estufa.

— Isso mesmo, senhor.

— Sozinho, não é?

— Para ser franco, senhor...

— Não precisa relatar os detalhes escabrosos. O que o fez desconfiar dos carros?

— O comportamento deles, senhor.

— Carros não têm comportamento, Hanson. Os mo­toristas é que têm.

— Tem razão, senhor. Os motoristas pareciam muito cautelosos. Os carros partiram a intervalos de vinte minutos.

— Deve saber que há provavelmente mil explicações inocentes para isso. Na verdade, só você é que parece não ter uma explicação inocente.

— É verdade, senhor. Mas achei que deveria comuni­car o que aconteceu.

— Agiu certo. Esta é a placa que você anotou?

— É sim, senhor.

— Muito bem. Pode deixar comigo. — O sargento pen­sou num comentário crítico para acrescentar. — E não se esqueça... é perigoso jogar pedras nos outros se você tem um telhado de vidro.

E riu de sua piada durante toda a manhã.

 

Quando recebeu a informação sobre a placa do carro, o sar­gento Twill concluiu que Hanson se enganara. Levou a in­formação para o inspetor Pakula e explicou a situação.

— Eu não o incomodaria com esse problema, inspe­tor, mas a placa do carro...

— Entendo. Pode deixar que cuidarei do caso.

— Obrigado, senhor.

No quartel-general do SIS, o Serviço de Informações Se­cretas da Inglaterra, o inspetor Pakula teve uma rápida reu­nião com um dos diretores, um homem corpulento e de rosto avermelhado, sir Alex Hyde-White.

— Fez bem em trazer o problema ao meu conhecimen­to — disse sir Alex, sorrindo, — Mas receio que não seja nada mais sinistro do que tentar arrumar uma viagem real de férias sem que a imprensa tome conhecimento.

— Lamento tê-lo incomodado com algo assim. O inspetor Pakula levantou-se.

— Não tem problema, inspetor. Demonstra que seu serviço está vigilante. Como é mesmo o nome do jovem guarda?

— Hanson, senhor. Leslie Hanson.

 

Assim que o inspetor Pakula se retirou e a porta foi fecha­da, sir Alex Hyde-White pegou um telefone vermelho em cima da mesa.

— Tenho uma mensagem para Balder. Estamos com um pequeno problema. Explicarei na próxima reunião. En­quanto isso, quero que providencie três transferências. Sar­gento policial Twill, inspetor Pakula e guarda Leslie Hanson. Espace as transferências em alguns dias. Quero que sejam enviados para postos separados, o mais longe possível de Londres. Informarei ao Controlador e verei se ele quer que se tome mais alguma providência.

 

Em seu quarto de hotel em Nova York, Harry Lantz foi despertado no meio da noite pela campainha do telefone. Quem pode saber que estou aqui?, pensou. Olhou pa­ra o relógio na mesinha-de-cabeceira e depois atendeu.

— Porra! São quatro horas da madrugada! Quem... Uma voz suave começou a falar e no mesmo instante

Lantz sentou na cama, o coração disparando.

— Pois não, senhor — disse ele. — Está bem, senhor... Não, senhor, mas posso dar um jeito de ficar livre.

Escutou em silêncio por um longo tempo e depois murmurou:

— Compreendo, senhor. Pegarei o primeiro avião para Buenos Aires. Obrigado, senhor.

Lantz desligou e acendeu um cigarro. As mãos tremiam. O homem com quem acabara de falar era uma das pessoas mais poderosas do mundo e o que pedira a Harry Lantz para fazer... Mas afinal, o que está acontecendo?, perguntou a si mesmo. Só pode ser alguma coisa muito grande. O ho­mem ia lhe pagar cinqüenta mil dólares para transmitir um recado. Seria divertido voltar à Argentina. Harry Lantz ado­rava as mulheres sul-americanas. Conheço uma dúzia de sa­canas com tanto tesão que preferem foder a comer.

O dia estava começando muito bem.

 

Às nove horas da manhã Lantz pegou o telefone e ligou para a Aerolineas Argentinas.

— A que horas parte o primeiro vôo para Buenos Aires?

 

O 747 chegou ao Aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, às cinco horas da tarde seguinte. Fora um longo vôo, mas Harry Lantz não se importara. Cinqüenta mil dólares para transmitir uma mensagem. Sentiu um ímpeto de excitação no instante em que as rodas do avião tocaram de leve na pista. Não visitava a Argentina há quase cinco anos. Seria divertido renovar antigas amizades.

Ao deixar o avião, Harry Lantz ficou aturdido com a lufada de ar quente. Mas é claro, pensou ele. É verão aqui.

Durante a viagem de táxi para o centro da cidade, Lantz divertiu-se ao constatar que os grafites nas paredes dos pré­dios e nas calçadas não haviam mudado. PLEBISCITO LAS PELOTAS (Foda-se o plebiscito). MILITARES, ASSESINOS (Militares, assassinos). TENEMOS HAMBRE (Esta­mos com fome). MARIHUANA LIBRE (Maconha livre). DROGA, SEXO Y MUCHO ROCK (Droga, sexo e muito rock). JUICIO Y CASTIGO A LOS CULPABLES (Julga­mento e punição para os culpados).

Isso mesmo, era bom estar de volta.

A sesta já terminara, e as ruas estavam apinhadas de pessoas vindo e seguindo indolentemente para encontros. Quando o táxi chegou ao Hotel El Conquistador, no cora­ção do elegante Barrio Norte, Lantz pagou ao motorista com uma nota de um milhão de pesos.

— Fique com o troco — disse ele.

O dinheiro argentino era uma piada. Ele se registrou na recepção, no vasto e moderno saguão, pegou um exem­plar do Buenos Aires Herald e outro do La Prensa e dei­xou que o assistente da gerência o conduzisse à suíte. Sessenta dólares por dia por um quarto, banheiro, sala de estar e cozinha, com ar-condicionado e televisão. Em Was­hington, um lugar assim custaria um braço e uma perna, pensou Harry Lantz. Resolverei o problema com a tal de Neusa amanhã e ficarei mais alguns dias aqui para me di­vertir.

 

Mais de duas semanas se passaram antes que Harry Lantz conseguisse localizar Neusa Muñez.

 

Sua busca começou pelas listas telefônicas da cidade. Lantz verificou inicialmente os lugares no coração da cidade: Área Constitución, Plaza San Martin, Barrio Norte, Catelinas Norte. Em nenhum deles estava registrada uma Neusa Muñez. Também não havia nenhuma em Bahia Blanca ou Mar del Plata.

Onde será que ela está?, especulou Lantz. Saiu para a rua, procurando antigos contatos. Foi a La Biela, e o bartender exclamou:

— Señor Lantz! Por Dios... ouvi dizer que tinha morrido.

Lantz sorriu.

— E morri mesmo, mas senti muito sua falta, Anto­nio, e resolvi voltar.

— O que está fazendo em Buenos Aires? Lantz imprimiu à voz um tom pensativo:

— Vim procurar uma velha namorada. Deveríamos ter casado, mas a família dela mudou e eu a perdi de vista. Seu nome é Neusa Muñez.

O bartender coçou a cabeça.

— Nunca ouvi falar. Lo siento.

— Pode perguntar por aí, Antonio?

— Por qué no?

 

A próxima visita de Lantz foi a um amigo na chefatuia de polícia.

— Lantz! Harry Lantz! Dios! Qué pasa?

— Olá, Jorge. É um prazer tornar a vê-lo, amigo.

— A última notícia que tive de você é que havia sido expulso da CIA.

Harry Lantz soltou uma risada.

— Nada disso, amigo. Eles me suplicaram que conti­nuasse. Mas eu queria me estabelecer por conta própria.

— É mesmo? E qual é o seu negócio?

— Abri uma agência de detetive. E, para ser franco, foi isso que me trouxe a Buenos Aires. Um cliente meu mor­reu há poucas semanas. Deixou um bocado de dinheiro pa­ra a filha, e estou tentando localizá-la. A única informação de que disponho é de que ela mora num apartamento em algum lugar de Buenos Aires.

— Como ela se chama?

— Neusa Muñez.

— Espere um instante.

O instante prolongou-se por meia hora.

— Desculpe, amigo, mas não posso ajudá-lo. O no­me não consta do computador ou de qualquer dos nossos arquivos.

— Está bem. Se descobrir alguma coisa sobre ela, es­tou no El Conquistador.

— Bueno.

 

Lantz visitou os bares em seguida. Pontos de encontro co­nhecidos. Pepe Gonzalez e Almeida, Café Tabac.

— Buenas tardes, amigo. Soy de los Estados Unidos. Estoy buscando una mujer. El nombre es Neusa Muñez. Es una emergência.

— Lo siento, señor. No la conozco.

A resposta era a mesma por toda parte. Ninguém ja­mais ouviu falar da porra da mulher.

Harry Lantz circulou por La Boca, a pitoresca área do cais em que se pode ver velhos navios enferrujando, anco­rados no rio. Ninguém por ali conhecia Neusa Muñez. Pe­la primeira vez, Harry Lantz começou a sentir que poderia estar empenhado numa busca inútil.

 

Foi no Pilar, um pequeno bar no bairro de Floresta, que sua sorte mudou de repente. Era uma noite de sexta-feira, e o bar estava repleto de trabalhadores. Lantz levou dez mi­nutos para receber a atenção do bartender. Antes que Lantz chegasse à metade de seu discurso preparado, o bartender interrompeu-o:

— Neusa Muñez? Sí, eu a conheço. Se ela quiser falar com você, estará aqui mañana, por volta de meia-noite.

 

Na noite seguinte Lantz voltou ao Pilar às onze horas e fi­cou observando o bar ir lotando pouco a pouco. Perto de meia-noite, ele se descobriu mais e mais nervoso. E se ela não aparecesse? E se fosse a Neusa Muñez errada?

Lantz observou um grupo de moças rindo entrar no bar. Elas foram se juntar a alguns rapazes que ocupavam uma mesa. Ela tem de aparecer, pensou Lantz. Se não vier, posso dar adeus a cinqüenta mil dólares.

Especulou como seria a mulher. Devia ser deslumbran­te. Ele estava autorizado a oferecer ao namorado dela, Angel, dois milhões de dólares para assassinar alguém. O que significava que o tal de Angel devia ter dinheiro que não acabava mais. Podia muito bem sustentar uma amante lin­da e jovem. Mais do que isso, podia sustentar uma dúzia de amantes assim. A tal Neusa devia ser uma atriz ou mo­delo. Talvez até eu possa me divertir um pouco com ela an­tes de deixar a cidade, pensou Harry Lantz, feliz. Nada como combinar negócios e prazer.

A porta se abriu e Lantz olhou, em expectativa. Uma mulher entrou, sozinha. Era de meia-idade e desgraciosa, o corpo enorme, inchado, seios caídos, que balançavam quando ela andava. O rosto era bexiguento, e os cabelos estavam pintados de louro, mas a pele morena indicava o sangue mestizo, herdado de uma ancestral índia que fora para a cama com um espanhol. Vestia uma saia malfeita e uma suéter destinada a uma mulher muito mais jovem. Uma vigarista sem sorte, concluiu Lantz. Mas quem pode­ria querer trepar com uma mulher assim?

A mulher correu os olhos vazios e apáticos pelo bar. Acenou com a cabeça vagamente para diversas pessoas e depois abriu caminho pela multidão. Foi até o balcão.

— Quer me pagar um drinque?

Ela tinha um sotaque espanhol carregado e de perto era ainda mais desgraciosa. Parece uma vaca gorda que não dá mais leite, pensou Harry Lantz. E está de porre.

— Não enche, irmã.

— Esteban disse que você está à minha procura. Lantz ficou aturdido.

— Quem?

— Esteban. O bartender.

Harry Lantz ainda não podia aceitar.

— Ele deve ter se enganado. Estou procurando por Neusa Muñez.

— Sí. Yo soy Neusa Muñez.

Só que a errada, pensou Harry Lantz. Mas que merda!

— É amiga de Angel?

Ela sorriu, meio embriagada.

— Sí.

Harry Lantz recuperou-se no mesmo instante.

— Bom, bom... — Forçou um sorriso. — Podemos ir para uma mesa no canto e conversar?

A mulher acenou com a cabeça, indiferente.

— Está bem.

Eles abriram caminho pelo bar enfumaçado. Quando sentaram, Harry Lantz disse:

— Eu gostaria de falar sobre...

— Não quer me pagar um rum? Lantz assentiu.

— Claro.

Um garçom se aproximou, usando um avental imun­do. Lantz pediu:

— Um rum e um uísque com soda.

— O rum é duplo, hein? — disse Neusa Muñez. Depois que o garçom se afastou, Lantz virou-se para a mulher sentada a seu lado.

— Quero me encontrar com Angel. Ela o estudou com olhos opacos.

— Para quê? Lantz baixou a voz.

— Tenho um presente para ele.

— Que tipo de presente?

— Dois milhões de dólares.

O garçom trouxe os drinques. Harry Lantz levantou o copo e disse:

— A nós.

— A nós. — Ela bebeu tudo de um só gole. — Por que quer dar dois milhões de dólares a Angel?

— É uma coisa que devo discutir com ele pessoalmente.

— Isso não é possível. Angel não fala com ninguém.

— Por dois milhões de dólares...

— Posso tomar outro rum? Um duplo, hein? Essa não! Ela parece que está prestes a apagar!

— Claro. — Lantz chamou o garçom e pediu o drin­que. — Conhece Angel há muito tempo?

Ele procurou imprimir um tom casual à voz. A mu­lher deu de ombros.

— Conheço.

— Ele deve ser um homem interessante.

Os olhos vazios de Neusa Muñez estavam fixados num ponto da mesa à sua frente.

É demais!, pensou Harry Lantz. É como tentar con­versar com uma parede!

O rum chegou, e ela tomou tudo num longo gole. Ela tem o corpo de uma vaca e as maneiras de um porco.

— Quando posso me encontrar com Angel? Neusa Muñez fez um esforço para se levantar.

— Eu já disse que ele não fala com ninguém. Adios. Harry Lantz foi dominado por um súbito pânico.

— Ei, espere um pouco! Não vá embora! Ela parou e fitou-o com os olhos injetados.

— O que você quer?

— Sente-se e direi o que quero. A mulher arriou na cadeira.

— Preciso de um drinque, hein?

Harry Lantz estava aturdido. Que porra de homem é esse Angel? Sua amante não só é a mulher mais feia de to­da a América do Sul, mas é também uma bêbada.

Lantz não gostava de lidar com bêbados. Não mere­ciam confiança. Por outro lado, ele detestava a perspecti­va de perder sua comissão de cinqüenta mil dólares.

Observou Neusa Muñez tomar o rum. Especulou quantas doses ela já teria bebido antes de encontrá-lo. Lantz sorriu e disse, persuasivo:

— Se eu não puder falar com Angel, Neusa, como po­derei tratar de negócios com ele?

— É muito simples. Você me diz o que quer. Eu digo a Angel. Se ele disser sí, eu digo sí. Se ele disser não, eu digo não.

Harry não gostava da idéia de usá-la como interme­diária, mas não tinha alternativa.

— Já ouviu falar de Marin Groza?

— Não.

Claro que ela nunca ouvira. Porque não era o nome de uma marca de rum. Aquela mulher estúpida ia transmi­tir o recado completamente errado e estragar seu negócio.

— Preciso de um trago, hein? Lantz afagou-lhe a mão gorda.

— Está certo. — Pediu outra dose dupla de rum. — Angel saberá quem é Groza. Você apenas diz Marin Gro­za. Ele saberá.

— E depois?

Ela era ainda mais estúpida do que parecia. O que ela pensava que Angel deveria fazer por dois milhões de dóla­res? Dar um beijo no cara? Lantz disse, com muito cuidado:

— As pessoas que me mandaram aqui querem que ele seja liquidado.

— Como assim? Oh, Deus!

— Morto.

— Ahn... — Ela balançou a cabeça, indiferente. — Perguntarei a Angel. — Sua voz estava cada vez mais engrolada. — Como é mesmo o nome do homem?

Lantz tinha vontade de sacudi-la.

— Groza. Marin Groza.

— Está bem. Meu neném está fora da cidade. Telefono para ele esta noite e me encontro aqui com você ama­nhã. Posso tomar outro rum?

Neusa Muñez estava se revelando um pesadelo.

 

Na noite seguinte Harry Lantz sentou à mesma mesa no bar, de meia-noite às quatro horas da madrugada, quando a ca­sa fechou. Neusa Muñez não apareceu.

— Sabe onde ela mora? — Lantz perguntou ao bartender.

O bartender fitou-o com expressão inocente.

— Quién sabe?

A sacana estragara tudo. Como um homem suposta­mente tão eficiente quanto Angel podia se ligar a uma vi­ciada em rum? Harry Lantz orgulhava-se de ser um profissional. Era esperto demais para entrar num negócio como aquele sem antes fazer algumas indagações. O que mais o impressionara fora a informação de que os israelen­ses fixaram o preço de um milhão de dólares pela cabeça de Angel. Um milhão compraria uma vida inteira de bebi­da e vigaristas jovens. Mas ele podia esquecer isso e podia esquecer também os seus cinqüenta mil. Seu único elo com Angel se rompera. Teria de procurar O Homem e comuni­car que fracassara.

Não vou falar com ele por enquanto, decidiu Harry Lantz. Talvez ela ainda volte aqui. Talvez os outros bares esgotem seu estoque de rum. Talvez eu estivesse maluco quando aceitei a porra desta missão.

 

Na noite seguinte, às onze horas, Harry Lantz estava sen­tado à mesma mesa no Pilar, mastigando amendoins e roendo as unhas. Às duas horas da madrugada ele viu Neusa Muñez passar pela porta, cambaleando. O coração de Harry logo disparou. Ficou observando a mulher se encaminhar para a sua mesa.

— Oi — murmurou ela, arriando na cadeira.

— O que aconteceu com você? — perguntou Harry. Ele tinha de fazer um grande esforço para controlar sua raiva. Ela piscou os olhos, surpresa.

— Hein?

— Ficou de se encontrar aqui comigo ontem à noite.

— É mesmo?

— Marcamos um encontro, Neusa.

— Ahn... Fui ao cinema com uma amiga. Está pas­sando um filme novo, entende? É sobre um homem que se apaixona pela porra de uma freira e...

Lantz sentia-se tão frustrado que podia até chorar. O que Angel pode ver nesta mulher estúpida e bêbada? Ela deve ter uma boceta de ouro, concluiu Lantz.

— Neusa... você se lembrou de falar com Angel? Ela o fitou distraída, procurando compreender a pergunta.

— Angel? Sí. Posso tomar um trago, hein?

Ele pediu uma dose dupla de rum para a mulher e um uísque também duplo para sí mesmo. Precisava desesperadamente da bebida.

— E o que Angel disse, Neusa?

— Angel? Ah, ele disse sim. Está bem. Harry Lantz sentiu um alívio intenso.

— Isso é maravilhoso!

Ele não estava mais interessado em sua missão como mensageiro. Tinha uma idéia melhor. Aquela bêbada idio­ta ia levá-lo a Angel. Uma recompensa em dinheiro de um milhão de dólares.

Ele ficou observando-a tomar o rum, derramando um pouco pela blusa já suja.

— O que mais Angel disse?

A mulher franziu a testa em concentração.

— Angel disse que quer saber quem são vocês. Lantz ofereceu seu sorriso mais cativante.

— Diga a ele que isso é confidencial, Neusa. Não posso lhe fornecer essa informação.

Ela balançou a cabeça com indiferença.

— Então Angel vai dizer a você para ir se foder. Pos­so tomar outro rum antes de ir embora?

A mente de Harry Lantz começou a trabalhar em alta velocidade. Se a mulher fosse embora, ele tinha certeza de que nunca mais tornaria a vê-la.

— Vamos fazer uma coisa, Neusa. Telefonarei às pes­soas para as quais estou trabalhando. Se me derem permis­são, eu lhe direi um nome. Está bom assim?

Ela deu de ombros.

— Não me importo.

— Mas Angel se importa — explicou Lantz, paciente.

— Diga a ele que terei uma resposta amanhã. Há algum lu­gar em que eu possa encontrar você?

— Acho que sim.

Ele estava fazendo algum progresso.

— Onde?

— Aqui.

O garçom trouxe o rum e Lantz observou-a tomar tu­do de um só gole, como um animal. Sentiu vontade de matá-la.

 

Lantz ligou a cobrar, a fim de que não pudessem localizá-lo na origem da chamada, de uma cabine pública na rua Calvo. Esperou mais de uma hora para que a ligação fosse completada.

— Não — disse o Controlador. — Eu falei que nenhum nome seria mencionado.

— Sei disso, senhor. Mas estou com um problema. Neusa Muñez, a amante de Angel, diz que ele está disposto a fazer o negócio, mas não levantará um dedo enquanto não souber com quem está tratando. Como não podia dei­xar de ser, eu disse a ela que precisava consultar as pessoas que me haviam enviado até aqui.

— Como é essa mulher?

O Controlador não era um homem que se pudesse enganar.

— Ela é gorda, feia e estúpida, senhor.

— É muito perigoso usar o meu nome.

Harry Lantz podia sentir que o negócio estava lhe es­capando.

— Compreendo, senhor. Mas não se pode esquecer que a reputação de Angel está baseada em sua capacidade de ficar de boca fechada. Se ele algum dia começasse a falar, não duraria cinco minutos neste negócio.

Houve um silêncio prolongado.

— Tem razão nesse ponto. — Houve outro silêncio, ainda mais prolongado. — Está bem. Pode dar meu nome a Angel. Mas ele não deve divulgá-lo e nunca deve entrar em contato comigo diretamente. Todo o trabalho será rea­lizado por seu intermédio.

Harry Lantz sentia-se tão contente que podia sair dançando.

— Direi a ele, senhor. Obrigado.

Desligou, sorrindo. Ia receber cinqüenta mil dólares. E depois a recompensa de um milhão de dólares.

Quando se encontrou com Neusa Muñez, naquela noite, Harry Lantz pediu imediatamente um rum duplo para ela e disse, na maior felicidade:

— Está tudo acertado. Obtive permissão. Ela fitou-o com a indiferença habitual.

— É mesmo?

Ele comunicou o nome de seu empregador. Era conhe­cido no mundo inteiro, e Lantz esperava que ela se mos­trasse impressionada. Mas a mulher deu de ombros.

— Nunca ouvi falar.

— As pessoas para quem trabalho, Neusa, querem que o serviço seja feito o mais depressa possível. Marin Groza está escondido numa villa em Neuilly e...

— Onde?

Oh, Deus Todo-Poderoso! Ele estava tentando se co­municar com uma bêbada idiota. E disse, paciente:

— É uma cidadezinha nos arredores de Paris. Angel saberá onde fica.

— Preciso de outro trago.

 

Uma hora depois Neusa ainda estava bebendo, e desta vez Harry Lantz a estimulava. Não que ela precise de muito es­tímulo, pensou Lantz. Quando estiver completamente em­briagada, vai me levar a seu namorado. O resto será fácil.

Observou Neusa Muñez, que contemplava seu drinque com os olhos vidrados.

Não deve ser muito difícil pegar Angel. Ele pode ser duro, mas não deve ser muito inteligente.

— Quando Angel voltará à cidade? Ela focalizou os olhos vazios em Lantz.

— Semana que vem.

Harry Lantz pegou a mão da mulher e afagou-a, inda­gando suavemente:

— Por que nós dois não vamos para a sua casa?

— Está bem. Ele conseguira.

 

Neusa Muñez morava num sórdido apartamento de dois cô­modos, no bairro de Belgrano, em Buenos Aires. O apar­tamento era sujo e desarrumado, como sua moradora. Passaram pela porta, e Neusa encaminhou-se direto para o pequeno bar no canto da sala. Estava cambaleando.

— Quer um drinque?

— Não, obrigado — respondeu Lantz. — Mas você pode tomar.

Ele observou-a servir o drinque e tomá-lo. Ela é a mu­lher mais feia e repulsiva que já conheci, pensou Lantz. Mas o milhão de dólares que vai me proporcionar será uma beleza.

Correu os olhos pelo apartamento. Havia alguns livros empilhados sobre uma mesinha baixa. Lantz pegou-os um a um, esperando descobrir alguma coisa sobre a mente de Angel. Os títulos o surpreenderam: Gabriela, cravo e cane­la, de Jorge Amado; Fogo da montanha, de Omar Cabezas; Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez; À noite, os gatos, de Antonio Cisneros. Então Angel era um intelectual. Os livros não combinavam com o apartamento nem com a mulher. Lantz aproximou-se dela e passou os braços pela cintura enorme e flácida.

— Sabia que você é muito atraente? — Ele levantou a mão e afagou os seios. Eram do tamanho de melancias. Detestava mulheres de seios grandes. — Tem realmente um corpo sensacional.

— Hein?

Os olhos de Neusa estavam vidrados. Lantz baixou os braços e acariciou as coxas gordas através do vestido fino de algodão, sussurrando:

— Gosta disso?

— De quê?

Ele não estava fazendo nenhum progresso. Tinha de pensar num meio de levar aquela amazona para a cama. Mas também sabia que precisava agir com todo cuidado. Se a ofendesse, ela poderia ficar furiosa e contar tudo a An­gel, o que acabaria com suas perspectivas. Poderia tentar a persuasão, mas ela estava bêbada demais para entender o que ele dissesse.

Enquanto Lantz tentava desesperadamente pensar nu­ma manobra esperta, Neusa murmurou:

— Quer foder? Ele sorriu, aliviado.

— É uma grande idéia, meu bem.

— Vamos para o quarto.

Ela estava cambaleando quando Lantz a seguiu para o pequeno quarto. Tinha um closet, com a porta entreaberta, uma cama de casal desarrumada, duas cadeiras e uma cômoda, com um espelho rachado por cima. Foi o closet que atraiu a atenção de Harry Lantz. Viu uma fileira de ter­nos de homem pendurados lá dentro.

Neusa estava ao lado da cama, tentando abrir os bo­tões da blusa. Em circunstâncias normais, Harry Lantz es­taria junto dela, despindo-a, acariciando seu corpo e murmurando obscenidades excitantes em seu ouvido. Mas a visão de Neusa Muñez lhe causava a maior repulsa. Fi­cou parado, observando, enquanto a saia caía no chão. Ela não usava nada por baixo. Nua, era ainda mais feia do que vestida. Os seios enormes eram flácidos, e a barriga protuberante tremia como geléia quando ela se mexia. As coxas gordas eram uma massa de celulite. Ela é a coisa mais gro­tesca que já vi, pensou Lantz. Pense de maneira positiva, disse a si mesmo. Isto acabará em poucos minutos, enquanto o milhão de dólares durará para sempre.

Lentamente, forçou-se a tirar as roupas. Ela estava es­tendida na cama, como um leviatã, à sua espera. Lantz foi ficar ao seu lado.

— Do que você gosta? — perguntou ele.

— Hein? Chocolate. Gosto de chocolate.

Ela estava mais bêbada do que ele pensara. Isso é óti­mo. Tornará tudo mais fácil. Começou a acariciar o corpo flácido e branco.

— Você è uma mulher muito bonita, meu bem. Sabia disso?

— Hein?

— Gosto muito de você, Neusa. — Lantz desceu as mãos para o monte peludo entre as pernas gordas e come­çou a traçar pequenos círculos. — Aposto que leva uma vi­da emocionante.

— Hein?

— Afinal... ser a namorada de Angel... Deve ser muito interessante. Diga-me uma coisa, meu bem: como é Angel?

Houve silêncio, e ele especulou se Neusa adormecera. Enfiou os dedos na fenda macia e úmida entre as pernas e sentiu-a se mexer.

— Não durma agora, querida. Ainda não. Que tipo de homem é Angel? Ele é bonito?

— Rico. Angel é rico.

A mão de Lantz continuou em ação.

— Ele é bom para você?

— É, sim. Angel é muito bom para mim.

— Também serei bom para você, meu bem.

A voz de Lantz era suave e mole. O problema é que o resto também estava mole. Precisava de uma ereção de um milhão de dólares. Começou a pensar nas irmãs Dolly e algumas das coisas que haviam feito com ele. Visualizou-as trabalhando em seu corpo nu, com as línguas, dedos e mamilos. O pênis começou a ficar duro. Virou rapidamen­te para cima de Neusa e penetrou-a. É como foder um pu­dim, pensou Harry Lantz.

— Está gostando?

— Acho que estou.

Harry Lantz sentiu vontade de estrangulá-la. Havia de­zenas de mulheres lindas no mundo inteiro que ficavam no maior excitamento por seu ato amoroso e aquela sacana gor­da se limitava a dizer que achava que estava gostando. Ele começou a deslocar os quadris para a frente e para trás.

— Fale-me sobre Angel. Quem são os amigos dele? A voz de Neusa estava sonolenta:

— Angel não tem amigos. Eu sou sua amiga.

— Claro que é, meu bem. Angel mora aqui com você ou tem seu próprio apartamento?

Neusa fechou os olhos.

— Estou com sono. Quando você vai gozar? Nunca, pensou ele. Não com esta vaca.

— Já gozei — mentiu Lantz.

— Então vamos dormir.

Ele saiu de cima da mulher e estendeu-se a seu lado, furioso. Por que Angel não podia ter uma amante normal? Uma mulher jovem, bonita, de sangue quente? Ele não te­ria então qualquer dificuldade para obter as informações que desejava. Mas aquela vaca estúpida... Ainda assim... havia outros meios.

Lantz ficou imóvel na cama por um longo tempo, até ter certeza absoluta de que Neusa estava dormindo. Levantou-se então, com todo cuidado, e foi até o closet.

Acendeu a luz no interior e fechou a porta, a fim de que a claridade não despertasse a baleia roncando.

Havia uma dúzia de ternos e trajes esportes pendura­dos, seis pares de sapatos de homem no chão. Lantz abriu os paletós e verificou as etiquetas. Os ternos eram todos fei­tos sob medida por Herrera, avenida la Plata. Os sapatos eram da Vill. Tirei a sorte grande!, pensou Lantz, exultante. Eles devem ter o registro do endereço de Angel. Irei à loja pela manhã e farei algumas perguntas. Um alarme soou em sua mente. Não, nada de perguntas. Ele tinha de ser mais esperto. Afinal, estava lidando com um assassino de cate­goria internacional. Seria mais seguro deixar que Neusa o levasse a Angel. Tudo o que terei de fazer então será avisar meus amigos no Mossad e receber o dinheiro. Mostrarei a Ned Tillingast e ao resto daquele bando de desgraçados da CIA que o velho Harry Lantz ainda não perdeu a classe. Todos aqueles garotos brilhantes estavam fazendo o possí­vel e o impossível para descobrir Angel e sou eu quem o encontra.

Teve a impressão de ouvir um ruído na cama. Espiou cauteloso pela porta do closet, mas Neusa ainda estava dormindo.

Lantz apagou a luz do closet e voltou para a cama. Os olhos da mulher estavam fechados. Ele foi na ponta dos pés até a cômoda e começou a vasculhar as gavetas, na es­perança de encontrar uma fotografia de Angel. Seria uma grande ajuda. Não teve sorte. Retornou à cama. Neusa ron­cava alto.

Quando Harry Lantz finalmente adormeceu, seus so­nhos foram repletos de visões de um iate branco, cheio de mulheres bonitas e jovens, completamente nuas, com seios pequenos e firmes.

Pela manhã, quando Harry Lantz acordou, Neusa não es­tava na cama. Por um instante, ele foi dominado pelo pânico. Ela já teria saído para se encontrar com Angel? Ouviu barulho na cozinha. Saiu da cama apressado e vestiu-se. Neusa estava no fogão.

— Buenos dias — disse Lantz.

— Quer café? — murmurou Neusa. — Não posso fa­zer nada para você comer. Tenho um encontro marcado.

Com Angel. Harry Lantz tentou esconder sua excitação.

— Não há problema, pois não estou com fome. Pode ir para o seu encontro. Jantaremos juntos esta noite. — Ele abraçou-a, acariciando os seios enormes. — Onde você gos­taria de jantar? Só o melhor para a minha garota.

Eu deveria ser um ator, pensou Lantz.

— Não me importo.

— Conhece o Chiquin, na avenida Cangallo?

— Não.

— Tenho certeza de que vai gostar. Está bem eu vir buscá-la aqui às oito horas? Tenho muitos negócios para tratar hoje.

Ele não tinha negócio nenhum a tratar.

— Está bem.

Lantz teve de recorrer a toda sua força de vontade pa­ra se inclinar e dar um beijo de despedida em Neusa. Os lábios da mulher eram flácidos, úmidos e repulsivos.

— Às oito horas.

Ele deixou o apartamento e fez sinal para um táxi. Es­perava que Neusa estivesse observando da janela.

— Vire à direita na próxima esquina — ordenou ao motorista.

Depois que viraram a esquina, Harry Lantz acres­centou:

— Vou saltar aqui.

O motorista fitou-o com expressão espantada.

— Pegou um táxi para andar só um quarteirão, señor?

— Isso mesmo. Tenho uma perna ruim. Ferimento de guerra.

Lantz pagou a corrida e depois voltou apressado para uma tabacaria em frente ao prédio de Neusa, no outro la­do da rua. Acendeu um cigarro e ficou esperando.

Vinte minutos depois Neusa saiu do prédio. Lantz observou-a se afastar pela rua e seguiu-a a uma distância cautelosa. Não havia a menor possibilidade de perdê-la. Era como seguir o Lusitânia.

Neusa Muñez parecia não ter a menor pressa. Desceu pela avenida Belgrano, passou pela biblioteca Espanhola e seguiu pela avenida Córdoba. Lantz observava quando ela entrou na Berenes, uma loja de couros na San Martin. Fi­cou parado no outro lado da rua, vendo-a conversar com um vendedor. Especulou se a loja teria alguma ligação com Angel. Fez uma anotação mental.

Neusa saiu alguns minutos depois, carregando um em­brulho pequeno. Sua parada seguinte foi numa heladería na Corrientes, para tomar um sorvete. Desceu pela San Mar­tin, andando devagar. Parecia estar passeando a esmo, sem qualquer destino específico em mente.

O que aconteceu com seu encontro marcado?, pensou Lantz. Onde está Angel? Ele não acreditava na declaração de Neusa de que Angel não estava na cidade. O instinto lhe dizia que Angel se encontrava em algum lugar nas proxi­midades.

Lantz compreendeu subitamente que Neusa Muñez não estava mais à vista. Ela virara uma esquina à frente e desa­parecera. Ele acelerou os passos. Não a viu quando dobrou a esquina. Havia pequenas lojas nos dois lados da rua e Lantz foi avançando com todo cuidado, os olhos esquadri­nhando tudo, temeroso de que Neusa pudesse avistá-lo an­tes que ele a visse.

Finalmente localizou-a numa fiambrería, comprando coisas. Seriam para ela ou estaria esperando alguém no apar­tamento para almoçar? Alguém chamado Angel.

A distância, Lantz observou Neusa entrar numa verdurería e comprar frutas e legumes. Seguiu-a de volta ao prédio em que morava. Até onde ele podia determinar, não houvera qualquer contato suspeito.

Harry Lantz ficou observando o prédio de Neusa do outro lado da rua durante as quatro horas seguintes, mudando de posição constantemente, a fim de não chamar atenção. Acabou chegando à conclusão de que Angel não ia apare­cer. Talvez eu consiga lhe arrancar mais alguma informa­ção esta noite, pensou ele. Sem precisar comê-la, é claro. A idéia de ter de fazer amor com Neusa outra vez deixava-o com vontade de vomitar.

No Gabinete Oval da Casa Branca a noite caía. Fora um dia comprido para Paul Ellison. O mundo inteiro parecia composto por comitês e conselhos, telegramas urgentes, reu­niões e conversas. Só agora tinha um momento para refle­tir, um momento para si mesmo. Ou quase para si mesmo. Stanton Rogers estava sentado no outro lado da mesa, e o presidente descobriu-se relaxando pela primeira vez na­quele dia.

— Estou tirando-o de sua família, Stan.

— Não tem problema, Paul.

— Eu queria falar com você sobre a investigação de Mary Ashley. Como está indo?

— Está quase concluída. Teremos uma verificação fi­nal amanhã ou depois. Até agora, parece que está tudo certo. Estou começando a ficar excitado com a idéia. Acho que vai dar certo.

— Nós faremos com que dê certo. Quer outro drinque?

— Não, obrigado. A menos que você precise de mim para alguma coisa, vou levar Barbara para uma estréia no Kennedy Center.

— Pode ir — disse Paul Ellison. — Alice e eu vamos receber alguns parentes dela.

— Por favor, dê lembranças minhas a Alice. Stanton Rogers levantou-se.

— E você dê lembranças minhas a Barbara.

O presidente ficou observando Stanton Rogers se reti­rar. E seus pensamentos voltaram a se concentrar em Mary Ashley.

 

Ao chegar ao apartamento de Neusa naquela noite a fim de levá-la para jantar fora, Harry Lantz bateu na porta e não houve resposta. Sentiu um momento de consternação. Será que ela saíra, esquecendo o encontro?

Experimentou a porta. Não estava trancada. Angel es­taria ali à sua espera? Talvez ele tivesse decidido discutir o contrato pessoalmente. Harry assumiu uma atitude fir­me, profissional, e entrou. A sala estava vazia.

— Olá.

Apenas um eco. Ele passou para o quarto. Neusa es­tava estendida na cama, bêbada.

— Sua idiota...

Harry se controlou. Não podia esquecer que aquela mu­lher estúpida e bêbada era a sua mina de ouro. Pôs as mãos nos ombros de Neusa e tentou acordá-la. Ela abriu os olhos.

— O que é?

— Estou preocupado com você. — A voz de Harry Lantz estava impregnada de sinceridade. — Detesto vê-la infeliz e acho que anda bebendo porque alguém a deixa in­feliz. Sou seu amigo. Pode me contar tudo. É Angel, não é?

— Angel... — murmurou ela.

— Tenho certeza de que ele é um bom homem — con­tinuou Harry suavemente. — Provavelmente vocês dois ti­veram apenas um mal-entendido, não é?

Ele tentou tirá-la da cama. É como desencalhar uma baleia, pensou Lantz.

— Fale-me sobre Angel — pediu ele, sentando-se na cama. — O que ele está fazendo com você?

Neusa fitou-o, os olhos remelentos, tentando focalizá-lo.

— Vamos foder.

Essa não! Ia ser uma longa noite.

— Claro. Grande idéia. Relutante, Lantz começou a se despir.

 

Quando Harry Lantz acordou pela manhã, sozinho na ca­ma, as lembranças afloraram em sua mente e ele sentiu o estômago revirar. Neusa o acordara no meio da noite.

— Sabe o que eu quero que faça comigo?

E ela lhe dissera. Lantz escutara, aturdido, mas fizera todas as coisas que ela pedira. Não podia se dar o luxo de hostilizá-la. Neusa era um animal selvagem e doentio, e Lantz especulou se Angel alguma vez fizera aquelas coisas com ela. A lembrança do que acontecera deixou Lantz com vontade de vomitar.

Ele ouviu Neusa cantando no banheiro, desafinada. Não tinha certeza se seria capaz de encará-la. Já fui longe demais, pensou Lantz. Se ela não me disser esta manhã on­de posso encontrar Angel, vou procurar o alfaiate e o sa­pateiro.

Empurrou as cobertas para o lado e foi falar com Neu­sa. Ela estava parada na frente do espelho do banheiro. Ti­nha os cabelos enrolados e parecia, se possível, ainda mais desgraciosa do que antes.

— Nós dois precisamos ter uma conversa — disse Lantz, a voz firme.

— Claro. — Neusa apontou para a banheira cheia de água. — Preparei um banho para você. Quando acabar, ar­rumo o café da manhã.

Lantz estava impaciente, mas sabia que não devia pressioná-la demais.

— Você gosta de omelete?

Ele não estava com o menor apetite.

— Gosto, sim.

— Faço uma boa omelete. Angel me ensinou. Lantz ficou observando enquanto ela começava a ti­rar os enormes rolos do cabelo. Ele entrou na banheira.

Neusa pegou um secador elétrico, ligou-o e pôs-se a en­xugar os cabelos.

Lantz refestelou-se na banheira com água quente, pen­sando: Talvez eu devesse arrumar um revólver e cuidar de Angel pessoalmente. Se deixar os israelenses fazerem isso, provavelmente haverá a porra de um inquérito para saber com quem fica a recompensa. Dessa maneira não haverá qualquer dúvida. Apenas direi a eles onde podem pegar o corpo.

Neusa disse alguma coisa, mas Harry Lantz mal pôde ouvi-la, com o barulho do secado..

— O que foi que disse? — gritou ele. Neusa se aproximou da banheira.

— Tenho um presente de Angel para você.

Ela largou o secador de cabelos elétrico na água e fi­cou olhando o corpo de Harry Lantz se contorcer na dança da morte.

 

O presidente Paul Ellison largou o último relatório de se­gurança sobre Mary Ashley e disse:

— Não há nenhuma falha, Stan.

— Sei disso. Acho que ela é a candidata perfeita. Mas é claro que o pessoal do Departamento de Estado não vai ficar muito satisfeito.

— Mandaremos uma caixa de lenços para eles chora­rem. E agora vamos torcer para que o Senado concorde com a nossa idéia.

A sala de Mary Ashley no Kedzie Hall era pequena e agra­dável, forrada de estantes com livros de referências sobre os países da Europa Central. O mobiliário era mínimo, con­sistindo de uma escrivaninha escalavrada, uma cadeira gi­ratória, e uma mesinha junto à janela em que se acumulavam muitas provas, uma poltrona e uma luminária de leitura. Na parede por trás da escrivaninha havia um mapa dos Bál­cãs. Uma fotografia antiga do avô de Mary estava pendu­rada na parede. Fora tirada na passagem do século, e o vulto na fotografia mantinha uma pose rígida, sem naturalidade, vestindo as roupas da época. Era um dos tesouros de Mary. Fora o avô quem lhe incutira profunda curiosidade pela Romênia. Ele lhe contava histórias românticas da rai­nha Marie, de baronesas e princesas, histórias de Albert, o príncipe consorte da Inglaterra, de Alexandre II, czar da Rússia, e dezenas de outros personagens emocionantes.

Em algum lugar do nosso passado existe sangue real. Se a revolução não tivesse acontecido, você seria uma princesa.

Mary costumava sonhar com isso.

 

Ela estava conferindo as provas e dando notas quando a porta se abriu e o reitor Hunter entrou.

— Bom dia, senhora Ashley. Pode me dar um momento?

Era a primeira vez que o reitor a procurava em sua sa­la. Mary experimentou um súbito momento de exultação. Só podia haver um motivo para que o reitor ali viesse pes­soalmente: ele ia comunicar que a universidade a contrata­ra como catedrática.

— Claro — disse ela. — Não quer sentar? Ele sentou.

— Como estão suas turmas?

— Acho que muito bem.

Mary estava ansiosa em transmitir a notícia a Edward. Ele ficaria muito orgulhoso. Não era sempre que uma pes­soa de sua idade se tornava catedrática numa universida­de. O reitor Hunter parecia constrangido.

— Está metida em alguma encrenca, senhora Ashley? A pergunta pegou Mary completamente desprevenida.

— Encrenca? Eu... não. Por que pergunta?

— Alguns homens de Washington vieram me procu­rar, fazendo perguntas a seu respeito.

Mary Ashley ouviu o eco das palavras de Florence Schiffer: Algum agente federal de Washington!... Estava fazendo uma porção de perguntas sobre Mary. Do jeito co­mo falava, parecia que ela era uma espiã internacional... Ela é uma americana leal? Tem sido uma boa esposa e mãe... Portanto, no final das contas, o intruso não tinha na­da a ver com seu posto de catedrática. Ela se descobriu de repente com dificuldade para falar.

— O que... o que eles queriam saber, reitor Hunter?

— Perguntaram sobre sua reputação como professo­ra e também queriam saber de sua vida pessoal.

— Não posso explicar. Não tenho a menor idéia do que está acontecendo. E não estou metida em nenhuma en­crenca. Pelo menos ao que eu saiba.

O reitor observava-a com um ceticismo óbvio.

— Não lhe contaram por que estavam fazendo pergun­tas a meu respeito?

— Não. Para dizer a verdade, pediram-me que man­tivesse a conversa no mais absoluto sigilo. Mas tenho um dever de lealdade para com a minha equipe e achei que se­ria justo informá-la. Se houver alguma coisa que eu deva saber, prefiro tomar conhecimento por seu intermédio. Qual­quer escândalo envolvendo um dos nossos professores po­deria ter reflexos prejudiciais sobre a universidade.

Mary sacudiu a cabeça, desamparada.

— Eu... eu não posso imaginar nada.

O reitor fitou-a em silêncio por um momento. Parecia prestes a dizer alguma coisa, mas depois balançou a cabeça e limitou-se a murmurar:

— Está bem, senhora Ashley.

Ela ficou observando o reitor se retirar e especulou: Mas afinal, o que eu poderia ter feito?

 

Mary se manteve muito quieta durante o jantar. Queria es­perar que Edward acabasse de comer antes de contar o que estava acontecendo. Tentariam esclarecer o problema juntos. As crianças estavam insuportáveis outra vez. Beth recusou-se a comer qualquer coisa.

— Ninguém mais come carne. É um costume bárba­ro, trazido dos tempos do homem da caverna. Pessoas ci­vilizadas não comem animais vivos.

— Não está vivo — argumentou Tim. — Está morto, e por isso você pode comer.

— Crianças! — Os nervos de Mary estavam à flor da pele. — Não digam mais nada! Beth, vá preparar uma sa­lada para você!

— Ela podia pastar no campo — sugeriu Tim.

— Tim! Termine logo de jantar! — A cabeça de Mary começava a latejar. — Edward...

O telefone tocou.

— É para mim — disse Beth.

Ela se levantou de um pulo e correu para o telefone. Tirou o fone do gancho e murmurou, com sua voz mais se­dutora:

— Virgil? — Ela escutou por um momento e sua ex­pressão mudou. Foi com irritação que acrescentou: — Sei disso!

Beth bateu com o telefone e voltou para a mesa.

— Quem era? — perguntou Edward.

— Algum gaiato. Disse que era da Casa Branca, que­rendo falar com mamãe.

— Casa Branca? — repetiu Edward. O telefone tornou a tocar.

— Eu atendo — disse Mary.

Ela se levantou e foi até o telefone.

— Alô? — Enquanto escutava, sua expressão tornou-se sombria. — Estou no meio do jantar e não acho a menor graça. Você pode... o quê? ... Quem? O presidente?

Houve um súbito silêncio na sala.

— Espere um... eu... oh, boa noite, senhor presiden­te. — Havia uma expressão atordoada em seu rosto. Toda a família observava, os olhos arregalados. — Sim, senhor. Reconheço sua voz. Eu... eu... peço desculpas por terem batido com o telefone há pouco. Beth pensou que era Vir­gil e... sim, senhor. Obrigada. — Ela ficou imóvel, escu­tando. — Se eu estaria disposta a servir como o quê?

 

O rosto de Mary ficou subitamente vermelho. Edward es­tava de pé, aproximando-se do telefone, as crianças logo atrás.

— Deve haver algum engano, senhor presidente. Meu nome é Mary Ashley. Sou professora na Universidade Es­tadual do Kansas e... O senhor leu? Obrigada, senhor... É muita gentileza sua... Eu acho que sim... — Ela escutou em silêncio por um longo momento. — Sim, senhor, eu con­cordo. Mas isso não significa que eu... Sim, senhor. Sim, senhor. Claro que me sinto lisonjeada. É uma oportunida­de maravilhosa, mas eu... Claro que sim, senhor. Conver­sarei a respeito com meu marido e ligarei depois. — Ela pegou uma caneta e anotou um número. — Sim, senhor. Já anotei. Obrigada, senhor presidente. Adeus.

Lentamente, Mary repôs o fone no gancho e ficou imó­vel, em estado de choque.

— O que houve? — perguntou Edward.

— Era mesmo o presidente? — indagou Tim. Mary arriou numa cadeira.

— Era, sim.

Edward pegou a mão de Mary.

— O que ele disse, Mary? O que queria?

Ela estava atordoada, pensando: Então era esse o mo­tivo para todas as perguntas. Ela levantou os olhos para o marido e os filhos e disse, falando bem devagar:

— O presidente leu meu livro e o artigo que saiu na revista Foreign affairs e os achou brilhantes. Disse que é o tipo de pensamento que deseja em seu programa povo-para-povo. E quer me designar para embaixadora na Romênia.

Havia uma expressão de total incredulidade no rosto de Edward.

— Você? Por que você?

Era exatamente o que Mary perguntara a sí mesma, mas sentiu agora que Edward poderia ter sido mais diplomáti­co. Poderia falar: "Mas que idéia maravilhosa! Você dará uma grande embaixadora!" Mas ele estava sendo realista. É verdade, por que logo eu?

— Você não tem qualquer experiência política.

— Sei disso muito bem — respondeu Mary, com al­guma irritação. — Concordo que toda a idéia é absurda.

— Você vai ser embaixadora? — perguntou Tim. — Vamos nos mudar para Roma?

— Romênia.

— Onde fica a Romênia? Edward virou-se para os filhos.

— Vocês dois acabem de jantar. Sua mãe e eu gosta­ríamos de ter uma conversinha em particular.

— Não temos direito a voto? — indagou Tim.

— Votam pela ausência.

Edward pegou Mary pelo braço e levou-a para a bi­blioteca. Ali, virou-se para ela e disse:

— Desculpe se pareci um idiota pomposo. É que fi­quei tão...

— Você tinha toda razão, Edward. Por que haveriam de escolher logo a mim?

Quando Mary o chamava de Edward, ele sabia que se encontrava numa situação difícil.

— Meu bem, provavelmente você daria uma grande embaixadora... ou embaixatriz, não sei como é que chamam. Mas deve admitir que a notícia foi um choque.

Mary abrandou.

— Mais do que isso, um relâmpago. — Ela parecia uma garotinha. — Ainda não posso acreditar. — Riu. — Espere só até eu contar a Florence. Ela vai morrer. Edward observava-a atentamente.

— Está muito excitada com isso, não é? Ela fitou-o, surpresa.

— Claro que estou. Você também não ficaria? Edward escolheu suas palavras com extremo cuidado:

— É uma grande honra, meu bem, e tenho certeza de que não foi uma coisa que ofereceram levianamente. De­vem ter um ótimo motivo para escolhê-la. — Ele hesitou. — Temos de pensar a respeito com muito cuidado. Sobre as conseqüências para as nossas vidas.

Ela sabia o que o marido ia dizer e pensou: Edward está certo. Claro que ele está certo.

— Não posso deixar a clinica e abandonar meus pa­cientes. Tenho de ficar aqui. Não sei por quanto tempo fi­caríamos separados, mas se isso é muito importante para você... então acho que devemos arrumar um jeito para que vá com as crianças e eu iria me encontrar com vocês sem­pre que...

Mary interrompeu-o, a voz suave:

— Você é mesmo doido. Acha que eu poderia viver longe de você?

— Afinal, é uma grande honra e...

— E ser sua esposa também é uma grande honra. Na­da é mais importante para mim do que você e as crianças. Eu nunca o deixaria. Esta cidade não pode encontrar ou­tro médico como você, mas tudo o que o governo precisa fazer para encontrar alguém melhor do que eu para a em­baixada é procurar nas páginas amarelas.

Edward abraçou-a.

— Tem certeza?

— Absoluta. Foi emocionante ser convidada. Isso é suficiente para...

A porta se abriu e Beth e Tim entraram correndo. Beth disse:

— Acabei de ligar para Virgil e contei a ele que você vai ser embaixadora.

— Então é melhor ligar de novo e dizer que eu não vou ser.

— Por que não? — perguntou Beth.

— Sua mãe acaba de decidir que vai continuar aqui.

— Por quê? — lamentou Beth. — Eu nunca estive na Romênia. Nunca estive em lugar nenhum.

— Eu também não. — Tim virou-se para Beth. — Eu falei que a gente nunca conseguiria escapar daqui.

— O assunto está encerrado — declarou Mary.

 

Na manhã seguinte Mary ligou para o número que o presi­dente lhe dera. Quando a telefonista atendeu, ela disse:

— Aqui é a senhora Edward Ashley. Creio que o as­sessor do presidente... o senhor Greene... está esperando por minha ligação.

— Um momento, por favor. Uma voz de homem atendeu:

— Senhora Ashley?

— Eu mesma. Pode fazer o favor de transmitir um re­cado meu ao presidente?

— Claro.

— Pode dizer a ele, por gentileza, que me sinto muito lisonjeada com o convite, mas as atividades profissionais de meu marido não lhe permitem sair daqui. Assim, seria impossível eu aceitar. Espero que ele compreenda.

— Transmitirei o recado. — A voz era neutra. — Obri­gado, senhora Ashley.

O telefone ficou mudo. Mary largou o fone no gan­cho, devagar. Estava feito. Por um breve momento, um so­nho fascinante lhe fora oferecido, mas não passava disso.

Um sonho. Este é o meu mundo real. E agora é melhor eu me aprontar para a minha próxima aula de ciência política.

 

                         Manama, Bahrein

A casa de pedra caiada de branco era anônima, escondida entre dezenas de casas idênticas, a pouca distância a pé dos souks, os enormes e pitorescos mercados ao ar livre. Per­tencia a um mercador que simpatizava com a causa da or­ganização conhecida como Patriotas pela Liberdade.

— Precisaremos da casa apenas por um dia — dissera-lhe uma voz pelo telefone.

Tudo fora combinado. Agora, o presidente estava fa­lando aos homens reunidos na sala.

— Surgiu um problema — disse ele. — A moção que aprovamos recentemente apresenta um problema.

— Que espécie de problema? — perguntou Balder.

— O intermediário que escolhemos... Harry Lantz... está morto.

— Morto? Como aconteceu?

— Foi assassinado. Encontraram o corpo flutuando no porto em Buenos Aires.

— A polícia tem alguma idéia do culpado? O caso pode ser relacionado conosco de alguma forma?

— Não. Estamos absolutamente seguros.

— E o nosso plano? — perguntou Thor. — Podemos executá-lo?

 

— Não no momento. Não sabemos como entrar em contato com Angel. Mas o Controlador deu permissão a Harry Lantz para revelar seu nome a ele. Se Angel estiver interessado em nossa proposta, encontrará um meio de fa­zer contato. Tudo o que podemos fazer agora é esperar.

 

A manchete do Daily Union de Junction City dizia: MARY ASHLEY, DE JUNCTION CITY, RECUSA POSTO DE EMBAIXADORA.

Havia uma matéria de duas colunas sobre Mary e uma fotografia sua. Na Rádio KJCK, os noticiários da tarde e da noite falaram sobre a nova celebridade da cidade. O fa­to de Mary Ashley ter recusado o convite do presidente tor­nava a história ainda maior do que se ela tivesse aceito. Aos olhos de seus orgulhosos cidadãos, Junction City, Kansas, era muito mais importante do que Bucareste, Romênia.

Ao seguir para a cidade, a fim de fazer compras para o jantar, Mary Ashley ligou o rádio do carro.

— ...O presidente Ellison anunciara antes que a em­baixada na Romênia seria o início de seu programa de povo-para-povo, a pedra fundamental de sua política externa. Co­mo a recusa de Mary Ashley ao posto vai se refletir...

Ela trocou de estação.

— ...é casada com o doutor Edward Ashley e se acre­dita que...

Mary desligou o rádio. Recebera pelo menos três dú­zias de telefonemas naquela manhã, de amigos, vizinhos, estudantes e estranhos curiosos. Repórteres haviam-na pro­curado, de lugares tão distantes como Londres e Tóquio. Estão levando a história além das proporções normais, pen­sou Mary. Não é culpa minha que o presidente tenha resol­vido o sucesso de sua política externa na Romênia. Gostaria de saber até quando esse pandemônio vai durar. Provavel­mente acabará em mais um ou dois dias.

Entrou com a caminhonete num posto de gasolina Derby e parou na frente da bomba de auto-serviço. Quan­do saltou do carro, o senhor Blount, gerente do posto, aproximou-se apressado.

— Bom dia, senhora Ashley. Uma embaixadora não deve bombear pessoalmente sua gasolina. Deixe-me ajudá-la.

Marry sorriu.

— Obrigada, mas estou acostumada a me servir.

— De jeito nenhum! Eu insisto.

Com o tanque já cheio, Mary seguiu para a Washing­ton Street e parou na frente da Shoe Box.

— Bom dia, senhora Ashley — cumprimentou-a o fun­cionário. — Como vai a embaixadora esta manhã?

Isto vai se tornar cansativo, pensou Mary. Em voz al­ta, ela disse:

— Não sou embaixadora, mas vou bem, obrigada. — Entregou um par de sapatos. — Gostaria que pusessem so­las novas nos sapatos de Tim.

O homem examinou os sapatos.

— Não são os que consertamos na semana passada? Mary suspirou.

— E na semana anterior também.

 

A próxima parada de Mary foi na Loja de Departamentos Long's. A senhora Hacker, gerente do departamento de rou­pas, disse-lhe:

— Acabei de ouvir seu nome no rádio. Está pondo Junction City no mapa. Acho que a senhora, Eisenhower e Al Landon são as únicas grandes personalidades políticas do Kansas, senhora embaixadora.

— Não sou embaixadora — respondeu Mary, pacien­te. — Recusei a indicação.

— Era o que eu estava querendo dizer. Não adiantava. Mary disse:

— Preciso de uma jeans para Beth. De preferência al­guma coisa de ferro.

— Qual é a idade de Beth agora? Dez anos?

— Doze.

— Puxa, como as crianças crescem depressa hoje em dia, nãu é? Ela será uma adolescente antes que se possa perceber.

— Beth já nasceu adolescente, senhora Hacker.

— E como está Tim?

— Ele é muito parecido com Beth.

 

Mary demorou duas vezes mais do que o habitual nas com­pras. Todos tinham algum comentário a fazer sobre a grande notícia. Foi ao Dillon's para comprar algumas coisas. Es­tava examinando as prateleiras quando a senhora Dillon a abordou.

— Bom dia, senhora Ashley.

— Bom dia, senhora Dillon. Tem coisas para o café da manhã que não tenham nada?

— Como assim?

Mary consultou a lista que tinha na mão.

— Sem adoçantes artificiais, sódio, gorduras, carboi­dratos, cafeína, ácido fólico ou flavorizantes.

A senhora Dillon estudou a lista.

— É alguma experiência médica?

— De certa forma. É para Beth. Ela só quer comer alimentos naturais.

— Por que não a leva para o pasto e a deixa pastar? Mary soltou uma risada.

— Foi exatamente o que meu filho sugeriu. — Pegou um pacote e verificou o rótulo. — A culpa é minha. Eu nun­ca deveria ter ensinado Beth a ler.

 

Mary voltou para casa com todo cuidado, subindo o cami­nho sinuoso para Milford Lake. Estava alguns graus aci­ma de zero, mas o vento gelado levava a temperatura para o negativo, pois não havia nada que detivesse o seu avanço pelas planícies intermináveis. Os gramados estavam cober­tos de neve, e Mary lembrou-se do inverno anterior, quan­do uma tempestade de gelo se abatera sobre o condado, partindo os cabos de transmissão de energia elétrica. Fica­ram sem eletricidade por quase uma semana. Ela e Edward fizeram amor todas as noites. Talvez tenhamos sorte outra vez este ano, pensou, sorrindo para si mesma.

 

Quando Mary chegou em casa, Edward ainda não voltara do hospital. Tim estava no escritório, assistindo a um pro­grama de ficção científica. Mary guardou as compras e foi confrontar o filho.

— Você não deveria estar fazendo o dever de casa?

— Não posso.

— E por que não?

— Porque não entendo.

— E não vai mesmo entender se continuar assistindo Jornada nas estrelas. Mostre-me o dever.

Tim mostrou o livro de matemática da quinta série, co­mentando:

— Estes problemas são muito burros.

— Não existem problemas burros, mas sim alunos bur­ros. E agora vamos estudar este aqui.

Mary leu o problema em voz alta:

— Um trem deixando Minneapolis levava 149 pessoas a bordo. Mais pessoas embarcaram em Atlanta. Agora, ha­via 223 pessoas a bordo. Quantas pessoas embarcaram em Atlanta? — Ela levantou os olhos. — É muito simples, Tim. Basta subtrair 149 de 223.

— Não, não é isso — protestou Tim, sombriamente. — Tem de se armar uma equação. 149 mais N é igual a 223. N é igual a 223 menos 149. N é igual a 74.

— Isso é uma burrice — concluiu Mary.

 

Ao passar pelo quarto de Beth, Mary ouviu um barulho. Entrou. Beth estava sentada no chão, de pernas cruzadas, assistindo à televisão, escutando um disco de rock e fazen­do o dever de casa.

— Como pode se concentrar com este barulho todo? — perguntou Mary.

Ela foi até a televisão e desligou-a, depois desligou tam­bém o toca-discos. Beth levantou os olhos, surpresa.

— Por que fez isso? Era George Michael!

O quarto de Beth era revestido de posters de músicos. Havia Kiss e Van Halen, Motley Crue, Aldo Nova e David Lee Roth. A cama estava coberta de revistas: Seventeen, Teen idol e meia dúzia de outras. As roupas de Beth esta­vam espalhadas pelo chão. Em desespero, Mary correu os olhos pelo quarto desarrumado.

— Como pode viver assim, Beth? A menina ficou aturdida.

— Viver como, mamãe? Mary rangeu os dentes.

— Nada. — Ela olhou para um envelope na escriva­ninha da filha. — Está escrevendo para Rick Springfield?

— Estou apaixonada por ele.

— Pensei que estivesse apaixonada por George Michael.

— Eu queimo por George Michael, mas estou apaixo­nada por Rick Springfield. Mamãe, você nunca queimou por ninguém no seu tempo?

— No meu tempo estávamos ocupadas demais atra­vessando o continente em carroças.

Beth suspirou.

— Sabia que Rick Springfield teve uma infância horrível?

— Para ser absolutamente sincera, Beth, eu não tinha a menor idéia.

— Foi uma coisa pavorosa. O pai era militar e esta­vam sempre mudando de lugar. Ele também é vegetariano. Como eu. Ele é sensacional.

Então é isso o que está por trás dessa dieta maluca de Beth!

— Mamãe, posso ir ao cinema no sábado à noite com Virgil?

— Virgil? O que aconteceu com Arnold? Houve uma pausa.

— Arnold quis bancar o engraçadinho. Ele é nojento. Mary fez um esforço para parecer calma.

— Com "bancar o engraçadinho" você está queren­do dizer...?

— Só porque meus seios começaram a crescer, os ga­rotos acham que sou fácil. Você se sentia embaraçada com seu corpo, mamãe?

Mary foi postar-se atrás da filha e enlaçou-a.

— Claro que sim, querida. Eu me sentia muito emba­raçada quando tinha a sua idade.

— Detesto ter a menstruação, ficar com seios e toda cabeluda. Por quê?

— Acontece com todas as garotas, mas vai acabar se acostumando.

— Não vou, não. — Beth desvencilhou-se da mãe e declarou, veemente: — Não me importo de ficar apaixona­da, mas nunca vou fazer sexo. Ninguém vai me tocar. Nem Arnold, nem Virgil, nem Kevin Bacon.

Mary disse, em tom solene:

— Se é essa a sua decisão...

— Uma decisão irrevogável. Mamãe, o que o presiden­te Ellison falou quando você disse que não queria ser em­baixadora?

— Ele aceitou minha decisão muito bem. E agora, acho que é melhor eu começar a preparar o jantar.

 

Cozinhar era a tragédia secreta de Mary Ashley. Detestava cozinhar, e por isso não era muito boa; e como gostava de ser boa em tudo o que fazia, detestava ainda mais. Era um círculo vicioso, que fora resolvido em parte pela presença de Lucinda, três vezes por semana, para cozinhar e arru­mar a casa. Aquele era um dos dias de folga de Lucinda.

 

Quando Edward chegou do hospital, Mary estava na cozi­nha, queimando algumas ervilhas. Ela virou-se no fogão e deu-lhe um beijo.

— Olá, querido. Como foi o seu dia? Nojento?

— Você deve ter se comunicado com nossa filha — co­mentou Edward. — Para dizer a verdade, foi mesmo no­jento. Tratei esta tarde de uma garota de treze anos que tinha herpes genital.

— Oh, querido!

Mary jogou fora as ervilhas e abriu uma lata de tomates.

— Isso me deixa preocupado com Beth.

— Pois não precisa se preocupar — garantiu Mary. — Ela está planejando morrer virgem.

 

Ao jantar, Tim perguntou:

— Papai, posso ganhar uma prancha de surfe no meu aniversário?

— Não quero interferir no seu sonho, Tim, mas acon­tece que você mora no Kansas.

— Sei disso, mas Johnny me convidou para ir com ele para o Havaí no próximo verão. Sua família tem uma casa na praia em Maui.

— Se Johnny tem uma casa na praia em Maui — co­mentou Edward, ponderado —, então provavelmente tem uma prancha de surfe.

Tim virou-se para a mãe.

— Posso ir?

— Veremos. Por favor, não coma tão depressa, Tim. Beth, você não está comendo nada.

— Não há nada aqui que seja apropriado ao consu­mo humano.

Ela fitou os pais em silêncio por um momento, depois acrescentou:

— Tenho um comunicado a fazer. Vou mudar de nome.

Edward perguntou, com toda cautela:

— Algum motivo em particular?

— Resolvi me tornar uma artista.

Mary e Edward trocaram um olhar longo e angustia­do. E foi Edward quem disse:

— Está bem. Descubra quanto consegue obter por eles.

 

Em 1965, num escândalo que abalou as organizações inter­nacionais de serviço secreto, Mehdi ben Barka, um oponente do rei Hassan II, do Marrocos, foi atraído a Paris de seu exílio em Genebra e assassinado com a ajuda do serviço se­creto francês. Em decorrência desse incidente, o presidente Charles de Gaulle tirou o serviço secreto do controle do ga­binete do primeiro-ministro e colocou-o sob a égide do Mi­nistério da Defesa. Por isso é que o atual ministro da defesa, Roland Passy, era o responsável pela segurança de Marin Groza, a quem o governo francês concedera asilo. Havia gendarmes de guarda na frente da villa em Neuilly em tur­nos de 24 horas, mas era o conhecimento de que Lev Pasternak estava no comando da segurança interna da propriedade que dava confiança a Passy. Ele vira pessoal­mente as medidas de segurança e estava convencido de que a casa era inexpugnável.

Nas últimas semanas havia rumores no mundo diplo­mático de que era iminente um golpe, que Marin Groza es­tava planejando voltar à Romênia e que Alexandros Ionescu seria deposto pelos principais militares do país.

Lev Pasternak bateu na porta e entrou na biblioteca atulhada de livros que servia como escritório de Marin Gro­za. O líder rebelde romeno estava sentado à sua escrivani­nha, trabalhando. Levantou os olhos quando Lev Pasternak entrou.

— Todo mundo quer saber quando vai ser a revolu­ção — disse Pasternak. — É o segredo menos bem guarda­do do mundo.

— Diga a eles para terem mais um pouco de paciên­cia. Você irá comigo para Bucareste, Lev?

Mais do que qualquer outra coisa, Lev Pasternak an­siava em voltar para Israel. Aceitarei o cargo apenas em ca­ráter temporário, dissera a Marin Groza. Até você estar pronto para entrar em ação. O temporário se transformara em semanas e meses, até que três anos haviam transcorri­do. E agora era o momento de tomar outra decisão.

Num mundo povoado por pigmeus, pensou Lev Pas­ternak, tive o privilégio de servir a um gigante. Marin Gro­za era o homem mais altruísta e idealista que Lev Pasternak já conhecera.

Quando fora trabalhar para Groza, Pasternak especu­lara sobre a família do homem. Groza nunca falava a res­peito, mas o oficial que promovera o encontro de Pasternak com o líder rebelde romeno lhe contara toda a história:

— Groza foi traído. A Securitate capturou-o e torturou-o por cinco dias. Prometeram libertá-lo se reve­lasse os nomes de seus companheiros no movimento sub­terrâneo. Ele se recusou a falar. Prenderam sua esposa e a filha de quatorze anos e levaram-nas para a sala de inter­rogatório. Ofereceram uma opção a Groza: fale ou observe-as morrerem. Era a decisão mais difícil que um homem já teve de tomar. Eram as vidas de seus entes mais amados contra as vidas de centenas de pessoas que acreditavam nele.

O homem fizera uma pausa e depois continuara, mais devagar:

— Creio que, ao final, Groza tomou a sua decisão por­que estava convencido de que ele e sua família seriam mor­tos de qualquer maneira. Recusou-se a revelar os nomes. Os guardas amarraram-no numa cadeira e obrigaram-no a assistir à esposa e à filha serem estupradas até morrerem. Mas ainda não haviam acabado com Groza. Depois que tudo acabou e os corpos ensangüentados das duas estavam caí­dos a seus pés, eles o castraram.

— Santo Deus!

O oficial fitara Pasternak nos olhos e acrescentara:

— A coisa mais importante que você deve compreen­der é que Marin Groza não quer voltar à Romênia em bus­ca de vingança. Ele quer voltar para libertar seu povo. Quer dar um jeito para que coisas assim nunca mais aconteçam.

Lev Pasternak estivera com Groza desde aquele dia; quanto mais tempo passava com o líder revolucionário, mais o amava. Agora, precisava decidir se renunciava à volta a Israel e ia para a Romênia com ele.

 

Pasternak estava atravessando o corredor naquela noite. Ao' passar pela porta do quarto de Marin Groza, ouviu os gri­tos familiares de desespero. Então é sexta-feira, pensou Pas­ternak. Era o dia das prostitutas. Eram escolhidas na Inglaterra, América do Norte, Brasil, Japão, Tailândia e meia dúzia de outros países, ao acaso. Não tinham a me­nor idéia de seu destino ou de quem iam visitar. Eram rece­bidas no Aeroporto Charles de Gaulle, e levadas de carro diretamente para a villa. Depois de algumas horas, seguiam para o aeroporto e embarcavam num vôo de volta. Toda noite de sexta-feira os corredores ressoavam com os gritos de Marin Groza. Todos presumiam que estava ocorrendo alguma prática sexual fora do normal. O único que sabia o que realmente acontecia por trás da porta do quarto era Lev Pasternak. Pois as visitas das prostitutas nada tinham a ver com sexo. Eram uma penitência. Uma vez por semana, Groza tirava as roupas e mandava que uma mulher o amarrasse a uma cadeira e o açoitasse brutalmente. A cada vez que isso acontecia, ele via a esposa e a filha serem estu­pradas até a morte, gritando por socorro. E berrava:

— Perdoem-me! Eu falarei! Oh, Deus, por favor, deixe-me falar...

 

O contato foi efetuado dez dias depois de o corpo de Harry Lantz ser encontrado. O Controlador estava no meio de uma reunião com seu estado-maior, na sala de conferências, quando a campainha do interfone soou.

— Sei que pediu para não ser incomodado, senhor, mas há uma ligação do exterior. Parece urgente. Uma certa miss Neusa Muñez está ligando de Buenos Aires. Eu disse a ela...

— Não tem problema. — Ele manteve as emoções sob firme controle. — Atenderei em minha sala.

Pediu licença aos participantes da reunião, passou pa­ra a sua sala e trancou a porta. Pegou o telefone.

— Alô? É miss Muñez?

— A própria. — A voz tinha um sotaque sul-americano, rude e inculto. — Recebi uma mensagem para você de Angel. Ele não gostou do mensageiro abelhudo que você mandou.

Ele teve de escolher as palavras com todo cuidado:

— Sinto muito. Mas ainda gostaríamos que Angel fi­zesse o trabalho. Seria possível?

— Claro. Ele diz que quer fazer.

O homem conteve um suspiro de alívio.

— Ótimo. Como podemos acertar o adiantamento? A mulher soltou uma risada.

— Angel não precisa de adiantamento. Ninguém en­gana Angel. — De certa forma, as palavras eram assusta­doras. — Depois que o trabalho for realizado, ele diz para você depositar o dinheiro no... espere um instante... anotei em algum lugar... ah, aqui está... no Banco do Estado, em Zurique. É algum lugar na Suíça. Ela parecia uma débil mental.

— Precisarei do número da conta.

— Ah, sim. O número é... meu Deus, esqueci. Espe­re um pouco. Anotei em algum lugar. — Ele ouviu o farfa­lhar de papéis e depois de algum tempo a mulher voltou ao telefone. — Aqui está. Jota-três-quatro-nove-zero-sete-sete.

Ele repetiu o número.

— Quando ele pode resolver o problema?

— Quando estiver pronto, señor. Angel diz que o se­nhor saberá quando o trabalho for realizado. Lerá a notí­cia nos jornais.

— Está certo. Vou lhe dar meu telefone particular, caso Angel precise entrar em contato comigo.

Ele deu o número, falando bem devagar.

 

                               Tbilisi, Rússia

A reunião se realizava numa dacha isolada, à margem do rio Kura. O presidente disse:

— Surgiram dois assuntos urgentes. O primeiro é uma boa notícia. O Controlador foi procurado por Angel. O con­trato será executado.

— Esta é uma notícia sensacional! — exclamou Freyr. — E qual é a má notícia?

— Envolve a candidata do presidente para a embai­xada na Romênia. Mas é possível contornar a situação...

 

Era difícil para Mary Ashley concentrar os pensamentos na aula. Alguma coisa mudara. Aos olhos de seus alunos, ela se tornara uma celebridade. Era uma sensação inebriante. Podia sentir a turma absorvendo cada palavra sua.

— Como sabemos, o ano de 1956 foi uma vertente para muitos países do Leste europeu. Com a volta de Gomulka ao poder, o comunismo nacionalista emergiu na Polônia. Na Tchecoslováquia, Antonin Mavorony assumia a lideran­ça do Partido Comunista. Não houve grandes mudanças po­líticas na Romênia nesse ano...

Romênia... Bucareste... Pelas fotografias que Mary vi­ra, era uma das cidades mais lindas da Europa. Lembrava de como ficava aterrorizada quando era pequena com as histórias do terrível príncipe Vlad, da Transilvânia. Ele era um vampiro, Mary, e vivia em seu enorme castelo no alto das montanhas de Brasov, sugando o sangue de vitimas ino­centes.

Mary percebeu subitamente o profundo silêncio na sala. A turma a observava. Por quanto tempo terei ficado as­sim, a sonhar?, especulou. Apressou-se em continuar com a aula:

— Na Romênia, Gheorghiu-Dej estava consolidando seu poder no Partido dos Trabalhadores...

A aula parecia interminável, mas felizmente estava qua­se acabando.

— O trabalho de vocês será escrever um ensaio sobre o planejamento e administração econômica da União So­viética, descrevendo a organização básica das agências do governo e o controle do Partido Comunista. Quero que ana­lisem as dimensões internas e externas da política soviéti­ca, com ênfase em suas posições na Polônia, Tchecoslová­quia e Romênia.

Romênia... Seja bem-vinda à Romênia, senhora em­baixadora. A limusine está aqui para levá-la à embaixada. Sua embaixada. Ela fora convidada a viver numa das mais excitantes capitais do mundo, reportando-se ao presidente dos Estados Unidos, na base de seu programa povo-para-povo. Eu poderia ser parte da história.

Saiu de seu devaneio como o barulho da campainha. A aula terminara. Estava na hora de ir para casa e trocar de roupa. Edward voltaria mais cedo do hospital. Ia levá-la para jantar no clube.

Como convinha a uma quase-embaixadora.

 

— Código Azul! Código Azul! — a voz crepitava pelos alto-falantes, em todos os corredores do hospital.

Mesmo enquanto a turma de emergência convergia para a entrada da ambulância, já se podia ouvir a sirene se apro­ximando. O Hospital Comunitário de Geary é um prédio escuro, de três andares, aparência austera, empoleirado nu­ma colina na St. Mary's Road, na parte sudoeste de Junction City. Conta com leitos, duas modernas salas de operação e diversas salas de exame e administrativas.

Fora uma sexta-feira movimentada, e a enfermaria de emergência no último andar já estava repleta de soldados feridos, que vinham para a cidade do Forte Riley, ali per­to, base da 1ª Divisão de Infantaria, conhecida como A Grande Vermelha, por causa das baixas nos fins de semana.

O doutor Edward Ashley estava costurando o couro cabeludo de um soldado que perdera numa briga de bar. Ele servira no Hospital Memorial de Geary por treze anos, e antes de se tornar médico particular fora cirurgião da Força Aérea, com o posto de capitão. Vários hospitais importan­tes em grandes cidades tentaram atraí-lo, mas ele preferia permanecer onde estava.

Terminou com o soldado em que estava trabalhando e olhou ao redor. Havia pelo menos uma dúzia de solda­dos esperando para serem remendados. Ouviu o barulho da sirene da ambulância se aproximando.

— Estão tocando a nossa música.

O doutor Douglas Schiffer, que estava cuidando de uma vítima de ferimento a bala, balançou a cabeça.

— Isto aqui até parece o M*A*S*H. Dá para pensar que estamos no meio de alguma guerra.

Edward Ashley comentou:

— É a única que eles têm, Doug. É por isso que vêm para a cidade todo fim de semana e ficam um pouco enlou­quecidos. Sentem-se frustrados.

Deu o último ponto no soldado.

— Já acabei, soldado. Está pronto para outra. — Virando-se para Douglas Schiffer, Edward acrescentou: — É melhor descermos para a emergência.

 

O paciente vestia um uniforme de soldado e parecia não ter mais que dezoito anos. Estava em estado de choque. Suava muito, e a respiração era difícil. O doutor Ashley sentiu o pulso. Estava fraco e irregular. Havia uma mancha de san­gue na frente da túnica. Edward Ashley virou-se para um dos paramédicos que haviam trazido o paciente.

— Qual é o caso?

— Um ferimento a faca no peito, doutor.

— Vamos verificar se o pulmão foi atingido. — Virou-se para uma enfermeira. — Quero uma radiografia do tó­rax. Tem três minutos para providenciar.

O doutor Douglas Schiffer examinava a veia jugular do soldado. Estava intumescida. Ele olhou para Edward.

— Está distendida. Provavelmente o pericárdio foi atingido.

O que significava que a bolsa que protegia o coração estava cheia de sangue, comprimindo-o de tal forma que não permitia o funcionamento adequado. A enfermeira que conferia a pressão do paciente informou:

— A pressão está caindo muito depressa.

O monitor que media o eletrocardiograma do paciente tornou-se mais lento. Estavam perdendo o paciente. Ou­tra enfermeira entrou apressada com a radiografia do tórax.

— Tamponamento pericárdico.

O coração tinha um buraco. O pulmão sucumbira.

— Temos de intubar e expandir o pulmão. — A voz de Edward Ashley era suave, mas não havia como se enga­nar com a urgência. — Chamem um anestesista. Vamos abri-lo. Podemos fazer a intubação.

Uma enfermeira entregou um tubo endotraqueal ao doutor Schiffer. Edward Ashley acenou com a cabeça para ele.

— Agora.

Com todo o cuidado, Douglas Schiffer começou a en­fiar o tubo pela traquéia do soldado inconsciente. Havia uma bolsa na extremidade do tubo, e Schiffer começou a espremê-la, em ritmo firme, ventilando os pulmões. O mo­nitor se tornou ainda mais lento, e a curva foi ficando reta. O cheiro da morte pairava na sala.

— Ele apagou.

Não havia tempo de levar o paciente para a sala de ope­rações. O doutor Ashley precisava tomar uma decisão imediata.

— Vamos efetuar uma toracotomia. Bisturi.

No instante em que o bisturi foi posto em sua mão, Edward inclinou-se e fez uma incisão no peito do soldado. Quase não houve sangue, porque o coração estava encar­cerado no pericárdio.

— Retrator!

O instrumento foi posto em sua mão e ele o inseriu no paciente, a fim de afastar as costelas.

— Tesoura! E recuem!

Ele chegou mais perto, a fim de poder alcançar o peri­cárdio. Ajeitou a tesoura e fez o corte. O sangue, liberado da bolsa, esguichou no mesmo instante, atingindo as en­fermeiras e o doutor Ashley. Ele começou a massagear o coração. O monitor começou a bipar e a pulsação tornou-se palpável. Havia uma pequena laceração no ápice do ventrículo esquerdo.

— Levem-no para a sala de cirurgia.

Três minutos depois o paciente estava na mesa de ope­rações.

— Transfusão... mil centímetros cúbicos.

Não havia tempo para verificar o tipo de sangue e por isso se usou o O negativo — doador universal. Enquanto a transfusão começava, o doutor Ashley disse:

— Um tubo de tórax 32.

Uma enfermeira entregou-lhe. O doutor Schiffer disse:

— Pode deixar que eu fecho, Ed. Por que não vai se lavar?

O avental cirúrgico de Edward Ashley estava enchar­cado de sangue. Ele olhou para o monitor. O coração esta­va forte e firme.

— Obrigado.

 

Edward Ashley tomara um banho de chuveiro e trocara de roupa, estava agora em sua sala, redigindo o relatório mé­dico. Era uma sala agradável, com estantes ocupadas por livros de medicina e troféus esportivos. Tinha uma escriva­ninha, uma poltrona e uma mesinha, com duas cadeiras de espaldar reto. Nas paredes estavam os seus diplomas, emol­durados de maneira impecável.

Ele sentia o corpo rígido e cansado da tensão por que acabara de passar. Ao mesmo tempo, sentia-se sexualmen­te excitado, como sempre acontecia depois de uma cirurgia importante. O fato de se confrontar com a morte amplia os valores da força vital, um psiquiatra explicara certa oca­sião a Edward. Fazer amor é a afirmação da continuidade da natureza. Qualquer que seja o motivo, pensou Edward, eu gostaria que Mary estivesse aqui.

Escolheu um cachimbo na pequena estante por sobre a escrivaninha e acendeu-o. Foi se instalar na poltrona e esticou as pernas. Pensar em Mary fazia com que se sentis­se culpado. Fora o responsável por ela recusar o convite do presidente, e seus motivos eram válidos. Porém há mais do que isso, admitiu para sí mesmo. Fiquei com ciúme. Reagi como um pirralho mimado. O que teria acontecido se o pre­sidente me fizesse uma oferta assim? Provavelmente eu acei­taria na mesma hora. Tudo o que pude pensar foi que queria que Mary ficasse em casa e cuidasse de mim e das crianças. Eis aí o autêntico porco chauvinista!

Continuou sentado, fumando o cachimbo, irritado con­sigo mesmo. Tarde demais, pensou. Mas darei um jeito de compensá-la. Vou surpreendê-la neste verão com uma via­gem a Paris e Londres. Talvez até a leve à Romênia. Tere­mos uma verdadeira lua-de-mel.

 

O Junction City Country Club é um prédio de calcário com três andares, em meio a colinas viçosas. Tem um campo de golfe com dezoito buracos, duas quadras de tênis, uma pis­cina, um bar e um restaurante, com uma lareira grande nu­ma extremidade, um salão de jogos em cima e vestiários embaixo.

O pai de Edward fora sócio do clube, assim como o pai de Mary, e os dois freqüentavam-no desde crianças. A cidade era uma comunidade fechada, e o clube era seu símbolo.

Já era tarde quando Edward e Mary chegaram, e res­tavam apenas umas poucas pessoas no restaurante. Todas olharam e ficaram observando Mary sentar, sussurrando comentários umas para as outras. Mary já estava se acos­tumando a isso. Edward fitou-a e indagou:

— Algum arrependimento?

Claro que havia, mas eram castelos de areia, sonhos encantadores e impossíveis, como todo mundo tem. Se eu tivesse nascido uma princesa; se eu fosse uma milionária; se eu recebesse o Prêmio Nobel pela cura do câncer; se... se... se...

Mary sorriu.

— Absolutamente nenhum, querido. Já foi uma sor­te que tivessem me convidado. De qualquer forma, eu nunca poderia deixar você e as crianças. — Aninhou a mão do ma­rido entre as suas. — Não há nenhum arrependimento. Es­tou contente de ter recusado.

Ele se inclinou sobre a mesa e sussurrou:

— Vou fazer uma oferta que você não poderá recusar.

— Veremos — murmurou Mary, sorrindo.

 

No começo, logo que casaram, o ato de amor fora intenso e exigente. Possuíam uma consciente necessidade física um do outro, que só era satisfeita quando ambos ficavam com­pletamente esgotados. A urgência abrandara com o tempo, mas as emoções ainda persistiam, constantes, ternas e sa­tisfatórias.

Quando voltaram para casa agora, despiram-se sem pressa e foram para a cama. Edward abraçou-a e depois começou a acariciar seu corpo gentilmente, brincando com os seios, apertando os mamilos com os dedos, descendo a mão para a maciez aveludada. Mary gemeu de prazer.

— É maravilhoso...

Ela ficou por cima e começou a lamber-lhe o corpo, sentindo-o ficar duro. Quando ambos estavam prontos, fi­zeram amor até se sentirem exaustos. Edward abraçou a es­posa, sussurrando:

— Eu a amo tanto, Mary...

— E eu amo você duas vezes mais. Boa noite, querido.

 

Às três horas da madrugada o telefone explodiu. Edward, sonolento, tirou o fone do gancho e aproximou-o do ouvido.

— Alô?

Uma voz de mulher disse, em tom de urgência:

— Doutor Ashley?

— Sou eu mesmo.

— Pete Grimes está tendo um ataque do coração. Sente dores horríveis. Acho que está morrendo. Não sei o que fazer.

Edward sentou na cama, tentando dissipar o sono.

— Não faça nada. Procure mantê-lo quieto. Estarei aí dentro de meia hora.

Desligou, saiu da cama e começou a se vestir.

— Edward...

Ele olhou para Mary, que estava com os olhos entreabertos.

— O que aconteceu?

— Está tudo bem. Volte a dormir.

— Acorde-me quando você voltar — murmurou Mary. — Acho que vou me sentir sensual de novo.

Edward sorriu.

— Voltarei o mais depressa possível.

Cinco minutos depois ele estava a caminho da fazen­da dos Grimes.

Desceu a colina pela Old Milford Road, na direção da J Hill Road. Era uma madrugada gelada, o vento de no­roeste baixando a temperatura para o negativo. Edward li­gou o aquecedor do carro. Enquanto guiava, pensou se não deveria ter pedido uma ambulância antes de sair de casa. Os dois últimos "ataques de coração" de Pete Grimes ha­viam se revelado úlceras perfuradas. Não. Era melhor ve­rificar primeiro.

Entrou com o carro na rota 18, a estrada de duas pis­tas que passava por Junction City. A cidade estava ador­mecida, as casas abrigadas contra o vento frio e penetrante.

Ao chegar ao final da rua 6, Edward fez a volta para pegar a rota 57 e seguiu para a Grandview Plaza. Quantas vezes já passara por aquelas estradas nos dias quentes de verão, sentindo no ar o cheiro do milho e do feno da pradaria, passando por miniaturas de florestas com choupos, cedros e oliveiras russas, as pilhas do feno de agosto empi­lhadas à beira? Os campos estavam impregnados com o odor dos cedros queimados, que precisavam ser destruídos pe­riodicamente, porque invadiam as plantações. E quantos invernos passara por aquela estrada, através de uma paisa­gem congelada, os cabos de transmissão de energia delica­damente rendados de gelo, a fumaça solitária de chaminés distantes? Havia uma sensação inebriante de isolamento, no casulo da escuridão da madrugada, observando os cam­pos e árvores passarem em silêncio.

Edward guiava o mais depressa possível, tomando cui­dado com a estrada traiçoeira sob as rodas. Pensou em Mary deitada na cama quente, à sua espera. Acorde-me quando eu voltar. Acho que vou me sentir sensual outra vez.

Ele tinha muita sorte. Farei tudo para compensá-la, prometeu a sí mesmo. Eu lhe darei a melhor lua-de-mel que uma mulher já teve.

À frente, no cruzamento das rodovias 57 e 77, havia um sinal vermelho. No instante em que Edward se aproxi­mou do cruzamento, um caminhão surgiu do nada. Ele ou­viu um rugido súbito e o carro ficou imprensado entre dois faróis brilhantes que corriam em sua direção. Teve um vis­lumbre do gigantesco caminhão de cinco toneladas do exér­cito e o último som que ouviu foi o grito de sua própria voz.

 

Os sinos da igreja de Neuilly repicaram pelo ar tranqüilo do meio-dia. Os gendarmes que guardavam a villa de Marin Groza não tinham motivos para prestar qualquer aten­ção ao empoeirado sedã Renault que passava. Angel guiava devagar, mas não o suficiente para despertar suspeitas, ob­servando tudo. Dois guardas na frente, um muro alto, pro­vavelmente eletrificado, e lá dentro, com toda certeza, a habitual parafernália de fachos, sensores e alarmes. Seria preciso um exército para tomar a villa. Mas eu não preciso de um exército, pensou Angel. Só do meu gênio. Marin Gro­za já é um homem morto. Ah, seria ótimo se minha mãe estivesse viva para ver como enriqueci. Isso a deixaria mui­to feliz.

Na Argentina, as famílias pobres eram realmente po­bres, e a mãe de Angel fora uma dos infelizes descamisa­dos. Ninguém sabia ou se importava com quem fora o pai. Ao longo dos anos, Angel observara amigos e parentes mor­rerem de fome e doença. A morte era um modo de vida, e Angel pensou, filosófico: Já que vai acontecer de qual­quer maneira, por que não aproveitar para lucrar alguma coisa? No começo, houvera os que duvidavam dos talentos letais de Angel, mas os que tentavam se opor a ele tinham o hábito de desaparecer. À reputação de Angel como as­sassino profissional fora aumentando. Nunca fracassei, pen­sou Angel. Sou Angel. O Anjo da Morte.

 

A estrada coberta de neve do Kansas estava cheia de veícu­los, com luzes vermelhas faiscantes imprimindo uma cor de sangue ao ar gelado. Um caminhão de bombeiros, ambu­lância, reboque, quatro carros da patrulha rodoviária, o car­ro do xerife e, no centro, iluminado pelos faróis, o caminhão militar M871, de cinco toneladas, e parcialmente por baixo o carro esmagado de Edward Ashley. Uma dúzia de poli­ciais e bombeiros se concentravam ao redor, balançando os braços e batendo com os pés, tentando se esquentar no frio do alvorecer. No meio da estrada, coberto por uma lona, estava um corpo. Outro carro da polícia se aproximou e pa­rou derrapando. Mary Ashley saltou correndo. Tremia tanto que mal conseguia ficar de pé. Viu a lona e avançou em sua direção. O xerife Munster agarrou-a pelo braço.

— Acho melhor não o ver, senhora Ashley.

— Largue-me!

Ela estava gritando. Desvencilhou-se da mão do xeri­fe e correu para a lona.

— Por favor, senhora Ashley, é melhor não ver como ele ficou.

O xerife amparou-a no instante em que ela caía, desfalecida.

 

Mary despertou no banco traseiro do carro do xerife. Munster estava sentado no banco da frente, observando-a. O aquecedor estava ligado, e o interior do carro era quente.

— O que aconteceu? — perguntou Mary, apaticamente.

— Você desmaiou.

Ela se lembrou de repente. É melhor não ver como ele ficou,

Mary olhou pela janela para todos os veículos de emer­gência e as luzes vermelhas brilhando e pensou: É uma ce­na do inferno. Apesar do calor do carro, seus dentes batiam.

— Como... — Ela estava com dificuldade para pro­nunciar as palavras. — Como aconteceu?

— Ele avançou o sinal vermelho. Um caminhão mili­tar vinha pela 77 e tentou evitá-lo, mas seu marido se lan­çou direto para cima.

Mary fechou os olhos e observou o acidente acontecer em sua mente. Viu o caminhão avançar para cima de Ed­ward e sentiu seu pânico no último instante. Só pôde pen­sar em uma coisa para dizer:

— Edward era um mo-motorista muito cuidadoso. Nunca passaria assim por um si-sinal sem parar.

O xerife disse, compreensivo:

— Temos testemunhas, senhora Ashley. Um padre e duas freiras viram o acidente, assim como o coronel Jenkins, do Forte Riley. Todos disseram a mesma coisa. Seu marido avançou o sinal.

 

Depois disso, tudo pareceu acontecer em câmara lenta. Ela observou o corpo de Edward ser levado na ambulância. A polícia interrogava um padre e duas freiras, e Mary pensou: Vão pegar um resfriado se continuarem parados as­sim nesse frio. O xerife Munster disse:

— Estão levando o corpo para o necrotério. O corpo.

— Obrigada — murmurou Mary, polidamente. Ele a fitava com expressão estranha.

— É melhor eu levá-la de volta para casa. Como se chama o médico da família?

— Edward Ashley — respondeu Mary. — Edward Ashley é o médico da família.

 

Mais tarde, ela se lembrou de ter chegado em casa e ser acompanhada pelo xerife Munster. Florence e Douglas Schiffer estavam à sua espera na sala de estar. As crianças ainda dormiam. Florence abraçou-a.

— Oh, querida, lamento tanto, tão profundamente...

— Está tudo bem — disse Mary, calmamente. — Ed­ward sofreu um acidente.

Ela soltou uma risadinha. Douglas observava-a, aten­tamente.

— Deixe-me levá-la para o seu quarto.

— Estou bem, obrigada. Gostariam de tomar um chá?

— Vou levá-la para a cama — insistiu Douglas.

— Não estou com sono. Vocês têm certeza de que não querem nada?

 

Enquanto Douglas a conduzia para o quarto, Mary murmurou:

— Foi um acidente. Edward sofreu um acidente.

Douglas Schiffer fitou-a nos olhos. Estavam arregala­dos e vazios. Ele sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. Desceu para buscar a valise médica. Ao voltar, constatou que Mary não se mexera.

— Vou lhe dar uma coisa para dormir.

Deu-lhe um sedativo, ajudou-a a deitar-se e sentou ao seu lado. Uma hora depois Mary ainda estava acordada. Douglas deu-lhe outro sedativo. E depois um terceiro. Ela então acabou dormindo.

 

Em Junction City há investigações rigorosas sempre que acontece um 1048 — acidente de trânsito com vítima. Uma ambulância é enviada do Serviço de Ambulâncias do Con­dado e um homem do xerife comparece ao local. Se o pes­soal do exército está envolvido no acidente, a Divisão de Investigações Criminais militar realiza um inquérito, para­lelo à investigação do xerife.

Shel Planchard, um oficial à paisana do setor do DIC em Forte Riley, o xerife e um assistente estavam examinan­do o relatório sobre o acidente, no gabinete do xerife, na rua 9.

— Tem uma coisa que não consigo entender — comen­tou Munster.

— Qual é o problema, xerife? — perguntou Planchard.

— Houve cinco testemunhas do acidente, não é? Um padre e duas freiras, o coronel Jenkins e o motorista do ca­minhão, sargento Wallis. Todos disseram que o carro de Ashley entrou na estrada, avançou o sinal e foi atingido pelo caminhão militar.

— Isso mesmo — disse o homem do DIC. — E onde está o problema?

O xerife Munster coçou a cabeça.

— Já viu algum relatório de acidente em que duas tes­temunhas dissessem a mesma coisa? — Ele bateu com o pu­nho nos papéis. — O que me deixa perturbado é que cada uma das cinco testemunhas neste caso disse exatamente a mesma coisa.

O homem do DIC deu de ombros.

— Isso apenas comprova que o acidente foi bastante óbvio.

— E tem outra coisa me incomodando — acrescentou o xerife.

— O que é?

— O que um padre, duas freiras e um coronel esta­vam fazendo na estrada às quatro horas da madrugada?

— Não há nada de misterioso nisso. O padre e as frei­ras estavam a caminho de Leonardville, e o coronel volta­va para o Forte Riley.

— Verifiquei com o pessoal do trânsito. A última multa que Ashley recebeu foi há seis anos, por estacionamento ile­gal. Nunca teve qualquer registro de acidente.

O homem do DIC fitou-o atentamente.

— O que está querendo sugerir, xerife? Munster deu de ombros.

— Não estou sugerindo nada, mas apenas dizendo que o caso parece esquisito.

— Estamos falando de um acidente visto por cinco tes­temunhas. Se acha que existe alguma conspiração envolvi­da, há uma grande falha em sua teoria. Se...

O xerife suspirou.

— Sei disso. Se não fosse um acidente, o caminhão do exército só precisava seguir adiante. Não haveria necessi­dade de todas as testemunhas e o resto.

— Exatamente. — O homem do DIC levantou-se e espreguiçou-se. — Tenho de voltar ao quartel. Pelo que me diz respeito, o motorista do caminhão, sargento Wallis, é inocente. — Ele olhou para o xerife. — Estamos de acordo?

O xerife Munster respondeu com evidente relutância:

— Estamos. Deve ter sido um acidente.

 

Mary foi acordada pelo barulho das crianças chorando. Per­maneceu imóvel, os olhos fechados, pensando: Isto é parte do meu pesadelo. Estou dormindo e quando acordar des­cobrirei que Edward continua vivo.

Mas o choro persistia. Quando não pôde mais suportar, abriu os olhos e continuou imóvel, olhando para o te­to. Por fim, com muita relutância, forçou-se a sair da cama. Sentia-se drogada. Entrou no quarto de Tim. Florence e Beth estavam com ele. Os três choravam. Eu gostaria de poder chorar, pensou Mary. Ah, como eu gostaria de poder cho­rar. Beth olhou para a mãe.

— Papai... está mesmo morto?

Mary acenou com a cabeça, incapaz de pronunciar as palavras. Sentou-se na beira da cama.

— Tive de contar a eles — desculpou-se Florence. — Iam sair para brincar com os amigos.

— Está tudo bem — murmurou Mary, afagando os cabelos de Tim. — Não chore, querido. Tudo vai acabar bem.

Nada jamais estaria bem outra vez.

Nunca mais.

 

O comando do Departamento de Investigações Criminais do Exército dos Estados Unidos no Forte Riley fica no Pré­dio 169, uma antiga estrutura de pedra cercada por árvo­res, com degraus que levam a uma varanda. Numa sala do primeiro andar, Shel Planchard, o oficial do DIC, estava conversando com o coronel Jenkins.

— Lamento, senhor, mas tenho más notícias. O sar­gento Wallis, o motorista daquele caminhão que matou aquele médico civil...

— O que tem ele?

— Sofreu um ataque cardíaco fatal esta manhã.

— É uma pena.

O homem do DIC acrescentou, em tom impassível:

— Tem razão, senhor. O corpo está sendo cremado esta manhã. Foi um ataque fulminante.

— Lamentável. — O coronel levantou-se. — Estou sen­do transferido para o exterior. — Ele se permitiu um pe­queno sorriso. — Uma promoção um tanto importante.

— Parabéns, senhor. Fez por onde.

 

Mary Ashley concluiu mais tarde que só não perdera a sa­nidade porque ficara em estado de choque. Tudo parecia estar acontecendo com outra pessoa. Ela se encontrava de­baixo d'água, deslocando-se devagar, ouvindo vozes distan­tes, filtradas por algodão.

O serviço fúnebre foi realizado na Agência Funerária Mass-Hinitt-Alexander, na Jefferson Street. Era um pré­dio azul, com um pórtico branco e um enorme relógio bran­co suspenso por cima da entrada. A funerária estava repleta de amigos e colegas de Edward. Havia dezenas de coroas e buquês. Uma das coroas maiores tinha um cartão que di­zia simplesmente: "Meus pêsames mais profundos, Paul Ellison."

 

Mary, Beth e Tim sentaram-se sozinhos na pequena sala reservada para a família. As crianças estavam imóveis, com os olhos vermelhos.

O caixão com o corpo de Edward estava fechado. Mary não suportava pensar no motivo para isso. O ministro es­tava falando:

— Senhor, tens sido a nossa morada. Em todas as ge­rações, antes de as montanhas serem formadas ou quando criastes a terra e o mundo, de eternidade para eternidade. Tu és Deus. Por isso, não teremos medo, mesmo que a ter­ra mude e as montanhas sejam arremessadas para as pro­fundezas dos mares...

Ela e Edward estavam no pequeno barco a vela no La­go Milford.

— Gosta de velejar? — perguntara ele, na primeira noi­te em que saíram juntos.

— Nunca velejei.

— Então vamos velejar no sábado. Está marcado. Casaram uma semana depois.

— Sabe por que casei com você? — indagava Edward, zombeteiro. — Passou no teste. Riu muito e não caiu na água.

Quando o serviço fúnebre acabou, Mary e as crianças foram para a limusine preta e comprida que encabeçara o cortejo fúnebre até o cemitério.

O Cemitério Highland, na Ash Street, é um vasto par­que, contornado por um caminho de cascalho. É o mais an­tigo cemitério de Junction City, e muitas das lápides que ali estão já foram erodidas pelo tempo. Por causa do frio intenso, a cerimônia à beira do túmulo foi breve.

— Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que acredi­tar em mim, embora esteja morto, haverá de viver; e quem viver e acreditar em mim jamais morrerá. Eu sou aquele que vive e estava morto; estou vivo por toda a eternidade.

Misericordiosamente, tudo acabou. Mary e as crian­ças ficaram paradas ao vento uivante, observando o caixão ser baixado para a terra congelada e indiferente.

Adeus, meu querido.

 

A morte é supostamente o fim, mas para Mary Ashley foi o começo de um inferno insuportável. Ela e Edward haviam conversado sobre a morte, e Mary se dispuser a a aceitar o inevitável; só que agora a morte assumia uma realidade ime­diata e aterradora. Não era mais um evento vago que só ocorreria em algum dia distante e remoto. E não havia meio de enfrentar. Tudo em Mary clamava para negar o que acon­tecera a Edward. Quando ele morrera, tudo o que era ma­ravilhoso morrera junto. A realidade insistia em atingi-la em renovadas ondas de choque. Ela se descobriu furiosa com Deus. Por que não me levou primeiro?, indagou. Es­tava furiosa com Edward por abandoná-la, furiosa com os filhos, furiosa consigo mesma.

Sou uma mulher de 35 anos com dois filhos e não sei quem eu sou. Quando eu era a senhora Edward Ashley, tinha uma identidade, pertencia a alguém que também me pertencia.

 

O tempo estava passando, escarnecendo de seu vazio. Sua vida era como um trem em disparada, sobre o qual não ti­nha o menor controle.

Florence, Douglas e outros amigos lhe faziam compa­nhia, tentando atenuar seu sofrimento, mas Mary desejava que todos sumissem, que a deixassem em paz. Florence apa­receu uma tarde e encontrou Mary diante da televisão, as­sistindo a uma partida de futebol americano do time da Universidade Estadual do Kansas.

— Ela nem percebeu que eu estava lá — contou Flo­rence ao marido naquela noite. — Concentrava-se desesperadamente no jogo. — Ela estremeceu. — Foi assustador.

— Por quê?

— Mary detesta o futebol americano. Era Edward que não perdia um jogo.

 

Mary precisou recorrer às últimas reservas de força de von­tade para cuidar dos destroços deixados pela morte de Ed­ward. Havia o testamento e o seguro, as contas bancárias, as taxas e contas a pagar, e hipotecas e bens sujeitos a pe­nhor a e déficits, e ela queria gritar para os advogados, ban­queiros e contadores que a deixassem em paz.

Não quero pensar em nada, disse a si mesma. Edward estava morto e as pessoas só queriam falar em dinheiro.

Mas ela foi obrigada a enfrentar os problemas.

Frank Dunphy, o contador de Edward, disse:

— Infelizmente, senhora Ashley, as contas e as des­pesas com o funeral vão consumir uma boa parte do dinheiro do seguro de vida. Seu marido não costumava pressionar os pacientes para lhe pagarem. Devia muito dinheiro. Fa­larei com uma agência de cobrança para procurar as pes­soas que estão devendo...

— Não faça isso — protestou Mary com veemência. — Edward não gostaria.

Dunphy ficou desorientado.

— Neste caso, sobram-lhe trinta mil dólares em dinhei­ro e esta casa, que está hipotecada. Se vendesse a casa...

— Edward não gostaria que eu vendesse.

Ela se mantinha rígida, controlando seu desespero. Dunphy pensou: Eu gostaria que minha mulher se preocu­passe tanto assim comigo.

 

O pior ainda estava para acontecer. Chegou o momento de cuidar das coisas pessoais de Edward. Florence ofereceu-se para ajudar, mas Mary disse:

— Não. Edward gostaria que eu cuidasse de tudo sozinha.

Havia tantas coisas pequenas e íntimas. Uma dúzia de cachimbos, uma lata nova de fumo, dois óculos de leitura, anotações para uma conferência médica que ele nunca fa­ria. Mary entrou no closet de Edward e passou as mãos pe­los ternos que ele nunca mais tornaria a usar. A gravata azul que ele pusera na última noite que passaram juntos. As lu­vas e o cachecol que o mantinham aquecido contra os ven­tos frios do inverno. Ele não precisaria mais em sua sepultura gelada. Separou o aparelho de barba e a escova de dentes, movimentando-se como um autômato.

Encontrou bilhetes amorosos que haviam escrito um para o outro, trazendo recordações de dias difíceis, quan­do Edward se iniciara na clínica particular, um jantar do Dia de Ação de Graças sem peru, piqueniques no verão e passeios de trem no inverno, a primeira gravidez, ambos lendo e tocando música clássica para Beth ainda no útero, a carta de amor que Edward escrevera por ocasião do nas­cimento de Tim, a maçã dourada que ele lhe dera quando começara a dar aulas, uma centena de outras coisas que fi­zeram lágrimas aflorarem a seus olhos. A morte de Edward era como um cruel truque de mágica. Num momento Edward estava ali, vivo, falando, sorrindo, amando, e no ins­tante seguinte desaparecera na terra fria.

Sou uma pessoa amadurecida. Tenho de aceitar a rea­lidade. Não, não sou amadurecida. Não posso aceitar. Não quero viver.

Ela permaneceu acordada durante a longa noite, pen­sando como seria simples ir ao encontro de Edward, aca­bar com a agonia insuportável, ficar em paz. Somos criados para esperar um final feliz, pensou Mary. Mas não existe nenhum final feliz. Há apenas a morte à nossa espera. En­contramos o amor e a felicidade que de repente nos são ar­rebatados sem qualquer motivo. Estamos numa espaçonave abandonada, deslizando a esmo entre as estrelas. O mun­do é Dachau e somos todos judeus.

Acabou cochilando, e durante a madrugada seus gri­tos desesperados acordaram os filhos, que correram para o seu quarto e se meteram na cama, abraçando-a.

— Você não vai morrer, não é? — murmurou Tim.

Mary pensou: Não posso me matar. Eles precisam de mim. Edward nunca me perdoaria.

Tinha de continuar a viver. Pelos filhos. Tinha de lhes dar o amor que Edward não seria mais capaz de proporcionar. Todos somos tão carentes sem Edward. Precisamos demais um do outro. É irônico que a morte de Edward seja mais difícil de aceitar porque tivemos uma vida comum maravi­lhosa. Há muitas razões para sentir saudade dele, muitas lembranças de coisas que nunca mais tornarão a acontecer. Onde está você, Deus? Está me ouvindo? Ajude-me. Por favor, ajude-me.

Ring Lardner disse: "Três em cada três vão morrer, portanto cale a boca e dê as cartas." Tenho de dar as car­tas. Estou sendo egoísta demais. Estou me comportando da pior forma possível, como se fosse a única pessoa do mundo que sofre. Deus não está tentando me punir. A vida é uma caixa de saldos cósmica. Neste momento, em algum lugar do mundo, alguém está perdendo um filho, esquiando por uma montanha abaixo, tendo um orgasmo, cortan­do os cabelos, deitado num leito de hospital, cantando num palco, se afogando, casando, passando fome numa sarje­ta. No final das contas, não somos todos essa mesma pes­soa? Uma eternidade é um bilhão de anos, e há uma eternidade, cada átomo de nossos corpos era parte de uma estrela. Preste atenção a mim, Deus. Somos todos uma parte de Seu universo, e se morremos, parte do Seu universo mor­rerá conosco.

 

Edward estava por toda parte.

Nas canções que Mary ouvia no rádio, nas colinas por que haviam passado juntos. Na cama ao seu lado quando ela despertava ao nascer do sol.

Tenho que levantar cedo esta manhã, querida. Preci­so fazer uma histerectomia e uma operação de quadris.

A voz de Edward soava nitidamente. Ela começou a lhe falar: Estou preocupada com as crianças, Edward. Não querem ir à escola. Beth diz que é porque têm medo de não me encontrar aqui quando voltarem.

Mary visitava o cemitério todos os dias, parada no ar gelado, lamentando o que perdera para sempre. Mas isso não lhe proporcionava qualquer conforto. Você não está aqui, pensou ela. Diga-me onde você está. Por favor.

Lembrou-se de um conto de Marguerite Yourcenar, 'Como Wang-Fô foi salvo'. Um artista chinês fora conde­nado à morte pelo imperador por mentir, por criar imagens de um mundo cuja beleza era contestada pela realidade. Mas o artista enganou o imperador, pintando um barco e usando-o para escapar. Quero escapar também, pensou Mary. Não suporto mais continuar aqui sem você, querido.

Florence e Douglas tentavam confortá-la.

— Ele está em paz — diziam a Mary.

E uma centena de outros clichês. As palavras fáceis de consolo, só que não havia nenhum consolo. Não agora. Nem nunca.

Ela acordava no meio da noite e corria para os quar­tos dos filhos, a fim de se certificar de que eles estavam se­guros. Meus filhos vão morrer, pensou Mary. Todos vamos morrer. Pessoas andavam calmamente pelas ruas. Idiotas, rindo e felizes — e todos vão morrer. Suas horas estavam contadas, e as desperdiçavam em estúpidos jogos de car­tas, assistindo a filmes tolos e a partidas de futebol ameri­cano sem o menor sentido. Acordem!, ela tinha vontade de gritar. A terra é o matadouro de Deus, e somos o Seu ga­do. Será que não sabem o que vai lhes acontecer e com to­das as pessoas a quem amam?

A resposta lhe veio lentamente, dolorosamente, atra­vés dos véus negros do desespero. Claro que sabiam. Os jo­gos constituíam uma forma de desafio, o riso era um ato de bravata — uma bravata nascida do conhecimento de que a vida era finita, de que todos enfrentavam o mesmo desti­no; e pouco a pouco o medo e a ira de Mary foram se des­vanecendo, transformando-se em espanto pela coragem de seus semelhantes. Estou envergonhada de mim mesma. Te­nho de encontrar meu caminho pelo labirinto do tempo. Ao final, cada um de nós está sozinho, mas enquanto isso de­vemos nos manter unidos, proporcionando uns aos outros conforto e afeição.

A Bíblia diz que a morte não é o fim, mas apenas uma transição. Edward nunca a deixaria e aos filhos. Ele estava por ali, em algum lugar.

Ela mantinha conversas com o marido. Falei com a pro­fessora de Tim hoje. As notas dele estão melhorando. Beth está de cama, resfriada. Lembra de como ela está sempre resfriada nesta época do ano? Vamos jantar na casa de Florence e Douglas esta noite. Eles têm sido maravilhosos, querido.

E no meio da noite escura: O reitor esteve aqui em ca­sa. Queria saber se eu planejava voltar a dar aulas na uni­versidade. Respondi que agora não. Não quero deixar as crianças sozinhas, mesmo que por pouco tempo. Elas pre­cisam muito de mim. Você acha que eu deveria voltar um dia?

Poucos dias depois: Douglas foi promovido, Edward. Tornou-se o chefe de equipe no hospital.

Poderia Edward ouvi-la? Ela não sabia. Haveria um Deus e uma vida posterior? Ou tudo não passava de uma fábula? T.S. Eliot disse: "Sem alguma espécie de Deus, o homem nem sequer é muito interessante."

O presidente Paul Ellison, Stanton Rogers e Floyd Baker estavam reunidos no Gabinete Oval. O secretário de Esta­do disse:

~ Senhor presidente, estamos sofrendo muita pressão. Não creio que possamos protelar por mais tempo a indica­ção de um embaixador para a Romênia. Eu gostaria que examinasse a lista que lhe entreguei e escolhesse...

— Obrigado, Floyd. Agradeço seu esforço, mas ain­da acho que Mary Ashley seria ideal. Sua situação domés­tica mudou. O que foi uma tragédia do azar para ela pode ser uma sorte para nós. Quero tentar de novo. — Ele se vi­rou para Stanton Rogers. — Stan, gostaria que você voas­se até o Kansas e a persuadisse a aceitar o posto.

— Se é assim que deseja, senhor presidente, partirei o mais depressa possível.

 

Mary estava fazendo o jantar quando o telefone tocou. Ela atendeu, e uma telefonista disse:

— Aqui é da Casa Branca. O presidente deseja falar com a senhora Edward Ashley.

Agora não, pensou Mary. Não quero falar com ele nem com ninguém.

Lembrou-se de como o primeiro telefonema do presi­dente a deixara excitada. Agora não tinha o menor senti­do. Ela disse:

— Aqui é a senhora Ashley, mas...

— Quer aguardar um momento, por favor?

A voz familiar soou pela linha momentos depois:

— Aqui é Paul Ellison, senhora Ashley. Quero que sai­ba como lamentamos profundamente o que aconteceu com seu marido. Fui informado de que ele era um homem ex­traordinário.

— Obrigada, senhor presidente. Foi muita gentileza sua me mandar as flores.

— Não quero me intrometer em sua privacidade, se­nhora Ashley, e sei que tudo ainda está muito recente. Mas agora que sua situação doméstica mudou, estou lhe pedin­do para reconsiderar a oferta do posto de embaixadora.

— Obrigada, mas eu não poderia...

— Peço que me escute, por favor. Estou mandando alguém até aí de avião para uma conversa. Seu nome é Stanton Rogers. Eu agradeceria se pelo menos o recebesse.

Mary não sabia o que dizer. Como explicar que seu mundo fora virado pelo avesso, que sua vida fora destruí­da? Só Beth e Tim tinham importância agora. Resolveu que, por uma questão de cortesia, receberia o .homem e recusa­ria da forma mais graciosa possível.

— Eu o receberei, senhor presidente, mas não vou mu­dar de idéia.

 

Havia um bar popular no boulevard Bineau que os guar­das de Marin Groza freqüentavam quando não estavam de serviço na villa em Neuilly. Até mesmo Lev Pasternak apa­recia no bar de vez em quando. Angel escolheu uma mesa num ponto em que podia ouvir as conversas. Os guardas, longe das rotinas rígidas na villa, gostavam de beber e sem­pre falavam quando bebiam. Angel ficava escutando, pro­curando o ponto vulnerável da villa. Sempre havia um ponto vulnerável. Era preciso apenas ser bastante esperto para descobri-lo.

 

Três dias passaram antes que Angel ouvisse uma conversa que deu a pista para a solução do problema. Um guarda estava dizendo:

— Não sei o que Groza faz com as putas que leva pa­ra lá, mas elas certamente fazem o diabo com ele. Deviam ouvir os gritos. Na semana passada dei uma olhada nos chi­cotes que ele guarda em seu armário...

E na noite seguinte:

— As vigaristas que nosso destemido líder traz para a villa são lindas. Elas vêm de todas as partes do mundo. Lev cuida de tudo pessoalmente. Ele é esperto. Nunca usa a mesma mulher duas vezes. Com isso, ninguém pode usar as mulheres para atingir Marin Groza.

Era tudo o que Angel precisava saber.

 

Na manhã seguinte, bem cedo, Angel trocou de carro de aluguel e foi para Paris num Fiat. A loja de sexo ficava em Montmartre, na Place Pigalle, no meio de uma área povoada por prostitutas e cafetões. Angel entrou, andando devagar pelos corredores, estudando com atenção as mercadorias à venda. Havia algemas e correntes, capacetes com pontas de ferro, calças de couro com aberturas na frente, vibrado­res no formato de pênis, lubrificantes, bonecas infláveis e videoteipes pornográficos. Havia creme anal e chicotes de couro com dois metros de comprimento e tiras soltas na ex­tremidade.

Angel escolheu um chicote, pagou em dinheiro e foi embora.

Na manhã seguinte, Angel levou o chicote de volta à loja. O gerente protestou:

— Não aceitamos devoluções.

— Não é isso que estou querendo — explicou Angel. — Eu me sinto constrangido de andar com isto. Agradece­ria se pudesse me enviar pelo correio. Pagarei um extra, é claro.

Ao final da tarde, Angel estava num avião, a caminho de Buenos Aires.

 

O chicote, embrulhado com todo cuidado, chegou à villa em Neuilly no dia seguinte. Foi interceptado pelo guarda no portão. Ele leu a etiqueta da loja no embrulho, abriu-o e examinou o chicote com a maior atenção. Era de se pen­sar que o velho já tinha chicotes suficientes.

Ele passou adiante e outro guarda levou-o para o quarto de Marin Groza, guardando-o junto com os outros.

 

O Forte Riley, um dos mais antigos quartéis ainda ativos dos Estados Unidos, foi construído em 1853, quando o Kan-sas ainda era considerado um território índio. Sua função era proteger as caravanas de carroças dos ataques dos ín­dios. Hoje é usado basicamente como uma base de helicóp­teros e campo de pouso para pequenos aviões.

Quando Stanton Rogers ali pousou, a bordo de um DC-7, foi recebido pelo comandante da base e seu estado-maior. Uma limusine esperava para conduzi-lo à casa dos Ashley. Ele telefonara para Mary depois do contato do pre­sidente.

— Prometo que minha visita será a mais breve possí­vel, senhora Ashley. Planejo procurá-la na tarde de segunda-feira, se não for inconveniente.

Ele está sendo muito polido e é um homem importan­te. Por que o presidente o está mandando conversar comigo?

— Não há problema. — Num reflexo inconsciente, Mary acrescentara: — Gostaria de jantar conosco?

Ele hesitara.

— Obrigado.

Será uma noite comprida e tediosa, pensou Stanton. Florence Schiffer ficara emocionada ao saber da notícia.

— O assessor de política externa do presidente vem jan­tar aqui? Isso significa que você vai aceitar o convite!

— Não significa nada disso, Florence. Prometi ao pre­sidente que conversaria com ele. E é só.

Florence abraçara Mary.

— Quero apenas que você faça o que puder torná-la feliz.

— Sei disso.

 

Stanton Rogers era um homem formidável, concluiu Mary. Ela já o vira no Encontro com a Imprensa e em fotografias na revista Time, mas pensou agora: Ele parece mais alto pessoalmente. Rogers mostrava-se polido, mas um tanto distante.

— Permita-me transmitir novamente os sinceros pê­sames do presidente por sua tragédia, senhora Ashley.

— Obrigada.

Mary apresentou-o a Beth e a Tim. Ficaram conver­sando, enquanto Mary ia à cozinha para verificar como Lu-cinda estava se saindo com o jantar.

— Posso servir quando quiser — comunicou Lucinda. — Mas ele vai detestar.

Quando Mary a informara de que Stanton Rogers jan­taria em casa e queria que ela preparasse uma carne assa­da, Lucinda dissera:

— Pessoas como o senhor Rogers não comem carne assada.

— É mesmo? E comem o quê?

— Chateaubriand e crepes Suzette.

— Mas vamos ter carne assada.

— Está bem — murmurara Lucinda, obstinada. — Mas é o jantar errado.

Além da carne assada, ela preparara purê de batatas, legumes frescos e uma salada. E fizera uma torta de abó­bora para sobremesa. Stanton Rogers comeu tudo o que foi posto em seu prato.

Durante o jantar, Mary e ele discutiram os problemas dos fazendeiros.

— Os fazendeiros do Meio-Oeste estão numa situação crítica, espremidos entre os preços baixos e o excesso de pro­dução — comentou Mary. — São pobres demais para pin­tar e orgulhosos demais para caiar.

Falaram sobre a pitoresca história de Junction City, e Stanton Rogers finalmente levantou o problema da Romênia.

— Qual é a sua opinião sobre o governo do presiden­te Ionescu? — perguntou a Mary.

— Não há governo na Romênia, no verdadeiro senti­do da palavra — respondeu Mary. — Ionescu é o governo. Ele mantém o controle total.

— Acha que haverá uma revolução no país?

— Não nas atuais circunstâncias. O único homem su­ficientemente poderoso para depor Ionescu é Marin Groza, que está exilado na França.

O interrogatório continuou. Ela era perita nos países da Cortina de Ferro e Stanton Rogers ficou visivelmente im­pressionado. Mary tinha a sensação desagradável de que ele passara a noite inteira a examiná-la sob um microscópio. Estava mais próxima da verdade do que imaginava.

Paul estava certo, pensou Stanton Rogers. Ela é de fa­to uma autoridade sobre a Romênia. E havia algo mais. Pre­cisamos do oposto do americano feio. Ela é muito bonita. E junto com as crianças, será um pacote tipicamente ame­ricano que todos comprarão. Stanton descobriu-se cada vez mais animado com a perspectiva. Ela pode ser mais útil do que imagina.

Ao final da noite, Stanton Rogers disse:

— Vou ser franco, senhora Ashley. Inicialmente, fui contra a sua indicação para um posto tão delicado quanto a Romênia. E disse isso ao presidente. Conto-lhe agora por que mudei de idéia. Acho que pode ser uma excelente em­baixadora.

Mary sacudiu a cabeça.

— Sinto muito, senhor Rogers. Não sou política. Sou apenas uma amadora.

— Como o presidente Ellison ressaltou, alguns dos nos­sos melhores embaixadores não eram profissionais. Isto é, a experiência deles não era no serviço diplomático. Walter Annenberg, nosso ex-embaixador no Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, era um editor.

— Eu não sou...

— John Kenneth Galbraith, nosso embaixador na Ín­dia, era professor. Mike Mansfield começou como repór­ter, foi eleito senador e depois designado para a embaixada no Japão. Eu poderia dar mais uma dúzia de exemplos. Es­sas pessoas eram todas o que se chamaria de amadores. O que tinham, senhora Ashley, era inteligência, amor por seu país e boa vontade para com o povo do país em que foram servir.

— Fala como se fosse muito simples.

— Como provavelmente sabe, já a investigamos de ma­neira meticulosa. Foi aprovada em termos de segurança, não tem problemas com a Receita Federal, e não há conflito de interesses. Segundo o reitor Hunter, é uma excelente pro­fessora, além de profunda conhecedora dos problemas da Romênia. Tem uma boa base. E, por fim, mas nem por is­so menos importante, apresenta a imagem que o presiden­te quer projetar nos países da Cortina de Ferro, onde sofremos muita propaganda adversa.

Mary escutava agora com expressão pensativa.

— Eu gostaria que o senhor e o presidente soubessem que agradeço tudo o que disseram a meu respeito. Mas eu não poderia aceitar. Tenho de pensar em Beth e Tim. Não posso desarraigá-los assim...

— Há uma excelente escola para filhos de diplomatas em Bucareste. Seria uma educação maravilhosa para Tim e Beth passar algum tempo em outro país. Aprenderiam coi­sas que nunca poderiam conhecer na escola aqui.

A conversa não estava transcorrendo como Mary pla­nejara.

— Eu não... Pensarei sobre o assunto.

— Passarei a noite na cidade — informou Stanton Ro­gers. — Poderá me encontrar no All Seasons Motel. Pode estar certa, senhora Ashley, de que compreendo como a de­cisão lhe é importante pessoalmente. Mas este programa não é importante apenas para o presidente, mas também para o nosso país. Pense nisso.

Depois que Stanton Rogers se retirou, Mary subiu. As crianças estavam à sua espera, olhos arregalados, excitadas.

— Vai aceitar a embaixada, mamãe? — perguntou Beth.

— Precisamos conversar. Se eu resolver aceitar, vo­cês teriam que deixar a escola e todos os seus amigos. Vive­riam em outro país cuja língua não falam, cursariam uma escola estranha.

— Tim e eu já conversamos sobre tudo isso — anun­ciou Beth. — E quer saber o que achamos?

— O quê?

— Que qualquer país teria muita sorte em ter você co­mo embaixadora, mamãe.

 

Ela conversou com Edward naquela noite: Deveria ter ou­vido como ele falou, querido. Deu a impressão de que o presidente precisava muito de mim. Provavelmente há um milhão de pessoas que poderiam fazer um trabalho melhor do que eu, mas ele foi muito lisonjeiro. Lembra que nós dois conversamos como seria emocionante? Pois tenho ou­tra vez a chance e não sei o que fazer. Para dizer a verda­de, estou apavorada. Este é o nosso lar. Como eu suportaria sair aqui? Há muita coisa de você aqui. Ela descobriu que estava chorando. Isto é tudo o que me restou de você. Ajude-me a decidir. Por favor, ajude-me...

Mary ficou sentada junto à janela, de penhoar, olhan­do para as árvores, prateadas, ao vento uivante e irrequieto.

Ao amanhecer, já tomara uma decisão.

 

Às nove horas da manhã Mary telefonou para o All Sea­sons Motel e pediu para falar com Stanton Rogers. Quan­do ele entrou na linha, Mary disse:

— Senhor Rogers, poderia fazer o favor de dizer ao presidente que eu me sentiria honrada em aceitar o posto de embaixadora?

 

Esta é ainda mais bonita do que as outras, pensou o guar­da. Ela não parecia uma prostituta. Poderia ser uma atriz de cinema ou modelo. Tinha vinte e poucos anos, cabelos louros compridos e uma pele leitosa. Usava um vestido da maior elegância.

Lev Pasternak veio pessoalmente ao portão para conduzi-la à casa. A mulher, Bisera, era iugoslava, e aque­la era sua primeira viagem à França. A visão de todos aque­les agentes de segurança armados deixava-a nervosa. Em que será que me meti? Tudo o que Bisera sabia era que seu cafetão lhe dera uma passagem de avião de ida e volta e dissera que ela receberia dois mil dólares por uma hora de trabalho.

Lev Pasternak bateu na porta do quarto, e a voz de Groza respondeu do interior:

— Entre.

Pasternak abriu a porta e introduziu a garota. Marin Groza estava parado ao pé da cama. Usava um robe, e Bi­sera percebeu que estava nu por baixo. Lev Pasternak apre­sentou:

— Esta é Bisera.

Ele não mencionou o nome de Marin Groza.

— Boa noite, minha cara. Entre.

Pasternak retirou-se, fechando a porta. Marin Groza ficou a sós com a mulher. Ela se adiantou, com um sorriso sedutor.

— Você parece muito à vontade. Posso me despir lo­go e ficamos os dois à vontade.

Ela começou a tirar o vestido.

— Não. Fique vestida, por favor. Ela fitou-o, surpresa.

— Não quer que eu...

Groza foi até o armário e escolheu um chicote.

— Quero que você use isto.

Um fetiche de escravo. Estranho. Ele não parecia o ti­po. Nunca se sabe, pensou Bisera.

— Claro, meu bem. Qualquer coisa que o deixar com tesão.

Marin Groza tirou o robe e virou-se. Bisera ficou cho­cada com a visão de seu corpo coberto de cicatrizes. Eram vergões brutais. E havia alguma coisa na expressão do ho­mem que a desconcertava; quando compreendeu o que era, ficou ainda mais perplexa. Era angústia. Ele estava sentin­do um tremendo sofrimento. Por que queria ser açoitado? Ela o observou se encaminhar para um banco e sentar.

— Com força — ordenou ele. — Açoite-me com toda a força.

— Está bem.

Bisera pegou o comprido chicote de couro. Sadoma­soquismo não era novidade para ela, mas desta vez havia alguma coisa diferente que ela não conseguia compreender. Mas não é da minha conta, pensou Bisera. Faça o que ele está pedindo, depois pegue o dinheiro e se mande.

Levantou o chicote e depois açoitou as costas nuas.

— Com mais força — insistiu o homem. — Com mais força.

Ele se encolhia de dor quando o couro atingia sua pe­le. Uma vez... duas... e outra... e outra... com mais for­ça... com mais força... A visão que Marin Groza esperava surgiu diante de seus olhos. Cenas da esposa e da filha sen­do estupradas deixaram seu cérebro em fogo. Era um estu­pro coletivo, e os soldados, rindo, passavam da mulher para a criança, as calças arriadas, esperando a vez na fila. Ma­rin Groza comprimiu-se contra o banco, como se estivesse amarrado. Enquanto o chicote baixava e baixava, ele po­dia ouvir os gritos da esposa e da filha, suplicando por mi­sericórdia, sufocando com os pênis de homens em suas bocas, sendo estupradas e sodomizadas ao mesmo tempo, até que o sangue começou a escorrer e seus gritos se extin­guiram. E Marin Groza gemeu:

— Com mais força!

E a cada golpe do chicote ele sentia a lâmina afiada da faca cortando seus órgãos genitais, castrando-o. Ele es­tava tendo dificuldade para respirar.

— Pegue... pegue...

Sua voz era um rangido rouco. Sentia os pulmões pa­ralisados. A mulher parou, o chicote suspenso no ar.

— Ei, está se sentindo bem? Eu...

Ela observou enquanto Marin Groza caía no chão, os olhos abertos, mas vidrados. Bisera desatou a gritar:

— Socorro! Socorro!

Lev Pasternak veio correndo, empunhando o revólver. Viu o corpo no chão.

— O que aconteceu? Bisera estava histérica.

— Ele está morto! Está morto! Eu não fiz nada! Ape­nas o açoitei como ele mandou! Juro!

O médico que vivia na villa estava no quarto poucos segundos depois. Olhou para o corpo de Marin Groza e abaixou-se para examiná-lo. A pele se tornara azulada, e os músculos estavam rígidos.

Ele pegou o chicote e cheirou-o.

— O que foi?

— Curare. É um extrato de uma planta sul-americana. Os incas o usavam em dardos para matar os inimigos. To­do o sistema nervoso fica paralisado em três minutos.

Os dois homens ficaram ali parados, olhando fixamen­te, impotentes, o seu líder morto.

 

A notícia da morte de Marin Groza foi transmitida para o mundo inteiro via satélite. Lev Pasternak conseguiu ocultar da imprensa os detalhes sórdidos. Em Washington, o pre­sidente teve uma reunião com Stanton Rogers.

— Quem você acha que está por trás disso, Stan?

— Podem ser os russos ou Ionescu. Ao final, dá no mesmo. Eles não queriam que a situação atual fosse alterada.

— Portanto, teremos de lidar com Ionescu. Muito bem. Vamos providenciar a confirmação de Mary Ashley o mais depressa possível.

— Ela está vindo para cá, Paul. Não há problema.

— Ótimo.

 

Ao tomar conhecimento da noticia, Angel sorriu. Aconte­ceu mais cedo do que eu esperava.

Às dez horas da noite o telefone particular tocou e o Controlador atendeu.

— Alô?

Ele ouviu a voz gutural de Neusa Muñez:

— Angel viu o jornal esta manhã. Ele diz para depo­sitar o dinheiro em sua conta no banco.

— Informe a ele de que tudo será providenciado ime­diatamente. E por favor, miss Muñez, comunique a ele que estou muito satisfeito. E também lhe diga que talvez eu torne a precisar de seus serviços muito em breve- Tem um telefo­ne pelo qual eu possa fazer contato? Houve uma pausa prolongada.

— Acho que sim... Ela deu o número.

— Obrigado. Se Angel. . A linha ficou muda. Mas que vaca estúpida!

 

O dinheiro foi depositado na conta em Zurique naquela ma­nhã, e uma hora depois de recebido, foi transferido para um banco saudita em Genebra. Uma pessoa não pode dei­xar de ser muito cuidadosa hoje em dia, pensou Angel. Os miseráveis banqueiros estão sempre procurando uma ma­neira de enganar a gente.

 

Era mais do que empacotar as coisas de uma família. Era empacotar toda uma vida. Era dar adeus a treze anos de sonhos, lembranças e amor. Era a despedida final a Edward. Aquele fora o lar que haviam partilhado e agora se torna­ria outra vez apenas uma casa, ocupada por estranhos sem noção das alegrias e pesares, lágrimas e risos que haviam acontecido dentro daquelas paredes.

Douglas e Florence Schiffer estavam na maior satisfa­ção porque Mary decidira aceitar o posto.

— Você vai ser fantástica — Florence garantiu a Mary. — Doug e eu sentiremos sua falta e das crianças.

— Prometa que irão à Romênia nos visitar.

— Prometo.

Mary estava sufocada pelos detalhes práticos que ti­nha de enfrentar, as incontáveis responsabilidades desco­nhecidas. Ela fez uma lista:

 

Ligar para o guarda-móveis e pedir que venham buscar as coisas pessoais que estamos deixando.

Cancelar o leiteiro.

Cancelar o jornal.

Fornecer ao carteiro o novo endereço para a corres­pondência.

Assinar o contrato de aluguel da casa.

Providenciar o seguro.

Providenciar a transferência das contas de luz e gás.

Pagar todas as contas.

Não entrar em pânico!

 

Uma licença por tempo indefinido fora acertada com o rei­tor Hunter.

— Arrumarei alguém para o seu lugar nos cursos nor­mais. Não é problema. Mas os alunos dos seus seminários vão sentir sua falta. — Ele sorriu. — Tenho certeza de que nos deixará a todos muito orgulhosos, senhora Ashley. Boa sorte.

— Obrigada.

 

Mary tirou as crianças da escola. Havia providências para a viagem, era preciso comprar as passagens de avião. No passado Mary nunca se preocupara com as transações fi­nanceiras, porque Edward estava presente para cuidar de tudo. Agora não havia Edward, exceto em sua mente e co­ração, onde ele sempre estaria.

 

Mary estava preocupada com Beth e Tim. No início eles se mostraram entusiasmados com a idéia de viver em outro país, mas agora se confrontavam com a realidade e sentiam uma profunda apreensão. Foram procurar Mary, em se­parado.

— Não posso deixar todos os meus amigos, mamãe — disse Beth. — Talvez eu nunca mais torne a ver Virgil. Es­tou pensando se não seria o caso de ficar aqui até o fim do semestre.

Tim disse:

— Acabo de entrar no time. Se eu sair agora, eles ar­rumarão outro para o meu lugar como terceira base. Tal­vez possamos deixar para viajar depois do próximo verão, quando a temporada acabar. Por favor, mamãe!

Eles estão assustados. Como a mãe. Stanton Rogers fora muito convincente. Mas sozinha com seus medos, à noite, Mary pensou: Não sei nada sobre as funções de uma embaixadora. Sou apenas uma dona-de-casa do Kansas fin­gindo que é alguma espécie de estadista. Todos vão desco­brir que não passo de uma fraude. Foi loucura concordar com isso.

 

Finalmente, milagrosamente, tudo estava pronto. A casa fora alugada para uma família que acabara de se mudar para Junction City.

 

Estava na hora de partir.

— Doug e eu levaremos vocês de carro até o aeropor­to — insistiu Florence.

O aeroporto em que pegariam o avião de seis lugares para Kansas City, Missouri, ficava localizado em Manhat­tan, Kansas. Em Kansas City embarcariam num avião maior, que os levaria a Washington.

— Peço que me dêem só um minuto — disse Mary.

Subiu até o quarto que partilhara com Edward por tan­tos anos maravilhosos. Ficou parada no meio, dando uma última e longa olhada.

Estou partindo agora, meu querido. Queria apenas me despedir. Creio que estou fazendo o que você gostaria. Pe­lo menos espero que sim. A única coisa que realmente me incomoda é que tenho o pressentimento de que talvez nun­ca mais voltemos para cá. Sinto como se o estivesse aban­donando. Mas você estará comigo onde quer que eu vá. Preciso de você agora mais do que já precisei em qualquer outra ocasião. Fique comigo. Ajude-me. Eu o amo muito. Penso às vezes que não poderei agüentar sem você. Pode me ouvir, querido? Está aí...?

 

Douglas Schiffer providenciou o despacho da bagagem no pequeno avião. Quando viu o avião pousado na pista, Mary estacou abruptamente.

— Deus do céu!

— Qual é o problema? — perguntou Florence.

— Eu... eu estava tão ocupada que esqueci por completo.

— Esqueceu o quê?

— De voar! Nunca entrei antes num avião, em toda a minha vida, Florence! Não posso conceber subir nessa coisinha!

— Mary, as chances são de uma em um milhão de que aconteça alguma coisa.

— Não gosto de chances — disse Mary firmemente. — Viajaremos de trem.

— Não pode fazer isso. Estão esperando você em Was­hington esta tarde.

— Viva. Não vou servir a ninguém morta.

Os Schiffer levaram quinze minutos para persuadir Mary a embarcar no pequeno avião. Meia hora depois, ela e os filhos estavam acomodados para o vôo 826 da Air Midwest. Enquanto os motores aceleravam e o aparelho come­çava a correr pela pista, Mary fechou os olhos e apertou com toda força os braços da poltrona. Segundos depois es­tavam no ar.

— Mamãe...

— Psiu! Não fale!

Ela ficou rígida, recusando-se a olhar pela janela, concentrando-se em manter o avião no ar. As crianças apon­tavam as paisagens lá embaixo, divertindo-se imensamente.

Crianças, pensou Mary, amargurada. O que podem saber?

No aeroporto de Kansas City, eles passaram para um DC-10 e seguiram para Washington. Beth e Tim sentaram juntos, e Mary ficou no outro lado do corredor. Uma mulher ido­sa sentou ao lado de Mary.

— Para ser franca, estou um pouco nervosa — con­fessou a companheira de viagem de Mary. — Nunca voei antes.

Mary afagou-lhe a mão e sorriu.

— Não há motivo para ficar nervosa. Só há uma chan­ce em um milhão de acontecer alguma coisa.

 

Quando o avião chegou ao Aeroporto Dulles, em Washing­ton, Mary e as crianças foram recebidas por um rapaz do Departamento de Estado.

— Seja bem-vinda a Washington, senhora Ashley. Meu nome é John Burns. O senhor Rogers pediu-me que viesse recebê-la e a levasse para o hotel. Já fiz reservas no River­side Towers. Creio que todos ficarão muito bem lá.

— Obrigada.

Mary apresentou Beth e Tim.

— Se me der os tíquetes de bagagem, senhoia Ashley, cuidarei de tudo.

Vinte minutos depois eles estavam sentados numa li­musine com motorista, seguindo para o centro de Washing­ton. Tim olhava pela janela, aturdido.

— Ei, lá está o Memorial Lincoln! Beth estava olhando pela outra janela.

— Lá está o Monumento a Washington! Mary olhou para John Burns, embaraçada,

— Infelizmente, meus filhos não são muito sofistica­dos. É que nunca saíram de... — Mary olhou pela janela e seus olhos se arregalaram. — Puxa, olhem só! Lá está a Casa Branca!

A limusine subiu pela Pennsylvania Avenue, cercada por alguns dos pontos de referência mais emocionantes do mundo. Mary pensou, muito excitada: Esta é a cidade que domina o mundo. É aqui que está o poder. E, de uma for­ma mínima, também serei parte de tudo.

Enquanto a limusine se aproximava do hotel, Mary per­guntou:

— Quando verei o senhor Rogers?

— Ele a procurará pela manhã.

 

Pete Connors, chefe da KUDESK, a seção de contra-espi­onagem da CIA, ficara trabalhando até tarde, e seu dia es­tava longe de terminar. Todas as madrugadas, às três horas, uma equipe se apresentava ao serviço para preparar o resu­mo diário de informações encaminhado ao presidente, com­pilado das mensagens recebidas durante a noite. O relatório, cujo nome em código era "Picles", tinha de estar pronto às seis horas da manhã, a fim de estar na mesa do presi­dente no início de seu dia de trabalho. Um mensageiro ar­mado levava o relatório para a Casa Branca, entrando pelo portão oeste. Pete Connors tinha um renovado interesse nas mensagens que vinham do outro lado da Cortina de Ferro, porque muita coisa se referia à nomeação de Mary Ashley para embaixadora americana na Romênia.

A União Soviética estava preocupada com a possibili­dade de o plano do presidente Ellison ser uma trama para se infiltrar em seus satélites, a fim de espioná-los ou seduzi-los.

Os comunas estão tão preocupados quanto eu, pensou Pete Connors, sombriamente. Se a idéia do presidente der certo, todo este pais vai se tornar uma casa aberta para os seus malditos espiões.

Pete Connors fora informado do momento em que Mary Ashley chegara a Washington. Vira fotografias da mu­lher e dos filhos. Ela será perfeita, pensou Connors, feliz.

 

O Riverside Towers, a um quarteirão do complexo Watergate, é um pequeno hotel familiar, com suítes confortáveis e bem decoradas.

Um empregado levou a bagagem para a suíte. Quan­do Mary começava a arrumar suas coisas, o telefone tocou. Ela atendeu.

— Alô?

Uma voz masculina perguntou:

— Senhora Ashley?

— Sou eu.

— Meu nome é Ben Cohn. Sou repórter de The Was­hington Post. Gostaria de saber se podemos conversar por alguns minutos.

Mary hesitou.

— Acabei de chegar e...

— Não levará mais de cinco minutos. Eu só queria cumprimentá-la.

— Ahn... acho que...

— Já estou subindo.

 

Ben Cohn era baixo e atarracado, um corpo musculoso e o rosto machucado de um pugilista. Parece um repórter es­portivo, pensou Mary.

Ele sentou numa cadeira à sua frente e perguntou:

— É a primeira vez que vem a Washington, senhora Ashley?

— É, sim.

Mary notou que ele não estava com um bloco de ano­tações nem com um gravador.

— Não vou lhe fazer a pergunta estúpida. Ela franziu o rosto.

— Qual é a pergunta estúpida?

— Está gostando de Washington? Sempre que uma ce­lebridade desembarca de um avião em qualquer lugar, a pri­meira coisa que lhe perguntam é: "O que acha da cidade?"

Mary riu.

— Não sou uma celebridade, mas acho que vou gos­tar muito de Washington.

— Era professora na Universidade Estadual do Kansas?

— Isso mesmo. Tinha um curso que se chamava Les­te europeu. Hoje tem o nome de Política.

— Soube que o presidente conheceu-a através de um livro seu sobre a Europa Central e diversos artigos em re­vistas.

— É verdade.

— E o resto, como se costuma dizer, é história.

— Imagino que se trata de uma maneira excepcional de...

— Não é tão excepcional assim. Jeanne Kirkpatrick atraiu a atenção do presidente Reagan da mesma maneira, e ele a nomeou embaixadora na ONU. — Cohn sorriu. — Portanto, há um precedente. Essa é uma das palavras mais importantes em Washington. Precedente. Seus avós eram romenos?

— Meu avô. Isso mesmo.

Ben Cohn ficou na suíte por mais quinze minutos, ob­tendo informações sobre os antecedentes de Mary. Ela per­guntou:

— Quando a entrevista vai sair no jornal? Queria saber para enviar exemplares a Douglas e Florence e outros amigos em Junction City. Ben Cohn levantou-se e respondeu, evasivo:

— Vou guardá-la para mais tarde. — Havia alguma coisa na situação que o deixava perplexo, mas não tinha certeza do quê. — Tornaremos a conversar em outra ocasião.

Depois que ele se retirou, Beth e Tim vieram à sala de estar da suíte.

— Ele foi simpático, mamãe?

— Foi, sim. — Mary hesitou, indecisa. — Acho que sim.

 

Stanton Rogers telefonou na manhã seguinte.

— Bom dia, senhora Ashley. Aqui é Stanton Rogers. Era como ouvir a voz de um velho amigo. Talvez seja

porque ele é a única pessoa que conheço na cidade, pensou Mary.

— Bom dia, senhor Rogers. Obrigada por ter manda­do o senhor Burns nos esperar no aeroporto e providenciar o hotel.

— Está tudo a seu gosto?

— Está maravilhoso.

— Creio que seria uma boa idéia nos encontrarmos pa­ra discutir os procedimentos que terá de enfrentar.

— Tem razão.

— Por que não almoçamos hoje no Grand? Não fica longe de seu hotel. Uma hora está bom?

— Está sim.

— Estarei à sua espera no restaurante. Estava começando.

 

Mary providenciou para que servissem o almoço das crian­ças na suíte, e à uma hora da tarde um táxi deixou-a no Grand Hotel. Ela sentiu-se intimidada. O Grand Hotel é um centro de poder. Chefes de Estado e diplomatas do mun­do inteiro se hospedavam ali, e é fácil compreender o moti­vo. É um prédio elegante, com um saguão imponente, o chão de mármore italiano e colunas graciosas, sob um teto cir­cular. Há um pátio ajardinado, com um chafariz e uma pis­cina ao ar livre. Uma escada de mármore leva ao restaurante, onde Stanton Rogers estava à sua espera.

— Boa tarde, senhora Ashley.

— Boa tarde, senhor Rogers. Ele soltou uma risada.

— Estamos formais demais. Não seria melhor se nos tratássemos por Stan e Mary?

Ela ficou satisfeita.

— Seria ótimo.

Stanton Rogers parecia de certa forma diferente, e Mary tinha dificuldade para definir o que mudara. Em Junction City ele demonstrara indiferença, quase ressentimento contra ela. Agora, isso parecia ter desaparecido por completo. Ele se mostrava cordial e efusivo. A diferença é que ele me acei­tou, pensou Mary, feliz.

— Gostaria de tomar um drinque?

— Não, obrigada.

Pediram o almoço. As entradas pareciam-lhe muito ca­ras. Não é como os preços em Junction City. A suíte do hotel custava 250 dólares por dia. Nesse ritmo, meu dinheiro não vai durar muito, pensou Mary.

— Não quero parecer grosseira, Stan, mas pode me dizer quanto ganha um embaixador?

Ele riu.

— É uma pergunta justa. Seu salário será de 65 mil dólares por ano, mais uma verba de representação.

— Quando isso começa?

— Na hora em que prestar juramento.

— E até lá?

— Receberá 75 dólares por dia.

Mary sentiu um aperto no coração. Não daria sequer para pagar as contas do hotel, muito menos para as outras despesas.

— Ficarei em Washington por muito tempo? — per­guntou ela.

— Cerca de um mês. Faremos todo o possível para ace­lerar a transferência. O secretário de Estado já telegrafou para o governo romeno, solicitando a aprovação de seu no­me. Aqui entre nós, já houve discussões particulares entre os dois governos. Não haverá problemas com os romenos, mas ainda ficará na dependência da aprovação do Senado. Então o governo romeno vai me aceitar, pensou Mary, espantada. Talvez eu seja mais bem qualificada do que ima­ginava.

— Fiz uma consulta informal ao presidente da Comis­são de Relações Exteriores do Senado. O próximo passo será uma audiência pública com todo o comitê. Farão pergun­tas sobre seus antecedentes, sua lealdade ao país, opiniões sobre o posto e o que espera realizar.

— E o que acontece depois disso?

— A comissão vota. Apresenta suas conclusões, e to­do o Senado vota.

Mary disse, bem devagar:

— Já houve indicações rejeitadas no passado, não é?

— O prestígio do presidente está em jogo neste caso. Você terá todo o apoio da Casa Branca. O presidente está ansioso em ter sua confirmação o mais depressa possível. Por falar nisso, achei que você e as crianças gostariam de conhecer a cidade durante os próximos dias. Por isso, pro­videnciei um carro com motorista, assim como uma excur­são particular pela Casa Branca.

— Muito obrigada! Stanton Rogers sorriu.

— O prazer é todo meu.

 

A excursão particular pela Casa Branca foi na manhã se­guinte. Um guia acompanhou-os. Passaram pelo Jardim Jacqueline Kennedy e o jardim em estilo do século XVIII em que havia um laguinho, árvores e uma plantação de ervas para uso na cozinha da Casa Branca.

— Bem à frente fica a Ala Leste — anunciou o guia. — Aloja os gabinetes militares, as ligações presidenciais com o Congresso, um escritório para visitantes e as salas da equi­pe da primeira dama.

Passaram pela Ala Oeste e deram uma olhada no Ga­binete Oval do presidente.

— Quantos cômodos têm aqui? — indagou Tim.

— Há 132 cômodos, 69 closets, 28 lareiras e 32 ba­nheiros.

— O pessoal deve ir muito ao banheiro.

— O presidente Washington ajudou a supervisionar uma boa parte da construção. Foi o único presidente que nunca residiu aqui.

— Não o culpo por isso — murmurou Tim. — A casa é grande demais.

Mary cutucou-o, o rosto vermelho.

A excursão demorou quase duas horas, e ao final a fa­mília Ashley estava impressionada e exausta.

Este é o lugar em que tudo começou, pensou Mary. E agora serei parte disso.

— Mamãe...

— O que é, Beth?

— Você está com uma cara engraçada.

 

O telefonema do gabinete do presidente ocorreu na manhã seguinte.

— Bom dia, senhora Ashley. O presidente Ellison gos­taria de saber se estará disponível esta tarde para encontrá-lo.

Mary engoliu em seco.

— Ahn... claro, claro.

— Três horas seria conveniente?

— Está ótimo.

— Uma limusine irá buscá-la às quinze para as três.

 

Paul Ellison levantou-se quando Mary foi introduzida no Gabinete Oval. Ele se adiantou para apertar-lhe a mão, sor­riu e disse:

— Peguei-a! Mary riu.

— Fico contente que isso tenha acontecido, senhor pre­sidente. É uma grande honra para mim.

— Vamos sentar, senhora Ashley. Posso chamá-la de Mary?

— Por favor.

Sentaram no sofá. O presidente Ellison disse:

— Você vai ser meu doppelgänger. Sabe o que é isso?

— É uma espécie de um espírito idêntico ao de uma pessoa viva.

— Exatamente. É o nosso caso. Não dá para descre­ver como Fiquei excitado ao ler seu último artigo, Mary. Era como se estivesse lendo alguma coisa que eu mesmo es­crevera. Há muitas pessoas que não acreditam que o nosso programa de povo-para-povo possa dar certo, mas você e eu vamos demonstrar que estão enganadas.

Nosso plano povo-para-povo. Nós vamos mostrar que os outros se enganam. Ele é um homem encantador, pen­sou Mary. Em voz alta, ela disse:

— Quero fazer tudo o que puder para ajudar, senhor presidente.

— Estou contando com você. E muito. A Romênia é uma espécie de campo de prova. Como Groza foi assassi­nado, seu trabalho será mais difícil. Se tivermos sucesso lá, podemos fazer com que dê certo nos outros países comu­nistas.

Os dois passaram os trinta minutos seguintes discutin­do alguns dos problemas e depois Paul Ellison disse:

— Stan Rogers vai se manter em contato permanente com você. Ele se tornou um dos seus maiores fãs. — O pre­sidente estendeu a mão. — Boa sorte, doppelgänger.

 

Stanton Rogers telefonou para Mary na tarde seguin­te e avisou:

— Você tem um encontro amanhã de manhã, às nove horas, com o presidente da Comissão de Relações Exterio­res do Senado.

 

O gabinete da Comissão de Relações Exteriores fica no Edi­fício Dirksen. Uma placa no saguão, no lado direito da por­ta, informa: COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES, SD-419.

 

O presidente da comissão era um homem rotundo, cabelos grisalhos, olhos verdes penetrantes, o comportamento des­contraído de um político profissional. Cumprimentou Mary na porta.

— Charlie Campbell. É um prazer conhecê-la, senho­ra Ashley. Já ouvi falar muito a seu respeito.

Bem ou mal?, pensou Mary. Ele conduziu-a a uma cadeira.

— Aceita um café?

— Não, obrigada, senador.

Ela estava nervosa demais para conseguir segurar uma xícara.

— Sendo assim, vamos direto aos negócios. O presi­dente está ansioso em tê-la como nossa representante na Ro­mênia. Claro que queremos lhe proporcionar um apoio total, por todos os meios possíveis. O problema é o seguinte: acha que está qualificada para ocupar o posto, senhora Ashley?

— Não, senhor.

A resposta pegou-o de surpresa.

— Como?

— Se está querendo saber se já tive alguma experiên­cia diplomática no trato com outros países, então não es­tou qualificada. Contudo, fui informada de que um terço dos embaixadores americanos é constituído por pessoas que também não tinham experiência anterior. O que eu levaria para o meu posto é o conhecimento da Romênia. Estou a par de seus problemas econômicos e sociológicos, conheço-lhe os antecedentes políticos. Creio que poderia projetar uma imagem positiva de nosso país para os romenos.

Ora essa, pensou Charlie Campbell, surpreso. Eeu es­tava esperando uma mulher de cabeça vazia. A verdade era que Campbell tinha algum ressentimento contra Mary Ash­ley antes mesmo de conhecê-la. Recebera ordens superio­res para* obter a aprovação de sua comissão para Mary Ashley, não importava o que pensassem dela. Havia mui­tos comentários desdenhosos nos corredores do poder so­bre a gafe que o presidente cometera ao escolher uma caipira desconhecida de um lugar chamado Junction City, Kansas. Mas tenho a impressão de que a turma terá uma pequena surpresa, pensou Campbell. Em voz alta, disse:

— A audiência da comissão será realizada às nove ho­ras da manhã de quarta-feira.

 

Mary entrou em pânico na noite anterior à audiência. Ed­ward, quando me interrogarem sobre a minha experiência, o que direi a eles? Que em Junction City fui a rainha da escola e ganhei o concurso de patinação no gelo por três anos consecutivos? Estou em pânico, querido. Ah, como eu gostaria que você estivesse aqui comigo!

Mais uma vez, a ironia aflorou. Se Edward continuas­se vivo, ela não estaria ali. Estaria segura e confortável em casa, com meu marido e meus filhos, o lugar a que pertenço.

Mary passou a noite inteira acordada.

 

A audiência foi realizada na sala da Comissão de Relações Exteriores do Senado, com todos os quinze membros pre­sentes, sentados numa plataforma, na frente de uma pare­de em que havia quatro enormes mapas do mundo. No lado esquerdo da sala ficava a bancada da imprensa, repleta de repórteres; no meio havia cadeiras para duzentos espectadores. A sala estava lotada. Pete Connors sentava numa das últimas filas. Houve um súbito silêncio quando Mary en­trou, acompanhada por Beth e Tim.

Ela usava um costume escuro e uma blusa branca. As crianças haviam sido obrigadas a abandonar as jeans e ves­tiam as melhores roupas dominicais.

Ben Cohn, sentado na bancada da imprensa, observou-os atentamente. Eles parecem uma gravura de Norman Rockwell, pensou.

Um atendente sentou as crianças na frente e conduziu Mary à cadeira das testemunhas, de frente para a comis­são. Ela sentou sob o clarão de luzes ofuscantes, tentando disfarçar seu nervosismo. A audiência começou. Charlie Campbell sorriu para Mary.

— Bom dia, senhora Ashley. Agradecemos sua pre­sença nesta comissão. Vamos iniciar as perguntas.

E começaram de forma bastante inocente.

— Nome...?

— Viúva...?

— Filhos...?

As perguntas eram gentis e encorajadoras.

— Segundo a biografia que nos foi fornecida, senho­ra Ashley, durante os últimos anos a senhora foi professo­ra de ciência política na Universidade Estadual do Kansas. Isso é correto?

— É, sim, senhor.

— É natural do Kansas?

— Sou, sim, senador.

— Seus avós eram romenos?

— Meu avô era, senhor.

— Escreveu um livro e artigos sobre a reaproximação entre os Estados Unidos e países do bloco soviético?

— Escrevi, sim, senhor.

— O último artigo foi publicado em parte na revista Foreign affairs e atraiu a atenção do presidente?

— É o que presumo.

— Senhora Ashley, poderia fazer a gentileza de infor­mar a esta comissão qual é a premissa básica de seu artigo?

O nervosismo estava desaparecendo depressa. Ela se encontrava em terreno seguro agora, discutindo um assun­to sobre o qual tinha toda autoridade. Tinha a sensação de que estava conduzindo um seminário na escola.

— Existem no momento vários pactos econômicos no mundo. Como são mutuamente exclusivos, servem para di­vidir o mundo em blocos antagônicos e competitivos, em vez de o unirem. A Europa tem o Mercado Comum, o Blo­co do Leste tem o COMECON, há ainda a OCDE, integra­da pelos países de mercado livre, e o movimento não-alinhado dos países do Terceiro Mundo.

"Minha premissa é muito simples: eu gostaria que to­das as diversas organizações fossem ligadas por vínculos eco­nômicos. Indivíduos que estão empenhados numa sociedade proveitosa não se matam uns aos outros. Creio que o mes­mo princípio se aplica a países. Gostaria que nosso país as­sumisse a vanguarda de um movimento para a criação de um mercado comum que incluísse tanto aliados quanto ad­versários. Hoje, para citar um exemplo, estamos gastando bilhões de dólares para armazenar excedentes de cereais, en­quanto pessoas em dezenas de países passam fome. O mer­cado comum mundial poderia resolver esse problema. Poderia curar as desigualdades na distribuição, a um preço justo para todos. E eu gostaria de tentar ajudar para que isso se torne uma realidade."

O senador Harold Turkel, antigo membro da Comis­são de Relações Exteriores e representante do partido de opo­sição, manifestou-se:

— Eu gostaria de fazer algumas perguntas à indicada. Ben Cohn inclinou-se para a frente. Lá vamos nós. O

senador Turkel era um homem na casa dos setenta anos, duro e impertinente, um notório rabugento.

— É a primeira vez que vem a Washington, senhora Ashley?

— É, sim, senhor. Acho que é uma das mais...

— Já viajou muito?

— Não. Meu marido e eu sempre planejamos viajar, mas...

— Já esteve em Nova York?

— Não, senhor.

— Califórnia?

— Não, senhor.

— Foi à Europa?

— Não. Como eu disse, planejávamos...

— Já tinha saído antes do Estado do Kansas, senhora Ashley?

— Já, sim. Fiz uma conferência na Universidade de Chicago e uma série de palestras em Denver e Atlanta.

Turkel disse, secamente:

— Deve ter sido muito emocionante no seu caso, se­nhora Ashley. Não posso me recordar de qualquer ocasião em que esta comissão tenha aprovado uma candidata me­nos qualificada para uma embaixada. Espera representar os Estados Unidos da América num sensível país da Corti­na de Ferro e nos diz que todo o seu conhecimento do mundo provém de Junction City, Kansas, e de passar alguns dias em Chicago, Atlanta e Denver. É isso mesmo?

Mary estava consciente das câmaras de televisão foca­lizadas nela e fez um esforço para se controlar.

— Não, senhor. Meu conhecimento do mundo provém do muito que o estudei. Tenho um Ph.D. em ciência políti­ca e ensino na Universidade Estadual do Kansas há cinco anos, com ênfase nos países da Cortina de Ferro. Estou a par dos problemas atuais do povo romeno e do que seu go­verno pensa dos Estados Unidos e por quê. — A voz soava mais firme agora. — Tudo o que eles sabem deste país é o que lhes diz sua máquina de propaganda. Eu gostaria de ir até lá e tentar convencê-los de que os Estados Unidos não são um país ganancioso e propenso à guerra. Gostaria de mostrar-lhes como é uma típica família americana. Gostaria...

Ela parou de falar, temendo ter ido longe demais em sua raiva. E nesse instante, para sua surpresa, os membros da comissão começaram a aplaudir. Menos Turkel.

O interrogatório continuou. Uma hora depois, Charlie Campbell perguntou:

— Alguém tem mais alguma pergunta?

— Creio que a indicada se expressou de maneira bas­tante objetiva — comentou um senador.

— Concordo. Obrigado, senhora Ashley. A sessão está suspensa.

Pete Connors estudou Mary por um momento, pensativo, depois se afastou discretamente, enquanto os repór­teres a cercavam.

— A indicação do presidente foi surpresa para a senhora?

— Acha que vão aprovar sua indicação, senhora Ashley?

— Acredita mesmo que dar aulas sobre um país qua­lifica alguém a...?

— Vire para este lado, senhora Ashley. Sorria, por fa­vor. Mais uma vez.

— Senhora Ashley...

Ben Cohn se manteve a distância dos outros, observan­do e escutando. Ela é mesmo boa, pensou ele. Tem todas as respostas certas. Ah, como eu gostaria de também co­nhecer as respostas certas!

 

Quando Mary chegou ao hotel, emocionalmente esgotada, Stanton Rogers estava ao telefone.

— Olá, senhora embaixadora.

Mary sentiu-se tonta de alívio.

— Quer dizer que consegui? Oh, Stan, muito obriga­da! Não tenho palavras para dizer como estou emocionada.

— Eu também estou, Mary. — A voz de Rogers esta­va impregnada de orgulho. — Eu também estou.

 

As crianças abraçaram-na quando Mary lhes contou.

— Eu sabia que você conseguiria! — gritou Tim. Beth perguntou, suavemente:

— Acha que papai sabe?

— Tenho certeza que sabe, querida. — Mary sorriu, — Eu não ficaria surpresa se soubesse que ele deu um pe­queno empurrão na comissão...

 

Mary telefonou para Florence. Ao ser informada, a amiga começou a chorar.

— Fantástico! Espere só até eu espalhar a notícia pe­la cidade!

Mary riu.

— Terei um quarto na embaixada pronto para você e Doug.

— Quando você viaja para a Romênia?

— Primeiro, o Senado tem de aprovar minha desig­nação. Mas Stan diz que é apenas uma formalidade.

— O que acontece em seguida?

— Tenho de passar algumas semanas recebendo ins­truções em Washington e depois as crianças e eu seguimos para a Romênia.

— Mal posso esperar o momento de ligar para o Daily Union! — exclamou Florence. — A cidade provavelmente vai erguer uma estátua para você. Tenho de desligar agora. Estou excitada demais para continuar a conversa. Torna­rei a ligar amanhã.

Ben Cohn tomou conhecimento do resultado da audiência de confirmação quando voltou ao jornal. Ainda se sentia perturbado. E não sabia explicar o motivo.

 

Como Stanton Rogers previra, a votação do plenário do Se­nado foi uma mera formalidade. Mary foi aprovada por uma maioria tranqüila. Quando foi informado, o presidente Ellison disse a Stanton Rogers:

— Nosso plano está em andamento, Stan. Nada pode nos deter agora.

Stanton Rogers balançou a cabeça e murmurou, sorrindo:

— Nada mesmo.

 

Pete Connors estava em sua sala quando recebeu a notícia. No mesmo instante escreveu uma mensagem e codificou-a. Um dos seus homens estava de serviço na sala de comuni­cações da CIA.

— Quero usar o Canal Roger — disse Connors. — Es­pere lá fora.

O Canal Roger é o sistema de transmissão ultrapriva­tivo da CIA, à disposição apenas de uns poucos executivos de alto nível. As mensagens são enviadas por um transmis­sor laser numa freqüência ultra-alta, em uma fração de segundo. Assim que ficou sozinho, Connors despachou a mensagem. Estava endereçada a Sigmund.

 

Durante a semana seguinte Mary visitou o subsecretário de Estado para assuntos políticos, o diretor da CIA, o secre­tário de Comércio, os diretores do Chase Manhattan Bank de Nova York e diversas organizações judaicas importan­tes. Cada um tinha avisos, conselhos e pedidos. Ned Tillin-gast, da CIA, mostrou-se entusiasmado.

— Será ótimo para o nosso pessoal voltar a agir por lá, senhora embaixadora. A Romênia tem sido um ponto cego para nós desde que nos tornamos personae non gra­tae. Destacarei um homem para a sua embaixada como um dos adidos. — Exibiu uma expressão sugestiva. — Tenho certeza de que dará a ele cooperação total.

Mary especulou o que isso significaria exatamente. É melhor não perguntar, decidiu.

 

A cerimônia de juramento dos novos embaixadores é nor­malmente presidida pelo secretário de Estado, e cerca de 25 a 30 candidatos participam ao mesmo tempo. Na ma­nhã em que a cerimônia deveria ocorrer, Stanton Rogers telefonou para Mary.

— O presidente Ellison pediu que esteja na Casa Bran­ca ao meio-dia, Mary. Ele presidirá o juramento pessoal­mente. Traga Beth e Tim.

 

O Gabinete Oval estava repleto de representantes da impren­sa. Quando o presidente Ellison entrou, acompanhado por Mary e seus filhos, as câmaras de televisão começaram a funcionar e os flashes espocaram. Mary passara a meia ho­ra anterior com o presidente, que se mostrara afável e tran­qüilizador.

— Você é perfeita para o posto, ou eu nunca a teria escolhido — garantira ele. — E você e eu vamos fazer com que o sonho se transforme em realidade.

E parece mesmo um sonho, pensou Mary, enquanto enfrentava a bateria de câmaras.

— Levante a mão direita, por favor. Mary repetiu as palavras do presidente:

— Eu, Mary Elizabeth Ashley, juro solenemente que sustentarei e defenderei a Constituição dos Estados Unidos contra todos os inimigos, externos e internos, que lhe con­cederei toda fé e lealdade, que assumo esta obrigação por livre e espontânea vontade, sem qualquer reserva mental ou propósito de evasão, que me desincumbirei fielmente dos deveres do cargo que estou prestes a assumir, pela vontade de Deus.

E estava consumado. Ela era a embaixadora na Repú­blica Socialista da Romênia.

 

A rotina começou. Mary recebeu a ordem de se apresentar na Seção de Assuntos Europeus e Iugoslavos do Departa­mento de Estado. Ali, recebeu uma pequena sala, um au­têntico cubículo, em caráter temporário, ao lado do setor romeno.

James Stickley, o chefe do setor romeno, era um di­plomata de carreira, com 25 anos de serviço. Tinha cinqüen­ta e tantos anos, estatura mediana, rosto afilado, lábios pequenos e finos. Os olhos eram castanhos, muito claros e frios. Encarava com desdém os nomeados políticos que estavam invadindo seu mundo. Era considerado o maior pe­rito do setor romeno; quando o presidente Ellison anun­ciara seu plano de designar um embaixador para a Romênia, Stickley ficara extasiado, certo de que o posto lhe seria con­cedido. A notícia sobre Mary Ashley fora um golpe amar­go. Já era bastante terrível ter sido preterido, mas era mortificante perder para uma escolha política — uma mu­lher insignificante do Kansas.

— Pode acreditar numa coisa dessas? — perguntara ele a Bruce, seu maior amigo. — Metade dos nossos em­baixadores é de nomeados políticos. Isso nunca poderia acontecer na Inglaterra ou França. Eles usam profissionais de carreira. O exército convidaria um amador para ser ge­neral? Pois as porras dos nossos embaixadores amadores no exterior são como generais.

— Você está bêbado, Jimbo.

— E vou ficar ainda mais bêbado.

Agora ele estudava Mary Ashley, sentada no outro la­do de sua mesa.

Ela também estava estudando Stickley. Havia algo mes­quinho naquele homem. Eu não gostaria de tê-lo como meu inimigo, pensou Mary.

— Sabe que está sendo enviada para um posto extre­mamente delicado, senhora Ashley?

— Claro. Eu...

— Nosso último embaixador na Romênia deu um pas­so errado e todo o relacionamento explodiu na nossa cara. Levamos três anos para voltar a abrir a porta. O presiden­te seria doido se estragasse tudo outra vez.

Se eu estragasse, é o que ele está querendo dizer, pen­sou Mary.

— Teremos de transformá-la numa especialista em as­suntos romenos de um momento para o outro. Não temos muito tempo. — Entregou a Mary diversas pastas de ar­quivo. — Pode começar pela leitura desses relatórios.

— Dedicarei a manhã a isso.

— Não será possível. Dentro de trinta minutos deve­rá iniciar um curso de romeno. Geralmente leva-se meses para aprender a língua, mas tenho ordens para acelerar o processo.

 

O tempo tornou-se uma coisa indefinida, um turbilhão de atividade que deixava Mary exausta. Todas as manhãs ela e Stickley verificavam juntos os despachos diários do setor romeno.

— Lerei as mensagens que você enviar — informou Stickley. — Serão cópias amarelas para ação ou cópias bran­cas para informação. Duplicatas de seus despachos irão para os Departamentos de Defesa e Tesouro, CIA, USIA e uma dúzia de outros órgãos do governo. Um dos primeiros pro­blemas para os quais se espera solução é dos americanos que se encontram em prisões romenas. Queremos que se­jam libertados.

— De que foram acusados?

— Espionagem, tráfico de tóxicos, roubo... qualquer coisa de que os romenos quiseram acusá-los.

Mary se perguntou como seria possível revogar uma acusação de espionagem. Encontrarei um jeito.

— Certo — disse ela, incisiva.

— Não se esqueça... a Romênia é um dos países mais independentes da Cortina de Ferro. Temos de estimular es­sa atitude.

— Exatamente.

— Vou lhe entregar um pacote — acrescentou Stick­ley. — Não pode sair de suas mãos. E é a única pessoa que pode tomar conhecimento. Depois que ler e digerir, quero que me devolva, pessoalmente, amanhã de manhã. Algu­ma pergunta?

— Não, senhor.

Ele entregou a Mary um grosso envelope pardo, com um lacre vermelho.

— Assine o recebimento, por favor. Mary assinou.

 

Voltando para o hotel, Mary apertava o envelope no colo, sentindo-se personagem de um filme de James Bond. As crianças estavam arrumadas, à sua espera.

Oh, não!, pensou Mary, se lembrando. Prometi levá-las a um restaurante chinês e ao cinema!

— Houve uma mudança de planos, companheiros — declarou ela. — Teremos de deixar nossa excursão para ou­tra noite. Hoje vamos ficar em casa e pedir que mandem o jantar para a suíte. Tenho um trabalho urgente a fazer.

— Claro, mamãe.

— Está bem.

E Mary pensou: Antes de Edward morrer, eles teriam gritado como desesperados. Mas amadureceram. Todos nós tivemos de crescer. Ela passou os braços pelos dois e prometeu:

— Podem deixar que vou compensá-los por isso.

 

O material que James Stickley lhe dera era inacreditável. Não é de admirar que ele queira isso de volta imediatamen­te, pensou Mary. Havia relatórios detalhados sobre todas as autoridades romenas, do presidente ao ministro do Co­mércio. Havia informações sobre seus hábitos sexuais, ope­rações financeiras, amizades, características pessoais e preconceitos. Algumas coisas eram estarrecedoras. O mi­nistro do Comércio, por exemplo, ia para a cama com a amante e seu motorista, enquanto a esposa mantinha liga­ção amorosa com uma criada.

Mary ficou acordada durante a metade da noite, me­morizando nomes e os pecados das pessoas com as quais iria tratar. Será que conseguirei me manter impassível quan­do for apresentada a essa gente?

 

Pela manhã ela devolveu os documentos secretos. Stickley disse:

— Muito bem, agora você já conhece tudo que deve­ria saber sobre os líderes romenos.

— E mais alguma coisa — murmurou Mary.

— Há uma coisa que não deve esquecer: a essa altura, os romenos já conhecem tudo o que há para saber a seu respeito.

— Não vão chegar muito longe.

— Não mesmo? — Stickley recostou-se em sua cadei­ra. — Você é mulher e está sozinha. Pode estar certa de que já a classificaram como um alvo fácil. Vão jogar com a sua solidão. Cada movimento que fizer será observado e regis­trado. Haverá microfones secretos na embaixada e na resi­dência. Nos países comunistas, somos obrigados a usar o pessoal local, e assim todos os criados na residência serão membros da polícia de segurança romena.

Ele está tentando me assustar, pensou Mary. Pois não vai dar certo.

 

Cada hora do dia de Mary parecia estar totalmente ocupa­da, assim como a maior parte das noites. Além das aulas de língua romena, sua programação incluía um curso no Instituto de Serviço Diplomático, em Rosslyn, instruções na Agência de Informações da Defesa, reuniões com o se­cretário da ASI — Agência de Segurança Internacional — e com diversos comitês do Senado. Todos tinham pedidos, conselhos, perguntas.

Mary sentia-se culpada em relação a Beth e Tim. Com a ajuda de Stanton Rogers, encontrou uma tutora para as crianças. Beth e Tim conheceram algumas outras crianças que também estavam no hotel e pelo menos tinham com­panhia de sua idade; mas, apesar disso, Mary continuava a detestar deixá-los sozinhos por tanto tempo.

Ela fazia questão de tomar o café da manhã com os filhos todas as manhãs, antes de partir, às oito horas, para o curso da língua no Instituto. O romeno era muito difícil. É surpreendente que os próprios romenos consigam falar uma língua assim. Ela estudava as frases em voz alta:

 

       Bom dia............................   Buna dimineata

       Obrigado..........................   Multumesc

       Näo comprendo...............   Nu inteleg

       Senhor.............................   Domnule

       Senhorita.........................   Domnisoara

 

E nenhuma das palavras era pronunciada da maneira como se escrevia.

Beth e Tim ficavam observando sua luta com o dever de casa. Beth sorria e comentava:

— É a nossa vingança por nos obrigar a aprender a tabuada de multiplicação.

 

James Stickley comunicou:

— Quero apresentá-la a seu adido militar, senhora em­baixadora. Este é o coronel William McKinney.

Bil McKinney estava à paisana, mas seu porte militar era como um uniforme. Era um homem alto, de meia-idade, o rosto vincado.

— Senhora embaixadora.

A voz era rude e meio rouca, como se a garganta esti­vesse machucada.

— Prazer em conhecê-lo — disse Mary.

O coronel McKinney era o primeiro membro de sua equipe, e conhecê-lo deixou Mary excitada. Parecia tornar bem mais próximo o seu novo posto.

— Estou ansioso em trabalhar ao seu lado na Romê­nia — disse o coronel McKinney.

— Já esteve na Romênia antes?

O coronel e James Stickley trocaram um olhar.

— Ele já esteve lá antes — respondeu Stickley.

Todas as tardes de segunda-feira eram realizadas sessões di­plomáticas para os novos embaixadores, numa sala de con­ferências no oitavo andar do Departamento de Estado.

— Temos uma rigorosa cadeia de comando no servi­ço diplomático — disse o instrutor. — No topo, está o em­baixador. Abaixo dele [abaixo dela, pensou Mary automaticamente], está o subchefe da missão. Abaixo dele [abaixo dela], estão os representantes consulares político, econômico, administrativo e de assuntos públicos. Há ain­da o adido agrícola, o comercial e o militar. [Esse é o coro­nel McKinney, pensou Mary.] Quando estiverem em seus novos postos, gozarão de imunidade diplomática. Não po­dem ser presos por avançar um sinal, guiar embriagado, queimar uma casa ou até por assassinar alguém. Quando morrerem, ninguém pode tocar no corpo ou examinar qual­quer bilhete que tenham deixado. Não precisam pagar suas contas... as lojas não podem processá-los.

Alguém da turma gritou:

— Não deixem minha mulher saber disso!

— Lembrem-se sempre de que o embaixador é o re­presentante pessoal do presidente junto ao país a que está credenciado. Espera-se que se comportem de acordo. — O instrutor olhou para o relógio. — Antes de nossa próxima sessão, sugiro que estudem o Manual do serviço diplomáti­co, volume dois, seção trezentos, que versa sobre os rela­cionamentos pessoais. Obrigado.

 

Mary e Stanton Rogers estavam almoçando no Watergate Hotel.

— O presidente Ellison gostaria que fizesse um traba­lho de relações públicas para ele — disse Rogers.

— Que espécie de trabalho?

— Vamos fazer uma campanha nacional. Entrevistas com a imprensa, depoimentos no rádio e televisão...

— Se isso é importante, tentarei fazer o melhor possível.

— Ótimo. Teremos de providenciar um novo guarda-roupa. Você não pode se apresentar com o mesmo vestido duas vezes.

— Isso custaria uma fortuna, Stan. Além do mais, não tenho tempo para fazer compras. Estou ocupada do início da manhã ao final da noite. Se...

— Não há problema. Helen Moody.

— Como?

— Ela é uma das melhores compradoras profissionais de Washington. Deixe tudo aos seus cuidados.

 

Helen Moody era uma negra atraente e extrovertida, que fora modelo de sucesso antes de iniciar o seu serviço de com­pras pessoais. Apareceu na suíte de Mary no hotel uma ma­nhã e passou uma hora examinando seu guarda-roupa.

— Muito bom para Junction City — disse ela, com to­da a franqueza. — Só que precisamos agora conquistar Was­hington. Certo?

— Não tenho muito dinheiro para... Helen Moody sorriu.

— Sei onde se pode encontrar bons negócios. E tere­mos de providenciar tudo depressa. Vai precisar de um longo a rigor, um vestido de coquetel e recepções noturnas, um vestido para chás vespertinos e almoços, um costume para sair na rua ou usar no escritório, um vestido preto e um chapéu apropriado para funerais e lutos oficiais.

 

As compras se prolongaram por três dias. Quando acaba­ram, Helen Moody estudou Mary Ashley e declarou:

— Você é uma mulher bonita, mas acho que podemos melhorá-la ainda mais. Quero que procure Susan no Rain-bow para a maquilagem e depois eu a mandarei ao Billy no Sunshine para cuidar dos cabelos.

Poucas noites depois Mary encontrou com Stanton Rogers num jantar formal oferecido na Corcoran Gallery. Ele contemplou-a e sorriu.

— Você está absolutamente deslumbrante.

 

A blitz dos meios de comunicação começou. Foi comanda­da por Ian Villiers, assessor de imprensa do Departamento de Estado. Villiers tinha quarenta e tantos anos e era um dinâmico ex-jornalista que parecia conhecer todo mundo nos meios de comunicação.

Mary descobriu-se na frente das câmaras de Good mor­ning, America, Meet the press e Firing line. Foi entrevista por The Washington Post, The New York Times e meia dú­zia de outros importantes jornais diários. Concedeu entre­vistas ainda ao London Times, Der Spiegel, Oggi e Le Monde. As revistas Time e People apresentaram reporta­gens sobre ela e os filhos. A fotografia de Mary Ashley pa­recia estar em toda parte. Sempre que acontecia alguma coisa que era notícia no outro lado do mundo, alguém da imprensa pedia seus comentários a respeito. Da noite para o dia, Mary Ashley e os filhos tornaram-se celebridades. Tim comentou:

— Mamãe, é fantástico ver as nossas fotografias nas capas de todas as revistas.

— Fantástico é mesmo a palavra — concordou Mary. Mas ela se sentia constrangida com toda a publicida­de, e falou a respeito com Stanton Rogers.

— Considere como uma parte de seu cargo. O presi­dente está tentando criar uma imagem. Quando você che­gar na Europa, todo mundo saberá quem você é.

 

Ben Cohn e Akiko estavam na cama, nus. Akiko era uma adorável japonesa, dez anos mais moça do que o repórter. Haviam se conhecido alguns anos antes, quando ele fazia uma matéria sobre modelos, e estavam juntos desde então. Cohn estava com um problema.

— O que há com você, meu bem? — indagou Akiko, suavemente. — Quer que eu trabalhe nele mais um pouco?

Os pensamentos de Cohn estavam longe dali.

— Não precisa. Já estou com o maior tesão.

— Não estou vendo — zombou Akiko.

— É na minha mente, Akiko. Estou com tesão por uma história. Há alguma coisa esquisita acontecendo nesta cidade.

— E qual é a novidade nisso?

— Agora é diferente. E não consigo entender.

— Quer falar sobre isso?

— É Mary Ashley. Eu a vi nas capas de seis revistas nas duas últimas semanas e ela ainda nem assumiu o pos­to! Akiko, alguém está dando uma projeção de estrela de cinema à senhora Ashley. E os dois filhos aparecem em to­dos os jornais e revistas. Por quê?

— E eu é que deveria ter a tortuosa mente oriental. Acho que você está complicando o que é muito simples.

Ben Cohn acendeu um cigarro e deu uma tragada furiosa.

— Talvez você tenha razão, Akiko. Ela se inclinou e acariciou-o.

— Que tal apagar esse cigarro e me acender...?

 

— Está havendo uma festa em homenagem ao vice-presidente Bradford — Stanton Rogers informou a Mary.

— Providenciei para que você fosse convidada. Será na noite de sexta-feira, na União Pan-Americana.

 

A União Pan-Americana era um prédio grande e sóbrio, com um enorme pátio, usado com freqüência para funções diplomáticas. O jantar para o vice-presidente foi requinta­do, com pratarias antigas e reluzentes copos de cristal Baccarat nas mesas. Havia uma pequena orquestra. A lista de convidados era formada pela elite da capital americana.

Além do vice-presidente e esposa, lá estavam senadores, em­baixadores e celebridades de todos os setores da vida.

Mary correu os olhos pela fascinante reunião. Devo me lembrar de tudo, a fim de contar a Beth e Tim, pensou.

 

Quando o jantar foi anunciado, Mary descobriu-se a uma mesa com uma interessante mistura de senadores, altos fun­cionários do Departamento de Estado e diplomatas. As pes­soas eram encantadoras, e o jantar estava excelente.

Às onze horas, Mary olhou para o relógio e disse ao senador à sua direita:

— Não sabia que já era tão tarde. Prometi às crian­ças que voltaria cedo.

Ela se levantou e acenou com a cabeça para as pessoas sentadas à sua mesa.

— Foi maravilhoso conhecer todos vocês. Boa noite. Houve um silêncio aturdido, e todos no vasto salão de

banquete se viraram para observar Mary atravessar a pista de dança e sair.

— Oh, Deus! — murmurou Stanton Rogers. — Nin­guém avisou a ela!

 

Stanton Rogers foi tomar o café da manhã com Mary na manhã seguinte.

— Mary, esta é uma cidade que leva as regras muito a sério. Muitas são estúpidas, mas temos de viver de acor­do com elas.

— Mas o que foi que eu fiz? Ele suspirou.

— Você violou a regra número um: Ninguém, abso­lutamente ninguém, jamais se retira de uma festa antes do convidado de honra. E ontem à noite o convidado de hon­ra era o vice-presidente dos Estados Unidos.

— Meu Deus!

— Metade dos telefones de Washington está tocando sem parar.

— Sinto muito, Stan. Eu não sabia. De qualquer for­ma, prometi às crianças...

— Não há crianças em Washington... apenas jovens eleitores. Esta cidade funciona em torno do poder. Jamais se esqueça disso.

 

O dinheiro estava se tornando um problema. As despesas eram enormes. O preço de tudo em Washington parecia a Mary um absurdo. Ela entregou ao serviço do hotel algu­mas roupas para lavar e passar e ficou chocada quando re­cebeu as notas.

— Cinco dólares e meio para lavar uma blusa! — ex­clamou. — E um dólar e 95 por um sutiã!

Nunca mais, prometeu a si mesma. Daqui por diante, lavarei minhas roupas pessoalmente.

Ela encharcava a meia-calça em água fria e depois co­locava no congelador. Durava muito mais assim. Lavava as meias, lenços e roupas de baixo das crianças, assim co­mo seus sutiãs, na pia do banheiro. Abria os lenços no es­pelho para secar e depois dobrava com todo cuidado, a fim de não precisar passar. Fazia uma lavagem a vapor de seus vestidos e das calças de Tim pendurando-os no ferro da cor­tina do chuveiro, abrindo a água quente ao máximo e fe­chando a porta do banheiro. Uma manhã, quando abriu a porta do banheiro, Beth foi envolvida por uma nuvem de vapor.

— O que está fazendo, mamãe?

— Poupando dinheiro — respondeu Mary, altiva. — A lavanderia cobra uma fortuna.

— E se o presidente entrasse aqui neste momento? O que ele acharia? Pensaria que somos caipiras.

— O presidente não vai entrar. E feche a porta do ba­nheiro, por favor. Está desperdiçando dinheiro.

Caipiras coisa nenhuma! Se o presidente entrasse e visse o que ela estava fazendo, certamente ficaria orgulhoso de sua iniciativa. Ela mostraria os preços da lavanderia do hotel e explicaria como estava poupando dinheiro com um pou­co da engenhosidade ianque. Ele ficaria impressionado. "Se mais pessoas no governo tivessem a sua imaginação, senhora embaixadora, a economia deste país estaria em condições muito melhores. Perdemos o espírito pioneiro que tornou este país grande. Nosso povo se tornou mole. Confiamos demais nos aparelhos eletrodomésticos que ganham tempo e não o suficiente em nós mesmos. Eu gostaria de usá-la como um exemplo extraordinário para alguns dos perdulá­rios de Washington que pensam que este pais é feito de di­nheiro. Poderia ensinar a todos uma boa lição. Para dizer a verdade, tenho uma idéia maravilhosa. Mary Ashley, vou nomeá-la secretária do Tesouro."

O vapor estava saindo por baixo da porta do banhei­ro. Ainda sonhando, Mary abriu-a. Uma nuvem de vapor invadiu a sala. A campainha da porta soou neste momen­to. Um instante depois, Beth informou:

— Mamãe, James Stickley está aqui para falar com você.

 

— Tudo parece cada vez mais estranho — comentou Ben Cohn.

Ele estava sentado na cama, nu, tendo ao lado a jo­vem amante, Akiko Hadaka. Assistiam a Mary Ashley na televisão, no programa Meet the press. A nova embaixa­dora na Romênia dizia:

— Creio que a China continental está se encaminhan­do para uma sociedade comunista mais humana e indivi­dualista através da incorporação de Hong Kong e Macau.

— Mas que porra essa mulher sabe sobre a China? — Ben Cohn virou-se para Akiko. — Está olhando para uma dona-de-casa do Kansas que se tornou profunda conhece-dora de tudo da noite para o dia.

— Ela parece muito inteligente — comentou Akiko.

— Isso não tem a menor importância. Cada vez que ela dá uma entrevista, os repórteres vão à loucura. É como um frenesi trabalhado. Como ela conseguiu se apresentar em Meet the press? Vou explicar. Alguém decidiu que Mary Ashley tinha de se tornar uma celebridade. Quem? Por quê? Charles Lindbergh nunca teve essa projeção.

— Quem é Charles Lindbergh? Ben Cohn suspirou.

— Esse é o problema do abismo entre as gerações. Não há comunicação.

Akiko sugeriu, insinuante:

— Há outros meios de se comunicar.

Ela o fez deitar na cama, gentilmente, e postou-se por cima. Desceu devagar pelo corpo de Cohn, os cabelos com­pridos e sedosos roçando-lhe pelo peito, barriga e virilha. Observou-o ficar duro. Acariciou-o e murmurou:

— Olá, Arthur.

— Arthur quer entrar em você.

— Ainda não. Voltarei para ele.

Ela levantou-se e foi até a cozinha. Ben Cohn observou-a por um instante e depois tornou a olhar para a televisão. E pensou: Essa mulher me deixa invocado. Há muito mais por trás do que os olhos podem ver, mas juro que ainda vou descobrir tudo.

— Akiko! — gritou ele. — O que está fazendo? Arthur já está começando a dormir!

— Diga a ele para esperar. Já estou voltando. Pouco minutos depois ela apareceu com um prato cheio

de sorvete, creme e uma cereja.

— Pelo amor de Deus! — protestou Cohn. — Não es­tou com fome, mas sim com tesão!

— Deite-se.

Ela pôs uma toalha por baixo, tirou sorvete do prato e começou a espalhar em torno dos testículos.

— Ei, está frio!

— Fique quieto.

Akiko pôs o creme por cima do sorvete e depois en­fiou o pênis na boca, até ele endurecer.

— Ahn... não pare... — gemeu Ben Cohn. Akiko pôs a cereja em cima do pênis, agora completa­mente rígido.

— Adoro banana split — sussurrou ela.

E começou a comê-lo. Ben experimentou uma mistura incrível de sensações, todas maravilhosas. Quando não pô­de mais agüentar, virou Akiko e penetrou-a. Na televisão, Mary Ashley estava dizendo:

— Uma das melhores maneiras de evitar a guerra com os países que se opõem à ideologia americana é aumentar nosso comércio com eles...

 

Mais tarde, naquela noite, Ben Cohn telefonou para Ian Villiers.

— Oi, Ian.

— Benjie, meu garoto... o que posso fazer por você?

— Preciso de um favor.

— Pode falar e será atendido.

— Ouvi dizer que está como assessor de imprensa da nossa nova embaixadora na Romênia.

Uma reação cautelosa:

— E daí?

— Quem está por trás de toda essa projeção, Ian? Es­tou interessado em...

— Sinto muito, Ben. Isso é assunto do Departamento de Estado. Sou apenas um contratado. Se quiser saber al­guma coisa, pode mandar um questionário para o secretá­rio de Estado.

Desligando, Ben comentou:

— Por que ele simplesmente não me mandou à mer­da? — Cohn tomou uma decisão. — Acho que vou passar alguns dias fora da cidade.

— Para onde vai, meu bem?

— Junction City, Kansas.

 

No final das contas, Ben Cohn passou apenas um dia em Junction City. Levou uma hora conversando com o xerife Munster e um dos seus assistentes, depois seguiu num carro alugado para o Forte Riley, onde visitou o gabinete do DIC. Pegou um avião no fim da tarde para Manhattan, Kansas, onde embarcou em outro avião.

No momento em que o avião de Ben Cohn levantava vôo, houve um telefonema pessoal do Forte Riley para um número em Washington.

 

Mary Ashley avançava por um corredor comprido do Ins­tituto de Serviço Diplomático, a caminho de uma reunião com James Stickley, quando ouviu uma voz masculina di­zer às suas costas:

— Ora, ora, isso é o que eu chamo de um dez perfeito! Mary virou-se. Um estranho alto estava encostado na

parede, fitando-a, com um sorriso insolente. Tinha uma apa­rência rude, vestia jeans, camisa de malha e alpargatas; dava a impressão de estar precisando tomar um banho e fazer a barba. Havia rugas em torno da boca e os olhos eram de um azul-brilhante, zombeteiros. E tinha um ar de arrogân­cia irritante. Mary virou-se e afastou-se, furiosa, conscien­te de que os olhos do estranho a acompanhavam.

 

A reunião com James Stickley durou mais de uma hora. Quando Mary voltou à sala que lhe fora destinada, encon­trou o estranho sentado em sua cadeira, os pés em cima da mesa, examinando seus papéis. Sentiu o sangue subindo-lhe ao rosto.

— O que está fazendo aqui?

O homem lançou-lhe um olhar longo e indolente e levantou-se devagar.

— Sou Mike Slade. Meus amigos me chamam de Michael.

Ela disse friamente:

— Em que posso ajudá-lo, senhor Slade?

— Na verdade, em nada — respondeu o homem, jovial. — Somos vizinhos. Trabalho aqui, no departamento, por isso pensei em aparecer para lhe dar um alô.

— Já deu. E se trabalha mesmo no departamento, pre­sumo que tem sua mesa. Assim, no futuro, não precisa sen­tar à minha mesa e bisbilhotar.

— Ei, mas que temperamento explosivo! Sempre ou­vi dizer que os kansianos, ou como quer que vocês se cha­mem, eram pessoas cordiais.

Mary rangeu os dentes.

— Senhor Slade, dou-lhe dois segundos para sair de minha sala antes de eu chamar um guarda.

— Devo ter ouvido mal — murmurou ele para sí mesmo.

— E se realmente trabalha neste departamento, sugi­ro que vá para casa, faça a barba e ponha roupas mais apro­priadas.

— Eu tinha uma esposa que falava assim. — Mike Sla­de suspirou. — Não tenho mais.

Mary sentiu que seu rosto ficava vermelho.

— Saia!

Ele lhe acenou com a mão.

— Até a vista, meu bem. Voltarei a vê-la. De jeito nenhum, pensou Mary. Você, não.

 

A manhã inteira foi uma sucessão de experiências desagra­dáveis. James Stickiey estava abertamente hostil. Ao meio-dia Mary estava transtornada demais para comer. Decidiu passar a hora do almoço passeando por Washington, des­carregando a raiva do organismo.

Sua limusine estava encostada no meio-fio, na frente do Instituto do Serviço Diplomático.

— Bom dia, senhora embaixadora — cumprimentou o motorista. — Para onde deseja ir?

— Para qualquer lugar, Marvin. Quero apenas dar uma volta.

— Pois não, senhora. — O carro partiu suavemente. — Gostaria de ver a área das embaixadas?

— Está bem.

Qualquer coisa servia para tirar de sua boca o gosto amargo daquela manhã. O carro virou à esquerda na es­quina e seguiu pela Massachusetts Avenue.

— Começa aqui — informou Marvin, entrando numa rua larga.

Ele diminuiu a velocidade e começou a indicar as di­versas embaixadas. Mary reconheceu a embaixada japone­sa por causa da bandeira do sol nascente na frente. A embaixada indiana tinha um elefante por sobre a porta.

Passaram por uma linda mesquita islâmica. Havia pes­soas no pátio da frente, ajoelhadas em oração.

Chegaram à esquina da rua 23 e passaram por um pré­dio branco de pedra, com colunas nos lados dos três degraus.

— Aquela é a embaixada romena — disse Marvin. — Ao lado fica...

— Pare, por favor!

A limusine encostou no meio-fio. Mary olhou pela ja­nela do carro para uma placa na fachada do prédio. Dizia: EMBAIXADA DA REPÚBLICA SOCIALISTA DA ROMÊNIA.

Num súbito impulso, ela disse:

— Espere aqui. Vou entrar.

Seu coração batia mais depressa. Aquele seria o seu pri­meiro contato real com o país sobre o qual vinham lhe en­sinando tanta coisa — o país que seria seu lar durante os próximos anos.

Ela respirou fundo e apertou a campainha da porta. Silêncio. Experimentou a porta. Não estava trancada. Abriu-a e entrou. O vestíbulo estava escuro e frio. Havia um sofá vermelho numa reentrância na parede e ao lado duas ca­deiras, na frente de um pequeno aparelho de televisão, Ela ouviu passos e virou-se. Um homem alto e magro descia apressadamente os degraus.

— O que deseja? — gritou ele. Mary exibiu um sorriso radiante.

— Bom dia. Sou Mary Ashley. Sou a nova embaixa­dora na Ro...

O homem bateu com a mão no próprio rosto.

— Oh, não!

Ela ficou aturdida.

— Qual é o problema?

— O problema é que não a estávamos esperando, se­nhora embaixadora.

— Sei disso. Eu estava passando de carro e resolvi...

— O embaixador Corbescue vai ficar profundamente transtornado!

— Transtornado? Mas por quê? Apenas pensei em apresentar meus cumprimentos e...

— Claro, claro. Perdoe-me. Meu nome é Gabriel Stoica. Sou o subchefe da missão. Por favor, deixe-me acender as luzes e ligar o aquecimento. Não estávamos esperando visitas, como pode perceber. Absolutamente ninguém.

Ele estava num pânico tão óbvio que a única coisa que Mary queria fazer era ir embora. Só que já era tarde de­mais. Observou Gabriel Stoica correr de um lado para ou­tro, acendendo as luzes do teto e abajures, até que o vestíbulo ficou intensamente iluminado.

— Levará alguns minutos para o aquecimento funcio­nar — desculpou-se ele. — Tentamos economizar combus­tível sempre que possível. Washington é uma cidade muito cara.

Mary tinha vontade de desaparecer no chão.

— Se eu soubesse...

— Não, não! Não é nada, não é nada! O embaixador está lá em cima. Vou informá-lo de que se encontra aqui.

— Não precisa se incomodar...

Stoica já estava subindo a escada, correndo.

Ele voltou cinco minutos depois.

— Acompanhe-me, por favor. O embaixador está mui­to satisfeito com sua presença aqui. Encantado.

— Tem certeza que...

— Ele está à sua espera.

Stoica escoltou Mary ao segundo andar. No alto da es­cada havia uma sala de reuniões, com quatorze cadeiras em torno de uma mesa comprida. Encostado numa parede es­tava um armário com portas de vidro, em que se viam arte­fatos e esculturas romenos. Na parede havia um mapa em alto-relevo da Romênia. Por cima da lareira se destacava a bandeira romena. Adiantando-se para cumprimentá-la, ela viu o embaixador Radu Corbescue, em mangas de ca­misa, vestindo apressado um paletó. Era um homem alto e corpulento, de pele escura. Um criado acendia as luzes e ligava o aquecimento.

 

Senhora embaixadora! — exclamou Corbescue. — Que hon­ra inesperada! Perdoe-nos por recebê-la de maneira tão in­formal. O Departamento de Estado não nos avisou de sua visita.

— A culpa é minha — murmurou Mary. — Eu estava passando e...

— É um prazer conhecê-la! Um prazer! Já a vimos muito na televisão, jornais e revistas. E estamos muito cu­riosos sobre a nova embaixadora em nosso país. Aceita um chá?

— Eu... ahn... se não for muito incômodo.

— Incômodo? Mas claro que não! Peço desculpas por não termos preparado um almoço formal. Perdoe-me! Es­tou tão embaraçado!

Eu é que estou embaraçada, pensou Mary. O que me levou a cometer esta loucura? Ah, como fui estúpida! Não vou contar nem às crianças. Será um segredo que levarei para o túmulo.

Quando o chá foi servido, o embaixador romeno esta­va tão nervoso que o derramou.

— Como sou desajeitado! Perdoe-me!

Mary gostaria que ele parasse de pedir perdão.

O embaixador tentou uma conversa amena, mas só ser­viu para piorar a situação. Era óbvio que ele estava total­mente contrafeito. Assim que pôde, Mary levantou-se.

— Muito obrigada, Excelência. Foi ótimo conhecê-lo. Adeus.

E tratou de fugir.

Quando Mary Ashley voltou ao escritório, James Stick­ley mandou chamá-la imediatamente.

— Senhora Ashley — disse ele friamente — pode me explicar exatamente o que pensava que estava fazendo?

Acho que não será um segredo que levarei para o tú­mulo, concluiu Mary.

— Está falando da embaixada romena? Eu... eu ape­nas pensei em aproveitar que estava passando por lá para cumprimentar e...

— Isto não é uma reunião de comadres em sua terra — protestou Stickley em tom ríspido. — Em Washington ninguém aproveita para uma visita só porque está passan­do por uma embaixada. Um embaixador só visita outro em­baixador a convite. Deixou Corbescue embaraçado e furioso. Precisei conversar muito com ele para dissuadi-lo de apre­sentar um protesto formal ao Departamento de Estado. Ele acha que você foi lá para espioná-lo e pegá-lo desprevenido.

— Como? Mas tudo o que...

— Procure se lembrar que não é mais uma cidadã par­ticular... é agora uma representante do governo dos Esta­dos Unidos. Da próxima vez em que tiver um impulso menos pessoal do que escovar os dentes, verifique comigo primei­ro. Falei claro... falei bem claro?

Mary engoliu em seco.

— Está certo.

— Ótimo. — Ele pegou o telefone e discou um núme­ro. — A senhora Ashley está comigo agora. Gostaria de vir até aqui? Certo.

Ele desligou. Mary continuou sentada em silêncio, sentindo-se uma garotinha que estava sendo repreendida. A porta foi aberta e Mike Slade entrou. Ele olhou para Mary e sorriu.

— Oi. Aceitei seu conselho e fiz a barba. Stickley olhou de um para outro.

— Vocês já foram apresentados? Mary olhava furiosa para Slade.

— Não é bem assim. Encontrei-o bisbilhotando em mi­nha mesa.

James Stickley disse:

— Senhora Ashley, Mike Slade. O senhor Slade será o subchefe da missão.

Mary ficou aturdida.

— Como?

— O senhor Slade é da seção do Leste europeu. Ge­ralmente trabalha fora de Washington, mas foi decidido destacá-lo para a Romênia como o seu subchefe.

Ela se levantou da cadeira de um pulo.

— Não! Isso é inadmissível! Mike sugeriu suavemente:

— Prometo fazer a barba todos os dias. Ela virou-se para Stickley.

— Pensei que uma embaixadora tinha permissão pa­ra escolher seu subchefe da missão.

— Isso é correto, mas...

— Então estou desescolhendo o senhor Slade. Não o quero.

— Em circunstâncias normais, seria um direito seu, mas não neste caso. Lamento, mas não tem opção. A or­dem veio da Casa Branca.

Mary tinha a impressão de que não conseguia evitar Mike Slade. O homem estava em toda parte. Encontrou-o no Pen­tágono, no restaurante do Senado, nos corredores do De­partamento de Estado. Estava sempre vestido de jeans e camiseta ou de roupa esporte. Ela se perguntava como ele podia andar assim num ambiente tão formal.

Um dia ela o viu almoçando com o coronel McKinney. Os dois estavam empenhados numa animada conversa. Ima­ginou até que ponto os dois seriam íntimos. Seria possível serem velhos amigos? E estarão planejando um complô con­tra mim? Acho que estou ficando paranóica, disse Mary a sí mesma. E ainda nem fui para a Romênia.

Charlie Campbell, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, ofereceu uma festa em homenagem a Mary na Corcoran Gallery. Quando chegou e viu todas as mulheres vestidas na maior elegância, Mary pensou: Nem sequer pertenço a este lugar. Todas elas parecem que já nas­ceram chiques.

Ela não tinha idéia de como estava atraente.

Havia mais de uma dúzia de fotógrafos presentes, e Mary foi a mulher mais fotografada. Dançou com meia dú­zia de homens, alguns casados e outros não, e quase todos pediram seu telefone. Não se sentiu ofendida nem inte­ressada.

— Sinto muito — disse a todos —, mas meu trabalho e minha família me mantêm muito ocupada para sair.

A idéia da companhia de outro homem que não Ed-ward era inconcebível. Nunca poderia haver outro homem para ela.

 

Ela sentou a uma mesa com Charlie Campbell e a esposa e diversas pessoas do Departamento de Estado. A conver­sa recaiu em anedotas de embaixadores.

— Há poucos anos, em Madri — recordou um dos con­vidados —, centenas de estudantes amotinados estavam clamando pela devolução de Gibraltar em frente à embaixada britânica. Quando pareciam prestes a invadir o prédio, um dos ministros do general Franco telefonou. "Sinto-me pro­fundamente embaraçado com o que está acontecendo em sua embaixada," disse ele. "Devo mandar mais guardas?" Ao que o embaixador respondeu: "Não preciso. Basta man­dar menos estudantes." Alguém perguntou:

— Não era Hermes que os antigos gregos considera­vam o patrono dos embaixadores?

— Isso mesmo. E era também o protetor dos vagabun­dos, ladrões e mentirosos.

Mary estava gostando muito da noite. As pessoas eram inteligentes, espirituosas e interessantes. Poderia passar a noite inteira ali. O homem ao seu lado indagou:

— Não precisa levantar cedo para suas reuniões amanhã?

— Não — respondeu Mary. — É domingo. Posso dor­mir até tarde.

Pouco depois, uma mulher bocejou.

— Desculpem, mas tive um dia comprido.

— Eu também — comentou Mary, jovialmente. Teve a impressão de que o salão estava anormalmente

quieto. Olhou ao redor e todos pareciam observá-la. Mas o quê...? Olhou para o relógio. Eram duas e meia da ma­drugada. E com o maior horror ela se lembrou de repente de uma coisa que Stanton Rogers lhe dissera: Numa festa, o convidado de honra é sempre a primeira pessoa a se retirar. E ela era a convidada de honra. Deus do céu!, pensou Mary. Estou mantendo todo mundo acordado. Levantou-se e disse, a voz sufocada:

— Boa noite para todos. Foi uma noite maravilhosa. Virou-se e foi embora, apressada, ouvindo às suas cos­tas os outros convidados se levantando para partirem.

Na manhã de segunda-feira ela encontrou com Mike Slade à entrada do Instituto. Ele sorriu e comentou:

— Soube que você manteve a metade de Washington acordada na noite de sábado.

O ar arrogante de Slade deixou-a furiosa.

Ela passou por ele e foi para a sala de James Stickley.

— Senhor Stickley, creio que os melhores interesses de nossa embaixada na Romênia não seriam atendidos se o se­nhor Slade e eu tentássemos trabalhar juntos.

Ele levantou os olhos do documento que estava lendo.

— É mesmo? E qual é o problema?

— É... é a atitude dele. Considero o senhor Slade gros­seiro e arrogante. Para ser franca, não gosto dele.

— Sei que Mike tem suas pequenas idiossincrasias, mas...

— Idiossincrasias? Isso é demais! Estou pedindo ofi­cialmente que mande outra pessoa em seu lugar.

— Já acabou?

— Já.

— Senhora Ashley, Mike Slade por acaso é o nosso melhor perito em ação nos assuntos da Europa Central. Sua função é fazer amizade com os locais. A minha é providen­ciar para que receba toda ajuda possível. E isso significa Mike Slade. Não quero mais ouvir falar sobre isso. Estou sendo bem claro?

Não adianta, pensou Mary. Não adianta mesmo.

Ela voltou à sua sala, frustrada e furiosa. Eu poderia falar com Stan, pensou ela. Ele compreenderia. Mas seria uma demonstração de fraqueza. Terei de cuidar pessoalmen­te de Mike Slade.

— Sonhando?

Mary levantou os olhos, surpresa. Mike Slade estava parado na frente de sua mesa, segurando uma pilha de me­morandos.

— Isto a manterá longe de encrencas esta noite — disse ele, pondo os memorandos em cima da mesa.

— Bata na próxima vez em que quiser entrar na mi­nha sala.

Os olhos de Slade tinham uma expressão zombeteira.

— Por que tenho a impressão de que você não é louca por mim?

Mary sentiu que sua raiva tornava a aflorar.

— Vou explicar por quê, senhor Slade. Porque o acho arrogante, impertinente, presunçoso...

Ele levantou um dedo.

— Está sendo tautológica.

— Não se atreva a zombar de mim!

Mary descobriu que estava gritando. Ele baixou a voz para um nível perigoso.

— Quer dizer que não posso me juntar aos outros? O que acha que todos em Washington estão comentando a seu respeito?

— Não me importo com o que os outros falam.

— Mas deveria. — Slade inclinou-se por cima da me­sa. — Todos estão perguntando que direito você tem de ocu­par uma embaixada. Passei quatro anos na Romênia. É uma banana de dinamite prestes a explodir, e o governo está man­dando uma estúpida garota do interior para enfrentar a si­tuação.

Mary continuou sentada, em silêncio, escutando e ran­gendo os dentes.

— Não passa de uma amadora, senhora Ashley. E se alguém quisesse homenageá-la, deveria fazê-la embaixado­ra no Pólo Norte.

Mary perdeu o controle. Levantou-se de um pulo e deu-lhe um tapa. Mike Slade suspirou.

— Você nunca fica sem resposta, hem?

 

O convite dizia: "O Embaixador da República Socialista da Romênia solicita sua presença para coquetéis e jantar na Embaixada, rua 23, 1607, N.W., às 7,30 da noite, traje rigor, RSVP 555-6593."

Mary pensou na última vez que visitara a embaixada e como bancara a tola. Isso nunca mais tornará a aconte­cer. Pertence ao passado. Sou parte do cenário de Washing­ton agora.

Vestiu uma de suas roupas novas, um vestido preto de veludo, decotado, as mangas compridas. Usou sapatos pre­tos de salto alto e um colar de pérolas simples. Beth co­mentou:

— Está mais linda do que a Madonna. Mary abraçou-a.

— Estou irresistível. Vocês dois jantem no restauran­te lá embaixo e depois podem subir para assistir televisão. Voltarei cedo para casa. Amanhã vamos todos visitar a ca­sa do presidente Washington em Mount Vernon.

— Divirta-se, mamãe.

O telefone tocou. Era da recepção.

— Senhora embaixadora, o senhor Stickley está à sua espera no saguão.

Eu gostaria de poder ir sozinha, pensou Mary. Não pre­ciso dele ou de qualquer outra pessoa para me manter fora de encrenca.

 

A embaixada romena parecia completamente diferente da última vez em que Mary a vira. Havia um ar festivo que faltava em sua primeira visita. Foram recebidos na porta por Gabriel Stoica, o subchefe da missão.

— Boa noite, senhor Stickley. É um prazer vê-lo. James Stickley acenou com a cabeça na direção de

Mary.

— Posso apresentá-la a nossa nova embaixadora em seu país?

Não houve qualquer sinal de reconhecimento no rosto de Stoica.

— É um prazer conhecê-la, senhora embaixadora. Acompanhem-me, por favor.

Enquanto atravessavam o vestíbulo, Mary notou que todos os aposentos estavam bem iluminados e aquecidos. Podia ouvir os acordes de uma pequena orquestra soando lá em cima. Havia vasos com flores por toda parte.

O embaixador Corbescue conversava com algumas pes­soas quando viu James Stickley e Mary Ashley se apro­ximarem.

— Boa noite, senhor Stickley.

— Boa noite, embaixador. Posso apresentar-lhe a em­baixadora dos Estados Unidos na Romênia?

Corbescue olhou para Mary e disse, em tom impassível:

— Estou feliz em conhecê-la.

Mary ficou esperando por um brilho nos olhos. Não houve.

Havia uma centena de pessoas no jantar. Os homens esta­vam a rigor e as mulheres usavam lindos vestidos Givenchy e Oscar de la Renta. A mesa grande que Mary vira lá em cima, na visita anterior, fora aumentada por meia dúzia de mesas menores ao redor. Criados de libré circulavam pela sala com bandejas de champanha.

— Não quer tomar um drinque? — perguntou Stickley.

— Não, obrigada — respondeu Mary. — Não bebo.

— É mesmo? É uma pena. Ela fitou-o, perplexa.

— Por quê?

— Porque faz parte do cargo. Haverá brindes em to­dos os jantares diplomáticos a que comparecer. Se não be­ber, ofenderá o anfitrião. Precisa tomar um gole de vez em quando.

— Não me esquecerei.

Mary correu os olhos pela sala e lá estava Mike Slade. Por um momento, não o reconheceu. Ele estava de smo­king, e Mary teve de admitir que naqueles trajes ele não era um homem desgracioso. Enlaçava uma loura sensual, cujo vestido parecia prestes a cair. Uma mulher vulgar, pensou Mary. Típica do seu gosto. Quantas mulheres estarão à sua espera em Bucareste?

Mary lembrou-se das palavras de Mike: Não passa de uma amadora, senhora Ashley. Se alguém quisesse homenageá-la, deveria fazê-la embaixadora no Pólo Nor­te. Filho da mãe!

Enquanto Mary observava, o coronel McKinney, em uniforme de gala, aproximou-se de Mike. Ele pediu licença à loura e foi para um canto com o coronel. Terei de tomar cuidado com os dois, pensou Mary. Um criado estava pas­sando com champanha.

— Acho que vou tomar uma taça — disse Mary. James Stickley observou-a tomar o champanha e de­pois disse:

— Muito bem. Está na hora de começar a trabalhar a sala.

— Trabalhar a sala?

— Muitos negócios são acertados nestas festas. É por isso que as embaixadas as oferecem.

 

Mary passou a hora seguinte sendo apresentada a embai­xadores, senadores, governadores e algumas das personali­dades políticas mais poderosas de Washington. A Romênia se tornara um país de destaque, e quase todas as pessoas importantes haviam conseguido um convite para o jantar na embaixada. Mike Slade aproximou-se de James Stick­ley e Mary, com a loura a tiracolo.

— Boa noite — disse ele jovialmente. — Gostaria de apresentá-los a Debbie Dennison. James Stickley e Mary Ashley.

Era uma bofetada deliberada. Mary disse, friamente:

— Sou a embaixadora Ashley. Mike bateu com a mão na testa.

— Desculpe, embaixadora Ashley. O pai da senhorita Dennison também é embaixador. Um diplomata de car­reira, é claro. Serviu em meia dúzia de países nos últimos 25 anos.

Debbie Dennison comentou:

— É uma maneira maravilhosa de crescer. Mike Slade acrescentou:

— Debbie tem circulado muito.

— Não tenho a menor dúvida quanto a isso — arre­matou Mary calmamente.

 

Mary rezou para não ficar sentada ao lado de Mike duran­te o jantar, e sua prece foi atendida. Ele foi para outra me­sa, ao lado da loura seminua. Havia uma dúzia de pessoas à mesa de Mary. Alguns rostos eram familiares, já os vira em capas de revistas e na televisão. James Stickley ficou sen­tado em frente a Mary. O homem à esquerda de Mary fala­va uma língua misteriosa, que ela não foi capaz de identificar. À sua direita estava um louro alto e magro, de meia-idade, com um rosto atraente e sensível.

— Fico muito satisfeito por estar ao seu lado no jan­tar — disse ele a Mary. — Sou seu fã ardoroso.

Ele falava com um ligeiro sotaque escandinavo.

— Obrigada.

Mary não pôde deixar de especular: Meu fã por quê? Ainda não fiz nada.

— Sou Olaf Peterson, adido cultural da Suécia.

— Prazer em conhecê-lo, senhor Peterson.

— Já esteve na Suécia?

— Não. Para ser franca, nunca estive em parte alguma. Olaf Peterson sorriu.

— Então muitos lugares serão honrados com a sua visita.

— Talvez um dia eu e as crianças visitemos seu país.

— Quer dizer que tem filhos? Qual é a idade deles?

— Tim está com dez anos e Beth com doze. Vou lhe mostrar as fotos.

Mary abriu a bolsa e tirou as fotos das crianças. No outro lado da mesa, James Stickley sacudia a cabeça em desaprovação. Olaf Peterson examinou os retratos e ex­clamou:

— Mas que lindas crianças! Saíram à mãe.

— Têm os olhos do pai.

Eles costumavam discutir jovialmente sobre com qual dos dois as crianças pareciam.

Beth vai ser uma beldade, como você, dizia Edward. Não sei com quem Tim parece. Tem certeza de que ele é meu?

E a conversa provocante sempre acabava na cama.

Olaf Peterson estava lhe dizendo alguma coisa.

— Como?

— Eu disse que li a notícia da morte de seu marido num acidente de automóvel. Sinto muito. Deve ser bastan­te difícil para uma mulher ficar sozinha, sem um homem.

A voz estava impregnada de simpatia. Mary pegou o copo de vinho à sua frente e tomou um gole. Estava revigorante. Ela esvaziou o copo. Um garçom de luvas bran­cas, pairando por trás dos convidados, tornou a enchê-lo no mesmo instante.

— Quando vai assumir seu posto na Romênia? — in­dagou Peterson.

— Fui informada de que deveremos partir dentro de poucas semanas. — Mary pegou o copo de vinho. — A Bucareste.

Ela bebeu. O vinho era delicioso, e todos sabiam que vinho tinha um baixo teor alcoólico.

Quando o garçom se ofereceu para encher o copo ou­tra vez, Mary acenou com a cabeça, feliz. Correu os olhos pela sala, para todos os convidados tão bem vestidos, fa­lando em uma dúzia de línguas diferentes, e pensou: Não há banquetes assim na velha Junction City. Jamais. O Kan­sas é um lugar sem graça. Já Washington é tão divertido como... tão divertido como o quê? Ela franziu o rosto, pro­curando uma comparação.

— Você está bem? — perguntou Olaf Peterson. Mary apertou-lhe o braço.

— Estou ótima. Gostaria de tomar outro copo de vi­nho, Olaf.

— Pois não.

Ele acenou para o garçom, e o copo de Mary foi en­chido mais uma vez.

— Nunca tomei vinho em casa — revelou Mary, em tom confidencial. Ela tomou um gole e acrescentou: — Para ser franca, nunca bebo nada... a não ser água, é claro.

Suas palavras começavam a engrolar. Olaf Peterson estudava-a, sorrindo. No centro da mesa, o embaixador ro­meno, Corbescue, levantou-se e disse:

— Senhoras e senhores... meus distintos convidados... eu gostaria de propor um brinde.

O ritual começou. Houve brindes a Alexandros Ionescu, o presidente da Romênia. Houve brindes a madame Ale­xandros Ionescu. Houve brindes ao presidente e ao vice-presidente dos Estados Unidos, à bandeira romena e à bandeira americana. Mary tinha a impressão de que eram milhares de brindes. Ela bebeu a cada um. Sou uma em­baixadora, lembrou a sí mesma. É meu dever.

 

No meio dos brindes, o embaixador romeno disse:

— Tenho certeza de que todos gostaríamos de ouvir algumas palavras da encantadora nova embaixadora dos Es­tados Unidos na Romênia.

Mary levantou seu copo e começou a beber ao brinde quando compreendeu subitamente que estava sendo chama­da a falar. Ainda ficou sentada por um instante, depois con­seguiu se levantar. Teve de se apoiar na mesa. Olhou para a multidão e acenou.

— Oi para todos. Estão se divertindo?

Ela nunca se sentira tão feliz em toda a sua vida. To­dos na sala eram amigos. Todos lhe sorriam. Alguns esta­vam até rindo. Ela olhou para James Stickley e sorriu.

— É uma grande festa. Estou feliz por todos terem vin­do. — Ela arriou na cadeira e virou-se para Olaf Peterson. — Puseram alguma coisa em meu vinho.

Ele apertou-lhe a mão.

— Acho que você precisa de um pouco de ar fresco. Está muito abafado aqui.

— Tem razão, está abafado mesmo. Para dizer a ver­dade, estou me sentindo um pouco tonta.

— Deixe-me levá-la para fora.

Ele ajudou-a a se levantar. Mary descobriu, surpresa, que tinha alguma dificuldade para andar. James Stickley estava absorvido numa conversa compenetrada com seu vi­zinho à mesa e não viu Mary se retirar. Ela e Olaf Peterson passaram pela mesa de Mike Slade, que a observava com o rosto franzido, numa expressão de desaprovação.

Ele está com inveja, pensou Mary. Não pediram a ele para fazer um discurso. Ela disse a Peterson:

— Sabe qual é o problema dele, não é? Ele quer ser embaixador. Não suporta que eu tenha sido designada pa­ra o posto.

— De quem está falando?

— Não importa. Ele não tem a menor importância. Os dois saíram para o ar frio da noite. Mary sentia-se

grata pelo apoio do braço de Peterson. Tudo parecia enevoado.

— Tenho uma limusine em algum lugar por aqui — murmurou Mary.

— Vamos despachá-la — sugeriu Olaf Peterson. — Ire­mos para o meu apartamento e tomaremos um drinque.

— Chega de vinho.

— Claro. Apenas um pouco de conhaque para assen­tar seu estômago.

Conhaque. Nos livros, todas as pessoas sofisticadas be-biam conhaque. Conhaque e soda. Era um drinque ao esti­lo Cary Grant.

— Com soda?

— Claro.

Olaf Peterson ajudou Mary a entrar num táxi e deu o endereço ao motorista. Quando pararam, na frente de um enorme prédio de apartamentos, Mary olhou surpresa pa­ra Peterson.

— Onde estamos?

— Em casa.

Ele amparou Mary na saída do táxi, segurando-a quan­do ela começou a cair.

— Estou bêbada? — indagou Mary.

— Claro que não.

— Estou me sentindo meio esquisita.

Peterson levou-a pelo saguão do prédio e apertou o bo­tão, chamando o elevador.

— Um pouco de conhaque dará um jeito em você. Entraram no elevador e ele apertou o botão do andar.

— Sabia que sou uma... uma abstêmia?

— Não, não sabia.

— Pois sou.

Peter acariciava o braço nu de Mary. A porta se abriu e Peterson ajudou Mary a sair do elevador.

— Alguém já disse que seu andar é todo irregular?

— Mandarei consertar — prometeu Peterson.

Ele amparou-a com uma das mãos, enquanto com a outra tirava do bolso a chave do apartamento e abria a por­ta. Entraram. O apartamento estava na semi-escuridão.

— Está escuro aqui — balbuciou Mary. Olaf Peterson abraçou-a.

— Gosto do escuro. Você não gosta? Ela gostava? Não tinha certeza.

— Sabia que é uma linda mulher?

— Obrigada. Você é um lindo homem.

Ele conduziu-a para o sofá e sentou-a. Mary sentia-se completamente tonta. Os lábios de Peterson comprimiram-se contra os seus e ela sentiu uma mão subir por sua coxa.

— O que está fazendo?

— Basta relaxar, querida. Vai ser maravilhoso.

E a sensação era mesmo maravilhosa. As mãos dele eram muito gentis, como as de Edward.

— Ele era um médico maravilhoso — disse Mary.

— Tenho certeza que era.

Peterson comprimiu o corpo contra o dela.

— É a verdade. Sempre que alguém precisava de uma operação, pedia por Edward.

Ela estava estendida no sofá, de costas, mãos suaves haviam levantado o vestido e a acariciavam. As mãos de Edward. Mary fechou os olhos e sentiu os lábios descendo por seu corpo — lábios suaves, uma língua gentil. Edward tinha uma língua tão gentil... Era a felicidade. E ela queria que nunca parasse.

— É tão gostoso, meu querido — murmurou ela. — Por favor, quero que me possua agora.

— É para já!

A voz era rouca. Subitamente áspera. Não era absolu­tamente a voz de Edward.

Mary abriu os olhos e deparou com o rosto de um es­tranho. E gritou, enquanto sentia o homem começar a penetrá-la:

— Não! Pare!

Ela saiu de baixo dele e caiu no chão. Levantou-se cam­baleando. Olaf Peterson fitava-a com expressão aturdida.

— Mas...

— Não!

Mary correu os olhos pelo apartamento.

— Sinto muito — disse ela. — Cometi um erro. Não quero que pense que eu...

Ela se virou e correu para a porta.

— Espere! Deixe-me pelo menos levá-la em casa! Mas Mary já tinha ido embora.

 

Ela foi andando pelas ruas desertas, encolhendo-se contra o vento gelado, dominada por uma profunda e angustiante mortificação. Não havia explicação para o que fizera. E não havia desculpa. Desgraçara a sua posição. E de que manei­ra estúpida! Embriagara-se na frente da metade do corpo diplomático de Washington, fora para o apartamento de um estranho e quase permitira que ele a seduzisse. Pela ma­nhã seria o alvo das zombarias de todos os colunistas so­ciais de Washington.

Ben Cohn soube da história através de três pessoas que ha­viam comparecido ao jantar na embaixada romena. Pro­curou a notícia nas colunas dos jornais de Washington e Nova York. Não havia qualquer alusão ao incidente. Al­guém abafara a história. E só podia ser alguém muito im­portante.

Cohn sentou no pequeno cubículo que o jornal cha­mava de sala, pensando. Ligou para Ian Villiers.

— O senhor Villiers está?

— Está, sim. Quem deseja falar?

— Ben Cohn.

— Um momento, por favor. — Ela voltou à linha um minuto depois. — Lamento muito, senhor Cohn, mas o se­nhor Villiers acaba de sair.

— Quando posso falar com ele?

— Creio que ele está com o dia inteiro ocupado.

— Está bem.

Cohn desligou e telefonou para uma colunista de ou­tro jornal. Nada acontecia em Washington sem que ela soubesse.

— Como vai a batalha diária, Linda?

— Plus ça change, plus c'est la même chose.

— Está acontecendo alguma coisa emocionante neste balneário deslumbrante?

— Nada demais, Ben. Anda tudo parado.

— Ouvi dizer que houve uma grande confusão na em­baixada romena ontem à noite.

— É mesmo?

Havia uma súbita cautela na voz da colunista.

— É, sim. Não teve qualquer notícia sobre a nossa no­va embaixadora na Romênia?

— Não. Preciso desligar agora, Ben. Tenho de aten­der uma ligação internacional.

E o telefone ficou mudo.

Ben Cohn ligou para um amigo no Departamento de Estado. Quando a secretária completou a ligação, ele disse:

— Olá, Alfred.

— Benjie! Quais são as novidades?

— Há muito tempo que nào nos encontramos. Pensei que poderíamos almoçar juntos.

— Boa idéia. Em que está trabalhando?

— Por que não espera para ouvir até nos encontrar­mos pessoalmente?

— Está certo. Não tenho muitos compromissos hoje. Vamos nos encontrar no Watergate?

Ben Cohn hesitou.

— Por que não almoçamos no Mama Regina's, em Silver Springs?

— Não acha que é um pouco longe?

— Acho. Houve uma pausa.

— Ahn...

— Uma hora da tarde?

— Combinado.

 

Ben Cohn estava sentado a uma mesa no canto quando che­gou seu convidado, Alfred Shuttleworth. O dono do res­taurante, Tony Sergio, conduziu-o à mesa.

— Desejam um drinque, senhores? Shuttleworth pediu um martini.

— Eu não quero nada — respondeu Ben Cohn.

Alfred Shuttleworth era um homem pálido, de meia-idade, que trabalhava na seção européia do Departamento de Estado. Anos antes estivera envolvido num acidente de automóvel, em que guiava embriagado. Ben Cohn fizera a cobertura para seu jornal. A carreira de Shuttleworth esta­va em jogo. Cohn abafara a história, e Shuttleworth de­monstrava seu agradecimento lhe dando informações de vez em quando.

— Preciso de sua ajuda, Al.

— Pode pedir.

— Eu gostaria de informações internas sobre a nossa nova embaixadora na Romênia.

Alfred Shuttleworth franziu o rosto.

— Como assim?

— Três pessoas me telefonaram para dizer que ela to­mou um porre na festa do embaixador romeno ontem à noite e bancou a idiota na presença de todo mundo que é impor­tante em Washington. Já viu os jornais matutinos de hoje ou as primeiras edições dos vespertinos?

— Já, sim. Falaram da festa na embaixada, mas não houve qualquer referência a Mary Ashley.

— Exatamente. "O curioso incidente do cachorro du­rante a noite."

— Não entendi.

— Sherlock Holmes. O cachorro não latiu. Ficou ca­lado. E os jornais também. Por que os colunistas silencia­riam com uma história tão suculenta? Alguém abafou o incidente. Alguém importante. Se fosse qualquer outra VIP que se desgraçasse, a imprensa teria um prato cheio.

— Não é tanto assim, Ben.

— Al, temos uma Cinderela que surge do nada, é to­cada pela varinha de condão do nosso presidente e de re­pente se transforma numa Grace Kelly, princesa Di e Jacqueline Kennedy, tudo numa só pessoa. Reconheço que ela é bonita... mas não tão bonita assim. Ela é inteligen­te... mas não inteligente assim. Na minha humilde opinião, dar um curso de ciência política na Universidade Estadual do Kansas não qualifica qualquer pessoa a se tornar em­baixadora num dos lugares mais delicados do mundo. E vou lhe contar outra coisa que não parece muito certa. Voei para Junction City e conversei com o xerife.

Alfred Shuttleworth tomou o resto de seu martini.

— Acho que vou querer outro. Você está me deixan­do nervoso.

— Está ficando como eu. Ben Cohn pediu outro martini.

— Continue — disse Shuttleworth.

— A senhora Ashley recusou o convite do presidente porque o marido não podia deixar sua clínica. E de repente ele morre num conveniente acidente de automóvel. Voilà! A mulher está em Washington, a caminho de Bucareste. Exatamente como alguém planejara desde o inicio.

— Alguém? Quem?

— Essa é a pergunta fundamental.

— O que está querendo sugerir, Ben?

— Não estou querendo sugerir nada. Deixe-me contar-lhe o que o xerife Munster sugeriu. Ele achou que era es­tranho que meia dúzia de testemunhas surgissem do nada numa madrugada gelada de inverno a tempo de testemu­nhar o acidente. E quer saber de uma coisa ainda mais es­tranha? Todas as testemunhas desapareceram. Sem exceção.

— Continue.

— Fui ao Forte Riley para conversar com o motorista do caminhão militar que matou o doutor Ashley.

— E o que ele tinha a dizer?

— Nada. Tinha morrido. Sofreu um infarto. Aos 27 anos de idade.

Shuttleworth estava mexendo na haste de seu copo.

— Posso presumir que há mais?

— Claro. Há muito mais. Procurei o oficial do DIC em Forte Riley, para entrevistar o coronel Jenkins, que es­tava no comando das investigações e também foi uma das testemunhas do acidente. O coronel não estava mais lá. Foi promovido e transferido. Agora é general, servindo em al­gum lugar no exterior. Parece que ninguém sabe ao certo onde.

Alfred Shuttleworth sacudiu a cabeça.

— Sei que você é um tremendo repórter, Ben, mas sin­ceramente acho que desta vez saiu dos trilhos. Está reunin­do umas poucas coincidências para fazer um roteiro de Hitchcock. As pessoas morrem em acidentes de automóvel, sofrem infartos, são promovidas e transferidas. Está pro­curando por alguma conspiração onde não existe nenhuma.

— Já ouviu falar de uma organização chamada Patrio­tas pela Liberdade?

— Não. É alguma coisa parecida com a DAR? Ben Cohn respondeu suavemente:

— Não tem qualquer semelhança com a DAR. Estou ouvindo rumores a todo instante, mas não consigo desco­brir nada de concreto.

— Que tipo de rumores?

— Dizem que é uma cabala de fanáticos de alto nível da extrema direita e da extrema esquerda, de uma dúzia de países dos dois lados. As ideologias são diametralmente opostas, mas são reunidos pelo medo. Os membros comu­nistas acham que o plano do presidente Ellison é uma tra­ma capitalista para destruir o bloco do Leste. O pessoal da extrema direita está convencido de que o plano é uma por­ta aberta que permitirá que os comunistas nos destruam. Por isso, eles fizeram essa espantosa aliança.

— Não dá para acreditar.

— Há mais. Além dos VlPs, parece que há diversos grupos de várias agências internacionais de segurança en­volvidos. Acha que poderia conferir isso para mim?

— Não sei. Mas tentarei.

— Sugiro que seja discreto. Se a organização existe mesmo, eles não ficarão muito satisfeitos por descobrirem alguém bisbilhotando.

— Procurarei você assim que souber de alguma coi­sa, Ben.

— Obrigado. Vamos pedir o almoço.

O espaguete à carbonara estava magnífico.

Alfred Shuttleworth estava cético sobre a teoria de Ben Cohn. Os repórteres estão sempre procurando por histórias sensacionalistas, pensou Shuttleworth. Ele gostava de Ben Cohn, mas não tinha a menor idéia de como obter infor­mações sobre uma organização provavelmente mítica. Se de fato existia, devia estar em algum computador do go­verno. Ele próprio não tinha acesso aos computadores. Mas conheço alguém que tem, lembrou Alfred Shuttleworth. Fa­larei com ele.

 

Alfred Shuttleworth estava tomando o seu segundo marti­ni quando Pete Connors entrou no bar.

— Desculpe o atraso — disse Connors. — Tive um pe­queno problema na fábrica de picles.

Peter Connors pediu um uísque puro e Shuttleworth pediu outro martini.

Os dois se conheciam porque a namorada de Connors e a esposa de Shuttleworth trabalhavam para a mesma com­panhia e haviam se tornado amigas. Connors e Shuttleworth eram completamente opostos: um estava envolvido em jo­gos mortais de espionagem e o outro era um burocrata que não saía de uma escrivaninha. As diferenças é que fizeram com que gostassem da companhia um do outro, e de vez em quando trocavam informações úteis. Quando Shuttle­worth o conhecera, Connors era um companheiro diverti­do e interessante. Em algum ponto do caminho, no entanto, tornara-se um homem azedo. Virara um reacionário amar­go. Shuttleworth tomou um gole do martini.

— Preciso de um favor, Pete. Poderia procurar uma coisa para mim no computador da CIA? Talvez não haja nada, mas prometi a um amigo que tentaria descobrir.

Connors sorriu interiormente. O pobre coitado prova­velmente quer descobrir se alguém está comendo sua esposa.

Claro. Eu lhe devo alguns favores. Sobre quem você quer saber?

— Não é quem, mas o quê. E provavelmente nem exis­te. É uma organização chamada Patriotas pela Liberdade. Já ouviu falar?

Pete Connors pôs o copo na mesa com todo cuidado.

— Não posso dizer que sim, Al. Qual é o nome do seu amigo?

— Ben Cohn. Ele é repórter do Post.

 

Na manhã seguinte, Ben Cohn tomou uma decisão. Ele disse a Akiko:

— Ou descobri a história do século ou não tenho na­da. Está na hora de descobrir com certeza.

— Graças a Deus! — exclamou Akiko. — Arthur vai ficar muito feliz.

Ben Cohn encontrou Mary Ashley em seu escritório.

— Bom dia, embaixadora. Sou Ben Cohn. Lembra de mim?

— Claro, senhor Cohn. Já escreveu aquela reporta­gem?

— É por isso que estou lhe telefonando, embaixado­ra. Fui a Junction City e obtive algumas informações que acho que poderão interessá-la.

— Que tipo de informações?

— Prefiro não falar pelo telefone. Não poderíamos nos encontrar em algum lugar?

— Estou com a agenda incrivelmente cheia. Deixe-me ver... Tenho meia hora livre na manhã de sexta-feira. Está bom?

Mais três dias.

— Acho que pode esperar até lá.

— Quer vir à minha sala?

— Há um café embaixo do prédio. Podemos nos en­contrar lá?

— Está certo. Até sexta-feira.

Eles se despediram e desligaram. Um momento depois houve um terceiro clique na linha.

 

Não havia possibilidade de fazer um contato direto com o Controlador. Ele organizara e financiava os Patriotas pela Liberdade, mas nunca comparecia às reuniões do comitê e se mantinha completamente anônimo. Era apenas um nú­mero de telefone — que não se podia localizar (Connors já tentara) — e uma gravação que dizia:

— Tem sessenta segundos para deixar sua mensagem. O telefone só devia ser usado em casos de emergência.

Connors foi a uma cabine pública para fazer a ligação. Fa­lou ao gravador.

A mensagem foi recebida às seis horas da tarde.

Eram oito horas da noite em Buenos Aires.

O Controlador escutou a mensagem duas vezes e de­pois discou um número. Esperou por três minutos antes de ouvir a voz de Neusa Muñez.

— Si?

O Controlador disse:

— Aqui é o homem que fez o acordo com você sobre Angel. Tenho outro contrato para ele. Podemos fazer con­tato imediatamente?

— Não sei.

A mulher parecia bêbada. Ele fez um esforço para re­primir a impaciência.

— Quando espera ter notícias dele?

— Não sei.

Mas que mulher desgraçada!

— Preste atenção. — Ele falou devagar, com todo cui­dado, como se estivesse tratando com uma criança peque­na. — Diga a Angel que quero que o trabalho seja feito imediatamente. Quero que ele...

— Espere um instante. Tenho de ir ao banheiro.

O Controlador ouviu-a largar o telefone. Ficou esperando, dominado pela frustração. A mulher voltou à linha três minutos depois, comentando:

— Muita cerveja deixa a gente com vontade de mijar. Ele rangeu os dentes.

— É muito importante. — Ele estava com medo de que a mulher não se lembrasse. — Quero que pegue lápis e pa­pel e anote tudo. Falarei devagar.

 

Naquela noite Mary compareceu a uma festa oferecida pe­la embaixada canadense. Quando estava deixando o escri­tório, a fim de ir para o hotel e se vestir, James Stickley disse:

— Sugiro que desta vez tome apenas um gole nos brindes.

Ele e Mike Slade formam uma dupla maravilhosa.

 

Agora que se encontrava na festa, ela preferia estar em ca­sa com Beth e Tim. Os rostos à mesa eram desconhecidos. À sua direita sentava um armador grego. À esquerda esta­va um diplomata inglês. Uma socialite de Filadélfia, carre­gada de diamantes, perguntou a Mary:

— Está gostando de Washington, madame embai­xadora?

— Estou gostando muito.

— Deve estar emocionada por ter escapado do Kansas. Mary fitou-a sem entender.

— Escapado do Kansas? A mulher explicou:

— Nunca estive no Meio-Oeste americano, mas deve ser horrível. Só fazendeiros e plantações de trigo e milho. É surpreendente que tenha conseguido suportar por tanto tempo.

Mary sentiu um ímpeto de raiva, mas fez um esforço para manter a voz sob controle.

— O milho e o trigo de que está falando alimentam o mundo — comentou ela, polidamente.

O tom da mulher era condescendente.

— Nossos automóveis funcionam com gasolina, mas eu não gostaria de viver nos campos petrolíferos. Em ter­mos culturais, acho que só se pode viver no Leste. Não con­corda? Falando francamente, não há nada para fazer no Kansas, a não ser que se passe o dia inteiro trabalhando nas plantações, não é?

As outras pessoas à mesa acompanhavam a conversa com extrema atenção.

Não há realmente nada para fazer? Mary pensou nos passeios em carroças de feno em agosto, nas feiras do con­dado e nos emocionantes dramas clássicos apresentados no teatro da universidade. Os piqueniques dominicais no Milford Park e os torneios de beisebol, a pesca no lago de água limpa. A banda tocando no gramado e as reuniões na pre­feitura, as festas de rua, os bailes em celeiros e a emoção da época da colheita... os passeios de trenó no inverno e os fogos de artifício no Quatro de Julho, criando um arco-íris no suave céu do Kansas. Ela disse à mulher:

— Se nunca esteve no Meio-Oeste americano, não sa­be do que está falando, não é? Porque é lá que este país existe. A América não é Washington, Los Angeles ou No­va York. São milhares de pequenas cidades que você nun­ca viu nem ouviu falar que tornam grande este país. São os mineiros, os lavradores e os operários. E quero que sai­ba que no Kansas temos balés, sinfonias e teatro. Para sua informação, cultivamos muito mais do que apenas trigo e milho... também criamos seres humanos decentes.

 

— Você deve saber que insultou a irmã de um senador muito importante — James Stickley informou a Mary na manhã seguinte.

— Mas não o suficiente — respondeu Mary, em tom de desafio. — Não o suficiente.

Manhã de quinta-feira. Angel estava de mau humor. O vôo de Buenos Aires para Washington fora atrasado porque al­guém ligara para as autoridades avisando que havia uma bomba a bordo. O mundo não é mais seguro, pensou An­gel, irritado.

O quarto de hotel que lhe fora reservado em Washing­ton era moderno demais, muito — qual era mesmo a pala­vra? — plástico. Era esse o problema. Em Buenos Aires, tudo era autêntico.

Cumprirei esse contrato e voltarei logo para casa. O trabalho é muito simples, quase um insulto ao meu talen­to. Mas o dinheiro é excelente. Preciso trepar esta noite. Gostaria de saber por que matar sempre me deixa com tesão.

 

A primeira visita de Angel foi a uma loja de equipamentos elétricos. Depois foi a uma loja de tintas e finalmente a um supermercado, onde comprou apenas seis lâmpadas. O resto do equipamento esperava no quarto do hotel, em duas cai­xas lacradas, marcadas com frágil — manuseie com cui­dado. Na primeira caixa havia quatro granadas de mão militares, cuidadosamente acondicionadas. Na segunda caixa havia equipamento de solda.

Trabalhando devagar e com toda cautela, Angel cor­tou a parte superior da primeira granada, depois pintou-a da mesma cor que as lâmpadas. A segunda providência foi remover o explosivo da granada e substituí-lo por explosi­vo sísmico. Assim que ficou pronto, Angel acrescentou chumbo e estilhaços metálicos. Angel quebrou uma lâmpada na mesa, preservando o filamento e a base. Levou menos de um minuto para soldar o filamento a um detonador ati­vado eletricamente. A providência final foi inserir o fila­mento numa gelatina, a fim de mantê-lo instável, e inserir na granada pintada. Quando Angel acabou, o artefato pa­recia uma lâmpada comum.

Angel pôs-se então a trabalhar nas outras lâmpadas.

Depois, não tinha mais nada a fazer a não ser esperar pelo telefonema.

 

O telefone tocou às oito horas daquela noite. Angel aten­deu e escutou, sem falar. Depois de um momento, uma voz disse:

— Ele saiu.

Angel desligou. Com cuidado, com muito cuidado, as lâmpadas foram acondicionadas numa caixa cheia de apa­ras de madeira, que foi metida numa valise, junto com os restos dos materiais descartados.

A viagem de táxi para o prédio de apartamentos levou dezessete minutos.

 

Não havia porteiro no saguão; se houvesse, no entanto, An­gel estava preparado para lidar com o homem. O aparta­mento ficava no quinto andar, ao final do corredor. A fechadura era uma Schlage modelo antigo, uma brincadei­ra de criança. Em poucos segundos Angel estava no inte­rior do apartamento escuro, imóvel, escutando. Não havia ninguém ali.

Foi um trabalho de poucos minutos substituir as seis lâmpadas na sala de estar. Depois, Angel seguiu direto pa­ra o Aeroporto Dulles, a fim de pegar o vôo de meia-noite para Buenos Aires.

 

Fora um dia comprido para Ben Cohn. Cobrira pela ma­nhã a entrevista coletiva do secretário de Estado, fora ao almoço oferecido ao secretário de Interior que se aposen­tava e ainda obtivera informações confidenciais de um amigo do Departamento de Defesa. Passara em casa para tomar um banho de chuveiro e trocar de roupa, depois fora jan­tar com um editor sênior do Post. Já era quase meia-noite quando voltou para casa. Tenho de preparar as anotações para o encontro amanhã com a embaixadora Ashley, pen­sou Ben.

Akiko não estava na cidade e só voltaria no dia seguin­te. Ainda bem. Posso aproveitar para descansar. Mas não resta a menor dúvida de que aquela mulher sabe comer uma banana split, pensou ele, sorrindo.

Enfiou a chave na porta do apartamento e abriu-a. Es­tava tudo escuro lá dentro. Ele estendeu a mão para o in­terruptor e o premiu. Houve um súbito clarão, e a sala explodiu como uma bomba atômica; fragmentos de seu cor­po foram arremessados para as quatro paredes.

 

No dia seguinte a esposa de Alfred Shuttleworth comuni­cou que ele desaparecera. O corpo nunca foi encontrado.

 

— Acabamos de receber o comunicado oficial — anunciou Stanton Rogers. — O governo romeno aprovou-a como a nova embaixadora dos Estados Unidos.

Foi um dos momentos mais emocionantes da vida de Mary Ashley. Vovô teria ficado muito orgulhoso.

— Eu queria lhe dar a notícia pessoalmente, Mary. O presidente gostaria de vê-la. Eu a levarei à Casa Branca.

— Eu... eu não sei como lhe agradecer por tudo o que tem feito, Stan.

— Não fiz nada — protestou Rogers. — Foi o presi­dente que a escolheu. — Ele sorriu. — E devo dizer que fez uma escolha perfeita.

Mary pensou em Mike Slade.

— Há algumas pessoas que não concordam.

— Pois estão erradas. Você pode fazer mais por nos­so país na Romênia do que qualquer outra pessoa que conheço.

— Obrigada. Tentarei corresponder às suas expec­tativas.

Ela sentiu-se tentada a levantar o problema de Mike Slade. Afinal, Stanton Rogers tinha muito poder. Talvez ele pudesse dar um jeito para que Slade permanecesse em Washington. Não, decidiu Mary. Não devo exigir demais de Stan. Ele já fez muita coisa.

— Tenho uma sugestão a fazer. Em vez de voarem di­reto para Bucareste, por que você e as crianças não passam antes alguns dias em Paris e Roma? A Tarom Airlines tem um vôo direto de Roma para Bucareste.

Ela fitou-o aturdida por um instante.

— Oh, Stan, isso seria o paraíso! Mas será que eu te­ria tempo?

Ele piscou um olho.

— Tenho amigos lá no alto. Tentarei dar um jeito. Impulsivamente, Mary abraçou-o. Ele se tornara um

amigo muito querido. Os sonhos de que ela e Edward ha­viam falado tantas vezes se convertiam em realidade. Mas sem Edward. Era um pensamento agridoce.

 

Mary e Stanton Rogers foram introduzidos na Sala Verde, onde o presidente Ellison os aguardava.

— Quero pedir desculpas pela demora em acertar tu­do, Mary. Stanton já lhe disse que foi aprovada pelo go­verno romeno. Aqui estão suas credenciais.

O presidente entregou-lhe uma carta. Mary leu devagar:

 

A senhora Mary Ashley é por meio deste documento desig­nada Representante do presidente dos Estados Unidos na Romênia e todos os funcionários do governo dos Estados Unidos nesse país estão sob a sua autoridade.

 

— Isto vai junto.

O presidente entregou um passaporte a Mary. Tinha a capa preta, em vez da azul habitual. Na frente, em letras douradas, estava escrito passaporte diplomático.

Mary estava esperando por aquilo há semanas, mas agora que o momento chegara mal podia acreditar.

Paris!

Roma!

Bucareste!

Parecia quase bom demais para ser verdade. E sem ne­nhuma razão, uma coisa que a mãe de Mary costumava di­zer aflorou em sua mente: Se alguma coisa parece boa demais para ser verdade, Mary, então provavelmente é mes­mo verdade.

 

Houve uma pequena notícia nos jornais da tarde, informan­do que o repórter Ben Cohn, do Washington Post, morre­ra numa explosão de gás em seu apartamento. A explosão foi atribuída a um vazamento do fogão,

Mary não leu a notícia. Quando Ben Cohn não apare­ceu para o encontro, ela chegou à conclusão de que o re­pórter esquecera ou então não estava mais interessado. Voltou ao escritório e retomou o trabalho.

 

O relacionamento entre Mary e Mike Slade tornava-se ca­da vez mais irritante para ela. Ele é o homem mais arro­gante que já conheci, pensou Mary. Terei de falar com Stan a seu respeito.

Stanton Rogers acompanhou Mary e as crianças ao Ae­roporto Dulles, numa limusine do Departamento de Esta­do. Durante a viagem, Stanton disse:

— As embaixadas em Paris e Roma já foram avisa­das de sua chegada. Providenciarão para que os três sejam bem cuidados.

— Obrigada, Stan. Você tem sido maravilhoso. Ele sorriu.

— Não tenho palavras para descrever quanto prazer isso me proporcionou.

— Posso ver as catacumbas em Roma? — perguntou Tim.

Stanton advertiu:

— Lá embaixo é assustador, Tim.

— É por isso mesmo que quero ver.

 

No aeroporto, Ian Villiers estava à espera, com uma dúzia de fotógrafos e repórteres. Eles cercaram Mary, Beth e Tim, e fizeram as perguntas habituais. Depois de algum tempo, Stanton Rogers interferiu:

— Já chega.

Dois homens do Departamento de Estado e um repre­sentante da companhia aérea levaram o grupo para uma sala de espera particular. As crianças foram para a banca de re­vistas. Mary disse:

— Detesto sobrecarregá-lo com mais um problema, Stan, mas James Stickley disse que Mike Slade será meu subchefe da missão. Não há um jeito de mudar isso?

Ele fitou-a com expressão de surpresa.

— Está tendo algum problema com Slade?

— Para ser sincera, não gosto dele. E não confio ne­le... não sei explicar por quê. Não há alguém que possa substituí-lo?

Stanton Rogers disse, com um ar pensativo:

— Não conheço Mike Slade muito bem, mas sei que ele tem uma ficha excelente. Serviu de maneira brilhante em postos no Oriente Médio e Europa. Pode lhe propor­cionar exatamente o tipo de experiência de que precisa.

Mary suspirou.

— Foi o que o senhor Stickley disse.

— Lamento, Mary, mas terá de ficar com ele. Slade é um solucionador de problemas.

Errado, pensou Mary. Slade é o problema em pessoa. E ponto final.

— Se tiver algum problema com ele, quero que me avise. Mais do que isso, se tiver problemas com qualquer pes­soa, quero que me comunique imediatamente. Providencia­rei para que receba toda ajuda que for possível.

— Fico agradecida.

— Só mais uma coisa. Sabia que todos os comunica­dos serão copiados e enviados para diversos departamen­tos em Washington?

— Sabia.

— Se tiver alguma mensagem que queira me enviar sem que ninguém mais leia, o código no alto da página é três xis. Serei então o único a receber a mensagem.

— Não esquecerei.

 

O Aeroporto Charles de Gaulle parecia algo saído da fic­ção científica, um caleidoscópio de colunas de pedra e o que pareceu a Mary centenas de escadas rolantes funcionando desenfreadas. O aeroporto estava apinhado de viajantes.

— Fiquem perto de mim, crianças — ordenou Mary. Quando saíram da escada rolante, ela olhou ao redor,

desamparada. Parou um francês que passava e perguntou, hesitante, recorrendo às poucas palavras de francês de que podia se lembrar:

— Pardon, monsieur, ou sont les baggages?

O homem respondeu implacável, com um forte sota­que francês:

— Desculpe, madame, mas não falo inglês.

E se afastou, deixando Mary a fitá-lo completamente atordoada. Nesse momento um jovem americano bem ves­tido aproximou-se de Mary e das crianças.

— Perdoe-me, senhora embaixadora! Recebi instruções para encontrá-la no avião, mas fui atrasado por um acidente de tráfego. Meu nome é Peter Callas. Sou da embaixada americana.

— Não pode imaginar como fico contente por vê-lo.

Estou me sentindo completamente perdida. — Mary apre­sentou as crianças. — Onde encontramos a bagagem?

— Não se preocupe — disse Peter Callas. — Cuidarei de tudo.

Ele cumpriu a palavra. Quinze minutos depois, enquan­to os outros passageiros começavam a passar pela alfânde­ga e pelo controle de passaporte, Mary, Beth e Tim se encaminhavam para a saída do aeroporto.

 

O Inspetor Henri Durand, diretor-geral da Segurança Ex­terna, a agência de informações francesa, observou-os en­trarem na limusine à espera. Depois que o carro se afastou, o inspetor foi até uma fileira de cabines telefônicas e en­trou numa. Fechou a porta, inseriu um jeton e discou. Quan­do uma voz atendeu, ele disse:

— S'il vous plaît, dites à Thor que son paquet est arrivé en Paris.

 

A imprensa francesa esperava em massa quando a limusi­ne parou na frente da embaixada americana. Peter Callas, contemplando a cena pela janela do carro, murmurou:

— Puxa, parece um motim!

O embaixador americano na França, Hugh Simon, aguardava-os lá dentro. Era um texano de meia-idade, com olhos inquisitivos num rosto redondo, encimado por uma cabeleira ruiva.

— Todos estão ansiosos em conhecê-la, senhora em­baixadora. A imprensa está em cima de mim desde a manhã.

 

A entrevista coletiva de Mary prolongou-se por mais de uma hora. Ela estava exausta quando acabou. Foi levada para o gabinete do embaixador Simon, junto com as crianças.

— Estou contente que tenha acabado. Quando cheguei aqui para assumir o posto, acho que recebi apenas um parágrafo na última página do Le Monde. — Ele sorriu. — Claro que nào sou tào atraente quanto você.

O embaixador fez uma pausa, lembrando-se de algu­ma coisa.

— Recebi um telefonema de Stanton Rogers. Tenho instruções expressas da Casa Branca para providenciar que você, Beth e Tim se divirtam ao máximo durante a perma­nência em Paris.

— Instruções expressas? — indagou Tim. O embaixador Simon acenou com a cabeça.

— Exatamente. Ele gosta muito de vocês.

— Nós também gostamos dele — comentou Mary.

— Reservei uma suíte no Ritz. É um excelente hotel, junto à Place de Ia Concorde. Tenho certeza de que fica­rão bem instalados.

— Obrigada. — Um momento de hesitação e Mary acrescentou, um pouco nervosa: — É muito caro?

— É, sim... mas não para você. Stanton Rogers pro­videnciou para que o Departamento de Estado arque com todas as despesas.

— Ele é incrível — murmurou Mary.

— Segundo ele, você também é.

 

Os jornais da tarde e da noite publicaram notícias grandes sobre a chegada da primeira embaixadora do presidente dos Estados Unidos em seu programa povo-para-povo. O as­sunto recebeu ainda uma ampla cobertura dos noticiários noturnos da televisão e dos jornais da manhã seguinte.

O inspetor Durand contemplou a pilha de jornais e sor­riu. Tudo estava correndo de acordo com o planejado. A projeção estava ainda melhor do que o previsto. Podia de­terminar o itinerário de Ashley durante os três dias seguin­tes. Eles visitarão todos os pontos turísticos sem sentido que os americanos gostam de ver, pensou.

Mary e as crianças almoçaram no restaurante Jules Verne, na Torre Eiffel, e depois foram visitar o Arco do Triunfo.

Passaram a manha seguinte conhecendo os tesouros do Louvre, almoçaram perto de VersaiUes e jantaram no Tour d'Argent.

Tim olhou pela janela do restaurante, para a Notre Da­me e perguntou:

— Onde eles guardam o corcunda?

 

Cada momento em Paris foi uma alegria. Mary não para­va de pensar no quanto gostaria que Edward estivesse ali.

No dia seguinte, depois do almoço, eles foram leva­dos de carro para o aeroporto. O inspetor Durand obser­vava quando se apresentaram para o vôo para Roma.

A mulher é atraente — pode-se dizer até que adorável. Um rosto inteligente. Corpo bonito, pernas bem torneadas, um lindo traseiro. Fico imaginando como será ela na ca­ma. As crianças foram uma surpresa. Bem-comportadas pa­ra americanos.

Assim que o avião decolou, o inspetor Durand foi a uma cabine telefônica.

— S'il vous plaît, dites à Thor que son paquet est en route à Rome.

 

Em Roma, os paparazzi esperavam no Aeroporto Leonar­do da Vinci. Ao desembarcarem, Tim disse:

— Olhe, mamãe, eles nos seguiram!

Mary teve mesmo a impressão de que a única diferen­ça estava no sotaque italiano. A primeira pergunta que os repórteres italianos lhe fizeram foi a seguinte:

— O que está achando da Itália?

O embaixador Oscar Viner ficou tão perplexo quanto o embaixador Simon já ficara.

— Frank Sinatra não teve uma recepção tão grande. Existe alguma coisa a seu respeito que eu ignore, senhora embaixadora?

— Acho que posso explicar — respondeu Mary. — Não é em mim que a imprensa está interessada, mas sim no programa povo-para-povo do presidente. Teremos em breve representantes em todos os países da Cortina de Fer­ro. Será um passo enorme pela paz. Acho que é isso que atrai tanto a imprensa.

Depois de um momento de reflexão, o embaixador Vi-ner disse:

— Muita coisa depende de você, não é?

 

O capitão Caesar Barzini, chefe da polícia secreta italiana, também foi capaz de prever acuradamente os lugares que Mary e seus filhos visitariam durante a breve estada em Roma.

O capitão destacou dois homens para vigiarem os Ashley, e quando eles apresentavam o relatório, ao final de ca­da dia, era exatamente o que previra.

— Eles tomaram sorvete no Doney's, passearam pela Via Veneto e visitaram o Coliseu.

— Foram à Fonte de Trevi e jogaram moedas,

— Visitaram as Termas de Caracalla e depois as cata­cumbas. O garoto passou mal e foi levado de volta ao hotel.

— Passearam de carruagem pelo Parque Borghese e a pé pela Piazza Navona.

Divirtam-se, pensou o capitão Barzini, sardonicamente.

 

O embaixador Viner acompanhou Mary e as crianças ao ae­roporto.

— Tenho uma bolsa diplomática para a embaixada na Romênia. Importa-se de levar junto com sua bagagem?

— Claro que não — respondeu Mary.

O capitão Barzini estava no aeroporto para observar o em­barque da família Ashley no avião da Tarom Airlines que a levaria a Bucareste. Ele ficou até o avião decolar e depois deu um telefonema.

— Ho un messaggio per Balder. Il suo pacco è in via a Bucharest.

 

Só depois que o avião estava no ar é que a enormidade do que estava prestes a acontecer atingiu Mary Ashley. Era tão incrível que ela teve de dizer em voz alta:

— Estamos a caminho da Romênia, onde vou assu­mir meu posto como embaixadora dos Estados Unidos.

Beth fitava-a com expressão estranha.

— É verdade, mamãe. Sabemos disso. É o motivo pe­lo qual estamos aqui.

Mas como Mary podia explicar sua excitação aos filhos?

Quanto mais o avião se aproximava de Bucareste, mais sua excitação aumentava.

Serei a melhor embaixadora que eles já conheceram, pensou. Antes de eu morrer, os Estados Unidos e a Romê­nia serão grandes aliados.

O aviso de proibido fumar acendeu, e os eufóricos sonhos de estadista de Mary se dissiparam.

Não é possível que já estejamos prestes a pousar, pen­sou ela, em pânico. Acabamos de decolar. Por que o vôo é tão curto?

Ela sentiu a pressão em seus ouvidos enquanto o avião começava a descer. Poucos momentos depois as rodas to­caram na pista. Está realmente acontecendo, pensou Mary, incrédula. Não sou uma embaixadora. Sou uma impostora. Vou nos meter numa guerra. Deus nos ajude. Eu nunca deveria ter deixado o Kansas.

 

O Aeroporto Otopeni, a quarenta quilômetros do centro de Bucareste, é moderno, construído para facilitar o fluxo dos viajantes dos países próximos da Cortina de Ferro, além de absorver os turistas ocidentais, menos numerosos, que vi­sitam a Romênia todos os anos.

No interior do terminal havia soldados em uniformes marrons, armados com rifles e pistolas; havia também uma impressão de frieza que nada tinha a ver com a temperatu­ra. Inconscientemente, Tim e Beth chegaram-se para mais perto de Mary. Então eles também sentem, pensou ela.

Dois homens se aproximaram. Um deles era esguio e atlético, parecia um americano, o outro era mais velho e vestia um terno amarfanhado de aparência estrangeira. O americano apresentou-se:

— Seja bem-vindo à Romênia, senhora embaixadora. Sou Jerry Davis, seu representante consular para assuntos públicos. Este é Tudor Costache, o chefe do protocolo romeno.

— É um prazer ter a senhora e seus filhos conosco — disse Costache. — Sejam bem-vindos a nosso país.

De certa forma, pensou Mary, vai ser meu país também.

— Multumesc, domnule — respondeu Mary.

— Você fala romeno! — exclamou Costache. — Cu plãcere!

Mary torceu para que o homem não se deixasse arre­batar. E apressou-se em ressaltar:

— Apenas umas poucas palavras. Tim disse:

— Bunãdimineata.

E Mary ficou tão orgulhosa que teve a sensação de que ia estourar.

Ela apresentou as crianças.

— A limusine está à sua espera, senhora embaixado­ra — disse Jerry Davis. — O coronel McKinney está lá fora.

O coronel McKinney. O coronel McKinney e Mike Sla­de. Perguntou-se se Slade também estaria ali, mas não fa­lou nada.

Havia uma fila comprida esperando para passar pela alfândega, mas Mary e as crianças deixaram o prédio em poucos minutos. Havia repórteres e fotógrafos à sua espe­ra, só que não eram turbulentos como os que Mary sempre encontrara antes, mas sim ordeiros e controlados. Quando acabaram, agradeceram a Mary e partiram em bloco.

O coronel McKinney, de uniforme, estava à espera na calçada. Estendeu a mão.

— Bom dia, senhora embaixadora. Fez boa viagem?

— Foi ótima, obrigada.

— Mike Slade queria estar aqui, mas precisou resol­ver um problema urgente.

Mary se perguntou se seria uma ruiva ou uma loura.

Uma limusine preta comprida, com uma bandeira ame­ricana no pára-lama dianteiro direito, parou junto ao meio-fio. Um homem de aparência jovial, num uniforme de mo­torista, abriu a porta.

— Este é Florian.

O motorista sorriu, exibindo lindos dentes brancos.

— Seja bem-vinda, senhora embaixadora, mister Tim, miss Beth. Terei o maior prazer em servir a todos.

— Obrigada — disse Mary.

— Florian estará à sua disposição 24 horas por dia. Pensei em seguirmos direto para a residência, a fim de que possa desfazer as malas e descansar. Talvez mais tarde queira dar uma volta pela cidade. E amanhã de manhã Florian a levará à embaixada americana.

— Está ótimo para mim.

Mary especulou outra vez onde estaria Mike Slade.

 

A viagem do aeroporto à cidade foi fascinante. Seguiram por uma estrada de duas faixas com tráfego intenso de ca­minhões e automóveis, mas a intervalos de poucos quilô­metros os veículos praticamente tinham de parar por causa de carroças de ciganos que se arrastavam com lentidão. Nos dois lados da estrada havia fábricas modernas, entre cabanas antigas. O carro passou por uma fazenda depois de ou­tra, com mulheres trabalhando nos campos, lenços coloridos na cabeça.

Passaram pelo Báneasa, o aeroporto de vôos domésti­cos de Bucareste. Mais além, a alguma distância da estra­da, havia um prédio de dois andares, cinzento e azul, de aparência sinistra.

— O que é aquilo? — perguntou Mary. Florian fez uma careta.

— A prisão Ivan Stelian. É o lugar em que são encar­ceradas as pessoas que discordam do governo romeno.

Durante a viagem, o coronel McKinney apontou para um botão vermelho ao lado da porta.

— Este é um controle de emergência — explicou ele. — Se estiver numa situação crítica... for atacada por terro­ristas ou qualquer coisa parecida... basta apertar este botão. Ativa um transmissor de rádio no carro que é controlado na embaixada e acende uma luz vermelha na ca­pota. Poderemos determinar sua posição em poucos minutos.

Mary comentou, em tom fervoroso:

— Espero nunca ter de usá-lo.

— É o que também espero, senhora embaixadora.

 

O centro de Bucareste era uma beleza. Havia parques, mo­numentos e chafarizes por toda parte. Mary se lembrou do comentário do avô:

— Bucareste é uma Paris em miniatura, Mary. Temos até uma réplica da Torre Eiffel.

E lá estava tudo. Ela se encontrava na pátria de seus antepassados.

As ruas enxameavam de pessoas, ônibus e bondes. Flo­rian buzinava a todo instante, os pedestres saíam da frente apressados. O carro entrou numa rua pequena, arborizada.

— A residência fica logo à frente — informou o coro­nel. — A rua tem o nome de um general russo. Não é irônico?

Era uma casa antiga de três andares, grande e bonita, cercada por um lindo jardim.

Os empregados estavam formados na frente da casa, aguardando a nova embaixadora. Quando Mary saltou do carro, Jerry Davis fez as apresentações.

- Senhora embaixadora, aqui está o pessoal que vai servi-la. Mihai, o mordomo, Sabina, a secretária social, Rosica, a governanta, Cosma, a cozinheira, e Delia e Carmen, as criadas.

Mary foi avançando pela fila, recebendo as mesuras, enquanto pensava: O que vou fazer com toda essa gente? Em casa eu tinha apenas Lucinda, que aparecia três vezes por semana para cozinhar e fazer a faxina.

— Estamos muito honrados em conhecê-la, senhora embaixadora — cumprimentou Sabina, a secretária social.

Todos a fitavam atentamente; parecia que esperavam que ela dissesse alguma coisa. Mary respirou fundo.

— Bună ziua. Multumesc. Nu vorbesc...

O pouco de romeno que ela aprendera sumiu de sua cabeça. Ficou olhando para o pessoal, desamparada. Mi­nai, o mordomo, adiantou-se e fez uma mesura.

— Todos nós falamos inglês, senhora. Nós lhe damos as boas-vindas e teremos a maior satisfação em atender a todas as suas necessidades.

Mary deixou escapar um suspiro de alívio.

— Obrigada.

Havia champanha gelado à sua espera na casa, assim como uma mesa repleta de comidas de aparência tentadora.

— Tudo parece delicioso! — exclamou Mary.

Todos a observavam, com expressões. Ela se pergun­tou se deveria lhes oferecer alguma coisa. Será que se fazia isso com a criadagem? Não queria começar a estada na Ro­mênia cometendo gafes. "Já soube o que a nova embaixa­dora americana fez? Convidou os criados a comerem com ela. Eles ficaram tão chocados que foram embora."

"Já soube o que a nova embaixadora americana fez? Empanturrou-se na presença dos criados famintos e não lhes ofereceu coisa alguma."

— Pensando bem — acrescentou Mary —, não estou com fome neste momento. Eu... eu comerei alguma coisa mais tarde.

— Permita que eu lhe mostre a casa — sugeriu Jerry Davis.

Mary seguiu-o, aliviada.

Era uma linda casa, agradável e encantadora, ao esti­lo antigo. No térreo havia um vestíbulo, uma biblioteca cheia de livros, uma sala de música, uma sala de estar e uma sala de jantar grande, com uma cozinha e despensa ao lado. Todos os cômodos estavam bem mobiliados. Havia um terra­ço por toda a extensão da casa, além da sala de jantar, que dava para um enorme parque.

Quase nos fundos do terreno havia uma piscina coberta, com uma sauna e vestiário.

— Temos a nossa própria piscina! — exclamou Tim. — Posso dar um mergulho?

— Mais tarde, querido. Vamos nos instalar primeiro. A pièce de résistance no primeiro andar era o salão de baile, perto do jardim. Era imenso. Havia candelabros de cristal Baccarat nas paredes, forradas com um papel felpu-do. Jerry Davis disse:

— É aqui que se realizam as festas da embaixada. Ob­serve isto. — Ele apertou um botão na parede. Houve um rangido e o teto começou a se abrir no centro, até que o céu se tornou visível. — O mecanismo pode ser operado tam­bém manualmente.

— Mas é sensacional! — exclamou Tim.

— É conhecido como "a loucura do embaixador" — acrescentou Jerry Davis. — Faz muito calor para abrir no verão e é frio demais no inverno. Só usamos em abril e se­tembro.

— Mesmo assim é sensacional — insistiu Tim. Enquanto o ar frio invadia o salão de baile, Jerry Da­vis tornou a apertar o botão e o teto fechou.

— Vou mostrar agora os aposentos lá em cima. Eles subiram a escada atrás de Jerry Davis para um

grande hall central, com dois quartos separados por um ba­nheiro completo. Mais adiante, pelo corredor, ficava o quar­to principal, com uma sala de descanso, um quarto de vestir e um banheiro completo, depois um quarto menor com ba­nheiro e uma sala de costura. Havia um terraço no telha­do, com uma escada independente. Jerry Davis informou:

— No terceiro andar estão os aposentos dos criados, uma lavanderia e uma área para guardar coisas. No porão há uma adega e a área de refeições e descanso dos criados.

— É... é enorme — murmurou Mary.

As crianças corriam de um aposento para outro.

— Qual é o meu quarto? — perguntou Beth.

— Você e Tim podem escolher.

— Se quiser, pode ficar com este — ofereceu Tim. — É cheio de enfeites. As garotas gostam dessas coisas.

O quarto principal era adorável, com uma cama enor­me, dois sofás na frente de uma lareira, uma poltrona, uma penteadeira com um espelho antigo, um armário, um ba­nheiro suntuoso e uma vista espetacular do jardim.

Delia e Carmen já haviam arrumado a bagagem de Mary. Era cima da cama estava o malote diplomático que o embaixador Viner lhe pedira que trouxesse para a Romê­nia. Devo levá-lo para a embaixada amanhã de manhã, pen­sou Mary. Foi até a cama, pegou o malote e examinou-o. Os lacres vermelhos haviam sido rompidos e grudados de novo, de maneira desajeitada. Quando aconteceu isso?, es­peculou Mary. No aeroporto? Aqui? E quem fez isso?

Sabina entrou no quarto.

— Está tudo satisfatório, senhora?

— Está, sim. Nunca tive antes uma secretária social. Não sei exatamente quais são as suas funções.

— Meu trabalho é cuidar para que sua vida transcor­ra sem problemas, senhora embaixadora. Trato dos seus compromissos sociais, jantares, almoços e assim por dian­te. Também providencio para que a casa seja bem admi­nistrada. Com tantos criados, sempre há problemas.

— Tem razão — murmurou Mary, distraída.

— Deseja alguma coisa para esta tarde?

Poderia me falar sobre os lacres violados, pensou Mary. Em voz alta, ela disse:

— Não, obrigada. Acho que vou descansar um pouco. Sentia-se subitamente esgotada.

Mary ficou acordada durante a maior parte daquela primeira noite, dominada por uma solidão profunda e fria, mistu­rada com um crescente excitamento pelo início de seu novo trabalho.

Tudo depende de mim agora, Edward. Não tenho mais ninguém em quem me apoiar. Eu gostaria que você estives­se aqui comigo, dizendo-me para não ter medo, dizendo-me que não vou fracassar. Não devo fracassar, querido.

Quando finalmente pegou no sono, ela sonhou com Mike Slade dizendo: "Detesto amadores. Por que não volta para casa?"

 

A embaixada americana em Bucareste, na Soseaua Kiseleff, 21, é um prédio branco de dois andares, semigótico, patru­lhado por um guarda uniformizado, de capote cinza e quepe vermelho. Um segundo guarda fica na parte de dentro, numa cabine de segurança, ao lado do portão. Há uma porta-cocheira para os carros passarem e degraus de már­more rosa que levam ao saguão.

O saguão é todo ornamentado. Tem um piso de már­more, dois aparelhos de um circuito fechado de televisão numa mesa, guardada por um fuzileiro naval, e uma larei­ra com uma tela de proteção, na qual está pintado um dra­gão soprando fumaça. Os corredores estão revestidos com os retratos de presidentes dos Estados Unidos. Uma esca­da em curva leva ao segundo andar, onde estão localizados os escritórios e uma sala de conferências.

Um fuzileiro estava esperando por Mary.

— Bom dia, senhora embaixadora — cumprimentou ele. — Sou o sargento Hughes. Todos me chamam de Gunny.

— Bom dia, Gunny.

— Estão à sua espera na sala de conferências. Eu a acompanharei até lá.

— Obrigada.

Mary seguiu-o para uma sala de recepção no segundo andar, onde uma mulher de meia-idade estava sentada atrás de uma mesa. Ela se levantou.

— Bom dia, senhora embaixadora. Sou Dorothy Sto-ne, sua secretária.

— Como vai?

— Há uma verdadeira multidão à sua espera lá dentro. Dorothy abriu a porta, e Mary entrou na sala. Havia nove pessoas sentadas em torno de uma enorme mesa de reuniões. Todos se levantaram quando a viram. Ficaram observando-a, e Mary sentiu uma onda de hostilidade qua­se palpável. A primeira pessoa que ela reconheceu foi Mi­ke Slade. Pensou no sonho que tivera.

— Vejo que chegou aqui sã e salva — disse Mike. — Deixe-me apresentá-la a seus chefes de departamentos. Es­te é Lucas Janklow, conselheiro administrativo; Eddie Maltz, conselheiro político; Patrícia Hatfield, conselheira econômica; David Wallace, chefe da administração; Ted Thompson, especialista em assuntos agrícolas. Já conheceu Jerry Davis, seu conselheiro de assuntos públicos. Este é David Victor, conselheiro comercial. E também já conhece o coronel Bill McKinney.

— Sentem-se, por favor — disse Mary.

Ela foi para a cadeira à cabeceira da mesa e contem­plou o grupo. A hostilidade vem em todas as idades, tama­nhos e formatos, pensou.

Patrícia Hatfield tinha um corpo gordo e rosto atraente. Lucas Janklow, o membro mais moço da equipe, parecia e se vestia como um americano de família tradicional. Os outros eram mais velhos, cabelos grisalhos, calvos, magros, gordos. Vai levar algum tempo para definir a todos. Mike Slade estava dizendo:

— Todos nós estamos servindo a seu critério. Pode nos substituir a qualquer momento.

Isso é mentira, pensou Mary, furiosa. Tentei substituir você, mas não consegui.

A reunião durou quinze minutos. A conversa foi irre­levante. Mike Slade finalmente anunciou:

— Dorothy providenciará reuniões separadas para to­dos com a embaixadora ainda hoje. Obrigado.

Mary sentia-se ressentida porque ele assumira o coman­do. E perguntou, quando ficou a sós com Slade:

— Qual deles é o agente da CIA adido à embaixada? Ele fitou-a em silêncio por um momento e depois disse:

— Por que não vem comigo?

Slade saiu da sala. Mary hesitou por um instante e de­pois foi atrás. Seguiu-o por um corredor comprido, passando por uma sucessão de salas pequenas. Ele parou diante de uma porta em que um fuzileiro montava guarda. O fuzilei­ro deu um passo para o lado e Slade abriu a porta. Virou-se e gesticulou para que Mary entrasse.

Ela entrou e olhou ao redor. A sala era uma incrível combinação de metal e vidro, cobrindo o chão, as paredes e o teto. Mike Slade fechou a pesada porta.

— Esta é a Sala Bolha. Cada embaixada num país da Cortina Ferro possui uma sala assim. É o único lugar da embaixada em que pessoas estranhas não podem ouvir o que se fala.

Ele viu a expressão de incredulidade de Mary e acres­centou:

— Senhora embaixadora, não apenas a embaixada está repleta de microfones ocultos, mas pode também apostar até seu último dólar como o mesmo acontece com a resi­dência oficial... e se for a um restaurante para jantar, ha­verá também um microfone oculto em sua mesa. Está em território inimigo.

Mary arriou numa cadeira.

— Como se pode resolver o problema? — indagou ela. — Quer dizer que nunca podemos falar livremente?

— Efetuamos uma varredura eletrônica todas as ma­nhãs. Descobrimos os microfones que eles plantam e os ti­ramos. Eles os substituem e tornamos a removê-los.

— Por que se permite que romenos trabalhem na em­baixada?

— É o campo deles. Formam o time da casa. Ou jo­gamos por suas regras ou estragamos a festa. Eles não po­dem plantar microfones aqui dentro porque há fuzileiros de guarda na porta durante as 24 horas do dia. E agora... quais são suas perguntas?

— Eu apenas gostaria de saber quem era o homem da CIA.

— Eddie Maltz, seu conselheiro político.

Mary tentou recordar como era Eddie Maltz. Cabelos grisalhos e corpulento. Não, esse era o homem dos assun­tos agrícolas. Eddie Maltz... ah, sim, o homem de meia-idade, muito magro, um rosto sinistro. Ou será que ela só tinha essa impressão agora, porque fora informada que se tratava de um agente da CIA?

— Ele é o único homem da CIA na equipe? — É.

Havia hesitação em sua voz? Mike Slade consultou o relógio.

— Você deve apresentar suas credenciais dentro de trin­ta minutos. Florian está à sua espera lá fora. Leve a carta de credencial. Entregue o original ao presidente Ionescu e guarde uma cópia em nosso cofre.

Mary descobriu que estava rangendo os dentes de raiva.

— Já sei de tudo isso, senhor Slade.

— Ele pediu que você levasse as crianças. Mandei um carro buscá-las.

Sem consultá-la.

— Obrigada.

A sede do governo romeno é um prédio de aparência intimidativa, feito com blocos de arenito, no centro de Bucareste. É protegido por um muro de aço, com guardas armados na frente. Havia mais guardas na entrada do pré­dio. Um assessor escoltou Mary e as crianças ao segundo andar.

O presidente Alexandros Ionescu cumprimentou Mary e as crianças numa sala comprida e retangular. O presiden­te da Romênia era uma presença poderosa. Um homem mo­reno, de feições aquilinas e cabelos pretos crespos. Tinha um dos narizes mais imperiosos que Mary já vira. Os olhos eram brilhantes, hipnotizadores. O assessor disse:

— Excelência, posso apresentar a senhora embaixadora dos Estados Unidos?

O presidente pegou a mão de Mary e deu-lhe um beijo prolongado.

— É ainda mais bonita do que nas fotografias.

— Obrigada, Excelência. Estes são minha filha Beth e meu filho Tim.

— Crianças bonitas. — Ionescu fitou-a, expectante.

— Tem alguma coisa para mim?

Mary quase esquecera. Abriu apressada a bolsa e ti­rou a carta de credencial do presidente Ellison. Alexandros Ionescu deu uma olhada indiferente.

— Obrigado. Aceito em nome do governo romeno. É agora oficialmente a embaixadora americana em meu país.

— Ele parecia radiante. — Vou lhe oferecer uma recepção esta noite. Conhecerá algumas das pessoas com quem irá trabalhar.

— É muita gentileza sua — disse Mary. Ele tornou a pegar sua mão e disse:

— Temos um ditado a ;. "Um embaixador chega em lágrimas porque sabe que vai passar anos numa terra estra­nha, longe de seus amigos, mas quando parte está em lá­grimas também, porque deve deixar seus novos amigos, num país que passou a amar." Espero que passe a amar nosso país, senhora embaixadora.

Ele apertou a mão de Mary.

— Tenho certeza de que isso acontecerá.

Ele pensou que sou apenas outro rostinho bonito, pen­sou Mary, desolada. Terei de fazer alguma coisa a esse respeito.

 

Mary mandou as crianças para casa e passou o resto do dia na embaixada, na grande sala de conferências, começando por uma reunião com os chefes de seções, os conselheiros político, econômico, agrícola, administrativo e comercial. O coronel McKinney estava presente como o adido militar.

Sentaram à mesa comprida e retangular. Contra as pa­redes escuras havia uma dúzia de funcionários subalternos dos diversos departamentos.

O conselheiro comercial, um homem pequeno e pom­poso, apresentou uma fieira de fatos e dados. Mary olhava pela sala, pensando: Terei de me lembrar de todos os seus nomes.

Chegou a vez de Ted Thompson, o conselheiro para assuntos agrícolas.

— O ministro da Agricultura romeno sabe que a si­tuação é mais crítica do que está disposto a admitir. Terão uma colheita desastrosa este ano, e não podemos deixar que afundem.

A conselheira econômica, Patrícia Hatfield, protestou:

— Já lhes demos bastante espaço, Ted. A Romênia está operando nos termos de um tratado de nação privilegiada. É um país SGP.

Ela olhou para Mary, discretamente. Essa mulher está fazendo isso de propósito, para me embaraçar, pensou Mary. Patrícia Hatfield acrescentou, condescendente:

— Um país SGP é...

— ...o que conta com um sistema geral de preferências — arrematou Mary. — Tratamos a Romênia como um país menos desenvolvido, a fim de que possa desfrutar de vantagens de exportação e importação. A expressão de Hatfield mudou.

— Isso mesmo. Já estamos dando as nossas reservas e...

David Victor, o conselheiro comercial, interveio:

— Não estamos dando nada... apenas tentando man­ter os canais abertos, a fim de podermos fazer negócios aqui. Eles precisam de mais crédito para comprarem milho de nós. Se não vendermos, eles comprarão da Argentina. — Vic­tor virou-se para Mary. — Parece que vamos perder na so­ja. Os brasileiros estão tentando vender a preço inferior ao nosso. Eu agradeceria se conversasse com o primeiro-ministro o mais depressa possível e tentasse fechar um pa­cote, antes de sermos excluídos.

Mary olhou para Mike Slade, que estava sentado no outro lado da mesa, arriado na cadeira, rabiscando num bloco, aparentemente sem prestar a menor atenção à conversa.

— Verei o que posso fazer — prometeu Mary.

Ela fez uma anotação: enviar um telegrama ao chefe do Departamento do Comércio em Washington, pedindo permissão para oferecer mais crédito ao governo romeno. O dinheiro viria de bancos americanos, mas os emprésti­mos só se consumariam com a aprovação do governo.

Eddie Maltz, o conselheiro político, além de agente da CIA, disse:

— Tenho um problema um tanto urgente, senhora em­baixadora. Uma estudante americana de dezenove anos foi presa ontem à noite por posse de drogas. É um crime mui­to sério aqui.

— Que tipo de drogas ela tinha?

— Marijuana. Apenas uns poucos gramas.

— Como é a moça?

— Inteligente, universitária, bonita.

— O que acha que farão com ela?

— A pena habitual é de cinco anos de prisão. Mike Slade disse, em voz indolente:

— Pode tentar envolver o chefe da segurança com seu charme. Ele se chama Istrase. Tem muito poder.

Eddie Maltz acrescentou:

— As outras garotas dizem que ela caiu numa arma­dilha. É bem possível. Ela foi bastante estúpida para ter uma ligação com um policial romeno. Depois que a fo... que a levou para a cama, o homem entregou-a.

Mary ficou horrorizada.

— Como é possível?

Mike Slade disse, secamente:

— Senhora embaixadora, aqui somos o inimigo... e não eles. A Romênia está brincando com a gente. Somos amigos, trocamos sorrisos, mãos estendidas através do ocea­no. Deixamos que nos vendam e comprem de nós a preços de barganha, porque queremos atraí-los para longe da Rús­sia. Mas quando chega no fundo, eles continuam comu­nistas.

Mary fez outra anotação.

— Muito bem. Verei o que posso fazer. — Ela virou-se para o conselheiro de assuntos públicos, Jerry Davis. — Quais são os seus problemas?

— Meu departamento está encontrando dificuldades em obter aprovação para os reparos nos apartamentos em que moram os funcionários da embaixada. Estão em con­dições lamentáveis.

— Não é possível fazer os reparos sem consultar ninguém?

— Infelizmente, não. O governo romeno tem de apro­var todos os reparos. Alguns dos nossos estão sem aqueci­mento, os banheiros não funcionam em diversos apartamentos e não há água corrente.

— Já protestou contra essa situação?

— Já, sim.., todos os dias, nos últimos três meses.

— Então por que...?

— É o que se chama de hostilidade — explicou Mike Slade. — Uma guerra de nervos que travam com a gente.

Mary fez outra anotação.

— Senhora embaixadora, tenho um problema da maior urgência — disse Jack Chancelor, o diretor da biblioteca americana. — Alguns livros de referências muito importan­tes foram roubados ontem da...

A embaixadora Ashley estava começando a ficar com dor de cabeça.

 

A tarde foi ocupada a ouvir uma série de queixas. Todos pareciam infelizes. E havia ainda a leitura. Em sua mesa estava uma pilha de papéis. Eram traduções para o inglês de notícias que haviam saído no dia anterior em jornais e revistas romenos. A maioria das notícias do jornal popular Scinteia Tineretului era sobre as atividades diárias do pre­sidente Ionescu, com três ou quatro fotografias suas em cada página. O incrível ego de um homem, pensou Mary.

Havia outras condensações para ler: The Romania Li­bera, o semanário Flacara Rosie e Magafinul. E isso era ape­nas o começo. Havia também os telegramas e os resumos do que estava acontecendo nos Estados Unidos. Havia uma pasta com os textos integrais de discursos de importantes autoridades americanas, um volumoso relatório sobre ne­gociações de controle de armamentos e uma síntese atuali­zada sobre a situação da economia americana.

Em um dia há material de leitura suficiente para me manter ocupada por anos e terei isso todas as manhãs, pen­sou Mary.

Mas o problema que mais a perturbava era a sensação de antagonismo da equipe. Era preciso encontrar uma so­lução imediata.

Ela chamou Harriet Kruger, a responsável pelo pro­tocolo.

— Há quanto tempo trabalha aqui na embaixada? — perguntou-lhe Mary.

— Por quatro anos antes do rompimento com a Ro­mênia e agora há três gloriosos meses.

Havia um tom de ironia em sua voz.

— Não gosta daqui?

— Sou uma garota de McDonald's e Coney Island. Co­mo diz a canção, "Mostre-me o caminho de volta para casa".

— Podemos ter uma conversa particular?

— Não, madame. Mary esquecera.

— Por que não vamos para a Sala Bolha? — sugeriu.

 

Depois que sentou na Sala Bolha com Harriet Kruger, a por­ta fechada, Mary disse:

— Acaba de me ocorrer uma coisa. Nossa reunião de hoje foi realizada na sala de conferências. Não está grampeada?

— Provavelmente — respondeu Harriet Kruger, em tom jovial. — Mas não tem importância. Mike Slade não deixaria que fosse discutida qualquer coisa que os romenos já não soubessem.

Mike Slade de novo.

— O que acha de Slade?

— Ele é o melhor.

Mary resolveu não manifestar sua opinião.

— Eu queria conversar francamente com você porque tenho a impressão de que o moral aqui não é dos melhores. Todos estão se queixando. Ninguém parece feliz. Eu gos­taria de saber se é por minha causa ou se sempre foi assim.

Harriet Kruger estudou-a em silêncio por um momento.

— Quer uma resposta sincera?

— Por favor.

— É uma combinação das duas coisas. Os americanos que trabalham aqui estão sob pressão permanente. Se vio­lamos as regras, estamos perdidos. Temos receio de fazer amizade com romenos porque provavelmente acabaremos descobrindo que são da Securitate. Por isso, ficamos res­tritos aos americanos. O grupo é pequeno, e logo se torna aborrecido e incestuoso. — Ela deu de ombros. — O paga­mento é péssimo, a comida ruim e o tempo horrível. Nada disso é culpa sua, senhora embaixadora. Seus problemas são dois. O primeiro é que se trata de uma nomeação política e está no comando de uma embaixada guarnecida por di­plomatas de carreira. — Fez uma pausa. — Estou sendo muito forte?

— Não. Continue, por favor.

— A maioria era contra você antes mesmo de chegar aqui. O pessoal de carreira numa embaixada tende a não balançar o barco. Os designados políticos gostam de mu­dar as coisas. Você é uma amadora dizendo a profissionais como devem agir. O segundo problema é o fato de ser uma mulher. A Romênia devia ter um grande símbolo em sua bandeira: um porco chauvinista macho. Os americanos na embaixada não gostam de receber ordens de uma mulher, e os romenos são muito piores.

— Entendo. Harriet Kruger sorriu.

— Mas com toda certeza você tem um grande agente de publicidade. Nunca vi tantas reportagens de capa em re­vistas em toda a minha vida. Como conseguiu?

Mary não tinha resposta para isso. Harriet Kruger olhou para o relógio.

— Ei, você vai se atrasar! Florian está esperando pa­ra levá-la em casa, a fim de que possa trocar de roupa.

— Trocar de roupa para quê? — perguntou Mary.

— Não verificou a programação que pus em sua mesa?

— Infelizmente, não tive tempo. Tenho alguma festa para ir hoje?

— Festas. Três esta noite. No total, são 21 festas nes­ta semana.

Mary estava aturdida.

— É impossível. Tenho muita coisa para...

— É inerente ao cargo. Há 75 embaixadas em Bucareste, e numa determinada noite algumas sempre estão ce­lebrando qualquer coisa.

— Não posso recusar os convites?

— Seria uma recusa dos Estados Unidos. Eles ficariam ofendidos.

Mary suspirou.

— Acho melhor eu ir logo para casa e trocar de roupa.

 

O coquetel naquela tarde foi realizado no Palácio do Go­verno da Romênia, em homenagem a uma autoridade visi­tante da Alemanha Oriental.

Assim que Mary chegou, o presidente Ionescu adiantou-se em sua direção. Beijou-lhe a mão e disse:

— Eu estava ansioso em tornar a vê-la.

— Obrigada, Excelência. Eu também.

Mary teve a impressão de que ele andara bebendo mui­to. Recordou o dossiê a seu respeito: Casado. Um filho de quatorze anos, o herdeiro presuntivo, e três filhas. É um conquistador. Bebe muito. Uma astuta mente de campo­nês. Encantador quando lhe é conveniente. Generoso com os amigos. Perigoso e implacável com os inimigos. Mary pensou: Um homem com quem se deve tomar cuidado.

Ionescu pegou o braço de Mary e conduziu-a para um canto deserto.

— Vai descobrir que nós, os romenos, somos muito interessantes. — Ele apertou o braço de Mary. — Um po­vo ardente.

Ele fez uma pausa, aguardando uma reação. Como nào houvesse nenhuma, acrescentou:

— Somos descendentes dos antigos dácios e seus con­quistadores, os romanos, desde o ano 106 da era cristã. Du­rante séculos fomos o capacho da Europa. O país com fronteiras de borracha. Os hunos, godos, ávaros, eslavos e mongóis limparam seus pés em nós, mas a Romênia so­breviveu. E quer saber como?

Ionescu fez outra pausa, inclinando-se para mais per­to de Mary, que pôde sentir seu bafo de álcool.

— Dando ao nosso povo uma liderança forte e firme. O povo confia em mim, e eu o governo bem.

Mary pensou em algumas das histórias que ouvira. As prisões durante a madrugada, os tribunais irregulares, as atrocidades, os desaparecimentos súbitos e inexplicáveis.

Enquanto Ionescu continuava a falar, Mary olhou por cima de seu ombro para as pessoas na sala apinhada. Ha­via pelo menos duzentas pessoas ali, e Mary tinha certeza de que representavam todas as embaixadas na Romênia. Co­nheceria a todos em breve. Dera uma olhada na lista de com­promissos preparada por Harriet Kruger e descobrira que uma de suas primeiras funções deveria ser uma visita for­mal a cada uma das 75 embaixadas, Além disso, havia co­quetéis e jantares em seis noites por semana.

Quando terei tempo para ser uma embaixadora?, es­peculou Mary. E mesmo enquanto pensava, compreendeu que tudo aquilo era parte dos deveres de uma embaixadora.

Um homem aproximou-se do presidente Ionescu e sus­surrou algo em seu ouvido. A expressão de Ionescu tornou-se fria. Ele murmurou alguma coisa em romeno, o homem ace­nou com a cabeça e afastou-se apressado. O ditador tor­nou a se virar para Mary, outra vez o charme em pessoa.

— Preciso deixá-la agora. Mas aguardarei ansioso a próxima oportunidade em que nos encontraremos.

E Ionescu se foi.

 

A fim de aproveitar melhor o tempo nos dias movimenta­dos que a esperavam, Mary determinou que Florian fosse buscá-la às seis e meia da manhã todos os dias. Durante o percurso até a embaixada, ela lia os relatórios e comunica­dos de outras embaixadas, entregues na residência durante a noite.

Ao atravessar o corredor, passando pela porta de Mi­ke Slade, ela parou de repente, surpresa. Ele estava à sua mesa, trabalhando. Com a barba por fazer. Ela se pergun­tou se Slade teria passado a noite inteira ali.

— Chegou cedo — disse Mary. Ele levantou os olhos.

— Bom dia. Gostaria de falar com você.

— Está bem.

Ela começou a entrar.

— Não aqui. Na sua sala.

Ele seguiu Mary para a sala dela e foi até um instru­mento que estava num canto.

— Isto é um retalhador — informou Mike.

— Sei disso.

— Sabe mesmo? Quando saiu ontem à noite, deixou alguns papéis em cima de sua mesa. A esta altura, já foram fotografados e enviados para Moscou.

— Oh, Deus! Devo ter esquecido. Que papéis eram?

— Uma lista de cosméticos, papel higiênico e outros artigos pessoais que queria encomendar. Mas isso não im­porta. A faxineira trabalha para a Securitate. Os romenos ficam felizes por qualquer fragmento de informação que consigam obter e são ótimos para juntar dois e dois. Lição número um: à noite, tudo deve ser guardado em seu cofre ou destruído.

— E qual é a lição número dois? — indagou Mary, friamente.

Mike sorriu.

— A embaixadora sempre começa seu dia tomando ca­fé com o subchefe da missão. Como prefere o seu?

Mary não tinha o menor desejo de tomar café com aquele filho da mãe arrogante.

— Eu... puro.

— Faz muito bem. É preciso tomar muito cuidado com a silhueta por aqui. A comida é do tipo que engorda. — Ele se levantou e se encaminhou para a porta que dava pa­ra a sua sala. — Preparo meu próprio café. Tenho certeza de que vai gostar.

Mary continuou sentada, furiosa com Slade. Tenho de tomar cuidado com a maneira de tratá-lo, pensou. Quero afastá-lo daqui o mais depressa possível.

Mike Slade voltou com duas canecas de café fumegante e colocou-as em cima da mesa.

— Como posso matricular Beth e Tim na escola ame­ricana aqui? — indagou Mary.

— Já providenciei tudo. Florian as levará pela manhã e irá buscar à tarde.

Ela ficou confusa.

— Ahn... obrigada.

— Deve visitar a escola quando tiver uma oportuni­dade. É pequena, com cerca de cem alunos. Cada turma tem oito ou nove estudantes. Vêm de todos os lugares... ca­nadenses, israelenses, nigerianos... pode dizer qualquer um. Os professores são excelentes.

— Irei até lá.

Mike tomou um gole do café.

— Soube que teve uma boa conversa com nosso des­temido líder ontem à noite.

— O presidente Ionescu? É verdade. Ele foi muito sim­pático.

— Sempre é. Um cara maravilhoso. Até que se irrita com alguém. E corta sua cabeça.

Mary disse, bastante nervosa:

— Não deveríamos falar sobre essas coisas apenas na Sala Bolha?

— Não há necessidade. Mandei fazer uma varredura eletrônica em sua sala esta manhã. Está limpa. Mas tome cuidado depois que os criados chegarem. Por falar nisso, não deixe que o charme de Ionescu a engane. Ele é um fi­lho da puta irredutível. O povo o despreza, mas não pode fazer nada. A polícia secreta está em toda parte. É a KGB e a força policial reunidas numa coisa só. Os romenos têm ordens para não fazerem qualquer contato com estrangei­ros. Se um estrangeiro quer jantar no apartamento de um romeno, o compromisso tem de ser aprovado primeiro pe­lo Estado.

Mary sentiu um calafrio percorrer seu corpo.

— Um romeno pode ser preso por assinar uma peti­ção, criticar o governo, pichar paredes...

Mary lera artigos em jornais e revistas sobre a repres­são nos países comunistas, mas viver no meio de tudo aquilo lhe dava uma sensação de irrealidade.

— Há julgamentos aqui — murmurou ela.

— É verdade. De vez em quando eles promovem julgamentos de demonstração e permitem a presença de repór­teres do Ocidente. Mas a maioria dos presos sofre acidentes fatais quando se encontra sob a custódia da polícia. Há gu­lags na Romênia que não podemos conhecer. Ficam na área do Delta e no Danúbio, perto do mar Negro. Conversei com pessoas que os conheceram. As condições são terríveis.

— E não há lugar para onde possam escapar — disse Mary, pensando em voz alta. — Eles têm o mar Negro a leste, a Bulgária ao sul, a Iugoslávia, Hungria e Tchecoslováquia nas outras fronteiras. Estão bem no meio da Corti­na de Ferro.

— Já ouviu falar do Decreto da Máquina de Escrever?

— Não.

— É a última idéia de Ionescu. Ordenou que toda má­quina de escrever e copiadora do país fossem registradas. Assim que isso aconteceu, confiscou tudo. Agora Ionescu controla todas as informações que são disseminadas. Mais café?

— Não, obrigada.

— Ionescu aperta o povo onde mais dói. As pessoas têm medo de fazer greve, porque sabem que serão fuzila­das. O padrão de vida aqui é um dos mais baixos da Euro­pa. Há escassez de tudo. Se as pessoas deparam com uma fila na frente de uma loja, entram e compram qualquer coisa que esteja à venda, enquanto têm a chance.

— Parece-me que tudo isso oferece uma oportunida­de maravilhosa para nós os ajudarmos — comentou Mary.

Mike Slade fitou-a em silêncio por um instante e de­pois disse, secamente:

— Tem razão. Uma oportunidade maravilhosa.

 

Naquela tarde, enquanto lia os telegramas chegados de Was­hington, Mary pensou em Mike Slade. Era um homem es­tranho. Arrogante e grosseiro, mas... Já providenciei a escola para as crianças. Florian as levará pela manhã e irá buscar à tarde. E parecia se importar realmente com o po­vo romeno e seus problemas. Talvez ele seja mais comple­xo do que imaginei, concluiu Mary. Ainda assim, não confio nele.

 

Foi por puro acaso que Mary tomou conhecimento das reu­niões que se realizavam às suas costas. Ela deixou a embai­xada para almoçar com o ministro da Agricultura romeno. Ao chegar ao ministério, foi informada de que ele fora con­vocado para um encontro inesperado com o presidente. Mary resolveu voltar à embaixada e ter um almoço de tra­balho. Disse à sua secretária:

— Avise a Lucas Janklow, David Wallace e Eddie Maltz que quero falar com eles.

Dorothy Stone hesitou.

— Eles estão numa reunião, senhora.

Havia alguma coisa evasiva no tom da mulher.

— Numa reunião com quem? Dorothy Stone respirou fundo.

— Com todos os outros conselheiros. Mary levou um momento para compreender.

— Está querendo dizer que há uma reunião da equipe sem que eu tenha sido avisada?

— Isso mesmo, senhora embaixadora. Mas aquilo era uma afronta!

— E não é a primeira vez?

— Não, senhora, não é.

— O que mais está acontecendo por aqui que eu de­veria saber e ignoro?

Dorothy Stone tornou a respirar fundo.

— Todos estão enviando telegramas sem sua auto­rização.

Esqueça a revolução fermentando na Romênia, pen­sou Mary. Há uma revolução aqui mesmo, na embaixada.

— Dorothy, convoque uma reunião de todos os chefes de departamentos para três horas da tarde... e todos mesmo.

— Pois não, senhora.

 

Mary estava sentada à cabeceira da mesa, observando os conselheiros entrarem na sala de conferências. Os mais ca­tegorizados sentaram à mesa, enquanto os outros ocupa­vam cadeiras encostadas nas paredes.

— Boa tarde — disse Mary, em tom firme. — Não vou levar muito tempo. Sei como todos andam muito ocupa­dos. Chegou ao meu conhecimento que os membros mais categorizados da equipe têm se reunido sem o meu conhe­cimento e aprovação. Deste momento em diante, qualquer pessoa que comparecer a essas reuniões será imediatamen­te dispensada de suas funções.

Pelo canto dos olhos, ela podia ver Dorothy tomando anotações. E continuou:

— Também chegou ao meu conhecimento que alguns de vocês estão enviando telegramas sem me informarem. De acordo com o protocolo do Departamento de Estado, cada embaixador tem o direito de contratar e dispensar qual­quer pessoa da equipe da embaixada, a seu critério. — Virou-se para Ted Thompson, o conselheiro para assuntos agrícolas. — Você enviou ontem um telegrama não-autorizado ao Departamento de Estado. Fiz reserva para você num avião que parte para Washington ao meio-dia de amanhã. Não pertence mais a esta embaixada.

Ela fez uma pausa, correndo os olhos pela mesa.

— Na próxima vez em que alguém nesta sala enviar um telegrama sem meu conhecimento ou deixar de me pro­porcionar seu apoio total, essa pessoa embarcará no pri­meiro avião para os Estados Unidos. Isso é tudo, senhoras e senhores.

Houve um silêncio atordoado. Depois, lentamente, as pessoas começaram a levantar e sair da sala. Mike Slade saiu com uma expressão intrigada.

Mary e Dorothy Stone ficaram a sós na sala. Mary per­guntou:

— O que você achou? Dorothy sorriu.

— Perfeita, sem qualquer exagero. Foi a reunião da equipe mais curta e mais eficaz a que já assisti.

— Ótimo. E agora está na hora de esclarecer a situa­ção na sala de telegramas.

Todas as mensagens enviadas de embaixadas na Euro­pa Oriental são primeiro codificadas. São datilografadas nu­ma máquina de escrever especial, lidas por um aparelho eletrônico na sala de códigos e automaticamente codifica­das. Os códigos são mudados todos os dias e há cinco clas­sificações: Ultra-Secreto, Secreto, Confidencial, Limitado ao Uso Oficial e Aberta. A sala de telegramas, nos fundos, gradeada, sem janelas, com os mais modernos equipamen­tos eletrônicos, era guardada com todo cuidado.

Sandy Palance, o funcionário encarregado, estava sen­tado por trás de um guichê na sala de telegramas. Levantou-se quando Mary se aproximou.

— Boa tarde, senhora embaixadora. Em que posso ajudá-la?

— Em nada. Eu é que vou ajudar você. Palance ficou aturdido.

— Como?

— Andou enviando telegramas sem a minha assina­tura. Isso significa que eram telegramas não-autorizados.

Ele caiu na defensiva no mesmo instante.

— Os conselheiros disseram que...

— Daqui por diante, deve me levar imediatamente qualquer telegrama que alguém lhe peça para enviar sem a minha assinatura. Entendido?

A voz de Mary era fria e implacável. Palance pensou: Eles se enganaram com essa mulher.

— Claro, senhora. Entendido.

— Ótimo.

Mary virou-se e foi embora. Sabia que a sala de tele­gramas era usada pela CIA para enviar mensagens através de um "canal preto". Não havia meio de impedir isso. Ela se perguntou quantas pessoas na embaixada seriam da CIA e especulou se Mike Slade lhe contara toda a verdade a res­peito. Tinha a impressão de que não.

 

Naquela noite, Mary escreveu anotações sobre os aconteci­mentos do dia e os problemas que precisava resolver. Dei­xou os papéis na mesinha-de-cabeceira. Pela manhã, foi tomar um banho de chuveiro. Depois que se vestiu, pegou as anotações. Estavam numa ordem diferente. Pode estar certa de que a embaixada e a residência são espionadas. Mary ficou imóvel por um instante, pensando.

Ao café da manhã, quando ela, Beth e Tim estavam sozinhos, Mary disse, em voz alta:

— Os romenos são maravilhosos. Mas tenho a impres­são de que eles estão muito atrasados em relação aos Esta­dos Unidos em algumas coisas. Sabiam que muitos dos apartamentos em que mora o pessoal da embaixada não têm aquecimento e água corrente e os banheiros não funcionam direito? — Beth e Tim fitavam-na com expressões estranhas. — Creio que teremos de ensinar aos romenos como con­sertar as coisas.

Na manhã seguinte, Jerry Davis disse:

— Não sei como conseguiu, mas os operários surgi­ram de repente para consertar nossos apartamentos.

Mary sorriu.

— Basta saber falar com eles.

Ao final de uma reunião da equipe, Mike Slade disse:

— Você tem muitas embaixadas que precisa visitar for­malmente. É melhor começar hoje logo de uma vez.

Mary ficou ressentida com seu tom. Além do mais, não era da conta dele; Harriet Kruger era a responsável pelo pro­tocolo e não estava na embaixada naquele dia. Mike acres­centou:

— É importante que você visite as embaixadas de acor­do com a prioridade. A mais importante...

— ...é a embaixada russa. Sei disso.

— Eu aconselharia...

— Se eu precisar de algum conselho seu a respeito de minhas funções aqui, senhor Slade, pode deixar que lhe direi.

Mike deixou escapar um suspiro profundo.

— Está bem. — Ele se levantou. — Como achar me­lhor, senhora embaixadora.

Depois da visita à embaixada russa, Mary passou o resto do dia ocupada com entrevistas, com um senador de Nova York que queria informações confidenciais sobre os dissi­dentes romenos e numa reunião com o novo conselheiro para assuntos agrícolas.

Quando Mary já se preparava para ir embora, Dorothy Stone tocou o interfone e avisou:

— Há uma ligação urgente, senhora embaixadora. Ja­mes Stickley, de Washington.

Mary pegou o telefone.

— Olá, senhor Stickley.

A voz de Stickley soou furiosa pela linha:

— Quer me explicar o que pensa que está fazendo?

— Eu... eu não sei do que está falando.

— Obviamente, O secretário de Estado acaba de re­ceber um protesto formal do embaixador do Gabão sobre o seu comportamento.

— Ei, espere um pouco! — disse Mary. — Deve haver algum engano. Nem mesmo falei com o embaixador do Gabão.

— Exatamente — cortou Stickley, o tom ríspido. — Mas falou com o embaixador da União Soviética.

— É verdade. Fiz uma visita de cortesia esta manhã.

— Não sabia que as embaixadas estrangeiras têm prio­ridade de acordo com as datas em que apresentaram suas credenciais?

— Sabia, sim, mas...

— Para sua informação, na Romênia a embaixada do Gabão é a primeira, e a da Estônia a última, havendo entre as duas cerca de setenta outras embaixadas. Alguma pergunta?

— Não, senhor. Lamento muito se...

— Por favor, cuide para que isso não torne a acontecer.

 

Quando soube da notícia, Mike Slade foi à sala de Mary.

— Eu tentei avisá-la.

— Senhor Slade...

— Eles levam essas coisas muito a sério na diploma­cia. Em 1661 os servidores do embaixador espanhol em Lon­dres atacaram a carruagem do embaixador francês, mataram o postilhão, espancaram o cocheiro e estropiaram dois ca­valos, só para terem certeza de que a carruagem espanhola chegaria na frente. Sugiro que mande um bilhete de des­culpas.

Mary sabia que o jantar naquela noite seria amargo.

 

Mary sentia-se perturbada com os comentários que ouvia sobre a publicidade que ela e as crianças estavam obtendo. Saiu até uma matéria no Pravda, com uma fotografia dos três.

Fez uma ligação para Stanton Rogers, à meia-noite. Ele deveria estar chegando no escritório e atendeu no mesmo instante.

— Como está a minha embaixadora predileta?

— Estou bem, Stan. E você, como vai?

— Além de uma agenda que me ocupa 48 horas por dia, não tenho do que me queixar. Para ser franco, estou adorando cada minuto. Como está se saindo sozinha? Tem algum problema em que eu possa ajudá-la?

— Não chega a ser bem um problema. É apenas uma coisa que me deixa curiosa. — Ela hesitou, querendo for­mular o assunto de uma maneira que não permitisse qual­quer mal-entendido. — Viu a fotografia min das crianças no Pravda da semana passada?

— Claro que vi! Está maravilhosa! Finalmente esta­mos conseguindo atingi-los!

— Os outros embaixadores recebem tanta publicida­de quanto eu, Stan?

— Francamente, não. Mas o chefe decidiu promovê-la ao máximo, Mary. Você é o nosso mostruário. O presi­dente Ellison era sincero ao dizer que procurava o oposto do americano feio. Encontramos você e tencionamos exibi-la. Queremos que o mundo inteiro dê uma olhada no me­lhor do nosso país.

— Eu... eu me sinto lisonjeada...

— Continue a fazer um bom trabalho.

Eles trocaram amenidades por mais alguns minutos e depois se despediram.

Então é o presidente quem está por trás de toda essa projeção, pensou Mary. Não é de admirar que ele tenha con­seguido tanta publicidade.

 

O interior da Prisão Ivan Stelian era ainda mais assustador que o exterior. Os corredores eram estreitos, pintados com um cinza opaco. Havia uma verdadeira selva de celas apinhadas, com grades pretas, no primeiro andar, e outra ala por cima, patrulhadas por guardas uniformizados, arma­dos com metralhadoras.

Um guarda levou Mary a uma pequena sala para visi­tantes, nos fundos do prédio.

— Ela está aí dentro. Tem dez minutos para conversar.

— Obrigada.

Mary entrou na sala e a porta foi fechada. Hannah Murphy estava sentada a uma mesa pequena e escalavrada. Tinha algemas nos pulsos e usava o uniforme da pri­são. Eddie Maltz referira-se a ela como uma linda estudante de dezenove anos. Só que ela parecia ser dez anos mais ve­lha. O rosto era pálido e encovado, os olhos estavam ver­melhos e inchados, os cabelos desgrenhados.

— Oi — disse Mary. — Sou a embaixadora americana. Hannah Murphy fitou-a e desatou a chorar de manei­ra incontrolável. Mary abraçou-a e murmurou:

— Calma, calma. Tudo vai acabar bem.

— Não vai, não — balbuciou a moça. — Serei conde­nada na próxima semana. Morrerei se tiver de passar cinco anos neste lugar. Juro que morrerei.

Mary apertou-a por mais um momento.

— Muito bem, agora quero que me conte o que aconteceu.

Hannah Murphy respirou fundo e depois disse:

— Conheci aquele homem... ele era romeno... e me sentia muito solitária. Ele foi gentil comigo e... fizemos amor. Uma amiga me dera dois cigarros de marijuana. Par­tilhei um com ele. Fizemos amor de novo e fui dormir. Quando acordei, de manhã, ele tinha sumido, mas a polí­cia estava lá. E eu estava nua. Eles ficaram parados ao re­dor, olhando enquanto eu me vestia. E me trouxeram para este inferno. — Ela sacudiu a cabeça, desamparada. — Dis­seram que eu ia pegar cinco anos.

— Não se eu puder evitar.

Mary pensou no que Lucas Janklow lhe dissera quan­do ela estava saindo para ir à prisão: "Não há nada que possa fazer por ela, senhora embaixadora. Já tentamos antes. Uma sentença de cinco anos é o normal para estrangei­ros. Se ela fosse romena, provavelmente seria condenada à prisão perpétua. " Ela olhou agora para Hannah Murphy c prometeu:

— Farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajudá-la.

Mary examinara o registro policial oficial sobre a pri­são de Hannah Murphy. Estava assinado pelo capitão Aurel Istrase, chefe da Securitate. Era sucinto e não ajudava em nada, deixando evidente a culpa da moça. Terei de en­contrar outro meio, pensou Mary. Aurel Istrase. O nome lhe parecia familiar. Ela recordou o dossiê confidencial que James Stickley lhe mostrara em Washington. Havia algu­ma coisa ali sobre o capitão Istrase. Algo a respeito... e de repente ela se lembrou.

 

Mary marcou uma reunião com o capitão para a manhã se­guinte.

— Está perdendo seu tempo — disse-lhe Mike Slade, bruscamente. — Istrase é uma montanha. Não pode ser de­movido.

 

Aurel Istrase era um homem baixo e trigueiro, o rosto co­berto por cicatrizes, a cabeça calva e lustrosa, dentes man­chados. No início de sua carreira alguém lhe quebrara o nariz, que não fora consertado direito. Istrase teve de ir à embaixada americana para o encontro. Estava curioso so­bre a nova embaixadora.

— Desejava falar comigo, senhora embaixadora?

— Desejava, sim. Obrigada por ter vindo. Quero dis­cutir o caso de Hannah Murphy.

— Ah, sim, a traficante de tóxicos. Temos leis rigo­rosas na Romênia para as pessoas que vendem tóxicos. Sem­pre vão para a cadeia.

— Isso é ótimo — disse Mary. — Fico satisfeita por saber. Gostaria que tivéssemos leis mais rigorosas de repres­são aos tóxicos nos Estados Unidos. Istrase estava aturdido.

— Então concorda comigo?

— Claro. Qualquer pessoa que vende tóxicos merece a prisão. Hannah Murphy, no entanto, não vendia tóxicos. Ela apenas ofereceu um pouco de marijuana a seu amante.

— É a mesma coisa. Se...

— Não, capitão, não é a mesma coisa. O amante era um tenente de sua força policial. Ele também fumou mari­juana. Foi punido?

— Por que deveria ser? Estava apenas obtendo pro­vas de um ato criminoso.

— Seu tenente tem esposa e três filhos9 O capitão Istrase franziu o rosto.

— Claro. A americana seduziu-o para a cama.

— Capitão, Hannah Murphy é uma estudante univer­sitária de dezenove anos. Seu tenente tem 45 anos. Quem seduziu quem?

— A idade não tem nada a ver com isso — insistiu o capitão, obstinado.

— A esposa do tenente tem conhecimento da aventu­ra do marido?

O capitão Istrase fitava-a fixamente.

— Por que deveria ter?

— Porque me parece um caso óbvio de cilada. Acho melhor tornarmos pública a história. A imprensa interna­cional ficará fascinada.

— Não haveria sentido nisso. Mary jogou seu trunfo.

— Porque o tenente é seu genro?

— Mas claro que não! — protestou o capitão, furio­so. — Quero apenas que se faça justiça.

— Eu também.

Segundo o dossiê que Mary lera, o genro se especializava em entrar em contato com jovens turistas — homens e mulheres — levando-os para a cama e sugerindo lugares em que podiam negociar no mercado negro ou comprar tó­xicos, denunciando-os em seguida. Mary acrescentou, em tom conciliador:

— Não há necessidade de sua filha saber como o ma­rido se comporta. Creio que seria melhor para todas as pes­soas envolvidas se discretamente soltasse Hannah Murphy e a mandasse de volta para os Estados Unidos. O que acha, capitão?

Ele se manteve em silêncio por algum tempo, visivel­mente irritado, antes de murmurar:

— É uma mulher muito interessante.

— Obrigada. E devo dizer que é também um homem muito interessante. Estarei esperando miss Murphy em meu gabinete esta tarde. Providenciarei para que ela embarque no primeiro avião que deixar Bucareste.

Ele deu de ombros.

— Verei o que posso fazer com a pouca influência que tenho.

— Tenho certeza de que se empenhará ao máximo, ca­pitão Istrase. Obrigada.

Na manhã seguinte, uma agradecida Hannah Murphy estava a caminho dos Estados Unidos.

— Como foi que conseguiu? — perguntou Mike Slade, in­crédulo.

— Segui o seu conselho. Usei meu charme.

 

No dia em que Beth e Tim deveriam começar a ir à escola Mary recebeu um telefonema da embaixada às cinco horas da manhã, comunicando que chegara uma mensagem ur­gente, que exigia resposta imediata. Foi o começo de um dia longo e movimentado. Quando ela voltou à residência, já passava de sete horas da noite, e as crianças estavam à sua espera.

— Como foi a escola? — perguntou Mary.

— Eu gostei — respondeu Beth. — Sabia que os alu­nos são de 22 países diferentes? Tem um garoto italiano lindo que passou a aula toda olhando para mim. É uma escola sensacional.

— Tem um laboratório de ciências que é uma beleza — acrescentou Tim. — Amanhã vamos dissecar algumas rãs romenas.

— Mas é muito esquisito — ressaltou Beth. — Todos falam inglês com sotaques engraçados.

— Lembrem-se de uma coisa — disse Mary aos filhos.

— Quando alguém tem um sotaque, isso significa que fala uma língua a mais do que vocês. Mas fico contente de que não tenham tido problemas.

— Mike cuidou da gente — comentou Beth.

— Quem?

— O senhor Slade. Ele nos disse para chamá-lo de Mike.

— O que Mike Slade tem a ver com a ida de vocês à escola?

— Ele não lhe contou? Mike nos levou à escola e apre­sentou aos professores. Conhece todos.

— E também conhece uma porção de garotos — in­formou Tim. — E nos apresentou a eles. Todo mundo gos­ta de Mike. É um cara sensacional.

Um pouco sensacional demais, pensou Mary.

 

Na manhã seguinte, quando Mike entrou em sua sala, Mary foi logo dizendo:

— Soube que você levou Beth e Tim à escola. Ele acenou com a cabeça.

— Não é fácil para os jovens tentarem se adaptar a um país estrangeiro. Eles são bons garotos.

Será que ele tinha filhos? Mary compreendeu de repente que sabia muito pouco a respeito da vida pessoal de Mike Slade. Provavelmente é melhor assim, concluiu ela. Afinal, ele quer que eu fracasse.

E ela queria ser bem-sucedida.

 

Na tarde de sábado, Mary levou as crianças ao Clube Di­plomático, onde a comunidade se reunia para conversar. Correndo os olhos pelo pátio, Mary viu Mike Slade to­mando um drinque com alguém. Quando a mulher se vi­rou, ela constatou que era Dorothy Stone. E sentiu um choque momentâneo. Era como se sua secretária estivesse colaborando com o inimigo. Perguntou-se até que ponto Dorothy e Mike Slade seriam íntimos. Devo ter a cautela de não confiar demais nela, pensou Mary. Nem em qual­quer outra pessoa.

Harriet Kruger estava sentada sozinha a uma mesa. Mary aproximou-se.

— Posso sentar com você?

— Terei o maior prazer. — Harriet tirou da bolsa um maço de cigarros americanos. — Aceita um cigarro?

— Não, obrigada. Não fumo.

— Uma pessoa não pode viver neste país sem o cigarro.

— Não entendi.

— Os maços de Kent fazem a economia funcionar. Li­teralmente. Se quer ver um médico, ofereça cigarros à en­fermeira. Se quer carne do açougueiro, um mecânico para consertar seu carro ou um eletricista para dar um jeito nu­ma lâmpada... suborne-os com cigarros. Tinha uma amiga italiana que precisava fazer uma pequena operação. Ela pre­cisou subornar a enfermeira responsável para lhe arrumar uma lâmina nova ao prepará-la para a cirurgia. E teve de subornar também as outras enfermeiras para usarem ataduras novas depois que limparam o ferimento, em vez de usarem outra vez as ataduras antigas.

— Mas por quê...? Harriet Kruger explicou:

— Este país tem escassez de ataduras e de todos os ou­tros medicamentos e suprimentos médicos que puder ima­ginar. O mesmo acontece em todos os países da Europa Oriental. No mês passado houve uma epidemia de botulis­mo na Alemanha Oriental. Precisaram importar o soro do Ocidente.

— E as pessoas não têm como se queixar — comen­tou Mary.

— Sempre dão um jeito. Nunca ouviu falar de Bula?

— Não.

— É um personagem mítico que os romenos usam para aliviar um pouco a pressão. Há uma história de pessoas na fila da carne durante um dia inteiro e a fila quase não an­da. Depois de cinco horas de espera, Bula fica furioso e diz: "Vou ao palácio para matar Ionescu!" Ele volta à fila duas horas depois e os amigos perguntam: "O que aconteceu? Conseguiu matá-lo?" E Bula responde: "Não. A fila lá es­tava maior."

Mary riu. Harriet Kruger acrescentou:

— Sabe qual é um dos artigos mais procurados no mer­cado negro local? Videocassetes de nossos programas de te­levisão.

— Eles gostam de assistir a filmes americanos?

— Não. Interessam-se pelos comerciais. Todas as coi­sas que encaramos como banais... máquina de lavar rou­pa, aspirador de pó, aparelho de televisão, automóvel... estão fora do alcance dos romenos. E ficam fascinados pe­los comerciais. Quando o filme recomeça, eles aproveitam para ir ao banheiro.

Mary virou a cabeça a tempo de ver Mike Slade e Dorothy Stone deixarem o clube. Ficou especulando para on­de eles estavam indo.

 

Quando Mary chegava em casa à noite, depois de um dia comprido e árduo na embaixada, tudo o que queria era to­mar um banho, trocar de roupa e esquecer o que fizera. Pa­recia que todos os seus minutos na embaixada estavam ocupados e nunca tinha tempo para sí mesma. Mas não de­morou a descobrir que a situação era idêntica na residên­cia. Onde quer que fosse, lá estavam os criados, e Mary tinha a sensação desagradável de que a espionavam.

Uma madrugada, às duas horas, ela desceu e foi à co­zinha. Ouviu um barulho ao abrir a geladeira. Virou-se e deparou com Mihai, o mordomo, de chambre, e Rosica, Delia e Carmen ali de pé.

— Em que posso servi-la, senhora? — perguntou Mihai.

— Nada — respondeu Mary. — Eu só queria uma coi­sa para comer.

Cosma, a cozinheira, apareceu e disse, em voz magoada:

— Tudo o que a senhora precisava fazer era me dizer que estava com fome e eu providenciaria alguma coisa.

Todos a fitavam com expressões de reprovação.

— Acho que no fundo não estou com fome. Obrigada. E voltou quase correndo para seu quarto.

No dia seguinte relatou o incidente às crianças e co­mentou:

— Eu me senti como a segunda esposa em Rebeca!

— O que é Rebeca? — perguntou Beth.

— É um livro maravilhoso que você lerá um dia.

 

Quando chegou na embaixada, Mary encontrou Mike Sla­de à sua espera.

— Temos um garoto doente e seria bom você dar uma olhada — disse ele.

Mike conduziu-a a uma sala pequena no final do cor­redor. Um jovem fuzileiro estava estendido no sofá, muito pálido, gemendo de dor.

— O que aconteceu? — perguntou Mary.

— Meu palpite é apendicite.

— Enão é melhor levá-lo para o hospital imedia­tamente.

Mike virou-se e fitou-a.

— Não aqui.

— Como assim?

— Temos de mandá-lo de avião para Roma ou Zurique.

— Mas isso é um absurdo! — disse Mary asperamen­te, baixando a voz para que o rapaz não a ouvisse. — Não percebe como ele está passando mal?

— Absurdo ou não, ninguém de uma embaixada ame­ricana jamais vai para um hospital num país da Cortina de Ferro.

— Mas por quê?

— Porque somos vulneráveis. Ficaríamos à mercê do governo romeno e da Securitate. Podem nos fazer dormir com éter ou dar escopolamina... e podem nos arrancar to­das as informações. É uma regra do Departamento de Es­tado... nós o mandamos de avião para tratamento em outro pais.

— Por que a embaixada não tem seu próprio médico?

— Porque somos uma embaixada da categoria C. Nos­so orçamento não dá para um médico. Um médico ameri­cano nos visita de três em três meses. Nos intervalos, temos um farmacêutico para ajudar nos pequenos problemas. — Mike foi até uma mesa e pegou um pedaço de papel. — Basta assinar isto e ele partirá. Providenciarei um vôo especial.

— Está bem. — Mary assinou a autorização, depois se aproximou do jovem fuzileiro e pegou-lhe a mão, mur­murando: — Não se preocupe. Você vai ficar bom.

Duas horas depois o fuzileiro estava num avião, a ca­minho de Zurique.

Na manhã seguinte, quando Mary lhe perguntou co­mo estava o jovem fuzileiro, ele deu de ombros e disse, in­diferente:

— Foi operado e vai ficar bom.

Que homem mais frio!, pensou Mary. Tenho dúvidas se alguma coisa é capaz de comovê-lo.

 

Não importava quão cedo Mary chegasse à embaixada pe­la manhã, Mike Slade sempre a precedia. Ela quase não o encontrava nas festas diplomáticas e tinha a impressão de que ele preferia suas diversões particulares todas as noites. Mike Slade era uma surpresa constante. Uma tarde Mary concordou em deixar Florian levar Beth e Tim para patinarem no gelo, no Parque Floreasca. Mary saiu mais cedo da embaixada para ir ao encontro deles, e quando che­gou ao parque descobriu que Mike Slade estava com as crian­ças. Os três patinavam juntos, obviamente se divertindo muito. Ele ensinava pacientemente as crianças a fazerem oi­tos. Devo alertar as crianças contra ele, pensou Mary. Mas ela não sabia exatamente contra o que advertir.

 

Na manhã seguinte, assim que Mary chegou em sua sala, Mike entrou e anunciou:

— Uma decon vai chegar dentro de duas horas. Achei que...

— Decon?

— É o jargão diplomático para indicar uma delegação de congressistas. Quatro senadores, acompanhados pelas esposas e assessores. Esperam que vocês os receba. Marca­rei uma audiência com o presidente Ionescu e pedirei a Harriet que cuide das compras e excursões turísticas.

— Obrigada.

— Quer um pouco do meu café?

— Boa idéia.

Ela observou-o passar pela porta de ligação entre as duas salas. Um homem estranho. Rude, grosseiro. E, no entanto, tinha uma imensa paciência com Beth e Tim. Quan­do ele voltou com as duas xícaras de café, Mary perguntou:

— Você tem filhos?

A pergunta pegou Mike Slade de surpresa.

— Tenho dois meninos.

— Onde estão?

— Sob a custódia de minha ex-esposa. — Ele mudou de assunto abruptamente. — Vamos ver se consigo a au­diência com Ionescu.

O café estava delicioso. Mary se lembraria mais tarde que aquele fora o dia em que compreendera que tomar ca­fé com Mike Slade se tornara um ritual matutino.

 

Angel foi buscá-la à noite, em La Boca, perto do cais, on­de ela fazia ponto, junto com as outras prostitutas, vestin­do uma blusa bem justa e jeans cortada nas coxas, mostrando o que tinha para vender. Parecia não ter mais que quinze anos. Não era bonita, mas isso não incomoda­va Angel.

— Vamonos, querida. Vamos nos distrair.

A garota morava num apartamento ordinário, num pré­dio sem elevador, ali perto. O cômodo imundo tinha uma cama, duas cadeiras, um abajur e uma pia.

— Tire as roupas, Estrelita. Quero ver você nua.

A garota hesitou. Havia alguma coisa em Angel que a assustava. Mas fora um dia fraco e precisava levar dinheiro para Pepe ou levaria uma surra. Lentamente, ela começou a se despir.

Angel ficou observando. Primeiro foi a blusa e depois a jeans. A garota não usava nada por baixo. O corpo era pálido e magro.

— Fique com os sapatos. Venha até aqui e se ajoelhe. A garota obedeceu.

— O que eu quero que você faça é o seguinte,

A garota escutou e levantou os olhos, apavorada.

— Nunca fiz...

Angel chutou-a na cabeça. Ela caiu no chão, gemen­do. Angel levantou-a pelos cabelos e jogou-a em cima da cama. Quando ela começou a gritar, ele lhe desferiu um vio­lento murro no rosto. Ela gemeu.

— Assim está melhor — disse Angel. — Quero ouvir você gemer.

Um punho enorme acertou no nariz da garota e quebrou-o. Quando Angel acabou, meia hora depois, a ga­rota estava inconsciente. Ele sorriu para o corpo todo arre­bentado e jogou alguns pesos na cama, murmurando:

— Gracias.

 

Mary passava todos os momentos que podia com os filhos. Faziam muitos passeios turísticos. Havia dezenas de mu­seus e igrejas antigas para visitar, mas o ponto alto para as crianças foi o castelo de Drácula, em Brasov, no cora­ção da Transilvânia, a 150 quilômetros de Bucareste.

— O conde era na verdade um príncipe — explicou Flo­rian, durante a viagem. — Príncipe Vlad Tepes. Foi um grande herói que conteve a invasão turca.

— Pensei que ele só gostava de chupar sangue e ma­tar as pessoas — comentou Tim.

Florian balançou a cabeça.

— Infelizmente, depois da guerra o poder subiu à ca­beça de Vlad. Ele se tornou um ditador e empalava os inimigos. E surgiu a lenda de que ele era um vampiro. Um dos seus conterrâneos, chamado Bram Stoker, escreveu um livro baseado nessa lenda. Um livro tolo, mas que fez ma­ravilhas pelo turismo.

O castelo era um enorme monumento de pedra, no al­to das montanhas. Todos estavam exaustos ao subirem os íngremes degraus de pedra que levavam ao castelo. Entra­ram numa sala de teto baixo, que continha armas e artefa­tos antigos.

— Era aqui que o conde Drácula assassinava suas ví­timas e lhes bebia o sangue — disse o guia, em tom sepulcral.

A sala era úmida e assustadora. Tim roçou o rosto nu­ma teia de aranha e disse à mãe:

— Não tenho medo de nada, mas podemos sair daqui?

 

A cada seis semanas um avião C-130 da Força Aérea Ame­ricana pousava num pequeno aeroporto, nos arredores de Bucareste. O avião vinha carregado de alimentos e muitos artigos que não se podia encontrar em Bucareste, encomen­dados pelo pessoal da embaixada americana, através do reembolsável militar em Frankfurt.

Uma manhã, quando tomava café com Mary, Mike Sla­de disse:

— Nosso avião de carga vai chegar hoje. Por que não vai ao aeroporto comigo?

Mary já se dispunha a dizer que não. Tinha muito tra­balho e parecia um convite inútil. Só que Mike Slade não era um homem de desperdiçar tempo. A curiosidade aca­bou por prevalecer e ela respondeu:

— Está certo.

No caminho para o aeroporto eles discutiram diversos problemas da embaixada. A conversa foi mantida num ní­vel frio e impessoal.

Ao chegarem ao aeroporto, um sargento dos fuzileiros, armado, abriu o portão para a limusine passar. Dez minutos depois eles observaram a aterrissagem do C-130. Por trás da cerca no perímetro da pista estavam reuni­dos centenas de romenos. Ficaram olhando, ansiosos, en­quanto o avião era descarregado.

— O que aquela multidão está fazendo aqui?

— Sonhando. Contemplam algumas das coisas que nunca poderão ter. Sabem que estamos recebendo bife, sa­bonete e perfume. Há sempre uma multidão quando o avião chega. Parece que há uma espécie de telégrafo subterrâneo misterioso.

Mary estudou os rostos ávidos no outro lado da cerca.

— É incrível...

— Aquele avião é um símbolo para eles. Não é ape­nas a carga... representa um país livre que cuida de seus ci­dadãos.

Mary virou-se para fitá-lo.

— Por que me trouxe aqui?

— Porque não quero que se deixe impressionar pela conversa macia do presidente Ionescu. Esta é a verdadeira Romênia.

 

Todas as manhãs, ao chegar para o trabalho, Mary notava uma fila de pessoas à espera no portão, querendo entrar na seção consular da embaixada. Presumira que eram pes­soas com pequenos problemas que o cônsul podia resolver. Mas naquela manhã em particular ela foi até a janela para um exame mais atento, e as expressões das pessoas levaram-na a ir à sala de Mike.

— Quem são aquelas pessoas que estão esperando na fila lá fora?

Mike foi com ela até a janela.

— Quase todos são judeus romenos. Estão esperando para apresentar pedidos de visto.

— Mas não existe uma embaixada israelense em Bucareste? Por que não vão para lá?

— Por dois motivos. Em primeiro lugar, acham que o governo dos Estados Unidos tem mais possibilidade de ajudá-los a chegar a Israel do que o governo israelense. Em segundo, eles acham que é menor o risco de a polícia de segurança descobrir suas intenções se vierem nos procurar. Estão enganados, é claro. — Mike apontou pela janela. — Há um prédio no outro lado da embaixada em que diver­sos apartamentos são ocupados por agentes que usam teleobjetivas para fotografar todo mundo que entra e sai daqui.

— Mas isso é terrível!

— É assim que eles agem. Quando os judeus de uma família solicitam um visto para emigrar, perdem os cartões verdes de trabalho e são expulsos de seus apartamentos. Os vizinhos recebem ordens para lhes dar as costas. O gover­no leva três ou quatro anos para dizer se os deixa ou não partirem, e a resposta quase sempre é não.

— Não podemos fazer nada a respeito?

— Estamos sempre tentando. Ionescu gosta de fazer um jogo de gato e rato com os judeus. Bem poucos rece­bem permissão para deixar o país.

Mary contemplou os rostos desesperados e murmurou:

— Tem de haver uma maneira.

— Não parta seu coração — recomendou Mike.

 

O problema de fuso horário era extenuante. Quando era dia em Washington, era o meio da noite em Bucareste. Mary era constantemente despertada por telegramas e telefone­mas às três ou quatro horas da madrugada. Cada vez que chegava um telegrama noturno, o fuzileiro de plantão na embaixada ligava para o oficial de serviço, que mandava um assistente à residência oficial acordar Mary. Depois dis­so, ela ficava excitada demais para voltar a dormir.

É emocionante, Edward. Estou convencida de que pos­so me distinguir aqui. De qualquer forma, estou tentando. Não suportaria fracassar. Todos estão contando comigo. Eu gostaria que você estivesse aqui para dizer: "Você pode conseguir, menina. "Sinto muita saudade. Pode me ouvir, Edward? Está por aqui, em algum lugar, onde não posso vê-lo? Há ocasiões em que não saber a resposta para isso me deixa louca...

 

Estavam tomando o café da manhã.

— Temos um problema — anunciou Mike Slade.

— Qual é?

— Uma delegação de uma dúzia de dirigentes da igre­ja romena quer falar com você. Uma igreja de Utah convidou-os para uma visita. O governo romeno não quer conceder o visto de saída.

— Por que não?

— São bem poucos os romenos que recebem permis­são para deixar o país. Há uma piada sobre o dia em que Ionescu assumiu o poder. Ele foi para a ala leste do palá­cio e observou o sol nascer. "Bom dia, camarada sol," disse Ionescu. "Bom dia," respondeu o sol. "Todos estão feli­zes porque você é o novo presidente da Romênia." Ao fi­nal do dia Ionescu foi para a ala oeste do palácio, a fim de observar o sol se pôr. E disse: "Boa noite, camarada sol." O sol não respondeu. "Como é possível que tenha me fala­do tão gentilmente esta manhã e agora não quer me dizer nada?" Ao que o sol declarou: "Estou no Ocidente agora. E quero que você se dane." Ionescu tem medo de que os dirigentes da igreja lhe digam para se danar depois que es­tiverem no Ocidente.

— Falarei com o ministro do Exterior e verei o que posso fazer.

Mike levantou-se.

— Gosta de dança folclórica?

— Por quê?

— Há uma companhia de dança romena estreando esta noite. Dizem que é excelente. Gostaria de ir?

Mary foi tomada de surpresa. A última coisa que po­dia esperar era um convite de Mike para saírem.

E um momento depois, o que era ainda mais inacredi­tável, ela se descobriu a dizer que sim.

— Ótimo. — Mike estendeu um pequeno envelope. — Aqui estão três ingressos. Pode levar Beth e Tim. Cortesia do governo romeno. Recebemos ingressos para a maioria das estréias.

Mary continuou sentada, o rosto afogueado, sentindo-se uma tola.

— Obrigada — murmurou ela, muito tensa.

— Mandarei Florian ir buscá-la às oito horas.

 

Beth e Tim não estavam interessados em ir ao teatro. Beth convidara uma colega de escola para jantar.

— É minha amiga italiana — explicou ela. — Não tem problema?

— Para ser franco, nunca gostei muito de dança fol­clórica — acrescentou Tim.

Mary soltou uma risada.

— Está bem. Vou deixar os dois escaparem desta vez. Imaginou se os filhos se sentiam igualmente solitários.

Pensou em quem poderia convidar para acompanhá-la. Re­passou a lista mentalmente: coronel McKinney, Jerry Davis, Harriet Kruger? Não havia ninguém cuja companhia realmente desejasse. Irei sozinha, decidiu.

 

Florian estava à espera quando Mary passou pela porta da frente.

— Boa noite, senhora embaixadora.

Ele fez uma mesura e abriu a porta do carro.

— Parece muito alegre esta noite, Florian.

Ele sorriu.

— Estou sempre alegre, senhora. — Florian fechou a porta depois que ela embarcou e foi sentar ao volante. — Os romenos têm um ditado: "Beije a mão que não pode morder."

Mary resolveu correr um risco.

— Sente-se feliz em viver aqui, Florian?

— Devo lhe dar a resposta oficial, senhora embaixa­dora, ou quer a verdade?

— A verdade, por favor.

— Eu poderia ser fuzilado por dizer isso, mas nenhum romeno se sente feliz por viver aqui. Só os estrangeiros. Vo­cês têm liberdade para ir e vir, como quiserem. Nós somos prisioneiros. E não há quantidade suficiente de nada no país.

Eles estavam passando por uma fila comprida na frente de um açougue e Florian acrescentou:

— Está vendo aquilo? Eles vão esperar três ou quatro horas na fila para conseguir uma ou duas costeletas de car­neiro, e metade ficará desapontada. O mesmo acontece com todas as outras mercadorias. Mas quer saber quantas casas Ionescu tem? Doze! Já conduzi muitas autoridades rome­nas a essas casas. Cada uma é um verdadeiro palácio. En­quanto isso, três ou quatro famílias são obrigadas a morar juntas num pequeno apartamento, sem aquecimento.

Florian parou de falar bruscamente, como se estivesse com medo de já ter dito demais.

— Não vai mencionar esta conversa a ninguém, não é?

— Claro que não.

— Obrigado. Eu não gostaria que minha esposa ficasse viúva. Ela é jovem. E judia. Temos aqui o problema do anti-semitismo.

Mary já sabia disso.

— Há uma história de uma loja que prometeu ovos frescos. Às cinco horas da manhã havia uma fila comprida à espera, sob um frio enregelante. Por volta das oito horas os ovos ainda não haviam aparecido e a fila aumentara. O dono da loja disse: "Não haverá ovos suficientes para to­dos. Os judeus podem sair da fila." Às duas horas da tar­de os ovos ainda não haviam chegado e a fila era ainda mais comprida. O dono disse: "Os que não são do partido po­dem se retirar." À meia-noite a fila ainda esperava, no frio intenso. O dono trancou a loja e disse: "Nada mudou. Os judeus sempre levam a melhor em tudo."

Mary não sabia se ria ou chorava. Mas vou fazer algu­ma coisa a respeito, prometeu a sí mesma.

 

O teatro ficava na Rasodia Romana, uma rua movimenta­da, com estandes pequenos vendendo flores, barbatanas de plástico, blusas e canetas. Era um teatro pequeno e todo ornamentado, uma relíquia de dias mais tranqüilos. O es­petáculo em sí foi maçante, os trajes de mau gosto e os dan­çarinos desajeitados. Parecia interminável, e quando finalmente acabou, Mary sentiu-se contente em escapar para o ar fresco da noite. Florian esperava junto à limusine, na frente do teatro.

— Lamento, senhora embaixadora, mas haverá um atraso. Um pneu furado. E um ladrão roubou o estepe. Já mandei buscar outro. Deverá estar aqui em menos de uma hora. Gostaria de esperar no carro?

Mary levantou os olhos para a lua cheia. Era uma noi­te clara e agradável. Ela compreendeu que não andava pe­las ruas de Bucareste desde que chegara. E tomou uma súbita decisão.

— Acho que voltarei a pé para casa. — Ela balançou a cabeça. — É uma ótima noite para andar.

Mary virou-se e foi andando pela rua na direção da pra­ça central. Bucareste era uma cidade exótica e fascinante. Havia placas misteriosas nas esquinas: tuten... piine... chimíst...

Ela desceu pela Calea Mosilor e virou na Strada Maria Rosetti, por onde passavam tróleis vermelhos e marrons, lotados. Mesmo àquela hora tardia, a maioria das lojas es­tava aberta e havia filas na frente de todas. Os cafés ser­viam gogoase, as deliciosas rosquinhas romenas. As calçadas estavam apinhadas de pessoas fazendo compras, carregan­do pungi, as bolsas de corda. Mary achou que as pessoas estavam sinistramente quietas. Pareciam observá-la aten­tamente, as mulheres invejando suas roupas. Ela passou a andar mais depressa.

Parou ao chegar à esquina da Calea Victoriei, sem sa­ber direito que direção tomar. Ela pediu a um transeunte:

— Por favor, pode me indicar o caminho para...

O homem lançou-lhe um olhar rápido e assustado e tra­tou de se afastar, apressado.

Eles não devem falar com estranhos, lembrou Mary.

Como ela conseguiria voltar? Tentou visualizar o ca­minho que percorrera com Florian. Tinha a impressão de que a residência ficava em algum lugar para leste. Pôs-se a andar nessa direção. Logo estava numa pequena rua trans­versal, mal iluminada. A distância, podia divisar uma ave­nida larga e bem iluminada. Poderei pegar um táxi quando chegar lá, pensou Mary, aliviada.

Ouviu o som de passos por trás e se virou, involunta­riamente. Um homem grande, de sobretudo, avançava em sua direção, a passos largos. Mary passou a andar mais de­pressa.

— Com licença — chamou o homem, num forte sota­que romeno. — Está perdida?

Mary experimentou um profundo alívio. Provavelmente era algum policial. Talvez a seguisse para cuidar que se man­tivesse sã e salva.

— Estou, sim — respondeu ela, agradecida. — Que­ro voltar para...

Houve o súbito barulho de um motor e um carro cor­rendo por trás dela, depois os pneus rangendo na parada. O homem de sobretudo agarrou Mary. Ela sentiu seu bafo quente e fétido, os dedos fortes lhe apertando o pulso. Ele começou a empurrá-la para a porta aberta do carro. Mary lutava para se desvencilhar...

— Entre no carro! — resmungou o homem.

— Não! — Ela estava gritando. — Socorro! Socorro!

Um grito soou no outro lado da rua e um vulto come­çou a correr na direção deles. O homem parou, sem saber o que fazer. O estranho berrou:

— Largue-a!

Ele agarrou o homem de sobretudo e puxou-o para lon­ge de Mary. Ela se descobriu subitamente livre. O homem ao volante estava saindo do carro para ajudar o cúmplice.

A distância, soava uma sirene se aproximando. O ho­mem de sobretudo gritou alguma coisa para seu companhei­ro. Os dois entraram no carro e se afastaram a toda velocidade.

Um carro azul e branco com a palavra Militia do lado e uma luz azul faiscante no teto parou na frente de Mary. Dois homens uniformizados saltaram. Um deles perguntou, em romeno:

— Está bem? — E depois acrescentou, num inglês va­cilante: — O que aconteceu?

Mary estava fazendo o maior esforço para se controlar.

— Dois homens... tentaram me forçar a entrar em seu carro... Se... se não fosse esse cavalheiro...

Ela virou-se.

O estranho desaparecera.

 

Ela lutou a noite inteira, debatendo-se para escapar dos ho­mens, despertando em pânico, tornando a dormir, acordan­do outra vez. Reconstituía a cena de maneira interminável: os passos súbitos avançando depressa em sua direção, o car­ro parando, o homem tentando forçá-la a embarcar. Sa­biam quem ela era? Ou apenas tentavam roubar uma turista que vestia roupas americanas?

 

Mike Slade estava à sua espera quando Mary chegou à em­baixada. Entrou em sua sala com duas xícaras de café e sen­tou na frente da mesa, indagando:

— Como foi o teatro?

— Muito bom.

O que acontecera depois não era da conta de Mike Slade.

— Ficou machucada? Ela fitou-o, surpresa.

— Como?

— Quando tentaram seqüestrá-la — disse Mike, pa­ciente. — Eles a machucaram?

— Eu... como soube?

A voz de Mike estava repleta de ironia:

— A Romênia, senhora embaixadora, é um segredo enorme e aberto. Não se pode tomar um banho sem que todos saibam. Não foi muito inteligente de sua parte sair para dar um passeio sozinha.

— Sei disso agora — respondeu Mary friamente. — Não acontecerá de novo.

— Ótimo. O homem levou alguma coisa?

— Não.

Mike franziu o rosto.

— Não faz sentido. Se quisessem o casaco ou a bolsa, poderiam arrancar na rua. Tentar forçá-la a entrar num car­ro significa que era um seqüestro.

— Quem poderia querer me seqüestrar?

— Não seriam os homens de Ionescu. Ele está tentan­do manter nossas relações em bom nível. Teria de ser al­gum grupo dissidente.

— Ou bandidos que queriam me manter por um resgate.

— Não há seqüestro por resgate neste país. Se pegas­sem alguém fazendo isso, não haveria nem julgamento... seria logo um pelotão de fuzilamento. — Ele tomou um gole do café. — Posso lhe dar um conselho?

— Estou escutando.

— Volte para casa.

— Como?

Mike Slade largou a xícara na mesa.

— Tudo o que precisa fazer é despachar uma carta de renúncia, pegar as crianças e voltar para o Kansas, onde estará segura.

Mary pôde sentir que seu rosto ficava vermelho.

— Cometi um erro, senhor Slade. Não foi o primeiro e provavelmente não será o último. Mas fui designada pa­ra este posto pelo presidente dos Estados Unidos, e até que ele me dispense não quero que você nem qualquer outra pes­soa me diga para voltar para casa. — Fez um esforço para manter a voz sob controle. — Espero que as pessoas nesta embaixada trabalhem comigo, e não contra mim. Se acha que é pedir demais, por que você não volta para casa?

Mary estava agora tremendo de raiva. Mike Slade levantou-se.

— Providenciarei para que os relatórios da manhã lhe sejam encaminhados, senhora embaixadora.

 

A tentativa de seqüestro foi o único tema das conversas na embaixada naquela manhã. Como todos descobriram?, pen­sou Mary. E como Mike Slade descobriu? Ela gostaria de saber quem fora seu salvador, a fim de poder agradecer. No rápido vislumbre que tivera dele, ficara com a impres­são de um homem atraente, talvez com quarenta e poucos anos, cabelos prematuramente grisalhos. Tinha um sotaque estrangeiro — talvez francês. Se fosse um turista, era pos­sível que àquela altura já tivesse deixado a Romênia.

 

Uma idéia assediava Mary e era difícil descartá-la. Só co­nhecia uma pessoa que queria se livrar dela: Mike Slade. E se ele tivesse tramado o ataque, a fim de assustá-la e forçá-la a ir embora? Afinal, Mike lhe dera os ingressos para o teatro. Sabia onde ela estaria. Era uma possibilidade que se recusava a sair de seus pensamentos.

 

Mary debatera consigo mesma se deveria falar às crianças sobre a tentativa de seqüestro, e acabou decidindo que era melhor não contar nada. Não queria assustá-las. Mas da­ria um jeito para que nunca ficassem sozinhas.

 

Havia um coquetel na embaixada francesa naquela noite, em homenagem a uma pianista francesa que visitava o país. Mary estava cansada e nervosa, daria qualquer coisa para evitar o compromisso, mas sabia que tinha a obrigação de comparecer.

 

Tomou banho e escolheu um vestido. Ao pegar os sapatos, notou que um deles estava com o salto quebrado. Tocou a campainha, chamando Carmen.

— Pois não, senhora embaixadora?

— Carmen, quer fazer o favor de levar este sapato a um sapateiro e mandar consertá-lo?

— Claro, senhora. Mais alguma coisa?

— Não, obrigada. É só.

 

Quando Mary chegou, já havia muitos convidados na em­baixada francesa. Ela foi recebida na porta pelo assessor do embaixador francês, a quem já conhecera numa visita anterior à embaixada. Ele pegou sua mão e beijou-a.

— Boa noite, senhora embaixadora. Foi muita genti­leza sua ter vindo.

— Foi muita gentileza de vocês terem me convidado — respondeu Mary.

Os dois sorriram das frases vazias de cortesia.

— Permita que a acompanhe até o embaixador. Ele escoltou Mary pelo salão de baile apinhado, onde

ela avistou os rostos familiares com que vinha se encontran­do há semanas. Ela cumprimentou o embaixador francês e trocaram algumas cortesias.

— Vai gostar de madame Dauphin. É uma pianista ex­traordinária.

— Estou ansiosa por conhecê-la — mentiu Mary. Um criado passou com uma bandeja de copos com

champanha. Mary já aprendera a beber apenas pequenos goles nas diversas embaixadas. Ao virar-se para cumprimen­tar o embaixador australiano, avistou o estranho que a sal­vara dos seqüestradores. Ele estava num canto, conversando com o embaixador italiano e seu assessor.

— Com licença, por favor — disse Mary. Atravessou o salão na direção do francês. Ele estava

dizendo:

— Claro que sinto saudade de Paris, mas espero que no próximo ano...

Parou de falar ao ver Mary se aproximar, e depois de um instante acrescentou:

— Ah, a dama em perigo...

— Já se conhecem? — perguntou o embaixador italiano.

— Ainda não fomos oficialmente apresentados — disse Mary.

— Senhora embaixadora, permita que lhe apresente o doutor Louis Desforges.

A expressão no rosto do francês mudou.

— Senhora embaixadora? Peço perdão! Eu não tinha a menor idéia! — A voz era embaraçada. — Deveria tê-la reconhecido, é claro.

— Fez melhor do que isso — comentou Mary, sorrin­do. — Você me salvou.

O embaixador italiano olhou para o médico e disse:

— Ah, então foi você! — Ele virou-se para Mary. — Já soube de sua lamentável experiência.

— Seria ainda mais lamentável se o doutor Desforges não tivesse aparecido. Obrigada.

Louis Desforges sorriu.

— Estou feliz por eu ter estado no lugar certo no mo­mento certo.

O embaixador e seu assessor viram a chegada de um contingente inglês. O embaixador disse:

— Se nos derem licença, tem uma pessoa que preciso cumprimentar.

Os dois homens se afastaram apressadamente. Mary ficou a sós com o médico.

— Por que foi embora quando a polícia chegou?

Ele estudou-a por um momento.

— Não é boa política o envolvimento com a polícia romena. Eles têm o hábito de deter testemunhas e depois lhes arrancar todas as informações possíveis. Sou médico, adido à embaixada francesa aqui, não tenho imunidade di­plomática. Mas sei de muita coisa que ocorre em nossa em­baixada, e as informações poderiam ser valiosas para os romenos. — Ele sorriu. — Por isso, peço que me perdoe se dei a impressão de que a abandonei.

Ele tinha uma franqueza fascinante. De alguma for­ma que Mary não podia definir, fazia com que se lembras­se de Edward. Talvez porque Louis Desforges era médico. Não, era mais do que isso. Ele tinha a mesma sinceridade de Edward, quase o mesmo sorriso.

— Se me dá licença — disse o doutor Desforges —, tenho de ir para desempenhar meu papel de animal social.

— Não gosta de festas? Ele estremeceu.

— Detesto.

— E sua esposa gosta?

Ele fez menção de dizer alguma coisa e depois hesitou.

— Ela gostava. Muito.

— Não está aqui esta noite?

— Ela e nossos dois filhos morreram. Mary empalideceu.

— Oh, Deus, sinto muito! Como...? O rosto de Desforges estava rígido.

— A culpa foi minha. Vivíamos na Argélia. Eu per­tencia ao movimento clandestino, lutando contra os terro­ristas. — As palavras saíam lentas e hesitantes. — Descobriram minha identidade e explodiram a casa. Eu es­tava ausente na ocasião.

— Sinto muito — repetiu Mary, sabendo que eram pa­lavras inadequadas e inúteis.

— Obrigado. Há um clichê de que o tempo cura tu­do. Não acredito mais nisso.

Sua voz era amargurada. Mary pensou em Edward e no quanto ainda sentia saudade. Mas aquele homem vivia com sua dor há mais tempo.

— Se me dá licença agora, senhora embaixadora... Ele afastou-se para cumprimentar um grupo de convi­dados que chegavam.

 

Ele me lembra um pouco você, Edward. Gostaria dele. É um homem corajoso. Sofre muito e acho que é isso o que me atrai nele. Também sofro muito, querido. Será que al­gum dia conseguirei superar a saudade que sinto de você? Eu me sinto muito solitária aqui. Não há ninguém com quem eu possa conversar. Quero desesperadamente ser bem-sucedida. Mike Slade está tentando fazer com que eu volte para casa. Não voltarei. Mas como preciso de você! Boa noite, meu querido.

 

Na manhã seguinte Mary falou pelo telefone com Stanton Rogers. Foi maravilhoso ouvir sua voz. É como um elo vi­tal com o lar, pensou ela.

— Estou recebendo os melhores relatórios sobre você — disse Stanton Rogers. — A história de Hannah Murphy deu manchete aqui. Fez um excelente trabalho.

— Obrigada, Stan.

— Fale-me sobre a tentativa de seqüestro, Mary.

— Já conversei com o primeiro-ministro e o diretor da Securitate, e eles não têm qualquer pista.

— Mike Slade não lhe avisou para não sair sozinha? Mike Slade.

— Avisou, Stan.

Devo contar a ele que Mike Slade também me disse que era melhor eu voltar para casa? Não, decidiu Mary. Cui­darei sozinha do senhor Slade.

— Não se esqueça de que sempre estarei à sua dispo­sição. A qualquer momento.

— Sei disso — respondeu Mary, agradecida. — E não tenho palavras para expressar o quanto isso significa para mim.

O telefonema fez com que ela se sentisse muito melhor.

— Temos um problema. Há um vazamento em algum lu­gar da embaixada.

Mary e Mike Slade estavam tomando um café, antes da reunião diária da equipe.

— E é sério?

— Muito sério. O adido comercial, David Victor, te­ve algumas reuniões com o ministro do Comércio romeno.

— Sei disso. Discutimos o assunto na semana passada.

— É verdade. Quando David voltou para a segunda reunião, eles já haviam antecipado todas as contrapropos­tas que apresentamos. Sabiam até que ponto exatamente es­távamos dispostos a ir.

— Não é possível que eles apenas tenham calculado o que poderíamos propor?

— Claro que é possível. Só que discutimos algumas no­vas propostas e outra vez eles se anteciparam.

Mary ficou pensativa por um momento.

— Acha que é alguém da equipe?

— Não apenas alguém. A última reunião executiva foi realizada na Sala Bolha. Nossos peritos em eletrônica con­cluíram que o vazamento foi lá.

Mary ficou surpresa. Havia apenas oito pessoas que tinham permissão para realizar reuniões na Sala Bolha, os principais executivos da embaixada.

— Quem quer que seja, está usando um equipamento eletrônico, provavelmente um gravador. Sugiro que convo­que uma reunião esta manhã para a Sala Bolha, com o mes­mo grupo. Nossos instrumentos poderão indicar o culpado. Havia oito pessoas sentadas em torno da mesa na Sala Bo­lha. Eddie Maltz, o adido político e homem da CIA; Patrí­cia Hatfield, conselheira econômica; Jerry Davis, assuntos públicos; David Victor, adido comercial; Lucas Janklow, adido administrativo; e o coronel McKinney. Mary estava numa extremidade da mesa e Mike Slade na outra. Mary olhou para David Victor.

— Como foram suas reuniões com o ministro do Co­mércio romeno?

O adido comercial sacudiu a cabeça.

— Para ser franco, não foram tão bem quanto eu es­perava. Eles parecem saber de tudo o que tenho a dizer, antes mesmo que eu comece a falar. Apareço com novas propos­tas e eles já prepararam os argumentos em contrário. É co­mo se lessem meus pensamentos.

— Talvez isso esteja mesmo acontecendo — comen­tou Mike Slade.

— Como assim?

— Estão lendo os pensamentos de alguém nesta sala. — Mike pegou um telefone vermelho em cima da mesa. — Mande-o entrar.

Um momento depois a enorme porta foi aberta e um homem à paisana entrou, carregando uma caixa preta com um mostrador. Eddie Maltz disse:

— Ei, ninguém tem permissão... Mary não o deixou continuar:

— Está tudo bem. Temos um problema e este homem vai resolvê-lo. — Ela olhou para o recém-chegado. — Po­de começar.

— Certo. Eu gostaria que todos continuassem senta­dos onde estão, por favor.

Enquanto o grupo observava, ele foi até Mike Slade e suspendeu a caixa. A agulha no mostrador permaneceu no zero. O homem passou para Patrícia Hatfield. A agu­lha continuou imóvel. Eddie Maltz foi o seguinte, depois Jerry Davis e Lucas Janklow. A agulha permaneceu imó­vel. O homem passou para David Victor e finalmente para o coronel McKinney. A agulha não mexeu. Só restava Mary. Quando ele se aproximou dela, a agulha começou a tremer freneticamente. Mike Slade disse:

— Mas o que... — Ele se levantou e chegou perto do civil, perguntando-lhe: — Tem certeza?

A agulha parecia enlouquecida.

— Absoluta — respondeu o homem. Mary levantou-se, confusa.

— Importa-se de suspender a reunião? — perguntou Mike.

Mary virou-se para os outros.

— A reunião está suspensa por enquanto. Obrigada a todos.

Mike Slade disse para o técnico:

— Você fica.

Depois que os outros se retiraram, ele perguntou:

— Pode determinar onde está o microfone?

— Claro.

O homem foi descendo a caixa preta pelo corpo de Mary, lentamente. Ao chegar perto dos pés, a agulha se me­xeu ainda mais depressa. Ele se empertigou.

— Está nos sapatos.

Mary fitou-o com expressão de incredulidade.

— Está enganado. Comprei estes sapatos em Was­hington.

— Importa-se de tirá-los? — pediu Mike.

— Eu...

Tudo aquilo era um absurdo. A máquina estava com defeito. Ou alguém tentava incriminá-la. Só podia ser a ma­neira que Mike Slade encontrara para se livrar dela. Co­municaria a Washington que ela fora descoberta espionando e fornecendo informações ao inimigo. Mas ele não ia esca­par impune com aquela farsa.

Mary tirou os sapatos e largou-os nas mãos de Mike, dizendo, furiosa:

— Aí estão!

Ele examinou os sapatos.

— Este salto é novo?

— Não. É...

E foi nesse instante que Mary se lembrou. Carmen, quer fazer o favor de levar este sapato a um sapateiro e mandar consertá-lo?

Mike Slade estava abrindo o salto do sapato. Lá den­tro havia um gravador em miniatura.

— Descobrimos nosso espião — disse ele, secamente.

— Onde foi que pôs este salto?

— Eu... eu não sei — balbuciou Mary. — Pedi a uma das criadas para cuidar disso.

— Maravilhoso — murmurou ele, em tom sardônico.

— No futuro, senhora embaixadora, todos lhe agradece­ríamos se deixasse sua secretária cuidar dessas coisas.

Havia um telegrama para Mary.

"A Comissão de Relações Exteriores do Senado con­cordou com o empréstimo romeno que você solicitou. O anúncio será feito amanhã. Parabéns. Stanton Rogers."

Mike leu o telegrama e comentou:

— É uma ótima notícia. Negulesco ficará feliz.

Mary sabia que Negulesco, o ministro das Finanças ro­meno, se encontrava em situação difícil. O empréstimo o transformaria num herói aos olhos de Ionescu.

— Só vão anunciar amanhã. — Mary pensou por um momento. — Quero que marque uma reunião minha com Negulesco para esta manhã.

— Quer que eu a acompanhe?

— Não. Pode deixar que cuidarei de tudo sozinha. Duas horas depois Mary estava sentada na sala do minis­tro das Finanças romeno, que se mostrava radiante.

— Quer dizer que tem boas notícias para mim?

— Receio que não — respondeu Mary, em tom pesa­roso, observando o sorriso do ministro se desvanecer.

— Mas como? Soube que o empréstimo era... como é mesmo que vocês costumam dizer?... líquido e certo!

Mary suspirou.

— Eu também pensava assim, ministro.

— O que aconteceu? O que saiu errado?

O rosto do romeno estava muito pálido. Mary deu de ombros.

— Não sei.

— Prometi a nosso presidente... — Ele parou de fa­lar ao absorver todo o impacto da notícia. Observou Mary atentamente e acrescentou depois de um momento, a voz rouca: — O presidente Ionescu não vai gostar. Não há na­da que possa fazer?

Mary declarou, ansiosa:

— Também estou desapontada, ministro, A votação estava correndo bem até que um senador soube que um gru­po da igreja romena que fora convidado a visitar o Estado americano de Utah não obtivera o visto de saída. O sena­dor é mórmon e ficou contrariado.

— Um grupo da igreja? — A voz de Negulesco se al­teara. — Está querendo dizer que o empréstimo foi recusa­do porque um...?

— É o que fui informada.

— Mas a Romênia é a favor das igrejas, senhora em­baixadora! Elas podem existir aqui! Existe liberdade reli­giosa! Nós amamos as igrejas!

Negulesco foi sentar na cadeira ao lado de Mary.

— Senhora embaixadora... se eu puder dar um jeito para que esse grupo visite seu país, acha que o Comitê de Finanças do Senado aprovaria o empréstimo?

Mary fitou-o nos olhos.

— Posso garantir isso, ministro Negulesco. Mas eu pre­cisaria de uma resposta até esta tarde.

Mary ficou sentada à sua mesa, esperando pelo telefone­ma. Negulesco ligou às duas e meia.

— Tenho notícias maravilhosas, senhora embaixado­ra! O grupo da igreja pode viajar quando quiser. E agora, tem boas notícias para mim?

Mary esperou uma hora e só depois ligou para o mi­nistro.

— Acabo de receber um telegrama do Departamento de Estado. O empréstimo foi concedido.

 

Mary não conseguira tirar o doutor Louis Desforges de seus pensamentos. Ele salvara sua vida e depois desaparecera. Ficara contente por encontrá-lo de novo. Num súbito im­pulso, foi à American Dollar Shop, comprou uma linda ti­gela de prata para o médico, e mandou-a para a embaixada francesa. Era um pequeno gesto de agradecimento pelo que ele fizera. Naquela tarde, Dorothy Stone disse:

— Um certo doutor Desforges está ao telefone. Quer falar com ele?

Mary sorriu.

— Quero, sim. — Ela atendeu. — Boa tarde.

— Boa tarde, senhora embaixadora. — A frase pare­cia deliciosa no sotaque francês. — Liguei para agradecer por seu atencioso presente. Mas posso lhe assegurar que era desnecessário. Já tive o maior prazer por poder prestar-lhe algum serviço.

— Foi mais do' que algum serviço — disse Mary. — Eu gostaria que houvesse alguma maneira de poder demons­trar realmente a minha gratidão.

Houve uma pausa.

— Não gostaria...

Ele parou de falar e Mary estimulou-o:

— De quê?

— Nada, nada...

Ele parecia subitamente inibido.

— Fale, por favor.

— Está bem. — Houve uma risada nervosa. — Eu es­tava pensando se não gostaria de jantar comigo uma noite dessas... mas sei como deve estar sempre ocupada e...

— Eu adoraria — Mary se apressou em dizer.

— É mesmo?

Ela podia perceber a satisfação na voz de Desforges.

— Claro.

— Conhece o restaurante Taru? Mary já estivera lá duas vezes.

— Não.

— Ah, esplêndido! Então terei o prazer de apresentá-la. Por acaso está livre na noite de sábado?

— Tenho um coquetel às seis horas, mas podemos jan­tar depois.

— Maravilhoso! Soube que tem dois filhos pequenos. Não gostaria de levá-los?

— Agradeço sua gentileza, mas eles estão sempre ocu­pados nas noites de sábado.

Mary se perguntou por que mentira.

 

O coquetel foi na embaixada suíça. Era obviamente uma das embaixadas da classe A, porque o presidente Alexandros Ionescu estava presente. Assim que viu Mary, ele se aproximou.

— Boa noite, senhora embaixadora. — Ionescu pegou a mão de Mary e segurou-a por mais tempo do que o ne­cessário. — Quero que saiba que estou muito satisfeito por­que seu país concordou em nos conceder o empréstimo que solicitamos.

— E nós estamos muito satisfeitos que tenha permiti­do que o grupo da igreja visite os Estados Unidos, Exce­lência.

Ele acenou com a mão, como se isso não tivesse a me­nor importância.

— Os romenos não são prisioneiros. Qualquer um é livre para ir e vir, como quiser. Meu país é um símbolo de justiça social e liberdade democrática.

Mary pensou nas filas compridas esperando para com­prar os alimentos escassos, a multidão no aeroporto e os refugiados querendo desesperadamente partir. Ionescu acres­centou:

— Todo poder na Romênia pertence ao povo.

Há gulags na Romênia que não temos permissão para ver. Mary disse:

— Com todo respeito, senhor presidente, há centenas de judeus, talvez milhares, que estão tentando deixar a Ro­mênia. Seu governo não lhes concede o visto de saída.

Ele amarrou a cara.

— Dissidentes. Arruaceiros. Estamos fazendo um fa­vor ao mundo ao mantê-los aqui, onde podemos vigiá-los.

— Senhor presidente...

— Em relação aos judeus, temos uma política mais to­lerante que a de qualquer outro país da Cortina de Ferro. Em 1967, durante a guerra árabe-israelense, a União So­viética e todos os países do nosso bloco, à exceção da Ro­mênia, romperam relações diplomáticas com Israel.

— Sei disso, senhor presidente, mas a verdade é que ainda há...

— Já provou o caviar? É beluga fresco.

 

O doutor Louis Desforges se oferecera para ir buscar Mary, mas ela acertara que Florian a levasse ao restaurante Taru. Ela telefonou para avisar ao doutor Desforges que chega­ria alguns minutos atrasada. Tinha de passar pela embaixada para enviar um relatório sobre sua conversa com o presidente Ionescu.

Gunny estava de serviço. Bateu continência para ela e abriu a porta. Mary entrou em sua sala e acendeu a luz. E ficou na porta, paralisada. Alguém escrevera na parede, com spray vermelho: volte para casa antes de mor­rer. Ela recuou, muito pálida, e voltou à sala de recepção. Gunny assumiu posição de sentido.

— O que foi, senhora embaixadora?

— Gunny... quem esteve em minha sala?

— Ninguém, ao que eu saiba.

— Deixe-me ver a lista das pessoas que estiveram na embaixada.

Mary tinha de fazer o maior esforço para impedir que a voz tremesse.

— Pois não, senhora.

Gunny pegou a lista de visitantes e entregou-a. Ao la­do de cada nome estava indicada a hora da entrada. Mary começou a partir de cinco e meia, a hora em que deixara o escritório. Havia uma dúzia de nomes depois. Ela olhou para o fuzileiro.

— As pessoas nesta lista... são sempre escoltadas até a sala que vão visitar?

— Sempre, senhora embaixadora. Ninguém sobe pa­ra o segundo andar sem estar acompanhado. Há alguma coisa errada?

Alguma coisa estava muito errada.

— Por favor, mande alguém à minha sala para apa­gar o que pintaram na parede.

Ela virou-se e foi embora, apressada, com medo de vo­mitar. Seu telegrama podia esperar até a manhã seguinte.

 

O doutor Louis Desforges esperava quando Mary chegou ao restaurante. Ele se levantou quando ela se aproximou da mesa.

— Desculpe o atraso — disse Mary, fazendo força para parecer normal.

Ele puxou a cadeira para que ela sentasse.

— Não foi nada. Recebi seu recado. Foi muita genti­leza sua aceitar meu convite.

Mary gostaria agora de não ter aceitado. Estava mui­to nervosa e transtornada. Ela apertou as mãos, uma con­tra a outra, a fim de impedir que tremessem. Ele a observava atentamente.

— Está se sentindo bem, senhora embaixadora?

— Estou, sim. — Volte para casa antes de morrer. — Eu gostaria de tomar um uísque puro, por favor.

Ela detestava uísque, mas achava que poderia relaxá-la. Desforges pediu os drinques e depois comentou:

— Não deve ser fácil trabalhar como embaixadora... especialmente sendo uma mulher e neste país. Os romenos são machos chauvinistas.

Mary forçou um sorriso.

— Fale-me a seu respeito.

Qualquer coisa servia para afastar seus pensamentos da ameaça.

— Não há muita coisa emocionante para contar.

— Disse que lutou no movimento subterrâneo na Ar­gélia. Isso parece emocionante.

Ele deu de ombros.

— Vivemos momentos difíceis. Creio que cada homem deve arriscar alguma coisa, a fim de que, ao final, não te­nha de arriscar tudo. O problema terrorista é literalmente esse... aterrorizante. Devemos acabar com ele.

A voz do médico estava impregnada de paixão. Ele é como Edward, pensou Mary. Edward sempre foi apaixo­nado em suas convicções. O doutor Desforges era um ho­mem que não podia ser facilmente dominado. Estava disposto a arriscar a vida pelas coisas em que acreditava. E ele estava dizendo:

— ... se eu soubesse que o preço da minha luta seriam as vidas de minha mulher e de minhas filhas... — Ele fez uma pausa. As articulações dos dedos das mãos estavam brancas contra a mesa. — Desculpe. Não vim aqui para fa­lar de meus problemas. Recomendo o carneiro. Eles o pre­param muito bem aqui.

— Boa idéia.

Desforges pediu o jantar e uma garrafa de vinho e fi­caram conversando. Mary começou a relaxar, a esquecer a terrível advertência pintada em vermelho. Estava desco­brindo que era surpreendentemente fácil conversar com aquele atraente francês. De uma estranha maneira, era co­mo conversar com Edward. Era espantoso como ela e Louis partilhavam tantas convicções e sentiam da mesma forma sobre tantas coisas. Louis Desforges nascera numa peque­na cidade na França, e Mary nascera numa pequena cidade no Kansas, separados por oito mil quilômetros — apesar disso, seus antecedentes eram muito parecidos. O pai dele era lavrador e economizara ao máximo para enviar o filho à faculdade de medicina em Paris.

— Meu pai foi um homem maravilhoso, senhora em­baixadora.

— Senhora embaixadora parece muito formal.

— Senhora Ashley?

— Mary.

— Obrigado, Mary. Ela sorriu.

— O prazer é meu, Louis.

Mary se perguntou como seria sua vida pessoal. Ele era bonito e inteligente, podia ter todas as mulheres que qui­sesse. Estaria vivendo com alguém?

— Já pensou em casar de novo?

Ela não pôde acreditar que fizera mesmo tal pergun­ta. Desforges sacudiu a cabeça:

— Não. Se tivesse conhecido minha esposa, poderia compreender. Era uma mulher extraordinária. Ninguém ja­mais seria capaz de substituí-la.

É assim que me sinto em relação a Edward, pensou Mary. Ninguém jamais será capaz de substituí-lo. Ele fora muito especial. E, no entanto, toda pessoa precisava de uma companhia. Não era uma questão de substituir alguém que fora muito amado. Era descobrir alguém novo para parti­lhar as coisas. Louis estava dizendo:

— ... e quando me ofereceram a oportunidade, achei que seria interessante conhecer a Romênia. — Ele baixou a voz. — Mas confesso que sinto algo maligno neste país.

— É mesmo?

— Não no povo. O povo é maravilhoso. Mas o go­verno representa tudo o que desprezo. Não há liberdade para ninguém. Os romenos são praticamente escravos. Se que­rem ter uma alimentação decente e uns poucos confortos, têm de trabalhar para a Securitate. Os estrangeiros são sis­tematicamente espionados. — Ele olhou ao redor, a fim de se certificar de que ninguém podia ouvi-los. — Ficarei con­tente quando meu tempo de serviço terminar e puder vol­tar à França.

Sem pensar, Mary ouviu-se dizendo:

— Há algumas pessoas que acham que eu deveria vol­tar para casa.

— Como assim?

E de repente Mary descobriu-se contando toda a his­tória do que acontecera na embaixada.

— Mas isso é horrível! — exclamou Louis. — Tem al­guma idéia do responsável?

— Não.

— Posso fazer uma confissão impertinente? Desde que descobri quem você era, andei fazendo algumas indagações a seu respeito. Todos que a conhecem estão muito impres­sionados com você.

Mary escutava com um profundo interesse. Ele con­tinuou:

— Parece que trouxe para cá a imagem de uma Amé­rica que é bela, inteligente e afetuosa. Se acredita no que está fazendo, então deve lutar. Deve ficar. Não deixe que ninguém a amedronte.

Era exatamente o que Edward teria dito.

 

Mary não conseguiu dormir e ficou pensando no que Louis lhe dissera. Ele estava disposto a morrer pelas coisas em que acreditava. E eu? Não quero morrer. E ninguém vai me ma­tar. Ninguém vai me assustar.

Ela continuou na cama, na escuridão total. Apavorada.

 

Na manhã seguinte Mike Slade entrou em sua sala com duas xícaras de café. Acenou com a cabeça para a parede já lim­pa e disse:

— Soube que alguém andou escrevendo coisas na sua parede.

— Já descobriram quem foi? Mike tomou um gole do café.

— Não. Verifiquei pessoalmente a lista de visitantes. Todos têm uma justificativa.

— O que significa que deve ter sido alguém da em­baixada.

— Ou então alguém que conseguiu passar pelos guar­das sem ser visto.

— Acredita mesmo nisso?

Mike pôs a xícara de café na mesa.

— Não.

— Nem eu.

— O que dizia exatamente?

— "Volte para casa antes de morrer." Ele não fez qualquer comentário.

— Quem poderia querer me matar?

— Não sei.

— Senhor Slade, eu agradeceria se me desse uma res­posta franca. Acha que corro algum perigo?

Ele estudou-a com uma expressão pensativa.

— Senhora embaixadora, já assassinaram Abraham Lincoln, John Kennedy, Robert Kennedy, Martin Luther King e Marin Groza. Somos dos vulneráveis. A resposta à sua pergunta é sim.

Se acredita no que está fazendo, então deve lutar. De­ve ficar. Não deixe que ninguém a amedronte.

 

Às oito e quarenta e cinco da manhã seguinte, quando Mary estava numa reunião, Dorothy Stone entrou correndo na sala e disse:

— As crianças foram seqüestradas! Mary levantou-se de um pulo.

— Deus do céu!

— O alarme da limusine acaba de disparar. Estão lo­calizando o carro agora. Eles não conseguirão escapar.

Mary correu para a sala de comunicações. Meia dúzia de homens estavam parados em torno de um painel de con­trole. O coronel McKinney falava por um microfone.

— Entendido — disse ele. — Já anotei. Informarei à embaixadora.

— O que está acontecendo? — indagou Mary, a voz rouca, mal conseguindo falar. — Onde estão meus filhos?

O coronel disse, em tom tranqüilizador:

— Estão bem, senhora. Um deles tocou no botão de alarme da limusine por acidente. A luz de emergência no teto acendeu e foi emitido um sinal de SOS em ondas cur­tas. Antes que o motorista percorresse mais dois quarteirões, foi cercado por quatro carros da polícia, com as sirenes ligadas.

Mary cambaleou contra a parede, aliviada. Não sabia até aquele momento como era grande a sua tensão. E pen­sou: É fácil compreender por que os estrangeiros que vi­vem aqui acabam recorrendo aos tóxicos ou à bebida... ou a ligações amorosas.

 

Mary ficou com as crianças naquela noite. Queria estar o mais perto possível dos filhos. Contemplando-os, pensou: Será que meus filhos correm perigo? Estaremos todos em perigo? Quem poderia querer nos fazer mal? Ela não tinha as respostas.

 

Três noites depois Mary tornou a jantar com o doutor Louis Desforges. Ele parecia mais relaxado desta vez. Embora per­sistisse o fundo de tristeza que ela sentira desde o primeiro encontro, ele se empenhou em ser atencioso e divertido. Mary se perguntou se ele sentiria a mesma atração que ela experimentava em relação a ele. Não foi apenas uma tigela de prata que lhe mandei, admitiu para si mesma. Foi tam­bém um convite.

Senhora embaixadora é muito formal. Pode me cha­mar de Mary. Ela estaria mesmo dando em cima daquele homem? E, no entanto... Eu lhe devo muito, possivelmen­te minha vida. Mas estou racionalizando. Isso não tem na­da a ver com o motivo pelo qual desejava vê-lo outra vez.

Eles jantaram cedo no restaurante do terraço do In­tercontinental Hotel. Quando Louis a levou de volta à resi­dência oficial, Mary perguntou:

— Não gostaria de entrar?

— Obrigado — respondeu ele. — Será um prazer. As crianças estavam lá embaixo, fazendo os deveres de casa. Mary apresentou-as a Louis. Ele se abaixou na frente de Beth e disse:

— Posso? — Abraçou-a por um instante e depois se empertigou. — Uma das minhas filhas era três anos mais moça do que você. A outra era mais ou menos de sua ida­de. Eu gostaria de pensar que cresceram para se tornarem tão bonitas quanto você, Beth.

Beth sorriu.

— Obrigada. Mas onde...? Mary apressou-se em dizer:

— Que tal tomarmos todos um chocolate quente? Eles sentaram na enorme cozinha, tomando o choco­late quente e conversando.

As crianças ficaram encantadas com Louis, e Mary pen­sou que nunca vira um homem com tanta ânsia nos olhos. Ele a esquecera. Estava inteiramente concentrado nas crian­ças, contando histórias sobre as filhas e anedotas, até que todos riam às gargalhadas.

Já era quase meia-noite quando Mary olhou para o relógio.

— Essa não! — exclamou ela. — Vocês já deveriam estar na cama há várias horas. Vão logo deitar!

Tim aproximou-se de Louis.

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